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Planeta Criança



Poesia & Contos Infantis

 

 

 


JOSÉ BALSAMO Vol. V / Alexandre Dumas
JOSÉ BALSAMO Vol. V / Alexandre Dumas

 

 

Biblioteca Virtual do Poeta Sem Limites

 

 

JOSÉ BALSAMO

Volume V

 

O COFRE

        Quando se viu só, o senhor de Sartines levantou o cofre, virou-o e revirou-o como homem que sabe apreciar o valor de uma descoberta.

        Depois estendeu a mão e apanhou o molho de chaves que caíra das mãos de Lorenza.

        Experimentou-as todas, nenhuma servia.

        Tirou da gaveta três ou quatro outros molhos semelhantes.

        Continham chaves de todas as dimensões: chaves de móveis, de cofres, de caixas; desde a chave usual até à chave microscópica, pode-se dizer que o senhor de Sartines possuía uma amostra de todas as chaves conhecidas.

        Experimentou vinte, cinqüenta, cem, nenhuma delas pôde sequer dar uma volta.

        Concluiu o magistrado que a fechadura era uma aparência de fechadura, e, que, por conseqüência, as suas chaves eram simulacros de chaves.

        Então tirou da mesma gaveta uma tesourinha, um martelo, e com a sua mão branca, cercada por um farto punho de rendas de Malinas, fez saltar fora a fechadura, guarda fiel do cofre.

        Achou logo um maço de papéis, em lugar de máquinas fulminantes que receava, ou dos venenos, cujo aroma deveria exalar-se mortalmente e privar a França do seu magistrado mais essencial.

        As primeiras palavras que saltaram aos olhos do chefe de polícia foram as seguintes, escritas por mão que visivelmente quisera disfarçar a letra:

        “Mestre, é tempo de deixar o nome de Bálsamo.”

        Não havia assinatura, mas unicamente estas três letras: L. P. D.

        - Ah! Ah! - disse ele passando os dedos pelos anéis da cabeleira - se não conheço a letra, parece-me que me não é desconhecido o nome. Bálsamo, vejamos, procuremos na letra B.

        Abriu então uma das suas vinte e quatro gavetas e tirou um pequeno registro, no qual, por ordem alfabética, estavam escritos em letra miúda e cheia de abreviaturas, trezentos ou quatrocentos nomes precedidos, seguidos e acompanhados de referências, que se lhes ligavam por vistosas chaves.

        - Oh! Oh! - murmurou ele - temos muita coisa a respeito do tal Bálsamo.

        E leu a página toda com sinais não equívocos de desagrado.

        Depois, tornou a meter na gaveta o seu registro para continuar no inventário do cofre.

        Não profundou muito sem ficar seriamente impressionado. Depois achou uma nota cheia de nomes e de algarismos.

        A nota pareceu-lhe importante: estava muito apagada nas margens, muito carregada de sinais feitos a lápis.

        Tocou a campainha, e apareceu imediatamente um criado.

        - O ajudante da chancelaria - disse ele - que venha cá imediatamente. Que atravesse a secretaria para chegar mais depressa.

        O criado saiu.

        Dois minutos depois, um escrevente, com a pena na mão, o chapéu debaixo de um braço, e um grande registro debaixo do outro, com as mangas de sarja preta enfiadas por cima das do fato, apresentou-se no limiar do gabinete. O senhor de Sartines viu-o no espelho do seu armário e estendeu para ele o papel por cima do ombro.

        - Decifre-me isso - disse ele.

        - Sim, meu senhor - respondeu o empregado.

        Este adivinhador de charadas era um homenzinho delgado, de lábios cerrados, sobrancelhas carregadas, pelo hábito de investigar a imaginação, pálido, de cabeça bicuda, barba delgada, testa fugitiva, ossos das faces salientes, e olhos encovados e amortecidos, mas que por vezes se animavam.

        O senhor de Sartines chamava-lhe o Fuinha.

        - Sente-se - disse-lhe o magistrado ao vê-lo embaraçado com o canhenho, os cifrantes, a nota e a pena.

        O Fuinha sentou-se modestamente num banco, uniu as pernas, e começou a escrever sobre os joelhos, folheando o dicionário e interrogando a memória com uma fisionomia impassível.

        Ao cabo de cinco minutos, tinha escrito o que se segue:

        §

        “Ordem para reunir em Paris três mil irmãos.

        §

        Ordem de organizar três círculos e seis lojas.

        §

        Ordem de organizar uma guarda para o Grão-Copta, e de lhe fornecer quatro domicílios, um dos quais deverá ser numa casa real.

        §

        Ordem para pôr à sua disposição quinhentos mil francos para uma polícia.

        §

        Ordem para alistar no círculo principal toda a flor da literatura e da filosofia.

        §

        Ordem de seduzir ou comprar a magistratura, e de se apoderar particularmente do chefe da polícia, por corrupção, violência ou astúcia.”

        O Fuinha parou um momento; não que o pobre homem quisesse meditar sobre isto, não se atrevia a fazê-lo, seria um crime; senão porque a página estava cheia e a tinta fresca, e precisava esperar que secasse para continuar.

        O senhor de Sartines, impaciente, arrancou-lhe a folha das mãos e leu.

        No último parágrafo, desenhou-se-lhe no rosto uma tal expressão de terror, que empalideceu ao ver-se nos espelhos do armário.

        Não restituiu a folha ao empregado, mas deu-lhe outra limpa.

        O homem então começou novamente a escrever à proporção que ia decifrando, o que aliás executava com uma facilidade aterradora para os senhores fazedores de cifras.

        Desta vez, o senhor de Sartines leu por cima do ombro do empregado o seguinte:

        §

        “Deixar em Paris o nome de Bálsamo, que começa a ser muito conhecido, para tomar o de conde de Fé...”

        O resto da palavra não se podia ler por causa de um borrão de tinta que lhe caíra em cima.

        No momento em que o senhor de Sartines estava procurando que sílabas seriam as que ali faltavam para completar a palavra, ouviu-se um toque de campainha, e logo depois entrou um criado anunciando:

        - O Sr. Conde de Fénix!

        O senhor de Sartines soltou um grito, e, em riscos de demolir o edifício harmonioso da sua cabeleira, juntou as mãos acima da cabeça e apressou-se em despedir o escrevente, que saiu por uma porta oculta.

        Depois, sentando-se no seu lugar diante da secretária, disse ao lacaio:

        - Mande entrar.

        Alguns instantes depois, viu o senhor de Sartines no seu espelho o perfil grave do conde, que já vira no dia da apresentação da senhora du Barry.

        Bálsamo entrou sem hesitar.

        O senhor de Sartines ergueu-se, dirigiu um frio cumprimento ao conde, e cruzando uma perna sobre a outra, apoiou-se cerimoniosamente na cadeira.

        À primeira vista percebera o magistrado a causa e o fim daquela visita.

        Bálsamo também vira logo o cofre aberto e os papéis espalhados sobre a mesa do senhor de Sartines.

        O seu olhar, por mais rápido que o dirigisse para o cofre, não escapou ao chefe da polícia.

        - A que acaso devo a honra da sua visita, senhor conde? - perguntou o senhor de Sartines.

        - Senhor - respondeu Bálsamo com um sorriso ameníssimo - tive a honra de ser apresentado a todos os soberanos da Europa, a todos os ministros, a todos os embaixadores, mas ainda não achei quem me apresentasse ao senhor de Sartines; venho portanto apresentar-me eu mesmo.

        - Realmente, senhor - respondeu o chefe da polícia - chega em óptima ocasião, porque estou persuadido que se não tivesse vindo, eu teria tido a honra de o mandar chamar aqui.

        - Ah! - disse Bálsamo - que feliz acaso.

        O senhor de Sartines inclinou-se com um sorriso irónico.

        - Seria eu bastante feliz, senhor - prosseguiu Bálsamo - para lhe poder ser útil!

        Estas palavras foram pronunciadas sem que uma sombra de comoção ou de desassossego lhe anuviasse a risonha fisionomia.

        - Tem viajado muito, senhor conde? - perguntou o chefe de polícia.

        - Muito, senhor.

        - Ah!

        - Deseja talvez alguns esclarecimentos geográficos? Um homem da sua capacidade não se ocupa exclusivamente da França, abraça a Europa, o mundo...

        - Geográficos, não, senhor conde, é uma informação moral que eu precisava.

        - Não faça cerimónia, senhor, quer para uma, quer para outra coisa estou às suas ordens.

        - Pois bem, senhor conde, procuro um homem muito perigoso, pela minha vida, um homem que é ao mesmo tempo ateu...

        - Oh!

        - Conspirador.

        - Oh!

        - Falsário.

        - Oh!

        - Adúltero, fabricante de moeda falsa, empírico, charlatão, chefe de seita; um homem cuja história tenho aí escrita nas folhas dos meus registros, nos papéis da caixa que aí vê, por toda a parte...

        - Ah! Sim, compreendo - disse Bálsamo; - tem a história, mas não tem o homem.

        - Não.

        - Diacho! Falta-lhe o mais importante.

        - Certamente; mas vai ver como estou perto de o apanhar. Proteu não tem mais formas, nem Júpiter mais nomes do que o tal viajante misterioso: Acharat no Egipto, Bálsamo na Itália, Somini na Sardenha, marquês de Anna em Malta, marquês Pellegrini na Córsega, enfim conde de...

        - Conde de?... - acrescentou Bálsamo.

        - Este último nome é que não pude ler bem, senhor, mas há-de ajudar-me, não é verdade? Tenho a certeza disso, porque há-de por força ter conhecido o homem, há-de tê-lo encontrado nas suas viagens, nas terras que há pouco citei.

        - Dê-me mais alguns esclarecimentos - disse Bálsamo.

        - Ah! Compreendo; deseja que lhe dê os sinais do indivíduo, não é verdade, senhor conde?

        - Tal qual, se é do seu agrado.

        - Pois bem - disse o senhor de Sartines cravando em Bálsamo um olhar que tentava mostrar inquisidor - é um homem da sua idade, da sua estatura e configuração; umas vezes grande fidalgo e semeando e espalhando o ouro, outras charlatão, procurando os segredos naturais, ou sombrio filiado de alguma confraria misteriosa, que jura nas trevas a morte dos reis e o derrubamento dos tronos.

        - Oh! - disse Bálsamo - isso é muito vago.

        - Como vago?

        - Se soubesse quantos homens tenho visto que se parecem com o retrato que acaba de fazer!

        - Realmente?

        - Sem dúvida, e faria bem precisando um pouco os factos, se quer que o auxilie. Em primeiro lugar: sabe qual é o país que ele habita de preferência?

        - Habita todos.

        - Mas neste momento, por exemplo?

        - Neste momento está em França.

        - E o que faz ele em França?

        - Dirige uma imensa conspiração.

        - Ah! Agora com esse esclarecimento, percebe-se; e se sabe qual é a conspiração que ele dirige, nesse caso, facilmente terá a possibilidade de descobrir o seu homem, pondo em acção os seus agentes.

        - Assim o creio também.

        - Pois então, se o crê assim, por que me pede que lhe dê conselho? É inútil.

        - Ah! É porque estou ainda em dúvida.

        - Sobre quê?

        - Sobre isto mesmo.

        - Queira falar.

        - Deverei mandá-lo prender, sim ou não?

        - Sim ou não?

        - Sim ou não.

        - Não compreendo a palavra não, senhor chefe de polícia; porque enfim, se ele conspira...

        - Sim; mas se tiver algum nome ou título que o garanta?

        - Ah! Sim, compreendo. Mas que nome? Que título? Seria preciso dizer-me quais são para eu o poder auxiliar nas suas investigações.

        - Ah! Senhor, eu já lho disse, sei o nome com que ele se esconde, mas...

        - Mas não sabe aquele com que ele se mostra, não é assim?

        - Exactamente, senão...

        - Senão mandá-lo-ia prender?

        - Imediatamente.

        - Pois bem, meu caro senhor de Sartines, é uma fortuna, como ainda há pouco me dizia, que eu tenha chegado neste momento, porque vou prestar-lhe o serviço que me pede.

        - O senhor?

        - Eu.

        - Vai dizer-me o nome?

        - Vou.

        - O nome com que ele se apresenta?

        - Sim.

        - Então sabe-o?

        - Perfeitamente.

        - E que nome é esse? -perguntou o senhor de Sartines, esperando ouvir alguma patranha.

        - O conde de Fénix.

        - Como! O mesmo nome com que se fez anunciar?...

        - Exactamente o mesmo nome com que me fiz anunciar.

        - O seu nome?

        - O meu nome.

        - Então o tal Acharat, o tal Somini, o tal marquês de Anna, o tal marquês Pellegrini, o tal José Bálsamo, é o senhor?

        - Sim, senhor - disse Bálsamo simplesmente - sou eu mesmo.

        O senhor de Sartines levou um minuto em voltar a si do deslumbramento que lhe causou tão descarada franqueza. Depois disse:

        - Eu tinha adivinhado, como vê, senhor... Conhecia-o, sabia que José Bálsamo e o conde de Fénix eram a mesma personagem.

        - Ah! Confesso que o senhor é um grande ministro - disse Bálsamo.

        - E o senhor um grande imprudente - retorquiu o magistrado dirigindo-se para a campainha.

        - Imprudente, por quê?

        - Porque vou mandá-lo prender.

        - Ora adeus - disse Bálsamo dando um passo para interpor-se entre a campainha e o magistrado; - quem é capaz de prender-me?

        - Ora essa! O que fará para mo impedir?

        - Pergunta-mo?

        - Pergunto, sim.

        - Meu caro senhor chefe de polícia, vou fazer-lhe saltar os miolos.

        E Bálsamo tirou do bolso uma linda pistola com fechos de prata dourada, que se diriam cinzelados por Benvenuto Cellini, e apontou-a tranquilamente à cara do senhor de Sartines, que empalideceu e se deixou cair numa cadeira.

        - Bem - disse Bálsamo puxando outra cadeira para junto do chefe da polícia e sentando-se; - agora estamos sentados e podemos conversar um pouco.

 

PALESTRA

        O senhor de Sartines levou algum tempo em tornar a si de tão grande susto. Vira, como se tivesse querido mirar-lhe o interior, a goela ameaçadora da pistola; chegara a sentir na testa o frio do anel de ferro.

        Por fim sossegou, e disse:

        - Tenho sobre o senhor uma vantagem; sabendo a que qualidade de homem falava, não tinha tomado as precauções que geralmente se tomam contra os malfeitores ordinários.

        - Ora, meu caro senhor - redargüiu Bálsamo - aí está a irritar-se e a proferir palavrões; pois é bem injusto. Aqui onde me vê venho prestar-lhe um serviço.

        O senhor de Sartines fez um movimento.

        - Um serviço, sim, senhor - repetiu Bálsamo - e aí está enganando-se nas minhas intenções. Fala de conspiradores, mesmo no momento em que eu vinha denunciar-lhe uma conspiração.

        Mas por mais que Bálsamo dissesse, naquele momento o senhor de Sartines não prestava grande atenção às palavras do seu perigoso visitante, tanto assim que a palavra conspiração, que em tempos ordinários o teria feito saltar na cadeira, mal conseguiu fazer-lhe apurar os ouvidos.

        - O senhor compreende, pois que sabe tão bem como eu quem sou, compreende, repito, qual é a minha missão em França? Sou enviado por Sua Majestade o grande Frederico, isto é, embaixador mais ou menos particular de Sua Majestade prussiana; ora, quem diz embaixador diz curioso, e na minha qualidade de curioso, não ignoro coisa nenhuma das que se passam, e uma das que melhor conheço, é o monopólio dos cereais.

        Simples como eram, as últimas palavras que Bálsamo pronunciou tiveram mais poder no chefe da polícia do que todas as outras, porque atraíram-lhe a atenção.

        Ergueu vagarosamente a cabeça.

        - O que é o monopólio dos cereais? - disse ele, afectando tanta segurança como o próprio Bálsamo desenvolvera no começo da conversa; - digne-se dar-me também alguns esclarecimentos, senhor.

        - De boa vontade - disse Bálsamo. - Eu lhe digo o que é.

        - Estou ouvindo.

        - Oh! Não precisava dizê-lo... Alguns especuladores hábeis persuadiram a Sua Majestade el-rei de França que devia mandar construir celeiros para o caso de que viessem a escassear os cereais do seu povo. Construíram-se pois esses celeiros, e como se encontravam com as mãos na obra, pensaram que era melhor fazê-los grandes do que pequenos; nada se poupou, nem pedra, nem cal, e fizeram-nos bem grandes.

        - E depois?

        - Depois foi preciso enchê-los; celeiros vazios eram inúteis, e portanto, encheram-nos.

        - E daí? - disse o senhor de Sartines, não percebendo bem claramente ainda o que Bálsamo queria dizer.

        - E daí, bem deve saber que para encher celeiros muito grandes foi preciso meter-lhes dentro grande quantidade de cereais. Isto parece-me natural.

        - Certamente.

        - Então continuo. Retirar muitos cereais da circulação é um meio certo de matar de fome o povo; porque, note isto bem, todo o género retirado da circulação equivale a uma falta de produção. Mil sacos de trigo no celeiro são mil sacos de menos na praça. Multiplique isto por dez, e o preço sobe imediatamente.

        O senhor de Sartines teve um ataque de tosse de irritação.

        Bálsamo calou-se, e esperou sossegadamente que passasse o ataque de tosse.

        - Portanto - continuou ele quando o chefe da polícia lhe deu ocasião para isso - aí temos o nosso especulador do celeiro enriquecendo com o aumento do valor; ora diga, não acha isto claro?

        - Perfeitamente claro - disse o senhor de Sartines; - mas, pelo que vejo, o senhor tem a pretensão de me imputar uma conspiração ou um crime de que Sua Majestade é autor?...

        - Justamente - redargüiu Bálsamo; - vejo que compreende.

        - É uma grande ousadia, senhor, e tenho realmente curiosidade de saber de que modo receberá el-rei a sua acusação; receio muito que o resultado seja exactamente o mesmo que eu me propunha quando estava examinando os papéis deste cofre, antes da sua chegada; cuidado, senhor, que sempre vai parar à Bastilha.

        - Ah! Agora vejo que já me não compreende.

        - Por quê?

        - Jesus! Como o senhor me julga mal e que injustiça me faz em supor que sou um estúpido. Pois imagina que havia de ir atacar el-rei, eu, um embaixador, um curioso?... Mas isso que está dizendo só seria perdoável a um tolo. Peço-lhe que me ouça até ao fim.

        O senhor de Sartines fez um sinal de assentimento com a cabeça.

        - Os que descobriram a conspiração contra o povo francês... (perdoe-me o tempo precioso que lhe roubo, senhor, mas em breve verá que não é tempo perdido), os que descobriram a conspiração contra o povo francês são uns economistas, que, laboriosíssimos e muito minuciosos, aplicando a este negócio o seu microscópio investigador, notaram que el-rei não jogava só. Sabem muito bem que Sua Majestade tem um preço corrente exacto dos cereais dos diversos mercados; sabem muito bem que Sua Majestade esfrega as mãos de contentamento quando o aumento do preço lhe dá um lucro de oito ou dez mil escudos; mas também sabem que ao lado de Sua Majestade está um homem, cuja posição facilita as transacções, um homem que, do modo mais natural, graças a certas funções, - é um funcionário, compreende? - vigia as compras, as chegadas, os encaixotamentos, homem, enfim, que figura por El-rei; ora esses economistas, como eu lhes chamo, não atacam o rei, porque não são imbecis; atacam o homem, meu caro senhor, atacam o funcionário, o agente, o testa de ferro de Sua Majestade.

        O senhor de Sartines tentou baldadamente restituir o equilíbrio à cabeleira.

        - Ora - prosseguiu Bálsamo - chego ao ponto principal. Assim como o senhor sabia, o senhor que tem uma polícia às suas ordens, que eu era o conde de Fénix, eu sei que o senhor se chama Sartines.

        - Bem, e depois? - disse o magistrado deveras perturbado - É verdade, sou Sartines. Olhe que na realidade adivinhou grande coisa!

        - Ah! Mas compreenda bem o que lhe digo, o senhor de Sartines de quem falo é exactamente o homem dos preços correntes dos cereais, dos negócios, que arrecada lucros, aquele que, com conhecimento ou não de el-rei, trafica com os estômagos de vinte e sete milhões de franceses, a quem tem obrigação, pelo seu emprego, de sustentar nas melhores condições possíveis. Ora, imagine o efeito de semelhante descoberta! O senhor não é muito querido do povo; el-rei não passa por sensível; assim que o brado dos esfaimados pedir a cabeça do senhor conde, Sua Majestade, para afastar de si toda a suspeita de conivência com o senhor, se com efeito el-rei é conivente, ou para fazer justiça, se não existe cumplicidade, Sua Majestade há-de dar-se pressa em fazê-lo pendurar numa forca semelhante à de Enguerrand de Marigny; está lembrado?

        - Pouco me lembra - disse o senhor de Sartines muito pálido - e parece-me que dá prova de muito mau gosto, falando de forca a um homem da minha condição.

        - Oh! Se eu lhe falo nisso, meu caro senhor, é que ainda me parece estar vendo Enguerrand. Era um perfeito cavaleiro da Normandia, de uma família muito antiga e de uma casa nobilíssima. Era camarista de França, capitão do Louvre, intendente da fazenda e das obras públicas; era conde de Longueville, que é um condado mais considerável que o de Alby, que é o seu.  Pois bem, senhor, vi-o pendurado na forca de Montfaucon, que ele tinha mandado construir, e graças a Deus, não foi por falta de lhe ter repetido: “Enguerrand, meu caro Enguerrand, tome cuidado, entra pelos dinheiros públicos com tal desembaraço, que Carlos de Valois não lho perdoará.” Ele não me quis dar ouvidos, e morreu desgraçadamente! Ah! Se soubesse quantos prefeitos de polícia tenho visto, desde Pôncio Pilatos, que condenou Jesus Cristo, até Bertin de Belle-Isle, conde de Bourdeilles, senhor de Brantôme, seu antecessor, que instituiu os candeeiros, e proibiu os ramalhetes!

        O senhor de Sartines levantou-se, tentando em vão disfarçar a agitação que dele se tinha apoderado.

        - Pois bem -disse ele - acuse-me, se quiser; que me importa o testemunho de um homem como o senhor?

        - Cuidado, senhor! - disse Bálsamo - olhe que muitas vezes os que parecem não ter valor são os que valem tudo, e quando eu escrever com todas as suas circunstâncias a história do monopólio dos cereais, ao meu correspondente ou ao rei Frederico, que é filósofo, como sabe; quando o monarca prussiano se der pressa em escrever o caso, comentado por ele, ao Sr. Arouet de Voltaire, que conhece de nomeada; quando este tiver escrito, pelo menos, um conto jocoso no género do Homem dos Quarenta Escudos; quando o senhor de Alembert, admirável geómetra, tiver calculado que com os grãos de trigo pelo senhor roubados à subsistência pública se poderiam ter sustentado cem milhões de homens durante três ou quatro anos; quando Helvetius tiver estabelecido que posto o valor desse trigo em escudos de seis francos uns sobre os outros, poderiam chegar até à Lua, ou que em notas de banco postas umas ao lado das outras, poderiam estender-se até S. Petersburgo; quando tal cálculo tiver inspirado um mau drama ao senhor de La Harpe, uma palestra do Pai de Famílias a Diderot e uma terrível paráfrase dessa palestra, seguida de comentários, a João Jacques Rousseau, de Genebra, que também não morde mal quando quer, uma memória ao Sr. Caron de Beaumarchais, a quem Deus o livre de ofender, uma cartinha ao Sr. Grimm, um dito picante ao Sr. Holbac, um belo conto moral ao senhor de Marmontel, que o assassinará defendendo-o mal; quando se falar disso no café da Regência, no Palais-Royal, em casa de Audinot, e em casa dos dançarinos do rei, dirigidos como se sabe pelo Sr. Nicolet; ai! Sr. Conde de Alby, será um chefe de polícia muito mais doente do que o pobre Enguerrand de Marigny, de quem não quer ouvir falar, que ainda na forca protestava a sua inocência e fazia-o com tão boa fé, que, palavra de honra, eu acreditei-o quando ele mo afirmou.

        A estas palavras o senhor de Sartines, sem olhar mais ao decoro, tirou a cabeleira e limpou a calva, inundada de suor.

        - Pois bem - disse ele - seja assim: com isso nada evitará. Deite-me muito embora a perder, se puder. Tem as suas provas, eu tenho as minhas. Guarde o seu segredo, que eu guardo também o cofre.

        - Aí está, meu caro senhor - disse Bálsamo - outro erro grave em que estou admirado de ver cair um homem da sua força; esse cofre...

        - E então, este cofre?

        - Não há-de guardá-lo.

        - Oh! - exclamou o senhor de Sartines com um sorriso irónico - é verdade; não me lembrava que o Sr. Conde de Fénix é um fidalgo de estrada, que ataca à mão armada. Já me não lembrava da pistola, porque a meteu na algibeira. Perdoe-me o senhor embaixador.

        - Qual história! Não se trata aqui de pistola, senhor de Sartines; decerto não pode pensar que eu vá agora arrancar-lhe esse cofre das mãos à viva força, lutando com o senhor, para, chegado à escada, ouvir o som da sua campainha e a sua voz para que me prendam como ladrão. Não! Quando digo que não há-de guardar o cofre, quero dizer que vai restituir-mo de boa vontade e com o melhor modo possível.

        - Eu! - bradou o magistrado, pondo a mão sobre o objecto em litígio com tanta força que por pouco o não quebrou.

        - O senhor mesmo.

        - Pois vá zombando, que eu lhe juro que só levará este cofre à custa da minha vida. Que digo eu, à custa da minha vida? Não a tenho eu exposto mil vezes? Não a devo ao serviço de Sua Majestade? Mate-me, pode fazê-lo; mas a bulha há-de atrair quem me vingue, e hei-de ter ainda voz bastante para denunciar todos os seus crimes. Ah! Restituir-lhe este cofre - acrescentou com um riso amargo - nem que o Inferno o reclamasse eu o restituiria!

        - Pois asseguro-lhe que não hei-de empregar para isso a intervenção das potências subterrâneas; bastar-me-á a intervenção da pessoa que neste momento bate à porta da sua casa.

        E de facto acabavam de soar três fortes argoladas.

        - E cuja carruagem - prosseguiu Bálsamo - escute, entra neste momento no pátio do seu palácio.

        - É uma pessoa da sua amizade, segundo parece, que faz a honra de me visitar?

        - É como diz, uma pessoa da minha amizade.

        - E hei-de restituir-lhe este cofre?

        - Sim, meu caro senhor de Sartines, há-de restituir-lho.

        Ainda o chefe da polícia não tinha acabado um gesto de soberano desprezo, quando um lacaio diligente abriu a porta e anunciou que a Srª. Condessa du Barry pedia uma audiência.

        O senhor de Sartines estremeceu e olhou admirado para Bálsamo, que abusava de todo o poder que tinha sobre si para não soltar uma gargalhada na cara do respeitável magistrado.

        Naquele momento, atrás do criado entrou rapidamente, e toda perfumada, uma mulher, que entendeu não precisar de licença para penetrar ali; era a formosa condessa, cujas saias ondeantes roçaram com grato rumor pela porta do gabinete.

        - A senhora condessa! - murmurou o chefe da polícia, que, por um resto de terror, segurara entre as mãos e apertara contra o peito o cofre ainda aberto.

        - Bons dias, Sartines - disse a condessa com o seu alegre sorriso.

        Depois, voltando-se para Bálsamo:

        - Bons dias, caro conde - acrescentou ela.

        E estendeu a mão para este último, que se inclinou familiarmente sobre aquela mão branca e pousou os lábios onde tantas vezes haviam pousado os lábios reais.

        Neste movimento teve Bálsamo ocasião de dizer à condessa três ou quatro palavras, que o senhor de Sartines não pôde ouvir.

        - Ah! Justamente - bradou a condessa - aí está o meu cofre.

        - O seu cofre! - balbuciou o senhor de Sartines.

        - Sem dúvida, o meu cofre. Ah! Abriu-o! Está bom, não fez cerimónia!

        - Mas, minha senhora...

        - Oh! Isto é belo, eu tinha já tido essa idéia... Esse cofre foi-me roubado e eu então disse comigo: “É preciso ir ter com Sartines, que há-de achar-mo.” Não esperou pela minha reclamação, achou-o primeiramente; mais agradecida lhe fico.

        - E como vê - disse Bálsamo - o senhor de Sartines até o abriu.

        - E é verdade!... Quem tal diria? É uma acção muito feia, Sartines.

        - Minha senhora, salvo o respeito que lhe tenho – disse o chefe da polícia - receio muito que se deixe enganar.

        - Enganar, senhor! - disse Bálsamo; - será porventura a mim que dirige essa palavra?

        - Eu sei o que digo - redargüiu o senhor de Sartines.

        - E eu nada sei - disse em voz baixa a senhora du Barry a Bálsamo; - vamos a saber, o que é, caro conde? Reclamou de mim a promessa que lhe fiz de lhe conceder a primeira coisa que me pedisse. Cumpro a minha palavra como um homem; aqui me tem. Vamos, o que devo fazer por seu respeito?

        - Minha senhora - respondeu Bálsamo em voz alta - há poucos dias confiou-me aquele cofre com tudo quanto tem dentro.

        - Não há dúvida - redargüiu a senhora du Barry, respondendo com o seu olhar ao do conde.

        - Não há dúvida! - bradou o senhor de Sartines – não há dúvida, diz a senhora condessa?

        - Parece-me que a senhora condessa pronunciou essas palavras em voz bastante alta para que as ouvisse.

        - Um cofre que contém talvez dez conspirações!

        - Ah! Senhor de Sartines, bem sabe que é infeliz com essa palavra; aconselho-o a que não a repita. A senhora condessa pede-lhe o seu cofre, restitua-lho, nada mais.

        - Pediu-me este cofre, minha senhora? - disse o senhor de Sartines tremendo de raiva.

        - Pedi, sim, caro magistrado.

        - Mas, pelo menos, saiba...

        Bálsamo olhou para a condessa.

        - Nada tenho que saber que não saiba já - disse a senhora du Barry; - restitua-me a minha caixa; não foi para me divertir que me incomodei, percebe?

        - Em nome do Deus vivo, em nome do interesse de Sua Majestade, minha senhora!

        Bálsamo fez um gesto de impaciência.

        - Esse cofre, senhor - disse secamente a condessa - esse cofre, sim ou não! Pense antes de dizer não.

        - Como lhe aprouver, minha senhora - disse o senhor de Sartines humildemente.

        E estendeu à condessa o cofre, no qual Bálsamo tinha já metido todos os papéis espalhados pela secretária.

        A senhora du Barry voltou-se para este e com um sorriso encantador.

        - Conde - disse ela - tem a bondade de me trazer este cofre à carruagem e de me oferecer a mão para eu não atravessar sozinha todas essas casas cheias de gente mal encarada? Obrigada, senhor de Sartines.

        E Bálsamo dirigiu-se para a porta com a sua protectora, quando viu o senhor de Sartines correr à campainha.

        - Senhora condessa - disse Bálsamo suspendendo o seu inimigo com o olhar - tem a bondade de dizer ao senhor de Sartines, que me quer mal por eu lhe ter reclamado o seu cofre; tem a bondade de lhe dizer quanto a penalizaria que me acontecesse qualquer desgraça por intervenção do chefe de polícia, e quanto isso lhe desagradaria?

        A condessa sorriu para Bálsamo.

        - Ouviu o que disse o senhor conde, meu caro Sartines? Pois bem, é a verdade pura; o senhor conde é um dos meus melhores amigos, e levar-lhe-ia mortalmente a mal que lhe causasse o mais pequeno incómodo, fosse no que fosse. Adeus, Sartines.

        E desta vez, com a mão na de Bálsamo, que levava o cofre, a senhora du Barry saiu do gabinete do chefe da polícia.

        O senhor de Sartines viu afastar ambos sem mostrar a cólera que Bálsamo esperava ver.

        - Vai! - murmurou o magistrado vencido; - vai, levas o cofre, mas eu tenho a mulher!

        E para se desforrar, tocou de modo a quebrar todas as campainhas.

 

O SENHOR DE SARTINES COMEÇA A CRER QUE BÁLSAMO É FEITICEIRO

        Ao toque precipitado da campainha do senhor de Sartines, acudiu um criado.

        - Então? - perguntou o magistrado - a mulher?

        - Que mulher, senhor?

        - A que perdeu aqui os sentidos e que mandei conduzir para o quarto fronteiro?

        - Está já boa, senhor - redargüiu o criado.

        - Bem; que venha aqui.

        - Onde a deverei ir buscar, senhor?

        - Onde? Ao quarto para onde a levaram.

        - Mas já lá não está, senhor.

        - Já lá não está?! Então onde está?

        - Não sei.

        - Saiu?

        - Saiu, sim, senhor.

        - Só?

        - Sim, senhor.

        - Mas ela nem podia ter-se em pé!

        - Isso é verdade, senhor, ela esteve alguns instantes sem sentidos, mas cinco minutos depois que o Sr. Conde de Fénix foi introduzido no gabinete, acordou daquele singular desmaio a que nem essências, nem sais tinham conseguido dar remédio. Então abriu os olhos, levantou-se no meio de nós todos, e respirou com modo de satisfação.

        - E depois?

        - Depois, dirigiu-se para a porta, e como V. Exª. não tinha ordenado que a detivessem, deixamo-la sair.

        - Sair! - exclamou o senhor de Sartines; - ah! Desgraçados! Hei-de fazê-los apodrecer todos em Bicêtre! Depressa! Digam ao meu primeiro agente que venha falar-me.

        O criado saiu apressadamente para obedecer à ordem que acabavam de lhe dar.

        - O miserável é feiticeiro - murmurou o desditoso magistrado. - Eu sou chefe da polícia de el-rei; ele é chefe da polícia do diabo!

        O leitor compreendeu já certamente o que o Sr. Conde de Sartines não podia perceber. Logo em seguida à cena da pistola, e enquanto o chefe da polícia procurava tornar a si, Bálsamo, aproveitando-se desse momento, tinha-se orientado e voltando-se sucessivamente para os quatro pontos cardeais, bem certo de encontrar Lorenza nalgum deles, tinha-lhe ordenado que se levantasse, que saísse, e que voltasse para casa por o caminho por onde viera.

        Logo depois de formulada essa vontade no espírito de Bálsamo, tinha-se estabelecido uma corrente magnética entre ele e a romana, que obedecendo à ordem que recebia por intuição, levantara-se e saíra sem achar quem se opusesse à sua partida.

        Naquela mesma noite o senhor de Sartines meteu-se na cama e mandou que o sangrassem; o choque fora muito forte para que o pudesse suportar impunemente, e se deixasse passar mais um quarto de hora sem a sangria, sucumbiria, segundo a opinião do médico, a um ataque de apoplexia.

        Durante aquele tempo, acompanhara Bálsamo a condessa à carruagem, e apressava-se em despedir-se dela; mas não era a du Barry mulher que assim o deixasse, sem saber, ou pelo menos sem procurar saber, a causa do estranho acontecimento que acabava de se passar na sua presença.

        Rogou portanto ao conde que entrasse para a carruagem; o conde obedeceu, e um criado levou Djérid à mão.

        - Vê, conde, se sou leal - disse ela - e se quando chamo amigo a alguém digo essa palavra com os lábios ou com o coração? Eu ia voltar para Luciennes, onde el-rei me tinha dito que viria ver-me amanhã pela manhã; mas veio a sua carta, e deixei tudo para lhe obedecer. Muitos ter-se-iam aterrado com os palavrões de conspirações e conspiradores que o senhor de Sartines lhe lançou em rosto; mas olhei para o senhor antes de proceder e fiz o que ordenou.

        - Minha senhora - respondeu Bálsamo - pagou largamente o pequeno serviço que pude prestar-lhe; mas comigo nunca se perde. Eu sei agradecer o que me fazem, verá. Não julgue entretanto que sou algum criminoso, algum conspirador, como diz o senhor de Sartines. O bom magistrado recebeu das mãos de alguém, que me atraiçoou, este cofre cheio com os meus segredinhos químicos e herméticos, segredos, senhora condessa, de que lhe quero fazer participar, para que conserve essa imortal, essa esplêndida formosura, essa deslumbrante mocidade. Ora, vendo a cifra das minhas fórmulas, o caro senhor de Sartines chamou o seu ajudante da chancelaria, que, para não dar o braço a torcer, interpretou a cifra a seu modo. Creio ter-lho já dito uma vez, minha senhora, este ofício não está ainda livre de todos os perigos que o cercavam na Idade Média: só os espíritos inteligentes e novos como o seu lhe são favoráveis. Enfim, minha senhora, tirou-me de um embaraço, confesso-o, e hei-de provar-lhe a minha gratidão.

        - Mas o que lhe teria ele feito, se eu lhe não tivesse acudido?

        - Para pregar uma peça ao rei Frederico, que Sua Majestade odeia, mandava-me fechar em Vincennes ou na Bastilha. Bem sei que havia de sair de lá, graças ao meu processo para derreter a pedra com o bafo, mas teria perdido nisso o meu cofre, que contém, como tive a honra de lhe dizer, muitas fórmulas curiosas e impagáveis, arrancadas por um feliz acaso da ciência às trevas eternas.

        - Ai, conde, sossega-me e encanta-me ao mesmo tempo. Promete-me portanto uma receita para me tornar mais nova?

        - Prometo.

        - E quando ma dá?

        - Oh! Não há pressa, há-de pedir-ma daqui a vinte anos, formosa condessa. Agora não creio que deseje tornar-se criança.

        - Na verdade, é um homem encantador; mas ainda lhe quero fazer uma pergunta e depois deixo-o, porque me parece estar com pressa.

        - Fale, condessa.

        - Disse-me que alguém o tinha atraiçoado; é homem ou mulher?

        - É mulher.

        - Ah! Ah! Conde; amor!

        - Ah! Sim, amor e ciúme, que chegam ao desespero, e que produzem o lindo efeito que viu. Aí está uma mulher, que, não se atrevendo a dar-me uma punhalada, porque sabe que me não pode matar, quis fazer-me enterrar numa prisão e arruinar-me.

        - Arruiná-lo, como?

        - Assim o julgava ela, pelo menos.

        - Conde, eu mando parar - disse a condessa rindo. - É o azougue que lhe gira nas veias, que lhe dá essa imortalidade que faz com que o denunciem em vez de o matar? Quer apear-se aqui ou deseja que a minha carruagem o leve a casa?

        - Não, minha senhora, seria demasiada bondade da sua parte torcer o caminho por minha causa. Tenho aí o meu cavalo Djérid.

        - Ah! Aquele maravilhoso animal que, segundo dizem, corre mais do que o vento?

        - Vejo que lhe agrada, minha senhora.

        - Na realidade é um cavalo magnífico.

        - Permite que lho ofereça, com a condição que só a senhora condessa o montará?

        - Oh! Não, muito agradecida; não monto a cavalo, ou pelo menos monto com grande timidez. Agradeço tanto a sua oferta como se a aceitasse. Adeus, caro conde, não esqueça daqui a dez anos o meu filtro regenerador.

        - Eu disse vinte anos.

        - Conde, conhece o ditado: “Mais vale um pássaro...” E mesmo, se mo pudesse dar dentro de cinco anos... Ninguém sabe o que poderá suceder.

        - Quando lhe aprouver, condessa. Não sabe que estou sempre às suas ordens?

        - Uma última palavra, conde.

        - Diga, minha senhora.

        - Só por ter grande confiança no senhor é que lha dirijo.

        Bálsamo, que já se tinha apeado, venceu a impaciência e aproximou-se novamente da condessa.

        - Dizem por toda a parte - continuou a senhora du Barry - que el-rei gosta da menina de Taverney.

        - Ah! Minha senhora - disse Bálsamo - é possível?

        - E que gosta muito, segundo afirmam. Se isso é verdade, é preciso que mo diga. Conde, não me oculte nada; trate-me como amigo, peço-lho e diga-me a verdade.

        - Minha senhora - redargüiu Bálsamo - farei mais; afianço-lhe que nunca Andréia há-de ser amante de el-rei.

        - E por quê? - bradou a senhora du Barry.

        - Porque não o quero eu - disse Bálsamo.

        - Oh! - disse a senhora du Barry incrédula.

        - Duvida?

        - Não é permitido?

        - Nunca duvide da ciência, minha senhora. Acreditou quando eu disse: sim, creia-me também quando digo: não.

        - Mas enfim tem meios?...

        Deteve-se sorrindo.

        - Acabe.

        - Meios capazes de aniquilar a vontade de el-rei ou de combater as suas fantasias?

        Bálsamo também sorriu.

        - Sei criar simpatias - disse ele.

        - Sim, isso sei eu.

        - E crê?

        - Creio.

        - Pois bem, do mesmo modo criarei repugnâncias, e sendo preciso impossibilidades.  Assim, sossegue, condessa, eu velo.

        Bálsamo soltava todas essas pequenas frases com tal distracção, que a senhora du Barry não as teria tomado como tomou por adivinhação, se soubesse a sede febril que Bálsamo tinha de ver quanto antes Lorenza.

        - Vamos - disse ela - decididamente o conde é não só o meu profeta de felicidade, senão também o meu anjo da guarda. Conde, dê atenção, eu o defenderei, defenda-me a mim. Aliança! Aliança!

        - Conte comigo, minha senhora - redargüiu Bálsamo.

        E beijou mais uma vez a mão da condessa.

        Depois, fechando a portinhola da carruagem, que a condessa fizera parar nos Campos Elísios, montou o seu cavalo, que relinchou de prazer, e em breve desapareceu na escuridão da noite.

        - Para Luciennes! - bradou a Srª. Condessa du Barry mais sossegada.

        Desta vez, Bálsamo soltou um leve assobio, apertou ligeiramente os joelhos e deu a mão a Djérid, que o levou a galope.

        Cinco minutos depois, estava no vestíbulo da Rua de Saint-Claude, olhando para Fritz.

        - Então? - perguntou ele com ansiedade.

        - Sim, mestre - respondeu o criado, que tinha o costume de ler-lhe nos olhos.

        - Voltou?

        - Está lá em cima.

        - Em qual das casas?

        - Na câmara das peles.

        - Em que estado?

        - Oh! Muito cansada; corria tão rapidamente que eu, que de longe a vi chegar, porque esperava por ela, nem tive tempo de lhe correr ao encontro.

        - Realmente?

        - Oh! Até me assustou; entrou aqui como um furacão, subiu a escada sem tomar fôlego, e de repente, entrando na câmara, caiu sobre a pele grande de leão preto; lá a encontrará.

        Bálsamo subiu precipitadamente e achou com efeito Lorenza que lutava sem forças contra as primeiras convulsões de uma crise nervosa. Havia tempo demasiado que o fluido pesava sobre ela e a impelia para actos violentos. Padecia, gemia; dir-se-ia que sobre o peito lhe pesava uma montanha, que ela tentava afastar com as mãos.

        Bálsamo contemplou-a um instante com olhar enraivecido, e levantando-a nos braços, levou-a para o quarto, cuja porta misteriosa se fechou após ele.

 

O ELIXIR DA VIDA

        É conhecida a disposição em que Bálsamo acabava de entrar no quarto de Lorenza.

        Dispunha-se a acordá-la e a fazer-lhe as admoestações que meditava na sua cólera silenciosa; queria castigá-la severamente, seguindo os ditames da mesma cólera, quando soaram três pancadas no tecto, avisando-o de que Althotas espreitara o seu regresso e queria falar-lhe.

        Bálsamo porém demorou-se ainda; esperava que se tivesse enganado, ou que o sinal fosse unicamente casual, quando o impaciente ancião reiterou a chamada; de modo que Bálsamo, receando sem dúvida vê-lo descer, como já por vezes acontecera, ou que Lorenza, acordada por uma influência contrária à sua, tomasse conhecimento de alguma nova particularidade, não menos perigosa para ele do que os seus segredos políticos; de modo que Bálsamo, dizemos depois de ter, se assim é permitido exprimir-nos, carregado Lorenza com uma nova porção de fluido, saiu para ir ter com Althotas.

        Era tempo, o alçapão descia. Althotas abandonara a sua cadeira de rodas, e mostrava-se agachado sobre a parte móvel do sobrado, que descia e subia.

        Viu sair Bálsamo do quarto de Lorenza.

        Daquele modo agachado, o ancião era ao mesmo tempo terrível e hediondo.

        No rosto, ou antes nalguns pontos dele em que parecia haver vida, ardia o fogo da cólera; as mãos afiladas e nodosas como as de um esqueleto, tremiam-lhe; os olhos encovados pareciam vacilar-lhe nas órbitas profundas, e numa linguagem, que nem o discípulo conhecia, proferia as invectivas mais violentas contra ele.

        Ergueu-se da poltrona para fazer saltar a mola; parecia que só vivia e se movia com o auxílio dos braços, compridos, delgados e redondos como os de uma aranha; e saindo, como dissemos, do quarto apenas acessível a Bálsamo, tratava de se transportar para o quarto inferior.

        Para que o fraco velho, de si tão preguiçoso, tivesse deixado a sua poltrona, máquina inteligente que lhe poupava todas as fadigas; para que se tivesse dado ao incómodo de operar semelhante mudança nos seus costumes, era preciso que uma grande excitação o tivesse obrigado a sair da vida contemplativa para entrar na vida real.

        Bálsamo, surpreendido por assim dizer em flagrante delito, mostrou-se a princípio admirado, depois inquieto.

        Bálsamo, segundo costumava quando falava com o velho, chamou em auxílio toda a sua paciência.

        - Ah! - gritou Althotas - eis aí, preguiçoso, eis aí, poltrão, que abandonas teu mestre!

        - Mas - redargüiu brandamente - parece-me, meu amigo, que me chamou neste mesmo instante.

        - Teu amigo! - bradou Althotas - teu amigo, vil criatura humana? Parece-me que me falas na linguagem dos teus semelhantes. Amigo para ti, pudera não. Mais que amigo, pai, que te nutriu, que te criou, que te instruiu, que te enriqueceu. Mas tu não és meu amigo, não, porque me abandonaste, porque me matas, porque me assassinas!

        - Vamos, mestre; exalta assim a bílis, corrompe o sangue, pode adoecer.

        - Doente! Eu! Irrisão! Estive eu nunca doente, a não ser quando me fizeste participar, contra minha vontade, de algumas das misérias da vil condição humana? Doente! Já te não lembras que sou eu quem cura os outros?

        - Enfim, mestre - redargüiu Bálsamo friamente - aqui estou; não desperdicemos tempo.

        - Sim, fazes bem em mo lembrar: o tempo que me obrigas a economizar, a mim, para quem não deveria ter fim nem limite essa fazenda, medida e contada para cada criatura humana; sim, o meu tempo passa-se; sim, o meu tempo, como o tempo de todos, cai minuto por minuto na eternidade, quando o meu tempo devia ser a própria eternidade!

        - Vamos, mestre - disse Bálsamo com inalterável paciência, fazendo descer de todo o alçapão, colocando-se nele ao lado do ancião e carregando na mola que o fazia subir; - vamos a saber, o que é preciso, diga? Diz que o mato. À fome? Não está agora na sua quarentena de dieta absoluta?

        - Estou, sim, há trinta e dois dias que comecei a obra de regeneração.

        - Então, diga-me, de que se queixa? Vejo aí duas ou três garrafas de água da chuva, única de que bebe.

        - É certo, mas imaginas que eu seja algum bicho-da-seda, para operar por mim só esta grande transformação? Imaginas que, não tendo já forças, poderei compor sozinho o meu elixir da vida? Imaginas tu que, deitado de lado, amolecido pelas bebidas refrigerantes, meu único sustento, terei o espírito muito tranqüilo, se me não auxiliares, para fazer, abandonado aos meus únicos recursos, o trabalho minucioso da minha regeneração, no qual – tu bem o sabes, desgraçado - devo ser ajudado e socorrido por um amigo?

        - Pois aqui me tem, mestre, aqui estou; mas vamos, responda - redargüiu Bálsamo assentando quase à força o velho na poltrona, como o teria feito a uma criança disforme - vamos, responda: não lhe tem faltado água destilada, porque, como há pouco lhe dizia, vejo aí três garrafas cheias; essa água foi apanhada no mês de Maio, bem o sabe; estão também aí os seus biscoitos de aveia, e eu mesmo lhe forneci as gotas brancas que pediu.

        - Sim, mas o elixir! O elixir não está composto. Não te podes lembrar disso, que não estavas então presente: era teu pai, teu pai, mais fiel que tu; na minha última cinquentena, compus o elixir com um mês de antecipação. Tinha-me retirado para o monte Ararat. Um judeu forneceu-me pelo que pesava em prata uma criança cristã, que mamava ainda; sangrei-a segundo o rito, recolhi as últimas três gotas de sangue arterial, e uma hora depois o meu elixir, a que só faltava aquele ingrediente, ficou pronto; por isso a minha regeneração de cinquentena passou-se maravilhosamente; os cabelos e os dentes caíram-me durante as convulsões que sucederam à absorção do feliz elixir, outros, porém, vieram, os dentes maus, é verdade, porque desprezei a precaução de introduzir o elixir na garganta por meio de um pequeno tubo de ouro, mas os cabelos e as unhas nasceram-me de novo nessa segunda mocidade, e achei-me a viver novamente como se tivesse quinze anos. Mas tornei a envelhecer, e chego quase ao último termo; se o elixir não estiver pronto, se o não meter nesta garrafa, se não prestar toda a minha atenção a esta obra, morrerá comigo a ciência de um século, e o segredo admirável, sublime, que conheço, será perdido para o homem, que em mim e por mim toca a divindade. Oh! Se eu faltar, se me enganar, a culpa será tua, Acharat, e toma sentido, que a minha cólera há-de ser terrível!

        E pronunciando estas últimas palavras, que lhe fizeram sair como que lívida faísca dos olhos moribundos, o sábio caiu numa pequena convulsão, a que sucedeu um violento ataque de tosse seca.

        Bálsamo prestou-lhe imediatamente todos os socorros possíveis.

        O ancião tornou a si, já não estava pálido, estava lívido. O fraco acesso de tosse esgotara-lhe as forças a ponto tal que parecia estar para morrer.

        - Vamos, mestre - disse-lhe então Bálsamo - peça o que quiser.

        - O que quiser... - disse ele olhando fixamente para Bálsamo.

        - Sim, o que quiser...

        - O que eu quero, é isto...

        - Diga e eu obedecerei, se a coisa que desejar for possível.

        - Possível... Possível... - murmurou desdenhosamente o ancião. - Tudo é possível, bem o sabes.

        - Sim, decerto, com o tempo e a ciência.

        - A ciência, tenho-a; o tempo, estou a ponto de o vencer; a minha dose teve bom êxito; as minhas forças desapareceram quase inteiramente; as gotas brancas provocaram a expulsão de uma parte dos restos da natureza envelhecida. A juventude, semelhante à seiva das árvores de Maio, cresce debaixo da casca antiga e nutre por assim dizer a nova madeira. Nota, Acharat, que os sintomas são excelentes; a minha voz está enfraquecida, a minha vista descaiu três quartos; sinto por intervalos a cabeça perdida; a transição do calor ao frio tornou-se-me insensível; é portanto de urgência para mim acabar o meu elixir, a fim de que no próprio dia da minha segunda cinquentena, passe de cem anos para vinte sem hesitação; os meus ingredientes para esse elixir estão preparados, o canal está feito, já me não faltam senão as últimas três gotas de sangue, de que te falei.

        Bálsamo fez um movimento de repugnância.

        - Está bom - disse Althotas - renunciemos à criança, visto que tão difícil é, e que tu achas preferível fechar-te no quarto com a tua amante a procurar-me alguma.

        - Sabe muito bem, mestre, que Lorenza não é minha amante - respondeu Bálsamo.

        - Oh! Oh! Oh! - disse Althotas - julgas fazer-me crer a mim o que fazes crer à outra gente? Pretendes que eu creia nessa criatura imaculada, e és homem!

        - Juro-lhe, mestre, que Lorenza é casta como a santa mãe de Deus, juro-lhe que amor, desejos, voluptuosidade terrestres, tudo sacrifiquei à minha obra, porque eu também tenho a minha obra regeneradora, com a diferença que em vez de aplicá-la a mim mesmo, há-de ser aplicada ao mundo inteiro.

        - Louco, pobre louco! - bradou Althotas. - Parece-me que me vais falar outra vez dos teus cataclismos de insectos, das tuas revoluções de formigas, quando te falo da vida eterna, da eterna juventude.

        - Que só pode alcançar-se por meio de um crime horrível, e ainda assim...

