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JUSTIÇA À MODA ANTIGA / Ellis Peters
JUSTIÇA À MODA ANTIGA / Ellis Peters

                                                                                                                                                   

                                                                                                                                                  

 

 

Biblioteca Virtual do Poeta Sem Limites

 

 

  JUSTIÇA À MODA ANTIGA

 

Tinham já dado graças depois da comida quando a porta soou quase embatendo na cara do Irmão Richard e um irmão laico da portaria entrou de sopetão.

- Master Bonel caiu terrivelmente doente, e ela diz que parece estar às portas da morte... a ama pede para alguém lhe ir acudir urgentemente!

O Irmão Edmund agarrou-o pelo braço.

- Que é que ele tem? Um ataque? Uma convulsão?

- Não, pelo que a rapariga disse, não é isso. Comeu o jantar e parecia bem-disposto e satisfeito, mas menos de um quarto de hora mais tarde a boca e a garganta começaram-lhe a latejar e depois tentou vomitar, mas não conseguiu, e os lábios e o pescoço ficaram duros e rígidos...

 

 

Nessa particular manhã de princípios de Dezembro, do ano de 1138, o Irmão Cadfael foi para a reunião do capítulo em plena paz de espírito, preparado para ser tolerante até mesmo em relação à leitura monótona e maçadora do Irmão Francis e às longas exposições legais do Irmão Benedict, o sacristão. Os homens eram incertos, falíveis e era necessário ser condescendente. E o ano, tão turbulento durante os primeiros meses, convulsionado com um cerco, mortandade e separações, prometia acabar em calma e relativa abundância. As vagas da guerra civil entre o Rei Stephen e os partidários da Imperatriz Maud tinham recuado para as fronteiras de sudoeste, deixando que Shrewsbury lentamente se fosse recuperando de ter apoiado o lado mais fraco, e do preço sangrento que isso lhe custara. E apesar de todos os impedimentos para um bom tratamento dos campos, depois de um óptimo Verão, a colheita fora recolhida com sucesso, os celeiros estavam cheios, os moinhos não paravam de trabalhar, os carneiros e as vacas engordavam nas pastagens ainda verdes e viçosas, e o tempo continuava surpreendentemente ameno, apenas com uma ligeira geada de madrugada cedo. Ainda ninguém definhava com o frio, ninguém passava fome.

Tal clima não podia prolongar-se muito tempo mais, mas cada dia que durava podia considerar-se como uma bênção.

E no seu pequeno reino pessoal, a colheita fora rica e variada, dos beirais do telhado da sua oficina no jardim pendiam inúmeras sacas de linho cheias de ervas secas, os seus cântaros de vinho, nédios e complacentes, estavam alinhados em fileiras, as prateleiras estavam a abarrotar de frascos e potes com remédios para todas as doenças de Inverno, desde as constipações fanhosas às articulações presas e aos peitos de respiração dolorosa e asmática. O mundo era melhor do que na Primavera prometera vir a ser, e um final melhor que o começo é sempre novidade agradável.

Por isso o Irmão Cadfael deslizou satisfeito para o assento por si escolhido na sala do capítulo, assento convenientemente escondido atrás de um dos pilares num canto sombrio e, com uma benevolência semi-adormecida, ficou a observar enquanto os irmãos do convento entravam e tomavam os seus lugares: o Superior Heribert, idoso, suave e ansioso, tristemente desgastado por aquele ano turbulento que se aproximava agora do fim; o Prior Robert Pennant, terrivelmente alto e patrício, de face cor de marfim e cabelo e sobrancelhas de prata, sempre erecto e imponente, como se já ostentasse a mitra com que tanto sonhava. Não era nem velho, nem frágil; com os seus resistentes cinquenta e um anos, era um homem sem idade, embora cada centímetro do seu corpo conseguisse dar-lhe a aparência de um patriarca santificado por toda uma vida de santidade; tivera um ar muito semelhante dez anos atrás, e era quase certo que nada mudaria nos próximos vinte anos. Seguindo-lhe fielmente no encalço, entrou o Irmão Jerome, o seu secretário, que reflectia o prazer ou desprazer de Robert tal um pequeno espelho deformado. Depois deles vieram todos os outros oficiais, o subprior, o sacristão, o encarregado do hospital, o esmoler, o enfermeiro, o irmão que tinha à sua custódia o altar de St. Mary, o despenseiro, o chantre e o mestre dos noviços. Cheios de decoro, compuseram-se para o que prometia ser um dia sem nada digno de nota.

O jovem Irmão Francis, que sofria de uma obstrução nasal e de um latim um tanto ou quanto deficiente, teve grande dificuldade em ler a lista dos santos e mártires que deviam ser lembrados nas orações dos próximos dias, e gaguejou piedoso comentário a respeito do mistério de Sto. André, o Apóstolo, que era o santo daquele dia. O Irmão Benedict, o sacristão, conseguiu fazer parecer justo que a ele, como responsável pela manutenção da igreja e seus anexos, deveria caber a maior parte de uma soma doada conjuntamente para esse fim e para pôr velas no altar de Lady Chapel, o que já estava sob a alçada do Irmão Meurice. O chantre deu a conhecer a dádiva de um novo relicário para o Santus, doado pelo patrono do compositor mas, pelo entusiasmo dúbio com que falava de dádiva tão generosa, via-se que não a tinha em grande apreço e que era pouco provável que se viesse a ouvir falar do caso muito amiúde. O Irmão Paul, o mestre dos noviços, tinha uma queixa contra um dos seus pupilos, suspeitado da frivolidade para além do que era permitido à juventude e inexperiência, na medida em que alguém tinha ouvido o jovem a cantar no claustro enquanto se dedicava à cópia de uma oração de Sto. Agostinho, e tratava-se de uma canção secular e de fundo escandaloso, pois pretendia ser o lamento de um peregrino cristão aprisionado pelos sarracenos e que se confortava apertando contra o peito a camisa que a sua amante lhe dera à despedida.

O espírito do Irmão Cadfael saiu de chofre de um sono incipiente para reconhecer e recordar a canção, bela e pungente. Ele próprio tinha estado nessa cruzada, conhecia o país, os sarracenos, a luz fantasmagórica e a escuridão de tal prisão e de tal dor. Viu o Irmão Jerome fechar devotamente os olhos e ter convulsões de repulsa perante a menção da mais íntima peça do vestuário de uma mulher. Talvez porque nunca estivera suficientemente perto para tocar em alguma, pensou Cadfael, ainda na disposição de ser caridoso. Vários dos irmãos velhos e inocentes, que nunca tinham conhecido outra vida, e para quem metade da criação era um livro fechado e proibido, estremeceram de consternação. Cadfael fez um esforço, inacostumado no capítulo, e perguntou suavemente que defesa tinha o jovem apresentado.

- Ele disse - respondeu honestamente o Irmão Paul - que tinha aprendido a canção com o avô, o qual tinha lutado pela Cruz em Jerusalém, e que achara a música tão bela que lhe tinha parecido música sacra. Porque o peregrino que cantava não era de uma ordem monástica nem soldado, mas apenas um homem humilde que fizera a longa jornada apenas por amor.

- Um amor decente e santificado - fez notar o Irmão Cadfael, usando palavras que não eram nele inteiramente naturais, pois considerava o amor como uma força que a si próprio santificava e que não necessitava de qualquer desculpa. - E, nas palavras dessa canção, haverá algo que sugira que a mulher de quem está longe não era a sua esposa? Não recordo nenhuma. E a música é digna de nota. Certamente que o propósito da nossa ordem não é obliterar ou censurar o sacramento do casamento para aqueles que não têm vocação para o celibato. Penso que talvez este jovem não tenha cometido uma falta assim tão grave. Não seria talvez bom que o Irmão Chantre visse se ele tem uma voz particularmente dotada? As pessoas que cantam enquanto trabalham geralmente fazem-no pela necessidade de utilizar um talento dado por Deus.

O chantre, espantado e alerta, e que dispunha de reduzido número de cantores para moldar, de boa vontade opinou que estaria interessado em ouvir o noviço cantar. O Prior Robert franziu as austeras sobrancelhas e olhou aborrecido do alto do seu patrício nariz; se dependesse dele, o jovem delinquente seria recompensado com dura penitência. Mas o mestre dos noviços não era grande entusiasta do amplo uso da disciplina, e parecia feliz por se ter conseguido uma boa explicação para o lapso do seu pupilo.

- É verdade, padre superior, que ele se tem mostrado sério e dedicado, e que só há pouco tempo está connosco. É fácil uma pessoa descuidar-se em momentos de concentração, e as suas cópias são cuidadas e plenas de devoção.

O cantor safou-se com uma penitência ligeira que não o obrigaria a permanecer de joelhos o tempo suficiente para que estes ficassem rígidos. O Superior Heribert estava sempre inclinado à benevolência, e nessa manhã parecia mais preocupado e distraído que habitualmente. Estavam a chegar ao fim dos assuntos do dia. O superior pôs-se de pé, como para pôr final à reunião.

- Tenho aqui alguns documentos que precisam de selo - disse o Irmão Matthew, o despenseiro, agarrando à pressa em alguns pergaminhos, pois lhe parecia que o superior se distraíra e esquecera aquela obrigação. - Há aquele assunto do arrendamento da quinta de Hales, e da doação feita por Walter Aylwin, e também o acordo de hospedagem com Gervase Bonel e sua esposa, a quem destinámos a primeira casa para lá do lago da azenha. Master Bonel deseja instalar-se o mais breve possível, antes das festas de Natal.

- Sim, sim; não me esqueci. - Ali em pé à frente deles, com um pergaminho em que agarrava com ambas as mãos, o Superior Heribert tinha um ar pequeno, digno mas resignado. - Há algo que devo anunciar a todos vós. Esses documentos necessários não podem ser selados hoje, por uma razão muito forte. Pode bem acontecer que estejam agora para além da minha competência, e que eu já não tenha o direito de fazer qualquer acordo em nome desta comunidade. Tenho aqui umas instruções vindas de Westminster, da corte do rei. e que me foram entregues ontem. Todos vós sabeis que o Papa Inocêncio reconheceu a pretensão do Rei Stephen ao trono deste reino e que, para o apoiar, mandou um legatário com plenos poderes, Alberic, bispo-cardeal de Ostia. O cardeal propõe-se reunir em Londres um conselho para a reforma da Igreja, e eu sou chamado a participar e a dar contas da minha administração como superior deste convento. Os termos do documento deixam bem claro - disse Heribert em tom firme, se bem que triste - que o meu mandato está à disposição do legatário. Vivemos um ano difícil, e fomos jogados entre dois pretendentes ao trono da nossa terra. Não é segredo para ninguém e eu sou o primeiro a reconhecê-lo, que Sua Graça, quando cá esteve no Verão, não me tinha em grande favor porque eu, na confusão da altura, não vi com clareza o caminho a seguir, e fui lento a aceitar a sua soberania. Por isso, considero agora o meu posto como suspenso, até que, ou a menos que o conselho do legatário mo confirme. Não posso ratificar qualquer documento ou acordo em nome do nosso convento. Tudo o que agora está incompleto terá de permanecer incompleto até que seja feita uma nomeação definitiva. Não posso trespassar no que pode bem ser o campo de outra pessoa.

Dissera o que tinha a dizer. Voltou ao seu lugar e cruzou pacientemente os braços, enquanto os murmúrios de espanto e desalento dos outros foram gradualmente aumentando de tom até chegarem a efervescente zunido de consternação. Embora nem todos estivessem horrorizados, como Cadfael muito bem viu. O Prior Robert, tão estupefacto como os outros, e adepto de manter uma aparência decorosa, quando chegou à conclusão óbvia, não deixou contudo de ter um brilho resplandecente por trás da sua face de marfim, e o Irmão Jerome, rápido a interpretar qualquer mensagem vinda daquele departamento, abraçou-se a si próprio com alegria, por dentro das mangas do hábito, ao mesmo tempo que a sua face exibia piedosa simpatia e dor. Não que tivessem algo contra Heribert, a não ser o facto de ele se manter num posto para o qual impacientes subordinados lançavam um olhar cobiçoso. Um velhinho simpático, claro, mas fora de moda e demasiado frouxo. Era como um rei que vive tempo demasiado e positivamente convida um assassinato. Mas todos os outros esbracejavam e entravam em pânico como galinhas invadidas pela raposa, e exclamavam:

- Mas, padre superior, certamente que o rei o nomeará novamente!

- Oh, padre, e tem mesmo de ir ao conselho?

- Vamos ficar como rebanho sem pastor!

O Prior Robert, que se considerava idealmente equipado para tratar até do rebanho do próprio S. Pedro se necessário fosse, lançou ao queixoso um olhar breve e duro, mas coibiu-se de fazer qualquer protesto, antes murmurou a sua própria comiseração e desgosto.

- O meu dever e os meus votos são para com a Igreja - disse o Superior Heribert em tom triste - e sou obrigado a obedecer à convocação como filho leal. Se a Igreja quiser confirmar-me no mesmo posto, voltarei para retomar o meu lugar habitual. Se outro for nomeado para esse lugar, voltarei igualmente para junto de vós, se tal me for permitido, para viver o resto da minha vida como irmão fiel deste convento, sob a direcção do nosso novo superior.

Pareceu a Cadfael ter apercebido a sombra de um sorriso breve e complacente a passar sobre a face de Robert quando este ouviu aquelas palavras. Não o perturbaria grandemente ter por fim o seu antigo superior como humilde irmão sob as suas ordens.

- Mas é claro - continuou o Superior Heribert com humildade - que já não posso afirmar direitos como superior até que este assunto seja decidido, e esses acordos terão de aguardar até ao meu regresso, ou até que outro os estude e sobre eles se pronuncie. Algum deles é urgente?

O Irmão Matthew remexeu nos pergaminhos e ponderou, ainda abalado pelo inesperado da notícia.

- Não há qualquer razão para nos apressarmos em relação à doação de Aylwin, ele é um velho amigo da nossa ordem, e certamente manterá a sua oferta em aberto por todo o tempo necessário. E o arrendamento da quinta de Hales só começa a contar a partir do dia de Nossa Senhora do ano que vem, por isso há mais que tempo. Mas Master Bonel está a contar que o contrato seja assinado muito em breve. Está à espera disso para mudar os seus pertences para a casa.

- Recorde-me os termos do contrato, por favor - pediu o superior em tom de desculpa. - Tenho tido a cabeça cheia de outros assuntos, e esqueci o que combinámos.

- Ele lega-nos o seu domínio de Mallilie por inteiro, com os seus vários rendeiros, em troca de uma casa com anexos aqui na abadia... a primeira casa do lado da cidade do lago da azenha está vaga, e é perfeitamente conveniente para a família dele... e alimentação para ele e sua esposa até ao fim da vida, e para dois criados também. Os detalhes são os usuais para casos destes. Terão diariamente dois pães dos monges e um pão dos servos, dois galões de cerveja conventual e um da cerveja dos servos, um prato de carne como têm os oficiais da abadia nos dias de comer carne, e um prato de peixe nos dias de peixe, provenientes da cozinha do superior, e um outro prato sempre que haja iguarias extra. Será um criado dele a vir buscá-los. Terão também diariamente um prato de carne ou peixe para os seus dois criados domésticos. Master Bonel deverá também receber anualmente uma veste das que recebem os oficiais superiores da abadia, e a sua esposa, ela assim o prefere, receberá anualmente dez shillings para arranjar para si um vestido a seu gosto. Há ainda a provisão anual de dez shillings para roupa de casa, sapatos e lenha, e estábulo para um cavalo. E, morrendo um deles, o outro mantém a posse da casa e recebe a metade de todas as provisões acima mencionadas, excepto no caso de o sobrevivente ser a esposa, a qual não precisará de estábulo para um cavalo. São estes os termos, e eu tencionava mandar chamar aqui testemunhas depois da reunião do capítulo, para que fosse ratificado. O juiz tem um funcionário à espera.

- Temo, contudo - disse o superior em tom pesaroso -, que também isto tenha de esperar. Os meus direitos estão suspensos.

- Isso será muito inconveniente para Master Bonel - disse em tom ansioso o despenseiro. - Já têm tudo preparado para se mudar para cá, e esperavam fazê-lo nos próximos dias. A festa de Natal aproxima-se, e não podemos deixá-los assim desalojados.

- Certamente - sugeriu o Prior Robert - poderiam efectuar a muda, mesmo que a ratificação tenha de esperar um pouco. É muito pouco provável que qualquer superior que venha a ser nomeado não concorde com esse acordo. - Como era perfeitamente claro que era ele próprio quem estava na linha para a nomeação e sabia que estava mais nas graças do Rei Stephen do que o seu superior, falava com uma autoridade fácil. Heribert aceitou feliz a sugestão.

- Penso que a muda seja permissível. Sim, Irmão Matthew, pode avançar, deixando pendente a sanção final, que estou certo será concedida. Sossegue o nosso hóspede a esse respeito, e permita-lhe que traga já toda a sua família. É perfeitamente justo que se sintam já instalados e em paz para a festa de Natal. Não há mais nenhum caso que necessite ser estudado?

- Nenhum, padre. - E perguntou, triste e pensativo: - Quando terá de partir para essa jornada?

- Terei de partir depois de amanhã. Hoje em dia só ando lentamente, e demoraremos vários dias pelo caminho. Durante a minha ausência, claro, o Prior Robert terá a seu cargo todas as coisas aqui.

O Superior Heribert levantou uma mão distraída em sinal de bênção e saiu da sala do capítulo. O Prior Robert, seguindo atrás dele, certamente se sentia já dominando tudo o que pertencia à Abadia Beneditina de S. Pedro e S. Paulo de Shrewsbury, e tinha toda a intenção e esperança de continuar a fazê-lo até ao fim da sua vida.

Os irmãos saíram num silêncio fúnebre, que logo quebraram em conversas agitadas, se bem que em tom abafado, logo que se dispersaram pelo grande pátio. Heribert fora o seu superior durante onze anos, era um homem sob cujas ordens era fácil servir, abordável, bondoso, talvez até um pouco exigente de menos. Não lhes agradava a ideia de mudar.

Durante a meia hora que faltava para a missa solene das dez, Cadfael retirou-se muito pensativo para o seu barracão no jardim das ervas, para tratar de alguns remédios que andava a preparar. O cercado, com as suas sebes espessas e bem aparadas, começava agora, devido ao primeiro frio, a ter um ar desbotado e seco, com as folhas envelhecidas, castanhas e secas, e as plantas mais frágeis a recuar para dentro do calor do solo; mas o ar tinha ainda uma certa fragância aromática composta pelo fantasma dos perfumes do Verão, e dentro do barracão o aroma forte fazia a cabeça andar à roda. Cadfael levava para lá regularmente os seus problemas para ponderar em paz. Estava tão habituado ao ar pesado e entontecedor do interior que mal o notava mas, se necessário, podia distinguir cada ingrediente que para ele contribuía, e dizer qual a sua origem.

Com que então, o Rei Stephen, afinal de contas, não esquecera as suas velhas queixas, e o Superior Heribert ia servir de bode expiatório pela ofensa cometida por Shrewsbury ao opor-se às suas pretensões! Contudo, por natureza, ele não era homem vingativo. Mas talvez sentisse a necessidade de lisonjear e agradar ao legatário, uma vez que o papa o tinha reconhecido como rei de Inglaterra e lhe dera o apoio papal, uma arma nada negligenciável, nas disputas com a Imperatriz Maud, a pretendente rival ao trono. Essa dama decidida certamente não ia desistir com facilidade, e devia estar a defender o seu caso em Roma com toda a insistência, e até os papas podem mudar de alianças. E a Alberic de Ostia seria dada toda a latitude possível para que prosseguisse nos seus planos para reformar a Igreja, e Heribert não seria mais que uma vítima sacrificial oferecida ao seu zelo numa bandeja.

Um outro assunto curioso se intrometia com persistência nas cogitações de Cadfael. Essa história de ocasionais hóspedes da abadia, ou assim lhe chamavam, pessoas que, por vezes, ainda em pleno vigor, decidiam abandonar o mundo do trabalho e entregar a sua herança à abadia a troco de uma vida amena, protegida e inactiva numa casa de retiro, com a alimentação, o vestuário e a lenha, tudo providenciado sem que tivessem de levantar um dedo! Teriam sonhado com isso durante anos enquanto suavam junto a ovelhas a parir, ou labutavam nas colheitas, ou se estafavam com um negócio? Um pequeno paraíso de segunda onde as refeições caíam do céu e nada mais havia a fazer além de aquecer-se ao sol no Verão, e assar junto à lareira com cerveja quente no Inverno? E, quando lá chegavam, quanto tempo duraria o encanto? Quanto tempo levariam a ficar saturados de nada fazer, de não precisar de fazer nada? Numa pessoa cega, coxa ou doente, ele podia compreender tal acto. Mas em pessoas sãs e ocupadas, e habituadas a trabalhar com o corpo e o espírito? Não, não podia perceber. Tinha de haver outros motivos. Nem toda a gente podia ser enganada, ou enganar-se a si própria, confundindo ócio com bem-aventurança. Que mais podia levar a tal acto? Falta de um herdeiro? Uma ânsia ainda não realizada pela vida monástica, sem a coragem imediata para se entregar por completo? Talvez! Num homem com uma esposa, bem avançado de anos e com a consciência do fim próximo, talvez fosse isso. Muitos homens tomavam o hábito e o capuz já tarde, depois de terem filhos e netos, depois do calor de uma longa jornada. A casa de graça e o status de hóspede podiam ser uma etapa nesse sentido. Ou seria possível que houvesse homens que acabavam por se despojar do fruto do trabalho de toda a sua vida, levados apenas por despeito, contra o mundo, contra um filho que não satisfez, contra o peso das próprias almas?

O Irmão Cadfael fechou a porta sobre o forte aroma de uma mistura para a tosse e seguiu, muito sóbrio, para a missa solene.

Voltando as costas à cidade de Shrewsbury, o Superior Heribert partiu a caminho de Londres na madrugada de um dia um tanto ou quanto cinzento, a primeira vez em que se sentia a mordedura do gelo no ar, para além do pálido brilho sobre a verdura. Levava consigo o seu secretário particular, o Irmão Emmanuel, e dois criados laicos, os que há mais tempo ali serviam; e seguia na sua mula branca pessoal. Tomou um ar jovial para se despedir mas, apesar de todos os esforços, era triste a sua figura quando os quatro cavaleiros seguiram pela estrada fora. Nunca fora grande cavaleiro e agora muito menos ainda, e usava uma sela alta formando berço, e sacolejava em cima dela como um pequeno saco mal cheio. Muitos dos irmãos se amontoaram junto aos portões para o verem enquanto estivesse à vista, e as suas faces estavam apreensivas e preocupadas. Alguns dos alunos jovens saíram para se virem juntar a eles, e tinham um ar ainda mais desgostoso, pois o superior permitira ao Irmão Paul dirigir os estudos sem interferências, o que significava com grande tolerância, mas com o Prior Robert no comando, era pouco provável que qualquer secção do convento prosseguisse o seu trabalho sem alterações, e era de esperar que a disciplina se tornasse bruscamente mais severa.

Para dizer a verdade, Cadfael era obrigado a admiti-lo, bem que fazia falta um pouco de sentido prático dentro daquelas paredes. Ultimamente, Heribert ficara cada vez mais desanimado em relação ao mundo dos homens, e cada vez mais se recolhia nas suas orações. O cerco e derrota de Shrewsbury, com todo o derramamento de sangue e vinganças que envolveram, teriam sido suficientes para pôr triste qualquer pessoa, embora isso não fosse desculpa para abandonar o esforço de defender o que estava certo e opor-se ao errado. Mas chega uma altura em que os velhos ficam demasiado cansados, e o encargo da liderança se torna injustamente pesado. E talvez -talvez! - Heribert não ficasse tão triste como ele próprio agora supunha, se ficasse livre de tal fardo. Nesse dia, a missa e a reunião do capítulo passaram com inexplicável calma e decoro, a missa solene foi celebrada com devoção, os deveres do dia prosseguiram no seu curso suave e regular. Robert tinha por demais consciência da sua própria imagem para em público esfregar as mãos de contente, ou para lamber os beiços perante testemunhas. Tudo o que viesse a fazer seria feito de acordo com uma lei justa e piedosa, com a autoridade de qualquer santo. Contudo, daquilo que considerasse direito seu, acabaria por apropriar-se, até ao mais pequeno pormenor. Cadfael estava habituado a ter dois ajudantes que lhe eram atribuídos durante a parte activa do ano, porque cultivava nos seus jardins murados outras coisas além do cercado das ervas, embora as principais hortas da abadia ficassem fora do recinto, do outro lado da estrada e junto aos campos ao longo do rio, na planície luxuriante chamada a Gaye. As águas do Severn alagavam-na regularmente na época das cheias, e o solo era rico e produzia muito.

Dentro das muralhas Cadfael fizera, praticamente por suas próprias mãos, este jardim cercado para as plantas pequenas e preciosas e, nos socalcos exteriores que desciam até ao Meole, o riacho que alimentava a azenha, cultivava plantas alimentares, feijão, hortaliças, legumes e campos de ervilhas. Mas agora, com o Inverno a aproximar-se de mansinho e o solo a preparar-se para o sono como os garotos sob as sebes, sonolentamente enovelados e almofadados com palha, ervas secas e folhas, Cadfael tinha apenas um noviço para o ajudar a preparar as suas poções, rolar os comprimidos, mexer os óleos e esmagar os unguentos, tudo para medicar não só os irmãos, mas também muitos que vinham pedir socorro para os seus problemas, vindos da cidade de Foregate, às vezes até das aldeias dispersas mais para longe. Não tinha sido educado nessa ciência, mas aprendera-a por experiência, tentativas e estudo, acumulando conhecimentos ao longo dos anos, até que alguns preferiam os seus tratamentos aos de reputados físicos.

Por essa época, o seu assistente era um noviço que não ultrapassara ainda os dezoito anos, o Irmão Mark, órfão, e um problema para o tio negligente que, para se livrar dele, o mandara para a abadia com a idade de dezasseis anos. Entrara de boca fechada, solitário e saudoso, uma pobre criança abandonada que parecia ainda mais nova do que os anos que tinha, que fazia o que lhe mandavam com apreensiva submissão, como se o melhor que pudesse esperar da vida fosse evitar castigos. Mas alguns meses a trabalhar no jardim com Cadfael tinham-lhe solto a língua e feito desaparecer os seus temores. Continuava pequeno para a idade e ligeiramente receoso da autoridade, mas saudável e resistente, com dedo para fazer as coisas crescerem, e estava a ganhar um jeito certo e delicado na preparação dos remédios, e profundo interesse por eles. Mudo quando entre os colegas, compensava o facto mostrando grande volubilidade quando estava no barracão do jardim, apenas com Cadfael. Era sempre Mark, apesar de todo o seu silêncio e isolamento no claustro, quem trazia todos os boatos antes de outros os saberem.

Uma hora antes do serviço de Vésperas, chegou a transbordar de notícias, de volta de um recado à azenha.

- Sabe o que fez o Prior Robert? Instalou-se na casa do superior! Verdade! O irmão subprior recebeu ordens para, a partir desta noite, dormir na cela do prior, no dormitório. E o Superior Heribert ainda mal passou os portões! Chamo a isso uma grande presunção!

E o mesmo pensava Cadfael, embora sentisse que dificilmente lhe competia dizê-lo ou permitir que o Irmão Mark exteriorizasse tais pensamentos de modo tão aberto.

- Acautela-te com o modo como fazes julgamentos a respeito dos teus superiores - disse suavemente -, pelo menos, até aprenderes a pôr-te no seu lugar e ver as coisas do ponto de vista deles. Tanto quanto sabemos, o próprio Padre Heribert pode ter-lhe exigido que se mudasse para as suas instalações, como testemunho da sua autoridade enquanto estamos sem superior. É o local que foi posto à parte para o pai espiritual deste convento.

- Mas o Prior Robert não o é, ainda não! Se o tivesse desejado assim, o Superior Heribert tê-lo-ia dito no capítulo. Teria, no mínimo, dito ao irmão subprior, e não o fez. Eu vi-lhe a cara, está tão espantado como os outros, e chocado. Esse nunca teria tomado tal liberdade.

Mais que certo, pensou Cadfael, atarefado a pisar raízes num almofariz. O Irmão Richard, o subprior, seria o último homem a dar-se ares; grande, bem-humorado e amante da paz ao ponto de se transformar em preguiça, nunca se esforçava para avançar, nem mesmo por meios legítimos. Talvez alguns dos irmãos mais jovens e audaciosos viessem breve a realizar que tinham ganho com a troca. Com Richard na cela do prior, a qual dominava toda a extensão do dormitório, seria para o ocasional pecador muito mais fácil escapulir-se pelas escadas depois das luzes estarem apagadas: mesmo que o crime fosse detectado, provavelmente não viria a ser participado. Fazer de cego é o processo mais fácil do mundo para evitar maçadas.

- Todos os criados da habitação estão em ebulição - disse o Irmão Mark. - Sabe como são dedicados ao Superior Heribert, e serem agora obrigados a servir uma outra pessoa, antes mesmo de o seu posto estar verdadeiramente vago! O Irmão Henry diz que é quase blasfémia! E o Irmão Petrus tem o semblante mais carregado que dia de trovoada, e resmunga sem parar com os seus tachos e panelas. Disse que, se o Prior Robert consegue meter um pé na porta, quando o Superior Heribert voltar, só uma dose de cicuta o fará sair.

Cadfael podia bem imaginar a cena. O Irmão Petrus era o cozinheiro do superior, antigo no serviço, um bárbaro de cabelo negro e olhos de fogo, vindo de próximo da fronteira da Escócia, e era dado a declarações tempestuosas e imoderadas, que não podiam ser levadas completamente a sério; mas o problema era saber exactamente até onde.

- O Irmão Petrus diz muitas coisas que era melhor que não dissesse mas, como muito bem sabes, nunca faz mal a ninguém. E é cozinheiro de primeira e continuará a servir nobremente a mesa do superior, seja quem for que se sente à cabeceira, porque não pode deixar de fazê-lo.

- Mas não estará feliz - disse o Irmão Mark, com convicção. Não restavam dúvidas de que aquele dia fora gravemente abalado; contudo, o regime dentro daquelas paredes estava tão bem regulado, que todos os irmãos, contentes ou não, cumpririam as suas obrigações tão conscienciosamente como sempre.

- Quando o Superior Heribert voltar, confirmado no seu posto - disse Mark com firmeza, contando os desejos como certezas -, o nariz do prior Robert vai ficar de banda. - E a ideia daquele augusto apêndice torcido como a penca de velho soldado, de tal maneira o consolou, que de novo arranjou coragem para rir, ao mesmo tempo que Cadfael não conseguiu coragem para lhe ralhar, pois até para si a imagem tinha um certo fascínio.

Uma semana depois da partida do Superior Heribert, o Irmão Edmund, o enfermeiro, veio no meio da tarde à cabana de Cadfael, para levar alguns remédios para os seus colegas. As geadas, embora ainda não fossem severas, tinham aparecido depois de um clima de tal modo ameno, que tinham surpreendido mais do que um jovem irmão, espalhando uma forte constipação que precisava ser dominada isolando as vítimas, a maior parte jovens activos que trabalhavam fora de portas com as ovelhas. Tinha quatro na enfermaria, além de alguns velhos que passavam agora os dias sem mais nada que fazer além dos deveres religiosos, e que esperavam pacientemente pela morte.

- Tudo o que os rapazes precisam, é passar uns dias no quente, e logo ficam bons - disse Cadfael, abanando e despejando de um frasco grande num pequeno uma mistura castanha que tinha um perfume quente, aromático e adocicado. - Mas não têm necessidade de sofrer desconfortos mesmo que por poucos dias. Dê-lhes uma dose disto, uma pequena colher cheia, duas ou três vezes ao dia e à noite, e logo se sentirão melhor.

- Que leva isto? - perguntou o Irmão Edmund, com curiosidade. Já conhecia muitas das preparações do Irmão Cadfael, mas este constantemente apresentava novidades. Por vezes perguntava-se se Cadfael não os experimentaria todos em si próprio.

- Leva rosmaninho, marroio e saxifrágia esmagadas num pouco de óleo feito com sementes de linho esmagadas, e o excipiente é um vinho encarnado que fiz com cerejas com caroço. Vai verificar que faz muito bem aos que têm defluxo nasal ou dos olhos, e que serve também para a tosse. - Tapou cuidadosamente o frasco grande e limpou-lhe o gargalo.

- Precisa de mais alguma coisa? Para os mais idosos? Devem estar muito perturbados com todas as alterações que estamos a viver. Na terceira idade as pessoas não aceitam muito bem as mudanças.

- Pelo menos estas alterações de cá - reconheceu o Irmão Edmund, pesaroso. - Nunca souberam quanto gostavam de Heribert até começarem a sentir-lhe a falta.

- Pensa que o perdemos de vez?

- Penso que é bem provável. Não que Stephen pessoalmente seja de grandes ressentimentos mas, para manter o papa bem-disposto, tudo o que o legatário quiser, Stephen dar-lho-á. E acha que um espírito reformador e activo à solta no nosso reino com poderes para organizar a igreja como quiser, achará o nosso superior pessoa muito impressionante? Stephen, quando ainda estava zangado, lançou a dúvida, mas é Alberic de Ostia quem vai tomar o peso ao nosso bondoso superior e pô-lo de lado por ser demasiado brando - disse o Irmão Edmund em tom de pesar. - Fazia-me jeito mais um pote daquela sua sálvia para as escaras. O Irmão Adrian, pobre alma, não deve ter muito mais tempo desta penitência.

- Só de o mover para lhe passar o unguento, já deve causar-lhe dor - disse Cadfael com simpatia.

- Pelos e ossos, só pele e ossos. Só fazer-lhe ingerir qualquer alimento, já é trabalho que chegue. Está a murchar como uma folha.

- Se precisar de ajuda para o levantar, mande-me chamar. Estou aqui para servir. Aqui está o que pediu. Penso que ainda está melhor que o anterior.

O Irmão Edmund pôs o frasco e o pote na sua sacola e, coçando o queixo pontiagudo com o polegar e o indicador, pensou no que mais poderia necessitar. O súbito vento frio que soprou da entrada fê-los a ambos voltar a cabeça de modo tão brusco que o jovem que abrira cuidadosamente quatro ou cinco centímetros da porta baixou instantaneamente a cabeça em sinal de remorso e pedido de perdão.

- Fecha a porta, rapaz - disse Cadfael encolhendo os ombros. Uma voz apressada e submissa exclamou:

- Perdão, irmão! Eu espero que esteja livre. - E a porta começou a fechar-se sobre uma face magra, trigueira e com ar apreensivo.

- Não, não - disse Cadfael com divertida paciência. - Não era isso que eu queria dizer. Vem para o quente, e fecha a porta a esse horrível vento. Faz o braseiro deitar fumo. Entra, já te atendo logo que o Irmão Enfermeiro tenha tudo o que precisa.

A porta abriu-se apenas o suficiente para permitir a passagem a um jovem esguio, que logo a fechou muito depressa e encostou o magro corpo de encontro a ela em mudo recuo, tentando ficar invisível e inaudível, embora os seus olhos estivessem arregalados de espanto e curiosidade perante a quantidade de odoríferas ervas, pendentes e sussurrantes, que havia por todo o lado, e os bancos e prateleiras cheias de potes e frascos que guardavam a colheita secreta do Verão.

- Ah, sim - disse o Irmão Edmund recordando-se -, falta uma coisa mais. O Irmão Rhys vive a gemer com dores nos ombros e nas costas. Agora já quase não sai do sítio, e tem mesmo dores; já as vi provocarem-lhe estremecimentos e espasmos. Você tem um óleo que já o aliviou de outras vezes.

- Pois tenho. Espere, deixe-me encontrar um frasco para lho encher. - Cadfael levantou de um banco baixo um grande jarrão de pedra e rebuscou nas prateleiras à procura de um frasco mais pequeno e de vidro fosco. Tirou cuidadosamente a rolha e verteu um óleo escuro e viscoso de que emanava um cheiro forte e penetrante. Voltou a colocar firmemente a tampa de madeira, enrolando-a numa tira de linho e com outro bocado limpou escrupulosamente o bocal de ambos os recipientes, e atirou com o farrapo para o pequeno braseiro, junto do qual estava um tacho de terracota a fervilhar docemente. - Isto vai dar resultado, e principalmente se arranjar alguém com dedos fortes que lho massaje bem para penetrar nas articulações. Mas guarde-o com cuidado, Edmund, não o aproxime dos lábios. Lave bem as mãos depois de o usar, e certifique-se que o mesmo seja feito por qualquer outra pessoa que lhe mexa. É bom para a parte externa de uma pessoa, mas verdadeiramente mau para a interna. E não o aplique onde houver qualquer arranhão ou ferida, ou até mesmo a pele estalada. É uma droga poderosa.

- É assim tão perigoso? De que é feito? - perguntou Edmund curioso, rodando o frasco nas mãos para ver o modo lento como o óleo deslizava de encontro ao vidro.

- É essencialmente raiz de acónito (1) em óleo de mostarda e óleo de sementes de linho. Se ingerido é terrivelmente venenoso, e uma pequenita gota chega para matar, por isso guarde-o em segurança e não se esqueça de lavar bem as mãos. Mas faz maravilhas nas articulações dolorosas e velhas. Ele vai sentir um formigueiro quente quando tiver penetrado bem, e depois a dor adormece e ele sentir-se-á melhor. Cá está; é tudo o que precisa? Se quiser, eu próprio vou lá e dou a massagem. Sei onde encontrar os pontos dolorosos, e precisa de ser massajado em profundidade.

- Eu sei que você tem dedos de ferro - disse o Irmão Edmund, reunindo a carga. - Já uma vez os usou em mim, e julguei que me ia partir aos bocados, mas tenho de confessar que, no dia seguinte, já me mexia muito melhor. Sim, se tiver tempo, venha, ele gostará de o ver. Ele agora já se perde um pouco, e dificilmente reconhece qualquer dos irmãos mais jovens, mas de si lembra-se certamente.

- Sempre se lembrará de qualquer pessoa que fale a língua galesa - disse Cadfael, com simplicidade. - Ele regressou à infância, como fazem todos os velhos.

O Irmão Edmund pegou no seu saco e dirigiu-se à porta. O jovem delgado de olhos esbugalhados, afastou-se para o lado, abriu-lha educadamente e voltou a fechá-la após os sorridentes agradecimentos do irmão. Não tão magro como isso, afinal de contas; tinha uns centímetros mais que o corpo quadrado e sólido de Cadfael, era erecto e de movimentos cheios de leveza, mas delgado e circunspecto, com uma sugestão de alerta selvagem em cada movimento. Tinha o cabelo castanho-claro, despenteado devido ao vento que se levantara lá fora, e uma linha bem aparada de barba loira em volta dos lábios e do queixo, o que fazia sobressair a austeridade esfomeada de uma face magra e que lembrava um falcão. Os grandes olhos azuis-claros, brilhando de inteligência e na defensiva como espadas gémeas, voltaram a sua atenção para

 

Nota 1: Acónito em português e Monk's Hood em inglês; esta expressão também pode ser traduzida por "Capuz de Frade" e que serve de título inglês a este romance. O acónito é uma planta ainda hoje utilizada na farmacopeia, para a preparação de pomadas para o reumatismo e que é venenosa, se ingerida. Há uma planta silvestre conhecida por "capuz de fradinho" e que é completamente diferente do acónito. A autora ao dar o título de Monk's Hood à obra pretendeu utilizar este trocadilho que resulta na língua inglesa: o nome de uma planta e simultaneamente significar o capuz do monge ou frade, dando uma ênfase maior à planta que pode ser venenosa. A tradução literal para português poderia induzir em errro o leitor atento que detectaria, imediatamente, que o possível título de CAPUZ DE FRADE seria um título pouco apropriado, por prestar-se a confusão com a planta silvestre "capuz de fradinho". (N. do E.)

 

Cadfael e aguentaram o olhar deste sem vacilar, como lanças em repouso.

- Bom, amigo - disse amável Cadfael, afastando um pouco o tacho do calor directo -, em que lhe posso ser útil? - E voltou-se e estudou o desconhecido abertamente dos pés à cabeça. - Não o conheço, rapaz - disse calmamente -, mas é muito bem-vindo. De que precisa?

- Venho da parte de Mistress Bonel - disse o jovem numa voz grave e que seria agradável ao ouvido se não estivesse tão tensa e alerta - pedir-lhe algumas ervas que precisa para cozinha. O irmão do hospital disse que o senhor estaria disposto a fornecê-la quando tivesse esgotado as reservas. O meu patrão mudou-se hoje para uma casa no Foregate, como hóspede da abadia.

- Ah, sim - disse Cadfael. recordando o domínio de Mallilie doado à abadia em troca de subsistência para o doador. - Então já estão instalados em segurança, é? Deus lhes dê felicidade aqui! E você é o criado que lhes vai levar as refeições... sim, precisa aprender a mover-se cá dentro. Já foi à cozinha do superior?

- Sim, senhor.

- Não sou senhor de ninguém - disse Cadfael docemente -, mas o irmão de toda a gente, se quiser. E qual é o seu nome, amigo? Já que daqui para o futuro vamos ter de nos encontrar várias vezes, o melhor é apresentarmo-nos.

- O meu nome é Aelfric - disse o jovem. Afastara-se da porta e avançara, e olhava em volta com declarado interesse. Os olhos pousaram-se-lhe com respeito sobre o grande jarrão onde estava o óleo de acónito. - É verdadeiramente assim tão mortal? Até um pouquinho pode matar um homem?

- E o mesmo fazem muitas outras coisas - disse Cadfael - quando usadas erradamente ou em excesso. Até o vinho, se se tomar a dose necessária para isso. Até comida saudável, se se devorar de modo irracional. E a família está contente com a habitação?

- Ainda é cedo para dizer - disse o jovem com cautela.

Que idade teria? Cerca de vinte e cinco anos? Dificilmente mais. Eriçava-se ao toque como um garoto, e estava de pé atrás contra todo o mundo. Reservado, pensou Cadfael, simpático; e de espírito rápido e vulnerável. Servo de alguém menos sensível que ele próprio? Bem podia ser esse o caso.

- Quantos são lá em casa?

- O meu amo e a senhora, e eu. E uma criada. - Uma criada! E nada mais, e a boca grande e móvel fechou-se rápida depois de dizer aquilo.

- Bom, Aelfric, serás bem-vindo aqui sempre que quiseres aparecer, e estou às ordens para tudo em que puder servir a tua ama. Que lhe poderei enviar desta vez?

- Ela pediu um pouco de sálvia e um pouco de manjericão, se tiver. Trouxe um prato já cozinhado para aquecer para o jantar - disse Aelfric, descontraindo um pouco - e está no canto da lareira, mas precisa de sálvia. Tinha-se acabado. Mudar de casa é uma altura difícil, e esqueceu imensas coisas.

- Tudo o que eu tiver, ela que mande cá buscar, pois terei muito gosto nisso. Cá está, Aelfric, rapaz, um ramo de cada coisa. A tua ama é boa patroa?

- Isso é! - disse o jovem, e fechou novamente a boca como fizera depois de mencionar a criada. E, com a testa enrugada devido aos pensamentos confusos e misturados que lhe iam na cabeça, murmurou:

- Ela era viúva quando casou com ele. - Agarrou nos ramos de ervas, apertando muito os caules com os dedos. Como se fosse um pescoço? E de quem, então, visto que todo se derretera ao mencionar a ama?

- Agradeço-lhe imenso, irmão.

Recuou, ágil e silencioso. Para abrir e fechar a porta, não levou mais de um minuto. Cadfael ficou a observá-lo muito pensativo. Tinha ainda uma hora antes do serviço de Vésperas. Podia aproveitar para ir até à enfermaria para derramar nos ouvidos velhos e adormecidos do Irmão Rhys um pouco do doce som da língua galesa, e fazer-lhe penetrar bem o óleo de acónito nas doloridas articulações. Seria uma boa acção.

Mas aquele jovem, aprisionado nas suas queixas, ofensas e ódios, que se poderia fazer por ele? Um vilão, como Cadfael muito bem reconhecia, com capacidades acima da sua classe e uma qualquer angústia pessoal, talvez até mais que uma. Recordou-o quando mencionara a criada, e o ciúme, que cuspira por entre os dentes cerrados.

Bom, mas os quatro acabavam mesmo de chegar. O melhor era deixar que as coisas melhorassem com o tempo. Cadfael lavou as mãos com todos os cuidados que recomendara, passou em revista o seu reino adormecido e foi visitar a enfermaria.

O velho Irmão Rhys estava sentado junto à cama muito bem feita, não longe da lareira, e abanava a cabeça idosa e grisalha. Tinha o ar orgulhosamente complacente de alguém que, contra todas as previsões, conseguiu o que lhe era devido, o queixo hirsuto esticado, as espessas sobrancelhas apontando em todas as direcções e, por baixo delas, os olhos pequenos e perspicazes, quase sem cor na sua palidez cinzenta, mas triunfantemente brilhantes. Porque, sentado no banco a seu lado, estava um sujeito de cabelo negro, jovem e vigoroso, acatando-lhe os desejos cheio de boa vontade, e derramando-lhe nos ouvidos um galês cheio de volubilidade, como uma nascente da montanha. Tinham despido a veste do velho sobre os ossudos ombros, e o seu assistente, com dedos cuidadosos, massajava-lhe afanosamente óleo nas articulações, provocando resmungos de prazer no seu paciente.

- Vejo que alguém se me adiantou - disse, junto à porta, Cadfael ao ouvido do Irmão Edmund.

- Um parente - disse o Irmão Edmund, em voz igualmente baixa. - Um jovem galês do norte do condado de onde vem Rhys. Parece que veio cá hoje para ajudar os novos inquilinos a fazerem a muda para a casa junto ao lago da azenha. Têm uma ligação qualquer... aio do filho da senhora, suponho. E. já que aqui estava, lembrou-se de perguntar pelo velho, o que foi uma acção meritória. Rhys estava a queixar-se de dores, e o jovem ofereceu-se, por isso pu-lo ao trabalho. Porém, já que veio, troque umas palavras com eles. Consigo, nenhum deles precisará de falar inglês.

- Avisou-o de que tinha de lavar bem as mãos quando acabasse?

- E mostrei-lhe onde fazê-lo, e onde arrumar o frasco em segurança quando acabar. Ele compreendeu. Depois do seu sermão, dificilmente eu iria deixar alguém arriscar-se com tal mezinha. Expliquei-lhe o que a droga podia provocar se fosse empregada erradamente.

Quando o Irmão Cadfael se aproximou, o jovem suspendeu momentaneamente o seu trabalho e preparava-se para respeitosamente se levantar, mas Cadfael fez-lhe sinal para ficar sentado.

- Não, rapaz, fique sentado, não quero interrompê-lo. Vim para trocar umas palavras com um velho amigo, mas vejo que tomou conta do meu trabalho e, o que é mais, que o está a fazer muito bem.

O jovem, com jovial sentido prático, tomou-o à letra e recomeçou a massajar os idosos ombros do Irmão Rhys com os pungentes óleos. Teria talvez vinte e quatro ou vinte e cinco anos e era forte e de compleição robusta; a face quadrada e bem-humorada era trigueira e queimada pelo sol, e com boa ossatura - uma face galesa, bem barbeada e decidida, o cabelo e as sobrancelhas espessos, hirsutos e negros. As suas maneiras para com o Irmão Rhys eram sorridentes, alegres, quase brincalhonas, como provavelmente seriam se estivessem a tratar com uma criança; e isso era muito cativante, e ganhou-lhe a pensativa aprovação do Irmão Cadfael, porque o Irmão Rhys era na verdade de novo uma criança. Hoje, contudo, estava com mais vida que de costume, e a visita fizera-lhe imenso bem.

- Olha, Cadfael! - guinchou, encolhendo um ombro com prazer sob as mãos do jovem. - Podes ver que os meus parentes ainda se lembram de mim. Este é o meu sobrinho-neto Meurig, o filho da minha sobrinha Angharad, e veio ver-me. Lembro-me de quando ele nasceu... Ah, já agora, lembro-me de quando ela nasceu, a filhinha da minha irmã. Já a não vejo há muitos anos... ou a ti, rapaz; pensando bem, já há mais tempo que podias ter vindo ver-me. Mas, nos tempos que correm, os jovens não têm o sentido da família. - Mas estava muito complacente a respeito do caso, divertindo-se a fazer elogios num momento e ilógicas censuras no outro, como é privilégio de um patriarca. - E por que não veio a rapariga pessoalmente? Por que não trouxeste contigo a tua mãe?

- É uma grande jornada desde o norte do condado - disse facilmente o jovem Meurig -, e em casa há sempre imenso que fazer. Mas agora estou perto, trabalho para um carpinteiro e escultor aqui na cidade, e vai ver-me mais vezes. Hei-de vir e fazer-lhe novamente o tratamento... e, chegando a Primavera, ainda o hei-de levar para as colinas com os rebanhos.

- A minha sobrinha Angharad - murmurou o velho, sorrindo com benignidade - era a coisinha mais bonita em metade do condado e tornou-se uma beleza quando cresceu. Que idade terá ela agora? Quarenta e cinco, talvez, mas aposto que é ainda tão bela como sempre foi, e não me venhas dizer que não, nunca vi até hoje quem lhe chegasse aos calcanhares...

- Não é muito provável que o filho dela não concorde consigo - Concordou Meurig de boa vontade. Não são sempre bonitas as sobrinhas de quem se está afastado? E sempre radioso o clima dos Verões quando eram crianças, e os frutos silvestres que então apanhavam mais saborosos do que qualquer dos que agora se encontram? Há já alguns anos que o Irmão Rhys era considerado ligeiramente senil, e as suas divagações desorganizadas e deslocadas no tempo; a memória falhava, a fantasia fervilhava e ele criava imagens que nunca tinham existido no mar ou na terra. Mas em qualquer outro lugar, talvez? Agora, com o estímulo desta presença jovem e vigorosa, e o conhecimento de que tinham o mesmo sangue, rapidamente lhe voltavam as recordações exactas. Talvez não durasse muitos anos, mas enquanto durava, era uma dádiva principesca.

- Volte-se um pouco mais para o fogo, assim; é este o sítio? - Rhys contorcia-se e ronronava como um gato a quem fazem festas, e o jovem ria e premia fortemente a carne, desfazendo caroços com uma firmeza que magoava, mas que simultaneamente dava bem-estar.

- Isto não é habilidade nova para si - disse o Irmão Cadfael, observando com aprovação.

- Tenho trabalhado principalmente com cavalos, e eles têm problemas de inchaços e lesões tal e qual como as pessoas. Aprende-se a ver com os dedos onde estão os centros de contracção e a desfazê-los de novo.

- Mas agora ele é carpinteiro - disse o Irmão Rhys com orgulho -, e trabalha aqui em Shrewsbury.

- E estamos a fazer uma galeria para o coro da vossa capela de Lady Chapel - disse Meurig - e, quando ficar pronta, e está para breve, serei eu pessoalmente quem a trará para a abadia. E, enquanto cá estiver, virei vê-lo novamente.

- E esfregas o meu ombro de novo? Agora está a ficar invernoso e, perto do Natal, o frio penetra-me nos ossos.

- Esfrego, pois. Mas, por agora já basta, senão deixo-o demasiado pisado. Levante a veste, tio... assim, para manter o calor. Arde-lhe?

- Durante um bocado picava como urtigas, mas agora tem um ardor suave e agradável. Já não sinto aí qualquer dor. Mas estou cansado...

Depois da manipulação da carne e do reavivar do espírito adormecido, devia estar verdadeiramente cansado e sonolento.

- Está bem. Agora devia estender-se e dormir um pouco. - Meurig olhou para Cadfael à procura do seu apoio. - Não acha que seria melhor, Irmão?

- O ideal. Esteve a suportar um exercício violento e devia agora descansar.

Rhys ficou bem satisfeito por o meterem na cama e o deixarem dormir o sono que já se estava a apoderar dele. As suas sonolentas despedidas acompanharam-nos enquanto se dirigiam para a porta, mas desvaneceram-se em silêncio antes de a terem alcançado. - Dá cumprimentos meus à tua mãe, Meurig. E pede-lhe que venha ver-me... quando trouxerem a lã para o mercado de Shrewsbury... Estou morto por voltar a vê-la...

- Ele dedicava muito amor à sua mãe, parece - disse Cadfael, enquanto observava Meurig a lavar as mãos onde o Irmão Edmund lhe mostrara, e se certificava de que o fazia devidamente. - Há qualquer esperança de ele a poder ver de novo?

A face de Meurig, vista de perfil enquanto torcia e esfregava as mãos, tinha uma gravidade e uma seriedade pensativa que desmentiam a indulgente boa disposição que arvorara para o velho. Passados uns momentos, disse:

- Não neste mundo. - Voltou-se para chegar à áspera toalha, e olhou directa e firmemente para os olhos de Cadfael. - Fez onze anos no último S. Miguel (1) que a minha mãe morreu. Ele sabe-o... ou soube-o tão bem como eu. Mas, se na sua senilidade ele a julga viva, por que o hei-de fazer recordar? Deixá-lo ter essa ideia e todas as outras que lhe possam dar prazer.

Saíram juntos em silêncio para o ar frio do grande pátio e aí separaram-se seguindo Meurig em passo lesto em direcção aos portões e Cadfael para a igreja, onde o toque a Vésperas poucos minutos poderia demorar.

- Vá com a Graça de Deus! - disse Cadfael quando se separaram. - Deu hoje ao velho um pouco da sua juventude de volta. Os mais velhos da sua família têm sorte nos seus filhos, acho eu.

- A minha família - disse Meurig, parando para olhar para trás com grandes olhos negros -, é a família da minha mãe, e eu junto-me aos meus. O meu pai não era galês.

E foi-se num passo vigoroso, com os ombros quadrados a abrir caminho por entre o crepúsculo. E Cadfael ficou a pensar nele, como pensara no vilão Aelfric, até chegar ao pórtico da igreja, mas aí abandonou-o perante um dever mais imediato. Afinal de contas, essas pessoas eram responsáveis por si próprias, e ele nada tinha a ver com eles.

Pelo menos para já!

 

Nota 1: O dia de S. Miguel corresponde a 29 de Setembro. (N. da T.)

 

Só cerca de meados de Dezembro é que o sorumbático criado Aelfric voltou ao jardim das ervas pedir plantas aromáticas para a sua ama. Por essa altura, já se tornara uma figura suficientemente familiar para desaparecer no movimento diário de idas e vindas do grande pátio e, por entre os múltiplos ruídos e acontecimentos, o seu silêncio não era geralmente notado. Cadfael vira-o várias manhãs a passar a caminho da padaria e da cantina para ir buscar os pães do dia e as medidas de cerveja, sempre mudo, sempre decidido, de passo rápido e feições retraídas, como se qualquer atraso seu pudesse ocasionar um castigo, e talvez ocasionasse mesmo. O Irmão Mark, atraído por uma alma aparentemente tão solitária e ansiosa como a sua outrora fora, fizera algumas tentativas para fazer o estranho falar, mas sem grande sucesso.

- Embora ele se abra um pouco - disse Mark em tom pensativo, batendo com os calcanhares no banco do barracão de Cadfael, ao mesmo tempo que ia mexendo na sálvia. - Não penso que fosse uma pessoa hostil, se não tivesse qualquer coisa que o perturba. Quando o cumprimento, por vezes quase sorri, mas nunca para conversar.

- Tem o seu trabalho a fazer, e talvez um amo difícil de satisfazer - disse Cadfael suavemente.

- Ouvi dizer que, desde que para cá mudaram, não está lá muito bem - disse Mark. - Refiro-me ao amo. Não propriamente doente, mas fraco e sem apetite.

- Também eu estaria assim - opinou Cadfael - se nada mais tivesse para fazer além de ficar sentado a lastimar-se e a cismar se teria agido bem em desfazer-me das minhas terras, apesar de já ser velho. O que. de longe, pode parecer uma rica vida, pode revelar-se bastante difícil quando se torna uma realidade.

- A rapariga - disse Mark, judiciosamente - é linda. Já a viu?

- Não vi. E tu, meu rapaz, devias afastar os olhos da contemplação de mulheres. Linda, dizes?

- Muito linda. Não muito alta, roliça e loira, com imenso cabelo dourado e olhos negros. Faz muito efeito, cabelo dourado e olhos negros. Vi-a vir ontem do estábulo, com um recado para Aelfric. Quando ela se foi embora, ele ficou a olhar para ela de um modo muito estranho. Talvez ela esteja metida em sarilhos.

E podia bem ser o caso, pensou Cadfael, se ele era um vilão e ela uma mulher livre que dificilmente iria baixar-se a olhar para um servo, mas sendo ambos obrigados a acotovelar-se pela casa dia após dia, pois aqui a habitação era mais pequena que no solar de Mallilie.

- Ela pode também ser sarilho para ti, rapaz, se o Irmão Jerome ou o Prior Robert te virem a cobiçá-la - disse com brusquidão. - Se tens mesmo de admirar uma bela rapariga, fá-lo pelo canto do olho. Não te esqueças de que estamos agora em fase de reforma.

- Oh, eu tenho cuidado! - Mark já não tinha o menor temor de Cadfael e aprendera com ele algumas noções pouco ortodoxas a respeito do que era ou não permissível. Em todo o caso, a vocação do rapaz já não estava em dúvida ou perigo. Se os tempos fossem mais calmos, talvez ele tivesse pedido licença para ir para Oxford estudar mas, mesmo sem essa oportunidade, Cadfael estava razoavelmente convencido que ele acabaria por tomar as ordens e fazer-se padre, e um bom padre; um padre com a consciência de que existiam mulheres no mundo, e que respeitava a presença e o valor destas. Mark viera para o claustro contra vontade e forçado, mas encontrara lá o seu devido lugar. Nem toda a gente tinha essa felicidade.

Aelfric veio à cabana na tarde de um dia nebuloso, e pediu um pouco de hortelã seca.

- A minha ama quer preparar um cordial de hortelã para o meu amo.

- Ouvi dizer que não está muito bem de saúde e de disposição - disse Cadfael, remexendo nas sacas de linho que lançavam para o ar umas essências tão ricas e capitosas. As narinas do rapaz estremeceram e dilataram-se de prazer, ao inalar de perto aqueles aromas. Na suave luz do interior, a sua face alerta suavizou-se um pouco.

- A doença não é grande, e é mais do espírito do que do corpo. Ele logo ficará bom quando recuperar o ânimo. O seu maior problema é andar mal com a família - disse Aelfric, tornando-se inesperadamente confiante.

- Isso é penoso para vocês todos, até para a senhora - disse Cadfael.

- E ela faz por ele tudo o que uma mulher pode fazer, e ele não tem nada a censurar-lhe. Mas este desentendimento põe-no maldisposto com toda a gente, até consigo próprio. Esperava que o filho viesse a correr pedir-lhe humildes desculpas, para tentar recuperar a herança, mas enganou-se, e isso amargura-o.

