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Planeta Criança



Poesia & Contos Infantis

 

 

 


Jóias / Danielle Stel
Jóias / Danielle Stel

 

 

Biblioteca Virtual do Poeta Sem Limites

 

 

Jóias

 

          

 

     O ar permanecia tão parado sob o brilhante sol de Verão que Sarah conseguia ouvir as aves e outros pequenos sons que vinham de quilómetros de distância, enquanto se mantinha tranquilamente a olhar pela janela. Os espaços na sua frente haviam sido brilhantemente desenhados e estavam ímpecavelmente cuidados, com os seus jardins imaginados por Le Nôtre, tal como os de Versalhes, com as enormes copas verdes das árvores a enquadrarem o Castelo de Metize. O castelo tinha quatrocentos anos e Sarah, duquesa de Whitfield, vivia ali havia cinquenta e dois anos. Chegara com Wílliam, quando era pouco mais do que uma menina. Sorriu ante aquela recordação, observando os dois cães do caseiro, que se perseguiam um ao outro, à distância. O seu sorriso aumentou ao pensar que Max iria gostar muito dos dois jovens cães pastores.

Estar ali sentada, olhando para os campos em que haviam trabalhado tanto, dava-lhe sempre uma sensação de paz. Era fácil recordar o desespero da guerra, a fome infindável, os campos despidos de tudo o que poderiam ter tido para lhes dar. Fora tudo tão difícil... tão diferente ... e era estranho, nunca lhe parecia ter sido há tanto tempo   ...  cinquenta anos... meio século, Olhou para baixo, para as mãos, para os dois enormes anéis de esmeraldas perfeitamente quadradas que usava quase sempre. Ainda se sobressaltava ao ver as mãos de uma mulher velha. Continuavam a ser umas mãos bonitas, graciosas, úteis, graças a Deus, mas eram as mãos de uma mulher de setenta e cinco anos. Tivera uma vida boa e longa. Por vezes pensava que fora uma vida demasiado longa... Demasiado longa sem Willíam... mas havia sempre mais, mais para ver, mais para fazer, i mais para pensar e planear, mais para supervisionar, com os filhos. Estava grata por todos os anos que tivera. Mesmo agora, nunca tinha a sensação de haver algo já terminado, ou completo. A estrada tinha sempre uma qualquer viragem inesperada, um qualquer acontecimento que não poderia ter sido previsto e que, de algum modo, necessitava da sua atenção. Era curioso pensar que ainda precisavam dela. Precisavam dela menos do que pensavam mas mesmo assim ainda se viravam para ela com a frequência suficiente para a fazerem sentir-se importante e, de algum modo, útil para eles. Depois havia também os filhos deles. Sorriu ao recordá-los e levantou-se, sempre sem desviar os olhos da janela. Poderia vê-los dali quando chegassem... Poderia ver os seus rostos quando sorrissem, ou se rissem, ou parecessem aborrecidos enquanto saíam dos carros, olhando para cima, na expectativa, para as suas janelas. Era como se soubessem sempre que ela ali estaria, à espera de os ver chegar. Não interessava o que pudesse haver para fazer. Na tarde em que chegavam arranjava sempre uma desculpa e refugiava-se na elegante sala lá de cima, enquanto esperava. Mesmo depois daqueles anos, e agora quejá estavam crescidos, sentia sempre uma pequena excitação, a excitação de lhes ver os rostos, de lhes ouvir as histórias que tinham para contar, de escutar os seus problemas. Preocupava-se com eles e amava-os como sempre fizera. De certo modo, cada um deles era uma pequena peça do enorme amor que partilhara com William. Que homem notável, maior do que a fantasia, maior do que qualquer sonho! Mesmo depois da guerra, fora uma força com que era preciso contar, um homem que nunca seria esquecido por todos aqueles que o tinham conhecido.

Sarah afastou-se lentamente da janela, para lá da lareira de mármore branco, onde era frequente sentar-se nas frias tardes de Inverno, pensando, escrevendo bilhetes ou até uma carta para um dos filhos. Falava muitas vezes com eles pelo telefone, para Paris, Londres, Roma, Munique e Madrid, mas nunca perdera o seu enorme gosto pela escrita.

 

Ficou a olhar para a mesa, coberta por um antigo brocado, já desbotado, uma bela peça de artesanato antigo que descobrira em Veneza, anos atrás. Tocou ao de leve nas fotografias emolduradas que ali se encontravam, pegando-lhes ao acaso para as ver melhor. Depois, quando as olhou, foi-lhe fácil recordar o instante exacto... o dia do casamento, William a rir-se de algo que alguém dissera, enquanto ela olhava para cima, para ele, com um sorriso tímido. Havia ali tanta felicidade visível, tanta alegria, que no dia do casamento quase receara que o seu coração pudesse rebentar. Usara um vestido bege, em renda e cetim, com um elegante chapéu de renda bege com um pequeno véu, e carregara uma braçada de pequenas orquídeas cor de chá. Tinham casado em casa dos pais dela, numa pequena cerimónia, acompanhados pelos amigos favoritos dos pais. A recepção, discreta mas muito elegante, contara com a presença de quase uma centena de amigos. Daquela vez não houvera damas de honor, nenhum mestre-de-cerimónias, nenhuma festa enorme, nada de excessos juvenis, apenas a irmã para a acompanhar, num belo vestido de cetim azul drapejado, e um espantoso chapéu feito especialmente por Lily Daché. A mãe usara um vestido curto verde-esmeralda. Sarah sorriu ao recordar-se... O vestido da mãe tivera quase exactamente a mesma cor das suas extraordinárias esmeraldas. Oh, como a mãe ficaria satisfeita com a sua vida, se tivesse sobrevivido para a ver!

Havia ali também outras fotografias, das crianças quando eram pequenas... uma bela fotografia de Julian com o seu primeiro cão... e Phillip, com um ar terrivelmente crescido apesar de na altura ter apenas oito ou nove anos, quando entrara para Eton. Isabelle, algures no Sul da França, nos anos da adolescência... e cada um deles nos braços de Sarah logo após os respectivos nascimentos. Fora sempre William quem tirara aquelas fotografias, tentando fingir que não tinha lágrimas nos olhos cada vez que via Sarah com um novo e minúsculo bebé. E Elizabeth... parecendo tão pequena... de pé ao lado de Phillip, numa fotografia tão amarelada que já mal se conseguia ver. Porém, como sempre, as lágrimas encheram os olhos de Sarah quando a viu e se recordou. A sua vida, até àquele momento, fora boa e muito cheia, mas nem sempre fora fácil.

Ficou a olhar para as fotografias durante muito tempo, tocando naqueles momentos, pensando em cada um deles, mergulhando suavemente nas recordações, mas tentando não chocar com as que eram demasiado dolorosas. Afastou-se, com um suspiro, e encaminhou-se para junto das compridas janelas francesas.

Era graciosa, alta, com as costas muito direitas, a cabeça erguída com o orgulho e a elegância de uma bailarina. O cabelo era agora branco de neve, mas outrora brilhara como ébano. Os enormes olhos verdes tinham o mesmo tom profundo e escuro das suas esmeraldas. Entre todos os filhos, só Elizabeth tivera aqueles olhos, mas não tão escuros como os de Sarah. Contudo, nenhum deles tinha a sua força ou estilo, nenhum deles tinha a sua firmeza, determinação, a pura vontade de sobreviver a todos os golpes com que a vida a presenteara. As vidas deles haviam sido mais fáceis. De certo modo, estava muito grata por isso. Por outro lado, perguntava a si mesma se as suas constantes atenções não os teriam amolecido, se não fora demasiado indulgente para com eles e não os tornara mais fracos. Não que alguém pudesse dizer que Phillip era um fraco... ou Julian... ou Xavier... ou até Isabelle... mas mesmo assim Sarah tinha algo que nenhum deles possuía, uma força de alma que parecia emanar dela quando alguém a observava. Era uma espécie de poder pressentido à sua volta quando caminhava numa sala. Quer gostassem dela ou não, não podiam deixar de a respeitar. William também fora assim, embora de uma maneira men            os efusiva, mais óbvia no divertimento que tirava da vida e na sua boa natureza. Sarah fora sempre mais discreta, excepto quando estava com William. O marido trazia à superfície o que de melhor existia nela, Dera-lhe tudo, afirmava Sarah com frequência, tudo o que lhe interessara ou que amara, tudo aquilo de que na verdade necessitara. Sorriu quando olhou para o verde dos relvados, recordando-se de como tudo começara. Parecia-lhe que se tinham passado apenas horas... ou alguns dias. Era-lhe impossível acreditar que, amanhã, teria lugar o seu septuagésimo quinto aniversário. Os filhos e os netos iriam aparecer para festejar junto dela e no dia seguinte apareceriam centenas de pessoas ilustres e importantes, A festa ainda lhe parecia uma estupidez, mas os filhos haviam insistido. Julian organizara tudo e até Phillip lhe telefonara de Londres meia dúzia de vezes para se certificar de que as coisas estavam a correr bem. Xavier jurara que, onde quer que se encontrasse, no Botswana, no Brasil ou noutro local qualquer só conhecido de Deus, se meteria num avião para estar presente. Agora aguardava-os, de pé junto à janela, quase sem fôlego, sentindo pequenas vibrações de excitação. Envergava um velho vestido preto Chanel, muito simples mas muito bem talhado, com as enormes pérolas perfeitamente iguais que usava quase sempre e que levavam os conhecedores a ofegar de espanto sempre que as viam. Eram suas desde a guerra. Se fossem vendidas no mundo de hoje, de certeza que o seu preço ultrapassaria em muito os dois milhões de dólares. Todavia, Sarah nunca pensava nisso. Limitava-se a usá-las porque as adorava, porque eram suas e porque William insistira em que as conservasse. «A duquesa de Whitfield deve ter pérolas como essas, meu amor. » Provocara-a quando as experimentara pela primeira vez, por cima de uma velha camisola do marido que fora buscar para trabalhar num dos jardins. «É uma pena que as da minha mãe fossem tão insignificantes quando comparadas com essas», comentara, e ela rira-se. William apertara-a de encontro a si quando a beijara. Sarah Whitfield tinha coisas belas e levara uma vida maravilhosa. Era na verdade uma pessoa extraordinária.

Quando começava a virar as costas à janela, impaciente por os ver chegar, ouviu o primeiro carro a descrever a última curva da alameda. Era uma interminável limusina preta, Rolls-Royce, com vidros tão escuros que se tornava impossível saber quem lá se encontrava dentro. Mas ela sabia, conhecia-os a todos na perfeição. Ficou a sorrir enquanto os observava. O carro parou directamente em frente da entrada principal do castelo, quase por baixo da sua janela, e Sarah abanou a cabeça, divertida, quando o motorista saiu, apressando-se a abrir-lhes a porta do carro. O seu filho mais velho tinha uma aparência extremamente distinta, como sempre, e muito, muito britânica, enquanto fingia não se sentir incomodado com a mulher que saiu do carro logo atrás dele. Trazia um vestido branco de seda e sapatos Chanel, tinha um corte de cabelo curto, muito elegante. Os diamantes brilhavam ao sol, em todos os locais do corpo onde encontrara espaço para os colocar. Sarah sorriu mais uma vez para si mesma e virou as costas àjanela. Aquilo era apenas o princípio... de alguns dias loucos e muito interessantes... Era dificil acreditar ... Não conseguia impedir-se de perguntar a si mesma o que teria William pensado a respeito de tudo aquilo ... tanta agitação no dia do seu septuagésimo quinto aniversário ... setenta e cinco anos ... tantos e tão depressa ... Parecia-lhe que se tinham passado apenas alguns momentos...

 

Sarah Thompson nascera em Nova Iorque, em 1916. Fora a mais nova de duas irmãs, na situação um pouco menos afortunada do que a dos Astor ou Biddles, mas extremamente confortável e respeitada uma vez que era prima de ambas as famílias. A sua irmã, jane, casara com um Vanderbilt aos dezanove anos. Sarah ficara noiva de Freddie Van Deering precisamente dois anos depois, no Dia de Acção de Graças. Também já tinha dezanove anos, e Jane e Peter acabavam de ter o seu primeiro bebé, um adorável rapazinho chamado james, com caracóis louros.

O noivado de Sarah com Freddie não constituiu uma grande surpresa para a família, uma vez que todos conheciam os Van Deering havia anos. Apesar de não conhecerem Freddíe muito bem, porque permanecera muitos anos num colégio interno, toda a gente o vira muitas vezes em Nova iorque quando frequentara Prínceton. Formara-se no mês de Junho do ano em que haviam ficado noivos, andara muito animado desde esse momento especial, mas ainda conseguira arranjar algum tempo para fazer a corte a Sarah. Era umjovem brilhante e cheio de vida, sempre a pregar partidas aos amigos, que fazia o possível para que todos, mas muito especialmente Sarah, se divertissem para onde quer que fossem. Era muito raro levar as coisas a sério e estava sempre a brincar. Sarah ficara sensibilizada com as suas atenções e divertida ao vê-lo sempre tão animado. Era divertido estar com ele, as conversas eram fáceis e as gargalhadas e boa disposição pareciam contagiosas. Toda a gente gostava de Freddie. Ninguém parecia importar-se com o facto de lhe faltarem ambições para o mundo dos negócios, talvez com excepção do pai de Sarah. Contudo, todos sabiam que a fortuna da família lhe permitiria viver muito bem, mesmo que nunca trabalhasse. Apesar disso, o pai de Sarah achava importante que um jovem participasse no mundo dos negócios, por muito grande que fosse a sua fortuna e independentemente de quem fossem os seus pais. Ele próprio era dono de um banco. Antes do casamento falara muito tempo com Freddie a respeito dos seus planos. Freddie garantira-lhe que tinha todas as intenções de vir a assentar na vida. De facto, haviam-lhe oferecido um excelente lugar na J. P. Morgan & C.Oo, em Nova Iorque, bem como outro ainda melhor no Banco da Nova Inglaterra, em Bóston. Depois do Ano Novo iria aceitar uma daquelas posições, o que agradou muito a Mr. Thompson, levando-o a permitir o anúncio formal do noivado.

Para Sarah, as férias daquele ano haviam sido muito divertidas. Tinham sido organizadas inúmeras festas de noivado em sua honra, saíam todas as noites para se divertir, visítando os amigos e dançando até altas horas da madrugada. Depois tivera também as festas de patinagem no Central Park, os almoços ejantares, e os numerosos bailes. Sarah reparara que Freddie parecia beber muito, mas mostrava-se sempre extremamente inteligente, educado e encantador. Em Nova Iorque, toda a gente adorava Freddie Van Deering.

O casamento estava marcado para Junho. Pela Primavera, Sarah andava assoberbada com afazeres, ocupada com os presentes de casamento, com as provas do vestido de noiva e com mais festas oferecidas por ainda mais amigos. Sentia a cabeça a andar à roda. Durante esse tempo mal tivera oportunidade para ver Freddie a sos e parecia-lhe que só o encontrava nas festas. Durante o resto do tempo, Freddie estava com os amigos, que o preparavam» para o grande mergulho na vida de um homem casado.

Eram momentos em que se pressupunha que se divertisse. Todavia, como acabou por confessar a jane, em Maio, não era isso o que acontecia. O rodopio era demasiado intenso, as coisas pareciam-lhe descontroladas e sentia-se absolutamente exausta. Numa certa tarde, começou a chorar depois da última prova do vestido de noiva. A irmã passou-lhe rapidamente para as mãos um lenço bordado e afagou-lhe os compridos cabelos escuros, que lhe desciam abaixo dos ombros.

- Não te preocupes. Toda a gente fica assim antes de um casamento. Supõe-se que é um momento maravilhoso mas, na verdade, é muito difícil. Acontecem muitas coisas ao mesmo tempo, não se consegue um momento livre para pensarmos, para nos sentarmos ou para ficarmos sozinhas... Também passei por momentos terríveis antes do meu casamento.

- Sim? - Sarah virou os enormes olhos verdes para a irmã mais velha, que acabara de fazer vinte e um anos e que lhe parecia infinitamente sensata. Era um grande alívio descobrir que já outras pessoas se tinham sentido desorientadas e confusas antes do casamento.

As únicas coisas de que Sarah não duvidava era do afecto de Freddie para com ela, ou do tipo de homem que ele era, ou até de como iriam ser felizes depois do casamento. No entanto, tinha a sensação de que estavam em curso demasiados divertimentos, distracções, festas e confusão. Aparentemente, Freddie só pensava em saír para passar um bom bocado. Havia meses que não tinham uma conversa séria e Freddie ainda não lhe dissera quais os seus planos quanto ao trabalho. Só lhe respondia que não se preocupasse. Não se dera ao trabalho de aceitar o emprego no banco, depois do Ano Novo, tal como prometera, com o argumento de que ainda tinha tanto para fazer antes do casamento que um novo trabalho acabaria por se tornar num elemento excessivamente perturbador. Nessa altura, Edward Thompsonjá não gostava das ideias de Freddie a respeito do trabalho, mas abstivera-se de fazer comentários junto da filha. Discutira o assunto com a esposa; porém, Victoria Thompson tinha a certeza de que Freddie assentaria após o casamento. No fim de contas, frequentara a Universidade de Princeton.

O dia do casamento chegou, em junho, e os enormes preparativos tinham valido a pena. Foi um belo casamento na Igreja de Saint Thomas, na Quinta Avenida, e a recepção fora no Saint Regis. Havia quatrocentos convidados, uma música maravilhosa que pareceu prolongar-se por toda a tarde, comida deliciosa, e as catorze damas de honor tinham um ar adorável nos seus vestidos de organdi cor de pêssego. A própria Sarah usava um incrível vestido de renda branca e de organdi, com uma cauda de seis metros, bem como um véu branco de renda que havia pertencido à bisavó. O seu aspecto era verdadeiramente requintado. O sol brilhara durante todo o dia. Por seu lado, Freddie não podia estar mais bonito. Era, sob todos os pontos de vista, um casamento perfeito.

A lua-de-mel também foi quase perfeita. Freddie pedira emprestada a casa de um amigo, em Cape Cod, bem como um pequeno iate, e estiveram completamente sós durante as primeiras quatro semanas do casamento. Inicialmente, Sarah experimentou alguma timidez, mas Freddie foi amável, gentil e uma companhia sempre divertida. Era inteligente quando se mostrava sério, o que só muito raramente acontecia. Sarah descobriu que Freddie era um excelente velejador. Bebeu muito menos do que antes e Sarah ficou aliviada. O modo como bebia quase a deixara preocupada ainda antes do casamento. Era apenas para se divertir, dissera Freddie.

A lua-de-mel foi tão agradável que Sarah detestou ter de regressar a Nova Iorque em julho, mas as pessoas que lhes tinham emprestado a casa regressariam em breve da Europa. Sarah e Freddie sabiam que precisavam de se organizar e de se mudar para o apartamento. Tinham encontrado um em Nova Iorque, no Upper East Side. Todavia, iam passar todo o Verão em casa dos pais dela, em Southampton, enquanto os pintores, decoradores e operários preparavam as coisas.

Contudo, nesse Outono, quando regressaram a Nova Iorque logo depois do Dia do Trabalho, Freddie ficou novamente demasiado atarefado para arranjar um emprego. De facto, estava demasiado atarefado para fazer fosse o que fosse, excepto andar na companhia dos amigos. Para além disso, parecia beber muito. Sarah dera por isso ainda naquele Verão, em Southampton, sempre que o via regressar da cidade. Depois de se mudarem para o apartamento, havia sido impossível não o notar. Voltava para casa ao fim da tarde, bêbedo, depois de passar todo o dia com os amigos. Por vezes, só se dava ao trabalho de aparecer muito depois da meia-noite. Outras vezes, levava Sarah com ele, para recepções e bailes, e era sempre o animador da festa. Era o melhor amigo de toda a gente e as pessoas sabiam que se divertiriam se estivessem na companhia de Freddie Van Deering. As pessoas... excepto Sarah, que começara a ganhar um ar desesperadamente infeliz ainda antes do Natal. Freddie já não fazia qualquer referência a arranjar um emprego e punha de lado todas as delicadas tentativas de Sarah para discutirem o assunto. Aparentemente, não tinha quaisquer planos, excepto o de se divertir e beber.

Em Janeiro, Sarah exibia um aspecto muito pálido e Jane convidou-a para tomar chá, para tentar saber o que se passava.

- Estou bem - disse Sarah, tentando parecer divertida com as preocupações da irmã. Porém, quando o chá foi servido, Sarah ficou ainda mais pálida e não conseguiu bebê-lo.

- Querida, que se passa? Diz-me, por favor! Tens de me dizer!

Jane preocupava-se com ela desde o Natal, altura em que Sarah estivera invulgarmente calada durante ojantar em casa dos pais. Freddie encantara toda a gente com uma saúde em verso, que incluíra toda a família, bem como os criados, que trabalhavam para eles havia anos, e Júpiter, o cão dos Thompson, que ladrara em uníssono, enquanto todos os presentes aplaudiam os versos bem conseguidos. Fora divertido, e o facto de Freddie parecer mais do que apenas um pouco «alegre» parecera passar despercebido.

- Estou bem, sossega - insistiu Sarah, mas acabou por começar a chorar até se descobrir a soluçar nos braços da irmã e a admitir que, afinal, não estava nada bem. Sentia-se infeliz. Freddie nunca parava em casa, andava sempre na rua, ficava fora até altas horas com os amigos, e Sarah não admitiu, junto de Jane, que desconfiava que alguns desses amigos pudessem ser amigas. Tentara que passasse mais tempo com ela mas não conseguira. Bebia cada vez mais. Tomava a primeira bebida muito antes do meio-dia, por vezes logo de manhã, quando se levantava, e insistia com Sarah, dizendo que o facto não constituía qualquer problema. Chamava-lhe a «sua linda menina» e reagia com divertímento às suas preocupações. Para tornar as coisas ainda piores, Sarah acabara de descobrir que estava grávida.

- Mas... isso é maravilhoso! - exclamou Jane, parecendo deliciada. - Eu também estou! - acrescentou.

Sarah sorriu por entre as lágrimas, incapaz de explicar até que ponto a sua vida era infeliz. A vida de Jane era completamente diferente. Estava casada com um homem sério e de confiança, interessado no casamento, coisa que Freddie Van Deering de certeza não estava. Este era muitas coisas, encantador, divertido, esperto... mas o sentido das responsabilidades era-lhe tão estranho como uma língua estrangeira. Sarah começava a pensar que nunca assentaria. la continuar na boa vida para sempre. O pai de Sarah também pensava do mesmo modo, mas Jane ainda continuava convencida de que as coisas acabariam bem, em especial depois de terem o bebé. As duas raparigas descobriram que os seus respectivos bebés deveriam nascer quase na mesma altura, com uma diferença de apenas alguns dias, e o facto alegrou um pouco Sarah antes de regressar ao seu solitário apartamento.

Freddie não estava, como de costume, e nessa noite nem sequer foi para casa. No dia seguinte, quando apareceu, cerca do meio-dia, mostrou-se arrependido, explicando que jogara brídege até às quatro da manhã e ficara onde estava porque tivera medo de voltar para a enfrentar.

- É tudo o que fazes? - Pela primeira vez, virara-se para ele, zangada, e Freddie ficou surpreendido com a veemência do seu tom. Sempre se revelara recatada no que se referia ao comportamento do marido, mas daquela vez estava obvíamente muito zangada.

- Que queres dizer? - Pareceu chocado com a pergunta, com os seus inocentes olhos azuis muito abertos e o cabelo cor de areia a fazê-lo parecer Tom Sawyer.

- Quero dizer isto: o que fazes durante as noites quando ficas fora de casa até à uma ou duas da madrugada? -- No seu tom havia uma ira verdadeira, para além de dor e de desapontamento.

Lançou-lhe um sorriso arrapazado, convicto de que conseguiria sempre enganá-la.

- Por vezes bebo um pouco de mais... É tudo. Quando isso acontece, parece-me mais fácil ficar onde estou do que voltar para casa quando já estás a dormir. Não quero incomodar-te, Sarah.

- Pois é o que estás a fazer. Nunca paras em casa. Estás sempre fora com os amigos e apareces bêbedo todas as noites. Não é assim que as pessoas casadas se comportam. Sarahjá fervia.

- Ah, não? Estás a referir-te ao teu cunhado, ou a pessoas normais, com um pouco mais de energia e de alegria de viver? Lamento, querida, mas não sou o Peter.

- Nunca te pedi que o fosses! E quem és tu? Com quem é que estou casada? Nunca te vejo, excepto nas festas, e depois desapareces com os amigos para ires jogar às cartas, contar anedotas e beber, ou então estás fora, só Deus sabe onde - retorquiu, com tristeza.

- Preferias que ficasse em casa, contigo? - perguntou, parecendo divertido. Pela primeira vez, Sarah viu-lhe algo de perverso nos olhos, algo de mau, mas também era verdade que estava a desafiar o seu próprio estilo de vida. Assustava-o e punha em risco o seu gosto pela bebida.

- Sim, preferia que ficasses em casa, comigo! Será uma coisa assim tão chocante?

- Chocante? Não, apenas estúpida. Casaste comigo por a minha companhia ser divertida, não é verdade? Não querias um maçador como o teu cunhado. Imagino que conseguirias arranjar um como ele, mas não o fizeste. Escolheste-me a mim. Agora, queres transformar-me em alguém parecido com ele. Pois bem, minha querida, posso     prometer-te que isso nunca acontecerá.

- Então, o que vai acontecer? Não vais começar a trabalhar? No ano passado, disseste ao meu pai   que o farias mas não o fizeste.

- Não preciso de trabalhar, Sarah. Estás a aborrecer-me de morte. Devias sentir-te feliz por eu não precisar de lutar pela vida, como um qualquer tolo, num emprego maçador, tentando pôr um pouco de comida em cima da mesa.

- O pai pensa que isso te faria bem e estou de acordo com ele. - Era a coisa mais corajosa que jamais lhe dissera, mas na noite anterior passara horas acordada, pensando no que havia de lhe dizer. Queria que a sua vida melhorasse, queria ter um marido a sério antes do nascimento do bebé.

- O teu pai pertence a outra geração. - Os olhos brilhavam-lhe enquanto a olhava. - E tu és parva.

 

Porém, quando pronunciou aquelas palavras, Sarah compreendeu o que deveria ter percebido logo que o vira entrar. Freddie estivera a beber. Era apenas meio-dia mas estava nitidamente bêbedo. Olhou para ele e sentiu-se enojada.

- Talvez seja melhor discutirmos isto noutra altura.

- Acho que é uma boa ideia.

Voltara a saír, mas naquela noite regressara cedo e na manhã seguinte fizera um esforço para se levantar a uma hora decente, e só então compreendera até que ponto Sarah não estava bem. Mostrou-se sobressaltado quando a interrogou a esse respeito durante o pequeno-almoço. Tinham uma empregada que la todos os dias fazer as limpezas e passar a ferro, e também para lhes servir as refeições quando se encontravam em casa. Em geral, Sarah gostava de cozinhar, mas durante o último mês fora incapaz de entrar na cozinha. Todavia, Freddie não estivera em casa tempo suficiente para o saber.

- Passa-se alguma coisa? Estás doente? Não devias ir ao médico? - Mostrava-se preocupado enquanto a espreitava por cima do jornal da manhã. Depois de se terem levantado, ouvira-a a tentar vomitar, de uma maneira horrível, e perguntava a si mesmo se teria sido alguma coisa que ela comera.

- Já fui ao médico - respondeu, calmamente, de olhos postos nele, mas teve de esperar muito tempo até o ver novamente a olhar para ela, como sejá se tivesse esquecido da pergunta.

- O quê? Oh... sim, óptimo. Que disse ele? É uma gripe? Devias ter cuidado, sabes, andam por aí muitas gripes. Na semana passada, a mãe do Tom Parker esteve quase à morte.

- Não me parece que vá morrer disto... - Sorriu, e Freddie virou a sua atenção para o Jornal. Houve um longo silêncio. Quando voltou a olhar para ela, já se esquecera completamente da conversa anterior.

- Há uma grande agitação em Inglaterra por causa da abdicação de Eduardo VII, para poder ficar com aquela mulher, a Simpson. Deve ser muito especial, para o levar a fazer uma coisa dessas.

- Penso que é uma tristeza - afirmou Sarah, muito séria. - O pobre homem passou por tanta coisa. Como foi ela capaz de lhe destruir a vida daquele modo?

- Talvez seja muito bonita. - Freddie sorriu. Para seu desespero, tinha um ar mais bonito do que nunca. já não sabia muito bem se o amava ou odiava. A sua vida, junto dele, transformara-se num pesadelo. Talvez Jane tivesse razão e tudo corresse bem depois do nascimento do filho.

- Vou ter um bebé. - Quase sussurrou e, por um momento, Freddie pareceu não a ouvir. Depois, virou-se para ela, enquanto se levantava, com a expressão de quem esperava que se tratasse de uma brincadeira.

- Estás a falar a sério? - perguntou.

Sarah acenou, incapaz de dizer mais qualquer coisa e com os olhos a encherem-se-lhe de lágrimas. já o sabia desde antes do Natal mas não tivera coragem para lho dizer. Queria que Freddie se preocupasse com ela, queria um instante de tranquila felicidade entre eles, coisa que não voltara a acontecer desde a lua-de-mel em Cape Cod, sete meses antes.

- Sim, estou a falar a sério. - Os seus olhos confirmavam a afirmação.

- Isso é mau. Não achas que é demasiado cedo? Pensei que estavas a ter cuidado... - Parecia aborrecido e nada satisfeito. Sarah sentiu um soluço preso na garganta e rezou para não acabar por fazer figura de parva em frente do marido.

 

- Também o pensei. - Levantou os olhos cheios de lágrimas. Freddie deu um passo em frente e despenteou-a, como se estivesse a falar com uma irmã mais nova.

- Não te preocupes, vai correr tudo bem. Para quando é?

- Agosto. - Tentava não chorar, mas era difícil controlar-se. Pelo menos, Freddie não ficara furioso, mas apenas aborrecido. Também ela não ficara muito entusiasmada quando soubera. Naquela altura já havia tão pouco entre os dois... Pouco tempo, pouco calor e pouca comunicação. O Peter e a Jane também vão ter um bebé.

- Sorte a deles! - retorquiu, sarcástico, interrogando-se sobre o que iria fazer com ela, agora. O casamento tornara-se num fardo maior do que esperara. Sarah parecia ficar em casa durante todo o tempo, sempre à espera de o poder apanhar. Para além disso, agora que a observava com atenção, notava-lhe um ar cada vez mais entristecido.

- Não é uma sorte para nós, pois não? - Não conseguiu impedir as duas lágrimas que lhe escorreram lentamente pelas faces quando fez- a pergunta.

- A altura não é a melhor. No entanto, as coisas nem sempre correm como queremos, não é verdade?

Sarah abanou a cabeça e abandonou a sala. Freddie não voltou a mencionar o assunto até saír, meia hora mais tarde. la ter com os amigos, para almoçar, e não disse quando estaria de volta. Nunca o fazia. Naquela noite, Sarah chorou até adormecer e Freddie só voltou para casa às oito horas da manhã seguinte. Estava ainda tão bêbedo que nem sequer conseguiu passar para além do sofá da sala quando la a caminho do quarto. Sarah ouvíu-o entrar, mas Freddie já estava inconsciente quando ela o encontrou.

Durante o mês seguinte tornou-se dolorosamente claro que ficara muito abalado com a novidade. Para ele, a ideia do casamento já era suficientemente assustadora. Agora, o bebé enchia-o com nada menos do que terror. Peter tentou explicar-lho, numa noite em que jantaram juntos. Por essa altura, o facto de Sarah ser infeliz com Freddie já não era um segredo entre eles. Ninguém mais o deveria saber, mas Sarah confiara em Peter e Jane, desde que dissera à irmã que la ter um bebé.

- Alguns homens ficam aterrorizados com esse tipo de responsabilidade. Significa que vão ser obrigados a crescer. Tenho de admitir que, na primeira vez, também fiquei muito assustado. - Olhou para Jane com uma expressão de amor e depois voltou a fitar a cunhada. - O Freddie não é exactamente famoso pela sua capacidade para assentar na vida. Contudo, quando vir o bebé, talvez compreenda que não se trata de uma ameaça tão grande como pensa. No entanto, as coisas podem ser duras até o teres.

Peter compreendia-a muito melhor do que deixava transparecer junto de Sarah. Dissera frequentemente à mulher que considerava Freddie um verdadeiro canalha. No entanto, não queria que Sarah soubesse o que pensava. Preferia encorajá-la no que se referia ao bebé.

Contudo, o estado de espírito de Sara continuou muito em baixo. O comportamento de Freddie, bem como a tendência para a bebida pioraram ainda mais. Jane precisou de toda a sua habilidade para levar Sarah a saír de casa. Um dia, conseguiu convencê-la a ir às compras. Dirigiram-se ao centro da cidade, à Bonwit Teller, na Quinta Avenida, quando Sarah, repentinamente, ficou muito pálida, cambaleou e agarrou-se à irmã.

- Estás bem? - Jane ficou instantaneamente assustada quando viu o seu aspecto.

- Sim... estou bem... Não sei o que aconteceu. - Tinha uma dor terrível, que no entanto só durou alguns instantes.

 

- Porque não te sentas? - Jane foi rápida, fez sinal a alguém, pediu uma cadeira e um copo de água. Nessa altura já Sarah estava novamente agarrada a ela. Tinha gotas de suor na testa e o seu rosto ganhara um tom cinzento-esverdeado.

- Desculpa, Jane... mas não me sinto nada bem... Sarah quase não teve tempo para pronunciar aquelas palavras. De repente, desmaiou, A ambulância chegou pouco depois de a chamarem e Sarah saiu de maca da Bonwit. já se encontrava novamente consciente e Jane tinha um ar aterrorizado enquanto seguia a seu lado. Permitiram-lhe que acompanhasse a irmã, na ambulância, até ao hospital. Ainda na loja, Jane pedira que telefonassem a Peter, para o escritório, e também para a mãe, em casa. Ambos apareceram no hospital apenas alguns minutos depois. Peter estava mais preocupado com Jane do que com qualquer outra pessoa. Agarrou-se a ele e soluçou, enquanto a mãe la ver Sarah. Passou muito tempo com a filha. Quando voltou, trazia lágrimas nos olhos.

- A Sarah está bem? - perguntou Jane, ansiosa. A mãe respondeu com um aceno silencioso e sentou-se. Fora uma boa mãe para as duas. Era uma mulher calma e sem pretensões, com bom gosto e ideias sensatas, valores que haviam sido muito úteis para as duas jovens, embora não tivessem servido de muito para ajudar Sarah a lidar com Freddie.

- Vai ficar bem - afirmou Victoria Thompson, estendendo as mãos para eles. Jane e Peter apertaram-lhas com força. - Perdeu o bebé... mas ainda é muito nova. - Antes do nascimento de Sarah e Jane, Victoria Thompson também perdera um bebé, o seu único filho, mas não partilhara esse desgosto com as filhas. Contudo, acabara de o dizer a Sarah, esperando ajudá-la e reconfortá-la. - Um dia, irá ter outro filho - concluiu.

Todavia, estava muito mais preocupada com o que Sarah lhe balbuciara a respeito da sua vida com Freddíe. Chorara terrivelmente e insistira que a culpa fora dela. Na noite anterior, deslocara uma peça de mobiliário sozinha, uma vez que Freddie nunca estava em casa para a ajudar. Depois, contara-lhe toda a história, aos borbotões, explicando o pouco tempo que Freddie passava em casa, como bebia, e a infelicidade que sentia junto dele e também por causa do bebé.

Passaram-se várias horas antes que os médicos lhes permitissem voltar a ver Sarah. Nessa altura já Peter regressara ao escritório, mas não sem obrigar Jane a prometer que voltaria para casa no fim da tarde, para descansar e recuperar de toda a excitação daquele dia. No fim de contas, Jane também estava grávida. Um aborto espontâneo era mais do que suficiente.

Haviam tentado contactar Freddie, mas andava por fora, como de costume. Ninguém sabia onde se encontrava ou quando voltaria para casa. A empregada manifestou a sua pena ao ouvir falar do «acidente» de Mrs. Van Deering, e prometeu enviar Mr. Deering ao hospital se ele telefonasse ou aparecesse. Todos estavam de acordo, sem o dizerem, que era improvável que isso viesse a acontecer.

- A culpa foi minha... - soluçava Sarah, quando voltaram a vê-la. - Não o quis o suficiente... Fiquei preocupada ao ver o Freddie tão aborrecido, e agora... - Continuou a soluçar, incoerente, pelo que a mãe a tomou nos braços, tentando levá-la a parar. Mas, instantes depois já as três mulheres choravam e os médicos acabaram por dar um sedativo a Sarah, para a acalmar. Iriam mantê-la no hospital durante vários dias e Victoria informou as enfermeiras que passaria a noite junto da filha. Por fim, conseguiu mandar Jane para casa, num táxi, e teve uma longa conversa com o marido, no telefone existente no átrio do hospital.

Nessa noite, quando Freddie chegou a casa, e para grande espanto seu, descobriu o sogro à sua espera na sala. Felizmente, bebera menos do que era habitual e estava surpreendentemente sóbrio, considerando que já passava um pouco da meia-noite. Tivera uma noite aborrecida e acabara por decidir voltar para casa mais cedo.

- Deus do céu! Que está a fazer aqui? - Corou um pouco, mas depois lançou-lhe o seu brilhante sorriso arrapazado. Só então compreendeu que deveria haver algo de muito errado para que Edward Thompson estivesse à sua espera, ali, àquela hora.   A Sarah está bem?

- Não, não está. O sogro desviou os olhos por instantes, para depois voltar a encarar Freddie. - Ela... perdeu o bebé, esta manhã... e está no Hospital de Lenox HilI, na companhia da mãe.

- Perdeu o bebé? - Pareceu espantado, mas sentia-se aliviado, e tinha a esperança de não se encontrar tão bêbedo que não conseguisse disfarçar. - Lamento muito. - Disse-o como se se tratasse da esposa de outro homem qualquer e não do seu próprio bebé. - Ela está bem?

- Creio que poderá vir a ter mais filhos. Aparentemente, o que não está bem é o facto de a minha esposa me dizer que as coisas entre vocês dois são um pouco menos do que idílicas. Normalmente, não interfiro nos casamentos das minhas filhas. Mas, como as circunstâncias são um pouco invulgares... e como a Sarah está tão... doente, parece-me que a ocasião é propícia para discutirmos o assunto. A minha mulher contou-me que a Sarah esteve histérica durante quase toda a tarde, e é significativo, Frederick, que ninguém tenha conseguido contactar contigo desde esta manhã. Não deve ser uma vida muito feliz, nem para ti, nem para ela. Há alguma coisa que precisemos de saber, ou achas que és capaz de prosseguir com o teu casamento com a minha filha num espírito mais parecido com o do princípio desta união?

- Bom... eu... claro... Quer uma bebida, Mister Thompson? - Encaminhou-se rapidamente para o local onde guardava as bebidas e serviu-se de uma generosa dose de uísque, com muito pouca água.

- Não me parece. - Edward Thompson continuou sentado, olhando o genro com desagrado. Na mente de Freddie não existiam dúvidas de que o homem estava à espera de uma resposta. - Há alguma coisa que te impeça de te comportares como um verdadeiro marido?

- Eu... bom... Este bebé foi um pouco inesperado.

- Sim, compreendo. Os bebés são frequentemente inesperados. Haverá algum problema grave, entre ti e a minha filha, de que eu deva ter conhecimento?

- De modo nenhum! É uma rapariga maravilhosa. Eu... Bem, preciso de algum tempo para me ajustar à vida de casado.

- E também ao trabalho, suponho. - Fitava-o, com firmeza e Freddie soube o que iria ouvir a seguir.

- Sim, é claro. Pensei em tratar disso depois do nascimento do bebé.

- Creio que conseguirás resolver o assunto um pouco mais rapidamente, não é verdade?

- Claro que sim!

Edward Thompson levantou-se. Constituía uma tremenda visão de respeitabilidade enquanto olhava para o aspecto, muito descomposto, do seu genro.

- Estou certo de que estás ansioso por ir visitar a Sarah o mais depressa possível, logo pela manhã, não é assim?

- Sem dúvida! - Acompanhou-o até à porta, ansioso por o ver pelas costas.

- Irei buscar a minha mulher ao hospital, às dez horas. É provável que te encontre lá, não achas?

- Com toda a certeza!

- Muito bem, Frederick. - Virou-se para trás, já junto da porta, e enfrentou-o pela última vez. - Será que nos compreendemos um ao outro? - Pouco fora dito entre eles, mas muitas haviam sido as coisas que haviam ficado a pairar no ar.

- Penso que sim, senhor.

- Muito obrigado, Frederick. Boa noite. Espero ver-te amanhã.

Freddie soltou um suspiro de alívio quando o viu fechar a porta, e serviu-se de outra dose e uísque antes de ir para a cama, para pensar no que acontecera a Sarah e ao bebé. Interrogou-se sobre como teria sido perder o bebé, mas não desejava pôr-se a si mesmo perante demasiadas perguntas. Sabia muito pouco daquelas coisas e não tinha qualquer vontade de expandir a sua educação. Tinha pena dela, estava certo de que se tratava de um acontecimento terrível, mas era estranho o pouco que sentia pelo bebé e até, bem vistas as coisas, pela própria Sarah. Pensara que o casamento com Sarah seria divertido, que passariam a vida em festas, que teria alguém com quem saír sempre que lhe apetecesse. Nunca imaginara que iria sentir-se tão agrilhoado, tão aborrecido, tão deprimido e claustrofóbico. Não havia nada no casamento que lhe agradasse, nem sequer a própria Sarah. Era uma bela mulher, que poderia ter sido a esposa perfeita para alguém. Mantinha uma bonita casa, cozinhava bem, recebia maravilhosamente, era uma companhia inteligente e agradável, e inicialmente até o conseguira excitar fisicamente. Agora, contudo, nem sequer suportava ter de pensar nela. A coisa que menos desejava era ver-se casado. Ficara muito aliviado ao saber que perdera o bebé. Este seria como a cobertura de açúcar num bolo já envenenado.

Na manhã seguinte, tal como esperavam que fizesse, apareceu no hospital um pouco antes das dez horas, para que Mr. Thompson já lá o encontrasse quando fosse buscar a esposa. Freddie parecia sóbrio, no seu fato escuro com uma gravata escura, mas a verdade é que se encontrava com uma tremenda ressaca. Comprara flores para Sarah, mas esta parecera não lhes dar importância. Estava deitada na cama, olhando para a janela. Segurava a mão da mãe quando Freddie entrara. Por instantes, sentira pena dela. Virou a cabeça para o olhar. Sem uma palavra, as lágrimas corriam-lhe pelas faces. A mãe saíra rapidamente, depois de um leve aperto na mão da filha e de um toque no ombro de Freddie.

- Lamento, Freddie - disse a mãe, baixinho, quando la a saír, mas era mais esperta do que ele pensava e ficou a saber, apenas pela expressão que lhe viu no rosto, que Freddie não sentia qualquer espécie de pena.

- Estás zangado comigo? - perguntou Sarah, por entre as lágrimas. Fez um esforço para se sentar na cama mas acabou por se deixar ficar. Os seus compridos e brilhantes cabelos pretos estavam numa confusão, tinha o rosto da cor dos lençóis e os lábios quase pareciam azuis. Perdera muito sangue e encontrava-se demasiado fraca para se poder sentar. Sarah virou a cara para o outro lado e Freddie ficou sem saber o que lhe dizer.

- Claro que não. Porque haveria de estar zangado? Aproximou-se um pouco mais para que olhasse de novo para ele, mas a dor que lhe viu nos olhos era mais do que Freddie conseguira suportar. Não era capaz de a enfrentar e ela sabia-o.

- A culpa foi minha. Na outra noite, empurrei aquela estúpida cómoda no nosso quarto e... Não sei... Os médicos dizem que estas coisas acontecem quando têm de acontecer...

- Olha... - respondeu Freddie, deslocando o peso do corpo de um pé para o outro e vendo-a abrir e fechar as mãos, mas sem tentar tocar-lhes. - Olha... Foi melhor assim. Tenho vinte e quatro anos, tu tens vinte... e ainda não estamos preparados para um bebé...

Ficou calada durante muito tempo e quando o encarou foi como se o visse pela primeira vez.

- Estás contente por o termos perdido, não é verdade? Os seus olhos fitavam-no com uma intensidade que quase o feria enquanto tentava lutar contra a dor de cabeça.

- Não disse isso...

- Nem precisavas. Não tens pena, pois não?

- Tenho pena por ti. - Era verdade, o aspecto de Sarah era terrível.

- Nunca desejaste este bebé.

- Pois não, não desejei. - Estava a ser honesto para com ela por achar que era o mínimo que poderia fazer.

- E eu também não, graças a ti, e é provável que o tenha perdido por causa disso.

Freddie não soube o que lhe responder. No instante seguinte, o pai dela entrou no quarto na companhia de Jane enquanto Mrs. Thompson se atarefava com as enfermeiras, fazendo preparativos. Sarah iria ficar ali mais alguns dias e depois seguiria para casa dos pais. Voltaria para o apartamento, para junto de Freddie, quando recuperasse as forças.

- Também podes ficar connosco, se quiseres - afirmou Victoria Thompson, lançando-lhe um sorriso de boas-vindas, mas mantendo-se firme quanto a não permitir que Sarah voltasse para casa com ele. Queria manter a filha sob vigílância e Freddie ficou visivelmente aliviado por não ter de o fazer.

No dia seguinte enviou-lhe rosas, para o hospital, e ainda lhe fez mais uma visita. Depois, visitou-a diariamente durante a semana que Sarah passou em casa dos pais.

Nunca fez qualquer referência ao bebé, mas esforçou-se por manter uma conversação animada. Ficou surpreendido ao sentir-se tão desajeitado na presença de Sarah. Era como se, de um momento para o outro, fossem dois estranhos. A verdade era que sempre o haviam sido, mas agora era bastante mais difícil ocultar esse facto. Só la visitá-la por achar que era essa a sua obrigação... e porque sabia que o pai dela o mataria se não fizesse um esforço.

Chegava a casa dos Thompson todos os dias, ao meio-dia, passava uma hora com Sarah e saia para ir almoçar com os amigos. Tinha a sensatez de nunca a ir visitar ao fim da tarde. Por essa alturajá se encontrava mais do que bebido e tinha a esperteza suficiente para não permitir que Sarah, ou os pais, o vissem, nesse estado. Na verdade, lamentava que Sarah continuasse tão infeliz por ter perdido o bebé, e também com tão mau aspecto. No entanto, não suportava pensar no assunto, no que ela poderia esperar da sua parte sob UM ponto de vista emocional, e ainda menos na perspectiva de outro bebé. Tudo isso só o levava a beber mais e a correr atrás da vida. Quando Sarah se sentiu pronta para regressar a casa, já Freddie mergulhara numa espiral descendente de que ninguém o poderia salvar. A bebida encontrava-se tão descontrolada que até alguns dos seus amigos da bebedeira começavam a dar mostras de preocupação.

Mesmo assim, cumpriu a sua obrigação e apareceu em casa dos Thompson para levar Sarah para o apartamento, onde a empregada já os esperava. Estava tudo tão limpo e arrumado... mas, de súbito, Sarah sentiu-se deslocada. Era como se o apartamento fosse de outra pessoa qualquer e ela apenas uma estranha.

Freddie também era um estranho. Desde que Sarah perdera o bebé, só fora a casa para mudar de roupa. Andara na vadiagem durante noites inteiras, aproveitando-se do facto de a esposa não estar presente. Agora, era estranho tê-la novamente ali, a limitar-lhe os movimentos.

 

Passou a tarde com ela e depois disse-lhe que tinha de ir jantar com um velho amigo. Precisava de falar com ele por causa de um emprego e era muito importante. Sabia que Sarah não levantaria objecções. Não o fez, apesar de se mostrar desapontada por o marido não lhe fazer companhia na sua primeira noite em casa. Contudo, levantou muitas objecções ao estado em que ele se encontrava quando voltou a casa, pelas duas da madrugada. O porteiro teve de o ajudar, e Sarah ficou chocada quando ouviu a campainha da porta. Freddie estava caído sobre o homem e pareceu nem sequer a reconhecer quando o porteiro o conduziu para uma das cadeiras do quarto. Entregou uma nota de cem dólares ao porteiro e manifestou profusos agradecimentos, dizendoque o homem era um bom compincha e um bom amigo. Sarah ficou a olhar, horrorizada, quando o viu cambalear para a cama e cair nela, inconsciente. Observou-o durante muito tempo, com lágrimas nos olhos, antes de saír do seu próprio quarto para se dirigir ao de hóspedes. Enquanto se afastava, sentia uma mágoa no coração pelo bebé que perdera e pelo marido que nunca tivera e que, agora, nunca viria a ter. Compreendia finalmente que o seu casamento com Freddie nunca passaria de um fingimento, de uma casca vazia, e de uma fonte de infindáveis desgostos e desapontamentos. Era uma perspectiva sombria, enquanto se metia, sozinha, na cama do quarto de hóspedes. Todavia, já não podia ignorar tal facto durante mais tempo. Freddie nunca passaria de um bêbedo e de um playboy. O pior era que não se via a divorciar-se dele. Não suportava a ideia de lançar tal vergonha sobre ela mesma e sobre os pais.

Naquela noite, deitada na cama do quarto de hóspedes, pensou na longa e solitária caminhada que tinha pela frente. Uma vida de solidão... na companhia de Freddíe.

 

Depois de uma semana passada em casa, Sarah recuperou um aspecto saudável e bom. já saía de casa e almoçava com a mãe e com a irmã. Parecia estar bem, mas as duas mulheres pensavam que ainda se mantinha demasiado silenciosa.

Uma tarde, foram as três almoçar ao apartamento de jane e a mãe tentou interrogar Sarah a respeito de Freddie, fazendo algumas perguntas com um ar casual. Ainda continuava preocupada com tudo o que a filha lhe contara quando perdera o bebé.

- Está óptimo - respondeu Sarah, virando o rosto. Como sempre, nada disse sobre as noites que passava sozinha ou sobre o estado do marido quando voltava a casa de madrugada. De facto, também quase não falava no assunto com ele. Aceitara o seu destino e estava decidida a manter-se casada com Freddie. O contrário seria humilhante.

Freddie também pressentira uma mudança na esposa, uma espécie de cedêncía e de aceitação do seu comportamento inominável. Era como se um bocado dela tivesse morrido quando o bebé morrera. Contudo, Freddie não se interrogou e limitou-se a tirar vantagem do que parecia ser a boa natureza de Sarah. Entrava e saía quando lhe apetecia, raramente se preocupava em levá-la a qualquer lado, não fazia segredo das mulheres com quem se encontrava. Bebia desde que se levantava da cama até mergulhar na inconsciência, à noite, no quarto deles ou no de outra pessoa qualquer.

Para Sarah, foram tempos muito infelizes, mas parecia decidida a aceitá-los. la guardando as suas tristezas para si mesma, à medida que os meses passavam, e não contava nada a ninguém. jane preocupava-se cada vez mais com ela sempre que a via, e daí que Sarah a procurasse cada vez menos. Agora, dentro de Sarah, parecia existir um entorpecimento, um vazio, e os seus olhos enchiam-se de uma angústia silenciosa. Tornara-se assustadoramente magra desde que perdera o bebé, facto que também preocupava a irmã, que pressentia que Sarah fazia tudo o que lhe era possível para a evitar.

- Que se passa contigo? - acabou Jane por lhe perguntar, num dia de Maio. A sua gravidez já la nos seis meses e havia muito tempo que não se encontrava com a irmã, Porque esta não suportava vê-la grávida.

- Nada, estou bem.

- Não me digas uma coisa dessas, Sarah! Pareces uma pessoa em transe. Que anda ele a fazer-te? Que se passa convosco? - Bastava-lhe olhar para a irmã para Jane se sentir assustada. Para além disso, sentia que a irmã não se mostrava à vontade na sua companhia e não a pressionava. Mas, não queria deixá-la entregue a si mesma. Começava a temer pela sanidade mental da irmã, ou até pela sua vida, às mãos de Freddie, e alguém tinha de acabar com aquilo.

- Não sejas parva. Estou bem!

- As coisas correm melhor do que anteriormente?

- Suponho que sim. - Era intencionalmente vaga, e a irmã não se deixou enganar.

Sarah estava ainda mais magra e pálida do que estivera depois do aborto. Encontrava-se profundamente deprimida ninguém o sabia. Garantia a toda a gente que se sentia bem que Freddie se comportava decentemente. Chegara até a dizer aos pais que o marido procurava um emprego. A história do costume, em que já ninguém acreditava, e muito menos ela própria.

Quando do primeiro aniversário do casamento, os pais concordaram, tacitamente, em manter a farsa, celebrando a data com uma pequena festa na casa de Southampton.

Inicialmente, Sarah tentara desencorajá-los, mas acabou por concluir que era mais fácil fazer-lhes a vontade. Freddie prometera estar presente. De facto, até achara que se tratava de uma boa ideia. Queria passar todo o fim-de-semana em Southampton e levar uma dúzia de amigos. A casa era suficientemente grande, pelo que Sarah perguntou à mãe se estava de acordo, e esta respondeu imediatamente que os amigos deles seriam sempre bem-vindos. Sarah avisou Freddie de que os seus amigos tinham de se comportar bem se lá ficassem, pois não queria sentir-se embaraçada na presença dos pais.

- Que afirmação tão estúpida, Sarah - protestou Fredrick, que nos últimos dois meses se tornara, a pouco e pouco, cada vez mais maldoso. Não sabia se isso se devia ao álcool ou se Freddie começara a odiá-la. - Odeias-me, não é verdade?

- Não sejas ridículo. Só não quero que os teus amigos se descontrolem em casa dos meus pais.

- Ah, sim, tu és sempre muito controlada! Pobre querida, tens medo de que não saibamos como nos comportar em casa dos teus pais!

Esteve quase para lhe responder que não se sabia comportar decentemente em lado nenhum, mas conteve-se. A pouco e pouco, resignava-se com a sua sorte, sabendo perfeitamente que, junto dele seria infeliz para sempre. Provavelmente nunca teriam outro bebé e até isso deixara de importar. Nada importava. Vivia a sua vida, dia a dia. Um dia, haveria de morrer e tudo terminaria. A ideia do divórcio nem sequer lhe ocorria, ou nunca passava de uma simples ideia fugidia. Nunca ninguém da sua família se divorciara e não queria ser a primeira, nem no pior dos seus sonhos. A vergonha matá-la-ia, tal como aos pais.

- Não te preocupes, Sarah. Seremos rapazes bem comportados... mas não aborreças os meus amigos com esse teu rosto descaído e triste. É quanto basta para estragar o divertimento de qualquer festa.

 

Fora apenas depois de casar com ele e de perder o bebé que as suas cores e toda a sua alegria de viver haviam começado a desaparecer. Sempre se mostrara radiante e alegre como uma rapariguinha... e de súbito parecia uma morta, mesmo para ela própria. Jane fizera comentários a esse respeito mas Peter e os pais tinham-lhe dito para não se preocupar, porque Sarah acabaria por ficar bem. Diziam-no... mas era apenas porque desejavam que assim fosse.

Dois dias antes da festa dos Thompson, o duque de Windsor casou com Wallis Simpson. O casamento realizou-se no Castelo de Candé, em França, no meio do remoinho da imprensa e das atenções internacionais, o que Sarah considerava repelentes e de mau gosto. Preferiu virar os seus pensamentos para a festa do seu aniversário e esqueceu-se imediatamente dos Windsor.

Peter, Jane e o pequeno James planeavam passar o fim-de-semana em Southampton para estarem presentes no grande acontecimento. A casa tinha um aspecto encantador, cheia de flores, e havia uma enorme tenda montada no relvado, com vistas sobre o oceano. Os Thompson haviam preparado uma bela festa em honra de Sarah e Freddie. Na sexta-feira à noite, todos os jovens saíram com os amigos, e dirigiram-se à Canoe Place Inn, onde se divertiram, conversando, dançando e rindo. Até Jane, já muito grávida, também esteve presente, bem como Sarah, que se sentia como se não tivesse sorrido uma única vez em muitos anos. Freddie chegou a dançar com ela e até pareceu querer beijá-la. Por fim, Peter, Jane, Sarah e alguns dos outros voltaram para casa dos Thompson, enquanto Freddie e os seus amigos partiam em busca de mais divertimentos. Sarah regressou à sua melancolia silenciosa e não fez comentários durante a viagem de volta, na companhia de Jane e Peter. A irmã e o cunhado ainda estavam muito excitados e pareceram não notar o seu silêncio.

O dia seguinte nasceu ensolarado e maravilhoso. Mais tarde, brindou-os com um espectacular pôr do Sol sobre Long Island, quando a banda começou a tocar e os Thompson deram as boas-vindas aos convidados, ali presentes para celebrarem com Sarah e Freddie. Sarah tinha um aspecto notável, num brilhante vestido branco que se colava ao corpo de uma maneira atraente e que a fazia parecer uma jovem deusa. Prendera os cabelos negros e deslocava-se por entre a multidão com uma seriedade tranquila enquanto saudava os amigos e os convidados dos pais. Toda a gente comentava o seu amadurecimento naquele último ano e dizia-se que estava ainda mais bela do que quando casara. Fazia um profundo contraste com a sua redonda irmã, muito maternal no seu vestido de seda azul-turquesa que cobria o seu enorme volume. No entanto, mostrava-se bem-disposta no que se referia à sua figura.

- A mãe disse-me que eu podia usar como fato a tenda... mas gostei mais da cor deste vestido - declarou, brincando com uma velha amiga, e Sarah sorriu quando passou junto delas. Parecia mais feliz e tinha melhor aspecto do que tivera durante muito tempo, mas Jane continuava preocupada com a irmã.

- A Sarah está tão magra...

- Esteve doente, no princípio do ano... - Depois do aborto perdera ainda mais peso, e Jane pressentia que, embora Sarah não o quisesse admitir, ainda continuava abalada pelo desgosto e por sentimentos de culpa por ter perdido o bebé.

- Ainda não têm um bebé? - perguntavam as pessoas, constantemente. - Oh, vocês dois têm de começar a tratar disso!

De começar... ou de terminar. Em resposta, limitava-se a sorrir. Depois da primeira hora, compreendeu subitamente que não via Freddie desde que a festa começara. Um pouco antes, vira-o no bar, com os amigos, mas depois perdera-os de vista quando se colocara ao lado do pai para receber os convidados. Acabou por interrogar o mordomo, e este respondeu-lhe que Nir. Van Deering saíra de carro, alguns minutos antes, na companhia dos amigos, e que se tinham dirigido na direcção de Southampton.

- Provavelmente, foram buscar qualquer coisa, Miss Sarah - acrescentou, olhando-a com simpatia.

- Obrigada, Charles. - Era o mordomo da casa havia anos e passava ali o Inverno quando a família voltava para a cidade. Sarah conhecia-o desde criança e gostava muito dele.

Começou a preocupar-se com o que andaria Freddie a fazer. Possivelmente, ele e os amigos tinham ido a um dos bares locais, em Hampton Bays, para tomarem algumas bebidas fortes antes de regressarem ao requinte da festa dos Thompson. Todavia, perguntava a si mesma até que ponto estariam bêbedos quando regressassem e se, entretanto, já alguém teria notado a sua ausência.

- Onde pára o teu simpático marido? - perguntou-lhe uma velha amiga da mãe. Sarah afirmou que ele saíra apenas por um minuto. Fora buscar-lhe um abafo, explicou. A amiga da mãe considerou aquele gesto como sendo muito tocante.

- Passa-se alguma coisa? - inquiriu Jane, aparecendo a seu lado e fazendo a pergunta num tom baixo. Estivera a observá-la durante a última meia hora e conhecia Sarah muito bem para se deixar convencer pelo sorriso de circunstância.

-   Não. Porquê?

- Pareces alguém que acabou de descobrir uma serpente entre os lençóis. - Sarah não conseguiu impedir-se de rir ante aquela descrição. Por instantes, a frase fê-la recordar-se da sua infância e quase perdoou a Jane de esta estar grávida. Daí a dois meses ser-lhe-ia muito difícil vê-la com um bebé, sabendo que perdera o seu e que talvez nunca viesse a ter outro. Ela e Freddie nunca mais tinham feito amor. - Bom, onde é que está a serpente?

- Na verdade... a serpente saiu. - As duas irmãs riram-se pela primeira vez em muito tempo.

- Não era bem isso o que eu queria dizer - comentou Jane -, mas a resposta foi apropriada. Saiu com quem?

-  Não sei, mas o Charles disse-me que se foram embora há meia hora, para a cidade.

- E que quer isso dizer? - Jane olhou-a, preocupada. Se Freddie nem sequer era capaz de se comportar decentemente por uma noite, em casa dos pais delas, então devia dar-lhe muitas dores de cabeça, muito mais do que suspeitavam.

- Talvez sarilhos... e demasiada bebida. Com um pouco de sorte, aguentar-se-á bem... até mais tarde.

- A mãe vai gostar de o ver nesse estado... -jane sorriu, enquanto as duasjovens permaneciam juntas, observando a multidão. As pessoas pareciam divertir-se, o quejá era alguma coisa.

- E o pai ainda irá gostar mais. - Riram-se outra vez. Sarah respirou fundo e encarou a irmã. - Desculpa ter sido tão desagradável contigo nos últimos tempos. Sabes... é difícil pensar no teu bebé. .. - Tinha lágrimas nos olhos quando virou a cara, o que levou a irmã mais velha a passar-lhe um braço por cima dos ombros.

- Eu sei... e só conseguiste deixar-me muito preocupada. Gostaria de poder fazer qualquer coisa que te tornasse feliz.

-  Não te preocupes, estou bem.

- Tens o nariz a crescer, Pinóquio.

- Ora, cala-te! - Sarah sorriu-lhe mais uma vez. Momentos depois, as duas irmãs juntaram-se aos convidados. Quando se sentaram para jantar, Freddie ainda não regressara. A sua ausência, e a dos seus amigos, foi imediatamente notada quando os convidados se sentaram à mesa, nos lugares marcados. O lugar de honra destinado a Freddie, ao lado da sogra, ficou conspicuamente vazio. Porém, antes de alguém poder fazer qualquer comentário ou de Mrs. Thompson perguntar a Sarah pelo marido, ouviu-se o som das frenéticas apitadelas de um carro. Freddie e quatro dos seus amigos atravessavam o relvado no seu Packard Twelve Phaeton, gritando, rindo e acenando. Levaram o carro quase até às mesas, com toda a gente a olhar, e saíram da viatura agarrados a três raparigas da terra, uma delas pendurada no pescoço de Freddie. Quando se aproximaram mais, tornou-se óbvio que as mulheres não eram apenas raparigas da terra mas também profissionais pagas pelos seus serviços.

Os cinco rapazes estavam completamente bêbedos e era evidente que pensavam que aquela brincadeira era a mais engraçada que jamais haviam levado a cabo. Todavia, as mulheres que os acompanhavam pareciam um pouco nervosas ao verem as pessoas, bem vestidas e nitidamente chocadas, que se encontravam à sua volta. A rapariga que acompanhava Freddie tentava convencê-lo a regressarem à cidade, mas a confusão instalou-se. Enquanto um grupo de criados tentava afastar o carro, Charles, o mordomo, esforçava-se por expulsar as raparigas. Freddie e os amigos cambaleavam por todo o lado, tropeçando nos outros convidados. Freddie era o pior. Não queria, de maneira nenhuma, largar a mulher que trouxera com ele. Sem pensar, e sem o ver claramente, Sarah levantou-se, observando-o, com as lágrimas a inundarem-lhe os olhos, recordando o casamento que tivera lugar apenas um ano antes, bem como todas as suas esperanças, e o pesadelo que se lhe seguira. Aquela mulher era apenas um símbolo dos horrores do último ano. De súbito, tudo lhe parecia irreal, enquanto permanecia mergulhada num Silêncio de angústia, a assistir à cena, Era como o desenrolar de um filme horrível... e o pior de tudo era o facto de esse filme também a incluir.

- Que se passa, querida? - gritou Freddie para ela, a várias mesas de distância. - Não gostas de ver a minha amiga? - Riu-se ante a expressão no rosto de Sarah. Victoria Thompson começou a caminhar rapidamente através do relvado, dirigindo-se à sua filha mais nova, que parecia incapaz de se mover, gelada de choque. - Sheila... - prosseguiu Freddie. - Aquela é a minha mulher... e estes são os pais. - Agitou um braço, num gesto amplo, enquanto as pessoas o observavam, surpreendidas.

Contudo, Edward Thompson já entrara em acção. Ele e dois criados afastaram Freddie e a mulher com firmeza e rapidez, enquanto os outros jovens, e as suas companheiras, eram escoltados para longe por um exército de criados.

Freddie mostrou-se um pouco mais beligerante quando o sogro o conduziu à pequena cabana, instalada na praia, que utilizavam para mudar de roupa.

- Que vem a ser isto, Mister Thompson? Esta festa não era em minha honra?

- Não, na verdade não era. Nunca o deveria ter sido. já devia ter corrido contigo há meses. No entanto, posso garantir-te, Frederick, que trataremos disso muito rapidamente. Vais partir agora mesmo. Mandar-te-emos as tuas coisas para a semana e terás notícias dos meus advogados na próxima segunda-feira. O teu desprezo pela minha filha chegou ao fim. Por favor, não regresses ao apartamento. Compreendeste? - A voz de Edward Thompson ressoava na pequena cabana, mas Freddie estava demasiado bêbedo para se deixar assustar.

- Olha, olha... parece que o papá está um pouco agitado! Não me diga que também não teve a companhia de garotas de tempos a tempos! Ora, vamos! Posso partilhar esta consigo! - Abriu a porta e ambos viram que a rapariga se encontrava lá fora, à espera de Freddie.

Edward Thompson começou a tremer. A força da sua fúria era tal, quando o agarrou pela lapela, que quase o levantou do chão.

- Se voltares a aparecer na minha frente, monte de esterco... juro que te mato! Desaparece daqui e mantém-te longe da Sarah! - rugiu, levando a mulher a recuar e a encolher-se.

- Sim, senhor.

Freddie executou uma vénia de bêbedo e deu o braço à prostituta. Cinco minutos depois, ele, os amigos e as «amigas» já tinham desaparecido, tal como Sarah, que abandonara a festa. Encontrava-se no quarto, a soluçar, na companhia da irmã. Insistia que fora melhor assim, que tudo não passara de um pesadelo desde o princípio, que a culpa fora sua por ter perdido o bebé, e que talvez este tivesse modificado o comportamento de Freddie. Algumas das coisas que dizia faziam sentido, mas outras não. Eram queixumes que escorriam do fundo da sua alma enquanto se mantinha agarrada à irmã. A mãe apareceu por instantes, para ver como ela estava, mas teve de regressar para junto dos convidados, satisfeita por verificar que Jane enfrentava a situação. A festa fora um tremendo fiasco.

Foi uma longa noite para todos eles. Toda a gente comeu tão depressa quanto possível e algumas almas corajosas ainda dançaram. Por delicadeza, toda a gente fingiu esquecer o que se passara, mas as pessoas foram saindo. Pelas dez horas, já não restava um único convidado e Sarah continuava a soluçar no quarto.

A manhã seguinte, em casa dos Thompson, foi muito sombria, e toda a família se reuniu na sala, enquanto Edward Thompson explicava a Sarah, olhando-a com firmeza, o que dissera a Freddie na noite anterior.

- A decisão é tua, Sarah - concluiu, com um ar muito infeliz -, mas preferia que te divorciasses.

- Pai, não posso... Seria terrível para toda a gente. Olhou em volta, para todos, receosa do embaraço e da vergonha que o divórcio lançaria sobre eles.

- Para ti, será muito pior voltares para junto dele. Agora já compreendo tudo o que tens aguentado. - Ao pensar no assunto, quase se sentia grato por a filha ter perdido o bebé e olhou-a com tristeza. - Sarah, ainda o amas?

A jovem hesitou durante muito tempo, mas acabou por abanar a cabeça, olhando para as mãos, apertadas sobre o colo.

- Já nem sequer sei porque casei com ele - respondeu num sussurro. Depois, levantou a cabeça e enfrentou-os. - Pensei que o amava, mas neste momento nem sequer o reconheço.

- Cometeste um erro terrível. Foste enganada, Sarah. Pode acontecer a qualquer pessoa. Agora, temos de resolver esse problema. Deixa que seja eu a tratar do assunto. - Edward parecia estar perfeitamente decidido e os outros acenaram a sua concordância.

- Mas como?... - Sentia-se perdida, como se fosse outra vez uma criança, e pensava em todos aqueles que a tinham visto fazer figura de parva na noite anterior. Era quase impensável... A ideia de que Freddie levara prostitutas para casa dos seus Pais era-lhe insuportável. Chorara toda a noite, receava o que as pessoas pudessem dizer e também a terrível humilhação sofrida pelos pais.

- Quero que me deixes tratar de tudo - insistiu Edward que, de súbito, se recordou de qualquer coisa. - Queres ficar com o apartamento de Nova Iorque?

 

Sarah olhou-o e abanou a cabeça.

- Não quero nada. Só desejo voltar para casa, para Junto de ti e da mãe. - As lágrimas corriam-lhe dos olhos quando pronunciou aquelas palavras, e a mãe afagou-lhe um ombro.

- Pois bem, já cá estás - declarou Edward Thompson, num tom emocional, enquanto a esposa enxugava os olhos. Peter ejane estavam de mãos dadas. Os acontecimentos haviam perturbado todos, mas agora mostravam-se mais aliviados.

- Mas... e tu? E a mãe? - perguntou Sarah, cheia de tristeza.

- Eu e a mãe... o quê?

- Não ficarão envergonhados se eu me divorciar? Sinto-me como aquela mulher terrível, a Simpson. Toda a gente irá falar a nosso respeito... - Sarah começou a chorar e ocultou o rosto nas mãos. Era ainda muito jovem e sentia-se avassalada pelo choque de tudo o que acontecera nos últimos meses.

A mãe pegou-lhe rapidamente nas mãos e tentou acalmá-la.

- Que irão as pessoas dizer, Sarah? Que ele era um péssimo marido e que tiveste pouca sorte? Que foi que fizeste de errado? Absolutamente nada. Tens de o aceitar. Não fizeste nada de errado. Quem tem de se envergonhar é o Frederick e não tu. - Mais uma vez, o resto da família acenou a sua concordância.

- Mas... as pessoas vão ficar horrorizadas. Nunca houve um divórcio na nossa família.

- E então? Prefiro ter-te em segurança e feliz do que a viver um pesadelo com o Freddie Van Deering. - Victoria também tinha sentimentos de culpa e de mágoa por não ter percebido mais cedo o estado das coisas. Só Jane desconfiara de que a irmã sofria, mas ninguem prestara atenção ao assunto. Haviam ficado convencidos de que a infelicidade de Sarah se devia à perda do bebé.

Sarah ainda estava muito em baixo quando Jane e Peter regressaram a Nova Iorque, durante a tarde, e também na manhã seguinte, quando o pai foi ao encontro dos seus advogados. A mãe decidira ficar em Southampton para lhe fazer companhia, uma vez que Sarah fora enfática em não querer regressar a Nova Iorque. Afirmou que preferia ficar ali, escondida para sempre, e que, mais do que tudo, não queria ver Freddie. Concordara com o divórcio sugerido pelo pai mas temia os horrores que pensava que o acompanhavam. Lera comentários, nos jornais, a respeito de divórcios, e sempre lhe haviam parecido complicados e terrivelmente vergonhosos e desagradáveis. Partia do princípio de que Freddie ficaria furioso, pelo que ficou espantada quando ele lhe telefonou na tarde de segunda-feira, depois de ter falado com o advogado do pai.

- Não faz mal, Sarah. Penso que é o melhor para os dois. Ainda não estamos preparados. - «Estamos»? Não acreditava que Freddie o tivesse dito. Nem sequer se considerava culpado. Estava feliz por se ver livre dela, e das resPonsabilidades, que nunca se preocupara em enfrentar, tal como no caso do bebé.

- Não estás zangado? - Sarah sentia-se surpreendida e magoada.

- De modo nenhum. Seguiu-se um longo silêncio.

- E estás contente?

- Gostas muito de fazer perguntas dessas, não é verdade, Sarah? Que diferença faz aquilo que sinto? Cometemos um erro e o teu pai está a ajudar-nos a corrigi-lo. É um homem simpático e penso que procedemos da melhor maneira. Lamento se te causei algum problema... - Era como se se referisse a um mau fim-de-semana ou a uma tarde de discussões. Nem sequer compreendia o que ela sofrera naquele último ano. Ninguém o compreendia. Tornava-se evidente, à medida que o escutava, que não escondia a satisfação por se ver livre dela.

- Que vais fazer agora? - perguntou Sarah. Ainda não pensara no que ela própria iria fazer. Era tudo muito recente e confuso. Sabia que não queria regressar a Nova Iorque. Não queria ver ninguém nem ter de explicar o falhanço do seu casamento com Freddie Van Deering.

- Pensei em ir passar uns meses a Palm Springs... ou talvez ir passar o Verão à Europa - respondeu, fazendo planos enquanto falava.

- Parece interessante. - Era como falar com um estranho, o que a entristeceu ainda mais. No fim de contas, nunca se tinham conhecido bem, fora tudo um jogo, que ela perdera. Ou antes, ambos haviam perdido, mas Freddie parecia não se importar.

- Tem cuidado contigo - prosseguiu Freddie, como se ela não passasse de um velho amigo ou companheiro que fosse deixar de ver durante algum tempo.

- Obrigada. - Continuava sentada, olhando para o telefone com uma cara inexpressiva, enquanto segurava no auscultador e escutava.

- Tenho de ir, Sarah. - Acenou uma confirmação silenciosa. - Sarah?

- Sim... desculpa... obrigada por me teres telefonado. «Obrigada por um ano terrível, Mister Van Deering. Obrigada por me desfazeres o coração. » Queria perguntar-lhe se alguma vez a amara, mas não se atrevia, e para além disso pensava que já sabia qual seria a resposta. Era óbvio que não. Freddie não tinha amor por ninguém, nem sequer por ele próprio, e muito menos por ela.

A mãe viu-a a sofrer durante os meses seguintes, até Agosto e Setembro. A única coisa que lhe despertou a atenção, einjulho, foi o desaparecimento de Amelia Earhart, e o facto de os japoneses terem invadido a China alguns dias depois. Porém, durante a maior parte do tempo, só conseguia pensar no divórcio, e na vergonha e culpa que sentia. Durante algum tempo, quando do nascimento da filha de jane, sentiu-se ainda pior, mas foi de carro até Nova iorque com a mãe para visitar jane no hospital. Nessa noite, insistiu em guiar de regresso a Southampton, sozinha. O bebé era uma doçura e tínham-lhe dado o nome de Marjorie, mas Sarah estava ansiosa por ficar sozinha. Agora, passava a maior parte do seu tempo a rever o passado, tentando descobrir o que lheacontecera. Na verdade, fora tudo mais simples do que imaginara. Limitara-se a casar com alguém que não conhecia muito bem e que se revelara ser um marido terrível. Fim da história. Insistia em culpar-se a si mesma e convenceu-se de que, se desaparecesse e se mantivesse afastada, as pessoas esqueceriam a sua existência e não puniriam os seus pais pelos pecados que ela cometera. Por isso, para bem deles e dela, insistia em desaparecer.

- Não podes fazer uma coisa dessas durante o resto da vida, Sarah - disse-lhe o pai, com firmeza, depois do Dia do Trabalho, quando regressavam a Nova iorque para aí passarem o Inverno.

Os procedimentos legais estavam a correr bem. Freddíe partira para a Europa, tal como dissera que talvez fizesse, mas o seu advogado tratava de tudo e cooperava com o dos Thompson. A sessão no tribunal estava marcada para Novembro e o divórcio seria definitivo exactamente um ano depois.

- Tens de voltar para Nova Iorque - insistiu o pai. Não queria deixá-la ali, como uma espécie de parente abandonada de que se envergonhassem. Porém, apesar de poder parecer uma loucura, era assim mesmo que se sentia, e também resistiu aos apelos de jane para que regressasse, quando a irmã a visitou em Long Island em Outubro, com o bebé.

- Não quero voltar a Nova Iorque, jane. Estou muito bem aqui.

- Com o Charles e três velhos criados, gelando até à morte em Long Island, durante todo o Inverno? Sarie, não sejas estúpida. Volta para casa. Tens vinte e um anos, não podes desistir da vida. Tens de recomeçar.

- Não quero - retorquiu, tranquilamente, recusando-se a prestar atenção ao bebé da irmã.

- Não sejas louca. - Jane estava exasperada com a teimosia da irmã mais nova.

- Raios! Que podes tu saber? Tens um marido que te ama e duas crianças. Nunca foste um fardo, um embaraço ou uma desgraça para ninguém. És perfeita como esposa, filha, irmã e mãe. Que sabes tu da vida? Absolutamente nada! - Parecia furiosa, e estava-o, mas não com a irmã e esta sabia-o. A fúria era contra ela mesma, contra o destino... e contra Freddie. Depois, mostrou-se instantaneamente arrependida quando olhou, com tristeza, para a irmã. - Desculpa, mas só quero ficar aqui, sozinha. - Nem sequer era capaz de explicar.

- Porquê? - Jane não a compreendia. Sarah era jovem e bela e não fora a primeira mulher a ter de passar por um divórcio. Contudo, actuava como se tivesse sido condenada por assassinato.

- Não quero ver ninguém! Não consegues compreender?

- Durante quanto tempo?

- Talvez para sempre. Está bem? Achas que será o suficiente? Agora já percebeste?

- Sarah detestava ter de responder a todas aquelas perguntas.

- Sarah Thompson, estás louca! - O pai preparara tudo para que Sarah recuperasse o seu antigo nome depois do pedido de divórcio.

- Tenho o direito de fazer o que quiser com a minha vida. Até posso ir para freira, se me apetecer - retorquiu, com teimosia.

- Para isso, tinhas de começar por ser católica - declarou a irmã, com um sorriso, mas Sarah não achou graça à resposta. Pertenciam à Igreja Episcopal desde nascença... e Jane começava a pensar que Sarah estava mesmo um pouco louca. Ou então, talvez se libertasse daquilo depois de algum tempo - Era o que todos esperavam mas já ninguém tinha certezas.

Sarah continuou firme na sua recusa em mudar-se para Nova Iorque. A mãe já fora buscar todos os seus pertences ao apartamento e guardara-os em caixas, que Sarah nem sequer quis ver. Esteve presente no tribunal, quando da acção de divórcio.. vestida de negro e exibindo um rosto fiméreo. Tinha um ar muito belo e receoso e aguentou tudo até ao fim, com estoicismo. Logo que a sessão terminou, meteu-se no carro e regressou a Long Island.

Dava grandes passeios na praia, todos os dias, mesmo nos mais frios, com o vento a chicotear-lhe o rosto até pensar que o tinha em sangue. Lia interminavelmente, escrevia cartas à mãe, a Jane e a alguns dos seus mais velhos amigos, mas continuava sem manifestar desejo de os ver.

Toda a família celebrou o Natal em Southampton, mas Sarah quase não falou com ninguém. A única vez em que mencionou o divórcio foi com a mãe, quando ouviram, na rádio, uma notícia sobre o duque e a duquesa de Windsor. Sentia uma infeliz afinidade com Wally Simpson. Todavia, a mãe assegurou-lhe, mais uma vez, que ela e Simpson nada tinham em comum.

Quando a Primavera voltou, Sarah estava novamente com melhor aspecto e mais descansada. Recuperara algum peso e os seus olhos haviam ganho uma nova vida. Contudo, por essa altura falava em descobrir uma quinta nas partes mais remotas de Long Island, que pudesse alugar ou até comprar.

- É ridículo - grunhiu o pai quando Sarah lhe sugeriu essa ideia. - Compreendo perfeitamente que te sentisses infeliz com o que aconteceu e que precisasses de passar aqui algum tempo, para recuperares, mas não permitirei que te enterres em Long Island durante o resto da vida, como uma eremita. Podes ficar aqui até ao Verão e depois, em julho, a tua mãe e eu vamos levar-te à Europa. - Tomara a decisão na semana anterior. A esposa ficara encantada e até Jane considerara que se tratava de uma ideia esplêndida, pois era precisamente o que Sarah necessitava.

- Não irei. - Enfrentou-o, teimosa, mas tinha um aspecto forte, saudável e mais bonito do que nunca. Chegara o momento de regressar ao mundo, quer o desejasse, quer não. Se não os acompanhasse de boa vontade, estavam prontos para a levar à força.

- Irás, se eu assim to disser.

