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Planeta Criança



Poesia & Contos Infantis

 

 

 


JUSTIÇA SELVAGEM / Wilbur Smith
JUSTIÇA SELVAGEM / Wilbur Smith

 

 

Biblioteca Virtual do Poeta Sem Limites

 

 

JUSTIÇA SELVAGEM

 

O ousado seqüestro do Jumbo que transportava a nata da medicina mundial é o início de uma completa reviravolta na carreira e na vida sentimental do general inglês Peter Stride — chefe da unidade antiterrorista de elite, o Comando Thor. Dilacerado entre suas convicções íntimas e as brutais regras do jogo em que se vê envolvido, Peter Stride enfrenta a misteriosa e formidável personagem, ou organização, identificada apenas pelo codinome Califa, que se considerava acima do bem e do mal. Ao ser atraído, de modo inexorável, para o centro de uma labiríntica rede mundial de terror, o general Stride conta com a fortuna e o amor de uma bela condessa, cujo marido havia sido morto, após bárbaras torturas, por agentes de Califa.

Em Justiça Selvagem, Wilbur Smith cria uma magistral trama sobre um dos maiores problemas que afligem a sociedade contemporânea: o terrorismo.

 

HAVIA APENAS quinze passageiros para embarque no voo da British Airways no aeroporto de Victoria, ilha de Mahé, na República de Seychelles, Oceania.

Dois casais formavam um grupo coeso enquanto esperavam sua vez para as formalidades de embarque. Eram jovens, bastante bronzeados e ainda exibiam o ar despreocupado de quem se divertira a valer no feriado naquela ilha paradisíaca. Entretanto, uma pessoa fazia as outras três parecerem insignificantes pelo esplendor de seu físico.

Era uma garota alta, bem-feita de corpo, bastante bonita. Seus cabelos loiros, queimados pelo sol, estavam penteados num coque trançado atrás da nuca, e o sol dava-lhe um toque dourado e ressaltava a beleza saudável de sua pele.

Enquanto se movia com a graça ondulante de um felino, com os pés expostos pelas sandálias abertas, seus seios balançavam suavemente sob a delicada camiseta de algodão, e as nádegas arredondadas comprimiam-se nas calças curtas, desbotadas, cortadas de modo irregular. Na sua camiseta estava impressa a expressão LOUCA DE AMOR acima da figura de uma palmeira carregada de cocos.

A moça sorriu radiante para o funcionário de pele escura do setor de imigração, ao mesmo tempo que mostrava o passaporte verde dos Estados Unidos, com a águia dourada na capa. Porém, ao se dirigir ao seu companheiro, falou em alemão. Recebendo o passaporte de volta, ela deu lugar para os outros na área de segurança.

Novamente sorriu para os dois policiais responsáveis pela busca de armas, e em seguida balançou a sacola de rede que tinha sobre o ombro.

— Querem checar isto também?

Todos riram diante de sua pergunta. A sacola continha dois enormes cocos, cujo tamanho dava o dobro de uma cabeça. Aquelas frutas grotescas eram o souvenir mais popular das ilhas. Cada um dos seus três companheiros carregava lembranças similares em sacolas idênticas. O policial ignorou esses objetos familiares, movendo o detector de metal sobre as outras valises que completavam suas bagagens de mão. O detector zumbiu intensamente em cima de uma sacola. Então, o rapaz que a carregava puxou para fora, envergonhado, uma pequena máquina fotográfica Nikkormat. Seguiram-se mais risos, antes que o funcionário indicasse para o grupo a sala de embarque final.

O local já estava repleto de passageiros em trânsito que haviam embarcado em Maurício. Através dos vidros da sala, via-se um imenso Boeing 747 Jumbo iluminado por um conjunto de holofotes enquanto era reabastecido.

Como não sobravam bancos desocupados na sala, o grupo dos quatro ficou de pé embaixo de um ventilador de teto. A noite estava úmida, e a massa de gente naquele ambiente fechado enchia o ar com a fumaça de cigarros e o cheiro de corpos quentes e suados.

A garota loira dominava a conversa e, de repente, explodiu numa gargalhada. Estava bem próxima dos dois rapazes e um pouco mais afastada da outra garota. Mesmo assim eles eram o foco de atenção para centenas de passageiros. Suas maneiras haviam mudado tão logo entraram na sala: aparentavam uma sensação de alívio, como se um sério obstáculo tivesse sido transposto, e uma excitação febril permeava seus risos. Nunca ficavam parados, apoiando-se ora num pé, ora noutro, enquanto remexiam com as mãos ou os cabelos, ou as roupas.

Embora se tratasse claramente de um grupo coeso, ligado por um ar quase conspiratório de camaradagem, um dos passageiros em trânsito deixou a esposa sentada, levantou-se do seu banco e perguntou enquanto se aproximava:

— Vocês falam inglês?

O homem, de cinquenta e poucos anos, tinha uma mecha de cabelos grisalhos, usava óculos de armadura escura, tipo tartaruga, e possuía o ar confiante de alguém rico e bem-sucedido.

Relutante, o grupo abriu o círculo para ele, mas foi a garota alta e loira quem respondeu.

— Claro, eu também sou americana.

— É mesmo? — E ele riu.

— Bem, o que lhe parece?

O homem contemplava-a com franca admiração.

— Estava querendo saber o que são essas coisas — disse ele, apontando para a sacola que estava apoiada nos pés da moça.

— São cocos — informou a loira.

— Ah, sei... Ouvi falar deles.

— Também são conhecidos por ”cocos do amor” — continuou a garota, abaixando-se para pegar a sacola. — É fácil entender por quê. — Ela mostrou-lhe uma das frutas, cujos globos duplos eram unidos, formando uma réplica perfeita de um par de nádegas humanas. — Parte posterior — disse ela, com um sorriso, exibindo os dentes alvos, translúcidos como a porcelana chinesa. — Parte anterior. — E girou a fruta, oferecendo à visão do desconhecido o monte de Vénus completo, com o talho feminino e um tufo de cabelos encaracolados.

Naquele instante ficou claro que ela estava se divertindo, tanto que alterou a postura, empurrando os quadris para a frente, de modo a tornar mais insinuante seu próprio monte de Vénus que se salientava sob o tecido do short.

O homem ruborizou-se, e seus lábios se abriram involuntariamente, num gesto de espanto.

— A árvore macho tem um estame tão grosso e comprido como um braço — prosseguiu a loira, fitando-o com os olhos da cor do amor-perfeito.

Foi então que a esposa do homem levantou-se, seguindo em direção a eles, advertida por algum instinto feminino. Era muito mais jovem que o marido e impaciente com crianças.

— Os nativos de Seychelles vão lhe dizer que na lua cheia o macho recolhe suas raízes e caminha ao encontro de suas fêmeas.

— Tão comprido e grosso como um braço — repetiu, sorridente, a bonita garota de cabelos negros ao lado da loira. — Cruzes!

Dispostas a encabulá-lo, ambas encararam o homem, que não sabia onde colocar as mãos. Os dois jovens que estavam ao lado riram do seu desconforto.

A esposa dele alcançou-o naquele momento, percebendo toda a situação. Vermelho de raiva, ele tinha pequenas gotas de transpiração sobre o lábio superior.

— Harry, não estou me sentindo bem — disse a mulher num tom queixoso.

— Com licença — murmurou ele, com alívio. E, visivelmente constrangido, tomou a esposa pelo braço, afastando-se.

— Você o reconheceu? — perguntou em voz baixa a moça de cabelos negros, em alemão, ainda sorrindo.

— Harold McKevitt — sussurrou a loira lentamente. — Neurocirurgião de Fort Worth. — Ele leu o relatório do final da convenção no sábado pela manhã. — Depois, passando a língua nos lábios, como um gato, concluiu: — Peixe graúdo, peixe muito graúdo.

Dos quatrocentos e um passageiros que se encontravam ali, naquela segunda-feira à noite, trezentos e sessenta eram cirurgiões, ou suas esposas. Entre eles, alguns dos mais eminentes no mundo da medicina, vindos da Europa, Estados Unidos, Japão, América do Sul e Ásia, para a convenção que se encerrara vinte e quatro horas antes, na ilha Maurício, oitocentos quilómetros ao sul da ilha Mahé. Aquele voo tinha sido totalmente reservado desde que a convenção fora convocada.

”British Airways anuncia a partida do voo BA 070 para Nairóbi e Londres; passageiros em trânsito, por favor embarquem pelo portão principal.”

O anúncio, feito em voz cantarolada e com sotaque nativo, provocou o imediato movimento da multidão para a porta de saída.

”AO CONTROLE DE VICTORIA: Pássaro Veloz Zero Sete Zero solicitando reboque e início de rolamento.”

”Zero Sete Zero, você está livre para rolar e taxiar ao ponto de espera na pista Zero Um.”

”Por favor, anote uma alteração do nosso voo para Nairóbi. Número de passageiros a bordo é 401. Estamos de casa cheia.” ”Está feita sua alteração no plano de voo, Pássaro Veloz.”

O GIGANTESCO AVIÃO ainda estava com o nariz apontado na configuração de subida e as luzes dos cintos de segurança e de não fumar piscavam ao longo da cabine de primeira classe. A loira e seu companheiro sentavam-se lado a lado nos bancos imediatamente atrás do anteparo que separava a área de comando e a ala de passageiros. Suas poltronas tinham sido reservadas com meses de antecedência.

A um sinal da loira, seu companheiro inclinou-se para a frente, impedindo a visão dos passageiros do outro lado do corredor, enquanto ela pegava um dos cocos da sacola e o colocava no colo.

Aproveitando sua divisão natural, o coco fora serrado em duas metades, para permitir a remoção do leite e da polpa branca, e depois as duas partes tinham sido coladas com tanto capricho que só eram visíveis com um exame muito detalhado.

A garota inseriu um pequeno estilete na junta e torceu-o firmemente, fazendo com que a fruta se abrisse ao meio, como um ovo de Páscoa.

Nos ninhos formados pelas duas cascas, enrolados com fitas plásticas, havia dois objetos lisos, cinzentos e ovalados, cada um do tamanho de uma bola de beisebol.

Eram granadas fabricadas na Alemanha Oriental, com a identificação do comando do Pacto de Varsóvia, MK IV(C). Possuíam revestimento de plástico do tipo usado em minas, o que evitava sua descoberta por detectores de metais. A listra amarela ao redor delas indicava que não eram de fragmentação, mas que tinham sido projetadas para produzir concussão devido ao alto impacto.

Segurando uma granada na mão esquerda, a loira abriu o cinto de segurança e saiu silenciosamente de sua poltrona. Os passageiros ao redor mal perceberam sua presença enquanto ela cruzava as cortinas da área de circulação. Entretanto, o comissário de bordo e as duas aeromoças, ainda presos em seus bancos, lançaram-lhe olhares de censura ao vê-la na área de serviço.

— Desculpe, senhorita, devo lhe pedir para retornar ao seu assento até que o comandante desligue as luzes do cinto de segurança.

A loira ergueu a mão esquerda, deixando à mostra o brilhante ovo acinzentado.

— Isto é uma granada especial, própria para matar os ocupantes de um tanque de guerra — disse ela calmamente. — Pode arrebentar a fuselagem desta aeronave como se fosse um saco de papel, ou matar por concussão qualquer pessoa num raio de cinquenta metros. — Notando que o medo tomava conta dos três, continuou: — Explode três segundos depois que eu tirar o estopim. — Seus olhos brilhavam de excitação, e ela respirava rápida e profundamente. — Você aí — disse, apontando para o comissário de bordo —, leve-me à cabine de comando. Os outros ficam onde estão. Não façam nada, não digam nada.

Os membros da tripulação de voo, que estavam diante dos painéis de instrumentos, na pequena cabine — três homens — voltaram-se surpresos quando ela entrou, mostrando o que tinha na mão. Eles entenderam de imediato.

— Estou tomando o controle da aeronave — disse a moça, dirigindo-se ao engenheiro de voo. — Desligue todos os equipamentos de comunicação.

O homem deu uma olhada rápida para o comandante e, quando este balançou a cabeça afirmativamente, começou a desligar os rádios, o equipamento de frequência muito alta, alta e ultra-alta.

— O de transmissão por satélite também — ordenou a moça. O engenheiro olhou-a, perplexo pelo seu conhecimento.

— E não toque o interceptador!

Ele sobressaltou-se, pois ninguém, absolutamente ninguém fora da companhia conhecia aquela chave especial que, quando ativada pelo botão ao lado do seu joelho direito, instantaneamente alertava o centro de controle no aeroporto de Heathrow, em Londres, para uma emergência, permitindo-lhes monitorar qualquer conversa na cabine de comando.

— Tire o fusível do circuito de interceptação — continuou a loira indicando corretamente a caixa onde se localizava a peça. O engenheiro outra vez consultou o piloto com o olhar, mas a voz firme da moça obrigou-o a agir: — Faça o que lhe digo!

Com cuidado, ele removeu o fusível, sem nada dizer.

— Leia o plano de voo — instruiu ela.

— Estamos na rota para Nairóbi, seguindo a desobstrução fornecida pelo radar e subindo para a altitude cruzeiro de onze mil e setecentos metros.

— Quando é sua próxima obrigação de informe de ”operação normal”?

”Operação normal” era a informação de rotina para o Controle de Nairóbi, assegurando-lhe que o voo procedia como planejado.

— Em onze minutos e trinta e cinco segundos — disse o engenheiro, um jovem de cabelos negros, elegante, testa alta, pele pálida e maneiras rápidas e eficientes.

A loira voltou-se para o comandante do Boeing, e seus olhares se encontraram como se cada um medisse o outro. O homem possuía cabelos acinzentados, cortados à escovinha, e tinha o pescoço forte, a corpulência de um policial, as faces coradas de um fazendeiro e os olhos tranquilos, combinando com as maneiras calmas e não afetadas. Era um homem que valia a pena observar, admitiu a moça imediatamente.

— Quero que vocês saibam que estou totalmente comprometida com esta operação — disse ela —, e que de bom grado sacrificarei a vida por minha causa.

Seus olhos azuis-escuros não vacilaram e leram nos olhos do comandante os primeiros sinais de respeito por suas palavras. Era melhor que fosse assim; isso fazia parte de seus cálculos preliminares.

— Acredito piamente — disse o piloto, balançando a cabeça.

— Seu compromisso é com os quatrocentos e dezessete passageiros e tripulantes a bordo deste avião. Eles estarão seguros na medida em que você seguir rigidamente minhas ordens. Isso eu lhe prometo.

— Muito bem.

— Aqui está nosso novo destino — continuou a loira, passando-lhe um pequeno cartão branco batido a máquina. — Quero essa rota com previsão de ventos e horário de chegada. Dirija-se para ela imediatamente após comunicar sua próxima ”operação normal”. Quanto tempo falta para isso? — perguntou ao engenheiro de voo.

— Nove minutos e cinquenta e oito segundos — informou o rapaz prontamente.

— Manobrem para a nova direção lentamente, de forma que nenhum passageiro derrube seu drinque.

Naqueles poucos minutos em que esteve na cabine de comando, a loira rapidamente estabeleceu um relacionamento estranho com o comandante — uma mistura de respeito relutante com hostilidade aberta e atração sexual. Se ela já se vestira de modo a revelar o corpo, a excitação contribuía para que os bicos dos seios ficassem intumescidos, destacando-se através do fino tecido da camiseta, e o cheiro almiscarado do corpo feminino se intensificasse, preenchendo todo o pequeno espaço da cabine.

Depois de algum tempo de completo silêncio, o engenheiro de voo informou:

— Faltam trinta segundos para a ”operação normal”.

— Ótimo. Ligue o alta frequência e faça o comunicado.

— Nairóbi, aproximação. Este é o Pássaro Veloz Zero Sete Zero.

— Em frente, Pássaro Veloz Zero Sete Zero.

— Operações normais — disse o engenheiro pelo microfone.

— Roger, Zero Sete Zero. Comunique-se novamente em quarenta minutos.

— Zero Sete Zero.

Então a loira suspirou de alívio.

— Bem, desligue o aparelho — ordenou, virando-se em seguida para o comandante. — Desligue o piloto automático e gire para a nova direção manualmente. Vamos ver se você é habilidoso.

do edifício, batendo a marca da equipe número 2 de Colin Noble por dez segundos.

Eufórico, Peter dispensou o transporte militar, preferindo correr os oito quilómetros até a pista, com seus homens carregando às costas o equipamento de combate e o enorme fardo dos páraquedas de seda.

O Hércules levou-os de volta à base, onde aterrissaram depois do anoitecer, no complexo de segurança do Comando Thor, no final da pista principal.

Peter ficou seriamente tentado a deixar para outra hora seu informe a Colin Noble. Precisava ganhar tempo, pois seu motorista fora buscar Melissa-Jane na estação de East Croydon, e ela deveria estar esperando sozinha no chalé novo, a apenas oitocentos metros dos portões da base.

Ele não a vira nas últimas seis semanas, desde que assumira o comando do Thor, já que não tirara um único dia de folga. Agora, sentia uma pontada de culpa. Por isso não demorou mais do que alguns minutos com o informe, e logo transferiu o comando a Colin Noble.

— O que vocês vão fazer nos próximos dias? — perguntou Colin.

— Melissa-Jane vai me levar a um show de música pop amanhã à noite. Pra ver ”Os Mortos-Vivos”, no mínimo. — Peter riu. — Só me lembro que estou vivo quando ouço a morte!

— Dê um beijo nela por mim — disse Colin, despedindo-se.

A privacidade recentemente adquirida era para Peter um verdadeiro presente dos céus, uma vez que ele passara quase toda a sua vida adulta em alojamentos, num clima de quartel, coisa que não acontecia no Comando Thor.

Seu chalé distava apenas quatro minutos e meio de automóvel do complexo, mas ainda assim era bastante tranquilo. Apesar de mobiliado, o aluguel era módico e ficava atrás de um belo roseiral, em uma rua calma, possuindo na frente um extenso gramado. Tornara-se um lar em poucas semanas. A ponto de Peter ter sido capaz de desempacotar os livros que acumulara nos últimos vinte anos, esperando justamente uma oportunidade como aquela. Era muito agradável tê-los empilhados sobre a escrivaninha, no pequeno quarto da frente, ou amontoados nos criados-mudos ao lado da cama, mesmo que, com o trabalho duro, não lhe sobrasse muito tempo para ler.

Ao ouvir o ruído dos pneus no caminho de cascalho do jardim, Melissa-Jane apareceu correndo pela porta da frente, em direção à luz dos faróis do veículo. Seu gesto espontâneo fez Peter sentir um aperto no coração.

Mal ele saiu do carro, a garota jogou-se em seus braços, pendurando-se em seu pescoço. Por um longo tempo, nenhum dos dois foi capaz de falar. O corpo esguio e cálido da jovem exalava alegria e vitalidade.

Emocionado, Peter contemplou suas faces, os olhos grandes que marejavam lágrimas de felicidade. Há anos Melissa-Jane possuía aquela beleza, a pele lisa como porcelana, sem o menor traço de acne.

Beijando-a solenemente na testa, ele brincou, afetuoso:

— Você vai enganar sua própria morte.

— Ah, papai, não seja chato. — E, sorrindo por entre as lágrimas, beijou-o na boca.

Mais tarde, enquanto jantavam num restaurante italiano em Croydon, Melissa-Jane não parava de falar. Peter limitava-se a observála, encantado com a sua juventude e frescor. Ninguém acreditaria que aquela jovem ainda não completara catorze anos, a julgar pelo físico desenvolvido, pelos seios que se insinuavam sob o suéter branco, pela conduta típica de uma mulher no mínimo dez anos mais velha. Exceto pela ocasional risadinha nervosa ou quando usava a gíria característica de sua geração, jamais seria confundida com uma adolescente.

Quando voltaram ao chalé, Melissa-Jane preparou chá, que os dois tomaram apesar do calor. Planejaram minuciosamente cada minuto da semana que teriam pela frente, evitando com cuidado qualquer menção à figura da mãe da garota.

Um pouco antes da hora de dormir, ela sentou-se no colo de Peter e, traçando com o dedo as linhas de seu rosto, perguntou:

— Sabe quem você me lembra?

— Não faço a menor ideia.

— Gary Cooper, só que muito mais moço!

— Essa é boa. — Ele riu. — Aliás, de onde você conhece Gary Cooper?

— Assisti Matar ou Morrer pela televisão, no domingo passado. Ela beijou-o de novo, com os lábios ainda úmidos do chá. Em seguida prosseguiu:

— Que idade você tem mesmo, papai?

— Trinta e nove.

— Hum, não é tão velho assim.

— Às vezes me sinto tão velho quanto um dinossauro... Naquele exato momento, o som irritante do alarme eletrônico que estava sobre a mesa interrompeu-o. Peter sentiu um frio no estômago.

”Logo agora”, disse a si mesmo, irritado. Justamente quando estava com a filha, depois de tanto tempo sem vê-la...

O pequeno rádio transmissor-receptor, do tamanho de um maço de cigarros, piscava sua luzinha vermelha, de maneira tão insistente quanto o sinal de áudio. Relutante, Peter pegou-o, apertando o botão de transmissão.

— Thor Um — disse ele.

A réplica soou metálica e distorcida:

— General Stride, Atlas ordenou condição Alfa.

Outro alarme falso, pensou Peter, zangado. No mês anterior, tinha havido uma dúzia de Alfas, ou seja, o primeiro estágio de aleita, com o grupo embarcado e pronto para a condição Bravo, isto é, pronto para entrar em ação.

— Atlas informa que estamos a sete minutos de Bravo. Como seriam necessários quatro minutos e meio para alcançar

o complexo, de repente a decisão de alugar o chalé pareceu a Peter uma perigosa autoconcessão. Naquele curto espaço de tempo uma vida poderia se perder... Abraçando a filha, ele disse:

— Querida, me desculpe.

— Tudo bem — respondeu ela, tensa e ressentida.

— Logo, logo teremos outra oportunidade. Eu prometo!

— Você sempre promete...

Àquela altura Peter já não a escutava. Depois de afastá-la do colo, ele se levantou, com o cenho franzido, as espessas sobrancelhas castanhas quase juntas.

— Feche a porta quando eu sair, querida. Se for realmente uma emergência, mandarei o motorista para você. Ele a levará de volta a Cambridge e avisarei sua mãe para esperá-la.

Segundos depois, Peter já estava fora da casa. Melissa-Jane ouviu o barulho da ignição do carro, o cantar dos pneus sobre o cascalho e o ruído do motor cada vez mais distante.

O CONTROLADOR da torre de Nairóbi permitiu que o voo da British Airways, procedente de Seychelles, passasse quinze segundos do seu tempo de comunicação. Então chamou uma, duas, três vezes antes de sintonizar as frequências reservadas à informação, aproximação, torre e finalmente emergência, que, no mínimo, o

070 deveria manter em escuta de alerta. Mesmo assim não houve resposta.

Passava quarenta e cinco segundos do prazo para que o Pássaro Veloz 070 comunicasse ”operação normal”, quando o controlador removeu a tampa amarela do equipamento de aproximação e pôs no painel de emergência o aviso de ”contato perdido”, colocando em ação os procedimentos de busca e salvamento.

Dois minutos e treze segundos após o fim do prazo de ”operação normal”, um telex chegou ao escritório da British Airways, no aeroporto de Heathrow; dezesseis segundos mais tarde, o Comando Thor estava informado e entrava na condição Alfa.

FALTANDO APENAS três dias para ficar cheia, a lua tinha sua parte superior levemente encoberta por sombras. Mas, vista do alto, parecia tão grande quanto o sol, e com certeza muito mais bonita.

Sob o verão tropical, nuvens gigantescas movimentavam-se lentamente no céu, formando cogumelos, cúmulos majestosos banhados pelo esplendor do luar.

A aeronave sobrevoava os picos das nuvens, como um imenso morcego negro seguindo sempre em direção a oeste. De repente, um abismo escuro abriu-se nas nuvens sob a asa do lado da porta, como a boca do inferno; no fundo de sua goela surgiu uma luz distante, intermitente como uma estrela cadente.

— Ali deve ser Madagáscar — a voz do piloto quebrou o silêncio que reinava na cabine. — Estamos no rumo certo.

Postada atrás da poltrona dele, a loira trocou a granada de mão antes de falar pela primeira vez em meia hora.

— Talvez alguns passageiros ainda estejam acordados e notem isso. Portanto, está na hora de despertar os outros para comunicarlhes as boas notícias. Por favor, acenda todas as luzes da cabine e as dos cintos de segurança e me passe o microfone — pediu ao engenheiro de voo.

Mais uma vez Cyril Watkins, o comandante, convenceu-se de que aquela operação fora cuidadosamente planejada. O anúncio do sequestro seria feito no momento em que a resistência dos passageiros estivesse no seu nível mais baixo. Às duas da madrugada, arrancados do sono perturbante do voo intercontinental, provavelmente reagiriam apenas com resignação mal-humorada.

— Luzes da cabine e cintos de segurança ligados — informou o engenheiro, passando o microfone para a moça.

— Bom dia, damas e cavalheiros — começou ela, com voz cálida, clara e vívida. — Lamento acordá-los em hora tão inconveniente. Entretanto, tenho um anúncio importante a fazer e quero que todos prestem atenção.

Um princípio de agitação tomou conta das cabines lotadas: pessoas erguiam as cabeças por sobre os assentos da frente; cabelos eram arrumados e olhos sonolentos piscavam sem parar tentando afastar o sono.

— Vocês notaram que as luzes dos cintos de segurança estão acesas.

Cada um deve checar se o passageiro ao seu lado está acordado e com o cinto de segurança fechado... Comissários de bordo, por favor ajudem a ver isso.

Aquela providência era fundamental: os cintos inibiriam qualquer movimento súbito, qualquer ação espontânea ao primeiro choque. Ingrid fez uma pausa de sessenta segundos, marcados no cronômetro de seu relógio de pulso, antes de continuar:

— Primeiro, permitam que me apresente. Meu nome é Ingrid. Sou líder do Comando de Ação pelos Direitos Humanos...

Watkins torceu os lábios cinicamente ao ouvir aquele título pomposo, porém permaneceu calado, os olhos fixos no céu estrelado.

— e esta aeronave está sob meu comando. Em hipótese alguma qualquer um dos senhores poderá deixar seu assento sem a permissão expressa de um dos meus companheiros. A desobediência a essa ordem provocará a destruição da aeronave, com todas as pessoas que estão a bordo, por explosivo de alta potência.

Ingrid repetiu a mensagem em alemão fluente, depois em francês não tão fluente mas inteligível, antes de retornar ao inglês.

— Os membros do Comando de Ação vestem camisas vermelhas para identificação imediata e estão armados.

Enquanto ela falava, seus três companheiros da cabine de primeira, classe abriam o fundo falso de suas sacolas. Com apenas quatro centímetros de largura por trinta de comprimento, os fundos eram suficientes para abrigar uma pistola calibre 12 desmontada e dez cartuchos de balas. Os canos das armas tinham trinta centímetros de comprimento e as culatras eram lisas, de plástico blindado — material que não suportaria a passagem de uma bala convencional pelas estrias, nem de qualquer dos novos explosivos propelentes, mas que fora projetado para uso a baixa velocidade e pressão de múltiplos disparos e pólvora à base de nitrocelulose. As únicas partes de metal das pistolas eram o estojo de aço do pino de disparo e a mola, não maiores que um dos cravos da sacola de voo, de modo que não haviam ativado o detector de metal no aeroporto de Mahé. Da mesma forma, os cartuchos também possuíam revestimento plástico e apenas suas cápsulas de percussão continham alumínio, que não agiria sobre um campo elétrico.

Aquelas armas negras e feias exigiam recarga como uma pistola convencional, não possuíam dispositivo de auto-ejeção para as balas usadas e o coice era tão forte que quebraria o pulso do portador que não estivesse segurando firmemente na empunhadura. Entretanto, para pequenas distâncias, tinham um poder destrutivo aterrador: a quatro metros destripariam um homem; a dois metros seriam capazes de arrancar a cabeça rente ao pescoço. Só que não perfurariam o envoltório pressurizado de uma aeronave de grande porte.

Em poucos segundos, com as pistolas montadas e carregadas, os dois homens que haviam vestido as brilhantes camisetas escarlates que os identificariam moveram-se para suas posições, um nos fundos da cabine de primeira classe e o outro nos fundos da cabine de classe turística, onde se postaram com suas armas ostensivamente à vista.

A esguia e linda garota alemã de cabelos negros permaneceu em seu assento, trabalhando rápida e cuidadosamente na abertura de outros cocos cujo conteúdo transferiu para duas sacolas de rede. Eram granadas diferentes daquela carregada por Ingrid — tinham uma dupla linha vermelha pintada na metade, indicando serem de desintegração eletrônica.

Outra vez a voz clara de Ingrid invadiu o sistema de comunicações da cabine. Ao longo das filas de assentos, os passageiros estavam empertigados, mostrando nas faces uma expressão idêntica de choque e terror.

— Um membro do Comando de Ação está colocando granadas na cabine...

Tratava-se da garota morena, que percorria o corredor, abrindo as gavetas superiores para guardar as bagagens de mão e colocando ali uma granada a cada intervalo de quinze filas. Os passageiros giravam as cabeças sincronizadamente, acompanhando-a com uma fascinação mórbida.

— Cada uma dessas granadas tem poder suficiente para destruir esta aeronave. Elas foram projetadas para explodir um tanque de guerra protegido por uma blindagem de quinze centímetros. Nossa militante colocou catorze granadas por toda a extensão do avião. Podem ser detonadas simultaneamente por um transmissor eletrônico sob meu controle... — Um riso permeou a voz de Ingrid. — Se isto ocorrer, a explosão será ouvida até no Pólo Norte!

Os passageiros mexeram-se como folhas de uma árvore sob uma brisa suave. Ouviu-se então um choro de mulher, um som sufocado, que ninguém arriscou-se a olhar de onde vinha.

— Mas não se preocupem. Isso não vai acontecer. Porque vocês seguirão exatamente nossas instruções e, quando tudo estiver acabado, ficarão orgulhosos de terem feito a parte que lhes cabia nesta operação. Somos todos companheiros numa missão nobre e gloriosa, lutadores pela liberdade e pela dignidade do homem. Hoje demos um passo importante na direção de um mundo novo, livre das injustiças e da tirania e dedicado ao bem-estar de todos os cidadãos.

A mulher continuava a chorar, seguida agora por uma criança que soluçava mais alto e estridente.

A garota de cabelos negros retornou ao seu assento, pegou a câmara que tinha ativado o detector de metal no aeroporto de Mahé, pendurou-a no pescoço e agachou-se novamente para montar duas outras pistolas. Carregou-as com os cintos de cartuchos e então dirigiu-se à cabine de comando, onde a loira beijou-a delicadamente nos lábios.

— Karen, liebling, você é maravilhosa — disse Ingrid, pegando a câmara e colocando-a no próprio pescoço. — Isto não é o que aparenta ser — informou ela ao comandante. — É o detonador por controle remoto para as granadas colocadas na fuselagem.

Cyril fez que sim com um gesto de cabeça. Aliviada, Ingrid desarmou a granada que carregava há tanto tempo, recolocou seu pino de segurança, e passou-a para Karen.

— A quanto tempo estamos da costa? — perguntou enquanto abotoava o cinto com os cartuchos na cintura.

— Trinta e dois minutos — disse o engenheiro de voo. Ingrid abriu a culatra da pistola, checou a carga e fechou-a novamente.

— Você e Henri podem se sentar agora — disse a Karen. — Tentem dormir.

A operação talvez durasse muitos dias, e a exaustão seria o mais perigoso inimigo que teriam de enfrentar. Era unicamente por isso que estavam empregando uma força tão grande. Daquele momento para a frente, salvo em alguma emergência, dois deles ficariam em ação enquanto os outros dois estariam em repouso.

— Você fez um trabalho bem profissional — elogiou Cyril Watkins. — Até agora.

— Obrigada. — Rindo, Ingrid pôs a mão amistosamente em seu ombro. — Nós trabalhamos com afinco.

Peter Stride piscou três vezes as luzes do veículo enquanto se aproximava pela estreita estrada que conduzia à base militar. A sentinela mal teve tempo de abrir o portão para que ele entrasse em alta velocidade.

Aparentemente as coisas estavam tranquilas ao redor das duas aeronaves paradas no hangar. O Hércules Lockheed tomava a maior parte do edifício, que fora construído para acomodar os pequenos bombardeiros da Segunda Guerra Mundial. O estabilizador vertical de sua cauda ficava a poucos metros das vigas do teto.

Ao lado dele, o jato executivo Hawker Siddeley HS 125 parecia uma máquina refinada. As diferentes origens dos dois aparelhos indicavam que aquela unidade era uma associação que envolvia duas nações.

Colin Noble apressou-se a encontrar Peter, que desligava o motor do jipe.

— Temos uma grande noite pela frente, Peter — disse, com um sotaque típico do meio-oeste americano.

Na verdade Colin tinha a aparência de um bem-sucedido vendedor de carros, não de um coronel dos Fuzileiros Navais. No começo Peter achara que aquela divisão rigorosa de material e homens em partes iguais por nações diferentes poderia comprometer a eficácia do Atlas. Agora já não tinha mais dúvidas a respeito.

Colin usava um indefinido macacão azul e um boné, ambos bordados com a marca Comunicações Thor, de propósito, para ser confundido com um técnico qualquer. Ele era o imediato de Peter no Thor. Ambos se conheciam há apenas seis semanas, desde que Peter assumira o comando, mas depois de um curto período de precaução de parte a parte, haviam desenvolvido um forte laço de camaradagem e respeito mútuo.

Apesar de não ser alto, Colin tinha um porte robusto, um corpo atlético, e era todo músculos e ossos. Havia lutado boxe na categoria peso-pesado em Princeton e também nos Fuzileiros Navais. Por isso possuía o nariz retorcido e achatado — quebrara-o justamente abaixo do septo.

Colin cultivava as maneiras impetuosas de um atleta profissional, embora seus olhos cor de café queimado sempre mostrassem o brilho da inteligência. Mas era forte e astuto como um velho gato de rua. Bastava dizer que ganhara o respeito de Peter Stride em menos de seis semanas!

Agora Colin estava de pé entre as duas aeronaves, enquanto seus homens prosseguiam na preparação da operação Alfa com rapidez e eficiência.

Ambos os aparelhos eram pintados como os aviões de linhas aéreas comerciais, em azul, branco e dourado, e tinham um desenho estilizado do deus Trovão no estabilizador da cauda e o nome COMUNICAÇÕES THOR descendo pela fuselagem. Poderiam aterrissar em qualquer aeroporto do mundo sem levantar suspeitas.

— Qual é o problema de hoje, Colin? — perguntou Peter ao descer do jipe e caminhar ao encontro dele.

Para Peter, custara tempo e esforço adaptar sua linguagem e modos de forma a relacionar-se bem com seu subordinado. Entre outras coisas porque, sendo o mais jovem general-de-divisão do Exército britânico, sabia que o coronel Colin Noble sempre iria tratálo de ”sir”.

— Aeronave desaparecida. — Poderia ser um trem, o ataque a uma embaixada ou mesmo o rapto de um transatlântico. — Da British Airways. Mas, pelo amor de Deus, vamos sair desse gelo — concluiu, com o vento fustigando as pernas do seu macacão.

— Onde foi?

— No Oceano Índico.

— Estamos prontos para o Bravo? — perguntou Peter, subindo ao seu avião de comando.

— Sim, tudo pronto.

O interior do Hawker, reformado para funcionar como escritório e centro de comunicações, tinha acomodações confortáveis para quatro pessoas imediatamente atrás da cabine do piloto. Além disso, dois especialistas em eletrônica ocupavam um compartimento separado próximo à cauda do aparelho, depois do qual havia um pequeno toalete.

Um dos técnicos pôs a cabeça na porta quando Peter entrou no aparelho e disse:

— Boa noite, general Stride. Estamos em contato com o Atlas.

— Coloque a imagem na tela — ordenou Peter enquanto se acomodava no sofá de couro diante da pequena mesa de trabalho.

No painel à sua frente, o vídeo maior, que ficava embaixo de outras quatro telas usadas para conferências, entrou no ar, mostrando a cabeça de um homem, com um sorriso carismático e simpático.

— Boa tarde, Peter.

— Boa noite, sir.

Na tela, o dr. Kingston Parker fez um gesto indicando que se esquecera da diferença de horário entre Washington e a Inglaterra. Depois falou:

— Bem, até o momento estamos completamente desnorteados. Só sabemos que o BA 070, com quatrocentos e um passageiros e dezesseis tripulantes, voando de Mahé para Nairóbi, não se comunicou nos últimos trinta e dois minutos.

Parker presidia o Conselho de Supervisão dos Serviços Secretos e, entre outras coisas, funcionava como interlocutor do presidente dos Estados Unidos para todos os assuntos dessa área. Era amigo pessoal do presidente desde os tempos de faculdade, em Annapolis, onde tinham se graduado entre os vinte primeiros, indo em seguida trabalhar diretamente para o governo.

Na vida particular, Parker era um artista, um músico talentoso, escrevera quatro trabalhos académicos sobre filosofia e política, e obtivera o título de grande mestre em xadrez. Mesmo sendo uma pessoa de presença marcante, um humanista de rara inteligência, ainda assim caracterizava-se pela discrição, evitando a badalação da imprensa, não mostrando qualquer ambição — embora nem a própria presidência dos Estados Unidos fosse um sonho impossível para um homem como ele — saindo-se muito bem em qualquer cargo que lhe fosse confiado.

Peter Stride encontrara-o meia dúzia de vezes desde que o substituíra no Thor. Chegara a passar um fim de semana na casa dele, em Nova York, quando então seu respeito por ele aumentara ainda mais. Parker reunia as qualidades para ser o dirigente perfeito de uma organização complexa como o Atlas, que necessitava da moderação do filósofo para o trato com os soldados; do tato e do carisma do diplomata.para lidar diretamente com os chefes de governo, e sobretudo de alguém capaz de tomar, com rapidez e segurança, uma decisão que envolvesse centenas de vidas inocentes e implicasse consequências políticas imprevisíveis.

De maneira rápida e incisiva, Parker relatou no vídeo tudo o que sabia sobre o voo 070, a rotina de busca e salvamento que fora posta em ação, e logo acrescentou:

— Não quero ser alarmista, mas esse voo é um alvo perfeito. O avião transporta a nata da medicina em nível mundial, e a convenção era de conhecimento público há mais de um ano. Os médicos têm uma boa imagem, que toca fundo o sentimento público. Há americanos, ingleses, franceses, escandinavos, alemães e italianos. E em pelo menos três desses países existe atividade militante. O avião é britânico e poderia ser desviado para algum lugar onde fosse mais difícil qualquer medida de contra-informação. — Parker fez uma pausa. Uma pequena ruga de preocupação marcava-lhe a testa larga. — Mercúrio também está na posição Alfa. Se estivermos certos, possivelmente o destino final será a leste da última posição comunicada pela aeronave.

O braço ofensivo do Atlas compreendia três unidades idênticas — o Thor, cobrindo a Europa e a África; Mercúrio, sediada na base aérea e naval norte-americana da Indonésia, com raio de ação na Ásia e Austrália; e Diana, funcionando em Washington e pronta para agir em qualquer parte do continente americano.

— Estou com Tanner da Mercúrio no outro canal, Peter. Falo de novo com você daqui a pouco.

— Combinado, sir.

Assim que a imagem sumiu da tela de Peter, Colin Noble acendeu um de seus caros charutos holandeses e cruzou os tornozelos sobre a mesa à sua frente.

— Pelo jeito, o grande deus Thor desceu à terra para um pequeno bacanal. Depois de contentar uma das virgens vestais, ele lhe disse: ”Eu sou Thor”. ”Eu também”, ela replicou, ”mas foi muito divertido.”

Peter balançou a cabeça, aflito.

— Você acha isso engraçado?

— Ajuda a passar o tempo... Se for outro alarme falso, estaremos completando o décimo terceiro.

Colin bocejou, aborrecido. Não havia nada a fazer. Como já ocorrera antes, todas as providências necessárias à operação tinham sido tomadas. No Hércules ao lado, cada item de um arsenal de equipamentos estava pronto para uso imediato. Trinta e oito soldados muito bem treinados haviam embarcado, o mesmo ocorrendo com as tripulações de ambos os aviões. Os engenheiros de comunicações, por sua vez, contatavam os respectivos satélites e os computadores dos serviços de informação em Washington e Londres. Portanto, restava apenas esperar. Não era assim que a maior parte da vida de um soldado era gasta? Peter jamais fora indiferente a essa situação angustiante. Sua sorte era estar agora acompanhado por Colin Noble.

Para muita gente era difícil estabelecer uma relação de amizade mesmo estando cercada de colegas. Isso também acontecia no Thor, onde poucos chegavam a tornarem-se íntimos, embora o empenho nas tarefas fosse total. Peter e Colin, porém, eram amigos, e conversavam com descontração, passando casualmente de um assunto a outro, mas sem descuidar do estado de alerta que os mantinha firmemente unidos.

Depois de algum tempo, Kingston Parker voltou à tela para informar que a operação de busca não encontrara indícios da aeronave na última posição comunicada por ela, e que fora feita a varredura fotográfica da área através do satélite de reconhecimento Big Bird, mas o filme não estaria pronto para avaliação em menos de catorze horas. O Pássaro Veloz 070 estava atrasado uma hora e seis minutos em seu comunicado de ”operação normal”.

Subitamente, lembrando-se de Melissa-Jane, Peter pediu ao setor de comunicações uma linha telefónica. Ao discar para o chalé e não obter resposta, concluiu que o motorista já a tinha levado. Então ligou para Cynthia, em Cambridge.

— Isso não se faz, Peter. É uma desconsideração da sua parte — reagiu ela, recém-acordada, com uma voz petulante e antipática. — Melissa esperou tanto por esse encontro...

— Sim, eu sei, eu também esperei...

— E George e eu arrumamos tudo!

George, seu novo marido, era um pesquisador de história política; apesar de tudo Peter não o odiava. Ele era muito bom para Melissa-Jane.

— Ossos do ofício — explicou Peter com um toque de amargura na voz.

— Você não sabe quantas vezes eu tive de ouvir isso! E esperava nunca mais ouvir.

— Escute, Cynthia. Melissa está a caminho...

Naquele momento, o vídeo da televisão acendeu-se, trazendo outra vez a imagem de Kingston Parker, cujos olhos demonstravam intensa preocupação.

— Preciso desligar — disse Peter à mulher que certa vez amara, colocando o fone no gancho. Então voltou-se para a tela.

— Os radares de defesa da África do Sul captaram um alvo nãoidentificado aproximando-se do seu espaço aéreo — informou Kingston Parker. — Sua velocidade e posição correspondem às do 070.

Mandaram um Mirage-para interceptação. Mesmo assim estou achando que é um ataque de militantes, por isso passamos imediatamente para a condição Bravo, Peter.

— Já estamos de saída, sir.

Ainda com o charuto preso entre os dentes, Colin Noble tirou os pés da mesa e deixou-os cair juntos no assoalho.

EM POSIÇÃO DE ATAQUE e com todos os seus mísseis e canhões preparados, o computador de bordo do Mirage F-1 líder mostrava um tempo de interceptação de trinta e três segundos, para um objetivo que estava a 210 graus magnéticos e à velocidade de quase

900 quilómetros por hora.

A aurora surgia como um extraordinário espetáculo de cores. Nuvens prateadas e rosa enchiam o céu; e o sol, ainda abaixo da linha do horizonte, tingia-as com raios dourados, levemente escarlates. O piloto inclinou-se para a frente, forçando a alça do ombro, e ergueu o visor do capacete com a mão enluvada, aguçando a vista para a primeira espiada ao alvo.

Seu olho treinado de atirador captou imediatamente o pontinho escuro contra o dissimulado fundo de nuvens e luz solar. Com um movimento quase imperceptível nos controles, ele procurou evitar a aproximação direta ao objetivo.

O ponto negro cresceu de tamanho com impressionante rapidez à medida que os dois aviões convergiam — suas velocidades combinadas aproximavam-se de dois mil e quinhentos quilómetros por hora. Assim que teve certeza da identificação do outro, o piloto do Mirage deu um mergulho vertical — acompanhado pelos quatro outros aparelhos que o seguiam — descendo em formação ”cinco dedos” até aproximadamente mil e quinhentos metros sobre o alvo. De imediato, reduziu a velocidade para acompanhar a aeronave que tinha abaixo da sua.

— Cheetah, aqui é o líder Diamante; o alvo é um Boeing 747 da British Airways.

— Líder Diamante, aqui é Cheetah. Mantenha-se sobre o objetivo, a mil e quinhentos metros de altura, e evite qualquer atitude ameaçadora. Comunique-se novamente em sessenta segundos.

O JATO EXECUTIVO do general-de-divisão Peter Stride dirigia-se para o Sul, deixando para trás um ronco ensurdecedor. A cada minuto aumentava a distância da outra aeronave, de modo que quando alcançassem o destino final, fosse este qual fosse, haveria mil e quinhentos quilómetros ou mais separando-os.

Entretanto, a baixa velocidade do Hércules transformava-se em virtude quando a necessidade impunha a presença de homens e equipamentos em pequenas pistas não pavimentadas nos mais tumultuados recantos da Terra, às vezes nas condições ”alta e quente” que os pilotos mais temiam.

A função do Hawker era colocar Peter Stride no cenário da atividade terrorista o mais rápido possível. E a atividade do general, uma vez em ação, consistia em ser evasivo, adiar e ganhar tempo barganhando até que a equipe de assalto de Colin Noble se juntasse a ele.

Os dois homens ainda continuavam em contato. O vídeo de televisão do Hawker focalizava permanentemente o interior do Hércules. Assim, Peter pôde ver sua tropa, todos vestindo os macacões normais Thor, despreocupados e em atitudes relaxadas ao longo do corredor central do aparelho. No final do avião, Colin Noble estava sentado à mesa de trabalho, consultando a volumosa lista para a ”condição Charlie”, que seria o próximo estado de alerta se a ação terrorista fosse confirmada.

Ao avistar o amigo trabalhando, Peter Stride mais uma vez refletiu sobre os custos enormes de manutenção do Atlas, a maior parte financiada pelos Estados Unidos, através de verbas do serviço secreto, e os obstáculos e resistências que tiveram de ser superados para viabilizar o projeto. Somente o sucesso dos israelenses em Entebbe e dos alemães em Mogadíscio tornaram-no possível, embora ainda existisse violenta oposição nos dois países que se associaram para manter a unidade antiterrorista.

Com o clique preliminar e o zumbido característico, a tela central acendeu-se e a voz de Parker se fez ouvir, antes mesmo que sua imagem fosse estabilizada.

— Temo que seja a condição Charlie, Peter...

Peter sentiu o sangue correr mais rápido em suas veias. Era natural que um soldado, cuja vida inteira fora gasta em treinamento para um momento especial, desse as boas-vindas à chegada do momento esperado. Entretanto, não fazia sentido experimentar aquela emoção; nenhum homem normal deveria alegrar-se com a perspectiva de violência e morte e todo o sofrimento que lhes seguiria.

— A África do Sul interceptou e identificou o 070. Entrou no espaço aéreo do país há quarenta e cinco segundos.

— Houve contato por rádio? — perguntou Peter.

— Não. Tudo indica que a aeronave está sob o controle de militantes; por isso ficarei de plantão até que tudo esteja resolvido.

Kingston Parker jamais usava a palavra ”terrorista”, que considerava emotiva, e tampouco gostava de ouvi-la de seus subordinados. ”Nunca odeie cegamente seus adversários”, dissera certa vez. ”Entenda seus motivos, reconheça e respeite suas forças, e você estará melhor preparado para vencê-los.”

— Que cooperação poderemos esperar? — Peter quis saber.

— Todos os estados africanos com os quais entramos em contato prometeram apoio total ao Thor, incluindo uso do espaço aéreo sobre seus territórios, aterrissagem e facilidades de reabastecimento. Até os sul-africanos têm sido prestativos. O ministro da Defesa ofereceu-me a mais completa cooperação. Vai negar autorização para a aterrissagem do 070, se bem que na minha opinião os militantes pretendam ir até um dos estados negros ao norte. Você sabe o que eu penso sobre a África do Sul, Peter, mas no momento devo dizer que estão sendo muito corretos.

Parker pegou um cachimbo e começou a enchê-lo com tabaco. Suas mãos grandes mostravam dedos longos e ágeis como os de pianista, o que certamente ele era. E Peter lembrou-se do perfume do tabaco que ele usava. Mesmo sendo um não-fumante, Peter achara o odor agradável.

Depois de um momento de silêncio, ambos imersos em pensamentos, Parker franziu o cenho e. dando uma tragada no cachimbo, disse:

— E então, Peter, o que me diz?

— Bem, imaginei quatro cenários possíveis e nossas respostas a cada um deles, sir. Em primeiro lugar precisamos saber se esse ataque é à lallemande ou à 1italienne.

Parker assentiu com um gesto de cabeça. Ainda que os dois fossem bastante experientes em termos de especulações e métodos, precisavam discutir o assunto nos mínimos detalhes. Um ataque à italiana seria mais fácil de resolver, pois se tratava de um pedido direto de dinheiro. O método alemão envolvia a libertação de prisioneiros, exigências sociais e políticas que ultrapassavam as fronteiras nacionais. Após mais de uma hora de discussão, Parker declarou, alarmado:

— Conversaremos daqui a pouco, Peter. Temos novidades por aqui.

SOMENTE QUANDO o 070 penetrou no espaço aéreo reservado, reduzindo a velocidade apesar de não ter obtido a permissão do controle de tráfego, foi que o comando da Força Aérea da África do Sul deu-se conta do que estava para acontecer.

De imediato todas as frequências de aviação passaram a bombardear a aeronave com ordens urgentes de deixar o espaço aéreo nacional. Sem dar qualquer tipo de resposta, o Boeing descia lentamente rumo ao aeroporto internacional de Jan Smuts.

— British Airways 070, aqui é o controle de Jan Smuts. Você está expressamente proibido de entrar no tráfego. Você me ouve, 070?

— Britsh Airways 070, aqui é o comando da Força Aérea. Você está violando o espaço aéreo nacional. Suba imediatamente para dez mil metros e tome a direção de Nairóbi.


O Boeing, a menos de duzentos quilómetros do aeroporto, baixava para cinco mil metros de altitude.

— Líder Diamante, aqui é Cheetah. Obrigue o alvo a seguir sua viagem.

O Mirage, com sua camuflagem luzidia em verde e marrom, vistoriou por cima o gigantesco Jumbo de múltiplas turbinas, depois mergulhou por trás de sua cauda, para então aparecer na frente de seu nariz pintado de vermelho, branco e azul.

Com técnica e habilidade, o piloto alinhou o Mirage ao lado do Boeing, distante apenas trinta metros dele, e sinalizou com as asas a ordem ”siga-me”.

O 070 continuou seu curso serenamente, como se nada estivesse acontecendo. No instante seguinte, o Mirage aproximou-se ainda mais, reduzindo a distância entre as duas aeronaves para quinze metros. Outra vez mandou sinal com as asas e logo fez um giro na direção Norte, como fora ordenado por Cheetah.

O Boeing não mudou de rumo, continuando em sua aproximação a Joanesburgo. Foi então que o Mirage líder voltou a carga, ficando ligeiramente acima do jato de escapamento dos motores à esquerda do avião, até nivelar-se com a cabine de comando, de modo a poder observar o seu interior.

— Cheetah, aqui é Diamante Um. Tive uma boa visão da cabine. Tem uma pessoa estranha lá. É uma mulher. Parece que está com uma metralhadora.

Os tripulantes do 070 estavam brancos como ossos quando se voltaram para observar o interceptador. A loira inclinou-se para a frente e ergueu sua arma preta numa irónica saudação. O piloto do Mirage estava tão próximo que percebeu seu sorriso.

— É uma mulher jovem, cabelos loiros, mooi, baie mooi — comunicou o piloto. — Linda, muito bonita.

— Diamante Um, aqui é Cheetah. Posição para ataque frontal.

O Mirage avançou ruidosamente para a frente e subiu rápido para entrar em formação com as quatro aeronaves idênticas. Alinhadas na posição ”cinco dedos” passaram diante do Boeing.

— Cheetah, estamos em posição de ataque frontal.

— Voo Diamante. Simule ataque em intervalos de cinco segundos. Separação mínima. Mas não abra fogo. Deve ser um ataque simulado. Repito, é um ataque simulado.

— Entendido, Cheetah.

Bastante avançados em relação ao Jumbo, os Mirages deram a volta, apontando em sua direção. O F-1 líder acelerou, logo ultrapassando a barreira do som.

Cyril Watkins viu-o aproximar-se e gritou, assustado:

— Meu Deus! Isto é pra valer! — E tentou retomar o controle manual do Boeing, retirando a aproximação eletrônica que o piloto automático realizava.

— Mantenha-o estacionário — ordenou Ingrid, falando alto pela primeira vez. Apontando o cano duplo da pistola para o engenheiro de voo, acrescentou: — Agora não precisamos mais de um navegador.

Com um estrondo, o primeiro Mirage surgiu de repente diante deles, crescendo rapidamente até ocupar toda a visão do vidro da cabine. No último instante foi que desviou o nariz levemente, passando a poucos metros do aparelho. Entretanto, a turbulência gerada pela velocidade supersônica balançou o Jumbo gigantesco como se fosse um galho de árvore.

— Lá vem outro — gritou Cyril Watkins.

— Deixe que venha — disse Ingrid, pressionando a arma tão fortemente nas costas do engenheiro de voo, que ele bateu a testa na beirada do console do computador. Um filete de sangue escorreu em sua pele pálida.

À medida que as turbulências dos jatos atingiam o Boeing, uma após outra, Ingrid procurava agarrar-se ao encosto de um dos bancos, sem deixar de apertar a pistola contra a cabeça do engenheiro.

— Façam como mandei — gritava. — Se não, eu mato este. Os gritos aflitos dos passageiros chegavam através da porta fechada da cabine de comando.

Quando o último Mirage desapareceu de cena, o comandante recuperou a calma e rapidamente realinhou a aeronave na direção dos sinais de rádio da torre do aeroporto de Jan Smuts.

— Não vão nos ameaçar novamente — disse Ingrid, recuando um passo para permitir que o engenheiro erguesse a cabeça e limpasse o sangue na manga da camisa. — Eles não vão retornar. Estamos no espaço aéreo controlado.

Embora já tivessem alcançado a altura de dois mil metros, o horizonte estava obscurecido pela névoa de fumaça e calor do verão. À direita erguia-se a usina elétrica de Kempton Park com suas altas torres de refrigeração; perto dela, os venenosos montes com terra amarelada retirada das minas na planície africana. Mais adiante, as vidraças de milhares de habitações transformavam o sol da manhã em faróis intensamente luminosos.

Bem à frente surgia a reta azulada da pista principal do aeroporto.

— Vamos para a pista vinte e um — ordenou Ingrid.

— Não podemos.

— Faça o que lhe digo! O controle de tráfego já deve ter limpado a área. Não vão poder nos deter.

— Por que não? — retrucou Cyril. — Dê uma olhada na plataforma da pista.

Próximos como estavam do solo, podiam contar cinco caminhões de combustível e divisar a insígnia da Shell nos tanques.

— Vão bloquear a pista — acrescentou o piloto.

Além dos caminhões, cinco outros veículos do serviço de bombeiros e duas ambulâncias avançavam em fila indiana e, um após o outro, estacionavam a intervalos de poucas dezenas de metros na linha branca do centro da pista.

— Não podemos aterrissar — informou o comandante.

— Desligue o automático e assuma o controle. — A voz de Ingrid tinha um acento diferente, duro e cruel.

O Boeing baixava para os trezentos metros, rumo à pista 21, tendo à sua frente as luzes giratórias no topo dos veículos, que pareciam lampejar em desafio.

— Não posso ir por cima deles — declarou Cyril Watkins, num tom de voz decidido. — Vou acelerar e dar o fora daqui.

— Pouse na grama — ordenou a garota firmemente. — O lado esquerdo da pista é bastante plano. Vamos para lá.

Como se nada tivesse escutado, Cyril Watkins manejou os aceleradores fazendo as turbinas darem um estrondo e o avião mover o nariz para o alto.

O jovem engenheiro de voo movimentou-se na cadeira giratória e olhou para fora através do vidro. Numa postura rígida, tinha a expressão preocupada e o sangue na sua testa contrastava com a palidez da pele.

Quando ele estendeu a mão direita sobre a mesa, as juntas dos dedos estavam brancas e polidas como cascas de ovo.

Aparentemente sem movimentar-se, Ingrid pressionou o cano da pistola sobre o punho dele e apertou o gatilho.

O estampido foi tão violento que deu a impressão de ter arrebentado os tímpanos de todos no interior da cabine. Logo o ar encheu-se com o cheiro acre da cordite queimada. Na superfície da mesa, havia um buraco no metal do tamanho de uma xícara de chá.

O tiro amputara a mão do engenheiro, que caiu no espaço entre os assentos dos pilotos, com o osso do punho aparecendo em meio à carne lacerada. O rapaz crispava-se de dor como um inseto mutilado.

— Aterrisse — ordenou Ingrid. — Do contrário, o próximo tiro será na cabeça dele.

— Você é um monstro sanguinário! — gritou Cyril, vendo a mão amputada.

— Aterrisse ou você será responsável pela vida de seu colega. O engenheiro apertou o braço contra a barriga, em silêncio porém retorcendo-se de dor.

O piloto voltou a olhar para o amplo gramado aberto, entre os marcadores da pista de pouso e a estreita pista de rolagem. A grama baixa mostrava que o terreno era suficientemente plano para descerem sem problemas.

Cyril desacelerou o aparelho lentamente, quase como um autómato, e o trovejar das turbinas desapareceu, ao mesmo tempo que o nariz voltava-se novamente para baixo.

Ele manteve sua aproximação alinhada com a pista principal até alcançar as luzes da cabeceira da pista — não queria alertar os motoristas dos veículos de bloqueio de sua intenção enquanto ainda lhes sobrasse tempo de manobra.

— Sua puta assassina! — balbuciou Cyril. — Sua vagabunda assassina!

Assim que o Boeing tomou o rumo da longa faixa de grama, ele desligou os motores, mantendo o aparelho com o nariz para cima, de modo que apenas a traseira tocasse o solo.

A imensa máquina aterrissou na pista irregular, dando solavancos e cambaleios intensos enquanto Cyril manejava os lemes de direção para mantê-la alinhada, sustentando o nariz para o alto com o controle do leme. Nesse ínterim, o co-piloto revertia os imensos motores e acionava firmemente os freios principais de aterrissagem.

Os caminhões dos bombeiros e os de abastecimento passavam como raio sob a ponta da asa de estibordo. Os rostos de seus ocupantes, pálidos e aterrorizados, podiam ser vistos à medida que o

070 ia reduzindo sua velocidade, de tal forma que o nariz abaixou bem antes da parada final, justamente ao lado do edifício de onde se controlava a principal estação de radar.

Eram 7:25 da manhã e o Pássaro Veloz estava em terra firme.

— BEM, CONSEGUIRAM ATERRISSAR — informou Kingston Parker. — Você não imagina o que foi feito para evitar isso, Peter. A escolha do destino final confirma uma das suas suspeitas.

— A 1allemand — disse Peter, balançando a cabeça. — Deve ser política mesmo, sir.

— Então estamos diante da dura realidade que discutimos apenas em teoria. — Parker deu duas baforadas no cachimbo antes de acrescentar: — Militância moralmente justificável.

— Nesse ponto eu discordo. Isso não existe.

— Como que não? O que me diz dos oficiais alemães mortos nas ruas de Paris pela Resistência?

— Mas aquilo era guerra!

— Talvez o grupo que sequestrou o 070 acredite que esteja em guerra.

— Com vítimas inocentes?

— O Haganah fez vítimas inocentes, e mesmo assim estava lutando por algo certo e justo.

— Sou inglês, doutor Parker, portanto não espere que eu perdoe o assassinato de mulheres e crianças britânicas.

— Claro, claro. Mas não vamos falar dos Mau-Mau no Quénia, nem dos dias atuais da Irlanda. Quero colocar o exemplo da Revolução Francesa ou do começo do cristianismo, que cresceu sob a mais terrível perseguição já vista pelo homem. Por acaso isso não era militância moralmente justificável?

— Prefiro chamar de terrorismo compreensível mas reprovável; nunca de algo moralmente justificável.

Quando provocado, Peter costumava usar a palavra proibida, que invariavelmente fazia Parker crispar as espessas sobrancelhas.

— Há o terrorismo de cima e o de baixo — argumentou Parker, usando a palavra de que não gostava. — Se por um lado existe a coerção física e psicológica extrema, no sentido de induzir os outros ou de submetê-los, também existe a ameaça legal, o terror do fogo do inferno, o terror paternal com a promessa de castigo, assim como há exigências moralmente justificáveis, pois têm a ver com as aspirações dos fracos, dos pobres, dos oprimidos politicamente, vítimas inocentes de uma sociedade injusta. E seus gritos de protesto são estrangulados...

— Protesto fora da lei — replicou Peter, pouco à vontade.

— As leis são feitas por homens, quase sempre pelos ricos e poderosos; e são mudadas por homens, em geral depois de alguma ação militante. O movimento das mulheres pelo direito de voto, a campanha dos direitos civis nos Estados Unidos... — Parker riu. — Desculpe, Peter. Às vezes me confundo. É mais difícil ser um liberal do que um tirano. O tirano pelo menos nunca tem dúvidas. Proponho uma pausa de uma hora ou duas. Você certamente vai planejar as ações à luz dos novos fatos. Da minha parte, tenho certeza de que estamos lidando com militantes politicamente motivados, e não apenas com uma quadrilha de sequestradores que faz uma rápida investida contra o adversário. De qualquer modo, uma coisa é certa: antes de agir teremos de fazer um exame de consciência minucioso.

— PEGUE A SEGUNDA À DIREITA — disse Ingrid ao comandante. O Boeing passou da grama para a pista de rolamento sem problemas, pois não sofrera danos nos trens de aterrissagem. Entretanto, agora que deixara o ar, seu ambiente natural, perdera a graça e a beleza, tornando-se uma máquina pesada e desajeitada.

Ingrid, que nunca estivera antes na cabine de um Jumbo no solo, estava impressionada com a altura, que lhe dava a sensação de afastamento e de invulnerabilidade.

— À esquerda novamente — instruiu ela, guiando a aeronave para longe do edifício principal, em direção à extremidade sul da pista.

O terraço de observação do aeroporto estava apinhado de curiosos, mas toda a atividade no pátio de manobras fora suspensa. Ambulâncias, tratores e caminhões de abastecimento estavam vazios e não se via uma só pessoa nas plataformas.

— Pare na interseção.

Com a expressão carrancuda, Cyril Watkins fez o que lhe foi ordenado, depois girou no assento e disse:

— Preciso chamar uma ambulância para levar meu colega. O co-piloto e as aeromoças tinham estendido o engenheiro no piso do corredor, próximo à porta da cabine de comando. Usando guardanapos, amarraram-lhe o braço, na tentativa de estancar o sangramento. O cheiro da cordite misturava-se com o de sangue fresco.

— Ninguém sairá da aeronave — declarou Ingrid com firmeza.

— Esse rapaz sabe muito sobre nós e tem de ficar aqui.

— Pelo amor de Deus, moça! Ele precisa de assistência médica.

— Há trezentos médicos a bordo — disse ela, indiferente. — Os melhores do mundo. Dois deles podem vir atendê-lo.

Postando-se ao lado da mesa manchada de sangue, ela acionou o sistema de som interno. Cyril Watkins percebeu que, com uma simples olhada em seu funcionamento, ela já era capaz de operar os complicados aparelhos de comunicação. Sem dúvida alguma tratava-se de uma pessoa inteligente e bem preparada.

— Senhoras e senhores, acabamos de aterrissar no aeroporto de Joanesburgo. Ficaremos por aqui durante um longo tempo, talvez dias ou mesmo semanas. Nossa paciência tem limites, razão pela qual devo adverti-los de que qualquer desobediência será severamente punida. Houve uma tentativa de resistência e, como consequência, um membro da tripulação está gravemente ferido. Pode até morrer por causa do ferimento. Não queremos que esse incidente se repita. Entretanto, fiquem certos de que não hesitaremos em atirar novamente, ou em detonar os explosivos dos armários se isso se fizer necessário.

Naquele momento, os dois médicos escolhidos ajoelhavam-se ao lado do engenheiro, que tremia como uma vítima de febre em estado de choque, tendo a camisa branca coberta de sangue. Sem demonstrar remorso, nem preocupação, Ingrid continuou:

— Dois companheiros passarão agora pelos corredores e coletarão seus passaportes. Por favor, tenham à mão seus documentos.

Do lado de fora da aeronave, um agrupamento de quatro carros blindados surgiu de trás dos hangares de serviço. Eram a versão local dos Panhard franceses — pneus altos e pesados, uma torre central e canhões longos apontados para a frente. Circulando com cautela, os veículos estacionaram a trezentos metros do Jumbo, em quatro pontos: extremidades das asas, cauda e nariz, prontos para um ataque.

Ingrid observava-o desdenhosamente até que um dos médicos apareceu em sua frente. Era um tipo baixo e roliço, calvo e de aspecto enérgico.

— O rapaz deve ser levado imediatamente a um hospital.

— Isso está fora de cogitação.

— A vida dele está em perigo!

— A vida de todos nós está em perigo, doutor. Faça uma lista do que precisa. Tentarei conseguir o material necessário.

— ESTÃO PARADOS há dezasseis horas e o único contato foi para solicitar material médico e uma ligação de energia elétrica — disse Kingston Parker. A ausência do paletó e o nó de gravata frouxo eram os únicos sinais de que estava exausto pela vigília.

— Que tipo de material? — perguntou Peter, os olhos fixos na imagem da tela.

— Parece que houve um disparo casual. Pediram sangue AB positivo, o que é raro, mas consta na ficha de serviço que um dos tripulantes tem esse tipo de sangue. Dez litros de Plasmalyte B, um conjunto para transfusão de sangue, seringas, morfina e penicilina intravenosa, vacina antitetânica e vários equipamentos para tratamento de traumas físicos.

— E eles estão com ligação externa de energia?

— Claro, quatrocentas pessoas ficariam sufocadas sem o arcondicionado. A direção do aeroporto forneceu um cabo, que está ligado a um soquete externo. Todos os aparelhos elétricos da aeronave estão funcionando normalmente.

— Quer dizer então que poderemos desligar a chave a qualquer instante — comentou Peter, escrevendo num bloco de anotações.

— Ainda não fizeram nenhuma exigência? Nenhum negociador foi chamado?

— Por enquanto, nada. Eles parecem conhecer muito bem as técnicas de barganhar nesse tipo de situação, ao contrário dos nossos amigos, o país anfitrião. Talvez a gente tenha problemas com a mentalidade Wyatt Earp... Bem, Wyatt Earp era um xerife do Oeste lendário...

— Vi o filme e li o livro — respondeu Peter mordazmente.

— Pois bem, os sul-africanos estão loucos para entrar na aeronave. Tanto o nosso embaixador como o de vocês estão com dificuldades para segurá-los. Eles querem dar um pontapé na porta do saloon e entrar atirando. Acho que eles também viram o filme.

— Seria um desastre total! Esse pessoal ainda não percebeu que se trata de uma operação extremamente arriscada?

— Eu também acho. Você não precisa me convencer. Qual é seu tempo de voo até Jan Smuts?

— Acabamos de cruzar o rio Zambesi. — Peter olhou pela janela em forma de bolha, embora a visibilidade estivesse prejudicada pela névoa seca e por nuvens. — Ainda temos duas horas e dez minutos de voo, mas a equipe de apoio está três horas e quarenta atrás de mim.

— Tudo bem. O governo sul-africano convocou uma reunião ministerial, e nossos dois embaixadores estão lá como observadores. Serei obrigado a falar com os sul-africanos sobre a existência do Atlas... Ainda bem que neste caso o Comando está justificado. É uma unidade simples, acima de qualquer interesse nacional, e capaz de agir com rapidez e independência. Por falar nisso, já conseguimos a aprovação do presidente e do primeiro-ministro inglês para a condição Delta. — A condição Delta era a decisão de matar. — De qualquer modo, só colocarei Delta em ação como último recurso. Primeiro quero ouvir e considerar as exigências. Nesse aspecto estamos totalmente abertos à negociação.

Peter Stride coçou o queixo, na tentativa de disfarçar a irritação. Haviam chegado a um ponto polémico, a respeito do qual ele discordava por completo.

— Sempre que se deixa um militante escapar, imediatamente se criam as condições para ataques posteriores.

— Tenho autorização para a condição Delta — repetiu Parker num tom de voz ácido —, mas quero deixar claro que só será usada em último caso. Não somos uma unidade de extermínio, general Stride. Vou me comunicar agora com os sul-africanos para explicar a operação Atlas.

Assim que a imagem de Parker desapareceu do vídeo, Peter levantou-se abruptamente, querendo passar para o outro lado do corredor, mas acabou batendo a cabeça no console e caindo sentado outra vez no banco.

QUANDO KINGSTON PARKER deixou a mesa de vídeo do escritório externo da suíte que ocupava na ala oeste do Pentágono, os dois técnicos de comunicações saíram do seu caminho e a secretária particular abriu-lhe a porta do escritório interno.

Apesar de muito alto e forte, Parker tinha um andar gracioso, vestia roupas de fina qualidade, bem talhadas, o melhor que a Quinta Avenida podia oferecer; se bem que as usasse até se puírem, pois dava pouca importância a esse tipo de detalhe. De qualquer forma, aparentava ser dez anos mais moço que seus cinquenta e três anos. Os poucos fios prateados na vasta cabeleira confirmavam isso.

O escritório interno possuía uma decoração discreta, típica das repartições públicas americanas: prática e impessoal, exceto pelos livros que ocupavam as prateleiras e pelo piano de cauda Bechstein, por sinal grande demais para a peça. Parker deslizou a mão sobre o teclado do instrumento enquanto seguia rumo à escrivaninha.

Deixando-se cair na cadeira giratória, concentrou-se nos informes de inteligência que requisitara: dados pessoais, avaliações e estudos sobre as personalidades que de uma maneira ou de outra estavam envolvidas com o sequestro do Pássaro Veloz 070.

As duas pastas cor-de-rosa — cor que indicava segurança máxima — pertenciam aos embaixadores inglês e norte-americano e estavam assinaladas com a inscrição: ”Somente para nível ministerial”. As verdes continham relatórios sobre os membros do governo sul-africano com capacidade de tomar decisão em caso de emergência. A pasta mais grossa, referente ao primeiro-ministro, indicava que ele fora prisioneiro do governo pró-britânico do general Jan Smuts, durante a Segunda Guerra Mundial, por discordar do envolvimento do seu país na guerra. Qual seria o grau de simpatia que esse homem teria agora em relação a outros militantes?

Havia dossiês dos ministros sul-africanos de Defesa e Justiça, do encarregado de polícia e do comissário assistente, que recebera a responsabilidade de comandar a emergência. De todos eles, o primeiro-ministro era o único que aparentava uma personalidade forte, pouco influenciável e com capacidade de convencer. Provavelmente seria o homem de maior autoridade entre todos os que se encontravam no cenário da operação.

