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Planeta Criança



Poesia & Contos Infantis

 

 

 


JARDIM DE ESCANDALOS / Jennifer Blake
JARDIM DE ESCANDALOS / Jennifer Blake

                                                                                                                                                   

                                                                                                                                                  

 

 

Biblioteca Virtual do Poeta Sem Limites

 

 

JARDIM DE ESCANDALOS

 

Laurel Bancroft viveu confinada por vários anos, exilando-se de uma cidade que a rotulara como assassina. Agora, as pessoas finalmente se esqueceram do que aconteceu, e ela está pronta para reassumir sua vida.

Quieta e bela, Laurei mora sozinha em uma mansão em ruínas desde a terrível briga com o marido, quando ela, ao sair de casa nervosa, deu a marcha à ré no carro e acidentalmente o matou.

Sua única paixão passou a ser as rosas que cultiva.

Até que Laurel encontra Alec Stanton. Contratado para reformar o jardim de sua casa, Alec tem um passado misterioso. Apesar de ser bem mais jovem, ele preenche as necessidades de Laurel: é inteligente, talentoso e apaixonado.

À medida que o relacionamento amadurece, cresce também uma perigosa ameaça contra eles. Alguém quer que Laurel volte ao isolamento e desista de seu amante — alguém que não se esqueceu daquele acidente, há tantos anos...

 

 

Ela correu para fora da casa iluminada como se fosse uma assombração. Respondeu com gritos agudos de soprano ao rosnado do grande pastor-alemão e passou pela porta da frente. Desceu correndo a escadaria, e já estava na metade dos muitos degraus quando a velha porta de madeira alcochoada fechou com estrondo atrás de si.

Meio bruxa, meio Valquíria vingativa, voou na direção dele, em uma camisola que deixava passar a luz acesa lá atrás. Os cabelos compridos esvoaçavam e vergastavam seu corpo, refletindo o luar. Os pés mal tocavam o chão. Ligeira, esguia, com o rosto de linhas puras contraído de preocupação, era a coisa mais fascinante que já aparecera diante de Alex Stanton.

— Sticks! Aqui, garoto! — chamou ela, ao mergulhar sob o tronco baixo da magnólia, desvencilhando-se dos ramos rasteiros de um buquê-de-noiva. O olhar esgazeado fixou-se no cão de guarda, feroz, diante do pavimento de tijolos cheio de musgo.

O pastor-alemão rosnou, um aviso áspero que ressoou nas profundezas de suas mandíbulas. Não desviava os olhos de Alec. Eriçou a coleira de pêlos, mostrando os dentes em tom de desafio. À medida que a mulher se aproximava, o animal ia se chegando para bloquear, com o corpo protetor, os passos dela.

— Que foi, garoto? Farejou o quê?

Tinha ansiedade na voz — medo, não — à medida que diminuía a velocidade. Então viu Alec.

Parou tão de repente que os cabelos se projetaram à frente, cobrindo-lhe os braços como um manto de luar. As mãos se fecharam sobre os pulsos. Arregalou os olhos. Ergueu os ombros, e parou tão imóvel que parecia uma estátua de mármore branco.

O cão deixou de existir para Alec. E ele se esqueceu do motivo para estar ali, em meio ao emaranhado de roseiras bravas, videiras e moitas altas que compunham o jardim da frente da mansão em estilo gótico, conhecida como Hera Silvestre. Como que hipnotizado, deu um passo à frente, na direção da noite.

O pastor-alemão se preparou para atacar. Os 36 quilos de músculos e morte avançaram para a garganta de Alec.

— Senta! Senta, Sticks! — O grito da mulher mesclouse ao rosnado do cão. E mesmo assim, sem esperança de que o animal fosse, ou pudesse, obedecer.

O instinto e o treinamento de Alec o despertaram. Rodopiou quando o cachorro o atingiu, com a força gerada pela agressão, acompanhando o movimento do animal para reduzir o impacto, mesmo ao agarrar o enorme focinho negro com mãos de ferro. Ao encontrar os pontos sensíveis, Alec pressionou-os com os polegares. Caiu de joelhos, ainda girando, flexionando músculos possantes até formarem um círculo.

Terminou logo. Quando Alec se levantou, o animal estava estendido, flácido e respirando com dificuldades, no caminho entre ele e a mulher.

Ela gemeu e caiu ao chão, levando ao peito a cabeça mole de seu cão de guarda. Apertando firme, embalou-o.

— Ele vai ficar bom — disse Alec, em tom suave mas convincente.

Ela não respondeu. Então ele a ouviu prender a respiração, quando o cachorro estremeceu e ganiu.

Abruptamente, ela ergueu os olhos brilhando entre as lágrimas.

— Você ia matá-lo!

— Se eu quisesse matá-lo, ele estaria morto. Só o tirei de cena por uns minutos, até esclarecermos as coisas aqui.

Alec poderia ter dito que o querido Sticks avançara em sua garganta, mas achou que não valia a pena.

Os dedos dela mergulharam no pêlo do cão, puxando-o mais para perto de si.

— Você está em uma propriedade particular. Quero que saia em dois minutos, ou eu chamo a polícia. Ficou claro?

Não foi assim que ele imaginou que as coisas iam acontecer. Achou que ia bater na porta educadamente e depois ficar parado de pé explicando o motivo de sua vinda. Não esperava sentir o coração disparar diante da visão de tirar o fôlego de uma mulher de camisola transparente. Nunca sonhara que aquilo poderia ocorrer. Tudo fora inesperado demais para reagir, e muito menos para aceitar.

Deixar o bichinho de estimação fora do ar não foi um bom começo, não importa o que ele tivesse em mente.

— Desculpe, se machuquei seu cão — disse ele.

— Ah, sei, machucou mesmo! — ela falou, e dirigiu a ele um olhar sarcástico.

— Não devia ter avançado em mim.

— Só estava... Achou que eu precisava de proteção. Era bem possível o cachorro estar certo. Desconfiado e perturbado, Alec tentou de novo, procurando terreno firme para pisar.

— É a sra. Bancroft, Laurel Bancroft?

— E daí?

— Eu... queria conversar com a senhora.

Fora sua intenção inicial. Mas tudo mudara. Esperava que fosse para melhor.

Ela não cedeu um milímetro.

— Acho que não temos nada para conversar.

— Sua empregada, Maisie Warfield, é amiga de minha avó. Disse que a senhora precisava de alguém para tirar o mato do jardim, que a senhora não cuidou mais desde que seu marido morreu.

A avó dissera muito mais. Devia ter prestado atenção, foi o que pensou, e acrescentou:

— Tenho alguma experiência com esse tipo de trabalho. Ela o observou por um tempo, com expressão que se suavizava lentamente. Então falou, incrédula:

— Você é o neto de dona Callie?

Espantado com o tom amigável da voz dela, ele concordou rapidamente.

— Você não é jardineiro! Ele balançou a cabeça.

— Engenheiro. Mas trabalhei em jardinagem para pagar os estudos.

Deu às palavras determinada entonação para que ela soubesse que não se importava por ter sido prejulgado.

— Não posso pagar um engenheiro — respondeu ela. Ele chegou a pensar em dizer que poderia trabalhar para ela de graça. Qualquer serviço, a qualquer hora. Mas não iria funcionar, e ele ainda tinha bom senso, só isso, para saber.

— Trabalho braçal, a preço de mercado, é o que estouoferecendo.

— Por quê?

A pergunta pairou no ar por um instante, e Sticks ergueu a cabeça, sacudiu-se, virou-se e ficou deitado de barriga para baixo. O cão olhava para Alec, depois desviava o olhar, como se estivesse envergonhado. Chorando baixinho, arrastou-se alguns centímetros para lamber a mão da dona, como se pedisse desculpas.

Observando o animal com uma sensação estranha, bem parecida com inveja ou até com ciúme, invadindo-lhe a cabeça, Alec disse:

— Por muitas razões, mas vou só dizer que preciso de dinheiro.

— Você consegue um emprego melhor em outro lugar.

— Preciso de liberdade, não quero ficar muito amarrado. O olhar dela era vago, enquanto se concentrava e acariciava a cabeça do cachorro para confortá-lo, depois se pôs de pé.

— Por que não quer usar terno e gravata? Ou é por causa do seu irmão?

— As duas coisas.

Ela sabia tudo sobre ele e Gregory; devia ter adivinhado. Era a grande vantagem das cidades pequenas. E sua pedra no sapato.

Percorreu-a com o olhar, depois desviou os olhos. Mas ainda sentia a silhueta prateada pela lua queimando-lhe a mente como a chama de uma vela. Engoliu em seco.

— Se esperava que eu fosse simpática... — começou ela.

— Não. — Ele cortou com um gesto abrupto. — Simpatia é uma coisa de que não precisamos. Nenhum de nós.

Ela se aprumou.

— Minha situação não tem nada a ver com a sua!

Ele tornou a olhar para ela, falando com delicadeza e inclinando a cabeça:

— Eu quis dizer meu irmão e eu. Apesar de achar que também poderia ser incluída.

Ela não respondeu, ficou somente ali parada, olhando para ele. O luar banhava seu rosto, acentuando a beleza da pele lavada, tão transparente que reagia a cada emoção que surgisse sob a superfície. Ele viu os olhos azuis, escuros como o mar Egeu, e mesmo assim claros, no sentido de saberem mais do que ela gostaria de saber sobre as pessoas. Principalmente, sobre os homens e seus impulsos mais básicos.

Os dele eram os mais básicos.

Ela acabara de sair do banho, pensou ele; sentia o cheiro fresco de sabonete e de mulher limpa. Era um afrodisíaco mais possante do que poderia imaginar. Desejou, excitou-se, apesar de compreender que nada havia a compartilhar a não ser o ar quente da noite.

Ela parecia frágil, e ainda assim tinha uma força interior, expressa na maneira como se colocava diante dele, um estranho no escuro. Era concreta — um pouco tímida, mas com o autocontrole da nobreza. Não era perfeita; tinha leves rugas no canto dos olhos, e o lábio superior não era tão cheio quanto o inferior. Porém, era quase perfeita, tão próxima da beleza que tornava quase impossível desviar os olhos dela.

Não iria funcionar. Nunca teria alguma coisa em comum com o neto de Callie Stanlon, o hippie da Califórnia. Para ela, seria um garotão com o corpo bronzeado e pouca coisa na cabeça. Era mesmo para achar graça, se parasse para pensar. Mas ele não deu risada.

Laurel estremeceu de leve, sob o impacto do olhar de Alec Stanton. Tinha os olhos tão negros, pupilas dilatadas que expulsavam qualquer cor, plácidos e escuros lagos plenos de avaliação. Era alto e largo, presença sólida, contendo a noite que os envolvia. Ela entendeu, por instinto, que ele seria plenamente capaz de protegê-la de qualquer emboscada na escuridão. Mesmo assim, não se sentia segura.

Ele era grande demais, forte demais, rápido demais. A defesa praticada contra o pobre do Sticks era alguma forma, perigosa e competente, de arte marcial; ela sabia o bastante para reconhecê-la, mesmo que não soubesse como se chamava. Além dessas coisas, era exótico demais, com aqueles cabelos escuros, compridos, amarrados em um rabo-de-cavalo com uma faixa de couro, sobrancelhas e cílios escuros como armadilhas no rosto quadrado, e o lampejo de prata do brinco em forma de raio, na orelha esquerda.

Estava todo vestido de preto: botas, jeans e uma camiseta regata que ressaltava os torneados músculos. A camiseta exígua também deixava à mostra a multicolorida tatuagem intrincada no ombro esquerdo, dificilmente identificável como um dragão que se espalhava pelo peitoral e em torno da parte superior do braço.

Como ela evitasse o negro olhar, passeou os olhos pela tatuagem, depois voltou. Os dedos formigavam, e ela os apertou contra a palma da mão, contrariando o súbito impulso de tocar no dragão, passar pelo calor e pela suavidade daquela pele, e sentir o poder dos músculos que sobressaíam por trás do desenho. Se estendesse a mão espalmada, poderia tatear a fera, sentindo pulsar o coração do homem, escondido sob aquela muralha de tórax.

Respirou fundo, afastando da mente a imagem que fermentava como se estivesse em um forno quente. Devia estar louca. Com 41 anos, era pelo menos dez anos mais velha que ele, talvez até um pouco mais.

Estivera sozinha por muito tempo, isto era óbvio. Habituara-se de tal forma à solidão e ao isolamento, em Hera Silvestre, que correu para fora da casa vestindo somente a camisola. Pior que isso, tinha fantasias selvagens apenas por se ver sozinha diante de um homem atraente. Decididamente, estava perdendo o juízo.

A noite quente de primavera fazia pressão sobre ela, como se a empurrasse para junto do homem à sua frente. Sentia o aroma das flores de magnólia, da árvore que se avolumava sobre eles. O coro de insetos noturnos executava um calmo e continuado appaMionato, ecos dos sentimentos que a percorriam.

Pondo-se de pé, Sticks conseguiu se aprumar e roçou no joelho dela. O movimento foi recebido como um alívio para o constrangimento que a dominava.

— Olhe — disse ela de repente, com a voz mais rouca do que pretendia. — Eu tinha pensado em contratar um homem mais velho, para cortar algumas árvores, tirar o mato, talvez plantar uma ou outra roseira...

Ele cortou a frase em tom incisivo:

— Faço duas vezes isso na metade do tempo.

— Sei que faz, mas a questão é...

— A questão é que a senhora tem medo de mim. Não me enquadro no tipo de homem da roça, o provinciano de Hillsboro, Louisiana, que eu devia parecer. Não sou o caipira que imaginou... cabelo curto, limpinho, que só pensa em caça, pesca e cerveja. Ou, pelo menos sem nada para dividir com uma mulher. Não me enquadro. — Suavizou a voz. — Mas a senhora também não, Laurel Bancroft.

Ela apertou os lábios antes de abri-los para falar.

— Não sei de que está falando.

— Não sabe?

O sorriso que acompanhou a pergunta durou apenas um instante. Mesmo assim, o breve movimento da boca alterou os ângulos do rosto dele, resultando na devastadora beleza de um anjo negro. Havia nele uma doçura penetrante, e ilimitada compreensão. Saudava a independência dela, mesmo que a lamentasse, aplaudia sua coragem, apesar da intransigência. Deu um rumo para sua solidão, ofereceu abrigo, prometeu uma pausa.

Então se foi. Ela lutou contra a depressão gelada que veio ao acordar do sonho. Perdida.

Respirando profundamente, disse:

— Não se trata disso... ou pelo menos eu acho que não sou tão fútil. Mas nesse momento não estou precisando de mais problemas.

— Precisa de um serviço e preciso de dinheiro. É um encontro natural.

As palavras dele foram claras, mais uma explicação que um pedido.

Ela abanou a mão, exasperada.

— Não é assim tão simples!

— Claro que não. Meu irmão tem câncer em estágio terminal. Sabia disso? Tirei uma licença sem vencimentos na empresa em que trabalho em Los Angeles para visitar vovó Callie com ele. Agora ele quer ficar. Comida feita em casa e uma vida calma podem ajudar ou não, mas ao menos vale a pena tentar. E, ainda mais, não vou admitir viver à custa da minha avó. Eu podia conseguir um emprego permanente, e mais bem pago, sim. Porém teria que sair o dia inteiro, e não é disso que preciso. Sua casa fica perto, não é trabalho de ficar muito fechado. Sou rápido, entrego o serviço e não tenho problema de cumprir ordens. Sei distinguir uma roseira de um pé de couve, sei assentar tijolo, bombear água, o que precisar. Quer mais o quê?

Na verdade, o que mais? Nada, a não ser ouvir, sem parar, o timbre profundo e firme da voz dele. O que era motivo suficiente para ser cautelosa.

— É um projeto pequeno — disse ela. — Eu queria instalar uma fonte no meio do roseiral, depois que estiver tudo limpo, mas não vale mesmo a pena desperdiçar seu tempo, muito menos sua qualificação.

O sorriso dele voltou, aquecendo-a, seduzindo- contra a vontade.

— Isso tudo agora não está mesmo valendo uma moeda. E vai valer menos ainda se a senhora me dispensar.

— Não sei se...

— Vou lhe dizer — falou ele para abrir caminho. — Vou trabalhar de graça no primeiro dia. Se resolver que não valho a pena, termina aí. Se gostar do que eu fizer, acertamos a partir daí.

— Não posso deixar você fazer isso — protestou ela.

— Uma experiência sem custo, é tudo que peço. Começando às oito da manhã. O que acha?

Ela estava definitivamente louca, porque aquilo tudo parecia bem razoável. Qual a diferença entre contratá-lo ou o velho Pender, mais adiante na estrada, ou mesmo Ryan Nott, que fazia de tudo para sua sogra? Este homem seria um empregado, com costas fortes e braços competentes. Talvez mais que competentes, mas ela preferia não pensar nisso. Mais uns dois dias, talvez uma semana, e estava encerrado.

Em uma decisão repentina, ela disse:

— Prefiro às sete, para fazer o máximo possível antes de o sol esquentar demais.

— É a senhora quem manda.

Por algum motivo, ela não se sentia assim.

Ele concordou com a cabeça, e foi embora, desaparecendo na escuridão, no extenso caminho até a estrada. Por um momento, Laurel ouviu ao longe o ronco da motocicleta sendo ligada. Depois afastou-se, aos poucos, com uma rajada de potência. O ruído cessou e a noite voltou ao silêncio.

Um arrepio a percorreu, apesar da noite quente. Envolveu o corpo com os braços, apertando com força. Sticks olhou para cima, ganindo, ao captar a perturbação dela.

—O que você acha, garoto? — indagou ela, com palavras que não eram mais que um sussurro. — Cometi algum erro?

O cão abanou a cauda com desânimo, olhando na direção em que Alec Stanton se fora.

Ela suspirou e fechou os olhos.

— Acho que sim.

O recém-contratado foi pontual no dia seguinte, Laurel teve de admitir. Mal vestira seus velhos jeans e a camiseta amarela desbotada quando ouviu a moto fazendo a curva na estrada.

Maisie Warfíeld, a empregada, ainda não tinha chegado, pois precisava levar ”o velho”, como chamava o marido, que estava próximo da idade de se aposentar, para o trabalho, antes de ir para lá. Em vez de esperar Alec Stanton chegar à porta e tocar a velha campainha, Laurel apanhou o par de ténis e foi, de meias, até a entrada. Pelo menos não tinha que se preocupar com Sticks. Ele passara a noite na varanda dos fundos, cercada de tela, e estava calado lá fora.

Alec Stanton não estava no selim da Harley-Davidson vermelha, que parecia tão deslocada diante da casa em estilo vitoriano quanto uma joaninha na barra de um vestido de renda. Ele também não estava no matagal do jardim da frente. No entanto, um som de cortar e quebrar levou-a para a parte lateral da casa. Ele já estava trabalhando, cortando uma cortina verde de esmilace e hera-americana, pendentes de um tapume.

Virou-se quando ela se aproximou. O cumprimento com a cabeça foi breve, antes de falar:

— Isso aqui está precisando de uma pintura, mas antes vai ser preciso trocar umas dez tábuas. Vai perder outras, se não consertar logo.

— Eu sei — ela limitou-se a dizer.

— Eu poderia...

— Pode deixar que eu resolvo — falou, cortando o oferecimento que ele ainda não tinha feito. — Você veio para cuidar do jardim.

Ele puxou para baixo um galho comprido de esmilace e deixou-o cair, sem cavar para desenterrar as raízes. Tirando as luvas, colocou-as no cós das calças jeans. Passou um olhar crítico por toda a casa, que se erguia acima dele, com suas varandas de parapeito arredondado nos cantos, no estilo dos barcos a vapor, o torneado de mau gosto aplicado às pilastras finas como teias de aranha cobertas de gelo e a torre em forma de cone sobre o telhado.

— Casa bonita e grande — disse ele. — Seria uma vergonha não ter conservação.

— Vai ter — respondeu ela rispidamente. — Agora, se você fosse...

— Está há várias gerações na família do seu marido, acho que vovó me disse. Como acabou ficando com ela?

— Ninguém mais queria.

Era a pura verdade, pensou ela. A casa estava quase abandonada, quando a viu pela primeira vez. Sua sogra, Sadie Bancroft, mudara-se para lá pouco antes de ser deixada pelo marido, nos anos 1960. A irmã Zelda não se interessou pela casa; já tinha aproveitado bastante aquele grande celeiro, quando criança, e não entendia por que Laurel insistira tanto em comprá-la da família, quando se casou com Howard. Até Howard reclamava do custo de manutenção e várias vezes falou em trocá-la por um sítio, coisa menor, durante os 15 anos em que foram casados. Mas fora apenas isso... conversas.

— Deve ser grande para uma pessoa sozinha.

— Gosto de lugar grande — disse Laurel e sentiu o sangue subir ao rosto, sem nenhuma razão que fizesse sentido.

Ou esperava que não fizesse sentido, apesar de estar na dúvida, a julgar pelo sorriso esboçado no canto da boca de Alec Stanton.

— Por onde começo?

-O quê?

Ele inclinou a cabeça.

— Ia me dizer por onde começo o serviço.

— É. É claro — falou, e foi saindo, na direção do jardim da frente.

Ela pretendia ajudá-lo, em parte ficando disponível para mostrar-lhe o que gostaria de manter e o que poderia sair. Logo viu que não era preciso. Ele conhecia flores e plantas; o tempo de jardinagem fora bem aproveitado. Também era eficiente. Só começou a trabalhar depois de escolher as ferramentas no galpão atrás da garagem, separada da casa, e de lubrificá-las e afiá-las.

— Podia trocar a tesoura de poda — sugeriu ele, passando o polegar calejado pela lâmina aberta. — O trabalho aqui ficaria bem mais fácil.

Tinha razão, e ela sabia.

— Vou dizer a Maisie para trazer uma, da próxima vez em que for à cidade.

— Também está precisando de combustível para o cortador de grama.

— Ela traz também.

Observou-a por um instante, os olhos negros e insondáveis como ônix.

— Sabe que seu carro está com um pneu baixo? E os outros tão carecas que podem jogar o carro fora da estrada.

— Quase não saio — disse ela, evitando olhar para ele.

— Não sai nunca, pelo que vovó me contou. Faz tempo que não fica longe de casa. Só o que a senhora faz é ler, e a cerâmica no galpão atrás da garagem. Por que isso?

— Motivo nenhum. Só prefiro minha própria companhia. — Lançou-lhe um olhar frio, antes de virar as costas. — Estou dentro de casa, se precisar de alguma coisa.

Bater em retirada foi um movimento instintivo de autoproteção, foi isso. Ela não precisava dar satisfações a si mesma. Com certeza, não era da conta desse homem se ela saía ou ficava em casa, se fazia cerâmica ou voava para a lua montada em uma vassoura. Nem ela precisava de alguém vigiando, dando opinião sem ser solicitada, metendo-se na vida dela. Haveria de lhe pagar pelo serviço feito hoje, não importa o que ele tivesse dito, e depois iria mandá-lo embora. Estava muito bem sem Alec Stanton antes de ele aparecer, e podia passar sem ele quando não estivesse mais por lá.

À medida que o dia avançava, porém, não se podia negar que o progresso tinha sido grande. Ele cortou dezenas de pinheiros novos e sassafrases emaranhados na velha cerca, expondo as estacas sem pintura em quase toda a frente do jardim. Recuperou e podou a roseira do tipo Russells Cottage que ficava em um canto, arrancando madressilvas trepadeiras até formar uma pilha. Um caramanchão de ciprestes antigos, com um banco de jardim, estava soterrado sob uma capa de videiras silvestres. E o entulho resultante desse esforço foi reunido em uma fogueira verde, para queimar lentamente. A nuvem cinza de fumaça subiu até ofuscar o sol do meio-dia.

Laurel procurou não ficar inspecionando. Ainda assim, contra suas boas intenções, parecia que tudo o que fazia a levava para as janelas da frente da casa. Era bem natural observar. Um impulso absolutamente comum. Só isso.

Ele tirou a camisa no meio da manhã. O brilho da transpiração refletiu-se na extensão bronzeada de suas costas, reluzindo com seus movimentos, enquanto a poeira e pedaços de folhas secas se grudavam aos músculos torneados dos braços.

O pêlo ralo em seu peito cintilava como veludo molhado, pavimentando o caminho para as gotas de suor que desciam pelos sulcos do abdome até encharcar o cós das calças jeans. Estava quente, suado, sujo e deslumbrante. E por estar tão consciente disto, ela o detestou.

A última coisa que queria era pensar em homem, qualquer homem. Estava muito bem sem se lembrar de que existiam os machos; pouco pensou em amor e sexo desde que o marido morrera. Forçar a volta a tudo isso agora não ajudaria em nada. Não voltaria, não mesmo.

— Fiz frango assado com salada de verão para o almoço — disse Maisie atrás dela. — Quer que eu sirva para você e Alec lá na varanda?

Laurel virou-se para encarar a empregada com as cores da culpa enrubescendo seu rosto. Maisie Warfíeld, redonda e grisalha, estava parada na porta que dividia a sala de jantar da sala de estar. Enxugava as mãos em um pano enquanto observava Laurel. Havia esperteza em seus olhos azuis rabugentos e levemente divertidos, crestando a pele bronzeada em volta deles em rugas superficiais.

— Não. Não, acho que não — respondeu Laurel. — Você... leva para ele um sanduíche e uma bebida.

O sorriso de Maisie apagou-se e o punho roliço, que segurava um pano de prato, pousou nos quadris almofadados.

— Por quê? Você tem alguma coisa contra Alec?

— Claro que não. Só prefiro ter privacidade.

Laurel virou-se para a janela, ignorando a expressão carrancuda da outra.

— Ele não morde.

Um sorriso torceu os lábios de Laurel.

— Como é que você sabe?

-O quê?

Voltou-se para dar uma olhadela na empregada.

— Eu disse que sim, eu sei. Mas nem por isso prttando almoçar com ele. Nem outras coisas.

— Acha melhor ficar trancada dentro de casa em vez de ter companhia.

— É mais ou menos isso.

A empregada encolheu os ombros.

— Não sabe o que está perdendo.

Laurel não respondeu. Ficou com medo de Maisie estar com a razão.

 

Alec trabalhou como um obcecado, com a tesoura e com a enxada, e empilhando mato sem parar. O sol lhe queimava a cabeça. Transpirava suor por todos os poros. Amarrou uma bandana na testa e continuou trabalhando. A camisa ficou ensopada, grudada no corpo, restringindo seus movimentos. Tirou-a e continuou trabalhando. Sentia arder os arranhões nos braços, resultado do atrito com o crivo de um velho regador. Ignorou-os e deu prosseguimento ao seu trabalho.

Não ligava para aquilo. Era bom exercitar os músculos, senti-los aquecidos até se expandirem e se contraírem em um ritmo contínuo, correspondendo sem esforço à sua demanda. Gostava do calor do sol nas costas, tinha prazer em sentir o cheiro dos galhos cortados, da terra revolvida e da fumaça. Provocavam nele uma sensação de dever cumprido o resgate de velhos arbustos e de plantas perenes, perceber uma certa ordem emergindo de um todo confuso.

Tinha de provar a si mesmo que iria conseguir o emprego, porém havia algo mais. Precisava mostrar a Laurel Bancroft que podia fazer tudo o que ela precisasse, tão bem quanto qualquer caipira.

Pelo modo como a viu vestida aquela manhã, pensou que iria trabalhar com ele. Ficara esperançoso com tal perspectiva. Mas ela voltara para dentro de casa e fechara a porta. Não conseguira dela nem um olhar, desde aquele momento.

Ela sabia como se fechar, em todos os sentidos. Vovó Callie contara que ela dificilmente saía de casa, desde que o marido morrera. Parecia que as pessoas a acharam um pouco diferente. Não uma louca, exatamente, mas também não era a jovem senhora típica, que fazia compras no mercado, via novelas, ia ao clube e jogava tênis.

O tipo de trabalho que estava fazendo não exigia muita concentração, e sua mente tendia a divagar. Se deixasse, poderia ver Laurel Bancroft mais ou menos como uma princesa encantada por um feitiço qualquer; tinha mesmo aquele ar frágil. Fora presa no velho castelo, dopada e adormecida enquanto a vida passava lá fora. E ele era o cavalheiro que iria abrir o caminho à picareta, entre espinheiros e o matagal, para salvá-la.

Nossa, devia estar endoidando.

Um cavalheiro! Sem armadura, com certeza. Tesoura de poda na mão, em vez de espada. Pouco adequado, também. Decididamente, não era autêntico.

Uma porta bateu na parte lateral da casa. Maisie deu a volta e debruçou no parapeito.

— Hora do almoço, rapaz — gritou. — Os sanduíches estão aqui na varanda. Vai querer água ou chá?

Ele parou, enxugando o suor com o antebraço, antes de franzir os olhos na direção dela.

— Rapaz?

Ela deu um sorriso mecânico, que fez surgir mil rugas no rosto, e levou-o para dentro.

— Não gosta disso? Achei bobagem sua ficar debaixo deste sol sem chapéu. Água ou chá?

— Água.

Devia saber que não iria intimidar a mulher que dizia ter trocado suas fraldas quando ele era bebê.

— Onde está a sra. Bancroft?

O olhar da velha empregada desviou-se dele.

— Ela não almoça. Se quiser se lavar, temos um banheiro do lado de fora, junto da cozinha.

Parecia que Laurel Bancroft evitava se encontrar com ele. Não sabia se isto era uma coisa boa, como um sinal de que ele a perturbava, ou ruim, já que ela não conseguia enfrentálo. De qualquer modo, teria que fazer alguma coisa.

Pelo menos Maisie não o havia abandonado. Trouxe para ela mesma a salada de frango e o chá, na mesa da varanda da frente, na sombra. Enquanto comia, ele brincou com ela sobre a dieta que fazia e o quanto seu velho ia sentir falta das curvas quando conseguisse emagrecer. Depois de pouco tempo, chegou ao que queria realmente dizer.

— O que há com a dona da casa? Fez voto de clausura ou só se esconde?

Inclinou-se na cadeira, passando o polegar pelo vapor do gelo no copo de água, querendo parecer aborrecido e um pouco irritado.

Maisie olhou-o diretamente.

— Ela não faz questão de muita gente em volta, só isso.

— Como assim?

— O marido dela morreu, sabia?

Ele concordou com a cabeça, enquanto massageava os bíceps do braço direito, que começavam a incomodá-lo.

— Sabia que foi ela quem o matou?

O choque fez com que ele se endireitasse.

— Que m... quer dizer, de jeito nenhum!

— Foi ela, Deus é testemunha — falou Maisie e sacudiu a cabeça. — Não que quisesse. Ele foi para trás do carro dela, e ela estava saindo da garagem. Mas tem gente que fala que foi de propósito. A sogra, por exemplo,

— Ninguém mais acreditou nisso, não é? Quer dizer, é só olhar para ela. Como poderiam acreditar?

— Tem gente que acredita em tudo. De qualquer maneira, Laurel e Howard tinham seus problemas. E um seguro de vida bem alto.

— Mas descobriram alguma coisa?

— Nada oficial, não houve investigação. Sadie Bancroft, a mãe do marido, disse que fizeram um acerto porque o xerife Tanning tinha sido namorado de Laurel. Pode ser que sim, pode ser que não. Eu não sei. De qualquer maneira, esqueceram o assunto.

— Não deixaram de fazer fofoca.

— É, bom, tudo tem o outro lado. Ele inclinou a cabeça.

— Então, ela está se escondendo. Mas por que, se não fez por querer?

— Se quiser saber, vai terque perguntar a ela. Maisie evitava o olhar dele. Alec se perguntava o motivo.

— Acha que ela vai me contar?

— Pode ser.

A mulher idosa levantou-se e começou a empilhar os pratos.

— Depende de como você perguntar, e de por que quer saber.

Saiu com sua carga e deixou-o sozinho.

Alec ficou sentado por alguns minutos, bebendo água com o gelo derretendo no copo, o olhar perdido no jardim, em tudo o que fizera e no que ainda havia por fazer. De onde estava, dava para ver, vagamente, o esboço do que fora um típico pátio de entrada, nos velhos dias. Cercado com estacas brancas para manter a distância as vacas que circulavam livremente naquele tempo, tinha uma passagem que dava acesso à estrada em frente à casa, e depois fazia uma curva fechada, para dentro da garagem, uma construção em separado. Um caminho reto de tijolos ia do portão até a escada da varanda e rodeava a casa para os fundos.

As plantas estavam dispostas aleatoriamente, com exceção das grandes camélias e dos brincos-de-princesa, nos cantos da cerca, e das roseiras ao longo das estacas e sobre as cobertas dos portões. Encontrara vestígios de bulbos de todos os tipos, por todos os lados, dos narcisos e flores-de-lis até o alcaçuz. Em sua origem, o solo dos canteiros não teria capim de pasto e seria nivelado em patamares. Por volta das décadas de 19-40 ou 50, provavelmente, haviam plantado grama inglesa nos intervalos. Ainda havia retalhos dos torrões de relva, aqui e ali, apesar de o restante conter um emaranhado de moitas e mato, e mudas suficientes para abastecer uma floresta.

E ele precisava dar conta daquilo. Esvaziou o copo. Apanhou as luvas molhadas de suor e voltou ao trabalho.

Maisie saiu no meio da tarde, acenando rapidamente para ele ao passar de carro, sua velha banheira. Ele desenterrou os tubérculos da sarça espinhosa que tentava subir por uma coluna e deixou correr o tempo. Quando achou que não ia parecer demais que estava esperando a empregada sair para irromper casa adentro, tornou a vestir a camisa, foi até lá e tocou de leve a velha campainha.

O som estridente, destoante, percorreu a casa e lá dos fundos o pastor-alemão de Laurel, mais que cachorro esperto, começou a latir imediatamente. Antes, Alec vira Sticks calado na porta de entrada. Os dois se entreolharam pela tela. Agora, apoiado no batente da porta, Alec ficou imaginando se Laurel o estaria protegendo ou vice-versa.

Laurel não atendeu à porta. Sentia-se ameaçada, quase sitiada dentro de sua própria casa. Preferia nunca ter falado com Maisie sobre o jardim e, depois, que este Alec Stanton jamais tivesse aparecido. Deveria ter continuado como estivera por quase cinco anos, em confortável solidão, com pouco contato com o mundo exterior, além da empregada, seus filhos crescidos e do motorista do caminhão de entrega de suas compras pelo correio.

Os catálogos se tornaram sua ligação com o mundo. Um catálogo de rosas antigas, de algum lugar no Texas, a fizera pensar outra vez no jardim, depois de todo esse tempo. Agora, parecia ter tomado conta dela.

Foi uma estranha mistura de medo e irritação que a fez escancarar a porta no terceiro toque. O som da voz era claramente tenso e pouco amistoso:

— Pois não?

— Desculpe incomodar, minha senhora — disse o homem de cabelos pretos, apoiado no batente da porta —, mas estou com umas dúvidas.

Que desculpe, que nada; dava para ver. O que não dava para ela entender era o motivo de ele não ter vindo enquanto Maisie ainda estava ali. O ímpeto de bater a porta na cara dele foi forte, mas um tremor percorreu seu braço. O principal motivo para se deter era a suspeita de que ele poderia impedi-la, se tentasse.

Por entre os lábios comprimidos, perguntou:

— O que foi?

— Será que a senhora poderia me mostrar onde vai ficar a fonte? E também ajudaria se me dissesse onde vai colocar as roseiras de que me falou. Além disso, não tenho muita certeza do que é para manter no jardim e o que é para jogar fora.

Ela olhou de relance o pátio atrás dele e franziu a testa em dúvida.

— Tem certeza de que isso tudo não está resolvido? Achei que estivesse só limpando.

Ele sorriu, um movimento preguiçoso dos lábios moldados em sensualidade, um sorriso que a fez prender a respiração ainda na garganta.

— Sempre ajuda ter um planejamento. A senhora se incomoda de sair aqui um minuto para me dizer umas coisas?

Como poderia recusar um pedido tão educado e razoável? Impossível, era óbvio. De qualquer modo, ficou intrigada com o canal visível ao lado do caminho, desde os degraus até o portão. Parecia haver uma enorme distância entre esses dois pontos, anteriormente, quando as árvores e os arbustos congestionavam a passagem e obscureciam a vista. Agora, a distância era de apenas alguns metros.

Antes de se dar conta do que fazia, atravessou a porta e desceu até o caminho de tijolos. Alec falava, apontava a folhagem seca de frésia ao longo do caminho, perguntava se ela queria manter o jasmim amarelo que trançara uma longa espiral ao lado do portão e uma dezena de outras perguntas.

Ela respondeu, mesmo com a dolorosa sensação de estar ao ar livre sob o sol da tarde, exposta e vulnerável a outro ser humano. Ao mesmo tempo, sentia-se cada vez mais animada. Quase podia ver o jardim que imaginara, emergindo do emaranhado em volta dela. Em um único dia, este homem dera forma ao pátio de entrada, de modo que ela podia dizer como eram as coisas antigamente e como gostaria que fossem.

Rosas. Queria rosas. Não aquelas firmes, formais, buquês híbridos e quase perfeitos, nos quais todos pensam quando ouvem a palavra, mas as velhas rosas-da-china, rosas-chá, rosas-de-wuron, rosas-gallicaf de outros tempos. Sobreviventes, essas rosas! Resgatadas de cemitérios e das casas abandonadas em que cresceram, negligenciadas, por anos sem conta. Porém, resistentes, agarraram-se à vida. Então, no começo da primavera, e passando pela aridez do verão, depois pelo outono, floresciam em seu apogeu de beleza frágil, surpreendente, exalando o doce perfume pelo ar, como se distribuíssem a alma.

De pé no meio do jardim da entrada, Laurel falou:

— Queria a fonte aqui, com o caminho dando a volta dos dois lados, indo depois para a escada. Achei que ficaria bem rodear com buxo não muito alto, do tipo que põem nos jardins franceses, com uns cravos de Bath, poucos, e flores de sálvia e crisântemos. Fora isso, só rosas e mais rosas.

Olhou Alec de relance, temendo ter-se exaltado demais. Ele prestava atenção ao que ela dizia, na escuridão dos seus olhos, com um ligeiro sorriso esboçado no canto da boca. Por bastante tempo, não respondeu. Então, como se de repente percebesse o olhar dela, sacudiu rapidamente a cabeça.

— Posso fazer isso.

— Acha que vai funcionar?

— Acho que vai ficar perfeito.

O tom era de sinceridade, mas ela dificilmente conseguia acreditar.

— Só está dizendo isso porque vai levar semanas de trabalho.

O sorriso dele desapareceu.

— Eu não faria isso. Para dizer a verdade, estou aliviado. Receava que fosse querer grandes canteiros de zimbro, que dispensam manutenção, bem arrumados com palha para proteger as raízes.

Ela fez uma careta rápida.

— Bem no estilo dos loteamentos da Costa Leste.

— Exatamente — concordou ele, com um olhar caloroso e firme.

Por um instante fugaz, sentiu uma comunicação tão forte com aquele homem ao seu lado que se espantou. Não eram semelhantes, não tinham nada em comum, em termos de experiência, e ainda assim, naquele momento, pareciam operar na mesma freqüência.

Talvez isto funcione, afinal. Desde que, é claro, mantivessem um contato simples e profissional. Ela não apenas queria o jardim, mas precisava dele. Chegara a pensar, ultimamente, que sem isso um dia entraria em casa para nunca mais sair.

— Deixe eu lhe mostrar uma coisa aqui — disse Alec, intrometendo-se em seus pensamentos. Virou-se e se dirigiu para os fundos, onde ficava a velha porta da cozinha, antes de ser mudada para dentro de casa, pouco antes da Segunda Guerra Mundial. Os passos dela ficaram mais lentos enquanto via para onde ele se dirigia.

Ele chutou para o lado um emaranhado de mato e arbustos, aparentemente cortados por ele mesmo, mais cedo, no canto da casa. Embaixo, havia uma obra de alvenaria, coberta por espessa tampa de concreto. Movendo-se com rapidez, eficiência e pouco esforço, ele se abaixou e retirou a pesada tampa. Provocou um ruído áspero ao arrastá-la sobre os tijolos.

— Não! — gritou ela, dando um passo para trás. Ele se endireitou, pondo a mão na cintura.

— Sabe o que é isso?

— Uma cisterna, é claro — respondeu ela, enfurecida. — Mas meu marido nunca... Quer dizer, ele sempre falou que era extremamente perigoso. Nunca ninguém chegou perto.

Alec franziu a testa.

— É só um buraco no chão, forrado de tijolos. Não tem nem água aí.

— Howard sempre teve medo de que alguém... as crianças... caíssem aí dentro.

— Então ele devia ter aterrado. Mas agora pode ser usada como um lago, se quiser. Não vai dar muito trabalho para impermeabilizar o revestimento de tijolos.

— É fundo demais — protestou ela.

— Como uma piscina — retrucou ele encolhendo os ombros —, e nem por isso as pessoas abrem mão da piscina. De qualquer maneira, não é como se houvesse crianças correndo no quintal, para caírem aí dentro.

Ela sacudiu a cabeça, contendo um estremecimento.

— Prefiro que não.

— Tudo bem, foi só uma idéia.

Ficou desapontado, pensou ela. O entusiasmo abandonara seu rosto e os movimentos eram rígidos, ao recolocar no lugar a pesada tampa de concreto. Abruptamente, ela perguntou:

— Já viu o riacho?

— Vi um que cruza a estrada lá embaixo. É esse?

Concordando com a cabeça, levou-o na direção da nascente que serpenteava atrás de Hera Silvestre, deslizando entre altas faias, suaves loureiros e clareiras de samambaias. Estava no meio do caminho quando se deu conta do que fazia. De fato, ultrapassara a cerca da casa. A cada passo, ia para mais longe da segurança que aquilo representava. Quando fora a última vez que o fizera de maneira tão natural?

Um arrepio a percorreu, a pele formigava na nuca. Sentia-se nua, como se tivesse deliberadamente abandonado seu manto protetor. Surgiu o pânico dentro dela, mas rechaçou-o, controlando a respiração: inspirar, expirar.

Estava certa — estava mesmo. Os ombros largos e o corpo forte do homem ao seu lado sugeriam proteção. Ele era sólido, como uma parede ou uma cerca, entre ela e qualquer que fosse o perigo à volta. Sentira o mesmo na noite anterior, sentia agora, com mais intensidade.

Não que houvesse algo lá fora, por certo. Todo o risco estava na sua cabeça, e precisava se livrar daquilo. Já o sabia, e estava determinada a continuar dizendo para si mesma o que precisava fazer, até acreditar. De qualquer forma, não ficaria fora de casa por muito tempo, só o suficiente para mostrar a nascente a Alec Stanton.

À medida que avançava, caminhando na frente dele pelo declive coberto de árvores e arbustos, seguindo uma sinuosa trilha de animais, tinha total consciência do calor e da solidez dele atrás de si. Andava sem fazer ruído, com a graça natural de um índio. Nas sombras oscilantes das árvores, acreditou ter visto um toque de cobre no bronzeado profundo da pele.

O constrangimento entre eles permanecia, mas de forma diferente do que fora antes. Ela não conseguia se lembrar da última vez que sentira tanto a presença de outro ser humano. Nem saberia dizer quando foi que se preocupara em como algum homem se sentia, a não ser quando seu filho era adolescente.

Alec ficou impressionado com o riacho. Afundando até os joelhos nas samambaias que o margeavam, os cabelos descendo pelas costas no rabo-de-cavalo e a sombra das folhas formando com a luz arabescos de cinza e ouro na pele bronzeada, virou-se para ela com um sorriso de parar o coração. Com voz profunda e envolvente, comentou:

— Há possibilidade.

— Eu sei — disse ela, e prendeu a respiração, repentinamente mais apreensiva com aquela possibilidade do que estivera em cinco longos anos.

Ele inclinou a cabeça, a escuridão dos olhos unindo-se ao calor como se fossem de chocolate.

— Quer dizer que consegui o emprego?

Fizera tanto em tão pouco tempo! Poderia limpar o lixo antigo que entupia Hera Silvestre. Poderia fazer o jardim de rosas para ela. Se não se tivesse arriscado a sair para ver o que fizera — o que poderia fazer —, se não tivesse visto a promessa, teria uma resposta diferente. Agora, só havia uma resposta possível:

— Sim, eu... acho que deve.

O prazer encheu o rosto dele de um brilho súbito.

— Meu Deus — disse com suavidade. — Na verdade, é bom demais.

Laurel não tinha tanta certeza.

Teve menos certeza ainda quando caiu a noite e Alec afinal rugiu pela estrada com sua Harley. Estava habituada à solidão e, no entanto, esta noite, sentiu-a de modo real pela primeira vez em muito tempo. Era uma noite quente, mas ela tremia. Passando os braços em torno de si, imaginava como seria ter os braços de um homem para envolvê-la, ou um peito firme para apoiá-la ao se encostar nele. Há tanto tempo!

Decerto, Howard nunca fora particularmente sensível à afeição pura e simples. Toda vez que ela se aninhava em seus braços, em geral acabava em sexo. Esta parte do casamento correra bem; não era particularmente inspiradora, mas tampouco desastrosa. Eles conversavam. Na maioria das vezes, conversas práticas e necessárias entre marido e mulher: sobre o conserto da bomba, as crianças na escola, o que havia para o jantar. Às vezes, saíam para ir a um restaurante ou visitavam amigos, dirigindo na volta em amistoso silêncio. De vez em quando, Howard pegava na mão dela. Mas, não, ele não tinha jeito para fazer carinho, nem qualquer interesse pela necessidade desapaixonada de captar e absorver a essência de outra pessoa. Era tolice, talvez, sentir falta do que nunca se teve.

Ela era solitária, isto é tudo. A noite se desenrolava vazia, silenciosa e melancólica diante dela. Nada havia na televisão a que quisesse assistir, já lera tudo de interesse nas estantes. Não estava com sono, sequer cansada.

Não conseguia parar de pensar em Alec Stanton. O modo como a olhava, o modo como o sorriso dele começava no canto da boca e se espalhava pelos lábios em lento desabrochar. A profundidade dos olhos sob as sobrancelhas, e a superfície do rosto, que ia da linha dos cabelos até as maçãs da face, dando-lhe o ar predador de um antigo guerreiro. O jeito natural com que se movia, sua força ardilosa. O brilho da pele, dourada pela transpiração, o dragão deslizando peito acima cada vez que os músculos se contraíam e relaxavam.

Que idiota, permitir-se um devaneio adolescente a respeito de um empregado, um jovem empregado. Idiotice ainda maior era concordar em ter remorsos por essa atração ridícula. Se pudesse apenas ser objetiva em relação ao fato, daria risadas sobre a armadilha que a mente lhe armara, fazendo com que se estendesse sobre um parceiro tão inconveniente, como um canário espiando a suntuosidade de um pavão.

Eram só os hormônios investindo furiosamente, apenas isso. Não poderia resultar em alguma coisa. Alec Stanton faria o serviço, depois iria embora e tudo voltaria a ser como sempre fora. Tudo, exceto por ter ela um novo jardim de rosas.

Teria que se contentar com isso.

Talvez tenha sido um erro sair de casa. Havia vários tipos de segurança, vários tipos de perigo. E assim, se ficasse lá dentro até Alec terminar o serviço no jardim, não iria se machucar.

Conseguiria?

 

Laurel Bancroft ficou de olho nele, da janela; Alec sabia que ela estava lá, porque a vira de relance.

Não gostava daquilo, não achava graça em se sentir como se fosse um criminoso, de quem ela precisasse se manter afastada a qualquer custo. Ou, pior ainda, de que ele não fosse bom o bastante para se juntar a ela. Aquilo durou três dias. Já estava cheio daquilo.

Não se importava por ela ficar na janela, não ligava a mínima se tinha mesmo matado o marido, com bons motivos para se trancar lá dentro. Não fazia nem diferença se não via uma alma a não ser Maisie. Só queria que ela saísse de casa. Queria que fosse conversar com ele.

A raiva que fervia dentro dele, enquanto cavava, aparava e cortava as moitas, era estranha, de certo modo. O que as pessoas achavam dele e como agiam diante dele era algo que deixara de perturbá-lo há vários anos. Mas Laurel Bancroft reabrira antigas feridas. Fizera com que ele tivesse consciência da própria presença como se fosse de novo um adolescente. Fizera com que se preocupasse com os outros, e isso era mais uma coisa desagradável nela.

O que pretendia, ele não sabia. Não que fosse apenas uma mulher atraente, já que havia incontáveis delas na Califórnia, das quais ele já tivera sua cota. Nem era o caso, como às vezes seu irmão o acusava, de ter um fraco por mulheres problemáticas. Podia ter uma inclinação para estender a mão a quem se debatia, mas isso não tinha nada a ver com a dona de Hera Silvestre.

Lá estava ela de novo, por trás das cortinas na janela no canto da casa. Estava de pé, bem para trás, mal se mexendo, mas ele aprendera a observar vultos.

E foi o que fez.

Deixou de lado a pá que tinha nas mãos, tirou as luvas e enfiou-as no bolso de trás. Não ia ficar sendo espionado nem mais um minuto. Ou bem ela saía, ou ele ia lá dentro.

Maisie atendeu à porta. As sobrancelhas grisalhas se ergueram quando viu a expressão sinistra do rosto dele. Enxugando as mãos no avental, perguntou:

— Aconteceu alguma coisa?

Alec fez que sim, rapidamente, com a cabeça.

— Gostaria de falar um minuto com a sra. Bancroft.

— Está ocupada —respondeu a mulher, sem se afastar um centímetro. — Precisa de alguma coisa?

— De resposta — disse ele. — Pode chamá-la para mim? Maisie observou-o, com o olhar desbotado que manteve a sabedoria para identificar as misérias humanas e lidar com elas. Finalmente, concordou.

— Espere aqui um minuto.

Alec pôs as mãos nos quadris e ficou vendo a empregada desaparecer dentro da casa. Espere aqui, tinha dito. Como um menino bem-comportado. Ou um empregado. Apertou os lábios.

Depois de uns instantes, ouviu o murmúrio de vozes, um silêncio e em seguida o arrastar dos chinelos de Maisie. Começou a falar quando ainda estava a alguma distância da entrada.

— Ela disse para eu ver o que você quer.

— Quero falar com ela — explicou, com ácida delicadeza.

— Bom, ela não quer falar com você, então não insista.

— E se eu insistir? Vai me impedir? Ou vai fazer queixa de mim para vovó Callie? — Deu um passo à frente, para o corredor de entrada.

— Vai ser despedido — avisou Maisie, mesmo se afastando alguns passos para trás.

— Ótimo. Vou ser despedido.

— Achei que você precisava desse emprego.”

— Onde ela está?

Caminhou a passos rápidos para dentro da casa, enquanto Maisie se virava para acompanhá-lo apressadamente.

— No quarto dela — respondeu a mulher quase sem fôlego. — Você não pode entrar lá.

— Acho que posso — falou, dirigindo-se à porta para a qual Maisie olhara de relance enquanto falava.

— Então, isso é com você.

O alerta na voz da empregada, que se deteve, estava impregnado de algo que poderia ser interpretado como aprovação relutante. Ele não parou para analisar, mas girou a maçaneta e entrou no quarto.

A viúva Bancroft estava sentada em uma espreguiçadeira, com almofadas nas costas, os pés enroscados para o lado e um livro nas mãos. Arregalou os olhos e enrubesceu ao encará-lo. Os lábios se entreabriram, como se tivesse respirado de leve e se esquecido de fechá-los.

O quarto era parecido com ela, pensou Alec: mistura de bege, azul e salmão; de sólida mobília vitoriana e tecidos frágeis, sensuais. Era um refúgio, e ele o invadiu. Mais do que isso, ele a pegou desprevenida, antes que pudesse armar suas defesas. Estava descalça e, quase com certeza, sem sutiã por baixo de uma camiseta enorme e gasta, e chort branco. O cabelo caía sobre o ombro esquerdo, oscilando com a batida do coração, e não tinha o mais leve traço de maquiagem para obscurecer a claridade de sua pele ou o suave tom coral dos lábios. Era a visão mais sedutora que já lhe aparecera em toda a vida.

Num piscar de olhos ela recuperou a pose. Deixando o livro de lado, desenrolou-se da espreguiçadeira e pôs-se de pé. Ao falar, a voz era cortante:

— O que é isso? Está com algum problema?

— Pode-se dizer que sim. Eu queria saber por que está com medo de mim.

Ele não pretendia que fosse daquela maneira, mas deixou ficar assim mesmo.

— Eu, não — disse ela negando imediatamente.

— Está me fazendo de bobo. A não ser que tenha outro motivo para se esconder aqui dentro.

Ela o encarou por um longo momento, antes de tornar a falar.

— Quem disse que estou me escondendo? Só porque não tenho necessidade de Supervisionar tudo que você faz...

— Está me deixando fazer esse jardim do jeito que quero, e sabe disso. Quando eu terminar, não vai ser o seu jardim, mas o meu.

Ela encolheu um pouco os ombros.

— Então faço do meu jeito depois que você for embora.

— Não precisa. Garanto que o jardim vai refletir agora o que a senhora quiser. Não precisa levantar um dedo, nem para apontar. Pode me dizer o que é para mudar de lugar, o que vai ficar como está, o que quer que diminua e o que prefere deixar no tamanho natural. Já tirei o mato, as ervas daninhas e tudo mais que obviamente não vai ficar, mas está na hora de decidir.

— Então, você decide — falou entre dentes. — Parece mesmo que você sabe mais do que eu.

— Eu não sei o que a senhora quer ou não quer.

As palavras eram simples e seu significado também, mas a ênfase que ele colocou aqueceram-nas.

— Faça como achar melhor!

Tinha os olhos fixos nela, então deu uma sacudidela mental. Ela falava de flores e canteiros, só isso.

— Vamos imaginar que eu tire tudo — disse ele — e deixe o chão... nu.

— Não pode!

— Poderia — resmungou com absoluta convicção. — Nada mais fácil.

— Mas há camélias que estão ali há mais de oitenta anos, e uma oliveira enorme que... — Parou, arregalando os olhos. — Você sabe disso.

— Sei o que está ali — falou. — Só não sei o que é importante para a senhora.

— Posso lhe dizer...

— Mostre.

Cortou o que ela pretendia dizer, sem piedade. Os lábios dela tinham uma expressão decidida.

— Acho que não...

— A não ser que seja alguma coisa comigo — disse ele delicadamente. — Já que a senhora não está com medo, então pode ser que não goste da companhia.

Surpresa e desalento faiscaram no azul dos olhos dela.

— Não se trata disso, de jeito nenhum.

— Então, qual é o problema?

— Nada!

— Acho que não. Ela baixou os cílios.

— Pelo menos, não tem a ver com você, nada contra você. Não estou entendendo por que está tão preocupado.

— Pode achar que sou obstinado. Gosto de saber onde piso.

— Aliás, onde não deve pisar. No meu quarto.

Jogou para ele um olhar de irritação, antes de virar de costas.

— É só me tratar como igual, que eu saio — declarou ele, com precisão.

Ela franziu os lábios, cruzou os braços sobre o peito e suspirou.

— Nada com você, entendeu? Se quer saber, eu sou assim. Não lido muito bem com as pessoas.

— É isso? — disse ele, erguendo a sobrancelha. — Não precisa lidar comigo, só conversar. Não sou complicado, não mordo, mas detesto ser esnobado.

— Não estou esnobando você!

— Pode ser que não veja utilidade em mim, então.

— Não é isso, de jeito nenhum. Nem sei o que dizer!

O sorriso dele era lento, mas firme, quando se virou para a porta e ali ficou, mantendo-a aberta, esperando por ela.

— Não aceito desculpas, e estou falando por nós dois, e não me incomodo com sua companhia.

O olhar que ela lançou era fulminante, mas resignado. Ele a ganhara, e ela sabia disso. Não era o tipo de mulher que seria cruel só para se proteger, não importa qual fosse a provocação. Ele suspeitava disso, até contava com isso. O que não explicava muito da personalidade dele, mas ainda menos de todos os outros imbecis que a achavam capaz de um assassinato. Observou-a de perto, ao calçar as sandálias que estavam ao lado da espreguiçadeira, e caminhar na frente dele pelo corredor na penumbra.

Ele conseguiu. Tirou Laurel Bancroft do quarto, para fora de casa outra vez. Depois daqui, iria para onde?

Boa pergunta, que ele levou em consideração durante toda a semana seguinte. Poderia ser culpado de arrogância, por achar que sabia o que era melhor para ela, mas não pretendia parar por aí. No mínimo, arrogante.

Pelo menos, deu um jeito de convencê-la a ir ao jardim todas as manhãs. Custou muita meditação e esforço, para não falar das dezenas de perguntas idiotas que poderiam ser respondidas por ele próprio. Mas no sexto dia, ontem mesmo, ele a manteve do lado de fora por tempo suficiente para deixar aquele narizinho vermelho de sol, e sujas as unhas dos dedos longos e aristocráticos. Como um presente para ele, saíra de casa esta manhã com luvas e chapéu de palha.

Trabalhar ao lado dela era, ao mesmo tempo, um prazer e um tormento. Queria manter tudo que conseguisse identificar, transformando o jardim em uma confusão medonha. Não que ele se importasse. Nem tivesse qualquer direito de reclamar.

Demonstrava uma reverência pelos seres vivos que a levava a salvar qualquer tartaruga, sapo, lagarta e até cobra que se aproximasse do machado ou pá manejados por ele. Esta manhã, passara uma hora atrás de um filhote de coelho, por todo o jardim, até que encontrasse o caminho para fora da cerca.

Como recompensa por sua paciência, ele se colocava, em relação a ela, a favor do vento, para sentir o incrível perfume de rosa, jasmim e mulher quente que sua pele exalava. Conseguiu receber as instruções diretamente dela, o que sempre era feito sob forma de pedidos gentis. Ele se permitia admirar a vista quando ela se abaixava, nos jeans justos e cortados na altura dos joelhos, para trançar folhagem em bulbos ou revolver algum pedaço do solo. Falava com ela sempre que tinha vontade. E às vezes, quando menos esperava, era premiado por dizer algo engraçado com um de seus raros sorrisos.

Era o tipo de mulher que deveria ter aparecido em sua vida em outro tempo e lugar. Do jeito que estava, o que ele queria era arrancá-la do exílio que se impusera e fazer com que voltasse à vida. Não tinha muita certeza de por que fazia aquilo, a não ser, talvez, o fato de precisar se distrair com alguma coisa, ocupar a mente. Ou, talvez, só por detestar o desperdício.

Sim, e talvez fosse idiota de pensar que era tão simples. Rejeição nunca fora problema antes.

Almoçaram na varanda. Ele teve dificuldade para engolir o hambúrguer feito por Maisie, embora fosse saboroso. A garganta se fechava quando ele virava a cabeça e via Laurel sentada com tanta naturalidade ao seu lado. Ela estava cansada e com calor, e a camiseta úmida de transpiração colava nos lugares certos. O cabelo se soltava da longa trança que descia pelas costas e um fragmento ficou preso nos cílios de pontas douradas. Ele pensou que nunca tinha visto algo tão deslumbrante na vida.

— Não se mexa — falou, estendendo a mão para tocar o rosto dela, delicadamente fechando o olho com o polegar, antes de retirar o pedaço de folha seca dos cílios, com dois dedos.

Ela piscou, suavemente, e sorriu para ele.

— Obrigada.

Era incrível como uma única palavra podia fazer com que ele se sentisse tão bem. Pronto para escalar altos prédios. Salvar o mundo. Ou ceder ao erotismo, em cima da mesa à frente, sendo logo expulso dali com um pontapé.

Ela o observava, com olhar ligeiramente inquiridor. Ele tinha a impressão de estar vermelho, pois era fria a brisa fresca que circulava por toda a varanda. Deixando voar o pedaço de folha de seus dedos, apanhou o copo de água e bebeu com gosto.

— Você come pouco, não é? — disse ela em tom de suave censura. — Pelo menos, não se compara ao muito que você trabalha.

— Como o suficiente.

Poucas palavras. A última coisa que queria dela eram conselhos maternais. Ela franziu a testa.

— Só fiquei imaginando se era de propósito, algum tipo de alimentação saudável da Califórnia.

— Acho que sim — admitiu ele, finalmente. — O homem para quem eu trabalhava, já idoso, achava que comer demais traz um monte de problemas. Ratos obesos morrem mais cedo, ele costumava dizer. Era chinês, achava graça da comida americana, e vivia de uma combinação horrível de arroz e legumes. Mas estava com 86 anos e cada vez mais forte, toda vez que eu o via.

— Você trabalhou em jardinagem com ele?

Alec concordou com um movimento de cabeça, satisfeito por ela se lembrar de algo que lhe dissera na noite em que a conheceu.

— O sr. Wu era jardineiro. Ensinou tudo o que sei sobre as plantas, e muitas outras coisas, além disso.

O sorriso dela era de deboche.

— Sabedoria dos veneráveis anciãos?

— A senhora anda vendo muitos filmes de Charlie Chan — respondeu com um sorriso. — O sr. Wu era ótimo em meditação zen e artes marciais, mas nunca o ouvi citando Confúcio.

— Artes marciais? Ele ensinou isso também para você? Ele encolheu os ombros.

— Só como forma de exercício. Outra coisa que o sr. Wu fazia muito bem.

— Eu pensei que jardinagem fosse mais do que suficiente. As palavras soaram sarcásticas, enquanto ela flexionava os músculos do pescoço.

— Era o que eu pensava também — replicou ele com um sorriso de recordação.

O olhar fixo deslizava pela suavidade dos seios dela, ressaltados quando ela virava a cabeça e arqueava as costas para aliviar a tensão do esforço.

— O sr. Wu tinha um meio de influenciar a mente das pessoas.

— Você sente falta da Califórnia, imagino. Quer dizer, aqui deve ser muito diferente.

— Já senti — respondeu com uma leve sacudidela na cabeça, enquanto olhava para ela. — Agora não sinto mais.

Evitava olhá-lo nos olhos. Relaxando, ela tentava apanhar com a ponta do dedo uma semente de gergelim que caíra do pão do hambúrguer.

— Mas você vai voltar para lá, imagino.

Voltaria? Decerto pensara em fazê-lo, antes. Agora não tinha tanta certeza. Com o cérebro comprimido dentro do crânio, ao observá-la colocando o gergelim na língua rosada, disse:

— Não por enquanto.

— Porque seu irmão ainda não está passando bem? Ou ele é que não quer ir?

Evitava perguntar o que ele queria, para não parecer que o conhecia melhor do que imaginava. Apesar de ser este um pensamento constante para ela. Depois de um instante, ele disse:

— Gregory está bem daqui, ou mais ou menos bem. Não sei dizer se algum dia ele vai... voltar.

— Então está bem. Deve haver alguma Coisa aqui de que ele goste.

Dirigiu-lhe um olhar direto.

— Deve, mas não é o que eu estava pensando.

— Ah. — Ela ergueu a cabeça.— Você não está querendo dizer...