- Não quero encontrar o Freddie - murmurou, num tom baixo.

- Passou todo o Inverno em Palin Beach.

- Como é que sabes? - Mostrou-se curiosa, perguntando a si mesma se o pai teria falado com ele.

- Falei com o seu advogado.

- De qualquer modo, não quero ir à Europa.

- É uma infelicidade... porque podes ir de boa vontade... ou de má vontade. Seja como for, irás connosco. Abandonara a mesa à pressa, furiosa, e fora dar um grande passeio na praia. Quando regressara, o pai estava à sua espera à porta de casa. Sentia o coração despedaçado ao vê-la sofrer por causa do ano anterior, do casamento que nunca’o fora e da perda do bebé, e por causa dos erros que cometera e dos amargos desapontamentos. Por seu lado, Sarah ficou surpreendida  ao vê-lo à sua espera quando saiu da praia por entre as altas ervas das dunas.

- Gosto muito de ti, Sarah. - Era a primeira vez que o pai lho dizia, naquele tom, e a frase atingiu-lhe o coração como uma seta coberta pelo bálsamo necessário para curar. A tua mãe e   eu gostamos muito de ti. Podemos não saber como te ajudar, como te compensar por tudo o que se passou, mas queremos tentar... Por favor, deixa-nos tentar...

As lágrimas encheram-lhe os olhos quando olhou para ele. O pai puxou-a para os braços e segurou-a durante muito tempo enquanto ela chorava encostada ao seu ombro.

- Também gosto muito de ti, papá... De vocês dois... Lamento muito...

- Deixa-te de lamentações, Sarah... Limita-te a ser feliz... Sê a rapariga que eras antes de tudo isto ter acontecido.

- Vou tentar. - Afastou-se dos braços do pai por instantes e viu que também ele estava a chorar. - Tenho pena de vos ter dado tantas preocupações...

- É assim mesmo! - O pai sorriu por entre as lágrimas. - Fazes muito bem em ter pena!

Riram-se os dois e caminharam lentamente de volta a casa, de braço dado, enquanto o pai rezava, em silêncio, para que a filha cedesse em ir à Europa.

 

O Queen Mary erguia-se, orgulhoso, no Cais 90 do rio Hudson. Havia sinais de festividades por todo o lado. Ainda se viam grandes e belas arcas a serem transportadas para bordo, bem como a entrega de enormes ramos de flores, enquanto era servido champanhe em todas as cabinas de primeira classe. Os Thompson chegaram no meio de toda esta agitação, apenas com a bagagem de mão, uma vez que as arcas haviam sido enviadas com antecedência. Victoria Thompson usava um belo vestido branco de Claire McCardell. O grande chapéu de palha condizia perfeitamente com o vestido. Tinha uma aparência feliz ejovem enquanto subia a prancha de embarque à frente do marido. la ser uma viagem excitante para todos eles. Não visitavam a Europa há vários anos e estavam ansiosos por poderem rever velhos amigos, em particular no sul de França e em Inglaterra.

Sarah protestara terrivelmente ante a perspectiva de ter de ir com eles e recusara-se quase até ao último momento. No fim, fora Jane quem a convencera. Envolvera-se numa gritaria com a irmã mais nova, chamando-lhe nomes, acusando-a de ser uma cobarde e dizendo-lhe que o que estava a arruinar a vida dos pais não era o facto de Sarah se ter divorciado, mas sim a sua recusa em recompor a vida. Estavam fartos de a aturar e era melhor que regressasse rapidamente a uma vida normal. Sarah não pensou nos verdadeiros motivos que se encontravam por detrás daquele ataque, mas sentiu-se dominada por uma onda de fúria ao ouvir aquelas acusações. Aparentemente, essa ira pareceu fazê-la despertar.

- Está bem! - gritou para Jane, mas com vontade de lhe atirar com uma jarra. - Farei essa maldita viagem, se é assim tão importante para eles. Contudo, nenhum de vocês pode mandar na minha vida. Quando regressar, vou mudar-me para Long Island, permanentemente, e não quero ouvir mais conversa fiada a respeito do que isso fará à minha vida. A vida é minha e vou vivê-la como muito bem me apetecer! - Quando movia a cabeça, o seu cabelo negro agitava-se em volta do rosto como asas de corvos, e os olhos verdes brilhavam, zangados. - Que direito têm vocês de decidir o que é bom para mim? - declarou, dominada por novas ondas de irritação. - Que sabes tu a respeito da minha vida?

- Sei que estás a desperdiçá-la! - Jane não cedeu um milímetro. - Passaste todo o último ano escondida aqui, como uma condenada a cem anos de prisão, e fizeste o pai e a mãe sentirem-se muito infelizes com esse teu rosto desesperado. Ninguém gosta de te ver a castigares-te desse modo. Ainda nem sequer tens vinte e dois anos, mas pareces ter duzentos!

- Obrigada por mo recordares! Se olhar para mim é assim tão doloroso, tratarei de me mudar ainda mais depressa quando regressarmos. De qualquer modo, quero arranjar um lugar só para mim já o disse ao pai há muitos meses.

- Sim, queres enfiar-te num celeiro arruinado, em Vermont, ou numa velha quinta nas matas de Long Island... Não consegues lembrar-te de mais nenhum castigo? Que tal vestires-te de serapilheira e sujares a cara com cinzas?já pensaste nisso... ou será demasiado subtil para ti? Preferes algo mais miserável, como uma casa com um buraco no telhado e sem aquecimento, para que a mãe se preocupe constantemente com a possibilidade de apanhares uma pneumonia? Tenho de concordar que se trata de um castigo cheio de requinte. Sarah, começo a estar farta de te aturar! - berrou Jane para a irmã.

Em resposta, Sarah precipitou-se para fora do quarto, batendo a porta com tanta força que as dobradiças largaram bocados de tinta.

- É uma menina mimada! - anunciou Jane mais tarde, aos pais, quando ainda continuava a ferver. - Não sei como conseguem aturá-la! Porque não a obrigam a voltar para Nova Iorque e a viver como uma pessoa normal? - Jane começava a perder a paciência. A irmã já sofrera mais do que o suficiente e pensava que Sarah tinha a obrigação, mais que não fosse apenas por causa deles, de fazer um esforço para se recompor. O marido fizera-o. Em Maio, o New York Times anunciara o seu noivado com Emily Astor. «Mas que bom, para ele! », comentara Jane, sarcástica, mas Sarah não pronunciara uma palavra apesar de a família saber que a notícia a deveria ter magoado muito. Emily era uma das suas mais velhas amigas e uma prima afastada.

- Que sugeres que faça para a obrigar a viver como uma pessoa normal»? - perguntou o pai. - Que venda a casa? Que a leve para Nova Iorque numa camisa-de-forças? Que a amarre ao carro? A Sarah é uma mulher adulta, Jane, pelo que, até certo ponto, não podemos controlá-la.

- Que sorte para ela, ter uns pais que a aturem! Acho que já chegou o momento de se recompor!

- Temos de ser pacientes - respondeu a mãe, tranquilamente. Jane regressara a Nova Iorque nessa tarde, sem voltar a ver Sarah. Esta saíra para ir dar um grande passeio na praia e a seguir metera-se no velho Ford que o pai mantinha ali, para Charles, o mordomo, e afastara-se.

Porém, apesar da determinação e teimosia quanto a manter-se longe da sociedade, era óbvio que as palavras dejane a tinham afectado. Em julho, concordou em acompanhar os pais à Europa. Informou-os uma noite, ao jantar, de uma maneira casual, mas a mãe ficou a olhá-la, surpreendida. O pai bateu as palmas quando ouviu a novidade. Estivera quase a cancelar as reservas e a desistir da viagem por causa da recusa de Sarah. Concluíra que arrastá-la pela Europa como uma prisioneira relutante não seria agradável para eles, e muito menos para Sarah.

Não se atreveu a perguntar-lhe o que fora que a convencera. Todos deram os devidos créditos a Jane por causa daquela mudança de posição, mas ninguém falou com Sarah a esse respeito. Naquela tarde, quando Sarah saiu do carro no Cais 90, tinha um aspecto alto e delgado com o seu vestido preto muito simples, e um chapéu preto que outrora pertencera à mãe. O seu aspecto era belo mas austero, de rosto pálido, olhos enormes, cabelo preto muito puxado para trás, e feições perfeitas, limpas de qualquer maquilhagem. As pessoas olhavam-na, notavam a sua beleza e o seu ar tristonho de viúva demasiado jovem.

- Não podias ter vestido algo um pouco mais alegre, querida? - perguntara a mãe, quando saíam de casa, mas Sarah limitara-se a encolher os ombros. Concordara em fazer-lhes a vontade mas ninguém lhe dissera que tinha de se divertir ou de fingir que se divertia.

Pouco antes da partida, encontrara a casa ideal, em Long Island, Era uma quinta deserta, com uma pequena vivenda a necessitar de grandes obras, em dez hectares de terras não tratadas, perto do oceano. Vendera o anel de noivado para poder dar um sinal, e quando regressassem pretendia pedir ao pai que lha comprasse. Sabia que nunca mais voltaria a casar, queria um lugar para viver, e a quinta em Glass Hollow servia-lhe na perfeição.

Naquela manhã, a viagem até ao Cais 90 tinha sido feita em silêncio. Sarah pensava na viagem, perguntando a si mesma porque concordara em acompanhá-los. Porém, se ir com eles os faria sentir que, pelo menos, tentara, então talvez o pai se sentisse mais inclinado a ajudá-la a comprar a pequena quinta. Se fosse esse o caso, valia a pena o sacrifício. De qualquer modo, adorava a ideia de reconstruir a velha vivenda e estava ansiosa por começar.

- Estás muito calada, querida - dissera a mãe, tocando-lhe levemente no braço. Mostravam-se tão satisfeitos por ela os acompanhar! O facto dera-lhes esperança, principalmente porque nenhum deles sabia até que ponto se encontrava decidida a voltar à sua vida de solidão logo que regressassem. Se o soubessem, teriam ficado profundamente entristecidos.

- Estava a pensar na viagem.

O pai sorrira e conversava tranquilamente com a mãe a respeito dos telegramas que enviara aos amigos. Tinham pela frente dois meses muito atarefados, em Cannes, Mónaco, Paris, Roma e, é claro, também em Londres.

Quando já subiam a prancha de embarque ainda a mãe continuava a falar-lhe a respeito de alguns dos seus mais velhos amigos, que Sarah não conhecia. Sarah exibia uma bela figura, de rosto grave e jovem, avançando na frente dos pais, com o grande chapéu negro a ocultar-lhe um dos olhos de uma maneira misteriosa e com o outro a espreitar por trás do véu. Quase parecia uma princesa espanhola, e as pesSoas interrogavam-se a seu respeito quando a olhavam. Houve uma mulher que afirmou ter a certeza de que se tratava de uma estrela de cinema e que já a vira em qualquer lado. Sarah teria ficado muito divertida se ouvisse aqueles comentários. Contudo, não prestava atenção às pessoas que passavam, às roupas elegantes e aos cuidadosos penteados, à impressionante exibição de jóias, às mulheres bonitas e aos homens atraentes. Só estava interessada em descobrir o camarote. Quando o conseguiu, encontrou Peter e Jane à espera deles, com o pequeno James a correr no convés, junto à porta. Tinha dois anos e meio e tornara-se uma pequena peste. Marjorie dera os seus primeiros passos alguns dias antes e cambaleava, insegura, em volta da cabina. Sarah ficou feliz ao vê-los, em especial no caso de Jane. A sua ira evaporara-se semanas antes e eram de novo boas amigas, em particular depois de Sarah ter anunciado que também os acompanhava.

Tinham levado duas garrafas de champanhe e o camareiro serviu outra, muito liberalmente, enquanto todos se instalavam na cabina de Sarah, conversando. A cabina encontrava-se ligada à suite dos pais através de uma sala suficientemente grande para acomodar um piano de cauda, facto que James descobriu alguns momentos depois, começando a martelar nas teclas, muito contente, enquanto a mãe lhe pedia para não o fazer.

- Acham que devemos pôr um letreiro lá fora, na porta, dizendo às pessoas que o James vai convosco? - Perguntou o pai do garoto, que o observava com um sorriso dúbio.

- Ora, aquilo é bom para as suas capacidades musicais retorquiu o avô com um sorriso de indulgência. - Para além disso, dar-lhe-á qualquer coisa de que se poderá lembrar durante os próximos dois meses. É uma espécie de despedida barulhenta.

Jane reparou na severidade do vestido da irmã mas teve de admitir que a fazia muito bela. Fora sempre a mais atraente das duas e combinava as feições de ambos os pais. Jane herdara a beleza loura, mais suave e menos definida, que era uma característica da mãe. Era ao pai que Sarah devia o aspecto, algo melhorado, de irlandesa morena.

- Espero que passem momentos agradáveis - disse Jane, com um sorriso calmo, aliviada por Sarah ter decidido acompanhar os pais. Todos desejavam que ela fizesse novos amigos, que visse coisas novas, para depois regressar e renovar os contactos com os velhos amigos. A sua vida fora muito solitária durante todo um ano, muito triste e incrivelmente vazia. Pelo menos, era essa a ideia de Jane. Não se imaginava a viver tal como Sarah vivera nos últimos tempos. Mas também não imaginava uma vida sem Peter.

Abandonaram o navio quando ouviram os apitos de aviso. As chaminés começaram a expelir fumo e os camareiros percorreram os salões tocando gongos e incitando as visitas a desembarcarem. Verificou-se uma revoada de beijos e abraços, de pessoas a chamarem umas pelas outras. Beberam-se os últimos goles de champanhe e houve lágrimas até ao momento em que a última visita desceu para o cais. Os Thompson instalaram-se no convés e acenaram a Jane e Peter, enquanto James se contorcia nos braços do pai e Marjorie acenava, ao colo da mãe. Havia lágrimas nos olhos de Victoria Thompson. Dois meses longe deles era muito tempo, mas tratava-se de um sacrifício que estava disposta a fazer se servisse para ajudar Sarah.

- Bom... - disse Edward Thompson, com um sorriso satisfeito. No que lhe dizia respeito, tudo correra bem. Tinham acabado de abandonar o cais e iam a caminho. Levavam Sarah com eles até à Europa. - Que vamos fazer agora? Damos um passeio pelo convés? Visitamos as lojas? Estivera ansioso por aquela viagem e por rever os seus amigos europeus. Estava encantado por terem convencido Sarah a acompanhá-los. O momento era o mais oportuno. A situação política europeia tornara-se tensa nos últimos temPOS. Quem sabia o que poderia vir a acontecer mais tarde? Se houvesse uma guerra dentro de um ou dois anos, talvez aquela fosse a última oportunidade para uma visita à Europa.

- Creio que vou desfazer as malas - declarou Sarah calmamente.

- A camareira trata disso - explicou a mãe, mas Sarah não desistiu.

- Prefiro ser eu a fazê-lo - respondeu, com um ar sombrio, apesar do ambiente festivo que a rodeava. Havia balões, serpentinas e papelinhos coloridos por todo o lado.

- Encontramo-nos para o almoço?

- Creio que vou dormir um pouco. - Tentou sorrir aos pais mas pensava nos dificeis dois meses que tinha pela frente, sempre na companhia dos pais. Habituara-se a lamber as suas feridas sozinha. Apesar de já terem sarado quase todas, as cicatrizes eram ainda evidentes e preferia guardá-las para si mesma. Não se imaginava junto deles noite e dia, suportando os seus constantes esforços para a alegrarem. Não tinha qualquer desejo de ser animada. Acabara por gostar da sua vida solitária, dos pensamentos sombrios e dos momentos de solidão. Anteriormente, nunca fora assim, mas fora nisso que se tornara graças a Freddie Van Deering.

- Não preferes apanhar um pouco de ar? - Insistiu a mãe. - É mais fácil enjoares se ficares muito tempo na cabina.

- Se isso acontecer, virei dar um passeio cá fora. Não te preocupes, mãe, estou óptima - afirmou, mas nenhum dos pais se deixou convencer quando a viram regressar à cabina.

- Que vamos nós fazer com ela, Edward? - A mãe tinha um ar preocupado enquanto davam uma volta pelo convés, olhando os outros passageiros e o mar, mas sem deixarem de pensar em Sarah.

- Não está a ser fácil, posso garantir-te. Pergunto a mim mesmo se se sentirá realmente tão infeliz como parece, ou se se limita a ver-se como uma figura romântica. O pai já não tinha a certeza de a compreender, e nem sequer se alguma vez o conseguira. Por vezes, para ele, as filhas eram um verdadeiro mistério.

- Ás vezes penso que sentir-se infeliz já se tornou um hábito - respondeu Victoria. - Ao princípio ficou genuinamente infeliz, magoada, desapontada e embaraçada com o escândalo provocado pelo Freddie. Porém, nestes últimos seis meses tive a sensação de que gosta de viver assim, sozinha, como se fosse uma espécie de reclusa. Não sei porquê... mas gosta. Sempre foi muito gregária quando era mais nova, e muito mais brincalhona do que a Jane. É como se tivesse esquecido tudo isso e se tornasse uma pessoa diferente.

- Pois será bom que volte a ser a antiga Sarah, e bem depressa. Esse estúpido isolamento não é bom para a saúde. Concordava inteiramente com a esposa. Também ele tivera a sensação, nos últimos meses, de que a filha começara a gostar de viver sozinha. Parecia mais pacífica do que fora, e tinha um ar mais amadurecido, mas não era feliz.

 

Mais tarde, quando foram almoçar, Sarah estava tranquilamente sentada na sua cabina, escrevendo uma carta para Jane. Agora, nunca almoçava. Em vez disso, habituara-se a longos passeios na praia e era por essa razão que estava tão magra. Embora não se tratasse de um verdadeiro sacrifício, uma vez que era raro ter fome.

Os pais foram procurá-la depois do almoço e encontraram-na estendida na cama, ainda com o vestido preto mas já sem chapéu e sapatos. Tinha os olhos fechados e não se mexia, mas a mãe desconfiou de que não estava a dormir. Deixaram-na em paz e voltaram uma hora mais tarde. Mudara de roupa, vestira uma camisola cinzenta e calças, e lia um livro numa cadeira confortável, completamente indiferente ao que a rodeava.

- Sarah? Vamos dar um passeio pelo navio? As lojas são fabulosas! - Victoria Thompson estava decidida a ser persistente.

- Talvez mais tarde. - Sarah nem sequer levantou os olhos do livro. Quando ouviu a porta a fechar-se, partiu do princípio de que a mãe saíra. Só então levantou os olhos, com um suspiro, e ficou sobressaltada ao deparar com a mãe. - Oh... pensei que já tinhas saído!

- Eu sei. Sarah, quero que venhas dar um passeio comigo. Não vou passar toda a viagem a implorar-te que saias da cabina. Decidiste vir connosco. Por isso, tenta portar-te com alguma graciosidade ou estragarás a viagem a toda a gente, Principalmente ao teu pai.

Preocupavam-se sempre muito um com o outro, facto que por vezes divertia Sarah, mas que naquele momento a aborrecia.

- Porquê? Porque é que a minha presença, em todos os momentos do dia, faz assim tanta diferença? Gosto de estar sozinha. Porque é que se preocupam com isso?

- Porque não é normal. Para uma rapariga da tua idade, não é saudável passar todo o tempo sozinha. Precisas de pessoas, de vida e de excitação.

- Porquê? Quem decidiu isso por mim? Quem disse que precisamos de excitação quando estamos quase a fazer vinte e dois anos? Não preciso de excitação. já a tive e chegou. Porque não conseguem compreender?

- Oh, eu compreendo, querida. Porém, o que tiveste não foi excitação mas sim desapontamento. Foi uma violação de tudo o que é decente e bom, de tudo aquilo em que acreditavas. Foi uma experiência terrível, e não queremos que voltes a passar pelo mesmo. Tens de voltar ao mundo. Se não o fizeres, acabarás por murchar e morrer espiritualmente, que é o que mais interessa.

- Como é que sabes? - Sarah parecia incomodada com o que a mãe lhe dizia.

- Porque o vejo nos teus olhos - afirmou Victoria, com sensatez. - Vejo alguém a morrer, uma pessoa dorida, solitária e triste. Alguém que grita por ajuda e que tu ’não deixas saír para que a possa receber. - Sarah escutou aquelas palavras com os olhos a encherem-se-lhe de lágrimas. A mãe aproximou-se dela e abraçou-a com gentileza. Gosto muito de ti, Sarah. Por favor... tenta ser como eras antigamente. Confia em nós. Não permitiremos que voltem a fazer-te mal.

- Não sabes como foi tudo aquilo... - Sarah começou a choramingar como uma criança, envergonhada das suas emoções e da incapacidade para as controlar. - Nunca estava em casa... e quando estava... era como se... - Não conseguiu continuar e chorou, agitando a cabeça, sem palavras para descrever os seus sentimentos, enquanto a mãe lhe afagava os longos cabelos sedosos e a abraçava.

- Eu sei, querida... Eu sei... Imagino o que sofreste. Deve ter sido terrível, mas já acabou. Tu ainda aqui estás. A tua vida está no princípio. Não desistas antes de teres uma oportunidade. Olha em volta, sente a brisa, cheira as flores e volta a viver outra vez. Por favor...

 

Sarah agarrou-se a ela enquanto a escutava e disse-lhe finalmente como se sentia, sempre sem deixar de chorar.

- Não sou capaz... Tenho medo...

- Estamos aqui contigo, querida. - Todavia, anteriormente, tinham sido incapazes de a ajudar, excepto no último momento, apenas para a libertarem do pesadelo. Não tinham conseguido que Freddie se portasse decentemente, que voltasse para casa à noite, que desistisse das suas companheiras e prostitutas, e não haviam sido capazes de salvar o bebé. Sarah soubera, à sua própria custa, que havia momentos em que ninguém a podia ajudar, nem sequer os próprios pais.

- Tens de tentar outra vez, querida. Passo a passo. Eu e o pai estaremos sempre contigo. - Largou-a e fitou os olhos da filha. - Amamos-te muito, Sarah, e não queremos ver-te magoada outra vez.

Sarah fechou os olhos e respirou fundo.

- Vou tentar... - Abriu os olhos e encarou a mãe, Vou tentar, de verdade... - Porém, logo a seguir, entrou em pânico. - E se não for capaz?

- Se não fores capaz... de quê? - A mãe sorriu-lhe. Não és capaz de dar um passeio comigo e com o pai? Não és capaz dejantar connosco? Não és capaz de conheceres alguns dos nossos amigos? Acho que és. Não te pediremos muito. Se for mais do que consegues aguentar, basta dizeres. - Era como se se tivesse transformado numa inválida. De certo modo, fora o que acontecera. Freddie aleijara-a e ele sabia-o. A questão estava em saber se podia ser curada, ou ajudada... ou se recuperaria. A mãe não suportava a ideia de a filha não o conseguir. - Que tal um passeio?

- Tenho um aspecto horrível. Devo estar com os olhos inchados... e o meu nariz fica sempre vermelho quando choro. - Riu-se por entre as lágrimas quando a mãe lhe fez uma careta.

- Essa é a maior tolice que jà ouvi. O teu nariz não está vermelho. - Sarah saltou da cadeira para se ir ver ao espelho e soltou uma exclamação de desagrado.

- Está, sim! Olha para ele, parece uma batata vermelha!

- Deixa-me ver... - Victoria semicerrou os olhos e espreitou o nariz de Sarah enquanto esta abanava a cabeça. Deve ser uma batata muito, muito pequena. Não me parece que alguém dê por isso se lavares a cara com água fria, se te penteares e aplicares um pouco de bâton. - Não usara maquilhagem durante meses, parecendo não se preocupar, mas Victoria não a pressionara.

- Não trouxe nenhum. - Sarah parecia deliberadamente vaga. De facto, não tinha a certeza de querer tentar, mas ficara comovida com o que a mãe lhe dissera. Por isso mesmo, não desejava mostrar-se inteiramente relutante, mesmo que isso significasse ter de usar bâton.

- Podes usar um dos meus. Tens a sorte de teres um belo aspecto mesmo sem ele. Pelo meu lado, sou como uma folha de papel branco quando não uso maquilhagem.

- Não é verdade! - gritou-lhe Sarah, quando a mãe já se afastava em direcção à sua própria cabina para ir buscar um bâton. Regressou momentos depois e entregou-lho. Obediente, Sarah salpicou a cara com água fria e penteou-se. De camisola e calças, com o cabelo solto sobre os ombros, parecia novamente uma rapariguinha, e a mãe la a sorrir quando saíram da cabina, de braço dado, à procura do pai de Sarah.

Encontraram-no no Convés Promenade, confortavelmente instalado numa cadeira, a apanhar sol, enquanto dois jovens atraentes jogavam às marelas muito perto dele. Fora de propósito que se instalara perto deles, na esperança de que Victoria acabasse por aparecer com Sarah, pelo que ficou muito satisfeito ao vê-las.

- Que andaram vocês a fazer? Às compras?

- Ainda não. - Victoria parecia feliz e Sarah sorria, sem prestar qualquer atenção aos dois jovens. - Pensámos em começar por dar um passeio e beber chá na tua companhia... para depois irmos tomar as lojas de assalto para gastar todo o nosso dinheiro.

- Terei de saltar borda fora se vocês me levarem à falência.

As duas mulheres riram-se e os dois jovens que se encontravam ali perto lançaram uma olhadela a Sarah, com um deles a demonstrar um considerável interesse. Porém, Sarah virou-lhes as costas e acompanhou o pai ao longo do convés. Começaram a conversar, e Edward Thompson ficou surpreendido com o que a filha sabia a respeito da política mundial. Aparentemente, passara o seu tempo a ler jornais e artigos de revistas, aprendendo tudo o que podia a respeito da situação na Europa. Recordou até que ponto a filha era inteligente e astuta e ficou espantado com os seus conhecimentos. Não era uma rapariga vulgar e não se limitara a desperdiçar o seu tempo enquanto se mantivera escondida do mundo. Falou da guerra civil em Espanha, da anexação da Áustria por Hitler, em Março, e das respectivas implicações, bem como sobre o seu comportamento dois anos antes, na Renânia.

- Como é que sabes tudo isso? - perguntou-lhe o pai, bastante impressionado. A filha era uma óptima conversadora.

- Leio muito - respondeu, com um sorriso tímido. Como sabes, não tenho muito mais para fazer. - Trocaram um sorriso caloroso. - Acho o assunto fascinante. Que pensas que vai acontecer, pai? Hitler irá declarar guerra? Parece estar a preparar-se para isso e penso que a ligação entre Roma e Berlim pode vir a ser muito perigosa, em particular por causa do que Mussolini anda a fazer.

- Sarah... - exclamou o pai, detendo-se - ... deixas-me espantado!

- Obrigada.

Caminharam durante algum tempo, conversando, em profundidade, sobre os perigos de uma guerra na Europa, e Edward teve pena que o passeio acabasse, cerca de uma hora depois. Sarah tinha facetas que ele nunca descobrira e que haviam sido desperdiçadas com Frederick Van Deering. Continuaram a conversar animadamente durante o chá enquanto Edward expunha a sua teoria de que os Estados Unidos nunca se envolveriam numa guerra do outro lado do oceano, expressando o ponto de vista que o embaixador Kenedy já manifestara junto dos seus íntimos, ou seja, de que a Inglaterra não estava em condições de participar numa guerra na Europa.

- É uma pena não passarmos pela Alemanha - declarou Sarah, surpreendendo o pai.

            - Gostaria de sentir o que lá se passa, e talvez até de falar com as pessoas. – Ao ouvir aquilo o pai ficou muito satisfeito por não irem à Alemanha. O que planeara para ela não incluía deixá-la envolver-se na perigosa política mundial. Uma coisa, sem dúvida um caso raro, em particular por se tratar de uma mulher, era mostrar interesse pelo que se passava no mundo, ter conhecimentos e estar bem informada, tal como a filha acabara de demonstrar... mas ir lá para saborear o ambiente era outra questão completamente diferente e implicava perigos com que nunca concordaria.

- Pois eu acho óptimo que passemos apenas por Inglaterra e França. Nem sequer estou certo quanto a uma visita a Roma. É melhor só o decidirmos depois de já nos encontrarmos na Europa.

- Onde está o teu espírito de aventura, pai? - Era uma provocação, mas Edward, muito mais sensato do que ela, abanou a cabeça.

- Sou demasiado velho para isso, querida. Quanto a ti, cabe-te usar vestidos maravilhosos e ir a festas.

- Que aborrecimento! - Fingiu um ar aborrecido e o pai riu-se.

- Não há dúvida de que és uma rapariga invulgar, Miss Sarah. - Não admirava que o seu casamento com Van Deering tivesse sido um desastre e que se escondesse em Long Island. Era inteligente de mais para ele e para a maior parte dos jovens do seu círculo social. A pouco e pouco, à medida que se conheciam melhor a bordo do navio, o pai também começava a compreendê-la melhor.

Ao terceiro dia, Sarah já parecia completamente à vontade no ambiente do navio. Ainda se mostrava reservada, não demonstrando qualquer interesse pelos jovens a bordo, mas comia com os pais, na sala de jantar, e na última noite fez-lhes companhia, na mesa do comandante.

- Tem noivo, Miss Thompson? - perguntou-lhe o comandante Irving com uma piscadela, enquanto a mãe sustinha a respiração, à espera de ver qual seria a resposta.

- Não, não tenho - declarou Sarah, com frieza, corando ligeiramente, e com um leve tremor na mão que pousou o copo de vinho.

- Que sorte para os rapazes da Europa!

Sarah sorriu, mas sentiu que aquelas palavras eram como uma faca espetada no coração. Não, não estava noiva, esperava que o divórcio se tornasse definitivo em Novembro, um ano depois da audiência em tribunal. Divórcio. Sentia-se como uma mulher arruinada, mas ali, pelo menos, ninguém o sabia, o que era uma espécie de bênção que a deixava grata. Com um pouco de sorte, também não existiria ninguém na Europa que o soubesse.

O comandante pediu-lhe para dançar. Tinha um ar muito belo, nos seus braços, com o vestido de cetim azul que a mãe lhe mandara fazer antes do casamento com Freddie. o vestido fizera parte do enxoval e naquela noite Sarah sentira um nó na garganta quando o vestira. Também sentiu um outro nó semelhante quando um jovem que não conhecia lhe pediu uma dança, logo depois do comandante. Sarah pareceu hesitar durante muito tempo mas acabou por concordar com um aceno bem-educado.

- De onde é? - O jovem era muito alto e louro, e Sarah percebeu, pela pronúncia, que se tratava de um inglês.

- De Nova Iorque.

- Vai para Londres? - O jovem parecia estar satisfeito. Observava Sarah havia dias, mas achara-a muito distante e um pouco intimidativa. Sarah não lhe dera qualquer sinal de encorajamento, o que, de certo modo, o desanimara.

Sarah foi intencionalmente vaga. Não estava interessada em ser perseguida por ninguém e o jovem fazia-a recordar-se de Freddie.

- Onde vai ficar?

- Com amigos dos meus pais - mentiu, sabendo muito bem que tinham reservas no Claridge e que ficariam em Londres pelo menos duas semanas. Contudo, não tinha qualquer desejo de voltar a vê-lo. Felizmente para ela, a dança terminou rapidamente. O jovem tentou ficar a pairar à sua volta mas Sarah não o encorajou. Alguns minutos depois, o inglês desistiu e regressou à sua própria mesa.

- Vejo que o jovem Lorde Winthrop não é do seu agrado - comentou o comandante, provocando-a.

 

O jovem inglês era o partido mais interessante a bordo do navio, o que fazia com que todas as jovens casadoiras se mostrassem decididas a apanhá-lo. Todas, excepto a distante Miss Thompson.

- De modo nenhum. Pura e simplesmente, não o conheço - retorquiu Sarah friamente.

- Ah, quer ser apresentada formalmente? - sugeriu o comandante, mas Sarah sorriu, abanando a cabeça.

- Não, muito obrigada, comandante.

A seguir dançou com o pai, enquanto o comandante, conversando com Victoria, elogiava a beleza e a inteligência da filha.

- É uma rapariga invulgar - afirmou, cheio de admiração. Tal como acontecera com o pai, gostara muito de conversar com ela durante os cinco dias da travessia. - E é tão bonita! Parece excepcionalmente bem-comportada, para uma pessoa ainda tão jovem. Imagino que não vos traz qualquer espécie de problemas.

- Nenhum... - Victoria sorriu, orgulhosa da sua filha mais nova. - Excepto quanto ao facto de ser talvez demasiado bem-comportada. - Victoria voltou a sorrir, mesmo contra a sua vontade, desanimada pela total indiferença de Sarah pelo jovem Lorde Winthrop. Não era bom augúrio para o resto dos jovens europeus. - A minha filha sofreu um grande desapontamento - confidenciou -, e manteve-se afastada de toda a gente durante algum tempo. Temos a esperança de que esta viagem à Europa a leve a recuperar.

- Ah, percebo - disse o comandante, com um aceno, compreendendo Sarah um pouco melhor. Aquilo explicava a total falta de interesse por Phillip Winthrop. - Não irá ser fácil arranjar-lhe um marido - declarou, com toda a franqueza. - É demasiado inteligente, demasiado sensata e não parece interessada em assuntos fúteis. Talvez um homem mais velho... - Gostava da rapariga e descobriu-se a meditar no problema. A seguir sorriu para a mãe. - Têm muita sorte. É uma bela rapariga e espero que lhe descubram um bom marido.

Victoria perguntou a si mesma se seria aquilo o que as pessoas pensavam: que iam à Europa em busca de um marido para Sarah. A filha teria um ataque de fúria se uma tal ideia lhe viesse a passar pela cabeça. Victoria agradeceu ao comandante, dançou com ele uma última vez e foi à procura da filha e do marido.

- Penso que devíamos ir para a cama a uma hora decente. Amanhã é o grande dia.

Iam desembarcar em Cherbourg e seguir directamente para Paris. Sarah nunca lá estivera e o programa de visitas turísticas, embora com a ajuda de um carro e de um motorista arranjados pelo hotel, iria ser muito intenso. Ficariam no Ritz, para depois seguirem para Deativille e Biarritz, para visitar amigos. A seguir, passariam uma semana na Riviera e alguns dias em Monte Carlo, com um velho amigo. Só depois partiriam para Londres.

O navio atracou em Cherbourg às oito horas da manhã seguinte, e os Thompson estavam muito bem-dispostos quando apanharam o combóio. Edward leu-lhes uma lista dos locais que pensava que Sarah deveria visitar, que incluía o Louvre, as Tulherias, Versalhes, Malmaison, o Jeti de Paume, a Torre Eiffel, e também, é claro, o túmulo de Napoleão. Victoria Thompson ergueu uma sobrancelha quando a lista chegou ao fim.

- Não te ouvi citar a Casa Chanel... ou Dior... ou Balenciaga, ou Schiaparelli... Esqueceste-te, querido? - Naquele ano, o violeta e o tom de malva eram as cores da moda em Paris, e Victoria estava ansiosa por ir às compras, para ela e para Sarah.

- Fiz o possível por me esquecer, querida... - respondeu, com um ar benevolente. - Mas tinha a certeza de que não mo permitirias. - Gostava de fazer a vontade à esposa e estava ansioso por a fazer à filha. Todavia, também lhe queria mostrar os locais culturais mais importantes, alguns dos quais começou a apontar logo que entraram em Paris.

Quando chegaram ao Ritz, descobriram que os quartos eram maravilhosos. Sarah tinha ao seu dispor uma suite separada da dos pais, com vista para a Place Vendôme. Teve de admitir para si mesma, quando se viu no quarto, que havia algo de agridoce no facto de estar ali sozinha, e que seria muito mais agradável partilhar aqueles momentos com o marido.

Suspirou e deitou-se sozinha na enorme cama, sob o edredão. Na manhã seguinte foram ao Louvre, onde passaram horas. Foi um dia muito gratificante para os pais, tal como o resto da viagem. Sarah já não lhes resistia. Só tinham um conhecimento em Paris, uma velha amiga da mãe de Edward, que os convidou para tomarem chá na Rue Jacob. Sarah não se via na obrigação de fugir a acontecimentos sociais. Limitava-se a apreciar os museus, catedrais e lojas, bem como o tempo que passava junto dos pais.

Em Deauville, as coisas correram de um modo um pouco mais tenso porque as pessoas que visitaram forçaram Sarah a travar conhecimento com o filho e fizeram tudo o que puderam para despertar algum interesse entre os dois jovens. O rapaz mostrou-se interessado nela, mas Sarah achou-o pouco atraente, nada informado e incrivelmente maçador. Passou todo o seu tempo a esforçar-se por o evitar. Aconteceu o mesmo com os dois irmãos que lhe foram impostos em Biarritz, e com o neto que lhe impingiram em Cannes, isto para não mencionar os dois «encantadores» jovens que os amigos lhe apresentaram em Monte Carlo. Quando a estada na Riviera chegou ao fim, Sarah sentia-se de novo com um humor sombrio e quase não falava com os pais.

- Gostaste da Riviera, querida? - perguntou-lhe Victoria, inocentemente, quando faziam as malas e se preparavam para partir para Londres.

- Não, não gostei - declarou a jovem com secura. Nem um bocadinho.

- Ah, sim? - A mãe ergueu a cabeça, surpreendida. Pensara que a filha passara bons momentos. Tinham andado em vários iates, haviam passado muito tempo na praia e participado em várias festas esplêndidas. - Que pena!

- Quero que saibas uma coisa, mãe. - Sarah olhou-a de frente, pousando a blusa branca que estava a dobrar. Não vim à Europa para arranjar um novo marido. Talvez valha a pena recordar-te que ainda estou casada, pelo menos até Novembro. Depois disso, espero nunca mais voltar a casar. Estou farta de ver os vossos amigos a tentarem impor-me os idiotas dos filhos, os netos ignorantes ou os estúpidos sobrinhos. Aqui, ainda não encontrei um único homem com quem possa falar, e muito menos um com quem seja possível passar uma hora. Não quero outro homem na minha vida. Não quero ser arrastada por toda a Europa, exibida como uma espécie de rapariga atrasada, desesperadamente necessitada de um marido. Fui suficientemente clara? A mãe parecia espantada mas concordou com um aceno. A propósito, alguma dessas pessoas sabe que já fui casada?

- Não me parece - respondeu Victoria, abanando a cabeça.

- Então, talvez seja melhor que as informes. Tenho a certeza de que, se souberem que sou divorciada, não se mostrarão tão interessadas em impingir-me os seus queridos idiotas.

- Seres divorciada não é um crime, Sarah - afirmou a mãe, calmamente, sabendo perfeitamente o que Sarah pensava a esse respeito. Para ela, tratava-se de um crime, de um pecado imperdoável que não conseguia perdoar a si mesma e que não esperava que os outros lhe perdoassem.

- Não é uma coisa de que me possa orgulhar. A maioria das pessoas não considera o divórcio como uma vantagem.

- Não disse que o era, mas também não é um problema insuperável. Vais encontrar pessoas que sabem que és divorciada e que não se preocupam com isso. Quando chegar o momento apropriado, no caso das pessoas que não conheces, poderás sempre informá-las, se achares conveniente.

- Sim, é como uma espécie de doença. Temos a obrigação de avisar os outros.

- Oh, claro que não! Só lhes dizes se assim o entenderes.

- Talvez fosse melhor andar com uma tabuleta... como uma leprosa. - Parecia zangada, amarga e triste, mas estava farta de ter de aturar rapazes que para ela não tinham qualquer interesse e que quase lhe arrancavam a roupa do corpo. Sabes o que o rapaz dos Saint Gilles me fez, em Deauville? Roubou-me toda a roupa quando a mudava, e depois entrou e tentou arrancar-me a toalha em que tapei o corpo. Pensou que era uma partida divertidíssima!

-  Que horror! - A mãe ficou chocada. - Porque não disseste qualquer coisa?

- Ah, mas disse! Disse-lhe que se não me devolvesse a roupa imediatamente iria fazer queixa ao pai dele. O pobrezinho ficou tão assustado que me devolveu tudo e me implorou para não dizer nada a ninguém. Foi patético. - Era algo que um rapaz de dezasseis anos seria capaz de fazer, mas que não se esperava de um homem de vinte e sete. Até àquele momento, todos se haviam revelado imaturos, mimados, arrogantes, ignorantes e incultos. Sarah não os suportava. - Só queria que tu e o pai soubessem que não estou aqui, na Europa, para procurar um marido - recordou, dirigindo-se à mãe, que concordou com um aceno. Sarah voltou a dedicar-se às malas.

Nessa noite, Victoria mencionou o incidente ao marido e falou-lhe no rapaz de Deauville. Edward Thompson achou que se tratara de uma brincadeira estúpida, mas inofensiva.

- O verdadeiro problema está no facto dela ser mais adulta do que qualquer um deles. Passou por muita coisa. Precisa de um homem mais velho e amadurecido. Estes rapazes não sabem lidar com ela. Dado o que sente a respeito de se voltar a envolver com alguém, os jovens só a aborrecem. Precisamos de ter cuidado quando lhe apresentarmos pessoas, em Londres.

A ideia não era mantê-la inteiramente afastada dos homens, mas sim encontrar um ou dois cuja companhia Sarah pudesse apreciar, levando-a a compreender que a vida podia ser mais do que apenas solidão. Contudo, os rapazes que conhecera até àquele momento só tinham servido para tornar essa solidão mais apetecível.

Regressaram a Paris no dia seguinte e atravessaram o canal em sete horas, graças ao combóio Golden Arrow e ao ferry da manhã seguinte. Chegaram ao Claridge à hora do jantar. Na recepção, foram recebidos pelo gerente, que os conduziu, com toda a formalidade e decoro, aos quartos que haviam reservado. Os pais tinham uma bela sala e um grande quarto com vista para os telhados, na direcção do Big Ben e do Parlamento. Sarah ficou com um bonito quarto, que se parecia com um boudoir, todo em cetim cor-de-rosa e chíntz coberto de rosas. Quando olhou para a mesa, na sala, avistou meia dúzia de convites, que não agoiravam nada de bom. Nem se deu ao trabalho de os abrir. A mãe mencionou-os nessa noite, enquanto jantavam na suite. Victoria explicou que haviam sido convidados para dois jantares de festa e para um chá com velhos amigos, para passarem um dia no campo, em Leicester, num piquenique, e para um almoço em honra deles, oferecido pelos Kennedy, na embaixada americana em Grosvenor Square. Eram tudo coisas que, na opinião de Sarah, lhe pareciam incrivelmente maçadoras.

 

- Tenho de ir convosco? - A sua voz tinha um tom de queixume que levou a mãe a recordar-se dos seus dias de adolescente, mas o pai mostrou-se firme quando respondeu.

- Bom, não vamos começar outra vez com essas coisas. Todos nós sabemos porque viemos aqui. Foi para vermos velhos amigos e não os vamos insultar recusando os seus convites.

-Mas porque é que eles têm de me ver? São vossos amigos, pai, e não meus. Não sentirão a minha falta.

- Não permitirei que faltes - afirmou o pai, batendo na mesa com firmeza. - Não discutirei mais este assunto. já és bastante crescida para parvoíces dessas. Trata de fazer um esforço para seres cortês e agradável. Compreendeste, Sarah Thompson?

Sarah lançou-lhe um olhar gelado em que o pai pareceu não reparar ou que não o preocupou. Levara-a à Europa por uma razão e nada o impediria de a fazer regressar ao mundo. Por muito que a filha resistisse, sabia instintivamente que era daquilo que Sarah precisava.

- Compreendi.

Terminaram a refeição em silêncio. No dia seguinte, foram ao Museu Victoria e Albert e passaram bons momentos, que foram seguidos por um almoço muito elegante e formal. Sarah não se queixou. Usou um vestido que a mãe lhe comprara antes da viagem, num tafetá verde-escuro quase da cor dos seus olhos e que lhe assentava na perfeição. Quando chegou, mostrava-se muito bela e nada interessada em estar presente. Revelou, durante quase toda a noite, o aborrecimento que na realidade sentia. Estavam presentes vários jovens que haviam sido convidados de propósito para a conhecerem. Sarah ainda fez um esforço para falar com eles mas descobriu que nada tinha em comum com aqueles rapazes. Mais do que tudo, pareciam meninos mimados e parvos, surpreendentemente ignorantes no que se referia ao mundo que os rodeava.

Sarah manteve-se calada durante o caminho de volta ao hotel e os pais nem sequer lhe perguntaram se se tinha divertido. Era óbvio que não. A segunda festa formal foi semelhante... e o chá correu ainda pior. Tentaram impor-lhe um sobrinho que, tal como a própria mãe de Sarah teve mais tarde de admitir, com algum embaraço, era parvo ao ponto de parecer infantil.

- Por amor de Deus! - explodiu Sarah quando voltaram ao Claridge, nessa noite. - Que se passa com esta gente? Porque é que me fazem isto? Porque é que todos pensam que têm de me emparelhar com os seus familiares idiotas? Que foi que lhes disseste, quando os informaste de que vinhas a Inglaterra? - perguntou, virando-se para o pai, que se recusou a colocar-se na defensiva. - Que ando desesperada e que têm de me ajudar? - Sarah nem queria acreditar no tipo de pessoas que lhe eram apresentadas.

- Limitei-me a afirmar que vinhas connosco. Deixei a interpretação à conta deles. Penso que estão apenas a tentar ser simpáticos e que é por isso que convidam jovens para te fazerem companhia. Lamento, se não gostas dos seus amigos e familiares.

-Não lhes podes dizer que estou noiva? Que tenho uma doença contagiosa... ou qualquer outra coisa que os leve a não se sentirem compelidos a arranjarem-me parceiros? Não suporto isto! Recuso-me a ir a festas onde me sinto como uma parva durante toda a noite. - Sarah aguentara bem, mas a sua paciência esgotava-se e era claro que não se divertia.

- Desculpa, Sarah - disse o pai, baixinho. - Não o fazem por mal. Tenta não te preocupares tanto...

- Desde que saí de Nova Iorque, a única conversa inteligente que consegui ter... foi contigo - declarou, acusadora. O pai sorriu. Pelo menos, a filha gostava tanto da sua companhia como ele gostava da dela. já era qualquer coisa.

- E com quem era que tinhas conversas inteligentes enquanto te escondias em Long Island?

- Quando lá estava, não tinha expectativas. - Para Sarah, o silêncio de Long Island fora pacífico.

-Agora, também não as deves ter. Aceita as coisas como elas são, apenas como uma visita a lugares novos e como uma oportunidade para conheceres novas caras.

- Até as mulheres são maçadoras. Não se pode conversar com elas.

- Quanto a isso, não estou de acordo contigo - afirmou Edward Thompson, o que levou a esposa a levantar uma sobrancelha. Deu-lhe uma palmadinha na mão, apologético, mas Victoria sabia que se tratava apenas de uma provocação.

- Estas mulheres só se interessam por homens e rapazes - continuou Sarah, na defensiva. - Tenho a impressão de que nunca ouviram falar de política... e que todas pensam que Hitler é o novo cozinheiro da mãe delas. Como podem ser tão estúpidas? - O pai riu-se com vontade e sacudiu a cabeça.

- Desde quando te transformaste numa pedante intelectual e política?

- Desde que passei a gostar da minha própria companhia. Na verdade, foi muito agradável.

- Talvez até de mais. É tempo de te lembrares que o mundo está cheio de uma grande variedade de pessoas, inteligentes, menos inteligentes e completamente estúpidas, algumas divertidas e outras maçadoras. Contudo, é isso o que faz um mundo. Não há dúvida de que estiveste só durante demasiado tempo. Estou mais contente do que nunca por teres vindo connosco.

- Pois eu não tenho a certeza de estar tão contente grunhiu Sarah, mas a verdade era outra. Gostara de fazer a viagem com os pais. Os aspectos sociais haviam sido menos do que agradáveis, mas gostara da viagem de muitas outras maneiras, e sentia-se feliz por estar com eles. Sentia-se de novo mais perto dos pais e parecia mais feliz do que estivera em muito tempo, não obstante todas as suas queixas. Aparentemente, e no mínimo, recuperara o seu sentido de humor.

Levantou objecções à ida ao campo com eles, no dia seguinte, mas o pai insistiu que não tinha por onde escolher, e que o ar do campo lhe faria bem. Conhecia a propriedade para onde iriam e afirmou que a visita valia a pena. Sarah resmungou quando se meteu no carro e lamentou-se durante a maior parte do caminho, mas teve de admitir que a paisagem era magnífica, naquele dia invulgarmente quente e ensolarado para a Inglaterra.

Quando chegaram ao seu destino, Sarah concordou, com relutância, que o lugar era notável, tal como o pai prometera. Tratava-se de um castelo do século xiv, com fosso, rodeado por belos terrenos e por uma quinta, que a família restaurara. A centena de pessoas que haviam convidado para o almoço podia vaguear por todo o lado, mesmo pelos grandes salões nobres onde os discretos criados os aguardavam para lhes servir bebidas ou para os deixar confortavelmente instalados numa das muitas salas, ou até nos jardins. Sarah pensou que nunca vira um lugar tão interessante, nem tão bonito, e sentiu-se tão fascinada com os edifícios da quinta que se demorou a fazer perguntas sem fim, acabando por perder os pais de vista. Ficou a olhar para os telhados de colmo das vivendas e cabanas, com o enorme castelo a erguer-se à distância. Era uma vista extraordinária, que a fez soltar um pequeno suspiro, sentindo-se confortável e em paz, completamente agarrada por aquele ambiente histórico. Para ela, as pessoas à sua volta pareciam ter desaparecido. De facto, a maioria delas afastara-se. Tinham regressado ao castelo para almoçar e para passear nos jardins.

- Impressionante, não é? - disse uma voz por trás dela. Virou-se, sobressaltada, e deparou com um homem alto, de cabelos escuros e olhos azuis, que se encontrava mesmo junto dela. Dava a sensação de pairar lá muito no alto, mas tinha um sorriso caloroso, e os dois, juntos, pareciam quase irmão e irmã. - Sinto sempre um extraordinário sentido da história quando aqui venho. Até parece, se fecharmos os olhos por um instante, que os servos, os cavaleiros e as suas damas irão surgir à nossa volta.

Sarah sorriu ao ouvir aquelas palavras, pois fora exactamente o que sentira.

- Estava precisamente a pensar nisso... ao ponto de não me querer ir embora daqui depois de visitar a quinta. Quis ficar e sentir o que acabou de descrever.

- Também gosto deste local tal como está. Odeio todos aqueles sítios horríveis que foram embonecados e transformados ao ponto de ficarem irreconhecíveis só para parecerem modernos.

Sarah voltou a acenar, divertida com o que ele dissera e como o dissera. Tinha um óbvio brilho nos olhos quando falava com ela. Parecia divertir-se com tudo e de ser capaz de desenvolver uma conversa agradável.

- Sou William Whitfield, prisioneiro deste fim-de-semana - disse, apresentando-se. - A Belinda e o George são meus primos, e completamente loucos. No entanto, são boas pessoas. É americana, não é?

Sarah confirmou com um aceno e estendeu-lhe a mão, sentindo um pouco de timidez... mas não muita.

- Sim, sou. Chamo-me Sarah Thompson.

- Muito prazer em conhecê-la. É de Nova Iorque? Ou de um lugar mais excitante, como Detroit ou São Francisco? Riu-se ante a sua noção de «excitante» e admitiu que ele acertara à primeira.

-Anda a fazer a grande visita»?

-Correcto, mais uma vez. - Sorriu, e o homem observou-a com atenção, com os seus agudos olhos azuis que a fitavam com firmeza.

- Deixe-me adivinhar. Veio com os pais?

- Sim.

-Que horror! Agora, aborrecem-na até às lágrimas, obrigando-a a ir a igrejas e museus durante o dia, e apresentando-a, à noite, a todos os filhos dos amigos, que, na sua maioria, se babam e muitos dos quais nem sequer sabem falar inglês. Acertei, mais uma vez? - Os seus olhos mostravam, com toda a clareza, que estava a divertir-se com o retrato que pintara.

Sarah riu-se abertamente, incapaz de refutar a imagem.

- Suponho que nos deve ter vigiado... ou que alguém lhe contou o que andámos a fazer.

- Não consigo pensar em nada pior do que isso... excepto talvez uma lua-de-mel com uma pessoa verdadeiramente horrível.

Porém, logo que pronunciou aquelas palavras, os olhos de Sarah enevoaram-se e pareceu tornar-se mais distante. O homem tomou imediata consciência disso enquanto a observava.

- Peço desculpa, foi um comentário de mau gosto disse. Parecia muito franco e directo, e Sarah sentia-se incrivelmente confortável junto dele.

- Nem por isso. - Desejava dizer-lhe que se tratava apenas de uma questão de sensibilidade, mas é claro que não o fez. - Vive em Londres? - Achava-se na obrigação de mudar de assunto para o pôr novamente à vontade, apesar de, aparentemente, serem poucas as coisas que o perturbavam.

- Sim, vivo em Londres... - confessou. - Quando não estou em Gloucestershire remendando velhas vedações. Garanto-lhe que não é nada parecido com isto. Nunca o foi e não tenho a imaginação da Belinda e do George, que passaram anos a reconstruir este lugar a partir do nada. Pela minha parte, passei anos a tentar impedir que a minha propriedade se transformasse num amontoado de Pedras, mas foi o que acabou por acontecer. É um lugar horrível, cheio de correntes de ar, de teias de aranha e de sons assustadores. A minha pobre mãe ainda lá vive. - Fazia com que tudo parecesse divertido enquanto se afastavam lentamente da quinta. - Suponho que devemos regressar, por causa do almoço, embora esteja certo de que ninguém dará pela nossa falta. No meio de toda aquela multidão, a Belinda nem repararia se voltássemos para Londres. No entanto, os seus pais eram capazes de dar por isso. Calculo que viessem atrás de mim de caçadeira em punho.

Sarah voltou a rir-se, pois sabia que era mais provável que os pais utilizassem a caçadeira para não o deixar escapar.

- Não me parece.

- Não sou exactamente aquilo que os pais procuram para as suas jovens filhas inocentes. Receio ser um bocado velho para isso. Porém, comparativamente, e como velho, tenho uma saúde relativamente boa. - Observava-a com atenção, espantado com a sua beleza, mas intrigado com algo que lhe via nos olhos, qualquer coisa inteligente e triste, para além de muito cautelosa. - Seria terrivelmente impróprio da minha parte perguntar-lhe a idade?

Sarah teve uma súbita vontade de lhe responder «trinta», sem entender por que razão lhe iria mentir, pelo que não o fez.

-  Faço vinte e dois anos no próximo mês.

O homem pareceu menos impressionado do que ela desejara. Continuou a sorrir e ajudou-a a passar por cima de um muro de pedra com uma mão que lhe estendeu e que Sarah achou forte e macia.

- Uma simples criança. Tenho trinta e cinco. Receio que os seus pais ficassem terrivelmente deprimidos se me levasse consigo para casa como representante dos Europeus. Provocava-a, mas ambos se divertiam e Sarah gostava dele. Daria um bom amigo e gostava de poder brincar com ele, embora não o conhecesse.

- O mais agradável a seu respeito é o facto de não se babar, de ser capaz, muito provavelmente, de dizer as horas, e de saber falar inglês.

- Ah, admito que as minhas virtudes são inumeráveis. Onde é que as pessoas   vão buscar aqueles familiares horríveis que apresentam aos filhos dos outros? Nunca o consegui perceber. já conheci muitas jovens ao longo da vida, todas aparentadas com pessoas à primeira vista normais, mas que já se devem encontrar internadas. Pobrezinhas! Para além disso, todas elas estavam convencidas de que eu ansiava por as conhecer. É extraordinário, não é?

Quando Sarah se recordou dos rapazes que acabara de encontrar por toda a Europa, o seu sorriso foi quase incontrolável. Descreveu-lhe o rapaz de Deativille, os dois de Biarritz, os de Cannes e Monte Carlo... Ejá eram amigos quando atravessaram o fosso e entraram no castelo.

- Acha que nos terão deixado alguma coisa para almoçar? Estou esfomeado - admitiu. Era um homem muito grande, pelo que não lhe custava a acreditar que tivesse fome.

- Devíamos ter trazido algumas daquelas maçãs que vimos na quinta. Apeteceu-me prová-las, mas não mas ofereceram e tive receio de as apanhar.

- Devia ter-mo dito - afirmou William, com prontidão. - Teria roubado algumas para si.

Encontraram a mesa do almoço carregada de assados, frangos, vegetais e uma enorme salada. Amontoaram boas doses em dois pratos e William conduziu-a para um pequeno caramanchão. Não hesitou em segui-lo. Parecia-lhe perfeitamente natural ficar sozinha com ele, a ouvir as suas histórias. Eventualmente, acabaram por falar de política e Sarah ficou fascinada ao ouvi-lo dizer que acabara de chegar de Munique. Explicou-lhe que, na cidade, a tensão era agudamente sentida, apesar de não tanto como em Berlim, embora só lá tivesse estado no ano anterior. Toda a Alemanha parecia preparar-se para uma grande confrontação.

- Acha que terá lugar em breve?

- É difícil de dizer. Acabará por acontecer, apesar de o seu governo não ser dessa opinião.

- Não vejo como poderá ser evitada.

Intrigava-o o facto de a descobrir tão consciente do que se passava pelo mundo, e tão interessada em coisas a que as mulheres normalmente não prestavam atenção. Interrogou-a a esse respeito e Sarah respondeu que no ano anterior passara muito tempo sozinha e aproveitara para aprender coisas que de outro modo não lhe interessariam.

- Para que quis estar sozinha? - William fitou-a no fundo dos olhos, mas Sarah desviou o rosto. O inglês sentia-se muito curioso quanto a tudo o que lhe dizia respeito e via que ela carregava algo de muito doloroso que estava decidida a manter bem escondido.

- Por vezes, temos necessidade de estar sós. - Não deu mais explicações e William não a pressionou, mas ficou intrigado. Sarah falou-lhe da quinta que pretendia comprar em Long Island.

- É um estranho projecto, para uma jovem. O que acha que os seus pais irão dizer a esse respeito?

- Vão ter um ataque! - Sarah riu-se. - Contudo, já não quero voltar para Nova Iorque. Acabarão por concordar... ou terei de arranjar maneira de a comprar, se tal for necessário. - Era uma rapariga decidida e provavelmente muito teimosa. Divertiu-se com a expressão que lhe viu nos olhos ao fazer aquela afirmação. Não era mulher para ser tratada com ligeireza.

- Abandonar Nova Iorque pode não ser má ideia... mas ir viver sozinha, para uma quinta, com a sua idade... também não me parece muito interessante. Que tal passar lá os Verões, ou os fins-de-semana?

Sarah abanou a cabeça com a mesma expressão decidida.

- Quero lá ficar todo o tempo. Quero ser eu própria a recuperá-la.

- Já alguma vez fez uma coisa dessas? - William continuava divertido. Aquela mulher era uma criatura encantadora e espantava-o o facto de gostar tanto dela.

- Não, mas sei que o poderei fazer, - Parecia estar a praticar para convencer o pai.

- Pensa, na verdade, que irão aceitar uma coisa dessas?

- Terão de a aceitar. - Sarah levantou o queixo, que William beliscou ao de leve.

- Imagino que deve mantê-los muito ocupados. Não admira que a trouxessem à Europa, em busca do príncipe encantado. Não os posso censurar. Talvez devesse ficar com um daqueles jovens doces e babosos.

 

Sarah pareceu chocada mas depois bateu-lhe com o guardanapo enquanto ele ria e se defendia, acabando por se descobrirem demasiado perto um do outro. Num instante de loucura, William quis beijá-la. Contudo, quando olhou para baixo, para ela, viu qualquer coisa nos olhos de Sarah que o impediu de o fazer.

- Há um segredo na sua vida, não há? E não é um segredo feliz.

Sarah hesitou durante muito tempo antes de responder. Fê-lo com muita cautela.

- Não sei se lhe chamaria isso - disse, mas os seus olhos contavam uma história diferente.

- Não tem de contar nada, Sarah. Sou apenas um estranho... mas a Sarah agrada-me. É uma rapariga formidável. Lamento muito, se lhe aconteceu alguma coisa terrível.

- Obrigada. - Sarah sorriu, parecendo muito sensata e muito bela, para além de mais atraente do que nunca.

- Por vezes, as coisas que mais nos magoam são as que esquecemos mais depressa. São brutalmente dolorosas durante algum tempo, mas depois saram... e pronto. - Todavia, podia ver que as mágoas de Sarah não estavam saradas.

Imaginava que fora abandonada por alguém, ou que talvez o seu amado tivesse morrido, algo doce, romântico e inocente, de que recuperaria rapidamente. Os pais tinham feito bem em levá-la à Europa. Era uma verdadeira beleza e uma jovem brilhante. Fosse qual fosse o seu sofrimento, ultrapassá-lo-ia depressa, em especial se acabasse por encontrar o homem certo, na Europa. Seria um tipo com sorte!

Conversaram durante muito tempo, na segurança do caramanchão, até se aventurarem a juntarem-se aos outros convidados. Momentos depois, deparavam com a excêntrica anfitriã, Belinda, prima de William.

- Bom Deus, ainda aqui estás! Disse a toda a gente que tinhas ido para casa! William, és impossível! - Pareceu extremamente divertida quando o viu com Sarah. - Andava à tua procura para te dizer que os Thompson já pensavam que a filha tinha caído no fosso! Nunca mais a viram desde que aqui chegaram. Que diabo andaram vocês a fazer?

- Raptei-a. Contei-lhe a história da minha vida. Mostrou-se revoltada e exigiu que a devolvesse à família. Era o que pretendia fazer agora, com infindáveis remorsos e com as minhas mais humildes desculpas. - Sorria de orelha a orelha, tal como Sarah, que parecia muito à vontade a seu lado.

- És terrível... e nunca sentiste remorsos em toda a tua vida! - Belinda virou-se para Sarah com uma expressão de divertida preocupação. - Minha querida, ele fez-te mal? Achas que deva chamar a Polícia?

- Oh, chama, sim! - exclamou William. - Não os vejo há meses!

- Ora, cala-te, monstro! - Sarah ria-se à gargalhada e Belinda abanava a cabeça com uma expressão de falso desespero. - Nunca mais te convidarei. Não é possível. Portas-te demasiado mal para estares na companhia de pessoas decentes.

- É o que todos dizem - retorquiu William, olhando para Sarah com um ar pesaroso. Havia muito tempo que esta não se sentia tão feliz. - Acha que posso apresentar-me aos seus pais?

- Penso que é o melhor que tens a fazer - grunhiu Belinda, sem saber que William estava muito interessado em conhecê-los e em voltar a ver Sarah, se lho permitissem. Não sabia quem ela era, mas tinha a certeza de que desejava conhecê-la melhor. - Levo-te até junto deles - disse Belinda, satisfeita. Sarah e William seguiram-na, rindo e sussurrando como crianças travessas. Todavia, os Thompson não se mostraram zangados quando viram a filha. Sabiam que se encontrava em segurança, algures na propriedade, no meio dos outros convidados. Ficaram satisfeitos por a verem com William. Era um homem com bom aspecto, já com alguma idade, que parecia agradável e inteligente e que, aparentemente, simpatizara com Sarah.

- Devo apresentar as minhas desculpas - explicou. Deixámo-nos atrasar, na quinta, e depois parámos para almoçar. Receio ter sido inconveniente ao monopolizar a vossa filha.

- Não acreditem numa única palavra do que ele diz interveio Belinda. - Estou certa de que a amarrou a uma árvore, em qualquer lado, e que lhe comeu o almoço enquanto lhe contava histórias abomináveis.

- Olha, é uma óptima ideia - retorquiu William, pensativo, enquanto os Thompson se riam. - Sarah, para a próxima, temos de experimentar.

Sarah e William pareciam surpreendentemente à vontade um com o outro e todos conversaram durante muito tempo, até ao aparecimento de George, que ficou encantado por os ver outra vez, insistindo com Wilham para que este o acompanhasse aos estábulos para ver o seu novo garanhão. William foi arrastado, contra a sua vontade, e Belinda lançou uma olhadela de admiração na direcção de Sarah.

- Talvez não devesse dizer-te isto, minha querida, mas chamaste a atenção do homem mais atraente de Inglaterra, e talvez o mais simpático.

- Tivemos uma conversa muito agradável. - «Agradável» não era exactamente a palavra que usaria se estivesse a falar com a irmã. «Espantosa» seria um termo mais apropriado.

- É demasiado inteligente para o seu próprio bem. Nunca se casou. É muito exigente. - Belinda lançou um olhar de aviso para os Thompson, como se quisesse dizer-lhes que não se tratava de uma presa fácil, mas estes pareceram não reparar. - O seu despretensiosismo é notável. Se as pessoas não soubessem... - Virou-se novamente para Sarah. - Suponho que terá dito qualquer coisa... Sabes que é o duque de Whitfield, não sabes? - Abriu muito os olhos e Sarah ficou de boca aberta.

- Eu... bom, não... Apresentou-se apenas como Wilham Whitfield...

- Sim, é o costume. Essa é uma das coisas de que mais gosto nele. Faz-nos esquecer quem é... É o décimo terceiro, ou décimo quarto, na sucessão...

- Ao trono? - inquiriu Sarah com uma voz estrangulada.

- Sim, é claro! No entanto, é muito improvável que lá chegue. Mesmo assim, entre nós, essas coisas têm um grande significado. Somos loucos por esse tipo de coisas, talvez por causa das tradições. Bom, fico feliz por estares bem. Ficámos um pouco preocupados por não conseguirmos encontrar-te.

- Lamento muito! - Sarah corou, ainda mentalmente chocada com a informação sobre o seu novo amigo, William. Depois, de repente, interrogou-se sobre se teria dado algum terrível passo em falso junto dele. - Devo tratá-lo de alguma maneira especial? Quero dizer, tem algum título? Belinda sorriu. Era tão jovem e tão   bonita.

- Deve ser tratado por «Vossa Graça», mas é provável que nos dê um tiro se o fizeres. No teu lugar, não mencionava o assunto, se ele não o fizesse.

Sarah respondeu com um aceno, e William voltou a juntar-se a eles quando a anfitriã já se afastava.

- Que tal é o cavalo? - perguntou Sarah, numa voz contraída, embora tentasse soar normalmente, enquanto os pais fingiam ignorá-los.

- Receio que não seja tão impressionante como o preço que o George pagou por ele. É o pior avaliador de cavalos quejamais conheci. Não me surpreenderia se o pobre animal fosse estéril. - Olhou para ela com um ar culpado. - Desculpe, talvez não devesse dizer isso.

- Não faz mal. - Sorriu, perguntando a si mesma qual seria a reacção se o tratasse por «Vossa Graça». - Creio que já ouvi coisas piores.

- Espero que não! - A seguir sorriu. - Oh... os babosos... Só Deus sabe o que terão dito! - Sarah riu-se e trocaram um longo olhar, enquanto a jovem se interrogava sobre o que estava a fazer. Era um duque, em linha para o trono, e ela comportava-se como se fossem velhos amigos, mas era assim que se sentia depois de três horas com ele. Nem sequer tinha vontade de voltar para Londres.

- Onde estão instalados? - perguntou William ao pai de Sarah, quando se encaminhavam lentamente de volta ao castelo.

- No Claridge. Quererá fazer-nos uma visita? Para uma bebida, ou para jantar? - O pai fez o convite com modos casuais e William pareceu deliciado.

- Gostaria muito. Posso telefonar-vos, de manhã? William fez a pergunta a Edward e não a Sarah.

- Sem dúvida! Ficaremos à espera de notícias suas - retorquiu o pai de Sarah, apertando a mão a William. Este virou-se para a jovem enquanto os pais se encaminhavam para o carro que os esperava.

- Hoje passei uns momentos muito agradáveis, coisa que não tinha previsto. Estive quase para não vir a esta festa. Foi uma encantadora surpresa, Miss Sarah Thompson.

- Muito obrigada. - Sarah sorriu. - Também passei bons momentos. - A seguir, não conseguiu impedir-se de referir o que Belinda lhe comunicara. - Porque não me disse?

- O quê?

- Vossa Graça. - Pronunciou o título com um sorriso tímido e receou que ele se zangasse, mas William riu-se após uma leve hesitação.

- Ah, a querida Belinda! Faz alguma diferença? - perguntou, baixinho.

- Não, nenhuma. Deveria fazer?

- Faz... para algumas pessoas e por todas as razões erradas? -já sabia, por ter falado com ela, que Sarah não se encontrava entre esse tipo de pessoas. A seguir olhou-a com uma expressão simultaneamente séria e provocadora. Agora já conhece o meu segredo, Miss Sarah Thompson... mas tenha cuidado!

- Porquê? - Pareceu intrigada, enquanto Wílliam se aproximava um pouco mais.

- Se já sabe o meu segredo, então talvez, com o tempo, lhe peça para partilhar o seu.

- O que o faz pensar que tenho um segredo?

- Ambos o sabemos, não é verdade? - perguntou. Sarah acenou, de olhos muito abertos, enquanto William lhe tocava levemente numa das suas mãos. Não queria assustá-la. - Não se preocupe... Nunca terá de me contar nada, se não o desejar.

William baixou-se, beijou-a na face e escoltou-a lentamente até ao carro, para a devolver aos pais. Sarah olhava-o, surpresa, vendo-o a acenar até o carro desaparecer. Depois, no caminho de volta para Londres, perguntou a si mesma se William alguma vez telefonaria.

 

Na manhã seguinte, quando Edward tomava o pequeno-almoço com a esposa na suite do Claridge, o telefone tocou, e uma secretária anunciou uma chamada do duque de Whitfield. Verificou-se uma pausa, para logo de seguida surgir na linha a voz agradável e calorosa de William, que o cumprimentou amigavelmente.

- Espero não estar a telefonar demasiado cedo, mas tive receio de que saíssem antes de poder contactar-vos.

-De modo nenhum. - Edward olhou para a esposa com uma expressão de satisfação. Acenou veementemente enquanto continuava a falar, e Victoria compreendeu-o imediatamente. - Estamos a tomar o pequeno-almoço, sem a Sarah, é claro. Nunca come. Não sei como o consegue.

- Teremos de ver isso. - William passou um apontamento à sua secretária, para enviar flores a Sarah, naquela manhã. - Estarão todos livres, esta tarde? Pensei que as senhoras gostariam de ver as jóias da coroa, na Torre de Londres. Um dos poucos privilégios da minha posição é poder fazer visitas privadas a curiosidades como essas. Pode ser divertido para a Sarah e para Mistress Thompson... sabe... Naquela manhã parecia um pouco vago e muito britânico. Todavia, Edward simpatizava com ele. Era um homem a sério, que parecia ter um considerável interesse por Sarah.

- Estou certo de que iriam gostar... e passariam uma hora ou duas longe das lojas, o que me deixaria muito grato. - Os dois homens riram-se, e William disse que iria buscá-los às duas da tarde, em frente do hotel. Edward garantiu-lhe que estariam à espera. Quando Sarah saiu do quarto para se servir de uma chávena de chá, o pai mencionou, casualmente, que o duque de Whitfield telefonara e que os levaria a visitar as jóias da coroa, na Torre de Londres, às duas da tarde.

- Pensei que gostarias - acrescentou. Não sabia o que a interessaria mais, o homem ou as jóias, mas bastou-lhe olhar para a cara da filha para ter a resposta.

- O William telefonou? - Pareceu chocada, como se não esperasse voltar a ter notícias dele. Contudo, passara a maior parte da noite sem dormir, garantindo a si mesma que William nunca telefonaria. - Às duas desta tarde? - Era como se o pai estivesse a sugerir algo de horrível, o que o surpreendeu.

- Tens mais alguma coisa para fazer? - Não imaginava o que pudesse ser, excepto talvez visitas ao Harrods ou ao Hardy Amies para fazer compras.

- Não é isso.  Sentou-se, completamente esquecida da chávena de chá.  Pensei que não me telefonaria. -E não te telefonou - respondeu o pai, provocando-a. - A chamada foi para mim. - Sarah lançou-lhe um olhar assassino e atravessou a sala em direcção àjanela. Queria dizer-lhes para irem sem ela, mas sabia que pareceria ridículo. Por outro lado, poderia acontecer alguma coisa entre eles?

- Que se passa agora? - perguntou o pai, observando-lhe o rosto, enquanto Sarah permanecia junto à janela. Seria realmente uma criança impossível se recuasse ante aquela maravilhosa oportunidade. William era um homem agradável e um pouco deflirt não a prejudicaria. O pai não levantava qualquer objecção.

Lentamente, Sarah virou-se para ele.

- Não vejo motivo... - afirmou, com tristeza.

- É um homem simpático. Gosta de ti. No mínimo, podem ser amigos. Será uma coisa assim tão terrível? Na tua vida já não há lugar para a amizade?

Sarah sentiu-se tola quando o ouviu dizer aquelas palavras e respondeu com um aceno. O pai tinha razão. Era estúpido não aproveitar a oportunidade, mas William causara-lhe uma grande impressão no castelo, no dia anterior. Desta vez, teria de ser um pouco menos tonta e impulsiva.

- Tens razão. Não vi as coisas desse modo. Só que... é diferente, por ser um duque. Antes de o saber... - Não sabia muito bem o que queria dizer mas o pai compreendeu-a.

- Não faz qualquer diferença. É um homem simpático. Gosto dele.

- Também eu... - afirmou Sarah num tom baixo enquanto a mãe lhe entregava a chávena de chá e a incitava a comer pelo menos um bocado de torrada antes de irem às compras. - Mas não quero meter-me numa situação embaraçosa.

- Não é provável, no pouco tempo que vais estar aqui.

- Mas... vou ser uma divorciada - declarou, sombria. Pode ser embaraçoso.

- Só se te casares com ele. Estás a ser um pouco prematura, não achas?

Contudo, sentia-se feliz por a filha estar a pensar em William como homem. Um pequeno romance não lhe faria mal. Sarah respondeu à pergunta do pai com um sorriso, encolheu os ombros e retirou-se para o quarto para acabar de se vestir. Voltou a aparecer meia hora mais tarde, num belo fato vermelho de seda Chanel que comprara em Paris na semana anterior. Tal como os Britânicos diriam, estava um espanto. Também usava algumas jóias desenhadas por Chanel, imitando pérolas e rubis, bem como duas magníficas abotoaduras que haviam sido usadas pela própria Madame Chanel, em esmalte preto com pedras multicolores. Não eram verdadeiras, é claro, mas não deixavam de ser elegantes e ficavam-lhe muito bem.

Puxara os cabelos para trás, num rabo-de-cavalo amarrado com um laço de cetim preto, e nas orelhas usava os brincos de pérolas que os pais lhe tinham oferecido para o casamento.

- As jóias ficam-te muito bem, minha querida - comentou o pai quando saíam do hotel, e Sarah sorriu. - Devias usá-las mais vezes.

Não tinha muitas. Apenas um colar de pérolas que fora da avó, os brincos de pérolas que usava naquele momento e alguns pequenos anéis. Devolvera a gargantilha de diamantes da avó de Freddie.

- Talvez o faça, esta tarde - troçou. Victoria lançou um Olhar significativo na direcção do marido.

Almoçaram num pub, ao meio-dia, e passaram pela Lock’s, em St- James Street, para encomendar um chapéu para o pai. Às dez para as duas estavam de volta ao hotel e encontraram William à espera deles, no vestíbulo. Caminhava de um lado Para o outro, nervoso, olhando para o relógio. O seu rosto iluminou-se quando viu Sarah.

- Tem um aspecto absolutamente extraordinário! - exclamou. - Só devia usar o vermelho! - Sarah até concordara em usar o bâton vermelho da mãe, e os pais tinham acabado de lhe dizer, na entrada do hotel, que estava muito bonita. - Peço desculpa por ter chegado demasiado cedo. Sempre pensei que chegar cedo é ainda pior do que chegar tarde, mas não queria perdê-la.

Sarah sorriu calmamente, enquanto o olhava. Havia qualquer coisa naquele homem que a fazia sentir-se bem quando estava com ele.

- Também estou muito satisfeita por voltar a ver... - fez uma pausa, com os olhos a brilharem de malícia - ...Vossa Graça - acrescentou, baixinho.

- Vou dar uma tareia à Belinda da próxima vez que a vir. Miss Thompson, e torço-lhe o nariz se voltar a tratar-me assim. Ou deverei passar a tratá-la por Vossa Alteza?

- Na verdade, até é engraçado. Vossa Alteza... Vossa Opulência... Vossa Vulgaridade... Ah, adoro títulos! - Sarah adoptara um forte sotaque americano e pestanejava para ele. William puxou-lhe os brilhantes cabelos negros seguros pelo laço de cetim.

- É impossível! Bela... mas impossível. Porta-se sempre assim? - inquiriu, encantado, enquanto os pais de Sarah se encontravam na recepção, perguntando pelo correio.

- Por vezes, sou pior - declarou, orgulhosa, mas sabendo muito bem que por vezes também era muito calma. De facto, fora calma durante quase dois anos. Não houvera muita alegria na sua vida desde o casamento com Freddie. Agora, de súbito, sentia-se diferente quando se encontrava junto dele. Tinha vontade de voltar a rir.. e pressentia que os dois, juntos, seriam capazes de algumas deliciosas partidas. William também tinha essa sensação e adorava-a.

Os pais juntaram-se-lhe e William escoltou-os até ao seu DaimIer. Foi ele próprio quem os conduziu à Torre de Londres, conversando amigavelmente durante todo o caminho e apontando-lhes pontos de interesse. A mãe insistira com Sarah para que se sentasse à frente enquanto os pais seguiam no banco traseiro. De tempos a tempos, William lançava olhadelas a Sarah, como se se quisesse certificar de que ainda ali continuava e para a admirar. Quando chegaram à Torre, ajudou-a, e à mãe, a saír do carro, e ofereceu a mão a Mr. Thompson. Entregou um cartão a um dos guardas, que os mandou entrar imediatamente apesar de não serem horas de visitas. Momentos depois apareceu um outro guarda que os levou pela pequena escada em espiral para admirarem os tesouros reais.

- É notável, sabem? Há aqui coisas extraordinárias, algumas delas incrivelmente raras e muito antigas, com histórias que por vezes são mais fascinantes do que as próprias jóias. Sempre adorei este sítio.

Em rapaz, ficara fascinado com as jóias da mãe, com o modo como eram feitas, com as histórias que as acompanhavam e os locais de onde provinham.

Logo que chegaram às salas onde as jóias se encontravam expostas, Sarah pôde ver, por si mesma, por que motivo William as considerava tão excitantes. Estavam ali coroas que haviam sido usadas pelos monarcas dos últimos seiscentos anos, ceptros e espadas, e peças que já não se podiam ver em lado nenhum, excepto durante as coroações. O Ceptro da Cruz era particularmente fascinante, com o seu diamante de quinhentos e trinta quilates, o maior das Estrelas de África, que havia sido oferecido a Eduardo VII pela África do Sul. William insistiu em que Sarah experimentasse várias tiaras e pelo menos quatro coroas, entre as quais a da raínha Vitória e Mary. Sarah ficou surpreendida com o seu peso e espantada por ter havido quem as usasse.

- O rei Jorge usou esta, na sua coroação. - Apontou para uma coroa. Ao fazê-lo, Sarah compreendeu que Wilham estivera presente, facto que lhe pareceu notável e a recordou de quem ela era. Porém, durante a maior parte do tempo, a conversa era tão agradável que a fazia esquecer-se da sua importância.

- Tenho de admitir que as coisas foram complicadas, depois de toda aquela história com o David.

Sarah perguntou a si mesma de que estaria ele a falar, mas depois recordou-se de que David era o nome de baptismo do duque de Windsor.

- Tudo aquilo foi terrivelmente triste. Dizem que se sente muito feliz. Talvez sim, mas vi-o em Paris há alguns meses, e não me pareceu que o estivesse. Casou com uma mulher difícil, já com uma grande história. - Referia-se a Wallis Simpson, é claro, a duquesa de Windsor.

- Pareceu um grande egoísmo da parte dela - afirmou Sarah, calmamente -, e muito injusto para ele. - A afirmação fora sentida, uma vez que Sarah, nos últimos anos, sentira uma grande afinidade com a mulher. Todavia, o estigma do divórcio parecia pesar muito mais em Sarah do que em Wallis.

- Não é má pessoa... mas é astuta. Sempre pensei que sabia perfeitamente o que estava a fazer. O meu primo... o duque - como se fosse preciso dar explicações - ofereceu-lhe mais de um milhão de dólares em jóias ainda antes de se casarem. Ofereceu-lhe a esmeralda Mogul como anel de noivado. Fez com que o próprio Jacques Cartier a procurasse. Acabou por a encontrar em Bagdade, e mandou montá-la num anel, para a Wallis. Sempre gostei de esmeraldas... mas aquela é a mais extraordinária que já vi.