A última pasta, também cor-de-rosa, tinha o papelão da capa desbotado, de tão manuseada. Começada há cerca de dois anos, possuía anotações quadrimestrais desde então. Abaixo do título (Stride, Peter Charles), estava a recomendação: ”Somente para o dirigente do Atlas”.

Kingston Parker com certeza seria capaz de recitar seu conteúdo de cor; mesmo assim, preferiu desatar os laços, abri-la e folhear vagarosamente suas páginas soltas, enquanto dava baforadas no cachimbo.

Ali estava a radiografia completa da vida do seu subordinado. Nascido em 1939, em plena guerra, era filho de um militar que morrera em ação três anos mais tarde, quando a brigada blindada que comandava fora destruída por uma das devastadoras missões de Erwin Rommel nos desertos do Norte da África. Enquanto seu irmão gémeo herdara o título de baronete, Peter seguira a tradição da família, frequentando o colégio de Harrow e Sandhurst, onde deve ter desconcertado seus professores com seu brilho académico e sua relutância em participar dos times de esporte — preferia atividades mais solitárias como golfe, ténis e corridas de longa distância.

Kingston Parker ponderou sobre isso durante alguns minutos. Aqueles traços apontavam para o caráter do homem que chegara também a desconcertá-lo. Parker cultivava o generalizado desprezo intelectual pelos militares, e teria preferido um homem condizente com a imagem que fazia do soldado burro.

Quando o jovem Stride entrara no Exército, parecia que sua excepcional inteligência fora encaminhada para os canais convencionais, e a propensão para opiniões e ações independentes, colocadas em xeque, senão postas totalmente de lado... Até que seu regimento foi enviado a Chipre, em plena agitação naquele país. Uma semana após sua chegada lá, Stride estava sendo indicado, com a entusiástica aprovação do comandante da tropa, para o serviço secreto do Exército. Com certeza seu superior se dera conta das incríveis potencialidades daquele rapaz.

Bem, pelo menos uma vez, os militares tinham feito uma boa escolha, talvez até brilhante. Porque, a partir de então, Stride simplesmente não cometera erros, exceto o do casamento, que terminara em divórcio em dois anos. Se tivesse permanecido na tropa, isso teria afetado sua carreira; mas desde Chipre a trajetória de Stride fora tão anticonvencional e meteórica quanto seu cérebro.

Passando pelas mais diferentes e difíceis missões, ele aperfeiçoara seu talento e demonstrara tantas habilidades que, contrariando a tradição inglesa, atingira a hierarquia de comando antes dos trinta anos de idade.

No quartel-general da OTAN fizera amigos e admiradores de ambos os lados do Atlântico. E, ao final dos três anos de serviço em Bruxelas, fora promovido a general-de-brigada e transferido para a direção do Serviço Secreto Britânico na Irlanda, onde mais uma vez desempenhara a tarefa com dedicação e perspicácia.

Boa parte do crédito pela liquidação do terrorismo irlandês na Inglaterra pertencia a ele; e seu estudo aprofundado sobre a guerrilha urbana e a mente do militante, embora apenas de uso interno, era provavelmente o trabalho definitivo sobre o assunto.

O conceito Atlas aparecera pela primeira vez naquele estudo, razão pela qual Stride fora incluído na lista dos prováveis diretores do projeto. Sua escolha parecia certa — afinal de contas, os americanos ficaram impressionados com o estudo e seus amigos da OTAN não o haviam esquecido. Porém, apesar de aprovada em princípio, sua indicação sofrera forte oposição, sob o argumento de que um soldado profissional não era a pessoa ideal para dirigir um organismo tão delicado. Esse veto, vindo tanto de Washington quanto de Whitehall, acabara prevalecendo.

Kingston Parker esvaziou o cachimbo e, pegando a pasta que estava lendo, atravessou a sala até alcançar o piano. Colocou a pasta aberta sobre o porta-pauta, sentou-se no banquinho e começou a tocar.

A música, uma adorável melodia de Liszt, não interrompeu suas divagações, ainda que enchesse a sala com acordes suaves.

Parker opusera-se à indicação de Stride, a quem desde o começo considerara um tipo perigoso, cheio de ambições e projetos difíceis de controlar. Preferia outros nomes — Tanner, que agora comandava o braço Mercúrio de Atlas; ou Colin Noble. Assim, torcera para que Stride declinasse o comando do Thor, situado bem abaixo de sua capacidade.

Entretanto, Stride aceitara essa indicação inferior! Suspeitando que havia motivações secretas para isso, Parker fizera o possível para conhecer direitinho aquele homem. Em cinco diferentes ocasiões chamara-o a Washington, bombardeando-o então com todo o seu carisma e personalidade. Chegara até a convidá-lo para passar alguns dias em sua casa de Nova York. Ali, após horas e horas de discussões sobre os mais variados assuntos, aprendera a respeitá-lo intelectualmente, mas não fora capaz de tirar conclusões definitivas sobre seu futuro no Atlas.

Com um gesto lento, Parker virou a página da avaliação do caráter. Há muito tempo ele descobrira que, para encontrar a fraqueza de um adversário, devia começar pelas arestas. Mas não havia evidências de inclinação sexual antinatural em Stride. Ele não era homossexual — muito pelo contrário! Tivera no mínimo uma dezena de casos desde que se divorciara, todos eles discretos e com pessoas interessantes. Embora três das mulheres fossem casadas, nenhuma era esposa de seus subordinados, nem de oficiais da mesma patente ou mesmo de homens que pudessem de alguma forma prejudicar sua carreira.

E todas elas possuíam certos traços em comum: além de mais altas que a média das mulheres, eram inteligentes e bem-sucedidas: uma jornalista que tinha sua própria coluna no jornal; uma exmodelo de modas que criara uma griffe e agora comerciava suas roupas nas mais famosas lojas de Londres e do continente europeu; uma atriz de destaque da Royal Shakespeare Company, e assim por diante.

Parker percorria a lista com impaciência, pois não admitia que um homem sucumbisse tão facilmente aos ditames dos sentidos.

Celibatário convicto, ele canalizara todas as suas energias sexuais para a atividade intelectual, ao contrário de Stride, que era capaz de manter até três casos ao mesmo tempo.

Em outra área delicada, a das finanças, Stride também se saía ileso. Embora os pesados impostos britânicos tivessem corroído boa parte de sua herança, o que sobrara rendia-lhe mais de vinte mil libras esterlinas anuais. Juntando-se a isso seu salário e os privilégios que tinha como general, podia viver em alto estilo e dedicarse à extravagância de colecionar livros raros; e também damas raras, observou Parker com azedume.

Entretanto, não havia um indício sequer de qualquer operação ilícita; nem conta na Suíça, nem depósito em barras de ouro, nenhuma propriedade no exterior, nenhuma ação de companhias petrolíferas dirigidas por pessoas de sua relação. E Parker pesquisara o assunto diligentemente, pois isso indicaria receitas extras, talvez até de governos estrangeiros. Alguém na posição de Stride possuía segredos que poderia vender ao preço que ele mesmo estabelecesse.

Lembrando-se de que Stride não fumava, Parker tirou o velho cachimbo da boca e olhou-o afetivamente. Era seu único vício, que considerava inofensivo a despeito do que diziam os médicos.

Stride bebia com moderação e era considerado entendido em vinhos. Fazia cooper ocasionalmente, mais por exibição do que como um esporte. Parecia não praticar nenhum outro tipo de jogo. Nem mesmo a caça ou as competições de tiro, ocupações tradicionais de um nobre inglês. Talvez ele tivesse objeções morais a esportes sangrentos... embora parecesse improvável, pois era insuperável em tiro ao alvo com rifle e pistola. Tanto que representara a Inglaterra nas Olimpíadas de Munique, ganhando uma medalha de ouro na classe dos cinquenta metros, e treinava pelo menos uma hora por dia.

Parker virou a página para ver a história médica de Stride. Pelo jeito ele estava em ótima forma — aos trinta e nove anos, pesava apenas meio quilo a menos que aos vinte e um, e ainda treinava como um soldado recém-ingressado na tropa. No mês anterior, por exemplo, realizara dezesseis saltos de pára-quedas.

Parker fechou a pasta e continuou tocando piano. Mas nem a sensação agradável das teclas de jade nos dedos, nem a adorável cadência da música eram capazes de afastar a inquietude que o tomava. Aquele relatório, apesar de exaustivo, deixava de responder a pelo menos uma pergunta: por que Stride aceitara um posto menor como o comando do Thor, se não era do tipo que agia por impulso? E, mais preocupante do que isso, até onde poderia levar seu pensamento independente? Que tipo de ameaça a ambição forte, aliada a um intelecto privilegiado, representaria para a evolução do Atlas?

— Doutor Parker — chamou seu assistente, aparecendo à porta. — Temos novidades.

— Já estou indo. — Parker encerrou um acorde, com notas belas e tristes, antes de se levantar.

O HAWKER CORTAVA o céu quase em silêncio, com os motores desligados, a mil e quinhentos metros de altitude, enquanto se preparava para aterrissar. A menos de um quilómetro das luzes de aproximação, passou sobre a cerca de limite e tocou as marcas da divisa sete metros depois do início da pista, aplicando instantaneamente o freio máximo de segurança. O pouso foi tão curto e perfeito que pôde ser acompanhado do terminal do aeroporto, onde o Pássaro Veloz 070 estava parado na interseção sul da pista de rolagem principal.

O piloto girou o Hawker 360 graus e pegou a pista 15, usando apenas a potência necessária para manter o avião rolando.

— Perfeito — disse Peter Stride, atrás da cadeira do piloto, certo de que ninguém do 070 percebera sua chegada. — Prepararam um ponto para nós ao norte, com uma tomada elétrica para as baterias — acrescentou, ao ver o encarregado do pátio de manobra sinalizando com os anteparos. Perto do funcionário, havia um grupo de quatro homens esperando. Três deles usavam uniformes camuflados e o outro o uniforme azul, com chapéu e distintivo dourado da polícia da África do Sul.

Este oficial foi o primeiro a cumprimentar Peter assim que ele desceu da escada retrátil do Hawker.

— Prinsloo — apresentou-se, estendendo a mão. — Tenentegeneral.

Ele se colocou em posição de sentido, embora fosse apenas um policial. Era um homem forte, com óculos de armação prateada, um pouco obeso e cerca de cinquenta e cinco anos de idade. Tinha os movimentos pesados, a barbela e os lábios carnudos que Peter notara nos camponeses belgas e holandeses durante sua estada nos Países Baixos, a serviço da OTAN. Um homem da terra, duro e conservador.

— Permita que lhe apresente o comandante Boonzaier... Tratava-se de um militar graduado, um coronel, também jovem

e com o mesmo acento para falar que seu compatriota. Bastante alto, apenas dois ou três centímetros mais baixo que Peter, demonstrava ressentimento em relação ao policial.

— Fui instruído para receber ordens do senhor, general — declarou o coronel, enquanto os outros dois oficiais colocavam-se ao lado de Peter, um em frente ao outro. Isto lhe permitiu perceber que a hostilidade não era dirigida a ele. Havia atritos entre a polícia e os militares, o que ressaltava mais uma vez os valores básicos do Atlas.

Era absolutamente imprescindível que existisse um centro de comando cuja autoridade fosse inquestionável. Um exemplo do passado recente ilustrava muito bem essa necessidade: o aeroporto de Larnaca, do qual os sequestradores de um jato saíram incólumes, transformara-se em escombros sob os bombardeios de aeronaves egípcias, com dezenas de cipriotas e egípcios mortos, porque os comandos egípcios e os guardas nacionais de Chipre não haviam chegado a um acordo em relação a quem dirigia a operação. Um dos princípios da estratégia terrorista consistia em atacar num ponto onde as responsabilidades nacionais ficassem ofuscadas. E o Atlas eliminava isso por completo.

— Obrigado — disse Peter ao coronel. — Minha equipe de apoio chegará em três horas. Nós só recorreremos à força em último caso; e se isto acontecer, usaremos exclusivamente o pessoal do Atlas. Gostaria que isso ficasse claro desde agora.

Os militares sul-africanos deram mostras de desapontamento. Um deles tentou contra-argumentar.

— Meus homens são a elite... Peter, porém, interrompeu-o:

— Trata-se de uma aeronave britânica, a maior parte dos sequestrados ou é inglesa ou de nacionalidade americana, e esta decisão é política. De qualquer modo precisarei da ajuda de vocês em outros aspectos. Em primeiro lugar quero saber onde posso instalar meu equipamento de vigilância.

NÃO HOUVE DIFICULDADES para escolher um posto de observação no aeroporto — a sala da gerência, um escritório parcamente mobiliado, no terceiro andar do edifício central, dando vista para a área de serviço e para o lado sul da pista de rolamento onde o Jumbo estava estacionado.

As janelas tinham ficado abertas quando da evacuação dos escritórios, por isso não havia necessidade de mudar a aparência externa do local. Ali, a sacada comprida do andar superior fazia sombra na sala, de tal forma que um observador externo, sob o clarão da luz solar, não seria capaz de ver o interior da peça, mesmo com lentes poderosas. Com certeza os sequestradores esperariam vigilância da torre de vidro que ficava mais acima... e qualquer decepção que tivessem, mesmo trivial, era significativa.

O equipamento de vigilância, leve e compacto, consistia de câmaras de televisão do tamanho de uma filmadora doméstica de 8 mm, com tripés de alumínio que qualquer pessoa poderia carregar usando apenas uma das mãos. Porém, apesar de compactas, tinham lentes zoom de 800 mm de comprimento focal, e produziam imagens que eram repetidas nas telas do console da cabine do Hawker e gravadas simultaneamente em videoteipe.

O intensificador de áudio, ainda que mais volumoso, não pesava muito. Tinha uma antena parabólica de um metro e vinte, equipada com um coletor de som no centro. Seu visor telescópico poderia ser direcionado para uma fonte sonora com a mesma precisão de um rifle telescópico: focalizando os lábios de alguém a oitocentos metros de distância, seria capaz de captar sua conversa, levando o som diretamente ao console de comando enquanto gravava-o em grandes bobinas magnéticas.

Dois técnicos em comunicações ficaram em vigília com o aparelho, supridos com garrafas de café e sanduíches, enquanto Peter, acompanhado pelo coronel sul-africano e seus auxiliares, dirigia-se ao elevador para subir até a sala de vidro da torre de comando.

DA TORRE DE CONTROLE do tráfego aéreo tinha-se uma vista completa do campo de pouso e das plataformas e áreas de serviço do terminal. O terraço de observação abaixo da torre estava livre de curiosos; tinha apenas alguns militares circulando.

— Bloqueamos todos os acessos ao aeroporto. Somente os passageiros com reserva confirmada poderão entrar. Além disso, apenas a seção norte do terminal está sendo usada para o tráfego — informou o coronel Boonzaier.

Peter assentiu com um movimento de cabeça e então perguntou:

— Qual é a situação do tráfego?

— Estamos negando autorização para qualquer voo particular, saindo ou entrando. Os voos domésticos foram deslocados para os aeroportos de Lanseria e Germiston. Portanto só estamos operando os voos internacionais, com uma média de três horas de atraso nas partidas.

— A que distância do 070 estão operando? — Peter quis saber.

— Por sorte a ala internacional está bastante longe da aeronave, e bloqueamos as pistas de rolamento e as plataformas da seção sul. Ou seja, limpamos toda a área, exceto os hangares das linhas aéreas nacionais que têm aviões em vistoria e manutenção. Fora isso, não há nenhuma outra aeronave num raio de mil metros do Jumbo.

— Talvez seja necessário suspender todo o tráfego se... se tivermos uma invasão.

— De acordo, sir

— Mas por enquanto fica tudo como está.

Dito isso, Peter ergueu o binóculo e direcionou-o para o Boeing

070, que estava em total isolamento, silencioso e aparentemente abandonado. A pintura brilhante e quase espalhafatosa dava-lhe um ar carnavalesco. As lanternas vermelhas, azuis e brancas da cauda refletiam os raios solares. Como se encontrava estacionado lateralmente em relação à torre, via-se que as portas estavam fechadas e trancadas.

Peter percorreu vagarosamente a linha das janelas ao longo da fuselagem, notando que os anteparos para o sol estavam fechados, de modo que o avião lembrava um inseto cego, de múltiplos olhos.

Os vidros da lateral da cabine de comando também tinham sido tapados com almofadas, suspensas do teto, impossibilitando a visão dos tripulantes e de seus captores; além de prevenir tiros vindos de fora. Se bem que, da esquina mais próxima do terminal, menos de quatrocentos metros, os atiradores treinados do Thor, munidos com as novas lentes telescópicas a laser, poderiam até escolher o olho em que meteriam a bala.

Serpenteando pelo amplo pavimento da pista de rolamento, via-se o cabo elétrico que fornecia energia à aeronave — um comprido e vulnerável cordão umbilical. Peter observou-o por alguns instantes antes de voltar a atenção para os quatro carros blindados Panhard. Uma ruga de irritação apareceu em sua testa.

— Coronel, por favor, chame de volta aqueles veículos — disse por fim, tentando manter a voz calma. — Com as torres trancadas, os ocupantes vão assar como um peru de Natal.

— Perfeitamente, general. Julguei que fosse minha obrigação deixá-los lá. — Boonzaier dirigiu-lhe um sorriso amigável, embora seus olhos tivessem um brilho duro.

— Acho melhor descarregar a atmosfera o máximo possível.

A necessidade de dar explicações aborrecia Peter, que mesmo assim mantinha o sorriso. — Estando sob a mira de canhões é mais fácil que alguém se precipite e puxe o gatilho. Deixe os carros pela redondeza, mas fora do campo de visão dos sequestradores. E mande os homens descansarem.

Contrafeito, o coronel passou a ordem por um walkie-talkie que levava na cintura. Assim que os veículos se afastaram para trás da linha dos hangares, Peter continuou:

— Quantos homens você distribuiu por aqui? — E apontou para os soldados que estavam no terraço de observação, depois para as cabeças visíveis como pontinhos entre o céu azul e a silhueta dos hangares de serviço.

— Duzentos e trinta.

— Mande-os embora. E de forma tal que os ocupantes da aeronave os vejam.

— Todos eles? — indagou Boonzaier, incrédulo.

— Todos eles. E rápido, por favor, coronel.

Outra vez o homem levou o walkie-talkie até a boca para transmitir a ordem. Houve um princípio de atropelo entre as tropas do terraço de observação, antes que os soldados entrassem em formação e marchassem em fila. Seus capacetes de aço, como uma linha de cogumelos em botão, assim como os canos dos fuzis ao ombro, eram perfeitamente visíveis para um observador no Boeing.

— Se a gente tratar esses animais com moleza... — resmungou o coronel, bufando de raiva, mas foi interrompido por Peter, que já esperava aquela reação:

— Acontece que se você mantiver os fuzis apontados para eles, fará com que fiquem alertas e excitados. Deixe-os sentarem-se um pouco e relaxarem, deixe-os ficar bem confiantes.

Novamente Peter vasculhou a área com o binóculo, tentando encontrar um bom lugar para seus quatro atiradores. Era pouco provável que pudesse usá-los (teriam de atingir todos os sequestradores no mesmo instante), mas, prevendo uma chance remota, decidiu colocar um no teto do hangar de serviço, na abertura de um grande ventilador, de onde se avistava a porta lateral da aeronave; dois outros atiradores cobririam a cabine de comando por ambos os lados; o último usaria a canalização de drenagem que abrigava o radar de aproximação e as luzes de balizas. O local estava nas costas do inimigo, que jamais esperaria fogo daquele quadrante.

Ponto por ponto, Peter planejou suas ações, rabiscando o que decidia em uma pequena caderneta com capa de couro. Estudou minuciosamente o mapa do aeroporto, convertendo ângulos e gradientes em campos de fogo, mediu a ”cobertura de terra” e ”tempo de atingir o alvo” para todos os problemas possíveis, esforçando-se para obter novas soluções para cada um deles — precisava pensar à frente do inimigo, que ainda não tinha face e era infinitamente ameaçador.

Depois de uma hora de trabalho duro, sentiu-se satisfeito. Poderia agora passar as coordenadas para Colin Noble, a bordo do Hércules que se aproximava, e quatro minutos após o pouso da aeronave, sua equipe altamente treinada estaria em posição de ataque.

Peter ergueu a vista do mapa enquanto colocava o bloco de anotações no bolso da camisa. Perscrutou mais uma vez cada centímetro do silencioso Jumbo de escotilhas fechadas, agora deixando-se levar pela emoção. A raiva e o ódio subiam-lhe do mais recôndito de sua alma e fluíam pelo sangue, fazendo-o contrair os músculos.

Sentia-se desafiado pelo monstro de múltiplas cabeças. A fera escondia-se lá fora, numa cilada, esperando por ele como das vezes anteriores. Uma série de imagens tomava-lhe a mente: os cacos de vidros arrebentados que cobriam os paralelepípedos de uma rua de Belfast, reluzindo como diamantes, acompanhados do cheiro de explosivos e de sangue; uma moça caída na sarjeta, em frente a um restaurante londrino da moda, com o corpo mutilado pela explosão, que a deixara apenas de calcinha cor de pérola; uma família inteira, pai, mãe e três crianças pequenas, ardendo no interior de um automóvel, os corpos contorcendo-se num balê macabro enquanto as chamas consumiam o veículo; por fim, os olhos atemorizados de uma criança, toda ensanguentada, com um braço desmembrado caído ao seu lado, os dedos pálidos ainda apertando uma boneca de pano.

Essas imagens desfilavam em sequências desconexas pela memória de Peter, provocando-lhe um ódio tão intenso que o obrigava a morder o lábio e cerrar os punhos, na tentativa de controlar-se.

Tratava-se do mesmo inimigo que ele já caçara antes, porém o instinto o advertia que o monstro crescera, tornara-se mais forte e mais desumano desde que o encontrara pela última vez.

Peter lutou para afastar essas ideias da cabeça, que poderiam enfraquecê-lo e minar sua resistência durante as horas difíceis, ou dias, que teria pela frente. Mas aquele sentimento poderoso, nutrido por muito tempo, insistia em atormentá-lo. Mesmo reconhecendo que a raiva era o vício do inimigo, que dela elaborava suas filosofias distorcidas e suas ações monstruosas, e que descer ao ódio era descer ao nível subumano, ainda assim a raiva persistia. Contudo, Peter entendia que a origem desse sentimento não estava no horror às mortes e mutilações que presenciara com tanta frequência, mas sim na compreensão de que uma grande ameaça pairava sobre a civilização. Se o mal triunfasse, então as leis passariam a ser feitas pelo selvagem olho revolucionário, com uma arma na mão — o mundo seria dirigido por destruidores em vez de construtores. Peter Stride sentia calafrios diante dessa possibilidade, ainda mais que diante da violência e do sangue. E isso ele odiava como um soldado, que melhor do que ninguém conhecia o verdadeiro horror da guerra.

Agora, o instinto de soldado aconselhava-o a atrair o inimigo para destruí-lo; porém, o filósofo que havia nele advertia-o de que ainda não chegara o momento... Foi necessária muita força de vontade para dar ouvidos à razão. De qualquer modo, ele estava consciente de que era por aquele momento, por aquela confrontação com as forças do mal que colocara em risco sua própria carreira.

Ao ser afastado da direção do Atlas, substituído por uma nomeação política, Peter deveria ter recusado a oferta de uma posição inferior no comando. Em vez disso, porém, escolhera permanecer no programa, esperando que ninguém desconfiasse de que estava ressentido. Desde então, Kingston Parker não tinha nenhuma queixa a fazer dele. E sua lealdade fora testada mais de uma vez.

Finalmente, chegara o momento para o qual tanto havia trabalhado. O inimigo esperava-o lá fora, na pista castigada pelo sol africano, não numa ilha agradável, nem na imunda rua de uma cidade apinhada. Ainda assim era o velho inimigo. E estava na hora de enfrentá-lo.

A IMAGEM DE COLIN NOBLE ocupava a tela principal do console, quando Peter entrou na cabine do Hawker, agora transformado em seu posto de comando. A tela à direita mostrava uma vista panorâmica da ala sul do aeroporto, com o Boeing parado como um filhote de águia no centro da cena. No vídeo seguinte, via-se uma ampliação do zoom de 800 mm, mostrando a cabine de comando do Jumbo. O detalhe era tão claro que se podia ler o nome do fabricante na almofada que tapava o vidro da janela. A quarta tela exibia o interior da torre de controle de tráfego. Em primeiro plano, os controladores em mangas de camisa, sentados frente às telas do radar; ao fundo, numa tomada de cena através das janelas de iluminação, outra vez o Boeing. Todas essas filmagens estavam sendo feitas por câmaras instaladas uma hora antes no edifício do terminal. A última tela pequena estava sem imagem. E o rosto bemhumorado de Colin Noble continuava no vídeo principal.

— Droga, vocês estão vindo a cavalo? — brincou Peter. — Estou cansado de esperá-los...

— Por que tanta pressa, companheiro? Parece que a festa nem começou... — Colin sorriu, metendo seu boné de beisebol na cabeça.

— Tem toda razão. E o pior é que nem ao menos sabemos quem vai dar a festa. Qual é sua previsão de chegada?

— Daqui a uma hora e vinte e dois minutos.

— Ótimo. Então vamos trabalhar.

No instante seguinte, Peter começou seu relato, usando as anotações que fizera. Quando queria enfatizar algum ponto, pedia uma mudança de enquadramento ao câmara, que focalizava a objetiva de acordo com a instrução do chefe, ora tomando cenas da cabana do radar, ora da abertura do ventilador no hangar de serviço, onde se postariam os atiradores. A imagem aparecia não apenas no console de comando, mas também no interior do Hércules, de forma que os homens que seriam designados para ocupar aquelas posições pudessem estudá-las e prepararem-se convenientemente. As mesmas imagens eram enviadas para um satélite, e dali remetidas para a sede do Comando Atlas na ala oeste do Pentágono.

Sentado como um velho leão em sua cadeira de braços, Kingston Parker seguia cada palavra do relatório. Porém, quando um longo telex lhe foi passado por seu assistente, ele acionou um botão para que sua própria imagem aparecesse no console do Hawker.

— Desculpe interrompê-lo, Peter, mas conseguimos alguns dados bastante úteis. Considerando que o grupo militante abordou o 070 em Mahé, pedimos à polícia de Seychelles uma lista de todos os passageiros embarcados. Havia quinze, dez dos quais residentes em Seychelles: um comerciante local e sua esposa, e oito crianças desacompanhadas, entre nove e catorze anos de idade. São filhos de funcionários civis expatriados, empregados sob contrato pelo governo da ilha, retornando à Inglaterra para o novo semestre escolar.

O peso do medo abateu-se sobre Peter como um fardo físico. Crianças, vidas jovens, expostas à sanha assassina de um bando de irresponsáveis...

Parker tinha a folha do relatório na mão esquerda, com a direita coçava a nuca, usando a ponta do cachimbo. Ele prosseguiu:

— Existe um negociante britânico, da Shell Oil Company, bastante conhecido na ilha, e também quatro turistas, um americano, um francês e dois alemães. Pelo jeito estão viajando em grupo; o pessoal da imigração e os funcionários de segurança lembram-se bem deles. São duas mulheres e dois homens, todos jovens. Nomes: Sally-Anne Taylor, vinte e cinco anos, americana; Heidi Hottschauser, vinte e quatro; Gunther Retz, vinte e cinco, esses dois alemães; e Henri Larousse, vinte e seis, francês. A polícia investigou os antecedentes dos quatro. Eles passaram duas semanas no Reef Hotel, nas cercanias de Victoria, as mulheres em um quarto duplo e os homens noutro. Ficaram a maior parte do tempo nadando e tomando sol, até cinco dias atrás, quando um pequeno iate aportou em Victoria. Trinta e cinco pés de comprimento, de dirigibilidade autónoma por todo o mundo, capitaneado por outro americano. Os quatro permaneceram a bordo enquanto o iate esteve ancorado, isto é, até vinte e quatro horas antes da partida do 070.

— Se o barco forneceu as armas e munições, então a operação foi planejada há um longo tempo — ponderou Peter. — E muito bem planejada. — O sangue fervia-lhe nas veias à medida que o inimigo tomava forma, que o perfil da besta tornava-se claro, cada vez mais feio e mais ameaçador.

— Você obteve os nomes através do computador? — perguntou Peter.

— Não. Não há ficha arquivada deles, ou os nomes e passaportes são falsos...

Naquele exato momento, houve uma súbita atividade na tela que monitorava a torre de controle do tráfego aéreo — uma voz gritava pelo alto-falante secundário. Como o volume estava ajustado muito alto, o técnico de bordo baixou-o rapidamente. Era uma voz feminina, suave e com sotaque da costa oeste dos Estados Unidos:

— Torre de Jan Smuts, aqui é a líder do Comando de Ação Pelos Direitos Humanos, que tem o controle do Pássaro Veloz 070. Prepare-se para copiar uma mensagem.

— Contato — gritou Peter. — Enfim contato!

Na pequena tela, Colin Noble sorriu e rolou com habilidade seu charuto de um lado para o outro da boca.

— A festa começou — disse ele num tom cortante, apesar de se esforçar para ser jocoso.

OS TRÊS TRIPULANTES do Jumbo estavam prisioneiros nos assentos da primeira classe que haviam sido ocupados pelo grupo de sequestradores. Ingrid fizera da cabine de comando seu quartel-general, onde trabalhava com a pilha de passaportes, relacionando o nome e a nacionalidade de todos os passageiros.

A porta que dava para os corredores estava aberta; mesmo assim, só se ouvia o ruído do ar condicionado, pois as conversas estavam proibidas, e os militantes patrulhavam as cabines para garantir o cumprimento da ordem.

Eles também disciplinaram o uso dos toaletes — só depois que o passageiro retornasse ao seu assento era que o outro poderia levantar-se. Além disso, as portas do banheiro ficavam abertas durante o uso, para que os comandos pudessem checar com uma simples olhadela.

A despeito do silêncio, a tensão enchia o ar ao longo da fuselagem do 070. Alguns passageiros, a maior parte crianças, estavam dormindo; os outros sentavam-se eretos, os rostos demonstrando pânico, enquanto observavam seus captores com uma mistura de aversão e medo.

Henri, o francês, apareceu na cabine de comando e informou:

— Estão retirando os carros blindados.

Era um rapaz magro, bastante jovem, com olhos de poeta sonhador. O bigode loiro caído constrastava com essa imagem. Ingrid olhou-o surpresa.

— Você parece nervoso, chéri. Tudo vai sair bem.

— Não estou nervoso — respondeu ele, tenso. Ela riu, aproximando-se dele.

— Não quis te insultar — sussurrou, beijando-o na boca. — Você já provou sua coragem muitas vezes.

Deixando a pistola sobre a mesa, Henri apertou-a de encontro ao peito. Com a respiração apressada, insinuou a mão por dentro da camisa de algodão vermelha que ela usava. Tocou-lhe os seios e massageou-os até que os mamilos se enrijecessem. Quando, porém, ele tentou abrir o zíper do short de Ingrid, ela empurrou-o bruscamente.

— Mais tarde — disse com aspereza. — Quando este assunto estiver acabado. Agora volte para o seu posto.

Ingrid inclinou-se para a frente, afastando um canto da almofada que tapava a janela da cabine. Sob o sol brilhante, avistou a fila de capacetes sobre o parapeito do terraço de observação. Puxa, estavam retirando as tropas também. Aproximava-se a hora de começar a falar; mas seria interessante cozinhá-los em banho-maria por mais algum tempo.

Após abotoar a camisa e recolocar a câmara ao redor do pescoço, ela parou por alguns instantes na cozinha para arrumar os cabelos. Então avançou lentamente ao longo do corredor central, detendo-se apenas para ajeitar a almofada de uma criança dormindo e ouvir as reclamações de uma mulher grávida, esposa de um neurocirurgião texano.

— Você e as crianças serão os primeiros a saírem do avião. Eu prometo.

Quando alcançou o corpo estendido do engenheiro de voo, ajoelhou-se ao seu lado, perguntando ao médico que o atendia como estava o rapaz.

— Está dormindo. Apliquei-lhe uma injeção de morfina. — Ao responder sem encará-la, o médico escondeu a expressão de ódio que marcava seu rosto.

O engenheiro estava com o braço ferido suspenso e envolto em bandagens. Manchas horríveis de sangue ainda lhe empapavam a camisa.

— Você fez um bom trabalho — disse Ingrid. — Obrigado. O homem olhou-a espantado. E ela dirigiu-lhe um sorriso adorável, capaz de cativar qualquer um.

— Aquela senhora é sua esposa? — perguntou Ingrid em voz baixa, apontando para uma judia rechonchuda, de pequena estatura, sentada mais adiante. Quando o médico fez que sim, a loira sussurrou: — Colocarei ela entre os primeiros a saírem.. — E.indiferente ao ar de gratidão que via no rosto dele, levantou-se e dirigiu-se para o fundo do avião.

O jovem alemão que fazia guarda em frente à cabine turística, ao lado da entrada cortinada da segunda cozinha, tinha os traços de um fanático religioso: olhos escuros e profundos, cabelos negros quase chegando aos ombros, uma cicatriz branca repuxando o canto do lábio superior.

— Tudo bem, Kurt? — perguntou ela em alemão.

— O pessoal está reclamando de fome.

— Vamos alimentá-los daqui a duas horas; mas não tanto como eles esperam. Ah, esses imundos porcos gordos da burguesia!

Mal acabou de falar, Ingrid deslizou para a cozinha, fazendo uma pose insinuante. O rapaz seguiu-a de imediato e fechou as cortinas atrás de si.

— Onde está Karen? — perguntou Ingrid, enquanto desafivelava o cinto. Seu olhar, sua pele, seu corpo inteiro demonstravam excitação.

— Ela está descansando no fim do corredor.

Ingrid abriu o botão da frente do short, depois o zíper.

— Venha, Kurt — sussurrou com voz rouca. — Agorinha mesmo...

INGRID ESTAVA SENTADA na poltrona do engenheiro de voo, tendo a seu lado, de pé, a garota dos cabelos negros, que usava o cinto de munições cruzado sobre o peito, como um bandoleiro, e carregava a pistola na cintura.

Ingrid pegou o microfone e, penteando os cabelos com os dedos da outra mão, leu o resumo da lista de passageiros:

— Cento e noventa e oito ingleses; cento e quarenta e seis de nacionalidade americana. Há cento e vinte e duas mulheres a bordo e vinte e seis crianças com menos de dezesseis anos. — Depois de transmitir sua mensagem, ela mudou de posição no assento e sorriu para Karen. A garota retribuiu o sorriso e estendeu a mão para acariciar-lhe os cabelos dourados. Em seguida sentou-se ao lado dela.

— Copiamos sua última transmissão — disse uma voz masculina através do receptor.

— Pode me chamar de Ingrid — respondeu a loira ao microfone, com um sorriso diabólico. Houve um instante de silêncio enquanto o controlador na torre recuperava-se da surpresa.

— Aqui é Roger. Você tem alguma outra mensagem para nós?

— Afirmativo, torre. Esta aeronave britânica tem trezentos e quarenta e quatro passageiros que são ou ingleses, ou americanos. Quero um representante das embaixadas dos dois países. Ele deve estar aqui em duas horas para ouvir os termos de liberação dos passageiros.

— Aguarde, Ingrid. Estaremos de volta assim que entrarmos em contato com os embaixadores.

— Não se faça de bobo, torre. Sei muito bem que eles estão respirando atrás do seu pescoço. Diga-lhes que quero um homem aqui em duas horas, do contrário serei forçada a liquidar com o primeiro refém.

USANDO APENAS calção de banho e ténis, ainda assim Peter Stride sentia-se satisfeito com a perspectiva do encontro iminente com Ingrid.

— Daremos cobertura a você em cada centímetro do percurso de ida e volta até lá — disse Colin Noble, fustigando-o como um treinador sobre o boxeur antes de soar o gongo. — Vou dirigir pessoalmente os atiradores.

A equipe de atiradores estava a postos com Magnuns especiais 222 fabricadas a mão, carregadas com um tipo de bala leve mas de incrível velocidade e força de impacto, igual às que se usavam em competições. Projéteis perfeitamente redondos, polidos e muito bem acabados. Os telescópios infravermelhos eram facilmente intercambiáveis com os a laser, possibilitando excelente visão do alvo tanto de dia como de noite. Com alcance de até setecentos metros, as balas eram específicas para operações como sequestro, pois reduziam o perigo de se atingir reféns ou curiosos. Poderiam decapitar um homem com uma força selvagem; ao mesmo tempo, elas se fracionariam em seu corpo, em vez de atravessá-lo e ferir quem estivesse atrás dele.

— Você vai perder tempo, Colin — resmungou Peter. — Eles vão querer falar, não atirar; pelo menos por enquanto.

— Precaução nunca é demais...

— No momento, mais importante que as armas são as câmaras e o equipamento de som.

— Estou com a maior vontade de entrar lá e chutar a bunda deles. Você vai conseguir fotos que lhe darão um Oscar, confie em mim. — Colin consultou seu relógio de pulso. — Está na hora. Não deixe a madame esperando. E mantenha a corda frouxa — concluiu, enquanto Peter seguia para o pátio ensolarado, erguendo as mãos à altura da cabeça, com as palmas abertas.

O silêncio era tão opressivo quanto o calor seco, mas isso fora premeditado. Peter mandara suspender todo o tráfego aéreo e desligar todas as máquinas na área do terminal, a fim de que não houvesse interferência no equipamento de som.

Ouvindo apenas o som dos próprios passos, ele avançava no que parecia ser a maior caminhada de sua vida. Era importante que estivesse vestido daquela forma, não apenas para mostrar que não levava armas, mas sobretudo para colocar-se numa situação de desvantagem. Tratava-se de um velho truque, muito usado na Segunda Guerra, quando a Gestapo sempre desnudava a vítima para deixá-la vulnerável diante do interrogador. De qualquer forma, Peter caminhava com uma postura altiva, satisfeito porque tinha o corpo enxuto e musculoso como o de um atleta. Seria desastroso exibir uma enorme barriga ao longo daqueles quatrocentos metros.

Quando ele estava a meio caminho da aeronave, a porta dianteira desta abriu-se, dando passagem a um grupo de três pessoas com uniformes da British Airways, os dois pilotos e a pequena e esguia figura de uma aeromoça. Eles pararam no acesso à escada, ombro a ombro, permitindo a visão de uma cabeça loira, de alguém que se encontrava por trás.

O piloto mais velho estava à direita, cabelos grisalhos curtos e encaracolados, face redonda corada; deveria ser Watkins, o comandante. Era um bom sujeito, pelo que Peter lera em sua ficha de serviço.

Peter ignorou o co-piloto e a aeromoça, curioso para dar uma espiada na quarta figura do grupo. Entretanto, somente quando ele parou imediatamente abaixo da porta aberta foi que ela apareceu por inteiro.

Peter surpreendeu-se com a beleza daquele rosto, com a maciez de sua pele queimada pelo sol, com a impressionante inocência dos olhos azuis, a ponto de, por um momento, não acreditar que aquela jovem pertencesse ao grupo terrorista.

— Sou Ingrid — apresentou-se a loira.

Entre as mais adoráveis flores, algumas eram venenosas, pensou ele.

— Sou o negociador credenciado pelos governos britânico e americano. — E ele dirigiu o olhar para o rosto vermelho de Watkins.

— Quantos tripulantes estão a bordo?

— Nada de perguntas! — interrompeu Ingrid asperamente, enquanto Cyril Watkins estendia quatro dedos da mão direita, sem mudar de expressão.

Era uma confirmação vital daquilo que Peter já suspeitava. Ainda bem que o piloto pudera ajudar.

— Antes de discutirmos suas condições, senhorita, e por razões humanitárias, gostaria de tomar as providências para o bem-estar e o conforto dos seus reféns.

— Eles estão bem cuidados.

— Vocês necessitam de alimentos ou de água potável? Ingrid riu ironicamente.

— Comida com laxante para que a gente fique com merda até os joelhos?

Peter não insistiu no assunto. Na verdade, as bandejas ”especiais” já tinham sido preparadas pelo médico da equipe.

— Vocês têm uma baixa a bordo?

— Não há feridos no avião — assegurou a loira, embora Watkins fizesse um sinal afirmativo do polegar e do dedo indicador, contradizendo-a, e houvesse marcas de sangue ressequido nas mangas de sua camisa branca. — Chega de enrolação — advertiu Ingrid.

— Mais uma pergunta e cortaremos o diálogo.

— Tudo bem — Peter concordou imediatamente.

— O objetivo do nosso comando é a derrubada do regime fascista, desumano e neo-imperialista que mantém este país na mais abjeta miséria, negando à maioria dos trabalhadores e do proletariado seus direitos básicos como seres humanos.

E aquela situação, pensou Peter amargamente, apesar do deturpado jargão da esquerda lunática, era um bocado pior do que se imaginava. Por todo o mundo, milhões de pessoas teriam simpatia por uma causa tão justa, o que dificultava ainda mais sua tarefa. Os sequestradores haviam agarrado um alvo fácil.

Ingrid continuava seu discurso com um fervor quase religioso. Sem dúvida alguma tratava-se de uma fanática, situada no ténue limite que dividia a sanidade da loucura. Com a voz aguda como um uivo despejava seu ódio e, a cada palavra, mostrava que era capaz de tudo; de qualquer crueldade, de qualquer baixeza. Uma mulher que não hesitaria sequer diante do suicídio, no ato final de destruir o Boeing, seus passageiros e a si mesma. Para Peter, ela talvez até desse as boas-vindas àquela oportunidade de martírio!

Quando ela acabou de falar, os dois se encararam por um longo momento. Peter controlava-se para não abrir uma discussão, que seria absolutamente inútil. Afinal, Ingrid continuou:

— Nossa primeira exigência é que a declaração que acabei de fazer seja lida em cada rede de televisão da Inglaterra, dos Estados Unidos e da África do Sul.

O ódio que Peter sentia contra a TV subiu à superfície de suas emoções. Aquele pequeno aparelho era um cérebro submisso, um substituto eletrônico do pensamento, um dispositivo mortal para congelar, empacotar e distribuir opinião. Ele abominava a televisão tanto quanto abominava a violência.

— Deve ser lida no noticiário das sete da noite, pelo horário local, em Los Angeles, Nova York, Londres e Joanesburgo.

Horário nobre, claro! E a mídia teria de engolir, teria de aceitar que sua programação fosse tumultuada pelos apóstolos da violência.

Da porta da aeronave, a loira balançou um grosso envelope, enquanto dizia:

— Aqui tem uma cópia da declaração e uma lista de nomes. Cento e vinte e nove pessoas, todas prisioneiras ou banidas por esse monstruoso regime policial. Nessa lista estão os verdadeiros líderes da África do Sul. — E atirou o envelope, que caiu aos pés de Peter. — Nossa segunda exigência é que cada pessoa da lista seja colocada a bordo de um avião fretado pelo governo da África do Sul, juntamente com um milhão de moedas de ouro. A aeronave voará para um país escolhido pelos prisioneiros libertados. O ouro será usado por eles para estabelecer um governo provisório no exílio, até o momento em que retornem a este país como os verdadeiros líderes de seu povo.

Enquanto apanhava o envelope, Peter fazia rápidos cálculos mentais. Um único rand de ouro estava valendo 170 dólares, no mínimo. O resgate pedido era então de cento e setenta milhões de dólares. E ainda havia outro cálculo...

— Um milhão de rands pesarão bem mais que quarenta toneladas — disse ele. — Como vai caber tudo isso num avião?

Ingrid vacilou. Era reconfortante para Peter ter consciência de que o grupo não planejara tudo com precisão. Se haviam cometido um pequeno equívoco, era possível que cometessem outros.

— O governo providenciará transporte suficiente para o ouro e para os prisioneiros — retrucou a garota asperamente. A hesitação fora apenas momentânea.

— Isso é tudo? — perguntou Peter. O sol castigava seus ombros desnudos e o suor escorria-lhe pelas costas.

— O avião deverá partir antes do meio-dia de amanhã, ou começaremos a execução dos reféns.

Peter sentiu um calafrio pelo corpo. Execução... Sem dúvida alguma aquela jovem seria capaz de levar adiante a ameaça.

— Quando o avião chegar ao destino escolhido pelos ocupantes, um código previamente combinado será enviado a nós, e todas as crianças e mulheres a bordo desta aeronave serão imediatamente liberadas.

— E os homens?

— Na segunda-feira, daqui a três dias, será apresentada uma resolução à Assembleia Geral das Nações Unidas, em Nova York, pedindo sanções económicas imediatas contra a África do Sul, incluindo a retirada do capital estrangeiro, embargo total de petróleo e comércio, interrupção de todos os transportes e comunicações, bloqueio dos portos e fronteiras aéreas pelas forças de paz das Nações Unidas, até a realização de eleições livres supervisionadas pela ONU.

Peter tomara conhecimento daquela moção apresentada à ONU pelo Sri Lanka e a Tanzânia. Com certeza seria vetada pelo Conselho de Segurança. Entretanto, a inclusão desse item entre as exigências dos seqiiestradores implicava fazer novas considerações sobre o assunto. Seguramente não seria mera coincidência

que a resolução estivesse sendo discutida no momento do sequestro; de onde se deduzia existir conivência, talvez até envolvimento direto, de líderes mundiais e governos na estratégia do terror...

Ingrid logo voltou à carga:

— Se algum membro do Conselho de Segurança da ONU usar o veto para bloquear a resolução, esta aeronave, juntamente com seus ocupantes, será destruída por explosivos de alta capacidade.

Peter perdeu a fala por alguns instantes, perplexo pela demanda daquela adorável criança loira — na verdade parecia uma criança, bonita e irradiante. Porém, quando recuperou a voz, resolveu provocá-la:

— Não acredito que você tenha conseguido introduzir explosivos de alta potência nessa aeronave.

A loira disse algo para alguém que estava fora de vista, e momentos depois arremessou um objeto escuro e esférico para Peter.

— Segure! — gritou, enquanto ele se surpreendia com o peso que recebia nas mãos. Levou apenas um segundo para reconhecer a granada. — Com disparo eletrônico — acrescentou a loira. — E temos tantas que posso até lhe dar uma de amostra.

Enquanto isso, Cyril Watkins tentava comunicar alguma coisa, tocando de leve em seu próprio ombro. Peter estava distraído, examinando o explosivo, mas logo em seguida percebeu o gesto aflito do piloto. Então dirigiu o olhar para o pescoço da loira, percebendo ali a alça de uma pequena máquina fotográfica. Seria alguma coisa que conectasse a câmara com as granadas? Era isso que Cyril tentava dizer-lhe?

— Leve essa lembrancinha para seus patrões — continuou a loira. — A ira das massas está sobre eles. A revolução está aqui e agora — concluiu, fechando a porta do avião.

Ao ouvir o barulho da fechadura, Peter girou sobre os calcanhares e começou a longa caminhada de volta, carregando um envelope na mão direita, uma granada na esquerda, e um ódio intenso no peito.

COLIN NOBLE estava na entrada do Hawker, com uma expressão bastante séria, sem nenhum traço de riso na boca normalmente risonha.

— O doutor Parker está na tela — informou a Peter, que ainda abotoava o macacão que acabara de vestir. — Copiamos tudo o que foi dito e arquivamos no sistema.

— A coisa está brava, não?

— Essa era a boa notícia. Quando você terminar de falar com Parker, eu lhe darei as más notícias.

— Obrigado, companheiro. — Peter deu-lhe um tapinha no ombro e seguiu em direção à cabine de comando.

No vídeo, Kingston Parker estava inclinado sobre a mesa, estudando a folha de telex com a transcrição da conversa entre Ingrid e Peter. Tinha o cachimbo vazio preso entre os dentes, e franzia o cenho à medida que lia as exigências do comando terrorista. De repente, alertado pelo diretor de comunicações, ele voltou-se para a câmara.

— Olá, Peter. No momento estamos sozinhos, eu e você. Vamos nos restringir a uma simples gravação do teipe. Quero sua impressão preliminar antes de entrarmos em contato com sir Wil-lian e Constable...

Sir Willian Cavies era o embaixador britânico, e Kelly Constable o embaixador dos Estados Unidos em Pretória.

— Estamos numa séria encrenca. — E Peter balançou a cabeça.

— Qual é o poder de fogo dos militantes?

— A equipe de explosivos está analisando a granada, mas não tenho dúvida de que eles têm capacidade para destruir o 070. Creio que possuem um arsenal dez vezes superior ao necessário.

— E o ponto de vista psicológico?

— Na minha opinião, ela é uma mistura de Bakunin com JeanPaul Sartre. Parece levar a sério a concepção anarquista de que a destruição é o único ato criativo, que a violência é o homem recriando a si próprio. Lembra que Sartre disse que, quando um revolucionário mata, um tirano morre e um homem livre emerge?

— Você acha que ela vai até o fim?

— Com certeza! Se for pressionada, irá até o fim. Acompanhe o raciocínio: se a destruição é bela, então a autodestruição é a imortalidade. Para mim, ela não vai fraquejar.

Parker suspirou, batendo a piteira do cachimbo contra a mesa.

— É, isso combina com os dados que conseguimos dela.

— Do que se trata? — perguntou Peter avidamente.

— Fizemos uma boa gravação da voz, e o computador comparou sua estrutura facial com a de fotos existentes no arquivo.

— Quem é ela? — Peter estava impaciente; não precisava que lhe dissessem que o intensificador de som e as câmaras de televisão haviam alimentado os computadores de inteligência com sua voz e imagem no momento em que ela fazia suas exigências.

— Chama-se Hilda Becker. É da terceira geração de americanos de descendência alemã. Filha de um dentista bem-sucedido, que ficou viúvo em 1959. Tem trinta e um anos...

Peter surpreendeu-se. A pele macia da jovem o enganara.

Esteve na Universidade de Colúmbia entre 1965 e 68 com mestrado em História Política Moderna. Era membro do Estudantes para uma Sociedade Democrática. Sei, o ESD...

— Foi ativista nos protestos contra a guerra do Vietnã. Militava entre os trânsfugas do recrutamento que fugiam ilegalmente ao Canadá. Teve uma prisão por porte de maconha em 1967, sem condenação. Envolveu-se com o Weathermen e era uma das líderes dos motins nos campus universitários na primavera de 1968. Presa por bombardear a Universidade Butler e depois solta. Deixou os Estados Unidos em 1970 para estudar em Dusseldorf. Doutorou-se em Política Económica em 1972. É amiga de Gudrun Ensslin e de Horst Mahler, do grupo Baader-Meinhof. Passou para a ilegalidade em 1976, suspeita de ter participado no sequestro e morte de Heinrich Kohler, o industrial da Alemanha Ocidental...

Sua história pessoal era um painel clássico dos revolucionários modernos, refletiu Peter. Uma fotografia perfeita da besta.

— Acredita-se que recebeu treinamento da Frente Popular de Libertação da Palestina, na Síria, entre 1976 e 77. Não há dados novos arquivados a partir daí. É uma usuária habitual de drogas, e considerada de comportamento sexual voraz com pessoas de ambos os sexos. É tudo o que sabemos — concluiu Parker.

— É o que eu lhe disse. Ela vai até o fim — garantiu Peter.

— O que mais você acha?

— Que é uma operação organizada em alto nível, possivelmente com a participação de governos. A sincronização com as propostas da ONU patrocinadas pelo grupo das nações não-alinhadas aponta nessa direção.

— Concordo. Continue.

— Eles pegaram um alvo fácil, um país proscrito da civilização ocidental. A resolução da ONU será aprovada por cem a zero. E milhões de americanos e ingleses vão perguntar a si mesmos se vale a pena sacrificar a vida de quatrocentos de seus mais proeminentes cidadãos para apoiar um governo cuja política racial todos repudiam.

— Você acha que eles farão um acordo?

— Os militantes? Claro! Mas você sabe o que eu penso, sir. Sou absolutamente contrário a negociar com essa gente.

— Mesmo nas circunstâncias atuais? — perguntou Parker.

— Sobretudo agora. Minhas opiniões sobre a política deste país estão de acordo com as suas. Isso é ponto pacífico. No entanto, mesmo compreendendo que as exigências são justas, ainda assim devemos nos opor até a morte à maneira como eles as apresentam. Se esse pessoal alcançar seus objetivos, será a vitória das armas, e com isso colocaremos toda a humanidade em risco.

— Qual é nossa chance de um contragolpe bem-sucedido? Mesmo sabendo que aquela pergunta viria mais cedo ou mais tarde, Peter hesitou por um longo momento.

— Meia hora atrás eu apostaria dez por um em nosso favor e levaria a cabo a condição Delta somente com baixa entre os militantes.

— E agora?

— Bem, sei que não são um bando de fanáticos de cabeça oca. Devem estar tão bem treinados e equipados como nós. E tiveram anos para planejar a operação.

— E então? — insistiu Parker.

— É quatro a um a nosso favor como poderemos liquidá-los com um golpe da Delta, talvez com menos de dez baixas.

— Qual é a outra possibilidade?

— Eu diria que não há meio-termo. Se falharmos, teremos cem por cento de baixas; perderemos a aeronave com todos a bordo, incluindo o pessoal do Thor envolvido.

— Está bem, Peter. — Parker recostou-se na cadeira e fez um gesto de despedida. — Conversarei com o presidente e com o primeiroministro. Depois vou instruir os embaixadores. Falarei com você dentro de uma hora.

Olhando para o vídeo vazio, Peter deu-se conta de que todo o seu ódio desaparecera. Sentia-se frio e funcional como o bisturi de um cirurgião. Pronto para fazer o serviço para o qual treinara tão assiduamente, e ainda capaz de avaliar a força do inimigo e as probabilidades de fracassar em sua missão.

Pressionou o botão de chamada. Colin, que estava esperando atrás da porta à prova de som, entrou imediatamente.

— A granada já foi analisada. É de primeira linha. O explosivo é uma nova composição soviética denominada CJ, com detonador de fabricação industrial. Material profissional, que seguramente funciona. Aliás, funciona pra valer!

Peter não necessitava dessa confirmação. Colin sentou-se na frente dele e continuou:

— Colocamos a lista de nomes e o texto da declaração dos militantes na teleimpressora e mandamos para Washington. Instruí o operador para passar a fita gravada, primeiro sem som. São essas as más notícias que prometi — completou com ar sombrio.

Instantes depois, o videoteipe começou a passar na tela central. Tinha sido filmado do posto de observação no escritório que dava vista para a área de serviço. Era uma tomada de cena do Boeing, com o fundo deformado pelo aumento das lentes. A aeronave vibrava por causa da refração de calor do asfalto quente da pista principal.

No primeiro plano aparecia Peter de costas, caminhando em direção ao avião. As lentes novamente distorciam a ação, de forma que ele parecia não sair do lugar.

Quando a porta do Boeing deslizou para o lado, o câmara de imediato colocou o zoom em enquadramento de dose. Focalizou os dois pilotos e a aeromoça no hall de entrada, depois aproximou a cena ainda mais. A abertura das lentes foi ajustada rapidamente, para compensar a obscuridade do interior. Nesse instante surgiu a cabeça da loira, que se virou devagarinho e disse algo (aparentemente três palavras) antes de ficar totalmente de frente para a câmara.

— Corta! — ordenou Colin ao técnico que manejava o vídeo. — Passe de novo com balanço neutro de som.

A cena inteira foi repetida: a porta abrindo-se, os três reféns, a cabeça dourada girando, e então as palavras ”Ler os slide” () pronunciadas por Ingrid, embora existisse ruído de fundo e confusão.

Nota: ”Lets slide” — Tanto fazer deslizar ou carregar como desinteressar-se, deixar passar. (N. do T.)

— Letss slide? — Peter estranhou.

— Vamos reprisar a cena com o filtro de-densidade baix no som — disse Colin.

De novo, as mesmas imagens na tela, a cabeça da loira girando e as palavras ”Zrs slide”.

— Ótimo! — Colin dirigia-se ao técnico, através do intercomunicador. — Agora com filtragem total e modulação de ressonância.

Pela quarta vez assistiram à cena. Ingrid virava-se e falava com alguém que estava dentro da aeronave. Com uma nitidez impressionante, ouviram ela dizer: ”Its Stride” ().

Peter arregalou os olhos, como se tivesse levado um soco.

— Você foi reconhecido — afirmou Colin. — É inacreditável, porém ela estava te esperando!

Um mau presságio tomou conta da mente de Peter. O Atlas estava garantido por uma das mais altas classificações de sigilo. Apenas vinte homens fora dos seus círculos internos conheciam os segredos do programa. Um deles era o presidente dos Estados Unidos, outro o primeiro-ministro da Grã-Bretanha.

Com certeza, apenas quatro ou cinco homens sabiam quem comandava o braço Thor do Atlas; apesar disso, não havia equívoco nas palavras que a loira pronunciara.

— Passe o filme de novo — ordenou Peter bruscamente.

E os dois homens esperaram tensos por aquelas duas palavras... Até que, afinal, a voz clara e melodiosa da moça foi ouvida com absoluta clareza: ”Its Stride”. A seguir, a imagem desapareceu da tela.

Peter massageou as têmporas com o polegar e o indicador. Dava-se conta, surpreso, de que não dormira um só minuto nas últimas quarenta e oito horas. Mas não era o cansaço que o assaltava agora, e sim a esmagadora consciência da traição sofrida.

— Alguém abriu o bico — murmurou Colin. — A partir de agora, vão estar nos esperando em cada curva da estrada.

— Preciso falar com Kingston Parker novamente...

Quinze segundos depois, a imagem de Parker reaparecia na tela. Ele aparentava estar bastante zangado.

— Peter, você interrompeu o presidente!

— Doutor Parker, as circunstâncias se alteraram dramaticamente. Na minha opinião, as possibilidades de um ataque bem-sucedido da Delta diminuíram. Não temos mais que uma chance insignificante.

— Entendo... Isso é importante. Informarei o presidente.

OS LAVATÓRIOS estavam quase todos transbordando, o mesmo acontecendo com os esgotos e reservatórios, de modo que o mau cheiro invadia a aeronave, apesar do ar-condicionado.

Sob racionamento de alimentos e água, a maior parte dos passageiros sofria da letargia da fome, e as crianças tornavam-se petulantes e choramingas. A terrível pressão começava a mostrar seus efeitos até nos sequestradores. Eles tinham uma rotina pesada, combinando quatro horas de descanso descontínuo, com quatro de atividade e vigília incessante. Suas camisetas vermelhas, bastante amarrotadas, exibiam um círculo de suor nas axilas, o suor da tensão física e nervosa; seus olhos estavam avermelhados, e os temperamentos absolutamente instáveis.

Antes do anoitecer, a garota de cabelos negros perdeu a paciência com um velho que demorou em atender à sua ordem de retornar ao assento após usar o toalete. Vítima de um ataque histérico, ela golpeou o rosto do velho com o cano da pistola, até expor o osso do seu queixo. Ingrid interveio logo depois. Levou-a para a cozinha da classe turística onde, de cortinas fechadas, conseguiu acalmá-la, tomando-a entre seus braços.

— Tudo vai dar certo, liebchen. Espere um pouco mais agora. Você precisa ser forte. Daqui a algumas horas, tomaremos as pílulas. Não vai demorar.

Em poucos minutos Karen foi capaz de controlar o tremor das mãos e, embora estivesse nervosa, reassumiu sua posição nos fundos da cabine turística.

Por outro lado, a firmeza de Ingrid parecia sem limites. Durante a noite passeou vagarosamente pelos corredores, parando para falar com um passageiro insone, confortando-o com a promessa de soltura iminente.

— Amanhã pela manhã teremos uma resposta a nossas exigências, e as mulheres e crianças serão libertadas. Tudo vai dar certo, espere e verá.

Pouco depois da meia-noite, o médico rechonchudo procurou-a na cabine de comando.

— O engenheiro está muito mal. A menos que seja levado para um hospital imediatamente, ele vai morrer.

Ingrid foi até o fundo da aeronave e ajoelhou-se ao lado do rapaz. Com a pele ressequida e ardendo de febre, ele tinha a respiração ofegante e entrecortada.

— É uma crise renal — explicou o médico. — Colapso dos rins como consequência do choque. Não podemos tratá-lo aqui. Ele precisa ser levado para um hospital.

Ingrid pegou a mão sã do engenheiro, que estava semiconsciente.

— Desculpe, mas isso é impossível. Sinto pena dele, como de toda a humanidade. Mas ele é apenas uma pessoa. Lá fora existem milhões.

O IMENSO EDIFÍCIO com helicóptero no terraço estava iluminado por holofotes. Naquele feriado, o mais belo cabo do mundo mostrava sua beleza para as dezenas de milhares de turistas e transeuntes.

Na cobertura do alto edifício, batizado com o nome de um político medíocre como muitos dos edifícios e repartições públicas da África do Sul, o gabinete ministerial e seus conselheiros especiais estavam em sessão desde o começo da noite.

Na cabeceira da mesa aparecia a robusta figura do primeiroministro, cara de buldogue, poderoso e imóvel como uma colina de granito das planícies africanas. Era a figura dominante da enorme sala acortinada, embora pouco interviesse, exceto para encorajar os outros com um gesto de cabeça e alguns monossílabos.

No outro extremo da mesa sentavam-se os dois embaixadores, ombro a ombro, numa demonstração clara de mútua solidariedade. De quando em quando, os telefones que tinham à frente tocavam, trazendo-lhes as últimas informações de suas embaixadas ou instruções dos dirigentes de seus governos.

No lado direito do primeiro-ministro sentava-se o ministro das Relações Exteriores, um homem que cultivava um bonito bigode, tinha carisma e fama de moderação e bom senso, ainda que agora estivesse abatido e com o rosto sombrio.

— Os governos dos senhores foram os pioneiros da política de não-negociação, de total resistência às chantagens dos terroristas; por que agora insistem em que devemos agir moderadamente?

— Não insistimos, ministro, apenas apontamos a enorme comoção que o caso está gerando tanto no Reino Unido como em meu país — disse Kelly Constable, um homem bem apessoado, magro, inteligente e persuasivo; uma nomeação democrática da nova administração norte-americana. — É do interesse de seu governo, até mais do que do nosso, fazer com que se chegue a uma solução satisfatória. Simplesmente sugerimos que se tenha uma certa flexibilidade em relação às exigências apresentadas.

— O comandante do Atlas calcula que as chances de uma ação bem-sucedida não passam de cinquenta por cento. Meu governo considera esse risco inaceitável. — Sir Willian Davies era um diplomata de carreira aproximando-se do tempo de aposentadoria. Um homem grisalho, apático, com óculos de armação dourada e uma voz aguda e lamuriante.

— Meus homens acham que podem fazer melhor que os seus — retrucou o ministro da Defesa, que também usava óculos, falando com o sotaque carregado do africâner.

— O Atlas é talvez o grupo antiterrorista mais bem equipado e melhor treinado do mundo — declarou Kelly Constable.

Então o primeiro-ministro interrompeu asperamente:

— Cavalheiros, vamos nos limitar a buscar uma solução pacífica.

— Estou de pleno acordo. — E sir Willian balançou a cabeça enfaticamente.

Kelly Constable, por sua vez, continuou com firmeza:

— Devo salientar que boa parte das exigências feitas pelos terroristas encontra eco nas posições do governo dos Estados Unidos...

— Por acaso o senhor está expressando simpatia por essas exigências? — indagou o primeiro-ministro, mal escondendo a raiva.

— Estou apenas salientando que elas serão vistas com simpatia em meu país. Para o meu governo, seria mais fácil exercer seu poder de veto na moção extrema da Assembleia Geral da ONU, se algumas concessões fossem feitas noutras direções.

— Isso é uma ameaça, sir? — perguntou o primeiro-ministro, com um sorriso sem humor que não disfarçava seu mal-estar.

— Em absoluto! Trata-se de bom senso. Se a moção da ONU for aprovada e implementada, significará a ruína económica deste país. Ele seria arrastado para a anarquia e o caos político, uma fruta madura para a intromissão soviética. Meu governo não deseja isso, mas também não deseja colocar em perigo as vidas de quatrocentos cidadãos. — Kelly Constable sorriu. — Precisamos encontrar uma saída para essa situação embaraçosa.

— Meu ministro de Defesa sugeriu uma saída.

— Primeiro-ministro, se o seu Exército atacar a aeronave sem a concordância dos dirigentes americanos e ingleses do Atlas, então será retirado o veto do Conselho de Segurança e lamentavelmente vamos permitir que a proposta majoritária prevaleça.

— Mesmo que o ataque seja bem-sucedido?

— Mesmo que o ataque seja bem-sucedido. Insistimos que as decisões sejam tomadas exclusivamente pelo Atlas. — Em seguida, Constable assumiu um tom de voz mais delicado: — Vamos examinar as mínimas concessões que o seu governo poderia fazer. Quanto mais tempo mantivermos a linha de comunicação com os terroristas, maiores serão nossas chances de uma solução pacífica. Seria possível atender a algum pequeno item na lista das exigências?

INGRID SUPERVISIONOU pessoalmente o serviço do café da manhã. Cada passageiro recebeu uma fatia de pão, um biscoito e uma taça de café. A fome diminuía a resistência geral, e todos se mostravam apáticos e indiferentes após a parca refeição.

Ingrid percorreu os corredores oferecendo cigarros de distribuição gratuita. Falava gentilmente com as crianças, parava para conversar com as mães, sempre sorridente e calma, a ponto de ser chamada de ”a boa” pelos passageiros.

Quando ela chegou à cozinha da primeira classe, chamou seus companheiros um a um para que se servissem de um café completo, com ovos, torradas e salmão. Era necessário que estivessem fortes e alertas dentro das limitações que aquela operação impunha. Não poderiam ingerir os comprimidos antes do meio-dia. O efeito da droga só poderia ser mantido por setenta e duas horas seguidas, após o que traria sérias complicações para todos. A votação das sanções pelo Conselho de Segurança da ONU ocorreria ao meio-dia em Nova York, na segunda-feira seguinte, o que corresponderia a sete da noite no horário local.

Portanto, seus companheiros precisariam manter-se ativos até lá; tomar os estimulantes muito cedo significava expor-se à desintegração física antes da hora decisiva, embora a falta de descanso e a tensão estivessem ameaçando cada um deles. Ingrid mesma estava saltitante, nervosa, e quando se examinou no espelho do toalete da primeira classe, percebeu que tinha os olhos escuros e avermelhados. Pela primeira vez notou pequenas rugas nos cantos da boca e nos olhos. Foi o suficiente para deixá-la histérica. Ela odiava a ideia de envelhecer!

Kurt, o alemão, estava estirado no banco do piloto, com a pistola no colo, roncando levemente. A camisa vermelha desabotoada até a cintura mostrava o peito musculoso e peludo subindo e descendo com a respiração. Estava sem barbear-se, e os cabelos negros, grudados à cabeça, caíam-lhe sobre os olhos. De repente, sentindo o cheiro do seu suor, Ingrid ficou excitada. Observou-lhe o rosto cruel e brutal — era no machismo dos revolucionários, que sempre a atraíra, que se localizava a origem de suas inclinações radicais. Louca de desejo, pousou a mão sobre a braguilha de sua calça de linho. Porém, quando o rapaz acordou, com os olhos turvos, remelados, e o hálito fétido, Ingrid levantou-se, furiosa, e, como se quisesse esquecer a frustração, pegou o microfone e ligou os alto-falantes das cabines dos passageiros. Estava consciente de que agia irracionalmente, mas, mesmo assim, seguiu em frente.

— Prestem atenção, todos. Tenho algo muito importante para informar.

De um momento para o outro, estava indignada com eles, a quem identificava como legítimos representantes de uma sociedade injusta e enferma, contra a qual declarara guerra. Malditos burgueses gordos e asquerosos! Eram como seu pai, e ela os odiava como odiava o pai. Ao começar a falar, deu-se conta de que eles sequer entenderiam sua linguagem — a linguagem de uma nova ordem política e social. Isso aumentou ainda mais sua raiva contra eles... Ingrid não sabia que estava delirando, até que de repente percebeu a estridência de sua própria voz, como o hálito da morte de um animal ferido, e parou.

Atordoada, confusa, precisou encostar-se na mesa para não cair. Seu coração batia acelerado, e ela arfava como se tivesse corrido vários quilómetros. Demorou alguns minutos para voltar ao normal.

Retomou o microfone, ainda enraivecida e sem fôlego.

— São nove horas da manhã. Se não tivermos respostas do tirano dentro de três horas, serei forçada a começar a execução dos reféns. Três horas — repetiu num tom sinistro. — Apenas três horas.

Passou a rondar nervosa pela aeronave, como um grande felino em sua jaula, quando se aproxima a hora da comida.

— Duas horas! — E os passageiros se encolhiam a cada vez que ela passava por perto.

— Uma hora! — Um acento de sadismo marcava sua voz. — Vamos escolher o primeiro refém.

— Mas você prometeu... — suplicou o médico gordo quando Ingrid puxou sua esposa para fora do assento e o francês empurrou-a em direção à cabine de comando.

Dando de ombros, Ingrid dirigiu-se a Karen:

— Arranje duas crianças, um menino e uma menina. E traga aquela mulher grávida também. Vamos mostrar sua barriga grande e ver se eles serão capazes de resistir.

Karen conduziu os reféns para a cozinha da frente e forçou-os a sentar-se nos assentos destinados à tripulação. Com a porta da cabine de comando aberta, a voz de Ingrid chegava nítida ali. Ela conversava com o francês, Henri:

— É de fundamental importância não deixar um prazo passar sem uma forte retaliação. Se isso acontecer uma única vez, nossa credibilidade cairá por terra. Eles precisam aprender que nossos prazos são irrevogáveis, inegociáveis!

Uma das reféns, a garota, começou a chorar. Tinha treze anos de idade e percebia o perigo. A mulher do médico gorducho colocou o braço ao redor de seu pescoço e apertou-a levemente.

— Pássaro Veloz 070 — chamou o rádio de repente —, temos uma mensagem para Ingrid.

— Prossiga, torre, aqui é Ingrid. — Ela pegou o microfone, enquanto fechava a porta da cabine de comando.

— O representante dos governos britânico e americano tem algumas propostas para sua apreciação. Está pronta para copiar?

— Negativo — cortou Ingrid, categórica. — Diga ao negociador que só falarei frente a frente. E avise a ele que estamos a quarenta minutos do prazo do meio-dia. Ou ele vem rapidamente para cá, ou nada feito. — Pôs o microfone no gancho e virou-se para Henri. — Podemos tomar os comprimidos agora. Finalmente a coisa vai começar.

ERA UM DIA CLARO, sem nuvens, e sol brilhante banhava de dourado as partes nuas do metal da aeronave. O calor intenso parecia subir pelas solas dos sapatos e chegar até a cabeça de Peter.

Quando ele alcançou a metade do caminho da pista de rolamento, a porta do Jumbo abriu-se, como da vez anterior.

Desta vez não havia reféns à vista. Contendo o impulso de apressar-se, Peter manteve o mesmo passo firme, os ombros eretos, a cabeça levemente erguida.