Ele assentiu com a cabeça e virou-se para espiar um pássaro azul que acabava de pousar em uma estaca da cerca. Em voz baixa, disse:

— Não vai conseguir.

No silêncio repentino que se fez, o pio do pássaro soou alto. Depois de um instante, ela perguntou delicadamente:

-Ele sabe?

Alec concordou com a cabeça, pois não estava seguro para falar.

— Que idade...

— Faz trinta e cinco em outubro, quatro anos mais velho que eu.

Jogou a questão da idade na cara dela. A hesitação na pergunta o fez pensar que ela talvez quisesse saber.

— Ele... quer dizer, ele está... tudo bem com ele?

— Não — disse Alec em tom estudado. — Acho que não se pode dizer isso.

Longe disso, na verdade. Gregory não encarava bem a situação, de forma alguma. E quem poderia culpá-lo?

— Sorte dele, ter você ao lado.

Era a última coisa que ele esperava ouvir, tão inesperada que deu uma risada.

— Não sei se ele concorda com isso.

— Maisie disse que sua avó contou que você fica a noite inteira acordado com ele.

— Alguém tem que ver como ele está, dar os remédios. Vovó cuida dele durante o dia, mas precisa descansar.

Ficou surpreso ao saber que Laurel e Maisie haviam conversado sobre ele. Ergueu a sobrancelha, pensando em por que o fariam.

Laurel ficou ligeiramente ruborizada sob o olhar dele.

— Vi você tirando um cochilo depois do almoço, no primeiro dia. Maisie me disse que devia estar precisando, e por quê. Não fez isso de novo, então eu só queria dizer que não tem importância, se você... sentir necessidade.

A necessidade que ele sentia tinha pouco a ver com dormir, apesar de ter tudo a ver com se deitar. Ou até não.

— Agradeço a lembrança — disse cuidadosamente —, mas estou dando um jeito de tirar uma soneca no final da tarde, enquanto vovó Callie faz o jantar. Vou dar conta.

— Você é quem sabe. — Ergueu um ombro.

— Está insinuando que estou fora de forma e não vou agüentar? — indagou ele, num esforço para tornar o ambiente mais leve, mudar de assunto.

Os olhos dela passearam pelo peito dele, visível com a camisa desabotoada para refrescar. Torceu a boca em um sorriso esquisito.

— Acho difícil.

Ele manteve os lábios cerrados, era o único modo para não rir. Não buscava elogios, mas tampouco os encarava com indiferença.

Empurrou o prato para o lado e encostou-se na cadeira. Interrompeu o devaneio ao ver a pintura descascando em torno da porta de entrada, e agarrou-se àquilo como se fosse um caso de vida ou morte. ”

— Há quanto tempo esta casa não é pintada? Ela encolheu os ombros.

— Seis anos, talvez sete. Sei que está precisando, mas...,

— Como falei, seria uma vergonha isto ficar sem manutenção. É um lugar tão grandioso.

— Eu sei — disse ela tristemente. — Só que dá muito trabalho.

— Também falei que poderia fazer isso.

— Ia ficar aqui para sempre. Exatamente, pensou ele. No entanto, falou:

— De jeito nenhum. É impressionante como se anda rápido com umas latas de tinta e um compressor de ar.

— Um vaporizador, você quer dizer? Ele ergueu a sobrancelha.

— Não é uma coisa nova.

— Não, mas Howard sempre fez da maneira mais difícil, com uma trincha.

— Seu marido, não é?

Ela concordou, os olhos fixos no prato. Deixou o que restava do hambúrguer, como se não estivesse mais com fome. Alec achou que ela estava um pouco pálida. Lembrando-se do que Maisie lhe contara, era de se esperar.

— Ele não morreu por sua culpa — falou com voz grave. — Não fique pensando isso.

— Você não sabe do que está falando.

Os olhos faiscavam em azul, ao olhar para ele.

— Só sei do que me contaram. Mas dá para entender que a mulher que não é capaz de maltratar uma tartaruga nunca iria matar um homem.

Ali estava, a céu aberto. Esperou que ela lhe contasse. Ela desviou o olhar, engoliu em seco.

— Uma coisa não anula a outra, necessariamente.

— Está dizendo que o atropelamento foi para valer?

— Era o que eu devia ter feito.

A face dela ficou corada e um sulco apareceu na testa.

— Claro. Derrube o oponente.

Ele se viu esperando pela explosão, a demonstração de temperamento em defesa da sua inocência. Mas onde estava?

— Pode ser que eu o tenha visto chegando por trás, antes de dar ré na garagem. Eu podia ter pisado no freio... mas não pisei.

Estava séria demais. Por incrível que parecesse, ela acreditava mesmo que tinha matado o marido de propósito.

— Certo, e talvez tivesse imaginado que ele não seria burro de andar atrás de um veículo em movimento. Que droga, qualquer um pensaria.

— Nem todo mundo.

— Esqueça isso. Viva sua vida.

— É fácil falar, mas não consigo...

Deteve-se, respirou profundamente e levou as duas mãos ao rosto, deixando-as cair como se esfregasse os resquícios do horror.

— Não importa. Nem sei como chegamos a este assunto. Eu... nós estávamos falando da pintura. Se quer mesmo mexer com isso, pode pegar o que for preciso na loja de material de construção na cidade e me dizer quanto foi.

— Eu poderia, mas devíamos ir agora à cidade para a senhora escolher as cores das tintas.

As palavras tinham endereço certo. Ele aguardou a resposta com algo mais que um interesse trivial.

— Ah, acho que não precisa. Branco fica bem. Com as janelas em verde, acho.

O tom era sarcástico, na medida da decepção dele.

— Qual é o problema? É tradicional, do jeito que sempre foi.

— É cansativo.

— Acho que você ia querer fazer essas coisas na moda, como aquelas casas vitorianas de São Francisco, as Palnted Laie dos cartões-postais.

A reclamação significava mais do que parecia — fez a voz dela soar vigorosa e cheia de vida. Também acertara no que dizia respeito ao gosto dele. Para se defender, ele disse:

— Os vitorianos gostavam de coisas coloridas.

— Por aqui, não, não gostavam. A caiação era tudo que as pessoas podiam pagar depois da Guerra Civil, você sabe. Mais tarde, todo mundo achou que, se era bom para os avós, seria para eles também. E para mim também está bom.

— Bem, é pecado ir contra a tradição. Quer branco fosco antigo ou branco com brilho?

— Antigo.

— Eu devia saber.

Ela ficou em silêncio por um instante, encarando-o. Em seguida, levantou-se.

— Muito bem, está combinado. Acho que está na hora de voltarmos ao trabalho.

Foi o que bastou para ele.

A tarde passou rapidamente, pelo menos para Laurel. Em um momento, o sol estava a pino; no momento seguinte, quando ela ergueu a vista, já espalhava no chão compridas sombras azuladas. Lutava contra madressilvas rasteiras que se alastraram por cima de um broto de gipsófila. Resolvera que a única maneira de se livrar delas era cortando as duas plantas rentes ao chão, quando ouviu um leve ruído atrás de si. Virou-se com a tesoura de poda aberta nas mãos.

Alec deu um passo para o lado e levantou uma das mãos. No minuto seguinte, a tesoura estava no chão e os pulsos dela formigavam nas luvas. Segurava a mão esquerda com a direita, enquanto olhava para ele fixamente.

Ele xingou baixinho e chegou mais perto para tocar seus Pulsos, então tirou-lhe as luvas e jogou-as no chão. Virando as mãos com as palmas para cima, testou cada osso, observando se havia sinal de dor na expressão do rosto. A rigidez se amenizou em suas feições, ao perceber que não havia sinais de qualquer machucado. Em voz baixa, falou:

— Eu não queria machucar a senhora. Agi por reflexo.

— Eu sei — respondeu ela, controlando o estremecimento que lhe provocavam as mãos quentes, bronzeadas.

— Não me machucou. Só levei um susto. Ele lançou-lhe um olhar de avaliação.

— Sei, mas era eu. Não sabia se estava armada nem se era perigosa.

Ela poderia continuar daí, ou deixar o assunto morrer.

Optou por esquecê-lo.

— Queria alguma coisa?

Afrouxou as mãos que seguravam o braço dela, antes de soltá-lo com um gesto ostensivo.

— Na verdade, quero, sim. Ia perguntar se poderia me mostrar onde fica a nascente do seu riacho. Gostaria de saber qual o tipo de terreno, de lá até aqui.

— Tem um motivo, eu imagino.

Percebendo que ainda esfregava os pulsos, que voltavam a latejar, ela fez um esforço para parar com aquilo.

Os olhos dele eram negros como carvão e o sorriso um pouco forçado, ao inclinar a cabeça.

— Pensei em canalizar água do riacho para sua fonte.

— Mas por quê? — Franziu o cenho para ele. — Eles têm esses aparelhos para reciclar água. Não acha que serve?

— Vai ter que jogar cada vez mais água, e depois de certo tempo, a fonte fica com a água estagnada. — Esboçou um sorriso. — Além disso, adoro os projetos de hidráulica. E já que tem um engenheiro, podia aproveitar.

— Acho que você não vai querer marchar pelas moitas seguindo o riacho. Só há mato por lá, e as cobras estão assanhadas.

— Quer dizer que não quer ir, pelo que entendi — disse ele. — Não faz diferença. Mostre o caminho e dá para ter uma ideia se eu for de moto.

— Se você está querendo dizer que quer ir no meu carro...

Cortou o que ela dizia com um sacudir da cabeça.

— O que pensei era que podia ir de moto comigo.

— Acho que não! — Ela oscilava entre o espanto, a dúvida e a raiva, sem decidir qual o sentimento predominante.

— Por quê? Tem medo de cair comigo?

— Não, mas...

— Não tem mas nem meio mas. Ou confia em mim, ou não confia. Qual é o problema?

— Você não está entendendo — disse ela, ligeiramente enfurecida.

Ele não se moveu um centímetro.

— Então me explique.

— Não gosto de motocicletas.

Desviou os olhos para cima do ombro dele, enquanto falava.

— Não precisa gostar. É só subir. Ela cerrou os lábios.

— Isso é ridículo. Não tenho que lhe dar motivo. Não vou e pronto!

— Arrepiou — disse ele delicadamente. Devolveu o lampejo do olhar dele.

— Não tem o direito de falar esse tipo de coisa. Não sabe o que é, para mim, morar aqui. Não sabe mesmo.

— Como tem tanta certeza? Não é a única pessoa que tem problemas — disse ele, com um gesto breve da mão. — Pelo menos, sei de uma coisa, é que a senhora tem uma fobia qualquer com Hera Silvestre. Se não sair daqui, vai acabar trancada lá dentro, sem ter como fugir. Nunca mais.

Ela mordeu a ponta do lábio. Em voz baixa demais para ser ouvida, indagou:

— Seria tão ruim assim?

— Seria um ato criminoso — respondeu ele sem hesitação. — Ainda tem muito o que viver. Quer desperdiçar tudo isso? Vai deixar que o medo determine o que pode e o que não pode fazer?

Era um ângulo novo. Não tinha muita certeza de ainda ter vida, ou coragem, para viver, nem faria qualquer diferença.

— Veja — começou ela.

— Não, veja a senhora — retrucou ele, colocando as mãos nos quadris. — Só estou falando em dar uma volta de moto. Só precisa segurar firme. Não vou correr, não vou deixar a senhora cair, vai poder escolher o caminho. O que mais quer?

— Ficar sozinha — falou mansamente.

— Não tem a menor chance — respondeu ele com um sorriso implacável. — A não ser que não queira aquela fonte.

Encarou-o, imaginando se havia uma ameaça por trás das palavras. Será que ele queria mesmo dizer que não levaria adiante o projeto da fonte se ela não o ajudasse nessa parte? Era possível que fosse tãoteimoso e obstinado, a ponto de querer tudo do jeito dele.

Não pretendia testá-lo, e isto era algo, ao mesmo tempo, irritante e deprimente.

— Ah, está bem — falou, abaixando-se para apanhar as luvas que ele deixara no chão. — Quando você quer ir?

— Agora — disse imediatamente.

Com certeza, achou que ela desistiria se demorassem. Era possível que tivesse razão, apesar de ser a última coisa que ela admitiria.

— Então, vou avisar Maisie.

— Já falei com ela — disse ele e ainda teve o desplante de sorrir.

Virou-se e foi na direção da Harley, na estrada.

Ela o observou; observou o balanço confortável e confiante das longas pernas, o modo como os jeans apertados aderiam ao corpo, as linhas enxutas das costas, a maneira natural de mover os braços, tudo como se sentindo bem com seu corpo, bem dentro dele. Esperava que ela o seguisse, tinha absoluta certeza de que o faria.

Entre todos os convencidos, sabidos e manipuladores machistas que ela já vira na vida, aquele era o campeão. Por nada deste mundo sairia montada na garupa como se fosse uma indiazinha, feliz da vida porque ele a escolheu.

Ele se virou, com um sorriso caloroso, quase carinhoso, meio desafiador ao estender a mão.

- Vem?

Ela foi. Não sabia por quê, mas foi. Era melhor do que o ouvir dizer que ela arrepiara.

Alec não deu chance a Laurel de recusar e levou-a imediatamente para a moto. Passou a perna por cima do selim, sentou-se com os pés firmes no chão, enquanto a ajudava a se sentar na garupa. Quando estava instalada, colocou a mão dela na sua cintura, como se fosse uma sugestão. Ela a tirou dali no instante em que ele a soltou, e não lhe restou senão balançar a cabeça, de tão desapontado.

— É maior do que eu pensava — disse ela, um pouco sem fôlego.

— Nunca fez isso antes? — indagou ele, rindo consigo mesmo pelo duplo sentido do que ela dissera.

— Nunca.

— Tudo tem uma primeira vez. Pronta para sair... para a estrada?

— Vamos logo, e vamos parar de falar nisso — respondeu entre dentes.

Olhou-a de relance, por cima do ombro, imaginando se saberia dizer o que lhe passava pela cabeça. Mas, não, o rosto estava contraído e, com certeza, ela não achava graça nenhuma. Girou a chave, fez a moto roncar e a pôs em movimento.

Ela se segurava ao assento, o que não era suficiente para mantê-la firme na arrancada. Com um gritinho, segurou-se na cintura dele, passando os braços em torno, entrelaçando os dedos na altura do plexo solar. Ele sentia os seios pressionados contra suas costas, uma suavidade deliciosa. O rosto dela se encaixou no ombro, na omoplata. Perfeito, pensou ele, com um sorriso que se esboçava no canto da boca. Perfeito mesmo.

Acomodou-se mais para trás e diminuiu a velocidade. A passageira ia preferir assim, sem dúvida. Além disso, a viagem demoraria mais tempo. Depois de um instante, virou a cabeça e berrou:

— Está achando rápido demais?

— Não, está bem assim — respondeu em tom acima do barulho do motor, mas sem muita convicção.

No entanto, ele era ótimo, dono da situação. Corria pelo asfalto das estradas, entrava no desvio de cascalho que ela indicou sem um murmúrio de hesitação. Não se exibia, mantinha a moto com firmeza. Só se detinha para olhar o riacho, nos locais em que este passava por canos de esgoto ou por baixo de pontes, em seu sinuoso trajeto em direção a Hera Silvestre.

Era uma corrente de água de bom tamanho, aumentada no percurso por inúmeros regatos, o que mantinha a água fresca e clara. Vários terrenos alagadiços alimentavam-se dela, o que, imaginou ele, deveria aumentar com as chuvas da primavera e do inverno. Arrastava ainda o escoamento de uma série de sulcos de irrigação que se estendiam por alguns quilómetros. Havia pequenas represas ao longo do curso, um ou outro lago, que não o drenavam muito.

O riacho era excelente para o que queriam; viu tudo isso em pouco tempo. Uma bica de água para a fonte não iria criar problemas nem com proprietários de terras, nem com os ambientalistas. E, com certeza, não faltava água na LouiIsiana. Se o estado descobrisse um meio de bombear água para o Oeste, seria uma maravilha.

— Já vi tudo o que era preciso — disse ele, enquanto rodavam em marcha lenta ao longo de galerias enferrujadas.

— Para onde vamos agora?

— Para casa — replicou ela, com palavras definitivas. Ele concordou com um aceno breve.

— Certo. Mas antes eu gostaria de ver até onde vai esta estrada.

Ela disse qualquer coisa em protesto, pelo que ele entendeu, mas no momento em que deu partida na máquina, de modo que não captou exatamente o que foi dito.

Era uma estrada rústica, de terra batida, arenosa, que adentrava o bosque. Havia algumas árvores altas em quase todas as elevações do terreno, como se, um dia, tivesse havido casas nas margens. Toda esta terra fora de fazendas, muito antes da virada do século, com pastagens e campos espalhando-se pelas colinas roliças, até onde a vista alcançava. Pelo menos, era o que contava vovó Callie. Ela ainda se lembrava dos nomes de muitas famílias; sabia dizer quem havia desistido e se mudara para a cidade, para trabalhar nos moinhos; quem emigrara para o Texas; quem fora chamado para a Grande Guerra, a Segunda Guerra Mundial, e nunca mais voltou. Era estranho pensar em todas aquelas pessoas, vivendo e trabalhando, criando os filhos e morrendo aqui, sem deixar nada para trás, a não ser as árvores que as abrigaram em vida.

— Vire aqui! — berrou Laurel no ouvido dele. — Temos que voltar!

Ele fez que entendeu, mas não obedeceu. Zunindo pelas curvas fechadas da estrada sem pavimentação, passando do sol pleno para a escuridão da mata fechada e de novo para a luz, ele se sentia livre, feliz e com sorte por estar vivo. Se pudesse, ficaria na moto para sempre. Não se lembrava da última vez em que fizera alguma coisa com tanto gosto, como ouvir o ronco do motor, nessa estrada secundária, com Laurel Bancroft atrelada a ele, chocando-se com ele quando passavam pelos buracos da estrada, amarrados um ao outro de vez em quando por uma longa mecha dos cabelos dela que se enrolava no braço dele como um cordão de seda.

— Pare! — gritou ela, sacudindo-o com tanta força nos braços presos que a moto deu uma guinada. — Esse caminho corta a auto-estrada. Estamos chegando muito perto da cidade!

Tinha razão. Havia um cruzamento mais à frente, logo que fizeram a curva, com uma placa de pare vermelha, octogonal. Ele poderia pisar no freio ali mesmo e derrapar até a parada, ou sair para o acostamento, afastando-se bem pouco da estrada em que os carros passavam zunindo. Não havia muita escolha, com Laurel atrás dele. Foi para o acostamento.

Ela tremia; ele sentia os arrepios circulando por ela, e daí para seu próprio corpo, ao passar ao lado da placa. O medo dela devia ter começado desde que tinham saído de casa. Não era racional — algo que pudesse ser controlado —, se tivesse domínio sobre isso, ela reagiria, em vez de deixar que ele percebesse. Deu um sorriso mecânico, xingando em silêncio por ter-se enganado a respeito dela.

— E agora? — indagou ele por sobre o ombro, com preocupação e calma. — Uma viagem rápida de volta para casa pela estrada principal, ou mais lenta pelo caminho que viemos?

Os carros passavam nas duas direções, diante deles. Os ocupantes viravam a cabeça para espiá-los, ali parados. Laurel escondeu o rosto nas costas dele.

— O caminho da vinda — respondeu com voz entrecortada. — Por favor. Agora mesmo.

— É claro.

Fazendo um círculo amplo, ele voltou.

Ela estava bem disposta quando saltaram na frente da casa. Pelo menos parara de tremer. Porém, não disse uma palavra, só pulou da moto e saiu andando. Cortando caminho pelo jardim, subiu correndo a escada. Bateu a porta atrás de si.

Alec xingou de novo, e socou o guidom da moto com o punho cerrado. Era mesmo um imbecil. Como não tinha prestado atenção? Por que manteve o rumo quando ela disse para voltar? As coisas estavam correndo tão bem.

Ele não teve noção. Mesmo quando a acusou de ter uma fobia, não acreditava que a coisa fosse tão séria. Levou-a para fora com muita facilidade; então achou que seria a mesma coisa o tempo todo.

Mas reconheceu, ali sentado olhando para o jardim da frente de Hera Silvestre, que o pátio cercado, um pequeno espaço, era quase uma extensão da casa. Era o máximo até onde ela conseguia chegar, ao menos assim parecia.

Visto por este ângulo, o fato de ter saído com ele na moto era quase um milagre. Tinha mais confiança nele do que imaginara, deixou que cuidasse dela, a mantivesse escondida, em segurança.

Ele a decepcionara.

De hoje em diante, só por sorte ele conseguiria tirá-la de dentro de casa. Que droga, só por sorte manteria aquele emprego.

Meu Deus, não podia aceitar isso. Ficaram tão próximos. Agora tinha que recomeçar tudo.

Recomeçaria. Faria isso. O coração e a cabeça não lhe davam outra escolha.

 

Laurel ficou parada, segurando a maçaneta da porta, o olhar perdido na luz que entrava pelas vidraças que a cercavam. A mãe de seu marido vinha pelo caminho de entrada. Acima do peso e com o corpo em formato de pêra, a senhora idosa tinha cabelos grisalhos que podiam ser descritos como da cor de rato sujo. O vestido era um saco de poliéster, os sapatos, pequenos demais para os pés inchados, e carregava no braço uma bolsa imitação de couro de crocodilo. Espiava o jardim com olhares fugidios. Os lábios pálidos e disformes eram uma linha fina e manchas se espalhavam pela pele enrugada do rosto.

O coração de Laurel ribombava em um ritmo sufocante. O motivo, não sabia ao certo; não era como se fosse uma visita inesperada. Estava apenas surpresa com a visita da sogra depois de Maisie e Alec deixarem o serviço. Não era do feitio de Sadie Bancroft gastar saliva sem ter platéia.

Nesse momento, Sticks arremeteu ruidosamente dos fundos da casa, latindo e rosnando como para um inimigo declarado. Era quase isso, pois antipatizara com Mãe Bancroft desde que era filhote, depois que ela o chutara por roer a ponta de um sapato novo. Poucas eram as probabilidades de que a atacasse de fato, mas a velha senhora nunca vira as coisas por este ângulo. Sempre gritava e corria, como fazia agora, o que, naturalmente, provocava ainda mais o cachorro.

Laurel escancarou a porta da frente e chamou Sticks. Esperou, então, enquanto a corpulenta sogra subia os degraus em disparada e entrava em casa. Sticks veio aos saltos até a varanda, atrás dela, e Laurel impediu-o de entrar, não sem afagar-lhe atrás das orelhas, demonstrando que não estava zangada com ele.

— Que bicho mais agressivo — dardejou Sadie Bancroft, em segurança depois do longo caminho percorrido. — Não entendo por que você não se desfaz dele!

Laurel ignorou a sugestão. Fechando a porta, falou no tom mais agradável que conseguiu esboçar:

— Como vai, Mãe Bancroft? Faz muito tempo que não vem aqui.

— Tempo demais, pelo que estou vendo. Pelo amor de Deus, o que você andou fazendo com a casa?

— Só uma limpeza. A senhora tem de concordar que estava precisando.

- Não é desculpa para arrancar tudo — disse a velha senhora. — E também não venha me dizer que fez tudo sozinha. Sei muito bem que não foi isso.

Então ela já sabia sobre Alec, foi o que passou pela cabeça de Laurel. Ao mesmo tempo, sua sogra não resistiria a jogar farpas, insinuando que Laurel era preguiçosa, apesar de ser algo tão antigo e repetido com freqüência que não produzia mais qualquer efeito. Sadie sempre se ressentira do fato de Laurel manter Maisie a seu serviço mesmo depois que os dois filhos deixaram as fraldas. A velha senhora nunca tivera empregada doméstica, e não via razão neste mundo para Laurel precisar disso. Por certo, convenientemente, se esquecia de que, ao se mudar para Hera Silvestre, antiga moradia da família do marido — com cômodos imensos, piso de madeira encerada e objetos de época que acumulavam poeira —, no instante em que conseguiu arrumar tudo, ele a abandonara para nunca mais voltar.

A casa ficara vazia durante muitos anos, até Laurel e Howard se casarem. Mãe Bancroft ficou deslumbrada quando Laurel quis assumir a responsabilidade pelo imóvel, que mais parecia um velho celeiro, embora sempre tivesse mantido por ele o interesse de proprietária. Desde que isso se materializou na forma de inspeção das instalações para apontar relaxamento e falhas com precisão, mas sem diplomacia, nunca fora uma visita muito bem-vinda, mesmo antes da morte de Howard.

— Nem me passou pela cabeça lhe contar alguma coisa — murmurou Laurel entre dentes, ao fechar a porta.

A outra mulher olhou em volta.

— Que história é essa?

— Quer dizer, aceita alguma coisa? Café? Um suco? Chá gelado?

— Não tomo café nem chá no fim do dia, você já sabe. Tem uma água Perrier?

— Creio que não — respondeu Laurel secamente.

— Então, esqueça.

Mãe Bancroft virou-se e marchou sala adentro. Sentou-se em uma cadeira de espaldar alto, cruzou as pernas gordas, pôs a bolsa no colo e sobre ela fechou as mãos, como se alguém a fosse tirar dali.

— Não posso ficar muito tempo — continuou, mesmo que Laurel não estivesse insistindo pela permanência. — Só vim porque acho que é minha obrigação lhe contar umas coisas sobre esse rapaz que está fazendo o serviço no jardim.

— Está falando de Alec Stanton?

— De quem mais? Você tem outro rapaz circulando por aqui? Espero que não.

— Não — disse Laurel com simplicidade.

Esperava que descambassem para uma discussão, como de costume, mas, desta vez, deixou-se cair no sofá macio e aguardou para ver como a mãe de Howard iria conduzir aquele assunto.

— Ele tem que ir embora.

Ela foi breve e, com certeza, delicada.

— Imagino que tenha uma boa razão.

— Tenho várias — replicou a velha senhora, em tom recriminatório. — Para começar, não fica bem para você ter uma pessoa como ele com acesso livre à casa toda.

— Não acho que a senhora possa chamar de ”acesso livre”, o que ele faz aqui é só trabalho.

— Ele entra e sai à vontade, anda naquela moto esquisita, parecendo os Hells Angels. E isso é outra coisa. Ele não é do nosso nível.

— E de que nível ele é? — Laurel cruzou os braços e recostou-se no sofá.

— Você tem de perguntar, quando está mais do que visível? É só olhar para aquele cabelo comprido e os brincos.

— Um brinco. Muitos homens usam brinco hoje em dia. A sogra dispensou a observação, sem fazer uma pausa.

— Como se isso não bastasse, ainda tem aquela tatuagem horrorosa, que ele fica mostrando para todo mundo!

— É, e ele também é da Califórnia — disse Laurel, concordando de modo totalmente delicado e falso.

— Exatamente! Cheio de idéias excêntricas de todo tipo, não tenho a menor dúvida. Política, religião...

— Sexo? — Laurel acrescentou, para ajudá-la. A palavra, ela sabia, era das que a sogra mais tinha dificuldade em pronunciar.

Mãe Bancroft tomou ar de modo perfeitamente audível.

— O que você tem a ver com isso? O que vocês dois andaram fazendo por aqui? Boa coisa não foi, já que você é viúva e ele... não sei o que ele é!

Já fazia muito tempo que Laurel não sentia aquela raiva quase dolorosa, que circulava agora por suas veias. Com voz tensa, falou:

— Um rapaz muito bonito?

O nojo se apossou das feições marcadas da outra mulher.

— Ele andou fazendo alguma coisa! Eu sabia.

— Que ridículo — disse Laurel de modo ríspido. — Nada acontece, a não ser que estou reformando o jardim da frente, plantando roseiras, e Alec está me ajudando no trabalho pesado. Bem, ele também vai pintar a casa, mas...

— Viu? Está vendo só? — reagiu a outra mulher, com expressão triunfal. — Ele está se mudando para cá. Vai inventar cada vez mais coisas para fazer até não conseguir se livrar mais dele. Esse homem é um golpista, Laurel.

— Ora, vamos, que maluquice!

— Não está vendo? É tão ingênua que não vê logo, pelo jeito dele agir e falar com você?

— Parece que não. Como é que a senhora sabe de tanta coisa, se nunca se encontrou com ele?

Sadie Bancroft respirou ruidosamente, com aquele nariz de batata, e apertou a bolsa com os dedos brancos e roliços.

— Ele enfeitiçou você, dá para ver. Mas que horror! Vai parar na sua cama, se é que ainda não foi. Depois começa a pedir dinheiro. Vai lhe arrancar até o último tostão.

— Ah, faça-me o favor — replicou Laurel, e o calor da indignação lhe subiu à face.

— Vai mesmo! Um gigolô, não está vendo? Cai em cima de mulheres mais velhas. Você pode não ser tão velha como as outras que ele pegou, mas fica isolada aqui dentro, não tem amigos, então é presa fácil. Ele vai sorrir, fazer todo tipo de elogio, e depois vai foder com a sua vida, a não ser que se livre dele antes disso.

Laurel ficou chocada ao ouvir a mãe de seu marido usar aquela palavra, apesar de não se surpreender por ela pensar nisso. Era o tipo de mulher que aumentava a circulação dos jornais de fofocas sobre celebridades, sua distração favorita, além de assistir aos pregadores religiosos na televisão e colaborar com campanhas de abaixo-assinados em defesa dos pleitos da direita mais conservadora. Para compensar todo o seu constrangimento em falar de sexo normal, demonstrava interesse no devasso e grotesco, queria saber dos segredos dos outros e, decididamente, gostava de acreditar no que ouvia de pior sobre as melhores pessoas.

Com voz contida, Laurel retrucou:

— A senhora não está dizendo uma palavra que seja verdade. Só quer ter certeza de que não vou mudar nada aqui em Hera Silvestre, a começar por mim mesma. O que a senhora gostaria era que eu nem olhasse para homem algum.

— Laurel!

— É verdade. Eu devia ficar enterrada aqui porque Howard morreu.

— Oh! — Mãe Bancroft jogou-se para trás com a mão no peito. — Como pode me dizer uma coisa dessas?

— Porque é assim que as coisas são. Acha que não sei como se sente? Acha que não percebo que me quer aqui, de boca fechada, como castigo por provocar a morte de Howard? Eu sempre soube!

— Você está ficando histérica, dizendo coisas que não queria dizer...

Seria? Se fosse, estava se sentindo bem, desta maneira.

— Estou dizendo o que devia ter dito há muito tempo. Acha que matei Howard de propósito e andou dizendo isso para todo mundo durante anos a fio. Entende que eu devia ter ido para a cadeia, talvez ainda devesse ir. Hera Silvestre é um substituto, e a senhora não se importa de prejudicar quem quer que seja, para me manter de boca fechada, aqui, onde é o meu lugar.

A velha senhora aos poucos se aprumou. De olhos arregalados, disse:

— Muito bem, já que você mesma chegou a essa conclusão. Sei que você assassinou meu Howard. Nunca foi a mulher certa para ele, desde o início. Achava que era melhor do que o meu filho... mais inteligente, mais brilhante... e sempre fez com que ele acreditasse nisso. Sempre foi indolente, sonhadora, artística, sempre lendo ou mexendo com aquela cerâmica nojenta lá fora, no galpão. Além do mais, você não era boa mãe para os filhos dele. Fico apavorada só de pensar no que Márcia e Evan vão dizer quando souberem o que você está aprontando agora.

— E a senhora vai correndo contar.

A dor que Laurel sentia no peito era aguda, ao pensar em seus filhos ouvindo coisas terríveis da boca da sogra.

— Eles têm o direito de saber — disse a mulher, comprimindo os lábios. — Mas você nunca foi mais inteligente que meu Howard. E, com certeza, não é tão inteligente, se não vê como esse tal de Alec é de verdade.

— A senhora não sabe do que está falando. Não conhece Alec nem sabe nada sobre ele.

— Qualquer idiota pode deduzir. Você só precisa se dar ao trabalho de ouvir as coisas que o irmão dele anda dizendo pela cidade.

O irmão de Alec. O temor do que estava por vir mexeu com os nervos de Laurel, embora ela se recusasse a permitir que Mãe Bancroft percebesse.

— E o que é?

— Gregory Stanton contou para Zelda, lá no cabeleireiro, que esse seu Alec vivia com uma mulher mais velha em São Francisco. Parece que ele começou como jardineiro, mas conseguiu muito mais coisa. Ela até se casou com ele, a coitada. E, quando morreu, deixou para ele todo o dinheiro dela.

— Não — sussurrou Laurel.

Faltava convicção ao protesto. A irmã de Howard, Zelda, era sempre a primeira a ouvir de tudo.

— Foi, sim. Pergunte a ele, já que não acredita no que digo. Pergunte a ele!

O rosto da outra mulher resplandecia de triunfo e glória. Laurel virou-se para não vê-lo, uma vez que não tinha como negar os boatos. Como poderia, se aquilo vinha do irmão de Alec, o irmão que estava morrendo?

Quando a sogra se foi, Laurel vagou pela casa, perturbada demais para pensar no jantar, para parar em qualquer lugar. Não queria acreditar no que estavam falando de Alec e, mesmo assim, tudo fazia muito sentido. Por que teria ele aparecido do nada para lhe oferecer ajuda? Que outra razão teria paratrabalhar como um condenado? As pessoas não fazem essas coisas a troco de nada — era uma das máximas de Howard. Mais do que nunca, por mais deprimente que fosse, agora tinha ares de ser a pura verdade.

Lembrou-se da preocupação de Alec com ela, e da gratidão que vira em seus olhos. Falsidade. Por que ele sentiria aquilo por alguém da idade dela? Não tinha motivo, a não ser que quisesse alguma coisa em troca.

Laurel andava de braços cruzados. Quase acreditara nele, quase permitira que se aproximasse. Sentia-se tão burra, sentimental, idiota.

Então, estava encerrado. Página virada. Haveria de pagar pelo que fizera até ali e dispensá-lo.

Ainda assim, não parecia suficiente. Queria lhe dar o troco pela dor da traição que sentia lá dentro, por fazê-la sentir o que não queria sentir, que nunca quis sentir de novo.

Não que estivesse apaixonada por ele, ou coisa parecida. Como poderia? Mal o conhecia.

Mas ele a conquistara. Por ele, dera um pequeno passo para fora de seu isolamento protetor. Quase quis arriscar um passo maior.

Estava com muita raiva. Sentia o ódio fervendo, circulando nas veias como veneno. Há quanto tempo não sentia algo tão forte em relação a qualquer coisa? Quase se esquecera do gosto que tinha aquilo. Por estranho que parecesse, tinha um gosto bom, como se estivesse viva de verdade.

Tanta vida dentro dele. Alec dissera isto. Mas fora o queridinho de uma velha, um gigolô.

Um gigolô. Seria possível mesmo?

Devia ser, tinha de ser. Não havia outra explicação.

Abriu os braços e ergueu-os para tirar a faixa elástica que lhe prendia os cabelos, soltando-os em todo o comprimento e metendo a faixa no bolso das calças jeans. Passou os dedos pelas longas mechas como se aquilo ajudasse a esfriar a cabeça. Não, não demitiria Alec Stanton. Não era o bastante. Não ajudaria em nada para mudar seus sentimentos.

Seria muito melhor se o deixasse trabalhar como um burro de carga, fazendo tudo que fosse preciso em Hera Silvestre, e em troca nada lhe desse, a não ser o merecido salário. Haveria de deixá-lo jogar charme e adulação; não o levariam a lugar algum. Deixá-lo perder tempo, pensando que tinha outra velha carente, pronta para cair nos seus braços.

Cair nos seus braços. Meu Deus, que boa idéia. Era isso mesmo que ele pretendia? Quem sabe ela poderia deixar, só um pouco, só até...

Não. Como podia ser tão burra?

E, no entanto, isto o faria pensar que vencera a parada, não é? Quando ela o dispensasse, mais tarde, ele se sentiria tão usado e irado como ela se sentia agora.

Será que conseguiria? Teria coragem?

Provavelmente não, mas era uma idéia tentadora. Tentadora demais. Isso deveria esclarecer-lhe alguma coisa, só não sabia exatamente o quê.

Ao passar pela sala de jantar, viu o próprio reflexo nas janelas altas por trás da mesa e cadeiras de mogno pesado. Escurecera lá fora, sem que ela percebesse, fazendo das vidraças um espelho. Nele, ela aparecia pálida e desgrenhada, com os cabelos soltos. Afinal, foi até bom que a sogra tivesse vindo em uma hora em que Alec não estava lá. Se a visse daquele jeito, ele pensaria que era uma louca.

É, e talvez tivesse razão. Indo até a janela, pôs a mão sobre seu reflexo, observando os olhos brilhantes. Depois, baixou as pálpebras e inclinou a cabeça até tocar com a testa o vidro frio.

Não queria se sentir assim, presa mais uma vez da dor, da dor e, sim, do desespero. Já superara aquilo tudo, já convivia com isso, ou quase, em seu desalento.

Por certo, não se sentira muito melhor antes de Howard morrer. O casamento deles fora uma armadilha, logo que saíram da escola. Ela precisava se livrar da família, em que a mãe bebia e gritava, com ela e com o pai. A ironia foi os pais morrerem em um desastre de carro, menos de dois meses após seu casamento.

Howard. Sentia o coração pesado ao pensar nele. Amaraa com devoção canina, silenciosa, e ficara agradecida por isso. Afeição e compaixão a mantiveram junto dele. Às vezes, imaginava as paixões grandiosas, arriscadas, como as que via nos livros, mas não se achava capaz de senti-las.

Se fechasse os olhos, conseguia se lembrar da última briga com o marido. Não foi por grande coisa, apesar de parecer, naquele momento. Howard queria comprar uma picape para o filho, pois seu próprio pai lhe dera uma ao fazer 15 anos. Não via nada demais em deixar Evan dirigir para baixo e para cima, nas estradas secundárias, antes de tirar a carteira de motorista. Mas Laurel sabia que Evan não iria se contentar com isso. Era imaturo, mimado pela avó, que sempre lhe dava tudo que ele queria. Evan sairia em disparada pela auto-estrada em menos de uma semana com a picape. Mataria a si mesmo e, talvez, alguém mais.

Em vez disso, foi Howard quem morreu. Laurel o matou, e fechou-se em culpado isolamento. O motivo, sabia, não era preocupar-se demais com isso, mas o fato de não se preocupar demais.

Estava tão cansada! Vieram as lágrimas, queimando como ácido ao saírem de seus olhos. Não as deteve.

Que diabo estava acontecendo?

Alec fechou a lata de tinta e bateu na tampa, enquanto se fazia esta pergunta, pelo menos, pela milésima vez.

Pretendia recomeçar com Laurel, usando todo tipo de estratagema para tirá-la de casa outra vez. Não fora necessário. Ela o cumprimentara com seu melhor sorriso quando ele apareceu, deu-lhe uma lista de aproximadamente um milhão de coisas para fazer e desapareceu no galpão nos fundos da casa. Emergindo de vez em quando, apontava os erros dele, ou problemas que deveria resolver, e sumia de novo.

Não almoçou com ele na varanda, mas apareceu lá para ver o que já tinha sido feito, como se ele não fizesse nada se não ficasse atrás dele. Era educada, mas firme — a dona da casa — e toda a gentileza e cordialidade se foram. Dava as ordens e esperava que ele obedecesse. Não olhava para ele em hipótese alguma.

Alec nunca trabalhara tanto na vida, nem assim ela ficava satisfeita, por mais que ele se esforçasse. Estava cansado daquilo, cansado mesmo.

Pelo menos a casa estava quase pintada. Ainda faltava uma parede, depois poderia limpar os resíduos do vaporizador e tirar os papéis que cobriam as janelas. Feito isto, teria uma conversinha com a sra. Bancroft.

Encontrou-a no galpão. Localizado atrás da garagem, tinha o mesmo estilo, como se tivesse sido erguido com material idêntico. A construção datava provavelmente do final dos anos 1920 ou início dos 30, quando o núcleo dos Bancroft proprietários de Hera Silvestre comprou seu primeiro Ford Bigode. Com janelas pequenas e alinhadas em três faces, piso de tábuas de pinho rústico, era de bom tamanho.

A parede da frente exibia uma bancada de madeira, talhada a mão, que devia ter pertencido ao marido dela. A parede dos fundos era coberta de prateleiras, do chão ao teto, cheias de sacolas e caixas de guardados. Um enorme forno a lenha preto ocupava um canto. No centro, havia um torno de olaria, no qual Laurel modelava o barro com as mãos.

Quando ele apareceu à porta, Sticks, deitado ao lado dela, levantou a cabeça volumosa, apoiado nas patas dianteiras, e começou a rosnar baixo. Alec se deteve. Era a primeira vez que via o cão, depois de vários dias. Ao que parecia, Laurel voltara a mantê-lo junto de si.

Ergueu os olhos, encarando-o, enquanto ele se apoiava no vão da porta aberta. Mecanicamente, chamou o cachorro quando ele chegou. Sticks aprendera a tolerá-lo, desde que recebesse, logo de manhã cedo, a garantia de que Alec era confiável. Desta vez, Laurel não abriu a boca.

Sticks se levantou. Com os pêlos do pescoço eriçados, parecia ter o dobro do tamanho. Deu alguns passos à frente, esticando a cabeça, rosnando como uma serra elétrica.

Alec ficou onde estava. Não tinha medo do cachorro, apesar de não querer machucá-lo outra vez, sob as vistas de Laurel. Tampouco pretendia deixar que ele o mordesse só para não ferir a sensibilidade dela.

Sticks chegou perto, mostrando os dentes, mas sem avançar. Parou à distância de alguns passos, abaixando-se e resmungando mais lentamente. Alec sustentou o olhar do cão sem se mover. O cachorro rosnou ainda uma vez, e olhou para outro lado. Emitiu um som lamuriento e deixou-se cair no chão.

Alec agachou-se e estendeu a mão, deixando que o cão a lambesse.

— Garoto bacana — murmurou mergulhando os dedos no pêlo espesso e sacudindo-o pela coleira antes de passar a mão por todo o corpo. — Cachorro bacana.

O pote que Laurel esculpia ficou imediatamente disforme. Comprimiu-o no torno com as duas mãos, apertando a massa maleável da superfície com força desnecessária. Em voz gelada, perguntou:

— Queria alguma coisa?

Muitas eram as respostas que poderia dar, mas não estava seguro de conseguir manter o tom civilizado. Optou pela neutralidade.

— Não sabia que era ceramista.

— Muitas coisas você não sabe a meu respeito.

— Estou aprendendo. — O que era verdadeiro demais. — O que está fazendo?

— Um pote.

O que, para ele, queria dizer exatamente nada. Observou-a por algum tempo, com olhos expressivos e pureza no rosto. O que ele via ali, tinha certeza, era desprezo.

— Tudo bem — falou, com a respiração curta ao se erguer, Apoiando-se no batente da porta. — O que fiz de errado?

O olhar dela, de um azul brilhante, era firme.

— Nada, que eu saiba. Você pensou em alguma coisa?

— Desculpe por não ter feito o retorno com a moto na hora em que me pediu. Eu não tinha entendido. Só depois, está bem?

O sorriso dela foi frio e breve, um movimento dos lábios sem significado.

— É claro. Não pense mais nisso.

Pouca chance.

— Não tive intenção de ser inconveniente, nem que a senhora fizesse alguma coisa sem ter vontade.

— Você não fez coisa nenhuma, Alec. Sei o que faço. Deveria ter ficado feliz por ela dizer seu nome. Em vez disso, aquilo o fez se sentir como um empregado. Exatamente o cque ele era, imaginou. Com voz severa, disse:

— Se está tudo bem, então por que parou de trabalhar

— Tinha outras coisas para fazer.

não tinha o direito de reclamar; isto era o que o exasperava. Mas se era deste jeito que ela preferia, poderia levar por este lado também.

— Terminei a pintura. A não ser que tenha outra coisa em mrente, gostaria de começar com a fonte.

Sem olhar para ele, respondeu:

Acho que o pinheiro alto, perto da cerca, joga sombra demais nas roseiras. Você poderia cortá-lo. Se souber fazer isso, sem que ele caia em cima da casa.

Ela esperava que recusasse. Ele não lhe daria esse gostinho.

— Sem problemas. Vou ter que tirar os galhos mais altos, e para isso vou precisar de equipamento para subir.

— O cinto e os ferrões do meu marido estão por aí.

— Ele trabalhava no bosque?

As mãos dela ficaram imóveis, metidas no barro que moldava com movimentos rápidos, duros.

— Ele era instalador de linhas da companhia de luz... fazia isso muito bem.

Não tinha que perguntar, pensou ele com resignação. Mudando ligeiramente de assunto, indagou:

— Se ele tinha o equipamento, por que nunca tirou a árvore?

— Gostava dela ali. — Lançou-lhe um olhar breve. — Tem que pedir a Maisie uma serra. Acho que o marido dela tem uma para cortar lenha.

O marido de Maisie era mecânico, possuía todo tipo de ferramentas, se ele bem se lembrava.

— Vou ver com ela. Enquanto isso, posso ir separando o material para a fonte. Já fiz uma conta alta na loja de material, mas vou precisar de tubos de PVC, encaixes e mais coisas. E seria bom alugar uma escavadeira, ou contratar alguém para fazer o serviço.

Ela tornou a apertar o barro com força.

— Está me perguntando se tenho o dinheiro?

O tom de voz o fez trincar os dentes. Mantendo o controle, replicou:

— Estou perguntando se tenho autorização para a despesa.

— Desde que me traga as notas fiscais. A não ser por isso, não precisa se preocupar com as minhas finanças.

— O que está querendo dizer? — indagou ele, franzindo a testa até unir as sobrancelhas, diante do tom fulminante.

Olhou para ele com firmeza.

— Eu disse alguma coisa que tocou no seu ponto fraco?

Ela sabia. Ele não sabia como ficou sabendo, mas era capaz de apostar. Meu Deus. Achou que tinha deixado tudo isso para trás; mas, não, arrastava aquilo aonde fosse, como um pedaço de papel higiénico agarrado no sapato. Não que fizesse alguma diferença. Já enfrentara essa pendenga outras vezes. Faria de novo.

— Para deixar registrado — disse intencionalmente, deu impulso no batente da porta e caminhou para fora —, não é o seu dinheiro que me interessa.

Na manhã seguinte, apareceu para Alec uma oportunidade de falar com Maisie. Laurel fora para dentro de casa, depois de deixar instruções para aparar as folhas com pingos de tinta nos canteiros em volta. Como se ele não visse o que precisava ser feito. Também não dissera uma palavra sobre a pintura. Ele não esperava elogios e aborrecia-se consigo mesmo por ainda esperar a aprovação dela, mas poderia ter feito algum comentário. Por mais um pouco, teria dito a ela que chamasse outra pessoa para cortar o pinheiro.

— O que deu nela? — perguntou, frustrado, à empregada de tanto tempo, Iquando ela lhe trouxe um copo de água. — Por que não posso mais nem falar com ela?

Um olhar perspicaz apareceu nos belos e velhos olhos de Maisie.

— Fica assim às vezes, em geral quando a sogra aparece, ou a Zelda... é a cunhada, sabe?

— Elas dão nos nervos?

— Pode dizer assim. Na maioria das vezes, vêm para criticar. Elas são críticas, as pessoas mais negativas que já vi. Nunca têm uma coisa boa para dizer de alguém ou de alguma coisa.

Alec girou o copo de água.

— Acha que andaram falando? De mim?

— Não seria nenhuma surpresa. Não que tenham muito espaço para isso. Zelda Bancroft não é melhor do que ninguém. Nunca foi. Mas gosta de criar confusão. Agora, a sogra, cisma com Laurel.

— Por causa do modo como Howard morreu? Maisie concordou com a cabeça.

— Fez o que pôde para Laurel ser presa, apelou para todo mundo que ela conhecia, mexeu os pauzinhos para conseguir. Não adiantou nada, principalmente por causa do xerife. Tanning sempre gostou de Laurel. Disse que qualquer um via logo que ela não era capaz de matar uma mosca.

— Ela acha que pode ter sido. Sabia disso? Maisie acenou outra vez com a cabeça.

— Devo dizer que fico satisfeita por ela ter lhe contado. Ela não lhe falou nada sobre os filhos, não é?

— Quase nada.

— É outra coisa de que ela não fala... acho que dói demais. Eles também acham que foi ela. Tiraram a ideia daquela avó deles. — A empregada fez uma pausa, com os olhos pensativos. — Bem, pode ter sido pelo modo como Laurel agiu na época. Nunca disse que não teve a intenção, sabe? Jamais conseguiu dizer exatamente como aconteceu.

— Que burra.

O comentário não parecia muito adequado, mas foi o que ele conseguiu expressar.

— Você está certo — disse a velha senhora e deu um suspiro audível. — É estranho, mas ela não conseguiu deixá-lo enquanto era vivo, e ainda não conseguiu deixá-lo desde que morreu.

— Acha que ela queria? Quer dizer, deixá-lo?

Ele ansiava demais pela resposta, e não pôde evitar a pergunta.

— Muita mulher o teria feito. Howard era do tipo melancólico, não era de dar risada. Um sujeito atormentado, você entende? Mas o que interessa é que ele achava que ela iria embora. Foi por isso que correu atrás dela, aquele dia.

— Foi ela que lhe contou isso?

— Ora, menino, não precisava. Eu estava lá.Fixou nela um olhar penetrante.

— Viu o que aconteceu?

— Vi quando ele saiu atrás dela, vi a expressão do rosto dele. O resto, só sei de ouvir falar. — Sacudiu a cabeça branca. — Eles andaram discutindo, alguma coisa sobre o menino Evan e o que Howard queria fazer, e descambou para outras coisas, o tipo de briga de marido e mulher, como o que Laurel podia ou não podia fazer no pátio. Howard berrava como um louco quando saiu correndo atrás do carro, dizendo a ela que faria qualquer coisa para ela ficar. De dar pena, para dizer a verdade.

Alec estava quieto, tentando imaginar como se sentiria se achasse que ia perder Laurel. É claro que, primeiro, tinha que imaginar como tê-la. Nenhuma das duas situações era fácil. Inspirou profundamente e soltou o ar. Em tom cauteloso, disse:

— Laurel quer que tire o pinheiro alto, lá perto da cerca. Falou que talvez a senhora tenha uma serra.

 

Foi Vovó Callie quem teve a ideia de Alec levar Gregory para Hera Silvestre. Gregory precisava sair de casa, disse ela. Precisava de uma distração, parar de só pensar em si mesmo, nos sintomas e no avanço da doença. Alec achou que a avó, provavelmente, também precisava sair um pouco, mas não queria deixar Gregory sozinho.

Havia sido mais do que generosa ao recebê-lo e ao irmão, mas tinha sua própria vida, a rotina que eles interromperam, seus próprios amigos que deixava de lado para cuidar deles. Alec fizera tudo o que conseguira imaginar para tornar as coisas mais fáceis para ela. Não podiam esperar que ela dedicasse ao enfermo todas as horas do dia.

Não que Gregory estivesse nas últimas. Ele se virava, apesar de ter pouca energia. Podia se vestir sozinho, conseguia tomar os remédios contra a dor nas horas certas. O maior problema era zelar para que não tomasse remédios demais, fizesse as refeições com regularidade, saísse para respirar ar puro e apanhar sol, para manter a disposição. Outro bom motivo para levá-lo para o trabalho.

Gregory parecia agradecido por poder sair e circular. Caminhava lentamente pelo jardim de Laurel, parando de vez em quando para cheirar uma flor ou tocar em uma folha. Até tentou ajudar um pouco, apanhando uma enxada para remover uma placa de grama.

Alec observou o irmão por um instante, para se certificar de que ele estava bem, e voltou ao regato que abria com a pá. Destinava-se a canalizar água para a fonte. O espaço do jardim, dentro da cerca, era limitado demais, muito atulhado de plantas para trazer a escavadeira alugada. Terminada a canalização até o lado de fora da cerca, usaria a máquina, mas, por enquanto, era ele mesmo, pois não pretendia destruir o que Laurel quisesse preservar.

Em meio à concentração, ouviu bater a porta e Laurel gritar seu nome. Moveu-se rapidamente, viu Gregory caindo, dobrando-se como um espantalho cujo estofo se esvai. Largando a pá, pulou até ele num impulso desesperado. Mal teve tempo de segurá-lo.

— Venha para cá — chamou Laurel das escadas. — Na sombra da varanda.

Alec ficou mais agradecido pelo oferecimento do que poderia expressar com palavras. Já devia saber que, além de não deixar Gregory fazer esforço, tinha de acompanhá-lo mais de perto. O problema era que Gregory não gostava de ser vigiado como se fosse criança; decididamente, não gostava que lhe dissessem o que fazer ou não fazer. Era orgulhoso e sensível, qualidades louváveis que, no entanto, dificultavam a decisão entre deixar as coisas acontecerem ou tirá-lo de circulação, para seu próprio bem.

O momento de fraqueza de Gregory só durou um instante. Ergueu-se a tempo de xingar Alec por não deixá-lo ir sozinho até o balanço de bambu, pendurado no canto arredondado da varanda. Laurel, percebendo, com razão, que o irmão não gostaria que ela o visse sendo carregado, entrou de novo em casa. Voltou com um copo de água gelada, quando Gregory já estava instalado.

Por um momento, Alec identificou um lampejo de ciúme; Laurel nunca lhe trouxera um copo de água, nunca parecera tão preocupada com sua saúde. Também, é claro, ele nunca desmaiara na frente da casa.

Observando Gregory beber água, analisando o abatimento e a palidez de seu rosto magro, com a barba rala, Alec lhe disse de modo abrupto:

— Eu devia saber que era demais. Descanse um pouco, depois vou levar você de volta para casa.

— Não se preocupe comigo, maninho — Gregory respondeu com irritação. — Estou muito bem aqui. Só precisa voltar para o seu trabalho.

— A minha função é me preocupar. É por isso que estou aqui. — Alec pronunciou as palavras com paciência, mas de modo implacável. — Só perco uns minutos para levar você de volta.

— Já disse que estou passando bem. Só vou ficar aqui, assistindo você flexionar os músculos. Quem sabe essa senhora tão simpática me faz companhia?

Alec receou que ela fizesse mesmo, o que era um dos motivos para sua determinação em tirar Gregory dali. Sem olhar para Laurel, disse:

— A sra. Bancroft está ocupada. Agora, vamos.

— Não estou muito ocupada — corrigiu-o com voz clara. — É um prazer me sentar um pouco.

— A senhora não precisa — disse ele, as palavras ásperas, ao mesmo tempo em que se permitia mover o olhar para a superfície linda e estática do rosto dela, o esplendor do sol nos seus cabelos, a saia longa e esvoaçante, de algodão cor de alfazema, usada com uma blusa leve, sem mangas.

Sorriu de leve, sem olhar para ele diretamente, ao dizer:

— Eu sei.

Gregory passeou os olhos de um para o outro, como se tomasse consciência do clima existente entre ambos.

— Viu? — falou com satisfação, e acenou com desleixo na direção de Alec. — Pode ir. Não vamos precisar de você.

Alec sentiu os músculos do estômago se contraírem, sensação semelhante à da iminência de receber um golpe. Mas nada havia a fazer. Girou sobre os calcanhares e voltou para o sol quente.

Laurel, observando Alec sair, viu que ele havia ficado magoado. Estava preocupado com o irmão, e com bom motivo. Também ficou irritado por ela ter-se colocado contra ele. Isto era péssimo. Para usar o linguajar de Maisie, pegou-o de calças curtas. Mas Laurel queria conversar com Gregory.

Olhando em volta, ela agarrou o braço de uma cadeira de balanço e puxou-a para perto. Ao sentar-se, falou com naturalidade:

— Estes últimos dias foram tão quentes e úmidos que fariam mal a qualquer pessoa que não esteja acostumada. Eu não entendo mesmo como Alec consegue ficar lá fora o dia inteiro.

Gregory olhou de relance, com carinho, para o irmão.

— Ele é forte feito um touro, agüenta qualquer coisa.

— O tempo todo, ele nem usa camisa.

Ele a olhou, e era meiga a expressão dos olhos cor de mel.

— O sol não o queima como a nós. Tem sangue índio. Quando pareceu que ele ia elaborar a ideia, ela disse:

— Quer dizer que seu pai era índio?

— O meu, não, só o de Alec. — O sorriso era dúbio, como se esperasse dela alguma reação que não veio. — Na verdade, acho que o cara era mestiço, mas quem vai saber? Não ficou por lá a tempo de alguém descobrir.

— Entendo — disse Laurel.

O principal, tinha entendido: Gregory estava tentando chocá-la, mas ela não pretendia abrir espaço para ele se divertir. Recompôs as feições e passou os olhos por ele e pelo irmão. Pensara que a doença de Gregory era responsável por sua constituição frágil e pele clara mas, ao que parecia, estava errada, pelo menos em parte. Ao mesmo tempo, não acreditava que Alec fosse imune aos efeitos do sol.

Gregory destilava humor negro no olhar, enquanto analisava a expressão dela.

— É, não somos muito parecidos, não é, Alec e eu? Meu pai era branco, descendente de ingleses, um tipo de caixeiro-viajante da Costa Oeste, que levou nossa querida mãe embora daqui. — Balançou a mão num gesto vago, que englobava a cidade de Hillsboro, o estado da Louisiana e o bosque no entorno. — Agora, o pai da nossa irmã mais nova, Mita, era oriental. Como uma típica mulher dos anos 1960 e 70, mamãe estava decidida a provar sua falta de preconceito. Além disso, gostava de ter seu próprio sortimento de filhos, como ela dizia. Aderiu à idéia da terra-mãe, somos todos irmãos. Não ligava se os pais ficavam por lá ou não.

— Devia ser uma pessoa fora do comum. Os lábios dele se curvaram.

— Do jeito dela. Morreu quando tentava ter um bebê latino, pelo menos, achamos que era essa a nacionalidade, mas só ela sabia com certeza. De qualquer maneira, alguma coisa deu errado, e nem ela nem o bebê se salvaram. Imagino que já estava um pouco velha para isso, já que eu tinha 18 anos na época.

— Eu... sinto muito — disse Laurel, sem saber ao certo Se sentia a perda dele ou a curiosidade dela própria, que a levou até uma história tão íntima.

Ele olhou ao longe.

— Acho que não faz diferença. Foi há tanto tempo.

Ela achava que fazia diferença, talvez sempre fizera, sempre faria — tanto para ele quanto para Alec, mas não podia dizer isso. Falou, então:

— Vocês eram muito jovens, para assumir tanta responsabilidade.

— Eu? Responsável? — Riu, e o som era áspero, mas vazio. — Escolheu o cara errado.

— Bem, mas imagino que não houvesse outro homem por lá.

— Não mesmo, a não ser Alec.

Ela apoiou a cabeça no encosto alto da cadeira, balançan-do-se enquanto franzia a testa e pensava.

— Mas ele tinha o quê? Só 13, 14 anos?

— Por aí. Mas nosso homenzinho sempre foi alto e forte para a idade dele.

— Não entendi o que você está querendo dizer. Parou de se balançar.

— Não era para entender — respondeu com uma ponta de hostilidade na voz, olhando em volta de Hera Silvestre. — A senhora sempre foi respeitável, imagino. Aposto que nunca passou fome, fome de verdade, nem um dia na vida. Sempre soube exatamente quem é, de onde veio e qual é o seu lugar. Não tem dúvidas, não tem medo, não procura seu rosto no fundo de uma garrafa nem no pó branco que tem um nome que não se pronuncia...

Ele deixou a frase em suspenso, mas era o suficiente para ela entender, afinal. Gregory fora viciado em drogas quando tinha 18 anos e, assim, Alec se defendera como pôde, a ele e à irmã menor.

— Não havia uma instituição do governo que pudesse ajudar? — indagou ela.

— Ah, claro. Ajudar mandando Alec e Mita para lares adotivos separados, queriam fazer isso. De jeito nenhum, na nossa vida, não. Alec despistou, quando eles apareceram. Pode ser um sacana, mas é esperto paca. E, claro, já tinha a velha sra. Chadwick nessa época.

Um arrepio percorreu Laurel. Em sua compaixão por Alec — por eles todos, na verdade — quase se esquecera do objetivo daquele diálogo. Com os lábios retesados, falou:

— A velha sra. Chadwick? Quem era?

— A que nos alugava o apartamento, depois que Alec mudou todos nós do cortiço onde morávamos. — Gregory fez uma careta. — Era a dona do imóvel... tinha piscina, quadras de ténis, campo de golfe, bangalô de hóspedes, casa do caseiro, eram oito mil metros quadrados e, para completar, motorista e até um jardineiro chinês.

— Sr. Wu — disse ela, ao fazer serenamente a descoberta.

— Alec lhe contou, não é? Imagino. O velho era o ídolo dele, já morava no final da rua do nosso apartamento, no limite com Chinatown, antes de nos mudarmos... preferia isso

do que morar no imóvel. Acho que ele admirava a energia de Alec. De qualquer modo, o sr. Wu costumava pagar algumacoisa para ele ajudar na casa da velha senhora, depois da escola, sempre que Alec arranjava uma carona para ir lá.

Laurel observava os movimentos rígidos de Alec, manejando a pá, e ele sabia que os dois estavam falando dele, apesar de não ouvir. Não podia evitar. A luz do sol atravessava as fibras dos cabelos escuros e lustrosos como as penas da asa de um corvo. Negro e brilhante dos índios. Fazia sentido.

Percebendo de repente que Gregory olhava para ela com Um sorriso malicioso por sua preocupação com o irmão, recolheu seus pensamentos dispersos. Como se tivesse toda a atenção concentrada na pergunta, falou:

— O sr. Wu, por acaso, não tinha alguma relação com Mita?

— Pai dela, quer dizer? Nossa, não. Ele era idoso, tinha a cabeça branca e uma barba até aqui. — Levou a mão até o umbigo. — Mas tinha carinho por ela e, imagino, de vez em quando, pelo irmão mais velho. E assim, depois que mamãe morreu, Alec teve a coragem de pedir à velha sra. Chadwick se podíamos ficar no chalé dos fundos, já que o sr. Wu não usava.

— Vocês se mudaram para fugir dos funcionários do Juizado de Menores — disse ela, esclarecendo a situação na própria mente.

Ele concordou com a cabeça.

— Alec disse que lá ninguém iria nos incomodar. Acabou que ele estava certo. É claro que falou para a velha senhora que mamãe só estava doente, no hospital. Ela achou que ele podia ficar três meses, um pouco mais, o tempo que fosse preciso.

Laurel sequer tentou disfarçar a enorme curiosidade.

— Tempo para quê?

— Para ganhar. Nosso Alec tem uma coisa, ainda não reparou?

Observou-a com um sorriso leve, brincando nas suas feições, e um olhar sugestivo.

— Entendi você dizer que ele tinha 13 anos.

— E tinha.

— Mas então, essa mulher...

— Parecia mais velha, naquele tempo — disse ele, de um modo esquisito —, mas devia ter, hã, mais ou menos a nossa idade hoje.