Ao ouvir isto, a face de Cadfael cobriu-se de surpresa.

- Você quer dizer que, para dar a herança à abadia, ele deserdou um filho? Por maldade para com o rapaz? Por lei, ele não tinha o direito. Nenhum convento pensaria em aceitar tal negócio sem o consentimento do herdeiro.

- Não é mesmo filho dele. - E Aelfric encolheu os ombros e abanou a cabeça. - É filho da mulher, nascido de um primeiro casamento, por isso o rapaz não tem qualquer direito legal. É certo que tinha feito um testamento nomeando-o seu herdeiro, mas a escritura com a abadia anulou esse testamento... ou vai anular, quando for selada e assinada por testemunhas. O rapaz não tem defesa na lei. Zangaram-se e ele perdeu o prometido solar, e nada mais há a fazer.

- Que falta cometeu para merecer tal tratamento? - cismou Cadfael em voz alta.

Aelfric ergueu desdenhosamente os ombros, uns ombros magros mas largos e direitos, como Cadfael observou:

- Ele é jovem e teimoso, e o meu amo é velho e irritável, e não está habituado a ser contrariado. Também o rapaz não estava habituado a sê-lo, e lutou duramente quando viu a sua liberdade cerceada.

- E que é feito dele agora? Porque me lembro de você ter dito que eram quatro lá em casa.

- Ele é tão teimoso como o meu amo, e foi-se embora para ir viver com a irmã casada e a família desta, e aprender uma arte. Estavam a contar que, muito antes de hoje, ele aparecesse de novo com o rabinho entre as pernas, e o meu amo estava certo disso, mas o rapaz ainda não deu nem sinal de si e duvido que venha a dar.

Parecia, reflectiu Cadfael com tristeza, uma situação difícil para a mãe do rapaz deserdado que, nesta disputa, devia sentir-se rasgada em dois. Explicava certamente um acto de mau humor de que o velho certamente já se arrependera.

Entregou o ramo de pés de hortelã, com as folhas ovais ainda inteiras e bem formadas, pois tinham secado no autêntico calor de Verão e até ainda tinham um bom matiz de verde.

- Ela vai ter de as migar mas desta maneira guardam mais o sabor. Se ela quiser mais e você me avisar com tempo, eu migo-lhas miúdo, mas agora não a vamos fazer esperar. Faço votos para que ajude a acalmá-lo, para bem dele e dela. E seu também - disse Cadfael, e deu-lhe uma palmadinha ligeira no ombro,

As feições sombrias de Aelfric foram por momentos convulsionadas por algo que quase podia ser um sorriso, mas um sorriso amargo e resignado.

- Os vilões existem para servir de bodes expiatórios - disse com súbita violência, e saiu apressadamente da cabana, apenas com um rápido murmúrio de agradecimento.

Com a aproximação do Natal, era comum que muitos dos mercadores de Shrewsbury e os senhores de vários pequenos solares próximos dali pensassem culposamente no bem-estar das suas almas e na sua posição de cristãos declarados e devotos, e que procurassem ganhar mérito de maneiras simples e, de preferência tão económicas quanto possível. O menu convencional de leguminosas, feijão, peixe e ocasionalmente uma carne magra, era beneficiado por súbitas dádivas de carnes e aves, para grande deleite dos monges de St. Peters. Apareciam-lhes bolos de mel, frutas secas, galinhas, e por vezes até uma peça de caça, tudo esmolas devotas que transformavam um sacramento devocional num prazer raro e um dia santo num dia de festa.

Alguns dadores, claro, eram selectivos nas suas oferendas e asseguravam-se de que estas fossem parar ao superior ou ao prior, pois consideravam que as preces destes lhes seriam de mais utilidade que as dos irmãos mais humildes. Um nobre do sul de Shroshire, que não tinha ouvido absolutamente nada a respeito da convocatória que o Superior Heribert recebera para ir a Londres ouvir uma repreensão, mandou para deleite deste uma anafada perdiz, em esplêndida condição depois de uma estação de abundância. Naturalmente que, ao chegar à habitação do superior, foi recebida com grande prazer pelo Prior Robert que a mandou para o Irmão Petrus, na cozinha, para que a preparasse convenientemente para a refeição do meio-dia.

O Irmão Petrus, que tinha por ele grande ressentimento em nome do Superior Heribert, olhou para a bela ave e pensou seriamente num modo qualquer de a estragar, queimando-a, deixando-a assar de mais até que ficasse seca, ou servindo-a com um molho que lhe estragasse a perfeição. Mas era um cozinheiro com orgulho e honra e incapaz de fazer tal coisa. O pior que podia fazer era prepará-la de uma maneira complicada de que ele próprio muito gostava, com vinho tinto e um molho aromático e com muitas especiarias, cozinhado em lume brando durante longo tempo, e fazer votos para que o Prior Robert não fosse capaz de a comer.

O prior andava muito contente consigo próprio, com a sua presente importância, com o projecto seguro de, num futuro próximo, ser elevado, e com o solar de Mallilie que andara a estudar nos relatórios do secretário e que descobrira ser uma dádiva surpreendentemente sumptuosa. Gervase Bonel certamente permitira que o despeito lhe dominasse completamente a razão, ao trocar uma tal propriedade pela satisfação das necessidades básicas de vida, e quando já passara a casa dos sessenta e dificilmente poderia esperar gozar muito tempo da sua reforma. Podia bem proporcionar-lhe algumas atenções extras e que custassem pouco. O Irmão Jerome, sempre a par das notícias internas e externas, contara que Master Bonel andava um pouco em baixo de forma e sem apetite. Talvez ele apreciasse a pequena delicadeza pessoal representada por um prato da mesa do superior. E, como aquela perdiz era uma ave com muita carne, chegava bem.

Estava o Irmão Petrus a regar amorosamente a pequena e anafada carcaça com o rico molho de vinho de delicado paladar, a que juntou uma pitada de rosmaninho e um cheirinho de arruda, quando o Prior Robert entrou na cozinha imperialmente alto e de uma austeridade papal e foi até ao tacho, as narinas de alabastro estremecendo perante o aroma tantalizante, os olhos frios a estudar a aparência do petisco, a qual era tão cativante quanto o sabor. O Irmão Petrus inclinou-se mais para esconder a face plena de amargura, e continuou industriosamente a cozinhar, com a esperança de que os seus melhores esforços deparassem com um paladar não cultivado, e com desânimo em vez de deleite. Esperança vã, pois Robert teve um tal prazer só com o aroma que quase resolveu desistir do generoso projecto de repartir tal satisfação. Quase, mas não por completo. Mallilie era, na verdade, uma propriedade altamente desejável.

- Ouvi dizer - disse o prior - que o nosso hóspede da casa junto ao lago da azenha está mal de saúde e que perdeu o apetite. Separe uma pequena porção desse prato, Irmão Petrus, e mande-a ao inválido com os meus cumprimentos, para que a coma como segundo prato, depois da comida principal do dia. Desosse-o e sirva-o numa das minhas taças pessoais. Se perdeu o apetite para as outras coisas, isto deve tentá-lo, e certamente apreciará a atenção. - E condescendeu em acrescentar, num tom mais que sentido: - Tem um óptimo aroma!

- Faço o melhor que posso - resmungou o Irmão Petrus, quase desejando não ter feito esse melhor.

- É o que todos fazemos - retorquiu Robert de modo austero - e é esse o nosso dever. - E saiu como entrara, muito satisfeito consigo próprio, com as presentes circunstancias e com o seu estado de alma. E o Irmão Petrus ficou a vê-lo sair, espreitando de sob as pálpebras descidas, e rosnou para os seus dois ajudantes laicos que nunca se aproximavam muito quando ele estava a cozinhar, e antes se deixavam ficar pelos cantos da cozinha e que logo saltavam à mínima ordem sua.

Até para o Irmão Petrus ordens eram ordens. Fez como lhe tinham mandado, mas à sua própria maneira, tendo o cuidado de separar a melhor parte da carne para o hóspede de quem não tinha queixas, e juntando-lhe uma rica porção de molho.

- Ele perdeu o apetite, foi? - disse, depois de provar uma última vez, e incapaz de suprimir a satisfação perante a sua própria arte. - Isto tentaria até um homem no seu leito de morte a comê-lo até à última gota.

A caminho do refeitório, o Irmão Cadfael viu Aelfric que atravessava o grande pátio vindo da cozinha do superior e seguindo apressado em direcção aos portões, e levando à sua frente um tabuleiro de madeira de beiras altas, carregado de pratos cobertos. Os hóspedes recebiam um tratamento melhor que os irmãos, embora não diferisse grandemente excepto na quantidade de carne e, nesta altura do ano, essa devia já consistir em carne salgada. A julgar pelo aroma que se evolava do tabuleiro à passagem, era carne cozida com cebolas e servida com feijão. A pequena taça coberta que balouçava no topo tinha um cheiro muito mais apetitoso. Era evidente que o recém-chegado ia gozar hoje de um segundo prato, antes das maçãs do pomar.

Aelfric levava o seu fardo, que devia ser bem pesado, com uma concentração cuidadosa, com o fito de chegar depressa e em segurança à casa junto ao lago. Não era grande caminhada - passar o portão, uns passinhos para a esquerda até ao extremo do muro do mosteiro, depois seguir pela esquerda e a primeira casa do lado de là era o destino de Aelfric. Mais para lá ainda ficava a ponte sobre o rio Severn e as muralhas e portões de Shrewsbury. Não era longe mas, em Dezembro, era suficientemente longe para que a comida arrefecesse. Sem dúvida que na casa, embora não tivessem necessidade de cozinhar grande coisa, teriam o seu próprio fogo e vários tachos e pratos, e o combustível fazia parte do preço da propriedade de Bonel.

Cadfael continuou até ao refeitório, e o seu jantar foi a carne cozida e o feijão que previra. Mas nada de apetitoso segundo prato. O Irmão Richard, o subprior, estava a presidir; o Prior Robert comia em privado na casa que já considerava como sua. A perdiz estava uma delícia.

Tinham já dado graças depois da comida e estavam a levantar-se da mesa quando a porta voou quase embatendo na cara do Irmão Richard e um irmão laico da portaria entrou de sopetão, perguntando incoerentemente pelo Irmão Edmund, mas com pouco fôlego devido à corrida para poder explicar a razão.

- Master Bonel... a criada veio a correr pedir ajuda... - Respirou fundo, e parou com o resfolegar o tempo suficiente para conseguir dizer com clareza: - Ele caiu terrivelmente doente, e ela diz que parece estar às portas da morte... a ama pede para alguém lhe ir urgentemente acudir!

O Irmão Edmund agarrou-o pelo braço.

- Que é que ele tem? Um ataque? Uma convulsão?

- Não, pelo que a rapariga disse, não é isso. Comeu o jantar e parecia bem-disposto e satisfeito, mas menos de um quarto de hora mais tarde a boca e a garganta começaram-lhe a latejar e depois tentou vomitar, mas não conseguiu, e os lábios e o pescoço ficaram duros e rígidos... Foi o que ela disse!

Pelos vistos, era boa observadora, pensou Cadfael, já a caminho da porta e do seu barracão, em passo rápido e decidido.

- Vá indo, Edmund; junto-me a si o mais depressa que puder. Levo tudo o que pudermos precisar.

E correu ele, e correu Edmund e, atrás do Irmão Edmund, seguia sem fôlego o mensageiro, em direcção à portaria e à agitada rapariga que lá estava à espera. Formigueiro nos lábios, na boca e na garganta, ia resumindo Cadfael enquanto corria, um latejar e depois rigidez, uma necessidade urgente, mas incapacidade para deitar fora o que tinha ingerido. E passara um quarto de hora depois de o ter engolido, agora mais, se estivesse no jantar que comera. Talvez já fosse tarde para a mostarda que o faria vomitar, mas devia tentar-se. Embora certamente não passava de um ataque de enjoo devido à comum indisposição de um homem adoentado com comida perfeitamente normal; nem era possível outra coisa. Mas aquele formigueiro da carne da boca e da garganta, e a rigidez que se lhe seguiu... parecia-se de mais com pelo menos uma doença violenta que já vira e que quase se tornara fatal; e a causa disso ele sabia qual era. Apressadamente agarrou das prateleiras os remédios que queria e correu para a portaria.

Apesar de todo o frio daquele dia de Dezembro, a porta da primeira casa do lado de lá do lago da azenha estava aberta, e apesar do silêncio aterrorizado que a envolvia, uma onda de agitação e confusão pareceu vir-lhe ao encontro junto à entrada, como que um pânico silencioso composto de movimentos alvoroçados e vozes abafadas. Era uma boa casa, com três quartos e a cozinha, e nas traseiras um pequeno jardim que descia até ao lago; já o conhecia bastante bem, por ter ali visitado um anterior residente, por motivo menos desesperado. A porta da cozinha dava para o lado oposto do lago, sobre a viata de Shrewsbury do outro lado do rio e, naquela altura do dia e do ano, a luz vinda do norte deixava sombrio o interior da casa, embora a janela que dava para sul estivesse de portadas abertas para deixar entrar a luz e o ar para o braseiro que servia para todas as necessidades de cozinhar de tais hóspedes. Avistou o fulgor cinzento de um reflexo vindo da água quando o vento a encrespou; a faixa de jardim era estreita naquele sítio, embora a casa ficasse bastante acima do nível das águas.

Junto à porta interior de onde emergia o murmúrio de vozes assustadas estava uma mulher obviamente à sua espera, as mãos muito apertadas uma na outra sob o peito, e vibrante de tensão. Quando ele entrou, ela avançou ansiosamente, e Cadfael pôde vê-la com nitidez; uma mulher com a mesma idade que ele, e a mesma altura, muito bem e sobriamente vestida, o cabelo escuro entremeado de prata e entrançado no cimo da cabeça, a face oval quase sem rugas além de uns simpáticos vincos, sinal de boa disposição e humor, que lhe marcavam os cantos dos olhos castanho-escuros, e davam à sua boca um ar alegre e atraente. A alegria estava agora apagada, ao mesmo tempo que retorcia as mãos e o fitava com olhar suplicante; mas atraente era, até bela. Tinha aguentado bem os anos, os quarenta e dois que tinham passado.

Cadfael reconheceu-a imediatamente. Nunca mais a vira desde o tempo em que ambos tinham dezassete anos e estavam noivos, embora ninguém o soubesse além deles próprios, pois a família dela, se o tivesse sabido, teria facilmente desfeito o compromisso. Mas ele tomara a Cruz e navegara para a Terra Santa e, apesar de todas as juras de que voltaria cheio de honrarias para a reclamar como sua, com a febre, o fascínio e o perigo de uma vida imparcialmente dividida entre soldado e marinheiro, tudo esquecera e adiara por tempo demasiado o regresso; e ela, apesar de todas as promessas de esperar, acabara por se cansar e cedera às insistências dos pais, vindo a casar-se com um homem de carácter mais estável, o que se lhe não podia censurar. E Cadfael esperava que ela tivesse sido feliz. Mas nunca, nunca pensara poder vir a encontrá-la ali. Ela não se tinha casado com nenhum Bonel, nenhum lorde de um solar do norte, mas sim com um honesto artífice de Shrewsbury. Não podia explicar a presença dela ali, e não tinha tempo para pensar nisso agora.

Contudo, logo a reconheceu. Tinham passado quarenta e dois anos, e tinha-a reconhecido! Pelos vistos, não esquecera muito. O modo ansioso como ela agora se dirigia para ele, e inclinação da cabeça, até o modo como arranjava o cabelo; e, acima de tudo, os olhos, grandes, directos, brilhantes com luz apesar de toda a sua negrura.

Nesse momento, graças a Deus, ela não o reconheceu. E por que o haveria de reconhecer? Ele certamente estava muito mais mudado que ela; meio mundo, desconhecido para ela, marcara-o, alterara até a forma do seu corpo e espírito. Ela só via o monge que percebia de ervas e remédios, e que correra para ir buscar coisas que pudessem ajudar o homem atingido.

- Por aqui, irmão... ele está aqui. O enfermeiro meteu-o na cama. Oh, por favor, ajude-o!

- Se puder, e se Deus me ajudar - disse Cadfael e, passando por ela, entrou no quarto. Ela apressou-se a segui-lo, insistindo e acompanhando-o. A sala principal estava mobilada com uma mesa e bancos, e mostrando em estado caótico os restos de uma refeição certamente interrompida por algo mais que a doença súbita de um homem. Em todo o caso, tinham dito que ele tinha comido a sua comida e que parecia estar bem; porém, havia ali pratos partidos, cacos na mesa e no chão. Mas a mulher puxou-o ansiosamente para o quarto de dormir.

O Irmão Edmund levantou-se de junto da cama, os olhos muito abertos e desiludidos. Fizera o que pudera para pôr o inválido no máximo conforto possível, embrulhara-o em cobertores, mas pouco mais podia fazer. Cadfael aproximou-se e olhou para Gervase BoneL Um homem grande e corpulento, encimado por um cabelo castanho que começava a ficar grisalho e com uma pequena barba, agora salpicada de saliva que escorria de ambos os cantos da boca rígida e meio aberta. A face estava azul, cor de chumbo, e as pupilas dos olhos dilatadas e fixas. As feições elegantes e fortes estavam agora petrificadas numa máscara lívida. Cadfael procurou o pulso e viu que estava fraco, lento e irregular, a respiração do homem era pouco profunda, longa e trabalhosa. As linhas do maxilar e da garganta estavam fixas como pedra.

- Tragam uma tigela - disse Cadfael, ajoelhando-se - e batam duas claras de ovo com um pouco de leite. Vamos tentar fazer-lhe deitar a coisa cá para fora, mas temo que seja demasiado tarde e pode fazer tão mal a sair como a ir para baixo. - Não voltou a cabeça para ver quem ia a correr fazer o que pedira, embora fosse certo que alguém fora; quase não tinha consciência de que estavam presentes mais três pessoas na casa, além do Irmão Edmund e de Mistress Bonel e do doente. Aelfric e a criada, sem dúvida, mas reconheceu o terceiro apenas quando alguém se inclinou para pôr uma tigela de madeira junto à face do paciente e segurar a cabeça lívida para que se inclinasse sobre essa tigela. Cadfael ergueu de relance os olhos, pois lhe tinha agradado o movimento silencioso e rápido, e deu de cara com a face ansiosa e horrorizada do jovem galês Meurig, o sobrinho-neto do Irmão Rhys.

- Muito bem! Levante-lhe a cabeça com a mão, Edmund, e segure-lhe firme na testa. - Foi bastante simples despejar-lhe a mistura emética de mostarda pela boca meio aberta, mas a rígida garganta lutou horrivelmente para a engolir e uma grande parte do líquido foi cuspida para a barba e a tijela. As mãos do Irmão Edmund tremiam enquanto seguravam na tijela, e também ele tremia. O vómito que se seguiu convulsionou todo o grande corpo, fez enfraquecer mais ainda o pulso já fraco, mas produziu apenas um resultado dolorosamente mínimo. Era, na verdade, tarde de mais para Gervase Bonel. Cadfael desistiu e deixou os espasmos acalmarem, com medo de o matar por completo.

- Dêem-me o leite e os ovos. - Foi enfiando a mistura muito lentamente pela boca aberta, e deixava-a deslizar pela garganta rígida em quantidades muito pequenas para não correrem o risco de engasgar o paciente. Tarde de mais para impedir a acção do veneno sobre os tecidos do esófago de Bonel, talvez fosse ainda possível cobrir as partes danificadas com uma película calmante e suavizar-lhe o sofrimento. Ia-lhe pacientemente vertendo gota após gota, enquanto em seu redor pairava um silêncio de morte, e os observadores mal respiravam.

O grande corpo parecia ter mirrado e quase desaparecia na cama, o pulso batia de modo cada vez mais fraco, o olhar estava velado. Jazia prostrado. Os músculos do pescoço já não faziam qualquer esforço para engolir, e estavam encordoados e rígidos. O fim veio abruptamente, sem agitação, apenas a respiração e o pulso cessaram.

O Irmão Cadfael pousou a colher na pequena taça de leite, e sentou-se sobre os calcanhares. Levantou os olhos para o círculo de faces chocadas e confusas, e pela primeira vez viu-os com clareza a todos: Meurig, tremendo-lhe nas mãos a tijela com o seu horrível conteúdo; Aelfric, de semblante fechado e pálido, olhando para a cama por sobre o ombro do Irmão Edmund; a rapariga - o Irmão Mark não tinha exagerado, ela era mesmo bonita com o seu cabelo louro e olhos negros - petrificada, demasiado chocada para poder chorar, ambas as mãos fechadas e comprimidas contra os lábios; e a viúva, Mistress Bonel, que fora outrora Richildis Vaughan, olhando com face marmórea e os olhos enchendo-se lentamente de lágrimas perante o que restava do seu marido.

- Nada mais podemos fazer por ele - disse o Irmão Cadfael. - Apagou-se.

Todos remexeram um pouco, como se abanados por qualquer vento súbito. As lágrimas da viúva transbordaram e deslizaram pela face imóvel, como se estivesse por de mais confusa para compreender o que as causava. O Irmão Edmund tocou-lhe no braço e disse docemente:

- Vai precisar de ajuda. Lastimo muito, lastimamos todos. Ajudá-la-emos em tudo o que for possível. Ele ficará na nossa capela até que tudo seja organizado. Vou mandar...

- Não - disse Cadfael, pondo-se em pé com dificuldade -, isso não pode ser feito para já, Edmund. Isto não é uma morte vulgar. Ele morreu com veneno ingerido na comida que comeu recentemente. É caso para o meirinho e não devemos mexer em nada nem retirar nada daqui até que tenham examinado tudo muito bem.

Depois de gélido silêncio, Aelfric falou em voz rouca:

- Mas como pode isso ser? Isso não pode ser! Comemos todos a mesma coisa, todos os que aqui estamos. Se houvesse qualquer coisa errada na comida, ter-nos-ia atacado a todos.

- Isso é verdade! - disse perturbada a viúva, e soluçou alto.

- Tudo menos o prato pequeno - fez notar a criada numa voz assustada mas decidida, e ruborizada por ter chamado sobre si todas as atenções, mas continuou em tom firme: - O prato que o superior mandou para ele.

- Mas isso era parte do jantar do próprio prior - disse Aelfric, impaciente.

- O Irmão Petrus disse-me que recebera ordens para tirar um bocado e enviá-lo ao meu amo com os cumprimentos do prior, para lhe tentar o apetite.

O Irmão Edmund lançou um olhar aterrado ao Irmão Cadfael, e viu reflectido nele o seu próprio pensamento horrível. Apressadamente, disse:

- Vou ver o prior. Roguemos aos céus que nenhum mal lhe tenha acontecido! Mandarei também recado ao meirinho, ou antes, com a Graça de Deus, o prior tratará disso. Irmão, pode ficar aqui até que eu volte, para ver que não toquem em nada?

- Assim farei - disse Cadfael em tom sombrio -, certamente.

Logo que o matraquear agitado das sandálias do Irmão Edmund se afastara pela estrada fora, Cadfael fez sair os seus estáticos companheiros para a sala exterior, para longe do horrível cheiro do quarto de dormir, impregnado dos odores fétidos dos vómitos, do suor e da morte. Sim, e de mais qualquer coisa, ténue mas persistente mesmo perante a poderosa mistura dos outros odores: algo que ele sentia poder discernir se pudesse dedicar-lhe um momento de concentração sem ser incomodado.

- Já não podem ajudar mais aqui - disse com simpatia. - Nada podemos fazer sem chegar a autoridade, pois há uma morte a explicar. Mas não há qualquer necessidade de ficarem aqui e aumentarem o vosso desgosto. Vão lá para fora e sentem-se calmamente. Se houver vinho ou cerveja nesse canjirão, menina, serve uma bebida à tua ama e também para ti, e senta-te e tentem conformar-se. A abadia recebeu-vos e ficará a vosso lado para vos ajudar em tudo o que puder.

Num silêncio estonteado fizeram o que lhes mandavam. Só Aelfric olhou descoroçoado para os cacos dos pratos quebrados e para a mesa cheia de lixo e, talvez lembrando a sua posição serviçal costumada, perguntou em voz tremente:

- Não seria melhor eu limpar essa desordem?

- Não, por agora não toques em nada. Senta-te rapaz, e fica o mais calmo que puderes. O funcionário do meirinho deve poder ver tudo o que há para ver, antes de mexermos no que quer que seja.

Deixou-os por um momento e voltou para o quarto de dormir, fechando a porta que os separava. Aquele cheiro estranho e aromático era agora quase imperceptível, dominado pelo fedor do vómito, mas Cadfael aproximou-se dos lábios repuxados do morto e senti-o novamente, e até mais forte. À vista, o nariz de Cadfael podia ser grosso, torcido e escuro, mas, em actuação, era tão agudo e apurado como o de uma raposa.

Nada mais havia naquela câmara de morte que lhe pudesse dizer qualquer coisa. Voltou para junto do descoroçoado grupo na sala pegada. A viúva estava sentada com as mãos muito apertadas sobre o regaço, abanando ainda a cabeça cheia de incredulidade e murmurando continuamente para si própria.

- Mas como pode ter acontecido? Como pode ter acontecido? - A rapariga, sempre sem lágrimas e agora ciumentamente protectora, estava sentada com um braço em volta dos ombros da ama; era visível haver ali mais que simples afeição de serva. Os dois jovens andavam sombrios e pouco à vontade de um para outro lado, incapazes de ficar quietos. Cadfael ficou na sombra longe deles e, com ar arguto, estudou a mesa cheia. Estavam postos três lugares, havia três canecas, e uma delas, no lugar do dono da casa onde uma cadeira substituía os bancos sem costas, estava tombada numa poça de cerveja, tendo provavelmente caído quando Bonel sentira os primeiros espasmos e se levantara de sopetão. A grande travessa que contivera o prato principal estava pousada no centro da mesa, ainda com os restos coagulados. A comida de um dos pratos mal tinha sido tocada, a dos outros tinha sido decentemente comida. Cinco pessoas - não, aparentemente seis - tinham comido daquela comida e todos, excepto um, estavam de perfeita saúde e sem qualquer problema. Estava lá também a pequena taça que reconheceu ser do Superior Heribert, e que era a mesma que vira no tabuleiro de Aelfric ao atravessar o pátio. Nela só restavam uns vestígios mínimos de molho; era evidente que a dádiva do Prior Robert para o inválido fora muito apreciada.

- Nenhum de vocês além de Master Bonel comeu deste prato? - perguntou Cadfael, curvando-se para cheirar longa e cuidadosamente a beira da taça.

- Não - disse, tremente, a viúva. - Foi enviado a meu marido, por especial favor... uma atenção gentil.

E ele comera tudo. Com terrível resultado.

- E vocês os três, Meurig, Aelfric, e tu, criança, ainda não sei o teu nome...

- É Aldith - disse a rapariga.

- Aldith! E vocês os três comeram na cozinha?

- Sim. Tive de manter no quente o prato extra até que o outro fosse comido, e cuidar de servi-lo. E Aelfric come sempre na cozinha. E Meurig, quando nos visita... - Fez uma pausa de apenas um segundo, e um ténue rubor cobriu-lhe a face: - ...faz-me sempre companhia.

Então, era assim que andavam as coisas. Bom, não era de admirar, ela era verdadeiramente uma bela rapariga.

Cadfael foi à cozinha. A rapariga tinha os tachos e panelas perfeitamente ordenados e bem areados; era tão trabalhadeira e capaz como bela. A lareira tinha uma armação presa bem alto de ambos os lados, e que segurava uma placa de ferro acima do calor e fora aí, sem dúvida, que estivera a pequena taça até que Bonel a pedisse. Junto à parede estavam dois bancos, para não estorvarem, mas perto do calor. Numa prateleira, sob a janela aberta, estavam três pratos de madeira, todos três usados.

Na sala atrás de si o silêncio era opressivo e atemorizante, cheio de maus presságios. Cadfael saiu pela porta aberta da cozinha, e olhou para a estrada.

Graças a Deus que não teriam de haver-se com uma segunda e ainda mais perturbante morte: o Prior Robert, demasiado digno para correr, mas possuidor de pernas tão longas que o Irmão Edmund tinha de seguir a trote para lhe acompanhar as rápidas passadas, avançava pela estrada principal em augusta consternação e desprazer, com o hábito a esvoaçar atrás de si.

- Mandei um irmão laico a Shrewsbury - disse o prior dirigindo-se à família reunida - para informar o meirinho do que aconteceu, pois me disseram que esta morte... senhora, as minhas condolências pela sua perda... não foi produto de causas naturais, mas que foi provocada por envenenamento. Esta horrível tragédia, embora se vá claramente reflectir sobre o nosso convento, aconteceu fora dos nossos muros e fora da jurisdição de justiça da abadia. - Estava grato por este facto, ao menos, e tinha razão para o estar! - Só as autoridades seculares podem tratar deste caso. Mas deveremos dar-lhes toda a ajuda que pudermos, é esse o nosso dever.

Durante todo o tempo, por mais delicadamente que se inclinasse para a viúva, e por mais que escolhesse as palavras de condolência e das promessas de ajuda e amparo para a triste obrigação do funeral, as suas maneiras eram as de alguém que se sentia injuriado. Como ousavam ter permitido que acontecesse uma coisa daquelas durante o seu curato, na sua abadia recém-adquirida e com uma oferta sua como instrumento? As suas esperanças eram poder acalmar a família com um funeral suficientemente cerimonioso, talvez um canto bem obscuro no recinto actual da igreja, se conseguissem encontrar algum, passar a responsabilidade legal para as mãos do meirinho, onde era o seu lugar, e abafar e fazer esquecer toda a história o mais depressa possível. Estacara cheio de nojo e repulsa à porta do quarto de cama, lançando ao morto apenas uma reverência breve e intimidada e uma prece apressadamente murmurada, e fechara rapidamente a porta de novo.

Em certo sentido, acusava todos os que ali estavam por lhe imporem semelhante prova e desconforto; mas, acima de tudo, tinha raiva à declaração crua de Cadfael de que se tratava de um caso de envenenamento. Isso ia obrigar a abadia a, no mínimo, examinar as circunstâncias. Para mais, havia o problema do acordo que ainda não fora assinado, e a visão alarmante de Mallilie a escorregar-lhe possivelmente das mãos. Com Bonel morto antes da doação estar completamente legal, a quem pertenceria agora aquela rica propriedade? E poderia ainda assegurar-se da sua posse, aproximando-se rapidamente do herdeiro hipotético antes que este tivesse tempo para considerar seriamente do que desistia com a sua assinatura?

- Irmão - disse Robert, olhando do cimo do seu longo e obstinado nariz para Cadfael, que era uma cabeça mais baixo -, o irmão afirmou que foi aqui empregado veneno. Antes de apresentar tão horrível sugestão aos oficiais do meirinho, de preferência à posssibilidade de um uso acidental ou até de súbita doença fatal, pois tal coisa pode acontecer até às pessoas aparentemente de óptima saúde! Gostaria de ouvir as razões que o levaram a fazer afirmação tão positiva. Como soube? Por que indícios?

- Pela natureza da doença - disse Cadfael. - Ele teve um latejar e formigueiros nos lábios, na boca e na garganta e depois essas partes ficaram rígidas, a tal ponto que não podia mais engolir ou respirar livremente; seguindo-se uma rigidez por todo o corpo e um bater muito fraco do coração. Os olhos estavam muito dilatados. Eu já tinha visto tudo isto numa ocasião anterior, e dessa vez eu soube o que o homem ingerira porque tinha ainda o frasco na mão. Talvez o senhor ainda se lembre; foi há alguns anos já. Foi um carroceiro bêbedo, durante a feira, que assaltou o meu barracão e pensou que tinha encontrado licor. Nessa ocasião fui capaz de o salvar porque tinha acabado de ingerir o veneno. Mas, antes de eu chegar junto de Master Bonel, já se tinha passado demasiado tempo. Contudo, reconheci todos os sintomas e sei qual o veneno que foi empregado. Posso reconhecê-lo pelo cheiro dos lábios e dos restos da comida que comeu, a comida que o senhor mandou para ele.

Se o Prior Robert empalideceu perante o pensamento do que tudo aquilo podia facilmente significar, a alteração não foi visível porque a sua tez era sempre de um marfim sem mácula. Se lhe quisermos fazer justiça, devemos reconhecer que não era timorato. Perguntou directamente:

- Que veneno é esse, se está assim tão certo da sua opinião?

- É um óleo que eu preparo para massajar articulações dolorosas, e deve ter vindo ou da reserva que tenho no meu barracão, ou de uma dose menor levada de lá, e só sei de um lugar onde esse óleo podia ter sido encontrado, e que é a nossa própria enfermaria. O veneno é acónito. Com as suas raízes prepara-se um excelente unguento para tirar a dor, mas é um veneno muito potente se ingerido.

- Se você pode fazer remédios com essa planta - disse o Prior Robert com gélido desprazer -, o mesmo podem fazer outros certamente, e este pode ter vindo de outra fonte muito diferente e não das nossas próprias reservas.

- Duvido - disse Cadfael firmemente -, pois conheço perfeitamente o aroma do meu próprio artigo, e reconheço aqui a mostarda e o alho-porro, além do acónito. Já vi os seus efeitos depois de ingerido, e reconheço-os. Não tenho qualquer dúvida e é isso o que direi ao meirinho.

- É muito próprio - disse Robert com menos frialdade - que um homem reconheça o seu próprio trabalho. Pode então ficar, aqui para participar a Lorde Prestcote ou aos seus representantes qualquer verdade que possa fornecer. Falarei com eles primeiro, pois sou agora o responsável pela paz e boa ordem do nosso convento. Depois, mandá-los-ei para cá. Quando eles estiverem convencidos de que reuniram todos os factos que há para coligir, mande recado ao Irmão Enfermeiro e ele tratará de ver que o corpo seja cuidado e levado para a capela. Senhora - disse, voltando-se para a viúva, e num tom absolutamente diferente -, não precisa temer que a venham incomodar quanto ao seu direito de estar aqui. Não queremos agravar os seus desgostos que profundamente lamentamos. Se precisar de algo, mande-me o seu criado. - E para o Irmão Edmund, que olhava, infeliz: - Venha comigo! Quero ver onde são guardados esses remédios e a que ponto estão acessíveis a pessoas não autorizadas. O Irmão Cadfael ficará aqui.

Saiu tão altivamente como viera, e à mesma velocidade, com o enfermeiro correndo-lhe no encalço. Cadfael viu-o partir com tolerante compreensão; era certamente desastroso que isto acontecesse com Robert há tão pouco tempo na direcção, e o prior faria tudo o que pudesse para que o caso fosse aceite como uma morte infeliz mas perfeitamente natural, o resultado de qualquer ataque súbito. Visto a doação ainda não estar concluída, o caso, mesmo assim, já representava para ele suficientes problemas, mas faria o impossível para afastar a escandalosa suspeita de um assassinato ou, se chegasse a isso, tentaria que fosse considerado um mistério insolúvel confortavelmente atribuído a qualquer vagabundo não identificado do exterior do enclave da abadia. Cadfael não podia censurá-lo; mas a obra das suas próprias mãos, feita para aliviar a dor, fora usada para destruir um homem, e isso era coisa que não podia deixar passar.

Com um suspiro, voltou-se para a triste família que estava dentro de casa, e estacou ao ver os olhos negros da viúva, sem lágrimas e brilhantes, fixos sobre ele com um olhar tão significativo e luzente que parecia ter ela num segundo perdido vinte anos de idade e um grande fardo de cima das costas. Cadfael já tinha chegado à conclusão que, embora indubitavelmente chocada, ela não ficara de coração despedaçado com a perda do marido; mas isto era algo muito diferente. Ela era agora, sem sombra de dúvida, a Richildis de quem ele se afastara aos dezassete anos, Um suave rosado apareceu-lhe na face, a sombra hesitante de um sorriso fez-lhe tremer os lábios, e olhava para ele como se partilhassem de um segredo desconhecido de todos os outros, e do qual só a presença desses outros com eles na sala a impedia de falar.

Só depois de um momento de total incompreensão é que ele compreendeu a verdade, e pensou que era a coisa mais inconveniente e perturbante que podia ter acontecido naquela altura. Ao despedir-se, o Prior Robert chamou-o pelo nome, um nome pouco comum por aquelas bandas. E esse nome bastara para fazer alguém recordar, alguém que talvez já estivesse a cismar a respeito de semilembrados trejeitos de voz ou de gestos aos quais queria dar um nome.

A partir desse momento, a sua imparcialidade neste caso estaria em perigo. Richildis não só o reconhecera, como lhe estava a enviar sinais urgentes e silenciosos que traduziam a sua gratidão e dependência, e a sua absoluta certeza de que poderia confiar nele como seu defensor, mas em que sentido ele nem ousava perguntar-se.

 

Gilbert Prescote, meirinho de Shropshire desde que a cidade caíra nas mãos do Rei Stephen no último Verão, residia no castelo de Shrewsbury, que mantinha fortificado em nome do rei, e de onde administrava o condado agora pacificado. Se o seu assistente tivesse estado em Shrewsbury quando a mensagem do Prior Robert chegou ao castelo, Prescote tê-lo-ia provavelmente enviado para atender o chamado, e isso teria sido um alívio para o Irmão Cadfael que tinha considerável fé na argúcia de Hugh Beringar; mas esse jovem estava longe, no seu próprio domínio, e foi um sargento com um par de homens de armas a servir de escolta quem finalmente chegou à casa junto ao lago da azenha.

O sargento era um homem alto, barbudo e de voz grossa, tinha a plena confiança do meirinho e tinha o poder e o gosto de agir com autoridade em nome daquele. Dirigiu-se a Cadfael em primeiro lugar, por ele pertencer à abadia de onde viera o chamado, e foi Cadfael quem contou o desenrolar dos acontecimentos desde o momento em que fora mandado chamar. O sargento falara já com o Prior Robert, que certamente lhe tinha dito já que o prato suspeito viera da sua própria cozinha e por ordem sua.

- E o senhor jura quanto ao veneno? Estava nesse prato e não em qualquer outro alimento que ele tenha tomado?

- Sim - disse Cadfael -, posso jurá-lo. Os vestígios deixados são pequenos, mas até uma gota mínima do molho, se com ela tocasse nos seus lábios, provocaria um formigueiro quente poucos minutos depois. Eu próprio confirmei isso. Não há qualquer dúvida.

- E o Prior Robert, que comeu o resto da ave, está vivo e de perfeita saúde, graças a Deus. Portanto, o veneno foi adicionado à comida algures entre a cozinha do superior e aquela mesa. Não é grande a distância nem o espaço de tempo. Você, rapaz, é você quem traz as refeições da cozinha para esta casa? E fê-lo hoje? Parou em qualquer lado pelo caminho? Falou com alguém? Pousou o tabuleiro em qualquer lado?

- Não - disse Aelfric, na defensiva. - Se me demoro, ou se a comida esfria, tenho de responder pelo facto. Faço à letra o que me mandam, e foi o que hoje aconteceu.

- E aqui? Que fez com os pratos quando cá chegou?

- Entregou-mos a mim - disse Aldith, tão rápida e firmemente que Cadfael olhou para ela com novo interesse. - Aelfric pousou o tabuleiro sobre o banco junto à lareira, e eu própria pus o prato pequeno sobre a placa para o manter quente enquanto ambos servíamos o prato principal aos nossos amos. Ele contou-me que o prior tivera a gentileza de o enviar para o nosso amo. Quando acabei de os servir lá dentro, sentamo-nos na cozinha para comer também a nossa refeição.

- E nenhum de vocês notou algo de errado na perdiz? No aroma ou na aparência?

- Era um molho muito rico e cheio de especiarias, e cheirava muito bem. Não, não se notava nada. O amo comeu-o e não sentiu nada de errado, até que a boca lhe começou a latejar e a queimar, e isso só aconteceu mais tarde.

- Tanto o cheiro como o gosto - confirmou Cadfael, consultado com um rápido olhar - podiam bem ficar encobertos com semelhante molho. E a quantidade necessária não era grande.

- E você... - e o sargento voltou-se para Meurig. - Também cá estava? Pertence à casa?

- Agora já não - disse Meurig, com prontidão. - Eu venho dos domínios de Master Bonel, mas agora trabalho na cidade para Martin Bellecote, o mestre-carpinteiro. Vim cá hoje visitar um velho tio-avô que está na enfermaria, como o irmão enfermeiro lhe poderá confirmar. E, já que estava na abadia, vim também fazer uma visita aqui. Cheguei à cozinha mesmo na altura em que Aldith e Aelfric iam começar a sua própria refeição, e convidaram-me a partilhá-la e aceitei.

- Havia comida que chegasse - disse Aldith. - O cozinheiro do superior tem a mão generosa.

- Estavam então os três a comer aqui. E a mexer o prato pequeno de vez em quando? E lá dentro... - Passou a porta e olhou novamente para os destroços que havia sobre a mesa. - Master Bonel e a senhora, naturalmente. - Não, o homem não era estúpido, sabia contar, e notara a ausência de uma pessoa tanto da casa como das conversas, como se todos estivessem combinados para fazer desaparecer o sexto conviva. - Ali estão postos lugares para três. Quem era o terceiro?

Não havia maneira de o evitar, alguém tinha de responder. Richildis fez o melhor que pôde da situação. Com uma prontidão aparentemente ingénua, como se surpreendida com a introdução de tal irrelevância.

disse:

- O meu filho. Mas saiu bem antes de o meu marido se sentir doente.

- Sem acabar de jantar! Era este o lugar dele?

- Era - disse ela com dignidade, e nada mais acrescentou.

- Parece-me, senhora - disse o sargento, com um sorriso sinistramente paciente -, que era melhor sentar-se e contar-me mais coisas a respeito desse seu filho. Pelo que ouvi do Prior Robert, o seu marido estava em vésperas de doar os seus domínios à abadia em troca desta casa e da categoria de hóspede para o resto da vida dele e sua. Depois do que aqui aconteceu, o acordo fica forçosamente suspenso, pois ainda não foi assinado e selado. Seria então grandemente vantajoso para qualquer herdeiro dessas terras, supondo que haja algum, ver o seu marido retirado deste mundo antes de o contrato ser ratificado. Contudo, se houvesse um filho do vosso casamento, o consentimento dele teria sido exigido antes de se poder fazer um tal acordo. Explique-me este enigma. Como conseguiu ele deserdar o filho?

Era evidente que Richildis não queria dizer mais que o estritamente necessário, mas era inteligente bastante para saber que uma reticência demasiado teimosa serviria apenas para levantar suspeitas. Resignada, respondeu:

- Edwin é meu filho, de um primeiro casamento. Gervase não tinha qualquer obrigação paternal para com ele. Podia dispor das suas terras como quisesse. - Havia mais, e se deixasse que fosse contado por outros, as aparências seriam muito piores. - Embora tivesse anteriormente feito um testamento que nomeava Edwin como seu herdeiro, nada havia a impedi-lo de mudar de ideias.

- Ah! Então, pelos vistos, sempre havia um herdeiro que iria ser desapossado pelo contrato, e que tinha muito a ganhar se o tornasse nulo. E o tempo para isso era limitado, só dispunha de poucos dias ou semanas, até que o novo superior fosse nomeado. Oh, não me compreenda mal, o meu espírito continua aberto. A morte de qualquer homem geralmente é conveniente para alguém, muitas vezes para mais que uma pessoa. Mas deve reconhecer que o seu filho está certamente nessas condições.

Ela mordeu os lábios porque não os sentia firmes, e levou um momento a recompor-se antes de dizer galantemente:

- Não ponho o seu raciocínio em dúvida. Mas sei que o meu filho, por muito que desejasse o seu solar, nunca o quereria por tal preço. Ele está a aprender uma arte, e está resolvido a ser independente e tratar do seu próprio futuro.

- Mas ele esteve hoje aqui. E partiu, parece, com uma certa pressa. Quando chegou ele?

Meurig disse prontamente:

- Veio comigo. Está como aprendiz junto de Martin Bellecote que é o marido da irmã dele e meu patrão. Viemos juntos esta manhã e veio comigo, como já acontecera anteriormente, quando vim ver o meu velho tio na enfermaria.

- Chegaram então juntos a esta casa? Estiveram juntos muito tempo? Há tempo disse que você chegara à cozinha... "eu", disse você, não "nós".

- Ele veio antes de mim. Passado um pouco, estava a ficar impaciente... ele é jovem e ficou cansado de estar em pé junto da cama do velho, enquanto ambos falávamos apenas galês um com o outro. E a mãe estava aqui à espera para o ver. Por isso foi andando. Estava à mesa quando cá cheguei.

- E saiu da mesa quase sem comer - disse o sargento de modo muito pensativo. - Porquê? Poderia ser um jantar agradável, com um jovem a comer com o homem que o deserdara? Foi esta a primeira vez que se encontraram depois da abadia o ter suplantado?

Tinha agora o nariz preso a forte pista, o que não era de admirar, pois o cheiro era tão forte que atrairia até o mais ignorante recém-nascido, e este homem estava longe de sê-lo. Se eu estivesse no lugar dele, perguntou-se Cadfael, que teria pensado perante um tão forte conjunto de circunstâncias? Um jovem com a mais urgente das necessidades de pôr travão a esse contrato enquanto era tempo e que, para mais, estivera ali em cena mesmo antes do desastre, e acabado de sair da enfermaria que visitara e onde se encontrava o meio para tal fim. E lá estava também Richildis, mantendo presa a atenção do sargento do meirinho com uns olhos grandes e desafiantes, e lançando simultaneamente olhares desesperados na direcção de Cadfael, dizendo-lhe silenciosamente que precisava ajudá-la ou o seu querido ficaria enterrado no atoleiro! Por seu lado, também em silêncio, instigou-a a contar tudo imediatamente o que houvesse contra o filho, que nada deixasse por dizer, pois só assim poderia contra-atacar muito do que, de outro modo, poderia ser apresentado contra ele.

- Foi a primeira vez - disse Richildis. - E foi um encontro muito desagradável, mas Edwin procurou-o por minha causa. Não porque esperasse fazer mudar a decisão do meu marido, mas apenas para fazer as pazes por minha causa. Aqui o Meurig tem andado a tentar persuadi-lo a visitar-nos, e hoje conseguiu, e estou-lhe grato por todos os seus esforços, Mas o meu marido recebeu o rapaz cheio de má vontade e acusou-o de vir cortejá-lo para recuperar o solar prometido, porque foi realmente prometido!, e Edwin não pretendia nada disso. Sim, houve uma disputa! Estavam ambos exaltados e acabaram aos gritos. E Edwin foi-se embora, e o meu marido atirou-lhe com aquele prato... são aqueles cacos que vê junto à parede. É toda a verdade a respeito do que aconteceu, pode perguntar aos criados. Pergunte a Meurig, ele sabe. O meu filho saiu a correr de casa e voltou para Shrewsbury, estou certa, para onde agora sente ser a sua casa, com a irmã e família desta.

- Deixe ver se percebo bem - disse o sargento, de modo um tudo-nada suave e razoável de mais. - Saiu de casa pela cozinha, foi o que disse? Onde vocês três estavam sentados? - A inclinação de cabeça em direcção a Aldith e aos jovens foi rápida e incisiva, nada suave. - E viram-no sair de casa, sem parar pelo caminho?

Os três hesitaram um breve instante, cada um lançando olhares de soslaio aos outros, e isso foi um erro. Aldith, resignada, falou em nome de todos:

- Quando começaram a gritar e a atirar com as coisas, corremos os três lá para dentro, para tentar acalmar o nosso amo... ou, pelo menos, para...

- Para ficarem comigo e me darem um pouco de conforto - disse Richildis.

- E aí ficaram quando o rapaz saiu. - Estava contente por ter adivinhado e, embora involuntariamente, as faces deles eram uma confirmação. - Foi o que pensei. Leva tempo a acalmar um homem muito zangado. Assim, nenhum de vocês viu se o jovem parou na cozinha, nenhum pode afirmar que ele não tenha feito uma pausa para se vingar, envenenando o prato da perdiz. Ele tinha estado nessa manhã na enfermaria, onde já antes estivera, e podia bem saber onde encontrar o óleo e qual o poder deste. Pode ter vindo para este jantar preparado tanto para a paz como para a guerra, e falhou na tentativa de conseguir a paz.

Richildis abanou vigorosamente a cabeça.

- O senhor não o conhece! Era a minha paz que ele queria assegurar. E, além disso, poucos minutos depois, Aelfric correu atrás dele, para tentar trazê-lo de volta e, embora tenha ido quase até à ponte, não conseguiu alcançá-lo.

- É certo - disse Aelfric. - Não teve tempo de parar. Eu corri como uma lebre e gritava o seu nome, mas ele não voltou para trás.

O sargento não estava convencido.

- Quanto tempo leva a despejar um pequeno frasco num prato destapado? Uma volta com a colher, e quem poderia adivinhar? E quando o vosso amo se acalmou, sem dúvida que a dádiva do prior foi um óptimo e bem-vindo bálsamo para o seu orgulho, e comeu-o gostosamente.

- Mas como poderia o rapaz saber - perguntou Cadfael, interrompendo com cuidado - que o prato deixado na cozinha seria destinado apenas a Master Bonel? Dificilmente se arriscaria a atingir a mãe.

Mas a essa altura o sargento já estava demasiado convencido da sua caça para se deixar impressionar por tal argumento. Fixou Aldith com dureza e esta, apesar do seu carácter resoluto, empalideceu um pouco.

- Tendo de servir um grupo tão difícil, acha provável que a rapariga não aproveitasse a oportunidade de uma distracção agradável para o seu amo? Quando entrou para lhe servir a carne, não lhe falou da gentileza do prior, enaltecendo o cumprimento que lhe era feito e o mimo que o aguardava?

Aldith baixou os olhos e amarfanhou o canto do avental.

- Pensei que o poderia amaciar - disse, com desespero.

O sargento tinha tudo o que precisava, ou assim o pensava, para prontamente deitar a mão ao assassino. Lançou um olhar final sobre a sala em reboliço, depois disse:

- Bom. penso que podem pôr as coisas em ordem, pois já vi tudo o que havia para ver. O Irmão Enfermeiro está preparado para vos ajudar a cuidar do vosso morto. Se precisar de fazer mais perguntas, quero estar certo de vos encontrar aqui.

- E onde mais poderíamos estar? - perguntou Richildis, desanimadamente. - Que pretende fazer? Ao menos, prometa que me dirá o que for acontecendo, se... se resolver... - Não podia pôr aquilo em palavras. Endireitou as costas ainda erectas e flexíveis, e disse com dignidade: - O meu filho não teve qualquer papel nesta vilania, como irá descobrir. Ainda não tem quinze anos, é uma simples criança!

- A loja de Martin Bellecote, disse?

- Conheço-a - disse um dos guardas.

- Óptimo! Mostra-me o caminho, e vamos ver o que o rapaz tem a dizer em sua defesa. - E seguiram plenos de segurança para a porta e a caminho da estrada.

O Irmão Cadfael achou conveniente provocar pelo menos uma onda de perturbação no lago da complacência deles. - Há ainda o problema da vasilha para o óleo. Quem quer que o tenha furtado, quer tenha sido do meu armazém, quer da enfermaria, deve ter trazido um frasco para o pôr. Meurig, viu esta manhã em Edwin qualquer sinal de tal coisa? Você veio com ele da loja. Num bolso ou numa bolsa de pano, mesmo um pequeno frasco daria nas vistas.

- Não vi o menor sinal de tal coisa - disse Meurig com firmeza.

- E, além disso, mesmo bem tapado e embrulhado, aquele óleo é muito penetrante e deixa uma nódoa e um cheiro no sítio onde caia nem que seja uma gota, ou se for deixado no bocal do frasco. Dê atenção à roupa de todas as pessoas de quem suspeite neste caso.

- Está a ensinar-me a minha profissão, Irmão? - perguntou o sargento com um sorriso tolerante.

- Estou a mencionar certas peculiaridades que respeitam à minha profissão, e que podem ser-lhe de ajuda a si e evitar-lhe cometer erros - disse Cadfael placidamente.

- Com sua licença - disse o sargento, já da porta -, penso que iremos primeiro lançar a mão ao culpado. Logo que o tenhamos em nosso poder, duvido que precisemos dos seus eruditos conselhos. - E seguiu pelo pequeno atalho que levava à estrada onde os cavalos estavam amarrados, e os seus dois homens seguiram-no.

Ao fim da tarde, o sargento e os seus homens foram à loja de Martin Bellecote, nas margens do Wyle. O carpinteiro, um sujeito grande e simpático de trinta e muitos anos, ergueu amavelmente os olhos do trabalho e, sem espanto ou alarme, perguntou ao que vinham. Já uma ou duas vezes trabalhara para a guarnição de Prestcote, e a aparição na sua oficina de um oficial do meirinho não representava para ele qualquer ameaça. A sua mulher, jeitosa e de cabelo castanho, espreitou com curiosidade pela porta da casa que ficava para as traseiras, e três crianças saíram de lá a correr para, sem medo e francamente, examinarem os clientes. Uma rapariguinha sisuda de cerca de onze anos, um pequeno e maciço rapaz de mais ou menos oito, e uma menininha que parecia uma sílfide, com uma boneca de pau debaixo do braço, e que não podia ter mais de quatro anos. Os três ficaram a olhar e a ouvir. A porta que dava para a casa permanecia aberta, e o sargento tinha a voz forte e peremptória.

- O senhor tem cá um aprendiz chamado Edwin. O assunto que tenho a tratar é com ele.

- Tenho - concordou Martin com bons modos, ao mesmo tempo que levantava e sacudia o pó de resina das mãos. - Edwin Gurney, o irmão mais novo da minha mulher. Ainda não chegou a casa. Foi visitar a mãe junto a Forgate. Já deveria ter regressado, mas calculo que ela o tenha querido reter mais tempo consigo. Que lhe querem? - continuava absolutamente sereno; não tinha conhecimento de qualquer problema.

- Ele partiu de casa da mãe há mais de duas horas - disse cruamente o sargento. - É de lá que vimos. Não se ofenda, amigo, mas apesar de dizer que ele não está aqui, é meu dever passar uma busca para ver se o encontro. Dá-nos licença que procuremos na casa e no pátio?

A placidez de Martin desapareceu num segundo, e franziu pesadamente o sobrolho. Os cabelos castanhos-dourados da mulher apareceram novamente na porta de trás, e a face simpática e satisfeita ficara subitamente alerta e gélida, os olhos escuros olhavam atentos. As crianças olhavam sem vacilar. A mais pequena, a voz da justiça natural em oposição à lei, declarou com firmeza:

- Homem mau! - E ninguém a mandou calar.

- Quando afirmo que não está aqui - disse Martin frontalmente -, pode estar certo que é verdade. Mas pode também certificar-se pessoalmente. Casa, oficina e pátio, nada têm a esconder. Mas que esconde o senhor? O rapaz é meu irmão, da parte da minha mulher, e meu aprendiz por sua própria vontade, e é-me querido por ambas as razões. Bem, e por que o andam a procurar?

- Na casa junto aos Portões Principais que ele visitou esta manhã - disse o sargento de modo enfático -, Master Gervase Bonel, o padrasto que prometera deixar-lhe em herança o domínio de Mallilie e que mais tarde mudou de ideias, jaz neste momento morto, assassinado. E é por suspeita desse assassinato que quero esse jovem Edwin. Chega-lhe?

Chegava, até de mais, para o filho mais velho daquela casa até então feliz e, na sala interior, os seus ouvidos esticavam-se para apanhar esta notícia terrível e inexplicável. A lei com o nariz na pista de Edwin, e Edwin que devia ter regressado há muito, se tudo tivesse corrido razoavelmente bem! Há já algum tempo que Edwy andava inquieto e à espera de desastre, enquanto os seus pais tinham como certo que tudo estava bem. Antes que os oficiais pudessem entrar na casa, saiu apressadamente pela janela das traseiras que dava para o pátio, saltou como um esquilo por cima de uma pilha de tábuas e de um muro, e afastou-se numa corrida ligeira e silenciosa, em direcção à encosta que descia até ao rio e a uma das portas pequenas dos muros da cidade, aberta agora em tempo de paz, e que abria sobre a margem abrupta, não longe das vinhas do superior da abadia. Vários dos comerciantes da cidade que precisavam de armazenar mercadorias volumosas tinham ali depósitos rodeados de paliçadas, e entre estes estava o depósito de Martin Bellecote, onde a sua madeira ficava a secar. Era um velho refúgio para onde sempre corriam os dois rapazes quando lhes acontecia meterem-se em sarilhos, e era o lugar para onde Edwin se dirigiria se... oh, não, não se tivesse matado!, porque isso era ridículo!... Mas se tivesse sido rejeitado, ofendido, tornado miseravelmente infeliz ou loucamente zangado... Zangado quase ao ponto de matar, mas nunca, nunca, capaz de passar desse quase! Não estava no seu feitio.

Edwy correu, certo de não estar a ser seguido, e atirou-se sem fôlego para trás da paliçada de seu pai, caindo em pleno sobre os pés de um Edwin amuado, furioso, ensopado em lágrimas e terrivelmente vulnerável.

Edwin, talvez por causa dos vestígios de lágrimas, logo socou Edwy mal este se pôs novamente em pé e foi por sua vez socado de modo igualmente indignado. Em momentos de tensão, a primeira coisa que sempre faziam era lutar. Não significava nada, excepto que ambos estavam armados e alerta e, quem quer que depois se metesse no assunto faria melhor em ter cuidado, porque a prática que ganhavam um com o outro seria aperfeiçoada sobre esse alguém. Passados minutos, Edwy conseguia fazer chegar a sua mensagem a umas orelhas primeiro espantadas e nada receptivas, mas finalmente convencidas e perturbadas. Sentaram-se lado a lado para tecer frenéticos planos.

Aelfric apareceu no jardim das ervas uma hora antes do serviço de Vésperas. Cadfael regressara à sua solidão há menos de meia hora, depois de verificar que o corpo fosse lavado, preparado e transportado para a capela mortuária, que a casa em reboliço fosse posta novamente em ordem, que os perturbados membros da casa ficassem finalmente livres para se moverem à vontade, e pensarem e sofrerem conforme quisessem. Meurig partira de volta à loja na cidade, para contar ao carpinteiro e sua família, palavra por palavra, tudo o que acontecera, para todo o conforto ou aviso que isso lhes pudesse proporcionar. A essa hora, tanto quanto Cadfael sabia, os homens do meirinho tinham já apanhado o jovem Edwin... Oh, Deus, esquecera até o nome do homem com quem Richildis casara, e Bellecote era apenas o seu genro.

- Mistress Bonel pede - disse Aelfric muito sério - se pode ir falar com ela em particular. Roga-lhe, em nome de uma amizade de antanho, que seja seu amigo agora.