Estava a cinquenta metros do Boeing quando a loira apareceu na plataforma da porta. Ela irradiava uma graça indolente — apoiava o peso do corpo numa perna e tinha a outra reclinada, mostrando-as nuas e bronzeadas. Portava a pistola nos quadris, e o cinto de balas realçava sua cintura fina.

Ingrid exibia um meio-sorriso nos lábios, mas de repente um feixe de luz, do tamanho de uma moeda, apareceu em seu peito; um pontinho igual a um inseto brilhante. Ela o olhou com um gesto de desprezo.

— Isso é uma provocação! — resmungou, sabendo que aquilo era uma luz de laser que um dos atiradores apontara de algum lugar do aeroporto. Mais um pouco de pressão no gatilho, e uma bala entraria precisamente naquela marca, arrebentando-lhe o coração.

Peter ficou furioso com o homem que ativara o laser sem receber ordem, mas logo a raiva foi substituída pela admiração com a coragem da loira, que não se alterara diante da ameaça de morte.

A um sinal que ele fez com a mão direita, o ponto brilhante desapareceu de imediato: o atirador desligara a mira de laser.

— Assim está melhor. — Ingrid sorriu, enquanto passeava o olhar pelo corpo de Peter. — Puxa, você está em boa forma, baby.

Ele nada disse, porém sentiu-se pouco à vontade sob aquele olhar avaliador.

— Bela barriga, pernas firmes... Você não conseguiu esses músculos sentado num escritório fazendo rascunhos. E se imagina que eu penso que é um tira ou um soldado, acertou. Você é um porco maldito. — Sua voz tinha um acento de aspereza, sua pele parecia mais seca, repuxada e envelhecida do que antes.

Próximo o suficiente para ver o brilho diamantino peculiar dos olhos dela, Peter também percebeu tensão em seu corpo — os gestos abruptos de quem não repousou. Ela estava sob o efeito de estimulantes. Com toda a certeza. Se já era politicamente uma fanática, com uma longa história de violência e morte, os resquícios de humanidade seriam agora inteiramente suprimidos pela excitação das drogas. Portanto, era tão perigosa quanto um animal ferido, um leopardo encurralado, um tubarão excitado pelo gosto de sangue.

Peter permaneceu em silêncio, sem a menor vontade de responder à provocação. Ingrid, por sua vez, não conseguia ficar quieta, possivelmente por causa da droga. E, apesar de estar com a pistola na mão, tocou a câmara que trazia pendurada no pescoço. Engraçado... Cyril Watkins tentara dizer alguma coisa sobre aquela câmara... Seria por acaso o detonador das granadas? Era bem possível. Não havia outro motivo para que estivesse sempre com ela.

A loira percebeu a direção do olhar dele, e abaixou a mão, num gesto rápido que confirmava sua suspeita.

— Os prisioneiros estão prontos para partir? O ouro foi preparado? A declaração está pronta para ser transmitida?

— O governo da África do Sul aquiesceu com a exposição dos fatos feita pelos governos da Grã-Bretanha e dos Estados Unidos.

— Ótimo — disse Ingrid, balançando a cabeça.

— Como um ato humanitário, os sul-africanos concordaram em soltar todas as pessoas da lista de detidos... Serão mandados a qualquer país que escolham.

— E o ouro?

— Bem, o governo se recusa a financiar ou armar uma oposição inconstitucional com sede no exterior. E não aceita fornecer fundos para as pessoas libertadas nesse acordo.

— E quanto à transmissão na televisão?

— O governo sul-africano considera a declaração falsa em substância e em fatos, e extremamente prejudicial à manutenção da lei e da ordem. Recusa-se a permitir sua transmissão pela tevê.

— Então só aceitaram uma das nossas exigências! — A voz da loira estava mais estridente, e seus ombros tremeram num espasmo incontrolado.

— A libertação dos prisioneiros políticos e das pessoas banidas está sujeita a uma condição...

- Ah, é? Qual?

— Eles exigem em troca a libertação de todos os reféns, não apenas as mulheres e crianças. Feito isso, você e seus companheiros terão livre trânsito para deixarem o país.

Ingrid jogou a cabeça para trás, numa gargalhada sonora que, estranhamente, não parecia natural. Um som agudo, estridente, de certo modo aterrorizante. E ela parou de repente, assumindo então uma expressão dura, cheia de ódio.

— Quer dizer que eles pensam que podem fazer exigências! Imaginam que vão se livrar da proposta da ONU, não é mesmo? Porque, sem reféns para levar em consideração, os governos fascistas da Inglaterra e dos Estados Unidos poderão lançar seu veto com impunidade, não é? — Como Peter não replicasse, ela gritou: — Me responda! Eles não acreditam que somos sérios, não é verdade?

— Sou apenas um mensageiro...

— De jeito nenhum. Você é um assassino profissional. Um porco! Ingrid levantou a pistola e apontou-a para o rosto de Peter.

— Que resposta devo levar? — Ele fez de conta que não via a arma.

— Uma resposta... — balbuciou a loira, que parecia estar voltando a si após o súbito acesso de cólera. Ela abaixou a pistola e consultou seu relógio de aço inoxidável japonês. — Passam três minutos do meio-dia; três minutos depois do prazo, e eles devem estar na expectativa de uma resposta. — A expressão de seu rosto era cada vez mais desnorteante.

Aquilo na cena era efeito da droga, pensou Peter. Ou ela tomara uma overdose, ou quem prescrevera os comprimidos não levara em consideração as quarenta e oito horas sem dormir e de violenta tensão que iriam preceder seu uso.

— A resposta — murmurou ele, para não provocá-la novamente.

— Espere um pouco. — E ela deu meia-volta, desaparecendo no interior da aeronave.

KAREN, QUE VIGIAVA os quatro reféns nos assentos reclinados, atendeu ao sinal de Ingrid e dirigiu-se à mulher que estava entre os prisioneiros escolhidos.

— Venha — disse, com amabilidade. — Vamos deixar você sair agora.
Ingrid seguiu rapidamente para a cabine de trás e, com um simples gesto, orientou Kurt, que guardou a pistola na cintura e retirou duas granadas do compartimento de bagagem. Com um movimento preciso, ele abriu o detonador nos dentes e enfiou as argolas nos dedos. Então abriu os braços em cruz e caminhou lentamente pelo corredor.

— Estas granadas estão engatilhadas. Ninguém deve mexer-se, nem sair de seus assentos, não importa o que aconteça. Fiquem onde estão.

O quarto sequestrador, ao perceber o que se passava, também armou-se de granadas, segurando-as com ambas as mãos à altura da cabeça.

— Ninguém se mova. Nem converse. Fiquem parados. Todo mundo parado. — O rapaz repetiu o alerta em alemão. Seus olhos tinham o brilho duro de quem estava drogado.

Ingrid retornou para junto dos quatro prisioneiros.

— Venha, minha querida — disse, colocando o braço no pescoço da garota e conduzindo-a para a porta aberta.

— Não me toque — pediu a menina, tremendo de medo.

O menino, porém, mais novo, mais confiante, pegou a mão de Ingrid imediatamente. Tinha cabelos espessos, encaracolados, e olhos amendoados, da cor do mel.

— Papai está aqui? — perguntou o guri.

— Sim, querido. — Ingrid apertou sua mão. — Você é um bom garoto, e logo vai ver seu papai. — Levou-o até a porta aberta e disse: — Fiquem aqui.

PETER Stride NÃO SABIA ao certo o que esperar quando viu o garoto aparecer à porta do avião. Em seguida surgiu uma mulher gorducha, de meia-idade, num vestido caro porém amarrotado, possivelmente da etiqueta Nina Ricci. Seu penteado estava desfeito ao redor do rosto. Num gesto protetor, ela colocou o braço no ombro do menino.

Logo depois chegou à porta do Jumbo uma mulher alta, pele pálida, narinas e olhos avermelhados de choro ou de alguma alergia, e com marcas no pescoço e nos antebraços. O vestido não disfarçava a barriga de grávida; as pernas brancas tremiam a olhos vistos. E ela pestanejava sem cessar, desacostumada com o sol brilhante, em contraste com a penumbra do interior da aeronave.

O quarto e último passageiro, uma garota, deixou Peter sem fôlego, tal a sua semelhança com Melissa-Jane. Demorou alguns segundos até convencer-se de que não era ela, embora a menina tivesse a mesma beleza vitoriana, a pele com a maciez de uma pétala de rosa, o corpo delicado, seios em botão e pernas longas, combinando com os quadris estreitos.

Revelando terror em seus olhos grandes, ainda assim a menina compreendeu que Peter era sua esperança de salvação. Suplicante, dirigiu-se a ele:

— Por favor, não deixe eles nos fazerem mal. Por favor, sir. Ajude-nos.

Ingrid apareceu ao lado dela naquele instante, também dirigindo-se a Peter.

— Você devia ter acreditado no que prometemos. Você e seus malditos patrões capitalistas. Não vamos deixar passar um único prazo sem execuções. Vamos provar que a revolução não pode ter piedade. Você vai entender que nossas exigências têm de ser atendidas, que são inegociáveis. — Ela fez uma pausa antes de continuar: — O próximo prazo é à meia-noite. Se nossas exigências não forem totalmente atendidas, você vai saber o preço que nós cobraremos. Aqui vai uma amostra! — E deu um passo atrás, saindo da vista.

Suando frio, Peter Stride esperou pelo pior.

— Pule! — gritou Peter, levantando as mãos para a garota. — Pule rápido, que eu te pego!

A menina estava a cerca de dez metros do chão, e hesitou, insegura. Atrás dela, tanto Karen como Ingrid ergueram suas pistolas, posicionando-se num ângulo e distância que permitisse que as pesadas esferas de chumbo de suas cápsulas se espalhassem o suficiente para atingir os quatro reféns ao mesmo tempo.

Pulem! — gritou Peter outra vez.

No instante seguinte, as duas mulheres dispararam suas armas. Os dois tiros foram como uma explosão de uma bomba, um rugido ensurdecedor. Uma fumaça azulada escapou dos músculos atingidos, pedaços de trapos voaram para o alto, e o impacto do chumbo nos corpos das vítimas soou como se uma melancia fosse atirada contra um muro.

Ingrid disparou pela segunda vez um segundo antes de Karen, de tal forma que houve duas explosões distintas. No silêncio pesado que se seguiu, destacou-se o choro dos dois homens na cabine de passageiros.

— Ninguém se mexa! Todo mundo parado!

PARA PETER Stride, aqueles poucos segundos duraram como longas horas, aparecendo em seu cérebro como uma imagem parada de um filme interrompido. Eram cenas tão fortes, tão contundentes, que para o resto da vida ele haveria de recordar-se de cada uma delas, experimentando sempre a mesma sensação de náusea daquele momento.

Recebendo em cheio um dos primeiros disparos, a mulher grávida pareceu abrir-se como uma fruta madura — o corpo mudou de forma à passagem do tiro, da espinha ao umbigo, e ela foi jogada para a frente, estatelando-se no pavimento da pista.

A mulher gorducha, agarrada ao menino, pendeu para a frente envolvida pela fumaça azul-clara da pólvora. Dezenas de pequenos buracos surgiram em seu vestido de seda bege. Idênticos pontinhos cobriram a camisa branca do garoto — pequenas florações escarlates que nasciam rapidamente ao redor de cada ferimento, espalhando-se até colorir totalmente sua roupa. Nenhum dos dois emitiu qualquer som; e, com expressões patéticas, caíram porta afora, esparramando-se sobre o corpo da mulher grávida.

Peter ainda conseguiu aparar a menina que caía, cujo peso quase o derruba no pavimento. Desesperado, carregou-a nos braços, correndo em direção ao edifício mais próximo do terminal.

— Não morra! — murmurava ao longo do caminho, sentindo os pés pesados. — Não morra... — Enquanto isso, o sangue morno da garota umedecia-lhe o calção e escorria por suas pernas.

Na entrada do prédio, Colin Noble veio em sua direção e tentou pegar a criança. Peter, porém, continuou com ela até encontrar o médico da equipe, a quem a entregou.

Com o rosto pálido e sem expressão, esperou pelo diagnóstico. Dois minutos depois, o médico anunciou que ela estava morta. Sem nada dizer, Peter encaminhou-se para o Hawker, seguido por Colin Noble.

— Sir Willlian, o senhor nos acusa de manter presos e sem julgamento inimigos do Estado — vociferou o ministro das Relações Exteriores, o dedo em riste. — Mas vocês, ingleses, negaram o direito de habeas corpus ao aprovarem a Lei de Prevenção do Terrorismo, e em Chipre e na Palestina sempre mantiveram prisioneiros sem julgamento. E o quarteirão H no Ulster? Por acaso é melhor do que aquilo que somos forçados a fazer aqui?

O embaixador britânico engoliu em seco. E, enquanto ele pensava em uma resposta, Kelly Constable interveio polidamente:

— Senhores, estamos tentando encontrar bases comuns, não áreas de disputa. Há centenas de vidas em jogo.

Naquele instante, um dos telefones tocou. Sir Willian levou o receptor ao ouvido, com evidente alívio, mas à medida que ouvia, o sangue lhe subia ao rosto, deixando-o vermelho como um pimentão.

— Está bem... Certo, obrigado. — E pôs o fone no gancho, dirigindo o olhar para a imponente figura na outra extremidade da mesa. — Primeiro-ministro, lamento informar que os terroristas rejeitaram o acordo oferecido por seu governo, e que há dez minutos assassinaram quatro reféns.


Um murmúrio de incredulidade perpassou pelo atento círculo de ouvintes.

— Foram mortos duas mulheres e duas crianças, um menino e uma menina, abatidos pelas costas e atirados da aeronave. Os terroristas deram um novo prazo, a meia-noite de hoje, para a aceitação de seus termos. Caso contrário, haverá novas mortes.

Durante quase um minuto ninguém falou; todos estavam atentos à figura sentada à cabeceira da mesa.

— Faço um apelo em nome da humanidade, senhor — Kelly Constable quebrou o silêncio. — Precisamos no mínimo salvar as mulheres e crianças. O mundo não nos perdoará se eles forem mortos.

— Vamos atacar a aeronave e libertar os prisioneiros — afirmou o primeiro-ministro num tom decidido.

O embaixador norte-americano não se deixou intimidar.

— A posição dos governos americano e britânico é inarredável. Jamais concordaremos com um massacre. Se houver ataque à aeronave, não tentaremos moderar os termos das propostas da ONU, tampouco interviremos no Conselho de Segurança para exercer o veto.

— Mesmo que aceitemos as exigências destes... destes animais, colocaremos a nação em perigo!

— Bem, temos apenas algumas horas para encontrar uma solução, antes que os fuzilamentos recomecem...

— PARA VOCÊS, as chances de sucesso de um ataque da Delta são as mais baixas possíveis — disse Kingston Parker, encarando Peter através da pequena tela de vídeo. — Nem o presidente nem eu consideramos aceitável essa situação.

— Doutor Parker, eles estão matando mulheres e crianças lá na pista!

— Estamos pressionando o governo da África do Sul a fim de libertarmos pelo menos as mulheres e as crianças.

— Isso não vai resolver nada. Ficaremos exatamente na mesma posição amanhã à noite.

— Se conseguirmos a libertação das mulheres e crianças, teremos menos vidas em jogo, e em quarenta horas a situação poderá mudar. Estamos jogando com o tempo, Peter, mesmo que tenhamos que pagar caro por isso.

— E se os sul-africanos não concordarem? Se chegarmos ao prazo da meia-noite sem um acordo com os sequestradores, o que vai acontecer então?

— É difícil responder... perderemos mais quatro vidas, mas mesmo assim é melhor do que precipitar o massacre de quatrocentas. E, depois disso, os sul-africanos serão obrigados a aceitar o acordo que liberta as mulheres e as crianças.

Incapaz de acreditar no que ouvia, Peter chegou ao limite de sua paciência. Na tentativa de acalmar-se, abaixou os olhos para suas próprias mãos, que estavam cruzadas sobre a mesa. As unhas da mão direita ainda apresentavam traços de sangue coagulado da criança que ele carregara da aeronave até o prédio do terminal. Furioso, Peter colocou as mãos nos bolsos do avental azul do Thor, respirando fundo e então expeliu o ar vagarosamente.

— Se para você isso foi difícil de dizer, doutor Parker, console-se a si mesmo em saber que foi um quadro sangrento difícil de suportar.

— Entendo como você se sente, Peter.

— Não acho que entenda, sir.

— Você é um soldado...

— E somente um soldado sabe como odiar a violência — completou Peter.

— Não podemos permitir que nossos sentimentos pessoais interfiram, Peter. E mais uma vez devo repetir que a decisão para a condição Delta foi delegada a mim pelo presidente e pelo primeiroministro inglês. Nenhum ataque será feito sem ordens expressas. Entendido, general Stride?

— Entendo, doutor Parker. Espero conseguir ótimos videoteipes dos próximos assassinatos. Poderemos tirar cópias para a sua coleção pessoal.
DESDE QUE COMEÇARA a emergência, um Boeing 747 estava estacionado na área de montagem, a apenas um quilómetro do Pássaro Veloz 070, embora os hangares de serviço do terminal servissem de anteparo, impedindo sua observação por parte dos sequestradores.

Mesmo pintado com o distintivo laranja e azul das Linhas Aéreas da África do Sul, com a gazela voadora na cauda, era um modelo idêntico ao Jumbo. Até a configuração da cabine era similar à do 070, cujas características foram enviadas por telex pela British Airways, em Heathrow. Era uma coincidência feliz, e uma oportunidade que Colin Noble aproveitou imediatamente, ensaiando sete Deltas na fuselagem vazia.

— Muito bem, rapazes, segurem seus traseiros nessa corrida. Quero menos de catorze segundos desde o ”já” até a penetração. — Enquanto Colin Noble falava, a equipe de ataque entreolhava-se, desconfiada. Estavam agachados em círculo no pavimento da pista, alguns com expressão teatral no rosto. — Vamos tentar atingir nove segundos, turma!

Dezesseis homens compunham a equipe de assalto; dezessete contando com Peter. Os outros integrantes do Thor eram peritos em eletrônica e comunicações, quatro eram atiradores de elite, um técnico em armas, um sargento especializado em desmontar explosivos, um médico, um cozinheiro, três oficiais não-comissionados na condição de tenentes, os pilotos e mais o pessoal de voo. Uma equipe grande, sem dúvida, porém todos eram indispensáveis.

O grupo de assalto usava um macacão de náilon colado ao corpo, de baixa visibilidade noturna. Todos portavam máscaras contra gases presas ao pescoço, prontas para serem usadas. As botas eram escuras, com solado de borracha, para não fazerem barulho. Cada homem tinha armas específicas e equipamentos, tanto na mochila que levavam às costas, como no cinto preso à cintura. Nenhum colete à prova de bala, que lhes impedisse a mobilidade, nem capacetes de aço que pudessem ser detectados e denunciá-los para um adversário bem preparado.
A maioria do pessoal era jovem, pouco mais de vinte anos, e tinham sido escolhidos a dedo entre os fuzileiros navais americanos e o regimento antiterrorista britânico SÃS 22 que Peter Stride havia comandado. Estavam em excelente preparo físico, e afiados como uma navalha.

Enquanto a equipe se posicionava nas marcas de giz do pavimento — representando as entradas do terminal aéreo e dos hangares de serviço próximos ao 070 — Colin Noble procurava algum sinal de descuido, qualquer desvio dos padrões quase impossíveis estabelecidos pelo Thor. Não encontrou nada.

— Muito bem, dez segundos para o clarão — ordenou ele. Um ataque Delta começou com o disparo de luzes de fósforo

ao redor do nariz da aeronave-alvo, causando uma diversão que provocaria a reunião dos terroristas na cabine de comando. Enquanto tentassem entender a razão das luzes, o brilho do fósforo deixaria insensíveis as retinas de seus olhos, destruindo-lhes a visão noturna por vários minutos.

— Luzes! — gritou Colin, e o grupo de assalto entrou em ação. Os dois homens de ”ponta” saíram na frente, correndo a toda velocidade para a cauda do Boeing deserto. Cada um deles carregava um cilindro de gás preso aos ombros, no qual as compridas sondas de aço inoxidável eram ligadas por acopladores blindados flexíveis, constituindo a ”marca” que lhes dava o nome.

O líder carregava um reservatório de ar comprimido à pressão de 250 atmosferas. Na ponta de sua sonda de sete metros, uma furadeira a ar com broca de diamante. Ele parou sob a barriga da aeronave, três metros atrás do trem de pouso, e subiu nela para pressionar a furadeira no ponto exato, cuidadosamente tirado do projeto do fabricante, onde a resistência do casco envoltório era menor e dava acesso direto à cabine de passageiros.

O barulho da furadeira seria encoberto pela aceleração dos motores a jato da aeronave estacionada no terminal sul. Três segundos para escalar o invólucro do avião, e o segundo homem de ponta estaria a postos para inserir o bico de sua sonda no buraco perfurado.

— Corte de energia! — gritou Colin; nesse momento a energia elétrica da aeronave seria cortada para eliminar o ar-condicionado.

O segundo homem simulava a ação de desprender o gás do cilindro, saturando o ar na cabine da aeronave. O gás era conhecido como Factor V. Tinha cheiro de trufas recém-cavadas, e quando respirado numa concentração de cinco por cento no ar, paralisaria um homem em cerca de dez segundos, ocasionando perda do controle motor, movimentos desordenados, fala enrolada e visão distorcida.

Respirado durante vinte segundos, provocaria paralisia total; por trinta segundos, perda de consciência; por dois minutos, deficiência pulmonar e morte. O antídoto era ar fresco ou, melhor ainda, oxigénio puro, com recuperação rápida e sem efeitos colaterais.

O restante do grupo de assalto seguira os homens de ponta e separara-se em quatro grupos. Esperavam equilibrados e suspensos ao longo das asas, usando as máscaras de gases e com as armas prontas para o uso.

Colin cronometrava a ação. Seria uma temeridade expor os passageiros a mais de dez segundos sob o efeito do Factor V, por causa dos velhos, das crianças e dos doentes de asma a bordo; quando o ponteiro atingiu os dez segundos, ele gritou:

— Ligue a energia! — E o ar-condicionado imediatamente começaria a jogar o gás para fora das cabines. Então era o ”já!”

Dois grupos de assalto encostaram as escadas de alumínio na base das asas e derrubaram os painéis da janela de emergência. Os outros dois grupos foram para as portas principais e simularam o uso de machadinhas para atingir o dispositivo da fechadura no interior; em seguida jogariam ali granadas de atordoamento.

— Penetração! — O líder do assalto, colocado no lugar de Peter Stride naquele exercício, ordenou a entrada na cabine.

— Que tempo? — perguntou uma voz calma atrás de Colin Noble, que estava tão concentrado em sua tarefa que não percebera a aproximação de Peter.

— Onze segundos, sir. — A forma cortês de tratamento demonstrava a surpresa do coronel. — Não está mal, mas seguramente ainda pode melhorar. Vamos repetir.

— Mande o pessoal descansar. Preciso falar com você.

Minutos mais tarde, em frente às janelas do lado sul da torre de controle de tráfego, os dois contemplaram a aeronave vermelha, branca e azul pela centésima vez naquele dia.

O calor da tarde provocara cúmulos nos céus, enormes cogumelos cor de púrpura e prateados. No horizonte, nuvens de chuva formavam um pano de fundo tão majestoso que parecia irreal — o sol poente penetrava por interstícios de nuvens e banhava-as de dourado, reforçando a impressão de um cenário teatral.

— Faltam seis horas para o prazo — resmungou Colin, tateando os bolsos à procura de um charuto. — Alguma novidade em concessões pelo governo?

— Nada. Eles não vão ceder.

— Pelo menos até um novo banho de sangue! — Colin arrancou a ponta do charuto com os dentes e cuspiu-a raivosamente a um canto. — Passei dois anos fodidos, treinando para este momento, e agora eles atam nossas mãos às costas.

— Se autorizarem a condição Delta, quando você faria o ataque?

— Tão logo anoiteça.

— Os caras ainda devem estar estimulados pelas drogas — objetou Peter. — Precisamos dar-lhes tempo de irem ao paraíso e começarem a cair lentamente. Na minha opinião, eles vão se drogar um pouco antes do próximo prazo. Eu atacaria antes disso... quinze minutos antes das onze, isto é, uma hora e quinze antes do prazo.

— Se tivermos a condição Delta — resmungou Colin.

— Se tivermos a condição Delta — concordou Peter, pensativo. — A propósito, estou com uma dúvida martelando minha cabeça. Se sabem o meu nome, o que mais que essa gangue de monstrinhos saberia sobre o Thor? Será que conhecem nosso plano de contingência para a tomada da aeronave?

— Pelo amor de Deus! Não especulei até esse ponto.

— Estou pensando em uma virada, uma mudança no modelo, alguma coisa que nos dê uma vantagem mesmo que eles conheçam nossa forma de agir.

— Gastamos dois anos para acertar todos os detalhes. Não há nada que possamos mudar.
— E as luzes? Poderíamos deixar de sinalizar com as luzes de fósforo.

— Os caras estariam espalhados pelas cabines, misturados com os passageiros e a tripulação...

— E a camiseta vermelha que Ingrid está usando? Para mim, os quatro devem estar uniformizados para impressionar os reféns. Cairíamos em cima de todos que estivessem de vermelho. Se minha hipótese estiver errada, teremos de usar o estilo israelense. — O estilo israelense era um grito de comando para que todos se deitassem; quem desobedecesse ou fizesse qualquer movimento agressivo seria morto.

— Quem verdadeiramente vale a pena é Ingrid. A garota com a câmara. Vocês estudaram os videoteipes?

— O rosto dela já está mais conhecido do que o de Jane Fonda. A filha da puta é bonita demais. Fui obrigado a passar três vezes a cena das execuções, duas em câmara lenta, para acabar com o cavalheirismo do pessoal.

Costumava ser difícil encontrar um homem disposto a matar uma mulher bonita; e um momento de hesitação seria fatal diante de alguém tão bem treinado como Ingrid.

— Também mandei que dessem uma espiada na menina morta antes de levá-la para o necrotério. Eles estão altamente motivados — concluiu Colin, balançando a cabeça. — O diabo é que Atlas não vai autorizar a condição Delta. Estamos perdendo tempo.

— Você topa jogar um faz-de-conta? Vamos supor que seja aprovado o Delta. Quero que você planeje um ataque com o ”já” exatamente para as 22:45. Proceda como se fosse real; providencie todos os detalhes.

Colin observou por alguns instantes o rosto de Peter, sem encontrar nele nenhum traço de zombaria.

— Faz-de-conta? — perguntou calmamente.

— Isso mesmo.

— Droga, vim aqui para trabalhar! — resmungou, afastando-se. Erguendo o binóculo, Peter percorreu a longa aeronave, da cauda ao nariz. Não havia sinal de vida; todas as portas e janelas permaneciam fechadas. Relutante, ele focalizou a pilha de corpos que continuavam estendidos no pavimento logo abaixo da porta dianteira.

Exceto para a conexão elétrica, o fornecimento de remédios e as duas ocasiões em que Peter fora até lá negociar, não fora permitida a aproximação de ninguém — nada de reabastecimento, nada de remoção dos dejetos sanitários, nada de fornecimento e nem mesmo a retirada dos cadáveres dos reféns assassinados. Os sequestradores haviam assimilado as experiências anteriores, em que informações vitais tinham vazado através do lixo, em Mogadíscio e em Lod, com a equipe de ataque aparecendo disfarçada de faxineiros.

Peter observava os cadáveres e, embora estivesse acostumado com a morte nas formas mais terríveis, aqueles corpos insepultos o deixavam indignado. Era um acinte, uma demonstração desprezível contra um dos mais arraigados preceitos sociais. Ainda bem que a polícia sul-africana proibira o acesso da televisão e dos jornais às áreas internas do aeroporto.

A imprensa certamente estava lançando seus protestos mais veementes contra a violação do seu direito sagrado de levar a todas as casas as imagens das mortes e mutilações, muito bem fotografadas, claro, em belas cores e com meticulosa atenção profissional a todos os detalhes macabros.

Sem essa crónica colorida de suas façanhas, o terrorismo internacional perderia boa parte do seu ímpeto, e o trabalho do Thor seria facilitado. Por um breve momento, Peter invejou o poder que a polícia possuía para forçar aqueles irresponsáveis a agirem pelos melhores interesses da sociedade. No entanto, mesmo sem levar esse pensamento muito longe, percebia o quanto era difícil determinar quem estava qualificado para tomar essas decisões em favor da coletividade. Será que a atitude da polícia não se caracterizava como uma das formas do terrorismo que ele lutava para suprimir? ”Meu Deus!”, pensou ele com raiva. ”Desse jeito vou ficar louco!”

Peter foi até a mesa do controlador da torre de tráfego, pegou o microfone e falou:

— Pássaro Veloz 070, aqui é a torre. Ingrid, você está me ouvindo? Por favor, Ingrid. — Era sua décima segunda tentativa de fazer contato nas últimas horas. Em todas elas, os sequestradores haviam mantido absoluto silêncio.

— Ingrid, responda por favor.

Passados alguns instantes, uma voz clara soou no alto-falante.

— Aqui é Ingrid. O que você quer?

— Estamos solicitando sua permissão para uma ambulância remover os corpos — disse Peter.

— Negativo, torre. Repito, negativo. Ninguém pode se aproximar do avião. Esperem até empilharmos uma dúzia de corpos. — Ela riu histericamente, mostrando que ainda estava sob o efeito da droga. — Depois da meia-noite, com certeza, haverá corpos suficientes para um bom carregamento — concluiu, desligando o rádio.

— VAMOS SERVIR O JANTAR — anunciou Ingrid num tom carinhoso. — Hoje é o meu aniversário, por isso vocês vão receber champanhe. Não é uma boa?

Naquele instante, o médico baixinho jogou-se aos pés dela. Seus esparsos cabelos grisalhos estavam grudados uns aos outros; o rosto parecia uma máscara de cera, todo enrugado. Ele tinha o aspecto de quem estava prestes a sofrer um ataque nervoso.

— Você não tinha o direito de matá-la — balbuciava, com a voz enrolada. — Ela era uma boa pessoa. Nunca fez mal a ninguém... Você não devia ter matado minha mulher...

— Ela era culpada — rebateu Ingrid. — Ninguém é inocente; todos vocês são ferramentas do capitalismo internacional. Você também é culpado, e merece morrer. — Ela parou subitamente, controlou-se com um óbvio esforço de vontade, e então sorriu, colocando o braço ao redor dos ombros dele — Sente-se.. Sei muito bem como você se sente. Por favor, acredite, eu gostaria que tudo fosse diferente.

O médico deixou-se cair na poltrona, os olhos fundos de tristeza, o punho fechado num gesto impotente.

— Fique calmo — disse Ingrid gentilmente. — Vou lhe trazer uma taça de champanhe.
— SENHOR PRIMEIRO-MINISTRO... — a voz de Kelly Constable estava áspera depois de quase dois dias de incessante tensão —, são mais de dez horas. Precisamos tomar uma decisão em menos de duas horas...

— Sim, já sabemos o que vai acontecer.

Um jato da Força Aérea trouxera uma cópia do videoteipe de Joanesburgo, a mil e seiscentos quilómetros de distância, e tanto o gabinete como os embaixadores haviam assistido à atrocidade em detalhes, tomada pelas lentes de 800 mm. Todos os homens ali na mesa tinham filhos pequenos. O mais radical de direita entre eles mostrava insegurança, e até o endiabrado chefe de polícia evitou encarar o embaixador quando este varreu a mesa com um olhar suplicante.

— Sabemos também que não é possível um acordo; precisamos aceitar as exigências na totalidade ou então nada.

— Senhor embaixador — disse o primeiro-ministro —, se concordarmos com os termos será apenas por um ato de humanidade. Estaremos pagando um preço alto pelas vidas do seu povo; mas, se concordarmos com isso, poderemos ficar absolutamente seguros do apoio dos embaixadores britânico e americano, no Conselho de Segurança da ONU?

— O presidente dos Estados Unidos me autorizou a garantir esse apoio em troca de sua cooperação — afirmou Kelly Constable.

— Sua Majestade britânica também lhe assegura esse apoio — acrescentou sir Willian. — E nossos governos aportarão os 170 milhões de dólares pedidos pelos sequestradores.

— Mesmo assim não posso tomar a decisão sozinho. É uma responsabilidade muito grande para um único homem — disse o primeiro-ministro. — Vou pedir aos meus ministros para votarem. Os senhores poderiam nos deixar sozinhos por alguns minutos, enquanto decidimos?

Tensos, nervosos, os dois embaixadores levantaram-se e, com uma pequena reverência, saíram da sala.

— ONDE ESTÁ o CORONEL NOBLE? — perguntou Kingston Parker.

— Está esperando lá fora. — Peter indicou com um meneio de cabeça a porta à prova de som da cabine do Hawker.

— Quero que ele ouça isso — disse Parker na tela, e Peter pressionou o botão de chamada.

Colin Noble entrou imediatamente, exibindo o boné azul do Thor puxado sobre os olhos. Ele cumprimentou a imagem na tela e acomodou-se na poltrona ao lado de Peter.

— Estou contente que o coronel Noble esteja aqui — começou Peter num tom de voz duro. — Creio que ele apoia minha alegação de que as chances de uma ação bem-sucedida pela Delta serão maiores se lançarmos o ataque antes das onze horas. — Ele revirou a empunhadura da luva e olhou para o relógio. — Isto é, daqui a quarenta minutos. Esperamos pegar os militantes no momento em que o ciclo da droga esteja em seu ponto mais baixo, antes que eles tomem mais comprimidos e se excitem novamente. Acredito que se atacarmos então, o risco será baixo e...

— Obrigado, general Stride — interrompeu-o Parker. — Porém, quero o coronel Noble presente para que minhas ordens não sejam mal interpretadas. Coronel, o comandante do Thor acaba de solicitar autorização para um ataque contra o 070. Agora, em sua presença, estou negando o pedido. As negociações com o governo sul-africano estão num ponto crítico, e sob nenhuma circunstância deve haver hostilidades abertas ou veladas contra os militantes. Estou sendo claro?

— Sim, senhor.

— General Stride?

— Entendo, sir.

— Muito bem. Permaneça na sala, por favor. Vou conversar com os embaixadores. Restabelecerei o contato assim que tiver algo concreto.

Quando a imagem de Kingston desapareceu da tela, o coronel Colin Noble virou-se e olhou para Peter Stride, mudando de expressão. Depois, ele pressionou o botão de censura no console de comando, desligando os gravadores e as câmaras de vídeo para que não fossem registradas suas palavras.

— Escute, Peter, você está em contato com a direção da OTAN, todo mundo sabe disso. Daí pra frente o céu é o limite! Você pode conseguir o posto que quiser.

Em silêncio, Peter olhou mais uma vez para o Rolex de ouro no pulso. Eram dez e dezessete.

— Pense, Peter, pelo amor de Deus! Você teve vinte anos de trabalho árduo para chegar onde está. Eles não vão esquecer você. Acredite em mim. Vão arrebentá-lo e acabar com sua carreira. Abandone essa ideia. Não vale a pena desperdiçar a si mesmo. Pare e pense mais uma vez.

— Estou pensando — disse Peter calmamente. — Nunca parei de pensar desde que tudo começou, e sempre as coisas retornam ao mesmo tempo. Se eu deixar eles morrerem... sou tão culpado quanto a mulher que dispara o gatilho.

— Você não precisa bater a cabeça no muro. A decisão é tomada por outra pessoa.

— Seria fácil acreditar nisso, mas não salvaria ninguém. Colin inclinou-se para a frente e colocou a mão peluda no antebraço dele.

— Eu sei, mas me arrasa ver você jogando tudo pelos ares. Tenho muita estima por você, cara. — Era a primeira vez que ele fazia uma declaração daquelas, e Peter ficou emocionado.

— Você pode ficar de fora, Colin. Não há por que manchar sua carreira.

— Nunca fui de fugir de uma boa briga. Posso pegar sua carona...

— Então você grava um protesto... Não faz sentido que todos nós sejamos despedidos. — Peter ligou o equipamento de gravação, tanto de áudio como de vídeo, e então continuou: — Coronel Noble, estou a fim de liderar um assalto imediato ao voo 070. Por favor, tome as providências necessárias.

Colin virou o rosto para a câmara.

— General Stride, protesto formalmente contra qualquer ordem de iniciar a Delta sem aprovação expressa do comando do Atlas.


— Seu protesto está anotado.

Colin Noble acionou o botão de censura novamente, parando as fitas e as câmaras.

— Bom, isso foi uma sarna suficiente para um dia. Vamos pegar os bastardos de uma vez!

SENTANDO-SE À MESA do engenheiro de voo, Ingrid pegou o microfone do sistema interno e aproximou-o da boca. Uma tonalidade lúgubre aparecia por baixo de sua pele bronzeada. Ela franziu o cenho ao sentir uma palpitação de dor atrás dos olhos, e tremeu levemente. Estava em plena ressaca da droga. Fora um equívoco aumentar a dosagem inicial além da recomendada na etiqueta do frasco, mas precisara de um pique mais alto para ser capaz de levar a cabo as primeiras execuções. Agora, ela e seus companheiros estavam pagando o preço; mas dali a vinte minutos seria capaz de ingerir outra rodada de tabletes. Desta vez tomaria a dosagem certa... Ela quase podia sentir a circulação acelerada do sangue, aumentando a acuidade da visão, dando-lhe energia e animação. Foi capaz até de antecipar o que viria pela frente — mostrou-se dona de um poder absoluto, o poder da própria morte, uma das experiências mais benéficas da vida. Sartre, Bakunin e Most haviam descoberto uma das maiores verdades: que o ato de destruição, de destruição total, era uma catarse, uma criação, uma revitalização da alma.

Ingrid olhou para a frente, e mesmo que a dependência e a dor da droga diminuíssem, encarou com segurança as próximas execuções.

Meus amigos — disse ao microfone —, não ouvimos nada do tirano. A falta de interesse pelas vidas de vocês é típica do imperialismo fascista. Eles não se importam com a segurança das pessoas, embora lhes suguem o sangue...

Fora da aeronave, a noite estava escura e fechada. De quando em quando, raios cortavam o céu, seguidos de trovões ensurdecedores. Desde que o sol se pusera, duas chuvas rápidas porém torrenciais tinham lavado a carcaça do Boing. Agora, as luzes do aeroporto cintilavam no pavimento empoçado.

— Vamos mostrar ao tirano nossa coragem e vontade de ferro. Não teremos um só minuto de hesitação. Precisamos agora escolher mais quatro reféns. Isso será feito com a maior imparcialidade possível. Fiquem sabendo que somos todos partes da revolução, e vocês podem se orgulhar disso...

Naquele instante, um raio caiu muito próximo, uma chama iridescente dos céus que atingiu o campo com uma luz inclemente. Então o barulho do trovão pareceu sacudir a aeronave. Com uma exclamação de medo, Karen levantou-se nervosa, correndo para o lado de Ingrid. Seus olhos escuros estavam marcados pela fadiga e a carência da droga. Ela tremia da cabeça aos pés, e Ingrid acariciou-a distraidamente, como faria com um gatinho, enquanto continuava falando ao microfone:

— Precisamos aprender a saudar a morte, dar acolhida à oportunidade de tomar nosso lugar e dar nossa contribuição, por mais humilde que seja, ao grande despertar do homem.

Os raios cortavam os céus em selvagem esplendor. Ingrid continuava seu discurso — palavras sem sentido que pareciam hipnóticas e relaxantes a tal ponto que os passageiros sequer se moviam em seus assentos; não tinham absolutamente nenhuma reação.

— Fiz um sorteio para escolher os próximos mártires da revolução. Chamarei os números dos assentos e meus companheiros irão pegá-los. Por favor, colaborem vindo rapidamente para a cozinha da primeira classe.

Depois de uma pequena pausa, a voz de Ingrid anunciou:

— Assento 63B. Por favor, levante-se.

Kurt, o de camisa vermelha e cabelos negros grudados à testa, forçou o homem de meia-idade a ficar de pé, torcendo-lhe os pulsos. Sobre a camisa amarrotada do prisioneiro, viam-se suspensórios que seguravam uma calça larga e fora de moda.

— Vocês não podem deixar — implorou o homem aos vizinhos de assento, enquanto Henri empurrava-o para o corredor. — Vocês não podem deixar eles me matarem, por favor.

Todos olhavam para os próprios colos. Ninguém se moveu, ninguém falou.

— Assento 43F!

Uma bonita mulher de cabelos escuros, de seus trinta anos, empalideceu por completo ao ler o número acima de sua cabeça. Enquanto tapava a boca para impedir o choro, porém, o passageiro do assento exatamente do outro lado do corredor, um velho bem animado, com uma magnífica cabeleira grisalha, ergueu-se de repente e ajeitou a gravata.

— Você se importaria de trocar de assento comigo, madame? — perguntou ele, com um sotaque britânico perfeito, e saiu caminhando pelo corredor com pernas finas e passos de cegonha, olhando com desprezo para o francês de bigode loiro que se apressara para escoltá-lo. Firme, embora com os ombros caídos, ele desapareceu atrás das cortinas da cozinha.

DAS JANELAS LATERAIS da cabine de comando, formando um ângulo de 20 graus com a cauda, o campo de visão era nulo até o fundo da aeronave. Porém, os sequestradores estavam muito bem equipados e pareciam ter previsto todos os detalhes, de modo que não havia por que supor que não tivessem feito alguma coisa para manter aquele espaço sob vigilância.

Peter e Colin discutiram essa possibilidade em voz baixa, enquanto se encontravam no hangar de serviço principal, e estudaram cuidadosamente a cauda do Jumbo e o encurvamento da barriga da fuselagem para descobrir o reflexo de algum espelho ou qualquer outro dispositivo. Eles estavam bem atrás da aeronave, a pouco mais de quatrocentos metros de distância, metade grama na altura dos joelhos, e o resto pavimento.

O campo estava iluminado apenas pelas lanternas azuis periféricas da pista de rolamento e pelo reflexo das luzes dos edifícios do aeroporto.

Peter abandonara a ideia de cortar todas as luzes do aeroporto, o que certamente alertaria os sequestradores e diminuiria as possibilidades de sucesso da equipe de assalto.

— Não consigo ver nada — murmurou Colin.

— Nem eu — respondeu Peter, e ambos entregaram seus óculos noturnos a um oficial auxiliar; não necessitariam deles novamente. A equipe de assalto deixara para trás tudo o que não fosse absolutamente essencial.

Peter levava consigo apenas um transmissor-receptor para comunicação com seus homens no edifício terminal, e num coldre de rápido desarme, no lado direito da cintura, uma pistola automática Walther P 38.

Cada membro da equipe portava a arma de sua escolha. Colin Noble, o único caprichoso entre eles, vacilara entre um parabélum de alta potência Browning 9 mm, que gostava por causa do tambor de 13 balas, e um Colt Commander 45 ACP, por seu peso leve e incrível poder de penetração. Peter, por sua vez, preferia a facilidade de apontar com precisão e o coice leve de sua pistola Walther, com a qual podia estar seguro de acertar uma cabeça a vinte metros de distância.

O item comum no equipamento de todos os membros da equipe de assalto era a carga de suas armas: balas explosivas Velex, que tinham o triplo da potência das balas comuns, fragmentando-se no corpo, e com isso reduzindo o risco de atravessá-lo e atingir pessoas inocentes. Peter nunca se esquecia de avisar que estariam trabalhando com terroristas e vítimas sempre juntas.

Ao seu lado, Colin Noble retirou a corrente de ouro do pescoço com a medalha em forma de estrela de Davi: um brilho de ouro em meio aos pêlos negros do seu peito arfante. Guardou o ornamento no bolso e abotoou a lapela.

— Então meu chapa — Colin Noble imitava com atrocidade o sotaque de Sandhurst —, podemos começar a brincadeira?

Peter deu uma olhada no dial luminoso do seu Rolex. Faltavam dezesseis minutos para as onze. ”O momento exato em que minha carreira termina”, pensou com tristeza, e ergueu o braço direito com os dedos cerrados, para depois abaixá-lo e levantá-lo duas vezes, como no velho sinal de ataque da cavalaria.

Rapidamente os dois homens de ponta correram na frente, sem fazer o menor barulho, carregando suas sondas bem erguidas para não bater contra o pavimento nem nas portas metálicas da aeronave. Pareciam corcundas sob o fardo dos cilindros de gás que portavam.

Peter dera-lhes o prazo de contar até cinco lentamente, e enquanto esperava, sentiu a adrenalina percorrer seu sangue. Todos os nervos e músculos do seu corpo ficaram tensos — então, suas próprias palavras dirigidas a Kingston Parker ecoaram em seus ouvidos como a profecia do Juízo Final: ”Não há meio-termo. A alternativa é cem por cento de perdas. Perderemos a aeronave, os passageiros e todas as pessoas do Thor a bordo.”

Logo, ele deixou esse pensamento de lado e repetiu o sinal de ataque. Em duas filas bem ordenadas, agrupadas próximas e bem à mão, as equipes de assalto saíram correndo. Três homens levavam cada um escadas de liga de alumínio, quatro portavam sacolas com granadas de aturdimento; os demais, as machadinhas para arrebentar a fechadura das portas. Todos eles com o revólver escolhido, quase sempre uma arma de grande calibre, pois Peter não confiaria em ninguém com uma automática no populoso interior de uma aeronave sequestrada. Aliás, o mínimo que se exigia de cada membro da equipe de assalto era a perícia com uma pistola — tinham de ser capazes de fazer pontaria sobre um pequeno alvo em movimento e atingi-lo repetidamente e com rapidez sem criar perigo para os inocentes.

Avançaram em silêncio na quase total escuridão da noite. Peter ainda teve tempo para lamentar a decisão que tomara. Era um jogo que ele jamais ganharia; na melhor das hipóteses, aconteceria a ruína total do seu trabalho. Mas de que que adiantava pensar nisso naquele momento?

Bem em sua frente, perfiladas pelas luzes do edifício terminal, as negras figuras dos homens de ponta estavam em posição sob a abaulada barriga prateada do Jumbo. Subitamente, relâmpagos espoucaram no céu como milhões de flashes de luz branca, deixando o campo totalmente claro, de modo que as duas colunas de figuras de vestes negras sobressaíam em contraste com a grama parda. Se estivessem sendo observados, seria agora... e a explosão dos trovões fez os nervos de Peter se distenderem — ele esperava a detonação e as labaredas de uma dezena de granadas de percussão.

Então tudo se tornou escuro outra vez, e a grama seca e esponjosa a seus pés deu lugar ao plano pavimento duro. Em poucos minutos estavam sob a fuselagem do Boeing, como pintinhos sob a asa protetora da galinha, e as duas colunas dividiram-se em quatro grupos separados. Ainda em ordem unida, cada homem ajoelhou-se sobre a perna esquerda e, no mesmo instante, com a precisão dos treinamentos repetidos, ergueu sua máscara de gás para cobrir o nariz e a boca.

Peter deu uma rápida olhada na equipe antes de desligar o botão do seu rádio. Ele não falaria uma só palavra de agora em diante até que tudo terminasse — não poderiam descartar a possibilidade, mesmo remota, de que os sequestradores estivessem monitorando sua frequência.

O desligar do botão foi o sinal para os membros da equipe no terminal. Quase imediatamente, elevou-se no ar o uivo assobiado das turbinas de jato acelerando.

Mesmo com o Jumbo estacionado na área norte da partida internacional as turbinas estavam viradas de tal forma que a exaustão ficara apontada para a área de serviço, e havia cinco jatos intercontinentais cooperando. O som combinado de vinte turbinas era simplesmente ensurdecedor. Então Peter deu o sinal de mão abrindo.

O homem de ponta, que esperava posicionado, ergueu-se e manejou a furadeira de encontro à barriga da fuselagem. O barulho do ar-comprimido da furadeira era totalmente abafado. Havia apenas o trepidar da longa broca que penetrava na couraça pressurizada. Logo após essa operação, o segundo homem de ponta enfiou a extremidade de sua sonda no pequeno buraco. Novamente Peter fez o sinal de mão abrindo, e o gás foi injetado na couraça. Peter concentrou-se nos ponteiros do relógio.

Dois cliques no botão de transmissão, e as luzes atrás da fila de portinholas sumiram simultaneamente, pois a energia elétrica fora cortada, e o ar-condicionado com ela.

Sob o trepidar das turbinas dos jatos, Peter sinalizou para que os homens das escadas avançassem.

Com facilidade, as pontas das escadas com degraus de borracha foram enganchadas nas bordas das asas e nas soleiras das portas. Logo, vestidas com trajes negros, figuras grotescamente mascaradas trabalhavam com uma velocidade ilusoriamente casual.

Após dez segundos de descarga do gás Factor V nas cabines, Peter apertou três vezes o botão. A energia elétrica do Boeing retornou e as luzes tremeluziram. O ar-condicionado voltou a funcionar, retirando o gás rapidamente das cabines de passageiros e de comando.

Peter deu um longo suspiro e bateu com a mão no ombro de Colin. Subiram as escadas em silêncio.

NOVE MINUTOS PARA AS ONZE — disse Ingrid a Karen, elevando a voz para se fazer ouvir apesar do barulho das turbinas. Sua garganta estava seca e inchada do efeito da retirada da droga, e um nervo latejava no canto do seu olho direito. Sentia uma dor de cabeça atroz, como se tivesse uma corda amarrada na fronte e apertada a cada instante. — Parece um erro de cálculo de Califa. Os sul-africanos não vão desistir.

Fazendo um movimento significativo com os lábios, ela espiou para os quatro reféns, que ocupavam os assentos reclinados da cozinha. O inglês de cabelos prateados fumava um cigarro, uma longa piteira de marfim e âmbar, e devolveu seu olhar com desdém, de tal forma que Ingrid sentiu uma pontada de irritação e ergueu a voz para que ele pudesse ouvir.

— Vai ser necessário abater essa outra fornada.

— Califa nunca se enganou antes. — Karen balançou a cabeça com veemência. — Ainda falta uma hora para o prazo acabar.

Naquele instante, as luzes piscaram uma vez e então apagaram.

Com todas as portinholas fechadas, a escuridão foi completa, e o sussurrar do ar-condicionado desvaneceu-se antes que um murmúrio de surpresa tomasse o seu lugar.

Ingrid tateou o longo painel de controle que transferia a alimentação da cabine de comando para as baterias próprias da aeronave, e quando o brilho das luzes do painel retornou sua expressão estava tensa e preocupada.

— Desligaram a energia e o ar-condicionado. Podemos estar na condição Delta.

— Não. — A voz de Karen era estridente. — Não houve luzes.

— Podemos estar... — Foi então que Ingrid percebeu algo estranho em sua própria voz. A língua parecia ter crescido dentro da boca. Ao mesmo tempo começou a ver o rosto de Karen distorcido, os contornos saindo de foco. E, de repente, o inconfundível aroma de trufas e o gosto de cogumelos crus na boca. — Meu Deus! — gritou, desesperada, enquanto acionava o mecanismo manual de oxigênio. Acima de cada banco, os painéis caíram abertos e as máscaras de oxigênio penduraram-se com suas presilhas corrugadas. — Kurt! Henri! — gritou pelo interruptor da cabine. — Oxigênio! Tomem oxigênio! É a Delta! Eles estão em Delta!

Ela agarrou uma das máscaras de oxigênio e aspirou profundamente para se livrar do efeito do gás paralisante. Na cozinha da primeira classe, um dos reféns entrava em colapso e caía no piso, enquanto outro desmaiava.

Ainda respirando através da máscara, Ingrid tirou a câmara do pescoço. Karen olhou-a alarmada e, afastando a máscara da boca, perguntou:

— Você vai explodir o avião?

Sem lhe fazer caso, Ingrid gritou no microfone:

— Kurt! Henri! Eles vão entrar assim que as luzes se acenderem novamente. Cubram os olhos e os ouvidos por causa das granadas de aturdimento e esperem; cuidem das portas e janelas das asas.

— Não nos estoure, Ingrid — implorou Karen. — Por favor, se nos entregarmos, Califa nos liberta em um mês. Não temos por que morrer.

Naquele momento as luzes se acenderam, e voltou o sussurro do ar-condicionado. Ingrid aspirou forte o oxigénio e correu para a cabine de primeira classe, pulando sobre os corpos inconscientes dos reféns. Pegou outra das máscaras de oxigénio que pendia acima de um assento de passageiro e olhou ao longo da fuselagem.

Kurt e Henri haviam seguido suas instruções e respiravam através de máscaras penduradas no teto. O alemão estava a postos no painel da porta da asa, e o francês esperava na porta traseira; ambos armados com as pistolas. No entanto, com os rostos cobertos pelas máscaras amarelas, Ingrid não pôde ver nem julgar suas expressões.

Apenas um pequeno número de passageiros fora suficientemente rápido para pegar as máscaras de oxigénio penduradas e permanecer consciente; centenas de outros escorregaram nos assentos ou caíram para os lados nos corredores.

As máscaras que pendulavam dos compartimentos de bagagem pareciam uma floresta de lianas e confundiam o panorama. E após a rápida escuridão, as luzes tornaram-se dolorosamente brilhantes.

Ingrid sustentava a câmara na mão, consciente de que precisava continuar respirando oxigénio. Ainda levaria muito tempo para que o ar-condicionado limpasse a atmosfera do Factor V, por isso ela mantinha uma máscara sobre a boca.

Karen estava ao lado dela, com a pistola em uma das mãos e a outra pressionando a máscara na boca.

— Volte e cubra a porta dianteira — ordenou Ingrid. — Haverá...

— Ingrid, não temos por que morrer... — Nesse momento, uma pancada na saída de emergência sobre as asas provocou um buraco, por onde deslizaram dois objetos para a cabine.

— Granadas de aturdimento! — berrou Ingrid. — Abaixe-se!

PETER Stride SENTIA-SE leve como uma águia voando. Parecia que seus pés mal haviam tocado os apoios da escada, agora que na rápida sequência das ações já não poderiam haver dúvidas nem hesitações: ele estava confiante, e isso era um tremendo alívio.

Ele escalou a asa do Jumbo com uma cambalhota, e logo estava de pé, parado silenciosamente em frente à brilhante porta de metal. As gotas da chuva caíam como diamantes e o vento fresco agitava seus cabelos.

Quando alcançou a envergadura principal, ele tomou posição ao lado do painel da porta, os dedos de encontro à lâmina da junta da lingueta, enquanto um auxiliar ajoelhava-se rapidamente ao seu lado. Os granadeiros estavam prontos para lançar seus petardos e balançavam como acrobatas na curva superfície escorregadia da asa gigantesca.

Peter calculou que haviam gasto menos que seis segundos para alcançar aquele estágio desde o ”já!”. Tinham sido rápidos e precisos como nunca ocorrera nos treinos, todos eles conscientes de que iriam enfrentar o horror e a morte.

Peter e seu auxiliar usaram suas forças e pesos combinados na liberação da porta de emergência, que deslizou para a frente imediatamente, pois não havia pressurização para opor resistência. No instante seguinte, os granadeiros lançaram as granadas de aturdimento, e os quatro membros da equipe de Peter balançaram suas cabeças como os maometanos em oração na Meca, cobrindo orelhas e olhos.

Mesmo do lado de fora da fuselagem, o barulho das explosões foi estarrecedor, parecendo golpear dentro do cérebro com uma força física opressiva. O clarão do fósforo queimando mostrava um raio X dos dedos de Peter através de suas pálpebras fechadas. Logo os granadeiros estavam gritando no interior da aeronave:

— Abaixem-se! Todo mundo abaixado! — Eles continuariam repetindo essa palavra-de-ordem até que tudo estivesse acabado.

Peter estava uma fração de segundo atrasado. E, entorpecido pela explosão, quase não acertou o coldre para sacar a pistola Walther. Logo, porém, precipitou-se para a cabine de passageiros, como um corredor arrancando para a partida. Ele ainda estava no ar quando viu a moça de camiseta vermelha correndo para a frente, brandindo a câmara e gritando algo que não fez sentido, embora seu cérebro registrasse tudo. Atirou quando seus pés tocaram o piso — o tiro atingiu-a na boca, abrindo um orifício entre as fileiras de dentes brancos, deslocando sua cabeça para trás tão violentamente, que ele ouviu o estalo dos ossos do seu pescoço.

INGRID COBRIU OS OLHOS e os ouvidos com os braços, e agachou-se ante o apavorante furacão de som e luz que varreu as cabines. Mesmo depois daquele instante aterrador, ela ficou cambaleante, procurando agarrar-se a qualquer coisa enquanto tentava controlar-se para avaliar o momento exato em que os atacantes entrariam na aeronave.

Os que estivessem do lado de fora do avião escapariam do impacto direto dos explosivos que ela pensava em detonar; teriam bastante chance de sobrevivência. Por isso ela fazia questão de esperar que toda a equipe de assalto tivesse entrado no aparelho para então provocar o maior número possível de baixas entre eles. Erguendo a câmara acima da cabeça, com ambas as mãos, ela gritou:

— Venham!

A cabine estava densa de fumaça branca ácida; as máscaras penduradas enredavam-se umas nas outras como a cabeça da Medusa. Ingrid escutou o disparo de uma pistola e alguém gritando, enquanto vozes ordenavam:

— Abaixem-se! Todo mundo abaixado!

Tudo era fumaça, som e confusão, porém, ela cuidava da abertura escura da porta de emergência, o dedo no detonador da câmara. Então, uma figura de roupas negras, com uma grotesca máscara no rosto, pôs os pés na cabine. No mesmo instante Karen berrou atrás de Ingrid:

— Não, não nos mate! — E arrancou-lhe a câmara das mãos, saindo em disparada pelo corredor enfumaçado. — Não nos mate! Califa disse que não morreríamos! Califa...

Ela sustentava a câmara como uma oferta de paz, mas, ao gritar pela segunda vez ”Califa”, a figura mascarada girou levemente no ar, arqueou as costas para pisar no chão do corredor e, assim que seus pés tocaram o pavimento, a pistola que estava em sua mão disparou um tiro que parecia de brinquedo após a concussão das granadas de aturdimento.

Karen avançava correndo em sua direção, gritando e brandindo a câmara, quando a bala atingiu-lhe a boca e retorceu sua cabeça para trás. Os dois seguintes foram disparados tão rapidamente que deram a impressão de terem sido um só. As balas explosivas Velex atravessaram a camiseta de Karen, pelas costas, e irromperam por entre suas omoplatas. A câmara voou pelos ares e caiu no colo de um passageiro inconsciente, estendido num dos assentos centrais entre os corredores.

Ingrid reagiu com a velocidade de um gato selvagem, jogando-se sobre o piso do tapete, abaixo da linha de fogo. Protegida pela fumaça branca das granadas, arrastou-se com a barriga grudada ao chão na direção da câmara.

Eram apenas seis metros de distância, mas, mesmo assim, ela moveu-se com a rapidez de uma serpente — se, por um lado, a fumaça a encobria, por outro lado, teria de levantar-se para pegar a câmara e atravessar dois assentos com dois corpos inconscientes.

DEPOIS DE MATAR a primeira garota, Peter deu um salto para o lado, abrindo espaço para o seu auxiliar entrar. Assim que o homem posicionou-se no vão que Peter tinha ocupado, o alemão de camiseta vermelha saltou da cozinha traseira e atingiu-o na cintura com uma descarga completa da pistola, que quase partiu seu corpo em dois. Arqueando-se pela metade, como um canivete que se fecha, ele caiu aos pés de Peter.

Peter voltou-se imediatamente, dando as costas para Ingrid, que rastejava através da fumaça fosfórica. Enquanto isso, Kurt tentava a todo custo ajeitar sua arma, cuja culatra se deslocara com o disparo. Com a camiseta escarlate aberta até o umbigo, mostrava os músculos bronzeados e brilhantes, o peito recoberto de pêlos negros. Seus olhos tinham um brilho alucinado, e a cicatriz da boca dava-lhe um aspecto estranho.

Antes que o rapaz tivesse chance de reagir, Peter baleou-o no peito, depois na cabeça, à altura do ouvido esquerdo; suas pálpebras apertaram-se numa expressão horripilante, as feições deformaram-se como uma máscara de borracha. Ele caiu pesadamente no chão, batendo o rosto contra o corredor.

”Dois”, contou Peter, mentalmente, como sempre ocorria nos momentos de ação, quando agia com absoluta frieza. Atirara com tanta técnica, com tanta perfeição, que fora como se estivesse treinando tiro ao alvo. Ainda lhe sobravam quatro balas na Walther. E faltavam dois terroristas para pegar. Só que a fumaça espessa prejudicava sua visibilidade, e a ondulante floresta de máscaras de oxigénio piorava mais as coisas.

Quando saltou sobre o corpo do seu companheiro, sujando de sangue as botas de solado de borracha, a figura robusta de Colin Noble assomou na cabine, ao lado da cozinha distante. Em meio à fumaça espiralada ele parecia um demónio, hediondo e ameaçador com sua máscara contra gás. Tinha a enorme Browning sustentada por ambas as mãos, cujo disparo soava como se fosse o badalar dos sinos de bronze de Notre Dame. Estava atirando em alguém de camiseta escarlate, um homem de rosto redondo infantil e bigode cor de areia. As balas Velex atingiram-no com a selvageria das presas de um predador, cortando-lhe a carne do peito, quebrando-lhe os ossos do crânio.

”Três”, pensou Peter. Agora só restava um e ele precisava agarrar a câmara, que vira nas mãos de sua primeira vítima. Era importante, absolutamente vital, encontrá-la antes da loira.

Fazia apenas quatro segundos que penetrara na aeronave, embora parecesse muito mais. Ouviam-se nitidamente os golpes das machadinhas arrebentando as portas da frente e de trás, e dentro de alguns segundos as equipes de assalto do Thor estariam dentro do Boeing. E ainda faltava localizar o quarto sequestrador, o verdadeiramente perigoso.

— Abaixem-se! Todo mundo abaixado! — repetia o granadeiro. Então, Peter rodopiou agilmente e correu para a cabine de comando. Tinha certeza de que a loira estaria ali, no centro de controle.

Porém, na metade do caminho, encontrou o corpo da garota que ele tinha abatido, seus longos cabelos negros e úmidos de sangue esparramados ao redor do rosto pálido e aterrorizado. O buraco entre seus dentes fazia-a parecer uma velha. Ela bloqueava o corredor com seus membros inertes.

A porta dianteira abriu-se com estrondo quando a fechadura cedeu, mas nem assim reduziram-se as densas cortinas de fumaça branca. Peter preparava-se para saltar sobre o cadáver da moça, quando de repente a loira ergueu-se do chão, aparecendo miraculosamente do meio da fumaça, como uma bela visão demoníaca.

Ela abaixou-se na metade da fileira dos assentos centrais, tateando em busca da câmara, enquanto Peter, levemente desequilibrado, trocou o revólver de mão, pois atirava tão bem com a direita quanto com a esquerda. Nesse ínterim, a loira alcançou a cinta da câmara e começou a puxá-la desesperadamente, como se houvesse algo que a prendesse. Em vez de lhe dar um tiro na cabeça, Peter decidiu ir até onde a moça estava, menos de dez passos à frente.

Foi então que um dos poucos passageiros que se utilizara da máscara de oxigénio levantou-se de repente gritando histericamente:

— Não atirem! Não atirem! Quero sair daqui!

Ele ficou quase na frente da loira, bloqueando o campo de fogo de Peter, que mal teve tempo de erguer o pulso enquanto disparava. O tiro atingiu o teto, e não acalmou o passageiro.

— Me tire daqui! Quero sair daqui!

Aquela altura dos acontecimentos, Ingrid conseguira romper a cinta da câmara e parecia prestes a agarrá-la nas mãos. O passageiro, por sua vez, segurava o braço de Peter que sustentava o revólver e sacudia-o com força, chorando e gritando.

Do outro lado do bloco central de assentos, Colin Noble disparou sua arma, de um ângulo bastante desfavorável, pois teve de mirar vinte e cinco centímetros por cima do ombro de Peter e através da floresta de máscaras suspensas.

O primeiro tiro não acertou o alvo, mas passou suficientemente perto para assustar, obrigando a garota a abaixar a cabeça. A bala raspou seus cabelos loiros e a deixou zonza por alguns segundos.

Peter deu um golpe certeiro na garganta do passageiro histérico e jogou-o de volta ao assento. Então tentou alinhar-se para atirar na garota, sabendo que teria de imobilizá-la instantaneamente.

Colin disparou outra vez, uma fração de segundo antes de Peter, e a bala arremessou a loira para o lado, atingindo-lhe o ombro direito, golpeando a omoplata com tal força que seu braço retorceu-se para cima, numa paródia da saudação comunista. Mais uma vez a câmara voou para o lado, pois a loira foi atirada violentamente para trás, como se tivesse sido atingida por um automóvel em alta velocidade.

Peter estava pronto para acertar-lhe um tiro definitivo na cabeça, quando a equipe de homens vestidos de negro apareceu como um enxame no meio da fumaça, prendendo a garota, que esperneava e berrava sobre o carpete do corredor. O pessoal do Thor entrara pela porta dianteira, bem na hora de salvar-lhe a vida. Peter recolocou a pistola no coldre e avançou para se apossar da câmara; depois tirou a máscara do rosto.

— Atenção, está tudo acabado! Pegamos todos. Cessar fogo. — E, tirando o pequeno microfone do rádio, anunciou o código de sucesso total: — Goleada! Goleada!

Três homens seguravam a garota, que a despeito do grave ferimento no ombro, lutava como um leopardo numa armadilha.

— Abram as rampas de emergência — ordenou Peter.

Pouco depois, os enormes escorregadores de plástico foram inflados e caíram no pavimento; no mesmo instante, os homens do Thor guiaram os passageiros conscientes para as saídas, ajudando-os a deslizarem para a pista.

Uma dúzia de ambulâncias, com as sirenas ligadas, saiu do edifício do terminal, rumo à aeronave, enquanto os membros de apoio da equipe corriam sob o brilho das luzes de rolamento, na mesma direção.

Enormes como monstros pré-históricos, as escadas mecânicas foram movimentadas do pátio de manobras norte, dando acesso ao corpo do Boeing.

Peter aproximou-se da loira, ainda portando a câmara nas mãos.

A frieza que ele mantivera durante a batalha continuava presente em sua mente e em cada um dos seus sentidos.

A garota parou de espernear e o encarou. Era a imagem perfeita de um leopardo preso. Peter nunca vira olhos tão ferozes e implacáveis quanto os seus. Ela encolheu-se como uma cobra que prepara o bote e então cuspiu nele. A saliva branca alcançou-lhe as pernas.

Colin Noble, que estava atrás de Peter, tirou a máscara de gás e resmungou:

— Desculpe, Peter. Parece que dei um tiro sentimental.

— Vocês não vão me pegar — gritou a garota subitamente. — Antes dos feriados de Ação de Graças estarei livre.

Peter sabia que ela estava certa. A punição que a sociedade reservava àquela gente não passava de alguns meses de prisão, isso quando a pena não era simplesmente suspensa. Ele lembrou-se da sensação que experimentara com a criança morrendo em seus braços, o sangue morno escorrendo por sua barriga e pernas.

— Meu pessoal virá em meu socorro. — Ela cuspiu novamente, desta vez no rosto de um dos homens que a segurava. — Nunca ficarei na prisão. Meus companheiros forçarão vocês a soltar-me.

De novo ela estava com a razão: sua captura representava um convite para atrocidades posteriores, e colocava em ação a roda da vingança e da retribuição. Centenas de pessoas sofreriam em troca da vida de um predador acuado e selvagem; e dezenas de outras morreriam.

O mecanismo da represália fora posto outra vez em ação... Peter sentiu ânsia de vómito. Pensou: em vão joguei fora o esforço de uma vida inteira para conseguir apenas uma vitória temporária. Ele desafiara as forças do mal, porém não as abatera — elas se reagrupariam e atacariam com maior vigor e sagacidade, e aquela mulher as dirigiria outra vez.

— Somos a revolução — continuou ela, erguendo o braço são e fazendo uma saudação com o punho fechado. — O poder somos nós. Nada, ninguém pode nos deter.

Aquela criatura descarregara chumbo grosso no corpo de uma mulher grávida, arrebentando-a por completo... A imagem reapareceu inteirinha na mente de Peter. A infeliz abrira-se como uma fruta madura. A loira agitou o punho cerrado diante do rosto de Peter.

— Estamos apenas no começo. A nova era já começou.

Uma mescla de escárnio e de confiança acompanhava o tom ameaçador de sua voz. Peter sabia que ela não estava equivocada. Uma nova força varria o mundo, algo mais destruidor do que ele jamais acreditara ser possível. Peter não se iludia com o papel que a sorte jogara em seu pequeno triunfo. E não tinha ilusões quanto ao fato de que a besta fora apenas levemente ferida. Da próxima vez ela apareceria mais poderosa, mais experiente depois do aprendizado daquela derrota inconsequente... Junto com a reação da batalha, surgiu dentro de Peter uma onda de temor e desespero que parecia esmagar sua alma. Tudo tinha sido em vão.

— Você nunca vai vencer — escarneceu a mulher, banhada de sangue, porém impávida e indómita, parecendo ler o pensamento dele. — E nós nunca vamos perder!

— CAVALHEIROS... — disse o primeiro-ministro da África do Sul —, eu e meu gabinete somos da opinião de que ceder às exigências dos terroristas é sentar nas costas do tigre, de onde nunca seremos capazes de desmontar. — Ele fez uma pausa, ergueu a cabeça e então fitou os dois embaixadores. — Entretanto, é uma obrigação que temos para com a humanidade. Além disso, é tamanha a pressão que duas grandes nações podem exercer sobre uma muito menor, que decidimos por unanimidade concordar com todas as condições necessárias à libertação das mulheres e crianças...

Houve outra pausa em seu pequeno discurso, desta vez porque o telefone que estava na frente do embaixador americano começou a tocar irritantemente.

— Acreditamos, porém, na garantia dada pelos seus governos...

— Ele parou novamente, pois o telefone insistia. — É melhor o senhor atender — disse a Kelly Constable.

— Com licença, primeiro-ministro. — O americano tirou o fone do gancho e, à medida que ouvia, uma expressão de incredulidade tomava conta do seu rosto. — Primeiro-ministro... tenho o prazer de informá-lo de que há três minutos a equipe do Thor entrou no Jumbo e matou três dos terroristas... a quarta foi ferida e capturada. Não houve baixas entre os passageiros. Todos foram libertados sãos e salvos.

Aliviado, o homem à cabeceira da mesa afundou-se na cadeira e, quando a tempestade de congratulações desabou à sua volta, começou a sorrir. Um sorriso que o transformava por completo; o sorriso de um homem paternal e gentil.

— Obrigado, senhor — disse ele, ainda sorrindo. — Muito obrigado.

— VOCÊ COMETEU uma falta gravíssima, general Stride — acuso o Kingston Parker.

— Minha única preocupação era a vida dos reféns e a força moral da lei — Peter respondeu calmamente.

Fazia menos de quinze minutos que retornara à aeronave, sob uma tempestade de fogo e fúria. Suas mãos ainda tremiam, e a náusea continuava a atormentá-lo.