Idade bastante para ser mãe dele, quase vinte anos mais velha, na época. Laurel fechou o semblante. Essa Chadwick não poderia ser aquela com quem ele se casou. Ou poderia?

Já ouviu a história, não é? — sugeriu Gregory. — Eu não sou como Alec. Em geral, ele tem vergonha de falar nessas coisas.

Dirigiu-lhe um olhar severo.

E você não fica?

Ele sacudiu a cabeça.

Não, sou mal-educado e sem-vergonha, sabe? A sra. Chadwick nunca me deu muita atenção quando eu estava por perto, e eu ficava lá muito pouco. Mas a Mita tratava como se fosse uma boneca: vestia-a, saía com ela. Mas Alec era o querido.

— Você fala como se isso fosse errado. Ela mal conseguia expressar os pensamentos.

— Falo mesmo, não é? E era errado, de um jeito. Ele não é perfeito, como eu não sou. Ele errou muito. E, como eu, paga pelos seus erros. Com juros.

Ela ouvia a amargura sublinhando as palavras. Ainda assim, a preocupação com a história de vida de Alec era intensa demais para dedicar aos sentimentos do irmão mais do que um pensamento fugaz.

— Qual foi exatamente o erro dele?

— Aceitou, quando a dona da casa pediu para ele se casar com ela.

Então era verdade. Mais do que isso, era pior do que pensara. A mulher tinha idade para ser mãe dele. Deus do céu! Ela não acreditava; entendeu isso à medida que o mal-estar da aceitação a dominava. De alguma forma, pensou que, conversando com Gregory Stanton, teria a prova de que Mãe Bancroft mentira, ou enfeitara a história para adequá-la aos seus propósitos.

Engano. Ledo engano.

— Eu acho — disse Laurel tranqüilamente — que todos nós cometemos erros.

— Uns mais do que os outros — respondeu Gregory com um suspiro de ressentimento.

Ela queria ser justa. Com muito tato, falou:

— Alec não parece ter-se beneficiado com esse casamento fora dos padrões.

— Depende do ponto de vista. Formou-se em engenharia graças ao dinheiro da Chadwick. Mita estudou oito anos, até o doutorado, e agora faz residência em pediatria. Eu, bem, nunca precisei me preocupar com comida, nem com lugar para dormir, só tinha que sustentar o vício.

— Você vivia à custa dele.

Falou sem pensar e imediatamente se arrependeu.

— É — respondeu ele, desviando o olhar. — Eu vivia à custa dele.

Isso explicava muita coisa... mas não era da sua conta.

— Mas me parece que isso não era muito, em troca da liberdade dele, ainda mais se considerarmos o tamanho do imóvel que você mencionou.

Encolheu os ombros.

— Houve uns problemas com os herdeiros da velha senhora, depois que ela morreu, apesar de Alec ainda cuidar de todo mundo. Agora... — Gregory se deteve.

Agora Alec ainda estava cuidando dele, finalizou ela em silêncio, porque Gregory morria aos poucos, em etapas.

— Você ficou magoado com ele por isso — disse Laurel, com súbita compreensão. — Teria preferido que ele ficasse com o dinheiro só para si. Preferia que ele não estivesse com você.

— Ninguém pediu para ele ser tão caridoso — falou Gregory com rispidez. — Não preciso que ele cuide de mim. Não preciso dele para coisa alguma.

Ah, precisava, sim, Laurel via com clareza, e também que havia amargura na direta proporção dessa necessidade. Será que Alec percebia? Sim, com certeza, pois Gregory não fazia o menor esforço para escondê-lo. Apesar de tudo, Alec continuava com ele. Dividia com o irmão sua energia, porque a possuía mais do que o suficiente. Ajudava-o a viver por ser tão cheio de vida.

Ela não queria pensar assim, não queria sentir simpatia nem admiração por Alec. Só iria dificultar o que pretendia fazer.

Porém, ela o faria. Não era uma velha crédula, pronta para cair de amores por músculos bronzeados e charme treinado. Antevia o que poderia ocorrer. Tornar-se dependente dele, procurá-lo para ter força e aconchego, aprender a esperar por seu sorriso e comentários seria muito fácil. Por ter ele tanta vitalidade, sim, e porque ela precisava de um pouco daquele calor para diminuir a friagem dentro de si. De algum modo, que não apreendia totalmente, tinha desesperada necessidade de tocar a alegria apaixonada de estar na terra, o fogo que ela sentia queimar dentro dele.

Impossível. Não saberia dizer por quanto tempo mais conseguiria manter distância, com ele por perto. Tão pouco tempo, só uns dias, trabalharam juntos no jardim e, mesmo assim, evitou conversar com ele, evitou o estímulo daquela proximidade constante. Não sentia prazer em mantê-lo a distância, em dar ordens, em vê-lo trabalhar até os jeans ficarem tão molhados de suor que pingavam quando caminhava. De fato, aquilo a fazia sentir-se vingativa e envergonhada.

No silêncio que se fez, Gregory falou, com ar abatido:

— Acho que está na hora de voltar para casa. Estou tão... cansado. Devia avisar a Alec.

— Para casa é junto de sua avó, não na Califórnia? — Perguntou Laurel, sem vontade de chamar o homem no jardim, depois de tê-lo dispensado.

Gregory tinha um olhar triste.

— As três ou quatro visitas à casa da vovó Callie foram a melhor coisa que tive, quando era criançça. Mamãe costumava voltar para casa, na Louisiana, quando estava em dificuldades, em geral quando tinha mais um bebê. Uma vez, deixou todos nós com vovó Callie o verão inteiro. Uma pena que sempre tenha voltado.

— Você não quer dizer isso.

— Acha que não? — Ergueu o cantto da boca. — Eu teria sido um sulista caipira, que ia dirigir uma picape por aí, atirando latas de cerveja na carroceria, em vez de ser um drogado nas últimas. E Alec seria... —. Parou, puxou o ar para os pulmões. — Chame-o para mim, pode ser, se não se incomoda?

Queria que ela lhe fizesse este pequeno favor. Por quê? Assim ele não seria visto como se tivesse voltado atrás, pareceria idéia dela. Ou pensava que Alec talvez não gostasse de falar com ela na frente dele?

Ela se levantou e foi até o parapeito.Com voz clara, chamou:

- Alec?

Ao ouvir o som de sua voz, ele ergueu os olhos do fosso que cavava, os olhos negros faiscando como ônix refletindo a luz do sol. Ergueu a sobrancelha, intrigado.

— Creio que o seu irmão gostaria que você o levasse para casa agora — disse ela.

Encarou-a longamente, antes de concordar com a cabeça. Deveria ter sido apenas um sinal de cconcordância, mas foi um instante de intensa comunicação. Os dois, pensou ela, entendiam-se muito bem. Possivelmente, bem até demais.

Ouviu Gregory xingar atrás dela, mas não se importou.

Só mais tarde, quando Alec voltara após levar o irmão em casa, ela notou o ronco baixo do trovão. Levantou os olhos do catálogo à sua frente, no qual lia ssobre a espécie Monsieur Tillier, uma antiga rosa vermelha que pretendia encomendar para o jardim. O ronco voltou — agora mais próximo e mais alto, como se quisesse dizer alguma coisa. Com o canto do olho, captou o brilho de um relâmpago refletido nas vidraças com cortinas de renda. Contou até cinco e o trovão se repetiu. O raio cairia ali perto, pelo menos de acordo com a sabedoria do campo.

Alec ainda estava trabalhando no jardim da frente? Talvez fosse melhor abrigar-se na varanda. Ou entrar na garagem, se estivesse no jardim lateral.

Teria que deixá-lo entrar em casa, se o vento fosse muito forte. Ficaria encharcado na varanda, pois a chuva às vezes varria o espaço aberto sob o telhado, molhando o piso até a parede interna. A garagem, é claro, era firme e bem fechada, um lugar seguro, se ele tivesse a idéia de ir para lá.

Por outro lado, criado na Califórnia, ele talvez não tivesse noção do que era capaz uma tempestade do final de primavera na Louisiana. Era possível que não soubesse a rapidez com que começava, nem a força que assumia. Hesitou, girando a caneta entre os dedos, em um gesto nervoso, enquanto pensava em procurá-lo.

Ele já era crescido, ora faça-me o favor; com certeza sabia cuidar de si mesmo! Não precisava de babá. Ou precisava?

Não era isso que alguns jovens procuravam, ao se envolver com mulheres mais velhas? Poderia ser um caso clássico, já que perdera a mãe ainda jovem e fora forçado a criar os outros, em vez de ser criado por alguém.

Sim. E talvez ela só se sentisse atraída por ele como um substituto para os filhos que Mãe Bancroft virtualmente lhe tirara — ou alguma outra armadilha psicológica. Fazia muito sentido, não é?

Ouviu os primeiros pingos de chuva chocalhando nas folhas pesadas e lustrosas da magnólia, lá fora, junto de sua janela. Empurrando a cadeira para trás, em repentina decisão, caminhou apressada para a porta de entrada.

Alec não estava no jardim da frente. Ficou ali por um instante, absorvendo a friagem úmida da chuva, ouvindo as batidas no telhado e sentindo o cheiro de terra molhada. O vento sacudia seus cabelos e subia por dentro da saia, resfriando partes do corpo que ela nem sabia que estavam aquecidas. Então, a distância, ouviu o assovio do temporal avançando, à medida que vinha do bosque para a casa. Olhando na direção do som, viu arrastar-se a pesada cortina de chuva densa.

Girou nos calcanhares, acelerou o passo, meteu a cabeça debaixo da chuva que caía do telhado. Virando à direita, seguiu a trilha que contornava o jardim lateral. No caminho, inclinou-se para espiar dentro da garagem.

Estava vazia. Alec não se encontrava lá.

Refez o trajeto por onde viera e dirigiu-se para o outro lado da casa. Ali não havia portão para bloquear o caminho de tijolos em curva que rodeava a varanda e continuava até os fundos. A chuva aumentava e ela começou a correr.

Então o viu. Parou imóvel.

Estava sentado no topo da cisterna, equilibrado na tampa de concreto, com as pernas dobradas e as mãos pousadas nos joelhos, no que ela identificou vagamente como sendo a postura de lótus. Os dedos ligeiramente curvados, tinha os olhos fechados e o rosto em perfeita imobilidade, voltado para cima, para a chuva.

A água batia nele, molhava seus cabelos, caía nos ombros, corria depois em regatos pelo peito nu e pela superfície plana do abdome. A chuva cintilava, laminando os músculos e encordoando as veias de seu corpo, lavando-o com tanta naturalidade como se fosse mais uma estaca da cerca ou uma árvore. Fazia frio agora, principalmente com o vento, mas ele parecia não sentir. A pele reluzia, de um marrom suave e dourado, não era uma pele arrepiada como a dela.

Paz. Prazer. Alegria apaixonada. Sensações que irradiavam a partir dele, atingindo-a como se a puxassem para mais perto. Deu um passo. Outro.

Abruptamente, ele abriu os olhos. E as emoções que ela sentia virem dele centuplicaram. Ficaram amedrontados com tamanha intensidade, quando ele sustentou seu olhar. Porém, o mais amedrontador era o quanto ela queria corresponder, quão profunda era sua necessidade de ir até lá, juntar-se a ele em seu banho de chuva. Em seu calor e paz. Em sua abrasadora paixão pela vida.

Ela se esqueceu até de respirar, na expectativa de chegar lá. Então se lembrou, com um suave arquejo. A sanidade voltou, junto com o ar aos seus pulmões. Rodopiou com a saia molhada, balançando nas panturrilhas, espalhando água. Ergueu o rosto para a chuva e correu para a segurança dentro de casa.

 

Laurel analisou a tigela que retirara do forno. Era a mais larga que conseguira fazer e, ainda assim, rasa como uma bacia. Primeiramente, fizera a queima da peça no lado externo com acabamento de biicuit, depois dera o efeito vitrificado, com verniz craquelê furta-cor, no interior. Ficou orgulhosa com o resultado. Na verdade, era uma das suas melhores peças, desde que se dedicara mais à cerâmica, após a morte de Howard.

Ele não gostava de vê-la ”mexendo com barro”, como dizia. Parecia ter ciúmes do tempo que dedicava à atividade, apesar de ela só ir ao torno nos horários em que ele estava trabalhando. Reclamava também que a argila ressecava suas mãos, deixando-as ásperas e obrigando-a a manter as unhas sempre muito curtas. Em resumo, incomodava-o aquele pendor artístico. Não era o tipo de coisa de que se ocupavam as mulheres de Hillsboro. A jardinagem era aprovada, desde que fosse algo prático, como o cultivo de hortas; pelo menos ele compreendia esse passatempo feminino tão tradicional. Mas perguntava-se que utilidade ela via nos potes.

Nunca encontrou uma resposta que o satisfizesse. Gostava simplesmente de dar forma ao barro liso e sensual, tinha prazer em dar vida com as mãos, apreciava o momento em que abria o forno para ver como as cores e os desenhos, que aplicara com óxidos metálicos, transformavam-se com a queima. A cerâmica fazia com que se sentisse confiante, criativa e, de certa forma, de bem consigo mesma.

O galpão era também seu refúgio, embora tampouco pudesse explicar isto. Howard consideraria puro fingimento, apesar de ele ser uma das pessoas mais introvertidas que ela já conhecera. Raramente saíra para algum lugar, a não ser o trabalho, durante o tempo em que foram casados; não havia espaço para atividades sociais ou de lazer. Fora tão caseiro que Laurel chegou a pensar que considerava Hera Silvestre um santuário. Como ela fazia, agora.

Esta semana utilizava o galpão principalmente para se manter afastada de Alec. Das janelas, dava uma olhada nele, guiando a escavadeira ou instalando os tubos. Podia monitorar o avanço da fonte quando ia e voltava do galpão para a casa. Era um modo de participar do que ele fazia, mas permanecer escondida.

Pelo menos voltara a trabalhar com a cerâmica, depois de se afastar por vários dias. Com um sorriso ligeiro, passou os dedos por dentro da tigela, ainda quente do forno, apreciando o suave toque de seda do vitrificado. Fizera a peça para plantar nela suculentas que ficariam ao lado da porta dos fundos, mas realmente seria uma pena esconder com terra o deslumbrante colorido. Deixaria na mesa para resfriar enquanto pensava qual o destino que lhe daria. Alguma coisa haveria de lhe ocorrer; sempre ocorria.

Virando-se para a bancada, olhou o pote oval de um metro que fizera mais cedo. Junto dele, estava apoiada a página de um catálogo de acessórios, mostrando uma placa inspirada na Bocca Mia Verità, ou ”boca da verdade”. Cópia do original da praça em frente à igreja de Santa Maria in Cosmedin, em Roma, mostrava a gárgula com rosto de homem, de boca aberta e língua exposta, cabelo e barba formados por folhas estilizadas. Segundo a lenda, a boca morde a mão de quem disser mentiras ao tocar na língua. A ilustração lembrava ainda o tradicional Green Man inglês — com cabeça de folhas — e o rosto expressava os aspectos mais vigorosos da festa druida Beltane, a noite do solstício do verão, quando os antepassados celebravam a fecundidade da natureza.

Aquela face, e seu significado, intrigaram Laurel — desde que a vira pela primeira vez. Igualmente fascinante, porém, era a idéia de esculpi-la em cerâmica. Em vez de encomendar o Green Man do catálogo, preparou-se para produzir o seu.

Colocando as mãos no barro, começou a beliscar e moldar. Não estava copiando a figura do catálogo, mas usando-a como guia para o formato geral e as proporções. Sentia enorme prazer em assistir ao rosto que se formava sob a pressão forte dos polegares. Mergulhou os dedos na água, apertou, bateu, fez o relevo do nariz e as sobrancelhas. Apanhou uma goiva e um formão, entalhou as curvas e sulcos de graciosas folhas.

O tempo não era percebido enquanto trabalhava para refinar e aperfeiçoar as feições do homem de barro, acrescentando textura, criando contrastes. Ignorou Sticks deitado aos seus pés, com o estômago roncando de fome, ou o calor crescente no galpão, à medida que o dia avançava. Estava contente, feliz como há muitos anos não se sentia, talvez em toda sua vida, com exceção do tempo em que os filhos eram pequenos.

Maisie levou-lhe um lanche no meio da tarde, resmungando a cada passo por Laurel não ter ido almoçar. Laurel mecanicamente, comeu um pedaço de queijo e deu duas mordidas na maçã, enquanto analisava a placa. Depois de Um momento, pousou a maçã para acertar uma curva. Quando ergueu os olhos outra vez, Maisie já tinha saído e a maçã estava coberta de formigas.

Passou algum tempo até uma sombra se mover diante da Porta. Sticks olhou para cima, mas só abanou a cauda e voltou a pousar a cabeça nas patas. Alec. Só podia ser ele. Olhou-o por cima do ombro, quando entrou. Um sorriso assomou a seus lábios ao vê-la, ao ver o que fazia. A alegria do instante trouxe a lembrança nítida da tarde sob a tempestade — o que a constrangeu.

Fixou o olhar na prancha de barro esculpido à frente. Levou um susto. Os dedos se fecharam sobre a goiva que ainda tinha na mão, segurando-a com força.

O rosto do Green Man, extraído com tanto esforço do barro maleável, tinha uma semelhança chocante com Alec.testa larga, as bastas sobrancelhas e os malares salientes ela reproduzira, assim como o cabelo que se derramava sinuoso, mesclado a parreiras e folhas. O prazer e a vibração, ainda que imóveis, estavam esculpidos em argila, exatamente como os vira quando ele olhou para ela, através da chuva que caía. Mas havia ainda algo dele que fora tirado daquela primeira noite, quando surgiu no emaranhado do Jardim da frente. Era uma impressão de perigo latente, mesclada ao sorriso suave de sátiro, nos lábios entreabertos, com a promessa de um raro e proibido deleite.

Laurel pousou a ferramenta e mergulhou a mão na água antes de apanhar uma toalha. Com descaso estudado, secou as mãos e jogou a toalha sobre a escultura. Só então voltou-se para ele.

— Terminou por hoje? — falou suavemente. — Não tinha noção de que já era tão tarde.

Ele inclinou a cabeça.

— Tenho uma coisa para lhe mostrar. Se puder parar um pouco.

— Sim, é claro.

O alívio por ter um pretexto para levá-lo para longe do galpão e da escultura a tornou mais cordial do que vinha sendo nos últimos dias.

Em vez de se virar para sair, à medida que ela se aproximava dele, caminhou à frente, pelo espaço aberto.

— O que é isto?

Ficou estática por um momento, até entender que ele se referia à tigela retirada do forno mais cedo. Colocando-se de modo a impedir a vista da bancada, apanhou a peça e entregou a ele, explicando do que se tratava.

— Fez mesmo isto? — perguntou, virando a peça para a luz, e olhando para ela com ar de surpresa e admiração.

— Com minhas próprias mãos. As palavras soaram rijas.

— Fantástico — murmurou, sacudindo a cabeça. Impossível resistir ao contentamento que a dominou.

— Foi só uma experiência com a cor.

— Lembra o fundo do mar — disse ele. — Sulcos na areia e o sol se refletindo na água.

Exatamente o que parecia, ela percebeu, apesar de o mais agradável da descrição ser a total falta de inibição dele. De qualquer modo, ela se recusou a lhe dar crédito.

— Por acidente. Só gostei do efeito.

— Às vezes, as melhores coisas acontecem assim.

— Você se interessa por cerâmica?

O espanto na voz, percebeu ela, não era no mesmo tom de elogio do comentário dele.

Encolheu os ombros.

— Experimentei algumas vezes. Em geral coisas grandes... urnas, bacias, colunas.

— O sr. Wu lhe ensinou, imagino.

— Adivinhou. — Um sorriso forçado insinuou-se no canto dos lábios. — O velho gostava de caramanchões, pequenos lagos, essas coisas. Chamava de estrutura de um jardim. Não encontrava muita coisa para comprar nos hortos nem nas lojas de jardinagem, ou então os preços eram impraticáveis. Devia ouvir o que ele dizia a respeito, a maioria das vezes em chinês. Chegou a importar uma ou outra peça da Europa ou da Ásia, mas grande parte ele mesmo produziu.

— Que homem surpreendente.

— É — falou, baixando os cílios sobre seu olhar, como escudos protetores.—Após um momento, disse: — Tenho uma ideia para sua tigela.

- Qual?

— Prefiro mostrar depois de pronto. Se não gostar, basta dizer.

Dirigiu para ele um olhar dúbio, mas não houve resposta.

— Não vai fazer um furo?

— De jeito nenhum.

A firmeza da voz dele inspirava confiança. Sua intuição, até aqui, fora excelente. Além do mais, estava curiosa para ver o que faria.

— Tudo bem — respondeu e acrescentou rispidamente: — Agora, o que tinha para me mostrar?

A expressão dele mudou com aquele tom de voz, e recolocou a tigela no lugar.

— Sim, senhora — disse em um arrastado sotaque sulista e estendeu a mão para a porta. — Por aqui, senhora.

Andando na frente dele, descobriu que não se importava com o deboche. De um modo peculiar, até gostava. Apesar de saber que o deboche estava a um passo da intimidade, o que poderia muito bem ser um passo avançado demais.

Ela ouviu antes de ver — o que ele queria que visse. Olhou para ele em um clarão e viu a confirmação em seus olhos. Apressou o passo, quase correndo em direção ao portão da cerca lateral. Deslizou por ali, circundou os fundos da casa.

Lá estava: a fonte, brilhando à luz oblíqua do final da tarde, jorrando água de uma linda bica. O jorro se erguia, saltava com líquida graciosidade, bailava sob os raios de sol e captava as cores do arco-íris antes de voltar para borrifar o lago quadrado de tijolos, que Alec construíra para contêlo. A música das águas tocava no ar, som suave e natural. Fluir límpido, puro, infinito, capturado, mas livre, a fonte mantinha o espírito do riacho em seu âmago. Era tudo o que ela queria e, ainda, muito mais do que esperava. A plenitude não cabia em seu coração; não conseguia parar de rir, rir.

Alec ficou ao lado de Laurel, e observou a chama da felicidade em seu rosto. O trabalho de cão dos últimos dias foi para bem longe, como se nunca tivesse ocorrido. Recebera a recompensa. Se nunca tivesse uma palavra de gratidão, mesmo assim ele teria este momento como lembrança e a sensação de que tinha valido a pena.

Então ela se virou para ele, com um sorriso cintilante, um rosto tão cândido e claro que ele sentiu o coração vibrar dentro do peito. Não agiu movido por qualquer decisão consciente, qualquer relação de causa e efeito. Foi puro instinto o que o fez dar um passo à frente e abrir os braços.

Ela mergulhou neles — ele se lembraria disto para sempre —, oscilando quando ele a puxava mais para perto. Prendendo a respiração, se adaptou à suavidade do corpo dela, esbelto e elástico, à firmeza do seu, encontrando o côncavo e o convexo, como se fossem duas metades feitas para se juntarem. Fechou os olhos para absorver o sentimento dela, sorver aquela essência até o âmago do seu ser, saborear a sensação de estar completo. Inspirou, então, profundamente, o aroma doce e sensual de rosas, jasmim e mulher, até lhe subir ao cérebro e fazê-lo sentir-se inebriado.

Sim, e agitado. Desesperado para ter mais.

Pensara que apenas o sorriso dela lhe bastaria como recompensa.

Paciência, paciência. Não devia forçar. Tinha que soltála, tinha que fazer isto agora. Teria dado um passo atrás, caso conseguisse se mover. Ignorar o bombear do sangue em suas veias. Dizer alguma coisa, qualquer coisa, para aliviar a tensão prestes a eclodir entre eles, no minuto em que ela percebesse o que ele fizera, e como ela reagira.

Meu Deus, como a queria. Queria o sorriso, sempre. A vontade. A confiança. Em seus braços.

Seria pedir demais?

Um grito baixo, inarticulado, de protesto, soou na garganta dela. Libertou-o do feitiço forte que jogara sobre ele. Com o rosto calmo, afastou-a de si. Ergueu a sobrancelha e sorriu ao dizer:

— Tem mais algum projeto para outra fonte?

O azul dos olhos dela se tornara da cor de anil. O jeans desbotado da blusa de trabalho vibrava a cada minuto com as batidas do coração. Estava a ponto de explodir em lágrimas. Ou talvez fosse raiva; ele não sabia explicar. E, na verdade, nem queria saber, pois achava que não poderia lidar com nenhuma das duas.

A respiração dela era perfeitamente audível na calma do final da tarde. Com voz rouca, disse:

. Está é mais do que suficiente. É a glória. Exatamente o que eu tinha na cabeça, e não sei como você descobriu.

Pensou em tudo o que ela sabia sobre si, as coisas com que Gregory tanto o magoara ao lhe contar que dissera a ela. Não podia se explicar porque ela não perguntara, e tomar a iniciativa seria como achar que ela se importava com ele. Ou que ele tinha algum direito de esperar que acreditasse nele.

Mesmo assim, com tanto peso contra, ela fora generosa e perdoara, fora honesta ao não culpá-lo por seus próprios impulsos. Nem condená-lo por se aproveitar de um momento de gratidão.

Ela estava agradecida. Isso era tudo.

Ali de pé, naquele momento, ele aceitou o que sempre soubera — Laurel Bancroft era de outro nível. Era algo mais. Era linda e educada, especial acima de qualquer coisa que ele um dia imaginara. E não era para ele. Nunca.

Engoliu aquela percepção, com todo o amargor ali contido. Balançou a cabeça, em um gesto mecânico. Em voz baixa, disse exatamente o que sentia, apesar do lugar-comum:

— Fico feliz que tenha gostado.

— Eu amei — respondeu, com a mesma suavidade e certeza.

Preparou-se para sair. Tinha que ir, antes que fizesse alguma coisa, dissesse alguma coisa idiota demais. O peito doía. Os músculos pareciam mais pesados do que o corpo inteiro.

— Até amanhã, então.

— Até segunda — corrigiu ela, com palavras precipitadas, como se o pensamento estivesse em outro lugar. — Hoje é sexta-feira.

— Claro. Até segunda, então.

Virou-se rapidamente, chegou à moto em poucas passadas e montou nela. Saiu dali como se tivesse uma banana de dinamite atada ao corpo.

Na manhã seguinte, Laurel levou o Green Man ao forno para a queima. Naquela noite, desligara o aquecimento e deixara a máquina esfriar. Pretendera destruir a peça, apagando sua loucura ao compactar a argila em uma bola outra vez. Não conseguira. Podia parecer ridículo e supersticioso, mas seria como destruir o próprio Alec.

A placa passou pela queima com bom resultado, considerando-se o pouco tempo em que ela trabalhava com escultura e sua inexperiência. Não havia rachaduras nem pontas quebradas. Olhando-a com olho crítico, no dia seguinte, viu alguns detalhes que poderiam ter tido melhor rendimento, mas ficou satisfeita.

De fato, tinha a qualidade, considerada a mais importante pela maioria dos ceramistas e escultores, como indicadora de um bom trabalho, pensou ao alisar com os dedos a linha forte do queixo. Fazia com que quisesse tocá-la. Captara a reentrância na face de Alec, que aparecia quando ele sorria, e o leque de pregas na pele nos cantos dos olhos. Sim, as curvas sensuais da boca estavam não apenas moldadas, mas eram quase reais, como se fossem adquirir vida, mover-se para ela, se...

Retirou a mão desajeitadamente, fechando os dedos no punho. Depois de um instante, forçou-se a apanhar a caixa grande e baixa que separara para a peça. Colocou a placa lá dentro, levou a caixa para a estante na parede do fundo e empurrou-a para a prateleira mais alta. Colocou-a o mais para dentro que conseguiu, de modo a não ser vista. Virou-se, saiu do galpão e fechou a porta atrás de si.

Não era fácil fechar a lembrança da tarde de sexta-feira. Se fechasse os olhos, sentiria ainda os braços de Alec em redor dela, no instante perturbador em que ele a apertou contra o calor de seu corpo. Foi como estar de pé no local onde havia caído um raio, presa pela chama branca, pela luz que cega, a energia que seca. Não estava preparada para aquele incêndio, nem para o surto de desejo que a dominou, em retorno. Ficara atordoada, imobilizada por sentimentos por tanto tempo reprimidos que se esquecera da existência deles. Se é que algum dia os conhecera.

Não tinha muita certeza. Mesmo no início de seu casamento, quando o amor era tão estranho e novo, não se sentira tão ardente nem tão incerta quanto à própria resposta, ou à própria vontade.

Se um abraço carregava tanta energia, como seria um beijo? E se um beijo fosse ainda mais intenso, como seria possível sobreviver ao poder avassalador de...

Não. Nada de pensar nisso. Esqueceria que um dia chegara perto de Alec Stanton. E haveria de rezar para que ele fizesse o mesmo.

No final do dia, Márcia e Evan foram visitá-la. Sticks lançou-se para fora, ao encontro deles, dançando e contorcendo-se de alegria. Quando filhote, fora dado de presente de Natal às crianças — Márcia com dez anos e Evan com apenas oito —, de modo que cresceram juntos, por toda a infância e adolescência. Porém, era Laurel que lhe dava comida, escovava o pêlo, levava-o para longos passeios no bosque atrás da casa. E assim ele acabou sendo o cachorro dela.

Ficou feliz em ver os filhos, até mais do que Sticks. Foi encontrá-los nas escadas, envolveu-os em calorosos abraços. Pareciam-se mais com Howard do que com ela, o mesmo cabelo cor de areia e os olhos de avelã que ele herdara da mãe. Evan tinha o corpo atarracado de Howard, mas o corpo de Márcia tinha as mesmas formas do de Laurel. A filha também era esguia, pálida e frágil, pensou Laurel, mas não podia ver defeitos nela.

Márcia não tinha um ar feliz. Laurel teve vontade de perguntar o que estava acontecendo, e o teria feito, se não tivesse certeza da total inutilidade.

Ao tomar o caminho da cozinha, o lugar natural para relaxar e conversar, ocorreu-lhe que havia um clima de desconforto na visita. Tentou desviar o pensamento, achando que era normal. Passara quanto tempo, pelo menos três semanas que não os via?

Estiveram tão ocupados aqueles dias — Evan com o curso de férias na faculdade e os amigos da associação de estudantes; Márcia, com o trabalho num escritório de advocacia e cuidando da casa e do marido. Laurel chamava-os quando era possível reuni-los, o que não ocorria com muita freqüência. Era comum ficarem pouco à vontade entre si; de fato, não eram muito unidos desde que o pai falecera.

Desculpas. Ela dava desculpas para si mesma. Sabia, mas não queria enfrentar.

As primeiras palavras de Márcia, quando se sentaram à mesa, esclareceram a situação.

— Estou vendo que a avózinha tinha razão — disse a filha, acusadora. — Você está acabando com a casa.

— Achei que estivesse cuidando daqui, consertando coisas que há muito tempo estão por fazer.

A penosa compreensão de que Márcia e Evan ali estavam apenas porque a avó fora conversar com eles fez a voz dela sair incompreensível.

— Qual a necessidade de fazer uma fonte? Observou-os por longo tempo, com o olhar fixo olhou para o outro lado, mas Márcia devolveu a inquirição de cara fechada. Laurel respondeu com calma:

Nenhuma, a fonte era só uma coisa que eu queria.

- Mas por que motivo você queria...

- Pode dizer que é um capricho — disse Laurel rapidamente.

O tom de censura da filha começava a lhe dar nos nervos.

Eu diria que é uma despesa — declarou Márcia, com o rosto pálido corado pela reprovação. — De onde vem tanto dinheiro para pintar a casa, para os tijolos e tubos, sem contar a mão-de-obra?

Laurel baixou a cabeça.

— O que incomoda mais a vocês, meus queridos? A despesa ou o homem que estou pagando para fazer o serviço?

— A avózinha falou que não ia haver diálogo sobre esse assunto, e não acreditei nela!

Manchas vermelhas se espalharam pelo rosto e pelo pescoço da filha, fazendo-a parecer doente.

— Diga por que deveria haver diálogo. Não acredito que esteja reclamando por eu mandar arrumar o jardim da frente, que nunca devia ter chegado ao ponto em que estava, em primeiro lugar. Ou que você tenha alguma objeção ao fato de eu mandar pintar a casa, para o descascado não cair na minha cabeça.

Evan limpou a garganta, dirigindo à irmã um olhar apaziguador.

— Ninguém está fazendo objeção a limpeza e pintura, mãe.

Seu tom de voz, educado demais, próximo da padronização, muito parecido com o que Howard usava quando ela ficava zangada, provocou arrepios em Laurel. Por esse motivo, ela se recusava a ajudá-los naquela discussão absurda.

— Então, qual é o problema?

Evan encurvou os ombros sem encará-la, apesar de estar sentado diante dela à mesa.

— A avózinha ficou um pouco chateada com essa coisa toda. Ela detesta que se mude qualquer coisa aqui, -você sabe. Está dizendo que se você pode pagar essa reforma, também pode pagar minha faculdade.

— Posso, é claro — respondeu Laurel imediatamente. — Você sabe que eu gostaria de pagar, e só não faço porque ela insistiu em arcar com a despesa.

— Eu sei, mas não é só a mensalidade. Tenho gasto com hospedagem, o carro e dinheiro de bolso. Ela vai me comprar um Mazda antes de acabar com isso. Agora, bem... — encolheu os ombros.

A mãe de Howard encostava-se em Evan, usando a generosa mesada que lhe dava e a promessa de um carro novo, para persuadi-lo a intermediar seus assuntos com laurel. O lado revoltante daquilo era o fato de o filho ter cedi do à pressão.

Não, ela não podia pensar assim. Evan estava, dividido entre as duas, como ele e Márcia estiveram desde que o pai morreu. No dia do enterro, Mãe Bancroft levara Márcia e Evan para a casa dela. Disse que era para o bem de Laurel, para que tivesse tempo de se adaptar sem a algazarra de dois adolescentes. Laurel estava confusa e desgostosa demais para discutir; conseguiu resistir apenas ao sepultamento. Mesmo assim, queria os filhos por perto, para abraçá-los e ser abraçada por eles, para afastar a dor e o horror que todos tinham dentro de si. Mas eles lhe foram arrancados do convívio, e levou semanas para que tornasse a vê-los. Quando isto ocorreu, olharam-na com acusação no olhar. Desde então, nunca mais agiram nem se sentiram como os filhos que tivera, as crianças que amara antes do acidente.

— Tenho algum dinheiro dos meus pais — disse ela —, e gasto muito pouco para viver, nesses últimos anos. O dinheiro do seguro de... que recebi depois da morte do seu pai ainda está no banco. Posso muito bem manter você se Mãe Bancroft desistir, Evan. Acha mesmo que sua avó vai castigá-lo por uma coisa que ela considera minha culpa?

— Não sei — murmurou ele.

— Nem eu — disse ela —, mas não gostaria de pensar que sim.

Márcia falou:

— Outras coisas estão acontecendo por aqui, mãe, e precisamos conversar. É decididamente uma vergonha para você ficar circulando por aí com esse garoto Stanton.

O tom afetado na voz da filha chegava a ser engraçado, mas Laurel conteve o riso sem muito esforço.

— Esse garoto Stanton, como você diz, é muitos anos mais velho que você.

— Bem... bem, é mais novo que você, e muito!

— E então? Ele não está aqui circulando, você sabe. Está trabalhando para mim, e trabalhando pesado, devo dizer. Você já teria reparado, se parasse de pensar em coisas sórdidas e olhasse em volta.

— É, estou vendo que ele deve ser muito útil por aqui. E para outras coisas também, aposto.

— Márcia!

— Que foi, mãe? Não sabe que impressão está causando? Faz alguma ideia do que as pessoas andam dizendo? Estou tão sem jeito, e o Jimmy, na maior humilhação. Esta semana, ele se ajoelhou e rezou todas as noites para você desistir desse relacionamento depravado e encontrar no Senhor a redenção. Na quarta-feira, lá na igreja, chegou a se levantar e pedir ao povo reunido para se juntar a ele, suplicando a Deus por você...

— Ele o quê? — Laurel ergueu a cabeça em um reflexo de choque e raiva.

Márcia piscou várias vezes.

— Bem, o que é que esperava? Achava que íamos simplesmente ignorar o que está acontecendo? Que você ia fazer o que bem entendesse sem ninguém dizer uma palavra?

— Pensei — Laurel falava com clareza, — que meus filhos teriam consideração por mim. No mínimo, achei que um de vocês iria me perguntar, primeiramente, se estou dormindo com um homem, antes de rezar em público para eu parar com isso.

Uma luz defensiva apareceu nos olhos da filha.

— Foi Jimmy, não eu. Você sabe como ele é.

Ela sabia. O marido da filha, o mais velho de uma família que pertencia a uma das igrejas mais conservadoras, não ligada às religiões convencionais, considerava-se um homem profundamente religioso. Reprovava a mãe de sua mulher por ela não freqüentar mais a igreja. Laurel o via como um perfeito fanático. Porém, na ocasião, ninguém lhe pedira opinião antes de Márcia se casar, dois anos atrás.

— Jimmy dificilmente ficaria sabendo do que acontece aqui se você não lhe contasse — disse Laurel. — Ele não tem motivo para pensar que Alec está aqui fazendo alguma coisa além do serviço de manutenção, nem teria se você... ou alguém... não tivesse sugerido mais alguma coisa.

Márcia deu uma risada aguda.

— Então ele está fazendo mais alguma coisa.

— Não foi o que eu disse.

— Mas está, não é? É melhor você admitir.

Laurel encarou a filha, sentindo-se mal por ter chegado àquele ponto, mas sem saber como seria possível evitá-lo. Com voz firme, falou:

— Se você precisa perguntar, não merece resposta.

— Muito conveniente, não é? Ainda mais se você não mentir sobre esse assunto. E você nunca mente. Ou mente, mãe? Nunca, sempre.

Márcia, não.

Era Evan quem falava, cortando a observação sarcástica da irmã. Mas sem olhar Laurel nos olhos.

Sob as palavras de Márcia, estava implícito que Laurel mentira na tarde em que seu pai morrera. Laurel sabia o que eles pensavam, mas isso nunca fora colocado tão abertamente antes.

Cruzando os braços, em um gesto protetor, ergueu o queixo. Olhando fixamente de Evan para Márcia, falou:

— Pensem o que quiserem, para mim não faz diferença. Mas lembrem-se de uma coisa: sou viúva e não devo satisfação a ninguém, o que faço não é da sua conta.

Márcia abriu a boca e Evan fez um rápido sinal para evitar que ela respondesse. Com seriedade nos olhos cor de avelã, falou:

— Reconheça que temos um pouco de consideração, mamãe, pode ser? Nós nos preocupamos com você, de verdade. Mas não pode esperar que fiquemos sentados sem fazer coisa alguma, quando sua segurança está em risco.

— Minha segurança. — As palavras soaram monótonas.

— Sabemos quem é esse sujeito, do que ele está atrás. Além disso, fiz questão de investigar, não parece ser o tipo de homem com quem você devia se meter, se não fosse pelo resto.

O desgosto pelas palavras que ele escolhera deram o tom de Laurel, ao dizer:

— Que resto?

— Não quero dizer coisas feias, mamãe, mas vamos encarar os fatos. Esse tipo que seduz e assalta mulheres mais velhas e solitárias como você.

Ela não sabia se ficava ofendida ou divertida.

— Realmente, Evan, não estou com um pé na cova, e acho que ainda tenho lucidez para reconhecer alguém que esteja tentando me usar. Acredite em mim quando digo que Alec Stanton nunca, por palavras ou atos, tentou me tirar dinheiro, nem disse ou fez qualquer coisa que me levasse a pensar que tentaria.

Aquilo era, acabava de descobrir, a pura verdade. E ficou satisfeita por pensar nisso.

— Não, espero que não. Ele é esperto demais para fazer isso.

— O que está querendo dizer?

— Que ele vai esperar até se casar com você — respondeu Evan com voz dura.

Laurel ergueu as mãos.

— Agora você está me casando com ele! Bem, Jimmy ia ficar muito contente, pelo menos. Ele não dá uma folga para Deus, de tanto falar que estou vivendo em pecado!

— Ou, quem sabe — Evan continuou com implacável persistência —, esse sujeito Stanton vai esperar até você morrer.

A irritação de Laurel virou ódio.

— É isso — replicou. — Chegamos até aqui, difamando uma pessoa que nunca fez nenhum mal a vocês, que vocês nunca viram na vida.

— Mamãe — disse Evan —, se você me ouvir...

— Já ouvi tudo o que tinha para ouvir, muito obrigada. Por que acham que podem vir aqui se intrometer...

— Intrometer? — Márcia deu uma risada. — Pode ter certeza de que não vamos fazer isso outra vez. Vamos embora, Evan.

— Cale a boca, Márcia — disse Evan sem olhar para a irmã. — Mãe, a primeira mulher de Alec Stanton, uma mulher mais velha como você, morreu na Califórnia.

— Sei disso e, para sua informação, era muito mais velha, quase...

— Sabia que ele foi preso pela morte dela?

Laurel sentiu o sangue lhe fugir da face. Sentiu frio de repente, gelada até o âmago. Um calafrio a percorreu, deixando-a arrepiada.

— Não — sussurrou.

— Imaginei que não — disse Evan com satisfação.

— Não — repetiu Laurel, sem responder ao comentário presunçoso.

Era negação pura e simples. Não queria que Alec fosse assassino. Não poderia suportar que isso fosse verdade.

 

Alec não foi trabalhar na segunda-feira de manhã, afinal. Gregory passara mal na noite de domingo e fora levado para a emergência do hospital local. Aceitaram-no para ficar em observação. Quando vovó Callie saiu do quarto de Gregory, ao amanhecer, para ir em casa descansar um pouco, Alec pediu que ligasse para Laurel, explicando. Passou então o restante do dia com Gregory, enquanto o submetiam a uma bateria de exames.

O diagnóstico básico nunca foi contestado, mas a causa da mais recente recaída tampouco foi surpresa. Subnutrição combinada com supermedicação, eis o veredicto. Os médicos mudaram os remédios para aliviar a dor de Gregory e o mandaram de volta para casa. Na terça-feira, quando Alec estacionou na frente de Hera Silvestre, tudo parecia calmo, calmo demais. Do lado de fora, as coisas tinham aparência bem normal. O carro de Maisie estava no lugar de sempre, ao lado do Buick de Laurel com dez anos de uso. O cheiro do refogado de alho e cebola, era sinal de que Maisie fazia um almoço apetitoso. Deu uma olhadela à procura de Laurel pela janela do galpão, onde ela se ocupava com a cerâmica. A fonte funcionava bem, água jorrando e caindo com ruído de chuva batendo no telhado.

Apesar de tudo, um cumprimento qualquer seria simpático. Algo como:

”Olá, tudo bem?”, talvez: ”Seu irmão melhorou? Está passando bem? Ontem sentimos sua falta.”

Certo. Pelo menos Sticks poderia ter vindo latir. Alguma coisa, qualquer coisa.

Sticks, era isso que estava faltando. O grande pastor-alemão não aparecera na varanda para avisar à dona que chegara um veículo na estrada, não saíra com seu corpanzil para brincar e ganhar um afago nas orelhas, como era de hábito ultimamente. Devia estar com Laurel, de guarda como um cão fiel. Era isso, ou ela o prendera em algum lugar, por alguma razão. É claro, o velho Sticks poderia ter ido caçar coelhos ou visitar uma namorada.

Sumiram os pensamentos sobre o cachorro quando reparou o lugar em que Laurel começara a amarrar uma roseira rasteira, da bela espécie Zéphyrine Drouhin, no caramanchão próximo ao caminho lateral, que ele consertara na semana anterior. Apanhou a fita colante verde que ela usara e procurou um rolo de fio para terminar o trabalho.

A rosa estava molhada do orvalho da manhã, mas a fita, não. Franziu a testa diante do rolo verde, ao perceber que não estava próximo à rosa há muito tempo. Será que Laurel interrompera o trabalho talvez pela chegada de Maisie ou para atender ao telefone? Ou teria, só supondo, ouvido que ele se aproximava e fugido para o galpão de cerâmica, por não poder enfrentá-lo depois do que ocorrera na tarde de sexta-feira?

Não, claro que não. Provavelmente, não tornara a pensar naquele rápido abraço. Só porque ele permitira que sua fantasia o dominasse durante todo o final de semana não queria dizer que ela ligasse a mínima para aquilo. Não tinha qualquer motivo para pensar que se daria ao trabalho de evitá-lo deliberadamente.

Quando terminou com a roseira, foi até o enorme pinheiro que Laurel queria cortar e apreciou os galhos frondosos, delineados com o céu ao fundo. Ainda não tinha procurado o equipamento para a subida, nem sabia onde estava, nem Maisie se lembrara da serra. Por outro lado, as rosas que Laurel encomendara para os novos canteiros ainda não tinham chegado. A árvore podia esperar.

Foi à garagem e andou em volta do maltratado carro de Laurel. Abriu o capô. Não estava tão mal como pensara. Uma boa limpeza e lubrificação, umas correias novas e assim por diante, depois uma lavagem e um polimento fariam maravilhas. Em poucos minutos, metia os cotovelos em tubos podres de tão ressecados, filtros sujos e cheios de graxa, imaginando o que Laurel diria quando descobrisse o que ele estava fazendo com o horário de trabalho.

Em primeiro lugar, ele faria o carro andar, depois, poria Laurel dentro dele. Talvez ele nunca a tivesse, mas não podia ficar ali parado vendo-a trancada dentro de casa. Era um belíssimo lugar, e sabia que ela gostava dali; mesmo assim, havia vida do lado de fora das paredes altas. Ter um jardim não era suficiente; ele haveria de mostrar isso a ela, não importava o que fosse preciso fazer. Haveria de tirá-la de Hera Silvestre, mesmo que morresse tentando.

Estava agachado, trocando um pneu, quando escutou o barulho. Parou para ouvir.

Veio outra vez, um gemido baixo. Identificou sofrimento, quando tornou a ouvir. Largou a chave de roda, levantou-se e saiu da garagem. Vasculhou o pátio, girando a cabeça em semicírculo cada vez que ouvia.

Nada. E tinha quase certeza de que era O cachorro de Laurel.

-Sticks?

Além do chamado, assoviou um comando agudo.

O cão gemeu em resposta. O som vinha do mato alto, próximo ao bosque que havia ao longo do riacho, nos fundos da casa. Alec projetou-se naquela direção.

Sticks tentava se arrastar, raspando as grandes patas no capim e na lama. Moveu a cauda ao ver Alec, em um esforço débil. Havia dor na escuridão insondável de seus olhos e não conseguia sustentar a cabeça. Exalava um mau cheiro que, junto com a saliva escorrendo pelo focinho, contavam a história toda.

— O que aconteceu, garoto? — Alec falou com suavidade, ao se abaixar junto dele. — Quem fez isso com você?

O cão emitiu um som baixo, enrolando a língua. Estava com sede. Alec segurou-lhe a cabeça, tentou erguê-lo nos braços, correr para o veterinário. Então, ao virar o pescoço flácido, viu os grande olhos vidrados nos cantos.

— Ah, Sticks! - sussurrou com dolorosa aceitação. Delicadamente, esfregou a testa maciça. — O que Laurel vai dizer? Como vai lidar com isso? E o que ela vai fazer da vida sem você?

Nesse momento, ouviu um grito fino de Laurel. Girou sobre os quadris a tempo de vê-la correndo para lá, vindo do galpão. O primeiro impulso foi de mantê-la afastada, não deixá-la ver, mas era tarde demais. O rosto ficou pálido, os olhos, arregalados. Estudou rapidamente a silhueta escura e comprida, aos pés dele.

E então lá estava ela, de joelhos. Alec se afastou para abrir caminho. Chegou junto do cachorro, as mãos trêmulas. Viu a falta de expressão dos olhos dele, o ajuntamento e o zumbido das moscas varejeiras. Um gemido de impotência e agonia escapou-lhe da garganta.

Sticks ainda enrolou a língua uma vez nos dedos finos. O lombo arfou no último, prolongado suspiro. E ele se foi.

Laurel virou-se para Alec, os olhos faiscando de raiva e desgosto.

— O que você fez com ele? — indagou. — Pelo amor de Deus, por que tinha que matá-lo?

Alec sentou-se por algum tempo, como se estivesse paralisado. Depois, pôs-se de pé.

Laurel sentiu a respiração presa na garganta quando Alec se moveu, um lento desdobrar de músculos elevando-se na direção dela. Tinha o rosto marcado por linhas duras, a boca contraída. O corpo estava rígido, com irritação controlada, os músculos tensos, destacando-se em relevo firme e bronzeado.

— Seu cachorro foi envenenado — disse com lentidão de morte. — Aconteceu horas atrás. E eu não estava aqui.

Deu-lhe as costas, controlado e tenso, e afastou-se.

Envenenado. Ela tornou a olhar para o corpo de Sticks com súbita incerteza. Isso. Meu Deus, era isso. A evidência ali estava: a espuma em torno do focinho, o rito facial que expunha os dentes cerrados, o cheiro horrível. Ela fora criada no campo, estava habituada àqueles sinais, desde que não ficasse cega pela suspeita. Sentiu-se sem fôlego, como se a compreensão e as breves palavras que Alec dissera em sua defesa fossem socos no plexo solar.

- Alec!

Ele não parou, não se virou, não deu qualquer sinal de ter escutado.

— Espere, Alec. Ouvi quando você o chamou. Quando lhei para fora, vi você debruçado nele. Pensei...

A explicação hesitante não produziu efeito algum. Ele continuou andando.

Por que haveria de escutar? Ela o julgara por antecipação e o considerara culpado em poucos segundos, sem provas, sem considerar que as coisas poderiam não ser o que pareciam. Ocorrera porque, uma vez, o vira dominar Sticks, com a mesma rapidez.

Não era tudo, por certo. As coisas terríveis que disseram dele aumentaram sua suspeita.

Gigolô.

Aproveitador de mulheres mais velhas.

Preso por assassinato.

Não conseguia tirá-las da cabeça. Se matou uma mulher, por que não faria o mesmo com um cão?

Mas e se todos estivessem enganados — Mãe Bancroft e Evan, até mesmo Gregory Stanton? Este pensamento a assombrava. Ela própria fora julgada e considerada culpada à revelia, pelo falatório das pessoas e da família. Por que não teria ocorrido o mesmo com Alec? E se fosse isso, se ele fosse inocente, o que ela acabara de fazer fora um grande erro.

Sabia como era a sensação de ser acusada falsamente. Sabia como era a dor e a raiva inútil carregadas como um peso sobre os ombros. Conhecia a humilhação de não lhe darem crédito, tinha relação íntima com o recolhimento que era a única defesa contra isto, e contra as pessoas que a olhavam com ar de recriminação.

Levantou-se e foi atrás de Alec, com passos rápidos e pesados. Quando o alcançou, agarrou-o pelo braço e o fez dar meia-volta.

— Alec, desculpe — falou, buscando a sombra dos olhos cor de chocolate amargo. — Eu não queria dizer isso. Por favor, eu...

A voz falhou, suplantada pelas lágrimas que assomavam. De súbito, ela chorava por Alec, por ela mesma e, finalmente, por Sticks e tudo o que ele significava.

A expressão mudou no rosto de Alec, agora dominado pela compaixão.

— Não chore — murmurou e segurou uma lágrima com a junta do dedo.

— Não consigo parar — disse ela, esfregando o rosto com as costas da mão. — Tudo isso é tão... tão terrível.

- É.

Aspirou ar para os pulmões e deixou-o sair de uma só vez.

— Vá para dentro de casa. Vou pegar uma pá. Não precisou perguntar o que ele queria dizer.

— Não vou deixar você fazer isso sozinho. Sticks era meu, minha responsabilidade. Eu queria... Vi que ele não voltou, quando o deixei no meio da noite, mas às vezes ele não vinha.

— Deixou-o do lado de fora? Por quê?

— Ele ouviu alguma coisa, acho. Ficou latindo e arranhando a porta.

— Não devia...

Deteve-se e cerrou os lábios como que segurando as palavras que queria dizer.

— Eu sei — gritou, passando a mão no cabelo distraidamente. — Ele devia ter ficado lá dentro, comigo, mas como eu ia adivinhar o que ia acontecer?

— Não devia ter aberto a porta para nada, foi o que eu quis dizer. E se alguém estivesse lá fora só esperando Sticks sair?

Ela o encarou.

— Não pensei nisso.

— Então, agora pense.” As palavras soaram ásperas.

— Mas Sticks se foi.

— Exatamente — disse ele com voz severa. — Sticks se foi. Agora... — Desviou o olhar. — Vai apanhar um lençol, ou vou eu?

Embrulharam o pastor-alemão em uma velha manta xadrez e enterraram-no sob um enorme carvalho antigo, não muito longe do riacho. Era um local agradável, uma pequena clareira onde cresciam madressilvas e a brisa passava farfalhando por entre os galhos de um verde-escuro. Apesar de não ser mais religiosa, Laurel rezou em silêncio. Alec marcou a sepultura com uma pedra plana de minério de ferro virada para cima e enterrada no chão. Tudo terminado, voltaram para a casa na calma do dia quente de primavera.

Alec pouco falou, mas fora gentil e eficiente em poupá-la dos aspectos mais chocantes do enterro. Caminhando agora ao seu lado, experimentava a simpatia e o conforto que emanavam dele. Ondas magnéticas a cercavam, provocando uma sensação de infinito conforto.

Veio-lhe à mente o que teria ocorrido se Alec estivesse lá quando Howard morreu, se ela seria capaz de depender de sua compreensão e força quando todos lhe negavam isto. Sem dúvida, era uma coisa estranha de se pensar a respeito de um homem que poderia ser um assassino.

Ah, mas com cerfeza não era. Se fosse culpado da morte de sua mulher, estaria preso, não é o caso? A não ser, claro, que tivesse recebido uma daquelas penas leves, que faziam a fama do sistema liberal da Califórnia. Neste caso, certamente haveria inúmeras circunstâncias atenuantes. Isso era evidente.

Racionalizar, era o que ela fazia. Era boa nisso; talvez demais. Ainda assim, mesmo se fosse verdade o que todos diziam, tudo o que tinha a fazer para ter segurança era recusar o apelo do seu charme. Não era?

Teria também que abandonar o impulso que alimentava de levá-lo a este ponto, mandando-o embora insatisfeito, era, de longe, perigoso demais para sua paz de espírito, para dizer o mínimo, mas principalmente por não ser garantido. Alec não lhe dera motivo para pensar que tivesse segundas intenções em relação a ela, e era ridículo levar em consideração a palavra de Sadie Bancroft, quando a sogra se equivocara sobre tantas outras coisas. Ele merecia uma chance. Era a única forma de demonstrar sua gratidão pela ajuda que lhe prestara. E agora ia parar de pensar que a situação fora montada com aquela finalidade.

 

Ao chegarem ao portão lateral, virou-se para ele, que sustentou seu olhar. Cauteloso, pensou ela. Imaginava o que estaria pensando, o que vira ao fitá-la com tanta intensidade.

A pergunta que lhe subiu aos lábios veio desajeitada, abrupta, e nada fácil:

— Vai ficar aqui?

Encarou-a com consideração imediata.

— Por que eu deveria ficar?

As batidas do coração dela se aceleraram, ribombando até os ouvidos. O mais puro terror as motivaram. Deveria estar louca, por dizer o que dizia, o que pretendia fazer, algo que passava longe de qualquer coisa que já fizera em sua vida estreita, restrita. Mas não se sentia louca. Sentia-se obstinada e confiante. Sentia profunda empatia, que não era parecida com algo que já conhecera, uma compaixão por outro ser humano, a quem todos consideravam um pária. Como fizeram com ela.

— Por causa do que falei mais cedo — respondeu quando conseguiu.

Olhou para além do ombro dela, semicerrando os olhos como se visse algo que não queria ver.

Tinha um bom motivo.

- Devia ter perguntado o que aconteceu, escutado o que você tinha a dizer.

Vai fazer isso da próxima vez? — indagou resumidamente.

— É claro.

Era mentira, dela, que nunca mentia. Mas havia horas em que a verdade era perigosa demais para se dar a conhecer.

— Então — disse ele delicadamente —, vou ficar aqui enquanto precisar.

Era o que ela queria. Certas coisas justificavam que corresse o risco.

Laurel deixou Alec no portão e seguiu caminho em direção à casa. Ele tinha algum projeto em andamento, pensou ela; provavelmente, fazer com que o cortador de grama voltasse a funcionar, pela graxa que notara nas mãos dele.

Maisie estava na cozinha; Laurel ouviu o ruído baixo do rádio que a empregada mantinha ligado, e o barulho da água corrente na pia. Sentindo-se perturbada e morosa, caminhou a esmo na direção do som.

Maisie virou-se de costas para a pia e lançou-lhe um olhar perspicaz.

— Você e Alec já terminaram?

Laurel acenou desconsolada com a cabeça.

— Está se sentindo bem?

Laurel encolheu os ombros e suspirou.

— Sinto-me como se tivesse perdido alguém da família.

— Acho que foi isso mesmo, de certo modo. Sticks e sua companhia nos últimos anos.

Sem responder, Laurel foi até o armário, apanhou uma xícara, serviu-se do café já pronto no bule e dirigiu-se para a mesa.

— Devia ter perguntado ao Alec se ele queria uma

— Ele não gosta, não reparou? — Laurel sorriu com uma careta. — Às vezes penso que devia cortar esse hábito.

Maisie secou as mãos no pano de prato e foi ver a galinha com quiabo que fervia em uma panela de ferro preto.

Considerando que esse é o seu pior vício, não tem do que se queixar.

Você podia se sentar e me fazer companhia — sugeriu Laurel.

Podia mesmo — retrucou a velha senhora, com voz austera.

Laurel analisou a empregada, enquanto ela servia um café para si própria. Sentia os nervos; se retesarem, até Maisie finalmente sentar-se diante dela, colocando açúcar na xícara com um movimento firme que fazia a colher tilintar de encontro à borda. Então, Laurel falou:

— Tem alguma coisa na cabeça, não é? Uma coisa que eu devia saber.

— Já teve sua cota por hoje — disse Maisie, balançando a cabeça. — Não quero aumentar.

Com voz tensa, Laurel indagou:

— É sobre Alec?

— Mais ou menos. É conversa sobre você e Alec, e também sobre Gregory. É tanta coisa acontecendo, realmente, que fica difícil dizer sobre o que é.

Laurel cobriu os olhos com os dedos, no local em que uma dor de cabeça começava a pulsar.

- Melhor você me dizer o que é.

— Reparou que o trânsito aumentou por aqui ultimamente?

— Foi? Ah, acho que você está falando de uns dois ou três que fizeram o retorno na frente de casa.

— Mais que dois ou três, isso sem contar os que diminuem a velocidade só para espiar. Cretinos, é o que eles são, querendo ver se a moto do Alec está parada na porta. Mas o que vão dizer para ele, isso não posso imaginar. — Maisie sacudiu a cabeça sem encarar Laurel de frente. — E parece que aquele seu genro idiota foi pedir a Deus para acabar com a fornicação aqui dentro...

— Isso eu já sei — interrompeu Laurel.

— Bom, que bom. Então espero que você consiga imaginar que foi a coisa mais emocionante que aconteceu na igreja desde que o solista foi pego no coro com a mulher do diácono. As beatas rebolaram nas calças.

Laurel não pôde evitar um sorriso diante da piada ácida de Maisie. Provavelmente, era esta a intenção da empregada. Com um movimento desanimado de cabeça, disse:

— Acho que isso tudo vai passar.

— Pois eu duvido. — As palavras da mulher eram duras. Laurel inclinou a cabeça, como se fosse uma indagação.

— Parece que alguém está batalhando para não passar. Duas pessoas vieram falar comigo ontem à tarde no mercado, querendo saber se eu tinha visto a cópia de uma tal carta que anda circulando por aí.

Laurel ficou em silêncio por longo tempo. Afinal, perguntou:

— Que tipo de carta?

— Acho que é uma carta anónima, apesar de não saber como é que o xerife está chamando. Lá está o nome de todo mundo, e vai direto aos fatos, ou finge que vai. E não párapor aí.

— O que quer dizer com isso?

A dor de cabeça de Laurel tinha se transformado em um latejar constante, acompanhando as batidas de seu coração.

— A carta diz que Gregory está com Aids. E que veio morrer aqui.

Laurel soprou um xingamento leve. Que coisa mais feia! Como alguém podia fazer aquilo? Deviam ser loucos. Não havia outra explicação. Será que havia?

— Acho que não se pode esconder isso de Alec?

— Duvido muito. De qualquer jeito, ele devia saber o que falam dele, não acha?

— É, sim. Mas só que...

Deteve-se, por lhe faltarem as palavras para expressar o desânimo e a repulsa.

— Situação delicada, não é? — ajudou Maisie. — Claro que é. Mas não tem outro jeito.

— Quer dizer, só o falatório já é horrível, mas pôr tudo por escrito, meter o Gregory no meio, além da ofensa, é injusto. Gregory está tão doente. Como ele vai se sentir? E, ainda, o envenenamento de Sticks.

Laurel correu os dedos da mão direita pelos cabelos, apertando as pontas sedosas.

— O que está acontecendo, Maisie? Eu não consigo entender.

A velha senhora sacudiu a cabeça.

— Nem eu, não mesmo. — Fez uma pausa. — Quem poderia escrever uma carta dessas?

A pergunta era retórica, Laurel sabia. Ao ver a expectativa nos olhos azuis da mulher do outro lado da mesa, teve a certeza de que ambas pensaram na mesma pessoa. Lentamente, falou:

— Com certeza ela pensa que existe alguma coisa entre mim e Alec.

Maisie concordou.

— Sim, e não ia gostar nada se você a enfrentasse.

— Devo admitir que ela sempre gostou de fazer intriga através do correio. Howard contava que ela mandava reclamações para os jornais, fazia petições contra políticos corruptos, abaixo-assinados contra todo tipo de irregularidades.

Os mais hipócritas são os pecadores arrependidos - disse Maisie em tom pensativo, torcendo os lábios enrugados.

— O quê?

A outra mulher ficou constrangida.

— Bem, como é que podemos chamá-la?

— Estamos falando de Mãe Bancroft? — indagou Laurel, em repentina dúvida.

— Você, não sei, mas eu estou.

— Mas ela sempre desprezou todo mundo que se desviava do bom caminho, sempre falou mal deles como se fossem a escória da humanidade.

— Camuflagem — disse Maisie com desdém. — Posso lhe contar umas coisas de arrepiar os cabelos.

Em geral, Laurel não gostava de fazer fofoca. Por ser ela mesma tão reservada, evitava se meter na vida das pessoas com quem convivia. Mesmo assim, também era verdade que não tinha grande interesse pela vida dos outros. Livros, idéias e preocupações dessa natureza sempre foram prioridade. Mas agora era diferente. Estava envolvida pessoalmente, quisesse ou não.

Sem erguer o olhar, perguntou, em resposta à sugestão de Maisie:

— Como o quê?