Não constituiu qualquer surpresa, Cadfael tinha a consciência de pisar terreno um tanto ou quanto perigoso, mesmo passados quarenta anos. Teria ficado muito mais feliz se a lamentável morte do marido dela não tivesse qualquer mistério, se o filho não estivesse em perigo e ele próprio nada tivesse a ver com o futuro dela, mas não havia nada a fazer. A sua juventude, uma grande parte das lembranças que tinham feito dele o homem que hoje era, estava em dívida para com Richildis, e agora que esta precisava de ajuda, nada podia fazer que não pagar com generosidade.

- Vou já - disse. - Vá indo à frente, que lá estarei dentro de um quarto de hora.

Quando bateu à porta da casa junto ao lago da azenha, esta foi aberta pela própria Richildis. Não se via sinal de Aelfric ou de Aldith; ela tomara precauções para que os dois pudessem falar absolutamente em particular. Na sala interior tudo estava limpo e arrumado, o caos da manhã desaparecera e a mesa de abas estava desarmada e posta a um lado. Richildis sentou-se na grande cadeira que fora de seu marido, e fez Cadfael sentar-se no banco a seu lado. Na sala havia pouca luz, pois só ardia uma pequena lamparina; a única outra luminosidade que havia vinha dos olhos dela, a luminosidade negra e brilhante que Cadfael recordava com mais clareza com cada momento que passava.

- Cadfael... - disse Richildis hesitante, e de novo ficou em silêncio por uns momentos. - Pensar que eras mesmo tu! Depois de saber que tinhas regressado, nunca mais ouvi palavra a teu respeito. Julgava que a estas horas devias estar casado e ser um grande senhor. Esta manhã, quanto mais olhava para ti mais procurava na memória por que razão estava tão certa de te conhecer... E, quando estava em pleno desespero, ouvi pronunciar o teu nome!...

- E tu - disse Cadfael - apareceste-me de forma igualmente inesperada. Nunca soube que tinhas enviuvado do Eward Gurney, recordo agora que era esse o seu nome!, e muito menos que tinhas casado de novo.

- Há três anos - disse Richildis, com um suspiro que tanto podia ser de pena como de alívio perante o fim súbito deste segundo enlace. - Não quero levar-te a pensares mal dele; Gervase não era mau homem, só um pouco velho e teimoso nas suas ideias e habituado a ser obedecido. Era viúvo, há muitos anos sem mulher, e sem filhos, pelo menos filhos desse casamento. Fez-me a corte durante muito tempo e eu sentia-me só e ele prometeu-me, sabes... Como não tinha herdeiro legítimo, prometeu-me que, se o aceitasse em casamento, nomearia Edwin seu herdeiro. O suserano dele deu o seu acordo. Devo primeiro falar-te da minha família. Tive uma filha, Sibil, logo um ano após ter casado com Eward, mas depois, não sei porquê, o tempo foi passando e não vieram mais filhos. Talvez recordes que Eward tinha o seu negócio em Shrewsbury, como mestre-carpinteiro e escultor. Era um bom artífice, um bom patrão e um bom marido.

- Foste feliz? - disse Cadfael, grato por ouvir aquilo da sua voz. O tempo e a distância tinham sido bons para ambos e tinham acabado por conduzi-los ao lugar que afinal lhes convinha.

- Muito feliz! Não podia ter sido melhor marido. Mas não tivemos mais filhos. Quando Sibil chegou aos dezassete anos, casou com o primeiro-oficial de Eward, Martin Bellecote, que é um óptimo rapaz também e, graças a Deus, foi tão feliz com o seu casamento como eu fui com o meu! Bom, então, dois anos mais tarde, a rapariga estava à espera de bebé, e eu sentia-me como se fosse jovem de novo, o primeiro neto!, é sempre assim. E andava tão feliz, a tomar conta dela e a fazer planos para o nascimento, e Eward estava tão orgulhoso como eu e, com uma coisa e outra, parecia até que nós os velhos éramos jovens recém-casados. E não sei como aconteceu, mas quando Sibil andava de quatro meses, descobri que estava de esperanças também! Depois de todos aqueles anos... era como um milagre! E a conclusão é que ambas tivemos rapazes e, embora haja uma diferença de quatro meses entre eles, mais poderiam ser gémeos que tio e sobrinho, e, ainda por cima, o tio era o mais novo! Até são parecidos, pois ambos saíram ao meu marido, desde que se seguraram em pé que têm sido unidos como irmãos, mais unidos que muitos irmãos, e ambos levados da breca. Esses são, pois, o meu filho Edwin e o meu neto Edwy. Ainda não fizeram quinze anos, nenhum deles. É para Edwin que peço a tua ajuda, Cadfael. Porque posso jurar-te que não fez, nem seria capaz de fazer, semelhante vilania, mas o homem do meirinho meteu na cabeça que foi Edwin quem pôs veneno naquele prato. Se o conhecesses, Cadfael, se ao menos o conhecesses, verias logo que é loucura.

E, ao ouvir-lhe a voz maternal e cheia de amor, era isso que parecia, mas tinha já havido rapazes com menos de quinze anos que tinham afastado os pais para desimpedir o seu próprio caminho, como Cadfael muito bem sabia. E este não era o próprio pai de Edwin, e o amor entre eles não era grande.

- Fala-me - disse - desse segundo casamento e do acordo que fizeram.

- Bom, Eward morreu quando Edwin tinha nove anos, e Martin tomou conta da loja, e dirige-a como anteriormente Eward o fazia, e como Eward lhe ensinou. Vivíamos todos juntos até que Gervase veio encomendar uns painéis para a sua casa, e enamorou-se fortemente de mim. E ele era também uma bela figura de homem, muito saudável, muito atencioso... Prometeu-me que, se o aceitasse, nomearia Edwin seu herdeiro, e deixar-lhe-ia Mallilie. E Martin e Sibil tinham por essa altura mais três filhos para criar e, com tantas bocas para alimentar, precisam de tudo o que o negócio pode dar, e pensei em ver Edwin arrumado para toda a vida.

- Mas não foi um sucesso - disse Cadfael -, o que é facilmente compreensível. Um homem que nunca teve filhos, e avançado de idade, e um rapaz cheio de vida em pleno crescimento... era de esperar que entrassem em luta.

- Era uma causa perdida - reconheceu com um suspiro. - Edwin, temo, fora amimado, e estava habituado a ter a sua liberdade e fazer o que queria, e levava o tempo a fugir com Edwy, como sempre fizera. E Gervase considerava o facto de ele andar com gente simples e artífices... considerava-os uma companhia inferior, muito baixa para um jovem que ia herdar um domínio, e era de esperar que isso irritasse Edwin, que ama os seus parentes. Não afirmo que não tivesse também alguns amigos menos respeitáveis! Discutiam diariamente. Quando Gervase lhe batia, Edwin fugia para a loja de Martin e ficava lá dias seguidos. E quando Gervase o fechava à chave, ou conseguia igualmente fugir, ou vingava-se de qualquer outro modo. Por fim, Gervase disse que como os gostos do rapaz obviamente se inclinavam para o simples comércio e andar à solta com todos os malandros da cidade, o melhor era ir embora e tornar-se seriamente aprendiz, pois só servia para aquilo. E Edwin, embora soubesse que ele não falava a sério, fingiu acreditar em tudo como tal, palavra por palavra, e foi-se embora e fez isso mesmo, o que pôs Gervase mais furioso que nunca. Foi nessa altura que ele jurou entregar por contrato o domínio à abadia, e viver aqui em retiro. "Ele não se interessa pelas terras que pretendia deixar-lhe", disse, "por que hei-de continuar a cuidar delas para as deixar a um ingrato?" E, ainda a ferver de fúria, logo tratou de tudo, fez o acordo e preparou-se para se mudar para cá antes do Natal.

- E que disse o rapaz a isso? Pois suponho que não tinha antes compreendido o que Gervase pretendia fazer.

- Pois não! Veio a correr, penitente, mas indignado também. Jurou que ama Mallilie, que nunca quisera desdenhá-lo, e que cuidaria bem dele se lhe viesse parar às mãos. Mas o meu marido, embora todos lhe rogássemos, não quis ceder. E Edwin estava ressentido porque lhe tinha sido feita aquela promessa, e uma promessa deve ser cumprida. Mas estava feito, e ninguém era capaz de levar o meu senhor a desfazer o que fizera. Como não era seu próprio filho, o consentimento de Edwin não foi pedido nem era necessário... e ele nunca o daria! Edwin voou de volta para junto de Martin e Sibil com os seus irados agravos, e não tornei a vê-lo até hoje, e quem me dera que não se tivesse hoje aproximado de nós. Mas veio, e vê agora como o homem do meirinho anda à caça dele como se fosse um vilão capaz de matar o marido da sua própria mãe! Tal ideia nunca entraria na cabeça daquela criança, juro, Cadfael, mas se o apanham... Oh, não posso nem pensar nisso!

- Não soubeste mais nada desde que daqui saíram? As notícias correm depressa por aqui. Penso que, se o tivessem encontrado em casa, já o teríamos sabido.

- Nem uma palavra. Mas que para outro sítio poderia ter ido? Não tinha razão para se esconder. Fugiu daqui sem nada saber do que iria acontecer depois da sua partida, e estava apenas sentido com a animosidade com que fora recebido.

- Então, talvez não quisesse chegar a casa em tal estado de espírito, não antes de se acalmar. As criaturas feridas escondem-se até lhes passar o medo e o sofrimento. Conta-me tudo o que aconteceu durante esse jantar. Parece que Meurig tem sido o intermediário entre vós, e que tentava levá-lo a fazer as pazes. Mencionou-se algo a respeito de uma anterior visita...

- Não a mim - disse Richildis, com tristeza. - Os dois vieram trazer a galeria que Meurig andara a fazer para a capela de Nossa Senhora, e Meurig levou o meu rapaz com ele quando foi ver o velho monge seu parente. Tentou nessa altura convencer Edwin a vir ver-me, mas este não quis. Meurig é um bom sujeito e fez tudo o que pôde. Hoje conseguiu finalmente persuadir Edwin a vir, e vê o que daí resultou! Gervase ficou exultante com isso, e foi monstruosamente injusto, troçou do rapaz por ter vindo como um mendigo para rogar que o aceitasse de novo para assim reaver a herança, e não era essa a intenção de Edwin. Preferiria morrer! "Eis-te por fim domado!", disse Gervase, "bom, se te puseres de joelhos", disse, "e pedires perdão pelo atrevimento, quem sabe, talvez eu reconsidere. Põe-te de rastos", continuou, "e mendiga o teu domínio senhorial!" E assim prosseguiu, até que Edwin gritou que não estava domesticado nem nunca o seria por um velho monstro mau, tirânico e mesquinho... o que asseguro-te - e deu um suspiro sem esperança -, Gervase não era; era apenas teimoso e mal-humorado. Oh, não posso contar-te tudo o que gritaram um ao outro! Mas uma coisa te digo, é que hoje foi preciso ser muito espicaçado para Edwin perder a Paciência, e isso é algo a seu favor. Queria aguentar por amor de mim, mas foi demasiado para ele. Por isso disse o que tinha a dizer, em voz bem alta, e Gervase atirou-lhe com o prato e uma caneca também, e então Aldith, Aelfric e Meurig entraram por ali dentro e tentaram ajudar a acalmá-lo. E Edwin correu para a rua... e é tudo.

Cadfael permaneceu um momento em silêncio, ruminando a respeito desses outros membros da casa. Um rapaz temperamental, orgulhoso e ofendido, parecia-lhe um suspeito possível se Bonel tivesse sido abatido a soco ou até à facada mas, como envevenador, era pouco provável. Certo que o rapaz estivera duas vezes na enfermaria com Meurig, e que provavelmente vira onde os remédios eram guardados, que tinha motivo para agir e que tivera a oportunidade; mas o temperamento secreto, sombrio e amargo de um envenenador era certamente uma coisa impossível em tal jovem, devido a toda a sua educação, trato aberto, autoconfiança e boa opinião a respeito de si próprio. Afinal de contas, havia ainda aqueles outros que tinham estado igualmente presentes.

- A rapariga, Aldith, está contigo há muito?

- É uma parente afastada - disse Richildis, tão admirada que quase sorriu. - Conheço-a desde criança, e tomei conta dela quando ficou órfã, há dois anos. É como se fosse minha própria filha.

Era o que suposera, ao ver Aldith tão protectora enquanto esperavam a lei.

- E Meurig? Ouvi que outrora estava também na casa de Master Bonel, antes de ir trabalhar para o teu genro.

- Meurig... ah, bom, sabes, com Meurig passa-se o seguinte: A mãe era uma criada de servir galesa que trabalhava em Mallilie e, como muitas outras, teve um filho do amo. Sim, ele é filho natural de Gervase. A primeira esposa do meu senhor devia ser estéril, pois Meurig é o único filho por ele gerado, a menos que haja mais um ou dois algures lá pelo condado, e de quem não tenhamos ouvido falar. Gervase sustentou Angharad decentemente até à sua morte, mandou cuidar de Meurig e deu-lhe emprego nos seus domínios. Quando me casei - admitiu Richildis - não me sentia muito à vontade com ele. Um rapaz tão bom, cheio de boa vontade e bons sentimentos, e sem direito a qualquer parte daquilo que era de seu pai, parecia-me duro de aceitar. Não que jamais se tenha queixado! Mas perguntei-lhe se não gostaria de ter o seu próprio negócio, algo para toda a vida, e respondeu-me que sim. Por isso persuadi Gervase a deixá-lo ir trabalhar com Martin, para que este lhe ensinasse tudo o que sabe. E, quando Edwin fugiu da nossa casa, pedi efectivamente a Meurig - disse, com um tremor na voz - que tomasse conta dele e tentasse convencê-lo a fazer as pazes com Gervase. Nunca esperei que o meu filho desistisse da arte que resolvera aprender, até porque é pessoa perfeitamente capaz de abrir o seu próprio caminho. Eu queria apenas tê-lo de volta. Uma altura houve em que me acusou, porque, tendo de escolher entre eles, eu escolhera o meu marido. Mas eu estava casada com ele... e tinha pena dele... - a voz faltou-lhe e, por um momento, permaneceu em silêncio. - Tenho dado graças por ter Meurig, que sempre continuou amigo de nós os dois.

- Ele entendia-se bastante bem com o teu marido, não? Não havia ressentimentos entre eles?

- O quê, não, nem sombra! - estava espantada com a pergunta. - Entendiam-se com calma e sem problemas. Gervase era generoso com ele, sabes, embora nunca lhe tenha prestado grande atenção. E dá-lhe uma pensão decente... isto é, dava... Oh, como se irá ele agora arranjar, se isso acabar? Vou precisar de um conselheiro; a lei, para mim, é uma confusão...

Nada havia ali de suspeito, pelos vistos, apesar de Meurig saber muito bem onde conseguir o veneno. Aelfric também sabia, pois estivera no barracão e vira-me a dá-lo ao irmão enfermeiro. E, ao que parecia, com a morte de Bonel, Meurig só tinha a perder. Bastardos dos senhores dos domínios existiam aos montes por todo o lado, e o senhor que só tinha um fora francamente modesto e abstémio; e um ilegítimo instalado num negócio com possibilidade de expansão e uma pensão para se sustentar, era uma pessoa com sorte e não tinha razão de queixa. No fundo, tinha até boas razões para lamentar o falecimento do pai.

- E Aelfric?

A escuridão do exterior fazia parecer mais brilhante a luz da pequena lamparina; a face oval e grave de Richildis sobressaía nesse pálido fulgor, os olhos eram redondos como luas.

- Aelfric é um caso difícil. Não deves pensar que o meu marido era pior que os outros homens da sua classe, ou que jamais se tenha conscientemente apropriado de algo que lhe não fosse devido por lei. Mas a lei, por vezes, tem falhas. O pai de Aelfric, ao nascer, era um homem livre, tal como tu ou eu, mas era o filho mais novo de uma família cuja propriedade quase não chegava nem para um. E, quando o seu pai morreu, para a não dividir, o pai de Aelfric deixou-a por inteiro para o irmão e tomou conta da propriedade de um vilão que morrera sem herdeiros. Essa propriedade ficava nos domínios de meu marido. Tomou-a com contrato como vilão, com as obrigações do costume, mas sempre considerando que, ao fazer um serviço de vilão por sua própria vontade, mantinha o seu status de homem livre. E Aelfric era também um filho mais novo e, quando a família se tornou suficientemente grande para cuidar da propriedade sem a sua ajuda, estupidamente aceitou ir trabalhar para o solar. Assim, quando chegou a altura de entregar o domínio e vir para aqui, Gervase escolheu-o para seu criado pessoal, pois era o melhor e mais perfeito que tínhamos. E quando Aelfric disse preferir ir para qualquer outro lado procurar emprego, Gervase pôs-lhe uma questão na justiça, alegando que ele era vilão, pois tanto o seu pai como o irmão cumpriam as obrigações do costume em relação às terras de que tomavam conta. E a corte concordou que assim era, e que Aelfric era apenas servo, apesar de seu pai ter nascido homem livre. Mas custa-lhe aceitar o caso - disse Richildis, pensativa. - Nunca antes se sentira Um vilão; era um homem livre que trabalhava em troca de um salário. Muitos e muitos já se têm visto no mesmo caso, nunca tendo sonhado em perder a liberdade até ao momento em que efectivamente a perderam.

O silêncio de Cadfael atormentou-a. Cadfael estava a pensar que ali estava outra pessoa com amargo ressentimento, que sabia onde encontrar o veneno e que, mais que qualquer outro, tivera a oportunidade; mas o espírito de Richildis estava no doloroso quadro que acabava de descrever, e tomou aquele silêncio como censura ao marido morto, censura que ele não tinha coragem de exprimir em voz alta. Corajosamente, apesar de já não ter afeição ao marido, procurou ao menos prestar-lhe justiça. - Estás errado se pensas que a culpa é toda dele. Gervase estava crente que defendia apenas os seus direitos, e a lei concordou com ele. Nunca tive conhecimento de ele alguma vez ter conscientemente lesado os interesses de alguém, mas não abdicava do que lhe era devido. E Aelfric agrava a sua própria situação. Gervase nunca lhe ralhava ou o pressionava, pois Aelfric trabalhava bem por natureza. Mas, agora que não é livre, cumpre teimosamente o trabalho servil até ao mínimo pormenor, a toda a hora faz propositadamente sentir a sua condição de vilão... não é servilismo, mas arrogância, e faz deliberadamente ressoar as suas grilhetas. E com isso tornou-se verdadeiramente ofensivo, e estou convencida que acabaram por se odiar mutuamente. E depois, há também Aldith... Oh, Aelfric nunca lhe diz uma palavra sobre o assunto, mas eu sei! Ele segue-a com os olhos como se o coração lhe quisesse fugir por eles. Mas que tem ele para oferecer a uma rapariga como ela? Mesmo que Meurig não lançasse também os olhos nessa direcção, e com a vantagem de ser companhia muito mais agradável. Oh, Cadfael confesso que tenho tido inúmeros problemas e sofrimentos com esta minha casa. E agora isto! Por favor, ajuda-me! Se não fores tu, quem o fará? Ajuda o meu rapaz! Creio sinceramente que, se quiseres, poderás fazê-lo.

- Posso prometer-te - disse Cadfael depois de escrupulosa reflexão - que tudo farei para descobrir o assassino do teu marido. Que o farei, seja ele quem for. Isso basta-te?

Respondeu:

- Sim! Eu sei que Edwin está inocente. Tu ainda não, mas hás-de sabê-lo!

- Linda menina! - disse Cadfael, do coração. - É assim que me lembro de ti no passado. E, neste mesmo momento, antes de eu próprio saber aquilo que tu já sabes, posso prometer-te uma coisa mais. Sim, ajudarei o teu filho, culpado ou inocente, até ao máximo das minhas capacidades, embora não possa ocultar a verdade. Está bem?

Richildis anuiu com a cabeça, incapaz de falar. De repente liam-se-lhe na cara todas as tensões não só daquele dia desastroso, como de muitos outros antes dele.

- Temo -disse Cadfael com doçura-, que, ao casar com o senhor de um solar, te tenhas afastado demasiado dos teus.

- E foi mesmo! - respondeu, e finalmente rebentou em pranto incontrolável e chorou no ombro dele de forma alarmante.

 

A caminho do serviço de Vésperas, o Irmão Denis, do serviço de acolhimento, que sempre sabia todas as novidades da cidade, pois lhe eram contadas pelos viajantes que vinham à abadia, contou que a história da morte de Bonel e da caça ao enteado corria em toda a cidade de Shrewsbury, e que o oficial do meirinho nada encontrara na loja de Martin Bellecote. Uma busca minuciosa da casa não revelara qualquer sinal do rapaz e o oficial mandara apregoar pela cidade a pedir ajuda para o procurarem; mas. se a populaça se juntasse à caçada com o zelo usual pela lei do meirinho, certamente o pregoeiro estava a gastar inutilmente o fôlego. Um rapaz com menos de quinze anos e conhecido de muita gente da cidade, e contra quem só havia a apontar uma ou outra simples maroteira... não, era pouco provável que abdicassem do sono para ajudarem na sua captura.

A Cadfael, não menos do que ao oficial do meirinho, parecia que o mais urgente era encontrar o rapaz. As mães não são imparciais, especialmente em relação a filhos únicos, filhos nascidos tarde na vida, depois de se ter perdido a esperança de vir a tê-los. Cadfael, antes de avançar com o caso, sentia forte desejo de vê-lo e ouvi-lo, e julgar por si próprio.

Richildis, aliviada depois do ataque de pranto, explicara-lhe onde se encontrava a loja e a casa do genro e, graças a Deus, ficava na extremidade da cidade que ficava próxima da abadia. Uma pequena caminhada junto ao lago da azenha, atravessar a ponte, passar os portões da cidade que ficavam abertos até depois do último serviço da noite, e uma subida de dois minutos ao longo do íngreme e serpenteante rio Wyle e levá-lo-iam até às instalações de Bellecote. Meia hora para ir e voltar. Depois da ceia, de uma ceia rápida, sairia sorrateiramente, faltando à oração de graças - e o perigo não era grande, pois em princípio o Prior Robert deveria estar ausente, aproveitando as regalias da sua posição como superior interino, e deixando a direcção mundana do convento ao Irmão Richard que de certeza se não imiscuiria em algo que poderia traduzir-se em aborrecimentos para si.

A ceia compunha-se de peixe salgado com legumes, e Cadfael despachou-a sem lhe dar grande atenção, após o que se apressou a atravessar o grande pátio e a passar os portões. O ar estava frio, mas dificilmente se poderia considerar gelado e, até à data, ainda não caíra qualquer neve. Em todo o caso, protegera os pés dentro das sandálias com faixas de lã bem amarradas, e puxara o capuz para proteger a cabeça.

Os guardiões das portas da cidade, que o conheciam bem, saudaram-no cheios de respeito e prazer em vê-lo. Seguiu Wyle acima e voltou à direita, entrando no pátio aberto que pertencia à casa de Bellecote. Depois de bater à porta que se encontrava fechada, seguiu-se prolongado silêncio que Cadfael bem podia compreender, pelo que evitou bater de novo. Um grande barulho serviria apenas para os alarmar. A paciência talvez lhes desse mais a sensação de segurança.

A porta abriu-se cautelosamente pondo à vista uma reservada jovem de cerca de onze anos, muito aprumada e alerta apesar da preocupação que reinava na família; e certamente que todos os elementos desta estavam algures atrás da rapariga, de orelhas esticadas. Era esperta, vulnerável, e estava bem ensinada; viu o negro hábito beneditino, respirou fundo e sorriu.

- Venho da parte de Mistress Bonel, pequena - disse Cadfael -, com um recado para o teu pai, se ele me quiser receber. Não está aqui mais ninguém, podes estar certa.

Abriu a porta com a dignidade de uma grande dama e deixou-o entrar. Thomas, de oito anos, e Diota, de quatro, naturalmente as criaturas menos receosas de toda a família, saíram de trás das suas saias para o examinarem com olhos grandes e inocentes, antes de o próprio Martin Bellecote aparecer por uma porta ligeiramente iluminada. Puxou as crianças mais pequenas para junto de si, uma de cada lado, e pôs-lhe as mãos protectoramente sobre os ombros. Um homem com um ar simpático, robusto, de mãos grandes, a face aberta e sã, em cujos olhos se lia profunda reserva, o que Cadfael gostou de ver. Num mundo imperfeito como o nosso, uma confiança exagerada é loucura.

- Entre, irmão - disse Martin -, e tu, Alys, fecha a porta e põe-lhe a tranca.

- Perdoe-me se for directo ao assunto - disse Cadfael quando a porta foi fechada -, mas o tempo é curto. Vieram cá hoje à procura de um rapaz, e contaram-me que não foi encontrado.

- É verdade - disse Martin. - O rapaz não apareceu cá em casa.

- Não vou perguntar onde está. Não me conte nada. Mas queria perguntar-lhe, a si, que o conhece: acha possível que tenha cometido aquilo de que o acusam?

A mulher de Bellecote apareceu, de vela na mão, vinda de outra sala. Uma mulher suficientemente parecida com a mãe para se reconhecer que era sua filha, mas de feições mais suaves e mais arredondadas, e de tez mais clara, embora com os mesmos olhos cheios de honestidade. Disse com indignada convicção:

- Absolutamente impossível! Se jamais houvesse pessoa no mundo que mostrasse claramente os seus sentimentos e que sempre agisse às claras, essa pessoa é o meu irmão. Desde o tempo em que era ainda bebé de colo. se tinha qualquer queixa, toda a gente em redor ficava a sabê-la, mas nunca guardou rancores. E o meu próprio rapaz é igual.

É verdade, claro, faltava ainda o desconhecido Edwy, além do invisível Edwin. Não havia ali sinal de qualquer deles.

- A senhora deve ser a Sibil - disse Cadfael. - Estive há pouco com a sua mãe. E quanto a credenciais minhas... alguma vez ouviu falar de um certo Cadfael que ela conheceu quando era rapariga?

A luz da vela reflectiu-se-lhe nos olhos que subitamente ficaram muito abertos e luzentes, devido ao espanto e à cândida curiosidade.

- O senhor é Cadfael? Sim, falava muitas vezes de si, e perguntava-se... - observou-lhe o negro hábito e o capuz, e o sorriso transformou-se num olhar cheio de delicada simpatia. Claro! De modo tipicamente feminino, estava a pensar que Cadfael, quando regressara a casa de volta das guerras sagradas e encontrara casada a sua antiga amada, certamente o coração se lhe despedaçara, e por isso tomara tais votos. Era inútil dizer-lhe que a vocação pode cair do céu como uma seta lançada ao acaso por Deus, e que raramente é motivada por amores não correspondidos. - Oh, deve ser um conforto para ela - disse calorosamente Sibil -, tê-lo perto nesta terrível prova. Em si, ela tem confiança!

- Espero que sim - disse Cadfael em tom grave. - Só sei que pode tê-la. Vim apenas para lhes dizer que estou ao vosso dispor para o que necessitarem; já lhe disse o mesmo a ela. O produto que usaram para matar era da minha autoria, pelo que estou envolvido no assunto. Por essa razão, estarei do lado de qualquer pessoa que seja injustamente considerada suspeita. Farei tudo o que puder para descobrir o culpado. Se você, ou qualquer outra pessoa, tiver qualquer razão para querer falar-me, algo a contar-me, algo a perguntar-me, poderá normalmente encontrar-me, durante os intervalos entre os serviços religiosos, no barracão do jardim das ervas, onde hoje tenciono ficar até ir para o serviço de Matinas, à meia-noite. O vosso empregado Meurig, mesmo que ainda não tenha estado na minha cabana, conhece bem a abadia. Ele está cá?

- Está - disse Martin. - Dorme no barracão do lado de lá do pátio. Contou-nos o que hoje se passou na abadia. Mas dou-lhe a minha palavra de honra, que nem ele nem nós pusemos os olhos no rapaz depois de este ter fugido da casa da mãe. Tudo o que sabemos, e sem qualquer dúvida, é que ele não é um assassino nem nunca poderia vir a sê-lo.

- Então durmam sossegados - disse Cadfael -, porque Deus não dorme. E agora, Alys, abre-me a porta sem barulho, e torna a trancá-la depois de eu sair, mas tenho de despachar-me para chegar a tempo do último serviço.

A rapariguinha, de olhos muito arregalados, abriu o trinco e segurou na porta. Os pequenitos ficaram a vê-lo sair, mas sem qualquer medo ou hostilidade. Os pais nada mais disseram além de um calmo "Boa noite!", mas Cadfael, enquanto se apressava ao longo do Wyle, sabia que a sua mensagem fora recebida e compreendida por aquela família em crise.

- Mesmo que precise desesperadamente de preparar até amanhã uma nova dose de xarope para a tosse - disse cheio de razão o Irmão Mark, ao sair com Cadfael do último serviço da noite -, há alguma razão para que não seja eu a preparar-lha? Há alguma necessidade de o irmão, depois do dia que teve, ter ainda de aguentar toda a noite a labutar nos jardins? Ou pensa que já esqueci onde temos o verbasco, a doce mirra, a arruda, o rosmaninho e a mostarda? - O recital dos ingredientes era parte do seu argumento. Aquele jovem estava a desenvolver um sentimento de responsabilidade um tanto ou quanto possessivo em relação ao homem mais velho, - Tu és jovem - disse o Irmão Cadfael - e precisas dormir.

- Abstenho-me - disse o Irmão Mark prudentemente - de lhe dar a resposta óbvia.

- Também acho melhor. Muito bem. Então, tens cara de ter um princípio de constipação, e deves ir para a cama.

- Não tenho - discordou, com firmeza, o Irmão Mark. - Mas, se está a querer dizer-me que tem em mãos um trabalho de que prefere não me falar, então, muito bem, vou um pouco para a sala como um sujeito bem comportado, e depois para a cama.

- Nunca te poderão acusar daquilo de que nada sabes - disse o Irmão Cadfael, em tom conciliatório, - E não há nada em que o possa ajudar, mesmo permanecendo em santa ignorância? Quando me mandaram trabalhar nos jardins sob as suas ordens, disseram-me que tinha de lhe obedecer em tudo.

- Sim - disse Cadfael. - Podias ver se me arranjavas um hábito mais ou menos do teu tamanho e, antes de ires dormir, escondia-lo na minha cela, debaixo da cama. Talvez não venha a ser preciso, mas...

- Basta! - O Irmão Mark mostrava-se bem-disposto e sem curiosidade, mas isso não era prova de que a sua cabeça não estivesse a trabalhar depressa e bem. - Não precisará também de uma tesoura para a tonsura?

- Estás a ficar muito atrevido - observou Cadfael, mas em tom de aprovação e não de censura. - Não, duvido que a ideia fosse bem recebida. Vamos confiar no capuz e numa manhã fria. Vai embora, rapaz, vai gozar a tua meia hora na sala quentinha e depois vai para a cama.

A preparação do xarope, fervendo muito tempo a fogo lento com ervas secas e mel, tornava necessário o uso do braseiro; se surgisse a necessidade de um hóspede passar a noite no barracão, ficaria bastante confortável até de manhã. Sem pressas, Cadfael pisou as ervas até transformá-las em pó e começou a mexer a mistura de mel sobre o braseiro. Não tinha qualquer certeza de que a isca que lançara fosse mordida, mas não restavam quaisquer dúvidas quanto ao facto de o jovem Edwin Gurney precisar urgentemente de um amigo e protector que o ajudasse a sair do atoleiro em que caíra. Nem mesmo tinha a certeza de que a família Bellecote soubesse onde encontrá-lo. Mas Cadfael tinha um forte pressentimento de que aquela Alys, de onze anos, dignidade de matrona e silêncio virginal, mesmo que o irmão não lhe tivesse feito confidências, certamente conhecia muito bem aquilo que este provavelmente considerava serem segredos seus. Se o que Richildis contara acerca dos rapazes era verdade, onde Edwy estivesse aí estaria também Edwin. Quando um estivesse ameaçado de sarilhos, o outro estaria a seu lado. Era uma virtude que Cadfael firmemente aprovava.

A noite não tinha qualquer vento, o que significava geada forte pela madrugada. O silêncio era apenas interrompido pelo leve borbulhar do xarope e um esporádico roçagar da sua própria manga enquanto o mexia. Começava a pensar que o peixe não mordera o isco quando, passava já das dez horas e na mais negra das escuridões, sentiu o som ténue e lento produzido pelo trinco da porta ao ser levantado. Um sopro de ar frio entrou quando abriram uma nesga da porta, uma nesga tão fina como um cabelo. Continuou sentado quieto sem dar qualquer sinal de ter notado; aquela coisinha selvagem e assustada podia facilmente alarmar-se. Um momento mais tarde, uma voz leve, jovem e cautelosa murmurou num tom pouco mais alto que um sussurro: -Irmão Cadfael...?

- Estou aqui - disse calmamente Cadfael. - Entra que és bem-vindo.

- Está só? - segredou a voz - Estou. Entra e fecha a porta.

O rapaz entrou cheio de timidez e puxou a porta, mas Cadfael reparou que não a fechou com o trinco.

- Disseram-me... - Não ia dizer quem. - Disseram-me que falou esta noite a minha irmã e irmão, e que afirmou que estaria aqui esta noite. Eu preciso realmente de um amigo... O senhor disse que conheceu a minha av... a minha mãe, há muitos anos, que é o Cadfael de quem ela tantas vezes fala, aquele que foi numa cruzada... Juro que nada tive a ver com a morte do meu padrasto! Nem sabia que algo de mal lhe tinha acontecido, até que me contaram que os homens do meirinho andavam à caça de mim por assassínio. O senhor disse que a minha mãe podia considerá-lo um bom amigo e contar com a sua ajuda, por isso vim ter consigo. Não tenho mais ninguém para quem me virar. Ajude-me! Por favor, ajude-me!

- Vem para junto do fogo - disse Cadfael com doçura - e senta-te aqui. Respira fundo e responde-me verdadeira e solenemente a uma pergunta, e depois conversamos. Jura-me pela tua alma! Foste tu quem desferiu o golpe que fez Gervase Bonel cair morto no seu próprio sangue?

O rapaz tinha-se cautelosamente sentado na beira do banco, ligeiramente fora do alcance. A luz do braseiro, ao incidir-lhe na face, revelou um jovem ágil e magro, delgado mas alto para a idade, vestindo as calças compridas e justas e a túnica curta usada pelos rapazes da terra, com o capuz tombado sobre as costas, deixando a descoberto um maciço emaranhado de cabelo encaracolado. Àquela luz avermelhada, parecia castanho, cor de mogno, mas à luz do dia devia ter o tom mais suave da madeira seca de carvalho. A face tinha o queixo e bochechas ainda infantilmente arredondadas, mas uma bela estrutura óssea começava a dar-lhe um potencial de homem. Naquele momento a cara parecia demasiado grande, com os olhos cautelosos fitando o Irmão Cadfael sem pestanejar.

De um modo profundamente sério e veemente, o rapaz disse:

- Nunca levantei a mão contra ele. Insultou-me na frente da minha mãe e odiei-o por isso, mas não lhe toquei. Juro pela minha alma!

Mesmo os novos, quando espertos e cheios de medo, sabem recorrer a toda a espécie de astúcias para se protegerem, mas Cadfael estava pronto a jurar que ali não havia qualquer falsidade. O rapaz não sabia realmente de que modo Bonel fora assassinado; isso não fora contado â família, nem apregoado pelas ruas, e assassinato, na maioria dos casos, significa um golpe rápido de adaga desferido em plena ira. O rapaz aceitara essa probabilidade sem a mínima dúvida.

- Muito bem! Conta-me agora a tua história pessoal sobre o que hoje aconteceu naquela casa, que eu quero ouvir.

O rapaz passou a língua pelos lábios e começou. O que tinha a narrar condizia com a história de Richildis; fora com Meurig, levado pela bem-intencionada insistência deste com a intenção de, por amor à mãe. fazer as pazes com Bonel. Verdade que ficara muito sentido e zangado por lhe terem tirado a herança prometida, pois amava Mallilie e tinha lá bons amigos e, quando lhe viesse para as mãos, faria todos os possíveis para governar bem o domínio, e com justiça; mas também estava a aprender bem a sua arte, e o seu amor-próprio não lhe permitia cobiçar algo que não podia ter, ou humilhar-se perante o homem que lhe tirara o que se comprometera sob palavra a dar-lhe. Mas gostava muito da mãe. Por isso fora com Meurig.

- E foste primeiro com ele à enfermaria - mencionou Cadfael para ajudar - ver Rhys, o seu velho parente.

O rapaz fez súbita pausa, motivada pela surpresa e incerteza. Foi então que Cadfael, de modo muito suave e casual, se levantou do lugar junto ao braseiro e começou a passear pelo barracão. A porta, apenas encostada, não parecia chamar-lhe a atenção, mas estava bem consciente da nesga de frio e escuridão que por ali entrava.

- Sim... eu...

- E já uma vez antes, não foi, tinhas lá estado com ele, quando ajudaste Meurig a trazer a galeria para Lady Chapei.

A sua expressão iluminou-se, embora as sobrancelhas continuassem ansiosamente franzidas.

- Sim, a... sim, trouxemo-la junto para cá. Mas, que tem isso... Cadfael, no seu passeio, chegara junto à porta e pousara a mão no fecho, curvando os ombros como preparando-se para fechar e trancar mas, em vez disso, abriu-a repentinamente sobre a noite e estendeu para fora a mão livre, fechando-a sobre um punhado de cabelo forte e hirsuto. Foi recompensado com um guincho abafado de indignada ofensa, e a criatura que estava lá fora abruptamente desistiu da fuga que o choque lhe sugerira, endireitou-se e seguiu aquela mão para dentro do barracão. Em certa medida, fez uma entrada magnificente, muito direito, o queixo esticado e os olhos a faiscar, ignorando de modo altaneiro o punhado de caracóis seguro por Cadfael, e que devia ser doloroso.

Era um jovem esguio, atlético, ofendido, a cópia do outro, apenas talvez um pouco mais moreno e desafiante, por estar mais assustado e ofendido com esse medo.

- Master Edwin Gurney? - perguntou docemente o Irmão Cadfael com um gesto quase de carícia, libertou o punhado de abundante cabelo castanho. - Tenho estado à sua espera. - Fechou a porta, desta vez por completo; não havia agora lá fora mais ninguém para ficar à escuta e usar como aviso aquilo que ouvisse, tal um pequeno animal perseguido, escondendo-se na noite onde os caçadores se movem. - Bom, agora que já cá estás, senta-te junto do teu gémeo... é sobrinho ou tio? Nunca conseguirei habituar-me a distingui-los!... e põe-te à vontade. Cá dentro está mais quente que lá fora, e vocês são dois, e acabam de fazer-me gentilmente recordar que já não sou tão jovem como era. Não tenciono pedir ajuda para tratar convosco. Por que não havemos de confrontar as nossas versões da verdade, e ver ao que isso nos pode levar?

O segundo rapaz, tal como o primeiro, não tinha capote e tremia ligeiramente de frio. Esfregando as mãos entorpecidas, veio de boa vontade para o banco junto ao braseiro, e sentou-se submisso junto ao colega. Postos assim, lado a lado, Via-se terem forte semelhança familiar, semelhança onde Cadfael podia discernir subtis recordações da jovem Richildis, mas não eram tão parecidos que, quando juntos, pudessem provocar qualquer confusão. Contudo, encontrar um sozinho podia apresentar um problema de identificação.

- Portanto, como pensei - observou Cadfael -, Edwy tem estado a desempenhar o papel de Edwin em meu benefício, de modo a que este pudesse ficar fora da ratoeira, se de ratoeira se tratasse, e mostrar-se apenas quando estivesse certo de que não tinha qualquer intenção de o aprisionar e entregar ao meirinho. E também é verdade que Edwy estava bem ensinado...

- O que o não impediu de fazer uma rica baralhada - comentou Edwin, com um desprezo cândido e tolerante.

- Isso é que não fiz! - retorquiu Edwy acaloradamente. - Só me contaste metade da história. Que esperavas que respondesse quando o Irmão Cadfael me fez perguntas a respeito da minha ida esta manhã à enfermaria. Não me tinhas dito nem uma palavra a esse respeito.

- Por que o teria feito? Nem disso me lembrei... que importância podia ter? Mas não deixaste de fazer uma baralhada. Ouvi-te começar a dizer avó em vez de mãe... sim, e "eles" em vez de "nós". E também o Irmão Cadfael ouviu, senão, como poderia ter adivinhado que eu estava lá fora à escuta?

- Ouvi-te a ti, é claro! A bufar como um velho asmático, e a tremer - acrescentou Edwy para não lhe ficar atrás.

Não havia qualquer animosidade nesta troca de palavras; eram os carinhos normais entre aqueles dois que, contudo, certamente lutariam até à morte um pelo outro se qualquer deles fosse ameaçado por um terceiro. Quando Edwin deu ao sobrinho um soco directo e doloroso nos músculos do braço, não havia qualquer maldade no gesto, nem quando Edwy prontamente agarrou Edwin pelo ombro quando o equilíbrio deste estava menos firme, atirando-o ao chão.

Cadfael agarrou em ambos pelo cachaço e, com firmeza, instalou-os de novo no banco, a um metro de distância um do outro, não por estar seriamente exasperado, antes para proteger o xarope que continuava a borbulhar docemente. A curta briga esquecera-os e afastara magicamente o medo para longe; sentaram-se sorridentes, apenas ligeiramente envergonhados.

- Querem fazer o favor de ficar um momento quietos, e deixar-me vê-los bem? Tu, Edwin, és o tio, e o mais novo... sim, já vos distingo um do outro. Tu és mais moreno e de constituição mais robusta, e calculo que os teus olhos sejam castanhos. E os de Edwy...

- Cor de avelã - disse Edwin para ajudar.

- E tens uma pequena cicatriz junto à orelha, perto do osso de face Um pequeno crescente branco.

- Ele caiu de uma árvore, há três anos - informou Edwin - Nunca soube trepar bem.

- Basta de discussões! Master Edwin, agora que estás aqui e já sei reconhecê-lo, deixe-me fazer-lhe a mesma pergunta que há pouco fiz ao seu substituto. Pela sua alma e honra, foi você que desferiu o golpe que matou Master Bonel?

O rapaz fitou-o com grandes olhos subitamente muito solenes, e disse em tom firme:

- Não fui. Nunca ando armado e, mesmo que andasse, porque iria fazer-lhe mal? Sei o que devem andar a dizer de mim, que lhe tinha raiva por ele ter faltado à palavra dada, pois realmente faltou. Mas eu não nasci para ter solar, mas sim uma arte, e posso ganhar a vida, e teria até vergonha se não pudesse. Não, não sei quem o feriu de morte... como pôde isso acontecer tão repentinamente?... mas não fui eu. Juro pela salvação da minha alma!

Por essa altura, Cadfael já pouco duvidava dele, mas ainda não deu qualquer sinal.

- Conta-me o que aconteceu.

- Deixei Meurig na enfermaria com o velho, e segui sozinho para a casa da minha mãe. Mas não percebo isso da enfermaria. Tem alguma importância?

- Não penses agora nisso; continua. Como foste recebido?

- A minha mãe ficou contente - disse o rapaz. - Mas o meu padrasto exultava como um galo vitorioso. Respondia-lhe o menos que podia, e fui aguentando por amor à minha mãe. Mas isso mesmo cada vez o irritava mais e tinha de encontrar um modo de me espicaçar.

"Estávamos os três sentados à mesa e Aldith serviu a carne e disse que o prior tinha tido a gentileza de lhe mandar um prato da sua própria mesa. A minha mãe tentou falar a respeito desse assunto e lisonjeá-lo com tal distinção, mas ele queria a toda a força pôr-me a ferro e fogo e não se deixou distrair. Disse que, tal como esperara, eu viera de rabinho entre as pernas, como um cão espancado, pedir-lhe para mudar de opinião e restabelecer-me na herança. E disse que, se queria esta teria de me pôr de joelhos e mendigar, e talvez então se apiedasse de mim. E foi então que perdi a paciência, como é de calcular, e gritei-lhe que mais depressa poderia matá-lo do que pedir-lhe um único favor, e muito menos arrastar-me de joelhos. Não recordo agora tudo o que disse, mas ele começou a atirar-me com coisas e... e minha mãe chorava, e fugi pela porta fora e corri pela ponte e entrei para dentro da cidade.

- Mas não foste para casa de Master Bellecote. E ouviste Aelfric que correu atrás de ti até à ponte, a chamar-te para voltares?

- Sim, mas de que valia voltar? Serviria apenas para piorar as coisas.

- Mas não foste para casa.

- Não estava em estado de o fazer. E sentia-me envergonhado.

- Ele foi chocar o amuo para o depósito de madeira do meu pai, o que fica junto do rio - disse Edwy. - É o que sempre faz quando se aborrece com o mundo. Ou, quando nos metemos em sarilhos, escondemo-nos lá até passar a crise, ou pelo menos o pior dela. Quando o oficial do meirinho veio à loja e disse que andavam à procura dele e que tinha assassinado o padrasto, eu sabia onde encontrá-lo. Nem por um momemto acreditei que tivesse feito tal coisa - declarou Edwy com firmeza -, embora por vezes seja capaz de fazer grandes parvoíces. Mas sabia que algo de mau lhe devia ter acontecido. Por isso fui avisá-lo e, claro, ele nada sabia a respeito do assassinato, pois deixara o homem vivo e de boa saúde, apenas furioso.

- E, desde então, permaneceram os dois escondidos? Ainda não foram a casa?

- Ele não podia, pois não? Devem estar à espreita, a ver se o vêem. E eu tinha de ficar com ele. Tivemos de sair do armazém das madeiras, pois sabíamos que acabariam por lá ir. Mas conhecemos outros lugares. E depois apareceu Alys e falou-nos de si.

- E é essa toda a verdade - disse Edwin. - E agora, que vamos fazer?

- Primeiro - disse Cadfael -, deixa-me tirar este xarope do lume e pô-lo a arrefecer antes de o meter na garrafa. Pronto! Vocês vieram, suponho, pela porta paroquial da igreja e pelos claustros? - A porta oeste da igreja da abadia ficava fora dos muros, e nunca era fechada (excepto durante os dias piores do cerco da cidade), pois essa parte da igreja era paroquial. - E, uma vez nos jardins, calculo que tenham sido guiados pelo faro. Este xarope exala um aroma muito forte.

- Cheira bem - disse Edwy e, com o olhar cheio de respeito, percorreu o barracão e os molhos e sacas de ervas secas que esvoaçavam e roçagavam docemente devido ao calor que se elevava do braseiro.

- Nem todos os meus remédios cheiram de modo tão convidativo. Embora eu, pessoalmente, nem a este chamaria desagradável. Forte, é certo, mas um aroma bom e limpo - e desarrolhou o grande canjirão de óleo de massajar feito com acónito, e inclinou o gargalo em direcção ao nariz inquiridor de Edwin. Devido ao forte aroma, o rapaz pestanejou, afastou a cabeça para trás e espirrou. Olhou para Cadfael com um olhar cheio de franqueza e riu das lágrimas que lhe tinham vindo aos olhos.

Depois, inclinou-se cautelosamente e inalou de novo, franzindo a testa de modo pensativo.

- Tem um cheiro igual ao daquela coisa com que Meurig massajou o ombro do velho. Não esta manhã, mas da outra vez que vim com ele. Havia um frasco disso no armário da enfermaria. É a mesma coisa?

- É - disse Cadfael, e repôs o canjirão na prateleira. A face do rapaz estava perfeitamente serena e para ele o cheiro significava apenas uma recordação abençoadamente desligada de qualquer ideia de tragédia ou culpa. Para Edwin, Gervase Bonel morrera, de modo inexplicavelmente súbito, de um qualquer ataque armado, e todo o sentimento de culpa que sentia era devido ao facto de ter perdido a paciência infringindo a sua jovem dignidade pessoal e fazendo chorar sua mãe. Cadfael já não tinha qualquer dúvida. Aquela criança era honesta como a luz do Sol. estava metida em terrível situação e, acima de tudo, tinha grande necessidade de amigos.

Tinha também uma inteligência rápida e alerta. Aquela diversão. mal acabou, logo o começou a preocupar. - Irmão Cadfael... - começou em tom hesitante e, nos seus lábios, o nome tinha um tom novo e reverente, reverência sentida, não por este monge vulgar e não muito novo, mas pelo cruzado que Cadfael outrora fora: cruzado carinhosamente recordado até por uma esposa e mãe feliz e realizada, a qual certamente muito exagerara a sua aparência, galanteria e ousadia. - O senhor já sabia da minha ida com Meurig à enfermaria... fez perguntas a Edwy a esse respeito. Não pude perceber por quê. É importante? Tem algo a ver com a morte do meu padrasto? Não consigo ver a relação.

- Que a não possas ver, filho - disse o Irmão Cadfael -, é a prova de uma inocência que talvez nos venha a ser difícil de provar aos outros, embora eu aceite plenamente. Senta-te de novo ao lado do teu sobrinho... meu Deus, alguma vez conseguirei perceber bem estes parentescos?... e evitem guerrear-se durante algum tempo, até que lhes explique o que ainda não é do conhecimento público para além destes muros. Sim, as tuas duas visitas à enfermaria são verdadeiramente de grande importância, e também esse óleo que viste lá ser usado, embora deva confessar que muitas outras pessoas o conhecessem, sabendo melhor que tu as suas qualidades, tanto as boas como as más. Perdoem-me ter-vos dado a entender que Master Bonel foi atingido de morte por uma adaga ou espada. E perdoam-mo certamente, pois, quando aceitaram como verdadeiro o que lhes contei, ficaram ilibados de qualquer culpa, pelo menos no que se refere a mim. Não foi isso que aconteceu, rapazes. Master Bonel morreu devido a veneno posto na comida que lhe mandou o prior, e o veneno era este mesmo óleo de acónito. A pessoa que o deitou na perdiz tirou-o deste barracão ou do frasco que está na enfermaria, e todos aqueles que sabiam onde poder encontrá-lo e o perigo que seria engoli-lo, estão sob suspeita.

E os dois, sujos, cansados e preocupados como estavam, tiveram finalmente um ar de horrorizada compreensão, chegaram-se mais um ao outro, tal como as ameaçadas crias recém-nascidas, no mato ou no ninho, se aconchegam para sentir mais conforto. Perderam anos de idade; ficaram autênticas crianças, abandonadas e acossadas. Edwy disse em tom enérgico:

- Ele não sabia! Tudo o que os homens disseram foi que o padrasto tinha sido morto, assassinado. Mas tão depressa! Edwin fugiu e não ficou mais ninguém além da gente da casa. Nem mesmo viu nenhum prato à espera...

- Mas sabia - disse Edwin - do petisco. Ela contou-nos e eu sabia que lá estava. Mas que me interessava isso? O que eu queria era ir para casa...

- Calma, vá, calma! - disse Cadfael apaziguador. - Estás a falar como uma pessoa que já está convencida. Eu fiz-te os meus próprios testes, todos os que precisava. Agora fiquem sentados e quietos, e não se preocupem mais comigo, pois sei que não têm qualquer motivo de arrependimento. - Talvez fosse um exagero dizer aquilo a respeito de qualquer pessoa, mas aqueles, pelo menos, nada mais tinham a pesar-lhes na alma que as comuns maroteiras de jovens enérgicos. E, agora que podia estar a olhar para eles sem estar à procura de mentiras ou astúcias, pôde notar outras coisas. - Têm de dar-me um pouco de tempo para pensar, mas não precisa ser tempo perdido. Digam-me, algum de vocês comeu durante todas estas horas? Um de vocês, como é do meu conhecimento, teve um jantar miserável.

Até então, tinham estado demasiado preocupados com problemas mais graves para sentirem fome mas, agora que tinham um aliado, embora de limitados poderes, e abrigo, embora temporário, logo se sentiram terrivelmente esfomeados.

- Tenho aqui alguns bolos de aveia que eu próprio fiz, um naco de queijo e algumas maçãs. Vão enchendo o buraco que têm na barriga enquanto penso no que devemos fazer. Tu, Edwy, o melhor era voltares para casa logo que as portas da cidade abrirem pela manhã, ver se entras sem ninguém notar, e comporta-te como se só tivesses saldo para fazer qualquer vulgar recado. E mantém a boca fechada, excepto com aqueles em quem tens absoluta confiança. - E esses seria toda a família unida e preparada para a guerra em defesa de qualquer dos seus. - Quanto a ti, caro amigo... o caso é muito diferente.

- Mas não vai entregá-lo à autoridade?! - trovejou Edwy, instantaneamente alarmado, a boca cheia de bolo de aveia.

- Isso é que de certeza não farei.

Contudo, se pessoalmente tivesse absoluta confiança na lei como sendo infalivelmente justa, talvez incitasse o rapaz a entregar-se, defender a sua inocência e confiar na justiça. Mas não tinha essa confiança. A lei exigia um culpado e o oficial estava confortavelmente convencido que perseguia a pessoa certa e não seria fácil persuadi-lo a procurar mais longe. Não fora testemunha das provas de Cadfael e recusá-las-ia desdenhosamente, considerando-o um velho parvo que acreditava piamente num jovem e astucioso mentiroso.

- Eu não posso ir para casa - disse Edwin, e a solenidade da sua face em nada era prejudicada pelo facto de ter uma bochecha esticada para estar cheia de maçã, e a outra com uma mancha verde provocada por qualquer ramo de árvore. - E não posso ir para casa de minha mãe Só serviria para lhe arranjar ainda mais sarilhos.

- Por esta noite, podem os dois ficar aqui e manter o braseiro aceso. Há sacos limpos debaixo do banco, e podem ficar suficientemente quentes e em segurança. Mas, durante o dia, há por aqui muitas idas e vindas, e teremos de vos fazer sair daqui bem cedo, um para casa, o outro... Bom, façamos votos que só precises de ficar escondido por poucos dias. Dificilmente te virão procurar aqui próximo da abadia. - Meditou longa e profundamente. Os sótãos por cima dos estábulos estavam sempre quentes graças ao feno e ao calor dos corpos dos cavalos que estavam em baixo, mas entravam e saíam muitas pessoas e, com tantos viajantes na estrada por causa do festival, havia fortes possibilidades de mandarem alguns criados dormir ali por cima dos seus animais. Mas, fora dos muros da abadia, num canto do terreiro usado para as feiras de cavalos e a feira de Verão da abadia, havia um barracão onde podiam guardar-se os animais trazidos para o mercado, e no sótão havia alimento para estes. O barracão pertencia à abadia, mas esta permitia que fosse usado por qualquer comerciante itinerante. Nesta altura do ano os seus visitantes seriam poucos ou nenhuns, e o sótão cheio de palha e feno oferecia uma cama confortável para algumas noites. Além disso, se qualquer acidente imprevisto pusesse o fugitivo em perigo, a fuga era mais fácil estando fora dos muros da abadia que dentro deles. Mas Deus não permitisse que chegasse a tais extremos!

- Sim, sei de um lugar que serve. Levo-te para lá de manhã cedo, com boas provisões de comida e cerveja para todo o dia. Sei que vais precisar de muita paciência para ficar lá quieto, mas é coisa que terás de suportar.

- É melhor - disse Edwin com fervor - que cair nas garras do meirinho, e agradeço-lhe muito. Mas... afinal de contas, como vai isso melhorar a minha situação? Não posso continuar eternamente escondido.

- Há uma única maneira - disse Cadfael em tom enfático - de melhorares a tua situação neste problema, meu filho, e consiste em descobrir a pessoa que cometeu o crime de que te acusam. E, como é tarefa que dificilmente poderás desempenhar sozinho, terás de deixar-me tentar eu próprio. Farei tudo o que puder, tanto por tua honra como pela minha. Agora tenho de vos deixar e ir para o serviço de Matinas. De manhã, antes do primeiro serviço, virei para vos ajudar a sair daqui em segurança.

O Irmão Mark cumprira a sua parte, e o hábito lá estava enrolado debaixo da cama de Cadfael. Quando se levantou uma hora antes do serviço da manhã, vestiu-o debaixo do seu próprio e saiu do dormitório pela escada lateral e a igreja. As madrugadas de Inverno vinham tarde, e a noite tinha sido encoberta e sem Lua; quando atravessou o pátio entre o claustro e os jardins, a escuridão era profunda e não se via mais ninguém. Era perfeito para que Edwy se retirasse, sem ser visto, pela igreja e a porta paroquial por onde viera, e seguisse o gelado caminho até à ponte para depois entrar em Shrewsbury logo que as portas da cidade fossem abertas. Sem dúvida que o rapaz devia conhecer a cidade eficientemente bem para chegar a casa por caminhos desviados e evitar ser detectado pelas autoridades, mesmo que estivessem a vigiar a loja. Quanto a Edwin, uma vez metido dentro do hábito negro e com a protecção do capuz, parecia um jovem noviço, reservado e modesto. Fez Cadfael recordar o irmão Mark quando este era novo, assustado e sempre à espera do pior naquela vocação que lhe fora imposta; o passo elástico e defensivo, os braços demasiado enterrados nas amplas mangas, os olhares de soslaio, assustados e alerta para detectar qualquer perigo. Mas havia também na actuação deste jovem algo que sugeria um certo divertimento perverso; apesar de todo o perigo que corria e de ele ter plena consciência, o rapaz não podia deixar de ter um certo prazer na aventura. E Cadfael preferia não se perguntar se Edwin seria capaz de se comportar discretamente no esconderijo e suportar as horas de inacção, ou se seria tentado a vaguear pelas cercanias apesar dos riscos.

Seguiram lado a lado pelo claustro e a igreja, saíram pela porta oeste para fora dos muros e voltaram à direita, afastando-se dos portões da abadia. Estava ainda profundamente escuro.

- Esta estrada vai dar a Londres, não é? - sussurrou Edwin do interior do capuz levantado.

- Vai. Mas não tentes fugir por aí, mesmo que sejas obrigado a fugir, o que Deus não permita, pois têm um posto de controlo na estrada em St. Giles. Tem juízo e fica quieto, e dá-me pelo menos alguns dias para eu ver o que posso descobrir.

O vasto triângulo que era o terreiro da feira dos cavalos luzia com um ténue e pálido fulgor reflectido pela geada. O barracão da abadia erguia-se num canto, junto ao muro do enclave. A porta principal estava fechada e aferrolhada, mas nas traseiras havia uma escada que ia dar ao sótão, com uma porta no topo. Via-se já um certo movimento matutino mas ainda pouco denso, e ninguém prestou atenção a dois monges de St. Peter's que subiam para o seu próprio palheiro. A porta estava fechada, mas Cadfael trouxera a chave e entraram para uma escuridão seca e que cheirava a feno.

- Não posso deixar-te a chave, pois tenho de pô-la novamente no lugar, mas também não te vou deixar fechado à chave. A porta ficará desaferrolhada até que possas sair livremente. Tens aqui um pão, feijão, coalhada e algumas maçãs, e uma garrafa de cerveja fraca. Guarda o hábito, podes precisar dele para te aquecer de noite, mas o feno proporciona uma cama agradável. E, quando vier ver-te, como tenciono, podes reconhecer-me pelo modo como bato à porta. Assim... Embora seja pouco provável que apareça qualquer outra pessoa. Se aparecer alguém que não bata como eu, tens muito por onde te esconder.