Era fascinante ouvi-lo fazer comentários sobre as jóias que estavam a ver, como se fosse um guia turístico surpreendentemente íntimo. Não falou dos boatos que costumam envolver as jóias, mas sim das que tinham sido feitas para Alexandre, o Grande, dos colares oferecidos a Josefina por Napoleão, e das tiaras desenhadas para a raínha Vitória, incluindo uma muito bonita, de diamantes e turquesas, que a raínha usara quando era ainda uma rapariga. Obrigou Sarah a experimentá-la. Ficava encantadora, nos seus cabelos escuros.

- Devia ter uma destas - disse-lhe, baixinho.

- Não podia usá-la na minha quinta. - Sarah sorriu e ele respondeu-lhe com uma careta.

- É irreverência de mais. Está aqui, a usar uma tiara que foi da raínha Vitória, e que faz? Fala de uma quinta! Que rapariga terrível! - No entanto, era óbvio que não pensava daquele modo.

Permaneceram na sua companhia até ao fim da tarde. Foi uma interessante lição de história e sobre os hábitos e manias dos monarcas ingleses. Tratou-se de uma experiência só possível junto dele e que os Thompson mais velhos lhe agradeceram efusivamente quando regressaram ao carro.

- É um sítio interessante, não é? Sempre gostei de vir aqui. Foi o meu pai quem me trouxe à Torre pela primeira vez. Adorava comprar jóias interessantes para oferecer à minha mãe. Receio que já não as use. Está muito fraca e raramente sai de casa. No entanto, ainda fica maravilhosa quando as põe, mas afirma que se sente mal com elas.

- Não pode ser assim tão idosa - afirmou a mãe de Sarah, com simpatia. Ela própria tinha apenas quarenta e sete anos. Tivera a filha Jane aos vinte e três. Casara com Edward aos vinte e um e perdera o primeiro bebé no ano seguinte.

- Tem oitenta e três anos - declarou Wilham, com orgulho. - Está soberba e não parece ter mais de sessenta. Contudo, partiu uma anca no ano passado e agora não gosta de saír sozinha. Tento levá-la a saír de casa sempre que posso, mas nem sempre é fácil.

- É o filho mais novo de uma grande família? - perguntou Victoria, intrigada com o que ele dissera, mas Wilham abanou a cabeça e afirmou ser filho único.

- Os meus pais já estavam casados há trinta anos quando eu nasci. Já tinham perdido as esperanças de virem a ter um filho. A minha mãe afirmou sempre que se tratou de um milagre, uma bênção de Deus. Perdoem-me por estar a ser tão pomposo. - Lançou-lhe um sorriso malicioso. - Por seu lado, o meu pai sempre disse que foi uma partida do diabo. já morreu há vários anos e era um homem encantador. Teriam gostado dele - garantiu, pondo o Daimler em andamento. A minha mãe tinha quarenta e oito anos quando eu nasci, o que foi realmente extraordinário. O meu pai tinha sessenta, e morreu aos oitenta e cinco, o que não foi mau. Todavia, tenho de admitir que sinto a sua falta. De qualquer modo, a minha mãe é muito especial. Talvez tenham oportunidade de a conhecer antes de deixarem Londres.

Olhou para Sarah, esperançado, mas esta olhava pela janela, distraída. Pensava que se sentia demasiado bem junto dele, que era tudo demasiado fácil. Porém, na verdade, nada era fácil. Nunca poderiam ser mais do que amigos de ocasião, coisa de que tinha de se recordar constantemente, em Particular quando William a olhava de certa maneira, ou a fazia rir, ou lhe pegava na mão. Não havia qualquer hipótese de Poderem vir a ser mais qualquer coisa um para o outro.

Nada mais do que amigos. Estava quase divorciada... e ele era o décimo quarto na linha para o trono britânico. Quando chegaram ao hotel, William olhou para baixo, para ela, quando a ajudou a saír do carro, e Sarah viu-lhe uma expressão de preocupação.

- Passa-se alguma coisa? - O inglês perguntava a si mesmo se teria dito algo que a ofendesse, mas Sarah parecera ter passado bons momentos e não havia dúvida de que gostara de experimentar as jóias na Torre de Londres. Contudo, estava zangada consigo mesma. Era como se estivesse a enganá-lo e devia-lhe uma explicação. William tinha o direito de saber quem e o que ela era antes de perder mais tempo e simpatias para com ela.

- Não. Desculpe, tenho uma dor de cabeça.

- Deve ter sido por causa daquela estúpida coroa, tão pesada, que a obriguei a experimentar. Lamento muito, Sarah. - Mostrou-se imediatamente pesaroso, o que a fez sentír-se ainda pior.

- Não foi nada disso. Estou apenas cansada.

- Comeste pouco ao almoço - censurou-a o pai, que vira a expressão de desânimo no rosto do inglês e sentira pena dele.

- Ia convidá-los, a todos, para jantarem comigo.

- Talvez para a próxima - apressou-se Sarah a dizer, e a mãe olhou-a, numa pergunta sem palavras.

- Talvez se se deitar um pouco - sugeriu William, esperançado, observando o rosto de Sarah. Sabia que se passava mais qualquer coisa e interrogava-se sobre se seria outro homem. Talvez estivesse noiva de alguém e não ganhasse coragem para lho dizer. Ou talvez o noivo tivesse morrido. Mencionara um ano de grande tristeza... Queria saber mais, mas não desejava pressioná-la.

- Talvez possamos almoçar juntos, amanhã? - Fitou Sarah nos olhos. A jovem ia começar a falar mas deteve-se.

- Hoje passei momentos maravilhosos... - Sarah queria tranquilizá-lo. Os pais agradeceram a William e subiram as escadas. No que lhes dizia respeito, os dois jovens tinham o direito de ficar a sós, e haviam pressentido que Sarah sofria alguns conflitos íntimos.

- Que achas que ela vai dizer-lhe? - perguntou Victoria ao marido, com uma expressão de preocupação, quando já subiam as escadas.

- Não tenho a certeza de querer saber. Ele aguenta. É um bom homem, Victoria. O tipo de homem com quem gostaria que a Sarah assentasse.

- Também eu. - Porém, ambos sabiam que não podiam esperar que tal acontecesse. Nunca lhe permitiriam casar com uma mulher divorciada e todos eles o sabiam.

Lá em baixo, no vestíbulo, Wílliam olhava para Sarah e esta mostrava-se vaga nas suas respostas.

- Podemos ir dar um passeio a qualquer lado? Está com disposição para isso?

Estava, é claro, mas para que serviria irem passear juntos ou até voltarem a ver-se? E se se apaixonasse por ele? Ou ele por ela? Nesse caso, o que fariam? Por outro lado, parecia-lhe ridículo pensar em apaixonar-se por um homem que acabara de conhecer, e que nunca mais voltaria a ver quando abandonasse a Inglaterra.

- Penso que estou a ser muito estúpida - disse Sarah, sorrindo, - Há muito tempo que não andava com pessoas... e muito menos com homens... Acho que me esqueci de como me devo comportar. Lamento muito, William.

- Não há problema. Quer sentar-se? - Sarah respondeu com um aceno e encontraram um lugar sossegado num canto do vestíbulo. - Passou um ano inteiro metida num convento? - perguntou, num tom que era apenas de meia provocação.

- Mais ou menos. Na verdade, durante algum tempo, até ameacei fazê-lo... mas fiquei num convento só meu. Passei muito tempo na casa dos meus pais em Long Island. Disse-o com toda a tranquilidade, porque William tinha o direito de o saber e agora já não lhe parecia uma coisa assim tão invulgar ou desesperada como pensara na altura. Por veZes, era-lhe difícil recordar-se até que ponto tivera alguns momentos terríveis enquanto lá estivera.

- Esteve um ano inteiro sem ver ninguém? - Sarah respondeu com um aceno silencioso, sem nunca desviar os Olhos dos dele, sem saber muito bem o que lhe dizer. – Foi muito tempo. Serviu para alguma coisa?

- Não tenho a certeza - suspirou. Estava a ser honesta.

- Na altura, pareceu-me que sim... mas fez com que fosse muito difícil regressar ao mundo. Foi por isso que viemos à Europa.

- A Europa é um bom lugar para começar. - Sorriu com gentileza e decidiu não lhe fazer perguntas dificeis. Não queria afugentá-la ou causar-lhe dor. Estava a apaixonar-se por ela e o que menos desejava era perdê-la. - Estou satisfeito por ter vindo a Inglaterra.

- Também eu - murmurou Sarah, e dizia a verdade. - Janta comigo esta noite?

- Bom... não sei... creio que vamos ao teatro. - No entanto, tratava-se de uma peça que sabia que não queria ver, The com Is Green, de Emlyn Williams. - Terei de perguntar aos meus pais.

- Se não for possível... que tal amanhã?

- William... - Pareceu ir dizer-lhe qualquer coisa importante, mas deteve-se e olhou-o de frente. - Porque me quer ver? - Se a pergunta lhe pareceu grosseira, não o deu a entender.

- Penso que é uma rapariga muito especial. Nunca encontrei outra como a Sarah.

- Mas... vamo-nos embora dentro de poucas semanas. Para que serve tudo isto... para qualquer um de nós? O que realmente queria dizer era que sabia que não havia futuro para eles. Sabendo-o, era uma loucura insistir naquela amizade.

- Sabe... creio que... a Sarah... me agrada... e muito... Porque não encaramos essa questão quando o momento chegar? - Era essa a sua filosofia, viver o dia-a-dia, viver o agora e não criar problemas com o futuro.

- E entretanto? - Sarah queria garantias de que ninguém ficaria magoado, mas nem sequer William lhe poderia prometer isso, por muito que gostasse dela. Não conhecia a sua história nem o que o futuro lhes reservava.

-  Porque não nos limitamos a esperar para ver? Janta comigo?

Hesitou, olhando-o, não porque não quisesse, mas sim porque queria, e muito.

- Está bem, janto consigo.

- Obrigado. - Olhou-a em silêncio durante o que pareceu muito tempo. A seguir levantaram-se e os homens que se encontravam na recepção repararam como eram bem-parecidos e faziam um belo par. - Virei buscá-la às oito horas»

- Espero por si cá em baixo - disse Sarah, sorrindo, enquanto William a acompanhava ao elevador.

- Prefiro subir até aos vossos quartos. Não a quero cá em baixo, à espera, sozinha. - Mostrava-se sempre protector, cuidadoso e atento para com ela.

- Está bem. - Voltou a sorrir e William beijou-a mais uma vez na face, para depois se afastar através do vestibulo com grandes passadas e um aceno. Sarah subiu, tentando não prestar atenção ao coração, que martelava de antecipação.

 

A campainha da suite tocou quando passavam cinco minutos depois das oito, mas Sarah não tinha maneira de saber que William estivera a fazer tempo lá em baixo nos últimos dez minutos. Os pais não se haviam importado com o facto de ela não os acompanhar ao teatro, porque sabiam que iria saír com William.

Abriu-lhe a porta envergando um vestido de cetim negro que lhe moldava a figura como se alguém lhe tivesse despejado por cima do corpo uma camada de gelo negro com uma fina bordadura de imitações de diamantes.

Meu Deus, Sarah! Está... estás fantástica! - Puxara os cabelos para cima da cabeça, com ondas e caracóis que pareciam cair em cascata quando se movia, dando a impressão de que, se lhe puxassem um único alfinete, toda aquela massa de cabelos negros cairia sobre os seus ombros, - És extraordinária! - Deu um passo atrás para a admirar e Sarah soltou uma gargalhada tímida. Era a primeira vez que se encontravam inteiramente sozinhos, excepto quanto aos momentos passados no caramanchão quando o conhecera, mas mesmo aí havia outras pessoas perto,

- O William também está muito bem. - Ele vestira um dos seus muitos smokings e um belo colete preto de seda que fora do pai, atravessado por uma fina corrente de relógio em diamantes que fora um presente para o seu tio, oferecido pelo czar Nicolau da Rússia. Enquanto seguiam para o restaurante, no carro de William, este explicou-lhe a história da corrente. Fora cosida na bainha do vestido de uma grã-duquesa e contrabandeada para fora da Rússia!

Tem... tens familiares em todo o lado! - maravilhou-se Sarah, encantada com a história, que a fazia pensar em imagens de reis e czares, e de realezas fascinantes.

- É verdade - respondeu, parecendo divertido -, mas posso garantir-te que alguns deles são perfeitamente insuportáveis. - Naquela noite, decidira ser ele próprio a conduzir o carro para poder estar a sós com Sarah e para não ter de se preocupar com um motorista. Escolhera um restaurante tranquilo, onde já o esperavam. O chefe de mesas conduZiu-os para uma mesa sossegada, nas traseiras, tratando-o repetidamente por «Vossa Graça» e fazendo ligeiras vénias a ambos quando se afastou. O champanhe apareceu instantaneamente, e William já encomendara o jantar para os dois quando fizera a reserva. Começaram por caviar, em minúsculas torradas com requintadas fatias de limão, seguido por salmão num molho muito delicado, e logo depois por faisão, salada, queijo, soufflé au Grand Marnier e pequenos biscoitos de manteiga.

- Deus do céu, não me posso mexer! - queixou-se Sarah com um sorriso. Fora um belo jantar e uma noite encantadora. William falara-lhe dos pais e do muito que significavam para ele, bem como do modo como a mãe se mostrara preocupada, alguns anos antes, ao ver que William não mostrava interesse em casar-se.

- Receio ter sido um grande desapontamento para ela declarou, mas sem qualquer espécie de remorsos. - Contudo, recuso-me a casar com a mulher errada, para agradar aos meus familiares ou apenas para ter filhos. Creio que o facto de os meus pais me terem tido tão tarde me deu a impressão de que podia fazer tudo o que quisesse durante muito tempo, e que ainda os poderia compensar,

- E podes. Tens razão em não querer cometer um erro. Logo que Sarah o disse, William viu-lhe nos olhos a mesma misteriosa tristeza.

- E tu, Sarah? Ainda não estão a pressionar-te para que te cases? - A jovem já lhe falara em Peter e Jane e nos seus bebés.

- Ultimamente, não o têm feito. Os meus pais têm sido muito compreensivos. - Sim, haviam sido compreensivos para com os seus erros... desastres e desgraça... Desviou a cara quando o disse. Wílliam estendeu a mão e fechou os seus dedos fortes em volta dos dela.

- Porque nunca me dizes o que te aconteceu de tão doloroso? - Era difícíl, para ambos, recordarem-se de que só se conheciam havia dois dias. Era como se fossem amigos desde sempre.

- Que te faz pensar que passei por algo de doloroso? Tentava iludi-lo, mas sem o conseguir. Continuava a segurar-lhe na mão de uma maneira firme mas gentil.

- Porque vejo que escondes qualquer coisa. Não sei o que é, mas está sempre presente, nas sombras, como um fantasma à espera de te perseguir. É uma coisa tão terrível que não a possas partilhar comigo?

Sarah não soube que lhe responder. Não ousava contar-lhe a verdade e os olhos encheram-se-lhe de lágrimas.

- Eu... desculpa... - Libertou a mão para secar os olhos com o guardanapo. O empregado desaparecera discretamente. - Foi... uma coisa muito desagradável... nunca voltarás a olhar-me com os mesmos olhos. Nunca mais me dei com ninguém... desde que aquilo aconteceu.

- Meu Deus, que foi que fizeste? Mataste alguém? um familiar, ou um amigo? Mesmo que fosse isso, deve ter sido por acidente. Sarah, não podes punir-te desse modo! - Pegou-lhe nas duas mãos e segurou-as com força, para que se sentisse protegida. - Não quero ser bisbilhoteiro, mas magoa-me ver-te sofrer.

- Como é isso possível? - Esboçou um sorriso de descrença por entre as lágrimas. - Mal me conheces. - Era verdade, mas ambos sabiam que William se sentia magoado. Conheciam-se melhor um ao outro em dois dias do que muita gente depois de uma vida inteira.

- Fiz uma coisa terrível - admitiu Sarah, segurando as mãos de William com força. Este não estremeceu nem as afastou.

-  Não acredito. Acho que és tu que pensas que foi uma coisa terrível. Aposto que mais ninguem pensa do mesmo modo.

- Estás enganado - afirmou, libertando as mãos, suspirando e voltando a olhar para ele. - Casei-me, há dois anos. Foi um grande erro, que tentei aguentar. Experimentei tudo. Estava decidida a ficar com ele... ou a morrer, a tentar. - William não parecia nada abalado por aquela novidade, que Sarah pensara que iria chocá-lo.

- Ainda continuas casada? - perguntou, calmamente, de mãos estendidas para ela. Todavia, Sarah não as aceitou.

Sabia que não o poderia fazer. Quando o inglês ouvisse toda a história, não iria querê-la... mas tinha a obrigação de lha contar.

- Estamos separados há mais de um ano. Em Novembro, o divórcio será definitivo. - Pronunciou a frase como se fosse uma sentença de morte.

- Lamento - declarou William, muito sério. - Tenho pena por ti, Sarah. Imagino como deve ter sido difícil e como te sentiste infeliz ao longo deste último ano. - Perguntava a si mesmo se o marido a trocara por outra, ou o que fora que acontecera entre os dois. - Amava-lo muito? inquiriu, hesitante. Não pretendia ser um bisbilhoteiro mas precisava de saber. Tinha de saber se a dor que Sarah sentia era causada por amor pelo marido ou apenas por tristeza, mas Sarah limitou-se a abanar a cabeça.

- Para ser honesta, não tenho a certeza de alguma vez o ter amado. Conheci-o durante toda a minha vida e pareceu-me que o melhor era casarmo-nos. Gostava dele mas na realidade não o conhecia muito bem. As coisas começaram a correr mal logo que regressámos da lua-de-mel e compreendi que cometera um erro. Só queria passar as noites e os dias fora de casa, divertindo-se com os amigos, perseguindo outras mulheres e bebendo. - O tom de tristeza na voz de Sarah era mais explícito do que mil palavras. Não lhe falou no bebé que perdera, nem nas prostitutas que Freddie levara para a festa de aniversário em casa dos pais. Todavia, William viu, nos seus olhos, que Sarah sofrera muito mais do que dizia. Sarah desviou a cara, e William voltou a tocar-lhe nas mãos. Esperou até que ela o olhasse. Tinha os olhos cheios de recordações e de interrogações.

- Tenho muita pena, Sarah - disse, baixinho. - Deve ser um homem muito estúpido. - Sarah sorriu e suspirou, mais uma vez, sentindo-se aliviada mas não redimida. Sabia que sempre iria sentir-se culpada por se ter divorciado, mas continuar na companhia do marido tê-la-ia destruído.

- Era esse o terrível pecado que estavas a esconder-me? Sarah acenou e o inglês sorriu. - Como podes ser tão tonta? Não estamos no século passado! já muitas outras pessoas se divorciaram. Preferias ter continuado com ele, a sofrer essa tortura?

- Não, mas senti-me terrivelmente culpada para com os meus pais. Foi muito embaraçador para eles. Na nossa família, nunca ninguém se tinha divorciado, mas mesmo assim foram extremamente compreensivos. Sei que devem ter ficado envergonhados, pelo menos até certo ponto, mas nunca me criticaram... - A voz apagou-se-lhe enquanto ele a observava.

- Inicialmente, levantaram alguma objecção? - inquiriu, sem rodeios.

- Não, de modo nenhum. - Sarah abanou a cabeça. De facto, até me encorajaram. Foram maravilhosos, mas deve-lhes ter sido muito difícil enfrentar todos os seus amigos de Nova Iorque.

- Disseram alguma coisa a esse respeito?

- Não. Foram demasiado simpáticos para me censurarem.

- E tu, já enfrentaste os amigos? Já te puniram pelo teu crime?

Sarah voltou a abanar a cabeça e sorriu ante o modo como a pergunta fora feita.

- Não! - Riu-se, num riso que tinha novamente um tom jovem. Sentia o coração mais leve do que sentira em muito tempo. - Mantive-me escondida em Long Island.

- Que parva! Tenho a certeza de que, se tivesses a coragem de voltar para Nova Iorque, toda a gente aplaudiria o facto de teres deixado esse canalha.

- Não sei. - Novo suspiro. - Não falei com ninguém... até agora... até te conhecer...

- Que afortunado que sou, Miss Sarah Thompson. Tens sido muito tonta! Não quero acreditar que passaste todo um ano a lamentar-te por causa de um homem que nem sequer sabias se amavas. Sarah, na verdade... - William parecia simultaneamente satisfeito e divertido. - Como pudeste fazer uma coisa dessas?

- Para mim, o divórcio não é uma ninharia - afirmou Sarah, defendendo-se. - Preocupei-me com a possibilidade de as pessoas pensarem que eu era como aquela mulher terrível que casou com o teu primo.

- O quê? - William pareceu espantado. - Que fosses como a Wallis Simpson? Com cinco milhões de dólares em jóias, uma casa em França e um marido que, por muito estúpido que tenha sido, a adora? Meu Deus, Sarah, que destino terrível, não achas?! - Era claro que estava a provocá-la, embora não inteiramente, pelo que ambos se riram.

- Falo a sério. . . - admoestou-o Sarah, mas continuava a rir-se.

- Também eu! Achas que as coisas, para ela, terminaram assim tão mal?

- Não... mas lembro-te do que as pessoas dizem a seu respeito. Não quero ser assim. - Sarah estava novamente com um rosto muito sério.

- Nunca o serias. A Wallis obrigou um rei a desistir de um trono. Tu, pelo teu lado, és uma mulher honesta que cometeu um erro terrível, casou com um estúpido qualquer e corrigiu as coisas. Que homem, ou que mulher, poderia estar contra ti? Oh, tenho a certeza de que um dia encontrarás um parvo qualquer, sem nada mais para fazer, que te apontará um dedo. Para o diabo com esse tipo de gente. Se fosse a ti, não me preocupava nada com o divórcio. Quando voltares para Nova Iorque, deverias gritar isso mesmo do alto dos telhados. No teu lugar, o que me envergonharia era ter casado com ele!

Sarah sorriu, perante o modo como William via as coisas, e sentiu-se melhor do que se sentira durante mais de um ano. Talvez ele tivesse razão. Talvez a vida não fosse assim tão terrível como imaginara.

De súbito, Sarah soltou uma gargalhada.

- Se fazes sentir-me melhor a este respeito, como irei prosseguir com a minha vida de reclusa numa quinta? William serviu-lhe outra taça de champanhe enquanto ela lhe sorria. Por momentos, olhou-a com um ar muito sério.

- Teremos de voltar a falar nisso, noutra ocasião. Agora, a perspectiva não me parece tão encantadora como da Primeira vez que me falaste nela.

- E porque não?

- Porque estás a servir-te dessa ideia para fugir à vida. Já agora, podias ir para um convento. - Revirou os olhos enquanto tomava um gole de champanhe. - Que desperdício revoltante! Deus, nem sequer quero pensar nisso, para não me irritar!

- Pensar no convento ou na quinta? - retorquiu Sarah. William concedera-lhe uma dádiva incrível. Fora a primeira pessoa com quem falara sobre o divórcio e não se mostrara chocado ou horrorizado. Para ela, tratava-se do primeiro passo para a liberdade.

- Em ambos. Deixemos esse assunto. Quero levar-te a dançar.

- Parece-me boa ideia... - Para além do que acontecera no navio, não dançava havia mais de um ano e a ideia parecia-lhe muito atraente - ... se ainda me lembrar como se dança!

- Farei com que te recordes - declarou, enquanto assinava a conta. Minutos depois iam a caminho do Café de Paris, onde a sua entrada, na companhia de Sarah, provocou uma tremenda agitação. Toda a gente parecia correr para todo o lado para o atender. «Sim, Vossa Graça», «Sem dúvida, Vossa Graça», «Boa noite, Vossa Graça!» William começou a ficar extremamente incomodado com tudo aquilo, mas Sarah divertiu-se com a sua expressão.

- Não pode ser assim tão mau... Sê simpático - disse, para o tranquilizar, enquanto avançavam para a pista de dança.

- Não fazes ideia de como estas coisas podem tornar-se aborrecidas. Suponho que não fariam mal se eu tivesse noventa anos, mas, com a minha idade, são incomodativas. Na verdade, agora que penso nisso, lembro-me de que o meu pai, aos oitenta e cinco anos, também se aborrecia.

- É a vida... - troçou Sarah, sorrindo, enquanto começavam a dançar aos acordes de That Old Feeling, muito popular desde o Inverno anterior. Sentiu-se rígida durante os primeiros instantes, mas momentos depois já se moviam pela pista como se dançassem juntos havia muitos anos. Sarah descobriu que William era particularmente habilidoso no tango e na rumba.

- Danças muito bem - comentou William. - Tens a certeza de que estiveste escondida durante um ano? Ou aproveitaste para ter lições de dança em Long Island?

- Muito engraçado, William. Acabei de pisar o teu pé.

- Não foi o pé, mas sim o dedo grande. Estás a melhorar cada vez mais.

Riram-se, conversaram e dançaram até às duas da manhã. Quando William a conduziu a casa, Sarah já bocejava, olhando-o ensonada. Acabou por encostar a cabeça ao ombro dele.

- Diverti-me muito esta noite, William. Obrigada...

- Pois eu passei momentos terríveis - retorquiu o inglês, num tom convincente. - Não fazia ideia de que iria saír com uma mulher caída. Pensava que se tratava de uma bonita jovem de Nova Iorque... e descobri que, afinal, não passa de um artigo em segunda mão! Meu Deus, que horrível desilusão! - Abanou a cabeça com um ar triste, e Sarah bateu-lhe com a mala.

- Artigo em segunda mão! Como te atreves a tratar-me assim? - Estava um pouco ofendida e um pouco divertida, mas ambos se riam às gargalhadas.

- Está bem, és apenas uma old divorca, se o preferires. De qualquer modo, não és o que eu esperava... - Prosseguiu, abanando a cabeça e sorrindo maliciosamente de vez em quando. De súbito, Sarah preocupou-se com a possibilidade de William poder querer dizer que ela era uma presa fácil, que poderia usar casualmente durante algumas semanas, até se ir embora de Londres. A ideia fê-la ficar rígida e afastou-se de repente. O movimento foi tão abrupto que William teve consciência imediata de que acontecera qualquer coisa. Olhou-a, intrigado, no momento em que entravam na Brook Street.

- Que se passa?

- Nada. Dei um mau jeito às costas.

- Não é verdade.

- É, sim - garantiu Sarah, mas William continuava sem acreditar.

- Não me parece. Creio que ficaste incomodada com uma ideia qualquer que te passou pela cabeça.

- Como podes dizer uma coisa dessas? - Como era que ele a conhecia tão bem, em tão pouco tempo? Era algo que ainda a espantava. - Não foi nada disso!

- Óptimo... porque te preocupas mais do que todas as outras pessoas que já conheci... e sem razão. Se passasses mais tempo a pensar nas coisas boas que te acontecem e menos nas que te podem vir a acontecer... e que provavelmente nunca acontecerão, viverás mais tempo e serás mais feliz. Falou quase como um pai e Sarah abanou a cabeça enquanto o ouvia.

- Muito obrigada, Vossa Graça.

- Não tem de quê, Miss Thompson.

Tinham chegado ao hotel. William saiu do carro e abriu-lhe a porta, ajudando-a a saír enquanto Sarah se interrogava sobre o que o inglês iria fazer a seguir e se tentaria acompanhá-la até ao quarto. já decidira que não lho permitiria.

- Achas que os teus pais autorizarão que voltemos a saír juntos? - perguntou, com todo o respeito. - Talvez amanhã à noite... se eu disser ao teu pai que ainda precisas de praticar os passos do tango?

Sarah olhou-o, com ternura. Era muito mais decente do que chegara a pensar e haviam-se aproximado muito um do outro naquela noite. Mais que não fosse, sabia que, depois daquilo, podiam ser amigos. Esperava que para sempre.

 

- Talvez. Amanhã de manhã, queres ir à Abadia de Westminster connosco?

- Não quero... - retorquiu ele, com um sorriso franco mas irei, com todo o prazer. - Queria vê-la a ela e não à igreja. Visitar a abadia era um pequeno preço a pagar pela sua companhia. - Neste fim-de-semana, talvez possamos ir dar um passeio ao campo.

- Gostaria muito. - Sarah sorriu. William olhou-a, baixou-se, colocou os lábios junto dos dela e beijou-a com suavidade. Passou os braços em volta dela com uma força surpreendente e puxou-a para si, mas não tanto que a fizesse sentir-se ameaçada ou assustada. Quando se afastou, estavam ambos sem fôlego.

- Creio que há uma clara possibilidade - murmurou William - de que sejamos ambos demasiado velhos para estas coisas... mas agradam-me muito. - Sarah adorou aquela ternura e as promessas da mesma para o futuro.

William acompanhou-a ao elevador, desejoso de a beijar outra vez, mas decidiu não o fazer. Não queria chamar a atenção do funcionário da recepção.

- Vemo-nos de manhã - murmurou, e Sarah acenou uma confirmação enquanto o inglês se inclinava para ela. Observou-o, perguntando a si mesma o que William iria dizer-lhe ... e o seu coração parou quando ouviu as palavras que William não conseguiu suster: - Amo-te, Sarah.

Queria dizer-lhe que também o amava mas ele já se afastara e as portas do elevador fecharam-se, separando-os.

 

No dia seguinte foram à Abadia de Westmínster, tal como haviam planeado, e os Thompson mais velhos pressentiram que se passara qualquer coisa entre os dois jovens. Sarah parecia mais calma do que anteriormente e William olhava-a de uma maneira diferente, mais possessiva. Ansiosa, Victoria Thompson sussurrou, para o marido, quando se afastaram um pouco:

- Achas que há algo de errado entre eles? - perguntou-lhe, preocupada. - A Sarah parece preocupada.

- Não faço ideia - retorquiu o pai, com frieza, no momento em que William se aproximava para lhes apontar um pormenor da arquitectura. Tal como acontecera na Torre de Londres, narrou-lhes histórias sobre a realeza e pormenores interessantes a respeito dos vários monarcas. Referiu a co’roação que tivera lugar no ano anterior e fez alguns comentários benevolentes a respeito do seu primo Bertie. Bertie era agora o rei, não obstante todos os seus protestos. Como não fora preparado para o papel, ficara horrorizado quando o seu irmão David, o rei Eduardo, abdicara.

A seguir caminharam por entre os túmulos e Victoria pensou, mais uma vez, que a filha se mantinha invulgarmente silenciosa. Os Thompson mais velhos voltaram para o interior e deixaram os dois jovens sozinhos. Quando se afastaram, viram Sarah e William mergulhados no que parecia ser uma conversa muito séria.

- Estás perturbada, não estás? - William parecia assustado e preocupado quando lhe pegou nas mãos. - Não devia ter dito aquilo, não é verdade? - Contudo, nunca anteriormente se sentira assim, com ninguém, e de um modo tão intenso e rápido. Sentia-se como um rapazinho, completamente perdido de amores e incapaz de se conter. - Lamento Sarah... mas amo-te. Sei que parece loucura... mas é verdade. Amo tudo aquilo que és, o que pensas e o que queres... - Naquela altura, já parecia verdadeiramente assustado. - Não quero perder-te.

Sarah virou para ele os seus olhos angustiados e era óbvio, pela maneira como o olhava, que também o amava. Contudo, era igualmente óbvio que não desejava que isso tivesse acontecido.

- Como podes dizer uma coisa dessas, a respeito de me perderes? Nunca me poderás ter. Sou uma mulher divorciada ... e tu estás na linha para o trono. Tudo o que temos é isto ... sermos amigos... e um flírt casual...

William oscilou sobre os calcanhares por instantes enquanto a fitava. No seu rosto havia uma sugestão de sorriso.

- Minha querida, se consideras isto como «casual», então gostaria que me explicasses o que consideras «sério». Nunca fui tão sério a respeito de alguém em toda a minha vida, embora nos conheçamos há pouco tempo. Isto, para mim, não é um «flirt casual»...

- Bom, está bem... - Sarah sorriu, mesmo contra a sua vontade, e pareceu mais bela do que nunca. - Sabes bem o que quero dizer. Nunca iremos a lado nenhum. Para que estamos a torturar-nos? Devemos ser simples amigos. Voltarei para casa em breve e a tua vida é aqui.

- E tu? Para que tipo de vida vais voltar? - Parecia tremendamente incomodado com o que Sarah dizia. - Irás para a tua quinta miserável, onde viverás como uma velha? É absurdo!

- William, sou uma mulher divorciada! Ou antes, vou ser. Foi estúpido levarmos isto tão longe!

- Quero que saibas que não me ralo com o teu divórcio afirmou, num tom quase irritado. - Para mim, não significa absolutamente nada, tal como essa maldita linha de sucessão que parece preocupar-te tanto. É disso que se trata, não é? Confundiste-te outra vez com aquela parva que casou com o David! - Referia-se, é claro, à duquesa de Windsor, e ambos o sabiam. Tinha razão. Sarah confundira-se de novo com ela, mas as suas opiniões eram extremamente tenazes.

- Tem a ver com tradições e responsabilidade. Não podes recusá-las. Não podes ignorá-las, ou fingir que não existem, e eu também não. Seria como conduzir a toda a velocidade, numa estrada, e fingires que não tens um muro de tijolos na tua frente. O muro existe, William, quer o vejas quer não. Existe e terás de parar antes que seja demasiado tarde. - Sarah não queria magoar ninguém. Nem a ele, nem a si mesma. Não queria apaixonar-se por ele até perder a cabeça, para depois o perder porque não o podia ter. Não valia a pena, por muito que pensassem que já se amavam.

- Então, o que sugeres? - Olhava-a, pesaroso, sem gostar do que estava a ouvir. - Que paremos? Que não voltemos a ver-nos? Meu Deus, não o farei, a não ser que consigas fitar-me nos olhos e dizer que nada disto está a acontecer e que não me amas. - Puxou-a pelas mãos e fitou-a nos olhos, até Sarah não conseguir encará-lo.

- Não posso dizer uma coisa dessas... - sussurrou, erguendo de novo os olhos. - Talvez possamos continuar amigos... e é tudo. Prefiro ter-te como amigo, para sempre, William, do que perder-te. Contudo, se persistirmos, precipitando-nos contra algo que pode ser muito perigoso... então, mais tarde ou mais cedo, todos os que te conhecem e’ amam se virarão contra ti... e será desastroso.

- Ah, mas que fé que tens na minha família! Sabes, a minha mãe é meio francesa... e sempre disse que essa história da sucessão é incrivelmente estúpida. Ser o décimo quarto na linha do trono, minha querida, não tem qualquer significado. É algo de que posso desistir num instante, e nem eu nem ninguém se preocuparia com isso.

- Não to permitiria...

- Ora, Sarah, por amor de Deus! Sou um homem adulto e tens de acreditar que sei o que ando a fazer. Neste momento, as tuas preocupações são prematuras e absurdas. Tentou levar a coisa com ligeireza, mas ambos sabiam que Sarah tinha razão. William desistiria da sucessão num instante, por causa dela, se pensasse que poderiam casar, mas tinha receio de lho pedir. O que estava em jogo era demasiado importante para querer correr riscos. Nunca pedira ninguém em casamento mas já sabia até que ponto amava Sarah. Deus do céu, é espantoso! - continuou, provocando-a, enquanto regressavam à abadia em busca dos pais dela. - Metade das raparigas de Inglaterra seriam capazes de matar alguém para serem duquesas... e tu nem sequer queres falar comigo com medo de que se trate de uma doença que possas vir a apanhar. - Começou a rir-se, pensando em como sempre o tinham perseguido e no modo como aquela rapariga se mostrava afável mas relutante. - Amo-te, sabes? Amo-te de verdade, Sarah Thompson. - Puxou-a para os seus braços com firmeza, para que todos pudessem ver, e beijou-a no meio do esplendor da Abadia de Westminster.

- William... - Sarah la começar a protestar mas depois cedeu, completamente dominada pelo poder e pelo magnetismo do jovem inglês. Quando se afastaram, olhou e esqueceu, por instantes, todas as suas reservas.

- Também te amo... mas continuo a pensar que somos loucos.

- E somos! - William sorriu, feliz, passando-lhe um braço em volta dos ombros e encaminhando-a para a entrada principal da abadia. - Porém, pode tratar-se de uma loucura de que nunca venhamos a recuperar - acrescentou, num sussurro, a que Sarah não respondeu.

- Onde se meteram? - Edward Thompson fingiu estar preocupado, mas não era verdade. Podia ver, pela expressão nos olhos dos dois, que se encontravam mais chegados do que nunca e que tudo corria bem.

- A falar... e a passear... A sua filha é uma verdadeira distracção.

- Terei de falar com ela a esse respeito. - Edward sorriu para os dois, e os dois homens caminharam juntos durante um bocado, conversando sobre o banco de Edward e sobre como a América encarava a possibilidade de uma guerra. William falou-lhe da sua recente viagem a Munique.

Almoçaram juntos no Old Cheshire Cheese, em Wine Office Court, onde comeram empada de pombo. Depois disso, William teve de os abandonar.

- Receio ter prometido aos meus solícitadores que passaria a tarde com eles, uma assustadora necessidade que ocorre de tempos a tempos. - Pediu desculpa por os abandonar e perguntou a Sarah se a poderia levar a jantar e a dançar naquela noite. Ajovem hesitou e pareceu pesarosa. - Só mais uma vez... como amigos... - mentiu, o que a fez rir-Se- Já o conhecia muito bem para acreditar naquilo.

- És impossível.

- Talvez... mas tu precisas de treinar muito o tango. Riram-se os dois, recordando as muitas vezes em que Sarah vacilara nos braços dele. - Trataremos disso esta noite, sim?

- Está bem - concordou, relutante, perguntando a si mesma como iria resistir-lhe. Era um homem notável e nunca se sentira tão atraída por ninguém, e muito menos por Freddie Van Deering. Na altura parecera-lhe ser apropriado, mas fora muito jovem e estúpida. O que fazia agora também estava errado, embora de uma maneira diferente: no entanto, nunca amara tanto ninguém nem nunca se sentira assim, como se o conhecesse tão bem.

- É um homem encantador - disse-lhe a mãe quando Edward as deixou no Hardy Armes. Sarah não podia discordar... mas não queria arruinar a sua vida e a dele deixando-se arrastar por um romance que não levaria a lado nenhum. Apesar de William parecer estar disposto a lançar todas as cautelas pelos ares, Sarah não se mostrava assim com tanta pressa, para bem dele. No entanto, naquela tarde, esqueceu todos os seus receios quando a mãe lhe comprou um fabuloso vestido de cetim branco, que lhe punha em destaque os cabelos escuros, a pele cremosa e os olhos verdes.

Naquela noite, quando William a viu, já com o vestido, parou de repente.

- Deus do céu! - exclamou. - Esse vestido dá-te um aspecto perigoso, Sarah! Tens a certeza de que queres saír comigo? Os teus pais são muito confiantes...

- Disse-lhes para não o serem mas parecem estar encantados contigo - retorquiu Sarah, já à saída. Daquela vez, William levara o seu Bentley, com motorista.

- Estás realmente notável, minha querida! - Sarah parecia uma princesa.

- Muito obrigada - respondeu, feliz.

Mais uma vez, passaram bons momentos, e Sarah decidiu descontrair-se junto dele. Era divertido, tinha amigos interessantes e todos foram encantadores para com ela. Dançaram toda a noite, acabando por dominar tanto a rumba como o tango. O vestido que Sarah usava fazia com que o seu aspecto, na pista, na companhia de William, fosse extraordinário.

Este levou-a novamente para casa às duas da manhã, depois de uma noite que parecera passar num instante. Sarah parecia mais descontraída e Wilham estava completamente à vontade junto dela. Ninguém fizera referência às preocupações de Sarah ou aos sentimentos de William. Fora uma noite agradável e sem complicações. Quando chegaram ao hotel, Sarah descobriu que odiava ter de o deixar para subir ao quarto.

- Que monumento vão vocês visitar amanhã, minha querida? - perguntou o inglês, fazendo-a sorrir.

- Nenhum. Vamos ficar aqui, a descansar. O pai tem negócios para tratar e vai almoçar com um velho amigo. Eu e a minha mãe ficamos aqui, sem fazer nada.

- Parece muito interessante - afirmou, olhando-a, muito sério. - Poderia convencer-te a ficares sem fazer nada na minha companhia? Talvez um pequeno passeio até ao campo, para apanharmos ar fresco?

Sarah hesitou, mas depois concordou com um aceno. Apesar de todas as suas cautelas, já sabia que não conseguia resistir-lhe... e decidira deixar de o fazer até se irem embora de Londres.

Wilham foi buscá-la no dia seguinte, antes do almoço, num Bugatti de encomenda, que Sarah ainda não vira. Partiram para Gloucestershire, enquanto o inglês lhe apontava pontos de interesse e a mantinha entretida.

- Afinal, onde vamos?

- Vamos a uma das mais antigas mansões de Inglaterra. William ganhou um ar muito sério. - O edifício principal data do século catorze e receio que seja um pouco assustador. No entanto, no interior da propriedade há outros, um pouco mais modernos. O maior foi construído por Sir Christoplier Wren, no século dezoito, e é encantador. A propriedade tem grandes estábulos, uma quinta e um belo pavilhão de caça. Penso que vais gostar.

A ideia agradava a Sarah, que se virou para fazer nova pergunta.

 

- Parece maravilhoso, William. Quem vive lá?

O inglês começou por hesitar mas acabou por sorrir.

- Eu. Na verdade, estou lá o mínimo possível, mas a minha mãe passa lá o seu tempo. Vive no edifício principal. Prefiro o pavilhão de caça, que é um pouco mais rudimentar. Pensei que gostarias de almoçar com ela, desde que tenhas tempo para isso.

- William! Vais levar-me a almoçar com a tua mãe e nem sequer mo disseste! - Sarah ficou horrorizada e um pouco assustada com o que ele lhe fizera.

- É uma pessoa muito simpática, garanto-te - retorquiu, inocentemente. - Penso que vais gostar dela.

- Mas que vai a tua mãe pensar de mim? Porque é que ela pensa que vamos almoçar lá a casa? - Estava novamente com medo de William e dos seus sentimentos à rédea solta... e daquilo a que os mesmos poderiam levar.

- Disse-lhe que estavas desesperadamente esfomeada. Na verdade, telefonei-lhe ontem e disse-lhe que gostaria que te conhecesse antes de partires.

- Porquê? - Sarah fitou-o, acusadora.

- Porquê? - William pareceu surpreendido. - Porque és uma amiga e gosto de ti.

- Foi tudo o que lhe disseste? - resmungou Sarah, que ficou à espera de uma resposta.

- Não. Também lhe disse que nos íamos casar no sábado e que seria agradável que ela travasse conhecimento com a próxima duquesa de Whitfield antes do casamento.

- William, acaba com isso! Estou a falar a sério! Não quero que a tua mãe pense que ando atrás de ti, ou que vou arruinar a tua vida!

- Oh, não, também lhe disse isso. Expliquei-lhe que ias almoçar mas que te recusavas a aceitar o título.

- William! - exclamou Sarah, rindo-se. - Que estás tu a fazer-me?

- Por enquanto, nada... mas não me falta vontade!

- És impossível! Devias ter-me dito onde vínhamos! Nem sequer trago um vestido! - Vestira calças e uma blusa de seda, coisa que em certos círculos, era considerado muito provocante. Sarah tinha a certeza de que a viúva duquesa de Whitfield não iria aprovar quando a visse.

- Não te preocupes, disse-lhe que eras americana e isso explica tudo. - Provocava-a, enquanto fingia tranquilizá-la. No entanto, pensava que Sarah aceitara bem a notícia. Receara que a jovem ficasse muito preocupada quando lhe dissesse que iam almoçar com a mãe dele, mas não fora esse o caso.

- Parece que lhe contaste tudo a meu respeito. Também a informaste de que me vou divorciar?

- Diabo, esqueci-me disso... - William sorriu. - Não te esqueças de lho dizer durante o almoço. Vai querer ouvir toda a história. - Continuou a sorrir, mais apaixonado por ela do que nunca e totalmente indiferente aos seus receios e objecções.

- És mesmo insuportável - acusou-o Sarah.

- Obrigado, meu amor. Sempre ao dispor - replicou William sem deixar de sorrir.

Atingiram a entrada principal da propriedade apenas alguns momentos depois, e Sarah ficou impressionada com a sua beleza. Encontrava-se rodeada por altos muros de pedra que pareciam ter sido postos ali pelos Normandos. Os edifícios e as árvores tinham um aspecto muito antigo, mas estava tudo impecavelmente cuidado. A casa principal era mais semelhante a uma fortaleza do que a uma mansão, mas Sarah pôde verificar, quando passaram pelo pavilhão de caça onde William ficava com os seus amigos, que este era uma construção encantadora, maior do que a casa dos pais dela, em Long Island. O edifício onde a mãe de William vivia era muito bonito e encontrava-se repleto de maravilhosas antiguidades francesas. Sarah ficou surpreendida ao conhecer a duquesa de Whitfield, minúscula e frágil, mas ainda muito bela.

- Tenho muito prazer em conhecê-la, Vossa Graça disse, nervosa, sem saber se deveria fazer uma vénia ou apertar-lhe a mão. Todavia, a idosa senhora pegou-lhe na mão e segurou-lha.

- Também tenho muito prazer em conhecer-te, minha querida. O William disse-me que eras encantadora e tinha razão. Entrem. - Conduziu-a para o interior, caminhando bem, mas com a bengala. Esta pertencera à raínha Vitória e fora-lhe oferecida recentemente por Bertie, durante a sua última visita.

A duquesa mostrou a Sarah as três salas existentes no piso térreo e depois dirigiram-se para o jardim. Estava um dia quente e ensolarado, de um Verão que fora invulgarmente agradável para a Inglaterra.

- Vais ficar cá muito tempo, minha querida? - perguntou a mãe de William, num tom de simpatia, mas Sarah abanou a cabeça com tristeza.

- Partimos para Itália na próxima semana. Voltaremos a Londres por alguns dias, em finais de Agosto, antes de embarcarmos. O meu pai precisa de estar em Nova iorque no princípio de Setembro.

- O William disse-me que o teu pai é banqueiro. O meu pai também o era. E o William ter-te-á dito que o pai dele foi o líder da Câmara dos Lordes? Era um homem maravilhoso... muito parecido com o William. - Levantou os olhos para o filho com indiscutível orgulho. William sorriu e passou-lhe um braço em volta dos ombros.

- Não é bonito gabarmo-nos, mãe - brincou, mas era óbvio que a mãe o tinha em alta estima. Fora a delícia da sua vida desde o momento do nascimento, bem como a grande recompensa de um casamento extremamente longo e feliz.

- Não estou a gabar-me. Pensei que a Sarah gostaria de saber coisas a respeito do teu pai. Talvez um dia lhe sigas as pisadas.

- Não é muito provável, mãe. já tenho dores de cabeça de mais. Preencherei o lugar mas não me parece que tome parte activa.

-Pode ser que, um dia, venhas a surpreender-te a ti mesmo - comentou a mãe, sorrindo de novo para Sarah. O almoço teve lugar momentos depois. A idosa senhora era uma mulher encantadora, com uma mente surpreendentemente ágil para uma pessoa da sua idade e que idolatrava o filho. Não parecia manter-se agarrada a ele, nem queixar-se por este aparecer poucas vezes para lhe dar atenção. Permitia-lhe que vivesse a sua vida à vontade e tirava grande prazer das descrições que William lhe fazia. Contou a Sarah algumas das mais divertidas escapadelas juvenis do filho e como se portara bem em Eton. A seguir fora para Cambridge, onde estudara história, política e economia.

- Pois é - comentou o filho -, mas agora tudo o que faço é ir a jantares de festa e dançar o tango. É fascinante o que conseguimos com uma educação superior...

Todavia, Sarah já sabia que ele fazia muito mais do que isso. Geria as propriedades e a quinta, muito rentável, e mantinha-se activo na Câmara dos Lordes. Viajava, lia muito e continuava fascinado pela política. Tratava-se de um homem interessante e Sarah detestava ter de admitir que gostava de todas as suas facetas. Até gostava da mãe dele e esta parecia encantada com Sarah.

À tarde, os três deram um grande passeio pelos jardins e Annabelle Whitfield contou a Sarah tudo sobre a sua juventude na Cornualha, bem como sobre as suas visitas aos avós, em França, e os Verões passados em Deauville.

- Por vezes, tenho saudades - confessou aos dois jovens, com um sorriso nostálgico.

- Estivemos lá em julho. Continua a ser um sítio encantador - disse Sarah, devolvendo-lhe o sorriso.

- Folgo em sabê-lo. já lá não vou há cinquenta anos. A duquesa virou-se para o filho. - Quando o William apareceu, fiquei em casa. Queria estar sempre junto dele, todos os momentos, maravilhando-me com todas as suas palavras e sons. Quase morri quando foi para Eton. Tentei convencer o George a mantê-lo aqui, com o tutor, mas insistiu e suponho que teve razão. Ficar apenas na companhia de uma velha mãe teria sido demasiado aborrecido para ele. - Olhou-o com amor, e William beijou-lhe a face.

- Nunca me aborreci em casa contigo, mãe, e tu sabe-lo. Adorava-te... e ainda adoro.

- Tonto! - A mãe sorriu, feliz por o ouvir dizer aquilo. Deixaram Whitfield ao fim da tarde e a duquesa pediu a Sarah para a visitar antes de se ir embora de Inglaterra.

- Talvez depois da vossa viagem à Itália, minha querida. Adoraria que me contasses tudo a esse respeito quando regressares a Londres.

- E eu gostaria muito de voltar a vê-la - respondeu Sarah, sorrindo. Passara uma tarde muito agradável, que ela e William comentaram no caminho de regresso a Londres.

- A tua mãe é maravilhosa - afirmou Sarah, pensando nas coisas que a duquesa lhe dissera- Recebera-a bem, fora calorosa e mostrara-se sinceramente interessada nela.

- Também acho. Não tem uma única partícula de maldade em todo o corpo. Nunca a vi zangar-se com ninguém... excepto talvez comigo. - William riu-se, ante as suas próprias recordações. - Nunca foi antipática nem gritou com ninguém. Adorava o meu pai, e ele também a adorava. É uma pena que não tivesses podido conhecê-lo, mas estou muito satisfeito por teres arranjado tempo para veres a minha mãe. - A expressão que tinha nos olhos dizia mais coisas, mas Sarah fingiu ignorá-las. Não se atrevia a sentir-se mais próxima dele do que já estava.

- E estou contente por me teres trazido aqui - respondeu.

- Ela também ficou contente. Gostou de ti. - Olhou Sarah, comovido por a ver tão assustada.

- Também gostaria assim tanto de mim se soubesse que sou divorciada? - perguntou Sarah, com alguma rudeza, enquanto William descrevia uma curva apertada com o seu Bugatti.

- Penso que não se preocuparia com isso - afirmou, com toda a honestidade.

- Ainda bem que decidiste não a pôr à prova. - Voltou a sorrir, aliviada. Wilham, contudo, não resistiu à oportunidade para a provocar.

- Pensei que ias falar-lhe no assunto durante o almoço.

- Esqueci-me! Faço-o para a próxima, prometo - retorquiu Sarah.

- Óptimo! Vai ficar muito interessada! - Riram-se os dois e gozaram a companhia um do outro durante o resto da viagem. Foi com tristeza que William a deixou no hotel. Nessa noite iria jantar com os pais e com os amigos destes, mas William insistiu em vê-la no dia seguinte, logo pela manhã.

- Não tens mais nada para fazer? - troçou Sarah enquanto permaneciam parados em frente do Claridge, parecendo dois jovens amantes muito felizes e excitados.

- Esta semana, já não. Quero passar todos os momentos contigo até partires para Roma... a não ser que levantes objecções.

Sarah pensou que deveria levantá-las, para bem dele, mas não queria fazê-lo. Era um homem muito atraente, com motivos de interesse demasiado fortes.

 

- Então, vamos ao Hyde Park amanhã de manhã? Depois passamos pela National Gallery, damos um passeio até Richmond e uma volta pelos New Gardens. Almoçamos no Hotel Berkeley

Tinha tudo planeado e Sarah riu-se. Não lhe interessava saber onde iriam desde que pudesse estar com ele. Apesar de todos os seus receios, deixava-se arrastar pelo facto de passar todo o tempojunto dele. Era difícil resistir-lhe, mas partiria em breve. A seguir, obrigar-se-ia a esquecê-lo. Que mal havia num pouco de felicidade, por alguns dias? Porque não aceitá-la, depois de todo o tempo que passara sozinha no ano passado e de toda a infelicidade anterior?

Durante o resto do tempo que permaneceram em Londres, William acompanhou-os a quase todo o lado. De vez em quando tinha um encontro de negócios que não podia adiar, mas pôs-se à disposição durante todo o tempo restante. No último dia na cidade, ele e Edward almoçaram juntos no White’s, o clube de William.

- Foi divertido? - perguntou Sarah ao pai, quando este regressou.

- O William foi muito simpático e o clube é maravilhoso. - Todavia, do que mais gostara não fora do ambiente ou da comida, mas sim do homem e do que ele lhe dissera. Convidou-nos para jantar, esta noite, e a seguir vai levar-te a dançar. Imagino que a Itália irá ser muito aborrecida para ti, depois de tudo isto - declarou, muito sério, ansioso por ver a expressão da filha quando esta lhe respondesse.

- Terei de me habituar, não é verdade? - retorquiu Sarah, com firmeza. - Foi divertido, é um homem muito simpático... mas as coisas não podem continuar assim para sempre. - Abraçou o pai e saiu da sala.

Nessa noite foram todos jantar ao Savoy Grill. William, como de costume, foi uma companhia encantadora e Sarah também se mostrou em boa forma. Depois do jantar levaram os pais dela ao hotel e partiram para o Four Hundred Club para a prometida dança.

Sarah mostrou-se invulgarmente tranquila nos seus braços, apesar das tentativas anteriores para se mostrar bem-disposta. Era fácil ver que estava triste, pelo que acabaram por regressar à mesa, onde conversaram tranquilamente, de mãos dadas.

- A próxima semana vai ser tão dura para ti como irá ser para mim? - perguntou William. Sarah concordou com um aceno. - Não sei o que irei fazer sem ti, Sarah.

Tinham-se tornado muito íntimos naquelas poucas semanas, com uma rapidez que os espantava a ambos. William ainda tentava absorver a ideia. Nunca conhecera ou amara uma pessoa como ela.

- Descobrirás outras coisas para fazer - retorquiu a jovem, com um sorriso. - Podes arranjar trabalho como guia no Museu Britânico ou na Torre de Londres.

- Boa ideia! - exclamou William, trocista. A seguir passou-lhe um braço em volta dos ombros e puxou-a a si. Vou sentir terrivelmente a tua falta nas próximas três semanas e a seguir irás estar muito pouco tempo em Londres. Menos de uma semana.

A ideia entristecia-o. Sarah acenou, em silêncio. Desejava muitas coisas, tal como tê-lo conhecido anos antes, ou ser inglesa, ou nunca ter conhecido Freddie. Contudo, os desejos não alteravam nada e agora tinha de ganhar coragem para partir. Era-lhe difícil pensar que não o veria, dia após dia, que não brincariam e se provocariam um ao outro, visitando novos lugares, conhecendo os amigos de William, visitando a Torre de Londres ou a mãe dele, em Whitfield. Ou então, muito simplesmente, instalando-se num qualquer local tranquilo para conversarem.

-  Talvez, um dia, possas ir a Nova iorque - declarou, esperançada, sabendo que seria improvável. Mesmo que o fizesse, seria uma visita curta.

- Talvez... - exclamou William, dando-lhe uma breve esperança. - Se não nos metermos em sarilhos, aqui na Europa. Nunca se sabe se, um destes dias, o líder supremo da Alemanha não irá dificultar as viagens transatlânticas. - William estava convencido de que a guerra acabaria por rebentar e Edward Thompson era da mesma opinião. - Talvez possa lá ir antes disso.

Todavia, Sarah sabia que ver William em Nova Iorque era um sonho distante, que provavelmente nunca se concretizaria. Era tempo de dizer adeus e sabia-o. Mesmo que voltasse a vê-lo quando regressasse de Itália, as coisas já seriam diferentes entre eles. Necessitavam de se afastar um do outro e de retomar as suas próprias vidas.

Dançaram um último tango. Executaram-no perfeitamente mas nem por isso o suficiente para que Sarah sorrisse. A seguir dançara uma última vez, face contra face, com cada um deles mergulhado nos seus próprios pensamentos. Quando regressaram à mesa, William beijou-a durante muito tempo.

- Amo-te, minha querida. Não suporto a ideia de ter de te deixar. - Tinham-se comportado admiravelmente durante duas semanas inteiras e nunca se pusera a hipótese de virem a proceder de outro modo. - Que irei fazer do resto da minha vida, sem ti?

-   Sê feliz... tem uma boa vida... casa-te... arranja dez filhos... - retorquiu Sarah, mas não se tratava apenas de uma provocação. - Escreves-me? - perguntou, ansiosa.

- Imediatamente. É uma promessa. Talvez os teus pais detestem a Itália e voltem mais cedo para Londres.

- Duvido - afirmou Sarah. William era da mesma opinião.

- Sabes, de acordo com o que me têm dito, Mussolim é quase tão mau como Hitler.

- Não me parece que esteja à nossa espera. - Sarah sorriu. - Na verdade, nem sei se o veremos enquanto lá estivermos. - Estava novamente a brincar mas já não sabia que mais lhe poderia dizer. Tudo o que tinham a dizer um

ao outro era demasiado doloroso.

Regressaram ao hotel em silêncio. Naquela noite, era o próprio William que conduzia o carro. Não desejara ter um motorista a intrometer-se nos seus últimos momentos com Sarah. Deixaram-se ficar sentados no carro, durante muito tempo, conversando tranquilamente sobre o que tinham feito, o que poderiam ter feito e o que fariam quando Sarah voltasse a Londres antes de embarcar para a América.

- Passarei todos os minutos junto de ti até partires. É uma promessa. - Sarah sorriu quando olhou para ele, tão aristocrático e simpático. O duque de Whitfield. Talvez um dia pudesse contar aos netos até que ponto o amara, anos antes. Contudo, mais do que nunca, sabia que não podia fazê-lo perder o seu lugar na linha de sucessão.

- Escrever-te-ei, quando chegar a Itália - prometeu, sem saber muito bem o que iria dizer-lhe. Teria de se limitar a descrever-lhe o que estivessem a fazer. Não podia permitir-se contar-lhe os seus sentimentos. Tomara a decisão, muito firme, de não o encorajar a fazer qualquer loucura.

- Também te telefonarei, se conseguir a ligação - disse William, segurando-a nos braços e apertando-a. - Minha querida... nem imaginas como te amo. - Sarah fechou os olhos e as lágrimas deslizaram-lhe pelas faces enquanto, se beijavam.

- Também te amo... - murmurou, quando os lábios dos dois se afastaram por um instante. Viu que também havia lágrimas nos olhos dele e tocou-lhe nas faces com a ponta dos dedos. - Tens de te portar bem, sabes? Não temos escolha. Tens responsabilidades, William, e não podes ignorá-las.

- Posso, sim - respondeu o inglês, baixinho. - E se tivéssemos escolha? - Nunca estivera tão perto de lhe prometer um futuro.

- Não, não temos escolha. - Sarah pousou-lhe um dedo nos lábios e depois beijou-o. - Não o faças, William, não to permitirei.

- Porquê?

- Porque te amo - declarou, com firmeza.

- Então porque não dás o que ambos desejamos e não falamos a respeito do futuro?

- Não pode haver futuro para nós dois, William murmurou Sarah, com tristeza.

Quando William a ajudou a saír do carro, atravessaram O vestíbulo lentamente, de mãos dadas. Sarah voltara a envergar o seu vestido branco e exibia uma beleza extravagante. Os olhos de Willíam não a largavam, como se quisesse absorver todos os pormenores, para não vir a esquecê-los quando ela partisse.

- Ver-nos-emos em breve - disse. Voltou a beijá-la à vista dos empregados da recepção. - Não te esqueças que te amo.

Beijou-a novamente, quando Sarah respondeu que também o amava. Era uma agonia meter-se no elevador sem ele. As portas fecharam-se, pesadas. Enquanto subia, era como se estivessem a arrancar-lhe o coração do peito.

William ficou parado no vestibulo, olhando para as portas do elevador durante muito tempo, mas depois virou-se e encaminhou-se para o carro. Exibia uma expressão infeliz mas decidida. Sarah era teimosa, pensava que estava a proceder da melhor maneira, para bem dele, mas William Whitfield era ainda mais teimoso.

 

Para Sarah, a viagem para Roma, de combóio, pareceu-lhe interminável. Manteve-se silenciosa e pálida e os pais conversaram entre si em tons abafados mas raramente se lhe dirigiram. Ambos sabiam como a filha se sentia infeliz e pouco interessada em conversas. William telefonara instantes antes de partirem para a estação de Victoria. A conversa fora breve, mas houvera lágrimas nas faces de Sarah quando esta pegou na mala e saiu da sala. Por muito que gostassem um do outro, sabia que aquilo era o começo da separação final. Sabia, melhor do que ninguém, a situação sem esperança em que se encontravam e como fora louca ao deixar-se apaixonar por William. Agora teria de pagar o preço, de sofrer durante algum tempo e de obrigar-se a esquecê-lo. Não estava certa de querer vê-lo outra vez quando voltasse a Londres para embarcar. Era possível que um reencontro acabasse por ser muito doloroso.

Espreitava pela janela enquanto seguiam no combóio, forçando-se a pensar em Peter e Jane, bem como nos pequenos, James e Marjorie, e até em Freddie. Porém, por muito que se esforçasse por se distrair, descobria-se sempre a recordar William... ou a mãe... ou os amigos dele... ou a tarde que haviam passado em Whitfield... ou os momentos em que se haviam beijado... ou as noites em que haviam dançado.

- Sentes-te bem, querida? - perguntou-lhe a mãe, solícita, quando se dirigiram à carruagem-restaurante para irem almoçar. Sarah insistira que não tinha fome, pelo que o empregado iria levar-lhe uma taça com fruta e uma chávena de chá, pois era tudo o que desejava. No entanto, a mãe desconfiava de que Sarah nem sequer se daria ao trabalho de comer a fruta.

- Estou bem, mãe, descansa.

 

Contudo, Victoria sabia que não era verdade e disse ao marido, durante o almoço, que se preocupava por ver Sarah novamente tão magoada. Sofrera mais do que o suficiente, junto de Freddie, para passar agora por um novo desgosto.

Talvez tivessem procedido melhor não lhe permitindo aquele pequeno romance com o duque.

- Pode ser importante que a Sarah descubra o que na verdade sente por ele - respondeu Edward tranquilamente.

- Porquê? - inquiriu Victoria, intrigada. - Que diferença irá isso fazer?

- Nunca se sabe o que a vida nos traz, Victoria. Não é verdade?

Victoría perguntou a si mesma se Willíam teria dito alguma coisa ao marido, mas concluiu, sem lho perguntar, que era muito improvável. Depois do almoço, voltaram ao compartimento e encontraram Sarah a ler um livro. Era o A Inocência e o Pecado, de Graham Greene, que acabara de ser publicado e que William lhe oferecera para a longa viagem de combóio. Mas não era capaz de se concentrar no que lia e não recordava os nomes das personagens. De facto, não fazia ideia do que estava a ler e acabou por desistir.

Passaram por Dover, Calais e Paris, onde mudaram de combóio. Muito depois da meia-noite, Sarah continuava acordada, no escuro, escutando o som dos rodados enquanto rolavam pelo Norte de Itália. Cada som, cada quilómetro, cada volta das rodas, só a faziam pensar em William e nos momentos que passara com ele. Era muito pior do que tudo o que sentira depois de Freddie. A diferença estava no facto de o amar e de saber que ele a amava. No entanto, também sabia que o preço de um futuro para os dois seria demasiado caro para ele e recusava-se a deixá-lo pagar.

Acordou, pálida e fatigada, depois de poucas horas de um sono perturbado, quando já entravam na Stazione di Termini, na Piazza dei Cinquecento.

O Hotel Excelsior enviara um carro para os ir buscar e Sarah abriu caminho até ao condutor, indiferente. Transportava uma pequena mala de maquilhagem e a mala de mão, e usava um grande chapéu para se proteger do sol de Roma, sem prestar atenção a nada do que a rodeava. A caminho do hotel, o motorista apontou-lhes vários locais de interesse, tais como os Banhos de Diocleciano, o Palácio Barberini e os jardins dos Barghese. Porém, Sarah lamentava estar ali, e o modo como se sentia a respeito de William levava-a a temer as três semanas de visitas, na companhia dos pais, a Roma, Florença e Veneza.

Quando chegaram ao hotel, Sarah sentiu-se aliviada por poder ficar sozinha, no seu quarto, durante um bocado. Fechou a porta e deitou-se na cama de olhos fechados. Assim que o fez voltou a pensar em William. Era como se estivesse amaldiçoada. Levantou-se, salpicou a cara com água fria, penteou os cabelos e tomou um banho, que lhe soube muito bem depois da longa viagem de combóio, e voltou a vestir-se, envergando um fresco vestido de algodão. Uma hora depois, foi à procura dos pais. Também tinham tomado banho e mudado de roupa e todos pareciam sentir-se melhor apesar da temperatura abrasadora de Roma, em Agosto.

O pai planeara, para essa tarde, uma saída até ao Coliseu, cujos recantos exploraram sob um sol escaldante. Só voltaram ao hotel ao fim da tarde. Sarah e a mãe sentiam-se muito incomodadas com o calor. O pai sugeriu que parassem para beber qualquer coisa antes de subirem aos quartos, mas nem isso foi suficiente para se recomporem. Sarah bebeu duas limonadas e quando deixou a mesa para regressar sozinha ao seu quarto sentia-se como se tivesse cem anos. Deixou os pais a conversar e atravessou o vestíbulo lentamente, levando na mão o chapéu de palha que usara desde a manhã. Estava como que vazia e não conseguia pensar, o que em parte até era um alívio.

- Signorina Thompson? - perguntou-lhe um dos gerentes, discretamente, quando Sarah passou em frente da recepção.

- Sim? - Olhou para cima, distraída, interrogando-se porque a teriam chamado.

- Temos uma carta para si. - O homem entregou-lhe um sobrescrito, escrito por uma mão forte e familiar, enquanto a jovem perguntava a si mesma como poderia a carta ter chegado tão rapidamente. Abriu-a, parada em frente da recepção. A missiva limitava-se a dizer: «Amar-te-ei para sempre. William. » Sarah sorriu ao ler aquelas palavras, dobrou a folha de papel e voltou a metê-la no sobrescrito, apercebendo-se de que William a enviara para ali ainda antes de ela ter saído de Londres. Quando começou a subir as escadas, lentamente, tinha o coração e o cérebro repleto de imagens dele. Distraída, tocou em alguém que passava junto dela.

- Desculpe - murmurou, sem sequer olhar... e de repente sentiu-se agarrada, erguida no ar e apertada nos braços de alguém... e ali estava ele, em Roma, no hotel, beijando-a como se nunca mais a quisesse largar. Sarah não conseguia acreditar no que estava a acontecer.

- O que?... Eu... tu... William, onde é que tu estás? Quero dizer... Meu Deus, que estás aqui a fazer? - Perdera o fôlego e estava completamente estupefacta com o que William acabara de fazer. Por outro lado, também se sentia muito, muito satisfeita, e William mostrava-se deliciado.

- Se tens de saber, minha tonta... vim passar três semanas a Itália, contigo. Passaste mesmo junto a mim, no vestíbulo!

Ficara satisfeito com o ar completamente perdido que lhe vira. Também fora assim que se descobrira quando a deixara no hotel, em Londres. Precisara de menos de uma hora para decidir abandonar todas as cautelas e ir ao seu encontro em Roma. Agora, ao vê-la, mostrava-se duplamente contente por o ter feito.

- Receio ter más notícias para ti, minha querida. - Tinha uma expressão muito séria quando lhe tocou na face. Por instantes, Sarah preocupou-se com a mãe dele.

- O que é?

- Não me parece que possa viver sem ti. - Exibiu um grande sorriso, que Sarah lhe devolveu. Continuavam parados no meio das escadas, e as pessoas que passavam por eles sorriam, vendo-os a conversar e a beijar-se. Eram dois jovens muito atraentes, obviamente apaixonados, que as pessoas gostavam de ver.

- No mínimo, não devíamos tentar resistir? - perguntou Sarah, mas estava muito feliz para o desencorajar naquele momento.

- Não consegui aguentar. já vai ser suficientemente mau quando regressares a Nova Iorque. Aproveitemos este mês que temos pela frente. - Passou os braços em volta dela e beijou-a outra vez, precisamente quando os pais de Sarah começavam a subir as escadas. Edward e Victoria pararam, surpreendidos. Inicialmente não conseguiram perceber de quem se tratava e só viam a filha nos braços de um homem, mas depois Edward compreendeu e sorriu para eles, satisfeito. Subiram o resto das escadas muito devagar e momentos depois já os quatro se encontravam juntos. Sarah mostrava-se corada de felicidade e continuava a segurar a mão de William quando os pais se aproximaram.

- Vejo que veio servir-nos de guia, em Itália - disse Edward, divertido. - Foi muita consideração da sua parte, Vossa Graça. Muito obrigado por ter vindo.

- Achei que era a minha obrigação - afirmou William, com uma expressão feliz mas algo envergonhada.

- Estamos muito contentes por o ver. - Edward falava em nome de todos, incluindo Sarah, que se mostrava radiante. - Agora, a nossa viagem vai ser muito mais feliz. Receio que a Sarah não gostasse muito do Coliseu. - Sarah riu-se. De facto, odiara todos os momentos que passara sem William.

-  Tentarei portar-me melhor amanhã, pai.

- Tenho a certeza de que sim. - A seguir virou-se para William. - Presumo que tenha conseguido um quarto, Vossa Graça? - Estavam a tornar-se bons amigos e o Thompson mais velho gostava dele.

- Sem dúvida, senhor. Toda uma suite, muito agradável. Foi a minha secretária quem tratou disso e só Deus sabe o que ela lhes disse. A julgar pelo que me arranjaram, deve tê-los informado de que sou o herdeiro da coroa.

Todos se riram, continuando a subir as escadas, conversando sobre onde deveriam irjantar. William apertava a mão de Sarah e pensava no futuro.

 

Em Roma, o tempo voou, como se tivesse asas, e foi passado em visitas a catedrais, museus, ao monte Palatíno e também a alguns amigos de William, em encantadoras residências. Foram à praia, em óstia, e jantaram em restaurantes elegantes, com passagens ocasionais por exóticas trattorias.

No fim da primeira semana, mudaram-se para Florença, para mais visitas do mesmo género. Finalmente, na terceira semana, seguiram para Veneza. Por essa altura, William e Sarah estavam mais chegados do que nunca e ainda mais apaixonados. Parecia que pensavam e se moviam como se fossem apenas uma pessoa. Para os que os observavam e não sabiam quem eles eram, seria muito difícil acreditar que não eram casados.

- Tem sido divertido - disse Sarah, quando se sentaram junto à piscina do Royal Danieli num fim de tarde. Toda a viagem fora como uma espécie de lua-de-mel, excepto quanto ao facto de os pais estarem presentes e de ela e William não terem feito nada que não devessem, o que não fora fácil para ambos. Porém, tinham prometido um ao outro, logo no princípio, que se portariam bem.

- Amo-te desesperadamente - declarou William, feliz, apanhando banhos de sol. Nunca fora tão feliz na sua vida e sabia que nunca a abandonaria. - Penso que não deverias voltar para Nova iorque com os teus pais - acrescentou, meio a brincar, mas abriu um dos olhos para ver a reacção de Sarah às suas palavras.

- E que sugeres que faça? Que me mude para a casa da tua mãe, em Whitfield?

- É uma boa ideia, mas, com toda a franqueza, preferia ter-te comigo na minha casa de Londres.

Sarah sorriu. Nada lhe agradaria mais, mas tratava-se de um sonho que nunca se realizaria.

- Quem me dera, William - respondeu, baixinho, enquanto William se deitava de barriga e apoiava nos cotovelos para discutir o assunto com mais profundidade.

- O que é que te impede? Queres fazer o favor de mo recordares? - Sarah tivera sempre uma longa lista de objecções de que William troçara, sendo a primeira o seu divórcio e a segunda a posição dele na sucessão ao trono.

- Sabes bem porquê. - Porém, o inglês não queria saber. Por fim, Sarah beijou-o e incitou-o a mostrar-se grato pelo que tinham. Acabara por se sentir infinitamente grata por ele e por cada momento que passavam juntos. Sabia, talvez demasiado bem, que eram momentos preciosos, que muito provavelmente nunca viriam a acontecer na sua vida.

William sentou-se a seu lado e ficaram a observar os barcos e as gôndolas, à distância, bem como as torres da Catedral de São Marcos, que se erguiam para o céu.

- Sarah... - William pegou-lhe nas mãos. - Sarah, não ando a brincar.

- Eu sei.

Inclinou-se e beijou-a nos lábios, com suavidade, e disse algo que anteriormente nunca lhe dissera, pelo menos de um modo tão claro.

- Quero casar contigo. - Voltou a beijá-la de uma maneira que lhe confirmava que era verdade, mas Sarah acabou por o afastar e por abanar a cabeça, angustiada.

- Sabes bem que não podemos - sussurrou, enquanto ele continuava a beijá-la.

- Podemos, sim. Não vou deixar que o meu lugar na sucessão ou o teu divórcio sejam um obstáculo. Seria um absurdo. Em Inglaterra, ninguém, absolutamente ninguém, se preocupa com o que faço. A única pessoa que me interessa é a minha mãe, que te adora. Disse-lhe, ainda antes de a conheceres, que queria casar contigo. Mais tarde, depois de já te ter visto, afirmou que se tratava de uma boa ideia. Está inteiramente do teu lado.

- Disseste-lho antes de me levares a almoçar a Whitfield? - Sarah ficou horrorizada e William exibiu um sorriso malandro.

- Achei que devia saber até que ponto és importante para mim. Nunca antes lhe dissera isso a respeito de ninguém, e sabes o que me respondeu? Que ficava grata por ter vivido o suficiente para me ver apaixonado por uma rapariga tão simpática.

- Se eu soubesse disso quando me levaste lá... teria saído do carro e voltado para Londres, a pé! Como pudeste fazer-lhe uma coisa dessas? A tua mãe sabe do meu divórcio?

- Sim, já sabe - respondeu William, muito sério. Disse-lho mais tarde. Tivemos uma grande conversa antes de saíres de Londres e está completamente de acordo comigo. Afirmou que sentimentos como estes só surgem uma vez na vida, o que, no meu caso, deve ser verdade. Tenho quase trinta e seis anos e nunca Senti nada por ninguém excepto um desejo ocasional e muito aborrecimento. - Sarah riu-se ao ouvir o que ele lhe dizia e sacudiu a cabeça, espantada, pensando que a vida era completamente imprevisível, maravilhosa e surpreendente.

- E se te transformares num pária por minha causa? Sentia-se responsável por ele, mas estava muito aliviada com a reacção da mãe.

- Então... viremos para aqui e viveremos em Veneza. Até poderia ser agradável. - As objecções de Sarah pareciam não o incomodar. Não revelava a mínima preocupação.

- William, o teu pai foi o líder da Câmara dos Lordes. Pensa na desgraça que levarás à tua família e aos teus antepassados.

- Não sejas absurda. Não podem tirar-me o lugar. Minha querida, a única coisa a que terei de resignar é ao trono... e garanto-te que, graças a Deus, nunca tive nem terei a mínima possibilidade de lá chegar. Não consigo lembrar-me de nada que mais odeie. Se pensasse qe tinha uma possibilidade... já teria desistido dela há muitos anos. Ser o décimo quarto na linha de sucessão é apenas uma questão de prestígio e nada mais. Posso garantir-to. Serei perfeitamente feliz sem isso.

Mesmo assim, Sarah não desejava que o seu amor por ela lhe custasse fosse o que fosse que pudesse ser importante, para ele ou para a família.

- Não ficarás embaraçado quando as pessoas murmurarem que a tua mulher já foi casada anteriormente?

- Francamente... não! Não me ralo com isso. Por outro lado, não vejo como as pessoas irão saber, a não ser que lhes digas. Felizmente, não és a Wallis Simpson, apesar do que pareces pensar. Será que isto responde a todas as tuas objecções ridículas, minha querida?

- E tu... tu... - Sarah tropeçava nas suas próprias palavras enquanto tentava forçar-se a dar ouvidos à razão, mas a verdade era que o amava demasiado. - Amo-te muito... disse, beijando-o com força. William apertou-a contra si durante muito tempo e só a afastou ligeiramente para proferir uma ameaça.

- Não te deixarei partir até concordares em ser a próxima duquesa de Whitfield - sussurrou. - Se não concordares, direi a toda a gente, nesta piscina, que és a Wallis Simpson... Perdão, que és a duquesa de Windsor. - Aquele título ainda se lhe prendia na garganta e sentia-se muito satisfeito por não lhe terem concedido o direito ao tratamento por «Sua Alteza Real», o que deixara David furioso. Concordas? - murmurou, ansioso, beijando-a. - Casas comigo, Sarah?

Não necessitou de lho perguntar outra vez. Sarah acenou, com as lágrimas a encherem-lhe os olhos, e William beijou-a ainda mais demoradamente do que antes. Passou-se muito tempo antes de a largar e sorriu quando se levantou, envolvendo-se numa toalha.

- Então, está decidido - declarou, calmamente, estendendo-lhe uma das mãos. - Para quando marcamos o casamento?

Espantava-a ouvi-lo falar daquela maneira. Não conseguia acreditar que iam na verdade casar-se. Como era possível? Como se atreviam? Que diria o soberano? Os pais dela? Jane e todos os seus amigos?...

- Estás a falar a sério, não estás? - inquiriu, olhando-o, ainda espantada, mas incrivelmente feliz.

- Receio bem que sim, minha querida. Para toda a vida. Toda uma vida de amor junto dele. - Agora, só preciso que me digas a data do casamento.

Os olhos de Sarah enevoaram-se por momentos enquanto o olhava. Baixou um pouco a voz quando lhe respondeu.

- O meu divórcio será definitivo a dezanove de Novembro. Pode ser em qualquer momento depois dessa data.

- Estás livre no dia vinte? - perguntou William, mais do que apenas a brincar. Sarah soltou uma gargalhada, entontecida pelo encanto do que ele lhe dizia.

- Creio que esse será o Dia de Acção de Graças.

- Muito bem. O que comem os Americanos nesse dia? Peru? Então... teremos peru para o casamento.

Sarah pensou nos preparativos que teriam de fazer e no trabalho para a mãe, logo depois do Dia de Acção de Graças, e sorriu timidamente.

- Que tal no primeiro de Dezembro? Desse modo poderei passar o Dia de Acção de Graças com a família e terás algum tempo para falares com as pessoas, antes do casamento.

Ambos sabiam que, daquela vez, a festa seria para pouca gente. Depois do horror da festa de aniversário, Sarah não desejava reunir uma multidão.

- Pois que seja no primeiro de Dezembro. - Voltou a puxá-la para ele, contra o belo fundo de Veneza. - Creio, Miss Thompson, que estamos noivos. Quando damos a novidade aos teus pais? - Parecia um rapazinho feliz e Sarah respondeu com um sorriso malicioso.

- Que tal esta noite, ao jantar?

- Excelente!

Depois de a deixar no quarto, William ligou para a recepção e enviou um telegrama para a mãe, em Whitfield: «Momento mais feliz da minha vida. Quero partilhá-lo contigo imediatamente. Sarah e eu casamo-nos em Nova Iorque no primeiro de Dezembro. Espero ver-te em condições para a viagem. Que Deus te abençoe. William.»

Nessa noite, na casa de jantar do hotel, William encomendou o melhor champanhe, que lhes foi servido ainda antes de começarem a comer, embora habitualmente o preferissem à sobremesa.

- Parece que vamos ter uma grande noite, não é verdade? - comentou Edward enquanto bebericava o champanhe, de uma colheita excepcional.

- A Sarah e eu temos algo a partilhar convosco - respondeu William calmamente, mas com uma expressão mais feliz do que todas as que Sarah lhe vira. - Com a vossa autorização, e espero que também com a vossa bênção, gostaríamos de nos casar em Nova Iorque, em Dezembro.

Os olhos de Victoria Thompson arregalaram-se enquanto fitava a filha, deliciada. Num instante fugidio, em que nenhuma das mulheres reparou, houve um olhar de conivência entre os dois homens. William conversara com Edward antes de partirem de Londres. Edward respondera que, se fosse esse o desejo da filha, daria a sua bênção, com toda a satisfação, àquela união. Agora, estava genuinamente encantado ao vê-la concretizar-se.

