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Planeta Criança



Poesia & Contos Infantis

 

 

 


JUSTINE / Lawrence Durrell
JUSTINE / Lawrence Durrell

                                                                                                                                                   

                                                                                                                                                  

 

 

Biblioteca Virtual do Poeta Sem Limites

 

 

J U S T I N E

 

O mar está novamente agitado hoje, com rajadas de vento que despertam os sentidos. Em pleno Inverno, a Primavera começa a fazer-se sentir. Toda a manhã o céu esteve de uma pureza de pérola; há grilos nos recantos sombrios; o vento despoja e fustiga os grandes plátanos...

Retirei-me para esta ilha com alguns livros e com a criança - a filha de Melissa. Não sei porquê, agora, ao escrever, penso nesta ilha como num “retiro”. Os habitantes dizem por brincadeira que só um convalescente pensaria em vir procurar este lugar. Bem, para condescender, admitamos que eu sou um homem que procura curar-se...

Durante a noite, quando o vento ruge e a criança dorme sossegadamente na sua camita perto da chaminé, acendo uma lamparina e começo a andar para trás e para diante, com a mente cheia de recordações dos meus amigos: Justine, Nessim, Melissa e Baltasar. E, insensivelmente, na senda da memória, regresso à cidade onde as nossas vidas se entrecruzaram e desfizeram, à cidade que se serviu de nós como sua flora - embaraçando-nos nos seus conflitos próprios e deixando-nos convencidos de que a trama das nossas paixões nos pertencia -: à bem-amada Alexandria!

E foi preciso vir até tão longe para compreender! Vivendo neste promontório escalvado, onde todas as noites Arcturo vem disputar-me às trevas, longe da poeira e dos relentos calcários das tardes de Verão, compreendo agora que nenhum de nós é responsável pelo que se passou. É a cidade que deve ser julgada, embora seja sobre nós, os seus filhos, que recaia a punição.

Em suma, que é esta nossa cidade? Que se condensa sob o nome de Alexandria? Num relance, os olhos proporcionam-me a imagem de milhares de ruas poeirentas. Actualmente, as moscas e os mendigos são os donos da cidade - juntamente com aqueles que se deliciam com uma existência intermédia.

Cinco raças, cinco línguas, uma dúzia de credos; cinco esquadras cruzando os seus perfis reflectidos sobre as águas oleosas do porto. Mas existem mais de cinco sexos e apenas as subtilezas linguísticas do grego demótico nos proporcionam os cambiantes diferenciais. O capital sexual que se esbanja em oferta abundante surpreende pela sua variedade e profusão. E, contudo, não é um lugar de prazer. Os amantes simbólicos do mundo grego cedem lugar a algo subtilmente andrógino e diferente, introvertido. O Oriente não pode desfrutar a doce anarquia carnal - porque o Oriente está para além do corpo. Recordo-me de ter ouvido a Nessim certo dia - creio que o tinha lido em algum lugar - que Alexandria era o grande lagar do amor; os que escapavam eram os doentes, os solitários, os profetas, enfim, todos aqueles que tinham o sexo mutilado.

Apontamentos paisagísticos... Prolongados acordes de cor. A luz a filtrar-se através da nuvem perfumada que afoga os limoeiros. No ar, em suspensão, a poeirada vermelha dos tijolos, e o relento do asfalto ardente, regado mas logo seco. Pequenas nuvens húmidas rasando a terra sem, contudo, se desfazerem em chuva. Sobre um fundo vermelho baço, pinceladas verdes, lilases, e reflexos carminados sobre as águas. No Verão, a humidade do mar põe um brilho luminoso na atmosfera. Uma capa viscosa cobre todas as coisas.

Depois, no Outono, o ar seco e vibrante, uma electricidade estática e ácida que inflama a pele sob as ténues roupas. A carne acordada ensaia as suas forças nas grades que a encarceram. Uma meretriz embriagada cambaleia pela ruela, espalhando fragmentos de uma canção, como se fossem pétalas de rosas. Teriam sido estes inebriantes acordes que António ouviu, decidindo-o a render-se à cidade que já o tinha conquistado de corpo e alma?

Os corpos incompletos dos jovens procuram a cumplicidade de uma nudez condescendente, e nos pequenos cafés onde Baltasar ia tantas vezes na companhia do velho poeta da cidade (1), os rapazolas começam a jogar aos dados, à luz das candeias de petróleo; mas, sem tardança, o vento do deserto - prosaico e áspero - constrange-os a largar as pedras, e ficam inertes, a observar os desconhecidos. A respiração é dolorosa e em cada baforada estival reconhecem o sabor ressequido da cal viva..“

 

Nota 1: O velho poeta da cidade”, C. P. Cavafis.

 

Tive que vir para aqui para reconstruir integralmente esta cidade na minha memória - esta melancólica província que o velho (1) considerava cheia das “ruínas negras” da sua vida. O estrondear dos “eléctricos” vibrando nas suas artérias metálicas, penetrando no meidan cor de ferrugem de Mazarita. Ouro, fósforo, magnésio, papel. Aqui nos encontrámos muitas vezes. Havia um pequeno bar onde ela gostava de vir, no Verão, tomar sorvete e comer talhadas de melancia. Chegava sempre atrasada, regressando, provavelmente, de qualquer encontro num gabinete de persianas cerradas, mas eu fazia por não adivinhar essas coisas quando a sua boca, maravilhosamente fresca e jovem, procurava saciar nos meus lábios uma infinita sede estival. Talvez na sua memória ainda agonizasse a imagem do homem que ela acabava de deixar, e no seu corpo arrefecesse ainda o calor dos beijos recebidos. Mas isso não tinha a menor importância; só contava, agora, a suave curva do seu braço que envolvia o meu, e eu gozava uma felicidade completa porque nela não existiam segredos. Era bom estarmos assim, perturbados e ligeiramente embaraçados, um pouco oprimidos pelo conhecimento partilhado do nosso desejo recíproco. As mensagens não se detinham na consciência, atravessavam espontaneamente os lábios entreabertos, os olhos, os sorvetes e a lojeca de toldo vivamente colorido. Éramos uma parte da cidade, e ali estávamos, com os dedos entrecruzados, respirando a tarde perfumada de aromas de cânfora.

Esta noite, estive a reler os meus apontamentos. Alguns serviram para acender o fogão, outros foram destruídos pela criança. Mas é uma espécie de censura que me apraz, porque tem a indiferença das forças naturais para com o mundo da Arte - uma indiferença que eu começo a partilhar. No final das contas, que interesse tem para Melissa uma bonita metáfora, quando ela se encontra agora profundamente enterrada, como uma múmia, na areia tépida e sombria do negro estuário?

Mas estes papéis que eu guardo com cuidado são os três cadernos do diário de Justine e as páginas que registam a loucura de Nessim. Foi o próprio Nessim quem me entregou todos esses documentos, quando parti, dizendo-me:

“O velho”, C. P. Cavafis.

- Guarde e leia. Há muito de nós todos nessas páginas. Ajudá-lo-ão, como sucedeu comigo, a suportar a perda de Justine, sem ser obrigado a esquecê-la.

Foi no Palácio de Verão, depois da morte de Melissa, quando ele ainda cria no retorno de justine. Penso muitas vezes, e sempre com um certo terror, no amor de Nessim por Justine. Que poderia existir de mais compreensivo, de mais bem fundado? Na sua dor havia aquela espécie de êxtase que geralmente se considera um atributo dos santos mas que se encontra, também, nos verdadeiros amantes. Um pouco de espírito poderia mitigar-lhe o sofrimento. Mas é fácil criticar. Demasiado o sei.

Na grande tranquilidade das noites de Inverno, o mar é um enorme relógio. A sua perturbadora agitação, que se prolonga no espírito, é a fuga sobre que este escrito se compõe. Cadências vazias das ondas que lambem as suas próprias feridas, indolentes nas extensões planas do delta, ferventes nas praias desertas - para sempre vazias sob o voo melancólico das gaivotas: garatujas brancas sobre fundo cinza, espumadas pelas nuvens... Se, por equívoco, uma vela se aproxima destas paragens, logo se desvanece, antes de cair sob a sombra da terra. Destroços arrancados do frontão das ilhas, a última camada, corroídos pelas intempéries, abandonados no ventre azul do mar... desaparecidos!

Além da velha enrugada que vem todos os dias da aldeia, trotando na sua mula, para fazer os arranjos domésticos, mais ninguém nos faz companhia. A criança leva a vida feliz e plena de uma flor transplantada. Ainda não lhe dei um nome, mas claro que a baptizei de Justine. Que outro nome lhe conviria?

Quanto a mim, não me sinto feliz nem infeliz; estou suspenso como um cabelo ou uma pena, na amálgama nebulosa dos meus pensamentos. Falei da inutilidade da Arte mas esqueci-me de reconhecer as consolações que ela proporciona. O alívio que deriva do género de trabalho que produzo com o cérebro e o coração reside nisto: só no silêncio activo do pintor ou do escritor é que a realidade pode ser reelaborada e revelada no seu aspecto verdadeiramente significativo. As nossas acções quotidianas nada mais são do que os ouropéis que velam o vestido de ouro - a essência da forma. É na sua arte que o artista encontra, pela imaginação, um feliz compromisso com tudo quanto o feriu na vida quotidiana, e não para escapar ao seu destino, como faz o homem vulgar, mas para realizá-lo da forma mais adequada e completa que lhe for possível. Senão, porque nos havíamos de ferir uns aos outros? Não, a paz que eu procuro e que talvez venha a encontrar jamais me será dada, nem pelos olhos de Melissa, onde a temperatura brilhava, nem pelas pupilas ardentes e negras de Justine. Tomámos, todos nós, caminhos diferentes; mas aqui, no grande primeiro desastre da minha idade madura, sinto que a recordação delas enriquece e aprofunda, para além de todos os limites, os confins da minha arte e da minha vida. Realizo-as de novo em pensamento; é somente aqui - nesta mesa de pinho, colocada debaixo da sombra de uma oliveira e sobranceira ao mar - que eu posso fazê-las reviver em toda a merecida pujança. Assim, o sabor deste escrito ficará devendo alguma coisa aos seus modelos vivos - ao seu hálito, à sua pele, à sua voz - que se virão mesclar na frágil trama da memória humana. Quero ressuscitá-las de tal modo que a dor se transmude em arte... Talvez seja inútil tentar uma tal empresa, mas, de qualquer maneira, não posso deixar de fazê-lo...

Hoje, eu e a criança acabámos de construir a lareira da casa, falando tranquilamente enquanto trabalhávamos. Falo-lhe como falaria comigo mesmo se estivesse só; ela responde-me numa linguagem heróica de sua invenção. Enterrámos debaixo da lareira os anéis que Cohen tinha comprado para Melissa, de acordo com os usos da ilha. É uma forma de assegurar boa sorte aos habitantes da casa.

Na época em que encontrei Justine, eu era quase um homem feliz. A repentina intimidade com Melissa abrira-me uma porta, e essa intimidade não era menos maravilhosa pelo facto de ser inesperada e totalmente imerecida. Como todos os egoístas, eu não tolerava viver só; na verdade, o meu último ano de celibato tinha-me enervado - a minha incapacidade para o governo doméstico, a minha inaptidão para tratar de roupas, comida e dinheiro haviam concorrido para me reduzir ao desespero. Estava farto dos meus aposentos infestados de carochas, tendo por companhia um criado berbere, Hamid, o Zarolho.

Melissa tinha derrubado as minhas frágeis defesas, não pelas qualidades que geralmente se atribuem às amantes - encanto, beleza excepcional, inteligência -, mas em virtude daquilo a que chamo a sua caridade, no sentido grego da palavra. Costumava vê-la passar, muitas vezes, recordo-me, pálida, puxando para o magro, vestindo um modesto casaco de pele de foca e levando o seu cãozito pela trela, no meio das ruas invernosas. As suas mãos de tuberculosa, marcadas pelas veias azuis, etc. Os traços curvos e ousados das suas sobrancelhas davam aos bonitos olhos um ar simultaneamente cândido e atrevido. Via-a durante meses, mas a sua beleza taciturna não me excitava. Cruzava-me com ela todos os dias quando ia ter com Baltasar ao Café Al Aktar, onde o digno homem me “iniciava”. Nunca pensei em que um dia me viria a tornar seu amante.

Sabia que ela tinha sido modelo no Atelier - profissão pouco invejável - e que era agora dançarina; mais, sabia que ela era amante de um velho peleiro, um vulgar e grosseiro negociante da cidade. Anoto estes pormenores simplesmente para registar um aspecto da minha vida para sempre afundado. Melissa! Melissa!

Recordo aquela época em que o mundo conhecido apenas existia para nós quatro; os dias não passavam de espaços entre sonhos, espaços entre os marcos movediços do tempo, das ocupações, da tagarelice... Um fluxo e refluxo de assuntos insignificantes, uma vadiagem, sem finalidade, ao longo de coisas mortas, sem nos levar a parte nenhuma, sem nada nos oferecer, uma existência que esperava de nós o impossível: que existíssemos! Justine dizia que tínhamos sido apanhados pela projecção de uma vontade demasiado poderosa e demasiado intencional para ser humana - a zona de atracção que Alexandria criava para aqueles que tinha escolhido como seus símbolos.

Seis horas. Nos arredores da gare, há uma confusão de silhuetas brancas. Na Rua das Irmãs, as lojas enchem-se e esvaziam-se como grandes pulmões. Os raios desmaiados do Sol trespassam as longas curvas da esplanada, e os pombos, ébrios de luz, juntam-se nos minaretes para banharem as asas nos derradeiros esplendores do poente. Nos balcões dos cambistas, tilintam moedas. Os gradeamentos de ferro das janelas dos bancos estão ainda demasiado quentes para uma pessoa lhes poder tocar. Ouve-se o rodar das carruagens que levam os funcionários, com uma flor vermelha na botoeira, a caminho dos cafés da beira-mar. É a pior hora de suportar, quando do meu balcão eu a vejo caminhar na direcção da cidade, com as suas sandálias brancas, ainda meio adormecida. A cidade sai da sua concha como uma velha tartaruga, e deita uma olhadela cá para fora. Por um momento, abandona os pedaços arrancados da sua carne, enquanto de uma ruela escondida junto do matadouro, dominando os mugidos e balidos, sobem fragmentos nasalados de uma canção de amor síria; quartos de tons penetrantes, como se produzidos por um nariz cheio de orifícios.

Depois, homens fatigados que levantam os toldos nas varandas e dão um passo, piscando na luz pálida e quente - flores lânguidas duma sesta angustiosa, cabeças doloridas pelos húmidos . sonhos, sonhados nos leitos torpes. Tornei-me num desses pobres amanuenses da consciência, um cidadão de Alexandria. Ela passa debaixo da minha janela, sorrindo a alguma secreta satisfação, abanando docemente as faces com o pequenino leque vermelho. Um sorriso que, provavelmente, não tornarei a ver, até porque, quando ela está acompanhada, limita-se a rir, descobrindo os seus magníficos dentes brancos. Mas este sorriso triste e furtivo tem uma qualidade que a ninguém ocorrerá atribuir-lhe - malícia! Seria mais fácil concebê-la de uma natureza mais trágica, sem qualquer espécie de humor vulgar. Mas a recordação obstinada desse sorriso faz-me duvidar, presentemente, do acerto da minha observação.

Tinha-a encontrado frequentemente e conhecia-a bastante bem, de vista, antes de nos relacionarmos: a nossa cidade não permite o anonimato, quando se possui um rendimento anual superior a duzentas libras. Vejo-a sentada, sozinha, à beira-mar, lendo um jornal e trincando uma maçã; ou no vestíbulo do Cecil Hotel, entre as palmeiras poeirentas, com uma capa debruada a prata, que ela usava lançada sobre as costas, como os camponeses, e com o longo indicador enfiado na barbela. Nessim tinha parado à porta do salão de dança, cheio de luz e de música. Não a tinha visto. Num nicho protegido pelas palmeiras, um par de velhos jogava o xadrez. Justine parara para observá-los. Não sabia as regras do jogo, mas a aura de concentração e de imobilidade que envolvia os jogadores fascinou-a. Permaneceu ali, um longo momento, diante dos velhos, surdos ao mundo e ao universo cheio de música, como indecisa e não sabendo em qual desses mundos entrar. Finalmente, Nessim aproximou-se docemente para lhe tomar o braço, e os dois ficaram assim por um instante, ela a olhar para os jogadores, ele a olhar para ela. Depois, ela voltou-se, com um suspiro de resignação, e dirigiu-se prudentemente para o mundo do ruído e da luz.

E noutras circunstâncias igualmente menos honrosas para ela e para nós; e, contudo, como é bem verdade que as mulheres mais másculas e engenhosas podem ser maravilhosamente femininas! Ela não cessava de me falar nessas rainhas terríveis que deixavam, ao passar, o odor amoniacal dos seus amores incestuosos como uma nuvem flutuando no inconsciente de Alexandria. As gatas gigantescas devoradoras de homens, como Arsinoé, eram as suas verdadeiras irmãs. E, contudo, por detrás das acções de Justine havia outra coisa, o produto de uma filosofia trágica mais amadurecida, a ideia de um equilíbrio, mercê do qual a moral devia suplantar a personalidade e as suas tendências perversas. Era a vítima sincera das suas dúvidas corajosas. E, apesar de tudo, vejo perfeitamente a ligação entre o quadro de Justine, debruçando-se sobre o vaso imundo onde flutuava um feto, e a pobre Sofia de Valentino, morrendo por um amor tão perfeito quanto insensato.

Georges Pombal, empregado subalterno do consulado, partilha comigo um pequeno apartamento na Rua Nebi Daniel. O facto de ser possível que possua uma coluna vertebral torna-o um fenómeno raro da sociedade diplomática. Para ele, as chinesices do protocolo e as recepções - tal como num pesadelo surrealista - possuem um encanto exótico. Vê a diplomacia através dos olhos de Douanier Rousseau. Toma parte no jogo sem deixar que o que lhe resta de personalidade sofra com isso. Creio que o segredo do seu sucesso reside na sua preguiça, que toca o sobrenatural.

No consulado-geral senta-se por detrás de uma secretária, constantemente coberta por cartões com os nomes dos seus colegas. Aquele seu grande corpo, afeito às prolongadas sestas e a Crebillon filho, é a encarnação da preguiça. Os seus lenços cheiram prodigiosamente a alfazema. As mulheres constituem o tema favorito das suas conversas, e pode falar com experiência, a julgar pelo número de visitantes que vejo desfilar pelo pequeno apartamento onde raramente se encontra a mesma cara duas vezes. “Para um francês, o amor oferece aqui um grande interesse. Elas agem antes de pensar. E quando chega o momento da dúvida, e o instante torturante do remorso, as coisas avançaram de mais, e ninguém se sente com coragem de voltar para trás. Falta um pouco de finura a essa animalidade, mas é justamente o que me convém. Estou enjoado do amor, e, sobretudo, não quero ouvir falar nessa mania copta e judaica da dissecação e da análise. Quero regressar à minha casa da Normandia sem qualquer compromisso.”

No Inverno, Pombal vai para férias e eu disponho, só para mim, do pequeno apartamento húmido; faço serão a corrigir os cadernos escolares, ouvindo Hamid ressonar. Neste último ano atingi a saturação. Falta-me a força de vontade para fazer alguma coisa na vida, para melhorar a minha situação à força de trabalho, para escrever e até para fazer amor. Não sei o que me sucede. Experimento pela primeira vez uma indiferença total pela minha própria sobrevivência. Folheio, às vezes, as páginas de um manuscrito ou as velhas provas de algum romance ou de um opúsculo de poemas, mas sem interesse, com uma espécie de enfado; e também com tristeza, como quando se abre um passaporte antigo.

De vez em quando, alguma das numerosas amiguinhas de Georges vem cair na minha rede, quando, na sua ausência, o vêm procurar ao apartamento, e o incidente não tem outras consequências senão agravar por algum tempo o meu taedium vitae. Georges é precavido e generoso neste ponto, e antes de partir (conhecendo a minha pobreza) sucede que muitas vezes paga adiantadamente a uma das sírias da taverna do golfo para vir uma ou outra vez passar uma noite no apartamento “na disponibilidade”, como ele diz. A rapariga tem por missão elevar-me o moral, o que não é uma tarefa invejável, tanto mais que à superfície não existe nada que indique que o meu moral se encontre por baixo. As conversas banais tornaram-se numa forma salutar de automatismo que persiste ainda por muito tempo depois de toda e qualquer palavra se ter tornado supérflua; e, quando necessário, fazer amor dá-me uma espécie de alívio, visto que nestas paragens é difícil dormir: mas sem paixão, distraidamente.

Algumas destas aventuras com pobres criaturas extenuadas, levadas até ao fim por necessidade física, são interessantes, mesmo comoventes, mas perdi o gosto de classificar as minhas emoções, e elas agora não passam, para mim, de silhuetas projectadas numa tela. “Só se podem fazer três coisas com uma mulher - disse um dia Clea. - Podemos amá-la, sofrer por ela, ou então fazer literatura.” Eu passava pela experiência de um fracasso em todos estes domínios do sentimento.

Se falo em tudo isto, é simplesmente para mostrar em que espécie humana Melissa ia tentar insuflar a vida. E ela não podia ligeiramente acrescentar um fardo à sua vida, atormentada pela doença e desprovida de alegria. Necessitava de muita coragem para se interessar por mim no estado em que se encontrava. Era talvez o fruto do seu próprio desespero, porque, tal como eu, ela também tinha tocado o fundo da desgraça. Tínhamos ambos falhado.

Durante semanas, o velho peleiro seguiu-me pelas ruas, armado com uma pistola que fazia uma saliência no bolso do seu sobretudo. Era consolador saber por um dos amigos de Melissa que a pistola estava descarregada, mas, de qualquer maneira, era alarmante ser perseguido por este velho. Devemos ter-nos fuzilado em imaginação em cada esquina da cidade. Da minha parte, não tolerava aquela face grosseira, inchada, com os olhos assentando sobre pesadas bolsas acastanhadas, luzentes de gordura, nem podia, tão-pouco, suportar a ideia da sua intimidade vulgar e bestial com a rapariga: aquelas mãos curtas e pesadas, húmidas de suor, cobertas de cerdas negras e ásperas como as de um javali! Esta situação durou por algum tempo, e, de repente, um sentimento extraordinário de intimidade pareceu começar a desenvolver-se em nós. Cumprimentávamo-nos e sorríamos quando nos encontrávamos. Um dia, calhou sentarmo-nos num bar, lado a lado, durante cerca de meia hora; ardíamos por falar, mas nenhum de nós tinha coragem de dar o primeiro passo. O nosso único tema de interesse comum era Melissa. Ao partir, vi-o num dos compridos espelhos que forravam as paredes, de cabeça baixa e olhar perdido dentro do copo. Havia na sua atitude alguma coisa que me despertou a atenção - o ar embaraçado de uma foca amestrada que tenta imitar emoções humanas - e, pela primeira vez, compreendi que ele amava Melissa tanto quanto eu próprio. Tive dó da sua fealdade e da vazia e dolorosa incompreensão com que afrontava emoções tão novas para ele: o ciúme e a falta de uma amante adorada.

Mais tarde, quando lhe revistaram os bolsos, descobri no montão de objectos vulgares um pequeno frasco vazio de perfume barato que Melissa usava; e trouxe-o para o apartamento, onde ficou sobre a pedra da chaminé durante alguns meses, até ao dia em que Hamid, tomado de um acesso de arrumação, o lançou para o lixo. Nunca falei nisso a Melissa; mas, muitas vezes, quando a noite me encontrava só, enquanto ela dançava e era, talvez, obrigada a ir para a cama com os seus admiradores, punha-me a observar esse pequenino frasco, que parecia condenar tristemente e apaixonadamente o amor desse velho e compará-lo com o meu; e testemunhar, também, por procuração, o desespero que leva uma pessoa a agarrar-se a qualquer objecto insignificante, ainda todo impregnado da memória daquela que traiu.

Descobri Melissa perdida no sombrio litoral de Alexandria, pobre avezinha exausta, quase afogada e com o sexo despedaçado...

Ruas que fogem das docas, por entre montões de casas desmanteladas e apodrecidas, metendo-se umas pelas outras, voltando as costas umas às outras... Balcões esteirados formigando ratos, e velhas cujo cabelo está cheio de crostas de feridas. Paredes ébrias que cambaleiam para leste e oeste do seu verdadeiro centro de gravidade. Cordões negros de moscas colando-se aos lábios e aos olhos das crianças, e larvas de moscas, como pérolas húmidas, por todo o lado; o peso dos cadáveres faz cair o papel mata-moscas nas portas dos cafés e das cantinas. Odor dos berberes curtidos de suor, comparável ao cheiro de uma velha passadeira em decomposição. E, depois, os pregões e os ruídos da rua: os gritos e o tilintar do aguadeiro, batendo os pratos de metal para anunciar a sua passagem, e os gritos inesperados que, uma vez por outcafé onde

ra, dominam a algazarra, tais como os de um pequeno animal de órgãos sensíveis que se estripa vivo. Feridas como pântanos... a incubação da miséria humana toma tais proporções que nos confunde, transbordando e espalhando todos os sentimentos humanos numa vaga única de desgosto e terror.

Gostaria de poder imitar a coragem de Justine atravessando estas ruas para vir encontrar-se comigo no café onde eu a esperava: o El Bab. O pórtico com um arco quebrado onde inocentemente nos sentávamos a conversar; mas a nossa conversa escolhia um caminho repleto de insinuações que tomávamos por presságios de uma pura e simples amizade. Sobre este chão de terra batida, sentindo subir das profundezas da terra uma frescura sombria, só um desejo predominava em nós, e era o de comunicar os pensamentos e experiências que ultrapassam a gama das ideias que, ordinariamente, são o tema das conversas. Ela falava como um homem e eu falava-lhe como se ela fosse um homem. Não consigo recordar-me em substância do que tratávamos nessas conversas.

Apoiando-me sobre um cotovelo, bebendo arak, sorrindo-lhe, eu respirava o perfume, quente como o próprio Estio, que se exalava do seu vestido e do seu corpo, um perfume que se chamava, não percebo bem porquê, Jamais de la vie. São estes momentos que o escritor possui, e não o amante, e que vivem para sempre. Podemos recordá-los uma vez por outra, ou servimo-nos deles para construir esta porção de vida que é a obra literária. Podemos embriagá-los com palavras, mas o que não podemos é destruí-los. Nesse mesmo contexto, encontro outro desses momentos, deitado ao lado de uma mulher adormecida, num quarto arrendado à hora, perto da mesquita. Na madrugada desse começo de Primavera, densa de orvalho, destacando-se no silêncio que entorpece a cidade, antes do despertar das aves, ouvia a voz monótona do muezim cego recitando o Ebed - a voz flutuando como um cabelo na camada de ar fresco que assenta sobre as palmeiras de Alexandria. “Glorifico a perfeição de Deus Eterno.” (Isto era repetido três vezes, cada vez mais lentamente, num registo agudo e muito puro.) “A perfeição de Deus, o Desejado, o Existente, o Único, o Supremo: a perfeição de Deus, o Primeiro, o Único: a perfeição Do que não foi criado, a quem nada se assemelha, que não tem semelhante nem descendência. Glorifiquemos e celebremos a Sua perfeição.”

A maravilhosa oração abre caminho como uma serpente através da minha consciência adormecida, os seus anéis de palavras lucilantes penetram em mim - a voz do muezim baixando gradualmente para registos mais graves - até que a aurora emerge cheia do seu maravilhoso poder de sarar, sinal de uma graça imerecida e inesperada, impregnando o pobre quarto onde Melissa dorme, respirando com uma leveza de gaivota, embalada pelos esplendores oceânicos de uma língua que ela jamais conhecerá.

Quem pode pretender que Justine não tinha o seu lado estúpido? O culto do prazer, as pequenas vaidadezinhas, a preocupação pelo que podiam pensar dela as gentes provincianas, a arrogância. Quando queria, era, também, capaz de ser de uma exigência tirânica. Sim. Sim. Mas é o dinheiro que faz crescer todas estas ervas daninhas. Direi somente que em muitos casos ela pensava como um homem, e nos seus actos saboreava uma certa independência vertical com o adoptar um comportamento masculino.