O rapaz pôs-se de pé, subitamente grave e um pouco descoroçoado. Cadfael estendeu uma mão e puxou-lhe o capuz para trás, revelando a cabeça cheia de caracóis, e a luz da madrugada que se infiltrava era suficiente para mostrar as linhas da solene face oval e os olhos firmes, dilatados e que o fitavam.

- Não dormiste grande coisa. Se fosse a ti, enterrava-me bem no feno quentinho e dormia todo o dia. Podes estar certo que te não abandonarei.

- Eu sei - disse Edwin com firmeza. Sabia que, mesmo em conjunto, talvez não conseguissem chegar a nenhum resultado, mas ao menos sabia que não estava só. Tinha uma família leal, com Edwy a fazer o elo de ligação, e tinha um aliado dentro da própria abadia. E tinha ainda outra pessoa a pensar nele e sofrendo por ele. Numa voz que por perigoso instante quase perdeu a firmeza mas teimosamente a recuperou, disse: - Diga à minha mãe que lhe não matei o marido nem lhe desejei qualquer mal.

- Criança louca - disse calmamente Cadfael -, já me fizeram essa mesma afirmação e quem pensas que possa ter sido, se não a tua mãe? - A luz muito fraca era magicamente suave, e o rapaz estava naquela idade entre a infância e a maturidade quando a face, em formação mas não formada, tanto podia ser de rapaz como de rapariga, de homem ou de mulher. - És muito parecido com ela - disse Cadfael, recordano uma rapariga pouco mais velha que este rebento, envolvida e beijada pela mesma luz clandestina, com os pais imaginando-a na cama, dormindo em virginal solidão. Nesse instante, esqueceu momentaneamente todas as mulheres que depois conhecera, no oriente ou no ocidente, das quais estava crente que nenhuma lhe guardara ressentimento. - Virei ver-te antes da noite - disse, e saiu para a segurança do ar invernoso do exterior.

Meu Deus, pensou com toda a reverência enquanto se dirigia à porta paroquial, amplamente a tempo para o primeiro serviço, aquele belo pedaço de carne jovem, por mais selvagem, em bruto e prevaricador que seja, podia ter sido meu filho! Ele e o outro também, um filho e um neto! Foi a primeira e a única vez em que pôs em dúvida a sua vocação e que dela se arrependeu, mas o arrependimento pouco durou. Mas não pôde deixar de perguntar-se se algures no mundo, pela graça de Arianna, ou Bianca, ou Mariam, ou - haveria mais uma ou duas, num ou outro lado, agora esquecidas? - existiram reproduções da sua própria imagem, tão belos e maravilhosos como este rapaz concebido por Richildis e gerado por outro homem.

 

Tornava-se agora imperativo descobrir o assassino, caso contrário o rapaz não poderia sair do esconderijo e recomeçar a vida interrompida. E isso significava estudar pormenorizadamente o caminho seguido pelo malfadado prato de perdiz desde a cozinha do superior até à barriga de Gervase Bonel. Quem lhe mexera? Quem o poderia ter adulterado? Uma vez que o Prior Robert, na sua arrogante eminência dentro da casa do superior, comera, apreciara e digerira o resto da ave sem sofrer qualquer mal, era evidente que aquela fora oferecida de boa vontade e em boas condições. E ele, de certeza, sem lhe mexer, entregara-a nessas mesmas condições ao cozinheiro.

Antes da missa solene, Cadfael foi à cozinha do superior. Ele era uma de entre cerca de uma dúzia de pessoas dentro daquelas paredes que não tinham medo do Irmão Petrus. Os fanáticos são sempre assustadores e o Irmão Petrus era um fanático, não pela sua religião ou vocação, que não punha em dúvida, mas pela sua arte. O fogo da dedicação tingia-lhe os negros cabelos e olhos, dando-lhes um matiz de flamejante vermelho. O seu sangue do norte fervia tanto como o seu caldeirão. O seu temperamento de bárbaro da fronteira era tão quente como o seu forno. E igualmente grande era o seu amor ao Superior Heribert, motivado pelas mesmas razões que o faziam detestar o Prior Robert.

Quando Cadfael se lhe aproximou, estava apenas a inspeccionar o campo de batalha para aquele dia, e reunindo o seu exército de tachos, panelas, espetos e pratos, com menos satisfação do que normalmente tinha com aquele exercício, porque era Robert e não Heribert quem iria consumir o resultado do seu labor. Mas, apesar disso, era incapaz de abandonar a sua busca de perfeição.

- Aquela perdiz - disse Petrus em tom sombrio, quando interrogado a respeito dos acontecimentos daquele dia. - Das mais belas aves que já vi, embora não a maior, mas a mais bem alimentada e anafada e, se a tivesse podido preparar para o meu superior, teria feito com ela uma obra-prima. Sim, esse prior entrou aqui e deu-me ordem para separar uma porção... apenas a dose para uma pessoa, repare!, e mandá-la com os seus cumprimentos ao hóspede da casa junto ao lago da azenha. E foi o que fiz. Separei a melhor porção e pu-la num dos pratos pessoais do Superior Heribert. "Os meus pratos", diz Robert! Se mais alguém lhe tocou aqui na cozinha? Digo-te, Cadfael, esses dois que cá tenho conhecem-me, fazem o que lhes mando e não mexem em mais nada. Robert? Entrou para dar as suas ordens e cheirar o meu tacho, mas nessa altura ainda tudo estava no mesmo tacho e só depois de ele ter saído da minha cozinha é que separei a dose para Master Bonel. Não, podes ter a certeza, até que esse prato daqui saiu, ninguém lhe mexeu a não ser eu próprio, e só saiu próximo da hora do jantar, quando o criado, Aelfric, não é?, trouxe o tabuleiro.

- Que pensas desse rapaz Aelfric? - perguntou Cadfael. - Tu vê-lo todos os dias.

- Um sujeito carrancudo, ou pelo menos mudo - disse Petrus sem animosidade -, mas é sempre pontual e é cuidadoso e ordenado.

Isso mesmo dissera Richildis, e que talvez o fosse até em excesso, e apenas com a intenção de irritar o amo.

- Nesse dia, eu próprio o vi atravessar o pátio com a sua carga. Os pratos estavam cobertos, ele tem apenas duas mãos e não parou de certeza deste lado da portaria, pois vi-o sair. - Mas. passado o portão, havia um banco no recôncavo do muro, onde seria fácil pousar um tabuleiro por um momento, fingindo estar a pô-lo mais equilibrado. E Aelfric conhecia o caminho para o barracão do jardim, e vira mexer no óleo. E Aelfric era um homem amargurado por dois motivos. E era um homem de enorme potencial, pois conseguia esconder dos outros a maior parte do que lhe ia na alma. - Ah, bem, o certo é que nada foi adicionado à comida aqui.

- Nada, a não ser excelente vinho e especiarias. Agora, se tivessem envenenado o resto da ave - disse Petrus sombriamente -, dava-te permissão para me olhares de soslaio, pois teria boas razões para isso. Mas, se alguma vez for tão longe que chegue a preparar um guisado de acónito para aquele homem, podes estar certo que não farei confusão entre uma e outra taça e quem as vai comer.

Não era preciso, pensou Cadfael enquanto atravessava o pátio em direcção à missa, levar as ameaças do Irmão Petrus muito a sério. Apesar de toda a sua ferocidade, era homem mais de palavras que de acções. Ou, afinal de contas, seria caso digno de consideração? Até àquele momento, a ideia de que houvera engano e de que um prato preparado para Robert fora parar a Bonel, nunca entrara na cabeça de Cadfael, mas era evidente que Petrus o julgava capaz de tal ideia, e apressara-se a transformá-la num absurdo antes mesmo que surgisse. Uma pressa um tudo-nada exagerada? Antes daquele dia, tinham surgido ódios criminosos entre irmãos da mesma confraria, e certamente voltariam a surgir. O Irmão Petrus tinha despertado exactamente a suspeita que pretendera abafar. Talvez um assassino muito provável. Mas era hipótese a não perder!

Nas poucas semanas antes das maiores festividades do ano, sempre se verificava um aumento no número de assistentes à missa porque aquela época despertava as consciências daqueles que durante todo o resto do ano não levavam os seus deveres espirituais muito a sério. Naquela manhã estava na igreja um número avantajado da gente local e não foi grande surpresa para Cadfael descobrir entre eles o toucado branco e o abundante cabelo de Aldith. Quando o serviço acabou, notou que ela não saiu pela porta oeste como os outros, mas que passou pela porta sul para o claustro, e daí para o grande pátio. Aí, aconchegou-se no manto e sentou-se num banco de pedra encostado à parede do refeitório.

Cadfael seguiu-a e cumprimentou-a com gravidade, perguntando-lhe pela ama. A rapariga ergueu para ele a face bela e composta, cujas linhas suaves pareciam a Cadfael ser desmentidas pela força sombria dos olhos. À sua própria maneira, reflectiu ele, ela é tão misteriosa como Aelfric, e seria difícil descobrir sem ajuda tudo o que decidisse esconder daquilo que pensava.

- Está bastante bem fisicamente - disse, pensativa -, mas preocupada espiritualmente por causa de Edwin, como é natural. Mas não ouvimos dizer que foi apanhado e, se o tivesse sido, estou certa que o teríamos sabido. Isso já significa um certo conforto. A pobre senhora bem que precisa de conforto.

Poderia ter-lhe enviado algumas palavras tranquilizadoras por esta mensageira, mas não o fez. Richildis tivera o cuidado de falar com ele estando sozinha, e ele respeitaria essa preferência. Numa situação tão fechada e limitada, onde apenas o punhado de gente relacionado com a casa parecia suspeito, como poderia Richildis sentir-se completamente segura mesmo a respeito da sua própria parente, mesmo a respeito do enteado ou do criado? E, afinal de contas, poderia ele também estar seguro a respeito da própria Richildis? Algumas mães são levadas a fazer coisas terríveis para defender os direitos dos seus filhos. Gervase Bonel fizera com ela um acordo e quebrara-o.

- Se me permite, sento-me um pouco junto de si. Não está com pressa de voltar?

- Aelfric deve estar a vir buscar o jantar - disse. - Pensei em esperar por ele e ajudá-lo a levar tudo. Ele tem de levar também a cerveja e o pão. - E, quando Cadfael se sentou a seu lado, acrescentou: - É difícil para ele continuar a fazer a mesma coisa todos os dias, depois daquilo que ontem nos aconteceu. Pensar que as pessoas podem olhar para ele e pôr-se dúvidas a seu respeito. Até o senhor, irmão. Não é verdade?

- Não se pode evitar - disse simplesmente Cadfael -, até sabermos a verdade. O oficial do meirinho está convencido que já a sabe. Concorda com ele?

- Não! - Quase mostrava um pouco de desprezo e teve até a sombra de um sorriso. - Não são os rapazes selvagens, barulhentos, impetuosos, aqueles que a todo o mundo contam os seus agravos, iras e alegrias, quem utiliza o veneno. Mas, para que serve eu contar-lhe isto, dizer-lhe se acredito ou não acredito, se eu própria estou metida no enredo? Como bem sabe que estou! Quando Aelfric chegou à minha cozinha com o tabuleiro e me falou do presente do prior, fui eu quem pôs o prato na placa para o manter quente, enquanto Aelfric levava a travessa grande para a sala e depois segui-o com os pratos e a caneca de cerveja. Os três estavam lá sentados na mesa e nada sabiam da perdiz até que lhes contei... pensando dar prazer ao amo, pois o ar lá dentro estava tão pesado que quase se não podia respirar. Penso que, dos dois, fui a primeira a regressar à cozinha e sentei-me a comer junto do fogo e, quando a taça começou a fervilhar, fui mexendo a comida. Mexi-a mais de uma vez, e até a afastei um pouco do calor. De que me serve dizer que não lhe juntei nada? Claro que é isso que eu sempre diria, ou outra qualquer no meu lugar, e não tem nenhum peso até que haja provas, num ou noutro sentido.

- Você é muito inteligente e justa - disse Cadfael. - E disse que Meurig estava a entrar quando voltou à cozinha? Então, nunca ficou sozinho com o prato... mesmo supondo que soubesse o que era e para quem estava destinado.

As negras sobrancelhas ergueram-se, maravilhosamente arqueadas e expressivas, e impressionantes sob a testa pálida e o cabelo de um ouro-pálido.

- A porta estava toda aberta, disso, eu lembro-me, e Meurig estava a tirar o lixo dos pés antes de entrar. Mas, de qualquer forma, que razão poderia ter Meurig para querer matar o pai? Não era propriamente uns mãos largas com ele, mas era-lhe mais útil vivo que morto. Não tinha esperanças de herdar o que quer que fosse, e sabia-o, e tinha uma pensão modesta a perder.

Aquilo era a verdade nua e crua. Nem mesmo a igreja defendia o direito de um bastardo à herança, ao passo que o Estado os negava, mesmo nos casos em que o casamento dos pais, legal sob todos os aspectos, se seguia ao nascimento. E aqui tratava-se de um caso banal, com uma das suas próprias criadas. Não, Meurig não tinha a ganhar com esta morte. Ao passo que Edwin tinha um domínio a recuperar, e Richildis, o futuro do seu adorado filho. E Aelfric?

Aldith levantara a cabeça e olhara em direcção à portaria onde Aelfric acabava de aparecer, o tabuleiro de madeira de beiras altas debaixo do braço e uma saca para os pães a tiracolo. A rapariga aconchegou a si o manto e levantou-se.

- Diga-me - disse Cadfael com voz doce -, agora que Master Bonel morreu, a quem pertence Aelfric? Será entregue à abadia juntamente com o domínio ou a qualquer outro amo? Ou foi excluído do acordo, e cedido a Master Bonel como criado e servo para toda a vida?

No momento em que ia a ter com Aelfric, olhou repentinamente para trás. - Foi excluído. Cedido ao meu amo, para ser seu servo pessoal.

- Então, independentemente do que aconteça ao domínio, ele irá para quem herdar os bens pessoais... a viúva ou o filho, no caso de o filho escapar à acusação criminal. E, Aldith, você que conhece as ideias de Mistress Bonel, não está certa que ela daria imediatamente a liberdade a Aelfric, e de boa vontade? E o rapaz não faria exactamente o mesmo?

Tudo o que deu a título de resposta foi um relance breve e cegante dos olhos negros e inteligentes, e baixou subitamente as pálpebras com as suas longas pestanas negras. Depois foi ao encontro de Aelfric e seguiu a seu lado em direcção à habitação do superior. O seu passo era ligeiro e airoso, o seu cumprimento indiferente, os seus modos, zelosos. Aelfric seguia a seu lado rígido e mudo, e não a deixou tirar-lhe o saco que levava ao ombro. Cadfael continuou sentado muito tempo a olhar para eles. a observar e a cismar, mas depois de uns minutos o espanto foi substituído por leve surpresa e quando chegou a hora de lavar as mãos antes do jantar no refeitório, até a surpresa se transformara em convicção e reavaliação.

Estava-se no meio da tarde e Cadfael fazia uma escolha por entre os tabuleiros com pêras e maçãs armazenadas no celeiro do superior, separando os poucos espécimes podres para que não contaminassem os vizinhos, quando o Irmão Mark apareceu a gritar por ele.

- O homem do meirinho voltou - informou, quando Cadfael espreitou do cimo da escada e perguntou para que era tanto barulho - e quer vê-lo. E ainda não apanharam o suspeito... se é que lhe estou a contar uma novidade.

- Que ele me queira ver. não é notícia agradável - admitiu Cadfael, descendo as escadas de costas, tão ágil como um rapazote. - Que é que ele quer? Ou, pelo menos, em que disposição está?

- Não apresenta ameaça para si. suponho - disse Mark pensativo. - Vexado por não conseguir deitar mão ao rapaz, como é natural, mas penso que está interessado em coisas pequenas, do género do óleo de massajar do seu barracão. Perguntou-me se seria capaz de dizer se tinham tirado algum de lá. mas eu sou um ajudante desleixado que nunca vê nada, como o senhor irá confirmar. Ele pensa que o senhor deve sabê-lo até à última gota.

- Então, é parvo. Basta um ou dois bochechos para matar e, num recipiente em que duas mãos não chegam para lhe dar a volta, e alto como um banco, quem poderá notar se for roubada até dez vezes essa quantidade? Mas, vamos pelo menos tentar descobrir o que tem agora na cabeça e até que ponto pensa ter o caso comprovado.

No barracão, o oficial do meirinho enfiava a espessa barba e o bico de águia em todos os sacos a frascos e potes de Cadfael, numa curiosidade um tanto cansada. Se desta vez trouxera uma escolta consigo, certamente a deixara no pátio grande ou na portaria.

- Talvez possa ajudar-nos, irmão - disse, quando Cadfael entrou. - Seria de grande ajuda saber de que frasco desse seu óleo foi retirado o veneno, mas aqui o jovem irmão não sabe dizer se falta algum deste canjirão. Poderá o senhor ser mais exacto?

- Nesse ponto - disse secamente Cadfael -. não. A quantidade requerida era muito pequena, e a minha reserva, como vê, é grande. Ninguém poderia afirmar com segurança se tinha sido ilegalmente retirada uma porção. Uma coisa lhe posso dizer, examinei ontem o gargalo e a tampa desta garrafa e não tem sinais de óleo no rebordo. Duvido que, na sua pressa, um ladrão perdesse tempo a limpar bem o rebordo antes de a fechar, como eu sempre faço.

O sargento anuiu, parcialmente satisfeito porque aquilo estava de acordo com o que ele mesmo pensava.

- Então, é mais provável que tenha sido tirado da enfermaria. E o frasco de lá é muito menor que este. mas já lá estive e nenhum deles se quer arriscar a dar uma opinião. Entre os mais idosos, o óleo é agora um grande favorito, e quem poderá saber se foi usado uma vez para fins ilícitos?

- O senhor fez poucos progressos, suponho - disse o Irmão Cadfael.

- Ainda não apanhámos o nosso homem. Não há maneira de descobrir que Edwin Gurney se esconde, mas não houve sinais dele, próximo da loja de Bellecote, e o cavalo do carpinteiro está no estábulo. Eu apostaria que o rapaz está ainda dentro da cidade. Mantemos sob vigilância a loja, as portas da cidade e a casa da mãe. É apenas uma questão de tempo, mas acabaremos por apanhá-lo.

Cadfael sentou-se num banco e apoiou as mãos nos joelhos.

- Está muito certo a respeito dele. Contudo, há pelo menos outros quatro que estavam lá em casa, e muitos outros que, por uma razão ou outra, conhecem o uso ou abuso deste preparado. Oh, sei bem o peso do caso que pude apresentar contra o rapaz. Eu seria capaz de apresentar casos igualmente bons contra mais uma ou duas pessoas, mas é coisa que não farei. Preferiria, porém, considerar os factos que possam servir de provas e não apenas suspeitas, e não contra uma pessoa pré-escolhida mas contra a pessoa, seja ela quem for, para quem esses factos apontem. O tempo a considerar é limitado, meia hora no máximo. Eu próprio vi o criado a sair com a comida da cozinha do superior, e sair com ela pela portaria. A menos que queiramos considerar seriamente aqueles que servem na cozinha do superior, o prato estava ainda inofensivo quando saiu do nosso enclave. E não acho - acrescentou em tom suave - que, pelo facto de usarmos capuz, o senhor possa considerar qualquer um de nós isento de suspeita, eu próprio incluído.

O sargento teve um ar indulgente, se bem que não impressionado.

- Então, a que factores limitativos, a que factos firmes se está a referir, irmão.

- Mencionei-lhe ontem que, se se der à maçada de inalar o frasco, ou deixar cair uma gota na sua manga, logo verificará pessoalmente que é perfeitamente detectável tanto pelo nariz como pelos olhos. Não é o acónito que tem um cheiro tão forte e ácido, mas leva também mostarda e outras ervas. Se apanhar qualquer pessoa, devia examinar-lhe a roupa à procura desses sinais. Não estou a dizer que a ausência desses sinais seja prova de inocência, mas que realmente enfraquecem a evidência de culpa.

- O senhor é muito interessante, irmão - disse o oficial -, mas não convincente.

- Então, considere o seguinte. Quem quer que tenha usado o veneno, devia estar desejoso de se livrar do frasco do modo mais rápido e definitivo possível. Se demorasse, teria de escondê-lo em si próprio, arriscando-se a ficar marcado ou até a ser descoberto com o frasco. O senhor faz o seu trabalho como acha melhor. Mas eu, se estivesse no seu lugar, pôr-me-ia cuidadosamente à procura de um pequeno frasco, num raio relativamente pequeno em volta da casa; porque, quando o encontrar, o lugar para onde foi atirado poderá revelar muita coisa a Respeitosamente, da pessoa que para lá o atirou. - E, cheio de certeza, acrescentou: - Não terá qualquer dúvida em reconhecer o frasco certo.

Não lhe agradou nada a expressão de indulgente complacência que se apossava da cara tisnada do oficial, como se soubesse de uma piada que, quando resolvesse contá-la a Cadfael, o deixaria completamente sem fôlego. Ele próprio admitira que não apanhara o seu homem, mas era bem certo que albergava qualquer outra secreta satisfação dentro do seu peito protegido de couro. - Já o encontrou? - perguntou Cadfael cautelosamente.

- Encontrar, não. Nem procurei com muito afinco. Mas, apesar disso, sei onde está. Agora já não vale grandemente a pena procurar e, em qualquer caso, não há necessidade disso. - E agora sorria abertamente.

- Peço desculpa de discordar - disse Cadfael firmemente. - Se o não encontrou, não pode saber onde está, pode apenas supor, o que não é bem a mesma coisa.

- Mas é o mais próximo a que poderemos chegar - disse o oficial, satisfeito por se saber em vantagem. - Porque o seu pequeno frasco foi a boiar pelo Severn abaixo, e provavelmente não voltará a ser visto, mas sabemos que foi para lá atirado, e quem o atirou. Não estivemos inactivos desde que ontem daqui saímos, posso assegurar-lhe, e fizemos mais que simplesmente perseguir um jovem raposo, e perder-lhe o rasto por um momento. Interrogámos todos os que andavam nas cercanias da ponte ou das portas da cidade acerca da hora do jantar, e que viram o criado de Bonel a correr atrás do rapaz. Encontrámos um carroceiro que atravessava a ponte exactamente nessa altura. A correria era tamanha que fez parar a carroça, mesmo à entrada da ponte, pensando que era um grito de "pega ladrão" mas, depois de o rapaz ter passado a correr junto de si, viu o perseguidor desistir da corrida, ao chegar à ponte, pois não tinha hipótese de apanhar o fugitivo. Teve um encolher de ombros e voltou para trás, e quando o carroceiro olhou de novo para o outro, viu-o abrandar um pouco o passo e atirar uma coisa pequena por cima do parapeito de jusante, para dentro da água. Era o jovem Gurney, e não outro, quem tinha de libertar-se de algo o mais depressa possível depois de ter vertido o seu conteúdo na comida do padrasto, ter dado uma ou duas mexidelas e corrido para fora com o frasco na mão. E o que me diz a isto, meu amigo?

O quê, na verdade? O choque foi severo, pois Edwin não dissera nem uma palavra a respeito do incidente e, por um momento, Cadfael considerou mesmo a possibilidade de, por uma vez, ter sido enganado por um malandro astucioso. Contudo, astúcia seria a última coisa em que pensaria em relação àquela face ousada e combativa. Recompôs-se rapidamente e sem mostrar a sua inquietação.

- Diria que "uma pequena coisa" não é necessariamente um frasco. Perguntou ao seu carroceiro se havia hipótese de que o fosse?

- Perguntei, mas recusou-se a afirmar se sim ou não. Afirmou apenas que o que quer que fosse era suficientemente pequeno para caber dentro de uma mão fechada, e ao voar rebrilhou à luz. Recusou-se a especificar mais em relação à forma ou aspecto.

- Era uma testemunha honesta. Agora, talvez me queira dizer mais duas coisas dessa deposição. Em que ponto exacto da ponte estava o rapaz quando atirou a coisa? E se o criado também o viu atirá-la?

- O homem disse que o sujeito que vinha atrás tinha parado e voltado para trás, e só então ele próprio se virou, apanhando o outro em pleno acto. O servo não podia ter visto. E, quanto ao sítio onde o rapaz estava nesse momento, disse que sensivelmente a meio da ponte levadiça.

Isso queria dizer que Edwin atirara fosse lá o que fosse logo que tivera a certeza de estar por cima da água, longe das margens, pois era a secção exterior da ponte a que podia ser levantada. E, contudo, ele podia ter errado nos cálculos e agido demasiado cedo. Os arbustos e a inclinação da margem sob os apoios da ponte avançam bem além do primeiro arco. Havia ainda uma hipótese de recuperar o que quer que tivesse sido deitado fora, se tivesse caído aquém da correnteza. Parecia, também, que Aelfric não ocultara aquele detalhe, mas antes que o não presenciara.

- Bem - disse Cadfael -, segundo a sua própria história, o rapaz acabava de ultrapassar uma carroça parada cujo carroceiro estava a olhar para ele e, a essa hora, é indubitável que haveria várias outras pessoas à vista, e não fez qualquer segredo em relação a deitar fora o que quer que tenha atirado. Não vejo nada de furtivo nisso. Pelo meu modo de pensar, dificilmente consideraria esse o método escolhido por um assassino para se libertar do meio que empregara para matar. Que diz?

O oficial enfiou os dedos no cinto e riu alto.

- Digo que você é o melhor advogado do diabo que já ouvi. Mas garotos em pânico depois de um acto desesperado, não param para pensar. E, se não foi o frasco que ele atirou para o Severn, diga-me, irmão, então o que foi? - E saiu para a frialdade do começo da noite, e deixou Cadfael a cismar na mesma questão.

O Irmão Mark, que durante todo o tempo se mantivera inconspícuo num canto, mas com os olhos e ouvidos bem abertos para tudo ouvir e ver, guardou respeitoso silêncio até que Cadfael por fim se moveu e bateu com os punhos nos joelhos, em sinal de mau humor. Então, evitando cuidadosamente qualquer pergunta, disse:

- Há ainda mais ou menos uma hora de luz antes do serviço de Vésperas. Se acha que vale a pena dar uma vista de olhos lá por baixo da ponte...?

O Irmão Cadfael quase esquecera que o jovem estava presente, e voltou para ele um olhar de surpresa e aprovação.

- Pois há! E os teus olhos são mais novos que os meus. Nós os dois poderíamos ao menos cobrir o terreno à vista. Sim, arrisquemo-nos ao que der e vier.

O Irmão Mark seguiu-o apressado pelo pátio, através da portaria e pela estrada fora em direcção à ponte e à cidade. Sobre o lago da azenha que ficava à esquerda deles, via-se apenas um fulgor baço e da cor do chumbo, e a casa do outro lado aparecia fechada e solitária. Ao passar, o Irmão Mark mirou-a cheio de curiosidade. Nunca vira Mistress Bonel e nada sabia dos velhos laços que a ligavam a Cadfael, mas sabia quando o seu mentor e amigo estava particularmente preocupado por causa de alguém e a sua lealdade e fervor, depois da igreja, pertenciam por inteiro a Cadfael. Seguia ocupado a pensar em tudo o que ouvira no barracão e tentando dar-lhe um sentido prático. Quando desviaram à direita e seguiram um carreiro ensombreado que conduzia à margem do rio e aos campos principais da abadia, os quais se estendiam ao longo das ricas campinas do Severn, disse em tom pensativo:

- Suponho, irmão, que aquilo que procuramos deve ser pequeno, ser capaz de reflectir a luz, e que de preferência não seja um frasco?

- Podes supor - disse Cadfael com um suspiro - que, quer o seja quer não, temos de tentar tudo para o encontrar. Mas eu preferiria encontrar qualquer outra coisa, algo tão inocente como a luz do dia.

Mesmo abaixo dos apoios da ponte, onde não valia a pena limpar os terrenos para cultivo, os arbustos cresciam densos, e uma erva espessa estendia-se seguindo a inclinação gradual até à boca da água. Passaram a pente fino os maciços de erva ao longo da margem, onde delgada camada de gelo prolongava o solo por alguns centímetros, até que a luz faltou e estava na hora de se apressarem para o serviço de Vésperas; mas não encontraram nenhuma coisa pequena, relativamente pesada e capaz de reflectir um raio de luz quando fora atirada, nada que pudesse ter sido aquele misterioso algo atirado fora por Edwin durante a sua fuga.

Cadfael escapuliu-se depois da ceia, ausentando-se das leituras da sala do capítulo, tirou um bocado de pão e um naco de queijo e uma garrafa de cerveja fraca para o seu fugitivo, e seguiu discretamente para o sótão por cima do barracão da abadia no terreiro da feira. A noite estava límpida mas escura, pois ainda não havia lua. Pela manhã, o solo estaria coberto de prata e a margem do Severn teria nova franja de gelo.

Bateu o sinal combinado na porta no topo da escada, mas respondeu-lhe apenas um silêncio profundo que ele aprovou. Abriu a porta e entrou, fechando-a de novo em silêncio. Na escuridão do interior nada se via, mas o cheiro quente e fresco do feno ao ser suavemente remexido e um roçagar igualmente silencioso mostraram-lhe onde o rapaz emergira do seu ninho para o receber. Deu um passo em direcção a esse som.

- Está sossegado, sou Cadfael.

- Eu sabia - disse a voz de Edwin muito baixinho. - Sabia que o senhor viria.

- O dia foi muito longo?

- Dormi a maior parte do tempo.

- Assim é que é! Onde estás...? Ah! - Moveram-se ao mesmo tempo, unindo dois ténues calores que, juntos, davam um calor muito melhor; Cadfael tocou numa manga, encontrou uma mão acolhedora. - Agora vamo-nos sentar e ir directos ao assunto, porque o tempo é curto. Mas, por curto que seja, aproveitemos para nos instalar confortavelmente. Está aqui comida e bebida para ti. - Umas mãos jovens e invisíveis agarraram alegremente nas suas oferendas. Seguiram lado a lado às apalpadelas até encontrarem um lugar aconchegado.

- Tem notícias melhores para mim? - perguntou, ansioso, Edwin.

- Ainda não. O que tenho para ti, meu caro jovem, é uma pergunta. Por que me escondeste metade da história?

Edwin, a meio de trincar cheio de alma num naco de côdea de pão. endireitou-se de sopetão.

- Não escondi! Contei-lhe a verdade. Para que lhe iria esconder alguma coisa, se vim pedir-lhe ajuda?

- Sim, na verdade! Contudo, os homens do meirinho tiveram uma conversa com um certo carroceiro que atravessava a ponte para Shrewsbury quando saíste a correr da casa da tua mãe, e ele afirma que te viu atirar qualquer coisa por cima do parapeito, para dentro do rio. É verdade?

Sem hesitação, o rapaz respondeu:

- Sim! - A sua voz era uma curiosa mistura de espanto, embaraço e ansiedade. Cadfael teve até a impressão de que ele corava na escuridão não tendo contado qualquer sentimento de culpa por não ter mencionado o incidente; era mais como se se tratasse de uma loucura puramente pessoal que fora acidentalmente descoberta.

- Por que me não contaste ontem? Se tivesse sabido, talvez tivesse podido ajudar-te melhor.

- Não sei porquê. - Estava agora um pouco amuado e querendo parecer cheio de dignidade, mas estava vacilante e a cismar. - Não parecia ter nada a ver com o que aconteceu... e eu queria esquecer o incidente. Mas, se é assim importante, conto-lhe agora. Não é nada de mal - É até muito importante; embora o não pudesses saber quando atiraste a coisa fora. - Era melhor contar-lhe agora a razão, e mostrar -lhe que este examinador, ao menos, não duvidava dele. - Porque, meu rapaz, o homem do meirinho pensa que o que atiraste por cima do parapeito foi o frasco que contivera o veneno, acabado de esvaziar por ti antes de saíres da casa, e do qual te querias desfazer. Por isso, penso que o melhor é dizeres-me o que era na realidade, e eu tentarei convencer a lei de que estão na pista errada, tanto neste pormenor como em tudo o mais.

O rapaz ficou sentado e muito quieto, embora não chocado com este golpe, que era apenas mais um de uma tareia cuja parte pior já tinha passado e o deixara ainda mais resistente. Tinha um raciocínio muito rápido e logo viu as implicações que aquilo tinha para si e para o Irmão Cadfael. Lentamente, disse:

- E não precisa primeiro de ser convencido?

- Não. Por um momento fiquei abalado, mas já passou. Agora, conta-me tudo!

- Eu não sabia! Como podia eu saber o que ia acontecer? - Respirou profundamente e parte da tensão abandonou o braço e o ombro que estavam confiadamente encostados a Cadfael. - Mais ninguém sabia do caso, não contara nada a Meurig e nem cheguei a mostrá-lo a minha mãe - não tive oportunidade para fazê-lo. O senhor sabe que ando a aprender a trabalhar em madeira, e um pouco também em metais nobres, e precisava mostrar que tencionava ser bom na minha arte. Fiz um presente para o meu padrasto. Não porque gostasse dele - apressou-se a acrescentar com altiva honestidade. - Não gostava! Mas a minha mãe estava infeliz por causa da nossa querela, e esta tornara-o duro e mal-humorado até para com ela... e não costumava sê-lo; ele gostava dela, eu sei. Por isso fiz um presente como oferta de paz... e também para mostrar que podia tornar-me num bom artífice e ganhar a minha vida sem a ajuda dele. Ele tinha uma relíquia a que dava muito valor, tinha-a comprado em Walsingham há muito tempo, quando lá fora em peregrinação. Pretendem que é um bocado do manto de Nossa Senhora, na bainha, mas não creio que seja verdade. Mas ele cria. É uma tira de pano azul do tamanho do meu dedo mindinho, com um fio dourado na beira, e está embrulhada num pedaço de pano dourado. Pagou uma fortuna por aquilo, eu sei. Por isso pensei em fazer-lhe um pequeno relicário, no tamanho justo, uma pequena caixa com uma charneira. Fi-la de madeira de pereira, e armei-a e poli-a muito bem, e embuti na tampa uma pequena imagem de Nossa Senhora em prata e madrepérola, e lápis-lazúli para o manto. Penso que não estava nada mal. - A ligeira dor que sentia na sua voz comoveu o coração de Cadfael; Edwin amara a sua obra e destruíra-a, e tinha direito a sofrer. - E levaste-o ontem contigo para lho dar? - perguntou docemente.

- Sim - e calou-se. Cadfael recordou como, segundo Richildis, ele fora recebido, quando fizera a sua difícil e corajosa aparição à mesa deles, com a oferenda escondida algures na sua pessoa.

- E tinha-lo na mão quando, com a sua malícia, te fez sair daquela casa. Vejo bem como tudo deve ter acontecido.

O rapaz, tremendo ainda de ressentimento, explodiu cheio de amargura:

- Ele disse que eu viera arrastar-me aos seus pés para ter o meu solar... escarneceu de mim, disse que se me ajoelhasse aos seus pés... Depois disso, como poderia eu oferecer-lhe uma dádiva? Considerá-la-ia como uma prova positiva... Isso eu não podia suportar! Fora feita na intenção de ser um presente, sem nenhum pedido em troca.

- Eu próprio teria feito o mesmo que fizeste, rapaz, guardá-la bem apertada na mão e fugir dali sem mais uma palavra.

- Mas talvez o não o tivesse atirado ao rio - suspirou tristemente Edwin. - Porquê? Não sei... Só que tinha sido feito para ele, e estava na minha mão, e Aelfric vinha a correr atrás de mim e a chamar, e eu não podia voltar lá... Não era dele, mas também não era meu, e atirei-o fora para me ver livre dele...

Era então essa a razão por que nem Richildis nem qualquer outra pessoa tinha mencionado a oferenda de paz de Edwin. De paz ou de guerra, qual deles afinal? Fizera-a na intenção de mostrar tanto o seu perdão como a sua independência, e nenhum desses sentimentos seria muito agradável para um velho autocrata. Mas, em todo o caso, um feito heróico, se se considerasse que o rapaz não tinha ainda nem quinze anos. Mas ninguém teve disso conhecimento. Ninguém, se não o seu autor, tivera a oportunidade de admirar - como Richildis amorosamente teria feito - os perfeitos entalhes da pequena caixa, ou as belas incrustações de prata, madrepérola e lápis-lazúli que só uma vez tinham faiscado à luz, no momento em que o relicário fora arremessado para o rio.

- Diz-me, o relicário tinha uma tampa que encaixava bem, e estava fechado quando o atiraste?

- Sim! - Agora a sua face estava facilmente visível; o seu olhar era pleno de espanto. Não compreendia a pergunta, mas estava seguro do seu trabalho. - Isso também é importante? Quem me dera não o ter feito; vejo que compliquei tudo. Mas como poderia adivinhar? Nessa altura, ninguém andava a perseguir-me, não tinha havido qualquer assassinato e eu sabia que nada tinha feito de mal.

- Uma pequena caixa de madeira, bem fechada, segue galantemente a boiar até onde o rio a levar, e há homens que vivem da pesca e do rio e, claro, também da caça furtiva, e esses homens conhecem bem todas as curvas e praias daqui até Atcham onde a corrente vai depositar o que encontra no seu caminho. Anima-te rapaz; talvez voltes a ver a tua obra, se eu conseguir que o meirinho me dê ouvidos e mande recados aos homens da beira-rio para que estejam alerta. Se eu lhes der uma descrição daquilo que foi atirado... oh, sossega, não revelarei como a obtive!... E se essa mesma coisa for descoberta algures a jusante do rio, esse facto constituirá um ponto forte em nosso favor, e talvez até consiga convencê-los a procurar o frasco noutro lado, um lado onde Edwin Gurney não esteve, e onde, portanto, não o poderia ter deixado. Aguentas ainda um ou dois dias aqui em sossego, se for necessário e o puderes suportar, e depois levo-te para qualquer lugar distante, onde possas passar o tempo com mais conforto.

- Claro que posso suportar - afirmou Edwin. E, em tom triste, acrescentou: - Mas Deus queira que não seja por muito tempo!

 

Os irmãos saíam em fila do serviço da noite, quando Cadfael subitamente compreendeu que havia uma pergunta importante que tanto ele como os outros se tinham esquecido de fazer, e a única pessoa que supunha que talvez lhe pudesse responder, era Richildis. Se desistisse da sua meia hora do fim do dia na sala aquecida, teria ainda tempo de lha perguntar antes da noite. Talvez não fosse uma hora muito própria para visitas, mas tudo o que se relacionava com este caso era urgente, e ao menos Richildis podia dormir um pouco mais sossegada, quando soubesse que, até à data, Edwin estava em segurança e bem abastecido.

Cadfael puxou o capuz para cima, e dirigiu-se em passo decidido para a portaria.

Foi mesmo azar que, a essa mesma hora, o Irmão Jerome viesse a atravessar o pátio em direcção à casa do porteiro, provavelmente com qualquer ordem para o dia seguinte, ou com qualquer queixa santimoniosa sobre irregularidades daquele dia. O Irmão Jerome sentia-se já na importante posição de secretário do superior eleito, e esforçava-se por adequadamente representar o seu amo Robert, agora que esse homem cheio de valor se apoderara dos privilégios e casa particular do superior. A autoridade delegada no Irmão Richard e diligentemente evitada por este sempre que possível, era sofregamente açambarcada pelo Irmão Jerome. Alguns dos noviços e alunos tinham já tido ocasião de lamentar tanto zelo.

- Tem alguma missão de caridade a hora tão tardia, Irmão? - sorriu Jerome de modo odioso. - Não podia esperar até de manhã?

- Poderia - ripostou Cadfael -, mas correndo o risco de piorar mais ainda. - E não se deteve mais tempo, antes prosseguiu o caminho, embora bem consciente dos olhos semicerrados que lhe observavam a partida. Cadfael, dentro dos limites da razão, tinha autorização para andar por onde quisesse, até para se ausentar dos serviços se a sua ajuda fosse exigida em qualquer outro lugar, e certamente não se ia agora explicar, quer com verdades, quer com mentiras, ao Irmão Jerome, embora outros menos ousados talvez se tivessem sujeitado só para não incorrer no desprazer de Robert. Fora um caso infeliz, mas não tinha nada de mal a esconder e, se voltasse para trás, iria sugerir justamente o contrário.

Havia ainda uma pequena luz acesa na cozinha da casa junto ao lago da azenha e, à medida que se aproximava, podia vê-la por uma fresta na portada. Ora, ali estava algo que se esquecera de tomar em consideração: a janela da cozinha dava para o lago e estava muito próxima, mais próxima até que da estrada, e no dia anterior tinha estado aberta por causa do braseiro que ficava por baixo dela, e ao qual servia de saída para o fumo. Uma saída, também, para um pequeno frasco atirado lá para fora logo depois de esvaziado, para que eternamente ficasse perdido na lama no fundo do lago? Que poderia ser mais conveniente? Nada de cheiros na roupa, manchas, nenhum medo de ser descoberto com a prova sobre a própria pessoa.

Amanhã, pensou Cadfael, muito satisfeito, vou passar uma busca desde a janela até à água. Quem sabe, talvez a coisa tenha caído mais perto que o previsto, e esteja algures na erva junto à borda da água, justamente à espera que eu a descubra! Isso seria algo de positivo! Mesmo que não venha provar quem a arremessou, pode ainda dizer-nos muita coisa.

Bateu ao de leve na porta, esperando ser respondido por Aldith ou Aelfric, mas foi a voz da própria Richildis quem perguntou muito baixo, do lado de dentro:

- Quem está aí?

- Cadfael! Abre-me por uns minutos.

O nome bastou e logo a porta se abriu e Richildis estendeu uma mão para o puxar para dentro da cozinha.

- Chiu, fala baixinho! Aldith está a domir na minha cama, e Aelfric lá dentro, na sala. Não conseguia dormir, por isso fiquei a pé até tarde, a pensar no meu filho. Oh, Cadfael, não tens nenhum conforto para me dar? Serás sempre seu amigo se puderes?

- Ele está bem e ainda em liberdade - disse Cadfael, sentando-se a seu lado sobre o banco encostado à parede. - Mas, toma bem atenção, se te perguntarem, não sabes nada. Podes dizer com verdade que não esteve aqui, e que não sabes onde está. É melhor assim!

- Mas tu sabes! - A luz fraca, mas firme, da pequena lamparina mostrava-lhe a face suavemente luzente, muito agradável, e com os vincos da idade como que apagados. Não respondeu; assim ela podia compreender tudo sozinha e podia continuar a afirmar com verdade que nada sabia.

- E é tudo o que me podes dar? - sussurrou.

- Não, posso ainda dar-te a minha solene palavra de honra de que ele não matou o padrasto. Isso eu tenho a certeza. E a verdade há-de vir à luz. Nisso tu tens de ter fé.

- Oh, e tenho, se ajudares a descobri-la. Oh, Cadfael, se aqui não estivesses, eu não suportava tudo isto! E tantos e constantes vexames e alfinetadas, quando só consigo pensar em Edwin. E Gervase que ainda nem na campa está; só amanhã! Agora que ele morreu, já não tenho direito a estábulo para o seu cavalo e, com tantos viajantes a chegar antes das festividades, eles querem a baia livre e por isso terei de o levar para outro lado ou vendê-lo... Mas Edwin vai querê-lo, se... - Abanou a cabeça cheia de desespero e foi incapaz de falar. - Disseram-me que vão arranjar algures um lugar para o pôr, até que eu lhe encontre outro estábulo. Talvez Martin o possa guardar...

Também, pensou Cadfael, indignado, bem que lhe podiam ter poupado esses pequenos problemas, pelo menos por alguns dias. Richildis aproximara-se mais dele, encostando o seu ombro ao seu. As vozes sussurrantes na sala pouco iluminada, e o calor que se evolava do braseiro agora quase só com cinzas, fê-lo recuar muitos anos, recordar encontros furtivos no celeiro do pai dela. Era melhor não se demorar para não ser arrastado mais profundamente!

- Richildis, vim para te perguntar uma coisa. Alguma vez o teu marido chegou a escrever e a selar o documento que fazia de Edwin seu herdeiro?

- Sim, escreveu - estava surpreendida com a pergunta -, era inteiramente legal e vinculativo mas, como este acordo com a abadia tem data posterior, naturalmente que anula o testamento. Ou.., - De repente percebeu que também o segundo acordo fora anulado de modo ainda mais abrupto que o primeiro. - Claro que agora esse acordo não tem qualquer validade. Então, a doação a Edwin continua de pé. Deve ser assim, porque o nosso homem de leis redigiu-o dentro de todas as regras, e tenho-o por escrito.

- Portanto, entre Edwin e o domínio tudo o que se interpõe é a ameaça de detenção por um homicídio que nós sabemos que ele não cometeu. Mas, Richildis, diz-me uma coisa, se souberes: supondo que acontece o pior... o que não pode, nem irá acontecer... e que ele é detido pelo assassínio do teu marido... que acontece então a Mallilie? A abadia já a não pode reclamar, Edwin não estaria em condições de a herdar. Quem será então o herdeiro?

Ela conseguiu ter a coragem de aceitar a possibilidade de acontecer o pior e pensar no que aconteceria se tal viesse a dar-se.

- Suponho que, como sua viúva, receberia uma pensão. Mas o domínio poderia apenas voltar à posse do suserano, que é o conde Chester, pois não há qualquer herdeiro legítimo. Ele poderia então entregá-lo a quem quisesse, do modo que melhor servisse os seus próprios interesses. Poderia ir parar às mãos de qualquer pessoa desta região a quem ele queira favorecer. Possivelmente ao meirinho Prestcote, ou a um dos seus oficiais.

Aquilo era verdade e, com excepção de Edwin, ninguém tinha qualquer hipótese de ganhar com a morte de Bonel; pelo menos, ganho material. Um inimigo suficientemente dominado pelo ódio, poderia achar a própria morte um ganho suficiente; isso, contudo, parecia uma reacção excessiva em relação a um homem que de modo algum era violento, por mais difícil que Edwin o tivesse considerado.

- Tens a certeza? Não haverá um sobrinho ou um primo algures no condado?

- Não. ninguém, caso contrário não me teria prometido deixar Mallilie a Edwin. Ele dava muita importância ao seu sangue.

O que Cadfael tivera em mente, fora a possibilidade de alguém, no intuito de conseguir a fortuna, ter planeado as coisas de modo a, de um só golpe, afastar tanto Bonel como Edwin, fazendo que o rapaz fosse preso pelo assassinato do padrasto. Mas, era evidente que tal ideia era ir longe de mais. Ninguém podia ter calculado, com o mínimo de certeza, as condições que a casa de Bonel proporcionava.

No intuito de dar conforto e encorajamento, Cadfael pousou a sua mão grande e desformada sobre a esguia mão de Richildis e, à luz difusa e com enorme ternura, acariciou-lhe os dedos não muito jovens e as linhas desenhadas pelas veias cor de violeta - não mais comovente do que o poderia ter sido qualquer mão macia de rapariguinha. Agora que a via quase em paz, também a sua face, apesar da idade e algumas rugas, era bela, traduzindo um bom humor e uma grande experiência de felicidade que nem aquela breve prova de desespero, separação e sofrimento tinham conseguido apagar. Era a sua própria juventude o que Cadfael recordava com saudade, mas não lamentava nada em relação a Richildis. Esta casara com o homem certo e fora abençoada, e o erro que posteriormente fizera ao casar com o homem errado estava agora encerrado sem qualquer dano irreparável desde que o adorado filho pudesse libertar-se do presente perigo. Isso, e só isso, pensou Cadfael com um sentimento de gratidão, é que constitui a minha tarefa.

A mão quente sob a sua mexeu-se um pouco e fechou-se, segurando a dele com força. A face, ainda cativante, voltou-se para o fitar de perto e com ar sério, e os olhos eram límpidos e simpáticos, e a boca traduzia um sentimento de culpa delicado e, simultaneamente, autocongratulatório.

- Oh, Cadfael, foi muito duro para ti? Precisava ter sido o claustro? Muitas vezes pensei em ti, mas nunca imaginei que te tivesse feito tanto mal. E já me perdoaste ter faltado à minha promessa?

- A culpa foi toda minha - disse Cadfael, com um fervor um tudo-nada exagerado. - Sempre te desejei muita felicidade e continuo a desejar - e fez o gesto de se levantar do banco, mas ela continuou a segurar-lhe a mão e levantou-se com ele. Uma mulher bondosa, mas perigosa, como são todas as do seu género.

- Lembras-te - disse, no sussurro abafado exigido pelo momento, mas com algo ainda mais secreto na sua intimidade - da noite em que trocámos as nossas promessas de casamento? Foi em Dezembro, também. Tenho pensado muito nisso desde o dia em que soube que aqui estavas... um monge beneditino! Quem poderia imaginar que tudo acabaria assim! Mas ficaste afastado tanto tempo!

Estava, na verdade, na hora de ir. Cadfael retirou suavemente a mão, desejou-lhe docemente uma boa noite e saiu discretamente antes que lhe acontecesse pior. Deixá-la acreditar que a sua vocação fora motivada pela perda da sua deliciosa pessoa, pois essa convicção ajudá-la-ia até que o seu mundo voltasse à normalidade e segurança. Quanto a ele, não tinha qualquer sentimento de arrependimento. O capuz de frade servia-lhe bem e agradava-lhe.

Saiu através do frio e do brilho da noite gelada, de volta ao lugar que escolhera, e que continuava a preferir agora e para sempre.

Atrás de si, quando se aproximava da portaria, uma delgada sombra destacou-se do abrigo proporcionado pelo beiral da casa de Richildis e seguiu-o plena de satisfação pela estrada fora, mantendo-se bem junto à beira do caminho, para o caso de ele olhar para trás. Mas o Irmão Cadfael não olhou para trás. Acabava justamente de receber uma lição sobre os perigos que essa equívoca actividade podia representar; e, de qualquer modo, não estava no seu feitio.

 

Na manhã seguinte, depois de o Irmão Andrew ter acabado a leitura das páginas sagradas e quando se chegou aos assuntos do convento, a reunião do capítulo prometia ser tão maçadora como de costume; mas Cadfael, embora dormitando docemente por detrás do seu pilar, permanecia contudo suficientemente alerta para esticar as orelhas quando o Irmão Mathew anunciou que a secção dos hóspedes estava completamente cheia, e que era necessário mais espaço para guardar as montadas de outras pessoas nobres que ainda contavam receber; por essa razão era necessário transferir alguns dos cavalos e mulas que pertenciam à abadia para qualquer outro lugar, de modo a poderem acomodar dentro de muros os animais dos viajantes. Alguns comerciantes, aproveitando um Outono clemente depois de um Verão de cercos e desordem, seguiam agora a caminho de casa para as festas de Natal, e muitos nobres que possuíam domínios naquela zona retiravam-se para os seus lares, para celebrarem as festas longe das armas e do clima de agitação política do sul. Era manifestamente verdade que os estábulos estavam superlotados e o grande pátio estava cada dia mais animado e movimentado com as chegadas e partidas.

- Há ainda o caso do cavalo que pertencia a Master Gervase Bonel - disse o Irmão Mathew - que hoje vai a enterrar. A nossa obrigação de fornecer estábulo e alimento agora já acabou, embora eu saiba muito bem que o caso está em suspenso até que se esclareça o problema da morte do homem e do destino dos seus pertences. Mas a viúva, como sua sobrevivente, não tem de modo algum direito a estábulo para um cavalo. Ela tem na cidade uma filha casada que sem dúvida poderá tomar conta do animal; claro que teremos de lhe dar abrigo até que o assunto seja resolvido, mas não precisa ocupar uma baia do nosso estábulo principal. Poderei ter a vossa aprovação para o levar, juntamente com as nossas mulas de trabalho, para o nosso barracão no terreiro da feira de cavalos?

Era mais do que certo que isto não tinha a aprovação de Cadfael! Continuou rigidamente sentado, cheio de alarme e desespero, e fulo, mais pela infeliz escolha que fizera ao procurar um esconderijo para Edwin, que pela proposta verdadeiramente prática de Mathew. Porém, como poderia ter previsto tal coisa? Além do propósito efectivo com que tinha sido construído o barracão, para temporariamente acomodar os animais para as feiras de cavalos e a feira de S. Pedro, só muito raramente tinha sido necessário utilizá-lo. E agora, como poderia comunicar com Edwin a tempo de o afastar do perigo de ser descoberto? Em plena luz do dia e com todos os deveres espirituais do dia a que não podia fugir e que lhe tolhiam os movimentos?

- É certo que aí teremos um abrigo adequado para os animais - concordou com o Prior Robert. - Será melhor fazer imediatamente a muda.

- Vou dar instruções aos empregados do estábulo. E, padre, está igualmente de acordo em que o cavalo da viúva Bonel seja mudado ao mesmo tempo que os outros?

- Certamente! - Agora que parecia duvidoso que jamais viesse a ter na mão o domínio de Mallilie, embora não tencionasse desistir sem luta, Robert, não tinha já o mesmo interesse na família Bonel. Aquela morte pouco natural com todas as suas consequências era como espinhos na sua carne e, pudesse ele fazê-lo decentemente, afastaria não só o cavalo como toda a gente da casa. Ele não queria a ideia de assassínio associada com o seu convento, não queria os oficiais do meirinho a fazer perguntas a toda a gente, nem a aura de notoriedade pairando sobre os edifícios do mosteiro como se fosse um mau cheiro.

- Vai ser necessário aprofundar as complicações legais a respeito do problema relativo ao contrato, o qual agora inevitavelmente perdera a validade se um novo senhor o não quiser endossar e terminar. Mas, até depois do enterro de Master Bonel claro, nada se poderá fazer. O cavalo, porém, pode perfeitamente ser levado para outro sítio. Duvido que a viúva tenha agora qualquer necessidade de montada, mas isso já não é problema nosso.

Ele já está arrependido, pensou Cadfael de no primeiro momento de simpatia e compaixão ter autorizado o enterro de Bonel no transepto. Mas agora a sua dignidade não lhe permite voltar com a palavra atrás. Graças a Deus, pois assim Richildis terá um pouco de conforto no facto de o funeral ser solene e importante, pois tudo o que Robert faz, tem de ser feito com grandeza. Gervase tem estado na capela mortuária e, ao cair da tarde, jazerá em solo da abadia. Isso iria aliviar e acalmar Richildis. Esta sentia, Cadfael estava certo disso, uma espécie de sentimento de culpa em relação ao morto. Sempre que estivesse só, jogaria aquele jogo sem idade e sempre desmoralizante de: "Se... se eu não tivesse aceitado casar com ele... se eu tivesse conseguido que as coisas corressem melhor entre ele e Edwin... se... talvez ele ainda hoje estivesse vivo e de boa saúde!"

Cadfael fechou os ouvidos à discussão sem interesse sobre a possibilidade de se comprar terra para aumentar o cemitério, e entregou-se ao estudo dos seus próprios problemas que eram muito mais prementes. Não era propriamente impossível inventar qualquer recado a fazer do lado de fora da portaria na altura em que os empregados dos estábulos estivessem a instalar os cavalos nas novas premissas, e os irmãos laicos nunca se atreveriam a pôr em dúvida qualquer movimento seu. Podia tão bem tirar Edwin do seu refúgio num hábito beneditino como o pudera para lá levar, na condição de calcular com precisão a hora de saída. E, uma vez cá fora, para onde levá-lo? Fazê-lo passar pela portaria é que não certamente. Na estrada que seguia para St. Giles, havia uma ou duas famílias que ele tratara quando tinham estado doentes, quando as crianças tinham tido febre. Talvez estivessem dispostos a dar asilo a um jovem que ele recomendasse, mas não lhe agradava muito a ideia de os envolver no caso. Havia também, um pouco mais longe, a leprosaria de St. Giles, onde muitas vezes os irmãos mais novos serviam durante parte do noviciado, cuidando daqueles desafortunados. Seguramente se poderia combinar algo para esconder o rapaz perseguido.

Sem poder crer nos seus ouvidos, Cadfael ouviu mencionar o seu nome e foi abruptamente arrancado aos seus projectos. Do outro lado da sala do capítulo, num lugar o mais próximo possível do Prior Robert, o Irmão Jerome tinha-se levantado e estava em pleno discurso, a magra figura de porte enganadoramente humilde, os olhos argutos semicerrados em beata brandura. E acabava justamente de proferir o nome do Irmão Cadfael, com odiosa preocupação e afecto!

- ... Não estou a dizer, padre, que houve qualquer falta de propriedade na conduta do nosso tão apreciado irmão. Estou apenas a apelar para a vossa ajuda e orientação para bem da sua alma, pois ele está em perigo. Padre, veio a meu conhecimento que, há muitos anos, antes de receber a chamada para esta santa vocação, o Irmão Cadfael teve relações de mundana afeição com a senhora que hoje se chama Mistress Bonel e que é hóspede deste convento. Devido à morte de seu marido, o irmão foi de novo posto em contacto com ela; não por falta sua, oh, não, eu não estou a censurar, pois ele foi apenas chamado para ajudar um moribundo. Mas, padre, pense que severo teste não é imposto à sincera devoção de um irmão, quando inesperadamente se encontra de novo tão próximo de uma ligação com o mundo há tanto esquecida!

A julgar pela cabeça pomposamente erguida e pescoço esticado do Prior Robert, que a este permitiu olhar para o irmão em perigo ainda de maior altura, Robert estava efectivamente a considerar o sério problema. E o mesmo se passava com Cadfael, cuja espantada indignação rapidamente se transformou em fria compreensão, cheia de animosidade. Tinha subestimado a audácia do Irmão Jerome e também o seu veneno. Para ter conseguido apreender tanto da história, certamente aquela orelha grande e sinuosa estivera amorosamente colada ao grande buraco da fechadura da porta de Richildis.

- Está a afirmar - perguntou Robert cheio de incredulidade - que o Irmão Cadfael esteve em conversa ilegítima com essa mulher? Em que ocasião? Nós próprios sabemos muito bem que ele assistiu a Master Bonel no seu leito de morte, que fez tudo o que pôde pelo infeliz, e que a triste viúva estava presente. Não temos qualquer censura a fazer a esse respeito, pois era dever seu ir onde dele tinham necessidade.

O Irmão Cadfael, a quem até aí ainda se não tinham directamente endereçado, continuava num silêncio inflexível e deixava-os continuar, pois era bem óbvio que este ataque fora tão inesperado para Robert como para si próprio.