        - Duvidas? Parece-me que duvidas, desgraçado?

        - Não, mestre; mas enfim, se renuncia à criança, fale, vamos, o que precisa?

        - É-me preciso a primeira criatura virgem que me cair debaixo das mãos: homem ou mulher, pouco importa, entretanto seria melhor que fosse mulher. Descobri isto por causa da afinidade dos sexos; arranja-se pois o que te peço, e avia-te, porque já não tenho senão oito dias.

        - Bem, mestre; - disse Bálsamo - eu verei, eu procurarei.

        Novo raio, mais terrível que o primeiro, cintilou nos olhos do ancião.

        - Verás, procurarás! - bradou ele. - Oh! É essa a tua resposta? Eu já a esperava tal qual, nem sei como me admiro. E desde quando, ínfimo verme, se atreve a criatura a falar assim ao criador? Ah! Vês-me sem forças, ah! Vês-me deitado, solicitando, e és bastante ignorante para julgares que estou em teu poder? Sim ou não, Acharat, e não tenhas nos olhos nem embaraço nem mentira, porque te vejo bem e leio no teu coração; porque te julgo e hei-de castigar-te.

        - Mestre - respondeu Bálsamo - cautela, a sua cólera vai fazer-lhe mal.

        - Responde! Responde!

        - Não sei dizer ao meu mestre senão a verdade, verei se posso procurar o que deseja, sem nos prejudicar a ambos, sem nos perder, até. Procurarei um homem que nos venda a criatura de que precisa; mas não me responsabilizarei pelo crime. É tudo quanto posso dizer-lhe.

        - É coisa delicada - disse Althotas com amargo sorriso.

        - E assim é exactamente, mestre - disse Bálsamo.

        Althotas, fez um esforço tão poderoso, que, com o auxílio dos braços apoiados nos da poltrona, pôs-se de pé.

        - Sim ou não? - disse ele.

        - Mestre, sim, se eu achar; não, se não achar.

        - Queres então expor-me a morrer, miserável? Economizarás três gotas de sangue de um animal imundo e nulo, como a criatura de que preciso, para deixar cair no eterno abismo a criatura perfeita que eu sou. Ouve, Acharat, já te não peço mais nada - disse o ancião com um sorriso aterrador - não, absolutamente nada mais te peço. Esperarei; mas se me não obedeceres, hei-de servir-me a mim mesmo, se me abandonas eu me socorrerei. Ouviste, não é verdade? Agora retira-te.

        Bálsamo, sem responder a esta ameaça, preparou em torno do ancião o que lhe era necessário, pôs ao seu alcance a bebida e o sustento, fez tudo quanto tinha que fazer, cumpriu todos os deveres, enfim, que um cuidadoso servidor teria por seu amo, que um filho dedicado teria por seu pai; depois, absorto noutro pensamento diverso daquele que atormentava Althotas, baixou o alçapão para descer, sem reparar que o olhar irónico do ancião o seguia quase tão longe quanto alcançava o seu espírito e o seu coração.

        Althotas sorria ainda como um génio mau, quando Bálsamo se encontrou defronte de Lorenza, que se conservava adormecida.

 

LUTA

        Ali parou Bálsamo com o coração opresso por dolorosos pensamentos.

        Dizemos dolorosos e não violentos.

        A cena que entre ele e Althotas tivera lugar, fazendo-lhe encarar talvez o nada das coisas humanas, expelira-lhe da alma toda a cólera. Lembrava-se do processo seguido pelo filósofo, que recitava todo o alfabeto grego antes de escutar a voz negra da divindade, conselheira de Aquiles.

        Passado um instante de fria e muda contemplação diante daquele canapé onde Lorenza estava deitada, disse consigo, triste, mas resoluto e encarando claramente a sua situação:

        - Lorenza odeia-me; Lorenza ameaçou trair-me e traiu-me, o meu segredo já me não pertence, deixei-o nas mãos desta mulher, que o divulga; pareço-me com a raposa que, presa na armadilha de aço, só retirou dela o osso da perna, deixando lá a pele e a carne, de modo que no dia seguinte pôde o caçador dizer: “A raposa caiu no laço, morta ou viva facilmente a conhecerei.” E essa espantosa desgraça, essa desgraça que Althotas não pode compreender, e por isso nem sequer lha contei; essa desgraça, que despedaça todas as minhas esperanças de fortuna neste país, e por conseqüência neste mundo, cuja alma é a França, é a criatura que está aqui adormecida, é a esta bela estátua de encantador sorriso que a devo. Devo a este anjo sinistro a desonra e a ruína, enquanto lhe não dever o cativeiro, o exílio, a morte. Portanto – prosseguiu ele animando-se - a soma do bem foi ultrapassada pela do mal, e Lorenza prejudica-me. Ó serpente de formosas roscas, mas que esmagam, de garganta dourada, mas cheia de veneno, dorme! Dorme! Porque, quando acordares, terei de matar-te!

        E Bálsamo, com sorriso sinistro, aproximou-se lentamente de Lorenza, cujos olhos, carregados de languidez, se ergueram para ele à medida que se aproximava, como os girassóis e os volubilis se abrem aos primeiros raios do sol nascente.

        - Oh! - disse Bálsamo - terei de fechar para sempre aqueles olhos, que neste momento se cravam em mim com tanta ternura; aqueles lindos olhos, que despedem raios, quando não estão cheios de amor.

        Lorenza sorriu docemente, e sorrindo assoalhava as duas ordens de dentes, que pareciam pérolas.

        - Mas, matando a que me odeia - continuou Bálsamo torcendo os braços - mato igualmente a que me ama!

        E o coração encheu-se-lhe de dor profundíssima, singularmente unida a um vago desejo.

        - Não - murmurou ele - não; jurei em vão. Ameacei inutilmente; não, nunca terei ânimo de a matar; não, ela há-de viver, mas há-de viver sem tornar a ser acordada; há-de viver essa vida factícia, que há-de ser para ela a felicidade, ao passo que a outra é o desespero. Possa eu torná-la feliz, que importa o resto?... Não terá senão uma existência, aquela que eu lhe der, aquela durante a qual se ama, aquela que vive neste momento.

        E fixou um terno olhar no olhar amoroso de Lorenza, ao mesmo tempo que ia lentamente baixando a mão sobre a cabeça da gentil sonâmbula.

        Naquele momento, Lorenza, que parecia ler no pensamento de Bálsamo como em livro aberto, soltou profundo suspiro, ergueu-se docemente e com todo o suave vagar do sono, foi lançar os braços brancos e formosos ao pescoço de Bálsamo, que sentiu nos lábios o hálito perfumado da virgem.

        - Oh! Não, não! - bradou Bálsamo passando a mão pela fronte ardente e pelos olhos deslumbrados; - não, esta vida de embriaguez conduziria ao delírio; não, eu nem sempre poderia resistir, e com ela, com este demônio tentador, com esta sereia, a glória, o poder, a imortalidade fugiriam. Não, não, há-de acordar, eu quero-o, é preciso.

        Embriagado, fora de si, Bálsamo teve ainda forças para repelir Lorenza, que se desprendeu dele, e como um véu flutuante, como uma sombra, como um floco de neve, foi cair no sofá.

        A mais ansiosa coquete não escolheria, para se oferecer à vista do amante, posição mais tentadora.

        Inebriado, fora de si, Bálsamo teve forças para dar alguns passos e afastar-se: mas, como Orfeu, voltou-se e perdeu-se!

        - Oh! Se a acordar, ela mata-se, ou mata-me ou obriga-me a matá-la. Abismo! Abismo! Sim, o destino desta mulher está escrito, parece-me lê-lo em caracteres de fogo: morte! Amor! Lorenza! Lorenza! És predestinada para amar e morrer. Lorenza! Lorenza! Tenho nas minhas mãos a tua vida e o teu amor.

        A única resposta da feiticeira foi levantar-se, caminhar direita a Bálsamo, cair-lhe aos pés, olhar para ele com os olhos banhados em sono e volúpia, pegar-lhe numa das mãos e levá-la ao coração.

        - Morte! - disse ela em voz baixa, com os lábios úmidos e brilhantes como o coral que sai do mar - morte, mas amor!

        Bálsamo recuou dois passos, com a cabeça reclinada para trás, e a mão nos olhos.

        Lorenza, arquejante, seguiu-o de rastos.

        - Morte! - repetiu ela com a sua voz inebriante - mas amor! Amor!

        Bálsamo não pôde resistir mais tempo; uma nuvem de chamas o cercava.

        - Oh! - disse ele - é de mais; lutei tanto tempo quanto o pode fazer um ente humano. Demónio ou anjo do porvir, quem quer que tu sejas, deves estar contente! Bastante tempo sacrifiquei ao egoísmo e ao orgulho todas as generosas paixões que em mim fervem. Oh! Não, não tenho direito de assim me revoltar contra o único sentimento humano que fermenta no fundo do meu coração. Amo esta mulher; amo-a e este amor apaixonado faz contra ela mais do que faria o ódio mais terrível. Este amor dá-lhe a morte; oh! Covarde! Oh! Louco varrido que eu sou, nem sei satisfazer os meus desejos. Como! Quando eu exalar o último suspiro, quando me aprontar para comparecer diante de Deus, eu, o enganador, eu, o falso profeta; quando despir o meu manto de artifícios e hipocrisia diante do Soberano Juiz, não terei uma única acção generosa de que me confessar, não terei uma única felicidade cuja recordação venha consolar-me no meio dos padecimentos eternos. Oh! Não, não, Lorenza, bem sei que amando-te perco o futuro; bem sei que o meu anjo revelador vai subir aos céus desde que a mulher descer aos meus braços. Mas assim o queres, Lorenza, assim o queres!

        - Meu querido! - disse ela suspirando.

        - Então aceitas essa vida factícia, em lugar da vida real?

        - Peço-a de joelhos, rogo, suplico; esta vida é o amor, é a felicidade.

        - E há-de bastar para ti, quando fores minha mulher, porque te amo ardentemente.

        - Oh! Bem o sei, pois que leio claramente em teu coração.

        - E nunca me acusarás, nem perante os homens, nem perante Deus, de ter surpreendido a tua vontade, de ter iludido o teu coração?

        - Nunca! Nunca! Oh! Perante os homens e perante Deus eu te agradecerei de me teres dado o amor, o único bem, a única pérola, o único diamante deste mundo.

        - Nunca terás saudades das tuas asas, pobre pomba; porque, deves sabê-lo, não tornarás a voar pelos espaços radiosos a fim de procurar para mim, junto do trono de Jeová, o raio de luz que ele outrora mandava à fronte dos seus profetas. Quando eu quiser saber o futuro, quando quiser dar ordens aos homens, oh! A tua voz já me não responderá; eu tinha em ti ao mesmo tempo a mulher amada e o génio auxiliar, já não terei senão um dos dois, e ainda assim...

        - Ah! Duvidas - bradou Lorenza; - vejo a dúvida como uma nódoa negra sobre o teu coração.

        - Hás-de amar-me sempre, Lorenza?

        - Sempre, sempre!

        Bálsamo passou a mão pela fronte.

        - Pois bem, seja - disse ele. - E demais...

        Permaneceu um instante mergulhado nos seus pensamentos.

        - Demais, preciso eu absolutamente desta? – prosseguiu ele. - É ela a única no mundo? Não, não; enquanto esta me fizer feliz, outra continuará a fazer-me rico e poderoso. Andréia é moça, pura, virgem, e eu não amo Andréia; e contudo, durante o seu sono, Andréia mostra-se tão submissa para mim como tu; tenho em Andréia uma vítima pronta para tomar o teu lugar, e para mim essa é a alma vil do médico, que pode servir para as experiências; ela voa tão longe como tu, talvez mais longe ainda, rasga o véu do desconhecido. Andréia! Andréia! Tomo-te para minha realeza. Lorenza, vem aos meus braços; guardo-te para minha amante. Com Andréia sou poderoso; com Lorenza sou feliz. A começar desta hora unicamente, a minha vida é completa, e, menos a imortalidade, sou o igual dos deuses!

 

AMOR

        Começara para Bálsamo outra vida, vida desconhecida até então àquela existência activa, perturbada, múltipla. Havia já três dias que não conhecia apreensões, nem cóleras, nem ciúmes; havia três dias que não ouvia falar em política, nem em conspirações, nem em conspiradores. Junto de Lorenza, de quem não se apartara um só instante, esquecera o mundo inteiro. Aquele amor estranho, inaudito, que decerto modo pairava acima da humanidade, aquele amor cheio de embriaguez e de mistérios, aquele amor de fantasma, porque não esqueça que bastava uma palavra para transformar a amante terna em inimiga implacável; aquele amor, arrancado ao ódio, graças a um inexplicável capricho da natureza ou da ciência, lançava Bálsamo numa felicidade, que participava a um tempo do delírio e do assombro.

        Mais de uma vez, durante aqueles três dias, ao acordar dos entorpecimentos de amor, Bálsamo olhava para a gentil companheira, sempre risonha, sempre extática, porque na existência que acabava de lhe criar, fazia-a repousar da vida factícia lançando-a no êxtase, sono igualmente enganador; e quando assim a via tranqüila, terna, feliz, tratando-o pelos nomes mais doces e sonhando em voz alta a sua misteriosa voluptuosidade, mais de uma vez perguntou a si mesmo se Deus não estaria irritado contra o Titã moderno, que tentara roubar-lhe os seus segredos, se não comunicara a Lorenza a idéia de o enganar por meio de uma mentira, para desse modo adormecer a sua vigilância, e adormecida ela, fugir para não tornar a aparecer senão como Euménides vingadora.

        Em tais momentos, Bálsamo duvidava daquela ciência, recebida por tradição da antiguidade, mas de que só tinha exemplos para prova.

        Em breve porém aquela chama perpétua, aquela sede constante de carícias o sossegavam.

        - Se Lorenza dissimulasse - dizia consigo - se tivesse tenção de fugir novamente, procuraria ocasião de me afastar de si, de estar só; mas, longe disso, são sempre os seus braços que me prendem como inextricável cadeia; é sempre o seu olhar ardente que me diz: “Não te vás”; é sempre a sua doce voz que me diz: “Fica!”

        Então Bálsamo readquiria a sua confiança em si e na ciência.

        Por que efectivamente, havia aquele segredo mágico, a que devia todo o seu poder, de tornar-se repentinamente, sem transição, uma quimera tão desprezível como uma recordação desvanecida, como o fumo de um fogo apagado? Nunca, relativamente a ele, Lorenza fora mais lúcida, mais vidente; todos os pensamentos que no espírito se lhe formulavam, todas as impressões que lhe faziam estremecer o coração, reproduzia-as Lorenza no mesmo instante.

        Faltava saber se aquela lucidez não era simpática; se fora dele e da amante, do outro lado do círculo traçado pelo amor de ambos e que o amor de ambos inundava de luz; faltava saber se os olhos da alma, que tão claro viam antes da queda dessa nova Eva, poderiam ainda penetrar a escuridão.

        Bálsamo não ousava fazer a experiência decisiva, esperava sempre, e a esperança formava uma coroa estrelada à sua felicidade.

        Algumas vezes Lorenza lhe dizia, com branda melancolia:

        - Acharat, tu pensas noutra mulher, é uma mulher do norte, de cabelos louros, de olhos azuis; Acharat, ai! Acharat, aquela mulher andou sempre ao meu lado no teu pensamento.

        Então Bálsamo olhava ternamente para Lorenza.

        - Vês isso em mim? - dizia ele.

        - Oh! Sim, tão claramente como o poderia ver num espelho.

        - Então, bem vês que não é por amor que penso nessa mulher - lhe respondeu Bálsamo; - lê, lê em meu coração, querida Lorenza.

        - Não - dizia esta abanando a cabeça - não, bem o sei; mas divides o teu pensamento por ambas nós, como no tempo em que Lorenza Feliciani te atormentava, aquela má Lorenza, que dorme e já não queres acordar.

        - Não, meu amor, não - bradou Bálsamo; - só penso em ti, com o coração, pelo menos; tudo tenho esquecido e descurado depois da nossa felicidade: estudos, política, trabalhos.

        - E faz estual - disse Lorenza - porque nesses trabalhos posso ajudar-te.

        - Como?

        - Sim, antigamente não passavas horas inteiras fechado no teu laboratório?

        - Certamente, mas renuncio a todas essas vãs tentativas; seriam outras tantas horas diminuídas da minha existência, porque durante esse tempo não te poderia ver.

        - E por que te não acompanharei eu nos teus trabalhos como no teu amor? Por que te não farei poderoso como te faço feliz?

        - Porque a minha Lorenza é formosa, é verdade, mas a minha Lorenza não estudou. Deus dá a formosura e o amor, mas a ciência só a dá o estudo.

        - A alma tudo sabe.

        - É então realmente com os olhos da alma que tu vês?

        - É.

        - E podes guiar-me, dizes tu, nesta grande obra de procurar a pedra filosofal?

        - Creio que sim.

        - Vem comigo.

        E Bálsamo, cingindo com o braço a cintura da romana, conduziu-a ao seu laboratório.

        A fornalha gigantesca, que havia quatro dias estava abandonada, tinha o fogo apagado.

        Os cadinhos estavam frios.

        Lorenza olhou sem admiração para todos aqueles instrumentos tão singulares, derradeiras combinações da moribunda alquimia; parecia conhecer a serventia de cada um.

        - Procuras fazer ouro? - disse ela sorrindo.

        - Procuro, sim.

        - Todos esses cadinhos contêm preparações em diferentes graus?

        - Todas paradas, todas partidas; mas não as lamento.

        - E tens razão, porque o teu ouro nunca há-de ser senão mercúrio colorido, talvez consigas torná-lo sólido, mas nunca o transformarás.

        - Mas pode fazer-se ouro?

        - Não.

        - Mas Daniel de Transilvânia vendeu por vinte mil ducados, a Cosme I, a receita para a comutação dos metais.

        - Daniel de Transilvânia enganou Cosme I.

        - Mas o saxônio Payken, condenado à morte por Carlos II, resgatou a vida mudando uma barra de chumbo em ouro, de que se tiraram quarenta ducados, e uma medalha, que foi cunhada à grande glória do hábil alquimista.

        - O hábil alquimista que era um hábil prestímano substituiu a barra de chumbo, nada mais. O teu modo mais certo de fazer ouro, Acharat, é fundir em barras, como costumas fazê-lo, as riquezas que os teus escravos vêm trazer-te das quatro partes do mundo.

        Bálsamo ficou pensativo.

        - Assim - disse ele - a transmutação dos metais é impossível?

        - Impossível.

        - Mas, por exemplo - perguntou Bálsamo - o diamante?

        - Oh! O diamante, isso é outra coisa - disse Lorenza.

        - Pode-se então fazer diamante?

        - Pode, porque fazer diamante não é operar a transmutação de um corpo noutro; fazer diamante, é operar a simples modificação de um elemento conhecido.

        - Mas conheces então o elemento de que se forma o diamante?

        - Decerto conheço: o diamante é a cristalização do carbono puro.

        Bálsamo ficou assombrado. Uma luz deslumbrante, inesperada, inaudita, lhe feria os olhos; cobriu-os com as mãos como se o cegasse aquela chama.

        - Oh! Meu Deus - disse ele - meu Deus, fazes muito por mim, ameaça-me algum perigo. Meu Deus! Qual é o anel precioso que eu posso lançar ao mar para conjurar a tua ira? Basta, basta por hoje, Lorenza, basta!

        - Não te pertenço eu? Ordena, manda!

        - Sim, és minha, vem, vem.

        E Bálsamo levou Lorenza para fora do laboratório, atravessou o quarto das peles, e sem prestar atenção a um leve estalar que ouviu acima da cabeça, voltou com Lorenza para o quarto das grades.

        - Assim - perguntou ela - estás contente com a tua Lorenza, meu querido Bálsamo?

        - Se estou! - exclamou ele.

        - O que receavas tu, diz, fala?

        Bálsamo, de mãos postas, olhou para Lorenza com uma expressão de terror, que fora impossível ser compreendida por qualquer outra pessoa que não lhe soubesse ler na alma.

        - Oh! - murmurou ele - e eu que estive a ponto de matar este anjo, eu que estive a ponto de morrer de desespero antes de resolver este problema de ser feliz e poderoso ao mesmo tempo; eu que olvidei que os limites do possível sempre ultrapassam o horizonte marcado pelo estado presente da ciência, e que a maior parte das verdades, que se têm tornado factos, começam sempre por ser olhadas como visões; eu, que julgava saber tudo, e que nada sabia!

        Lorenza sorriu divinamente.

        - Lorenza, Lorenza - prosseguiu Bálsamo - realizou-se portanto esse misterioso desígnio do Criador, que faz nascer a mulher da carne do homem, e que lhes ordena que tenham um só coração para ambos. Eva ressuscitou para mim; Eva, que não há-de passar sem mim, e cuja vida está suspensa do fio que tenho nas mãos; é demais, meu Deus, para uma só criatura, e sucumbo ao peso dos teus benefícios!

        E caiu de joelhos, abraçando com adoração aquela suave formosura, que lhe sorria na Terra.

        - Pois bem! - prosseguiu - não, tu não me largarás mais; sob o teu olhar, que vê nas trevas, viverei com toda a segurança: hás-de auxiliar-me nas laboriosas indagações que só tu, como disseste, podias completar, e que uma palavra tua tornará fáceis e fecundas; serás tu quem me diga, se não posso fazer ouro, visto que o ouro é uma matéria homogénea, um elemento primitivo, em que parcela da sua criação o ocultou Deus; serás tu quem me diga onde jazem os tesouros seculares que os imensos abismos do Oceano escondem. Verei com os teus olhos arredondar-se a pérola na sua concha de nácar, e crescer o pensamento do homem sob as lamacentas camadas da carne. Ouvirei, com os teus ouvidos, a abafada roedura do verme debaixo da terra, e o passo do inimigo que se aproximar de mim. Serei grande como Deus, e mais feliz que Deus, minha Lorenza, porque Deus é Todo-Poderoso, mas está só na sua majestade divina e não partilha com ente algum divino como ele, essa omnipotência que o faz ser Deus.

        E Lorenza sorria sempre; e sorrindo, respondia às palavras com ardentes carícias.

        - E contudo - murmurava ela como se tivesse visto no crânio do seu amante cada pensamento que agitava as fibras daquele cérebro irrequieto - e contudo duvidas, como já disseste, que eu possa sair do círculo do nosso amor, duvidas que possa ver em distância; mas consolas-te dizendo que se eu não vejo, ela há-de ver.

        - Ela, quem?

        - A mulher loura; queres que lhe diga o nome?

        - Diz.

        - Espera... Andréia...

        - Oh! É isso. Sim, lês no meu pensamento; sim, um último receio me perturba. Vês tu sempre através do espaço, ainda que esse espaço seja cortado por objectos materiais?

        - Experimenta.

        - Dá-me a mão, Lorenza.

        Lorenza pegou vivamente na mão de Bálsamo.

        - Podes seguir-me?

        - Por toda a parte.

        - Vem.

        E Bálsamo, saindo, mentalmente, da Rua de Saint-Claude, levou consigo o pensamento de Lorenza.

        - Onde estamos? -perguntou ele a Lorenza.

        - Estamos numa montanha - respondeu ela.

        - Sim, é isso - disse Bálsamo, estremecendo de prazer; - mas o que vês tu?

        - Em frente, da direita, ou da esquerda?

        - Em frente.

        - Vejo um imenso vale com uma floresta de um lado, uma cidade do outro, e um rio que os separa e vai perder-se no horizonte, passando por pé da muralha de um palácio.

        - É isso, Lorenza. Essa floresta é a de Vesinet, essa cidade é Saint-Germain, esse palácio é o palácio de Maisons. Entremos, entremos no pavilhão que fica por detrás de nós.

        - Entremos.

        - O que vês?

        - Ah! Primeiramente, na antecâmara vejo um pretinho exoticamente vestido e comendo pastilhas.

        - É Zamora. Entremos, entremos.

        - Uma sala sem gente mas esplendidamente mobiliada, com sobreporias representando deuses e amores.

        - A sala não tem gente?

        - Não.

        - Vamos sempre entrando.

        - Ah! Estamos num lindo gabinete forrado de cetim.

        - Também não tem gente?

        - Tem, é uma mulher que está deitada num sofá.

        - Quem é essa mulher?

        - Espera.

        - Não te parece havê-la já visto?

        - Sim, aqui; é a Srª. Condessa du Barry.

        - É isso, Lorenza, é isso; hás-de enlouquecer-me. O que faz essa mulher?

        - Pensa em ti, Bálsamo.

        - Em mim?

        - Sim.

        - Podes ler no seu pensamento?

        - Posso, porque, eu to repito, pensa em ti.

        - E a que propósito pensa em mim?

        - Fizeste-lhe uma promessa.

        - Sim, qual foi?

        - Prometeste-lhe a água da formosura, que Vénus, para se vingar de Safo, tinha dado a Faon.

        - É isso, é exactamente isso. E o que faz ela enquanto pensa?

        - Toma uma decisão.

        - Qual?

        - Espera; estende a mão para a campainha; toca, entra outra mulher.

        - Morena ou loura?

        - Morena.

        - Alta ou baixa?

        - Baixa.

        - É a irmã. Ouve o que ela vai dizer.

        - Manda aprontar a carruagem.

        - Para ir onde?

        - Para vir aqui.

        - Tens a certeza disso?

        - Dá essa ordem. Ah! Lá obedecem; vejo os cavalos, a carruagem; dentro de duas horas há-de estar aqui.

        Bálsamo ajoelhou.

        - Oh! - bradou ele - se dentro de duas horas estiver efectivamente aqui, nada mais terei que vos pedir, meu Deus, senão que tenhais compaixão da minha felicidade!

        - Pobre amigo - disse ela - receavas?

        - Sim, sim, receava.

        - E o que podias tu recear? O amor que completa a existência física engrandece também a existência moral. O amor, como todas as paixões generosas, aproxima-nos de Deus, e de Deus é que vem toda a luz.

        - Lorenza, Lorenza, hás-de enlouquecer-me de prazer.

        E Bálsamo deixou pender a cabeça sobre os joelhos da amante.

        Esperava uma nova prova para ser completamente feliz.

        Essa prova, era a chegada da senhora du Barry.

        As duas horas de espera correram com velocidade; a medida do tempo para Bálsamo tinha completamente desaparecido.

        De repente Lorenza estremeceu, tinha entre suas mãos a mão de Bálsamo.

        - Duvidas ainda - disse ela - e quererias saber onde ela está neste momento?

        - Sim - disse Bálsamo - é verdade.

        - Pois bem, segue no seu caminho para cá, com toda a velocidade dos cavalos, aproxima-se, entra na Rua de Saint-Claude, pára diante da porta, bate.

        A câmara onde ambos estavam fechados ficava tão retirada que a bulha das argoladas na porta não lhes chegou aos ouvidos.

        Mas Bálsamo, erguido um pouco sobre um joelho, prestou ouvido atento.

        Duas pancadas batidas por Fritz fizeram-no levantar. O leitor deve estar lembrado que era o sinal de uma visita importante.

        - Oh! - disse ele - era verdade.

        - Vai certificar-te, Bálsamo, mas volta depressa.

        Bálsamo correu para o lado da chaminé.

        - Deixa-me acompanhar-te até à porta da escada – disse Lorenza.

        - Vem.

        E ambos atravessaram novamente a câmara das peles.

        - Não sairás desta câmara? - perguntou Bálsamo.

        - Não, porque te espero. Oh! Sossega, esta Lorenza que te ama não é, bem o sabes, a Lorenza que temes. E demais...

        - O quê? - perguntou Bálsamo.

        - Não vês tu na minha alma como eu vejo na tua?

        - Infelizmente, não!

        - Então, ordena-me que durma até que voltes; ordena-me que fique imóvel sobre aquele sofá, e eu dormirei, e eu ficarei imóvel.

        - Pois bem, seja, minha querida Lorenza, dorme e espera por mim.

        Lorenza, lutando já com o sono, uniu num último beijo a sua boca à de Bálsamo, e cambaleando foi cair sobre o sofá, murmurando:

        - Depressa, meu Bálsamo, depressa, sim?

        Bálsamo disse-lhe adeus com a mão; Lorenza já dormia.

        Mas tão bela, tão pura com os longos cabelos soltos, a boca entreaberta, as faces de um vermelho febril, e os olhos inundados; mas tão longe de parecer uma mulher, que Bálsamo voltou a ela, pegou-lhe na mão, beijou-lhe os braços e o pescoço, mas não ousou beijar-lhe os lábios.

        Ouviram-se duas novas pancadas; era a senhora du Barry que se impacientava, ou Fritz que julgava que o amo não ouvira as primeiras.

        Bálsamo correu para a porta.

        Quando a fechou sobre si, pareceu-lhe ouvir um rumor semelhante àquele que já ouvira quando atravessara aquela casa com Lorenza; tornou a abrir a porta, olhou em redor de si e nada viu.

        Nada, senão Lorenza deitada e arquejante sob o peso do seu amor.

        Bálsamo fechou a porta e correu à sala muito sossegado, sem receio, sem pressentimento, levando na alma o paraíso.

        Bálsamo enganava-se, não era só o amor que oprimia o peito de Lorenza e lhe tornava excessivamente penosa a respiração.

        Era uma espécie de sonho, que parecia fazer parte da letargia em que estava, letargia tão semelhante à morte.

        Lorenza sonhava, e no hediondo espelho dos sonhos sinistros, parecia-lhe ver no meio da escuridão, que começava a tornar tudo sombrio, o tecto da sala abrir-se circularmente, e alguma coisa semelhante a uma grande roda destacar-se e descer com um movimento igual, lento, compassado, acompanhado por lúgubre sibilar; parecia-lhe que a pouco e pouco lhe ia faltando o ar, como se estivesse próxima a ser abafada sob a pressão daquele círculo movediço.

        Parecia-lhe finalmente que sobre aquela espécie de alçapão movediço se agitava alguma coisa informe como o Kaliban da tempestade, um monstro de rosto humano, um velho, que só tinha vivos os olhos, que cravava nela com um modo aterrador, e os braços descarnados, que para ela estendia.

        E ela, ela, a pobre criança, torcia-se em vão sem poder fugir, sem nada adivinhar do perigo que a ameaçava; sem nada sentir, senão duas tenazes cujos extremos a agarravam pelo vestido branco, e a arrancavam do sofá, transportando-a sobre o alçapão, que tornava a subir lentamente para o tecto, com o ranger lúgubre do ferro roçando contra o ferro, e um riso hediondo, que se escapava da hedionda boca daquele monstro de rosto humano, que a levava para o céu, sem abalo nem dor.

 

O FILTRO

        Como Lorenza profetizara, era a senhora du Barry quem acabava de bater à porta.

        A formosa cortesã fora introduzida na sala. Esperava por Bálsamo folheando um curioso livro da morte gravado em Mogúncia, e cujas estampas, desenhadas com arte maravilhosa, mostram a morte presidindo a todos os actos da vida do homem, esperando-o à porta do baile onde acaba de apertar a mão à mulher que ama, atraindo-o ao fundo da água em que se está banhando, ou escondendo-se no cano da espingarda que leva à caça.

        A senhora du Barry estava vendo a estampa que representa uma bonita mulher pintando-se e mirando-se, quando Bálsamo entrou e foi cumprimentá-la, trazendo bem visível no rosto uma expressão de felicidade.

        - Queira perdoar, minha senhora, por a ter feito esperar; mas não tinha calculado bem a distância ou conhecia mal a velocidade dos seus cavalos, pensava que ainda estivesse ali pela Praça de Luís XV.

        - Como! - perguntou a condessa - pois sabia que eu vinha?

        - Sabia, sim, minha senhora; há-de haver pouco mais ou menos duas horas que a vi no seu gabinete de cetim azul, dando ordens para que lhe pusessem a carruagem.

        - E diz que eu estava no meu gabinete de cetim azul?

        - Matizado de flores. Sim, condessa, e deitada num sofá! Ocorreu-lhe então uma idéia feliz; disse consigo: vamos ver o conde de Fénix; e puxou pelo cordão da campainha.

        - E quem entrou?

        - Sua irmã, condessa; não é assim? Pediu-lhe que transmitisse as suas ordens, que foram logo executadas.

        - Realmente, conde, é um feiticeiro. Olha assim para o meu gabinete a todos os instantes do dia? Seria bom prevenir-me, percebe?

        - Ah! Sossegue, condessa, eu não olho senão quando as portas estão abertas.

        - E olhando pela porta aberta, viu que eu pensava no senhor?

        - Certamente, e até com boa intenção.

        - Ah! Tem razão, meu caro conde, tenho pelo senhor as melhores intenções do mundo, e confesso que merece mais do que intenção, o senhor que é tão bondoso, tão útil, e que na minha vida parece destinado a representar o papel de tutor, isto é, o mais difícil de quantos conheço.

        - Realmente, minha senhora, torna-me bem feliz; pude então ser-lhe útil?

        - Como!... É adivinho e não adivinhou?!

        - Deixe-me pelo menos o mérito da modéstia.

        - Pois sim, meu caro conde, seja assim, e vou por conseqüência falar-lhe em primeiro lugar do que fiz por seu respeito.

        - Não o consentirei, minha senhora: pelo contrário, peço-lhe que falemos da condessa.

        - Pois bem, meu caro conde, comece em primeiro lugar por me emprestar a pedra que torna a gente visível; porque durante a minha jornada, apesar de rápida como foi, pareceu-me reconhecer um dos cavalos do senhor de Richelieu.

        - E depois, minha senhora?

        - Vinha montado por um correio e seguia a minha carruagem.

        - O que pensa dessa circunstância e para que fim a mandaria seguir o duque?

        - Para o fim de me pregar alguma peça, como costuma. Tão modesto como é, Sr. Conde de Fénix, acredite que Deus lhe concedeu bastantes dotes pessoais para tornar um rei ciumento... Invejoso das minhas visitas à sua casa, ou das suas visitas à minha.

        - O senhor de Richelieu, minha senhora – respondeu Bálsamo - não pode ser perigoso para a senhora condessa em recontro nenhum.

        - Mas era-o, caro conde, era-o contudo antes do acontecimento.

        Bálsamo compreendeu que havia ali um segredo, que Lorenza lhe não revelara ainda. Não se aventurou, por conseqüência, no terreno desconhecido, e contentou-se em responder com um sorriso.

        - Era-o - repetiu a condessa - e estive a ponto de ser vítima da intriga mais bem combinada, em que o conde tinha também um papel.

        - Eu! Numa intriga contra a condessa? Isso nunca, minha senhora!

        - Não foi o senhor que deu o filtro ao duque de Richelieu?

        - Que filtro?

        - Um filtro que faz amar loucamente?

        - Não, minha senhora; esses filtros compõe-os o senhor de Richelieu mesmo, porque há muito tempo que lhes conhece a receita; eu apenas lhe dei um simples narcótico.

        - Ah! Realmente?

        - Palavra de honra.

        - E o senhor duque, espere, o senhor duque veio pedir-lhe esse narcótico? Em que dia? Veja bem o senhor se se lembra da data; é da maior importância.

        - Minha senhora, foi sábado passado. Na véspera do dia em que tive a honra de lhe mandar por Fritz aquele bilhetinho, em que lhe pedia o favor de vir ter comigo a casa do senhor de Sartines.

        - Na véspera daquele dia em que el-rei foi visto dirigindo-se ao quarto da menina de Taverney. Oh! Agora percebo tudo.

        - Então, se percebe tudo, deve conhecer que a única parte que tenho nisso é o narcótico.

        - Sim, foi o narcótico que nos salvou.

        Bálsamo esperou desta vez; ignorava tudo.

        - Sou feliz, minha senhora - respondeu ele - por lhe ser útil para alguma coisa, mesmo sem intenção.

        - Oh! É sempre excelente para mim. Mas pode ainda fazer mais do que tem feito até agora. Oh! Doutor, estive muito doente, poeticamente falando, e ainda me custa a crer na minha convalescença.

        - Minha senhora - disse Bálsamo - o médico pergunta sempre as circunstâncias da doença que vai tratar. Dê-me portanto as informações mais exactas sobre o que tem sentido, e sendo possível não esqueça sintoma algum.

        - Nada mais simples, caro doutor, ou feiticeiro, como quiser. Na véspera do dia em que o tal narcótico foi empregado, tinha Sua Majestade recusado acompanhar-me a Luciennes. Tinha ficado, sob pretexto de cansaço, no Trianon, e isso para cear, soube-o depois, com o duque de Richelieu e o barão de Taverney.

        - Ah! Ah!

        - Compreende agora? Foi durante essa ceia, que deram a el-rei o filtro do amor. Já ele tinha inclinação pela tal Taverney; sabiam que no dia seguinte não devia estar comigo. Portanto era a favor daquela pequena que devia operar.

        - E depois?

        - E depois operou, nada mais.

        - O que sucedeu então?

        - Isso é que é difícil saber positivamente. Pessoas bem informadas viram Sua Majestade dirigir-se para o edifício em que são os quartos da Taverney.

        - Bem sei onde são; e depois?

        - Ah! Depois; diacho! Como é apressado, conde. Bem sabe que é perigoso seguir um rei que se oculta.

        - Mas enfim?

        - Enfim, tudo quanto posso dizer-lhe é que Sua Majestade, numa horrível noite de tempestade, voltou para o Trianon, pálido, trémulo, e com uma febre que participava do delírio.

        - E julga - perguntou Bálsamo sorrindo - que não foi só da tempestade que el-rei teve medo?

        - Não, porque o criado ouviu-o exclamar umas poucas de vezes: “Morta! Morta! Morta!”

        - Oh! - bradou Bálsamo.

        - Era o narcótico - prosseguiu a senhora du Barry; - nada assusta mais el-rei do que os mortos, e depois dos mortos a imagem da morte. Achou a Taverney adormecida com um sono estranho, naturalmente julgou-a morta.

        - Sim, sim, estava morta com efeito - disse Bálsamo, que se lembrava de ter fugido sem acordar Andréia; - morta ou pelo menos apresentando todas as aparências da morte. É isso! É isso! E depois, minha senhora, depois?

        - Ninguém soube o que se passou naquela noite. Só consta que, quando voltou para casa, el-rei foi acometido por um acesso de febre violenta, e de estremecimentos nervosos, que só lhe passaram no dia seguinte, quando a senhora delfina teve a idéia de mandar abrir as janelas do quarto de el-rei e mostrar a Sua Majestade um belo sol, que alumiava rostos alegres. Então todas aquelas visões desconhecidas desapareceram com a noite que as tinha criado. Ao meio-dia, el-rei achava-se melhor, tomava um caldo e comia uma asa de perdiz, e à noite...

        - À noite?... - repetiu Bálsamo.

        - À noite - prosseguiu a senhora du Barry – Sua Majestade, que certamente não queria ficar no Trianon depois do seu terror da véspera, foi ter comigo a Luciennes, onde, caro conde, tive ocasião de conhecer que o senhor de Richelieu era um feiticeiro quase tão poderoso como o conde.

        O rosto triunfante da condessa, e o gesto, cheio de graça e de malícia completaram-lhe o pensamento e sossegaram completamente Bálsamo a respeito do poder que a favorita exercia ainda sobre el-rei.

        - Então - disse ele - está contente, minha senhora?

        - Entusiasmada, conde, porque, falando-me das impossibilidades que criou, disse-me a verdade exacta.

        E como prova de agradecimento estendeu para ele aquela mão tão branca, tão delicada, tão perfumada, que não era fresca como a de Lorenza, mas cujo calor tinha também a sua eloqüência.

        - Agora, conde, vamos ao que lhe diz respeito – disse ela.

        Bálsamo inclinou-se como homem pronto para ouvir.

        - Se me livrou de um grande perigo - prosseguiu a senhora du Barry - parece-me que pela minha parte também o salvei de um perigo, que não era pequeno.

        - Eu - disse Bálsamo, ocultando a comoção - não preciso de tanto para lhe ser reconhecido; contudo, digne-se dizer-me...

        - É ainda a questão do cofre.

        - Pois ainda, minha senhora?

        - Continha muitas cifras, que o senhor de Sartines mandou traduzir pelos seus empregados; cada um deles assinou a tradução feita em particular, e todas as traduções deram o mesmo resultado. De modo que o senhor de Sartines chegou esta manhã a Versalhes, enquanto eu lá estava, trazendo todas as traduções e o dicionário das cifras diplomáticas.

        - Ah! Ah! E o que disse el-rei?

        - El-rei de princípio pareceu admirado, depois assustou-se. Sua Majestade dá facilmente ouvidos ao que se diz quando se lhe fala em perigos. Desde a canivetada de Damiens, há uma palavra que Luís XV está pronto a ouvir de todos; é: cautela!

        - Então o senhor de Sartines acusou-me de conspiração?

        - Primeiro o senhor de Sartines quis ver se me fazia sair do quarto, mas recusei, declarando que, como ninguém tinha mais amizade a el-rei do que eu, ninguém tinha direito de me fazer sair quando se tratava de perigo. O senhor de Sartines insistiu, mas eu resisti, e el-rei disse, sorrindo e olhando para mim de um modo que eu só entendo: “Deixe-a, Sartines, nada lhe posso recusar hoje”. Então compreende, conde, que, estando eu presente, o senhor de Sartines, que se lembrava da nossa despedida tão claramente formulada, receou desagradar-me acusando-o. Falou portando da má vontade do rei da Prússia para com a França, das disposições dos espíritos se valerem do sobrenatural para facilitar o andamento da sua rebelião. Numa palavra, acusou muita gente, provando, sempre com as cifras à vista, que essa gente era culpada.

        - Culpada de quê?

        - De quê?... Conde, devo eu dizer um segredo de Estado?

        - Que é nosso segredo, minha senhora. Oh! Em nada periga! Parece-me que tenho interesse em não falar.

        - É verdade, conde, bem sei, e até grande interesse; o senhor de Sartines quis provar que uma seita numerosa, poderosíssima, formada de adeptos cheios de ânimo, hábeis, resolutos, minava silenciosamente o respeito devido a Sua Majestade Real, espalhando certos boatos a respeito de el-rei.

        - Que boatos?

        - Dizendo, por exemplo, que Sua Majestade era acusado de matar o seu povo à fome.

        - Ao que el-rei respondeu?

        - Como el-rei responde sempre, com uma zombaria.

        Bálsamo respirou.

        - E desta vez qual foi a zombaria?

        “- Como nos acusam de matar à fome o nosso povo - disse el-rei - não temos senão uma resposta que dar a essa acusação: é sustentá-lo.

        - Como assim, senhor? - perguntou o senhor de Sartines cheio de assombro.

        - Tomo à minha conta sustentar e dar de comer a todos aqueles que espalham esse boato, e ofereço-lhes ainda em cima casas pagas no meu palácio da Bastilha.”

        Bálsamo sentiu um leve estremecimento correr-lhe nas veias, mas permaneceu risonho.

        - E depois? - perguntou.

        - Depois el-rei pareceu consultar-me com um sorriso. “Senhor, disse-lhe então, nunca me farão acreditar que todas essas cifras negras, que o senhor de Sartines aí apresenta a Vossa Majestade, queiram dizer que Vossa Majestade seja mau rei.

        Então o chefe da polícia renovou as suas queixas.

        - Nem, acrescentei eu, voltando-me para Sartines, me provarão nunca que os seus empregados sabem ler.”

        - E o que disse el-rei, condessa? - perguntou Bálsamo.

        - Que eu podia ter razão, mas que o senhor de Sartines também a tinha.

        - E então?

        - Então expediram-se muitas ordens de prisão, entre as quais vi claramente que o senhor de Sartines procurava fazer assinar uma para o conde. Mas eu afrouxei-o e suspendi-o com uma única palavra.

        “- Senhor, lhe disse eu em voz alta, e diante de el-rei, prenda toda a população de Paris, se é do seu gosto, é o seu ofício; mas que se não atrevam a tocar num único dos meus amigos, tome conta, senão...

        - Oh! Oh, disse el-rei - ela enfada-se; cautela consigo, Sartines.

        - Mas, senhor, o interesse da nação...

        - Oh! O senhor não é um Sully, lhe disse eu, vermelha de cólera, nem eu sou uma Gabriela.

        - Minha senhora, querem assassinar el-rei, como assassinaram Henrique IV!

        Desta vez el-rei tornou-se pálido, estremeceu, e passou a mão pela testa.

        Julguei-me vencida.

        - Senhor, prossegui eu, é preciso deixar o senhor de Sartines continuar, porque os seus escreventes leram decerto também naquelas cifras que eu conspirava contra Vossa Majestade.

        E saí.

        Mas isto passava-se no dia que seguiu ao do filtro, meu caro conde. El-rei preferiu a minha presença à do senhor de Sartines, e correu atrás de mim.

        - Por piedade, condessa, não se enfade - disse ele.

        - Então mande embora esse homem, senhor, que cheira muito à cadeia.

        - Vamos, retire-se, lhe disse el-rei encolhendo os ombros.

        - E proíbo-o para o futuro, não só de pôr o pé em minha casa, acrescentei eu, senão também de me cumprimentar.

        Desta vez o nosso magistrado perdeu a cabeça, correu direito a mim e beijou-me humildemente a mão.

        - Pois bem, seja como quer, disse ele, não falemos mais em tal; se bem que o Estado perca. O seu protegido, uma vez que assim deseja, há-de ser respeitado pelos meus agentes.”

        Bálsamo pareceu entregue a profunda meditação.

        - Agora - disse a condessa - não me agradece por o ter livrado de travar conhecimento com a Bastilha, o que teria sido talvez injusto, mas nem por isso deixaria de ser desagradável?

        Bálsamo não deu resposta, mas tirou da algibeira um frasco que continha um licor vermelho como sangue.

        - Olhe, minha senhora - disse ele - por essa liberdade que me dá, dou-lhe eu mais vinte anos de mocidade.

        A condessa guardou o frasco no seio e saiu alegre e triunfante.

        Bálsamo ficou pensativo.

        - Estavam salvos talvez - disse ele consigo - se não fosse a vaidade de uma mulher. O pezinho desta cortesã precipita-os no mais profundo do abismo. Decididamente, Deus está connosco!

 

O SANGUE

        Ainda a condessa não sentira a porta da casa fechar-se-lhe nas costas e já Bálsamo subira a escada particular e entrara no quarto das peles.

        A conversação com a condessa fora demorada, e a pressa de Bálsamo tinha duas causas.

        Era a primeira o desejo de ver Lorenza; a segunda, o receio de que ela estivesse cansada; porque na vida nova que acabava de lhe traçar, não havia lugar para tédio; cansada, sim, podia estar, como algumas vezes lhe sucedia, ao passar do sono magnético ao êxtase.

        Ora, ao êxtase sucediam quase sempre crises nervosas, que a despedaçavam, se a intervenção do fluido reparador não estabelecia um equilíbrio satisfatório às diversas funções do organismo.

        Bálsamo fechou a porta e olhou para o canapé onde deixara Lorenza.

        Não estava lá.

        Só a fina manta de lã bordada de flores de ouro, com que ela se cobria, ficara sobre as almofadas, como prova de que permanecera naquela sala, descansando no sofá.

        Bálsamo ficou imóvel com os olhos cravados no sofá. Talvez que Lorenza se tivesse sentido incomodada com o cheiro singular que parecia ter-se espalhado no quarto depois da sua saída; talvez que por um movimento maquinal, tivesse usurpado o uso da vida real, e mudasse de lugar instintivamente.

        A primeira idéia de Bálsamo foi que Lorenza voltara ao laboratório, onde um instante antes estivera com ele.

        Entrou portanto no laboratório. Ao primeiro aspecto, parecia não estar lá ninguém; mas à sombra da fornalha gigantesca, por detrás da tapeçaria oriental, podia facilmente esconder-se uma mulher.

        Levantou portanto a tapeçaria, andou em redor da fornalha, e não encontrou em parte alguma vestígios de Lorenza.

        Faltava ver no quarto, para onde decerto teria ido.

        Para ela aquele quarto era prisão no estado de vigília.

        Correu ao quarto e achou a porta fechada.

        Não provava isso que Lorenza não tivesse voltado para o seu quarto. Nada se opunha, com efeito, a que Lorenza, no seu sono tão lúcido, se tivesse lembrado daquele maquinismo, e, lembrando-se dele, tivesse obedecido às alucinações de um sonho mal varrido do seu espírito.

        Bálsamo carregou na mola.

        O quarto estava tão vazio como o laboratório: nem sequer havia vestígios de que Lorenza tivesse por lá passado.

        Então um pensamento doloroso, um pensamento, que, como o leitor decerto se lembrará, tinha já assaltado o espírito de Bálsamo, repeliu todas as suposições, todas as esperanças do amante feliz.

        Lorenza teria representado um papel; teria fingido que dormia, e teria assim desvanecido todas as desconfianças todo o desassossego, toda a vigilância no espírito do marido, e na primeira ocasião de liberdade que se lhe oferecia, teria fugido novamente, mais certa dos passos que devia dar, instruída como estava por uma primeira, ou antes por uma segunda experiência.

        Bálsamo ficou sobressaltado com aquela idéia e chamou logo Fritz.

        Depois, como na sua impaciência já Fritz lhe tardava, foi ao encontro dele, e achou-o já na escada particular.

        - A senhora? - disse ele.

        - O que aconteceu, mestre? - perguntou Fritz, conhecendo pela agitação de Bálsamo que se passava alguma coisa extraordinária.

        - Viste-la?

        - Não, mestre.

        - Não saiu?

        - De onde?

        - De casa.

        - Ninguém saiu senão a senhora condessa, sobre a qual acabo de fechar a porta.

        Bálsamo tornou a subir como doido. Figurou-se-lhe então que a louca senhora, tão diferente no seu sono do que era na sua vigília, quisera divertir-se com ele um momento; que oculta em algum canto, lia-lhe no coração o grande susto por que ele estava passando e que se divertia em assustá-lo, para depois lhe aparecer.

        Então começou uma busca minuciosa.

        Nem um canto deixou de ser examinado, nem um armário esquecido, nem uma cadeira ficou no seu lugar. Havia naquela busca de Bálsamo alguma coisa do homem embriagado que cambaleia. Já não tinha força senão para abrir os braços e bradar: Lorenza! Lorenza! Esperando que essa adorada criatura viria de repente precipitar-se neles com um grito de alegria.

        Mas só o silêncio, o triste e obstinado silêncio, respondia ao seu pensamento extravagante, ao seu chamar insensato.

        Correr, arredar os móveis dos seus lugares, falar às paredes, chamar Lorenza, olhar sem ver, escutar sem ouvir, palpitar sem viver, estremecer sem pensar, era este o estado em que Bálsamo passou três minutos, isto é, três séculos de agonia.

        Saiu meio louco daquele estado de alucinação, meteu a mão direita em água fria e molhou com ela as fontes; depois, comprimindo uma das mãos com a outra, como para se forçar à imobilidade, afrouxou, pelo poder da vontade, o importuno rumor do bater do sangue no crânio rumor fatal, incessante, monótono, que, quando é movimento silencioso, indica a vida, mas que, quando se torna tumultuoso, significa morte ou loucura.

        - Vamos, raciocinemos - disse ele; - Lorenza já aqui não está, é porque saiu. Sim, é isso, não há que duvidar, saiu, saiu.

        E olhou mais uma vez ainda em volta de si, e mais uma vez a chamou.

        - Saiu! - continuou ele. - Em vão Fritz me diz que não a viu. Ela saiu, saiu!

        “Dois casos se oferecem:

        Ou ele nada viu efectivamente, o que verdadeiramente é possível, porque o homem está sujeito a errar; ou viu, e foi corrompido por Lorenza.

        Corrompido! Fritz!

        Por que não? Em vão a sua fidelidade passada advogava contra semelhante suposição. Se Lorenza, se o amor, se a ciência puderam até semelhante ponto enganar e mentir, por que não enganaria também por sua vez a natureza tão frágil, tão falível de uma criatura humana?

        Oh! Eu saberei tudo, eu saberei tudo! Não me resta ainda a de Taverney?

        Sim, por meio de Andréia, saberei a traição de Fritz; por meio de Andréia, saberei a traição de Lorenza; e desta vez... Oh! Desta vez, como o amor terá sido mentiroso, como a ciência terá sido um erro, como a fidelidade terá sido um laço... Oh! Desta vez, Bálsamo castigará sem piedade, sem reserva, como um homem poderoso que se vinga, pondo de parte a misericórdia e conservando o orgulho.

        Vejamos, não se trata agora senão de sair quanto antes, de nada deixar perceber a Fritz e de correr ao Trianon.”

        E Bálsamo, pegando no chapéu que lhe caíra no chão, correu para a porta.

        Mas de repente parou.