— Você deliberadamente desobedeceu às minhas ordens. — Parker parecia um leão enraivecido, e olhava ameaçadoramente pela tela; o poder de sua personalidade era quase palpável ali na cabine do Hawker. — Sempre tive reservas quanto à sua presença no comando que lhe foi confiado. Já expressei essa posição por escrito para seus superiores, e vejo agora que era plenamente justificada.

— Isso quer dizer que fui afastado do comando do Thor — cortou Peter bruscamente, fervendo de raiva.

No fundo, porém, ele sabia que Kingston Parker não iria demitir de imediato o herói de um contra-ataque tão bem-sucedido. Levaria algum tempo, talvez até semanas, embora seu destino estivesse selado. Quanto a isso não tinha a menor dúvida.

— Você continuará no comando, sob minha vigilância. Não tomará nenhuma decisão sem antes me consultar. Seja lá que assunto for. Está entendido, general Stride?

Peter não se deu ao trabalho de replicar. Experimentava um estado de espírito totalmente diferente, uma sensação de liberdade e escolha de ações como jamais conhecera antes. Pela primeira vez em sua carreira desobecera ordens superiores e, com ou sem sorte, o resultado fora um brilhante sucesso.

— Sua primeira obrigação agora é retirar o pessoal do Thor, rápido e em ordem. A militante que você prendeu será levada a Londres para interrogatório e julgamento...

— Ela cometeu crimes aqui. Deve ser julgada aqui por assassinato... Já recebi pedido das autoridades...

— Pelo acordo que fizemos com o governo sul-africano, ela irá para a Inglaterra a bordo de sua aeronave de comando, assistida pelo médico do Thor.

Peter lembrou-se do que ocorrera com a terrorista Leila Khaled, retirada do avião da El Al onde estava detida pelos agentes de segurança de Israel. Como prisioneira britânica, ela passara apenas seis dias no cativeiro, e então fora solta com um festival de publicidade e glória, heroína da mídia, a Joana DArc do terror; ficara livre para planejar e executar a morte e a destruição de centenas de inocentes, para dirigir o ataque às bases da civilização, para torpedear as colunas que sustinham as regras da lei e da sociedade.

— Quero essa mulher em Londres dentro de vinte e quatro horas. Ela deve ser severamente vigiada contra qualquer retaliação. Não toleraremos outro banho de sangue... como o que você liderou no 070.

PETER Stride CAMINHAVA ao longo dos corredores de mármore do setor de partida doméstica do aeroporto, quando seus homens o chamaram para conversar. — Bom serviço, sir.

— Muito bem-feito, general.

— Não havia outra alternativa...

A equipe estava atendendo os passageiros libertados, juntando os materiais espalhados, desmantelando os equipamentos de comunicações e segurança para guardá-los nos respectivos protetores. Dentro de uma hora deveriam estar prontos para embarcar; mesmo assim, deixavam suas tarefas de lado por alguns instantes, fazendo questão de apertar-lhe a mão.

Os passageiros perceberam que aquele homem era o arquiteto da salvação de todos e o aplaudiram com entusiasmo. Peter sorriu e, enquanto cruzava o saguão, parou para falar com uma velha senhora, que o abraçou, com lágrimas nos olhos.

— Deus te abençoe, meu filho, Deus te abençoe.

Durante todo o tempo ele mantinha um sorriso nos lábios, ainda que, por dentro, estivesse furioso.

Os guardas do Thor que vigiavam os escritórios administrativos do mezanino, armados com submetralhadoras, fizeram-lhe uma saudação quando Peter entrou. Colin Noble continuava vestido com as roupas de combate, a pistola 45 no coldre e um charuto na boca.

— Dê uma olhada neste material, Peter — disse, apontando para a escrivaninha, que estava repleta de explosivos e armas. — A maior parte vem de países da Cortina de Ferro; só Deus sabe como eles conseguiram isso. Veja essas pistolas de cano duplo. Se foram feitas por encomenda, devem ter custado uma nota!

— Dinheiro não deve ser problema para eles. O resgate dos ministros da OPEP foi de cento e cinquenta milhões de dólares; o dos irmãos Braun, vinte e cinco milhões, e o do barão Altmann, vinte e cinco milhões. Dá um orçamento de defesa para um país inteiro. — Peter pegou uma das pistolas e abriu a culatra. — Esta é que foi usada para fuzilar os reféns?

— Sim, disparada por ambos os canos.

Peter conferiu os resíduos de pólvora queimada nas pequenas cavidades da arma, carregou-a com um pente de balas, e atravessou a sala comprida, cheia de máquinas de escrever cobertas em mesas desertas e posters de companhias aéreas decorando as paredes.

A um dos cantos da sala jaziam os três corpos dos sequestradores, envoltos em sacos plásticos transparentes. Dois homens do Thor tomavam conta dos pertences das vítimas: objetos pessoais, papéis, valises, empacotados em sacolas etiquetadas.

O corpo do auxiliar de Peter estava estendido mais adiante, também num saco plástico transparente, através do qual ainda se podiam ver os traços do horror que lhe marcavam o rosto pálido.

Levando a pistola na mão, Peter entrou no escritório seguinte, acompanhado por Colin Noble. Ali, a loira ocupava uma maca, onde recebia plasma sanguíneo, assistida pelo médico do Thor e por dois enfermeiros.

O jovem médico virou-se irritado quando ouviu a porta ser aberta, mas mudou de expressão ao reconhecer Peter.

— General, para salvar esse braço, preciso levá-la imediatamente daqui. A junta do ombro foi esmagada.

À garota girou a cabeça para encarar os recém-chegados. Seus cabelos loiros ondulados estavam empastados com sangue coagulado. As faces sem cor pareciam o rosto de um anjo esculpido em mármore branco. Na pele quase translúcida, os olhos se destacavam pelo brilho selvagem — não estavam entorpecidos pelos analgésicos que lhe haviam aplicado.

— Pedi ajuda aos sul-africanos — informou o médico. — Há dois cirurgiões ortopédicos esperando, e ainda ofereceram um helicóptero para levá-la até o Hospital Central em Edenvale.

Que ironia... até o pessoal do Thor já começava a tratá-la como uma grande celebridade. Aquilo era seu primeiro passo em direção à glória. Peter até já imaginava como a imprensa iria explorar sua beleza; se a mídia entrara em frenesi diante dos olhos trigueiros de Leila Khaled, de seu charmoso buço escuro, com essa loira chegaria ao ápice da veneração.

Tomada pela emoção mais forte que experimentara em sua vida, Peter dirigiu-se ao médico.

— Dê o fora.

— Sir? — O homem parecia assustado.

— Saia imediatamente. Os enfermeiros também. — Esperou que a porta de vidro opaco se fechasse atrás deles, então voltou-se para a loira, dizendo: — Você me obrigou a abandonar meus princípios e me rabaixar até o seu nível. Ela o fitou, insegura, piscando ao ver a pistola em sua mão direita.

— Você me forçou a desobedecer ordens superiores. Sempre fui muito orgulhoso de mim mesmo, mas depois que eu fizer o que preciso fazer agora, não terei mais de que me orgulhar.

— Quero a presença do embaixador americano aqui — declarou ela asperamente. — Sou cidadã americana. Exijo proteção.

— Isso não é vingança. Sou velho o suficiente para saber que a vingança é o mais amargo de todos os excessos humanos.

— Você não pode fazer isso... Eles vão destruir você! Peter continuou como se ela não tivesse falado:

— Não é vingança. Você mesma esclareceu tudo. Se você continuar existindo, eles voltarão para buscá-la. Enquanto você viver, outros deverão morrer, e morrer sem a menor dignidade. Morrer no terror, da mesma forma como você assassinou...

— Sou uma mulher. Estou ferida. Sou prisioneira de guerra — ela gritou, assustada, tentando levantar-se.

— Essas eram as velhas regras. Você destruiu todos os regulamentos, e escreveu novos. Por isso estou jogando com a lei que você inventou. Fui reduzido ao seu nível.

— Você não pode matar-me. — Seu tom de voz era histérico. — Ainda tenho muito o que fazer...

— Colin — disse Peter, sem olhar para ele —, é melhor você sair da sala.

O coronel hesitou, a mão apoiada no coldre da Browning, e a loira virou-se para ele, suplicante.

— Não permita que ele faça isso...

— Peter — disse Colin.

— Você tinha razão — comentou ele calmamente. — A garota era muito parecida com Melissa-Jane.

Colin Noble tirou a mão da pistola, dirigiu-se para a saída, deixando a loira a gritar palavrões e ameaças, numa mistura incoerente de terror e ódio.

Devagar, Colin fechou a porta e ficou de costas para ela. Um disparo ensurdecedor cortou de repente a sucessão de impropérios. Depois o silêncio, mais aterrador que o angustiante som que o precedeu. Passados alguns segundos, o general Peter Stride saiu da sala, entregando a Colin a pistola de cano duplo, um dos quais ainda estava quente.

O rosto aristocrático de Peter estava abatido, como se ele estivesse sofrendo de alguma enfermidade grave. A face do homem que tinha pulado no abismo.

Peter deixou a porta aberta, e afastou-se sem olhar para trás. Apesar da expressão de desespero, conduzia-se como um soldado, passos rápidos e firmes. Colin Noble procurou o médico e avisou:

— Você já pode entrar. Agora, ela é toda sua. — E seguiu Peter Stride pelas largas escadarias.

AS PASTAGENS ESTENDIAM-SE por quilómetros e quilómetros, até uma colina. Ali, Melissa-Jane cavalgava a potranca baia que recebera de presente de Natal do seu tio Steven. As tranças cor de mel dos seus cabelos ondulavam ao vento seguindo o ritmo do galope do seu puro-sangue. Ela parecia ter crescido ainda mais nas poucas semanas desde que Peter a vira pela última vez. Meio surpreso e um tanto orgulhoso, ele se deu conta de que ela estava se tornando uma bela mulher.

Peter montava um dos cavalos de Steven, um animal grande e esguio, mas que tinha dificuldade para acompanhar a potranca. Chegando à cerca que separava o campo, Melissa-Jane ignorou a cancela aberta, preferindo saltar a sebe. Segurou firme as rédeas de sua montaria e precipitou-se para a frente. Foi um belo espetáculo, digno de uma competição. Já do outro lado do obstáculo, voltou-se para observar o pai, que logo percebeu o desafio. Fazia mais ou menos dois anos que ele não montava; além disso, era a primeira vez que cavalgava aquele animal em particular. Mesmo assim, avançou sem titubear. O cavalo passou rente à sebe, aterrissou com certa insegurança, dando a impressão de que iria jogar o ginete no chão. No final, porém, recuperou o equilíbrio, ergueu a cabeça, evitando assim que Peter passasse um vexame na frente da filha.

— Maravilha! — exclamou Melissa-Jane, no momento em que desmontou embaixo de uma árvore.

— Antigamente nossa terra ia além daquela igreja — Peter apontou para a distante agulha cinza de pedra que se encravava no céu —, até o alto dos terrenos cobertos de pastagens, no outro lado.

— Eu sei... A família teve que vender a propriedade quando vovô morreu. Você me contou. E estava certo. Ninguém deve possuir tanto.

Peter surpreendeu-se com aquela observação.

— Meu Deus, uma comunista na família! Um zangão no meio das flores.

— Não se preocupe, papai. Tio Steven é que é um ricaço. Você não é um capitalista; aliás, nem empregado é mais... — A garota gargalhou, descontraída, mas ficou séria num instante. — Desculpe, eu não quis dizer isso. Juro que não.

Fazia quase um mês que a renúncia de Peter fora aceita pelo Ministério da Guerra, embora o escândalo ainda não estivesse abafado. Duraram apenas alguns dias as felicitações pelo sucesso do ataque Delta do Thor — editoriais de primeiras páginas, destaques nos noticiários de televisão, mensagens de congratulações dos chefes de governo ocidentais. Imediatamente depois, o caldo entornara, o êxtase se transmutara em redondo fracasso.

Para início de conversa, o governo racista da África do Sul voltara atrás em sua decisão de libertar os prisioneiros políticos; depois um dos sequestradores fora capturado vivo, mas morrera em consequência de um balaço recebido no próprio edifício do aeroporto. Naturalmente, um dos reféns libertados, um jornalista que cobrira a convenção médica em Mahé, publicara um testemunho sensacionalista de todo o episódio, e vários outros passageiros confirmaram sua afirmação de que o quarto sequestrador chorara, suplicara por piedade antes de ser chacinado friamente.

Uma tempestade de condenação partiu da extrema-esquerda do governo trabalhista britânico, varreu o Parlamento britânico e encontrou eco entre os democratas do Congresso americano. A própria existência do Comando Thor veio a público e foi condenada em termos extravagantes. Os partidos comunistas da França e da Itália saíram às ruas; e a detonação de uma granada de mão M.

26 (roubada pelo Baader-Meinhof da base americana em Metz) no meio da multidão que deixava o estádio Parke dos Princes, em Paris, matou uma pessoa e feriu vinte e três. Um chamado telefónico aos escritórios do France Soir, feito por um homem que falava um francês com forte acento estrangeiro, anunciou que aquilo era uma vingança pelo assassinato do quarto sequestrador pelo esquadrão de execução imperialista.

Pressões para a demissão de Peter partiram inicialmente do Pentágono, sem dúvida através do dr. Kingston Parker, que, apesar de diretor do Atlas, não teve seu nome envolvido, dado o sigilo que cercava o projeto. A imprensa iniciara uma campanha pedindo uma investigação profunda sobre as atividades do Thor. ”E se for comprovada qualquer atitude fora-da-lei na condução da operação, que a pessoa ou pessoas responsáveis sejam levadas a julgamento tanto por tribunais militares como pelas cortes civis.” Felizmente a mídia ainda não descobrira toda a extensão do Atlas. Somente o Thor estava sob suspeita; eles não desconfiavam da existência do Mercúrio nem do Diana.

Entre o Ministério da Guerra e os governos tanto dos Estados Unidos como da Grã-Bretanha, houvera muita simpatia e apoio para Peter Stride. Entretanto, ele optara por facilitar as coisas para seus amigos e para si mesmo, oferecendo sua demissão. A demissão fora aceita, mas nem assim a esquerda se acalmara, pois queria sangue, o seu sangue.

Agora, Melissa-Jane tinha os olhos rasos dágua, arrependida do comentário que fizera.

— Não quis dizer isso. Não quis mesmo.

A vantagem de estar desempregado é que tenho mais tempo para ficar com minha garota favorita — retrucou Peter, sorrindo.

— Não acredito nessas coisas horríveis que estão dizendo. Sei que você é um homem honrado, papai.

— Obrigado. — Dor, culpa e pesar confundiam-se na mente de Peter. Depois de uma longa pausa ele comentou: — Você vai ser paleontóloga, não é mesmo?

— Não. Isso eu pensava no mês passado. Mudei de ideia. Não estou mais interessada em ossos velhos. Agora quero ser médica, especialista em crianças.

— Ótimo. Mas vamos voltar aos ossos velhos. A idade dos grandes répteis. Os dinossauros. Por que eles foram extintos?

— Não puderam se adaptar às mudanças do meio ambiente.

— Um conceito como o de honra... está fora de moda no mundo de hoje, concorda?

A expressão magoada de Melissa-Jane fez Peter compreender que entrara em um território perigoso. Sua filha amava sem medidas todas as coisas vivas, particularmente os seres humanos. Apesar de muito nova, possuía uma consciência política e social marcada pela crença nas ideias brilhantes, pela bondade e beleza próprias do homem. Ainda era cedo para mostrar-lhe o lado oposto da moeda. Ser considerada uma pessoa ”honrada” representava o máximo para ela. Mesmo que essa classificação fosse aplicada para qualquer herói do dia, para um cantor de música popular cujo nome odioso Peter não conseguia lembrar, para Virginia Wade, a antiga campeã de Wimbledon, ou para o professor de ciência que estimulara o interesse de Melissa-Jane pela medicina. Era lógico que Peter se sentiria gratificado por ser incluído entre essas figuras...

— Tentarei melhorar sua imagem de mim — disse, beijando-a com ternura. — Bem, está muito frio para ficar aqui. Além do mais, Pat não nos perdoará se chegarmos atrasados para o almoço.

Assim que alcançaram o pátio de pedras arredondadas do estábulo, cavalgando lado a lado, Peter parou para contemplar sua vista favorita: a casa que sempre fora o seu lar, embora pertencesse agora ao seu irmão mais velho, mais velho apenas três horas, mas mesmo assim mais velho.

Era uma construção de tijolos vermelhos, com um telhado recortado em cinquenta ângulos diferentes e inverossímeis. Apesar disso tinha um encantamento de conto de fadas. Peter nunca mencionou a Steven que adorava aquele edifício com um ardor próximo da paixão.

Talvez o desejo de possuir a casa, de restaurar sua antiga grandiosidade, tivesse levado Steven a realizar o esforço sobre-humano que qualquer cidadão britânico necessitaria para se livrar dos impostos excessivos e das restrições ”quase socialistas que os impossibilitavam de acumular uma fortuna.

Steven aceitara o desafio e agora Abbots Yew era uma mansão bem-cuidada, rodeada por um jardim belíssimo, e seu proprietário podia viver como um barão.

Os negócios de sir Steven eram tão diversificados e espalhados por tantos continentes, que desencorajariam até um fiscal do imposto de renda britânico. Certa vez Peter tocara nesse assunto, e seu irmão gémeo retrucara calmamente que, quando uma lei era absolutamente injusta, como as leis fiscais inglesas, cabia ao homem honesto a obrigação de subvertê-la. O antigo senso de justiça de Peter não aceitava aquele tipo de lógica, mas ele deixara passar sem comentários.

Era estranho o rumo que as coisas tinham tomado para os dois irmãos, pois Peter sempre fora o mais brilhante, a ponto de a família só se referir ao outro como o ”Pobre Steven”. Ninguém se surpreendera ao ver Steven ser afastado da academia de Sandhurst na metade do seu último ano; apesar de que, dois anos depois, ele já estava milionário, enquanto o irmão era um simples segundotenente do Exército. Peter não guardava o menor rancor em relação ao passado — ele sempre fora afetuoso com o irmão...

De repente, seus pensamentos foram interrompidos quando ele avistou uma reluzente limusine prateada próxima do final do pátio. Era um típico Mercedes-Benz de artistas de cinema, árabes multimilionários e chefes de estado. O chofer, uniformizado com o clássico traje azul-marinho, ocupava-se em polir a pintura do luxuoso veículo. De quem seria aquele carro? No geral, os convidados na Abbots Yew costumavam ser pessoas interessantes, uma vez que Steven só se relacionava com gente de poder, de fortuna ou de talento extraordinário. Atrás do Mercedes 600 estava estacionado um carro menor, negro, e, pelas carrancas de seus dois ocupantes, percebia-se que eram guarda-costas.

Melissa-Jane deslizou os olhos pelo automóvel, torcendo o nariz.

— Outro burguesão gordo — murmurou a garota, para deixar clara sua desaprovação. De braços dados com o pai, conduziu-o pelo jardim de roseiras, e entraram rindo no átrio principal.

— Alô, meu velho! — cumprimentou-o Steven.

Tão alto quanto o irmão, Steven também fora magro, mas a boa vida o presenteara com alguns quilos a mais, enquanto as preocupações com os negócios haviam tornado seus cabelos grisalhos nas têmporas, combinando com os fios prateados do bigode. Seu rosto era um pouco mais cheio que o de Peter, mas mesmo assim a semelhança entre os dois era patente.

— Pensei que você tivesse quebrado o pescoço, rapaz — continuou Steven, num tom brincalhão. Depois dirigiu-se a Melissa-Jane e abraçou-a com evidente prazer. — Como vai esse rouxinol de Florença?

— Ela é um amor — brincou a sobrinha.

— Peter, quero lhe apresentar uma pessoa muito charmosa... Tratava-se de alguém que estava conversando com Patrícia Stride, a esposa de Steven. Quando a mulher se virou, os raios do sol refletiram sobre seus cabelos, emprestando-lhe uma aura romântica.

Peter sentiu-se como se a terra se abrisse a seus pés, e algo lhe apertasse o peito, impedindo a respiração. Reconheceu-a de imediato, pois vira suas fotografias no arquivo oficial que registrara o longo sequestro e subsequente assassinato do seu marido. Na época, surgira a informação de que os sequestradores haviam cruzado o canal da Mancha com sua vítima, razão pela qual o Thor estivera na condição Alfa por quase uma semana. Peter estudara todas as fotos detidamente, mas nem mesmo as bem-cuidadas reproduções coloridas na Vogue ejours de France tinham sido capazes de captar a extraordinária beleza daquela mulher.

Para sua surpresa, ela pareceu reconhecê-lo, ainda que não houvesse mudança em sua expressão. Era uma mulher alta, corpo delicado, vestindo uma saia de crepe de algodão fino que moldava suas pernas de dançarina, longas e bem-feitas.

— Baronesa, tenho o prazer de lhe apresentar meu irmão, o general Stride.

— Como vai, general? — disse a mulher, num inglês quase perfeito, com voz baixa e rouca, extremamente sensual.

A baronesa Altmann tinha os cabelos negros e brilhantes penteados para trás, formando um coque na nuca. Pele lisa, queixo quadrado, não chegava a ser um monumento de beleza, embora sua beleza fosse marcante. Peter sentiu-se atraído por ela de um modo que não lhe ocorrera nos últimos vinte anos de sua vida.

Tudo o que o fascinava no sexo oposto parecia estar presente nela: corpo esbelto, braços bem torneados, a cintura estreita, os seios pequenos destacando-se sob o fino tecido da blusa, pele suavemente bronzeada, irradiando saúde e cuidado. Além disso, a baronesa era uma mulher de incrível força de vontade, empreendedora, o que constituía um verdadeiro afrodisíaco para Peter. Ela irradiava o ar de desafio de um ser indomável. Seus olhos régios o encaravam com a intocável indiferença de uma deusa ou de uma rainha. Parecia estar rindo interiormente, mas um sorriso frio que não diminuía a distância entre os dois. Mentalmente, ele reviu o que sabia a respeito daquela mulher.

Ela fora secretária particular do barão, para quem se tornara, em cinco anos, absolutamente indispensável. Tanto que, reconhecendo sua habilidade, ele a promovera para a presidência de uma das subsidiárias e, logo depois, à diretora do grupo. À medida que sua capacidade física declinava, pois ele sofria de câncer, mais e mais responsabilidades o barão lhe delegava. E ela dirigia o complexo de grandes firmas industriais, corporações de eletrônica e armamentos, de bancos e empresas de navegação e construção civil, como o filho que ele nunca tivera. Quando se casaram, ele tinha cinquenta e oito anos, quase o dobro da sua idade. Ela fora uma esposa perfeita, tanto como tinha sido uma companheira nos negócios.

Fora ela quem coletara o enorme resgate pedido pelos sequestradores do marido. E, contra a recomendação da polícia francesa, tinha ido só, sem nenhum guarda-costas, ao encontro de assassinos impiedosos, que lhe entregaram o cadáver mutilado do barão. Depois de sepultá-lo, continuara a dirigir o império que herdara, com mais força e energia ainda.

Estava com vinte e nove anos de idade... Não, devia ser mais, pensou Peter, enquanto se inclinava para beijar-lhe a mão. Ela deveria ter trinta e um anos. E, curioso, usava apenas um anel no dedo com um diamante solitário, uma pedra de mais ou menos seis quilates, porém de tal brancura e fulgor que parecia ter vida própria. Era a escolha discreta de uma mulher de imensa riqueza e de grande estilo.

Quando Peter ficou ereto, percebeu que, de alguma forma, também a impressionara. Talvez fosse bem difícil esconder algo daqueles olhos de esmeralda, mesmo assim ele sustentou seu olhar firmemente, sabendo, sem presunção, que podia aguentar qualquer escrutínio. Mas ainda estava intrigado, com a certeza de que ela o reconhecera.

— Ultimamente, seu nome tem aparecido bastante nos jornais

— disse ela como se fosse uma explicação.

Pouco depois, dezesseis pessoas sentavam-se para o almoço, um momento agradável e descontraído, embora a baronesa estivesse tão distante de Peter que lhe era impossível conversar diretamente com ela, e muito menos ouvir o que ela falava, ora com Steven, ora com o editor de um dos jornais nacionais de circulação diária que a flanqueava. Peter passou a maior parte do tempo ocupado em afugentar uma linda porém frívola loira que não parava de paquerálo. Era uma atriz que se casara bem e se divorciara melhor ainda. Tinha sido escolhida a dedo por Pat Stride. A cunhada de Peter era infatigável em seus esforços para encontrar-lhe uma substituta para Cynthia. Doze anos de fracassos não a haviam desencorajado nem um pouco.

Apesar de tudo, Peter notou que a baronesa bebericara uma ou duas vezes no vinho, mas o nível da taça permanecia sempre o mesmo, e ela apenas beliscara a comida.

Embora ele a observasse com discrição, ela jamais olhou em sua direção. No entanto, quando estavam tomando café na varanda, aproximou-se dele com a maior naturalidade.

— Steven me falou que há ruínas romanas aqui na propriedade

— comentou ela..

— Se quiser, posso acompanhá-la até lá. É um passeio agradável pelo bosque.

— Aceito. Vou discutir algumas coisas com Steven antes, mas que tal se nos encontrarmos às três?

A BARONESA ALTMANN vestia uma blusa folgada de tweed, encimada por um casaco cuja gola comprida como um cachecol estava jogada nas costas. Botas de cano alto da mesma cor, marromalfazema, e um chapéu de abas largas completavam o traje. Ela caminhava em silêncio, as mãos enfiadas nos bolsos do casaco, sem fazer esforço para proteger as botas da lama, dos espinhos ou das pegajosas samambaias. Movia-se com graça e beleza, ondulando a cintura de tal forma que parecia flutuar. Se não fosse uma das mais importantes líderes mundiais da indústria e das finanças, teria sido uma grande modelo — pensou Peter — pois tinha um talento todo especial para fazer com que as roupas parecessem importantes e elegantes, enquanto as tratava com indiferença.

Peter respeitou seu silêncio, contentando-se em pisar exatamente nos passos dela ao penetrarem nas sombras escuras do bosque, que cheirava a folhas mortas e chuva fria, com carvalhos nus e musgos pendurados, como se implorassem por um céu púrpura acinzentado através dos ramos sustentados nas alturas.

Seguiram sem descansar até o terreno mais alto, embora o caminho fosse bastante difícil. Ela respirava profundamente, porém mantendo um ritmo de esportista. O sangue lhe subira às faces apenas o suficiente para avivar suas bochechas. Devia estar em excelente condição física, pensou Peter.

— Ali estão as ruínas — informou ele, apontando para um fosso quase escondido pela grama que circundava o topo da colina. — Não são grande coisa, mas eu não queria estragar seu prazer...

— Já estive aqui antes — disse ela, sorrindo.

— Bem, estamos prontos para partir de novo. Acho que decepcionamos um ao outro nesse primeiro encontro...

— Vim direto de Paris — explicou ela. — Foi algo realmente inconveniente. Meus negócios com sir Steven poderiam ter sido resolvidos por telefone em cinco minutos. O que eu tenho para discutir com você só pode ser feito face a face.

Ah, agora estava explicado por que Steven fora tão insistente para que ele passasse o fim de semana em Abbots Yew.

— Estou lisonjeado com o interesse de uma mulher tão linda... Ela franziu o cenho e, com um gesto de irritação, cortou o elogio, como se fosse uma frivolidade.

— Recentemente você foi sondado pela Narmco, para dirigir a Divisão de Vendas deles — disse ela, e Peter concordou com um gesto de cabeça. Desde que sua demissão fora aceita pelo Ministério da Guerra, recebera várias ofertas de trabalho. — A proposta que lhe fizeram foi excepcionalmente generosa.

— É verdade.

— Você prefere então a tranquilidade da vida académica?

Mesmo sem mudar a expressão, Peter ficou perplexo. Como diabos ela soubera que uma importante universidade americana lhe havia oferecido a cadeira de História Militar Moderna?

— Bem, estou interessado em escrever alguns livros e em ler.

— Você tem uma importante coleção de livros. Aliás, eu li os que você publicou. É uma contradição interessante, um homem de ação direta, e ao mesmo tempo preocupado com o pensamento social e político.

— Às vezes eu mesmo me confunde. Talvez não seja fácil me entender.

— Boa parte de seus escritos coincide com minhas próprias convicções. Quanto às suas ações, se eu estivesse em sua posição, agiria da mesma maneira.

Peter empertigou-se, pressentindo uma alusão à tomada do voo 070. E novamente ela pareceu entender a situação.

— Estou me referindo à sua carreira como um todo, general. De Chipre à Joanesburgo, incluindo a Irlanda. Por que você recusou o emprego na Narmco?

— Simplesmente porque me apresentaram uma proposta absolutamente irrecusável. Os termos do contrato eram tão generosos que me deixaram desconfiado. Porque, com certeza, eu seria solicitado a cumprir tarefas coerentes com a reputação que ganhei a partir da operação do voo 070.

— Que reputação é essa? — A baronesa inclinou-se em sua direção, ficando tão próxima dele que Peter sentiu o suave perfume de sua pele lisa como uma pétala de rosa. O cheiro do suor provocado pela subida na colina misturava-se ao aroma da colónia feminina, levando-o à excitação. O desejo de tocá-la, de tomá-la nos braços, era quase incontrolável.

— A de um homem capaz de fazer qualquer conchavo — explicou ele.

— O que você acha que lhe pediriam para fazer? Peter deu de ombros.

— Talvez distribuir propinas aos meus antigos colegas da OTAN, induzi-los a dar pareceres favoráveis aos produtos da Narmco.

— Por que você pensa isso?

— Porque já fui um dos membros do comando da OTAN.

A baronesa voltou-se para apreciar a paisagem de verdes especiais do inverno inglês, os campos ordenados, as pastagens, os contornos das plantas e dos arvoredos.

— Você sabe que através das Indústrias Altmann e de outras companhias eu controlo a maioria das ações da Seddler Steel e da Narmco?

— Não. Mas não posso dizer que estou surpreso.

— E sabia que a oferta da Narmco na realidade partiu de mim? Peter não respondeu.

— Em parte você tem razão... seus contatos com os altos escalões da OTAN, com o alto comando britânico e americano, compensariam cada centavo do enorme salário que lhe oferecemos. Quanto às propinas... — Ela sorriu, e então seu rosto pareceu muito mais jovem. — Vivemos numa sociedade capitalista, general. Preferimos falar em comissões e taxas de apresentação.

Peter também sorriu, não por causa do que ela dissera, apenas porque seu sorriso era irresistível.

— Mas eu lhe dou minha palavra de que você nunca será constrangido a oferecer ou levar... Desde que a Lockheed foi indiscreta, as coisas mudaram. Nada condenável pode ser atribuído à Narmco ou aos seus altos dirigentes. Você tem essa garantia.

— Essa discussão é académica. Eu recusei a proposta.

— Discordo, general Stride. — Ela abaixou a cabeça, e a aba do chapéu cobriu seus olhos. — Espero que depois de ouvir meus argumentos você reconsidere. Para começar, cometi o erro de me manter a distância. Confiei na generosidade da oferta para cooptálo. Um tipo de equívoco que não costumo cometer.

Outra vez com um sorriso nos lábios, a baronesa tocou-lhe o braço, com dedos longos e esguios, cujas unhas bem cortadas estavam pintadas com esmalte cor-de-rosa.

— Meu marido foi um homem extraordinário. Tinha bastante visão, poder e bondade. Por isso que o torturaram e mataram... Eles o mataram da maneira mais vil!

A baronesa não tentou disfarçar as lágrimas que enchiam seus olhos. Sequer piscou. E, depois de alguns instantes de silêncio, deslizou a mão pelo braço de Peter, aproximando-se ainda mais, a ponto de quase roçar o corpo no dele.

— Vai chover logo — comentou ela, com a voz controlada.

— Vamos voltar. — Assim que se puseram a caminho, continuou:

— Os carniceiros que fizeram aquilo com Aaron estão livres, enquanto uma sociedade impotente fica na expectativa, totalmente sem defesa para o próximo ataque. Os Estados Unidos mesmo não têm preparo suficiente para se prevenir dessas ações. A Inglaterra só se preocupa com seus problemas particulares, como nós do resto da Europa; não há um consenso entre os países para um problema que é internacional. O Atlas foi uma ótima ideia, embora limitado pelo fato de somente ser usado em contraataque, e ainda em circunstâncias especiais. Entretanto, se chegassem a suspeitar de sua existência, os simpatizantes da esquerda tentariam estraçalhá-lo como um bando de hienas sobre a caça.

Ela apertou-lhe o braço levemente, e fitou-o com um olhar solene.

— Sim, general. Também sei sobre o Atlas, mas não me pergunte nada.

Penetraram no bosque, pisando com cuidado, pois o caminho era acidentado e escorregadio.

— Depois da morte do meu marido, comecei a pensar em como proteger o mundo sem agir fora-da-lei. Junto com as Indústrias Altmann, herdei um extenso sistema de coleta de informações, destinado, é claro, a facilitar nossas transações comerciais...

Falando num tom rouco, adocicado, que soava hipnótico para Peter, ela explicou como usara sua fortuna e influência para alcançar fronteiras fechadas à maioria, para obter um panorama do mundo da violência e da intimidação.

— Não me deixei prender por considerações como as da Interpol, proibida por leis suicidas de envolver-se em qualquer crime que tenha motivação política. E quando fui capaz de transmitir aquilo que aprendi, então passei a ser contra esse estado mental autodestrutivo que se mascara com a democracia e a liberdade individual. Por duas vezes previ um ataque terrorista e adverti as autoridades; mas, como intenção não é crime, ambos os culpados foram escoltados à fronteira e deixados livres para se prepararem quase que abertamente para a infâmia seguinte. O mundo espera agachado o próximo golpe, impedido de tomar qualquer atitude preventiva para evitá-lo. E quando a coisa explode, vem a confusão sobre as responsabilidades nacionais, o complicado conceito de força mínima... Você conhece bem isso. Você escreveu com profundidade sobre o assunto.

— Mas é agradável ouvir isso repetido.

— Logo chegaremos à parte interessante. Só que estamos quase em casa...

— Venha comigo — disse Peter, dirigindo-se para o pavilhão da piscina. Ali, a superfície da água aquecida estava coberta de névoa. Exuberantes plantas tropicais faziam um vivo contraste com a paisagem invernal do outro lado das paredes de vidro.

Sentaram-se lado a lado num balanço que pendia do teto, próximo o suficiente para conversarem em voz baixa. Antes, porém, de qualquer diálogo, ela tirou o chapéu, a manta e o casaco e jogouos numa cadeira de bambu ao lado.

— Entendo por que sir Steven deseja que você vá para as finanças — disse ela, fitando-o. — É muito mais seguro...

— Não tenho a mesma reverência que Steven por dinheiro.

— Mas é fácil adquirir, general Stride. O tipo da coisa que logo se torna um vício.

Naquele instante, as crianças de ambos os irmãos Stride chegaram rindo e gritando, embora se contivessem um pouco quando se deram conta de que Peter e a baronesa estavam no balanço.

O filho mais moço de Steven, vestindo uma roupa elaborada e usando um aparelho metálico nos dentes frontais, deslizou os olhos na direção deles e então dirigiu-se a Melissa-Jane:

— Je taime, ma chérie, Swoon! Swoon! — Como que para castigar seu sotaque terrível, a garota repreendeu-o com uma vaia e deulhe um empurrão no traseiro que o lançou na parte mais profunda da piscina.

A baronesa riu.

— Sua filha parece ser bastante protetora... Ou seria simples ciúme? — Sem esperar resposta, ela fez outra pergunta, que Peter pensou ter entendido mal devido ao barulho das crianças.

— Perdão, o que foi que você disse?

Então ela repetiu:

— O nome Califa significa alguma coisa para você?

Peter franziu o cenho, como se estivesse pensando, enquanto sua memória recuava até aqueles terríveis segundos de combate mortal, de fumaça, chamas e disparos, e da garota de cabelos negros e camiseta escarlate, berrando: ”Não nos mate. Califa disse que não morreríamos. Califa...” — E uma bala certeira interrompera a frase, atingindo-lhe a boca. Aquela palavra intrigava-o desde então; de nada adiantara procurar seu significado; ele chegara a pensar na possibilidade de ter ouvido mal. Agora sabia que não.

— Califa? — perguntou, sem saber por que iria negá-lo. Talvez apenas para manter algo reservado, para não ser carregado pela torrente da personalidade e presença daquela mulher. — É um título maometano; significa o herdeiro de Maomé, o sucessor do profeta.

— Sim. É o título de um líder civil e religioso. Quero saber se você ouviu esse nome ser usado como um código.

— Acho que não. O que significa?

— Não estou segura, minhas fontes ainda estão confusas... — Ela se interrompeu para observar Melissa-Jane, que estava chamando a atenção de Peter. Assim que o pai voltou-se para ela, a garota correu pelo trampolim e jogou-se no ar, leve como uma andorinha no céu, num salto de volta e meia. Penetrou na água, depois retornou à superfície, com os cabelos escorregando pelo rosto.

— É uma menina adorável — comentou a baronesa. — Não tenho filhos. Aaron queria um, mas não tivemos. — Havia tristeza em seus olhos verdes, que ela logo tentou disfarçar.

Do outro lado da piscina, Melissa-Jane saía da água e enrolava uma toalha nos ombros, cobrindo os seios pequenos, que eram ao mesmo tempo motivo de embaraço e de tímido orgulho da garota.

— Califa... — Peter lembrou à baronesa, que se virou para ele.

— Ouvi esse nome pela primeira vez há dois anos, em circunstâncias que jamais esquecerei... Posso considerar que você está a par dos detalhes do sequestro e morte do meu marido? Não gostaria de repetir toda a história, a menos que seja necessário.

— Sim, claro, não precisa repetir.

— Você sabe que eu entreguei o resgate pessoalmente?

— Sim.

— O encontro foi em uma pista de pouso deserta próxima da fronteira da Alemanha Oriental. O grupo me esperava em um bimotor leve, um avião de reconhecimento fabricado na União Soviética, com os prefixos de identificação borrados.

Peter lembrou-se do planejamento meticuloso e do equipamento especial utilizado no sequestro do 070. Tudo combinava.

— Havia quatro homens mascarados. Falavam russo, pelo menos dois deles. Os outros dois não abriram a boca. Era um russo péssimo!

A baronesa, além do russo, falava cinco outros idiomas. Peter lera em sua ficha que ela possuía uma boa bagagem cultural do Leste europeu, pois nascera na Polónia, de onde escapara com o pai ainda garota.

— Tenho quase certeza de que a aeronave e o russo eram um artifício para encobrir suas verdadeiras identidades. Fiquei alguns minutos com eles. Estava com quarenta e cinco milhões de francos suíços, que mesmo em notas de grande valor eram uma carga incómoda para colocar a bordo do avião. Assim que perceberam que eu não tinha escolta policial, relaxaram e brincaram entre si enquanto carregavam o dinheiro. A palavra ”Califa” foi usada em inglês, num diálogo em russo que dizia mais ou menos o seguinte: ”Ele estava certo novamente”, e a réplica:” Califa está sempre certo”. Foi o uso da palavra em inglês que me fez lembrá-la tão claramente.

— Você comunicou à polícia? — perguntou Peter gentilmente.

— Não. Não sei por quê. Eles eram tão displicentes naquela época! E eu estava zangada, triste e confusa. Por pouco não me decidi caçá-los por conta própria.

— Essa foi a única vez que você ouviu o nome?

Por alguns minutos, os dois observaram as crianças brincando. Era uma fantasia discutir a fonte do mal contra um fundo de risos e brincadeiras inocentes.

Ao retomar a conversa, a baronesa deu a impressão de que se esquecera da pergunta de Peter:

— Teve aquele hiato no terrorismo internacional. Os americanos pareciam ter liquidado o problema dos sequestros com o acordo cubano e as inspeções rigorosas dos aeroportos. Depois houve as campanhas bem-sucedidas contra a ala provisória do IRA, o ataque a Entebbe e a operação alemã em Mogadíscio, que foram aclamados como vitórias definitivas. Todos se congratulavam com a derrota do terrorismo. E os árabes estavam muito ocupados com a guerra no Líbano e com as rivalidades intergrupais. Era uma coisa do passado. — Ela balançou a cabeça antes de prosseguir: — Só que o terrorismo é uma indústria crescente... há menos riscos do que em financiar um grande filme. Estatisticamente, têm sessenta e sete por cento de chances de sucesso; o desembolso de capital é mínimo, com lucros exorbitantes e publicidade gratuita, com resultados instantâneos e um potencial de poder incalculável. Mesmo na eventualidade de um fracasso total, ainda existe mais de cinquenta por cento de chance de sobrevivência para os participantes... Qualquer negociante sabe que isso é melhor que o mercado de bens.

— Mas tem um problema, baronesa. É um negócio dirigido por amadores, ou por profissionais cegos pelo ódio, ou incapacitados por interesses paroquianos e objetivos limitados.

Ela girou no assento do balanço, cruzando as longas pernas numa pose bem feminina.

— Você está na minha frente, Peter... Desculpe, mas sinto-me como se o conhecesse há longo tempo. — Dirigiu-lhe um sorriso cálido e completou: — Meu nome é Magda.

— Obrigado, Magda.

— Pois bem, o negócio está nas mãos de amadores, mas é bom demais para ficar onde está.

— E aí entra Califa...

— Isso foi um sussurro que ouvi; normalmente ninguém usa nome. Mas em uma reunião em Atenas, ou Amsterdã, ou Berlim Oriental ou Aden... ouvi o nome Califa outra vez. Se ele de fato existe, deve ser um dos homens mais ricos do mundo, e logo será um dos mais poderosos.

— Um homem? — perguntou Peter.

— Não sei. Talvez um grupo de homens, ou até mesmo um governo. Rússia, Cuba, um país árabe, quem sabe?

— E os objetivos?

— Dinheiro em primeiro lugar; riqueza para atacar os objetivos políticos, e finalmente poder, poder bruto. — Magda deteve-se e fez um gesto de autodesaprovação. — Bem, isso é adivinhação novamente, uma hipótese pessoal, baseada apenas no desempenho dele. Eles já têm a riqueza, fornecida pela OPEP e... e por mim mesma, entre outros. Agora, ele ou eles começaram a buscar objetivos políticos, um alvo fácil em primeiro lugar. Um governo de minoria racista, sem nenhum aliado poderoso. Deveria de ter dado certo.

Poderiam ter vencido uma nação inteira, uma nação rica em minerais, pelo preço de uma dúzia de vidas. Mesmo que tivessem falhado no objetivo maior, o prémio de consolação era quarenta toneladas de ouro puro. Isso é um bom negócio, Peter. Deveria ter dado certo. Tinha dado certo. As nações aliadas estavam pressionando a vítima e forçando-a a ceder... Era um campo de prova, e funcionava perfeitamente, exceto para um homem.

— Estou receoso, Magda... como nunca estive em minha vida.

— Eu também. Estou amedrontada desde aquele terrível telefonema na noite em que pegaram Aaron. E quanto mais me informo, mais temor eu sinto.

— O que vai acontecer a seguir?

— Não sei, mas o nome que ele escolheu sugere megalomania, alguém com visão messiânica. É difícil entender a mente de um homem que embarca nesse tipo de ação. Talvez ele acredite que está fazendo um bem à humanidade. Talvez queria atacar o rico acumulando riqueza, destruir o tirano com uma tirania universal, libertar a humanidade para torná-la escrava do terror. Endireitar os erros do mundo com o mal e a injustiça.

Ela movimentou as mãos, fazendo o diamante reluzir, depois tocou o braço dele, desta vez com força.

— Você precisa me ajudar a encontrá-lo, Peter. Vou investir tudo o que posso nessa caçada. E toda a minha riqueza e influência estarão à sua disposição.

— Você me escolheu porque acredita que eu assassinei um prisioneiro ferido? São estas as minhas credenciais?

Ela vacilou por alguns instantes, e em seguida confirmou:

— Em parte, sim. Mas só em parte. Você sabe que eu li os seus livros, que os estudei cuidadosamente. Você é a melhor pessoa disponível para o caso, tem provado que se envolve até a alma. Você tem o poder, a habilidade e a coragem para encontrar Califa e destruí-lo, antes que ele destrua o nosso mundo.

Peter ficou em silêncio, meditando. Ele acreditava que a besta tinha mil cabeças e que, para cada uma que fosse decapitada, outras mil cresceriam; agora, pela primeira vez, imaginava a forma completa da besta ainda na tocaia, não muito clara, mas com uma única cabeça. Talvez, depois de tudo, ele fosse mortal.

— Você me ajuda, Peter? — insistiu ela.

— Você sabe que sim... Não tenho outra escolha.

A LUZ SOLAR refletia-se nos campos nevados, de um branco resplandecente, enquanto ela deslizava, contornando os obstáculos com elegância, provocando um rápido esvoaçar de neve ao longo do declive da montanha, num intrincado balé de movimentos.

Ela usava uma roupa cinza-pérola apertada, com guarnição preta nos ombros e punhos, calçava cintilantes botas negras Heierling, e seus esquis, estreitos e negros, eram da marca profissional Rossignol.

Peter seguia atrás, esforçando-se para não perder terreno, mas seus contornos eram voltas geométricas sem o estilo suave das curvas que a faziam adiantar-se cada vez mais.

O potrilho corre como dez cavalos Porém a égua, como uma nova corça.

Kipling bem que poderia tê-los descrito — ela avançara cem metros à frente dele quando entraram no bosque.

A sombra dos pinheiros deixava o caminho em penumbra, e o gelo rumorejava sob os esquis enquanto ela fazia as estreitas curvas perigosamente rápido. Sempre à frente, tremeluzia como um fantasma prateado sobre as pernas longas, as nádegas balançando ritmicamente nas voltas, inclinando-se sob as rajadas de vento, e sua rouca gargalhada alcançando Peter. Certas habilidades tinham de ser desenvolvidas durante a infância... Bem, se ela era polonesa, provavelmente já esquiava antes mesmo de ser desmamada. Assim, Peter apagou a chama de ressentimento que costumava sentir ao ser ultrapassado por outro, particularmente por uma mulher que estava se tornando sua obsessão.

Ele alcançou outro íngreme contorno, com um muro ondulado de neve elevando-se cinco metros à direita, e na esquerda as copas dos pinheiros próximos — era tão escarpado que a montanha caía para um vale.

Os sinais de advertência passaram rapidamente antes da ponte de madeira, com suas beiras enceradas, opalescentes como gelo esverdeado. Ele sentiu o controle escapar quando entrou na polida superfície metálica. A ponte cruzava uma garganta profunda e sombreada, com uma queda dágua congelada na rocha negra da montanha com seus próprios estalagmites, como cravos de crucifixão.

Tentar cruzar a margem ou estancar a velocidade naquele caminho traiçoeiro seria convidar o desastre; se se recostasse seria derrubado instantaneamente e jogado na guarda da ponte... No momento em que se alinhava para cruzá-la, Peter lançou-se para a frente de tal forma que seus pés quase soltaram das botas — num mergulho de terror e hilaridade, ele conseguiu passar, e se viu rindo alto enquanto seu coração sacolejava e sua respiração competia com o som do vento...

Ela o esperava onde o caminho apresentava os declives mais baixos. Erguera os óculos de proteção e tirara as luvas, deixando os bastões cravados na neve ao seu lado.

— Você nunca entenderá o quanto eu precisava disso, — Ela voara a Zurique naquela manhã, em seu jato pessoal. Peter viajara pela Swissair, saindo de Bruxelas, e tinham pegado um automóvel juntos. — Você sabe o que eu quero, Peter?

— Pode falar...

— Eu gostaria de tirar um mês inteiro, trinta dias completos, para fazer o que desejo. Ser uma pessoa comum, ser como as outras pessoas e não sentir um instante de culpa.

Ele a tinha visto em apenas três ocasiões durante as seis semanas desde aquele encontro em Abbots Yew. E sempre em reuniões, encontros totalmente insatisfatórios. Na primeira vez, em seu novo escritório na representação da Narmco em Bruxelas; depois, em La Pierre Bénite, a casa de campo que ela possuía nas cercanias de Paris, juntamente com outros vinte convidados para o jantar; a terceira vez, na bem decorada cabine do seu jato num voo entre Bruxelas e Londres.

Embora tivesse feito pouco progresso na caça a Califa, Peter estava explorando algumas pistas e tinha ainda uma dezena de caminhos a seguir.

Durante o terceiro encontro, Peter discutira com ela a necessidade de reestruturar seus serviços pessoais de segurança. E trocara seus antigos guarda-costas, substituindo-os por outros de uma agência da Suíça, que treinava seus próprios homens. O diretor dessa agência era um velho amigo seu.

O pessoal acompanhara-a a essa nova reunião, onde Peter relataria seus progressos para Magda, mas, em poucas horas, a neve havia seduzido os dois.

— Ainda temos duas horas antes que a luz desapareça. — Peter olhara através do vale para a igreja do povoado. Os ponteiros dourados do relógio indicavam duas e alguns minutos. — Você quer ir até Reinhorn?

— Bem, o mundo vai continuar a girar, tenho certeza. — Seus dentes eram muito brancos, mas um deles estava levemente trincado, uma mancha de aparência esquisita quando ela sorria. — Qualquer coisa pode esperar duas horas.

Peter sabia que ela se movimentava por horários inacreditáveis, começando seu trabalho diário quando o resto do mundo ainda dormia; e como se isso fosse pouco, ficando até tarde mesmo depois que os escritórios das Indústrias Altmann no boulevard Capucine já estavam desertos. Até durante a viagem para Zurique ela despachava a correspondência ditando para uma secretária. E no chalé do vale, duas secretárias a esperavam, com uma pilha de telex para apreciação e a linha pronta para a resposta.

— Há melhores formas de morrer do que se matar trabalhando — ele disse, perdendo a paciência. Ela riu descontraída; as maçãs do rosto estavam coradas e os olhos brilhavam devido à última corrida.

— Você tem razão, Peter. Vou mantê-lo próximo para que me lembre disso.

— Essa é a primeira manifestação sensata que ouço de você em seis semanas. — Era uma indireta à oposição que ela fizera às mudanças em sua segurança pessoal.

Embora mantivesse o sorriso nos lábios, ela assumiu uma expressão séria.

— Meu marido me deixou uma responsabilidade — disse, escondendo a tristeza por trás do sorriso. — Uma obrigação que devo realizar. Qualquer dia eu lhe explico. Agora não; só temos duas horas.

Nevava ligeiramente, e o sol desaparecera atrás das montanhas, quando se puseram a caminho do povoado. Eles eram parte do alegre grupo que retornava das encostas, formando blocos ao longo das calçadas congeladas, carregando os esquis e os bastões nos ombros, tagarelando sobre a ameaça da pista alta.

— É gostoso estar livre dos meus lobos por um momento. — Magda apoiou-se no braço dele quando seus patins escorregaram nas sujas arestas do gelo, e depois que recuperou o equilíbrio, manteve a mão ali.

Os ”lobos” eram os guarda-costas que Peter arranjara, vigilantes silenciosos que a seguiam tanto a pé como de carro. Eles ficavam do lado de fora do escritório enquanto ela trabalhava, e outros guardavam a casa enquanto ela dormia. Naquela manhã, entretanto, ela argumentara com Peter: ”Hoje tenho como companheiro uma medalha de ouro das Olimpíadas de tiro, não necessito dos lobos”.

A Narmco fabricava uma versão de parabelum de 9 mm, chamada ”Cobra”, que, após uma única manhã de treinamento, conquistara Peter. Era mais leve e achatada que a Walther, fácil de portar e esconder, e tinha um mecanismo simples, que poupava tempo, na medida em que não necessitava ser engatilhada após o primeiro tiro. Ele não tivera problemas para conseguir permissão para portar a arma como amostra de venda — apenas precisava apresentar a licença antes de cada voo comercial — e a carregava num elegante coldre moldado Alessi, de fácil manuseio.

A princípio Peter sentira-se teatral e melodramático, embora logo se convencesse de que seguir as pegadas de Califa desarmado seria pouco menos que uma loucura. Habituara-se com aquele peso sob a axila direita. De repente Magda quebrou o silêncio:

— Estou quase morrendo de tristeza. — Então, os dois empilharam seus esquis e entraram num dos cafés aquecidos com nuvens de vapor que se alinhavam na rua principal.

Encontraram uma mesa repleta de gente jovem, e pediram taças de Gliihvein quente. Logo, um grupo de quatro pessoas tocou uma canção popular. O restante de seus companheiros de mesa entraram como um enxame na pequena pista de dança. Peter lançou um olhar desafiador para Magda, que perguntou num tom divertido:

— Você já dançou em botas de esqui?

— Sempre é tempo para a primeira vez.

Ela dançava como fazia tudo: completamente absorvida. E seu corpo rígido e esguio roçava o dele.

Escurecera por completo quando subiram o estreito caminho sobre o povoado e atravessaram o portão eletronicamente controlado num muro de proteção ao redor do chalé. Era típico dela evitar os recursos da moda, e que externamente o chalé não parecesse diferente dos outros cinquenta que se amontoavam em desordem à margem da floresta de pinheiros.

Houve um evidente alívio entre seu séquito quando ela retornou, embora parecesse quase desafiadora à preocupação deles, como se tivesse provado alguma coisa a si própria; mas ainda não trocara as roupas esportivas ao desaparecer na suíte do escritório do primeiro andar, com seus dois secretários homens.”Trabalho melhor com os homens” — explicara a Peter certa vez.

Enquanto vestia-se com calça, blazer e um pulôver de gola olímpica, depois de um banho escaldante, Peter ouvia o trepidar da máquina de telex do andar de baixo. E somente uma hora depois ela o chamou pelo telefone interno.

Todo o andar superior era seu domínio particular e ela estava em frente à janela, olhando as luzes cobertas de neve do vale quando ele entrou. Vestia calça verde cobrindo o cano das botas apres-ski, e blusa da mesma cor, uma combinação perfeita para seus olhos.

Assim que os viu, ela pressionou um botão escondido e as cortinas fecharam-se silenciosamente.

— Aceita um drinque, Peter?

— Não, se vamos conversar.

— Nós vamos conversar. — E ela indicou a poltrona de couro próxima à lareira. Magda tinha evitado o tradicional cuco suíço e a decoração de tábuas de pinho nodosas; o carpete era um espesso Walton que combinava com as cortinas; a mobília, confortável, moderna, esportiva e alegre, o melhor gosto para parecer natural e sem afetação, fazendo conjunto com a arte moderna nas paredes e a escultura abstraía em madeira escavada e mármore. Subitamente ela sorriu. — Eu não sabia que tinha encontrado um talentoso gerente de vendas para a Narmco. Estou realmente impressionada com o que você fez em tempo tão curto.

— Eu precisava ter um pretexto plausível. E estou acostumado a ser um soldado; o trabalho me interessa.

— Vocês, ingleses, são sempre tão modestos!

Ela movia-se pela sala; embora nunca descansasse, tampouco aparentava cansaço.

— Soube que a OTAN fará teste definitivo do Kestrel, depois de dois anos de adiamento. — Kestrel era um míssil de infantaria portátil de alcance médio e ação terra-a-terra. — Fui informada de que tomaram essa decisão depois que você se encontrou com alguns ex-colegas.

— O mundo gira no velho sistema de mensageiros. Você deveria saber disso.

— E você está usando o antigo sistema de mensageiro com os iranianos?

— Foi um pequeno golpe de sorte. Há cinco anos eu era colega de curso do novo conselheiro deles para assuntos militares.

— Sorte novamente. — Ela sorriu. — Não é estranho que a sorte favoreça sempre os que são sagazes e dedicados e que se movimentam mais rápido que a maioria?

— Tive menos sorte em outras direções... Fui mal sucedido no contato de que falamos cerca de uma hora na última reunião....

Tinha discutido a possibilidade de acesso ao computador do Atlas, para pegar eventuais relatórios sobre ”Califa” preparados pelos serviços de informação, desde que houvesse algum arquivado.

Como expliquei, havia uma possibilidade remota de acesso, através de alguém que me devia um favor. Ele não pôde ajudar. Acredita que se houver alguma ficha de Califa, está bloqueada e vigiada.

Isso significava que qualquer requisição não-autorizada faria soar um alarme no controle de serviço secreto.

— Colocaríamos Atlas em condições Delta se requisitássemos um informe impresso.

— Você não lhe deu o nome? — perguntou Magda asperamente.

— Não. Nada de nomes, apenas uma discussão genérica num jantar no Brooks: porém todas as implicações estavam colocadas.

— Você tem outras rotas de acesso?

— Acho que sim. Mais uma, o último recurso. Antes disso, talvez seja melhor você me dizer se tem algo mais de suas fontes.

— Minhas fontes... — Magda nunca fizera descrições detalhadas, e Peter tampouco pedira. Havia um certo tom conclusivo na forma como ela falava. — Minhas fontes são quase todas negativas. O ataque à embaixada da Holanda em Bonn não estava conectado com Califa. Foi exatamente o que parecia ser: extremistas das Molucas do Sul. Os sequestradores da Cathay Airlines e Transit Airlines eram ambos amadores, como ficou evidente pelos métodos e resultados. — Ela sorriu secamente e virou-se para acenar a posição de um painel de Hundedwasser pendurado na parede.

— Há apenas um ato recente que tem o estilo de Califa.

— O príncipe Hassied Abdel Hayek?

Ela virou-se para encará-lo, colocando a mão sobre o quadril, as unhas bem vermelhas contra o verde leve da roupa, o diamante do anel de marquesa brilhando.

— O que você sabe dele?

O príncipe fora morto com três balas calibre 22 na nuca enquanto dormia em seu quarto no campus de Cambridge. Tinha dezenove anos e era neto do rei Khalid da Arábia Saudita, não um dos seus favoritos; um jovem escolar de óculos que parecia contente por estar fora dos círculos de poder e política do palácio. Não houvera tentativa de sequestro, nenhum sinal de luta, nenhuma evidência de roubo; o jovem príncipe não tinha amigos próximos nem inimigos aparentes.

— Parecia não haver motivo — admitiu Peter. — Por isso que pensei em Califa.

— A trapaça de Califa... — Magda girou, e suas ancas balançaram levemente. Através da calça apertada, suas nádegas pareciam perfeitas, a sombra da separação entre elas aparecendo através do fino tecido. Peter observou-lhe as pernas enquanto ela passeava, percebendo pela primeira vez que seus pés eram esguios, delicados, quase uma escultura. — E se eu lhe disser que a Arábia Saudita deixou claro aos demais membros da OPEP que, longe de suportarem um aumento no preço de óleo cru, vão pressionar para uma redução de cinco por cento no preço mundial da organização na próxima reunião...

Peter levantou-se da cadeira, enquanto Magda perguntava:

— O que você acha disso?

— O rei tem netos prediletos, além de irmãos, sobrinhos...

— Setecentos parentes! E ele é árabe. Você sabe como os maometanos são com os filhos e netos. — Magda ficou tão próxima dele que Peter sentia o calor de seu corpo, o perfume feminino que o perturbava... Mesmo assim ele continuou atento à conversa. — Talvez o rei Khalid tenha sido avisado de que também é mortal.

— Tudo bem, o que estamos sugerindo? Que Califa cunhou uma nova fórmula fácil? Pegando o homem que controla o destino económico do mundo ocidental? Que toma decisões pessoais, que não é acessível a gabinetes ou causas, ou governos?

— Mas um homem que é vulnerável ao terrorismo pessoal, que tem um passado de apaziguamento com a pressão terrorista. As velhas verdades ainda servem: ”Não cai fácil a cabeça que usa uma coroa”. O rei não ficará indiferente ao medo da lâmina do assassino. Ele entenderá a lei do punhal, porque sempre viveu com ela.

— Bem, você tem que admirar isso. Não há necessidade de pegar e manter reféns. Não há motivos para expor-se. Mata-se um obscuro membro de uma grande família real, e promete-se que haverá mais, cada um mais importante, próximo do cabeça.

— A família do rei é bastante exposta; toda vez que você parar em Dorchester, encontrará um dos seus filhos tomando cafezinho num local público. Eles são alvos fáceis, e existem muitos. Pode-se até matar dois ou três principezinhos, mas secretamente o mundo sentirá que os terroristas chegaram a eles também. Não haverá um mar de lágrimas para homens que carregam o mundo como refém.

— Você devia não apenas admirar, mas ter uma certa simpatia pela causa. É uma freada mortal para a crescente inflação do mundo, uma parada no desequilíbrio do comércio.

Magda ficou feroz como ele nunca tinha visto antes.

— Essa é a armadilha, Peter. Ver apenas o fim, e endurecer com os meios. É a armadilha que Califa preparou com a tomada do

070. Suas exigências coincidiam com as das potências ocidentais, que fizeram pressão sobre a vítima. Se Califa estiver pressionando os ditadores do petróleo para uma moderação de suas exigências, quanto apoio poderá obter das potências capitalistas do Ocidente?

— Você é capitalista. Se Califa triunfa, você será uma das primeiras a se beneficiar.

— Sou capitalista, sim. Mas antes sou um ser humano, e um ser humano pensante. Você acredita que após o triunfo isso seria a última coisa que ouviríamos dele?

— Claro que não. Suas exigências serão sempre maiores; a cada sucesso ele vai se tornar mais atrevido.

— Bem, podemos tomar aquele drinque agora. — Magda pressionou um botão, e a tampa de ônix da mesa de café deslizou, revelando um arranjo de garrafas e copos embaixo. — Uísque, não? — E serviu-lhe uma dose de Glenlivet. Quando lhe passou o copo de cristal, seus dedos tocaram-se, e ele se surpreendeu, pois sua pele estava gelada.

Ela despejou vinho branco em uma taça e completou-a com água Perrier. Ao recolocar a garrafa no balde de gelo, deixou visível o rótulo: Montrachet 1969. Talvez o melhor vinho branco do mundo. Peter protestou contra aquele sacrilégio.

— Alexandre Dumas disse que ficaria bêbado apenas apoiado com os joelhos e com a cabeça descoberta.

— Ele esqueceu a água mineral... De qualquer forma, não se pode confiar num homem que empregava outras pessoas para escrever os seus livros. — Ela ergueu a taça de vinho adulterado em sua direção. — Há muito tempo decidi viver a vida nos meus próprios termos. Ao inferno com o senhor Califa.

— Devemos brindar a isso?

Em vez de responder, Magda deixou a taça sobre a mesa e foi ajeitar um vaso de tulipas de estufa no fundo da sala.

— Se estivermos certos, se isso é trabalho de Califa, fica prejudicado o perfil que fiz dele — continuou Peter.

— Como assim? — perguntou ela, sem se aproximar.

— Califa é um nome árabe. Ele está atacando o líder do mundo árabe.

— Mera manobra de diversão. O nome deve ter sido escolhido para confundir os caçadores, ou talvez haja outras exigências além do preço do petróleo; talvez Khalifa esteja sendo pressionado para dar maior apoio aos palestinos, ou a um dos outros movimentos árabes extremistas. Não sabemos o que Califa quer da Arábia Saudita.

— Mas o preço do óleo é controlado pelo Ocidente. De certa forma, sempre se aceitou a tese de que o terrorismo é uma ferramenta da extrema-esquerda. A tomada do 070 e o sequestro do seu marido foram ambos dirigidos contra a sociedade capitalista.

— Ele sequestrou Aaron pelo dinheiro, e matou-o para proteger sua identidade. O ataque ao governo da África do Sul, o ataque ao cartel do petróleo, a escolha do nome, tudo aponta para uma pessoa com pretensões divinas. — Magda arrancou a flor de uma das tulipas com um gesto abrupto e zangado, e esmagou-a na mão. Deixou as pétalas caírem num cinzeiro de ônix. — Sinto-me tão abatida, Peter. Parece que estamos andando em círculos — continuou, enquanto se aproximava dele. — Você disse antes que existe uma forma segura de atrair Califa...

— Sim.

— Pode me explicar?

— É um velho truque dos Shikaris indianos. Quando eles se cansam de procurar o tigre na selva sem conseguir nenhuma pista, costumam arriscar uma cabra e esperar pela fera.

— Uma cabra?

— Meu signo do Zoodíaco é capricórnio; a cabra. — Ele riu.

— Não entendi.

— Se eu espalhasse que estava caçando Califa... Bem, ele sabe que eu existo. A sequestradora falou meu nome, claro, inconfundível. Tinha sido avisada. Por isso acredito que Califa me levaria a sério para considerar a necessidade de me procurar.

O rosto de Magda mudou de cor; uma sombra de preocupação passou pelos seus olhos.

— Peter...

— É a única forma de me aproximar dele.

— Peter... — Com a mão apoiada no braço dele, ela não conseguiu continuar. Encarou-o em silêncio, com os olhos escuros e inescrutáveis. Uma veia pulsava em seu pescoço, bem abaixo da orelha. Peter abriu a boca, como se fosse dizer alguma coisa, porém ela tocou-lhe os lábios com a ponta da língua, deixando-os úmidos, vulneráveis. Enquanto isso, aumentou a pressão dos dedos em seu braço, mudou de postura, arqueando as costas, de modo a roçar o corpo no dele.

— Tenho estado tão sozinha — murmurou ela. — Tão sozinha, há tanto tempo... Só percebi isso hoje, enquanto estava com você.

Peter perdeu o fôlego, e sentiu o sangue acelerar-se nas veias.

— Não quero mais ficar sozinha, nunca mais.

MAGDA SOLTARA OS CABELOS espessos e longos, que lhe caíam até a cintura, repartidos ao meio, emoldurando-lhe as faces pálidas e de ar infantil. Seus olhos denotavam insegurança quando ela se aproximou de Peter, que estava deitado na cama de casal.

Vestia um penhoar comprido, com mangas largas, forrado internamente de cetim, e gola estilo chinês. Ao contrário do que Peter esperava, parecia nervosa como uma adolescente que fosse fazer amor pela primeira vez.

— Estou tão insegura... tenho medo de decepcioná-lo, Peter- sussurrou ela, com os lábios trémulos.

Sem nada dizer, ele estendeu-lhe a mão. Estava coberto da cintura para baixo, mostrando o peito bronzeado, cheio de pêlos escuros. Foi gratificante para Magda perceber que seu corpo forte era todo músculos, sem nenhum excesso na barriga, nos ombros ou nos braços. Um verdadeiro atleta. Mesmo assim, não se encorajou a atender ao seu chamado. O que o obrigou a insistir, num tom de voz gentil e caloroso.

- Venha...

Ela deu-lhe as costas por alguns instantes, enquanto abria os botões do roupão. Com gestos lentos, que refletiam seu nervosismo, deslizou-o pelos ombros, fazendo-o cair a seus pés.

A visão daquele corpo bem feito, de curvas suaves, quase tirou a respiração de Peter. Como sua pele era perfeita, como suas nádegas eram bonitas! Incapaz de conter-se, ele foi até a beirada da cama e puxou-a para o colchão. Um beijo longo deu início a uma sessão de carícias mútuas que parecia nunca mais ter fim.

Seus seios, pequenos como os de uma garota na puberdade, estavam intumescidos, com os mamilos cor de vinho rijos e eretos. O ventre alvo, macio, sem nenhum grama de gordura, tinha uma linha de pelinhos brilhantes, do umbigo para baixo, até alcançar o púbis.

Magda apertava o corpo contra o dele, abraçando-o com força, a pele arrepiada de excitação. Sua boca tinha o sabor do desejo, que também se revelava na respiração ofegante, na pulsação acelerada do seu sangue nas veias. A fragrância de flores que emanava do corpo feminino misturava-se ao cheiro de suor da mulher madura, carente de afeto.

Foi uma noite repleta das mais inebriantes sensações que podem tomar dois amantes. Muito mais tarde, a tranquilidade do desejo satisfeito manifestava-se em cada célula de ambos os corpos. Uma sensação que parecia vir do mais profundo de suas almas.

— Eu sabia que vivia na solidão — sussurrou ela. — Mas não imaginava que esse sentimento fosse tão terrível. — E o enlaçou, como se nunca mais fosse deixá-lo.

TRÊS HORAS ANTES DO AMANHECER, Magda despertou-o. Ainda estava escuro quando deixaram o chalé. As luzes do Mercedes, que os seguia levando os lobos, varriam o interior da cabine na serpenteante estrada em declive pelas montanhas.

Na decolagem de Zurique, Magda ocupou o assento esquerdo do jato, assumindo o comando da aeronave, e manuseou o aparelho com a tranquila falta de ostentação que caracteriza um aviador verdadeiramente competente. Seu piloto pessoal, um encanecido francês taciturno, que voava agora como co-piloto, evidentemente atribuía à sua habilidade uma alta estima e observava-a com um orgulho quase paternal de aprovação enquanto ela nivelava o avião para a altitude de cruzeiro rumo ao aeroporto de Orly, em Paris, antes de deixar-lhe a monitoração do piloto automático e retornar à cabine de passageiros. Embora se sentasse ao lado de Peter nas poltronas negras de couro, suas maneiras não se modificaram em relação ao último voo juntos, no mesmo avião, de tal forma que ele mal conseguia acreditar nas maravilhas que haviam partilhado na noite anterior.

Ela trabalhava com os dois secretários de roupas escuras ao seu lado, falando um francês fluente com o mesmo encantamento do sotaque que marcavam seu inglês. No pouco tempo desde que entrara na Narmco, Peter fora forçado a fazer uma revisão a todo vapor do seu francês. Agora, novamente poderia dominá-lo, se não com ostentação, pelo menos de maneira competente em discussões técnicas e financeiras. Uma ou duas vezes Magda dirigiu-se a ele para comentários ou opiniões, parecendo tão impessoal e eficiente como um computador. E Peter entendeu que não poderiam fazer demonstração de suas novas relações na frente dos empregados. Imediatamente ela provou que ele estava errado, quando o copiloto chamou-a pelo alto-falante da cabine.

— Entraremos no circuito de Orly em quatro minutos, baronesa. — Então ela virou-se e beijou a bochecha de Peter.

— Pardon me, chériFarei o pouso. Necessito de tempo de voo no meu diário de bordo.

Magda fez a aeronave tocar a pista com a delicadeza de quem passa manteiga numa torrada. O co-piloto avisara as autoridades pelo rádio, de modo que quando o avião estacionou num hangar particular, havia um oficial da imigração e um agente aduaneiro esperando.

Os dois funcionários cumprimentaram-na respeitosamente e mal olharam seu passaporte diplomático. Demoraram-se um pouco mais com o passaporte britânico azul e dourado de Peter, o que levou Magda a sussurrar-lhe:

— Preciso lhe arranjar uma caderneta vermelha. É muito mais fácil. — E, virando-se para os funcionários: — A manhã está fria, cavalheiros. Espero que aceitem um copo.

De imediato, o comissário de bordo fez os dois franceses entrarem na aeronave e se acomodarem confortavelmente nas poltronas de couro para escolherem charutos e conhaques que o garçom lhes apresentava para aprovação.

Havia três carros estacionados no fundo do hangar, com motoristas e guardas. Peter torceu o nariz ao ver o Maserati.

— Já lhe avisei para não dirigir esse carro — disse rispidamente.

— É como colocar seu nome em luzes de néon.