A nossa intimidade era de uma ordem psíquica muito estranha. Cedo descobri que ela podia ler os meus pensamentos com grande segurança. As ideias chegavam-nos simultaneamente. Lembro-me de ter tido consciência de uma vez em que ela pensava exactamente no mesmo que eu, e pelos mesmos termos: “Esta intimidade não deve prolongar-se porque já esgotámos todas as possibilidades das nossas respectivas imaginações; e o que acabaremos por descobrir, para além das cores sombrias da sensualidade, será uma amizade tão profunda que nos tornará escravos um do outro, para toda a vida.” Era, se preferem assim, o namoro de dois espíritos prematuramente extenuados e que parecia ainda mais perigoso que um amor de base puramente sexual. Sabendo até que ponto ela amava Nessim, de quem eu próprio gostava enormemente, tal pensamento causava-me horror. Estendida ao meu lado, ligeiramente ofegante, os seus grandes olhos contemplavam o tecto onde voavam querubins de gesso. Disse-lhe, então:

- Esta aventura entre um pobre professor e uma dama da alta sociedade de Alexandria não pode conduzir a nada. Isto vai acabar num escândalo mundano que nos separará porque tu serás obrigada a pôr-me de parte.

Justine não gostava de ouvir as verdades. Voltou-se, descansou sobre um cotovelo, e, baixando os seus magníficos olhos perturbados sobre os meus, olhou-me demoradamente.

- Não temos qualquer alternativa neste assunto - disse ela naquela sua voz rouca que eu tanto amava. - Tu falas como se nós pudéssemos escolher. Tudo isto faz parte de um plano preconcebido por qualquer ente que desconhecemos, talvez pela cidade ou por uma outra parte de nós próprios. Que sei eu?

Revejo-a na modista, diante dos grandes espelhos múltiplos, dizendo:

- Olha! Cinco imagens diferentes da mesma pessoa. Se eu fosse escritor, tentaria descrever uma personagem assim, através de uma espécie de visão prismática. Porque será que não podemos ver mais de um perfil de uma só vez?

Ela boceja e acende um cigarro; depois senta-se na cama e abraça os delicados tornozelos, começando a recitar lentamente, com um delicioso trejeito, os maravilhosos versos do velho poeta que falam de um amor muito e muito antigo - cujo encanto não suporta uma tradução. E ouvindo-a recitar esses versos, pondo em cada sílaba grega, deliberadamente irónica, uma espécie de ternura equívoca, descubro de repente o estranho e ambíguo poder da cidade - a sua paisagem composta de um único plano aluvial, o seu ar de perpétuo esgotamento - e compreendo que ela é uma verdadeira filha de Alexandria; isto é, nem grega, nem síria, nem egípcia, mas uma híbrida, um complexo.

Que intensidade põe ela ao recitar a passagem em que o velho lança fora a antiga carta de amor que tanto o comoveu e exclama: “Entro tristemente no terraço; que nada venha distrair o curso dos meus pensamentos, nada, nem mesmo o espectáculo dos movimentos insignificantes da cidade que amo, das suas ruas e das suas lojas!” E ela levanta-se, abre as persianas e debruça-se sobre a varanda que deita para a cidade recamada de luzes, todo o seu ser tenso sob a carícia do vento do entardecer que chega das planícies da Ásia; e, durante um breve lapso, ela nem mesmo tem consciência do corpo que lhe pertence.

“Príncipe” Nessim é, evidentemente, um gracejo; pelo menos para os comerciantes que o viam passar, digno e imperturbável, no seu grande Rolls cor de prata. Para começar, ele não era muçulmano mas sim copta. Todavia, o epíteto convinha-lhe admiravelmente, pois havia algo de principesco no desdém que Nessim afectava perante a cupidez nos lucros, que é um traço comum a todos os alexandrinos, mesmo nos mais ricos. E, contudo, os elementos que formavam a sua reputação de excêntrico nada tinham de particularmente notável para aqueles que tinham vivido fora do Levante. Só lhe interessava o dinheiro para gastar; não tinha nenhuma garçonnière e parecia ser absolutamente fiel a Justine, coisa de facto inaudita. No que respeita ao dinheiro, era tão rico que lhe causava uma espécie de nojo, e nunca trazia nenhum consigo. Gastava à árabe e passava vales aos comerciantes; os restaurantes e os night-clubs aceitavam os seus cheques. As suas dívidas eram regularmente pagas, e todas as manhãs, 'Selim, o seu secretário, percorria de carro o itinerário que o amo seguira na véspera, para liquidar todos os débitos acumulados.

Este estilo de vida, que derrotava os hábitos de servilismo e o espírito provinciano dos habitantes da cidade, era considerado por estes uma espécie de desprezo à europeia. Mas não se tratava de hábitos adquiridos pela educação; Nessim tinha nascido com eles e, neste pequeno universo, cuja única razão de existir parece ser o ganho, não encontrava nenhum alimento para o seu desejo de doçura e contemplação. Não existia homem menos autoritário do que ele, e, contudo, os seus actos provocavam comentários porque vinham marcados com o forte selo da sua personalidade. As pessoas sentiam-se inclinadas a atribuir as suas maneiras a uma educação estrangeira, quando, de facto, a Alemanha e a Inglaterra o tinham profundamente desconcertado, tornando-o mais tarde incapaz de se adaptar à vida da cidade. Da primeira, tinha colhido o gosto pela especulação metafísica, em contradição com a natureza do espírito mediterrânico, ao passo que Oxford tinha tentado transformá-lo num pedante e apenas conseguira desenvolver as suas tendências filosóficas a ponto de o incapacitar para o culto da sua arte predilecta: a pintura. Pensava e sofria muito, mas faltava-lhe a força necessária para ousar, que é a condição essencial para realizar seja o que for.

Nessim estava de mal com a cidade, mas como a sua considerável fortuna o punha diariamente em contacto com os negociantes locais, estes demonstravam a seu respeito uma indulgência risonha, como a que se adopta para com um pobre de espírito. E se entrávamos no seu gabinete - esse sarcófago todo de móveis tubulares e em vitrais -, não era raro encontrá-lo sentado, como um órfão, diante da secretária (coberta de campainhas, polés e candeeiros), comendo pão preto e lendo Vasari, enquanto com ar distraído ia assinando letras e recibos. Levantava então para o visitante o rosto pálido em forma de amêndoa, esforçando-se por sorrir, mas nem sempre logrando sair do seu universo secreto, com um olhar quase suplicante. E, contudo, sob esta aparência amável e desinteressada, ocultava-se uma impiedosa lucidez, e os seus empregados surpreendiam-se ao descobrir que, a despeito do seu ar ausente, não ignorava o menor facto respeitante aos seus negócios, e que as transacções que conduzia eram sempre fundadas num inesperado bom-senso comercial. Os empregados consideravam-no uma espécie de oráculo - no entanto (diziam eles, suspirando e dando de ombros), ele parecia não dar a esse facto a menor importância! Não dar importância ao ganho, eis o que para os Alexandrinos é o expoente máximo da loucura.

Conheci-os de vista durante muito tempo antes de nos encontrarmos - como, de resto, conhecia toda a gente na cidade! De vista e igualmente de reputação, dado que a sua maneira de viver, altiva, desenvolta e sem condescender com as convenções, tinha tornado o casal notório entre os nossos provinciais. Ela passava por ter tido um grande número de amantes; e Nessim passava por um mari complaisant. Tinha-os visto dançar juntos em diversas ocasiões, ele esguio, com uma cintura fina de mulher, e bonitas mãos de dedos afilados; a cabeça adorável de Justine - o ângulo muito pronunciado do seu nariz árabe e os olhos translúcidos, dilatados pela beladona, lançando em torno olhares de pantera semidomesticada.

Depois, um dia, eu aceitei proferir uma conferência sobre o poeta da cidade no Atelier des Beaux-Arts, espécie de clube onde os amadores habilidosos podiam conviver, alugar estúdios, etc. Aceitei, unicamente porque isso me proporcionava um pequeno ganho suplementar e porque, aproximando-se o Outono, Melissa tinha necessidade de um novo casaco. Mas foi uma tarefa dolorosa, e eu sentia o velho perto de mim, assediando, por assim dizer, as ruelas obscuras, em torno da sala de conferências, e impregnando-as com o perfume dos seus versos inspirados nos amores de miséria, e, contudo, fecundos, que ele experimentara - amores que talvez tivesse pago, amores fugazes a que o seu estro conferia vida e eternidade -, e com que demorada paciência e ternura ele tinha fixado o minuto adventício e fixado todos os seus cambiantes! Que impertinência a minha falar sobre um ironista que, com tanta naturalidade e delicadeza, fez das ruas e dos bordéis de Alexandria o objecto da sua obra! E, o que é mais, falar diante de um público que não é constituído por marçanos de mercearia e pequenos empregados - que ele imortalizou -, mas por dignas damas da sociedade para quem a cultura que ele representava era uma espécie de banco de sangue: elas tinham vindo receber a sua transfusão. Algumas tinham perdido uma tarde de bridge, para me ouvir, sabendo perfeitamente que não se sentiriam transportadas, mas simplesmente estupefactas.

Tudo quanto me lembro de ter dito é que me sentia perseguido pelo seu rosto - o rosto docemente triste da última fotografia; e quando a onda de esposas dos bons burgueses se escoou pela escadaria de pedra, perdendo-se nas ruas húmidas onde os seus automóveis esperavam, descobri, no momento de deixar a sala, que para trás ficara uma estudante solitária das paixões e das artes. Estava sentada no fundo da sala, pensativa, de pernas cruzadas, numa atitude masculina, fumando um cigarro. Não olhava para mim, mas fixava o soalho em frente dos seus pés com um ar vulgar. Senti-me lisonjeado, pensando que pelo menos uma pessoa tinha compreendido as minhas dificuldades. Peguei na gabardina e na pasta húmida e lancei-me para as ruas varridas por uma chuvinha fina e penetrante que o vento do litoral fustigava. Tomei o caminho de casa onde Melissa a essa hora teria posto a mesa, coberta com uma folha de jornal, depois de ter mandado Hamid buscar o assado ao padeiro, porque não tínhamos forno.

Fazia frio cá fora e eu ia passando pelas lojas da Rua Fouad, fortemente iluminadas. Diante de uma mercearia, vi uma pequena caixa de azeitonas com o nome Orvieto no rótulo, e, tomado bruscamente pela nostalgia do bom lado do Mediterrâneo, entrei na tenda; comprei a caixa; pedi que a abrissem, e sentando-me numa mesa de mármore, sob a lúgubre claridade suja, comecei a devorar a Itália, a sua carne queimada pelo sol, o seu solo fecundo, as suas vinhas ilustres. Sentia que Melissa nunca seria capaz de compreender este meu estado de espírito. Seria obrigado a mentir, dizendo que tinha perdido o dinheiro.

Não vi imediatamente o comprido carro que ela tinha deixado na rua sem parar o motor. Entrou na lojeca com um ar brusco e decidido e disse, com aquele tom de autoridade que possuem as lésbicas e que as mulheres ricas usam quando se dirigem a pessoas manifestamente pobres: “Que entende por natureza antinómica da ironia?” - ou qualquer coisa desse género, e que não me ocorre agora à memória.

Não conseguindo arrancar-me do meu sonho italiano, ergui a cabeça com ar aborrecido e vi-a, nos três espelhos que guarneciam três das paredes, debruçar-se para mim, o rosto sombrio e um pouco assustador, simultaneamente perturbado e cheio de uma arrogante reserva. Naturalmente eu já tinha esquecido tudo quanto podia ter dito sobre a natureza da ironia e tudo o mais, e respondi-lhe isso mesmo com um ar de indiferença que não era totalmente fingido. Ela soltou um ligeiro suspiro, como para manifestar que a minha resposta a pusera à vontade e sentou-se acendendo um cigarro - fumava tabaco francês -, aspirando pequenas fumaças que lançava para o espaço em fios azulados que ficavam suspensos na luz crua da sala. Não sabia que atitude adoptar diante da franqueza com que ela me olhava e que eu considerava algo embaraçosa - era como se ela estivesse a avaliar o uso que poderia extrair da minha pessoa.

- Gostei da maneira como se referiu aos versos que ele escreveu sobre a cidade - disse ela. - Fala bem o grego. Naturalmente é escritor.

- Naturalmente - respondi eu.

É sempre doloroso não se ser conhecido. Parecia inútil prosseguir neste caminho. Sempre tive horror às conversas literárias. Ofereci-lhe uma azeitona que ela aceitou; cuspiu o caroço, como um gato, na sua mão enluvada e deixou-o ficar, como se o tivesse esquecido. Disse, então:

- Gostaria de apresentá-lo a Nessim, meu marido. Quer vir? Um polícia tinha aparecido à porta, manifestamente intrigado com o automóvel abandonado. Foi essa a primeira vez que eu entrei na grande casa de Nessim com as suas estátuas, as suas palmeiras e os seus nichos, os seus Courbet, os seus Bonnard e tudo o mais. Era, simultaneamente, magnífico e medonho. Justine subiu vivamente a escadaria monumental, detendo-se apenas para transferir o caroço de azeitona do bolso do seu casaco para um vaso da China, chamando Nessim em todos os tons. Fomos de sala em sala, povoando-as de sons. A resposta veio do grande estúdio no sótão, e precipitando-se para ele, como um cão, ela atirou-se, metaforicamente, aos pés do marido, ficando ligeiramente para trás a abanar alegremente a cauda. Tinha conseguido apanhar-me.

Nessim estava sentado no último degrau de um escadote e preparava-se para ler, mas começou a descer lentamente, observando-nos com toda a atenção. A sua timidez não sabia como reagir diante das minhas roupas modestas, dos meus cabelos encharcados e da minha caixa de azeitonas, e eu próprio não podia dar-lhe qualquer explicação da minha presença, visto que ignorava, até, o motivo por que me tinham trazido ali.

Compadeci-me dele e ofereci-lhe uma azeitona; sentámo-nos e acabámos as azeitonas falando, se bem me lembro, de Orvieto, que nenhum de nós conhecia, enquanto Justine ia pelos aperitivos. É uma grande consolação para mim recordar este primeiro encontro. Nunca me senti mais perto deles - quero dizer, mais perto do casal que eles formavam; pareciam-me, então, esse animal ideal de duas cabeças que o casamento pode produzir. Vendo a luz quente e benevolente que brilhava nos olhos de Nessim, compreendi, recordando-me dos escandalosos rumores que corriam acerca de Justine, que tudo quanto ela pudesse ter feito - mesmo aquilo que aos olhos do mundo pudesse passar por repreensível ou chocante - tinha, num certo sentido, sido feito por amor dele. O amor de Justine por seu marido era como uma pele dentro da qual ele se encontrava, tal como Hércules em menino; e os esforços que ela fazia para se realizar não a tinham afastado dele, muito pelo contrário. Sei bem que o mundo ignora esta espécie de paradoxo e não está habituado a ele; mas Nessim conhecia-a e aceitava-a de um modo que é absolutamente incompreensível para aqueles que não conseguem separar o amor dos ideais corruptos da propriedade privada. Um dia, muito mais tarde, ele disse-me: “Que podia eu fazer? Justine era demasiado forte para mim, sob muitos aspectos. Não podia fazer nada senão amá-la, a despeito de tudo - era o meu único trunfo. Antecipava-me, adivinhando todos os seus erros; ela encontrava-me sempre junto de si, pronto a ajudá-la quando caía, como para lhe demonstrar que nada disso tinha importância. No final das contas, ela só comprometia a parte mais insignificante da minha pessoa: a minha reputação.”

Mas isto ocorreu muito mais tarde: só nos conhecemos bastante bem para podermos falar assim livremente quando o destino infeliz nos devorou a todos. Lembro-me também de ele me ter dito certo dia - foi na vila de Verão, perto de Bourg El Arab -: “Talvez o surpreenda se lhe disser que sempre pensei que em Justine havia uma espécie de grandeza. Há certas espécies de grandeza, sabe, que se não se aliam à arte ou à religião, fazem destroços na vida ordinária. É pena que ela tenha aplicado os seus dons somente nos domínios do amor. Ela foi má de muitas maneiras, é bem certo, mas isso não tinha importância. Nem sequer posso, também, afirmar que ela não fez mal a ninguém. Mas mesmo aqueles a quem ela feriu saíram enriquecidos da experiência. Ela arrancava as pessoas dos seus velhos invólucros, obrigava-as a sair de si próprias. É natural que isso seja doloroso, e muitos se equivocaram sobre a natureza da dor que ela lhes infligia. Mas eu, não!” E sorrindo aquele seu bem conhecido sorriso, onde a doçura se casava com uma inexprimível amargura, repetiu em voz baixa: “Mas eu, não.”

Capodistria... como situá-lo no quadro? Mais parece um duende do que um homem, podereis julgar. A cabeça chata e triangular de serpente com os dois grandes lóbulos frontais; os cabelos avançando em riste, como uma viseira. Uma língua esbranquiçada e nervosa que ele passa incessantemente pelos lábios secos e delgados. É incrivelmente rico e não necessita mexer uma palha para viver. Sentado o dia inteiro no terraço do Brokers Club, observa a passagem das mulheres, com o olhar inquieto do homem que baralha sem cessar um velho baralho de cartas sebosas. De tempos a tempos, tem um sobressalto, como um camaleão atirando bruscamente a língua - o que é um sinal subtil. Então, há uma silhueta que se afasta do terraço, para seguir a mulher que o seu gesto designou. Às vezes os seus agentes detêm e importunam abertamente uma mulher na rua, em seu nome, mencionando uma soma de dinheiro. Na nossa cidade, uma mulher não se considera ofendida por lhe oferecerem dinheiro. Algumas limitam-se a rir. Outras aceitam imediatamente. Mas nunca se zangam. O vício e a virtude praticam-se com a mesma naturalidade.

Capodistria conserva-se distante de tudo isto, no seu fato imaculado, com um colorido lenço de seda a espreitar do bolso. Os sapatos bicudos brilham intensamente. Os seus amigos chamam-lhe “Da Capo” devido a certas proezas sexuais iguais à sua fortuna - ou à sua fealdade. Existe um obscuro parentesco entre ele e Justine. “Lastimo-o - diz ela. - Tem o coração empedernido e tudo quanto lhe resta são os cinco sentidos, como os fragmentos de um copo quebrado.” Contudo, a monotonia de uma tal vida não parece deprimi-lo. A sua família é famosa pelo número de suicídios cometidos e a sua herança psicológica está carregada de doenças e perturbações mentais. Mas isso não o afecta em absoluto e ele costuma dizer, pousando um indicador demasiado longo sobre a têmpora: “Todos os meus antepassados tinham pancada. Meu pai também. Era um grande femeeiro. Quando já era muito velho, tinha um manequim de borracha, feito à imagem de uma mulher perfeita, em tamanho natural; no Inverno, podia encher-se de água quente.”

Era a sua boneca, uma boneca extraordinariamente bela. Chamava-lhe Sabina, que era o nome de sua mãe, e levava-a sempre consigo. Tinha a paixão dos paquetes, e os dois últimos anos da sua vida passou-os no mar, entre a Europa e Nova Iorque, sem descer a terra quase nunca. Sabina possuía um magnífico guarda-roupa. Era um grande espectáculo vê-los descer os dois à sala de jantar, vestidos como para uma récita de gala. O velho viajava com um criado chamado Kelly. Cada um do seu lado, pegavam em Sabina por um braço, e ela tinha o ar de uma dama de sociedade, maravilhosamente vestida e ligeiramente embriagada. Na noite em que morreu, disse a Kelly: “Envia um telegrama a Demétrio e diz-lhe que Sabina morreu nos meus braços, sem sofrimento.” Enterraram-na em Nápoles, junto do velho. Quando acabava de contar esta história, a sua gargalhada era a coisa mais natural e sã que se possa conceber.

Mais tarde, quando quase enlouqueci em tormentos e me encontrei pesadamente endividado para com Capodistria, passei a considerá-lo um companheiro menos agradável; e, certa noite, Melissa, meio embriagada, encontrou-se sentada em frente dele, diante do fogo, num tamborete baixo, tendo entre os dedos longos e pensativos a letra que eu tinha assinado, com a simples palavra “pago” escrita transversalmente, a tinta verde, numa caligrafia agressiva... São estas recordações que fazem sofrer. Melissa explicou: “Justine poderia ter pago a tua dívida e isso não lhe causaria grande transtorno. Mas já basta que tenha o teu desejo: não quero que tenha, também, a tua gratidão. E depois, embora te não importes muito comigo, queria fazer alguma coisa por ti, e o sacrifício, afinal, não foi demasiado grande. Pensava que não ficarias muito triste por eu me deitar com ele. Não fizeste tu o mesmo por mim, quero dizer, não pediste dinheiro a Justine para pagar a clínica, as radiografias e tudo o mais? Mentiste-me a esse respeito mas eu descobri a verdade. Eu não podia mentir, eu nunca minto. Toma a letra, rasga-a: mas não voltes a jogar com ele. Tu não te podes ligar com um homem da sua espécie.” E voltando a cara fez o simulacro de cuspir, como fazem os Árabes.

Da vida pública de Nessim - essas gigantescas e enfadonhas recepções, de início frequentadas apenas por homens de negócios, mas que mais tarde deram pretexto a tenebrosas conjuras políticas - não quero ocupar-me. Atravessando furtivamente o vestíbulo a caminho do estúdio, detinha-me para examinar o grande escudo de couro sobre a chaminé, onde se encontrava também um plano da mesa - para ver quem tinha sido colocado à direita e à esquerda de Justine. Durante algum tempo tentaram, gentilmente, fazer-me participar destas reuniões, mas eu pretextava cansaço e sentia-me feliz por poder dispor do estúdio e da imensa biblioteca. Mais tarde encontrávamo-nos como conspiradores e Justine lançava fora as máscaras de alegria, tédio e petulância que arvorava em sociedade. Desembaraçava-se dos sapatos e jogávamos cartas à luz da candeia. Quando ia deitar-se lançava um olhar ao espelho e dizia para a sua imagem: “Não passas de uma judia histérica e pretensiosa!”

O estabelecimento de Mnemjian, barbeiro, natural da Babilónia, ficava na esquina da Rua Fouad com a Rua Nebi Daniel, e era lá1 que todas as manhãs eu e Pombal nos encontrávamos reflectidos em frente dos espelhos vizinhos. Erguiam-nos ao mesmo tempo nas cadeiras e cobriam-nos com duas mortalhas brancas, como faraós mortos, para logo reaparecermos nos espelhos, como dois insectos numa montra. Era um garoto negro quem nos prendia as toalhas, enquanto o barbeiro ia misturando a espuma oleosa e perfumada numa grande tigela vitoriana, antes de aplicá-la em pequenos toques hábeis nas nossas faces.

Depois de dar a primeira camada, deixava-nos de novo nas mãos do garoto para ir afiar a navalha numa enorme língua de couro que pendia, ao fundo da loja, no meio das fitas de papel mata-moscas.

O pequeno Mnemjian é um anão cujo olhar violeta não perdeu ainda a candura infantil. E, contudo, ele é o arquivo da cidade. Se quisermos conhecer os ascendentes ou as posses de qualquer pessoa, não há quem melhor nos informe; conta-nos todos os pormenores enquanto afia a navalha, experimentando o fio nos pêlos hirsutos do antebraço. E o que ele não souber depressa o descobre. E sabe tanto sobre os mortos como sobre os vivos, posto que o hospital grego o utiliza para barbear e vestir as suas vítimas, antes de as abandonar aos gatos-pingados; é uma tarefa que ele desempenha com o zelo e o prazer de todos os da sua raça. O seu velho comércio abrange os dois mundos, e algumas das suas melhores observações começam por esta frase: “Como me dizia Fulano ao dar o último suspiro.” Parece que tem muita sorte com mulheres e consta que arredondou uma pequena fortuna à custa das suas admiradoras. Mas há, também, as velhotas egípcias, mulheres e viúvas dos paxás, que ele visita regularmente para lhes compor o penteado. Segundo ele, essas senhoras “já experimentaram tudo” - e, dando uma palmada na medonha giba que lhe carrega as costas, acrescenta orgulhosamente: “Isto excita-as.” Entre outras coisas possui uma cigarreira de ouro, oferta de uma sua admiradora, onde guarda uma colecção de mortalhas soltas. O seu grego é deficiente, mas enriquecido pôr inesperadas imagens, e Pombal não consente que ele lhe fale em francês, embora domine esta língua muito melhor.

Está, presentemente, alcovitando para o meu amigo, e sempre me admiram os súbitos assomos de poesia que ele põe na descrição das suas protégées. Debruçado sobre a face lunar de Pombal, dirá, por exemplo, enquanto a navalha começa a ranger sob a camada de espuma: “Tenho uma coisa para si - uma coisa muito especial.” Pombal surpreende o meu olhar no espelho e volta rapidamente a cabeça com receio de que desatemos ambos a rir às gargalhadas. Emite um grunhido prudente. Mnemjian eleva-se ligeiramente na ponta dos pés e aproxima-se mais da orelha de Pombal, entortando os olhos. A vozinha cariciosa envolve todas as frases com um sentido equívoco, e o seu discurso não perde nada com os pequenos e lancinantes suspiros com que ele o sublinha. Durante uns minutos reina o silêncio. Vejo no espelho o alto da cabeça de Mnemjian - essa crista obscena de cabelos negros que ele arranjou em caracol ao lado das fontes, sem dúvida com o fim de distrair as atenções da marreca. Enquanto manobra a navalha, os olhos perdem o brilho e o rosto torna-se tão inexpressivo como um fundo de garrafa. Os dedos trabalham as nossas faces com o mesmo desinteresse frio com que trabalham as faces exigentes (e - sim! - felizes) dos mortos. “Desta vez - diz Mnemjian - há-de ficar satisfeito. Ela é nova, asseada e não custa caro. Verá por si próprio, é uma perdigota, um raio de mel com todo o mel intacto dentro dela, uma pombinha. Neste momento tem falta de dinheiro. Saiu há pouco do manicómio de Helwan, onde o marido tentou interná-la. Arranjarei para que ela esteja no Rose-Marie na última mesa do passeio. Vá vê-la quando for uma hora; se a quiser, entregue-lhe o cartão que eu lhe vou dar. Mas lembre-se de que é a mim que deve pagar. De homem para homem, é a única exigência que eu faço.”

Durante um momento não diz mais nada. Pombal continua a observar a sua própria imagem no espelho, enquanto a curiosidade natural que o revolve se debate com a imensa apatia do Estio. Mais tarde precipitar-se-á, sem dúvida, no apartamento, levando consigo qualquer pobre criatura esgotada e bravia, cujo sorriso idiota nenhum outro sentimento despertará nele além da piedade. Não posso negar a bondade do meu amigo, pois, na verdade, dá-se a trabalhos para conseguir empregar essas raparigas; com efeito, a maior parte dos consulados contam entre o seu pessoal antigas desgraçadas que se esforçam desesperadamente por parecer dignas, e é à assiduidade de Georges junto dos seus colegas de carreira que elas devem os seus empregos. Entretanto, não existe mulher, por mais humilde velha ou usada, que não lhe mereça uma demonstração exterior de consideração, uma dessas pequenas galantarias, uma dessas frases que eu associo com o temperamento gaulês, esse encanto francês, cerebral e falso que tão facilmente se evapora para se transformar em orgulho e em indolência mental - tal como os pensamentos franceses que tão rapidamente se perdem em moldes de areia, o “esprit” original cristalizando imediatamente em conceitos de onde se encontra ausente toda a sensibilidade. O omnipresente sexo que flutua sobre os seus pensamentos e as suas acções tem, contudo, um ar de desapego que o torna qualitativamente diferente das acções e dos pensamentos de um Capodistria, por exemplo, a quem muitas vezes encontramos na loja de Mnemjian à hora da barba. Capodistria tem uma maneira involuntária de feminilizar tudo aquilo de que se aproxima; sob o seu olhar, as cadeiras tornam-se dolorosamente conscientes da nudez das suas pernas. Penetra nas coisas. Sentado à mesa com ele, vi uma melancia fremir sob a carícia do seu olhar e senti vibrar as grainhas do seu ventre! As mulheres sentem-se como a ave diante da víbora em frente daquela cara estreita e chata, daquela língua que se move sem cessar sobre os lábios sumidos. Penso uma vez mais em Melissa: hortus conclusus, soror mea sponsor...

“Regard dérisoire - diz Justine. - Como se explica que você seja um de nós e entretanto... esteja tão longe?” Ela arranja os seus belos cabelos negros diante do espelho, com um cigarro a arder entre os lábios. “Você é, evidentemente, um refugiado mental, visto que é irlandês, mas tem ainda que partilhar a nossa angoisse.” De facto, o que ela procura surpreender é essa qualidade distintiva que procede não de nós mas da paisagem - os aromas metálicos que impregnam a atmosfera debilitante do lago Mareotis.