- Têm a nossa bênção, é claro - garantiu Edward, oficialmente, depois de Victoria acenar o seu consentimento. Quando foi que se decidiram?

- Esta tarde, na piscina - explicou Sarah.

- Um excelente desporto... - comentou o pai, malicioso, e todos se riram. - Estamos muito felizes por vocês... Deus do céu... - exclamou Edward, que só agora se dava conta das implicações. - A Sarah vai ser duquesa! Pareceu agradado e impressionado. Porém, acima de tudo, estava satisfeito com William e com o tipo de homem que ele era.

- Peço desculpa por isso, é claro, mas tentarei compensá-la. Gostaria que conhecessem a minha mãe quando voltarmos a Londres. Tenho a esperança de que se sinta suficientemente bem para assistir ao casamento, em Nova Iorque... - Tinha dúvidas, mas iriam pedir-lhe e tentar convencê-la a ir. Wilham sabia que se tratava de uma grande viagem para uma mulher com a sua idade.

A mãe de Sarah interveio na conversa, querendo saber em que tipo de casamento estavam a pensar, em que data, onde teria lugar a recepção e onde iriam passar a lua-de-mel, ou seja, todos os pormenores que punham cabelos brancos nas mães sempre que se tratava de casamentos. Sarah explicou rapidamente que se tinha decidido pelo primeiro de Dezembro e que William estaria com eles no Dia de Acção de Graças.

- Ou antes... - acrescentou William. - Não consegui suportar um único dia longe dela quando vieram para aqui. Não sei como me aguentarei quando partirem para Nova Iorque.

- Será bem-vindo em qualquer altura - garantiu-lhe o pai de Sarah.

Passaram uma noite extraordinária, celebrando o noivado de Sarah e William. Os Thompson acabaram por os deixar, e ojovem par passou muito tempo no terraço, dançando aos acordes românticos da orquestra e fazendo planos sob a escuridão aclarada pelo luar. Sarah ainda não acreditava que tudo aquilo lhe estava a acontecer. Era como um sonho, tão diferente do pesadelo que experimentara com Freddie, William dava-lhe uma nova fé na vida. Dava-lhe amor, felicidade e muito mais do que alguma vez sonhara.

- Quero que sejas sempre feliz - disse-lhe William, enquanto se mantinham de mãos dadas, no escuro, bebericando mais champanhe. - Quero estar sempre presente, para ti, quando precisares de mim. Os meus pais também eram assim. Nunca se separaram e raramente se zangaram um com o outro. - William sorriu. - Espero que não tenhamos de esperar tanto como eles por um filho. já sou quase um velho. - Teria trinta e seis anos em breve e Sarah passara o seu vigésimo segundo aniversário junto dele, em Florença.

- Nunca serás um velho - retorquiu Sarah, com um sorriso. - Amo-te tanto... - murmurou, enquanto voltavam a beijar-se. Quando se beijavam, Sarah sentia cada vez maiores ondas de desejo e paixão, que eram mais dificeis de negar agora que sabiam que as poderiam satisfazer em breve. - Quem me dera podermos fugir durante alguns dias declarou, ardente, e William sorriu, com os seus dentes brancos a brilharem no escuro. Tinha um magnífico sorriso. Na verdade, Sarah amava tudo o que lhe dizia respeito.

- Houve uma ou duas vezes em que pensei fazer essa sugestão, mas a minha consciência levou a melhor. Os teus Pais ajudaram-me a manter-me honesto enquanto aqui estivemos. Todavia, não posso fazer juras para quando regressarmos a Londres,

Sarah riu-se ante o seu ar pesaroso e acenou.

- Eu sei! Penso que, para adultos, temos sido muito bem-comportados.

- Por favor, não contes com isso para o futuro. Posso garantír-te que o meu bom comportamento, como lhe chamaste, não é um sinal de indiferença mas sim de muito boas maneiras e de uma grande contenção. - Sarah voltou a rir-se, por causa da sua expressão sofredora, e William beijou-a na boca, com força, para provar o que dissera. - Penso que devemos ter uma lua-de-mel extremamente longa, num sítio muito distante... Talvez no Taiti? Numa praia deserta, com alguns nativos preguiçosos...

- Parece-me uma ideia maravilhosa. - Mas Sarah sabia que William estava apenas a provocá-la. Nessa noite falaram sobre a França, de que ambos gostavam, mesmo em Dezembro. Sarah não se importava com o mau tempo que pudesse fazer. De facto, pensava que podiam ficar aconchegados, o que lhe agradava.

A seguir, William referiu-se, muito a sério, a algo que ainda não haviam discutido antes, mas Sarah abrira-lhe uma porta.

- Não queria que pensasses que me ia aproveitar do facto de seres divorciada. Queria que as coisas fossem tal como seriam se nunca tivesses sido casada. Não me aproveitaria na altura e não o farei agora. Espero que compreendas.

Compreendia e estava-lhe grata. As coisas ainda teriam sido mais complicadas se tivesse havido um breve caso entre eles, que terminasse quando abandonasse a Europa e regressasse a Nova Iorque. Assim, nada tinham a lamentar. Na frente deles encontrava-se toda uma vida de alegrias compartilhadas, e Sarah mal conseguia esperar pelo casamento.

Nessa noite, conversaram até altas horas. Quando William a acompanhou ao quarto, foi-lhe mais difícil do que nunca deixá-la ali, sozinha. No entanto, forçaram-se a acabar com os beijos, e o inglês ficou a olhá-la, desejoso, até a ver fechar a porta da suite.

Todos aproveitaram os últimos dias em Veneza, em conjunto, e o regresso a Londres, de combóio, foi feito em triunfo. Havia um telegrama de Peter e Jane à espera deles no Claridge, dando os parabéns a Sarah pelo seu noivado, e William já recebera um da mãe, em Veneza, dizendo-lhe mais ou menos a mesma coisa. Garantira também, aos dois, que seria praticamente impossível ir a Nova Iorque para assistir ao casamento, mas que estaria com eles em espírito.

Os poucos dias seguintes foram um verdadeiro rodopio, visitando amigos, fazendo planos e anunciando o casamento. William e Edward redigiram um anúncio formal, que foi publicado no Times, causando um grande desapontamento entre as debutantes e as viúvas de Londres que perseguiam William havia quinze anos e que agora eram informadas de que a perseguição terminara. Os amigos de William mostraram-se satisfeitos por ele, e o secretário não conseguia dar vazão aos telefonemas, telegramas e cartas que começaram a chegar quando as pessoas souberam do noivado. Toda a gente queria oferecer-lhes festas, todos queriam conhecer Sarah, e esta teve de explicar, uma e outra vez, que era americana, que partiria para Nova Iorque dentro de poucos dias, e que teriam de esperar até depois do casamento para a poderem conhecer.

Antes da partida de Sarah, William conseguiu uma longa audiência com o seu primo Bertie, o rei Jorge VI, para lhe explicar que iria desistir do seu direito à sucessão. O soberano não ficou satisfeito, em particular depois do que o seu irmão fizera, mas o caso era muito menos dramático e acabou por concordar, apesar de revelar alguma pena, apenas do ponto de vista das tradições e do profundo afecto que partilhavam. William perguntou-lhe se lhe poderia apresentar Sarah antes de esta embarcar, e o soberano afirmou que teria muito gosto em conhecê-la. Na tarde seguinte, vestido com as suas calças formais, às riscas, com um casaco também formal e um chapéu de coco, William levou Sarah ao Palácio de Buckingham para uma audiência privada. Sarah usava um simples vestido preto, sem maquilhagem, com pérolas nas orelhas e no pescoço. Tinha um ar muito digno e encantador. Fez uma vénia a Sua Majestade e tentou obrigar-se a esquecer que William o tratava por Bertie, apesar de não o fazer naquele momento. Dirigiu-se-lhe por «Vossa Majestade» e apresentou-a ao rei de uma maneira extremamente formal. Contudo, passados alguns instantes, o soberano pareceu descontrair-se e conversou com ela amigavelmente a respeito dos planos que faziam e do casamento, afirmando que gostaria de vê-los em Balmoral quando regressassem. Gostava do Sítio porque era mais informal. Sarah ficou impressionada e comovida com o convite.

- Voltarão, para viverem em Inglaterra, não é verdade? perguntou o soberano, com uma expressão de preocupação.

- Sem dúvida, Vossa Majestade. - O soberano pareceu aliviado e beijou-lhe a mão quando se despediram.

- Vai ser uma bela noiva... e uma esposa encantadora, minha querida. Que a vossa vida seja longa e feliz, abençoada com muitos filhos.

Os olhos de Sarah encheram-se-lhe de lágrimas. Fez-lhe uma nova vénia enquanto William e o soberano trocavam um aperto de mão. A seguir, o soberano deixou-os, para ir tratar de questões mais importantes.

Quando se viram sozinhos na sala que o soberano abandonara, William sorriu para Sarah, abertamente e com satisfação. Orgulhava-se dela, estava feliz e aliviado por saber que o casamento teria a bênção real apesar de ter desistido do direito à sucessão.

- Vais ser uma bela duquesa - disse-lhe baixinho, para depois baixar a voz ainda mais. - Na verdade, também darias uma raínha espantosa! - Riram-se ambos, nervosos, para logo a seguir serem escoltados pelo camareiro que aparecera para os guiar. Sarah ainda se ressentia do nervosismo por que passara. Aquela não fora, de certeza, uma experiência vulgar. Mais tarde, numa carta, tentou explicá-la a Jane, antes que se esquecesse, mas a história, mesmo para ela, soava absurda e incrivelmente pretensiosa... «e depois o rei Jorge beijou-me a mão, parecendo também um pouco nervoso, e disse ... ». Era impossível de acreditar... e nem ela própria tinha a certeza de que fosse verdade.

Combinaram ir novamente a Whitfield para que os pais de Sarah pudessem conhecer a mãe de William. A duquesa ofereceu-lhes um magnífico jantar. Sentou o pai de Sarah a seu lado e passou a noite a louvar a bela rapariga que iria casar com William.

 

- Sabe - disse, nostálgica -, depois de um certo ponto da minha vida, nunca esperei vir a ter um filho... e foi então que apareceu o William. Tratou-se da mais extraordinária das bênçãos. Nunca me desapontou nem por um instante. Continuou a ser uma bênção durante toda a vida. Agora que encontrou a Sarah, a bênção é dupla.

Era uma afirmação tão agradável que fez as lágrimas subirem aos olhos de Edward. Ao fim da noite, já todos se sentiam como velhos amigos. Edward tentou incitá-la a ir a Nova Iorque com o filho, mas a duquesa insistiu que estava demasiado velha e frágil, e que a longa viagem seria muito cansativa.

- Há quatro anos que nem sequer vou a Londres. Receio que Nova Iorque fosse de mais para mim. Para além disso, seria um empecilho para todos vocês. Teriam de cuidar de uma velhota numa altura tão atarefada. Esperarei, para os ver quando regressarem aqui. Gostaria de fazer algumas melhorias na casa do William. Receio bem que o meu filho não faça ideia do que irão necessitar ou do que é preciso para que Sarah fique confortável e feliz. Terei de fazer algumas alterações na sua pequena casa rústica, para a tornar mais agradável para a Sarah. Penso que deveriam ter um campo de ténis, não acha? Ouvi dizer que estão na moda, mas o pobre William é tão antiquado...

Naquela noite, quando voltaram ao hotel, Edward maravilhou-se com a sorte que a filha iria ter, com um marido de quem gostava tanto e que a adorava apaixonadamente, e até com uma sogra que se preocupava tanto com a sua felicidade e conforto.

Graças a Deus! - disse à esposa, quando se despiam. É uma rapariga com muita sorte - concordou Victoria, mas também ela se sentia com sorte. Beijou o marido com ternura, lembrando-se do seu próprio casamento, na lua-de-mel e em como haviam sido felizes. Estava contente por saber que Sarah também iria conhecer algumas dessas alegrias. Passara momentos horríveis com Freddie e não os merecera. Contudo, agora, o destino compensara-a. William era excepcional e uma bênção para toda uma vida.

No seu último dia em Londres, Sarah era um farrapo nervoso. Tinha mil coisas para fazer e William queria que fosse dar uma boa vista de olhos à sua casa em Londres. Comprara-a aos dezoito anos, tinha boas acomodações para um homem solteiro mas não a imaginava a ser feliz ali durante muito tempo. Queria saber se Sarah desejava que procurasse uma casa maior, ou se preferia esperar até depois do Natal, quando regressassem da lua-de-mel em França.

- Querido, adoro esta casa! - exclamou Sarah quando examinou os aposentos bem desenhados e arrumados. Não era uma casa grande mas, no fim de contas, também não era mais pequena do que o apartamento que partilhara com Freddie. - Creio que é perfeita, pelo menos por agora.

Não se via a precisar de mais espaço até terem um bebé. No piso térreo havia uma grande sala, cheia de sol, uma pequena biblioteca a abarrotar de velhos livros com belas encadernações, que William levara de Whitfield, anos antes, bem como uma cozinha agradável e uma sala de jantar pequena, mas suficientemente grande para um jantar de festa, enquanto no primeiro andar existia um grande quarto, muito bonito mas algo masculino, bem como duas casas de banho, uma para William e outra para os convidados. No que se referia a Sarah, a casa era perfeita.

- E os roupeiros? - William tentava pensar em tudo. Para ele, aqueles problemas eram uma novidade, mas, acima de tudo, queria que ela fosse feliz. - Dou-te metade do meu. Posso mudar a maior parte da minha roupa para Whitfield. - Era surpreendentemente adaptável para um homem que sempre vivera sozinho e nunca fora casado.

- Não trarei muita roupa - respondeu Sarah.

- Tenho uma ideia melhor. Passaremos a andar nus. Saber que Sarah iria ser, muito em breve, a sua mulher, tornava-o mais atrevido.

De qualquer modo, Sarah gostava da casa e garantiu-lhe que não precisava de procurar outra.

- Não és muito exigente - comentou William.

- Então, espera... - retorquiu Sarah, maliciosa. Quem te diz que não me transformo numa tirana depois de estarmos casados?

Se o fizeres... bato-te e acabam-se os problemas.

É uma hipótese exótica. - Sarah levantou uma sobrancelha e William soltou uma gargalhada. Mal podia esperar para lhe arrancar a roupa e para fazer amor com ela durante dias a fio. Ainda bem que Sarah embarcaria na manhã seguinte.

Naquela noite jantaram sozinhos e foi com relutância que o inglês a levou ao hotel. Preferia tê-la levado para casa com ele, para a última noite, mas estava decidido a portar-se como um homem de honra, por muito que isso lhe custasse... e na verdade custava-lhe muito estar ali, com ela, no exterior do hotel.

- Toda esta insensatez da respeitabilidade não é fácil, sabes? - queixou-se. - Talvez apareça em Nova Iorque para a semana e te rapte, levando-te para qualquer lado. Ter de esperar até Dezembro começa a parecer-me desumano.

- É difícil, não é? - murmurou Sarah, mas ambos continuavam a pensar que deviam esperar, apesar de a jovem já não saber muito bem porque fora que isso lhes parecera tão importante. Outra coisa estranha era o facto de, apesar de ainda a entristecer, já encarar o seu aborto espontâneo de uma maneira mais filosófica. Se não tivesse acontecido, teria um filho de Freddie e até talvez ainda estivesse casada com ele. Assim, estava livre para começar uma nova vida, do princípio, e esperava, com fervor, que ela e William pudessem ter muitos filhos. Tinham falado num mínimo de quatro, ou até cinco ou seis, e era óbvio que a perspectiva lhe agradava. Mostrava-se excitado com tudo o que dizia respeito à sua vida junto dela e mal podiam esperar quando William a levou até junto da porta da suite.

- Queres entrar por um minuto? - sugeriu Sarah. William concordou com um aceno. Os pais de Sarah estavam deitados havia muito e queria ficar junto dela todos os momentos possíveis, antes que embarcasse, de manhã.

Seguiu-a para o interior. Sarah largou o abafo e a mala em cima de uma cadeira e ofereceu-lhe um brande, que William recusou. Estivera, durante toda a noite, à espera de uma oportunidade para lhe dar uma coisa.

- Vem sentar-te aqui, ao pé de mim, Miss Sarah.

- Portas-te bem? - Olhou-o de uma maneira provocadora e William riu-se.

- Não, se continuares com essa expressão... mas vem e senta-te por um minuto. Acho que conseguirei aguentar-me durante esse tempo.

William sentou-se no sofá de chíntz e Sarah instalou-se ao Seu lado enquanto o inglês procurava qualquer coisa no bolso.

- Fecha os olhos - pediu-lhe, com um sorriso.

- Que vais fazer-me? - Sarah ria-se, mas acabou por fechar os olhos.

- Vou pintar-te um bigode... Que pensas que vou fazer?

William beijou-a antes de Sarah poder responder. Simultaneamente, pegou-lhe na mão esquerda e enfiou-lhe um anel num dedo. Sarah sentiu o frio do metal e olhou para baixo, nervosa, quando o beijo terminou. Ofegou ao ver o que tinha no dedo. Mesmo sob a fraca luz, podia verificar que se tratava de uma bela pedra, com um lapidado antigo, que lhe agradava mais do que os modernos. Na sua mão esquerda, encontrava-se um diamante absolutamente sem falhas, perfeitamente redondo, de vinte quilates.

- O meu pai mandou-o fazer no Garrard’s, para o oferecer à minha mãe quando ficaram noivos. A pedra é muito boa e muito antiga... e a minha mãe quis que ficasses com o anel.

- É... o anel de noivado da tua mãe? - Sarah fitou-o com os olhos repletos de lágrimas.

- Sim. Quero que fiques com ele. Conversámos sobre isso durante muito tempo. la comprar-te um anel novo mas ela preferiu dar-te este. De qualquer modo, já não pode usá-lo por causa da artrite.

- Oh, William... - O anel era a coisa mais bela que Sarah alguma vez vira. Estendeu a mão e fê-lo sob a fraca luz. Tratava-se de um anel de noivado absolutamente fabuloso, e Sarah nunca fora tão feliz em toda a sua vida.

- É apenas para que não te esqueças a quem pertences quando embarcares naquele maldito navio. Vais para tão longe que nem sequer suporto pensar nisso. Irei telefonar-te de hora a hora para Nova iorque até ir ter contigo.

- Porque não vais mais cedo? - Olhava para o anel enquanto fazia a pergunta e William sorriu. Estava contente por Sarah ter, obviamente, gostado dele, e sabia que a mãe também ficaria satisfeita. Fora um gesto incrivelmente generoso da sua parte.

- Talvez o faça. Estive a pensar no mês de Outubro... mas ainda tenho tanta coisa para fazer aqui... Preciso de ver o que se está a passar com a quinta. - Tinham surgido alguns problemas que ainda necessitavam de solução e precisava de aparecer na Câmara dos Lordes antes de saír de Londres. - De qualquer modo, estarei lá no dia um de Novembro, sem falta. Tenho a certeza de que, por essa altura, já estarás meio louca com os preparativos para o casamento. Vou meter-me no caminho de toda a gente... mas não me ralo. Não conseguirei aguentar mais tempo sem voltar a ver-te.

William beijou-a e quase se esqueceram deles próprios, estendidos no sofá, enquanto o inglês passava os seus dedos compridos e esfomeados pelo seu corpo perfeito.

- Oh, Sarah... Meu Deus... - Sarah sentia-o a pulsar de desejo mas queria esperar até ao casamento. Desejava que fosse como uma primeira vez, como se não tivesse existido nem outro casamento, nem um Freddie. Também teriam esperado se William fosse o primeiro homem da sua vida. Era o que queria agora, excepto que havia momentos como aqueles em que quase se esquecia disso. Deslocou as pernas, num convite, e William lançou-se sobre ela... mas depois obrigou-se a afastar-se e levantou-se com um gemido de tristeza. Também ele queria esperar, por respeito por ela e pelo casamento.

- Afinal, talvez até seja bom que partas... - murmurou, num tom rouco, caminhando em volta do quarto para tentar acalmar os sentidos. Sarah também se levantou, com um aspecto amarrotado e apaixonado, mas acenando o seu acordo. De súbito, riu-se. Pareciam crianças excitadas.

- Somos terríveis!

- Nem por isso. - William riu-se. - Mal consigo esperar.

- Estou na mesma - confessou a jovem.

A seguir, William fez-lhe uma pergunta que sabia que não deveria fazer.

- Também foi assim... com ele? - O seu tom era profundo e carregado de desejo, mas havia muito que desejava saber. Sarah dissera que não o amara, mas William interrogava-se um pouco quanto ao resto.

Sarah abanou a cabeça lentamente e com tristeza.

 

- Não, não foi... Foi vazio... e sem sentimentos... Querido, ele nunca me amou e agora já sei que também não o amei. Na minha vida, nunca houve um amor como o teu... Nunca amei, nunca vivi... e nunca existi até te conhecer. Desde agora, até morrer, serás o meu único amor...

Desta vez havia lágrimas nos olhos de William quando a beijou. Contudo, não deixou que as coisas fossem longe de mais. Deixou-a, até à manhã seguinte, sentindo-se mais feliz do que alguma vez estivera em toda a sua vida.

Sarah permaneceu acordada durante a maior parte da noite, pensando nele e admirando o seu anel de noivado, no escuro. Na manhã seguinte, telefonou à duquesa de Whitfield para lhe dizer que aquele anel tinha para ela um grande significado, que lhe estava muito grata e que tinha um grande amor por William.

- Isso é tudo o que interessa, minha querida. Mas as jóias dão-nos uma grande satisfação, não é verdade? Faz uma boa viagem... e desejo-te um belo casamento.

Sarah agradeceu. Acabou de fazer as malas e uma hora mais tarde foi ao encontro de William, que a esperava no vestíbulo. Envergava um fato de lã branca da Chanel, feito especialmente para ela em Paris pela própria Coco Chanel, bem como o espantoso anel de noivado, e William quase a devorou quando a beijou. Ainda não esquecera o desejo que Sarah lhe despertara, no sofá, na noite anterior, e desejava poder acompanhá-los a bordo do Queen Mary.

- Imagino que o teu pai esteja muito contente por eu não poder ir - comentou.

- Penso que está muito impressionado com o teu comportamento exemplar - respondeu Sarah.

- Pois bem, não o irá estar durante muito mais tempo resmungou o inglês. - Creio que atingi os meus limites. Sarah sorriu e deram as mãos para seguirem os pais até ao Bentley de William, que se oferecera para os conduzir a Southampton. A bagagem seguira à frente. Porém, a viagem de duas horas passou-se depressa. Sarah avistou novamente ajá familiar forma do navio e recordou-se de como as coisas tinham sido diferentes quando haviam saído de Nova Iorque, apenas dois meses antes.

- Nunca se sabe o que a vida nos reserva, não é? - comentou Edward, benevolente, sorrindo para os dois e oferecendo-se para mostrar o navio a William, que estava mais interessado em continuar junto de Sarah. Recusou o convite com delicadeza. Acabou por os acompanhar até às respectivas cabinas e depois saíram todos para o convés. Deixou-se ficar aí, com um braço em volta dos ombros de Sarah e o rosto abatido, até soar o último sinal e as chaminés começarem a deitar fumo. De súbito, ficou aterrorizado ante a possibilidade de poderem enfrentar um desastre. Um primo seu estivera a bordo do Títanic, vinte e seis anos antes, e não suportava a ideia de poder acontecer qualquer coisa a Sarah.

- Por favor... tem cuidado contigo... não posso viver sem ti. - Nos últimos momentos manteve-se agarrado a ela como se se tratasse de um salva-vidas.

- Descansa, tudo correrá bem. Aparece em Nova Iorque logo que puderes.

- Assim farei... talvez já na próxima terça-feira - retorquiu, fazendo Sarah sorrir. Todavia, as lágrimas subiram-lhe aos olhos quando William voltou a beijá-la.

- Vou sentir a tua falta - murmurou Sarah.

- Também eu. - Agarrou-se a ela, obrigando um dos oficiais do navio a aproximar-se com algum receio.

- Vossa Graça, perdoe-me a intrusão, mas receio que... tenhamos de partir imediatamente. Vai ter de descer para terra...

 

- Muito bem, desculpem. - Esboçou um sorriso de compreensão. - Tomem bem conta da minha esposa e da sua família, sim? Ou antes, da minha futura esposa... Sorriupara ela, e o grande e belo diamante na sua mão esquerda brilhou sob o sol de Setembro.

- Com certeza, senhor. - O oficial pareceu impressionado e tomou uma nota mental para informar o comandante. A futura duquesa de Whitfield viajava com eles para Nova Iorque e seria, sem dúvida, alvo de todas as cortesias e do melhor serviço.

- Tem cuidado, querida. - Beijou-a pela última vez, trocou um aperto de mão com o futuro sogro, beijou calorosamente Victoria nas faces e abraçou-a. Só depois abandonOu o navio. Sarah chorava, mesmo contra a sua vontade, e até Victoria limpava os olhos com o lenço, tal era a emoção que sentia ao vê-los. William acenou freneticamente no cais até deixarem de poder vê-lo e Sarah permaneceu no convés durante mais duas horas, olhando para o mar, como se ainda pudesse avistá-lo se se esforçasse por o conseguir.

- Vem para baixo, Sarah - disse-lhe a mãe, com ternura. Agora, já não havia motivos para lamentações. Apenas para celebração. Quando Sarah desceu, tinha à sua espera um telegrama de William e um ramo de rosas tão grande que quase não passava pela porta da cabina. O cartão que acompanhava o ramo dizia: «Não suporto esperar nem mais um momento. Amo-te. Wíllíam.» A mãe sorriu, voltando a dar uma olhadela ao maravilhoso anel de noivado. Era espantoso pensar no que lhes acontecera em apenas dois meses. Victoria mal conseguia acreditar.

- És uma rapariga cheia de sorte, Sarah Thompson comentou, e Sarah teve de concordar, saboreando mentalmente aquele que iria ser o seu nome: Sarah Whitfield. Gostava do modo como soava... «Duquesa de Whitfield», sussurrou, com um ar grandioso, mas depois riu-se sozinha, cheirando o enorme ramo de rosas colocado na mesa ao lado da cama.

A travessia a bordo do Queen Mary parecia arrastar-se. Tudo o que Sarah desejava era chegar a casa e começar a planear o casamento. Foi mimada por toda a gente a bordo do navio logo que se espalhou a notícia de que era a futura duquesa de Whitfield. Foram convidados várias vezes para a mesa do comandante, e Sarah sentiu-se na obrigação de se mostrar mais sociável. Agora, tinha responsabilidades para com William, e os pais ficaram muito satisfeitos ao verificar como se modificara. William fizera coisas maravilhosas pela filha dos Thompson.

Quando chegaram a Nova Iorque já eram aguardados por Peter e Jane, que não tinham levado as crianças. Jane estava fora de si com todas as novidades e guinchou de delícia, incapaz de acreditar na beleza do anel de noivado de Sarah. Mostraram-lhes fotografias de William, ainda no carro, enquanto Peter e Edward conversavam infindavelmente sobre as notícias chegadas da Europa.

De facto, exactamente uma semana depois de terem regressado à América, as emissões de rádio normais foram interrompidas para transmitirem aos Americanos, o discurso de Hitler no congresso nazi de Nuremberga. Foi um discurso terrível e assustador, com muitas ameaças, perfeitamente claras para os que as ouviram, contra a Checoslováquia. Hitler declarou que a Alemanha não poderia continuar a tolerar a opressão dos Checos sobre os Sudetas e revelou que perto de trezentos mil alemães se encontravam a trabalhar no reforço da fronteira alemã ao longo da linha Siegfried. Os perigos eram óbvios mas mantinha-se a questão de saber o que Hitler iria realmente fazer e como reagiria o mundo quando o fizesse. O veneno, fúria e ódio que emanavam dele enquanto falava abalou os Americanos até ao mais profundo da alma, enquanto o escutavam, em directo, através das ondas de rádio. Pela primeira vez, a ameaça de uma guerra na Europa parecia-lhes real. Era óbvio que, no mínimo, os Checos iriam ser engolidos pelos Alemães, o que não constituía uma boa notícia para todos os que o ouviam.

Durante as semanas seguintes, as pessoas só falavam desse assunto. Os jornais anunciaram que os exércitos da Europa estavam a ser mobilizados, que as frotas estavam prontas e que a Europa aguardava a primeira acção de Hitler.

Depois, em vinte e um de Setembro, às oito e quinze minutos, hora de Nova Iorque, os acontecimentos em Praga atingiram o clímax. Os ministros franceses e britânicos anunciaram que não mobilizariam por causa da Checoslováquia, para não se arriscarem a enfrentar a fúria de Hitler. Sem solução, a Checoslováquia foi obrigada a capitular e a entregar-se às forças nazis de Adolf Hitler. Cerca das onze horas da manhã, em Nova Iorque, cinco da tarde em Praga, o governo chegara à conclusão de que não tinha outra hipótese. Praga capitulou às forças alemãs. Os seus apoiantes em todo o mundo ouviram a notícia e choraram.

Nessa data chovia em Nova Iorque, como se Deus chorasse pelos Checos, tal como Sarah fez quando ouviu as notícias. A emissão chegara a Nova iorque depois de descrever um estranho percurso, devido a «condições climatéricas dificeis» no Atlântico. Para rodear esse problema, seguira de Praga para a cidade do Cabo, e daí para Buenos Aires e Nova Iorque, onde fora ouvida em perfeitas condições. Porém, por volta do meio-dia, já nada havia para ouvir. Eram seis da tarde na Checoslováquia e a luta terminara. Sarah desligou o rádio, como quase toda a gente, e não chegou a ouvir os avisos emitidos às treze horas, anunciando que a tempestade que até aí pairara sobre o Atlântico poderia atingir Long Island. O vento já ganhara força e Sarah conversava com a mãe a respeito de ir para Southampton para começar a organizar o casamento. Tinha mil coisas a planear e a casa de Long Island era um local tranquilo, onde não seria perturbada.

- Não vais querer ir para lá com este tempo terrível, querida - replicou a mãe. Porém, Sarah não se importava. Gostava da praia sob a chuva, pois tornava-se, de algum modo, ainda mais tranquila e calma. No entanto, sabia que a mãe se preocupava quando Sarah conduzia à chuva, pelo que ficou em casa para a ajudar. O pai já falara com o homem a quem Sarah dera um sinal para a compra da quinta, explicando-lhe que a filha la casar e se mudaria para a Europa. O homem fora extremamente simpático e devolvera o dinheiro, mas mesmo assim o pai repreendera-a por ter feito uma coisa tão estúpida, garantindo-lhe que nunca lhe permitiria que vivesse sozinha em Long Island, numa quinta arruinada. Sarah aceitara o dinheiro, compreensiva, e metera-O no banco. Eram os mil dólares que recebera pela venda do anel de noivado que Freddie lhe dera, um objecto inútil de que nunca viria a sentir a falta.

Nessa tarde, à medida que a chuva la piorando em Nova Iorque, Sarah não se preocupava com a quinta, nem sequer com o casamento. Pensava em Praga e na terrível situação que lá se vivia quando, de súbito, ouviu as janelas do quarto a baterem violentamente. Eram duas da tarde, mas, quando olhou pela janela, estava tudo tão escuro que parecia meia-noite. As árvores no exterior da casa dos pais dobravam-se sob a força do vento e Sarah pensou que nunca vira uma tão violenta tempestade em Nova Iorque. Nesse momento entrou o pai, que voltara para casa mais cedo.

- Passa-se alguma coisa? - perguntou-lhe Victoria, preocupada.

- Já viste esta tempestade? Quase não consegui saír do carro e entrar no prédio. Tive de me agarrar aos postes do toldo e fui ajudado por dois homens. - Virou-se para a filha, com uma expressão carregada. - Tens ouvido as notícias?

- Sabia que a filha se mantinha bem informada e que costumava ouvir os noticiários da tarde quando estava em casa com a mãe.

- Só as da Checoslováquia. - Contou-lhes as últimas novidades, mas o pai pensava noutra coisa e abanou a cabeça.

- Isto não é uma tempestade vulgar - declarou, agoirento, dirigindo-se ao quarto para mudar de roupa. Regressou cinco minutos depois, vestido com roupa resistente, mais apropriada para a chuva.

- Que vais tu fazer? - inquiriu Victoria, nervosa. O marido tinha o hábito de fazer coisas que já se encontravam para além das suas capacidades e idade, como se quisesse provar que ainda era capaz de as realizar, embora nunca o tivesse sido. Continuava a ser um homem forte e em forma, mas já não era um jovem.

- Quero ir até Southampton para ter a certeza de que está tudo bem. Telefonei ao Charles, há cerca de uma hora, mas ninguém me respondeu.

Sarah fitou os olhos do pai apenas por um instante e depois declarou, com firmeza:

- Vou contigo.

- Não, não vais - argumentou Edward. Victoria começava a ficar realmente zangada com os dois.

- Estão a ser ridículos! É apenas uma tempestade. Se tiver acontecido alguma coisa, não há nada que vocês possam fazer.

Um velho e uma jovem não podiam combater as forças da natureza... mas nenhum deles partilhava essa opinião. Quando o pai vestiu o sobretudo, Sarah emergiu do quarto com as mesmas roupas velhas que usara durante o seu ano de solidão em Long Island. Calçara pesadas botas de borraCha, vestira umas calças de caqui, uma camisola de pescador e um impermeável.

- Vou contigo - anunciou pela segunda vez. O pai hesitou mas encolheu os ombros. Estava demasiado preocupado para argumentar.

- Está bem, vamos. Victoria, não te preocupes, nós telefonamos-te.

Victoria ainda estava furiosa com os dois quando os viu saír. Ligou o rádio enquanto desciam as escadas, se metiam no carro e arrancavam em direcção a Sunrise Highway, a caminho de Southampton. Sarah oferecera-se para conduzir e o pai rira-se.

- Aos teus olhos posso ser velho e fraco... mas não sou louco. - Sarah também se riu e recordou-lhe que era uma boa condutora. Depois disso, pouco disseram um ao outro. A força do vento era tal que se tornava quase impossível manter o carro na estrada, e fez, por mais de uma vez, com que o pesado Buick deslizasse dois ou três metros, de lado.

- Estás bem? - perguntou Sarah uma ou duas vezes, mas o pai limitou-se a acenar, sombrio, com os lábios transformados numa linha que lhe cortava o rosto e com os olhos semicerrados para conseguir ver através da chuva.

Ainda seguiam pela Sunrise Highway quando ambos avistaram um estranho e alto banco de nevoeiro a erguer-se do mar e a lançar-se contra a terra. Precisaram de alguns momentos para compreenderem que o que estavam a ver não era nevoeiro mas sim uma onda gigantesca. Uma muralha de água, de doze metros de altura, martelava a orla oriental da costa. Horrorizados, viram as casas a desaparecerem debaixo dela e chegaram a ter mais de meio metro de água a rodopiar na auto-estrada, em volta do carro.

Precisaram de mais quatro horas de condução contínua, no meio da chuva, para chegarem a Southampton. Seguiam em silêncio quando se aproximaram da propriedade de que ambos tanto gostavam, mas Sarah compreendeu que a paisagem fora brutalmente modificada. Casas que conhecera durante toda a sua vidajá lá não se encontravam, propriedades inteiras haviam desaparecido e a maior parte de Westhampton já não existia. Algumas dessas casas haviam sido enormes. Só mais tarde souberam que J. P. Morgan, amigo de Edward durante toda a vida, perdera toda a sua propriedade em Glen Cove. Porém, de momento, tudo o que viam era desolação. Havia árvores desenraizadas por todo o lado e edifícios reduzidos a destroços ou desaparecidos. Nalguns casos, enormes secções de terra, com as casas que lá se encontravam talvez há centenas de anos, haviam sido levadas pelo mar. Viam-se carros virados, e Sarah, de repente, compreendeu a extraordinária habilidade demonstrada pelo pai para os levar até ali. De facto, enquanto prosseguiam e olhavam em volta, podiam verificar que Westhampton parecia ter desaparecido completamente da face da costa de Long Island. Posteriormente, vieram a saber que cento e cinquenta e três das cento e setenta e nove casas aí existentes tinham desaparecido completamente, bem como a terra que as suportava. As que restavam encontravam-se demasiado destruídas para serem habitadas ou para serem reconstruídas.

Sarah sentiu o coração a cair-lhe aos pés quando avançaram lentamente na direcção de Southampton e quando atingiram a sua própria casa. Os portões haviam desaparecido, arrancados do chão, bem como os pilares de pedra que os suportavam, e tinham sido atirados para centenas de metros de distância. Os ferros pareciam-se agora com um modelo de linha de caminho-de-ferro de criança, mas os prejuizos eram reais e as perdas eram impossíveis de avaliar.

Todas as velhas e belas árvores se encontravam derrubadas, mas a casa continuava a erguer-se à distância. Vista do ponto onde se encontravam, parecia não ter sido afectada. Contudo, quando passaram pela vivenda do caseiro, verificaram que fora derrubada e que todo o seu conteúdo se encontrava espalhado pelo chão como se fosse lixo.

O pai estacionou o carro tão perto da casa principal quanto era possível. Havia meia dúzia de grandes árvores caídas sobre a estrada, impedindo-os de avançar mais. Saíram do carro e caminharam sob a chuva puxada a vento, cujas gotas lhes picavam o rosto como se fossem agulhas. Sarah tentou desviar a cara do vento mas era virtualmente inútil. Quando deram a volta à casa, verificaram que toda a parte oriental,virada para a praia, havia sido arrancada, levando consigo uma parte do telhado. O conteúdo dos quartos ainda se podia ver, tal como a cama dos pais, a de Sarah, e o piano da sala, isto porque a fachada desaparecera, derrubada e levada pela espantosa muralha de água que se abatera sobre ela. A visão fez com que as lágrimas lhe subissem aos olhos, que se misturaram com a chuva, mas quando se virou para o pai verificou que também ele chorava. Edward adorava aquele sítio e construíra-o anos antes, planeando-o com todo o cuidado. Fora a mãe quem desenhara a casa quando as filhas eram ainda pequenas, para depois, em conjunto, escolherem cuidadosamente cada árvore, cada viga e cada um dos objectos do interior. As enormes árvores que já lá se erguiam há centenas de anos, antes da chegada da família, também haviam desaparecido para sempre. Era algo que lhe parecia impossível de acreditar ou de compreender. Enquanto criança, aquela casa fora a sua alegria, e mais tarde servira-lhe de refúgio durante todo um ano. Agora, de repente, encontrava-se desesperadamente arruinada. Sarah olhou para o pai e percebeu que este receava que ainda tivessem acontecido coisas piores.

- Oh, paizinho... - gemeu, agarrando-se a Edward. Eram açoitados intermitentemente pelo vento, como se flutuassem em ondas. O que tinham pela frente desafiava a imaginação. O pai puxou-a para mais perto e gritou-lhe, por cima dos guinchos do vento, dizendo-lhe que queria regressar ao portão.

- Quero encontrar o Charles. - O mordomo era um homem bom, que tomara conta de Sarah como um pai quando esta se mantivera ali escondida.

 

Todavia, não se encontrava em lado nenhum, na sua pequena casa, cujo conteúdo, roupa, alimentos, mobílias desfeitas e até um rádio, se espalhara até muitos metros de distância. Edward ficou seriamente preocupado. Regressaram à casa principal. Pelo caminho, Sarah apercebeu-se de que a pequena cabana onde se vestiam para tomar banho desaparecera, bem como a casa dos barcos e as árvores que a rodeavam. As árvores encontravam-se derrubadas ou quebradas na estreita faixa que, apenas algumas horas antes, fora uma larga praia de areias brancas. Repentinamente, enquanto olhava, desanimada, para as árvores caídas, Sarah avistou Charles. Tinha cordas nas mãos, como se estivesse a tentar amarrar coisas, e usava o seu velho impermeável amarelo.

Fora esmagado por baixo de uma árvore que anteriormente se encontrava no relvado da frente mas que voara pelo menos duzentos metros para acabar por o matar. A areia poderia ter amortecido a pancada, mas a árvore era enorme e devia ter-lhe partido o pescoço ou as costas quando o atingira. Sarah lamentou-se, em silêncio, enquanto corria para ele. Ajoelhou-se ao lado do homem e sacudiu-lhe a areia da cara magoada. Nessa altura o pai viu-a. Chorou de pena enquanto a ajudava a libertar Charles. Juntos, transportaram-no para o abrigo do outro lado da casa e pousaram-no gentilmente no que havia sido a cozinha. Trabalhara para a família de Edward durante mais de quarenta anos, e já se conheciam, e gostavam um do outro, ainda nos tempos dejuventude. Era dez anos mais velho do que Edward, que não conseguia acreditar que Charles morrera. Fora como uma espécie de amigo de infância, fiel até ao fim, morto numa tempestade de que ninguem o avisara, uma vez que todos haviam tido os olhos virados para Praga e se haviam esquecido de Long Island. Fora a maior tempestade do seu género que jamais atingira a costa oriental. Fizera desaparecer cidades inteiras e abrira caminho, sem perder a força, através dos estados de Connecticut, Massachusetts e New Hampshire, causando setecentas vítimas, ferindo quase duas mil pessoas e destruindo tudo em que tocara até acabar por desaparecer.

A casa de Southampton não ficara irremediavelmente destruída, mas a morte de Charles afectou todos os Thompson. Peter, Jane e Victoria estiveram presentes no funeral. Depois disso, durante toda uma semana, os Thompson mais velhos e Sarah permaneceram na casa para tentar avaliar os estragos e para devolverem alguma ordem à propriedade. Só restavam dois quartos utilizáveis e não havia aquecimento nem electricidade, pelo que tiveram de se servir de velas e de Comer no único restaurante ainda em funcionamento em Southampton. Seriam precisos meses para reparar a casa, ou talvez anos, e Sarah sentia-se triste por ter de os deixar em breve, agora que aquilo acontecera.

Sarah conseguiu telefonar para William a partir do pequeno restaurante onde comiam, por recear que tivesse sabido da tempestade pelos jornais e estivesse preocupado. Na verdade, a tempestade que se abatera sobre Long Island causara um grande impacte até na Europa.

- Meu Deus, estás bem? - perguntou a voz de William, no meio dos estalidos da linha.

- Estou óptima - respondeu, aliviada por ouvir a sua voz forte e calma -, mas perdemos a maior parte da nossa casa. Os meus pais vão levar imenso tempo para a reconstruir. Felizmente, não perdemos a terra. A maioria das pessoas perdeu tudo. - Também lhe falou da morte de Charles, que William lamentou.

- Vou sentir-me muito feliz quando voltares para aqui. Quase morri quando ouvi falar nessa maldita tempestade, Imaginei que podias estar em Long Island para o fim-de-semana.

- Quase... - admitiu Sarah.

- Graças a Deus, não estavas. Por favor, diz aos teus pais que lamento muito, e que partirei para aí logo que puder, minha querida. É uma promessa.

- Amo-te! - gritou Sarah, por entre os estalidos da linha.

- Também eu te amo! Tenta não te meteres em sarilhos até à minha chegada!

Pouco depois, os Thompson regressaram à cidade. Oito dias depois da tempestade, teve lugar a assinatura do Pacto de Munique, que deu a toda a gente, na Europa, a ilusão de que as ameaças de Hitler haviam terminado. Quando voltou de Munique, Neville Chamberlam afirmou tratar-se de uma «paz com honra». Todavia, William escreveu a Sarah dizendo que continuava a não confiar no pequeno estupor de Berlim.

William planeava estar com ela no princípio de Novembro e Sarah andava atarefada com os preparativos para o casamento, enquanto os pais procuravam organizar tanto o casamento como as grandes reparações na casa de Long Island.

William chegou no dia quatro de Novembro, no Aquitania, no meio de toda a pompa e circunstância. Sarah aguardava-o no cais, na companhia dos pais, da irmã, do cunhado e dos filhos destes. No dia seguinte, os pais ofereceram um grande jantar para o homenagear e parecia que toda a gente que conheciam em Nova Iorque queria enviar-lhes convites para festas, num interminável rodopio social.

Seis dias mais tarde, quando se encontravam na casa de jantar a tomar o pequeno-almoço juntos, Sarah fez uma careta e levantou os olhos do jornal da manhã.

- Que quer isto dizer? - Parecia olhá-lo de uma maneira acusadora, mas William acabara de saír do seu hotel e ainda não lera o jornal.

- Que quer dizer... o quê? - Aproximou-se, para ler o jornal por cima do ombro dela, e franziu a testa ao ver os relatos sobre a Kristalinacht, enquanto tentava avaliar as implicações. - Parece-me uma história muito desagradável.. .

- Mas... porquê? O que os levou a fazer uma coisa destas? - Os nazis haviam partido todas as janelas e montras de todas as casas e lojas de judeus, haviam pilhado, assassinado e destruído sinagogas, aterrorizando as pessoas. O jornal também dizia que cerca de trinta mil judeus tinham sido enviados para campos de concentração. - Meu Deus, William, como é possível?

- Os nazis não gostam dos judeus. Não é nenhum segredo, Sarah.

- Sim... mas isto? - Tinha lágrimas nos olhos enquanto lia os artigos. No fim, passou-lhe o jornal, para que William também o pudesse ler. Quando o pai de Sarah apareceu, para tomar o pequeno-almoço, contaram-lhe tudo e passaram uma hora a discutir o perigo do que se passava na Europa. De súbito, o pai de Sarah lembrou-se de qualquer coisa e olhou-os.

- Quero que vocês dois me prometam que, se rebentar a guerra na Europa, virão para os Estados Unidos até tudo terminar.

- Não posso prometer uma coisa dessas - afirmou William, com toda a honestidade. - Mas prometo-lhe que lhe enviarei a Sarah.

- Não o farás! - Pela primeira vez, Sarah fitava o noivo com um ar zangado. - Não podes dispor de mim como se eu fosse uma peça de bagagem, nem para me enviares para casa com uma carta!

- Desculpa, Sarah - respondeu William, com um sorriso. - Não pretendi faltar-te ao respeito... mas penso que o teu pai tem razão. Se acontecer alguma coisa na Europa, acho que deves voltar para casa. Recordo-me da última guerra, quando era ainda um rapaz... e não é agradável viver sob a ameaça de uma invasão.

- E tu? Para onde irias?

- Muito provavelmente, terei de voltar ao serviço militar. Não me parece nada bem que todos os pares do Reino desapareçam, de férias no estrangeiro.

- Não és velho de mais para isso? - De súbito, Sarah parecia francamente preocupada.

- Ainda não. Querida, terei de o fazer...

Todos esperavam que a guerra não rebentasse, mas, quando terminaram o pequeno-almoço, já nenhum deles tinha grandes esperanças.

Na semana seguinte, Sarah apresentou-se no tribunal, com os pais, tendo-lhe sido entregues os documentos do divórcio. Apesar de tudo, e sabendo que tinha um futuro à sua espera, sentiu uma esmagadora vaga de humilhação. Fora estúpida ao casar com Freddie, que acabara por revelar que não prestava. Freddie continuava noivo de Emily Astor e casaria com ela no Natal, em Palin Beach. O facto já não a incomodava. Só lamentava ter casado com ele.

Nessa altura encontravam-se a apenas duas semanas do casamento, e William só deseJava estar junto dela. Saíam constantemente e foi um alívio quando se instalaram no apartamento de Nova iorque para uma tranquila refeição do Dia de Acção de Graças, na companhia da família. Tratou-se de uma experiência nova para William, que lhe agradou, e que o levou a sentir-se comovido por poder estar ali, com todos eles.

- Espero que o faças também, todos os anos - disse mais tarde, para Sarah, quando se encontravam sentados na sala, com Jane ao piano. As crianças já haviam sido levadas para os quartos, o que lhes permitiu passarem uma noite tranquila. Peter e William pareciam dar-se bem ejane sentia-se muito impressionada com o inglês. Dissera a toda a gente que conhecia que Sarah la ser duquesa. Mas, para Sarah, o que mais a tocava era a gentileza de William, bem como a sua inteligência e bondade. Por estranho que pudesse parecer, Sarah não dava qualquer importância ao título.

A última semana foi esgotante. Os pequenos pormenores relativos ao casamento pareciam nunca mais acabar, para além de ter de emalar muitas pequenas coisas. As arcas com as suas roupas já haviam sido embarcadas. Para além disso, pretendia visitar alguns velhos amigos, mas a verdade era quejá se sentia pronta para partir. Passou a véspera do casamento junto de William e aproveitaram para um tranquilo passeio em Sutton Place, perto do East River.

- Vais ficar triste por partires, minha querida? - William gostava da família de Sarah e pensava que o afastamento lhe iria ser difícil, mas a resposta surpreendeu-o.

- Nem por isso. De certo modo, já parti o ano passado... ou até antes disso. No fundo do coração, não planeava voltar aqui depois de me instalar em Long Island.

- Ah, sim... - William sorriu. - A tua quinta. Agora, até isso desaparecera. Os edifícios e a terra haviam sido arrastados pela tempestade que assolara Long Island em Setembro. Se Sarah lá estivesse, teria perdido tudo, e até talvez a vida, como acontecera com Charles. William estava muito satisfeito por tal não ter acontecido.

Sarah sorriu.

- Estou ansiosa pela nossa vida em comum. - Queria uma vida com ele, queria conhecê-lo melhor, o seu coração, a sua vida, os amigos, aquilo de que gostava e não gostava, a sua alma... e o seu corpo. Desejava ter filhos dele, um lar, ser dele e estar sempre perto para o ajudar.

- Também eu - confessou William. - A espera pareceu muito longa, não é verdade?

 

Houvera muita gente à volta deles, para os distrair. Todavia, tudo isso estava a terminar. Amanhã, àquela mesma hora, seriam marido e mulher, duque e duquesa de Whitfield.

Ficaram a olhar para o rio por momentos, mas depois William puxou-a para si com um ar muito sério.

- Espero que a nossa vida corra sempre com suavidade... e que, quando assim não for, tenhamos coragem, um Pelo outro e por nós próprios. - Virou-se para a olhar, com um amor incomensurável, o que para Sarah era muito mais importante do que qualquer título. - Espero nunca vir a desapontar-te.

- E eu a ti - respondeu Sarah, baixinho, enquanto observavam o fluir das águas do rio.

 

Na casa dos pais, naquela noite, encontravam-se reunidos noventa e três amigos quando Sarah, bela e reservada, desceu as escadas pelo braço do pai. Usava os compridos cabelos escuros presos num rolo e cobertos por um belo chapéu bege de renda e cetim, com um pequeno véu que lhe acrescentava um leve toque de mistério. O vestido também era de renda e cetim bege, e carregava um ramo de orquídeas bege. Quando desceu para a sala ganhou uma aparência alta e elegante, ao lado do seu duque. A casa de jantar fora transformada, para a ocasião, numa espécie de capela. Jane vestira-se de organdi de seda em azul-marinho e Victoria preferira um fato de brilhante cetim verde, que Elsa Schiaparelli desenhara de propósito para ela, em Paris. Os convidados constituíam um grupo dos mais distintos nomes de Nova Iorque. Compreensivelmente, nenhum dos Van Deering se encontrava presente.

Depois da cerimónia, em que William beijara discretamente a noiva, que o olhara, radiante, sabendo que a sua vida acabara de mudar para sempre, os hóspedes instalaram-se para jantar nas mesas dispostas na sala, e a casa de jantar transformou-se numa sala de baile. Foi uma noite perfeita para todos, subtil, discreta, bela, e todos consideraram tratar-se de um casamento encantador, e muito em especial no que se referia à noiva e ao noivo. Dançaram quase até ao fim da noite. Sarah dançou uma última vez com o pai, enquanto William dançava com a sua nova sogra e lhe garantia que gostara muito da cerimónia do casamento.

- Obrigada por tudo, paizinho - murmurou Sarah ao pai enquanto dançavam ao som de The Way You Look ToHight. - Foi perfeito.

Os pais haviam sido sempre bons para ela e muito compreensivos. Se não tivessem insistido em levá-la à Europa, no Verão anterior, nunca teria conhecido William. Tentou dizer-lhe tudo aquilo no decurso de uma dança, mas a sua Voz estava cheia de lágrimas. O pai também receava começar a chorar e não queria que isso acontecesse na frente de todos os seus amigos.

- Não tens que agradecer, Sarah. - Apertou-a contra ele por um instante e depois sorriu para a sua filha mais nova, pensando em como a amava. - Gostamos muito de ti. Vem visitar-nos sempre que puderes e nós também iremos visitar-te!

- Espero que sim! - Sarah fungou delicadamente e agarrou-se ao pai pela última vez. Tinha uma segunda oportunidade de ser o seu bebé, apenas por momentos. Depois, William interrompeu-lhes a dança e olhou para ela, e não viu uma criança mas sim uma mulher.

 

- Está pronta para partir, Vossa Graça? - perguntou-lhe, com todo o respeito, e Sarah soltou uma risadinha.

- As pessoas vão realmente tratar-me assim durante o resto da minha vida?

- Receio que sim, minha querida. já te o tinha dito... Por vezes, pode ser um fardo terrível. - A afirmação era apenas meio a brincar. - Vossa Graça, duquesa de Whitfield. Tenho de confessar que o título te fica bem. - Sarah tinha um ar extremamente aristocrático e usava os magnífi-cos brincos de diamantes em forma de pêra que William lhe oferecera como presente de casamento, complementados por um colar de diamantes a condizer.

Fizeram despedidas rápidas e Sarah atirou o seu bouquet das escadas antes de saír. Beijou os pais, agradeceu-lhes, sabendo que voltaria a vê-los no navio, no dia seguinte, quando embarcassem. Sarah também beijou Peter e Jane e correu uma última vez à cozinha para ir agradecer aos criados. Depois, de repente, no meio de uma chuva de arroz e flores, meteram-se no Bentley que lhes tinha sido emprestado, para irem passar a noite ao Waldorf-Astoria. Havia lágrimas nos olhos de Sarah quando se afastou dos pais. Agora, a sua vida iria ser diferente. Desta vez, tudo iria ser diferente. Amava William e la viver para muito longe, em Inglaterra. Por um instante, chegou a sentir saudades só por pensar que os la deixar para trás. No carro, a caminho do hotel, foi dominada pelas emoções e conservou-se muito calada.

- Meu pobre amor... - murmurou William. Era como se lhe conseguisse ler os pensamentos. - Vou levar-te para longe de toda esta gente que te ama. Todavia, também eu te amo, e prometo-te que farei sempre o possível para que te sintas feliz onde quer que estivermos. - Apertou-a nos braços e Sarah sentiu-se segura enquanto sussurrava para o marido:

- Também eu...

Mantiveram-se agarrados um ao outro durante o resto do caminho até ao hotel, sentindo-se cansados mas em paz. Fora um dia maravilhoso mas também muito fatigante.

Quando chegaram ao Waldorf-Astoria, na Park Avenue, o gerente do hotel esperava-os, cheio de vénias, garantindo-lhes uma adoração total. Sarah divertiu-se com o comportamento do homem, que também considerava ridículo. Quando chegaram à enorme suite no Towers já Sarah, mais à vontade, se ria às gargalhadas.

- Que vergonha! - admoestou-a William, mas num tom brincalhão. - Espera-se que leves essas coisas muito a sério. Pobre homem, era capaz de te beijar os pés, se lho permitisses. Talvez o devesse ter feito! - prosseguiu William, provocando-a. Estava habituado àquele tipo de situações mas sabia que, para ela, se tratava de uma novidade.

- Foi tão parvo que não consegui manter uma expressão séria!

- É melhor que te vás habituando, querida. Isto foi apenas uma amostra... e as coisas irão continuar a ser assim durantemuito, muito tempo. Mais do que aquele que duraremos.

Foi o começo de muitas coisas novas, e William pensara em tudo para um princípio de vida em comum cheio de felicidade. A bagagem de Sarah havia sido levada para ali naquela manhã, a camisa de dormir de renda branca e o rouPão já se encontravam em cima da cama, bem como as suas chinelas de renda branca. William encomendara champanhe, que os esperava no quarto. Pouco depois de chegarem, quando ainda conversavam sobre o casamento e bebericaVam champanhe no pequeno quarto da suite, apareceram dois criados com uma ceia. William encomendara caviar, salmão fumado e ovos mexidos, não fosse dar-se o caso de Sarah ter estado demasiado nervosa para comer durante o dia, o que na verdade acontecera, sem no entanto ter a coragem de admitir que estava esfomeada. A ceia incluía um pequeno bolo de casamento, completo, com as figuras de uma noiva e de um noivo, que era uma oferta do gerente do hotel e do seu mestre pasteleiro.

- Não há dúvida de que pensas em tudo! - exclamou Sarah. Parecia uma criança, alta e graciosa, a bater palmas de contentamento, olhando para o bolo e para o caviar. Os criados desapareceram instantaneamente. William aproximou-se dela e beijou-a.

- Pensei que pudesses ter fome.

- Conheces-me de mais. - Riu-se enquanto se atirava ao caviar e William fez-lhe companhia. Pela meia-noite ainda estavam a conversar, embora já tivessem terminado a ceia. Pareciam dispor, e muito em particular naquela noite, de infindáveis interesses comuns e de fascinantes temas para discussões. Todavia, William tinha outras coisas em mente. Por fim, bocejou e espreguiçou-se, numa sugestão discreta.

- Estou a aborrecer-te? - perguntou Sarah, subitamente preocupada.

William riu-se. De certo modo, Sarah era ainda muito jovem, facto que ele adorava.

- Não, meu amor, mas este velhote está cansado até aos ossos. Poderei convencer-te a adiarmos o resto desta conversa fascinante para amanhã de manhã?

Na verdade, tinham estado a discutir a literatura russa, quando comparada com a música russa, tema que não parecia ser muito premente, em particular numa noite tão especial como aquela.

- Desculpa. - Sarah também estava cansada, mas o facto de se encontrar com ele deixava-a tão feliz que não se importaria de passar toda a noite a conversar. Para além disso, era muito jovem. De certo modo, com vinte e dois anos, pouco mais era do que uma criança.

A suite tinha duas casas de banho e William desapareceu numa delas poucos momentos depois. Sarah dirigiu-se para a outra, cantarolando baixinho, levando a camisa de dormir de renda, os chinelos e a pequena mala da maquilhagem. Pareceram passar-se horas antes de voltar a aparecer, e William esperou-a discretamente, debaixo dos lençóis, com as luzes apagadas. Porém, a luz suave da casa de banho permitiu-lhe apreciar o seu aspecto magnífico quando reapareceujá com a camisa de noite de renda.

Sarah avançou para a cama em bicos de pés, hesitante, com os longos cabelos escuros atraentemente dispostos sobre um ombro. Mesmo a curta distância, William conseguia sentir a magia do perfume que Sarah usava. Era sempre Chanel n.o 5 e bastava, onde quer que estivesse, que esse perfume lhe chegasse ao nariz para o fazer recordar-se dela. Deixou-se ficar quieto por instantes, sob a fraca luz, observando-a. Parecia uma jovem corça, hesitante, para depois avançar lentamente para ele.

- William... - murmurou. - Estás a dormir? William, que a observava com um olhar esfomeado, não conseguiu impedir-se de rir. Esperara cinco meses por aquele momento... e Sarah pensava que ele fora dormir, na própria noite de núpcias, antes de a ver aparecer. Por vezes adorava aquela sua inocência, bem como o seu absurdo sentido de humor. Era maravilhosa e naquela noite, amava-a mais do que nunca.

- Não, meu amor, não estou a dormir - sussurrou, na escuridão, com um sorriso. Estava tudo menos a dormir quando estendeu as mãos para ela. Sarah sentou-se na cama, a seu lado, um pouco receosa, agora que já não existiam barreiras entre eles. William apercebeu-se disso e foi infinitamente gentil e paciente enquanto a beijava. Queria que ela o desejasse tanto quanto ele a desejava. Queria que tudo fosse perfeito e bom. Contudo, precisou apenas de um instante para lhe despertar a chama. Quando as suas mãos começaram a percorrer sítios que nunca vira, Sarah descobriu em si mesma o acordar de uma paixão que nunca antes sentira. O que anteriormente conhecera do amor fora limitado, muito breve, quase inteiramente desprovido de ternura e de sentimentos. William era um homem diferente de todos os que conhecera, sem nada em comum com Freddie Van Deering.

Wilham ansiava por ela enquanto lhe acariciava gentilmente os seios e deslocava as mãos por sobre as ancas elegantes, até ao sítio onde as pernas se juntavam. Os seus dedos eram suaves e habilidosos e Sarah já gemia quando acabou por puxar a camisa de dormir por cima da cabeça e a atirou para o chão. William rolou para cima dela, com cuidado, e penetrou-a com toda a contenção. Todavia, não precisou de se conter durante muito tempo. Ficou surpreendido e agradado quando descobriu que tinha uma parceira ansiosa e enérgica. Fizeram amor até de madrugada, tentando satisfazer os desejos que ambos haviam sentido durante tanto tempo, até que as forças lhes faltaram. Deixaram-se ficar, de membros entrelaçados, saciados até à alma e totalmente exaustos.

- Meu Deus... - murmurou William. - Se eu soubesse que la ser assim, atirava-te ao chão e atacava-te logo ali, naquela tarde em que nos conhecemos na casa do George e da Belinda.

Sarah sorriu, ensonada, olhando-o. Estava feliz por o ter satisfeito e ele fizera-lhe coisas com que ela nem sequer sonhara.

- Não sabia que podia ser assim - afirmou, baixinho.

- Nem eu. - Wilham sorriu e rolou para um lado para a poder olhar. Agora que a possuíra, achava-a ainda mais bela. - És uma mulher notável. - Sarah corou ligeiramente ao ouvir aquelas palavras, mas alguns minutos depois já estavam a dormir, agarrados um ao outro, como duas crianças felizes.

Duas horas mais tarde, acordaram sobressaltados quando o telefone tocou às oito horas. Era da recepção, a quem haviam pedido que os despertassem. Tinham de estar a bordo do navio às dez horas daquela manhã.

- Oh, Deus do céu - gemeu William, pestanejando, enquanto tentava acender a luz e atender o telefone ao mesmo tempo, para agradecer a chamada. Não tinha a certeza se aquilo que sentia se devia ao amor ou ao champanhe, mas era como se alguém lhe tivesse extraído todas as parcelas da sua força vital. - Agora, já sei como Sansão se deve ter sentido depois de conhecer Dalila - comentou. Pegou num longo caracol de cabelos pretos encurvados por cima de um seio firme e dobrou-se para lhe beijar o mamilo. Apesar de lhe custar a acreditar, sentiu-se novamente a despertar. Acho que morri e fui para o paraíso...

Fizeram amor outra vez, antes de se levantarem, e a seguir tiveram de se vestir à pressa para poderem embarcar. Nem sequer tiveram tempo para comer. Limitaram-se a beber uma chávena de chá. Riram-se e provocaram-se um ao outro quando fechavam as últimas malas e se precipitavam para a limusina que os esperava, com Sarah a tentar manter o aspecto digno e sério de uma duquesa.

- Nunca imaginei que as duquesas fizessem coisas daquelas... - sussurrou para William, quando já se encontravam no carro, depois de levantarem o vidro que os separava do condutor.

- E não fazem! Acredita no que eu te digo, minha querida: és notável! - Todavia, quando embarcaram no Normandie no Cais 88 da West 50th Street, William tinha o ar de alguém que encontrara um grande diamante dentro de um sapato. Sentia-se um pouco desleal ao embarcar num navio francês, mas estes eram muito mais divertidos e ouvira dizer que o Normandie oferecia travessias maravilhosas.

Foram recebidos como se pertencessem à realeza e instalados na suite denominada Deauville, no Sun Deck. A suite gémea, a Trouville, era ocupada pelo marajá de Karpurthala, que a utilizava frequentemente desde a viagem inaugural do navio.

 

William olhou em volta e ficou muito satisfeito.

- Odeio dizê-lo, mas a French Line bate a Cunard aos pontos no que se refere ao conforto. - Em todas as suas viagens pelo mundo, nunca vira um navio com tanto luxo. Era realmente espectacular e o que haviam visto até aí prometia uma viagem verdadeiramente extraordinária.

O salão da suite estava cheio de champanhe, flores e cestos de fruta. Sarah notou que um dos bouquets mais bonitos fora enviado pelos pais, e que havia outro de Peter e Jane. Estes apareceram momentos depois. Quando Jane sussurrou uma pergunta à irmã, as duas mulheres riram-se como colegiais. Antes da partida, Sarah e William voltaram a agradecer aos Thompson aquele maravilhoso casamento.

- Foi formidável - garantiu William a Edward. - Perfeito sob todos os pontos de vista.

- Vocês deviam estar exaustos.

- Estávamos, sim. - William tentou parecer vago e esperou tê-lo conseguido. - Bebemos um pouco de champanhe quando chegámos ao hotel... e fomo-nos abaixo. - Porém, quando o disse, olhou para Sarah de soslaio e teve receio de ficar corado. Beliscou discretamente o traseiro de Sarah quando ela passou junto dele, no momento em que Victoria dizia à filha que o vestido novo lhe ficava muito bem. Tinham-no comprado no Bonwitt Teller para o seu enxoval. Era um vestido branco, de caxemira, com uma maravilhosa prega sobre uma anca. Por cima, Sarah vestira o novo casaco de vison que os pais lhe haviam dado de presente, dizendo-lhe que serviria para a aquecer durante os longos Invernos ingleses. Ficava muito elegante, em conjunto com um chapéu muito inclinado, ornamentado com duas enormes penas pretas presas na parte traseira.

- Estás encantadora, querida - disse a mãe. Por um instante, Jane sentiu uma onda de inveja da irmã. la ter uma vida brilhante e William era um homem atraente. Amava muito o seu próprio marido, mas a sua vida nada tinha de excitante. Contudo, a pobre Saralijá passara por momentos dificeis. Custava a acreditar que uma história tão triste terminara de um modo tão feliz, com um final próprio dos romances. A história na realidade ainda não terminara, e Jane esperava que Sarah fosse feliz em Inglaterra, ao lado do duque. Era difícil imaginar o contrário, sendo ele tão simpático e bem-parecido. Jane suspirou ao vê-los de mão dada, parecendo extremamente felizes.

- Vossa Graça... - O oficial do navio apareceu à porta da suite e anunciou que todos os visitantes deveriam desembarcar nos próximos minutos. O aviso levou lágrimas aos olhos de Victoria e Jane, e Sarah teve de combater as suas próprias lágrimas quando as beijou, bem como ao pai e às crianças dejane. Abraçou-os a todos e finalmente ao pai, pela última vez.

- Escrevam-me, por favor... Não se esqueçam... Estaremos em Londres logo depois do Natal. - Iriam passar o dia de Natal no continente. A mãe de Wilham insistira que tinha tanto a fazer em Whitfield que nem daria pela falta deles e William gostara da ideia de passar o Natal sozinho com Sarah, em Paris.

Sarah voltou a vestir o seu casaco de peles e saíram todos para o convés, onde voltaram a beijá-la e a apertar a mão de William. A seguir, Edward conduziu a sua família para o cais. Também tinha lágrimas nos olhos e quando olhou para Sarah, já no cais, deixou que lhe corressem livremente pelas faces sem sequer tentar escondê-las.

- Adoro-vos... - articulou Sarah, acenando freneticamente com uma das mãos e agarrada a William com a outra. Soprou beijos para todos eles enquanto se afastavam do cais no meio de uma chuva de serpentinas e de papelinhos coloridos, ao som de uma banda, instalada algures noutro convés, que tocava A Marselhesa. Enquanto os via a afastarem-se, sabia que nunca esqueceria o muito que a família significava para ela naquele momento.

William segurou-a pela mão, com força, até o enorme navio começar a virar lentamente para o rio Hudson, fazendo com que deixassem de ver as pessoas que se encontravam no cais. Sarah tinha lágrimas a molharem-lhe o rosto e sentiu um soluço a prender-se-lhe na garganta quando William voltou a tomá-la nos braços.

- Está tudo bem, querida, estou aqui contigo... Voltaremos a vê-los em breve. É uma promessa - acrescentou, falando a sério.

- Desculpa... pareço uma ingrata... mas amo-os tanto... e a ti também.

Tinham acontecido tantas coisas nos últimos dias que ainda se sentia avassalada por todas as suas emoções. William conduziu-a de volta ao camarote e ofereceu-lhe mais champanhe, mas Sarah admitiu, com um sorriso cansado, que o que mais lhe apetecia era uma chávena de café.

William tocou para chamar um criado de bordo e encomendou café, um chá dejasmim para ele próprio e torradas de canela em substituição do pequeno-almoço que não haviam tomado. Sentaram-se, mastigando, bebendo e conversando. Pouco depoisjá o desgosto de Sarah abrandara e sentia-se muito melhor. William gostava do facto de Sarah se Preocupar tanto com a família e se mostrar tão franca a resPeito dos seus sentimentos.

- Que gostarias de fazer hoje? - perguntou-lhe, dando uma vista de olhos pelas listas do restaurante e pelas brochuras que lhes mostravam todas as actividades e diversões oferecidas pelo enorme navio. - Queres ir nadar na piscina, antes do almoço? Ou preferes um jogo de marelas? Podemos ir ao cinema logo depois do chá. Vejamos... vão projectar La Femme du Boulanger, de Marcel Pagnol, se ainda não o viste.

Sarah já vira o filme e adorara Regain, também de Pagnol, que vira no ano anterior, mas não lhe interessava. Era muito mais divertido fazer coisas com ele, pelo que se aproximou para examinar a brochura informativa. Ficou espantada com o que a French Line tinha para oferecer aos seus passageiros. Enquanto lia, sentiu William tocar-lhe no pescoço com a ponta dos dedos, que desceram lentamente até aos seus seios. De repente beijou-a e a seguir descobriram-se na cama, esquecidos de todas as outras formas de entretenimento. Estava na hora do lanche quando regressaram à realidade e Sarah riu-se baixinho, mastigando a torrada que ficara no prato, pousado perto da cama.

- Está a parecer-me que não vamos perder muito tempo com desportos durante a viagem, não é?

- Nem sequer sei se chegaremos a saír do camarote. Como que para lho provar, Sarah voltou a provocá-lo, obtendo uma reacção muito mais rápida do que esperara.

Depois disso seguiram para a banheira, onde voltaram a fazer amor. Aventuraram-se a saír já quase ao fim da tarde, parecendo um pouco embaraçados com os horários que haviam seguido até ali.

- Vamos arranjar uma bela reputação neste navio sussurrou-lhe William. - Ainda bem que escolhemos um navio francês.

- Achas que sabem? - Sarah parecia um pouco nervosa. - No fim de contas, é a nossa lua-de-mel.

- Oh, é verdade. Como pude esquecer-me? Olha, a propósito, penso que deixei a carteira no camarote. Importas-te que voltemos atrás para a ir buscar?

- De modo nenhum - concordou Sarah, incapaz de imaginar para que precisava William da carteira. Todavia, o inglês insistiu. Assim, Sarah regressou ao camarote com ele. Logo que a porta se fechou atrás deles, William agarrou-a.

- William! - guinchou Sarah, rindo-se. - És um tarado!

- De modo nenhum! Garanto-te que, em geral, sou muito respeitável. A culpa é toda tua! - disse, enquanto lhe devorava o pescoço, os seios, as coxas e até outras zonas mais íntimas.

- A culpa é minha?! Que foi que fiz? - Porém, adorava tudo o que se estava a passar quando caíram no chão da sala e William começou novamente a fazer amor com ela.

- És demasiado apetitosa! - respondeu, fechando os olhos e penetrando-a apesar de ainda se encontrarem meio vestidos e de jazerem no chão do camarote.

- Também tu - murmurou Sarah, dando um pequeno grito. Passou-se muito tempo antes de se levantarem do chão e seguirem para o quarto, deixando um rastro de peças de roupa.

Nessa noite nem se deram ao trabalho de irem jantar. Quando o camareiro lhes telefonou, propondo levar-lhes o jantar ao camarote, William recusou, afirmando, com um tom queixoso, que estavam ambos enjoados. O camareiro propôs-lhe bolachas e sopa, mas William informou-o de que queriam dormir. Depois de desligar, o pequeno camareiro francês sorriu para a criada.

- Mal de mer? - perguntou esta, interrogando-se sobre se aqueles dois passageiros estariam enjoados, mas o camareiro piscou-lhe um olho. Observara-os com atenção e percebera o que se passava.

- Mon oeíl! Lune de míel! - Lua-de-mel, explicou. A criada riu-se quando o camareiro a beliscou.

Na manhã seguinte, William e Sarah apareceram no conVés com um aspecto saudável e descansado. William parecia incapaz de deixar de sorrir para ela. Sarah não parou de rir durante o passeio em volta do convés, acabando por se sentarem em duas cadeiras.

- Se não acabares com esse sorriso, as pessoas vão perceber o que temos andado a fazer.

- Não consigo evitar. Nunca fui tão feliz na minha vida. Quando voltamos para o camarote? Juro-te que isto está a tornar-se um vício!

- Se voltas a tocar-me... chamo o comandante! Quando chegarmos a Paris nem sequer vou conseguir andar.

- Eu levo-te ao colo. - Sorriu, inclinou-se para ela e beijou-a, mas Sarah não pareceu nada preocupada. Também estava a gostar e amava-o. Naquele dia fizeram um esforço para investigar o navio e conseguiram manter-se fora da cama até à hora do chá. Só por essa altura se permitiram uma breve recompensa, para depois se vestirem outra vez e saírem a tempo do jantar.

Sarah adorava a sala de jantar do Normandie. Era um conto de fadas de elegância, com um tecto que ficava três conveses mais acima e uma sala um pouco mais comprida do que o Salão dos Espelhos, do Palácio de Versalhes, e não menos impressionante. O tecto era dourado e nas paredes viam-se colunas de iluminação suave com seis metros de altura. Quando lá chegaram, com William vestido em trajo de noite, tal como todos os outros homens, tiveram de descer uma interminável escadaria alcatifada a azul.

-  O facto de esta noite estarmos a comer na sala de jantar significa que a lua-de-mel terminou? - perguntou Sarah, num murmúrio.

- Também receei essa possibilidade - admitiu Wilham, devorando o soufflé. - Penso que devemos regressar ao camarote logo que acabarmos de comer.

 

Sarah soltou uma pequena gargalhada mas ainda conseguiram ir até ao Grande Salão, por cima da sala de jantar, para dançarem um bocado antes de darem um último passeio pelo convés e de se beijarem sob a luz das estrelas. Depois, finalmente, regressaram ao camarote. Era a lua-de-mel perfeita e passavam bons momentos, nadando, passeando, dançando, comendo e fazendo amor. Era como se Sarah estivesse suspensa entre dois mundos, o velho, onde nascera, e o novo, onde passaria a viver. Tentaram manter-se longe de toda a gente, isto apesar de a maior parte dos passageiros da primeira classe ter consciência de quem eles eram. Mais do que uma vez, Sarah ouvira pessoas a sussurrar: «0 duque e a duquesa de Whitfield... » «Windsor?», perguntara uma viúva. «É muito mais jovem do que eu pensava... e com melhor aspecto.» Sarah fora incapaz de reprimir um sorriso e William beliscara-a. Depois disso, tratara-a por Wallis.

- Nunca me chames isso, ou começo a tratar-te por David!

Sarah ainda não os conhecera mas William dissera-lhe que provavelmente teriam de os visitar quando se encontrassem em Paris.

- É capaz de te agradar mais do que pensas. Não é o meu tipo, mas não deixa de ser uma pessoa encantadora. O David sente-se mais feliz do que antes e diz que já consegue dormir melhor. Suponho que sei porquê... - William sorriu. Também ele dormia muito bem, nos intervalos das orgias com a sua noiva.

Na última noite, jantaram na mesa do comandante e estiveram presentes no baile de gala. Na noite anterior, haviam participado no baile de máscaras, vestidos de marajá e marani, com trajos emprestados pelo comissário e com as jóias da própria Sarah. Os trajos assentavam-lhes bem. William ficara muito elegante e Sarah ganhara um aspecto extremamente exótico. Porém, a sua habilidade com a maquilhagem e a barriga nua haviam-na forçado a um regresso antecipado ao camarote. Naquele momento, já os camareiros faziam apostas sobre quanto tempo conseguiriam manter-se longe da cama. Quatro horas parecia ser o limite.

- Talvez devêssemos ficar no navio - sugeriu Sarah, quando jaziam na cama, na última noite a bordo, dormitando esporadicamente depois dojantar com o comandante. Não tenho a certeza de querer ir para Paris.

William reservara um apartamento no Ritz, onde iriam ficar um mês. Dariam passeios de carro pelos castelos em volta da cidade. Também queriam ir a Bordéus, ao Loire, a Tours... e ao Faubourg St. Honoré, dissera Sarah com um Sorriso, para visitar Chanel, Dior, Mainbocher... e Balenciaga.

- És uma rapariga atrevida - acusou-a William, voltando para junto dela, na cama, e perguntando-se subitamente se, depois de todas as sessões de amor daquela semana, não teriam arranjado um bebé. - Tu... hum... nunca ficaste grávida, quando do teu casamento anterior? - Sentia-se curioso mas nunca lho perguntara. A resposta surpreendeu-o.

- Na verdade, fiquei... - disse Sarah, num tom baixo e sem olhar para ele.

- Que aconteceu? - Era óbvio que Sarah não tinha um filho e William não podia deixar de se interrogar a esse respeito. Esperava que não tivesse feito um aborto, pois teria sido traumático e até poderia impedi-la de ter mais filhos. Antes do casamento, nunca tinha falado no assunto.

- Perdi-o - respondeu, calmamente. A recordação da perda ainda a magoava, mesmo sabendo que acabara por ser a melhor solução.

- Sabes porquê? Aconteceu alguma coisa? - De súbito, compreendeu que fizera uma pergunta estúpida. Com um casamento como o dela, tudo poderia ter acontecido. - Não te preocupes, não voltará a acontecer. - Beijou-a com gentileza e Sarah adormeceu pouco depois, para sonhar com bebés e com William.

Na manhã seguinte abandonaram o navio em Havre e tomaram o combóio para Paris, rindo e conversando durante todo o caminho. Quando chegaram, foram direitos ao hotel, mas voltaram a saír para irem às compras.

- Ah! Descobri que há outra coisa de que gostas tanto como de fazer amor. Sarah, sinto-me desapontado! - Passaram momentos agradáveis na Hermès, na Chanel e no Boucheron, bem como numa mão-cheia de pequenos joalheiros. William comprou-lhe uma magnífica pulseira de safiras, com um fecho em diamantes, bem como um espantoso colar de rubis, com os respectivos brincos a condizer. A seguir comprou-lhe também um belo pregador de Van Cleef, com rubis, com a forma de uma rosa.

- Meu Deus, William... sinto-me tão culpada... - Sabia que William gastara uma verdadeira fortuna, mas o facto não o parecia incomodar. Por outro lado, as jóias eram fabulosas e Sarah adorava-as.

- Não sejas tonta! - retorquiu, como se aqueles presentes não passassem de um acontecimento vulgar. - Limita-te a prometer-me que não sairás do quarto durante dois dias inteiros. É o imposto que exigirei por cada saída às compras.

- Não gostas de fazer compras? - Sarah parecia ligeiramente desapontada, uma vez que, no Verão anterior, William não se manifestara do mesmo modo.

- Adoro... mas prefiro fazer amor com a minha esposa.

- Oh, então é isso! - Riu-se e satisfez-lhe as necessidades do momento logo que regressaram ao quarto no Rítz. Depois disso, foram muitas vezes às compras. William comprou-lhe roupas maravilhosas no Jean Patou, um belo casaco de leopardo na Casa Dior e uma enorme fiada de pérolas na Mouboussin, pérolas que Sarah passou a usar em todos os momentos do dia. Conseguiram até arranjar tempo para visitar o Louvre. Depois, na segunda semana de estada em Paris, foram tomar chá com o duque e a duquesa de Windsor. Apesar de ir predisposta a não gostar da duquesa, Sarah achou que se tratava de uma mulher encantadora. O duque era um homem simpático, tímido, cauteloso e reservado, mas extremamente agradável quando já conhecia as pessoas. Inicialmente, o encontro fora embaraçoso. Para grande desgosto de Sarah, Wallis tentou fazer uma infeliz comparação entre elas. No entanto, William foi rápido a desencorajar esse tipo de comparações e Sarah ficou um pouco embaraçada com a frieza do marido para com a duquesa. Não havia dúvidas sobre quais eram os seus sentimentos para com a mulher, apesar de mostrar grande afecto e respeito pelo seu primo.

- É uma pena que tenha casado com ela - comentou, já no regresso ao hotel. - É incrível pensar que, se não fosse aquela mulher, ele ainda seria rei de Inglaterra,

- Não me parece que gostasse de o ser... mas posso estar enganada.