— Bem — começou a velha senhora, ajeitando os cachos grisalhos, depois alisando o avental sobre o estômago saliente —, você pode achar que não levo jeito, mas eu saía muito para beber, aí pelos anos 1950. A guerra tinha terminado não fazia muito tempo, você sabe, e nós, as garotas, ficávamos deslumbradas com uma farda. A gente se reunia em grupos e ia para Leesville. Encontrávamos os soldados de Fort Polk, saíamos para um boteco qualquer que tivesse banda. Dançar? Precisava nos ver! Dança de verdade, não era ficar pulando e se sacudindo, como dançam hoje em dia.

Sorrindo ligeiramente, diante do quadro que Maisie pintava, Laurel perguntou:

— Mãe Bancroft fazia parte do grupo?

— Não, de forma alguma. Já era casada e tinha dois filhinhos. Ela e o marido tinham um monte de problemas, brigavam feito cão e gato. Ele bebia escondido, diziam, e ela era muito esquentada. Ele gostava de um rabo-de-saia, e ela era ciumenta. Lembro-me que, uma vez, deu até polícia. O caso é que chegaram às vias de fato por causa da bebida. Ele nem reagiu, só caiu na cama no meio da discussão. Então, ela esquentou o óleo de fritar batatas e despejou no ouvido dele.

— Ai! — disse Laurel, encolhendo-se.

— É, ela era desse jeito, para você ver — replicou Maisie, sacudindo a cabeça. — Mas o que eu estava pensando foi o outro jeito que deu para ele voltar para ela. Ele tinha um horário apertado, fazia serão às vezes. Então ela saía para os botecos barulhentos e baratos, perto de Leesville, com os soldados. Não sei se dava de graça ou se faturava um dinheiro extra, mas com certeza não ficava em casa cuidando de Howard e de Zelda quando eles eram pequenos.

Laurel apoiou o cotovelo na mesa e o queixo na palma da mão, encarando Maisie. Após um instante, disse:

— Não posso acreditar. Eu só... não posso acreditar.

— Eu sei, mas uma porção de gente é assim, muito diferente das aparências. De qualquer maneira, não demorou muito para o marido abandoná-la, uma noite saiu e nunca mais voltou. Alguém contou que ele, uma vez, escreveu uma carta, no aniversário de Howard, mas depois, nada. Passado algum tempo, Sadie se acalmou, mudou-se aqui da casa e comprou outra na cidade, tornou-se religiosa e tudo o mais.

Laurel sacudiu a cabeça com íntima satisfação. Então franziu a testa, juntando as sobrancelhas.

— Que foi? — perguntou Maisie, analisando-a com o olhar levantou o cotovelo da mesa e tomou um gole do café, que já estava morno. Com uma careta, falou:

— Eu só estava pensando: parece que a mulher que derrama óleo quente no ouvido do marido é capaz de tudo.

— Também me passou pela cabeça — disse Maisie. Laurel hesitou.

— Até matar Sticks?

— Não gostava do cachorro, não é?

Isto era verdade, apesar de Mãe Bancroft também morrer de medo do animal de Laurel. Tinha dificuldade em visualizar a sogra indo até ele e estendendo um pedaço de carne envenenada, ou seja o que for que ele comera. Isto não queria dizer, é claro, que não tivesse colocado em algum lugar enquanto ele estava trancado dentro de casa, para que o encontrasse mais tarde.

Um arrepio a percorreu. Balançou a cabeça para afastar aquela imagem. Mais uma coisa sobre a qual ela não queria pensar. Em voz baixa, perguntou:

— O que vou fazer?

— Podia começar botando as mãos em uma dessas cartas.

— Duvido que alguém venha me mostrar.

— Não vem mesmo — concordou Maisie. — Mas podem me deixar dar uma olhada, tirar uma cópia.

— E então? — perguntou Laurel. — Se por acaso for Mãe Bancroft, o que posso fazer? Mandar prendê-la por utilização indevida dos correios, ou seja lá o que for? Processála por difamação?

— Parava com isso em um instante. Eu aposto, se achasse que todo mundo ficou sabendo que ela estava por trás disso.

esfregou as têmporas, sentindo no estômago uma náusea leve provocada pela dor.

— Então vou falar com ela. Acho que existe uma possibilidade.

— Melhor que nada.

A hipótese era verdadeira demais para ser negada.

Maisie tomou o restante de seu café, afastou a cadeira para trás, levantou-se e levou a xícara para a pia. Olhou por cima do ombro e falou:

— Afinal me lembrei da serra que Alec me pediu, mas nem falei nisso hoje de manhã. Acha que pode dizer a ele para apanhar no porta-malas do meu carro, antes de eu sair?

— Está bem.

— E devia tomar alguma coisa para essa dor de cabeça — acrescentou Maisie com voz severa.

— É o que vou fazer — disse Laurel, reconhecendo a preocupação por trás da aspereza.

Mesmo assim, levou algum tempo até conseguir se levantar.

 

Laurel não conseguiu manter-se de pé para ver. Alec chegara quase ao topo do grande pinheiro. Pendurado a mais de 15 metros do solo, preso apenas pelos pregos de suas botas de alpinismo e o cinto de segurança que passava pela cintura e pelo tronco largo. A confiança no equipamento era extraordinária, ao manobrar a motosserra no ramo próximo a ele. A camisa se esgarçava nos ombros a cada contração dos músculos das costas. Tinha um ar imponente e grandioso. E corria perigo, de parar o coração.

Laurel fora tirada da cama naquela manhã pelo ruído estridente da serra. Quando saiu para ver o que estava acontecendo, Alec já serrara um galho, deixando-o cair com um baque surdo, e alcançava o próximo.

Na tarde da véspera, explicara que teria de cortar primeiro os galhos, depois o topo da árvore e só então derrubar o tronco, um pedaço de cada vez, para que não caísse em cima da casa, da garagem, da cerca, nem dos canteiros embaixo. Ela sabia que teria de subir no alto do enorme pinheiro para fazê-lo. Porém, não tinha percebido o que significava fazer isto, nem a altura da árvore, na realidade.

O impulso de gritar para ele descer agora passou-lhe pela cabeça. Mas Alec não conseguiria ouvi-la, com o barulho da serra e, se conseguisse, não prestaria atenção.

Lascas marrons e serragem amarela espalhavam-se outra vez, caindo até o chão como chuva de fogos de artifício. O aroma de resina da seiva do pinheiro enchia o ar. O ramo cortado estalou e o barulho da serra ficou diferente. Quando Alec recuou a lâmina do topo, este desceu pesadamente, zunindo. Bateu no solo com ruído de trovão. Laurel sentiu a vibração de onde estava, na parte mais baixa das escadas.

Se Alec caísse, seria exatamente daquela maneira. Ou se escorregasse, batendo em alguma coisa além da árvore com a serra, o poder de corte da máquina esfacelaria sua carne em segundos.

Não, tinha que parar de olhar aquilo; seus nervos não suportavam. Fez a volta e tornou a entrar em casa.

A retirada durou talvez cinco minutos, pois tampouco conseguia ficar lá dentro, sem saber o que ocorria. Puxou umas calças jeans do armário e vestiu-as com uma camiseta listrada de bege e preto com decote em V. Ainda era cedo. Maisie não chegara para trabalhar, ainda faltava uma hora. Laurel apanhou um pêssego na fruteira da cozinha e dirigiu-se ao galpão da cerâmica.

Tinha começado uma outra placa do Green Man, na tarde anterior, depois que Maisie e Alec saíram. Sentia-se melhor ali do que zanzando pela casa, sem ter o que fazer. Trabalhou nisso até tarde, tentou se cansar para não ficar acordada pensando em Sticks e ouvindo cada estalido da noite. Ao que parece, era o cachorro que lhe dava a sensação de segurança na velha casa, e agora ele se fora.

A nova placa aproximava-se muito mais do espírito da Bocca dela Verità, refletindo a face de um velho de boca aberta. Mas ela subtraíra a fúria do original, substituindo-a por uma expressão de beatitude. O homem desta placa presumia que a verdade seria dita, em vez de ameaçar com terríveis conseqüências resultantes da mentira.

Não faltava muito para terminar, não mesmo. De qualquer modo, não conseguiu se concentrar, ouvindo os longos silêncios entre o zumbido da serra de Alec e os estrondos dos galhos caindo. Ligou o forno e preparou a peça para a queima.

Quando se afastou da fornalha, reparou que a tigela com as ondas do mar não estava lá. Alec deve ter feito alguma coisa com ela — o que lhe veio à mente e o deixou tão misterioso quando a viu. Mas onde a teria posto? Saiu do galpão à procura da tigela.

Quase não a reconheceu ao encontrá-la, pois se transformara em um laguinho. Talvez não fosse a palavra certa, concluiu pensativamente, pois, na realidade, mais parecia um espelho d’água.

Alec colocara a tigela sobre o toco de uma velha árvore, em que cresciam musgo e samambaias, e uma antiga glicínia subia por uma estaca de ferro formando um arco acima. Cheia de água até a borda, por um ângulo de visão refletia as hastes retorcidas da trepadeira e, por outro, apenas o azul-claro do céu. Com a tigela nivelada e equilibrada no toco, a superfície da água espelhava uma perfeita imobilidade. Ocasionalmente, a brisa provocava um arrepio, ou passava por ela a sombra de uma nuvem, mas, naquele momento, irradiava calma e infinita paz. Nem mesmo o rugido da serra despedaçando a madeira e espalhando seu odor acre diminuíam aquela impressão.

Era tão simples — uma tigela cheia de água. Mas o modo como fora colocada e a finalidade encontrada para ela a transformaram em algo próximo de uma obra de arte. Lentamente, Laurel se voltou, buscando pelo topo do pinheiro, que só via por cima da linha do telhado da casa, buscando Alec.

Ele estava agora no alto da árvore, com um pé apoiado no resto de galho cortado minutos antes. Os músculos ficavam ressaltados pela tensão, quando ele se apoiava no cinto de segurança, inclinado para obter o corte horizontal na fenda que já escavara. Os braços tremiam com a força barulhenta da serra. A lâmina vomitava lascas de madeira que ricocheteavam em seu corpo e cobriam-lhe os cabelos, forravam-lhe o peito, os braços, as pernas dos jeans, e caíam como confete aromático.

Ouviu um som estridente, dilacerante. O topo oscilava. Rugia ao adernar. Vinha abaixo, pronto para tombar. Alec agarrou com esforço a serra, que passou do estrondo ao silêncio. Ele se inclinou para o lado, deixando que o cinto de segurança sustentasse todo seu peso, de modo que se afastasse o máximo possível do tronco para escapar do topo da árvore que iniciava sua queda.

A ponta se quebrou. Retorceu-se, esbarrando nos vários tocos dos galhos durante a queda ruidosa e violenta. O tronco enorme estremeceu, abalado, sacudindo Alec para a frente e para trás, como se montasse um touro bravo em um rodeio.

De repente, o cinto forte que o prendia arrebentou-se, saltou como uma cobra escura enrolando-se em direção ao céu azul. A serra, presa a ele por uma corrente, balançou um instante, depois voou como uma pluma, arrastando o cinto.

Laurel prendeu a respiração com tanta força que sentiu o ar raspando a garganta. Com olhos intumescidos, viu Alec girar no ar, com distensão dos músculos fortes. Esforçava-se para agarrar algum toco. Pendurado por uma das mãos, projetava-se para abraçar o tronco, tentando cravar nele os pregos de suas botas de alpinismo.

Os ferros esbarraram na casca, escorregaram. O galho que Alec segurava se quebrou. Caiu, mergulhando em pé.

Desapareceu por trás do telhado, seguindo de perto o topo da árvore.

Laurel gritou — um som agudo, estridente, perdido no estrondo do cimo da árvore batendo no chão. Ela saiu em disparada para a entrada da casa.

O horror queimava sua mente. Sentia a respiração ofegante arder na garganta. Uma pontada no lado do corpo doía como uma facada, mas ela a ignorou enquanto corria para dar a volta pelos fundos. Esgueirando-se entre a garagem e a parede da casa, para cortar caminho, lutava contra terríveis imagens de Alec, todo quebrado, empalado em uma estaca da cerca, esmagado pelo cimo da árvore caso tivesse rolado no chão, ou mutilado pela serra ao cair em cima dela.

Então o viu. Jazia sobre um acolchoado de escuros ramos verdes. Arranhado, esfolado, quase soterrado pelas lascas e cascas do pinheiro, esparramava-se inerte, com os braços abertos e os cílios espessos mortalmente fechados sobre as bochechas.

Um soluço subiu-lhe à garganta quando ela caiu de joelhos. O que fazer? Ligar para 199? Chamar uma ambulância? Ou seria mais rápido arrastá-lo para a moto e tentar... Não, ela jamais conseguiria dirigir aquilo. Não devia mexer nele. A ambulância, então, o mais rápido possível.

Mesmo cheia de pensamentos agitando-lhe a mente, ela afastou, com dedos trêmulos, as lascas das pálpebras e do nariz, das maçãs do rosto. Passou os olhos pelos braços e pelas pernas — não havia fraturas óbvias. A pilha de ramos cortados amortecera em parte a queda, mas havia um galho sob o corpo que poderia ter-lhe quebrado a espinha, se tivesse caído de mau jeito.

Com ligeireza, sem firmeza nas mãos desesperadas, desabotoou e abriu a camisa manchada de sangue. Pressionou o peito esfolado, passando os dedos nos pêlos suaves e colocou a palma da mão sobre o coração.

Estava batendo. Graças a Deus, graças a Deus.

O peito estremeceu também, vibrando sob a mão dela, com um movimento suspeito como de uma risada.

A voz dele saiu baixa e não muito firme, apesar do tom de humor:

— Se quiser tentar uma respiração boca a boca, acho que vou melhorar.

Ela fechou os olhos, apertou-os, sentiu lágrimas aflorarem. Então, arregalou-os. Fechou o punho e deu um soco no peito dele.

— Desgraçado — falou entre dentes. — Desgraçado, quase me matou de susto!

— Ei, eu também levei um susto. — Agarrou-a pelo pulso que ela erguia para repetir o golpe. — Vá devagar que estou todo esfolado, está bem? Mas até que achei divertido acordar ao lado de um anjo nervoso.

Ela ficou calada, com os olhos bem abertos, examinando o corpo dele outra vez.

— Tem certeza de que não se machucou?

Ele lançou um olhar de deboche, mas com cautela.

— Vai me socar de novo se eu estiver bem?

— Pode ser.

— Bem, eu torci o joelho, desloquei o ombro e estou com um galo na cabeça do tamanho de uma bola de basquete. Preciso de uma bebida bem forte e de um profissional de saúde, não necessariamente nesta ordem. Se não vai conseguir um dos dois, poderia pelo menos me prestar os primeiros socorros?

De cara fechada, ela respondeu:

— Pode ser, se estiver mesmo precisando.

— Que bom, porque acho que estou.

Fez uma careta ao se erguer apoiado no cotovelo. Segurava-a pelo pulso, e apertou ainda mais.

— Pode começar me ajudando a levantar.

Ele estava bem machucado. Alec sabia disso, sem dúvida, pois cada osso do corpo protestou ao ser puxado para cima. Não se lembrava da última vez em que se sentira tão quebrado, talvez desde sua primeira briga de rua. Daquela vez, fora esmurrado por três sujeitos com duas vezes o seu tamanho, quatro anos mais velhos e dez vezes mais grosseiros. O grande pinheiro vinha em segundo lugar.

Fora tudo muito rápido. Só conseguira ver de relance um local para aterrissar. Ao bater no solo, os ponteiros do relógio avançaram durante o tempo em que ficara desacordado. Mas, que droga, pensou ele meio zonzo, quando Laurel chegou ao seu lado e passou o braço esguio no peito, valeu a pena.

— O que aconteceu lá em cima? — perguntou ela, testando o joelho antes de apoiar o peso nele.

— O cinto arrebentou.

Foi o máximo que conseguiu dizer por entre os dentes. O ombro não tinha problemas, foi o que pensou, mas o joelho ainda ia levar uns dois dias para voltar ao estado normal.

Ela dirigiu o olhar para cima com ar severo.

— Achei que tinha checado o equipamento.

— E chequei. Uns dois dias atrás.

Mas não aquela manhã. Por que o faria? Tudo estava funcionando.

Ficou calada por um instante, enquanto se deslocavam lentamente, passando pelo portão, indo pelo caminho até a escada da frente. Então ela falou, com irritação:

Eu não devia ter pedido para cortar essa árvore idiota, em primeiro lugar.

— Não foi culpa sua — disse ele, agradecido pela preocupação e apesar de mal conseguir escalar aqueles degraus. — Eu devia ter sido mais cuidadoso.

— É, devia sim — foi a resposta, áspera.

Ele fez uma careta, não pôde evitar. Ela falava com severidade, mas era tudo fingimento. Agora ele já tinha a chave do segredo dela.

A mão de Laurel estava espalhada na pele nua, sob a camisa, como se sempre tivesse estado ali, ao mesmo tempo em que as curvas suaves do peito pressionavam as costelas a cada passo vacilante. Mais do que isso, ele ouvira o pânico na voz dela, ao se ajoelhar ao lado dele, vira as lágrimas nos olhos. Sim, ela era frágil. Seu tipo preferido de mulher.

Olhe só que coisa! Fora finalmente convidado a entrar em casa, nem que, para tanto, quase precisasse morrer.

Levou-o para o banheiro e sentou-o no melhor lugar da casa, o vaso, com o tampo fechado. Era um cômodo amplo, comum nas construções antigas — quadrado, com janela alta de vidro opaco, banheira de louça apoiada em garras, aquecedor de ambiente e até uma cadeira de balanço, com porta-revistas de vime e um vaso de samambaia ao lado. Alec deu uma olhadela em volta e sentou-se imóvel, observando Laurel encher a banheira com água quente e apanhar algumas coisas em um armário embutido baixo. Umedeceu uma toalha, passou sabonete nela e virou-se para ele.

— Já faz tempo que ninguém me dá banho como se eu fosse bebê — disse ele, divertido com o ar perturbado do rosto dela.

— E vai demorar ainda mais tempo se você não ficar quieto — informou.

— Sim, senhora.

— Não faça isso — disse com os lábios cerrados.

— O quê, minha senhora?

O olhar dele era o mais inocente possível.

— Agir com subserviência, quando sabe muito bem que não é do seu estilo.

— Não, senhora, não vou mais fazer.

Ela retesou o queixo, mas não aceitou a provocação. Estava claro que, agora, também já tinha a chave do segredo dele.

Colocou dois dedos sob o queixo dele, inclinou-se enquanto passava a toalha quente em seu rosto, tomando cuidado com os ferimentos obtidos durante seu caso de amor com o tronco da árvore. Ia se acostumar com aquilo, ia mesmo, foi o que ele pensou, e deixou escapar um suspiro.

Por certo, ela manteve uma boa distância dele. Ia ficar com os braços cansados, se continuasse a esticá-los em toda a distância de suas coxas. Ele abriu os joelhos, segurou-a pela cintura e puxou-a até encaixá-la entre as pernas. Ela parecia nem perceber, de tão concentrada na limpeza do rosto. Ele se deixou ficar segurando-a.

Ela era tão macia, mas firme, sob a fina blusa de algodão. Cheirava a sabonete de jasmim, e raios de sol, com uma pitada ácida de argila. Ele firmou as mãos por um instante e depois soltou-as. Tinha que se distrair. Bom demais.

Com voz rouca e infantil, disse:

— É ótima em primeiros socorros. Ou essa já é a parte do profissional de saúde?

— Nenhum dos dois. Pode, por favor, ficar quieto enquanto lavo seu rosto?

— Sim, senhora.

— Já falei para não me chamar de senhora. O olhar dela era apaixonado.

— Por quê? Faz com que se sinta como se fosse minha mãe, ou coisa parecida?

— Acho difícil. — A palavra era azeda.

— Que bom. Não é assim tão velha.

— Ah, não? — devolveu ela. — Devo ter pelo menos uma década na sua frente.

— É mesmo? Bem, dizem para a gente não contar os anos, mas os quilômetros, e eu rodei mais de mil na sua frente. — A satisfação na voz dele era audível, ao descobrir uma brecha com esta teoria. — Além disso, parece uma garota, como se o tempo tivesse esquecido de passar enquanto ficou presa aqui dentro. Acho que estamos na média.

Ela fez uma pausa, com um olhar de espanto em meio ao azul da cor do mar.

— Que ponto de vista mais esquisito.

— Mas é o que penso — disse ele, sustentando o olhar dela. — E andei pensando nisso algum tempo.

Ela não respondeu e continuou o que estava fazendo, apesar de um rubor de rosa-do-campo ter subido do decote da blusa para colorir seu rosto. O tom era tão vivo que parecia ter carregado no blujh. Não que ela usasse qualquer maquiagem. A pele era fresca e clara, tão transparente que ele via sombras esmaecidas das veias nas têmporas e ao redor do pescoço. O aroma doce e confortante subiu à cabeça dele como uma dose de bourbon puro. Afinal, não precisava mais de uma bebida.

Ele mesmo começava a cheirar a jasmim, junto com resina de pinheiro e suor, pois ela usava na limpeza seu próprio sabonete perfumado. Adorou. Na verdade, estava gostando demais daquilo, pensou, quando ela se inclinou sobre ele para despi-lo da camisa e em seguida retirou as lascas de madeira, o saibro e o sangue do peito. Se não tomasse cuidado, ela ia olhar para baixo e ver exatamente como ele estava gostando.

As mãos dela se acalmaram ao chegar perto da clavícula. Ele sentia que Laurel acompanhava o traço da tatuagem, embora estivesse mais interessado na expressão do rosto dela, de fascinação com o que fazia.

Com voz controlada, ela falou:

— Seu dragão quase perdeu a cauda.

— Vai crescer outra.

Esperava que sim. Lembrava-se de ter raspado com força o ombro na árvore, ao procurar um lugar melhor para cair.

— Tem algum sentido? Quer dizer, por que um dragão?

— Muitos sentidos, mas principalmente boa sorte — respondeu. — O dragão é o símbolo oriental da regeneração, da possibilidade de constante retorno, de nova vida e felicidade. Como um bebê que se transforma em velho, sempre pode renascer e assim representar a eterna esperança.

— E o que mais?

— Bem, existe a tradição das lutas marciais orientais, que dizem que o dragão luta com paciência e inteligência... comparado com o tigre, por exemplo, que se vale da bravura e da força. E, também, os dragões eram considerados guardiães, nos velhos tempos, guardiães de lugares sagrados, tesouros muito especiais. Lutavam para proteger o que guardavam, mesmo se, para isso, fosse preciso o sacrifício.

— Está doendo... quer dizer, fazer isto?

A pergunta dela era preocupada e séria, mas também curiosa.

Ele levantou um ombro.

— Um pouco.

— Porque certas coisas são mais importantes que a dor. O olhar que ela lançou era mais de compreensão que de conforto. Virando-se, esticou uma das mãos para enxaguar a toalha, depois voltou, debruçando-se sobre ele para cuidar melhor do ferimento no abdome. Ele a segurou pelo pulso, com as duas mãos, para afastá-la um pouco.

— Olhe, vou me levantar — disse. — Assim está muito difícil para você trabalhar.

Ela deu um passo atrás e, ao mesmo tempo, indicou a pia com pedestal.

— Ajuda se você chegar mais para cá.

Era o que ele queria. Qualquer coisa para agradar. Ou para prolongar a operação.

Apoiou as costas na fria louça da pia. Percebendo que seu peito estava um pouco alto para ela alcançar, abriu as pernas e escorregou para baixo alguns centímetros. Trazendo-a outra vez para o meio de suas coxas, perguntou:

— Está melhor?

— Acho que sim — respondeu ela, mas manteve os olhos baixos, de modo a não encontrar os dele. A face, porém, continuava corada.

Recomeçou a trabalhar no peito. O suave roçar do tecido quente na pele realizou prodígios na libido dele. O coração ribombava nos ouvidos, e sentia-se quase tão zonzo como no momento da queda. A luta para se controlar provocou um arrepio involuntário na pele.

Ela o olhou de relance. Ao voltar para o trabalho, mordeu o lábio inferior. A necessidade de diminuir a pressão que ela fazia era tão forte que ele sentiu seu interior se retorcer.

O movimento do tecido atingiu um dos mamilos, que instantaneamente endureceu, com aspecto de uma borracha castanho-avermelhada. Ela tornou a olhar para ele, que balançou a cabeça com um sorriso sem graça. Arrancando sua melhor imitação de Humphrey Bogart no filme Uma aventura na África, enrolou a fala:

— Não há nada que eu possa fazer, madame.

Ela pousou a toalha e apanhou um vidro de álcool e gaze. Encharcando o quadrado, bateu com ele no peito ferido.

— Ai!— exclamou ele, apanhado desprevenido, preocupado que estava com os traços tensos mas suaves dos lábios dela.

— Vai lhe fazer bem — murmurou ela, esfregando os arranhões e cortes sem piedade.

— Acha, é? Não está querendo que eu esfrie a cabeça?

— Estou querendo que você não morra de infecção.

— Agradeço demais, só que acho... Ai! — finalizou, indignado, quando ela tornou a molhar a gaze e passou-a em um ferimento mais fundo.

— Pare de ser criança! — disse ela, com olhar desafiador.

— Está bem — replicou ele, fechando as mãos nos antebraços dela. — Quer que eu me comporte como um garoto grande, hein? Quem sabe até como homem?

O alarme faiscou nos olhos dela, provavelmente como resposta ao que viu no rosto dele. Os lábios se abriram para dizer:

— Não, eu não...

Mas era tarde demais. Puxou-a para si. Mergulhando os longos dedos nos fios de seda dos cabelos de Laurel, baixou a boca até ela.

Meu Deus, era deliciosa — mistura de brilho para os lábios sabor maçã, com um dia de primavera e uma doce mulher. Era aquilo que ele sempre soubera, a boca era quente e macia. E ele estava louco. Mas até os loucos têm sorte de vez em quando.

-Laurel queria sentir-se ofendida, queria ser fria e forte. Mas sabia que o tinha provocado, talvez até sugerido que fizesse isso. Assim, sentia remorso, junto com os sentimentos cálidos e intensos que fluíam por seu corpo quando passou as mãos espalmadas na pele acetinada. Ele era tão sólido, tão forte, ali no banheiro fechado, tão dominador em meio à decoração feminina de toalhas cor-de-rosa, vidros de sais para banho e sabonetes perfumados. Como poderia resistir àquela potência mágica, ainda mais que ele a comandava de modo tão firme, porém gentil, com intenção tão óbvia? E o desejo dela era tanto.

O beijo quente era chama que consumia, como sentir o gosto de um dragão. Reduziu as dúvidas a cinzas, inflamou o desejo há muito subjugado. Murmurando baixinho, moveu-se na direção dele, para dentro dele, absorveu a suave maravilha dos seus lábios, aceitou provar a maciez da sua língua.

Quando ele a envolveu no círculo firme de um abraço, ela deslizou os dedos em seus cabelos e tirou a faixa de couro que os prendia. Apertando um punhado da rústica seda negra que retinha o calor de seu corpo, ela pressionou mais fundo no meio das pernas dele, com vontade, precisando sentir a rigidez e a força dele contra o próprio corpo. A quentura era um bálsamo, a excitação no alto das pernas, um incentivo.

Ele tocou com a língua a delicada superfície interna da boca, juntou-a à dela, abrasando o interior escorregadio com fricção segura. Correspondia ao fogo doce e mágico com delicadeza, roubando pulsações, até que as batidas do coração fundiram-se no mesmo ritmo, que pulsava entre os seios, e a mente vagava por arriscadas tendências. Respiravam o mesmo ar, misturavam os cheiros e o calor do corpo. Ele era seu par, companheiro na experiência e no desejo, a alma gêmea, a outra metade do seu todo.

Sim, e ela era a viúva abobalhada e carente, que não apenas cedeu ao charme de Alec Stanton sem resistência, mas que não fora ao menos capaz de identificar isto a tempo de se preservar.

Com um leve som de pesar, colocou as mãos nos ombros dele e afastou-o. De olhos bem abertos, lábios trêmulos, perscrutou o outro rosto, procurando um ar de vitória na escuridão esfumaçada do olhar, ou pelo menos a complacência de quem teve o que queria.

Nada encontrou. Nada, a não ser, possivelmente, valentia, paciência e arrependimento.

Ele se recobrou antes, para despeito dela.

— Ah, sra. Bancroft — falou com um sorriso desmaiado, sacudindo a cabeça devagar. — Dizem que um beijinho faz parte do curativo, mas eu não tinha ideia de quanto. Se isso não me curar, então nada mais vai resolver.

— Como vai o sexo com a linda viúva? A pergunta surgiu na luminosidade opaca do crepúsculo, e Gregory estava sentado do outro lado da varanda cercada de tela, na casa de vovó Callie. Alec voltou a cabeça naquela direção, mas conseguiu ver somente a forma difusa do irmão. Se qualquer outra pessoa lhe fizesse esta pergunta, não se incomodaria de responder. Daquela maneira, foi o mais breve possível:

— Não vai.

— Qual é o problema, mano? Perdeu o jeito?

Alec não precisava ser lembrado do que ocorrera no banheiro, em Hera Silvestre, nem o queria. Viera em busca de calma e paz, ali ao cair da noite, com o aroma de costeletas de porco vindo da cozinha e o canto do curiango no meio do bosque. O pássaro taciturno emitia um som tão melancólico quanto seu próprio estado de ânimo e, assim como ele, tinha esperança de encontrar um par.

— Pode ser — respondeu finalmente, com voz distante.

— Não leve a sério. Ela deve ser corajosa, para encarar você depois de tudo o que ouviu.

— E você fez questão de que ela ouvisse — disse Alec calmamente —, não foi?

— Faço o que posso por você.

— Sei, claro.

— Ei, mulher gosta de marginal. Nunca lhe contaram? O deboche era claro na voz de Gregory.

Alec lançou-lhe um olhar fulminante.

— É, mas a idéia de um sujeito indo atrás delas por interesse não parece muito romântica.

Gregory deu uma risadinha desconsolada.

— Então tem que tentar de novo. Assim fica mais apetitoso.

— Vamos supor que a idéia seja manter tudo muito apetitoso — falou Alec com agressividade reprimida.

— Nossa, quanta sensibilidade! O que houve? Ela rejeitou o ataque do macho? Foi assim que você se machucou todo?

— Não tem a menor graça.

Alec olhou a varanda, sem expressão. O irmão ajeitou-se na cadeira e suspirou.

— Na hora, não deve ter tido mesmo. Desculpe, está bem? Alec inclinou-se na espreguiçadeira de metal fora de moda e não respondeu. Sentia as camadas de tinta incrustadas no braço da cadeira, que ele apertava com firmeza. Ele mesmo a pintara algumas vezes, em outras visitas, durante o verão. Se contasse as camadas e as cores de tinta, era possível ter uma ideia da idade das cadeiras da varanda, já que a pintura, para evitar a ferrugem causada pela umidade, era tarefa anual. Gregory tornou a falar, na penumbra cada vez mais densa.

— Mas o que aconteceu?

Alec contou-lhe, sabendo que o irmão precisava de alguma coisa que o tirasse de dentro de si mesmo, e também tinha necessidade do som da voz humana para se recordar de que não estava sozinho. Esta era uma das razões para estarem ali, na casa de vovó Callie. Gregory não suportaria esta situação em seu apartamento na Califórnia.

Meu Deus, Alec — disse o irmão quando ele terminou — não precisava se matar só para impressionar essa mulher.

Por trás do áspero descrédito na voz do irmão, havia preocupação ou, pelo menos, foi o que Alec pensou; era difícil saber como estava Gregory. Várias coisas eram difíceis com Gregory, na verdade. Não foram muito unidos por um bom tempo. Gregory se separara de Alec e Mita quando foram morar no chalé da mansão Chadwick. Até ficar doente.

— Não teria perigo se tudo estivesse funcionando — disse Alec.

— Não estava?

— Não muito. — As palavras saíam sem expressão. — O cinto de segurança foi cortado.

Gregory encarou-o no escuro. Finalmente, disse em tom ácido:

— A viúva?

— Que idiota.

Alec demonstrou sua irritação.

— Acha que alguém quer você fora do caminho, então?

— Parece que sim.

— Ótimo, então por que não vai embora? Diga à patroa para arranjar outra pessoa.

— Era o que eu faria — resmungou Alec —, se ela pudesse.

Uma gargalhada saudou o comentário.

— Que beleza! Quem ela vai arranjar?

— Não sei. Você, talvez?

— Gostaria.

Gregory ficou em silêncio por longo tempo. Depois, disse:

— Ora, ela não vai olhar de novo para mim, e você sabe disso.

Implacável na contrariedade, Alec falou:

— Pode ser que sim, pode ser que não. Mas foi por isso que você atacou os detalhes sórdidos do meu passado, um por um, não foi? Era isso mesmo. Você queria que ela, que qualquer mulher, visse você do jeito que foi.

— Meu Deus, Alec.

A dor que entrecortava a voz do irmão era verdadeira. Verdadeira demais.

Alec inspirou de leve e deixou escapar o ar lentamente. Esfregou o lado do rosto. A pele esfolada começava a criar cascas.

— Desculpe pelo que eu disse também, está certo?

— Não, você tinha razão — replicou Gregory, com palavras abruptas, de seu canto na varanda. — Eu fico assim, às vezes, acho. Começo a pensar que se não vejo a luz, é porque o mundo inteiro está no escuro. Tenho inveja de você ainda ter saúde e disposição, por estar sempre de bem com a vida, não importa o que aconteça. Então, é sim, contei para a viúva as coisas sobre você. Deu problema para você?

— Ah, que droga, não — falou Alec, pondo-se de pé e tomando a direção da porta. — Deu para contornar.

Gregory, observando-o, disse para si mesmo:

— Exatamente o que eu pensava.

Vovó Callie virou-se de onde estava, misturando os ingredientes para fazer broa de milho em uma vasilha azul de louça. Era miúda e robusta como uma galinha garnisé, e mantinha os cabelos castanhos, raiados de branco, cortados curtos, em um penteado que lhe emoldurava o rosto como penas ao vento. Observava Alec com olhos brilhantes, inteligentes, encarando-o por um longo momento antes de voltar ao que estava fazendo.

Por cima do ombro, indagou:

— Você e Gregory de novo?

— Acho que sim — respondeu Alec com morosa resignação. — Às vezes não sei o que dá nele.

— Está lutando o máximo que pode, atirando a torto e a direito, e no problema dele também — disse ela. — Tem gente que é assim.

Estava certa, Alec sabia. Mas o fato de saber nem sempre torna as coisas mais fáceis. Mudando de assunto deliberadamente, perguntou:

— Posso ajudar em alguma coisa para o jantar?

— Está tudo sob controle. É uma ceia, melhor dizendo — respondeu, enquanto cortava a massa do pão sobre um pesado tabuleiro de ferro, untado com óleo já fervente, e o empurrava para dentro do forno.

— Fique aí sentado, conversando comigo. Ouvi o que vocês estavam dizendo lá fora, sobre sua queda.

— Eu devia ter adivinhado.

As palavras estavam carregadas de humor e aceitação. Em vez de fazer o que ela disse, foi até o armário e apanhou pratos e copos para pôr a mesa. Ainda de costas, perguntou:

— Então, você tem alguma idéia de quem me quer fora do caminho? Ou por quê?

Ela caminhou até a pia, ao lado dele, para lavar a tigela que usara, antes de responder.

— Não sei bem. Mas falei com Maisie hoje à tarde.

— E? O que ela disse?

— Queria me pôr a par do que está acontecendo na cidade.

Ele deu uma olhadela, alertado por segundas intenções na voz dela.

— E então?

Ela lhe contou a história da carta anónima e do alvoroço na igreja freqüentada pelo genro de Laurel. Ele começou a xingar baixinho e ela continuou:

— Isso não foi Maisie quem me disse, mas ouvi umas Fulanas no cabeleireiro comentando aquela história de quando o marido de Laurel morreu. Davam a entender que pode haver mais coisa por trás disso do que aparenta.

— Pura fofoca, estão julgando com base nos boatos — disse ele com desdém.

— É o jeito americano — completou ela, fazendo graça.

Indo até a mesa, ele colocou os pratos e ajeitou cuidadosamente os garfos do lado esquerdo de cada um, sem olhar para ela.

— Acha que devo bater em retirada, deixando aquela senhora sem ninguém?

Ela estalou a língua, como uma suave demonstração de respeito.

— Não sei. Mas me parece que vem alguma coisa por aí. A frase soava tão estranha nos lábios dela que ele quase riu.

— Fazer o quê?

— Você é quem sabe, garoto esperto — devolveu ela, aparentando severidade. — De qualquer maneira, é difícil dizer se você é o problema ou a solução. Mas também não sei como você pode sair disso se não descobrir a resposta.

— Não faz o meu gênero, não mesmo — falou e sacudiu a cabeça. — Um traço que herdei de você, acho.

Sua avó não era pessoa de abandonar o barco. Nunca desistira da filha nem dos netos. Mesmo que estivessem longe, sempre puderam contar com ela.

Chegou ao lado dele, abraçou-o pela cintura e apertou-o rapidamente.

— Você é um bom homem, Alec — falou. — Sempre me orgulhei de você.

— Obrigado, vó.

Inclinou-se para o abraço, grato pelo afeto e pela compreensão, e colocou a mão sobre a dela, que comprimia a fivela do cinto. Sentia-se aconchegado, apesar de ter de respirar superficialmente, por causa da pressão sobre as costelas doloridas.

— Só imaginei... — ela se deteve.

Sentiu os músculos do estômago se contraírem, diante de algo que ouviu no tom de voz dela.

- O quê?

— Sabe o que está fazendo? Quer dizer, o que faz você realmente ficar na casa dos Bancroft? É o emprego, o dinheiro? A mulher? Ou, como dizem, já vivi isso antes, vamos começar tudo de novo?

Ficou calado.

— Você acha que quero provar alguma coisa?

— Acho que você entrou em uma situação ruim, de precisar que tudo dê certo, para variar.

— Pode ser — disse ele, com o olhar parado em lugar nenhum. — Ou talvez seja um pouco de tudo isso.

— Seja o que for, você vai tomar cuidado, não vai? Eu... não ia gostar nem um pouco se lhe acontecesse alguma coisa.

— Vou tomar cuidado — repetiu ele.

— Olhe o que você vai fazer — ordenou ela e limpou a garganta com um pigarro áspero.

Deu um passo atrás, segurou as longas pontas dos cabelos que caíam sobre as espáduas e deu um puxão.

— Agora, que tal cortar o cabelo depois do jantar? Não era a primeira vez que ela vinha com essa sugestão, e nem seria a última. Olhou-a de lado, por cima do ombro.

— De jeito nenhum.

— Nem precisa me contar, eu adivinho. As garotas gostam.

— Algumas — falou, sentindo outra vez o arrepio de prazer provocado pelos dedos de Laurel descendo pelas longas mechas, as unhas roçando delicadamente no couro cabeludo.

— Você seria danado de lindo com menos 15 centímetros — disse ela, para agradá-lo.

O sorriso dele saiu torto.

— E agora sou o quê?

— Burro e convencido? — sugeriu ela.

— Mas você me ama assim mesmo, não é? Ela suspirou.

— É o jeito.

— É mesmo. Ele deu uma gargalhada curta, leve.

— Não se preocupe — disse ela, fazendo um carinho reconfortante nas costas dele, antes de se afastar para ver como estava o pão de milho, que já perfumava o ar com seu cheiro inconfundível. — É só questão de tempo.

Encarou-a, imaginando se seria fácil para ela ler seus pensamentos. Ou se teria dado algum crédito aos boatos de que ele e a viúva Bancroft tinham um envolvimento sério.

Se pensasse assim, mesmo que sem muita certeza, então não importava o que todos os outros em Hillsboro pensassem, ou em que acreditassem. Nada importava.

Em Hera Silvestre, na manhã seguinte, a primeira coisa que ele ouviu, quando desceu da moto, foi o som de marteladas. Vinha dos fundos da casa. Seguiu o ruído até o quintal.

Laurel estava lá. Batia, com mais energia que resultados, um prego na estaca da cerca, mas não foi isso que deteve os passos dele. Era o aspecto dela.

Estava de chort de malha turquesa, uma blusa combinando, sem sutiã por baixo, e sandálias tão leves que parecia descalça. No cabelo, uma trança que descia pelas costas e chegava quase à cintura. A pele úmida com o esforço fazia com que a blusa grudasse no corpo, de modo que cada movimento dos seios redondos e firmes podia ser visto claramente. Tinha a aparência de uma adolescente, e muito apetitosa. E ele sentiu a fome de toda uma vida.

Andou até ela, chegando mais perto, a menos de um passo. Quando alcançou o martelo, disse:

— Olhe, deixe que eu faço isso.

Ela deu um grito e rodopiou. Ele segurou o martelo a tempo de não ser atingido, mas foi por pouco. Tinha que ser mais cuidadoso, quando estivesse perto dela.

Ela relaxou visivelmente, ao mesmo tempo em que um suspiro de alívio saiu dos lábios. Depois se aprumou. Com os olhos faiscando fogo azul, indagou:

— O que você pensa que está fazendo, chegando junto de mim sorrateiro desse jeito, como uma cobra?

— Dando uma ajuda — sugeriu.

As palavras eram delicadas, mas ele não reprimiu o sorriso que as acompanhou, nem o calor no olhar.

Por longo tempo, a memória do beijo partilhado no dia anterior pairou sobre os dois. Foi ali, no silêncio constrangedor, no modo pelo qual dedos e lábios se entorpeceram, a forma como os lábios se abriram. Olhou ao longe, finalmente. Ela também. Pensou que resolvera, como ele o fizera, que o melhor era ignorar o assunto. Que talvez tudo passasse se eles não lhe dessem muita importância.

Porém, ao desviar o olhar, ele o passou para a frente da blusa. Não foi bom. Era tudo que ele podia fazer para se segurar, quando reparou o que a respiração profunda fazia com as curvas suaves sob a malha de algodão. Colocou uma das mãos no bolso de trás e, com a outra, segurou com força o martelo.

— Só esperava você daqui a uma hora, pelo menos — disse ela com uma ponta de acusação. — Por que chegou tão cedo?

Ele quis pegá-la em flagrante, é claro. Imaginou que ela se levantava ao raiar do dia para trabalhar no jardim, e depois se retirava para dentro de casa, na hora de ele chegar. No entanto, confessar isso não era a melhor idéia, no momento. Em vez disso, falou:

— Ontem não trabalhei o dia inteiro.

As sobrancelhas dela se juntaram na testa, enquanto o olhava de cima a baixo.

— Tem certeza de que vai trabalhar?

— Positivo. Sou rápido para me recuperar.

— Não precisa fazer isto. O trabalho vai esperar. Ainda vai estar aqui quando você estiver pronto.

— Já estou pronto — respondeu com um resmungar calado, só para si mesmo.— Fiquei bom... quer dizer, estou bem, muito bem.

Desviou novamente o olhar, sentindo-se pouco à vontade com a avaliação que ela fazia. Bateu os olhos na caixa que estava no chão, ao lado dela. Dentro, estava o que parecia ser uma peça de terracota.

— O que é isto?

Ela lhe explicou, embora parecesse prestar pouca atenção naquilo, como se esperasse algum comentário pouco abalizado.

Boca da Verdade, parece - disse ele ao se ajoelhar para examinar a peça. — Já vi Green Men inspirados em Baco ou nas quatro estações, mas ainda não tinha visto esse. É seu e combina com você. É mais suave, não tão agressivo.

Receando ter falado demais, acenou com a cabeça para o prego que ela batia na estaca.

— Vai ficar ali?

Quando ela concordou, também com um aceno de cabeça, ele se levantou, foi até a estaca e bateu o prego na profundidade correta com duas marteladas fortes.

— Exibido — disse ela.

Deu um sorriso enviesado, sabendo que ela estava correta. Apesar de que, dela e da avó, sabia que nunca sairiam muitos elogios.

Ergueu a pesada placa e pendurou-a no prego, ajustando-a de acordo com as instruções dela, que tomara alguma distância. Então, ele se afastou até onde ela estava, para admirar o trabalho. Exceto pelo fato de ser nova e estar limpa, parecia que sempre estivera ali. E deu a ele uma idéia.

Em tom pensativo, falou:

— Sabe o que falta aqui?

— Não, e espero que você me diga. Deixou passar a insinuação e respondeu:

— Colunas.

— Colunas? — repetiu ela, confusa.

— Pilastras, entende? Gregas, romanas, talvez maias. — À medida que as feições dela expressavam a compreensão, ele prosseguia. — São bases bonitas para plantas suspensas, ou eu podia instalar numa delas um filete de água, e ia se cobrir de musgo antes de você ter tempo de piscar o olho. Se puser duas lado a lado, com um apoio em cima, você tem um portal, uma entrada para um recanto qualquer do jardim que quiser. Quem sabe alguma coisa em estilo italiano ou espanhol.

— Ou inglês, e se você fizesse em estilo Stonehenge?

— Exatamente — disse ele, satisfeito com a facilidade com que ela seguia seu raciocínio.

— Onde nós vamos conseguir as tais colunas? Ele gostou do som daquele ”nós”.

— Fazendo de pedra moldada, com reforço de concreto e aço para as mais altas. Quanto mais tempo duram, mais firmes ficam, depois que saem dos moldes, até que viram Pedra como se fosse de verdade. Não custaria muito caro se nós dois fizéssemos o trabalho.

O olhar dela foi demorado, como se soubesse o que estava por vir, ou pelo menos suspeitasse. E ele imaginou que seria boa psicologia expandir seus limites, trazendo-a mais para fora de casa. Sob este ponto de vista, não tinha contra-indicações.

— Sabe onde encontrar o material para essa pedra moldada? — indagou finalmente.

Fez que sim com a cabeça, prendendo o riso.

— Sem problemas. Pode deixar comigo.

Ela não voltou para dentro de casa. Calçando luvas de trabalho, ajudou-o a empilhar e queimar os ramos de pinheiro cortados, junto com o mato e o entulho do jardim. Não sabia ao certo se teve ajuda por ela sentir pena dele, machucado e dolorido, ou por sentir-se culpada. Qualquer que fosse o motivo, não tinha objeção a fazer. Estava feliz demais com a companhia, mesmo que o trabalho fosse uma tortura.

Ficava tonto ao vê-la juntar braçadas de folhagem. Cada vez que se abaixava, o chort subia mostrando a parte posterior das pernas, levando-o à loucura. Não chegou ao ponto de mostrar as curvas do bumbum, mas ele não perdeu a esperança.

Pensou em subir no que restou do tronco enorme da árvore e terminar o trabalho ao mesmo tempo em que se mantinha afastado da tentação. Porém, não sabia se o joelho o sustentaria, por maior que fosse a força de vontade. Desistiu da idéia enquanto reunia forças para olhar para outro lado que não o da ajudante.

De qualquer modo, a tentação se esvaiu com a chegada de Maisie. Laurel entrou em casa com ela para resolver o que faria para o almoço e não voltou. Isto aborreceu bastante Alec, principalmente por ter achado que estavam progredindo. Pareceu que Laurel queria fugir da sua companhia.

Terminou de empilhar os últimos ramos na fogueira. Então, como dava para ver o fogo da garagem, voltou para o conserto do carro, abandonado desde a semana anterior. Não lhe agradava a idéia de terminar o serviço. Traria os pneus no dia seguinte; teria que esticar o dinheiro.

Foi depois do almoço que viu a pegada. A marca na terra mole debaixo da janela do quarto de Laurel, no local em que ele arrancara a muda de sassafrás pela raiz, parecia ser de um sapato ao escorregar. Aproximou sua bota de trabalho apenas para se certificar de que a marca não fora feita por ele. A resposta foi não. Não mesmo. A pegada era muito mais curta do que o número que calçava e o contorno inteiramente diferente. Por outro lado, era larga demais para ter sido deixada por Laurel, e Maisie usava sapatos com sola de couro liso, como as enfermeiras e garçonetes.

Laurel teve um assaltante por perto.

Deveria guardar a descoberta para si mesmo ou contar a ela? Alec não queria assustá-la, mas não tinha escolha.

Ela atendeu à batida com a sobrancelha levantada. Assim que abriu a porta, ele perguntou:

— Tem um minuto para ver uma coisa?

— O que foi agora? — indagou, pondo a mão no quadril. Já tinha virado as costas enquanto ela falava. Voltou-se.

— Nada — foi lacônico. — Só venha dar uma olhada, pode ser?

— Você mesmo resolve isso. Estou ocupada. Ia fechando a porta.

Ele estendeu a mão para mantê-la aberta. Talvez ela tivesse o direito de desconfiar, talvez não, mas ele não estava disposto a fazer rodeios. Com voz dura, falou:

— Isso não é piada, nem estou inventando pretexto para tirar você de casa. É uma coisa que quero lhe mostrar. Pode vir por vontade própria, ou carregada. De um jeito ou de outro para Laurel, quase parecia que Alec Stanton tinha duas personalidades distintas, e oscilava de uma para outra quando lhe convinha. Às vezes, era um garoto de sorriso largo e olhar malicioso, outras vezes, era agressivo e com cem anos de idade.

Apertando os olhos, ela disse:

— Não vou a lugar algum enquanto não me disser o que há de tão importante para você não me tratar de um jeito mais civilizado... Ei!

Prendeu a respiração quando ele a ergueu no ar, como se não pesasse mais que uma braçada de ramos de pinheiro. Rodopiou, desceu com ela os degraus e contornou a casa. Mancava um pouco, por conta do joelho machucado, mas uma noite de descanso parecia ter operado maravilhas. Ela se segurava com o braço em torno do pescoço dele e a mão agarrada a um punhado de tecido da camisa. Ao mesmo tempo, lutava para deter as batidas descontroladas do coração e o gotejar de algo em suas veias, que deveria ser de medo mas, definitivamente, não era.

Cometera um erro, isto estava bem claro. Mas não iria aumentá-lo lutando contra ele. Dignidade, precisava disso agora. Dignidade, conpostura, e segurar firme no que estivesse ao alcance da mão.

Com voz suave e delicada, os lábios a poucos centímetros da orelha dele, disse:

— Está demitido.

Ele vacilou, e Laurel não soube dizer se foi por causa do que lhe disse ou por sentir seu hálito quente. Ainda assim, respondeu de imediato:

— Não pode me demitir porque eu é que estou pedindo demissão.

— Ótimo.

— Ótimo. Só que da próxima vez em que contratar alguém, é melhor não se esconder dele.

Ela enrijeceu.

— Não estava me escondendo de você!

— Queria me enlouquecer. E por que então se trancou dentro de casa?

— Tenho o direito de não ver as pessoas, sem que isso seja considerado me esconder.

— Ah, é? Acho que estava com medo.

— Que ridículo!

— Morre de medo das pessoas que ficam olhando para você. Fica apavorada com o que elas vão dizer. Não importa se o único motivo para falarem de você é o fato de levarem vidinhas chatas demais e sem assunto.

— Não sabe do que está falando!

— Não sei? — retrucou com um olhar contundente. — Mas se não for por isso, então é porque está com medo de mim.

— Mas isso é realmente uma bobagem. Você é a única pessoa, além de Maisie, que não me faz sentir...

— Sentir o quê? — indagou quando ela relaxou. — Como se não tivesse o direito de viver porque seu marido morreu? Que devia ficar presa como se fosse criminosa porque não merece sair por aí em liberdade?

— Não me sinto assim. — As palavras soavam ásperas.

— Acho que sim. Mas então quem é o causador disso, se não sou eu nem Maisie? Sua sogra? Ela não tem esse poder. Seus filhos? Por que se preocupar com eles, que têm tão pouco tempo para você?

Ela tremia, como se cada palavra fosse uma bofetada.

— Prefiro minha privacidade — falou, inclinando o rosto —, e gosto da minha casa. Tudo que desejo está aqui, tudo de que preciso. Qual o motivo para sair daqui?

— Faz você se sentir segura — replicou ele.

— Exatamente — gritou, vitoriosa.

— Bem, não se sinta tão segura — disse ao parar nos fundos da casa, onde se situava o quarto de dormir, colocando-a no chão. — Qualquer lugar pode ser assaltado.

Por um instante, não entendeu do que ele estava falando. Então, com um gesto brusco, indicou a pegada sob sua janela.

Tomou fôlego com dificuldade, enquanto olhava Fixamente a marca denteada na terra macia. Medo gelado percorreu seu corpo. Soltando o ar dos pulmões, disse:

— Um voyeurl

— Pode ser. Ou, talvez — continuou delicadamente —, alguém que esteja interessado em saber o que você faz quando está fechada dentro de casa. Já aconteceu isso antes?

Sacudiu a cabeça.

— Não, por causa de Sticks.

— Só que ele não está mais aqui. — As palavras estavam carregadas de significado.

— Você não acha que alguém deu fim nele só para poder...

— Não seria a primeira vez.

— Quem? — indagou ela, em desespero. — Quem faria uma coisa dessas?

— Qualquer um — respondeu ele com voz séria. — Você é bonita, mora sozinha aqui, afastada de todo mundo. O lado bom é que esse problema nunca aconteceu, antes.

Fechou as mãos sobre os pulsos, desviou-se dele e gritou:

— Por que está acontecendo tudo isso agora... Sticks, esse falatório, alguém me espionando? O que foi que eu fiz?

Segurou-a pelo braço, colocando-a de frente para ele. Com voz severa, falou:

— Você não fez nada! Tire isso da sua cabeça. Essas coisas não são culpa sua.

— Então é culpa de quem? — indagou, tentando soltarse dele, sem conseguir.

— Talvez minha. Talvez de ninguém. Como vamos saber? Mas, com certeza, não é sua!

— Como é que você sabe? Não faz a menor ideia de quem sou, do que faço ou deixei de fazer. E não imagina do que sou capaz quando acho que estou com a razão!

Um esboço de sorriso brotou nos lábios dele, que sacudiu a cabeça.

— Ah, eu conheço você — disse em voz baixa. — E sou capaz de apostar tudo o que tenho que não faria mal a alguém. Mas você tem razão em uma coisa: não a conheço bastante para saber de tudo que é capaz de fazer. Mas uma coisa lhe prometo: um dia vou saber.

As palavras mergulharam nela como uma bênção. Queria acreditar nelas, precisava daquilo mais do que jamais imaginara.

Mas não teve coragem. Havia coisas demais contra eles dois, mesmo que se dispusesse a confiar no que dizia. A consciência deixou-a irritada e na defensiva.

Falou com ênfase:

— Não force a barra.

Deu um sorriso amplo, insensível. Soltou-a e pôs as mãos na cintura.

— Vai fazer o quê? — perguntou com calmo deboche. — Já me demitiu.

— Vou chamar a polícia.

Ela não sabia de onde tirara a ameaça. Sabia apenas que não podia deixá-lo no controle da situação.

— Faça isso — disse e uma sombra negra perpassou pelas profundezas de seus olhos. — Não vai ser novidade.

Ela não quis dizer isso. Ou quis? E de que ele estava falando? Então os boatos tinham fundamento, ele já estava acostumado com a polícia, porque fora preso pelo assassinato da mulher, a mulher muito mais velha?

— É claro, se fizer isso — continuou ele após a mais breve das pausas —, vai ter que lidar com seu amigo, o xerife Tanning.Tem certeza de que é o que você quer?

Encarou-o de olhos arregalados. Não queria enfrentar nem Dan Tanning nem qualquer outra pessoa, mas como ele ficou sabendo disso?

- Vá embora — murmurou. - Vá embora e me deixe em paz.

— Faria isso, se achasse que ia ajudar você — respondeu com sensatez e consideração. — Mas acho que não. Agora, não. Então, você está colada em mim.

— Isso é o que você pensa — dardejou ela. — Não pode trabalhar para mim se eu não lhe pagar.

Deu uma gargalhada, mas em tom baixo.

— Ah, Laurel, não se trata do emprego. É outra coisa, você sabe, não é?

— Não. Não, não s.ei - foi tudo o que conseguiu dizer para se proteger.

— Acho que sabe, sim — disse ele, erguendo o olhar — E sabe que não pode se esconder disso, nem de outras coisas. Agora, não mais.

Laurel plantava rosas quando Alec apareceu na manhã seguinte. O furgão fizera a entrega na tarde anterior, uma dúzia, em vasos grandes. Regou-as bastante e podou sem pena as flores e os brotos, para aumentar a resistência da muda. Nesta manhã, passava-as para a terra antes de o sol esquentar.

Concentrou-se na tarefa ao ver Alec descer da moto e caminhar na direção dela, com muita naturalidade nos movimentos. Os vários ferimentos e arranhões começavam a sarar, não mancava mais. Parecia tão bem, tão confiante, que ela ficou aflita.

Pensou em lembrar-lhe de que havia sido demitido, em lhe dizer para ir embora e nunca mais voltar. Não era o que queria, mas seria o melhor. Então, qual era o problema? Ele não prestara a menor atenção nisso, na véspera.

Quando estendeu a mão para apanhar a pá, ela a reteve. Observava-a, com olhar penetrante, com pressão insistente sobre a ferramenta. Ela sentiu os batimentos do coração se acelerarem. Abruptamente, soltou a pá, deixou ficar com ele. A chama da vitória brilhou em seus olhos, mas, pelo menos, ele não tripudiou.

Juntos, plantaram as roseiras, trataram o solo em torno delas, regaram-nas. Movendo-se em conjunto e com escassos comentários, reconheciam um no outro os gestos mais contidos, previam as necessidades, como se trabalhassem juntos há vários anos. Curiosamente, era agradável, mesmo com o sol batendo neles e o suor escorrendo dos ombros. Mais tarde, tomaram café com croassant na varanda — ou melhor, ela tomou café e ele, chá de ervas.

Apreciaram a fluida luz do sol ajuntar-se por trás do telhado, e pouco conversaram. Foi melhor assim. Ele bocejou, profunda e confortavelmente, cobrindo a boca com a mão. Imediatamente, ela fez o mesmo.

Ele riu, mas logo a expressão de divertimento desapareceu do rosto. Tinha voz calma quando perguntou:

— Assustada demais para dormir esta noite?

— Um pouco nervosa — admitiu.

Ele hesitou, como se quisesse dar uma sugestão, mas desistiu de falar.

Depois de um instante, Laurel indagou:

— Então, qual é a sua desculpa?

— Coisas demais na minha cabeça — respondeu.

Ela chegou a abrir a boca para perguntar o que ele queria dizer, mas algo na maneira de olhar fixamente o parapeito, com ar distante, fez com que mudasse de idéia. Trabalhando juntos, eles se saíam muito bem. Compartilharam planos e realizaram tarefas, como parte de um relacionamento decente e impessoal, pelo menos na aparência. Porém havia algo mais implícito, em suspenso, entre eles. Ambos o sabiam, mesmo que o ignorassem. O problema era a dificuldade em esquecê-lo nos momentos de descanso, quando podiam parar para se olhar cara a cara.

Depois de certo tempo, levantaram-se e voltaram ao trabalho.

Naquela manhã, estabeleceu-se um padrão para os próximos dias. Variavam apenas as tarefas de que se encarregavam e o local para suas refeições improvisadas. Era surpreendente o que tinham conseguido — arbustos aparados, plantas perenes mudadas de lugar, os fertilizantes, e regar, revolver e queimar, que ocuparam seus dias.

Alec terminou de derrubar o pinheiro, cortando-o no sentido do comprimento em toras de um metro, rolando-as depois até o limite do terreno com o bosque, onde as empilhou em quadrados para conter adubo orgânico. Na manhã seguinte, apareceu com as sacas de material para a pedra moldada na carroceria da velha caminhonete de vovó Callie. Com a ajuda de Laurel, passou três dias fazendo um portal italianizado e uma série de colunas de tamanhos diversos.

Ao final da semana, o terreno em torno da casa começou a tomar seu aspecto definitivo. Toda a área estava tão bem planejada e organizada que seria correto chamá-la de jardim. Os canteiros de rosas na frente, em torno da fonte, adquiriram forma acompanhados por cravinas, sálvias-azuis e crisântemos, emoldurados por uma fileira baixa de buxo. O equilíbrio era obtido com grandes camélias e outros arbustos nos cantos da cerca. Os galhos da magnólia, que desciam quase ao chão, foram aprumados mais para o alto, de modo que revelasse toda sua imponência, enquanto as rosas antigas nos caramanchões aumentavam a harmonia do conjunto.

O lado direito da casa transformara-se em uma ala especial. A tampa da velha cisterna ostentava uma coleção de vasos feitos a mão por Laurel, nos quais se esparramavam gerânios europeus. Do lado contrário, ao longo da cerca, ficava uma pérgula, com duas fileiras de colunas terminando em arco sobre o banco, e o limite marcado por uma moita de arbustos que se prolongava para abrigar um lago retangular, exibindo uma fonte que borbulhava no alto de uma coluna, formando cascata ao cair em um lago de lírios.

O novo portal italiano marcava a entrada de um jardim romano no canto direito ao fundo, com ervas aromáticas como manjericão, orégano e tomilho, ao longo de um caminho pavimentado. No centro, as lajes eram cercadas dos dois lados por colunas que sustentavam vasos com hera ou valeriana, formas cadentes de iúca. Ao fundo, havia um muro de pedras irregulares, no qual fora instalada a Bocca delia. Vertia como ponto focal.

Do outro lado da casa, a parede da garagem ostentava um grande deus Baco esculpido por Laurel. Alec transformara o estranho Baco de olhos revirados em fonte. Porém, ao contrário da original que a inspirara, dali não jorrava vinho. Em vez disso, a água saía para encher uma bacia com plantas aquáticas, e foram plantadas videiras em cada lado para que um dia a emoldurassem.

Perto da varanda dos fundos, outros espelhos dágua complementavam a tigela marinha de Laurel, criando o que Alec chamou de jardim zen. Uma bacia mais funda foi colocada para aparar gotas cuidadosamente calculadas de uma bica e que produziam uma ligeira ondulação na água que se espalhava até as bordas e voltava para o centro, no ritmo constante de um coração batendo lentamente.

A cada dia, o jardim adquiria vida e magia. Pássaros, sapos e libélulas eram atraídos pela água. Rãs, camaleões e lagartos de cauda azul apareciam em meio à folhagem. Borboletas rodopiavam em graciosos volteios, e abelhas sonolentas zumbiam ao explorar as flores. Laurel observava e sorria, sentindo-se relaxada, espalhando-se pelo espaço incomparável que ela e Alec criavam com suor e dores musculares, mas também com amor.

A paz durou pouco. Foi o próprio Alec quem a interrompeu.

Para o almoço, fizeram piquenique com uma velha toalha xadrez aberta nas pedras do jardim italiano, onde um cedro alto espalhava sua sombra. Ela terminara de comer e estava sentada com os joelhos dobrados, vendo Alec tomar a última lata de bebida. A linha morena e musculosa do pescoço dele, o modo como se movia ao engolir, provocaram-lhe uma estranha sensação no baixo-ventre. Concentrada, mal reparou quando ele levantou a lata vazia, amassou-a com a mão e falou na direção dela:

— Poderia tirar seu carro da garagem para mim?