        - Oh! - disse ele - primeiro que tudo... Meu Deus! Pobre velho, esqueci-o! Primeiro que tudo devo ir ver, Althotas. Durante o meu acesso de delírio, durante o meu espasmo de amor monstruoso, abandonei o pobre velho. Fui bem desumano.

        E Bálsamo, com a febre que naquela hora lhe animava todos os movimentos, Bálsamo aproximou-se da mola que fazia descer o alçapão do tecto.

        A tábua desceu logo com rapidez.

        Bálsamo colocou-se sobre ela, e com auxílio dos contrapesos, começou a subir, mas todo entregue ainda à perturbação do seu coração e espírito, e pensando unicamente em Lorenza.

        Apenas chegou ao nível do quarto de Althotas veio a voz do ancião ferir-lhe o ouvido e arrancá-lo à dolorosa meditação.

        Mas com grande admiração de Bálsamo, aquelas palavras não foram de censura, como ele esperava: foi com uma alegria natural e simples que ele o recebeu.

        O discípulo olhou admirado para o mestre.

        O velho estava recostado na cadeira de molas; respirava sofregamente e com delícia um frasco, como se de cada vez sorvesse um dia de vida; os olhos, cheios de um fogo sombrio, mas cuja expressão lhe alegrava o sorriso desabrochado nos lábios, fitava-os importunamente no visitante.

        Bálsamo juntou todas as forças, reuniu todas as idéias para nada deixar perceber da sua perturbação ao mestre, tão-pouco indulgente para com as fraquezas da humanidade.

        Durante aquele instante de sossego, sentiu Bálsamo uma singular opressão pesar-lhe no peito. O ar estava decerto excessivamente viciado; um cheiro pesado, enjoativo, tépido, nauseabundo, o mesmo cheiro que já sentira no pavimento inferior, mas menos activo, impregnava o espaço, e semelhante aos vapores que as lagoas e os pântanos exalam no Outono, ao nascer e ao pôr do Sol, engrossara e embaciara os vidros.

        Naquela atmosfera acre e densa, o coração de Bálsamo fraquejou, a cabeça perturbou-se-lhe, uma vertigem se apoderou dele, e sentiu que iam faltar-lhe ao mesmo tempo a respiração e as forças.

        - Mestre - disse ele, buscando um ponto sólido para segurar-se e procurando dilatar o peito - mestre, não pode viver aqui; falta a respiração.

        - Parece-te isso?

        - Decerto.

        - Entretanto eu respiro perfeitamente! – respondeu Althotas alegremente - e vivo como vês.

        - Mestre, mestre - disse Bálsamo cada vez mais atordoado - repare bem, deixe-me abrir uma janela, parece que sobe do chão um vapor de sangue.

        - De sangue! Ah! Julgas isso? - bradou Althotas soltando uma gargalhada.

        - Oh! Sim, sim, sinto os miasmas que se exalam de um corpo recentemente morto; poderia pesá-los, tão fortes os sinto no meu cérebro e no meu coração.

        - É isso - disse o ancião com o seu sorriso irónico - é isso, já me tinha parecido; tens um coração muito brando e um cérebro muito frágil, Acharat.

        - Mestre - disse Bálsamo, estendendo um dedo para o ancião - mestre, tem sangue nas mãos, há sangue sobre aquela mesa, há sangue por todos os lados, mesmo nos seus olhos, que luzem como duas chamas; o cheiro que aqui se respira, que me causa vertigens, que me sufoca, é cheiro de sangue.

        - Muito bem, e depois? - disse Althotas sossegadamente – é porventura a primeira vez que sentes aqui o cheiro de sangue?

        - Não.

        - Nunca me viste fazer as minhas experiências? Não as tens tu mesmo feito?

        - Mas, sangue humano! - disse Bálsamo passando a mão pela fronte coberta de suor.

        - Ah! Tens o olfacto subtil - disse Althotas. – Pois olha, nunca eu teria julgado que se pudesse distinguir pelo cheiro o sangue de homem do sangue de qualquer outro animal.

        - O sangue de homem! - murmurou Bálsamo.

        E quando, cambaleando, procurava uma cadeira para se suster, viu com horror uma grande bacia de cobre, cujas paredes brilhantes reflectiam a cor vermelha de sangue ainda fresco.

        O enorme vaso estava até meio.

        Bálsamo recuou espavorido.

        - Oh! Sangue! - bradou ele - De onde veio esse sangue?

        Althotas não respondia, mas não perdia com o olhar nenhum dos tormentos, dos desesperos e dos terrores de Bálsamo. Subitamente este soltou um rugido terrível.

        Depois, baixando-se como se caísse sobre uma presa, correu para um canto da casa e apanhou do chão uma fita de seda tecida com prata, que ligava uma comprida trança de cabelos pretos.

        Depois daquele grito agudo, doloroso, supremo, um silêncio mortal reinou um instante no quarto do ancião.

        Bálsamo, levantando aquela fita, examinava com estremecimentos os cabelos que estavam presos por uma extremidade com um alfinete de ouro à fita de seda, ao passo que, cortados do outro lado com igualdade, pareciam uma franja que tivesse sido salpicada por uma onda de sangue, porque alguns pingos vermelhos a orvalhavam.

        À medida que Bálsamo levantava a mão, tornava-se-lhe esta mais trémula. À proporção que cravava mais o olhar sobre a fita enxovalhada, as faces tornavam-se-lhe mais lívidas.

        - Oh! De onde veio isto? - murmurou ele, mas em tom bastante alto para que as suas palavras fossem ouvidas.

        -Isso? - disse Althotas.

        - Sim, isto.

        - Não vês o que é? Uma fita de seda atando uns cabelos.

        - Mas estes cabelos, estes cabelos, em que se molharam?

        - Bem o vês, em sangue.

        - Em que sangue?

        - Com os diabos, no sangue que eu precisava para o meu elixir, no sangue que me recusavas e que, por causa da tua recusa, tive que ir eu mesmo procurar.

        - Mas estes cabelos, esta trança, esta fita onde os foi buscar? Este cabelo não é de uma criança!

        - E quem te diz que foi uma criança que eu matei? - perguntou Althotas sossegadamente.

        - Não precisava do sangue de uma criança para o seu elixir? - bradou Bálsamo. - Vamos, não me disse isso?

        - Ou de uma virgem, Acharat, ou de uma virgem.

        E Althotas estendeu a mão descarnada sobre o braço da poltrona, e pegou num frasco cujo conteúdo saboreou com delícia.

        E depois, no tom mais natural, e com a expressão mais afectuosa, disse:

        - Procedeste muito bem, Acharat, foste prudente e delicado em colocar ali aquela mulher debaixo do tecto do meu gabinete quase ao alcance da minha mão; a humanidade não tem de que se queixar, a lei nada tem que ver nisto. Ah! Ah! Não foste tu que me entregaste a virgem, sem a qual eu ia morrer; não, fui eu que a furtei. Ah! Ah! Eu to agradeço, meu Acharat.

        E aproximou de novo o frasco dos lábios.

        Bálsamo deixou cair a trança de cabelos que segurava; uma luz horrível acabava de o deslumbrar.

        Em frente dele, a mesa do ancião, aquela enorme mesa de mármore, sempre cheia de plantas, de livros, de frascos, estava coberta com um grande pano de damasco branco com flores escuras, sobre a qual a lâmpada de Althotas reflectia a cor vermelha e desenhava formas sinistras, que ainda Bálsamo não notara.

        Bálsamo pegou num dos cantos do pano, e puxou-o violentamente para si.

        Então eriçaram-se-lhe os cabelos, e a boca aberta não pôde deixar explodir o horrível grito sufocado na garganta.

        Debaixo daquela mortalha, estendida sobre aquela mesa, acabava de ver o cadáver de Lorenza, conservando nos lábios uma expressão de sorriso, com o rosto lívido e a cabeça pendida para trás como levada pelo peso dos compridos cabelos.

        Uma grande ferida aberta próximo da clavícula, não deixava sair já uma só gota de sangue.

        As mãos estavam inteiriçadas e os olhos fechados.

        - Sim, sangue de virgem, era o que eu precisava – disse o ancião pegando pela terceira vez no seu frasco.

        - Miserável! - bradou Bálsamo, cujo grito de desespero se exalou por cada um dos seus poros - morre, então, porque havia quatro dias que era a minha amante, o meu amor, a minha mulher! Assassinaste-la inutilmente... Não era virgem!...

        Os olhos de Althotas estremeceram ao ouvir aquelas palavras, como se um choque eléctrico os tivessem feito saltar nas órbitas; as pálpebras dilataram-se-lhe horrivelmente; rangeram-lhe os dentes; o frasco escapou-lhe das mãos e fez-se em mil pedaços, ao passo que ele, estupefacto, aterrado, ferido ao mesmo tempo no coração e no cérebro, se recostava pesadamente na poltrona.

        Quanto a Bálsamo, inclinou-se soluçando sobre o corpo de Lorenza, e perdeu os sentidos beijando-lhe os cabelos ensangüentados.

 

O HOMEM E DEUS

        As horas, as singulares irmãs que vivem de mãos dadas e passam num vôo tão vagaroso para o desgraçado e tão rápido para o homem feliz, desceram silenciosamente, dobrando as suas asas pesadas, sobre aquela casa, cheia de suspiros e de soluços.

        De um lado, a morte; do outro, a agonia.

        No meio, o desespero, doloroso como a agonia, profundo como a morte.

        Bálsamo não proferira uma só palavra mais.

        Depois daquela fulminante revelação, que abatera a alegria de Althotas, Bálsamo não fizera sequer um movimento.

        Quanto ao hediondo ancião, violentamente precipitado na vida comum, como Deus a fez para os homens, parecia-lhe tão estranho aquele novo elemento como o é para a avezinha que, ferida com um grão de chumbo, cai das nuvens dentro de um lago, em cuja superfície se debate, sem conseguir tornar e encher as asas de vento.

        A estupefacção daquele rosto lívido e transtornado revelava a incomensurável extensão do seu desengano.

        Efectivamente, Althotas nem já se dava ao trabalho de pensar, desde que vira desvanecerem-se-lhe como fumo os pensamentos, que se dirigiam a um fim que julgava sólido como uma rocha.

        O desespero triste e silencioso em que ficara submerso tinha alguma coisa de embrutecimento. Para um espírito pouco acostumado a medir o seu, aquele silêncio teria sido talvez um indício de indagação; para Bálsamo, que aliás nem para ele olhava, era a agonia do poder, da razão, da vida.

        Althotas não desfitava os olhos daquele frasco quebrado, imagem das suas esperanças perdidas; dir-se-ia que estava contando aqueles mil pedaços que, espalhando-se, lhe tinham diminuído igual número de dias na sua vida; dir-se-ia que queria sorver com o olhar aquele licor precioso espalhado pelo chão, e que por alguns instantes julgara ser a imortalidade.

        Por vezes também, quando era muito viva a dor daquela desilusão, o ancião dirigia para Bálsamo o olhar moribundo; depois, olhava para o cadáver de Lorenza.

        Parecia-se com os animais, que o caçador acha pela manhã, caídos no laço, detidos pela perna, e a quem atormentam algum tempo com o pé a fim de os atordoar, mas que, se os despedaçam com a faca de mato, ou com a baioneta da espingarda, erguem obliquamente os olhos ensangüentados, cheios de ódio, de vingança e de espanto.

        - É possível - exprimia aquele olhar, tão animado ainda na sua atonia; - é crível que tantas desgraças, que tantos revezes venham sobre mim, da parte de um ente tão ínfimo como este homem, que vejo ali ajoelhado a quatro passos de distância, aos pés de um objecto tão vulgar como aquela mulher morta? Não é uma revolução da natureza, um transtorno da ciência, um cataclismo da razão, que tão grosseiro discípulo zombasse assim de tão sublime mestre? Não é monstruoso, enfim, que o grão de areia tenha travado a roda do carro quebrando-lhe o impulso, soberbo, rápido, omnipotente e imortal?

        Quanto a Bálsamo, quebrado, aniquilado, sem voz, sem movimento, quase sem vida, nenhum pensamento humano lhe pudera ainda penetrar pelos ensangüentados vapores do cérebro.

        Lorenza, a sua Lorenza! Lorenza, a sua mulher, o seu ídolo, aquela criatura duas vezes preciosa a título de anjo e de amante, Lorenza, isto é, o prazer e a glória, o presente e o porvir, a força e a fé; Lorenza, isto é, tudo quanto ele amava, tudo quanto ele desejava, tudo quanto no mundo ambicionava, Lorenza estava para sempre perdida para ele!

        Bálsamo não chorava, não gritava, nem sequer suspirava.

        Mal tinha tempo para admirar que tão espantosa desgraça tivesse caído sobre ele. Parecia-se com aqueles desgraçados a quem a inundação surpreende enquanto estão deitados, no meio das trevas, que sonham que a água os alcançou, que despertam, abrem os olhos e que, vendo acima da cabeça a onda espumante, nem sequer têm tempo de soltar um grito antes de passarem da vida para a morte.

        Bálsamo, durante três horas, julgou-se abismado no mais profundo túmulo; através da sua dor imensa, tomava o que via por um desses sonhos sinistros que visitam os finados da noite eterna e silenciosa do sepulcro.

        Para ele, não havia já Althotas, isto é, não havia mais ódio nem vingança.

        Para ele, não havia já Lorenza, isto é, não havia mais vida nem amor.

        O sono, a noite, o nada.

        Eis aí como se passou o tempo, lúgubre, silencioso, infinito, naquela câmara onde o sangue resfriava depois de ter mandado a sua parte de fecundidade aos átomos que a reclamam.

        De repente, no meio do silêncio e da noite, soou três vezes uma campainha.

        Fritz sabia sem dúvida que o amo estava no gabinete de Althotas, porque foi nesse mesmo gabinete que soou a campainha.

        Mas debalde retiniu três vezes com ruído insistente; o som morria no espaço.

        Bálsamo nem sequer ergueu a cabeça.

        Passados alguns minutos, repetiu-se o mesmo toque sonoro, mas com o mesmo resultado que da primeira vez.

        Depois, com determinado intervalo, mas menor do que o que seguira ao primeiro toque, a campainha soou pela terceira vez no gabinete irritada, com um ruído múltiplo de sons agudos e impacientes.

        Bálsamo, sem estremecer, ergueu lentamente a fronte e interrogou o espaço com a fria solenidade de um morto que saísse do túmulo.

        Assim deve ter olhado Lázaro quando a voz de Cristo o chamou três vezes.

        O som da campainha continuou a ouvir-se.

        A insistência, sempre crescente, despertou por fim a inteligência no amante de Lorenza.

        Largou a mão do cadáver, que segurava entre as suas.

        Todo o calor lhe fugira do corpo, sem que tivesse passado ao de Lorenza.

        - Grande novidade ou grande perigo - disse consigo. - Seja antes um grande perigo!...

        E levantou-se.

        - Mas por que hei-de eu acudir a essa chamada? – prosseguiu ele sem aperceber-se do lúgubre efeito das suas palavras debaixo daquela abóbada sombria, naquele quarto fúnebre; - pode de ora em diante alguma coisa interessar-me ou assustar-me neste mundo?

        A campainha então, como para lhe responder, bateu tão brutalmente com o badalo de ferro nos seus flancos de bronze, que o badalo soltou-se e caiu sobre uma retorta de vidro, que se despedaçou espalhando-se-lhe os fragmentos pelo chão.

        Bálsamo não resistiu mais tempo, mesmo porque era da maior importância que ninguém, nem sequer Fritz, o viesse buscar onde ele estava.

        Caminhou portanto com passo firme para o alçapão, soltou a mola e desceu assim lentamente para o quarto das peles.

        Ao passar por pé do sofá roçou pela manta que caíra dos ombros de Lorenza, quando o desapiedado ancião, impassível como a morte, a levara nos braços.

        Aquele contacto, mais animado que a própria Lorenza, imprimiu em Bálsamo doloroso estremecimento.

        Pegou na manta e beijou-a, abafando com ela os soluços.

        Depois foi abrir a porta da escada.

        Nos degraus mais altos, Fritz pálido, arquejante, segurando uma luz com uma das mãos, e com a outra o cordão da campainha, que no seu terror e impaciência, continuava a puxar convulsivamente, Fritz, dizemos, esperava pelo amo.

        Vendo-o soltar um grito de satisfação, logo em seguida porém soltou um segundo grito de admiração e terror.

        Mas Bálsamo, como ignorava a causa daquele duplo grito, só respondeu por uma interrogação muda.

        Fritz não disse palavra, mas aventurou-se, ele geralmente tão respeitoso, a pegar na mão do amo e a levá-lo ao grande espelho de Veneza, que guarnecia a parte superior da chaminé por onde se passava para o quarto de Lorenza.

        -Oh! Olhe, excelência - lhe disse ele, indicando-lhe no espelho o próprio reflexo.

        Bálsamo estremeceu.

        Depois um sorriso, um desses sorrisos que são filhos de uma dor infinita e incurável, um sorriso mortal lhe assomou passageiramente aos lábios.

        Efectivamente ele tinha percebido logo a causa do espanto de Fritz.

        Numa hora envelhecera Bálsamo vinte anos; tinha-lhe desaparecido o brilho dos olhos, tinha secado o sangue nas veias, via-se uma expressão de entorpecimento e de ininteligência espalhada em todas as suas feições, uma espuma sangrenta franjara-lhe os lábios, e uma grande nódoa de sangue manchava a cambraia finíssima da camisa.

        Bálsamo olhou para si um instante sem poder reconhecer-se, depois mergulhou resolutamente os olhos nos da singular personagem que o espelho reflectia.

        - Sim, Fritz, sim - disse ele - tens razão.

        Depois, notando o modo assaz inquieto do seu fiel servidor, perguntou-lhe:

        - Mas por que me chamas tu?

        - Oh! Mestre, por causa deles.

        - Eles?

        - Sim.

        - Eles! Quem?

        - Excelência - murmurou Fritz chegando a boca ao ouvido de Bálsamo - eles, os cinco mestres.

        Bálsamo estremeceu.

        - Todos? - perguntou ele.

        - Sim, todos.

        - E estão cá?

        - Estão.

        - Sós?

        - Não, cada um traz consigo um criado bem armado, que ficou no pátio.

        - Vieram juntos?

        - Juntos, sim, mestre; e estão impacientes; é o motivo porque toquei tão forte e tão repetidas vezes.

        Bálsamo, sem cuidar sequer de esconder sob uma prega dos bofes de renda a nódoa de sangue, sem procurar compor a desordem do vestuário, começou a descer a escada, depois de ter perguntado a Fritz se os seus hóspedes estavam instalados na sala ou no grande gabinete.

        - Na sala, senhor - respondeu Fritz, seguindo o amo.

        Depois, no fim da escada, decidindo-se a dirigir a palavra a Bálsamo, perguntou:

        - V. Exª. tem algumas ordens a dar-me?

        - Nenhumas, Fritz.

        - Senhor... - continuou Fritz balbuciando.

        - O que é? - perguntou Bálsamo com infinita doçura.

        - V. Exª. vai para lá sem armas?

        - Vou, sim.

        - Nem leva a sua espada? - insistiu Fritz.

        - E por que queres que eu leve a espada, Fritz?

        - Não sei - disse o fiel servidor - é porque eu julgava, pensava, tinha medo...

        - Está bom, retire-se, Fritz.

        Fritz deu alguns passos para obedecer e voltou.

        - Não ouviu? - perguntou Bálsamo.

        - Senhor, eu desejava dizer a V. Exª. que as pistolas de dois canos estão no cofre de ébano, em cima da mesa dourada.

        - Digo-lhe que se retire, Fritz - respondeu Bálsamo.

        E entrou na sala.

       

        O JULGAMENTO

        Fritz tinha razão, os hóspedes de Bálsamo não tinham entrado na Rua de Saint-Claude com aparências pacíficas nem exterior benévolo.

        Cinco homens a cavalo escoltavam a carruagem em que os amos tinham vindo; cinco homens, de aspecto altivo e sombrio, armados de ponto em branco, tinham fechado a porta da rua, e guardavam-na parecendo esperar pelos amos.

        Um cocheiro e dois lacaios no assento da carruagem traziam debaixo das capas facas de mato e clavinas. Era mais para uma expedição do que para uma visita, que toda aquela gente tinha vindo à Rua de Saint-Claude.

        Por isso aquela invasão nocturna da gente terrível que Fritz reconhecera, aquela tomada de assalto do palácio havia logo de princípio imposto ao alemão indizível terror. Tinha tentado negar a todos a entrada, quando pelo postigo vira a escolta e adivinhara as armas que traziam; mas os sinais poderosos, irresistível testemunho do direito dos que chegavam, não lhe deixaram prosseguir na recusa. Apenas senhores da praça, os estranhos, como hábeis capitães, tinham tomado posições em todas as saídas do edifício, sem se darem ao incómodo de disfarçar as malévolas intenções.

        Os supostos criados no pátio e nos corredores, os supostos amos na sala, nada pressagiavam de bom a Fritz: eis o motivo porque ele tinha tocado desesperadamente a ponto de quebrar a campainha.

        Bálsamo, sem se admirar, sem preparar-se, entrou na sala, que Fritz alumiara como convinha para receber qualquer visita.

        Viu os cinco visitantes sentados em cadeiras, nenhum dos quais se levantou quando ele apareceu.

        Ele, o dono da casa, tendo-os visto a todos, fez uma cortesia.

        Foi só então que se levantaram e lhe corresponderam com gravidade.

        Sentou-se noutra cadeira em frente deles sem notar ou sem parecer notar a estranha disposição em que estavam colocados. Com efeito, as cinco poltronas formavam um hemiciclo semelhante aos dos tribunais, com um presidente dominando dois assessores, e a poltrona em que Bálsamo estava sentado, em frente do presidente, ocupava o lugar que nos concílios e pretórios dão ao réu.

        Bálsamo não foi o primeiro a tomar a palavra, como teria feito em qualquer outra circunstância; olhava sem ver bem, por causa da dolorosa sonolência que lhe ficara depois do choque.

        - Compreendeste-nos, ao que parece, irmão - disse o presidente, ou antes o que ocupava a poltrona do centro. Entretanto tardaste muito em vir, e estávamos já deliberando sobre se te devíamos mandar procurar.

        - Não compreendo o que dizeis - respondeu Bálsamo simplesmente.

        - Não é o que eu tinha julgado, vendo que tomavas diante de nós o lugar e atitude de réu.

        - De réu? - balbuciou Bálsamo vagamente.

        E encolhendo os ombros, disse:

        - Não percebo.

        - Vamos fazer-te perceber, e não será difícil, se devo dar crédito à tua fronte pálida, aos olhos amortecidos, à voz trémula... Parece que não ouves.

        - Ouço, sim - respondeu Bálsamo sacudindo a cabeça como para afastar as idéias que o preocupavam.

        - Estás lembrado, irmão - prosseguiu o presidente - que, nas suas últimas comunicações, o conselho superior te avisou de uma traição que se meditava por parte de um dos grandes apoios da ordem?

        - Talvez... Sim... Não o nego.

        - Estás respondendo de um modo próprio de uma consciência tumultuosa e perturbada; mas... Mas torna a ti... Não te deixes abater; responde com clareza e precisão, que uma posição terrível to ordena; responde-me com essa certeza com que nos podes convencer, porque nem ódios, nem prevenções trazemos; somos a lei, a qual só fala depois do juiz ouvir.

        Bálsamo não deu resposta.

        - Eu to repito, Bálsamo, e o meu aviso, uma vez dado, será como o aviso que se dão os combatentes antes de se atacarem um ao outro: vou atacar-te com armas leais, mas poderosas; defende-te!

        Os assistentes, vendo a fleuma e imobilidade de Bálsamo, olharam uns para os outros, não sem admiração; depois olharam para o presidente.

        - Ouviste-me, não é verdade, Bálsamo? - repetiu este último.

        Bálsamo fez um sinal afirmativo com a cabeça.

        - Portanto, como um irmão cheio de lealdade, de benevolência, adverti o teu espírito, e fiz-te conhecer o fim do meu interrogatório. Estás prevenido; põe-te em guarda, eu começo. Depois daquela advertência – prosseguiu o presidente - a associação delegou para Paris cinco dos seus membros para velarem no proceder daquele que nos denunciavam como traidor.

        “Ora, as nossas revelações não estão sujeitas a erro; sabes bem que as recebemos geralmente de agentes fiéis, entre os homens, ou de indícios certos, entre as coisas, ou de sintomas e sinais infalíveis entre as misteriosas combinações que a natureza só a nós por enquanto tem revelado. Ora, um de nós teve uma visão a teu respeito, e sabendo que nunca se tem enganado, pusemo-nos em guarda e vigiámos-te.”

        Bálsamo ouviu tudo sem dar as mais leves manifestações de impaciência, e nem sequer de inteligência.

        O presidente prosseguiu:

        - Não era fácil vigiar um homem da sua natureza; entras em toda a parte, a tua missão é de te estabeleceres onde os nossos inimigos tenham uma casa ou um poder qualquer. Tens à tua disposição todos os teus recursos naturais, que são imensos, e os que te fornece a associação para fazer triunfar a sua causa. Muito tempo vacilamos na dúvida, ao ver que eras visitado por inimigos tais como Richelieu, du Barry, Rohan. Na última sessão da Rua Platrière houve um discurso cheio de hábeis paradoxos, que nos deixaram crer que lisonjeavas e mantinhas relações com essa raça incorrigível de que é mister purgar a terra. Respeitámos algum tempo os mistérios do teu proceder, esperando feliz resultado; afinal chegou a desilusão.

        Bálsamo conservou tanto a mesma imobilidade, a mesma impassibilidade, que o presidente se deixou vencer pela impaciência.

        - Há três dias - disse - foram expedidas cinco ordens de prisão. Tinham sido pedidas ao rei pelo senhor de Sartines; mal se acharam assinadas, foram cheias e apresentadas no mesmo dia a cinco dos nossos principais agentes, irmãos fidelíssimos, cheios de lealdade, que residem em Paris. Todos cinco foram presos e levados, dois para a Bastilha, onde estão fechados nas mais horríveis masmorras; dois para Vincennes, onde se conservam no segredo, e um para Bicêtre. Conheces esta particularidade?

        - Não - disse Bálsamo.

        - É singularíssimo, vistas as relações que sabemos teres com os poderosos do reino. Mas o que é ainda mais singular, é o seguinte.

        Bálsamo escutou.

        - O senhor de Sartines, para fazer prender aqueles cinco amigos fiéis, devia ter lido a única nota que legivelmente contém os cinco nomes das vítimas. Essa nota foi-te dirigida pelo conselho supremo em 1769, e tu mesmo deves ter recebido os novos membros, para lhes dar imediatamente a posição que o conselho supremo lhes designava.

        Bálsamo mostrou por um sinal, que de nada se lembrava.

        - Vou ajudar a tua memória. As cinco pessoas de que se trata eram designadas por cinco caracteres árabes, e os caracteres correspondiam, na nota a ti comunicada, aos nomes e cifras dos novos irmãos.

        - Seja - disse Bálsamo.

        - Reconheces a verdade disto?

        - Como quiserem.

        O presidente olhou para os seus assessores para que tomassem nota desta resposta.

        - Muito bem - continuou ele - nessa mesma nota, a única, ouves bem, que poderia comprometer os irmãos, estava outro nome, recordas-te?

        Bálsamo não respondeu.

        - O nome de que te falo era este: Conde de Fénix.

        - Estou de acordo - disse Bálsamo.

        - Então, por que motivo, se os cinco nomes dos irmãos figuravam nas cinco ordens de prisão, foi o teu respeitado, poupado, e é ouvido com agrado na corte ou nas antecâmaras dos ministros? Se os nossos irmãos mereciam a prisão, também tu a merecias: que tens para responder?

        - Nada.

        - Ah! Adivinho a tua negativa; podes dizer que a polícia, por meios que lhe são próprios, soube os nomes dos irmãos mais obscuros, mas que teve de respeitar o teu, nome de embaixador, nome de homem poderoso; dirás que nem sequer suspeitou esse nome.

        - Não digo coisa nenhuma.

        - O teu orgulho sobrevive à tua honra: esses nomes, não podia a polícia sabê-los senão lendo a nota confidencial que pelo conselho supremo te foi dirigida, e vou dizer-te como a polícia a leu... Tinha-la fechada num cofre. É isto verdade?

        - É verdade.

        - Um dia saiu de tua casa uma mulher levando debaixo do braço esse cofre. Foi vista pelos nossos agentes de vigilância, que a seguiram até ao palácio do chefe da polícia, no Bairro de Saint-Germain. Podíamos evitar o mal na sua origem, porque, tirando o cofre e agarrando a mulher tudo se tornava tranqüilo e seguro para nós. Mas obedecemos aos artigos da constituição, que mandam respeitar os meios ocultos pelos quais certos associados entendem servir a causa, ainda que esses meios tenham aparência de traição ou de imprudência.

        Bálsamo pareceu aprovar esta asserção, mas por um gesto tão pouco pronunciado, que, se não fosse a imobilidade que conservava, o gesto teria parecido insensível.

        - Aquela mulher chegou até ao chefe da polícia – disse o presidente; - aquela mulher entregou o cofre, e tudo se descobriu. Não é verdade?

        - Perfeitamente verdade.

        O presidente ergueu-se.

        - Quem era aquela mulher? - bradou ele; - formosa, apaixonada, tua no corpo e na alma, ternamente amada por ti; tão espirituosa, tão desembaraçada, tão ágil como um dos anjos das trevas que ajudam o homem a vencer o mal; Lorenza Feliciani é o seu nome, Bálsamo!

        Bálsamo soltou um rugido de desespero.

        - Estás convencido? - disse o presidente.

        - Conclui! - disse Bálsamo.

        - Ainda não acabei. Um quarto de hora depois da sua entrada em casa do chefe da polícia, entraste tu também. Ela tinha semeado a traição, tu ias colher a recompensa. Ela tomara sobre si, como obediente criada, a perpetração do crime; tu vinhas elegantemente dar uma última demão à tua obra infame. Lorenza saiu só. Tu renegaste-la sem dúvida, e não quiseste comprometer-te acompanhando-a; tu saíste triunfante, com a senhora du Barry, ali chamada para ouvir da tua boca os indícios que querias fazer-lhe pagar... Entraste para a carruagem daquela prostituta, como o barqueiro para o batel com a pecadora Maria Egipcíaca, deixaste em casa do senhor de Sartines as notas que nos comprometiam, mas tiveste todo o cuidado de trazer o cofre que te podia comprometer para connosco. Felizmente que vimos tudo! A luz de Deus não nos falta nas boas ocasiões...

        Bálsamo inclinou-se sem dizer palavra.

        - Agora, posso concluir - acrescentou o presidente. - Dois réus foram denunciados à ordem: uma mulher, tua cúmplice, que, talvez inocentemente, mas de facto, prejudicou a causa revelando um dos nossos segredos; depois, tu, tu o Mestre, tu o Grão-Copta, tu, o raio luminoso, que tiveste a cobardia de te abrigares à sombra daquela mulher, para que menos claramente se pudesse ver a tua traição.

        Bálsamo ergueu lentamente a cabeça, e cravou nos comissários um olhar que cintilava com todo o fogo que no peito se lhe ateara desde o começo do interrogatório.

        - Por que acusais essa mulher? - disse ele.

        - Ah! Bem sabemos que tentarás defendê-la; bem sabemos que a amas com idolatria, que a preferes a tudo. Sabemos que ela é o teu tesouro de ciência, de felicidade e de fortuna; sabemos que ela é para ti um instrumento mais precioso que todos.

        - Sabeis isso? - disse Bálsamo.

        - Sim, sabemo-lo, e será muito mais por ela que te castigaremos do que por ti.

        - Acabai...

        O presidente levantou-se.

        - Aqui está a sentença: “José Bálsamo é um traidor; faltou aos seus juramentos; mas a sua ciência é imensa, e é útil à ordem. Bálsamo deve viver pela causa que atraiçoou; pertence aos seus irmãos, apesar de os ter renegado.”

        - Ah! Ah! - disse Bálsamo sombrio e feroz.

        - Uma prisão perpétua protegerá a associação contra as suas novas perfídias, ao mesmo tempo que permitirá aos irmãos colherem de Bálsamo a utilidade que a associação tem direito a esperar de cada um dos seus membros. Quanto a Lorenza Feliciani, um castigo horrível...

        - Esperai - disse Bálsamo com o maior sossego na voz - esqueceis que ainda me não defendi; o acusado deve ser ouvido na sua justificação... Uma palavra me bastará, um só documento; esperai-me um minuto, vou buscar a prova que prometo.

        Os comissários consultaram-se entre si.

        - Oh! Receais que me mate? - disse Bálsamo com amargo sorriso. - Se eu quisesse já o tinha feito. Bastava-me abrir este anel para vos matar de repente a todos cinco; receais que eu fuja, mandai-me acompanhar, se for da vossa vontade.

        - Vai - disse o presidente.

        Bálsamo desapareceu por espaço de um minuto; depois ouviram-no descer pesadamente a escada e viram-no entrar.

        Trazia às costas o cadáver inteiriçado, frio e lívido de Lorenza, da qual as mãos pendiam para o chão.

        - Esta mulher que eu adorava, esta mulher que era o meu tesouro, o meu bem único, a minha vida, esta mulher que nos atraiçoou, como dizeis - bradou ele - ei-la aqui, levai-a! Deus não esperou por vós para a punir, meus senhores - acrescentou ele.

        E, por um movimento rápido como um raio, fez escorregar sobre os braços o cadáver, que rolou sobre o tapete até aos pés dos juízes, a quem os frios cabelos e as mãos inertes da morta foram tocar no seu profundo horror, enquanto à claridade das lâmpadas se via uma ferida de um vermelho sinistro e profundo abrir-se-lhe no seio alvo como o de um cisne.

        - Pronunciai agora a sentença - articulou Bálsamo.

        Os juízes, espavoridos, soltaram um terrível grito, e assaltados por vertiginoso terror, saíram em inexplicável confusão. Pouco depois, ouviu-se relincharem os cavalos no pátio e moverem-se; a porta rangeu nos gonzos, e depois o silêncio solene, voltou a reinar junto da morte e do desespero.

 

O HOMEM E DEUS

        Enquanto a terrível cena que acabámos de contar se passava entre Bálsamo e os cinco mestres, nada aparentemente mudara em todos os mais pontos da casa; o ancião vira Bálsamo entrar no seu laboratório e levar o cadáver de Lorenza, e aquela nova demonstração chamara-o ao sentimento de quanto em redor dele se passava.

        Vendo Bálsamo carregar com o corpo às costas e descer aos pavimentos inferiores, julgou ser aquele o último, o eterno adeus do homem, cujo coração despedaçara, e receou um abandono que, a ele, a ele sobretudo, que fizera quanto podia para não morrer, lhe aumentava os horrores da morte.

        Ignorando o fim com que Bálsamo se afastara, não sabendo onde fora, começou a chamar com todas as suas forças:

        - Acharat! Acharat!

        Como era o nome de infância, esperava que fosse esse o que maior influência tivesse sobre aquele homem.

        Entretanto Bálsamo descia sempre; logo que chegou a baixo nem pensou em fazer subir novamente o alçapão e desapareceu pelos corredores.

        - Ah! - bradou Althotas; - aí está o que é o homem, animal cego e ingrato; volta, Acharat, volta; ah! Preferes o ridículo objecto chamado mulher à perfeição da humanidade que eu represento; preferes o fragmento da vida à imortalidade!

        “Mas não - bradou ele depois de um instante - não, o celerado enganou o seu mestre, zombou da minha confiança como um vil salteador; receava ver-me viver, eu que tanto o excedo em ciência; quis herdar a obra laboriosa que tenho quase levado a cabo, e armou-me um laço, a mim, que sou seu mestre, o seu benfeitor. Oh! Acharat!...”

        E a pouco e pouco a cólera do ancião crescia, as faces adquiriam uma cor febril; nos olhos apenas abertos, reanimava-se o sombrio raiar daquelas luzes fosforescentes que as crianças sacrílegas põem nas órbitas de uma caveira.

        Então bradou:

        - Volta, Acharat, volta; mas cautela: não ignoras que sei conjurações que evocam o fogo, que suscitam os espíritos sobrenaturais; evoquei Satanás, aquele a quem os magos nomeavam Fegor, nas montanhas de Gad, e Satanás apareceu-me; conversei com os sete anjos, ministros da ira do Senhor, sobre aquela mesma montanha onde Moisés recebeu as tábuas da lei; pelo simples acto de minha vontade, acendi a grande trípode de sete chamas que Trajano arrebatou aos judeus: toma cuidado, Acharat, toma cuidado!

        Mas ninguém lhe respondia.

        E perturbando-se-lhe cada vez mais o espírito, prosseguiu com voz sufocada:

        - Não vês tu, desgraçado, que a morte me vai roubar como se eu fosse uma criatura vulgar? Ouve, podes voltar, Acharat; não te farei mal, volta; renuncio ao fogo, nada tens que recear dos espíritos malignos, nada tens que recear dos sete anjos vingadores; renuncio à vingança, e contudo poderia assombrar-te com tal terror, que te tornaria idiota e frio como o mármore, porque sei fazer parar a circulação do sangue, Acharat; volta pois, que não te farei mal nenhum; pelo contrário, posso-te fazer tanto bem... Acharat, em vez de me abandonar, vela sobre a minha vida, e todos os meus tesouros, todos os meus segredos serão teus; faz-me viver, Acharat, faz-me viver para ensinar-te tudo quanto sei; vê!... Vê!...

        E com os olhos e a mão trémula apontava para os milhões de objectos, de papéis e rolos espalhados naquele casarão.

        Depois calava-se, para consultar as forças, que iam decrescendo cada vez mais.

        - Ah! Tu não voltas - continuou ele; - ah! Julgas que hei-de morrer assim? Julgas que tudo te pertencerá por semelhante assassínio?... Porque és tu, só tu, quem me mata! Insensato, ainda que soubesses ler os manuscritos que só os meus olhos puderam decifrar, ainda que por uma vida, duas ou três vezes centenária, o espírito te desse a minha ciência, o uso enfim de todos estes materiais por mim reunidos, nem assim, não, cem vezes não, tu não herdarias de mim, Acharat! Acharat, volta, volta um instante, quando não seja mais que para assistires à ruína de toda esta casa, quando não fosse mais que para contemplar o belo e grandioso espectáculo que te preparo! Acharat! Acharat! Acharat!

        Ninguém lhe respondia, porque, durante aquele tempo, Bálsamo respondia à acusação dos mestres mostrando-lhes o corpo de Lorenza assassinada; e os gritos do ancião abandonado tornavam-se cada vez mais agudos, e o desespero dobrava-lhe as forças, e os gritos roucos abismando-se pelos corredores, iam levar ao longe o terror, como os rugidos do tigre que rompe a corrente ou quebra as grades da jaula, e se vê livre.

        - Ah! Tu não voltas! - bradava Althotas; - ah! Tu desprezas-me! Ah! Contas com a minha fraqueza! Pois bem, vais ver: fogo! Fogo! Fogo!

        Articulou estes gritos com raiva tal, que Bálsamo vendo-se livre dos visitantes aterrados, ouviu-os no fundo da sua dor, levantou novamente nos braços o corpo de Lorenza, subiu a escada, pôs o cadáver sobre o sofá, onde duas horas antes descansara no sono, e colocando-se na tábua movediça, apareceu de repente aos olhos de Althotas.

        - Ah afinal! - bradou o ancião louco de alegria – tens medo! Viste que eu podia vingar-me, vieste e fizeste bem em vir, porque um momento mais que passasse, punha fogo a esta casa.

        Bálsamo olhou para ele encolhendo os ombros, mas sem se dignar responder uma única palavra.

        - Tenho sede - bradou Althotas; - tenho sede, dá-me de beber, Acharat.

        Bálsamo não respondeu, nem deu um passo sequer; olhava para o moribundo como se nada quisesse perder da sua agonia.

        - Ouves-me? - bradou Althotas - ouves-me?

        O mesmo silêncio, a mesma imobilidade continuou da parte do triste espectador.

        - Ouves-me, Acharat? - vociferou o ancião rasgando a garganta para dar passagem à última irrupção da sua cólera; - a minha água, dá-me a minha água!

        O rosto de Althotas decompunha-se rapidamente.

        Não tinha já brilho nos olhos, em que apenas raiavam por espaços alguns clarões sinistros e infernais; não havia já sangue sob a pele, acção no corpo, hálito na boca; os braços compridos e musculosos, em que arrebatara Lorenza como uma criança, aqueles longos braços erguiam-se, mas inertes e flutuantes como as membranas do pólipo; a raiva gastara as poucas forças que o desespero despertara um instante nele.

        - Ah! – disse - ah! Achas que não morro tão depressa! Ah! Queres matar-me à sede! Ah! Estás cobiçando com os olhos os meus manuscritos, os meus tesouros! Ah! Julgas já possuí-los! Pois bem, Acharat, espera aí! Espera!

        E Althotas, fazendo um esforço supremo, tirou debaixo das almofadas da sua poltrona um frasco que destapou. Ao contacto do ar, uma chama líquida saiu do recipiente de vidro, e Althotas, semelhante a uma criatura mágica, sacudiu essa chama em volta de si.

        No mesmo instante, os manuscritos empilhados em torno da poltrona do ancião, os livros espalhados pela casa, os rolos de papel com tanto trabalho arrancados das pirâmides de Keops e das ruínas Herculanum incendiaram-se com a rapidez da pólvora; uma chama imensa se estendeu pelo chão de mármore, e ofereceu aos olhos de Bálsamo alguma coisa de semelhante a um desses círculos chamejantes do Inferno, de que fala Dante.

        Althotas esperava certamente que Bálsamo fosse precipitar-se no meio do fogo para salvar aquela primeira herança, que o ancião destruía consigo; mas enganava-se; Bálsamo permaneceu imóvel, isolando-se sobre o alçapão móvel, de modo que o fogo não lhe pudesse chegar.

        As chamas cercavam Althotas, mas em vez de o aterrarem, dir-se-ia que o ancião se achava no seu elemento, e que o fogo, semelhante ao que se vê na Salamandra esculpida nos nossos antigos castelos, acariciava-o em vez de o queimar.

        Bálsamo continuava a olhar para ele; a chama ia chegando ao madeiramento, envolvia completamente o ancião, rastejava ao pé da poltrona em que ele estava sentado, e caso estranho, já lhe começava a devorar o corpo, e ele parecia não o sentir.

        Pelo contrário, com o contacto desse fogo, que parecia purificador, os músculos do moribundo distenderam-se gradualmente, e uma serenidade desconhecida lhe invadiu, como se fosse uma máscara, todas as feições do rosto. Isolado do corpo nessa hora derradeira, o espírito olvidava a matéria, e certo que nada tinha a esperar, dirigiu-se energicamente às esferas superiores para onde o fogo parecia arrebatá-lo.

        Desde esse momento os olhos de Althotas, que pareciam achar de novo a vida com o primeiro reflexo da chama, tomaram um ponto de vista fixo, perdido, que não era o Céu nem a Terra, mas que parecia querer penetrar o horizonte, resignado e sossegado, analisando toda a sensação, escutando toda a dor; como uma última voz da Terra, o velho mago pronunciou surdamente as suas despedidas ao poder, à vida, à esperança.

        - Vamos, vamos - disse ele - morro sem saudades; possuí tudo sobre a Terra; conheci tudo; tudo pude praticar; ia quase alcançando a imortalidade.

        Bálsamo deixou ouvir uma gargalhada, cujo som sinistro atraiu a atenção do velho.

        Então Althotas, lançando-lhe por entre as chamas, que lhe formavam como um véu, um olhar cheio de feroz majestade, disse:

        - Sim, tens razão, uma coisa há que eu tinha esquecido... É Deus.

        E, como se esta palavra tão poderosa lhe tivesse desarreigado a alma, Althotas deixou-se cair encostado na poltrona; acabava de dar a Deus o último suspiro que esperara roubar-lhe.

        Bálsamo suspirou; e sem tentar subtrair coisa alguma da preciosa fogueira sobre a qual este novo Zoroastro se deitara para morrer, desceu novamente para junto do cadáver de Lorenza e soltou a mola do alçapão que foi adaptar-se ao tecto, escondendo a seus olhos a fornalha imensa que fervia semelhante à cratera de um vulcão.

        Durante a noite toda, o fogo ardeu acima da cabeça de Bálsamo, com um rumor semelhante ao da procela, sem que Bálsamo fizesse coisa alguma para apagá-lo ou fugir-lhe, insensível como estava a todo o perigo junto do corpo insensível de Lorenza; mas, contra o que ele esperava, depois de haver devorado tudo, depois de ter descoberto a abóbada de tijolo cujos preciosos ornamentos aniquilara, o fogo apagou-se por si, e Bálsamo ouviu-lhe os últimos rugidos, que semelhantes aos de Althotas, degeneravam em queixas e morriam em suspiros.

 

VOLTAMOS À TERRA

        O Sr. Duque de Richelieu estava no seu quarto do palácio que habitava em Versalhes, tomando o seu chocolate de baunilha em companhia do Sr. Rafté, que lhe tomava contas.

        O duque, muito ocupado com o próprio rosto, que via num espelho fronteiro, prestava pouquíssima atenção aos cálculos mais ou menos exactos do seu secretário.

        De repente certo ranger de sapatos na antecâmara, anunciou uma visita, e o duque bebeu rapidamente o resto do chocolate, olhando desassossegado para o lado da porta.

        Havia horas em que o senhor de Richelieu, semelhante às velhas casquilhas, não gostava de receber toda a qualidade de gente.

        O criado anunciou o senhor de Taverney.

        O duque ia decerto negar-se ou transferir para outro dia ou diversa hora, pelo menos, a visita do amigo; mas logo que a porta se abriu, o petulante ancião entrou no quarto, estendeu, de passagem, a ponta dos dedos ao marechal, e foi apressadamente atirar consigo para uma vasta poltrona, que gemeu, com o choque, que não com o peso.

        Richelieu viu passar o seu amigo, semelhante a um desses homens fantásticos, em cuja existência Hoffmann nos fez crer depois. Ouviu o estalar da poltrona, ouviu um enorme suspiro, e voltando-se para o seu visitante, disse:

        - Ó barão, o que há de novo? Pareces-me triste como a morte.

        - Triste - disse Taverney - triste?

        - Com os diabos! Parece-me que não é um suspiro de satisfação que acabas de soltar.

        O barão olhou para o marechal com um modo que queria dizer que enquanto Rafté estivesse ali, não daria a explicação do suspiro.

        Rafté compreendeu, sem sequer se dar ao trabalho de voltar-se, por que também ele, seguindo nisso o exemplo do amo, via às vezes nos espelhos.

        Tendo percebido, retirou-se discretamente.

        O barão seguiu-o com a vista, e assim que a porta se fechou sobre ele, disse:

        - Não digas triste, duque, diz antes inquieto, mortalmente inquieto.

        - Isso é certo?

        - Se te parece, finge-te admirado! Vai para um mês que me embalas com palavras vagas como estas: não vi el-rei; ou então: el-rei não me viu; ou: el-rei mostra-me mau modo. Com os diabos! Duque, não é assim que se responde a um amigo velho. Olha que um mês é a eternidade!

        Richelieu encolheu os ombros, e redargüiu:

        - Que diabo queres tu que te diga, barão?

        - A verdade.

        - Alma do diabo! Tenho-te dito a verdade, a verdade pura, e repetir-ta-ei gritando aos teus ouvidos eternamente; com a diferença que, não lhe dás crédito, nada mais.

        - Como! Tu, um duque e par, um marechal de França, um gentil-homem da câmara, queres fazer-me acreditar que não tens ocasião de estar com el-rei, tu que todas as manhãs lhe assistes ao levantar; ora adeus!

        - Já to disse e repito-o, não é crível, mas é verdade; há três semanas que tenho ido constantemente ao levantar de el-rei, eu duque e par, eu marechal de França, eu gentil-homem da câmara!

        - E el-rei não te fala - interrompeu Taverney - e tu não falas a el-rei; e queres fazer-me engolir semelhante patranha?

        - Ora, meu caro barão, tu estás-te tornando muito maçador, querido amigo; estás-me desmentindo, como se cada um de nós tivesse quarenta anos de menos e a estocada firme.

        - Se isso é de fazer desesperar, duque!

        - Ah! Isso agora é outro caso; desesperas-te, meu caro? Pois a mim sucede-me o mesmo.

        - Também estás desesperado?

        - E não me falta de quê. Desde aquele dia, que el-rei não tornou a olhar para mim; Sua Majestade tem-me constantemente voltado as costas; cada vez que me pareceu dever sorrir-lhe agradavelmente, el-rei correspondeu-me com uma visagem horrenda; enfim, estou farto de ir dar-me em risota a Versalhes. Vamos, o que pretendes tu que eu faça neste caso?

        Taverney roía cruelmente as unhas durante a réplica do marechal.

        - Não percebo nada - soltou afinal.

        - Nem eu, barão.

        - Realmente, parece que el-rei se diverte com a tua inquietação, porque enfim...

        - Sim, é o que eu digo comigo mesmo, barão. Enfim...

        - Vejamos, duque, trata-se de sairmos deste embaraço; trata-se de tentar alguma hábil manobra, pela qual tudo se esclareça.

        - Barão, barão - atalhou Richelieu - é perigoso provocar as explicações dos reis.

        - Parece-te isso?

        - Parece, sim. Queres que te diga?...

        - Fala.

        - Pois bem! Desconfio de alguma coisa.

        - E de quê? - perguntou orgulhosamente o barão.

        - Ah! Agora enfadas-te tu.

        - Se te parece que não haja de quê!...

        - Então, não falemos mais nisso.

        - Pelo contrário, falemos, mas explica-te.

        - És um endemoninhado com as tuas explicações; isso é monomania, homem! Toma cuidado contigo.

        - Tens graça, duque! Vês todos os nossos planos gorados, vês uma inexplicável estagnação na marcha dos meus negócios, e dás-me de conselho que espere!

        - Que estagnação, vamos a saber?

        - Primeiro vê isto.

        - Uma carta?

        - Sim, de meu filho.

        - Ah! O coronel.

        - Belo coronel, não há dúvida!

        - Então o que aconteceu?

        - Aconteceu que há perto de um mês também, que Filipe espera em Reims pela nomeação que el-rei lhe prometeu, que a nomeação não chega, e o regimento vai partir dentro de dois dias.

        - Com os diabos! O regimento parte?

        - Parte, sim, vai para Estrasburgo.

        - De modo que, se dentro de dois dias Filipe não tiver recebido a nomeação...

        - O que sucede?

        - Dentro de poucos dias está aqui.

        - Sim, compreendo, o pobre rapaz foi esquecido! Isso acontece sempre nas repartições públicas, quando se encontram organizadas como as do novo ministério. Ah! Se eu tivesse sido ministro, não teria a patente deixado de ser expedida.

        - Hum! Hum! - tossiu Taverney.

        - Que dizes?...

        - Digo, meu caro duque, que não creio uma palavra do que acabas de dizer.

        - Como?

        - Se tivesses sido nomeado, mandavas o Filipe a todos os diabos.

        - Oh!

        - E o pai também.

        - Oh! Oh!

        - E a irmã ainda para mais longe.

        - Realmente é agradabilíssimo conversar contigo, Taverney! Tens muito espírito; mas acabemos com isto.

        - É esse o meu desejo; mas o meu filho não pode continuar assim; está numa posição falsa. Duque, é absolutamente preciso ver el-rei.

        - Isso faço eu todos os dias.

        - Falas-lhe?

        - Ai, meu caro, não se fala assim a el-rei, sem que ele nos dirija a palavra.

        - Obriga-o.

        - Essa é melhor! Eu não sou o papa.

        - Então - disse Taverney - vou decidir-me a falar a minha filha, porque isto não está claro, duque.

        Estas palavras produziram um efeito mágico.

        Richelieu tinha sondado Taverney; sabia que era esperto como o Sr. Lafare ou o senhor de Nocé, seus amigos da infância, cuja bela reputação se tinha conservado intacta. Temia a aliança do pai e da filha; receava enfim alguma coisa desconhecida, que lhe trouxesse o desagrado real.

        - Pois bem - disse ele - não te enfades; vou ainda tentar. Mas é preciso um pretexto.

        - Pretexto já tu tens.

        - Eu?

        - Certamente.

        - Qual é?

        - El-rei fez uma promessa.

        - A quem?

        - A meu filho.

        - E essa promessa...

        - Diz.

        - Pode ser-lhe lembrada.

        - Com efeito, é possível. Tens a carta?

        - Tenho, sim.

        - Dá-ma.

        Taverney tirou-a do bolso e deu-a ao duque, recomendando-lhe ao mesmo tempo a maior ousadia e circunspecção.