Haviam discutido aquele assunto durante a fase de reorganização de sua segurança pessoal. O Maserati era cinza-metálico, uma das cores favoritas de Magda, e seria facílimo identificá-lo e segui-lo.

— Oh, é tão bom ter um homem que nos mande! Me faz sentir mulher, outra vez.

— Tenho outras formas de fazê-la sentir isso.

— Eu sei — concordou ela, com um brilho malicioso no olhar.

— E gosto delas ainda mais, mas não agora, por favor! O que pensariam meus assessores? Fique com o Maserati, pedi-o para você. Alguém deve desfrutá-lo. E, por favor, não se atrase à noite. Já providenciei tudo para estarmos completamente livres. Tente estar em La Pierre Bénite às oito em ponto.

Momentos mais tarde, Peter reduzia a velocidade devido ao tráfego junto à entrada da Pont Neuilly, em Paris; acostumara-se com a impetuosa potência de aceleração do Maserati e, como Magda sugerira, estava gostando do carro. Apesar da loucura do trânsito parisiense, ele manobrava evitando ser alcançado por outros carros, com a onipotente sensação de poder de controle que a magnífica máquina conferia ao seu motorista. Não era sem razão que Magda a apreciava tanto. Quando estacionou na garagem subterrânea dos Champs Elysées, ao lado da Concorde, ele sorriu para si mesmo no espelho.

— Cowboy sangrento! — disse em voz alta, consultando o relógio. Estava uma hora adiantado para seu primeiro encontro. Numa súbita revelação, tirou o coldre do Cobra e, com a pistola ainda ali, guardou-o no porta-luvas do carro. Sorriu novamente ao pensar na inconveniência de entrar armado no quartel-general da Marinha francesa.

O chuvisco tinha parado, e as árvores dos jardins do Elysée brotavam seus primeiros ramos. Antes de ir à Concorde, ele ligou de um dos orelhões do metro para a embaixada britânica. Conversou durante dois minutos com o adido militar e, quando desligou, sabia que a festa estava animada. Se Califa penetrara no Atlas a ponto de conhecê-lo como o comandante do Thor, então não demoraria a saber que o antigo comandante estava em seu encalço. O adido militar da embaixada em Paris tinha obrigações clandestinas além de beijar as mãos das madames nas festas diplomáticas.

Peter chegou alguns minutos adiantado aos portões do quartel-general da Marinha, na esquina da rua Royale, mas já havia um secretário esperando-o embaixo da ondulante bandeira tricolor. Depois que ele passou pelas sentinelas, o rapaz conduziu-o até o comité de armamentos, uma sala situada no terceiro andar, dando vista para o cinza embaciado do Sena e para os enfeitados arcos da Pont Neuf. Dois dos assistentes de Peter na Narmco estavam ali, com as maletas abertas e o conteúdo espalhado sobre a mesa de nogueira.

O comandante da nau capitânia francesa estivera em Bruxelas e, numa noite inesquecível, levara Peter a um mágico passeio pelos bordéis da cidade. Agora, ele o cumprimentava com mesuras de satisfação e o tratava por ”tu”, o que pressagiava bons resultados para a reunião.

Precisamente ao meio-dia, o capitão propôs que a reunião fosse transferida para a rua em frente — uma sala reservada no primeiro andar do Maxims — com a cega certeza de que a Narmco pagaria a conta, desde que estivesse realmente interessada na venda dos propulsores de foguete Kestrel para a Marinha francesa.

Para Peter, a tática seguir seria não deixar muito óbvio que estaria servindo-se menos do que os outros do Cios de Vougeot ou da Rémy Martin. No entanto, logo percebeu que perdia boa parte da discussão, que se dava num volume cada vez mais elevado, pois estava pensando nos olhos de esmeralda e nos pequenos seios sensuais...

Mais tarde, de volta ao Ministério da Marinha, Peter teve de fazer outro grande gesto diplomático quando o capitão alisou o bigode e lhe fez um conhecido sinal, dizendo:

— Aqui perto tem um clube, charmoso e maravilhosamente descontraído...

Eram quase seis da tarde quando Peter se desvencilhou do francês, com protestos de amizade e promessa de um novo encontro dentro de dez dias. Uma hora depois, ele deixou os dois assistentes de venda no hotel Meurice, após um rápido porém completo balanço dos avanços do dia, onde haviam concordado em que ainda teriam um longo caminho pela frente até o final das negociações.

Peter voltou a pé pela rua Rivoli; apesar do desgaste de um dia exaustivo, quando precisava pensar rápido numa língua cuja pronúncia ainda lhe era estranha, apesar da leve dor de cabeça provocada pelo vinho e o conhaque, e apesar da fumaça dos charutos e cigarros que havia respirado, sentia-se excitado com a perspectiva do encontro com Magda.

Enquanto esperava na esquina pela mudança do sinal luminoso, viu seu próprio reflexo na vitrine de uma loja. Estava sorrindo sem se dar conta!

Ele aguardava sua vez na rampa da garagem do estacionamento, antes de entrar na corrente do tráfego, com o motor do Maserati roncando impacientemente, quando deu uma olhada pelo espelho retrovisor. Adquirira esse hábito tempos atrás, porque uma das listas negras capturadas de um grupo começava com o seu nome; desde então aprendera a olhar por cima do próprio ombro.

Notou um Citroen dois veículos atrás, na fila de carros, por causa do pára-brisa quebrado e de um pedaço de pára-lamas denteado, expondo uma brilhante tira de metal nu. O mesmo Citroen preto continuava dois carros atrás enquanto Peter esperava pelo sinal verde no Champs Elysées. Quando girou a cabeça discretamente para tentar identificar o motorista, os faróis dianteiros do carro acenderam-se, coincidindo com a mudança do sinal, obrigando-o

a arrancar.

A caminho do Étoile, o Citroen ficou a quatro carros de distância no acinzentado nevoeiro de um outono antecipado. Peter flagrouo outra vez quando estava em plena Avenue de Ia Grande Armée, pois a essa altura já procurava não perdê-lo de vista. Entretanto, o veículo sumiu de repente através de uma rua lateral. Peter não foi capaz de esquecê-lo e concentrar-se no prazer de dirigir o Maserati. Um lento presságio avolumava-se em sua mente ao chegar à complicada junção de ruas que levava à rota periférica e à estrada para Versalhes e Chartres. Finalmente ele mudou de faixa e acelerou enquanto perscrutava a pista pelo espelho retrovisor.

Somente quando deixou Versalhes e pegou a estrada de Rambouillet foi que conseguiu ter uma visão clara de cerca de um quilómetro e meio para trás da reta avenida de árvores niveladas. Certificando-se de que não havia nenhum outro veículo na pista, relaxou por completo e avançou para a saída final do acesso que conduzia à La Pierre Bénite.

Peter entrou a cento e cinquenta quilómetros por hora na estrada que se desenrolava à sua frente e começou a dançar ora no freio, ora na embreagem, evitando a tentação de calcar o pé com muita força e perder a adesão ao pavimento úmido e escorregadio. Logo adiante havia um gendarme com uma capa de plástico brilhante, molhada pela chuva, brandindo uma lanterna vermelha; triângulos vermelhos de advertência, brilhantes como rubis, chamavam a atenção para um Peugeot quase caído no barranco, com os faróis dirigidos para o céu. Uma Kombi azul-escuro da polícia bloqueava a metade da pista, e suas luzes iluminavam dois corpos estendidos lado a lado, num típico acidente de estrada.

Com o Maserati sob controle, Peter desacelerou-o pela redução do câmbio e acionou o motor elétrico que baixava o vidro lateral, recebendo uma lufada de vento frio no interior do carro aquecido. O gendarme acenou-lhe com a luz para que encostasse no meio-fio, no pequeno espaço de acostamento entre a cerca viva da estrada e a Kombi estacionada. Naquele instante inesperado, um movimento sutil — o leve arquear das costas que alguém faz antes de levantar-se — fez Peter ficar atento.

Um dos homens deitados erguera o braço, não mais que alguns centímetros, porém o suficiente para que Peter percebesse que ele portava um objeto escondido na altura da coxa; apesar da chuva e do escuro, seu olho treinado reconheceu o volume inconfundível de uma pistola.

De imediato seu cérebro passou a trabalhar com uma rapidez que deixava tudo ao redor parecer um sonho em câmara lenta. O Maserati! Eles estavam atrás de Magda!

Quando o gendarme fez menção de se aproximar com a mão direita embaixo da capa plástica, na altura do cinto da pistola, Peter pisou fundo no acelerador. O Maserati respondeu como um touro atingido no coração; as rodas traseiras mudaram de direção na superfície molhada, e logo a imensa máquina prateada avançava como um foguete na direção do policial. Teria estraçalhado o homem se ele não tivesse sido tão rápido, mergulhando na cerca viva. O sujeito tirou a pistola de dentro da capa, mas estava aturdido demais para usá-la.

A lateral do Maserati tocou a cerca viva provocando um farfalhar da folhagem. Peter ergueu o pé do acelerador. Dominou a arremetida da máquina e girou-a para o outro lado. No momento em que se alinhou, pisou fundo no acelerador. Desta vez queimou os pneus das rodas traseiras, levantando uma nuvem de fumaça azul.

Enquanto isso, o motorista da Kombi da polícia tentou avançar pela estrada, para bloqueá-la, mas não foi suficientemente rápido. Os dois veículos se tocaram, com uma crepitação e estalo de metal que fez Peter ranger os dentes, embora sua maior preocupação fosse com os dois homens que tinham estado estendidos no chão. Um deles apoiava-se num joelho e manuzeava o pequeno suporte da submetralhadora, aparentemente uma tcheca Escorpião ou a VP70 alemã, uma arma de repetição cuja coronha se apoiava no ombro. Só que o sujeito estava perdendo um tempo precioso para colocar a alça no pescoço. Ele bloqueava o campo de fogo do seu companheiro, que se agachava atrás, com outra submetralhadora presa nos quadris, apontando com o dedo indicador e antebraço, pronto para disparar.

”Essa é a forma como deve ser feito”, pensou Peter, reconhecendo a habilidade profissional do inimigo. Assim que o Maserati colidiu com a Kombi, ele soltou o pé direito para pegar maior tração nas rodas traseiras, e rodopiou a direção para a direita. O veículo abanou a traseira e foi para o lado esquerdo, escorregando na direção das duas figuras. Peter abaixou a cabeça até o nível da porta; o deslizamento para a esquerda possibilitava-lhe um mínimo de proteção atrás do motor e da lataria.

Foi então que ouviu o som familiar, como o de uma gigantesca escavadeira, uma arma automática disparando na velocidade de quase dois mil tiros por minuto; as balas rasgaram o lado do Maserati, fazendo um estrondo no metal capaz de adormecer os ouvidos. E explodiam sobre Peter com a cintilação de uma onda de um mar tempestuoso batendo na rocha. Cacos de vidro cravaram-se em suas costas, picaram seus maxilares, o dorso do pescoço, e centelharam como uma tiara de diamantes em seus cabelos.

Mas, fosse como fosse, os disparos com certeza tinham esvaziado o pente de balas naqueles poucos segundos. Assim, Peter ergueu-se no assento, abrindo os olhos contra a luz de lantejoulas de vidro. Diante do vulto ameaçador da cerca viva, girou a direção para desviar o carro, que derrapou além dos limites do seu equilíbrio. Peter avistou de relance os dois homens na estrada, rolando com frenesi para a meia vala. Só que, naquele momento, sua roda traseira bateu na borda, jogando-a com força contra o cinto de segurança, a ponto de quase deixá-lo sem ar nos pulmões. O Maserati dançou como um garanhão cheirando uma égua e sacudindo a cauda, requebrando em pequenas ondulações manhosas para a frente e para trás ao longo da estrada, enquanto Peter entrava em desespero para controlá-lo com o câmbio, freios e direção. Pelo jeito, rodopiara um círculo inteiro, a julgar pelo repentino ofuscamento de fachos de luz, pelas pessoas correndo e rolando, tudo muito turvo e indistinto sob a chuva fina. Logo, a estrada aberta à frente outra vez, e ele acelerou fundo, numa investida ensurdecedora, ao mesmo tempo em que espiava pelo retrovisor.

À luz dos faróis, viu nuvens azuis da fumaça e vapor levantadas por seu carro; no meio de tudo, a figura do segundo atirador, da cintura para cima na vala, com a submetralhadora empunhada em sua direção.

Ao ouvir o primeiro impacto, ele não pôde abaixar-se, pois uma curva em frente aparecia numa estonteante velocidade. O disparo seguinte atingiu o carro como o som de granizo num telhado de zinco. De imediato, um puxão rude, dormente e espasmódico tomou-lhe o tórax.

”Me pegaram”, pensou Peter. Não havia dúvidas. Ele já tinha sido atingido uma vez, quando dirigia uma patrulha numa emboscada há muito tempo. Agora, ele procurava avaliar o choque com calma, percebendo que não perdera o controle das mãos nem qualquer um dos sentidos. Ou fora uma bala ncocheteada, ou então ela tivera sua potência reduzida ao varar a lataria traseira e o banco do carro.

O Maserati entrou bem na curva, mas logo a seguir o motor começou a falhar, enquanto um forte cheiro de gasolina invadia a cabine. Peter soltou um palavrão. E sentiu o morno e desconfortável escorrer do próprio sangue nas costas e lado. Estava ferido logo abaixo do ombro esquerdo... Se a bala tivesse atingido o pulmão, um gosto de sal cúprico lhe subiria pela garganta, acompanhado do escumante borbulhar do ar escapando na cavidade do peito.

O motor parecia cada vez mais nas últimas, implorando combustível. A rajada da submetralhadora deveria ter cortado o tanque de gasolina pelo meio. Peter teve um pensamento irónico: se fosse num filme, o Maserati teria irrompido em pirotécnicas espetaculares, como um Vesúvio em miniatura. A realidade, porém, era que a gasolina da dianteira estraçalhada ainda estaria se espalhando pelas velas e platinado.

Num relance para trás, antes de entrar na curva, ele vira os três homens correndo para a Kombi da polícia; três homens e o motorista, o que era demais! Em pouquíssimo tempo iriam alcançá-lo. A máquina defeituosa deu um bravo salto para a frente, que a avançou mais quinhentos metros, então morreu.

Lá na frente, apareciam os pórticos brancos de La Pierre Bénite. A emboscada fora preparada em um ponto de onde se poderia observar todo o tráfego e pegar apenas o Maserati prateado na rede.

Peter fez um esforço mental para lembrar-se da configuração do terreno após os portões de entrada da propriedade. Estivera ali apenas uma vez, e também estava escuro, mas seu olho de soldado registrara a espessa floresta em ambos os lados da estrada, que declinava até uma ponte sobre um estreito riacho correntoso, com bancos de pedra, uma curva fechada à esquerda e uma subida até a casa, que ficava oitocentos metros adiante — um longo caminho a percorrer com o corpo ferido e no mínimo quatro homens armados atrás, e sem garantia de que estaria a salvo na própria casa.

O Maserati deslizava pelo pequeno declive, em direção aos portões, movendo-se fora de tração. Já se sentia o cheiro de óleo e borracha queimados, e a pintura do capô cobria-se de bolhas e começava a descolorir. Peter desligou a ignição para interromper a bomba de gasolina e evitar a passagem de combustível ao motor superaquecido. Passou a mão pelo casaco e encontrou o ferimento onde esperava. Sentia os músculos latejarem, e seus dedos ficaram pegajosos de sangue, que ele limpou na perna da calça.

Atrás dele, a luz dos faróis refletia no manto de chuva, um halo brilhante que crescia cada vez mais. A qualquer momento seus perseguidores apareceriam na curva. Rápido, Peter abriu o porta-luvas do carro. Sentiu-se mais seguro quando tirou o Cobra 9 mm do coldre e meteu-o na frente do cinto. Não tinha nenhum pente de reserva, um descuido de segurança que agora lamentava, pois ficava com apenas nove balas na culatra — uma a mais já faria uma grande diferença.

Pequenas chamas brilhantes insinuavam-se por debaixo do capô, percorrendo fios e mangueiras, devassando a cavidade de ventilação na superfície superior. Peter afrouxou o cinto de segurança, abriu a porta e tateou com a outra mão pela margem. Naquele trecho a estrada era encrespada e com barrancos altos.

Ele girou a direção no sentido oposto, fazendo com que o carro entrasse no declive e ganhasse o centro da pista, mas antes jogou-se para fora, com todas as suas forças.

Aterrissou como se tivesse dado um salto de pára-quedas, pés e joelhos juntos amortecendo o impacto, e então rolou. A dor irrompia no ombro como se algo estivesse rasgando-se. Ele parou e, agachado, correu ao longo da margem das árvores, iluminadas pela bruxuleante luz laranja do veículo que se incendiava.

Sentindo os dedos da mão esquerda adormecidos, ele armou o Cobra. Nesse exato momento, os faróis na curva brilharam intensamente, dando-lhe a impressão de ter sido pego no meio do palco do Palladium. Abaixou-se, encostando a barriga no terreno empapado pela chuva, e outra vez o ferimento latejou, expulsando um filete morno de sangue sob sua camisa, enquanto ele rastejava ao largo da linha de árvores.

A Kombi rugia ao passar ao lado de Peter, estendido no solo, pressionando o rosto na terra que cheirava a húmus das folhas e a cogumelos. Trezentos metros abaixo, o Maserati estava parado com duas rodas na estrada, e as outras duas na margem, evidentemente abandonado, ardendo sem piedade.

Os homens pararam a Kombi a uma respeitável distância do carro, conscientes do perigo da explosão. Uma única pessoa, o gendarme de capa plástica, correu para a frente, deu uma espiada na cabine e gritou algo. Parecia que falava em francês, mas a distância impediu Peter de confirmar isso.

A Kombi fez o retorno, passando por cima da margem, e começou o caminho de volta lentamente. As duas supostas vítimas do acidente, ainda portando as submetralhadoras, perscrutavam à frente como cães de caça levados pela corrente, um em cada lado da estrada. O gendarme de capa transparente pendurava-se no estribo da Kombi e encorajava os caçadores, que iam de cabeça baixa buscando sinais no fofo acostamento da pista.

Peter, agachado novamente, correu para a frente, rumo à espessa floresta. Na pressa, não percebeu a cerca de arame farpado, que o derrubou pesadamente. Sob o açoite das farpas de aço na roupa, veio-lhe à mente uma cifra: cento e setenta guinéus — seu terno fora confeccionado em Savile Row.

Arrastava-se por baixo do último arame farpado quando ouviu um grito atrás de si. Os homens haviam encontrado o seu rastro. Enquanto ele espreitava ao longo dos poucos metros de uma clareira, outro grito mais forte e triunfante. Certamente o tinham visto com a iluminação da fogueira do Maserati. O picotar da arma automática encheu o ar, mas a distância era grande para cartuchos pequenos e munição de baixa velocidade. Peter ouviu as balas passando com um rumor de asas de morcego acima de sua cabeça. Então alcançou as primeiras árvores e encolheu-se atrás do tronco de uma delas.

Respirava profundamente, embora mantivesse um bom ritmo. O ferimento não o paralisara, e ele se sentia com o raciocínio frio e enraivecido que o combate sempre lhe instigava. Os arames farpados estavam a mais ou menos cinquenta metros, uma das distâncias em que ele obtinha os melhores resultados nas competições internacionais de pistola livre com círculo de 50 mm. Pena que não houvesse juizes ali! Empunhando o Cobra com ambas as mãos, esperou-os correr até a cerca, como ocorrera com ele.

Os arames esticados derrubaram dois deles; seus gritos de raiva definitivamente eram em francês. Enquanto lutavam para ficar de pé, as chamas da fogueira iluminaram suas costas. Peter apontou na altura da barriga de um dos atiradores.

Uma fração de segundo depois, o impacto da bala perfurava carne e ossos com elevada energia, produzindo um som igual ao de uma melancia atingida por um violento golpe de um bastão de beisebol, erguendo o homem sobre os próprios pés e jogando-o para trás. Peter ia mirar o outro alvo, porém estava lidando com profissionais. Ainda que seu disparo tivesse sido uma surpresa, haviam reagido instantaneamente, atirando-se contra o solo negro.

A segunda rajada dos perseguidores cortou galhos, cascas e folhas das árvores. Peter disparou na direção do relâmpago da arma adversária, somente como advertência, depois continuou rastejando, a cabeça abaixada, desaparecendo a toda velocidade no meio das árvores. Os homens seriam contidos durante dois ou três minutos pelo arame farpado e pela ameaça de receberem fogo outra vez, e Peter queria aumentar a distância entre eles nesse meio tempo.

O clarão do Maserati incendiando servia-lhe de orientação para ir em direção ao rio; entretanto, mal avançara alguns passos sobre o terreno, começou a tremer incontrolavelmente. As duas peças do seu terno estavam encharcadas tanto pela persistente garoa, como pela ducha de cada arbusto em que se encostava. Os sapatos, que haviam pisado em lodo, estavam totalmente empapados. O frio, aumentado pelas roupas molhadas, multiplicava a dor do ferimento... Mas, apesar da náusea que lhe contraía o estômago, seguia sempre em frente, parando a cada cinquenta metros para ouvir seus perseguidores. Uma vez, ao escutar o barulho de um carro vindo da estrada, provavelmente tráfego de passagem, imaginou o que pensariam do veículo ”policial” abandonado e do Maserati ardendo. Mesmo que a polícia fosse contatada, tudo estaria acabado antes que uma patrulha chegasse para ver o que se passava.

Começando a ficar confuso pela ausência total de qualquer sinal de perseguição, Peter esquadrinhou as proximidades até localizar um bom esconderijo, um carvalho caído que lhe possibilitava uma eventual margem de retirada e boa cobertura: estando atrás do tronco, qualquer perseguidor ficaria perfilado contra o céu brilhante do Maserati em chamas. Os perseguidores agora eram três, e havia sete balas no Cobra. Não fosse pelo frio e pela dor incrível no tórax, ele se sentiria mais confiante, sem o terror do animal caçado presente em cada célula do seu ser.

Esperou cinco minutos, deitado, em completo silêncio, os sentidos afinados ao máximo, o Cobra sustentado por ambas as mãos, pronto para rolar à esquerda ou à direita e disparar como fosse necessário. Não se ouvia nenhum outro som além dos da chuva sobre as árvores empapadas.

Outros dez minutos se passaram até que lhe ocorresse que seus perseguidores poderiam ter-se dado conta de que a caça errada aparecera em sua armadilha. Se estavam esperando Magda Altmann, e haviam pego um homem, e armado, era bem provável que já tivessem dado o fora, compreendendo o equívoco. Afinal, em vez de uma dama no valor de vinte ou trinta milhões de dólares em resgate, tinham atacado um dos seus empregados, provavelmente um guarda-costas, que estava usando o Maserati como uma isca, ou talvez apenas como motorista que transportasse o carro para ela. Sim, eles deviam ter dado o fora, recolhido o companheiro morto e desandado. Peter estava seguro de que não deixariam traços de suas identidades. Mas como apreciaria a oportunidade de interrogar um deles!

Esperou mais dez minutos, totalmente quieto e em alerta, controlando os espasmos de frio e de dor, então levantou-se devagarinho e moveu-se em direção ao rio. O Maserati já deveria ter-se queimado por completo, pois o céu estava negro outra vez, e ele precisava confiar em seu próprio senso de orientação para não se perder. E mesmo convencido de que estava sozinho, parava de quando em quando para ouvir e observar.

Finalmente escutou o rio, bem em frente e muito próximo.

Movimentou-se um pouco mais rápido, porém quase caiu do barranco na escuridão. Acocorou-se para descansar por um momento, pois o ombro doía e o frio drenava toda a sua energia.

A perspectiva de caminhar pelo rio era particularmente desagradável. Há dias a chuva caía sem cessar, a água estava correntosa e funda, com certeza fria como gelo, e provavelmente chegando até os ombros, em vez de apenas até a cintura. Além disso, a ponte deveria estar algumas centenas de metros correnteza abaixo...

Para que o frio e a dor não lhe minassem a concentração, Peter procurava fazer um esforço consciente para ficar alerta, renovando-o a cada vez que apoiava um pé transferindo o peso para a frente. Mantinha o Cobra na mão direita, pronto para ser usado, e pestanejava na tentativa de livrar-se da fina garoa e do suor frio da dor e do medo.

Ironicamente foi o olfato que o alertou. O aroma de fumaça de tabaco turco que se impregnava nas pessoas era uma das coisas que ele mais detestava. E esse cheiro estava ali presente, em algum lugar ao seu redor. Estacando no meio de um passo, tentou pôr as ideias em ordem, ajustar-se ao desconhecido. Convencera-se de que estava sozinho, mas se lembrava agora do barulho de carro na pista... Ora, o homem que montara uma armadilha tão elaborada, com acidente de carro e polícia em uniforme, certamente teria levado em conta o transtorno da situação para planear e estudar o terreno entre o ponto da emboscada e as possíveis alternativas de saída para a vítima.

Eles deveriam conhecer melhor do que Peter a distribuição das árvores, o rio e a ponte. E ao se darem conta da primeira baixa, não teriam partido para uma perseguição cega, no escuro... Com toda certeza haveriam de se dirigir para locais estratégicos, o barranco do rio ou a própria ponte.

Porém, o que mais preocupava Peter era a persistência daqueles homens. Eles deveriam saber que ele não era Magda Altmann... Então, o que significava o Citroen que o seguira pelos Champs Elysées, perguntou-se, enquanto completava o passo que paralisara segundos antes. Logo, porém, imobilizou-se, aguçando ao máximo cada músculo, cada nervo. Na quietude daquela noite negra, o murmúrio do rio encobriria qualquer som. Mesmo assim, devia esperar. Um homem sempre acaba movendo-se se o outro espera o suficiente; e ele tinha a paciência de um leopardo sorrateiro, ainda que o frio enregelasse seus ossos e a água de chuva lhe escorresse pelo pescoço e pelo queixo.

Finalmente o homem moveu-se: passos sobre o lodo, o inconfundível roçar da vegetação nas roupas, depois o silêncio. Devia estar muito perto, cerca de três metros, mas não havia uma única cintilação de luz. Peter mudou de apoio cuidadosamente e ficou de frente para a direção do som. O velho truque seria dar um tiro às cegas e usar o clarão do disparo para iluminar o alvo e então atirar pela segunda vez, instantaneamente. No entanto, os inimigos eram três, e a três metros de distância uma submetralhadora cortaria um homem em dois. Peter esperou.

Então, da outra margem do rio, veio o barulho de um carro que se aproximava rapidamente. A seguir, alguém assoviou baixinho, apenas duas notas, na altura da ponte, sem dúvida alguma um sinal pré-combinado. Uma porta de carro fechou-se com estrondo, mais próxima que o som do carro aproximando-se, um motor de arranque zunbiu, um outro motor entrou em funcionamento, faróis iluminaram-se através da chuva, e Peter pestanejou, aturdido, como se toda a cena ao redor tivesse ganhado vida.

Cem metros à frente, a ponte cruzava o rio, cujas águas negras e brilhantes pareciam o carvão de uma nova mina fluindo sob as colunas que a suportavam. A Kombi azul estacionara ali, obviamente à espera de Peter, mas agora se retirava, talvez por causa da aproximação de um veículo potente, vindo de La Pierre Bénite. O motorista dirigia-se para a estrada principal; o falso gendarme escalava a encosta, agitando sua capa enquanto tentava alcançar o veículo; e, no meio da escuridão, perto de Peter, uma voz gritou o alarme:

— Attendez. — O terceiro homem não pretendia ser esquecido pelos companheiros e correu para a frente, abandonando qualquer preocupação. De costas para Peter, abanava a submetralhadora na mão, bem delineado pelos faróis da Kombi, a uma distância de pouco mais de três metros.

Peter apontou o Cobra, mas, no momento em que ia apertar o gatilho, deteve-se de repente. Atirar em alguém pelas costas e àquela distância seria um simples assassinato. Além do mais, precisava saber quem eram aqueles sujeitos, quem os havia enviado e que ordens tinham recebido.

Sentindo-se desertado, o homem deixara de lado o mínimo de cautela e corria como se fosse pegar o ônibus. Então Peter decidiu ir em seu encalço. Saltou para a frente, com o Cobra na mão esquerda, e agarrou-o depois de quatro passos, enlaçando o braço direito em torno do seu pescoço. Pretendia em primeiro lugar desorientá-lo, para a seguir dar-lhe algumas coronhadas nas têmporas. Só que o homem era rápido como um gato e fora advertido por alguma coisa, talvez o chapinhar dos sapatos enlameados. Assim, abaixou-se ligeiramente, de modo que Peter não conseguiu prender-lhe a garganta; segurou-o quase na altura do queixo. Ao mesmo tempo, o movimento que o sujeito fez tirou-lhe um pouco o equilíbrio. Era uma pena não poder usar o braço esquerdo para rodopiar sua vítima... Tendo perdido a vantagem da surpresa, estava sendo difícil mantê-lo na chave de braço. Aquele homem possuía músculos de aço! E para completar, o cano da submetralhadora era curto o suficiente para permitir que ele pressionasse o gatilho assim que completasse a volta, cortando o corpo de Peter em pedaços, como uma serra elétrica.

Peter mudou de tática imediatamente: em vez de impedi-lo de girar, jogou toda a sua força em volteá-lo na mesma direção; giraram juntos como um par de dançarinos, mas no momento em que se separassem o homem teria a vantagem de tiro.

Percebendo que o rio era sua única chance, Peter atirou-se para trás, sem soltá-lo. Rodopiaram barranco abaixo, e mergulharam na água. Por sorte não havia nenhuma pedra sob a superfície, do contrário um dos dois seria esmagado pelo peso do outro.

Com o choque da água gelada, o homem entrou em desespero, soltando todo o ar dos pulmões. Ele perdera a submetralhadora na queda e fazia movimentos desordenados, tentando agarrar os braços e o rosto de Peter, enquanto a correnteza arrastava-os em direção à ponte.

Peter estava com a cabeça acima do nível da água, respirando facilmente, ao contrário do seu adversário, que não conseguia manter-se à tona. No entanto, num gesto extremo, o homem enfiou-lhe os dedos na boca, com o ímpeto de quem pretendia arrancar sua língua. Peter mordeu-os com tanta força que as articulações do queixo doeram. E o sangue do outro homem escorreu por seus lábios.

Ele também perdera sua arma, pois o braço esquerdo, quase adormecido pelo ferimento, tivera de ajudá-lo contra a força descomunal de um inimigo desesperado, apesar dos dedos mutilados; toda vez que ele tentava puxar a mão para fora da boca de Peter, a carne cortava-se e o sangue jorrava sem cessar.

A corrente acabara por levá-los até próximo da ponte. A Kombi dos atacantes desaparecera, mas o Mercedes de Magda Altmann estava estacionado ali. Peter reconheceu seus guarda-costas, que estavam apoiados na proteção da ponte... Só esperava que eles não atirassem para baixo.

Naquele instante, ele e o atacante desconhecido foram lançados contra as vigas de concreto da ponte com tal força que soltaram o abraço fatal que os mantinha unidos. O redemoinho das águas arrastou-os para o barranco. Arfando e suspirando de exaustão, frio e dor, Peter mal conseguia manter-se de pé. O estranho, por sua vez, também cambaleava tentando escalar o barranco. Então os dois guarda-costas de Magda correram ao longo da ponte para alcançá-lo.

Peter percebeu que não seria capaz de agarrar o homem e gritou para o guarda-costas que ia na frente:

— Cari! Detenha-o. Não deixe ele fugir!

O rapaz saltou da amurada, caindo equilibrado como um gato, a pistola sustentada por ambas as mãos. Foi então que Peter se deu conta do que iria acontecer.

— Não! Pegue-o vivo. Não o mate, Cari!

O guarda-costas não ouviu, ou não entendeu. O disparo, acompanhado de um clarão alaranjado, atingiu em cheio a figura que se arrastava no terreno lodoso do barranco.

— Não! — berrou Peter, desesperado. — Meu Deus! — Ele se precipitou para a frente e conseguiu segurar o corpo, que escorregaria para a água. Os guarda-costas aproximaram-se, pegaram o cadáver e o puxaram para cima.

Peter fez três tentativas de subir o barranco, e a cada vez resvalava de volta à água. Até que Cari desceu e agarrou-o pela cintura. Mesmo assim, ele caiu de joelhos, nauseado pela água e sangue que tinha engolido.

— Peter! — Era a voz de Magda, que saíra do Mercedes e corria ao longo da ponte, com botas pretas e calça de esquiar, o rosto pálido de preocupação e os olhos apreensivos.

— Meu Deus, querido. O que aconteceu?

— Esse sujeito, junto com alguns amigos, queria você para um passeio; e bateram na porta errada.

Cari usara a Magnum 375, que deformara por completo o corpo do homem. Magda não aguentou olhá-lo.

— Belo trabalho! — disse Peter ao guarda-costas, com rispidez. — Será que ele agora vai responder a alguma pergunta?

— Você disse para detê-lo — resmungou Cari.

— Imagino o que você faria se eu dissesse para dar uma surra nele.

— Você está ferido — disse Magda, preocupada, e então chamou Cari para ajudá-la enquanto o conduzia até a limusine.

Depois que Peter arrancou os pedaços encharcados de sua roupa, Magda envolveu-o com o tapete angora de viagem e examinoulhe o ferimento sob as luzes da cabine.

A bala deixara uma pequena perfuração azulada e, provavelmente, alojara-se entre as costelas e os rijos músculos do seu peito, formando uma espécie de caroço na carne, inchado e intumescido.

— Obrigado, Deus... — sussurrou Magda, retirando sua manta Jean Patou do pescoço, para amarrar o ferimento. — Vamos direto ao hospital de Versalhes. Dirija rápido, Cari.

A seguir, ela abriu o barzinho revestido de castanheira e serviu meio copo de uísque da garrafa de cristal. A bebida foi uma excelente ideia para tirar o gosto de sangue da boca de Peter — desceu ardendo por sua garganta, mitigando as cãibras do frio e revolvendo-lhe o estômago.

— O que fez você vir até aqui? — perguntou ele, ainda com voz áspera.

— A polícia de Rambouillet soube de uma batida de carros; como o pessoal conhecia o Maserati, o inspetor ligou para La Pierre Bénite imediatamente. Achei que tinha acontecido alguma coisa...

Quando passaram pelos portões da entrada principal, viram os restos do Maserati: apenas ferros enfumaçados no acostamento da estrada. Em volta do carro, como um grupo de escoteiros num acampamento, havia uma dúzia de gendarmes com capas plásticas brancas e quepes. Pareciam não saber o que fazer.

Cari parou o Mercedes enquanto a baronesa falara rapidamente, pela janela, com um sargento, que a tratou com imenso respeito.

— Oui, madame Ia Baronne, daccord. Tout a ia.it vrai...

Ela dispensou-o com um sinal de cabeça; os outros policiais lhe acenaram quando a limusine partiu.

— Eles vão pegar o corpo na ponte...

— Tem outro lá na margem da floresta...

— Você é muito bom, não? — Ela fitou-o com admiração.

— Quem é bom de verdade, não fica ferido — disse ele, sorrindo. O uísque aliviara as dores do ferimento e lhe relaxara os músculos, liberando suas energias.

— Você estava certo em relação ao Maserati; estavam esperando por ele.

— Foi por isso que o incendiei — brincou ele.

— Oh, Peter... Você não imagina como eu me senti. A polícia tinha dito que o motorista ainda estava no carro e fora queimado. Senti como se uma parte de mim tivesse sido destruída. A sensação mais terrível que já experimentei... Eu quase não vinha, não queria ver seu cadáver. Eu ia mandar meus lobos, mas no final precisava saber... Cari viu você no rio quando entramos na curva da ponte. Garantiu que era você, porque eu não acreditava. — Trémula, ela fez uma pausa. Depois serviu-lhe outra dose de uísque.

— Me conte o que aconteceu; quero saber tudo.

Ainda que não soubesse bem por quê, Peter preferiu não mencionar que fora seguido desde saída de Paris. Talvez aquele fato não tivesse a menor relevância. Uma simples coincidência, pois se o motorista do Citroen estivesse implicado com a emboscada, por que não telefonara para os companheiros advertindo que Magda Altmann não estava no Maserati? A menos que o interesse do grupo não fosse a baronesa, mas sim ele, Peter Stride... Só que isso não fazia sentido. Eles não teriam tido tempo de preparar a armadilha...

Peter balançou a cabeça diante daquele alucinante carrossel de pensamentos. É o choque e o uísque, disse a si mesmo. Melhor seria deixar para pensar sobre o assunto mais tarde, quando estivesse calmo. No momento era mais simples acreditar que os homens estavam esperando por Magda e que ele caíra na rede. Foi essa a história que ele contou, começando no momento em que avistara a Kombi da polícia estacionada na estrada. Magda ouviu com atenção, os olhos arregalados, tocando-o a cada instante como que para assegurar-se de que ele estava bem.

Quando Cari estacionou sob o pórtico da entrada de emergência do hospital, um plantonista e duas enfermeiras aproximaram-se com uma maca, pois a polícia avisara-os antes por rádio.

Antes de abrir a porta do carro, Magda inclinou-se e beijou Peter nos lábios.

— É tão bom que você esteja tranquilo! — sussurrou, carinhosa, antes de perguntar: — Foi Califa, novamente, não?

Ele meneou a cabeça, lentamente.

— Não imagino que outra pessoa poderia fazer um trabalho tão profissional.

Magda acompanhou a maca até a sala de emergência, e ficou ao lado da cama dele no quarto fechado enquanto passava o efeito da anestesia local, após a rápida cirurgia.

O médico que o atendera mostrou-lhe a bala retirada e então explicou, orgulhoso:

— Bastou fazer uma pequena incisão no local. — O petardo, que tomara a forma de um cogumelo, certamente perdera sua força ao penetrar na lataria do Maserati. — Você é um homem de sorte — continuou o médico. — Está em ótimas condições, músculos rijos que impediram que a bala penetrasse mais fundo. Daqui a uns dias você estará bem outra vez.

— Prometi cuidar de você, por isso ele está deixando você ir para casa agora — disse Magda, hesitante. — Não é mesmo, doutor?

— Você terá uma das mais belas enfermeiras do mundo — declarou o médico, com uma reverência na direção de Magda.

REALMENTE, O FERIMENTO da bala causou menos desconforto a Peter que os cortes do arame farpado em suas coxas. Entretanto, Magda Altmann comportava-se como se ele estivesse sofrendo de uma doença irreversível e terminal. Tanto que, no dia seguinte, quando precisou ir ao escritório, no Boulevard dês Capucines, telefonou três vezes para certificar-se de que ele estava bem e perguntarlhe sobre o número que calçava e vestia. A fila de automóveis com ela e sua comitiva voltou à La Pierre Bénite antes do anoitecer.

— Você está perdendo horas do seu tempo — disse ele ao vê-la entrar na suíte principal, que dava vista para o terraço gramado e o lago artificial.

— Garanto que você estava sentindo minha falta. — Magda beijou-o antes de começar a reclamar. — Roberto contou-me que você tem perambulado na chuva. O médico recomendou-lhe repouso. Amanhã ficarei aqui para tomar conta de você.

— Isso é uma ameaça? Para ter direito a esse tipo de punição quero ser baleado outra vez por Califa...

Rapidamente ela o silenciou, colocando um dedo sobre seus lábios.

— Peter, chéri, não brinque assim. Veja o que eu trouxe para você. Como a valise de Peter ficara no porta-malas do Maserati, ela

comprou-lhe uma outra de couro de crocodilo preto, da marca Hermes. E a enchera de presentes, na cena começando no alto da Faubourg St. Honoré e percorrendo as lojas até a Place Vendôme.

— Eu tinha esquecido o quanto é divertido comprar presentes para alguém que... — Interrompeu-se, pegando um roupão de seda brocada. — Todos em St. Laurent sabiam no que eu estava pensando quando escolhi esta peça.

Havia de tudo na valise: aparelho de barbear, lenços de seda, cuecas, um blazer azul, calças e sapatos da Gucci e até abotoaduras de ouro maciço, cada jogo com uma pequena safira.

— Para combinar com a cor dos seus olhos — disse ela. — Vou me preparar para o jantar. Falei com Roberto para nos servir aqui, já que não temos nenhum convidado hoje.

Magda trocou o traje cinza-escuro de executiva por um conjunto de seda diáfano e esvoaçante, azul-claro, com o qual apareceu um pouco mais tarde para o jantar.

— Vou abrir o champanhe — disse ela.

Vestindo o roupão de brocado, ainda com o braço esquerdo na tipóia, Peter ficou parado, vendo-a encher as taças.

— Eu estava certa — comentou ela. — O azul lhe cai muito bem. Rindo de sua observação, ele propôs um brinde. E sob o tilintar do cristal das taças, piscaram um para o outro. Logo, porém, Magda assumiu uma expressão séria.

— Falei com meus amigos do serviço secreto. Eles também acham que era uma tentativa de sequestro contra mim, e a meu pedido, você não será chamado a depor antes de se recuperar. Vão mandar alguém amanhã para falar com você. Não encontraram sinal do segundo homem baleado à beira da mata; talvez tenha caminhado ou sido carregado por seus amigos.

— E o outro homem? O morto?

— Era um sujeito conhecido. Tem um passado daqueles! Lutou na Argélia, com os pára-quedistas. Meus amigos ficaram surpresos por você ter escapado. Não contei nada sobre sua história. Achei melhor assim.

— Sim, é melhor — concordou Peter.

— Quando estou ao seu lado, como agora, esqueço que você também é um homem perigoso... Ou será que é por isso mesmo que acho você tão instigante? Você é gentil, sua voz é suave... Mas as vezes percebo alguma coisa diferente no seu riso, e em certos momentos seus olhos ficam duros e cruéis. Então lembro que você já matou muitos homens. Será que é isso que me atrai em você?

— Espero que não.

— Há pessoas que se excitam com sangue e violência; as touradas e o boxe atraem tanto os homens como as mulheres... a maneira como reagem sempre me chama a atenção. Tenho pensado bastante sobre mim mesma e ainda não cheguei a nenhuma conclusão. Só sei que me sinto atraída por homens fortes e poderosos. Aaron era assim. Encontrei poucos depois dele.

— Crueldade não é fibra — retrucou Peter.

— Claro. Um homem forte de verdade possui um traço de gentileza e compaixão. Você é forte, mas faz amor comigo com extrema delicadeza, embora um toque de crueldade esteja sempre presente.

Magda atravessou o cómodo, mobiliado nas cores creme, marrom e ouro, e puxou o cordão bordado do sino preso ao teto de cornija e com painéis pintados a mão de cenas pastoris do tipo que Maria Antonieta teria admirado. A maioria da mobília de La Pierre Bénite fora adquirida no leilão com o qual o Comité Revolucionário dispersara os tesouros acumulados da Casa dos Bourbons. Junto com aqueles tesouros, havia flores; aonde quer que Magda Altmann fosse, existiam flores.

Pouco depois apareceu Roberto, o mordomo italiano, trazendo o jantar num carrinho. O rapaz encheu as taças de vinho cerimoniosamente, segurando a garrafa com luvas brancas impecáveis. Prontificou-se para servir o jantar, porém Magda dispensou-o com um gesto. Ele inclinou a cabeça em reverência e retirou-se em silêncio.

Ao lado de um dos pratos havia um pacote envolto em papel de seda e amarrado com fita vermelha. Peter olhou-o, surpreso, enquanto Magda servia a sopa em delicadas tigelas de Limoges.

— Quando começo a comprar presentes, não paro mais — disse ela. — Além disso, não esqueço que aquela bala poderia ter me atingido. Esse pacote aí é para você. Vai ou não vai abri-lo?

Desconfiado, ele desamarrou o laço do embrulho.

— Você é especialista em África, século XIX, não é verdade? — perguntou ela, ansiosa.

Ele fez que sim com um aceno de cabeça, e abriu finalmente o pacote. Era um livro encadernado em couro castanho, tão bem conservado que somente a dedicatória do autor estava amarrotada.

— Meu Deus, onde você desencantou isso? Em 1971, na Sothebys, quase o comprei. Mas abandonei o leilão quando os lances chegaram a cinco mil libras.

— Você não tem a primeira edição de Cornwallis Harris, certo? Peter confirmou que não, enquanto examinava uma das ilustrações de safáris africanos da brochura.

— Não, não tenho. Mas como é que você sabe?

— Sei tanto sobre você quanto você mesmo. Então, gostou do livro?

— É maravilhoso. Não sei como lhe agradecer... — Sem dúvida alguma, era um presente extravagante, mesmo para alguém tão rica quanto ela. Embaraçado, ele sentiu-se na posição do marido que traz flores para surpreender a esposa e imediatamente é questionado por ela: ”Por que está se sentindo culpado?”

— Você gostou realmente? Sei tão pouco sobre livros...

— Eu precisava desta edição para completar minha obra principal. E este exemplar é talvez o mais bem conservado, exceto o do Museu Britânico.

— Fico tão contente! Estava preocupada... — disse, aproximando-se para receber seu abraço.

Durante o jantar, ela não parou de falar, feliz e animada. Mas, depois que Roberto levou o carrinho, e os dois sentaram-se lado a lado em frente à lareira, seu humor mudou.

— Sabe, Peter, passei o dia inteiro pensando em você, em mim e em Califa. Estou com muito medo. Quando me lembro do que fizeram com Aaron e no que quase aconteceu com você...

Tomaram o café em silêncio, olhando fixamente as labaredas, e então Magda retomou a conversa, agora com outro assunto.

— Tenho uma ilha... aliás, não apenas uma, mas nove ilhas, com uma lagoa de nove quilómetros no centro. A água é tão clara que dá para ver um peixe a cinquenta palmos de profundidade. Há uma pista de pouso no atol principal, a duas horas de voo de Taiti. Ninguém nos descobrirá lá. Poderíamos nadar o dia inteiro, caminhar na areia, fazer amor sob as estrelas. Você seria o rei das ilhas, e eu a rainha. Nunca mais Indústrias Altmann. Encontraríamos pessoas tão boas ou melhores do que nós. Perigo nunca mais. Medo nunca mais. Califa nunca mais. Vamos para lá, Peter. Vamos esquecer tudo isso. Vamos escapar e ser felizes juntos, para sempre.

— É uma bela ideia — resmungou ele, nada entusiasmado.

— Talvez desse certo. Poderíamos tentar concretizá-la.

Peter não se deu ao trabalho de responder. Ficou quieto, fitando-a, até que ela prosseguisse.

— E, você tem razão. Não devemos desistir desse jeito. Vamos continuar, mesmo eu estando temerosa. Tenho medo do que sei e do que não sei a seu respeito. E medo do que você não sabe de mim, e do que nunca poderei falar-lhe. Mas precisamos continuar. Temos de encontrar Califa e destruí-lo. E que Deus nos ajude para não destruirmos tudo que vivemos juntos.

— A melhor maneira para espantar desastres emocionais é falar sobre eles.

— Pois bem, vamos decifrar um quebra-cabeça. Primeiro eu. Qual é a experiência mais terrível que as mulheres conhecem?

— Não sei...

— Dormir sozinha numa noite de inverno.

— Isso é fácil de resolver.

— E seu pobre ombro?

— Se combinarmos nossos talentos, poderemos enfrentar qualquer coisa.

— Ótimo. Como sempre, você está certo.

PETER DIVERTIA-SE com o ar sabichão da vendedora, uma senhora de meia-idade que, com astúcia, mostrou a ele e à garota uma pilha de peças íntimas de rendas diáfanas e de seda.

— Ótimo — disse Melissa-Jane, animada. — São exatamente essas — disse, pegando uma das peças, o que deixou a vendedora envaidecida com sua própria perspicácia.

Peter, que não queria desiludi-la, continuou a fazer o papel de pai bonzinho enquanto espiava o espelho atrás da cabeça dela.

O homem continuava a observá-los — era uma figura indescritível, vestindo um sobretudo cinza, olhando através da vitrine de sutiãs, do outro lado do hall, com o interesse ávido de um entendido em guarda-roupa.

— Desconfio que sua mãe não aprovará, querida — disse Peter, provocando espanto na vendedora.

— Oh, por favor, papai. Vou fazer catorze anos no mês que vem. Estavam seguindo-o desde que ele chegara ao aeroporto de Heath-

row, na tarde anterior, e Peter não sabia quem eram. Que azar não ter substituído o Cobra que perdera no rio!

— É melhor ser mais cautelosa — disse Peter à filha.

— Calcinhas largas, não! — exclamou a garota. — Isso está fora de moda.

— Tudo bem. Mas com rendas, só aos dezesseis anos. Unhas pintadas por enquanto já é o suficiente.

— Papai, não seja tão medieval!

Ele consultou o espelho novamente: estavam trocando guarda do outro lado do hall. O homem do sobretudo surrado e manta de lã quadriculada logo desapareceu em um dos elevadores. Por sorte, Peter percebeu sua substituição. O outro vestia uma jaqueta esporte de tweed, uma calça escocesa xadrez e tinha um sorriso conhecido.

— Seu rato de quartel, isso é uma surpresa! — O homem aproximou-se por trás e bateu-lhe forte nas costas, o que obrigou Peter a encolher-se.

Pelo menos agora sabia quem eles eram.

— Colin! — Ele o abraçou com firmeza. — Realmente é uma surpresa. Estou sob a mira de seus gorilas desde ontem.

— De todos eles! — O coronel Colin Noble virou-se para pegar Melissa-Jane. — Você está linda. — E beijou-a com evidente carinho.

— Tio Colin, você caiu do céu. — A garota aproveitou a deixa e mostrou-lhe a calcinha transparente. — O que acha disso?

— É sua, meu bem. Você acabou de ganhá-la.

— Vai dizer para o papai, não vai?

COLIN OLHOU EM VOLTA da suíte do Dorchester e resmungou.

— Isso sim que é vida. Não se consegue coisa tão boa sendo um homem do Exército!

— Papai está virando burguês, exatamente como tio Steven — comentou Melissa-Jane.

— Observei que você, Vanessa e outras colegas suas usam calcinhas de renda — revidou Peter, fazendo o jogo da filha.

— É diferente — disse ela, abraçando o pacote verde da Harrods, numa atitude defensiva. — A gente pode ter consciência social sem se vestir como uma camponesa.

— É uma saída, essa. — Peter jogou sua capa sobre o sofá e caminhou em direção ao bar. — Aceita um uísque, Colin?

— Com gelo, por favor.

— Tem sherry doce? — perguntou Melissa-Jane.

— Tem Coca-Cola. E você pode ir beber no seu quarto, mocinha.

— Ah, papai, faz anos que não vejo tio Colin.

— Fora! — disse Peter. E assim que ela saiu, completou. — Sherry doce! Era só o que faltava.

— Quando estão crescendo, ficam petulantes. — Colin pegou o copo de uísque e sacudiu ruidosamente os cubos de gelo. — Não vai me congratular?

— Com prazer. — Peter tomou seu copo e foi até a janela, que dava para os bancos vazios e o céu cinzento do Hyde Park. — O que você faria?

— Ora Peter! O Thor deu-me seu emprego quando você caiu fora.

— Primeiro me demitiram.

— Quando você deu o fora — repetiu o coronel, antes de tomar um gole de sua bebida. — Há muitas coisas que não entendemos: ”Sem saber a razão e o porquê, vivemos para morrer”. Shakespeare. Colin brincava de bufão, mas seus olhos pequenos eram calculistas e tinham o brilho do mel, como os de um ursinho numa manhã de Natal.

— Essa suíte é formidável. Realmente formidável. Você estava desgastado no Thor, todo mundo sabia disso. Você devia estar mais desmoralizado do que todos os chefes juntos.

— Aposto cinco contra sete como você tem uma cópia do meu contrato de trabalho na Narmco.

( — Narmco! — Colin assoviou. — É para eles que você está trabalhando? Não brinque, Peter. Isso é fantástico!

Peter foi obrigado a rir, como uma forma de capitulação. Atravessou a sala e sentou-se na frente do amigo.

— Quem mandou você, Colin?

— Essa é uma pergunta infame.

— É somente a primeira de uma série.

— Por que alguém deveria enviar-me aqui? Não posso por acaso farrear e bater papo com um velho amigo?

— Ele mandou você aqui porque sabe que eu bateria na cara de qualquer outro.

— Bem, todo mundo sabe que nos consideramos irmãos.

— Qual é a mensagem, Colin?

— Congratulações, Peter; vim para dizer-lhe que acabou de ganhar uma passagem de volta para a Big Apple. — Colocou a mão no peito e começou a cantar como um barítono: — Nova York, Nova York, é uma cidade maravilhosa.

Peter olhava firme e impassível para Colin, e pensava com rapidez. Realmente, seria melhor partir. Pressentia que algo estava por emergir das águas turvas, as peças começavam a encaixar-se. Esperava por isso desde que resolvera abrir a boca.

— Quando?

— Há um jato da Força Aérea em Croydon, agora.

— E Melissa-Jane?

— Tem um motorista lá embaixo que a levará para casa.

Ela vai odiar você!

É a história da minha vida... Somente os cães me amam.

JOGARAM CARTAS e beberam o café expresso da Força Aérea, durante toda a viagem sobre o Atlântico. Colin Noble foi quem mais falou, sempre com um charuto na boca — sobre assuntos profissionais, sobre os negócios do Thor, treinamento e detalhes do pessoal, pequenas anedotas sobre pessoas e coisas que os dois conheciam muito bem — sem fazer nenhuma menção ao trabalho de Peter na Narmco. Enfatizou, porém, que ele poderia voltar a Londres para as reuniões que começariam na segunda-feira seguinte: uma insinuação deliberada e nada sutil de que o Atlas conhecia todas as suas novas atividades.

Aterrissaram no aeroporto Kennedy, pouco depois da meia-noite, e lá estava um motorista fardado para levá-los ao Howard Johnson, para um repouso de seis horas, daqueles de que se necessita depois de uma longa viagem.

Peter ainda estava sonolento e meio zonzo pela manhã, e olhou sem acreditar para Colin, que devorava um típico café da manhã americano: waffles com geléia, salsicha vienense, bacon e ovos, bolo, pãezinhos doces, suco de frutas e café. Depois, Colin acendeu seu primeiro charuto do dia e anunciou:

— Maldição, agora sei que estou em casa. Só agora me dou conta de que emagreci por subnutrição nesses dois anos.

O mesmo motorista fardado esperava-os na porta de entrada do hotel. O Cadillac era uma demonstração do status que possuíam na hierarquia militar. Peter, indiferente ao ar-condicionado e aos estofados luxuosos do veículo, contemplava os guetos apinhados do Harlem. A via elevada ao longo do East River lembrava um campo de batalha deserto, onde os poucos sobreviventes moviam-se furtivamente nas entradas escuras das casas ou fugiam precipitadamente nas calçadas sujas e esburacadas. Naquela manhã nublada, somente os grafites que adornavam as paredes sem reboco tinham paixão e vitalidade.

O motorista alcançou a junção da Quinta Avenida com a rua

111, desceu ladeando o Central Park, passou pelo Museu Metropolitano na hora do tráfego pesado, e avançou para o buraco que se abria embaixo de uma estrutura monolítica que parecia tocar o céu cinzento e frio.

Na entrada da garagem estava escrito ”Somente para Residentes”, mas o porteiro acionou o portão eletrônico e deixou-os entrar. Colin e Peter entraram nos elevadores e subiram sentindo um calafrio na barriga enquanto as luzes acima da porta indicavam que estavam indo ao último andar.

Desceram numa sala de recepção bem decorada, protegida por cortinas. Um guarda armado e uniformizado examinou-os, crivou-os de perguntas, checou o passe do Atlas de Colin com seu registro e então mandou-os entrar.

O apartamento ocupava todo o último andar; do outro lado das portas corrediças havia jardins suspensos e uma vista amedrontadora do desfiladeiro de estruturas altas ao longo da ilha, o edifício da Pan Am e os edifícios gémeos do World Trade Center.

A decoração era oriental, com interiores frios, desolados, mostrando peças artísticas que Peter sabia desde sua visita anterior que eram de valor incalculável; antigas pinturas japonesas sobre painéis de seda, gravuras em jade e marfim, um conjunto de pequenos distintivos. Quando passaram pelo átrio, viram miniaturas de árvores Bonsai, em tigelas rasas de cerâmica, que pelas contorções solidificadas do tronco e galhos denotavam antiguidade. Estranhamente, o local retumbava com os compassos gloriosos da Eroica, tocados pela Orquestra Filarmónica de Berlim, dirigida por Van Karajan.

Atrás do átrio havia uma porta de carvalho lisa que, quando Colin Noble apertou a campainha, abriu-se de imediato, dando para uma sala acarpetada, com teto acústico, prateleiras abarrotadas de livros, uma escrivaninha, um enorme piano para concertos e, na parede oposta, um sofisticado aparelho de som, com caixas acústicas que estariam melhor situadas num estúdio profissional.

Kingston Parker permaneceu ao lado do piano — uma figura heróica — alto, forte, cabelos desgrenhados, cabeça inclinada para a frente, os olhos fechados e uma expressão de êxtase quase religioso no rosto. A música afetava-o do mesmo jeito que as tempestades balançam os gigantes nas florestas.

Peter e Colin não se moveram da porta, sentindo-se intrusos naquele momento tão íntimo e particular. Porém, não mais que alguns segundos depois, o velho percebeu a presença deles. Sacudiu a cabeça, como se quisesse liberar-se do enlevo da música, e desligou o toca-disco.

— General Stride... Ou será que ainda posso chamá-lo de Peter?

— Senhor Stride é melhor.

Parker fez um pequeno gesto de lamento e, sem oferecer a mão, indicou um confortável sofá de couro do outro lado da sala.

— Bem, pelo menos você veio.

— Minha curiosidade é insaciável — disse Peter enquanto se sentava.

— Eu contava com isso. — Kingston Parker sorriu. — Vocês já tomaram café?

— Fizemos um lanche — informou Colin Noble.

— Um cafezinho, então. — E fez o pedido pelo interfone, antes de voltar-se para eles. — Por onde começamos? — perguntou, alisando os cabelos com as mãos.

— Do começo — sugeriu Peter. — Como o Rei de Copas falou para Alice.

— Certo, certo... No começo fui contra seu envolvimento com o Atlas.

— Eu sei.

— Não esperava que você fosse aceitar o comando do Thor, o que seria um retrocesso em sua carreira. Você me surpreendeu, e não foi a primeira vez.

Um mordomo chinês vestindo um paletó branco com botões de metal entrou trazendo uma bandeja. Ficaram em silêncio enquanto o café era servido. Quando o empregado saiu, Parker continuou:

— Naquele tempo, embora eu reconhecesse sua carreira brilhante e sua trajetória de muitas realizações, eu o via como um militar de mentalidade retrógrada. Do tipo do coronel Blimp, mais adequado às trincheiras do que às exigências da Guerra Fria, que é a guerra que lutamos agora e que seremos obrigados a enfrentar no futuro.

Kingston Parker sentou-se no banquinho do piano, acariciou inconscientemente o teclado de marfim, depois retomou seu pequeno discurso:

— Veja bem, general Stride: com base na proposta original, o Atlas tinha um papel bastante limitado. Eu não acreditava que ele pudesse cumprir com os seus objetivos se fosse apenas um grupo de contra-ataque; se tivesse de esperar por atos de hostilidade para depois reagir; se fosse obrigado a confiar inteiramente em outras organizações, com todas as suas rivalidades e disputas intermináveis. Por isso eu precisava não apenas de funcionários brilhantes, mas que também fossem capazes de ideias originais e independentes. Não imaginei que você possuísse essas qualidades, embora tivesse analisado seu currículo cuidadosamente. Não tinha condições de confiar cem por cento em você.

Parker dedilhou uma melodia ao piano, que por um momento pareceu absorvê-lo por completo. Em seguida, ele prosseguiu:

— Se eu tivesse confiado, a conduta da sua operação de resgate do voo 070 poderia ter sido diferente. Fui radicalmente forçado a revisar meu conceito sobre você, general Stride. E confesso que foi uma atitude muito difícil para mim. Por demonstrar aquelas qualidades que pensei que não possuísse, você liquidou com meu julgamento. Admito que contrariedades de ordem pessoal tenham afetado minha capacidade de discernimento. Mas justamente quando começava a mudar de opinião a seu respeito, você pediu sua demissão.

— Eu sei que minha demissão lhe foi comunicada com antecedência, doutor Parker, e que você recomendou que fosse aceita — retrucou Peter friamente, controlando a raiva.

— Sim, você tem razão. Endossei sua demissão.

— Então estamos perdendo tempo aqui e agora. — Peter cerrou os lábios; seu rosto estava pálido como a porcelana.

— Por favor, general Stride, deixe-me explicar primeiro. Peter fazia menção de levantar-se, mas mudou de ideia, afundando novamente no sofá.

— Preciso voltar um pouco atrás para que minhas palavras tenham sentido. — Parker levantou-se e atravessou a sala em direção à escrivaninha. Ali, escolheu de sua coleção um cachimbo da cor do âmbar. Assoprou-o e então voltou sobre o carpete espesso, parando na frente de Peter.

— Alguns meses antes do sequestro do 070, seis meses para ser preciso, comecei a receber informações de que estávamos entrando em uma fase nova do terrorismo internacional. No começo houve apenas insinuações, que foram confirmadas e seguidas de fortes evidências. — Parker encheu o cachimbo de tabaco, sem parar de falar. — Parecia estar ocorrendo uma consolidação das forças do inimigo, sob um controle centralizado, do qual quase nada sabíamos. Sim, é difícil acreditar, mas vou mostrar-lhe os arquivos. Há evidências de reuniões entre líderes militantes e figuras desconhecidas, talvez representantes de algum governo do Leste. Não temos certeza ainda... O fato é que, depois, ocorreu uma mudança completa na conduta e nos pretextos da atividade militante. Não preciso nem explicar-lhe os detalhes. Primeiro, tinham acumulado imensas reservas financeiras através de sequestros altamente organizados de figuras proeminentes, começando com os ministros da OPEP, depois industriais e banqueiros. Parecia que tudo continuava igual, sempre com ganhos políticos limitados. Então aconteceu o sequestro do 070. Como eu não confiava em você, não tive outra alternativa senão controlar suas ações através de um comando forte. Eu não poderia explicar-lhe que suspeitávamos de que fosse uma operação da nova liderança e que deveríamos deixar que se mostrasse tanto quanto possível. Foi uma decisão terrível, pois jogamos com vidas humanas para obter uma informação vital. Então, você comportou-se como jamais imaginei. — Parker tirou o cachimbo da boca e sorriu. — Minha primeira reação foi de ódio e frustração. Eu queria sua cabeça a todo custo. Depois comecei a pensar... Você acabara de demonstrar que era o homem que eu precisava, o soldado capaz de ideias e ações pouco convencionais... Se você fosse desacreditado e abandonado, haveria uma chance de que essa nova direção da militância identificasse em você as mesmas qualidades que fui forçado a reconhecer. Se eu permitisse a ruína de sua carreira, que você se tornasse um pária, um sujeito amargurado, mas com habilidades e imensos conhecimentos, um homem que provara ser capaz de crueldade quando necessário... Desculpe, general Stride, mas sou obrigado a reconhecer que você poderia ser muito atraente para... não tenho nome para eles, poderemos chamá-los apenas de ”inimigos”. Sem dúvida alguma você seria de grande utilidade para o inimigo. Endossei sua demissão, é verdade, e sem o seu conhecimento você transformou-se num agente do Atlas em liberdade. Pareceu-me perfeito. Não precisava representar nenhum papel, e você próprio acreditava nisso. Você era o pária, o errado, o homem desacreditado e maduro para a subversão.

— Não acredito nisso — replicou Peter insipidamente. Parker voltou para a mesa de trabalho, tirou um envelope de um vaso de cerâmica e entregou-o a ele.

Peter levou alguns segundos até perceber que era um extrato bancário do Banco Suíço em Genebra; a conta estava em seu nome, com muitos depósitos feitos. Nenhuma retirada ou débitos. Cada depósito era exatamente a mesma quantia líquida que recebia um general no Exército britânico. Parker riu.

— Você continua recebendo seu salário do Atlas. Ainda é um dos nossos, Peter. Portanto, só me resta dizer que lamento tê-lo submetido a um pretexto. Mas parece que valeu a pena.

Peter olhou-o com desconfiança, mas sem hostilidade.

— O que você está querendo dizer, doutor Parker?

— Apenas que você está de volta ao jogo.

— Sou diretor de vendas da Northern Armaments Company...

— Sim, claro, e a Narmco faz parte do império industrial Altmann. O barão Altmann e sua adorável mulher são, ou melhor, eram um casal extraordinariamente interessante. A propósito, você sabia que o barão era agente do alto escalão da Mossad na Europa?

— Impossível! — exclamou Peter, irritado. — Ele era católico, e o serviço secreto israelense não costuma recrutar católicos.

— Bem, o avô dele converteu-se ao catolicismo e trocou o nome da casa da família para La Pierre Bénite. Foi uma decisão comercial, pois não havia vantagem em ser judeu no século dezenove na França. Porém, o jovem Altmann seguia a orientação da avó e de sua própria mãe. Era sionista desde a mais tenra idade e, até seu assassinato, usou sua fortuna e influência nesta causa. Fazia-o com tanta astúcia e sutileza que pouquíssimas pessoas sabiam de suas simpatias pelo judaísmo e o sionismo. Jamais cometeu o erro de declarar-se publicamente, porque poderia ser mais útil se fosse visto como um católico praticante.

Se aquilo era verdade, pensou Peter, então tudo mudaria de forma: desde o sentido da morte do barão até o papel de Magda Altmann em sua vida.

— A baronesa sabia disso?

— Ah, a baronesa! — Kingston Parker tirou o cachimbo da boca e sorriu com relutante admiração. — É uma dama notável! Talentosa, de grande beleza. Sabemos que nasceu em Varsóvia. O pai era professor de medicina na universidade e escapou para o Ocidente com a filha ainda pequena. Morreu poucos anos depois, num acidente de trânsito em Paris, atropelado por um motorista que fugiu em seguida. Foi uma morte meio misteriosa. A criança parece que passou de uma família a outra, vivendo com parentes distantes e amigos do pai. Demonstrava inclinação para a vida académica, sensibilidade musical e, aos treze anos, jogava bastante bem o xadrez; então, por um longo período, não se sabe o que aconteceu com ela. Desapareceu por completo. A única pista é dada por uma de suas mães adotivas, uma senhora muito idosa, com péssima memória. A velha dizia que a garota tinha ido passar um tempo em casa... — Parker abriu os braços, perguntando: — Que casa? Varsóvia? Israel? Algum lugar no Oriente?

Você pesquisou a vida dela em detalhes — comentou Peter, pouco à vontade com o que acabara de escutar.

— Claro, devassamos todos os seus contatos desde que você deixou o Comando Atlas. Poderíamos estar sendo negligentes se não o fizéssemos. E a baronesa despertou nosso especial interesse. Ela tem sido fascinante... Você entende o que eu quero dizer...

Peter fez que sim com um gesto de cabeça. Nada perguntou, temendo ser desleal e mesquinho com Magda. Então Parker continuou:

— Ela voltou a Paris aos dezenove anos, como secretária particular altamente competente, falando cinco idiomas, linda, vestida sempre na moda, sendo logo cercada por admiradores de fortuna, poderosos e influentes, o último dos quais seu empregador, o barão Aaron Altmann. — Kingston Parker calou-se de repente, forçando Peter a perguntar algo.

— Ela também é do Mossad?

— Não sabemos. Mas é possível. Ela tem se protegido muito bem. Esperamos que você seja capaz de descobrir isso para nós.

— Entendo.

— Certamente ela sabia que o marido era sionista. Deve ter suspeitado de que isso estivesse relacionado com seu sequestro e assassinato. Mas há seis anos de sua vida sobre os quais nada sabemos, dos treze aos dezenove. Onde ela estaria então?

— Ela é judia? O pai era judeu?

— Achamos que sim, embora ele aparentasse não ter religião, pois não respondeu a essa pergunta no formulário de emprego da Sorbonne. A filha parecia pensar do mesmo jeito. Mas se casou com o barão numa igreja católica, seguida de uma cerimónia civil em Rambouillet.

— Fizemos um longo desvio do terrorismo internacional — observou Peter.

— Eu não penso assim. O barão foi vítima do terrorismo; e você, um dos especialistas mundiais em militância e em guerrilha urbana, assim que se aproximou dela, passou pela tentativa de assassinato ou de sequestro da baronesa.

Peter não se surpreendeu com o fato de Parker saber sobre aquela noite na estrada de La Pierre Bénite; fazia poucos dias que ele tirara o braço da tipóia.

— O que você pensa daquele ”acidente”, Peter? Vi o resumo de seu depoimento à polícia francesa; o que você poderia acrescentar?

A cena do Citroen que o seguira em Paris, e depois o som rasgado da pistola automática dentro da noite passaram rapidamente pela mente de Peter.

— Eles estavam atrás da baronesa — disse ele, com firmeza.

— E você estava dirigindo o carro?

— Sim.

— Estava no lugar e na hora em que a baronesa passava?

— Sim.

— Quem deu essa ideia? Você?

— Eu tinha dito a ela que o carro era muito chamativo.

— Então você sugeriu dirigi-lo até Pierre Bénite...

— Sim. — Peter mentiu sem saber por quê.

— Alguém sabia que a baronesa não estava dirigindo?

— Ninguém. — Exceto os dois guarda-costas e os dois motoristas que nos encontraram na volta da Suíça, pensou Peter.

— Você tem certeza? — insistiu Parker.

— Sim. Ninguém mais sabia. — Exceto Magda... Ele ficou furioso com esse pensamento.

— Bem, devemos então aceitar que estavam à procura da baronesa. Mas para quê? Tentativa de assassinato ou de sequestro? Isso pode ser bastante significativo. No caso de tentativa de assassinato, indicaria a eliminação de um agente rival, isto é, que a baronesa era uma agente da Mossad, recrutada pelo marido. Por outro lado, um sequestro sugere lucro monetário. O que era então, Peter?

— Eles tinham bloqueado a estrada... E o falso policial sinalizoume para parar. — Ou pelo menos diminuir a velocidade, pensou ele, de modo a que me tornasse um alvo fácil para a pistola. — Mas não abriram fogo antes que ficasse claro que eu não iria parar. — Tinham-se preparado para atirar no instante que ele tomara a decisão de jogar o Maserati por cima do bloqueio. A intenção dos pistoleiros fora evidente. — Acho que o objetivo era agarrar a baronesa viva.

— Tudo bem. Por enquanto teremos de aceitar essa versão... Coronel Noble, você quer fazer alguma pergunta?

— Sim, doutor. Peter não nos contou como foi sua aproximação com a Narmco ou com a baronesa. Quem fez o primeiro contato?

— Fui procurado por uma firma inglesa especializada em empregar altos executivos. Vieram indicados pela direção da Narmco. — E os rejeitei secamente, pensou Peter. — Somente, depois, em Abbots Yew...

— Entendo. — Colin franziu a testa, desapontado. — Não houve pedido de uma reunião com a baronesa?

— Não naquela fase.

— Foi-lhe oferecida a diretoria de vendas, sem nenhuma menção a outras responsabilidades, segurança, espionagem industrial...