O primeiro impulso foi de uma recusa direta, mas ela o sufocou. Ao contrário, disse:

— Para quê?

Havia curiosidade mordaz nos olhos negros, quando ele se virou para ela.

— Deixei o pátio atrás da cerca bem limpo para cortar a grama e tirar o mato. O cortador de grama está nos fundos da garagem, mas só vou poder chegar lá se você tirar o carro.

O pedido era razoável. Mesmo assim, um dos principais motivos para Hera Silvestre estar em tão mau estado era o fato de ela não conseguir entrar no carro, impossibilitando o uso do cortador.

— Duvido que funcione — disse com naturalidade estudada.

— O carro ou o cortador?

— Os dois.

As palavras saíam recortadas, como resultado direto do lhar dirigido para seu rosto.

— O cortador não precisa funcionar; posso empurrar para fora e dar uma olhada nele. Mas quanto ao carro, acho que sim, porque já andei mexendo com isso: troquei mangueira e fusíveis, bateria nova. Liguei para testar, mas não queria tirar do lugar sem falar com você. — Aguardou a resposta, com expressão imutável.

— Você não tinha o direito de fazer isso! Levantou um ombro rígido.

— Era só mais uma coisa que precisava ser feita.

— Não lhe pedi para consertar o carro.

— Também não disse para não fazer. Vamos, Laurel. É uma coisa à toa. Só tirar o carro.

— Você sabe... — começou, depois parou.

— É, eu sei — disse com um aceno curto de cabeça. — Também sei que não vai se livrar do medo cedendo a ele. Já fez um grande progresso até agora, saindo de casa, ficando cada vez mais tempo do lado de fora para trabalhar comigo. Já está na hora de dar outro passo à frente.

— Ora, faça-me o favor — disse em tom de deboche —, não me venha com essa filosofia zen. Não sou débil mental, nem sou criança para você brincar de fazer alguma coisa só porque pensa que sabe o que é melhor para mim. Não quero dirigir o carro. Não sei como dizer isso de modo mais claro.

— Você deixou claro é que está apavorada. Apertou os braços em torno dos joelhos.

— E daí? Todo mundo tem medo de alguma coisa. Até você.

Com um olhar de quem estava interessado, ele perguntou:

— De que tenho medo?

— De falhar — respondeu sem hesitação. — De deixar as pessoas na mão, principalmente as que dependem de você, ou daquelas com quem você se preocupa. Trabalha como um condenado porque acha que vai consertar isso. O que você não vê é que nem tudo pode ser consertado.

— Não me venha com existencialismo — disse ele, devolvendo as palavras dela própria. — Pelo menos eu tento.

Tudo o que ela conseguiu dele foi um olhar de espanto. Procurando um terreno mais firme, falou:

— Mas não importa, de qualquer jeito. Os pneus estão baixos.

— Não estão mais. Arregalou os olhos.

— Você botou pneus novos no meu carro?

— E se tivesse?

— O que o faz pensar que vou pagar por uns pneus que não quero?

— Não tem que pagar. São por minha conta.

— Mas é muito caro para você... — começou e se deteve, alertada pela contração repentina do rosto dele. Tomou fôlego e deixou sair o ar. — Você pode devolver para onde comprou.

— Não — replicou e a palavra soou rude, apesar da calma.

— Então vou pegar as chaves e você mesmo tira o carro, porque não vou entrar nele.

Analisou-a por um momento, e então falou:

— Você deve ter gostado de ser carregada no colo, outro dia.

— Pode ser que você consiga me colocar lá dentro — desafiou, inclinando a cabeça —, mas não pode me obrigar a dirigir.

— Quer apostar?

Não havia traço de humor no rosto dele. Com amarga ironia, ela disse:

— Ah, é claro. Uma ameaça por trás de tudo. Que tipo de atitude é essa?

— A minha.

Ela tremia, sem saber se de terror diante do que ele queria que fizesse, ou de raiva por forçá-la a fazê-lo. Os dedos ficaram brancos, de tanto que os apertava, mas não conseguia soltá-los. Entre os lábios semicerrados, disse:

— Não posso.

— Pode, sim.

— Não posso! Eu juro, não posso!

— Mostre — exigiu ele. — Prove que escroto eu sou por ver o que acontece com você. É tão difícil isso?

— Não quero que você veja!

As lágrimas forçavam a saída nos olhos dela. Piscou com força, tentando desesperadamente segurá-las.

— Por quê? Que diferença faz? Você não liga para O que penso.

— Faz diferença. Eu ligo.

As palavras, não muito coerentes, foram extraídas das profundezas.

— Então faça isso por mim — suplicou ele com voz suave. — Porque pedi.

Como negar? Deus do céu, como? Se não tentasse, ele ia carregá-la nos braços e colocá-la no banco do motorista. Ela não queria, não precisava daquilo. Não, de novo, não. E ainda assim, ele não ia deixar passar, não ia desistir enquanto ela não fizesse papel de tola. Bem, então tinha de acabar com aquilo. E quanto mais cedo, melhor.

Pondo-se de pé, afastou-se dele com passadas largas, indo na direção da varanda dos fundos, com entrada para a casa. As chaves do carro estavam penduradas no gancho de latão em estilo vitoriano, próximo à porta, exatamente onde estivera por cinco longos anos. Apanhou-as, sentiu o frio do metal contra a palma da mão, apesar do calor daquele dia.

Maisie, virando-se da pia em que lavava os pratos, indagou em tom preocupado:

— O que houve? Que gritaria era aquela entre você e Alec, lá fora?

— Nada — disse Laurel.

Não queria conversar sobre o assunto. Com a cabeça vazia, talvez conseguisse. Sim, era isso. Vazia, tinha que manter a mente completamente oca. Assim poderia mostrar a ele. Desviando-se de Maisie, escancarou a porta da cozinha.

Mostraria a ele. Sim, mostraria. Os homens são todos iguais. Deste modo saíra de casa naquele dia, no dia em que Howard morreu, batendo a porta dos fundos e marchando pelo caminho de concreto até a garagem. Acompanhando a parede lateral e dando a volta para chegar às portas abertas, para machucar e com raiva de pensar ou prestar atenção aonde ia, no que estava fazendo.

Howard dissera que ela trabalhava demais no jardim, que largava a casa e os filhos, enquanto ficava suspirando para ter roseiras que, de qualquer modo, eram caras demais. Mas se podiam comprar uma caminhonete para Evan, então podiam também pagar por umas rosas, e ela estava saindo para comprá-las nesse mesmo dia. Howard podia gostar ou se danar!

A garagem, como sempre, tinha cheiro de fertilizante sobreposto ao de óleo rançoso e poeira velha. Abrir de um tranco a porta do carro e deslizar para trás do volante. Colocar a chave na ignição. Girar e ouvir o ruído do motor. Puxar o cinto de segurança e afivelá-lo.

Automático. Sem pensar. Uma olhada no espelho retrovisor. Nada atrás. Ligar o carro e liberar o combustível. Sem pensar, sem lembrar. Em movimento. Virar-se e olhar para trás sobre o ombro direito, só Para se certificar. Deste modo vira Howard naquele dia, vindo do jardim da frente na direção dela. Howard, correndo atrás dela, gritando

Alec!

Alec estava atrás do Buick.

Laurel baixou o pé no freio com tanta força que sentiu a Pressão na cabeça. Tarde demais! O pára-choque traseiro bateu com um baque surdo. Foi jogada para a frente, e parou presa pelo cinto. Ficou sentada em perfeita imobilidade por um momento. Depois, com um soluço entrecortado, passou os braços no volante e enroscou-se enquanto se dissolvia em lágrimas.

A porta se abriu do seu lado. Alec projetou-se para dentro, colocou o carro em ponto morto e desligou o motor. Segurou-a então pelo braço e a puxou para fora, apertando-a contra si, amparando-a, embalando-a e murmurando no ouvido dela:

— Está tudo bem, estou legal. Você não me atingiu, não mesmo. A roda traseira bateu em um toco de pinheiro, só isso.

Ela o ouvia, mas as palavras não eram entendidas. Na agonia de recordar o horror e um medo de novo, ela o apertou com mais força.

Alec segurou-a pela cabeça, aninhando o rosto no seu pescoço.

— Está tudo bem. Você pisou no freio no instante em que me viu. Mais depressa era humanamente impossível. Entendeu, Laurel? Você tentou parar, fez isso mesmo. Usou o freio, mas bateu no toco, da mesma maneira que bateu no seu marido aquele dia. Não teve como impedir. Não havia como, não vê? Se tirar o carro daí, vai ver as marcas dos pneus para provar. Está me ouvindo, Laurel? Você tentou parar, mas não conseguiu. Foi um acidente. Esse tempo todo, e foi só um acidente.

Alec sentia uma dor interna, cortante. Reconheceu a dor de Laurel, o pavor que sentia e o tremor de aflição como se fossem dele. Sentiu as lágrimas quentes que molhavam sua camisa e continuavam intermináveis.

Não previra que seria assim. Esperava que ficasse com raiva dele, mas tão aliviada por saber que era de fato inocente que não faria diferença. Alec preparou-se para alguns minutos de nervosismo e recriminação, talvez, mas nada como agora. Nem imaginava como seria difícil para ele suportar isso, ou que cada lágrima o queimaria como ácido.

Deveria ter previsto.

Pretendia libertar Laurel de seus temores, não causar-lhe mais desgosto. A maneira como tremia em seus braços era suficiente para lhe provocar dor no peito e fechar sua garganta em solidariedade. Tudo em que conseguia pensar era embalá-la lentamente e esperar para saber qual seria a punição pelo que provocara.

Ainda assim, era tão bom abraçá-la, tão bom que ela o permitisse. Poderia ficar ali para sempre, dizendo coisas sem sentido, acariciando a trança grossa que lhe descia pelas costas, registrando na mente a sensação de suas curvas quentes e doce feminilidade. Chegava a gostar da dependência e da aceitação dela, de um modo peculiar — gostava demais. Como ela descobriria logo, se ele não fizesse alguma coisa.

— Não chore, Laurel — disse com voz pouco firme, falando no meio do cabelo dela. — Por favor, não. Você tinha razão a meu respeito. Tenho medo de falhar com as pessoas importantes para mim, tenho medo de não agir certo, de me atrapalhar em vez de facilitar as coisas. O que fiz aqui foi uma grande confusão, mas a intenção era fazer o melhor. Ainda pode funcionar, se você voltar para o carro agora mesmo e tentar de novo...

O corpo dela enrijeceu junto dele, em parte pelo choque, Pensou Alec, mas também de raiva. Erguendo a cabeça do ombro dele, falou com incredulidade:

— Quer que eu entre de novo nesse carro?

— Não é um monstro, só um veículo, feito de metal e plástico. Só faz o que você mandar.

— Quase passei por cima de você! — A expressão do rosto mudou. — Eu pensei... Você disse que bati num toco de pinheiro?

Ele concordou com a cabeça, deixando, deliberadamente, que a demonstração perturbadora estimulasse nela a raiva.

— Deixe-me pensar... Você jogou atrás do carro, para eu bater nele, não foi? Ah, infeliz!

Agarrou um punhado do tecido da camisa dele e sacudiuo, mas Alec nem balançou.

— Bem, eu queria provar uma coisa — disse em tom racional —, e assim foi melhor do que deixar você passar por cima de mim.

— É questão de ponto de vista. — A boca de Laurel mostrava um aspecto rebelde. — De qualquer maneira, não ligo! Você é o homem mais arrogante, inescrupuloso e insuportável que já vi. Aposto que nem pretende consertar o cortador de grama!

— Nada disso. Eu gostaria de começar agora mesmo. Se você Fizer a gentileza de sentar o traseiro bonitinho nesse carro, eu fico muito agradecido.

Era uma clara provocação, arrogante e inescrupulosa como tudo aquilo. Mas não estava preocupado com o fato de ela o chamá-lo disso ou daquilo, nem com o que fizesse com ele, desde que parasse de chorar.

— É mesmo? — retrucou ela, semicerrando os olhos até restarem duas listras azuis. — Por que não fica lá atrás de novo, para vermos se consegue pular bem depressa...

Parou sem fôlego, para tomar ar, e tapou a boca com a mão.

Ele fez uma careta de nojo.

— Eu a irrito demais, não é?

— Não queria dizer isso — falou, mudando de expressão ao baixar a mão. — Ah, Alec...

— Sei que não queria. Não se preocupe. Além disso, tenho pele grossa e cabeça dura. Não ia conseguir me machucar, nem se tentasse. — Segurou-a pelo braço, conduziu-a outra vez até a porta do carro, que estava aberta. — Mas vou tirar o toco do caminho e entrar no Buick com você. Desta vez, vai sair tranqüilamente e sem problemas. Depois, vamos procurar as marcas dos pneus.

Ela resistia a cada passo. As mãos tremiam tanto que quase não conseguiu girar a chave. Foi preciso fazer muito mais graça e afrontas, mas por fim cerrou os dentes e manobrou o carro. Uma vez que o Buick já estava parado na estrada, ele apontou as duas marcas de pneus — uma delas negra e nova, a outra, desbotada e encoberta por sujeira e folhas. Observou a tensão se dissipar do rosto dela, à medida que tomava consciência dos fatos e os aceitava, e perguntou-se por que ninguém nunca lhe mostrara isso antes.

Mas não era difícil imaginar a resposta, não mesmo. Nunca ouviram o que tinha a dizer, nunca quiseram saber como ela se sentia em relação ao marido que morrera, ou sobre a culpa que a assolava de tempos em tempos. E por não saberem, sequer imaginarem, nunca lhe deram respostas.

Ele sabia porque estivera ali. Ali e atrás no tempo.

Laurel Bancroft, porém, era diferente. Quando tudo terminou, voltou-se para ele. Alívio e naturalidade apareceram em seu rosto quando sorriu para ele. Com voz calma e clara, disse:

— Obrigada, Alec.

Obrigada. Depois de tudo o que fizera por ela. Sentiu-se como se tivesse lhe dado uma medalha. E perfurado seu coração quando foi colocá-la.

Ao cair da tarde, fazia um calor opressivo e abafado. Alec consertou de qualquer jeito o cortador de grama — trocou as velas, limpou o carburador, removeu do tanque o resíduo viscoso de combustível e afiou as lâminas. Mas não o ligou, porque Laurel estava descansando. Depois de assistir à função, por trás dele, durante alguns minutos, vagou pelo jardim e se instalou na varanda da frente. Ficara calada tanto tempo que era quase certo que tivesse adormecido. Ele sorria ao pensar nisso, porque significava que se sentia segura com ele por perto. Pensou também que era um indício de que se libertara de parte da velha culpa, da dor, e se permitia ficar à vontade consigo mesma. Ele esperava que fosse assim.

Ela se levantou mais ou menos meia hora antes do final do expediente. Soprava então um vento de chuva, como um chicote em torno da casa, ameaçando temporal. Ele encerrou o trabalho mais cedo e foi para casa. Pretendia mesmo tirar um cochilo antes que vovó Calle o chamasse para o jantar.

Por volta de meia-noite, Alec voltou a Hera Silvestre, para o local que se tornara habitual, o banco sob a pérgula. Levara uma capa impermeável que descobrira no armário da avó. A chuva que se anunciara mais cedo dissipou-se, mas uma nuvem escura apareceu no céu, a noroeste, uma hora antes. Ficou suspensa sobre a casa, com luz oscilante na superfície, como se contivesse gigantescos vaga-lumes cativos no interior, em vez de chuva.

Ele não fora até a casa na sua Harley, mas a deixara no bosque, a uns três quilómetros, na estrada. Laurel não precisava saber o que ele estava fazendo, o que fizera todas as noites desde que encontrara a pegada. Todos têm seu ponto fraco, e o dele era não gostar de ter os impulsos mais ridículos ressaltados pelas mulheres. Sabia que era um pouco melodramático fazer papel de guarda-costas, mas seria o único a perder o sono por causa disso. Se ele não se importava, não havia motivo para que os outros se importassem.

Mas Laurel se importaria, é claro. Ficaria preocupada e tentaria de tudo para ele ir embora, até ele sair do sério e fazer alguma coisa para ela ficar quieta. A maioria dos métodos que considerou para realizar a proeza pouco contribuíam para tornar sua vigília mais confortável, principalmente quando pensou que ela poderia de fato cooperar com ele. Entretanto, ainda tinham um longo caminho a percorrer para ajudar o tempo a passar mais rapidamente.

Ver a sombra dela passando de vez em quando pelas cortinas das janelas também ajudava. Isso e também observá-la nas raras ocasiões em que saía à varanda e caminhava de um lado para o outro no ar frio da noite. Alimentava as fantasias dele, sem dúvida, o modo como os cabelos dela e a túnica oriental, que usava sobre a camisola, esvoaçavam sob a luz difusa da lua.

Não havia luar esta noite, por causa das nuvens, embora em poucos dias fosse lua cheia. Seria o indício da chegada do Beltane, festival pagão que celebrava o retorno do sol, ou o solstício da primavera. Pensou se Laurel tinha consciência disto, se conhecia as lendas lascivas associadas à noite que estava por vir e as placas do Green Man que ela vinha fazendo.

Beltane, dissera uma vez o sr. Wu, era a noite em que os adoradores da Deusa Terra usavam flores e fitas nos cabelos e dançavam nus em meio aos grãos da colheita para celebrar a vida, o amor, a fertilidade. Depois, faziam amor ao luar, selando a ligação entre a mãe terra e seus filhos. Aquilo parecia, para Alec, uma tradição excelente.

O Green Man, por outro lado, era o símbolo da luxúria oculta na escuridão do luar de verão — conforme acreditavam os cristãos. Na verdade, o conceito era a metáfora da sensualidade latente em toda a natureza, e da resposta natural dos amantes à lua cheia em uma noite quente.

Se Laurel não tivesse a menor idéia das implicações de suas esculturas, não haveria de ser ele a esclarecer. Se tivesse, então a coisa toda adquiria uma outra conotação.

Alec mudou de posição no banco duro e desconfortável. Era melhor pensar em outra coisa, qualquer coisa. Não que aquele estado de excitação inevitável fosse incomum ultimamente. Não se lembrava de um tempo em que algo — nem o trabalho incansável — o impedisse de reagir à ideia de ter mulher. Não se tratava de qualquer mulher, mas da viúva Bancroft. Laurel. Gemeu em silêncio ao perceber o que a simples menção do nome provocava nele.

Esta noite havia uma luz acesa na sala e outra no quarto. Devia ser quase meia-noite e ela ainda estava acordada, talvez por causa do cochilo à tarde. Ou talvez apenas não conseguisse dormir pensando no que ocorria à sua volta. Ou quem sabe por causa Daquela tarde em que ele a tivera nos braços.

Meu Deus, os pensamentos tinham que tomar outra direção.

Deixara Gregory para ficar em vigília. Sentia-se mal jogando a responsabilidade sobre a avó, mas ela compreendia. De qualquer modo, o irmão estava se dando bem com a nova medicação contra dor. Dormia por períodos mais longos, parecia menos impaciente. Parecia mesmo ter melhorado o estado geral.

E também não era o caso de um trabalho permanente, isso de vigiar Laurel. Não levaria muito tempo até descobrir o que estava acontecendo em Hera Silvestre.

A tempestade se aproximava. O vento soprava mais forte, vergava as árvores no bosque atrás dele, rodopiava as verdes folhas soltas. O ribombar de um trovão encheu o ar. O raio atravessou o céu escuro, com luz branco-azulada que absorveu as cores do mundo nos segundos que levou para ir de uma nuvem a outra.

Alec ouviu o carro poucos instantes antes de ver o raio. Esgueirava-se pela estrada, como que se escondendo.

Ele deslizou para fora do banco com um movimento suave, pulou a cerca e misturou-se às árvores. Mal chegara ao esconderijo e o veículo fez a curva, próximo à casa, e entrou no caminho para Hera Silvestre.

Reduziu a marcha ainda mais, movendo-se muito lentamente. Era um Lincoln do ano; pouco se ouvia a máquina poderosa acima do ruído do vento e do trovão. Era de cor clara, mas impossível de distinguir o tom exato na escuridão. Porém uma coisa era certa: quem quer que estivesse ao volante, não estava bem intencionado. Dirigia com os faróis apagados.

Xingando baixinho, Alec deu um salto e deslizou junto à camuflagem do bosque, tentando chegar mais perto para ver a placa do carro. Teria que ser mesmo muito perto, pois não havia qualquer iluminação, com os faróis apagados.

Má perspectiva. Ou o motorista viu o que queria ou desistiu de seu intento ao ver luzes acesas na casa. Acelerou e seguiu em velocidade pela estrada.

Alec ainda falou palavrões, enquanto olhava o veículo se afastar. Que diabo estava acontecendo? Devia haver algo mais por trás de tudo aquilo que lhe contaram, mas não fazia a menor idéia do que fosse.

Os primeiros pingos de chuva caíram no caminho de volta para casa, outra vez. Apesar de gelados, eram esparsos e ele não se apressou. Meteu as mãos nos bolsos, arrastou-se desleixadamente pela estrada, passou ao lado da cerca e foi em direção à pérgula. Pulou por cima das estacas outra vez aterrissando em um trecho do canteiro que deixara por plantar, para sua conveniência.

Os trovões aumentavam, ressoando como uma sucessão de canhões. Logo em seguida, caiu um raio em branca explosão. Assustou-o, em meio ao silêncio, pela súbita energia e odor sulforoso; foi apanhado pelo brilho de luz, antes de envolver o mundo novamente na escuridão.

Somente quando a última lâmpada se apagou ele viu a forma difusa mover-se na sombra da varanda. Andou à frente se inclinou sobre o parapeito.

A voz de Laurel, clara e sem expressão, chegou até ele, no escuro:

— É melhor entrar — disse ela. — É grande a tentação de deixar o raio cair em você, mas acho que não vai fazer ben para as rosas.

— Vou tentar — foi a negativa áspera.

Ela cruzou os braços. Depois de um momento, disse:

— E se eu lhe propuser voltar para minha folha de pagamento?

— E se? — manteve o tom lacônico, sem se impressionar com a gentileza.

— Parece que preciso de um vigia noturno. Você pode dormir no emprego.

Era possível que ela não pretendesse dizer aquilo da maneira como soou — ou da maneira como o cérebro dele, unidir-ecionado, interpretou. Com voz desconfiada, rebateu:

— É mesmo?

— A idéia de que você está aqui fora debaixo do temporal não me deixa dormir. A casa tem seis quartos. Com certeza você vai gostar de um deles.

— Sem dúvida, mas o que os vizinhos vão dizer?

Ele lutou bravamente, mas sentia que estava perdendo a batalha.

— Quem vai saber?

— Vovó e Gregory, para começar.

— Onde eles acham que você está dormindo agora? — indagou com irritação. — Venha para dentro, está todo molhado.

Estava mesmo. Nem reparou. Se aquilo não fosse suficiente para convencê-lo de que seria um erro recusar o oferecimento dela, então nada mais seria.

Nada mesmo.

Hesitou, de fato hesitou, parado onde estava por tempo suficiente para descobrir que não tinha metade do desprendimento que atribuía a si próprio. Depois, cedeu.

 

- Por quê?

A pergunta parecia bastante natural e, mesmo assim, Laurel se sentia como se arriscasse algo ao fazê-la. Alec estava novamente diferente esta noite; havia algo de estranho, uma segurança de movimentos, o modo de falar. Era curioso, isso fazia com que também ela agisse de maneira diferente. Não ligava a mínima para o fato de sua pergunta ser perigosa.

Mostrara a ele o quarto do meio e lhe dera uma toalha para se secar. Quase o deixara lá, mas voltou até a porta. Agora a pergunta estava em suspenso e sabia que fora entendida. Ele fez uma pausa, observando-a do lugar em que estava, no centro do cômodo, com a toalha enrolada nas mãos fortes e morenas.

— Porque não gosto de assaltantes — falou afinal — e detesto ver alguém levar vantagem por você estar aqui sozinha.

— Não é comigo que você se preocupa.

— Ah, não? — perguntou e sorriu.

Charme. Como Gregory dissera, era fácil para ele. O brilho dos seus olhos era o que a atraía, percebeu ela. Era calmo, sério, e mesmo assim ria dela, de si próprio e do mundo convidando-a a compartilhar a piada. Ela queria dividir isso com ele, e muito.

Lutando contra a fraqueza, disse:

— Não quero ser motivo de preocupação. Tenho de cuidar de mim mesma.

O sorriso dele se ampliou, como se esta fosse a melhor piada.

— Não posso evitar. Você é o tipo de mulher que faz um homem querer proteger naturalmente.

O tremor que percorreu cada um dos nervos dela tinha muito a ver com a textura aveludada da voz dele, à interpretação do que disse e às palavras em si.

— Tenho uma arma — informou, contraindo a bochecha —, e sei usar.

— Que bom para você. Mas alguma vez já atirou em qualquer coisa mais sensível que uma lata?

— Não. E você?

— Uso outros métodos de autodefesa — falou tranqüilamente, enquanto secava os ombros com a toalha. — Prosseguiu sem fazer uma pausa: — Quem você conhece que tem um Lincoln?

Essa era fácil.

— Mãe Bancroft. Zelda, irmã de Howard. Metade dos médicos e advogados da cidade. Sua avó. É um carro comum, além de ser a única revenda que ainda não fechou por aqui.

Ele franziu a testa, esfregando a toalha nos cabelos, e jogou-a no braço de uma cadeira, antes de começar a desabotoar a camisa. Estava na hora de deixá-lo sozinho, pensou ela; fazia questão disso.

— Bem, se não precisar de mais alguma coisa, vou dizer boa noite. — Olhou-a dos pés à cabeça.

— Claro — disse abruptamente. — Boa noite.

Em seu quarto, ela apagou a luz e deitou-se na cama alta com dossel. Puxou as cobertas até o queixo e ficou ouvindo o ruído da chuva. Ainda caía com regularidade. Raios cintilavam pelas janelas, em incessante acender e apagar que ela associava à ameaça dos tornados. Tinha a esperança de não ser nada disso. Acabaria com o jardim, mesmo que não atingisse a casa.

No entanto, sentia-se segura em relação aos fenómenos meteorológicos. Sempre fora assim em Hera Silvestre. A grande e velha casa agüentara os temporais por mais de cem anos. Não havia motivo para não continuar por mais alguns.

Também se sentia segura quanto a outra ameaça, pelo menos por enquanto. Ela não deveria, sabia disso, levar em consideração o que disseram de Alec. Até então, não levara.

Pensava nele como o vira pouco antes, de pé no jardim, com um raio desenhando sua silhueta em prateado, refletindo-se nos cabelos, um clarão no brinco. Tinha uma aparência sobrenatural, como se saído de uma lenda ou de um sonho. Quis ir até ele, tocá-lo, como nunca quisera antes na vida. Em vez disso, convidara-o a entrar.

Devia estar louca.

Convidar o assassino para entrar, o homem que explorava mulheres mais velhas? É claro. E se sentia segura? Sim, por mais insano que parecesse.

Ele não foi dormir. Ela identificou o conhecido estalar de certas tábuas do piso, quando ele andou pelo bali de entrada. Indo de janela em janela na sala, passou pela porta do quarto dela para verificar os outros quartos. Teve a impressão de que foi até a porta dos fundos com tela, ali ficou por um instante e depois entrou novamente.

O que aconteceria caso se levantasse e o seguisse, chegando junto dele no escuro? Se passasse os braços em torno dele e o apertasse, devolveria o abraço? Haveria de carrega-la para a cama e fazer amor com a chuva caindo e o brilho do raio nos olhos?

Não ousaria, é claro; sequer em sonho faria tal coisa. Mesmo assim, essa ideia a fazia rolar no colchão em desconforto e afastar as cobertas para aliviar a repentina onda de calor que a dominava.

Fazia muito tempo que não era perturbada por tais sensações. O fato de agora ter consciência delas a perturbava. Era possível que qualquer homem atraente e com boa aparência despertasse nela a mesma impressão, mas não pensava assim, na verdade, tinha certeza.

Sentia-se tão cheia de vida, tão animada por ter Alec dentro de casa! Poderia ser apenas o estímulo da clandestinidade, o prazer secreto de fazer algo que, diante de todos, seria considerado um escândalo, ela sabia. Poderia ser também por ela desfrutar os limites do perigo, depois de tantos anos áridos, repetitivos.

Estivera razoavelmente satisfeita com a infinita e segura monotonia de sua vida, antes de Alec aparecer em sua porta. Agora isto mudara. Muita coisa poderia ser atribuída a ele, menos o tédio.

Ele voltava do hali ela reconheceu o ranger da madeira perto do console com tampo de mármore, embora não ouvisse os passos silenciosos. Do lado de fora da porta, ele parou e escutou. Ela ficou deitada em total imobilidade, enquanto o coração ribombava nas costelas.

O que faria se Alec abrisse a porta e entrasse, caso se deitasse na cama ao lado dela? Se estendesse a mão para alcançá-la. Se a tocasse. Se a cobrisse com seu peso quente e rijo. Não sabia, não conseguia sequer pensar.

Ele entrou. Laurel prendeu a respiração em um prolongado suspiro. O barulho da chuva no telhado ecoava nas veias, e na mente. Levou ainda um bom tempo até cair tudo em silêncio, mais tempo ainda até ela mergulhar no sono.

Pela manhã, Alec tinha ido embora. A cama estava arrumada, não fora usada. Era como se ela tivesse sonhado com ele ali — a não ser pela rosa fresca, molhada de chuva, em um vaso para flor única, sobre a mesa da cozinha. E quando apareceu para trabalhar no horário normal, sorriu mas não lhe deu bom-dia.

O dia passou, de alguma forma. Alec ficou as primeiras horas, menos quentes, cortando grama e limpando do lado de fora da cerca e não se aproximou da casa. Almoçaram, mas não conversaram sobre a noite anterior, nem sobre a noite por vir. Depois, ele voltou para o cortador de grama. Quando foi embora, após o dia de trabalho, o ar tinha o aroma doce da grama aparada secando ao sol.

Laurel tomou banho mais cedo e sentou-se para tentar ler. Ele viria, sabia que viria. Apesar de tudo, deu um salto e deixou cair o livro quando o ouviu bater na porta dos fundos.

A luz que se derramava da casa refletiu-se nos olhos dele quando abriu a porta de tela. Iluminou também o saco de dormir que trazia enrolado debaixo do braço.

— Oi — disse ela e imediatamente achou que a saudação soava idiota na boca de uma mulher adulta. Ele tomara banho antes de vir — ela sentiu o cheiro gostoso de homem limpo, sabonete e aromas sutis de madeira silvestre da loção de barbear.

O sorriso era sério.

— Pensei em dormir aqui na varanda, se você não se incomodar.

— Por que eu me incomodaria? — perguntou ela, apesar de ter dúvidas.

Aquilo soou como rejeição a sua hospitalidade, ou que ele se considerasse apenas um cão de guarda como Sticks, que também dormia junto à porta de tela. Enquanto segurava a porta aberta para ele, acrescentou:

— Mas não sei qual a necessidade disso.

— Acho que é melhor assim — disse ele, ocultando o olhar com os cílios. — Posso ficar de olho em muitas coisas. E você pode fingir que nem estou aqui.

Sim, de fato. Poderia fazer isto; nada mais fácil. É claro.

— Como você preferir — falou de maneira formal.

— O que prefiro... — começou ele, com voz reprimida. Deteve-se, fechando os lábios sobre as palavras, um instante antes de recomeçar: — Vou poder ouvir se alguém chegar e posso me levantar de vez em quando para fazer uma ronda na casa sem perturbar você.

— Se alguém chegar, também vai poder pegar você mais facilmente — disse ela.

Alec, ouvindo a preocupação no tom de voz dela, sentiu-se gratificado. Nunca lhe passara pela cabeça que ela tivesse medo de ele se ferir. Sequer se lembrava da última vez em que alguém se preocupou com o que lhe aconteceria, com exceção de vovó Callie. Sentiu humildade. E também um surpreendente senso de invencibilidade.

— Não se preocupe comigo — disse com delicadeza. — Está tudo bem.

A negativa dela foi imediata.

— Não estava preocupada. Mas e se alguém entrar e você não ouvir?

— Vou ouvir.

— Bem, se você tem certeza... — Mordeu o lábio, depois soltou-o para continuar. — Você... realmente não tem obrigação de fazer isso, você sabe.

— Eu sei — falou, observando-a com um sorriso lento. — Vou ficar, de qualquer jeito, se não fizer diferença para você.

Não foi isso que eu quis dizer, somente...

O quê?

Não sei ao certo se você devia se envolver com meus problemas.

Se eu dissesse que é porque estou loucamente apaixonado por você, acreditaria? — indagou, inclinando a cabeça de lado.

O senso de humor que apareceu nos olhos dela tinha um quê de nervosismo.

— Acho que não. Péssimo. Ele tentou outra vez.

— E se eu disser que estou muito Bem-intencionado em relação ao seu corpo?

— Pouco provável.

O rubor na face era visível, mesmo à pouca luz, e a voz soou agitada e pouco à vontade. Hora da retirada.

— Acha que não? E o que acha de eu assumir exagerada responsabilidade pelos mais velhos?

— Muito obrigada!

— Acho que você também não gosta desta possibilidade — disse ele, em tom melancólico. Era bom brincar com ela, porque não caía facilmente nas armadilhas. — Então, só me resta dizer a verdade: estou ficando de cabelos brancos de tanto me preocupar com você sozinha aqui. Quer dizer, se lhe acontecer alguma coisa, perco meu emprego e aí vou fazer o quê?

— Cabelo branco, hein?

— Claro. Quer ver?

Baixou a cabeça, apontando para onde sabia haver muitos deles.

Ela ficou na ponta dos pés para olhar. A surpresa era óbvia ao dizer:

— Você tem mesmo cabelos brancos!

— Qualquer dia, vou comparar os meus com os seus — respondeu prontamente e se endireitou. — Para não falar das minhas rugas.

— Linhas de expressão — corrigiu-o, tocando com o olhar as marcas nos cantos dos olhos dele.

— Exatamente. Idade vem de quilometragem, como já disse.

Chegou mais perto para ver se tinha captado a mensagem. Como ela piscou repetidas vezes, permitiu-se um instante de prazer antes de prosseguir.

— Agora que você viu que só estou protegendo a mim mesmo, está tudo bem?

Fez um silêncio tão prolongado que o alarmou; então, sacudiu a cabeça.

— Vou fazer o quê, com você?

Era uma excelente abertura para entrar. Além do mais, era tão grande o alívio que ele se sentiu meio tonto e bem menos responsável. Com audácia, murmurou sorridente:

— O que quiser, minha senhora. Qualquer coisa mesmo.

— Tudo bem — disse ela, saindo de perto dele em direção à cozinha. — Agora que já tivemos essa conversinha, acho que a varanda é o melhor lugar para você ficar.

Alec viu a porta se fechar atrás de si, as luzes se apagando. Encheu de ar os pulmões, deixou sair uma respiração ruidosa que terminou com um arrepio. Ela não acreditou em uma palavra do que dissera. Achou que tudo não passava de uma boa piada, ou de um fingimento qualquer. Ele não sabia se ficava alegre ou triste.

Jogou no chão o saco de dormir, ajoelhou-se para desdobrá-lo. Deitou-se de costas em cima dele e cruzou as mãos atrás da cabeça. Fazia frio ali, apesar da noite quente. O espaço cercado de tela fora projetado para servir de dormitório nos dias muito quentes, antes de existir o ar-condicionado, e assim ficava exposto às correntes de vento. Ele sentia o cheiro das madressilvas trazido de longe pela brisa, e o aroma da cerca viva de fotínia, plantada em volta do jardim italiano. Os sons melodiosos das várias fontes chegavam a ele como um calmante, cheio de intensidade, freqüência e timbre com que se medem a harmonia. Seria muito fácil dormir, pensou ele, se fosse este o motivo para estar ali.

Não era, não por muito tempo. Algo de que precisava se lembrar muito bem.

Laurel percorreu o longo caminho até seu quarto e ali parou. Ao entrar no cômodo escuro, encostou-se na parede e curvou-se, de olhos fechados. O que quer...

Não, tinha que parar de pensar nisso. Não pensaria. Ele não falou a sério, de qualquer maneira, estava só brincando com ela.

Era curioso, mas não se sentia mais velha. Tinha algo a ver com a convicção dele, além da compreensão de ter muito mais experiência do que ela. Para não falar em mais cabelos brancos.

Loucamente apaixonado...

Ergueu os lábios em um sorriso de reminiscência. Com ou sem intenção, conseguira fazer com que ela se sentisse melhor. Charme? Meu Deus, claro que sim, ele tinha muito.

Porém, apenas supondo, só em uma hipótese, que ele quisesse dizer aquilo mesmo? Ou, pelo menos, quisesse que ela assim pensasse, para se aproximar? Bem, funcionou, não foi? De certo modo? Ele estava dormindo na varanda da casa dela.

Sim, mas poderia estar dormindo no hall. Por que recusar o benefício, se pretendia seduzi-la? Levá-la para a cama? Dormir com ela? Qualquer que fosse a expressão para definir o que ele queria.

Na verdade, a palavra redução era muito mais significativa, por implicar em persuasão, além de certo refinamento quando chegasse o momento do contato físico. Sim, só mesmo ela para se distrair com a semântica da coisa toda.

No entanto, não era exatamente o que Alec fazia — seduzi-la com brincadeiras e sorrisos, com atenção ao conforto, à segurança e àquilo que lhe dava prazer? Ele podia não ser do tipo delicado, sofisticado, cheio de cortesia, grandes gestos, presentes caros, o que não tornava seus métodos menos eficientes.

Ela não tinha intenção de sucumbir. Seria muita burrice, depois de ter sido tão alertada.

Por que a escolhera? Não era rica nem famosa. Tudo o que tinha era uma conta decente no banco e meia propriedade, uma casa herdada com os filhos, pelas leis da Louisiana. Nem valia a pena um homem se interessar por ela. E mesmo assim, por que ele se aproximaria dela se não fosse por dinheiro?

O ideal seria aceitar a oferta dele, e usá-lo como ele pretendia usá-la. Aceitando o prazer fugaz que lhe oferecia sem dar nada em troca, ele não teria do que reclamar, a não ser de si mesmo.

Mas ela seria capaz de fazer isto? Teria a audácia? Faria amor com ele sem se envolver emocionalmente? Poderia lidar com amor como se fosse comida — algo para satisfazer o apetite? Conseguiria manter o coração sob controle, se o deixasse tomá-la nos braços?

Por que não? Os homens fazem isso o tempo todo, não é?

Ah, mas a ideia em si parecia tão fria, mecânica, desagradável. Corpos se agarrando no escuro. Carne contra carne, pessoas tentando desesperadamente extrair prazer uma da outra, sem doar algo de si. Mera — qual era a expressão pseudosofisticada? — troca de flúor corporal. Qual o problema se, quando tudo terminasse, ambos estivessem tão solitários como quando começaram?

Além do mais, o que haveria de dizer a ele ao chegar para o trabalho no dia seguinte? Não trabalhe tanto, meu amor, porque preciso ter você inteiro de noite.

Fora, isso não.

Por que então vasculhava seus princípios e outras inclinações menos recomendáveis, em busca de respostas adequadas a uma situação que poderia nunca ocorrer? Nada demonstrava que Alec a quisesse, em qualquer sentido. Esse homem estava brincando; é o que fazem os homens da idade dele. Era uma piada, minha senhora, só uma piada. Não deu para entender?

Ela entendeu, como não? Dependia dela.

Afastando-se da parede, foi até a cama e se deitou. De costas, na posição costumeira, puxou o lençol e fechou os olhos com força, para não sentir a dor das lágrimas. E quando a noite terminou, tudo o que sobrou dela foi outro botão de rosa, de seu próprio jardim.

Laurel esperava por ele, na noite seguinte, antes das dez horas, e acertou. Entendera finalmente que ele esperava escurecer para encobrir sua chegada. Como era Beltane - o solstfcio da primavera, segundo a tradição, na noite de lua cheia —, ele teria luz para guiá-lo quando voltasse à noite. O sigilo Parecia-lhe uma aventura de capa-e-espada, mas não se importava. Antecipava a possibilidade de a situação evoluir para, durante o dia, ele ser apenas seu empregado, e durante a noite, deixá-lo entrar como um amante secreto.

Tinha prontos uma limonada e biscoitos amanteigados que Maisie fizera aquela tarde. Comeram sentados na escada dos fundos, conversando amenidades. Quis saber se a empregada comentara sobre a vigília noturna. Maisie não o fizera, pois ele fora tão discreto, sem deixar cama por fazer, prato ou copo a mais na pia, nada. Aparentemente, ninguém descobrira sua moto nem o vira entrar e sair. Pelo menos, nem sombra de fofoca aparecera ainda sobre ele ir lá à noite. Com ou sem garantia, Laurel tinha a agradável sensação de que começavam alguma coisa.

Sabia, porém, que não deviam abusar da sorte e, portanto, não deviam ficar muito tempo onde pudessem ser vistos. Laurel ficou lendo por um tempo depois que foi para dentro de casa — um fascinante romance medieval que Maisie lhe indicara. Mas logo apagou a luz. Ficou deitada por um tempo, imaginando se seria duro demais o chão em que Alec armara o saco de dormir, se ele precisaria de um travesseiro, ou se deveria usar um ventilador por causa do calor. Poderia se levantar para ir ver, como faria qualquer pessoa preocupada com um hóspede.

Desculpas. Disse a si mesma para parar com isso e dormir. Espreguiçou-se na cama e fez exercícios respiratórios até se deixar levar pelo relaxamento.

Foi sacudida por um pressentimento, talvez uma hora mais tarde. Estava grogue de sono, mas bastante alerta para saber que havia algo errado. Algum som atingira seu inconsciente. Não conseguia detectá-lo, mas sabia muito bem que não deveria tê-lo ouvido.

Apoiando-se no cotovelo, afastou o lençol que a cobria e levantou-se. Sua túnica estava aos pés da cama, alcançou-a e meteu-se nela. Descalça, sabendo aonde ia, atravessou o quarto escuro, parou à porta para escutar, abriu-a e foi para o hall.

Naquele instante, a maçaneta da porta da frente girou com um clique discreto, furtivo. Ela ficou rija, imóvel, em completo silêncio ao identificar o mesmo ruído que a despertara. Agitada, disparou hall adentro até o outro lado da casa. Colocou as mãos na porta dos fundos, que se abriu com facilidade, e tentou evitar que as velhas dobradiças rangessem. Ao passar pela varanda, viu o saco de dormir de Alec. Estava vazio.

Onde ele estava? Poderia ser ele, na porta da frente. Pouco provável. Estava do seu lado, quando ela trancou a porta com a chave antiga e conferiu a segurança da fechadura.

Será que ele também ouviu o intruso e foi investigar? Estaria no jardim da frente, como antes, observando quem quer que tentasse entrar? Ou estaria caído, ferido, em algum lugar, depois de lutar com o assaltante?

Fechou os braços em torno de si mesma, procurando controlar os tremores que a sacudiam. Pensar. Tinha de pensar. O que devia fazer?

Voltar para dentro de casa estava fora de cogitação. Quem mexeu na porta, a esta altura, já estaria dentro de casa. Tampouco podia ficar onde estava — Alec agora poderia precisar de ajuda. Mas se saísse a esmo na escuridão para encontrá-lo, poderia atrapalhar o que ele estivesse fazendo para protegê-la.

A noite, do outro lado da tela, não estava escura. A luz forte, prateada, da lua cheia enchia o ar com um brilho chamativo. Refletia-se na grama, cintilava nos espelhos d água agrupados perto de um canto do gramado, transfigurando rolhas e ramos das árvores em formas sobre a grama negra. Sob a luz deslumbrante, havia poucos lugares para alguém se esconder.

Onde estava Alec?

Não podia ficar ali parada, esperando que ele voltasse, esperando que o assaltante o encontrasse. Tinha de fazer alguma coisa, mesmo que não fosse a coisa certa.

Deu meia volta, deslizou pela varanda dos fundos, fechando a porta de tela com raro cuidado. Disparou escada abaixo e pelo caminho até um dos cantos da casa. Fez uma pausa ao lado da velha cisterna, com seus muitos potes, deu uma olhada rápida. Nada se movia, exceto as sombras cinzentas das árvores, que se moviam com uma brisa ocasional. Tampouco ouvia algo além de ruídos da água e sons abafados e insistentes de grilos, aves e sapos do bosque.

A beleza etérea do luar e a vida ardente que por aí fluía mexeram com ela. Mas não tinha tempo para isso; agora, cada recorte de sombra poderia ocultar uma ameaça desconhecida, cada passo poderia colocá-la face a face com quem matou Sticks. O coração batia forte. Suava nas mãos, apesar do arrepio de frio que vinha de dentro. Custava-lhe um enorme esforço cada movimento, andando com cuidado pelo caminho entre as sombras. Dois passos. Parar para ouvir. Mais dois passos.

No canto arredondado da varanda da frente, deteve-se, na ponta dos pés, e olhou para o alto. Nada se movia sobre o telhado alto. Abafou um gemido de desalento. Se ninguém estava ali, para onde teria ido? Girou para os lados, em movimento convulsivo, subitamente apavorada por ter alguém do seu lado.

Nada. Soltou em trémulo suspiro o ar que retivera.

Pelo amor de Deus, onde estava Alec, e o que fazia? O que ela fazia, a propósito, escondida ali, brincando de gato e rato com um ente fantástico? Se pensasse com objetividade, teria levado consigo a pistola, mas isso não lhe ocorrera. Apertou os pulsos, procurando afastar o terror. Ao mesmo tempo, sentia a raiva amarga de não mais se sentir segura e escondida em sua própria casa.

Escondida. A palavra lhe veio à mente com tanta facilidade. Então, Alec estaria correto? Estava de fato se escondendo, com medo da vida e de viver? Parecia possível, mas não conseguia precisar o momento em que decidira nunca sair de Hera Silvestre. A relutância em sair de carro e encarar as pessoas resultara em profunda reclusão, mas de forma tão gradual que ela não a identificara.

Agora, fora retirada de casa, forçada a sair para a noite de luar. E não tinha aonde ir. Tudo que lhe restava era encontrar Alec.

As lágrimas brotaram, mas piscou para afastá-las. Não teria condescendência com sentimentalismo nem pena de si mesma. Não seria assombrada e ameaçada sem reagir. Lutaria para ter paz, faria o que quisesse com sua casa, seu terreno, seu tempo, seu dinheiro e sua vida, e ninguém haveria de detê-la. Ninguém.

Estava tudo muito bem, mas ainda tremia de medo. Obrigou-se a prosseguir pelo caminho.

A fonte jorrava e espalhava água sobre as novas rosas de folhas lustrosas. Uma pitada de cravos de Bath mesclava-se à fragrância das rosas, elevando-se como vapor no ar quente. Virando-se para a escada da frente, Laurel contornou a base de tijolos da fonte e foi em direção ao portão da frente. Parou com as mãos nas estacas da cerca. Acima dela, as rosas Zéphrine Drouhin balançavam cabeças pálidas, em que a cor rosa forte fora desbotada em cinza-alfazema pela lua.

Foi então que ela ouviu: o raspão de um passo ao lado, um sussurro no caminho, fazendo a curva no canto da casa, onde ela acabara de estar. Alguém a vira ali? Sabiam onde ela estava?

Laurel não esperou para descobrir. Abriu o portão e passou para o outro lado. Baixou a cabeça e saiu correndo.

Fugiu margeando a cerca, pela estrada que levava à garagem, então deu uma guinada, aumentando a velocidade para chegar atrás da construção. O pátio dos fundos abria-se diante dela, um espaço claro, sombreado por árvores e arbustos ao longo do limite ao fundo e pela grande e negra forma arredondada da casa. Tinha que atravessá-lo para chegar à escada dos fundos. Lá dentro, apanharia a pistola. Se conseguisse assustar o assaltante, poderia encontrar Alec. Percorrendo rapidamente com os olhos o motivo geométrico do luar sobre os degraus, fez a última arremetida.

Um vulto grande e escuro apareceu de repente diante dela. Berrou, quis fugir em outra direção, mas bateu em uma parede quente e dura como pedra. Braços fortes como cabos de aço cercaram-na, imobilizando-a. Quando tomou ar para gritar, a mão firme fechou-se sobre sua boca. Uma respiração quente soprou no rosto, passou pelos cabelos, e Alec sussurrou ao seu ouvido:

— Meu Deus. Afinal.

Jogou-se para cima dele, batendo os dentes. O peito arfava, querendo puxar o ar para os pulmões. Tremia de modo tão incontrolável que a voz saiu em espasmos:

— Achei que... você tivesse...

— Pelo amor de Deus, por que isso?

Tirou a mão da boca de Laurel, fechou as pernas em grampo e trouxe-a mais para perto.

— Ouvi a maçaneta da porta da frente... estalar, e você tinha... sumido.

— Só fui conferir se ainda estava fechada. Não imaginei que você fosse se assustar tanto.

Ele tinha falado, antes, qualquer coisa sobre fazer a ronda na casa, como um policial de serviço, certificava-se de que tudo estava bem trancado em cada ponto de segurança. Ela teve uma reação exagerada. Saber disso ajudou, mas não afastou o doloroso resíduo do terror. Com um mudo sacudir da cabeça, refugiou-se na força dele, necessitando daquela sólida presença e da mão firme para recuperar o equilíbrio. O rosto roçou na pele macia e aquecida do peito dele, onde o coração batia em cadência estável. Alec estava sem camisa.

E a descoberta surpreendente tocou-a profundamente, acalmando-a como nada mais o faria.

— Desculpe — murmurou ele, acariciando-lhe os cabelos repetidas vezes, embalando-a com tanto carinho como se fosse uma criança. — Desculpe mesmo.

— Eu tive tanto... medo — falou com voz abafada pela rigidez do ombro recheado de músculos. — Medo de que acontecesse alguma coisa com você.

— Não aconteceu, nem vai acontecer — garantiu.

Ao passar o braço na cintura dela, para segurá-la com mais firmeza, afastou os cabelos para trás da orelha e segurou seu rosto.

— Aqui, olhe para mim. Eu disse que estou bem. Afastou-se um pouco para olhá-lo no rosto. Preocupação e remorso estavam estampados na superfície. Também espelhado estava algo que a fez suspender a respiração com um som leve, soprado.

Ele a queria. Tinha o desejo no olhar, na voz, no toque. Estava sob controle no momento mas, mesmo assim, perfeitamente visível.

Ela também o queria. Quisera desde a primeira noite, quando ele apareceu no matagal do jardim, como um guerreiro ancestral abrindo caminho na selva. Ela o queria ali, agora, com uma coragem súbita e irresponsável que desprezava saber quem e o que ele era, e o que viria depois.

O luar era cálido em torno deles, benigno e não ameaçador. A noite cantava o desejo e a fecundidade. Esse clima os cercava com força física, incitando a luxúria doce e natural, sem culpa.

Beltane.

— Laurel? — falou e o nome em seus lábios era mais um apelo que uma pergunta.

Ergueu a mão e passou-a pelos lábios dele, como quisera fazer por vezes sem fim. Afundou o polegar na depressão da face, como se moldada em barro quente. Ousou passar os dedos pela garganta, pelo pescoço, até o dragão que ondulava em seu ombro. Inspirou profundamente, com prazer e plenitude, da mesma maneira como aspirou para dentro de si a sensação da pele de bronze polido, gravando-a na memória.

Sim — disse ela, tanto em apelo como em resposta.

Durante o instante mais breve, os olhos se encontraram. Viu os olhos dele tornarem-se ainda mais escuros, como lagos plácidos. E os cílios encobrirem-nos. Ele baixou a cabeça e procurou a outra boca.

Sentiu o gosto da noite fresca e de desejo, doce atração e esperança. Ele era a segurança de que ela precisava, e também o perigo que temia. Abraçou-a com respeito, com dúvida e uma ponta de aflição. Depois, com um som saído do fundo da garganta, mudou a pegada para um crescente destemor. O beijo passou à busca faminta, à demanda de que ela partilhasse seu fogo, aceitasse sua potência.

Ela o fez. A pele formigava de sensações, o sangue fervia nas veias. Senti-lo contra seu corpo provocou uma urgência abrasadora que expulsava o medo, substituindo-o por alegria. Suspirando, abriu-se para ele, foi na direção dele, pedindo mais, concedendo tudo.

A extensão do abandono era chocante. Não sabia quanto tempo ansiara por ser tocada. Desarmou-se, obliterou as preocupações racionais. Queria sentir a pele nua na dele, precisava das mãos e da boca no seu corpo. Ansiava tê-lo dentro de si, preenchendo seu vazio com o firme calor.

Alec oscilou ao senti-la mudar, pressionando com mais força. O gosto bom da repentina rendição subiu-lhe à cabeça como vinho forte, encorpado. Embriagado, aceitou o que ela lhe oferecia e exigiu mais. Era feroz na pressa, e no temor de que talvez não fosse o que estava pensando. Com lábios e língua procurou a maneira de excitá-la para o encontro frenético com ele mesmo.

Não deveria, ele sabia; havia ainda muitas restrições. Se valesse a metade do que ela merecia, voltaria atrás, esperaria uma situação de maior controle emocional. Estava se aproveitando do medo e da solidão, permitindo que seu vertiginoso desejo superasse o que considerava correto. Por reconhecer isto, amaldiçoou a si próprio.

Ah, mas ela era tão adorável, tão perfeita! Cada curva do corpo se adaptava às suas mãos. Respondia aos mais leves movimentos, como se tivessem as mentes na mesma sintonia dos corpos. Não resistiria mais do que um instante, e não tentou fazê-lo. Tomaria para si tudo o que ela permitisse — a suavidade, a graça, a paixão terna. Usaria aquilo para construir a memória dos dois juntos. E se não fosse o suficiente para mantê-la, recolheria aquele momento até ficar velho e encarquilhado, precisando dessa luz para aquecer seu último suspiro.

Estava indefeso, disponível para o que ela quisesse dele. Podia usá-lo, feri-lo, até mesmo destruí-lo. Podia fazer isso inadvertidamente, com um toque, uma palavra, uma expressão do rosto. Podia fazê-lo com a maior facilidade, mandando-o embora. Era provável que o fizesse; era quase inevitável, àquela altura.

Mas, até então, seria dele, soubesse ou não, quer aceitasse, quer recusasse. Ele a teria para sentir seu gosto e absorvê-lo, para penetrar no mais íntimo reduto de sua alma. Teria tanta certeza disso, quando ele fosse embora, que haveria de ansiar por ele como por comida e bebida, e nunca mais ficaria satisfeita com outro homem.

Havia mais uma coisa que poderia fazer por ela.

Inclinando-se, levantou-a de encontro ao seu peito e caminhou a passos largos até o jardim italiano. Abriu caminho sob o portal e mergulhou no centro em sombras. Ali, ao lado da Bocca de la Verta, colocou-a de pé.

— Eu amo você — disse, sustentando o olhar até colocar a mão sobre a Boca da Verdade. — Você é minha vida. Nunca amarei outra mulher assim, jamais vou querer ou desejar outra pessoa assim. Jamais vou magoar você, nem deixá-la, a não ser que me peça para ir embora. Essas coisas eu juro. Acredita em mim?

Acreditava? Laurel não sabia, nem encontrava palavras para explicar por que isso tinha pouca importância. Agora não, quando a lua os envolvia com sua lânguida luz e a brisa da noite acariciava a pele quente dos dois. Mas ele exigia uma resposta, e não podia deixar que pensasse que não sentia nada por ele.

Estendeu os braços e passou os dedos pelos músculos rijos do peito dele, roçou as palmas das mãos em círculos mornos, pelo prazer da fricção. Com voz suave, disse:

— Acredito que me ama agora, neste lugar, neste momento. Não peço mais do que isso.

O som que ele emitiu era de alívio, quase aflição. Endurecido, agarrou as mãos dela e puxou-a mais para perto. Foi de novo à boca, com sede do ar doce e úmido.

Alec passou os braços em torno dela, sentindo a pressão das pontas rijas dos seios, a superfície lisa do abdome em sua quente extensão, o esfregar das coxas que ele sentia firmes e macias mesmo através dos jeans. Queria-a nua, debaixo dele, grudada, implorando. E seria agora.

Desceu a mão pelas costas dela e segurou a curva macia do bumbum sob o tecido sedoso da túnica e da camisola. Então, lentamente, puxou as roupas, levantando-as enquanto mergulhava a língua no néctar de sua boca. Não conseguia evitar, não conseguia parar. Ela se sentiu tão bem que, no íntimo, contorcia-se na agonia do prazer. Com movimentos abruptos, quando queria ser delicado, apressados, quando queria ser lento, ergueu as mãos cheias de seda amassada e, liberando a boca, despiu-a dos panos.

Então parou, deslumbrado com a perfeição de alabastro de seu corpo, e com o fato de ela não ter consciência disso; com o mistério em seus olhos, as mãos abertas, e os finos caracóis prateados no alto de suas coxas, um pouco mais escuros que os cabelos ondulando ao redor dela.

Devia estar louco, ensandecido pelo luar e pela abstinência enquanto trabalhou para esta mulher. Era insano, mas não conseguia se mover, não conseguia estender a mão e tocála. Era o mais puro respeito, pois no fundo sabia que não tinha o direito de fazê-lo.

Laurel, desconfortável diante do olhar que a devorava, deu um passo à frente. Olhou para baixo, colocou as mãos no cinto e abriu a fivela, desabotoou a calça, baixou o zíper. Deslizou os dedos pela barriga lisa e rija, com uma sensação de prazer, até chegar ao cós da cueca e daí passar para o traseiro.

Era tão forte, potente, que ela sentiu uma palpitação; poderia ser de medo, mas também de expectativa. Quente e ousada, tocou-o, acariciou-o, percorreu-o com o dedo médio, a palma da mão, o pulso. Ele aceitou; como aceitou as mãos nas curvas angulosas de suas costas, quando ela amassou a pele, puxando-o com força. Sussurrou um palavrão e depois, acordando do êxtase, arrastou-a para o chão com ele, para as lajes ainda quentes do calor do dia.

Moviam-se ao mesmo tempo, sorvendo a essência um do outro, encontrando lugares onde fosse maior o sabor e mais tórrido o gozo. Ela pôs na boca o lóbulo da orelha dele e provou a luz de prata do brinco que usava. Ele segurou os seios e molhou-os com a língua, deixando os mamilos duros e rosados brilhando ao luar. Ela apertou a pele retesada e lavou-a com a língua, saboreando o sal. Ele lambeu e percorreu um longo caminho do pescoço aos joelhos, ida e volta, com pausas para incursões mais profundas. Os suspiros e gritos sufocados, os gemidos e a respiração ofegante eram levados pela brisa. As sombras se contorciam e arqueavam, e então se mesclavam, sempre.

Quando gozaram juntos, não foi em deslumbramento, calor e glória instantâneos. Por um momento, Laurel encarou Alec, dominada por seu negro olhar, exigente e selvagem. Ele esparramou os dedos para envolver-lhe o seio, e era fascinante o grande contraste da mão morena na pele clara. Ela inspirou brevemente quando ele sacudiu o mamilo, estremecendo sob a tortura, curvando-se. Lenta e deliberadamente, levou a mão ao lugar em que estavam unidos, instigando-lhe o prazer, observando-o com calor sensual no rosto. Ela poderia ficar amedrontada ou sentir repulsa, sob seu controle; em vez disso, inflamou-se. Acompanhou a mão dele, pressionando-a contra ele. Os lábios se abriram em um pedido silencioso.

De repente, o ar de distanciamento deixou-o. Com um som áspero, do fundo da garganta, arremeteu mais fundo. Febril e aflito em seudesejo, segurou-a com agressividade, deixou-a sentir sua potência. Ela correspondeu, aderindo, enlaçando-o com braços e pernas.

Loucura. Beltane, noite de luxúria da natureza e apelo carnal para a fecundação. O ribombar estava além deles, atravessava-os, passava pelo sangue no rito ancestral e ritmo mágico que encharcava a pele, pulsava nos corações e chicoteava as mentes. Era o antigo e o novo; faziam amor em união espiritual e gloriosa explosão física. Sem pensar e sem cuidados, mexiam-se, entranhavam-se, usavam um ao outro. Ela sentiu a ereção quente, empurrando com toque de seda, preenchendo o espaço de sua solidão. Ele mergulhou na líquida profundeza com entorno de cetim e entendeu que era o único refúgio a ser conhecido, o único que já tivera. Dar e tomar; assim tentavam, com os corpos retesados e as mentes ansiosas, tornar-se uno, duas partes de um todo. E chegaram perto, mais perto.

Segurou as mãos dela, apertando-as, entrelaçando os dedos, e elevou os braços sobre sua cabeça. Deixou-a sentir seu peso, roçou a barriga e os seios com suave fricção dos pêlos do peito e do calor. Quando tomou a boca, enchendo-a como enchia seu corpo, desesperado pela união total, sentiu nela o tremor das primeiras contrações de gozo.

Ergueu-se para ele com um grito leve, enquanto sentia a alteração interna que a fez contrair-se em torno dele com vontade convulsiva. Ele respondeu com um violento esforço final.

As luzes do mundo se apagaram, retrocedendo ao esplendor ancestral, e acima deles a lua diminuiu seu brilho, dourando seus corpos úmidos, oferecendo alívio para a loucura, concedendo o beneplácito da paz. Em torno deles, a noite de verão celebrava a procura da vida, o desafio da morte, e eles eram parte daquilo.

 

— Você tem um corpo espetacular — disse Alec — para uma senhora...

Estavam no chuveiro, com a água descendo sobre eles. De frente um para o outro, as testas se tocavam e Alec passava nela as mãos ensaboadas. Fingia procurar algum resíduo das lajes do jardim italiano, que tivesse aderido ao seu corpo. O jato mais forte de água caía em seu pescoço e nos ombros. Respingava para todos os lados, forçando Laurel a ficar de olhos fechados. Não era difícil, já que, assim, podia se concentrar nas sensações provocadas pelas mãos cuidadosas e devastadoras.

Com voz não muito firme, indagou:

— O que você sabe sobre o corpo das mulheres? Ainda é um rapazinho, não tem muito tempo de estrada para ter rodado tanto.

— Estou fazendo o possível para recuperar o tempo perdido.

— Isso é o que faz de melhor, hein?

Deslizou as mãos para trás dela e puxou-a para junto de si, para que sentisse a rigidez molhada e quente no baixo ventre. Com voz pastosa, respondeu:

— Ainda não.

— Foi o que pensei — murmurou ela, movendo os quadris junto dele, para a frente e para trás.— Pode me fazer um favor?

Ao falar, afastou-se até encostar os ombros na parede do boxe, e conduziu-o para o meio das pernas abertas.

— Qualquer coisa, desde que não seja parar o que estamos fazendo.

— Nunca.

Enxugou a água das pálpebras e deu um sorriso cheio da euforia que borbulhava em suas veias.

— É só... o seu dragão pode se mexer para mim? Sacudiu-se em uma gargalhada.

— Qual deles?