        - O fogo e a água - disse o duque; - ora, bem se vê que estamos dizendo disparates. Não importa! A luva está lançada, é preciso levantá-la.

        Tocou a campainha.

        - Vistam-me, e ponham a carruagem - disse o duque.

        Depois, voltando-se para Taverney:

        - Queres ver-me vestir, barão? - perguntou ele com modo pouco satisfeito.

        Taverney conheceu que desagradaria muito ao amigo se aceitasse, e respondeu:

        - Não, meu caro, é impossível; tenho umas voltas a dar pela cidade; ajustemos um ponto de reunião qualquer.

        - No paço.

        - Pois sim, no paço.

        - É necessário que tu também apareças a Sua Majestade.

        - Julgas isso? -disse Taverney encantado.

        - Exijo-o; quero que te certifiques com os teus próprios olhos da exactidão da minha palavra.

        - Eu não duvido; mas enfim, como assim o queres...

        - Não deixa de te agradar, não é verdade?

        - Para te responder francamente, assim é.

        - Pois bem, aparece na galeria dos espelhos, às onze horas.

        - Está dito, adeus.

        - Adeus, caro barão - disse Richelieu, que até ao último momento tinha a peito não criar um inimigo, cuja força era ainda desconhecida.

        Taverney tornou a meter-se na carruagem e partiu para ir só e pensativo dar um passeio no jardim, enquanto Richelieu, entregue ao cuidado dos seus criados, remoçava-se a seu gosto e vontade, importante ocupação que não levou menos de duas horas ao ilustre vencedor de Mahon.

        Era, entretanto, muito menos tempo do que no seu espírito lhe concedia Taverney, e o barão à espreita viu às onze horas em ponto a carruagem do marechal parar defronte da porta do palácio, onde os oficiais de serviço cumprimentaram Richelieu, enquanto os porteiros o introduziam.

        O coração de Taverney palpitava com violência. Abandonou o seu passeio, e lentamente, mais lentamente que o permitia o seu ardente espírito, dirigiu-se para a galeria dos espelhos, onde grande número de cortesãos pouco favorecidos, de oficiais portadores de requerimentos, e de ambiciosos se achavam como estátuas no escorregadio sobrado, muito bem apropriado àquele género de namorados da fortuna.

        Taverney, suspirando, sumiu-se por entre a chusma, com a precaução, contudo, de se colocar num lugar onde ficasse perto do marechal quando saísse do quarto de Sua Majestade.

        - Oh! - murmurou ele - ver-me aqui confundido com esta gentinha, eu que ainda não há um mês ceava familiarmente com Sua Majestade.

        E da testa enrugada saía-lhe mais de uma desconfiança infame, que teria feito corar de pejo a pobre Andréia.

 

A MEMÓRIA DOS REIS

        Conforme prometera, Richelieu tinha ido afoitamente colocar-se em frente de Sua Majestade no momento em que o senhor de Conde lhe dava a camisa.

        El-rei, assim que viu o marechal, fez um movimento tão áspero para se desviar, que a camisa esteve quase para cair-lhe no chão, e o príncipe, muito admirado, recuou.

        - Perdão, meu primo - disse Luís XV, a fim de provar ao príncipe que nada havia de pessoal contra ele naquele movimento desabrido.

        Richelieu conheceu perfeitamente que a ira era para ele.

        Mas como ali fora decidido a provocar toda aquela ira, se necessário fosse, a fim de ter uma explicação muito séria, mudou de posição, como em Fontenoy, e foi colocar-se no lugar por onde el-rei devia passar para entrar no seu gabinete.

        El-rei, deixando de ver o marechal, começou a falar livre e alegremente; vestiu-se, projectou uma caçada em Marly, e consultou minuciosamente o primo, porque os senhores de Condé tiveram sempre reputação de bons caçadores.

        Mas no momento de entrar no gabinete, quando toda a gente se retirava já, viu Richelieu preparando-se com toda a amabilidade para fazer a cortesia mais encantadora que se tenha feito desde Lauzun, que, como todos sabem, era modelo de cortesãos.

        Luís XV parou quase perturbado.

        - Ainda aqui, senhor de Richelieu!? - disse ele.

        - Sim, meu senhor, para receber as ordens de Vossa Majestade.

        - Mas nunca deixa Versalhes!

        - Há quarenta anos, meu senhor, que é bem raro ter-me eu afastado para coisa diversa do serviço de Vossa Majestade.

        El-rei parou em frente do marechal.

        - Vamos - disse ele - quer alguma coisa de mim, não é assim?

        - Eu, meu senhor? - disse Richelieu sorrindo; - o que havia de querer?

        - Mas, com os diabos! Persegue-me por toda a parte, duque, bem o percebo.

        - Sim, meu senhor, com o meu amor e o meu respeito; agradecido, meu senhor.

        - Oh! Finge não me compreender, mas compreende-me perfeitamente. Pois bem! Eu, senhor marechal, nada tenho que dizer-lhe.

        - Nada, meu senhor?

        - Nada absolutamente.

        Richelieu afectou profunda indiferença.

        - Meu senhor - disse ele - tive sempre a felicidade de dizer comigo, em alma e consciência, que a minha assiduidade junto de el-rei era desinteressada; e também, meu senhor, nos quarenta anos de que falei a Vossa Majestade, nunca os invejosos poderão dizer que el-rei me concedeu coisa alguma. Nesse ponto, felizmente, a minha reputação está feita.

        - Duque! Peça para si, se de alguma coisa precisa, mas peça depressa.

        - Meu senhor, de nada absolutamente preciso, e por agora limito-me a suplicar a Vossa Majestade...

        - O quê?

        - Que se digne receber para agradecer-lhe...

        - Quem?

        - Alguém, meu senhor, que deve grandes obrigações a Vossa Majestade. Alguém, meu senhor, a quem Vossa Majestade fez a honra insigne... Ah! É porque, quando se recebe a honra de sentar-se à mesa de el-rei, quando se tem gozado dessa conversação tão delicada, dessa alegria tão encantadora, que faz de Vossa Majestade o mais divino conviva, então, meu senhor, nunca mais a gente esquece, e adquire-se depressa e facilmente o doce costume de querer ver a Vossa Majestade.

        - É um lisonjeiro, senhor de Richelieu.

        - Oh! Meu senhor!

        - Enfim, de quem quer falar-me?

        - Do meu amigo Taverney.

        - Do seu amigo! - bradou el-rei.

        - Perdão, meu senhor.

        - Taverney! - continuou el-rei com uma espécie de horror, que muita admiração causou no duque.

        - Meu senhor, é um antigo camarada.

        Deteve-se um instante.

        - Um homem que serviu comigo sob o comando de Villars.

        Tornou a deter-se.

        - Bem o sabe, meu senhor, neste mundo dá-se o nome de amigo a todas as pessoas que se conhecem, a todos os que não são inimigos; é uma palavra de civilidade, que muitas vezes não tem grande significação.

        - É uma palavra de comprometimento, duque - atalhou el-rei com azedume; - uma palavra que se deve usar com muita precaução.

        - Os conselhos de Vossa Majestade são preceitos de sabedoria. Então o senhor de Taverney...

        - O senhor de Taverney é um homem imoral.

        - Pois bem, meu senhor, à fé de gentil-homem, que já tinha desconfiado disso.

        - Um homem sem delicadeza, senhor marechal.

        - Quanto à sua delicadeza, não falarei dela diante de Vossa Majestade; só posso garantir aquilo que conheço.

        - Como! Não quer garantir a delicadeza de um amigo, de um antigo camarada, de um homem que serviu consigo sob o comando de Villars, de um homem, enfim, que me apresentou? Entretanto, conhece-o?

        - A ele, certamente, senhor, mas à sua delicadeza, não. Sully dizia ao real avô de Vossa Majestade, el-rei Henrique IV, que tinha visto a sua febre sair com um vestido verde; eu humildemente o confesso, meu senhor, nunca soube como se vestia a delicadeza de Taverney.

        - Finalmente, marechal, sou eu quem lho digo, é um homem hediondo, e que representou um papel feiíssimo.

        - Oh! Se é Vossa Majestade que o afirma...

        - Sim, senhor, sou eu!

        - Pois bem! - respondeu Richelieu - Vossa Majestade, falando-me assim, põe-me plenamente à vontade. Não, eu confesso-o, Taverney não é uma flor de delicadeza, já o percebi; mas enfim, meu senhor, enquanto Vossa Majestade não se dignou fazer-me conhecer a sua opinião...

        - É esta, senhor; detesto-o.

        - Ah! A sentença está proferida, meu senhor; felizmente que aquele desgraçado - prosseguiu Richelieu tem quem poderosamente interceda por ele junto de Vossa Majestade.

        - O que quer dizer?

        - Se o pai teve a infelicidade de desagradar a el-rei...

        - E muito.

        - Não digo o contrário, meu senhor.

        - Então o que diz?

        - Digo que certo anjo de olhos azuis e cabelos louros...

        - Não o percebo, duque.

        - Isso é natural, meu senhor.

        - Contudo desejaria perceber...

        - Um profano como eu, meu senhor, treme com a idéia de levantar uma ponta do véu sob o qual se abrigam tantos mistérios de encanto e amor; mas, repito-o, quantos agradecimentos não deve Taverney àquela que abranda em seu favor a indignação real! Oh! Sim, sim, a menina de Taverney deve ser um anjo.

        - A menina de Taverney é um monstrozinho no físico, como o pai o é no moral - bradou el-rei.

        - Oh! - exclamou Richelieu no cúmulo da admiração - estávamos todos enganados, e aquela bela aparência...

        - Não me fale em semelhante rapariga, duque; só de pensar nela estremeço.

        Richelieu pôs as mãos com hipocrisia.

        - Oh! Meu Deus! - disse ele - os contornos... Se Vossa Majestade, que é a infalibilidade personalizada, não me assegurasse isso, não lhe daria crédito!... Como, meu senhor, pois é contrafeita a esse ponto?

        - Mais do que isso, senhor, padece uma enfermidade... Horrível... Foi um laço em que eu caí, duque. Mas, por Deus, não falemos mais nela, far-me-ia morrer.

        - Oh! Céus! - bradou Richelieu - nem mais abrirei a boca a semelhante respeito, meu senhor. Fazer morrer Vossa Majestade! Oh! Que tristeza! Que família! Bem infeliz deve ser aquele pobre rapaz!

        - Mas de quem me está falando?

        - Oh! Desta vez, é de um fiel, sincero e leal servidor de Vossa Majestade. Oh! Esse, meu senhor, é um verdadeiro modelo, e Vossa Majestade julgou-se bem. Desta vez, respondo por isso, foram bem empregadas as mercês que se lhe fizeram.

        - Mas de quem se trata, duque? Acabe, porque estou com pressa.

        - Quero falar - redargüiu Richelieu brandamente – do filho de um irmão da outra, meu senhor. Quero falar de Filipe de Taverney, daquele belo moço a quem Vossa Majestade deu o comando de um regimento.

        - Eu! Pois eu dei a alguém o comando de um regimento?

        - Sim, meu senhor, um regimento que Filipe de Taverney espera ainda, é verdade, mas enfim que está dado.

        - Por mim?

        - Decerto, meu senhor.

        - Está doido!

        - Eu!

        - Não dei coisa alguma, marechal.

        - Realmente?

        - Mas que diabo de histórias são essas?

        - Mas, meu senhor...

        - Jurou então queimar-me a fogo lento, com esse feixe de espinhos?

        - O que hei-de eu fazer, meu senhor? Parecia-me, agora porém vejo que estava enganado, parecia-me que Vossa Majestade tinha prometido...

        - Eu não me meto nesses negócios, duque. Tenho um ministro da guerra. Não dou comandos, eu... O comando de um regimento! Que bela história lhe contaram! Ah! É o advogado dessa gentalha? Bem dizia eu que fazia mal em me falar, já não estou em mim.

        - Oh! Meu senhor!

        - Não, não estou em mim. O diabo leve o advogado! Aí fico todo o dia com os Taverneys atravessados na garganta!

        E dizendo isto, el-rei voltou as costas ao duque e refugiou-se furioso no seu gabinete, deixando Richelieu o mais desorientado possível.

        - Ah! Agora - murmurou o marechal - já sei o que devo fazer.

        E sacudindo de si o pó com um lenço, porque no calor da discussão havia-lhe caído o pó da cabeleira sobre o fato, dirigiu-se para a galeria, onde o esperava o seu amigo com devoradora impaciência.

        Apenas apareceu o marechal, semelhante à aranha que cai sobre a presa, correu o barão para saber novidades frescas.

        Com os olhos vivos, a boca risonha e os braços abertos correu ao duque perguntando:

        - Então o que há de novo?

        - Há de novo, senhor - respondeu Richelieu endireitando-se com ar altivo - há de novo o rogar-lhe que não me torne a dirigir a palavra.

        Taverney olhou para o duque com os olhos espantados.

        - Sim, desagradaste muito a el-rei - continuou Richelieu – e quem desagrada a el-rei, ofende-me.

        Taverney, como se tivesse os pés pegados ao mármore, ficou imóvel de admiração.

        Entretanto, Richelieu continuou o seu caminho.

        Chegado à porta da galeria dos espelhos, onde o criado o esperava, ordenou:

        - Para Luciennes!

        E desapareceu.

 

OS DESMAIOS DE ANDREIA

        Logo que Taverney tornou a si, e meditou no que ele chamava a sua desgraça, conheceu que estava chegado o momento de ter uma séria explicação com a causa primária de tamanha sarrafusca.

        Portanto, ardendo em cólera e indignação, dirigiu-se ao quarto de Andréia.

        Acabava esta de se vestir, e erguendo os braços roliços, segurava atrás da orelha duas tranças de cabelos rebeldes.

        Andréia ouviu na antecâmara os passos do pai, no momento em que, sobraçando um livro, ia sair do quarto.

        - Ah! bons -dias, Andréia - disse o senhor de Taverney - vais sair?

        - Vou, sim, meu pai.

        - Só?

        - Como vê.

        - Então ainda estás só?

        - Desde que a Nicola fugiu, não tomei outra criada para o meu quarto.

        - Mas não te podes vestir, Andréia, isso não te está bem; uma mulher mal vestida não produz efeito nenhum na corte; era coisa bem diferente o que eu tinha recomendado, Andréia.

        - Perdão, meu pai, mas a senhora delfina espera-me.

        - Asseguro-te, Andréia - redargüiu Taverney esquentando-se à medida que falava - asseguro-te, minha filha, que, à força de simplicidade, acabas por todos te meterem a ridículo.

        - Meu pai...

        - Olha que o ridículo mata em toda a parte, e na corte faz mais alguma coisa.

        - Eu darei ordem a isso, meu pai; mas, neste momento, a senhora delfina agradecer-me-á por eu me vestir com menos elegância para a não fazer esperar por mim.

        - Então vai, e volta assim que estiveres livre, porque preciso falar-te de um negócio muito sério.

        - Sim, meu pai - disse Andréia, procurando sair.

        O barão, seguindo-a com os olhos, bradou:

        - Espera, espera, não podes sair assim; esqueceste o teu carmim, menina; estás horrivelmente pálida.

        - Eu, meu pai! - disse Andréia parando.

        - Mas, na realidade, quando te vês ao espelho, em que pensas? Tens as faces brancas como cera, os olhos pisados. Não se sai assim para a rua, menina, sob pena de fazer fugir de medo as pessoas que te encontram.

        - Já não tenho tempo de tratar de coisa nenhuma, meu pai.

        - Isso é odioso - bradou Taverney encolhendo os ombros - não há no mundo senão uma mulher assim, e logo essa mulher havia de ser minha filha. Que infelicidade! Andréia! Andréia!

        Mas Andréia estava já no fim da escada.

        Voltou-se.

        - Pelo menos - bradou Taverney - diz que estás doente, faz-te interessante, com os diabos! Já que te não queres fazer formosa.

        - Oh! Quanto a isso, meu pai, há-de ser coisa fácil, e não será necessário mentir para dizer que estou doente, porque me sinto realmente incomodada neste momento.

        - Bem - murmurou o barão; - o que faltava agora é que estivesses doente.

        Depois, entre dentes, acrescentou:

        - O diabo leve as delambidas!

        E entrou no quarto da filha, onde minuciosamente se ocupou em procurar quanto pudesse auxiliar as suas conjecturas e levá-lo a formar uma opinião.

        Durante aquele tempo Andréia atravessava os jardins. Erguia por vezes a cabeça como para procurar no ar mais vigorosas aspirações, porque o perfume das flores novas subia-lhe com demasiada violência ao cérebro e incomodava-a.

        Assim atacada, cambaleando sob os raios de sol, procurando em torno de si um ponto de apoio e combatendo um mal-estar desconhecido, chegou às antecâmaras do Trianon, onde a senhora de Noailles, de pé no limiar do gabinete da delfina, fez logo saber a Andréia que eram horas e a estavam esperando.

        Com efeito, o abade ***, leitor titular da princesa, almoçava com Sua Alteza Real, que muitas vezes concedia essa honra às pessoas da sua intimidade.

        O abade gabava a excelência desses pãezinhos com manteiga, que as alemãs sabem dispor com tanta arte em torno de uma chávena de café com leite.

        O abade falava em vez de ler, e contava à delfina todas as notícias de Viena, que ele colhera em casa dos gazeteiros e diplomatas, porque naquela época a política era feita ao ar livre, e palavra que era tão boa, como a que se faz nas mais ocultas cavernas das chancelarias, e não era raridade, que no ministério apenas soubessem as novidades espalhadas ou forjadas pelos senhores do Palácio Real ou dos jardins de Versalhes.

        O abade falava principalmente dos últimos rumores de uma revolta clandestina por causa da carestia dos cereais, revolta, dizia ele, que o senhor de Sartines tinha prontamente feito gorar, mandando para a Bastilha cinco dos maiores monopolistas.

        Andréia entrou. A delfina também tinha seus dias de fantasia, e de enxaqueca; o abade interessara-a: o livro de Andréia, vindo depois da conversa, enfadou-a.

        Por conseqüência, disse à sua leitora que tratasse de não faltar à hora, acrescentando que todas as coisas, para terem merecimento, deviam ser feitas a tempo e horas próprias.

        Andréia, confusa com o lembrete, e penetrada principalmente da injustiça, nada respondeu, bem que pudesse ter dito que o pai a tinha demorado e que não podia andar depressa por estar incomodada.

        Não; perturbada, opressa, curvou a cabeça, e como se estivesse para morrer, fechou os olhos e perdeu o equilíbrio.

        A não ser a senhora de Noailles, teria caído.

        - Que pouca firmeza tem, menina, - murmurou D. Etiqueta.

        Andréia não deu resposta.

        - Mas, duquesa, ela perde os sentidos! - bradou a delfina levantando-se para acudir a Andréia.

        - Mas, não - redargüiu vivamente Andréia com os olhos arrasados de lágrimas; - não, minha senhora, estou boa, ou antes, estou melhor.

        - Mas está branca como o seu lenço, duquesa, olhe! A culpa foi minha, que ralhei com ela; pobre criança, sente-se!

        - Minha senhora...

        - Vamos, ordeno eu!... Dê-lhe o seu banco, abade.

        Andréia sentou-se, e a pouco e pouco, sob a doce influência de tanta bondade, serenou o espírito e as cores assomaram-lhe de novo às faces.

        - Então, menina, pode ler agora? - perguntou a delfina.

        - Oh! Sim, certamente; assim o espero, pelo menos.

        E Andréia abriu o livro no lugar em que tinha deixado na véspera a leitura, e com voz pausada, para ser inteligível e agradável, começou.

        Mas apenas os olhos teriam percorrido cerca de duas ou três páginas, que os pequenos átomos negros adejando entre eles começaram a andar num turbilhão, a tremer e tornaram-se indecifráveis.

        Andréia empalideceu novamente; um suor frio lhe subiu do peito à cabeça e o círculo negro que Taverney vira nos olhos da filha, e que tão amargamente censurara, cresceu por tal forma que a delfina, a quem a hesitação de Andréia fizera erguer a cabeça, bradou:

        - Outra vez!... Olhe, duquesa, na verdade, esta criança está doente, perde os sentidos.

        E desta vez, a delfina recorreu a um frasco de sais, que fez respirar à sua leitora. Assim reanimada, quis Andréia tentar levantar de novo o livro, mas foi debalde porque as mãos tinham conservado um tremor nervoso, que nada pôde sossegar durante alguns minutos.

        - Decididamente, duquesa - disse a delfina – esta menina está muito doente e não quero que agrave o mal ficando aqui.

        - Então é preciso que volte imediatamente para os seus quartos - disse a duquesa.

        - E por quê, minha senhora? - perguntou a delfina.

        - Porque - redargüiu a dama de honor fazendo profunda mesura - porque, segundo dizem, assim é que começam as bexigas.

        - As bexigas?

        - Sim, desmaios, síncopes, estremecimentos.

        O abade julgou-se essencialmente comprometido no perigo que a senhora de Noailles designava, porque se levantou, e graças à liberdade que lhe dava a indisposição de uma senhora, saiu no bico dos pés, e com tanto cuidado, que ninguém notou o seu desaparecimento.

        Quando Andréia se viu, por assim dizer, entre os braços da delfina, o acanhamento de ter a tal ponto incomodado tão poderosa princesa, restituiu-lhe as forças, ou melhor diremos, o ânimo e aproximou-se da janela para poder respirar.

        - Não é assim que se deve tomar o ar, minha querida menina - disse a senhora delfina; - volte para casa, onde a mandarei acompanhar.

        - Oh! Minha senhora - disse Andréia - asseguro-lhe que estou completamente restabelecida; posso facilmente voltar para casa só, pois que Vossa Alteza se digna dar-me licença para me retirar.

        - Dou, sim, e fique descansada - redargüiu a delfina - não se tornará a ralhar consigo, já que é tão susceptível... Minha sensitiva!

        Andréia, sensibilizada com tanta bondade, que mais parecia amizade de irmã, beijou a mão da sua protectora, e saiu do quarto, ao passo que a delfina a seguia desassossegadamente com os olhos.

        Quando chegou ao fim dos degraus, a delfina bradou-lhe da janela:

        - Não entre já em casa, menina, passeie um pouco no jardim, que o sol há-de fazer-lhe bem.

        - Oh! Meu Deus! Minha senhora, tanta bondade! – murmurou Andréia.

        - E depois, faça o favor de mandar cá o abade, que está acolá estudando botânica num tabuleiro de tulipas da Holanda.

        Andréia, para chegar onde estava o abade, viu-se obrigada a desviar-se do caminho e atravessou o jardim.

        Ia com a cabeça baixa, e ainda não aliviada do peso das tonturas singulares que desde pela manhã a faziam padecer, não dava atenção nenhuma às avezinhas que espavoridas esvoaçavam pelos arbustos e pelos maciços de flores, nem às abelhas que zumbiam por entre elas.

        Nem sequer reparava em dois homens, que distante dela uns vinte passos conversavam juntos, e um dos quais a seguia com olhar perturbado e inquieto.

        Era Gilberto e o senhor de Jussieu.

        O primeiro, apoiando-se na sua enxada, escutava o sábio professor, que lhe explicava a maneira de regar as plantas delicadas, de modo que a água apenas passasse por elas sem se demorar.

        Gilberto parecia escutar a demonstração com avidez, e o senhor de Jussieu achava naturalíssimo aquele ardor pela ciência, porque a demonstração era daquelas que provocavam os aplausos nos bancos das aulas num curso público; ora não seria grande favor para um pobre aprendiz de jardineiro, a lição de tão distinto mestre na presença da natureza?

        - Meu filho, olha, tens aqui quatro qualidades de terreno - dizia o senhor de Jussieu - e se eu quisesse descobria mais dez misturadas com estas quatro principais. Mas, para um aprendiz de jardineiro a distinção seria demasiado subtil. Entretanto o florista deve sempre provar a terra, como o fazendeiro deve provar as frutas. Estás ouvindo, não é verdade, Gilberto?

        - Estou, sim, senhor - redargüiu Gilberto, com o olhar fixo e a boca entreaberta, porque tinha visto Andréia, e na posição em que estava colocado podia continuar a olhar para ela sem deixar suspeitar ao professor que a sua demonstração não era religiosamente ouvida e compreendida.

        - Para provares a terra - disse o senhor de Jussieu sempre enganado pelo modo atento de Gilberto - mete um punhado dela num cesto, vaza-lhe algumas gotas de água brandamente por cima, e prova essa água quando sair filtrada pela terra no fundo do cesto. Os sabores salinos, acres, desenxabidos, ou perfumados de certas essências naturais, apropriam-se maravilhosamente com os sucos das plantas que queres fazer produzir, porque, na natureza, diz o senhor de Rousseau, teu antigo mestre, tudo é analogia, assimilação, tendência para homogeneidade.

        - Oh! Meu Deus! - bradou Gilberto estendendo os braços diante de si.

        - O que aconteceu?

        - Ela perde os sentidos, senhor, ela perde os sentidos!

        - Quem? Estás doido?

        - Ela, ela!

        - Ela?

        - Sim - respondeu Gilberto vivamente - uma senhora.

        E o susto e a palidez tê-lo-iam traído, bem como a palavra ela, se o senhor de Jussieu não tivesse desviado dele a vista para lhe seguir a direcção da mão.

        Seguindo essa direcção, viu efectivamente Andréia, que se arrastara até junto de um caniçado, e que, chegando ali, tinha caído sobre um banco, permanecendo imóvel e prestes a perder o último sopro de sentimento que ainda lhe restava.

        Era a hora a que el-rei costumava fazer a sua visita à delfina, e Sua Majestade desembocava de uma das ruas que conduziam do grande ao pequeno Trianon.

        Portanto, apareceu de repente.

        Trazia na mão um belo pêssego, milagre de fruta temporã, e como verdadeiro egoísta, perguntava a si mesmo se não era muito melhor, para a felicidade da França, que aquele pêssego fosse saboreado por ele do que pela senhora delfina.

        A pressa do senhor de Jussieu em correr a Andréia, que el-rei com a sua vista fraca a custo distinguia e não conhecera; os gritos sufocados de Gilberto, que indicavam o mais profundo terror, aceleraram o passo de Sua Majestade.

        - O que aconteceu, o que aconteceu? – perguntou Luís XV, aproximando-se do caniçado, de que apenas estava separado pela largura de uma rua.

        - El-rei! - bradou o senhor de Jussieu segurando Andréia nos braços.

        - El-rei! - murmurou Andréia, perdendo inteiramente os sentidos.

        - Mas o que é isso? - repetiu Luís XV - uma mulher! O que aconteceu a essa mulher?

        - Senhor, é um desmaio.

        - Ah! Vejamos - disse Luís XV.

        - Perdeu os sentidos, senhor - acrescentou o senhor de Jussieu apontando para Andréia estendida, inteiriçada, e imóvel no banco em que ele a deitara.

        El-rei aproximou-se, e reconhecendo Andréia, bradou estremecendo:

        - Outra vez!... Oh! Mas isto é espantoso! Quando se têm semelhantes moléstias fica a gente em casa; não é decente andar assim a morrer a cada instante diante das pessoas.

        E Luís XV voltou as costas para seguir o caminho do pequeno Trianon, murmurando mil coisas desagradáveis para a pobre Andréia.

        O senhor de Jussieu, que ignorava os antecedentes, permaneceu um instante estupefacto, depois, voltando-se e vendo Gilberto a dez passos de distância, em atitude de receio e ansiedade, gritou-lhe:

        - Vem cá, Gilberto, tu que tens força; vai levar a senhora de Taverney a casa.

        - Eu! - bradou Gilberto estremecendo - eu levá-la, tocar nela. Não, não, nunca mo perdoaria; não, nunca!

        E fugiu com a cabeça perdida e clamando por socorro.

 

O DOUTOR LUÍS

        A alguns passos de distância do lugar onde Andréia perdera os sentidos, trabalhavam dois ajudantes de jardineiro, que acudiram aos gritos de Gilberto, e tendo-se posto às ordens do senhor de Jussieu, transportaram Andréia para o seu quarto, enquanto Gilberto seguia de longe, e com a cabeça baixa, aquele corpo inerte, moribundo, como o assassino que caminha atrás do corpo da sua vítima.

        O senhor de Jussieu, chegando ao princípio da escada dos quartos de Andréia, aliviou os jardineiros do seu fardo; ela acabava de abrir os olhos.

        O rumor de vozes e o ardor significativo, que sempre sucede a qualquer acontecimento, atraíram o senhor de Taverney, que encontrou a filha, pouco firme ainda e tentando subir os degraus amparada pelo senhor de Jussieu.

        Acudiu, perguntando como el-rei:

        - O que aconteceu?

        - Nada, meu pai - redargüiu Andréia debilmente – é apenas um ligeiro incómodo, uma dor de cabeça.

        - Esta menina é sua filha, senhor? - perguntou Jussieu cortejando o barão.

        - É sim, senhor.

        - Não posso então deixá-la em melhores mãos; mas, por quem é, consulte um médico.

        - Oh! Não é nada - disse Andréia.

        E Taverney repetiu:

        - Decerto, isto não é nada.

        - Assim o desejo - disse o senhor de Jussieu; - mas, realmente, a menina estava muito pálida.

        E tendo dado a mão a Andréia até ao cimo da escada, o senhor de Jussieu despediu-se deles.

        O pai e a filha ficaram sós.

        Taverney,que durante a ausência de Andréia tinha certamente aproveitado o tempo para fazer boas reflexões, tomou a mão de Andréia, que ficara de pé, conduziu-a para um sofá, fê-la sentar, e sentou-se ao lado dela.

        - Perdão, meu pai - disse Andréia - mas tenha a bondade de abrir a janela, porque me falta o ar.

        - Mas eu desejava falar seriamente contigo, Andréia, e nesta gaiola, que te deram por habitação, um sopro ouve-se de todos os lados; não importa, falarei em voz baixa.

        E abriu a janela.

        Depois, voltando a sentar-se junto da filha, abanando a cabeça, disse:

        - É preciso confessar que el-rei, que a princípio tanto interesse por nós mostrou, não dá provas de delicadeza deixando-te habitar em semelhante toca.

        - Meu pai - respondeu Andréia - não há alojamentos bastantes no Trianon; é esse um dos grandes defeitos desta residência.

        - Que não haja alojamentos para outros - disse Taverney com um sorriso insinuante - isso conceberia eu rigorosamente, minha filha; mas para ti, realmente não o concebo.

        - Agradeço os seus bons desejos pela minha comodidade e a boa opinião que de mim forma – redargüiu Andréia sorrindo; - infelizmente, porém, nem todos pensam assim.

        - Pelo contrário, minha filha, todos os que te conhecem são da minha opinião.

        Andréia inclinou-se, como o faria para agradecer a qualquer estranho, porque esses cumprimentos, da parte de seu pai, começavam a dar-lhe bastante cuidado.

        - E - continuou Taverney com o seu tom adocicado - e... el-rei conhece-te, suponho eu?

        E ao mesmo tempo que falava, fitava na filha um olhar, para ela insuportável.

        - Mas el-rei mal me conhece - redargüiu Andréia com o modo mais natural possível - e sou bem pouca coisa para ele, presumo eu.

        Estas palavras fizeram que o barão desse um pulo na cadeira.

        - Pouca coisa!--exclamou ele; - não percebo as tuas palavras, menina; pouca coisa! Ora essa! Belo baixo preço dás à tua pessoa.

        Andréia olhou admirada para seu pai.

        - Sim, sim - continuou o barão - digo-o e repito-o: és de uma tal modéstia que chegas a esquecer a dignidade pessoal.

        - Oh! Senhor! Exagera tudo; é verdade que el-rei se interessou pelas desgraças da nossa família; el-rei dignou-se fazer-nos algumas mercês; mas há tanto desgraçado em volta do trono de Sua Majestade, é tão esmoler a sua mão real, que necessariamente devia vir o esquecimento depois da mercê.

        O barão de Taverney olhou fixamente para a filha, com profunda admiração pela sua impenetrável discrição.

        - Vamos - lhe disse ele aproximando-se - vamos, querida Andréia, teu pai é o primeiro pretendente que se dirige a ti, e assim, espero que não o repelirás.

        Andréia olhou para o pai como quem pede uma explicação.

        - Vamos - prosseguiu ele; - todos nós to rogamos, intercede por nós, alcança alguma coisa para a tua família...

        - Mas a que propósito me diz isso? Mas o que quer que eu faça? - bradou Andréia estupefacta pelo tom e pelo sentido daquelas palavras.

        - Estás ou não estás disposta a pedir alguma coisa para mim e para teu irmão? Vamos, fala!

        - Senhor - respondeu Andréia - farei tudo quanto me ordenar; mas, realmente, não receia que pareçamos demasiadamente ávidos? Já que el-rei me deu de presente um adereço que, segundo diz, vale mais de cem mil francos. Além disso, Sua Majestade prometeu o comando de um regimento a meu irmão; absorvemos assim uma parte considerável dos favores do paço.

        Taverney não pôde reprimir uma gargalhada estrídula e desdenhosa.

        - Então - disse ele - achas que a paga é suficiente, menina?

        - Bem sei, senhor, que os seus serviços valem muito - respondeu Andréia.

        - Ora! - bradou Taverney impaciente - quem diabo te fala dos meus serviços?

        - Mas de que fala então?

        - Realmente, estás jogando comigo um jogo de dissimulação!

        - O que tenho eu que dissimular, meu Deus? – perguntou Andréia.

        - Mas eu sei tudo, minha filha!

        - Sabe?...

        - Tudo, digo-to eu.

        - Tudo, o quê, senhor?

        E o rosto de Andréia corou instintivamente de pejo nascido daquele grosseiro ataque à mais pudica das consciências.

        O respeito do pai para com a criança suspendeu Taverney no rápido declive das suas interrogações.

        - Ora bem! Seja - disse ele - já que assim o desejas; queres fazer-te misteriosa, reservada! Pois sim. Deixas arrastar teu pai e teu irmão na obscuridade do esquecimento; mas lembra-te bem destas palavras: quando se não adquire império no princípio fica-se exposto a nunca o alcançar.

        E Taverney girou nos calcanhares.

        - Não o percebo, senhor - disse Andréia.

        - Muito bem, mas percebo eu - respondeu Taverney.

        - Isso não basta, quando são dois que falam.

        - Pois bem, serei mais explícito; emprega toda a diplomacia de que naturalmente dispões, e que é virtude de família, para promover, enquanto se proporciona ocasião, a fortuna da tua família e a tua, e a primeira vez que vires el-rei, diz-lhe que teu irmão espera pela patente, e que te tornas amarela num quarto sem ar nem vista; numa palavra, não sejas bastante ridícula para ter demasiado amor ou demasiado desinteresse.

        - Mas, senhor...

        - Diz isto ao rei, esta noite mesmo.

        - Mas onde quer que veja el-rei?

        - E acrescenta que não é mesmo conveniente para Sua Majestade vir...

        No momento em que Taverney ia, sem dúvida, por palavras mais explícitas, desafiar a tempestade que surdamente se formava no peito de Andréia e provocar a explicação que teria esclarecido o mistério, ouviram-se passos no corredor.

        O barão interrompeu-se logo e correu à porta, para ver quem vinha visitar a filha.

        Andréia viu com admiração o pai afastar-se respeitosamente.

        Quase no mesmo momento, a delfina, seguida por um homem vestido de preto, que se apoiava em comprida bengala, entrou no quarto.

        - Vossa Alteza! - bradou Andréia, reunindo todas as suas forças para ir ao encontro da delfina.

        - Sim, minha doentinha - respondeu a princesa - trago-lhe a consolação e o médico. Venha, doutor. Ah! Senhor de Taverney - prosseguiu a princesa conhecendo o barão - sua filha está doente, e parece-me que o senhor não tem grande cuidado nesta criança.

        - Minha senhora... - murmurou Taverney.

        - Venha, doutor - disse a delfina com a bondade encantadora que lhe era peculiar; - venha, tome-lhe o pulso, interrogue-lhe os olhos pisados, e diga-me qual é a doença da minha protegida.

        - Oh! Minha senhora, minha senhora, tanta bondade!... - murmurou Andréia. - Como me atrevi eu a receber Vossa Alteza Real...

        - Nesta casinhola, quer dizer, querida filha; a culpa é minha, só minha, que tão mau alojamento lhe dou; eu verei se dou remédio a isso. Agora, minha filha, vamos, dê a sua mão ao Dr. Luís, meu médico, e tome cuidado! É um filósofo que adivinha, ao mesmo tempo que é um sábio que vê.

        Andréia, sorrindo, estendeu a mão ao doutor.

        Este homem, ainda moço e cuja fisionomia inteligente confirmava tudo quanto a delfina dissera a seu respeito, não cessara, desde a sua entrada no quarto, de considerar em primeiro lugar a enferma, depois o local, e em seguida o singular rosto do pai, onde se pintava a perturbação e não cuidado.

        O sábio ia ver, o filósofo tinha talvez já adivinhado.

        O Dr. Luís consultou por muito tempo o pulso da senhora, e interrogou-a sobre o que sentia.

        - Um profundo enjôo por qualquer alimento - respondeu Andréia - estremecimentos súbitos, afrontamentos, espasmos, palpitações, vómitos e desmaios.

        À medida que Andréia falava, o semblante do doutor tornava-se cada vez mais carregado.

        Acabou por abandonar a mão de Andréia e desviar dela os olhos.

        - Então, doutor - disse a princesa ao médico - quid? como os senhores dizem nas consultas. Esta menina está em perigo? Condena-a à morte?

        O doutor dirigiu novamente os olhos para Andréia, e tornou a examiná-la em silêncio.

        - Minha senhora - disse ele - a doença desta menina é das mais naturais.

        - É perigosa?

        - Geralmente não - respondeu o médico sorrindo.

        - Ah! Ainda bem - disse a princesa respirando mais livremente - não a atormente muito.

        - Oh! Não a atormentarei em coisa nenhuma, minha senhora.

        - Como? Não lhe receita nada?

        - Não há remédio nenhum contra a doença desta menina.

        - Realmente?

        - Nenhum.

        - Nada?

        - Nada.

        E o médico, como para evitar mais extensa explicação, despediu-se da princesa, sob pretexto de que os seus doentes reclamavam a sua presença.

        - Doutor, doutor - disse a delfina - se o que diz não é só para me tranqüilizar, então estou eu muito mais doente do que a menina de Taverney; traga-me portanto sem falta, quando vier fazer-me a visita da tarde, as pastilhas que me prometeu para me fazerem dormir.

        - Minha senhora, eu as prepararei pessoalmente quando chegar a casa.

        E partiu.

        A delfina ficou ao pé da sua leitora.

        - Sossegue, portanto, minha querida Andréia – disse ela com um sorriso benévolo - a sua doença nada oferece de cuidado, porque o Dr. Luís retirou-se sem lhe receitar coisa alguma.

        - Ainda bem, minha senhora - redargüiu Andréia – porque então nada interromperá o meu serviço junto de Vossa Alteza Real, e essa interrupção era o que eu sobretudo receava; contudo, tenha o senhor doutor paciência, mas afirmo a Vossa Alteza, minha senhora, que me sinto muito incomodada.

        - Contudo nunca pode ser de grande conseqüência a doença, visto que o médico se ri dela. Sossegue, minha filha; vou mandar-lhe alguém para a servir, porque noto que está só. Tem a bondade de me acompanhar, senhor de Taverney?

        A princesa estendeu a mão a Andréia, e partiu depois de a ter consolado, conforme prometera.

 

TROCADILHOS DO SENHOR DE RICHELIEU

        Como tivemos ocasião de ver, o Sr. Duque de Richelieu dirigira-se para Luciennes com a rapidez de decisão e a segurança de inteligência, que caracterizavam o embaixador em Viena e o vencedor de Mahon.

        Chegou com modo alegre e desenvolto, subiu a escada ligeiro como um rapaz, puxou pelas orelhas a Zamora, como nos belos dias de favor, e forçou por assim dizer a porta do formoso gabinete de cetim azul, onde a infeliz Lorenza viu a senhora du Barry preparando-se para ir à Rua de Saint-Claude.

        A condessa, reclinada no sofá, dava ao senhor de Aiguillon as suas ordens da manhã.

        Ambos se voltaram ao ouvir o rumor da porta e ficaram estupefactos ao ver o marechal.

        - Ah! O senhor duque! - bradou a condessa.

        - Ah! Meu tio! - exclamou o senhor de Aiguillon.

        - Sim, minha senhora; sim, meu sobrinho.

        - Como, pois é o senhor?

        - Sou eu mesmo em pessoa.

        - Mais vale tarde que nunca - redargüiu a condessa.

        - Minha senhora - disse o marechal - a gente quando envelhece vai estando sujeito a caprichos.

        - O que quer dizer que torna a sentir-se namorado de Luciennes...

        - Com um violento amor, que só por capricho me havia abandonado. É exactamente isso, e a condessa concluiu admiravelmente o meu pensamento.

        - De modo que volta...

        - De modo que volto; é isso - disse Richelieu instalando-se na melhor poltrona, que distinguira logo à primeira vista.

        - Oh! Oh! - disse a condessa - há-de naturalmente haver mais algum motivo, que não quer dizer; o capricho... Não é coisa que influa num homem como o senhor.

        - Condessa, não faria bem em me acusar, valho mais do que a reputação que tenho; e se volto, quer saber, é...

        - É? - perguntou a condessa.

        - De todo o coração.

        O senhor de Aiguillon e a condessa soltaram uma gargalhada.

        - Somos bem felizes em ter alguma inteligência - disse a condessa - a fim de bem compreendermos todo o talento que o duque tem.

        - Como?

        - Sim, juro-lhe que os imbecis não o perceberiam, ficariam de boca aberta, e procurariam qualquer outro motivo ao seu regresso; realmente, à fé de du Barry, não conheço outro como o senhor, caro duque, para fazer entradas e saídas; Mole, o próprio Mole, é um actor sem merecimento a par do duque.

        - Então, não acredita que é o coração que aqui me traz? - bradou Richelieu. - Condessa, condessa, cautela! Não ria, meu sobrinho, senão chamo-lhe Pedra, e nada edifico sobre você.

        - Nem sequer um ministeriozinho? - perguntou a condessa.

        E pela segunda vez, a condessa soltou uma gargalhada com franqueza que não tentou dissimular.

        - Bom, bata, bata! - disse Richelieu, fingindo-se conformado - que não me vingarei. Ai! Estou muito velho, já me não posso defender; abuse, condessa, é prazer que não oferece perigo.

        - Tome cuidado, pelo contrário, condessa - disse de Aiguillon; - se meu tio lhe fala mais outra vez da sua fraqueza, estamos perdidos. Não, senhor duque, não nos bateremos, porque fraco como é, ou finge ser, havia de pagar-nos os golpes com usura; não, a verdade toda é esta: é com prazer que é visto de novo aqui.

        - Sim - disse loucamente a condessa - e em louvor deste regresso, dão-se salvas e há foguetes; e bem sabe, duque...

        - Eu não sei coisa nenhuma, minha senhora – disse o marechal com uma simplicidade de criança.

        - É que, nos fogos de vista, há sempre alguma cabeleira queimada pelas faíscas, ou algum chapéu atravessado pelas canas.

        O duque levou a mão à cabeleira e olhou para o chapéu.

        - É isso, é isso - disse a condessa. - Mas o senhor volta, ainda bem; quanto a mim, estou, como dizia o senhor de Aiguillon, louca de alegria; sabe por quê?

        - Condessa, quer dizer-me mais alguma maldade?

        - Quero, mas há-de ser a última.

        - Pois então, diga.

        - Estou alegre, marechal, porque o seu regresso anuncia o bom tempo.

        Richelieu inclinou-se.

        - Sim - continuou a condessa - é como as aves poéticas que presidem à bonança; como se chamam as tais aves, senhor de Aiguillon? O senhor, que faz versos, deve sabê-lo.

        - Maçaricos, minha senhora.

        - Exactamente! Ah! Marechal, não se enfadará, por certo, comparando-o com uma ave que tem um nome tão bonito!?

        - Enfadar-me-ei tanto menos, minha senhora – disse Richelieu fazendo a sua visagem, que anunciava satisfação, e a satisfação de Richelieu pressagiava sempre alguma idéia má - enfadar-me-ei tanto menos quanto a comparação é exacta.

        - Não dizia eu?

        - Sim, trago boas, excelentes novas.

        - Ah! - disse a condessa.

        - Quais são? - perguntou de Aiguillon.

        - Com os diabos! Caro duque, tem muita pressa - disse a condessa; - dê tempo ao marechal para as fabricar.

        - Não, os diabos me levem! Posso dizê-las imediatamente; estão já fabricadas, e mesmo são já antigas.

        - Marechal, se nos traz coisas velhas e sabidas...

        - Ah! - disse o marechal - não é obrigação ouvi-las, condessa.

        - Pois bem! Venham.

        - Parece, condessa, que el-rei caiu no laço.

        - No laço?

        - Sim, completamente.

        - Em que laço?

        - No que lhe armou.

        - Eu! - disse a condessa; - pois eu armei algum laço a el-rei?

        - Com os diabos! Sabe-o perfeitamente.

        - Não, palavra de honra que não sei.

        - Ah! Condessa, não é amável da sua parte o querer mistificar-me desse modo.

        - Realmente, marechal, não percebo; peço-lhe que se explique.

        - Sim, meu tio, explique-se - disse de Aiguillon, que adivinhava algum feio sentido no sorriso ambíguo do marechal; - a senhora condessa espera e parece não estar muito sossegada.

        O velho duque voltou-se para o sobrinho.

        - Com a fortuna! - disse ele - tinha graça, meu caro de Aiguillon, se a senhora condessa o não tivesse feito participar da sua confidência; oh! Então o caso seria muito mais profundo ainda do que eu pensava.

        - Eu, meu tio?

        - Ele?

        - Certamente, tu; certamente, ele; Vamos, condessa, franqueza: não associou nas suas pequenas conspirações contra Sua Majestade... A este pobre duque, que tão grande papel desempenhou?

        A senhora du Barry corou. Era tão cedo, que ainda não tinha posto cor, nem sinais; por isso era-lhe possível corar.

        Mas corar era perigosíssimo.

        - Olham ambos para mim com os seus belos e grandes olhos admirados - disse Richelieu; - preciso portanto instruí-los dos seus próprios negócios.

        - Instrua, instrua - disseram o duque e a condessa ao mesmo tempo.

        - Pois bem, el-rei deve ter percebido tudo, graças à sua maravilhosa sagacidade, e há-de ter-se assustado.

        - O que terá ele percebido, vejamos? -perguntou a condessa; - porque, realmente, marechal, faz-me morrer de impaciência.

        - A sua fingida inteligência com meu sobrinho...

        De Aiguillon tornou-se pálido e pareceu dizer com os olhos à condessa:

        - Vê! Eu já esperava uma maldade.

        Em tais casos as mulheres são valentes, muito mais valentes que os homens. A condessa saiu logo a campo.

        - Duque - disse ela - eu tenho medo dos enigmas, quando o senhor desempenha o papel de esfinge; porque então parece-me que, um pouco antes ou um pouco depois, infalivelmente hei-de ser devorada: tire-me de cuidados, e se é uma graça permita que eu a ache muito desengraçada.

        - Desengraçada, condessa! Pelo contrário, é excelente - bradou Richelieu; - não a minha, a sua, já se sabe.

        - Não percebo nada, marechal - disse a senhora du Barry, mordendo os beiços com impaciência, que o lindo pezinho irrequieto denunciava ainda mais visivelmente.

        - Vamos, vamos, nada de amor-próprio, condessa – prosseguiu Richelieu. - Receou que el-rei se agradasse da menina de Taverney. Oh! Não o queira contestar, é um facto, que para mim está provado até à evidência.

        - É verdade, não o nego.

        - Pois bem! Tendo receado isso, quis da sua parte, quanto possível, tirar desforra de Sua Majestade.

        - Não digo o contrário. Depois?

        - Vamos chegando ao ponto, condessa. Mas para chegar ao vivo a Sua Majestade, cuja epiderme é dura, precisava um aguilhão bem fino... Ah! Ah! Aí está, por vida minha, um feio trocadilho que me escapou. Mas compreende?

        E o marechal começou a rir ou a fingir que ria às gargalhadas, para melhor observar, nas convulsões dessa hilaridade, a fisionomia ansiosa das suas vítimas.

        - Que trocadilho vê nisso, meu tio? - perguntou de Aiguillon, afectando perfeita lhaneza.

        - Não percebeste - disse o marechal; - ah! Ainda bem, porque era horrível. Olha! Eu queria dizer que a senhora condessa tinha querido inspirar ciúme a el-rei, e que tinha escolhido para esse fim um fidalgo bem parecido, cheio de graça e de talento, enfim uma maravilha da natureza.

        - Quem diz isso? - bradou a condessa furiosa, como todos aqueles que são poderosos e culpados.

        - Quem o diz?... Toda a gente, minha senhora.

        - Toda a gente, não é ninguém; bem o sabe, duque.

        - Pelo contrário, minha senhora; toda a gente são cem mil almas em Versalhes; seiscentas mil em Paris; vinte e cinco milhões na França; e note bem que não conto a Haia, Hamburgo, Roterdão, Londres, Berlim, onde há tantas gazetas como em Paris há de palestras.

        - E dizem em Versalhes, em Paris, em França, na Haia, em Hamburgo, em Roterdão, em Londres e em Berlim?...

        - Dizem que a senhora é a mulher mais encantadora da Europa; dizem que graças a esse engenhoso estratagema de fingir que tomou um amante...

        - Um amante! E em que fundam uma acusação tão estúpida? Queira dizer-me.

        - Acusação! Que está dizendo, condessa? Admiração? Sabe-se que no fundo não é verdade, mas admira-se o estratagema. Em que fundam essa admiração, esse entusiasmo? Fundam-no no seu procedimento radiante de espírito, na sua táctica tão sábia; fundam-no em que fingiu, com arte maravilhosa, ter ficado só, estará lembrada, na noite em que el-rei, o senhor de Aiguillon e eu estivemos em sua casa, na noite em que eu fui o primeiro a sair, el-rei o segundo, e o senhor de Aiguillon o terceiro...

        - Pois bem, conclua.

        - Fundam-no em que fingiu ficar só com de Aiguillon, como se ele fosse seu amante, fazendo-o sair misteriosamente de Luciennes, pela manhã, e isto de modo que dois ou três patetas, dois ou três papa-moscas, como eu, por exemplo, o víssemos, para o irem apregoar por toda a parte, de modo que el-rei terá sabido, ter-se-á assustado, e logo, logo, para a não perder, terá deixado a menina de Taverney.

        A senhora du Barry e o duque de Aiguillon não podiam já conter-se.

        Richelieu todavia não os incomodava nem com o olhar, nem com os gestos; a caixa do rapé e os bofes da camisa pareciam absorver-lhe toda a atenção.

        - Porque, enfim - continuou o marechal sacudindo o rapé, que lhe caíra nos bofes - parece certo que el-rei abandonou a pequena.

        - Duque - atalhou a senhora du Barry - declaro-lhe que não percebo nem palavra de todas as suas imaginações; e estou certa de uma coisa, é que el-rei, se lho dissessem, não perceberia mais do que eu.

        - Deveras? -disse o duque.

        - Sim, deveras, e atribui-me, bem como todos me atribuem, muito mais imaginação do que realmente tenho; nunca pretendi despertar o ciúme de Sua Majestade pelos meios que indicou.

        - Condessa!

        - Juro-lho.

        - Condessa, a perfeita diplomacia, e não há diplomatas melhores do que as mulheres, a perfeita diplomacia não confessa nunca que empregou em vão a astúcia; porque há um axioma em política, eu sei-o, já fui embaixador, um axioma que diz: “Não ensines a ninguém o meio que uma vez te aproveitou, porque pode aproveitar-te duas vezes”.

        - Mas, duque...

        - O meio aproveitou, nada mais. E el-rei está a ferro e a fogo com todos os Taverneys.

        - Mas, realmente, duque - bradou a condessa du Barry - tem um meio de supor as coisas, que lhe é inteiramente particular.

        - Ah! Não acredita que el-rei esteja mal com os Taverneys? - disse Richelieu iludindo a questão.

        Richelieu tentou pegar na mão da condessa.

        - É uma pomba - disse ele.

        - E o senhor uma serpente.

        - Ah! Está bem! Espere que eu me apresse outra vez em lhe trazer boas novas, para semelhante recompensa.

        - Meu tio, desengane-se - disse vivamente de Aiguillon, que sentira onde se dirigia a manobra de Richelieu - ninguém o aprecia tanto como a senhora condessa, e ainda há pouco mo dizia no momento em que anunciaram a sua chegada.