Enquanto a escuto, penso nos fundadores da cidade, no Deus-Soldado no seu caixão de vidro, no corpo de comovente juventude na sua armadura de prata, descendo o rio até ao local onde se erguia o túmulo. Ou nessa grande cabeça quadrada, de negro, de onde emana um conceito de Deus, concebido no espírito da pura especulação intelectual: Plotino. É como se as preocupações desta paisagem convergissem num ponto fora do alcance da maior parte dos seus habitantes, numa região onde a carne, posta a nu pelo abuso das suas reticências finais, devesse submeter-se a uma preocupação infinitamente mais compreensiva; ou extinguir-se nessa espécie de esgotamento que as obras do Mouseion representam, os cândidos jogos dos hermafroditas nos jardins verdejantes da Arte e da Ciência. Poesia, desajeitada tentativa de inseminação artificial das Musas; metáfora de uma estupidez flagrante, da cabeleira de Berenice cintilando no céu nocturno por sobre a face adormecida de Melissa. “Ah! - disse Justine uma certa vez -, se ao menos houvesse algo de livre, algo de polinésico nesta devassidão em que vivemos.” Ou mesmo de mediterrânico, devia ela ter acrescentado, porque as implicações de cada beijo seriam diferentes em Itália e em Espanha; aqui, os nossos corpos estavam feridos pelos ventos ásperos e esterilizantes que sopravam dos desertos africanos, e éramos obrigados a substituir o amor por uma ternura cerebral mais cruel, que, longe de repelir a solidão, só servia para exacerbá-la ainda mais. Até a própria cidade tinha dois centros de gravidade: o pólo real e o pólo magnético da sua personalidade; e, entre os dois, o temperamento dos seus habitantes dissolvia-se e esgotava-se em vãs descargas eléctricas. O seu centro espiritual era a paisagem esquecida de Soma, onde o corpo atormentado do jovem soldado foi um dia depositado na sua divindade fictícia; a sua sede temporal era o Clube dos Corretores, onde, autênticos gnósticos (1), os corretores vinham, nas suas roupas de algodão, beber café, fumar charutos rançosos e contemplar Capodistria, como os vagabundos dos cais contemplam um pescador ou um pintor. O primeiro simbolizava, para mim, as grandes conquistas do homem nos domínios da matéria, do espaço e do tempo - que devem inevitavelmente abandonar o seu conhecimento, penosamente adquirido, ao conquistador no seu túmulo -; o outro não era um símbolo mas o limbo vivo do livre arbítrio, onde a minha bem-amada Justine errava em busca (no meio de uma terrível solidão de espírito) do lampejo que lhe revelaria uma nova perspectiva do seu ser. Nela, como verdadeira alexandrina, a licença era uma forma estranha mas real de abnegação, uma máscara da liberdade; e se eu via nela um testemunho da cidade não pensava em Alexandrina, nem em Plotino, mas na filha infeliz de Valentino que caiu, “não como Lúcifer, por se ter rebelado contra Deus, mas pelo

 

Nota 1: Gnose. O corpo astral dos que morrem prematuramente. “Crêem poder realizar actos corporais quando, com efeito, não possuem corpo físico e agem em pensamento.” (Paracelso)

 

excessivo desejo que tinha de se unir a Ele” (1). Tudo o que é em excesso é pecado.

 

Nota 1: “A doutrina gnóstica considera a criação um erro. Imagina um Deus primordial que engendrou manifestações de si próprio sob a forma de casal” macho-fêmea. Cada casal era inferior ao precedente e Sofia (a sabedoria) era a fêmea do trigésimo casal e a menos perfeita de todas. Demonstrou a sua imperfeição, não como Lúcifer, revoltando-se contra Deus, mas desejando excessivamente unir-se a Ele. Caiu por amor.” (E. M. Forster, Alexandria.)

 

Separada da divina harmonia, caiu, diz o filósofo trágico, e tornou-se a manifestação da matéria; e todo o universo da sua cidade e do mundo nasceu da sua agonia e do seu remorso. O gérmen trágico que engendrou os seus pensamentos era o gérmen de um gnosticismo pessimista.

Sei que esta identificação era real porque, muito mais tarde, quando com tanta hesitação e maus presságios ela me permitiu entrar para o pequeno círculo que todos os meses se reunia em torno de Baltasar, eram sempre as suas referências ao gnosticismo as que mais a interessavam. Lembro-me da noite em que com tanto fervor e humildade ela lhe perguntou se tinha interpretado correctamente o seu pensamento:

- Quer dizer que Deus nunca nos criou nem tão-pouco pensou fazê-lo, mas que somos obra de uma divindade inferior, um demiurgo, que se supunha Deus? Ah!, como isso parece provável; e é esse hubris presunçoso que foi transmitido aos nossos filhos.

E de uma outra vez, íamos lado a lado, ela colocou-se, repentinamente, diante de mim, e segurando-me as abas do casaco, olhou-me bem nos olhos e disse-me:

- E tu, em que crês? Tu nunca dizes nada. Basta-te rir, uma vez por outra.

Não sabia o que lhe havia de responder; para mim todas as ideias se equivalem; o facto de existirem, apenas prova que alguém as criou. Que me interessa que sejam objectivamente justas ou falsas? De qualquer modo não podem ficar indefinidamente no mesmo estado.

- Mas sim, é importante - exclamava ela com uma comovente insistência. - É extremamente importante, meu querido.

Nós somos os filhos da paisagem em que vivemos; é ela que traça o nosso comportamento e até os nossos pensamentos, na medida em que nos influencia.

- As tuas dúvidas, por exemplo, que contêm tanta inquietação e uma tal sede de verdade absoluta, diferem muito do cepticismo grego e do pensamento mediterrânico que considera o sofisma como uma arma legítima no jogo do pensamento; e isto porque o teu pensamento é uma arma, uma teologia.

- Não concebo outro modo de formular juízos sobre a acção.

- A acção não pode julgar-se enquanto se não julga o pensamento, visto que os nossos pensamentos são igualmente actos. São as nossas tentativas para realizar juízos parciais sobre o pensamento e sobre a acção que promovem a dúvida.

Eu adorava a sua maneira de parar bruscamente para sentar-se sobre um muro, ou, então, no fuste de uma coluna quebrada, no pátio arruinado que fecha a Coluna de Pompeu, mergulhada na profunda melancolia que lhe provocava no cérebro o choque de alguma nova ideia.

- Crês, realmente, no que dizes? - perguntava ela com tanta tristeza que uma pessoa se sentia simultaneamente divertida e comovida. - E porque estás a sorrir? Tu sorris sempre das coisas mais sérias. Ah!, devias sentir-te triste.

Se chegou, porventura, a conhecer-me, deve ter descoberto que para todos os que sentem profundamente e que têm plena consciência da inescrutável teia do pensamento humano só uma resposta é possível - uma irónica ternura e o silêncio.

Numa noite resplandecente de estrelas, com os pirilampos ocultos na erva seca a lançarem para o céu a sua luz fantasmagórica, tudo quanto eu podia fazer era sentar-me a seu lado a acariciar-lhe os magníficos cabelos negros, em silêncio. Por sob tudo isto, como um rio negro, corria a nobre citação que Baltasar tinha tomado para epígrafe e que costumava ler com uma voz onde a ligeira e trémula fadiga era devida, tanto à pura emoção como ao cansaço do espírito arrojado para os abismos do pensamento abstracto. “O que é dia para os corpora é noite para os spiritus. Quando o corpo repousa o espírito do homem põe-se a trabalhar. A velada do corpo é o sono do espírito e o sono do espírito é a velada do corpo.” E depois, como o ribombar de um trovão: “O mal é o bem pervertido.”

Eu desconfiava há muito tempo que Nessim a vigiava; ela parecia possuir a liberdade de um morcego para percorrer de noite toda a cidade, e jamais observei que o marido lhe pedisse contas dos seus movimentos. Não seria fácil seguir a pista de uma pessoa tão múltipla, tão irrequieta, e que participava da vida da cidade em numerosos aspectos. Entretanto, é possível que a vigilância exercida sobre ela tivesse o fim de evitar que algum mal lhe sucedesse. Concluo isto de uma ocorrência que testemunhei numa noite em que fui convidado para jantar em casa deles. Quando não havia outros convidados, jantávamos no pequeno pavilhão, ao fundo do jardim, onde a frescura do Verão se casava com o murmúrio da água jorrando da boca de quatro leões de pedra em torno de uma fonte. Nessa tarde, Justine ainda não tinha regressado, embora a hora fosse já adiantada, e Nessim, sozinho, acariciava entre os seus dedos longos e delgados uma pedra de jade polido onde se reflectiam os derradeiros raios de sol que penetravam pela janela junto da qual ele se sentara.

Tinha, justamente, ordenado que começassem a servir o jantar, quando o pequeno receptor telefónico começou a lançar o seu trinado argentino. Nessim, soltando um suspiro, foi atender, e ouvi-o pronunciar um “sim” impaciente; depois falou em voz baixa, em árabe, e por um instante eu tive a intuição de que era Mnemjian quem se encontrava na outra extremidade do fio. Nem sei por que motivo tal conclusão se apresentou no meu espírito. Nessim rabiscou rapidamente uma nota num pedaço de papel e, pousando o auscultador, ficou um momento a decorar o que tinha escrito. Depois voltou-se para mim e, subitamente, encontrei-me perante um Nessim completamente diferente, que dizia: “Justine talvez precise do nosso auxílio. Quer acompanhar-me?” E sem escutar a minha resposta correu escadas abaixo e contornou o tanque de nenúfares em direcção à garagem. Segui-o com dificuldade e poucos minutos depois a pequena viatura desportiva atravessava o portão, entrando na Rua Fouad e dirigindo-se para o mar através do labirinto de ruelas que desciam para Ras El Tin. Embora não fosse muito tarde, encontrávamos pouca gente nas ruas; contornámos, a grande velocidade, a esplanada em direcção ao Yacht Club, ultrapassando sem piedade os poucos fiacres (“as carruagens do amor”) que andavam para cá e para lá na estrada à beira-mar.

Junto do forte fizemos uma curva e penetrámos no bairro miserável acaçapado nas traseiras de Tatwig Street, com os faróis do carro a emprestar um inusitado e colorido relevo aos cafés abarrotados e aos largos formigantes: para além do horizonte, próximo de casas desmanteladas, ouviam-se os uivos irritantes de um cortejo fúnebre e as carpideiras impregnavam a noite com as suas medonhas lamentações. Deixámos o carro numa ruela perto da mesquita e Nessim penetrou no vestíbulo tenebroso de um grande imóvel, metade do qual estava ocupado por escritórios, agora fechados, e sob cujas janelas, protegidas por grades, se viam letreiros semiapagados. Um solitário boab, o porteiro do Egipto, vestindo andrajos, estava acocorado sobre o seu poleiro, confundindo-se com qualquer objecto abandonado (um velho pneu, por exemplo), e fumando um narguilé de boquilha curta. Nessim dirigiu-lhe algumas breves palavras, e mesmo antes de dar tempo ao homem para responder atravessou um corredor que desembocava numa espécie de pátio obscuro, fechado por uma fileira de casas desmanteladas, com paredes de tijolos rudemente talhados e cobertos por uma camada de gesso escamoso. O meu amigo parou para acender o isqueiro, e foi com a ajuda da chama débil que começámos a inspeccionar as portas. Na quarta porta Nessim bateu, e, como ninguém aparecesse, abriu-a.

Um corredor, nas trevas, conduzia a um pequeno gabinete frouxamente iluminado por velas de pavio de junco. Aparentemente era este o nosso destino.

A cena que se nos deparou era violentamente original, quanto mais não fosse pela luz que, saindo do chão de terra batida, tocava as faces, os lábios e as sobrancelhas dos participantes, deixando numa sombra vazia outras zonas do rosto, o que lhes dava o ar de terem sido devoradas pelos ratos que infestavam os recessos do sórdido local. Era aquilo um bordel de crianças, e, naquela luz espectral, vestindo grotescas camisas de noite, de talhe bíblico, lábios pintados, penduricalhos em torno do pescoço e braceletes de missanga nos braços mirrados, via-se uma dúzia de rapariguinhas cuja idade não devia ir além dos dez anos; a inocência peculiar da juventude, que a grotesca indumentária não conseguia velar, estava ali a contrastar violentamente com a presença bárbara do marujo francês, postado no centro da sala, de joelhos flectidos e voltando para justine uma face rasgada e dolorida, enquanto ela, sentindo-nos entrar, tinha rodado ligeiramente a cabeça, colocando-se de perfil. O que ele tinha gritado já expirara no silêncio, mas a força das suas palavras ainda se perpetuava na tensão das cordoveias do pescoço e no queixo protuberante. Quanto a Justine, tinha a face desenhada na luz equívoca, com uma espécie de precisão académica que era dolorosa de contemplar. Conservava numa das mãos, em guarda, uma garrafa, mas era óbvio que nunca se servira dessa arma até então, pois empunhava-a pelo fundo.

Num sofá esgaçado, num recanto da sala, no sujo crepúsculo que se reflectia nas paredes, via-se uma criança enrodilhada que parecia estar morta. Na parede, por cima do sofá, havia numerosas dessas marcas azuis em forma de mão de criança, um talismã que, nesta parte do mundo, afasta das casas o mau olhado. Era a única decoração que existia na sala, e é a decoração mais comum em todo o bairro árabe.

Ficámos paralisados, Nessim e eu, durante um bem contado segundo, estupefactos com a cena a que não faltava uma espécie de arrepiante beleza - dessa atroz beleza que se encontra nas gravuras das edições populares das Bíblias vitorianas e cujo tema se acha de um certo modo deslocado e violado. Justine respirava ruidosamente; pressentia-se que se encontrava prestes a render-se a uma crise de lágrimas.

Creio que nos lançámos literalmente sobre ela e que a arrastámos para a rua. Não me recordo, em pormenor, do que ocorreu seguidamente; passámos de novo pela esplanada; uma Lua avermelhada começava a subir no horizonte; no espelho retrovisor eu via reflectido o rosto triste e silencioso de Nessim, enquanto a seu lado a mulher contemplava, sem dizer palavra, as vagas prateadas que vinham desfazer-se no quebra-mar. Tinha tirado um cigarro do bolso do marido e pusera-se a fumar. Quando chegámos a casa, antes de sair do carro, ela beijou-o ternamente nos olhos.

Mais tarde, acabei por considerar tudo isso como uma espécie de prelúdio àquele primeiro verdadeiro encontro frente a frente, quando a compreensão que até então tínhamos desfrutado - uma compreensão que resultava da alegria e da amizade nascidas de gostos que nos eram comuns - se desintegrou em alguma coisa que não era amor - e nem podia ser -, mas uma espécie de posse mental na qual os laços de uma sensualidade desenfreada não ocupavam lugar predominante. Como nos pôde suceder isso, a nós, que tínhamos passado por todas as experiências e que tínhamos conhecido, em diferentes lugares, todos os desenganos do amor?

No Outono, as bagas fêmeas tomam tonalidades inquietantes de fósforo, e, decorridos longos dias de poeira e vento áspero, sentem-se as primeiras palpitações da estação, como uma borboleta que tenta movimentar as asas recém-nascidas. O lago Mareotis toma uma cor desmaiada de limão e as suas margens cobrem-se de anémonas. Certo dia em que Nessim se encontrava ausente, no Cairo, fui a sua casa buscar alguns livros e surpreendi Justine ocupada a consertar uma velha blusa de lã. Tinha tomado o comboio da noite, deixando Nessim envolvido em qualquer conferência de negócios, e regressara a Alexandria. Bebemos chá, e depois, obedecendo a um impulso, pegámos nos fatos de banho e dirigimo-nos de carro para as praias arenosas de Bourg El Arab, refulgindo na luz ouro e lilás desse fim de tarde. As ondas lançavam, incansavelmente, sobre o tapete da areia lavada, as suas rendas de espuma cor de mercúrio oxidado; o grave e melodioso ruído do mar servia de fundo às nossas palavras. Afundámo-nos até aos tornozelos nas poças que o mar formava ao longo da praia e, uma vez por outra, os nossos pés encontravam alguma esponja que o fluxo das águas arrancara da sua raiz, levando-a até ali. Ninguém na estrada, bem me lembro, além de um jovem beduíno, esquelético, carregando à cabeça um cesto de verga cheio de aves selvagens, com as patas ainda presas pelo visco a pequenos raminhos. Uma codorniz embrutecida.

Ficámos, esquecidamente, deitados lado a lado, com os nossos fatos de banho molhados, acariciados pelos raios do Sol potente, gozando a frescura da tarde que avançava. Eu semicerrava os olhos, enquanto Justine (oh!, tão nitidamente a revejo!), apoiada sobre um cotovelo, com a mão a formar viseira, olhava para mim. De todas as vezes que eu falava ela olhava para os meus lábios com um ar levemente trocista e impertinente, como se esperasse que eu cometesse uma falta. Se tudo começou neste momento, e se, na verdade, não consigo recordar-me do contexto, ouço ainda, no entanto, a sua voz trémula e rouca dizer qualquer coisa como: “E se uma coisa dessas nos sucedesse - que diria você?” Mas, sem aguardar a minha resposta, debruçou-se e beijou-me na boca, com uma espécie de escárnio a encrespar-lhe os lábios. Aquilo foi tão despropositado que me voltei para ela num gesto esboçado de censura, mas os seus beijos tornaram-se, então, punhaladas ofegantes, doces e selvagens, pontuando o riso feroz que ela mal reprimia, um riso nervoso que era mais do que uma imensa zombaria, porque era o riso de uma pessoa que acaba de passar por um transe de terror. Foi, talvez, nesse momento que eu disse:

- Não devemos cair nisto!

Creio que ela respondeu:

- Imaginemos que caímos?

Então - e recordo-me perfeitamente deste pormenor - a mania da justificação apoderou-se dela (exprimíamo-nos em francês: a língua forma o carácter nacional), e nos breves momentos em que, para tomar fôlego, Justine descolava a boca voluntariosa dos meus lábios, com os seus lindos braços morenos a abraçarem-me o tronco, procurava, analisava...

- Não fazemos isto por desejo nem por curiosidade. Temos ambos demasiada experiência destas coisas: mas temos alguma coisa que aprender um com o outro. Que pensas tu que seja?

- E julgas que esta é a melhor maneira de descobrirmos? - respondi, vendo desenhar-se no céu, que empalidecia, o grande e incerto perfil de Nessim.

- Não sei - disse ela com uma expressão de humildade bravia, obstinada, desesperada... - Não sei.

E voltou a abraçar-me mais apertadamente, estreitando-me com todas as suas forças como se tentasse comprimir alguma dor. Era como se quisesse apagar a própria ideia da minha presença, descobrindo, entretanto, no contexto frágil e ardente de cada beijo, a oportunidade de uma espécie de êxtase doloroso - como água fria sobre uma ferida. Nesse instante descobri nela a filha da cidade que impunha às suas mulheres que procurassem a voluptuosidade, não no prazer mas no sofrimento, e que desejassem o que mais temiam encontrar.

Levantou-se então e afastou-se devagar, de cabeça baixa, tropeçando aqui e além nas lajes de lava que afloravam por entre a areia. Eu pensava no belo rosto de Nessim, sorrindo-lhe em todos os espelhos da câmara nupcial. Toda a cena que se acabava de passar parecia-me tão improvável como um sonho. E, enquanto acendia um cigarro e me levantava para ir ter com ela, notei que as minhas mãos tremiam. Admirava-me, ao mesmo tempo, de ter feito esta observação de maneira tão objectiva e desinteressada.

Mas, quando a alcancei e lhe tomei o braço, o rosto que voltou para mim era o de uma fúria. Encontrava-se no auge da cólera.

- Acreditaste que eu desejava simplesmente... fazer amor? Deus! Já não estamos ambos saciados disso? Como é que não consegues compreender o que sinto? Não serás capaz?

Ela batia o pé, ferindo a areia húmida. E não descobri, apenas, uma fenda geológica no terreno que até então os nossos pés tinham confiantemente pisado. Era como se um poço de mina há muito escondido no meu carácter se tivesse subitamente escancarado. Reconheci que essa troca estéril de ideias e de sentimentos tinha traçado o caminho para as selvas mais impenetráveis do coração; e que nos tornávamos, a partir deste momento, escravos do corpo, possuidores de um enigmático conhecimento que só podia ser transmitido - recebido, decifrado e compreendido - por esses seres muito raros que são os nossos complementos neste mundo. (Quão poucos são eles e quão raramente os encontramos!}, Depois, lembro-me de ela ter dito:

- Afinal de contas, isto não tem nenhuma relação com o sexo.

A frase deu-me vontade de rir, embora eu compreendesse os esforços desesperados que ela fazia para dissociar a carne da mensagem contida nas suas palavras. Creio que esta espécie de coisas sucede sempre aos falhados quando se apaixonam. E, então, percebi o que já devia ter percebido antes: que a nossa amizade tinha atingido aquele grau em que era impossível para qualquer de nós viver sem o outro.

Penso que ambos nos sentimos alarmados com esta conclusão; exaustos como nos encontrávamos, tudo quanto sentíamos era um sobressalto de horror perante a evidência de um tal estado nas nossas relações. Nada mais dissemos e regressámos em silêncio, ao longo da praia, ao local onde tínhamos deixado as nossas roupas. Justine parecia extremamente cansada. Ardíamos ambos no desejo de nos apartarmos um do outro, para termos tempo de examinar os nossos próprios sentimentos. Não voltámos a falar. Dirigimo-nos de carro para a cidade e ela deixou-me na esquina da minha rua. Bati a porta do carro e ela afastou-se sem uma palavra, sem um olhar.

Quando abri a porta do meu quarto, ainda tinha na mente a visão da marca do pé de Justine na areia da praia. Melissa lia e, levantando os olhos para mim, disse-me na sua voz caracteristicamente calma e lúcida:

- Sucedeu alguma coisa? Que se passou ?

Era impossível responder-lhe porque eu próprio não sabia o que se passara. Tomei-lhe o rosto e examinei-o silenciosamente, com uma atenção cuidadosa, uma tristeza e um desejo que não me lembro de ter, jamais, sentido até esse dia. Ela observou:

- Não é a mim que tu estás vendo, mas a outra qualquer.

Na verdade, estava vendo Melissa pela primeira vez.

De forma paradoxal era Justine quem me permitia, agora, ver Melissa na sua verdadeira essência - e reconhecer o muito que a amava. Melissa, sorrindo, acendeu um cigarro e declarou-me:

- Estás apaixonado por Justine.

Respondi-lhe tão sinceramente, tão honestamente e tão dolorosamente quanto podia:

- Não, Melissa, é muito pior do que isso - e, contudo, não me sentia capaz de explicar nem como nem por que motivo era assim.

Quando pensava em Justine, era como se pensasse numa grande tela em embrião, um esboço de mulher representando uma criatura livre da servidão do macho. “As águas juntam-se em torno do cadáver”, disse ela certo dia, citando, orgulhosamente, Boehme falando da sua cidade natal. E, nesse momento, ela assemelhava-se verdadeiramente a uma águia. Ao passo que Melissa era uma paisagem triste de Inverno sob um céu negro, um vaso de flores debaixo da janela de uma fábrica de cimento, onde alguns gerânios conseguiam sobreviver, lastimosamente murchos.

Há uma passagem do diário de Justine que me ocorre agora. Transcrevo-a neste lugar porque, embora corresponda a factos muito anteriores aos que tenho vindo a relatar, nem por isso exprime menos intensamente a qualidade curiosamente encarnada de um amor que acabei por reconhecer como específico da cidade, mais do que de nós próprios. “É vão acreditar-se - escreve ela - que o amor possa advir de uma comunhão de espíritos, de pensamentos; é a explosão simultânea de dois espíritos empenhados no acto independente de se expandirem. E a sensação é a de que alguma coisa explodiu dentro deles, silenciosamente. Em torno deste acontecimento, assombrado e apreensivo, o apaixonado ou a apaixonada continua a viver examinando a sua própria experiência; apenas a gratidão cria nela a ilusão de que comunica com o seu amigo, mas é falso, porquanto ele nada lhe deu. O objeao amado é, simplesmente, aquele que viveu uma experiência igual no mesmo instante, como um Narciso; e o desejo de estar junto do objecto amado é devido, em primeiro lugar, não à ideia de possuí-lo, mas, simplesmente, de permitir a comparação entre as duas experiências, como a mesma imagem vista em espelhos diferentes. Tudo isto pode preceder o primeiro olhar, o primeiro beijo, o primeiro contacto; preceder a ambição, o orgulho e a cobiça; preceder as primeiras declarações que assinalam o ponto de viragem - pois a partir daqui o amor degenera em hábito, em posse e... em solidão.” Que característica é esta descrição do amor, tão a sério, tão... Justine!

“Todos os homens - escreve ela noutro passo, e quase posso reproduzir agora a sua voz triste e rouca repetindo as palavras à medida que as ia escrevendo - são amassados em lama e em ouro, e nenhuma mulher pode suportar, simultaneamente, estes dois aspectos da sua natureza.”

Ao regressar a casa, encontrou Nessim que tinha chegado no avião da tarde. Desculpou-se com uma dor de cabeça e foi deitar-se cedo. Quando ele veio sentar-se à cabeceira da cama, ela disse-lhe uma coisa que o surpreendeu e intrigou o bastante para não mais a esquecer, pois foi o próprio Nessim quem mais tarde me falou nisso: “Não preciso de nada: é uma simples constipação. As doenças não se interessam por aqueles que desejam morrer.” Depois, por uma dessas associações desconcertantes, como uma volta de andorinha em pleno voo, ela acrescentou: “Oh!, Nessim, tenho sido sempre uma mulher forte. Será que isso me tem impedido de ser verdadeiramente amada?”

Foi graças a Nessim que comecei a mover-me com certo desembaraço na grande teia de aranha da sociedade alexandrina. Os meus recursos eram tão limitados que não podia, sequer, ir uma vez por outra ao cabaré onde Melissa dançava. A princípio envergonhava-me de ser sempre o convidado de Nessim, mas depressa nos tornámos tão íntimos que passei a acompanhá-los a toda a parte sem me preocupar com o facto de ser ele quem constantemente suportava as despesas. Melissa desenterrou da minha mala um velho smoking e restituiu-lhe, habilmente, a perdida juventude. Foi na companhia dos meus amigos que eu entrei pela primeira vez no cabaré onde Melissa dançava. Era bizarro estar ali sentado entre Justine e Nessim e ver, de repente, os focos dos projectores envolverem uma Melissa que eu mal reconhecia, sob a camada de cosméticos que dava ao seu doce rosto um ar vulgar e totalmente destituído de sensibilidade. A banalidade da sua actuação, má para além de tudo quanto se podia conceber, confrangeu-me. Entretanto, ao contemplar os movimentos leves e ineficazes das suas mãos e dos seus pés transparentes (lembrava uma gazela atrelada à roda de uma cisterna), senti-me invadido de uma enorme ternura pela sua mediocridade, pela sua ridícula e exagerada maneira de cumprimentar o público que a brindava com aplausos quentes e distraídos. Entregaram-lhe uma bandeja e ela começou a mover-se entre as mesas para receber a gratificação destinada à orquestra. Desempenhava-se da tarefa com um embaraço que fazia dó. Quando se aproximou da nossa mesa ocultava o olhar baixo sob as longas pestanas artificiais, e as mãos tremiam-lhe. Os meus amigos ignoravam, nessa altura, que Melissa era minha amante, mas notei o olhar frio e desdenhoso de Justine quando procurei nos meus bolsos, nervosamente, algumas notas que lancei sobre a bandeja com a mão a tremer tanto como as de Melissa; sentia-me tal como ela, terrivelmente embaraçado.

Quando voltei para casa, a meio da noite, um pouco embriagado e excitado por ter dançado com Justine, Melissa não se tinha deitado ainda. Preparava-se para ferver água na chaleira eléctrica.

- Oh!, porque deitaste todo aquele dinheiro na bandeja? - disse ela. - O salário de uma semana: tu estás louco. Que havemos de comer amanhã?

Éramos ambos terrivelmente desastrados em matéria financeira, mas juntos conseguíamos melhores resultados do que separadamente. À noite, quando regressava do cabaré, ela parava debaixo da minha janela, e, se via luz, assobiava docemente: era o sinal para pôr de parte o livro e descer a escada sem pressa, acompanhado pela imagem que se tinha formado no meu espírito da sua boca redondinha e cheia, cujos lábios húmidos e tépidos tinham a qualidade de saciar todas as minhas sedes. Nessa época, o velho e os seus agentes ainda a perseguiam e importunavam. Sem trocar uma palavra, as nossas mãos uniam-se, os dedos enlaçavam-se, e lá íamos através do dédalo de ruas que rodeiam o Consulado da Polónia, parando, uma vez por outra, na sombra de um portal para termos a certeza de que ninguém nos seguia. Víamos, depois, apagarem-se as luzes das cantinas, uma após outra, e deixávamo-nos, insensivelmente, envolver pela noite tépida e densa, como interiormente iluminada pelo grande corpo sonolento e presente de Alexandria. Caminhávamos para a estrela da manhã que palpitava no zénite de Montaza, como um seio de veludo lilás acariciado pela brisa e pelas vagas.