— Você tem mais de um?

O divertimento soava na voz.

— Um é quente, o outro, não.

Chegou mais perto, para encaixar os corpos com um único e poderoso movimento.

— Sabe qual?

— Ah, sei, sim... Agora...

As palavras não eram completamente coerentes, enquanto ela o recebia dentro de si.

— Pode então... mexer os dois?

— Assim?

— Mais ou menos... assim — concordou ela, atropelando outra vez as palavras diante da ondulação que veio em resposta.

— Meu Deus, Laurel — murmurou ao ver brotoejas aparecendo nos braços.

Ela respirava com dificuldade, em arfadas.

— E... o outro?

-Olhe – falou. – É...

Segurando os ombros dela com ambas as mãos, contraiu os peitorais, ao mesmo tempo em que fazia flexões, de pé, para a frente e para trás, ao encontro dela.

— Isso — murmurou. — Ah, isso.

Era incrível a maneira como o dragão tatuado no peito e em torno do ombro ondulava com os movimentos dele. Os outros movimentos, embaixo, eram ainda mais fascinantes.

Nunca, em toda sua vida, Laurel sentira uma sensualidade tão livre e natural. Fluía sem obstáculos. Era Alec que a liberava, sem permitir pudor, sem deixar algo oculto ou negado. O puritanismo lhe era totalmente desconhecido; não usava essa ideia nem permitia que ela usasse. E era disso que ela precisava — a aceitação fácil e alegre do que era verdadeiro e natural entre homem e mulher. Por isto ela esperara toda sua vida.

Ele era, também, tudo de que ela precisava, e sempre precisaria.

Ainda assim, não pediria que fosse para sempre. Ficaria agradecida por este momento, sem olhar adiante. Não se importava com o que ele queria dela, de fato. Fosse o que fosse, daria. Devia-lhe algo por tudo o que fizera, pelo que mudara nela. Se a estivesse usando, não tinha o direito de reclamar, porque também o usava. Era possível que a necessidade que tinha da força e da juventude dele, e o reflexo de si própria nos olhos dele, como sendo alguém atraente e desejável, fosse maior que tudo que algum dia viesse a tirar dela.

— Fique comigo, Laurel — disse, olhos nos olhos, quando a escuridão indicava que ele tinha consciência do momento de distração dela.

— Sim — respondeu, com olhos desanuviados ao vê-lo. — Estou aqui.

Um sorriso passou pelos lábios dele, resultando em uma expressão de inefável doçura. Então, baixando a cabeça, banhou o mamilo em botão com a língua quente e úmida.

Erguendo-se para ele, doando-se, ela mergulhou os dedos na seda negra dos cabelos, sussurrando:

— Vou ficar sempre com você.

Mais tarde, deitaram-se lado a lado na cama, com os quadris dela de encontro à pelve dele, que enlaçou-a pela cintura de modo que segurasse o seio com a mão em concha. De olhos abertos na escuridão, ela imaginava o que seria deles. Não havia meio de saber, por certo.

Baixou a vista, depois voltou à questão mais imediata: o que haveria de dizer a ele durante o café-da-manhã. Podia ser uma bobagem, pensou ela, mas era o tipo de futilidade que as pessoas raramente levam em consideração, quando se trata de tórridos casos de amor.

A preocupação era desnecessária; Alec não ficou muito tempo. Quando o primeiro raio da aurora apareceu por trás das cortinas, ele despertou, espreguiçou-se e inclinou-se para beijá-la na têmpora. Ficou quieto por um instante, afastou o lençol para sair da cama.

Ela poderia ter-se acovardado, fingindo que dormia. Preferiu um caminho melhor, e assim o fez.

— Você não precisa sair — falou com calma, abrindo os olhos.

Ele fez uma pausa.

— Eu não iria, se não fosse...

-O quê?

— Tenho que ver Gregory.

Não era o que ele queria ter dito, ela teve certeza, ou, pelo menos, não era tudo.

— Está preocupado com minha reputação, imagino?

— Você é uma mulher delicada, mulher de respeito — respondeu em tom baixo e tranqüilo. — Isso faz diferença.

Ela se ergueu, apoiada no cotovelo.

— As pessoas falam de nós na cama há semanas. O que você fizer ou deixar de fazer não tem importância. De qualquer maneira, eu não ligo... se você não ligar.

Espreguiçou-se novamente ao lado dela e envolveu seu rosto com a mão.

— O tipo de falatório sobre mim só vai aumentar se for pego passando a noite com a viúva Bancroft. Mas não quero magoar você.

Ela pensou em dizer que era tarde demais para se preocupar com isso, mas não achou que as observações tivessem alguma utilidade. Baixou os cílios por um instante e perguntou:

— Tem certeza de que não tem medo do que pessoas como vovó Callie vão dizer?

A resposta veio com uma nota cômica na voz:

— Está me perguntando se me importo com que as pessoas falem que estou fazendo amor com a mulher mais sexy da Louisiana?

— Não — respondeu ela corajosamente. — De que falem que estou fazendo amor com você.

— Faz diferença? — Inclinou a cabeça, e a expressão dele, no escuro, era de quem tinha compreendido.

Ela concordou com um aceno.

— O detalhe de quem deu o primeiro passo. O humor soou mais forte na voz dele.

— Pelo que me lembro, seria eu. Mas pode dizer que fui eu, de qualquer maneira. Faz esse favor?

Ela sorriu de leve quando ele passou os dedos pelo tórax, procurando as últimas lascas da batalha com o pinheiro.

— Entende o que quero dizer.

— Talvez, mas achei que tinha Curado você desse mal, a noite passada.

— Fez o melhor que pôde.

Havia sinal de lembranças na voz dela.

— Vou ter que fazer melhor — disse ele, com palavras cheias de significado. É promessa.

Ele voltaria. Não pretendia que aquilo que se passara entre eles fosse coisa para uma só vez. Ela não quis, não foi capaz, de reconhecer. Suspirou. Então, tomando consciência de que ele esperava pela resposta, uma indicação de que também tinha dúvidas, deu-a de forma abrupta, com um olhar direto:

— Vai ter mesmo!

As feições dele tornaram-se mais suaves, e o sorriso se prolongou. Passou o polegar nos lábios dela.

— Eu fico, se é isso o que você quer. Só me diga o que prefere.

— Quero que faça o que achar que é certo para você — disse calmamente.

— O que acho que é certo para mim? — A voz ficou mais profunda. — Seria me meter debaixo das cobertas e fazer amor com você o ano inteiro, até você parar de pensar, ou nem conseguir se mexer.

— Parece uma boa idéia — replicou ela, torcendo ligeiramente os lábios.

— Controle seus pensamentos. Ficou sério.

— Mas, independentemente do que acontece de noite, de dia acho que devia voltar a ser o seu contratado e o neto de vovó Callie, pelo menos até descobrirmos o que está havendo por aqui. Existe um problema concreto. Não sei exatamente qual é, nem se me encaixo nele, mas temos que nos preocupar com a segurança, para o seu bem. Está certo?

Ela concordou, pois aquilo fazia sentido. Apesar de tudo, no momento em que a beijou com força e pressa e rolou para Fora da cama, já sentia falta dele. Perdida, ela estava perdida.

O sol surgiu, e Maisie também. Laurel tomou banho, vestiu-se e tomou café sozinha. Um pouco mais tarde, ouviu Alec chegar na moto, como se não tivesse saído há apenas duas horas. Ela ficou dentro de casa, perambulando, apesar da vontade de correr para fora e ver se ele continuava o mesmo, se a tratava da mesma maneira como na noite anterior. Também se preocupava com seu próprio comportamento. Ele queria ser tratado como empregado, mas seria estranho ficar dando ordens ao homem com quem dividira a cama. Achava que não ia funcionar.

Não havia motivo para preocupação. Sem precisar receber qualquer instrução, Alec começou o trabalho pintando estacas da cerca. Era um serviço óbvio, que já fora discutido dias antes. Mas era exatamente o que Laurel mais queria que fosse feito, como se ele tivesse lido seus pensamentos. Sentiu prazer em pensar que Alec, de fato, talvez tivesse lido. Ambos se comportaram bastante bem durante a manhã, principalmente porque Laurel passou a maior parte do temó no galpão da cerâmica. Tiveram, porém, um pequeno problema na hora do almoço.

O dia estava tão quente que Maisie serviu a refeição na mesa da cozinha. Os três terminaram os sanduíches de salada de galinha com chá gelado, depois Maisie se levantou para apanhar a sobremesa de frutinhas silvestres com chantilly. Como os pequenos caroços da fruta aderiam à placa da sua prótese dentária, Maisie dispensou a sobremesa. Em vez disso, passou o tempo junto da pia, colocando pratos na lavadora e limpando a bancada.

Alec, com um rápido olhar para Maisie, que estava de costas para ele, disse a Laurel:

— Ficou creme na sua boca.

Deu uma lambida no lábio superior.

-Foi?

— Que nada — disse ele, com olhar concentrado. Meio levantado, chegou bem perto para um beijo rápido, removendo rapidamente o doce com a língua.

Foi então que Maisie se virou para a mesa, com um pano molhado na mão, como se tivesse intenção de ajudar. Ergueu a sobrancelha, ao mesmo tempo em que Alec caía sentado.

— Só limpando — falou, com expressão meiga.

— Estou vendo. — Maisie colocou a mão na cintura, ainda segurando o pano. — Gosta desse tipo de coisa.

— Por quê? Tem alguma objeção?

— Deixa tinta fresca onde não devia e vai se meter em confusão.

— Onde? — perguntou Alec, olhando para as mãos, o rosto de Laurel e o ombro em que tocara.

— Por acaso eu disse que já foi? Só estou lhe falando para tomar cuidado.

Alec demonstrou com o olhar que compreendera e replicou com fingida educação:

— Sim, senhora.

Maisie concordou, mas assim que se virou de novo para a pia, estava rindo. Alec, encontrando o olhar de Laurel, sacudiu a cabeça com uma careta.

Ele não manteve o bom comportamento no decorrer do dia. Mas, dessa vez, não se pode negar que houve provocação.

Laurel, de onde estava, trabalhando no galpão da cerâmica, ouviu o ruído de um carro. Passou pela frente da casa sem se deter, mas deu a volta e foi até a garagem aberta onde ficava o carro de Laurel e parou atrás dele. Sabendo quase com certeza que se tratava de alguém da família, Laurel chegou à porta do galpão a tempo de ver sua cunhada saindo do carro.

Zelda, irmã de Howard, era a única da família que sempre fora particularmente simpática para com Laurel. Foram contemporâneas na escola, apesar de Zelda estar uns dois anos à frente. Laurel pouco a vira nos últimos dois ou três anos, devido mais a um afastamento natural do que em conseqüência de algum desentendimento.

Zelda não mudara nada. O cabelo ainda era louro-escuro, graças à ajuda da química do cabeleireiro, com um corte dos anos 1920 que em nada favorecia seu rosto quadrado. O vestido ondulante, de malha fina, estava um pouco apertado para o corpo roliço, com a blusa abotoada até quase o pescoço. O batom cor de vinho e a sombra azul cintilante formavam uma combinação inusitada. Mesmo assim, ela irradiava camaradagem ao acenar calorosamente para Laurel. No minuto seguinte, bateu os olhos em Alec. Ficou de boca aberta.

Laurel não recriminou Zelda, pois Alec era, de fato, algo para ser visto. O cabelo brilhava sob o sol da manhã, com reflexos de plumas de graúna. Tinha tirado a camisa, e os músculos do tórax, dourados pelo sol, deslocavam-se sob a pele quando ele segurava o galão com uma das mãos e se inclinava para passar a tinta na estaca da cerca que estava pintando. Os salpicos brancos da tinta que decoravam seu abdome, obtidos quando se aproximava demais do trabalho, faziam um forte contraste, de chamar a atenção, com a pele muito morena.

Zelda bateu a porta do carro e deu a volta para chegar ao Portão lateral.

— Uau! Laurel, meu bem! — disse em tom de aprovação libidinosa. — É o que chamo de brinquedo para ninguém botar defeito!

Laurel estava acostumada com o atrevimento de Zelda, com sua atitude absolutamente descarada e a compulsão por Paquerar quem quer que produzisse testosterona. Alec não era assim. Laurel viu-o ficar imóvel; dava para acompanhar o rubor espalhando-se sob a pele acobreada. Com voz seca ela disse:

— Venha conhecer Alec Stanton, Zelda. Mas é melhor tomar cuidado, pois ele tem na mão um pincel cheio de tinta.

— É, e aposto que não é só isso — respondeu a cunhada de Laurel, com uma risadinha e nenhuma preocupação com o que ocorria em torno dela. — Olá, Alec. Assim que você terminar aqui pode ir direto para minha casa, está ouvindo?

Ele acenou com a cabeça, respondendo à apresentação, mas sem demonstrar qualquer interesse na proposta. Era uma boa idéia manter Zelda a distância antes que dissesse algo a ser respondido por ele com a franqueza habitual.

— Acho que não vai estar liberado tão cedo — informou Laurel com um rápido sorriso para ele, que respondeu com o olhar. — Vamos entrar, Zelda, vamos ver se Maisie fez café.

Observando os dois com curiosidade voraz, Zelda falou:

— Você tem razão de não querer emprestá-lo. Se fosse comigo, eu o amarrava no pé da. cama, falando sério! Mas o café fica para outra vez. Mamãe me falou que você mudou tudo no jardim da frente e estou morrendo de vontade de ver.

— Foi o que ocupou mais Alec. Ele trabalhou tanto, realmente fez maravilhas.

— Posso apostar!

Laurel lançou à outra mulher um olhar direto e sério, ao sentir que começava a se irritar.

— Vou lhe mostrar a fonte e os espelhos-dágua nos fundos.

— Ah, quero ver tudo, meu bem. Nada menos que o circuito completo.

Ignorando Laurel, que se virara para os fundos da casa, precipitou-se para o portão na cerca e segurou-o para abrir.

Alec ergueu os olhos no mesmo momento.

- Cuidado com...

Tarde demais. Zelda tirou a mão com um momento rápido, mas já estava coberta de tinta branca.

— Eca! — falou com nojo.

Então, um sorriso lascivo surgiu em seus lábios e virou-se para Alec com um olhar radiante.

— É claro que vale a pena passar a mão em certas coisas, não é? Você não teria um lenço para me emprestar, meu bem?

Pousou o olhar abaixo da cintura dele, avaliando com prazer, e passou em seguida para o pano de limpeza pendurado no bolso de trás dos jeans desbotados.

Com o rosto impassível, Alec apanhou o pano e deu alguns passos para entregá-lo por cima da cerca. Zelda piscou os olhos e estendeu a mão para ele limpar. Ele se deteve, analisando-a.

Laurel ferveu de raiva. Deu um passo à frente e arrancou da mão dele o pano manchado de tinta.

— Deixe que eu cuido disso. Obrigada, Alec. Olhou-a de maneira inexplicável, ao ouvir o tom de voz com que ela o dispensava. Virou as costas e voltou para o trabalho.

— Desmancha-prazeres — disse Zelda em tom sarcástico, ao aceitar o pano que Laurel lhe estendeu. Começou a limpar os dedos gordos.

Laurel não respondeu. Apanhou o pano quando a outra terminou, usou-o para abrir o portão e devolveu-o a Alec. Levando Zelda pelo jardim da frente, conduziu-a com firmeza em direção à fonte.

— Interessante — comentou a irmã de Howard sem parar para observar a cuidadosa construção. — Bonitas — disse ao ver as novas roseiras que Laurel lhe mostrava. — Bem, lá vou eu — observou ao ser guiada à parte mais distante da casa, para ver o lago com lírios e os vasos de flores colocados sobre a velha cisterna.

Mas seu rosto se iluminou ao chegarem ao jardim italiano, no canto do pátio dos fundos.

— Uau! — disse com ar de espanto. — É aqui o lugar das orgias, certo?

Laurel virou a cabeça bruscamente, como se não tivesse entendido bem.

— De quê?

— Orgias, meu bem. Você sabe. Luar e vinho, e aquela coisa gostosa que está lá na frente, nua e pronta?

— Meu Deus, Zelda — replicou, tentando dar a entender que aquilo não passava de uma piada de mau gosto. — De onde tirou essa idéia?

— Apareceu assim, na minha cabeça, doçura. Acho bem possível de acontecer, mesmo se os fofoqueiros não estivessem falando por aí. É claro, andam dizendo que você e o seu Alec fazem rituais para divindades aí fora, e não sei o que mais de coisas sobrenaturais.

Laurel não conseguiu respirar por alguns segundos. Finalmente, falou com voz entrecortada:

— Que absurdo!

- É mesmo?

Zelda passou os olhos pelas colunas e o piso de lajes margeado por ervas, demorando-se depois na Bocca de la. Verità pendurada no muro dos fundos.

— Quase todo mundo faz um chafariz para os passarinhos e planta umas petúnias. Isso aqui é muito decadente.

— Com certeza você não acreditou nessa maluquice. Laurel não conseguia disfarçar a tensão na voz. Uma idéia se formava em sua mente, revirava-lhe o estômago e fazia pressão no cérebro.

Zelda suspirou e seu rosto expressava preocupação.

Não faz muita diferença o que penso, meu bem. Interessa o que o povo anda dizendo. Só achei que você precisava saber. Não imagino que outra pessoa viesse lhe contar.

Sei, eu... eu agradeço por me contar.

— Não sei o que dá nessa gente, de vez em quando. Quer dizer, parece que só sabem inventar besteira.

Laurel balançou a cabeça lentamente.

— Mas isso é diferente; pelo menos, me parece. Falar é natural. É o que as pessoas fazem quando se encontram, é o que acontece com qualquer grupo. Mas as coisas que estão dizendo e fazendo é uma doença. Você ouviu falar na carta anónima?

— Ouvi, mas foi só. Alguém falou nisso no salão, apesar de ninguém ter visto a tal coisa.

— Você não fica chocada como se essa...

— Conversa fiada — acrescentou Zelda quando Laurel fez uma pausa.

— Pode ser. Ou, pelo menos, como se houvesse alguma pessoa por trás disso?

A cunhada franziu a testa.

— Acha que alguém tem alguma coisa contra você?

— É o que me parece.

— Meu Deus, não sei. Mas tem de admitir que o que você está fazendo é o suficiente para alvoroçar o povo.

— O que quer dizer com isso?

As palavras soaram grosseiras, pois Laurel não estava disposta a aceitar aquilo.

— Bem, Hillsboro é um lugar pequeno... conservador, você sabe. Já seria ruim você arranjar um homem mais novo; agora, ele sendo da Costa Oeste, é muito pior. Todo mundo sabe como eles são por lá, metidos com essas religiões exóticas, com essa coisa de sexo na natureza.

— Ora, faça-me o favor, Zelda! Nem todo mundo na Califórnia é desse jeito.

— Pode ser, mas você nunca vai convencer o pessoal de Hillsboro. Além disso, seu Alec não é nenhum caipira, não é mesmo?

Não era, claro, pelo que Laurel dava graças a Deus. Ainda assim, estava começando a perceber como ele era diferente. Com pouca firmeza na voz, indagou:

— O que isso tem a ver com o resto?

— Não fique chateada comigo, meu bem. Quer dizer, entendo a tentação. Na verdade, me lembra meu pai, de um jeito... toda a beleza da raça e um apelo de macho que seduzia as mulheres, velhas e moças. Acho que foi por isso que gostei demais dele. Aliás, só estou tentando lhe mostrar o que aparenta.

— Não tenho como evitar o que aparenta, Zelda. A vida é minha.

— Eu sei, eu sei. E você tem todo o direito de foder do jeito que quiser. — Quando Laurel apertou os lábios, Zelda acrescentou rapidamente: — Piada, é só uma piada.

Laurel não riu. Após um instante, perguntou:

— Mãe Bancroft pediu a você para vir falar comigo? A cunhada pôs a mão nos fartos quadris.

— Você só pode estar brincando. Sabe que mamãe e eu não nos damos bem desde que ela me pegou no banco de trás do carro do xerife Tanning... na hora da confusão, se é que você me entende.

Laurel tinha uma vaga lembrança do alvoroço familiar criado em torno do incidente. Fora motivo de falatório durante 15 dias, há poucos anos, uns sete ou oito meses após a morte de Howard.

— Pensei que já fosse uma história antiga.

— Para a maioria das pessoas é mesmo, mas você conhece mamãe.

Laurel fez um movimento de Cabeça em penosa concordância.

Ela veio me ver. Achou que eu precisava de conselhos, mas posso tomar conta de mim mesma.

— Pode mesmo, Laurel? — Zelda deu uma sacudida nos cabelos louros. — Não quero me meter onde não fui chamada, mas você não é exatamente a mulher mais experiente que conheço.

Laurel sabia que Zelda se considerava uma pessoa conhecedora do mundo, porque freqüentava muitas camas, desde o tempo de colégio. Mais do que isso, fugira de casa na adolescência e fora para Nova York. Passara uns dois anos ciscando por lá até Mãe Bancroft encontrá-la e trazê-la de volta para casa.

— Não sei o que isso tem a ver com o resto — disse Laurel com rispidez.

— Não sabe? Você era uma criança quando se casou, e desde que Howard morreu ficou fechada aqui sozinha. Seria muito fácil um sujeito qualquer mexer com você, se aproveitar.

— Não sou imbecil, Zelda.

— Não estou dizendo que seja o caso do seu Alec. Como iria fazer uma coisa dessas, se não sei coisa alguma sobre ele? A questão é que você também não sabe.

Zelda olhou por cima do ombro de Laurel ao falar. Seguindo o olhar, Laurel viu que Alec terminara o trabalho do outro lado do jardim, ou talvez quisesse ficar por perto para o caso de ela precisar. Levara o equipamento de pintura para junto da pérgula e do banco, não muito longe. Era óbvio, Pela sua expressão, que ouvira a conversa.

Olhando para ele abertamente, Laurel disse a Zelda:

— Sei tudo de que preciso saber.

A outra mulher ergueu o ombro roliço em eloqüente desprezo.

— Então, nada mais posso dizer, é isto? A não ser: tenha cuidado.

Dirigiu um olhar sonso para Alec.

— Ah, sim, da próxima vez em que você e o seu brinquedinho fizerem uma orgia, façam o favor de me convidar!

— Está bem — concordou Laurel com sarcasmo.

Alec falou ao mesmo tempo, em tom de voz tão ofendido quanto o modo como olhou para a irmã de Howard.

— Não se esqueça de trazer as uvas.

Quando entendeu o que ele tinha dito, Zelda arregalou os olhos e sua pele adquiriu um tom arroxeado, por baixo da maquiagem. Laurel sacudiu-se em uma gargalhada, que se transformou em ataque de tosse. Alec, imperturbável, virou as costas e continuou a pintura.

Zelda tomou ar ruidosamente. Depois deu um riso abafado.

— Quanto descaramento. Não me deixe atiçar o lado mau do seu Alec, ouviu?

Laurel mordeu o lábio para não rir, enquanto iam para a garagem.

— Você ainda não viu a outra fonte. É por aqui.

— Só vou dar uma olhada — disse a cunhada olhando furtivamente para Alec, atrás. — Depois tenho de ir para o salão. Marquei uma permanente para daqui a meia hora.

Caminharam até a saída, circundando a casa e passando pela fonte de Baco. Zelda fingiu interesse, porém mal se deteve em frente a ela, a caminho do carro, como se estivesse ansiosa para sair dali. Quando chegaram ao Lincoln, disse:

— Vá me visitar, Laurel, e lhe faço um corte bonito no cabelo, em casa. Isso se você conseguir se afastar do seu... de Hera Silvestre.

Laurel agradeceu o oferecimento, acrescentando as frases tradicionais e vazias da hospitalidade. Depois, quando Zelda se afastou no carro, foi para onde estava Alec.

Ele pousou o pincel e apanhou o pano para limpar as mãos, ao vê-la se aproximar. O rosto mal-humorado provocou agitação nela.

— Isso é o que você acha? — indagou quando ela chegou perto o bastante para ouvi-lo. — Que estou querendo me aproveitar de você?

— Foi Zelda quem disse, não eu.

Amarfanhou o pano para dentro do bolso novamente.

— Não estou. Não faria isso. Nunca.

— Sei que não — respondeu calmamente.

E sabia, pelo menos enquanto pudesse olhá-lo nos olhos e ver neles sinceridade, como ouro no fundo de um grande rio.

O olhar dele mudou, aquecendo-se ao observar o rosto dela. Lentamente, um toque de humor apareceu-lhe nos lábios.

— É claro que você pode se aproveitar de mim o quanto quiser. Para dizer a verdade, pode me deixar pelado toda vez que estiver disposta para... uvas.

Ela caiu na gargalhada; não conseguiu se controlar. Sacudindo-se de tanto rir, caiu nos braços dele e apoiou a cabeça no peito aquecido pelo sol.

— Alec — gritou —, você viu a cara dela?

Alec viu, e não gostou nem um pouco. Olhando para o nada, por cima da cabeça de Laurel, sentiu esvair-se o divertimento, substituído por uma forte necessidade de protegê-la. Meu Deus, o que estava acontecendo? Custava acreditar na carga que aquela mulher depositara sobre Laurel. Se metade do que disse fosse verdade, eles teriam um grande problema.

Também foram espionados, ou assim lhe pareceu. Alguém vira os dois no jardim italiano. Era a única maneira de gerar s rumores sobre uma orgia.

A simples idéia deu nele vontade de estrangular alguém com as próprias mãos. Rezou para que Laurel não tivesse deduzido a mesma coisa, mas sabia que era pedir demais. Ela era muito inteligente para deixar passar uma coisa dessas. O que não significava que fosse falar nisso, é claro. Não era o tipo de mulher que deixava qualquer pensamento passar da cabeça para a boca. Às vezes, ele queria que fosse. Haveria de sentir-se melhor se soubesse com certeza o que lhe passava pela cabeça.

Como que sintonizada nos pensamentos dele, Laurel ficou calada em seus braços. Agitou-se, depois chegou para trás, segurando-o no mesmo abraço. Com o rosto rígido, falou:

— Havia alguém lá fora, ontem à noite, quando nós... quando você dormiu na varanda. Ouvi alguma coisa atrás de mim. Foi por isso que saí correndo e quase derrubei você. Naquela hora, achei que era você que eu havia ouvido, só que tinha dado a volta e vinha pelo outro lado.

— Não — replicou ele com firmeza. — Fui até os fundos depois de conferir a porta da frente. Você veio por trás de mim e me virei para segurá-la.

Ela concordou com a cabeça, em desalento.

— Quem quer que fosse, lá fora, nos viu.

Nada ajudou, para o estado de espírito de Alec, saber que estava certo. Respirou profundamente.

— Sinto muito.

— Por quê? Não é culpa sua se existe alguém xeretando por aí.

— Foi culpa minha não estarmos na cama, direitinho, como gente normal. Só que... você estava incrível de tão linda à luz da lua, e eu a queria tanto, queria ver a lua nos seus olhos quando fiz amor com você. E não queria lembranças, comparações, qualquer coisa que lembrasse seu marido.

— Eu sei — disse ela, de olhos bem abertos e fixos nele. Foi perfeito. Por isso é tão terrível que alguém queira transformar isso em uma coisa feia.

— Não vão fazer isso, porque não vamos deixar. Somos nós que controlamos nossa maneira de encarar este assunto.

— Sim — concordou ela, mas a palavra saiu como pouco mais que um sopro.

— De qualquer maneira — prosseguiu ele, você estava em propriedade privada, lidando com assunto seu. A pessoa que estava lá fora é que devia ficar envergonhada.

Sorriu para ele, grata pelo esforço, apesar de não estar convencida. Após um instante, falou quase para si mesma:

— Por quê? Por que alguém faria isso? Não fiz nada contra eles.

Segurou-a com mais força.

— Maníacos não precisam de motivos. Além disso, pode ser que não estivessem atrás de você.

— Quer dizer?

— Estava tudo bem com você até eu aparecer, e agora não mais?

As palavras eram exatas.

Ela vacilou, apenas por um momento, antes de responder:

— Não. Não estava.

— Não é disso que estou falando, e você sabe — disse ele, com pouca firmeza na voz. — E não me olhe desta maneira, a não ser que queira aumentar os boatos.

Ela deu um sorriso breve, sedutor, mas que logo desapareceu.

— Não quero nem pensar que Márcia e Evan vão ouvir o que andam dizendo.

— Se forem esclarecidos, e se tiverem lealdade para com a mãe, não vão acreditar em uma palavra.

— Nem na parte que é verdade? Ela desviou o olhar.

Ele sentiu um aperto no peito.

— Isso é o que lhe incomoda, não é? O que os dois vão pensar.

— Sou mãe deles.

Aquele ar de constrangimento e infelicidade tinha sido provocado por ele. Sofrendo, mas obstinado, disse:

— Você é humana.

— Eu devia ter tido mais...

— Mais o quê? — interrompeu. — Dignidade, respeito por si própria? Ou nada além de bom senso para não se envolver comigo?

— Ora, Alec — falou com meiga censura.

Ele sabia que o melhor seria calar a boca, deixar passar, mas não conseguiu.

— Teria preferido, não é? Você gostaria de nunca ter assumido isto, ou que eu fosse embora para poder voltar a sua rotina tão segura.

— Não acho isso que você está dizendo, mas talvez seja uma boa idéia sermos um pouco mais discretos, pelo menos até diminuir o falatório.

— Discretos — repetiu ele. — Deixando você sozinha.

— Eu não disse isto!

— Só porque não consegue usar essas palavras. Você tem muita nobreza para não ferir meus sentimentos, dando uma ordem direta para eu sair da sua cama, então procura um meio de eu mesmo tomar a iniciativa.

Estava falando demais, movido pela sensação de ver tudo aquilo que obtivera indo por água abaixo. Não conseguia interromper o processo. Às vezes, tinha aqueles impulsos autodestrutivos e só uma pane no motor seria capaz de detê-lo.

Ela ficou pálida e com os olhos cheios de lágrimas.

— Não quis magoar você.

— Para quem não queria, está se saindo bem demais.

— Mas já que tocou neste assunto — continuou ela como se ele não tivesse falado —, então é melhor ir dormir em outro lugar.

— Está bem.

— Mas isso não quer dizer...

— Não se preocupe, não vou ficar ansioso, nem irritado. Posso sair de circulação por um ou dois dias porque você me pediu, mas não vai se livrar de mim para sempre. Nem ligo se o mundo inteiro estiver espiando e fazendo fofoca. Não ligo nem se os seus filhos ficarem de boca aberta de tão chocados. Você me conquistou, minha senhora. Queira ou não, sou seu.

Havia algo mais, que ela não compreendeu de imediato, embora viesse um dia a fazê-lo. O fato era que também fora conquistada. Ela era dele, que não a deixaria ir embora.

 

.Laurel trabalhou até tarde no galpão da cerâmica. Maisie foi avisar que já estava saindo e perguntou se seria preciso fazer alguma coisa na cidade, antes de vir para o trabalho no dia seguinte. Pouco depois de ela sair, Laurel ouviu a moto de Alec afastando-se. Ficou sentada, ouvindo o som por intermináveis momentos, olhando para coisa alguma. Quando não escutou mais, cerrou os olhos com súbita desolação e segurou com força a goiva que tinha na mão. Respirou fundo, abriu os olhos e recomeçou a esculpir o barro diante de si.

A placa que fazia era diferente das outras. Um rosto de mulher. E também o desenho entrelaçado em torno da face era um motivo floral, em vez de parreiras e folhagem. A maior alteração, porém, estava na expressão, que não era serena.

A mulher de barro tentava se libertar. O olhar era desesperado, como se estivesse asfixiada. Com a boca aberta em um grito, lutava para sair da armadilha. Lutava, mas estava perdendo.

Houve certa facilidade técnica nas primeiras placas, mas esta chegava muito mais perto do tipo de expressão emocional que Laurel sempre quisera expressar. Era também perturbadora. Sabia o motivo, pois tinha o distanciamento necessário para reconhecer as próprias feições na mulher enredada. Mesmo assim, não escolhera conscientemente usar seu rosto como modelo, não pretendera retratar alguém em particular. Tudo viera, pensou, de seu turbilhão interior.

Ao mesmo tempo, porém, havia uma suave vulnerabilidade no rosto da mulher. Laurel não tinha certeza de que sentimento trouxera esta expressão, não podia associá-la consigo mesma. Independentemente disto, a suavidade fazia com que a prisão na armadilha fosse mais difícil de suportar. Tornava ainda a figura mais perturbadora.

Ela perdeu a noção de tempo. Sem sentir fome ou fadiga, prosseguiu no trabalho, esculpindo amor e medo no rosto de barro, aparando arestas e fazendo com que a imagem ganhasse vida. A claridade desapareceu e ela acendeu as grandes lâmpadas fluorescentes. A noite avançou, veio o frio, e a brisa, pela porta aberta, trouxe o aroma de madressilvas e rosas. Ainda assim, ela não arredou pé... até ouvir o ronco da Harley outra vez.

Alec voltara. Pensou que não voltaria.

Subiu-lhe uma raiva por ele ter ignorado seu pedido mas, por baixo desta sensação, quase a suplantando, havia uma ponta de expectativa. No entanto, não sairia correndo para encontrá-lo, nem mudaria seus planos para agradá-lo.

Debruçou-se sobre o trabalho novamente, mas a concentração se fora. Manteve o ouvido atento para seus passos, esperando que ele fosse até lá. Não podia imaginar que não iria; quase sempre o fazia. Então, por que demorava tanto?

Ouviu o som da aproximação. A sombra, projetada pelo luar, apareceu à porta.

Não era Alec. A consciência disto lhe veio à mente no instante em que lhe ocorreu que ele jamais entraria daquele modo sorrateiro. O coração saltou de encontro ao peito. Pôs-se de pé, deslizando. De olhos bem abertos, virou-se para a porta segurando a ferramenta de esculpir como uma arma na mão-

O homem tinha uma postura relaxada, sob a luz branco-azulada das lâmpadas fluorescentes. Um sorriso retorcido cruzou seu rosto quando ele fez uma saudação com a cabeça.

— Boa noite.

— Gregory.

Ela fechou os olhos, deixou-se cair na banqueta, soltando a goiva, e sentiu faltarem forças nas pernas.

— Não queria assustar você.

— Não, não, está tudo bem. — Tentou dar um sorriso. — Como vai?

Ele fez uma careta.

— Ainda estou aqui, o que já é alguma coisa, acho. Mas você provavelmente estava esperando Alec.

— Não estava, mas ouvi a moto chegando.

— A moto, é. Peguei emprestada, mais ou menos. Alec foi para a cama cedo, acho que estava esgotado. De qualquer maneira, não parecia que ia precisar dela, então...

Ela não sabia exatamente o que dizer ao irmão de Alec. Mal o conhecia, e o manto da doença terminal pairava sobre ele. Conversar com Gregory era um pouco como cruzar um campo minado, onde qualquer descuido poderia provocar reações inesperadas. Mais do que isso, parecia ser o tipo de pessoa que não fazia a menor idéia de um civilizado dar e receber. Perguntar por outras pessoas pareceu o método mais seguro, até chegar à conclusão de o que ele queria.

— Então, como vai a sra. Callie?

— Tudo bem, imagino. Trabalha demais, mas parece que gosta.

Suspeitou que a maioria das pessoas trabalhava demais, na opinião de Gregory.

— Posso lhe oferecer alguma coisa para beber? Café e talvez um bolo inglês que Maisie fez hoje?

O interesse brilhou nos olhos dele.

— Imagino que não tenha scotch e soda.

— Tenho bourbon com gelo — ofereceu, mesmo achando que não devia.

Era pouco provável que ele pudesse misturar álcool com os remédios para dor, quaisquer que fossem.

— Também serve — disse ele.

Analisou-o por um instante, e decidiu que ele sabia o que queria e o que podia beber. Apagou as luzes do galpão, fechou a porta, caminhou com ele até a escada da varanda. Estava contente de ter companhia, de verdade. A casa estava tão escura e silenciosa como se qualquer coisa ou qualquer um pudesse estar lá dentro, ainda mais que deixara a porta dos fundos destrancada.

Gregory estava tão nervoso quanto ela ou, ao menos, assim aparentava. Olhando em volta, disse:

— Isso é mesmo rmal-assombrado. Não sei como você consegue ficar aqui. Eu não ficaria sozinho nesta casa nem por todo o dinheiro do mundo.

— Com tudo a gente se acostuma — replicou ela com naturalidade, mostrando o caminho pela varanda com tela, depois pelas portas francesas que levavam ao hall, acendendo as luzes à medida que entrava.

— Nunca pensou em sair daqui, morar em outro lugar?

— Que outro lugar?

Na cozinha, apanhou um copo e encheu-o de gelo tirado Áofreezer e da geladeira que ficavam lado a lado. Procurando nos armários, achou a garrafa de bourbon. A bebida tinha 12 anos ao ser comprada e ficara ali tempo bastante para celebrar seus 18 anos.

Qualquer lugar — respondeu. — Flórida? Califórnia? Arizona? Venda essa antigüidade e faça as malas. Nada a segura aqui.

A não ser meus filhos.

Já estão criados, não é? Têm sua própria vida? — rebateu ao apanhar a bebida que ela oferecia.

— Acho que sim. Mas o que eu faria na Flórida ou na Califórnia?

— O mesmo que faz aqui.

Ela sorriu, serviu-se de um copo de água e sentou-se à mesa diante dele.

— Então, por que me preocupar?

Ele concedeu a graça de dar uma risada. Caiu o silêncio enquanto ele bebeu mais, depois suspirou e recolocou o copo sobre a mesa. Olhando o copo fixamente, era visível sua descontração. Depois de um instante, falou:

— Estou preocupado com o velho Alec.

— Aconteceu alguma coisa?

— É. — Dirigiu-lhe um olhar por debaixo das sobrancelhas. — Você.

Ela se apoiou no encosto da cadeira e cruzou os braços na altura da cintura.

— Não entendi o que você quis dizer. Encolheu os ombros de ossos salientes.

— Bem, o caso é o seguinte: meu irmão é um cara legal, mas fica esquisito de vez em quando, defensor dos fracos como se fosse um super-herói, acha que tem que cuidar do mundo inteiro.

— Não acho isso esquisito.

— Mesmo que o prejudique?

— Quando vai contra seus próprios interesses, você quer dizer? — falou com tranqüilidade. — Como se envolver com a mulher muitos anos mais velha?

O sorriso dele era tênue.

— Sabia que você ia entender sem precisar de muita conversa fiada.

— Sim, mas não sei por que você acha isso tão ruim para ele.

Firmou as mãos nos quadris sem olhar diretamente para o homem do outro lado da mesa.

— Porque ele já fez uma dessas e acabou muito mal. Tentei alertar você antes, mas aposto que não funcionou. Ele não precisa de outra mulher caída por ele e depois saindo de cena quando a coisa esquenta. Desta vez, vai dar nos nervos dele. Sei que vai.

— Saindo de cena? Está querendo dizer que a mulher dele se suicidou?

Ele bufou.

— É a impressão que se tem.

— Mas disseram que ele foi preso por assassinato.

— Ah, foi? Isso mostra como estão mal informados. Na verdade, os policiais tinham ideia de que Alec podia ter dado uma ajuda, por assim dizer, mas o procurador de Justiça não conseguiu fechar o caso. Nunca teriam aberto processo se os filhos dela, já adultos, não tivessem pressionado.

— Entendo. Falta de consideração deles. Cerrou os lábios com firmeza sobre as palavras.

— Com certeza, pois Alec tomou conta da velha senhora, dia e noite, meses a fio.

A velha senhora.

Era assim que Gregory a via?, divagou Laurel. Seria outra velha senhora de quem Alec tomava conta dia e noite? Gregory continuou falando:

— Só não quero vê-lo passar por tudo isso outra vez. Não sei se ele agüenta, ficar pensando no que teria feito de errado, se acabando para descobrir o que poderia ter feito para que não acontecesse. Ele é forte na aparência, e acho que é mesmo, do ponto de vista físico, mas leva as coisas muito a sério. Se acontecer alguma coisa com você, acho que ele vai parar no fundo do poço. Sem saída.

Gregory teria razão? Ela gostaria de saber.

— Pode ser — falou cuidadosamente —, mas não sei o que você espera que eu faça.

— Termine com ele. Faça isso agora, enquanto pode. Mande Alec embora, para o seu próprio bem. É a única maneira de ele se livrar disso, porque agora se sente responsável por você, e nunca vira as costas para aquilo que considera sua responsabilidade.

Dominando sua dor, ela sugeriu: --

— Ao contrário de outras pessoas?

— Captou. — A risada de Gregory foi curta. — Sei que ele vale por três de mim, sempre foi assim. Sei também que já está em tempo de ele parar de querer salvar todo mundo e pensar em si mesmo.

— Tem certeza — indagou delicadamente — de que é com ele que você se preocupa? Tem certeza de que não está com medo de que ele passe o tempo todo cuidando de outra pessoa, em vez de ficar à sua disposição?

Ele se recostou e deixou cair as mãos no peito. Encarando-a de frente, falou:

— Você tem esse ar delicado, mas sabe jogar pesado.

— Somente em legítima defesa — disse ela, implacável.

— É, eu também. Pode pensar o que quiser, estou pouco ligando. Alec é meu irmão e, desta vez, estou preocupado com ele. Ele nunca se apaixonou, sabe? Então, chegou a um ponto em que não espera mais que isso aconteça, aceita o que aparece. Mas ele merece o melhor. Não quero que vá muito fundo com você... para, no final, sair perdendo.

Ela o observou por longo tempo, depois que parou de falar. Depois, suspirou.

— Tudo bem, sinto muito. Tenho certeza de que está preocupado, mas eu também estou. A última coisa que quero é magoar Alec. Nós dois já discutimos esta situação e concordamos que o melhor seria nós não... quer dizer, mantermos uma relação de trabalho, de patrão-empregado, por enquanto. Tirando a demissão, que não iria funcionar porque já tentei, não sei mais o que fazer.

— Você o demitiu?

Ela concordou com um rápido aceno de cabeça.

— Ele continuou vindo, assim mesmo.

— E acha que ele não vai voltar agora só porque você resolveu? — indagou Gregory com uma risada.

— Ele não está aqui — lembrou com alguma ênfase.

— Estava cansado, e não é de se admirar. Além disso, não é burro. Vai lhe dar tempo para esfriar a cabeça, tempo para sentir falta dele.

Alec seria tão calculista? Ela não queria pensar que sim, mas como saber? Depois das muitas horas que passaram juntos, pouco mais sabia sobre ele do que sobre Gregory.

— Então não sei o que você espera que eu faça — disse.

— Não dê esperanças, não prometa o que não puder cumprir, porque pode matá-lo quando tirar o que ele tem. Proteja-o dele mesmo. Livre-se dele.

— E se ele não for?

— Você é inteligente, vai descobrir um jeito. Poderia, mas será que ela queria? Esta era a questão. Pelo menos, não precisava encontrar a resposta imediatamente.

— Vou pensar nisso.

— Já está bom.

Gregory tomou o restante do seu bourbon com água e se levantou. Ela não fez qualquer esforço para retê-lo, mas acompanhou-o até a porta da frente. Na escada da varanda, ele parou e voltou-se.

— Não vai contar ao Alec que estive aqui, não é?

— Algum motivo para que eu não conte? — perguntou, mais para questioná-lo do que por pretender levar a Alec essas notícias.

— Não vai gostar, pode achar que estou armando alguma coisa por trás dele. Ele é engraçado, nesse sentido. Pensa que pode interferir em tudo, mas sobe pelas paredes quando alguém se mete na vida dele.

— A maioria de nós é assim, acho eu — respondeu. Gregory hesitou, como se quisesse forçar uma resposta mais definitiva da parte dela, mas fechou os lábios. Com um lacônico boa-noite, desceu as escadas e saiu com a moto pela estrada. Um momento mais tarde, tomou um desvio, balançando o pneu traseiro antes de disparar noite adentro.

Laurel ficou parada, procurando-o por algum tempo, com o olhar fixo no ponto em que a forma vermelha da lanterna traseira desaparecera na escuridão. Finalmente, virou-se e entrou em casa.

Horas mais tarde, ela se sentou na cama de um salto. A respiração ficou presa na garganta. O pulso se acelerou freneticamente. Por um instante, as batidas do coração soavam com tanta força nos ouvidos que ela não conseguia escutar. Depois, aquilo voltou — o ruído que interrompera seus sonhos.

Parecia com louça se quebrando, só que mais devagar. Ao estrondo das pancadas sucedia-se a queda, estilhaçando-se em mais pedaços ao cair no chão. Arrancada do sono prófundo, quase dopada, Laurel não conseguia concatenar as ideias para dar algum sentido ao que ouvia.

Então ela compreendeu. Suas esculturas do jardim. Alguém as estraçalhava.

Jogou as cobertas para o lado e saiu da cama. Tremendo como se fosse de frio, foi até a janela do quarto. Puxou um fragmento da cortina para o lado e espiou lá fora.

Nada.

A lua se escondera, o pátio dos fundos estava escuro e quieto. Não se via o esboçar de um movimento.

O barulho parou também, tão subitamente como começara. Talvez quem quer que estivesse lá ouvira seus passos dentro de casa, ou a vira à janela. O que estariam fazendo agora?

Virou-se, saiu do quarto e atravessou o hall até a porta da frente, com pequenas luminárias laterais envidraçadas. Havia mais claridade no jardim da frente, talvez porque as árvores não fossem tão próximas umas das outras. Mesmo assim, não viu sinal dos invasores.

A visão da sala de jantar não era melhor, nem através das pequenas vidraças das portas francesas dos fundos. Pôs a mão na maçaneta das portas. Depois parou, retirou-a.

Nada havia agora que pudesse ser feito para salvar as peças; disto tinha certeza. Não havia razão, portanto, para sair correndo na escuridão, mas, sim, todos os motivos para ficar dentro de casa, onde estava, em comparação, mais segura. Porém, a ideia de haver alguém se esgueirando em seu terreno e destruindo sua propriedade a fazia ferver por dentro. Todo o trabalho, todo o orgulho da tarefa bem-feita, destruídos em questão de segundos. Foi a contragosto que ela ficou ali parada, quando tudo o que queria era investir contra eles e perguntar quem lhes dera o direito de fazer aquilo. Queria revidar cada golpe, socar alguém e deixá-lo de molho por uma semana.

Impediu-a o bom senso. Quem estava lá fora tinha algum tipo de arma nas mãos. Mais do que isso, havia uma boa possibilidade de ser a mesma pessoa que matara Sticks. A mania de espionar, o vandalismo e o envenenamento tinham mostrado, até agora, que não eram pessoas em seu juízo perfeito. Podiam estar esperando apenas que ela abrisse a porta.

No entanto, não ficaria parada, sem fazer algo. Cansara-se de ser alvo de boataria, de ser alertada e aterrorizada.

Antes de mais nada, chamaria Dan Tanning e faria um boletim de ocorrência. Seria o começo. Depois, poderia pagar com a mesma moeda, pedindo a Maisie para falar com as pessoas sobre o que estava acontecendo e sobre quem poderia estar por trás disso. Sim, e melhor ainda, poderia entrar no carro, dirigir até a cidade, até o salão de Zelda...

Entrar no carro. Sair de Hera Silvestre e dirigir até a cidade. Apenas isto. De onde lhe viera essa idéia?

Poderia fazer aquilo que, há poucos dias, parecera impossível? Que razões seriam tão fortes para apoiá-la durante essa provação? Seria algo possível, se o coração batia tanto a ponto de sacudir a camisola, e a simples idéia a fazia se sentir mal e fraca?

Mas que outra escolha havia? Não podia simplesmente abandonar-se ao que um louco pretendia fazer. Poderia esconder-se para sempre, enquanto alguém chegava cada vez mais perto...

Não. Não haveria de pensar assim. Não mesmo.

Poderia ligar para Alec. Se pegasse no telefone, ele chegaria em questão de minutos. Cuidaria de tudo, enquanto ela ficaria sentada, assistindo e aplaudindo.

Sim, mas não queria aquilo; não queria envolvê-lo ainda mais nem sentir que lhe devia alguma coisa. Estava na hora, finalmente, de enfrentar suas próprias batalhas.

Enquanto divagava por ali, ouviu o motor de um carro dando partida, e depois rodando para dentro da noite. Seu algoz se fora. Dera um golpe rápido e saíra. Outra vez.

Tinha quase certeza de que não a ameaçava mais, porém, não podia se arriscar a sair. Precisava fazê-lo, impelida pela necessidade de ver o dano que causaram. Levou quase uma hora observando e escutando, até tomar coragem.

O prejuízo era total. Sua Bocca de la Verta transformara-se em mil pedaços, como se esmagada por marreta, e a fonte de Baco estava em ruínas. Os espelhos-dagua foram revirados e quebrados, os vasos de flores sobre a velha cisterna mergulhados no lago de lírios. A destruição era voraz e desordenada, como se quem a tivesse causado sentisse prazer naquilo. Precisava chamar a polícia, realmente. Porém, pensando melhor, o prejuízo não era tão grande, em termos de dinheiro, e a idéia das explicações que deveria dar a Dan Tanning e seus delegados paralisaram-na de indecisão e constrangimento.

Não enfrentaria esta situação. Mas alguma coisa tinha que ser feita. De alguma forma, tinha que descobrir quem estava por trás desta campanha de terror e detê-lo.

E supondo, apenas imaginando, que fosse o próprio Alec? Ele negara ser o assaltante na noite em que fizeram amor, mas se fosse mentira? E se fosse um ardil para torná-la mais dependente dele? Quanto a destruir as placas e outras peças do jardim feitas por ela, era a única pessoa que sabia exatamente onde estavam e o seu significado. E fora louco o bastante quando saíra destruindo coisas, de longe, mais importantes e valiosas. Não lhe agradava pensar que ele fosse capaz de vingança tão mesquinha.

Poderia também ter sido Gregory, que tampouco estava satisfeito com ela. Ou talvez Mãe Bancroft. Nessa linha de pensamento, Zelda não ficou feliz ao vê-la, da última vez. Será que todos em Hillsboro estavam atrás dela?

Por certo, não havia indícios de que a pessoa que estivera lá fora esta noite sentisse qualquer animosidade em relação a ela. Poderia ser um caso de vingança fria e calculada, o que era infinitamente pior. E talvez devesse parar de pensar nisso antes de ficar mais apavorada do que permitiam suas faculdades mentais.

Impossível.

Enquanto estava deitada sem conseguir dormir, de olhos bem abertos para a escuridão, o vazio do grande quarto à sua volta, a mente de Laurel rodopiava em círculos sem fim. Repetidas vezes, listou as pessoas que poderiam ter alguma coisa contra ela. Inúmeras vezes, pensou em Alec e na maneira como agiu aquela noite e nas coisas que dissera.

Mesmo depois de ceder ao sono, ouvia em sonhos o barulho da terracota sendo quebrada. Era forçada, por uma presença não vista, a caminhar, um passo após outro, lenta e desgraçadamente, sobre os cacos no chão. Ao fim da jornada, via seu carro, com a porta aberta, esperando por ela. Uma vez lá dentro, não o controlava e sabia que a levaria aonde não queria ir. Sabia também que jamais encontraria o rumo de volta para Hera Silvestre.

 

As mãos de Laurel tremiam enquanto se maquiava. Procurou não pensar no que planejava fazer aquela manhã, mas não adiantou. No momento em que andou da casa até a garagem, tinha as pernas bambas e sentia tontura. Tudo o que conseguiu fazer foi abrir a porta e sentar-se no banco. Depois, foi incapaz de girar a chave na ignição.

Agorafobia. Era o nome de seu problema. Não faz muito tempo, o teria negado. Seria, ainda, capaz de jurar que não tinha interesse em sair de casa e que este era o único motivo para ali ficar. Alec lhe provara o contrário. Neste instante, tinha que assumir o medo de sair de Hera Silvestre.

Pretendia vencê-lo esta manhã; estava certa de que o faria, pois desconfiava ser um caso brando. Tinha tempo de sobra. O salão de Zelda ficava a menos de 15 minutos, e faltava ainda uma hora. Tudo o que tinha a fazer era ligar o carro e manobrá-lo para fora da garagem. Fizera isso antes, com Alec ao seu lado. Com certeza poderia fazê-lo outra vez.

Passaram-se uns bons quarenta minutos e duas idas e voltas para dentro de casa — uma para ver se o forno estava aceso, outra para ver se desligara o ferro. Desculpas, sabia, mas não conseguia passar sem elas. Foi a raiva que a forçou a sair de casa e entrar no carro, a cada vez. Isso, e o pavor do que poderia acontecer se ela não fizesse alguma coisa para combater tal sentimento.

Afinal, pôs o motor em funcionamento e levou o Buick até o final do caminho, diante da estrada. As mãos e as pernas ainda tremiam, mas já se habituara com isso, e ignorou a sensação. O pavor de que não soubesse mais dirigir e se tivesse esquecido das normas de trânsito passoulhe pela cabeça, mas rechaçou-o também. Enxugou na saia a umidade das palmas das mãos, segurou o volante com firmeza, tirou aos poucos o pé do freio e levou-o para o acelerador.

Até aqui, tudo bem. Saiu para a estrada. À medida que passavam os minutos e quilómetros, as mãos ficavam mais firmes. O temor cedeu lugar ao bem-estar, e logo se transformou em cautelosa euforia.

Conseguira! Estava dirigindo, mantinha o carro na pista, habituava-se à sensação de ser novamente responsável pelo veículo. Felizmente levara pouco tempo para chegar à estrada. Graças a Deus já passara por este caminho, de moto, com Alec no controle.

Ele a ajudara muito mais do que ela fora capaz de reconhecer. Será que ele sabia? Teria identificado seu problema desde o início? É provável; mas nem por isso a fez sentir-se menos competente nem diminuída como pessoa.

Era um homem fora do comum. Ela apenas começava a reconhecer como era fora do comum.

Quando estacionou em frente ao salão, finalmente, Laurel apoiou a cabeça no volante e fechou os olhos. Sentia-se exaurida, como se tivesse corrido numa maratona. No entanto, a provação ainda não terminara. Não apenas teria que voltar de carro para casa, como passar uma hora com Zelda.

A cunhada saudou-a com um grito estridente de onde estava, enrolando os ralos cabelos brancos de uma senhora idosa com apetrechos para permanente.

— Laurel, meu bem, entre! Sente-se, jogue as revistas naquela cadeira ali. É como nos velhos tempos, você chegando para fazer o cabelo!

Nada havia de interessante no salão de Zelda. Instalado em um trailer, o piso de vinil e o equipamento para lavar e secar já tinham visto dias melhores. Latas de dpray e outros vidros alinhavam-se em escaninhos cor de vinho abaixo dos espelhos, e uma vassoura montava guarda sobre um monte de cabelos em tons variados, próximo à porta dos fundos. Mesmo assim, o local tinha um ar próspero, com prateleiras de novos produtos e vários cartazes — talvez fosse aquela desordem o que fazia as mulheres de Hillsboro sentirem-se em casa.

Laurel falou com a mulher de rolos no cabelo, e que ela reconheceu como antiga professora da escola — na verdade, há muito aposentada. A sra. Dacey deveria ter entre 85 e 90 anos, pois fora professora da mãe de Laurel.

— Faz tempo não vejo você, querida — disse a senhora idosa.

Laurel esvaziou a cadeira que Zelda indicara e nela afundou, murmurando qualquer coisa sobre sair mais de casa.

— Já não era sem tempo — disse Zelda, com seu jeito franco. — Eu estava mesmo falando com a srta. Dacey que faz mal para a saúde você ficar trancada lá em Hera Silvestre. Eu me sinto um pouco culpada, de certo modo, sinto mesmo. Devia ter visitado você mais vezes, quem sabe chamar para fazer compras ou ir ao cinema. Mas pode deixar, vai ser diferente daqui em diante.

— Gentileza sua se preocupar comigo, mas sei que você é muito ocupada — respondeu Laurel com educação.

— Sou mesmo — disse Zelda com ar inocente e apanhou mais um rolinho na bandeja atrás de si. — Família, tudo isso. Além do mais, preciso trabalhar, coisa que você nunca precisou.

— Hera Silvestre me ocupa muito, e a cerâmica também — retrucou Laurel, mantendo o sorriso mesmo diante do tom pejorativo da cunhada. — Então, percebendo uma abertura para aquilo que viera dizer, prosseguiu: — Com certeza vou estar muito ocupada esta semana no galpão da cerâmica. Você acredita que alguém foi lá em casa esta noite e quebrou as placas de Green Man que levei tanto tempo para fazer?

— Não diga — replicou Zelda, parando de enrolar o cabelo. — Que coragem!

— Tentaram quebrar também as colunas que Alec e eu construímos, mas o concreto ficou bem forte. Espero que eles tenham deslocado o ombro, fazendo força com a marreta.

— Ai! — falou Zelda, erguendo a sobrancelha e os lábios de um lado só. — Que malvada você é.

— Eu devia ter apanhado a pistola para atirar neles! É o que vou fazer da próxima vez que aparecer alguém no meio da noite, sem motivo para estar ali.

A irmã de Howard inclinou a cabeça.

— Isso inclui você sabe quem?

— Se está falando de Alec Stanton, ele não tem nada a ver com isso.

— Ah-ah — disse Zelda, enrolou a última mecha do cabelo da cliente e apanhou o vidro com a solução química que preparara. — Ele deve ter perdido o trevo da sorte lá onde você mora.

— Pode-se dizer que sim — murmurou Laurel, desviando o olhar da outra mulher. Não apenas era verdade, como parecia ser uma informação de conhecimento geral.

O cheiro forte da solução química encheu o ar úmido e quente. Um breve silêncio se fez, enquanto Zelda levava alguns minutos para embeber cuidadosamente na mistura cada rolo do cabelo da senhora idosa.

A sra. Dacey espiou Laurel, de onde estava, esticando o pescoço para a frente. Com voz impertinente, disse:

— Vocês não estão falando do neto de Callie Stanton, não é?

Zelda revirou os olhos e Laurel forçou um sorriso.

— A senhora o conhece?

— Conheço Callie há muitos anos, mas ainda não fui apresentada ao jovem Alec. Mas já o vi por aí, e parece ser um bom rapaz.

— Ora, sra. Dacey, não vá me dizer que gosta daquele cabelo comprido — falou Zelda em tom de piada.

— E por que não? — indagou a idosa senhora erguendo as sobrancelhas. — Não tenho nada contra, desde que esteja bem limpo. Só Deus sabe como os jovens gostam de ser diferentes. Isso me lembra o tempo em que as mulheres começaram a cortar o cabelo. A julgar pelo que o povo dizia, eram todas umas Jezebel. É claro que não eram, como esse rapaz não é o selvagem que as pessoas andam dizendo. Além de tudo, ele é igual à metade dos homens que aparecem na televisão.

— Tem toda razão, sra. Dacey — disse Laurel, sorrindo. — A senhora pensa como eu.

A senhora de cabelos brancos enrubesceu de prazer.

— Ora. É só ter bom senso.

— Mas muita gente não pensa assim — acrescentou Zelda, sacudindo a cabeça ao terminar de aplicar a solução, e depois ajudou a sra. Dacey a sair da cadeira e guiou-a até o secador. — Ontem mesmo ouvi falar que ele devia ser expulso da cidade.

— Que coisa mais cruel, isso — ressaltou a velha senhora, enquanto atravessava o cômodo. — Quando eu era criança, mergulharam um estranho no piche, depois grudaram nele umas penas e circularam com ele pela cidade em cima de um trilho de trem. Dizem que ele quase morreu.

— Isso foi há muito tempo — disse Laurel. — Com certeza não vão fazer uma coisa dessas hoje em dia.

— É difícil saber o que as pessoas vão fazer quando são provocadas.

A senhora de cabeça branca ficou calada enquanto Zelda ajeitava o secador e o ligava a toda potência.

Laurel olhou para Zelda com ar de dúvida e cansaço.

— De onde vem tanto ódio e rancor? Não estou entendendo.

— Quem é que sabe como tudo começou? — disse Zelda, sacudindo os ombros gordos. — Mas acho que, se o seu Alec não circula mais por aí, quer dizer que anda fazendo outras coisas em Hera Silvestre.

— Ah, ele ainda está trabalhando — respondeu Laurel vagamente.

— Pensei que você tinha dito que ele era carta fora do baralho.

— Só quis dizer que não existe nada entre nós, não mesmo — sorriu de leve. — Como é que alguém pôde pensar isso, se sou tão mais velha? Nem me passa pela cabeça.

— Eu até imaginei esse tipo de coisa — comentou Zelda com franqueza e caiu na gargalhada, diante da expressão no rosto de Laurel. — Brincadeira, brincadeira. Agora, sente-se aqui nesta cadeira e me diga o que você quer fazer no seu cabelo.

Laurel deu as instruções — sem que isso fizesse diferença. Zelda lavou a cabeça, aparou as pontas, secou com secador mas, em vez de fazer uma escova no estilo simples e preferido por Laurel, a cunhada usou musse e pente de eriçar. Quando Laurel saiu, estava com um ”cabelão”, especialidade de Zelda, e o aspecto chamativo de uma garota de programa. Foi tão forte a necessidade de passar alguns minutos diante do espelho escovando aquele cabelo, para reparar o dano, que ela já estava a meio caminho de casa quando notou que dirigir não era assim tão perturbador.

Allec estava de pé no galpão da cerâmica, com olhos fixos na última placa que Laurel fizera. A garganta lhe doeu ao tocar o conturbado rosto de mulher, quase escondido entre as flores, capturado e abafado por elas. O impulso de manipular o barro queimado era quase incontrolável, como se fosse para libertar a figura que havia lá dentro.

Era Laurel, por certo. Não sabia que sentia tanto por estar aprisionada — chegou a pensar que ela assim preferia. Estava errado. Lutava contra aquilo o melhor que podia, mas as armas de que dispunha não eram lá muito poderosas.

Teria ajudado, se ela deixasse. Por que não deixou? Seria somente porque não confiava nele? Ou seria ele, de um modo que não compreendia plenamente, parte do que a mantinha cativa?

Tinha saído quando ele chegou, de manhã. Deixara um bilhete para Maisie, dizendo onde estava, mas nada para ele. Foi imediatamente dominado pela idéia de que sofrera um acidente, talvez estivesse em algum lugar, tremendo de medo, sem conseguir dirigir de volta para casa. Isto foi antes de ele ver os cacos de terracota espalhados pelo chão.

Ela estava sozinha em Hera Silvestre quando aquilo ocorrera. Deve ter ficado aterrorizada. Mas não o chamou, nem ficou para lhe contar. Saiu de carro para o salão, como se a hora marcada fosse mais importante.

Quis que ela estivesse ali, quis que fosse encontrá-lo na porta, aos gritos, reclamando de ele a ter abandonado, e que era dele a culpa pela destruição das peças de cerâmica das quais tanto se orgulhava. Ele poderia chafurdar na culpa, ser tragado por ela. Poderia até ficar com muita raiva, a ponto de se esquecer que a decepcionara.