        - O facto é - disse o marechal - que sou muito amigo dos meus amigos; eu quis ser o primeiro em trazer-lhe a certeza do seu triunfo, condessa. Sabe que Taverney pai queria vender a filha a el-rei?

        - Mas parece-me que efectivamente a vendeu – disse a senhora du Barry.

        - Oh! Querida condessa, como aquele homem é hábil! É uma serpente; olhe que até eu me deixei adormecer com os seus cantos de amizade, de antiga fraternidade de armas. Levam-me sempre pelo coração! E daí, realmente, como se podia julgar que aquela Aristide de província viria expressamente a Paris para tentar minar o chão debaixo dos pés de João du Barry, isto é, do homem mais espirituoso? Foi realmente precisa toda a minha dedicação aos seus interesses para ter um pouco de bom senso e de penetração; palavra de honra que estava cego...

        - E está tudo acabado ao menos? - perguntou a senhora du Barry.

        - Oh! Inteiramente acabado, respondo por isso. Repreendi tão amargamente aquele digno fornecedor, que deve a estas horas ter desaparecido e estamos senhores do campo.

        - Mas el-rei?

        - El-rei?

        - Sim.

        - Sobre três pontos consegui eu ouvi-lo.

        - O primeiro?

        - O pai.

        - O segundo?

        - A filha.

        - E o terceiro?

        - O filho. Ora Sua Majestade dignou-se chamar ao pai um... condescendente; à filha uma delambida e, quanto ao filho, Sua Majestade não lhe chamou coisa nenhuma, porque nem sequer dele se lembrou.

        - Muito bem; estamos então livres da raça toda?

        - Creio que sim.

        - Valerá a pena mandar aquilo tudo lá para a sua toca da província?

        - Parece-me que não.

        - E diz que aquele filho a quem el-rei prometera o comando de um regimento...

        - Ah! Tem mais memória que el-rei, condessa. É verdade que Filipe é um guapo moço, que lhe dirigia repetidas olhadelas, e das mais terríveis. Ah! Já não é coronel, nem capitão, nem irmão da favorita; mas fica-lhe o ter sido distinguido pela condessa.

        Dizendo isto, o velho duque tentava ferir o coração do sobrinho com as unhas do ciúme. Mas o senhor de Aiguillon não pensava em ciúmes naquele momento.

        Procurava adivinhar o procedimento do velho marechal e distinguir o verdadeiro motivo da sua volta.

        Depois de algumas reflexões, esperou que a brisa do agrado real fosse o único motivo que impelisse Richelieu para Luciennes.

        Fez um sinal a senhora du Barry, o qual o duque percebeu num espelho fronteiro, enquanto compunha a cabeleira, e logo em seguida a condessa convidou Richelieu para tomar chocolate com ela.

        De Aiguillon despediu-se fazendo muitas blandícias ao tio, que lhe correspondeu graciosamente.

        Este último ficou só com a condessa diante da mesa que Zamora acabava de servir.

        O velho marechal olhava para todo aquele manejo da favorita, murmurando em voz baixa:

        - Há vinte anos, teria eu olhado para aquele relógio dizendo: “Dentro de uma hora, devo ser ministro”, e havia de sê-lo. Que feia coisa é a vida - prosseguiu ele falando sempre consigo: - durante a primeira parte põe-se o corpo ao serviço do espírito; durante a segunda, o espírito, que tem sobrevivido unicamente, torna-se criado do corpo: é absurdo.

        - Meu caro marechal - disse a condessa interrompendo os monólogos interiores da sua visita - agora que estamos sós, diga-me que empenho tinha em meter à cara do rei aquela delambida?

        - Realmente, condessa - respondeu Richelieu chegando à boca a sua chávena de chocolate - essa pergunta estava eu agora fazendo a mim mesmo, e declaro-lhe que não sei.

 

REGRESSO

        O senhor de Richelieu sabia o que devia pensar de Filipe, e podia com conhecimento de causa anunciar-lhe o regresso, porque, quando pela manhã saíra de Versalhes para Luciennes, encontrara-o na estrada, dirigindo-se para o Trianon, e passara perto bastante dele para lhe notar no rosto todos os sintomas de tristeza e inquietação.

        Efectivamente, esquecido em Reims, depois de ter passado por todos os graus do agrado, indiferença e esquecimento; aborrecido de princípio pelos sinais de amizade, e pelas atenções dos próprios superiores, Filipe, à proporção que o desagrado lhe embaciara com o hálito a brilhante fortuna, tinha-se desgostado de ver as amizades mudadas em frieza, e as atenções em desprezo; e a dor naquela alma delicada, tomara todos os caracteres da saudade.

        Portanto, Filipe tinha muitas saudades do tempo em que era tenente em Estrasburgo, por ocasião da entrada da delfina em França; tinha saudades dos seus amigos, dos seus iguais, dos seus camaradas; tinha sobretudo saudades do interior sossegado e puro da casa paterna, junto do lar em que La Brie era mordomo. Todas as penas achavam a consolação no silêncio e no esquecimento, esse sono dos espíritos activos; e daí a solidão de Taverney, que atestava tanto a decadência de todas as coisas como a ruína das pessoas, tinha um não sei quê de filosófico, que falava com voz poderosa ao coração do mancebo.

        Mas do que Filipe sobretudo tinha saudades, era do braço da irmã, era do seu conselho quase sempre tão justo, conselho nascido antes da altivez que da experiência. Porque as almas nobres têm isso de notável e de eminente, livram-se involuntariamente e pela sua própria natureza acima do vulgar, e muitas vezes também, pela sua própria elevação, escapam aos choques, às feridas e aos laços, o que nem sempre a habilidade dos insectos humanos de ordem inferior, por mais habituados que estejam a revolver-se no lodo, consegue evitar.

        Assim que Filipe sentiu apoderar-se dele o tédio, veio-lhe a desanimação, e achou-se tão infeliz no seu isolamento, que não quis acreditar em Andréia, aquela metade dele mesmo, pudesse ser feliz em Versalhes, quando ele padecia tão cruelmente em Paris.

        Escreveu pois ao barão a carta de que já falamos, e na qual lhe anunciava o próximo regresso. Esta carta não causou admiração a ninguém, e principalmente ao barão; o que pelo contrário o admirava era que Filipe tivesse tido a paciência de esperar assim, quando ele vivia em brasas, e havia quinze dias que suplicava a Richelieu, cada vez que o via, que precipitasse o desenlace.

        Como Filipe não recebesse a patente no prazo que fixara, despediu-se dos oficiais sem parecer dar atenção aos seus desdéns e sarcasmos, só disfarçados pela civilidade, que era ainda naquela época uma virtude francesa, e pelo respeito natural que sempre inspira um homem desembaraçado.

        Por conseguinte na hora em que consigo resolvera partir, hora até à qual esperara pela patente com mais receio do que desejo de a ver chegar, montou a cavalo e meteu à estrada de Paris.

        Os três dias de jornada pareceram-lhe de uma extensão mortal, e quanto mais se aproximava do termo, mais o silêncio do pai a seu respeito, e principalmente o da irmã, que tanto lhe prometera escrever, pelo menos duas vezes cada semana, tomava proporções assustadoras.

        Filipe chegava portanto a Versalhes pelo meio-dia, no mesmo momento em que o senhor de Richelieu saía. Caminhara durante uma parte da noite, tendo apenas descansado algumas horas em Melun; tão preocupado estava, que não viu o senhor de Richelieu na sua carruagem e nem sequer conheceu a libré.

        Dirigiu-se em direitura às grades da quinta, onde se despedira de Andréia no dia da sua partida, quando ela, sem razão alguma para afligir-se, visto que a prosperidade da família estava no seu auge, sentia contudo subir-lhe ao cérebro os proféticos vapores de uma incompreensível tristeza.

        Também naquele dia pressentira Filipe, por supersticiosa credulidade, os padecimentos da irmã; mas a pouco e pouco, o espírito, que se lhe tornava senhor de si, sacudira o jugo e por um estranho acaso, era ele, Filipe, que, sem razão alguma, voltava ao mesmo lugar, e com o mesmo susto, e sem achar infelizmente no seu pensamento uma consolação provável àquela invencível tristeza, que parecia um pressentimento, visto que não tinha causa.

        No momento em que o cavalo, ao trotar pelas pedras da calçada, lhes arrancava lume, alguém, sem dúvida atraído pela bulha, saiu de entre os arbustos e caniçados.

        Era Gilberto, que trazia uma foice na mão.

        O jardineiro conheceu logo o seu antigo amo.

        Filipe também conheceu Gilberto.

        Havia um mês que Gilberto vagueava assim; havia um mês que, semelhante a uma alma de condenado, não sabia o que fazia, nem onde devia parar.

        Naquele dia, hábil como era em seguir a execução do pensamento, estava ocupado em escolher pontos de vista nas ruas da quinta de onde descobrisse as janelas de Andréia, e de onde pudesse constantemente ver a casa, sem que olhar algum notasse a sua preocupação, os seus estremecimentos e os seus suspiros.

        Com o podão nas mãos, percorria os canteiros e latadas, cortando de um lado os ramos carregados de flores, sob pretexto de limpeza; arrancando de outro a casca ainda sã de árvores novas, sob pretexto de lhes tirar a goma e a resina; com o ouvido sempre à escuta, mirando, ansiando e deplorando.

        Tornara-se muito pálido durante aquele mês. Já se lhe não conhecia a mocidade no semblante, mais que pelo fogo estranho dos olhos e pela alvura lívida do rosto; mas a boca, franzida pela dissimulação, o olhar oblíquo, a mobilidade fremente dos músculos do rosto, pertenciam já aos anos mais sombrios da idade madura.

        Como dissemos, Gilberto conhecera Filipe, e fizera um movimento rápido para se ocultar entre os arbustos.

        Mas Filipe, dirigindo para ele o cavalo, bradou:

        - Gilberto! Ó Gilberto!

        O primeiro movimento de Gilberto fora de prosseguir na fuga, e a vertigem, o terror, esse delírio sem explicação possível, que os antigos, que procuravam uma causa a tudo, atribuíam ao Deus Pã, ia apoderar-se dele e arrastá-lo como um doido pelas ruas, pelos bosques e até pelos lagos.

        Uma palavra cheia de doçura, que Filipe pronunciou, foi felizmente ouvida pelo selvático mancebo.

        - Não me conheces, Gilberto?

        Gilberto compreendeu a sua loucura e parou.

        Depois voltou, mas lentamente e com desconfiança.

        - Não, senhor - disse Gilberto todo trémulo; - não, eu não o conhecia; e como me tinha parecido que era algum dos guardas, e eu não estava trabalhando, receei que me vissem e que fosse castigado.

        Filipe contentou-se com essa explicação, apeou-se, enfiou no braço a rédea do cavalo, e apoiando a outra mão no ombro de Gilberto, que estremecia visivelmente, perguntou:

        - Que tens tu, rapaz?

        - Nada, senhor - respondeu este.

        Filipe sorriu tristemente.

        - Tu não nos tens amizade, Gilberto - disse ele.

        O mancebo estremeceu segunda vez.

        - Sim, compreendo - prosseguiu Filipe - meu pai tratou-te com injustiça e dureza; mas eu, Gilberto?

        -Oh! O senhor... - murmurou o mancebo.

        - Eu, sempre fui teu amigo e sempre te defendi.

        - É verdade.

        - Assim, esquece o mal pelo bem; minha irmã também tem sempre sido boa para ti.

        - Oh não! Quanto a isso, não - respondeu vivamente o mancebo com uma expressão que ninguém poderia compreender, porque encerrava uma acusação contra Andréia e uma desculpa para ele, porque explodia como o orgulho, ao mesmo tempo que gemia como o remorso.

        - Sim, sim - disse Filipe - percebo: minha irmã é um pouco soberba, é verdade; mas no fundo é boa, tem bom coração.

        Em seguida, depois de leve pausa, porque a conversa só tinha por fim atrasar uma entrevista, que um pressentimento lhe dizia ser de recear, Filipe perguntou:

        - Sabes onde está neste momento a minha boa Andréia?

        Este nome feriu dolorosamente o coração de Gilberto, que respondeu com voz sufocada:

        - Presumo que esteja nos seus quartos, senhor. Como quer que eu possa saber...

        - Sempre só e aborrecendo-se; pobre irmã! – interrompeu Filipe.

        - Só, neste momento, sim, senhor, segundo toda a probabilidade, porque desde a fuga da Nicola...

        - Como, a Nicola fugiu?

        - Fugiu, sim, senhor, fugiu com o amante.

        - Com o amante?

        - É o que presumo - disse Gilberto, que conheceu ter-se adiantado demasiado; - pelo menos os criados diziam-no a boca cheia.

        - Mal, realmente, Gilberto - disse Filipe cada vez mais inquieto - já não percebo nada. É preciso arrancar-te as palavras. Vê se te podes mostrar mais amável. Tens inteligência, possuis uma certa distinção natural; vamos, não estragues essas boas qualidades por uma afectada e fingida estranheza, que não cabe na tua condição, nem na de ninguém.

        - Mas é que não sei tudo o que me pergunta, senhor, e que, se reflectir, conhecerá que o não posso saber. Trabalho todo o dia nos jardins, e o que se faz no palácio, por minha alma que não o sei.

        - Gilberto, Gilberto, eu pensava que tinhas olhos.

        - Eu?

        - Sim, e que te interessavas pelos que têm o meu nome, porque enfim, por má que tenha sido a hospitalidade de Taverney, tiveste-la.

        - Por isso, Sr. Filipe, interesso-me muito pelo senhor - disse Gilberto com um som de voz rouco e estridente, porque a. suavidade de Filipe e outro sentimento que este não podia adivinhar tinham abrandado aquele coração bravio; - sim, sou seu amigo, e aí está o motivo porque lhe digo que a senhora sua irmã está muito doente.

        - Muito doente! Minha irmã muito doente! – bradou Filipe com explosão; - minha irmã está muito doente, e tu não me disseste isso logo!

        E estugando o passo, perguntou:

        - O que tem ela, meu Deus?

        - Ah! Isso é o que eu não sei.

        - Mas o que sabes?

        - O que sei é que perdeu hoje os sentidos três vezes, aqui no jardim, e que o médico da senhora delfina já a foi visitar, e o senhor barão também.

        Filipe nada mais quis ouvir; os seus pressentimentos tinham-se realizado, e na presença do perigo real recobrara todo o ânimo.

        Deixou o cavalo entregue nas mãos de Gilberto, e correu quanto pôde para o lado da habitação de Andréia.

        Quanto a Gilberto, ficando só, conduziu precipitadamente o cavalo às cavalariças, e fugiu como as aves bravias ou daninhas, que nunca se querem demorar ao alcance do homem.

 

O IRMÃO E A IRMÃ

        Filipe encontrou a irmã deitada no pequeno sofá de que já tivemos ocasião de falar.

        Entrando na antecâmara, o mancebo notou que Andréia tinha cuidadosamente afastado de si todas as flores, ela que tanto as prezava, porque, desde que se sentia doente, o aroma delas causava-lhe dores insuportáveis, e àquela irritação das fibras cerebrais atribuía a pobre menina todos os padecimentos que desde quinze dias a torturavam.

        No momento em que Filipe entrou, estava Andréia meditando, a bela fronte carregada pendia-lhe pesadamente, e os olhos vacilavam-lhe nas órbitas doloridas. Tinha as mãos pendentes, e bem que naquela situação o sangue devesse circular, estavam brancas como as de uma estátua de cera.

        A imobilidade de Andréia era tal que, aparentemente, parecia não viver, e para bem se ficar convencido de que não estava morta, era preciso ouvi-la respirar.

        Filipe seguira sempre com passo rápido, desde o momento em que Gilberto lhe tinha dito que a irmã estava doente, de modo que chegara todo arquejante ao princípio da escada; mas ali parara, voltara-lhe a razão, e subiu os degraus com passo mais tranqüilo, de modo que ao entrar no quarto caminhava já sem fazer bulha alguma, como se fosse um silfo.

        Queria conhecer e ver, com a solicitude particular que dá a amizade, os sintomas da doença; sabia que Andréia era tão terna e boa, que logo depois de o ter visto e ouvido comporia o gesto e o porte para não o assustar.

        Entrou portanto, abrindo tão brandamente a porta de vidraça, que a irmã não o ouviu, de sorte que estava já no meio do quarto antes que ela se apercebesse da sua presença.

        Filipe teve pois tempo de contemplá-la, de ver aquela palidez, aquela imobilidade, aquela atonia. Surpreendeu a singular expressão daqueles olhos, que se perdiam no vácuo, e mais assustado do que imaginara, nasceu-lhe repentinamente a idéia de que as afecções morais tinham grande parte nos padecimentos da irmã.

        Àquele aspecto, que lhe fazia estremecer o coração, Filipe não pôde reprimir um movimento de terror.

        Andréia ergueu os olhos, e soltando um grito, levantou-se como um defunto que ressuscita; e por sua vez também arquejante correu para os braços do irmão.

        - Tu, tu, Filipe! - disse ela; e a força abandonou-a antes que pudesse dizer mais.

        E como podia ela dizer outra coisa, quando só pensava aquilo?

        - Sim, sim, eu - respondeu Filipe abraçando-a e segurando-a, porque a sentia escorregar-lhe dos braços; - sou eu que volto e venho encontrar-te doente. Ai, minha pobre irmã, o que tens tu?

        Andréia riu-se com um riso nervoso, que fez mal a Filipe, longe de o sossegar, como a doente desejava.

        - O que tenho, perguntas tu? Por quê? Eu tenho aparência de doente, Filipe?

        - Tens sim, Andréia; estás muito pálida e toda trémula.

        - Mas em que vês tu isso, meu irmão? Não sinto o mais leve incómodo; quem te deu tão falsas notícias, meu Deus? Quem teve a loucura de ir assustar-te? Mas, realmente, não sei o que queres dizer; eu estou perfeitamente, salvo alguns leves e pequenos deslumbramentos, que se hão-de ir como vieram.

        - Oh! Mas estás pálida, Andréia...

        - E costumo eu ser muito corada?

        - Não; mas vivias, ao passo que hoje...

        - Isto não vale nada.

        - Olha, olha, as tuas mãos, que ainda agora ardiam como fogo, estão frias como gelo.

        - Isso é muito simples e natural, Filipe; quando te vi entrar...

        - Então!

        - Experimentei uma viva sensação de alegria e o sangue afluiu-me ao coração, nada mais.

        - Mas tu não te tens nas pernas, Andréia; segura-te a mim.

        - Não, estou-te abraçando, nada mais; não queres que te abrace, Filipe?

        - Ai, querida Andréia!

        E apertou a irmã contra o peito.

        No mesmo instante sentiu-se Andréia novamente abandonada pelas forças; debalde tentou segurar-se ao pescoço do irmão, a mão escorregou-lhe hirta e quase morta, e tornou a cair no sofá, mais branca do que as almofadas de cassa onde o encantador perfil lhe descansava.

        - Vês, vês, que me enganavas? - bradou Filipe. - Ai! Querida irmã, tu estás mal, perdes os sentidos...

        - O frasco! - murmurou Andréia, constrangendo a expressão do rosto num sorriso, que até na morte a acompanhava.

        E com os olhos moribundos, e a mão elevada a custo, indicava a Filipe um frasco colocado em cima da cómoda, que estava próximo da janela.

        Filipe correu para o lugar indicado, mas sem desviar a vista do lado onde estava a irmã.

        Depois abriu a janela, e fez respirar o frasco a Andréia, que se conservava sem sentidos.

        - Ah! - disse ela ao fim de algum tempo respirando com força o ar e a vida - estou já ressuscitada; vamos, julgas que realmente esteja muito doente, diz?

        Mas Filipe nem pensava em responder; contemplava a irmã.

        Andréia, tornando a pouco e pouco a si, sentou-se sobre o sofá, tomou entre as suas mãos lentas a mão trémula de Filipe, e animando-se-lhe o olhar, subindo-lhe o sangue ao rosto, apareceu mais formosa do que nunca.

        - Ai, meu Deus! - disse - bem vês, Filipe, que já estou boa, e aposto que a não ser a surpresa que me fizeste, na melhor das intenções, não me teriam voltado os espasmos e estaria já inteiramente restabelecida; mas chegar assim diante de mim, bem deves compreender, Filipe, diante de mim, que tanto te amo... Tu, tu! Que és a minha vida, o meu único amigo, é querer matar-me, mesmo quando eu estivesse de boa saúde.

        - Sim, sim, tudo isso é muito bom, minha Andréia; entretanto tem a bondade de dizer-me a que atribuis esse incómodo, que tanto te tem desfigurado?

        - Eu sei, meu amigo? Talvez à Primavera, à estação das flores; bem sabes como sou nervosa; já ontem me senti sufocada com o cheiro do lilás da Pérsia; bem sabes quanto é activo o cheiro que exalam aqueles magníficos cachos de flores, que balanceiam com as primeiras brisas do ano; pois bem! Ontem... Oh! Meu Deus! Olha, Filipe, nem quero pensar em tal, tenho medo que só a idéia me perturbe.

        - Sim, tens razão, talvez seja isso; é realmente perigosíssimo ter flores no quarto.   Recorda-te, de quando, ainda criança, me lembrei em Taverney de enfeitar o leito com umas grinaldas de lilás; o efeito era lindíssimo, mas no dia seguinte não acordei; todos me julgavam morto, excepto tu, que nunca pudeste compreender que eu deixasse assim o mundo, sem dizer-te adeus, e foste tu só, minha pobre Andréia, tendo apenas seis anos naquela época, que me chamaste à vida, a poder de lágrimas e de carícias...

        - E de ar, Filipe, porque é de ar que em tais casos se precisa; ah! E é o que parece faltar-me sempre.

        - Ah! Minha irmã, minha irmã, ter-te-á esquecido isso, e terás mandado vir flores para o teu quarto?

        - Não, Filipe, não; realmente, há mais de quinze dias que não me entra no quarto a mais insignificante bonina. Caso estranho! Eu que tanto gostava de flores, agora nem vê-las posso.   Mas deixemos as flores. Tive uma enxaqueca; Andréia de Taverney teve uma enxaqueca, querido Filipe, e Andréia de Taverney é uma pessoa felicíssima, porque uma simples dor de cabeça, que produziu um desmaio, fez interessar a corte em seu favor.

        - Como?

        - Tal qual; a senhora delfina teve a bondade de vir visitar-me. Oh! Filipe! Que encantadora protectora, que dedicada amiga que é a senhora delfina! Visitou-me, acariciou-me muito, trouxe-me o seu primeiro médico, e depois do sisudo doutor, cujos decretos são infalíveis, me tomar o pulso, e consultar os olhos e a língua, sabes ainda a última felicidade que me esperava?

        - Não.

        - Decidiu pura e simplesmente que eu não estava doente; o Dr. Luís não achou o mais insignificante remédio para receitar-me, ele, que todos os dias faz centenares de curas, com a maior felicidade, segundo dizem; portanto, Filipe, bem vês que estou de perfeita saúde. Agora, diz-me, quem te foi assustar?

        - Foi aquele velhaco do Gilberto.

        - O Gilberto? - disse Andréia com impaciência.

        - Sim, disse-me que estavas doentíssima.

        - E deste crédito a semelhante pateta, a semelhante mandrião, que só presta para fazer ou dizer mal?

        - Andréia! Andréia!

        - Que é?

        - Estás empalidecendo outra vez.

        - Não é nada; mas realmente o tal Gilberto contende-me com os nervos; não me basta encontrá-lo no caminho, tenho ainda que ouvir falar dele!

        - Andréia! Vais outra vez perder os sentidos!

        - Oh! Sim, sim, meu Deus!... Mas também...

        E os lábios de Andréia tornaram-se lívidos, e cessou de falar.

        - Isto é singular! - murmurou Filipe.

        Andréia fez um esforço.

        - Não, isto não é nada - disse ela; - não faças caso de todos estes deslumbramentos; já estou boa, aqui me tens de pé, Filipe; olha, se for da tua vontade, iremos juntos dar um passeio, e dentro de dez minutos estarei pronta e curada.

        - Parece-me que te enganas com as tuas próprias forças, Andréia?

        - Não, o teu regresso seria para mim a saúde, o vigor, se eu estivesse moribunda; queres dar uma volta comigo, Filipe?

        - Logo, cara Andréia - disse Filipe detendo docemente a irmã; - ainda não estou perfeitamente sossegado sobre o teu estado, descansa mais um instante.

        - Pois sim.

        Andréia deixou-se novamente cair no sofá, levando consigo Filipe, a quem segurava pela mão.

        - E por que motivo - prosseguiu ela - voltaste assim de repente, sem prevenção?

        - Mas, responde-me, querida Andréia, por que deixaste tu de escrever-me?

        - Tens razão; mas foi só há poucos dias.

        - Há perto de quinze dias que me não escreves, Andréia.

        Andréia abaixou a cabeça.

        - Minha esquecida! - disse Filipe.

        - Não me esqueci, mas estava adoentada, Filipe. Olha, este meu incómodo data do dia em que deixaste de receber notícias minhas; desde aquele dia as coisas que mais gratas me eram têm-se tornado para mim uma fadiga.

        - Enfim, no meio disto tudo, satisfaz-me uma coisa que há pouco te ouvi.

        - Que coisa foi?

        - Disseste que eras aqui muito feliz: ainda bem, porque se aqui te têm amizade e se pensam em ti, comigo não acontece outro tanto.

        - Contigo?

        - Sim, comigo, que estava completamente esquecido por todos, até pela minha irmã.

        - Oh! Filipe.

        - Acreditarás, querida Andréia, que desde a minha partida, que com tanta pressa me foi ordenada, não tive notícias daquele suposto regimento de que me mandavam tomar posse, e que el-rei me fizera prometer pelo senhor de Richelieu, e até pelo nosso pai?

        - Oh! Isso não me admira - disse Andréia.

        - Como! Não te admira?

        - Não. Se soubesses, Filipe, o senhor de Richelieu, e o nosso pai andam com a cabeça perdida: parecem dois corpos sem alma. Nada compreendo da vida deles. Pela manhã, começa o pai a correr atrás do seu velho amigo, como ele lhe chama: empurra-o para Versalhes, para os aposentos de el-rei, depois, volta para o esperar aqui, onde passa o tempo fazendo-me perguntas, que não percebo. Passa-se o dia, não há novidades. Então, o senhor de Taverney desespera-se. O duque está-o enganando, diz ele, o duque é traidor. A quem atraiçoa o duque? Isso não sei eu, confesso-te que pouco me importa sabê-lo. O senhor de Taverney vive assim como um condenado no Purgatório, esperando sempre alguma coisa que não lhe trazem, alguém que não chega.

        - Mas el-rei, Andréia, el-rei?

        - Como el-rei?

        - El-rei, que tanto se mostrava disposto em nosso favor?

        Andréia olhou timidamente em redor de si.

        - O que é? - perguntou Filipe.

        - Ouve, el-rei... Falemos baixo, el-rei parece-me ser muito caprichoso, Filipe. Sua Majestade mostrava a princípio interessar-se muito por mim, como por ti e por nosso pai; mas de repente esse interesse esfriou, sem que eu pudesse adivinhar porquê, nem como. O facto é que Sua Majestade nem já olha para mim, chega a voltar-me as costas, e ontem, quando perdi os sentidos no jardim...

        - Ah! Vês! O Gilberto tinha razão; perdeste os sentidos, Andréia.

        - Era muito preciso que aquele miserável te fosse contar isso, e contá-lo talvez a toda a gente. Que lhe importa a ele que eu perca ou deixe de perder os sentidos? Bem sei, caro Filipe - acrescentou Andréia sorrindo - que não é das coisas mais próprias perder a gente os sentidos num palácio real, mas ninguém desmaia para se divertir, nem eu o fiz de propósito.

        - Mas quem te leva isso a mal, minha irmã?

        - El-rei. Sim, Sua Majestade, que no momento fatal desembocava por uma rua, vindo do grande Trianon. Eu estava estendida sobre um banco, nos braços do excelente senhor de Jussieu, que me socorria do melhor modo que lhe era possível, quando el-rei me viu. Bem sabes, Filipe, que o desmaio não tira inteiramente a percepção, a consciência do que se passa em volta de nós. Pois bem, assim que el-rei me viu, por insensível que eu na aparência estivesse, julguei notar-lhe um certo franzir de sobrolho, certo olhar irado e algumas palavras desagradabilíssimas, que el-rei murmurou entre dentes; depois Sua Majestade retirou-se, muito escandalizado, ao que parece, por eu ter tido o arrojo de desmaiar nos seus jardins. E na verdade, Filipe, a culpa não era minha.

        - Coitada! - disse Filipe apertando afectuosamente as mãos da irmã - creio bem que a culpa não era tua; mas depois, minha querida Andréia, depois?

        - Nada mais, meu amigo; e o sor Gilberto poderia ter-me dispensado os seus comentários.

        - Vamos, aí estás calcando o pobre rapaz.

        - Se te parece defende-o, diz que é um excelente rapaz!

        - Andréia, por piedade, não sejas tão cruel com o pobre moço, que tão mal tratas, e já te tenho visto a contas com ele!... Oh! Meu Deus, meu Deus, Andréia, o que tens tu?

        Desta vez Andréia deixara-se cair para trás sobre as almofadas do sofá, sem proferir uma palavra; desta vez o frasco não a chamou novamente à vida; foi preciso esperar que acabasse o deslumbramento, que a circulação se restabelecesse.

        - Decididamente - murmurou Filipe - tu estás doente, minha irmã, e de modo a assustar pessoas mais animosas do que eu; mas essa indisposição não me parece que deva ser tratada levianamente.

        - Mas enfim, Filipe, se o médico disse...

        - O médico nunca me persuadirá de que estejas de saúde. Se eu lhe falasse!... Onde pode ele ser encontrado?

        - Vem todos os dias ao Trianon.

        - Mas todos os dias, a que horas? Pela manhã?

        - De manhã e de tarde, quando está de serviço.

        - E hoje está de serviço?

        - Está, sim, meu amigo; e às sete horas em ponto, porque é exactíssimo, há-de subir as escadas que conduzem ao quarto da senhora delfina.

        - Bem - disse Filipe mais sossegado - esperarei aqui.

 

ENGANO

        Filipe continuou conversando sem afectação, vigiando sempre de revés a irmã, que tentava ganhar império bastante sobre si para não lhe causar novos cuidados com os seus delíquios.

        Filipe falou muito dos seus negócios, do esquecimento de el-rei, da inconstância do senhor de Richelieu, e quando deram sete horas, saiu precipitadamente, importando-se pouco de deixar adivinhar a Andréia o que ia fazer.

        Caminhou direito ao palácio da delfina, e parou numa distância grande bastante para não ser interpelado pelos homens que estavam de serviço, mas suficientemente perto, para poder conhecer bem todas as pessoas que passassem.

        Não havia ainda cinco minutos que ali estava, quando viu chegar, com o seu aspecto grave, o estimável médico de que Andréia lhe falara.

        O dia ia declinando, e apesar da dificuldade que devia ter para ler, o digno doutor folheava um tratado, recentemente publicado em Colónia, sobre as causas e resultados das paralisias do estômago. A pouco e pouco crescia a escuridão em volta dele, e o doutor adivinhava mais do que lia no seu livro, quando um corpo ambulante e opaco acabou por interceptar toda a luz ao sábio facultativo.

        Ergueu a cabeça, viu diante de si um homem, e perguntou:

        - O que quer?

        - Perdão, senhor - disse Filipe - é com o Sr. Dr. Luís que tenho a honra de falar?

        - Sim, senhor - redargüiu o doutor fechando o livro.

        - Então, senhor, queira ter a bondade de me dar uma palavra - disse Filipe.

        - Senhor, desculpe-me, mas o meu serviço chama-me junto da senhora delfina. São horas da minha visita, e não posso fazer esperar Sua Alteza.

        - Senhor... - e Filipe fez um movimento de súplica para impedir o caminho ao doutor. - Senhor, a pessoa para quem solicito os seus cuidados está ao serviço da senhora delfina. Padece muito, ao passo que a senhora delfina se acha de perfeita saúde.

        - Vamos primeiro saber de quem fala? – perguntou o doutor.

        - De uma pessoa que já visitou em companhia da senhora delfina.

        - Ah! Ah! Trata-se, porventura, da menina Andréia de Taverney?

        - Exactamente, senhor.

        - Ah! Ah! - murmurou o médico, erguendo vivamente a cabeça para examinar o mancebo.

        - Então sabe que padece muito?

        - Sim, uns desmaios, não é verdade?

        - Desmaios contínuos, sim, senhor. Hoje, no espaço de poucas horas, caiu-me desmaiada nos braços três ou quatro vezes.

        - E acha-se agora pior?

        - Ah! Não sei; mas bem deve compreender, doutor, que, quando se ama alguém...

        - Ama a menina Andréia de Taverney?

        - Oh! Mais do que à própria vida, senhor.

        Filipe pronunciou estas palavras com tal exaltação de amor fraternal, que o doutor Luís se enganou na sua significação.

        - Ah! Ah! - disse ele - é então o senhor...

        O doutor parou hesitando.

        - O que quer dizer, senhor? - perguntou Filipe.

        - O senhor então é que é...

        - Que sou quem, senhor?

        - Com os diabos! É que é o amante? - disse o doutor com impaciência.

        Filipe recuou dois passos, levando a mão à fronte e tornando-se pálido como a morte.

        - Cuidado, senhor - disse ele; - olhe que está insultando minha irmã.

        - Sua irmã! A menina de Taverney é sua irmã?

        - É sim, senhor, e eu não julgava ter dito coisa alguma, que pudesse da sua parte dar lugar a tão estranho engano.

        - Desculpe-me, senhor; a hora a que me procura, o modo misterioso com que me dirige a palavra... Eu julguei, supus que um interesse mais terno ainda que o amor fraternal...

        - Oh! Senhor, amante ou marido, ninguém amará minha irmã com mais amor profundo do que o meu.

        - Muito bem, nesse caso, vejo que a minha suposição o há-de ter ofendido, e peço-lhe perdão; e agora, senhor, permita...

        E o doutor deu um passo para seguir o seu caminho.

        - Doutor - insistiu Filipe - Peço-lhe, suplico-lhe que não me deixe sem primeiro me ter sossegado relativamente ao estado de minha irmã.

        - Mas quem lhe disse que o seu estado era assustador?

        - Oh! Meu Deus! Assusta-me o que tenho visto.

        - Viu sintomas que anunciam uma indisposição...

        - Grave, senhor?

        - Conforme.

        - Ouça, doutor, há em tudo isto alguma coisa muito extraordinária; dir-se-ia que não quer ou que não ousa responder-me.

        - Suponha antes, senhor, que na minha impaciência em dirigir-me para junto da senhora delfina, que espera...

        - Doutor, doutor - disse Filipe passando a mão pela testa, coberta de suor, - julgou que eu era amante da menina de Taverney?

        - Julguei, mas já se desfez o engano.

        - Julga então que a menina de Taverney tenha um amante?

        - Perdão, senhor, mas não me julgo obrigado a dar-lhe conta dos meus pensamentos.

        - Doutor, tenha piedade de mim. Soltou uma palavra terrível, uma palavra que está cravada no meu coração como a folha partida de um punhal; doutor, não tente evadir-se; é em vão que pretende ser um homem hábil e delicado; doutor, que enfermidade é essa de que teria falado a um amante e que deseja ocultar a um irmão? Responda-me, suplico-lhe.

        - Pelo contrário, senhor, rogo-lhe que me dispense de responder, porque, pelo modo como me interroga, vejo que não tem já poder em si.

        - Oh! Meu Deus, não compreende então, senhor, que cada uma das palavras que pronuncia me impele ainda mais para esse abismo que tremo ver.

        - Senhor!

        - Doutor! - bradou Filipe com uma nova veemência - devo concluir que é tão terrível o segredo que tem a revelar-me, que para ouvi-lo preciso de todo o meu sangue frio e de todo o meu ânimo?

        - Mas não sei realmente em que suposição está, senhor de Taverney; eu não disse semelhante coisa.

        - Oh! Faz cem vezes mais que dizê-lo!... Deixa-me desconfiar de coisas!... Oh! Isso não é ter caridade, doutor; veja que diante do senhor se me parte o coração; veja que rogo, que suplico; fale, fale, por piedade; juro-lhe que terei ânimo, tenho sangue-frio... Essa enfermidade, essa desonra talvez... Oh! Meu Deus! Meu Deus! Não me interrompa, doutor!

        - Senhor de Taverney, eu não disse coisa nenhuma, nem à senhora delfina, nem a seu pai, nem ao senhor; não me pergunte mais nada.

        - Sim, sim, mas bem vê que interpreto o seu silêncio; vê que sigo o seu pensamento no sombrio e fatal caminho em que se some; se erro, não me deixe prosseguir.

        - Adeus, senhor - respondeu o doutor em tom comovido.

        - Oh! Não me deixará assim sem me dizer sim ou não. Uma palavra, uma só, é tudo quanto lhe peço.

        O médico parou.

        - Senhor - disse ele - há pouco... E produziu isso o fatal engano que o ofendeu...

        - Não falemos mais disso, senhor.

        - Pelo contrário, devemos falar; há pouco, talvez tarde demais, disse-me que a menina de Taverney era sua irmã. Mas antes, com uma exaltação que foi causa do meu engano, disse-me que amava a menina Andréia mais que a própria vida.

        - É verdade.

        - Se o seu amor por ela é tão grande, deve ser correspondido.

        - Oh! Senhor, Andréia ama-me como a ninguém ama no mundo.

        - Pois então interrogue-a, senhor; interrogue-a nesse caminho em que me vejo obrigado a abandoná-lo, senhor; e se ela o ama como o senhor a ama, tenho a certeza que há-de responder às suas perguntas. Muitas coisas se dizem a um amigo, que se não diriam a um médico; então talvez que ela consinta em dizer-lhe o que, por minha vida! Eu não quisera ter-lhe deixado perceber.  Adeus, senhor.

        E o médico deu outro passo para seguir ao seu destino.

        - Oh! Não, não; é impossível - bradou Filipe, louco de dor e entrecortando cada palavra com um soluço; não, doutor, não ouvi bem; não, o senhor não me disse semelhante coisa.

        O médico, com uma voz cheia de bondade e comiseração, disse:

        - Faça o que acabo de aconselhar-lhe, senhor de Taverney; e, acredite-me, é o que tem de melhor a fazer.

        - Oh! Mas, pense bem; dar-lhe eu crédito, é renunciar à religião da minha vida inteira, é acusar um anjo, é tentar Deus, doutor; se exige que eu creia, prove o que disse, prove.

        - Adeus, senhor.

        - Senhor! - bradou Filipe desesperado.

        - Tome cuidado, se fala com essa veemência, vai dar a conhecer o que eu me tinha prometido ocultar a todos, e o que a si mesmo quisera ter ocultado.

        - Sim, sim, tem razão, doutor - disse Filipe em voz tão baixa, que o sopro morria ao sair-lhe dos lábios; - mas enfim, a ciência pode enganar-se, e o senhor mesmo confessará que algumas vezes se tem enganado.

        - Raras vezes, senhor - respondeu o médico; - sou homem de estudos severos, e a minha boca só diz sim quando os meus olhos e o meu espírito têm dito: vi, sei, estou certo. Sim, tem razão, senhor; terei algumas vezes podido enganar-me como se engana toda a criatura fraca; mas, segundo toda a probabilidade, não foi desta vez. Vamos, sossegue e separemo-nos.

        Mas Filipe não podia resignar-se assim. Pôs a mão no braço do doutor com ar de tão profunda súplica, que este parou.

        - Um derradeiro, um supremo favor, senhor – disse ele; - vê a perturbação em que se acha o meu espírito; sinto alguma coisa que parece loucura; para saber se devo viver ou morrer preciso de uma confirmação dessa realidade que me ameaça. Volto para junto de minha irmã, e só a interrogarei depois de a ter ido ver outra vez, reflicta nisto.

        - É o melhor que tem a fazer, senhor; quanto a mim, nada mais tenho que acrescentar ao que já disse.

        - Senhor, prometa-me; meu Deus! É uma mercê que o carrasco não negaria à vítima; prometa-me que há-de ir ver a minha irmã depois da sua visita a Sua Alteza a senhora delfina; senhor, em nome do Céu, prometa-me isso!

        - É inútil, senhor; mas, como mostra tanto empenho, é dever meu fazer o que deseja; quando eu sair da casa da senhora delfina, irei ver a sua irmã.

        - Oh! Agradeço-lhe infinitamente. Sim, venha, e então o senhor mesmo confessará que se enganou.

        - De todo o coração o desejo, senhor, e se me tiver enganado, com prazer o confessarei. Adeus!

        E o doutor restituído finalmente à liberdade, partiu, deixando Filipe só, tremendo com febre, inundado por um suor de gelo, e não conhecendo já no seu transporte delirante, nem o lugar onde se achava, nem o homem com quem tinha conversado, nem o terrível segredo que acabava de saber.

        Alguns minutos olhou, sem poder compreender, para o céu, que insensivelmente se enchia de estrelas, e para o palácio, que se enchia de luz.

 

INTERROGATÓRIO

        Assim que Filipe tornou a si e conseguiu recuperar a razão, dirigiu-se aos quartos de Andréia.

        Mas, à medida que se aproximava, ia a pouco e pouco desaparecendo o fantasma da sua desgraça; parecia-lhe que tinha estado a sonhar e não que tudo aquilo fosse uma realidade com a qual havia um instante lutara. Quanto mais se afastava do médico, mais incrédulo se tornava. Errara decerto a ciência, mas a virtude não.

        Não lhe dava completamente razão o doutor, prometendo-lhe visitar novamente a irmã?

        Entretanto, quando Filipe tornou a achar-se na presença de Andréia, estava tão mudado, tão pálido, tão abatido, que desta vez foi ela quem ficou inquieta pelo irmão, e perguntou-lhe como tinha sido possível operar-se nele mudança tão sensível e repentina!

        Só uma coisa podia ter produzido semelhante efeito em Filipe.

        - Santo Deus! Meu irmão - perguntou Andréia – tão doente estou eu?

        - Por quê? - disse Filipe.

        - Porque a conferência que tiveste com o Dr. Luís parece ter-te aterrado.

        - Não, minha irmã - disse Filipe; - o doutor não dá importância à tua doença, e tu disseste a verdade. Até me custou muito conseguir que ele aqui voltasse.

        - Ah! Ele volta? - disse Andréia.

        - Volta, sim. Por quê? Não querias que ele viesse, Andréia?

        E Filipe, pronunciando estas palavras, cravou a vista nos olhos de Andréia.

        - É-me indiferente - respondeu ela simplesmente – contanto que essa visita te sossegue um pouco, como desejo; entretanto, de que procede a assustadora palidez, que te transtorna?

        - Causa-te isso inquietação, Andréia?

        - Ainda o perguntas!

        - Amas-me então muito, Andréia?

        - Como?

        - Pergunto, Andréia, se és sempre minha amiga, como no tempo da nossa infância?

        - Oh! Filipe! Filipe!

        - Assim pois, sou para ti uma das pessoas mais queridas que tens no mundo?

        - Oh! A mais querida, a única - exclamou Andréia.

        Depois, corando e perturbada, acrescentou:

        - Perdoa, Filipe, eu não me lembrava...

        - Do nosso pai, não é verdade, Andréia?

        - Sim.

        Filipe pegou na mão da irmã e olhou para ela com ternura.

        - Andréia - disse ele - não julgues que te levasse nunca a mal, se o teu coração experimentasse uma afeição que não fosse nem o amor que tens ao pai, nem o que tens por mim...

        Depois, chegando-se mais ainda para ela, prosseguiu:

        - Estás numa idade, Andréia, em que o coração das raparigas fala mais vivamente do que elas mesmas quereriam, e bem o sabes, um preceito divino ordena às mulheres que deixem parentes e família para seguirem o esposo.

        Andréia olhou algum tempo para Filipe, como se este lhe falasse uma linguagem estrangeira, que ela não entendesse.

        Depois, rindo com uma simplicidade difícil de explicar, disse:

        - Meu esposo! Não falaste no meu esposo, Filipe? Ai, meu Deus! Ainda há-de nascer; pelo menos não o conheço!

        Filipe, ouvindo esta exclamação tão verdadeira de Andréia, aproximou-se mais dela, e apertando-lhe a mão entre as suas, respondeu:

        - Antes de ter um esposo, minha boa Andréia, há um namorado, um noivo.

        Andréia olhou admirada para Filipe, podendo assim o mancebo penetrar com a vista ávida até ao fundo do claro e virginal olhar da irmã, cuja alma inteira nele se reflectia.

        - Minha irmã - disse Filipe - desde o teu nascimento tiveste-me sempre pelo teu melhor e mais verdadeiro amigo; eu também sempre te tive por minha única amiga. Sempre tenho preferido a tudo a tua companhia, bem o sabes. Juntos crescemos, e nada perturbou a confiança que um de nós cegamente depositava no outro; por que razão desde algum tempo, Andréia, sem motivo, és a primeira a mudar de sentimentos a meu respeito?

        - Mudar, eu!  Pois eu mudei em alguma coisa para contigo, Filipe? Explica-te. Realmente, nada percebo do que me estás dizendo desde que voltaste.

        - Sim, Andréia - disse o mancebo apertando-a contra o peito; - sim, minha querida irmã, as paixões da mocidade sucederam às afeições da infância, e já me não achaste bom nem seguro para depositar em mim os segredos de amor que encerra o teu coração.

        - Meu irmão, meu irmão - disse Andréia cada vez mais admirada - o que estás aí dizendo? O que me estás aí dizendo de amor, a mim?

        - Andréia, eu entro numa questão cheia de perigos para ti, cheia de angústias para mim. Bem sei que solicitar ou antes exigir a tua confiança neste momento, é perder-me no teu espírito; mas prefiro, e acredita que é cruel para mim dizê-lo, prefiro sentir que me tens menos amizade do que deixar-te entregue às desgraças que te ameaçam, desgraças aterradoras, Andréia, se persistes no silêncio que deploro, e de que te não teria julgado capaz para com um irmão, para com um amigo.

        - Meu irmão, meu amigo - disse Andréia - juro-te que não percebo nada do que me dizes.

        - Queres que te faça perceber, Andréia?

        - Decerto, quero.

        - Pois então, se, animado por ti, eu falar com demasiada exactidão; se te fizer assomar às faces a cor do pejo, e fizer pesar a vergonha sobre o teu coração, lembra-te que a culpa terá sido tua por me teres obrigado a descer ao fundo da tua alma para de lá te arrancar o teu segredo.

        - Pois sim, Filipe, e juro-te que não te quererei mal pelo que fizeres.

        Filipe olhou para a irmã, ergueu-se na maior agitação, e percorreu o quarto a passos largos. Havia tanta discrepância entre a acusação, que no espírito formulava contra ela, e a tranqüilidade de Andréia, que se via perplexo sobre o que devia julgar a respeito da irmã.

        Andréia, pela sua parte, contemplava o irmão com pasmo, e a pouco e pouco ia gelando ao contacto daquela solenidade, tão diferente da doce e suave autoridade fraternal.

        Por isso, antes que Filipe começasse de novo a falar, Andréia levantou-se, foi direita ao irmão e encostou-se-lhe ao braço.

        Então, olhando para ele, com inexplicável ternura, disse:

        - Ouve, Filipe, olha para mim como eu olho para ti!

        - Oh! É também esse o meu desejo - respondeu o mancebo, fitando nela os olhos ardentes - o que me queres tu dizer?

        - Quero dizer-te, Filipe, que sempre tiveste ciúme da minha amizade; é natural, pois que da minha parte tenho ciúme dos teus cuidados e da tua afeição; pois bem, olha para mim como eu to pedi.

        Andréia sorriu.

        - Vês algum segredo nos meus olhos? - prosseguiu ela.

        - Sim, sim, vejo um - disse Filipe. - Andréia, tu amas alguém?

        - Eu! - bradou Andréia com uma admiração tão natural, que fora impossível à mais hábil actriz imitar a inflexão daquele monossílabo.

        E começou a rir.

        - Eu, amo alguém! - continuou ela.

        - Então amam-te?

        - Pois a ser assim é pena! Porque, visto que essa pessoa desconhecida nunca se mostrou, e por conseqüência nunca se declarou, é amor perdido.

        Então, vendo sua irmã rir e zombar com tanta franqueza a semelhante respeito, contemplando-lhe o azul tão puro dos olhos, a candura tão casta do porte, Filipe, que sentia o coração de Andréia palpitar junto ao seu coração com um movimento igual, pensou consigo que um mês de ausência não podia produzir semelhante mudança no carácter de uma senhora de proceder irrepreensível; que a infeliz Andréia era indignamente suspeitada, que a ciência mentia; lembrou-se que o Dr. Luís podia ser desculpado, pois que não conhecia nem a pureza, nem os instintos delicados de Andréia; ele podia tê-la julgado igual a todas essas raparigas nobres, que, fascinadas por exemplos indignos ou levadas pelo calor temporão de um sangue corrompido, abdicavam a virgindade sem pesar e até sem ambição.

        Um último olhar lançado sobre Andréia explicou a Filipe a falibilidade do facultativo, e considerou-se logo tão feliz com a sua explicação, que abraçou a irmã como aqueles mártires, que confessavam a pureza da Virgem Maria, confessando ao mesmo tempo a sua crença no Filho Divino.

        Foi neste período de flutuação que Filipe ouviu nas escadas os passos do Dr. Luís, que se mostrava fiel à promessa que lhe fizera.

        Andréia estremeceu: tudo para ela era assustador na situação em que se encontrava.

        - Quem vem aí? - perguntou ela.

        - Provavelmente há-de ser o Dr. Luís - disse Filipe.

        No mesmo instante, abriu-se a porta, e o médico, esperado por Filipe com tanta ansiedade, apareceu com efeito no quarto.

        Era, já o dissemos, um desses homens honrados e sisudos, para quem a ciência é um sacerdócio, e que lhe estudam os mistérios com religião.

        Naquela época toda materialista, o Dr. Luís, caso raro, procurava descobrir as doenças da alma nas enfermidades do corpo. Caminhava franca e arrebatadamente nesse caminho, importando-lhe pouco os rumores e os obstáculos, economizando o tempo, património da gente laboriosa, com uma avareza, que o tornava brutal para com os ociosos e tagarelas.

        Por isso tão asperamente tratara Filipe na primeira entrevista: tomara-o por um desses peralvilhos da corte, que conversam o médico, para lhe ouvirem cumprimentos sobre as proezas amorosas. Mas logo que viu o verso da medalha, e em lugar do peralvilho mais ou menos amoroso, achou o rosto triste e ameaçador do irmão; quando, em vez de um sujeito enfadonho, viu esboçar-se uma desgraça, o homem honrado, o filósofo comovera-se, e às últimas palavras de Filipe o médico dissera para consigo:

        - Não só podia enganar-me, senão que desejo ter-me enganado.

        E aí está o motivo porque, mesmo independente dos instantes rogos de Filipe, tornaria a visitar Andréia, para melhor conhecer, por um exame mais decisivo, o que a primeira experiência lhe dera como provável.

        Entrou portanto, e o seu primeiro olhar, o modo investigador tão peculiar ao médico observador, desde que entrou no quarto, cravou-se em Andréia, de quem nunca mais se despregou.

        Fosse pela comoção causada pela visita do doutor, fosse casualmente, Andréia teve um desses ataques que tanto haviam assustado Filipe, e cambaleou, levando ao mesmo tempo o lenço à boca.

        Filipe, ocupado como estava em receber o doutor, nada vira.

        - Doutor - disse ele - seja bem-vindo, e perdoe o meu modo um pouco arrebatado; quando haverá uma hora me cheguei ao senhor, estava tão agitado quão sossegado estou neste momento.

        O doutor deixou um instante de olhar para Andréia, e dirigiu a vista para o mancebo, cujo sorriso e contentamento analisou.

        - Conversou com a senhora sua irmã, como lhe aconselhei? - perguntou ele.

        - Conversei, doutor, conversei.

        - E está descansado?

        - Tenho de mais o Céu e de menos o Inferno na minha alma.

        O doutor pegou na mão de Andréia e tomou-lhe o pulso, que estudou por muito tempo.

        Filipe olhava para ele e parecia dizer:

        -Oh! Examine bem, doutor, agora já não temo os comentários do médico.

        Em seguida, com modo triunfante, perguntou:

        - Então, senhor?

        - Senhor cavaleiro - respondeu o Dr. Luís - tenha a bondade de me deixar só com sua irmã.

        Estas palavras, pronunciadas simplesmente, abateram o orgulho do mancebo.

        - Como! Ainda? - disse ele.

        O doutor fez um movimento.