Nesse tempo, a grave e excitante meiguice de Melissa era como uma juventude miraculosamente recuperada. Sentia muitas vezes os seus dedos longos e macios acariciarem-me o rosto, quando me supunha adormecido, como para melhor fixar a recordação do momento de felicidade que tínhamos partilhado. Havia nela uma docilidade e um desejo de servir que eram muito orientais. O meu pobre guarda-roupa - o seu modo de pegar numa das minhas camisas sujas: parecia fazê-la sua toda inteira, com uma solicitude transbordante; todas as manhãs encontrava o meu aparelho de barbear perfeitamente limpo, e a pasta dentífrica já colocada na escova, pronta a servir. As suas atenções eram um estimulante e obrigavam-me a adoptar um estilo de vida e de maneiras de harmonia com o seu. Nunca falava das suas experiências amorosas, e se eu abordasse o assunto ela afastava-o com um gesto de desgosto e aflição que sugeria terem sido, essas experiências, mais produtos da necessidade do que impulsos do desejo. Disse-me certa ocasião:

- És o primeiro homem com quem eu não sinto medo de fazer loucuras.

O facto de ela ser pobre era também um profundo laço que nos prendia. A maior parte das nossas excursões eram os simples passeios que todos os provinciais fazem nas cidades ribeirinhas. O pequeno comboio levava-nos, com o seu ruído de ferro velho, às praias de Sidi Bishr, ou então passávamos Shem El Nessim nos jardins de Nouzha, ou almoçávamos debaixo dos loureiros na companhia de dezenas de famílias egípcias. A multidão era para nós uma oportunidade de distracção e de grande intimidade. À beira do canal lamacento, víamos as crianças mergulharem em perseguição das moedas que lhes lançavam, comprávamos fatias de melancia aos vendedores ambulantes, passeávamos, de mão dada, misturados com os outros excursionistas, endomingados, gozando uma felicidade anónima. Os próprios nomes dos apeadeiros acentuavam a poesia destas jornadas: Chatby, Campo de César, Laurens, Mazarita, Glymenopoulos, Sidi Bishr...

Mas havia, também, a outra face desta intimidade: regressar alta noite a casa para encontrar Melissa adormecida, os seus sapatos vermelhos espalhados pelo quarto, o narguilé pousado no travesseiro ao lado da cabeça... e ficava a saber que ela tinha tido outra das suas crises de desânimo. Em momentos desses nada havia a fazer; tornava-se pálida, melancólica, deprimida, e nada seria capaz de arrancá-la a essa letargia que durava dias e dias. Falava consigo mesma e passava horas, escutando rádio e bocejando, ou então percorrendo com negligência uma pilha de velhas revistas de cinema. Quando o cafard se apoderava dela, eu desenvolvia, em vão, todo o meu engenho para a despertar, mas ela limitava-se a acariciar-me o rosto, estendida na cama, com o olhar perdido, e repetia incessantemente:

- Se soubesses o que já foi a minha vida, deixavas-me imediatamente. Eu não sou mulher que te sirva; não sirvo para ninguém. Já não posso mais. Tu és bom, mas não há bondade que me valha.

E se eu protestava que não era bondade, mas amor, ela fazia uma careta:

- Se realmente me tivesses amor, davas-me veneno e não me deixavas sofrer assim.

Então, ela punha-se a tossir com o seu pulmão doente e eu, incapaz de suportar aquele som, ia dar uma volta pelas ruas sórdidas do bairro árabe, ou então ia ler para a biblioteca do British Council: e aí, onde a impressão geral que a cultura britânica sugeria era de indigência e avareza intelectual, eu passava a tarde feliz por sentir à minha volta a restolhada discreta e murmurante dos estudiosos.

Mas havia, também, outros momentos: essas tardes tórridas - “de suar mel”, como dizia Pombal - em que ficávamos estendidos lado a lado, contemplando em silêncio o palpitar frouxo das cortinas batidas pelo sol e sopradas pela brisa do Mareotis que se confundia com a nossa respiração. Ela, então, erguia o despertador, lançava-lhe uma olhadela e, depois de sacudi-lo, aplicava-o ao ouvido; em seguida, sentava-se e acendia um cigarro, e assim nua, parecia muito jovem e muito bela, levantando o braço delicado para contemplar o bracelete de pacotilha que eu lhe tinha oferecido (“Quando olho para mim, assim nua, é em ti que estou pensando”). Abandonando a sua contemplação inocente e apaixonada, atravessava vivamente o quarto, para se dirigir ao abominável desvão que servia de casa de banho e, defronte da bacia de estanho, lavava-se com pequenos gestos precisos, sufocando debaixo do chuveiro gelado, enquanto eu me embriagava com o perfume que os seus lindos cabelos negros tinham deixado no travesseiro, contemplando a sua face grega e esguia, o nariz fino e pontiagudo, os olhos límpidos e a pele de cetim, apanágio daquelas a quem o temor domina, essa pequenina bossa no alto da fina haste do pescoço. São dos tais momentos que não se recordam em pormenor e que as palavras não são capazes de reconstituir; vivem em suspenso na memória, como essas criaturas maravilhosas, únicas da sua espécie, que se encontram nas grandes fossas abissais.

Nesse Verão, bem contra o meu gosto, Pombal decidiu alugar o seu apartamento a Pursewarden. Detestava esta personagem pelo contraste que havia entre o homem e a obra: poesia e prosa de uma grande delicadeza. Não o conhecia muito bem, mas sabia que os seus romances tinham larga venda, o que me causava inveja, tanto mais que a prática do mundo tinha desenvolvido nele uma espécie de savoir-faire, que, bem o sabia, nunca faria parte do meu arsenal literário. Era pequeno, gordo e louro, e dava a impressão de um adolescente metido nas saias da mãe. Não posso afirmar que não fosse bom e generoso, porque era ambas as coisas, mas desagradava-me partilhar o apartamento com uma pessoa de quem não gostava. Porém, era ainda mais desagradável mudar-me, e fui ocupar a arrecadação no fundo do corredor (cuja renda era menos elevada), continuando a utilizar como casa de banho o abominável recanto.

Pursewarden tinha dinheiro para se poder permitir o luxo de receber, e duas vezes por semana, pelo menos, eu tinha de suportar o tilintar dos pires e dos copos, as exclamações e a risota que vinham do apartamento. Uma noite, era já muito tarde, bateram à minha porta. Na ombreira, encontrei Pursewarden, pálido, mas tentando manter um ar desenvolto. Acompanhava-o um fogueiro naval, de uma fealdade repugnante; tinha o ar que têm todos os fogueiros navais: o ar de ter sido vendido como escravo numa já remota juventude.

- Bem - fez Pursewarden numa voz esganiçada -, Pombal disse-me que você era médico, e por isso venho pedir-lhe que me acompanhe. Está uma pessoa doente no meu apartamento.

Tinha, com efeito, contado a Georges que passara um ano na Faculdade de Medicina, e isso fora o suficiente para ele me atribuir um título de médico. Não só confiava aos meus cuidados as suas próprias indisposições - mesmo as infestações de parasitas venéreos que o afligiam frequentemente - como uma vez, até, pretendeu convencer-me a praticar um aborto sobre a mesa da sala de jantar. Apressei-me, pois, a desiludir Pursewarden, aconselhando-o a que chamasse pelo telefone um verdadeiro médico; mas o telefone tinha sido cortado e não havia nada capaz de arrancar o boab do seu sono. Assim, levado pela curiosidade, enfiei o impermeável por cima do pijama e segui o meu vizinho.

Quando entrei no apartamento, fiquei ofuscado pela luz, e sufocado pela fumarada. Havia lá dentro três cadetes de marinha, razoavelmente “grossos”, e uma prostituta da taverna do golfo, fedendo a suor e a cachaça. A mulher debruçava-se sobre uma forma instalada num divã - forma que hoje reconheço era a de Melissa, mas que então me pareceu uma lamentável máscara de teatro grego. Melissa parecia delirar no fundo de um grande abismo, pois nenhum som se escapava dos seus lábios que, todavia, se agitavam convulsivamente. Aquilo dava-me a impressão de estar assistindo à projecção de um filme mudo. A rapariga tinha profundas olheiras e rugas dolorosamente vincadas. A outra mulher parecia desorientada; esbofeteava Melissa e puxava-lhe os cabelos, enquanto um dos cadetes a borrifava desastradamente com a água que extraía de um penico artisticamente decorado, que era um dos tesouros de Pombal: tinha, no fundo, gravadas, as armas reais da Casa de França. Algures, no quarto, ouvia-se alguém vomitar docemente, lentamente, com unção. A meu lado, Pursewarden contemplava o quadro e não parecia muito satisfeito consigo próprio.

Melissa estava inundada de suor e tinha os cabelos colados às fontes. Quando conseguimos quebrar o cerco dos seus algozes, ela recaiu em silêncio, com um ar idiota no rosto. Toda a sua face tremia, de dor, de terror, sabe-se lá... Era preciso perguntar-lhe de onde vinha, o que tinha feito, o que tinha ingerido. Bastava olhar para o grupo que nos cercava para compreender que nenhum dos seus elementos se encontrava em estado de me elucidar. Contudo, preparava-me para interrogar um deles, quando a pega do golfo, que, por sua vez, também se encontrava prestes a ter um ataque de histeria e a quem o fogueiro tentava subjugar com o amplexo dos seus braços potentes, desatou a gritar numa voz rouca e espessa:

- Foram as cantáridas! Deram-lhe cantáridas!

E, escapando-se da tenaz que a prendia, fugindo como um rato, agarrou na mala de mão e atirou-a com um golpe sonoro à cabeça de um dos marinheiros. O homem desabou como se o saco estivesse carregado de calhaus. Quando se levantou, a cambalear, reparei que tinha entre os cabelos fragmentos de um prato partido.

A mulher desatou, então, a soluçar e a reclamar a Polícia. Três dos marinheiros convergiram para ela e começaram a falar todos ao mesmo tempo, pedindo-lhe que se mantivesse sossegada. Ninguém desejava complicações com a Polícia Naval. Entretanto, nenhum deles queria experimentar o peso do saco - autêntica boceta de Pandora, carregada de preservativos e frascos de beladona. Ela ia recuando prudentemente, passo a passo. Durante esse tempo, eu tomava o pulso de Melissa e, abrindo-lhe a blusa, escutava os batimentos do coração. Começava a inquietar-me seriamente por ela e, também, por Pursewarden, que tinha ido ocupar uma posição estratégica atrás de uma poltrona, fazendo gestos eloquentes para todos os circunstantes. O marinheiro agredido tinha conseguido encurralar a fúria num canto, contra o infeliz armário que guardava a colecção de porcelanas a que Pombal queria como aos olhos da cara. Com as mãos atrás das costas, para se apoiar, a mulher descobriu esse fornecimento quase inesgotável de munições, e deixando cair o saco com um grito de triunfo começou a flagelar o seu antagonista com um bombardeamento em regra e com uma precisão mortífera. Num instante, o espaço ficou cheio de lacrimatórios egípcios e gregos, de Ushabti e de Sèvres. Começavam a acender-se luzes nos outros apartamentos do imóvel, e era evidente que já não decorreria muito tempo até se ouvir o temido bater de botas cardadas no corredor. Pursewarden começava a ficar seriamente alarmado: na sua qualidade de residente (e ainda por cima célebre!), não podia permitir-se este género de escândalos de que a imprensa egípcia era gulosa, e que, certamente, não deixaria de explorar. Ficou aliviado quando me dirigi para ele e comecei a enrolar Melissa, que tinha, entretanto, desmaiado, num macio tapete de Bucara. Juntos, levámo-la para a intimidade sagrada do meu cubículo e lá, tal como a Cleópatra, desenrolámos o tapete e deitámo-la sobre a cama.

Acabava de me recordar da existência de um velho médico, um grego que vivia ao fundo da rua. Pouco depois, empurrava-o diante de mim na escada sem luz, tropeçando e praguejando como um marujo, deixando cair as sondas e o estetoscópio várias vezes. Afirmou que o estado de Melissa era muito grave, mas o seu diagnóstico foi dos mais vastos e dos mais vagos - segundo a tradição da cidade.

- Tem tudo - disse ele -; subnutrição, histeria, álcool, haxixe, tuberculose, cantáridas... o que quiserem - e fez o gesto de meter a mão no bolso como para retirar uma mancheia de todas as doenças imagináveis.

Mas revelou, também, o seu sentido prático da situação e propôs reservar-lhe no dia seguinte um leito no hospital grego. Entretanto, a rapariga não se devia levantar sob nenhum pretexto.

Passei esta noite numa velha poltrona, aos pés da cama. Depois, como tivesse que sair para trabalhar, confiei-a aos cuidados de Hamid, o Zarolho, o mais meigo dos berberes. Durante as primeiras doze horas, ela piorou consideràvelmente, delirando uma vez por outra, sofrendo crises atrozes de cegueira - atrozes porque a assustavam terrivelmente. Fazendo-me severo, consegui transmitir-lhe um pouco de coragem, o bastante para ajudá-la a dominar-se e, na tarde do segundo dia, ela conseguiu murmurar algumas palavras. O grego mostrou-se satisfeito com a evolução do caso. Perguntou à rapariga de onde viera; a face da doente reflectiu uma expressão de terror.

- Esmirna - disse ela, mas recusou-se a dar quaisquer indicações sobre a sua família.

Quando o médico insistiu com outras perguntas, voltou-se para a parede, e lágrimas de cansaço deslizaram lentamente dos seus olhos. O médico pegou-lhe na mão e olhou para o dedo anular.

- Vê? - disse-me ele com uma objectividade clínica, fazendo-me notar a ausência do anel. - Eis a razão. A família renegou-a e expulsou-a. Hoje é muito frequente... - e moveu a cabeça com um ar de comiseração.

Melissa não disse nada, mas quando a ambulância chegou e enquanto preparavam a maca, agradeceu-me calorosamente por tê-la ajudado, tomou a mão de Hamid para apertá-la de encontro à face, e surpreendeu-me com uma delicadeza a que o meu género de vida não me habituara.

- Quando eu sair do hospital, se não tiver mulher, pense em mim. Se me chamar, eu virei.

Pronunciada em grego, esta oferta tinha uma frescura e uma límpida beleza que não sofre tradução em nenhuma outra língua.

Não tornei a vê-la durante um mês ou mais. Na verdade, tinha-a até quase esquecido: para mim havia, nessa época, muitos outros e mais directos motivos de preocupação. Depois, numa tarde tórrida, quando da minha janela contemplava a cidade entorpecida, vi uma Melissa completamente modificada descer a rua e penetrar no vestíbulo obscuro do meu prédio. Bateu à porta do quarto e entrou com os braços carregados de flores. Senti a impressão de que a noite famosa ocorrera há muitos séculos. Notei nela a mesma atitude de embaraço que mais tarde observei no cabaré quando se aproximou de nós com a bandeja estendida. Era como uma estátua do Orgulho que segurasse a própria cabeça entre as mãos.

Um prurido de exagerada delicadeza apoderou-se de mim. Ofereci-lhe uma cadeira e ela sentou-se timidamente na borda. As flores eram-me destinadas, mas a rapariga não tinha coragem de mas entregar e eu via-a deitar desesperadas olhadelas em torno, procurando um sítio onde pudesse colocá-las. Mas tudo quanto se parecia com um vaso era um alguidar cheio de batatas descascadas. Começava a lastimar que ela tivesse vindo. Gostaria de lhe ter oferecido chá, mas a chaleira eléctrica estava avariada e não tinha dinheiro para convidá-la a sair comigo - nessa época estava endividado até ao pescoço. Para cúmulo, havia mandado Hamid engomar o meu único fato de Verão e encontrava-me vestido com um velho roupão rasgado. Ela, pelo contrário, exibia uma elegância que me intimidava: um vestido de Verão, novo, com delicadas estampagens de folhas louras, e um chapéu de palha que fazia pensar num enorme sino dourado. Comecei a desejar desesperadamente o regresso de Hamid para criar uma diversão. Não tinha cigarros para lhe oferecer e fui obrigado a servir-me quando ela me estendeu a sua cigarreira de filigrana. Fumei com o ar mais sério deste mundo e disse-lhe que tinha aceitado dar lições perto de Sidi Gabr, o que melhoraria a minha situação. Ela, por sua vez, declarou-me que ia regressar, também, ao trabalho; tinham-lhe renovado o contrato, mas agora pagavam-lhe menos. Depois de alguns minutos passados a trocar estas terríveis banalidades, Melissa disse-me que era obrigada a deixar-me porque tinha um convite para tomar chá. Acompanhei-a à porta e assegurei-lhe que teria sempre o maior prazer em receber a sua visita. A rapariga agradeceu-me, sempre agarrada às flores, que a sua timidez tinha impedido de me oferecer, e desceu lentamente a escada. Depois de fechar a porta do quarto, sentei-me na cama e pus-me a dizer colericamente todas as obscenidades que sabia, ignorando, contudo, a quem se dirigiam os meus insultos. Hamid entrou nesse momento e então apontei toda a minha cólera contra a sua inocência. O infeliz ficou desorientado: havia muito tempo que não me irritava com ele. Retirou-se para a pia, resmungando, abanando a cabeça, e invocando o auxílio dos espíritos.

Passados momentos, vesti-me e consegui obter, por empréstimo de Pursewarden, algum dinheiro - encontrei-o a caminho do correio - e acabei por descobrir Melissa sentada no interior de um café, sozinha e com o queixo apoiado na mão. Tinha pousado a mala e o chapéu numa cadeira e contemplava o fundo da chávena com uma espécie de atenção divertida. Tomado por um súbito impulso, entrei e fui sentar-me na mesma mesa. Vinha, expliquei-lhe, desculpar-me de tê-la recebido tão mal... e comecei a contar-lhe todas as minhas preocupações, sem omitir nada. A chaleira eléctrica avariada, a ausência de Hamid, o meu fato de Verão... E, à medida que eu lhos enumerava, os motivos do meu embaraço iam-me parecendo de tal modo fúteis que me esforçava por descrevê-los da forma mais trágica, mas era tão pouco convincente que ela soltou a mais deliciosa gargalhada que jamais me foi dado ouvir. No capítulo de dívidas eu exagerava, embora, depois da noite famosa, Pursewarden me emprestasse frequentemente pequenas somas sem qualquer objecção. Para cúmulo, acrescentei, ela aparecia justamente no momento em que eu acabava de curar uma doença venérea, benigna mas irritante, fruto da solicitude de Pombal, contraída, sem dúvida, com uma das sírias que ele generosamente me tinha destinado. Isto era pura invenção minha e nem sei porque resolvi usar tal mentira. Acrescentei, contudo, que tinha ficado alarmado com a ideia de ter relações com ela, antes de estar completamente curado. Ela colocou a sua mãozinha sobre a minha e pôs-se a rir novamente, enrugando deliciosamente o narizinho; o seu rir era tão límpido, tão ligeiro e espontâneo que decidi imediatamente não resistir ao amor que sentia começar a nascer dentro de mim.

Nessa tarde, fomos passear de braço dado para a beira-mar. A nossa conversa foi cheia de fragmentos das nossas vidas sem rumo, sem plano geométrico. Não tínhamos nenhum gosto em comum. Os nossos caracteres e predisposições eram completamente diferentes, e entretanto, na mágica facilidade desta amizade, sentíamos que algo nos estava prometido. Também gosto de recordar o primeiro beijo junto do mar, com o vento a brincar-lhe com os cabelos - um beijo interrompido pelos acessos de riso que a tomavam quando se recordava do meu lastimoso discurso. Era o símbolo da paixão que gozávamos, da sua índole e da sua superficialidade: da sua caridade.

Havia dois assuntos que Justine subtraía a qualquer interrogatório: a idade e as origens. Ninguém - nem mesmo Nessim - tinha qualquer certeza absoluta a esse respeito. O próprio oráculo da cidade, Mnemjian, confessava a sua ignorância, embora estivesse a par das aventuras mais recentes. Os seus olhinhos violeta apertavam-se, e era com uma ligeira hesitação que ele adiantava ser Justine oriunda do Bairro Attarine, e descender de uma família de judeus, muito pobre, que emigrara mais tarde para Salonica. O diário de Justine também não é muito esclarecedor neste assunto; faltam-lhe pontos de referência essenciais: nomes, datas e lugares - e consta, na sua maior parte, de anotações fulgurantes de pura imaginação, entrecortadas por pequenas anedotas acerbas, retratos breves e mordentes de pessoas cuja identidade se esconde atrás de uma letra do alfabeto. Escreve em francês, nem sempre correcto, mas espiritual e saboroso; lendo este diário, tem-se a impressão de escutar o som rouco e velado da sua voz. Por exemplo: “Clea fala-me da sua infância; isso faz-me pensar na minha, pensar apaixonadamente. A infância da minha raça, a minha época... Primeiro as pancadas no casebre, por detrás do Estádio; a lojeca do relojoeiro. Revejo-me ardentemente, debruçada sobre a face adormecida do meu amante, como o vi a ele muitas vezes inclinado sobre o mostrador de um relógio, com um feixe de luz crua caindo-lhe sobre a cabeça. Pancadas e palavrões, e as paredes de barro vermelho cheias de impressões azuis de mãos infantis para afastar o mau-olhado. Tínhamos crescido num ambiente de pancadas, dores de cabeça e olhos inflamados. A casa, com o chão de terra batida onde corriam os ratos, na penumbra das candeias de azeite. O velho usurário embriagado; sons de ressonar; o odor da terra apodrecida, dos excrementos; o ruído denso dos morcegos; as goteiras entupidas com buchas de papel e as côdeas de pão dissolvendo-se nos charcos de urina; coroas de jasmim inebriantes, falsas... E, sobre tudo isto, os gritos que na noite se coavam pelas persianas dessa rua tortuosa: era o bei que espancava as mulheres para se vingar da sua própria impotência. A velha rameira que vende o corpo todas as noites nas velhas ruínas - gemidos misteriosos e soturnos. O deslizar ligeiro dos pés nus, alta noite, pela rua adiante. O nosso quarto vacilante de obscuridade e mau cheiro, e nós, europeus, numa desarmonia flagrante com a saúde animal dos negros que nos cercavam. As cópulas dos boabs, sacudindo a casa como se fosse uma palmeira. Tigres negros com os dentes reluzentes. E, por toda a parte, roupas estendidas, gritos, risadas histéricas debaixo das pimenteiras, a loucura e os leprosos. Coisas que as crianças fixam e que mais tarde fortalecem ou desorientam as suas vidas. Um camelo esgotado caiu na rua, diante de uma porta. Como pesa muito para ser levado até ao matadouro, aproximam-se dois homens com machados, que começam a esquartejá-lo, ali mesmo, vivo. Os açougueiros chafurdam na carne esbranquiçada - o pobre animal parece ainda mais melancólico, mais aristocrático, mais surpreendido, quando lhe cortam as patas. Por fim, só a cabeça continua viva, os olhos abertos, revolvendo-se nas órbitas. Nem um grito de protesto, nem um movimento de revolta. O animal submete-se como uma árvore na mão dos lenhadores. Durante dias, a terra ainda continua ensopada pelo sangue do camelo e, quando entramos em casa, trazemos colada à planta dos pés nus uma sola de lama repugnante.

“Moedas que tombam nas caixas de esmolas dos mendigos. Fragmentos das mais diversas línguas - arménio, grego, arábico, árabe de Marrocos; judeus da Ásia Menor, do Ponto, da Geórgia: mães nascidas nas colónias gregas do mar Negro; comunidades cortadas como os ramos de uma árvore, isoladas do tronco, sonhando com o Éden. Assim são os pobres bairros da cidade branca; em nada se assemelham com as belas avenidas construídas e decoradas pelos estrangeiros, onde os corretores se vêm sentar a saborear o jornal matutino. Nem mesmo o porto existe para nós. No Inverno, uma vez por outra, ouve-se o mugido de uma sereia, mas é como se viesse do outro mundo. Ah!, a miséria dos portos e os nomes que eles evocam quando se tem de ficar... É como uma morte - uma morte do ser, que se repete de cada vez que se pronuncia o nome Alexandria, Alexandria.”

Rua Bab El Mandeb, Rua Abou El Dardar, Minet El Barrol (ruas onde se escorrega sobre flocos escapados dos fardos de algodão), ou paragens de autocarro cujos nomes me perseguem: Saba Paxá, Mazloum, Zizinia Baços, Schutz, Gianaclis. Uma cidade torna-se num universo quando estamos apaixonados por um dos seus habitantes.

Uma das consequências das minhas frequentes visitas à casa dos meus amigos foi começar a tornar-me notado e a receber demonstrações de deferência da parte daqueles que consideravam Nessim um homem importante e concluíam que se ele passava tanto tempo comigo é porque eu era, também, de qualquer maneira, rico ou importante. Numa tarde em que dormia a sesta, Pombal entrou no meu quarto e veio sentar-se à beira da cama:

- Tome cuidado - preveniu -, começam a dar nas vistas. Não que um caso destes seja um fenómeno em Alexandria, mas se você continua a exibir-se dessa maneira com o casal, vai provocar comentários e a coisa pode tornar-se desagradável para si. Olhe para isto!

Apresentou-me um grande cartão onde estava impresso um convite para um cocktail no consulado francês. Li, sem compreender. Pombal esclareceu-me:

- É idiota. O meu chefe, o cônsul-geral, está apaixonado por Justine. Todas as tentativas que fez, até hoje, para se encontrar com ela, fracassaram. Os seus espiões informaram-no de que você era íntimo da família, de facto, informaram-no de que você era... bem sei, bem sei. Em suma, ele aspira a tomar o seu lugar no coração da dama.

Desatou a rir pesadamente. E, contudo, nessa época, aquilo que ele insinuava era tudo quanto me podia parecer de mais absurdo.

- Diga ao cônsul-geral - comecei eu... e soltei algumas observações que provocaram, da parte de Pombal, gestos de escandalizada censura.

- Bem gostaria de poder dizer-lho, mas, mon cheri, existe uma hierarquia de capoeira e disso depende a minha condecoraçãozinha...

Erguendo a sua enorme massa, retirou do bolso um romance de capa amarela, muito maltratado, e colocou-o sobre os meus joelhos.

- Aqui está uma coisa que lhe deve interessar. Justine foi casada, quando era ainda muito jovem, com um francês naturalizado, de origem albanesa, um escritor. Este livro ocupa-se dela - de qualquer forma, é um romance post-mortem; mas está muito bem feito.

Olhei para a capa da novela. Intitulava-se Moeurs e o seu autor era um certo Jacob Arnauti. A primeira página indicava um grande número de edições, nos anos trinta.

- Como sabe você isso que me está a contar? - perguntei. E Georges, piscando a sua pesada pálpebra de réptil, respondeu-me:

- Fizemos o nosso inquèritozinho. O cônsul não pensa senão em Justine, e todo o pessoal passou semanas inteiras a reunir todo o material informativo a respeito dela. Vive la France!

Quando ele partiu, pus-me a folhear, ainda semiadormecido, as páginas do livro. Era, com efeito, uma obra muito bem escrita, redigida na primeira pessoa do singular, um diário da vida de Alexandria, vista por um estrangeiro nos anos trinta. O autor do diário procura compilar os elementos de um romance que tenciona escrever, e a descrição da sua vida quotidiana em Alexandria é viva e penetrante. Mas o que reteve a minha atenção foi o retrato de uma jovem judia com quem ele se relaciona e casa. Viagem à Europa. Divórcio. O desmoronamento deste casamento, quando regressam ao Egipto, é descrito com uma espécie de furiosa penetração que põe em evidência o carácter de Cláudia, sua mulher. O que me supreendeu e interessou foi descobrir nela uma Justine que eu não conhecera mas que reconhecia perfeitamente: mais nova e menos segura de si. Mas não havia possibilidade de confusão. De todas as vezes que lia o livro, e li-o muitas vezes, não podia impedir-me de ler Justine onde no texto se apontava Cláudia. A substituição convinha, com uma pavorosa verosimilhança.