Ela o mandara embora. Era por isso.

Não importa quantos milhões de vezes disse a si mesmo que, no entanto, não fazia diferença. Nunca deveria ter ido. Sabia que não deveria; sabia que deveria ter seguido sua intuição e ficado por perto. Em vez disso, deixou que o orgulho ferido o afastasse de lá, e foi isso o que acontecera.

Independentemente, aprendera algo importante a partir desta lição. Aprendera o quanto Laurel precisava dele, e quão pouco estava disposta a admitir o fato.

Alec fora ao galpão à procura das últimas peças feitas por ela, na esperança de encontrar alguma pronta que pudesse ser pendurada para substituir a que fora destruída. A placa nova estava inacabada. E a figura feminina era íntima demais, angustiada demaispara ser exposta assim ao acaso.

Recolocou-a na bancada e ficou ali, de mãos na cintura, procurando em volta por alguma outra coisa. Passou os olhos por uma caixa em uma prateleira mais alta. Fora empurrada para trás, quase fora do ângulo de visão, mas ele era mais alto que Laurel, e conseguiu alcançá-la.

Ficou espantado ao abrir a caixa e ver seu próprio rosto encarando-o. Não era de se admirar que ela o escondesse. Meu Deus, como ela trabalhava bem. Bem demais. Toda a suave sensibilidade, que com tanto esforço ele tentava esconder, podia ser vista na placa. Sobrepunham-se a isto a sensualidade rude e a estúpida certeza masculina de ser ela um troféu a ser conquistado, em vez de um presente a ser recebido de espontânea vontade.

— O que está fazendo?

Virou-se rapidamente e viu-se diante de Laurel. Sua chegada foi uma surpresa, porém, ainda mais espantoso era ter ficado tão fascinado com o que descobrira que nem ouviu o carro entrar. Com voz serena, respondeu:

— Olhando.

-O quê?

Ela entrou no galpão, afastou-se da porta onde era pouco mais que uma silhueta contra o sol forte lá fora. Ele piscou os olhos e focalizou-os na cabeça dela.

— O que houve com seu cabelo?

Ela passou os dedos pelas ondas e cachos, achatou um dos lados com a mão e puxou o outro para trás do ombro.

— Não importa o meu cabelo. Quero saber por que você está aqui dentro.

Ficou em silêncio por mais um instante, distraído com a imagem de Laurel, meio anjo, meio devassa, confundido pela vontade de rever a aparência dela a que se habituara, e o impulso de levá-la para a cama e explorar essa mulher diferente. Finalmente, falou:

— Vim aqui procurar uma placa para pendurar no jardim, mas parece que você não tem outra.

— Não. Agora, se você...

— Se você queria colocar a que tem o meu rosto, não me incomodo. Pelo contrário, até me envaidece.

— Não era essa a idéia — respondeu com firmeza. — Pode acreditar.

— O que era, então?

O rosto dela se contraiu e ele acrescentou rapidamente:

— Não estou me fazendo de desentendido. Pelo menos, espero que não. Realmente gostaria de saber.

— Nada — disse ela. — Eu só estava... brincando com barro. O equivalente a rabiscar, acho.

— Adoraria ver o que acontece quando trabalha a sério. O olhar dela pousou sobre a placa feminina na bancada lateral.

— Duvido. O resultado pode chegar bem perto de uma gárgula para espantar os demónios. Ou as pessoas.

Ele sacudiu a cabeça.

—Não seja modesta. Você tem esse dom.

— Tenho jeito — corrigiu. — Mas isso não faz diferença, desde que eu goste do que faço. Agora, se você não tem o que fazer, eu logo encontro alguma coisa.

.— Na verdade — disse ele, fazendo uma careta ao rir, e andando atrás dela —, tenho umas idéias. Mas estou aberto a sugestões.

— Pare!

Estendeu a mão, como se, deste modo, pudesse detê-lo. Ele continuou a caminhar, até os dedos pousarem em seu tórax.

— Parar onde? — As palavras tinham um toque de ironia. — Não acha que e” um pouco tarde para pôr um limite aqui, depois de termos chegado tão perto em outros lugares?

— Nós tínhamos combinado ser...

— Discretos, sim, em público, mas não em particular, nem sempre. — Ele tinha um ar pensativo. — Pelo menos, não me lembro dessa parte do trato.

— Sabe muito bem do que estou falando.

A mão dela tremia ao tocar o peito dele. Sentia arrepios de angústia que a percorriam e chegavam aos dedos dos pés. Isto o atingiu de várias maneiras, nem todas recomendáveis. Com um sorriso estranho, falou:

— Sei um jeito de fazer tudo certo.

— Aposto que sabe — retrucou ela. O sorriso se abriu.

— Ah, Laurel, você faz cada idéia de mim. O que acha que eu quis dizer?

— Não faço a menor idéia — disse ela, baixando os cílios —, mas espero que seja alguma coisa...

— Sensual — completou ele quando ela fez a pausa.

— Libidinosa, melhor dizendo — respondeu, levantando o queixo como em desafio.

Segurou os dedos pousados nele e levou as pontas à boca para um beijo rápido. Prendendo-os ainda, disse:

— Bem, acho que não, mas isso depende de por que alguém se casa.

Os dedos dela agarraram-se aos dele em um reflexo, ao mesmo tempo em que arregalava os olhos de espanto.

— Casar!

— É um estado instituído por Deus e consagrado...

— Sei o que é! Só fiquei surpresa por você pronunciar a palavra.

Tentou soltar a mão, mas ele não deixou.

— Não estou só pronunciando — disse ele intencionalmente. — Estou pedindo para se casar comigo.

Ela ficou completamente imóvel.

— Não está falando sério.

— Eu juro — garantiu ele. — Não consigo pensar em outra coisa para parar com a boataria, não acha? Além disso, pense nas vantagens. Como sou uma década mais novo, temos a mesma expectativa de vida. Você não vai ficar viúva de novo. Adoro mulheres maduras, que preferem os anos dourados e estão bem resolvidas. É só olhar para você, perfeita em todos os sentidos.

— Alec...

— E você ainda levantou essa questão da compatibilidade sexual.

— Eu, não!

Ele a olhou de soslaio.

— Não? Acho que sim. Você é do tipo de mulher que exige um amante dedicado, e sabe o que mais? Acontece que estou na idade certa para isso. E tem mais.

Ela o encarava como se esperasse até ele terminar de falar, antes de tornar a argumentar. Ainda não tinha terminado, mas era bem-educado para dar a ela oportunidade de falar.

— Você calculou tudo, não foi? — disse finalmente, com os lábios apertados.

— Não foi preciso, ainda mais depois de entender o que sinto por você.

— Você me ama, acho que disse isso.

As palavras saíram sem alegria. Não acreditava em nenhuma delas. Ele reconheceu:

— Amo, sim.

— Você me amou desde o momento em que me viu pela primeira vez.

A concordância era evidente.

— Você vai me. amar para sempre, mesmo quando eu ficar de cabelos brancos e sem um dente na boca.

— Para mim não faz diferença se você ficar careca ou tiver mais cabelo que três mulheres juntas — falou, com uma olhadela para o penteado que ela usava.

— Emocionante. Mas tem certeza de que isso vai durar tanto tempo? — indagou e sua voz ficou estridente. — Ou será melhor eu planejar um suicídio para quando você se cansar de me ver por perto? E se eu não achar essa idéia tão atraente, você vai ficar por aqui para me ajudar?

Ele sentiu o sangue se esvair de suas veias, sentiu a respiração cortada como se tivesse levado um soco no peito. O cérebro foi apertado como por um torniquete, depois se estabilizou, mas aumentou a náusea que brotava no estômago.

— Quem lhe disse isso? — indagou delicadamente.

— Que diferença faz? Eu sei.

— Você não sabe de coisa alguma.

— Ela morreu, não foi?

— Foi, morreu.

— Por suas próprias mãos?

— Estava doente. Ia mesmo morrer.

— E você foi preso por assassinato.

Ele desviou o olhar e pôs a mão na cabeça, que começava a latejar.

— É uma história muito longa. Mas não matei minha mulher.

— Você não foi considerado culpado, é o que quer dizer.

— Não ponha as palavras na minha boca! O que aconteceu na Califórnia não tem nada a ver conosco. Isso é diferente. Você é em tudo diferente da sra. Chadwick. Você é tão jovem em tantas coisas que eu me sinto, de fato, muitos anos mais velho, não que tenha alguma relação com a idade, sua ou minha. Estou falando de duas pessoas que riem juntas, conversam, gostam das mesmas coisas. Homem e mulher que gostam de verdade um do outro e, mais do que tudo, quando se juntam fazem mágica.

— É isso? — perguntou, com palavras que não soaram mais alto que um sopro. — Ou apenas ter dinheiro e segurança?

— Laurel — começou, dando um passo à frente, apesar da resistência dela, enquanto tirava de dentro de si paciência e resignação para tentar de novo.

— Não. — Ela se afastou dele. — Simplesmente, não. Não quero me casar. Nem com você, nem com qualquer outro homem. Nem agora, nem nunca.

Ele se aproximou.

— Isso é comigo — perguntou — ou com você? Pode ser que a idéia deixe você apavorada.

— Pode ser um pouco de tudo. Não sei — retrucou. Mas a resposta ainda é a mesma.

Afastou-se dele, indo em direção à casa. Ao vê-la sair, falou:

— O que aconteceu? O que o seu Howard fez, para você desistir do casamento? É, e tenho mais uma pergunta, já que estamos falando nisso: foi o suficiente para você matá-lo?

Ela ouviu, e ele sabia. Mas ela não respondeu.

Alec ficou ali, onde o deixou, olhando para o nada. Depois de algum tempo, virou-se para as duas placas feitas por Laurel, seu rosto e o dela, homem inconveniente e mulher aprisionada. Deu uma risada breve. Apanhou-as, levou-as para o jardim italiano e pendurou-as lado a lado, onde estivera a Bocca de la Verità. Pareceu-lhe um lugar adequado.

Mais tarde, pegou um machado e atacou o bosque nos fundos da casa. O intruso que se esgueirasse por ali não teria mais a cobertura da vegetação. Mais do que tudo, era o exercício de que precisavapara não fazer algo violento, que lhe criasse problemas.

Era lá que ele estava, no bosque, com o machado nas mãos, quando o carro da polícia chegou. Ficou imóvel, vendo sair um homem fardado que atravessou o jardim da frente e subiu as escadas até a entrada da casa.

.Laurel tirou os olhos das contas que estava pagando, no momento em que pararam as batidas fortes e ritmadas do machado. Já estava de pé, indo para a frente da casa, quando ouviu Maisie abrir a porta. Ao chegar ao hall, a empregada e o xerife estavam lá dentro, e Dan Tanning, de chapéu na mão, respondia às perguntas habituais de Maisie sobre o cumprimento da lei em Hillsboro. Virou-se, com um sorriso no rosto largo, ao ver Laurel indo em direção a ele para cumprimentá-lo.

— Espero que não se incomode por eu aparecer sem avisar — falou com voz profunda e lenta. — Ouvi falar nos problemas que teve por aqui e achei melhor vir ver.

— Você é sempre bem-vindo, sabe disso — disse em tom familiar. — Mas acho que andou falando com Zelda.

Ele fez que sim com a cabeça e enrubesceu ligeiramente.

— Ela segura nas minhas orelhas de vez em quando, como meu pai dizia quando ia cortar o cabelo. Estive lá hoje de manhã, pouco depois de você sair. Ela está preocupada com você.

— Agradeço por ter vindo, mas duvido que possa fazer alguma coisa. Não consegui ver quem estava aqui fora.

— Talvez eu pudesse listar os prejuízos, de qualquer maneira.

Acenou com o chapéu, em um gesto vago que engloba o lado de fora da casa.

— Não restou muito para se ver — disse ela, com pouca convicção, enquanto indicava a ele a porta da frente e saíam para a varanda.

— Já foi limpo?

Ele passou os olhos em volta, sob as sobrancelhas espessas. Ela concordou:

— Foi a primeira coisa, hoje de manhã.

— E quem limpou?

— Alec, quando chegou.

Um grunhido, que poderia significar qualquer coisa, saiu da garganta dele.

— Vou dar uma volta por aí para olhar, de qualquer modo, se você não se incomodar. Pode ser que alguma coisa me chame a atenção.

Ela o acompanhou para fora. Enquanto caminhava, sentia o volume sólido atrás de si e também a observação atenta. Era um homem equilibrado, pensou, nada havia de complicado com relação a ele. Tudo o que dizia significava aquilo mesmo — nem mais, nem menos. Era um alívio, de certa forma.

Alguns comentários insípidos sobre o clima ocuparam-nos enquanto iam até os fundos do terreno. Então chegaram ao jardim italiano. Laurel sentiu todos os nervos tensos quando passou pelo portal e viu as placas de homem e mulher penduradas ali, lado a lado.

Alec, é claro. Sem dúvida, estava marcando presença. Diferentemente do xerife, não era um homem comum.

Tomou fôlego e explicou como eram as peças de terracota que tinham sido quebradas. O xerife balançava a cabeça, demonstrando que compreendia. O olhar dele se deteve por um instante nas duas novas placas mas, se viu alguma semelhança com as pessoas concretas, não fez qualquer comentário. Em vez disso, falou:

— Não encontrou nada jogado por aí, que pudesse ter sido usado para causar o dano?

— Quer dizer, um bastão, ou coisa assim?

— Lenha para fogueira, taco de beisebol, martelo, pé-de-cabra, qualquer coisa.

Ela sacudiu a cabeça.

— Isto é mau. Teria uma ideia para nos dar? Foi somente molecagem ou era alguém que sabia o que estava fazendo? Podemos conseguir uma ou outra digital.

— Posso perguntar a Alec, mas tenho certeza de que ele teria comentado, se tivesse encontrado alguma coisa.

O olhar era de quem tinha entendido, mas ele não respondeu. Voltou-se, saiu do jardim italiano e foi até o lado da garagem onde ficava a fonte de Baco. Nada havia de interessante ali, agora. Alec desligara a água, deixando a bacia abandonada e vazia, sob o cano da bica.

Dan assoviou ao ficar de frente para as marcas na madeira da garagem, provocadas pelos golpes para quebrar a máscara.

— Não estou gostando disso, Laurel. Dá uma impressão ruim. Sei que não é da minha conta, mas realmente não acho bom você passar a noite aqui sozinha.

— Fico sozinha desde o ano passado, quando Evan foi para a universidade. Agora não é diferente.

— Acho que é, e também não estou falando só pelo que Zelda me contou. Estive com a sra. Callie, e ela está preocupada com essa coisa toda. Depois, a mãe de Howard se pendurou nos meus ouvidos, uns dias atrás. Quem sabe você não arranja uma pessoa para passar a noite aqui?

— Quem? Mãe Bancroft? Zelda? — Com esforço mantinha a voz baixa. — Acho que não.

— E o Evan? Ele podia ir e vir de carro para o curso de férias, por uns 15 dias, talvez. Ou se a sua filha e o genro pudessem ficar por perto.

Evan era uma possibilidade. Quanto a Márcia e Jimmy, a filha poderia concordar, mas só quando o marido estivesse viajando.

— Vou pensar.

— Ótimo. — Fez uma pausa. — Enquanto isso, vou pôr uma das moças do escritório no computador, para ver o que conseguem na Califórnia sobre... certas pessoas.

— Quer dizer, Alec?

— E o irmão.

— Acho que não há necessidade.

— Pode ser que sim, pode ser que não. Se estiverem limpos, não há problema. Se não... bem, é melhor saber.

Nada podia fazer para impedi-lo.

— Pode encontrar um problema ou outro, mas nada que eu ainda não saiba.

— Vamos ver — respondeu ele sem se comprometer. Mas não precisa se preocupar muito. Vou fazer o possível para passar por aqui nas rondas, ou então mandar um delegado.

— Não precisa fazer isso.

— Sei que não preciso — disse ele em voz baixa —, mas sempre fui louco por você, Laurel, sabe disso. Pensei lá atrás, mais ou menos um ano depois que Howard morreu, que pódíamos ficar juntos, então...

Deixou a frase em suspenso e desviou o olhar.

Pensava, imaginou ela, na falta de sorte de ter sido pego com Zelda. Laurel nem teria se lembrado, se a cunhada não mencionasse o incidente há pouco tempo. Da parte dela, não que isso fizesse alguma diferença. Gostava bastante de Dan, via suas qualidades, mas não se produzia aquela química entre os dois. Pelo menos, não do ponto de vista dela. Estar ao lado dele não significava nada para os seus batimentos cardíacos. Era muito diferente de estar ao lado de Alec.

— Dou muito valor a esse sentimento — disse com tranqüilidade —, mas acho que certas coisas simplesmente não funcionam.

Ele voltou os olhos para ela e depois afastou-os outra vez. Lá fora, no bosque, atrás da casa, ouvia-se o bater do machado contra a madeira. De olhos fixos no ponto de onde vinha o som, Dan tornou a falar:

— Então você agora está com o neto de dona Callie por aqui. Acho que tem idade bastante para saber o que está fazendo.

— Acredito que sim.

— Vai se cuidar?

— Vou sim, pode deixar.

— Que bom.

Passou a mão nos cabelos, colocou o chapéu e puxou a aba para baixo.

— Acho que estou melhor sozinho. Mas pense no que lhe falei.

Ela concordou, depois andou junto dele ao longo da parede da garagem e atravessou o jardim de rosas até chegarem ao carro preto e branco, estacionado na estrada da frente. Ele deu um sorriso breve e fez uma saudação, entrou no carro e partiu. Levou muito tempo até ela voltar para dentro de casa.

 

Quando Laurel saiu do banheiro, Alec estava deitado na cama no quarto quase escuro. Apoiava a cabeça nas mãos, sobre os travesseiros, e usava apenas calças jeans. Seu sorriso era terno e íntimo.

Ela se deteve, apertando na mão a escova de cabelo de dentes largos, com a qual desembaraçava os longos cabelos molhados que lhe caíam pelos ombros. O coração deu saltos mortais dentro do peito. A boca de repente ficou seca. A primeira coisa que lhe passou pela cabeça foi se lembrar de que sua camisola era transparente. Como se fizesse alguma diferença.

Com voz perplexa, falou:

— Como entrou aqui?

— Abro fechaduras antigas como a sua desde que era criança. É um espanto que ninguém tenha entrado ainda, atrás de tanta coisa que você tem aqui. Ou de você.

O olhar dele, ao perpassar pela camisola já bastante usada, aqueceu a temperatura ambiente.

— Deve ter algum motivo.

Desceu a escova até as pontas dos cabelos, que segurava com a outra mão, aí insistindo para não ter que encará-lo.

— Uns dois. Em primeiro lugar, você precisa de alguém para ficar de guarda, mesmo que não acredite nisso, e estou disponível. Em segundo lugar...

Ela ergueu os olhos quando ele fez a pausa.

— Em segundo lugar?

Seu sorriso era provocante e a voz, rouca.

— Tinha esperança de que estivesse com saudades do seu brinquedinho. Achei que ia querer ficar com ele para se distrair.

O rubor que lhe subiu à face mesclou-se às chamas acesas em sua mente. Quis que ele não percebesse aquele indício, com a luz acesa às suas costas.

— Depois de tudo que dissemos um para o outro hoje à tarde? Você não pode estar falando sério.

— Não?

— É claro que não!

— Que pena.

Sacudiu a cabeça tristemente, e uma sombra de dor apareceu na escuridão de seus olhos.

— Ora, vamos! — disse ela, baixando a escova e afastando a cabeleira emaranhada. — Com certeza você não esperava que eu esquecesse tudo isso.

Pensou na questão e retorceu os lábios com ponderação.

— Depende.

— De quê?

— Quem é o caçador? — sugeriu, levantando a sobrancelha.

Ela fechou os olhos. Estava brincando outra vez. Estaria? Era perfeitamente possível que estivesse pronto para prosseguir em qualquer direção, dependendo da reação dela. Devia ter ficado com raiva, desconfiada, mas, em vez disso, sentiu, aos poucos, um alívio.

Chamou-o de um nome que não era um elogio, mas tampouco uma agressão.

— Eu sei, mas você devia ver o seu rosto — respondeu ele, com implacável concordância.

— Isso não tem graça.

A voz tinha um tom queixoso.

Ele encolheu os ombros, com olhar honesto.

— Já vi antes mulheres como a sua cunhada. Confundem a gente, sendo ao mesmo tempo grosseiras e requintadas. Ela só vai me incomodar se o que disser fizer com que você se volte contra mim. Por outro lado, parece que eu é que estou fazendo isso, cada vez que abro a boca e solto o verbo.

A melancolia na voz dele e o tom depreciativo com que falava de si próprio eram desconcertantes. Tinha razão, ela não duvidou nem por um minuto; mesmo assim, não podia contestar o resultado. Sem olhar para ele diretamente, replicou:

— Nós dois dissemos coisas que não queríamos dizer. Esta situação toda é tão estranha que nem me surpreendo mais.

— Mecanismos de autodefesa. De nós dois.

Era uma desculpa razoável, se ela se dispusesse a aceitála. Na agitação em que se encontrava, sacudiu a cabeça e atacou outra vez a cabeleira embaraçada, resmungando entre dentes logo que a escova se prendeu no emaranhado de fios.

— Ei, espere — exclamou Alec, levantando-se da cama com um deslizar dos músculos firmes. — Se continuar assim vai arrancar seu cabelo. — Foi na direção dela, apanhou a escova de sua mão. — Deixe que eu faço.

Resistiu por um instante, mas ele estava decidido. Segurando-a pelo pulso com dedos fortes, conduziu-a até a cama. Caiu sentado no canto e abriu as pernas para ela se encaixar. Ao puxá-la, de costas, para junto de si, espalhou os cabelos dela pelas omoplatas. Manobrando com cuidado, soltou a escova e começou a remover os nós com destreza.

A concentração era total. Combinada ao toque das mãos nos cabelos, a sensação era de agradável intimidade. O esforço para não se jogar por cima dele a divertia.

Não devia fazer isso. Devia parar onde estava e mandálo sair de sua casa; nunca ficar de conversa fiada com ele. Devia ter-se recusado a chegar perto, a qualquer preço. Certamente, nunca devia ter deixado que ele lhe encostasse as mãos, mesmo para uma tarefa inócua como escovar os cabelos.

Faltava-lhe um mínimo de sensatez. Ou um pingo de força de vontade.

Depois de um momento, pigarreou e disse:

— Você faz isto muito bem.

— Tenho de fazer, não acha? — retrucou ele, jogando o longo rabo-de-cavalo para as costas com um gesto rápido. — É claro que comecei com minha irmã pequena, arrumando-a para ir à escola.

A imagem que ele evocou, de um adolescente esforçando-se para que a irmã tivesse uma boa aparência, fazendo papel de pai e mãe dela, tocou o coração de Laurel. Não queria ser afetada por isso, sabia que de nada adiantava, neste caso, a compaixão, só não conseguia evitar o sentimento.

Antes que se recuperasse, ele falou:

— Ouvi dizer que você ameaçou atirar nas pessoas. Tentou virar a cabeça e olhar para ele, mas como segurava seu cabelo, não conseguiu. Cedeu e indagou:

— Quem disse isso?

— Uma senhora idosa ligou para minha vó, disse que ouviu no cabeleireiro. A vó me perguntou se eu sabia disso quando voltei do trabalho, hoje à tarde.

— Eu estava com raiva.

— Só que, agora, quem vier para cá, virá armado. Ela deu um suspiro exasperado.

— O que você queria que eu fizesse? Oferecer a outra face? Deixar que eles acabem com tudo que você e eu fizemos com tanto trabalho?

— Não precisa fazer coisa alguma, você tem a mim. Mantinha as mãos firmes e meigas nos cabelos.

— Como não sabia que teria você, nem qualquer outra pessoa, achei melhor resolver eu mesma.

— Você vai ter sempre a mim. Com ou sem casamento. Voltou-se para ele de um salto, sem se importar com o puxão de cabelos.

— Não diga isto!

— Por que não, se é verdade? Não quero pressioná-la, nem pedir mais do que pode dar. Não vai acontecer de novo.

Ela detestava aquele tom resignado na voz dele, detestava tê-lo provocado, mesmo sabendo o que ele queria. Começou a sacudir a cabeça.

— Alec, acho que não...

— Então, nem tente — disse ele com firmeza. — Não é complicado, prometo. Você precisa de mim neste exato momento, e preciso de você. Não temos que pensar no amanhã, em nem ”para sempre”. Só este momento, o agora, nos interessa. Acha muito difícil?

Não era difícil, de maneira alguma, este era o problema.

— Oh, Alec, você merece mais do que apenas ser útil. Ele baixou os olhos e firmou os lábios decididamente.

— Deixe que eu me preocupe com isso. — O olhar pousou sobre as mechas sedosas que ainda tinha nas mãos. Em voz baixa, continuou: — Naquela primeira noite, quando vi Você sair de casa, achei que seus cabelos eram raios de luar. Gosto muito mais deles assim, macios, do que armados como estavam hoje de manhã.

— Obrigada. Eu também.

Tinha a voz conformada ao responder. Ele estava mudando de assunto, e com razão. Ela tampouco quis conversar sobre tudo o que havia entre eles. Não quis pensar nas dúvidas, medos, problemas. Nem poderia, pelo menos enquanto estivesse com o braço preso ao peito firme, e sentisse as coxas rijas pressionando seus quadris. O calor de seu corpo a envolvia como carícia. O cheiro morno, limpo, subia-lhe à cabeça como um afrodisíaco. Queria tê-lo com uma vontade profunda, uma dor lenta, que nada atenuava a não ser o toque, a força.

O que havia nele que dissolvia os pensamentos e arrasava sua capacidade para resistir? Ouvira falar de homens e mulheres que arriscavam tudo por um amante, porém jamais imaginara compreender tão bem o ímpeto que os motivava. Neste instante, não se importava com o que ia acontecer, nem com o que aconteceu com ela. Era o bastante ter Alec aqui, ao seu lado. E sentia de fato que poderia morrer se não a beijasse.

Talvez tivesse o desejo estampado no rosto, pois ele cessou os movimentos.. Olhou-a nos olhos, pedindo, em meio ao tumulto interior. Jogou a escova para o lado e puxou-a para junto de si.

Para Alec, era como se tivesse vencido. Amável, amoroso prêmio. Seria generoso na vitória, se conseguisse governar o que o deixava tão louco.

Beijou-a nos cantos da boca, tenros e úmidos como de criança. Roçou com o nariz o cetim cálido da face, sentiu-a de encontro às pálpebras, ao maxilar. Procurando a orelha, mergulhou dentro a língua, provando o gosto, e prendeu o lóbulo entre os dentes. Ao mesmo tempo, deslizava a mão pelas costelas, subia para juntá-la à maciez almofadada do seio, capturava o mamilo que imediatamente se firmava em suculento botão de flor. Perfeita, ela era perfeita, e reagia tão bem a cada toque! O som suave que emitia tangia cordas dentro dele, que ressoavam no coração. Com os lábios, captou o doce lamento e o reteve no interior.

Meu Deus, doía a urgência em tê-la. Não se tratava apenas de sexo, mas do que se passava na cabeça, no coração, nos pulmões, em cada célula do corpo. A necessidade de senti-la nua ao encontro de seu corpo era tão forte que segurou a bainha da camisola e levantou-a até a cintura. Afastou-se dos lábios dela apenas o tempo necessário para tirar-lhe a roupa. Voltou-se então e ergueu-a nos braços. Virou-a bem de frente para si, segurou-a com força, deitou-se na cama novamente. Com as mãos abertas, agarrou-a pelas costas, pressionando o calor feminino, enquanto os cabelos dela eram jogados para a frente, fazendo cócegas, brincando, deixando-o louco com seu perfume e umidade, suavidade no rosto, pescoço, ombros.

Gostava daquilo, gostava do corpo dela, gostava de beijá-la, empurrar a língua para a quentura aveludada. Gostava do sabor de açúcar, de hortelã da pasta de dentes, da boca. Gostava dela. E tinha que tê-la agora, do contrário explodiria.

Em um giro de cabelos e pernas, deitou-a de costas. Lutando, xingando baixinho, abriu o zíper dosjeans, baixou-os e chutou-os fora. Colocou o joelho entre as pernas dela, seguido do membro quente, pesado, pronto. Deslizou para dentro dela, a respiração entrecortada, sem fôlego com o choque do prazer. As cálidas profundezas o cercaram, retiveram, pulsaram em torno. Ele mergulhou mais profundamente e as mãos a agarraram ao experimentar a eternidade acetinada.

Ela era dele, que fazia questão de que o soubesse, para sentir no mais íntimo, aonde só ele chegava. Queria que se juntasse a ele, cavalgasse, o tivesse como ele a tinha. Usou da força para ela sentir seu desejo. Quando ela se abriu para ele, moveu-se para acomodá-lo, ele respondeu com potência crescente, e depois com uma cadência firme.

A respiração de Laurel falhava. Ele a sentiu estremecer, no esforço para acompanhá-lo. Foi como um combustível para o desejo, acelerando-o até os músculos se moverem com o ritmo pesado dos pistões lubrificados. Cada vez mais forte.

Os gemidos sufocados não faziam sentido, eram a medida do desejo de se tornar parte dela. Queria aquilo com a desesperada urgência que era parte do milagre que se dilatava e dilacerava dentro dele. Espalhou-se, engolfando-o, consumindo-o ao viajar para o calor e os humores dela a cada vez. Nunca na vida isso fora assim tão refinado, tão completo. Jamais pretendera levar alguém assim para o sombrio e violento núcleo de seu mais inflexível desejo.

Possuído e possuidor, ouviu os gritos mansos, sentiu-a estremecer de prazer- E abruptamente se perdeu, deixando para ela tudo o que tinha, enquanto músculos e tendões de seu corpo se travaram, congelando-o em absoluta imobilidade. O peito oprimido, a mente em brasa oca, Alec manteve a penetração profunda, absoluta.

O delírio se foi. Lenta e inevitavelmente, ele afundou até sentir as batidas do coração de Laurel. Ali ficou, sustentando nos cotovelos a maior parte de seu peso, colado a ela como se pudesse absorver amor através da pele.

Muito tempo se passou, preenchido apenas pelo lento arfar da respiração deles. Finalmente, ela se mexeu, levantou a mão e passou os dedos pelos cabelos dele, macios e molhados de suor. Com um arrepio, uma risada e algo mais no tom de voz, disse:

— Espantoso.

Ele retorceu os lábios. Uma sensação leve, aérea, perpassou-o. Deslizou de cima de Laurel e virou-se de lado. Baixou a cabeça para lamber o bico do seio, ainda duro. Com voz lenta, profunda e cheia de sotaque sulista, ele falou:

— Senhora minha amada, você ainda não viu nada.

Ela ondulou o abdome em gargalhada silenciosa, que terminou de repente em tremor de reação interna à sugestão dele. Ele sentiu um sorriso de prazer brotar nos próprios lábios, diante do efeito que produzia nela. Correspondia tão bem aos seus estímulos que às vezes o surpreendia, enviando-lhe fragmentos de pura excitação. Queria ficar na cama com ela por uma eternidade, explorando todos os caminhos conhecidos para lhe proporcionar prazer.

Não que ele fosse muito experiente. Nunca teve grande interesse pelo sexo casual. Da mesma forma que comer uma bala quando o que queria era comida caseira, não lhe satisfazia a fome interior. Além disso, era decididamente uma burrice. A AIDS era o monstro maior, espreitando no escuro, mas havia outros que poderiam provocar uma interrupção definitiva em sua vida amorosa.

Isso o lembrava. Esfregou os lábios para a frente e para trás no cálido marfim dos lados dos seios dela, durante um instante em que reunia seus pensamentos.

— Laurel?

— O quê?

A mão que deslizava sem rumo ao longo da espinha, nas costas dele, se deteve.

— Você está usando alguma proteção?

Houve uma longa pausa antes de ela responder, e as palavras saíram abafadas:

— Nunca me passou pela cabeça.

— Nem pela minha, sinto muito.

O peito dele inflou com o ar respirado.

— É... pode ser um problema. Não tenho idade para... estar imune às conseqüências.

— Eu sei. Você se incomodaria? Quer dizer... é só curiosidade, mas seria horrível para você ter um bebê, agora que seus outros filhos já estão grandes?

O olhar dela era melancólico, ao fixar-se em um canto escuro do quarto.

— Acho que não. Desde que tivesse saúde.

— Entendo o que você quer dizer — falou e mostrou seu melhor sorriso. — Mas dá para imaginar o falatório? E seria a mesma coisa se você chegasse no caixa da drogaria com um punhado de preservativos. Vou cuidar disso.

— Não precisa. Pode deixar que eu resolvo.

Por um instante, pensou que ela queria um filho dele. Porém, esta possibilidade, após se dar conta de que ela não poderia ter tido a intenção de dizer tal coisa, atingiu-o como um soco no coração.

— Eu quero resolver — disse ele, constrangido. — É minha responsabilidade.

— Como você preferir. — O rosto dela estava triste, os cílios quase repousavam na face.

— O que prefiro... — começou ele e viu nela uma expressão dura.

Parou então, prendendo a respiração. O rosto de Laurel estava banhado por uma luz vermelha que oscilava entre o laranja e o amarelo, dançava em formas contorcidas e triangulares de chama.

Fogo!

Projetou a cabeça para fora da janela atrás dele. As cortinas não estavam totalmente fechadas. As labaredas brilhavam pela abertura estreita e em torno da moldura externa. Xingou com grosseria, saltou da cama num movimento único e fluido, alcançando osjeans amarfanhados.

— Fique aqui, chame os bombeiros — ordenou, olhando para trás. Meteu-se nos jeans, abotoou-os e disparou para fora do quarto.

Laurel deu o telefonema, mas não pretendia ficar dentro de casa. Era seu galpão que queimava, em fogo alto contra o céu da noite, com sua cerâmica, seu forno e todos os tesouros delicados, inacabados, que havia lá dentro. Todos os vasos, as ferramentas, facas, pincéis, a argila e a esperança. Enfiou a camisola e correu para fora de casa.

Deteve-se na varanda dos fundos, ao sentir o calor que vinha em ondas, em sua direção. Veio depois a fumaça quente, sufocante, de arder os olhos, o cheiro de destruição. Olhou fixamente a bola de fogo visível pelas janelas do galpão alinhadas na parede lateral, as velozes labaredas como garras voltadas para o céu, os torrões em brasa rodopiando ao vento e voltando ao solo como estrelas cadentes. Viu então Alec de joelhos, conectando a mangueira do jardim a um hidrante da rua, com gestos fortes e rápidos.

Cruzou a varanda em disparada, projetou-se escada abaixo, voou sobre o gramado, já ressequido e morno sob seus pés. Agarrando Alec pelo ombro, fê-lo ficar de frente para ela.

— Deixe queimar! — gritou, acima do estrondo abafado e do estalar das chamas. — Tarde demais.

O olhar dele era sério, tinha o rosto composto. As cinzas aderiram aos ombros nus como um manto de penas escuras.

— Temos que molhar a casa, tentar salvá-la. Tinha razão, é claro, ela já sabia quando falou:

— Os bombeiros vão chegar em 15 minutos. Com um riso sarcástico, sem se mover, bufou:

Se quiser salvar alguma coisa, é melhor tirar lá de dentro. Voltou-se, abriu a torneira, arrastou a mangueira para a garagem e dirigiu o jato de água para a parede dos fundos e o telhado. Já tinha tirado o carro de lá e estacionado no caminho de acesso, sem interromper a passagem do carro de bombeiros, quando chegasse.

Laurel voltou o olhar para Hera Silvestre, com suas paredes em tom de rosa brilhante, refletindo a luz do fogo. Havia na casa dezenas de peças antigas, como um sofá vitoriano em pau-rosa de 150 anos, e um aparelho de jantar francês em porcelana, completo, com 250 peças, incluindo suportes para as facas. Escolher e recolher os tesouros, entre tantos, parecia-lhe tão difícil que não conseguia sequer pensar nisso.

A oferta de água era muito maior do que antes, pois Alec colocara vários pontos adicionais ao passar os canos para as fontes. Um deles tinha um registro, próximo de onde estivera a fonte de Baco. Laurel correu para abri-lo, puxando a pesada borracha para perto de Alec, onde pudesse jogar um jato de água na parede da casa e no telhado alto. Enquanto trabalhavam, ela gritou para ele:

- Como começou? Sabe dizer? Foi curto-circuito, talvez no forno?

- Acho que não. - Ergueu a cabeça e fungou levemente. — Está sentindo o cheiro?

Ela o imitou e tossiu com a fumaça e o gás acre, conhecido, que entrou em seus pulmões. Arregalou os olhos e encarou-o em meio aos rolos de fumaça.

—Gasolina!

- Exatamente. Alguém espalhou por aí. É muito provável que tenham apanhado o galão na garagem e esvaziado correndo, como coelhos. E fizeram isso enquanto eu estava aqui, lá dentro. Que guarda-costas me saí! - A expressão dele era rancorosa, culpando-se.

— Não podia adivinhar que alguém faria uma coisa dessas.

— Devia ter ficado de olho em vez de... Suspendeu a frase, fechando a boca com firmeza. Atenta ao jato de água que dirigia para o telhado da casa, disse:

— É difícil montar guarda contra esse tipo de loucura.

— E se tivessem posto fogo na casa? E se você estivesse aqui sozinha, dormindo? — O tom de voz era feroz.

— Só que eu não estava — respondeu, franzindo a testa. — Deviam saber, já que só havia uma luz acesa na casa. O que quer dizer...

— Quer dizer que não foi coisa planejada com antecedência, só um serviço rápido, grosseiro, para lhe dar um susto. Não pretendiam matar você... desta vez.

O ar estava pesado e quente, difícil de respirar, e o estalar das labaredas atrás deles rugia mais forte.

— Por que eu? — berrou ela com voz rouca. — Podiam saber que você estava aqui.

Sacudiu a cabeça ao chegar mais perto para ajudá-la a encharcar a parede no final da casa.

— No começo eu achava que alguém podia ter me seguido da Califórnia até aqui. Agora não acho mais.

— Você está falando dos filhos adultos da sua mulher?

— Ou alguém ligado a eles.

Preciso e imperturbável, espalhou água na construção enquanto o brilho das chamas projetava clarões vermelhos em seus cabelos e iluminava braços e ombros, banhados de suor, em tons de cobre e ouro.

— Esses já não contam. Agora não sou mais uma ameaça para eles. Além disso, não sou eu quem molda barro até lhe dar vida, nem sou eu quem tinha um cachorro grande, da raça dos lobos, como guarda. Eles conhecem seus pontos fracos, Laurel, e estão usando isso. Sabem o que você mais ama.

Pense nisso, porque não vão parar por aqui. Pense no que mais você ama, e que eles podem destruir.

Ela não queria, não admitia, e nem assim conseguia evitar. O que amava? Seus filhos, é claro. Hera Silvestre. Ah, mais uma coisa. Uma pessoa.

Amava o homem que trabalhava ao seu lado para salvar o que. para ela, tinha valor. Amava Alec.

A veracidade dessa afirmação percorreu seu corpo e mente com a força de um terremoto. Claro, insuportável, dilacerante reconhecimento. Como ocorrera? Ela não queria, não precisava disso, desistira de toda expectativa de se ver algum dia frente a frente com este disparate sentimental. Crise da pré-menopausa, era isso; alterações hormonais não muito diferentes da violenta instabilidade que provocava a insensatez da puberdade.

— Seria horrível para você ter um bebê...?

Não aceitaria este amor. Ignorando-o, talvez passasse. Certamente poderia superá-lo sem revelar seu prazer idiota, sem sentido, de olhar para ele, conversar com ele, tocá-lo. O desejo avassalador de ser tomada em seus braços. A dor aguda, profunda, de imaginar como seria a criança concebida a partir da combinação da imagem de ambos, e como se sentiria ao tê-la nos braços.

Tentou com todas as forças ser racional e objetiva. Não funcionou. Em vez disso, sucumbira sem uma palavra de protesto, e o faria de novo, se tivesse a mínima chance. E, ainda assim, imaginava em desespero se um homem que quisesse uma determinada mulher, por qualquer motivo, iria matar seu cão, esmagar os frutos de sua criatividade e queimar o único lugar em que poderia refugiar-se dele. Se ele manobrasse de tal forma que fosse tudo o que lhe restava.

Agora ele era. E ela o amava; de fato o amava.

Imaginou se a velha sra. Chadwick teria sentido o mesmo.

 

A quem possa interessar

Laurel Bancroft é mulher depravada. Praticou a luxúria aos olhos de Deus e dos homens. É terrível, mas é verdade. Anda nua, curvando-se diante dos muitos dolos que há em seu jardim. Satã adentrou esse jardim, como a serpente no Paraíso. Em nome dele, ela e seu amante realizam atos vulgares e inomináveis. Mutilam animais e os oferecem em sacrifício. Perguntem o que ocorreu com seu cão. Se não for detida, o próximo a ser morto será um homem, mulher ou criança. Parte de seu mal foi purgado pelo fogo, mas não é o suficiente. Deveria ser tratada como feiticeira, indigna de viver...

.Laurel amarrotou a carta com um movimento convulsivo. Havia mais, muito mais, ela simplesmente não conseguia continuar a ler.

Encontrou aquilo em sua caixa de correio, no final do caminho de acesso, quando foi postar umas contas. O envelope era branco, de tamanho comum, como milhares de outros. O endereço estava datilografado. Nada havia que lhe chamasse a atenção, antes de abri-lo.

As mãos tremiam, batia os dentes. Sentiu-se mal, de raiva e desgosto, por alguém ousar escrever coisas tão terríveis a seu respeito, por torcer o que partilhara com Alec em algo tão sórdido.

Quantas outras pessoas receberam aquela carta hoje? Rejeitariam as palavras malévolas como produto de mente doentia, ou haveriam de murmurar, concordar, dizer uns aos outros que sempre desconfiaram daquilo tudo? Haveriam de se encarar uns aos outros com secreto deleite, dizendo: ”Bem, onde há fumaça, há fogo. Você sabe que ela é esquisita há muito tempo, isolada lá para os lados da Hera Silvestre, enclausurada, como se tivesse vergonha de alguma coisa...”

Chegava a ouvi-los falar. Isto a levava à loucura. Tinha uma violenta necessidade de fazer algo, qualquer coisa, para deter a campanha de difamação.

Quem estava fazendo isso? Quem? Na verdade, a única pessoa que se preocupava com o que ela fazia, em género, número e grau, era Mãe Bancroft. A velha senhora parecia inabalável em sua crença de que Laurel deveria se manter prisioneira em Hera Silvestre pelo que fizera a Howard. O que Sadie Bancroft sempre deixou claro foi considerar Laurel um tipo de assassina de marido, como se esta classificação fosse uma variedade de planta no jardim, e nada fizera de mais concreto. Nunca houve qualquer indício das fantásticas ações, produto de sinistra imaginação, expostas na carta. Por certo, ela jamais representara uma ameaça física.

Isto, é claro, até Alec surgir em cena.

Ainda assim, uma carta anónima não seria um grande passo, a partir das campanhas de abaixo-assinados a que a sogra aderira anteriormente. Se fosse ela a remetente, não seria correto deixar a carta sem resposta, à luz do fantástico relato e da ameaça implícita.

Alec ainda trabalhava no bosque nos fundos da casa, como fizera nos últimos três dias antes do incêndio. Começando cedo e ficando até tarde, parecia decidido a remover toda cobertura para quem quer que estivesse espionando. Ela precisava mostrar-lhe a carta, pois era mencionado. Ele tinha o direito de saber o que se dizia, precisava ficar a par dos últimos desdobramentos do caso.

Ela não conseguiu realizar a tarefa. A carta não era apenas nojenta e maldosa, mas constrangedora. Não deveria se sentir assim diante de Alec, mas era o que ocorria; não conseguia evitar. Se tivesse sido capaz de confiar nele, de acreditar no que dizia sentir por ela, não teria tido importância. Mas não podia, não o fez.

Iria conversar pessoalmente com Mãe Bancroft. Seria melhor assim. A sogra não teria desculpas para fazer observações acusadoras se não tivesse platéia.

Indo até seu quarto, Laurel jogou a carta sobre a penteadeira fora de moda e apanhou a escova de cabelo. Com poucas escovadas, seu cabelo estava liso. Juntou-o atrás com um grande prendedor de cabelo, depois passou um pouco de brilho nos lábios. Pouco depois, estava fora de casa, com as chaves do carro na mão.

A casa que Mãe Bancroft construíra para si, depois que Laurel e Howard se casaram, era totalmente diferente de Hera Silvestre. Um bangalô estilo rancho revestida de cerâmica bege, era compacta, económica e sem qualquer enfeite. Assentava-se nos fundos de um terreno pequeno, na única subdivisão que Hillsboro podia ostentar, sem um canteiro, ou flor, ou trepadeira, nada que suavizasse suas linhas retangulares nem aliviasse o tédio do gramado plano. A Laurel sempre pareceu uma casa não apenas sem personalidade, mas que disso se orgulhava.

Havia um carro na entrada, o Honda vermelho da filha de Laurel. Quando Laurel estacionou atrás dele, Márcia saía da casa de cabeça baixa, mexendo na bolsa a tiracolo. Olhou rapidamente para Laurel quando esta abriu a porta e desceu. Uma expressão espantada apareceu no rosto da moça, que foi lentamente ao encontro de Laurel.

— Nossa, mãe — disse sem preâmbulos. — Quando voltou a dirigir?

— Olá para você também — replicou Laurel, em tom caloroso mas sombreado de ironia, ao passar o braço pelos ombros tensos da filha para um rápido carinho. A piada era também para si mesma, tanto quanto para Márcia. Irritada com a carta e a perspectiva de enfrentar Mãe Bancroft, não reparou que estava dirigindo, nem pensou em seus temores.

— É muito estranho ver você fora de casa — disse Márcia, retribuindo o abraço desajeitadamente.

— Estou tentando sair mais. Você está com pressa de ir embora? Quer que eu tire o carro para você sair ou tem tempo de entrar e ficar mais um pouco?

O mal-estar era visível no rosto pálido da filha.

— Na verdade, euia ao supermercado para a vovózinha. Volto logo.

— Você está ajudando sua avó? Ela não está doente, não é?

— Não, não. É que... bem, vim morar com ela uns dias.

Laurel viu a filha enrubescer até a raiz dos cabelos, enquanto Márcia olhava para todos os lados, de modo a não cruzar os olhos com os da mãe.

— Por quê? — perguntou Laurel. — O que houve? Jimmy perdeu o emprego?

— Não é isso, não. Você vai ter que saber. Eu me separei.

— Você se separou — repetiu Laurel lentamente. — E veio para a casa da sua avó em vez de ir lá para casa comigo-

— Mãe, não faça um drama. Você anda ocupada com seu jardim e essa pessoa, Alec. Não quero atrapalhar.

— Você nunca atrapalha — falou Laurel dolorosamente. Márcia encolheu os ombros, inquieta.

— Bem, só iria pôr lenha na fogueira, de qualquer modo. Jimmy ficou enlouquecido com a boataria, furioso, fazendo discurso sobre você e seu rapazinho. Quando falei com ele que ia embora porque não agüentava mais, me xingou de tudo que é nome, disse que eu era igual a você. Ainda tentei dizer a ele que não teria olhado para outro homem se ele fosse menos fanático, mas isso só piorou as coisas.

— Outro homem? — falou Laurel com incredulidade, começando a entender.

A raiva brilhou nos olhos da filha.

— Não precisa ficar tão chocada. Você não é a única pessoa que tem sua vida, sabe muito bem. De qualquer modo, Jimmy me deu um tapa na cara. Não tenho que aturar isso, então saí de casa. Além do mais, podia ter afetado o bebê.

— Não estou chocada, só... Que bebê? Você está grávida, Márcia?

A filha concordou com a cabeça, desafiadora.

— Estou, isso acontece.

— E não me contou? Meu Deus do céu, você não acha que eu teria interesse em saber?

— Não precisa se achar desinformada. Eu mesma só descobri há uns quatro ou cinco dias. — Falava para se proteger, mas com uma ponta de sarcasmo.

Quatro ou cinco dias. Antes do incêndio, antes da destruição das placas. Não que isso tivesse importância. Ou teria?

— Não acredito que Jimmy fizesse mal ao próprio filho — disse Laurel —, nem que estejam se separando numa hora dessas, por falar nisso.

— Não é dele.

Laurel encarou a filha por um instante, de boca aberta sem querer.

— Então, de quem é?

— Só alguém que conheço, está bem? Quer dizer, você sabe como é o Jimmy, tão ocupado com o trabalho dele aquela coisa toda na igreja. Sempre foi muito ciumento, acusando-me disso e daquilo, falando coisas como se eu fosse algum tipo de demónio só porque gostava de sexo, e não a mulher normal, com a vontade normal. Já que vou mesmo para o inferno, resolvi pecar para merecer.

Amor e culpa, compaixão e desgosto alternavam-se dentro de Laurel. Aquela jovem sossegada um dia fora sua menininha, que corria para ela quando se mnachucava, chorando e pedindo colo. Tudo se perdera com a morte de Howard.

— Ah, Márcia, lamento tanto — falou calmamente. — Sinto muito que esteja com tantos problemas sem eu saber. — As palavras eram um lembrete. — Quero dizer, a maneira como me falou de Alec. Como você podia se sentar ali e me dizer aquilo, se estava fazendo a mesma coisa... até pior, já que ainda é casada?

Márcia comprimiu os lábios e balançoua a cabeça afirmativamente. Vasculhou a bolsa mais uma vez até encontrar as chaves do carro. Sem erguer o olhar, falou:

— Não é a mesma coisa, de jeito nenhum. Pelo menos escolhi alguém da minha idade. Imagino o que o seu Alec vai pensar quando você contar que vai ser a-vó.

Laurel não podia imaginar, embora Sua preocupação, naquele momento, fosse o problema da filha.

— Sei que não somos muito chegadas, meu bem, mas gostaria de ajudar, se você deixar. Você vai ser muito bem-vinda se quiser ficar comigo, pelo tempo que quiser. Temos muito espaço em Hera Silvestre, e vou ficar felis por você estar lá.

A filha chacoalhou as chaves, desviamdo o olhar.

— Muito obrigada, mas já acontecem coisas estranhíssimas por lá. Acho que não é uma boa idéia.

— Por causa do bebê. Eu entendo. — O tom da voz de Laurel era formal, para disfarçar a dor causada pela recusa da filha.

O sofrimento estampou-se nas feições finas de Márcia.

— Entre outras razões.

— Sua avó.

— Ela não ia gostar.

— Entendo — retrucou Laurel com resignação. — Bem, a oferta está de pé, sempre.

— Obrigada, vou me lembrar disso. — A voz de Márcia soou com profundidade e seu olhar era menos agressivo, ao se afastar.

Laurel quase deixou que ela se fosse, mas de repente, mudando de tom, disse:

— Espere. Você não recebeu uma carta hoje cedo, recebeu?

— Carta? Acho que não. Aqui, não chegou — respondeu a filha enquanto abria a porta do carro. — Que tipo de carta?

Estava mentindo, e mal, pensou Laurel. Talvez estivesse apenas dizendo a verdade, em sentido restrito, se Mãe Bancroft tivesse recebido a carta. No entanto, Márcia obviamente não queria falar sobre o assunto, ou não fingiria desconhecê-lo.

— Na verdade, nada — respondeu Laurel, sem insistir, indo para o seu carro, pronta para tirá-lo do caminho de Márcia. — Só um palavrório de alguém com cabeça para inventar coisas. — Hesitou. — Se você não for para ficar, quem sabe pode me visitar mais vezes?

— Claro — disse Márcia, sem sorrir nem olhar para Laurel, e entrou imediatamente no carro e ligou o motor.

Não parecia muito promissora.

Enquanto Laurel voltava para a entrada da casa, após a filha sair, viu as cortinas da janela, na sala do bangalô, sendo puxadas. Um sorriso aflito retorceu-lhe os lábios. A sogra estava espiando, era possível que estivesse ali o tempo todo. Devia estar morrendo de curiosidade para saber o que ela e Márcia diziam uma para a outra.

Portanto, foi sem surpresa que ouviu as primeiras palavras da boca de Sadie Bancroft:

— Sua filha lhe contou que está grávida?

— Ah, a senhora nos viu lá fora? — disse Laurel com naturalidade, ao pôr os pés na minúscula entrada da casa. — Devia ter ido falar conosco.

A outra mulher olhou para ela com a boca retesada e as narinas trêmulas, como se farejasse algo desagradável no ar. Tinha o cabelo despenteado, o rosto inchado e com olheiras. O casaco de andar em casa, sem forma definida, tivera uma estampa de flores em rosa e azul, mas fora lavado tantas vezes que dificilmente se identificavam as cores. Os chinelos de pano estavam rasgados e foram cortados no peito do pé para ficarem mais confortáveis. Tinha aparência de uma pessoa doente, ou que não dormia há vários dias.

— Eu estava ocupada na cozinha — completou, finalmente.

— Fazendo alguma comida especial, imagino, agora que Márcia está com a senhora. Não quero incomodar.

Laurel foi andando para a cozinha enquanto falava. Tudo naquela casa era muito desleixado, do piso sintético aos lustres no teto. Era também de uma limpeza exagerada. A casa da sogra sempre fora assim. Laurel tinha quase se esquecido.

— Vamos ficar aqui na sala — disse Mãe Bancroft, com voz autoritária e tensa.

— Na verdade, não vou ficar muito tempo — disse Laurel, virando-se de frente para ela. — Só passei para...

— Márcia e Jimmy, eu sabia. É a fofoca correndo pela cidade inteira.

— A senhora sabia mais do que eu, imagino. Mas não foi por causa de Márcia que eu vim.

A velha senhora arregalou os olhos.

— Não liga para o que está acontecendo com sua filha?

— É claro que ligo! — dardejou Laurel, perdendo a paciência. — É carne da minha carne!

— Isso — falou Mãe Bancroft — é óbvio.

— Está querendo me culpar pela separação dela? — Laurel recuperou-se imediatamente. — Se for o caso, é bom se lembrar de que minha filha conviveu muito mais com a senhora do que comigo, desde que Howard morreu. Foi a senhora que a empurrou para esse casamento, que decidiu que Jimmy era um rapaz maravilhoso, correto, moralista e cristão, o marido ideal. Para mim, ele era pedante, fingido e dominador, mas ninguém se deu ao trabalho de ouvir minha opinião. Então, não venha me empurrar seus erros de avaliação, Mãe Bancroft, porque não vai funcionar. Se falhei com minha filha, não foi por influenciá-la, mas por não ter lutado para afastá-la da senhora e dos seus preconceitos.

— Ah, que descaramento! Você vem aqui me falar esse tipo de coisa, quando todo mundo sabe que está vivendo em pecado com um homem que podia ser namorado da sua filha?

— Isso não tem a ver com pecado, já que somos adultos e livres para fazer o que quisermos. Mais do que isso, Alec é pelo menos dez anos mais velho que Márcia, apesar de eu ter certeza de que a senhora não se importaria nem um pouco se ele se interessasse por ela e não por mim.

— Você não considera a luxúria pecado? — indagou a sogra.

Laurel sentia apenas desprezo por aquela espalhafatosa tentativa de atacá-la pelo lado moral.

— Francamente, nem sei se existe tal coisa. Mas é uma palavra interessante, não acha? Talvez seja por isso que a usou nas cartas anónimas que andou distribuindo!

Mãe Bancroft levou a mão ao peito e encarou-a com olhos chamejantes.

— Você acha que eu seria capaz dessa imundície?

A velha senhora parecia de fato horrorizada diante dessa idéia. O rosto ficou pálido e as bordas avermelhadas das pálpebras inferiores encheram-se de lágrimas. Laurel se recusou a ficar impressionada.

— Por que não? A senhora falou mal de mim pelas costas durante anos, foi a pessoa que fez todo o possível para eu sentir o peso da culpa por ter provocado a morte de Howard. Agora me vê escapando do destino que acha que me reservou. Estou saindo à rua, fazendo as coisas, encontrando um pouquinho de felicidade com outro homem, e isso acaba com a senhora. Então, está fazendo de tudo para eu parar.

— Não fui eu, não fui! Também recebi uma carta horrível dessas, hoje de manhã cedo.

Laurel curvou o canto dos lábios.

— Se recebeu, é porque mandou uma para si mesma.

A sogra encarou-a, depois um olhar maldoso apareceu em seus olhos.

— Não fui eu, mas isso não faz diferença, não é? Você quer que seja eu. Gostaria que fosse, porque aí não precisava ficar com medo.

— Estou é ficando louca!

— Pode ser, mas está com medo, também — disse a velha senhora, em tom de comprovação. — E tem que estar mesmo, porque alguém lá em cima me disse que você devia ser castigada pelo que fez. Então você tem um problema maior do que o da Márcia, e esse é por culpa sua.

— Quanta loucura!

Laurel sentiu os cabelos da nuca se arrepiarem, mesmo enquanto falava.

— É mesmo? É melhor você se endireitar, é melhor parar de dormir com aquele rapaz desse jeito nojento, se não...

— Nojento? — repetiu Laurel com indignação. — Francamente, acho muito estranho essa idéia vir logo de alguém que já dormiu com homens de todas as idades por motivos que não eram muito recomendáveis.

Mãe Bancroft ficou branca como uma folha de papel. Bufou, saiu cambaleando para longe de Laurel, tropeçou até atravessar a sala e despencar em uma cadeira. Um gemido surdo veio das profundezas de sua garganta enquanto se embalava para a frente e para trás, com as mãos no coração.

Um alarme soou para Laurel, que foi atrás dela.

— Está se sentindo bem? Quer que eu chame um médico?

— Fique longe... de mim! — Estendeu a mão para mantê-la à distância.

— Tenho de fazer alguma coisa, se estiver passando mal.

— Não! Não preciso... de coisa alguma. Muito menos de você. Não. — Mãe Bancroft puxou o ar arrastadamente. — Apenas vá embora.

— Sinto muito, mas não sei se devo ir agora — replicou Laurel com firmeza.

Era impossível saber se o sofrimento dela era verdadeiro, ou se representava para evitar prosseguir com a discussão.

— Não quero você aqui, não preciso de você, não faz mal se nunca mais vou vê-la — disse a sogra com agitação. — Fora da minha casa.

Aquilo soava mais corriqueiro. Também parecia que as cores voltavam à face, foi o que Laurel pensou. Ficar mais tempo só serviria para irritá-la outra vez.

— Quer que chame alguém para ficar com a senhora? Zelda, talvez?

—Faço isso sozinha — dardejou a sogra.

Talvez fizesse. Laurel virou as costas e tomou a direção da porta. Fez uma pausa, com a mão na maçaneta, e olhou para trás. A mãe de Howard a acompanhava com olhar de maldade impotente, os lábios exangues e rijos. Laurel saiu da casa, fechando a porta cuidadosamente atrás de si.

Dentro do carro novamente, sentou-se imóvel ao volante com os olhos fixos no bangalô sem enfeites, de aspecto cansado e inútil como a mulher que nele vivia. Sentimentos de ódio e vitória circulavam em suas veias como ácido e bílis, mas não traziam prazer. Sentia pena da mulher que ficara na casa. Também sentia pena de si mesma. Fora lá confrontar uma adversária e se vira diante de seus próprios fantasmas. Agora que estavam derrotados, o que faria?

Teve certeza de que a sogra estava por trás dos ataques: dava para vê-la envenenando Sticks, não apenas por desprezar os cães, mas porque o pobre Sticks a assustara e fizera com que perdesse a pose. Quanto às placas esmigalhadas e às cartas anónimas, poderiam ser atos de vingança, executados por ela pensar que Laurel devia aprender a não desafiá-la.

Incendiar o galpão da cerâmica não era exatamente a mesma coisa, por certo. Era preciso um esforço considerável para imaginar a velha senhora estacionando o carro longe da casa e caminhando no escuro, no meio do mato. Ainda mais difícil era pensar nela descobrindo a lata de gasolina, espalhando o líquido inflamável, encontrando fósforos, fugindo rapidamente para longe dali.

Ainda assim, se não foi ela, quem foi?

Sentira certo alívio em ter tanta certeza da identidade de quem a atormentava. Eram velhas inimigas, ela e Mãe Bancroft; conheciam-se bem, sabiam o que esperar uma da outra. Sua guerra era fútil, sem derramamento de sangue, e tinha limites. O único dano era ao orgulho, ao imóvel e aos sentimentos. Se mais alguém estivesse envolvido naquilo, então tudo mudara.

Quem mais a detestava tanto?

Tinha que ser uma vingança. Preferia que fosse isso, em vez de uma tentativa de Alec para isolá-la e torná-la dependente dele. A despeito de sua preocupação momentânea, a noite passada, ela não acreditava de fato nessa possibilidade. Certamente ele não era tão dissimulado, insensível, nem tinha uma inteligência diabólica.

O marido de Márcia, Jimmy, a esbofeteara e poderia muito bem ser bastante fanático para sentir que os supostos pecados de Laurel mereciam castigo. Mais do que isso, era machista a ponto de achar que podia fazer o que quisesse e sair-se bem. Laurel nunca se preocupou com ele, que sabia disso. Apesar de tudo, sempre fora educada. Não havia animosidade aberta porque tinham pouco contato. Não a conhecia o suficiente, com certeza, para destruir as coisas de que gostava.

Talvez Gregory, então? Era esperto e tinha o raciocínio de quem preferia sair pela tangente. Amava e odiava o irmão, ao mesmo tempo, e já expressara a opinião de considerar Laurel a pessoa errada para Alec, perigosa para ele, de um modo que extrapolava o plano físico. Gregory poderia achar que separá-los fosse uma distração de sua luta inglória com a morte.

Teria força para fazê-lo? Alec dissera que o irmão estava melhor. Mas o que isso queria dizer? Queria dizer alguma coisa?

E então havia Zelda. Fazer fofoca era sua paixão. Saber detalhes sobre a vida alheia ajudava a preencher o vazio de sua vida, e ornamentar os detalhes com uma pitada de cores quentes era como uma licença poética. Estava aborrecida com Alec, decerto, e nada animada com as mudanças em Hera Silvestre. Mesmo assim, não tinha razão para se vingar, e dificilmente faria um discurso sobre pecado e satã. Mais do que tudo, sempre fora amigável, à sua moda. Sim, e Sticks fora morto bem antes de sua recente visita.

Quem mais havia?

Maisie? Seria ridículo suspeitar dela. E vovó Callie era alegre e calorosa, tinha uma vida cheia e mais os cuidados com Gregory, para ter tempo de se meter.

Márcia e Evan? Laurel se recusava categoricamente a suspeitar dos próprios filhos. Simplesmente era impossível.

Dan Tanning demonstrara grande interesse por ela nos últimos tempos, e tinha motivos para acreditar que pudesse acabar com qualquer coisa em Hillsboro. Apesar disso, por nada neste mundo teria razão para atingi-la. A leve atração que existiu entre eles no passado não lhe dava motivo para ter ciúmes de Alec.