- Oh, ninguém pode pôr isso em dúvida - concordou Jerome apressadamente. - Era seu dever de cristão prestar toda a ajuda que estivesse dentro das suas capacidades, e foi isso mesmo que fez. Mas, segundo soube, o nosso irmão ainda a noite passada visitou de novo a viúva e falou com ela. Certamente com a intenção de confortar e ajudar a infeliz. Mas, padre, não será necessário eu explicar todos os perigos que podem surgir em tais encontros. Deus não permita que me passe pela cabeça que um homem, que outrora esteve noivo de uma mulher e que foi trocado por outro, quando já de idade avançada e depois de ter abandonado o mundo, venha a ceder ao ciúme se um dia encontrar de novo o objecto do seu antigo amor. Não, isso não podemos nem mesmo considerar. Mas, não seria melhor que o nosso muito amado irmão ficasse completamente afastado até das tentações da memória? Falo como alguém que se preocupa pelo seu bem-estar e sanidade espiritual. Falas, pensou Cadfael, rangendo os dentes, como alguém que finalmente encontrou uma arma contra um homem a quem há anos odeias sem nada conseguir com isso. E, Deus me perdoe, mas se agora pudesse torcer-te esse pescoço esquelético, certamente o faria e de muito bom grado.

Levantou-se e saiu do seu lugar retirado para que o pudessem ver. - Eis-me aqui, padre prior; interrogue-me tanto quanto quiser a respeito das minhas acções. O Irmão Jerome está com um zelo um tanto ou quanto exagerado com respeito à minha vocação, a qual não sofre qualquer perigo. - E isso, pelo menos, era dito do coração.

O Prior Robert continuou a fitá-lo do alto com um ar demasiado pensativo para o gosto de Cadfael. Certamente que combateria qualquer sugestão de má conduta da parte de alguém do seu rebanho e defenderia este perante o mundo, embora apenas por amor de si próprio, mas podia também aproveitar a oportunidade de cercear as actividades independentes de uma pessoa que sempre lhe causara um certo desconforto, como se na brusca, prática e tolerante auto-suficiência de Cadfael visse uma tendência escondida para a sátira e a troça.

Robert não era parvo e dificilmente poderia deixar de ter notado que estava indirectamente a ser convidado a crer que Cadfael, uma vez confrontado com a sua velha amada agora casada com outro, de tal modo sucumbira ao crime que acabara por fazer o rival sair deste mundo por suas próprias mãos. Afinal de contas, quem melhor que qualquer outro conhecia as propriedades das ervas e das plantas, ou as proporções em que deviam ser usadas para o bem ou para o mal? Que Deus não permitisse que tal ideia entrasse na mente de ninguém, dissera devotamente Jerome, plantando ele próprio a semente da ideia com as próprias palavras com que a condenava. Era duvidoso se Robert consideraria seriamente tal pensamento, mas era seguro que o não censuraria a Jerome que lhe era continuamente muito útil e obsequioso. Nem se podia afirmar que a coisa fosse absolutamente impossível. Cadfael fabricara o óleo de acónito e sabia o que com ele se podia fazer. Nem mesmo precisava de o arranjar em segredo, pois tinha-o a seu próprio cargo; e se fora chamado à pressa para a cabeceira de um homem moribundo, quem poderia afirmar que não fora ele quem começara por administrar o veneno que fingia combater? E eu vi Aelfric atravessar o pátio, pensou Cadfael, e podia facilmente tê-lo feito parar com meia dúzia de palavras, levantado a tampa levado pela curiosidade despertada por um aroma tão saboroso, ele ter-me contado para quem fora enviado e eu ter-lhe adicionado mais um tempero da minha própria lavra! Um momento de distracção e podia ter sido feito. Como é fácil chamar sobre si uma suspeita que se não pode provar ser infundada!

- É realmente verdade, irmão - perguntou Robert gravemente - que conheceu Mistress Bonel intimamente durante a sua juventude, antes de ter tomado os votos?

- É - respondeu Cadfael de modo directo -, se com a palavra "intimamente" quer dizer conhecer bem em termos de afeição. Antes de eu ter seguido na cruzada, nós considerávamo-nos como noivos, embora mais ninguém soubesse do caso. Isso foi há mais de quarenta anos e não a voltara a ver. Durante a minha ausência, ela casou, e eu, depois do meu regresso, tomei o hábito. - No que se refere a este assunto, quanto menos palavras dissesse melhor.

- Por que é que, quando eles vieram para o nosso convento, o irmão não contou nem uma palavra de toda essa história?

- Eu não sabia quem era Mistress Bonel, até ao momento em que a vi. O nome nada significava para mim. pois só tinha ouvido falar do seu primeiro casamento. Como sabe, fui chamado para ir lá casa, e fui de boa-fé.

- Isso, eu reconheço - concedeu Robert. - Não observei nada de impróprio na sua atitude lá.

- Eu não estou a sugerir, padre prior - apressou-se Jerome a assegurar -, que o Irmão Cadfael tenha feito algo digno de censura... - O final arrastado da frase, sem palavras, sugeria o resto: "... por enquanto!", mas não se atreveu a pronunciá-lo. - Estou apenas preocupado na sua protecção contra os ataques da tentação. O demónio pode atraiçoar até uma afeição cristã.

O Prior Robert continuava o seu estudo intenso e profundo de Cadfael e, se é verdade que não exprimia condenação, as sobrancelhas erguidas e as narinas dilatadas não deixavam dúvidas quanto à sua desaprovação. Qualquer membro do seu convento não devia nem mesmo admitir que reparava numa mulher, a não ser através do ministério cristão ou por causa de qualquer assunto muito importante.

- Quando foi atender um homem doente, Irmão Cadfael, é certo que agiu da única maneira correcta. Mas é realmente verdade que tenha visitado essa mulher ontem à noite? Como justifica isso? Se ela precisava de conforto espiritual, temos cá um pároco. Há dois dias, o irmão tinha o direito e uma razão séria para lá ir, mas na noite passada certamente que não.

- Fui lá - disse Cadfael pacientemente, pois de nada lhe servia ser impaciente e nada mortificava mais o Irmão Jerome do que ser tratado com desinteressada indulgência - para fazer determinadas perguntas que podem ter relevância na investigação da morte do marido... um assunto que tanto o senhor, padre prior, como eu e todos os que aqui estamos, devemos piamente desejar que se esclareça o mais depressa possível para que o convento possa voltar a ter paz.

- Isso é assunto que diz respeito ao meirinho e aos seus homens - disse Robert secamente - e não lhe diz respeito a si. Segundo depreendi, não há mais dúvidas quanto ao culpado, e só falta deitar a mão ao jovem que fez essa coisa tão vil. Não me agrada a sua desculpa, Irmão Cadfael.

- De acordo com a obediência que lhe devo - disse Cadfael -, curvo-me perante a sua opinião, mas também não posso desprezar a minha pessoal. Eu penso que há alguma dúvida e que a verdade não será facilmente descoberta. E a minha explicação não era uma desculpa; foi para fazer essas perguntas que fui àquela casa. Foi um preparado meu, destinado a proporcionar alívio na dor, que usaram para provocar a morte, e nem esta congregação, nem eu, como membro dela, podemos descansar até que a verdade seja conhecida.

- Quando diz tal coisa, mostra falta de fé naqueles que defendem a lei e a quem compete fazer a justiça, coisa que lhe não compete a si. É uma atitude arrogante que me desagrada profundamente. - O que verdadeiramente estava a dizer era que queria afastar o Convento Beneditino de S. Pedro e S. Paulo daquele feio caso acontecido mesmo junto aos seus muros, e que encontraria o modo de impedir o trabalho efectivo de uma consciência que tão inconveniente era para os seus planos pessoais. - Em minha opinião, o Irmão Jerome tem razão, e é nosso dever assegurarmo-nos de que ao Irmão não seja permitido ser, por sua própria loucura, arrastado para qualquer perigo espiritual. O irmão não terá mais nenhum contacto com Mistress Bonel. Até que o futuro dela esteja decidido e que ela abandone a casa onde presentemente habita, o irmão restringir-se-á a ficar dentro do enclave e a dedicar as suas energias às funções que lhe competem de trabalho e adoração, e apenas dentro destes muros.

Nada podia fazer para evitar aquilo. Votos de obediência que se fizeram de livre vontade, não podem ser postos de lado na primeira altura em que se tornem inconvenientes. Cadfael inclinou a cabeça - empregar a palavra "curvou" seria empregar a palavra errada, pois parecia mais um pequeno touro, sólido e temível, que inclinava a fronte armada para se lançar ao ataque!, e disse em tom sombrio:

- Obedecerei à ordem que me foi dada, como é de meu dever.

- Mas tu, meu caro jovem - dizia ele um quarto de hora mais tarde ao Irmão Mark; estavam no barracão do jardim com a porta bem fechada para que não fugissem aos fumos de frustração e revolta, mais de Mark que propriamente seus -, tu não tens de obedecer a tal ordem.

- Isso - disse o Irmão Mark, começando a animar-se -, era o que eu estava a pensar. Mas temia que o irmão não pensasse o mesmo.

- Deus bem sabe que nunca te envolveria nos meus pecados - suspirou Cadfael - se o caso não fosse urgente. E, mesmo assim, talvez não devesse... Talvez o devesse deixar defender-se sozinho, mas com tanta coisa contra ele...

- "Ele!" - disse pensativamente o Irmão Mark, mudando a posição dos pés sob o banco. - É o "ele" a quem pertencia algo que não era um frasco e que nós não conseguimos encontrar? Pelo que ouvi, ainda mal saiu da infância. Os Evangelhos insistem muito na nossa obrigação de tomar conta das crianças.

Cadfael lançou-lhe um olhar de afeição. Esta criança tinha apenas mais uns quatro anos que a outra e, desde a morte da sua mãe, quando tinha três anos, ninguém cuidara da sua infância, para além de lhe darem abrigo e de lhe atirarem com alguma comida, e tudo isto de má vontade. O outro fora amado, amimado e admirado toda a sua vida até esses últimos meses de conflito e o presente que apresentava um perigo mais desesperado.

- Ele é um rapaz decidido e capaz, Mark, mas confia em mim. Tomei-o a meu cargo e dei-lhe ordens. Se tivesse sido deixado por sua própria conta, penso que se teria safado.

- Diga-me apenas onde devo ir e o que devo fazer - disse Mark, recuperada toda a sua boa disposição -, e isso farei.

Cadfael disse-lho.

- Mas não antes da missa solene. Não deves faltar, nem de qualquer outro modo pôr a tua reputação em perigo. E, se a coisa se complicar, afastas-te e manténs-te em segurança, ouviste?

- Ouvi - disse o Irmão Mark e sorriu.

 

Pelas dez horas dessa manhã, quando começou a missa solene, Edwin estava farto de obediência e virtude. Nunca ficara tanto tempo inactivo desde a primeira vez que trepara em rebelião para fora do berço e seguira de gatas até ao pátio onde uma Richildis furiosa o fora pescar entre as rodas da carroça. Contudo, devia ao Irmão Cadfael esperar com paciência, tal como lhe prometera, e só no mais escuro da noite se aventurara a esticar as pernas e explorar as veredas e caminhos que vinham dar ao terreiro da feira, e o silencioso e vazio pedaço de estrada em frente às portas principais da cidade, essa grande estrada que seguia até Londres. Tivera o cuidado de voltar para o seu sótão bem antes de começar a aparecer luz a oriente, e ali continuava, sentado num barril abandonado, a bater com os pés e a comer uma das maçãs de Cadfael e a fazer votos para que algo acontecesse. Pelas fendas de arejamento entrava no sótão luz suficiente para fazer um dia obscuro, sombrio, da cor da palha.

Se os desejos são preces, a prece de Edwin foi respondida com uma prontidão quase que grosseira. Ele estava habituado a ouvir os cavalos que passavam e ocasionalmente as vozes das pessoas que seguiam a pé, por isso não se preocupou com o som de cascos a andar lentamente, nem com as vozes monossilábicas que se aproximavam, vindas do lado da cidade. Mas, de súbito, a grande porta dupla do andar de baixo foi aberta, ouvindo-se o seu peso sólido embater de encontro à parede, e o som dos cascos que soavam como sendo de cavalos trazidos à arreata, passou a ter um tom abafado quando embateram no chão de terra batida do interior.

Edwin endireitou-se no seu assento, ficou quieto e muito calado, e pôs-se à escuta de orelhas espetadas. Um cavalo... dois... mais outro; mais leves de peso e passada, cascos pequenos - mulas, talvez? E pelo menos dois criados, provavelmente três ou quatro. Ficou petrificado, com medo de se mover, consciente até do ruído que fazia ao mastigar a sua maçã. Se pretendessem apenas abrigar os animais durante o dia. tudo poderia ainda correr bem, e tudo o que lhe restava a si fazer era ficar sentado e quieto no seu esconderijo todo esse tempo.

Na parte do soalho que estava vazia havia um pesado alçapão para que, quando necessário, os criados tivessem acesso ao sótão sem terem de ir por fora e sem precisarem de trazer a chave. Edwin desceu do seu barril e foi deitar-se cautelosamente no chão e encostar uma orelha numa fenda.

Uma voz jovem falava docemente para acalmar um cavalo impaciente, e Edwin ouviu o som de uma mão a acariciar o pescoço e a espádua do cavalo.

- Calma aí, meu lindo! E que bela criatura que és! O velhote percebia de cavalos, isso eu não posso negar. Está estragado por falta de exercício. É um crime vê-lo assim desaproveitado.

- Mete-o numa baia - ordenou, em tom breve, uma voz mal-humorada -, e vem dar-me uma ajuda a tratar destas mulas.

Houve ruídos contínuos de um para outro lado, enquanto instalavam os animais. Edwin pôs-se silenciosamente de pé e enfiou o hábito beneditino por cima das suas próprias roupas porque, se por azar fosse visto nas cercanias daquele edifício, era o melhor disfarce que poderia apresentar. Contudo, estava a parecer que provavelmente tudo iria decorrer em segurança. Voltou ao seu posto de escuta justamente a tempo de ouvir uma terceira voz que dizia:

- Encham as manjedouras. Se cá em baixo não tiverem feno suficiente, há muito lá em cima.

Afinal de contas, iam invadir-lhe o seu refúgio! Ouvia-se já um pé de encontro às travessas da escada. Edwin levantou-se à pressa, já se não dando ao trabalho de não fazer barulho, e fez rolar o barril até ficar solidamente pousado sobre o alçapão, pois os trincos deviam estar do lado de baixo. O barulho que alguém fazia para conseguir fazê-los deslizar apesar da ferrugem encobriu o ruído produzido pelo barril ao ser posto no sítio, e Edwin empoleirou-se no topo da sua barricada e desejou ter o triplo do peso que efectivamente tinha. Mas é muito difícil empurrar um peso acima da nossa cabeça e, pelos vistos, até o seu delgado corpo era suficiente. O alçapão levantou-se ligeiramente, mas nada mais.

- Está preso - gritou uma voz zangada lá de baixo. - Foi algum palerma que trancou por cima.

- Não há ferrolhos do lado de cima. Usa a cabeça, homem; não és assim tão estúpido!

- Então é porque puseram qualquer coisa pesada sobre o alçapão; digo-te que não se mexe. - E tornou a sacudi-lo cheio de irritação para demonstrar o que dizia.

- Ora, desce daí para baixo e deixa um homem a sério tentar o braço - disse desdenhosamente o da voz rabugenta. Ouviu-se o som alarmante de pés mais pesados sobre as travessas da escada que deu uns estalidos. Edwin susteve a respiração e tentou convencer-se que ficava mais pesado graças a ter os músculos retesados. O alçapão abanou mas não se levantou nem um centímetro, e o criado que estava por baixo ofegava e praguejava.

- Que te tinha eu dito, Will? - cacarejou o colega, pleno de satisfação.

- Temos de ir à volta pela outra porta. Sorte que trouxe as duas chaves. Wat, vem ajudar-me a tirar a coisa que está a bloquear o alçapão e a atirar o feno para baixo.

Ele não o sabia, mas na verdade não precisava de chave porque a porta não estava fechada. A voz afastou-se rapidamente pela escada abaixo e ouviram-se passadas junto à porta do estábulo. Havia menos dois lá em baixo, mas era questão de momentos antes que fosse descoberto; nem mesmo lhe dava tempo para se enterrar bem no feno, mesmo que isso fosse um estratagema seguro quando aparecessem com as forquilhas. Se eram apenas três ao todo, porque não tentar o que ficara só, em vez dos outros dois? Edwin fez apressadamente rolar o barril para o pôr de encontro à porta e depois atirou-se ao alçapão, puxando com toda a força. Este subiu com tanta facilidade que o rapaz quase foi atirado de costas, mas recompôs-se e passou rapidamente pela abertura. Não tinha tempo a perder para voltar a fechar o alçapão e toda a sua atenção estava concentrada nos perigos do andar de baixo.

Eles eram quatro e não três! Ainda ali estavam dois junto dos cavalos e, embora um estivesse de costas voltadas e se ocupasse a pôr feno numa manjedoura no outro lado do comprido estábulo, o outro, um sujeito magro e alto de emaranhado cabelo grisalho, estava apenas a curta distância do fundo da escada, tendo acabado de sair de uma das baias.

Era demasiado tarde para pensar em mudar de planos e Edwin nem hesitou. Depois de ter passado o alçapão, atirou-se em voo sobre o criado. O homem acabava justamente de se aperceber do movimento súbito e levantou repentinamente a cabeça para procurar a sua origem, quando Edwin caiu sobre ele numa nuvem de enfunadas saias pretas e o fez cair no chão, cortando-lhe momentaneamente a respiração. Qualquer vantagem que o hábito pudesse ter representado para o rapaz, depois do assalto, estava certamente perdida. O outro empregado voltou-se ao ouvir o grito de espanto do colega e ficou estarrecido com o espectáculo daquilo que parecia ser um irmão beneditino a levantar-se do chão com o hábito seguro numa mão enquanto a outra agarrava a forquilha que a sua vítima deixara cair. O criado nunca vira um monge comportar-se de tal modo. Ganhou coragem e lançou-se numa corrida indignada que parou de modo igualmente abrupto quando a forquilha foi dextramente apontada na sua direcção. Mas. por essa altura, o homem caído estava também a pôr-se de pé, entre o fugitivo e a porta toda aberta.

Havia apenas um caminho livre e Edwin seguiu por aí, de forquilha na mão, recuando para dentro da baia mais próxima. Só então, com o pouco de atenção que podia desviar dos seus adversários, reparou no cavalo a seu lado, o tal que estava tão nervoso, segundo o jovem criado, a estragar-se por falta de exercício, o que era uma vergonha. Era um cavalo alazão muito vivaz, com crina e a cauda em tom mais claro e uma mancha branca na cabeça, a bater com os cascos devido à excitação provocada por toda aquela confusão, mas que esticou o focinho para a cabeça de Edwin, relinchando-lhe ao ouvido. Voltara-se da manjedoura para ver a bulha e o caminho à sua frente estava livre. Com um grito de reconhecimento e alegria, Edwin lançou-lhe um braço ao pescoço.

- Rufus... oh, Rufus!

Deixou cair a forquilha, lançou uma mão à crina esvoaçante, saltou e sentou-se no elevado dorso. Que importava que não tivesse nem sela nem rédeas, quando já montara este cavalo em pêlo mais vezes do que as que podia contar, antes de ter caído completamente fora das graças do seu dono? Enterrou os calcanhares e fez pressão com os joelhos e incitou o cúmplice, já mais que pronto, a lançar-se num voo de cabeça.

Se é verdade que os criados, quando compreenderam que o hábito de Edwin era disfarce, tinham estado dispostos a atacá-lo, também é facto que se mostravam menos interessados em atravessar-se no caminho de Rufus. Este saltou da baia como a flecha de um arco, e ambos se afastaram de um salto, em tal precipitação que o mais velho dos criados caiu de costas sobre uma gabela de feno, e de novo ficou estendido no chão. Edwin ia quase deitado sobre o dorso retesado, as mãos agarradas à crina, e sussurrava palavras incoerentes de gratidão e encorajamento nas orelhas do animal. Chegaram ao triângulo do terreiro da feira e, por instinto, Edwin usou os joelhos e calcanhares para virar o cavalo para o lado oposto à cidade, para longe das portas principais.

Os dois homens que tinham subido pela escada das traseiras e estavam com dificuldades para abrir a porta, para não mencionar o facto de, para começar, a terem encontrado inexplicavelmente aberta, ouviram o tumulto e precipitaram-se para espreitar na direcção da estrada.

- Deus nos acuda! - exclamou Wat, de olhos esbugalhados. - É um dos irmãos! Que irá ele fazer com tanta pressa?

Nesse momento, o vento ligeiro enfunou o capuz de Edwin e empurrou-lho para os ombros, pondo-lhe a descoberto o luzente emaranhado que era o seu cabelo e a face jovem. Will soltou um grito selvagem e precipitou-se pelas escadas abaixo.

- Estás a ver aquilo? Aquilo não tem nenhuma tonsura e não é nenhum irmão! Aquilo é o rapaz de quem o meirinho anda à caça. Quem mais iria esconder-se no nosso barracão?

Mas Edwin já ia longe e não havia no estábulo outro cavalo de igual qualidade a Rufus para ir em sua perseguição. O jovem criado dissera a verdade; Rufus estava frustrado e enervado por falta de exercício e agora, sentindo-se à solta, estava pronto a galopar a toda a brida. Havia agora apenas um obstáculo entre eles e a liberdade. Só demasiado tarde Edwin recordou os avisos de Cadfael para em nenhuma circunstância tomar a estrada para Londres, pois certamente haveria uma patrulha em St. Giles. no ponto onde acabavam os subúrbios da cidade, para verificar todo o tráfego que passava e ver se o encontravam. Só se lembrou quando viu à distância um grupo de quatro cavaleiros bem espaçados na estrada e que se aproximavam a trote lento. A guarda acabava de ser rendida e aqueles eram o grupo que largara o serviço e voltava agora para o castelo.

Certamente que não podia passar por aquela linha de cavaleiros, e o hábito negro não os enganaria nem por um momento, quando vestido por um cavaleiro seguindo a velocidade tão desesperada. Edwin fez a única coisa possível. Com voz suplicante e joelhos prementes fez parar a sua montada e fê-la dar meia volta, lançando-se de volta pelo caminho por onde viera, sempre no mesmo galope desenfreado. E, muito atrás de si, ouviu um grito de alegria que lhe disse que estava agora a ser perseguido por um grupo de decididos homens de armas, inteiramente persuadido que perseguiam um malfeitor, mesmo que ainda não estivessem certos quanto à sua identidade.

O Irmão Mark, depois da missa solene, apressou-se a atravessar o terreiro da feira, preocupado com a ideia de entrar no sótão sem ninguém dar por ele, para que mais tarde nenhuma pessoa pudesse dizer que tinham saído dois, mas só um tinha entrado. Chegou perto do barracão justo a tempo de ouvir a comoção e gritaria e ver Edwin, no seu soberbo cavalo, precipitar-se de volta pela estrada principal, o capuz e as saias esvoaçantes, a cabeça inclinada sobre a crina flamejante. Nunca antes pusera a vista em Edwin Gurney, mas não tinha quaisquer dúvidas quanto à identidade daquele desesperado que galopava a toda a brida; nem, infelizmente, quaisquer dúvidas quanto ao facto de ser já demasiado tarde para a sua própria missão. O perseguido fora desalojado do seu abrigo, embora não tivesse sido ainda apanhado. Mas não havia nada, absolutamente nada, que o Irmão Mark pudesse fazer para o ajudar.

O chefe da estrebaria, Will, um homem decidido, apanhara apressadamente o melhor dos restantes cavalos que tinha a seu cuidado e preparava-se para perseguir o fugitivo; mas, acabava de se pôr na sela, quando viu o cavalo alazão disparado de volta, na direcção oposta. Meteu as esporas ao cavalo para tentar interceptá-lo, embora o prospecto fosse intimidante; mas a coragem do cavalo não se assemelhava à sua, e o animal estacou e saltou para o lado quando viu o pescoço muito esticado de Rufus, as suas orelhas bem para trás, os olhos a rolar nas órbitas. Um dos criados empunhou uma forquilha na direcção do animal a galope mas, para falar verdade, não tinha um ar muito decidido, e Rufus limitou-se a dar um salto espantado para o lado, sem mesmo diminuir a velocidade, e continuou o seu caminho em direcção à cidade.

Will bem o podia ter seguido, embora com poucas esperanças de manter à vista aquela cauda amarela e encapelada; mas, por essa altura, o clamor dos perseguidores aproximava-se ao longo da estrada, e Will ficou mais que contente em lhes ceder a tarefa. Afinal de contas, era a eles que competia apanhar os malfeitores e, independentemente de qualquer outra coisa que esse pseudo monge pudesse ter feito, era bem certo que tinha roubado um cavalo que pertencia à viúva Bonel e que estava à guarda da abadia. Era óbvio que o roubo devia ser imediatamente participado. Seguiu na peugada dos guardas a galope, acenando uma mão para os fazer parar, e os seus três colegas aproximaram-se também, para dar igualmente as suas versões sobre o acontecido.

Por essa altura, havia já substancial audiência. Os passantes, cheios de satisfação, tinham-se recusado a continuar caminho para não perderem tão prometedora barafunda, e muita gente se precipitara para fora das casas ali mais próximas, para descobrir o que significava tanta cavalgada rápida. Durante a pausa que se fizera para a troca de informações, várias crianças tinham-se aproximado para espreitar e ouvir, e isso veio atrasar o recomeço da perseguição. Apareceram depois as mães para virem buscar as crianças, e só serviram para manter o caminho bloqueado um bom minuto mais. Mas não se viu qualquer explicação razoável para o facto de, no último momento, quando praticamente se já tinham posto a caminho, o cavalo do capitão da guarda ter subitamente relinchado cheio de indignação, se ter empinado e quase deitado ao chão o seu cavaleiro, o qual, que não contava com tal procedimento, teve de gastar mais alguns minutos até dominar o animal ofendido, e poder então juntar os seus homens e galopar atrás do fugitivo.

O Irmão Mark, esticando-se e espreitando juntamente com o resto dos curiosos, observou os guardas que seguiam em direcção à cidade, e tinha a certeza que o cavalo alazão tivera tempo de desaparecer de vista. O resto era com Edwin Gurney. Mark enfiou as mãos nas amplas mangas, puxou o capuz bem para a frente para ensombrear uma face plena de modéstia, e dirigiu-se de volta à portaria da abadia, cheio de novidades. Pelo caminho, deitou fora o segundo seixo que apanhara perto do barracão. Nas propriedades do seu tio, tinha sido posto a trabalhar com a idade de quatro anos, para pagar o seu magro sustento; mandavam-no seguir atrás do arado com um pequeno saco cheio de pedras, para afastar as aves que comiam as sementes. Tinha-lhe levado dois anos a descobrir que a sua simpatia estava com as aves esfomeadas e que, na verdade, não as queria prejudicar; mas, por essa altura, já tinha uma pontaria terrivelmente certeira, e nunca mais perdera a perícia.

- E seguiste até à ponte? - interrogou, ansiosamente, Cadfael. - E os guardas da ponte nem sequer o tinham visto? E os homens do meirinho tinham-no perdido?

- Absolutamente desaparecido - participou o Irmão Mark, cheio de satisfação. - Não atravessou para entrar na cidade, pelo menos naquele sítio. Se quer saber a minha opinião, não pode ter-se desviado da estrada por nenhum dos caminhos perto da ponte, pois não podia ter a certeza de não ser visto. Penso que deve ter seguido ao longo do Gaye, pela margem do lado da praia, onde os pomares proporcionam uma certa cobertura. Mas que poderia ter feito depois daí, é coisa que não consigo imaginar. Mas o certo é que ainda o não apanharam. Vão atirar-se aos parentes que vivem dentro da cidade, mas aí não o encontrarão. - Fitou, muito sério, a face perturbada de Cadfael, e animou-o: - O senhor sabe que vai provar que ele não é o responsável de nada. Para que se preocupa?

Ter alguém tão absolutamente confiante na vitória da verdade e no crédito que o Irmão Cadfael tinha no céu, era já motivo de preocupação mais que suficiente, mas parecia que os acontecimentos daquela manhã em nada tinham perturbado o jovem Mark, e isso era bem motivo para gratidão.

- Vem jantar - disse, reconhecido, Cadfael -, e depois vai descansar, pois, com uma fé como a tua, bem podes fazê-lo. Estou crente que se atirares uma pedra com determinada intenção, ela certamente acertará no alvo. Quem quer que tenha escolhido o teu nome, parece que previa o teu futuro. (1) E já que falamos no assunto, qual é o teu alvo pessoal? Um bispado?

- Papa ou cardeal - disse Mark, alegremente. - Não faço a coisa por menos.

- Oh, não - disse o Irmão Cadfael muito sério. - Para além de bispo e do ministério, penso que estarias desaproveitado.

Durante todo aquele dia os homens do meirinho andaram à caça de Edwin Gurney pela cidade, pois calculavam que era aí que devia ter procurado ajuda depois de, por qualquer modo, ter conseguido atravessar desapercebido a ponte. Não tendo aí encontrado qualquer sinal da sua passagem, enviaram patrulhas para que cobrissem todas as principais estradas que saíam da península. Situada numa laçada apertada formada pelo rio Severn, Shrewsbury tinha apenas duas pontes, uma que ligava à abadia e a Londres, e por onde se pensava que Edwin tivesse entrado, outra que ligava para Gales, e de onde partia um leque de caminhos que seguiam para ocidente.

Estavam convencidos que o fugitivo iria seguir para Gales, pois era essa a maneira mais rápida de se livrar da jurisdição de Shrewsbury, embora o futuro ali talvez provasse vir a ser incerto.

Um grupo que patrulhava a margem do rio do lado da abadia, onde poucas esperanças tinham de lhe encontrar a pista, foi acostado por uma jovem de cerca de onze anos, muito excitada, que correra através

 

Nota 1: Temos aqui um trocadilho que perde o seu sentido ao ser traduzido. "Alvo" em inglês diz-se mark. "Mark" é também o nome do jovem monge, que em português seria "Marcos". (N. da T.)

 

dos campos para lhes perguntar em voz ofegante se era verdade que o homem que procuravam vestia um hábito de monge e montava um cavalo castanho-claro, com a crina e a cauda de um amarelo-pálido. Isso constituiu para eles uma surpresa! Sim, ela tinha-o visto, e apenas há pouco tempo, saindo cautelosamente daquele bosque e afastando-se a trote para leste, como se tencionasse atravessar a curva próxima do rio e seguir em volta para ir apanhar a estrada principal para Londres, um pouco para lá de St. Giles. Como Edwin principiara por seguir nessa direcção e encontrara a estrada bloqueada à entrada da cidade, o relatório da rapariga fazia sentido. Era óbvio que ele tinha conseguido encontrar um esconderijo onde permanecera algum tempo na esperança de que a caçada tomassse a direcção oposta, e que agora se sentira em segurança para prosseguir o seu caminho. A rapariga disse que talvez ele se estivesse a dirigir para o vau do rio Uffington.

Agradeceram-lhe calorosamente, enviaram de volta um homem para que participasse que tinham encontrado uma pista quente e para trazer reforços, e seguiram a caminho do vau, em passo acelerado. E Alys, depois de ficar a observá-los até os perder de vista, dirigiu-se em passo igualmente acelerado em direcção à estrada e à ponte. Ninguém dava atenção às entradas e saídas de rapariguinhas de onze anos.

Do lado de lá do vau em Uffington, os caçadores avistaram pela primeira vez a sua presa, sacolejando em passo quase calmo ao longo do estreito que conduzia a Upton. No momento em que o rapaz se voltou e os viu, prosseguiu a toda a velocidade; a cor e o porte do cavalo eram inconfundíveis, e os perseguidores não podiam deixar de se perguntar por que motivo o cavaleiro usava ainda o hábito roubado, agora mais um estorvo que vantagem, pois toda a gente da região devia andar à sua procura.

Estava-se, então, no meio da tarde, e a luz começava a baixar. A perseguição prolongou-se durante horas. O rapaz parecia conhecer todos os atalhos e esconderijos e conseguiu despistá-los várias vezes, e conduzi-los a alguns sítios inesperados e perigosos, saindo por vezes das estradas para seguir por prados pantanosos onde um robusto homem de armas foi atirado para um charco malcheiroso, ou levá-los por lugares sombrios onde breve era impossível distinguir a passagem mais fácil e onde um cavalo se feriu numa pedra e ficou coxo. Conduziu-os através de Atcham, Cound e Cressage, perdendo-os de tempos a tempos, até que Rufus se cansou e seguiu a passo pelos bosques do lado de lá de Acton e então alcançaram-no, cercaram-no e atiraram-se a ele, segurando-o pelo hábito e o capuz. Fizeram-no descer do cavalo e amarraram-lhe as mãos e, em paga da perseguição a que os obrigara, aplicaram-lhe alguns maus tratos, o que ele suportou em silêncio e com filosofia. A única coisa que pediu foi que as milhas de volta a Shrewsbury fossem percorridas a passo lento, por causa do cavalo.

Numa qualquer altura, tinha conseguido transformar em rédeas o cinto de corda do hábito. Os homens tiram-lho de novo para o prender atrás do soldado que menos peso tinha de todos eles, pois temiam que, mesmo de mãos atadas, lhes fugisse e desaparecesse a pé pelos bosques escurecidos.

E foi assim que trouxeram o prisioneiro durante todo o longo caminho de volta a Shrewsbury, e à tardinha chegaram à portaria da abadia, já agora, o melhor era devolver imediatamente o cavalo roubado; e, como de presente era o único crime manifestamente comprovado contra o réu, e até ser feita uma mais profunda investigação relativa aos seus actos, o seu lugar era na prisão da abadia. Podia ali ser deixado em segurança até que a lei estivesse preparada para proceder contra ele, baseada em acusações mais graves, respeitantes a actos cometidos fora dos muros do convento, logo, sob a jurisdição do meirinho.

 

O Prior Robert cortesmente informado que o jovem fugido fora capturado e que deveria ficar sob a custódia da abadia pelo menos durante aquela noite, sentiu-se partilhado entre a satisfação perante o prospecto de se livrar das implicações criminais da morte de Master Bonel para ficar em posição de mais habilmente tratar das que eram apenas legais, e o vexame de ser obrigado a temporariamente acomodar o criminoso dentro do seu domínio. Contudo, como a prisão pelo assassinato devia seguir-se logo pela manhã, o incómodo não era assim tão grande.

- Têm esse jovem na portaria agora? - perguntou ao homem de armas que trouxera a notícia à sua habitação.

- Temos, padre. Dois polícias da vossa abadia estão lá com ele e, se quiser fazer o favor de dar ordens para que se encarreguem dele até amanhã, certamente o meirinho lho tirará das mãos, por motivo de contas mais sérias. Não gostaria de vir interrogá-lo pessoalmente a respeito do cavalo? Se lhe convier, ele poderia ser acusado de assalto contra os seus criados da estrebaria, o que é assunto grave, mesmo sem o roubo.

O Prior Robert não era imune à curiosidade humana, e não lhe desagradava a ideia de ver esse jovem demónio que envenenara o próprio padrasto e que obrigara os homens do meirinho a dançar através de mais de metade do distrito.

- Irei - disse. - A igreja não deve voltar as costas ao pecador, apenas lamentar o pecado.

Na sala da portaria, o rapaz estava impassivelmente sentado num banco em frente ao tão bem-vindo fogo, inclinado em posição defensiva contra o mundo mas, apesar de todo o seu cansaço e pisaduras, longe de parecer amedrontado. Os polícias da abadia e a patrulha do meirinho rodeavam-no com olhos interrogadores e perguntas arreliantes, a que o rapaz só respondia quando queria e sempre de modo breve. Vários dos homens estavam sujos e enlameados devido à perseguição, e um ou dois tinham até também uns arranhões e pisaduras. Os olhos brilhantes do rapaz saltaram de um para o outro, e até pareceu que os seus lábios se comprimiram com o esforço para suprimir um sorriso quando contemplou aquele que caíra de cabeça no prado perto de Cound. Tinham-lhe arrancado o hábito roubado e tinham-no entregue ao porteiro; o rapaz mostrava agora que era esguio e de cabelo claro, de pele macia e clara, com inteligentes olhos cor de avelã. O Prior Robert ficou um tanto ou quanto perturbado com aquele ar jovem e atraente; era bem verdade que o diabo sabia apresentar-se sob formas bem convidativas. - Tão jovem e tão depravado! - disse em voz alta. Não tencionava que o rapaz ouvisse aquilo, pois fora dito à entrada da porta, mas, aos catorze anos, o ouvido é apurado. - Com que então, rapaz - disse o prior, aproximando-se -, és tu quem anda a perturbar a nossa paz. Tens grandes pesos na consciência, e temo até que seja já tarde de mais para orar para que tenhas tempo de te emendar. Mas orarei nesse sentido. Tu sabes, pois tens idade suficiente para o saber, que o assassínio é um pecado mortal.

O rapaz fitou-o bem nos olhos e disse em tom enfático:

- Eu não sou um assassino.

- Oh, criança, para que te serve negares o que toda a gente sabe? Já agora, podias igualmente afirmar que não roubaste qualquer cavalo dos nossos estábulos esta manhã, quando quatro dos nossos servos e muitas outras pessoas te viram cometer tal acto.

- Eu não roubei Rufus - retorquiu o rapaz pronta e firmemente. - Ele é meu. Pertencia ao meu padrasto e eu sou o seu herdeiro, visto que o contrato dele com a abadia não chegou a ser ratificado, e o testamento que me nomeia seu herdeiro é tão puro como ouro. Como posso roubar algo que me pertence? E a quem roubava?

- Criança malcriada - protestou o prior, eriçando-se com um desafio tão arrojado, e ainda mais com a suspeita de que aquele miúdo, apesar de estar em situação tão melindrosa, ousava divertir-se à sua custa -, pensa no que estás a dizer! Devias era arrepender-te enquanto é tempo. Ainda não compreendeste que o assassino não pode viver e herdar da sua vítima?

- Já disse, e repito, que não sou um assassino. Pela minha alma, pelo altar, pelo que quiser, eu juro que nunca fiz qualquer mal ao meu padrasto. Portanto, Rufus é meu. Ou, quando o testamento for provado válido e o meu suserano der o seu consentimento como prometeu, Rufus, Mallilie e todo o resto serão meus. Não cometi qualquer crime e nada do que o senhor possa fazer ou dizer me obrigará a admitir outra coisa. E nada do que o senhor possa fazer - acrescentou com os olhos subitamente relampejantes - me poderá tornar culpado de seja o que for.

- Está a desperdiçar a sua boa vontade, padre prior - resmungou o oficial do meirinho -, ele é um malandro teimoso, destinado à forca, e essa mania da superioridade não lhe vai durar muito. - Mas, sob o augusto olhar de Robert, não teve coragem de esmurrar o malcriadão, como muito provavelmente teria feito se o prior ali não estivesse. - Não pense mais nele, e mande que os seus servos o fechem em segurança na cela que aqui têm, pois ele não merece que se preocupe mais com a sua pessoa. A lei se encarregará dele.

- Não deixem de lhe dar de comer - disse Robert, não completamente sem compaixão, e lembrando-se que aquela criança andara na sela e a fugir todo o dia -, e vejam que a cama seja dura, mas seca e quente. E, se ele se arrepender e pedir... Rapaz, dá-me ouvidos e pensa no bem-estar da tua alma. Queres que um dos irmãos venha falar e orar contigo antes de adormeceres?

O rapaz ergueu o olhar com um brilho nos olhos que talvez fosse uma esperança de redenção mas que mais se parecia com travessura, e disse com enganadora doçura:

- Sim, ficar-lhe-ia muito grato se quisesse ter a bondade de mandar chamar o Irmão Cadfael - Certamente já fizera o suficiente, e chegara a altura de pensar na sua própria situação.

Esperava que o nome fosse recebido com um franzir de sobrancelhas, e foi o que aconteceu, mas Robert tinha oferecido uma graça e não podia agora negá-la, nem estabelecer-lhe condições. Cheio de dignidade, voltou-se para o porteiro que espreitava junto à porta.

- Peça ao Irmão Cadfael para vir ter imediatamente aqui connosco. Pode dizer-lhe que é para dar conselho e guia a um prisioneiro.

O porteiro saiu. Estava quase na hora de se retirarem e a maioria dos irmãos certamente estaria a aquecer-se na sala, mas Cadfael não estava lá nem também o Irmão Mark. O porteiro foi encontrá-los no barracão do jardim, e nem mesmo estavam a fabricar mistérios, mas apenas sentados com ar sombrio e a conversar em voz baixa e ansiosa. A notícia da captura ainda se não espalhara; se tivesse acontecido de dia, seria do conhecimento de todos em poucos minutos. Claro que era do conhecimento comum o modo como os homens do meirinho tinham passado aquele dia, mas ainda o não era, a vitória com que o tinham coroado.

- Irmão Cadfael, chamam-no à portaria - anunciou o porteiro, espreitando pela porta. E, quando Cadfael para ele ergueu os olhos surpreendido: - Está lá um sujeito jovem que o pede para seu conselheiro espiritual embora, se quer saber a minha opinião pessoal, ele está perfeitamente senhor do seu próprio espírito, e também deu esse facto a saber ao Prior Robert. Um grupo de homens do meirinho chegou cerca do final do último serviço da tarde com o prisioneiro. Sim, finalmente, apanharam o jovem Gurney.

Então, era assim que tudo acabava, apesar de todos os esforços e preces de Mark, apesar de todos os seus próprios raciocínios, tentativas e fé. Cadfael pôs-se em pé, numa pressa cheia de sofrimento.

- Eu vou vê-lo. Vou do coração. Temos agora toda a batalha nas mãos, e o tempo que nos resta é pouco. Pobre rapaz! Mas, por que o não levaram directamente para a cidade? - Embora estivesse contente por essa pequena mercê, visto ele próprio estar proibido de sair para fora dos muros da abadia, e só esta estranha oportunidade lhe proporcionava um breve encontro.

- Ora, a única coisa de que o podem acusar, e que ninguém pode pôr em dúvida, é de ter roubado o cavalo em que fugiu esta manhã, e isso foi dentro das nossas premissas e responsabilidades, e o tribunal da abadia é que tem jurisdição nesse assunto. Pela manhã virão buscá-lo por causa do assassinato.

O Irmão Mark seguiu-lhe no encalço até á casa da portaria, completamente desanimado e infeliz, incapaz de encontrar uma palavra de esperança que os ajudasse. Sentia dentro de si que aquilo era pecado, o pecado da falta de confiança; não falta de confiança em si próprio, mas falta de confiança na verdade, na justiça e no direito, e no futuro da triste humanidade. Ninguém o mandara estar presente, mas foi na mesma, uma alma empenhada numa causa da qual, na realidade, pouco conhecia, além da tenra idade do protagonista e da absoluta fé que Cadfael nele tinha, mas isso lhe bastava.

Cadfael entrou na sala do porteiro com grande peso na alma, mas não em desespero; isso era um luxo que se não podia permitir. Todos os olhares se voltaram para ele, o que é bem compreensível, pois entrou no meio de pesado silêncio, Robert tinha abandonado as suas exortações, bem-intencionadas mas paternalistas, e os homens da lei tinham desis tido de tentar conseguir confissões do seu prisioneiro e contentavam-se sem sabê-lo preso e em segurança, e ir para a cama no castelo. Um círculo de homens grandes e bem equipados, de guarda em volta de um rapazinho alto e magro, vestido de grosseiro tecido caseiro, sem nada na cabeça e sem manto apesar da noite gelada, calmamente sentado, direito e alerta, num banco junto á parede, agora um pouco corado devido ao calor do fogo, e com um ar que, por incrível que pareça, quase era complacente. Os seus olhos encontraram os do Irmão Cadfael e brilharam; olhos esverdeados, límpidos e franjados de negro. O cabelo era castanho-claro, como madeira de carvalho velho. Não era de constituição robusta, mas era alto para a sua idade. Estava cansado, cheio de sono, pisado e sujo e, por trás dos olhos cautelosos e da face solene, era indubitável que se estava a rir.

O Irmão Cadfael olhou-o longamente e compreendeu muita coisa, o bastante para, de momento, não se preocupar especialmente com o que ainda não compreendia. Olhou o atento círculo de faces e por último, e durante longo tempo, olhou para o Prior Robert.

- Padre prior, estou-lhe grato por me ter mandado chamar e cumprirei o dever que me foi destinado, de fazer o que possa ser feito pelo prisioneiro. Mas devo dizer-lhe que estes cavalheiros estão um pouco enganados. Não ponho em dúvida nada do que possam ter contado a respeito do modo como este rapaz foi apanhado, mas aconselho-os a investigarem como e onde ele passou as horas da manhã, hora em que afirmam ter ele escapado do barracão da abadia com o cavalo que pertence a Mistress Bonel. Cavalheiros - informou em tom grave a espantada patrulha do meirinho -, este rapaz que capturaram não é Edwin Gurney, mas o seu sobrinho, Edwy Bellecote.

 

A prisão da abadia constava de duas pequenas celas ligadas às traseiras da portaria, muito limpas, com tarimbas que não eram piores que as suportadas pelos noviços, e só muito raramente eram ocupadas. O período de Verão da feira de S. Pedro era o facto que mais população fornecia para as celas, pois podia-se contar com ele para todas as noites fornecer dois servos ou irmãos laicos, felizes de bêbedos, os quais dormiam até lhes passarem os excessos e aceitavam sem rancor as modestas multas e castigos, pois achavam que a brincadeira valera bem a pena. De longe em longe, um qualquer distúrbio mais sério podia para lá mandar um cliente, um irmão pouco equilibrado que cultivara um ódio de claustro tempo suficiente para tentar a violência, ou um servo laico que roubara, ou um noviço que cometera ofensas demasiado gritantes contra a regra imposta. O tribunal da abadia não tinha muito que fazer.

Numa das duas celas, O Irmão Cadfael e Edwy estavam sentados lado a lado, calorosa e amigavelmente. Havia uma grade na porta, mas era muito pouco provável que alguém estivesse a dar atenção ao que através dela se pudesse ouvir. O irmão que tomava conta das chaves estava com sono e, de qualquer modo, era-lhe indiferente a causa que lhe trouxera um prisioneiro. A dificuldade talvez viesse a ser bater suficientemente alto para o acordar quando Cadfael quisesse sair.

- Nào foi assim muito difícil - disse Edwy, recostando-se com um suspiro de gratidão, depois de ter devorado uma malga de papas de aveia que um cozinheiro tolerante lhe arranjara -, há um primo do meu pai que vive junto ao rio, mesmo a seguir à vossa propriedade do Gaye. Tem aí um pomar e um telheiro para o burro e a carroça, suficientemente grande para esconder Rufus. O filho dele veio à cidade trazer-nos o recado, e eu peguei no cavalo do meu pai e fui lá ter com Edwin. Ninguém andava à procura de um velho e ossudo cavalo malhado como o nosso Japhet, e quando atravessei a ponte nem um segundo olhar me lançaram e não me apressei. Alys veio sentada na garupa e mantinha-se de vigia para o caso de eles se aproximarem. Depois trocámos de roupas e de cavalos, e Edwin seguiu caminho para...

- Não me digas! - disse rapidamente Cadfael.

- Está bem. assim pode dizer com verdade que não sabe. É evidente que não foi para o mesmo lado que eu. Demoraram a dar comigo - disse Edwy, cheio de desprezo - mesmo com Alys a ajudá-los. Mas logo que me avistaram, era uma questão de os manter ocupados tanto quanto possível, para dar tempo a Edwin de se afastar bem. Podia tê-los levado ainda mais longe, mas Rufus estava a ficar cansado, por isso os deixei apanharem-me. No final, sempre teria de o fazer, e pu-los felizes durante várias horas, e mandaram um homem à frente para fazer parar a caçada. Edwin podia correr à vontade. E que pensa que vão fazer comigo agora?

- Se não estivesses já a cargo da abadia, e ainda por cima com o prior ao lado - disse Cadfael com franqueza -, penso que te teriam esfolado vivo por os teres feito dançar de tal maneira e os teres feito fazer figuras de parvos. Não digo que o próprio Prior Robert não tivesse gostado de fazer outro tanto, mas a dignidade proibiu-lho e a autoridade impede-o de deixar que o braço secular te esfole em seu lugar. Embora suponha - disse com simpatia, enquanto observava as pisaduras azuladas que começavam a aparecer no queixo e nas faces de Edwy - que já tenham pago parte da dívida.

O rapaz encolheu desdenhosamente os ombros.

- Não me posso queixar. E não foi tudo só do lado deles. Devia ter visto o sargento mergulhar de barriga no charco... e ouvi-lo quando se pôs em pé. Foi divertido e conseguimos afastar Edwin. E nunca antes tinha montado um cavalo assim e valeu bem a pena. Mas agora, que vai acontecer? Não podem acusar-me a mim de assassínio, nem de roubar o Rufus, nem até o hábito, porque esta manhã nem uma vez me aproximei do barracão, e há imensas testemunhas que podem atestar onde eu estive, na loja e na oficina.

- Duvido que tenhas infringido qualquer lei - concordou Cadfael -, mas fizeste a lei fazer triste figura, e nenhuma pessoa em posição de autoridade gosta que isso lhe aconteça. Se quiserem, podem guardar-te preso por uns tempos no castelo, por teres ajudado a fugir um homem procurado. Podem até ameaçar-te, na esperança de que Edwin volte para te tirar de sarilhos.

Edwy abanou vigorosamente a cabeça.

- Ele não precisa preocupar-se com isso, pois sabe que afinal de contas não me podem acusar de qualquer acto criminal. E suporto ameaças melhor que ele. Ele perde a cabeça. Está a ficar melhor, mas ainda tem muito que aprender. - Estaria tão animado a respeito do que lhe poderia acontecer como queira parecer? Cadfael não estava bem seguro disso, mas era bem certo que este rapaz, que era o mais velho do par, transformara os quatro meses de mais idade numa sólida vantagem, talvez por desde o berço se ter sentido responsável pelo seu imprevisível tio.

- Eu posso manter a boca fechada e esperar - disse Edwy serenamente.

- Bom, como o Prior Robert exigiu tão firmemente que amanhã venha o meirinho pessoalmente buscar-te - suspirou Cadfael -, ao menos estarei presente, e tentarei o que puder por ti. O prior entregou-te ao meu cuidado espiritual e manter-me-ei firme no posto. Mandaram-me para que exortasse a que te emendasses mas, para falar verdade, rapaz, acho que a tua vida precisa tanto de reforma como a minha, e acho que seria presunção da minha parte emiscuir-me. Mas, se quiseres juntar a tua voz à minha para recitar as orações da noite, penso que talvez Deus nos queira ouvir.

- De boa vontade - disse Edwy alegremente, e deixou-se cair de joelhos como uma criança feliz, mas as mãos reverentemente postas e os olhos fechados. No meio das orações e antes de adormecer, pelos seus lábios passou um breve sorriso; talvez estivesse a recordar a linguagem extremamente secular do sargento quando se levantara a pingar do lodo.

Cadfael levantou-se antes do primeiro serviço da manhã, pronto para o caso de a escolta do prisioneiro vir muito cedo. O Prior Robert tinha ficado profundamente zangado com a comédia da noite anterior, mas depressa compreendeu que o caso lhe dava plena justificação para exigir que o meirinho o libertasse imediatamente de um transgressor que se revelara em nada lhe dizer respeito. Este não era o rapaz que roubara um hábito beneditino e um cavalo ao cuidado dos Beneditinos, era apenas um garoto malandro que usara o primeiro e montara o segundo, para grande ridículo de vários crédulos oficiais da justiça. Se o levassem, dava-lho de boa vontade; mas o prior considerava que era devido à sua dignidade - naquele estado de espírito pleno de importância - que o oficial superior então em função, meirinho ou seu representante, viesse em pessoa pedir desculpas pelo incómodo a que a abadia fora sujeitada e retirar o elemento perturbador. Robert queria uma demonstração pública de que daí em diante toda a responsabilidade pertencia ao braço secular, e nenhuma àqueles sagrados muros.

O Irmão Mark mantinha-se junto de Cadfael quando, cerca das oito e meia da manhã, pouco antes da segunda missa, a escolta chegou a cavalo. Quatro homens de armas e um jovem nobre, ágil, moreno e elegante, montado num cavalo alto, magro, genicoso, com malhas que iam da cor creme até quase ao negro. Mark olhou Cadfael quando o ouviu soltar um suspiro profundo e pleno de gratidão, e sentiu o seu próprio coração encher-se de esperança perante aquele bom augúrio.

- O meirinho deve ter ido para o sul, passar as festas com o rei - disse Cadfael com imensa satisfação. - Finalmente Deus voltou para nós o olhar. Este não é Gilbert Prestcote. mas o seu delegado, Hugh Beringar de Maesbury.

- Agora - disse Beringar animadamente, um quarto de hora mais tarde -, já acalmei o prior, prometi libertá-lo da presença deste bravo desesperado, despachei-o para a missa e a reunião do capítulo toleravelmente satisfeito, e salvei-o a si, meu amigo, de ter de o acompanhar, sob o pretexto de que tem de responder a algumas perguntas - fechou a porta da sala da portaria de onde mandara sair todos os homens de armas, e veio sentar-se em frente a Cadfael, do outro lado da mesa. - E tem mesmo, embora talvez não exactamente aquelas que o prior supõe. E agora, antes de irmos tirar o pobre caranguejo da casca, conte-me tudo o que sabe a respeito deste curioso assunto. Sei que deve saber mais do caso que qualquer outra pessoa, por mais convencido que o meu sargento possa estar. Não podia acontecer uma tal quebra da monotonia monástica sem que você dela tivesse conhecimento e nela se envolvesse. Conte-me tudo.

E agora que era Beringar que estava sentado no assento da autoridade, enquanto Prestcote respeitosamente assistia à festa do seu senhor e soberano, Cadfael não viu motivos para reservas, pelo menos na parte que lhe dizia respeito. E contou tudo, ou virtualmente tudo.

- Ele veio ter consigo, e você escondeu-o - ruminou Beringar. - Foi. E voltaria a fazer o mesmo se as circunstâncias se repetissem.

- Cadfael, você deve conhecer tão bem como eu a força do caso contra o rapaz. Quem mais teria algo a ganhar? Contudo, conheço-o e, se você tem dúvidas, não deixarei de as ter também.

- Não tenho qualquer dúvida - disse Cadfael com firmeza. - O rapaz está inocente, até de pensar em assassínio. E veneno está tão fora do seu feitio que jamais teria sido capaz de conceber tal ideia. Quando vieram, fiz uma experiência com ambos, e qualquer deles nem mesmo sabia como o homem tinha morrido, e acreditaram-me quando lhes disse que fora esfaqueado até morrer. Espetei com o veneno do crime debaixo do nariz do rapaz, e ele nem empalideceu. Tudo o que lhe fazia lembrar era uma breve recordação de ter cheirado o mesmo aroma cortante quando massajavam os ombros do Irmão Rhys na enfermaria.

- Aceito a sua palavra a esse respeito - disse Beringar -, e é uma boa evidência, mas não é prova em si mesmo. E, se estivéssemos ambos a subestimar a astúcia dos jovens, simplesmente porque são jovens?

- Certo - concordou Cadfael com um sorriso de esguelha -, você próprio não é tão velho assim e, que eu saiba, ainda ninguém viu onde acaba a sua astúcia. Mas, creia-me, estes dois não são da sua massa. Conheço-os e você não; de acordo? Tenho de cumprir com a minha obrigação tal como a vejo. Também o senhor tem a sua obrigação, tal como lhe é imposta pelo seu cargo. Não discuto isso. Mas neste momento, Hugh, não sei, nem tenho maneira de adivinhar onde possa estar Edwin Gurney, ou talvez o incitasse a entregar-se-lhe e confiar na sua integridade. Não precisa que lhe diga que este leal sobrinho dele, que levou uns bons sopapos em seu lugar, sabe onde ele está ou, pelo menos, sabe para onde tencionava ir. Pode perguntar-lhe, mas é claro que não lho dirá. Não liga com o seu estilo de interrogatório ou o de Prestcote.

Hugh tamborilava com os dedos na mesa e meditou uns minutos em silêncio.

- Cadfael, tenho de avisá-lo que continuarei a caçada ao rapaz até ao último limite, e que não pouparei qualquer artimanha, por isso, tenha cautela com os seus próprios movimentos.

- Isso é jogo leal - disse simplesmente Cadfael. - O senhor e eu já doutras vezes temos sido rivais em artimanhas, e sempre terminámos como aliados. Mas, quanto aos meus movimentos, vai verificar que são monstruosamente insípidos. O Prior Robert não lhe contou? Estou proibido de sair fora dos muros da abadia.

As sobrancelhas ágeis e negras de Hugh ergueram-se num repelão até quase tocarem no cabelo.

- Meu Deus, e por que crime de claustro? - Os olhos dançavam-lhe. - Que andou a fazer para merecer tal castigo?

- Passei demasiado tempo a conversar com a viúva, e uma orelha esticada descobriu que nos tínhamos conhecido bem, há muitos anos, quando éramos novos. - Essa era uma das coisas que não julgara necessário contar, mas não havia qualquer razão para a esconder de Hugh. - Perguntou-me uma vez por que é que eu nunca casara, e eu contei-lhe que outrora tinha tido uma ideia nesse sentido, antes de ir para a Terra Santa.

- Lembro-me! Até mencionou um nome. A esta altura, disse você, já ela deve ter filhos e netos... É isso, Cadfael? Essa senhora é a sua Richildis?

- Essa senhora - disse Cadfael com ênfase -. é na verdade Richildis, mas minha, certamente que não é. Dois maridos atrás, tive temporariamente um certo direito sobre ela, e é tudo.

- Tenho de a ver! A mulher que lhe atraiu o olhar deve valer a pena ser conhecida. Se você fosse qualquer outra pessoa, eu diria que este facto em muito enfraquece a força da sua defesa de um filho dela mas, conhecendo-o como o conheço, penso que qualquer garoto da idade dele e em apuros logo o teria a seu lado. Contudo, irei vê-la, pois pode precisar de conselho ou ajuda. Parece que há um emaranhado legal que vai dar um certo trabalho a desfazer.

- Havia outra coisa que podia fazer e que talvez ajude a provar aquilo que eu só posso afirmar. Contei-lhe que o rapaz diz que atirou ao rio uma caixa de madeira embutida, muito pequena. - Cadfael descreveu-a pormenorizadamente. - Se pudéssemos descobri-la, viria reforçar profundamente a história do rapaz, na qual eu pessoalmente acredito. Eu não posso sair daqui e contactar os pescadores e homens da beira-rio do Severn, e pedir-lhes que estejam atentos para ver se aparece uma coisa assim pequena nos lugares que conhecem, onde costumam ir encalhar as coisas que flutuam pelo rio abaixo. Mas você pode, Hugh. Pode mandar apregoar isso em Shrewsbury e pelo rio abaixo. Vale a pena tentar.