Encontraram-se no mesmo lugar onde a vi pela primeira vez, reflectida num espelho do lúgubre vestíbulo do Cecil. “No vestíbulo deste hotel moribundo, as palmeiras estalam e reflectem as suas folhas paralisadas nos espelhos de molduras douradas. Somente os ricos se podem permitir viver como hóspedes permanentes do hotel, numa segurança precária de reformados. Tenho que procurar uma pousada mais modesta. No salão, esta noite, há um pequeno bando de sírios, solenemente sentados, esmagados debaixo das suas vestimentas negras e turbantes vermelhos. As mulheres, tipo hipopótamo, o lábio superior sombreado por um buço ligeiro, fazem tilintar enormes cordões de pérolas. Os homens - de rosto oval, estranhamente liso, e voz efeminada - distraem-se com as suas caixas de jóias, pois estes negociantes têm o hábito de transportar consigo toda a mercadoria; depois do jantar, a conversa tem por tema jóias masculinas. É, aliás, o único tema que subsiste no mundo mediterrânico; um narcisismo nascido do esgotamento sexual que se exprime pelo símbolo da riqueza, de modo que, na presença de um homem, ficamos a saber imediatamente quanto ele vale, e, na presença de uma mulher, um simples golpe de vista basta para ficarmos a conhecer o montante do seu dote. Guincham como eunucos fazendo jogar as pedras na luz do salão, entre os dedos hábeis. Os sorrisos efeminados dos homens descobrem o brilho dos dentes muito alvos. Suspiram. Um rapaz com face de ébano polido e vestindo uma túnica branca traz o café. Ergue-se uma tampa de prata e descobrem-se cigarros, grossos como as coxas de uma egípcia, com rebentos de haxixe misturados no tabaco. Um pouco de embriaguez antes de recolher. Penso na rapariga que ontem descobri reflectida no espelho: negro e marfim; cabelos negros e brilhantes; grandes olhos profundos e húmidos onde o nosso olhar se afunda porque são inquietos, gulosos, cheios de uma intensa curiosidade sexual. Faz-se passar por grega mas estou convencido que é uma judia. É preciso ser-se judeu para descobrir o judeu; e, contudo, nenhum de nós tem coragem de confessar a sua raça. Eu disse-lhe que era francês. Mas mais cedo ou mais tarde acabaremos por descobrir mutuamente o que realmente somos.

“As mulheres das comunidades estrangeiras são aqui mais belas que em qualquer outro lugar. Domina-as o medo e a insegurança. Têm a sensação de se afundar no oceano de negros que as envolve. Esta cidade foi construída como um dique para conter as ondas dos pretos africanos; mas os negros já começaram a insinuar-se, até nos bairros europeus; está em vias de produzir-se uma espécie de osmose racial. Para se ser feliz é necessário ser uma mulher egípcia, uma muçulmana - esponjosa, mole, flácida, demasiado madura - sob o peso das pinturas e do verniz; a pele cor de cera dessas mulheres toma colorações de limão amarelo e melão verde, tocados pelos reflexos da nafta. Corpos insensíveis como cofres. Seios verde-maçã que não vibram - frigidez reptiliana de carne de açougue, com as suas ossudas guardas-avançadas: os dedos dos pés e os dedos das mãos! Os seus sentimentos ocultam-se numa pré-consciência. No amor não se entregam: não têm nada para entregar; apertam-se ao macho num impulso doloroso que é, justamente, o contrário da ternura e do prazer. Durante séculos foram vendidas como gado, veladas, castradas. Alimentadas, na escuridão, com guloseimas e gorduras, tornaram-se em recipientes de prazer, ondulando ridiculamente sobre as pernas esbranquiçadas, marcadas por grossos cordões de veias azuis. “Os odores da carne variam com as ruas: amoníaco, couro, salitre, especiarias, peixe. Ela não consentiu que eu a acompanhasse a casa, sem dúvida porque se envergonhava de habitar numa dessas barracas sórdidas. Falava da infância de uma maneira admirável. Tomei alguns apontamentos; e imagino o regresso a casa, o pai a quebrar nozes sobre a mesa com um martelinho, ao lado da lamparina de azeite. Não é grego, é um judeu russo de Odessa. Vejo o barrete de pele com o cabeção gorduroso. Vejo também o beijo do berbere, a enorme língua rígida, como uma obsidiana da época glaciar; inclina-se para se introduzir debaixo dos lábios, no meio dos lindos dentes entreabertos. Aqui, todos os laços com a Europa se encontram cortados, entranhamo-nos em novas latitudes espirituais. Ela entregou-se-me com um tal desprezo que pela primeira vez na minha vida me encontrei desprevenido perante a natureza da sua angústia; era como se todo o seu ser fosse feito de desespero, de um desastre permanente. E, contudo, essas mulheres que pertencem a comunidades isoladas, possuem uma coragem desesperada, bem diferente da nossa. Foram tão longe na exploração da carne que se tornaram incompreensíveis para nós. Como foi possível escrever tudo isto? Regressará ela algum dia, ou desapareceu para sempre? As sírias fazem amor soltando gritinhos lancinantes, como aves migratórias.”

Ela vem. Os dois falam. “Sob a aparente sofisticação provinciana, sob a pretendida dureza de espírito, creio ter descoberto uma certa inexperiência, não, certamente, do mundo, mas da sociedade. Notei que a interessava, como estrangeiro educado - e ela voltava para mim os seus imensos olhos castanhos sob as pálpebras ligeiramente azuladas cujos cílios punham em relevo o esplendor das pupilas, brilhantes e directas, e ela olhava-me fixamente com o seu olhar de mocho, tímido, ciente, impressionante.”

Imagine-se a angustiosa ansiedade com que li pela primeira vez este relato de uma aventura de que Justine era a heroína. Mesmo agora, depois de ter lido esse livro tantas vezes que quase já o sei de cor, ele continua a constituir para mim um documento essencial, e, de cada vez que o releio, recebo a mesma sensação de surpresa e de dor. “O nosso amor - escreve ele num outro passo -, muito mais tarde, assemelhava-se a um silogismo a que faltassem as premissas: quero dizer, o respeito. Era uma espécie de posse mental que nos encerrava a ambos e nos fazia deslizar sobre as águas tépidas e baixas do Mareotis como ovos de rã aglutinados, presa fácil para os instintos engendrados pelo tédio e pelo calor... Não, não se trata de nada disso, as palavras não exprimem a realidade. Tentemos novamente desenhar o retrato de Cláudia ajudados por esses frágeis e doentios instrumentos. Mas, por onde havemos de começar?

“Por exemplo: aquele meu à-vontade que tão bem a serviu durante vinte anos de uma vida nómada e desordenada. Pouco soube das suas origens, além de que tinha sido muito pobre. Ela deu-me a impressão de uma pessoa empenhada em fornecer uma série de cruéis caricaturas de si própria - mas isso é uma atitude comum às pessoas solitárias que crêem que o seu verdadeiro eu não pode encontrar eco em qualquer outro ser. A rapidez com que ela trocava de homem, de momento ou de lugar, era surpreendente. Havia na sua própria instabilidade uma espécie de grandeza. Quanto mais a conhecia mais ela me parecia imprevisível; a única constante era essa luta frenética para quebrar as barreiras do seu narcisismo. Como me recordo desta frase que ela repetia com tanta frequência:

“Querido, desta vez será diferente, prometo-te.”

“E mais tarde quando partimos para o estrangeiro: no Adlon o pólen dos projectores turbilhonava em torno dos dançarinos espanhóis, e ela, explodindo de cólera, no meio da fumarada de milhares de cigarros. Perto das águas negras de Buda, as suas lágrimas tombando tépidas por entre as flutuantes folhas mortas; cavalgando nas descarnadas planícies espanholas, o silêncio martelado pelos cascos dos cavalos. Deitada num rochedo perante o Mediterrâneo, sombria, fechada. Não eram as suas traições que me faziam mal - porque, com Justine, a questão do orgulho que o macho colhe da posse tinha uma importância secundária. A ideia ilusória de que algum dia viria a conhecê-la, realmente, conservava-me preso aos seus encantos. Hoje, compreendo que ela não era verdadeiramente uma mulher, mas a encarnação da Mulher, e que ela não podia sofrer nenhuma limitação ditada pela sociedade em que vivíamos.”

“O que eu procuro sem cessar é uma vida que valha a pena ser vivida. Se eu morresse, ou enlouquecesse, talvez conseguisse dar a vida a todas essas coisas que existem em mim e que se não conseguem exprimir. O médico a quem eu amei disse-me que eu era uma ninfomaníaca, mas garanto-te, Jacob, que não existe nenhuma voracidade, nenhuma condescendência no meu prazer. Sob esse ponto de vista, trata-se de puro desperdício. Desperdício, meu caro! Tu dizes que tenho o prazer triste dos puritanos. Também isso é uma injustiça que me fazes. O meu prazer é trágico, e se os meus amigos médicos têm necessidade de uma palavra complicada para descrever a criatura insensível que eu aparento ser, terão, pelo menos, de admitir que em mim a alma devorou o coração. É daí que provém todo o mal.”

“Hão-de concordar que este género de distinções não é frequente nas mulheres. Era um pouco como se no seu universo faltasse uma dimensão e que o amor se tivesse tornado numa espécie de idolatria interior. De princípio tomei isso por um egoísmo desenfreado e devastador, tão ignorante ela me parecia das regras de fidelidade que constituem a base do afecto entre homens e mulheres. Isto parece um pouco pedante, mas não faz mal. Agora, quando me recordo dos seus terrores e das suas exaltações, pergunto a mim próprio se não me enganava. Recordo-me desses extenuantes dramas em quartos de acaso onde Justine abria todas as torneiras para afogar o som dos seus próprios gemidos. Para cá e para lá, apertando as mãos debaixo das axilas, falando para si própria, era como um barril de pólvora prestes a explodir. A minha saúde abalada e os meus nervos frágeis - e, acima de tudo, o meu humor europeu - pareciam exasperá-la, nesses momentos, a um ponto extraordinário. Se, por exemplo, era objecto de qualquer imaginária desconsideração num party, passava a noite a girar no quarto, como uma pantera. Se eu adormecia, enfurecia-se e sacudia-me pelos ombros, gritando: “Acorda Jacob. Não vês que eu sofro?” Quando me recusava a tomar parte nessas pequenas comédias, tratava de quebrar qualquer vidro dos que se encontravam sobre a cómoda a fim de ter pretexto para chamar a criada. Quantas faces de criadas não vi eu, apresentando-se temerosas diante daquela mulher em vestido de cerimónia, pálida de cólera e pedindo com uma delicadeza pavorosa:

“Pode fazer-me o favor de arrumar a cómoda? Quebrei um frasco, sem querer.”

“Depois, sentava-se e punha-se a fumar cigarro após cigarro. Um dia, observei-lhe:

“Já sei o que tudo isso significa. De cada vez que me enganas e te sentes devorada pelo remorso, fazes todo o possível para que te bata, dando-te, assim, a absolvição dos teus pecados. Pois bem, minha querida, recuso-me em absoluto a fazer-te a vontade. Continua a suportar sozinha o teu fardo. Querias que te fustigasse? Mas tudo quanto consegues é que eu tenha dó de ti.”

“Reconheço que as minhas palavras a fizeram reflectir por um momento e que, involuntariamente, as suas mãos acariciaram a superfície lisa das pernas, que tinha depilado cuidadosamente nesse dia...

“Mais tarde, quando me começava a sentir farto dela, esse abuso de emoções parecia-me tão exasperante que tomei o partido de rir e insultá-la. Certa noite chamei-lhe judia histérica e irritante. Desatando a soluçar com aquela voz rouca que eu tantas vezes escutara e que, ainda hoje, me faz mal recordar - a riqueza desses espasmos da garganta, a sua melodiosa densidade -, lançou-se sobre o leito, os membros flácidos percorridos pelas vagas da histeria.

“Eram essas cenas, com efeito, frequentes, ou é a minha memória que as multiplica? Talvez só tivesse sucedido uma vez e eu esteja a ser logrado pelos ecos que em mim se repercutiram. De qualquer maneira, parece-me escutar ainda o ruído que ela fazia a destapar o tubo dos calmantes e o som dos comprimidos caindo no copo. Mesmo meio adormecido eu contava-os, para me assegurar de que ela não estava a preparar uma dose excessiva. Claro que tudo isto foi muito mais tarde, naturalmente. Nos primeiros tempos, suplicava-lhe que viesse deitar-se comigo; ela obedecia, contrafeita, sombria, desinteressada. Tinha a insensatez de crer que poderia derreter o seu gelo e dar-lhe a paz física de que depende - imagino - a paz de espírito. Enganava-me. Havia nela uma espécie de nó que ela pretendia desfazer e isso estava para além das minhas possibilidades de amigo e de amante. Naturalmente, sabia tudo quanto nessa época era possível saber sobre a psicologia da histeria. Por detrás de todo aquele aparato histérico, havia qualquer outra coisa que eu pensava ser capaz de descobrir. Num certo sentido não era a vida o que ela buscava, mas uma revelação profunda e absoluta que afinaria todos os seus sentidos.

“Já contei como foi o nosso primeiro encontro: no grande espelho do Cecil, diante da porta aberta do salão de dança, numa noite de Carnaval. As primeiras palavras que trocámos foram pronunciadas, simbolicamente, voltados para o espelho. Ela andava na companhia de um homem que lembrava um choco e que esperava pacientemente que ela acabasse de analisar o tenebroso reflexo da face jovem. Parei para compor o laço. Havia na rapariga um ar de franqueza ávida, tão natural que era impossível considerá-la atrevida quando, sorrindo, observou:

“Nunca há luz suficiente.”

“E eu respondi, sem reflectir:

“Para as mulheres, talvez não. Nós, os homens, somos menos exigentes.”

“Trocámos um sorriso e dirigi-me para o salão, decidido a sair, para sempre, da sua vida desde o momento em que me afastara do espelho, sem voltar, sequer, a pensar nela. Um pouco mais tarde, os acasos de uma dessas odiosas danças inglesas, chamada Paul Jones, se bem me lembro, reuniu-nos de novo para uma valsa. Trocámos algumas frases desligadas - sou um dançarino medíocre - e devo reconhecer que a sua beleza não me causou nessa altura qualquer impressão. Foi só um pouco mais tarde que ela principiou com o seu jogo, que consistia em esboçar um quadro rápido e impreciso do meu carácter, desorientando as minhas faculdades críticas com pequenos ditos mordentes e penetrantes, atribuindo-me qualidades que ela improvisava no momento, com o único fim de cativar a minha atenção. É tradicional as mulheres atirarem-se aos escritores - e, desde o momento em que ela soube que eu era um deles, tentou tornar-se interessante, dissecando-me. Tudo isso teria sido bastante lisonjeiro para o meu amor-próprio se algumas das suas observações não tivessem ultrapassado um pouco os limites permitidos, dado o carácter convencional deste primeiro encontro. Ela era perspicaz e eu demasiado fraco para resistir a essa espécie de jogo – essas emboscadas do espírito que constituem as notas de abertura do namoro.

“A partir desse momento não me recordo de mais nada até àquela noite - essa noite maravilhosa de Verão no terraço inundado pela lua e sobranceiro ao mar - em que Justine colocando a sua mão ardente na minha boca para me calar disse qualquer coisa deste género:

“Depressa. Engorge-moi. Passemos do desejo à saciedade...”

“Era como se ela já me tivesse esgotado na sua imaginação. As palavras foram pronunciadas com tanto desânimo e tanta humildade - quem poderia deixar de amá-la?

“Mas para que serve tentar reviver tudo isto através de vagas palavras? Conservo recordações precisas de tantos momentos que vejo agora uma espécie de Justine compósita, tentando ocultar o seu apetite de saber, a sua avidez de conhecer, sob uma máscara de sentimento. Sinto-me tentado a, tristemente, crer que nunca a emocionei realmente e que fui como uma espécie de laboratório de que ela se utilizava. Comigo aprendeu muito: a ler e a reflectir. Antes de me conhecer nunca fizera nenhuma dessas coisas. E aquilo que eu pensava ser amor não era, possivelmente, mais do que gratidão. Entre um milhão de pessoas, de impressões, de motivos de estudo abandonados, vejo-me, algures, flutuando à deriva, abandonado. É estranho, mas não foi como amante e sim como escritor que realmente a encontrei. Nesse capítulo, andávamos de mão dada, nesse mundo amoral de juízos diferidos onde a curiosidade e o encantamento pareciam mais importantes do que a ordem, a ordem silogística imposta pelo espírito. Espera-se em silêncio, retém-se a respiração, para que a vidraça não fique enevoada... Era assim que a tratava. Estava louco por ela.

“Claro que, sendo uma autêntica filha do Mouseion, guardava numerosos segredos, e tinha que defender-me desesperadamente contra o ciúme e contra o desejo de invadir o lado escondido da sua vida. Quase consegui um sucesso completo a este respeito e, se a espiava, era apenas pela curiosidade de saber o que ela poderia estar a fazer ou a pensar quando se não encontrava junto de mim. Havia, por exemplo, uma mulher, na cidade, que visitava frequentemente, e cuja influência em Justine era bastante grande para me fazer suspeitar relações ilícitas; havia, também, um homem a quem ela escrevia longas cartas, embora eu soubesse que ele vivia na cidade. Estaria ele doente?

Fiz investigações, mas as informações que recebi dos meus espias foram sem interesse. A mulher era uma nigromante, velha e viúva. O homem a quem ela escrevia - com o aparo a ranger por sobre o papel de má qualidade -, um médico que tinha um posto clínico num consulado local. Mas não se encontrava doente; era um homossexual, voltado para a filosofia hermética tão em voga nos nossos dias. Certo dia, encontrei no meu mata-borrão um decalque de uma página que ela lhe escrevera, e, socorrendo-me do espelho (sempre o espelho!), consegui ler: “A minha vida é essa tal ferida não cicatrizada de que me fala, e que tento preencher com pessoas, acidentes, doenças, tudo quanto calha. Tem razão quando diz que isto não passa de uma apologia. Respeito a sua disciplina e a sua ciência, mas creio que para chegar a aceitar-me tenho que reunir todos os destinos do meu carácter e queimá-los. Uma outra, que não eu, poderia resolver artificialmente o problema lançando-o no regaço de um padre. Nós, os filhos de Alexandria, temos demasiado orgulho para isso - e mais respeito pela religião. Seria uma deslealdade para com Deus, e, a despeito de todas as minhas traições (estou a ver o seu sorriso!), estou resolvida a não o trair, quem quer que Ele seja.”

“Tive a impressão de que, a tratar-se de uma carta de amor, só poderia ser uma carta de amor dirigida a um santo. Surpreendeu-me novamente, a despeito das incorrecções do estilo, a sua facilidade em dissociar as ideias em diversas categorias. Começava a vê-la numa perspectiva diferente; como alguém muito capaz de se destruir a si próprio por teimosia e de perder a felicidade que procurava - era um traço que ela tinha de comum com todos nós - e para cuja realização empenhava toda a sua vida. Estes pensamentos tiveram o efeito de arrefecer um pouco o meu amor por Justine. Às vezes, tudo quanto sentia por ela era repugnância. Mas o que me horrorizou foi descobrir que não podia passar sem ela. Sem a sua presença, a vida parecia-me mortalmente enfadonha e desprovida de sentido. Estava apaixonado. Essa ideia enchia-me de inexplicável desespero, de verdadeiro desgosto. Era como se tivesse compreendido, inconscientemente, que nela se encontrava o meu génio mau. Chegar a Alexandria com o coração livre e encontrar um amor fati era uma falta de sorte que não convinha nem à minha saúde nem aos meus nervos. Olhando para o espelho, recordava-me de que já tinha ultrapassado os quarenta e que já havia alguns fios de prata nos meus cabelos! Pensei imediatamente em pôr termo ao laço que me prendia, mas um sorriso ou um beijo de Justine revogavam todas as minhas resoluções. Com ela sentia-me na intimidade de sombras que penetravam a vida e a enchiam de uma nova ressonância. Um sentimento tão rico de ambiguidades não podia liquidar-se com um mero acto voluntário. Às vezes, tinha a impressão de prender entre os braços uma mulher de quem cada beijo era um golpe mortal. Quando, por exemplo, descobri que me traía (de resto, não me surpreendeu), e numa época em que eu me sentia mais ligado a ela, não sofri nada de muito definido: era antes uma espécie de vago torpor, como quando se acaba de visitar um amigo no hospital e descemos seis andares num elevador, ao lado de um autómato fardado, de cuja presença nos apercebemos apenas porque o ouvimos respirar. O silêncio do meu quarto ensurdecia-me. Mas, reflectindo no caso, concluí que o que ela fazia nenhuma relação tinha comigo: tentava libertar-se, para mim, para tentar dar-me aquilo que sabia que me pertencia. Não direi que isto não tenha a aparência de um sofisma, mas o meu coração parecia compreender a verdade disso e ditava-me um silêncio prudente, ao qual ela respondia com um calor, um ardor novo, adicionando ao amor a gratidão. E novamente eu sentia uma espécie de repugnância.

“Ah!, se a tivessem visto então, nos seus momentos mais humildes e mais ternos, quando me lembrava que ela não passava de uma criança, certamente não me acusariam de ser pusilânime. De manhãzinha, adormecida nos meus braços, os cabelos caindo em desordem sobre a boca contraída, não se assemelhava a nenhuma das mulheres que eu tinha conhecido. Era, antes, semelhante a alguma maravilhosa criatura surpreendida no plistoceno da sua evolução. Ainda mais tarde, pensando nela da forma que o tenho feito nestes últimos anos, surpreendia-me descobrir que, embora a tivesse amado com todas as forças do meu ser, e sabendo que não voltaria a amar qualquer outra, tremia à ideia de que ela pudesse voltar. As duas ideias coincidiram no meu espírito sem se antagonizarem e sem se anularem. Sentia-me de certo modo liberto. 'Bem, afinal experimentei o amor. Já sei o que isso é'; e o meu outro eu acrescentava “poupa-me as feridas de um amor partilhado com Justine”. Esta enigmática polaridade de sentimentos era algo que me surpreendia completamente. Se isto era o amor, era uma variedade que até então, jamais encontrara. (“Para o diabo com o nome - dissera uma vez Justine. - Gostaria de usá-lo ao contrário, como os Isabelinos costumavam fazer com a palavra Deus. Chamemos-lhe evol e tornemo-lo num radical de 'evolução' ou 'revolta'. Nunca tornes a pronunciar essa palavra diante de mim.”)” (1)

 

Nota 1: Deus, em inglês “god”; invertendo as letras obtêm-se “dog”, cão. Quanto a “evol”, é a forma invertida de “love”, amor (n. do t.).

 

Estes fragmentos fazem parte de um capítulo do diário que o autor intitula Vida Póstuma, e no qual tenta resumir e descobrir o sentido destes episódios. Pombal considera esse capítulo o mais fraco, o mais vulgar e até mesmo enfadonho. Mas quem, conhecendo Justine, não sentirá uma profunda emoção com a leitura de semelhantes páginas? Não se pode afirmar que as intenções do autor sejam destituídas de interesse. Ele afirma, por exemplo, que os indivíduos reais só podem existir na imaginação de um artista bastante poderoso para compreendê-los e dar-lhes forma. “A vida, a matéria-prima, vive em potência até que o artista a desenvolve na sua obra. Ah!, como eu desejaria poder fazer isso com a pobre Justine!” (O que ele escreveu foi “Cláudia”, naturalmente.) “Penso num livro que fosse capaz de conter todos os elementos do seu ser; mas não seria um livro da espécie a que estamos habituados. Por exemplo, na primeira página, um resumo da acção em linhas breves. Isso permitiria dispensar a articulação da narrativa. Seria o drama liberto das cadeias da forma. O meu livro teria o direito de sonhar livremente.”

Naturalmente não se pode fugir tão facilmente às formas que Arnauti considera arbitrárias e que, na verdade, se desenvolvem organicamente no próprio núcleo da obra, conformando-a. O que falta na sua obra - mas esta crítica atinge igualmente todas as outras obras que não alcançam o primeiro plano - é uma falta de equilíbrio. O autor deixa-se dominar pelo assunto, de tal modo que o próprio estilo se deixa contaminar por um pouco de desequilibrada ferocidade da própria Cláudia. Para ele, todas as coisas que são fonte de emoções tomam a mesma importância; um aceno de Cláudia debaixo dos loureiros de Noussha, a lareira onde ela queimou o manuscrito de um romance que ele estava a escrever sobre a própria Cláudia: (“Durante muitos dias ela olhava para mim como se quisesse ler nos meus olhos o romance que eu escrevera”), o quartinho na Rua Lepsius com a sua cadeira de palha rangente... Das suas personagens, eis o que ele diz: “Todos ligados pelo Tempo numa dimensão que não é a realidade que nós queríamos que fosse - mas a que nasce das necessidades da obra. Porque todo o drama cria uma servidão e o actor só é significativo na medida em que se submeta a essa servidão.”

Feitas estas reservas, temos de reconhecer que o retrato que nos dá de Alexandria é de grande penetração e delicadeza; de Alexandria e das suas mulheres. Há retratos notáveis de Leónia, de Gaby e de Fosca1 - rosa-pálido, ouro e alcatrão. Algumas facilmente se reconhecerão nessas páginas. Quanto a Clea, que ainda vive no estúdio alcandorado num sótão, como num ninho de águia feito de teias de aranha e roupas velhas, não há equívoco possível. A maior parte destas raparigas de Alexandria não se distinguem das outras mulheres senão por uma terrível honestidade e um grande desprezo pelo mundo. Arnauti era bastante escritor para ser capaz de isolar estes traços verídicos da cidade do Soma. Não se podia esperar mais da parte de um estrangeiro talentoso que, quase por erro, conseguiu trespassar a dura carapaça de Alexandria, e, fazendo-o, se descobriu a si próprio.

 

Nota 1: Fosca morreu de parto e as suas cinzas foram espalhadas pelo deserto.

 

Quanto a Justine, encontram-se poucas ou nenhumas referências a Arnauti nas páginas fortemente couraçadas do seu diário. Aqui e além, localizei a letra A., geralmente nas passagens de pura introspecção. Eis uma em que a identificação parece plausível:

“O que primeiro me atraiu em A. foi o seu quarto. Senti sempre que, por detrás das pesadas persianas, se processava uma espécie de fermentação. Havia livros, nas prateleiras, com as lombadas voltadas para dentro ou, então, cobertas com folhas de papel de desenho - talvez para ocultar os títulos! No chão, um tapete de jornais esburacados, como se uma horda de ratos tivesse andado por ali - eram os recortes de A., aquilo a que ele chamou a 'vida real', uma abstracção que sentia ser muito diferente da sua própria. Sentava-se no chão para se deixar absorver pelos jornais, tal como se sentaria à mesa para jantar em roupão remendado e pantufas de veludo, talhando as folhas com uma tesoura de unhas, embotada. Autêntica criança, surpreendia-se com a realidade do mundo que não existia nas suas obras; era, provavelmente, qualquer lugar onde as pessoas podiam ser felizes, rir, conceber filhos.”

Em alguns raros e breves quadros deste género, está tudo quanto diz respeito ao autor dos Moeurs; é muito pouco, em comparação com o lugar que Justine tomou na sua vida; tão-pouco encontro a menor alusão ao divórcio, depois do breve e infrutífero casamento. É interessante verificar a coincidência dos juízos que Arnauti formulou no livro com aqueles que Nessim e eu formulámos mais tarde. A submissão em que ela nos colocava não era o menos estranho dos seus aspectos. Era como se os homens soubessem imediatamente que se encontravam na presença de uma mulher a quem não podiam aplicar, para julgá-la, o mesmo critério que utilizavam com as outras. Clea, cujas opiniões raramente eram condescendentes, disse, certa vez, a seu respeito: “Os homens preferem as verdadeiras putas como Justine; só elas é que podem ferir de verdade. Naturalmente, a nossa amiga não passa da modesta reprodução moderna das grandes heteras do passado, a cujo tipo ela pertence, sem o saber - Lais, Charis, e tantas outras... O papel que Justine desempenha foi tomado delas, e a sociedade, para aumentar a sua perturbação, acrescentou-lhe o fardo intolerável de culpa. É uma pena, porque ela é, realmente, uma verdadeira alexandrina.”

Para Clea, o livro de Arnauti parecia, também, banal e prejudicado pelo desejo de explicar tudo:

“A nossa doença - dizia ela - é querer explicar tudo dentro dos quadros da psicologia ou da filosofia. No final das contas, Justine não tem que ser justificada ou desculpada. Ela, simplesmente e magnificamente, é. Devemos aceitá-la assim mesmo, como aceitamos o pecado original. Chamá-la ninfomaníaca ou introduzir o freudismo aqui, meu caro, é privá-la de toda a substância mítica - a única coisa que ela realmente possui. Como todas as pessoas imorais, ela tem algo de deusa. Se vivêssemos num mundo diferente, haveria templos onde Justine poderia encontrar o género de paz que procura. Templos onde pudesse frutificar esse género de herança que recebeu, e não esses absurdos mosteiros cheios de catòlicozinhos lavrados pelas borbulhas carnais, que transformaram os seus órgãos reprodutores em selas de bicicleta.”