— Não, não naquela ocasião.

— Mais tarde?

— Sim. Quando encontrei a baronesa, percebi que sua segurança pessoal era inadequada. Fiz mudanças.

— Não discutiram sobre o assassinato de seu marido?

— Sim, discutimos.

- E daí?

— Nada. — Estava difícil para Peter improvisar respostas; mas ele utilizava a antiga regra de falar a verdade sempre que possível.

— A baronesa não forneceu nenhuma pista sobre os assassinos do marido? Você não foi solicitado a usar seus talentos especiais para preparar a vendettal

Peter teve de tomar uma decisão rápida. Parker talvez soubesse das informações que ele passara ao adido militar britânico em Paris, a isca que preparara cuidadosamente para atrair Califa. Claro que Parker sabia: ele era dirigente do Atlas e tinha acesso aos computadores dos serviços secretos.

— Sim, ela pediu-me para dar-lhe qualquer indicação que pudesse apontar os assassinos do marido. Perguntei ao G.2 em Paris se tinha alguma informação. Não pôde ajudar-me.

— Sim, tenho uma nota preenchida pelo G.2 de seu trabalho de rotina — resmungou Parker. — Mas suponho que o que ela pediu era bastante natural. — Voltou à escrivaninha e deu uma olhada num bloco de rascunho onde estavam anotadas algumas informações. — Sabemos sobre oito relacionamentos sexuais que a baronesa teve antes de casar-se, todos com homens politicamente poderosos ou ricos. Seis deles eram casados...

Peter sentiu tanta raiva que ficou surpreso consigo mesmo. Odiava ver Parker falando assim de Magda. E foi com esforço que manteve a expressão neutra, as mãos descansando sobre o colo, embora desejasse socar o rosto daquele homem.

Todos esses casos foram conduzidos com a maior discrição. Durante o casamento não houve relações extra-conjugais. A partir do assassinato do barão, ela teve três amantes, um ministro do governo francês, um executivo americano, diretor da segunda companhia mundial de petróleo. — Parker deixou o bloco em cima da mesa e virou-se para Peter. — Recentemente teve um outro. — E o encarou com um olhar penetrante. — A moça certamente acredita em misturar negócios com prazer. Todos os seus companheiros são homens capazes de oferecer provas concretas de afeição. Creio que essa regra também se aplica à sua última escolha...

Colin Noble pigarreou, mexeu-se em sua cadeira, mas Peter sequer olhou para ele; continuou impassível, encarando Kingston Parker. Magda e ele não tinham feito segredo daquele relacionamento, porém era amargo e desagradável discuti-lo com outras pessoas.

— Acho que você está na posição ideal para colher informações vitais. Você está muito perto do centro dessa influência sem nome e sem forma; você terá chance de fazer algum contato com o inimigo, nem que seja apenas uma outra hostilidade; a questão é saber se você tem alguma razão, emocional ou não, que possa atrapalhá-lo na consecução dessa tarefa. — Kingston Parker alteara a voz, transformando a explanação numa pergunta.

— Nunca permiti que os assuntos particulares interferissem no meu trabalho, doutor Parker — afirmou Peter, baixinho.

— É verdade. E estou certo de que você agora sabe um pouco mais sobre a baronesa Altmann e entenderá o nosso interesse nessa mulher.

— Sim, entendi. Você quer que faça uso da relação privilegiada que tenho com ela para espioná-la. Não é isso?

— Temos certeza de que ela está usando esse mesmo relacionamento para seu próprio proveito... Espero não ter sido grosseiro, Peter. Não quis destruir nenhuma ilusão.

— Na minha idade, doutor, um homem não tem mais ilusões. — Peter levantou-se. — Devo prestar contas direto a você?

— O coronel Noble providenciará todas as comunicações. Fique certo de uma coisa: eu não lhe pediria isso se tivesse escolha.

Peter apertou a mão que ele estendia e pôde sentir a força física naqueles dedos duros de pianista.

— Compreendo, sir. — E prometeu a si mesmo que, se toda aquela maldição fosse mentira, ele logo descobriria.

PETER ALEGOU CANSAÇO para evitar o jogo de cartas, e fingiu dormir durante todo o voo sobre o Atlântico. Com os olhos fechados, tentava colocar os pensamentos em ordem. Não estava seguro de seus sentimentos e lealdade para com Magda Altmann. Confundia-se cada vez que os examinava, e acabava supervalorizando mesquinharias... ”Relacionamentos Sexuais”. Essa expressão ridícula e afetada de Parker fora capaz de enfurecê-lo. Oito ligações amorosas antes do casamento, seis com homens casados, duas outras depois do casamento, todas com homens ricos e poderosos. Peter tentava minimizar essas estatísticas cruas e, com um choque de ressentimento amargo, imaginava aquelas figuras sem face e sem forma abraçando o corpo esguio de Magda, acariciando-lhe os seios pequenos, os cabelos longos e brilhantes... Sentiu-se traído, mas de imediato recriminou-se por essa reação adolescente.

Parker levantara outras questões provocadoras, tais como a conexão com o Mossad, os seis anos em branco na vida de Magda, e ainda relembrara o que tinha acontecido entre eles. Ela seria capaz de enganos habilidosos, ou não eram enganos? Ele estava sofrendo por orgulho ferido ou ela o forçara a uma posição vulnerável? Será que estava apaixonado?

O que sentia por ela? Peter enfrentou afinal essa questão, porém, ao aterrissar, ainda não chegara a nenhuma conclusão, exceto que se sentia feliz com a perspectiva de encontrá-la. Embora a ideia de que teria sido usado e que seria descartado, como ela fizera com os outros, lhe deixasse uma sensação dolorosa no peito. De repente veio-lhe à lembrança a ilha para a qual ela sugerira que escapassem juntos. Então deu-se conta de que ela também era vítima de algum terror. Será que ambos estariam predestinados a se destruírem?

Havia três mensagens separadas de Magda no Dorchester. Todas elas deixando o número de Rambouillet. Peter telefonou assim que entrou na suíte.

— Oh, Peter, fiquei tão preocupada! Onde você estava? — Era difícil acreditar que estivesse fingindo, e mais duro ainda desconfiar de sua sinceridade quando, no dia seguinte, ao meio-dia, ela o encontrou pessoalmente no aeroporto Charles de Gaulle em vez de mandar o chofer.

— Precisei sair do escritório por uma hora — explicou, enquanto lhe rodeava as costas e pressionava o corpo contra o dele. — É mentira, claro. Vim porque não aguentaria esperá-lo mais uma hora. — E, com um risinho de satisfação, completou: — Não estou me comportando bem; imagino o que você vai pensar de mim!

À noite, estiveram em uma festa, jantaram em Lê Doyen e foram ao teatro no Palais de Chaillot. O francês de Peter era insuficiente para entender Moliére, razão por que passou a maior parte do tempo observando-a de soslaio. Somente à meia-noite, quando voltavam a La Pierre Bénite, foi que dirigiu a conversa para o complicado jogo de gato e rato.

— Não pude falar-lhe ao telefone — disse ele na penumbra quente e íntima da limusine. — Tive um contato com o Atlas. O diretor chamou-me a Nova York. Foi onde estive quando você me ligou. Eles também estão no encalço de Califa. Bocejando, ela segurou-lhe a mão.

— Estava esperando que você me contasse, Peter. Sabia que tinha ido para os Estados Unidos e estava com a impressão de que iria mentir para mim. Não sei o que eu faria...

Peter sentiu uma pontada de preocupação. Como ela ficara sabendo de sua viagem a Nova York? Então lembrou-se das ”fontes” de que ela dispunha.

Quando Magda lhe pediu que contasse tudo, ele contou... omitindo apenas as interrogações constrangedoras que Parker insinuara: os anos em branco, o contato do barão com a Mossad e aqueles dez homens sem nome.

— Parece que eles não sabem que Califa usa esse nome — disse Peter. — Mas acreditam que você quer agarrá-lo e que me contratou com esse propósito.

Discutiam baixinho enquanto a pequena caravana de carros seguia até La Pierre Bénite. Mais tarde, quando Magda foi para o apartamento dele, ficaram conversando, tocando-se, com a maior naturalidade. Todas as dúvidas de Peter evaporavam-se quando estava com ela.

— Kingston Parker ainda me considera membro do Atlas. Não neguei nem protestei. Queremos encontrar Califa, e se mantenho status no Atlas será útil, tenho certeza.

— Concordo. O Atlas pode nos ajudar, especialmente agora que eles sabem da existência de Califa.

Fizeram amor pela madrugada, uma relação intensa e tão cheia de prazer que os deixou completamente exaustos. Porém, mantendo sua discrição, Magda saiu do quarto antes do amanhecer. Encontraram-se para o café da manhã no jardim.

Enquanto servia o café, ela indicou-lhe um pequeno pacote ao lado do prato.

— Não somos tão discretos quanto pensamos, chéri. Alguém sabe onde você passa a noite.

Peter pegou o pequeno embrulho, que era pouco maior que um rolo de filme de 35 mm, envolto em papel marrom e lacrado com cera vermelha.

— Aparentemente teve postagem especial ontem à noite — continuou Magda, servindo-se de um croissant.

O endereço estava escrito a máquina numa etiqueta adesiva; os selos eram britânicos; o objeto fora postado no sul de Londres na manhã anterior. Peter foi tomado por um terrível presságio. Havia algo demoníaco naquela encomenda.

— O que aconteceu, Peter? — perguntou ela, alarmada.

— Nada... nada.

— Você ficou pálido de repente. Você está bem?

Peter usou a faca de mesa para cortar a etiqueta e desenrolar o pacote. Era um pequeno vidro transparente, com rolha, contendo um líquido claro, algum tipo de conservante, álcool ou formol, dentro do qual flutuava um objeto branco.

— O que é isso? — perguntou Magda.

Uma sensação de náusea revirou o estômago de Peter à medida que ele girava o vidro e o objeto dentro do líquido mostrava a cor escarlate vívida.

”Sua mãe deixa você pintar as unhas, Melissa-Jane?” Esta frase ecoou em sua memória; junto com ela, veio a imagem de sua filha olhando as mãos, com as unhas pintadas do mesmo escarlate vivo.

”Sim, claro, mas na escola ainda não. Você insiste em esquecer que tenho quase catorze anos, papai.”

O objeto flutuante no vidro era um dedo humano, cortado na primeira junta. O líquido conservante branqueara a carne exposta, e a pele estava franzida e enrrugada como a de um homem afogado. Somente a unha pintada estava inalterada, linda e festiva.

A náusea subia à garganta de Peter, sufocando-o. Por pouco ele continha o impulso de vomitar enquanto olhava fixamente para aquele vidrinho.

O TELEFONE tocou três vezes antes de ser atendido.

— Aqui é Cynthia Barrow. — Peter reconheceu a voz de sua ex esposa, embora estivesse esfarrapada pela tensão e dor. -,

— Cynthia, sou eu, Peter.

— Ah, graças a Deus, Peter. Estou tentando encontrá-lo há dois dias.

— O que aconteceu?

— Melissa-Jane está com você?

— Não. — Ele sentiu como se a terra estremecesse sob seus pés.

— Ela foi embora, Peter. Sumiu já faz dois dias. Estou ficando louca.

— Avisou a polícia?

— Sim, claro. — Cynthia estava à beira da histeria.

— Fique onde está. Estou indo para a Inglaterra neste momento. Deixe-me mensagem no Dorchester. — Desligou rapidamente, sabendo que não poderia ajudá-la se seu desespero aumentasse.

Do outro lado da escrivaninha estilo Luís XIV, Magda estava pálida, tensa, uma pergunta estampada em seus olhos arregalados.

Peter limitou-se a confirmar com um movimento abrupto. Então discou um número e, enquanto esperava, não conseguia desviar os olhos do trofeu macabro dentro do vidrinho sobre a escrivaninha.

— Colin Noble — chamou num tom brusco e áspero ao telefone. — Diga-lhe que é o general Stride e que é urgente.

Colin atendeu no instante seguinte.

— Peter, é você?

— Sequestraram Melissa-Jane.

— Quem? Não entendi.

— Os inimigos. Pegaram-na.

— Meu Deus! Você tem certeza?

— Sim. Mandaram-me o dedo dela num vidrinho. Colin ficou calado por alguns segundos.

— Isso é demais, meu Deus, é realmente uma insanidade — e clamou por fim.

— Vá atrás da polícia. Use toda a sua influência. Eles estão tendo sigilo. Não há publicidade. Quero participar da caça a esses animais. Envolva o Thor, use todos os recursos que estiver a seu alcance. Estou indo. Avisarei você sobre meu voo.

— Ficarei em contato com este número de telefone ininterruptamente. Mandarei um motorista a seu encontro... Peter, sinto muito... Você sabe disso.

— Sim, eu sei.

— Estaremos todos com você, todo o tempo.

Peter deixou cair o receptor do telefone e, do outro lado da escrivaninha, Magda levantou-se decidida.

— Vou com você a Londres! Peter segurou-lhe a mão.

— Não, obrigado. Você não poderá fazer nada.

— Gostaria de estar com você neste momento. Sinto-me culpada.

— Não é verdade.

— Ela é uma criança maravilhosa.

— Você me ajudará mais ficando aqui — disse Peter com firmeza. — Tente obter através de seus recursos qualquer informação.

— Sim, está bem. Onde posso encontrá-lo se obtiver alguma informação?

Ele deu-lhe o número direto de Colin Noble no Thor, anotando-o no bloco de rascunho ao lado do telefone.

— Pode ser lá ou no Dorschester.

— Vou com você pelo menos até Paris.

A notícia já estourara quando Peter chegou ao aeroporto Heathrow. Estava na primeira página do Evening Standard, que ele leu avidamente durante a viagem até Londres.

A vítima foi sequestrada no portão de sua casa à rua Leaden, na quinta-feira, às 11 horas, em Cambridge. Um vizinho avistou-a falando com os ocupantes de uma límusine Triumph. A garota entrou pela porta traseira do carro, que arrancou imediatamente. ”Acho que havia duas pessoas no carro”, disse a sra. Shirley Callon, 32 anos, ao nosso correspondente. ”Melissa-Jane não parecia assustada. Creio que entrou no carro sem maiores problemas. O pai dela é um alto funcionário do Exército e frequentemente manda diferentes carros buscá-la ou levá-la. Por isso não me preocupei.”

O alarme só foi dado vinte e quatro horas mais tarde, pois a mãe da menina também acreditava que ela estivesse com seu ex-marido. Depois de entrar em contato com o ex-marido, o general Stride, foi que a mulher deu parte às autoridades. A polícia de Cambridge encontrou uma limusine de cor castanha no estacionamento da estação ferroviária. O veículo fora roubado em Londres, no dia anterior. Imediatamente, foi dado o alerta nacional sobre o desaparecimento da menina.

O inspetor-chefe, Alan Richards, é o responsável pelas investigações. Qualquer pessoa que tenha informação sobre o caso deve telefonar...

À notícia seguia-se um número de telefone em Londres e uma descrição detalhada de Melissa-Jane e das roupas que ela vestia quando desaparecera.

Peter deixou o jornal no banco ao lado. Olhava fixamente para a frente, a raiva crescendo dentro de si como uma chama — uma sensação muito mais tolerável que o desespero gélido que esperava para engolfá-lo.

O INSPETOR ALAN RICHARDS era um homem magro, que mais parecia um jóquei que um policial. Tinha o rosto prematuramente enrugado, penteava os cabelos de modo a disfarçar a calvície, e seus olhos eram vivos, inteligentes, e seu jeito direto e decisivo.

Ele apertou as mãos ao ser apresentado por Colin Noble.

— Quero deixar claro que o assunto é de competência da polícia, general. No entanto, devido às circunstâncias, estou preparado para trabalhar intimamente com os militares.

Em rápidas palavras informou sobre as providências que tomara até aquele momento. Centralizara as investigações a partir dos dois escritórios que ocupava no terceiro andar da Scotland Yard, com vista para as chaminés das torres da abadia de Westminster e do Parlamento.

Duas jovens policiais respondiam às chamadas telefónicas dos números que tinha sido anunciados na imprensa e na televisão. Haviam recebido mais de quatrocentas chamadas.

— Variam desde informações com pouca probabilidade de sucesso até outras completamente absurdas, mas temos de investigar todas elas. — Pela primeira vez a expressão de Richards suavizou-se. — Será um caminho longo e demorado, general Stride. Por sorte temos algumas direções a seguir.

O escritório era mobiliado com aqueles indescritíveis móveis de repartições públicas, sólidos e sem características. Havia até um velho fogão a gás, de onde o inspetor tirava uma chaleira fervente para servir chá enquanto conversava.

— Três homens estão revirando o carro do sequestro. Sua ex mulher identificou uma bolsa encontrada no interior do veículo. É de sua filha. Estamos checando mais de seiscentas impressões digitais recolhidas. Levará algum tempo até que possamos isolar cada uma, e esperamos identificar alguma estranha... Entretanto, duas delas correspondem a impressões digitais colhidas no quarto de sua filha... Aceita um chá?

Peter fez que sim; Richards serviu-lhe uma xícara e depois continuou:

— A vizinha, a senhora Callon, que viu a cena, está ajudando no retrato falado do motorista, mas não avistou o rosto dele muito bem. Há pouca probabilidade de sucesso. Mesmo assim, vamos mostrar o retrato na televisão, esperando encontrar novas pistas. Lamento não poder fazer mais do que isso neste caso. Talvez os sequestradores tentem entrar em contato com você. Não acreditamos que o façam através de sua ex-esposa, mas colocamos dispositivos de escuta no telefone dela. Por enquanto é tudo, general Stride. Agora é a sua vez. O que poderia nos dizer? Por que alguém raptaria sua filha?

Peter trocou um olhar com Colin Noble, e se manteve em silêncio enquanto pensava no que responder. Richards insistiu:

— Sei que você não é um homem rico, general, mas sua família... seu irmão?

Peter balançou a cabeça em negativa.

— Meu irmão tem seus próprios filhos. Eles seriam um alvo mais lógico.

— Vingança, então? Você teve muita participação na luta contra os terroristas na Irlanda. E comandou a recaptura do voo 070.

— É possível.

— Pelo que sei, você não está mais ligado ao Exército... Peter interrompeu-o, decidido a não permitir que a conversa tomasse aquele rumo.

— Esse trabalho de adivinhação não vai nos levar a nada. Saberemos os motivos assim que os sequestradores fizerem suas exigências.

— Isso é verdade. Eles não teriam lhe mandado... Desculpe, general. É horrível e penoso, mas temos de aceitar o dedo como prova de que sua filha está viva, e que o contato, quando vier, será feito com você. Isso foi um sinal e uma ameaça...

Naquele instante, o telefone da escrivaninha tocou. O inspetor atendeu de imediato. Depois de identificar-se, escutou demoradamente, emitindo de vez em quando palavras de encorajamento para a pessoa do outro lado da linha. Em seguida, colocando o fone no gancho, estendeu na direção de Peter um maço de cigarros amarrotados. Como ele recusasse, o policial acendeu um para si mesmo.

— Era do laboratório. Você sabia que sua filha era doadora de sangue, não sabia?

Peter assentiu com um movimento de cabeça. Aquilo fazia parte das preocupações sociais de Melissa-Jane. Se ela não tivesse sido dissuadida com tato, teria doado litros e litros de sangue.

— Comparamos o tecido do dedo amputado com uma amostra de tecido epitelial da garota, existente no hospital de Cambridge. Infelizmente eram idênticos. O dedo é dela mesmo... Seria inimaginável que os sequestradores tivessem ido tão longe a ponto de encontrar um substituto igual.

No íntimo, Peter acalentara a ideia de que tudo não passara de um blefe — que recebera o dedo de um morto, de um indigente anónimo do pronto-socorro da cidade... E agora que perdera a esperança, sentia-se à beira do desespero.

Houve um silêncio prolongado, até que afinal Colin Noble tomou a palavra.

— Inspetor, você tem conhecimento sobre a natureza do Comando Thor?

— Sim, claro. A imprensa fez um grande estardalhaço por ocasião do sequestro aéreo em Joanesburgo. É uma unidade antiterrorista.

— Somos talvez os especialistas mais bem-treinados do mundo em resgatar reféns com segurança das mãos de militantes...

— Entendo o que está tentando dizer-me, coronel. Mas vamos primeiro encontrar os militantes. E qualquer tentativa de resgate ficará sob controle da polícia.

PASSAVA DAS TRÊS DA MANHÃ quando Peter Stride chegou ao hotel Dorchester, em Park Lane.

— Estamos reservando sua suíte desde ontem ao meio-dia, general.

— Desculpe... — Peter percebeu que estava rouco, com a garganta seca. Sentia-se tenso e exausto. Saíra da sede da polícia convencido de que tudo estava sendo feito e que poderia confiar inteiramente no inspetor Richards e em sua equipe. O homem prometera mantê-lo informado, a qualquer hora do dia ou da noite, assim que fizesse algum progresso no caso.

Peter acabava de assinar o livro de registro, pestanejando com a sensação arenosa em suas pálpebras inchadas, quando o recepcionista anunciou:

— Chegaram estas mensagens para o senhor, general.

— Obrigado. E boa noite.

No elevador, ele passou os olhos pela correspondência. A primeira era uma folha de um bloco de anotações: ”A baronesa Altmann pede que o senhor ligue para Paris ou Rambouillet”. A segunda era outro recado: ”A senhora Cynthia Barrow ligou. Pede que ligue para ela em Cambridge 699-313”.

O terceiro era um envelope lacrado, papel branco de boa qualidade, irreconhecível pelo timbre ou monograma. Seu nome estava impresso em letras maiúsculas, bem regulares, num estilo antigo de gravura em cobre. Não estava selado, portanto só poderia ter sido entregue pessoalmente.

Peter rasgou a aba do envelope com o polegar e retirou uma folha de papel, também de boa qualidade porém comum. Havia pilhas daquelas folhas em qualquer papelaria do Reino Unido.

A mesma escrita regular do texto fez Peter perceber que o remetente usara letras transferíveis, daquelas de decalque, em folhas de plástico, que se vendiam em qualquer papelaria. Um método perfeito para substituir a escrita a máquina ou a mão.

O dedo você já recebeu; da próxima vez receberá uma das mãos, depois a outra, depois um pé, então o outro pé... e finalmente a cabeça. O próximo pacote chegará no dia 20 de abril. Mandarei um por semana.

Para evitar isso você deve entregar uma vida pela outra. No dia em que o dr. Parker morrer, sua filha será devolvida imediatamente, viva e sem sofrer nenhuma outra mutilação. Destrua esta carta e não fale dela para ninguém, do contrário a cabeça será entregue imediatamente.

A carta estava assinada com o nome que vinha sendo a maior ameaça na vida de Peter:

CALIFA

Foi um choque terrível, que pareceu alcançar o mais fundo de sua alma, ver o nome escrito; ver a completa confirmação de todos os demónios de que suspeitava; ver a marca da besta ali, impressa e inequívoca.

O choque tornava-se ainda maior pelo conteúdo da carta. Que atitude cruel, sem compaixão, indigna de qualquer ser humano.

Ainda com a mensagem na mão, percebeu com surpresa que tremia como se estivesse com febre alta. O porteiro que carregava sua valise de crocodilo preta olhava-o fixamente, com curiosidade, obrigando-o a um enorme esforço para controlar as mãos e dobrar a folha branca de papel.

Parado rigidamente, quase em posição de sentido, Peter esperou que a porta do elevador se abrisse, para então caminhar pelo corredor até sua suíte. Deu uma gorjeta ao porteiro, sem reparar, e no momento em que entrou no apartamento, abriu a carta novamente, releu-a uma, duas, três vezes, até que as palavras pareceram misturar-se, perdendo a coerência e o sentido.

Percebeu que, pela primeira vez em sua vida, estava em pânico total, incapaz de qualquer decisão. Respirou profundamente, fechou os olhos e contou devagarinho até cem, como se quisesse esvaziar a cabeça, e então ordenou a si mesmo: Pense!

Muito bem, Califa parecia conhecer todos os seus movimentos; inclusive que ele estava sendo esperado no Dorchester. Quem mais sabia disso? Cynthia, Collin Noble, Magda Altmann e a secretária em Rambouillet que fizera a reserva, a secretária de Colin no Thor, o funcionário do hotel... e qualquer outra pessoa que tivesse feito um estudo superficial dos seus movimentos saberia que ele estava hospedado no Dorchester. Era um beco sem saída.

Pense!

Era 4 de abril. Faltavam dezesseis dias para Califa mandar a mão amputada de Melissa-Jane. O pânico ameaçou dominá-lo novamente e ele se esforçou para livrar-se daquela sensação.

Pense!

Califa estivera controlando seus passos, avaliando sua importância. E o grande valor de Peter estava em poder mover-se pelas altas hierarquias, sem levantar suspeitas; aproximar-se dos dirigentes do Atlas apenas solicitando uma audiência; e, mais do que isso, talvez até ter acesso a algum dirigente de Estado se o desejasse.

Pela primeira vez na vida, Peter sentiu necessidade de bebida alcoólica. Dirigiu-se ao armário e abriu-o. Um rosto estranho encarava-o no espelho do móvel. Estava pálido, desfigurado, com vincos profundos em volta da boca, olheiras causadas pela fadiga, o maxilar azulado pela barba crescida, o azul safira dos olhos com um brilho selvagem e desconcertado. Desviou a vista do espelho. A imagem ali refletida só servia para aumentar seu senso de irrealidade.

Serviu-se de uma dose generosa de uísque e tomou a metade de um só gole. Enquanto a bebida descia como fogo por sua garganta, voltou para estudar a folha branca, que estava amassada porque a apertara com força. Alisou-a com cuidado.

Pense, disse a si mesmo. Era assim que Califa trabalhava. Sem jamais se expor. Escolhia seus agentes com incrível atenção aos detalhes — fanáticos, como a alemã Ingrid, que liderara o sequestro do voo 070; assassinos treinados, como o homem que ele matara no rio em La Pierre Bénite; peritos em altos pontos, como o general Peter Stride. Então estudava-os, avaliava suas potencialidades e finalmente estabelecia-lhes um preço.

Peter nunca levara a sério a regra de que todo homem tinha seu preço. Acreditava estar acima disso. Agora percebia que não estava, e essa descoberta arrasava-o.

Califa encontrara seu preço. Infalivelmente. Melissa-Jane... Veio-lhe à mente a imagem de sua filha, a cavalo, girando na montaria para rir e chamar-lhe a atenção, e o som de sua gargalhada ao vento...

Sem perceber, Peter amassou a folha de papel, fazendo uma bola na mão fechada. Via diante de si o caminho que teria de seguir. E, num lampejo de consciência, compreendeu que já dera os primeiros passos naquela direção: quando matara a loira assassina no aeroporto de Joanesburgo, quando tornara-se juiz e executor.

Califa fora o responsável por seus primeiros passos no caminho da corrupção, e era o mesmo Califa quem o instigava agora a ir mais longe.

Entretanto, Peter sabia que aquilo não terminaria com a morte de Kingston Parker. Uma vez que estivesse comprometido com Califa, seria para sempre, ou até que um deles, Peter Stride ou Califa, fosse destruído.

Peter tomou o resto do uísque que sobrara no copo. Sim, MelissaJane era o seu preço. Califa tinha dado o lance certo. Nenhuma outra pessoa ou coisa seria capaz de fazê-lo mudar de rumo.

Pegando uma caixa de fósforos de dentro do armário de bebidas, Peter seguiu como um sonâmbulo para o banheiro. Desdobrou a folha de papel, queimando-a por cima do vaso. Segurou-a até que as chamas alcançassem seus dedos; então deixou-a cair e puxou a descarga.

Voltou para a sala de estar e serviu-se de outra dose de uísque. Com o copo na mão, deixou-se cair na confortável poltrona que ficava embaixo da janela. Deu-se conta, então, do quanto estava fatigado. Os nervos de suas pernas latejavam e produziam uma sensação absolutamente desagradável.

Pensou em Kingston Parker. Um homem como aquele tinha muito a oferecer à humanidade. A coisa terá de parecer uma tentativa de assassinato dirigida a mim, refletiu. Um atentado que colhe a vítima errada.

Uma bomba... Peter odiava bombas. Via-as como o símbolo da violência sem sentido, que jamais aceitaria. Presenciara o uso de bombas em Londres e na Irlanda, e as execrava. Eram a destruição sem objetivo, sem misericórdia, impensada.

Mas vai ter de ser uma bomba, decidiu. E, com surpresa, notou que seu ódio encontrava um novo alvo. Agora, e pela primeira vez, odiava a si mesmo pelo que iria fazer.

Califa vencera. Contra um adversário daquele não havia chance de saber onde Melissa-Jane estava escondida. Sim, Califa vencera. E Peter Stride permaneceu sentado durante o resto da noite, planejando realizar um ato que dedicara a vida inteira a evitar.

— NÃO ENTENDO por que ainda não fizeram contato para as exigências — resmungou o inspetor Richards, passando a mão pela cabeça, sem notar que assim revelava a careca acentuada. — Hoje é o quinto dia. E eles ainda não se manifestaram.

— Eles sabem como entrar em contato — observou Colin Noble. — A entrevista de Peter informava a esse respeito.

Peter Stride tinha ido à BBC, onde transmitira um apelo para que os sequestradores não voltassem a mutilar sua filha e para que o público fornecesse qualquer informação que pudesse levar ao seu resgate. No mesmo programa fora mostrado o retrato falado do motorista da Triumph castanha, preparado a partir do depoimento de uma das testemunhas.

A resposta fora esmagadora, congestionando a mesa de operações do escritório do inspetor Richards e bagunçando a rede especial que ele montara.

Uma adolescente de catorze anos, que fugira de casa, teve o apartamento arrombado pela polícia quando estava na cama com seu amante de trinta e dois anos. Foi obrigada a retornar aos braços da família, chorando amargamente, mas desaparecera novamente vinte e quatro horas depois.

No norte da Escócia, a polícia invadira uma cabana isolada, alugada por um homem com os mesmos cabelos pretos e lisos grudados à cabeça, e com o bigode de pistoleiro parecido com o do retrato falado. Só que o homem era um negociante que manufaturava tabletes de LSD. E, junto com seus quatro assistentes, um dos quais uma jovem que lembrava Melissa-Jane apenas porque era do sexo feminino e loira, escapara pelas montanhas antes de ser surpreendida pela polícia escocesa.

Peter Stride estava furioso.

— Se fosse Melissa-Jane, eles levariam apenas quinze minutos para liquidá-la... — disse a Richards. — Você tem de permitir que o Thor vá junto na próxima batida.

Através da rede de comunicações do Thor ele falou diretamente com Kingston Parker.

— Vamos usar toda a nossa influência — declarou Parker. E, com profunda emoção, completou: — Peter, estou vivendo junto com você todos os minutos desse drama. Estou consciente de que fui eu que o coloquei nessa situação. Não esperava que o ataque viesse através de sua filha. Espero que conte comigo para o apoio que necessitar.

— Obrigado, senhor. — Por um momento Peter vacilou em sua decisão. Teria apenas dez dias para executar aquele homem.

Endureceu-se, porém, ao pensar no dedo franzido e branco flutuando no vidrinho...

Kingston Parker pôs em ação a influência do órgão que dirigia e, seis horas mais tarde, veio a ordem do comissário de polícia da Downing Street para que a próxima batida ao esconderijo suspeito fosse conduzida pelo Comando Thor.

A Força Aérea Real colocou dois helicópteros à disposição, e o grupo de assalto do Thor foi submetido a treinamento intensivo para penetração e remoção em zona urbana. Peter treinou com eles e com Colin, estabelecendo rapidamente a antiga relação harmoniosa na ação.

Quando não estava praticando e aperfeiçoando a saída e reagrupamento dos helicópteros, Peter usava quase todo o seu tempo para treinar tiro ao alvo de pistola, tentando aliviar a tensão. Mas os dias se passavam rapidamente, cheios de alarmes falsos e pistas que não levavam a nada.

A cada noite que se examinava no espelho do armário de bebidas, Peter via-se mais desfigurado, os olhos azuis ofuscados pela fadiga e pelo terror que lhe corroía as entranhas ao imaginar o que o dia seguinte poderia trazer.

Fazia seis dias que deixara o quarto do hotel antes do café da manhã, atravessara o túnel no Green Park e saíra em Finsburg Park. Numa loja de material para jardim, perto da estação, comprara um saco de oito quilos de fertilizante de nitrato de amónia. Levara-o para o Dorchester em uma maleta fechada Samsonite e guardara-o no armário atrás de sua capa dependurada.

Naquela noite, ao falar com Magda Altmann, ela implorou para ir a Londres.

— Peter, sei que posso ajudá-lo. Mesmo que seja somente para ficar a seu lado e segurar sua mão.

— Não. Não há o que fazer aqui — declarou, num tom rude, incapaz de controlar-se. Estava às vésperas do desespero total. — Soube de alguma coisa?

— Desculpe, Peter. Nada. Absolutamente nada. Meu pessoal está fazendo o possível.

Peter comprou o óleo diesel num posto de gasolina da rua Brewer. Colocou os cinco litros de combustível num bujão de detergente doméstico, com tampa de rosca. O frentista, um adolescente cheio de espinhas e de macacão sujo, mostrou-se completamente desinteressado nessa transação.

Peter trabalhou no banheiro com o óleo diesel e o nitrato. Produziu nove quilos de um poderoso explosivo, que era, não obstante, neutro até ser ativado pela cápsula detonadora montada com uma lâmpada de flash.

O petardo seria o suficiente para destruir a suíte, com tudo o que estivesse ali. Porém, os danos deveriam ficar confinados aos seus três cómodos. Seria simples atrair Kingston Parker até ali, sob o pretexto de que tinha informações urgentes sobre Califa, informações tão secretas que só poderiam ser reveladas pessoalmente.

Naquela noite, o rosto no espelho era o de um homem que sofria de uma doença terminal, devoradora. A primeira garrafa de uísque estava vazia, Peter arrancou o selo de uma nova, pois só assim poderia conciliar o sono.

O VENTO VINHA do mar da Irlanda, cortante como a lâmina de uma ceifadeira, e as nuvens baixas, cor de chumbo, escapavam pelo declive das montanhas Wicklow, com camadas pouco espessas, através das quais um sol fraco brilhava sobre a cobertura verde da vegetação. Traziam chuva.

Um homem caminhava pela rua deserta do vilarejo. Os turistas ainda não tinham começado sua invasão anual, mas as placas de quartos para alugar já lhes davam as boas-vindas na frente das cabanas.

Vestindo um casaco de cor berrante, o homem passou em frente ao bar e levantou a cabeça para ler o cartaz acima do estacionamento vazio. ”Preto é bonito... beba Guinness”, dizia o anúncio. Sem demonstrar reação, ele baixou a cabeça e, com dificuldade, alcançou a ponte que dividia o vilarejo em dois.

Sobre as balaustradas de pedra da ponte, um artista noturno havia pintado slogans políticos em cores reluzentes, usando tinta spray. ”Fora os ingleses” à esquerda e ”Acabe com a tortura”, no outro lado. Desta vez o homem fez uma careta amarga.

Abaixo da ponte, a água cinza-chumbo agitava-se nas pedras do cais e sibilava em direção ao mar.

O homem usava uma capa plástica de ciclistas sobre o casaco e um boné de tweed de aba estreita puxado sobre os olhos. O vento frio fustigava-o, grudando as extremidades da capa contra suas botas impermeáveis, obrigando-o a curvar-se para diminuir o impacto de sua fúria. Enquanto avançava penosamente pelos poucos prédios do vilarejo deserto, sabia que estava sendo observado através das janelas encortinadas.

Aquela pequena localidade na baixada das montanhas Wicklow, a quarenta quilómetros de Dublin, jamais teria sido sua escolha. Ali o isolamento conspirava contra eles; tornava-os conspícuos. Teria preferido o anonimato das grandes cidades, mas nunca fora consultado sobre suas preferências.

Era a terceira vez que saía de casa desde que chegara. E, como das vezes anteriores, para providenciar provisões de emergência; saídas que poderiam ter sido evitadas com um mínimo de previsibilidade, levando-se em conta a precariedade da velha casa onde estavam hospedados. Tudo isso porque tiveram de confiar num alcoólatra. Mas, novamente, ele não tinha sido consultado.

Estava descontente e mal-humorado. Chovera quase todo o tempo, e o aquecimento central a óleo não estava funcionando, o que os obrigava a manter acesas as duas lareiras que queimavam carvão, localizadas nas duas salas grandes que estavam usando. O teto alto e os móveis esparsos dificultavam o aquecimento das salas, fazendo-o passar frio desde que chegara ali. Ocupavam apenas aquelas duas peças da casa, mantendo as outras fechadas e trancadas. E nesse prédio tétrico, que exalava mau cheiro, tinha como única companhia um bêbado lamuriento, num dia chuvoso atrás do outro. Sentia-se preparado para o confronto, para qualquer coisa que quebrasse a monotonia, porém, agora, estava reduzido a garoto de recados e mordomo, papéis para os quais não se adaptava por temperamento e treino.

Cenho franzido, deixou a ponte para trás, rumando em direção ao armazém do vilarejo, cujas bombas de gasolina enfileiradas em frente pareciam sentinelas.

Assim que o viu, o dono da loja comentou em voz alta:

— É ele mesmo. Está vindo lá da Old Manse.

Sua esposa apareceu, enxugando as mãos no avental — uma mulher baixinha, rechonchuda, olhos brilhantes e língua afiada.

— O pessoal da cidade não tem bom senso mesmo. Andar na rua com um tempo desses!

— E com certeza ele não está atrás de feijão cozido ou de uísque.

As especulações sobre os novos ocupantes da Old Manse tinham-se transformado na principal diversão do vilarejo, transmitidos pela moça da central telefónica — duas ligações internacionais; pelo carteiro — nenhuma correspondência para entregar; pelo lixeiro — as latas de lixo continham principalmente latas vazias de feijão cozido Heinz e garrafas de uisque Jamieson.

— Continuo pensando que ele é do Norte — observou a mulher do armazeneiro. — Ele tem o olhar e o sotaque de gente do Ulster.

— Cale a boca. Você vai nos trazer má sorte. Volte para a cozinha. — O homem chegou da chuva, arrancou o boné de tweed da cabeça e bateu-o contra o umbral da porta para escorrer a água. Tinha cabelos pretos, lisos, com uma franja mal cortada sobre o rosto irlandês moreno, e olhos selvagens, como os de um falcão quando deixa esgueirar a carapuça de couro.

— Um bom dia para você, senhor Barry — cumprimentou o lojista calorosamente. — Com certeza, logo vai parar de chover.

O homem que conheciam como Barry resmungou, enquanto tirava a capa impermeável dos ombros, adentrando impetuosamente na pequena e sortida loja, com um gesto rápido e um olhar abrangente. Por baixo do casaco, ele vestia um paletó de tweed surrado, e calça de veludo marrom pespontada, enfiada nas botas.

— Terminou de escrever seu livro? — perguntou o armazeneiro. Barry contara ao leiteiro que estava escrevendo um livro sobre a Irlanda. As montanhas Wicklow eram como fortalezas para a profissão literária: num raio de trinta quilómetros, vivia uma dúzia de escritores famosos ou apenas excêntricos, desfrutando os privilégios fiscais de que gozavam os artistas irlandeses.

— Ainda não — resmungou Barry, passando ao largo das prateleiras próximas ao caixa. Selecionou meia dúzia de coisas e colocouas em cima do balcão desgastado.

— Quando estiver publicado, pedirei ao bibliotecário para reservar-me um exemplar — declarou o comerciante, pensando que aquilo era exatamente o que um escritor gostaria de escutar.

A pele sobre o lábio superior de Barry estava bem mais lisa e pálida que o restante do rosto: ele raspara o bigode pendente um dia antes de chegar ao vilarejo, quando também cortara a franja que quase lhe tapava os olhos.

O armazeneiro pegou uma das compras e então olhou inquisitivamente para Barry. Como aquelas faces morenas permanecessem impassíveis e sem resposta, o lojista abaixou os olhos, resignado, e colocou o pacote junto com os outros dentro de um saco de papel.

— São três libras e vinte pence — disse, marcando o valor na máquina registradora. Esperou que Barry vestisse a capa outra vez e ajustasse o boné na cabeça. — Deus esteja convosco, senhor Barry.

Não obteve resposta. Observou-o partir em direção à ponte, e logo chamou sua mulher novamente.

— É um sujeito grosseiro, não? — perguntou ela.

— Ele tem uma namorada aqui. — O armazeneiro estava radiante com a importância de sua descoberta. — Está enrabichado com alguém.

— Como você sabe?

— Estava atrás de coisas de mulher para comprar, você sabe.

— Não, não sei.

— Claro que sabe. Coisas de mulher...

Ah, entendi. — E ela começou a desatar o avental. — Você tem certeza?

Eu já menti alguma vez para você?

— Bem, vou até o Mollie tomar uma xícara de chá. — Aquela fofoca iria fazer o maior sucesso no vilarejo.

Barry caminhou com dificuldade pela trilha estreita que dava na Old Manse. Eram as botas pesadas e a capa pouco prática que faziam com que tivesse um andar desajeitado — porque ele era ágil, magro, com ótimas condições físicas e, sob a aba do boné, seus olhos nunca estavam parados: olhos de caçador que varriam sem cessar toda a área à sua frente.

O muro de pedra tinha quatro metros de altura, estava coberto de líquen cinza-prata e, embora apresentasse rachaduras em algumas partes, ainda era forte e permitia completa privacidade e segurança para a propriedade que ficava atrás.

No final da trilha, Barry parou diante dos portões duplos, de madeira apodrecida, mas com um cadeado novo e reluzente. As frestas dos portões tinham sido cobertas com ripas de pinho, que impediam que se avistasse o interior da garagem.

Barry abriu o cadeado e puxou a lingueta do trinco para fechá-la novamente ao passar. Havia uma limusine Austin azul-escuro estacionada ali, pronta para a partida. Tinha sido roubada em Ulster, duas semanas antes, repintada, dotada de um porta-bagagem em cima para alterar a aparência, e com placas novas. O motor fora revisado e ajustado por um preço muito mais alto que o usual de mercado.

Barry sentou-se atrás do volante e girou a chave de ignição. O motor pegou imediatamente. Ele grunhiu de satisfação; alguns segundos podiam significar a diferença entre o sucesso e o fracasso — e em sua vida fracasso e morte eram sinónimos. Escutou o ruído do motor por meio minuto, checou o óleo e o combustível antes de desligar o carro e sair pela porta de trás da garagem até o jardim.

A velha casa tinha um triste ar de descuido próximo do desleixo. As árvores frutíferas do pequeno pomar estavam com fungos e rodeadas de mato. O telhado de palha estava podre e esverdeado de musgo, e os vidros das janelas eram como olhos cegos, descuidados e opacos.

Barry entrou pela porta da cozinha, jogou a capa e o boné no chão da copa e colocou o pacote no escorredor de louça sobre a pia. Então pegou a pistola de dentro da gaveta dos talheres — era uma arma privativa de oficiais britânicos, que fora capturada três anos antes durante um ataque ao arsenal do Exército. Depois de checar a pistola com a habilidade de um conhecedor, enfiou-a no cinto. Sentira-se nu e vulnerável por ter passado algum tempo desarmado, mas, relutante, decidira não correr o risco de usá-la no vilarejo.

Ao encher a chaleira dágua, escutou uma voz que vinha do interior da casa.

— É você?

— Quem mais poderia ser — respondeu asperamente.

O outro homem aproximou-se, parando no umbral da porta. Era magro, curvado, aparentando cinquenta anos, rosto inchado e vermelho como todo alcoólatra.

— Você conseguiu? — Ele estava desarrumado, tinha a voz rouca de uísque e um ar decrépito. Algumas mechas de cabelos grisalhos caíam sobre sua pele manchada.

— Isto é tudo, doutor. — E Barry indicou o pacote sobre a pia.

— Não me chame assim, não sou mais médico — disse o homem, irritado.

— Claro que é, e dos bons. Pergunte às garotas que...

— Vá para o inferno!

Na verdade, o homem tinha sido um excelente médico há muito tempo, antes do uísque; agora só lhe restavam abortos, curativos de bala de fugitivos e empregos como aquele. Ele não gostava de pensar nisso. Avançou até a pia e abriu o pacote.

— Cadê o esparadrapo?

— Não tinha. Trouxe as ataduras.

— Não posso... — Antes que o homem prosseguisse, Barry voltou-se com uma expressão de fúria no olhar.

— Estou cheio de suas reclamações! Você devia ter providenciado o material necessário para não ficar me mandando buscar.

Eu não esperava que o ferimento...

— A única coisa que você espera é outra dose de Jamieson! Não havia esparadrapo. Agora continue e amarre a mão daquela rameira com a atadura.

O homem pegou o pacote, deu as costas rapidamente e foi para a outra peça, arrastando os pés.

Barry fez o chá, encheu uma xícara chinesa grossa, pôs quatro colheres de açúcar e mexeu-o ruidosamente enquanto olhava através das vidraças sujas. Estava chovendo novamente. A chuva e a espera acabariam por deixá-lo louco.

O médico voltou para a cozinha, trazendo uma pequena pilha de panos sujos de sangue e amarelados de pus.

— Ela está doente. Precisa de medicamentos, antibióticos. O dedo...

— Esqueça — cortou Barry.

Da outra peça vinha um choramingo longínquo, seguido por sons inocentes de uma garota afundada no delírio induzido pela febre e pelos psicotrópicos.

— Se ela não tiver os cuidados necessários, não serei responsável.

— Você será responsável — afirmou Barry bruscamente.

O médico jogou os panos dentro da pia e abriu a torneira.

— Posso tomar um trago agora? s Barry olhou sadicamente para o relógio.

— Não, ainda não.

— Não acredito que possa cortar a mão — murmurou o médico enquanto derramava sabão em pó dentro da pia. — O dedo já foi horrível, não posso cortar a mão.

— Você vai cortar a mão, sim. Está me escutando, seu velho beberrão? Você vai cortar a mão e fazer tudo o que eu mandar.

Sir Steven Stride ofereceu uma recompensa de cinquenta mil libras a quem desse alguma pista que levasse à libertação de sua sobrinha; a oferta foi amplamente divulgada pelos jornais e televisão, juntamente com o retrato falado do suposto sequestrador. A notícia reavivou o interesse do público no caso. O inspetor Richards, que não necessitara de mais que um funcionário para atender os telefonemas nos últimos dias, teve de requisitar outra pessoa para o terceiro andar, além de dois sargentos para cuidar do farto material que chegava.

— Todos estão apostando no jogo ou lucrando com a propaganda!

exclamou Richards. — Veja esta mensagem. É outra denúncia

de responsabilidade. Partido Democrata do Povo para a Libertação de Hong Kong, já o conhecíamos antes?

— Não, senhor — disse o sargento, após consultar a lista. — Com essa, chegam a cento e quarenta e oito as confissões ou denúncias de responsabilidade.

— E Henrique VIII ligou novamente meia hora atrás — completou uma das garotas da mesa de operação. — Não perde um dia.

Henrique VIII era um pensionista de sessenta e oito anos que vivia em uma casa mantida pelo Estado no sul de Londres. Tinha como hobby confessar crimes espetaculares, desde estupros até assaltos a banco; telefonava todas as manhãs. ”Venha prender-me”, dizia num tom de desafio. ”Mas aviso que não vou me entregar sem luta...”

O velho preparara sua mala e, quando o investigador fez uma ligação de rotina, descobriu que o homem estava pronto para ser preso. Frustrado, só se recompôs quando o policial explicou que não iria prendê-lo, mas apenas mantê-lo sob controle, pois o comissário considerava-o um homem perigoso. Henrique VIII mostrou-se feliz e convidou-o para um chá.

— O problema é que não podemos nos arriscar a desconsiderar nenhuma dessas informações, nem as mais estúpidas. Temos que checar todas — disse Richards, indicando uma cadeira a Peter. — Nada, ainda? — Era uma pergunta desnecessária, pois tinham posto escuta no telefone dele, tanto no hotel como no Thor, para registrar qualquer contato dos sequestradores.

Nada. — Mentir tornara-se fácil para Peter, agora que aprendera a aceitar qualquer coisa que se fizesse necessária para a libertação de Melissa-Jane.

— Isso não me agrada, general. É um absurdo que não tenham feito nenhuma tentativa de contato. Não quero ser pessimista mas cada dia de silêncio confirma a hipótese de um ato de vingança. — Richards acendeu um cigarro. — O comissário-adjunto telefonoume ontem, para saber por quanto tempo ainda deveremos manter esta unidade especial.

— O que você respondeu?

— Disse-lhe que se não tivéssemos algo concreto em dez dias, pelo menos algum contato dos sequestradores, teria de supor que sua filha não estava mais viva.

— Entendo. — Peter sentia uma calma fatal. Ele sabia. Era o único a saber. Faltavam quatro dias para se esgotar o prazo que Califa dera. No dia seguinte pela manhã ele iria solicitar uma reunião urgente com Kingston Parker. Esperaria doze horas até concretizá-la, por isso deveria torná-la atrativa para que Parker não se recusasse.

Parker teria de aparecer. Mas, considerando uma possibilidade remota de que não aparecesse, restavam três dias de prazo para pôr em prática o plano alternativo: ir ao encontro dele. O primeiro plano era o melhor, o mais certo, mas, se falhasse, Peter enfrentaria qualquer risco.

Percebeu que estava olhando para o vazio, e que o inspetor o observava com um misto de pena e preocupação.

— Desculpe-me, general. Sei como se sente, mas não posso manter essa unidade funcionando indefinidamente. Não temos gente suficiente...

— Sim, compreendo. — Peter passou a mão aberta sobre o rosto, num gesto de aborrecimento e derrota.

— General, eu o aconselho a procurar seu médico. Mesmo...

— Não será necessário, estou apenas um pouco cansado.

— Um homem não pode aguentar tanto.

— Esses canalhas pensam que não vou aguentar, mas estou bem. O tilintar incessante dos telefones do escritório ao lado, assim como o murmúrio de vozes das duas policiais que atendiam as ligações, já fazia parte do ruído de fundo. Tanto que, quando a chamada pela qual haviam implorado finalmente chegou, os dois homens não se deram conta, nem houve excitação na mesa de operações.

As duas moças sentavam-se lado a lado em banquinhos giratórios. A loira tinha por volta de vinte e cinco anos, era bonita e vivaz, com seios grandes escondidos sob o casaco azul do uniforme. Usava os cabelos presos num coque para livrar os ouvidos, o que lhe dava uma aparência mais velha e ar de executiva.

Mais uma vez a luz do painel acendeu-se à sua frente. Ela conectou o comutador e falou ao microfone.

— Bom dia, aqui é a Unidade Especial de Informação da polícia... Apesar da voz agradável, ela era incapaz de disfarçar o enfado

quando falava. Fazia doze dias que estava naquela função. Ouviu o barulho de uma ligação de telefone público: o clique da moeda caindo na fenda.

— Você está me escutando? — perguntou uma voz com sotaque estrangeiro.

— Sim, senhor.

— Preste atenção. Gilly O’Shaughnessy está com ela... — Realmente, não era imitação; a voz com sotaque arrastou-se com a pronúncia do nome.

— Gilly O’Shaughnessy — repetiu a policial.

— Isso mesmo. Ele a mantém presa em Laragh.

— Soletre por favor.

Novamente a voz escorregou ao pronunciar o nome.

— E onde é isso, senhor?

— Município de Wicklow, na Irlanda.

— Obrigada, senhor. Qual é o seu nome, por favor? — E ela escutou o clique do desligar do telefone e o zumbido do sinal de discar. Deu de ombros e rabiscou a mensagem no bloco de anotações, olhando simultaneamente para o relógio de pulso. — Sete minutos para a hora do chá. — Arrancou a folha do bloco e passou-a por cima do ombro para o sargento de cabelos crespos que se sentava atrás.

— Vou comprar-lhe um bombom — prometeu o rapaz.

— Estou fazendo regime.

— Nada disso, deixe de brincadeira... — O sargento interrompeu-se.

Gilly O’Shaughnessy... Parece que conheço esse nome, O sargento mais velho virou-se para ele.

— Gilly O’Shaughnessy? Deixe-me ver isso. — Pegou a folha e leu rapidamente a mensagem. — Você conhece esse nome porque viu-o no cartaz de ”Procura-se”, e ouviu na televisão. Gilly O’Shaughnessy é um homem falado. Foi ele quem bombardeou o Red Lion em Leicester, e quem matou o chefe da polícia de Belfast.

O homem de cabelos crespos assoviou baixinho.

— Essa parece quente. Realmente quente... — disse, enquanto seu colega dirigia-se à sala privativa do escritório, sem a formalidade de bater à porta primeiro.

EM SETE MINUTOS, Richards entrou em contato com a polícia de Dublin. Sob o olhar impaciente de Peter, conversou durante dez longos minutos com o comissário-adjunto. Falava baixinho e com ansiedade. Por fim desligou e disse:

— Vão usar a polícia local, para não perder tempo mandando um homem de Dublin. Prometeram não se aproximar se localizarem algum suspeito.

— Laragh... Nunca ouvi falar desse lugar. Deve ter no máximo algumas centenas de moradores.

O inspetor mandou buscar um mapa, que logo os dois estudaram juntos.

— Fica na encosta da montanha Wicklow, a dezesseis quilómetros da costa... — Isso foi tudo que conseguiram extrair do mapa. — Teremos de esperar que a polícia de Dublin volte a ligar...

— Não... — retrucou Peter. — Gostaria que você ligasse para eles novamente, pedindo-lhes que entrem em contato com o inspetor geral. Ele deve ter mapas detalhados da vila, fotografias aéreas e o traçado das ruas. Peça-lhes que mandem isso por um motorista para o aeroporto de Enniskerry...

— Você acha conveniente fazer isso agora? E se for outro alarme falso?

— Desperdiçaremos um galão de combustível e o tempo do motorista.... — Incapaz de manter-se quieto, Peter começou a caminhar impaciente pela sala, que de repente parecia pequena para ele; estava a ponto de sufocar. — Mas não acho que seja. Sinto cheiro, o cheiro da besta.

Richards olhou-o assustado e Peter minimizou o efeito da frase com um gesto de descaso. Então teve uma ideia inquietante.

— Os helicópteros precisam ser reabastecidos, não têm alcance para essa viagem e são lentos! — Parou, decidido, inclinou-se sobre a escrivaninha de Richards, pegou o telefone e discou o número privativo de Cohn Noble no Thor.

— Colin, acabamos de ter um contato. Ainda não está confirmado, mas é o melhor que recebemos até agora.

- Onde?

— Irlanda.

— Isso é onde o diabo perdeu as botas!

— Qual é o tempo de voo para os helicópteros chegarem a Enniskerry?

— Espere um pouco. — Colin falou com alguém, provavelmente um dos pilotos da RAF, depois continuou: — Eles terão de se abastecer na rota...

— Sim, e daí?

— Quatro horas e meia.

— São dez e vinte agora; vocês estarão em Enmskerry por volta das três horas. Com esse tempo anoitecerá antes das cinco. — O medo de Peter era deslocar a equipe do Thor para a Irlanda, atrás de uma pista falsa, e enquanto estivessem lá o contato correto acontecer na Escócia, na Holanda ou...

Mas precisava ir lá averiguar. Essa pista deve ser quente, disse a si mesmo, respirando fundo. Não poderia mandar Colin para a condição Bravo. Peter não era mais o comandante do Thor.

— Colin, desta vez estou desconfiado de que a informação é correta. Você confiará em mim e irá para a condição Bravo? Se esperarmos mais meia hora não pegaremos Melissa-Jane antes do anoitecer... se ela estiver lá.

Seguiu-se um longo silêncio, quebrado apenas pela respiração leve e rápida de Colin.

— Diabo, isso me custará no máximo meu emprego. Sim, Peter, é o Bravo agora; estaremos saindo em cinco minutos. Pegaremos você no heliporto em quinze minutos; esteja pronto.

NO ALTO DO HELIPORTO, o vento cortante parecia penetrar a capa, o blazer e a malha de lã que Peter usava. Parado ao lado do inspetor, perscrutava o horizonte, sobre as águas revoltas do Tamisa, até que afinal enxergou os primeiros reflexos dos helicópteros.

— E se tivermos a confirmação antes de vocês chegarem a Enniskerry?

— Você pode comunicar-se conosco utilizando as frequências da Força Aérea através de Biggin Hill — explicou Peter.

— Espero não ter más notícias para você. — Richards segurava o chapéu na cabeça com a mão, enquanto suas faces estavam com marcas vermelhas devido ao frio.

Os dois enormes helicópteros juntaram-se no heliporto mantendo as hélices girando. A distância de trinta metros, Peter reconheceu a figura de Colin Noble, na entrada da porta aberta da fuselagem, exatamente na frente das brilhantes janelas redondas.

— Boa caçada! — gritou Richards. — Gostaria de estar indo junto. — Peter correu para a frente e pulou antes que o helicóptero tocasse o chão de concreto. Colin agarrou-o pelo braço e ajudou-a a entrar, sem remover o charuto da boca.

— Bem-vindo a bordo, companheiro. Agora vamos botar pra quebrar. — E acariciou o cabo da pistola 45 na cintura.

— ELA NÃO ESTÁ COMENDO — O médico viera do quarto e jogava o resto da comida no lixo embaixo da pia. — Estou preocupado. Muito preocupado.

Gilly O’Shaughnessy resmungou mas não levantou os olhos do seu prato. Tirou a casca de um pedaço de pão e, com cuidado, limpou o resto de ketchup com o miolo e colocou-o na boca, bebendo em seguida um gole de chá fumegante. Enquanto mastigava, inclinou-se para trás na cadeira e fitou o outro homem.

O médico estava à beira de um colapso nervoso. Não demoraria uma semana para entrar em crise. Gilly OShaughnessy já vira homens melhores entrarem em crise por bem menos.

Então se deu conta de que também estava com os nervos abalados. E não era apenas a chuva e a espera que o deixavam nervoso. Durante toda a sua vida fora uma raposa, e desenvolvera o instinto do animal acossado. Pressentia o perigo, a presença dos perseguidores, mesmo que não existissem evidências. E se sentia inquieto por ter de ficar no mesmo lugar mais tempo do que o necessário, especialmente estando em serviço. Estava ali há doze dias e isso era demais. Quanto mais pensava, mais agitado ficava. Por que teriam insistido para que ele trouxesse aquela pirralha a este lugar isolado e, consequentemente, vulnerável, um verdadeiro beco sem saída? Havia uma única estrada de acesso ao vilarejo, uma única via de escape. Por que teriam insistido para que ele esperasse sentado naquele lugar? Ele gostaria de estar se movimentando. Se a decisão tivesse sido sua, teria trazido um trailler rebocado para circular de um lugar a outro...

Gilly acendeu um cigarro, os olhos fixos na vidraça embaciada pela chuva, ignorando as queixas e a apreensão de seu companheiro. Se o planejamento tivesse sido seu, teria cortado todos os dedos da pirralha de uma vez, mandando-os para o pai em intervalos; depois, ou a teria sufocado com um travesseiro e enterrado na horta, ou atirado seu corpo no mar. Assim teriam dispensado a preocupação com o médico, os cuidados...

Todos os outros passos da operação haviam sido executados com habilidade profissional, a começar pelo contato que fizeram com ele em uma favela do Rio de Janeiro, onde se escondia em um frágil barraco de uma peça, com uma morena mestiça, gastando suas últimas cinquenta libras.

Fora um bom começo, sem dúvida. Os homens que o contataram traziam-lhe um passaporte e os papéis de viagem no nome de Barry, que não pareciam forjados. Eram documentos perfeitos... e ele entendia bastante de falsificação.

As etapas seguintes tinham sido muito bem planejadas, e melhor executadas. Recebera mil libras no Rio, outras cinco mil no dia em que agarraram a guria e esperava que as dez mil finais fossem pagas como combinado. Antes isso do que a cadeia, o ”Silver City”, como os ingleses chamavam o campo de concentração em Maze. Pois fora com isso que Califa lhe acenara caso ele não aceitasse o serviço.

Califa agora era um nome tolo, pensou Gilly OShaughnessy pela qúinquagésima vez, enquanto jogava a ponta do cigarro na xícara de chá. Um nome realmente tolo, mas que possuía o dom de fazer tremer — Gilly estava arrepiado e não apenas por causa do frio.

Levantou-se e foi até a janela da cozinha. Tudo tinha sido feito com rapidez, determinação e planejamento, e tão bem pensado, que um lapso significaria mais dores de cabeça. Sempre imaginara que Califa não fazia nada sem uma boa razão; então, por que a ordem de esconder-se naquele vilarejo, com uma única via de acesso, sem a segurança de rotas múltiplas para escapar?

Gilly OShaughnessy agarrou sua capa de ciclista e o boné de tweed.

— Aonde você está indo? — perguntou o médico, ansioso.

— Vou dar uma volta.

— Você passa o tempo todo vagabundeando por aí. Você me deixa nervoso.

O irlandês moreno tirou a pistola de dentro do casaco e verificou a carga antes de recolocá-la no cinto.

— Faça seu papel de ama-seca e deixe o trabalho de homem comigo.

O AUSTIN PRETO deslocava-se vagarosamente rua acima no vilarejo, com a chuva batendo na capota, os vidros embaçados escondendo os ocupantes. Só quando estacionou na frente da única mercearia de Laragh, a curiosidade dos moradores, escondidos atrás das cortinas das janelas, foi satisfeita.

Dois membros da polícia irlandesa desceram do veículo, vestindo o uniforme azul de serviço, com dragonas escuras. A chuva fina salpicava as abas dos bonés enquanto corriam para o armazém.

— Bom dia, Maeve, meu velho amor — o sargento cumprimentou a senhora rechonchuda, de bochechas vermelhas, atrás do balcão.

— Owen O’Neill! Eu não acredito. — Ela deu um risinho de satisfação ao reconhecê-lo. Fazia muito tempo, cerca de trinta anos, que os dois haviam confessado ao padre algo ilícito. — O que o traz de tão longe, da cidade grande?

Seguiu-se uma descrição generosa sobre a cidadezinha litorânea de Wicklow a trinta quilómetros dali.

— Vim ver o seu sorriso adorável.

Conversaram como velhos amigos durante dez minutos, até que chegou o marido, do depósito, ao escutar o ruído das xícaras de chá.

— Então, o que há de novo em Laragh? — perguntou finalmente o sargento. — Alguma cara nova no vilarejo?

— Não, continua tudo na mesma. Nada muda em Laragh, que Deus o abençoe. — O armazeneiro balançou a cabeça. — A única cara nova é de um lá da Old Manse. Ele está com uma amiga... É um sujeito estranho, não confiamos nele.

O sargento folheou uma pequena caderneta, de onde retirou uma fotografia de perfil e de frente dos arquivos da polícia. Mostroulhes a foto, tapando o nome com o polegar.

— Não — garantiu a mulher. — O que vive lá na Manse é dez anos mais velho e não tem bigode.

— Esta foi tirada dez anos atrás — explicou o sargento.

— Ah, bom, por que não falou antes? Sim, é ele. Tenho certeza de que é o senhor Barry.

— Na Old Manse, você disse? — O sargento estava visivelmente satisfeito, enquanto guardava a foto na caderneta. — Preciso usar seu telefone agora, minha querida.

— Onde você estará depois do telefonema? — perguntou o comerciante, desconfiado.

— Em Dublin. O assunto aqui é de polícia.

— Terei de cobrar-lhe a ligação — avisou o homem prontamente. Enquanto o sargento usava o telefone, a mulher comentou com o marido:

— Eu não lhe disse que ele parecia suspeito? Assim que bati os olhos nele soube que era do Norte e que trazia complicação como um anjo negro.

Gilly O’SHAUGHNESSY mantinha-se encostado ao muro de pedra, tanto para abrigar-se da chuva como para ficar fora da vista de qualquer transeunte que estivesse no declive atrás do rio. Movia-se cuidadosa e silenciosamente, como um gato que estivesse caçando à meia-noite. Parou para examinar um buraco na parte baixa do muro, por onde alguém poderia ter entrado; depois estudou a vegetação molhada para verificar possíveis marcas nas macegas, por onde um homem pudesse ter passado.

No canto mais afastado do jardim, subiu em uma macieira que crescia rente à parede. Agarrou-se com força nas pedras incrustadas de líquen e ficou em uma posição de onde podia observar sem que sua cabeça aparecesse acima do muro.

Esperou cerca de vinte minutos, com a paciência infinita de um animal predador, depois pulou para o chão e caminhou em volta do perímetro do muro, sem relaxar a vigilância, aparentemente alheio ao desconforto e ao frio da chuva insistente.

Não havia o menor sinal de perigo, nenhum motivo para inquietação, mas mesmo assim não conseguia livrar-se daquela sensação aborrecida. Encontrou outro lugar interessante, ao lado do velho portão de ferro, e agachou-se contra o umbral de pedra, encurvando a mão para proteger o fósforo e o cigarro do vento. Mudando um pouquinho de posição, podia observar através da fresta entre o portão e o muro: dali avistava a rua distante até a ponte do vilarejo.

Mais uma vez assumiu o papel de espreitador paciente, tentando manter-se indiferente ao desconforto físico, para que seus olhos e cabeça funcionassem no limite de sua capacidade. Novamente ponderou sobre os estranhos sistemas de sinais e de trocas de material nos quais Califa insistira.

Recebera dois pagamentos através de cheques ao portador, em francos suíços, enviados pelo correio ao Rio de Janeiro e depois a seu endereço em Londres. Por outro lado, fizera uma entrega a Califa, o vidrinho com a encomenda... e duas ligações telefónicas. O pequeno frasco fora enviado dentro do prazo de duas horas após o rapto da garota, quando ela ainda estava sob o efeito da injeção de drogas. O médico, dr. Jamieson, como Gilly OShaughnessy preferiria chamá-lo, realizara o serviço na parte de trás do segundo carro, um furgão Ford que os esperava na estação de trem de Cambridge. Haviam passado a garota da limusine Triumph para o Ford, sob o lusco-fusco de um entardecer de outono, e em seguida foram até o estacionamento de um café na estrada enquanto o dr. Jamieson fazia a ”operação”. Todos os instrumentos estavam preparados e esterilizados, mas o trabalho fora mal feito, porque o médico tremia por falta de álcool. A menina sangrara copiosamente e agora estava com a mão infectada.

Gilly OShaughnessy sentia o sangue ferver quando pensava no médico. Parecia que tudo que ele tocava transformava-se em desastre.

O vidrinho fora entregue a um carro que estava exatamente no lugar combinado, com os faróis abaixados, que era o sinal previamente acertado. Em vez de parar, Gilly apenas desacelerara para passar o pequeno embrulho, então seguira direto na direção oeste, pegara a primeira balsa na manhã seguinte, antes que tivesse sido dado o alarme sobre o desaparecimento da garota.

Depois vieram as ligações telefónicas, algo que o preocupava tanto quanto qualquer outra coisa naquela história. A primeira chamada ocorrera imediatamente após a chegada a Laragh — uma ligação internacional onde falara apenas uma frase: ”Chegamos com segurança”. Uma semana mais tarde, outra ligação para o mesmo número, e novamente uma única sentença: ”Estamos nos divertindo”.

Eram chamadas tão rápidas, tão estranhas, que nas duas ocasiões a telefonista do povoado perguntara-lhe se tinha conseguido contato... E sua expressão estivera confusa, intrigada.

Até então, Califa jamais trabalhara daquela forma, deixando pistas para que os caçadores seguissem. Gilly gostaria de protestar... se tivesse a quem protestar, mas sua única possibilidade de contato era o número internacional de telefone. E ali, parado atrás do portão, decidiu que não voltaria a ligar nos próximos quatro dias.

Foi quando se lembrou de que aquele era o dia em que venceria o segundo prazo — provavelmente receberia o pedido de envio da mão se fizesse a chamada. E isto não lhe agradava. Nem mesmo pelo dinheiro... De repente, seu pensamento transportou-se para um incidente acontecido há muitos anos, quando pretendiam passar informações falsas para os ingleses, detalhes de uma operação que de fato aconteceria, mas em tempo e lugar diferentes. Haviam passado os dados fajutos para um jovem provocador, que na certa confessaria se fosse submetido a um interrogatório. Logo, mandaram-no para uma casa segura na estrada de Shankill, onde quase em seguida os ingleses o agarraram.

Gilly OShaughnessy sentiu um formigamento percorrer-lhe a espinha. Mas não se deixaria esmorecer por essa sensação... nunca. Consultou seu relógio de pulso japonês barato. Eram 3:55 e a tarde caía nas montanhas cinzentas e frias. Quando levantou os olhos novamente, percebeu um movimento na estrada.

Um veículo vinha descendo a montanha, passando pela curva da estrada em direção à ponte. Era um pequeno carro preto que logo sumiu de vista atrás da mata. Gilly viu-o reaparecer sem particular interesse, pois estava realmente preocupado com as duas ligações telefónicas. Por que cargas dágua Califa insistira nelas?

Depois de atravessar a ponte, o carro parecia vir diretamente para Old Manse. E era impossível avistar algo mais que os perfis de duas cabeças por trás do vaivém incessante dos limpadores de pára-brisas.

O carro pouco a pouco reduziu a velocidade. Instintivamente Gilly encolheu-se ainda mais atrás do portão, sem tirar o olho da fresta. Dois rostos indistintos voltavam-se para o muro da casa, e o carro ia tão devagar que parecia estar parando. Ao mesmo tempo, o vidro lateral foi sendo abaixado devagarinho, permitindo-lhe ver o interior com clareza: bonés de uniforme com o distintivo de prata brilhante sobre os rostos brancos. O formigamento na espinha voltou com intensidade, e de repente Gilly ficou com a respiração presa na garganta.

Assim que o carro acelerou novamente, ele ergueu-se de sopetão e correu para a casa. Apesar de tudo, estava calmo. Apenas tinha consciência de que chegara o momento da ação. Atravessou a cozinha a passos largos, abrindo às pressas a porta da outra peça.

O médico, que estava trabalhando sobre a cama, lançou-lhe um olhar rancoroso.

— Já lhe disse para bater antes de entrar!

Realmente, tinham discutido o assunto mais de uma vez. Por incrível que pudesse parecer, o médico ainda mantinha vestígios da ética profissional no tratamento de sua paciente. Mutilara a menina pelo dinheiro de que tanto necessitava, mas repelia com veemência a presença de Gilly na porta, com seu olhar cobiçoso para o corpo adolescente sempre que o velho o desnudava para a higiene, tratamento, ou simplesmente para o exercício de suas funções naturais.

O irlandês moreno tentara forçar o médico a voltar atrás, porem encontrara uma oposição tão surpreendente, tão corajosa, que abandonara seus prazeres de voyeur, só participando quando era solicitado.

Agora a menina estava com o rosto virado para os lençóis sujos, com os cabelos loiros emaranhados e gordurosos; em matéria de limpeza, o médico mostrava-se tão incompetente quanto em cirurgia.

A infecção e o uso de drogas haviam debilitado a jovem. Cada articulação de sua espinha sobressaía na pele pálida, e as nádegas pareciam ter a metade do volume original.