        - Está bem, eu deixo-os, senhor - redargüiu Filipe com modo triste.

        Depois, dirigindo-se à irmã, prosseguiu:

        - Andréia, sê franca e leal para com o doutor.

        Esta encolheu os ombros como se nem pudesse compreender o que lhe queriam dizer.

        Filipe prosseguiu:

        - Enquanto ele vai fazer-te perguntas sobre a tua saúde, vou eu dar uma volta pelo jardim. A hora a que mandei vir o cavalo ainda não está chegada, de modo que poderei ainda ver-te antes da minha partida, e conversar contigo um instante.

        E apertou a mão de Andréia, tentando sorrir.

        Mas Andréia sentiu alguma coisa de convulso e de constrangido naquele aperto de mão e naquele sorriso.

        O doutor acompanhou Filipe com toda a civilidade até à porta da entrada, que fechou.

        Depois do que foi sentar-se ao lado de Andréia, no mesmo sofá em que ela estava.

 

A CONSULTA

        Reinava o mais profundo silêncio.

        Nem um sopro agitava o ar, nem uma voz humana soava: a natureza estava tranqüila.

        Todo o serviço do Trianon estava acabado; a gente das cavalariças e das cozinhas recolhera-se; o pátio estava deserto.

        Andréia sentia, no fundo do seu coração, certa comoção pela espécie de importância que Filipe e o médico ligavam àquela doença.

        Admirava-se um tanto da segunda visita do Dr. Luís, que na manhã daquele mesmo dia declarara a enfermidade insignificante e os remédios inúteis; mas, graças à sua profunda candura, o espelho resplandecente da alma nem de leve se embaciava com o sopro de todas aquelas desconfianças.

        De repente, o médico, que nunca deixara de olhar para ela, depois de lhe haver dirigido sobre o rosto a luz da lâmpada, pegou-lhe na mão como amigo ou confessor, e não já como médico.

        Aquele gesto inesperado causou grande estranheza à susceptível Andréia, que esteve a ponto de retirar a mão.

        - Minha senhora - perguntou o médico - esta minha visita é devida a desejo seu ou cedi eu simplesmente à vontade de seu irmão?

        - Senhor doutor - respondeu Andréia - meu irmão entrou aqui dizendo-me que o senhor doutor voltaria a visitar-me; segundo o que pela manhã me fez a honra de dizer sobre a insignificância da minha doença, por mim não teria tomado a liberdade de tornar a incomodá-lo.

        O médico inclinou-se.

        - Seu irmão - prosseguiu - parece ser um tanto colérico, zeloso da sua honra e intratável sobre certas matérias; foi naturalmente por esse motivo que recusou confessar-lhe tudo.

        Andréia olhou para o médico como já havia olhado para Filipe.

        - Também o senhor?! - disse ela com suprema altivez.

        - Perdão, minha senhora, deixe-me concluir.

        Andréia fez um gesto, que indicava paciência ou antes resignação.

        - É portanto natural - prosseguiu o doutor - que ao ver o desgosto dele, ao pressentir-lhe a cólera, tenha obstinadamente guardado o seu segredo; mas, comigo, minha senhora, comigo, que sou, acredite-o, médico tanto da alma como do corpo; que vejo e que sei, e que por conseqüência lhe poupo metade do difícil caminho das revelações, tenho direito a esperar que seja mais franca.

        - Senhor - respondeu Andréia - se eu não tivesse visto o rosto do meu irmão entristecer e tomar o carácter de uma dor verdadeira, se não consultasse o seu aspecto venerando e a reputação de sisudez de que goza, julgaria que estavam ambos de acordo para representar uma comédia à minha custa, e para me fazer tomar, depois desta conferência, algum remédio bem negro e bem amargo.

        O médico franziu o sobrolho.

        - Minha senhora - disse ele - rogo-lhe que não prossiga nesse caminho de dissimulação.

        - De dissimulação! - bradou Andréia.

        - Prefere que eu diga de hipocrisia?

        - Mas, senhor - bradou Andréia - está-me ofendendo!

        - Diga antes que adivinho.

        - Senhor!

        Andréia ergueu-se; mas o médico obrigou-a com brandura a sentar-se de novo.

        - Não - prosseguiu ele - não, minha filha; não a ofendo, sirvo-a; e se a convenço, salvo-a!... Assim, nem o seu olhar irritado, nem a fingida indignação que a anima, me farão mudar de resolução.

        - Mas o que quer, o que exige, meu Deus?

        - Confesse, quando não, palavra de honra, dar-me-á bem miserável opinião de si!

        - Senhor, ainda lho repito, meu irmão não está aqui para me defender, e eu digo-lhe que me insulta, que não o entendo, e ordeno que se explique clara e simplesmente a propósito desta suposta doença.

        - Pela última vez, minha senhora, queira poupar-me o desgosto de a fazer corar!

        - Não o compreendo, não o compreendo, não o compreendo! - repetiu Andréia três vezes, olhando para o doutor com os olhos chamejantes de interrogação, de desafio e quase de ameaça.

        - Pois bem! Eu, minha senhora, compreendo-a; duvida da ciência e espera ocultar a todos o seu estado, mas, desengane-se, com uma única palavra abaterei toda a sua soberba: está grávida!...

        Andréia soltou um grito terrível e caiu sobre o sofá.

        Este grito foi seguido pela bulha de uma porta aberta com violência, e Filipe deu um salto até ao meio do quarto, com a espada na mão, os olhos sanguinolentos, os beiços trémulos.

        - Miserável! - disse ele ao médico - o senhor mente!

        O doutor voltou-se lentamente para o mancebo, sem largar o pulso de Andréia, que palpitava meio morta.

        - O que eu disse está dito, senhor - disse o doutor com ar de desprezo - e não será a sua espada, embainhada ou fora da bainha, que me faça mentir.

        - Doutor! - murmurou Filipe deixando cair a espada.

        - Desejou que eu verificasse, por uma segunda prova, o meu primeiro exame! Assim o fiz; agora a certeza está fundada, adquirida, nada ma arrancará do coração. Isso magoa-me vivamente, senhor, porque me inspira tanta simpatia quanta aversão me inspira esta menina pela sua perseverança na mentira.

        Andréia permaneceu imóvel, mas Filipe fez um movimento.

        - Sou pai de família, senhor - prosseguiu o doutor - e compreendo tudo quanto pode e deve sofrer. Ofereço-lhe portanto os meus serviços e prometo-lhe a minha discrição. A minha palavra é sagrada, senhor, e toda a gente lhe dirá que tenho a minha palavra em maior conta do que a minha vida.

        - Oh! Mas, senhor, é impossível!

        - Não sei se é impossível, mas é verdade. Adeus, senhor de Taverney.

        E o médico retirou-se com o mesmo passo lento e sossegado, depois de ter olhado com sinais de compaixão para o mancebo, que estava aterrado pelo sofrimento, e que, no momento em que a porta se fechou, caiu abismado na sua dor sobre uma poltrona distante de Andréia dois passos.

        Depois da saída do médico, Filipe levantou-se, foi fechar a porta do corredor, a do quarto, as janelas, e chegando-se a Andréia, que o viu fazer esses sinistros preparativos, cruzando os braços, disse-lhe:

        - Enganaste-me cobarde e estupidamente; cobardemente, porque sou teu irmão, porque tive a fraqueza de te amar, de te preferir a tudo, de te estimar mais que tudo, e porque esta confiança da minha parte devia pelo menos provocar a tua, à falta de ternura; estupidamente, porque hoje o infame segredo que nos desonra está em poder de terceira pessoa, porque apesar da sua discrição talvez tenha já sido patente a outros olhos, porque enfim, se logo de princípio me tivesses confessado a posição melindrosa em que te achavas, eu te teria salvado da vergonha, quando não por afeição, pelo menos por egoísmo; porque, enfim, salvando-te eu, também me salvaria a mim. Até nisso andaste muito mal. A tua honra, enquanto não és casada, pertence em comum a todos aqueles cujo nome enxovalhas. Ora, agora, não sou já teu irmão, pois que renegaste este título; agora sou um homem interessado em arrancar-te por todos os meios possíveis o segredo todo inteiro, para que dessa confissão brote para mim uma reparação qualquer. Dirijo-me portanto a ti, cheio de cólera e de resolução, e digo-te: “Pois que foste cobarde bastante para confiares numa mentira, serás castigada como se castigam os cobardes. Confessa-me portanto o teu crime, senão...”

        - Ameaças! - bradou a soberba Andréia - ameaças a uma mulher!

        E ergueu-se pálida e terrível.

        - Sim, ameaças, não a uma mulher, mas a uma criatura sem fé, sem honra.

        - Ameaças - prosseguiu Andréia, exasperando-se a pouco e pouco; - ameaças a mim, que nada sei, que nada compreendo, e que olho para todos como doidos sanguinários mancomunados para me fazerem morrer de pena, quando não de vergonha!

        - Pois seja! - bradou Filipe - morre então! Morre, se não queres confessar! Morre imediatamente. Deus é teu juiz, e eu sou o teu verdugo.

        E o mancebo levantou convulsivamente a espada que deixara cair no chão, e rápido como um raio, dirigiu-lhe a ponta ao seio.

        - Bem, bem, mata-me - bradou ela sem se assustar por ver brilhar contra o peito a espada nua e sem procurar evitar o golpe.

        Pelo contrário, lançou-se para diante, dolorosa e dementada; e o seu impulso foi tão vivo, que a espada lhe teria atravessado o peito lado a lado se não fosse o repentino terror de Filipe, e a vista de algumas gotas de sangue que tingiram a roupa da irmã.

        Ao mancebo enfraqueceram-lhe as forças e a cólera, recuou, deixou cair o ferro das mãos, e caindo de joelhos soluçando, abraçou o corpo da irmã.

        - Andréia! Andréia! - bradou ele - não! Não! Eu é que hei-de morrer. Já não és minha amiga, já me não conheces, nada mais tenho que fazer neste mundo. Oh! A tal ponto tens tu amor a alguém, Andréia, que prefiras a morte a uma confissão depositada no meu peito? Oh! Andréia, não és tu que deves morrer, sou eu que hei-de matar-me.

        E fez um movimento para fugir; mas já Andréia o tinha agarrado pelo pescoço, e cobria-o de beijos e banhava-o com as suas lágrimas.

        - Não, não - disse ela - tinhas ainda há pouco razão: mata-me, Filipe, porque dizem que sou culpada! Mas tu, tão nobre, tão puro, tão bom, tu, a quem ninguém acusa, vive, e tem dó de mim em vez de me amaldiçoar.

        - Pois bem! Minha irmã - disse Filipe - em nome do Céu, em nome da nossa amizade de outrora, vamos, nada receies, nem por ti, nem por aquele a quem amas; esse, seja quem for, há-de ser-me sagrado, ainda que fosse o meu maior inimigo, ou o mais ínfimo dos homens. Mas eu não tenho inimigos, Andréia, e tu és tão nobre de coração e de sentimentos, que hás-de ter bem escolhido o teu amante, e aquele que escolheste, vou procurá-lo, vou chamar-lhe meu irmão. Nada dizes; mas é porventura impossível um casamento entre ti e ele? É isso o que queres dizer? Pois bem! Seja, eu me resignarei, guardarei para mim só toda a minha dor, abafarei essa voz imperiosa da honra que pede sangue. Nada mais exijo de ti, nem mesmo o nome desse homem. Seja, esse homem agradou-te, é-me caro. Sairemos da França, fugiremos juntos. El-rei deu-te de presente um rico adereço, segundo me disseram; vendê-lo-emos, mandaremos a nosso pai metade do produto, e depois, com a outra metade, viveremos desconhecidos; serei tudo para ti, Andréia, tu serás tudo para mim. Eu não amo ninguém; bem vês que a minha amizade não é dividida, Andréia, vês o que faço, vês que podes contar com a minha amizade; vejamos, negar-me-ias tu ainda a tua confiança, depois do que acabo de dizer-te? Vamos, vamos, não queres chamar-me teu irmão?

        Andréia escutara silenciosamente tudo quanto o triste moço acabara de dizer.

        O palpitar do coração era o único sinal de vida que lhe restava; o seu olhar era o único indício de razão.

        - Filipe - disse ela depois de longo silêncio – pensaste que eu já te não amava, pobre irmão; pensaste que eu tinha amado outro homem; pensaste que eu tinha esquecido a lei da honra, eu, que sou mulher nobre e compreendo todos os deveres que esta palavra me impõe!... Meu amigo, perdoo-te; sim, sim, perdoo-te; mas não te perdoarei se me julgares ímpia bastante, bastante vil, para te fazer um juramento falso. Eu juro-te, Filipe, pelo Deus que me ouve, pela alma da nossa mãe, que ao que parece não me protegeu bastante, juro-te pelo meu ardente amor por ti, que nunca um pensamento de amor me perturbou a mente, que nunca homem algum me disse: “Eu amo-te”; que nunca boca alguma me beijou a mão; que estou pura de espírito, virgem de desejos, e isso como no dia do meu nascimento. Agora, Filipe, agora tenha Deus a minha alma, o meu corpo está nas tuas mãos.

        - Está bem - disse Filipe depois de um momento de silêncio - está bem, Andréia, agradeço-te. Agora vejo claramente até ao íntimo do teu coração. Sim, és pura, inocente, querida vítima; mas há bebidas mágicas, filtros venenosos; alguém te armou um laço infame: o que em vida ninguém houvera podido arrancar-te, foi-te roubado durante o sono. Caíste em algum laço, Andréia; mas agora estamos unidos, por conseqüência, estamos fortes. Confias-me o cuidado da tua honra, não é verdade, e o da tua vingança?

        - Oh! Sim, sim - disse vivamente Andréia; - sim, porque se me vingares, há-de ser de um crime.

        - Pois bem! - prosseguiu Filipe - vamos, ajuda-me, auxilia-me. Procuremos juntos, examinemos um por um os dias passados, sigamos o fio da memória, e no primeiro nó desta horrível trama...

        - Oh! Sim, sim! De boa vontade - disse Andréia procuremos.

        - Vejamos, notaste que alguém te seguisse, te espreitasse?

        - Não.

        - Ninguém te escreveu?

        - Ninguém.

        - Nenhum homem te disse que te amava?

        - Nenhum.

        - As mulheres têm para isso um instinto notável; na falta de cartas, de palavras, não percebeste nunca que alguém te... cobiçasse?

        - Nunca percebi semelhante coisa.

        - Querida irmã, procura nas circunstâncias da tua vida íntima.

        - Guia-me.

        - Deste algum passeio só?

        - Nunca, a não ser no meu caminho daqui para casa da senhora delfina.

        - Quando te afastavas na quinta, na floresta?...

        - A Nicola acompanhava-me sempre.

        - A propósito, a Nicola, abandonou-te?

        - Abandonou.

        - Em que dia?

        - No mesmo dia da tua partida, creio eu.

        - Era uma rapariga de maus costumes. Soubeste as particularidades da sua fuga? Procura bem.

        - Não, sei unicamente que fugiu com um rapaz de quem gostava.

        - Quais foram as tuas últimas relações com ela?

        - Oh! Foram insignificantes; pelas nove horas, segundo o costume, entrou no meu quarto, despiu-me, preparou o copo de água e saiu.

        - Não reparaste se te deitou alguma coisa na água?

        - Não; mas quando assim fosse era indiferente, porque me lembra que no momento em que eu levava o copo à boca, experimentei uma sensação estranha.

        - Qual?

        - A mesma que eu já um dia experimentara em Taverney.

        - Em Taverney?

        - Sim, quando lá esteve aquele estrangeiro.

        - Que estrangeiro.

        - O conde de Bálsamo.

        - O conde de Bálsamo? E que sensação era essa?

        - Oh! Alguma coisa semelhante a uma vertigem, a um deslumbramento, e depois a perda de todas as minhas faculdades.

        - E já tinhas experimentado essa sensação em Taverney, dizes tu?

        - Tinha.

        - Em que circunstâncias?

        - Eu estava sentada ao piano, e senti-me desfalecer; olhei em frente de mim, e vi o conde num espelho. A partir desse momento nada mais me lembra, só sei que acordei sentada ao piano, sem poder calcular o tempo que tinha dormido.

        - Foi a única vez, dizes tu, que experimentaste essa singular sensação?

        - E uma vez ainda, no dia, ou antes na noite do fogo de vistas. Eu ia levada pela multidão, estava a ponto de ser esmagada, despedaçada; reunia todas as minhas forças para lutar, quando de repente, os meus braços estenderam-se, uma nuvem me passou diante dos olhos, mas através dessa nuvem tive tempo de ver o conde.

        - O conde de Bálsamo?

        - Sim.

        - E adormeceste?

        - Adormeci ou desmaiei, não posso dizê-lo com certeza. Sabes de que modo me levou depois para nossa casa.

        - Sim, sim; e nessa noite, na noite da partida da Nicola, tornaste a vê-lo?

        - Não, mas experimentei todos os sintomas que anunciavam a sua presença: a mesma sensação estranha, o mesmo deslumbramento nervoso, o mesmo entorpecimento, o mesmo sono.

        - O mesmo sono?

        - Sim, sono cheio de vertigens, cuja influência misteriosa eu reconheci, lutando sempre, mas sucumbindo afinal.

        - Santo Deus! - bradou Filipe; - continua, continua.

        - Adormeci.

        - Onde?

        - Na minha cama, estou certíssima disso, e acordei no chão, sobre o tapete, só, padecendo e gelada como uma defunta que ressuscita. Quando acordei, chamei a Nicola, mas debalde; a Nicola tinha desaparecido.

        - E esse sono era exactamente o mesmo?

        - Era.

        - O mesmo que em Taverney? O mesmo que no dia das festas?

        - Sim, sim.

        - Das duas primeiras vezes, antes de sucumbires, tinhas visto esse José Bálsamo, esse conde de Fénix?

        - Perfeitamente.

        - E da terceira vez, não o viste?

        - Não - disse Andréia com terror, porque começava a compreender; - não o vi, mas adivinhei-o.

        - Bem! - bradou Filipe; - agora, sossega, tranquiliza-te, ergue a cabeça, Andréia; já sei o segredo; obrigado, querida irmã, eu to agradeço! Ah! Estamos salvos!

        Filipe abraçou Andréia, apertando-a ternamente contra o peito, e levado pelo fogo da resolução, correu para fora do quarto, sem mais querer esperar nem ouvir.

        Correu à cavalariça, aparelhou ele mesmo o cavalo, montou-o, e meteu a toda a pressa pela estrada de Paris.

 

A CONSCIÊNCIA DE GILBERTO

        As cenas que acabámos de descrever tinham causado forte impressão em Gilberto.

        A equívoca susceptibilidade deste mancebo via-se exposta a uma cruel prova, quando, do fundo do retiro que escolhera, nalgum recanto dos jardins, via todos os progressos da doença nas feições de Andréia; quando a palidez, que na véspera o aterrara, lhe aparecia no dia seguinte mais pronunciada, mais acusadora, ao vê-la assomar à janela do quarto, logo ao despontar da manhã. Então, quem observasse o olhar de Gilberto, não teria desconhecido nele os sinais característicos do remorso, cujo desenho se tornou clássico entre os pintores da antiguidade.

        Gilberto amava a formosura de Andréia, e ao mesmo tempo detestava-a. Aquela radiante formosura, junta a tantas outras superioridades, estabelecia entre ele e a menina de Taverney uma nova linha de demarcação; contudo, aquela formosura afigurava-se-lhe um tesouro para conquistar. Tais eram as razões do seu amor e do seu ódio, do seu desejo e do seu desprezo.

        Mas, a partir do dia em que aquela formosura se ofuscava, em que as feições de Andréia se tornavam reveladoras de um padecimento ou de uma vergonha; a partir do dia, finalmente, em que havia perigo para Gilberto, a situação mudou completamente, e Gilberto, espírito eminentemente justo, mudou também de ponto de vista.

        Convém dizê-lo: o primeiro sentimento de Gilberto foi uma profunda tristeza. Não viu sem mágoa murchar-se a formosura, a saúde da sua antiga ama. Experimentou o delicioso orgulho de se compadecer daquela mulher tão desdenhosa para com ele, e de lhe pagar com a piedade e a compaixão todos os opróbrios com que o tinha coberto.

        Contudo não é aí que acharemos perdão para Gilberto. A soberba não serve de justificação; e só a soberba entrou no hábito que adquiriu de encarar a situação. Cada vez que a pobre menina, pálida, doente, curvada, aparecia como um fantasma aos olhos de Gilberto, o coração pulava-lhe, o sangue subia-lhe às pálpebras como se fossem lágrimas, e levava ao peito a mão crispada, convulsa, tentando comprimir a revolta da sua consciência.

        - É por mim que está perdida - murmurava ele; e depois de a ter contemplado com um olhar furioso e devorador, fugia, julgando sempre vê-la e ouvi-la gemer.

        Então sentia no coração uma das dores mais agudas e pungentes que é dado ao homem suportar. O seu furioso amor precisava um alívio, e teria por vezes sacrificado a sua vida para ter direito de cair de joelhos diante de Andréia, pegar-lhe na mão, consolá-la, e chamá-la de novo à vida quando ela desmaiava. A impossibilidade de praticá-lo era nessas ocasiões um suplício, cujas torturas não há termos no mundo que as possam explicar.

        Três dias suportou Gilberto aquele martírio.

        No primeiro notara a mudança, a lenta decomposição que em Andréia se ia operando. Onde ainda ninguém via coisa nenhuma, ele, o cúmplice, adivinhava e explicava tudo. Houve mais: depois de ter estudado e seguido o andamento do mal, calculou a época exacta em que a crise rebentaria.

        O dia dos desmaios passou-se para ele em aflições, em suores, indícios certos de uma consciência pouco sossegada. Todas aquelas manifestações de simpatia ou de sarcasmo, que Gilberto considerava como verdadeiros primores de dissimulação e de táctica, o mais limitado escrevente do Châtelet, o mais insignificante chaveiro de S. Lázaro tê-las-ia tão perfeitamente traduzido e analisado como o Fuinha do senhor de Sartines lia e transcrevia as correspondências em cifra.

        Não se vê um homem correr até perder o fôlego e parar de repente, soltar sons inarticulados e subitamente cair no mais profundo silêncio, escutar no espaço os rumores indiferentes, ou raspar a terra e cortar as árvores com frenesi, sem dizer:

        - Se aquele homem não é um criminoso, é um doido.

        Depois do primeiro sentimento de remorso, Gilberto passara da comiseração ao egoísmo. Conhecia que os desmaios tão freqüentes de Andréia nem a todos pareceriam uma doença natural, e que haviam de investigar-lhes a causa.

        Lembrou-se então das formas brutais e expeditas da justiça, que trata de informar-se; as perguntas, as indagações, as analogias desconhecidas aos outros e que põem no rasto de um criminoso esses rafeiros cheios de recursos a que chamam descobridores de todos os géneros de roubos que podem desonrar um homem.

        Ora, o que Gilberto tinha cometido parecia-lhe, em moral, o mais odioso e digno de castigo.

        Começou portanto a tremer seriamente, porque receou que os padecimentos de Andréia suscitassem um exame.

        Desde então, semelhante ao criminoso do célebre quadro a quem o anjo do remorso persegue com o pálido clarão da sua tocha, não cessou Gilberto de olhar com olhos assustados para quanto o cercava. O mais leve rumor, a vista de pessoas segredando, tudo se lhe tornava suspeito. Escutava ansioso as palavras pronunciadas diante dele, e por insignificantes que fossem, pareciam-lhe ter relação com a menina de Taverney ou com ele.

        Vira o senhor de Richelieu ir ao palácio, e o senhor de Taverney a casa da filha. A residência régia tinha-lhe naquele dia parecido assumir um aspecto de conspiração e de desconfiança, que não era habitual.

        Pior foi quando viu o médico da senhora delfina dirigir-se para os quartos de Andréia.

        Gilberto era daqueles cépticos que em nada crêem. Pouco lhe importava com os homens ou com o céu, mas reconhecia por Deus a ciência e proclamava a sua omnipotência.

        Havia momentos em que Gilberto negaria a penetração infalível do Ente Supremo; das palavras do médico nunca duvidava. A chegada do Dr. Luís junto de Andréia foi um golpe profundo na moral de Gilberto.

        Correu ao quarto, interrompendo todo o trabalho, e surdo como uma estátua às recomendações dos seus chefes. Ali, por detrás da pobre cortina que improvisara, para encobrir as suas espionagens, apurou todas as faculdades para tentar surpreender uma palavra, um gesto, que lhe revelasse o resultado da consulta.

        Nada o esclareceu. Viu unicamente uma vez o rosto da delfina, que se aproximara da janela para olhar para o pátio, que talvez nunca tivesse visto.

        Viu o Dr. Luís abrir a mesma janela para deixar entrar um pouco de ar no quarto. Quanto a ouvir o que se dizia, quanto a ver a expressão das fisionomias, Gilberto não o conseguiu: uma cortina, que servia de estore, tapou a janela e interceptou todo o sentido da cena.

        Pode-se julgar das angústias do mancebo. O médico, com o seu olho de lince descobrira o mistério. Ia saber-se tudo; não imediatamente, porque Gilberto supunha com razão que a presença da delfina seria um obstáculo, mas dentro de pouco tempo, entre o pai e a filha, depois da partida das pessoas estranhas.

        Gilberto, embriagado de dor e impaciência, batia com a cabeça contra as paredes da sua água-furtada.

        Viu o senhor de Taverney sair com a senhora delfina, e já o doutor tinha partido.

        - Será entre o senhor de Taverney e a delfina – disse ele - que tenha lugar a explicação.

        O barão não voltou para junto da filha; Andréia ficou só no seu quarto e passou o tempo sobre um sofá entregue ora a uma leitura, que os espasmos e as dores de cabeça a obrigavam a interromper, ora a uma meditação e impassibilidade por tal forma estranhas, que Gilberto tomava-as por êxtase, quando a surpreendia num desses períodos pela abertura da cortina, que o vento levantava.

        Andréia, cansada de tantos padecimentos e comoções, adormeceu. Gilberto aproveitou esse intervalo para ir fora ouvir os rumores e os comentários.

        Esse tempo foi-lhe precioso por causa das reflexões que lhe deu lugar para fazer.

        O perigo era por tal forma iminente, que se tratava de o combater por uma resolução súbita, heróica.

        Foi o primeiro ponto de apoio em que aquele espírito vacilante, à força de subtil, achou ânimo e descanso.

        Mas que resolução tomaria? Uma mudança em circunstâncias semelhantes era uma revelação. A fuga? Ah! Sim! A fuga, com essa energia da mocidade, com esse vigor do desespero e do terror, que duplicam as forças de um homem e as igualam à de um exército inteiro... Esconder-se de dia, caminhar de noite, e chegar enfim...

        Onde?

        Em que lugar do mundo poderia ocultar-se, que não fosse lá buscá-lo o braço vingador da justiça de el-rei?

        Gilberto conhecia os costumes do campo: o que pensam nos lugares quase desertos; o que pensam numa aldeia, num lugar, do estrangeiro que aparece um dia a mendigar o pão, ou que suspeitam de o roubar. E daí Gilberto seria fácil de conhecer; um rosto notável, uma fisionomia que dali por diante teria o sinal indelével de um segredo terrível atrairia a atenção do primeiro observador. Fugir era um perigo; ser descoberto, era uma vergonha.

        A fuga devia fazer julgar Gilberto culpado; repeliu a idéia, e como se nele o espírito não tivesse força para engendrar outra, só lhe ocorreu a da morte.

        - A todo o tempo é tempo - disse consigo - de pensar na morte, reservemo-nos para quando estiverem esgotados todos os recursos. E demais, o suicídio é uma cobardia, segundo diz o Sr. Rousseau; sofrer é mais nobre.

        Sobre este paradoxo, ergueu Gilberto a cabeça e começou novamente os seus passeios pelos jardins.

        Nasciam-lhe na alma os primeiros raios da confiança quando de repente Filipe, chegando de súbito como vimos, confundiu-lhe todas as idéias, lançando-o em nova série de perplexidades.

        O irmão! Foi chamado o irmão! Então era caso bem averiguado! À família tomava o partido do silêncio; sim, mas com as investigações, o apurar das circunstâncias, que, para Gilberto, valiam todo o aparelho de tortura da Conciergerie, do Châtelet e da Tournelle. Levá-lo-iam então à presença de Andréia, obrigá-lo-iam a ajoelhar, a confessar baixamente o seu crime, e matá-lo-iam como um cão, a pau ou à faca. Vingança legítima, que tinha a sua imunidade nos precedentes de uma chusma de aventuras.

        O rei Luís XV era muito indulgente para com a nobreza em semelhantes ocasiões.

        E daí Filipe era o mais terrível vingador que Andréia podia chamar em seu auxílio; o único da família que havia mostrado a Gilberto sentimentos de homem e quase de igual, mataria o culpado mais depressa com uma palavra do que com o ferro, se essa palavra fosse: “Gilberto, comeste do nosso pão, e desonraste-nos!”

        Por isso vimos Gilberto fugir apenas divisou Filipe; por isso voltando à chamada do mesmo oficial, só obedecia ao seu instinto para se não acusar a si mesmo, e a partir daquele momento concentrou todas as suas forças num único ponto: a resistência.

        Seguiu Filipe, viu-o entrar no quarto de Andréia, conversar com o Dr. Luís; espreitou tudo, apreciou tudo, e compreendeu o desespero do moço oficial. Viu nascer e desenvolver-se aquela dor: a terrível cena com Andréia adivinhou-a pela projecção das sombras sobre as cortinas.

        - Estou perdido - pensou, e, perdendo o juízo, pegou numa faca para matar Filipe, que esperava ver aparecer-lhe à porta do quarto... Ou para matar-se a si, se fosse preciso.

        Pelo contrário, Filipe reconciliou-se com a irmã. Gilberto viu-o de joelhos beijando as mãos de Andréia. Era uma nova esperança, uma porta de salvação. Se Filipe não tinha ainda soltado gritos de raiva, era porque Andréia ignorava completamente o nome do culpado. Se ela, a única testemunha, a única acusadora, nada sabia, ninguém podia saber alguma coisa. Se Andréia, louca esperança! sabia e nada tinha dito, era mais do que a salvação, era a felicidade, era o triunfo.

        Desde aquele momento, Gilberto subiu resolutamente ao nível da situação. Nada mais o deteve no seu caminho, logo que se tornou mais claro o seu modo de ver.

        - Onde estão os vestígios - disse ele - se Andréia me não acusa? E louco que eu sou! Seria do resultado que me acusasse ou do crime? Ora, ela nunca me levou a mal o crime, nada nestas três semanas me tem indicado que me odeie mais, ou fuja mais de mim do que dantes. Se portanto não conheceu a causa, nada no efeito me pode comprometer mais a mim do que a qualquer outro. Eu vi o rei na câmara da Srª. Andréia, e iria jurá-lo, se fosse preciso, diante do irmão, e apesar de todas as negativas de Sua Majestade, haviam de dar-me crédito. Haviam, mas seria perigosíssimo... Calar-me-ei: el-rei tem demasiados meios para provar a sua inocência ou anular o meu juramento. Mas, na falta do rei, cujo nome em tudo isto não pode ser invocado, sob pena de prisão perpétua ou de morte, não tenho eu aquele desconhecido, que na mesma noite fez descer a menina de Taverney ao jardim?... E como poderá ele defender-se? Como se adivinhará quem era, e adivinhando como será possível achá-lo? É um homem como qualquer outro, não vale mais do que eu, e contra ele sempre me defenderei bem. Além disso, nem sequer pensam em mim. Só Deus me viu – acrescentou ele rindo amargamente. - Mas esse Deus, que tanta vez viu as minhas lágrimas e a minha dor sem dizer coisa alguma, cometeria agora a injustiça de me revelar nesta ocasião, a primeira de felicidade que porventura me tenha concedido?...

        E demais, se o crime existe, é dele e não meu, e o senhor de Voltaire prova à sociedade que já não há milagres. Estou salvo, estou sossegado, o meu segredo pertence-me. O futuro é meu.

        Feitas estas reflexões, ou melhor diremos, esta composição com a consciência, Gilberto guardou os utensílios de lavoura, e foi juntar-se aos companheiros para tomar a refeição da noite. Mostrou-se contente, alegre, provocador mesmo. Sentira remorsos, assustara-se, e era essa uma dupla fraqueza, que um homem, um filósofo, devia apressar-se em destruir. Mas, não contara com a consciência. Gilberto não pôde dormir.

 

DUPLA AFLIÇÃO

        Gilberto julgara bem a situação quando dizia, falando do desconhecido por ele surpreendido nos jardins durante a noite, que tão fatal fora para a menina de Taverney:

        - Encontrá-lo-ão?

        Efectivamente, Filipe ignorava de todo a morada de Bálsamo, conde de Fénix.

        Mas lembrou-se daquela senhora, daquela marquesa de Savigny, a cuja casa, na noite de 31 de Maio, Andréia fora levada para receber os socorros de que precisava.

        Não era tão adiantada a hora que não fosse possível ir a casa da marquesa, que morava na Rua de Saint-Honoré. Filipe comprimiu toda a agitação do espírito e dos sentidos: foi a casa daquela senhora, cuja criada, sem hesitação, lhe indicou a morada de Bálsamo, na Rua de Saint-Claude, ao Marais.

        Filipe dirigiu-se imediatamente à casa que lhe ensinaram.

        Mas não foi sem profunda comoção que bateu à porta daquela casa suspeita, onde segundo as suas conjecturas, se achava sepultado para sempre o descanso e a honra da infeliz Andréia. Mas com um esforço de vontade, venceu a indignação e a sensibilidade para reservar bem intactas as forças de que contava ter em breve muita necessidade.

        Bateu portanto à porta com mão firme, e segundo o costume, a porta abriu-se imediatamente.

        Filipe entrou no pátio segurando o cavalo pela rédea.

        Mas não tinha ainda dado quatro passos quando Fritz, saindo do vestíbulo e aparecendo no cimo da escada, o fez parar com esta pergunta:

        - O que pretende o senhor?

        Filipe estremeceu ao ouvir estas palavras.

        Olhou para o alemão, franzindo o sobrolho, como se Fritz não tivesse cumprido um simples dever de servo.

        - Quero - disse ele - falar ao dono da casa, ao Sr. Conde de Fénix - redargüiu Filipe atando a rédea do cavalo a uma argola e caminhando para a casa, na qual entrou.

        - O senhor não está em casa - disse Fritz, deixando contudo passar Filipe, com a civilidade de um criado bem educado.

        Caso estranho, Filipe parecia ter previsto tudo, menos aquela simples resposta.

        Ficou um instante silencioso.

        - Onde o encontrarei? - perguntou.

        - Não sei, senhor.

        - Contudo deve sabê-lo.

        - Peço perdão, mas meu amo não me dá conta das suas acções.

        - É forçoso que eu fale esta noite mesmo a seu amo - disse Filipe.

        - Duvido que seja possível.

        - É absolutamente preciso falar-lhe; é para um negócio da maior importância.

        Fritz inclinou-se sem dar resposta.

        - Saiu então? - perguntou Filipe.

        - Saiu, sim senhor.

        - Mas há-de certamente voltar?

        - Creio que não, senhor.

        - Ah! Crê que não?

        - Assim o creio, senhor.

        - Muito bem - disse Filipe com visíveis sinais de impaciência - entretanto vá dizer a seu amo...

        - Já tive a honra de dizer-lhe que não está em casa - respondeu imperturbavelmente Fritz.

        - Eu sei muito bem o que valem essas ordens – disse Filipe - e a sua é respeitável; mas realmente não se pode entender comigo, cuja visita seu amo não podia prever e que venho por excepção.

        - A ordem é para todos, senhor - respondeu desabridamente Fritz.

        - Então, uma vez que confessa que é uma ordem – disse Filipe - o conde de Fénix está aqui.

        - Muito bem, e que esteja? - disse Fritz, que começava a impacientar-se com tanta insistência.

        - Nesse caso esperarei.

        - O senhor não está em casa, já lho disse – redargüiu Fritz; - parte da casa ardeu há algum tempo, e em conseqüência desse incêndio não está habitável.

        - Todavia você habita nela - disse Filipe com mau modo.

        - Habito-a para a guardar.

        Filipe encolheu os ombros como quem não dá crédito ao que lhe dizem.

        Fritz começou a irritar-se.

        - E demais - disse ele- quer o senhor conde esteja em casa, quer não esteja, na sua presença ou na sua ausência, não é costume entrar na casa dele à força; e se se não conforma com os usos, vejo-me obrigado...

        Fritz calou-se.

        - Obrigado a quê? - perguntou Filipe encolerizando-se.

        - A pô-lo na rua - respondeu Fritz sossegadamente.

        - Você? - bradou Filipe, com os olhos chamejantes.

        - Eu - redargüiu Fritz, tomando, com o carácter particular aos da sua nação, todas as aparências do sangue frio, à medida que a sua cólera crescia.

        E deu um passo para o mancebo, que, exasperado, fora de si, levou a mão à espada.

        Fritz, sem se atemorizar com a vista do ferro, sem chamar (talvez mesmo que estivesse só) foi buscar a uma panóplia uma espécie de lança com ferro curto mas agudo, e correndo para Filipe fez-lhe voar em pedaços, logo ao primeiro golpe, a espada fraca e pequena.

        Filipe soltou um grito de raiva, e correu também para o troféu, a fim de tirar uma arma.

        Neste momento abriu-se a porta oculta do corredor, e destacando-se no quadro sombrio, apareceu o conde.

        - O que é isso, Fritz? - perguntou ele.

        - Nada, senhor - redargüiu o criado baixando a lança, mas colocando-se como uma barreira em frente do amo, que, parado nos degraus da escada oculta, o dominava com metade do corpo.

        - Sr. Conde de Fénix - disse Filipe - é costume da sua terra virem os lacaios receber a gente com uma lança na mão, ou será isso apenas uma ordem relativa à sua casa?

        - Suspende, Fritz - disse Bálsamo.

        Fritz baixou a lança, e a um sinal do amo, foi pô-la num recanto do vestíbulo.

        - Quem é o senhor? - perguntou o conde, que não via bem Filipe com a má claridade da lâmpada que alumiava a antecâmara.

        - Alguém que quer absolutamente falar-lhe.

        - Que quer?

        - Tal qual.

        - Aí está uma palavra que contém o perdão de Fritz, senhor, porque eu a ninguém quero falar, e quando estou em minha casa, a ninguém reconheço o direito de me querer falar. É portanto culpado de um erro para comigo; mas - acrescentou Bálsamo suspirando - eu perdoo-lho, com a condição porém de se retirar e não perturbar por mais tempo o meu sossego.

        - É realmente muito justo da sua parte – bradou Filipe - pedir-me o seu sossego quando me roubou o meu.

        - Eu roubei-lhe o sossego? - perguntou o conde.

        - Sou Filipe de Taverney! - bradou o mancebo, julgando que, para a consciência do conde, essas palavras respondiam a tudo.

        - Filipe de Taverney?... - disse o conde; - fui bem recebido por seu pai, seja bem-vindo a minha casa. Queira acompanhar-me, senhor.

        Bálsamo fechou a porta da escada particular, e indo adiante de Filipe, conduziu-o à sala, onde vimos necessariamente representar-se algumas das cenas desta história, e particularmente a mais recente de todas as que lá se passaram, a dos cinco chefes.

        A sala estava iluminada como se esperassem alguém, mas evidentemente era um dos usos da casa.

        - Boa noite, senhor de Taverney - disse Bálsamo com um som de voz doce e triste, que obrigou Filipe a erguer os olhos para ele.

        Mas ao fitar Bálsamo, Filipe recuou dois passos.

        O conde, com efeito, não era já senão a sombra do que fora; os olhos encovados já não brilhavam; as faces, emagrecidas, emolduravam-lhe a boca com duas pregas, o ângulo facial, nu e descarnado, dava-lhe à cabeça o aspecto de uma caveira.

        Filipe ficou aterrado. Bálsamo notou a sua admiração, e um sorriso de tristeza mortal lhe assomou aos lábios descorados.

        - Senhor - disse ele - peço desculpa pelo procedimento do meu criado; mas, na realidade, ele obedecia às ordens, e era o senhor, permita que lho diga, que não procedia bem, querendo resistir a elas.

        - Senhor - disse Filipe - bem sabe que há na vida situações extremas, e eu estava numa dessas situações.

        Bálsamo não respondeu.

        - Queria vê-lo - continuou Filipe - queria falar-lhe, e para chegar a encontrá-lo, teria afrontado a morte.

        Bálsamo continuava a estar silencioso e parecia esperar um esclarecimento às palavras do mancebo, sem ter força nem curiosidade de o pedir.

        - Mas afinal, consegui-o - continuou Filipe – estamos em frente um do outro, e vamos ter uma explicação, se quiser; mas, tenha primeiramente a bondade de mandar retirar aquele homem.

        E com a mão Filipe designava Fritz, que acabava de levantar o reposteiro, como para pedir ao amo as suas últimas ordens a respeito do importuno.

        Bálsamo fitou em Filipe um olhar cujo fim era penetrar-lhe as intenções; mas achando-se em presença de um homem seu igual pela posição e pela distinção, Filipe readquirira o seu sossego e a sua força, e foi impenetrável.

        Então Bálsamo, com um simples movimento de cabeça, ou antes de olhos, mandou retirar Fritz, e sentaram-se ambos em frente um do outro; Filipe de costas voltadas para a chaminé, Bálsamo com o cotovelo apoiado sobre uma mesa.

        - Tenha a bondade de ser breve e explícito, senhor – disse Bálsamo - porque o atendo só por condescendência, e previno-o de que depressa cansarei.

        - Falarei como devo, senhor, e tanto quanto eu o julgar conveniente - disse Filipe - e com a devida licença, vou começar por uma interrogação.

        Àquela palavra Bálsamo franziu o sobrolho e despediu dos olhos como que um raio eléctrico.

        Trazia-lhe tantas recordações, que Filipe estremeceria, se tivesse sabido o que se revolvia no fundo do coração daquele homem.

        Entretanto, passado um momento de silêncio, que empregou em tomar império sobre si, Bálsamo disse:

        - Pode interrogar.

        - Senhor - respondeu Filipe - nunca me explicou bem o emprego do seu tempo durante aquela memorável noite de 31 de Maio, a partir do momento em que tirou minha irmã do meio dos moribundos e dos mortos, que entulhavam a Praça de Luís XV.

        - O que significa isso? - perguntou Bálsamo.

        - Significa, senhor conde, que todo o seu procedimento, naquela noite, foi-me sempre, e agora mais que nunca, gravemente suspeito.

        - Suspeito?

        - Sim, e segundo todas as probabilidades, não foi próprio de um homem honrado.

        - Senhor - disse Bálsamo - não o percebo; deve notar que a minha cabeça está cansada, enfraquecida, e que essa fraqueza causa-me naturalmente impaciências.

        - Senhor! - bradou Filipe, por sua vez irritado com o tom ao mesmo tempo altivo e sossegado em que Bálsamo lhe falava.

        - Senhor! - prosseguiu Bálsamo no mesmo tom - desde que tive a honra de o ver, experimentei uma grande desgraça: parte da minha casa ardeu, e vários objectos preciosos, entenda, foram perdidos para mim; desse desgosto resultou-me alguma perturbação; rogo-lhe, portanto, que fale com muita clareza, senão, despeço-me do senhor imediatamente.

        - Oh! Não, não, senhor - disse Filipe; - não se despedirá de mim com tanta facilidade como diz; eu respeitarei os seus desgostos se o senhor respeitar os meus: a mim, senhor, também me sucedeu uma grande desgraça, muito maior do que a sua, tenho a certeza disso.

        Bálsamo sorriu com um sorriso desesperado que Filipe lhe vira já nos lábios.

        - Eu, senhor - continuou Filipe - perdi a honra da minha família.

        - Pois bem, senhor - redargüiu Bálsamo - o que posso eu fazer a essa desgraça?

        - O que pode fazer? - bradou Filipe com os olhos chamejantes.

        - Sim.

        - Pode restituir-me o que perdi, senhor.

        - Ora vamos a saber - exclamou Bálsamo – está doido?

        E estendeu a mão para a campainha.

        Mas fez esse gesto tão brandamente e com tão pouca precipitação, que o braço de Filipe pôde detê-lo.

        - Eu doido? - bradou Filipe com voz trémula; - mas não compreende que se trata da minha irmã, que teve desmaiada nos seus braços, em 31 de Maio; de minha irmã, que o senhor levou para uma casa, honrada segundo dizem, mas infame segundo creio; de minha irmã, numa palavra, cuja honra venho pedir-lhe com a espada na mão?

        Bálsamo encolheu os ombros.

        - Oh! Meu Deus! - murmurou ele - que rodeios para chegar a uma coisa tão simples.

        - Desgraçado! - bradou Filipe.

        - Que estrondosa voz que tem, senhor - disse Bálsamo com a mesma impaciência triste; - ensurdece-me. Vamos a saber, acaba de dizer-me que eu tinha insultado sua irmã?

        - Sim, cobarde!

        - Outro grito e um insulto inúteis, senhor; quem diabo lhe disse que eu tinha insultado sua irmã?

        Filipe hesitou; o tom com que Bálsamo pronunciara estas palavras causava-lhe profunda estranheza. Era o cúmulo da imprudência, ou era a expressão de uma consciência pura?

        - Quem mo disse? - redargüiu o mancebo.

        - Sim, quem lho disse?

        - Foi minha irmã mesma, senhor.

        - Pois então, senhor, sua irmã é uma...

        - Ia dizer? - bradou Filipe com gesto ameaçador.

        - Ia dizer, senhor, que na realidade me dá bem triste idéia de si e de sua irmã. Quer que lho diga, é a mais feia especulação do mundo, essa que fazem certas mulheres com a sua desonra. Ora, veio com a ameaça nos lábios, como os irmãos barbudos das comédias italianas, para me obrigar, de espada em punho, ou a casar com sua irmã, o que prova que ela tem urgente necessidade de um marido, ou a dar-lhe dinheiro, porque sabe que faço ouro. Pois bem, senhor, em ambos os pontos se enganou: não lhe darei dinheiro e sua irmã ficará solteira.

        - Nesse caso terei o sangue todo das suas veias – exclamou Filipe - dado o caso que nelas lhe gire sangue.

        - Também não, senhor.

        - Como?

        - O sangue que tenho, guardo-o; se o quisesse verter, tinha uma ocasião muito mais séria do que essa que me oferece. Portanto, senhor, faça favor de se retirar sossegadamente, e se faz tanta bulha, como está fazendo, causar-me-á dores de cabeça, chamarei Fritz, que acudirá, e a um sinal meu, há-de quebrá-lo ao meio como um ramo de arbusto. Retire-se.

        Desta vez Bálsamo tocou, e como Filipe queria impedi-lo, abriu uma caixa de ébano que estava sobre a mesa, e tirou de dentro uma pistola de dois canos que engatilhou.

        - Pois sim! Prefiro isso - bradou Filipe.

        - Por que o mataria eu?

        - Porque me desonrou.

        O mancebo pronunciou estas palavras com tal acento de verdade, que Bálsamo, olhando para ele com um modo cheio de doçura, disse:

        - Será possível que esteja de boa-fé?

        - Duvida? Duvida da palavra de um homem de bem?

        - E - prosseguiu Bálsamo - que a menina de Taverney tenha concebido essa indigna idéia, que o impeliu a isto? Quero admiti-lo: vou portanto dar-lhe uma satisfação. Juro-lhe pela minha honra que o meu procedimento para com a senhora sua irmã na noite de 31 de Maio foi irrepreensível; que nem ponto de honra, nem tribunal humano, nem justiça divina, podem provar seja o que for de contrário à mais perfeita probidade; crê o que digo?

        - Senhor! - disse o mancebo admirado.

        - Sabe que não temo um duelo, isso lê-se nos olhos, não é verdade? Quanto à minha fraqueza, não se iluda com ela; é só aparente. Tenho pouco sangue no rosto, é verdade, mas os meus músculos nada perderam da sua força. Quer uma prova, olhe!...

        E Bálsamo levantou com uma das mãos, e sem esforço, um enorme vaso de bronze, que estava sobre um móvel de Boule.

        - Pois bem, senhor, seja - disse Filipe; - acredito-o, no que diz respeito ao dia 31 de Maio; mas é um subterfúgio que emprega; coloca a sua palavra sob a garantia de um erro de data. Depois disso, tornou a ver minha irmã.

        Bálsamo hesitou.

        - É verdade - disse ele - tornei a vê-la.

        E a fronte, um instante límpida, tornou a anuviar-se de um modo terrível.

        - Ah! Não me enganei! - disse Filipe.

        - Mas tendo eu tornado a ver sua irmã, o que prova isso contra mim?

        - Prova que a lançou nesse sono inexplicável, que já três vezes, à sua chegada, ela tem experimentado, e que abusou dessa insensibilidade para obter o segredo do seu crime.

        - Repito: quem diz isso? - bradou Bálsamo.

        - Minha irmã!

        - Como o sabe ela, uma vez que dormia?

        - Ah! Confessa então havê-la adormecido?

        - Confesso, sim, senhor.

        - Havê-la adormecido, disse?

        - Sim, senhor.

        - E para que fim, senão para a desonrar?

        - Com que fim, ah! - disse Bálsamo, inclinando a cabeça sobre o peito.

        - Fale, fale!

        - Com o fim, senhor, de lhe fazer revelar um segredo, que me era mais precioso do que a vida.

        - Oh! Astúcia, subterfúgio!

        - E foi nessa noite - continuou Bálsamo seguindo mais o seu pensamento do que respondendo à injuriosa interrogação de Filipe - foi nessa noite que sua irmã?...

        - Foi desonrada, sim, senhor.

        - Desonrada?

        - Minha irmã é mãe!

        Bálsamo soltou um grito.

        - Oh! É verdade, é verdade - disse ele - lembro-me bem; retirei-me sem a despertar.

        - Confessa! Confessa! - bradou Filipe.

        - Sim, e algum infame durante essa terrível noite! Oh! Terrível para todos nós, senhor! Algum infame se terá aproveitado do seu sono.

        - Quer zombar de mim, senhor?

        - Não, quero convencê-lo.

        - Há-de ser difícil.

        - Onde se acha neste momento sua irmã?

        - Lá, onde tão bem a descobriu.

        - No Trianon?

        - Sim.

        - Vou ao Trianon com o senhor.

        Filipe ficou imóvel de admiração.

        - Cometi um erro, senhor - disse Bálsamo – mas estou puro de todo o crime; deixei aquela criança no sono magnético. Pois bem, em compensação desse erro, que é justo perdoar-me, eu lhe darei a conhecer o nome do culpado.

        - Diga-o, diga-o!

        - Não o sei - disse Bálsamo.

        - Quem o sabe, então?

        - Sua irmã.

        - Mas ela não mo quis dizer.

        - Pode ser; mas a mim há-de dizê-lo.

        - Minha irmã?

        - Se sua irmã acusar alguém, acreditá-la-á?

        - Sim, porque minha irmã é um anjo de pureza.

        Bálsamo tocou a campainha.

        - Fritz, uma carruagem - disse ele, vendo entrar o alemão.

        Filipe passeava pela casa como um doido.

        - O criminoso? - disse ele - promete fazer-me conhecer o criminoso?

        - Senhor - disse Bálsamo - a sua espada quebrou-se na luta; permita que eu lhe ofereça outra.

        E de cima de uma poltrona tirou uma espada magnífica, de punho dourado, que prendeu ao cinto de Filipe.

        - E o senhor! - disse o mancebo.

        - Eu, não preciso ir armado - redargüiu Bálsamo; - a minha defesa está no Trianon, o meu defensor, será o senhor mesmo, quando sua irmã tiver falado.

        Um quarto de hora depois, entraram para a carruagem, e Fritz, a todo o galope de dois excelentes cavalos, conduziu-os pela estrada de Versalhes.

 

CAMINHO DO TRIANON

        Todos aqueles passos e a explicação que se lhes seguiu tinham levado tempo, de modo que eram quase duas horas da madrugada quando saíram da Rua de Saint-Claude.

        Levaram cinco quartos de hora para chegar a Versalhes, e dez minutos para ir de Versalhes ao Trianon, por isso só às três horas e meia chegaram ao seu destino.

        Durante a segunda parte do caminho, já a aurora reflectia nos bosques cheios de frescura e nas colinas de Sèvres os seus raios cor-de-rosa. Como se um véu se tivesse lentamente erguido diante dos seus olhos, os lagos de Ville de Avray e os outros mais distantes de Buc tinham-se iluminado, semelhando espelhos.

        Depois, finalmente, apareceram-lhes as colunatas e os telhados de Versalhes, avermelhados já pelos raios de um sol ainda invisível.