- Não te enganaste. Não gostava. Não era uma tarefa apropriada para ele, mas era o seu dever. De qualquer modo, devo dizer que o Bertie está a safar-se muito bem. É boa pessoa... e odeia aquela mulher.

- Percebo por que motivo desagrada às pessoas. Tem muito jeito para as manipular.

- É uma grande oportunista. Viste as jóias que ele lhe ofereceu? A pulseira de diamantes e safiras deve ter custado uma verdadeira fortuna. Van Cleef fabricou-a de encomenda, quando se casaram. - Para além disso, Wallis tinha toda uma colecção de jóias a condizer com a pulseira, incluindo um colar, um pregador, brincos e dois anéis.

- Gostei mais da pulseira que usava no outro pulso disse Sarah num tom baixo. - Era uma fina corrente de diamantes com pequenas cruzes.

 

Tratava-se de uma peça muito mais discreta, e William tomou uma nota mental para lhe oferecer uma de presente, mais tarde. Wallis também lhes mostrara uma magnífica pulseira de Cartier que acabara de receber, toda feita de flores e folhas, em safiras, rubis e esmeraldas. Chamara-lhe «a sua salada de frutas».

- De qualquer modo, cumprimos a nossa obrigação, minha querida. Seria grosseiro da nossa parte se não os visitássemos. já posso dizer à minha mãe que o fizemos. Sempre gostou muito do David e cheguei a pensar que morreria quando ele desistiu do trono.

- No entanto, afirmou que não se importava quando,fizeste o mesmo - murmurou Sarah com tristeza, pois ainda se sentia culpada por tudo o que o fizera perder. Essa culpa iria persegui-la durante a vida inteira mas não parecia incomodar William.

- Não foi, de modo nenhum, a mesma coisa - retorquiu William com gentileza. - O David já tinha o trono, querida. Eu nunca viria a tê-lo. A minha mãe sente muito essas coisas, mas não ao extremo do ridículo. Nunca esperou que eu viesse a ser rei.

- Suponho que não...

Saíram do carro alguns quarteirões antes do hotel e caminharam lentamente, falando do duque e da duquesa de Windsor. Estes tinham-lhes dito para voltarem a aparecer, mas William explicara que iriam iniciar a viagem de carro no dia seguinte.

Já tinham planeado visitar o Loire, e William queria parar pelo caminho para ver Chartres, onde nunca estivera. Na manhã seguinte, quando partiram num pequeno Renault alugado, guiado pelo próprio William, fizeram-no com uma excelente disposição. Levavam um almoço de piquenique, para o caso de não encontrarem um restaurante. A uma hora de Paris, a paisagem já era maravilhosamente rural, ainda salpicada de verde aqui e acolá. Havia cavalos, vacas e quintas por todo o lado, e depois de mais uma hora de viagem instalaram-se num campo ao lado da estrada para almoçarem sob o olhar atento de uma cabra. Tinham levado cobertores e casacos quentes, mas o tempo não estava frio mas sim surpreendentemente ensolarado. Haviam previsto chuva mas, até aquele momento, o clima mostrara-se perfeito.

Tinham feito reservas de quartos em pequenos hotéis ao longo do caminho e planeavam ficar longe de Paris durante oito a dez dias. Contudo, ao terceiro dia ainda se encontravam apenas a cento e oitenta quilómetros da capital, em Montbazon, demasiado encantados com a estalagem onde se haviam instalado para desejarem abandoná-la.

O dono da estalagem indicara-lhes os locais que podiam visitar, pelo que haviam descoberto várias igrejas minúsculas, uma velha e maravilhosa quinta antiga e duas espantosas lojas de antiguidades. O restaurante local era o melhor que haviam encontrado.

- Adoro este sítio - declarou Sarah, feliz, devorando tudo o que tinha no prato. Comia muito melhor desde que haviam estado em Paris, pelo que já não tinha um aspecto tão magro, o que lhe ficava muito bem. Por vezes, William preocupara-se com a possibilidade de tanta magreza não ser saudável.

- Devíamos partir amanhã, sabes?

No dia seguinte, quando partiram, tiveram pena de abandonar a estalagem. Uma hora depois, para grande aborrecimento de William, o motor do carro foi-se abaixo. Um camponês local ajudou-os a pô-lo novamente em andamento e deu-lhes alguma gasolina para poderem prosseguir viagem. Meia hora depois, pararam para almoçar junto de antigas colunas de pedra, com um complicado portão de ferro que se encontrava escancarado, dando acesso a uma velha estrada em mau estado.

- Parece o portão do Paraíso - comentou Sarah.

 

- Ou do Inferno... conforme aquilo que merecermos. William sorriu, porque já conhecia o seu destino. Estava no Céu desde que casara com Sarah.

- Queres ir explorar? - Sarah era sempre quem revelava um espírito aventureiro e jovem, duas características que William apreciava.

-  Acho que podemos... E se levarmos um tiro de algum proprietário zangado?

- Não te preocupes, eu protejo-te. Para além disso, este lugar parece estar abandonado há anos - acrescentou, encorajando-o.

- Todo o país parece abandonado, tonta. Não estamos na Inglaterra.

- Oh, pedante! - protestou Sarah enquanto começavam a avançar pelo caminho a que o portão dava acesso. Tinham decidido deixar o carro perto da estrada, para não chamarem ainda mais as atenções para aquela pequena intrusão.

Durante muito tempo, pareceu-lhes que se encontravam apenas num velho caminho rural, pelo menos até ao momento em que depararam com uma longa alameda bordejada por enormes árvores e por arbustos transformados num matagal. Se tudo aquilo estivesse em melhores condições até se parecia com a entrada de Whitfield, ou com a da propriedade de Southampton.

- Isto é bonito. - Ouviam as aves a chilrear nas árvores e Sarah cantarolou enquanto vagueavam por entre as ervas e arbustos.

- Não me parece que haja mais alguma coisa - acabou William por dizer quando já se encontravam quase no fim da alameda de altas árvores. Porém, precisamente nesse momento, avistou um enorme edifício de pedra à distância. Meu Deus, o que é aquilo?

Assemelhava-se ao Palácio de Versalhes, erguido assim no meio do campo. No entanto, quando se aproximaram, verificaram que se encontrava necessitado de reparações. O local estava deserto e em ruínas, e alguns dos edifícios pareciam prontos para se desmoronar. Na base da colina encontrava-se uma pequena vivenda, que muitos anos antes deveria ter sido de um caseiro, mas que pouco mais era do que uma ruína.

Para a direita, avistaram estábulos e enormes celeiros para guardar as carruagens. William ficou fascinado e espreitou para o interior. Ainda lá se encontravam duas velhas carruagens, com o escudo da família cuidadosamente pintado a dourado nos painéis laterais.

- Que lugar espantoso! - comentou, sorrindo para Sarah, satisfeito por esta o ter convencido a explorá-lo.

- Que pensas que é? - inquiriu Sarah, olhando em volta, fascinada, para as carruagens, os arreios, as velhas ferramentas de ferreiro.

- É um velho castelo, e ali eram os estábulos. O sítio parece estar deserto há duzentos anos.

- Talvez esteja! - disse Sarah, excitada. - Pode haver um fantasma!

William começou a fazer ruídos fantasmagóricos e fingiu atirar-se a ela enquanto regressavam ao caminho e subiam a colina na direcção do que parecia ser um castelo de um conto de fadas, ou de um sonho. Era óbvio que não se tratava de uma construção tão antiga como Whitfield, ou como o castelo de Belinda e George, onde se haviam conhecido, mas William calculou que deveria ter duzentos e cinquenta ou trezentos anos. Quando se aproximaram, puderam verificar que a arquitectura era muito bela. Existira ali um parque, jardins e até talvez um labirinto, agora transformados em matagais. A entrada do edifício era verdadeiramente imponente. William experimentou portas e janelas, mas estavam todas fechadas. Porém, uma espreitadela pelas fendas das madeiras apodrecidas revelou belos soalhos, decorações delicadamente moldadas e tectos altos. Era difícíl ver mais, mas tratava-se claramente de um local incrível. Estar ali era como ter dado um grande passo atrás no tempo, até às épocas de Luís XIV, XV ou XVI. Esperava-se ver aparecer, a uma das esquinas, uma carruagem cheia de homens com perucas e calções de cetim, para lhes perguntarem o que estavam ali a fazer.

- Que sítio seria este? - perguntou Sarah, muito intrigada com tudo o que a rodeava.

- Os locais devem saber. Não deve ser segredo, uma vez que se trata de uma propriedade enorme.

- Achas que ainda terá dono? - A casa parecia abandonada há muitos anos, mas devia pertencer a alguém.

- Claro que tem... mas trata-se de uma pessoa que não se interessa, ou que não pode sustentar este lugar. - O edifício encontrava-se em muito mau estado e até os degraus da entrada, em mármore, se encontravam partidos. Aparentemente, fora abandonado durante décadas.

Os olhos de Sarah iluminaram-se ao olhar à sua volta.

- Não adorarias ter um lugar como este, para o desmontar e voltar a reconstruí-lo tal como foi... Sabes, para o restaurar inteiramente... - Os olhos de Sarah dançavam de entusiasmo, mas William fez uma careta de terror e exaustão.

-  Fazes alguma ideia do trabalho que daria? Serás capaz de o imaginar... já para não falar nos custos? Seria preciso um exército de trabalhadores... e todo o dinheiro do Banco de Inglaterra!

- Pois... mas pensa como ficaria maravilhoso! Valeria a pena!

- Para quem? - William riu-se, divertido. Nunca a vira tão excitada com uma ideia desde que a conhecera. - Como podes entusiasmar-te tanto por um sítio como estes É um verdadeiro desastre! - No entanto, a ideia também o excitava. Mas, a enormidade do trabalho que precisava de ser feito era assustadora. - Faremos perguntas a alguém quando voltarmos à estrada. Estou certo de que nos vão dizer que houve aqui gente assassinada e que se trata de um lugar terrível.

Provocou-a durante todo o caminho de regresso ao carro, mas Sarah não lhe deu ouvidos. Pensava tratar-se do sítio mais belo que alguma vez vira e afirmou que, se pudesse, tê-lo-ia comprado logo ali, de repente. William acreditou que ela o fizesse.

Por acaso, encontraram um velho agricultor perto da estrada principal, e William pediu-lhe informações, em francês, sobre o velho palácio em ruínas que haviam deixado para trás. O homem tinha muito para lhes contar. sarah esforçou-se por compreender tudo o que pudesse e conseguiu apanhar a maior parte das informações. Mais tarde, William narrou-lhe os pormenores. O lugar chamava-se Castelo de Meuze e estava deserto havia perto de oito décadas, desde os finais dos anos de 1850. Fora habitado pela mesma família durante mais de duzentos anos, mas o último dono morrera sem deixar filhos. Depois disso, a propriedade passara por gerações de primos e de familiares distantes, pelo que o velho agricultor já não sabia quem era o dono. Explicou que, nos seus tempos de rapaz, ainda ali vivera gente, a condessa de Metize, uma velhota sem recursos para manter o palácio, mas que fora prima dos reis de França. Morrera quando o agricultor ainda era uma criança e o local ficara abandonado.

- Que pena! Porque será que ninguém tentou repará-lo?

- Provavelmente, porque seria preciso muito dinheiro. Os Franceses têm passado por tempos dificeis. Por outro lado, locais como este não são fáceis de sustentar depois de reconstruídos. - Sabia muito bem o dinheiro e os cuidados necessários para manter Whitfield a funcionar, e aquela seria uma propriedade muito mais dispendiosa.

- Penso que é uma pena. - Sarah parecia triste enquanto pensava na velha casa, naquilo que poderia vir a ser, ou no que fora outrora. Gostaria muito de arregaçar as mangas e de ajudar William a reconstruí-la.

Regressaram ao carro e William observou-a com curiosidade.

- Estás a falar a sério, Sarah? Gostas assim tanto deste sítio? Tinhas coragem para te meteres numa aventura deste tipo? Adoraria! - Os olhos iluminaram-se-lhe.

É uma trabalhadeira infernal... e não resulta a não ser que sejas tu mesma a fazer uma parte dela. Terias de martelar e de suar junto dos operários. Sabes, vi a Belinda e o George a restaurarem a sua casa, e não tens ideia do trabalho... - No entanto, também sabia que haviam gostado de o fazer e que a casa ganhara um novo significado para os seus dois amigos.

- Sim, mas o castelo deles é muito mais complicado do que este, e muito mais antigo - explicou Sarah, desejando ter uma varinha mágica que lhe permitisse tomar posse do Castelo de Metize.

- Este também não iria ser fácil - declarou William. Está tudo a necessitar de restauro, desde a vivenda do caseiro aos estábulos e celeiros.

- Não me importo - insistiu Sarah, teimosa. - Gostaria de poder fazê-lo... se me ajudares.

- Pensei quejá tinha aprendido o suficiente para não me meter num projecto destes. Precisei de quinze anos para pôr Whitfield em condições, mas... não sei... Fazes com que a perspectiva pareça interessante... - Sorriu, sentindo-se cheio de sorte e de felicidade, tal como sempre acontecia desde que a conhecera.

- Seria maravilhoso... - Os olhos de Sarah brilharam para Wilham, que era incapaz de lhe resistir e lhe satisfaria quase todas as vontades.

- Mas... em França? E então a Inglaterra? - Sarah tentava ser delicada, mas a verdade era que se apaixonara por aquele lugar, sem no entanto querer insistir muito. Talvez fosse demasiado dispendioso... ou trabalhoso...

- Não me importaria de viver aqui. Talvez seja possível encontrar uma casa parecida, em Inglaterra.

No entanto, não era lógico. William já tinha Whitfield que, graças a ele, era uma excelente mansão. Ali em França, seria diferente. Seria um lugar só deles, que recuperariam com as suas próprias mãos, algo que criariam e reconstruiriam lado a lado. Em toda a sua vida, nunca se sentira tão excitada com uma ideia, apesar de saber que se tratava de uma loucura. A última coisa de que precisavam era de um edifício em ruínas, em França. Sarah tentou esquecer o assunto durante o resto da viagem, mas só conseguia pensar no solitário castelo que a apaixonara. Na sua opinião, tudo o que aquela casa necessitava era de alguém que a amasse. Quase parecia ter uma alma própria, como uma criança perdida, ou como um velho muito triste. Fosse o que fosse, sabia que não estava destinada a ser sua e nunca mais voltou a mencioná-la até regressarem a Paris. Não queria que William se sentisse pressionado e sabia que o seu fascínio por aquela propriedade não era concretizável.

Já se encontravam na semana do Natal e Paris tinha um aspecto magnífico. Foram jantar, uma vez, à casa dos Windsor no Boulevard Suchet, que havia sido decorada por Boudin. Passaram o resto do tempo sozinhos, gozando o seu primeiro Nataljuntos. William telefonou várias vezes à mãe, para ter a certeza de que ela não se sentia abandonada. Porém, a mãe era constantemente convidada para as propriedades vizinhas e jantava com familiares. Na véspera de Natal estivera em Sandringliam com a família real, para o tradicional jantar de Natal. Bertie enviara-lhe, de propósito para ela, um carro com dois ajudantes e uma dama de companhia.

Sarah telefonou para os pais, em Nova Iorque, quando soube que Peter e Jane estariam com eles nas vésperas de Natal. Por instantes, sentiu algumas saudades da família. Mas William era muito bom para ela e sentia-se feliz junto dele. No dia de Natal, William ofereceu-lhe um extraordinário anel com uma safira talhada em esmeralda e rodeada por diamantes, de Van Cleef, bem como uma bela pulseira da Casa Cartier, feita de diamantes, esmeraldas, safiras e rubis, num desenho de flores. Sarah vira uma semelhante no braço da duquesa de Windsor e admirara-a. Era uma peça invulgar, que a surpreendeu.

- Querido, estás a estragar-me com mimos! - exclamou. Ficava estupefacta com tudo o que ele lhe dava, incluindo malas e lenços, livros que William sabia que ela iria gostar e que comprava nos vendedores ao longo do Sena, até pequenas lembranças que a faziam rir-se, tal como uma boneca que dissera ser muito parecida com uma que tivera em criança. William conhecia-a muito bem, e era incrivelmente generoso e atencioso.

Sarah ofereceu-lhe uma brilhante cigarreira de ouro e esmalte azul de Fabergé, com uma dedicatória da czarina Alexandra ao czar, datada de 1916, bem como um belo equipamento de montar de Hermès, que o marido admirara, para além de um elegante relógio de Cartier. Mandara gravar, no fundo do relógio: «Primeiro Natal, primeiro amor, com todo o meu coração. Sarah. » William ficara comovido quando a lera, com lágrimas nos olhos. Acabara por a levar para a cama, para fazerem amor mais uma vez. Passaram a maior parte do dia de Natal na cama, encantados por não terem voltado para Londres por causa dos cerimoniais, da pompa e das tradições.

Ao fim da tarde, quando voltaram a acordar, William sorriu para ela quando a viu abrir os olhos. Beijou-a no pescoço e disse-lhe, mais uma vez, que a amava.

- Tenho mais uma coisa para ti - confessou.

Não sabia se Sarah iria amar ou detestar aquele presente. Fora a coisa mais louca que jamais fizera, o maior momento de loucura da sua vida, mas tinha a sensação de que Sarah iria adorar. Se assim acontecesse, teria valido a pena passar por todas aquelas dificuldades... e despesas. Tirou uma pequena caixa de uma gaveta. Estava embrulhada em papel dourado e amarrada com uma fina fita de ouro.

- O que é? - Sarah olhou para ele com a curiosidade de uma criança, enquanto William tremia por dentro.

- Abre-a.

Sarah assim fez, devagar, com cuidado, perguntando a si mesma se seria outra peça de joalharia. A caixa era suficientemente pequena para isso. Porém, quando tirou todo o papel, encontrou outra caixa mais pequena no interior, dentro da qual se encontrava uma minúscula casa de madeira feita de uma caixa de fósforos. Sarah ficou sem compreender e fitou-o com olhos repletos de perguntas.

- O que é isto, querido?

- Abre-a - retorquiu William, parecendo quase aterrorizado.

Sarah abriu a caixa de fósforos e encontrou uma fina tira de papel que dizia apenas: «Castelo de Metize. Feliz Natal, 1938. Do William, com todo o amor. »

Sarah leu as palavras e olhou-o, surpreendida. Porém, de súbito, compreendeu o que ele fizera e soltou um grito de espanto, incapaz de acreditar que o marido tivesse levado a cabo um acto tão maravilhosamente louco. Nunca, em toda a sua vida, desejara tanto uma coisa.

-  Compraste-o? - perguntou, siderada, enquanto lhe lançava os braços ao pescoço. A excitação fê-la atirar-se para o colo dele, completamente nua. - É verdade!?

- É teu. Não sei muito bem se foi uma ideia louca... ou brilhante. Se não o quiseres, podemos vender a terra e deixá-lo apodrecer... ou esquecê-lo.

Não lhe custara muito dinheiro, mas tivera muito trabalho para concretizar o negócio. Na realidade, o que pagara fora muito pouco. Saíra-lhe mais caro remodelar o seu pavilhão de caça em Inglaterra do que comprar o Castelo de Metize com todas as suas terras e edifícios.

Sarah estava fora de si de excitação, e William ficou encantado por vê-la tão satisfeita com o presente. Fora muito mais complicado do que pensara inicialmente. Havia quatro herdeiros, dois dos quais em França, um em Nova Iorque e outro nas terras desertas de Inglaterra. No entanto, os seus solicitadores tinham-no ajudado. O pai de Sarah contactara com a mulher que vivia em Nova iorque por intermédio do banco. Os herdeiros eram primos afastados da condessa que morrera oitenta anos antes, tal como o agricultor dissera. De facto, as pessoas a quem William comprara a propriedade encontravam-se a várias gerações de distância da condessa e nenhuma soubera o que fazer com ela, ou como a dividir, pelo que a tinham abandonado ao seu destino até Sarah a descobrir.

Subitamente preocupada, Sarah virou-se para o marido.

- Custou-te uma fortuna? - Sentir-se-ia terrivelmente culpada se assim tivesse sido, mesmo que, no fundo do coração, pensasse que valera a pena. Porém, William comprara-a por quase nada. Os quatro herdeiros haviam ficado aliviados por se verem livres da propriedade e nenhum deles se mostrara particularmente ganancioso.

- Não... mas gastaremos uma fortuna quando tentarmos restaurá-la.

- Prometo-te... Farei todo o trabalho sozinha! Tudo! Quando poderemos lá voltar, para começarmos? - Dava saltos em cima dele, para cima e para baixo, como uma criança, enquanto William gemia de delícia e angústia.

- Primeiro temos de regressar a Inglaterra. Preciso de resolver algumas coisas. Não sei... Em Fevereiro... ou talvez em Março?

- Não podemos vir antes? - Parecia uma rapariguinha feliz, numa manhã de Natal.

- Podemos tentar... - Estava imensamente satisfeito por ela ter na realidade gostado do presente. Ele próprio também já se sentia excitado, e trabalhar ao lado de Sarah Poderia ser divertido... se o esforço não os matasse. - Ainda bem que gostaste. Passei por um ou dois maus momentos, pensando que já te tinhas esquecido do castelo e que na verdade não o querias. juro-te, o teu pai acha que estou louco. Posso mostrar-te alguns dos telegramas que me enviou. Diz que a ideia é ainda pior do que a quinta que tentaste comprar em Long Island. Está perfeitamente convencido de que somos ambos loucos... e feitos um para o outro.

Sarah soltou risadinhas de alegria enquanto pensava mais uma vez na casa, mas depois olhou para William com uma expressão maliciosa muito própria, em que o inglês reparou rapidamente.

-  Penso - começou Sarah - que também tenho uma coisa para ti... Não queria dizer-te nada antes de regressarmos a Inglaterra e pensei que não... mas acho que é possível... que venha aí um bebé.

Sarah exibia uma expressão simultaneamente envergonhada e satisfeita, e William fitava-a, maravilhado.

- Tão depressa!? Sarah, estás a falar a sério? - Não queria acreditar no que ouvia.

- Penso que sim. Deve ter acontecido na própria noite do casamento, mas só terei a certeza daqui a algumas semanas. Sarah já reconhecera os primeiros sinais, sem precisar da ajuda de ninguém.

- Sarah, minha querida, és realmente espantosa! - De uma só vez, haviam adquirido uma família e um castelo em França. Porém, a criança estava ainda na fase inicial da concepção e o castelo estivera em ruínas durante quase um século. De qualquer modo ambos se sentiam felizes.

Ficaram em Paris até depois do Ano Novo, passeando junto ao Sena, fazendo amor e jantando tranquilamente nos pequenos bistrots e só depois regressaram a Inglaterra, para serem o duque e a duquesa de Whitfield.

 

Logo que regressaram a Inglaterra, William insistiu com Sarah para que esta fizesse uma visita ao seu médico, na Harley Street. O médico confirmou o que ela já adivinhara semanas antes. Estava grávida de cinco semanas e o bebé deveria nascer em finais de Agosto ou princípios de Setembro. Incitou-a a ter cuidado durante os primeiros meses, por causa do aborto espontâneo que já sofrera. Todavia, encontrou-a de excelente saúde. Quando William a foi buscar, o médico deu-lhe os parabéns pelo seu herdeiro. William ficou visivelmente satisfeito consigo mesmo e com ela, e comunicaram a novidade à mãe quando foram a Whitfield no fim-de-semana.

- Meus filhos, é uma notícia maravilhosa! - exclamou a velha dama, entusiasmada, como se tivesse conseguido algo que ninguém conseguira desde os tempos de Maria e de Jesus. - Devo lembrar-vos de que precisaram apenas de trinta dias para realizarem o que o teu pai e eu só conseguimos em trinta anos. Parabéns pela vossa velocidade e pela boa sorte! Que formidáveis que vocês são! - Fez-lhes um brinde e eles riram-se. Era verdade que a duquesa ficara imensamente satisfeita, e voltou a dizer a Sarah que o nascimento de William tinha sido o momento mais feliz da sua vida, e que assim continuara durante todos aqueles anos. Depois, tal como o médico já fizera, incitou-a a ter cuidado e a não fazer asneiras, para não se prejudicar a ela própria e ao bebé.

- Oh, sinto-me perfeitamente. - Sentia-se muito bem, e o médico explicara que podiam fazer amor «com juizo», sugerindo que não tentassem pendurarem-se em candelabros ou bater recordes olímpicos, recado que Sarah transmitira a William. Este ficou com receio de que o facto de fazerem amor a pudesse magoar, ou ao bebé.

- Podes ficar descansado, não fará mal. Foi ele quem o disse.

- Como é que sabe?

- Ora, é médico! - tranquilizou-o Sarah.

- Talvez não preste. Talvez seja melhor consultarmos outro.

- William, era o médico da tua mãe ainda antes de nasceres!

- Precisamente. É demasiado velho. Consultaremos um mais novo.

William deu-se ao trabalho de procurar um especialista. Para lhe fazer a vontade, Sarah consultou-o e o médico disse-lhe precisamente as mesmas coisas que o simpático Lorde AlIthorpe, que era o seu preferido. Por essa altura já se encontrava grávida de dois meses, sem qualquer espécie de problemas.

- O que quero saber é isto: quando voltamos a França? disse-lhe Sarah, quando já se encontrava em Londres havia um mês. Sentia-se ansiosa por começar a trabalhar na nova casa.

 

- Falas a sério?! - William pareceu horrorizado. Queres ir agora? Não é melhor esperares pelo bebé?

- Claro que não. Para quê esperar tantos meses, quando podíamos já estar a trabalhar? Por amor de Deus, não estou doente, apenas grávida!

- Eu sei, mas... e se acontece alguma coisa? - Exibia uma expressão frenética e desejava que Sarah não se mostrasse tão teimosa. O próprio Lorde AlIthorpe concordou que não havia razões para que ficasse em casa. Desde que não se cansasse demasiado e não carregasse objectos pesados, o projecto da casa em França era uma boa ideia.

- O melhor para ela é manter-se ocupada com qualquer coisa - garantiu, para depois sugerir que esperassem até Março, para estar grávida de três meses antes da partida. Foi o único compromisso que Sarah se dispôs a aceitar. Esperaria até Março para regressar a França... mas nem mais um momento. Estava ansiosa por começar os trabalhos na nova propriedade.

William tentou prolongar tanto quanto possível os seus projectos em Whitfield, enquanto a mãe o incitava a dizer a Sarah para ter mais calma.

- Mãe, eu bem tento, mas não me dá ouvidos - acabou por responder, num momento de exaspero.

- Não passa de uma criança. Não compreende que precisa de ter cuidado. De certeza que não deve querer perder este bebé...

Sarah já aprendera essa lição da pior maneira e tinha muito mais cuidado do que William pensava. Fazia sestas, sentava-se frequentemente e descansava quando se sentia fatigada. Não tinha a intenção de perder aquele filho... mas não queria ficar parada, sem fazer nada. Pressionou William até este se mostrar disposto a partir para França por não conseguir adiar a viagem por mais tempo. O mês de Março la a meio e Sarah ameaçava ir-se embora sem ele.

Seguiram para Paris no iate real, numa altura em que Lorde Mountbatten la visitar o duque de Windsor e concordara em levar o jovem casal. Dickie, tal como lhe chamavam William e os seus contemporâneos, era um homem bem-parecido. Sarah divertiu-se durante a travessia, sempre a falar do castelo e dos trabalhos que iria levar a cabo.

- William, meu velho - comentou -, parece que não restará muito para tu fazeres. - No entanto, também pensava que a viagem lhes faria bem. Era óbvio que se encontravam muito apaixonados e muito excitados com o projecto.

William pedira à recepção do Ritz para lhes alugarem um carro e tinha conseguido descobrir um pequeno hotel a duas horas e meia de Paris, não muito longe do castelo em ruínas. Alugaram todo o andar superior do hotel e planearam viver ali até ao momento em que o castelo voltasse a ser habitável. Ambos sabiam que isso iria demorar muito tempo.

- Podem ser anos, sabes? - resmungou William, quando voltou a ver as ruínas.

Passou as duas semanas seguintes a escolher trabalhadores. No fim, depois de já ter contratado uma boa equipa, começaram finalmente a arrancar as tábuas das portas e janelas, para verificar o que se encontrava no interior. Descobriram surpresas por todo o lado à medida que iam trabalhando, algumas agradáveis e outras não tanto. O salão principal era esplêndido, mas acabaram por deparar com três outros, com belas boiseríes e frisos dourados, já desbotados. Tinham lareiras de mármore e pavimentos maravilhosos. Nalguns sítios as madeiras haviam sido destruídas por bolores e por anos de humidade, isto para não referir os animais que haviam penetrado pelos buracos e mordiscado frisos aqui e acolá.

No piso térreo, o castelo dispunha de uma enorme e bela sala de jantar, uma série de salas mais pequenas, uma extraordinária biblioteca apainelada a madeira, um corredor que teria ficado bem em qualquer castelo inglês, e uma cozinha tão antiquada que fez Sarah recordar-se de alguns dos museus que visitara com os pais, no ano anterior. Encontravam-se aí peças de cozinha que, com toda a certeza, ninguém usava havia pelo menos duzentos anos, e que Sarah recolheu com todo o cuidado, com a intenção de as recuperar. Também protegeram as duas carruagens que haviam descoberto no celeiro.

Depois das investigações iniciais no andar térreo, William aventurou-se a subir ao primeiro andar. Contudo, proibiu terminantemente que Sarah o acompanhasse, com medo de que os soalhos pudessem ceder, mas acabou por os descobrir surpreendentemente sólidos e permitiu-lhe que fosse ver o que descobrira. Havia ali pelo menos uma dúzia de grandes quartos cheios de sol, igualmente decorados com belas boiseríes e com elegantes janelas, bem como uma simpática sala com uma lareira de mármore, virada para a entrada principal e para o que outrora havia sido o jardim e o parque. Enquanto caminhava de divisão para divisão, Sarah apercebeu-se de que não existiam casas de banho. É claro, comentou para si mesma, rindo-se. Nesse tempo tomavam banho nos quartos, em tinas, e tinham penicos em vez de sanitas.

Havia muito trabalho a fazer mas via-se que iria valer a pena. Agora, até William se mostrava entusiasmado. Fez desenhos para entregar aos trabalhadores, - esboçou planos de trabalho e passou dias, de manhã à noite, a dar instruções, enquanto Sarah se esforçava a seu lado, lixando velhas madeiras, reparando soalhos, limpando boiseríes, refazendo dourados, polindo latões e bronzes até ficarem a brilhar e passando a maior parte do seu tempo a pintar. Enquanto trabalhavam, na residência principal, William encarregara uma equipa de jovens da reparação da vivenda do caseiro, para poderem saír do hotel e mudar-se para lá, a fim de ficarem mais perto do seu gigantesco projecto.

A vivenda era pequena. Tinha uma minúscula sala, um pequeno quarto ao lado e uma grande cozinha. No piso superior havia dois quartos, um pouco maiores e muito ensolarados. Era adequado para eles, e eventualmente até poderiam ter uma criada, que ficaria no rés-do-chão se Sarah achasse que necessitava de ajuda. Ficavam com um quarto para eles e outro para o bebé, quando este chegasse.

Já o sentia a mexer-se dentro dela e sorria sempre que isso acontecia, convencida de que iria ser um rapaz e que seria parecido com William. Disse-lho e William respondeu que não se importava que fosse uma rapariga, pois haveriam de ter outros bebés.

- Não estamos a arranjar um herdeiro para o trono afirmava, provocando-a. No entanto, não deixava de ter um título e tinham de pensar em quem herdaria Whitfield e as suas terras.

Contudo, naqueles dias, tinham mais em que pensar, para além de Whitfield e até do castelo. Hitler levantara a sua feia cabeçorra e «absorvera» a Checoslováquia, clamando que esta já não existia como entidade autónoma. Na verdade, engolira dez milhões de pessoas que não eram alemãs. Logo que acabara de as devorar, virara os olhos para a Polónia e começara a ameaçá-la, servindo-se de questões que constituíam um problema já há algum tempo, tal como o caso de Danzigue.

Uma semana mais tarde, a guerra civil espanhola chegava ao fim depois de ter custado mais de um milhão de vidas e de ter deixado o país em ruínas.

Porém, o mês de Abril foi ainda pior. Imitando o seu amigo alemão, Mussolini ocupou a Albânia. Os governos inglês e francês começaram a rosnar e ofereceram ajuda à Grécia e Roménia, se viesse a ser necessária. Algumas semanas antes já haviam feito a mesma oferta à Polónia, prometendo intervir se Hitler se aproximasse demasiado.

 

Em Maio, Hitler e Mussolini assinaram um pacto, com cada um deles a prometer seguir o outro na guerra. Tinham lugar discussões semelhantes entre a França, a Inglaterra e a Rússia, mas eram constantemente interrompidas e reatadas, e não chegavam a um acordo. Foi uma Primavera de desânimo para a política mundial, o que preocupava profundamente os Whitfield. No entanto, prosseguiram com o seu gigantesco trabalho, e Sarah aumentara de volume por causa do bebé. A gravidez la nos seis meses e William, embora não lho dissesse, pensava que ela estava enorme. Como eram ambos altos, era de prever que o bebé fosse grande. William sentia-o a mexer-se, à noite, quando se encontravam na cama, e, às vezes, quando se aproximava dela, também sentia os pontapés.

- Isso não dói? - Estava fascinado com o assunto, com a vida dentro dela, com as suas enormes formas, e com o bebé que em breve nasceria do amor dos momentos felizes que haviam partilhado. O milagre ainda o espantava. Ainda faziam amor de tempos a tempos, mas William tinha cada vez mais receio de a magoar e ela parecia menos interessada. Trabalhavam muito no castelo, e à noite, quando se metiam na cama, estavam ambos exaustos. De manhã, os operários apareciam às seis horas e começavam a martelar e a serrar.

Puderam mudar-se para a vivenda do caseiro em finais dejunho, desistindo dos quartos no hotel, o que lhes agradou. Agora já viviam no que era deles e os terrenos começavam a ganhar um ar civilizado. William contratara um batalhão de jardineiros, em Paris, para cortarem, podarem e semearem, de modo a transformarem a selva num jardim. O parque levaria mais tempo mas, em Agosto já se viam alguns resultados. Os progressos que haviam conseguido em toda a casa eram espantosos. William começava a pensar em mudar-se para o edifício principal em finais desse mês, mesmo a tempo do bebé. Desenvolvia um trabalho intenso no que iriam ser os seus quartos, para que Sarah viesse a sentir-se confortável e para poderem continuar a trabalhar no resto da casa depois da mudança. Precisariam de anos para concluir todos os pequenos pormenores, masjá haviam realizado um trabalho espantoso num tempo relativamente curto.

De facto, George e Belinda visitaram-nos em julho e ficaram impressionados com o que Sarah e William já haviam conseguido. Jane e Peter também os visitaram, mas, do ponto de vista das duas irmãs, foi uma visita muito curta. Jane ficou encantada com William e feliz por Sarah estar quase a ter o bebé. Prometeu voltar depois do nascimento, para poder vê-lo, embora estivesse novamente grávida e precisasse de algum tempo antes de poder voltar à Europa. Os pais de Sarah tinham querido ir com eles, mas o pai não se sentia bem. Jane assegurou à irmã que não se tratava de nada de grave. Por outro lado, andavam muito ocupados com a reconstrução da casa de Southampton. Mas a mãe estava disposta a visitá-los no Outono, quando Sarah já tivesse o bebé.

Depois da partida de Peter e Jane, Sarah sentiu-se muito solitária durante alguns dias. Para compensar, dedicou-se ainda mais à casa. Trabalhou freneticamente nos acabamentos do seu próprio quarto, e muito especialmente no belo quarto ao lado, que reservara para o bebé.

- Como correm as coisas por aqui? - perguntou-lhe William, uma tarde, quando lhe levava uma fatia de pão, queijo e uma chávena de café fumegante.

William fora muito simpático para com a sua família, tal como o era para com toda a gente, incluindo a própria Sarah, que o amava profundamente, talvez mais do que nunca.

- Estou a acabar - declarou, orgulhosa. Estivera a dourar uma boiserie com todo o cuidado... e parecia ter ainda melhor aspecto do que a que tinham visto em Versalhes.

 

- És muito boa a fazer isso. - William admirou o trabalho com um sorriso. - Até era capaz de te contratar acrescentou, debruçando-se para a beijar. - Sentes-te bem?

- Estou óptima. - As costas doíam-lhe mas não lho diria por nada deste mundo. Adorava o que ali fazia todos os dias e não estaria grávida durante muito mais tempo. já só lhe faltavam três ou quatro semanas, e tinham descoberto um pequeno hospital em Chaumont, onde Sarah poderia ter o bebé. Havia aí um médico simpático que Sarah visitava. O homem pensava que estava tudo a correr muito bem mas avisara-a de que o bebé poderia ser muito grande.

- Que significa isso? - perguntara Sarah, tentando parecer casual. Ultimamente andara um pouco nervosa com a perspectiva do parto, mas as suas preocupações pareciam-lhe estúpidas e não quisera assustar William.

- Pode significar uma cesariana - confessara o médico. - Será desagradável, mas quando o bebé é muito grande é mais seguro para a mãe e para o filho.

- Se fizer uma cesariana... poderei ter mais filhos? O médico hesitara mas acabara por abanar a cabeça, considerando que Sarah merecia conhecer a verdade.

- Não, não poderá.

- Então, não a farei.

- Nesse caso, ande muito, mexa-se, faça exercício. Nade, se houver um rio perto da sua casa. Tudo isso lhe irá ser muito útil durante o parto, madame la duchesse.

O médico fazia-lhe sempre uma vénia quando Sarah saía. Apesar da ameaça de uma cesariana não lhe agradar, Sarah gostava dele. Não disse nada a William quanto à possibilidade de o bebé ser muito grande, ou de ter de fazer uma cesariana. Havia uma coisa de que estava certa: o marido queria mais filhos. Faria tudo o que estivesse ao seu alcance para não o desiludir.

Faltava ainda uma semana ou duas para o bebé nascer, quando a Alemanha e a Rússia assinaram um tratado de não-agressão, deixando apenas a França e a Inglaterra como potenciais aliados, uma vez que Hitler assinara um pacto com Mussolini e que a Espanha se encontrava virtualmente destruída e não podia ajudar.

- As coisas estão a ficar muito sérias, não é? - perguntou Sarah, baixinho, uma noite. Tinham acabado de se mudar para o quarto no castelo. Apesar de todos os pequenos pormenores que faltava completar, era da opinião de que nunca vira nada tão belo. .. o que era exactamente o que William pensava quando a olhava.

- Sim, estão feias. Provavelmente, terei de voltar a Inglaterra, só para saber o que pensam no número dez da Downing Strect. - William não queria deixá-la preocupada. - Talvez possamos lá ir passar uns dias depois do nascimento do bebé. - Como, de qualquer modo, pretendiam mostrar o bebé à mãe de William, Sarah não levantou objecções.

- É difícil acreditar que vamos entrar em guerra, ou antes, que a Inglaterra vai entrar em guerra. - Sarah começava a considerar-se inglesa, apesar de ter mantido a cidadania americana quando se casara e de William não ter visto motivos para que a alterasse. Tudo o que Sarah desejava era que o mundo se mantivesse calmo durante o tempo suficiente para ela ter o bebé. Não queria ter de se preocupar com uma guerra numa altura em que precisava de um lar tranquilo para o seu filho.

- Não te vais embora se acontecer qualquer coisa, pois não, William? - Olhou-o, atacada por um súbito pânico e revendo mentalmente todas as possibilidades.

- Não partirei antes de o bebé nascer. É uma promessa.

- E depois? - Tinha os olhos muito abertos de terror.

- Só se houver uma guerra. Deixa de te preocupar com isso. Não é muito saudável para ti, neste momento. Não irei a lado nenhum, excepto ao hospital, contigo.

Naquela noite, quando se deitou no seu novo quarto ao lado do marido, Sarah teve algumas dores fracas. No entanto, na manhã seguinte, quando se levantou, as dores haviam desaparecido e sentiu-se melhor. Fora uma parvoíce ter-se preocupado com a guerra. Era o nervoso por causa do bebé.

Porém, no dia um de Setembro, quando estava a martelar os pequenos quartos que um dia seriam maravilhosos para os filhos, ouviu gritar qualquer coisa ininteligível. A seguir ouviu correrias e pensou que alguém se magoara. Desceu as escadas até à cozinha, não fossem precisar da sua ajuda. As pessoas estavam reunidas em volta de um rádio.

A Alemanha acabara de invadir a Polónia, com forças terrestres e aéreas. William encontrava-se na cozinha, bem como todos os outros operários. Depois da notícia, começaraM a discutir se a França tentaria ajudar a Polónia. Alguns pensavam que o devia fazer mas a maioria não se ralava com a questão. Tinham os seus próprios problemas com as famílias, mas mesmo assim havia quem pensasse que Hitler tinha de ser detido antes que fosse demasiado tarde para todos. Sarah ficou parada, assustada, olhando para William e para os outros.

- Que significa isto? - perguntou.

- Nada de bom - respondeu William com toda a franqueza. - Teremos de esperar para ver. Já haviam terminado o telhado da casa, as janelas estavam vedadas, os soalhos encontravam-se prontos, as casas de banho instaladas... mas ainda havia muito para fazer. De qualquer modo, o grosso das obras estava feito, o castelo ficara pronto e estava seguro, contra os elementos e contra o mundo, a tempo de Sarah ter o bebé. Por seu lado, o mundo já não era um lugar seguro e não tinham uma maneira de alterar essa situação.

- Não te preocupes com isso, neste momento - pediu William. Notara que ela começara a dormir mal e suspeitava de que o momento se aproximava. Queria vê-la livre de medos e preocupações quando o bebé nascesse. No entanto, era perfeitamente possível que Hitler não se ficasse pela Polónia. Mais tarde ou mais cedo, a Inglaterra teria de intervir para o fazer parar. William sabia-o mas não lho disse.

Nessa noite, comeram tranquilamente, na cozinha. Como sempre, a mente de Sarah virou-se para as coisas sérias mas William tentou distraí-la. Não queria que pensasse em notícias, mas sim em coisas agradáveis. Tentou afastar-lhe os pensamentos do que se passava pelo mundo falando sobre a casa, mas não era fácil.

- Diz-me o que queres fazer com a sala de jantar. Vamos restaurar os painéis originais ou utilizar as boiseries que encontrámos nos estábulos?

- Não sei. - Sarah ficou com um ar vago ao tentar concentrar-se na pergunta. - Que pensas?

- Penso que a boiserie ficava melhor. já há apainelados suficientes na biblioteca.

- Também acho.

- Então, e a cozinha? - Tinham posto à vista todos os tijolos originais, com quase quatrocentos anos, e William gostara do resultado. - Gosto dela como está, mas talvez prefiras uma coisa mais requintada.

- Não quero saber... - Olhou-o, subitamente desolada. - Fico doente cada vez que penso naquelas pobres pessoas, na Polónia.

- Não podes pensar nisso agora, Sarah.

- Porquê?

- Porque não é bom, para ti e para o bebé – declarou William com firmeza, mas Sarah começou a chorar logo que se levantou da mesa e começou a andar de um lado para o outro, na cozinha. Tudo parecia preocupá-la ainda mais, agora que estava tão perto de ter o bebé.

- E então as mulheres da Polónia que estão tão grávidas como eu? Essas não podem mudar de assunto.

- É uma ideia horrível - admitiu -, mas neste momento não podemos fazer nada.

- Porquê? E porque anda aquele louco a fazer essas coisas? - protestou, voltando a sentar-se, sem fôlego e obviamente com dores.

- Sarah, acaba com isso. Não te preocupes tanto! Obrigou-a a subir para o quarto e insistiu para que se deitasse, mas Sarah ainda chorava quando obedeceu. - Não podes carregar o peso do mundo sobre os teus ombros!

- Não é nos ombros... e não é o mundo, mas sim o teu filho. - Sorriu por entre as lágrimas, pensando mais uma vez em quanto o amava. Era sempre bom para ela, sempre incansável, e fora tão dedicado no restauro, trabalhando infindavelmente só porque ela adorava aquele sítio. Só que, agora, também ele se interessara pelo velho castelo, o que a comovia.

- Achas que este monstrozinho se decidirá a saír? Perguntou,num tom cansado, enquanto William lhe esfregavaas costas. Ainda tinha de ir à cozinha para arrumar as coisas do jantar mas não queria deixá-la até a ver descontraída. Era óbvio que ainda não o estava, e que talvez não o estivessedurante mais algum tempo.

- Penso que acabará por querer saír. Por enquanto, está a seguir o programa previsto. Que disse Lorde Althorpe? Que seria no primeiro de Setembro? É hoje, pelo que o atraso Só começará amanhã.

- É tão grande... - Sarah estava preocupada com o Parto. Nas últimas semanas, a sua barriga tornara-se ainda maior e lembrava-se muito bem do que lhe dissera o médico local a esse respeito.

- Descansa, que ele sai... quando estiver pronto. - William baixou-se e beijou-a nos lábios com ternura. - Descansa mais um bocado. Vou buscar-te uma chávena de chá.

Porém, quando regressou com aquilo a que os Franceses chamam uma «infusão» de menta, Sarah estava a dormir, em cima da cama, completamente vestida, e William não quis incomodá-la. Dormiu assim ao lado dele, até de manhã, e ficou sobressaltada quando acordou. Sentia uma dor aguda, mas já a tivera antes. Eram dores que iam e vinham, acabando por desaparecer. Na verdade, sentia-se mais forte do que se sentira em muito tempo e tinha uma longa lista de coisas que precisava de terminar no quarto do bebé antes do seu nascimento. Martelou e trabalhou durante todo o dia, esquecida das preocupações, e até se recusou a descer para almoçar quando William a chamou. Este teve de lhe levar o almoço, admoestando-a por se esforçar tanto, mas Sarah limitou-se a olhar para ele e a rir-se. Tinha um aspecto muito melhor e mais feliz do que nas últimas semanas e o marido sorriu, aliviado.

- Bom, pelo menos sabemos que não vou perder o bebé - afirmou, dando uma palmadinha na enorme barriga, e o bebé reagiu com um forte pontapé. Sarah comeu um bocado de uma baguette e uma maçã, e regressou ao trabalho. No fim, até as roupas e as fraldas do bebé já estavam à espera nas gavetas. No fim do dia terminara tudo o que se propusera fazer, e o quarto tinha um aspecto encantador. Estava inteiramente decorado a renda branca, com fitas brancas de cetim. Incluía uma bacia antiga, um armário pequeno mas muito bonito, uma cómoda que haviam encontrado na casa e que ela própria limpara e polira. O soalho tinha um leve tom de mel e estava coberto com um pequeno tapete de Aubusson. Era um quarto cheio de amor e carinho. Só faltava o bebé.

 

Sarah desceu à cozinha para jantar e preparou um pouco de espaguete, de galinha fria e de salada, para os dois. Aqueceu a sopa e o pão e chamou William, que se encontrava no primeiro andar. Serviu-lhe um copo de vinho e disse que não iria beber. já não era capaz de lhe tocar porque lhe provocava enormes ataques de azia.

- Fizeste um bom trabalho. - William fora ver o quarto e ficara impressionado com a energia que Sarah revelara naquele dia. Havia muitas semanas que não se mostrava tão activa. No fim do jantar, foi ela quem sugeriu um passeio no jardim.

- Não achas que devias descansar? - William parecia ligeiramente preocupado e pensava que Sarah estava a exagerar. Não interessava que tivesse apenas vinte e três anos. la passar por uma provação que sempre lhe tinham dito não ser fácil, e queria que Sarah descansasse.

-Para quê? O bebé pode nascer só daqui a semanas! Começo a pensar que podia continuar assim para sempre!

- É o que parece. Sentes-te bem? - Olhou-a com atenção mas o aspecto de Sarah era bom. Tinha os olhos brilhantes, as faces rosadas, e ria-se com uma expressão provocante.

- Estou bem, William, juro-te.

Naquela noite a conversa foi sobre os pais dela, Jane e a mãe dele, bem como sobre a casa em Long Island. Os pais tinham levado a cabo grandes reparações e Edward afirmava que tudo voltaria ao normal no próximo Verão. Era muito tempo, mas os prejuízos provocados pela tempestade também haviam sido muitos. Ainda sentiam a falta de Charles masjá tinham um novo caseiro, umjaponês, com a esposa.

Tinha um aspecto muito nostálgico enquanto passeavam entre os canteiros. já havia pequenos arbustos a crescerem aqui e acolá, e o jardim parecia cheio de esperanças e promessas, tal como ela.

Por fim decidiram-se a regressar a casa, e Sarah pareceu satisfeita por se deitar, para poder descansar. Leu um livro durante um bocado, mas a seguir levantou-se, espreguiçou-se e dirigiu-se à janela para espreitar o luar. A casa já estava muito bonita e Sarah adorava-a. Era o sonho da sua vida.

- Obrigada por tudo isto - disse, tranquilamente, e William olhou-a da cama, tocado pela doçura da frase. Tinha um aspecto tão jovem e tão grande... A seguir, quando regressou para junto da cama, olhou em volta, para o chão, e depois para o tecto.

- Céus, há água a pingar em qualquer lado, um dos canos deve ter rebentado. - Não via pingos no tecto ou na Parede, mas o chão estava coberto por uma grande poça de água.

William levantou-se, de testa franzida, e olhou para o tecto, tal como ela fizera.

- Não vejo nada. Tens a certeza?

Sarah apontou para o chão. William olhou em volta e depois fitou-a. Compreendera o que se passara antes da própria Sarah.

- Creio, minha querida, que és tu quem tem um cano roto - declarou, com gentileza, sem saber muito bem o que fazer para a ajudar.

- Não sejas parvo! - exclamou Sarah, com uma expressão altamente insultada, enquanto William foi buscar um monte de toalhas à casa de banho que haviam construído no quarto ao lado. Porém, de súbito, compreendeu e as lágrimas subiram-lhe aos olhos. A ideia nem sequer lhe passara pela cabeça. As suas águas haviam rebentado.

- Achas que é isso? - Olhou em volta enquanto o marido apanhava a água com as toalhas e viu que a sua camisa de dormir estava molhada. William tinha razão. Eram as’ suas águas.

 

- Vou chamar o médico - disse William.

- Não me parece que seja preciso. O médico disse que se podia passar um dia inteiro antes de acontecer qualquer coisa.

- Ficarei mais descansado quando o chamar. - No entanto, sentiu-se muito pior depois de ter telefonado para o hospital de Chaumont. «Le Professeur» Vinocour, pois era assim que designavam os médicos em França, partira para Varsóvia com três colegas. Iam oferecer os seus serviços e ajudar no que pudessem, e para além disso naquela noite verificara-se um incêndio terrível numa aldeia próxima. Todas as enfermeiras tinham ido ajudar e não havia médicos no hospital. Encontravam-se com uma desesperada falta de pessoas e não queriam preocupar-se com um vulgar parto, mesmo que se tratasse de madame la duchesse. Pela primeira vez, ninguém se deixava impressionar pelo título.

- O nascimento de um bebé não tem nada de especial dissera-lhe. Sugeriram-lhe que chamasse uma das mulheres das quintas próximas, ou alguém do hotel, porque não podiam ajudá-los. Quando voltou para cima, William nem sequer sabia o que dizer a Sarah. Estava assustado e compreendia que devia tê-la levado para Londres ou, pelo menos, para Paris. Agora, era tarde. Uma vez, assistira ao parto de cachorrinhos, mas não fazia ideia sobre como proceder no caso de um bebé, e Sarah também não. Era ainda mais ignorante do que ele, excepto quanto ao aborto espontâneo, e nessa altura haviam-lhe dado uma anestesia geral. Nem sequer tinha nada para lhe aliviar as dores, nem sabia o que utilizar para ajudar o bebé se surgisse algum problema. Subitamente, recordou-se do que Sarah lhe dissera, que por vezes se passava um dia inteiro antes de começarem as dores. la levá-la para Paris. Estavam apenas a duas horas e meia de distância e era a melhor solução, concluiu, enquanto subia as escadas. Porém, quando entrou no quarto e lhe viu o rosto, ficou desanimado. As contracções já haviam começado, não se sabia como.

- Sarah! - Correu para a cama, onde Sarah se esforçava por respirar e lutava contra as dores que a dominavam. O médico não está. Sentes-te suficientemente bem para ires até Paris?

Sarah olhou-o, horrorizada com a sugestão.

- Não posso... não sei o que aconteceu... Não consigo mover-me... as dores estão sempre a aparecer... e são terríveis.

- Não te preocupes. Volto já! - Deu-lhe uma palmadinha no braço e correu de volta ao rés-do-chão, decidido a seguir o conselho da mulher do hospital. Telefonou para o hotel e perguntou se havia alguém que o pudesse ajudar, mas a rapariga que o atendeu era a filha do proprietário. Só tinha dezassete anos, era muito tímida e não lhe serviria para nada. Informou-o de que toda a gente tinha acorrido ao incêndio, incluindo os pais.

- Se aparecer alguém, uma mulher qualquer que pense que pode ajudar, mandem-na ao castelo. A minha mulher está a ter um bebé. - Desligou e correu para o primeiro andar, para junto de Sarah, que jazia na cama, banhada em Suor, ofegante e gemendo.

- Tem calma, querida, trataremos disto os dois. - Foi lavar as mãos e regressou com outra enorme pilha de toalhas, que dispôs em volta dela. A seguir colocou-lhe um pano molhado na testa. Sarah começou a agradecer-lhe mas as dores eram demasiado intensas para a deixar falar. Sem saber porquê, William olhou para o relógio. Era quase meia-noite. Bom, vamos ter o bebé esta noite.

Tentou mostrar-se alegre enquanto lhe segurava na mão e a via contorcer-se com dores. Não sabia o que fazer e Sarah implorava-lhe que fizesse qualquer coisa sempre que as terríveis dores a atacavam.

- Tenta deixar-te ir. Tenta pensar nelas como sendo o que acabará por te dar um bebé.

- É horrível... Wilham... William... fá-las parar... Faz qualquer coisa!... - gritava, enquanto William permanecia a seu lado, impotente, desejoso de ajudar mas sem saber como. Não tinha a certeza de haver alguém que o conseguisse, e Sarah estava assustada com a violência das dores. O aborto fora mau, mas aquilo era infinitamente pior. Muito pior do que na verdade temera que fosse. - Oh, meu Deus... Oh,, William, aí vem ele!

William ficou aliviado por o bebé querer saír tão depressa. Se o parto fosse mau por pouco tempo, então Sarah sobreviveria. Rezou para que tudo acontecesse rapidamente.

- Posso ver? - perguntou, hesitante, mas Sarah acenou e afastou as pernas, como se quisesse dar espaço ao bebé. William espreitou e viu-lhe apenas um pouco da cabeça, coberta de sangue e de cabelos louros. O espaço que via tinha apenas cinco centímetros de largura e parecia-lhe que seriam necessários apenas mais alguns momentos para que o bebé nascesse. Gritou-lhe, excitado:

- Estou a vê-lo, está a saír, querida. Empurra-o para fora. Força, empurra o nosso bebé...

Continuou a encorajá-la e pôde ver o resultado dos esforços de Sarah. Por momentos, a cabeça do bebé parecia ficar mais perto, mas depois voltava para trás. Era uma dança lenta. Não houve quaisquer progressos durante muito tempo. Contudo, a seguir, a zona da cabeça do bebé que se encontrava à vista pareceu tornar-se um pouco maior. Sarah segurou as pernas contra o peito para poder fazer mais força, mas o bebé não se movia. Estava desesperada, gritava de dor, recordando-se do que o médico dissera, que o bebé podia ser muito grande para nascer daquele modo.

- Sarah, podes fazer mais força? - implorou-lhe William. O bebé parecia estar entalado... e já estavam naquilo havia horas. Passava das quatro da manhã e Sarah começara a esforçar-se logo depois da meia-noite. Nem sequer podia descansar entre as dores porque só tinha uma pausa de alguns segundos para recuperar o fôlego e voltar a fazer força. William via que Sarah estava a entrar em panico e a perder o controlo. Voltou a agarrar-lhe as pernas e ordenou-lhe, com firmeza:

- Faz força, agora... agora... Vamos, isso mesmo! Sarah, faz mais força!

Gritava-lhe e tinha pena dela, mas não havia outra solução. O bebé nem sequer se encontrava suficientemente saído para que o pudesse ajeitar ou puxar. Cada vez que lhe gritava, via que a cabeça aflorava mais um pouco. Estavam a conseguir, mas eram seis da manhã, o Sol la nascer e o parto ainda não terminara.

Sarah continuou a esforçar-se e a tentar, mas às oito da manhã começava a perder muito sangue. Tinha um aspecto mortalmente pálido e o bebé não se mexera. Nessa altura, William ouviu movimentos no rés-do-chão e chamou quem quer que fosse que o pudesse ouvir. Sarah encontrava-se quase inconsciente e os seus esforços eram agora mais fracos. Não conseguia aguentar mais. William ouviu passos rápidos nas escadas e momentos depois viu aparecer Emanuelle, a jovem do hotel, de olhos muito abertos, envergando um vestido azul coberto por um avental.

-Vim ver se posso ajudar madame la duchesse a ter o bebé...

Contudo, William suspeitava que madame la duchesse estava a morrer e que não haveria bebé. Sarah tinha uma hemorragia, embora não incontrolável, mas o bebé não se mexia e Sarah estava exausta e não era capaz de fazer força quando lhe vinham as dores. Limitava-se a jazer na cama e a gemer, no intervalo entre os gritos. Se não fizessem qualquer coisa Muito rapidamente, iriam perdê-los aos dois. O trabalho de parto já durava havia nove horas e não dera qualquer resultado.

- Vem, depressa, e ajuda-me! - disse para a rapariga, que avançou para a cama sem hesitações. - já alguma vez assististe a um parto? - perguntou-lhe, sem desviar os olhos de Sarah. Começava a ganhar tom acinzentado e tinha os lábios ligeiramente azuis, mas William continuava a falar com ela, forçando-a a ouvi-lo.

- Sarah, escuta-me, tens de fazer força! Tens de te esforçar. Escuta o que te digo, faz força, agora! - William aprendera a sentir as contracções mantendo uma das mãos pousadas no estômago da mulher. A seguir virou-se para a rapariga do hotel: - Sabes o que é preciso fazer?

- Não - respondeu, com toda a honestidade. - Só vi partos de animais. - Falava com um forte sotaque francês mas o seu inglês era bom. - Acho que teremos de ser nós a empurrá-lo, ou... - Não lhe quis dizer que Sarah poderia morrer, mas ambos o sabiam.

- Eu sei. Olha, quero que empurres o bebé na minha direcção, com todas as tuas forças. Empurra-o quando eu disser... - William esperou a próxima contracção. Sentiu-. e fez sinal à rapariga, começando novamente a gritar para Sarah. Daquela vez, o bebé deslocou-se mais do que em todas as últimas horas. Emanuelle fazia toda a força que podia e receava matar a própria duquesa, mas sabia que não havia outra solução. Continuou a empurrar, a empurrar, tentando fazer saír o bebé para a vida antes que perdessem tanto a mãe como o filho.

- Está a resultar? - perguntou, e viu Sarah abrir os olhos quando William confirmou com um aceno. A duquesa pareceu ter consciência da presença deles por um instante, antes de voltar a mergulhar no seu mar de dores.

- Vamos, querida, faz força. Tenta ajudar-nos - pediu William, já de uma maneira mais calma, lutando contra as suas próprias lágrimas. Emanuelle assentou todo o seu peso sobre Sarah. William esperou, rezou... e, lentamente, muito lentamente, a cabeça do bebé saiu do corpo de Sarah, soltando um longo queixume ainda antes de o conseguirem libertar inteiramente. Sarah agitou-se quando o ouviu, olhando em volta, como se não compreendesse o que estava a acontecer.

- Que foi isso? - perguntou, desorientada, olhando para William.

- Isso... foi o nosso bebé. - Tinha lágrimas a correrem-lhe pelas faces, e Sarah começou a entrar em pânico quando as dores recomeçaram e soube que tinha de voltar a fazer força. Ainda tinham de libertar os ombros do bebé, mas William ajudava, tentando puxá-lo enquanto a mãe e o filho choravam e ele sentia o suor a misturar-se com as lágrimas. Sarah não podia ajudá-los. Estava demasiado fraca e o bebé era muito grande. O médico de Chaumont tivera razão. Nunca deveria ter tentado dá-lo à luz, mas agora era tarde. Encontrava-se metade de fora e tinham de o conseguir libertar.

- Sarah, faz força, mais uma vez! - gritou William, e Emanuelle continuou a pressionar-lhe a barriga até parecer que se arriscava a atravessá-la. Porém, o bebé avançou mais um pouco e William conseguiu libertar-lhe um braço, mas não o outro. De súbito, lembrou-se dos cachorros que ajudaraa nascer havia tanto tempo. Um deles fizera o mesmo e fora terrível para a mãe, mas salvara-os aos dois. O cachorro forainvulgarmente grande, tal como acontecia com o seu próprio filho.

Então, quando as dores fizeram Sarah contrair-se e gritar, William meteu a mão no seu interior e tentou, com cuidado, colocar o bebé num ângulo diferente enquanto lhe apalpava o ombro. Sarah deu um salto de angústia e debateu-se com todas as suas forças.

- Segura-a! - gritou para a rapariga. - Não a deixes mexer-se! - Sarah podia matar a criança. Emanuelle segurou-acom força e William baixou-lhe as pernas, tentando libertar o bebé. Então, com um estranho som, o outro braço saltou para o exterior, os ombros ficaram livres e momentos depois William fazia saír tudo o resto. Era um rapaz, muito bonito e enorme.

William segurou-o, sob a luz do Sol, para o observar em toda a sua beleza... e agora já sabia o que a mãe quisera dizer quando falara de um milagre. Fora precisamente o que acontecera.

Cortou o cordão com cuidado e entregou o bebé à rapariga, enquanto limpava o rosto de Sarah com panos húmidos e lhe tentava estancar o sangue com toalhas.

Porém, agora, Emanuelle já sabia o que devia ser feito. Pousou o bebé no chão, num pequeno ninho de cobertores e aproximou-se de Wilham.

- Tem de lhe carregar com força no estômago... assim... para que deixe de sangrar. Ouvi a minha mãe dizer isto a respeito das mulheres que tiveram muitos filhos.

A jovem carregou na parte inferior do abdómen ainda com mais força do que da primeira vez e amassou-o como se fosse pão, enquanto Sarah gritava fracamente, implorando-lhes que parassem, mas William via que a rapariga tinha razão. A hemorragia abrandou pouco a pouco, até só restar um fio de sangue que lhes pareceu normal.

Era meio-dia e Wilham não conseguia acreditar que tinham sido necessárias doze horas para o nascimento do seu filho. Doze horas a que Sarah e o bebé só com dificuldade haviam sobrevivido. Ainda se encontrava mortalmente pálida, mas os lábios haviam perdido o tom azulado. William levou-lhe o bebé e levantou-o para ela o poder ver. Sorriu, mas estava fraca de mais para lhe segurar. Fitou William, grata, sabendo instintivamente que fora ele quem os salvara.

- Obrigada - sussurrou, enquanto as lágrimas lhe escorriam pelas faces e ele a beijava.

William entregou o bebé a Emanuelle, que o levou para o piso térreo para o lavar e para mais tarde o poder devolver à mãe. A seguir lavou Sarah, mudou-lhe as roupas da cama e envolveu-a em toalhas e cobertores limpos. Fora a pior coisa que William jamais vira, mas também a mais maravllhosa. Quando desceu para lhe fazer uma chávena de chá, com um leve toque de brande, sentia-se completamente dominado pelas suas próprias emoções. Depois do chá feito, não resistiu a tomar um gole.

- É um belo rapaz - disse Emanuelle, observando-o. Pesa cinco quilos! Mais de dez libras! - anunciou, espantada. Ali estava a explicação para a agonia de Sarah.

William sorriu, admirado, e tentou exprimir os seus agradecimentos à jovem. Fora corajosa, incrivelmente útil, e sabia que, sem ela, não teria conseguido salvar o bebé ou a própria Sarah.

- Obrigado - disse-lhe, verdadeiramente grato. Não teria conseguido salvá-los sem a tua ajuda.

A rapariga sorriu e subiu para ir ver Sarah. Esta tomou um gole de chá e voltou a sorrir quando viu o bebé. Ainda tinha dores e estava muito fraca, mas o brande talvez a ajudasse. Mesmo naquele estado de fraqueza, estava encantada com o filho.

William disse-lhe dos cinco quilos do bebé e quis pedir-lhe desculpa pelo que tivera de passar, mas não teve oportunidade para o fazer. Sarah adormeceu antes de ter tempo de virar a cabeça sobre a almofada. Dormiu durante quatro horas, com William sentado numa cadeira a seu lado, a observá-la. Quando voltou a acordar, ao crepúsculo, parecia um pouco mais recuperada e pediu-lhe que a ajudasse a ir à casa de banho. William assim fez. Depois, levou-a de volta para a cama, espantado com a resistência das mulheres.

 

- Deixaste-me muito preocupado - confessou, enquanto ela se deitava. - Não fazia ideia de que o bebé era tão grande. Cinco quilos... é imenso!

- O médico avisou-me que podia ser grande... - respondeu, mas não lhe disse que se recusara a fazer uma cesariana, com medo de não poderem vir a ter outros filhos. Sabia que, se tivesse informado William dessa possibilidade, este a teria obrigado a regressar a Londres. Estava contente por não o ter feito e por ter sido tão corajosa... mesmo que tivesse sido uma loucura. Assim, agora, teriam mais crianças... e aquele belo filho. Iriam chamar-lhe Phillip Edward, pois eram esses os nomes do avô de William e do pai dela. Nunca na vida vira um bebé tão bonito, pensou, quando segurou no filho pela primeira vez.

Emanuelle deixou-os ao crepúsculo, para voltar ao hotel. Quando William a acompanhou ao rés-do-chão, viu alguns dos operários que trabalhavam para ele a acenar-lhe à distância. Devolveu-lhes o aceno com um sorriso, pensando que lhe davam os parabéns pelo nascimento do filho, mas depois compreendeu que lhe gritavam qualquer coisa que, à primeira, não conseguiu entender. A seguir ouviu palavras que lhe gelaram o sangue e o fizeram correr para eles.

C’est la guerre, monsieur le duc... C’est la guerre...

Era a guerra, diziam-lhe. A Inglaterra e a França haviam declarado guerra à Alemanha naquela tarde... O seu bebé acabara de nascer... a sua esposa quase morrera... e ia ser obrigado a abandoná-los. Ficou a ouvir os homens durante muito tempo, sabendo que precisava de voltar a Inglaterra o mais depressa possível. Se pudesse, também tinha de mandar uma mensagem para Inglaterra. Que explicação iria dar a Sarah? Nenhuma, por enquanto. Estava fraca de mais para ouvir uma tal notícia... mas teria de a conhecer em breve. Não poderia ficar junto deles muito mais tempo.

Quando se apressou a regressar ao quarto, para a ver, e ao bebé adormecido, tinha lágrimas a escorrerem-lhe pelo rosto. Era uma injustiça. Porquê agora? Sarah olhou-o como se pressentisse alguma coisa.

- Que barulho foi aquele, lá fora? - perguntou, numa voz fraca.

- Alguns dos homens vieram dar-te os parabéns por teres dado à luz um rapaz tão bonito.

- Que simpáticos... - murmurou, ensonada. Voltou a mergulhar no sono enquanto William jazia a seu lado e a observava, receoso do que pudesse vir a acontecer.

 

O dia seguinte nasceu ensolarado e quente, e o bebé acordou-os logo após a madrugada, chorando pela mãe. Willíam levou-o a Sarah e colocou-lho junto ao seio, ficando a olhar. O rapaz parecia saber precisamente o que fazer e Sarah esboçou um sorriso para o marido. Ainda mal se conseguia mexer mas estava melhor do que no dia anterior. De súbito, recordou-se dos gritos no exterior e da expressão no rosto de William. Percebeu que se passara qualquer coisa que o marido ainda não lhe dissera.

- O que foi aquilo, a noite passada? - perguntou, num tom baixo, enquanto o esfomeado bebé se alimentava na mãe e William perguntava a si mesmo se não seria cedo para lho dizer. Contudo, tinha de o fazer. Telefonara para o duque de Windsor, para Paris, na noite anterior, e ambos haviam concordado que tinham de regressar rapidamente a Inglaterra. Wallis iria com ele, é claro, mas William ainda não podia impor uma tal viagem a Sarah, nem naquele momento, nem dentro de semanas... ou até de meses. Tudo dependia da rapidez da sua recuperação, coisa que era impossível prever. Entretanto, sabia que tinha de regressar a Inglaterra para se apresentar no Ministério da Guerra. Sarah ficaria a salvo em França, mas odiava ter de a deixar sozinha. Sarah observava-o e apercebeu-se de todas as suas angústias e preocupações. Para William, aqueles dois últimos dias haviam sido terríveis.

- Que se passa? - insistiu Sarah, estendendo a mão para lhe tocar.

- Estamos em guerra - explicou William, com tristeza, incapaz de lhe esconder a verdade durante mais tempo e rezando para que ela estivesse suficientemente forte para aguentar a novidade e as respectivas implicações. - A Inglaterra e a França contra a Alemanha. Aconteceu ontem, quando estávamos ocupados a trazer o Phillip ao mundo. - Ambos sabiam que essa fora uma tarefa dura, que lhes desviara as atenções do resto, mas agora já não podiam escapar à realidade.

As lágrimas subiram-lhe aos olhos logo que ouviu a notícia e Sarah fitou William, receosa.

- Que significa isso, para ti? Que tens de partir em breve?

- Sim, tenho de partir - confirmou desgostoso, desesperado por a deixar sozinha, mas não tinha por onde escolher. - Tentarei enviar-lhes um telegrama a dizer-lhes que me apresentarei dentro de poucos dias. não quero partir sem estares um pouco mais forte. - Tocou-lhe na mão com gentileza, recordando tudo o que ela havia sofrido. Tê-los ali, aos dois, parecia-lhe um duplo milagre, e odiava ter de os deixar ficar para trás. - Quando me for embora, pedirei à Emanuelle para ficar contigo. É uma boa rapariga. - Não havia dúvida de que o demonstrara muito bem no dia anterior, durante o parto.

Emanuelle regressou nessa manhã, depois das nove, com um ar impecavelmente limpo noutro vestido azul com um avental acabado de passar. Tinha o cabelo vermelho-escuro puxado para trás, numa espessa trança que lhe caía pelas costas, amarrada com um laço azul. Tinha dezassete anos e o seu irmão mais novo tinha apenas doze. Havia passado a sua vida em Marolle. Os pais eram pessoas simples, trabalhadoras e inteligentes, tal como os filhos.

Aproveitando o facto de a ter ali, William dirigiu-se aos correios para enviar um telegrama ao Ministério da Guerra. Porém, logo depois de regressar ao castelo, surgiu Henri, o irmão de Emanuelle, vindo do hotel.

-  O seu telefone está avariado, monsieur le duc - anunciou. O duque de Windsor acabara por telefonar para o hotel para o informar que o HMS Kelly os iria buscar no dia seguinte ao Havre, e que tinha de partir imediatamente para Paris.

O rapaz ainda estava sem fôlego quando deu o recado a William. Este agradeceu-lhe, deu-lhe dez francos e subiu para dar a novidade a Sarah.

- Acabei de receber um recado do David - explicou, num tom vago, caminhando lentamente em volta do quarto e tentando ver tudo, para mais tarde poder recordar-se. Ele... Bom, o Bertie vai mandar um navio para nos levar a Inglaterra. Chega amanhã.

- Aqui? - Sarah parecia confusa. Estivera a dormitar enquanto William tratava do telegrama.

- Ora, claro que não! - Sorriu quando se sentou ao lado dela, na cama. Estavam a duzentos e cinquenta quilómetros da costa. - Ao Havre. O David quer encontrar-se comigo em Paris, amanhã, às oito da manhã. Penso que a Wallis irá connosco. - Olhou novamente para a mulher, com uma careta de preocupação. - Suponho que não te sentes suficientemente forte para nos acompanhar...

Sabia que não, mas tinha de lho perguntar, por uma questão de paz de espírito. Sarah poderia ter novas hemorragias se a deslocassem demasiado cedo, e perdera muito sangue quando tivera o bebé. Continuava pálida e muito fraca. Precisaria pelo menos de um mês para ter forças para ir a qualquer lado. Nem sequer podia pensar em levá-la para Paris, ou obrigá-la a fazer uma viagem de barco até à Inglaterra. Sarah abanou a cabeça, numa resposta muda.

- Não gosto de te deixar aqui sozinha - continuou William.

- A França é nossa aliada. Não teremos Problemas. Sorriu para ele. Não queria que o marido se fosse embora, mas não se importava de ficar ali. Agora, aquela era a casa deles. - Descansa que ficaremos bem. Voltarás em breve?

- Não sei. Enviar-te-ei notícias assim que puder. Tenho de me apresentar no Ministério da Guerra, em Londres, para saber o que pretendem de mim. Procurarei voltar aqui o mais depressa possível. Tens de voltar para casa quando te sentires melhor - declarou, com alguma firmeza.

- Esta é a minha casa - sussurrou, olhando-o. - Não quero ir. O Phillip e eu estaremos a salvo aqui.

- Eu sei... mas ficaria mais descansado se te soubesse em Whitfield.

A perspectiva deprimia-a. Gostava da mãe dele, a casa era bonita mas o Castelo de Metize tornara-se num verdadeiro lar. Haviam trabalhado tanto para o transformar naquilo que desejavam que agora não tinha vontade de o abandonar.Havia ainda muito trabalho a fazer, que ela própria Poderia realizar quando se sentisse mais forte, enquanto esPerava que ele regressasse de Inglaterra.

Veremos... - concluiu William, num tom vago, começando a preparar a mala que levaria consigo na manhã seguinte.

Nenhum deles dormiu naquela noite e até o bebé chorou mais do que na noite anterior. O leite de Sarah ainda não era suficiente para um bebé tão grande, o que a deixava nervosa e preocupada. Viu William levantar-se às cinco da manhã, quando pensou que ela estaria finalmente a dormir, e falou-lhe baixinho.

- Não quero que vás - disse, com tristeza. William aproximou-se, tocou-lhe na mão e na face, desejando poder ficar.

- Também não quero ir. Felizmente, tudo estará terminado em breve e poderemos continuar com a nossa vida. Sarah acenou, esperando que o marido tivesse razão e tentando não pensar nas pobres pessoas da Polónia.

Meia hora mais tarde, já barbeado e vestido, William voltou a parar junto da cama e Sarah levantou-se. Sentiu breves tonturas e William passou-lhe um braço forte em volta dos ombros.

- Não quero que vás lá abaixo, podes magoar-te quando tentares subir as escadas para voltar para aqui. - Sarah sentia-se muito insegura, poderia desmaiar e bater com a cabeça. Estava ainda fraca para o tentar e sabia-o.

- Amo-te... Por favor, tem cuidado contigo... William, tem cuidado... - Havia lágrimas nos olhos de ambos, mas William sorriu e ajudou-a a voltar para a cama.

- Juro-te que assim farei. Tem cuidado, tu também... e toma bem conta de Lorde Phillip.

Sarah sorriu para o filho. Era um bebé maravilhoso, com grandes olhos azuis e caracóis louros. William dizia que se parecia com as fotografias do seu próprio pai.

Beijou-a com força e depois aconchegou-a na cama, voltando a beijá-la enquanto lhe afagava os longos cabelos sedosos que lhe caíam em cascata sobre os ombros.

 

- Vê se recuperas as forças... Voltarei em breve... Amo-te muito! - Sentia-se novamente grato por ela estar viva. Atravessou a sala e olhou-a pela última vez, junto à porta. Amo-te - repetiu baixinho enquanto Sarah chorava. Depois, de súbito, já ali não se encontrava.

- Amo-te! - gritou Sarah, quando ainda conseguia ouví_lo nas escadas. - William, amo-te!

- Também te amo! - Chegou-lhe o eco da resposta e a seguir ouviu o estrondo da porta da frente. Momentos depois, escutou o ruído do carro a arrancar. Voltou a saír da cama a tempo de ver desaparecer o carro na curva, a caminho da entrada do castelo, enquanto as lágrimas lhe escorriam pelas faces e lhe caíam sobre a camisa de dormir. Atirou-se para a cama, sempre a chorar, e ficou a pensar nele durante muito tempo. A seguir, Phillip reclamou as suas atenções e Emanuelle reapareceu. Agora, iria mudar-se para ali. Ficaria a viver com Sarah, para a ajudar a tratar do bebé. Tratava-se de uma grande oportunidade e já tinha revelado muita admiração por Sarah e uma verdadeira adoração pelo bebé que ajudara a nascer. Contudo, nunca se mostrava demasiado familiar. Exibia uma pose invulgar para uma rapariga da sua idade e era uma ajuda sem preço para Sarah.

Depois da partida de William, os dias pareceram-lhe intermináveis antes de começar a recuperar as forças. Em Outubro, quando Phillip já tinha um mês, recebeu uma chamada da duquesa de Windsor, informando-a de que estavam de volta a Paris. Tinham visto William antes da sua partida para Londres e estava bem. Fora incorporado na RAF e encontrava-se estacionado a norte de Londres. O duque de Windsor VOltara para Paris como general, para prestar serviço com a Missão militar junto do Alto Comando Francês. No fundo, Isso queria dizer que teriam de dar muitas recepções, o que lhes servia na perfeição. Voltou a dar os parabéns a Sarah Pelo nascimento do filho e disse-lhe que fosse a Paris para a Visitar quando se sentisse mais forte. William contara-lhe que Sarah passara por momentos dificeis e Wallis íncitou-a a não fazer esforços exagerados.

Sara já andava de um lado para o outro na casa, vigiando as coisas e fazendo pequenas reparações. Pedira ao hotel que lhe arranjassem uma mulher para a ajudar a fazer as limpezas, enquanto Emanuelle se encarregava do bebé. Este parecia-lhe enorme e ganhara mais mil e duzentos gramas em quatro semanas. Era verdadeiramente gigantesco.

O irmão de Emanuelle, Henri, ajudava Sarah, fazendo recados, mas a maior parte dos homens e rapazes que tinham trabalhado para eles havia já desaparecido para ir para o exército. Não havia ninguém para trabalhar no castelo, excepto velhos e rapazes muito novos. Até os rapazes de dezasseis e dezassete anos haviam mentido quanto à idade para entrar no exército. França parecia uma nação de mulheres e crianças.

Sarah recebera notícias de William por várias vezes. As cartas haviam conseguido passar e o marido telefonara-lhe uma vez. Afirmara que, por enquanto, não acontecera nada de especial e que tinha a esperança de poder fazer-lhe uma pequena visita em Novembro.

Também tivera notícias dos pais, que estavam desesperados por ver Sarah voltar a casa, levando o bebé. O Aquitania fizera uma travessia para Nova Iorque logo depois de a guerra ter sido declarada, apesar dos receios de todos, mas Sarah ainda não se encontrava recuperada para poder embarcar, pelo que não lho tinham sugerido. Porém, depois disso, três outros navios haviam feito a ligação entre Nova iorque e Inglaterra, o Manhattan, o Washington e o Presidente Roosevelt, para transportarem americanos para a segurança da sua terra. Tal como Sarah insistira com William, afirmando que ficaria em segurança, também escrevera o mesmo nas cartas para os pais, mas ainda não os conseguira convencer.

 

Estavam aterrorizados com o facto de a filha permanecer em França durante a guerra, mas Sarah sabia que aquelas preocupações eram absurdas. A vida em torno do Castelo de Metize era mais tranquila do que nunca e a região mantinha-se em paz.

Em Novembro, Sarah voltou a sentir-se tão saudável como anteriormente. Deu longos passeios, levando muitas vezes o filho consigo. Trabalhou no jardim, nas suas amadas boiseries e chegou até a fazer alguns trabalhos pesados, nos estábulos, sempre que Henri tinha tempo para a ajudar. Era um rapazinho agradável, muito atraente e sempre disposto a ajudá-la. Tal como Emanuelle, adorava viver no castelo. Sarah já não precisava da ajuda de Emanuelle durante a noite, mas esta mudara-se para a casa do caseiro e aparecia de manhã para trabalhar.