- Certamente que o farei - disse prontamente Beringar. - Quando uma pobre alma se afoga no Severn, há um homem a quem cabe a lúgubre tarefa de descobrir exactamente em que ponto o corpo irá dar à praia. Se os objectos pequenos seguem as mesmas voltas, é coisa que não sei, mas ele sabe com certeza. Vou mandar que se encarregue da caçada. E agora, se já dissemos tudo, é melhor irmos ver esse seu gémeo. Sorte para ele que você o conhecesse, pois dificilmente teriam acreditado que era o rapaz errado, se fosse ele próprio a contá-lo. São assim tão parecidos?

- Não; se se conhecem bem, e se se vêem lado a lado, não têm em comum mais que uma parecença de família. Mas separados, uma pessoa pode ter dúvidas, principalmente se os não conhecer muito bem. E os seus homens iam atrás do cavaleiro que montava aquele cavalo, e estavam certos a respeito da pessoa que deveria ser. Venha ver!

Quando seguiram juntos até à cela onde Edwy esperava, agora um pouco nervoso, Cadfael não tinha bem a certeza daquilo que Beringar contava fazer com o prisioneiro, embora não temesse que algo de mau acontecesse ao rapaz. Independentemente daquilo que pudesse pensar relativamente à culpa ou inocência de Edwin, Hugh não era homem para castigar pesadamente a solidariedade de Edwy pelo seu parente.

- Anda aqui para a luz, Edwy - disse Beringar, segurando a porta da cela para trás - e deixa-me olhar para ti. Da próxima vez que vocês trocarem de lugar, não quero ter qualquer dúvida quanto ao que tiver nas mãos. - E quando Edwy obedientemente se levantou e saiu alerta para o pátio, depois de um nervoso olhar de esguelha para se assegurar que o Irmão Cadfael lá estava, o assistente do meirinho pegou-lhe pelo queixo, levantou-lhe suavemente a face e estudou-a com atenção. Nessa manhã as pisaduras estavam arroxeadas, mas os olhos cor de avelã brilhavam. - Para a outra vez já te reconheço - disse Hugh, cheio de confiança. - E agora, jovem! Deste-nos muito trabalho e fizeste-nos perder muito tempo, mas não pretendo perder mais ainda a castigar-te. Vou perguntar-te apenas uma vez: Onde está Edwin Gurney?

Os termos em que a pergunta fora feita e a expressão da face morena não deixavam prever o que aconteceria se não recebesse qualquer resposta; apesar do tom suave, as possibilidades eram infinitas. Edwy passou a língua pelos lábios secos e respondeu no tom mais conciliatório e respeitoso que Cadfael jamais lhe ouvira:

- Senhor, Edwin é meu parente e meu amigo, e se eu estivesse disposto a dizer onde ele está. não me teria dado a tantas maçadas para o ajudar a lá chegar. Penso que o senhor certamente poderá compreender que não posso, nem quero, atraiçoá-lo.

Beringar olhou para Cadfael e manteve um ar grave, apenas traído pelo brilho que tinha no olhar.

- Bom, Edwy, para falar a verdade, nem contava com outra coisa. Manter-se fiel a alguém não é crime. Mas vou querer-te num sítio onde te possa deitar a mão sempre que precise, e onde possa ter a certeza que não te lanças noutra louca missão de salvamento.

Edwy começou a ver-se numa cela do castelo de Shrewsbury, e a sua face ficou rígida de estoicismo, pronta a enfrentar o pior.

- Se me deres a tua palavra de honra de que não abandonarás a casa e loja de teu pai - disse Beringar - até que te devolva a liberdade, podes ir para casa. Para que te havemos de alimentar a expensas do público durante as festas de Natal, se estou convencido que, se deres a tua palavra, nunca lhe faltarás? Que dizes?

- Oh, certamente que lhe dou a minha palavra! - gaguejou Edwy, espantado e radiante de alívio. - Não abandonarei o nosso pátio até que me dê a sua permissão. E, obrigado!

- Óptimo! Aceito a tua palavra, tanto como podes aceitar a minha. A minha missão, Edwy, não é inculpar a todo o custo o teu tio ou qualquer outra pessoa do crime; é descobrir quem verdadeiramente o cometeu... e é isso que tenciono fazer. Agora, anda daí, quero levar-te pessoalmente a casa, pois talvez uma palavrinha com os teus pais venha mesmo a calhar.

Partiram antes da missa solena das dez, e Beringar levou Edwy na garupa, pois o esquelético cavalo malhado era bem capaz de levar o dobro do leve peso do seu dono, e atrás seguiam, dois a dois, os homens de armas que formavam a escolta. Só a meio da missa, quando o seu espírito deveria estar voltado para assuntos mais elevados, é que Cadfael contrariado, recordou duas outras concessões que poderia ter ganho se delas se tivesse lembrado a tempo. Martin Bellecote ficara agora certamente sem cavalo, e a abadia estava cheia de vontade de se ver livre de Rufus, ao mesmo tempo que Richildis de certeza ficaria contente de o ver ao cuidado do seu genro e não precisar de ficar em dívida para com a abadia por tomarem conta dele. Provavelmente teria despertado o sentido de humor de Hugh a ideia de, a pretexto de libertar a abadia de um encargo, devolver um novo cavalo ao carpinteiro. Mas o outro assunto era mais importante. No dia anterior, tinha pensado em ir passar busca às margens do lago, à procura do frasco do veneno e, em lugar disso, vira-se preso dentro dos muros da abadia. Por que se não lembrara de pedir a Beringar para prosseguir essa ténue mas importante linha de investigação na altura em que lhe pedira para mandar os homens da beira-rio procurarem o relicário de madeira? Agora era demasiado tarde, e não podia ir para a cidade à procura de Hugh para remediar a omissão. Aborrecido consigo próprio, até respondeu torto ao Irmão Mark quando o dedicado jovem lhe fez perguntas a respeito do desfecho dos acontecimentos dessa manhã. Sem se perturbar, Mark seguiu-o depois do jantar até ao seu santuário do jardim.

- Sou um velho tonto - disse Cadfael, saindo da depressão em que estivera -, e perdi uma boa oportunidade de ver o meu trabalho feito por outros, e em lugares onde já não tenho licença de ir pessoalmente. Mas não foi culpa tua, e peço desculpa de me ter virado contra ti.

- Se é algo que precisa ser feito fora dos muros do convento - disse Mark em tom racional -, por que hei-de hoje ser de menos préstimo que ontem?

- Certo, mas já te envolvi nesta história mais do que o suficiente. E, se tivesse tido cabeça, poderia ter conseguido que a própria lei me fizesse o serviço, o que teria sido bem melhor. Embora isto não seja de modo algum perigoso ou digno de censura - recordou a si próprio, ganhando coragem - trata-se apenas de, mais uma vez, procurar o frasco...

- Da última vez - disse Mark em tom pensativo - andámos à procura de qualquer coisa que esperávamos não fosse um frasco. Pena que a não tenhamos encontrado.

- Certo, mas desta vez tenho esperanças de que seja um frasco, se a vinda de Beringar em vez de Prestcote realmente significar um bom augúrio. E vou dizer-te onde procurar. - E assim fez, mostrando o significado que podia ter uma janela aberta virada a sul, mesmo em tempo de gelo leve, num dia de sol - Vou imediatamente - disse o Irmão Mark. - E o senhor pode dormir a sua sesta com a consciência tranquila. Os meus olhos são mais jovens que os seus.

- Olha, leva um guardanapo e, se encontrares o frasco, embrulha-o sem apertar, e toca nele o menos possível. Preciso de ver por onde escorreu o óleo e como secou.

Só quando a luz da tarde começou a esmorecer é que o Irmão Mark voltou. Faltava ainda meia hora para o serviço de Vésperas, mas a partir dessa altura, procurar uma coisa pequena numa estreita faixa de erva seria tarefa impossível e sem esperança. Os dias de Inverno começam tão tarde e acabam tão cedo como o incerto tempo de vida depois dos sessenta.

Cadfael seguira à risca as palavras do Irmão Mark e dormitara toda a tarde. Não podia ir a parte nenhuma, nada podia fazer ali e não tinha qualquer trabalho em mãos. Mas, de repente, acordou sobressaltado e viu junto de si o Irmão Mark, uma figura magra mas erecta e austera, com um sorriso benigno na face sem idade e sacerdotal que Cadfael sempre lhe conhecera desde a sua chegada, atemorizada, cheia de ressentimentos e infantil, dentro daqueles muros. A voz suave, significativa e deliciada afastou os anos para longe; ainda só tinha dezoito anos, e uns dezoito anos muito jovens.

- Acorde! Tenho algo para si!

Parecia uma criança no dia do aniversário do pai:

- Olhe! Fui eu próprio que fiz!

O branco guardanapo cautelosamente dobrado foi docemente pousado no colo de Cadfael. Mark desdobrou-o com cuidado e pôs à vista o conteúdo com um tal gesto de triunfo que a analogia era completa. Lá estava, para que o pudessem ver, um frasco pequeno e ligeiramente torto, de vidro esverdeado, com um dos lados de tom ligeiramente diferente, no sítio onde uma crosta castanha-amarelada cobria o verde, crosta devida a um resíduo de líquido que ainda se movia lentamente lá dentro.

- Acende aquele candeeiro! - disse Cadfael, segurando no guardanapo com ambas as mãos para chegar o prémio mais perto dos olhos. O Irmão Mark trabalhou industriosamente com a pederneira e conseguiu fazer chama na torcida da pequena lamparina a óleo que estava num pires de barro, mas a luz, quer a do interior, quer a do exterior, pouco ajudava a ver. Havia uma rolha feita com uma pequena bucha de madeira embrulhada num farrapo de tecido de lã. Cadfael inalou profundamente aproximando o nariz do lado que tinha a cor castanha. O cheiro lá estava, ténue mas inconfundível, o seu nariz reconhecia-o bem. O gelo tornara-o menos intenso, mas ainda se sentia. Do lado de fora do frasco via-se um longo traço formando por delgada crosta de óleo há muito seca.

- É isso? Trouxe-lhe o que o senhor queria? - O Irmão Mark estava na expectativa, feliz e ansioso.

- Rapaz, trouxeste mesmo! Esta pequena coisa trazia a morte dentro de si e, como vês, pode ficar escondida na mão de uma pessoa. Estava assim pousada sobre o lado quando a encontraste? O lado onde o resíduo se juntou e secou no interior? E no exterior, também... Foi tapado e escondido à pressa, certamente na própria pessoa, e se essa pessoa não tem ainda a marca dele em qualquer lado, este traço de óleo que vem desde o gargalo é muito enganador. Agora, senta-te aqui e conta-me onde e como encontraste o frasco, porque muita coisa depende do que me disseres. E serás capaz de encontrar novamente o local exacto, sem te enganares?

- Pois sou, pois pus-lhe uma marca. - Corado devido ao prazer de ter agradado, o Irmão Mark sentou-se, encostando-se ansiosamente à manga de Cadfael. - Como sabe, aquelas casas têm uma faixa de jardim que desce quase até à água, e há apenas um pequeno carreiro junto à borda do lago lá em baixo. Não me agradava muito inventar uma razão para entrar nos jardins e, além disso, são muito estreitos e íngremes. Não seria difícil atirar com qualquer coisa, que tivesse um mínimo de peso, desde a casa até à margem da água e até mais para longe... mesmo que fosse uma mulher ou um homem cheio de pressa. Por isso segui ao longo do carreiro todo o troço que está dentro do alcance da janela da cozinha, aquela que me disse estar aberta naquele dia. Mas não foi aí que encontrei o frasco.

- Não foi?

- Não, foi mais para longe. Nesta altura, há uma franja de gelo à volta do lago, mas a corrente da azenha mantém o centro limpo. Encontrei o frasco no caminho de regresso quando, depois de ter procurado por entre a erva e os arbustos daquele lado, resolvi procurar do outro lado do carreiro, junto à borda da água. E lá estava, caído de lado, meio coberto de gelo, o que o mantinha seguro. Enfiei um ramo de avelã no solo junto ao local, e o buraco de onde o tirei manter-se-á lá, a menos que o gelo derreta. Penso que o frasco foi atirado para lá do gelo que pudesse existir na altura, mas não suficientemente longe para ser arrastado pela correnteza da azenha e, como tinha tampa, flutuou e ficou a boiar até ficar preso na geada seguinte. Mas, Cadfael, não pode ter sido atirado da janela da cozinha, estava demasiado longe.

- Tens a certeza? Então de onde? A distância parece demasiada?

- Não, a direcção. Estava demasiado para a direita, e há um maciço de arbustos de permeio. A inclinação do solo não o permitiria. Se uma pessoa o tivesse atirado da janela da cozinha, nunca iria parar ao sítio onde o encontrei, seria impossível. Mas podia muito bem ter vindo da janela da outra sala. Recorda-se, Cadfael, se essa janela também estava aberta? A da sala onde tinham estado a jantar?

Cadfael recordou novamente a cena dentro de casa, quando Richildis fora ao seu encontro e o conduzira, cheia de desespero, para o quarto de dormir, através da sala onde estava a mesa em desordem, arrumada com três lugares.

- Estava, estava!, a portada estava aberta, pois entrava por lá o sol do meio-dia! Daquela sala, Edwin, indignadamente ofendido, precipitara-se para a cozinha, onde se julgava que tinha cometido o crime, tendo-se mais tarde livrado da evidência. Mas nem por um momento tinha ficado sozinho na outra sala; só durante a sua fuga precipitada ficara fora da vista de toda a gente da casa.

- Estás a ver, Mark, o que isto significa? Pelo que dizes, o frasco foi atirado pela janela da sala, ou então alguém seguiu pelo carreiro e atirou-o para o lago. E Edwin não podia ter feito nenhuma dessas coisas. Podia, como pensam, ter parado um momento na cozinha, mas de certeza que não seguiu pelo carreiro junto ao lago antes de se dirigir para a ponte, pois nesse caso Aelfric tê-lo-ia apanhado. Não, ter-se-lhe-ia adiantado, ou tê-lo-ia encontrado junto aos portões! Nem teve mais tarde qualquer oportunidade de se desfazer do frasco naquele local. Ficou escondido mais a sua amargura até que Edwy o encontrou e, a partir desse momento, mantiveram-se os dois escondidos até virem ter comigo. Esta coisinha, Mark, prova que Edwin está tão livre de culpa como tu ou eu.

- Mas não prova quem é o culpado - disse Mark.

- Pois não. Mas se o frasco realmente foi atirado pela janela daquela sala, isso só pode ter sido feito muito depois da morte, pois não me parece que qualquer pessoa lá tenha ficado um momento sozinha até depois da partida do oficial do meirinho. E se o responsável ficou todo o tempo com este frasco escondido na sua própria pessoa, mal tapado como agora está, então ainda deve ter as marcas. Pode ter tentado tirar as nódoas, mas não são fáceis de tirar. E quem pode dar-se ao luxo de deitar fora uma peça de roupa? Não, as marcas ainda lá estão para que as encontremos.

- Mas e se foi qualquer pessoa de fora quem cometeu o crime e atirou fora o frasco a partir do carreiro? O senhor já uma vez pensou na hipótese de ter sido o cozinheiro ou os ajudantes...

- Não digo que fosse impossível. Mas é pouco provável, não é? Estando no carreiro, a pessoa podia bem assegurar-se de que o frasco caísse em plena corrente e na parte profunda do lago e, mesmo que não mergulhasse, embora nesse caso a pessoa tivesse tido tempo para se assegurar de que tal acontecia!, seria arrastado pela corrente até ao ribeiro e ao rio. Mas viste que ficou muito aquém, e que lá ficou até o encontrares.

- E agora, que fazemos? - perguntou o Irmão Mark, pronto para tudo.

- Vamos para o serviço de Vésperas, meu filho, senão chegamos atrasados. E amanhã temos de te fazer chegar, a ti e a este testemunho, às mãos de Hugh Beringar, em Shrewsbury.

A presença de elementos laicos no serviço de Vésperas era sempre pequena, mas nunca era completamente nula. Nessa tarde, Martin Bellecote viera da cidade para apresentar os seus reconhecidos agradecimentos primeiro a Deus e depois a Cadfael, pelo feliz regresso de seu filho. Depois que o serviço acabou, esperou no claustro que os irmãos saíssem, e foi ao encontro de Cadfael junto à porta sul.

- Irmão, é a vós que devemos o facto de o rapaz estar de volta a casa, se bem que de orelha murcha, em vez de estar fechado de castigo numa qualquer masmorra do castelo.

- A mim não, pois eu não o poderia ter posto em liberdade. Foi Hugh Beringar quem resolveu mandá-lo para casa. E, acredite na minha palavra, em tudo o que possa vir a acontecer, pode confiar em Beringar que é um homem decente e justo e não tolera injustiças. Sempre que tiver de falar com ele, conte-lhe a verdade.

Bellecote teve um sorriso um pouco malicioso.

- A verdade, sim, mas não toda a verdade, nem mesmo a ele... embora reconheça que se mostrou realmente generoso com o meu rapaz. Mas, até que o outro esteja em tanta segurança como Edwy, prefiro guardar segredo a respeito do sítio onde está. Mas a si, irmão...

- Não - disse Cadfael apressadamente -, a mim também não, embora, breve, espero, talvez já não haja motivo para que se esconda. Mas essa hora ainda não chegou. E na sua família, vai tudo bem? E Edwy, não se ressentiu com a aventura?

- Nem um bocadinho. Se tivesse menos uma ou duas pisaduras, teria dado menos valor a toda a história. Foi tudo ideia dele. Mas obrigou-o a encolher as garras durante uns tempos. Nunca antes o vi tão dócil, e isso não lhe faz mal nenhum. Está a trabalhar com muito mais zelo do que usualmente mostra. Não que agora, tão próximo das festas, estejamos sobrecarregados de trabalho mas, com a falta de Edwin e com Meurig fora, pois foi passar o Natal com a família, tenho suficiente trabalho entre mãos para manter o rapaz ocupado.

- Então Meurig vai visitar a família, é?

- Regularmente, no Natal e na Páscoa. Ele tem uns primos e um ou dois tios lá para os lados da fronteira. Regressa no fim do ano. O Meurig é muito apegado à família, lá isso é.

Sim, isso mesmo dissera ele a Cadfael a primeira vez que o vira. "A minha família é a família da minha mãe, e é os seus costumes que sigo. O meu pai não era galês." Era natural que quisesse ir passar as festas a casa.

- Que Deus permita que possamos todos estar em paz na festa da natividade do Senhor! - disse Cadfael, com mais optimismo desde a descoberta da pequena prova agora arrumada numa prateleira do seu barracão.

- Ámen, irmão! E eu e toda a minha família queremos agradecer-lhe pela sua preciosa ajuda e, se alguma vez precisar de nós, é só dizer.

Cumprido o seu dever, Martin Bellecote voltou para a loja, enquanto que o Irmão Cadfael e o Irmão Mark foram cear com o seu dever ainda por cumprir.

- Irei de manhã cedo à cidade - disse o Irmão Mark, sussurrando ao ouvido de Cadfael num canto da sala do capítulo, depois da refeição, e durante uma leitura muito mal feita pelo Irmão Francis. - Falto ao Primeiro serviço da manhã, pois que mal tem que me mandem fazer penitência?

- Não farás isso - sussurrou firmemente Cadfael em resposta - Esperas até depois do jantar, quando ficas livre para ir ao teu trabalho, pois isso será verdadeiramente um trabalho legítimo, o melhor a que te poderias dedicar. Não permitirei que faltes a qualquer dever dos regulamentos.

- O que o senhor nem sonharia em fazer, é claro! - murmurou Mark, e a sua face feia e modesta abriu-se num sorriso lindo que poderia ter sido roubado a Edwy ou Edwin.

- Só para assunto de vida ou de morte. E confessando a minha falta! E tu não és eu, e não deves andar a copiar os meus pecados. Tanto faz que seja antes como depois do jantar - disse para tranquilizar - Pedes para falar com Hugh Beringar... não falas com mais ninguém. ouviste, não confio em mais ninguém como confio nele. Leva-o ao lugar onde encontraste o frasco, e penso que a família de Edwin breve poderá mandá-lo voltar para casa.

Aqueles planos foram feitos em vão. A reunião do capítulo da manhã seguinte desfez os projectos que tinham feito e alterou toda a situação.

O Irmão Richard, o subprior, levantou-se antes de se tratarem os assuntos de menos importância, para dizer que havia um problema de certa urgência para o qual pedia a atenção do prior.

- O Irmão Cellarer recebeu uma mensagem dos guardas dos nossos rebanhos perto de Rhydycroesau, em Oswestry. O irmão laico Barnabas caiu doente com um problema de peito e está com febre, e o Irmão Simon ficou a tomar conta de todo o rebanho sozinho. Mas, pior que isso, ele teme não ser capaz de tratar do irmão doente e pede que, se possível, lhe enviemos alguém com mais conhecimentos para o ajudar durante uns tempos.

- Sempre achei - disse o Prior Robert, franzindo o sobrolho - que devíamos ter lá mais que dois homens. Temos mais de duzentos carneiros naquelas colinas, e é um lugar muito isolado. Mas como conseguiu o Irmão Simon mandar recado, se é o único homem com saúde que lá ficou?

- Aproveitou a feliz circunstância de estar agora um delegado nosso a tomar conta do domínio de Mallilie. Parece que fica apenas a poucas milhas de Rhydycroesau. O Irmão Simon cavalgou até lá e pediu que nos mandassem o recado, e enviaram imediatamente um criado. Não se perdeu tempo nenhum, e talvez ainda hoje possamos mandar alguém para ajudar.

A menção de Mallilie fez o prior arrebitar as orelhas. Arrancou também Cadfael precipitadamente às suas preocupações, uma vez que tão nitidamente estava relacionado com as suas cogitações. Com que então Mallilie ficava apenas a poucas milhas dos rebanhos da abadia em Oswestry! Nunca pensara que a exacta localização do domínio pudesse ter qualquer significado, e esta abrupta informação pôs-lhe as ideias em tumulto.

- É evidente que teremos de o fazer - disse Robert, e recordou que a tarefa podia com propriedade ser entregue ao melhor dos especialistas em ervas e farmacopeia da abadia, o que o iria efectivamente afastar, não só de qualquer contacto com a viúva Bonel, mas também da sua impertinente insistência em esmiuçar os desagradáveis acontecimentos que tinham feito dela uma viúva. O prior voltou a sua imponente cabeça prateada e olhou directamente para o Irmão Cadfael, coisa que em geral preferia não fazer. As mesmas considerações tinham passado pela cabeça de Cadfael, com o mesmo agradável efeito. Se eu próprio tivesse planeado tudo isto, pensava, não podia ter vindo mais a propósito. Agora o jovem Mark pode deixar-me tratar do recado e permanecer inocentemente aqui.

- Irmão Cadfael, parece que é trabalho para si, que é tão conhecedor em remédios. Poderia reunir rapidamente todas as poções que possam ser necessárias para o nosso irmão doente?

- Posso sim, padre - disse Cadfael, com tão grande entusiasmo que, por momentos, o Prior Robert pôs em dúvida a sua própria decisão e penetração. Por que estaria o homem tão feliz com a ideia de uma longa cavalgada através da invernia, no final da qual o esperava trabalho duro, tendo de fazer de pastor e de médico ao mesmo tempo? E logo quando andava aqui tão insistentemente a meter o nariz nos assuntos da família Bonel? Mas a distância continuava a ser uma garantia; em Rhydycroesau não ficaria em posição de continuar a intrometer-se.

- Espero que não seja por muito tempo. Rezaremos as nossas preces pelo Irmão Barnabas, para que melhore depressa. Se for necessário, poderá mandar novamente recado pelos empregados de Mallilie. E Mark, o seu noviço, estará suficientemente informado para, durante a sua ausência, tratar das doenças mais simples? Em casos de doença séria, poderemos mandar chamar o físico.

- O Irmão Mark é dedicado e capaz - disse Cadfael com um orgulho quase paternal -, e pode confiar-se plenamente nele, pois, se achar que precisa de conselho, ele modestamente o confessará. E tem um bom abastecimento de todos os remédios que são mais necessários nesta época. Preparámo-nos para ficar prevenidos contra um Inverno de doenças.

- Ainda bem. Portanto, perante a urgência do caso, tem licença de abandonar o capítulo e preparar-se para ir. Escolha uma boa mula dos estábulos e leve comida para o caminho, e certifique-se se leva tudo o que possa ser necessário para a doença que o Irmão Barnabas parece ter contraído. Se há na enfermaria qualquer caso que ache que deve visitar antes de partir, pode fazê-lo. Enviar-lhe-ei o Irmão Mark, pois pode querer dar-lhe qualquer conselho antes de partir.

O Irmão Cadfael abandonou a sala do capítulo, deixando-os entregues aos assuntos de rotina. Deus continua a olhar por nós, pensou, precipitando-se pelo seu barracão dentro e passando revista às prateleiras à procura de tudo o que precisava. Remédios para a garganta, o peito, a cabeça, um unguento para esfregar no peito, gordura de ganso e ervas fortes. O resto era calor, bons cuidados e comida apropriada. Em Rhydycroesau tinham galinhas e uma boa vaca leiteira, com comida para todo o Inverno. E por fim, uma coisa que apenas precisava levar até Shrewsbury, o pequeno frasco de vidro verde, ainda embrulhado no seu guardanapo.

O Irmão Mark entrou precipitadamente e sem fôlego, depois de ter recebido ordens para interromper o estudo de latim que fazia com o Irmão Paul.

- Disseram-me que vai viajar e que vou ficar com o encargo disto aqui. Oh, Cadfael, como conseguirei sem si? E que fazemos a respeito de Hugh Beringar e da prova que temos para ele?

- Deixa isso comigo - disse Cadfael. - Para ir para Rhydycroesau, é preciso atravessar a cidade. Levo-o eu próprio ao castelo. Lembra com atenção tudo o que te ensinei, pois sei que aprendeste bem, e estarei todo o tempo contigo em pensamento. Imagina que me estás a perguntar, e logo terás a resposta. - Tinha um pote de unguento numa das mãos e estendeu a outra com um afecto ausente e fez uma festa na jovem e macia tonsura, circundada de cabelo cor de palha, áspero, espesso e espetado. - É apenas por pouco tempo; o Irmão Barnabas estará de pé num abrir e fechar de olhos. E ouve, meu filho, o domínio de Mallilie, pelo que descobri, fica apenas a pequena distância do sítio onde vou estar, e parece-me que a resposta ao que precisamos saber talvez esteja lá e não aqui.

- Acha que sim? - perguntou o Irmão Mark cheio de esperança e esquecendo as suas próprias ansiedades.

- Acho, e tenho a ideia... não mais que o embrião de uma ideia que me surgiu durante a reunião do capítulo... E agora, vê se te tornas útil. Vai arranjar-me uma boa mula no estábulo, e põe-me todas estas coisas nos alforges. Antes de partir, tenho um assunto a tratar na enfermaria.

 

O Irmão Rhys estava no seu lugar privilegiado junto ao fogo, recostado na cadeira e semi a dormitar, mas suficientemente desperto para abrir um olho bem agudo a cada movimento ou palavra que sentia junto de si. Estava num estado de espírito em que qualquer visitante seria bem-vindo, e o seu rosto iluminou-se com uma expressão que quase poderia chamar-se animada quando Cadfael lhe disse que ia para a zona noroeste do condado, para os rebanhos de Rhydycroesau.

- A sua terra natal, irmão! Quer que leve os seus cumprimentos à terra da fronteira? Certamente ainda lá tem parentes, três gerações de parentes.

- Pois tenho! - E o irmão Rhys revelou as gengivas desdentadas num sorriso sonhador. - Se calhar de encontrar o meu primo Cynfrith ap Rhys, ou o irmão, Owain, dê-lhes as minhas bênçãos. Ah, por aquelas bandas há enorme quantidade da minha gente. Pergunte pela minha sobrinha Angharad, a filha da minha irmã Marared... isto é, a minha irmã mais nova, a que se casou com Ifor ap Morgan. Julgo que Ifor já deve ter morrido mas, se ouvir dizer que está vivo, dê-lhe lembranças minhas.

A rapariga, agora que o filho está a trabalhar aqui na cidade, devia vir visitar-me. Lembro-me da cachopa de quando não era maior que uma flor. e linda...

- Angharad foi a rapariga que foi trabalhar como criada para a casa de Bonel de Mallilie? - perguntou Cadfael, para o ajudar.

- Sim, e foi uma pena! Mas agora, há muitos anos que já lá estão, esses saxòes. Com o tempo, uma pessoa habitua-se a essas famílias estrangeiras. Mas nunca conseguiram ir mais além, porém. Mallilie não passa de um pequeno espinho encravado em Cynllaith. Bem encravado... quase quebrado, como um dia ainda pode vir a acontecer! Quase não toca em terra de saxòes, só num pequeno ponto...

- Isso é verdade?! - disse Cadfael. - Então, para falar com propriedade. Mallilie. apesar de estar na posse de um inglês, e de já o estar há três gerações, no fundo faz parte de Gales?

- É tão galesa como Snowdon - disse o Irmão Rhys, sentindo de novo um lampejo do seu velho entusiasmo patriótico. - E todos os vizinhos são galeses, assim como a maioria dos rendeiros. Eu nasci mesmo a ocidente de Mallilie, junto da igreja de Llansilin, que é o centro da comarca de Cynllaith. Terra galesa desde o início do mundo!

Terra galesa! Isso não podia ser alterado apenas porque durante o reinado de William Rufus um certo Bonel conseguira abrir caminho e apoderar-se de alguns hectares e, com o apoio do conde de Chester, mantivera o seu domínio desde então. Por que não me lembrei, perguntou-se Cadfael, de indagar mais cedo onde ficava esse domínio que tantas perturbações está a causar?

- E Cynllaith nomeou os seus juízes galeses como é devido? Competentes para julgar segundo o código de Hywel Dda, não o da Inglaterra dos Normandos?

- Claro que sim! Um tribunal de comarca tão legal como os melhores que há em Gales! No seu tempo, os Bonel pleiteavam casos relativos a limites de propriedades e coisas semelhantes em tribunais galeses ou ingleses, conforme a lei que melhor servir os seus interesses pessoais. Isso não lhes importava, desde que significasse ganho para eles. Mas o povo prefere o seu código galês, o testemunho dos vizinhos, o método apropriado de decidir uma contenda. O método justo! - disse o Irmão Rhys, e meneou a cabeça em direcção a Cadfael - Mas para que è tanta conversa sobre tribunais, irmão? Está a pensar em pôr pessoalmente qualquer questão? - E, perante tal pensamento, mergulhou num riso húmido mostrando as gengivas rosadas.

- Eu não - disse Cadfael, levantando-se -, mas penso que talvez alguém que eu conheço esteja a pensar nisso.

Saiu muito pensativo e, no grande pátio, o sol de Inverno brilhou de súbito e embateu-lhe nos olhos, ofuscando-o por um momento. Paradoxalmente, durante essa cegueira momentânea, pôde, finalmente, ver com clareza o caminho a seguir.

 

Gostaria de se desviar um pouco do Wyle para trocar umas palavras com Martin Bellecote e verificar pessoalmente se a família não estava a ser perseguida, mas não o fez, em parte porque tinha em mente uma missão mais urgente, em parte porque não queria chamar as atenções para a casa ou a família. Hugh Beringar era homem de espírito independente e forte preocupação de justiça, mas os oficiais do condado de Shropshire eram uma coisa muito diferente, e muito compreensivelmente preferiam seguir as pisadas de Gilbert Prestcote, pois Prestcote era o representante oficial do Rei Stephen naquelas bandas; e a justiça de Prestcote era mais dura, de vistas mais curtas, contentando-se com um desfecho rápido e limpo. É certo que Prestcote estava longe em Westminster, certo que Beringar estava nominalmente encarregado de tudo, mas os oficiais e os seus homens continuariam a proceder no costumado sistema sumário, procurando a resposta mais óbvia. Se estava alguém de vigia à loja de Bellecote, Cadfael não tinha qualquer intenção de lhe dar o mínimo de provocação. Se não estava, tanto melhor; significava que as ordens de Hugh tinham prevalecido.

Assim, Cadfael subiu pausadamente o Wyle, passou junto ao armazém de Bellecote sem lhe lançar um único olhar, e seguiu através da cidade. O caminho que tinha de seguir para noroeste seguia pela ponte que conduzia ao País de Gales, mas atravessou a cidade e trepou pela colina acima até High Cross; a partir daí, a estrada descia ligeiramente, para depois voltar a subir até à portaria do castelo.

Desde o cerco do Verão que a guarnição do Rei Stephen estava em plena posse, e a guarda, embora vigilante, era calma e confiante. Quando já estava próximo, Cadfael desmontou e levou a mula à arreata pelo caminho acima, até chegar à sombra formada pelos portões. O guarda esperou por ele com ar plácido.

- Bom dia, irmão! Que deseja?

- Uma palavrinha com Hugh Beringar de Maesbury - disse Cadfael. - Diga-lhe que está aqui o Irmão Cadfael, e creio que me dará um pouco do seu tempo.

- Desta vez está sem sorte, irmão. Hugh Beringar não está cá, e provavelmente não voltará até ao cair da noite, pois saiu para tratar de qualquer coisa a sul do rio, com Madog do Barco dos Mortos. - Aquilo era uma notícia que deu ânimo a Cadfael tão depressa quanto a notícia da ausência de Hugh lho fizera perder e o deixara descoroçoado. Afinal, talvez tivesse feito o melhor em deixar o frasco ao Irmão Mark, que poderia ter vindo fazer uma segunda visita depois de a primeira ter saído gorada. Cadfael tinha dúvidas a respeito de toda a gente ali, com excepção de Beringar, mas via-se agora metido numa situação que se esquecera de prever. Hugh não perdera tempo em pôr em movimento a caçada ao relicário de Edwin e, o que era melhor ainda, dirigia-a ele próprio em vez de a deixar a cargo dos seus subordinados. Mas demorar ali à espera dele era impossível; o Irmão Barnabas estava de cama doente, e Cadfael comprometera-se a ir tratar dele e quanto mais depressa lá chegasse melhor. Considerou se seria melhor confiar a outro a sua preciosa prova, ou guardá-la até a poder entregar a Beringar em pessoa. Afinal de contas, Edwin estava ainda algures em liberdade, e nenhum mal imediato lhe podia acontecer.

- Se está aqui por causa do assunto do envenenamento - disse o guarda para ajudar - fale com o sargento que ficou de serviço aqui. Ouvi contar que têm acontecido coisas estranhas lá em baixo na abadia. Hão-de ficar contentes quando ficarem novamente em paz e o malandro for preso. Entre, irmão, que eu prendo-lhe a mula e mando recado a William Warden, dizendo-lhe que está aqui.

Bom, de qualquer modo, não havia perigo em dar uma vista de olhos ao substituto que representava a lei e resolver consoante o que visse. Cadfael ficou à espera numa antecâmara de pedra dentro da portaria, e manteve escondido na sacola o objecto que motivara a sua visita, até que tomasse uma decisão. Mas logo que avistou o sargento que entrou, percebeu que era praticamente certo que o frasco permaneceria no seu esconderijo. Era o mesmo oficial que respondera à primeira chamada do prior para que viessem à casa de Bonel, um homem barbudo, moreno, nariz tipo bico de falcão, autoconfiante e cheio de impaciência logo que o seu nariz pressentia uma pista óbvia. Reconheceu Cadfael de modo igualmente pronto; por entre a espessa barba, uns grandes dentes brancos reluziram num sorriso pleno de escárnio.

- O senhor outra vez, irmão? E ainda com uma dúzia de razões para explicar por que é que o jovem Gurney deve estar inocente, quando a única coisa que falta é uma testemunha que o tenha efectivamente visto cometer o crime? Veio atirar-nos com mais poeira para os olhos, suponho, enquanto o culpado segue para Gales?

- Vim - respondeu o Irmão Cadfael, não dizendo exactamente a verdade - perguntar se tinha havido algo de novo, com respeito àquilo que ontem contei a Hugh Beringar.

- Não houve nada, nem vai haver. Então, foi o senhor que o fez seguir rio abaixo nessa estúpida missão! Devia ter adivinhado! Um malandrim astuto conta-lhe uma história louca, você engole-a, e ainda por cima vem contaminar os outros! Que loucura e que desperdício! Gastar homens a remar rio acima e rio abaixo em pleno frio, à procura de um relicário que nunca existiu! Irmão, vai ter de responder por muita coisa!

- Sem dúvida que sim - concordou Cadfael calmamente. - Todos temos, até o senhor. Mas o dever de Beringar é esforçar-se por encontrar a verdade e a justiça, e é também o seu dever e o meu, e cumpro-o o melhor que posso, e recuso-me a agarrar-me à primeira solução que aparece, mesmo sendo a mais fácil, e a fechar os olhos a todas as outras coisas, apenas para me livrar da maçada e ficar novamente na calma. Bom, parece que vim maçá-lo por nada. Mas diga a Hugh Beringar que estive cá à procura dele.

Estudou o olhar do sargento enquanto falava e duvidava de que até a sua mensagem fosse entregue. Não, uma prova importante que apontava para outra direcção não podia ser entregue a este homem que estava tão certo de estar na verdade que seria até capaz de trocar as circunstâncias e os factos para ficarem a condizer com a sua opinião. Não havia nada a fazer, o frasco teria de seguir para Rhydycroesau e esperar até que o Irmão Barnabas ficasse bom e voltasse a tratar das suas ovelhas.

- As suas intenções são boas, irmão - disse William com generosidade -, mas em assuntos destes, está muito longe do seu claustro. É melhor deixá-los para aqueles que têm experiência.

Cadfael despediu-se sem mais protestos, montou na sua mula e voltou a atravessar a cidade até ao sopé da colina, onde a rua que virava para a direita o levaria à ponte oeste. Pelo menos nada se perdera, e Beringar estava a seguir a pista que lhe fornecera. Estava na hora de se concentrar na jornada que tinha à frente, e afastar da mente os problemas de Richildis e do filho até que tivesse feito o máximo possível pelo Irmão Barnabas.

A estrada que ligava Shrewsbury a Oswestry era uma das principais da região, e estava em estado razoavelmente bom. O povo antigo, os romanos, tinham-na aberto há muito tempo quando dominavam a Bretanha, e a mesma estrada seguia para sudoeste, mesmo até à cidade de Londres, onde agora o Rei Stephen se preparava para passar o Natal com os seus nobres e onde o Cardeal Alberic de Ostia estava ocupado com o seu conselho para a reforma da igreja, o que provavelmente traria a destituição do Superior Heribert. Mas ali, seguindo na direcção oposta, a estrada seguia ampla e a direito, apenas com pequenos tufos de erva num ponto ou outro, e um pouco invadida pelas bermas selvagens, atravessando uma zona de rica agricultura e florestas até à cidade de Oswestry, uma distância não superior a dezoito milhas. Para manter a mula feliz, Cadfael seguiu a passo vivo mas certo. Depois da cidade, eram apenas quatro milhas até aos apriscos das ovelhas. Lá ao longe, enquanto seguia para oeste na luz que enfraquecia, as colinas de Gales erguiam-se de um azul-rosado, nobres, com a grande cordilheira de Berwyn esbatendo-se num céu ligeiramente toldado.

Chegou antes da noite à pequena e nua granja situada num recôncavo das montanhas. Uma sólida e baixa cabana de madeira abrigava os irmãos, e mais ao longe ficavam os grandes currais e estábulos para onde se podiam trazer as ovelhas para as abrigar do gelo e da neve, e mais ao longe ainda, subindo as suaves encostas, viam-se os longos muros de pedra cinzenta que circundava os campos onde os animais pastavam nesse princípio relativamente suave de Inverno, e onde comiam raízes e grão se o pasto lhes faltasse. As mais ousadas andavam ainda em liberdade pelas colinas. O cão do Irmão Simon começou a ladrar, arrebitando as orelhas ao ouvir o barulho dos cascos da mula que quase não produziam som devido à turfa do caminho.

Cadfael desmontou junto à porta, e Simon saiu ansioso para o receber - um monge alto, magro e desgrenhado, com cerca de quarenta anos, mas ainda perturbado como uma criança quando algo que não dissesse respeito às ovelhas corria mal. As ovelhas, ele conhecia como mães conhecem seus filhos, mas a doença do Irmão Barnabas deixara-o completamente desfeito. Agarrou as mãos de Cadfael entre as suas e sacudiu-as, sacudindo-se ao mesmo tempo, na sua gratidão por já não estar sozinho com o seu doente.

- Ele está muito atacado, Cadfael, e quando respira ouvem-se chiar as folhas do seu coração, com um ruído igual ao provocado nos bosques pelos passos de uma pessoa durante o Outono. Não pude curá-lo com um bom suadouro, mas tentei...

- Tentaremos de novo - disse Cadfael em tom calmo, e entrou à frente dele na sombria cabana que cheirava a madeira. No interior estava abençoadamente quente e seco; a madeira é a melhor protecção contra o clima, nos sítios onde não há perigos de fogos, e naquela solidão esse perigo não existia. O mínimo de mobiliário, mas o suficiente; e lá dentro, no outro quarto, o Irmão Barnabas jazia no leito, nem a dormir, nem acordado, num incómodo estado intermédio, produzindo forte chiadeira cada vez que respirava, tal como Simon dissera, a testa quente e seca, os olhos meio abertos e vazios. Um homem grande e maciço, todo músculos e ossos, que tinha nele grandes reservas de luta que apenas precisavam um pouco de orientação.

- Vá tratar do que tem a fazer - disse Cadfael, desafivelando a sacola e abrindo-a aos pés da cama - e deixe-o entregue a mim.

- Vai precisar de alguma coisa? - perguntou Simon em tom ansioso.

- Uma panela de água ao lume, ali, um pano e uma caneca à mão, e é tudo. Se precisar de mais alguma coisa eu procuro.

Abençoadamente, as suas palavras foram cumpridas à risca; o Irmão Simon tinha uma fé infantil em todos aqueles que praticavam artes especiais. Toda a noite Cadfael trabalhou sem pressas com o Irmão Barnabas, alumiado por uma simples vela que Simon trouxera quando a luz do Sol morreu. Uma pedra quente embrulhada em flanela galesa para os pés do doente, uma massagem longa e vigorosa para o peito, costelas e garganta e descendo até à cinta, feita com um unguento de banha de ganso impregnada de mostarda e outras ervas que produzem calor; depois o peito e a garganta envolvidos numa faixa da mesma flanela, panos frescos na testa seca, e uma poção quente feita com vinho misturado com especiarias, borragem e outras ervas febrífugas. Fê-lo ingerir paciente e firmemente a poção, que aliviou a respiração e relaxou os tendões. O paciente dormiu um sono espasmódico e pouco calmo; mas, a meio da noite, o suor irrompeu como uma tempestade de chuva, ensopando a cama. Os dois enfermeiros atentos, quando o pior tinha passado, levantaram o paciente, retiraram o cobertor que estava por baixo dele, e puseram-lhe um fresco, embrulharam-no noutro e voltaram a cobri-lo.

- Vá dormir - disse Cadfael, satisfeito -, porque ele está bem. Pela manhã vai acordar cheio de fome.

Nesse ponto enganava-se por algumas horas, pois o Irmão Barnabas, uma vez mergulhado num sono profundo e calmo, dormiu quase até ao meio do dia seguinte, quando acordou com os olhos límpidos e a respiração calma, mas fraco como um cordeiro recém-nascido.

- Não se preocupe com isso - disse alegremente Cadfael. - Mesmo que já se aguentasse de pé, não o poderíamos deixar sair daqui durante uns dois dias ou até mais. Tem muito tempo e aproveite o descanso. Nós os dois chegamos bem para cuidar do seu rebanho.

O Irmão Barnabas, de novo bom, seguiu as suas palavras à risca e regalou-se com a convalescença. Comeu, primeiro sem grande gosto porque com a febre perdera o paladar, mas mais tarde, quando recuperou o prazer do gosto, o seu apetite transformou-se em fome voraz.

- É o melhor sinal que poderíamos ter - disse Cadfael. - Um homem que come com ânimo e prazer, está a ficar novamente saudável. - E deixaram o paciente a dormir tão profundamente como comera, e saíram para tratar das ovelhas, das galinhas, da vaca e de todos os outros animais do aprisco.

- Um ano fácil, até à data - disse o Irmão Simon, observando com satisfação as suas rijas e pernudas ovelhas da montanha. Carneiros tão galeses como o Irmão Cadfael pastavam para o sudoeste, e à distância via-se a longa cordilheira de Berwyns; faces longas, altivas, inescrutáveis, ouvidos apurados, e sabidos olhos amarelados que levavam a palma a um santo. - Há ainda imenso pasto bom, com a erva a crescer assim até tão tarde e com tudo o que puderam apanhar entre o restolho depois da colheita. E temos beterrabas, que também são óptimo alimento. Quando forem tosquiadas, vamos ter uma lã melhor que na maior parte dos anos, a menos que mais tarde o Inverno se torne muito rigoroso.

Do cimo da colina, para além dos pastos murados, o Irmão Cadfael olhava para sudoeste, onde a longa crista descia às terras mais baixas entre as colinas.

- Pelos meus cálculos, o domínio de Mallilie deve ficar algures, naquela terra abrigada.

- Pois fica. São três milhas se se for em volta pelo carreiro mais fácil, o solar fica mais atrás, junto à colina, e as terras estendem-se para sudoeste. Boa terra para esta região. E, quando precisei de um mensageiro, como fiquei contente em saber que tínhamos lá um encarregado nosso. Tem de ir lá tratar de qualquer assunto, irmão?

- Quando o Irmão Barnabas estiver completamente bom e me puderem dispensar, há algo que tenho de tratar. - Voltou-se e olhou para oriente. - Mesmo aqui, já devemos estar a uma boa milha, ou mais, do lado galês da velha linha da fronteira. Como não sou pastor, nunca cá tinha estado. Pessoalmente, venho de Gwynedd, da parte mais afastada de Conwy. Mas até estas colinas me fazem sentir que estou na minha terra.

O domínio de Gervase Bonel devia ficar ainda mais no interior da terra galesa que aquelas pastagens. Os Beneditinos tinham pequena penetração em Gales, pois os galeses preferiam o seu arcaico cristianismo celta, eremitério do santo que se auto-exilara e o modesto pequeno colégio de frades celtas, às astutas e fortes instituições que tinham os olhos postos em Roma. No sul alguns normandos seculares e aventureiros tinham penetrado mais profundamente, mas Mallilie, como dissera o Irmão Rhys, devia estar encravado na carne de Gales, como um espinho profundo.

- Não leva muito tempo a chegar a Mallilie - disse o Irmão Simon, ansioso por ser prestável. - O nosso cavalo é velho mas forte, e em geral tem muito pouco trabalho. Se quiser ir amanhã, posso bem arranjar-me sozinho.

- Primeiro - disse Cadfael -, vamos a ver o progresso que o Irmão Barnabas mostra amanhã.

Uma vez sem febre, o Irmão Barnabas fez óptimos progressos. Antes do cair da noite estava farto de ficar na cama, e insistiu em levantar-se e experimentar pelo quarto as pernas enfraquecidas. A sua força natural e grande ânimo era tudo o que necessitava para se pôr completamente bom, mas engolia tolerantemente todos os remédios que Cadfael lhe apresentava, e consentiu em que de novo lhe massajassem com sálvia o peito e a garganta.

- Não precisa mais de se preocupar comigo - disse. - Muito breve estarei fino como um alho. E, se durante um dia ou dois não posso ir para as montanhas... embora bem que podia se vocês me deixassem... posso bem cuidar da casa, e também das galinhas e da vaca.

Na manhã seguinte levantou-se para se juntar a eles para as primeiras orações da manhã, e recusou-se a voltar para a cama, embora quando ambos insistiram, concordou em se sentar comodamente junto ao fogo, e nada mais fazer além de assar o pão e preparar o jantar.

- Nesse caso, Simon - disse Cadfael -, se pode desenvencilhar-se sozinho todo o dia, sempre vou. Se partir já, aproveitarei o melhor da luz do dia, e poderei estar de volta a tempo do trabalho da noite.

O Irmão Simon acompanhou-o até à encruzilhada e deu-lhe as indicações referentes ao caminho. Depois da aldeia de Croesau Bach, ia encontrar uma encruzilhada e devia virar à direita. A partir desse ponto, poderia ver como as colinas formavam um desfiladeiro e, se seguisse sempre em direcção a esse desfiladeiro, chegaria a Mallilie, depois da qual o caminho continuava para oeste até Llamsilin, a capital da comarca de Cynllaith.

A manhã estava ligeiramente enevoada, mas o sol brilhava através da neblina e a turfa estava húmida e reluzente devido à ligeira geada agora derretida. Preferira montar o cavalo da granja em vez da sua mula, pois a mula já fizera muito exercício com a vinda, e tinha direito a um descanso. O animal era um desgracioso cavalo baio, de fraca aparência mas boa disposição e muito ânimo, pronto para o trabalho. Era agradável seguir por ali a cavalgar sozinho numa linda manhã de Inverno, seguindo por um caminho alcochoado pela turfa e entre colinas que o faziam voltar à sua juventude, sem deveres de rotina e sem ser obrigado a falar além do esporádico cumprimento a qualquer mulher a rachar lenha no pátio, ou a qualquer homem a conduzir carneiros para a nova pastagem, e até isso constituía um prazer muito especial, porque instintivamente descobriu que lançava os seus bons-dias em galês. As habitações eram poucas e esparsas, até que atravessou Croesau e chegou ao solo mais baixo e mais rico, onde o padrão formado pelos campos bem ordenados lhe disse que já estava a entrar em terras de Mallilie. Um riacho surgiu à sua mão direita e acompanhou-o até à garganta, onde as encostas de ambos os lados se aproximavam. Uma milha mais longe formava já um pequeno rio, que dava origem a planícies em ambas as margens e aos regos escuros de terra lavrada mais para trás. As encostas superiores estavam recobertas de árvores, o vale estava voltado a sudoeste, de frente para o sol da manhã; um lugar bom, com as casas dos rendeiros bem abrigadas e bem distribuídas. Bem dentro do desfiladeiro, junto a um recôncavo na encosta à sua direita, e semi-rodeado por bosques, deparou com o solar.

Era cercado por uma estocada de madeira, alta e maciça, mas a casa erguia-se sobre terreno mais elevado e sobressaía acima dela. Era construída com a pedra local, granito cinzento, com grande telhado de ardósia que, quando a geada que tinha se transformou em orvalho, reluzia como escamas de peixe ao sol. Quando atravessou o rio pela ponte de madeira e entrou o portão aberto da estocada, apareceu à sua frente toda a casa, tendo à esquerda uma alta escadaria de pedra conduzindo à porta principal do andar de habitação. No rés-do-chão, três portas separadas, grandes bastante para deixar passar carroças, davam para o que era fácil perceber-se serem salas subterrâneas abobadadas, com arrumo suficiente para aguentar um cerco. A julgar pelas janelas do lado do coruchéu, havia uma outra pequena sala por cima da cozinha. As janelas do solar eram amplas e com gradeado de pedra. Do lado de dentro da estocada viam-se amplas dependências, estábulos, cavalariças e despensas. Nobres normandos, herdeiros prometidos, abadias beneditinas bem podiam cobiçar tal propriedade. Era realmente verdade que Richildis casara fora da sua classe.

Os criados deviam ser os antigos criados de Bonel, continuando as suas funções sob a nova administração. Um rapaz dos estábulos veio tomar conta das rédeas de Cadfael, não sentindo qualquer necessidade de fazer perguntas a quem se apresentava num hábito beneditino. Viam-se poucas pessoas a andar pelo pátio, mas essas poucas via-se que sabiam o que andavam a fazer; e, por muito imponente que fosse a casa, nunca devia ter precisado de muito pessoal para a manter. Tudo gente local, certamente, e isso significava gente galesa, tal como a criada de servir que aquecera a cama do seu amo e lhe dera um filho desdenhado. Isso era um facto! Talvez até nessa altura Bonel fosse um homem atraente e, juntamente com a criança, lhe tivesse dado também prazer. Mas, pelo menos, mantivera-a desde então, a ela e ao filho, embora como simples dependentes, não como membros da sua família, como seus parentes. Um homem que não se apoderava de mais do que considerava legalmente seu, mas que não abdicava da mínima coisa que pertencesse a tal categoria. Um homem que permitira que uma propriedade de vilão sem herdeiros fosse parar às mãos do filho mais novo de uma família livre, a troco do serviço costumeiro, e que mais tarde, firmemente escudado pela lei, e apresentando como razão esses serviços prestados, reclamou como vilão esse rendeiro em posição duvidosa e, segundo o mesmo código, a progenitura do rendeiro como pessoas não livres.

Nesta controversa lei das terras fronteiriças, Cadfael sentia-se profundamente galês de alma e coração, mas não podia negar que o inglês estava ligado de modo igualmente apaixonado à sua própria lei, e que se sentira seguro de ter razão. Não fora um homem vil, só um produto do tempo e do lugar, e a sua morte fora provocada por assassinato.

Para falar com franqueza, Cadfael nada tinha a fazer naquela casa, a não ser observar, e já tinha observado. No entanto entrou, subiu a escadaria exterior, e foi dar à passagem que ia dar ao salão. Um rapaz que saía da cozinha fez-lhe um cumprimento desajeitado e seguiu em frente, aceitando-o como alguém da casa que certamente conhecia o caminho. O salão era imponente e com muitas traves. Cadfael atravessou-o e foi até ao solário. Este devia ser o sítio onde Bonel pretendera instalar o gradeamento encomendado a Martin Bellecote, a transacção que lhe permitira pôr os olhos e o coração em Richildis Gurney, que outrora fora Richildis Vaughan, filha de honesto e despretensioso comerciante.

Martin fizera um bom trabalho e encaixara-o ali com arte e amor. O solário era mais estreito que o salão, pois tinha um grande armário e uma capela pequenina. Luzia e sentia-se o perfume do gradeamento de carvalho, polido e sobriamente esculpido, cujo veio suavemente prateado refulgia com a luz que entrava pela ampla janela. Edwin tinha um bom irmão e um bom mestre. Não precisava de lastimar-se se perdesse a ilusória herança.

- Perdão, irmão! - disse uma voz respeitosa nas costas de Cadfael. - Ninguém me disse que estava cá um mensageiro de Shrewsbury.

Surpreendido, Cadfael voltou-se para olhar para o representante da abadia ali; um homem laico, um homem de leis, suficientemente jovem para mostrar deferência para com os seus patrões, suficientemente maduro para se sentir senhor do seu papel.

- Eu é que lhe devia pedir perdão - disse Cadfael - por me apresentar assim sem cerimónias. Para dizer a verdade, nada tenho a tratar aqui mas, como estava na vizinhança, tive a curiosidade de ver o nosso novo domínio.

- Se realmente for vosso - disse pesarosamente o encarregado, e lançou em seu redor um olhar de conhecedor, calculando o que a abadia talvez viesse a perder. - Parece que, de momento, o caso ainda está em dúvida, embora isso não faça qualquer diferença para a minha missão aqui, que é manter tudo em boa ordem, independentemente de quem venha a ficar com o quinhão. A propriedade tem sido bem dirigida e de modo proveitoso. Mas, irmão, se não foi enviado para se nos juntar aqui. onde está domiciliado? Enquanto o domínio estiver em nosso poder, se quiser ficar, podemos bem oferecer-lhe alojamento.

- Não posso ficar - disse Cadfael. - Mandaram-me de Shrewsbury para tratar de um irmão doente, um pastor dos apriscos de Rhydycroesau e, até ele estar bom, tenho de fazer o trabalho dele ali.

- E o seu paciente vai melhor, depreendo?

- Está tão bem que me lembrei de gastar algumas horas para vir ver a propriedade que talvez nos escape dos dedos. Mas tem qualquer razão imediata que o leve a crer que o nosso direito aqui está ameaçado? Para além da dificuldade óbvia de o contrato não ter sido selado a tempo?

O encarregado franziu o sobrolho, e mordeu o lábio em tom de dúvida.

- A situação é bastante estranha porque, se tanto o herdeiro secular como a abadia perderem o direito, o futuro de Mallilie é muito duvidoso. O conde de Chester é o suserano, e pode entregá-lo a quem quiser e, em tempos perturbados como este, duvido que o queira deixar em mãos monásticas. Certo que podemos apelar para ele, mas não até que Shrewsbury volte a ter um superior com plenos poderes. Entretanto, tudo o que podemos fazer é dirigir este domínio até haver uma decisão legal. Aceita jantar cá comigo, irmão? Ou, pelo menos, uma taça de vinho?

Cadfael recusou a oferta da refeição do meio-dia; ainda era cedo, e tinha muito onde usar as restantes horas de sol. Mas aceitou o vinho com prazer. Sentaram-se juntos no solário gradeado, e o moreno ajudante de cozinha galês trouxe um canjirão e duas canecas.

- Não teve qualquer problema com os galeses que ficam a oeste? - perguntou Cadfael.

- Nenhum. Há já cinquenta anos que estavam habituados a ter os Bonel como vizinhos, e não há qualquer ressentimento. Contudo, tenho tido poucos contactos, a não ser com os nossos próprios rendeiros galeses. Como sabe, irmão, de ambos os lados da fronteira há galeses e ingleses a viver lado a lado, e a maior parte tem parentes no outro grupo.

- Um dos nossos irmãos mais idosos - disse Cadfael - veio desta região, de uma aldeia que fica entre este lugar e Llansilin. Quando soube que eu vinha para Rhydycroesau, falou-me dos seus antigos parentes. Se conseguir encontrar essa gente, terei muito gosto em lhes apresentar as saudações dele. Mencionou dois primos, Cynfrith e Owain ap Rhys. Nunca encontrou nenhum deles? E um irmão por casamento, um tal Ifor ap Morgan... embora já devem ter passado muitos anos desde que contactou com qualquer deles e, tanto quanto sei, esse Ifor ap Morgan pode ter morrido há muito. Deve ter mais ou menos a mesma idade que Rhys, e alguns de nós duramos muito tempo.

O encarregado abanou a cabeça em tom de dúvida.

- De Cynfrith ap Rhys já ouvi falar, tem uma propriedade a cerca de meia milha para oeste. Ifor ap Morgan... não, desse não sei nada. Mas digo-lhe uma coisa, se ele está vivo, o rapaz deve saber, pois também é de Llansilin. Interrogue-o quando partir, e faça-o em galês, embora ele saiba bastante inglês. Mas consegue arrancar-lhe mais coisas em galês... e muito mais depressa - acrescentou com um sorriso de esguelha - se eu não estiver consigo. Nenhum é mal-intencionado, mas mantêm-se calados e é maravilhoso ver como deixam de compreender o inglês quando lhes convém manter o estranho de fora.

- Vou tentar - disse Cadfael -, e os meus agradecimentos pelo bom conselho.

- Vai então perdoar-me se o não acompanhar até aos portões para lhe desejar que vá com Deus. Será melhor que esteja só.