Clea referia-se aos capítulos que Arnauti intitulou “O Freio”, onde o autor pensa ter encontrado a chave da instabilidade de Justine. Talvez sejam banais, mas como tudo é susceptível de receber mais do que uma explicação, merecem que sobre eles nos detenhamos um pouco. Embora eu próprio não considere que eles expliquem Justine, acho que, em certa medida, esclarecem os seus actos - essas imensas viagens que eles empreenderam juntos através da Europa. “No próprio cerne da paixão - escreve ele, acrescentando entre parêntesis : paixão que, a seus olhos, era o mais banal de todos os dons - havia um freio, uma espécie de grande obstáculo do sentimento de que só tive consciência depois de alguns meses. Erguia-se entre nós como uma sombra e reconheci, ou julguei reconhecer, o verdadeiro inimigo da felicidade que tanto desejávamos partilhar e da qual, de qualquer modo, nos sentíamos excluídos. De que se tratava afinal?

“Ela revelou-mo, numa noite em que estávamos estendidos no leito enorme e horrendo de um quarto mobilado - um lúgubre quarto rectangular, de aspecto e odor vagamente latinos - tecto de estuque decorado com anjinhos apodrecidos e ramos de folhas de parra. Ela revelou-mo, deixando-me nas garras de um ciúme feroz que eu tentava dissimular - ciúme de uma nova espécie. O seu objecto era um homem que, embora ainda vivesse, já não existia. Era, provavelmente, aquilo a que os freudianos chamam uma recordação-projectada dos acontecimentos da sua primeira juventude. Ela tinha (e não poderia haver equívoco sobre a importância da sua confissão, porque era acompanhada por uma torrente de lágrimas, e nunca a tinha visto chorar dessa maneira, antes, nem voltei a vê-la chorar assim, depois) sido violada por um dos seus amigos.

“Não podemos deixar de sorrir perante a banalidade desta ideia. Era impossível saber em que idade isso ocorrera. Contudo - e pensei que aí se encontrava o nó do problema -, a partir desse momento nunca mais conseguiu obter satisfação no amor, a menos que recriasse na mente toda a cena de violência. Para ela, nós, os seus amantes, não passávamos de substitutos mentais do seu primeiro acto, de tal modo que o amor, como uma espécie de masturbação, se carregava de todas as cores da neurastenia. Ela sofria de uma anemia imaginária, visto que não era capaz de possuir ninguém, inteiramente, na carne. Não podia apoderar-se do amor de que tinha tão grande necessidade: as satisfações que obtinha eram colhidas nos recantos crepusculares de uma vida que ela já não vivia. Uma situação de apaixonante interesse! O mais curioso era que eu me sentia ferido no meu amour-propre, exactamente como se ela me tivesse confessado um acto de deliberada infidelidade. O quê! De todas as vezes que se encontrava nos meus braços só conseguia ter prazer mediante uma operação de memória? Assim, em certa medida, não conseguia possuí-la: nunca o tinha conseguido. Era, simplesmente, um duplo. Mesmo neste momento em que escrevo, não consigo impedir-me de sorrir ao lembrar-me da voz estrangulada com que lhe perguntei quem era o homem e onde se encontrava. (Para quê? Para desafiá-lo?) E, a despeito de tudo, ele ali estava, real, entre mim e Justine; entre Justine e a luz do Sol.

“Mas, mesmo neste ponto, mantive-me suficientemente senhor de mim para observar até onde pode o amor nutrir-se de ciúme. Essa mulher que não podia alcançar, nem mesmo quando a tinha nos braços, tornava-se agora dez vezes mais desejável, mais necessária. Era uma posição desagradável para um homem que não tinha a menor intenção de apaixonar-se, e para uma mulher cujo único desejo é libertar-se de uma obcecação para poder amar livremente. Daqui, concluía-se que, se conseguisse quebrar o encanto, poderia possuí-la verdadeiramente, como nenhum homem jamais a possuíra. Poderia tomar o lugar do fantasma e receber verdadeiramente os beijos que ela me dava e que iam agora cair sobre um cadáver. Parecia-me que, finalmente, tinha compreendido tudo.

“Eis, pois, a explicação da grande viagem que empreendemos, por assim dizer, de mãos dadas, a fim de nos desembaraçarmos desse súcubo, com o auxílio da ciência. Dirigimo-nos juntos a Czechnia, à cela revestida de livros onde os mandarins da psicologia vêm regalar-se com os seus espécimes. Bale, Zurique, Baden, Paris, ritmo de rails de aço sobre os sistemas arteriais do corpo da Europa, gânglio de aço unindo-se e separando-se através das planícies e montanhas. Ver, de súbito, as nossas imagens empoladas nos espelhos do Expresso do Oriente. Levávamos a sua doença de um extremo ao outro da Europa, como um bebé no seu berço, e começava já a desesperar, a convencer-me de que a própria Justine não pensava em curar-se. Ao freio involuntário do psiquismo ela acrescentava o da vontade. Não consigo compreender: ela a ninguém revelava o nome do homem, um nome que para ela significava ou tudo ou nada. Deve andar esse homem ainda algures pelo Mundo, com os cabelos a embranquecer ou a desaparecer sob o peso das preocupações ou dos excessos, com a banda negra e cobrir-lhe um dos olhos, após um dos seus frequentes ataques de oftalmia. (Se posso descrevê-lo, é porque acabei por encontrá-lo uma vez depois da nossa viagem.)

“- Porque hei-de dizer o seu nome aos outros? - exclamava Justine. - Não significa nada para mim, nunca significou. Ele próprio esqueceu tudo. Não compreendes, então, que morreu? Quando o vejo...

“Foi como se uma serpente me picasse.

“- Então encontra-lo?

“Imediatamente recuou para uma posição menos perigosa.

“- De longe em longe, na rua. Trocamos simplesmente um aceno de cabeça.

“Por conseguinte, essa criatura, esse monstro de banalidade, ainda respirava, ainda pertencia a este mundo! Como o ciúme pode ser fantasioso e ignóbil! Mas o ciúme por uma criação da imaginação confina com o ridículo.

“Certa vez, em pleno centro do Cairo, num engarrafamento, no calor sufocante de uma tarde de Verão, um táxi parou, por um momento, ao lado do nosso. Qualquer coisa na atitude de Justine atraiu o meu olhar na direcção do seu. Nesse calor húmido e palpitante, nessa pasta húmida que provoca a chuva e torna ainda mais insuportável o odor dos frutos apodrecidos, o jasmim e o suor almiscarado dos corpos negros, apercebi no táxi vizinho um homem de aspecto ordinário. À parte a banda sobre um dos olhos, nada o distinguia de milhares de outros negociantes, puídos e amolecidos, desta horrível cidade. Tinha os cabelos ralos, um perfil agudo, um pequeno olho arredondado; vestia um fato de Verão cor de cinza. A expressão de angústia no rosto de Justine era tão intensa que eu exclamei:

“- Que se passa?

“Enquanto o nó de veículos se desfazia e a circulação retomava o seu curso, ela respondeu-me com um estranho brilho no olhar, quase com um ar de provocação:

“- O homem que todos vocês procuravam! “Ainda ela não acabara de falar já eu tinha percebido tudo, e, como num pesadelo, dei ordem ao condutor para parar e saltei para a rua. Vi o foco encarnado do outro táxi dobrar para Sulieman Paxá, a uma distância demasiado grande para poder descortinar o número ou a cor da chapa. Persegui-lo era impossível. Reentrei no nosso táxi, trémulo e sem voz. Assim, era aquele o homem cujo nome Freud tinha tentado obter dela, usando de toda a sua tranquila paciência e afectuoso desinteresse? Era por causa deste homem maduro, e com ar bem inofensivo, que Jus-tine se tinha deitado, com os nervos tensos e como em estado de levitação, enquanto a voz cortante e metálica de Magnani repetia:

“- Diga-me o seu nome; tem que me dizer o seu nome.

“E, do fundo das paisagens esquecidas onde a sua memória se encontrava prisioneira, ela repetia como um oráculo dos tempos modernos:

“- Não me recordo; não me recordo.

“Pareceu-me, então, evidente que, de certo modo, ela se recusava a recuperar, tornando ineficazes todas as tentativas da ciência dos médicos. Nisso consistia o nó do problema; lá, residia a chamada ninfomania que os dignos cientistas me asseguravam ser o mal de Justine. Umas vezes, convencia-me de que eles tinham razão - outras, porém, duvidava. Não deixava de ser tentador ver a sua conduta desculpada pelo facto de cada um dos seus amantes constituir potencialmente uma promessa de libertação afectiva, a libertação daquela sufocante clausura em que o sexo não tinha outro alimento que não fossem as chamas loucas das imaginação.

“Talvez fizéssemos mal em falar abertamente no caso, em tratá-lo como um problema: isso só tinha como resultado acentuar, para ela, a consciência da sua importância e contribuía, além do mais, para lhe despertar uma instabilidade nervosa que antes não possuía. Na sua vida passional, ela era directa, como um machado que cai. Recebia os beijos como uma tela recebe as pinceladas do pintor. E não é sem uma certa perplexidade que me recordo de ter durante muito tempo tentado, em vão, descobrir desculpas que pudessem tornar a sua amoralidade, senão agradável, pelo menos compreensível. Agora, noto o tempo que perdi nessas tentativas quando me devia ter limitado a tomá-la como ela era, afastando-me dessas preocupações, simplesmente, dizendo pára mim próprio: «Ela é bela tal como é: infiel. Ela toma o amor como uma planta absorve a água, naturalmente, cegamente.'

Poderíamos, então, ter passeado ao longo do canal, de braço dado, ou alugado uma barca sobre as águas reluzentes do Mareotis, e ter-me-ia sentido feliz com a sua presença, sem nada mais exigir. Que dom maravilhoso, nós, os escritores, temos, de nos torturarmos e torturar os outros! Não só esta longa e dolorosa auscultação de Justine teve o efeito de lhe fazer perder um pouco da sua antiga confiança em si própria, como a tornou mais conscientemente infiel. E pior ainda: ela passou a considerar-me como um inimigo atento aos seus menores defeitos, à mínima palavra ou ao mínimo gesto que a pudessem trair. Ela estava, agora, em guarda e começava a acusar-me de um ciúme insuportável. Talvez tivesse razão. Lembro-me dela me ter dito certo dia:

“- Agora és tu que vives com os meus fantasmas. Fiz mal em falar-te deles, em ser honesta. Repara como me atormentas; as mesmas perguntas todos os dias. E à menor contradição enfureces-te comigo. Bem sabes que nunca conto a mesma história duas vezes da mesma maneira. Mas isso não quer dizer que eu minta.

“Não dei atenção a esta advertência e redobrei de esforços para afastar a cortina por detrás da qual julgava ocultar-se o meu adversário, o homem da banda negra. Correspondia-me ainda com Magnani; tentava reunir o maior número possível de indícios que o ajudassem a resolver o mistério; em vão. Na enredada selva de tendências culposas que constituem a psique, quem pode abrir caminho, mesmo que o sujeito aceite cooperar? O tempo que perdemos em pesquisas fúteis a sondar os seus gostos e as suas fobias! Se Justine fosse dotada de um mínimo de ironia, como se teria divertido à nossa custa! Recordo-me de que toda uma série de cartas teve por objecto a descoberta de que ela não podia ler as palavras 'Washington D. C’ sem um sentimento de desgosto! Como lastimo ter perdido todo esse tempo que poderia ter sido empregado muito melhor a amá-la como ela merecia. O velho Magnani também devia ter certas dúvidas, porque uma vez escreveu-me nestes termos: ‘... e, meu caro amigo, não devemos esquecer que esta ciência que nos parece tão miraculosa e cheia de promessas se encontra ainda nos seus primórdios e assenta em factos tão duvidosos como a própria astrologia. E, para mais, nós ligamos tanta importância aos nomes que damos às coisas! A ninfomania podia ser considerada, por exemplo, como uma outra forma de virgindade, quem sabe! E, no tocante a Justine, talvez nunca tenha realmente amado. Um dia ela encontrará o homem diante do qual todas essas quimeras extenuantes se dissiparão, restituindo-lhe a inocência. Pelo menos, trata-se de uma possibilidade que não deve ser repelida.' Era evidente que ele não pretendia fazer-me sofrer. A ideia, contudo, perseguia-me, sem que eu a quisesse admitir. Mas, lendo a carta do velho sábio, apoderava-se de mim com um esplendor de evidência que me feria.”

Eu ainda não tinha lido estas páginas de Arnauti, quando aquela tarde em Bourg El Arab veio comprometer o futuro das nossas relações pela introdução de um novo elemento - não me atrevo a usar a palavra amor com receio de ouvir na minha imaginação a sua doce e áspera gargalhada: uma gargalhada que iria, algures, fazer rir o autor do diário. Achei, com efeito, tão fascinante a análise da sua própria personalidade, e a natureza das nossas relações apresentava uma tal similitude com as relações que ele mantivera com Justine, que às vezes chegava a considerar-me como uma das personagens dos Moeurs. Além disso, estou tentando fazer o mesmo que ele - embora não possua o seu talento nem tenha a ilusão de ser um artista. Pretendo pôr o preto no branco, simplesmente e cruamente, sem estilo - cal e estuque -, porque o retrato de Justine deve ser apenas rebocado, deixando transparecer a sólida estrutura de pedra.

Depois do episódio da praia, estivemos muito tempo sem nos vermos, atingidos ambos por uma vertiginosa incerteza - eu pelo menos. Nessim ficara retido no Cairo, para negócios. Embora, tanto quanto sabia, Justine se encontrasse só em casa, não me atrevia a subir os degraus que conduziam ao estúdio. Certo dia, passando em frente da casa, escutei o Bluthner e senti-me tentado a tocar a campainha, tão nitidamente se desenhava no meu espírito a imagem de Justine sentada defronte do piano. De outra vez, passando uma noite em frente do jardim, vi alguém - devia ser ela - caminhando perto do tanque e abrigando a chama de um isqueiro na concha da mão. Hesitei por um momento em frente do portão, sem saber se devia tocar. Nessa época, também Melissa se encontrava fora de Alexandria: tinha ido visitar uma amiga no Alto Egipto. O Verão avançava e a cidade tornava-se irrespirável. Eu banhava-me sempre que o meu trabalho me permitia tomar o pequeno autocarro que levava às praias formigantes de banhistas.

Certo dia, em que me encontrava de cama com um acesso de febre provocado por uma insolação, Justine penetrou na calma estagnada do pequeno apartamento, vestido branco e sapatos brancos, trazendo enrolada debaixo do braço, onde também se prendia o cordão do saco, uma toalha de banho. A magnificência dos seus cabelos negros e da sua pele morena tornava ainda mais radiante a brancura daquela aparição. Quando falou, a sua voz rouca e incerta deu-me a impressão de que estava ligeiramente embriagada - e talvez tivesse, realmente, bebido. Ela colocou uma das mãos sobre a pedra da chaminé, enquanto dizia:

- Quero pôr termo a isto o mais depressa possível. Creio que fomos demasiado longe para agora ser possível recuar.

No que me tocava, achava-me assediado por uma terrível ausência de desejo, consumido por uma voluptuosa angústia de corpo e de espírito que me impedia de falar e de pensar. Nem sequer conseguia imaginar entregando-me com ela a práticas amorosas, pois, de certo modo, a teia emotiva que ambos tínhamos tecido se interpunha a qualquer realização, como uma barreira; uma teia de aranha feita de fidelidades, de ideias e de hesitações, que eu não tinha coragem de afastar. Ela deu um passo para mim. Disse-lhe, então, numa voz débil:

- Esta cama é medonha e, ainda por cima, cheira mal. Bebi. Tentei fazer amor comigo próprio mas não consegui porque não podia deixar de pensar em você.

Sentia que ia empalidecendo cada vez mais, e não fazia nenhum movimento, enterrado no travesseiro. De repente, tive a terrível consciência do silêncio que enchia o quarto, martelado gota a gota pela torneira que pingava a um canto. Um táxi tocou ao longe, e, no porto, soou o apito breve, sinistro, de uma sereia, como um mugido do minotauro.

O quarto pertencia inteiramente a Melissa: a pobre mesa do toucador carregada de caixas de pó, bisnagas e retratos; a cortina ligeira palpitando docemente no ar abafado como a vela de um navio. Quantas vezes, nos braços um do outro, não tínhamos visto tremular esse pedacinho de tecido transparente? No meio de tudo isso, como através da imagem de um ente muito querido, como através da lente de aumento de uma lágrima gigantesca, aproximava-se o corpo nu e bronzeado de Justine. Seria um cego se não tivesse notado a que ponto a tristeza tomava parte na sua decisão. Ficámos demoradamente de olhos nos olhos, de corpos colados, não transmitindo entre si mais que a fadiga animal da tarde que andava. Não conseguia deixar de pensar, agora, prendendo-a ligeiramente na curva do meu braço, em como os nossos corpos pouco nos pertencem. Recordava-me das palavras que Arnauti escrevera: “Começava a dar-me conta do ponto a que aquela mulher me tinha despojado de toda a force morale. Estava, como Sansão, privado da minha cabeleira.” Mas os franceses, pensava eu, com as suas supérfluas idas e voltas entre o bonheur e o chagrin, devem, inevitavelmente, sofrer quando se encontram na presença de uma coisa livre de préjugés; nascidos para as subtilezas e para o virtuosismo, falta-lhes, contudo, a força e aquele pequeno toque de estupidez grosseira que é a armadura do espírito anglo-saxão. Decidi: “Bem. Deixemo-la tentar conduzir-me para onde lhe apetece. Encontrará alguém digno dela. E no fim não haverá ocasião de falar em chagrin.” Depois pensei em Nessim, que nos observava (sem que eu soubesse) como pelo lado errado de um grande telescópio: as nossas silhuetas minúsculas desenhavam-se no horizonte das suas esperanças e dos seus projectos. Acima de tudo, desejava que ele não sofresse.

Ela tinha fechado os olhos, agora tão doces e pesados, macerados pelo silêncio denso que nos envolvia. Cessara o tremor dos seus dedos que repousavam calmamente sobre a minha espádua. Voltámo-nos um para o outro, e encostámo-nos como os dois batentes de uma porta que se fecha sobre o passado. Senti, então, os seus beijos, felizes e espontâneos, que começavam a compor em torno de nós uma obscuridade, como camadas sucessivas de cor. Quando acabámos, perguntou:

- Porque será que da primeira vez nunca consigo nada?

- Talvez os nervos. Eu também nunca sinto muito da primeira vez.

- É porque estás um pouco assustado comigo.

Erguendo-me sobre um cotovelo, como se acabasse de despertar, disse-lhe:

- Alas, Justine, que havemos de fazer agora? Se isto tem que... Tomou um ar de receio e, colocando a mão sobre a minha boca, respondeu:

- Pelo amor de Deus, nada de justificações. De outro modo, terei consciência de que fizemos mal! Não compreendes que nada neste mundo pode justificar o que fizemos? E, contudo, era inevitável.

Levantou-se, atravessou o quarto, e com um só golpe da sua pata de pantera varreu os retratos, os boiões de creme, e as caixas de pó de cima do toucador.

- Isto é o que eu faço a Nessim e o que tu fazes a Melissa! Seria ignóbil pretender o contrário.

O gesto estava na tradição do que Arnauti me fizera prever, e conservei-me calado. Ela voltou para junto de mim, cobrindo-me de beijos selvagens e famintos a ponto dos meus ombros, postos em carne viva pelo sol, começarem a tremer e as lágrimas a subirem-me aos olhos.

- Ah! - fez ela tristemente -, choras. Gostaria de ser capaz de chorar.

Enquanto a conservava nos meus braços, acariciando o seu corpo liso e quente, aspirando a brisa marinha da sua pele - o lóbulo da orelha tinha um sabor salgado -, recordo-me de ter pensado: “Cada beijo aproxima-a de Nessim mas afasta-me um pouco de Melissa.” Entretanto, eu não sentia nenhuma inquietação, nenhum sentimento de desencorajamento. Os pensamentos dela deviam seguir um curso análogo, porque, de repente, disse:

- Segundo Baltasar, os traidores naturais - como eu e tu - são os verdadeiros gnósticos. Estamos mortos e vivemos esta vida numa espécie de limbo. E, contudo, os vivos não podem dispensar-nos. Nós contaminamo-los com o desejo de fazer novas experiências, com o desejo de crescer.

Tentava convencer-me de como tudo isso era estúpido - uma banal história de adultério, o lugar-comum mais corrente na cidade; e, sendo assim, para que adorná-lo com acessórios romântico-literários? Entretanto, num nível mais profundo, parecia-me que a aventura em que tinha embarcado teria o carácter definitivo de uma lição bem aprendida.

- Estás a ser excessivamente grave - observei com uma certa irritação porque o meu orgulho se sentia ferido e detestava esta sensação de estar a perder o pé.

Justine voltou para mim os seus grandes olhos:

- Oh, não! - respondeu ela docemente, como falando consigo própria. - Seria ridículo fazer todo o mal que já fiz sem compreender que é esse justamente o meu destino. É somente assim, sabendo o que estou a fazer, que eu posso ultrapassar-me. Não é fácil ser eu própria. Desejo tanto ser senhora de mim! Por favor, nunca duvides disso.

Adormecemos. Acordei com o ruído de uma chave na fechadura: era Hamid que regressava para se entregar à sua pequena cerimónia quotidiana. Para um homem piedoso, cujo pequeno tapete de orações se encontrava cuidadosamente enrolado no balcão, pronto para ser utilizado nas horas rituais, era excessivamente supersticioso. Era, segundo dizia Pombal, “assediado pelos génios”; com ele, tinha-se a impressão de haver um génio acaçapado em cada recanto da casa. Estava farto de ouvi-lo murmurar “Destour, destour” de cada vez que fazia os despejos na pia - e isto porque um poderoso génio tinha escolhido tão desagradável domicílio e era necessário invocar o seu perdão. Também a casa de banho estava povoada de génios, e eu sabia sempre quando Hamid utilizava a retrete (o que lhe tinha sido proibido) porque, de todas as vezes que se sentava, escapava-se-lhe dos lábios uma invocação rouca (“Com a vossa permissão, oh seres benditos!”) para apaziguar a cólera do génio que de outro modo o puxaria para dentro do sifão. Agora, ouvia-o a cirandar pela cozinha arrastando as babuchas ensebadas e resmungando baixo como uma jibóia.

Acordei Justine e explorei-lhe a boca, os olhos, os belos cabelos com aquela curiosidade inquieta que, para mim, tinha constituído sempre o essencial da sensualidade.

- Precisamos de ir embora - disse eu. - Pombal está para chegar de um momento para o outro.

Recordo-me do furtivo langor com que nos vestimos. Em silêncio, como dois cúmplices, descemos as escadas sombrias e saímos para a rua. Não ousámos caminhar de braço dado, mas as nossas mãos encontravam-se e acariciavam-se instintivamente ao sabor da marcha, como se não pudessem romper o encanto dessa tarde e a separação as fizesse sofrer. Deixámo-nos sem uma palavra, no pequeno largo onde as árvores moribundas, queimadas pelo sol, tinham tomado tons de café. Sem uma palavra, mas de olhos nos olhos, como se cada um de nós quisesse gravar na memória do outro, para sempre, a marca do seu rosto.

Era como se a cidade tivesse desabado sobre mim; caminhei sem destino, como devem caminhar os sobreviventes depois de um terramoto ter destruído a sua cidade natal, surpreendidos a descobrir as espantosas mudanças que se produziram nos lugares familiares. Sentia-me, de uma forma curiosa, ensurdecido, e tudo de quanto me recordo é ter muito mais tarde encontrado, num bar, Pursewarden e Pombal, e que o primeiro recitou algumas passagens de A Cidade, o célebre poema do velho bardo, que me incutiram uma força nova - como se fosse a primeira vez que escutasse esses versos que eu agora sentia de forma diferente e totalmente inesperada. E, quando Pombal observou “Você está distraído esta noite. Que se passa consigo?”, senti a tentação de responder-lhe com as palavras de Amr moribundo: “Sinto como se o Paraíso tivesse descido perto da Terra, e eu, entre ambos, respirasse pelo fundo de uma agulha”. (1)

 

Nota 1: Amr, conquistador de Alexandria, foi poeta e soldado. E. M. Forster escreve acerca da invasão árabe: “Embora não tivessem intenção de destruí-la, destruíram-na, como uma criança que se põe a brincar com um relógio. E, na verdade, durante os mil anos que se seguiram, não funcionou mais.”

 

Ter escrito tanto sem falar em Baltasar é, sem dúvida, uma grave omissão, porque ele é, em certo sentido, uma das chaves da cidade. A chave: sim, este homem que tanto frequentei, sinto-o agora, deve ser objecto de uma nova apreciação. Havia muitas coisas que não tinha compreendido então, muitas coisas que só mais tarde é que aprendi devidamente. Recordo-me, sobretudo, dessas intermináveis noites no Café Al Aktar, onde jogávamos o gamão enquanto ele fumava o seu Lakadif favorito numa comprida boquilha. Se Mnemjian representa os arquivos da cidade, Baltasar é o seu daimon platónico, o mediador entre os deuses e os homens da cidade. Isto parece um pouco forçado, bem sei.

Vejo um homem alto de chapéu preto com aba estreita. Pombal chamava-lhe “a cabra velha”. É magro, ligeiramente curvado e tem uma voz grave e rouca de uma grande beleza, particularmente quando declama um poema ou faz uma citação. Quando fala com uma pessoa nunca olha para ela de frente, o que é um traço comum aos homossexuais. Com ele, isso não é o indício de uma inversão que não o envergonha e que lhe é indiferente; os seus olhos amarelos, de cabra, são os olhos de um hipnotizador. E, não olhando a pessoa de frente, poupa-a a um olhar tão gelado que a deixaria sob uma penosa impressão durante muito tempo. Pergunta-se como pode ter suspensas dos membros mãos de tão monstruosa fealdade. Não me era possível olhar para elas sem sentir o desejo de as cortar e lançá-las ao mar. Debaixo do queixo tinha um tufo de pêlos negros, como se vê às vezes nas estátuas do deus Pã.

Muitas vezes, durante os nossos longos e solitários passeios ao longo das águas tristes e oleosas do canal, surpreendia-me a perguntar a mim próprio por que motivo me sentia atraído por ele. Era antes de conhecer a Cabala. Embora lesse muito, a sua conversação não tinha o tom livresco e pedante que Pursewarden punha nos seus discursos. Baltasar ama a poesia, as parábolas, a ciência e a sofística, mas os seus pensamentos e os seus juízos trazem sempre o cunho de uma grande sensibilidade. As suas palavras têm um ar de leviandade por detrás da qual se oculta outra coisa, uma ressonância particular que imprime ao seu pensamento uma estranha densidade. Fala frequentemente por aforismos, o que lhe dá, às vezes, um ar de oráculo. Agora compreendo que ele pertencia àquela rara categoria de homens que tendo concebido uma filosofia se empenha em viver de acordo com ela. Creio que a esta qualidade se deve o tom mordaz do seu discorrer.

Na sua qualidade de médico passava a maior parte do dia no hospital de doenças venéreas. (Um dia disse com o seu ar seco: “Encontro-me no centro do corpo da cidade, no seu sistema geniturinário; é um lugar excelente para perder quaisquer ilusões.”) É, também, o único homem que conheço a quem a pederastia em nada alterou a virilidade de espírito. Não é nem um puritano nem o contrário. Muitas vezes, entrando no seu pequeno quarto da Rua Lepsius - a tal onde havia uma cadeira rangente -, sucedeu-me encontrá-lo na cama com um marinheiro. Nunca se desculpava nem fazia qualquer alusão ao seu companheiro. Enquanto se vestia, sucedia voltar-se para o marujo adormecido e aconchegar-lhe enternecidamente o lençol em volta dos ombros. Lisonjeava-me vê-lo comportar-se diante de mim com tanta naturalidade.

É um homem complexo: algumas vezes notei um tremor de emoção na sua voz quando falava de certos aspectos da Cabala que tentava explicar a um pequeno grupo atento que o cercava. E, entretanto, quando lhe falei um dia, com entusiasmo, de algumas observações que ele tinha feito, suspirou e disse, com aquele cepticismo alexandrino que corria debaixo de uma crença indiscutível e uma devoção à Gnose:

- Todos nós procuramos motivos racionais para crer no absurdo.

De outra vez, depois de uma longa e esgotante discussão com Justine a respeito da hereditariedade e do meio, desabafou:

- Ah!, minha querida, depois de todas as obras dos filósofos sobre a alma e dos cientistas sobre o corpo, que existe que possamos afirmar conhecer, realmente, sobre o homem? Que afinal de contas ele não é mais do que uma passagem para os líquidos e para os sólidos, um cano de carne.

Tinha sido íntimo do velho poeta e falava-me dele com tanto calor e tanta penetração que me perturbava.