Numa tarde de finais de Novembro, Sarah dirigia-se a casa, vinda dos bosques, cantarolando para Phillip, que transportava numa espécie de funda que Emanuelle lhe fizera. O bebé estava quase a dormir quando Sarah chegou à porta da frente, soltando um suspiro de alívio. Entrou... e soltou um grito quando o viu. Era William quem ali estava, de pé, envergando o seu uniforme e mais bonito do que nunca. Sarah correu para os seus braços e ele apertou-a, tentando não esmagar o bebé. Sarah retirou-o rapidamente da funda e pousou-o com cuidado. Sobressaltara-se com o grito da mãe e começara a chorar mas, naquele momento, Sarah só conseguia pensar em William.

- Tive tantas saudades tuas... - As palavras saíram-lhe abafadas pelo peito dele, que a apertou com força, quase a magoando.

- Meu Deus, também senti a tua falta. - William afastou-a para a poder olhar. - Estás outra vez com um aspecto maravilhoso. - Era verdade. Sarah estava mais magra, mas muito forte e saudável. - Céus, como és bela!... - declarou, ôlhando-a como se a quisesse devorar. Sarah riu-se enquanto o beijava.

Emanuelle ouvira-os a conversar. Vira o duque quando este chegara, pelo que apareceu para levar o bebé. Iria querer ser alimentado muito em breve mas podia tomar conta dele, pelo menos durante alguns momentos, para que Sarah pudesse passar algum tempo com o marido. Subiram as escadas de mãos dadas, conversando e rindo, enquanto ela lhe fazia mil perguntas sobre para onde ia, onde estivera e para onde o enviariam depois do treino terminar. William já anteriormente voara na RAF e estava apenas a familiarizar-se com os novos equipamentos. Teve o cuidado de não lhe dizer o que sabia. Iam mandá-lo para o comando de bombardeiros, para pilotar bombardeiros Blenheim. Como não queria deixá-la preocupada, contou-lhe tudo com muita ligeireza. No entanto, explicou-lhe que as pessoas em Inglaterra estavam a levar a guerra muito a sério.

- Aqui também a levam a sério - disse Sarah. - já não resta ninguém, excepto Henri, os seus amigos e um monte de velhos fracos de mais para poderem trabalhar. Tenho sido eu a fazer tudo com a ajuda do Henri e da Emanuelle. Mesmo assim, já quase terminei os estábulos. Espera, até os veres!

William quisera ter metade dos estábulos preparados para os cavalos que iriam comprar no local, bem como alguns que iria buscar a Inglaterra, dividindo o resto em pequenos quartos para o pessoal e em tarimbas para ajudantes que pudessem contratar temporariamente. Era um excelente sistema e tinham agora espaço para quarenta ou cinquenta homens e outros tantos cavalos.

- Afinal não precisas de mim para nada! - comentou William, fingindo estar aborrecido. - Talvez seja melhor eu ficar em Inglaterra.

- Não te atrevas! - Sarah esticou-se e beijou-o mais uma vez. Quando entraram no quarto, William fê-la rodopiar e beijou-a com tanta força que Sarah compreendeu até que ponto o marido sentira saudades dela.

William fechou a porta e olhou-a, adorador, Sarah começou a desabotoar-lhe o casaco do uniforme e ele puxou-lhe a pesada camisola por cima da cabeça. A camisola era do próprio marido, que a atirou para o outro lado do quarto, ficando a olhar para os seus seios bem cheios e para a cintura que voltara a ser muito fina. Era difícil acreditar que tivera um bebé.

- Sarah... és tão bela... - Estava praticamente sem fala e sem controlo. Nunca a desejara tanto, nem sequer na primeira noite que haviam passado juntos. Quase não conseguiram chegar à cama, mas quando se deitaram encontraram-se rapidamente e bem, e os seus anseios explodiram quase instantaneamente quando cederam à fome que tinham um pelo outro.

- Fizeste-me tanta falta... - confessou Sarah, que se sentira muito só sem ele.

- Nem metade da falta que tu me fizeste - respondeu William.

- Vais ficar por quanto tempo?

Hesitou, porque já lhe parecia pouco tempo, embora inicialmente o tivesse considerado uma dádiva.

- Três dias. Não é muito, mas terá de chegar. Espero cá estar outra vez por altura do Natal.

O Natal encontrava-se a um mês de distância. No mínimo, quando ele partisse, Sarah poderia ficar à espera desse momento. Porém, naquela altura, não suportava a ideia de o ver partir.

Ficaram na cama durante muito tempo, mas depois ouviram Emanuelle com o bebé, no exterior do quarto. Sarah vestiu um roupão e foi buscá-lo.

Trouxe Phillip, que exigia ruidosamente o seu jantar. William sorriu ao vê-lo mamar, esfomeado, com uma ânsia que o fazia engasgar-se com o próprio leite e emitir toda a espécie de ruídos estranhos.

- As suas maneiras à mesa são terríveis, não é verdade? perguntou William com um grande sorriso.

- Um dia, teremos de tratar disso - respondeu Sarah, mudando-o, para o outro seio. - É tão horrível como um porquinho. Quer passar todo o tempo a comer.

- Aparentemente, é o que faz. Está três vezes maior do que era quando nasceu... e nessa altura já eu o achava enorme.

- Também eu... - declarou Sarah, pesarosa, e só então

William pensou em algo de que até aí não se lembrara. Olhou-a com gentileza.

- Queres que tenha mais cuidado? - inquiriu, mas Sarah abanou a cabeça e sorriu. Desejava ter mais filhos dele.

- Claro que não, mas não me parece que tenhamos de nos preocupar com isso neste momento. Acho que não ficarei grávida enquanto estiver a amamentar.

- Nesse caso... vai ser divertido... - comentou William, provocando-a.

Passaram os três dias seguintes tal como haviam feito durantea lua-de-mel: quase sempre na cama. Nos intervalos, Sarah fê-lo visitar a propriedade, para lhe mostrar o que já havia feito na sua ausência. Trabalhara em diversas coisas e William ficou impressionado quando viu os estábulos.

- És espantosa! Eu não o teria feito sem ajuda. Não sei Como conseguiste.

Sarah passara muitos dias a martelar, a serrar e a pregar até muito depois da meia-noite, com o pequeno Phillip a seu lado, no berço, envolto em cobertores.

- Não tinha mais nada para fazer. Sem ti aqui em casa não tenho muito com que me entreter.

William olhou para o filho com uma expressão triste.

- Espera até ele começar a mexer-se. Tenho a impressão de que irá manter-te muito ocupada.

- Então, e tu? - perguntou Sarah, enquanto caminhavam de volta à casa. Os três dias já haviam passado e William iria deixá-la na manhã seguinte. - Quando voltas? Que tal vão as coisas lá fora, nesse mundo grande e desagradável?

- Muito feias. - Contou-lhe os factos já conhecidos, ou parte deles, sobre o que se passara em Varsóvia. O gueto, os pogroms, as montanhas de corpos, até de crianças que haviam combatido e perdido. Da Alemanha também vinham histórias muito feias. Receava-se que Hitler pudesse avançar para os Países Baixos, mas até ao momento não o fizera. Mantinham-no afastado tanto quanto possível, mas não era fácil. - Gostaria de pensar que tudo terminará em breve... mas não tenho a certeza. Talvez aquele patife recue se o assustarmos. No entanto, parece-me que não lhe falta, atrevimento...

- Não quero que te aconteça nada - afirmou Sarah, angustiada.

- Descansa, querida, não tens de te preocupar. Seria um terrível embaraço para eles se me acontecesse alguma coisa. Acredita, o Ministério da Guerra vai manter-me bem protegido, rodeado por algodão. Os homens ficam um pouco mais encorajados ao ver alguém como eu vestido com o mesmo uniforme e entretido com os mesmos jogos. - Tinha trinta e sete anos e era muito improvável que o viessem a utilizar na linha da frente.

- Espero que tenhas razão.

- E tenho. Estarei de volta aqui, antes do Natal, para te ver. - William começava a gostar da ideia de saber que Sarah se encontrava em França. Em Inglaterra, as coisas pareciam muito frenéticas e assustadoras. Ali, em comparação, o ambiente continuava pacífico. Era como se nada tivesse acontecido, excepto quanto a não se verem homens jovens em lado nenhum. Só se viam crianças.

A última noite em que estiveram juntos passaram-na na cama e Sarah acabou por adormecer nos braços de William, que teve de a acordar quando o bebé chorou, chamando pela mãe. Estivera mergulhada num sono profundo e feliz. Voltaram a fazer amor logo que Sarah acabou de alimentar o bebé. De manhã, William teve de se arrastar para fora da cama.

- Voltarei em breve, meu amor - prometeu, quando saiu. Daquela vez, para Sarah, a partida de William não lhe pareceu tão desesperada. Encontrava-se bem e a salvo. Aparentemente, não corria qualquer espécie de perigo.

William cumpriu a sua palavra e voltou um mês mais tarde, dois dias antes do Natal. Passou um dia de Natal tranquilo, junto dela, e de súbito reparou em algo que já vira anteriormente mas que, daquela vez, não conseguia compreender.

- Ganhaste peso - comentou. Sarah ficou sem saber se se tratava de um cumprimento ou de uma queixa. E era verdade que ganhara peso em volta da cintura, nas ancas, e que tinha os seios mais cheios. Passara-se apenas um mês desde a partida do marido mas o seu corpo transformara-se, o que o intrigava. - Será que estás grávida outra vez?

- Não sei - respondeu Sarah, um pouco vaga. já por uma ou duas vezes fizera essa pergunta a si mesma. Sentia náuseas ocasionais e só lhe apetecia dormir. - Não me parece.

- Pois eu penso que estás. - William sorriu mas, de repente, começou a preocupar-se. Não lhe agradava deixá-la ali sozinha, em particular se estivesse grávida. Falou no assunto nessa noite, e perguntou-lhe se não estava disposta a ir para Whitfield.

 

- É uma parvoíce, William. Nem sequer sei se estou grávida. - Não queria saír de França, grávida ou não. Desejava ficar ali, na sua casa, a tomar conta do bebé, e a martelar e serrar até tudo se encontrar restaurado.

- Mas pensas que estás, não é verdade?

- Penso que... posso estar.

- Oh, tu, mulher perversa! - Todavia, o facto só serViu para o excitar novamente. Depois de fazerem amor, William ofereceu-lhe o único presente de Natal que conseguira levar-lhe, uma bela pulseira de esmeraldas, que fora da mãe. Tinha grandes pedras rodeadas por diamantes muito antigos e fora encomendada muitos anos antes, no Garrard’s, por tini marajá. Não era uma coisa que pudesse usar todos os dias, mas seria uma jóia esplêndida para quando o marido regressasse a casa e voltassem a saír juntos.

- Não estás desapontada por não ter mais coisas para ti? Sentia-se culpado por não lhe ter levado mais nada, mas não lhe fora possível. Retirara a pulseira do cofre, à pressa, em Whitfield, com a bênção da mãe.

- Estou, sim! - respondeu Sarah, provocando-o. O que eu na verdade desejava de presente era um conjunto de ferramentas de canalizador. Tenho andado a tentar arranjar algumas daquelas malditas sanitas que os homens começaram a instalar no Verão passado.

- Amo-te! - retorquiu William, com uma gargalhada. Sarah ofereceu-lhe um quadro que tinha encontrado escondido no estábulo, bem como um relógio velho e muito usado que ela adorava e que pertencera ao pai. Levara-o para a Europa como recordação do pai e agora entregara-o ao marido para que este o usasse. William pareceu genuinamente encantado.

O duque e a duquesa de Windsor passaram o Natal em Paris, muito atarefados com os seus acontecimentos sociais, enquanto os Whitfield trabalhavam lado a lado, reforçando vigas no celeiro e limpando os estábulos.

- Que diabo de maneira de passar o dia de Natal, minha querida - comentou William quando se encontravam lado a lado, empunhando martelos e pás, e cobertos de pó e de excrementos secos.

- Eu sei - respondeu Sarah, sorrindo -, mas pensa em como este local ficará bonito quando acabarmos. William desistira de a convencer a ir para Whitfield. Sarah adorava aquele sítio e era ali que se sentia em casa. Voltou a deixá-la na véspera do Ano Novo. Sarah recebeu o Ano Novo sozinha, na cama, segurando no seu bebé. Esperava que aquele ano fosse melhor e que os homens regressassem a casa muito em breve. Entretanto, cantarolava Auld Lang Syne para o pequeno Phillip.

Em Janeiro já tinha a certeza de estar novamente grávida. Conseguira descobrir um velho médico em Chambord, que lhe confirmara o facto. O médico também lhe disse que a velha história a respeito das mulheres não poderem engravidar quando amamentavam nem sempre era verdadeira. Contudo, Sarah ficou feliz com a notícia. O irmão, ou irmã, de phillip, deveria chegar em Agosto. Emanuelle continuava a trabalhar para ela e também ficou muito excitada com a novidade. Prometeu fazer tudo o que pudesse para ajudar a duquesa com o novo bebé. Por seu lado, Sarah tinha a esperança de William já se encontrar de volta a casa por essa altura. Não tinha medo. Antes pelo contrário, estava satisfeita. Escreveu a William, comunicando-lhe a notícia, e este respondeu dizendo-lhe para ter cuidado. Também disse que a visitaria logo que pudesse, mas acabou por ser transferido para Watton, em Norfolk, com o 820 Comando de Bombardeiros. Voltou a escrever-lhe informamdo-a de que, naquelas condições, não tinha esperança de poder ir a França durante vários meses. Mencionou o facto de desejar que Sarah se mudasse para Paris em julho, pois poderia ficar com os Windsor se assim o desejasse. Não queria que voltasse a ter um bebé no castelo, em particular sem a sua presença. No entanto, esperava poder estar junto dela.

Em Março, Sarah recebeu uma nova carta de Jane, que tivera outra menina, a que havia dado o nome de Helen. Sarah sentia-se estranhamente distante da família, como se esta, tal como outrora, já não constituísse uma parte íntima dela Na vida. Tentava manter-se a par das novidades mas as cartas demoravam a chegar e muitos dos nomes a que se referiam já não lhe eram familiares. Havia ano e meio que a sua vida se encontrava completamente separada da deles, transformando-os em algo distante. A vida de Sarah era agora completamente dedicada ao filho, ao restauro da casa e à escuta das notícias sobre a Europa.

Ouvia todas as emissões, lia todos os jornais e prestava atenção a todos os boatos. Mas as notícias nunca eram muito boas nem lhe davam grandes esperanças. Nas suas cartas, William continuava a prometer que regressaria a casa muito em breve. Hitler parecia querer ganhar tempo enquanto decorria a Primavera de 1940, pelo que William e alguns dos seus amigos se interrogavam sobre se não iria recuar. Nos Estados Unidos, aquela situação fora baptizada com o nome de «falsa guerra»... mas, para os povos dos países ocupados Por Hitler, a guerra era muito real e nada tinha de falso.

No fim de Abril, os Windsor convidaram-na para um jantar em Paris, mas Sarah não aceitou. Não queria deixar Phillip sozinho no castelo, apesar de confiar em Emanuelle. Para além disso, estava grávida de cinco meses e não lhe parecia próprio saír de casa sem William. Enviou-lhes um delicado bilhete a recusar o convite. Apanhou uma terrível constipação no princípio de Maio. No dia quinze, quando os Alemães invadiram os Países Baixos, Sarah encontrava-se de cama. Emanuelle subiu as escadas a correr para lhe dar a notícia. Hitler estava de novo em movimento e Sarah desceu à cozinha para ver se conseguia apanhar alguma coisa no rádio.

Ficou toda a tarde a escutar as notícias que conseguia captar e no dia seguinte tentou telefonar a Wallis e David, mas os criados disseram-lhe que haviam partido ambos para Biarritz na manhã anterior. O duque levara a sua duquesa para o Sul, por uma questão de segurança.

Sarah voltou para a cama e uma semana mais tarde sofreu um tremendo ataque de bronquite. A seguir foi a vez de o bebé apanhar a bronquite e Sarah andou tão atarefada a tratá-lo que mal compreendeu o significado da notícia a respeito da evacuação de Dunquerque. Que fora que lhes acontecera? Como era possível que tivessem recuado?

Quando a Itália entrou na guerra contra a França e a Inglaterra, Sarah começou a ficar em pânico. A notícia era má, os Alemães atacavam a França e toda a gente estava aterrorizada, mas ninguém sabia para onde ir ou o que fazer. Sarah sabia que os Franceses nunca cederiam aos Alemães mas... e se bombardeassem a França? William e os seus próprios pais deveriam estar frenéticos, sem saber dela, e não tinha maneira de os contactar. Estavam isolados do mundo. Não conseguira telefonar para Inglaterra nem para os Estados Unidos. Depois, no dia catorze dejunho, ela e toda a gente ouviram a terrível notícia mergulhados num silêncio de espanto. O governo francês declarara que Paris era uma cidade aberta. Tinham-na literalmente entregue aos Alemães, que ao anoitecer já marchavam através da cidade, em vagas consecutivas. A França caíra perante os Alemães. Sarah ouvia e não conseguia acreditar. Ficou a olhar para Emanuelle, enquanto ouvia as notícias, e a jovem rebentou em pranto.

- Ils vont nous tuer... - lamentou-se. - Vão matar-nos. Morreremos todos.

 

- Não sejas tonta - retorquiu Sarah, tentando parecer firme, esperando que a rapariga não visse o modo como as suas mãos tremiam. - Não nos vão fazer nada. Somos mulheres... e, para além disso, é provável que nem sequer cheguem aqui. Tem Juízo, Emanuelle, acalma-te. -Porém, ela própria não acreditava nas palavras que pronunciava. William tivera razão. Deveria ter saído de França e agora era tarde de mais. Estivera tão ocupada a tratar de Phillip que não dera pelos sinais de aviso. Agora, não se podia arriscar a uma fuga para o Sul, tal como os Windsor haviam feito. Nunca conseguiria ir muito longe com um bebé nos braços e grávida de sete meses.

- Madame, que vamos fazer? - perguntou-lhe Emanuelle, pensando que tinha a obrigação de a proteger, tal como prometera a William.

- Absolutamente nada - respondeu Sarah tranquilamente. - Se vierem até aqui, não temos nada para lhes esconder nem para lhes dar. Tudo o que possuímos é o que cresce na horta. Não há pratas, nem jóias. - De súbito recordou-se da pulseira de esmeraldas que William lhe dera pelo Natal e das poucas coisas que trouxera para ali, tal como o anel de noivado e os primeiros presentes de Natal que o marido lhe oferecera em Paris. Não eram muitas coisas, podia escondê-las... e se fosse necessário podia dá-las para salvar a vida dos três. - Não temos nada que eles queiram, Emanuelle. Somos apenas duas mulheres sozinhas, com um bebé.

Mesmo assim, nessa noite, Sarah foi para a cama com uma das armas de William. Dormiu com o bebé a seu lado e com a arma debaixo da almofada. Escondeu as jóias debaixo das tábuas do soalho do bebé e voltou a pregá-las com toda a perícia. Depois tapou-as cuidadosamente com o tapete de Aubusson.

Passaram-se quatro dias sem que nada acontecesse. Sarah já concluíra que se encontravam tão a salvo como anteriormente quando viu aparecer uma coluna dejipes que avançava pela grande allée. Um bando de soldados alemães, de uniforme, saltou dos veículos e correu para ela. Dois dos soldados apontaram-lhe as armas e fizeram-lhe sinais para levantar as mãos, mas Sarah não podia porque estava a segurar no seu Phillip. Sabia que Emanuelle arrumava as coisas do pequeno-almoço, na cozinha, e rezou para que não entrasse em pânico quando visse os alemães.

Gritaram-lhe que avançasse e Sarah assim fez, parando quando lho ordenaram. Tentou mostrar-se impávida, mas segurava o bebé com as mãos trémulas. Dirigiu-se aos soldados em inglês.

- Em que os posso ajudar? - perguntou, tranquilamente e com uma grande dignidade, tentando fazer a sua melhor imitação das poses aristocráticas e imponentes de William.

Os soldados falaram em alemão entre eles, durante um bocado, até que um outro, de patente obviamente superior, se lhe dirigiu. Tinha um olhar zangado e uma boca com uma expressão maligna, mas Sarah esforçou-se por não dar por isso.

- És inglesa?

- Americana. - Aquilo pareceu surpreender o alemão, que voltou a falar com os companheiros antes de se virar de novo para ela.

-Quem é o dono desta terra? Da terra? Da quinta?

- Sou eu - declarou com firmeza para que todos a ouvissem. - Sou a duquesa de Whitfield.

Mais conversas em alemão, mais consultas entre os soldados. O mais graduado acabou por lhe fazer sinal com a arma, para que se desviasse.

 

- Vamos entrar - disse.

Sarah acenou o seu consentimento e todo o grupo entrou na casa. De súbito, ouviu-se um grito vindo da cozinha. Era óbvio que haviam surpreendido Emanuelle, que surgiu na frente de dois soldados de armas apontadas. Chorava quando correu para Sarah, que lhe passou um braço em volta dos ombros, segurando-a. Ambas tremiam, mas nada no rosto de Sarah podia revelar-lhe até que ponto estava assustada. Era o verdadeiro retrato de uma duquesa.

Um grupo de soldados ficou para trás, a guardá-las, enquanto os outros percorriam toda a casa. Voltaram no no mento em que surgia uma nova coluna de jipes. O soldado que parecia comandar dirigiu-se a Sarah e perguntou-lhe onde se encontrava o marido. Sarah respondeu-lhe que o marido estava fora e o alemão mostrou-lhe que tinha encontrado uma arma escondida debaixo da almofada, mas a jovem não se mostrou impressionada e continuou a observá-los. Nesse momento, um oficial alto e magro emergiu de um dos veículos e avançou para o grupo. O soldado no comando falou-lhe, mostrou-lhe a arma e acenou na direcção das mulheres enquanto fazia o seu relatório. A seguir fez um gesto para referir a casa. Era óbvio que lhe dizia o que encontrara ali. Sarah também o ouviu pronunciar a palavra «Amerikaner».

- É americana? - perguntou o novo oficial, num inglês que tinha apenas um leve sotaque alemão. Era óbvio que falava um excelente inglês e tinha um ar muito distinto.

- Sim. Sou a duquesa de Whitfield.

- O seu marido é britânico? - inquiriu rapidamente, de olhos postos nos dela. Noutro lugar e noutro tempo, Sarah têlo-ia considerado muito atraente. Provavelmente, ter-se-iam conhecido numa festa. Não era o caso. Estavam em guerra e ambos sabiam que tinham que manter as distâncias.

- Sim, o meu marido é britânico - foi tudo o que Sarah respondeu.

- Compreendo. - Fez uma longa pausa, a observá-la, e não se mostrou indiferente ao que viu na barriga dela. Lamento informá-la, Vossa Graça - prosseguiu, num tom educado -de que necessitamos de requisitar a sua casa. Vamos trazer tropas para aqui.

Sarah sentiu uma vaga de choque e ira, mas acenou sem nada revelar dos seus sentimentos.

- Sim, percebo... - As lágrimas subiram-lhe aos olhos. Não sabia o que lhe dizer. Tiravam-lhe a casa em que trabalhara tanto... E se nunca mais a recebesse de volta? Se a perdesse, ou a destruíssem? - Eu... - Tropeçou nas palavras e o alemão olhou em volta por instantes.

- Tem uma casa mais pequena? Uma vivenda? Um sítio onde possa viver com a sua família enquanto estivermos aqui?

Sarah lembrou-se dos estábulos, mas eram muito grandes e o oficial iria certamente transformá-los em caserna para os homens. A seguir recordou-se da casa do caseiro, onde Emanuelle vivia agora e onde ela se instalara inicialmente, com William. Era adequada. Podia lá ficar com Emanuelle, com Phillip e com o novo bebé.

- Sim, há outra casa - retorquiu, num tom fraco.

- Permite-me que a convide a mudar-se para lá? O oficial fez uma vénia, com uma dignidade prussiana. Os seus olhos eram amáveis e apologéticos. - Lamento muito... ter de lhe pedir que se mude. - Lançou um olhar para a criança que nasceria em Agosto. - Receio que venham aí muito mais tropas.

 

- Compreendo. - Sarah tentou manter uma voz digna, como uma duquesa, mas sentia-se apenas como uma rapariga de vinte e três anos e estava muito assustada.

- Acha que poderá mudar tudo aquilo de que irá necessitar até ao fim da tarde de hoje? - perguntou o alemão. Sarah confirmou com um aceno.

Os objectos pessoais não eram muitos, reduziam-se apenas a alguma roupa, e os de William também eram escassos. Haviam trabalhado tanto que não tinham tido tempo para trazer tudo de Inglaterra.

Não conseguia acreditar no que estava a fazer enquanto emalava as roupas e alguns objectos pessoais. Não tinha tempo para recuperar as jóias que escondera debaixo do soalho, mas sabia que se encontravam a salvo. Emalou a sua roupa, a de Phillip e de William, enquanto Emanuelle tratava dos artigos da cozinha, sabão e alguns alimentos, bem como de todas as toalhas e lençóis. Tiveram de trabalhar mais do que Sarah pensara, com o bebé a chorar durante todo o dia, como se pressentisse que acontecera qualquer coisa de horrível. Eram quase seis da tarde quando Emanuelle transportou as últimas coisas para a vivenda, onde já se encontravam as suas próprias posses. Sarah parou pela última vez no quarto onde Phillip nascera e onde o novo bebé fora concebido, o quarto que partilhara com William. Parecia-lhe um sacrilégio entregá-lo aos alemães, mas não tinha por onde escolher. Enquanto olhava em volta, impotente, surgiu um soldado que Sarah ainda não vira, que a incitou a saír, apontando-lhe a arma.

- Schnell! - gritou-lhe o alemão. Sarah desceu as escadas com toda a dignidade de que foi capaz mas tinha lágrimas a escorrerem-lhe pelas faces. No fundo da escada, o soldado tocou-lhe na barriga com a ponta da espingarda. ouviu-se um rugido,súbito, a voz de um homem capaz de impor um respeito imediato. O soldado deu um salto e recuou com a velocidade de um raio enquanto o comandante se aproximava. Era o mesmo que falara com ela num excelente inglês, naquela manhã. Gritou para o soldado com uma voz tão gelada e controlada que pôs o alemão a tremer visivelmente. No fim, o soldado virou-se para Sarah e fez-lhe uma vénia antes de se precipitar para o exterior. O comandante fitou Sarah com uma expressão infeliz. Via-se que estava profundamente incomodado com o que acontecera. Por seu lado, o oficial alemão também via que Sarah tremia, apesar de todos os seus esforços para se manter impassível.

- Peço desculpa pelas péssimas maneiras do meu sargento, Vossa Graça. Não voltará a acontecer. Permite-me que a conduza a casa?

Sarah teve vontade de lhe responder que estava em casa, mas também se sentia grata por ele ter controlado o sargento. O homem podia ter-lhe dado um tiro na barriga só para se divertir e essa ideia provocava-lhe tonturas.

- Muito obrigada - respondeu, com frieza. A distância era grande e sentia-se cansada. O bebé que trazia na barriga dera-lhe pontapés durante todo o dia, talvez pressentindo a sua ira e terror. Sarah chorara enquanto arrumava as coisas e estava completamente exausta quando subiu para o jipe.

O oficial pôs o motor a trabalhar sob os olhares de alguns homens. Pretendia dar-lhes um exemplo que viessem a seguir à letra. já o explicara a todos. Não deveriam tocar nas mulheres locais, não deveriam abater animais de estimação apenas por divertimento, nem aventurarem-se na cidade quando estivessem bêbedos. Teriam de se controlar durante todo o tempo, ou enfrentariam toda a sua fúria e talvez uma Viagem de regresso a Berlim, para serem depois enviados Para outro lado. Os homens tinham prometido obedecer-lhe.

- Sou o comandante Joachim von Manheíni. - declarou o oficial tranquilamente. - Estamos-lhe muito gratos pelo uso da sua casa. Lamento essa imposição e a infelicidade que lhe deve causar. - Seguiam ao longo da alameda e o alemão olhou-a. - A guerra é uma coisa complicada. - A sua própria família perdera muito durante a Primeira Guerra Mundial, Depois surpreendeu Sarah com uma pergunta. - Para quando espera a criança?

Para Sarah, o oficial parecia estranhamente humano, apesar do uniforme que envergava, mas não podia esquecer-se de quem ele era nem por quem combatia. Obrigou-se mais uma vez a recordar que era a duquesa de Whitfield e que tinha de ser bem-educada, e nada mais.

- Ainda faltam dois meses - respondeu, num tom algo brusco, interrogando-se sobre o motivo que estaria por trás da pergunta. Talvez quisessem enviá-la para qualquer lado. Era uma ideia aterradora. Desejava, mais do que nunca, ter partido para Whitfield. Porém, quem iria imaginar que os Franceses seriam derrotados e se entregariam aos Alemães?

- Nessa altura já os médicos aqui estarão - continuou o oficial, tranquilizando-a. - Vamos usar a sua casa para soldados feridos. Será uma espécie de hospital. Os estábulos servem muito bem para os meus homens, e para além disso há muita comida na quinta. Receio bem que... - Sorriu quando chegaram à vivenda, onde Emanuelle a esperava com Phillip nos braços. - Receio que a situação seja a ideal, do nosso ponto de vista.

- Que sorte para vocês - comentou Sarah com secura. Para ela, perder a casa para os alemães nada tinha de agradável.

- Sim, é verdade. - O alemão ficou a vê-la saír do carro e tirar Phillip dos braços de Emanuelle. - Boa tarde, Vossa Graça.

- Boa tarde, comandante - respondeu, mas nem Sequer lhe agradeceu a boleia. Sarah não pronunciou mais uma palavra e entrou na vivenda que agora iria servir-lhe de casa.

 

A ocupação da França deixou toda a gente deprimida, e a ocupação do Castelo de Meuze foi incrivelmente dolorosa para Sarah. Dias depois já havia soldados alemães por todo o lado. Os estábulos estavam cheios deles, aos dois e três por quarto, e até distribuídos pelas cavalariças. Encontravam-se ali abrigados perto de duzentos homens, apesar de ela e William só terem planeado espaço para quarenta ou cinquenta. As condições eram muito más também para os soldados. Ocuparam igualmente os edifícios da quinta, onde aboletaram mais soldados, obrigando a mulher do agricultor a dormir numa barraca. Era uma mulher já de idade, mas aguentava tudo muito bem. O agricultor e os dois filhos encontravam-se no exército.

Tal como o comandante dissera, a residência principal transformou-se  num hospital para soldados feridos, numa espécie de casa de convalescença com enfermarias em cada quarto. Alguns  dos quartos mais pequenos encontravam-se reservados para oficiais de alta patente que tivessem sido feridos. O comandante também lá vivia, numa das salas mais pequenas. Sarah vira algumas enfermeiras, mas a maior parte do pessoal parecia ser composto por homens. Ouvira dizer que incluía dois médicos, mas nunca os vira.

Tinha muito poucos contactos com todos eles. Mantinha-se isolada na vivenda, na companhia de Emanuelle e do bebé. Ansiava por voltar ao trabalho e preocupava-se com os estragos que poderiam provocar na casa durante a ocupação. No entanto, nada podia fazer a esse respeito. Dava grandes passeios com Emanuelle e conversava com a mulher do agricultor sempre que podia ir à quinta para ver se a velha senhora estava bem. Parecia animada e afirmou que os alemães eram decentes para com ela. Levavam-lhe tudo o que cultivava mas não lhe tinham tocado. Até ao momento, Comportavam-se decentemente. Mas era com Emanuelle que Sarah se preocupava mais. Tratava-se de uma rapariga bonita e jovem. Acabara de fazer dezoito anos naquela Primavera, pelo que era perigoso que estivesse a viver tão perto de trezentos soldados alemães. Sarah dissera-lhe, mais do que uma vez, que regressasse ao hotel, mas Emanuelle insistira que não a queria deixar sozinha. De certo modo, tinham-se transformado em boas amigas, mas ainda havia Muito respeito entre elas. Emanuelle levava muito a sério a promessa que fizera a William de não abandonar a duquesa e Lorde Phillip.

Um dia, um mês depois da chegada dos alemães, Sarah caminhava de regresso da quinta quando viu um grupo de soldados que gritavam e berravam junto de um velho caminho, perto dos estábulos. Perguntou a si mesma o que se estaria a passar mas sabia que não se deveria aproximar. Eram homens potencialmente perigosos e seus inimigos, apesar de ser uma cidadã americana neutral, e constituíam uma força de ocupação. Via-os a rirem-se de qualquer coisa e preparava-se para prosseguir o seu caminho quando avistou um cesto cheio de framboesas caído junto da estrada. O cesto era um dos dela e as framboesas eram as que Emanuelle apanhava para Phillip, que a adorava. Sarah compreendeu o que se passava. Aqueles homens eram como gatos em volta de um pequeno rato, de uma minúscula presa que perseguiam e torturavam por entre os arbustos. Sem Pensar, apressou-se na direcção do grupo, com o velho vestido, de um amarelo-desbotado, parecendo ainda mais volumosa sob o brilho do sol. Usava os cabelos numa longa trança, que atirou por cima do ombro quando se aproximou do grupo. Sarah ficou chocada ao avistar Emanuelle. Estava ali, de pé, com a blusa arrancada, os seios nus, a saia rasgada e a escorregar-lhe das ancas enquanto os homens gritavam e a provocavam. Estavam dois soldados alemães a segurarem-na pelos braços e um terceiro a tocar-lhe nos mamilos enquanto a beijava.

- Parem com isso! - gritou Sarah, ultrajada com o que via. Emanuelle era uma criança, uma simples rapariga, e Sarah sabia, pelas conversas que haviam tido no último mês, que continuava a ser virgem. - Parem imediatamente! repetiu, mas os homens riram-se dela. Sarah agarrou na arma de um dos homens mas ele empurrou-a, gritando-lhe em alemão.

Sarah avançou imediatamente para junto de Emanuelle, que tinha as faces riscadas por lágrimas de humilhação, vergonha e medo. Pegou nos restos da blusa da rapariga e tentou cobri-la, mas quando o fez um dos homens agarrou Sarah e puxou-a para ele, esfregando-se nas suas nádegas. Sarah tentou virar-se mas o homem manteve-a presa, apalpando-lhe os seios com uma das mãos e segurando-lhe a grande barriga, num aperto doloroso, com a outra. Lutou para se libertar enquanto o alemão se continuava a esfregar de um modo sugestivo. Sarah sentiu o homem a ficar excitado e interrogou-se, aterrorizada, se iria ser violada. Os seus olhos encontraram os de Emanuelle. A expressão nos olhos de Sarah tentava tranquilizar a rapariga mais nova mas era óbvio que esta se encontrava desesperadamente assustada, talvez mais do que nunca pelo que estava a acontecer à sua patroa. Um dos homens agarrou o braço de Sarah enquanto outro lhe metia uma das mãos entre as pernas e Emanuelle gritou, assustada com o que pensava que iria acontecer, mas nesse momento ouviu-se a explosão de um tiro. Emanuelle deu um salto, Sarah aproveitou a oportunidade para se libertar dos homens e para se afastar, mas um deles manteve-se agarrado ao velho vestido amarelo, que se rasgou. As suas longas e bonitas pernas ficaram à vista, tal como a enorme barriga de grávida. Contudo, aproximou-se rapidamente de Emanuelle e afastou-a dos alemães. Foi apenas nesse momento que se apercebeu de que o comandante estava ali, de olhos em fogo, gritando aos homens e soltando a sua fúria sobre os soldados. Ainda segurava na arma e voltou a dispará-la para que percebessem que falava a sério. A seguir apontou a arma a cada um deles e disse qualquer coisa em alemão. Só depois baixou a arma e a meteu no coldre, mandando dispersar os soldados, depois de ordenar que todos eles passassem uma semana na prisão que haviam instalado nas traseiras dos estábulos. Quando os homens se afastaram, avançou apressadamente para Sarah e Emanuelle. Tinha os olhos repletos de pesar e pronunciou algumas palavras, num alemão apressado, para uma ordenança que se encontrava ali perto. O homem reapareceu quase instantaneamente, trazendo dois cobertores. Sarah começou por cobrir Emanuelle e só depois enrolou o outro cobertor à volta da cintura. Verificou que se tratava de um dos seus cobertores, dos poucos que havia esquecido quando se mudara para a vivenda do caseiro.

- Garanto-lhe que isto não voltará a acontecer. Estes homens são uns porcos. Muitos deles nasceram em pocilgas e não fazem a mínima ideia sobre como se devem comportar. Se voltar a ver um deles a proceder deste modo, matá-lo-ei eu mesmo.

O oficial alemão estava branco de raiva e Emanuelle continuava a tremer. Sarah sentia apenas fúria por tudo o que acontecera. Quando estavam quase a chegar à vivenda, onde Henri brincava com Phillip, no jardim, virou-se para ele com os olhos a brilhar de raiva. Tinham-no avisado para se manter longe dali, por causa dos soldados alemães, mas o rapaz, mesmo assim, decidira ir visitar a irmã e pedira para ficar com o bebé enquanto ela apanhava framboesas.

- Compreende o que poderia ter acontecido? - perguntou Sarah, fazendo um gesto para mandar Emanuelle para casa. Voltou a enfrentar o comandante, sozinha, e prosseguiu: - Podiam ter morto o meu bebé por nascer! gritou-lhe. Os olhos do oficial não se desviaram.

- Sei-o muito bem e peço-lhe desculpa, com toda a sinceridade. - Parecia falar a sério, mas as suas boas maneiras não abrandaram a fúria de Sarah. Tanto quanto lhe dizia respeito, os alemães nem sequer deveriam estar ali.

- E ela... é apenas uma criança! Como se atreveram a fazer-lhe aquilo?! - Sentia-se a tremer da cabeça aos pés e queria bater-lhe com os punhos, mas teve o bom senso de não o fazer.

O comandante sentia-se mal com o que acontecera a Emanuelle mas estava muito mais preocupado com o que quase haviam feito a Sarah.

- Peço desculpa, Vossa Graça, do fundo do coração. Compreendo perfeitamente o que poderia ter acontecido. Sarah tinha razão. Podiam ter-lhe morto o bebé. - A partir de agora, manteremos os soldados sob uma maior vigilância. Tem a minha palavra de oficial e de cavalheiro. Garanto-lhe que isto não voltará a acontecer.

- Pois trate disso! - atirou-lhe Sarah, marchando em direcção à vivenda e conseguindo, de algum modo, parecer ainda mais bela e imponente, agora que estava enrolada num cobertor.

O comandante observou-a. Era uma mulher extraordinária e já perguntara a si mesmo, mais de uma vez, como fora que se tornara duquesa de Whitfield. Descobrira fotografias dela no gabinete de William, que agora lhe servia de quarto, e também dos dois, juntos, com um ar especialmente belo e feliz. Invejava-os. Dívorciara-se algum tempo antes da guerra e raramente via os filhos. Eram dois rapazes, com sete e doze anos, mas a mulher voltara a casar e mudara-se para a Renânia. Sabia que o seu novo marido fora morto em Poznan nos primeiros dias da guerra, mas não voltara a vê-la e na verdade não queria fazê-lo. O divórcio fora extremamente doloroso. Haviam casado ainda muito jovens e sempre haviam sido muito diferentes. Precisara de dois anos para recuperar do divórcio. A seguir viera a guerra e não tivera tempo para mais nada. Ficara satisfeito com a comissão de serviço em França. Sempre gostara do país. Passara um ano a estudar na Sorbonne e terminara os estudos em Oxford. Durante todo esse tempo, e em todas as suas viagens, nunca encontrara ninguém como Sarah. Era tão bela, tão forte, tão decente... Desejava tê-la conhecido noutras circunstâncias e noutro tempo. Então, talvez as coisas fossem diferentes.

A administração do hospital para convalescentes mantinha-o muito ocupado mas gostava de dar longos passeios ao fim da tarde. Acabara por conhecer bem a propriedade, até aos seus recantos mais distantes. Uma tarde, já ao crepúsculo, regressava de um pequeno ribeiro que descobrira na floresta quando a viu. Caminhava lentamente, sozinha, um Pouco desajeitada, e parecia muito pensativa. Não queria assustá-la mas pensou que deveria dizer-lhe qualquer coisa para que não se surpreendesse com o seu aparecimento inesperado. Nesse momento, Sarah virou o rosto para ele, como se tivesse pressentido a presença de alguém. Parou de repente e fitou-o, sem saber se a sua presença era uma ameaça, mas apressou-se a tranquilizá-la.

- Posso ajudá-la, Vossa Graça? - Sarah trepava por cima de troncos, mas conhecia bem o terreno. Ela e William tinham passado por ali muitas vezes.

- Não, obrigada, não é preciso - respondeu calmamente, com toda a dignidade de uma duquesa. No entanto, tinha um aspecto muito jovem e encantador. Parecia menos zangada do que era habitual quando o via. Ainda estava perturbada com o que acontecera a Emanuelle na semana anterior, mas ouvira dizer que os homens haviam realmente ido para a prisão, como castigo, e ficara impressionada com o seu sentido de justiça.

- Sente-se bem? - perguntou, caminhando ao lado de Sarah. Estava bonita, num vestido branco, com bordados, feito pelos habitantes da zona.

- Estou óptima - retorquiu, olhando-o, como se o fizesse pela primeira vez. Era um homem bem-parecido, alto, louro, com um rosto marcado, e Sarah apercebia-se de que deveria ser um pouco mais velho do que William. Preferia não o ter encontrado ali mas tinha de admitir que sempre se mostrara muito bem-educado e que já a ajudara por duas vezes.

- Deve cansar-se com facilidade - disse o alemão, com delicadeza, mas Sarah encolheu os ombros, momentaneamente triste, a pensar em William.

- Sim, às vezes - declarou, de novo com alguma frieza. Naqueles dias tinha muito poucas informações da guerra e não recebera uma única notícia de William desde a ocupação. As cartas não passavam, mas sabia que deveria estar ansioso por notícias dela e de Phillip.

- O seu marido chama-se William, não é verdade? perguntou o homem, e Sarah olhou-o, intrigada. Respondeu apenas com um aceno.

- É mais novo do que eu... mas creio que o encontrei quando estive em Oxford. Acho que estudou em Cambridge.

- É verdade - confirmou Sarah, hesitante. Era estranho pensar que os dois homens se haviam encontrado. Por vezes, a vida pregava estranhas partidas. - Porque foi para Oxford?

- Sempre o desejei. Na altura, gostava de tudo o que era inglês. - Queria dizer-lhe que continuava a gostar das coisas inglesas mas não o podia fazer. - Foi uma oportunidade maravilhosa, de que gostei muito.

Sarah esboçou um sorriso triste.

- Penso que era o que o William sentia a respeito de Cambridge.

- Fez parte da equipa de futebol e cheguei a jogar contra ele. - Foi a vez de o alemão sorrir. - Venceu-me.

 

Sarah desejava manifestar-se mas limitou-se a sorrir, interrogando-se a respeito daquele homem. Sabia que, num contexto diferente, teria gostado dele.

- Quem me dera que vocês não estivessem aqui... afirmou, com toda a honestidade, parecendo muito jovem. O alemão riu-se.

- Ah, também eu, Vossa Graça. Também eu digo o mesmo... mas é melhor estar aqui do que a combater em qualquer lado. Acho que, em Berlim, houve alguém que percebeu que sou melhor a tratar de homens do que a destruí-los. Mandarem-me para aqui foi uma grande dádiva dos céus. - Sarah concordava, mas continuava a desejar que nenhum daqueles alemães ali estivesse.

O oficial olhou-a com curiosidade.

- Onde está o seu marido? - perguntou.

Não tinha a certeza de lhe poder responder. Se dissesse que William se encontrava nos serviços de informação, poderia correr um grande perigo.

- Está adido à RAF.

- Voa? - O comandante pareceu surpreendido.

- Nem por isso - respondeu Sarah num tom vago, e o alemão fez um aceno.

- A maior parte dos pilotos é mais nova do que nós. Tinha razão, claro, mas Sarah limitou-se a fazer um gesto de confirmação. - A guerra é uma coisa terrível. Ninguém vence. Todos ficam a perder.

- O vosso Führer parece não pensar da mesma maneira. Joachim ficou silencioso por longos momentos. Quando respondeu, houve qualquer coisa na voz do alemão que chamou a atenção de Sarah, algo que lhe disse que aquele homem odiava Hitler tanto quanto ela mesma.

- Tem razão - afirmou o oficial, com ousadia. - Talvez recupere o bom senso com o tempo, antes que se percam demasiadas coisas e morra demasiada gente. - A seguir acrescentou algo que comoveu Sarah. - Espero que o seu marido esteja em segurança, Vossa Graça.

- Também eu... murmurou Sarah, quando estavam a chegar à vivenda.  Também eu.

O alemão fez-lhe uma vénia, seguida por uma continência. Sarah deixou-o e entrou na vivenda, meditando no facto de aquele homem ser uma interessante contradição. Um alemão que odiava a guerra mas que, no entanto, era o comandante das forças alemãs em toda a região do vale do Loire. Porém, nessa noite, quando se deitou a pensar no marido, esqueceu-se de tudo a respeito de Joachim.

Voltou a encontrá-lo alguns dias depois, no mesmo sítio, e foi como se ambos esperassem ver-se ali. Sarah gostava de saír para se ir sentar na floresta ao fim do dia, junto à margem do ribeiro, para pensar um pouco, com os pés a oscilarem nas águas frias. Por vezes as suas ancas inchavam e aquele local era muito pacífico. Só se ouviam as aves e os ruídos da floresta.

- Olá - disse-lhe o alemão numa outra tarde, calmamente, depois de a ter seguido até ali. Sarah não sabia que o oficial lhe adivinhara a rotina e que ficava à espera, junto da janela, de a ver saír da vivenda. - Está um dia quente, não é verdade? - Gostaria de poder oferecer-lhe uma bebida fresca, de lhe apalpar os longos cabelos sedosos ou até de lhe tocar na face. Sarah começava a preencher-lhe os sonhos, à noite, e até os pensamentos, durante o dia. Conservava até uma fotografia dela fechada na secretária, onde a poderia ver sempre que desejasse. - Como se sente?

Sarah sorriu. Ainda não eram amigos mas, pelo menos, comportavam-se como neutrais. já era qualquer coisa. Por outro lado, o alemão era também uma pessoa com quem ela podia conversar, para além de Emanuelle, Henri ou PhillipSentia falta das suas longas e inteligentes conversas com William. Também sentia a falta de outras coisas, é claro. De tudo. Aquele homem, de olhos suaves e mundano, dava-lhe a oportunidade de conversar um pouco. Sarah nunca se esquecia de quem era nem o motivo que levara o alemão até ali.

Ela era uma duquesa e o homem era um comandante de tropas de ocupação. Mesmo assim, falar com ele, nem que fosse apenas por um momento, era uma espécie de alívio.

- Sinto-me gorda - admitiu, com um pequeno sorriso. - Enorme! - A seguir virou-se para ele, com curiosidade. Nada sabia a seu respeito. - Tem filhos?

Acenou uma confirmação, sentado numa grande pedra, e meteu uma das mãos na água fria.

- Dois filhos. Hans e Andi... Andreas - respondeu, com uma expressão triste.

- Que idade têm?

- Sete e doze. Vivem com a mãe, estamos divorciados.

- Lamento muito - disse Sarah. Era verdade. As crianças não tinham nada a ver com a guerra. Não podia odiá-las, fosse qual fosse a sua nacionalidade.

- O divórcio é uma coisa terrível - afirmou Joachim.

- Eu sei concordou Sarah com um aceno.

- Sabe? Levantou uma sobrancelha, querendo perguntar-lhe como, mas não o fez. Era óbvio que ela não podia saber. Via-se que era feliz com o marido. - Quase não vi os meus filhos desde que ela partiu. Voltou a casar-se... A seguir rebentou a guerra... Foi tudo muito difícil.

- Vai voltar a vê-los quando a guerra acabar.

Baixou a cabeça, perguntando a si mesmo quando iria isso acontecer, quando seria que o Führer os deixaria ir para casa. Também se interrogou sobre se a mulher o deixaria ver os filhos, ou se diria que já se passara muito tempo e que não desejava vê-lo. Pregara-lhe muitas partidas e joachim ainda se sentia magoado e zangado.

- E o bebé? - O alemão mudava novamente de assunto. - Dísse-me que o esperava para Agosto. Já falta pouco. Perguntava a si mesmo se toda a gente ficaria muito chocada se a deixasse ter o filho no castelo, com a ajuda dos médicos, ou se isso iria trazer problemas. Seria mais simples enviar um dos médicos à vivenda. - O seu primeiro filho foi fácil?

Era estranho estar a discutir tal assunto com aquele homem, mas encontravam-se nos bosques, sozinhos, carcereiro e Prisioneira. Que diferença faria se lho dissesse? Se se tornassem amigos, quem o viria a saber, desde que ninguém se magoasse e nada ficasse prejudicado?

- Não, não foi fácil - admitiu. - O Phillip pesava cinco quilos. Foi muito difícil. O meu marido salvou-nos aos dois.

- Não teve um médico?! - O alemão pareceu chocado. Estivera certo de que a duquesa tivera o bebé numa clínica privada, em Paris, mas ela surpreendera-o.

- Quis tê-lo aqui. Nasceu no dia em que a guerra foi declarada. O médico partira para Varsóvia e não havia mais ninguém. Só o Wilham, o meu marido. Penso que ficou muito mais assustado do que eu. Depois de um certo ponto deixei de ter consciência do que estava a passar-se, mas demorou muito tempo e... - Poupou-o, aos pormenores e lançou-lhe um sorriso tímido. - Não interessa. É um belo rapaz.

O alemão sentiu-se comovido pela inocência, honestidade e beleza daquela mulher.

- E, desta vez, não tem medo?

Sarah hesitou. Por qualquer motivo, queria ser honesta para com ele, embora não soubesse porquê. Gostava dele, apesar de ser quem era, do local onde vivia e do modo como se haviam conhecido. Até ali, fora sempre simpático e decente para com ela, e já interviera duas vezes para a ajudar.

- Um pouco... - admitiu - mas não muito. - Esperava que o parto fosse mais rápido e que tivesse um bebé mais pequeno.

- As mulheres sempre me pareceram muito corajosas. A minha também teve os nossos filhos em casa. Foi bonito, mas os partos foram fáceis.

- Teve sorte - disse Sarah, sorrindo.

- Talvez desta vez a possa ajudar com um pouco da perícia alemã - declarou o oficial com uma pequena gargalhada. Sarah manteve um ar sério.

- Da última vez queriam fazer-me uma cesariana, mas recusei.

- Porquê?

- Porque desejava ter mais filhos.

- Foi admirável da sua parte. E muito corajoso... Tal como já disse, as mulheres são muito mais corajosas. Se os homens tivessem de dar os filhos à luz... não haveria mais crianças.

Sarah riu-se. A seguir falaram sobre Inglaterra e Joachim interrogou-se a respeito de Whitfield. Sarah foi intencionalmente vaga. Não queria revelar segredos, mas o que o interessava era o espírito da terra, as histórias, as tradições. Era verdade que parecia gostar de tudo o que era inglês.

- Devia ter voltado para lá - afirmou Sarah, com tristeza. - O William queria que eu o fizesse mas pensei estar mais segura aqui. Nunca imaginei que a França se rendesse aos Alemães.

- Ninguém o imaginou. Creio que até nós ficámos surpreendidos com a rapidez com que caiu - confessou o oficial, para logo a seguir lhe dizer algo que sabia que não deveria dizer. - Penso que fez bem em ficar aqui. Será mais seguro para si e para os seus filhos.

- Estarei mais segura aqui do que em Whitfield? - Sarah pareceu surpreendida e olhou-o com uma expressão interrogativa, sem compreender.

- Não necessariamente em Whitfield... mas em Inglaterra. Mais cedo ou mais tarde, a Luftwaffe irá virar toda a sua força contra a Grã-Bretanha. Nessa altura, será melhor estar aqui.

Sarah perguntou a si mesma se o homem teria razão. Depois, quando já iam a caminho da vivenda, interrogou-se sobre se ele lhe dissera algo que não devia, Partia do princípio de que os Britânicos sabiam tudo a respeito dos planos da Luftwaffe. Talvez o alemão tivesse razão e a França fosse mais segura. De qualquer forma, não tinha por onde escolher. Era uma prisioneira.

Não voltou a vê-lo durante alguns dias. Depois, em finais dejulho, encontrou-o na floresta. Parecia preocupado e cansado, mas alegrou-se quando Sarah lhe agradeceu a comida que começara a aparecer no exterior da vivenda. Tinham começado por ser framboesas para o filho, seguira-se um cesto cheio de fruta para todos, bem como pão fresco preparado pelos padeiros alemães existentes no castelo, e também, cuidadosamente embrulhado em papel de jornal, bem oculto de olhos curiosos, um quilo de café verdadeiro.

- Obrigada - disse, com alguma cautela. - Não precisa de o fazer. - O oficial não lhes devia nada... e representava as forças de ocupação.

- Não posso comer descansado, sabendo que estão a passar fome. - Na noite anterior o cozinheiro preparara-lhe uma magnífica torta Sacher e estava a planear levar-lhe o resto, mas não lho disse enquanto caminhavam. Sarah parecia estar a andar mais devagar e Joachim reparou que o volume da sua barriga aumentara muito na última semana. - Precisa de mais alguma coisa, Vossa Graça?

Sarah sorriu. O alemão tratara-a sempre pelo título.

- Sabe, suponho que pode tratar-me apenas por Sarah. O oficial alemão já sabia que era esse o seu nome. Vira-o quando lhe apreendera o passaporte. Também sabia que iria fazer vinte e quatro anos dentro de poucas semanas. Conhecia os nomes dos pais e o respectivo endereço em Nova Iorque, bem como o que ela pensava a respeito de algumas coisas... e pouco mais. A sua curiosidade a respeito daquela jovem não tinha limites. Pensava mais nela  do que seria capaz de admitir. Pelo seu lado, Sarah não se   apercebia de nenhuma dessas coisas quando passeava junto dele. Considerava-o apenas como um homem atencioso. Joachim, dada a posição que ocupava, queria ajudá-la tanto quanto pudesse.

- Está muito bem, Sarah - respondeu, num tom delicado, como se se tratasse de uma grande honra, e sorriu-lhe. Sarah notou pela primeira vez que se tratava de um homem muito bonito. Em geral, tinha uma expressão tão séria que o facto não se notava. Porém, quando tinham chegado a uma parte mais ensolarada do bosque, o alemão parecera-lhe, por instantes, muitos anos mais novo. - Será a Sarah e eu serei o Joachim... mas apenas quando estivermos sozinhos. Ambos sabiam porquê e Sarah acenou uma confirmação. Precisa que lhe arranje alguma coisa? - Era sincero, mas Sarah abanou a cabeça. Nunca receberia nada dele, excepto os extras de comida que dava ao filho. No entanto, ficou sensibilizada com a amabilidade e sorriu-lhe.

- Podia arranjar-me um bilhete de regresso a casa disse Sarah, numa pequena provocação. - Que tal? Directo a Nova Iorque... ou talvez a Inglaterra. - Era a primeira vez que brincava com alguém desde a chegada dos alemães e Joachim riu-se.

- Quem me dera poder fazê-lo. - Os seus olhos tornaram-se muito sérios. - Imagino que os seus pais devem estar preocupados consigo, tal como o seu marido - acrescentou, compreensivo, desejando poder ajudá-la. Sentir-se-ia frenético se Sarah fosse sua mulher e se encontrasse por trás das linhas inimigas, mas Sarah parecia aceitar o facto com frieza. Encolheu os ombros filosoficamente, ansioso por lhe tocar, mas sabia que também não podia fazer isso.

- Irá continuar em segurança enquanto isso depender de mim - afirmou, tranquilizando-a.

- Obrigada. - Sarah sorriu, mas de repente tropeçou numa raiz de árvore que se encontrava atravessada no caminho. Quase caiu, masjoachim reagiu rapidamente e susteve-a. Manteve-a presa nas suas poderosas mãos até Sarah recuperar o equilíbrio e lhe agradecer. Porém, apenas por aquele instante, o alemão sentira o seu calor, a macieza da pele de marfim dos seus braços, e sentira que os cabelos negros da jovem, que lhe haviam tocado no rosto, eram macios como seda. Cheirava a sabonete e ao perfume de que o marido gostava. Tudo nela fazia com que o alemão se sentisse deliciado quando a tinha perto, e não lho dizer era uma agonia cada vez maior.

Acompanhou-a até à vivenda, deixou-a perto do portão e passou o resto da tarde dedicado ao seu trabalho de secretária.

Sarah não voltou a vê-lo durante toda uma semana. O oficial alemão tivera de ir a Paris falar com o embaixador, Otto Abetz, para conseguir mais abastecimentos médicos, e quando regressou ficou tão atarefado que não teve tempo para passeios ou para apanhar ar, e muito menos para coisas mais agradáveis. Quatro dias depois do seu regresso, verificou-se uma terrível explosão num paiol, em Blois. Levaram-lhe mais de uma centena de feridos, pelo que o pessoal de que dispunha se revelou insuficiente. Tinha feridos espalhados por todo o lado e os dois médicos precipitavam-se de um caso crítico para outro. Montaram uma pequena sala de operações na sala de jantar mas alguns dos homens encontravam-se tão queimados que ninguém podia ajudá-los. Havia homens com membros arrancados e rostos despedaçados. Era uma horrível cena de carnificina. Quando Joachim e o seu pessoal inspeccionaram as salas, um dos médicos exigiu-lhe mais gente para ajudar. Pretendia que fosse buscar alguns dos habitantes locais.

- Deve existir alguém com conhecimentos médicos insistiu. Contudo, o hospital local encontrava-se encerrado, os médicos haviam partido, as enfermeiras tinham-se mudado para hospitais militares ou fugido antes da ocupação. Só restavam os camponeses das quintas, que, na sua maioria, eram demasiado ignorantes para poder ajudar. - E a dona do castelo? Não virá ajudar?

Referia-se a Sarah, ejoachim pensava que sim, se lho pedisse. Era muito humana, mas também estava muito grávida. Não seria bom para ela e o oficial alemão sentia-se muito protector a seu respeito.

- Não tenho a certeza. Espera um bebé a qualquer momento.

- Diga-lhe para vir. Precisamos dela. Tem alguma criada?

- Sim, uma rapariga local.

- Vá buscar as duas - ordenou-lhe o médico, com secura, embora a sua patente fosse inferior à de Joachim. Alguns momentos depois, Joachim enviava um punhado dos seus homens para falar com as mulheres das quintas, para ver se alguma os ajudaria, ou para lhes ordenar que o fizessem, se tal fosse necessário. A seguir saltou para um jipe e dirigiu-se para a vivenda. Bateu à porta com firmeza, as luzes acenderam-se e Sarah apareceu à porta alguns minutos depois, de roupão, exibindo uma expressão muito carrancuda. Ouvira as ambulâncias e os camiões a entrarem e a saírem durante toda a noite, mas não sabia porquê e receava que os soldados fossem incomodá-las. Porém, quando viu Joachim, abriu a porta um pouco mais e o seu rosto descontraiu-se.

- Peço desculpa por vir incomodá-la - disse o alemão, com um ar grave. Estava em mangas de camisa, sem gravata, tinha os cabelos despenteados, um rosto fatigado e deixara o casaco do uniforme no seu gabinete. - Precisamos da sua ajuda, Sarah, se quiser vir. Houve uma explosão num depósito de munições e temos um incrível número de feridos. Pode ajudar-nos?

Sarah hesitou por um instante, fitando-o nos olhos, mas depois acenou. Joachim pediu-lhe para levar também Emanuelle, mas, quando Sarah subiu as escadas para ir chamar a jovem francesa, esta insistiu que queria ficar em casa com o bebé. Cinco minutos depois, Sarah descia novamente as escadas para ir ter com o alemão.

- Onde está a rapariga?

- Não se sente bem - desculpou-a Sarah. - Além disso, preciso dela aqui, para tomar conta do meu filho.

O alemão não fez mais perguntas, e Sarah seguiu-o até ao jipe, envergando um velho vestido azul, já desbotado, sapatos rasos e os cabelos entrançados. Lavara as mãos, o rosto e os braços, e cobrira os cabelos com um lenço branco, o que lhe dava um ar ainda mais jovem.

- Obrigado por vir - disse Joachim, já de regresso ao castelo, olhando-a com gratidão e com um novo respeito. Não precisava de o fazer.

- Eu sei... mas rapazes moribundos são isso mesmo, quer se trate de alemães ou de ingleses.

 

Parecia serem esses os seus sentimentos a respeito da guerra. Odiava os Alemães pelo que tinham feito, mas não era capaz de odiar os feridos, ou o próprio Joachim, que sempre fora decente para com ela. Tal facto não a levava a simpatizar com a causa do oficial alemão, mas apenas com aqueles cujas necessidades eram maiores do que as dela. Momentos depois, Sarah acenou um agradecimento a Joachim quando este a ajudou a saír do jipe e correu para o interior da sua antiga casa para ajudar a salvar aqueles rapazes.

Naquela noite, trabalhou durante horas na sala de operações, segurando em recipientes cheios de sangue e em toalhas ensopadas em anestésicos. Entregou instrumentos e deu assistência aos dois médicos. Trabalhou incansavelmente, até de madrugada, e a seguir pediram-lhe que os acompanhasse ao andar superior. Pela primeira vez, quando entrou no seu próprio quarto, cheio de feridos, teve consciência do lugar onde se encontrava e da estranheza de estar novamente ali. Havia colchões e catres estendidos no chão, com pelo menos quarenta feridos jazendo ao lado uns dos outros, praticamente ombro a ombro, pelo que as ordenanças quase não conseguiam passar entre eles.

Fez o que pôde, aplicando ligaduras, limpando feridas, e já era dia claro quando voltou a descer ao que outrora fora a sua cozinha. Deparou com meia dúzia de ordenanças, a comerem, e com alguns soldados e duas mulheres que a olharam quando a viram entrar e que disseram qualquer coisa uma à outra, em alemão. Sarah tinha o vestido, as mãos e até o rosto cobertos de sangue dejovens, e tinha os cabelos caídos em farrapos, em volta do rosto, mas parecia não dar por isso. Então, de repente, uma das ordenanças disse-lhe qualquer coisa. Sarah não compreendeu as palavras, mas era impossível não notar o tom de respeito. O homem parecia estar a agradecer-lhe. Sarah acenou e sorriu para eles quando lhe entregaram uma chávena de café. Uma das mulheres apontou-lhe para a barriga e pareceu perguntar se se sentia bem. Sarah confirmou com um aceno e sentou-se, grata por aquele café fumegante. Foi apenas nesse momento que começou a sentir toda a sua exaustão. Não pensara nela própria, nem no bebé, durante horas.

Joachim apareceu alguns momentos depois e pediu-lhe que o acompanhasse ao seu gabinete. Sarah seguiu-o ao longo do corredor. Quando entrou no gabinete, sentiu-se estranha. Até a secretária e as cortinas eram as mesmas. Aquela fora a sala preferida de William, e a unica coisa que mudara havia sido o homem que ali vivia.

Joachim convidou-a a sentar-se no sofá que Sarah tão bem conhecia. Teve de resistir à vontade de se enrolar nele, como fizera quando tivera longas conversas com o marido. Preferiu sentar-se na beira do sofá, muito digna, bebericando o café e recordando-se de que era agora uma estranha naquela sala.

- Obrigado por tudo o que fez na noite passada. Receei que pudesse ser demasiado para si. - Olhou-a com uma expressão preocupada. Passara perto dela várias vezes, durante a noite, e vira-a a esforçar-se por salvar a vida de alguém, ou apenas a fechar os olhos a um dos muitos jovens que haviam perdido, com as lágrimas a escorrerem dos seus próprios olhos. - Deve estar exausta.

- Sim, estou cansada - concordou, com os olhos ainda cheios de tristeza. Tinham perdido muitos jovens soldados.

E para quê? Embalara um como se fosse uma criança e o alemão agarrara-se a ela como Phillip costumava fazer, mas aquele morrera-lhe nos braços com um ferimento no estômago. Nada pudera fazer para o salvar.

- Obrigado, Sarah. Vou levá-la a casa. Creio que o pior já passou.

- Ah, sim? - Olhou-o, com uma expressão surpreendida, num tom cortante que surpreendeu o alemão. A guerra já terminou?

 

- Queria dizer... que já passou, por agora - respondeu Joachim, num tom baixo. Os seus pontos de vista não eram diferentes dos dela, mas não podia exprimi-los.

- E que diferença faz? - perguntou Sarah, pousando a chávena de café na secretária de William. Notou que também estavam a utilizar a sua louça. - O que aqui se passou voltará a acontecer, hoje, amanhã, ou daqui a uma semana, não é verdade? - Tinha lágrimas nos olhos. Não conseguia esquecer-se dos rapazes que haviam morrido, apesar de serem alemães.

- Sim, é verdade... - concordou o alemão, com tristeza. - Pelo menos até que tudo termine.

- É tão insensato... - disse Sarah, encaminhando-se para a janela e espreitando a paisagem que lhe era tão familiar e que se mostrava tão enganadoramente pacífica. Joachim aproximou-se e parou muito perto dela.

- É insensato... estúpido... e errado... mas neste momento a Sarah e eu nada podemos fazer para modificar as coisas. Está a trazer vida ao mundo. Nós trazemos a morte e a destruição. É uma terrível contradição, Sarah, mas sinto-me impotente para a modificar.

Sarah não soube porquê, mas teve pena dele. Era um homem que não acreditava no que fazia. Por seu lado, William tinha, no mínimo, o conforto de saber que estava a fazer o que era mais correcto, coisa que não acontecia com aquele alemão. Quando se virou teve vontade de estender a mão para lhe tocar e para lhe dizer que não fazia mal, que um dia seria perdoado.

- Desculpe - murmurou, passando por ele para se dirigir à porta. - Foi uma longa noite. Não devia ter dito o que disse. A culpa não é sua. - Parou e olhou-o por longos momentos, enquanto Joachim ansiava por estar novamente perto dela. De qualquer modo, ficara sensibilizado com as palavras de Sarah.

- Por vezes, nem isso me reconforta - respondeu, sempre a olhá-la. Parecia muito fatigada e precisava de descansar, ou arriscava-se a ter o bebé mais cedo. Ainda se sentiaculpado por lhe ter ido pedir ajuda, mas Sarah fizera um bom trabalho e os médicos estavam-lhe muito gratos.

Levou-a a casa, onde Sarah chegou precisamente quando Emanuelle acabara de descer as escadas com Phillip. Observou Sarah quando o alemão se afastou, viu que estava muito cansada e sentiu-se culpada por não ter ido ajudá-la.

- Desculpe - sussurrou-lhe, quando Sarah se deixou cair numa cadeira -, mas não fui capaz... São alemães...

- Compreendo... - respondeu Sarah, perguntando a si mesma por que razão o facto de se tratar de alemães não lhe fizera qualquer diferença. Eram rapazes... alguns homens... e apenas pessoas. Contudo, nessa tarde, compreendeu um pouco mais quando Henri apareceu na vivenda. Olhou para a irmã... e houve algo que passou instantaneamente entre eles e que Sarah não entendeu. A seguir, Sarah viu-lhe a mão, envolta em ligaduras, e interrogou-se.

- Henri, que aconteceu à tua mão? - inquiriu, com toda a calma.

- Nada, madame. Magoei-me quando ajudava o meu pai a serrar madeira.

- E para que estavas a serrar madeira? - insistiu Sarah. O tempo estava demasiado quente para acender a lareira e o rapaz sabia-o.

- Oh, estávamos apenas a construir uma casota para o cão - retorquiu o rapaz, mas Sarah sabia que não tinham cão e compreendeu tudo com clareza. A explosão no depósito de munições não fora um acidente e, por motivos que Sarah não desejava conhecer, Henri estivera lá.

 

Nessa noite, ainda na cozinha mas quando já se preparavam para deitar, Sarah olhou para Emanuelle, que fazia as arrumações na cozinha.

- Não precisas de me dizer nada... mas tens de pedir ao Henri para ter muito cuidado. Não passa de uma criança... e se o apanham... matam-no.

- Eu sei, madame - retorquiu Emanuelle, com os olhos repletos de medo pelo irmão mais novo. -já lho disse. Os meus pais não sabem de nada. Há um grupo em Romorantin. Com um gesto, Sarah obrigou-a a calar-se.

- Não me contes, Emanuelle. Não quero saber. Não quero vir a pôr alguém em perigo. Limita-te a dizer-lhe para ter cuidado.

Emanuelle acenou e dirigiram-se para os seus quartos, mas Sarah ficou acordada durante muito tempo, pensando no rapaz e na carnificina que ele ajudara a fazer... Todos aqueles jovens alemães sem membros, com os rostos desfeitos, e com vidas que haviam chegado ao fim tão rapidamente... O pequeno Henri com a sua mão queimada... Interrogava-se sobre se entenderia o que ele e os amigos tinham feito,ou se o rapaz estaria orgulhoso. Oficialmente, o que fizera era considerado patriótico, mas Sarah era de outra opinião. Fosse qual fosse o lado em que se estivesse, continuava a ser assassínio. Porém, enquanto jazia na cama, tinha a esperança de que os alemães não apanhassem Henri e não lhe fizessem mal.

Joachim. tinha razão. Era uma guerra feia. Numa época feia. Enquanto pensava no assunto, passou a mão pela barriga e o bebé deu-lhe um pontapé... o que a recordou de que no mundo ainda havia esperança, e vida, e algo de decente... e que algures, lá fora, estava William.

 

A partir daí, Sarah viu Joachim quase todos os dias, embora não existisse qualquer combinação entre eles. Joachim sabia quando ela saía para passear e ia quase sempre ter com ela, aparentemente por acaso. Caminhavam cada vez mais lentamente, a cada dia que passava, por vezes até ao rio, outras vezes para a quinta. A pouco e pouco, ia conhecendo-a melhor. Também tentou aproximar-se um pouco mais de Phillip mas o garoto mostrava-se reticente e tímido, tal como o seu próprio filho também fora, com aquela idade. Joachim era incrivelmente simpático para Phillip, com grande desagrado de Emanuelle, que não aprovava nada, nem ninguém, que fosse alemão.

Sarah, no entanto, sabia que se tratava de um homem decente. Era mais sofisticada do que Emanuelle, embora também não gostasse de alemães. Mesmo assim, havia alturas em que ele a fazia rir, e outras em que ficava calada e o homem sabia que ela estava a pensar no marido.

Joachim tinha consciência de que Sarah passava por tempos dificeis, sem notícias de William ou dos pais, isolada de todos os que amava, dos pais, da irmã, do marido, Só tinha o filho e o bebé por nascer que William lhe deixara quando partira.

No seu dia de aniversário, Joachim ofereceu-lhe um livro que tivera grande significado para ele próprio quando estivera em Oxford e que fora um dos poucos objectos pessoais que levara consigo para a guerra.

Tratava-se de um exemplar muito usado de um livro de poemas de Rupert Brooke, que Sarah adorou. Contudo, para ela, não foi um aniversário feliz. Tinha o coração cheio de notícias da guerra e o bombardeamento de Inglaterra era-lhe muito doloroso. O ataque a Londres iniciara-se a quinze de Agosto e sentia o coração despedaçado quando pensava nas pessoas que conhecia, nos amigos, nos familiares de William... e nas crianças. Joachim avisara-a de que aquilo iria acontecer, mas Sarah não o esperara tão depressa, nem compreendera até que ponto os bombardeamentos poderiam vir a ser arrasadores. Londres estava a ser destruída.

- Bem lhe disse - comentou o alemão tranquilamente que estava mais segura aqui, em especial agora, Sarah. A sua voz era amável e ajudou-a, com gentileza, a passar por uma parte do caminho que era mais acidentada. Passados momentos, sentaram-se numa grande rocha. Joachim sabia que era melhor não conversarem sobre a guerra, mas sim sobre coisas que não a preocupassem tanto.

Falou-lhe das viagens de infância, à Suiça, e das partidas do irmão quando eram ainda crianças. Por estranho que pudesse parecer, ficara chocado, logo no início, com as semelhanças entre o seu irmão e o bebé de Sarah. Phillip já andava, tinha grandes olhos azuis e caracóis louros, e era um malandro sempre que estava com a mãe ou com Emanuelle.

- Porque não se casou outra vez? - perguntou-lhe Sarah, uma tarde, quando estavam a descansar. O bebé estava tão em baixo no seu ventre que mal se conseguia mover mas gostava dos passeios que dava com o alemão e não queria perdê-los. Falar com Joachim era um alívio e começara a contar com a sua presença mesmo sem ter consciência disso.

- Nunca me apaixonei por ninguém - declarou o alemão, com honestidade, sorrindo para ela, desejoso de poder acrescentar «até este momento». Não o fez. - É terrível dizê-lo mas nem sequer tenho a certeza de ter estado apaixonado pela minha primeira mulher. éramos jovens, conhecíamo-nos desde crianças. Creio que era o que toda a gente esperava de nós... - explicou, e Sarah sorriu. Sentia-se confortável junto dele e não via necessidade de guardar segredos.

- Também não amei o meu primeiro marido - admitiu, e Joachim pareceu surpreendido. Aquela mulher tinha coisas que o deixavam espantado, tal como a percepção constante da sua resistência, do seu espírito de justiça e a dedicação ao marido.

- Foi casada, anteriormente? - A sua surpresa era genuína.

- Durante um ano... com alguém que conheci durante toda a minha vida, tal como aconteceu consigo e com a sua mulher. Nunca deveríamos ter casado. Quando nos divorciámos, fiquei tão envergonhada que me escondi durante um ano. Depois, os meus pais trouxeram-me à Europa, e foi então que conheci o William. - Agora, tudo aquilo lhe parecia muito simples, mas na altura não o fora. Havia sido doloroso. - Andei muito em baixo durante uns tempos. Porém, com o William... - Os olhos iluminaram-se-lhe quando pronunciou o nome. - Com o William, as coisas são muito diferentes.

- Deve ser um homem admirável - afirmou Joachim com tristeza.

- E é. Sou uma mulher com muita sorte.

- E ele é um homem de sorte.

Ajudou-a a levantar-se e prosseguiram o passeio, até à quinta e de volta à vivenda. No dia seguinte, Sarah não se sentia em condições de andar, pelo que se sentaram tranquilamente no parque. Ajovem parecia mais calada do que era costume, mais nostálgica e pensativa. Porém, no dia seguinte, recuperou a sua animação habitual e insistiu em fazer todo o caminho até ao rio.

- Sabe, por vezes preocupa-me - disse-lhe o alemão, enquanto caminhavam. Naquele dia, as passadas de Sarah eram mais elásticas e voltava a exibir o seu sentido de humor.

 

- Então, porquê? - Tinha uma expressão intrigada. Achava estranho pensar que o comandante das forças de ocupação alemãs da área se preocupava com ela, mas no entanto pressentia que já eram amigos. O alemão era um homem sério, intenso, simpático e decente, e Sarah gostava dele.

- A Sarah faz demasiadas coisas. Atira com demasiadas responsabilidades para cima dos seus ombros.

Joachim já sabia que fora Sarah quem restaurara uma grande parte da residência, facto que ainda o espantava. Um dia, fora ela mesma quem o levara a visitar as várias salas, e o alemão quase nem acreditara na precisão e perfeição de alguns dos trabalhos que ela realizara. A seguir, Sarah mostrara-lhe o que fizera nos estábulos.

- Se fosse minha mulher... não me parece que lhe permitisse fazer tudo isto - declarara Joachim, com decisão, e Sarah rira-se.

- Então... ainda bem que estou casada com o William.

O alemão sorrira, invejando William mais uma vez, mas sem deixar de estar satisfeito por a conhecer. Naquele dia, deixara-se ficar muito tempo junto ao portão. Era como se ela não quisesse deixá-lo partir. Pela primeira vez, quando se despediu, Sarah tocou-lhe na mão e agradeceu-lhe.

O gesto surpreendeu-o e deixou-o comovido, mas Joachim fingiu que nada se passara.

- Porquê?

- Por arranjar tempo para passear e conversar comigo. Para Sarah, tornara-se importante ter alguém com quem falar.

-  Estou sempre ansioso por a ver... talvez mais do que pensa - respondeu o oficial alemão, num tom baixo. Sarah desviou os olhos, sem saber    que responder. - Talvez fosse uma sorte estarmos aqui um para o outro... Uma espécie de destino... Um destino mais elevado. Se não estivesse aqui, Sarah, esta guerra teria sido muito pior para mim. - Na verdade, não se sentia tão feliz havia anos. A única coisa que o assustava era saber que a amava... e que, um dia, teria de partir. Sarah voltaria para William sem nunca saber o que ele sentira nem o significado que ela tivera na sua vida. - Sou eu que agradeço... - acrescentou, desejando poder tocar-lhe no rosto, nos cabelos, nos braços... mas não era tão corajoso, nem tão parvo como os seus soldados.

- Vemo-nos amanhã - despediu-se Sarah, num tom suave.

Porém, na tarde seguinte, Joachim esperou-a e preocupou-se quando não a viu aparecer. Perguntou a si mesmo se Sarah não estaria bem, mas esperou até à noite antes de se dirigir à vivenda. As luzes estavam todas acesas e conseguiu ver Emanuelle pelas janelas da cozinha. Bateu a uma delas e a rapariga veio à porta, de rosto contraído. Trazia Phillip nos braços e o garoto parecia assustado.

- Sua Graça está doente? - perguntou-lhe, em francês. Emanuelle abanou a cabeça. A seguir hesitou e decidiu-se a dizer-lhe o que se passava. Sabia que, não obstante o que pensava daquele oficial e dos restantes alemães, Sarah gostava dele. Não era o seu caso... mas já havia uma espécie de estranho respeito entre os dois.

- Está a ter o bebé - declarou. Contudo, havia mais qualquer coisa nos olhos da rapariga, uma ligeira expressão de medo, que o alemão pressentiu, mais do que viu, e que o fez recordar-se do que Sarah dissera a propósito do seu primeiro parto.

- Está a correr bem? - perguntou, observando atentamente os olhos da jovem francesa. Emanuelle hesitou mas depois confirmou com um aceno. Joachim ficou aliviado, porque as suas enfermeiras e os dois médicos tinham ido a uma reunião, em Paris. Como naquela altura não tinham soldados com ferimentos graves, só lá se encontravam as ordenanças. - Tens a certeza de que a senhora está bem? insistiu.

-  Tenho, sim - ripostou Emanuelle. - Também cá estive da última vez.

O alemão pediu-lhe para transmitir a Sarah os seus votos para que tudo corresse bem e partiu, pensando nela, no seu sofrimento e no bebé que ia nascer, desejando que fosse dele e de mais ninguém.

Voltou para o que fora o gabinete de William e deixou-se ficar sentado durante muito tempo. Tirou da gaveta a fotografia que encontrara de Sarah. Ria-se de algo que alguém dissera e encontrava-se do lado de William, em Whitfield. Faziam um bonito par. Joachim voltou a guardar a fotografia e serviu-se de um pouco de brande. Acabara de o engolir quando apareceu um dos homens que se encontrava de serviço.

- Está aqui uma pessoa que lhe quer falar, senhor. Eram onze horas e preparava-se para se meter na cama. No entanto, saiu e ficou surpreendido ao ver Emanuelle no corredor.

- Passa-se alguma coisa? - perguntou, instantaneamente preocupado com Sarah. Emanuelle começou a torcer as mãos e a falar muito depressa.

- Não está a correr bem. O bebé não sai. Da última vez... o senhor duque fez tudo... gritou-lhe... foram precisas horas... tive de empurrar... e acabou por ter de o virar...

Porque não impedira os médicos de irem para Paris? Perguntou a si mesmo, censurando-se. Sabia que o último parto havia sido difícil e nem sequer pensara nisso quando os vira partir. Agarrou no casaco e seguiu Emanuelle para o exterior. Nunca ajudara a trazer um bebé à luz mas não havia mais ninguém para os ajudar. Há muitos meses que a cidade não dispunha de um médico.

Quando chegaram à vivenda, as luzes continuavam acesas. Joachim subiu a escada a dois e dois e viu que o pequeno Phillip estava a dormir no quarto ao lado do de Sarah. Quando a avistou, compreendeu imediatamente o que Emanuelle lhe dissera. Sarah agitava-se terrivelmente, presa de dores horríveis. A rapariga francesa explicou-lhe que o parto começara de manhã. já se tinham passado dezasseis horas.

- Sarah... - disse, num tom gentil, sentando-se junto dela, na única cadeira do pequeno quarto. - Sou ojoachim. Lamento ter vindo eu, mas não há mais ninguém - acrescentou, prestável, e Sarah acenou, consciente da sua presença e parecendo não se importar. Agarrou-lhe uma das mãos e começou a chorar quando as dores lhe surgiram mais uma vez e prosseguiram, intermináveis.

- É terrível... Pior do que da outra vez... Não consigo... William...