        De vez em quando, um vidro em que se reflectia um raio de sol, cintilava, e avermelhava com a sua luz a névoa da madrugada.

        Chegando ao fim da avenida que conduz de Versalhes ao Trianon, Filipe mandara parar a carruagem; e dirigindo-se ao seu companheiro, que durante a viagem toda tinha conservado profundo silêncio, disse-lhe:

        - Senhor, receio muito que nos vejamos obrigados a esperar aqui algum tempo. As portas do Trianon não se abrem antes das cinco horas da manhã e receio que, querendo entrar antes, a nossa chegada pareça suspeita aos vigias e guardas.

        Bálsamo não respondeu, mas mostrou por um sinal, que aquiescia à proposta.

        - Demais, senhor - continuou Filipe - esta demora dar-me-á tempo de lhe participar algumas reflexões que fiz durante a nossa jornada.

        Bálsamo olhou para Filipe com um modo vago, cheio de enfado e indiferença.

        - Como quiser, senhor - disse ele; - pode falar.

        - Disse-me - continuou Filipe - que durante a noite de 31 de Maio, depositara minha irmã em casa da Srª. Marquesa de Savigny?

        - E o senhor certificou-se disso - disse Bálsamo – visto que fez uma visita de agradecimento a essa senhora.

        - Acrescentou que tendo sido acompanhado por um criado de el-rei desde o palácio da marquesa até nossa casa, isto é, à Rua Coq-Héron, não tinha estado só com ela; acreditei no que disse na fé da sua honra.

        - E fez muito bem, senhor.

        - Mas trazendo o meu pensamento para circunstâncias mais recentes, vi-me obrigado a conhecer que há um mês, no Trianon, para falar com minha irmã, nesse momento em que achou meio de se introduzir nos jardins, deve ter entrado no seu quarto.

        - Nunca entrei no Trianon, na câmara da sua irmã, senhor.

        - Todavia, ouça!... Bem vê que, antes de chegar à presença de Andréia, é preciso que tudo esteja bem explicado.

        - Esclarecerei tudo o que quiser, senhor cavaleiro, estimo imenso, para isso aqui viemos.

        - Pois bem! Nessa noite - cuidado na sua resposta, porque o que vou dizer-lhe é positivo, e é mesmo confessado por minha irmã - nessa noite, digo, minha irmã tinha-se deitado cedo; foi então na cama que a surpreendeu?

        Bálsamo abanou a cabeça com sinal negativo.

        - Nega? Cuidado! - disse Filipe.

        - Nada nego, senhor, interroga-me, eu respondo.

        - Pois então, continuo a interrogar, e continue o senhor a responder.

        Bálsamo não se irritou, pelo contrário, fez sinal a Filipe que estava esperando.

        - Quando subiu ao quarto da minha irmã – continuou Filipe animando-se cada vez mais - quando a surpreendeu e a adormeceu com o seu infernal poder, Andréia estava deitada. Estava lendo quando sentiu a invasão do singular entorpecimento que a sua presença sempre lhe impõe, e perdeu os sentidos. Ora, disse que nada mais fez do que interrogá-la; acrescentando apenas que se retirou esquecendo-se de a despertar; contudo - acrescentou Filipe agarrando o pulso de Bálsamo e apertando-o convulsivamente - contudo, quando Andréia tornou a si, no dia seguinte, estava, não já na cama, mas aos pés do sofá, quase nua. Responda a esta acusação, senhor, e não tergiverse.

        Durante esta interpelação, Bálsamo, semelhante a um homem a quem acordam, afastava uma por uma as negras idéias que lhe anuviavam o espírito.

        - Realmente, senhor - disse ele - não devia ter voltado a este assunto, levantando uma questão eterna. Vim aqui por condescendência e no seu interesse, e parece-me que o esquece. É ainda moço, é oficial, tem o costume de falar alto e com a mão no punho da espada: tudo isso faz com que em graves circunstâncias o seu raciocínio seja falso. Em minha casa, já fiz mais do que devia fazer para convencê-lo e obter-lhe algum descanso. Começa novamente; tome conta, que, se me fatigar, deixo-me abismar na profundidade dos meus desgostos, ao lado dos quais os seus são apenas males passageiros; e quando assim durmo, senhor, ai daquele que me desperta! Não entrei no quarto de sua irmã, é tudo quanto posso dizer-lhe; foi sua irmã que, do seu moto próprio, para o qual muito concorria a minha vontade, confesso, foi sua irmã que veio ter comigo ao jardim.

        Filipe fez um movimento, mas Bálsamo deteve-o.

        - Prometi-lhe uma prova - continuou ele - eu lha darei. Quere-a já? Seja assim. Entremos no Trianon, em vez de perdermos tempo com questões inúteis. Prefere esperar? Esperemos, mas em silêncio e sem comoção.

        Dito isto, e com modo que os nossos leitores lhe conhecem, Bálsamo apagou do olhar o raio fugitivo e abismou-se de novo na sua meditação.

        Filipe soltou profundo gemido, como um animal feroz que se prepara para morder; depois, mudando repentinamente de atitude e de pensar, disse:

        - Com este homem é preciso persuadir ou dominar por uma superioridade qualquer. Por enquanto não tenho meio algum de dominação nem de persuasão; paciência!

        Mas, como junto de Bálsamo lhe era impossível ter paciência, apeou-se da carruagem e começou a passear a passos largos na rua verdejante, onde a carruagem parara.

        Passados dez minutos, sentiu Filipe que lhe era impossível esperar mais tempo.

        Preferiu portanto mandar abrir mais cedo a grade, mesmo com o risco de despertar desconfianças.

        - E demais - murmurava Filipe dando vulto a uma idéia que já várias vezes se lhe apresentara ao espírito; demais, que desconfianças pode conceber o porteiro, se eu lhe disser que a saúde de minha irmã me dava tão sérios cuidados, que fui a Paris chamar um médico, que veio logo comigo, mesmo antes de ser dia?

        Adoptando esta idéia, que, pelo desejo que tinha de a pôr em execução, ia perdendo a pouco e pouco todos os seus perigos, correu à carruagem.

        - Sim, senhor - disse ele - tinha razão, é inútil esperar mais tempo. Venha, venha...

        Mas teve que renovar o aviso. Só à segunda vez Bálsamo, largando a capa em que estava embuçado, abotoou o casaco escuro com botões de aço, e apeou-se da carruagem.

        Filipe meteu por um caminho que o conduziu à grade da quinta, com toda a economia de diagonais.

        - Caminhemos depressa - disse ele a Bálsamo.

        E de feito, alargou de tal modo o passo, que Bálsamo mal podia segui-lo.

        A grade abriu-se, Filipe deu a sua explicação ao porteiro, e entrou acompanhado de Bálsamo.

        Quando estavam já dentro da quinta, Filipe parou mais uma vez e disse para Bálsamo:

        - Senhor, uma última palavra. Estamos chegados ao termo da nossa jornada, e não sei quais são as perguntas que vai fazer a minha irmã; poupe-lhe ao menos as circunstâncias da horrível cena que necessariamente se passou durante o sono. Respeite-lhe a pureza da alma, uma vez que a virgindade do corpo já não existe.

        - Senhor - disse Bálsamo - atente bem no que vou dizer-lhe: Nunca entrei nesta quinta para além daqueles arbustos que acolá vê em frente do edifício onde habita sua irmã. Por conseqüência, nunca entrei no quarto da senhora de Taverney, como tive a honra de lhe dizer. Quanto à cena, cujo efeito receia no espírito da senhora sua irmã, esse efeito só se reproduzirá para o senhor, e para uma pessoa adormecida, atendendo a que desde este passo que dou, vou ordenar à senhora sua irmã que caia no seu sono magnético.

        Bálsamo parou, cruzando os braços sobre o peito, voltou-se para o lado do quarto de Andréia, e ficou um instante imóvel com as sobrancelhas franzidas e a expressão de vontade toda poderosa desenhada na fisionomia.

        - Bem - disse ele, deixando pender os braços – a Srª. Andréia deve estar agora adormecida.

        A fisionomia de Filipe exprimiu um visível sinal de dúvida.

        - Ah! Não me acredita? - continuou Bálsamo – pois bem, espere! Para bem lhe provar que me não foi preciso entrar no quarto, vou ordenar-lhe, adormecida como está, que saia e venha ter comigo ao mesmo lugar onde pela última vez lhe falei.

        - Pois sim - disse Filipe; - quando vir isso acreditarei.

        - Aproximemo-nos daquela rua, e esperemos junto daquelas árvores.

        Filipe e Bálsamo foram colocar-se no lugar designado.

        Bálsamo estendeu a mão para o lado do quarto de Andréia.

        Estava nesta atitude quando se ouviu rumor nas árvores fronteiras.

        - Um homem - disse Bálsamo - cuidado!

        - Onde? - perguntou Filipe, procurando com a vista aquele que o conde lhe designava.

        - Ali, entre as árvores da esquerda - disse este.

        - Ah! Sim - disse Filipe - é Gilberto, um antigo criado nosso.

        - Receia alguma coisa desse rapaz?

        - Não, parece-me que não; mas não importa, suspenda, senhor, se Gilberto está levantado, pode ser que mais alguém o esteja.

        Durante este tempo, Gilberto afastava-se aterrado; porque vendo juntos Filipe e Bálsamo, conhecia que estava perdido.

        - Então, senhor - perguntou Bálsamo, finalmente o que decide?

        - Senhor - disse Filipe, experimentando contra sua vontade a espécie de encanto magnético que aquele homem espalhava em volta de si - senhor, se realmente o seu poder é grande bastante para trazer aqui minha irmã, manifeste esse poder por qualquer modo, mas não obrigue minha irmã a vir a um lugar descoberto como este, onde qualquer poderá ouvir as suas perguntas e as suas respostas.

        - Era tempo - disse Bálsamo, agarrando no braço do mancebo e mostrando-lhe, pela janela do corredor, Andréia, branca e direita, que saía do quarto, e obedecendo à ordem de Bálsamo, preparava-se para descer a escada.

        - Suspenda, suspenda! - bradou Filipe maravilhado e louco ao mesmo tempo.

        - Seja - disse Bálsamo.

        O conde estendeu o braço na direcção da senhora de Taverney, que logo parou.

        E depois, como a estátua do convidado de pedra, parando um instante, voltou-se e entrou novamente no seu quarto.

        Filipe foi atrás dela; Bálsamo seguiu-o.

        Filipe entrou no quarto quase ao mesmo tempo que Andréia; e tomando-a nos braços, fê-la sentar.

        Poucos instantes depois de Filipe, Bálsamo entrou e fechou a porta.

        Mas, por muito rápido que fosse o intervalo que separou a entrada de ambos, um terceiro personagem tinha achado tempo para passar entre os dois homens e penetrar no quarto que pertencera a Nicola, onde se foi esconder, conhecendo que dessa conferência ia depender a sua vida.

        Essa terceira pessoa era Gilberto.

 

REVELAÇÃO

        Bálsamo fechou a porta após si, e aparecendo no limiar, no momento em que Filipe contemplava a irmã com um terror cheio de curiosidade, perguntou:

        - Está pronto, cavalheiro?

        - Estou sim, senhor... - balbuciou Filipe todo trémulo.

        - Podemos então começar a interrogar sua irmã?

        - Se lhe aprouver - disse Filipe, tentando aliviar com a respiração o peso que lhe oprimia o peito.

        - Mas, primeiro que tudo - disse Bálsamo - olhe para sua irmã.

        - Estou olhando, senhor.

        - Acredita que esteja dormindo, não é verdade?

        - Acredito.

        - E que por conseqüência não pode ter consciência do que aqui se passa?

        Filipe não respondeu, fez unicamente um sinal de dúvida.

        Então Bálsamo foi ao fogão, acendeu uma luz, que passou diante dos olhos de Andréia, sem que a chama lhe fizesse fechar as pálpebras.

        - Sim, sim, está dormindo, vê-se bem - disse Filipe; - mas com que singular sono, meu Deus!

        - Pois bem! Vou interrogá-la - continuou Bálsamo - ou antes, como manifestou receio de que eu dirigisse a sua irmã alguma pergunta indiscreta, interrogue-a o senhor mesmo.

        - Mas toquei-lhe há pouco, e pareceu não me ouvir, nem sentir-me...

        - É porque não estava em correspondência com ela; vou remediar isso.

        E Bálsamo pegou na mão de Filipe e pô-la na de Andréia.

        Logo a irmã sorriu e murmurou:

        - Ah! És tu, meu irmão?

        - Vê - disse Bálsamo - agora já ela o conhece.

        - Sim; é singular!

        - Interrogue-a, que ela responderá.

        - Mas se ela nada sabia quando estava acordada, como poderá sabê-lo agora que dorme?

        - É um dos mistérios da ciência.

        E Bálsamo, soltando um suspiro, foi para um canto sentar-se numa poltrona.

        Filipe ficou imóvel, com a mão colocada na de Andréia. Como daria começo às interrogações, cujo resultado seria para ele a certeza da sua desonra e a revelação de um criminoso, de quem talvez não se pudesse vingar?

        Quanto a Andréia, estava numa tranqüilidade semelhante ao êxtase, e a fisionomia indicava nela antes quietação do que um sentimento qualquer.

        Tremendo, contudo, obedeceu ao olhar significativo de Bálsamo, que lhe dizia que se preparasse.

        Mas, à medida que pensava na sua desgraça, à medida que o rosto se lhe anuviava, o de Andréia também se cobria com uma nuvem, e foi ela quem começou por dizer-lhe:

        - Sim, meu irmão, é verdade; é uma grande desgraça para a nossa família.

        Andréia traduzia assim o pensamento que lia no espírito de seu irmão.

        Filipe, que não esperava semelhante começo, estremeceu.

        - Ah! Bem o sabes, meu irmão.

        - Obrigue-a a falar, senhor, que ela falará.

        - Como a posso eu obrigar?

        - Ordene-lhe que fale, nada mais.

        Filipe olhou para sua irmã formulando uma vontade interior.

        Andréia corou.

        - Oh! - disse ela - isso é mal feito da tua parte, Filipe, julgares que Andréia te enganou.

        - Então não amas ninguém? - perguntou Filipe.

        - Ninguém.

        - Então não é um cúmplice, é um criminoso que devo castigar.

        - Não te percebo, meu irmão.

        Filipe olhou para o conde como para lhe pedir conselho.

        - Inste com ela - disse Bálsamo.

        - Que inste?

        - Sim, interrogue-a com franqueza.

        - Sem respeitar o pudor desta criança?

        - Oh! Fique descansado, que quando acordar de nada se lembrará.

        - Mas poderá ela responder às minhas perguntas?

        - Vê bem? - perguntou Bálsamo a Andréia.

        Andréia estremeceu ao som daquela voz, e voltou o olhar amortecido para o lado de Bálsamo.

        - Não tão bem como se o senhor mesmo me interrogasse - disse ela; - entretanto vejo.

        - Pois bem! - perguntou Filipe - se vês, minha irmã, conta-me todas as circunstâncias da noite em que perdeste os sentidos.

        - Não começa pela noite de 31 de Maio, senhor? Parece-me que as suas suspeitas datam de então. Chegou o momento de esclarecer tudo ao mesmo tempo.

        - Não, senhor - redargüiu Filipe - é inútil, e desde alguns momentos, creio na sua palavra. Aquele que dispõe de um poder tal como o seu não se serve dele para conseguir um fim vulgar. Minha irmã - repetiu Filipe - conta-me tudo o que se passou na noite do teu desmaio.

        - Não me lembra - disse Andréia.

        - Ouve, senhor conde?

        - É preciso que se lembre, é preciso que fale; ordeno-lho.

        - Mas se ela dormia?

        - A alma velava.

        Então levantou-se, estendeu a mão para Andréia, e com um franzir de sobrancelhas que indicava maior vontade e acção, disse:

        - Lembre-se, quero-o eu!

        - Lembro-me - disse Andréia.

        - Oh! - bradou Filipe, limpando o suor da fronte.

        - O que queres saber?

        - Tudo!

        - A partir de que momento?

        - A começar do momento em que te deitaste.

        - Vê-se a si mesma? - perguntou Bálsamo.

        - Sim, vejo-me; seguro nas mãos o copo preparado por Nicola... Oh! Meu Deus!

        - O que é? O que aconteceu?

        - Oh! A miserável!...

        - Fala, minha irmã, fala.

        - O copo contém uma bebida preparada; se bebo, estou perdida.

        - Uma bebida preparada! - bradou Filipe - e com que fim?

        - Espera! Espera!

        - Primeiramente a bebida.

        - Ia levá-la aos lábios; mas... Nesse momento...

        - Então?

        - O conde chamou-me.

        - Que conde?

        - Ele - disse Andréia estendendo a mão para o lado de Bálsamo.

        - E depois?

        - Depois, larguei o copo e adormeci.

        - Depois, depois? - perguntou Filipe.

        - Ergui-me e fui ter com ele.

        - Onde estava o conde?

        - Entre os arbustos, em frente da minha janela.

        - E o conde nunca entrou no teu quarto, minha irmã?

        - Nunca.

        Um olhar de Bálsamo, dirigido a Filipe, disse-lhe claramente :

        - Bem vê que não o enganava, senhor.

        - E dizes que foste ter com o conde?

        - Sim, obedeço-lhe quando me chama.

        - O que queria o conde de ti?

        Andréia hesitou.

        - Diga, diga-o - bradou Bálsamo - que eu ouvirei.

        E deixou-se cair na poltrona ocultando a cabeça entre as mãos, como para impedir que as palavras de Andréia lhe chegassem aos ouvidos.

        - Diz, o que queria de ti o conde? - repetiu Filipe.

        - Queria pedir-me notícias...

        Suspendeu novamente; dir-se-ia que receava despedaçar a alma do conde.

        - Continua, minha irmã, continua - disse Filipe.

        - De uma pessoa que tinha fugido de sua casa – e Andréia baixou a voz - e que morreu depois.

        Apesar de Andréia pronunciar estas palavras em tom baixo, Bálsamo ouviu-as ou adivinhou-as, porque soltou um lúgubre gemido.

        Filipe calou-se; houve um momento de silêncio.

        - Continue, continue - disse Bálsamo - seu irmão quer saber tudo, minha senhora; é mister dizer-lhe tudo. Depois desse homem ter as informações que desejava, o que fez ele?

        - Fugiu - disse Andréia.

        - Deixando-te no jardim? - perguntou Filipe.

        - Sim.

        - O que fizeste então?

        - Como se afastava de mim, como a força que me sustentava me ia abandonando, caí.

        - Sem sentidos?

        - Não, sempre adormecida, mas com um sono de chumbo.

        - Podes recordar-te do que sucedeu durante esse sono?

        - Verei se posso.

        - Então, o que sucedeu, diz?

        - Um homem saiu dentre os arbustos, pegou em mim nos braços e trouxe-me.

        - Para onde?

        - Para aqui, para o meu quarto.

        - Ah!... E esse homem, podes vê-lo?

        - Espera... Sim... Sim... Oh! - prosseguiu Andréia com um sentimento de asco e desconsolo; - oh! Outra vez Gilberto!

        - Gilberto?

        - Sim.

        - O que fez ele?

        - Deitou-me neste sofá.

        - Depois?

        - Espera!...

        - Veja, veja - disse Bálsamo - quero que veja.

        - Ele escuta... Vai para o outro quarto... Recua como assustado... Entra no quarto de Nicola... Meu Deus! Meu Deus!

        - O que é?

        - Um homem segue-o; e eu, eu que não posso erguer-me, defender-me, gritar, eu que durmo!

        - E quem é esse homem?

        - Meu irmão! Meu irmão!...

        E o rosto de Andréia exprimiu a dor mais profunda.

        - Diga que homem é esse! - insistiu Bálsamo - ordeno-lho eu!

        - El-rei! - murmurou Andréia - é el-rei.

        Filipe estremeceu.

        - Ah! - murmurou Bálsamo - disso desconfiava eu.

        - Chega-se a mim - continuou Andréia - fala-me, agarra-me nos braços, dá-me um beijo. Oh! Meu irmão! Meu querido irmão!

        Grossas lágrimas corriam dos olhos de Filipe, enquanto que com a mão apertava o punho da espada, que Bálsamo lhe dera.

        - Fale, fale! - continuou o conde em tom imperativo.

        -Oh! Que felicidade! Perturba-se... Suspende... Olha para mim... Tem medo... Foge... Andréia está salva!

        Filipe aspirava, arquejando, cada palavra que saía da boca da irmã.

        - Salva! Andréia está salva! - repetiu ele maquinalmente.

        - Espera, meu irmão, espera!

        E Andréia, como para se suster, procurava a apoio do braço de Filipe.

        - Depois? Depois? - perguntou Filipe.

        - Eu tinha esquecido.

        - O quê?

        - Acolá, acolá, no quarto de Nicola, com uma faca na mão...

        - Com uma faca na mão?

        - Vejo-o, está pálido como um defunto.

        - Quem?

        - Gilberto.

        - Filipe tomou o fôlego.

        - Segue o rei - prosseguiu Andréia; - fecha a porta após ele; põe o pé sobre a vela, que queimava o tapete; vem para mim. Oh!

        Andréia ergueu-se nos braços do irmão. Os músculos do corpo estavam retesados como se estivessem próximos a quebrar-se.

        - Oh! O miserável! - disse ela afinal.

        E caiu sem forças.

        - Meu Deus! - murmurou Filipe, não ousando interromper a irmã.

        - É ele! É ele! - murmurou Andréia.

        Depois, chegando-se ao ouvido do irmão, com o olhar chamejante e a mão convulsa:

        - Hás-de matá-lo, não é assim, Filipe?

        - Oh! Sim! - bradou o mancebo recuando.

        Atrás dele estava uma mesa carregada de porcelana, que caiu.

        As porcelanas quebraram-se.

        A essa bulha ouviu-se um rumor surdo e um estremecer súbito do tabique que dividia o quarto de Andréia, que dominou tudo.

        - O que é isso? - disse Bálsamo - abriu-se uma porta!

        - Estava alguém escutando! - bradou Filipe levando a mão à espada.

        - Era ele - disse Andréia; - outra vez ele.

        - Mas quem?

        - Gilberto, sempre Gilberto. Ah! Hás-de matá-lo, não é verdade, Filipe, hás-de matá-lo?

        - Oh! Sim, sim, sim - bradou o mancebo.

        E correu para a ante-sala, com a espada na mão, enquanto Andréia se deixava novamente cair no sofá.

        Bálsamo correu atrás de Filipe e segurou-o por um braço, dizendo-lhe:

        - Tome cuidado, senhor - disse ele - o que é segredo há-de tornar-se público: é dia e o eco das casas reais é fortíssimo.

        - O Gilberto! O Gilberto! - murmurava Filipe; - e estava ali escondido, e ouvia-nos! Eu podia matá-lo. Oh! Maldição sobre o miserável!

        - Sim, mas silêncio: há-de tornar a encontrá-lo; agora é de sua irmã que deve tratar, senhor. Bem vê, que começam a cansá-la tantas comoções.

        - Oh! Sim, compreendo o que ela padece pelo que eu mesmo padeço; esta desgraça é tão horrível, tão difícil de remediar! Oh! Senhor, senhor, isto há-de matar-me!

        - Pelo contrário, viverá para ela, que precisa do senhor, porque não tem senão ao senhor no mundo, ame-a, compadeça-se dela e trate-a. E agora - prosseguiu depois de alguns momentos de silêncio - já não precisa de mim, não é verdade?

        - Não, senhor; perdoe as minhas suspeitas, perdoe as minhas ofensas; e todavia, é do senhor que vem o mal.

        - Não me quero desculpar, cavalheiro, mas esquece decerto o que sua irmã disse.

        - O que disse ela? Tenho as idéias tão confusas!

        - Se eu não tivesse vindo, bebia o copo de água preparado por Nicola, e então teria sido el-rei. Julgaria assim mais pequena a desgraça?

        - Não, senhor, teria sido igual sempre, e vejo que infelizmente estávamos condenados. Desperte minha irmã, senhor.

        - Mas ver-me-á, compreenderá talvez o que passou; melhor será que eu a acorde em distância, do mesmo modo que a adormeci.

        - Agradecido! Agradecido!

        - Então, adeus, senhor.

        - Ainda uma palavra, conde. O senhor é um homem honrado...

        - Oh! O segredo, quer o senhor dizer?

        - Conde...

        - É uma recomendação inútil, senhor; em primeiro lugar, porque sou um homem honrado; depois, porque estou decidido a não ter mais nada de comum com os homens, vou esquecê-los e aos seus segredos; todavia, senhor, conte comigo se alguma vez lhe puder ser útil. Mas não, não, já não sou útil para coisa nenhuma, nada mais valho sobre a Terra. Adeus, senhor, adeus!

        E inclinando-se diante de Filipe, Bálsamo olhou mais uma vez para Andréia, cuja cabeça pendia para trás com todos os sintomas de dor e de cansaço.

        - Ó ciência! - murmurou ele; - tantas vítimas para um resultado sem valor!

        E desapareceu.

        À medida que se afastava, Andréia ia-se reanimando; ergueu a cabeça pesada como se fosse de chumbo, e olhando para o irmão com ar admirado, murmurou:

        - Oh! Filipe, o que acaba de se passar?

        Filipe reprimiu o soluço que o sufocava, e sorrindo heroicamente, disse:

        - Nada, minha irmã.

        - Nada?

        - Nada.

        - Todavia, parece-me que estive doida e que sonhei!

        - Sonhaste? E com que sonhaste, minha querida e boa Andréia?

        - Oh! O Dr. Luís, o Dr. Luís, meu irmão!

        - Andréia! - bradou Filipe apertando-lhe a mão - Andréia! És pura como a luz do dia; mas tudo te acusa, tudo te perde; um segredo terrível te é imposto. Vou ter com o Dr. Luís, para que diga à senhora delfina que padeces um mal inexorável, saudades de Taverney, e que só em Taverney te podes curar, e partimos ambos, ou para lá, ou para algum outro lugar do mundo; depois, ambos isolados sobre a Terra, amando-nos... E consolando-nos...

        - Entretanto, meu irmão - disse Andréia - se eu estou pura como dizes...

        - Querida Andréia, eu te explicarei tudo isso; entretanto, prepara-te para partir.

        - Mas, o pai?

        - O pai -disse Filipe tristemente - o pai, deixa-o ao meu cuidado, eu o prepararei.

        - Há-de acompanhar-nos?

        - O pai? Oh! É impossível, impossível; iremos sós, Andréia, sós.

        - Oh! Como me assustas, meu amigo! Como me aterras, meu irmão! Muito padeço eu assim, Filipe.

        - Deus vela por tudo, Andréia - disse o mancebo; - portanto, ânimo; vou em busca do doutor; a ti, Andréia, a ti, o que te torna doente é a saudade de Taverney, saudade que ocultavas à senhora delfina. Vamos, vamos, tem ânimo, minha irmã: depende disso a honra de ambos nós.

        E Filipe apressou-se em abraçar a irmã, porque estava sufocado.

        Depois levantou a espada que deixara cair no chão, meteu-a na bainha com mão trémula, e dirigiu-se para a escada.

        Um quarto de hora depois, batia Filipe à porta do Dr. Luís, que habitava sempre em Versalhes, quando a corte estava no Trianon.

 

O JARDIM DO DR. LUÍS

        O Dr. Luís, a cuja porta deixamos Filipe, passeava no jardim sumido entre quatro paredes, que fazia parte das dependências de um antigo convento de freiras, transformado em armazém de forragens para os dragões da casa real.

        Enquanto passeava, lia o doutor as provas de uma nova obra, que estava fazendo imprimir, e baixava-se de vez em quando para arrancar da rua em que passeava ou dos tabuleiros que lhe ficavam dos lados as ervas ruins, que lhe revoltavam o natural instinto da simetria e boa ordem.

        Uma única criada um tanto arisca, como todos os criados de um homem trabalhador que não quer ser incomodado, formava todo o pessoal da casa do doutor.

        Ouvindo a bulha da aldraba de bronze que soara às mãos de Filipe, chegou-se à porta e entreabriu-a.

        Mas o mancebo, em vez de parlamentar, empurrou a porta e entrou. Senhor da passagem viu o jardim, e no jardim o doutor.

        Então, sem fazer caso das alocuções e gritos da vigilante guarda, correu para o jardim.

        Ao ouvir rumor de passos, o doutor ergueu a cabeça.

        - Ah! Ah! - disse - é o senhor?

        - Perdoe-me senhor doutor vir assim perturbar a sua solidão; mas chegou o momento que previu; preciso do senhor e venho reclamar o seu auxílio.

        - Prometi-lho já, e reitero a promessa.

        Filipe inclinou-se, estava demasiado comovido para que fosse o primeiro a entrar no assunto da visita.

        O Dr. Luís percebeu a hesitação.

        - Como está a doente? - perguntou, inquieto por ver a palidez de Filipe, e receando alguma catástrofe no desfecho daquele drama.

        - Muito bem, graças a Deus, - doutor. Minha irmã é uma senhora tão digna e tão honrada, que realmente Deus seria injusto se lhe mandasse sofrimentos e perigos.

        O doutor olhou para Filipe como para o interrogar; as palavras do moço oficial pareciam-lhe uma continuação das denegações da véspera.

        - Então - disse - a menina foi vítima de alguma surpresa ou de algum laço?

        - Sim, doutor, foi vítima de uma surpresa inaudita, foi vítima de um laço infame.

        O facultativo juntou as mãos e ergueu os olhos ao céu.

        - Ai - disse ele - vivemos num tempo horrível, e está-me parecendo urgente que venham por sua vez os médicos das nações, como há já muito vieram os dos indivíduos.

        - Sim - disse Filipe - sim, que venham; ninguém os verá chegar com mais prazer do que eu; entretanto...

        E Filipe fez um gesto de sombria ameaça.

        - Ah! -disse o doutor - vejo que o senhor é dos que fazem consistir a reparação do crime na violência e na morte.

        - Sim, doutor - respondeu Filipe serenamente; - sim, sou desses.

        - Um duelo - disse o doutor suspirando - um duelo, que não há-de restituir a honra a sua irmã, se o senhor matar o culpado, e há-de abismá-lo no desespero se for morto. Ai, senhor, supunha-o dotado de um espírito recto, de um coração inteligente; parecia-me ter-lhe ouvido exprimir o desejo de que em tudo isto se observasse profundo segredo?

        Filipe pôs a mão no braço do doutor.

        - Senhor - lhe disse ele - engana-se singularmente comigo; tenho um raciocínio bastante firme, que nasce de uma convicção profunda e de uma consciência imaculada; quero, não digo fazer justiça a meu talante, senão fazer justiça recta; não quero expor minha irmã ao abandono e à morte fazendo-me matar, quero vingá-la, matando o miserável.

        - E matá-lo-á, o senhor, um fidalgo? Cometerá um assassínio?

        - Senhor, se eu tivesse visto, dez minutos antes do crime, entrar como um ladrão no quarto de minha irmã aquele cuja miserável condição não lhe dava direito de lá pôr o pé, e o tivesse morto naquela ocasião, todos me teriam aplaudido: por que razão não hei-de eu matá-lo agora? O crime tornou-o sagrado?

        - Portanto, esse projecto de sangue está decidido no seu espírito, decretado no seu coração?

        - Está resolvido, está decidido. Hei-de encontrá-lo algum dia, por mais que se esconda, e nesse dia, juro-lhe, senhor, que sem piedade, sem remorso, hei-de matá-lo como um cão!

        - Então - disse o Dr. Luís - então cometerá um crime igual ao que ele cometeu, um crime mais odioso, talvez; por que, quem sabe, senhor, até onde uma palavra imprudente, um gesto impensado de uma mulher podem levar os desejos e as inclinações do homem? Assassinar, quando tem outras reparações possíveis, quando um casamento...

        Filipe ergueu a cabeça.

        - O senhor doutor ignora que os Taverney Casa Vermelha datam das cruzadas, e que minha irmã é tão nobre como uma infanta ou uma arquiduquesa?

        - Sim, percebo, e o culpado, não é tão nobre; é um vilão, um rústico, como lhe chamam as pessoas de raça fina. Sim, sim - continuou o doutor com um sorriso - sim, é verdade, Deus fez uns homens de uma certa terra inferior, para serem assassinados por outros homens feitos de terra mais fina; oh! Sim, tem razão, mate-o, senhor, mate-o.

        E o doutor voltou costas a Filipe e continuou a arrancar de um lado e de outro as ervas silvestres do jardim.

        Filipe cruzou os braços.

        - Doutor, ouça-me - disse ele - não se trata aqui de um sedutor a quem uma rapariga leviana provocasse mais ou menos; não se trata de um homem provocado, como o senhor disse, trata-se de um miserável, criado em nossa casa, e que, depois de ter comido durante vinte anos o pão da piedade, se atreveu, de noite, abusando de um sono factício, de um desmaio, de uma morte, por assim dizer, a enxovalhar traiçoeira, cobardemente, a mais santa e pura das mulheres, para quem, à luz do dia, não se atreveria a erguer os olhos; perante qualquer tribunal, um tal culpado seria certamente condenado à morte; pois bem! Hei-de eu julgá-lo com tanta imparcialidade como um tribunal, e hei-de matá-lo; agora, doutor, quererá o senhor, que eu julguei tão generoso e tão elevado, quererá fazer-me pagar o serviço que lhe peço impondo-me uma condição? Prestando-me esse serviço, quererá fazer como aqueles que buscam satisfazer-se a si próprios, obsequiando os outros? Se assim é, doutor, o senhor não é o sábio que eu tenho admirado, não é mais que um homem vulgar, e, apesar do desprezo que ainda há pouco me mostrou, sou-lhe eu superior, eu, cujo pensamento é liso, eu, que lhe contei o meu segredo todo.

        - Disse - redargüiu o doutor pensativo - que o criminoso fugiu?

        - Sim, senhor doutor; adivinhou decerto que tudo se ia esclarecer; ouviu que o acusavam, e fugiu logo.

        - Bem. Agora o que deseja, senhor? - perguntou o doutor.

        - O seu auxílio para retirar minha irmã de Versalhes, e sepultar numa sombra ainda mais densa e muda o terrível segredo, que nos desonrará se se tornar público.

        - Só lhe farei uma pergunta.

        Filipe enfadou-se.

        - Ouça-me - prosseguiu o doutor com a máxima tranqüilidade - ouça-me. Um filósofo cristão, de quem acaba de fazer um confessor, vê-se obrigado a impor-lhe, não uma condição pelo serviço que lhe prestar, mas em virtude do direito de consciência. A humanidade é uma função, senhor, não é uma virtude; fala-me em matar um homem; eu devo impedi-lo como teria impedido por todos os meios ao meu alcance, até pela violência, a execução do crime cometido em sua irmã. Portanto, senhor, exijo-lhe um juramento.

        - Oh! Nunca! Nunca!

        - Há-de prestá-lo - bradou com veemência o Dr. Luís - há-de prestá-lo, homem de boa linhagem; reconheça em tudo a mão de Deus, e nunca balde o golpe nem o seu alcance. O senhor disse que teve o criminoso nas suas mãos?

        - Tive, sim, doutor. Ah! Que se eu tivesse adivinhado que estava tão perto de mim, bastava-me abrir uma porta para achar-me de cara a cara com ele.

        - E ele fugiu, treme; começou o seu suplício. Ah! O senhor sorri, parece-lhe pouco o que Deus faz? Não acha bastante o remorso? Espere, espere! Deixe-se ficar ao pé de sua irmã, e prometa-me que nunca perseguirá o criminoso. Se o encontrar, isto é, se Deus lho entregar, então!... Eu também sou homem, compreende, então verá o que lhe cumpre fazer!

        - Irrisão, senhor; não me fugirá ele sempre?

        - Quem sabe? O assassino foge sempre, o assassino procura um retiro, o assassino teme o cadafalso, e contudo, como se fosse um íman, o ferro da justiça atrai o criminoso, que vem curvar-se fatalmente sob as mãos do carrasco. E demais, trata-se porventura agora de desmanchar o que com tanto custo procurou fazer? Será pelo mundo em que vive e a quem não pode explicar a inocência de sua irmã, será pelos ociosos cheios de curiosidade, que matará o homem fornecendo por esse modo duplo pasto à curiosidade, primeiro pela confissão do atentado, depois pelo escândalo do castigo? Não, não, acredite-me, sepulte essa desgraça no mais profundo silêncio.

        - E quem saberá, quando eu tiver morto aquele miserável, se foi por minha irmã que o matei?

        - Por força há-de dar uma causa a essa morte?

        - Pois bem, doutor; obedecerei, não perseguirei o culpado, mas Deus há-de ser justo; oh, sim. Deus emprega a impunidade como íman, Deus me entregará o criminoso.

        - Quando tal acontecer, será porque Deus o tenha condenado. Dê-me a sua mão, senhor.

        - Ei-la.

        - O que é preciso fazer pela menina de Taverney? Diga.

        - Seria preciso, doutor, achar um pretexto para dar à senhora delfina, a fim de afastar minha irmã por algum tempo: saudades de Taverney, o ar, o regímen...

        - É fácil.

        - Sim, isso é da sua competência, e entrego-me ao seu cuidado. Então levarei minha irmã para algum recanto da França, para Taverney, por exemplo, distante de todas as vistas, longe de todas as suspeitas.

        - Nada, não, senhor, isso não convém; a infeliz menina precisa de cuidados permanentes, de assíduas consolações; precisará de todos os socorros da ciência. Deixe-me por isso achar-lhe perto daqui, num sítio que conheço, um retiro cem vezes mais recôndito, cem vezes mais seguro do que o lugar deserto para onde a quer conduzir.

        - Parece-lhe isso, doutor?

        - Parece, e com razão. A suspeita tende sempre a afastar-se dos centros, semelhante nisso aos círculos crescentes produzidos pela queda de uma pedra na água; a pedra não se afasta, e quando as ondulações cessam, nenhum olhar lhes acha a causa, sepultada como está na profundidade da água.

        - Então, doutor, mãos à obra.

        - Já, senhor.

        - Previna a senhora delfina.

        - Hoje mesmo.

        - E quanto ao resto?...

        - Dentro de vinte e quatro horas terá a minha resposta.

        - Oh! Muito obrigado, doutor, é um deus para mim.

        - Pois então, mancebo, agora que tudo está tratado entre nós, cumpra a sua missão, volte para junto de sua irmã, console-a e proteja-a.

        - Adeus, doutor, adeus!

        E o doutor, depois de ter seguido Filipe com os olhos até que de todo tivesse desaparecido, continuou o seu passeio, lendo as provas e limpando o jardim.

 

O PAI E O FILHO

        Quando, Filipe voltou para junto da irmã, achou-a agitada, e na maior inquietação.

        - Na tua ausência - disse ela - pensei em quanto me tem acontecido de algum tempo a esta parte. É uma voragem em que se me perde o juízo. Diz, estiveste com o Dr. Luís?

        - Venho de casa dele, Andréia.

        - Aquele homem fez-me uma acusação terrível. Infelizmente, será justa?

        - Não se tinha enganado, minha irmã.

        Andréia enfiou, e um acesso nervoso lhe recurvou os dedos brancos e delicados.

        - O nome - disse ela então - o nome - do cobarde que me perdeu?

        - Minha irmã, deves ignorá-lo eternamente.

        - Oh! Filipe, não dizes a verdade; Filipe, mentes à tua própria consciência... Esse nome, preciso sabê-lo, para que, fraca como sou, e tendo por mim a oração, eu possa, orando a Deus, armar contra o criminoso toda a cólera divina... O nome desse homem, Filipe?

        - Minha irmã, não falemos mais nisso.

        Andréia pegou-lhe na mão e olhou para ele fixamente:

        - Oh! - disse ela - aí está o que me respondes, tu que trazes à cinta uma espada!

        Filipe empalideceu àquele movimento de raiva; mas, reprimindo o próprio furor, disse:

        - Andréia, não posso dizer-te o que eu mesmo não sei. O segredo é-me ordenado pelo destino que nos persegue; esse segredo, que a bulha comprometeria com a honra da tua família, um último favor de Deus torna-o inviolável para todos.

        - Excepto para um homem, Filipe... Para um homem que ri, para um homem que nos afronta!... Ó meu Deus! Para um homem que talvez escarneça infernalmente de nós no seu retiro tenebroso.

        Filipe fechou os punhos, levantou os olhos ao céu, e não respondeu.

        - Esse homem - bradou Andréia redobrando de cólera e de indignação - talvez eu o conheça, esse homem... Enfim, Filipe, consente que to represente. Já te indiquei as singulares influências que ele exerce sobre mim, e julgava ter-te dito que fosses ter com ele.

        - Esse homem está inocente; estive com ele, e tenho provas do que digo... Assim, não procures mais, Andréia, não procures mais...

        - Filipe, procuremos juntos em graus superiores ao desse homem... Vamos às primeiras classes dos homens poderosos deste reino... Vamos até el-rei!

        Filipe abraçou a pobre criança, sublime na sua ignorância e na sua indignação...

        - Todos os que acordada nomeias - disse-lhe - já os nomeaste adormecida, todos os que acusas com a ferocidade da tua virtude, justificaste-los quando vias o crime por assim dizer cometer-se.

        - Então, nomeei o culpado? - disse ela com os olhos chamejantes.

        - Não - redargüiu Filipe - não. Não me faças mais perguntas; imita-me, conforma-te com a vontade do destino, a desgraça é irremediável, e redobra-a ainda a impunidade do criminoso. Mas tem esperança, tem esperança, que Deus é superior a tudo. Deus reserva aos desgraçados oprimidos uma triste alegria, a que chamam vingança.

        - Vingança!... - murmurou ela, assustada no modo terrível com que Filipe acentuara aquela palavra.

        - Entretanto descansa, minha irmã, de todas as vergonhas que a minha louca curiosidade te causaram. Se eu tivesse sabido! Oh! Se eu tivesse sabido!

        E escondeu a cabeça entre as mãos com horrível desespero.

         Depois, erguendo-se subitamente:

        - De que me queixaria eu? - disse ele com um sorriso. - Minha irmã é pura, ama-me! Nunca traiu nem a confiança nem a amizade; minha irmã é moça como eu, viveremos juntos, envelheceremos juntos... Nós ambos seremos mais fortes que o mundo todo!...

        À medida que o mancebo falava de consolação, Andréia entristecia; curvava a fronte mais pálida, e tomava a atitude e o olhar fixo do desespero, que Filipe acabava de suavizar com tanto ânimo.

        - Só falas de nós - disse cravando os olhos azuis tão penetrantes na fisionomia móvel do irmão.

        - De quem mais queres tu que eu fale, Andréia? – disse o mancebo sentindo aquele olhar.

        - Mas... Temos pai... Como tratará ele a sua filha?

        - Já ontem te disse - respondeu Filipe friamente – deves esquecer todas as penas e todos os cuidados, repelir, como o vento quando dissipa os vapores da manhã, todas as recordações e toda a afeição que não seja a afeição a mim e a lembrança de mim... Efectivamente, querida Andréia, só eu te amo neste mundo; e eu só por ti sou amado. Pobres órfãos abandonados, por que motivo nos sujeitaríamos ao jugo do agradecimento ou do parentesco? Recebemos nós alguns favores, sentimos nós a protecção de um pai?... Oh! - acrescentou com amargo sorriso - conheces a fundo o meu pensamento, conheces o estado do meu coração... Se devesses amar aquele de quem falas, eu diria: “Ama-o!” Mas bem vês que me calo, Andréia, portanto deves abster-te de amá-lo.

        - Então, meu irmão... Devo crer...

        - Minha irmã, nos grandes infortúnios, ouve o homem involuntariamente ressoar estas palavras pouco compreendidas na sua infância: “Teme a Deus!...” Oh! Sim, Deus recorda terrivelmente à nossa lembrança: “respeita teu pai...” Oh! Minha irmã, a maior prova de respeito que podes dar ao teu, é riscá-lo da tua memória.

        - É verdade... - murmurou Andréia com modo sombrio e deixando-se cair na cadeira.

        - Minha amiga, não percamos tempo com palavras inúteis; junta todos os objectos que te pertencem; o médico vai ter com a senhora delfina e preveni-la da tua partida. As razões que terá alegado, bem as sabes... São a necessidade de uma mudança de ares para o teu padecimento, que é inexplicável... Apronta tudo para partirmos.

        Andréia levantou-se.

        - A mobília? - disse ela.

        - Não, só a roupa, os vestidos e as jóias.

        Andréia obedeceu.

        Emalou a sua roupa, e depois pegou nalguns adereços, que se preparava para guardar.

        - O que é isso?... - disse Filipe.

        - É o adereço que Sua Majestade se dignou mandar-me, quando fui apresentada no Trianon.

        Filipe empalideceu ao ver a riqueza do presente.

        - Com estas jóias só - disse Andréia - viveremos por toda a parte honradamente. Tenho ouvido dizer que só as pérolas valem cem mil libras.

        Filipe fechou a caixa que tinha o adereço.

        - São com efeito muito preciosas - disse ele.

        E recebendo a caixa das mãos de Andréia, disse:

        - Minha irmã, parece-me porém que temos ainda outras jóias?

        - Oh! Querido amigo, não são dignas de se comparar com essas; contudo ornavam a nossa mãe há quinze anos... O relógio, as pulseiras, os brincos são guarnecidos de brilhantes. Há também o retrato. Meu pai queria vender tudo, porque, dizia ele, já nada disto era moda.

        - Entretanto, é quanto possuímos - disse Filipe – é o teu único recurso. Minha irmã, mandaremos fundir os objectos de ouro, e venderemos as pedras do retrato; isso produzirá vinte mil libras, que são uma soma suficiente para infelizes.

        - Mas... Este adereço de pérolas é meu - disse Andréia.

        - Nunca toques nessas pérolas, Andréia; queimar-te-iam. Cada uma dessas pérolas é de natureza singular, minha irmã, maculam as frontes em que tocam.

        Andréia estremeceu.

        - Guardo este adereço, minha irmã, para o restituir a quem pertence. Repito-te, não é propriedade nossa; não, e não temos desejo de pretender coisa nenhuma dele, não é verdade?

        - Como queiras, meu irmão - redargüiu Andréia tremendo de vergonha.

        - Querida irmã, veste-te para fazeres a tua visita à senhora delfina; mostra-te sossegada, muito respeitosa, e pesarosa de te afastares de tão nobre protectora.

        - E bem me custa realmente - murmurou Andréia, comovida; - na minha desgraça é ainda uma grande infelicidade.

        - Eu vou a Paris, minha irmã, e voltarei à noite; assim que chegar, levar-te-ei comigo; paga aqui tudo quanto devas.

        - Nada devo; a Nicola fugiu...  Ah! Esquecia-me do Gilberto.

        Filipe estremeceu e os olhos brilharam-lhe.

        - Deves alguma coisa ao Gilberto? - bradou ele.

        - Devo, sim - disse Andréia em tom naturalíssimo; - tem-me fornecido flores. Ora, como já me disseste, fui algumas vezes injusta e severa para com o pobre rapaz, que, afinal, é atenciosíssimo... Eu o recompensarei agora.

        - Não procures o Gilberto - murmurou Filipe.

        - Por quê?... Deve estar nos jardins; ou senão manda-o chamar.

        - Não! Não! Que perderias com isso um tempo precioso... Ao atravessar os jardins hei-de encontrá-lo, e então lhe pagarei.

        - Pois bem, seja como queiras.

        - Sim; adeus, até à tarde.

        Filipe beijou a mão de Andréia, que se lhe lançou nos braços. Comprimiu até as palpitações do coração naquele suave abraço, e sem demora partiu para Paris, onde a carruagem o deixou em frente da porta do palacete da Rua Coq-Héron.

        Sabia que encontraria o pai em casa. O barão, desde o singular rompimento com Richelieu, achava insuportável a vida em Versalhes, e procurava, como todos os espíritos superabundantes de actividade, meio de enganar as torpezas da moral com as agitações da mudança de lugar.

        Ora, quando Filipe bateu ao portão, passava ele soltando horrendas imprecações do jardim da casa para o pátio que lhe ficava contíguo.

        Estremeceu à bulha da campainha e foi ele mesmo abrir a porta.

        Como não esperava ninguém, aquela visita inesperada trazia-lhe uma esperança. Um desgraçado, na sua queda, agarra-se a quanto encontra.

        Recebeu portanto Filipe com um sentimento de despeito e uma curiosidade inexplicáveis.

        Mas assim que olhou para o rosto do seu interlocutor, a palidez, a severidade e o franzimento nervoso da boca gelaram-lhe na origem as perguntas que se preparava para fazer.

        - Tu aqui! - disse unicamente - e por que acaso?

        - Terei a honra de lhe explicar isso, senhor – disse Filipe.

        - Bem! É então caso grave?

        - Gravíssimo.

        - Este rapaz tem sempre uns modos cerimoniosos, que inquietam a gente... Vamos a saber, é uma desgraça ou uma felicidade o que aqui te traz?

        - É uma desgraça - disse Filipe gravemente.

        O barão cambaleou.

        - Estamos bem sós? - perguntou Filipe.

        - Estamos, sim.

        - Quer que entremos em casa, senhor?

        - Por que não há-de ser aqui, ao ar livre, debaixo destas árvores?...

        - Porque há coisas que não se devem dizer à luz do céu.

        O barão olhou para o filho, obedeceu-lhe ao gesto mudo, afectando sempre a mesma impassibilidade, o mesmo sorriso, e seguiu-o para a sala, cuja porta já Filipe abrira.

        Depois de fechar cuidadosamente as portas, Filipe esperou um gesto do pai para começar a conversa, e tendo-se o barão comodamente refastelado na melhor poltrona da sala, disse:

        - Senhor, minha irmã e eu vimos fazer-lhe as nossas respeitosas despedidas.

        - Como? - disse o barão admirado. - Tu... ausentas-te?... E o serviço?

        - Já não há serviço para mim; bem sabe que as promessas de el-rei não se realizaram felizmente.

        - Aí está um felizmente, que eu não percebo.

        - Senhor...

        - Explica-te, como podes achar uma felicidade o não seres coronel de um regimento?  Seria levar bem longe a filosofia.

        - Levo-a longe bastante para não preferir a desonra à fortuna, nada mais. Mas não entremos, senhor, em considerações dessa ordem.

        - Pelo contrário, entremos nelas!

        - Suplico-lhe que não... - redargüiu Filipe com uma firmeza que significava: não quero!

        O barão franziu o sobrolho.

        - E tua irmã?... Também esquece os seus deveres? O seu serviço junto de Sua Alteza...

        - São deveres esses que ela deve subordinar a outros, senhor.

        - De que natureza?

        - Da mais imperiosa necessidade.

        O barão levantou-se.

        - Má raça - resmungou ele - a raça dos fazedores de enigmas.

        - Será para si um enigma o que lhe estou dizendo?

        - Absolutamente - respondeu o barão com uma firmeza de que Filipe se admirou.

        - Eu me explico: minha irmã retira-se porque se vê obrigada a fugir para evitar uma desonra.

        O barão deu uma gargalhada.

        - Santo Deus! Que filhos modelos eu tenho! – bradou ele. - O filho abandona a esperança de um regimento, porque teme a desonra; a filha deixa um lugar de dama no paço, porque tem medo da desonra. Realmente, estamos no tempo dos Brutos e das Lucrécias. No meu tempo, mau tempo decerto, e não vale os belos dias da filosofia, quando um homem via vir de longe uma desonra, e que, como tu, tinha uma espada e tinha recebido lições de esgrima de cinco professores, espetava a primeira desonra na ponta da espada.

        Filipe encolheu os ombros.

        - Sim, o que estou dizendo é insignificante para um filantropo que não gosta de ver correr sangue. Mas enfim, os oficiais não nasceram precisamente para filantropos.

        - Tenho tanto como o senhor a consciência das necessidades que impõem o ponto de honra; mas não é o sangue vertido que resgata...

        - Palanfrório, palanfrório de... de filósofo! – bradou o barão irritado a ponto de se tornar majestoso. - Parece-me que ia dizer de cobarde.

        - Fez bem em não o dizer - redargüiu Filipe pálido e tremendo.

        O barão afrontou soberbamente o olhar implacável e ameaçador do filho.

        - Dizia eu - continuou ele - e a minha lógica não é tão má como me querem fazer crer; dizia eu que toda a desonra neste mundo precede, não de uma acção, mas de um dito. E assim é... Cometam um crime diante dos surdos, dos cegos ou dos mudos, ficarão por isso desonrados?... Vais talvez responder-me com o estúpido verso:

       

        “Do crime nasce a vergonha, não do cadafalso.”