- Às vezes penso que lhe devo mais que a toda a filosofia. Havia nele uma mistura, tão maravilhosamente equilibrada, de ternura e ironia que teria sido colocado no número dos santos se fosse um homem de religião. Mas por uma espécie de graça divina era apenas um poeta, e muitas vezes infeliz; com ele tinha-se a impressão de que tomava o minuto que passava, e que o voltava para só ver nele o seu aspecto bom. Na sua vida, utilizava, realmente, o melhor de si próprio, o seu ser profundo. A maior parte das pessoas deixam-se levar e sofrem a vida como quem recebe as rajadas de água morna debaixo do chuveiro. À proposição cartesiana penso, logo existo, opunha a sua, que se podia enunciar desta maneira: imagino, logo pertenço e sou livre.

De si próprio, Baltasar disse certo dia arrepanhando um sorriso:

- Sou um judeu com toda a curiosidade sanguinária e todas as faculdades de raciocínio que isso comporta. É aí que se deve buscar a origem das maiores fraquezas do meu pensamento. Esforço-me por compensá-las com todo o resto do meu ser, graças à Cabala em particular.

Lembro-me de tê-lo encontrado numa tarde triste de Inverno, varrida pelo vento e pela chuva, na Corniche, patinhando nos charcos e saltando còmicamente a pé-coxinho. Debaixo do chapéu negro, um crânio onde ferviam heranças de Esmirna e das Esporadas, paisagens da sua infância. E, também, debaixo do chapéu, os relâmpagos de uma verdade que tentava transmitir-me no inglês irrepreensível que só é possível encontrar num estrangeiro. Nós conhecíamo-nos já, mas de vista, e teríamos passado um pelo outro com um simples cumprimento se ele não se encontrasse em apuros, a ponto de me fazer parar segurando-me por um braço.

- Ah!, pode com certeza ajudar-me! Por favor, ajude-me!

No crepúsculo que caía, o seu rosto pálido onde luziam uns olhos de cabra debruçava-se para mim.

As primeiras lâmpadas húmidas e deslavadas começavam a pendurar-se no líquido pano de fundo de Alexandria. Os pequenos cafés da beira-mar lançavam pálidos clarões fosforescentes que tremulam no ar viscoso. O vento soprava do sul. O Mareotis, escondido por detrás da sua cortina de juncos, estava rígido como uma esfinge. Baltasar andava à procura da chave do seu relógio, o seu belo relógio de ouro fabricado em Munique. Mais tarde pensei que sob a necessidade urgente de encontrar o objecto perdido, a sua expressão ocultava o sentido simbólico que o relógio tinha para ele: o tempo livre de todo o entrave que se escoava através do seu corpo e do meu, medido desde há tanto tempo por essa peça histórica. Munique, Zagreb, os Cárpatos... O relógio tinha pertencido a seu pai. Um judeu alto, abafado em peles, que viajava em trenós. Baltasar tinha atravessado a Polónia nos braços de sua mãe, não possuindo outra experiência do mundo além do contacto frio dos seus brinquedos nessa paisagem enregelada. O relógio tinha latejado docemente contra o corpo de seu pai e contra o seu, como se neles fermentasse o tempo. Dava-se-lhe corda com auxílio de uma pequena chave em forma de 84ankh que ele conservava ligada ao chaveiro por uma fita negra.

- Hoje é sábado em Alexandria - observou com a sua voz enrouquecida.

Falava como se ali o tempo fosse de uma natureza diferente e isso era verdade.

- Se não encontro a chave ele pára.

Sob os últimos palores do húmido crepúsculo arrancou com ternura o relógio do bolso bordado a seda.

- Tem corda até segunda-feira à tarde. Depois pára.

Sem a chave era inútil levantar a finíssima tampa de ouro pondo a descoberto as vísceras palpitantes do próprio tempo.

- Já por três vezes percorri todo o caminho onde a devo ter perdido: entre o café e o hospital.

Tê-lo-ia ajudado de boa vontade, mas a noite caía depressa. Depois de termos analisado numa pequena área os interstícios da calçada tivemos que desistir.

- Com certeza pode mandar fazer uma nova chave - observei.

- Sim, certamente. Mas creio que não compreendeu. A que eu perdi fazia parte deste relógio: pertencia-lhe!

Lembro-me de termos entrado num café da Corniche e de nos termos sentado desencorajados diante de uma chávena de café enquanto ele, com voz lastimosa, me contava toda a história do seu relógio. Foi no decurso deste encontro que me disse:

- Penso que conhece Justine. Falou-me de si com entusiasmo. Ela há-de trazê-lo à Cabala.

- Que é isso? - perguntei.

- Nós estudamos a Cabala - disse ele quase corando -; formamos uma pequena loja. Ela disse-me que o senhor não era completamente alheio a estes problemas e que eles o interessariam.

Fiquei fortemente surpreendido; não me recordava de ter falado a Justine no género de estudos que eu fazia, entre os longos acessos de letargia e desânimo. E, tanto quanto sabia, a pequena maleta onde guardava a Hermética e outros livros do mesmo género encontrava-se ainda debaixo da minha cama, fechada à chave. Mas conservei-me calado. Baltasar tinha começado a falar de Nessim:

- De nós, é ele o mais feliz, num certo sentido; não tem nenhuma ideia preconcebida do que deseja em troca do seu amor. Amar assim, sem premeditação, eis o que todas as pessoas deviam aprender a fazer depois dos cinquenta. As crianças amam dessa maneira. Ele também. Falo a sério.

- Conheceu o escritor Arnauti?

- Sim. O autor dos Moeurs.

- Fale-me dele.

- Ele introduziu-se no nosso meio mas nunca conseguiu descobrir a cidade espiritual que se oculta debaixo da cidade temporal. Dotado, sensível, mas muito francês. Encontrou Justine demasiado cedo para não se fazer ferir por ela. Não teve sorte. Se tivesse encontrado alguma um pouco mais velha - todas as mulheres são Justines, sabe, as diferenças são apenas de estilo - talvez tivesse podido... já não digo escrever melhor, porque o seu livro está bem feito, mas encontrar nele uma espécie de conclusão que o teria tornado uma verdadeira obra de arte.

Fez uma pausa e tirou uma longa fumaça do seu cachimbo antes de acrescentar:

- Repare que no livro evitou focar certos aspectos de Justine, aspectos verdadeiros que eliminou com um fim puramente artístico... como o incidente com a criança. Penso que não o mencionou por lhe encontrar um bafio de melodrama.

- Que criança? - Justine tinha uma filha. Ignoro quem fosse o pai. Um dia raptaram-na. Era uma linda menina. Devia ter seis anos. Coisas dessas acontecem frequentemente no Egipto, como sabe. Mais tarde, ela soube que a tinham visto ou reconhecido e pôs-se a procurá-la, desesperadamente, no bairro árabe de todas as cidades, em todas as casas mal afamadas. Arnauti não fez alusão a isto, embora a tivesse ajudado nas pesquisas, podendo observar a que ponto esta desgraça contribuía para a tornar infeliz.

- A quem amou Justine antes de Arnauti?

- Não me recordo. Bem sabe, os amantes de Justine ficam depois, muitas vezes, sendo apenas seus amigos. Pode também dizer-se que os seus melhores amigos nunca foram seus amantes. A cidade está sempre pronta para difamar.

Eu pensava numa passagem dos Moeurs em que Justine encontra um dos seus amantes. Arnauti escreve: “Ela beijou-o na minha presença, tão ternamente, na boca, nos olhos, nas faces e até nas mãos, que me senti desconcertado. Depois atravessou-me a ideia de que era a mim que ela beijava na sua imaginação.”

Baltasar observou, tranquilamente:

- Graças a Deus tenho a felicidade de não me interessar pelo amor. Os invertidos escapam, pelo menos, a essa luta em que um se entrega ao outro. Quando um homem se deita com outro homem, o espírito não se compromete e pode continuar a ocupar-se de Platão, da jardinagem ou do cálculo diferencial. Actualmente, o sexo deixou o corpo para entrar na imaginação; por isso é que Arnauti tanto sofreu com Justine. Ela apoderava-se de tudo o que ele podia ter conservado inteiramente seu - a sua natureza de artista, por exemplo. Afinal de contas, é uma espécie de António em miniatura e ela uma espécie de Cleópatra. Encontrará tudo isso em Shakespeare. E depois, tanto quanto respeita a Alexandria, pode compreender porque é que esta cidade é realmente uma cidade de incesto - quero dizer que foi aqui que se fundou o culto de Serápis. Este estiolar do coração e dos rins na prática do amor pode impelir um homem para a sua própria irmã. O amante contempla-se, como um Narciso, no espelho da sua própria família; e não há saída para esta situação.

Tudo aquilo não era para mim muito claro, mas eu sentia vagamente uma espécie de correspondência entre as associações que ele empregava; e, certamente, muito do que ele dizia parecia não explicar mas oferecer uma moldura para o retrato de Justine, essa criatura morena e veemente em cuja letra directa e enérgica eu li pela primeira vez esta citação de Laforgue: «Je n’ai pas une jeune fille qui saurait me goûter. Ah! oui, une garde-malade! Une garde-malade pour l’amour de l'art, ne donnant ses baisers qu'à des mourants, des gens in extremis...” Debaixo, ela acrescentou:

“Citado frequentemente por A. e encontrado por acaso em Laforgue.”

- Já não gosta de Melissa? - perguntou Baltasar inesperadamente. - Não a conheço. Apenas de vista. Desculpe-me. Ofendi-o.

Foi nessa época que comecei a ter a noção de quanto Melissa sofria. Mas nunca uma palavra de censura saiu dos seus lábios, nem sequer pronunciou em qualquer circunstância o nome de Justine. A sua pele tomou uma cor triste, sem vida, e, paradoxalmente, embora me fosse quase necessário um esforço físico para ter relações sexuais com ela, sentia que lhe queria mais profundamente do que nunca. Eu era presa de uma confusão e de um sentimento de frustração como jamais sentira semelhantes; isso fazia com que às vezes me sentisse zangado com ela.

Justine, que passava pelo mesmo estado de confusão entre as suas ideias e as suas intenções, reagia de maneira diferente: “Sabes quem inventou o coração humano? Se sabes, diz-me o lugar onde o enforcaram.”

E que posso dizer da própria Cabala? Alexandria é uma cidade de seitas e evangelhos. E, para cada asceta, ela produziu sempre um religioso libertino - Carpócrates, António - disposto a afundar-se nos abismos dos sentidos, tão profundamente como qualquer padre do deserto nos abismos da alma.

- Você parece desprezar o sincretismo - observou certo dia Baltasar -, mas é preciso compreender que para trabalhar aqui, e agora estou a falar-lhe como um religioso fanático e não como filósofo, uma pessoa tem de tentar reconciliar dois extremos de hábito e comportamento que não se devem à maneira de ser intelectual dos habitantes, mas ao solo, ao ar, à paisagem. Refiro-me à extrema sensualidade e ao ascetismo intelectual. Os historiadores apresentam o sincretismo como uma mescla de princípios intelectuais contraditórios; isso não é suficiente para apresentar o problema. Nem mesmo se trata de uma mescla de raças e de línguas. É um particularismo nacional dos Alexandrinos procurar reconciliar os dois traços psicológicos mais profundos de que têm consciência. É por isso que nós, como amantes, somos incomparáveis.

Não me proponho revelar aqui o que sei da Cabala e não desejo tentar definir “o terreno contraditório da Gnose”. Nenhum aspirante da ciência hermética o poderia fazer, pois os fragmentos de revelação de que dispõe mergulham as suas raízes nos mistérios. Não que os mistérios não possam ser revelados. Mas são experiências grosseiras que só os iniciados podem conhecer.

Em Paris já me tinha ocupado desses assuntos, pressentindo que neles encontraria um caminho para mais profunda compreensão do meu próprio eu - esse eu que me parecia um enorme e informe amálgama de desejos e impulsos. Considerava que esse terreno de estudos poderia ser proveitoso à minha vida interior, embora o meu cepticismo inato me tivesse sempre preservado de me aliar a qualquer confissão religiosa. Durante cerca de um ano estudei sob a direcção de Mustafá, um sufi, sentado no oscilante balcão de madeira, na sua casa, escutando a sua voz maviosa, que, de certo modo, me evocava uma teia de aranha. Tomei sorvete com um sábio muçulmano da Turquia. Nessas condições era com um certo sentimento de familiaridade que eu acompanhava Justine no labirinto de ruas que rodeiam o forte de Kom El Dick, tentando com uma parte da minha consciência imaginar como seriam estes lugares nos tempos em que eram um parque destinado ao culto de Pã, todo o suave outeirinho talhado em forma de pinha. As ruas estreitas davam uma impressão de intimidade, embora só existissem ali pardieiros piolhosos e pequenos cafés zarolhos, iluminados por trémulas candeias de azeite. Uma estranha quietude banhava este recanto da cidade e seria fácil crermo-nos numa aldeia do delta. Em baixo, no meidan amorfo, de um castanho-violeta, junto da estação, pequenos ajuntamentos de árabes, de perfis indecisos na luz do crepúsculo, rodeavam lançadores de punhais, e os seus gritos agudos morriam no ar denso da tarde. Para o sul, luzia vagamente a salva mal polida do Mareotis. Justine, que caminhava depressa e sem falar, impacientava-se com a minha curiosidade: eu deixava-me ficar para trás, lançando olhares indiscretos através das aberturas das portas para surpreender cenas dessa vida doméstica que, embora decorra num cenário patusco de teatro de fantoches, contém em si própria uma significação terrivelmente dramática.

A Cabala reunia-se, nessa época, na cabana abandonada de um guarda, construída de encontro a um muro de tijolos, num aterro vizinho da coluna de Pompeu. Creio que tal lugar de encontro foi escolhido devido à susceptibilidade mórbida da Polícia egípcia para com as reuniões políticas. Atravessávamos as trincheiras e os taludes desse território abandonado aos arqueólogos, e seguíamos o trilho lamacento que atravessava a porta de pedra; depois, dobrávamos em ângulo recto para penetrar na cabana. No interior havia uma lamparina de petróleo, de mecha alta, que dava ao aposento uma luminosidade crua, e algumas cadeiras de verga.

Dentro, encontravam-se umas vinte pessoas vindas dos bairros mais diversos da cidade. Observei, não sem uma certa surpresa, a silhueta magra e enfadada de Capodistria, num recanto. Nessim, naturalmente, encontrava-se lá, mas havia muito poucos representantes da classe rica e da classe culta da cidade. Um velho relojoeiro que eu conhecia de vista, um velhote elegante, de cabelos prateados, cujos traços austeros me deram sempre a impressão de que ficariam valorizados se ele, por exemplo, tocasse violino. Algumas velhotas indefiníveis. Um farmacêutico. Baltasar sentou-se numa cadeira baixa, voltado para a assistência, com as horríveis mãos pousadas sobre os joelhos. Via-o agora sob um aspecto inteiramente novo; não mais reconhecia nele o frequentador do Café Al Aktar, que jogava comigo a bisca. Decorreram alguns minutos em trocas de impressões sem interesse, enquanto a Cabala aguardava a chegada dos restantes membros; depois o velho relojoeiro levantou-se e pediu a Baltasar que abrisse a sessão. O meu amigo voltou-se na cadeira, fechou os olhos, e com aquela voz enrouquecida que a pouco e pouco ia tomando uma tonalidade muito doce, começou a falar. Falou, bem me recordo, do fons signatus da psique, do seu poder de aperceber sob a aparência incoerente e arbitrária dos fenómenos numa ordem inerente ao Universo. As disciplinas do espírito podiam permitir às pessoas penetrar para além dos véus da realidade, descobrir as harmonias do espaço e do tempo que correspondiam à estrutura interna da sua própria psique. O estudo da Cabala era, simultaneamente, uma ciência e uma religião. Em tudo isso que ele dizia não havia nada de verdadeiramente extraordinário. Contudo, através do discurso de Baltasar emergiam fragmentos de pensamentos sob a forma de aforismos, de uma significação densa e que permaneciam no activo espírito muito depois de terem sido enunciados. Lembro-me, por exemplo, de ele ter afirmado: “Tudo quanto as grandes religiões realizaram foi uma relação de actos e pensamentos interditos. As interdições engendram o desejo daquilo que proíbem. Nós, os membros da Cabala, dizemos: cede mas sublima-te. Nós aceitamos todos os homens e todos os desejos para que a plenitude do homem afronte a plenitude do Universo, aceitamos mesmo o prazer, a destrutiva fragmentação da mente no prazer.”

A Cabala compunha-se de um núcleo de iniciados (Baltasar teria desaprovado a palavra mas a verdade é que não tenho outra melhor para exprimir a ideia) e por um círculo mais vasto de discípulos, entre os quais se contavam Justine e Nessim. O núcleo compunha-se de doze membros largamente disseminados por todo o Mediterrâneo: Beirute, Jafa, Tunis, etc. Em cada centro, havia uma pequena academia de estudantes que aprendia a utilizar-se desse estranho cálculo mental emocional que a Cabala tinha edificado sobre a ideia de Deus. Os doze iniciados correspondiam-se frequentemente, utilizando essa curiosa e antiga forma de escrita, conhecida sob o nome de boustrophedon, quer dizer, uma escrita em que as linhas se lêem alternadamente da esquerda para a direita e da direita para a esquerda. As letras do alfabeto eram ideogramas traduzindo estados mentais ou espirituais. E, sobre este assunto, já disse bastante.

Nessa primeira noite, Justine encontrava-se sentada entre nós dois, com os seus braços apoiando-se ligeiramente nos nossos. Ela escutava com uma concentração e uma humildade comovedoras. De vez em quando, o olhar do orador pousava nela com um imperceptível piscar afectuoso. Já saberia eu, nessa ocasião - ou vim a descobri-lo mais tarde -, que Baltasar era o seu único amigo na cidade? O seu único confidente, isso era sem dúvida. (“Baltasar é o único homem a quem eu posso contar tudo. Ele limita-se a rir. Mas, de certo modo, ajuda-me a libertar-me da impressão de vazio que sinto em tudo quanto faço.”) Era a Baltasar que ela dirigia aquelas longas cartas torturadas que intrigavam Arnauti. No seu diário, Justine conta como certa noite - brilhava a Lua - penetraram ambos no museu e ficaram sentados, ela a ouvi-lo discorrer, durante uma hora, no meio das estátuas “cegas como pesadelos”. Muitas das coisas que Baltasar lhe disse tiveram o condão de a impressionar profundamente. E, contudo, mais tarde, quando tentou registá-las, por escrito, as palavras desapareceram. Mas recordava-se dele ter falado, em voz calma e pensativa, sobre “aqueles de entre nós votados a submeter o seu próprio corpo aos devoradores”, e essa observação tocou-a no mais profundo do seu ser, como uma referência à vida que ela levava. Quanto a Nessim, recordo-me de ela ter contado, de certa vez, em que, sentindo-se aquele terrivelmente atormentado por sua causa, Baltasar lhe lançara secamente esta observação: “Omnis ardentior amator propriae uxoris adulter est.” Depois acrescentara:

- Falo-lhe agora como membro da Cabala e não a título pessoal. Amar apaixonadamente, ainda que à própria mulher, é cometer adultério.

Gare Central de Alexandria. Meia-noite. Orvalhada densa, sufocante. O silvo de rodas sobre o pavimento oleoso. Pântanos amarelados de luz fosforosa, túneis de sombra como lágrimas na fachada triste de um bastidor de teatro. Fora, apertados contra um muro de tijolos leprosos, dou-lhe um beijo de despedida. Ela parte, por uma semana. Tomado de terror, semiadormecido, penso que pode não voltar mais. O beijo meigo e os olhos brilhantes sorvem-me todos os pensamentos. Do cais perdido na sombra vem um bater de botas, um tilintar de armas. Um destacamento de tropas indianas em trânsito para o Cairo. É só quando o comboio arranca e o perfil à janela, negro sobre fundo negro, solta a minha mão, que compreendo que Melissa parte, realmente. Sinto tudo o que me é inexoravelmente arrancado. O grande alongamento do comboio faz-me pensar no alongamento das vértebras das suas costas brancas quando ela se volta na cama. Grito “Melissa!”, mas os rugidos monstruosos da locomotiva abafam todo o som. A Máquina começa a inclinar-se, a voltar-se, a deslizar e, como sob a mão de um mágico, devora os cartazes da estação, um após outro, mergulhando-os na noite. Fico ali como um náufrago num icebergue. Ao meu lado, um sikk ajusta a bandoleira da espingarda; no cano, enfiou uma rosa. A serpente de sombra desliza sobre as calhas de aço; um último sacão e o comboio entra no túnel onde se dissolve no nada.

Nessa noite, vou passear para Moharrem-Bey, vendo as nuvens devorar a Lua, tomado por uma angústia inexprimível.

Luminosidade intensa por detrás das nuvens. Cerca das quatro horas, uma chuva fininha, pura como agulhas de vidro. Nos jardins do consulado, as flores estão em plena erecção e nos estames abertos luzem gotas de prata. Nem uma só ave canta, na aurora. Uma brisa fraca agita molemente as palmeiras; ruído seco de folhas. A maravilhosa tranquilidade da chuva sobre o Mareotis.

Cinco horas. Passeando para cá e para lá, no quarto dela, estudando objectos inanimados com uma intensa concentração.

Depilatórios de Sardes. O perfume do cetim e do cabedal. O sentimento horrível de um grande escândalo iminente.

Escrevo estas linhas em circunstâncias muito diferentes e muitos meses decorreram desde aquela noite; aqui, debaixo de uma oliveira, no poço de luz produzido por uma lâmpada de azeite, escrevo e revivo essa noite que tomou o seu lugar no reservatório enorme das memórias da cidade. E algures, num grande estúdio de cortinas morenas, Justine copiava no seu diário o terrível aforismo de Heraclito. Tenho o livro aqui, a meu lado, enquanto escrevo. Numa das páginas, ela escreveu: “É difícil lutar contra os desejos do coração; aquilo que ele deseja há-de consegui-lo, ainda que lhe custe a alma.” E mais abaixo, na margem: “Os que percorrem a noite, Magos Bacchoi, Lenai e os iniciados...”

Foi mais ou menos por essa altura que Mnemjian me surpreendeu, segredando-me: “Cohen está a morrer, já sabia?” O velho peleiro tinha desaparecido havia já alguns meses. Melissa tinha ouvido dizer que ele recolhera ao hospital, doente de uremia. A órbita que nós descrevêramos, em torno da rapariga, tinha mudado; o caleidoscópio tinha-se movido uma vez mais, e ele tinha desaparecido da vista como um vidro colorido. E agora ia morrer? Não pronunciei qualquer palavra, procurando reagrupír as recordações desses dias antigos, os encontros nas esquinas das ruas e nos bares. No longo silêncio que se seguiu, Mnemjian acertou-me as suíças com a navalha hábil e começou a derramar-me bay-rum nos cabelos. Então, soltou um suspiro débil e disse:

- Ele passou o dia e a noite de ontem a reclamar a sua Melissa.

- Eu digo-lhe que ele quer vê-la - prometi. O pequeno homenzinho abanou a cabeça num gesto cúmplice. - Que doença terrível! - observou a meia voz. - Cheira horrivelmente mal. Têm de rapar-lhe a língua com uma espátula. Puf...!

E, dizendo isto, voltou o pulverizador para o tecto como para desinfectar a memória; como se o odor repugnante do doente tivesse invadido a própria barbearia.

Fui encontar Melissa em penteador, deitada sobre o sofá e com a cara voltada para a parede. Pensei que estivesse a dormir, mas quando me ouviu entrar voltou-se e sentou-se. Transmiti-lhe o que soubera por Mnemjian.

- Já sei - respondeu-me. - Do hospital mandaram-me recado. Mas que posso eu fazer? Não quero ir vê-lo. Não representa nada para mim, nunca representou, nem nunca representará.

- Ele tem mulher e filhos. Porque não os chama?

Sentei-me e de novo recordei aquela espécie de foca domesticada contemplando tristemente o fundo do copo. Melissa, provavelmente, interpretou o meu silêncio como uma recriminação: aproximou-se de mim e sacudiu-me docemente os ombros, como para afastar os meus pensamentos.

- E se ele estiver para morrer? - perguntei.

A interrogação dirigia-se tanto a mim como a ela. Subitamente, rompendo em soluços, a rapariga ajoelhou-se, escondendo a cabeça nos meus joelhos.

- Oh! é tão repugnante! Por favor, não me obrigues a ir lá.

- Claro que não te obrigo.

- Mas se tu pensas que é meu dever ir, então vou.

Não disse nada. Em certo sentido, Cohen estava já morto e enterrado. Já não havia lugar para ele na nossa história, e um desperdício de emoção a seu respeito parecia-me completamente inútil. Não tinha qualquer relação com o homem real que jazia no meio dos fragmentos do seu velho corpo num quarto de hospital entre quatro paredes pintadas a óleo. Para nós ele era apenas uma personagem histórica. E, contudo, lá estava ele, esforçando-se obstinadamente por provar a sua identidade, e retomar um lugar na nossa vida, num outro ponto da circunferência. Que poderia agora obter de Melissa? E que poderia ela recusar-lhe?

- Queres que vá? - perguntei-lhe finalmente! Ocorrera-me repentinamente a ideia absurda de que lá, na morte de Cohen, eu poderia estudar o meu amor e a sua morte. Aterrorizava-me a ideia de que um homem, em transe de morte, apelando para a sua antiga amante, obtivesse como única resposta um grito de repugnância. Era demasiado tarde para o velho poder despertar a compaixão ou, sequer, o interesse da minha amante, ela própria já envolvida em novos infortúnios. E, se um dia, não distante, for ela a chamar por mim ou eu a chamar por ela? Voltaríamos as costas um ao outro com a mesma indiferença, com o mesmo grito de repugnância? Compreendi, então, a verdade do amor: um absoluto que tudo aceita ou tudo despreza. Os outros sentimentos, a compaixão, a ternura e assim por diante, só existem à periferia, são aquisições da vida social e do hábito. A austera e impiedosa Afrodite, é legitimamente pagã. Não é do nosso cérebro nem dos nossos instintos que ela se apodera - mas da nossa medula. Horrorizava-me a ideia de que esse velho moribundo não era capaz de fazer renascer a lembrança de um momento de ternura: ternura da parte de uma mulher que era, no fundo do seu coração, a mais meiga e a mais bondosa de todas as mulheres.

Ser esquecido desta maneira é morrer a morte de um cão.

- Irei vê-lo em teu lugar - disse eu, embora o meu coração vacilasse diante do meu propósito.

Melissa tinha adormecido com os seus lindos cabelos castanhos a cobrirem-me os joelhos. Todas as vezes que alguma coisa a perturbava, procurava refúgio na inocência do sono, de um sono em que caía com a doçura e a facilidade de um bicho ou de uma criança. Introduzi a minha mão no quimono de flores desbotadas e acariciei docemente os seios pequeninos, as ancas palpitantes. Ela agitou-se um pouco, murmurou qualquer coisa; ergui-a delicadamente e deitei-a no sofá, ficando ainda por muito tempo a vê-la dormir.

Era já noite e a cidade derivava como um banco de algas para os cafés iluminados da Alta. Entrei no Pastroudi e pedi um whisky duplo que sorvi em pequenos goles, enquanto reflectia. Depois, saí e tomei um táxi para o hospital.

Segui uma enfermeira de serviço através de compridos corredores anónimos, cujas paredes pintadas a óleo ressumavam uma atmosfera de humidade. As ampolas de vidro despolido que escalonavam a nossa marcha espojavam-se na obscuridade como vermes entumecidos.

Tinham-lhe destinado um pequeno quarto de um só leito, oculto por uma cortina branca, e que era, como mais tarde Mnemjian me revelou, reservado para os casos completamente desesperados. Não me descobriu imediatamente; esperava, com um ar simultaneamente cansado e irritado, que a enfermeira acabasse de compor os travesseiros debaixo da sua cabeça. Surpreendeu-me o ar autoritário e preocupado do seu olhar; tinha emagrecido tanto que estava irreconhecível. A carne fundara-se em torno dos molares, descobrindo os ossos do nariz e pondo em relevo as narinas afiladas. Isto dava a toda a boca e aos maxilares uma leveza, uma alegria e um ar de inteligência que deviam ter sido as características daquela face, quando jovem. Nos olhos, havia um brilho de febre, um restolho áspero escurecia-lhe o pescoço, mas as partes descobertas do rosto estavam tão escanhoadas e lisas como as do de um homem de trinta anos. As imagens que tinha dele, e que há muito tempo conservava na memória - um porco-espinho transpirando sòrdidamente, uma foca domesticada -, dissolveram-se imediatamente diante desta face inesperada deste homem novo que se assemelhava a... uma das bestas do Apocalipse. Fiquei interdito, por um dilatado minuto, observando essa personagem desconhecida que tolerava os cuidados das enfermeiras com surpresa e cansaço. A enfermeira de serviço segredou-me:

- Fez bem em ter vindo. Ninguém o vem ver. Às vezes delira. Depois, acorda e pergunta pelos seus. É parente dele?