- Consegues, sim. Estou aqui para te ajudar. - Joachim parecia notavelmente calmo e Emanuelle saiu do quarto para ir buscar mais toalhas. - O bebé já começou a saír? - perguntou, olhando-a.

- Não me parece... eu... - Agarrou-se-lhe às mãos com todas as suas forças. - Oh, meu Deus... oh... desculpa, Joachim... Mas não me deixes! - Era a primeira vez que o tratava pelo nome, embora o alemão pronunciasse o dela muitas vezes. Joachim queria tomá-la nos braços e dizer-lhe quanto a amava.

- Sarah, por favor... Tens de me ajudar... Vai tudo correr bem.

Explicou a Emanuelle como apoiar as pernas e segurar os ombros de Sarah quando as dores voltassem, para que pudesse empurrar o bebé com mais facilidade. Inicialmente, Sarah debateu-se contra ele, mas a voz dejoachim era calma e forte e parecia saber o que estava a fazer. A cabeça do bebé começou a aparecer cerca de uma hora depois, e Sarah não

sangrava tanto como da primeira vez. No entanto, era óbvio que se tratava de outra criança grande e que iria precisar de muito tempo para a fazer saír, mas Joachim estava decidido a ficar ali para ajudar durante todo o tempo que fosse preciso. Era já quase de manhã quando a cabeça do bebé ficou inteiramente de fora. Surgiu um pequeno rosto enrugado mas, ao contrário de Phillip, aquele bebé não aspirou o ar e o quarto ficou mergulhado no silêncio. Preocupada, Emanuelle olhou para o alemão, interrogando-se sobre o que queria aquilo dizer. Joachim observava o bebé e virou-se rapidamente para Sarah.

- Sarah, tens de empurrar o bebé! - pediu, num tom urgente, olhando repetidamente para o pequeno rosto que ganhara um tom azulado. - Vamos! Agora, Sarah, força! ordenou, num tom mais de militar do que de médico, ou até do que de um marido. Ordenava-lhe que o fizesse e daquela vez repetiu os gestos de Emanuelle durante o primeiro parto, comprimindo-lhe a barriga com força, para a ajudar. Pouco a pouco, o bebé foi saindo, até cair, imóvel, entre as pernas dela. Sarah olhou para baixo e gritou de desgosto.

- Está morto! Meu Deus, o bebé está morto!

Joachim pegou no bebé, ainda preso à mãe. Era uma menina, mas não mostrava quaisquer sinais de vida mesmo enquanto lhe massajava as costas e lhe dava palmadas. Bateu-lhe nas solas dos pés, sacudiu-a, de cabeça para baixo... e de súbito caiu-lhe da boca uma massa de muco. O bebé ofegou, soltou um gemido... e começou a berrar mais alto do que qualquer outra criança que Joachim alguma vez havia escutado. O alemão estava coberto de sangue e chorava de alívio perante a beleza da vida, tal como Sarah e Emanuelle. A seguir cortou o cordão e entregou o bebé a Sarah, com um sorriso de ternura. Não a teria amado mais se tivesse sido o pai da criança.

- Aqui tens a tua filha - disse, pousando o bebé, envolto num cobertor limpo, ao lado de Sarah. A seguir foi lavar as mãos e limpar a camisa. Voltou momentos depois e instalou-se junto de Sarah. A jovem estendeu-lhe uma das mãos. Ainda estava a chorar quando pegou na mão do alemão e a beijou.

- Joachim, salvaste-a. - Os olhos dos dois encontraram-se e fitaram-se durante muito tempo. O oficial alemão sentiu todo o poder advindo do facto de ter podido partilhar a dádiva da vida com ela, durante as últimas horas.

- Não - respondeu, negando tudo o que fizera. - Fiz o que pude... mas foi Deus quem tomou a decisão. É o que faz sempre. - A seguir olhou para baixo, para a criança que jazia ali, tranquila, tão rosada, arredondada e perfeita. Era uma bela menina que, com a excepção dos tufos de cabelo louro, se parecia com Sarah. - É muito bonita.

É bonita, não é verdade? Que nome lhe vais dar?

- Elizabeth Annabelle Whitfield. - Sarah e William já haviam escolhido aquele nome há muito tempo, que parecia apropriado para o bebé que dormia agora tranquilamente.

Joachim foi-se embora momentos depois, mas voltou ao fim da tarde para saber como corriam as coisas. Phillip olhava o bebé, fascinado, mas sem se afastar muito da mãe.

Joachim arranjara-lhe flores, um grande pedaço de bolo de chocolate, meio quilo de açúcar e outro precioso quilo de café. Sarah estava sentada na cama, parecendo surpreendentemente bem, tendo em conta tudo aquilo por que passara. Contudo,desta vez, o parto tinha sido um pouco mais fácil e o bebé pesava «apenas» três quilos e seiscentos gramas, conforme anunciou Emanuelle, no meio dos risos de todos.

A quase tragédia terminara bem, graças a Joachim. Até Emanuelle passou a tratá-lo com simpatia. Quando Sarah olhou para ele, depois de Emanuelle saír do quarto, soube que, fosse o que fosse que acontecesse nas suas vidas, ficar-lhe-ia eternamente grata e não esqueceria que o alemão salvara o bebé.

 

- Nunca esquecerei o que fizeste - sussurrou para Joachim, que lhe segurava na mão. Era indiscutível que, naquela manhã, se formara um laço entre eles.

- Já te disse, foi a mão de Deus que lhe tocou... - Mas estavas aqui... e tive tanto medo... - As lágrimas subiram-lhe aos olhos quando se recordou... Não teria aguentado, se o bebé morresse... mas Joachim salvara-o...

- Também estava muito assustado - confessou o alemão. - Tivemos muita sorte. - Sorriu para ela. - É curioso, mas o bebé parece-se um pouco com a minha irmã...

- E com a minha - afirmou Sarah, rindo-se.

Tomaram uma chávena de chá e Sarah descobriu que o oficial trouxera uma garrafa de champanhe escondida. Fez-lhe uma saúde e desejou longa vida a Lady Elizabeth Annabelle Whitfield.

Por fim, levantou-se para saír.

- Devias dormir um pouco - disse. Sem mais uma palavra, dobrou-se para lhe beijar o alto da cabeça. Quando os seus lábios lhe tocaram nos cabelos, Joachim fechou os olhos por instantes. - Dorme bem, minha querida - sussurrou, com Sarah a mergulhar no sono ainda antes de ele saír do quarto. Ouviu o que ele disse, como que à distância, mas já estava a sonhar com William.

 

No Verão do ano seguinte, Londres quase fora destruída pelos bombardeamentos constantes, mas o espírito britânico permanecia intacto. Por essa altura, Sarah já recebera duas cartas de William, contrabandeadas através dos circuitos da resistência. insistia em que estava bem e censurava-se a si mesmo, repetidamente, por não a ter tirado de França no momento oportuno. Na segunda carta, depois de ter recebido a resposta de Sarah, alegrava-se com a chegada de Elizabeth. Contudo, odiava saber que se encontravam em França e que não tinha maneira de lhes chegar. Não lhe disse que explorara inúmeras possibilidades de entrar clandestinamente em França, pelo menos para uma visita, mas que o Ministério da Guerra se opusera. Por outro lado, e de momento, não havia maneira de fazer Sarah saír de França com os filhos. Tinham de aguentar, disse-lhe, garantindo-lhe que a guerra terminaria em breve. Mas foi a terceira carta de William, recebida no Outono, a que lhe transmitiu notícias que quase a mataram. Porém, não ousara não lhas comunicar, não fosse ela recebê-las por outras vias. Jane, a irmã de Sarah, escrevera-lhe, por não ser capaz de entrar em contacto com Sarah. Os pais haviam sido mortos num acidente com um barco, em Southampton. Encontravam-se no iate de um amigo quando surgira uma grande tempestade. O iate afundara-se, afogando todos os passageiros que se encontravam a bordo antes que a Guarda Costeira os pudesse socorrer.

Sarah deixou-se consumir pelo desgosto quando recebeu a notícia e não falou com Joachim durante toda uma semana. Por essa altura, este também soubera que a sua irmã fora morta durante o bombardeamento a Mannheim. Para Sarah, a morte dos pais foi um golpe esmagador.

Depois dísso, as notícias só pareciam ir de mal a pior, e o Mundo ficou assombrado quando soube do ataque a Pearl Harbor.

- Meu Deus, Joachim, que significa isto? - Fora ele quem lhe dera a notícia. Haviam-se transformado em bons amigos, independentemente das nacionalidades, e o facto de o alemão ter salvo a vida de Elizabeth era importante para Sarah. O oficial alemão continuava a levar-lhe alimentos e pequenas coisas, e parecia estar sempre presente quando a jovem precisava dele. Conseguira-lhe medicamentos quando Phillip teve um novo ataque de bronquite. Agora, aquelas notícias pareciam modificar tudo, não para eles mas sim para o resto do mundo. Ao fim do dia, já a América declarara a guerra ao Japão, e portanto também à Alemanha. Directamente, nada se modificava para Sarah. Tecnicamente, continuava a ser uma prisioneira. Era assustador pensar que a América havia sido atacada. E se também atacassem Nova Iorque? Pensou em Peter, Jane e nas crianças. Era terrível não poder estar com eles para chorarem, em conjunto, a morte dos pais.

- Isto pode mudar muitas coisas - disse-lhe Joachim, tranquilamente, quando se encontrava sentado na cozinha de Sarah. Alguns dos seus homens sabiam que o oficial a ia visitar, mas não davam grande atenção ao assunto. Era uma mulher bonita, que se comportava com a dignidade de uma duquesa. No entanto, para Joachim, Sarah era muito mais do que isso. Era alguém de quem ele gostava muito. - Imagino que, muito em breve, irá ter implicações muito graves para nós - acrescentou, abatido. Tinha razão, é claro. Todas as variadas facetas da guerra se aceleraram e o bombardeamento de Londres prosseguiu.

Foi apenas dois meses depois que Sarah soube que o cunhado se encontrava a combater no Pacífico, e quejane ficara na casa de Long Island com os filhos. Era estranho pensar que, agora, a casa lhes pertencia, a ela e a Jane, tal como a de Nova Iorque. Sentia-se muito distante de todos eles e muito triste ao compreender que os seus próprios filhos nunca viriam a conhecer os avós.

Apesar de todas as más notícias que ia recebendo, Sarah não se encontrava preparada para a notícia que lhe chegou na Primavera. Phillip tinha dezoito meses e Elizabeth, o bebé milagre, tal como lhe chamava Joachim, tinha sete, já exibia quatro dentes e mostrava-se permanentemente feliz. Emitia ruídos, ria-se e guinchava de delícia sempre que Sarah se aproximava. Lançava-lhe os braços ao pescoço e apertava-a. Phillip também adorava a irmã. Estava constantemente a beijá-la, queria pegar-lhe e chamava-lhe o «seu» bebé.

Um dia, Sarah tinha Elizabeth no colo quando surgiu Emanuelle com uma carta que trouxera do hotel, com um carimbo dos correios das Caraíbas.

- Como foi que a recebeste? - perguntou Sarah, mas depois deteve-se. Compreendera, havia muito, que havia mais coisas na vida de Emanuelle e Henri, e possivelmente também na dos pais, do que desejava saber. Ouvira boatos a respeito de pessoas escondidas no hotel e uma vez até lhes permitira que usassem um velho abrigo da quinta. De vez em quando, Henri surgia com pequenos ferimentos. Mais preocupante era a compreensão de que Emanuelle se envolvera romanticamente com o filho do presidente da Câmara, que se encontrava intimamente ligado aos alemães. Todavia, Sarah pressentira, e com razão, que esse envolvimento de Emanuelle era na verdade mais político do que romântico. Era uma triste maneira de começar uma vida de amor. Uma vez, tentara falar com ela sobre o assunto, mas a rapariga mantivera-se muito fechada e firme. Não queria ver Sarah envolvida naquilo que fazia, com ou para a resistência, a não ser que fosse absolutamente necessário. Agora aparecia-lhe com aquela carta e Sarah verificou, pelo brasão gravado na traseira do sobrescrito, que era dos duques de Windsor. Não imaginava por que motivo estavam a escrever-lhe. Nunca antes o tinham feito, mas Sarah ouvira, através do rádio que os pais de Emanuelle mantinham escondido no hotel, que o duque era agora o governador das Baamas. O governo receara que viesse a transformar-se num joguete nas mãos dos Alemães se estes o capturassem, e enviara-o para onde não pudesse prejudicar ninguém, uma vez que as suas simpatias Pró-germânicas eram bem conhecidas em Inglaterra.

A carta começava com uma calorosa saudação, em que lhe dizia que Wallis já se encontrava junto dele, e prosseguia afirmando que lamentava muito ter de lhe dizer que William havia desaparecidodurante uma missão. Existia a clara possibilidade de ter sido feito prisioneiro, mas ninguém tinha certezas. Entristecia-o ter de lho comunicar. De facto, a única coisa que a carta, que Sarah leu com olhos vidrados, lhe garantia, era o facto de William ter desaparecido. O duque descrevia em pormenor como tudo acontecera e garantia-lhe que estava seguro de que o primo procedera com sabedoria e coragem. Podia ter sido morto durante a descida, ou poderia ter sobrevivido. Fora largado de pára-quedas na Alemanha, para desempenhar uma missão para a qual se oferecera como voluntário apesar das objecções de todos no Ministério da Guerra.

«Era um jovem muito teimoso e receio que a sua teimosia nos tenha saído muito cara. Acima de tudo, minha querida, tens de ser corajosa, tal como ele desejaria. Acredito que, se Deus estiver connosco, ainda se encontre a salvo, mas também é possível que já esteja nas mãos do Criador. Espero que estejas bem e enviamos-te as nossas mais profundas condolências e o nosso amor, para ti e para as crianças.»

Sarah ficou a olhar para a carta que tinha na mão e voltou a lê-la. Os soluços subiram-lhe à garganta, cortando-lhe a respiração. Emanuelle estivera a observá-la e compreendeu que as notícias não eram boas. Pressentira isso mesmo quando trouxera a carta do hotel. Retirou-lhe rapidamente Elizabeth dos braços e saiu, sem saber o que havia de lhe dizer. Quando voltou, alguns momentos depois, encontrou Sarah a soluçar à mesa da cozinha.

- Oh, madame... - Pousou o bebé no chão e passou os braços em volta da sua desgostosa patroa. - É o senhor duque? - perguntou-lhe, numa voz estrangulada. Sarah acenou lentamente e levantou os olhos cheios de lágrimas.

- Desapareceu... Pensam que possa estar prisioneiro... ou morto... Não sabem... A carta era de um primo...

- Oh, pauvre madame... Não pode estar morto! Não acredite numa coisa dessas!

Acenou, sem saber no que devia acreditar. Sabia apenas que não poderia sobreviver num mundo sem William, mas que este desejaria que ela o fizesse, pelos filhos e por ele. A ideia era insuportável. Deixou-se ficar sentada durante muito tempo, a chorar, e a seguir saiu de casa e foi dar um longo passeio pela floresta. Daquela vez, Joachim não a viu saír. Sarah sabia que era tarde e que o alemão já deveria estar a jantar. De qualquer modo, preferia estar só. Precisava de estar só. Acabou por se sentar num tronco, na escuridão, e chorou, limpando os olhos à manga da camisola. Como poderia viver sem ele? Como podia a vida ser tão cruel? Por que motivo lhe tinham permitido envolver-se numa missão tão perigosa, que incluía largarem-no na Alemanha? Tinham enviado David para as Baamas. Porque não haviam feito o mesmo com William, mandando-o para um local seguro? Não suportava a ideia do que lhe poderia ter acontecido. Permaneceu sentada no escuro da floresta durante horas, tentando escutar os seus próprios pensamentos, rezando e procurando ouvir William no seu cérebro... mas sem sentir nada. Nessa noite, quando jazia na cama que partilhara com ele nos primeiros tempos que haviam passado no castelo e já se encontrava grávida de Phillip, Sarah sentiu-se entorpecida. De súbito, porém, enquanto ali jazia, teve a certeza de que William continuava vivo. Não sabia quando, como ou onde voltaria a vê-lo, mas tinha a certeza de que, um dia, isso iria acontecer. Era uma sensação tão forte, quase como um sinal de Deus, que não podia negá-la e que a tranquilizou. Depois disso, adormeceu rapidamente e na manhã seguinte acordou refrescada, mais certa do que nunca de que William estava vivo e não fora morto pelos Alemães.

Mais tarde, naquele dia, falou no assunto com Joachim. Este escutou-a, tranquilamente, mas não se deixou abalar por aquela espécie de crença religiosa.

- Falo a sério, Joachim... Senti um poder... a certeza absoluta de que ele está vivo em qualquer lado. Sei-o. - Sarah falou com a convicção das pessoas profundamente religiosas. Joachim não lhe quis dizer até que ponto se sentia céptico, nem como eram poucos os agentes infiltrados que sobreviviam.

- Talvez tenhas razão - respondeu, calmamente mas também te deves preparar para a possibilidade de estares enganada, Sarah.

Tentava dizer-lho com toda a gentileza. Sarah tinha de aceitar o facto de que o marido desaparecera e que, provavelmente, estava morto. Havia mais do que apenas uma mera possibilidade de que, naquele preciso momento, já fosse uma viúva. Não queria forçá-la a encarar esse facto, mas eventualmente, e sem ter em conta o que sentira durante a noite ou aquilo que desejava sentir ou acreditar, teria de o fazer.

À medida que o tempo foi passando, sem notícias tranquilizadoras a respeito do marido, nem informações sobre se fora capturado e sobrevivera, era óbvio, pelo menos para Joachim, que William morrera. Contudo, Sarah não compartilhava a mesma opinião. Agia sempre como se o tivesse visto na tarde anterior, ou como se o tivesse ouvido em sonhos. Estava mais em paz, mais decidida e com mais certezas do que estivera no princípio da guerra, quando ainda recebia algumas cartas ocasionais. Agora... nada, apenas o silêncio. Para Joachim, William fora-se, presumivelmente para sempre, e Sarah teria de enfrentar o facto mais tarde ou mais cedo. O alemão aguardava a chegada desse momento mas sabia que, para eles, a oportunidade não surgiria até que Sarah aceitasse a morte do marido. Não a queria pressionar. Continuava presente quando Sarah precisava dele, quando queria conversar, quando se sentia triste, solitária ou receosa. Por vezes, era-lhe difícil acreditar que se encontravam em lados opostos, naquela guerra. Para ele, limitavam-se a ser um homem e uma mulher que já se encontravam juntos havia dois anos. Amava-a com todo o seu coração, com toda a alma, com tudo o que tivesse para lhe dar. Não sabia como resolveriam as coisas depois da guerra, onde viveriam ou o que iriam fazer. Nada disso era importante. A única coisa que lhe interessava era Sarah. Vivia, respirava e existia para ela, que ainda não o sabia. Sarah já percebera até que ponto ele lhe era dedicado, pressentia que o alemão gostava muito dela e das crianças, e muito em particular de Elizabeth, a quem salvara a vida, mas nunca compreendera até que ponto ele a amava.

Nesse ano, no dia do aniversário de Sarah, Joachim tentou oferecer-lhe um magnífico par de brincos de diamantes que comprara em Paris, mas Sarah recusou-se a aceitá-los.

- Joachim, não posso. São magníficos, mas é impossível. Sou casada. - O alemão não argumentou contra aquele ponto, embora já não acreditasse que fosse verdade. Tinha a certeza de que Sarah era uma viúva. Com o devido respeito para com Willíam, este desaparecera havia seis meses e Sarah estava livre. - E também sou tua prisioneira, por amor de Deus! - acrescentou, rindo-se. - O que iriam as pessoas pensar se aceitasse um par de brincos de diamantes?

- Não me parece que tenhamos de lhes dar explicações retorquiu. Ficara desapontado, mas compreendia. Contentou-se em oferecer-lhe um relógio novo, que Sarah aceitou, e uma bonita camisola, de que tinha uma necessidade quase desesperada. Eram presentes modestos e era próprio dela não querer aceitar nada de mais dispendioso. Respeitava-a por isso. De facto, em dois anos, nunca descobrira nada nela de que não gostasse, excepto o facto de continuar a insistir que estava casada com William. No entanto, era uma faceta que também lhe agradava. Mantinha-se leal e dedicada até ao fim. Costumava invejar William por causa de tudo isso, mas agora tinha pena dele. O pobre homem desaparecera e Sarahainda não aceitara essa realidade.

Porém, no ano seguinte, até as teimosas esperanças de Sarahcomeçaram a enfraquecer, embora não o admitisse a ninguém, e muito menos a Joachim. William desaparecera havia muito tempo, mais de um ano, e nenhuma das fontes de informações conseguira descobrir fosse o que fosse. Até Joachim tentara fazer perguntas discretas, que não os pusessem em perigo. Contudo, o consenso geral nos dois lados do canal era o de que William fora morto em Março de 1942 quando se lançara de pára-quedas sobre a Renânia. Sarah ainda não estava convencida mas, quando pensava nele, por vezes até as recordações mais preciosas lhe pareciam cada vez mais fracas, facto que a assustava. Não o vira uma única vez em quase quatro anos. Era muito tempo para que um amor, mesmo tão forte como o deles, pudesse resistir a tão Poucas esperanças e a tão grandes angústias.

Nesse ano, passou o Natal tranquilamente, na companhia de Joachim, que foi incrivelmente amigável para todos. Era particularmente simpático com Phillip, que crescia sem um pai e não tinha quaisquer recordações de William. Pelo seu lado, Joachim era um amigo especial, e gostava dele, de uma maneira pura e simples, tal como Sarah também gostava do alemão. Ainda odiava tudo o que os Alemães representavam, mas nunca odiara Joachim. Era um homem decente e esforçava-se muito junto dos homens que iam para o castelo para recuperarem dos seus ferimentos. Alguns não tinham esperança, nem membros, nem futuro, nenhuma casa aonde pudessem regressar. No entanto, o alemão conseguia sempre passar algum tempo junto de todos eles, conversando durante horas sem fim, dando-lhes esperanças, dando-lhes vontade de continuarem a viver, tal como por vezes também fazia com Sarah.

- És um homem espantoso - disse-lhe Sarah, quando estavam sentados na cozinha da vivenda.

Emanuelle fora ter com a família e Henri encontrava-se fora havia algumas semanas, algures nas Ardenas, mas Sarah já aprendera a não fazer perguntas. O rapaz tinha agora dezasseis anos e levava uma vida repleta de perigos. A vida de Emanuelle também se tornara cada vez mais difícil. O filho do presidente da Câmara começara a desconfiar dela e tinha havido uma grande discussão quando a rapariga o deixara. Agora andava envolvida com um oficial alemão. Sarah não fizera comentários mas suspeitava de que Emanuelle se servia dele para obter informações, que transmitia à resistência. Sarah mantinha-se longe dessas coisas. Fazia o que podia para prosseguir com pequenos restauros na propriedade e ajudava nas emergências médicas quando lho pediam ou quando era desesperadamente necessária. Durante o resto do tempo, cuidava dos filhos. Phillip tinha quatro anos e meio e Elizabeth era um ano mais nova. Eram duas belas crianças. Phillip continuava enorme, como sempre fora, e Elizabeth surpreendera Sarah com o facto de ser muito delicada e ter feições mais miúdas do que as da mãe. Sob certos aspectos, era uma criança frágil, tal como no momento em que nascera, mas mostrava-se sempre cheia de vida e muito traquinas. Era óbvio, para todos os que os viam juntos, que Joachim adorava as duas crianças. Na noite da véspera de Natal, levara-lhes belos brinquedos alemães e ajudara-os a decorar a árvore de Natal. Conseguira até arranjar uma boneca para Lizzie, que se atirara a ela, a colocara nos braços e a embalara, dizendo que era o seu «bebé».

 

Porém, foi Phillip quem trepou para o colo de Joachim, lançando-lhe os braços ao pescoço e abraçando-o. Sarah fingiu que não via.

- Não nos vais deixar, como o meu papá, pois não? perguntou, preocupado. Sarah sentiu as lágrimas a arderem-lhe nos olhos quando o ouviu, mas Joachim foi rápido a responder.

- O teu papá não te quis deixar, sabes? Se pudesse, tenho a certeza de que estaria agora aqui, contigo.

- Então porque se foi embora?

- Teve de ir. É um soldado.

- Mas tu não foste - retorquiu a criança, com toda a lógica, sem compreender que Joachim tivera de abandonar os seus próprios filhos e uma casa, para estar ali. Phillip voltou a passar-lhe os braços pelo pescoço e deixou-se ficar assim até o alemão o levar para a cama, enquanto Sarah carregava Elizabeth. Phillip continuava a ter uma verdadeira paixão pela irmã, o que deixava Sarah deliciada.

- Pensas que a guerra poderá finalmente acabar, este ano? - perguntou-lhe Sarah com tristeza, quando bebericavam conhaque depois de as crianças já estarem deitadas. Joachim levara-lhe um bom Curvoisíer, forte mas agradável.

- Espero que sim. - A guerra parecia nunca mais acabar. - Parece interminável. Quando vejo aqueles rapazes que mandam para aqui, dia após dia, semana após semana, ano após ano... pergunto a mim mesmo se não há ninguém que compreenda a insensatez de tudo isto, e que não vale a Pena...

- Creio que é por isso que estás aqui e não na frente respondeu Sarah com um sorriso. Odiava a guerra tanto como ele.

- Sim, estou satisfeito por estar aqui... - afirmou Joachim, num tom suave. Esperava ter-lhe facilitado a vida e na verdade conseguira-o, de muitas maneiras diferentes. Esticou-se sobre a mesa e tocou-lhe na mão, com todo o cuidado. Conhecia-a havia três anos e meio, o que, de certo modo, lhe parecia toda uma vida. - És muito importante para mim - prosseguiu. Depois, por causa do conhaque e dos sentimentos daquele dia, não conseguiu continuar a esconder as suas emoções. - Sarah... - disse, com uma voz rouca mas suave. - Quero que saibas quanto te amo. - Sarah desviou os olhos, tentando esconder os seus próprios sentimentos tanto dele como dela mesma. Sabia que, por respeito por William e independentemente dos seus sentimentos por aquele homem, a situação era impossível.

- Joachim, não... por favor... - Olhou para ele, implorando, mas o alemão pegou-lhe na mão e segurou-lha.

- Diz-me que não me amas, que nunca poderás amar-me ... e nunca mais me ouvirás pronunciar estas palavras, Sarah ... Mas a verdade é que te amo e penso que também me amas. Que estamos nós a fazer? Porque nos escondemos? Por que razão somos apenas amigos, quando podíamos ser muito mais do que isso? - Agora, Joachim queria muito mais. Esperara durante anos e desejava-a intensamente.

- Sim, também te amo... - sussurrou Sarah, do outro lado da mesa, aterrorizada com o que estava a dizer e também com o que sentia naquele momento. Eram sentimentos que já tinha há muito tempo, mas resistira-lhes... por William. - Não é possível...

- E porque não? Somos adultos. O mundo está a acabar. Não temos direito a um pouco de felicidade? Um pouco de alegria... antes do fim? - Haviam presenciado demasiadas mortes, demasiado sofrimento, e estavam cansados.

Sarah sorriu ao ouvi-lo. Amava-o, sim, amava o homem que ele era, e o que fizera pelas crianças e por ela.

 

- Temos a amizade um do outro... e o nosso amor. Não temos direito a mais enquanto o William estiver vivo.

- E se não estiver? - Forçou-a a encarar a possibilidade, que Sarah recusou, como de costume. Era ainda muito doloroso.

- Não sei. Nesse caso, não sei o que sentiria. No entanto, sei que, neste momento, ainda sou a mulher dele, e que provavelmente o serei por muito tempo. Talvez para sempre.

- E eu? - perguntou o alemão, exigindo algo dela pela primeira vez. - E eu, Sarah? Que irei fazer?

- Não sei. - Sarah olhou-o, infeliz. Joachim levantou-se e aproximou-se dela lentamente. Sentou-se a seu lado, fitou-a nos olhos, viu-os cheios de tristeza e de anseio, e tocou-lhe gentilmente na face com a ponta dos dedos.

- Estarei sempre aqui, para ti. Quero que o saibas. Quando aceitares o facto de o Wílliam ter morrido, ainda aqui estarei. Temos tempo, Sarah... Temos toda uma vida. Beijou-a com gentileza, nos lábios, dizendo-lhe desse modo tudo o quedesejara dizer-lhe durante tanto tempo, e Sarah não o deteve. Não era capaz. Desejava aquilo tanto como ele. Havia mais de quatro anos que não via o marido e vivera três anos e meio junto daquele homem, lado a lado, dia a dia, aprendendo a respeitá-lo e a amá-lo. Contudo, sabia que não tinha o direito àquilo que pensava que ambos desejavam. Para ela, a vida sempre fora mais do que isso. Havia o voto que fizera, e o homem a quem amara mais do que a qualquer outro.

- Amo-te - murmurou-lhe Joachim, quando voltaram a beijar-se.

- Também te amo - respondeu, mas continuava a amar William e ambos o sabiam.

Joachim saiu pouco depois, regressando ao castelo, respeitando aquilo que ela era e o que desejava dele. No dia seguinte voltou a aparecer e brincou com as crianças. A vida prosseguiu como dantes, como se aquela conversa nunca tivesse acontecido.

Na Primavera, a guerra não corria bem para os Alemães. Joachim visitava-a e conversava sobre o que pensava e o que temia que pudesse vir a acontecer. Em Abril já estava certo de que seriam forçados a recuar para mais perto da Alemanha, pelo que receava ter de deixar Sarah e as crianças. Prometeu voltar logo que a guerra fosse ganha ou perdida, coisa que não parecia preocupá-lo muito, desde que ambos sobrevivessem. Mantivera-se muito respeitoso junto dela. Embora se beijassem de vez em quando, nenhum deles se tinha permitido ir mais longe. Era a melhor maneira, pois Joachim sabia que, desse modo, não haveria remorsos, e também que Sarah precisava que lhe dessem mais tempo. Ainda queria acreditar que William estava vivo e que regressaria. Porém, o alemão sabia que, mesmo que isso acontecesse, lhe iria ser muito difícil deixá-lo. Acabara por confiar e necessitar dele quase tanto como o respeito que lhe demonstrava. já eram mais do que amigos, independentemente do amor que pudesse ter por William.

Naquela altura, enquanto o oficial alemão se preocupava com as notícias vindas de Berlim, Sarah, excepcionalmente, não lhe prestava atenção. Estava muito atarefada com Lizzie, que em Maio começara a sofrer de uma tosse violenta e que na Páscoa ainda se encontrava fraca e doente.

- Não sei o que é... - queixou-se Sarah a Joachim, uma noite, na cozinha.

- Um qualquer tipo de gripe. Também a tiveram na aldeia durante todo o Inverno. - Sarah levara a filha a um dos médicos alemães, no castelo, que confirmara que não se tratava de pneumonia. Porém, os remédios que lhe deram não tinham produzido qualquer efeito.

- Achas que possa ser tuberculose? - perguntou a Joachim, preocupada, mas o alemão não pensava que fosse. Pedira ao médico para lhe arranjar mais medicamentos, mas ultimamente não haviam conseguido nenhum. Tinham os abastecimentos cortados e um dos médicos já seguira para a frente de combate e o outro partiria em Maio. No entanto, Lizzie continuava na cama, ardendo em febre. Perdera peso, tinha os olhos vidrados, e ganhara aquele terrível aspecto que as crianças tomam quando estão a ser vencidas por uma febre. O pequeno Phillip sentava-se junto da cama da irmã, dia após dia, cantando para ela e contando-lhe histórias.

Emanuelle mantinha Phillip ocupado durante o dia, mas o garoto continuava muito preocupado com Lizzie. Ainda lhe chamava «o meu bebé» e assustava-o vê-la tão doente e ter a mãe tão preocupada. Perguntava constantemente se a irmã iria ficar boa e Sarah prometia-lhe que sim. Joachim ia fazer-lhes companhia todas as noites. Molhava a cabeça de Lizzie e fazi-a beber água. Quando a criança tossia com mais força, o alemão massajava-lhe as costas, tal como fizera quando do seu nascimento, para a ajudar a respirar e a regressar à vida. Porém, agora, parecia não ser capaz de ajudar. Lizzie piorava de dia para dia. No princípio de Maio, a febre era assustadora. Os dois médicos tinham partido e já não recebiam abastecimentos médicos. Joachim não tinha remédios para lhe dar, nenhuma sugestão a fazer, e limitava-se a ficar sentado, na companhia dos dois, rezando para que a criança melhorasse.

Pensou em levá-la para Paris para ser vista por um médico, mas Lizzie encontrava-se demasiado doente para aguentar a viagem e as coisas também não corriam muito bem na capital. Os Americanos avançavam, libertando a França, e os Alemães começavam a entrar em pânico. Paris estava a ser evacuada e a maior parte do pessoal era enviado para a frente de batalha ou de volta a Berlim. Eram tempos muito desanimadores para o Reich, masjoachim estava muito mais preocupado com Lizzie.

Alguns dias depois, ainda no princípio de Maio, Joachim voltou à vivenda, uma tarde, e encontrou Sarah sentada ao lado da cama de Lizzie, segurando-lhe na mão e refrescando-lhe a cabeça, mas a criança não se mexia. Fez-lhe companhia durante várias horas, mas acabou por ter de voltar para o seu gabinete. No hospital improvisado, passavam-se demasiadas coisas para poder estar ausente sem explicações. No entanto, voltou nessa noite. Sarah jazia sobre a cama da criança, meia adormecida, segurando-a nos braços. Observou-as e Sarah abriu os olhos. O alemão viu que a jovem tinha os olhos repletos de uma verdadeira agonia e sentou-se a seu lado.

- Alguma alteração? - murmurou. Sarah abanou a cabeça. A criança ainda não acordara uma única vez desde a manhã. Porém, enquanto Joachim a observava, Lizzie mexeu-se, abriu os olhos e sorriu para a mãe. Parecia um pequeno anjo, com caracóis louros e enormes olhos verdes, como os de Sarah. Tinha três anos e meio mas estava tão doente que parecia mais velha, como se carregasse sobre os ombros todo o peso do mundo.

- Gosto muito de ti, mamã - sussurrou e fechou os olhos. Sarah abraçou-a e, de súbito, compreendeu. Era como se a sentisse a fugir-lhe. Só desejava poder segurá-la, impedindo-a de partir. Desesperada, queria fazer qualquer coisa mas não era capaz. Não tinha um médico, medicamentos, uma enfermeira ou um hospital... Apenas amor e orações. Tocou-lhe nos finos caracóis e sussurrou-lhe o seu amor desesperado.

- Também gosto muito de ti... A mamã gosta muito de ti... e Deus também te ama. Agora, estás em segurança...

Murmurou aquelas frases, uma e outra vez, enquanto ela e Joachim choravam. Com um sorriso doce, Lizzie olhou-os pela última vez... e o seu pequenino espírito partiu para sempre, elevando-se para os céus.

Sarah pressentiu que isso havia acontecido mas Joachim precisou de mais alguns momentos para compreender. Sentou-se na cama, ao lado delas, e soluçou, segurando as duas nos braços e embalando-as. Recordou-se de como a trouxera à vida... Agora, partira, demasiado depressa, embora de um modo muito suave. Sarah fitou-o com olhos de desespero e manteve-se agarrada à pequena Lizzie durante muito tempo. Por fim, pousou-a na cama com todo o cuidado e Joachim fê-la descer as escadas e acompanhou-a ao castelo para falar com alguém a respeito do funeral.

Contudo, foi Joachim que teve de fazer tudo. Foi à cidade em busca de um pequeno caixão. Juntos, chorando silenciosamente, instalaram-na no seu interior. Sarah penteou-a, vestiu-lhe a roupa mais bonita e colocou a seu lado a boneca que fora a favorita de Lizzie. Aquela era a coisa mais terrível que jamais lhe acontecera, e quase morreu de desgosto quando a baixaram para o solo. Tudo o que Sarah conseguia fazer era manter-se agarrada a Joachim, a chorar, enquanto o pequeno Phillip se lhe pendurava numa das mãos, incapaz de acreditar no que acontecera.

Quando começaram a lançar terra para o túmulo, Phillip ganhou uma expressão zangada e assustada, deu um salto para a frente e tentou impedi-los. Joachim segurou-o, com delicadeza, e o rapaz gritou, fitando a mãe com os olhos cheios de fúria.

- Mentiste-me! Mentiste-me! - berrou, tremendo e soluçando. - Deixaste-a morrer! Deixaste morrer o meu bebé... - Estava inconsolável, agarrado a Joachim, e não deixava que Sarah se aproximasse dele. Phillip adorara a irmãzinha e não suportava a ideia de a perder.

- Phillip, por favor... - Sarah mal conseguia falar, mas tomou o filho nos braços e segurou-o enquanto ele lhe batia.

Separou-o de Joachim e levou-o para casa, sem que qualquer deles deixasse de chorar. Nessa noite, abraçou-o durante muito tempo, enquanto o garoto soluçava pelo «seu bebé».

O que acontecera era inacreditável para todos eles, Phillip, Emanuelle, Joachim e Sarah... Num momento a garota estivera ali... e agora desaparecera. Sarah mergulhou numa espécie de transe durante dias, tal como Phillip. Vagueavam de um lado para o outro, à espera que Lizzie voltasse para casa, ou à espera de subirem as escadas e de a encontrarem lá em cima, para concluírem que tudo não passara de uma brincadeira cruel e descobrirem que Lizzie se preparava para uma qualquer traquinice. Sarah ficou tão cega de dor que Joachim nem sequer ousou dizer-lhe o que estava a acontecer. Só quatro semanas mais tarde conseguiu coragem para a informar que iria partir.

- O quê? - Sarah fitou-o, ainda com o velho vestido preto que usava havia semanas. Sentia-se com cem anos e o vestido caía-lhe do corpo como se fosse um espantalho. Que foi que disseste? - Não compreendera o que ele lhe dissera.

- Vamos partir - repetiu, num tom baixo. - Recebemos as ordens hoje de manhã. Saíremos daqui amanhã.

- Tão depressa? - Sarah pareceu ir-se abaixo com a notícia. Era mais uma perda e mais uma tristeza.

- Sarah, foram quatro anos. - Sorriu-lhe com tristeza. É muito tempo para teres hóspedes em casa, não achas? Sarah fitou-o com uma expressão entristecida. Não podia acreditar que o alemão se ia embora.

- Que quer isso dizer, Joachim?

- Os americanos já estão em Saint-Lô. Chegarão aqui em breve e a seguir avançarão para Paris. Estarás a salvo com eles. Tomarão conta de ti. - Pelo menos, essa era uma certeza que o deixava aliviado.

- E tu? - perguntou a jovem com uma expressão preocupada. - Vais ficar em perigo?

- Fui chamado a Berlim e a seguir vão enviar-me para o hospital de Bona. Parece que gostaram do trabalho que fiz aqui. - O que não sabiam era o pouco que esse trabalho lhe interessava. - Penso que irei lá ficar até tudo ter terminado.

Só Deus sabe quanto tempo ainda faltará. Voltarei aqui logo que puder.

Era espantoso pensar que se ia embora, depois de quatro anos, e Sarah sabia que iria sentir a sua falta. Joachim fora importante para ela, e sempre o seria, mas também sabia que não podia prometer-lhe o futuro que ele desejava. No fundo do coração, a sua vida ainda pertencia a William e agora talvez ainda mais, depois da morte de Lizzie. Fora como perder uma parte dele, o que a fazia ansiar pelo marido. Tinham-na sepultado nos fundos da propriedade, perto da floresta onde costumava passear com Joachim, e Sarah sabia que, na sua vida, nunca poderia acontecer nada de tão terrível e doloroso como a perda da filha.

- Não poderei escrever-te - explicou Joachim, e Sarah acenou a sua compreensão.

- Já estou habituada a isso - retorquiu. - Recebi cinco cartas nos últimos quatro anos.

- Uma de Jane, duas de William, uma do duque de Windsor e outra da mãe do William. - Nenhuma lhe levara boas notícias. - Ficarei atenta aos noticiários.

-  Entrarei em contacto contigo logo que puder. Aproximou-se dela e puxou-a para si. - Bom Deus, as saudades que irei ter de ti...

Quando ele o disse, Sarah compreendeu que também iria sentir a sua falta, e que ficaria muito mais solitária do quejá estava naquele momento. Encarou-o com tristeza.

- Também vou sentir a tua falta - afirmou, com toda a franqueza. Permitiu que Joachim a beijasse enquanto Phillip a olhava, à distância, com uma estranha expressão de ira.

- Deixas-me tirar-te uma fotografia antes da minha partida? - perguntou Joachim, mas Sarah protestou.

- Com este aspecto? Deus do céu, Joachim, estou horrível! - De qualquer modo, o alemão iria levar consigo a fotografia que encontrara no gabinete, aquela em que Sarah se encontrava ao lado do marido, alegre e descuidada, quando a vida ainda não a obrigara a tantos sofrimentos. Naquele momento, Sarah ainda nem sequer fizera vinte e oito anos mas parecia mais velha.

Joachim deu-lhe uma pequena fotografia sua e aproveitaram a noite para conversar. O alemão gostaria de passar a noite na cama, com ela, mas não lho pediu porque sabia que Sarah recusaria. Era uma mulher especial, de rara integridade, um ser humano de mérito invulgar, e uma grande senhora.

No dia seguinte, Sarah e Phillip viram-no partir. Phillip agarrou-se a ele como um náufrago a um salva-vidas, mas Joachim explicou-lhe que tinha de os deixar. Sarah perguntou a si mesma se Phillip não sentiria que estava a perder outro laço de ligação com Lizzie. Foi um momento difícil para todos eles, doloroso e confuso. Só Emanuelle parecia satisfeita por vê-los partir. Os soldados foram os primeiros, com os seus camiões meio cheios com os restos dos medicamentos que não haviam sido suficientes para salvar a vida de Lizzie. Seguiram-se as ambulâncias com os feridos.

Antes de partir, Joachim foi visitar o túmulo de Lizzie na companhia de Sarah. Ajoelhou-se por instantes, deixou-lhe um pequeno ramo de flores amarelas e abraçou Sarah pela última vez, longe dos olhares dos seus homens, que no entantoestavama par de tudo. Sabiam que ele a amava, mas, tal como acontece quando as pessoas vivem em casernas, demasiado juntas, também tinham a certeza de que nada acontecera entre eles. Respeitavam-na por isso. Para eles, Sarah era o espírito da esperança, do amor e da decência. Fora sempre educada e amável, independentemente do que pensava sobre a guerra ou da facção em que combatiam. Esperavam, no fundo dos seus corações, que as suas próprias esposas tivessem sido tão fortes como Sarah. Os soldados que a conheceram mais de perto eram capazes de morrer para a proteger, tal como Joachim.

O alemão fitou-a, com o último jipe à sua espera. Discreto, o condutor virara a cara para o outro lado. Joachim puxou Sarah para mais perto dele.

- Amei-te mais do que tudo, nesta vida - disse. Queria que ela o soubesse, não fosse a mão do destino impedi-lo de voltar a vê-la. - Mais do que aos meus próprios filhos. Beijou-a com gentileza. Sarah agarrou-se a ele por momentos, querendo dizer-lhe quais eram os seus sentimentos. Todavia, era demasiado tarde. Não o podia fazer.

Fitou-o e Joachim viu, nos olhos dela, tudo aquilo que Sarah não era capaz de dizer.

- Que Deus te acompanhe - murmurou Sarah. Tem cuidado contigo... Também te amo... - acrescentou, numa voz embargada.

Joachim debruçou-se para Phillip, sempre agarrado à mão de Sarah, desejando dizer-lhe algumas palavras. Haviam passado por muitas coisas juntos.

- Adeus, homenzinho - disse, com alguma dificuldade. - Toma bem conta da tua mãe. - Beijou-lhe o alto da cabeça e despenteou-o, enquanto Phillip se agarrava a ele, para logo o largar. Joachim endireitou-se e olhou para Sarah durante muito tempo. Largou-lhe a mão e meteu-se no jipe, que arrancou. Acenou até chegar ao portão de entrada. Sarah viu-o desaparecer na estrada, no meio de um remoinho de poeira, e ficou parada, a soluçar.

- Porque o deixaste ir? - perguntou Phillip, com um ar zangado.

- Não havia escolha, Phillip. - A política envolvida naquela situação era complicada de mais para ser explicada a uma criança daquela idade. - É um bom homem, apesar de ser alemão, e agora tem de ir para casa.

- Gostas dele?

Sarah hesitou, mas apenas por um minuto.

- Gosto, sim. Foi um bom amigo para todos nós.

- Gostas mais dele do que do papá?

Dessa vez Sarah não hesitou, nem por um instante.

- Não - afirmou, com firmeza. - já não te lembras do teu pai, mas é um homem maravilhoso. - A sua voz enfraqueceu ao recordar-se de William.

- Está morto?

- Não me parece - respondeu, com cuidado, não querendo enganar o filho. Pretendia partilhar com ele a convicção de que, um dia, voltariam a ver William. - Se tivermos sorte, ainda vai voltar para casa.

- E o Joachim? - inquiriu Phillip com tristeza.

- Não sei - respondeu Sarah, com toda a honestidade, enquanto regressavam a casa, de mãos dadas.

 

Quando os americanos chegaram, a dezassete de Agosto, Sarah, Phillip e Emanuelle já se encontravam à sua espera. Havia semanas que ouviam boatos sobre a sua chegada e Sarah estava ansiosa por os ver. Percorreram a estrada até à resídência numa coluna de jipes, tal como os alemães haviam feito quatro anos antes. Era uma estranha sensação de déjà vu, mas não lhe apontaram armas e Sarah compreendia tudo o que eles diziam. Fizeram-lhe uma grande manifestação quando descobriram que era americana. Continuava a pensar em Joachim, todos os dias, e só podia esperar que o alemão tivesse chegado a Berlim em segurança. Phillip falava nele constantemente. Só Emanuelle nunca referia os alemães.

O comandante das tropas americanas era o coronel Foxworth, do Texas. Era um homem agradável, que pediu muitas desculpas por ter de instalar homens nos estábulos. Todavia, os restantes montaram tendas e instalaram-se na vivenda do caseiro, que Sarah abandonara recentemente, e até no hotel local. Não a expulsaram da casa para onde acabara de se mudar com Emanuelle e Phillip.

- Já estamos habituados - disse Sarah com um sorriso, ao saber dos homens instalados nos estábulos. O coronel garantiu-lhe que fariam o possível para provocar o mínimo de estragos. Tinha um bom domínio sobre os homens, que eram amigáveis mas mantinham as distâncias. Tentaram namoriscar com Emanuelle, que não demonstrou um grande interesse, e nunca se esqueciam de oferecer doces e chocolates a Phillip.

Todos ouviram os sinos das igrejas a repicarem quando os Americanos libertaram Paris em Agosto. Foi no dia vinte e cinco e a França estava finalmente livre. Os Alemães ha-viam sido expulsos e os dias da vergonha tinham terminado.

- Já acabou tudo? - perguntou Sarah ao coronel Foxworth, incrédula.

- Quase. Tudo acabará quando chegarmos a Berlim. Aqui, porém, a guerra já terminou já pode voltar a Inglaterra, se o desejar.

Sarah ficou sem saber o que fazer, mas pensou que deveria ir a Whitfield para ver a mãe de William. Sarah não saíra de França desde que a guerra fora declarada, cinco anos antes.

Sarah e Phillip iniciaram a viagem para Inglaterra no dia anterior ao aniversário de Phillip, deixando Emanuelle a tomar conta da residência. Era uma rapariga responsável, que também pagara o preço da guerra. O seu irmão Henri fora morto nas Ardenas, no Inverno anterior. Contudo, fora um dos heróis da resistência. O coronel Foxworth e o seu equivalente em Paris tinha feito preparativos para que Sarah e Phillip embarcassem num voo militar para Londres, o que provocara uma grande agitação e conversas a meia voz, pelo que a força aérea estava à espera da duquesa de Whitfield e do seu filho, Lorde Phillip.

Os americanos forneceram-lhe um jipe para a levar a Paris, que rodeou a cidade, a caminho do aeroporto. Chegaram quase em cima da hora. Sarah tomou o filho num dos braços e correu para o avião, levando uma pequena mala na outra mão. Quando se aproximou do aparelho, surgiu um soldado que lhe barrou o caminho.

- Lamento muito, minha senhora. Não pode embarcar neste avião. É um voo militar... militaíre... - acrescentou, em francês, pensando que Sarah não o compreendia. Non, non... - insistiu, agitando um dedo. Sarah gritou, para se fazer ouvir por cima do barulho dos motores.

- Estão à nossa espera! Foi o combinado!

- Este voo é apenas para pessoal militar - retorquiu o soldado, também a gritar - e para uma velha... - De repente, o soldado compreendeu quem ela era e corou até à raiz dos cabelos, precipitando-se para lhe tirar Phillip do colo. - Pensei... Peço desculpa, madame... Majestade... O soldado acabara por compreender, demasiado tarde, que era ela a prometida duquesa.

- Não tem de se preocupar - respondeu Sarah, com um sorriso, seguindo-o para o interior do avião. O pessoal estivera à espera de uma velha dama e não lhes passara pela cabeça que a duquesa de Whitfield pudesse ser uma mulher jovem, com um filho pequeno. O soldado ainda pedia desculpa quando os deixou a bordo.

O voo para Londres não levou muito tempo, uma vez que precisaram de menos de uma hora para atravessar ocanal. Durante o caminho, foram vários os soldados que conversaram com Sarah, admirados com o facto de ter aguentado a ocupação. Para Sarah, era um pouco estranho ouvi-los quando se recordava que a sua vida fora relativamente pacífica, na vivenda, sob a protecção de joachim. Quando chegaram a Londres, encontraram um enorme Rolls-Royce a aguardá-los. Sarah deveria dirigir-se directamente ao Ministério da Guerra, para uma reunião com Sir Arthur Harris, comandante-chefe do comando de bombardeiros, e com o secretário particular do soberano, Sir Alan Lascelles, que se encontrava ali por ordem directa do rei e também como representante dos serviços secretos. Tinham bandeiras e pequenas insígnias para oferecer a Phillip, e todas as secretárias o tratavam por «Vossa Senhoria». O ambiente era muito mais cerimonioso e respeitoso do que o rapaz estava habituado, mas Sarah reparou, com um sorriso, que o filho parecia gostar.

- Porque é que, em casa, as pessoas não me tratavam assim? - sussurrou, numa pergunta para a mãe.

- Quais pessoas? - Sarah ficara divertida com a pergunta.

- Oh... Emanuelle... e os soldados...

- Vou ver se não me esqueço de lhes dizer - respondeu Sarah, a brincar, mas o rapaz não entendeu o tom de humor na voz da mãe e ficou satisfeito por ela estar de acordo.

Quando Sarah se dirigiu à reunião, teve várias secretárias e dois ajudantes a oferecerem-se para tomar conta de Phillip. Já na sala, viu-se na presença de Sir Arthur e Sir Alan. Foram extremamente amáveis e o que pretendiam dizer-lhe era algo que ela já sabia: tinham passado dois anos e meio sem notícias de William.

Hesitou, procurando recompor-se e ganhar coragem para fazer uma pergunta. Respirou fundo e olhou para os dois homens.

Acham que é possível que ainda esteJa vivo?

É possível - retorquiu Sir Arthur, deliberadamente mas muito improvável - acrescentou, com tristeza. – Por esta altura já teríamos recebido informações de qualquer lado. Alguém o teria visto num dos campos de prisioneiros. Por outro lado, se os Alemães soubessem quem ele era, tê-lo-iam exibido em público. Se ainda o têm, é muito provável que não saibam quem é.

- Compreendo - murmurou Sarah. Conversaram com ela um pouco mais, mas acabaram por se levantar, dando-lhe os parabéns pela coragem que Sarah demonstrara em França e pelo facto dela e o filho terem sobrevivido. - Perdi uma filha pequena... - acrescentou Sarah, numa voz comovida. - Em Maio deste ano. O William nem chegou a conhecê-la...

- Lamentamos muito, Vossa Graça. Não sabíamos... Acabaram por a acompanhar para fora do gabinete, devolveram-lhe o filho e conduziram-na, muito cerimoniosamente, até Whitfield. A duquesa viúva esperava-os e Sarah ficou surpreendida com o seu bom aspecto. Parecia mais magra e muito frágil, mas já tinha oitenta e nove anos. Era, na verdade uma pessoa notável, que fizera o que pudera, em volta de Whitfield, para contribuir para o esforço de guerra.

- É óptimo voltar a ver-te - disse, quando abraçou Sarah. A seguir deu um passo atrás, apoiada na bengala, para observar o pequeno Phillip. Envergava um vestido azul-brilhante, do tom dos olhos, e Sarah lembrou-se de William e sentiu-se invadida por uma onda de emoção.

- É um rapazinho maravilhoso. Parece-se muito com o meu falecido marido. - Sarah sorriu. Quando Phillip nascera, William também dissera que Phillip se parecia muito com o seu próprio pai.

A velha duquesa levou-os para o interior e ofereceu a Phillip uma chávena de chá e bolinhos caseiros. O rapaz mirava-a com algum espanto mas parecia à vontade junto dela. Depois, um dos criados levou-o para lhe mostrar os cavalos e os estábulos enquanto a dona da casa conversava com Sarah. Fora informada de que Sarah estivera no ministério naquele dia e estava ansiosa por saber o que lhe haviam dito. Contudo, não ficou surpreendida ao descobrir que as notícias tinham sido desanimadoras. De facto, mostrava-se muito mais filosófica do que Sarah quanto ao assunto, o que deixou a jovem surpreendida.

- Não me parece que venhamos a ter informações sobre o que realmente se passou enquanto a Alemanha não se render, o que espero que venha a acontecer em breve. Penso que alguém deve saber, mas que, por qualquer motivo, não quer falar.

Por outro lado, William podia ter morrido pendurado numa árvore quando saltara de pára-quedas, ou ter sido atingido por um soldado que não sabia quem ele era e que o deixara para ser enterrado pelos camponeses. Sarah já compreendia que o marido podia ter sido morto de muitas maneiras e que as probabilidades de sobrevivência eram poucas. Começava a compreender que era pouco provável que William continuasse vivo, mas mesmo assim ainda se agarrava aos últimos fragmentos de esperança, em particular agora, que voltara para Inglaterra. Para seu grande desgosto, telefonara ajane e soubera que Peter, o seu cunhado, fora morto em Kiska, nas Aleútes, e quejane se sentia tão devastada como ela.

Em Whitfield, William parecia continuar a fazer parte da sua vida. Tudo à sua volta o recordava. Um dia depois da chegada, Sarah ficou particularmente comovida quando a sogra ofereceu um pónei a Phillip, pelo seu aniversário. O rapaz ficou excitado e feliz. Sarah nunca o vira sorrir daquele modo desde a morte de Lizzie e da partida de Joachim. Agora, ali, Phillip fazia parte do mundo do seu pai e da vida para que nascera... e andava encantado. Chegou mesmo a declarar, quando Sarah anunciou que voltariam a França em Outubro, que queria ficar em Whitfield.

- Posso levar o pónei connosco para França, mamã? perguntou, e Sarah abanou a cabeça. - Regressavam a França noutro voo militar e não tinham maneira de transportarum cavalo. Alguns dos americanos ainda se encontravam no castelo e as suas vidas continuavam muito agitadas para poderem encarar essa hipótese. Para além disso, Sarah começava a sentir um genuíno desgosto pela perda de William. A estada em Whitfield tornara a sua ausência muito mais real, e sentia a sua falta mais do que nunca.

- Voltaremos em breve, querido, e a tua avó tomará conta do pónei. - O rapaz ficou triste por não poder levar o animal para França. De qualquer modo, era estranho pensar que tudo aquilo, um dia, iria ser dele. Contudo, magoou-a o facto de os criados o terem começado a tratar por Vossa Graça. Nas suas mentes, William desaparecera e Phillip era agora o duque.

- Ainda penso que podemos vir a ter notícias dele disse-lhe a mãe de William na noite anterior à partida de Sarah. - Não percas   <as esperanças - incitou-a. - Quanto a mim, não as perderei.

Sarah prometeu que não as perderia mas, muito no fundo do coração, já começava a sentir-se de luto. Regressaram a França no dia seguinte e Sarah descobriu

 

que o Ministério da Guerra tratara de lhe arranjar um transporte. As coisas pareciam mais organizadas do que quando haviam partido, seis semanas antes, e estava tudo em ordem quando chegara ao castelo. Emanuelle ainda lá vivia e o coronel mantivera os seus homens bem controlados. A maioria dos soldados já se tinha ido embora. Alguns dos homens que haviam trabalhado para eles também regressaram, para tratar dos jardins, e Sarah voltou ao seu trabalho, dedicando-se às boiseríes e à reparação de coisas que tinham sido negligenciadas pelos alemães durante anos. Porém, graças à vigilância de Joachim, os danos haviam sido surpreendentemente pequenos.

Sarah pensava frequentemente em Joachim, mas não tinha maneira de saber onde se encontrava nem como estava. De vez em quando preocupava-se com ele e rezava sempre pelo alemão e por William.

No Natal desse ano, tudo correu lindamente, embora Sarah se sentisse muito solitária. As coisas voltavam à normalidade, mas o que não era normal, é claro, era o facto de o mundo ainda se encontrar em guerra. Todavia, as Forças Aliadas ganhavam e toda a gente pensava que tudo terminaria em breve.

Na Primavera, os Aliados avançaram sobre Berlim. Finalmente, em Maio, a guerra chegou ao fim, na Europa. Hitler suicidara-se e muitos dos seus oficiais tinham fugido. Na Alemanha, reinava o caos. Contavam-se histórias terríveis a respeito das atrocidades cometidas nos campos de concentração, mas Sarah continuava sem notícias de William ou de Joachim. Não fazia ideia sobre o que lhes acontecera, nem sobre se estariam vivos. Limitava-se a viver o dia-a-dia, no seu castelo, até ao momento em que recebeu um telefonema do Ministério da Guerra.

- Temos notícias, Vossa Graça - disse uma voz, no meio dos estalidos da linha, e Sarah descobriu-se a chorar ainda antes de saber do que se tratava. Phillip encontrava-se na cozinha, observando-a e perguntando a si mesmo porque estaria a mãe a chorar. - Pensamos ter encontrado o nosso homem... ou antes... o seu homem. Ontem, libertámos um campo de prisioneiros... e encontrámos quatro soldados não identificados... e em muito más condições. Pensamos que o seu marido seja um deles... mesmo não tendo identificação. Porém, o oficial no comando frequentou Sandhurst com ele e jura que se trata do seu marido. Não temos a certeza, mas vamos trazê-lo de avião esta noite. Gostaríamos que viesse a Londres, se tal for possível.

Se tal for possível? Depois de estar sem notícias durante três anos? Estariam a brincar?

- Lá estarei. Podem arranjar-me transporte? Irei imediatamente!

- Não me parece que possamos tirá-la daí antes de amanhã, Vossa Graça - respondeu o homem, muito educado.

- As coisas estão um pouco caóticas por todo o lado, por causa da terrível confusão em Berlim e do que se passa com os Italianos.

Toda a Europa estava num caos, mas Sarah sentia-se pronta a atravessar o canal da Mancha a nado, se precisasse de o fazer.

O Ministério da Guerra voltou a contactar com os amerIcanos, em Paris, e dessa vez umjipe das Forças Aliadas foi buscá-la directamente ao castelo, onde Sarah e Phillip o aguardavam, impacientes. Sarah ainda não dissera ao filho por que razão iam a Londres, uma vez que não queria desapontá-lo, não fosse dar-se o caso de o homem que tinha sido encontrado não ser o pai dele, mas o garoto estava encantado por ir visitar a avó e poder voltar a ver os cavalos. Sarah ia enviá-lo directamente para Whitfield, para ficar com a avó, e o ministério tinha um carro e um condutor para a levar ao hospital onde se encontravam os homens evacuados da Alemanha de avião. Tinham-lhe dito que os quatro homens se encontravam num estado desesperado e que alguns estavam gravemente feridos, mas ninguém a informara sobre o que se passava com William. Não se importava muito, desde que se encontrasse vivo e pudesse ser salvo. Sarah jurara que, se o marido ainda estivesse vivo, faria tudo o que pudesse para o salvar.

O voo para o aeroporto de Londres correu sem problemas. O carro para levar Phillip a Whitfield já os esperava quando pousaram. Phillip foi recebido com honras militares e adorou. A seguir, levaram Sarah para o Hospital Chelsea Royal, para ver os homens que haviam chegado da Alemanha na noite anterior, por volta da meia-noite. A jovem rezou para que um deles fosse William.

Havia apenas um com algumas possibilidades de o ser. Era mais ou menos da mesma altura que William, mas disseram-lhe que pesava cerca de setenta quilos, que tinha os cabelos brancos e parecia ser muito mais velho do que o duque de Whitfield. Sarah não se manifestou quando lho descreveram durante o caminho para o hospital e manteve-se assustadoramente silenciosa quando a levaram a um dos pisos superiores, fazendo-a passar por enfermarias cheias de homens em estado crítico, e por médicos e enfermeiras muito atarefados. Tudo o que se passara na Alemanha deixara-os cheios de trabalho. Os soldados feridos eram evacuados tão depressa quanto possível e estavam a ser convocados médicos de toda a Inglaterra.

O homem que pensavam poder ser William encontrava-se isolado num pequeno quarto, vigiado por uma ordenança que lhe controlava a respiração. Tinha um tubo metido no nariz, um aparelho de respiração artificial, e estava ligado a inúmeras máquinas e coberto por uma tenda de oxigénio, que o ocultava.

A ordenança puxou uma ponta da abertura da tenda, para Sarah a poder identificar, enquanto os homens do Ministério da Guerra se conservavam a uma distância discreta. O hospital ainda aguardava os registos dentários pedidos ao comando de bombardeiros, para levar a cabo uma identificação positiva. Porém, Sarah não precisava de registos dentários para reconhecer aquele homem. Na verdade, estava quase irreconhecível, muito magro e muito parecido com o próprio pai, mas Sarah avançou e tocou-lhe nas faces. William regressara para ela, do mundo dos mortos, e não se mexia, mas Sarah não tinha a mínima dúvida. Era ele. Virou-se e olhou para os homens. A expressão do seu rosto disse-lhes tudo. As lágrimas começaram a escorrer pelas faces de Sarah... e também pelas dos homens.

- Graças a Deus... - sussurrou Sir Alan, correspondendo aos sentimentos de Sarah, que ficou imóvel, como que enraizada naquele lugar, incapaz de desviar os olhos dele enquanto lhe tocava na face, nas mãos, e lhe levava os dedos aos lábios para lhos beijar. As mãos de William pareciam de cera, tal como o rosto, e Sarah podia ver que o marido pairava perto da morte, mas sabia que todos fariam o possível para o salvar. A ordenança baixou a ponta da tenda de oxigénio e momentos depois apareceram dois médicos e três freiras, que começaram a trabalhar. Os médicos acabaram por lhe pedir que saísse do quarto, o que Sarah fez, lançando um último olhar ao marido. Era um milagre. Perdera Lizzie... mas encontrara William. Talvez Deus não fosse tão pouco compreensivo como chegara a recear durante algum tempo. Antes de os homens do Ministério da Guerra se irem embora, Sarah perguntou-lhes se poderiam conseguír-lhe Um telefonema para Whitfield, para poder falar com a mãe de William. Trataram de tudo logo ali, no gabinete do director do hospital, e a duquesa viúva soltou um suspiro de alívio no outro lado da linha, para a seguir rebentar em lágrimas, tal como Sarah.

- Deus seja louvado!... Pobre rapaz... como está ele?

- Receio que não esteja muito bem, mãe... mas irá melhorar em breve. - Esperava não estar a mentir, porque queria acreditar. Porém, de certeza que William não sobrevivera durante tanto tempo para ir morrer agora. Sarah não lho permitiria.

Os homens do Ministério da Guerra foram-se embora e o director do hospital explicou-lhe qual era a situação de William. Não poupou palavras e foi direito ao assunto com uma expressão muito séria.

- Não sei se o seu marido sobreviverá, Vossa Graça. Tem gangrena nas duas pernas, extensos ferimentos internos e está doente há muito tempo. Talvez há anos. Sofreu fracturas múltiplas nas duas pernas, que nunca sararam. Muito provavelmente, tem infecções nas pernas desde que caiu. Não lhas poderemos salvar e talvez não sejamos capazes de lhe salvar a vida. Pensei que era melhor que o soubesse.

Sarah já sabia, mas recusava-se, em absoluto, a aceitar a perda do marido. Agora que ele regressara, nem sequer queria pensar nessa hipótese.

-Tem de lhe salvar as pernas. Não quero crer que aguentasse tanto para acabar por as perder.

- Não temos grande escolha... ou temos muito pouca. De qualquer modo, as pernas não lhe servirão de nada. Os nervos e músculos foram demasiado afectados e terá de andar numa cadeira de rodas.

- Pois muito bem, que ande numa cadeira... mas com pernas!

- Vossa Graça... parece-me que não está a perceber.. . É um equilíbrio delicado... A gangrena...

Sarah assegurou-lhe que compreendia perfeitamente mas implorou-lhe que, no mínimo, tentassem salvar as pernas de William. Com uma expressão exasperada, o médico prometeu-lhe que fariam tudo o que fosse possível, mas que ela tinha de ser realista.

Nas duas semanas seguintes, William passou por quatro operações. Sobreviveu-lhes por pouco, mas conseguiu-o, embora sem nunca recuperar a consciência desde que fora levado para Londres, de avião. As duas primeiras operações foram às pernas, a terceira à coluna e a quarta para reparação de problemas internos que poderiam acabar por o matar. Nenhum dos especialistas que nele trabalharam conseguiu compreender a sua resistência. Estava invadido pela doença e pelas infecções, extremamente mal alimentado, com ossos partidos que não tinham sido reparados e mostrava visíveis sinais de ter sido torturado. Sofrera de tudo e sobrevivera... mas à justa.

Na terceira semana já os médicos tinham feito tudo o que podiam. Agora, restava-lhes esperar para ver se recuperava a consciência, se continuava em coma ou se morria. Ninguém o sabia dizer. Sarah acompanhou-o dia após dia, segurando-lhe na mão, incitando-o a regressar à vida, ao ponto de acabar por ter um aspecto pior do que o do marido. Estava desesperadamente magra e pálida, de olhos quase vidrados, mas permaneciajunto dele. Um dia, uma das freiras entrou no quarto, viu-a, abanou a cabeça com tristeza e afirmou:

- Ele não a pode ouvir, Vossa Graça. Não se canse desse modo. - Levara-lhe uma chávena de chá, que Sarah aceitou com gratidão, mas insistiu que tinha a certeza de que William a ouvia.

No fim de Julho tentaram uma última intervenção cirúrgica, ao baço, e aguardaram. Sarah tratava-o, falava-lhe, encorajava-o, beijava-lhe os dedos e vigiava-o, sem abandonar a cabeceira de William nem por um momento. Tinham colocado um catre no quarto, para ela poder dormir. Sarah pedira às freiras que lhe arranjassem alguma roupa e sentava-se junto do marido, dia após dia, sem nunca perder a esperança. A única altura em que saiu do quarto foi quando a duquesa viúva levou Phillip ao hospital, para ver a mãe, na sala de espera. Não permitiram que o garoto subisse ao quarto do pai mas, de qualquer modo, Phillip teria tido medo de o fazer. Tinham-lhe dito que o pai estava muito mal e, na verdade, William era um estranho para ele. Sarah ficou muito feliz por ver a criança, de que tinha muitas saudades, mas pensava que não podia abandonar William.

No primeiro dia de Agosto, o chefe da equipa de cirurgia disse-lhe que Sarah precisava de saír dali. Estavam convencidos de que Sua Graça nunca despertaria do seu estado comatoso. Não voltaria a despertar. Poderia continuar vivo durante dias, ou até anos, mas se tivesse de despertar já o teria feito. Sarah tinha de enfrentar a realidade.

- Como é que sabem que ele não despertará de repente, logo à tarde, por exemplo? - perguntou, num tom um Pouco histérico. Tudo o que sabia é que haviam conseguido salvar-lhe as pernas e que agora estavam prontos para desistir, largando-o como se fosse lixo. Sarah não tivera uma boa noite de sono em cinco semanas, mas não ia desistir, dissessem o que dissessem. Contudo, o médico insistiu que sabiam o que iria acontecer.

- Sou cirurgião há quase quarenta anos - declarou, com firmeza -, e por vezes é preciso saber quando lutar e quando desistir. Lutámos... e perdemos. Chegou o momento de desistir.

- O William foi prisioneiro de guerra durante três anos e meio. Chamam a isso desistir? - gritou, sem se importar com quem pudesse ouvi-la. - Durante todo esse tempo, nunca desistiu... e eu também não o farei. Está a ouvir-me?

- Sem dúvida, Vossa Graça. Compreendo perfeitamente. - O médico saiu do quarto em silêncio e perguntou à enfermeira-chefe se poderia sugerir à duquesa de Whitfield que tomasse um sedativo leve, mas a mulher limitou-se a fazer uma careta. Aquela mulher estava obcecada com a ideia de salvar o marido.

- O pobre homem já está quase no outro mundo. Devia deixá-lo partir em paz... - disse a enfermeira-chefe para a freira que se encontrava a seu lado. A outra mulher abanou a cabeça, mas já assistira a muitas coisas estranhas. Numa das enfermarias encontrava-se um homem que despertara recentemente, depois de seis meses de coma por causa de um ferimento na cabeça provocado por um ataque aéreo.

- Nunca se sabe... - comentou, saindo para ir ver Sarah e William. Sarah continuava sentada na cadeira, falando para William, contando-lhe coisas a respeito de Phillip, da mãe, de Whitfield e do castelo. Chegou a mencionar Lizzie de um modo vago. Ter-lhe-ia falado fosse do que fosse se pensasse que poderia obter alguns resultados, mas até ao momento nada acontecera. Na realidade, embora não o admitisse, começava a perder todas as esperanças. A freira pousou-lhe a mão no ombro, com gentileza. Por instantes, pareceu-lhe que William se mexera, mas não disse nada, por não ter a certeza. Contudo, Sarah também se apercebera do movimento. Ficou sentada, muito quieta e começou novamente a falar, pedindo a William para abrir os olhos e olhar para ela... apenas uma vez... para saber se gostava do seu novo penteado. Sarah não se via ao espelho havia um mês, não imaginava qual poderia ser o seu aspecto, mas insistiu, beijando-lhe as mãos e falando sem parar, enquanto a freira observava, fascinada. Então, muito devagar, os olhos de William abriram-se. Olhou para ela e sorriu. Voltou a fechá_los e acenou, pondo Sarah a soluçar em silêncio. Tinham conseguido... O marido abrira os olhos... A freira também chorava e apertou a mão de Sarah, falando para o seu doente.

- É muito bom vê-lo acordado, Vossa Graça. já era tempo... - Contudo, Sarah não se mexeu durante alguns momentos. Depois, muito lentamente, virou a cara e fitou Sarah de frente.

- Está muito bonito - sussurrou, num tom rouco.

- O quê? - Sarah não fazia ideia sobre o que estaria ele a falar, mas nunca se sentira tão feliz em toda a sua vida. Queria gritar de alívio e de alegria enquanto se debruçava para o beijar.

- O teu cabelo... Não foi o que me perguntaste?

A freira e Sarah riram-se. No dia seguinte já o tinham sentado, bebericando sopa e chá fraco, e no fim da semana Sarah conseguia falar com toda a gente e recuperava as forças a pouco e pouco, embora não passasse de um fantasma do seu antigo eu. Contudo, regressara. Estava vivo. Para Sarah, era tudo-o que lhe interessava. Fora para aquilo que vivera.

Os homens do ministério apareceram para o visitar. Quando William se sentiu suficientemente forte, contou-lhes tudo o que lhe sucedera. Foram precisas várias visitas e a história desafiava a imaginação. William não permitiu que Sarah permanecesse no quarto enquanto contava os pormenores, que deixaram toda a gente horrorizada. Tinham-lhe partido as pernas repetidamente, haviam-no deixado no meio da sujidade até infectarem, e tinham-no torturado com ferros em brasa e choques eléctricos. Haviam feito de tudo... excepto matá-lo, mas sem nunca saberem quem ele era, porque nunca o dissera. Quando saltara de pára-quedas levara consigo um passaporte e documentos militares falsos e não lhe haviam extraído outras informações para além dessas. Nunca revelara qual fora a sua missão, que acabara por falhar.

William acabou por receber uma condecoração da força aérea pelo seu heroísmo, mas tratava-se de um fraco consolo pela perda do uso das pernas. Inicialmente, logo que compreendeu que não voltaria a andar, William ficou abatido, mas Sarah tivera razão ao querer salvar-lhe as pernas, uma vez que o marido estava satisfeito por ainda as ter. Teria detestado que lhas amputassem.

Ambos haviam perdido muito. Uma tarde, antes de William saír do hospital, Sarah contou-lhe o que se passara com Lizzie, e ambos choraram de tristeza.

- Oh, minha querida... e eu que não estava lá, junto de ti...

- Não faria diferença. Não tínhamos remédios, nem médicos... Na altura, não tínhamos nada. Os americanos aproximavam-se e os alemães preparavam-se para partir e já nada lhes restava. A Lizzie não era suficientemente forte para conseguir sobreviver. O comandante que se encontrava no castelo foi muito bom para nós, deu-nos o que tinha para dar... mas ela não resistiu.  Soluçou e olhou para o marido. - Era tão bonita... Sarah mal conseguia falar. Quem me dera que a tivesses conhecido...

- Acabarei por a conhecer, um dia - respondeu a Sarah por entre as lágrimas -, quando estivermos todos juntos de novo, num sítio melhor do que este.

De certo modo, para os dois, a perda de Lizzie fazia com que Phillip fosse duplamente precioso. Todavia, por vezes, Sarah ainda sentia a falta da filha, em especial sempre que via uma rapariguinha vagamente parecida com ela. Sabia que muitas outras mães haviam perdido os filhos durante a guerra, mas a mágoa era quase insuportável. Estava grata por ter William de volta, para a partilhar.

Ocasionalmente, ainda pensava em Joachim, mas este já fazia parte de um passado distante. Com excepção de Emanuelle, Joachim fora o seu único amigo durante a solidão, a dor, o terror e as perdas de guerra. Contudo, as recordações que tinha dele apagavam-se lentamente.

Sarah fez vinte e nove anos quando William ainda se encontrava no hospital. A guerra no Japão terminara alguns dias antes e todo o mundo se alegrava. William regressou a casa no dia em que o Japão se rendeu oficialmente, a bordo do cruzador Missouri, na véspera do sexto aniversário de Phillip. Era a primeira vez que William via o filho, desde que tinha apenas alguns meses de idade, pelo que o encontro foi muito emocional para ele e um pouco estranho para Phillip. Este parou e ficou a olhá-lo durante muito tempo, antes de se aproximar e de passar os braços em volta do pai, por incitamento da mãe. Mesmo na cadeira de rodas, William era um homem tão grande que assustava o filho. Mais do que nunca, o pai lamentava todos os anos que perdera e em que não o conhecera.

O tempo que passaram em Whitfield foi bom para todos eles. William aprendeu a movimentar-se com mais facilidade na sua cadeira de rodas e Sarah conseguiu, pela primeira vez em muito tempo, um pouco do tão necessário descanso. Phillipadorava a propriedade e a estada permitiu-lhe desfrutar de algum tempo para conhecer o pai.

Uma vez, William conversou com ele a respeito de Lizzie, e era óbvio que lhe era doloroso falar da irmã.

- Era muito bonita - afirmou, baixinho, olhando para a distância. - Quando adoeceu, a mamã não conseguiu arranjar remédios... e ela morreu.

Havia um leve toque de censura na sua voz, que William notou mas que não compreendeu. Todavia, interrogava-se se seria possível que censurasse a mãe pela morte da criança. Parecia-lhe tão improvável que não quis aprofundar o assunto. De certeza que Phillip sabia que a mãe fizera tudo o que lhe fora possível para a salvar... ou não saberia?

Por vezes, Phillip também falava de Joachim. Não dizia muito, mas era fácil perceber que o rapaz gostara dele. independentemente da sua nacionalidade, William estava-lhe grato pela sua bondade para com a criança, Sarah nunca falara dele, mas quando William a interrogou, respondeu que se tratara de um homem bom e de uma pessoa decente. Nesse ano, celebraram juntos o nonagésimo aniversário da mãe de William. Continuava a ser uma mulher notável e parecia melhor do que nunca, agora que William regressara.

Encontravam-se todos numa situação melhor do que tinham estado, mas não havia que negar que haviam sofrido enormes perdas  ... de tempo... de esperança... de pessoas de quem gostavam ... tal como a pequena Lizzie. William estivera longe durante muito tempo, quase perdido para sempre... Joachim aparecera e desaparecera nas suas vidas... As perdas e as tristezas haviam cobrado o seu tributo e só agora começavam a recuperar. Porém, por vezes, Sarah perguntava a si mesma se o mais atingido não teria sido Phillip. Perdera um pai, que nunca conhecera nos seus seis primeiros anos de vida, e agora tinha de aprender a conhecê-lo e a construir uma relação, o que não era fácil. Perdera um amigo emjoachim, quando este partira... bem como uma irmã que ainda chorava e que nunca iria esquecer.

- Sentes a falta dela, não é verdade? - perguntou-lhe a mãe, um dia, quando passeavam nos bosques. Phillip acenou, levantando os olhos magoados, tal como sempre acontecia quando falavam da irmã. - Também eu, meu querido. Sarah apertou-lhe a mão com força, mas Phillip desviou os olhos e não respondeu. Todavia, esses olhos disseram algo que William já compreendera e Sarah ainda não. O rapaz culpava a mãe pela morte da irmã. Fora por culpa de Sarah que Lizzie morrera por falta de remédios... tal como fora por sua culpa quejoachim partira... Phillip não sabia muito bem o que fora que a mãe fizera para provocar aquelas calamidades na sua vida, mas tinha a certeza de que ela fizera qualquer coisa, ou que, pelo menos, não as evitara. De qualquer modo, sentia-se feliz em Whitfield. Andava a cavalo, passeava nos bosques, gostava da avó. A pouco e pouco, começava a conhecer William.

 

Não voltaram para França antes da Primavera e por essa altura já William retomara todo o controlo sobre as suas vidas. Parecia ter-se conformado com a perda das pernas e recuperara o seu peso normal. Só os súbitos cabelos brancos que agora possuía o faziam parecer diferente. Tinha apenas quarenta e dois anos, mas as suas experiências num campo para prisioneiros de guerra haviam-no feito envelhecer muitos anos. Até Sarah parecia mais séria do que fora antes da guerra. Haviam todos pago um preço elevado pelo que acontecera, incluindo Phillip, que era um rapazinho com um ar grave, que se mostrou muito infeliz quando teve de saír de Whitfield. Afirmou que queria ficar ali, com a avó e o pónei, mas é claro que os pais não lhe fizeram a vontade.

William chorou quando regressou ao castelo. Era exactamente igual ao que recordara, e também ao que sonhara que seria.,.. se alguma vez voltasse a casa. Só conseguiu agarrar-se a Sarah e soluçar como uma criança. Quando chegaram, toda a casa estava maravilhosa, graças aos esforços de Emanuelle e da mãe. Sarah deixara Emanuelle encarregue da propriedade durante quase um ano, e a jovem gerira tudo na perfeição. Já não se viam vestígios de exércitos, nem na residência, nem nos terrenos ou nos estábulos. Emanuelle contratara vários homens para limparem tudo, preparando a propriedadepara a chegada dos Whitfield.

- Tem um belo aspecto - disse-lhe Sarah, logo à chegada, e Emanuelle ficou satisfeita. Era uma jovem muito amadurecida para a idade. Tinha apenas vinte e três anos mas sabia orientar as coisas e prestava atenção aos pormenores e à precisão.

Sarah levou William ao túmulo de Lizzie logo na tarde do dia em que chegaram. Ambos choraram quando viram a pequena sepultura. De regresso a casa, William interrogou-a, mais uma vez, a respeito dos alemães.

- Estiveram aqui durante muito, muito tempo - declarou ela, casualmente. - Foi um milagre não terem causado mais estragos. - O comandante era boa pessoa. Era um homem simpático, que mantinha os soldados sob controlo. Tal como nós, também não gostava da guerra.

William levantou uma sobrancelha ao ouvir aquilo.

- Alguma vez to disse?

- Várias vezes - respondeu Sarah rapidamente, sem saber por que razão o marido lhe fazia aquelas perguntas. No entanto, havia algo na sua voz que lhe dizia que estava preocupado.