O médico puxou o lençol imundo até os ombros dela, numa atitude protetora. Era um gesto absurdo, diante de tanta sujeira, de sangue no pano que amarrava a mão esquerda da menina...

— Estamos saindo daqui — rosnou Gilly num tom ameaçador.

— Não podemos movimentá-la agora. Ela está muito doente.

— Problema seu. Deixaremos ela.

Enfiou a mão embaixo da capa molhada e tirou a pistola. Puxou o gatilho para trás com o polegar e aproximou-se da cama. O médico agarrou-lhe o braço, mas Gilly empurrou-o com força, jogando-o de encontro à parede.

— Você está certo, ela é um estorvo. — E posicionou o cano da arma contra o crânio da garota.

— Não! — gritou o médico. — Não faça isso. Vamos levá-la junto.

— Sairemos assim que anoitecer. — Gilly recuou alguns passos, desengatilhando a pistola. — Esteja pronto até lá.

OS DOIS HELICÓPTEROS voavam quase lado a lado, com o segundo um pouquinho atrás e mais alto. Lá embaixo, o mar da Irlanda estava coberto por um lençol de espuma cor de chumbo, salpicado aqui e ali por pontos brancos.

Tinham se abastecido em Caernarvon e estavam mantendo uma boa média de velocidade desde que deixaram para trás a costa galesa. Mas, apesar do vento favorável, a noite aproximava-se e Peter entrava em desespero a cada vez que consultava o relógio.

Faltavam apenas cento e trinta quilómetros sobre o mar aberto, mas para ele era como se fosse todo o oceano Atlântico. Cohn sentava-se a seu lado, com o toco apagado do charuto no canto da boca, em atenção ao sinal luminoso de ”Não fume” no teto da cabine de comando. O restante da equipe adotava a costumeira atitude de total descontração — alguns estendidos no piso do aparelho, usando o equipamento como travesseiros; outros espichados nos bancos reclináveis.

Peter era o único que estava tenso. Pela enésima vez, levantou-se para espiar pelo vidro da janela a quantidade de luz do dia que ainda restava, tentando calcular a altura do sol escondido atrás de uma nuvem densa.

— Acalme-se — recomendou Colin quando ele voltou ao banco. — Você vai acabar arranjando uma úlcera.

— Colin, precisamos decidir. Quais são nossas prioridades nesse ataque?

— Não há prioridades. Temos um único objetivo: resgatar Melissa-Jane com segurança.

— Não vamos trazer prisioneiros para interrogatório?

— Vamos dar um golpe certeiro em tudo que se mover no nosso campo de tiro. E será um golpe brutal.

Peter assentiu, satisfeito.

— Eles são uma corja de bandidos. E pode ficar certo de que o financiador desse golpe não os deixará entrar em contato com ele... Mas tem uma coisa: Kingston Parker não vai querer prisioneiros?

— Kingston Parker? Ah, não lhe dê ouvidos... por estas bandas é o tio Colin quem toma as decisões — garantiu Colin, dirigindo-lhe um sorriso largo. Naquele momento, o engenheiro de voo avisou:

— A costa irlandesa está à frente... aterrissaremos dentro de sete minutos.

O CONTROLE de tráfego aéreo de Enniskeny fora avisado da emergência e liberara espaço para a aterrissagem imediata dos dois helicópteros da Força Aérea.

Tão pronto os aparelhos pousaram no pátio de manobras do hangar, um carro da polícia, com os faróis dissipando a penumbra da tarde, estacionou ao lado das máquinas. Antes que os rotores parassem de girar, dois membros da polícia irlandesa e um representante da inspetoria geral subiram à fuselagem camuflada.

Peter apresentou-se rapidamente. Estava com a indumentária de assalto do Thor, um traje preto de uma peça, botas, a pistola dentro do cinto reforçado amarrado na coxa direita.

— General, tivemos a informação — declarou o inspetor, assim que se cumprimentaram. — Pessoas do local identificaram OShaughnessy a partir de uma fotografia da polícia. Ele está na área.

— Eles sabem onde?

— Sim. Em uma casa velha e isolada, à margem do vilarejo...

— Fez um sinal para que seu colega trouxesse o arquivo. Como não havia mesa cartográfica dentro do helicóptero, espalharam mapas e fotografias na cabine de comando.

Colin Noble ordenou que a equipe do segundo helicóptero viesse. Então vinte homens amontoaram-se em volta dos mapas.

— Aqui está a casa. — O inspetor fez um círculo no mapa com um lápis azul.

— Muito bem — disse Colin. — Conseguimos boas posições... pegamos ou o rio ou a estrada, e seguimos até a ponte e a igreja. O alvo estará entre eles.

— Temos alguma fotografia ampliada da casa, ou uma planta do interior? — perguntou alguém da equipe.

— Lamento, mas não tivemos tempo para fazer um trabalho tão detalhado — desculpou-se o inspetor. — A polícia local informou novamente há alguns minutos, e pegamos a retransmissão pelo rádio. Disseram que a casa é cercada por um muro alto de pedra e que não há sinal de atividade.

— Quer dizer que se aproximaram da casa? — perguntou Peter.

— Havia recomendações estritas para que não fizessem isso.

— Passaram por lá uma vez, de carro, pela rodovia pública — O inspetor estava desconcertado. — Eles queriam ter certeza...

— Se for mesmo OShaughnessy, bastará uma simples farejada para ele escapar... — Os olhos de Peter faiscavam de raiva. — Por que esse pessoal não faz apenas o que lhe pedem para fazer?

Virou-se para o piloto do helicóptero, que estava de jaqueta salva-vidas amarela e capacete com microfones e audiofones embutidos.

— Pode nos levar lá?

O piloto deu uma espiada pela janela mais próxima; as gotas frescas da chuva batiam contra a vidraça.

— Vai escurecer dentro de dez minutos, ou até antes, e o teto está muito baixo. Só chegamos aqui graças aos holofotes do aeroporto... Não há ninguém a bordo que possa reconhecer o alvo! Não sei... talvez possamos sair amanhã cedinho.

— Tem de ser hoje. Agora. Agora mesmo.

— Se você conseguir que a polícia local marque o alvo com lanternas elétricas ou outro tipo de luz...

— Não há possibilidade de fazer isso... Precisamos ir assim mesmo, e quanto mais tempo ficarmos aqui falando, menores serão nossas chances. Podemos apostar na melhor possibilidade? — Peter estava quase implorando. A decisão de voar não poderia ser forçada a um piloto; nem mesmo o controle de tráfego aéreo poderia obrigá-lo a realizar operações que contrariassem seu julgamento pessoal.

— Vamos tentar, mantendo contato com o solo durante todo o percurso. É a solução clássica quando se decola sob mau tempo...

— Tente, por favor.

O piloto hesitou por apenas cinco segundos.

— Vamos! — disse abruptamente.

No instante seguinte, a segunda equipe do Thor dirigia-se ao helicóptero fazendo um ruído harmonioso a caminho da portinhola. Nem os policiais, nem o inspetor estavam incluídos na lista de passageiros.

A TURBULÊNCIA GOLPEOU fortemente o helicóptero, fazendo-o mergulhar em ziguezagues numa ação vertiginosa e nauseante. Lá embaixo, o chão tremeluzia, muito perto, mas ainda assim bastante escuro. Os faróis de um veículo solitário na rodovia isolada, as luzes amontoadas do vilarejo, retângulos amarelos distintos, muito próximos uns dos outros, eram as únicas marcas que se percebiam na terra... O resto era retalhos escuros de matas, sebes emaranhadas e muros de pedra que dividiam vagamente os campos sombrios. Os minutos se passavam lentos, enquanto rajadas de nuvens cinzentas e chuva obscureciam a visão. O piloto estava concentrado no brilho ofuscante dos instrumentos de voo, arranjados em ”T” à sua frente.

Cada vez que emergiam das nuvens, a luz parecia ter diminuído e o escuro da terra avultava-se ainda mais ameaçador à medida que eram forçados a voar sempre mais baixo para manter contato.

Peter estava no pequeno assento da cabine de comando, entre os dois pilotos, e Colin estava atrás dele, todos perscrutando à frente, silenciosos e tensos, enquanto os aparelhos moviam-se sobre a terra, buscando as margens do oceano.

Alcançaram a costa, os fantasmagóricos borrifos brancos das ondas brilhando com fosforescência apenas vinte metros abaixo. O piloto rumou em direção ao sul e, segundos depois, outro campo de luz apareceu lá embaixo.

— Wicklow — informou o piloto, enquanto manobrava para pegar a rota de Laragh.

Avançaram na nova direção, seguindo a rodovia nacional, até que o co-piloto avisou:

— Quatro minutos para o alvo.

Peter não respondeu. Limitou-se a apalpar o cabo da pistola Walther no coldre.

Gilly O’SHAUGHNESSY jogou as poucas coisas que possuía dentro de uma valise azul de lona, para viagens aéreas: algumas peças de roupa íntima e um aparelho de barbear. Então afastou a cama de ferro da parede, para ter acesso ao esconderijo que fizera removendo um tijolo. Ali estavam os novos documentos e o passaporte. Califa providenciara até documentos para a guria... Helen Barry, sua filha. Califa pensara em tudo. Junto com os papéis havia seiscentas libras esterlinas em cheques de viagem, e um pacote de munição sobressalente para a pistola. Depois de guardar aquelas coisas no bolso da jaqueta, deu uma olhada geral pelo quarto vazio e árido. Tinha certeza de que não deixara pistas para os caçadores, porque jamais carregava algo que o identificasse. No entanto, estava obcecado pela necessidade de destruir todos os sinais de sua passagem. Já fazia muito tempo que não pensava em si mesmo como Gilly O’Shaughnessy. Não tinha nome; apenas um propósito, a destruição. A paixão magnificente de reduzir toda a vida à degradação e à mortificação.

Seria capaz de recitar o Catecismo Revolucionário, de Bakunin, especialmente a definição do verdadeiro revolucionário:

Um homem perdido, que nada possui, que não tem outros interesses, nenhum laço pessoal... nem mesmo um nome. Mas que possui um pensamento, um interesse e uma paixão: a revolução. Um homem que se separou da sociedade, afastou-se das leis e convenções. Que despreza a opinião dos outros e prepara-se para a morte e a tortura a qualquer momento. Austero consigo mesmo, austero com os outros, e sem nenhum lugar em seu coração para o amor, a amizade, a gratidão ou a honra.

Parado ali no quarto vazio, teve um raro momento de revelação, vendo-se como um verdadeiro revolucionário, o homem que planejara ser. Voltou-se por alguns instantes para desfrutar a vaidade de sua própria imagem no espelho aparafusado na parede revestida de papel sobre a cama de ferro.

Diante do rosto moreno e frio do homem perdido, sentiu-se orgulhoso de pertencer a essa elite. O fio da espada, era isto o que ele era.

Agarrou a valise e dirigiu-se para a cozinha.

— Você está pronto? — gritou.

— Ajude-me.

Gilly aproximou-se da janela. A última luz extinguia-se rapidamente. As árvores do pomar descuidado começavam a confundirse a medida que a noite avançava.

— Não posso carregá-la sozinho. — Escutou o médico dizer.”

Estava na hora de partir novamente. Em sua vida sempre tivera de seguir adiante, fugir dos perseguidores que lhe farejavam o rastro. Era hora de escapar outra vez, escapar como a raposa.

Encaminhou-se para a segunda peça da casa. O médico enrolara a menina com um cobertor de lã cinzento, tentara erguê-la da cama mas não conseguira. Ela estava com a metade do corpo no chão.

— Ajude-me — repetiu o médico.

— Saia da frente.

Gilly OShaughnessy empurrou-o estupidamente para o lado e se agachou sobre a garota. Por um segundo, seus rostos ficaram a poucos centímetros de distância. Os olhos dela estavam abertos, mas parados, com as pupilas dilatadas por causa das drogas. As pálpebras tinham as beiradas rosadas e, nos cantos, bolinhas amarelas de muco. Os lábios estavam secos como escamas brancas e rachados em carne viva em três lugares.

— Por favor, avise papai — sussurrou. — Avise que estou aqui. Apesar de retorcer as narinas por causa do cheiro fétido do corpo doente, ele agarrou-a nos braços e carregou-a em direção à cozinha. Chutou a porta até abri-la — a fechadura rompeu-se com violência e a porta escancarou-se para trás, contra as dobradiças.

Atravessou o jardim com rapidez, seguido pelo médico, que carregava uma caixa de papelão de remédios e equipamentos, praguejando pelo tempo frio e escorregando no caminho traiçoeiro.

Gilly OShaughnessy esperou que ele abrisse a porta traseira do carro, e então atirou a garota com tal brutalidade que ela gemeu de dor. Ele ignorou-a. Aproximou-se das portas duplas da garagem, arrastando-as para abri-las. Estava tão escuro agora que nada podia ver além da ponte.

— Para onde estamos indo? — balbuciou o médico.

— Ainda não decidi. Tem uma casa segura ao norte, mas talvez atravessemos o mar rumo à Inglaterra... — E pensou outra vez no trailler; seria o veículo ideal.

— Por que estamos partindo agora, tão subitamente?

Sem se dar ao trabalho de responder, Gilly retornou à cozinha, ainda obcecado pela ideia de destruir todas as pistas, de não deixar marcas para seus caçadores. Embora tivesse trazido poucas coisas consigo, e as estivesse levando, mesmo assim sabia que a velha casa continha sinais, no mínimo suas impressões digitais. Além disso, precisava mitigar a sede de destruição.

Arrancou as portas de madeira dos armários embutidos da cozinha, quebrou-as em pedaços com o calcanhar, empilhando-os no centro do assoalho. Amassou os jornais que estavam na mesa e enfiou-os no meio das madeiras, jogando a mesa e as cadeiras sobre o monte. Riscou um fósforo e aproximou-o dos jornais. As chamas subiram rapidamente, e mais ainda quando ele abriu as portas e janelas, alimentando-as com o ar fresco da noite.

Gilly OShaughnessy pegou a valise e saiu na noite, curvando-se para se proteger do vento e da chuva. Porém, na metade do caminho para a garagem, aprumou-se abruptamente e parou para escutar.

O vento trazia um som diferente do litoral; talvez fosse o ronco do motor de um caminhão vindo pelas colinas... Mas, e aquele barulho giratório peculiar, misturado com a batida do motor? O volume do som aumentava rápido demais para ser um caminhão de madeira. Aproximava-se velozmente, e o ruído parecia encher os ares e emanar das próprias nuvens.

Gilly OShaughnessy ergueu o rosto para a garoa miúda, observando as nuvens densas, até que um latejar ritmado como um pulso tomasse os céus, ao mesmo tempo em que o feixe de luz de uma aeronave voando baixo ficasse visível aos seus olhos. Aquele zumbido regular era o das hélices que traziam os perseguidores.

— Por que, Deus, por quê? — Ele gritou, com a certeza da traição e da investida da morte, implorando a Deus, que há muito tempo negara.

— ISSO NÃO ESTÁ BEM — resmungou o piloto, sem tirar os olhos dos instrumentos de voo que mantinham o nível do aparelho. Tinha perdido o contato com a outra máquina. — Estamos mergulhando às cegas. — A nuvem batia no vidro como o leite fervente na superfície da leiteira. — Preciso subir e tomar a direção de Ennjískerry antes que bata no outro.

enorme o risco de colisão com o helicóptero número dois. O feixe de luz do outro aparelho bruxuleava sobre eles, através da impenetrável nuvem esponjosa, porém o outro piloto não os veria até que fosse tarde demais.

— Agüente um pouco. Só mais um minuto — pediu Peter, com o rosto transtornado. Toda a operação estava na iminência de desintegrar-se, podendo terminar numa tragédia ou num fiasco. Mas ele precisava continuar.

Quase em pânico, o piloto arremessou o helicóptero para o lado, ao mesmo tempo em que alternava o grau de inclinação e a altitude, fazendo a máquina estremecer e dar uma guinada, como se tivesse batido em algo sólido, e então subiu de repente, ganhando trinta metros numa só arremetida.

A torre da igreja apareceu por entre as nuvens, como um predador numa armadilha, flutuou apenas alguns metros à frente dos homens que estavam agachados na cabine, e logo em seguida desapareceu.

— A igreja! — gritou Peter. — É ela! Volte.

O piloto hesitou sob o caos de nuvens transformadas em chuva, ajudada pela fúria do vento produzido pelo próprio rotor.

— Não consigo ver nada.

— Estamos a cinquenta metros pelo altímetro — informou o co-piloto. E, apesar da pequena altura, não conseguiam ver nada para baixo.

— Vamos aterrissar. Pelo amor de Deus, vamos logo — implorou Peter.

— É impossível. Não sabemos o que está abaixo. — Sob a luz dos instrumentos do painel, o rosto do piloto parecia uma caricatura do medo. — Estou ganhando altura para voltar...

Peter deslizou a mão pela culatra da pistola Walther. Percebeu que seria capaz de matar o piloto e forçar o co-piloto a aterrissar... Naquele instante, porém, um buraco na nuvem permitiu que enxergassem o vulto ameaçador do solo.

236


— Temos visibilidade, vamos para baixo! — berrou Peter. E o helicóptero afundou com rapidez, parando subitamente sobre uma clareira.

— O rio! — Peter viu a cintilação da água. — E a ponte...

— E o pátio da igreja — anunciou Colin, ansioso. — E ali é o alvo. Sob o teto de palha negro e alongado, algumas luzes saíam pelas janelas laterais, possibilitando que vissem o alto muro de proteção. O piloto girou o helicóptero sobre seu próprio eixo, como uma agulha de compasso, e mergulhou na direção do prédio. Colin Noble foi até o corpo da aeronave e gritou para a equipe:

— Delta! Estamos na condição Delta...

O engenheiro de voo abriu a porta da fuselagem, fazendo com que entrasse uma garoa fina, empurrada pelo vento das hélices que cortavam o chuvisco.

A equipe estava a postos, formada em cada lado da porta aberta, enquanto Colin, plantado na frente do engenheiro de voo, assumia a liderança e ordenava: ”Aponte”, como sempre fazia. Depois de jogar fora o charuto, ele agarrou-se no suporte da porta.

— Atirem em tudo o que se move. Mas, pelo amor de Deus, tomem cuidado com a garota. Vamos, pessoal! Em frente!

Comprimido no assento pela súbito mergulho da máquina, Peter perdeu preciosos segundos, embora tivesse uma visão clara do que se passava à frente. A oscilação da luz nas janelas da casa levou-o a concluir que aquilo era fogo. Chamas que pareciam crescer a cada instante. Mas não havia tempo para ponderar sobre aquele fato novo. Percebeu um movimento nas sombras do pátio murado, apenas uma mancha escura, levemente iluminada pelas labaredas. Parecia ser um homem, correndo agachado, desaparecendo a seguir em um dos galpões que flanqueavam o estreito muro de pedras.

Lutando contra a força da gravidade, Peter locomoveu-se com dificuldade, da cabine para a fuselagem, enquanto o helicóptero baixava para apenas três metros sobre o pátio nos fundos da casa. As figuras negras saltavam uma a uma e, assim que tocavam o solo, corriam para a frente, rumo às portas e janelas da casa. Apesar da tensão do momento, Peter sentiu orgulho pela forma como tudo acontecia, a penetração aparentemente sem esforço: o homem da frente usava sacos de areia para romper os vidros e a armação das janelas, e o que vinha atrás entrava com um mergulho límpido.

Segundos antes de saltar, alguma coisa levou Peter a checar a escotilha aberta... Talvez aquele súbito movimento fora da casa principal que lhe chamara a atenção. Foi quando viu aparecerem fachos de luz ao longo do muro, os faróis de um carro que partia do escuro galpão à frente da casa.

Peter já tinha dado o impulso para pular, mas conseguiu equilibrar-se, agarrando a corda de náilon acima da porta. O veículo diminuía a velocidade para fazer a volta e tomar a estrada principal na ponte. Então Peter alcançou o engenheiro de voo, sacudiulhe o ombro e apontou o carro em fuga.

— Não deixe ele escapar!

O engenheiro de voo pegou rápido o microfone e comunicou-se com o piloto. No mesmo instante, o helicóptero ondulou, a batida dos motores alterou-se e as hélices mudaram de ritmo na arremetida. O aparelho investiu para a frente, quase raspando o teto da garagem, e partiu no encalço do oscilante feixe de luz dos faróis.

Com a metade do corpo para fora da porta, só assim Peter conseguia acompanhar com os olhos o veículo. O vento assoviava em seus ouvidos e fustigava-lhe o rosto. Houve momentos em que as escuras copas das árvores pareciam passar rente à porta da aeronave. Os faróis do carro brilhavam através do chuvisco, desenhando efémeros camafeus nas beiradas e muros que sua luz atingia.

Estavam próximos o suficiente para Peter perceber que se tratava de um carro pequeno porém equipado de forma não convencional; devia ser uma perua. O motorista avançava com habilidade pela curvas e declives da estrada, mas mesmo assim o helicóptero acercava-se aparentemente sem ser visto.

— Avise ao piloto para desligar o holofote — recomendou Peter ao engenheiro de voo. Seria melhor não advertir o motorista. No entanto, ele devia ter percebido, pois apagou os faróis praticamente no mesmo instante em que o holofote foi desligado.

Diante do negrume total da noite, Peter desanimou. ”Perdemos eles, pensou, porque seria suicídio voar no escuro a apenas alguns metros das copas das árvores. O helicóptero estremeceu ligeiramente e logo em seguida estabilizou. De imediato, o piloto ligou os dois holofotes de aterrissagem, apontando-os num ângulo que cobria boa parte da estrada. O carro fugitivo apareceu por inteiro sob o brilho da luz. O helicóptero desceu mais um pouco, contornando os postes telefónicos e árvores que se alinhavam pela estreita rodovia.

Agora Peter pôde ver que se tratava de um Austin azul-escuro, com um porta-malas comprido no teto. Foi esse detalhe que lhe permitiu tomar uma decisão. Sem aquele maleiro ninguém poderia ter a esperança de sustentar-se no teto liso e arredondado de um carro em movimento.

O MÉDICO, no assento traseiro do Austin, foi o único que viu o helicóptero. O ruído do motor do carro e o assovio do vento haviam encoberto o ronco das hélices. Gilly OShaughnessy ria sozinho, satisfeito com seu indisfarçável triunfo. De propósito ele esperara que o helicóptero despejasse seus homens no terreno da casa para só então ligar os faróis e acelerar para fora da garagem.

Demoraria muitos minutos até que a equipe de assalto se desse conta de que a casa em chamas estava vazia; e levaria mais tempo ainda para que se reagrupassem no helicóptero a fim de continuar a caçada. Nesse ínterim ele estaria a salvo; havia uma casa segura em Dublin — pelo menos quatro anos antes, havia. Se tivesse sido ”estourada”, ele teria de se livrar da menina e do dr. Jamieson, com uma bala na nuca de cada um, e jogar o Austin no mar.

A excitação do perigo da morte envolvia-o novamente — a espera tinha acabado afinal. Agora voltava a viver da forma que escolhera; uma raposa correndo na frente dos cães de caça. Sentia-se bem enquanto pisava fundo no acelerador do Austin, que disparava na noite.

A garota chorava baixinho no banco de trás. O médico tentava acalmá-la, e Gilly ria alto. Os pneus cantavam nas curvas, e o carro raspava a margem com a lateral antes de alinhar-se.

— Estão nos seguindo — alertou o médico.

Gilly deu uma olhada por cima do ombro. Não vinada pelos vidros traseiros.

- O quê?

— O helicóptero...

Gilly abaixou o vidro da janela e colocou a cabeça para fora. O holofote da aeronave estava bem próximo, atrás e acima. Sabendo que aquele trecho da estrada era reto, ele desligou os faróis. E, na escuridão total, não diminuiu a velocidade, nem parou de rir.... um riso destemido e selvagem.

— Você está louco! — berrou o médico. — Você vai nos matar!

— Tem toda razão, doutor! — Porém sua visão noturna era clara e ele manobrou o Austin impedindo-o de se esborrachar num muro de pedra do lado esquerdo. Então tirou a pistola da capa e depositou-a no assento ao lado. — Não vou deixar que aconteça... — Gilly interrompeu-se quando a luz enceguecedora do helicóptero foi acesa outra vez, varrendo toda a estrada em frente. Derrapou na curva, com um cantar de pneus.

— Pare! — implorou o médico, que segurava a menina, temendo que ela fosse arremessada contra as paredes do carro. — Vamos desistir, antes que nos matem.

— Eles não têm atiradores a bordo. Não há nada que possam fazer.

— Vamos desistir! Vamos sair vivos daqui! Gilly OShaughnessy caiu na gargalhada.

— Tenho três balas de reserva, doutor, uma para cada um de nós.

— Eles estão bem em cima do carro!

Gilly agarrou a pistola, pôs a cabeça e o ombro para fora e olhou para cima. Viu apenas os focos incandescentes dos holofotes. Mas não teve dúvidas. Disparou neles, com o ruído do tiro perdendo-se no ronco das hélices e no uivo do vento forte.

POSICIONANDO NA PORTA, Peter contou os clarões alaranjados dos disparos procedentes do carro. Viu três mas não ouviu o som dos tiros nem o impacto das balas na aeronave.

— Vamos baixar mais! — Gritou para o engenheiro, reforçando a ordem com sinais de urgente.

À medida que o aparelho ia ficando bem acima do Austin, ele se preparava cuidadosamente, até que afinal atirou-se da porta. Antes de alcançar o veículo, sentiu um choque violento devido ao deslocamento do ar. Pior ainda foi cair com os braços e pernas abertos sobre o frágil maleiro do veículo em movimento.

Sentiu os aros de metal cederem, ao mesmo tempo que rolava e escorregava para as laterais. Seu lado esquerdo estava adormecido pelo impacto, obrigando-o a concentrar toda a força na mão direita. De qualquer modo, conseguiu agarrar com firmeza os suportes do maleiro. E naquele exato segundo, o motorista percebeu que havia alguém no teto. Feito um louco, jogou o carro de um lado a outro na estrada, com giros tão rápidos na direção que chegou a ficar em duas rodas, derrapar fazendo um cavalo-de-pau antes de alinhar-se novamente. Os pneus cantavam alto, e Peter era sacudido para frente e para trás. Os músculos e tendões do seu braço direito pareciam prestes a se romperem pela força de sustentá-lo. Por sorte, a dormência cedia no seu lado esquerdo.

Precisava agir com rapidez, do contrário não sobreviveria a outro ziguezague. Arrastou-se como pôde para o centro do teto, ao mesmo tempo que encontrava apoio para a ponta das botas numa das barras do maleiro. Pressionou a barriga para baixo e, agora contando com os dois braços e pernas, sentiu-se pronto para aguentar a desenfreada oscilação do carro.

O Austin reduziu a velocidade diante de uma curva fechada, visível pela luz do helicóptero, que ainda os acompanhava. O motorista fez a curva, que dava para um longo declive serpenteante através das colinas. Julgando que fosse o momento de agir, Peter ergueu-se levemente, preparando-se para escorregar para a frente. De repente, o teto do veículo pareceu explodir: um buraco enorme apareceu no metal, simultâneo com a concussão de um tiro de pistola. O motorista disparara às cegas para cima, e errara o alvo por questão de centímetros. Peter jogou-se para um lado, quase perdendo o equilíbrio, e outra bala cruzou a cobertura metálica — teria atingido sua barriga, caso não tivesse mudado de posição.

Desesperado, rolou para o lado oposto, imaginando que o homem iria fazer disparos em lugares diferentes, uma vez que não sabia ao certo onde estaria o alvo. Seu cálculo foi correto: o tiro seguinte irrompeu exatamente à altura do seu peito... caso não houvesse trocado de lugar.

Outra vez mudou de posição, tensionando os músculos na expectativa do impacto paralisante, esperando o tiro que não veio... Então lembrou-se de que o motorista disparara a esmo contra o helicóptero e certamente esvaziara a pistola. Nesse instante, escutou um som completamente diferente que, apesar do barulho do vento e do ruído do motor do carro, atingiu-o com a força de um furacão. Era o choro de uma menina, um lamento capaz de fazêlo enfrentar mil ameaças de morte.

Ergueu-se na ponta dos pés e das mãos e arrastou-se até a borda dianteira do teto, imediatamente acima do assento do motorista. Quando a garota chorou outra vez, reconheceu a voz de MelissaJane. No auge da tensão, pegou a Walther do coldre e engatilhou-a no mesmo momento. O veículo avançava para outra curva fechada; com certeza o motorista estaria usando as duas mãos para controlá-lo.

Agora!, disse a si mesmo, e jogou-se para a frente, de modo que ficou com o tronco sobre o pára-brisa, os pés encaixados nos suportes do maleiro, aguentando todo o peso do corpo.

Em uma fração de segundo, Peter reconheceu as feições de lobomarmho e os olhos impiedosos do assassino. Ele caçara aquele homem durante muitos anos e estudara sua fotografia infinitas vezes desde que a liquidação do terrorismo tornara-se sua missão na vida.

Gilly OShaughnessy tinha ambas as mãos sobre o volante, a pistola ainda presa em uma delas, com a culatra aberta para recarregar. Ele rosnou como um animal através das barras de sua jaula, enquanto Peter disparava a Walther tocando o vidro do pára-brisa.

O vidro despedaçou-se, um lençol brilhante, branco e opaco que se espalhava para dentro com a força do vento, enchendo a cabine do Austin. Gilly levou as mãos ao rosto, e o sangue irrompeu através dos dedos, esparramando-se por seu peito.

Peter introduziu a pistola através do vidro quebrado e disparou duas vezes em seu peito. Aquela distância os explosivos Velex seriam capazes de triturar-lhe os ossos, mas sem oferecer risco a outras pessoas que estivessem atrás dele.

Com os gemidos de Melissa-Jane ainda ressoando em seus ouvidos, Peter matara Gilly OShaughnessy friamente, como um veterinário eliminaria um cão hidrófobo. Entretanto, o carro continuava veloz pela rodovia. Como o corpo do terrorista não fora jogado para trás, contra o encosto do assento, mas em vez disso deslizara pelo banco para a frente, parecia que todo o seu peso apoiava-se no acelerador.

Peter compreendeu o perigo da situação e enfiou os braços pelo pára-brisa estilhaçado, tentando controlar a direção. O Austin continuava na estrada, porém o declive da colina fazia-o ganhar mais e mais velocidade. Da posição em que se encontrava, pendurado de cabeça para baixo, sustentado apenas pela ponta dos pés, era impossível para Peter dominá-lo. Para piorar as coisas, a cabeça de Gilly caiu pesadamente sobre o volante, num momento crítico. Quando Peter usou uma das mãos para empurrá-lo para trás, um lado do Austin roçou o barranco de pedras, produzindo um rangido de metal e uma chuva de faíscas alaranjadas. O carro começou a ziguezaguear como um bêbado. Seria uma loucura continuar ali. Talvez ele devesse saltar e salvar-se, antes que um capotamento resultasse em uma tragédia maior. Porém, consciente de que MelissaJane estava lá dentro, arriscou um lance ousado. Ergueu rapidamente a metade do corpo, o suficiente para divisar à esquerda um pesado portão de madeira, certamente a entrada de alguma propriedade. Abaixando-se, Peter girou o volante naquela direção.

O Austin bateu em cheio na cancela, rompendo-a, depois penetrou em terreno aberto, lamacento, de modo que perdeu toda sua força e afinal parou.

Peter escorregou pelo lado e caiu de pé. Com um movimento abrupto, abriu a porta traseira, de onde um homem caiu de joelhos no lodo, balbuciando algo incoerente. Peter chutou-lhe o rosto — ossos e cartilagens romperam-se ruidosamente. E antes que o sujeito chegasse ao chão, um soco certeiro no maxilar, destinado a imobilizá-lo sem matar.

Então Peter tirou a filha do carro. Seu corpo frágil ardia de febre. Ele desejou apertá-la contra o peito, cobri-la de beijos, mas controlou-se, carregando-a com cuidado para a clareira onde o helicóptero estava aterrissando.

O médico do Thor, que ainda estava a bordo, pulou antes que o aparelho tocasse o chão e correu ao encontro de Peter, que para sua própria surpresa, cantarolava baixinho.

— Está tudo bem, querida. Tudo está acabado. Tudo terminou, meu anjinho, estou aqui, baby...

E Peter fez outra descoberta. Não era suor o que lhe descia pelas maçãs do rosto... Ele não se lembrava de quando chorara pela última vez. Mas isso não tinha a menor importância, agora que estava com a filha nos braços.

QUANDO CYNTHIA CHEGOU em Londres, Peter reviveu alguns dos horrores do seu casamento.

— Todo mundo ao seu redor tem que sofrer, Peter. Agora foi a vez de Melissa-Jane.

Era impossível evitá-la, pois ela não saía do lado da cama de Melissa-Jane. Enquanto o aborrecia com suas recriminações e acusações cheias de farpas, ele não conseguia imaginá-la como o tipo jovem, alegre e atrativo da época em que se conheceram. Embora fosse dois anos mais nova que ele, seu corpo estava disforme e sua mentalidade era igual à de alguém vinte anos mais velho.

Melissa-Jane reagiu muito bem aos antibióticos; e, ainda que estivesse fraca e pálida, recebeu alta no terceiro dia, quando Peter e Cynthia tiveram a sessão final de seu curto período de convivência forçada.

— Mamãe, ainda estou com medo. Posso ficar com papai, por alguns dias?

Soluçando, Cynthia concordou; seu ar doloroso fez os dois sentirem-se culpados. A caminho de Abbots Yew, para onde Steven convidara a sobrinha para que passasse o tempo necessário de convalescença, a garota sentava-se ao lado de Peter, a mão esquerda ainda na tipóia e o dedo com uma bandagem de curativo. Ela só abriu a boca depois que passaram por Heathrow e alcançaram a rodovia.

— Durante todo o tempo eu sabia que você ia aparecer. Não me lembro de muita coisa. Estava sempre escuro e as coisas mudavam a toda hora. Eu olhava para um rosto e desmaiava; depois parecia que estava noutro lugar...

— Era o efeito das drogas que lhe davam — explicou Peter.

— Sim, eu sei. Lembro a picada da agulha... — Num gesto instintivo, ela massageou o braço, estremecendo. — Mas mesmo assim eu sempre achava que você chegaria. Eu ficava caída na escuridão, ouvindo sua voz...

Melissa-Jane não havia tocado no assunto até então. E parecia disposta a desabafar.

— Você gostaria de conversar sobre o que aconteceu? — perguntou Peter, sabendo que era essencial para o processo de cura.

A garota assentiu, revelando trechos de conversas e impressões. O terror voltou à sua voz quando mencionou o homem que a raptara.

— Às vezes, ele me olhava. Lembro dele me olhando... Peter reviu mentalmente a frieza dos olhos do assassino.

— Agora ele está morto, querida.

— Sim, eu sei. Já me disseram... Era tão diferente daquele de cabelos grisalhos. Gostei do velho. Seu nome era doutor Jamieson.

— Como você soube?

— Era como o moreno o chamava. Sei que ele cheirava a bebida e eu gostei dele...

Foi o que fez a amputação e que teria cortado até sua mão, pensou Peter, com raiva.

— Eu nunca via o outro. Sabia que estava lá, mas nunca o vi.

— O outro? Que outro, querida?

— Havia um outro... e até o moreno tinha medo dele. Todos tinham medo dele.

— Você nunca o viu?

— Não, mas sempre falavam dele e discutiam sobre o que ele faria...

— Você não se lembra do nome do cara? Será que não o ouviu uma única vez?

— Geralmente só o mencionavam dizendo ele. Mas acho que o moreno o chamou de ”Casper”.

— Casper?

— Não, não era Casper. Ah, não consigo me lembrar. — Uma nota de desespero em sua voz deixou Peter com os nervos arrasados.

— Não se preocupe com isso, minha querida.

— Não era Casper, mas um nome parecido com esse. Ele era o único que queria me machucar; os outros estavam fazendo o que ele mandava. Era dele que eu tinha medo.

— Agora tudo acabou, querida — Peter encostou o carro no acostamento. Então tentou afagá-la, porém ela estava rígida e, quando ele a tocou, a garota pôs-se a tremer. Peter tomou-a nos braços e apertou-a junto ao peito.

— Califa... — sussurrou ela. — Esse é o nome, Califa. Peter nada comentou. Lutava consigo mesmo para controlar a onda de ódio que o assaltava, e demorou um pouco até dar-se conta de que Melissa-Jane adormecera em seus braços. Pronunciar o nome do algoz fora como uma catarse para o seu terror. Agora ela estava pronta para curar-se por inteiro.

Peter acomodou-a meigamente no assento e cobriu-a com o xale antes de voltar a dirigir. Porém, de quando em quando olhava para o lado para assegurar-se de que ela dormia tranquila.

NAS DUAS VEZES em que Peter ligou para o número privativo de Magda Altmann, nem ela pôde atender, nem lhe passaram nenhum recado. Fazia cinco dias que não tinha contato com ela, desde que o ataque Delta libertara Melissa-Jane. E isso o deixou bastante intrigado.

Então, quando o dr. Kingston Parker apareceu em Abbots Yew, sir Steven Stride ficou radiante por ter entre seus hóspedes um alto funcionário tão distinto. A personalidade daquele homem, suas maneiras gentis conquistaram o anfitrião. Mais ainda quando ele descobriu que, a despeito de sua imagem de liberal, de sua conhecida preocupação com os direitos humanos, Parker era também um defensor do sistema capitalista, que lutava para que seu país levasse mais a sério suas responsabilidades como líder do mundo ocidental. Ambos deploraram o atraso do projeto do bombardeiro BI, do programa da bomba de nêutrons e da reestruturação do serviço secreto americano. Passaram a maior parte da primeira tarde no estúdio decorado com madeira de sequóia, discutindo os pontos de vista comuns, e rapidamente tornaram-se amigos.

Parker completou a conquista dos Stride ao mostrar que compartilhava com Patrícia, a esposa de Steven, um conhecimento académico e paixão por porcelana antiga. Sua preocupação com Melissa-Jane e o alívio por vê-la em segurança foram bastante espontâneos para não serem genuínos. Ele acabou de ganhar a afeição da garota quando a acompanhou aos estábulos, para ver Florence Nightingale e provar que ele também entendia de cavalos.

— É um homem adorável. Acho que é um verdadeiro homem honrado — afirmou ela, quando Peter entrou em seu quarto para dar-lhe boa-noite. — E é também tão gentil e engraçado... Mas você continua sendo o meu homem favorito!

Naquela noite, durante a recepção, como sempre acontecia em Abbots Yew, havia inúmeras personalidades presentes. Kingston Parker era o centro das atenções. Mesmo assim, a certa altura da festa, ele fez sinal a Peter, e logo os dois encaminharam-se para o jardim, deixando para trás os vinhos finos, os conhaques franceses e a mesa farta, decorada com candelabros.

Parando a uma distância na qual seu guarda-costas não poderia ouvir o que falavam, Kingston Parker encheu o cachimbo antes de fazer qualquer comentário. A noite primaveril estava quieta e perfumada. Soava totalmente estranha, naquela atmosfera, uma conversa sobre morte, violência, uso e abuso do poder, e a manipulação de imensas fortunas por uma única figura misteriosa.

— Faz cinco dias que estou na Inglaterra. Não se deve correr pelos caminhos cheios de eco da Whitehall. Há muito para se discutir... — Kingston Parker encontrara-se duas vezes com o primeiro-ministro. — E não são apenas assuntos relacionados ao Atlas... — Como ele era amigo do presidente dos Estados Unidos, na certa tinha pontos de vista oficiais a trocar com o governo britânico. — Entretanto, discutimos o programa detalhadamente. Você sabe muito bem que o Atlas tem adversários e críticos em ambos os lados do Atlântico. Eles tentaram a todo custo esmagá-lo; não conseguiram, mas viram seus poderes e responsabilidades bastante diminuídos.

Parker fez uma pausa para limpar o cachimbo, jogando as cinzas no chão.

— Os oponentes do Atlas são homens inteligentes, bem informados, e suas justificativas para opor-se são até louváveis. Eu mesmo simpatizo com elas, apesar de minha posição. Ao se criar uma força de ataque como o Atlas, com enormes poderes concentrados nas mãos de uma única pessoa ou de uma pequena elite, pode-se muito bem estar criando um Frankenstein, um monstro mais ameaçador do que aquele que se tenta destruir.

— Depende de quem controla essa força, doutor Parker. Acredito que o programa conta com o homem certo.

— Obrigado, Peter. Mas, por favor, me chame de Kingston.

— Está bem...

— O Atlas teve alguns sucessos espetaculares, em Joanesburgo e agora na Irlanda, mas isso o torna mais perigoso, na medida em que, sendo bem aceito pelo público, caso peça mais poderes,, é possível que lhe sejam concedidos. E é necessário ampliar seus poderes para que a tarefa possa ser cumprida. Estou num dilema terrível... — E mesmo assim ainda não pudemos pegar o animal mais perigoso, o grande assassino, e só o faremos se nos armarmos de todas as formas possíveis.

- Mas quem garante que não haverá abusos, que a força não superará o domínio da lei?

- As coisas mudaram. A lei tornou-se impotente em face daqueles que não a respeitam.

- Há um outro aspecto, Peter, no qual venho pensando anos e anos a fio. É a questão das leis injustas, que perpetuam a opressão. O que dizer de uma lei que segrega e coage um homem pela cor do seu rosto e pelo deus que ele cultua? E se um parlamento viciado porém constitucional faz leis racistas, ou se a Assembleia Geral da OlNU declara que o sionismo é uma forma de imperialismo e o coloca fora-da-lei? O que acontece se um punhado de homens assume o controle dos recursos mundiais e legalmente manipula-os de forma a ditar suas ambições pessoais em detrimento de toda a humanidade, como a OPEP e o rei da Arábia Saudita... — Kingston Parker fez um gesto de desalento. — Devemos respeitar essas leis? O respeito à lei, mesmo à lei injusta, é sagrado, intocável?

— O equilíbrio é a chave de tudo — disse Peter. — Deve haver um equilíbrio entre a lei e a força.

— Sim, mas o que é o equilíbrio? Pedimos maiores poderes para o Atlas, iam uso mais amplo de suas atribuições, e acho que seremos atendidos. Então, precisaremos de bons homens — declarou Kingston Parker, apoiando a mão no ombro de Peter. — Homens justos, capazes de reconhecer quando o exercício da lei está sendo falho ou injusto, e que tenham a coragem e a visão para agir no sentido de restaurar o equilíbrio que você falou... Acredito que você é um desses homens. — Baixando a mão, ele mudou de tom. — Providenciei um encontro nosso com o coronel Noble, amanhã. Ele esteve ocupado com o exame do material da operação irlandesa, e espero que tenha alguma novidade. Talvez haja muito mais coisas para discutir. Às duas da tarde no Comando Thor, está bem, Peter?

— Combinado.

— Vamos voltar para a casa.

— Espere um pouco. Tenho algo para lhe falar. E depois que me ouvir, talvez você mude de opinião sobre meu papel no Atlas.

— De que se trata?

— Você sabe que as pessoas que sequestraram minha filha não fizeram exigências para sua libertação, nem tentaram entrar em contato comigo...

— Exatamente. É um dos quebra-cabeças da história.

— Pois não é verdade. Houve um contato e uma exigência.

— Como assim? — Parker franziu as sobrancelhas, intrigado.

— Os sequestradores fizeram um contato comigo. Uma carta que destruí...

— Por quê?

— Já lhe explico... Fizeram-me uma única exigência para a libertação de Melissa-Jane. Se eu não os atendesse no prazo de duas semanas, eles me mandariam as partes do corpo da minha filha; as mãos, os pés, e finalmente a cabeça.

— Diabólico — sussurrou Parker. — Desumano. Qual era a exigência?

— Uma vida por outra... Eu deveria matá-lo em troca de Melissa-Jane.

— A mim? Eles queriam a mim? — Parker sacudiu a cabeça, incrédulo. Depois continuou: — Isso muda tudo. Preciso pensar com calma, mas isso certamente modifica todo o cenário... Então eles queriam a cabeça do Atlas. Por quê? Por que defendo a ampliação do programa e eles se opõem? Não! Não é isso. Para mim, só há uma explicação. Lembra-se de que lhe falei que suspeitava da existência de uma figura central, que estaria unificando todas as organizações militantes numa única entidade coesa e formidável? Pois bem, descobri muitas coisas que confirmam essa suspeita. Acredito que essa pessoa, ou conjunto de pessoas, realmente existe... Solicitei reforço para o Atlas justamente para perseguir e destruir essa organização, antes que ela provoque danos maiores... antes que consiga aterrorizar as nações do mundo e se torne uma potência mundial... — Parker fez uma pausa para reordenar seus pensamentos. Quando voltou a falar, estava mais calmo. — O que você me contou é uma prova concreta de que a organização existe e que é prioritário trabalhar para destruí-la. Quando deixei você como agente do Atlas em liberdade, acreditava que faria contato com o inimigo. Mas, sinceramente, não esperava que desse nisso. É inacreditável! Eu jamais suspeitaria; de você, Peter. Você poderia me pegar a qualquer hora; é uma das poucas pessoas que poderia. E a influência! Sua filha, as mutilações planejadas... tenho minimizado a astúcia e a crueldade do inimigo.

— Você já ouviu falar em Califa?

— Onde você ouviu essa palavra? — perguntou Parker asperamente.

— A carta dos sequestradores era assinada por Califa, e MelissaJane ouviu esse nome em uma discussão deles.

Parker fez um gesto afirmativo.

— Sim, já ouvi esse nome. Várias vezes desde que falei com você em Nova York. — Depois de dar uma baforada no cachimbo, ele completou: — Amanhã eu lhe direi como e onde, durante nosso encontro no Thor. Por hoje já tive motivo de sobra para ficar acordado o resto da noite.

Retornaram em silêncio para a casa, de onde vinham os risos alegres e descontraídos dos convidados. Antes de chegarem à varanda, Kingston Parker parou, perguntando de sopetão:

— Peter, você teria feito aquilo?

— Sim, eu teria feito.

— Como?

— Com explosivos.

— Melhor do que veneno... Mas não tão bom como uma arma. Precisamos detê-los, Peter. É um dever que extrapola qualquer outra consideração.

— O que acabo de dizer-lhe não altera nosso relacionamento? O fato de que eu seria o seu assassino não muda as coisas?

— Parece estranho, mas apenas confirma minha opinião a seu respeito. Você possui o caráter implacável do homem que precisamos, se queremos sobreviver. — Parker sorriu. — Posso acordar suando esta noite, mas isso não altera o que precisamos fazer juntos.

COLIN NOBLE, com o charuto na boca, Kingston Parker, com o cachimbo, pareciam estar competindo para saber quem mais rapidamente tornaria o ar da sala irrespirável. A sede provisória do Thor não tinha ar-condicionado, mas, apesar da poluição do tabaco, em poucos minutos Peter ficou tão envolvido na discussão que esqueceu esse detalhe.

Colin Noble estava apresentando o relatório sobre a operação irlandesa.

— A Old Manse ficou reduzida a cinzas. A polícia irlandesa colocou vinte homens para vasculhar os destroços. Pura perda de tempo! Quanto ao carro e sua proveniência... O que você acha dessa palavra, Peter? Proveniência é uma palavra clássica.

— Por favor, Colin, continue... — pediu Parker, rindo.

— O Austin foi roubado em Dublin, repintado e equipado com um maleiro novo. Não continha nada, nenhum papel, nem no porta-luvas nem no porta-malas. Foi limpo por um profissional...

— Os homens — interrompeu Parker.

— Sim, senhor. Primeiro o morto. Era Gerald OShaughnessy, também conhecido por ”Gilly”, nascido em Belfast em 1946... — Colin pegou uma pasta que estava na mesa. Tinha doze centímetros de espessura. — Querem que eu leia tudo isso? É uma história infernal. O sujeito tinha uma ficha na polícia...

— Somente aquilo que interessa ao Atlas.

— Não há evidências de como ou quando ele se envolveu com o terrorismo... Por isso vamos falar sobre o conteúdo dos seus bolsos. Seiscentas libras esterlinas, trinta e oito balas calibre 38 e documentos nos nomes de Edward e Helen Barry, forjados, belamente forjados. Enfim, nada que possa ser usado. Agora o outro homem.

Morrison, Claude Bertram Morrison, conhecido aborteiro e alcoólatra. Expulso da sociedade médica em 1969. Cobrou três mil libras para a cirurgia do dedo, metade paga antecipadamente. Mais barato do que o Blue Cross. — Colin riu, embora seus olhos estivessem escuros e brilhantes pelo ódio. — Tenho a satisfação de anunciar que ele pegará uns quinze anos de cadeia. Gilly OShaughnessy era o líder de quem ele recebia ordens; OShaughnessy por sua vez recebia ordens de alguém chamado... sim, o nome que todos ouvimos antes. Califa.

— Quero fazer uma pergunta — disse Kingston Parker. — Califa gosta de aparecer... Ele assina suas correspondências, e mesmo seus capangas mais baixos usam seu nome. Por quê?

— Eu posso responder a essa questão — afirmou Peter, levantando a cabeça. — Ele quer que saibamos que existe. Para que tenhamos contra quem dirigir nossa fúria e aversão. Quando era alguém sem nome, uma entidade sem rosto, não tão ameaçador como agora.

— Talvez você tenha razão — ponderou Parker. — Usando um nome ele está construindo uma lenda que poderá empregar mais tarde. No futuro, quando Califa disser que vai matar ou mutilar, saberemos que ele é capaz, que não haverá barganha. Ele fará exatamente o que prometer.

— Há um outro aspecto da operação irlandesa que ainda não consideramos — interrompeu Peter, com o cenho franzido. — Quem fez a denúncia telefónica e por quê?

— O que você acha, Colin?

— A questão foi discutida com a polícia, e nos deixou confusos. Tudo indica que Gilly OShaughnessy escolheu o esconderijo na Irlanda por estar familiarizado com o terreno e ter amigos lá. Foi ali que ele atuou anteriormente. Podia mover-se, desaparecer, arrumar as coisas... — Diante da expressão cética de Peter, Colin emendou: — Bem, ele contava com a mulher que alugou a Old Manse, Kate Barry, que inclusive assinou o contrato, era uma aliada. Deve haver outros, porque ele conseguiu comprar um automóvel roubado e preparado, algo difícil de fazer em Edimburgo ou Londres sem dar na vista. Peter continuava relutante.

— É... se a conexão irlandesa o ajudou...

— Vamos ao outro lado da moeda. OShaughnessy tinha inimigos, mesmo entre os antigos companheiros. Era um filho da puta implacável, com um passado sangrento. Pode ser que um desses inimigos, aquele que lhe vendeu o carro roubado, por exemplo, tenha visto uma oportunidade de marcar um ponto. A gravação da chamada foi examinada por especialistas em linguagem e também pelo computador. Nada definido. A voz foi dissimulada, provavelmente com um lenço e prendedores no nariz, porém há indícios de que quem ligou era um irlandês. Os técnicos rastrearam a ligação e descobriram que era uma chamada do exterior, quem sabe da Irlanda, embora não tenham certeza.

Peter ergueu as sobrancelhas, ainda com ar cético. Colin deu um risinho malicioso e fez um gesto largo em sua direção.

— Esse é o meu palpite. Vamos ver se você dá um melhor. Se não gosta das minhas hipóteses, é porque deve ter uma mais consistente.

— Você está sugerindo que tudo não passou de coincidência; que OShaughnessy contatou um velho inimigo, que por sua vez nos denunciou algumas horas antes do prazo para que a mão de Melissa-Jane fosse amputada. Depois as coisas aconteceram de tal forma que chegamos em Laragh no exato momento em que OShaughnessy estava dando o fora. É nisso que você quer que eu acredite?

— Algo por aí — admitiu Colin.

— Você me desculpe, mas eu não gosto de coincidências.

— Então fale! Vamos ouvir sua opinião. Peter riu.

— Para mim, Califa não trabalha na base da coincidência. Tenho a impressão de que Gilly OShaughnessy estava marcado para morrer desde o início. Desconfio que tudo fazia parte do plano.

— Deve ser interessante fazer tantas suposições — provocou Colin. — Só que não temos nenhuma evidência disso.

— Esqueça... Vamos aceitar que aconteceu da forma Como você colocou. •••”•

— Mas...

— Nada de mais, até conseguirmos alguma prova concreta...

— Bem, se você quer provas concretas, escute esta para ver...

— Espere um pouco — cortou Parker autoritariamente. — Já, já chegaremos aí. Vamos voltar atrás por um momento. Peter faloume de Califa, um nome que já conhecíamos de uma fonte totalmente diferente. Prometi esclarecer esse assunto nesta reunião, porque isso nos dará uma nova visão da história.

Parker fez uma pausa para arrumar o cachimbo, usando um dos pequenos canivetes de lâmina dobrável, com ganchos e cravos. Raspou a cavidade e jogou as cinzas no cinzeiro, antes de esquadrinhar o cachimbo da mesma forma com que um atirador checa o fuzil antes de colocar a bala. O velho parecia usar o cachimbo como um suporte de sua perfomance, assim como um mágico utiliza flores e objetos para distrair a audiência. Não era um homem para ser subestimado, pensou Peter, pela centésima vez. Kingston Parker olhou para cima e sorriu.

— Nossas notícias de Califa vieram de uma direção inesperada, ou melhor, levando-se em conta o nome, da direção mais provável: do Oriente Médio. Riad, para ser preciso. A capital da Arábia Saudita, sede do império petrolífero do rei Khalid. Nossa velha e surrada Agência Central de Informações recebeu um pedido do rei após o assassinato de um dos seus netos. Você deve lembrar-se do caso...

Peter fez que sim, com uma estranha sensação de déjà vu. Kingston Parker apenas confirmava as circunstâncias que ele e Magda Altmann haviam discutido há pouco mais pouco menos de três semanas.

— O rei e sua família têm uma posição bastante vulnerável. Há no mínimo setecentos príncipes sauditas multimilionários, que de uma forma ou de outra gozam da afeição do rei e da estrutura de poder. Seria impossível proteger adequadamente tantas vítimas em potencial. Trata-se de um alvo privilegiado, porque é uma quantidade enorme de pessoas prontas para serem agarradas. E existem centenas de assassinos que tanto podem ser pressionados como pagos para fazer o serviço. Califa parece possuir todas as informações e o dinheiro suficiente para levar isso a cabo.

— Qual foi a exigência feita a Khalid? — perguntou Peter.

— Bem, ele pediu proteção para sua família à CIA depois de ter sido comunicado da exigência por uma agência ou pessoa chamada Califa. Não sabemos qual o teor do pedido, mas é significativo que Khalid tenha declarado que não apoiaria um aumento do óleo cru na próxima reunião da OPEP; ao contrário, pressionaria para uma redução de cinco por cento no preço do barril.

— Califa deve estar pensando que foi atendido novamente...

— Tudo leva a crer que sim. E como aconteceu com suas exigências ao governo da África do Sul, tem-se a impressão de que seu objetivo final é nobre, ainda que os métodos que ele utiliza sejam não-convencionais, para dizer o mínimo.

— Para dizer do mínimo do mínimo — replicou Peter, relembrando o estado febril em que encontrara Melissa-Jane.

— Parece não haver dúvidas de que Califa existe...

— Não só existe, como cresce!

— Vivo e bem instalado numa bela casa de subúrbio — interveio Colin, acendendo um charuto. — Ele deu certo em Joanesburgo. Está dando certo em Riad. Para onde ele vai agora? Pode ser para a Federação dos Empresários da Alemanha Ocidental; para os sindicatos trabalhistas ingleses... Qualquer grupo suficientemente poderoso para afetar o destino das nações, e pequeno a ponto de ser aterrorizado individualmente.

— É esse o caminho para dirigir o destino do mundo inteiro, porque não se pode vigiar todas as pessoas que tomam decisões — acrescentou Peter. — E não há como argumentar contra porque os dois primeiros alvos foram a África do Sul e o monopólio do petróleo, de modo que os resultados a longo prazo seriam benéficos para a humanidade. Seu alvo final certamente será o processo democrático em si mesmo. Para mim, Califa vê a si próprio como um deus, como um tirano paternalista cujo objetivo é curar as doenças do mundo com uma cirurgia radical e manter a saúde por ilimitados exercícios de força e medo.

Nervoso demais para permanecer sentado, Peter levantou-se e foi até a janela, parando ali numa postura militar, calcanhares juntos e mãos cruzadas nas costas. A paisagem era insípida: uma cerca alta de arame farpado, parte do campo de pouso e do muro do hangar mais próximo. Uma sentinela do Thor caminhava na frente dos portões usando um capacete branco com a sigla MP. Peter observava-o sem o menor interesse enquanto, atrás dele, os dois homens à mesa trocavam um olhar significativo. Colin Noble foi quem quebrou o silêncio.

— Muito bem, Peter. Momentos atrás você me pedia evidências. Vou lhe dar algumas. Primeiro. Durante o período em que Gilly OShaughnessy manteve Melissa-Jane em Laragh, foram feitas duas chamadas telefónicas de Old Manse. Ambas internacionais, e ficaram registradas na central telefónica local. A primeira ligação ocorreu às sete da noite no dia primeiro deste mês. Teoricamente, o dia em que ele chegou ao esconderijo. Era uma espécie de ”Está tudo bem” ao gerente de cima. A segunda chamada ocorreu sete dias mais tarde, também às sete em ponto do horário local. Para o mesmo número. Temos de supor que era outro relatório do tipo ”Tudo continua bem”. Ambas as chamadas tiveram menos de um minuto de duração. Apenas o suficiente para passar uma mensagem em código pré-combinada. — Depois de uma pausa, Colin continuou: — Essas chamadas foram dirigidas para um número francês. Rambouillet 47-8747.

Peter sentiu um frio no estômago. Ele discara para aquele telefone tantas vezes que os números estavam gravados em sua memória.

— Não! Eu não acredito nisso!

— Pois é verdade, Peter — disse Parker num tom educado.

Enquanto Peter voltava para sua cadeira, com as pernas trémulas como se fossem de borracha, a sala permanecia no mais completo silêncio. Nenhum dos seus dois interlocutores dirigiu-lhe o olhar.

Passados alguns minutos, Kingston Parker pegou a pasta vermelha que Colin lhe passara e abriu-a sobre a superfície da mesa. Folheou rapidamente os papéis. Ele era adepto da leitura dinâmica e capaz de assimilar uma página batida em espaço dois com um simples olhar. Agora, porém, estava apenas esperando que Peter se recuperasse do choque. Ele conhecia o conteúdo da pasta quase de cor.

Acomodado na cadeira de estrutura metálica com assento de madeira, Peter tinha os olhos fixos no mural da parede onde se colocavam os avisos do Thor. Não conseguia livrar-se da sensação de derrota. O alcance da traição que sofrera ultrapassava qualquer expectativa pessimista. E pensar que nos últimos dias não lhe saíra da cabeça a imagem do corpo macio, de seios pequenos, semicobertos pelos sedosos cabelos negros...

Dali a pouco, Kingston Parker reconheceu que chegara o momento de pôr as cartas na mesa. Virou a pasta na direção dele. A capa informava que o material ali contido era considerado estritamente sigiloso pelo Comando Atlas. E tinha o seguinte título:

ALTMANN, MAGDA IRENE. Nascida KUTCHINSKY.

Peter não sabia que o segundo nome dela era Irene. Magda Irene... Dois nomes inexpressivos, não fosse pela mulher que os usava. Parker começou a falar num tom calmo e comedido: — Quando nos encontramos pela última vez, comentei que tínhamos interesse nessa senhora. Interesse que se tornou mais forte a cada nova informação que obtivemos sobre ela. Colin foi muito bem-sucedido em conseguir a cooperação das agências de informação de nossos dois países, que por sua vez foram capazes de garantir a dos franceses e, acredite se quiser, dos russos. Entre os quatro países acabamos por montar a história da mulher... — Com um suspiro de admiração, ele continuou: — Uma mulher magnífica, realmente inacreditável. Não me surpreende que seja capaz de enfeitiçar os homens que escolhe. Compreendo o seu infortúnio, Peter. Vou ser direto, talvez até grosseiro, porque não temos tempo nem espaço para fazer rodeios sobre os seus sentimentos pessoais.

Ela o colocou na posição de amante. Percebe a diferença? A baronesa Altmann arranja amantes, não o contrário. E sempre visando algum objetivo. Não tenho dúvidas de que, depois de tomar a decisão, ela faz o resto com êxito e com classe.

Peter lembrou-se da primeira vez em que tinham feito amor, quando ela se aproximara da cama dizendo sentir-se insegura... De fato, uma declaração feita com classe, com palavras escolhidas para se tornarem irresistíveis. Em seguida, a doce mentira da entrega total...

— Sabe por quê, Peter? Porque ela domina todas as técnicas da arte do amor. Poucas mulheres no Ocidente sabem como entender um homem, e então agradá-lo. As técnicas da baronesa não foram aprendidas em Paris, Londres ou Nova York... Bem, tudo isso pode ser puro blablablá, meros boatos. Você, que está numa posição melhor, quer esclarecer o quanto há de falso nisso?

A máxima habilidade para agradar um homem consiste em alimentar as crenças que ele tem em si mesmo, pensou Peter, enquanto respondia ao olhar inquisitivo de Parker com uma expressão neutra. Com Magda Altmann, ele se sentia como um gigante, capaz de tudo. Ela conseguia isso apenas com uma palavra, um sorriso, um presente, um toque.

— Continue, por favor, Kingston. — Por fora, Peter parecia completamente sob controle, a mão direita apoiada na mesa, com os dedos meio abertos, relaxados.

— Desde criança ela demonstrava talentos especiais. Em línguas, matemática, um dos hobbies de seu pai, xadrez e outros jogos. Ela atraía a atenção. Sobretudo porque seu pai era membro do Partido Comunista... Queira me desculpar, Peter, mas não tínhamos essa informação em nosso último encontro. Soubemos através dos franceses, que têm acesso aos arquivos do partido em Paris, e foi confirmado pelos próprios russos. A garota costumava acompanhar o pai às reuniões do partido, mostrando consciência política e entendimento precoces. A maior parte dos amigos do seu pai era membro do partido. Ainda existe mistério em torno da morte do velho professor. Nem os franceses nem os russos têm dados conclusivos. De qualquer forma, depois de sua morte, Magda Kutchinsky foi cuidada por esses amigos. Parece que passou por várias famílias nesse período.

Kingston Parker tirou uma fotografia de um envelope cor de mármore e estendeu-a para Peter. Pouco maior que um cartão-postal, a foto mostrava uma garota magra, de short curto e meias escuras, usando um colar amarelo e um chapéu de palha típico dos escolares franceses, embaixo do qual apareciam duas tranças pequenas, amarradas com fitas. Ela sustentava um cachorrinho branco nos braços, tendo ao fundo uma vista parisiense de verão, com um grupo de homens jogando bola e algumas nogueiras cheias de folhas. A garota tinha traços delicados, olhos grandes e bonitos, talvez muito perspicazes para alguém da sua idade, mas mesmo assim com o toque inocente da infância.

— Você pode ver que ela já tinha todas as marcas de uma beleza espetacular — resmungou Kingston Parker, estendendo a mão para pegar a fotografia. Num gesto instintivo, que refletia seu desejo de ficar com a foto, Peter apertou-a entre os dedos por alguns segundos, antes de devolvê-la. — Sim, a menina despertava o interesse de muita gente. Tanto que apareceu um tio que lhe escreveu mandando fotos dos pais que ela não conhecia, contando anedotas de sua infância e da juventude do seu pai. A criança ficou encantada. Ela nem sabia da existência desse tio, e muito menos que ainda podia contar com uma família. Após algumas cartas cheias de afeição, tudo se arrumou. O tio foi buscá-la pessoalmente, levando-a de volta à Polónia.

— Isso explica os anos que faltavam... — murmurou Peter, num tom afirmativo, quando sua intenção era fazer uma pergunta. — Aposto como vocês conseguiram esses dados com os russos. O que acho estranho é que eles tenham passado informações tão valiosas, com tanta facilidade.

— Eles tinham boas razões neste caso. Algo que só descobrimos ao esclarecer os detalhes da história.

— E então?

— A garota voltou com o tio para Varsóvia. E ocorreu uma estranha reunião de família. Não sabemos se de sua própria família ou de uma outra arranjada para a ocasião. De qualquer forma, o tio anunciou que se ela se submetesse a um exame, teria chance de ganhar uma bolsa de estudos em um colégio de elite na União Soviética. Parece que ela passou no exame com excelente aproveitamento e seus novos tutores se congratularam com sua descoberta... O colégio fica às margens do mar Negro, próximo a Odessa. Não tem o nome nem a tradição de uma velha escola. Mas a seleção é rigorosa e somente os mais brilhantes e talentosos obtêm matrícula. Ali eles aprendem que fazem parte de uma elite e recebem instrução específica, segundo suas próprias aptidões. No caso de Magda, línguas e política, finanças e matemática. Aos dezessete anos ela graduou-se com louvor. E então recebeu treinamento em técnicas especiais de memorização; sua mente privilegiada ficou afiada como uma navalha. Sabemos que um dos exercícios era ver uma lista de uma centena de itens diversos por sessenta segundos. A lista devia ser repetida de memória, na ordem correta, vinte e quatro horas depois. — Parker balançou a cabeça fazendo um gesto de admiração. — Ao mesmo tempo ela foi educada para comportarse adequadamente nos estratos superiores do jet-set internacional. Trajes, hábitos alimentares, bebidas, cosméticos, maneiras, música popular e literatura, cinema, teatro, política, procedimentos comerciais, operações de suprimentos, mercado de bens, assim como habilidades mundanas de uma secretária, dança moderna, a arte do amor e de satisfazer os homens; isto e muito mais, tudo ensinado por especialistas; voar, esquiar, manejar armas, os rudimentos de engenharia eletrônica e mecânica e outras habilidades que um agente de primeira linha deve conhecer. Ela foi a estrela do curso e emergiu dele com as características da mulher que você conheceu. Inteligente, perspicaz, motivada... e mortal. Aos dezenove anos ela sabia mais, era mais capaz que a maior parte dos homens ou mulheres com o dobro da idade. A agente perfeita, exceto por um pequeno deslize, que só apareceu mais tarde. Ela era inteligente demais e ambiciosa na mesma medida. — Kingston Parker sorriu pela primeira vez em vinte minutos. — Isso certamente é um sinónimo de cobiça. Coisa que os tutores não detectaram nela, porque talvez estivesse latente. Afinal, ela não fora exposta diretamente às atrações da riqueza, nem do poder ilimitado.

Parker fez uma longa pausa, como se estivesse meditando sobre alguma verdade profunda que fosse revelar. Em seguida, baixou a voz e comentou:

— A cobiça da riqueza, isolada, é típica de mentalidades estreitas. Somente uma inteligência superior aspira pelo poder...

Peter fez menção de protestar, mas ele continuou:

— Calma, não estou falando do poder limitado ao controle do ambiente de cada um, o simples poder de vida e morte sobre algumas milhares de pessoas; estou me referindo ao poder que muda o destino das nações, o poder de César e Napoleão, o poder do presidente dos Estados Unidos. Essa sim, é uma grande cobiça. Uma magnífica e nobre ambição. Bem, me desculpe pela divagação... Que tal se tomarmos um café agora?

O coronel Colin Noble apressou-se em ir até a cafeteira elétrica a um dos cantos da sala. Aproveitando aquele momento de descontração, Peter reviu mentalmente tudo o que acabara de ouvir, procurando os pontos frágeis da história. Não havia nenhum. Por outro lado, lembrava-se dos beijos daquela mulher, do toque de suas mãos, de seu corpo maravilhoso. Sentia uma pontada de dor no peito e na virilha enquanto se dava conta de que fora acossado como um cervo ferido, espicaçado até o mais fundo de seu ser. Será que aquelas habilidades poderiam ser ensinadas? E por quem? Visualizou a sala de aula localizada nas colinas próximas ao mar Negro, onde o corpo esguio e meigo realizava as tarefas, aprendendo a amar como se estivesse numa aula de culinária ou de manuseio de armas.

Kingston Parker pegou sua xícara de café e mexeu o açúcar enquanto dizia:

— Quando ela chegou a Paris, a cidade caiu a seus pés. Foi um grande sucesso. — E tirou da pasta uma série de fotos: Magda dançando no palco do Elysée Palace; saindo de uma limusine RollsRoyce ao lado do MaxinVs da Rue Royale; esquiando, cavalgando, bela, sorridente, sempre ao lado de homens ricos, elegantes, de ótima aparência. — Da outra vez eu tinha falado sobre oito ligações sexuais. — Kingston Parker usou novamente aquela irritante expressão. — Fomos obrigados a rever essa cifra. O interesse dos franceses nessas coisas elevou a lista. Olhe aqui as fotos: Pierre Hammond, ministro da Defesa. Mark Vicent, chefe da missão do consulado americano...

— Sim — cortou Peter, com uma fascinação doentia ao ver os rostos daqueles homens. Na verdade, ele os havia imaginado antes.

— Seus tutores devem ter ficado radiantes, como você pode imaginar. Com um agente masculino, às vezes se necessita esperar uma década ou mais até que ele consolide seus contatos do sistema. Mas uma jovem bonita tem seu valor redobrado quando esses acessos são facilitados. Magda Kutchinsky apresentou resultados imediatos. Não conhecemos a extensão exata de suas contribuições, talvez os russos não tenham contado tudo, mas acredito que foi por essa época que se deram conta de seu verdadeiro potencial. Ela possuía o toque mágico, embora sua beleza e juventude não fossem durar para sempre. — Kingston Parker deixou a xícara de lado antes de prosseguir: — Não sabemos se Aaron Altmann foi uma escolha consciente dos seus tutores. Parece que sim. Afinal de contas, era um dos homens mais ricos e poderosos da Europa Ocidental, aquele que controlava a maior parte da produção de aço e equipamentos pesados, um complexo de armamentos, eletrônica e uma série de indústrias secundárias. Viúvo, sem filhos, e, pelas leis francesas, sua mulher poderia herdar todos os bens. Travava uma batalha perdida contra o câncer, era sionista e um dos mais confiáveis e influentes membros do Mossad. Um achado, um verdadeiro achado... Imagine alguém capaz de solapar um homem desses, alguém capaz de dobrá-lo. Seria um sonho irrealizável! Nem a mais bela sereia da História esperaria dobrar um homem como Aaron Altmann. Ele tinha a força e a coragem de um leão, até que o câncer o consumiu. Alguém, seja o diretor da NKVD em Moscou, ou o controlador de Magda Kutchinsky na embaixada russa em Paris, que era, casualmente, o comissário-chefe da NKVD para a Europa Ocidental, ou a própria Magda, apanhou Aaron Altmann. Em dois anos tornou-se indispensável a ele. Mas era suficientemente sagaz para não usar seu charme sexual... ainda. Altmann poderia ter a mulher que quisesse, como sempre teve. Aliás, por causa de seu furor sexual foi que ficou impossibilitado de ter filhos. Cometeu um deslize na juventude, que resultou numa doença venérea que, apesar de ter sido curada, deixou um dano irreversível. Por isso ele nunca conseguiu um herdeiro. Era um homem que teria se divertido com ela e a descartado assim que se cansasse, caso Magda fosse imatura a ponto de ceder logo no início. Antes, ela ganhou seu respeito e admiração. Com certeza era a primeira mulher cuja força e a determinação emparelhavam-se com a sua... Kingston Parker selecionou outra fotografia, que passou através da mesa para Peter. Retratava, em preto e branco, um homem forte, com uma expressão dura e confiante. Como muitos conquistadores incorrigíveis, era calvo, com exceção das têmporas. Os olhos e a boca, embora sóbrios, pareciam facilmente vulneráveis ao riso. ”O retrato do Poder”, pensou Peter.