Cadfael aproveitou a deixa e despediu-se ali no solário, e saiu atravessando o salão e seguindo pela passagem que ia dar à cozinha. O rapaz lá estava, recuando corado de junto do forno, com um tabuleiro de pães frescos. Olhou em volta quando pousou a carga no tampo de tijolo para que arrefecesse gradualmente. Não era medo nem desconfiança, mas o cuidado de um animal selvagem, alerta e atento a tudo o que tem vida, curioso e pronto a mostrar-se amigável, céptico e pronto a desaparecer.

- Deus te abençoe, filho! - disse Cadfael em galês. - Se já tiraste todo o teu pão, pratica um acto de bom cristão e vem comigo até ao portão, para mostrares a um desconhecido o caminho até às terras de Cynfrith ap Rhys, ou de seu irmão Owain.

O rapaz olhou espantado, com os olhos cheios de interesse, por ter sido placidamente interpelado na sua própria língua.

- O senhor é de Shrewsbury? Um monge?

- Sim.

- Mas galês?

- Tão galês como tu, rapaz, mas não destes lados. A minha terra natal é o vale de Conwy, próximo de Trefriw.

- Que pretende de Cynfrith ap Rhys? - perguntou directamente o rapaz.

Agora sei bem que estou em Gales, pensou Cadfael. Um criado inglês, se jamais chegasse a aventurar-se a pôr em dúvida qualquer procedimento meu, fá-lo-ia de um modo indirecto e obsequioso, com medo de levar nas orelhas, mas os rapazes galeses dizem o que pensam até aos príncipes.

- Na nossa abadia - disse obediente Cadfael - há um velho irmão que costumava ser conhecido por estas bandas pelo nome de Rhys ap Griffith, e é primo desses outros filhos de Rhys. Quando parti de Shrewsbury, prometi-lhe que levaria as suas saudações aos seus parentes, e é isso que pretendo fazer se os encontrar. E, já que falamos no assunto, há mais um nome que ele me deu, e talvez possas ao menos dizer-me se o homem está vivo ou morto, pois deve ser muito velho. Rhys tinha uma irmã, Marared, que se casou com um tal Ifor ap Morgan, e tiveram uma filha chamada Angharad, embora me tenham dito que ela já morreu há anos. Mas, se Ifor ainda vive, falaria também com ele. Sob esta chuva de nomes galeses, o rapaz derreteu-se em sorrisos.

- Senhor, Ifor ap Morgan ainda está vivo. Vive bastante longe, perto de Llansilin. Vou lá fora consigo e mostro-lhe o caminho.

Com toda a ligeireza, desceu a escadaria de pedra à frente de Cadfael, e trotou à sua frente até ao portão. Cadfael seguiu-o, levando o cavalo pela mão, e olhou para o sítio para onde o rapaz apontava, a oeste por entre as colinas.

- Até à casa de Cynfrith ap Rhys é apenas meia milha, e fica junto ao caminho, à sua direita, e tem uma caniçada em volta do pátio. Verá logo as cabras brancas no pequeno prado. Para encontrar Ifor ap Morgan terá de ir mais longe. Siga pelo mesmo caminho até ter passado as colinas e ter já vistas para o vale, e tome o caminho da direita que atravessa o rio antes de este chegar ao Cynllaith. Meia milha mais adiante, volta a olhar para a direita por entre as árvores, e verá uma pequena casa de madeira e é aí que vive Ifor. Agora já é muito velho, mas continua a viver sozinho.

Cadfael agradeceu-lhe e montou.

- Quanto ao outro irmão, Owain - disse o rapaz alegremente, disposto agora a dizer tudo o que sabia e que pudesse ser útil -, se ficar mais dois dias por estes lados, poderá apanhá-lo em Llansilin depois de amanhã, quando reúne o tribunal da comarca, pois ele tem uma questão que juntamente com várias outras foi adiada na última reunião. Os juízes têm andado a estudar as terras em querela e depois de amanhã devem dar a sua decisão. Não gostam de deixar que os rancores se mantenham durante as festas de Natal. A propriedade de Owain é bem para lá da cidade, mas de certeza que o encontra na igreja de Llansilin. Um dos vizinhos moveu o marco divisório, ou, pelo menos, é o que ele afirma.

Dissera mais do que pensava, mas estava serenamente ignorante da forte impressão que causara no Irmão Cadfael. Uma pergunta, talvez a mais vital de todas fora respondida sem mesmo ter sido perguntada.

Cynfrith ap Rhys - a parentela parecia estar tão cheia de Rhys que em alguns casos era necessário citar as últimas três gerações para os distinguir - foi fácil de encontrar, e mostrou-se disposto a falar até com um monge beneditino, uma vez que o monge falava galês. Convidou amavelmente Cadfael a entrar, e o convite foi aceite com prazer. A casa consistia numa divisão e uma cozinha numa despensa, o domínio de um homem solitário, e não se via ali sinal de qualquer outra criatura além de Cynfrith e as suas cabras e galinhas. Cynfrith era um galês sólido, robusto, de ossos largos, com hirsuto cabelo negro que começava a ficar grisalho dos lados, e careca no topo da cabeça, e olhos alerta e brilhantes, encastoados na teia formada pelas rugas de bom humor usuais em homens que vivem ao ar livre. Pelo menos vinte anos mais novo que o seu primo que estava na enfermaria em Shrewsbury. Ofereceu pão e queijo de cabra, e umas maçãs doces e engelhadas.

- O bom do velho, então ainda está vivo! Muitas vezes pensei nisso. É primo em primeiro grau da minha mãe, não meu, mas tempos houve em que o conheci bem. Deve estar a chegar aos oitenta, suponho. E ainda contente lá no claustro? Vou mandar-lhe uma pequena garrafa do seu licor preferido, se o irmão tiver a gentileza de o levar. Sou eu próprio quem o destila, e far-lhe-á jeito durante o Inverno; uma gota a horas é bom para o coração e também não faz mal nenhum à memória. Bom, bom, e pensar que ele ainda se lembra de todos nós! O meu irmão? Oh, pode estar certo que, quando vir Owain, dar-lhe-ei o recado. Ele tem uma boa esposa e filhos crescidos e diga ao velho que Elis, o mais velho, casa-se na Primavera. Depois de amanhã vou encontrar-me com o meu irmão, pois ele tem um caso em julgamento na corte da comarca em Llansilin.

- Foi o que me disseram em Mallilie - disse Cadfael. - Desejo-lhe bom sucesso.

- Ah, bem, ele afirma que Hywel Fychan, que vive junto dele, moveu uma das pedras que marcam os limites da sua propriedade, e talvez o tenha feito, mas não posso deixar de dizer que em qualquer outra altura, talvez Owain tenha feito o mesmo a Hywel. É um velho desporto entre nós... Mas não preciso contar-lho, pois também não é de cá. Hão-de resolver o caso como o tribunal mandar; sempre fazem as pazes até à vez seguinte, e não há ressentimentos. No próximo Natal hão-de beber juntos.

- E o mesmo deveríamos fazer todos - disse Cadfael em tom um tanto ou quanto sentencioso.

Despediu-se logo que o pôde fazer com elegância, desculpando-se, com verdade, com outro recado que tinha a fazer, e com a curta duração da luz do Sol e seguiu o seu caminho ao longo do pequeno rio, animado e ao mesmo tempo sentindo-se pequenino perante aquele contacto com uma boa vontade aberta e sem medos. O pequeno frasco de licor destilado em casa dançava na sua sacola; estava contente por ter deixado o outro, o do veneno na cabana dos pastores.

Chegou ao outro lado do desfiladeiro e viu o vale de Cynllaith abrir-se à sua frente, e o carreiro à direita que traçava uma linha nítida através da erva, até atravessar o pequeno tributário. Meia milha mais adiante, a encosta da cordilheira estava coberta de bosques e, se estivesse em pleno Verão com toda a sua folhagem, talvez tivesse sido difícil lobrigar a pequena casa de madeira no meio das árvores; mas agora, com todas as folhas caídas, erguia-se bem nítida por trás dos ramos nus, como um galo satisfeito na sua capoeira. Havia erva quase até à vedação e, de um dos lados, o véu formado pelas árvores tapava-a até metade, formando como que uma cortina. Cadfael seguiu em direcção à casa, e rodeou-a seguindo ao longo do avental de erva, pois não se via qualquer porta no lado que dava para o caminho. Apareceu-lhe um cavalo preso a largas rédeas, o qual vinha do canto da casa e pastava placidamente; um cavalo tão alto, desajeitado e pouco bonito como o que ele próprio montava, embora provavelmente alguns anos mais velho. Quando o viu estacou de súbito, ficou um momento parado a olhar para ele, e depois desmontou, pisando a rija erva.

Claro que devia haver muitos cavalos que correspondiam à descrição dada: um velho e descarnado cavalo malhado. Este era-o certamente, como o branco e o preto formando os mais loucos desenhos. Mas certamente que não respondiam todos ao mesmo nome.

Cadfael deixou cair as rédeas e avançou lentamente em direcção ao animal que comia serenamente e que, após um único olhar, não lhe prestou mais a mínima atenção. Chegou-se a ele e chamou baixinho:

- Japhet!

O cavalo malhado esticou as longas orelhas e levantou a cabeça magra e simpática, estendendo um focinho interrogativo de narinas dilatadas na direcção do som que lhe era familiar e, tendo decidido que não estava enganado, avançou confiada e animadamente para a mão que Cadfael estendera. Passou os dedos numa carícia pela alta testa e ao longo do pescoço esticado.

- Japhet, Japhet, meu amigo, que fazes tu aqui?

O ruído de pés sobre a erva seca, numa altura em que as quatro patas da doce criatura estavam imóveis, fez Cadfael levantar repentinamente os olhos em direcção à esquina da casa. Um venerável ancião estava parado a olhar firme e silenciosamente para ele; um homem alto, de cabelo e barba brancos, mas com as sobrancelhas ainda negras e espessas como escovas e, por baixo delas, olhos tão reluzentemente azuis como um céu de Inverno. A sua roupa era feita do tecido caseiro geralmente usado pela gente do campo, mas o seu porte e altura faziam-no parecer vestido de púrpura.

- Suponho - disse Cadfael voltando-se para ele, com uma mão ainda sobre o pescoço inclinado de Japhet - que o senhor seja Ifor ap Morgan. O meu nome é Cadfael, outrora Cadfael ap Meilyr ap Dafydd of Trefriw. Trago-lhe uma mensagem da parte de Rhys ap Griffith, o irmão de sua esposa, que é agora o Irmão Rhys da abadia de Shrewsbury.

A voz que saiu daqueles longos e austeros lábios secos era grave e sonora, de uma musicalidade surpreendente.

- Tem a certeza que a sua mensagem não é para um hóspede meu, irmão?

- Não era - respondeu Cadfael -, era para si. Agora é para ambos. E a primeira coisa que eu gostaria de dizer é que mantenham este animal fora da vista, porque se eu o pude reconhecer meramente a partir de uma descrição, o mesmo poderão outros fazer.

O ancião lançou-lhe um olhar azul demorado e penetrante.

- Entre dentro de casa - disse, e deu meia volta para seguir adiante. Mas Cadfael, antes de o seguir, conduziu Japhet bem para trás da casa e encurtou-lhe as rédeas para o manter lá.

Na penumbra do interior, fumarenta e com cheiro a madeira, o ancião esperava-o de pé, com uma mão pousada com ar protector sobre o ombro de Edwin; e Edwin, com a impressionável generosidade da juventude, conseguia de algum modo apresentar uma semelhança virginal com a dignidade e graça do ancião, e mantinha-se tão erecto e calmo dentro do seu corpo inexperiente como Ifor ap Morgan no seu já velho e experiente, e copiava-lhe o porte da cabeça e a profunda serenidade do olhar.

- O rapaz afirma-me - disse Ifor - que o senhor é um amigo. Os amigos dele são sempre bem-vindos.

- O Irmão Cadfael foi muito bom para mim - disse Edwin - e para o meu sobrinho Edwy também, segundo nos contou Meurig. Fui muito abençoado com os amigos que tenho. Mas como me encontrou?

- Não te procurando - respondeu Cadfael. - Na verdade, tenho até tido bastante trabalho para não saber para onde te tinhas retirado, e não foi certamente para te encontrar que aqui vim. Vim com uma inocente mensagem para Ifor ap Morgan, da parte daquele mesmo velho irmão que visitaste na nossa enfermaria com Meurig. O irmão da sua esposa, amigo, Rhys ap Griffith, ainda está vivo na nossa abadia e muito bem para a sua idade e, quando ouviu dizer que eu vinha para estes lados, encarregou-me de trazer as suas saudações e preces aos seus parentes. Não esqueceu a família, embora há muito não tenha estado convosco e duvido que volte a estar. Já estive com Cynfrith ap Rhys, e mandei por ele a mesma mensagem a Owaín e, se houver ainda mais alguém da geração do Irmão Rhys, ou que ainda dele se recorde, tenha a bondade de, quando a oportunidade se apresentar, lhes passar a mensagem... que ele ainda se lembra dos do seu sangue e da sua terra e de todos aqueles que nela têm as suas raízes.

- É mesmo próprio dele - disse Ifor, abrindo-se subitamente num sorriso caloroso. - Foi sempre um parente leal e amigo da minha filha e de todos os outros jovens do nosso clã, pois pessoalmente não tinha filhos. Perdeu a esposa muito cedo, senão ainda estaria entre nós. Sente-se um pouco, irmão, e conte-nos como ele está, e ficar-lhe-ia muito grato se lhe levasse a minha bênção.

- Meurig já lhe deve ter contado muito daquilo que eu lhe poderia contar - disse Cadfael, sentando-se junto dele num banco em frente à rústica mesa - quando cá veio trazer Edwin. Ele não está cá consigo?

- O meu neto está fora, de visita a todos os parentes e vizinhos - respondeu o ancião -, pois hoje em dia é raro vir a casa. Deve estar de volta daqui a poucos dias, suponho. Ele na verdade contou-me que tinha ido visitar o velho aqui com o rapaz, mas só por cá se demorou uma hora, ou cerca, antes de partir para as suas visitas. Teremos muito tempo para conversas quando ele voltar.

Cadfael tinha a impressão de que devia encurtar a sua própria visita pois, embora nunca antes lhe tivesse passado pela cabeça que os oficiais do meirinho pudessem pensar que valeria a pena mantê-lo sob vigilância quando saíra de Shrewsbury, a descoberta demasiado fácil de Edwin naquela casa minara-lhe a confiança. Era bem verdade que não esperava, nem quisera, encontrar o rapaz, mas até Hugh Beringar, e mais ainda os seus subordinados, podiam ter considerado a possibilidade do contrário, e ter posto alguém a seguir-lhe discretamente a pista. Mas não podia entregar secamente a mensagem e partir, quando era evidente que o ancião tinha tanto prazer com aquele reavivar de recordações. Estava todo feliz a falar do tempo em que a mulher ainda vivia, e também a filha, uma criança loura e cheia de vida. Agora tudo o que lhe restava era um único neto e a sua própria dignidade e integridade. O exílio e o refúgio naquele remoto lugar, e esta impressionante companhia tinham tido forte efeito sobre Edwin. Retirou-se para as sombras para não incomodar os homens mais velhos, e não fez qualquer comentário, nem mesmo qualquer pergunta em relação ao seu complicado caso. Silencioso, foi buscar canecas e um canjirão de vinho doce, e serviu-os com precisão e de modo inobstrusivo, cheio de dignidade e humildade, e voltou a afastar-se, até que Ifor se virou e estendeu um longo braço para o puxar para junto da mesa.

- Jovem, deves ter coisas para perguntar ao Irmão Cadfael, e coisas para lhe contar.

Afinal de contas, o rapaz não tinha perdido a língua e, uma vez convidado, falou com a mesma volubilidade e veemência de sempre. Primeiro perguntou por Edwy, com uma ansiedade que nunca teria revelado ao objecto da dita, e ficou muito aliviado ao ouvir contar como aquela aventura acabara muito melhor do que prometia.

- E Hugh Beringar foi assim justo e generoso? E deu-lhe ouvidos e anda à procura da minha caixa? Ah, se a conseguisse encontrar...! Não gostei nada da ideia de deixar Edwy a desempenhar aquele papel em meu lugar, mas ele insistiu. Depois levei Japhet por um caminho desviado até um lugar para onde às vezes íamos brincar, um bosque junto ao rio, e Meurig foi lá ter comigo, e entregou-me uma lembrança para trazer para o seu avô e explicou-me a maneira de encontrar a casa. E no dia seguinte ele próprio veio também, tal como prometera.

- E - perguntou Cadfael, docemente - que tencionas fazer se a verdade nunca vier a ser descoberta? Se não puderes regressar? Mas Deus não permita que tal aconteça e, com a ajuda de Deus, hei-de conseguir que não.

A face do rapaz estava solene, mas serena; pensara muito, ali naquele porto de abrigo, e passara tanto tempo a contemplar a nobre face do seu protector, que nascera como que uma parecença entre os dois.

- Eu sou forte, posso trabalhar. Se necessário, posso ganhar a minha vida aqui em Gales, mesmo que o tenha de fazer como estrangeiro sem direitos. Já outros homens tiveram de abandonar os seus lares por causa de acusações injustas, e refizeram a sua vida; o mesmo posso eu fazer. Mas preferia regressar. Não quero abandonar a minha mãe, agora que está só e com tantos problemas. E não quero ser lembrado como o homem que envenenou o padrasto e fugiu, quando sei muito bem que não lhe fiz qualquer mal, nem mesmo lho desejei.

- Isso não irá acontecer - disse Cadfael com firmeza. - Continua escondido mais alguns dias, e confia em Deus, pois estou convencido que chegaremos à verdade, e poderás então voltar aberta e orgulhosamente para casa.

- Acredita nisso? Ou pretende apenas dar-me coragem?

- Acredito. O teu ânimo não precisa ser encorajado com falsas promessas. E nunca te mentiria, nem mesmo por uma boa causa. - E, contudo, na mente pairavam-lhe mentiras, ou pelo menos meias verdades, e faria melhor em apresentar as suas despedidas e partir, tendo uma boa desculpa no tempo que voava e na luz do Sol que breve começaria a baixar. - Tenho de voltar para Rhydycroesau - disse, preparando-se para se levantar da mesa - pois deixei o Irmão Simon a fazer todo o trabalho sozinho, e o Irmão Barnabas ainda se não aguenta bem nas pernas. Contei-lhes que fui enviado para lá para tratar de um doente e para o substituir no trabalho durante a sua convalescença?

- Se tiver qualquer notícia, volta cá? - perguntou Edwin e, se é verdade que a sua voz estava resolutamente firme, os olhos mostravam- se ansiosos.

- Voltarei quando houver notícias.

- Vai continuar em Rhydycroesau ainda alguns dias? - perguntou Ifor ap Morgan. - Então, voltaremos a vê-lo com mais vagar, espero.

Dirigia-se para a porta para se despedir do seu hóspede, a mão novamente sobre o ombro de Edwin em ar de posse, quando de súbito estacou como que petrificado e, com a mão livre, estendida e de dedos abertos, fez-lhes sinal para que também parassem e, no silêncio, pôs-se à escuta. A idade não endurecera aqueles velhos ouvidos; foi o primeiro a aperceber-se do som de vozes abafadas pela distância, mas próximas e deliberadamente baixas. A erva seca estalou. Junto às árvores, um dos cavalos amarrados relinchou em tom interrogativo, dando sinal de que se aproximavam outros cavalos.

- Não são galeses! - murmurou Ifor sem ruído. - Ingleses! Edwin, vai para a outra sala.

O rapaz obedeceu logo e em silêncio; mas, num segundo estava de volta, uma sombra na soleira da porta.

- Eles estão lá... dois, do lado de fora da janela. Vestidos de couro, armados...

As vozes tinham-se aproximado do lado de fora da porta e, satisfeitos, abandonando o segredo, os seus murmúrios tornaram-se mais sonoros.

- Aquele é o cavalo malhado... não há possibilidade de engano!

- Que te dizia eu? Disse-te que se encontrássemos um, logo encontraríamos o outro.

Alguém soltou uma risada, baixa e plena de contentamento. Depois, um punho bateu abruptamente na porta, e a mesma voz exclamou em voz alta e peremptória:

- Abram em nome da lei! - A formalidade foi de imediato seguida por um forte empurrão que atirou com a porta contra a parede, e a entrada ficou tapada com a robusta figura do sargento barbudo de Shrewsbury, com dois homens de armas na retaguarda. O Irmão Cadfael e William Warden enfrentaram-se à distância de poucos pés; o reconhecimento mútuo levou um a contrair-se e o outro a sorrir.

- Bem aparecido, Irmão Cadafel! E que pena tenho de não ter qualquer mandato contra si, mas o assunto que tenho a tratar diz respeito a esse jovem que está atrás de si. Procuro Edwin Gurney. E tu, meu rapaz, penso que és ele mesmo.

Edwin avançou um passo para a frente, branco como a sua camisa e de olhos arregalados, mas com o queixo corajosamente erguido, e o olhar que mais parecia uma lâmina em riste. Aprendera muita coisa nos poucos dias que ali passara.

- É esse o meu nome - disse.

- Então, prendo-te sob suspeita do assassinato por veneno de Gervase Bonel, e estou aqui para te levar sob custódia para Shrewsbury, para que respondas a acusação.

 

Ifor ap Morgan respirou profundamente e endireitou-se, parecendo num segundo crescer meia cabeça, e avançou para fazer face ao seu inesperado visitante.

- Cavalheiro - disse na sua voz sonora que em si mesma era uma arma -, eu sou o dono desta casa e, até agora, ainda não se dirigiu a mim. Há uns visitantes que eu próprio convido, outros que são bem-vindos, apesar de inesperados. A si eu não conheço, não convidei e não é bem-vindo. Se tem algum assunto a tratar comigo ou com qualquer outra pessoa sob o meu tecto, queira ter a cortesia de se apresentar. Caso contrário, saia desta casa.

Não se pode dizer que o sargento tenha ficado embaraçado, pois o seu posto protegia-o de qualquer humilhação pessoal; mas tomou rapidamente o peso daquela venerável aparição, e moderou os modos que, caso contrário, teriam sido arrojadamente ofensivos.

- Depreendo que seja Ifor ap Morgan. Eu sou William Warden, um sargento ao serviço de Gilbert Prestcote, o meirinho de Shropshire, e ando à procura de Edwin Gurney por suspeita de assassínio. A minha missão é levá-lo para Shrewsbury seja de que maneira for, que é onde foi apresentada a acusação, e é isso que farei como é meu dever. E também o senhor, como membro do Conselho desta região, tem de acatar a lei.

- Mas não a lei inglesa - disse simplesmente Ifor.

- Lei é lei! Assassinato é assassinato em qualquer lei. Assassinato por veneno, senhor!

O Irmão Cadfael lançou um olhar a Edwin, que permanecia imóvel e pálido, uma mão estendida para segurar o braço do ancião num gesto de súplica e de conforto, mas temendo-o e amando-o demasiado para completar o gesto. Cadfael fê-lo em seu lugar, pousando docemente uma mão no velho e magro pulso. Por mais que dissessem ou fizessem, os homens levariam o rapaz consigo. Se estavam ali três, e mais dois a guardar as traseiras da casa, quem os poderia impedir? E o sargento era um homem convencido da sua própria importância e arrogante, talvez capaz de vinganças mesquinhas por reveses passados, mas que certamente também pensava no amor que tinha à própria pele quando lidava com um delegado do meirinho da têmpera de Hugh Beringar, que incompreensivelmente poderia vir a mostrar grandes escrúpulos em relação ao tratamento dado aos prisioneiros. Mas era melhor não alienar Warden desnecessariamente, quando um pouco de conversa amena talvez ajudasse mais no sentido de proteger Edwin.

- Sargento, o senhor conhece-me e sabe que não acredito que este rapaz tenha qualquer culpa pela qual deva responder. Mas eu também o conheço a si, e sei que tem o seu dever a cumprir. O senhor tem de obedecer às ordens que recebeu, e nós não podemos atravessar-nos no seu caminho. Diga-me, foi Hugh Beringar quem o mandou para cá procurar-me? Porque tenho a certeza que não fui seguido à saída de Shrewsbury. Que o trouxe a esta casa?

O sargento não era de modo algum adverso à ideia de detalhar a sua própria esperteza.

- Não, não pensámos em segui-lo quando se despediu de nós, irmão, porque pensávamos que ia regressar à sua abadia. Mas quando Hugh Beringar regressou de mãos vazias da sua louca missão a sul do rio, e ouviu que o senhor tinha querido falar com ele, foi ter consigo à abadia, apenas para descobrir que o senhor tinha seguido para o norte, para Rhydycroesau. Reparei então como esse lugar ficava próximo do domínio de Bonel e decidi pessoalmente vir e trazer um grupo comigo, para investigar no que o senhor andava metido. Quando um oficial de Shrewsbury apareceu a perguntar pelo Irmão Cadfael, o encarregado do domínio não pôs qualquer dúvida em responder. Por que o faria? Ou os seus servos, aliás? Contaram-nos que o irmão tinha perguntado o caminho para duas casas neste lado das colinas, e na segunda cá o encontrámos. Onde um estiver, disse eu, o outro não deve estar longe.

Então ninguém denunciara deliberadamente o fugitivo; isso era uma boa notícia um tanto compensatória para Ifor ap Morgan, que se teria sentido envergonhado e desonrado, se algum parente seu tivesse traído o hóspede que estava em sua casa. Era uma notícia de importância não menos vital para Cadfael.

- Então não foi Hugh Beringar quem o mandou nesta missão? "Decidi pessoalmente", disse o senhor. Que anda ele a fazer enquanto o senhor faz o trabalho dele?

- Anda por fora noutra qualquer tarefa maluca a sul do rio. Hoje de manhã cedo, Madog do Barco dos Mortos mandou-lhe recado para que fosse a Atcham e lá foi ele cheio de esperanças como sempre, mas nada vai sair dali. Por isso resolvi aproveitar a oportunidade para seguir o meu próprio palpite, e esta noite ele vai ter uma rica surpresa, quando regressar sem nada que justifique o trabalho do dia e descobrir que eu lhe trouxe o prisioneiro.

Aquilo era tranquilizador, pois era evidente que o sargento aguardava com ansiedade o momento de apresentar o seu prémio e que estava muito satisfeito com o seu sucesso pessoal; daí ser muito menos provável que se divertisse a tratar mal o rapaz.

- Edwin - disse Cadfael -, queres agora seguir os meus conselhos?

- Sim - disse Edwin, com firmeza.

- Então, vai calmamente com eles, e não cries problemas. Tu sabes que não fizeste nada de mal por isso ninguém pode provar que estás culpado, e é nisso que deves insistir. Quando fores entregue nas mãos de Hugh Beringar, responde abertamente a tudo que te possa perguntar, e conta-lhe toda a verdade. Prometo-te que não ficarás na prisão por muito tempo. E que Deus não me abandone, e me ajude a transformar a promessa em realidade! Sargento, se o rapaz lhe jurar que vai consigo de sua própria vontade e que não tentará escapar, certamente não precisa de o amarrar. A cavalgada é longa, e vão ter de apressar-se para chegar antes da noite.

- Ele pode ficar com as mãos livres, e que lhe faça bom proveito - disse Warden em tom indiferente -, pois os dois homens que tenho lá fora são archeiros, e mestres na sua arte. Se tentasse evadir-se, não poderia ir muito longe.

- Não tentarei - disse Edwin em tom firme. - Dou-lhe a minha palavra. Estou pronto! - Dirigiu-se a Ifor ap Morgan e dobrou reverentemente um joelho à sua frente. - Avô, obrigado por toda a sua gentileza. Sei que não sou verdadeiramente da sua família... quem me dera sê-lo!, mas não me quererá dar um beijo?

O ancião tomou-o pelos ombros e inclinou-se para lhe beijar a face.

- Vai com Deus! E volta, mas em liberdade!

Edwin foi buscar a sua sela e as rédeas ao canto onde estavam arrumadas, e saiu de cabeça levantada e o queixo erguido, com os acompanhantes a rodeá-lo. Daí a poucos minutos, os dois homens que tinham ficado sozinhos, espreitando pela porta aberta, viram o pequeno cortejo formar-se e afastar-se - o sargento à frente, o rapaz entre dois homens de armas a cavalgar muito próximo, os archeiros na retaguarda. Embora a luz não tivesse ainda perdido a força, o dia começava a esfriar. Só à noite chegariam a Shrewsbury; uma jornada maçadora com uma cela de pedra em Shrewsbury no final. Mas, se Deus quisesse, não seria por muito tempo. Dois ou três dias, se tudo corresse bem. Mas bem para quem?

- Que vou eu agora dizer ao meu neto Meurig - disse o ancião em voz triste - quando voltar e descobrir que deixei que levassem o seu hóspede?

Cadfael fechou a porta depois de um último olhar à cabeça morena e figura delgada de Edwin; crescido como estava, entre os musculosos guardas, parecia muito pequeno e jovem.

- Diga a Meurig - disse depois de pensar profundamente - que não precisa temer pelo que venha a acontecer a Edwin, porque no final a verdade vai ser descoberta, e a verdade libertá-lo-á.

Tinha agora de viver um dia de inactividade e, uma vez que nesse momento nada podia fazer de útil para a causa de Edwin, tentou pelo menos transformar aquele compasso de espera num dia de graça, se bem que por outros meios. O Irmão Barnabas, em plena convalescença, pôde por fim ser persuadido a evitar o trabalho mais pesado e a manter-se mais um tempo no calor da casa. O Irmão Simon podia tirar um dia de folga, tanto mais que no dia seguinte Cadfael voltaria a ausentar-se. Além disso, poderiam observar juntos todos os principais serviços divinos do dia, como se estivessem na abadia de S. Pedro.

A paciente recitação das fórmulas apropriadas deve ser considerada em si mesma uma prece.

Teve muito tempo para pensar durante todo o dia, enquanto distribuía o milho às galinhas, mungia a vaca, tratava do velho cavalo baio e conduzia as ovelhas para o novo pasto na colina. Edwin, agora, já devia estar alojado na sua prisão, embora, Cadfael assim o esperava, só depois de uma longa e tranquilizante entrevista com Hugh Beringar. Martin Bellecote já teria sabido que o rapaz fora preso? Saberia Edwy que a sua cavalgada de engodo de nada servira? E Richildis... Teria Beringar considerado seu dever ir visitá-la e contar-lhe a captura de seu filho? Isso seria feito o mais cortês e gentilmente possível, mas não havia maneira de suavizar a dor e medo que devia estar a sentir.

Mas Cadfael pensou ainda mais no velho Ifor ap Morgan, abandonado, sozinho, depois da sua breve experiência de sentir a confiança e reverência de uma criatura jovem e fresca, como uma visão da sua própria juventude de volta. O vigor obstinado que levava Edwin a rebelar-se e a declarar guerra contra Gervase Bonel fora agora enfeitiçado e dominado por Ifor ap Morgan, transformando-se em serviço e dever voluntários. Todos somos as vítimas e os herdeiros do resto da humanidade.

- Amanhã - disse Cadfael à ceia em redor do braseiro que silvava com os seus troncos resinosos e que lançava um fumo azul e enovelado tão perfumado como o seu barracão em Shrewsbury -, tenho de me pôr muito cedo a caminho. - A corte da comarca deveria abrir logo que nascesse o dia, na esperança de encerrar a tempo de todos os presentes chegarem a casa antes da noite. - Tentarei estar de volta a horas de recolher as ovelhas à noite. Não me perguntaram onde vou desta vez?

- Não, irmão - concordou docemente Simon. - Vimos que anda com muita coisa na cabeça, e não o queríamos incomodar ainda mais com perguntas. Quando o desejar, logo nos dirá o que precisarmos de saber.

Mas era uma longa história da qual, naquela solidão e com o seu próprio mundo inalterado, eles não conheciam nem o princípio. Era melhor não dizer nada.

Levantou-se antes da madrugada, selou o cavalo e tomou o mesmo caminho por onde seguira dois dias antes até ao vau do rio, onde voltara para atravessar o afluente e apanhar o caminho que levava à casa de Ifor. Desta vez não saiu do caminho, antes continuou em frente até ao vale do Cynllaith onde atravessou uma ponte de madeira. A partir dali, pouco mais era que uma milha até Llansilin; o Sol já nascera, nublado mas luminoso. A aldeia estava bem acordada e cheia de gente que convergia para a igreja de madeira. Todas as casas das redondezas deviam ter dado abrigo durante a noite a amigos e parentes de outras partes da comarca, pois a população normal do lugarejo não podia ser mais que uma décima parte dos que se viam naquele dia. Cadfael conduziu o cavalo para o cercado junto ao cemitério, onde havia um bebedouro de pedra e agradável pasto, e juntou-se à lenta procissão de homens que entravam na igreja. Cá fora, na estrada, tornava-se conspícuo o seu negro hábito beneditino, coisa muito rara ali, mas no interior podia ficar bem escondido num canto retirado. Não tinha qualquer desejo de que reparassem nele tão cedo.

Ficou contente por Ifor ap Morgan não aparecer entre os anciãos que vinham para ver que a justiça fosse feita, dever dos vizinhos que conheciam a terra e as pessoas em questão. Era muito melhor o testemunho destes homens familiares e respeitados que os argumentos legais dos homens de leis profissionais, embora também desses iria haver ali em fartura. Nem viu Cynfrith ap Rhys até que uma corte formada por três juízes se tivesse instalado e o primeiro caso tivesse sido chamado. Então, quando pediram ao queixoso que avançasse de um dos lados com os seus fiadores, Cadfael reconheceu Cynfrith entre o grupo que apoiava o seu irmão. Owain era o mais novo dos dois, mas muito parecido com o irmão. Hywel Fychan, o acusado, era um homem magro e moreno, de ar beligerante, e também trazia atrás de si o seu pequeno amontoado de testemunhas.

O juiz à presidência deu o veredicto da corte. Tinham estudado in loco as propriedades em disputa e tinham tirado medidas para comparar com velhas plantas. Tinham chegado à conclusão que Hywel Fychan tinha realmente movido a pedra que servia de marco, de modo a roubar alguns metros da terra do vizinho, mas tinham descoberto também que Owain ap Rhys, depois de ter descoberto a fraude do acusado, e embora de modo mais discreto, tinha respondido fazendo toda uma longa divisória recuar quase um metro, pagando-se adequadamente do prejuízo. Os juízes decretaram pois que ambos os marcos fossem repostos nas suas posições primitivas e castigaram ambas as partes com uma multa Ínfima. Como era de prever, Owain e Hywel apertaram as mãos de modo bastante amigável, para mostrar a sua aceitação do veredicto; e muito provavelmente, mais tarde nesse mesmo dia, gastariam a beber juntos o que lhes sobrara do dinheiro das multas que contavam pagar, depois de pagarem as que lhes tinham sido impostas. O jogo recomeçaria no ano seguinte. Cadfael conhecia bem o desporto nacional.

Houve ainda mais dois casos a respeito de limites que tinham estado à espera que se chegasse a um julgamento a respeito da terra sob disputa - um foi amigavelmente resolvido, o outro aceite com um certo ressentimento pela parte perdedora, mas mesmo assim aceite. Houve uma viúva que reclamava uma parcela de terra aos parentes do seu marido, e ganhou a reclamação, sendo apoiada por não menos que sete vizinhos. A manhã passou-se e Cadfael, que constantemente olhava para trás em direcção à porta, começou a perguntar-se se se não teria enganado completamente na sua previsão das probabilidades. E se tivesse interpretado errado todos os sinais? Então teria de recomeçar tudo de novo, e Edwin estaria em genuíno perigo, e o seu único recurso seria Hugh Beringar, cujo poder acabaria quando Gilbert Prestcote regressasse depois de ter passado o Natal com o rei.

A agradecida viúva, corada e feliz, retirava-se com as suas testemunhas, quando a porta da igreja se abriu para trás, A luz do dia atravessou a numerosa assembleia e assim permaneceu durante alguns minutos, enquanto grande número de pessoas entravam na nave. Cadfael olhou em volta, como fazia metade dos que estavam ali reunidos, e viu Meurig avançar para a nave livre, e aí tomar posição com sete graves anciãos atrás de si.

Trazia vestido, Cadfael reparou, o mesmo gibão e calças em que sempre o tinha visto, sem dúvida as suas melhores roupas, usadas para o tribunal da comarca, tal como também eram usadas para visitar a abadia de Shrewsbury. As únicas roupas que devia ter além dessas, eram as que usava para o trabalho. E a bolsa de linho suspensa do cinto pelas suas azelhas de couro era a mesma que Cadfael lhe vira na enfermaria, onde Meurig, certamente por bondade e sem ter nada a ganhar, se esforçara para aliviar as dores das enferrujadas articulações do ancião. Aquelas bolsas custavam dinheiro e duravam muitos anos. Era até duvidoso que possuísse outra.

Era uma figura vulgar, aquele jovem de ombros quadrados, musculoso, de cabelos negros: mas naquele momento não parecia vulgar. Permanecia em pé no meio da nave vazia, de pernas abertas, os braços pendentes mas contraídos, como se tivesse uma arma ao alcance de cada mão, embora de certeza não traria consigo nem uma faca de caça ali para aquele lugar duplamente sagrado como igreja e como tribunal. Estava barbeado e banhado de fresco, e a luz difusa que havia na nave punha em relevo cada osso da face cheia de vigor, o recorte de um crânio tão esticado que parecia branco, com a sombra de uma carne morena a cobri-lo parcialmente. Os olhos pareciam lamparinas ardentes enterradas em buracos cavernosos; tinha um ar ao mesmo tempo terrivelmente jovem e velho como o mundo, e parecia estar a morrer de fome.

- Com a permissão da corte - disse, e a voz soou forte e nítida - tenho uma petição que não pode esperar.

- íamos declarar a sessão encerrada - disse suavemente o juiz na presidência. - Mas estamos aqui para servir. Apresente-se a si e ao assunto que cá o trouxe. - O meu nome é Meurig, filho de Angharad, filha de Ifor ap Morgan. que é conhecido de toda a gente aqui. Pela dita Angharad, eu sou filho de Gervase Bonel, que teve o domínio de Mallilie enquanto foi vivo. Estou aqui para apresentar a minha pretensão a esse domínio, com base no meu nascimento, na qualidade de filho, e filho único, de Gervase Bonel. Estou aqui para apresentar provas de que essa terra é terra galesa, objecto da lei galesa, e de que sou filho desse homem, e único filho por ele gerado. E, sob a lei galesa, apresento a minha pretensão a Mallilie, pois segundo a lei galesa um filho é filho, quer nascido dentro, quer fora do matrimónio, desde que tenha sido reconhecido por seu pai. - Respirou fundo, e as linhas pálidas e contraídas da sua face ficaram ainda mais rígidas com a tensão. - A corte quererá ouvir-me?

A comoção e o murmúrio que atravessaram a igreja fizeram até tremer as paredes de madeira. Os três juízes remexeram-se e olharam atentamente, mas mantiveram uma calma e serenidade mais que humanas. O presidente disse com a mesma reserva:

- Nós temos a obrigação de ouvir todo aquele que apareça com uma petição urgente, independentemente do modo como seja apresentada, com ou sem conselheiro legal, mas o caso pode obrigar a um adiamento para que se proceda como é devido. Sob estas condições, pode falar.

- Em primeiro lugar, no que se refere às terras de Mallilie, estão comigo quatro homens respeitados, conhecidos de todos aqui, que possuem terras junto ao domínio, e que delimitam nove décimos das terras desse domínio. Só o restante décimo toca em solo inglês. E todas estão do lado galês da fronteira, como toda a gente sabe. Peço às minhas testemunhas que falem por mim.

O mais velho disse simplesmente:

- O domínio de Mallilie está dentro da terra de Gales, e durante a minha vida, questões que lhe diziam respeito, em duas ocasiões foram julgadas pela lei galesa, apesar do domínio estar na mão de um inglês. Também é verdade que alguns outros casos foram ouvidos no tribunal inglês e segundo a lei inglesa, mas o próprio Gervase Bonel por duas vezes preferiu apresentar a sua petição a este mesmo tribunal e sob a lei galesa. Sou de opinião que a lei galesa nunca perdeu os seus direitos em relação àquelas terras, seja ela de quem for, pois faz parte da comarca de Cynllaith.

- E nós somos da mesma opinião - disse o segundo dos anciãos.

- É esse o ponto de vista de todos vós? - perguntou o juiz.

- É.

- Está alguém aqui presente que queira refutar esta opinião?

Pelo contrário, houve vários que falaram confirmando-a, e um até recordou que fora ele a parte em disputa com Bonel naquele segundo caso mencionado, a respeito de gado tresmalhado, e que o caso fora ouvido naquela mesma corte, por um grupo de juízes de que fizera parte um daqueles mesmos juízes agora ali presentes. E sem dúvida esse juiz em questão se recordaria do caso sem necessidade de ajuda.

- O tribunal está de acordo com o testemunho dos vizinhos - disse o presidente, depois de ter consultado os colegas com pouco mais que um olhar e um aceno. - Não se põe em dúvida que a terra em questão fica dentro de Gales, e qualquer queixoso que apresente uma pretensão a ela tem direito a ser julgado pela lei galesa, se assim o desejar. Prossiga!

- Quanto ao segundo assunto em questão - disse Meurig, passando a língua pelos lábios secos devido à tensão - declaro que sou filho de Gervase Bonel, seu único filho. E peço àqueles que me conhecem desde que nasci que dêem o seu testemunho em relação aos meus pais, e que também qualquer outra pessoa aqui que conheça a verdade, fale em abono da minha afirmação.

Desta vez, houve muitos em toda a igreja que se levantaram um por um para confirmar a declaração dos anciãos: Meurig, filho de Angharad, filha de Ifor ap Morgan, nascera no domínio de Mallilie onde sua mãe era criada de servir, e mesmo antes de ele nascer era do conhecimento de toda a gente que ela andava à espera de criança por obra do seu senhor. Isso nunca fora segredo, e Bonel dera casa e comida ao rapaz.

- Temos aqui uma dificuldade - disse o juiz que presidia. - Não basta que a opinião geral seja que determinado homem é o pai, pois a oipinião geral pode estar enganada. Mesmo a aceitação do dever de criar uma criança não é em si mesma prova de reconhecimento da paternidade. É preciso demonstrar que o próprio pai o reconhecia como filho. É isso que a parentela exige para aceitar os plenos direitos de um jovem, e é isso que é necessário para que quaisquer bens possam ser herdados.

- Isso não é problema - disse Meurig em tom orgulhoso, e tirou um pergaminho enrolado do seio do seu gibão. - Se a corte se dignar examinar este pergaminho, verá que neste contrato, quando resolvi dedicar-me a uma arte, o próprio Gervase Bonel me chama seu filho, e depois apôs o seu selo no documento. - Avançou e entregou o pergaminho ao escrivão dos juízes, o qual o desenrolou e estudou.

- É como ele diz. Isto é um contrato entre Martin Bellecote, mestre carpinteiro de Shrewsbury, e Gervase Bonel, para que o primeiro receba Meurig e lhe ensine toda a arte da carpintaria. Foi feito um certo pagamento e estabelecida uma pequena pensão para o seu sustento. O selo está em ordem, e o jovem é descrito como "o meu filho". Não há qualquer dúvida no caso. Ele foi reconhecido.

Meurig respirou fundo e ficou à espera. Os juízes conferenciaram em voz baixa e séria.

- Concordamos - disse o presidente - que a prova é irrefutável, que o senhor é quem pretende ser e que tem direito a apresentar as suas pretensões às terras. Mas é sabido que houve um acordo, nunca completado, para entregar o domínio à abadia de Shrewsbury, e que por essa razão, ainda antes da morte do infeliz, a abadia colocou na casa um delegado para que administrasse a propriedade. Nestas circunstâncias, a pretensão de um filho deve ter muita força mas, em vista das complicações, deve ser apresentada pelas vias legais. Há um suserano inglês a ser considerado, assim como também qualquer pretensão que a abadia possa querer apresentar, devido ao facto de Bonel ter demonstrado as suas intenções, mesmo que num acordo não completado. Terá de apresentar uma pretensão formal à posse, e aconselhamos-lhe que contacte já com um homem de leis.

- Com o devido respeito - disse Meurig, mais pálido que nunca, e com as mãos enclavinhadas de cada lado do corpo, como se já estivessem cheias daquele solo desejado e cobiçado - há uma provisão na lei galesa segundo a qual eu posso tomar já posse, mesmo antes de o caso ser julgado. Peço que me reconheça o direito de "dadanhudd", o direito de tomar conta do lar de meu pai. Dêem-me a sanção desta corte, e irei com estes anciãos que apoiam a minha pretensão e tomarei conta da casa que é minha de direito.

O Irmão Cadfael estava tão enredado na intensidade daquela paixão abrasadora que quase deixou fugir o momento exacto. Todo o seu sangue galês se incendiou de impotente simpatia por tão forte fome e amor pela terra, que o sangue de Meurig lhe teria reconhecido mas que, segundo a lei normando-galesa, o seu nascimento lhe negava. Naquele momento, quase havia nele uma certa nobreza, e a força do seu anseio arrastou consigo os juízes, as testemunhas, até Cadfael.

- A decisão da corte é que a sua pretensão é justa - disse o presidente em tom grave - e que o direito de tomar posse da casa não lhe pode ser negado. Para cumprir com as formalidades, temos de pôr o assunto perante esta assembleia, uma vez que não foi feito qualquer aviso com antecedência. Se estiver aqui alguém que tenha algo a objectar, que se levante e fale.

- Sim - disse Cadfael, arrancando-se com grande esforço ao feitiço em que estava. - Está aqui alguém que tem algo a dizer antes que a sanção seja concedida. Há um impedimento.

Todas as cabeças se voltaram para espreitar. Os juízes percorreram as fileiras com o olhar, à procura da origem daquela voz, pois Cadfael não era mais alto que a maioria dos seus compatriotas e até a sua tonsura poderia ser confundida com muitas outras ali conferidas pelo tempo e não por uma ordem monástica. A cabeça de Meurig voltara-se num Ímpeto assustado, a face subitamente rígida e exangue, o olhar vazio. A voz atravessara-o como uma lâmina, mas não a tinha reconhecido e de momento estava demasiado cego até para notar o movimento provocado por Cadfael enquanto abria caminho por entre a multidão para poder ser visto.

- O senhor pertence à ordem dos Beneditinos? - disse atónito o juiz na presidência, quando a figura robusta, e coberta pelo hábito emergiu da massa de gente e parou no meio da nave. - Um monge de Shrewsbury? Está aqui para falar em nome da sua abadia?

- Não - respondeu o Irmão Cadfael. Agora já não estava nem a dois metros de distância de Meurig, e a névoa provocada pelo choque e a descrença desaparecera dos olhos negros e brilhantes; reconheceram-no mais que bem. - Não, estou aqui para falar em nome de Gervase Bonel.

Pelos movimentos breves e contorcidos da garganta de Meurig, via-se que fazia uma tentativa para falar mas não era capaz.

- Não o compreendo, irmão - disse o juiz em tom paciente. - Explique-se. Falou de um impedimento.

- Eu sou galês - disse Cadfael. - Endosso e aprovo a lei de Gales, que diz que um filho é um filho, quer tenha nascido dentro ou fora do casamento, e que tem os mesmos direitos, mesmo que a lei inglesa lhe chame bastardo. Sim, um filho nascido fora do matrimónio pode herdar... mas não um filho que matou seu pai, como é o caso deste homem.

Esperava despertar tumulto mas. pelo contrário, fez-se um silêncio como raramente vira. Os três juízes continuaram rigidamente sentados e de olhos arregalados, como que petrificados, e todas as respirações dentro da igreja pareciam suspensas. Quando finalmente se arrancaram ao espanto e se voltaram furtivamente e quase que temerosos para olhar para Meurig, este já reganhara as cores e o ânimo combativo, embora a troco de certo preço. A testa e as faces estavam cobertas por um véu de suor, e os músculos do pescoço estavam tensos como cordas de violino, mas estava de novo em controlo de si próprio e conseguiu encarar de frente o acusador sem se atirar a ele, até se voltou com dignidade e calma para olhar para os juízes, em sinal de eloquente protesto contra uma acusação a que se não dignava responder se não com um silêncio de desprezo. E provavelmente, pensou Cadfael pesaroso, haverá aqui algumas pessoas que partirão do princípio de que sou um agente enviado pela minha ordem para impedir, ou pelo menos adiar, a entrega de Mallilie ao seu proprietário de direito. Por qualquer meio, por mais mesquinho que possa ser, mesmo que tenha de acusar de assassínio um homem decente.

- Isso é uma acusação muito grave - disse o juiz, franzindo profundamente o sobrolho. - Se está a falar a sério, continue e prove a verdade daquilo que disse, ou então faça o favor de se retirar.

- Assim farei. O meu nome é Cadfael, monge de Shrewsbury, e sou o ervanário que fez o óleo com que envenenaram Gervase Bonel. A minha honra está em causa. Um produto feito para curar e dar conforto não deve ser usado para matar. Fui chamado à cabeceira do moribundo, e estou agora aqui para exigir justiça em nome dele. Permitam-me, por favor, que conte como a morte aconteceu.

Contou arrojadamente a história, o círculo restrito de pessoas presentes, das quais só o enteado parecia ter algo a ganhar com aquela morte.

- Meurig, segundo pensámos, nada tinha a ganhar, mas tanto os senhores como eu vimos agora quanto estava em jogo no que lhe dizia respeito. O contrato com a minha abadia ainda não fora ratificado e, segundo a lei galesa, e não nos tínhamos apercebido que esta poderia ser invocada neste assunto... ele é o herdeiro. Deixem-me contar a história dele como eu próprio a vejo. Desde que se fez homem que tinha bem a consciência de que, pela lei de Gales, a sua posição como herdeiro era inatacável. Por isso não lhe custava esperar pela morte do pai, tal como qualquer outro filho, antes de apresentar a sua pretensão à herança. Nem mesmo o testamento que Gervase Bonel fez depois do seu segundo casamento e onde nomeava o enteado como seu herdeiro incomodou Meurig, pois como podia tal pretensão vencer perante o seu direito como filho verdadeiro e do mesmo sangue? Mas o caso foi outro quando o pai doou o domínio à abadia de Shrewsbury em troca de casa, comida e apoio para o resto da vida, como é costume em tais acordos. Estou firmemente convencido que, se o contrato tivesse sido logo completado e selado, tudo teria parado aí e este homem teria acabado por se reconciliar com a perda e nunca se teria transformado num assassino. Mas, como o meu superior foi chamado a Londres, e como há fortes razões para crer que talvez outro venha a ser nomeado para o seu lugar, ele não quis assinar o contrato e esse adiamento deu novas esperanças a Meurig e fê-lo olhar desesperadamente em volta, à procura de um meio de evitar que ele viesse a ser ratificado. Porque, como podem ver, se a abadia estabelecesse o seu direito legal através de uma ratificação final, a posição de Meurig perante a lei não teria qualquer esperança. Como poderia combater a abadia de Shrewsbury? Eles têm suficiente influência para conseguir que qualquer acção judicial seja julgada num tribunal inglês e pela lei inglesa e, segundo a lei inglesa, confesso-o com tristeza e vergonha, filhos como Meurig não têm direitos e não podem herdar. Digo que foi por mero acaso, e este em resultado de um acto de bondade, que o rapaz descobriu onde encontrar o meio para matar e que se deixou tentar. E é uma grande pena, pois ele não nasceu para assassino. Mas está culpado e não deve, nem pode, entrar na posse do fruto do seu crime.

O juiz na presidência recostou-se com um suspiro profundo e preocupado, e olhou para Meurig que ouviu tudo aquilo com a face e o corpo imóveis.

- Ouviu e compreendeu aquilo de que o acusam. Quer responder agora?

- Nada tenho a responder - disse Meurig, não perdendo a cabeça com o desespero. - Tudo isto não passa de palavras. Não tem substância. Sim, eu estava lá, naquela casa, como ele vos disse, com a esposa de meu pai, o rapaz filho dela e os dois servos. Mas é tudo. Sim, por acaso estive na enfermaria e conhecia esse óleo de que fala. Mas onde está o mínimo indício que me ligue ao acto? Poderia de igual modo afirmar a mesma história contra qualquer uma das pessoas que estavam na casa naquele dia e com a mesma falta de provas, mas não o farei. Os oficiais do meirinho desde o princípio consideraram que foi o enteado do meu pai quem fez aquilo. Não digo que seja verdade. Digo apenas que não há qualquer prova que me envolva mais que a qualquer outro.

- Sim - disse Cadfael -, tal prova existe. Há um pequeno detalhe que torna este crime ainda mais gravoso, pois é a única prova de que não foi obra apenas de um impulso, feito num momento de ira logo seguido de arrependimento. Porque, quem quer que tenha retirado uma porção do meu óleo de acónito da nossa enfermaria, teve de trazer consigo um frasco onde o pôr. E depois, teve de esconder esse mesmo frasco durante todo o tempo em que podia ser observado, e de se desfazer dele logo que o pôde fazer em privado. E o local onde apareceu mostra que não pode ter sido lá posto por Edwin Gurney, o enteado de Bonel. Por qualquer outra pessoa das que estavam na casa, sim, mas não por ele. Os movimentos dele são conhecidos. Ele correu directamente da casa até à ponte e à cidade, como é declarado por várias testemunhas.

- Continuam a ser só palavras, e ainda por cima palavras enganadoras - disse Meurig, ganhando um pouco de confiança. - Porque esse frasco não foi encontrado, ou os homens do meirinho não teriam deixado de no-lo contar. Isto é um conto puramente imaginário, inventado apenas para esta corte.

Porque, claro, ele não podia saber; nem mesmo Edwin sabia, nem mesmo Hugh Beringar, só Cadfael e o Irmão Mark. Graças a Deus pelo Irmão Mark, que fizera a descoberta e marcara o local e que não estava sob suspeita de ser o agente de ninguém.

Cadfael meteu a mão na bolsa e retirou o frasco de imperfeito vidro verde, desembrulhando cuidadosamente o guardanapo em que estava envolto.

- Sim, foi encontrado. Aqui está ele! - E segurou-o na extremidade do braço estendido, aproximando-o da face aterrorizada de Meurig.

O momento de doentia desintegração passou vagarosamente, mas Cadfael observara-o e agora não lhe restava qualquer sombra de dúvida, absolutamente nenhuma. E aquilo era para ele uma dor que o trespassava, pois gostara daquele jovem.

- Isto - disse Cadfael, rodando para ficar de frente para os juízes - foi encontrado não por mim mas por um inocente noviço que pouco sabia do caso e que nada tem a ganhar se mentir. E foi encontrado... o local está marcado... no gelo do lago da azenha, por baixo da janela da sala interior daquela casa. Nessa sala, o rapaz Edwin Gurney não ficou nem um momento sozinho, e não podia ter atirado este frasco pela janela. Inspeccionem-no, se desejarem. Mas, cuidado, porque a marca do óleo está aí num fio seco derramado de um dos lados do frasco, e os restos são ainda facilmente identificáveis no interior.

Meurig viu aquela coisa pequena e horrível, embrulhada no seu guardanapo, ser passada pelos três juízes, e disse com calma forçada:

- Mesmo admitindo que seja verdade... pois não temos aqui aquele que o encontrou para falar por si!, estavam lá mais três pessoas que facilmente poderiam ter entrado ou saído daquela sala durante o resto do dia. Na verdade, eu fui o único que me fui embora, pois voltei para a loja do meu mestre na cidade. Eles permaneceram lá, a viver naquela casa.

Apesar de tudo, aquilo transformara-se num julgamento. Mesmo com a sua admirável e terrível galanteria, não podia inteiramente evitar a entrada de uma nota de defesa. E Meurig sabia-o e estava com medo, não por si pessoalmente, mas por aquele objecto do seu apaixonado amor, a terra onde nascera. O Irmão Cadfael sentia-se dividido de um modo que dificilmente poderia ter esperado. Estava na hora de acabar com aquilo, com um golpe fatal que tanto podia trazer o sucesso como o falhanço, pois não podia suportar mais tempo esta luta no seu espírito, e Edwin estava numa cela de prisão, uma coisa que nem Meurig ainda sabia, uma coisa que, se dela tivesse consciência, lhe poderia ter dado confiança, mas que igualmente o podia ter comovido e perturbado. Nem uma só vez, naquela longa tarde do passado, Meurig tentara voltar as suspeitas contra Edwin, nem mesmo quando o sargento apontava nesse sentido.

- Tirem a tampa - disse Cadfael aos três juízes, com a voz que devido à urgência quase se tornava estridente. - Notem o cheiro; é ainda suficientemente forte para se poder reconhecer. Terão de aceitar a minha palavra quando afirmo que foi esse o meio usado para o crime. E podem ver como escorreu pelo frasco. Foi tapado à pressa depois do acto, porque nessa altura tudo foi feito à pressa. Contudo, uma criatura escondeu este frasco na sua própria pessoa durante um tempo considerável, até depois de os oficiais do meirinho terem saído. Mas o frasco tem óleo por dentro e por fora. Deve ter deixado uma nódoa de gordura difícil de tirar, e um cheiro forte... sim, vejo que também estão a sentir o cheiro. - Voltou-se para Meurig, apontando para a bolsa de grosseiro linho suspensa do seu cinto. - Segundo me recordo, usavas esta bolsa naquele dia. Deixa que os juízes a examinem pessoalmente, com o frasco na mão, e que vejam se este ficou lá dentro uma ou duas horas, ou mais ainda, e se deixou marca ou cheiro. Vamos, Meurig, desaperta e dá a tua bolsa.

Meurig realmente levou uma mão às fivelas como para obedecer. E passado todo este tempo, como Cadfael bem sabia, podia já não se encontrar nada, embora não tivesse qualquer dúvida de que o frasco estivera lá dentro durante toda aquela longa e agonizante tarde em que Bonel morrera. Bastava apenas um pouco de ousadia e uma face marmórea, e a única e frágil prova contra Meurig podia estourar como bola de sabão, e não deixar nada além de pequenas gotas de suspeita, como a humidade que a bola de sabão deixa na mão. Mas Meurig não podia ter a certeza! Ele não podia ter a certeza! E se examinassem a bolsa e não encontrassem nada, isso não serviria para o exonerar completamente, mas se a examinassem e encontrassem o forro manchado de óleo e com aquele cheiro penetrante ainda aderente, isso condená-lo-ia definitivamente. Os dedos que quase já tinham desapertado a primeira fivela, de repente fecharam-se firmemente negando o acesso.

- Não - gritou com voz rouca. - Por que hei-de submeter-me a tal indignidade? Ele é o homem mandado pela abadia para impedir o sucesso da minha petição.

- É um pedido razoável - disse com austeridade o juiz na presidência. - Não se trata de a dar a ninguém a não ser a esta corte. Ninguém pode suspeitar de que tenhamos alguma coisa a ganhar se o desacreditarmos. O tribunal ordena-lhe que a entregue ao escriturário.