Para falar a verdade, era difícil aceitar que ninguém poderia, nem tentaria, prejudicá-la. Pessoas normais não fazem essas coisas. Não seria o caso de considerar o autor um desequilibrado por definição? Assim, qual a utilidade de tentar descobrir razões objetivas, se talvez não houvesse qualquer uma?

Laurel deu partida no carro e manobrou na entrada da casa. Ao sair, viu as cortinas da janela do bangalô sendo puxadas, e depois caírem de volta ao seu lugar.

 

Viu Laurel entrar na garagem. Logo depois, emergiu da penumbra interior e ficou parada com a mão sobre a testa, fazendo proteção sobre os olhos, ao olhar para o bosque. Ele sabia que ela não o via, não podia penetrar no matagal onde instalara sua base.

Estava pálida e não muito composta. Aonde quer que tenha ido, o que tivesse feito, não fora uma saída reconfortante, pela avaliação dele, sequer bem sucedida.

Os ombros curvaram-se ligeiramente quando ela se virou. Não era por falta de esperança, cansaço nem derrota, tinha certeza, mas porque o queria e ele não estava ali.

Não pretendia se mover, mas seus pés o levaram para a claridade, para fora da sombra verde e sob a luz do sol. Ela se virou e o viu.

Ele parou, detido pela própria decepção e pelo próprio reconhecimento. Ela tivera medo de vê-lo; ficara aliviada quando não o viu. Tinha a verdade no olhar.

Ele não permitiria que aquilo assumisse importância. Sabia que precisava dele, quer aceitasse ou não, e era o bastante. Pelo menos, não recuou quando ele chegou mais perto. Seu corpo estava tenso quando ele a tomou nos braços, mas depois suspirou e se entregou. Passando os braços pela cintura de Alec, encostou a cabeça no peito dele e fechou os olhos.

A luz desmaiada do sol derramava-se sobre eles, curando, relaxando com seu calor. A brisa perpassava as árvores com um som triste. Ouvia-se o zumbido sonolento das abelhas no jardim, atrás da cerca de estacas. Com os braços cheios da mulher cálida, respirando os aromas do perfume dela e da seiva das árvores que ele cortara, sentiu um contentamento à parte. Então, a mesma brisa trouxe o cheiro acre da madeira queimada e molhada e das brasas ainda acesas.

— Eu vi a carta — disse ele nos seus cabelos sedosos. Ela não se mexeu, mas ele sentiu a súbita tensão. Não foi com voz firme que repetiu:

-Carta?

— Que você deixou na penteadeira. Não ia me contar?

— Eu... não sei.

As palavras, em voz baixa eram quase ininteligíveis.

Ele pensou nas muitas razões para ela guardar aquilo só para si. Constrangimento. Preocupação com os sentimentos dele. Medo do que ele pudesse fazer, E havia mais uma.

— O que fiz para você não acreditar em mim? — indagou ele.

— Nada — respondeu.

Ergueu a cabeça, afastou-se um pouco, descansou as mãos no peito dele e fitou-o nos olhos.

— Eu só... achei que podia cuidar disso sozinha. Minha sogra era a primeira opção para a pessoa que escreveu isso. Ao que parece, eu estava errada.

Era plausível. Poderia até mesmo ser verdade. Mesmo assim, ele achou que não era tudo.

— Falhei uma vez diante de você — disse ele —, talvez até por duas vezes, e você acha que haveria uma terceira.

— Posso ter pensado que não — ela falou com voz melodiosa. — Ela não é jovem, minha sogra, e não acho que seja muito inteligente.

— Mas você é.

— Sou? Quase a matei porque estava com raiva demais, e me esqueci de prever o que aconteceria se ela não tivesse nada a dizer.

Ele não sabia ao certo se Laurel o compreendia, mas precisava perguntar, mesmo que ela sentisse na ponta dos dedos o temor da resposta, pelas batidas do coração dele.

— Então, quem mais conhece tão bem Hera Silvestre para chegar aqui no escuro, sem se perder? Além de mim, é claro?

— É claro — disse ela. — E ainda não encontrei a resposta.

Ela não vacilou, tentou até mesmo sorrir ao falar, mas a verdade estava ali, oculta na profundeza azulada de seus olhos, sob os véus do artifício e da apreensão. Ela tremia ligeiramente; ele sentia o leve estremecer das coxas junto ao seu corpo. O calor dela, a coragem decidida e a delicada vulnerabilidade, faziam-no querer levá-la para dentro e ensinar a nunca mais ter medo dele, ou, então, ter medo de fato. E ele não sabia qual o impulso mais forte.

Manter a voz suave e nublada apenas pelo humor foi mais difícil do que tudo que fizera ou tentara fazer em Hera Silvestre.

— Tem certeza? Pode ter-lhe ocorrido que eu fosse a serpente no seu jardim do Éden?

O esforço para controlar a surpresa apareceu com clareza no rosto de Laurel. E ela superou em muito a expectativa, pois limitou-se a erguer cautelosamente a sobrancelha.

— Nunca acreditei muito nessa serpente.

— Acha que Adão e Eva encontraram sozinhos a maçã?

— Não faz mais sentido? O fruto proibido é convidativo por si só, sem precisar de uma cutucada do diabo.

— Coitado do Adão — disse ele com voz grave. — Acho que a tentação de Eva teve pouco a ver com a maçã.

Ela lançou um olhar oblíquo:

— E você, agora?

— Sempre achei que ele perdeu o paraíso porque deixou Eva assumir a culpa. Seria muito melhor ficar firme e perguntar por que, em nome de Deus, os dois tinham sido criados, se não para amar e ser amados.

— Ali, na frente de Deus e de todos? — perguntou ela em tom de deboche. — Adão poderia ser exterminado pela ira divina e, então, onde estariam ele e Eva?

— Juntos no paraíso — disse ele. — Se ficasse ao lado dela. Observou-a atentamente, para ver se captara a idéia e, em caso afirmativo, o que faria em seguida. Uma veia pulsava na têmpora. A brisa soprava um leve cacho de cabelos ouro-prata em seu rosto. O sol os queimava, produzia uma patina de transpiração que fazia a pele colar quando era tocada. Porém, o fio de suor que corria pelas costas dele, por baixo da camiseta, era de puro medo. Lutava por algo importante, e estava perdendo.

— Ficaram juntos, do mesmo jeito — disse ela.

— Ficaram? — A pergunta veio suavemente. — Ou foram para sempre separados, porque Eva nunca mais teve motivo para acreditar em Adão?

O olhar dela passou de uma a outra pupila dos olhos dele, como se procurasse algo que não encontrava ali.

— Acho que a culpa de Adão se interpôs entre os dois. Dizem que as sombras de antigos pecados são duradouras.

Ele tomou ar. Antes de voltar a falar, ouviu-se o bater da porta da casa. Maisie saiu à varanda da frente, com passadas firmes e olhou em volta. Quando os viu, chamou:

— Hora do almoço, vocês dois!

— Já vamos — respondeu Alec, com voz leve, grato pela intervenção.

Afinal, louvores silenciosos para certas mulheres não eram coisa complicada. Nem significavam sedução amorosa. Nem eram letais, em sua infinita bondade.

No meio da tarde, apareceu o filho de Laurel. Evan estava sozinho desta vez. Olhou em redor ao descer do carro, com ar superior, talvez pelo seu nervosismo. O jovem viu Alec lá fora, no bosque, mas fingiu não ter reparado nele. Alec percebeu que fora visto, pois estava a descoberto, e considerou uma desfeita ser ignorado, apesar de reconhecer que isto talvez se devesse apenas à falta de traquejo social. Poderia ter acenado com a mão, ou somente com a cabeça. Alec não gostou. No entanto, tentava se proteger e o desprezo irritou-o a ponto de demonstrar o que sentia. Andando sem pressa, foi em direção à casa.

Encontrou Laurel e Evan no que restava do galpão da cerâmica. Quando ela os apresentou, Alec estendeu a mão. Achou que o jovem recusaria o cumprimento, mas Evan percebeu o breve olhar que a mãe lhe dirigiu e aceitou-o.

O aperto de mão era firme. Por um instante, pareceu que Evan contestaria a situação. Depois, algo nos olhos de Alec deve tê-lo dissuadido da idéia, pois pronunciou uma saudação educada e deu um passo para trás.

Laurel, com voz tensa, falou:

— Evan também recebeu a carta.

— Foi enviada pelo correio? — indagou Alec. Achava que a cópia de Laurel fora entregue por portador, em sua caixa de correio rural, o que, por si só, era contravenção de âmbito federal. Mesmo assim, uma que tivesse o carimbo do correio seria prova muito mais consistente. Evan balançou a cabeça.

— Apareceu na minha caixa postal do campus. Mas não foi só por isso que vim.

As palavras tinham um tom belicoso, como se fizessem parte de uma discussão em curso, iniciada desde o momento em que viu a mãe. Laurel reforçou esta impressão ao dizer:

— Eu teria ligado para lhe falar do incêndio se achasse que poderia fazer alguma coisa. Mas não podia, não pode.

— Acho que teria feito o mesmo se tivesse queimado tudo por aqui. Eu não ia ficar sabendo.

Laurel dirigiu-lhe um olhar severo.

— Se tivesse ligado para mim para falar da carta, em vez de ir para sua tia Zelda, eu teria lhe contado com muito prazer.

O filho ficou perturbado.

— Eu nem sabia se você já tinha conhecimento disso. Calculei que o melhor seria que nunca tivesse.

— Então foi falar com sua tia, que vive de espalhar histórias a quilómetros de distância?

— Tia Zelda não é ”assim tão má. Além do mais, já sabia porque também recebeu a carta... não que isso faça qualquer diferença. Você parou para pensar como me senti, quando soube de tudo que você estava passando aqui? Você é minha mãe!

Evan fulminou Alec com um olhar de desafio, quando ouviu as últimas palavras. Alec retribuiu com um sorriso aflito. Laurel observou os dois, antes de dizer:

— Eu sei, e agradeço sua preocupação, agradeço mesmo. Mas acontece que acho que a faculdade, para você, é mais importante neste momento.

— Posso fazer mais de uma coisa ao mesmo tempo, mamãe.

A exasperação na voz do jovem demonstrava o quanto ele precisava da concordância dela para que a ajudasse. Alec compreendeu-o muito bem e fez melhor juízo de Evan Bancroft.

Laurel suspirou.

— Não há o que fazer, Evan. Nada que alguém possa fazer até descobrirmos quem está por trás disso.

— Eu podia ficar com você, cuidar de você. Não sei exatamente o que está acontecendo, mas você devia ter alguém do seu lado, alguém para mostrar às pessoas que não está aqui sozinha.

Alec esperou e prendeu a respiração para ouvir o que ela diria. Concordaria com ele e com o que se tornaram um para o outro, ou aceitaria o oferecimento de Evan? E se concordasse com a volta do filho para casa, como ficaria a situação dele próprio?

A brisa ligeira soprou sobre a fumaceira na pilha de carvão à frente deles. Alec sentiu a onda de fogo apagado mas ainda quente, sentiu o cheiro. Era como se estivesse às portas do inferno, aguardando para conhecer o destino que lhe reservavam.

Laurel, com o olhar perdido no bosque do qual a vegetação fora removida de baixo das árvores por vários metros mata adentro, disse:

— Não preciso.

— Não seja ridícula, mamãe — contestou Evan. — E se quem provocou esse incêndio resolver que agora vai queimar a casa? Esse estoque de madeira seca vai pegar fogo mais depressa que uma fogueira. E podem não parar por aí. E se entram em casa? Podem abrir qualquer janela sem esforço, e esse diabo de lugar é tão grande que você só vai ouvir quando estiverem do seu lado.

Dirigiu-lhe um olhar que contrastava com a palidez de seu rosto e respondeu:

—Se acontecer isso, o que você acha que poderia fazer? Tem um sono mais leve que o meu? Sabe usar melhor uma arma?

— Pelo menos seríamos dois para vigiar! Evan lançou para Alec um olhar de desafio.

Três e não dois, pensou Alec, mas, a essa altura, o filho de Laurel sabia muito bem disso. Se Laurel tentava proteger os sentimentos do jovem, era um esforço inútil. Então ela falou, as palavras que, até agora, ele esperara para ouvir:

— Alec fica comigo de noite, Evan. Já tenho alguém para cuidar de mim e ajudar nesses problemas.

O jovem pôs as mãos na cintura.

— Então é isso? Está ajudando um bocado, pelo que estou vendo.

Alec estremeceu ligeiramente com estas palavras que, no entanto, não tiveram o poder de turvar a exultação que brotava dentro dele.

— Tem razão, Evan — disse com calma —, ou melhor, tinha razão. Agora já faço uma idéia melhor do que vem por aí.

Laurel olhava-o fria e fixamente. Ele sustentou o olhar. Ela admitira que tinham um caso. Fizera dele, formalmente, parte de sua vida, diante do filho, uma das poucas pessoas que de fato significavam alguma coisa para ela. Apesar disso, ela não sorria, não parecia feliz. A angústia deu nele um aperto no peito, junto com a expectativa que o imobilizava e lhe dizia que passara de um nível de risco menor para um maior.

— Livre-se dele — disse Evan para a mãe. — Não precisa dele, é um estorvo para você.

— Evan! Não tem o direito de dizer esse tipo de coisa. E sabe muito bem que não se faz isso na frente de uma pessoa.

— A verdade dói — retrucou o filho e seu rosto ficou vermelho, quase roxo. — Posso fazer melhor o serviço de cuidar de você. Senão, quando ele for embora, você pode não ter mais do que cuidar.

A prudência dentro de Alec se esvaía:

— Se eu achasse que isso é verdade — disse —, não ficaria aqui nem mais um minuto.

— Então, pode apostar — lançou Evan.

— Não!— interveio Laurel abruptamente. — Não há necessidade de se ficar falando nisso, não há motivo para mudanças. Além do mais, o incêndio pode ter sido o fim de tudo.

Receou que ele e Evan começassem a brigar. Alec percebeu, e poderia estar certa. Ele dominou o gênio em consideração ao fato de que Evan tinha o direito de se preocupar, mas sua paciência não era confiável.

— Você não pensa assim — replicou Evan com raiva mal controlada.

O rosto oval de Laurel estava tenso.

— É melhor do que desconfiar da própria sombra.

— Certo — o filho falou calorosamente. — E faz muito sentido ter uma na sua própria cama!

Alec deu um passo à frente, mas Laurel colocou a mão no seu braço para detê-lo. Ela levantou o queixo, a face branca como mármore e os olhos de um azul insondável como uma geleira.

— Eu quero deixar bem claro, Evan, para depois não falar mais nisso. É melhor você voltar para a faculdade, onde vai poder se concentrar nos seus estudos e tirar as melhores notas possíveis no semestre que vem. Não quero você aqui, porque eu ficaria preocupada o tempo todo, achando que você seria o próximo a ser atacado. Já tenho Alec. Eu só preciso dele.

Ela o usava como um escudo, Alec percebeu repentinamente. Isso era tudo que seu reconhecimento em público queria dizer. Na cabeça de Laurel, admitir sua intimidade era preferível do que se preocupar com quem amava, ou mesmo com a possibilidade de perdê-lo. Mas quereria ela dizer que o achava mais capaz de cuidar de si mesmo do que Evan e, portanto, que corria menos risco? Ou seria uma próva de que era dispensável?

Eu só preciso dele.

Poucos minutos atrás, aquelas palavras soaram maravilhosamente. Agora, seu único pensamento era: sim, mas como? E por quê?

Evan tentou todos os argumentos de que pôde lançar mão, comprovando, nesse processo, que herdara a inteligência da mãe e, em alto grau, sua noção de desprendimento. Ao final, ele e Alec compreendiam melhor um ao outro e, por que não dizer, comunicavam-se melhor. Porém, Laurel não cedeu um milímetro.

Quando Evan finalmente se foi, Laurel ficou parada olhando o carro até perdê-lo de vista. Tinha o olhar sombrio e a expressão pesada, com aceitação. Ao mesmo tempo, havia uma comovente aura de paz em torno dela.

Voltou-se para Alec, que permanecera ao seu lado.

— Está ficando tarde — falou com calma. — Não vejo muito sentido em tentar fazer mais alguma coisa por hoje. Você também precisa ver como está Gregory, se achar necessário.

Fez um aceno breve com a cabeça.

— Tenho deixado Gregory com vovó demais ultimamente.

— Não precisa voltar — acrescentou, com os olhos pousados no rosto dele. — Só se você quiser.

— É o que eu quero.

Observou-a. Observou o modo como as sombras da tarde deslizavam por seu corpo e criavam formas em claro-escuro na saia e na blusa. O modo como seus olhos não o viam de frente. Dentro dele, hesitava entre a necessidade pueril de ouvi-la dizer que não queria que ele voltasse. Fazia questão de ter essa evidência de seu cuidado, sua preocupação, mesmo sabendo que rejeitaria, no mesmo instante, qualquer tentativa de protegê-lo.

Ela não prolongou o momento. Ao contrário, deu um sorriso manso. O olhar, pleno de segredos, pousou no dele. Com voz clara como o repique de um sino, falou:

— Então, volte logo.

.Laurel ainda ficou ali, vendo Alec até a moto desaparecer. Ocorreu-lhe que sempre fazia isso: vê-lo ir-se. Um dia, pensou, ele iria para não mais voltar. Ficaria sozinha na casa enorme e vazia. Mas, por enquanto, não. Por enquanto, não. Atrás dela, Maisie saiu de casa com a bolsa grande pendurada no braço e o avental dobrado nas mãos. Estava na hora de ir embora, também. Desceu pesadamente as escadas e parou ao lado de Laurel.

— Vai ficar bem aqui sozinha sem ninguém? — perguntou de supetão.

Laurel concordou com a cabeça e um sorriso tranqüilizador. Como Maisie sabia muito bem que Alec passara as últimas noites com ela, completou:

— Não vai ser por muito tempo.

— Posso ficar mais um pouco. Meu velho trabalha até mais tarde esta semana e não tenho que fazer o jantar por estes dias.

— Fico pensando que se algum mal-intencionado aparecer por aqui, você vai bater com a bolsa na cabeça dele — disse Laurel com um sorriso carinhoso.

— Com certeza, isso ia dar uma lição nele, levando em conta a quantidade de tralha que tenho aqui dentro. — Maisie ficou séria quase imediatamente. — Fico preocupada com você, meu bem. Esse negócio começou como se fosse maldade, despeito, o tipo de coisa que acontece com gente intrometida que fica procurando briga, mas agora está fugindo do controle.

— É, eu sei — disse Laurel, passando os dedos nos cabelos das têmporas de Maisie. — É tanta loucura, ainda mais que não sei por que essa briga.

— Tem certeza? Ainda não entendeu o que foi que você fez ou falou que pode ter provocado isso?

Laurel balançou lentamente a cabeça.

— A não ser que tenha a ver com Alec, não faço a menor idéia.

Maisie ficou calada por um instante.

— Se ele é mesmo o motivo de tudo, talvez não seja boa idéia ficar com ele aqui, dia e noite.

— Diga isso a ele — retrucou Laurel secamente.

— Entendo o que você quer dizer. — Maisie cerrou os lábios. — Vou ver se tenho uma conversa com Callie. Alec escuta o que ela diz, mesmo quando não liga para os outros.

Maisie poderia ter razão, pensou Laurel.

— Não sei ao certo se faria alguma diferença, a esta altura. Além do mais...

— Além do mais, você gosta quando ele está por aqui. O sorriso de Laurel era uma careta.

— Sou assim tão transparente?

— Você é diferente, melhor dizendo. — Havia simpatia e afeto no olhar da velha senhora. — Então, tudo bem, já vou. Mas tome cuidado, ouviu? Vocês dois. Não se esqueça de trancar a porta quando entrar em casa.

— Vou trancar.

Maisie acenou com a cabeça e virou-se em direção ao seu carro.

— Até amanhã de manhã.

Laurel não voltou logo para dentro de casa. Algumas folhas mortas nas novas roseiras chamaram sua atenção, e ela tomou o rumo do jardim para limpá-las. Percebeu quando Maisie entrou no carro, que estava estacionado na grama do acostamento da estrada de acesso, e depois, quando deu partida. Só após a terceira tentativa infrutífera Laurel olhou para lá.

Maisie saiu do Cadillac, uma velha banheira, e colocou a mão na cintura acolchoada. Laurel seguiu em sua direção. Ao passar pelo portão lateral, gritou:

— Problema?

— Essas pendências que não se resolvem e estouram na minha mão. Acho que vou ter que ligar para o meu velho, mas ele não vai estar em casa a esta hora.

— Posso lhe dar uma carona — disse Laurel —, mas você não vai ter como chegar no trabalho amanhã de manhã. Duvido que a oficina mande alguém ainda hoje.

— Ah, o meu velho conserta qualquer coisa muito mais depressa e mais barato.

— Então, leve o meu carro — sugeriu Laurel. — Precisa ser usado, e você me traz de volta amanhã de manhã.

— Tem certeza? Você pode precisar. Laurel deu uma risada, um som seco.

— Ah, não vou a lugar algum.

Ainda houve protestos a ser superados mas, por fim, Maisie concordou. Laurel foi buscar as chaves dentro de casa e a velha senhora saiu dirigindo o Buick. Laurel ficou sozinha.

Sozinha.

Os ruídos dos insetos, vindos da fronteira com o bosque, soavam alto no silêncio. Os raios oblíquos do sol não mais aqueciam. O cantar da água da fonte no jardim tinha o tom melancólico e enfadonho da chuva em uma tarde de inverno.

Andando a passos cada vez mais rápidos, Laurel deu meiavolta no caminho do jardim e entrou em casa. Fechou a grande porta de entrada e trancou-a cuidadosamente.

Cerca de uma hora mais tarde, o telefone tocou. Estava cortando tomates na tábua, para completar o jantar leve de frango grelhado com salada. Teve vontade de não atender, pois nada, nos últimos dias, era motivo para boas notícias. No entanto, poderia ser Alec ou Evan, até Márcia, querendo saber se ela estava bem. Ficariam preocupados se ela não atendesse.

— Laurel? Aqui é Dan Tanning.

— Dan, como vai? — perguntou educadamente, encaixou o fone entre o ouvido e o ombro, e voltou aos seus afazeres.

— Tudo bem, mas não liguei para conversar. Não quero incomodar você, mas houve um acidente.

Laurel pousou a faca e agarrou o fone com firmeza.

— Não foi com Evan nem...

— Não, não. É Maisie. Ela saiu da estrada, poucos quilómetros antes de chegar à cidade. Está bem machucada: perna quebrada, lesões internas. O médico chamou o resgate aéreo e achou melhor levá-la para outra cidade, para Shreveport.

— Oh, Dan, ela vai ficar boa?

— Não sei dizer, mas está criando o maior caso. Jura que não vai enquanto não falar com você.

— Iria agora mesmo para o hospital, mas estou sem o carro.

— Eu sei. Meu Deus, Laurel, eu quase saí do sério quando vi aquele Buick velho entortado numa árvore. Mas não se preocupe. Um dos meus delegados já saiu para apanhar você. Chega aí em cinco minutos.

— Você não pode entrar agora — disse Dan ao encontrar Laurel do lado de fora da ala de emergência do hospital. — O médico está com Maisie, explicando umas coisas para ela e para o marido. Espere aqui, que vou buscar uma xícara de café para você.

— Ela está muito mal? — Laurel manteve a voz baixa e deixou-se levar para uma sala de espera.

Dan tinha o olhar sombrio, de quem já viu muitas tragédias.

— O estado dela é estável, está consciente, é a melhor notícia neste momento. Ela não é mais criança, você sabe.

— Ia se aposentar no ano que vem, junto com o marido. — Laurel apertou os lábios, respirou fundo, engoliu em seco a dor das lágrimas. — Continuo pensando que foi minha culpa, que eu devia ter dado uma carona para ela.

— Então talvez as duas estivessem aqui.

Virou-se de repente para o canto onde ficava a máquina de café e de lá voltou, poucos minutos depois, com dois copos de isopor. A bebida estava amarga, mas o calor ajudou a dissolver o arrepio gelado dentro dela.

— O que aconteceu mesmo? — indagou. — O delegado falou de um problema com a direção.

— O tubo de fluido para o volante hidráulico furou e espalhou o líquido todo no pára-brisas. Maisie não conseguia enxergar e é claro que o volante ficou travado, foi simples assim. Talvez tudo tivesse acabado bem se ela tivesse reflexos mais rápidos, ou se estivesse numa reta, mas era um trecho cheio de curvas, daqui até sua casa. Ela entrou em pânico, perdeu o controle, entortou o Buick numa árvore.

Laurel lançou para o xerife um olhar tenso.

— Não tenho dirigido muito o carro ultimamente.

— Maisie falou que Alec Stanton fez uma revisão na semana passada.

— Acho que ele pode ter se enganado em alguma coisa — respondeu Laurel rapidamente devido à insinuação na voz de Dan.

Ele olhou para a própria xícara de café, que afundou sob a pressão dos dedos, e depois disse:

— Eu soube do que aconteceu na Califórnia.

— E então?

O coração pulsava, dolorosamente, enquanto ela esperava pela resposta.

— Ele a matou mesmo.

Não havia necessidade de perguntar do que ele estava falando. Pareceu-lhe deslealdade para com Alec, mas mesmo assim perguntou:

— Como? O que aconteceu?

— Remédios contra a dor. Uma superdosagem apareceu na autópsia. Ela estava morrendo, mas muito devagar, então ele deu uma ajuda. Estavam casados há sete meses.

Os lábios de Laurel gelaram, o cérebro congelou.

— Então, por que ele não está preso?

— Falta de provas convincentes. O medicamento tinha sido prescrito para ela. Aparentemente, ele tinha um estoque para várias semanas ou meses. — Dan encolheu o ombro fardado. — O advogado de Stanton alegou que ela própria tomara os remédios, que tinha sido suicídio.

Ignorando o sarcasmo no comentário, ela indagou:

— Houve julgamento?

— Não por assassinato, mas um circo de julgamento civil. Os herdeiros não gostaram nada de ter sido em outro estado, você pode imaginar, muito menos pelo jardineiro, um rapaz que a mãe deles botou para dentro de casa porque tinha bom coração. A acusação foi de morte suspeita e pediram uma indenização estranha. Nem fixaram a soma, e quando tudo acabou, ninguém ganhou a causa. Os advogados ficaram com a maior parte do dinheiro.

— Isso não prova que Alec era culpado!

— Pelo amor de Deus, Laurel — replicou Dan, exasperado. — Pense bem. O homem se casa com uma viúva rica, uns bons vinte anos mais velha do que ele, e ela morre em circunstâncias suspeitas. O que você acha que aconteceu?

— Se ela estava tão doente, por que ele simplesmente não esperou?

— Impaciência, acho. Como é que vou saber? Mas, se eu fosse você, não aceitaria um pedido de casamento dele.

Pedido de casamento. Ela endireitou a espinha e um arrepio a percorreu.

— Eu não sou rica... longe disso.

— Comparada com o quê? Ou melhor, com quem? Hera Silvestre vale um bocado, e se você tivesse gasto uma fração do que Howard possuía no banco, ou do que recebeu do gigantesco seguro que ele deixou, ia ser um espanto.

-Eu não sabia que as minhas finanças eram de domínio público.

Tinha a voz fraca de desgosto.

— As finanças de todo mundo são de domínio público em Hillsboro — respondeu em tom cansado. — Aposto que você é capaz de calcular quanto ganhei no ano passado.

Era capaz. E desviou o olhar dele.

— Certo. Para um vigarista com quase nada, você é um alvo interessante. Pense nisso, é tudo que eu peço. Somente que pense nisso. — Esvaziou o copinho, jogou em uma lixeira, e foi em seguida para a porta. — Vou ver se Maisie pode receber você.

Ah, Alec. O peito de Laurel doía ao pensar no que teria ocorrido na Califórnia. Ao mesmo tempo, não conseguia aceitar aquilo. As coisas que Dan dissera eram tão abomináveis. Tão lógicas. Pelo menos, não tinha que pensar nisso neste exato momento. Um ruído surdo, ritmado, a distância, avisava sobre a aproximação do helicóptero de resgate médico. Se tivesse de falar com Maisie, era bom que fosse logo.

Abandonando o café frio sobre a mesa, Laurel caminhou até o corredor. Dan vinha ao seu encontro. Acenou para ela:

— Por aqui, depressa.

A maca em que deitaram Maisie fora colocada, nos fundos do hospital, próximo à porta que se abria para o heliporto. Tubos e fios de monitores pendiam do leito como enfeites de Natal. Uma equipe com médico, duas enfermeiras e dois auxiliares aguardava. O marido de Maisie, homem grande, desengonçado, com restos de graxa sob as unhas, estava encostado na parede, de braços cruzados e cabeça baixa.

O médico se adiantou para interceptar Laurel.

— Seja breve, sra. Bancroft, e torne as coisas o mais fácil possível para ela. Mantenha a calma. Ela não pode ficar ainda mais agitada.

Laurel concordou com a cabeça, mas estava distraída. Maisie abrira os olhos e a vira, murmurou seu nome. Os joelhos de Laurel cambaleavam ao andar até junto da maca, e quando segurou os dedos frios de Maisie e apertou-os com carinho, tinha medo do que Maisie iria dizer.

— Ah, Laurel, meu bem, que bom que você está aqui — falou Maisie, de olhos arregalados, as pupilas dilatadas pelos medicamentos que já circulavam em sua corrente sangüínea. — Receava que não conseguisse. Não antes de...

— Não tem importância — interrompeu Laurel, com esforço para manter a voz firme e suave. — Agora estou aqui. Alguma coisa que tem para me dizer? Foi por isso que me chamou?

A cabeça branca inclinou-se ligeiramente, concordando.

— Era para você, não para mim. Era você que devia estar no carro. Andei pensando, analisando o que aconteceu com Sticks, Alec, as cartas, tudo. Você precisa tomar cuidado.

— Eu sei, e vou tomar.

As palavras saíam de forma automática, quase sem significado. Lá fora, o som do helicóptero aumentava até parecer um trovão. A sombra triangular oscilava acima do concreto da pista de pouso, e o vento mecânico açoitava os ramos dos altos pinheiros em torno.

Maisie puxou Laurel para mais perto, apesar de tremer tanto que a maca vibrava nos rodízios. Um pouco mais baixo, falou:

— É por causa do outro assassinato. Ouvi uns boatos, mas não prestei atenção. Devia ter escutado.

O médico se adiantou e as solas de borracha dos seus sapatos chiaram.

— Pronto, sra. Bancroft. Está na hora de ir.

Laurel olhou para ele e abriu caminho. A equipe de enfermagem chegou perto, soltou os freios da maca, juntou os tubos intravenosos e os aparelhos de monitoramento. O marido de Maisie foi até as portas de vidro e abriu-as.

Mesmo assim, Maisie não soltava a mão de Laurel. Agarrava-se a ela com força desesperada, mesmo quando a maca começou a rolar.

— Converse com Callie — disse, com olhos suplicantes. — Ela era enfermeira, sabe demais sobre tudo o que aconteceu, e nunca falou. Mas vai falar com você se disser a ela que fui eu que pedi. Faça isso agora. Está me ouvindo?

Murmurando que sim, retirando a mão no instante final, Laurel deu um passo atrás. Teve a impressão de que Maisie estava mais calma, tinha mais paz de espírito, quando a maca deslizou porta afora. Depois, o vulto pálido e arredondado sob o lençol verde perdeu-se de vista, enquanto o estafe do hospital se fechou em torno dela. Seguros e eficientes, colocaram-na dentro do helicóptero. As hélices gemeram em ritmo mais acelerado, depois espargiram o ar úmido e quente como se fosse um batedor de claras. Em segundos, Maisie se fora.

Virou-se cuidadosamente, levando a suspeita de Maisie dentro de si, como a mãe leva a colher de remédio amargo até a boca do filho, e ficou de frente para o corredor. Parou.

Alec estava lá, alto, forte e eriçado pelo vento, com o capacete da motocicleta na mão. Os olhos eram fogosos e famintos como os do dragão oculto em seu ombro. O deboche e a raiva apareciam, com todo esplendor, em cada linha retesada de seu corpo. Ouvira o que Maisie dissera. Ou talvez Dan, que não estava muito distante e tinha a mão apoiada no cinto em que trazia a arma, tivesse dito alguma coisa para deixar a situação clara. Não causara grande estrago — não em Alec.

— Eu ia para sua casa quando os vi rebocando seu Buick de uma vala — disse Alec e os olhos negros ainda sem foco pousaram no rosto dela. — A porta afundou no lado do motorista, o banco encharcado de sangue. Achei — acrescentou delicadamente — que você estava lá dentro.

Ela respirou de leve.

— Oh, Alec, sinto muito. Mas você soube de Maisie?

— Eu sei.

— Quando Dan me ligou, só pensei nela. Nem me ocorreu que você...

— Deixe para lá — falou de supetão, e as rugas nos cantos dos olhos se suavizaram. — Para onde você vai, quando sair daqui?

— Nem pensei. — Esfregou a dor que sentia nas têmporas. — Acho que para casa.

Dan deu um passo à frente, interpondo-se entre os dois. Com arrogância e autoridade, disse a Laurel:

— Vou levá-la.

— Estou com a moto — contestou Alec.

Ele não se defendeu, não argumentou, não prometeu conforto nem segurança. Não estendeu a mão, como Dan estava fazendo. Tudo o que fez foi esperar com atitude, os ombros erguidos e as pernas separadas. Apesar de tudo, Laurel sentia a força dele, que a cercava como um fio de aço, apertando, e da qual ela não queria se livrar.

— De moto está bem — disse ela, sem olhar para Dan. — Acho que vai ser bom para espalhar ao vento as teias de aranha da minha cabeça.

— Tem certeza, Laurel?

Dan colocou as duas mãos no cinto. Foi um erro, pois mostrou as marcas de suor debaixo dos braços. Laurel dirigiu-lhe um débil sorriso.

— Parece que sim. Prefiro investigar por conta própria, entende?

— Não me responsabilizo pelo que acontecer.

— Eu não pensaria assim — falou, andou a curta distância que a separava de Alec e tomou-o pelo braço.

Os dois homens trocaram um demorado olhar, combativo de um lado, impassível do outro. Então Alec pegou na mão dela que estava em seu braço, entrelaçou os dedos de ambos, segurou-os firmemente, virou-se e saiu pelo corredor.

A volta para Hera Silvestre não demorou. Laurel só começou a digerir sua dor e arrependimento quando chegaram, e deixou fluírem seus desorganizados pensamentos. Ele segurou a moto para que descesse, em seguida deu impulso para ele próprio descer e seguiu-a até a varanda. Assim que destrancou a porta, segurou-a pelo braço antes de ela pôr o pé lá dentro.

— Deixe — falou e avançou com cautela e eficiência, deslizando por cada cómodo escuro em torno do hall. Na volta, acendeu a luz. — Parece que está limpo.

Ela foi diretamente para a cozinha. Ia fazer café, mas lembrou-se de que Alec não gostava e, em vez disso, apanhou a garrafa de bourbon. Precisava de coragem, para não falar no efeito sedativo sobre seus nervos tão abalados.

Ele ficou na porta, observando-a.

— Não — disse em uma só palavra. — Para mim, não. Prefiro que se lembre que foi de livre e espontânea vontade, em pleno domínio das minhas faculdades mentais, que fiz minha confissão.

Ela colocou a garrafa de bourbon em cima da pia com muito cuidado. Cruzou os braços, para se sentir centrada, e disse:

— Não sei se quero ouvir.

— Acho que vai ter de ouvir. Pagar pelos meus erros é uma coisa, servir de bode expiatório é outra, bem diferente.

— Quem acha que está querendo fazer de você bode expiatório?

Voltou-se para ele e encarou-o, encostada na bancada da pia.

— Boa pergunta. Temos que ver isso, nós dois. Mas antes precisamos tirar um lixo que está no caminho.

— Sobre sua mulher.

As palavras saíram pouco mais audíveis que um sopro.

— Sobre minha mulher — repetiu ele. - É uma história comprida. Quer a versão completa ou o resumo?

Olhava para ela, de forma aniquiladora. Ela foi a primeira a desviar o olhar.

— A que você quiser me contar.

— Não sei ao certo o que você ouviu do Gregory. Sabe que nos mudamos para a casa de Chadwick depois que mamãe morreu e a sra. Chadwick se interessou por nós, certo? — Ela assentiu rapidamente e ele prosseguiu. — Tinha uma atenção especial com Mita, minha irmãzinha. Acho que gostava de comprar roupas para ela, levá-la à escola. Mita era uma criança brilhante, e muito doce... ainda é.

A expressão de orgulho que veio ao seu rosto, e logo se foi, emocionou Laurel como se fosse a mais calorosa declaração de amor.

— Mita agora é médica, ou alguma coisa parecida, não é?

— Pediatra. Ela se lembra muito bem de todas as vezes em que ficou doente, quando era criança, e não teve ninguém por perto para ajudar. Até chegar a sra. Chadwick, é isso.

— É assim que você chamava a mulher com quem se casou: sra. Chadwick?

Laurel não sabia se a pergunta veio por curiosidade ou pela necessidade de adiar o que tinha para ouvir.

— Foi minha patroa e benfeitora por muito mais tempo do que foi minha mulher.

— Entendo.

— Duvido — corrigiu com voz contida. — Não era do jeito que você pensa, do jeito que todo mundo pensa, ao que parece. Não armei para chegar à cama dela, não bajulei nem me insinuei, nada dessas ideias ridículas que as pessoas fazem quando um homem mais novo se casa com uma mulher mais velha. Eu entrava e saía daquela casa o tempo todo. Conversávamos sobre chá, que ela servia todas as tardes, com prata e porcelana, guardanapos de linho, tudo completo. Éramos amigos. Então, um dia, ela me chamou lá do pátio, onde estava sentada. Contou que estava voltando do médico e só tinha alguns meses de vida. Um ano, no máximo. Não queria deixar o que tinha para os filhos, tão ocupados que nunca apareciam por lá, e não iam ligar a mínima se ela sumisse da face da Terra, desde que não atrapalhasse os compromissos deles. Mas tinha medo de que eles criassem problemas, amarrassem tudo em processos que podiam durar muitos anos, se fizesse um testamento para mim e para Mita. Mas se eu me casasse com ela, tudo ia ficar mais amarrado e, além disso, ela já poderia começar a transferir os bens. E também precisava de alguém para cuidar das coisas, cuidar dela, quando chegasse a hora e ela não pudesse mais fazer isso.

— E você concordou.

Ele pôs a mão na nuca, apertou com força.

— Foi só um acerto legal. Nunca dividimos o mesmo quarto, nunca dormimos juntos. Por uma razão: ela estava tão doente que era impossível. E por outra: ela foi uma mãe para mim, mais que minha própria mãe, e eu era totalmente... edipiano.

Laurel emitiu um som leve, diante da súbita conscientização. Ele a observou por um instante, e sua voz ficou mais áspera quando continuou:

— Não digo que eu teria me recusado a levar até o fim, se ela insistisse. Eu lhe devia muito para recusar qualquer coisa. Mas não era o tipo de mulher que ficasse satisfeita apenas com gratidão, mesmo que expressa com entusiasmo, e eu era jovem demais naquele tempo para fazer a gentileza de fingir até mais.

Ela imaginou, por alto, se ele teria amadurecido a este respeito, agora. No entanto, pareceu-lhe falta de educação e de sensibilidade perguntar isso. Em vez disso, estimulou:

— E então?

— Então, uma noite, quando o casamento tinha uns seis meses, e as dores estavam tão fortes que ela não agüentava mais, chegou a hora de cobrar a generosidade. Ela me pediu para matá-la.

-Matá-la?

Laurel repetiu as palavras, pois não tinha certeza, com a voz dele tão abafada, de ter escutado corretamente. Porém, a resposta estava na palidez de sua pele acobreada. Ela acrescentou, quase em um sussurro:

— O que você fez?

Ele suspirou, virou-se e encostou a coluna no batente da porta, inclinando também a cabeça para alinhá-la com o corpo.

— Eu queria fazer, queria mesmo. Dá para você entender? Eu queria acabar com aquela dor insuportável, com a minha vigília noite e dia, acabar com tudo, com aquela farsa. Seria muito fácil. Eu tinha estudado artes marciais com o sr. Wu durante anos, sabia de todos os macetes que ele me ensinou, e mais alguns que catei nos becos. Uma pressão leve no lugar certo e estava tudo encerrado. Ela não sentiria coisa alguma. Não ficaria qualquer sinal. — Fez uma pausa. — Mas eu não podia. Simplesmente... não podia.

Soltou o ar dos pulmões com pressa. Sentia-se tão fraca e aliviada que teria caído se a bancada da pia não a escorasse. Com voz que soou não mais que um sussurro, disse:

— Graças a Deus.

Ele se voltou para ela, com o rosto em perfeita calma.

— Quanta fé — disse brevemente. — Se sou tão bom para representar o matador nato, devia batalhar na televisão.

— Podia me contar como sua mulher de fato morreu.

Se antes pensara que ele era capaz de matar, agora acreditava em cada sílaba do que ele dizia, em sua inocência. O que a fazia teimosa e obstinada ou era prova cabal de que o amor é mesmo cego.

— Mulher determinada era a sra. Chadwick. — Ele fez cair um canto da boca. — Você às vezes faz lembrar-me dela, nesse ponto. Quando percebeu que eu não poderia, ou não conseguiria ajudá-la a deixar este mundo, começou a pegar os remédios para dor que eu lhe dava, e escondê-los numa gaveta ao lado da cama. Na tarde em que finalmente juntou uma boa quantidade, chamou em casa o cabeleireiro, a manicure e o maquiador. Tomou um longo banho perfumado e vestiu uma camisola rosa de cetim. Sentou-se e escreveu cartas de despedida, uma para mim e outra para os filhos. Depois tomou todas as pílulas que tinha guardado e deitou-se na cama com a camisola arrumada com cuidado e as mãos juntas no peito como uma rainha medieval no túmulo. Quando fui ver como ela estava...

Deteve-se e virou o rosto, retesando o maxilar até o músculo parecer uma rocha em seu queixo.

— Você a amava — disse ela docemente. Empurrou os dedos para a abertura dos bolsos dos jeans.

Ele visivelmente engoliu em seco.

— Não como você acha.

— Não quer dizer que seja desse modo, de jeito nenhum — garantiu-lhe. — Só... acho que havia algo mais entre vocês do que disse.

— Ela era bondosa, sempre — replicou, com um olhar que a desafiava a entender sua argumentação pouco comum. — Ela me ensinou a falar corretamente, a comer com o garfo certo, a apreciar as coisas boas e a reconhecer o que tem valor quando o visse. Deixou que eu e Mita ficássemos com ela quando não tínhamos para onde ir. Deu-nos segurança para que pudéssemos continuar juntos, vestiu-nos, matriculou-nos na escola, ensinou o que era ter respeito e fez de nós gente respeitável, de um modo que nunca tínhamos sido antes. Eu a via exatamente como um rude camponês, nos velhos tempos, veria uma dama da nobreza que fosse boa para ele. Não tenho vergonha de admitir e não me arrependo de nada. A não ser, talvez, não ter podido atender na única vez em que ela precisou de mim.

— Se era tudo que você diz, deve ter ficado orgulhosa de não conseguir — disse Laurel. — De qualquer forma, parece que ela resolveu sozinha sem muita dificuldade.

— Eu sabia o que ela estava fazendo — reconheceu, e sua voz tinha o som de vidro se quebrando sob um rolo compressor. — Encontrei o estoque de pílulas naquela gaveta semanas antes de ela morrer. Encontrei e deixei lá. Comprava as receitas com a mesma freqüência, e dava os remédios a intervalos menores do que fora receitado, para que ela desviasse um ou outro, de vez em quando... de modo a não sentir mais do que podia agüentar.

— Você não tinha como saber que ela chegaria a tanto. O olhar que lhe dirigiu era pleno de antigas mágoas.

— Eu sabia — repetiu com firmeza. — Tinha como impedir, mas não o fiz. Se isto me torna culpado da morte dela, então, tudo bem, sou culpado. Mas não me arrependo nem um pouco.

Laurel tinha agora a história completa. Esperava algum sentimento de condenação. Nada havia. Não estava em posição de atirar a primeira pedra, por certo, uma vez que tinha sua própria culpa para administrar da melhor maneira possível. Mesmo assim, não sentia qualquer reação. Era fácil fazer julgamentos morais a partir do que pensavam as outras pessoas. Mas ninguém poderia dizer, com certeza, o que era certo ou errado, até se encontrar no mesmo e exato lugar, em um mundo que altera sua órbita um pouco a cada dia.

— Conte-me como foi o acerto legal — pediu ela de súbito. Ele se recuperou. Com voz forte de espanto, disse:

— Você acredita em mim.

— Acredito.

— Simples assim.

— Era verdade, não era?

O calor do rubor brotou em sua pele ao falar.

— Cada palavra, mas eu esperava... eu pensei que precisasse de mais para convencer você.

Ela escondeu os olhos sob os cílios, com medo do que ele veria se olhasse mais de perto.

— Eu quero ouvir o resto, de qualquer maneira.

O olhar dele passeou da palidez do rosto dela para as mãos, que ainda estavam trêmulas, foi depois para a bancada da pia atrás dela, e para os restos da salada que fazia quando chegou a ligação sobre Maisie.

— Você não jantou, não é? — disse ele. — Coma alguma coisa enquanto conversamos, e eu vou lhe contando.

— Acho que não consigo, mas posso fazer um sanduíche para você.

— Já comi. Vá você, mesmo sem vontade.

— Não consigo mesmo.

O rosto dele não abandonou o implacável escrutínio, e ela se afastou com irritação.

— Ah, está bem. Mas quero os detalhes, enquanto isso. Todos eles.

Ouviu atentamente, terminou de fazer a salada que tinha começado antes e levou-a para a mesa. Era uma história triste de ganância e falsa indignação. Quando os filhos adultos da sra. Chadwick não conseguiram forçar a Procuradoria a formalizar uma acusação de assassinato contra Alec, fizeram o possível para que ele não recebesse o que teria a ganhar com a morte da mãe. O processo fora demorado e rancoroso. A imprensa sensacionalista trabalhara com afinco, para contar em detalhes o caso escandaloso da rica e velha senhora e seu jovem amante, com destaque para o ”Amante de Lady Chadwick”. Era o que se podia esperar, dadas as circunstâncias. A decisão final fora favorável a Alec — o último desejo ficava mantido —, mas, como dissera Dan, foram os advogados que ganharam com isso. Alec viu-se obrigado a vender o imóvel para pagar honorários. O que restou fora usado para manter Mita e ele próprio na universidade, durante quatro anos e, mais tarde, para ajudar na doença de Gregory.

Ao ouvir o sofrimento na voz dele, enquanto falava, Laurel entendeu por que detestava a notoriedade, a perda da respeitabilidade de que falara com tanta ênfase. Pensou ser possível que sua aparência e atitude pouco convencionais fossem uma reação a todos os estigmas e suspeitas que elas provocavam. Detestava pensar na humilhação por que ele passara, sem alguém que estivesse ao seu lado, que tomasse seu partido.

Pelo menos ela não precisava ir falar com dona Callie, para saber dos detalhes, como Maisie sugerira. Já sabia de tudo.

— Você mencionou que os herdeiros da família Chadwick poderiam ter alguma coisa a ver com o que está acontecendo aqui — disse ela. — Foi por alguma razão em particular?

A repugnância apareceu no canto de sua boca.

— Preferem atacar como cobras. Causando problemas que sejam atribuídos a mim, como me fazer perder um emprego de que eu gosto, seria bem do feitio deles. Tornar a minha vida insuportável foi a especialidade deles por tanto tempo que acho que me condicionei a vê-los por trás de tudo de mau que me acontece.

— Faz sentido, mas Hillsboro fica muito longe da Califórnia.

O sinal de assentimento com a cabeça foi breve.

— Eu estava tão envolvido com meus problemas do passado, tinha tanto medo de que você fosse atingida por minha causa, que levei um tempo para perceber que você era o alvo principal.

Ela pousou o garfo com alface e tomate que ia levando à boca. Com o constrangimento estampado no rosto, disse:

— Agora você pode ser atingido por minha causa.

— Não tem importância.

O olhar dele era intencional, apesar da inflexão descuidada das palavras.

— Talvez não para você — declarou pausadamente, os olhos azuis pensativos. — Para mim, muda tudo.

 

Sentou-se no balanço da varanda, no escuro. Balançava-se com um dos pés, ignorando o ranger da corrente enferrujada, enquanto pensava no que Laurel dissera. Uma coisa era, ou assim parecia ser, a punição decorrente de suas próprias decisões, e outra, muito diferente, sofrer pelo que ela fizera. Uma ponta de preocupação dentro dessa lógica retorcida fez com que uma sensação estranha, quase esquecida, circulasse em suas veias. Pensou que talvez fosse esperança.

Ela ainda estava dentro de casa. Deveria estar no banho, mas ele a ouvira falando ao telefone há pouco. Verificara todas as janelas e portas, fez depois a ronda no pátio e na área limpa de mato em torno da casa. Ainda ficara parado por um tempo no meio das árvores, olhando, ouvindo, mas nada encontrara fora do normal. Até onde pôde observar, não havia companhia indesejável por perto.

Atravessou a noite de olhos alertas, mais uma vez, mesmo que, para tanto, tivesse de aumentar a velocidade do balanço com um empurrão mais forte do calcanhar. Fazia o melhor que podia para permanecer em vigília, mas não era fácil, com a visão de Laurel em sua mente. Nunca se esqueceria do modo como ela ouviu o que ele dissera — sem qualquer sinal de repúdio, qualquer comentário chocado, sem retraimento. Ela compreendera.

Ele não estava preparado para isso; não podia simplesmente ignorar o fato. A expectativa fora de utilizar toda a argumentação disponível para convencê-la a ver as coisas pelo seu ponto de vista. Não se surpreenderia se lhe fosse mostrado o caminho da porta.

Se ainda não percebera como ela era especial, agora o sabia. Tinha seu próprio desgosto como ponto de referência, é claro, mas era, mesmo assim, surpreendente em termos de tolerância. Ele não escondeu seu envolvimento, e ela não se esquivou do que ele dissera, nem dele. Em vez disso, aceitara a palavra dada.

Era possível que parte disso se devesse à preocupação por ele que, no entanto, não tinha certeza; ela nunca o dissera, afinal de contas. Mesmo assim, demonstrou a confiança dela, e a gratidão que ele sentiu por este presente ecoou em seu interior como um brado triunfante. Fez com que sentisse que nenhum pedido dela seria demasiado, nenhum sacrifício grande demais. Merecia tudo o que tinha dentro de si para lhe dar.

E a amava com cada grama de seu ser, até o último bater de seu coração. Sem ela, não tinha motivo para viver. Era sua paz, sua luz, as águas plácidas da alma. Era o sol e a lua; doces sonhos, o prazer da brisa fresca, a fragrância das rosas fora de moda. Ele a protegeria até o último suspiro, ou morreria tentando.

Sim, morreria amando, pois a queria com um desejo tão violento que lhe exauria as forças e queimava o cérebro com imagens que não desapareciam. Queria deitar-se com ela em algum lugar e não se levantar antes de estarem ambos saturados — após uns 50 anos. Queria ver, sentir o sabor, a carícia, o abraço, cada pedaço dela; conhecê-la tão intimamente que pudesse identificá-la com um simples toque, em meio a milhares de outras, no escuro.

Pensou em entrar e tirá-la do chuveiro, escorregadia e molhada, e fazer amor na cerâmica fria do piso. Ou talvez ajudá-la a se secar, sugando gotas de água das costas e do ventre com lábios e língua. Ou segurá-la antes de vestir a camisola, espalhar seus longos cabelos, usá-los para prendê-la enquanto ele...

A porta de tela se abriu com um estalido. A sombra, projetada no piso da varanda pela luz do hall, oscilava a cada passo dela para fora de casa. Foi até ele vestida com camisola e penhoar, e a capa de cabelos compridos oscilava no ritmo do andar. Olhou-o com sedução tão sincera e atordoante que a língua dele colou-se ao céu da boca, a nuca se aqueceu e se retesou.

— O que está fazendo aqui fora? — perguntou ela quando ele parou o balanço para que se sentasse ao seu lado, encolhendo os pés frios sob as roupas.

— Pensando — foi o máximo que conseguiu pronunciar.

— Em quê?

— Em... coisas — disse em voz baixa.

Não podia demonstrar seus confusos impulsos em relação a ela, e tinha medo de despertar uma ação mais primitiva do que ela estaria preparada para aceitar. Recolocou o balanço em movimento, um compassado ir e vir.

— Como as razões por que as pessoas agem dessa ou daquela forma, os sentimentos e os acontecimentos do passado que as fazem agir assim?

A voz estava bem-humorada quando ele respondeu:

— De certa maneira. Você também?

— Pode-se dizer que sim. — Prosseguiu quase sem hesitar. — Liguei ainda há pouco para saber de Maisie. O voo já chegou e ela está passando bem.

— Que bom. Vovó vai gostar de saber.

Ele ligara para a avó mais cedo, por não querer que ela soubesse da história deturpada pelos boatos.

Os cabelos caídos nos ombros de Laurel refletiram a luz fraca, quando ela respirou profundamente.

— Detesto a idéia de que Maisie estava no meu carro — disse em tom contrito. — Ela poderia ter morrido.

— Ou poderia ser você.

Fez um som de assentimento.

— Acho que é por isso que me sinto tão... viva. Isso não soa estranho?

Virou a cabeça e olhou para ela, cada sentido em alerta diante do timbre da voz dela.

— Soa normal para mim. A Mãe Natureza nos garante os meios para agradecer o que temos, para ver que, apesar de tudo, despertamos para a vida sem qualquer esforço.

— É um pouco impiedoso, não acha?

— Por quê? Isso não quer dizer que não estou ligando. Qual é nossa alternativa? Castigar-se e bater no peito dizendo mea culpa! Não acho que vai ajudar.

— Eu sei, mas não devia me sentir tão...

Deteve-se. No silêncio, as sombras da lua passeavam pelo jardim da frente e a fonte tocava um contraponto musical ao sussurro da brisa noturna. O aroma das madressilvas e das rosas misturava-se com a fragrância doce, quente, enlouquecedora de mulher limpa.

Traçou o caminho para o olhar partindo do contorno oval de seu rosto, descendo para a curva graciosa do pescoço, daí para os seios. Mesmo através da camada dupla de tecido que usava, viu que os mamilos estavam tensos de promessas, como botões novos de rosa.

— O que você está sentindo, Laurel? — indagou com voz profunda e firme. — O que você quer fazer? Diga. Ou mostre. Não vou pensar mal de você por isto, prometo. E não vou recusar. Nada existe que você me peça que eu não faça com absoluto prazer.

.Laurel encarou-o com incredulidade, pelo tom de compreensão na voz dele. A sedução provocou sensações de peso e calor em sua pelve.

— Será que devo, mesmo?

— Por favor — disse ele, e as duas palavras tinham o som áspero como a casca dos pinheiros novos que ele cortara em volta da casa.

Ela engoliu em seco, lutando contra a garganta que se fechava, e estendeu a mão até o rosto dele, passou os dedos pelos planos rígidos e sobre o ângulo forte do queixo. Desceu para o pescoço, encostou a palma da mão no lugar em que sabia estar a tatuagem do dragão, entre o coração e o algodão macio da camisa. Então, agarrando-se ao tecido para se equilibrar no balanço escorregadio, ficou de joelhos, passou a coxa pelo peito e abriu as pernas dele.

— O que — perguntou delicadamente, voltando ao seu lugar — você acha disso?

— Vou lhe dizer, quando conseguir respirar de novo — falou.

Impulsionando o balanço para um ritmo mais rápido, colocou as mãos nas curvas do bumbum e segurou-a com firmeza pelas coxas.

— Está tudo bem? — As palavras tinham uma ponta de ansiedade.

— Não — respondeu com um resmungo. — Diria que está mais para o sensacional.

Um som que ficou entre a risada e o suspiro saiu da garganta de Laurel, que passou a mão que estava livre por trás da cabeça, mergulhando os dedos nos cabelos dele. Encontrou a tira que os mantinha presos e soltou-a sem deixá-la cair no chão. Enrolou então a seda preta rústica na mão.

— Eu corto amanhã, se você não gosta — propôs.

— Eu mesma corto — disse ela. — Mas só um pouco. Adoro ter...

— Onde segurar — completou, curvando os lábios em um sorriso incontido.

— Exatamente.

Deu impulso para se erguer, ajustando-se com mais precisão à altura dele.

Respirou ruidosamente. Com voz pouco firme, disse:

— Acho que devo lhe avisar que, por mais sensacional que isto seja, pode municiar nosso escritor de cartas anónimas a disparar mais uma remessa de veneno.

— Nem ligo — retrucou ela e, em seguida, desmentiu-se ao acrescentar imediatamente: — Você acha que ele está aí fora?

— Ele ou ela? Acho que não... pelo menos, não vi nada até agora.

— Só estamos nos balançando — disse ela e inclinou ligeiramente a cabeça, com o olhar desnorteado, e caiu, com um movimento suave, sobre ele.

— É, e balanço aqui quer dizer algo mais que o gingado ao som de música.

— Tem certeza de que você não liga?

— Só se eu perder a cabeça. O que vai acontecer se pararmos agora, para não falar do mau humor.

— Não podemos deixar isso acontecer — disse em solidariedade, inclinando-se para encontrar os lábios quentes e abertos para ele.

Tinha o gosto de mulher doce e de um gozo devasso. A língua deslizou sinuosa pelo interior acolchoado de sua boca, retraindo-se antes que ele pudesse capturá-la em delicada sucção. Foi forçado a segui-la, invadindo em busca da fugitiva, apreendendo-a, seguindo-a por toda parte. Ao mesmo tempo, passou a mão entre os dois corpos, aumentando o contato entre eles, a fricção de encontro à suavidade úmida. Um gemido baixo foi para ele uma recompensa.

Ela não usava calcinha — foi o que descobriu a seguir, ao buscar refúgio para os dedos sob a seda da camisola e do penhoar, franzidos em cima dele. O cérebro quase explodiu, mas não deixou transparecer a surpresa. Em vez disso, aproveitou-se da descoberta, e alisou os pêlos enrolados com suave precisão, concentrando-se na carne frágil que oferecesse mais prazer aos dois. E, durante todo o tempo, ele moveu sem parar o balanço, relaxando a espinha dorsal à medida que cada impulso de suas longas pernas os jogava mais para o alto.

Laurel liberou a boca para respirar rapidamente, com surpresa e deleite. Soltou a camisa e o cabelo, passou as duas mãos pelo peito dele. Então, como se tivesse a desesperada necessidade de sentir a pele nua, buscou os botões da camisa. Tirou-os das casas devagar, um por um, com os dedos ora ágeis, ora desajeitados, dependendo da manipulação dele sob a camisola.

— Você faz isso tão bem que já deve ter feito antes — disse quase sem ar.

— Nunca. Mas aprendo depressa. Com a motivação certa.

Ela riu e inclinou-se para mordiscar o mamilo retesado.

— Bruxa — murmurou ele.

— Demónio — disse com voz entrecortada, quando ele retribuiu com a incursão mais profunda de um só dedo, e um balanço mais alto.

Depois de um instante, ela indagou:

— Acha que as cartas anónimas têm razão, e somos mesmo depravados, afinal?

— Se isto é depravação — disse ele —, nunca quero ser normal.

— Sim — concordou ela e levou as mãos à cintura do jeans, empurrou o botão de cobre para fora da casa.

Ele a ajudou, baixando o zíper, soltou depois o tecido que se colava às pernas, e baixou-o para que o metal não arranhasse a parte interna das coxas. Ela afundou nele, gemendo ao entrar mais profundamente. Ele a preencheu, segurou-a enquanto se mexia com um lento e erótico contorcer dos quadris, que testava as entranhas quentes, sedosas e satisfazia uma sensação de posse no mais íntimo de seu ser. Ela suspirou, jogou-se para a frente e apoiou a testa na dele, fechando os olhos. Ele ficou imóvel, enquanto saboreava emoções por demais intensas para ser identificadas de imediato.

Eles então levantaram voo. Subindo e descendo, escorregavam em voos rasantes, de tirar o fôlego, acompanhados do ranger de protesto do balanço. Depois se elevavam e caíam outra vez, leves como o vento, inevitavelmente juntos, de forma tão delirante quanto os pássaros que se acasalam no ar.

Estavam livres, desligados da mesquinhez e da dor, da dúvida e do medo, até mesmo da responsabilidade. Estavam vivos, e celebravam a vida. Sabiam que este momento mágico tinha valor, aceitavam-no plenamente, no pulsar dos corações e na força das mentes.

— Olhe para mim — disse Alec, em voz baixa e áspera. Laurel ouviu-o, ouviu a necessidade interior contida em sua voz. Era difícil atendê-lo — expor-se muito além da simples nudez —, mas ainda assim atendeu-o, abrindo os olhos pouco a pouco. O olhar dele recebeu-a, firmou-se, convidoua às profundezas escuras de si mesmo. Quem ele era, o que era e como se sentia, ali estavam para serem lidos, sem subterfúgios nem obstáculos. Ela percebeu finalmente, aceitou, liberou todas as restrições interiores e permitiu-lhe o acesso ao seu ser. Ele o aceitou, aceitou-a, e a tomou mais rápido, enquanto a noite se fundia, de acordo, em torno deles.

Depois de tudo, ele se levantou e, com ela ainda presa a ele, ainda unido a ela, foi para dentro de casa. Caíram na cama, rindo, para recomeçar tudo. Quando o momento transcendental retornou, ficaram por um instante quase saturados, quase felizes, quase seguros. Quase.

Laurel despertou aos poucos. A luz do quarto era fraca e difusa. Chovia lá fora, um aguaceiro constante, iluminado por breves clarões de raios e sacudido por trovões ocasionais. Era um som calmante, ainda que excitante em termos amorosos, conectado com os sonhos difusos da noite e das primeiras horas da madrugada. Deixou que aquele som mergulhasse nela e sorriu devagar. Não, não era um sonho.

Virou a cabeça no travesseiro, procurou o homem que dormira ao seu lado. Ele a observava, com olhar de proprietário mas pensativo, deitado de bruços com o rosto apoiado nas mãos, uma sobre a outra.

— Outra vez? — resmungou ele e o desinteresse na voz contrastava com o calor no olhar.

— O que você quiser. Se me prometer que não vou precisar mexer um músculo.

— Quer dizer que tenho de fazer com você o que eu quiser?

— Exatamente — disse ela e suspirou, submissa como uma donzela.

— E o que acontece se você se mexer, no final de tudo? Desconfiada, ergueu a sobrancelha.

— No final de tudo o quê?

— Qualquer coisa — zombou ele. — Então eu tenho que não precisar mexer um músculo, não é?

— Se conseguir — replicou ela, com um sorriso lento e perverso.

— Um desafio — falou. — Seu primeiro erro. E partiu para o ataque.