- Vocês eram bons amigos? - inquiriu William de repente, sabendo perfeitamente que Phillip o mencionava muitas vezes. Em certos momentos preocupara-se com a possibilidade de o seu filho gostar mais do oficial alemão do que do próprio pai. Era um grande golpe, é claro, mas compreendia-o. Sarah também compreendeu as perguntas e olhou-o, virando-se para o poder enfrentar na sua cadeira de rodas.

- Éramos apenas amigos, William. Mais nada. Viveu aqui durante muito tempo e aconteceram-nos muitas coisas... como o nascimento de Elizabeth. - Decidiu ser honesta para com ele. Tinha de o ser e sempre o fora. - Foi ele quem a ajudou a nascer. Salvou-lhe a vida. A Lizzie teria morrido durante o parto sem a sua ajuda. - De qualquer modo, a criança morrera e isso talvez já não importasse. Sobrevivemos aqui durante quatro anos. É um facto difícil de ignorar. No entanto, se estás a querer perguntar-me aquilo que penso... digo-te já que nunca aconteceu nada.

Ficou sobressaltada com o que ouviu a seguir e o choque fê-la estremecer um pouco.

- O Phillip diz que o beijaste quando se foi embora. Phillip fizera mal em contar ao pai, pelo menos daquela maneira. Talvez não compreendesse o que estava a fazer, ou talvez compreendesse. Por vezes, Sarah não tinha a certeza de entender o filho. Parecera ficar tão zangado com ela desde que Lizzie morrera... Depois, Joachim partira... William voltara a casa... e Phillip tornara-se reservado. Tinha muito para absorver e compreender, tal como todos eles.

- É verdade, beijei-o - afirmou Sarah tranquilamente. Nada tinha a esconder de William e queria que este o soubesse. - Tornou-se meu amigo. Joachim odiava, tanto como nós, tudo o que Hitler andava a fazer. Para além disso, ajudou a mantermo-nos em segurança. Quando se foi embora, sabia que não voltava a vê-lo. Depois disso, não sei se morreu ou se está vivo, mas desejo-lhe a melhor das sortes. Dei-lhe um beijo de despedida, mas não te traí. - Tinha lágrimas a rolarem-lhe pelas faces enquanto pronunciava aquelas palavras. O que dissera era verdade, fora fiel a William, e Phillip procedera mal ao fazê-lo sentir-se ciumento. Na altura percebera que Phillip ficara zangado por ter beijado Joachim e também por o ter deixado partir. Ficara zangado com muita coisa, mas Sarah nunca esperara que o filho viesse a agir daquele modo. Agora, estava satisfeita por poder dizer a William, com toda a honestidade, que não o atraiçoara. Era a única coisa que fazia com que todas aquelas longas noites solitárias tivessem valido a pena.

- Desculpa ter perguntado... - respondeu William, com um ar culpado, mas Sarah ajoelhou-se a seu lado e segurou-lhe o rosto entre as mãos.

- Não peças desculpa. Não há nada que não possas perguntar-me. Amo-te. Sempre te amei. Nunca desisti de ti... Nunca. Nunca deixei de te amar. Sempre acreditei que voltarias para casa. - Era verdade, e William podia ler-lhe tudo aquilo nos olhos.

Suspirou, aliviado com o que ela lhe dissera, e acreditou em Sarah. Ficara aterrorizado quando Phillip lhe falara do beijo. Todavia, também sabia que, à sua maneira, Phillip o estava a punir por os ter abandonado.

- Nunca pensei que conseguiria voltar. Dizia a mim mesmo que sim, apenas para poder sobreviver mais uma hora, mais uma noite ou mais um dia... mas na verdade não pensei que conseguisse. Foram muitos os que não voltaram... - Assistira à morte de muitos homens, torturados Pelos alemães. - São... uma nação de monstros - acrescentou, quando regressavam à residência.

Sarah não teve coragem para lhe dizer que Joachim era diferente. Tal como ele próprio afirmara, a guerra era uma coisa muito feia. Felizmente, já terminara.

Um dia, quando se encontravam no castelo havia apenas três semanas, Emanuelle e Sarah faziam o pão, na cozinha. Tinham conversado a respeito de muitas coisas, mas, de súbito, a jovem francesa começou a fazer perguntas.

-   Deve estar muito satisfeita por ter monsíeur le duc de volta... - começou, referindo-se a um facto que era óbvio para todos aqueles que os vissem. Havia muitos anos que Sarah não se sentia tão feliz. A pouco e pouco, iam fazendo novas descobertas no que se referia à vida sexual. Algumas das alterações eram infelizes, mas muito pouco mudara, para grande satisfação de William, agora que tinha a hipótese de experimentar.

- É maravilhoso - declarou Sarah, sorrindo de felicidade, enquanto amassava o pão e Emanuelle a observava.

- O senhor duque terá trazido muito dinheiro de Inglaterra? - Era uma pergunta estranha e Sarah levantou os olhos, espantada.

- Claro que não. Para que o faria?

 

- Era apenas curiosidade - respondeu Emanuelle, parecendo embaraçada, mas não muito. Via-se que tinha algo em mente, mas Sarah não era capaz de imaginar o que seria. A francesa nunca lhe fizera perguntas daquele tipo.

- Por que razão me perguntaste uma coisa dessas, Emanuelle? - Sarah sabia que Emanuelle estivera envolvida em actividades estranhas, tal como a resistência, por intermédio do irmão, e mais tarde com o mercado negro, mas não tinha a mínima ideia sobre o que estaria ela a preparar.

- Por vezes... há pessoas que precisam de dinheiro. Perguntei a mim mesma se a senhora e o duque seriam capazes de o emprestar...

- O quê, dar dinheiro a essas pessoas, sem mais nem menos? - Sarah pareceu surpreendida e Emanuelle ficou pensativa.

- Talvez não. E se tivessem alguma coisa para vender?

- Referes-te a comida? - Sarah continuava sem compreender. Acabou de amassar o pão, limpou as mãos e fitou a jovem durante muito tempo. Nunca antes suspeitara de Emanuelle, mas começava a desconfiar. Não gostava da sensação. - Estás a falar de comida, ou de equipamentos agrícolas, Emanuelle?

A jovem abanou a cabeça e baixou a voz.

- Não... Coisas como jóias... Há gente... dans les alentours... na região... que precisa de dinheiro para reconstruir as suas casas e as suas vidas. Têm coisas escondidas... pode ser ouro... prata... ou jóias... e precisam de as vender.

Havia já algum tempo que Emanuelle pensava em ganhar algum dinheiro para ela própria, agora que a guerra terminara. Não queria continuar a limpar casas para sempre, mesmo que para eles, apesar de os adorar. Surgira-lhe aquela ideia. Sabia de várias pessoas que estavam ansiosas por vender peças importantes, jóias, pratas, cigarreiras Fabergé, objectos dispendiosos que haviam escondido durante a guerra. Muito em particular, conhecia uma mulher de Chambord que tinha um fantástico colar de pérolas e que estava desesperada por o vender a qualquer preço. Os alemães haviam-lhe destruído a casa e precisava do dinheiro para a reconstruir.

Seria uma espécie de intermediária. Por um lado, conhecia pessoas que possuíam objectos maravilhosos e passavam por grandes necessidades. Por outro, sabia que os Whitfield tinham o dinheiro necessário para as ajudar. já há algum tempo que pretendia falar no assunto, mas não soubera como o fazer. Contudo, eram cada vez mais as pessoas que iam ter com ela por saberem que se dava bem com os Whitfield, e que lhe imploravam ajuda. A mulher das pérolas jà a visitara duas vezes, bem como alguns outros.

Havia também o caso dos judeus que saíam dos seus esconderijos, bem como o das mulheres que tinham aceitado dispendiosos presentes dos nazis e receavam guardá-los. Também existiam jóias que haviam sido trocadas por vidas, ou por informações, na resistência. Emanuelle queria ajudar as pessoas a vendê-las. Também teria um lucro, embora pequeno. Desejava ajudar os outros e ajudar-se a si mesma. Contudo, Sarah continuava a olhá-la, confusa.

- E que faria eu com essas jóias? - perguntou. Fora naquela manhã que recuperara as jóias escondidas por baixo do soalho do quarto de Phillip.

- Pode usá-las... - retorquiu Emanuelle, com um sorriso. Gostaria também de o poder fazer, mas ainda não tinha dinheiro para isso. Talvez um dia... - Também pode vendê-las. As possibilidades são muitas, madame.

 

- Um dia - afirmou Sarah, sorrindo -, ainda irás ser uma grande mulher. - Tinham uma diferença de apenas seis anos, mas Emanuelle possuía um incrível sentido de empreendimento e sobrevivência, que Sarah sabia que não possuía. Pela sua parte, dispunha de uma grande força e resistência interiores... mas Emanuelle Bourgois era astuta.

- Poderá perguntar a monsieur le duc?... - implorou, quando Sarah ia a saír da cozinha com o tabuleiro do almoço do marido. Sarah apercebeu-se de que havia algo de muito ansioso na sua voz.

- Está bem - Prometeu -, mas garanto-te que ele vai pensar que endoideci.

O engraçado foi o facto de William não pensar que Sarah tivesse endoidecido. Ficou divertido com a proposta.

-  Que ideia curiosa! Essa rapariga é extraordinária, não é? É uma maneira simpática e limpa de ajudar as pessoas, emprestando-lhes dinheiro. Gosto disso. Na verdade, andava a pensar no que poderia fazer para ajudar os locais... mas não me tinha lembrado de uma coisa tão exótica. - William sorriu. - É perfeitamente possível. Porque não lhe dizes que vamos pensar no assunto... e esperamos para ver o que acontece?

O que aconteceu foi que, apenas três dias depois, a sineta da porta da frente do castelo tocou às nove da manhã. Quando Sarah desceu, deparou com uma mulher, num brilhante vestido preto com aspecto de ter sido muito dispendioso, sapatos gastos e uma mala Hermès que reconheceu imediatamente. No entanto, não conhecia a mulher.

- Oui?... Sim? Em que posso ajudá-la?

- En effet... je m’excuse... Eu... - A mulher parecia assustada e estava sempre a olhar por cima do ombro, como se temesse que alguém a agarrasse. Sarah olhou-a com mais atenção e pensou que podia tratar-se de umajudia. - Tenho de pedir desculpa... Uma amiga minha sugeriu... Tenho um problema terrível, Vossa Graça... A minha família... - Os olhos encheram-se-lhe de lágrimas quando começou a justificar-se. Sarah convidou-a para a cozinha e ofereceu-lhe uma chávena de chá. A mulher explicou que toda a sua família havia sido deportada para campos de concentração, durante a guerra. Tanto quanto sabia, era a unica que restava. Estivera escondida durante quatro anos, na cave de uns vizinhos. O marido havia sido médico, director de um importante hospital de Paris, mas fora deportado pelos nazis, tal como os pais, duas irmãs e até o filho... Começou novamente a chorar enquanto a própria Sarah lutava contra as lágrimas provocadas por aquela triste história. A mulher continuou, dizendo que precisava de dinheiro para os encontrar. Queria ir aos campos da Alemanha e da Polónia, para ver se descobria registos dos familiares entre os sobreviventes.

- Penso que a Cruz Vermelha a poderá ajudar, minha senhora. Há organizações a fazer esse trabalho por toda a Europa. - Sarah sabia que o marido já doara uma grande soma de dinheiro para esse fim, na Inglaterra.

- Quero ir eu mesma... e algumas das organizações privadas são muito dispendiosas. Depois de os encontrar, ou de... - Calou-se, incapaz de pronunciar as palavras. Quero ir para a Palestina - disse, como se se tratasse da verdadeira terra prometida. O coração de Sarah cedeu quando a mulher tirou duas grandes caixas da mala de mão. Tenho uma coisa para vender... A Emanuelle disse que poderiam... que são muito compreensivos... - Provavelmente, Emanuelle também lhe dissera que o marido de Sarah era muito rico, mas Mrs. Wertheini era demasiado educada para O mencionar. O que tirara da mala haviam sido duas caixas de Van Cleef, uma com um enorme colar de esmeraldas e diamantes, e a outra com uma pulseira a condizer. As peças pareciam feitas de renda. Estavam maravilhosamente articuladas e eram impressionantes.

 

- Eu... Deus do céu, são magníficas! - exclamou Sarah. - Não sei o que dizer... - Nem sequer se imaginava a usar jóias remotamente parecidas com aquelas. Eram peças importantes, que sem dúvida valiam o que a mulher pedisse... mas, para começar, como dar um preço a coisas tão belas? Ao observá-las, e por razões que não sabia explicar, Sarah tinha de admitir que a ideia de as comprar a entusiasmava. - Posso mostrá-las ao meu marido? É só um momento.

Subiu as escadas a correr com as caixas nas mãos e precipitou-se para o quarto.

- Não vais acreditar - disse-lhe, sem fôlego. - Está uma mulher lá em baixo... - Abriu as caixas e despejou o conteúdo sobre o colo - ... e quer vender isto! - Agitou as magníficas esmeraldas na frente de William, que soltou um assobio.

- São muito bonitas, querida. Ficar-te-ão muito bem quando passeares no jardim. Condizem com o verde das...

- Deixa-te de brincadeiras. - Contou-lhe a história da mulher, e o marido também se deixou comover.

- Podemos dar-lhe um cheque? Sinto-me um vigarista, a roubá-la destas jóias... apesar de concordar que devem ficar-te muito bem.

- Obrigada, meu amor. Que fazemos, quanto à mulher?

- Vou descer para falar com ela. - William já se barbeara. Vestira as calças, uma camisa e um roupão. Começava a vestir-se sem dificuldades, apesar das suas limitações. Seguiu Sarah para fora do quarto e desceu pela rampa que tinham mandado fazer de propósito para ele.

Mrs. Wertheim ainda os aguardava na cozinha, muito nervosa. Estava tão assustada que se sentira tentada a fugir sem as jóias, com medo de que lhe fizessem algo de terrível, mas Emanuelle insistira que os Whitfield eram boas pessoas. Emanuelle conhecia as pessoas que a haviam escondido na cave. Encontrara-as na resistência.

- Bom dia! - saudou-a William, com um sorriso. A mulher tentou parecer descontraída enquanto esperava que lhe dissessem qualquer coisa sobre as esmeraldas. - Receio nunca termos feito nada deste género, e a ideia é nova para nós. - Achou melhor acabar com o sofrimento da mulher e ir direito ao assunto. já se decidira a ajudá-la. Quanto pede pelas jóias?

- Não sei... Dez mil? Quinze mil?

- Isso é ridículo!

A mulher estremeceu e falou num sussurro.

- Desculpe, Vossa Graça. Cinco mil? - A sua necessidade de dinheiro era tão grande que as teria vendido por quase nada.

- Estava a pensar em trinta mil. Acha razoável? Refiro-me a trinta mil dólares.

- Eu... Oh, meu Deus! - A mulher começou a chorar, incapaz de se controlar durante mais tempo. - Deus o abençoe... Deus o abençoe, Vossa Graça! - Limpou os olhos com um velho lencinho de renda e beijou-os aos dois quando se foi embora, com um cheque bem guardado na mala. Também Sarah tinha lágrimas nos olhos.

- Pobre mulher...

- Eu sei - assentiu William. Ficou com uma expressão sombria durante alguns momentos, mas depois colocou o colar e a pulseira em Sarah. - Goza-as, minha querida.

Sentiam-se ambos satisfeitos por terem podido ajudar alguém... e tiveram a oportunidade de voltar a fazê-lo ainda antes do fim da semana.

Sarah ajudava Emanuelle a arrumar as coisas, depois do jantar, e William encontrava-se no seu estúdio, que por vezes ainda a fazia recordar-se de Joachim, quando surgiu uma mulher junto à porta da cozinha. Era jovem e parecia ainda mais assustada do que Mrs. Werthein. Usava o cabelo muito curto, mas não tão curto como o tivera depois da ocupação. Sarah pensou que a vira com um dos oficiais alemães que haviam estado no castelo com Joachim. Era uma bela rapariga que, antes da guerra, trabalhara como modelo para Jean Patou.

Emanuelle quase rosnou quando a viu, mas fora ela quem lhe dissera para ir ali. Contudo, desta vez, prometera a si mesma que receberia uma comissão maior. Recebera muitopouco de Mrs. Wertheim, e fora a mulher que insistira em dar-lhe qualquer coisa.

A rapariga lançou uma olhadela nervosa para Emanuelle e virou-se para Sarah. A cena repetia-se.

- Posso falar consigo, Vossa Graça? - perguntou. Tinha uma pulseira de diamantes para vender. Era de Boucheron, e muito bonita. Explicou a Sarah que se tratara de um presente, mas o alemão que lho oferecera deixara-lhe mais qualquer coisa. Um bebé. - Está sempre doente... não conSigocomprar-lhe comida   ... nem remédios... tenho medo que apanhe a tuberculose  ...

Aquelas palavras foram direitas ao coração de Sarah, que se lembrou de Lizzie. Virou-se para Emanuelle e perguntou-lhe se era verdade.

- Sim, tem um bastardo alemão, com dois anos, que está sempre doente.

- Promete comprar-lhe comida, remédios e roupas quentes, se lhe dermos algum dinheiro? - perguntou Sarah à jovem, com firmeza, e a francesa jurou que o faria.

Sarah foi chamar William, que apareceu para ver a rapariga e a pulseira. Ficou impressionado com ambas. Depois de conversar com ela durante alguns instantes, concluiu que se tratava de uma pessoa honesta. Não queria descobrir-se a comprar jóias roubadas, mas parecia não ser esse o caso.

Compraram a pulseira por um preço justo, talvez igual ao que o alemão pagara por ela, e a jovem deixou-os, agradecendo-lhes profusamente. Sarah olhou para Emanuelle, sentou-se na cozinha e riu-se.

- Que andas tu a fazer?

- Talvez fique rica - respondeu a jovem, com um grande sorriso -, e a senhora vai ficar com uma bela colecção de jóias.

Sarah não conseguiu impedir um sorriso. Aquelas compras eram um pouco loucas, mas também eram divertidas e comoventes. No dia seguinte, compraram as extraordinárias pérolas da mulher de Chambord que precisava de reconstruir a casa. Eram pérolas fabulosas e William insistiu que Sarah as deveria usar.

No fim do Verão, Sarah já adquirira dez pulseiras de esmeraldas, três colares a condizer, quatro conjuntos de rubis, uma cascata de belas safiras e vários anéis de diamantes, isto para não mencionar uma encantadora tiara de turquesas. Todas as peças haviam sido compradas a pessoas que haviam perdido as fortunas, as casas ou filhos, e que precisavam do dinheiro para encontrar familiares, reconstruir as suas vidas ou colocar comida na mesa. Era um tipo de filantropia que não seriam capazes de explicar aos amigos sem se sentirem um pouco tolos, mas ajudavam as pessoas e era verdade que Emanuelle estava a ficar rica com as comissões que recebia. Tornara-se muito elegante, passara a arranjar o cabelo na cidade e a comprar roupa em Paris, coisa que Sarah ainda não fizera desde o princípio da guerra. Começava a sentir-se desmazelada quando se via ao lado da jovem francesa.

 

- William, que vamos nós fazer com tudo isto? - perguntou Sarah, um dia, enquanto desequilibrava o monte de caixas de Van Cleef e de Cartier que se encontravam no seu roupeiro. Acabaram por lhe cair em cima da cabeça e o marido riu-se.

- Não faço ideia. Podíamos organizar um leilão...

- Estou a falar a sério!

- Porque não abrimos uma loja? - sugeriu William, bem-humorado, mas Sarah pensou que se tratava de uma ideia ridícula. Porém, um ano depois, talvez já tivessem mais jóias do que o próprio Garrard’s.

- É capaz de ser melhor vendê-las - sugeriu Sarah dessa vez, mas William pareceu céptico. Estava envolvido na plantação de extensas vinhas em volta do castelo e não tinha tempo para se preocupar com jóias. No entanto, estas continuavam a aparecer. A sua generosidade e simpatia já eram bem conhecidas. No Outono de 1947, William e Sarah decidiram ir a Paris, para ficarem sozinhos. Phillip ficaria com Emanuelle durante alguns dias. Tinham chegado de Inglaterra havia ano e meio, sem nunca terem saído do castelo.

Paris estava ainda mais maravilhoso do que Sarah esperara. Ficaram no Ritz e passaram quase todo o tempo na cama, tal como acontecera durante a lua-de-mel. No entanto, também arranjaram tempo para fazer muitas compras e para ireinjantar a casa dos Windsor, no Boulevard Sachet, noutra bela residência decorada por Boudin. Sarah usava um elegante vestido preto que acabara de comprar na Casa Dior, as suas espectaculares pérolas e uma fabulosa pulseira de diamantes que haviam adquirido meses antes de uma mulher que perdera tudo às mãos dos alemães.

Durante o jantar, toda a gente quis saber onde Sarah arranjara a pulseira. Porém, Wallis foi suficientemente perspicaz para reparar nas pérolas e disse a Sarah que nunca tinha visto nada de semelhante. Também se interessou pela pulseira e quando inquiriu onde a haviam comprado, os Whitfield limitaram-se a responder: «No Cartier», sem mais explicações. As jóias da própria Wallis pareciam um pouco pálidas quando comparadas com as de Sarah.

Durante a maior parte da estada em Paris, para sua grande surpresa, Sarah descobriu que se sentia fascinada pelas joalharias. Exibiam algumas peças muito belas, mas eles também as tinham, no castelo. Na verdade, possuíam muitas mais e eram, na sua maioria, de melhor qualidade.

- Sabes, devíamos fazer qualquer coisa a esse respeito...- declarou Sarah, num tom vago, enquanto voltavam para casa, no Bentley construído especialmente para William depois de terem saído de Inglaterra.

Porém, foram precisos outros seis meses antes de voltarem a pensar no assunto. Sarah andava atarefada com Phillip e queria aproveitar a sua companhia ao máximo antes do filho partir para Eton, no ano seguinte. Na verdade, Sarah desejava mantê-lo em França, junto dela, mas, apesar de ter nascido ali e de ter vivido na propriedade durante toda a sua vida, o rapaz tinha uma paixão por tudo o que era inglês e estava absolutamente decidido a ir para Eton.

William andava muito ocupado com as suas vinhas e não queria pensar nas jóias. Foi no Verão de 1948 que Sarah insistiu que tinha de fazer qualquer coisa com a montanha de joalharia que haviam reunido. já nem se tratava de um bom investimento. Eram objectos que se limitavam a estar ali, excepto no que se referia às peças que Sarah usava. Muito bonitas, mas poucas.

- Depois da partida do Phillip, vamos a Paris e vendemos tudo. É uma promessa - respondeu William, distraído. Vão pensar que roubámos um banco em Monte Carlo. Na verdade, é o que parece - retorquiu Wilham, com um sorriso.

No Outono, quando regressaram a Paris, compreenderam subitamente que as jóias eram em número demasiado grande para as levarem todas. Escolheram algumas peças e deixaram as restantes no castelo. Com a recente partida de Phillip, Sarah sentia-se aborrecida e um pouco solitária. Depois de passarem dois dias em Paris, William olhou para ela e anunciou que encontrara uma solução.

- Uma solução para quê? - perguntou Sarah, que examinava alguns vestidos novos, na Casa Chanel.

- Para o dilema das jóias. Vamos abrir uma loja nossa e vendemo-las.

- Estás louco? - Sarah olhou-o. William, apesar de se encontrar numa cadeira de rodas, ainda tinha muito boa aparência. - Que fazíamos nós com uma loja? A nossa casa fica a duas horas de Paris.

- Pomos a Emanuelle a dirigi-la. Não tem nada para fazer, agora que Phillip se foi, e tornou-se demasiado elegante para servir de mulher-a-dias. - Na verdade, Emanuelle já comprava a sua roupa no Jean Patou e na Madame Grès, e passara a andar muito bem arranjada.

- Estás a falar a sério? - Nunca pensara numa coisa daquelas e não tinha a certeza de gostar da ideia. Porém, por outro lado, podia ser divertido, e ambos gostavam de jóias. Sarah preocupou-se. - A tua mãe não irá pensar que se trata de uma coisa demasiado... vulgar?

- Ser dono de uma loja? É vulgar, sim - retorquiu William com uma gargalhada -, mas também é divertido. Além disso, ela é compreensiva e é capaz de adorar a ideia. Agora que já tinha mais de noventa anos, a mãe de William parecia ganhar uma mentalidade cada vez mais aberta, e não o contrário. Ficara encantada com a perspectiva de ter Phillip com ela durante os fins-de-semana e as férias. - Quem sabe se um dia não nos poderemos intitular joalheiros da Corte. Temos de vender qualquer coisa à raínha, para o conseguirmos. Aposto que a Wallis vai ficar louca e pedir um desconto!

Era uma ideia totalmente maluca, mas falaram sobre o assuntodurante todo o caminho de regresso a casa e Sarah teve de admitir que se sentia atraída.

- Como vamos chamar-lhe? - perguntou, excitada, enquanto estavam na cama e continuavam a falar na loja, na noite de regresso ao castelo.

- Whitfield’s, é claro! - Wilham olhou-a com orgulho. Que outro nome poderia ter, minha querida?

- Desculpa - disse Sarah, rolando na cama e beijando-o. Devia ter pensado nisso.

- Podes ter a certeza. - Era um projecto novo, maravilhoso... e era quase como ter um novo bebé.

Tomaram nota das várias ideias que tiveram, fizeram um inventário das jóias que possuíam e levaram-nas à joalharia Van Cleef para serem avaliadas, deixando o pessoal estarrecido com a colecção que haviam amontoado. Falaram com advogados e regressaram a Paris antes do Natal, para alugar uma loja pequena, mas extremamente elegante no Faubourg St. Honoré. A seguir contrataram arquitectos e operários e conseguiram até arranjar um apartamento para Emanuelle. Esta encontrava-se fora de si de excitação.

- Estaremos completamente doidos? - perguntou Sarah a William, no quarto do Ritz, na véspera de Ano Novo. De vez em quando, Sarah ainda se deixava levar pelas preocupações.

- Não, minha querida, não estamos. Fizemos muito bem a muita gente com as coisas que comprámos... e agora vamos divertir-nos um pouco. Não há nenhum mal nisso. Quem sabe se não acabaremos por ter um negócio de grande êxito!

Tinham voado para Inglaterra para passar o Natal em Whitfield e haviam explicado tudo a Phillip e à mãe de William. Esta pensara que se tratava de uma boa ideia e prometera comprar a primeira peça de joalharia, se lho permitissem. Por seu lado, Phillip anunciou que, um dia, abriria uma filial em Londres.

-  Não preferes tomar conta da loja, em Paris? - perguntou-lhe Sarah, surpreendida com a reacção. O filho era espantosamente britânico, em particular para uma criança que nascera no estrangeiro e era apenas meia inglesa.

- Não quero voltar a viver em França - anunciou Phillip, excepto durante as férias. Quero viver em Whitfield.

- Interessante... - comentou o pai, mais divertido do que preocupado. - Ainda bem que alguém gosta de viver aqui. - Pessoalmente, William já não se imaginava a viver em Inglaterra. Sentia-se mais feliz em França, tal como o seu primo, o duque de Windsor, e passava-se o mesmo com Sarah.

- Terão de me contar tudo a respeito da inauguração pediu a duquesa viúva antes de partirem. - Quando irá ser?

- Em Junho - afirmou Sarah, trémula de excitação e olhando para William. Era como ter um novo bebé, e, como isso não voltara a acontecer-lhes, Sarah lançou-se ao trabalho com toda a energia ao longo dos seis meses seguintes, de modo a que tudo estivesse pronto para o dia da inauguração.

 

A inauguração da loja foi um enorme êxito. O interior, inteiramente em veludo cinzento-claro, com cadeiras Luís XVI, havia sido requintadamente decorado por Elsie de Wolfe, uma americana que, muito convenientemente, se encontrava a viver em Paris. Parecia-se com o interior de uma caixa de jóias. William contribuíra com alguns pequenos quadros de Degas e esboços de Renoir, que levara de Whitfield. Havia uma encantadora obra de Mary Cassatt que Sarah adorava, mas as pessoas não iam ali para ver arte. As peças de joalharia eram absolutamente espantosas. Sarah e William tinham posto de parte algumas das jóias menos interessantes, mas mesmo assim não deixaram de se espantar com a qualidade das restantes peças. Todas elas sobressaíam por mérito próprio, desde os fabulosos colares de diamantes às enormes pérolas, aos notáveis brincos de diamantes e a uma gargantilha de rubis que pertencera à Czarina. As marcas dos joalheiros eram claramente discerníveis em todas as peças à venda, incluindo a marca de Van Cleef na tiara de turquesas. Tinham ali trabalhos assinados por Boucheron, Mauboussin, Chaumet, Van Cleef, Cartier, Tiffany, de Nova Iorque, Fabergé e Asprey. O inventário era de pasmar, tal como a recepção por parte dos Parisienses. Houvera um pequeno e discreto anúncio na imprensa, dizendo que a duquesa de Whitfield ia abrir uma joalharia chamada «Whitfield’s», no Faubourg st. Honore., propondo jóias notáveis para mulheres extraordinárias.

A duquesa de Windsor esteve na inauguração, tal como a maioria das suas amigas... e de súbito le tout París estava presente, toda a melhor sociedade, bem como alguns amigos londrinos mais curiosos.

Venderam quatro peças na noite da festa de inauguração, incluindo uma bela pulseira de Fabergé com pequenas aves em esmalte azul, um colar de pérolas que fora um dos primeiros que Emanuelle lhes levara. Também venderam, com bom lucro, o conjunto de esmeraldas de Mrs. Wertheirn, bem como um enorme anel de rubi, de Van Cleef, feito propositadamente para um marajá.

Maravilhada, Sarah observava tudo o que se passava, incapaz de acreditar no que estava a acontecer. Por seu lado, William olhava-a com óbvio prazer. Estava orgulhoso dela e divertido com o que tinha conseguido. Haviam comprado todas aquelas peças com a bondade no coração e com a esperança de estarem a ajudar as pessoas, e agora, de súbito, as mesmas transformavam-se no mais extraordinário dos negócios.

- Fizeste um belo trabalho, meu amor - disse, louvando-a calorosamente, enquanto os criados lhes serviam mais champanhe. Tinham encomendado inúmeras caixas da garrafas de champanhe e incontáveis latas de caviar.

- Não posso acreditar! E tu? - perguntou Sarah, que se parecia de novo com uma rapariguinha, ao contrário de Emanuelle, que tinha o aspecto de uma grande dama a abrir caminho por entre a elite, muito bela e elegante num vestido preto de Schiaparelli.

- Claro que posso! Tens um gosto requintado e estas jóias são muito belas - respondeu, calmamente, bebericando o champanhe.

- Somos um sucesso, não é verdade? - Sarah soltou uma risadinha.

- Não, minha querida. Tu és um sucesso. És o melhor que me aconteceu - acrescentou, num murmúrio. Os seus anos como prisioneiro haviam servido para o fazer ver quais as melhores coisas da sua vida, a esposa, os filhos e a liberdade. Desde que voltara a casa que a sua saúde nunca fora tão boa como antes da guerra, mas Sarah cuidava bem dele e William continuava a recuperar as forças. Por vezes parecia tão cheio de vitalidade como outrora, mas noutras alturas ficava com um aspecto cansado e esgotado e Sarah compreendia que as pernas lhe doíam. As feridas haviam cicatrizado mas o sistema nervoso nunca recuperaria. No entanto, estava vivo e bem, e encontravam-se juntos. Agora, ainda por cima, tinham aquele negócio notável. Sarah aproveitava a ocasião e passava alguns bons momentos.

- Acreditas em tudo isto? - sussurrou Sarah a Emanuelle, alguns minutos mais tarde. Emanuelle estivera, muito friamente, a mostrar um dispendioso colar de safiras a um homem extremamente distinto.

- Penso... - respondeu a jovem francesa, com um sorriso enigmático - que vamos tirar um grande prazer desta loja.

Sarah podia ver que sim. Emanuelle já aproveitara a ocasião para vários flirts discretos com alguns homens muito importantes, sem parecer importar-se com o facto de serem casados.

No fim da festa, David comprou a Wallis um pequeno anel de diamantes, muito bonito, com um pequeno leopardo da Cartier. Foi a quinta venda da noite. Por fim, todos saíram e a loja fechou as portas à meia-noite.

- Oh, querido, foi maravilhoso! - exclamou Sarah, batendo as palmas de contente, e William puxou-a para o seu colo na cadeira de rodas enquanto os guardas fechavam tudo e Emanuelle dizia aos empregados para deixarem ficar o caviar que sobrara. Ia levá-lo para casa e partilhá-lo com alguns amigos. Sarah dissera-lhe que o podia fazer. Emanuelle pretendia dar uma pequena recepção no dia seguinte, no seu apartamento na Rue de la Faisanderie, para celebrar a nova posição como gerente da Whitfield’s. Para ela, coisas como Marolle, os dias da resistência, as noites passadas com alemães para lhes extorquir informações sobre qual o depósito de munições que devia ser feito explodir, e os ovos, natas e cigarros vendidos no mercado negro eram algo já muito distante, no passado. A estrada fora muito comprida para todos eles, a guerra fora longa, mas agora estavam em Paris, a divertirem-se.

Pouco depois, William levou Sarah de volta à suite no Ritz. já tinham conversado um com o outro a respeito de arranjarem um pequeno apartamento onde pudessem ficar quando fossem a Paris. A viagem até ao castelo era apenas de duas horas e pouco, mas mesmo assim era de mais para ser feita constantemente. Sarah não iria permanecer sempre na loja, tal como Emanuelle e a outra rapariga, e queria procurar novas peças sempre que pudesse, agora quejá não havia pessoas a pedirem-lhes ajuda. Por outro lado, também pretendia desenhar algumas peças novas. Iriam mais vezes a Paris do que era costume. De momento, o Ritz era muito conveniente, e Sarah bocejou enquanto caminhava atrás da cadeira de rodas de William. Alguns minutos depois já estava na cama, ao lado dele.

Quando a viu meter-se entre os lençóis, William virou-se e tirou um embrulho da gaveta de mesa-de-cabeceira.

- Que tonto fui... - declarou, num tom casual, mas Sarah já o conhecia suficientemente bem para saber que o marido lhe preparava alguma surpresa. - Esqueci-me disto... - Entregou-lhe o embrulho, quadrado e achatado. É apenas uma ninharia, para celebrar a abertura da loja... acrescentou, com um sorriso.

- William, és um patife! - exclamou Sarah, interrogando-se sobre o conteúdo do embrulho. Ao pé dele, sentia-se sempre como uma criança. Mimava-a muito e era sempre bom para ela em tudo o que era importante. - O que é?

Sarah agitou o embrulho, rasgou o papel e verificou que se tratava de um estojo de joalharia, com um nome italiano na tampa: Bucellati.

Abriu-a com cuidado, com os olhos a brilharem de excitação... e ofegou quando o viu. Era um belo e requintado colar de diamantes, maravilhosamente bem feito.

- Oh, meu Deus! - exclamou, fechando os olhos e a caixa. O marido oferecera-lhe algumas jóias encantadoras, mas aquela era incrível, e Sarah nunca vira nada de semelhante. O colar parecia feito de renda, intrincadamente tecida em platina, com enormes pendentes de diamantes que deveriam cair sobre a pele como gigantescas gotas de orvalho.

- Oh, William! - Voltou a abrir os olhos e lançou-lhe os braços ao pescoço. - Não mereço isto!

- Claro que mereces - repreendeu-a William. - Não digas coisas dessas! Para além disso, como proprietária da Whitfield’s, as pessoas vão começar a reparar naquilo que usas. Teremos de te comprar algumas jóias realmente interessantes e fabulosas - acrescentou, com um sorriso, divertido com a perspectiva. Adorava mimá-la. Para além disso, tal como o pai, sempre gostara de comprar jóias.

Sarah colocou o colar ao pescoço e deitou-se na cama, enquanto ele admirava tanto a jóia como ela. Acabaram às gargalhadas. Fora uma noite perfeita.

- Querida, devias passar a usar diamantes na cama disse William, beijando-a nos lábios e deixando que a sua boca vagueasse até ao colar e para lá dele.

- Achas que vai ser um grande êxito? - murmurou Sarah, passando os braços em volta do marido.

- Já o é - respondeu William num tom abafado... e esqueceram-se da loja até de madrugada.

No dia seguinte, os jornais estavam cheios de notícias sobre o acontecimento. Falavam das pessoas que haviam estado presentes, da beleza das jóias, da elegância de Sarah e William e do facto de o duque e a duquesa de Windsor terem comparecido. Era perfeito.

 

- Foi um sucesso! - Sarah, vestida apenas com o seu colar de diamantes, sorriu para o marido, por cima da mesa do pequeno-almoço. Tinha quase trinta anos mas a sua figura estava melhor do que jamais fora, mesmo ali, sentada na cadeira, de pernas cruzadas, cabelo puxado para cima e com os diamantes a brilharem sob a luz do Sol da manhã. William observou-a com um sorriso de prazer.

-  Sabes, minha querida, és muito mais bonita do que essas coisas brilhantes que tens à volta do pescoço.

- Obrigada, meu amor - retorquiu, inclinando-se para ele, beijando-o. Precisaram de algum tempo para conseguirem terminar o pequeno-almoço.

Voltaram à loja naquela tarde e as coisas pareciam estar a correr bem. Emanuelle disse-lhes que vendera seis novas peças de joalharia, algumas das quais muito dispendiosas. Os curiosos também apareciam, para ver as pessoas que iam entrando e para admirar as jóias e a excitação. Dois dos clientes da manhã haviam sido personalidades conhecidas. Um deles fizera compras para a amante e o outro para a esposa. Emanuelle iria jantar com este último. Era um funcionário do governo, bem conhecido pelos seus «casos», e Emanuelle pensara que seria interessante saír com ele pelo menos uma vez. Não prejudicariam ninguém. O homem era adulto e Emanuelle já não era uma virgem.

William e Sarah ficaram na loja durante algum tempo, para verem o que se passava, e nessa tarde voltaram para o castelo, ainda entusiasmados com o êxito da inauguração da Whitfield’s. Nessa noite, Sarah sentou-se na cama e fez esboços de jóias que pretendia encomendar. Não podiam ficar à espera de descobrirem constantemente novas peças fabulosas. Sarah também pretendia ir a alguns dos leilões em Nova Iorque e na Christie’s, em Londres. Por outro lado, sabia que a Itália era um bom sítio para mandar fazer joalharia, Via-se com mil assuntos para resolver, sem nunca deixar de pedir conselhos a William, que tinha muito bom-gosto e um excelente critério.

No Outono já os seus esforços estavam a dar frutos. A joalharia tinha resultados extremamente bons, algumas das peças que desenhara já estavam prontas e Emanuelle dizia que as pessoas as apreciavam muito. Sarah tinha boa percepção para os desenhos e William era um entendido em pedras preciosas. Compravam com todo o cuidado e Sarah insistia na boa qualidade do trabalho. As peças voavam da loja e em Outubro já Sarah se encontrava a desenhar outras, com a esperança de poder tê-las prontas para o Natal.

Emanuelle estava profundamente envolvida com Jean-Charles de Martin, o seu amigo do governo, mas a imprensa ainda não os descobrira. Eram muito discretos, por causa do lugar que o homem ocupava no governo, e encontravam-se sempre no apartamento da jovem.

Sarah nem acreditava nas coisas que tinha para fazer. Deslocavam-se constantemente a Paris, onde ainda ficavam no Ritz, uma vez que não tivera um minuto livre para procurar um apartamento. Quando o Natal chegou, estava completamente exausta. Tinham feito uma verdadeira fortuna na loja e William oferecera-lhe um fabuloso anel de rubis que pertencera a Mary Pickford. Foram mais uma vez passar o Natal a Whitfield e Sarah pretendera trazer Phillip de volta a Paris, mas o rapaz desapontou-a quando lhe implorou que o deixasse ficar em Whitfield.

- Que vamos nós fazer com ele? - perguntou Sarah, com tristeza, durante o voo de regresso. - É incrível pensar que nasceu e cresceu em França, e que só quer estar em Inglaterra.- Era o seu único filho e Sarah sofria ante a ideia de o perder. Por muito ocupada que estivesse, sempre tivera tempo para ele, mas o rapaz parecia ter pouco interesse pelos pais. Para Phillip, a França significava apenas recordações dos alemães e todos aqueles anos sem o pai.

- Whitfield deve estar-lhe no sangue - disse William, tentando confortá-la. - Aquilo passa. Tem apenas dez anos e quer estar com os amigos. Dentro de alguns anos, vai ficar muito feliz por voltar aqui. Poderá estudar na Sorbome e viver em Paris.

Contudo, o rapaz já falava em ir para Cambridge, tal como o pai, e Sarah sentia que, de certo modo, já o tinham perdido. No Ano Novo, quando voltaram ao castelo, a questão ainda a deprimia. Ainda por cima, apanhou uma terrível constipação. Tivera outra no mês anterior e estava incrivelmente cansada e abatida depois de toda a agitação de antes do Natal.

- Estás com um aspecto horrível - disse-lhe William, alegremente, quando Sarah desceu as escadas na manhã do primeiro dia do ano e ele já se encontrava na cozinha a preparar o café.

- Muito obrigada - retorquiu Sarah, abatida. A seguir perguntou-lhe se pensava que Phillip se sentiria mais feliz ali se comprassem mais cavalos.

- Deixa de te preocupar com o rapaz, Sarah. As crianças têm as suas próprias vidas para viver, independentes dos pais.

- Mas... é apenas um rapazinho... - respondeu Sarah, com as lágrimas a subirem-lhe, inesperadamente, aos olhos. E é o único que tenho.

Começou a chorar de verdade, pensando na rapariguinha que perdera durante a guerra, na menina que tanto adorara, e no filho que parecia já não precisar dela. Por vezes, quando pensava no assunto, sentia o coração a despedaçar-se. Era assustador sabê-lo tão longe e não ter mais crianças, mas nunca mais engravidara desde que William regressara da Alemanha. Os médicos diziam que era possível, mas nada acontecera.

- Minha pobre querida... - tranquilizou-a o marido, abraçando-a. - É verdade que o nosso filho é demasiado independente. - Também ele nunca conseguira aproximar-se do rapaz, embora o houvesse tentado. Fora extremamente difícil regressar da guerra ao encontro de um rapaz de seis anos, para só então iniciar um relacionamento. De certo modo, William sabia que nunca seriam muito íntimos. Também pressentia que Phillip nunca lhe perdoaria. Era como se culpasse o pai de ter ido para a guerra, deixando-o sozinho, tal como culpava Sarah pela morte da irmã. Phillip nunca mais dissera nada desse género depois da explosão de nervos durante o funeral da irmã, mas William pressentia que eram esses os seus sentimentos, embora não os tivesse mencionado a Sarah.

William forçou-a a voltar para a cama com uma sopa quente e um chá, e Sarah passou aí o dia, a chorar por Phillip e a fazer desenhos, até acabar por dormitar, tal como William verificou quando a foi ver. Sabia muito bem o que se passava com ela: estava exausta. Porém, quando a constipação lhe passou para o peito, telefonou para chamar o médico. Preocupava-se com ela e não suportava vê-la doente, como se estivesse sempre receoso de a perder.

- Isso é ridículo - protestou Sarah, quando soube que o marido telefonara ao médico. - Não era preciso! - acrescentou, tossindo horrivelmente.

- Quero que te dê qualquer coisa para a tosse antes que apanhes uma pneumonia - retorquiu Wilham com firmeza.

- Sabes bem que odeio remédios - insistiu, quezilenta.

Porém, William não cedeu, e o médico, um homem de uma certa idade, de outra aldeia, acabou por aparecer. Retirara-se para ali depois da guerra e era muito simpático, mas Sarah ainda estava aborrecida e voltou a dizer que não precisava de nenhum médico.

 

- Bien sur, madame... mas não queremos que monsieur le duc fique preocupado. Pode fazer-lhe mal... - respondeu o homem, com toda a diplomacia. Sarah cedeu e William saiu do quarto para lhe ir buscar outra chávena de chá. Quando voltou, Sarah tinha um aspecto muito calmo e um pouco surpreendido.

- Então, vai sobreviver? - perguntou William ao médico, num tom jovial. O velho sorriu e deu uma palmadinha num joelho de Sarah, levantando-se para saír.

- Sem dúvida, e espero que por muito tempo. - Voltou a sorrir para ela para logo a seguir fingir uma cara zangada. - Devia ficar na cama até se sentir melhor, n’est-ce pas?

-  Sim, senhor - retorquiu Sarah, obediente. William perguntou a si mesmo o que lhe teria o médico dito, para a deixar tão dócil. A combatividade de Sarah desaparecera de repente e mostrava-se muito calma e tranquila.

O médico não lhe receitara qualquer remédio, pelas razões que lhe explicara enquanto William estivera fora do quarto, mas incitou-a a beber sopa quente, chá quente, e a continuar o que estava a fazer. Depois de o homem saír, William interrogou-a sobre se o médico não seria demasiado velho. Talvez já não soubesse o que andava a fazer. Existiam muitos medicamentos que se podiam tomar para não apanhar uma pneumonia, ou uma tuberculose... e a sopa não lhe parecia um tratamento suficiente. Não seria melhor levá-la a Paris?

Quando William voltou a subir ao quarto, Sarah estava deitada na cama, a olhar para a janela com um ar pensativo. Aproximou-se, na sua cadeira de rodas, e tocou-lhe na face. A febre desaparecera, Sarah só tinha aquela tosse assustadora, mas William continuava preocupado.

- Se não melhorares até amanhã, quero que vás comigo a Paris... - declarou tranquilamente. Sarah era muito importante para ele e não queria correr riscos.

- Estou bem - afirmou Sarah, com uma estranha expressão nos olhos. - Estou perfeitamente bem... mas sou muito estúpida.

Precisara de ajuda para perceber o que se passara. Nos últimos meses andara atarefada de mais, a pensar no Natal, na Whitfield’s e nas jóias, e em nada mais. E agora...

- Que queres dizer com isso? - William olhou-a com a testa franzida e Sarah deitou-se de costas, com um sorriso. A seguir sentou-se e inclinou-se para ele, beijando-o suavemente, não obstante a constipação... mas a verdade era que nunca o amara tanto como naquele momento.

- Estou grávida.

O rosto de William não revelou qualquer reacção durante alguns momentos, mas depois fitou-a, espantado.

-Estás o quê?! Agora?

- Exacto! - Lançou-lhe um sorriso radiante e voltou a deitar-se sobre as almofadas. - Creio que já tem dois meses. Andei tão absorvida com os assuntos da loja que não reparei em mais nada.

- Deus do céu! - William recostou-se na sua cadeira, sorrindo, pegou-lhe nos dedos e inclinou-se para a frente para lhos beijar. - És surpreendente!

- Não o fiz sozinha, sabes? Deves ter dado uma pequena ajuda, não sei bem quando.

- Oh, querida... - Chegou-se mais a ela, sabendo muito bem que Sarah sempre desejara outro bebé. Mas já haviam desistido, depois de três tentativas sem resultados.

- Espero que seja uma menina - murmurou. Sabia que também era esse o desejo de Sarah, não para substituir Lizzie, mas como uma espécie de equilíbrio para Phillip. Por seu lado, William nunca vira a primeira filha, não a conhecera antes da sua morte e ansiava por uma menina. Sarah tinha a secreta esperança de que, de algum modo, o nascimento de um bebé pudesse curar os desgostos de Phillip. O rapaz tivera uma verdadeira adoração por Lizzie e revelara-se muito diferente, magoado e distante, quando a haviam perdido.

Wilham saiu da cadeira de rodas e deitou-se ao lado de Sarah.

- Oh, querida, como te amo.

- Também te amo muito - sussurrou Sarah, abraçando-o com força. Ficaram assim durante muito tempo, pensandona boa sorte que tinham e ansiosos pelo futuro.

 

Não estou bem certa - disse Sarah, de cara franzida, examinando as novas peças na companhia de Emanuelle, Haviam sido entregues pela oficina que Chaumet também utilizava e não tinha a certeza de gostar delas. - Que achas?

Emanuelle pegou numa das pesadas pulseiras, cravejadas de diamantes e rubis.

- Acho que são muito elegantes e bem feitas - afirmou. Naqueles dias, também ela tinha um aspecto muito elegante, com os cabelos avermelhados presos num chignon, e um fato preto da Casa Chanel, que lhe dava uma aparência muito digna. Estavam as duas instaladas no gabinete de Sarah.

- E também vão ser muito dispendiosas - comentou Sarah, com toda a honestidade. Não gostava de cobrar demasiado pelas peças, mas o trabalho dos bons artesãos atingia preços inacreditáveis. Recusava-se a meter por atalhos e a utilizar pedras de má qualidade e artesãos pouco competentes. O seu lema era na Whitfield’s só se compra o melhor.

- Não me parece que alguém se vá preocupar com isso retorquiu Emanuelle, sorrindo, enquanto Sarah se arrastava para o outro lado da sala para ir ver uma das pulseiras ao espelho. - As pessoas gostam de pagar o que compram aqui. Apreciam a qualidade e o desenho. Gostam das peças antigas e também das suas, madame. - Emanuelle ainda a tratava assim, mesmo depois de tantos anos. Conheciam-se havia onze anos, desde que a jovem aparecera a ajudar no parto de Phillip.

- Talvez tenhas razão - concluiu Sarah, finalmente. São belas peças. Vou dizer-lhe que ficamos com elas.

- Óptimo. - Emanuelle ficou satisfeita. Tinham passado a manhã a tratar dos mais variados assuntos. Aquela era a última deslocação de Sarah a Paris, antes de ter o bebé. Estava-se em finais de junho e a criança deveria nascer duas semanas mais tarde. Desta vez, William não queria correr qualquer espécie de riscos. Dissera à mulher, meses antes, que desistira da sua carreira de «parteiro», em particular depois de ter sabido das dificuldades que Sarah enfrentara durante o segundo parto, quando ele não se encontrava presente.

- Queria que o bebé nascesse aqui - insistira Sarah, antes da saírem do castelo, mas William não lhe dera ouvidos. Assim, tinham seguido para Paris, para ficarem no apartamento que haviam finalmente comprado na Primavera anterior. Tinha três belos quartos, um salão simpático, um gabinete encantador, um boudoirjunto ao quarto do casal, uma bonita sala de jantar, uma cozinha e dois quartos para os criados. Sarah, sem saber muito bem como, conseguira arranjar tempo para ser ela própria a tratar da decoração, e o apartamento possuía uma bela vista sobre o jardim das Tulherias, e para o Sena.

Para além disso, ficava perto da Whitfield’s, o que agradava a Sarah, e também de alguma das suas lojas favoritas. Desta vez, Phillip estava com eles. Enfurecera-se por não poder ficar no castelo, ou noutro lado qualquer, ou até em Whitfield, e proclamava que estar preso em Paris era um aborrecimento. Sarah contratara um tutor para o acompanhar, um jovem que o levaria ao Louvre, à Torre Eiffel ou ao jardim zoológico quando ela não o pudesse fazer. Tinha de admitir que durante as duas últimas Semanas, desde que tinha o filho em casa, mal se pudera mover. O bebé parecia dominar toda a sua existência.

Phillip também se mostrava aborrecido com isso. Tinham-lhe falado do novo bebé durante as férias da Primavera e o rapaz olhara-os com desalento e horror. Mais tarde, Sarah ouvira-o dizer a Emanuelle que pensava que era repugnante.

Ele e Emanuelle davam-se bem, pelo que uma das coisas de que Phillip gostava era de ir à loja para a ver e para olhar para as jóias, tal como aconteceu na tarde em que Sarah o deixou junto da jovem francesa enquanto ia tratar de alguns assuntos. O rapaz teve de admitir que as jóias eram bonitas. Emanuelle tentou explicar-lhe que o bebé também seria bonito, mas Phillip declarou que os bebés eram estúpidos. Elizabeth não o fora, acrescentou com tristeza, mas isso era diferente.

- Tu não eras estúpido - disse-lhe Emanuelle, com delicadeza, enquanto comiam madeleines e bebericavam chocolate quente no gabinete, depois de Sarah partir para ir resolver algumas questões antes de ir para a clínica. - Eras um belo rapazinho - insistiu, tentando acalmá-lo. O garoto tornara-se duro e irascível. - E a tua irmã também. O rosto de Phillip foi atravessado por uma expressão estranha ao ouvir mencionar a irmã, pelo que Emanuelle resolveu mudar de assunto. - Talvez seja uma rapariga.

            - Detesto raparigas... - afirmou Phillip. Logo a seguir, fez uma correcção. - Excepto tu... - No momento seguinte surpreendeu Emanuelle completamente. - Achas que poderias casar comigo, um dia? Se na altura ainda não fores casada, é claro. - Phillip sabia que ela era muito mais velha. Tinha vinte e oito anos, pelo que, quando chegasse o momento de casar com ela já Emanuelle teria perto dos quarenta, mas considerava-a a mulher mais bonita que jamais vira, ainda mais bonita que a própria mãe. A mãe fora boníta, mas entretanto ficara grande e gorda por causa do estúpido bebé. Emanuelle explicou-lhe quejá era demasiado velho para pensar daquele modo, e que não deveria ter ciúmes do bebé. Deveria estar entusiasmado com a ideia de passar a ser o irmão mais velho. Todavia, Phillip não estava nada entusiasmado, antes pelo contrário, estava zangado.

- Adoraria casar contigo, Phillip. Quer dizer que estamos noivos? - Sorriu para ele e ofereceu-lhe mais um bolo.

- Acho que sim... mas não posso comprar-te um anel. O meu pai não me deixa ter dinheiro.

- Não faz mal. Entretanto, pedirei um emprestado, aqui na loja.

O garoto acenou, olhou para algumas jóias em cima da secretária e a seguir voltou a surpreendê-la com o que disse, se a mãe o ouvisse, ainda teria ficado mais surpreendida.

- Um dia, quando nos casarmos, gostaria de trabalhar aqui contigo, Emanuelle...

- Ah, sim?... - A jovem francesa pareceu divertida e resolveu provocá-lo um pouco.

- Pensei que só querias viver em Inglaterra. - Talvez tivesse concluído que Paris não era um sítio assim tão mau.

- Poderíamos abrir uma loja lá. Era uma boa ideia.

- Teremos de o dizer aos teus pais - respondeu Emanuelle, pousando a chávena de chá, no preciso momento em que Sarah entrava na sala, parecendo imensa mas ainda mais bonita, num vestido que Dior fizera para ela, naquele Verão.

- Têm de nos dizer o quê? - perguntou Sarah, sentando-se.

Na opinião de Emanuelle, que esperava nunca vir a ter um bebé e estava preparada para fazer todo o possível para o evitar, Sarah parecia incrivelmente incomodada. Vira o suficiente dos partos de Sarah para saber que ter um filho não era algo que lhe agradasse. Não percebia como Sarah conseguia aguentar.

- O Phillip quer abrir uma loja em Londres. Uma Whitfield’s - declarou a jovem francesa com orgulho. Pressentiu instantaneamente que o rapaz não queria que ela falasse à mãe a respeito do noivado entre os dois, e não o fez.

- Parece uma boa ideia. - Sarah sorriu para o filho. Tenho a certeza de que o teu pai vai ficar satisfeito. Pela minha parte, não sei se sobreviveria. - O ano que já se passara, desde a inauguração, fora absolutamente esgotante.

- Teremos de esperar até que o Phillip seja suficientemente crescido para a gerir.

- E fá-lo-ei - declarou o rapaz com a expressão teimosa que Sarah conhecia tão bem. Ofereceu-se para o levar num passeio de carro através dos Bosques de Bolonha, mas foi com relutância que Phillip se afastou de Emanuelle, dando-lhe um beijo em cada face e um aperto de mão para a recordar do noivado.

Deram um belo passeio no parque e Phillip mostrou-se mais conversador do que era costume, falando sobre Emanuelle, a loja, Eton e Whitfield. Para além disso, foi paciente para com as passadas lentas e desajeitadas da mãe. Tinha pena dela, uma vez que parecia andar muito incomodada.

William esperava-os quando regressaram ao apartamento, e nessa noite foram todos jantar à Brasserie Lippe. Era um sítio que Phillip adorava. Durante as duas semanas seguintes, Sarah dedicou-se ao rapaz, porque sabia que não disporia de muito tempo depois de o bebé nascer. Planeavam voltar ao castelo logo depois do parto e os médicos haviam-lhe dito que o poderia fazer. Por outro lado, queriam vê-la na clínica uma semana antes da data prevista, mas Sarah recusara-se e dissera a William que, na América, as pessoas não faziam isso. Em França iam para clínicas privadas uma ou duas semanas antes, para serem mimadas e ficarem à espera, e depois continuavam internadas mais uma ou duas semanas. Todavia, não estava disposta a permanecer numa clínica, sem fazer nada, por muito elegante que esta fosse.

Passaram pela loja todos os dias, e Phillip ficou muito excitado quando viu chegar a nova pulseira de esmeraldas e também, numa tarde, quando Emanuelle lhe disse que tinham vendido dois anéis enormes numa só manhã. O mais curioso era o facto de ter vendido um deles a Jean-Charles de Martin, o seu amante. Aparecera para o comprar e provocara-a sem piedade, dizendo que se destinava à mulher. Depois, à medida que Emanuelle ficava cada vez mais zangada, ele acabara por o tirar da caixa e por lho enfiar no dedo. Era onde o anel se encontrava naquele momento, o que fez Sarah levantar uma sobrancelha.

- Isso quer dizer que a coisa se tornou mais séria? perguntou, mas sabia que o homem também comprava muita joalharia para a mulher e para outras amigas, noutras lojas.

- Significa apenas que tenho um belo anel novo - retorquiu Emanuelle, muito realista. Não tinha ilusões. Contudo, possuía alguns clientes muito interessantes. Muitos dos homens que ali iam faziam compras tanto para as mulheres como para as amantes. Tinham vidas complicadas mas já todos sabiam que Emanuelle Bourgois era a discrição em pessoa.

Voltaram para o apartamento ao fim da tarde e nessa noite Phillip foi ao cinema com o seu tutor. Este era um belo rapaz, estudante da Sorbonne, fluente em inglês e francês. Por sorte, Phillip gostava dele.

 

Estavam já no mês de julho, pelo que Paris se encontrava quente e abafada. Viviam no apartamento havia duas semanas e Sarah estava ansiosa por voltar para casa. Aquela época em Paris parecia-lhe um desperdício.

- Não lhe chamaria um «desperdício» - murmurou William com um sorriso, enquanto a observava. Parecia uma baleia que dera à costa, jazendo na cama, envolta num gigantesco roupão cor-de-rosa. - Não tens calor com essa coisa? - perguntou-lhe, sentindo-se incomodado só de olhar para ela. - Porque não o despes?

- Não quero que fiques maldisposto por me veres neste estado.

- Nada, em ti, me deixa maldisposto - retorquiu William, rolando a cadeira lentamente, para junto da cama. Ficara um pouco triste por não poder estar presente quando ela tivesse o bebé. Sentia-se um pouco posto de lado, por causa do elegante médico e da clínica de luxo, mas fora ele quem a quisera lá, por ser muito mais seguro.

Nessa noite, Sarah mergulhou num sono muito profundo, enquanto William dormia mal por causa do calor, mas foi ela quem teve de o acordar às quatro da manhã, quando começou a sentir as dores. William vestiu-se com cuidado, chamou a criada para ajudar Sarah e depois conduziu-a a Neulily, à clínica que haviam escolhido. Quando saíram de casa já Sarah parecia sofrer dores consideráveis e falou muito pouco durante o curto percurso, no Bentley. A seguir levaram-lha e William ficou à espera até ao meio-dia, nervoso, receando que as coisas pudessem estar a correr tão mal como da primeira vez. Tinham-lhe prometido que lhe dariam gás e dado a garantia de que tudo seria fácil e moderno, tão fácil quantoera possível para uma mulher a dar à luz um bebé de quatro quilos e meio. Finalmente, à uma e meia, o médico foi ter com ele, muito elegante e bem arranjado, exibindo Um grande sorriso.

- Já tem um belo filho, monsieur.

- E a minha mulher? - inquiriu William, preocupado.

- Trabalhou muito... - respondeu o médico, momentaneamente sério. - Mas correu tudo bem. Acabámos de lhe dar um medicamento para dormir. Poderá vê-la dentro de momentos.

Quando isso aconteceu, Sarah estava envolta em lençóis brancos, muito pálida e confusa, parecendo não saber onde se encontrava nem por que motivo ali estava. Repetia constantemente que tinham que ir à loja, naquela tarde, e que não podia esquecer-se de escrever a Phillip, para Eton.

- Eu sei, minha querida... Está tudo bem. - William ficou sentado junto dela, tranquilamente, durante horas. Por volta das quatro e meia, Sarah mexeu-se, olhando-o e observou o quarto à sua volta, confusa. William aproximou-se, beijou-a nas faces e falou-lhe do bebé. Ainda não o vira mas todas as enfermeiras diziam que era encantador. Pesava um pouco mais de quatro quilos e meio, era quase tão grande como Phillip fora, e William podia ver, pelo aspecto da mulher, que o parto não havia sido fácil.

- Onde está ele? - perguntou Sarah, olhando em volta. - Junto dos outros bebés, mas vão trazê-lo em breve. Quiseram que dormisses um bocado. - William voltou a beijá-la. - Foi muito mau?

- Foi estranho... - Olhou-o com uma expressão sonhadora, segurando-lhe na mão e tentando concentrar-se. Estavam sempre a dar-me gás, que me deixava enjoada... Contudo, sentia-me apenas meia entorpecida. Parecia-me que tudo se passava muito longe... Continuava a sentir as dores mas não era capaz de lhes dizer...

- Talvez seja por isso que gostam tanto de o usar. - De qualquer modo, tanto a mãe como o bebé estavam de boa saúde e não acontecera nada de terrível.

 

- Gostei mais quando foste tu a fazê-lo... - disse Sarah com alguma tristeza. Aquele parto fora demasiado estranho, demasiado anti-séptico, e nem sequer lhe tinham mostrado o bebé.

- Obrigado... mas receio não ser um grande médico. Instantes depois surgiu uma enfermeira com o bebé, e as dores foram imediatamente esquecidas. Era bonito, roliço, com cabelos escuros e grandes olhos azuis. Parecia-se muito com William. Sarah chorou quando lhe pegou. Era tão perfeito, tão maravilhoso. Preferira uma menina mas não se importava de ter mais um rapaz. Tudo o que interessava era o facto de o ter ali, de perfeita saúde. Tinham decidido chamar-lhe Julian, nome do primo de William. Sarah insistira em que o nome do meio fosse William. O pai dissera que era uma tolice, mas acabara por concordar, com relutância.

Sarah chorou novamente quando lho tiraram. Não compreendia porque precisavam de o fazer. Tinha uma enfermeira própria e um quarto particular, que incluía uma sala e uma casa de banho, mas disseram-lhe que não era higiénico deixar o bebé ali durante muito tempo. Deveria estar junto dos outros, num ambiente mais esterelizado. Sarah assoou-se, olhou para William, e as emoções do dia abateram-se sobre ela. De súbito, William sentia-se culpado por a ter obrigado a ir para a clínica, mas prometeu levá-la para casa o mais depressa possível.

No dia seguinte William levou Phillip consigo, para ver a mãe, e apareceu acompanhado por Emanuelle, que declarou que Julian era lindo logo que o viu através do vidro. Não permitiam que os bebés se juntassem às visitas e Sarah odiou a clínica mais do que nunca. Phillip espreitou o irmão através do vidro, visivelmente pouco impressionado, deixando Sarah desapontada. O filho parecia irritado com o bebé e não foi muito simpático para com a mãe.

- Não é bonito? - perguntou-lhe Sarah, esperançosa. - Não está mal... mas é muito pequeno - declarou Phillip, desdenhoso. O pai riu-se, sem alegria, pois sabia o que Sarah tivera de passar.

- Não para nós, filho. Um bebé com mais de quatro quilos e meio é um monstro! - Mas o bebé nada tinha de Monstruoso e quando lho levaram, para que o alimentasse, Sarah pôde verificar que Julian tinha uma disposição muito tranquila. Depois de amamentado, aninhava-se junto dela... Mas, como se adivinhassem, aparecia imediatamente uma enfermeira para lho levar.

No oitavo dia, quando William apareceu com um novo ramo de flores, já Sarah o aguardava, na sala, com os olhos a brilharem de fúria.

- Se não me levares daqui na hora mais próxima, vou buscar o Julian e saio da clínica vestida com o roupão! Sinto-Me perfeitamente bem e não estou doente. Nem sequer deixam aproximar-me do meu bebé!

- Está bem, querida - concordou William, que já esperava uma reacção daquelas. - Sais amanhã, prometo.

No dia seguinte, levou-os aos dois para o apartamento.

Dois dias mais tarde regressaram todos ao castelo. Sarah levou o bebé nos braços e Julian dormiu tranquilamente no calor da mãe.

Quando chegou o dia de aniversário de Sarah, em Agosto, já esta voltara a ser o que era. Estava magra, forte, de boa saúde e encantada com o seu bebé. A loja fechara para férias, Emanuelle encontrava-se num iate, no Sul de França, e Sarah nem sequer tinha de pensar nos negócios. Em Setembro, quando Phillip regressou à escola, foram passar uns dias a Paris e Sarah levou o bebé. Ia para todo o lado com ele. Por vezes, Julian dormia tranquilamente no seu gabinete, numa pequena alcofa.

- É um rapazinho tão sossegado! - diziam todos os que o viam. O bebé estava sempre a sorrir, a rir-se e a emitir ruídos, e na véspera de Natal já conseguia sentar-se e toda a gente o adorava. Toda a gente, excepto Phillip. Parecia ficar zangado cada vez que o via e tinha sempre algo de mau para dizer a respeito do irmão. Sarah, que tivera esperanças de que Phillip acabasse por gostar de Julian, ficava muito magoada. O afecto fraterno que esperava ver nunca se manifestou e Phillip mantinha-se distante e desagradável.

- Ora, são apenas ciúmes - dizia William, que, ao contrário de Sarah, aceitava as coisas tal como elas eram. É normal.

- Mas não é justo. O Julian é um bebé e não merece ser tratado assim. Toda a gente gosta dele, excepto o Phillip.

- Se, durante toda a sua vida, só tiver uma pessoa que não goste dele... então  vai ser um homem cheio de sorte declarou William, mais realista.

- Mas não se essa pessoa for um irmão.

- Por vezes, a vida é assim. Nunca ninguém disse que os irmãos tinham de ser amigos. Lembra-te de Caim e de Abel.

- Não consigo compreender. O Phillip era louco pela Lizzie - murmurou Sarah com um suspiro. - A Jane e eu adorávamo-nos uma à outra quando éramos crianças. Continuavam a gostar uma da outra, apesar de nunca se verem. Jane voltara a casar depois da guerra, mudara-se primeiro para Chicago e depois para Los Angeles, e nunca mais visitara a Europa. Sarah não voltara aos Estados Unidos, e muito menos à Califórnia. Era-lhe difícil acreditar que Jane estava novamente casada, com alguém que ela nem sequer conhecia. Era uma daquelas coisas estranhas. Haviam sido muito íntimas mas tinham-se afastado. Ainda amava a irmã e escreviam-se frequentemente, com Sarah sempre a incitar Jane a vir à Europa.

Todavia, independentemente do que os pais pudessem pensar, Phillip nunca mostrava qualquer interesse pelo irmão. Quando Sarah tentava falar no assunto, Phillip escapava-se às perguntas. Se Sarah insistia, o rapaz acabava por explodir, dizendo: «Não preciso de outro bebé na minha vida. já tive um. » Era como se não fosse capaz de tentar outra vez, como se não conseguisse aceitar os riscos, o carinho e a perda. Amara Lizzie, talvez demasiado, e perdera-a. Daí que houvesse decidido nunca vir a gostar de Julian. Era um facto triste para as duas crianças.

Pouco depois do nascimento, Sarah e Wilham tinham levado Julian a conhecer a sua única avó, em Whitfield. Agora, era Natal e estavam todos juntos. A duquesa viúva andava encantada com o neto, dizendo que nunca na vida vira um bebé tão feliz. Julian parecia irradiar alegria, e todos os que o rodeavam acabavam por sorrir ou até rir.

Naquele ano, com toda a família junta em Whitfield, o Natal foi particularmente agradável. A duquesa viúva tinha agora noventa e seis anos e andava numa cadeira de rodas, mas a vivacidade do seu espírito continuava a ser notável. Era uma pessoa formidável, a mulher mais bondosa que Sarah jamais conhecera, e ainda idolatrava William. Este oferecera-lhe uma bela pulseira de diamantes e a mãe murmurava que era demasiado velha para coisas tão bonitas, mas era óbVio que adorara o presente, pois nunca o tirou do braço enquanto lá estiveram. Quando partiram, depois do Ano Novo, a duquesa viúva abraçou William com força, dizendo-lhe que fora sempre um bom filho e que a fizera muito feliz.

 

- Porque achas que ela me disse aquilo? - perguntou William, com lágrimas nos olhos, depois de saírem. - Foi sempre incrivelmente boa para mim - acrescentou, virando a cara, embaraçado por Sarah estar a vê-lo chorar. A mãe comovera-o profundamente. Também beijara as faces rechonchudas de Julian, bem como as de Sarah, e agradecera-lhes os belos presentes vindos de Paris. Duas semanas depois, morreu tranquilamente durante o sono, indo ao encontro do marido e do seu criador, depois de toda uma vida de felicidade em Whitfield.

William ficou muito abalado com a perda, mas até ele teve de admitir que a mãe tivera uma vida muito longa e boa. Teria feito noventa e sete anos naquele ano e gozara sempre de boa saúde. Todos eles sentiram, quando se reuniram no cemitério em Whitfield, que tinham muito que lhe agradecer. O rei Jorge e a raínha Isabel também estiveram presentes, bem como os restantes familiares e amigos que lhe haviam sobrevivido, para além dos muitos que não passavam de meros conhecidos.

Aparentemente, Philip era quem mais sentia a sua ausência.

-  Isto quer dizer que já não posso vir para aqui? - perguntou, com as lágrimas nos olhos.

- Não poderás, pelo menos durante algum tempo... respondeu William, com tristeza.

- Mas a propriedade estará sempre aqui, para ti. Um dia, será tua. Tentaremos vir aqui passar algum tempo, todos os Verões. No entanto não poderás passar aqui as tuas férias e fins-de-semana, tal como estavas habituado quando a avó era viva. Não seria correcto ficares apenas com os criados. Podes ir a La Marolle, ou a Paris, ou podes ficar com alguns primos.

- Não quero nada disso - retorquiu o rapaz, petulante. - Quero ficar em Whitfield. - William não via como. Com o tempo, Phillip poderia ir para ali, quando jà estivesse a estudar em Cambridge. No entanto, ainda faltavam sete anos e teria de se contentar com algumas visitas ocasionais, no Verão.

Porém, na Primavera seguinte, tornou-se óbvio para William que não podia afastar-se tanto de Whitfield como esperara. De súbito, o facto de não haver nenhum membro da família presente significava que não havia ninguém para tomar conta das coisas ou para tomar decisões imediatas. Ficou espantado ao compreender todo «o trabalho de que a mãe se encarregara, e tornou-se-lhe difícil gerir a propriedade sem ela.

- Odeio ter de o fazer... - admitiu para Sarah, uma noite, enquanto lia páginas de queixas dos homens que estavam encarregues da propriedade. - Mas penso que preciso de lá passar mais tempo. Importas-te muito?

- Porquê? - Sarah sorriu. - Posso levar o Julian comigo, para qualquer lado. - Tinha oito meses e ainda era relativamente fácil de transportar. - A Emanuelle tem a loja perfeitamente controlada. - Admitira mais duas empregadas, pelo que agora eram quatro, e o negócio corria bem. Não me importo de passar algum tempo em Londres. Sempre gostara da cidade e Phillip podia juntar-se a eles em Whitfield, durante os fins-de-semana, o que de certeza lhe agradaria.

Passaram todo o mês de Abril em Whitfield, com a excepção de uma rápida viagem a Cap d’Antibes, na Páscoa. Encontraram os Windsor num jantar, e Wallis fez questão de mencionar que acabara de comprar algumas bonitas peças na loja de Sarah, em Paris. Estava muito impressionada com as jóias que vira, mas muito em particular com os novos desenhos. Parecia que todos em Londres falavam dos Whitfield. - Porque não abres uma aqui? - perguntou William a Sarah, uma noite, quando saíram de uma festa onde três mulheres quase os tinham devorado com perguntas.

 

- Em Londres? Tão depressa? - Tinham a loja de Paris havia apenas dois anos e Sarah preocupava-se com a possibilidade de se dispersar demasiado. Por outro lado, não queria ser obrigada a passar muito tempo em Londres. Uma coisa era estar ali, na companhia do marido, mas ter de andar de um lado para o outro através do canal da Mancha seria outra muito diferente. Também queria passar o máximo de tempo com o bebé, antes que crescesse e saísse da sua vida, tal como acontecera com Phillip. Aqueles momentos eram fugidios e Sarah sabia-o.

- Teremos de encontrar uma pessoa suficientemente competente para a gerir. Na verdade... - William parecia Pensativo, como se estivesse a invocar uma memória distante. - Na Garrard’s tinham um empregado maravilhoso. Era muito discreto, sabia do assunto. É um pouco jovem, mas algo conservador. É disso que os Ingleses gostam: boas maneiras e velhas tradições.

- E o que te leva a pensar que estaria disposto a deixá-los? A Garrard’s é a joalharia mais prestigiada de Inglaterra. É capaz de ficar chocado com uma coisa tão nova como a Whitfield’s.

- Sempre tive a sensação de que não lhe davam a importância que ele merecia, talvez por ser demasiado discreto, mas é muito bom. Passarei por lá na semana que vem. Se quiseres, podemos convidá-lo para almoçar.

Sarah sorriu, incapaz de acreditar no que se preparavam para fazer.

- Estás sempre a tentar meter-me em trabalhos, não é verdade? - Contudo, Sarah gostava. Gostava do modo como o marido encorajava e ajudava a fazer as coisas que ela na realidade desejava. Sabia que nunca as concretizaria sem a sua ajuda.

Dias depois, fiel à sua palavra, William passou pela Garrard’s e comprou um magnífico anel de diamantes, muito belo e antigo. Enquanto o fazia, avistou o homem, Nigel Holbrook, e convenceu-o a almoçar com ele na terça seguinte, no Savoy Grill.

Logo que entrou no restaurante, Sarah não teve qualquer dificuldade para identificar o homem a partir da descrição que William lhe fizera. Era alto e magro, muito pálido, tinha cabelos de um louro-acinzentado e um pequeno bigode bem aparado. Usava um fato às riscas, de bom corte, e parecia um banqueiro ou advogado. Tinha algo de muito elegante, distinto e discreto, e mostrou-se extremamente reservado quando William e Sarah lhe disseram o que preparavam. Afirmou que estava na Garrard’s havia dezassete anos, desde os vinte e dois, e que lhe seria difícil. pensar em abandoná-la, mas que admitia que a perspectiva de uma aventura, como a que estavam a propor-lhe, não deixava de ter o seu interesse.

- Em particular - declarou, calmamente - dada a reputação da vossa loja em Paris. já vi alguns dos seus trabalhos, Vossa Graça - acrescentou, dirigindo-se a Sarah -e são muito bons. Na verdade, fiquei surpreendido. Se não tivermos cuidado, os Franceses podem ser... - hesitou, mas prosseguiu - um pouco desleixados...

Sarah riu-se ante aquele ponto de vista chauvinista, mas percebia o que o homem queria dizer. Se não se mantivesse atenta às oficinas dejoalharia, estas mostravam tendência para meter por atalhos, coisa que Sarah não lhes permitia. Ficou satisfeita com o que o homem dissera e com a óbvia reputação que estavam a conseguir.

- Gostaríamos de permanecer no mercado durante muito tempo. Queremos fazer as coisas bem feitas, Mister Holbrook.

O homem era o segundo filho de um general britânico e crescera na índia e na China. Nascera em Singapura e foi na índia que se deixara atrair pelas jóias, quando era ainda um rapaz. Einjovem, trabalhara durante algum tempo na África do Sul, nos diamantes. Conhecia bem o negócio. Sarah acabou por concordar inteiramente com William. Tratava-se exactamente da pessoa de que precisavam em Londres. A atmosfera ali era completamente diferente, e ela pressentia instintivamente que precisavam de avançar com mais subtileza e menos panache, e com o tipo de dignidade que Nigel Holbrook tinha para oferecer. Pediram-lhe para lhes telefonar quando houvesse tomado uma decisão. Uma semana mais tarde, o homem ainda não telefonara e Sarah estava desanimada.

- Dá-lhe tempo. Pode não telefonar durante um mês... mas podes estar certa de que anda a pensar no assunto. Tinham-lhe feito uma proposta muito interessante. Era difícil acreditar, independentemente da lealdade que tivesse para com a Garrard’s, que não se sentisse tentado. Se assim não acontecesse, William estava preparado para ficar verdadeiramente impressionado com a fidelidade do homem aos seus actuais patrões, uma vez que sabia que era impossível que estivesse a tirar um salário semelhante ao que lhe havia sido oferecido.

Aconteceu que o homem lhes telefonou, para Whitfield, na noite antes de partirem. Sarah aguardou, impaciente, enquanto o marido atendia a chamada. William acabou por desligar, com um sorriso.

- Aceitou a proposta - anunciou. - Quer dar um pré-aviso de dois meses à Garrard’s, o que é muito decente da sua parte... e é todo teu. Quando queres abrir a loja?

- Deus do céu! - exclamou Sarah. - Ainda nem sequer pensei nisso... Não sei... No fim do ano? No Natal? Achas, na verdade, que devemos avançar com a ideia?

- Claro que deves! - William insistia sempre em dar-lhe todos os créditos. - De qualquer modo, terei de voltar aqui, dentro de algumas semanas. Podemos aproveitar para escolher o local e falar com um arquitecto. Conheço um muito bom.

- Então, tenho de começar a comprar peças novas. Sarah utilizava o dinheiro que ganhava na loja de Paris para comprar e mandar fabricar jóias novas, mas agora precisava de algum capital e planeava utilizar o dinheiro que recebera da venda da casa dos pais em Long Island. Se as coisas, em Londres, corressem tão bem como em Paris, sabia que iria ganhar dinheiro rapidamente.

Nesse momento, William lembrou-se de uma coisa em que ela ainda não pensara.

- Parece que o Phillip sempre conseguiu a sua loja murmurou, com um pequeno sorriso, enquanto planeavam o regresso a Londres.

É verdade! Achas que acabará por tomar conta dela? É muito possível.

Não o imagino a meter-se neste negócio connosco. É tão independente... - E tão frio, e distante, e indiferente para com Julian...

- Um dia, poderá vir a surpreender-te. Nunca se sabe o que as crianças podem fazer quando crescem. Quem iria pensar que eu havia de transformar-me num joalheiro? Riu-se e beijou-a, e no dia seguinte partiram para Paris.

Ao longo das semanas seguintes, Nigel voou várias vezes para França, para se reunir com eles, conversar com Emanuelle e verificar o modo como a operação funcionava em Paris. O negócio corria tão bem que já falavam em abrir uma nova loja, mas Sarah não queria forçar a sorte, em particular agora, com a abertura da loja de Londres.

Nigel ficou bem impressionado com o que viu. Acabou por se tornar muito amigo de Emanuelle, que pressentiu, logo de início, que as mulheres não eram a sua paixão. De facto, Emanuelle pensava, e com razão, que Nigel tinha outros interesses, mas admirava-lhe o gosto impecável, o excelente sentido para os negócios e a boa educação. Ela própria passara os últimos anos a tentar conseguir um pouco mais de polimento, pelo que apreciava a sua elegância calma e as incríveis boas maneiras. jantavam juntos sempre que Nigel ia à cidade, e a francesa apresentou-o a alguns dos seus amigos, incluindo um designer famoso, que acabou por se tornar muito importante na vida de Nigel. Todavia, durante a maior parte do tempo, viravam toda a sua atenção para o negócio.

Haviam conseguido encontrar uma pequena e bonita loja em New Bond Street e o arquitecto de William surgira com algumas boas ideias. Iriam decorar tudo com veludos em azul-marinho e com mármores brancos.

A loja era para abrir no primeiro dia de Dezembro e tiveram de trabalhar como loucos para o conseguir. Emanuelle mudou-se para Inglaterra, para ajudar, deixando a melhor das empregadas de Paris a tomar conta da loja. De qualquer modo, ajoalharia do Faubourg st. Honoré já funcionava sozinha. Agora, o novo bebé era a lo a de Londres.

Durante a semana anterior à abertura trabalharam todos os dias até à meia-noite, com uma equipa de operários incansáveis, aplicando mármores, in