O escriturário, habituado a ver as ordens da corte respeitadas sem demora, avançou confiadamente estendendo a mão. Meurig não se atreveu a correr o risco. Deu uma súbita volta e saltou em direcção à porta aberta, dispersando os anciãos que tinham vindo para apoiar a sua petição. Num momento estava lá fora sob o sol de Inverno e corria como uma corça. Atrás dele rebentou o tumulto, e metade daqueles que estavam na igreja precipitaram-se atrás do fugitivo, embora a sua perseguição, depois da primeira corrida fosse pouco animada. Viram Meurig saltar por cima do muro de pedra do cemitério e dirigir-se para as florestas que revestiam a colina que lhe ficava por trás. Em pouco tempo perderam-no de vista por entre as árvores.

Na igreja semideserta caiu pesado silêncio, Os homens mais velhos olharam impotentes uns para outros, e não fizeram qualquer tentativa para se juntarem à caçada. Os três juízes conferenciavam em tom baixo e ansioso. Cadfael estava prostrado num cansaço que parecia ter-lhe roubado toda a energia e capacidade de raciocínio, até que finalmente respirou lenta e profundamente e ergueu os olhos.

- Não é uma confissão, nem houve acusação formal, nem qualquer acção levantada contra ele. Mas é uma prova para o caso de um rapaz que está agora na prisão de Shrewsbury sob suspeita deste crime. Deixem-me dizer o que pode e deve ser dito em abono de Meurig: ele não sabia que Edwin fora apanhado, disso tenho a certeza.

- Agora não nos resta outra alternativa se não ir em perseguição dele - disse o juiz na presidência -, e assim se fará. Mas certamente que a acta desta sessão deve, por cortesia, ser enviada ao meirinho de Shrewsbury, e de imediato. Isso basta-lhe?

- É tudo o que peço. Enviem também, se possível, o frasco a respeito do qual poderá testemunhar um noviço de nome Mark, pois foi ele quem o encontrou. Enviem tudo a Hugh Beringar, o delegado do meirinho que está encarregado do caso e, por gentileza, entreguem-lhe o relatório apenas a ele. Gostaria de poder ir eu próprio, mas tenho ainda trabalho a fazer aqui.

- Vai levar algumas horas para que os nossos escriturários façam as cópias necessárias e as façam autenticar. Mas amanhã à noite, o mais tardar, o relatório será entregue. Penso que o seu prisioneiro nada mais terá a temer.

O Irmão Cadfael apresentou os seus agradecimentos e saiu da igreja para ir deparar com uma aldeia a fervilhar de gente agitada e que abanava a cabeça. A essa hora, a narrativa dos acontecimentos da manhã já tinha corrido mundo, tendo de certeza já sido levado para além das Colinas e por toda a comarca de Cynllaith, mas nem mesmo o rumor voara tão depressa como Meurig, pois nunca mais foi visto em todo o dia. Cadfael foi buscar o cavalo ao cercado, montou e partiu. O cansaço que dele se tinha apoderado quando a necessidade de fazer esforço subitamente acabara, foi-se lentamente transformando numa profunda tristeza, que por sua vez se acabou numa calma bem-vinda, se bem que lúgubre. Fez o percurso de regresso muito lentamente, pois precisava de tempo para pensar e, acima de tudo, tempo para uma outra pessoa pensar mais profundamente ainda. Passou pelo solar de Mallilie lançando -lhe apenas um olhar triste. Não era ali que o final teria lugar. Estava bem consciente de que a história ainda não acabara.

- Voltou cedo, irmão - disse Simon, alimentando a lareira com novo combustível para a noite. - Fosse o que fosse que tinha a tratar, espero que Deus o tenha ajudado.

- Ajudou - disse Cadfael. - E agora chegou a sua vez de descansar e deixar para mim o trabalho que falta fazer. Já tratei do cavalo, meti-o no estábulo e dei-lhe de comer; não está muito cansado, pois não puxei muito por ele. Depois da ceia, há muito tempo para fechar a capoeira e tratar da vaca, e luz suficiente para trazer ainda para o celeiro as ovelhas prestes a parir, pois penso que vai haver forte geada durante a noite. Curioso como a luz nestas montanhas dura uma boa meia hora mais que na cidade.

- São os seus olhos galeses, irmão, que estão a recuperar a visão que lhes é própria. Há poucas noites aqui em que uma pessoa que conheça bem a região não possa andar em segurança, até por entre os brejos do cimo da montanha. Só nas florestas fica completamente escuro. Uma vez, estive a conversar com um homem do norte, um homem de hirsuto cabelo vermelho cuja língua eu mal conseguia compreender, um escocês. Contou-me que lá na sua longíqua terra havia noites em que o Sol quase nem se punha antes de voltar a nascer do outro lado, e podia ver-se bem o caminho na luminosidade deixada pelo Sol e que nunca se apagava. Mas não sei - disse o Irmão Simon pensativo - se ele estaria a inventar. Nunca fui mais longe que Chester.

O Irmão Cadfael calou as suas próprias viagens, agora lembradas com o contentamento cheio de espanto de um homem em repouso. Para falar verdade, gostara tanto das tempestades como agora gostava da calma: mas cada coisa tinha o seu tempo próprio e lugar.

- Gostei muito desta minha estada aqui convosco - disse, e isso ao menos era verdade. - Isto tem o mesmo perfume que Gwynedd. E as pessoas das redondezas fazem-me falar galês com eles, e isso é uma vantagem, pois é raro empregá-lo em Shrewsbury.

O Irmão Barnabas chegou com a ceia - o bom pão feito por ele, papa de aveia, queijo de ovelha e maçãs secas. Respirava sem dificuldade e andava pela casa sem se cansar e cheio de energia.

- Como pode ver, irmão, estou bom e pronto para o trabalho, graças à sua arte. Já podia ir esta noite buscar as ovelhas para o abrigo.

- Isso é que não - disse Cadfael em tom firme -, pois como andei no passeio todo o dia, comprometi-me a fazer eu próprio esse trabalho. Contente-se em ver-nos devorar este pão que fez, pois essa é uma arte que eu não sei, mas pelo menos tenho a graça de o reconhecer e agradecer a Deus pela perícia dos outros.

Em Rhydycroesau comiam cedo, pois geralmente trabalhavam lá fora desde o romper da manhã. Havia ainda uma meia luz baça, a leste um azul-escuro e límpido, a oeste uma luminosidade pálida, quando Cadfael saiu para subir ao cimo da colina mais próxima e trazer para baixo as ovelhas pesadas com cria. Eram poucas, mas preciosas, e de vez em quando até tinham gémeos e, com cuidado, ambos sobreviviam. Cadfael sentia haver uma satisfação profunda e tranquila na vida de um pastor. As criaturas de que cuidavam raramente eram mortas, a menos que ameaçadas pela doença, acidente ou decrepitude, ou quando, em alturas de escassez, o rebanho não podia ser todo alimentado durante o Inverno. A lã e o leite tinham mais valor que a sua carne, e as peles preciosas só podiam ser aproveitadas apenas uma vez, e era melhor deixar isso para quando tinham de ser mortas por necessidade. Por isso se mantinham todo o seu tempo de vida natural, e assim ia crescendo a familiaridade e o afecto, a confiança e a compreensão, chegando elas até a receber nomes. Os pastores tinham uma comunidade própria, povoada de companheiros doces, obstinados e calmos, que não cometiam assassinatos, roubos ou banditismo, não transgrediam leis, não apresentavam queixas, não alimentavam rebeliões.

De qualquer modo, pensou enquanto subia a colina em passadas largas e calmas, eu não conseguiria ser pastor por muito tempo. Acabaria por sentir a falta de todas as coisas que deploro, a capacidade e inclinação do homem para o bem e para o mal. E no mesmo instante voltou a pensar nas lutas, vitórias e vítimas do dia.

Na crista do monte, parou para contemplar a noite que se aproximava, sabendo, porém, que devia poder ser visto de uma grande distância em redor. O céu lá no alto era imenso, de um azul muito profundo, com um ligeiro salpicado de estrelas, tão novas e pequenas que eram apenas visíveis quando vistas pelo canto do olho, pois um olhar directo logo as fazia desaparecer. Olhou para baixo para o conjunto de apriscos murados e a confortável massa escura formada pelos edifícios, e não pôde ter bem a certeza se não teria visto um ligeiro estremecimento na esquina do celeiro. As ovelhas, habituadas a mimos extras, amontoavam-se à sua volta por sua própria vontade, prontas a descer para passar a noite no calor húmido e com perfume a madeira do celeiro. Os seus flancos e rotundas barrigas sacolejavam felizes à medida que andavam. Com aquela luz, só um lampejo ocasional mostrava a desconcertante cor amarela do seu olhar.

Quando Cadfael finalmente se mexeu e começou lentamente a descer a colina, seguiram-no airosas com os seus pezinhos ágeis, muito juntas umas às outras, esbarrando umas nas outras, enquanto o cheiro doce, quente e gorduroso da sua lã formava uma nuvem que as envolvia. Contou-as, chamou baixinho por uma ou duas que se tinham tresmalhado, jovens com a primeira cria e irresponsáveis, mas que logo vieram apressadas quando ouviram o seu chamamento. Agora estavam todas.

Além dele próprio e do seu pequeno rebanho, a noite estava vazia e silenciosa, a menos que o movimento que apercebera entre os edifícios lá de baixo fosse a intrusão momentânea e a imediata retirada de qualquer ser vivo. Graças a Deus, o Irmão Simon e o Irmão Barnabas tinham-no tomado à letra e permanecido felizes no aconchego da casa, e a estas horas provavelmente estariam a cabecear junto à lareira.

Trouxe as ovelhas para o celeiro grande, metade do qual estava agora livre para lhes servir de abrigo durante a noite até terem as crias. As grandes portas abriam para dentro, ele empurrou para as abrir e enxotou o rebanho para dentro, onde já havia uma manjedoura cheia e um bebedouro com água para elas. Não precisavam de luz para encontrar o caminho. O interior do celeiro estava povoado por sombras vagas e corpulentas, além das quais só havia escuridão, e cheirava a erva seca e a trevo e ao cheiro forte de lã. As ovelhas da montanha não tinham a lã comprida e encaracolada das terras baixas, mas tinham uma lã muito curta e espessa que, quando tosquiadas, fornecia quase que a mesma quantidade de lã, se bem que de uma qualidade um pouco menos valiosa, e aproveitavam inteiramente os pastos que as suas amimadas primas das terras baixas eram incapazes de comer. Só pelos seus queijos valia a pena mantê-las.

Cadfael fez entrar no celeiro a última e menos dócil das criaturas a seu cargo, e entrou atrás dela, avançando pela penumbra que o deixou temporariamente cego. Sentiu a repentina presença atrás de si e estacou com todos os músculos descontraídos. A lâmina fria que subitamente fora encostada à pele do seu pescoço não fez qualquer movimento; não era a primeira vez que lhe encostavam lâminas à garganta, e não era tão louco que o fosse provocar a atacar, levado pela malícia ou o medo, especialmente quando se aproximava dele com pré-aviso.

Um braço vindo de trás rodeou-o, prendendo-lhe ambos os braços junto ao corpo, mas não fez qualquer gesto de recuo ou resistência. - E pensou, irmão - ofegou no seu ouvido uma voz sufocante -, quando me destruiu, que eu iria sozinho para as trevas?

- Tenho estado à tua espera, Meurig - disse em tom calmo Cadfael. - Fecha a porta! Podes fazê-lo em segurança, que eu não me movo daqui. Não precisamos agora de testemunhas.

 

- Não - disse a voz junto ao seu ouvido, em tom baixo e agreste -, não precisamos de testemunhas. O que tenho a tratar só te diz respeito a ti, monge, e é rápido. - Mas os braços retiraram-se do seu corpo e, pouco tempo depois, as pesadas portas fecharam-se com um ruído oco, tapando a vista do céu no qual, vistas daquela escuridão murada do interior, as estrelas apareciam duplamente grandes e luminosas.

Cadfael permaneceu imóvel e ouviu o suave roçagar de tecido quando Meurig se encostou à porta fechada, os braços abertos, respirando profundamente para saborear o momento chegado e antecipar o último acto de vingança. Não havia qualquer outra saída, e sabia que a sua presa não se movera nem um passo.

- O senhor pôs-me a marca de assassino, porque havia agora de recuar perante um assassínio? Arruinou-me, envergonhou-me, tornou-me inaceitável até para a minha própria família, tirou-me os meus direitos de nascimento, a minha terra, o meu bom nome, tudo aquilo que fazia que a minha existência se pudesse chamar vida, e por isso tirar-lhe-ei a sua vida em paga. Agora não posso viver, não posso nem morrer, até que tenha tido a sua morte, Irmão Cadfael.

Estranho como o simples acto de dar um nome à vítima tudo fazia mudar, mesmo neste encontro às cegas, tal como o primeiro raio de luz. Mais luz serviria apenas para intensificar a mudança.

- Dependurada atrás da porta, aí onde estás - disse Cadfael muito prático-, está uma lanterna, e num outro prego próximo há uma bolsa de couro com uma pederneira e aço. Já agora, bem nos podemos ver um ao outro. Tem cuidado com as faíscas, pois não tens nada contra as nossas ovelhas e um fogo só serviria para trazer gente aí a correr. Há uma prateleira para pousar a lanterna.

- E o senhor vai fazer a sua tentativa para não perder essa vida ameaçada... Eu sei!

- Não mexerei nem uma mão nem um pé - disse Cadfael pacientemente. - Por que pensas que tudo fiz para me assegurar que o último trabalho da noite me coubesse a mim? Não te disse que estava à tua espera? Não tenho qualquer arma e, mesmo que tivesse, não a usaria. Pus de lado as armas há muitos anos.

Houve uma longa pausa durante a qual, embora sentisse que o outro esperava algo mais dele, Cadfael nada mais acrescentou. Depois, ouviu o ruído da lanterna quando a mão tacteante de Meurig a encontrou, o som áspero de uma tampa de chifre a ser aberta, os dedos à procura da prateleira e o som da lanterna a ser aí pousada. A pederneira e o aço foram repetida e fortemente raspados por várias vezes, saltaram faíscas e apagaram-se, até que o canto de um trapo enfarruscado pegou fogo e aguentou uma pequena chama, e a face de Meurig via-se fantasmagoricamente suspensa por cima dela, soprando até a torcida pegar por sua vez e emitir uma chama crescente. Uma pálida luz amarela deu vida à manjedoura, o bebedouro, a mata de sombras na teia formada pelas traves do tecto, e as plácidas e pouco curiosas ovelhas; e Cadfael e Meurig ficaram a olhar fixamente um para o outro.

- Agora - disse Cadfael -, ao menos, já vês o suficiente para tirar aquilo que te fez cá vir. - E sentou-se, instalando-se solidamente num canto da manjedoura.

Meurig aproximou-se-lhe com passadas largas e decididas através do pó do feno e do debulho que havia no chão. A face estava rígida e cinzenta, os olhos profundamente enterrados no crânio, e ardiam em delírio e dor. Quando ficou tão próximo que os joelhos de ambos se tocavam, avançou lentamente o punhal até que a sua ponta picasse a garganta de Cadfael; separados por oito polegadas de aço, olharam-se com firmeza.

- Não tem medo da morte? - perguntou Meurig, numa voz que pouco mais alta era que um sussurro.

- Já várias vezes lhe passei de raspão. Respeitamo-nos mutuamente. De qualquer modo, não lhe podemos fugir eternamente, pois todos chegamos lá, Meurig. Gervase Bonel... tu... eu. Todos temos de morrer, mais cedo ou mais tarde. Mas não temos de matar. Tanto tu como eu fizemos uma escolha; tu, há cerca de uma semana, eu quando vivia pela espada. Aqui estou eu, como desejaste. Agora toma de mim o que quiseres.

Não afastou o olhar dos olhos de Meurig, mas viu pela margem da visão os fortes dedos morenos a apertarem-se e a contracção dos músculos do pulso, pronto a atacar. Mas não houve mais nenhum movimento. Todo o corpo de Meurig pareceu de súbito contorcer-se numa angustiosa tentativa de atacar, mas não foi capaz. Recuou de um salto e um abafado gemido animal saiu-lhe da garganta. Atirou com o punhal que voou com um silvo que mais parecia um lamento e se foi espetar, todo vibrante, no chão de terra batida, e levantou ambos os braços para segurar na cabeça, como se toda a força do seu corpo e querer não conseguissem conter ou suprimir a dor que o enchia até transbordar. Depois, os seus joelhos cederam e caiu numa trouxa aos pés de Cadfael, a cara enterrada nos braços encostados à manjedoura. Olhos redondos e amarelos por cima de focinhos placidamente a mastigar olhavam com surpresa para a singularidade dos homens.

Da boca enterrada de Meurig vinham sons quebrados, abafados e doentes de desespero:

- Oh, Deus, se eu pudesse enfrentar assim a minha morte... porque eu devo-a, devo-a, e não ouso pagar! Se eu estivesse limpo... oh, se pudesse voltar a estar limpo... - E, com profundo gemido, disse: - Oh, Mallilie...

- Sim - disse Cadfael docemente. - Um lugar muito lindo. Contudo, há todo um mundo fora dela.

- Não para mim, não para mim... Eu estou perdido. Desista de mim! Ajude-me... ajude-me a preparar-me para morrer... - Ergueu-se subitamente e olhou para Cadfael, agarrando-se com uma mão às saias do hábito. - Irmão, aquilo que disse a meu respeito... que não nasci para ser assassino, disse...

- E não o provei? - disse Cadfael. - Eu estou vivo, e não foi o medo que te paralisou a mão, - Foi o acaso puro que me persuadiu, disse o senhor, e esse devido a um acto de simples bondade... Grande pena, disse o senhor! Pena... Estava mesmo a pensar todas essas coisas, irmão? É pena?

- Pensava tudo o que disse - disse Cadfael -, palavra por palavra. Pena, na verdade, que te tenhas afastado tanto da tua própria natureza, e te tenhas envenenado a ti próprio tão efectivamente como envenenaste o teu pai. Diz-me, Meurig, nestes últimos dias não voltaste à casa do teu avô, nem recebeste qualquer recado mandado por ele?

- Não - disse Meurig muito baixinho, e estremeceu perante a lembrança do honesto ancião, agora decerto profundamente desolado.

- Então não sabes que Edwin foi tirado de lá pelos homens do meirinho e que agora está na prisão de Shrewsbury.

Não, não tinha sabido. Ergueu os olhos, consternado, vendo a implicação, e tremeu com o fervor da sua negativa:

- Não, juro que não sabia. Fui tentado... não pude evitar que atirassem a culpa sobre ele, mas não o atraiçoei... Mandei-o para aqui, e assegurar-me-ia de que pudesse fugir... Eu sei que isso não era bastante mas, oh, pelo menos disso nada me acuse! Deus bem sabe que eu gostava do rapaz.

- Eu também sei - disse Cadfael -, e sei que não foste tu quem os mandou para que o prendessem. Ninguém o traiu conscientemente. No entanto, foi preso. Amanhã será novamente posto em liberdade. Considera isso algo que foi reposto no seu lugar, onde há tanta coisa que já o não pode ser.

Meurig pousou as mãos enclavinhadas e com os nós dos dedos brancos de tensão sobre os joelhos de Cadfael e ergueu uma face atormentada, iluminada pela luz suave da lanterna.

- Irmão, já noutros tempos serviu de consciência a outros homens, por amor de Deus, faça outro tanto por mim, pois eu estou doente, estou mutilado, não sou eu próprio. O senhor disse... que grande pena!

Ouça todo o meu pecado!

- Filho - disse Cadfael perturbado, e pousou a sua própria mão sobre aqueles punhos petrificados que estavam frios como gelo. - Eu não sou padre, não posso dar-te a absolvição, não posso ordenar-te uma penitência...

- Ah, pode, pode, ninguém como o irmão, que descobriu o pior que há em mim! Ouça a minha confissão, e ficarei mais bem preparado, e depois ordene-me a minha penitência e não me queixarei.

- Então, fala, se isso te dá alívio - disse Cadfael em tom sentido, e manteve as mãos sobre as de Meurig enquanto a história jorrava em jactos irregulares de palavras, como sangue de uma ferida: como Meurig tinha ido à enfermaria sem qualquer mau pensamento, para dar prazer a um velho, e como por puro acaso tinha aprendido as propriedades do óleo que estava a usar para o seu verdadeiro propósito, e de como podia ser usado para um fim muito diferente. Só nesse momento a semente fora plantada no seu espírito. Tinha talvez algumas semanas de graça antes que Mallilie ficasse perdida para ele para sempre, e estava ali um meio de evitar a perda.

- E cresceu em mim a ideia de que não devia ser custoso de fazer... e da segunda vez que lá fui, levei o frasco comigo e enchi-o. Mas era ainda apenas um sonho louco... Contudo, levava-o comigo naquele último dia, e disse a mim mesmo que seria fácil pôr-lho no licor ou no vinho...

Talvez nunca o tivesse feito, só desejado fazer, embora isso já seja pecado bastante. Mas quando cheguei àquela casa, estavam todos juntos na outra sala, e ouvi Aldith a contar que o prior enviara um prato da sua própria mesa, um pitéu para dar prazer a meu pai. Estava ali a fervilhar na lareira, com uma colher dentro... A coisa ficou feita quase antes de eu compreender que pretendia fazê-la... E então ouvi Aldith e Aelfric que voltavam da mesa e tive apenas tempo para sair rapidamente pela porta como se acabasse de a abrir e, quando chegaram à cozinha, eu estava a limpar os sapatos para entrar... Que podiam eles pensar senão que acabava de chegar? Inúmeras vezes durante a hora que se seguiu, só Deus sabe como, desejei não o ter feito, mas tais coisas não se podem desfazer, e eu estou amaldiçoado... Que podiam fazer senão ir para a frente, quando não havia possibilidade de voltar atrás? O quê, realmente, além daquilo que estava agora a fazer e a que fora forçado. Contudo, pensasse ele o que pensasse, não fora para matar que voara para aquele encontro.

- Por isso continuei, Lutei pelo fruto do meu pecado, por Mallilie, o melhor que pude. Nunca odiei realmente o meu pai, mas amava realmente Mallilie, e era meu, meu... se pudesse tê-lo conseguido por meios limpos! Mas a justiça existe e eu perdi, e não me queixo. Agora liberte-me e deixe-me pagar pela morte dele com a minha própria morte, como é devido. Irei consigo de boa vontade se me desejar a paz.

Com o profundo suspiro, pousou a mão forte na cabeça de Cadfael e ficou em silêncio; e, depois de longa pausa, Cadfael pousou a sua outra mão sobre aquele espesso cabelo negro e assim a deixou ficar. Padre talvez não fosse, e absolvição não podia dar. Contudo, ali estava na terrível situação de ser simultaneamente juiz e confessor. Matar com veneno era o mais vil dos assassinatos; um punhal sempre podia merecer um certo respeito. E, no entanto... Meurig não era também um homem que fora gravemente ofendido? A natureza fizera dele um ser afável, generoso, aberto, mas as circunstâncias a tal modo o deformaram que se voltou contra a sua própria natureza, uma só vez, mas essa fatal, e estava agora mais do que consciente da sua doença mortal. Certamente que uma morte bastava, que proveito poderia haver numa segunda? Deus tinha outros meios de equilibrar a balança.

- Perguntaste-me qual a tua penitência - disse, por fim, Cadfael. - Ainda a queres? E prometes acatá-la e ser-lhe fiel, por mais terrível que possa ser?

A pesada cabeça remexeu-se sobre os seus joelhos.

- Prometo - disse Meurig num sussurro -, e ficarei agradecido.

- Não pedes uma penitência fácil?

- Quero tudo o que me é devido. De que outro modo poderei encontrar a paz?

- Muito bem, deste-me a tua palavra, Meurig, vieste para me tirar a vida mas, quando chegou o momento de dar o golpe, não foste capaz de o levar a cabo. Agora puseste a tua vida nas minhas mãos, e cheguei à conclusão que também eu não sou capaz de ta tirar, e que andaria errado em fazê-lo. Em que aspecto iria o mundo beneficiar com o teu sangue? Mas as tuas mãos, a tua força, a tua vontade, a virtude que ainda tens em ti, essas podem ainda vir a ser de grande proveito. Queres pagar por inteiro. Então paga! A tua penitência será para toda a vida, Meurig. Meurig: ordeno-te que continues a viver, e possa a tua vida ser longa!, e que pagues todas as tuas dívidas, dedicando-te àqueles que contigo habitam neste mundo. Todo o bem que vieres a fazer pode ultrapassar mil vezes o mal que praticaste. É esta a penitência que te imponho!

Meurig moveu-se lentamente e ergueu uma face abismada e interrogativa, nem aliviada, nem feliz, apenas profundamente atónita.

- Está a falar a sério? É isso que devo fazer?

- É isso o que deves fazer. Vive, emenda-te, nos teus contactos com pecadores recorda a tua própria fragilidade, e nos teus contactos com o inocente respeita e usa a tua própria força ao serviço dele. Faz o melhor que puderes, e deixa o resto com Deus, e que mais podem até os santos fazer?

- Eles vão perseguir-me - disse Meurig, ainda cheio de dúvidas e espanto. - Se me apanharem e me enforcarem, não vai considerar que faltei à promessa que lhe fiz, pois não?

- Eles não vão apanhar-te. Amanhã tu já estarás bem longe daqui. Está um cavalo no estábulo a seguir a este celeiro, o cavalo em que hoje montei. Por estes lados, os cavalos são facilmente roubados, é um velho desporto galês que conheço muito bem. Mas este não será roubado. Dou-to e tomo plena responsabilidade. A cavalo, podes chegar a todo um mundo onde um verdadeiro penitente pode encontrar o caminho para a graça, e avançar nele passo a passo, ao longo de toda uma vida. Se estivesse no teu lugar, seguiria pelas montanhas, para me afastar o mais possível para ocidente antes do nascer do dia, e depois viraria para norte, para Gwynedd, onde não és conhecido. Mas tu conheces estas serras melhor que eu.

- Conheço-as bem - disse Meurig, e agora a sua face perdera a angústia que fora substituída por um espanto aberto e infantil. - E é tudo! Tudo o que exige que faça?

- Vais descobrir que é um fardo mais que pesado - disse o Irmão Cadfael. - Mas, sim, há mais uma coisa. Quando estiveres em absoluta segurança, faz a tua confissão a um padre e pede-lhe que a escreva e a envie ao meirinho de Shrewsbury. O que hoje se passou em Llansilin é suficiente para pôr Edwin em liberdade mas, depois de partires, não gostaria que pesasse sobre ele qualquer dúvida ou sombra.

- Nem eu gostaria - disse Meurig. - Farei como me disse.

- Vamos, então; tens ainda uma longa peregrinação a fazer. Pega novamente no teu punhal. - E sorriu. - Vais precisar dele para cortar o pão e caçar carne para comer.

Tudo aquilo estava a acabar de modo muito estranho. Meurig levantou-se como uma pessoa num sonho, esgotado mas renovado também, como se um aguaceiro caído do céu o tivesse lavado, deixando-o limpo da sua agonia e pensamentos, para que revivesse - um homem semiafogado e inteiramente transformado. Depois de apagarem a lanterna, Cadfael teve de o conduzir pela mão. Lá fora, a noite estava muito calma e iluminada pelas estrelas, quase de gelo. No estábulo, o próprio Cadfael selou o cavalo.

- Dá-lhe descanso logo que o possas fazer em segurança. Já hoje me transportou, mas a jornada não foi grande. Poderia dar-te a mula, porque está fresca, mas é mais lenta e levanta mais interrogações quando montada por um galês. Pronto, monta e põe-te a andar. Vai com Deus!

Ao ouvir aquilo Meurig teve um arrepio, mas o brilho pálido e fixo da sua face não se alterou. Já com um pé no estribo, disse com súbita humildade, inexprimivelmente grave e pesarosa:

- Dê-me a sua bênção! Porque lhe ficarei vinculado para o resto da vida.

E partiu subindo a colina acima dos cercados, por caminhos que conhecia melhor que o homem que o libertara para que os percorresse, de volta ao mundo dos vivos. Cadfael ficou a vê-lo apenas por um momento, e encaminhou-se para casa. Pensou enquanto caminhava: "Bom, se te mandei à solta pelo mundo perigoso e que não mudou, se esta purificação desaparecer logo que te sintas em segurança, que a culpa recaia sobre mim." Mas sentiu que não precisava ter grande medo; quanto mais estudava a resolução que tomara, tanto mais profunda se tornava a tranquilidade da sua alma.

- Demorou muito tempo, irmão - disse Simon ao recebê-lo com prazer no aconchego da casa. - Estávamos preocupados consigo.

- Cedi à tentação de ficar a meditar no meio das ovelhas - disse o Irmão Cadfael. - São tão calmantes! E a noite está bela!

 

Foi um bom Natal; nunca vira outro mais iluminado e sereno. O humilde trabalho ao ar livre era uma bênção depois de tanta tensão, e não o trocaria por todo o cerimonial e relativo luxo da abadia. A notícia que veio da cidade antes de as primeiras neves tirarem às pessoas a coragem de viajar, soou como uma nota estridente na comezinha música natalícia que faziam, três vozes cheias de boa vontade mas nada famosas, e três corações realizados e felizes. Hugh Beringar mandou recado, dizendo não só que recebera o relatório do tribunal de Llansilin, mas também que a bem-intencionada dádiva de reconciliação de Edwin fora parar aos baixios perto de Atcham, consideravelmente danificada mas ainda reconhecível. O rapaz fora devolvido à devotada mãe, e a casa de Bonel de novo podia respirar à vontade, agora que o culpado era conhecido.

O relatório referente ao desaparecimento do cavalo que pertencia aos apriscos de Rhydycroesau, desaparecimento devido ao repreensível esquecimento de Cadfael de trancar com segurança a porta do estábulo, foi recebido pelo capítulo da abadia com a esperada desaprovação, e uma qualquer forma de pagamento aguardá-lo-ia quando regressasse.

Quanto ao fugitivo Meurig, apregoado de assassínio através de Powys, nunca mais foi visto pelos seus perseguidores, e a pista estava a ficar fria. Nem mesmo o relatório da sua confissão voluntária, enviado pelo padre de um eremitério em Penllyn, veio reacender-lhe o cheiro, pois o homem partira há muito e ninguém sabia para onde. Nem era muito provável que a Owain Gwynedd agradasse a ideia de incursões no seu território, em perseguição de criminosos contra quem não tinha qualquer queixa e que, para começar, não deviam ter deixado escapar dos dedos da autoridade.

Na realidade, tudo corria muito bem. Cadfael estava completamente feliz no meio das ovelhas, fazendo orelhas moucas para o mundo exterior. Sentia que merecera uns tempos de retiro. A única coisa que lastimava era que o primeiro grande nevão o tivesse impedido de ir visitar Ifor ap Morgan, a quem devia toda a consolação que lhe pudesse levar. Por muito frágil que parecesse, Cadfael sentia que valia a pena senti-la, e o mesmo aconteceria a Ifor; e os muito velhos são mais resistentes.

Tiveram nada menos de três cordeiros nascidos na manhã do dia de Natal, um sozinho e dois gémeos. Trouxeram os três e as mães para dentro de casa e acarinharam-nos muito, pois aqueles inocentes tinham sido iluminados pelas mesmas estrelas que o Cristo Menino. O Irmão Barnabas, completamente refeito, aconchegava os infantes nas suas grandes mãos e no amplo regaço, e estava tão orgulhoso como se tivessem nascido do seu próprio corpo. Fizeram juntos uma calma celebração, e todos estiveram muito bem-dispostos, e depois o Irmão Cadfael deixou-os e regressou a Shrewsbury. Por essa altura já o seu paciente era o homem com mais força e vigor num raio de vinte milhas em redor, e já não havia qualquer necessidade de um físico em Rhydycroesau.

A neve abrandara num degelo temporário quando Cadfael, três dias depois das festas, montou na sua mula e seguiu para o sul, com destino a Shrewsbury.

A jornada levou-lhe todo o longo dia porque não tomou a estrada directa para Oswestry, antes foi em volta para fazer a adiada visita a Ifor ap Morgan, e só então virou para leste em Croesau Bach, indo apanhar a estrada principal bem a sul da cidade. O que tinha a dizer a Ifor ap Morgan e o que Ifor lhe respondeu, nunca nenhum deles contou a ninguém. O que é verdade, é que quando Cadfael montou de novo, tinha o coração mais aliviado do que quando partira para a jornada, e foi também com um coração mais aliviado que Ifor ficou só.

Por causa do desvio, era quase noite quando a mula de Cadfael atravessou a ponte galesa que ligava a Shrewsbury e seguiu pelas ruas em declive, de novo cheias de gente e movimento depois das festas. Agora não dava tempo para se desviar do Wyle pelo simples prazer de ver a porta aberta pela esperta e pequena dona de casa chamada Alys, e observar o júbilo da família Bellecote; isso teria de esperar para outro dia. Sem dúvida há muito Edwy fora liberto da sua promessa de ficar em casa, e andava cá por fora com o inseparável tio, aproveitando tudo o que o trabalho, brincadeira ou malandrice tivesse para lhes oferecer. O futuro de Mallilie estava ainda por decidir; esperava que os homens de leis não conseguissem arrancar-lhe a maior parte em honorários, antes que a posse fosse reconhecida a alguém.

E, rodeando a curva do Wyle, o arco do rio estendia-se à sua frente, e o dia moribundo recuperou metade da sua luz quando Cadfael passou para a zona descoberta e seguiu pelos portões da cidade e até à ponte levadiça. Ali, Edwin fizera uma pausa na sua fuga indignada para atirar fora a dádiva desdenhada. E ali, do outro lado, estava a estrada plana que se oferecia aos seus pés, e à direita a casa onde Richildis ainda devia viver, e o lago da azenha, uma planície de prata baça ao luar; depois, o muro do recinto da abadia, a fronteira oeste com a porta paroquial da grande igreja assomando à sua frente e, à sua mão direita, a portaria.

Entrou e estacou espantado perante a confusão e o barulho com que deparou. O porteiro estava cá fora em frente da porta, escovado, corado e com um ar de importância como se para a visita de um bispo, e o grande pátio estava cheio de monges, irmãos laicos e empregados que corriam atarefados de um lado para o outro ou se amontoavam em excitados grupos, conversando em voz alta e olhando ansiosamente para cada criatura que entrava pelo portão. A chegada de Cadfael provocou um grande sobressalto, que se desvaneceu com uma prontidão pouco lisonjeira logo que ele foi reconhecido. Até os alunos da escola estavam cá fora a cochichar e papaguear perto da parede da portaria, e junto à entrada do salão de acolhimento amontoavam-se os viajantes. O Irmão Jerome trepara para cima do bloco de montar, junto ao muro, e a sua atenção estava dividida entre dar ordens para a esquerda e a direita e a todo o momento olhar para o portão. Durante a ausência de Cadfael, Jerome parecia, se possível, ter-se tornado ainda mais convencido da sua importância e mais oficioso que nunca.

Cadfael desmontou, preparado para levar a sua mula para o estábulo, mas sem saber ao certo se as mulas estariam ainda abrigadas no barracão da feira; e, do meio da confusão que o rodeava, saiu precipitadamente o Irmão Mark com um grande grito de prazer.

- Oh, Cadfael, que prazer em vê-lo! Tantos acontecimentos! E eu a pensar que o irmão ia perder tudo, e todo o tempo o senhor esteve no centro da história. Ouvimos contar o que se passou no tribunal de Llansilin... Oh, que bom é tê-lo de novo em casa!

- É o que vejo - disse Cadfael -, se toda esta recepção é para mim.

- A minha é! - disse o Irmão Mark com fervor. - Mas esta... Claro, não pode ainda ter sabido. Estamos todos à espera do Superior Heribert. Um dos carroceiros chegou há pouco de St. Giles, e viu-os, mas fizeram uma pausa lá no hospital. Ele veio dar o aviso. O Irmão Jerome está à espera para ir a correr dizer ao Prior Robert logo que cheguem ao portão. Devem estar a chegar a qualquer momento.

- E não houve novidades antes de chegarem? Será ainda Superior Heribert?, é o que me pergunto - disse Cadfael em tom pesaroso.

- Não sabemos. Mas todos temem... O Irmão Petrus resmunga coisas horríveis para os seus tachos, e jura que abandona a ordem. E Jerome está insuportável!

Voltou-se para fulminar com o olhar, tanto quanto a sua face doce e simples era capaz de fulminar, o pesadelo de quem estava a falar, e viu que o Irmão Jerome tinha desaparecido do bloco de montar e se precipitava de cabeça baixa para a habitação do superior.

- Oh, devem estar a chegar! Olhe... o prior!

Robert avançou da habitação de que se apropriara, imaculadamente vestido, majestosamente alto, visível acima de todas as cabeças esticadas a espreitar. A face estava composta com um ar de serenidade, benevolência e devoção que não eram deste mundo, pronta para receber o seu velho superior com hipócrita reverência, e para lhe assumir o posto com hipócrita humildade; e tudo isso ele faria maravilhosamente e com nobre dignidade.

E pelo portão entrou Heribert, um homem idoso, pequeno, rotundo e doce, de aparência pouco impressionante, que cavalgava a sua mula como um saco de batatas, e tinha sobre si a sujeira, a lama e o cansaço da jornada. Ao olhar para ele, logo se lhe via na face e no porte a marca de quem fora deposto e estava aposentado, mas tinha contudo um ar de contente satisfação, tal como um homem que acabou de pousar pesado fardo e de se endireitar para respirar fundo. Humilde por natureza, Heribert era indestrutível. O seu secretário pessoal e os criados seguiam respeitosamente uns metros mais atrás; mas junto de si cavalgava um beniditino alto, magro e enérgico, com feições curtidas pelo tempo e inteligentes olhos azuis, que o acompanhava de perto pronto a ajudá-lo e que o fitava, pensou Cadfael, com algo semelhante a discreta afeição. Um novo monge para o convento, talvez.

O Prior Robert vogou por entre os irmãos acotovelados e cochichantes como um belo navio através de desordenados vagalhões, e estendeu ambas as mãos para Heribert logo que o pé deste tocou no solo.

- Padre, seja mais do que bem-vindo a esta casa! Todos nós aqui nos regozijamos por tê-lo de novo junto a nós, e espero que cheio de bênçãos e confirmado o seu posto, nosso superior como sempre.

Se quisesse fazer-lhe justiça, pensou Cadfael, não acontecia muitas vezes que mentisse tão descaradamente, e por certo, nem naquele momento compreendia que estava a mentir. E, para ser sincero, que poderia ele ou qualquer outra pessoa dizer em tal situação, por mais exultante que estivesse com a cobiçada promoção que previa para si próprio? Dificilmente se pode dizer a um homem cara a cara que há muito se está à espera que desapareça, e que há muito ele devia ter feito isso mesmo.

- Sinceramente, Robert, estou feliz de estar de novo convosco - disse Heribert, radiante. - Mas não, devo informar todos aqui que já não sou o vosso superior, apenas mais um irmão. Consideraram melhor que outro tomasse conta do cargo, e inclino-me perante tal decisão, e voltei para casa para servir lealmente como um simples irmão sob as suas ordens.

- Oh, não! - segredou o Irmão Mark, descoroçoado. - Oh, Cadfael, olhe, ele está a ficar mais alto!

E, na verdade, parecia que a cabeça prateada de Robert pairava subitamente ainda mais altaneira, como se ganhando altura com a aquisição de uma mitra. Mas, de modo igualmente súbito, apareceu outra cabeça tão altaneira como a sua; o desconhecido desmontara com vagar, quase sem se fazer notar, e erguia-se junto a Heribert. O anel de espesso cabelo negro e liso que rodeava a sua tonsura tinha apenas um toque mínimo de cabelos brancos; contudo, era provavelmente pelo menos tão velho como Robert, e as suas feições inteligentes e bem vincadas eram igualmente incisivas, se bem que menos belas.

- Apresento-vos a todos - disse Heribert em tom quase de carinho - o Padre Radulfus, nomeado pelo conselho geral para dirigir a nossa abadia, a partir de hoje mesmo. Recebei o vosso novo superior e reverenciai-o, tal como eu, o Irmão Heribert deste convento, aprendi já a fazer.

Houve um profundo murmúrio, um grande burburinho, um suspiro e um sorriso que atravessaram como onda silenciosa toda a gente reunida no grande pátio. O Irmão Mark apertou com força o braço de Cadfael, e abafou no ombro deste o que de outro modo poderia ter sido um grito de deleite. O Irmão Jerome teve um colapso que a todos foi visível, tal como uma bexiga furada, e ficou da mesma cor de lama que aquela tem. Algures, na retaguarda, ouviu-se um decidido cantar de galo, como um animal a celebrar uma vitória, embora tenha sido instantaneamente interrompido e ninguém tenha podido descobrir a sua origem. Podia bem ter sido o Irmão Petrus, preparando-se para se precipitar para a sua cozinha e esfregar todos os tachos e panelas em sinal de dedicação pelo recém-chegado, que desconjuntara o nariz do Prior Robert no momento da sua mais soberba grandiosidade.

Quanto ao próprio prior, não tinha figura ou porte para sucumbir à desgraça como o seu assistente, nem um tom de pele capaz de empalidecer. Mais tarde, houve várias versões da sua reacção. O Irmão Denis, do serviço de acolhimento, afirmou que Robert de tal maneira oscilou para trás, apoiado apenas nos calcanhares, que era espantoso como não caíra rodondo no chão. O porteiro dizia que ele piscara violentamente os olhos e que durante vários minutos ficara de olhar vítreo. Os noviços, depois de compararem impressões, chegaram unanimemente à conclusão que se os olhos matassem teria havido uma morte súbita no meio deles, e a vítima não teria sido o novo superior, mas o velho que, com o modo tão astucioso como reconhecera a sua futura subordinação a Robert como prior, o levara a acreditar na esperada promoção, para no momento seguinte lhe destruir todas as ilusões. O Irmão Mark, com muita honestidade, disse que só uma momentânea rigidez marmórea, seguida de violenta agitação da maçã-de-adão do prior enquanto este engolia todo o fel, traíra as suas emoções. Mas foi certamente obrigado a heróico esforço de recuperação, pois Heribert prosseguiu em tom benigno:

- E a si. padre superior, apresento o Irmão Robert Pennant, que como prior sempre tem sido para mim de um auxílio exemplar e que, estou certo, o servirá a si com a mesma abnegada dedicação.

- Foi uma delícia. - disse mais tarde o Irmão Mark no barracão do jardim onde, um pouco comprometido, estivera a dar contas do modo como se desempenhara do cargo, tendo porém ficado muito aliviado e feliz quando foi felicitado. - Mas agora, sinto-me envergonhado de mim mesmo. Foi mesquinho da minha parte sentir um tal prazer com a desgraça de outra pessoa.

- Ora, ora, rapaz! - disse Cadfael em tom ausente, enquanto despejava a sacola e voltava a pôr no sítio os frascos e potes que trouxera consigo. - Não pretendas ter auréola cedo de mais. Tens muito tempo para te divertir, às vezes até com um pouco de malícia, antes de assentares e te transformares num santo. Foi uma delícia, e quase todas as almas que ali estavam se regozijaram com ela. Deixemo-nos de hipocrisias.

O Irmão Mark desistiu dos seus escrúpulos e teve a graça de sorrir.

- Mas, de qualquer modo, com o Padre Heribert que nunca lhe mostrou qualquer malícia, e um tal afecto...

- Irmão Heribert! E não estás a ser nada justo para contigo próprio - disse Cadfael em tom carinhoso. - Pelos vistos estás ainda agradavelmente verde. Pensas que todas aquelas palavras tão bem escolhidas foram ditas por acaso? "Um simples irmão sob as suas ordens..." Podia muito bem ter dito "um irmão entre vós", pois no momento antes dirigia-se a todos nós. E "com a mesma abnegada dedicação", na verdade! Sim, exactamente a mesma! E, pelo aspecto do vosso novo superior, Robert terá de esperar muito, muito tempo antes que haja aqui nova vaga.

O Irmão Mark, sentado no banco junto à parede, remexeu as pernas e ficou de boca aberta, em espantada consternação.

- Está a dizer que ele fez tudo de propósito?

- Podia ter mandado um dos criados à frente, não podia, se tivesse querido avisar? Podia, ao menos, ter mandado um de St. Giles, para que desse a novidade com vagar. E em particular! Uma alma muito sofredora, mas que hoje teve uma pequena vingança. - Ficou comovido com o ar chocado do Irmão Mark. - Não estejas tão chocado! Nunca chegarás a ser santo se não aceitares o bocadinho de diabo que há em ti. E pensa bem no que ele fez à alma do Prior Robert!

- Mostrando-lhe a vaidade da ambição? - arriscou Mark duvidoso.

- Ensinando-lhe a não contar com o ovo no cu da galinha. Agora, toca a andar para a sala quentinha, e ouve-me todos os boatos que por lá se dizem. Irei lá ter contigo daqui a pouco, depois de ter trocado umas palavrinhas com Hugh Beringar.

- Bom, acabou-se, e com a máxima limpeza que se podia desejar - disse Beringar, sentado confortavelmente junto ao braseiro, tendo na mão uma caneca de vinho quente das reservas de Cadfael. - Arrumado e arquivado, e bem que nos podia ter saído mais caro. A propósito, uma mulher encantadora, a sua Richildis; foi um prazer devolver-lhe o filho. Não duvido que venha cá à sua procura logo que ouça que já voltou, o que depressa vai acontecer, pois tenciono parar lá em casa, quando voltar para a cidade.

Tinha havido poucas perguntas directas, e poucas respostas, e estas oblíquas. Muitas vezes a conversa entre eles era tão tortuosa como a sua amizade era fácil e firme, mas compreendiam-se bem um ao outro.

- Ouvi contar que perdeu um cavalo quando andou lá pelas fronteiras - disse Beringar.

- Mea culpa! - reconheceu Cadfael. - Deixei o estábulo mal fechado.

- Mais ou menos na mesma altura em que o tribunal de Llainsilin perdeu um homem - observou Hugh.

- Bom, de certo não está a culpar-me disso também! Fui eu que o descobri para eles, mas depois não o conseguiram segurar.

- Suponho que, de uma maneira ou outra, vão fazê-lo pagar o preço do cavalo?

- Sem dúvida será discutido amanhã durante a reunião do capítulo. Não tem importância - disse o Irmão Cadfael placidamente -, o que interessa é que ninguém me possa cobrar o preço de um homem.

- Isso só poderia ser cobrado num outro capítulo. E podia ficar-lhe caro. - Mas a face morena e angulosa de Hugh estava a sorrir por trás do ondulante vapor que subia do braseiro. - Tenho ainda uma novidade para si, amigo Cadfael. Continuamente acontecem novas maravilhas em Gales! Ainda ontem recebi uma mensagem de Chester, a dizer que um cavaleiro, que não disse o nome, entrou numa das granjas do monastério de Beddgelert, e deixou lá o seu cavalo, pedindo aos irmãos que cuidassem dele até que pudesse ser devolvido aos monges beneditinos dos apriscos de Rhydycroesau, de onde fora levado por um empréstimo. Ainda não têm conhecimento disso em Rhydyscroesau, porque a neve caiu lá antes daqui, lá no Arfon, e não houve possibilidade de mandar um mensageiro, e suponho que nem haja ainda. Mas o cavalo está lá e em segurança. Fosse quem fosse o estrangeiro - disse Hugh com ar de inocência - deve tê-lo deixado lá uns dois dias depois de o nosso malfeitor desaparecido ter feito a sua confissão em Penllyn. O recado veio por Bangort, quando lá conseguiram chegar, e depois por Chester, tendo seguido por um dos barcos costeiros. Por isso, parece-me que vai ter uma penitência menor do que esperava.

- Beddgelert, han! - disse Cadfael, pensativo. - E saiu de lá a pé, ao que parece. Para onde pensa que pode ter seguido, Hugh? Clynnog ou Caergybi, e depois por mar para a Irlanda?

- Por que não para as celas do "clas" em Beddgelert? - sugeriu Hugh, sorrindo para o vinho. - Depois de todas as suas folias pelo mundo, também você veio aportar a porto semelhante.

Cadfael acariciou a face pensativamente.

- Não, isso não. Ainda não! Ele há-de pensar que ainda não pagou o suficiente para isso.

Hugh deu uma gargalhada breve, pousou a caneca e levantou-se, dando sonora palmada no ombro de Cadfael.

- É melhor ir andando. Cada vez que me aproximo de si, acabo por cometer uma felonia.

- Mas, um dia, pode bem acabar assim - disse Cadfael muito sério.

- Numa felonia? - Hugh olhou-o da porta, ainda com um sorriso nos olhos.

- Numa vocação! Mais do que uma pessoa já passaram de uma para a outra, Hugh, depois de no intervalo terem sido muito úteis para o mundo.

Foi na tarde do dia seguinte que Edwy e Edwin se apresentaram à porta do barracão, vestidos com as suas melhores roupas, muito bem engomadas e escovados e, pelo menos a princípio, ambos ligeiramente chocados o que os levava a terem um comportamento invulgarmente discreto. Este ar reservado de tal modo se tornava parecidos que Cadfael teve de olhar bem à procura dos olhos castanhos e dos cor de avelã para distinguir um ao outro. Os seus agradecimentos foram exprimidos de modo sentido e animado, o contentamento fizera que, de momento, uma paz total reinasse entre os dois.

- Essa elegância cerimoniosa - disse Cadfael, observando os dois com atenta benevolência - não creio que me seja destinada.

- O padre superior mandou-me chamar - explicou Edwin, os olhos arregalados com a recordação. - A minha mãe obrigou-me a vestir a minha melhor roupa. Ele veio comigo apenas por curiosidade, mas não foi convidado.

- E ele tropeçou junto à porta - ripostou prontamente Edwy - e corou até ficar vermelho como o chapéu de um cardeal. - Isso é que não corei!

- Sim que coraste! E estás a corar agora. - E, na verdade, estava mesmo; a própria sugestão provocou um vago carmesim.

- Então, o Superior Radulfus mandou-te chamar - disse Cadfael. A pôr em ordem os negócios incompletos, pensou, e depressa. - E como acharam o nosso novo superior?

Nenhum dos dois estava disposto a confessar que ficara impressionado. Trocaram um olhar interrogativo e Edwy disse:

- Foi muito justo. Mas não tenho a certeza se gostaria de ser um noviço aqui.

- Ele disse - retorquiu Edwin - que seria um caso a discutir com a minha mãe e com os homens da lei, mas é evidente que o domínio não pode pertencer à abadia, o acordo é nulo e, se o testamento for reconhecido e o conde Chester confirmar a sua aceitação como suserano, Mallilie será meu e, até eu chegar à maioridade a abadia deixará lá um encarregado para o dirigir, e o superior será pessoalmente o meu tutor.

- E que responde a isso tudo?

- Agradeci-lhe e disse que sim, sinceramente que sim. Que outra coisa poderia fazer? Quem melhor poderia dirigir o domínio? Posso aprender com eles toda essa ciência. E vamos voltar para lá, a minha mãe e eu, logo que quisermos, e isso será muito breve, se não houver mais neve. - E o entusiasmo ansioso de Edwin, se bem que não tenha esmorecido, tornou-se contudo muito solene. - Irmão Cadfael, foi uma coisa horrível... aquilo do Meurig. É difícil de compreender...

Sim, muito difícil para um jovem, e quase impossível de perdoar. Onde houvera amizade e confiança, havia um resíduo de calor que se não podia apagar, incompatível com a repulsa e o horror que sentia por um envenenador.

- Claro que não teria deixado ficar com Mallilie sem lhe dar luta - disse Edwin, seriamente decidido a ser inteiramente honesto. - Mas, se ele tivesse vencido, penso que lhe não guardaria rancor por isso. E, se eu tivesse vencido... não sei! Ele nunca se sujeitaria a partilhá-lo, pois não? Mas estou contente por ele ter escapado. Se isso é pecado não o posso evitar. Estou mesmo contente!

Se fosse pecado, tinha companhia para a sua falta, mas Cadfael nada disse a esse respeito.

- Irmão Cadfael... Logo que estivermos de novo em Mallilie, tenciono ir visitar Ifor ap Morgan. Ele deu-me o beijo quando lho pedi. Posso considerar-me uma espécie de neto.

Graças a Deus que não cometi o erro de lho sugerir, pensou Cadfael com devoção. Não há nada que os jovens mais detestem do que ser incitados a uma boa obra que virtuosamente e por si próprios já resolveram praticar.

- Isso é muito bem pensado - disse calorosamente. - Ele ficará contente. Se levares Edwy contigo à casa dele é melhor ensinar-lhe como distinguir-vos, pois os olhos dele podem já não ver tão bem como os meus.

Ambos riram com aquilo. Edwy disse:

- Ele ainda está em dívida para comigo devido a todas as andanças em que me meti por causa dele e da noite que passei aqui na prisão. À custa disso, tenciono pôr os pés em Mallilie sempre que me apetecer.

- Eu tive duas noites dessas - objectou Edwin com esperteza - e num lugar muito pior.

- Tu? Nem uma pisadura, e embrulhado em algodão, com Hugh Beringar a tomar conta de ti!

Dito o quê, Edwin espetou dextramente o indicador retesado no estômago de Edwy, e Edwy passou o joelho por baixo de Edwin e atirou com ele ao chão, ficando os dois às gargalhadas. Cadfael ficou um momento a olhar cheio de tolerância, e depois agarrou dois punhados separados de cabelo espesso e encaracolado, e afastou-os um do outro. Libertaram-se e puseram-se obedientemente de pé, sorrindo abertamente e com ar muito menos imaculado do que antes.

- Vocês são um par infernal, e desejo a Ifor ap Morgan muito prazer convosco - disse Cadfael, mas cheio de complacência. - Agora és o senhor de um domínio, jovem Edwin, ou vais sê-lo quando fores maior. Então, era melhor começares a estudar as tuas responsabilidades. E é este o estilo de exemplo que um tio deve dar ao seu sobrinho?

Edwin parou de se abanar e sacudir com abrupta gravidade, e pôs-se erecto, de olhos bem abertos.

- Tenho pensado nos meus deveres, verdade que sim. Há muita coisa que ainda não sei e que terei de aprender, mas disse ao superior... Eu não gosto, nunca gostei, que o meu padrasto tenha posto uma questão a Aelfric e feito dele um vilão quando ele sempre se considerou um homem livre, tal como os seus pais tinham sido antes dele. Perguntei ao superior se eu poderia libertar um homem, ou se teria de esperar até à maioridade e ter pessoalmente a propriedade. Disse que isso certamente podia ser feito, e que ele próprio me apoiaria. Vou fazer de Aelfric um homem livre. E penso... isto é, ele e Aldith...

- Fui eu que lhe disse - disse Edwy, dando uma sacudidela como um cão e de novo se recostando confortavelmente no banco -, que Aldith gosta de Aelfric e que, uma vez ele livre, certamente se casarão, e Aelfric é um rapaz com estudos, e conhece Mallilie, e será um óptimo encarregado quando a abadia entregar o domínio.

- Tu disseste-me! Eu sabia muito bem que ela gostava dele, só que ele se recusava a dizer como gostava dela. E que sabes tu de domínios e encarregados, seu aprendiz de carpinteiro?

- Mais do que tu jamais virás a saber de madeiras e embutidos e artesanato, seu aprendiz de ladrão!

Lá estavam de novo no mesmo, enovelados num amplexo de urso, sobre um canto do banco. Edwy agarrado à cabeleira arruçada de Edwin, Edwin com os dedos nas costelas de Edwy, fazendo-lhe cócegas e provocando-lhe convulsões de riso. Cadfael ergueu o par com os braços e carregou com eles para a porta.

- Rua! Fora com essas brincadeiras, pois não se pode dizer que este seja o lugar mais apropriado. Andem, vão procurar um poço! - Até a si próprio soou estupidamente orgulhoso e presunçoso.

Junto à porta, separaram-se com espantosa facilidade e prontidão, e ambos se voltaram para lhe sorrir radiosamente. Edwin, penitente, recordou-se de pedir:

- Irmão Cadfael, poderá fazer o favor de ir ver a minha mãe antes de nos irmos embora? Ela implora!

- Irei - disse Cadfael, incapaz de dizer outra coisa -, certamente que irei!

Viu-os partir em direcção ao grande pátio e à portaria, de novo em luta amigável, braço no braço, numa mistura de abraço e de assalto. Estranhas as criaturas nesta idade, capazes de heróica lealdade e galanteria quando sob pressão, sérios quando em perseguição de fins sérios e, quando tudo estava sereno no seu mundo, voltando às brincadeiras e tutas próprias de gatinhos da mesma ninhada.

Cadfael voltou para o seu barracão e trancou a porta contra o resto do mundo, até o Irmão Mark. Lá dentro tudo estava muito calmo e muito sombrio devido à escuridão das paredes de madeira e ao ténue fumo azul que subia do braseiro. Para ele, agora, era um lar dentro do lar, e era tudo o que queria. Já tudo acabara, como dissera e Hugh Beringar, sem mais gastos do que os inevitáveis. Edwin teria o seu domínio, Aelfric a sua liberdade, um futuro seguro e boa oportunidade para desatar a língua e declarar-se a Aldith; e, sem dúvida, se ele se mostrasse obstinado a esse respeito, esta descobriria uma maneira de o obrigar. O Irmão Rhys ia ter uma longa conversa a respeito dos seus familiares e o seu frasquinho de licor, e uma memória já pouco nítida disfarçaria a falta do sobrinho-neto perdido. Ifor ap Morgan teria o seu sofrimento pessoal, que nunca mencionaria, mas também uma esperança pessoal e um substituto do neto apenas a curta distância. E Meurig, algures pelo mundo, tinha uma longa penitência à sua frente, e grande necessidade das preces das outras pessoas. As de Cadfael não lhe faltariam.

Instalou-se à vontade no banco onde os rapazes tinham lutado e rido, e pôs os pés comodamente para cima. Perguntava-se se ainda tinha direito de se desculpar dizendo estar proibido de sair do enclave até que Richildis fosse para Mallilie, mas só decidiu que isso seria uma cobardia depois de decidir que, de qualquer modo, não tinha a intenção de fazê-lo.

Afinal de contas, ela era uma mulher muito atraente, ainda agora, e a sua gratidão seria experiência muito agradável; havia até uma grande atracção na ideia de uma conversa que inevitavelmente começaria: "Lembras-te...?", e este seria o seu constante refrão. Sim, iria. Não lhe acontecia muitas vezes poder gozar uma orgia de recordações partilhadas.

Dai a uma ou duas semanas, afinal, toda a família partiria para Mallilie, e estaria em segurança a tantas milhas de distância. Depois disso, era pouco provável que voltasse a ver Richildis muitas vezes. O Irmão Cadfael soltou profundo suspiro que podia ter sido de arrependimento, mas que podia igualmente ser de alívio.

Ah, bom! Talvez fosse melhor assim!

 

                                                                                Ellis Peters  

 

                      

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