— Quando, afinal, Magda tornou-se disponível para ele, deve ter sido uma verdadeira descarga elétrica — continuou Kingston Parker, sem disfarçar uma certa fascinação pelo passado amoroso da baronesa. — Esse homem e essa mulher tinham tudo para combinar. Duas pessoas realmente superiores, únicos talvez entre cem milhões. E curioso especular sobre o que seria um filho desse casal. — Deu um risinho. — Provavelmente teria sido um idiota mongolóide. A vida é assim!

Peter mostrou-se irritado com aquele comentário, porém Parker logo modificou a ênfase de seu relato.

— Com o casamento dos dois, a NKVD infiltrou-se no centro da indústria ocidental. A Narmco, o complexo de armamentos de Altmann, era quem fabricava mísseis altamente secretos para os americanos, britânicos e franceses da OTAN. A baronesa fazia parte da diretoria, de fato era presidente adjunto da empresa. Cópias dos armamentos devem ter sido passadas, não por folhas de papel, mas por carregamento de caminhões! Todas as noites, os líderes e homens de decisão do mundo ocidental sentavam-se à mesa da baronesa e bebiam de seu champanhe. Cada conversa, cada nuance e indiscrição era gravada por sua memória excepcional. E, à medida que o barão definhava, mais e mais confiava nela. Não sabemos com precisão quando lhe confidenciou sobre suas atividades no Mossad; porém, quando isso aconteceu, os russos viram seus esforços compensados. Pois, de fato, haviam dobrado o barão Aaron Altmann, controlavam seu braço direito e seu coração, uma vez que ele estava prisioneiro dos encantos da mulher. Eles esperavam herdar boa parte da indústria pesada da Europa Ocidental. Tudo caminhava as mil maravilhas, até que uma falha no caráter da baronesa veio à superfície. Imagino a surpresa dos russos quando detectaram os primeiros sinais de que Magda Altmann estava trabalhando apenas para si mesma. Ela era muito mais brilhante do que qualquer pessoa que a controlasse por essa época, e tinha experimentado o sabor do poder. Deve ter sido colossal a luta entre os desejos dos patrões fantoches e a bonita marionete que de repente adquire vida e ambição próprias. O que ela pretendia era apenas ser a mais rica e poderosa mulher desde Catarina da Rússia. Todos os predicados estavam ao alcance de suas belas mãos, exceto...

Como um animador de auditório, Kingston Parker sabia exatamente onde parar a narrativa para criar suspense em sua audiência. Serviu-se de outra xícara de café, no que foi acompanhado por Colin e Peter. Bebericou um gole, para só então continuar:

— Havia um problema com seus patrões russos. Eles ameaçavam expô-la. Seria um golpe perfeito. Um homem como Aaron Altmann agiria como um touro bravio se descobrisse que fora enganado. Com toda certeza se livraria dela imediatamente. O divórcio é difícil na França, mas não para alguém importante como o barão. Sem a proteção dele, Magda perderia todo o seu valor. E sem o império Altmann, seus sonhos de poder desapareceriam como uma baforada de fumaça. Era uma séria ameaça para qualquer pessoa; só que eles não estavam lidando com uma pessoa comum.

Parker fez uma pausa, desta vez para dirigir-se especificamente a Peter, com um sorriso matreiro nos lábios.

— Acho que já falei demais. Vou lhe dar uma chance agora, Peter. Você a conhece um pouco, e ouviu bastante sobre ela nessa última hora. Você é capaz de adivinhar o que ela fez?

Peter fez menção de negar, quando de repente uma ideia inquietante assomou-lhe à mente. Seus olhos se arregalaram enquanto fitavam Parker.

— Desconfio que você adivinhou. Tudo indica que àquela altura ela já estivesse totalmente impaciente. O barão estava demorando para morrer.

— Meu Deus, que coisa horrível! — exclamou Peter.

— Apenas de certa forma... Se você olhar o caso como uma partida de xadrez, e considerar que ela é uma jogadora ao nível de um grande mestre, foi um golpe brilhante. Ela providenciou tudo para que o barão fosse sequestrado. Existem testemunhas que afirmam que ela insistiu para que ele a acompanhasse naquele dia. Ele se sentia mal, não queria ir navegar, porém ela o convenceu de que o sol e o ar fresco lhe fariam bem. Ele nunca levava os guardacostas quando saía para navegar. Estavam apenas os dois. Uma lancha veloz espreitava-os da margem. Você conhece os detalhes?

— Não.

— A lancha abordou o iate, os homens pegaram o barão e o levaram consigo, deixando a baronesa. Uma hora depois a guarda costeira recebia uma mensagem de rádio. Foram até o iate e a encontraram estendida no convés. Os sequestradores tomaram todas as medidas para que ela sobrevivesse.

— Eles precisavam de uma esposa aflita com quem barganhar — sugeriu Peter.

— Claro, e ela fez o jogo da mulher desesperada com toda a perfeição. Quando chegou o pedido de resgate, ela forçou a diretoria das Indústrias Altmann a fornecer os vinte e cinco milhões de dólares. Ela levou o dinheiro pessoalmente... sozinha.

— Ela não necessitava do dinheiro.

— Ora, claro que precisava! O barão não estava caduco. Suas mãos continuavam firmes nas rédeas e na chave do cofre. Magda tinha mais do que o suficiente para viver bem: casacos de pele, jóias, empregados, roupas, carros, barcos, e dinheiro vivo, cerca de duzentos mil dólares anuais, que recebia como salário das Indústrias Altmann. Uma esposa qualquer estaria muito contente, porém não era o caso. Há indícios de que ela já pretendia realizar seus planos de poder, e isso exigia dinheiro, não milhares, mas milhões. Vinte e cinco milhões seria um bom começo antes que pudesse pôr as mãos no grande bolo. Ela levou o dinheiro, em notas de mil francos suíços, sozinha, até um campo de pouso abandonado, onde apareceu um avião que o carregou para a Suíça. Um serviço muito bem feito.

— Mas... mas o barão foi mutilado. Ela não poderia...

— Morto é morto, a mutilação pode ter servido para algum propósito obscuro. Não se esqueça de que estamos tratando com uma mente oriental, sanguinária, corrompida; outra hipótese seria a de afastar qualquer suspeita contra ela, justamente como você fez agora para protegê-la.

Peter não tinha o que objetar. A mente capaz de planejar aquele crime hediondo não tropeçaria em minúcias da execução.

— Bem, vamos recapitular suas conquistas nesse estágio. Livrara-se do barão e das restrições que ele lhe fazia. Um exemplo dessas restrições, que mais tarde serão significativas, era sua forte oposição a que a Narmco vendesse armamentos ao governo sul-africano. O barão, como todo homem de negócios, via o país como um mercado lucrativo. Além de que, os sul-africanos simpatizavam com o sionismo. Ele desprezou os argumentos dela e continuou a fornecer aviões, mísseis e armamentos leves ao país, até que uma resolução da ONU determinou o embargo total de armas, com a ratificação da França. Lembre-se da atitude anti-África do Sul da baronesa. Voltaremos a isso mais tarde. Assim, ela estava livre do barão, livre do controle russo e podendo manter um pequeno exército para proteger-se. Até seus antigos patrões russos hesitariam numa vingança contra ela. Era uma das mais importantes personalidades francesas. Tinha guardado um significativo capital de giro,

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vinte e cinco milhões, dos quais não precisaria prestar contas a niguém. E conquistara uma sólida posição de poder nas Indústrias Altmann. Embora ainda sofresse certas restrições do restante da diretoria, já tinha acesso aos serviços de coleta de informações, para usar em benefício próprio. Gozava do respeito e da simpatia do governo francês e, como um benefício adicional, um limitado porém importante acesso ao serviço de informação oficial. E havia também a conexão com o Mossad, por sua posição de herdeira de Aaron Altmann...

Peter lembrou-se de Magda falando sobre suas ”fontes” sem jamais identificá-las. Ela seria capaz de usar os serviços secretos da França e de Israel para seus interesses particulares? Parecia impossível. Só que, quando se tratava de Magda Altmann, não havia limites para a imaginação. Realmente, não era uma pessoa comum...

— Veio então o período de consolidação — continuou Parker. — O tempo em que ela segurou as rédeas que a morte de Aaron deixara soltas. Houve uma série de mudanças no comando das Indústrias Altmann, com a substituição de todos aqueles que poderiam opor-se a ela. Depois de colocar o império nos eixos, surgiu sua primeira tentativa de governar e prescrever o destino das nações. Ela escolheu o país que mais contrariava o modelo do novo mundo que estava querendo construir. Mas não descobrimos o que a fez adotar o nome de Califa...

— Você deve estar errado — murmurou Peter, apertando os olhos com o polegar e o indicador. — Você não a conhece.

— Não acho que alguém a conheça realmente, Peter. Talvez a gente tenha avançado demais. Quer voltar atrás e fazer alguma pergunta?

— Não, está tudo bem. Continue.

— Uma das lições mais importantes que a baronesa Altmann aprendeu foi quanto à facilidade com que a força e a violência podem ser usadas, e seu tremendo efeito e rentabilidade. Com essa lição na memória, fez seu ato de estreia como dirigente da raça humana, numa escolha ditada por convicções políticas anteriores, adquiridas do pai e das reuniões do Partido Comunista que freqüentava como uma garota precoce em Paris. Há quem pense que essa escolha foi reforçada pelos interesses da corporação bancária de Altmann na venda de ouro da África do Sul. Mas a essa altura a baronesa já tinha temperado suas inclinações socialistas e comunistas com uma grande quantidade de riqueza capitalista. Podemos apenas supor que, se o propósito de conseguir quarenta toneladas de ouro e formar uma espécie de governo clandestino no exílio tivesse tido sucesso, não levaria muito tempo para Califa assumir o controle tanto do governo como do ouro. — Após uma pequena pausa, Parker retomou a palavra. — Se não podemos avaliar exatamente a grandiosidade desses planos, podemos afirmar que Califa, ou a baronesa, recrutou a equipe para executá-lo com a habilidade que sempre demonstra em tudo o que faz. Todos nós nos lembramos bem da tomada do voo 070; não preciso entrar em detalhes. Quero só frisar que o plano de fato tinha dado certo, até que Peter tomou uma iniciativa intempestiva que acabou com tudo. Mas tinha dado certo, e isso era o mais importante. Califa poderia até festejar o fato. Suas informações foram impecáveis, ela escolhera as pessoas certas para o trabalho e sabia inclusive o nome do oficial que comandaria a força antiterrorista que seria enviada para intervir. Sua análise psicológica também funcionou sem nenhuma falha. A execução dos quatro reféns chocou e entorpeceu de tal forma os adversários da capitulação, que eles ficaram impotentes. A taça foi arrancada de seus lábios por um único homem. Inevitavelmente, seu interesse por esse homem foi despertado. Ela reconheceu nele qualidades que poderiam ser voltadas para seus propósitos. Porque ela possui a capacidade de descobrir o material para a vitória futura, até mesmo na poeira do desastre...

Parker mudou de posição na cadeira, depois encheu outra vez o cachimbo. Tirou uma baforada e então voltou à carga:

— Espero não ser imodesto ao me incluir agora na história. Eu suspeitava que alguma coisa chamada Califa existia. De fato, o sequestro do 070 talvez não tenha sido seu primeiro ato após o assassinato de Aaron Altmann. Dois outros sequestros bem-sucedidos tiveram o mesmo estilo; um dos quais, envolvendo os membros da OPEP em Viena. Fui advertido e fiquei esperando que Califa aparecesse à superfície. Eu teria adorado a oportunidade de interrogar uma das sequestradoras...

— Elas não teriam nada para dizer — interrompeu Peter bruscamente. — Eram meros joguetes, como o médico que capturamos na Irlanda.

— Talvez você esteja certo, Peter. Mas naquela época acreditei que nosso único fio condutor para Califa tinha sido cortado. Mais tarde, quando a coisa estava feita e me recuperei do choque, ocorreume que o fio condutor continuava lá, mais forte do que nunca. Era você o fio condutor, Peter. Por isso recomendei que sua renúncia fosse aceita. Se você não tivesse renunciado, eu o teria forçado de qualquer forma. Mas você se comportou esplendidamente renunciando... Eu nunca tive oportunidade de agradecer-lhe por isso.

— Não toque mais nesse assunto. Gosto de estar a serviço.

— E você está. Quase imediatamente depois que você entrou em ”folga”, a baronesa começou a aproximação. Primeiro coletou todos os fatos conhecidos a seu respeito. Não se sabe como, colocou até um computador para trabalhar sobre você. Isso é fato. Uma pesquisa não-autorizada foi feita na memória do computador da CIA quatro dias após sua renúncia. Ela deve ter gostado do que conseguiu, pois em seguida a Narmco lhe fez uma oferta, pelos canais convencionais. Sua recusa deve ter aumentado o interesse da baronesa, que usou suas influências para ser convidada para o encontro na casa de campo de sir Steven. — Parker deu um risinho. — Pobre Peter, você estava desprevenido nas garras de uma das conquistadoras mais perigosas da História. Pelo que sei sobre a figura, sua aproximação de você foi cuidadosamente estudada pelas informações que tinha a seu respeito. Ela sabia inclusive que tipo de mulher o atraía. Por sorte, ela preenchia os requisitos físicos.

— O quê? Como assim? — perguntou Peter, surpreso.

— Alta, esguia e morena. Pense nisso. Todas as suas mulheres foram assim.

Peter, que nunca se dera ao trabalho de pensar em qual era seu tipo preferido, foi obrigado a reconhecer a verdade no que acabara de ouvir.

Você é um filho da mãe de sangue frio, Kingston. Alguém já lhe disse isso?

— Frequentemente. Mas, comparado com a baronesa Altmann, eu sou um Papai Noel. Ela queria descobrir o que nós do Atlas sabíamos a seu respeito. Devia estar ciente de que suspeitávamos dela e, através de você, conseguiu uma infiltração. Evidentemente seu valor cairia com rapidez à medida que você se desgastasse com o Thor, mas ainda assim poderia ser usado de diferentes formas, inclusive facilitando negócios para a Narmco. Todas as suas expectativas foram preenchidas e excedidas. Você chegou até a impedir uma tentativa de assassinato dela...

— Não quer me explicar isso? — indagou Peter, curioso.

— A caminho de Rambouillet, naquela noite. Trata-se de uma suposição, é claro, mas muito bem fundamentada. Os russos estavam ansiosos por revanche. Eles também suspeitavam de seu papel de Califa. E optaram pelo extermínio sumário de sua ex-agente. Ou financiaram ou organizaram a tentativa de assassinato, ou no mínimo avisaram o Mossad que ela era responsável pela morte de Aaron Altmann. Tendo a acreditar que eles próprios contrataram os assassinos, porque a Mossad normalmente faz sozinha esse tipo de trabalho. De qualquer forma, alguém montou uma cilada no caminho de Rambouillet e você caiu nela. Sei que você não gosta de coincidências, mas acho que foi mera coincidência você estar dirigindo o carro da baronesa naquela noite.

— Está bem — murmurou Peter. — Se eu engolir o resto do sapo, esses pequenos farelos descem goela abaixo facilmente.

— O atentado alarmou a baronesa. Ela não sabia ao certo quem era o autor. Deve ter pensado que foi o Atlas, ou que no mínimo tínhamos algo a ver com isso. Pouco depois, você acabou confirmando-lhe nosso interesse nela, e nosso conhecimento de que Califa existia. Na volta de sua viagem aos Estados Unidos, você contou-lhe o caso, de certa forma respaldando as desconfianças dela em relação ao Atlas e Kingston Parker. É outra suposição, mas até que ponto estou próximo, Peter? Seja honesto.

Peter encarou-o, tentando manter o rosto sem expressão. Porém nada disse.

— Todos nós estamos caçando Califa. Você não viu nenhuma deslealdade em discutir o assunto com ela — sugeriu Parker delicadamente. — Você acreditava que tínhamos objetivos comuns. Pensava que todos estávamos caçando Califa, não é verdade?

— Ela soube que eu estive nos Estados Unidos para vê-lo antes que eu lhe dissesse. Não sei como, mas sabia — declarou Peter, sentindo-se um traidor.

— Entendo. — Parker deu a volta na mesa e pôs a mão no ombro dele, enquanto o olhava nos olhos, numa demonstração de confiança. — Ela sabia quem era o caçador, e tinha informações suficientes sobre mim para me considerar perigoso. Você devia ser o único homem no mundo capaz de ter acesso a mim e fazer o serviço; porém, precisava ser motivado. Ela descobriu a forma de motivá-lo. Pegou o alvo infalível, do mesmo modo como fez todas as outras coisas. De um só golpe ela teria eliminado o caçador e conseguido um assassino de alta classe. Depois de fazer o serviço, você pertenceria a Califa para sempre. Seria usado para matar mais e mais, e cada vez que eliminasse alguém, estaria mais enroscado na rede. Você era um prémio muito valioso, Peter. Tão valioso que ela não hesitou em usar seus estratagemas sexuais sobre você. — Percebendo que os músculos de Peter se retesavam, ele completou: — Você é um homem atraente, e quem melhor do que ela sabe como combinar prazer com negócios? É uma mulher com apetites sexuais bem desenvolvidos.

Peter teve ímpetos de dar-lhe um soco na cara. Precisava de uma saída para sua ira. Sentia-se menosprezado, arrasado, usado.

— A baronesa sabia muito bem que o sexo seria insuficiente para forçá-lo a cometer assassinatos. Por isso pegou sua filha e mutiloua, da mesma forma que em Joanesburgo executou reféns sem hesitação. O mundo precisava aprender a temer Califa. Tanto que, se você não entregasse minha cabeça no prazo, com toda certeza ela não vacilaria em fazer a próxima mutilação, e a seguinte.

Peter foi tomado por uma onda de náusea ao lembrar-se da aterrorizante falangeta com a unha vermelha flutuando no pequeno vidro.

Fomos salvos desta por um lance de sorte. O informante irlandês. E novamente pela compreensível ânsia dos russos em colaborarem conosco. Foi a chance que tiveram de passar um problema deles para as nossas mãos. Eles nos permitiram o acesso a quase todos os dados sobre a história da baronesa.

— E o que vamos fazer com isso? — perguntou Colin Noble.

— Estamos de mãos atadas. Devemos ficar esperando pela próxima atrocidade, e por outro golpe de sorte quando Califa matar um príncipe árabe?

— É o que acontecerá, a menos que os árabes pressionem a OPEP

— declarou Parker. — A mulher converteu-se ao capitalismo agora que é dona da metade da indústria europeia. Uma redução do preço do petróleo lhe traria mais lucro que a qualquer outro indivíduo da terra; ao mesmo tempo, beneficiaria quase toda a humanidade. Reúne o útil ao agradável, porque se ajusta aos seus interesses políticos e pessoais.

— E se ela continuar desse jeito — insistiu Colin —, qual será seu próximo ato ”divino”?

— Ninguém pode adivinhar...

Naquele instante, os dois se voltaram para encarar Peter Stride, que parecia ter envelhecido anos durante a última hora de discussão. Os cantos da boca, o cenho, estavam marcados por rugas de preocupação. Somente os olhos continuavam vívidos como o de um pássaro.

— Preste atenção no que vou dizer agora, Peter. Não lhe contei tudo isso para pressioná-lo — afirmou Parker num tom calmo. — Falei apenas o que achava necessário que você soubesse; para que se proteja caso decida retornar à toca do leão. Não lhe ordeno que faça isso. Os riscos não podem ser subestimados. Se fosse outra pessoa, eu diria que era suicídio. Entretanto, agora que você está advertido, acredito que é o único homem que pode conter Califa em seu próprio reduto. Por favor, não me entenda mal. Não estou sugerindo assassinato. Aliás, eu o proíbo expressamente de tomar essa direção. Não o permitirei, e se você agir por conta própria, farei o que estiver ao meu alcance para levá-lo às barras do tribunal. O que lhe peço é que fique próximo de Califa e tente sobrepujála. Tente expô-la, de forma que possamos, legalmente, tirá-la de ação. Gostaria que você afastasse da mente todos os assuntos emocionais; os reféns de Joanesburgo, sua filha... trate de esquecê-los, Peter. Lembre-se de que não somos juizes nem carrascos.

Com os olhos semicerrados, Peter fingia estar atento às palavras de Kingston Parker, embora seus pensamentos estivessem longe, girando como um carrossel, mas sempre retornando à mesma conclusão central.

Só havia uma forma de deter Califa. A ideia de tentar levar alguém como a baronesa Altmann à justiça, num tribunal francês, era risível. Peter esforçava-se para acreditar que a vingança não influenciava suas decisões, mas conhecia-se muito bem para não se enganar a esse respeito. Sim, a vingança era parte do pensamento, mas não era tudo. Ele executara a alemã Ingrid, depois Gilly OShaughnessy, e não lamentava o ocorrido. Se fora necessário que ambos morressem, então Califa merecia morrer mil vezes mais.

E havia apenas uma pessoa que poderia fazer isso...

SUA VOZ ERA PENETRANTE, leve e cálida, e ainda com aquele fascinante sotaque. Ele se lembrava muito bem disso... Mas se esquecera do efeito que lhe causava. Seu coração batia como se tivesse acabado de fazer uma longa corrida.

— Oh, Peter. É tão bom ouvir sua voz. Estive tão preocupada! Recebeu meu telegrama?

— Não, que telegrama?

— Quando soube que você libertou Melissa-Jane, mandei-lhe um telegrama de Roma.

— Não o recebi, mas não importa.

— Enviei via Narmco, para Bruxelas.

— Provavelmente está esperando por mim lá. Não estive em contato.

— Como está ela, Peter?

— Agora está bem. — Era difícil para ele chamá-la pelo nome, ou tratá-la de alguma forma carinhosa. Esperava que a tensão não se manifestasse em sua voz. — Mas vivemos momentos de verdadeiro inferno.

— Eu sei, eu entendo. Me senti impotente. Tentei tudo, por isso fiquei fora de contato, Peter chéri, e dia após dia não havia notícias.

— Agora tudo acabou.

— Não penso assim. De onde você está telefonando?

— Londres.

— Quando você volta?

— Telefonei para Bruxelas há cerca de uma hora. A Narmco me quer de volta. Vou tomar um avião agora à tarde.

— Peter, preciso de você. Estamos longe um do outro há tanto tempo, mas, mon Dieu, tenho que estar em Viena hoje à noite. Espere um pouco. Se mando o jato apanhá-lo agora, podemos nos encontrar, nem que seja por uma hora. Você pega o último voo de Orly para Bruxelas e eu irei a Viena com o jato. Por favor, Peter. Sinto tanta falta de você. Podemos ficar uma hora juntos.

ASSIM QUE O JATO da Narmco aterrissou, um dos subgerentes do aeroporto encontrou Peter e conduziu-o para uma das salas VIP acima da plataforma principal, onde Magda Altmann o esperava. Ela vestia um blazer de fina confecção, combinando com uma blusa cinza-pólvora. Movia-se com a graça de uma dançarina, parecendo flutuar sobre o piso carpetado. Peter sentiu-se pouco à vontade com a atenção que recebia daquela encarnação do mal, que o media de alto a baixo.

— Peter! O que fizeram com você? — Seus olhos demonstravam real preocupação. Ela aproximou-se e tocou-lhe o rosto.

O horror e a tensão dos últimos dias tinham-no deixado no limite da resistência física. Sua pele exibia um tom acinzentado e doentio, contrastando com a barba escura, recente, que encobria-lhe o queixo. Novas mechas prateadas brilhavam em suas têmporas. E os olhos fundos estavam marcados por olheiras.

— Oh, querido, querido — sussurrou ela, aproximando-se para beijá-lo.

Peter preparara-se cuidadosamente para aquele encontro, compreendendo a importância de não trair em nenhum momento suas descobertas recentes. Magda jamais poderia suspeitar que ele já sabia de tudo a seu respeito. Seria assinar a própria sentença de morte. Portanto, ele devia agir com absoluta naturalidade, apagando da mente a recordação de sua filha em estado febril, e fazer de conta que nada acontecera.

Encostou a boca na de Magda, concentrando-se na maciez e no sabor adocicado de seus lábios. Disse a si mesmo que aquele corpo era bem-vindo e que ela estava derretendo-se por ele. Pensava que tinha atingido seu objetivo, quando ela desvencilhou-se levemente de seu abraço e recuou, mantendo apenas os quadris pressionados contra os dele. Magda estudou-lhe o rosto outra vez, agora talvez com maior atenção, e percebeu mudança em seus olhos. A chama desaparecia deles, deixando no lugar um brilho impiedoso, como uma cintilação em uma grande esmeralda.

Ela vira algo... não, não havia nada para ver. Apenas sentira algo nele, uma nova postura. Naturalmente, ela devia estar procurando alguma mudança. Na verdade, precisaria apenas de uma confirmação superficial, um trejeito expressivo da boca, maior prudência no olhar, a formalidade e a reserva do corpo — coisas que ele sempre se achara capaz de controlar.

— Fico tão satisfeita de ver você vestido de azul. — Magda tocou a lapela de sua jaqueta de cashmere. — Cai tão bem em você, querido!

Ele pusera aquela roupa pensando nela, isso era verdade; porém, havia alguma coisa estranha em suas maneiras, como se ela não estivesse sendo sincera, como se tentasse criar uma barreira entre os dois.

Magda conduziu-o à poltrona de couro próxima da janela. Um funcionário do aeroporto entregou-lhe um ramalhete de flores, tulipas amarelas, as primeiras florações da primavera, que ela passou para um dos secretários que a aguardavam a uma distância discreta. Depois de dispensar o rapaz e os dois guarda-costas, seus lobos cinzentos, que ficaram longe o suficiente para não ouvirem a conversa, ela murmurou:

— Conte-me o que aconteceu, Peter.

Embora ainda o observasse com atenção, ela estava amigável e ouviu com interesse seu relato detalhado do sequestro de MelissaJane. Para Peter, era fundamental contar a verdade, desde que fosse necessário; como acontecia agora, uma vez que Magda certamente sabia de tudo. Mencionou a exigência de Califa pela vida de Kingston Parker e confessou que o teria liquidado. Ela apertou os próprios braços, estremecendo.

— Meu Deus, essa peste pode corromper até o mais forte e o melhor...

Peter contou-lhe sobre a denúncia anónima, sobre a libertação de Melissa-Jane. Deu detalhes a respeito do estado da filha, do terror e do dano psicológico que a garota sofrera, sempre atento aos olhos de Magda. A certa altura percebeu um leve crispamento das sobrancelhas... Ele não esperava, é claro, sentimentos de culpa. Califa estaria muito além de uma emoção tão mundana. Mas havia algo estranho naqueles olhos, não exatamente compaixão.

— Precisei ficar com ela. Achei que seria melhor ela passar alguns dias comigo — Peter explicou.

— Foi bom você ter feito isso. — Magda olhou para seu relógio de pulso. — Puxa, temos tão pouco tempo! Vamos tomar uma taça de champanhe. Temos algo para comemorar. Pelo menos MelissaJane está viva, e ela é jovem para se recuperar por completo.

Pediram ao garçom do bar um Dom Perignon e fizeram timtim, olhando-se nos olhos.

— É tão bom ver você, Peter. — Ela era uma excelente atriz, cujo tom de voz espontâneo e inocente provocou nele um instante de admiração, que Peter tratou de eliminar pensando que poderia matá-la ali mesmo. Sequer precisaria de uma arma para isso. Poderia usar as mãos, embora estivesse com o Cobra no coldre de camurça abaixo da axila esquerda. Se a matasse, os dois guardacostas do outro lado da sala reagiriam instantaneamente. Um poderia ser liquidado; o outro com certeza o pegaria. Eram homens bem preparados, que ele mesmo escolhera. Eles o pegariam.

— É uma pena que a gente não fique junto por mais tempo — retrucou Peter, ainda sorrindo.

— Oh, chéril Eu sei, eu também lamento. — Ela tocou-lhe o braço, o primeiro contato desde o abraço. — Eu gostaria que fosse diferente. Há tantas coisas que precisamos fazer, que devemos perdoar um ao outro.

Talvez aquelas palavras tivessem um significado especial, a julgar pelo rápido lampejo em seus olhos verdes; quem sabe um pedido de desculpas? Ela bebericou o champanhe, depois deixou os cabelos encaracolados caírem sobre os olhos, protegendo-os de qualquer escrutínio.

— Espero que nunca tenhamos nada terrível para perdoar... Pela primeira vez Peter pensou no ato de matá-la. Antes, só o

imaginara como algo clínico, académico, evitando entrar em detalhes. Agora, visualizava o impacto da bala explosiva Velex naquela pele macia. Repugnado, teve dúvidas de que seria capaz de fazer aquilo.

— Sim, Peter, espero que sim. Mais que qualquer outra coisa na vida, tenho esperança nisso. — Ela brincou com as mechas que lhe caíam ao redor do rosto, os olhos fixos nos dele, implorando (perdão?). Como se ele não fosse usar o revólver, como o faria, imaginou Peter. Ou será que suportaria a sensação de ossos e cartilagens quebrando-se sob seus dedos, enquanto sustentava a lâmina em sua barriga, vendo-a lutar como um merlim luta contra o gancho encurvado do arpão?

Naquele momento, o secretário atendeu o telefone do bar, na segunda chamada.

— Oui, oui. Daccord. — E pôs o fone no gancho. — Má Baronne, o avião foi reabastecido e está pronto para partir.

— Irei imediatamente. — Então virou-se para Peter. — Desculpe.

— Quando nos veremos de novo?

Ela deu de ombros, e uma sombra perpassou por seus olhos.

— É difícil dizer agora. Não estou certa, mas lhe telefono. Estou indo, Peter. Adieu, meu querido.

Quando Magda partiu, Peter foi até uma das janelas e ficou olhando a pista do aeroporto. Era uma bonita tarde de primavera. As primeiras margaridas floresciam ao longo das margens gramadas das pistas de rolagem, como moedas de ouro espalhadas. Um bando de pássaros negros baixou ali, procurando e bicando insetos, alheios ao ruído do jato da Swissair que decolava.

Peter revia mentalmente cada segundo do encontro, tentando identificar e isolar o momento exato em que ela mudara, deixando de ser Magda Altmann e tornando-se Califa. Agora já não havia dúvidas. Será que tinha havido antes, ou elas tinham sido forçadas por seu desejo de descobri-las?

Agora ele precisava concentrar-se no atentado. Seria difícil, muito mais difícil do que imaginara. Em nenhum momento haviam ficado a sós — o tempo inteiro, os dois lobos cinzentos estiveram rondando por perto. Era mais um sinal de que ela estava alerta. Será que haveria oportunidade de um novo encontro, sem os guardacostas pelas imediações?

De repente, lembrou-se de que ela não dissera ”Au revoir, meu querido”, mas, em vez disso, ”Adieu, meu querido”. Seria algum aviso? Uma súbita insinuação de morte? Afinal, se Califa suspeitasse dele, sua reação seria imediata. Então, ela o ameaçara, ou simplesmente o descartara, como Kingston Parker advertira que ela faria?

Peter não entendeu a desolação que o invadiu ao pensar que não voltaria a vê-la, exceto pela mira telescópica de uma arma. Enquanto olhava através da janela, deu-se conta de que sua carreira e sua vida começaram a desintegrar-se após ouvir pela primeira vez o nome Califa.

Naquele instante, a voz polida do subgerente do aeroporto interrompeu seus pensamentos.

— Começou o embarque para o voo da KLM para Bruxelas, general Stride.

Peter resmungou um agradecimento e pegou o paletó e a maleta de crocodilo que ganhara de presente da mulher que deveria matar.

HAVIA UM VOLUME tal de correspondências e negócios urgentes esperando na mesa de seu escritório, que Peter teve o pretexto para deixar de lado os planos de um ataque preventivo contra Califa.

Para sua surpresa, sentiu-se absolutamente à vontade diante do vaivém incessante do mercado, um verdadeiro corpo-a-corpo em busca de vantagens, descontos, condições especiais. Era interessante ser forçado a elaborar novos argumentos contra pessoas que, por sua vez, sempre surpreendiam com lances de astúcia, de inteligência... Foi então que ele começou a entender a fascinação que aquela atividade exercia sobre seu irmão Steven.

Três dias após sua volta ao escritório, a Força Aérea iraniana fez um pedido de cento e vinte mísseis Kestrel, mais de cento e cinquenta milhões de dólares! Isso dava uma sensação agradável. Que poderia crescer e tornar-se um vício...

Até então, Peter só vira o dinheiro como uma fonte de aborrecimentos, implicando tediosas sessões com gerentes de bancos, funcionários da receita federal e congéneres. Tratava-se de um outro tipo de dinheiro. Espiando o mundo no qual Califa vivia, dava-se conta de que, depois de acostumar-se a manipular cifras fabulosas, qualquer um ficaria tentado a transformar em realidade seus sonhos de divindade.

Entendia, sim, mas não perdoava. E sete dias após seu regresso a Bruxelas, forçou-se a encarar o que realmente deveria fazer. Magda Altmann afastara-se dele; não tentara entrar em contato desde aquele rápido encontro de uma hora no aeroporto de Orly. Talvez ele devesse procurá-la. Afinal de contas, perdera a posição privilegiada no cenário dos fatos, a partir da qual a tarefa seria muito mais fácil.

Ainda haveria chance de aproximar-se o suficiente para matá-la, assim como acontecera em Orly. No entanto, oportunidades daquele tipo seriam mero suicídio. Se sobrevivesse à rápida reação dos guarda-costas, teria de enfrentar o lento porém inexorável processo legal. E neste, jamais poderia usar a história de Califa como defesa. Nenhum tribunal acreditaria. E sem o apoio do Atlas ou dos serviços secretos dos Estados Unidos ou da Inglaterra, tudo pareceria intriga entre loucos com mania de grandeza. Evidentemente, o Thor ficaria agradecido com a morte de Califa, mas não moveria uma palha em sua defesa. Claro! Dava para imaginar a indignação moral do mundo civilizado diante da possibilidade de que uma organização como o Atlas estivesse empregando assassinos para matar cidadãos proeminentes de uma nação estrangeira e aliada.

Não, ele estava completamente sozinho. Isso Parker deixara bem claro. E Peter não queria morrer. Não pretendia sacrificar sua vida para deter Califa, a menos que não tivesse escolha. Devia haver outra forma de liquidá-la. Porém, enquanto planejava sua morte, só pensava nela como Califa, jamais como Magda Altmann. Só assim conseguia distanciar-se do problema.

Ao replanejar a segurança pessoal da baronesa, Peter complicara ao máximo suas rotinas, de modo a tornar seus movimentos o mais imprevisíveis possível. Seu calendário social era guardado como um segredo de Estado; jamais se anunciava com antecipação sua presença em eventos públicos ou profissionais.

Caso ela fosse convidada para jantar no Palace Elysée, o fato seria divulgado no dia seguinte, não no dia anterior; mas havia alguns eventos anuais que ela nunca perderia. Eles tinham discutido esses pontos vulneráveis de sua segurança pessoal. ”Peter, você não vai me tornar uma prisioneira”, dissera ela na ocasião. ”Já tenho poucos prazeres e você ainda quer me tirar alguns?”

O lançamento de cada coleção Yves St. Laurent era um dos eventos que ele não podia perder; o mesmo ocorria com a corrida de cavalos da primavera, que culminava com a disputa do Grand Prix em Longchamp, sobretudo porque ela inscrevera uma égua baia, chamada Ice Leopard, que tinha boas chances de vitória.

Peter esboçou a lista dos possíveis lugares para o assassinato, mas acabou descartando todos, exceto a casa de campo em La Pierre Bénite. Com sua experiência de soldado, descobriu campos de fogo ao longo dos amplos gramados que davam para o lago; havia diversas posições para um atirador na floresta que margeava o lago, e no pequeno outeiro cercado ao norte da casa, de onde se tinha uma vista do pátio e dos estábulos. Entretanto, La Pierre Bénite era bem guarnecida e nem ali os movimentos da vítima eram previsíveis. Seria possível ficar uma semana numa emboscada enquanto ela estaria em Roma ou Nova York. Além do mais, a rota de escape era de alto risco, através de uma área de população dispersa, com apenas duas estradas de acesso, ambas facilmente blo-queáveis pela rápida ação da polícia. Não, La Pierre Bénite não podia entrar na lista.

No final Peter ficou com os dois eventos que primeiro haviam aparecido em sua mente — as arquibancadas sociais em Long-champ e as instalações de Yves St. Laurent na Avenue Victor Hugo.

Ambos tinham a vantagem de serem lugares públicos e apinhados de gente, circunstâncias que favoreciam batedores de carteiras e assassinos. Possuíam múltiplos caminhos de escape, e multidões entre as quais, o fugitivo poderia se misturar. Existiam bons lugares para um atirador nos grandes estandes, nos edifícios que davam vistas para a arquibancada, no amplo estacionamento de Longchamp ou nos prédios do lado oposto ao número 46 da Avenue Victor Hugo.

Talvez fosse necessário alugar um conjunto de salas num dos edifícios, com riscos subseqüentes, mesmo se usasse um nome falso, o que fazia a balança pender levemente em favor das corridas. Entretanto, Peter preferiu retardar a decisão até que tivesse a oportunidade de examinar criticamente cada lugar.

Havia uma outra vantagem em agir num daqueles lugares. Seria um assassinato esquivo. Ele se livraria da angústia de ver a morte próxima, com um revólver, faca ou garrote.

Teria apenas uma visão privilegiada de Califa através das lentes do telescópio, onde a perspectiva e as cores alteradas sempre deixavam um sentimento de irrealidade. A distância abreviava a necessidade de confrontação. Ele não veria o brilho desaparecer daqueles olhos magníficos, nem ouviria o último suspiro escapar através dos lábios perfeitos que tanta alegria haviam-lhe proporcionado.. Não, não podia pensar nisso! Essas imagens enfraqueciam sua decisão, ainda que a raiva e a sede de vingança não tivessem diminuído.

Ele poderia conseguir um fuzil 222 do Thor, que seria a ferramenta perfeita para aquela tarefa. Com as balas extra-longas e as novas luzes de laser, seria capaz de acertar um alvo de sete centímetros a uma distância de setecentos metros. O atirador pressionava o botão no topo da arma, com o indicador esquerdo, ativando o laser. O feixe luminoso percorreria a trajetória da bala, assinalando o alvo com um facho brilhante igual a uma moeda de prata de dez centavos. O atirador olharia através da lente telescópica, e no exato momento em que a luz estivesse no ponto desejado, pressionaria o gatilho. Se até um atirador pouco experiente dificilmente perderia o disparo, nas mãos de Peter a arma seria infalível. E com certeza Colin Noble lhe forneceria o fuzil. Não somente Colin — também poderia consegui-lo com os cumprimentos dos Fuzileiros Navais, através do adido militar da embaixada norte-americana em Paris.

Peter chegava até a esboçar o momento de ação, para em seguida retornar aos planos desde o começo, e cada vez com um olho mais crítico, a ponto de perceber que estava procrastinando.

No décimo sexto dia de seu retorno a Bruxelas, uma sexta-feira, passou a manhã na OTAN, no lado norte da cidade, participando de uma demonstração do novo escudo eletrônico desenvolvido pela Narmco para eliminar a vigilância do radar num míssil antitanque de curta distância. Depois, ele levou de helicóptero os três iranianos que haviam assistido à demonstração. Foram até o Épaule de Mouton onde tiveram um almoço magnífico e demorado. Peter ainda se sentia culpado por gastar três horas numa mesa de restaurante, razão pela qual trabalhou até as oito naquela noite. Estava bastante escuro quando deixou a entrada traseira do prédio, tomando as precauções habituais contra a possibilidade de Califa ter um assassino à sua espera nas ruas desertas. Ele nunca saía à mesma hora nem seguia o mesmo caminho do dia anterior. Naquela noite, comprou os jornais vespertinos de um marchand du tabac e parou para lê-los num dos cafés com mesas nas calçadas que davam frente para a praça. Começou com os diários ingleses, cujas manchetes ocupavam a página de lado a lado:

QUEDA NO PREÇO DO BARRIL DE PETRÓLEO

Peter bebericou o uísque enquanto lia o artigo, folheando para a continuação na página seis. Depois dobrou o jornal e ficou olhando para os turistas que cruzavam com os primeiros boémios da noite.

Califa obtivera seu primeiro triunfo internacional. De agora em diante não haveria fronteiras para sua ascensão cruel e violenta ao poder. Peter não tinha por que postergar sua decisão. Arranjaria um pretexto para ir a Londres na segunda-feira pela manhã, falaria com Colin para esperá-lo no aeroporto e lhe exporia seu plano. Em seguida iria até Paris para o reconhecimento final e a escolha do local do assassinato. Faltavam duas semanas para o desfile das coleções de primavera — duas semanas para planejar tudo tão cuidadosamente que não haveria como falhar.

De repente Peter sentiu-se exausto, como se o esforço para a decisão tivesse exigido suas últimas reservas. Tão exausto que a pequena caminhada até o hotel parecia desanimadora. Pediu outro uísque e bebeu-o devagarinho.

A Narmco mantinha duas suítes permanentes no Hilton para seus executivos e outros visitantes importantes. Peter ainda não se dera ao trabalho de procurar um apartamento na cidade e estava ocupando a menor das duas suítes. Era apenas um lugar para dormir, tomar banho e deixar suas roupas, pois não conseguia livrarse da sensação de transitoriedade pela qual estava cercado.

”Meus livros estão guardados novamente”, pensou, com uma pontada de decepção. Aquela coleção de livros raros estivera guardada durante a maior parte de sua vida, enquanto ele errava por lugares onde o dever o levava, vivendo em acampamentos militares e quartos de hotéis. Os livros eram seus únicos bens. E, pensando neles, experimentou o desejo de ter uma base, um lugar fixo para morar. De imediato deixou a ideia de lado, sorrindo cinicamente para si mesmo enquanto andava pelas ruas de outra cidade estrangeira, novamente sozinho.

Deve ser a idade me pegando, decidiu. Nunca tivera tempo para a solidão; então, por que isso agora? E lembrou-se de Magda Altmann vindo aos seus braços e dizendo: ”Peter, tenho estado sozinha por tanto tempo!”

Essa lembrança paralisou-o por alguns instantes, embaixo de um dos postes da rua. Foi quando apareceu na calçada uma garota loira, de rosto esquálido e lábios pintados com exagero, que lhe murmurou uma proposta.

— Merci — disse Peter, retomando sua caminhada.

Chegando à banca do hall do hotel, parou para dar uma espiada nas revistas femininas, onde certamente haveria anúncios dos desfiles da alta costura francesa. Folheou as páginas da Vogue, procurando o anúncio da mostra Yves St. Laurent, mas, em vez disso, deparou com um rosto conhecido que parecia saltar de uma das páginas. Eram inconfundíveis os traços daquela mulher de olhos eslavos, cabelos negros, graça felina captada pela sensibilidade do fotógrafo.

Magda estava num grupo de quatro pessoas. A outra mulher, exesposa de um cantor popular, tinha uma expressão emburrada, olhos semicerrados e um trejeito aborrecido nos lábios. Ao seu lado aparecia um sujeito sardento, um ator norte-americano de cara infantil, vestindo um paletó de veludo azul com uma corrente de ouro ao redor do pescoço, mais famoso por suas conquistas amorosas que por seus papéis nos filmes. Não faziam o tipo de pessoas com quem Magda Altmann saía habitualmente, mas o homem atrás dela, em cujos braços se inclinava de leve, correspondia ao seu estilo.

Era um quarentão, moreno, bonito, porte atlético e cabelos ondulados, que exibia a aura do poder condizente com a direção do maior complexo automobilístico da Alemanha.

A legenda embaixo da foto dizia que estavam participando da abertura de uma discoteca parisiense — novamente não era o território habitual de Magda Altmann — embora ela estivesse sorrindo para seu acompanhante, divertindo-se tão obviamente que Peter sentiu-se mal. Raiva ou ciúme, não sabia ao certo, o fato é que fechou a revista bruscamente e a recolocou no expositor.

Subiu para a suíte, mobiliada de maneira totalmente impessoal, tomou um banho e, ainda nu, foi até a pequena sala e serviu-se de um uísque. Era o terceiro daquela noite. Desde o sequestro de Melissa-Jane, estava bebendo como nunca. Isso poderia prejudicar seriamente um homem solitário e cheio de dúvidas. Ele teria de controlar-se e analisar bem o que fazia. Tomou um gole da bebida e voltou-se em direção ao espelho da parede.

A partir de seu retorno para Bruxelas, vinha fazendo ginástica todos os dias no clube dos oficiais da OTAN, de onde ainda tinha uma carteira de sócio, e seu corpo estava enxuto e rígido, a barriga discreta como a de um galgo. Só o rosto mostrava traços de preocupação e estava marcado por um profundo pesar.

Assim que ele voltou para o quarto, o telefone tocou.

— Stride — disse, pegando o fone.

— Por favor, aguarde, general Stride. Há uma chamada internacional para o senhor.

Durante uma espera interminável, escutou ruídos na linha, além das vozes distantes dos operadores que falavam mal o francês e pior ainda o inglês. De repente, a voz dela, fraca e tão distante que soava como um sussurro num amplo hall vazio.

— Peter, é você?

— Magda? — Ele sentiu um choque. Mesmo assim identificou o clique característico que indicava que estavam falando num sistema via rádio.

— Preciso vê-lo, Peter. não posso continuar assim. Você pode vir?

— Onde você está?

— Lês Neuf Poissons. — Sua voz estava tão débil, tão distorcida, que ele pediu que repetisse. — Lês Neuf Poissons... os Nove Peixes. Você virá, Peter?

— Você está chorando? — perguntou ele, e o silêncio do outro lado da linha foi tão prolongado que julgou ter perdido o contato. — Você está chorando?

— Sim. — A confirmação soou como um simples suspiro.

— Por quê?

— Porque estou amedrontada, Peter. Porque estou sozinha, você virá, por favor, você virá?

— Sim... Como é que eu chego aí?

— Disque para o Gaston em La Pierre Bénite. Ele arranjará tudo. Mas venha logo, Peter. O mais rápido que puder.

— Tudo bem, mas onde é que fica isso? — Ele esperou em vão pela resposta; o silêncio era total do outro lado. — Magda? Magda? — gritou, desesperado, até que foi obrigado a pressionar o dedo sobre a lingueta do aparelho, cortando a ligação. Assim que levantou o dedo, pediu à telefonista do hotel que ligasse para a França, Rambouillet 47-87-47.

Enquanto esperava que a chamada se completasse, percebeu que acontecera o que, no subconsciente, desejava que acontecesse. Era inevitável. A roda somente poderia girar, nunca rolar para os lados.

Califa não tinha alternativa. Aquilo era o chamado para a execução. Só se surpreendia por não ter sido intimado antes. Mas entendia por que Califa evitara um atentado em cidades do continente europeu ou na Inglaterra. Uma dessas tentativas, bem planejadas e executadas com grande desperdício de força, falhara, naquela noite na estrada de Rambouillet. Isso com certeza advertira Califa para não subestimar a capacidade da vítima em procurar uma retaliação. Além do mais, os problemas seriam praticamente os mesmos que Peter enfrentara ao planejar seu ataque contra o próprio Califa — o quando, o onde e como.

Califa levava vantagem por poder convocá-lo para o local selecioriado; céus, com que habilidade tudo tinha sido feito! Era espantosa a astúcia daquela mulher. Seu talento ultrapassava qualquer limite. Bastava dizer que ele próprio, mesmo consciente de que estava ouvindo uma encenação cuidadosamente preparada, sentira um aperto no coração diante do desespero da voz, do choro muito bem articulado, de tal forma que ele fosse apenas capaz de identificá-lo.

— Aqui é a residência da baronesa Altmann — falou uma voz ao telefone.

— Gaston?

— Ele mesmo, sir.

— General Stride.

— Boa noite, general. Estava esperando sua chamada. Falei com a baronesa há pouco tempo. Ela me pediu para providenciar sua passagem para Lês Neuf Poissons.

— Onde fica isso, Gaston?

— Lês Neuf Poissons é uma ilha de veraneio da baronesa nas ilhas Sotavento. Há um voo da UTA até Papeete-Faaa, no Taiti, onde o piloto da baronesa o encontrará. São cento e sessenta quilómetros de lá até Lês Neuf Poissons. Infelizmente a pista de pouso é muito pequena para acomodar um jato executivo. Vai ser usado um aparelho menor.

— Faz tempo que a baronesa está lá?

— Ela partiu há sete dias, general — informou Gaston, com a voz eficiente de bom secretário. — Sua passagem pode ser retirada no balcão de reservas da UTA, general. Escolhi um assento de janela na ala dos não-fumantes.

— Você pensa em tudo. Obrigado, Gaston,

Ao colocar o fone no gancho, Peter descobriu que sua exaustão desaparecera; sentia-se com vitalidade e com as energias renovadas. Seria a euforia do soldado face à perspectiva de uma ação violenta, ou apenas o vislumbre do fim da indecisão e do medo de coisas desconhecidas? Logo, para o bem ou para o mal, tudo estaria concluído. E esse fato era bem-vindo.

Voltou ao banheiro e derramou na pia o uísque que restava no copo.

O DC 10 DA UTA fez sua aproximação final de Taiti-Faaa, baixando a partir dos picos Moorea até a península do porto. Peter viu as espetaculares montanhas das pequenas ilhas do Taiti, que já conhecia do filme South Pacific, cujas locações tinham ocorrido ali. A rocha vulcânica era negra, seca, com crostas afiadas como os dentes de um tubarão.

A aeronave avançou sobre o longo canal entre as duas ilhas, e a pista parecia estender um braço ao mar para lhe dar as boasvindas. O ar pesado e cálido recendia o perfume da floração dos jasmins. Um grupo de jovens morenas e insinuantes dançava e rebolava graciosamente como parte da recepção. Sem dúvida, os habitantes das ilhas recebiam os turistas com uma irresistível amizade. Porém, quando Peter pegou sua pequena mala no distribuidor de bagagens e dirigiu-se para as portas de saída, aconteceu algo estranho. Um dos funcionários aduaneiros do portão trocou uma rápida informação com seu companheiro e então foi ao encontro de Peter.

— Boa tarde, senhor. — O sorriso era amigável, mas os olhos estavam gélidos. — Quer ter a gentileza de me seguir?

Os dois funcionários da alfândega escoltaram Peter até um pequeno escritório com telas nas janelas.

— Por favor, abra sua mala, senhor. — Com rapidez e meticulosidade, os homens revistaram a valise e a maleta de crocodilo. Um deles chegou ao cúmulo de usar uma fita métrica para checar ambos os volumes e descobrir eventuais fundos falsos.

— Devo parabenizá-los pela eficiência — disse Peter, sorrindo, porém com a voz tensa e baixa.

— É apenas uma vistoria aleatória — informou o funcionário chefe. — O senhor é nada mais que o visitante número dez mil. Agora, espero que não faça objeção a uma vistoria do corpo.

Peter ainda fez menção de protestar, mas acabou dando de ombros e levantando os braços.

Vá em frente.

Pelo jeito, Magda Altmann era tão importante ali como na França. Se possuía um grupo inteiro de ilhas, bastava que fizesse um pequeno gesto para que um visitante fosse totalmente revistado e suas armas, caso portasse alguma, apreendidas. Califa estava se prevenindo para que a vítima em potencial não estivesse preparada para a execução, a fim de que, inadvertidamente, não se tornasse a executora.

Um dos funcionários revistou-lhe os braços e flancos, das axilas à cintura, enquanto o outro fazia o mesmo com suas pernas, da virilha aos tornozelos. Peter deixara o Cobra num cofre de segurança do Hilton em Bruxelas. Tinha intuído algo; seria daquela forma que Califa trabalharia.

— Satisfeito? — perguntou.

— Obrigado pela cooperação, senhor. Tenha uma agradável estada em nossa ilha.

O piloto particular de Magda estava na sala de espera e apressou-se para receber Peter.

— Pensei que você não tivesse chegado no avião.

— Tive um pequeno problema na alfândega — explicou Peter.

— Devemos partir imediatamente, para evitar uma aterrissagem noturna em Lês Neuf Poissons; a pista lá é um pouco difícil.

O jato de Magda estava estacionado num hangar próximo da área de serviço; e, ao lado dele, o Norman Britten Trislander, uma aeronave parecida com uma cegonha, capaz das mais surpreendentes performances em situações de curtas decolagens e aterrissagens.

O aparelho estava carregado com engradados e caixas de suprimentos, contendo desde papel higiénico até champanha Veuve Cliquot. Assim que Peter acomodou-se em seu lado direito, o piloto acionou o motor e pediu autorização à torre de controle. Então comentou:

— Será apenas uma hora de voo.

O sol ficara para trás quando Lês Neuf Poissons apareceram como um precioso colar de esmeraldas sobre o tapete de veludo azul do oceano. Eram nove ilhas na disposição circular característica da formação vulcânica. Eles circundaram uma lagoa com água tão límpida que cada redemoinho e balanceio do afloramento dos corais surgia claro como se estivesse no ar.

— As ilhas tinham um nome polinésio quando o barão as comprou em 1945 — explicou o piloto, com o sotaque um pouco pedante da França meridional. — Pertenciam a um missionário, que as recebera de presente dos antigos reis. O barão adquiriu-as da viúva. Como não conseguia pronunciar o nome polinésio, mudouo. O barão era um homem que encarava o mundo segundo seus próprios termos.

Sete das ilhas eram estreitas faixas de areia com franjas de palmeiras; porém, as outras duas tinham colinas de basalto vulcânico que brilhavam como a pele de um réptil sob o sol vespertino. Quando a aeronave fez a volta para baixar, Peter avistou uma construção central com telhado de palha curvado como a proa de um navio, segundo a tradição das ilhas, e ao redor dele, meio escondidos em agradáveis jardins, outros pequenos bangalôs. Sobrevoaram a lagoa onde se via uma confusão de pequenos barcos ao longo do cais, que se estendia pelas águas protegidas — veleiros com mastros nus, uma grande e poderosa escuna que provavelmente era usada para embarcar cargas pesadas como os motores a diesel para geração de energia elétrica, lanchas motorizadas para esquiar, mergulhar e pescar. Uma delas estava no meio da lagoa, cortando a superfície da água em alta velocidade. Uma pequena figura que esquiava atrás levantou um braço, mas naquele momento o Trislander inclinou a asa a pique, de modo que Peter ficou com apenas alguns cúmulos de nuvens escarlates pelo sol crepuscular.

A pista era pequena e estreita, aberta no meio de uma plantação de palmeiras numa faixa entre a praia e as colinas. Era coberta por uma superfície de corais esmagados. Durante a aproximação final sobre uma alta paliçada de palmeiras, Peter percebeu que o piloto não exagerara ao afirmar que o pouso ali seria difícil. Um vento cruzado varria a área e quebrava nas colinas, batendo em cheio nas asas do Trislander. O piloto direcionou o nariz do aparelho a favor do vento e, quando deslizou sobre as copas das palmeiras, cortou os aceleradores, aprumou o curso com o leme, baixando uma asa para evitar qualquer desequilíbrio lateral, e alcançou a cabeceira da pista perfeitamente alinhado. O aparelho tocou o solo e logo plantou-se com segurança, enquanto o piloto girava o leme contra o vento para prevenir um possível levantar da asa e a subsequente capotagem.

— Parfa.it! — disse Peter com admiração.

O homem parecia assustado, como se a façanha não merecesse uma menção especial. A baronesa Altmann só empregava os melhores.

Um pequeno carro elétrico de golfe, dirigido por uma jovem polinésia, esperava-o no final da pista. A moça usava um sarong ao redor do corpo, uma única peça de roupa carmim e dourado que caía até a metade das coxas. Estava descalça, e tinha na cabeça uma coroa de flores.

Ela guiou o veículo ao longo de um caminho estreito e tortuoso, ao redor do qual uma rara coleção de plantas exóticas, habilidosamente distribuídas, surgia como uma agradável surpresa após cada curva. Chegaram a um bangalô que dava para a praia de areia branca, mas que estava tão isolado que parecia ser a única casa da ilha. Como se fosse uma criança, a moça tomou-lhe a mão, num gesto de pura inocência, e conduziu-o através do bangalô. Fez questão de mostrar os controles do ar-condicionado, as luzes e a tela do vídeo, explicando tudo num patoá francês e dando risinhos com uma expressão de prazer.

Havia um bar com sortimento completo, uma pequena biblioteca com inúmeros best-sellers, além de jornais e revistas atrasados de apenas alguns dias. As fitas de vídeo incluíam sucessos recentes e vencedores do Oscar.

— Robinson Crusoé deve ter desembarcado aqui! — disse Peter rindo.

A garota deixou-o a sós, retornando duas horas mais tarde. Ele já tomara banho, barbeara-se e vestira uma roupa de algodão leve, com camiseta sem mangas e sandálias.

Quando ela lhe estendeu a mão, Peter pensou que, se um homem fizesse o mesmo gesto como cortesia, a garota se sentiria magoada e confusa. Ela o levou pela mão através de um caminho demarcado por luzes brilhantes, escondidas. A noite estava cheia de ruídos, do murmúrio do mar ao suave roçar do vento nas folhas das palmeiras.

Aproximaram-se do edifício com teto em forma de navio que ele vira do ar. A música suave e os risos cessaram de repente quando ele assomou à porta. Meia dúzia de pessoas voltou-se em sua direção, todos intrigados.

Peter não sabia o que iria encontrar ali, mas com certeza não era aquela alegre reunião social de homens e mulheres bronzeados, em caros e elegantes trajes esporte, sustentando taças cheias de gelo e frutas.

— Peter! — Magda Altmann destacou-se do grupo, aproximando-se dele com seu encantador bamboleio das ancas.

Usava um vestido solto, de cor do trigo, com uma gola alta no pescoço, de onde pendia uma corrente de ouro, mas com um decote profundo nas costas, até quase o início das nádegas. Parecia querer provar que seu corpo estava liso como a pétala de rosa e bronzeado como a cor do mel novo. Seus cabelos estavam trancados e presos no alto da cabeça. Os olhos, com sombras de tonalidades escuras, em contraste com a íris verde.

— Peter! — E ela beijou-o de leve nos lábios, envolvendo-o com seu perfume, mistura de fragrância das flores com o calor e a mágica do seu corpo.

Peter sentiu que suas defesas fraquejavam. Apesar de tudo o que sabia a respeito dessa mulher, hesitava diante de sua presença. Magda estava fria, elegante, serena como nunca, e sem mostrar nenhum traço de confusão e da terrível solidão que manifestara entre suspiros, a uma distância de meio mundo. Então ela recuou um passo e inclinou a cabeça para um lado, examinando-o, com um breve sorriso nos lábios.

— Chéri, você está com uma aparência bem melhor. Fiquei preocupada quando o vi pela última vez.

Nesse momento, ele foi capaz de detectar sombras em seus olhos e marcas de tensão nos cantos da boca.

— E você está mais bonita do que eu me lembrava. — Era verdade; por isso ele podia dizer sem reservas.

Ela riu.

— Você nunca disse isso antes. — Seu estilo continuava brilhante: um show de afeição e amizade que o teria convencido em outra ocasião, não agora. — E fico muito grata.

Tocando-lhe de leve o cotovelo, Magda conduziu-o para o grupo que esperava, parado, como se não confiasse em si mesma em ficar a sós com ele por mais um momento, sem que revelasse alguma coisa proibida.

Os convidados eram três casais. O primeiro, um senador democrata norte-americano de considerável influência política — um homem de cabeça grisalha, olhos como os de ostras mortas. A esposa devia ser no mínimo trinta anos mais moça e fitou Peter como um leão encara uma gazela. Segurou-lhe a mão mais tempo do que o necessário durante a apresentação.

O segundo, um australiano de ombros pesados e barriga grande, tinha a pele queimada e os olhos emoldurados por rugas. Pareciam estar mirando a poeira e os raios solares de um horizonte distante. Era proprietário de um quarto das reservas conhecidas de urânio do mundo, e possuía fazendas de gado que davam o dobro do tamanho das ilhas britânicas. A esposa era bronzeada, e seu aperto de mão foi tão firme quanto o do marido.

O terceiro homem, um espanhol cujo nome de família era sinónimo de xerez, parecia urbano e cortês, embora tivesse traços mouriscos e libertinos. Peter lera em algum lugar que o xerez e o conhaque que envelheciam nas adegas daquele homem estavam avaliados em mais de quinhentos milhões de dólares, e isso era apenas uma pequena parte dos bens da família. Era casado com uma bela morena espanhola que exibia uma charmosa mecha branca no meio de seus cabelos totalmente negros.

Assim que acabaram as apresentações, a conversa retornou aos esportes do dia. O australiano pescara um enorme merlim negro pela manhã, pesando quase quinhentos quilos e com cinco metros de comprimento.

Peter, incorporado ao grupo, observava Magda da maneira mais discreta possível. Ainda assim ela parecia consciente e alerta disso, a julgar pelos movimentos de cabeça, pela pose tensa de seu corpo esguio. Por duas vezes olhou para ele, sempre com um sorriso, porém as sombras continuavam presentes em seus olhos. Finalmente ela bateu palmas e anunciou:

Vamos dar início ao banquete!

Tendo a um lado o senador, e do outro o australiano, Magda encaminhou-se para a praia. Peter ofereceu o braço à esposa do senador, que aproveitou a deixa para encostar um dos seios nele, enquanto passava a língua entre os lábios, num gesto sensual.

A um sinal de Magda, dois empregados polinésios que esperavam ao lado de um pequeno outeiro, em meio à areia branca, pegaram ferramentas e retiraram uma camada de algas marinhas e folhas de bananeira da qual elevaram-se colunas de vapor espesso e cheiroso, vindo de uma grande figueira brava que sustentava o banquete sobre outra camada de algas e carvões em brasa.

Exclamações de surpresa encheram o ar quando o aroma de galinha, peixe e porco misturaram-se com o daqueles temperos, vegetais e fruta-pão.

— Ótimo, maravilhoso! — declarou Magda, risonha. — Se entra um pouco de ar durante o cozimento, perde-se tudo. Fica só o carvão.

Enquanto comiam e bebiam, os risos e as conversas tornavam-se mais altos, menos reprimidos. Peter, porém, tomou apenas um drinque e se manteve calmo, sem se envolver na algazarra e indiferente às insinuações da mulher do senador.

Estava esperando por alguma indicação de quando e de que direção viria o ataque. Não ali, claro, no meio daquela gente. Quando a coisa viesse, seria rápida e efetiva como tudo o que Califa fazia... Não teria havido excesso de presunção de sua parte, ao vir desarmado e sem apoio à arena escolhida e preparada pelo inimigo? Sua melhor defesa seria golpear primeiro, talvez naquela mesma noite, assim que surgisse uma oportunidade. Quanto antes melhor.

Magda dirigiu-lhe um sorriso, sentada do outro lado da mesa armada embaixo de palmeiras, e com comida suficiente para alimentar cinquenta pessoas. Quando ele sorriu em retribuição, ela fez um sinal discreto com a cabeça e, enquanto os homens discutiam e riam exageradamente, murmurou uma desculpa às mulheres e deixou a mesa.

Peter contou até cinquenta antes de segui-la. Ela o esperava à beira-mar. Suas costas nuas destacavam-se sob o luar; o vento fazia com que seu vestido ficasse colado ao corpo.

— Fico tão contente por você ter vindo, Peter.

— E eu fico contente por você me dizer isso.

Ele apoiou a mão em seu pescoço, entre o ouvido e a nuca, a ponta dos dedos tocando-lhe os cabelos sedosos. Era ali que se localizava a base delicada do crânio, que um carrasco busca esmagar com um golpe. Ele poderia fazer o mesmo com a pressão do polegar. Seria tão rápido quanto dar um nó.

— Lamento pelos outros — disse ela. — Mas estou me livrando deles, com uma pressa quase indecente. — Afastou a mão dele do pescoço, sem encontrar resistência, depois continuou: — Vão partir amanhã cedo. Pierre vai levá-los até Papeete, e então teremos Lês Neuf Poissons para nós, apenas eu e você... e trinta empregados horrorosos.

Peter entendia exatamente por que aconteceria daquela forma. As únicas testemunhas seriam os fiéis servidores da grande dama das ilhas.

— Vamos voltar. Infelizmente meus convidados são importantes e não posso ignorá-los. Mas amanhã chegará. Muito lentamente para mim, Peter, mas chegará.

Com um ímpeto fora do comum, Magda beijou-o na boca, pressionando os lábios contra os dele. Em seguida, sussurrou em seu ouvido:

— Aconteça o que acontecer, Peter, houve algo valioso entre nós dois. Talvez a coisa mais preciosa que já tive em minha vida. Isso eles nunca poderão me tirar.

Sem esperar resposta, afastou-se de seus braços, retornando rapidamente à mesa. Confuso, sem saber ao certo o significado de suas últimas palavras, Peter chegou à conclusão de que o propósito fora exatamente o de desnorteá-lo... Naquele exato momento, pressentiu um movimento atrás de si e, num gesto instintivo, virou-se, abaixando-se.

Avistou um vulto a pouco mais de dez passos, entre a rala vegetação que margeava o caminho que acabara de tomar. Totalmente alerta, assumiu a postura de luta, pronto tanto para atacar como para revidar um ataque.

— Boa noite, general Stride.

Peter deteve-se, as mãos estendidas rigidamente, como uma lâmina de cutelo de açougueiro.

— Cari! — exclamou, surpreso. Então os lobos cinzentos estavam por perto, protegendo a patroa até nos momentos mais íntimos!

— Espero não tê-lo assustado — disse o guarda-costas, num tom de voz quase sarcástico.

Se houvesse necessidade de confirmação, agora Peter a tinha. Quem, além de Califa, iria a um encontro romântico acompanhado de seguranças? Portanto, uma coisa era certa: ou ele ou Magda Altmann estaria morto ao entardecer do dia seguinte.

ANTES DE ENTRAR NO BANGALÔ, Peter rondou as árvores que o cercavam, à procura de algo suspeito. Nada encontrou. Porém, dentro da casa, a cama tinha sido preparada, o barbeador estava limpo, a roupa suja fora levada para lavar e as outras estavam passadas e arrumadas num armário. Era impossível ter certeza de que seus outros pertences haviam sido vasculhados, mas era mais seguro presumir que sim. Califa não negligenciaria de uma precaução tão elementar.

As fechaduras, portas e janelas eram precárias; talvez não fossem usadas há muitos anos. Assim, ele colocou cadeiras e outros obstáculos em frente às entradas, de modo que qualquer intruso tropeçasse neles na escuridão, e então desarrumou a cama, dispôs os travesseiros de forma a parecerem um corpo e foi deitar-se no sofá da sala. Mesmo que não esperasse um atentado antes que os demais convidados deixassem a ilha, não custava nada prevenirse, confundir ao máximo o cenário de Califa.

Teve um sono agitado, interrompido a cada vez que o vento agitava as palmeiras, ou a lua projetava sombras na parede da sala. Nos pequenos intervalos em que sonhou, apareceram-lhe imagens distorcidas e sem sentido, exceto a visão de Melissa-Jane com o rosto aterrorizado, gritando de medo. Assim que acordou, aquela recordação acendeu nele o frio desejo de vingança, que estivera latente nas últimas semanas. Sentiu-se revigorado em seu férreo propósito de resistir à fatal sedução de Califa.

Levantou-se sob a escorregadia luz pérola que antecede o amanhecer, e foi até a praia. Nadou centenas de metros além dos recifes, lutou com todas as forças contra a maré que o puxava para o fundo e, afinal, voltou à praia, sentindo-se alerta como nunca estivera nas últimas semanas.

Pronto, pensou, decidido. Estou preparado para o que der e vier.

A despedida para os convidados ocorreu pela manhã, em um banco de areia à beira-mar que ficava totalmente liso com as ondas noturnas. Na mesa improvisada, champanhe Laurent Perrier e morangos trazidos de Auckland, na Nova Zelândia.

Magda Altmann vestia um short verde, deixando à mostra as pernas bem torneadas, e uma blusa minúscula, que mal lhe cobria os seios. Seu corpo era uma feliz combinação entre a musculatura de uma esportista e a graça e leveza de uma bailarina.

Aparentava uma euforia desmesurada com a presença de Peter, uma alegria forçada e um riso fácil demais. Dava a impressão de ter tomado uma decisão difícil e estar criando coragem para levála adiante. Peter imaginou os dois como verdadeiros adversários que se haviam preparado cuidadosamente para a confrontação, como boxeadores que se avaliam na balança.

Após a refeição matinal, o grupo inteiro foi até o campo de pouso. O senador, meio alto por causa do champanhe e suando de calor, exagerou no abraço à anfitriã, porém Magda habilmente esquivou-se dele, empurrando-o em direção ao Trislander. Tão pronto os passageiros acomodaram-se no avião, Pierre, o piloto, acelerou os três motores em potência máxima. Então liberou os freios e partiu. No momento em que o aparelho atingiu velocidade, empinou-o para o alto a fim de evitar os obstáculos. A máquina passou rente às palmeiras do final da pista de mil e quinhentos metros de comprimento.

— Mal consegui dormir na noite passada — disse Magda, rompendo o silêncio.

— Eu também — replicou Peter, enquanto pensava: pelas mesmas razões, tenho certeza.

— Planejei um dia especial para nós. E não quero perder nenhum minuto.

O encarregado do pequeno porto trouxera a lancha de quarenta e cinco pés para o final do cais. Era uma bela embarcação cujas linhas longas e baixas faziam-na parecer flutuar acima do ancoradouro. Sua pintura estava impecável, e os acabamentos de aço inoxidável, polidos e reluzentes como um espelho. O homem acionou a sirene quando Magda se aproximou.

— Os tanques estão cheios, baronesa. As garrafas de oxigénio para o megulho, também. Coloquei os esquis aquáticos nos armários principais. E vim pessoalmente checar a caixa de gelo.

Entretanto, seu sorriso largo desvaneceu-se quando ele soube que Magda levaria o barco sozinha.

— Você não confia em mim? — perguntou ela, rindo.

— Oh, claro, baronesa — declarou, mal escondendo a decepção por não poder exibir seus talentos.

Desamarrou o barco, atirou-lhe as cordas, e ficou plantado no cais, enquanto ela o manobrava para fora do ancoradouro.

Ne t inquiet pas — recomendou a baronesa, ao mesmo tempo em que acelerava os possantes motores da lancha.

Deixando para trás uma esteira de espuma, avançava pelas águas claras da lagoa, exatamente no meio das balizas sinalizadoras que indicavam a passagem pelos arrecifes, rumo ao Pacífico.

— Par