       

        Isso é bom para se pregar às crianças e às mulheres; mas um homem fala outra linguagem... Ora, a mim parecia-me que tinha criado um homem... Mas veja o cego, ouça o surdo, fale o mudo, que se vaza os olhos a um, arromba-se o tímpano a outro, corta-se a língua ao último, e aí está como responde ao ataque da desonra um fidalgo que tem por apelido Taverney Casa Vermelha!

        - Um fidalgo desse nome, senhor, sabe sempre que entre as coisas que tem a fazer, a primeira de todas é não cometer uma acção desonrosa: é por esse motivo que não responderei aos seus argumentos. Sucede porém às vezes que o opróbrio nasce de uma desgraça inevitável; e é esse o caso em que nos achamos, minha irmã e eu.

        - Vou agora falar de sua irmã.  Se, segundo o meu sistema, o homem nunca deve fugir de uma coisa que pode combater e vencer, a mulher também deve esperar o ataque de pé firme. De que serve a virtude, senhor filósofo, senão para repelir os ataques do vício? Onde está o triunfo dessa mesma virtude, senão na derrota do vício?

        E Taverney começou novamente a rir.

        - A menina de Taverney teve então muito medo, não é verdade?... Sente-se portanto fraca... Então...

        Filipe, aproximando-se de repente, disse:

        - Senhor, a menina de Taverney não se sentiu fraca, está vencida! Sucumbiu, caiu num laço.

        - Num laço?...

        - Sim. Guarde, peço-lhe, um pouco desse entusiasmo, que ainda há pouco o animava, para o aplicar contra os miseráveis que tramaram cobardemente a ruína dessa honra sem mácula.

        - Não percebo.

        - Já vai perceber. Houve um cobarde, que introduziu alguém no quarto de Andréia de Taverney...

        O barão tornou-se pálido.

        - Um cobarde - continuou Filipe - que quis que o nome de Taverney... O meu... E seu, senhor, fosse manchado de modo indelével... Vamos a saber: onde está a espada da sua mocidade, para ir fazer correr o sangue do infame? O motivo não valerá a pena?

        - Sr. Filipe...

        - Ah! Nada receie; eu não acuso ninguém, ninguém conheço... O crime tramou-se nas trevas, e nas trevas foi executado... O resultado também nas trevas há-de desaparecer, que assim o quero eu, que entendo a meu modo a honra e a glória da minha casa.

        - Mas, como sabe?... - bradou o barão, tornando a si com o engodo de uma ambição infame, de uma ignóbil esperança; - por onde conhece isso?

        - É o que ninguém de entre os que poderiam ver minha irmã, sua filha, daqui a alguns meses há-de perguntar.

        - Mas então, Filipe - bradou o ancião com os olhos luzentes de júbilo - então a fortuna e a glória da nossa casa não se desvaneceram, então triunfaremos!

        - Então... É bem realmente o homem que eu pensava - disse Filipe com supremo desprezo; - traiu-se a si mesmo, e acaba de mostrar falta de tino diante de um juiz, depois de ter mostrado falta de sentimentos diante de um filho.

        - Insolente!

        - Basta! - redargüiu Filipe. - Não desperte, falando alto, a sombra, infelizmente demasiado insensível, de minha mãe, que, se vivesse, teria velado sobre a filha.

        O barão baixou os olhos perante o fulgor deslumbrante que brilhava nos olhos do filho.

        - Minha filha - disse ele depois de um momento de silêncio - não há-de deixar-me sem o meu consentimento.

        - Minha irmã - disse Filipe - nunca mais o tornará a ver.

        - Ela é que disse isso?

        - Foi ela quem me mandou declarar-lho.

        O barão limpou com a mão trémula os lábios pálidos e úmidos.

        - Seja! - disse ele.

        Depois, encolhendo os ombros, acrescentou:

        - Fui infeliz com os filhos, um tolo e uma estúpida.

        Filipe não respondeu.

        - Bom, bom - continuou Taverney - já não preciso de você; acabou de recitar a tese, pode retirar-se.

        - Tinha ainda duas coisas que dizer-lhe, senhor.

        - Fale.

        - A primeira é esta: el-rei deu-lhe um adereço de pérolas...

        - Deu-o a sua irmã.

        - Diga antes que o deu a si, senhor... E demais, pouco importa... Minha irmã não usa semelhantes jóias... Andréia de Taverney não é uma prostituta; rogo-lhe que entregue o adereço a quem lho deu; ou, como poderá recear desagradar a Sua Majestade, que tanto fez pela nossa família, guarde-o.

        Filipe deu o adereço ao pai. Este recebeu-o, abriu a caixa, olhou para as pérolas e pô-lo em cima da mesa.

        - Depois? - disse ele.

        - Depois, senhor, como não somos ricos, visto que empenhou e gastou até a fortuna de nossa mãe, o que Deus me livre censurar-lhe...

        - Se lhe parece!... - disse o barão rangendo os dentes.

        - Mas, enfim, como não temos senão Taverney, resto dessa módica sucessão, rogamos-lhe que escolha entre Taverney e esta casa em que estamos. Viverá numa parte e nós na outra.

        O barão amarrotou os bofes da camisa com uma cólera, que só a agitação dos dedos, o suor da fronte e o estremecimento dos lábios puderam trair; Filipe nem sequer notou isso. Tinha voltado a cabeça.

        - Prefiro Taverney - respondeu o barão.

        - Então ficaremos nesta casa?

        - Como quiser.

        - Quando parte?

        - Esta noite mesmo... Não, imediatamente.

        Filipe inclinou-se.

        - Em Taverney - prosseguiu o barão - com três mil libras de renda, vive-se como um rei... Serei duas vezes rei.

        Estendeu a mão ao adereço, que guardou na algibeira.

        Depois dirigiu-se para a porta.

        Mas de repente, voltando atrás e rindo terrivelmente, disse para o filho:

        - Filipe, dou licença que assine com o seu nome o primeiro tratado de filosofia que publicar. Quanto a Andréia... À sua primeira obra... Aconselhe-lhe que lhe chame Luís ou Luísa. São nomes que dão fortuna...

        E saiu motejando. Filipe, com os olhos terríveis, a fronte em brasa, apertou com a mão o punho da espada, e murmurou:

        - Meu Deus! Dai-me paciência, concedei-me o esquecimento.

 

CASO DE CONSCIÊNCIA

        Depois de transcrever, com o meticuloso cuidado que o caracterizava, algumas páginas das suas Meditações de um Solitário, Rousseau acabava um almoço frugal.

        Apesar de lhe haver sido oferecido pelo senhor de Girardin um retiro nos deliciosos jardins de Ermenonville, Rousseau, hesitando em submeter-se à escravidão dos grandes, como dizia na sua monomania misantrópica, habitava ainda a casinha da Rua Platrière, que conhecemos.

        Da sua parte, Teresa, tendo acabado de pôr em ordem a casa, pegara no cesto para ir às compras.

        Eram nove horas da manhã.

        A dona da casa, segundo o seu costume, foi perguntar a Rousseau o que preferia para o jantar daquele dia.

        Rousseau despertou da sua meditação, ergueu lentamente a cabeça e olhou para Teresa, como faz um homem meio acordado.

        - O que quiser - disse ele - contanto que venham cerejas e flores.

        - Veremos - disse Teresa - se não forem muito caras.

        - Está entendido - disse Rousseau.

        - Porque enfim - continuou Teresa - não sei se é por não terem já merecimento as suas obras, mas parece-me que lhe não pagam como dantes.

        - Está enganada, Teresa, pagam-me do mesmo modo, mas vou estando cansado e trabalho menos; além disso o livreiro deve-me ainda metade de um volume.

        - Verá que também esse lhe prega calote.

        - Tenho esperança que não porque este estou certo que é um homem honrado.

        - Um homem honrado, um homem honrado! O senhor quando diz isso, julga ter dito tudo.

        - Não, mas tenho dito muito - redargüiu Rousseau sorrindo - porque não digo o mesmo de toda a gente.

        - Não admira; é tão fastidioso.

        - Teresa, não saiamos da questão.

        - Sim, quer as suas cerejas, guloso! Não passa sem as suas flores, sibarita!

        - Que quer, minha Teresa? - redargüiu Rousseau com uma paciência de anjo - tenho o coração e a cabeça tão doentes, que, não podendo sair, entreter-me-ei pelo menos a ver um pouco o que Deus espalha com profusão pelos campos.

        Com efeito, Rousseau estava pálido e entorpecido, e as mãos preguiçosas folheavam um livro que os olhos não liam.

        Teresa abanou a cabeça.

        - Está bom, está bom - disse ela - saio por uma hora; olhe: a chave fica debaixo do capacho, e se precisar dela...

        - Eu não saio - disse Rousseau.

        - Bem sei que não sai, porque se não pode suster nas pernas; mas digo-lhe isto para que dê atenção às pessoas que por acaso vierem, e para abrir a porta se baterem; porque, se baterem, tem a certeza que não sou eu.

        - Obrigado, obrigado; vá.

        Teresa saiu resmungando segundo o seu costume, e a bulha dos pesados passos ouviu-se-lhe ainda por muito tempo na escada.

        Assim que a porta se fechou, Rousseau aproveitou-se do isolamento para estender-se comodamente na cadeira, olhou para os passarinhos que vinham pousar na janela e respirou todo o sol que se filtrava por entre as chaminés das casas fronteiras.

        O seu pensamento, vigoroso e rápido, apenas sentiu a liberdade, abriu as asas, como faziam os passarinhos da janela depois de comerem as migalhas de pão.

        De repente a porta da entrada rangeu nos gonzos, e veio arrancar o filósofo ao seu doce enleio.

        - O quê? -disse ele - já de volta!... Terei dormido quando só julgava estar sonhando?

        A porta do gabinete abriu-se também por sua vez.

        Rousseau estava de costas voltadas para essa porta, e convencido de que era Teresa que voltava, nem sequer se moveu.

        Houve um momento de silêncio.

        Depois, no meio desse silêncio, uma voz que fez estremecer o filósofo, pronunciou:

        - Perdão, senhor.

        - Gilberto! - disse ele.

        - Sim. Gilberto, que lhe pede outra vez perdão, Sr. Rousseau.

        Rousseau fitou os olhos no mancebo.

        Era com efeito Gilberto.

        Mas Gilberto pálido e com o cabelo em desordem, ocultando mal, sob o fato em desalinho, os seus membros magros e trémulos; Gilberto, numa palavra, cujo aspecto fez estremecer Rousseau, arrancando-lhe uma exclamação de piedade.

        Gilberto tinha o olhar fixo e luminoso das aves de rapina esfaimadas: um sorriso de afectada timidez contrastava com aquele olhar, como faria, com o alto de uma cabeça séria de águia, o baixo de uma cabeça motejadora de lobo ou de raposa.

        - O que vem aqui fazer? - bradou vivamente Rousseau, que não gostava da desordem, e a considerava nos outros como um mau indício.

        - Senhor - respondeu Gilberto - tenho fome.

        Rousseau estremeceu ouvindo o som daquela voz que proferia a palavra mais terrível da linguagem humana.

        - E como entrou aqui? - perguntou ele. - A porta estava fechada.

        - Senhor, eu sei muito bem que a Srª. Teresa põe geralmente a chave debaixo do capacho; esperei que ela saísse, porque não gosta de mim, e teria talvez recusado receber-me ou introduzir-me junto do senhor; então, sabendo que ficava só, subi, tirei a chave do esconderijo, e entrei.

        Rousseau ergueu-se um pouco, firmando-se nos braços da poltrona.

        - Ouça-me, senhor - disse Gilberto; - juro-lhe que mereço a sua atenção.

        - Vejamos - respondeu Rousseau, admirado com a vista daquele rosto, que não tinha já nenhuma expressão dos sentimentos comuns à generalidade dos homens.

        - Deveria ter começado por dizer-lhe que estou reduzido a uma tal extremidade, que já não sei se devo roubar, se matar-me, ou se fazer ainda pior.

        A estas palavras, Rousseau levantou-se de todo e fez uma trincheira da mesa.

        - Oh! Nada receie, meu mestre, meu protector – disse Gilberto com uma voz cheia de doçura - porque, reflectindo bem, creio que não terei necessidade de me matar e que morrerei bem sem isso, porque há oito dias que fugi do Trianon, e tenho corrido pelos bosques e campos sem comer outra coisa senão ervas ou alguma fruta silvestre. Estou sem forças. Caio de fraqueza e de inanição. Quanto a roubar, não será em sua casa que farei semelhante coisa; sou muito obrigado ao Sr. Rousseau para isso. Quanto a praticar a outra coisa, oh! para o fazer...

        - O quê? - disse Rousseau.

        - Preciso de uma resolução, que venho aqui buscar.

        - Está doido? - bradou Rousseau.

        - Não, senhor, mas sou muito infeliz, estou muito desesperado, e ter-me-ia afogado no Sena esta manhã, se não fosse uma reflexão que me ocorreu.

        - Qual foi?

        - Foi que o senhor escreveu: “O suicídio é um roubo feito ao género humano”.

        Rousseau olhou para o mancebo como para lhe dizer:

        - Tens o amor-próprio de crer que pensava em ti quando escrevi isso?

        - Oh! Compreendo - murmurou Gilberto.

        - Parece-me que não - disse Rousseau.

        - Quer dizer: “Porventura a tua morte, tu que não passas de um miserável, que nada és, que nada possuis, que a nada estás ligado, seria acontecimento que se notasse?”

        - Não é disso que se trata - disse Rousseau envergonhado por ver-se assim adivinhado; - mas tinhas fome, creio eu?

        - Sim, já o disse.

        - Pois bem! Assim como soubeste onde era a porta, sabes onde está o pão: vai ao armário, tira pão, e retira-te.

        Gilberto não se arredou.

        - Se não é pão que precisas, mas sim dinheiro, não te julgo tão mal intencionado para que maltrates um ancião que foi teu protector, na própria casa onde te deu asilo. Contenta-te portanto com este pouco... Aqui tens.

        E revolvendo na algibeira, deu-lhe um pouco de dinheiro.

        Gilberto deteve-o.

        - Oh! - disse ele com uma dor pungente - não é de dinheiro nem de pão que se trata; não compreendeu o que eu queria dizer quando falava em me matar. Se eu não me mato, é porque talvez agora a minha vida seja útil a alguém; é porque a minha morte seria um roubo feito a alguém, senhor. O senhor, que conhece todas as leis sociais, todas as obrigações naturais, diga, haverá neste mundo um laço que possa prender à vida um homem que quer morrer?

        - Há muitos - disse Rousseau.

        - Ser pai - murmurou Gilberto - será um desses laços? Olhe para mim para me responder, Sr. Rousseau, para que eu veja a resposta nos seus olhos.

        - É, sim - murmurou Rousseau - certamente que é. De que serve essa pergunta feita por si?

        - Senhor, as suas palavras vão ser um decreto para mim, pese-as portanto bem, suplico-lho - disse Gilberto. - Senhor, sou desgraçado e quisera matar-me, mas... Tenho um filho!

        Rousseau fez um movimento de admiração na sua poltrona.

        - Oh! Não escarneça de mim, senhor - disse Gilberto humildemente; - julgaria fazer uma arranhadura no meu coração, e rasgá-lo-ia como se fosse com um punhal: repito-lho, tenho um filho.

        Rousseau olhou para ele sem lhe responder.

        - Se não fosse isso, estaria já morto - continuou Gilberto - nessa alternativa, eu disse comigo que o senhor me daria um bom conselho, e vim aqui.

        - Mas - perguntou Rousseau - por que motivo hei-de eu ter conselhos para lhe dar? Veio porventura consultar-me quando cometeu o erro?

        - Senhor, o erro...

        E Gilberto, com uma expressão singular, aproximou-se de Rousseau.

        - Que é? - disse este.

        - O erro... - redargüiu Gilberto - há pessoas que lhe chamam um crime.

        - Um crime! Mais forte razão para que não me fale nele. Eu sou um homem como você, e não um professor! Além disso, o que me diz não me admira; sempre lhe conheci inclinação para o mal; má índole!

        - Não, senhor - respondeu Gilberto abanando melancolicamente a cabeça. - Não, senhor, está enganado; tenho o espírito falso ou antes falsificado; li muitos livros que me pregavam a igualdade das castas, o orgulho do espírito, a nobreza dos instintos, esses livros, senhor, eram assinados por nomes tão ilustres, que um pobre aldeão como eu pode facilmente enganar-se... E perdi-me.

        - Ah! Ah! Já vejo o que quer concluir, Sr. Gilberto.

        - Eu?

        - Sim, acusa a minha doutrina; mas não tem o senhor o livre arbítrio?

        - Eu não acuso, senhor, digo-lhe que li; o que acuso é a minha credulidade; cri e errei; há duas causas no meu crime: o senhor é a primeira, e venho portanto ter primeiro consigo; irei depois à segunda, mas por sua vez e quando for tempo.

        - Enfim, vejamos, o que pede?

        - Nem protecção, nem abrigo, nem pão, apesar de estar abandonado, nu e esfaimado; não, venho pedir-lhe um sustentáculo moral, uma sanção da sua doutrina, peço que me restitua com uma palavra toda a minha força, que se perdeu, não pela inacção dos meus braços ou das minhas pernas, mas pela dúvida na minha cabeça e no meu coração. Sr. Rousseau, rogo-lhe portanto que me diga se isto que sinto há oito dias é a dor da fome nos músculos do estômago, ou se é o tormento do remorso nos órgãos do meu pensamento. Gerei uma criança, senhor, cometendo um crime; portanto, diga-me agora, se devo num amargo desespero, arrancar os cabelos e torcer-me no chão bradando: “Perdão!” ou se devo rir, como a mulher de que nos fala a Escritura, dizendo: “Fiz como faz toda a gente; se houver entre os homens um que valha mais do que eu, que me apedreje”. Numa palavra, Sr. Rousseau, o senhor que deve ter experimentado o que eu experimento, responda a esta pergunta: diga, diga, é natural que um pai abandone o seu filho?

        Apenas Gilberto pronunciou estas palavras, Rousseau tornou-se mais pálido do que ele, e todo trémulo perguntou-lhe:

        - Com que direito me fala assim?

        - É porque estando em sua casa, Sr. Rousseau, na água-furtada em que me tinha dado hospitalidade, li o que a este respeito escreveu; porque declarou que as crianças nascidas na miséria pertencem ao Estado, que deve cuidar delas; porque enfim sempre se teve em conta de homem honrado, conquanto não recuasse diante do abandono dos filhos que teve.

        - Desgraçado - disse Rousseau - tinhas lido o meu livro, e vens falar-me em semelhante linguagem!

        - E então? - disse Gilberto.

        - Então, não és mais que um mau espírito junto a um mau coração.

        - Sr. Rousseau!

        - Leste mal nos meus livros, como lês mal na vida humana! Só viste a superfície das folhas, como só vês a do rosto! Ah! Julgas tornar-me solidário do teu crime citando-me os livros que tenho escrito; dizendo-me: confessa ter feito isto, portanto eu também posso fazê-lo! Mas, desgraçado! O que não sabes, o que não leste nos meus livros, o que não adivinhaste, é que a vida inteira daquele que tomaste por exemplo, essa vida de miséria e sofrimentos, podia ele trocá-la por uma existência dourada, voluptuosa, cheia de fausto e de prazer. Tenho eu menos talento do que o senhor de Voltaire, e não podia eu produzir tanto como ele? Aplicando-me menos do que faço, não poderia eu vender os meus livros tão caros como ele vende os seus, e obrigar o dinheiro a vir entrar no meu cofre, tendo sempre esse cofre à disposição dos meus livreiros? O ouro atrai o ouro; não sabes tu isso? Eu poderia também ter um palácio, cavalos fogosos, carruagens para passear com uma amante moça e formosa, e acredita-o, esse luxo não teria secado em mim a fonte inesgotável de poesia. Não tenho eu já paixões, diz? Olha bem para os meus olhos, que aos sessenta anos, brilham ainda com o fogo da mocidade e dos desejos. Tu, que leste ou copiaste os meus livros, vejamos, não te lembras que apesar da declinação dos anos, apesar de males bem graves e verdadeiros, o meu coração, sempre novo, parece, para melhor padecer, ter herdado todas as forças do resto da minha organização? Atacado de enfermidades que me tolhem o andar, sinto-me contudo com mais vigor e mais vida para absorver a dor do que nunca tive na flor da minha idade para acolher as raras felicidades que recebi de Deus.

        - Sei isso tudo, senhor - disse Gilberto. - Vi-o de perto e compreendi-o.

        - Então, se de perto me viste, se me compreendeste, não tem a minha vida para ti uma significação que para os outros não tem? Essa estranha abnegação, que não está na minha natureza, não diz que eu quis expiar...

        - Expiar! - murmurou Gilberto.

        - Não compreendeste - continuou o filósofo - que tendo-me essa miséria obrigado de princípio a tomar uma determinação excessiva, não achei depois outra desculpa a essa determinação senão o desinteresse e a perseverança na miséria? Não compreendeste que castiguei o meu espírito pela humilhação? Porque era o meu espírito que, para se justificar, recorria aos paradoxos, ao passo que, de outra parte, eu castigava o meu coração com a perpetuidade do remorso.

        - Ah! - exclamou Gilberto - é assim que me responde! É assim que os filósofos, que dão ao género humano preceitos escritos, nos abismam no desespero, condenando-nos se os irritamos; ah! Que me importa a mim com a sua humilhação, no momento em que ela é secreta? Com o seu remorso, quando ele se oculta? Oh! Desgraça, desgraça sobre todos! E possam recair sobre todos os crimes cometidos em seu nome!

        - Sobre mim, dizes tu, a maldição e o castigo ao mesmo tempo, como se não bastasse o castigo. Oh! Seria muito! Tu, que pecaste como eu, condenas-te com tanta severidade como eu me condeno?

        - Com mais severidade ainda - disse Gilberto – porque o meu castigo há-de ser terrível, porque agora, que já em nada tenho fé, hei-de deixar-me matar pelo meu adversário, ou antes pelo meu inimigo; suicídio que a minha miséria me aconselha, que a minha consciência me perdoa; porque, agora, a minha morte já não é um roubo feito à humanidade, e o senhor escreveu uma frase que decerto não pensou.

        - Suspende, desgraçado - disse Rousseau - suspende! Não fizeste já bastante mal com o teu cepticismo estúpido? Falaste-me de um filho, disseste-me que eras ou que estavas para ser pai?

        - É verdade - disse Gilberto.

        - Sabes tu o que é - murmurou Rousseau em voz baixa - arrastar consigo, não na morte, mas na vergonha, criaturas nascidas para respirar livre e puramente o ar pleno da virtude, que Deus dá por dote ao homem que sai do seio materno? Pois ouve quanto é horrível a minha situação. Quando abandonei os meus filhos, compreendi que a sociedade, que não poupa qualquer superioridade, ia lançar-me em rosto essa injúria como um acto infamante; então justifiquei-me com paradoxos; então empreguei dez anos da minha vida em dar conselhos às mães para a educação dos seus filhos, eu que não tinha sabido ser pai, quis dar conselhos à Pátria para a formação de cidadãos fortes e honrados, eu que tinha sido fraco e corrupto. Depois, um dia, o carrasco, que vinga a sociedade, a Pátria e o órfão, o carrasco, não se podendo vingar em mim, vingou-se no meu livro, e queimou-o como um objecto de asco e de horror para o país, cujo ar tinha sido empestado com esse livro. Escolhe, torna-te juiz: fiz eu bem praticando semelhante acção? Fiz mal publicando os meus preceitos? Não respondes? O próprio Deus hesitaria, Deus que tem nas mãos a inflexível balança do que é justo e injusto. Pois bem, eu tenho um coração que resolve a dúvida, e que me diz aqui no íntimo do peito: “Maldição sobre ti, pai desnaturado, que abandonaste teus filhos; maldição sobre ti, se encontrares a jovem prostituta que ri com impudência à noite nas esquinas das ruas e nas praças públicas, porque essa é talvez a tua filha abandonada, que a fome impeliu para a infâmia; maldição sobre ti, se encontrares na rua o ladrão que prendem, trazendo ainda na mão o roubo, porque esse é talvez o teu filho abandonado, que a fome impeliu para o crime!”

        A estas palavras, Rousseau, que se tinha levantado, deixou-se cair novamente na poltrona.

        - E contudo - prosseguiu ele com a voz cansada, que tinha a expressão de uma súplica - eu não fui tão culpado como o poderiam crer; eu vi uma mãe sem entranhas fazer-se minha cúmplice, esquecer, como fazem os animais, e disse comigo: “Deus permitiu que a mãe esquecesse, é prova que ela devia esquecer”. Pois enganei-me naquele momento, e hoje que me ouviste dizer-te o que nunca disse a nenhuma outra pessoa, hoje não tens já direito para te quereres iludir.

        - Então - perguntou o mancebo franzindo as sobrancelhas - nunca teria abandonado os seus filhos se tivesse possuído dinheiro para os sustentar?

        - Bastava-me ter o estritamente necessário, que nunca os houvera abandonado; juro-o.

        E Rousseau estendeu solenemente a mão trémula para o céu.

        - Vinte mil libras - perguntou Gilberto - será bastante para sustentar um filho?

        - Sim, é bastante - disse Rousseau.

        - Bem - disse Gilberto - obrigado, senhor, agora sei o que tenho a fazer.

        - E, em todo o caso, moço como és, com o teu trabalho podes sustentar o teu filho - disse Rousseau. - Mas falaste de crime; procuram-te, seguem-te talvez...

        - Sim, senhor.

        - Pois bem, esconde-te aqui, meu filho, a água-furtada continua devoluta.

        - O senhor é um homem que eu estimo muito, meu mestre - bradou Gilberto - e o oferecimento que me faz enche-me de prazer; efectivamente, só lhe peço um abrigo; quanto ao meu pão, eu o ganharei, sabe que não sou preguiçoso.

        - Pois sim - disse Rousseau com modo inquieto – sendo assim, vai lá para cima, para que a Srª. Rousseau te não veja aqui; ela já não costuma subir à água-furtada, porque desde que de lá saíste não guardamos nada naquela casa; o teu enxergão lá ficou, arranja-te o melhor que puderes.

        - Obrigado, senhor; sendo assim, serei mais feliz do que mereço.

        - É quanto desejas por agora? - disse Rousseau indicando a porta a Gilberto para que subisse.

        - É, sim, senhor; mais uma palavra ainda, se dá licença.

        - Diz.

        - Um dia, em Luciennes, acusou-me de o haver traído; eu não atraiçoava pessoa alguma, senhor, seguia o meu amor.

        - Não falemos mais nisso; é tudo?

        - É. Agora, Sr. Rousseau, quando em Paris se não sabe a morada de alguma pessoa, é possível procurá-la com facilidade?

        - Certamente, quando essa pessoa é conhecida.

        - Aquela de quem quero falar é muito conhecida.

        - O seu nome?

        - O Sr. Conde José Bálsamo.

        Rousseau estremeceu; não tinha esquecido a sessão da Rua Platrière.

        - O que queres desse homem? - perguntou ele.

        - Uma coisa muito simples. Eu tinha-o acusado, meu mestre, de ser moralmente a causa do meu crime, porque julgava não ter obedecido senão à lei natural.

        - Mas dissuadi-te disso, não é assim? - bradou Rousseau tremendo com a idéia dessa responsabilidade.

        - Pelo menos esclareceu-me.

        - Pois bem! O que queres tu dizer?

        - Que o meu crime teve, não só uma causa moral, mas também uma causa física, não é verdade?

        - É.

        - Copiei exemplos, aproveitei uma ocasião, e nisso, agora o conheço, obrei como um animal selvagem, e não como homem. O exemplo, é o senhor, a ocasião, é o Sr. Conde de Bálsamo. Onde mora ele, sabe?

        - Sei.

        - Dê-me a morada.

        - Rua de Saint-Claude, no Marais.

        - Agradecido, vou já a casa dele.

        - Cuidado, meu filho - bradou Rousseau, detendo-o - é um homem poderoso e profundo.

        - Não receie coisa nenhuma, Sr. Rousseau, sou resoluto, e ensinou-me a ser senhor de mim.

        - Depressa, depressa, sobe - bradou Rousseau – ouço fechar-se a porta da rua; é sem dúvida minha mulher que volta para casa, esconde-te na água-furtada até que ela tenha entrado, depois sairás.

        - A chave?

        - Está no prego, na cozinha, como de costume.

        - Adeus, senhor, adeus.

        - Leva pão, que eu te prepararei trabalho para esta noite.

        - Agradecido.

        E Gilberto saiu tão ligeiramente, que chegou à água-furtada antes que Teresa tivesse subido ao primeiro andar.

        Munido da preciosa informação que Rousseau lhe dera, não levou Gilberto muito tempo em executar o seu projecto.

        Efectivamente, apenas Teresa fechou a porta do seu quarto, o mancebo, que da porta da água-furtada espreitara todos os seus movimentos, desceu a escada com tanta rapidez como se não estivesse enfraquecido por um longo jejum. Ferviam-lhe na cabeça muitas idéias cheias de esperanças, de rancores, e por detrás disso tudo pairava uma sombra vingadora, que o aguilhoava com queixumes e acusações.

        Chegou à Rua de Saint-Claude num estado difícil de descrever.

        Entrava no pátio do palácio, no momento em que Bálsamo acompanhava até à saída o príncipe de Rohan, a quem deveres de civilidade tinham levado a casa do seu generoso alquimista.

        Ora, na ocasião em que o príncipe saía, parando uma última vez para renovar a Bálsamo os seus agradecimentos, o infeliz mancebo, esfarrapado, entrava como um cão, não se atrevendo a olhar em torno de si, pelo receio de ficar deslumbrado.

        A carruagem do príncipe Luís estava esperando-o no bulevar; o prelado atravessou lentamente o espaço que o separava da carruagem, a qual partiu rapidamente apenas se fechou a portinhola.

        Bálsamo seguira-o com um olhar melancólico, e quando a carruagem desapareceu, voltou-se para os degraus da escada.

        Nesses degraus estava um mendigo em atitude suplicante.

        Bálsamo dirigiu-se para ele, e conquanto se conservasse mudo, o olhar expressivo interrogava.

        - Um quarto de hora de audiência, por favor, senhor conde - disse o mancebo esfarrapado.

        - Quem é, meu amigo? - perguntou Bálsamo com muita doçura.

        - Não se lembra de mim? - perguntou Gilberto.

        - Não, mas não importa, venha - redargüiu Bálsamo sem importar-se com o aspecto do seu estranho solicitador, nem com o trajo, nem com a importunidade.

        E caminhando adiante dele, conduziu-o para a primeira casa, e sentou-se, sem mudar de tom nem de fisionomia.

        - Perguntou se me não lembrava de si? - disse ele.

        - Perguntei, sim, senhor conde.

        - Efectivamente parece-me tê-lo visto em alguma parte.

        - Em Taverney, senhor, na véspera da passagem da delfina.

        - O que fazia em Taverney?

        - Morava lá.

        - Como criado?

        - Não, senhor, como hóspede.

        - Saiu então de Taverney?

        - Saí há-de haver perto de três anos.

        - E veio?...

        - Para Paris, onde estudei em casa do Sr. Rousseau, depois do que, pela protecção do senhor de Jussieu, fui empregado no Trianon como ajudante de jardineiro da floresta.

        - Citou-me dois belos nomes, meu amigo. O que quer de mim?

        - Vou dizê-lo.

        E fazendo uma pausa, fixou em Bálsamo um olhar cheio de firmeza.

        - O senhor conde - disse - lembra-se de ter ido ao Trianon numa noite de tempestade, faz sexta-feira seis semanas?

        Bálsamo tornou-se triste.

        - Lembro, sim - respondeu; - dar-se-á o caso de ter-me visto?

        - Vi.

        - Então vem pedir-me dinheiro para guardar segredo? - disse Bálsamo em tom ameaçador.

        - Não, senhor, porque esse segredo, tenho, ainda maior interesse em o guardar, que o senhor conde.

        - Então é Gilberto? - disse Bálsamo.

        - Sou, sim, senhor conde.

        Bálsamo examinou profundamente o mancebo, sobre cujo nome caía uma acusação terrível.

        Ficou admirado, ele que tanto conhecia os homens, da firmeza do mancebo e da dignidade das suas palavras.

        Gilberto ficara de pé diante de uma mesa, à qual se não encostava; uma das mãos, delgadas e claras apesar dos trabalhos rústicos, tinha-a escondida no peito; a outra pendia-lhe ao lado.

        - Pelo seu modo, vejo o que aqui vem fazer – disse Bálsamo; - sabe que uma terrível denúncia foi feita contra o senhor pela menina de Taverney, a quem com o auxílio da ciência obriguei a dizer a verdade, e vem censurar-me por isso, não é verdade? Por essa evocação de um segredo que, a não ser eu, teria ficado sepultado nas trevas como num túmulo?

        Gilberto contentou-se em abanar a cabeça.

        - Faria mal - prosseguiu Bálsamo - porque, admitindo que eu tivesse querido denunciá-lo sem ser para isso forçado por interesse meu, visto que me acusavam; admitindo que houvesse sido tratado por mim como inimigo, que o tivesse atacado ao passo que tratava de defender-me; admitindo isso tudo, não tem direito de dizer coisa nenhuma, porque na realidade cometeu uma acção bem infame.

        Gilberto rasgou o peito com as unhas, e não respondeu coisa alguma.

        - E tome cuidado, que o irmão há-de persegui-lo e matá-lo - redargüiu Bálsamo - se tiver a imprudência de continuar a passear pelas ruas de Paris.

        - Oh! Quanto a isso, pouco me importa - disse Gilberto.

        - Como! Pouco lhe importa?

        - Pouquíssimo; eu amava a menina de Taverney, amava-a como nunca será amada por ninguém; mas desprezou-me, a mim que tinha sentimentos tão respeitosos por ela, desprezou-me, a mim que já duas vezes a havia tido em meus braços, sem sequer me atrever a beijar-lhe o vestido.

        - Sim, e fez-lhe pagar esse respeito, vingando-se do desprezo. E como? Por uma traição!

        - Oh! Não, não, a traição, o laço ou como lhe quiser chamar, não foi minha criação, proporcionaram-me uma ocasião de cometer o crime.

        - Quem lha proporcionou?

        - O senhor.

        Bálsamo endireitou-se como se o mordera uma serpente.

        - Eu? - bradou ele.

        - Sim, o senhor - repetiu Gilberto; - o senhor adormeceu a menina de Taverney e depois fugiu. À medida que o senhor se afastava iam vergando as pernas à menina, que afinal caiu. Tomei-a então nos braços para a levar para o quarto; senti o seu corpo em contacto com o meu, e só isso teria dado vida a uma pedra!... Eu, que amava, cedi ao meu amor. Sou eu tão criminoso como dizem? Responda-me o senhor, que é a causa da minha desgraça.

        Bálsamo ergueu para Gilberto o olhar cheio de tristeza e piedade.

        - Tens razão, criança - disse ele - fui a causa do teu crime e do infortúnio daquela senhora.

        - E em lugar de lhe dar remédio, o senhor, que é um homem tão poderoso e que deveria ser tão bom, agrava a desgraça de Andréia, e suspende a morte sobre a cabeça do culpado.

        - É verdade - respondeu Bálsamo - e falas com muito critério. Há algum tempo, mancebo, que sou uma criatura maldita, e todos os meus planos ao sair do cérebro revestem-se de formas ameaçadoras e prejudiciais: provém isto de desgraças porque também eu passei, e que não podes compreender. Todavia, não é uma razão para que faça padecer os mais. O que pretendes, vejamos?

        - Peço-lhe meios para poder remediar tudo, senhor conde; isto é, para remediar tanto o crime como a desgraça.

        - Amas aquela senhora?

        - Se a amo!...

        - Há muitas espécies de amor. Com que amor a amas?

        - Antes de a possuir, amava-a com delírio; hoje amo-a com remorso, com furor. Morreria de pena, se ela me recebesse mal; morreria de prazer, se ela me permitisse que lhe beijasse os pés.

        - É uma menina nobre, mas é pobre - disse Bálsamo reflectindo.

        - Sim.

        - Entretanto, o irmão é um homem honrado, que eu julgo um pouco enfatuado com o vão privilégio da nobreza. O que sucederia, se pedisses ao irmão que te permitisse casar com sua irmã?

        - Matava-me - respondeu Gilberto friamente; - entretanto, como eu, longe de temer a morte a prefiro, se me aconselhar que faça esse pedido, fá-lo-ei.

        Bálsamo reflectiu.

        - Tens talento - disse ele - e dir-se-ia até que és honrado, ainda que na realidade as tuas acções são criminosas, a minha cumplicidade é coisa à parte. Pois bem! Vai procurar, não o Sr. Filipe de Taverney, mas o pai, o barão de Taverney; diz-lhe, ouve bem, diz-lhe que no dia em que consentir no teu casamento com a sua filha, levarás um dote à menina Andréia.

        - Não posso dizer isso, senhor conde: nada tenho.

        - E eu digo-te que levarás um dote de cem mil escudos, que eu te hei-de dar para reparares a desgraça e o crime, como ainda há pouco dizias.

        - Não me acreditará; sabe que sou pobre.

        - Pois então, se o não acreditar, mostrar-lhe-ás estas notas do banco, que vendo-as hão-de cessar-lhe as dúvidas.

        E dizendo isto, abriu uma gaveta, de onde tirou trinta notas de dez mil francos cada uma.

        Depois entregou-as a Gilberto.

        - Isto é dinheiro? - perguntou o mancebo.

        - Lê.

        Gilberto lançou um olhar ávido para o maço de papéis que segurava nas mãos, e conheceu a verdade do que Bálsamo lhe dizia.

        Um raio de júbilo lhe brilhou nos olhos.

        - Será possível? - bradou ele. - Não, semelhante generosidade seria demasiado sublime.

        - És desconfiado - disse Bálsamo; - tens razão, mas deves acostumar-te a escolher melhor as pessoas de quem quiseres desconfiar. Pega portanto nesses cem mil escudos, e vai a casa do senhor de Taverney.

        - Senhor - disse Gilberto - enquanto semelhante soma me for dada sobre simples palavra, não acreditarei na sua realidade.

        Bálsamo pegou numa pena e escreveu:

       

        “Dou a Gilberto, no dia em que ele assinar o contrato do seu casamento com a menina Andréia de Taverney, a soma de cem mil escudos, que lhe entreguei já, na esperança de uma feliz negociação. - José Bálsamo.”

       

        - Recebe este papel, vai e não duvides mais.

        Gilberto recebeu o papel com mão trémula.

        - Senhor - disse ele - se lhe devo semelhante felicidade, será o deus que hei-de adorar na Terra.

        - Há só um Deus que se deve adorar – respondeu Bálsamo gravemente - e esse não sou eu. Vá, meu amigo.

        - Uma última mercê, senhor.

        - Qual é?

        - Dê-me cinqüenta francos.

        - Pedes-me cinqüenta francos quando levas nas mãos trezentos mil?

        - Estes trezentos mil francos não serão meus, senão no dia em que a menina Andréia consentir em casar comigo.

        - E para que queres os cinqüenta francos?

        - Para comprar um fato decente com que me possa apresentar em casa do barão.

        - Aqui tens, meu amigo - disse Bálsamo.

        E deu-lhe os cinqüenta francos que desejava.

        Feito isto, despediu Gilberto com um sinal, e com o mesmo passo triste e vagaroso retirou-se para o seu quarto.

 

PROJECTOS DE GILBERTO

        Assim que se viu na rua, deixou Gilberto esfriar a febril imaginação que as últimas palavras do conde levara além, não só do provável, mas ainda do possível.

        Chegado à Rua Pastourel, sentou-se num marco de pedra, e circunvagando a vista, certificou-se de que ninguém o espreitava, e tirou da algibeira as notas de banco, todas amarrotadas do aperto da mão.

        Passara-lhe pelo espírito uma terrível idéia, que o inundou de suor.

        - Vejamos - disse olhando para as notas – aquele homem não me terá enganado; vejamos se me não armou algum laço, e se me não faz encontrar uma morte certa sob pretexto de me fazer achar a felicidade; saibamos se não me fez o que fazem às ovelhas, que atraem ao matadouro oferecendo-lhes um punhado de ervas floridas. Tenho ouvido dizer que há muitas notas de banco falsas, com que muitas vezes os peralvilhos da corte enganam as raparigas do teatro. Vejamos se o conde não me terá enganado.

        Tirou do maço uma nota de dez mil francos, e entrando numa loja, mostrou-a e pediu que lhe ensinassem uma casa de câmbio onde pudesse trocá-la, conforme, disse ele, lhe ordenara o seu amo.

        O lojista olhou para a nota, virou-a e revirou-a admirando-a muito, porque a soma era pomposa e a loja modestíssima, e ensinou a Gilberto a casa de um banqueiro, na Rua de Saint-Avoie.

        Portanto, a nota era boa.

        Gilberto, rejubilando, deu largas à imaginação, guardou no lenço mais cuidadosamente do que nunca o maço de papéis, e vendo na Rua de Saint-Avoie uma loja de algibebe, comprou por vinte cinco francos um fato completo de pano cor de castanho, cujo asseio o encantou; um par de meias de seda preta, um pouco ruças, sapatos de fivela e uma camisa de pano fino completou o trajo, mais decente que rico, com o qual Gilberto se admirou num rápido relancear de olhos pelo espelho do adelo.

        Depois, deixando o fato velho como apenso aos vinte e cinco francos, guardou na algibeira o precioso lenço e passou da loja do adelo para a casa do cabeleireiro, que, num quarto de hora, acabou de tornar elegante, e até bela, a notável cabeça do protegido de Bálsamo.

        Concluídas estas operações, entrou na casa de um padeiro, que morava perto da Praça de Luís XV, e comprou um pão, que comeu rapidamente seguindo o caminho de Versalhes.

        Na fonte da Conferência parou para beber.

        Depois metendo-se de novo a caminho, rejeitando todos os oferecimentos que lhe faziam os cocheiros, que não podiam compreender que um mancebo tão bem vestido quisesse economizar quinze soldos em prejuízo dos seus sapatos lustrados com ovo.

        O que diriam eles se soubessem que esse mancebo, que assim caminhava a pé, levava na algibeira trezentos mil francos?

        Mas Gilberto tinha os seus motivos para querer ir a pé. Primeiro pela firme resolução por ele tomada de não exceder as despesas num real do que lhe fosse estritamente necessário; depois, porque precisava de isolamento para se entregar mais comodamente à pantomima e aos monólogos.

        Só Deus sabe as idéias de felicidade que perpassaram pela cabeça daquele moço, durante as duas horas e meia que ele caminhou.

        Em duas horas e meia, tinha andado mais de quatro léguas, sem dar pela distância, sem sentir a menor fadiga, tão poderosa era a sua organização.

        Traçara o seu plano, e decidira proceder do modo seguinte:

        Falar ao senhor de Taverney com palavras pomposas; obtida a autorização do barão, dirigir a Andréia um discurso tão eloqüente, que não só ela perdoasse, mas concebesse respeito e afeição pelo autor da patética arenga que ele preparara.

        Com estas idéias, a esperança vencera o temor, e parecia impossível a Gilberto que uma rapariga, na posição em que Andréia se achava, não aceitasse a reparação que lhe apresentava com uma soma de cem mil escudos.

        Gilberto, formando os seus castelos no ar, era mais lhano e honrado do que se pensa.

        Preparadas todas as baterias, chegou com o coração opresso ao Trianon. Uma vez ali, estava pronto para tudo: para os primeiros furores de Filipe, a quem, assim o esperava, a generosidade do seu procedimento devia acalmar; para os primeiros desesperos de Andréia, que o seu amor devia submeter; para os primeiros insultos do barão, a quem o seu ouro abrandaria.

        Com efeito, apesar de ter vivido sempre longe da sociedade, Gilberto adivinhava instintivamente que trezentas mil libras na algibeira são uma forte couraça; o que ele mais receava, era a vista dos padecimentos de Andréia; só contra tal desgraça temia a sua fraqueza, que lhe destruiria parte dos meios necessários para o bom êxito da sua causa.

        Entrou portanto nos jardins, olhando, não sem certo orgulho, que se lhe casava bem com a fisionomia, para todos aqueles trabalhadores, ainda ontem, seus companheiros, e já hoje seus inferiores.

        A primeira pergunta que fez referiu-se ao barão de Taverney. Para isso dirigiu-se naturalmente ao moço de serviço.

        - O barão não está no Trianon - respondeu este.

        Gilberto hesitou um instante.

        - E o Sr. Filipe? - perguntou ele.

        - Oh! O Sr. Filipe partiu com a menina Andréia.

        - Partiu! -bradou Gilberto aterrado.

        - Foi-se.

        - E a menina Andréia também se foi?

        - Há cinco dias.

        - Para Paris?

        O rapaz fez um movimento que significava:

        - Não sei.

        - Como, não sabe? - exclamou Gilberto - a menina Andréia partiu sem que saibam para onde ela foi? Mas devia haver para isso alguma causa.

        - Ora essa! - respondeu o rapaz pouco respeitoso pelo fato cor de castanha de Gilberto - já se vê que não partiu sem causa.

        - Então por que motivo se retirou?

        - Para mudar de ar.

        - Mudar de ar? - repetiu Gilberto.

        - Sim, parece que o do Trianon era mau para a saúde da menina, e por ordem do médico retirou-se do Trianon.

        Era inútil fazer mais perguntas; era evidente que o criado tinha dito quanto sabia a respeito de Andréia.

        E contudo, Gilberto, estupefacto, não podia crer no que ouvia. Correu ao quarto de Andréia e achou a porta fechada.

        Fragmentos de vidro, palha, papéis que se viam pelo corredor, mostravam-lhe todos os sinais da partida.

        Gilberto foi ao seu antigo quarto, que achou tal qual o deixara.

        A janela do quarto de Andréia estava aberta; podia ver até à antecâmara.

        Estava completamente vazia.

        Gilberto entregou-se então a toda a força do desespero; bateu com a cabeça contra a parede, torceu os braços e rolou pelo chão.

        Depois, como um insensato, correu para fora da mansarda, desceu a escada como se tivera asas, entrou nos bosques levando as mãos à cabeça, e com imprecações e gritos, deixou-se cair no meio do mato, amaldiçoando a vida e os que lha tinham dado.

        - Oh! Está tudo acabado, bem acabado – murmurou ele. - Deus não quer que eu a torne a encontrar; Deus quer que eu morra de remorso, de desespero e de amor; expiarei assim o meu crime, vingarei assim aquela que ultrajei. Onde pode ela estar? Em Taverney! Oh! Eu irei! Eu irei!  Irei até ao fim do mundo; subirei até às nuvens, se for preciso. Oh! Hei-de encontrá-la e segui-la, ainda que eu tenha de cair no meio do caminho morto de fome e de cansaço.

        Mas a pouco e pouco, esquecido da sua dor pela explosão dela, Gilberto levantou-se, respirou mais livremente, olhou em volta de si com um modo menos espantado, e com passos vagarosos, dirigiu-se novamente para Paris.

        Desta vez empregou sete horas no caminho.

        - O barão - dizia ele consigo, com certa aparência de razão - o barão não terá talvez saído de Paris; hei-de falar-lhe. Andréia fugiu. Com efeito, não podia ficar no Trianon; mas, em qualquer parte onde esteja, o pai deve sabê-lo; uma só palavra que ele me diga me indicará o lugar, e demais ele há-de chamar para si a filha, se eu conseguir convencer-lhe a avareza.

        Gilberto, firme nesta nova resolução, entrou em Paris pelas sete horas da tarde, isto é, pela hora em que a brisa fresca atraía a gente para passear nos Campos Elísios, pela hora em que Paris flutuava entre as primeiras névoas da noite e as primeiras claridades desse dia artificial que lhe faz um dia de vinte e quatro horas.

        O mancebo, em conseqüência da sua resolução, foi direito à porta da casa da Rua Coq-Héron, e bateu sem hesitar.

        Só o silêncio lhe respondeu.

        Renovou as aldrabadas, sem que a décima obtivesse mais resultado do que a primeira.

        Então desapareceu-lhe o último recurso com que contara. Desesperado, mordendo as mãos para castigar o corpo, por padecer menos que o espírito, Gilberto retirou-se precipitadamente, voltou para a outra rua, abriu a porta da casa de Rousseau, e subiu.

        Levava a chave da mansarda atada no lenço em que estavam as trinta notas de banco.

        Gilberto precipitou-se no quarto como se teria precipitado no Sena, se tivesse corrido naquele lugar.

        Depois, como a tarde estava boa e as nuvens se cruzavam no azul do céu, como um suave aroma de flores subia no crepúsculo da noite, como as aves nocturnas vinham com suas asas bater nos vidros da fresta da água-furtada, Gilberto, chamado à vida por todas essas sensações, chegou-se a fresta, e vendo alvejar no meio das árvores o pavilhão do jardim onde outrora vira Andréia, que ele julgava perdida para sempre, sentiu despedaçar-se-lhe o coração e caiu quase desfalecido, com a vista perdida numa contemplação vaga e estúpida.

 

GILBERTO RECONHECE QUE É MAIS FÁCIL COMETER UM CRIME DO QUE VENCER UM PRECONCEITO

        À proporção que diminuía a sensação dolorosa que se apoderara de Gilberto, iam-se-lhe as idéias tornando mais claras e precisas.

        Durante aquele tempo, as trevas que se iam formando impediram-lhe de poder ver mais coisa alguma; então apoderou-se dele um desejo invencível de ver as árvores, a casa, o jardim, que a escuridão acabava de lhe roubar aos olhos.

        Lembrou-se que uma noite, em tempos mais felizes, quisera saber notícias de Andréia, vê-la, ouvi-la falar, e com risco da própria vida, padecendo ainda da doença que lhe resultara do dia 31 de Maio, tinha-se deixado escorregar pela calha, desde o primeiro andar até abaixo, isto é, até ao jardim.

        Naquele tempo havia grande perigo em penetrar na casa, que o barão habitava então e onde Andréia estava tão bem guardada, e contudo, apesar desse perigo, lembrou-se Gilberto de quanto lhe tinha sido grata a situação, e como o coração lhe palpitava cheio de felicidade ao ouvir o som da voz amada.

        - Se eu tornasse a ir lá, se pela última vez fosse pensar nela, no próprio lugar onde ela esteve; se mais uma vez fosse procurar de joelhos sobre a areia do jardim, o vestígio adorado dos pés da minha amante!

        Oh, que se esta palavra terrível fosse ouvida! Gilberto disse-a quase em voz alta, achando prazer em pronunciá-la.

        Interrompeu o monólogo para cravar um olhar profundo sobre o ponto que adivinhava ser o pavilhão.

        Depois de um instante de silêncio e investigação, acrescentou:

        - Nada indica que o pavilhão esteja habitado: nem luz, nem rumor, nem portas abertas; vamos!

        Gilberto tinha um merecimento, e era que, tomada uma resolução, executava-a com suma rapidez. Abriu a porta da mansarda, e como um silfo desceu até ao primeiro andar, saiu pela janela e deixou-se corajosamente escorregar até baixo, mesmo com risco de rasgar o fato novo.

        Chegando a esse ponto, passou por todas as comoções da sua primeira visita ao pavilhão, a areia rangeu sob os seus passos, e viu a portinhola por onde Nicola introduzira o Sr. Beausire.

        Afinal aproximou-se dos degraus para beijar a aldraba da porta, dizendo consigo que a mão de Andréia tinha decerto pousado várias vezes ali. O crime de Gilberto fizera do seu amor uma espécie de religião.

        De repente, um ligeiro rumor que vinha do interior da casa fez estremecer o mancebo; era como que a bulha de uns passos ligeiros.

        Gilberto recuou.

        Havia oito ou dez dias que trazia a cabeça tão atormentada que vendo uma claridade que passava pela porta, julgou que a superstição, essa filha da ignorância e do remorso, lhe acendia nos olhos um dos seus sinistros fachos, e que era desse facho que a claridade procedia. Julgou que a sua alma, carregada de terrores, evocava outra alma, e que era chegada a hora de uma dessas alucinações como geralmente têm os doidos e os extravagantes apaixonados.

        E contudo os passos e a luz aproximavam-se sempre. Gilberto via e ouvia sem crer, mas de repente abriu-se a porta no momento em que ele se aproximava mais para espreitar; recuou até à parede, soltou um grito e caiu de joelhos.

        O que assim o prostrara era, não tanto o choque que recebera ao abrir da porta, como a vista que se lhe oferecia: naquela casa, que julgava deserta, e a cuja porta batera sem obter resposta, acabava de ver Andréia.

        A menina de Taverney, e era verdadeiramente ela e não uma sombra, soltou um grito igual ao de Gilberto; depois, menos assustada, porque sem dúvida esperava alguém, perguntou