- Não. Sou um sócio.

- Há-de fazer-lhe bem ver uma cara conhecida. Perguntava a mim próprio se ele me reconheceria. Se eu tivesse mudado apenas metade do que ele mudara, seríamos os dois completamente estranhos um para o outro. Estava agora deitado de costas e respirava com dificuldade, escapando-se um silvo áspero do seu nariz de raposa que assentava na face como a figura de proa de um navio abandonado. O nosso segredar incomodara-o; voltou na minha direcção o olhar vago, mas inteligente e puro como o de uma grande ave de rapina. Só me reconheceu quando dei alguns passos, aproximando-me dele. E, então, os seus olhos inundaram-se de luz - uma estranha mistura de humildade, amor-próprio e temor inocente. Voltou o rosto para a parede. Então, numa só frase, expliquei-lhe o que me trazia. Melissa estava ausente e eu tinha-lhe telegrafado para vir o mais depressa possível; entretanto, eu vinha para saber se podia ajudá-lo de qualquer maneira. As espáduas do velho estremeceram e esperei ouvir algum protesto involuntário dos seus lábios; mas, em vez disso, ouvi uma gargalhada sarcástica, rouca, sem sentido e sem harmonia. Era como se a minha desculpa sem jeito não merecesse outra resposta além daquele ricto sinistro, explodindo na velha face descarnada.

- Eu sei que ela está cá - disse ele, e uma das suas mãos começou a percorrer a coberta, como um rato assustado, à procura da minha. - Obrigado por ter vindo.

Parecia agora mais calmo, embora mantivesse obstinadamente o rosto voltado para a parede.

- Desejava - disse ele lentamente, como se reunisse todas as suas forças espirituais para imprimir à frase um sentido exacto -, queria regular as minhas contas, honestamente, com ela. Portei-me mal, muito mal. Ela não percebeu isso, naturalmente; é demasiado simples, mas é bondosa, sim, é uma boa rapariga.

Tinha um som estranho ouvir na boca de um alexandrino a expressão <ibonne copine”, sobretudo pronunciada com aquele sotaque cantante e arrastado das pessoas que vivem nesta cidade. Acrescentou, num esforço considerável, como se lutasse para vencer qualquer formidável resistência interior:

- Enganei-a a respeito do casaco. Na verdade, era pele de lontra. E já lhe tinha entrado a traça. Mandei-o reparar. Porque fiz semelhante coisa? Quando estava doente, não lhe dava dinheiro para ir ao médico. Pequenas coisas que, depois, pesam muito numa consciência.

As lágrimas subiam-lhe aos olhos e a garganta apertava-se-lhe perante a enormidade de tais pensamentos. Engoliu com dificuldade e disse:

- Não está no meu carácter um procedimento dessa espécie. Pergunte a qualquer comerciante dos que lidaram comigo. Pergunte a qualquer pessoa que me tenha conhecido.

Mas a confusão começou a apoderar-se dele, e tomando-me gentilmente pela mão conduziu-me através da enovelada selva das suas ilusões, caminhando no meio delas com tanta segurança e reconhecendo-as com tanta calma, que eu próprio quase me senti seu companheiro na viagem. Fundos desconhecidos de árvores debruçavam-se sobre ele tocando-lhe no rosto, enquanto no lajeado trepidava uma ambulância negra ocupada por formas metálicas e outros corpos negros que falavam uma língua fantasmagórica onde se mesclavam latidos repugnantes e reprimendas em árabe. A dor tinha começado a apoderar-se da sua razão, lançando à solta um mundo de fantasmas. Os ferros brancos e frios da cama tomavam aspectos de ladrilhos coloridos e a curva da temperatura era a cara de um marinheiro.

Ele e Melissa derivavam sobre as águas cor de sangue do Mareotis, abraçados, dirigindo-se para as cabanas de lama seca onde outrora se abrigou Rhakotis. Reproduzia tão perfeitamente os seus diálogos que, embora não fossem audíveis as palavras da minha amante, eu ouvia a sua voz fria, adivinhava as suas perguntas através das respostas que ele lhe dava. Ela esperava desesperadamente convencê-lo a casar com ela e ele temporizava, não desejando perder o gozo da sua beleza nem comprometer-se definitivamente.

O que me interessava era a extraordinária fidelidade com que ele reproduzia toda a conversa que tinha manifestamente cristalizado no fundo da sua memória como uma das grandes experiências da sua vida. Não sabia, então, até que ponto lhe queria; tinha sido a minha intervenção que lhe abrira os olhos. E - pensava eu - por que motivo Melissa nunca me tocara no assunto do casamento, por que motivo nunca me revelara o fundo da sua fraqueza e do seu cansaço, como fizera com ele. Era uma coisa que me feria profundamente. A minha vaidade sentia-se ferida pelo facto de ela lhe ter revelado um aspecto da sua natureza que a mim ocultara.

Depois, a cena mudou novamente e ele tornou-se mais lúcido. Era como se na vasta selva da loucura alcançássemos clareiras de sanidade onde ele tivesse abandonado as suas ilusões poéticas. Começou a falar de Melissa, com ternura, mas friamente, como um marido. Era como se, agora que a sua carne perecia, todo o tesouro da sua vida interior, tanto tempo oculto por detrás da mentira de uma vida mal vivida, rompesse os diques e inundasse a sua consciência. Mas não se tratava apenas de Melissa - falava também de sua mulher e, às vezes, confundia os nomes. Havia ainda um terceiro nome, Rebeca, que pronunciava com uma reserva mais profunda, com uma tristeza mais apaixonada. Compreendi que se tratava de sua filha: são sempre as filhas que dão o golpe de misericórdia nestas atrozes transacções do coração.

Sentado à sua cabeceira, sentindo os nossos pulsos batendo em uníssono, ouvindo-o falar da minha amante com uma autoridade inesperada, não podia deixar de reflectir em tudo quanto Melissa poderia ter encontrado digno de amor neste homem. Por que estranha infelicidade ela não tinha visto o homem verdadeiro, o homem real? Longe de ser um objecto de desprezo (como até então eu o considerara), eu via nele um rival poderoso cuja força tinha menosprezado; e fui atravessado por um pensamento tão ignóbil que tenho, até, vergonha de registá-lo. Sentia-me feliz por Melissa não ter vindo assistir à sua morte. Se ela o tivesse visto como eu o estava vendo, era possível que, de repente, descobrisse o homem que ele era verdadeiramente. E, por um desses estranhos paradoxos que o amor engendra, senti mais ciúmes por este velho moribundo do que jamais sentira quando ele se encontrava bem vivo e tentando reapossar-se da perdida amante. Esses pensamentos eram terríveis para um homem que até então tinha sempre estudado os fenómenos do amor com o espírito desinteressado e a paciência de um sábio no seu laboratório. Uma vez mais eu reconhecia nestes pensamentos a face austera, indiferente e primitiva de Afrodite.

Num certo sentido reconheci nele, na própria ressonância da sua voz quando pronunciava o nome dela, uma maturidade que me faltava; ele tinha ultrapassado o seu amor por ela sem o desnaturar, sem o ferir, e tinha-lhe permitido amadurecer, como todo o amor devia ser, numa amizade absorvente e despersonalizada. Ele não receava a morte, e se lhe tinha pedido que viesse, não era para procurar na sua presença uma derradeira consolação, mas, somente, para lhe oferecer, no inesgotável tesouro da sua morte, um último presente.

A magnífica zibelina encontrava-se sobre uma cadeira aos pés da cama, embrulhada em papel de seda. Percebi imediatamente que não era a espécie de presente que se faz a Melissa: serviria apenas para fazer corar de vergonha o seu modesto guarda-roupa.

- Enquanto vivi, preocupei-me sempre com o dinheiro - disse ele com um olhar de felicidade. - Mas quando estamos para morrer, descobrimos, de repente, que temos o bastante.

Pela primeira vez, em toda a sua vida, sentia-se desoprimido e sem cuidados. Apenas a doença estava ali, como um monitor cruel e paciente.

De vez em quando, afundava-se numa sonolência breve e agitada, e a obscuridade tecia em torno dos meus ouvidos cansados a ilusão de estar escutando o zumbido de um enxame de abelhas. Era tarde, mas, apesar disso, não me decidia a partir. Uma enfermeira trouxe-me uma chávena de café e conversámos em voz baixa. Com a sua voz impessoal, ela explicou-me:

- Deixou a mulher e a filha por une femme quelconque. E agora nem a mulher nem a amante querem vir vê-lo.

Encolheu os ombros. Estas coisas não lhe despertavam qualquer compaixão; só via nelas um sinal de desprezível fraqueza.

- E a filha por que motivo não vem visitá-lo? Ele não a mandou chamar?

A enfermeira fez estalar entre os dentes a unha do dedo mínimo.

- Sim. Mas ele não quer que ela o veja no estado em que se encontra, tem receio de a impressionar. Compreende, para uma criança a coisa não é muito agradável.

Pegando num vaporizador, lançou vários jactos de desinfectante com um ar indiferente, e aquele gesto recordou-me o de Mnemjian. - Já é tarde - acrescentou. - Vai passar aqui a noite? Preparava-me para fazer um movimento, quando o doente acordou, segurando-me novamente a mão.

- Não se vá embora - pediu ele numa voz entrecortada mas lúcida, como se tivesse escutado as últimas palavras pronunciadas pela enfermeira. - Fique um momento ainda. Pensei numa certa coisa e é necessário que lhe diga o que é.

Voltando-se para a enfermeira disse em voz calma mas firme:

- Deixe-nos sós!

A mulher deu um jeito aos lençóis e deixou-nos sós, uma vez mais. O velho soltou um profundo suspiro que podia considerar-se um suspiro de satisfação ou de felicidade se o seu rosto não desmentisse esta impressão.

- No armário estão as minhas roupas - disse ele.

Havia dois fatos escuros pendurados em cabides e segundo as suas instruções retirei um dos coletes e, procurando nos bolsos, encontrei dois anéis.

- Tinha resolvido casar-me com Melissa agora, se ela quisesse. Foi por esse motivo que lhe pedi que viesse. Mas para que sirvo eu? O meu nome?

Sorriu vagamente, contemplando o tecto.

- E os anéis...

Pegou-lhes delicadamente, com veneração, como se fossem duas hóstias.

- Foi ela quem escolheu estes anéis, há muito tempo. Pertencem-lhe. Talvez...

Ele olhou-me demoradamente, com um olhar hesitante, doloroso, perscrutador.

- Não - fez ele. - Não casará com ela. Por que motivo havia de casar? Não importa. Entregue-lhe os anéis e o abafo.

Sem dizer palavra, guardei os anéis no bolso superior do meu casaco. Ele soltou novamente um pequeno suspiro e, para grande surpresa minha, trauteou numa vozita de falsete, que mal se percebia, as primeiras palavras de uma canção que em certa época tinha feito furor em Alexandria, Jamais de la vie, e ao ritmo da qual ainda hoje Melissa executava o seu número de dança no cabaré.

- Escute a música! - disse ele, e subitamente pensei na morte de António no poema de Cavafis, um poema que este homem nunca tinha lido, um poema que ele jamais leria.

As sereias começaram a uivar no porto como planetas em dores de parto. E, de novo, ouvi a vozinha minúscula cantando docemennte o estribilho onde as palavras bonheur e chagrin se alternavam, mas não era por Melissa que ele cantava agora, era por Rebeca. Como era diferente do coro magnífico e dilacerante que António escutou - sonoridades ricas e lancinantes, elevando-se da rua mergulhada nas trevas -, última dádiva de Alexandria aos seus eleitos. Cada homem parte ao som da sua própria música, pensei, e recordei-me, com vergonha, dos movimentos desajeitados e vulgares de Melissa quando dançava.

Depois disso, adormeceu tranquilamente. Era tempo, para mim, de partir. Peguei no casaco e coloquei-o na prateleira mais alta do armário e fora do quarto chamei a enfermeira.

- É já muito tarde - disse ela.

- Volto amanhã - respondi com sinceridade.

Ao regressar pela avenida mergulhada na noite, sob o dossel de árvores, respirando deliciado a brisa que subia do porto, vieram-me à memória aquelas palavras que Justine pronunciara deitada a meu lado: “Servimo-nos dos outros como se fossem machados para abater aqueles a quem realmente amamos.”

Estamos fartos de ouvir dizer que a história é indiferente, mas tomamos constantemente a sua parcimónia ou a sua generosidade como algo de planeado antecipadamente; na verdade, nunca escutamos...

Agora, nesta tenebrosa península em forma de folha de plátano, como os dedos da mão abertos (onde a chuva de Inverno crepita como palha sobre rochedos), caminho envolvido pela capa rígida da ventania, num horizonte sufocado por esponjas gementes: procuro o sentido do conjunto.

Como poeta da consciência histórica, creio ser obrigado a considerar a paisagem como um campo submetido ao desejo humano, torturado em aldeias e lugarejos, rasgado em cidades. Uma paisagem coberta de sinais, assinada pelos homens e pelo tempo. Agora começo, contudo, a crer que o desejo é herdado da paisagem; que o homem depende, no que respeita a este acessório que é a vontade, da sua situação num lugar; que não passa de um locatário de terras férteis ou de florestas malsãs. O que vejo não é (como outrora pensava) o impacto da sua vontade sobre a natureza, mas a irresistível pressão que acaba por impregná-lo das doutrinas não especificadas e cegas da natureza, dos seus humores e dos seus tormentos. Ela escolheu esta pobre coisa bifurcada para seu modelo. Como me parece fútil dizer-se como certa vez ouvi Baltasar dizer: “A Cabala tem, essencialmente, por missão enobrecer todas as funções, de tal modo que mesmo as operações de comer ou de defecar sejam elevadas à categoria de artes.” Vereis em tudo isto a flor de um verdadeiro cepticismo que mina o desejo de sobreviver. Somente o amor nos pode ajudar um pouco mais.

Penso que era em qualquer coisa deste género que Arnauti pensava quando escreveu: “Para o escritor, o tratamento das personagens como complexos psicológicos é tarefa ultrapassada. A psique contemporânea estoirou como uma bola de sabão sob as investigações dos mistagogos. Que resta actualmente ao escritor?”

É, talvez, por ter compreendido isso que decidi passar os próximos anos neste lugar deserto - neste promontório queimado pelo sol. Rodeado de história por todos os lados, só esta ilha se conserva livre de qualquer referência. Jamais foi mencionada nos anais da raça que a possui. O seu passado histórico foi refundido, não no tempo, mas no espaço - não existem nem templos, nem túmulos, nem anfiteatros para corromper as ideias com as suas falsas comparações. Um renque de embarcações pintadas, um porto abrigado atrás das colinas, e uma pequena cidade abandonada pela negligência dos homens. É tudo. Uma vez por mês, um vapor que faz a carreira de Esmirna escala o porto.

Nestas tardes de Inverno, as vagas desencadeadas escalam a falésia e invadem os bosques de plátanos gigantes e selvagens onde costumo passear, uivando um calão brutal e inesperado, inundando e abalando os troncos.

Caminho na companhia de um passado que ninguém pode partilhar comigo e que o próprio tempo não me pode roubar. De cabelos colados à testa, protejo com uma das mãos o fornilho rubro do meu cachimbo contra a violência do vento. Lá em cima, no céu, correm estrelas à desfilada. Amtares perdida naquela poeirada de nuvens... Abandonados os livros dóceis, os amigos complacentes, as salas iluminadas, as chaminés propícias às longas discussões, todo o universo civilizado... Não lamento ter deixado isso tudo, embora, às vezes, pense nesse mundo em que vivi.

Vejo na minha escolha, também, algo de fortuito, nascido de impulsos que sou obrigado a reconhecer não se coadunarem com a minha natureza. E, contudo, por estranho que seja, é somente aqui que eu sou, por fim, capaz de reentrar e novamente habitar a cidade exumada juntamente com os meus amigos; é aqui que consigo moldá-los na pesada teia de aranha das metáforas que nem durarão metade do tempo que ainda resta à própria cidade - ainda assim penso, pelo menos. Aqui, sou capaz de ver a nossa história e a história da cidade como um único fenómeno.

Mas o mais estranho é que devo esta libertação a Pursewarden – a última pessoa de quem esperaria receber qualquer benefício. O último encontro, por exemplo, naquele feio e caro quarto de hotel para onde ele se mudava sempre que Pombal regressava da licença... Não reconheci no odor húmido do quarto o odor do seu iminente suicídio - como poderia eu adivinhar? Sabia que ele era infeliz; mas, mesmo que não fosse, sentir-se-ia obrigado a simular infelicidade. Actualmente, não se compreende um artista que não seja de certo modo infeliz. E na sua qualidade de anglo-saxão, Pursewarden tinha a mórbida tendência de se apiedar de si próprio, o que o levava a beber em excesso. Nessa noite, apresentava-se alternadamente brutal, vulgar e arguto; e lembro-me de ter pensado, enquanto o escutava: “Eis um sujeito que para cultivar o seu talento desprezou a sua sensibilidade, não por acidente, mas de propósito, porque, se a deixasse exprimir-se, teria entrado em conflito com o mundo, ou a solidão a que se votasse teria comprometido o seu equilíbrio mental. Não podia admitir, enquanto vivesse, que lhe fosse vedado o acesso aos salões da fama e do renome. Por debaixo de tudo isto, ele devia afrontar a consciência quase intolerável da sua covardia mental. A sua carreira tinha atingido um estádio curioso: refiro-me às bonitas mulheres que a sua timidez provinciana colocava num pedestal inatingível, e que, contudo, se sentiam felizes por se mostrarem na sua companhia. Diante dele, elas tomavam ares de musas ligeiramente discretas e sofrendo de prisão de ventre. Em público, ficavam lisonjeadas quando ele conservava entre as suas mãos, um pouco mais tempo do que as conveniências consentem, a mão enluvada que elas lhe estendiam. Inicialmente, tudo aquilo devia constituir um bálsamo para a vaidade de um homem solitário, mas, no fim, só serviu para agravar o seu sentimento de insegurança. A liberdade adquirida ao preço de um modesto sucesso financeiro, começava a pesar-lhe. Havia começado a aspirar à verdadeira grandeza, à medida que o seu nome ia crescendo em tamanho, como qualquer antipático cartaz publicitário. Tinha a consciência de que as pessoas que passeavam com ele nas ruas e o acompanhavam o faziam apenas para serem vistas junto de uma Reputação. Não viam o homem, embora toda a sua obra tivesse o fim de chamar a atenção para a abandonada e sofredora criatura que ele sentia ser. O seu nome, ocultava-o como uma pedra tumular. E então apresenta-se o pensamento terrível: 'talvez não haja mesmo nada que ver em mim... Quem sou eu, no final das contas?'»

Não me sinto orgulhoso destas congeminações, porque elas traduzem a inveja que todo o fracassado sente perante o sucesso alheio; mas o despeito pode, muitas vezes, ser tão clarividente quanto a caridade. Com efeito, seguindo uma linha paralela no meu espírito, perseguiam-me certas palavras que Clea tinha pronunciado a respeito de Pursewarden: “É ingenuamente insusceptível de ser amado. Fisicamente não atrai. Embora seco e desencantado, há no seu talento um germe de timidez. A timidez tem as suas leis: o tímido não se pode entregar (e isso é trágico) senão àqueles que o não compreendem; ser compreendido seria o mesmo que admitir a sua própria fragilidade. Por isso, as mulheres que ama, as cartas que escreve às mulheres que ama, são, no seu espírito, os símbolos das mulheres de que pensa necessitar, que, em qualquer caso, pensa merecer, cher ami.» As frases de Clea mudavam bruscamente de direcção, para se fecharem num maravilhoso e enternecido sorriso: “Terei eu de ser a guardiã do meu irmão?...”

(Devo relatar os factos, não na sua ordem cronológica - isso compete à história - mas na ordem em que eles adquirem um significado para mim.)

Qual teria sido o motivo, então, para Pursewarden me deixar um legado de quinhentas libras com a condição de gastá-las com Melissa? Pensei que talvez a tivesse amado, mas, reflectindo bem, concluí que aquilo que ele amava era o próprio amor que eu sentia pela rapariga. Entre todas as minhas qualidades, a única que invejava era a minha capacidade para corresponder calorosamente às carícias, cujo valor não ignorava, que, porventura, desejava sem poder obtê-las, dado o desgosto que sentia pela sua própria pessoa. E aí estava um novo atentado ao meu amor-próprio: teria preferido que ele me admirasse, já não digo pela minha obra, mas por aquilo que ela permitia esperar. Como somos estúpidos e limitados - uma vaidade sobre um par de pernas!

Não nos víamos havia algumas semanas, pois habitualmente não procurávamos encontrar-nos, e foi na pequena pissotière da praça principal, em frente da estação, que demos um com o outro. Era noite e só nos reconhecemos quando o potente farol de um automóvel varreu o interior do fétido cubículo.

- Ah! - fez ele reconhecendo-me: a sua voz traduzia a incerteza do homem que bebeu de mais. (Algumas semanas antes, tinha-me deixado quinhentas libras; num certo sentido, para ele, eu estava pesado, medido e julgado - embora a sua sentença só devesse ser proferida de dentro de um túmulo.)

A chuva crepitava sobre o tejadilho de zinco que cobria as nossas cabeças. Tinha o maior desejo de regressar depressa a casa: tivera um dia muito trabalhoso; mas deixei-me ficar um pouco, por delicadeza, aquela espécie de delicadeza que me incomoda e que utilizo conscientemente com as pessoas que não me merecem uma grande simpatia. O perfil vagamente oscilante destacava-se na sombra, diante de mim.

- Vou confiar-lhe o segredo da minha profissão - anunciou num tom lastimoso. - Eu triunfei, mas você não conseguiu ainda vir ao de cima. A resposta, meu caro, é esta: sexo, muito sexo.

Elevara a voz e apontava com o queixo, pronunciando a palavra “sexo” com o pescoço descarnado muito esticado, como o de um frango a beber água, e mascava a palavra como um sargento instrutor cospe vozes de comando.

- Chicotadas de sexo - repetiu em tom quase normal -, mas não se esqueça - e a sua voz tornou-se confidencial -, conserve-se abotoado até ao pescoço. Mesmo que a gravata o sufoque. Comporte-se como um membro de um desses clubes literários. O que lhe não é permitido é ser natural, ser saudável, alegre e obsceno. Isso estava bem para Chaucer e para os Isabelinos, mas não é dessa massa que se cozinham os grandes do nosso tempo: abotoadinhos até às goelas como padrecas!

E, voltando-se para mim, demonstrou-me com uma careta grotesca o que era abotoar bem um botão. Agradeci-lhe, mas com um gesto soberano dispensou-me de qualquer gratidão:

- É grátis - declarou. E tomando-me a mão arrastou-me para fora, para a rua sem luz.

Dirigimo-nos para o centro da cidade como dois escritores esmagados pelo peso dos respectivos fracassos. Ele monologava em voz baixa; era-me impossível apreender o sentido das suas palavras. Na Rua das Irmãs deteve-se bruscamente diante de um bordel e declarou:

- Baudelaire afirmou que a cópula é o lirismo da populaça. Infelizmente é verdade! O sexo está moribundo. Dentro de um século limitar-nos-emos a meter a língua na boca uns dos outros, em silêncio e sem paixão, como ostras. Sim! Indubitavelmente.

E citou o provérbio árabe que servia de epígrafe à sua trilogia:

- O mundo é como um pepino: hoje na mão, amanhã no rabo.

Retomámos a nossa marcha de caranguejo em direcção ao hotel de Pursewarden, enquanto ele repetia a palavra “indubitavelmente”, saboreando com evidente prazer a sua sonoridade docemente explosiva.

Não tinha feito a barba e estava pálido, mas andar fizera-lhe bem, e quando chegámos retirou da gaveta da cómoda uma garrafa de gim. Notei sobre a mesa duas malas abertas, cheias; sobre uma cadeira estava a gabardina atulhada de jornais, pijamas, pasta de dentes, etc. Disse-me que ia tomar o comboio dessa noite para Gaza. Queria repousar e fazer uma visita a Petra. As provas da sua última novela estavam já corrigidas, empacotadas e endereçadas. Jaziam sobre o tampo de mármore do toucador. Reconheci na sua atitude amarga e agressiva o cansaço que se apodera do artista quando terminou a sua obra. São estes os piores momentos, em que o namoro com o suicídio começa de novo.

Infelizmente, por mais que procure na minha memória, não consigo recordar-me de tudo quanto nessa noite dissemos. O facto de ter sido este o nosso último encontro confere-lhe uma importância que de outro modo não teria. Não que, no que diz respeito a este livro, ele tenha deixado de existir; simplesmente, colocou-se no lado oposto do espelho, naquele lado que não reflecte a imagem - deixando-nos entregues às nossas doenças, aos nossos desejos, às nossas baixezas, ainda operantes para o mal ou para o bem no mundo real - e que é a memória dos nossos amigos. E, portanto, a presença da morte renova sempre as experiências, é a sua função: ajudar-nos a meditar sobre essa coisa estranha que se chama o Tempo. Neste momento, contudo, estávamos colocados em pontos equidistantes da morte - ou pelo menos assim julgo. É possível que uma tranquila decisão tivesse já começado a tomar forma dentro dele, mas não posso afirmá-lo. Não há qualquer mistério no facto de um artista querer pôr termo a uma vida que esgotou (uma personagem no último volume exclama: “Durante anos esforçamo-nos por aceitar a ideia de que as outras pessoas não se importam absolutamente nada connosco; depois, certo dia, com um pavor crescente, descobrimos que é o próprio Deus que se não interessa por nós: e, o que é pior, descobrimos que lhe é totalmente indiferente que sejamos uma coisa ou outra: bons ou maus”).

Falar nisto recorda-me um fragmento daquela conversa toldada pelo gim. Pursewarden falava de Baltasar com desprezo, das suas preocupações religiosas, da Cabala (que ele apenas conhecia de ouvir falar). Eu escutava-o sem interromper, e gradualmente a sua voz foi fraquejando como o tiquetaque de um relógio cuja corda começa a faltar. Levantou-se, então, serviu-se de nova bebida e declarou:

- É preciso ser-se extraordinariamente ignorante para crer em Deus. Creio que, pela minha parte, soube sempre o bastante para não cair nesta armadilha.

São fragmentos desta espécie que me atravessam a mente, em noites como esta, quando caminho na escuridão tempestuosa do litoral; depois, apaziguado, venho acolher-me ao calor de um fogo de lenha de oliveira, crepitando na velha chaminé junto da qual Justine dorme na caminha de madeira branca que exala um doce aroma de pinhal.

Até que ponto posso afirmar que o conheci? Descubro que cada pessoa só pode pretender conhecer o aspecto do nosso carácter. Para cada um dos que nos conhecem, voltamos uma face diferente do prisma. Várias vezes fui surpreendido com observações que me levaram a esta conclusão. Como, por exemplo, quando Justine qualificava Pombal “um dos grandes primatas do sexo”. Para mim, o meu amigo nada tem de predatório: um pouco frágil apenas, um pouco dado a ceder aos seus apetites... Achava-o divertido, comoventemente ridículo. Mas Justine devia ter descoberto o grande felino que ele era (para ela).

Quanto a Pursewarden, recordo-me de que, enquanto falava sobre a ignorância religiosa, se levantou e viu reflectida no espelho a sua figura pálida e descomposta. Levou o copo aos lábios e, voltando a cabeça, cuspiu o líquido sobre aquele rosto irónico que o espreitava na lâmina do espelho. Permaneceu claramente na minha memória a recordação de uma imagem, liquefazendo-se no espelho daquele quarto dispendioso e feio, que me parece agora o mais adequado fundo para a cena que nessa noite, algumas horas depois, se iria representar entre as suas quatro paredes.

Praça Zagloul - pratas e animais engaiolados. Uma cave abobadada com tonéis negros forrando as paredes; repugnante aroma dos fritos e o odor do retzinnato. Uma mensagem rabiscada na margem de um jornal. Foi ali que entornei o copo sobre o seu casaco, e, quando tentava reparar o desastre, toquei-lhe, sem querer, nos seios. Não trocámos uma palavra. Durante todo o tempo Pursewarden falara brilhantemente de Alexandria e do incêndio da biblioteca. No quarto por cima de nós, um pobre diabo com meningite, uivava de dor...

Hoje, inesperadamente, uma tempestade primaveril veio amassar a poeira e o pólen da cidade, crepitando no tecto de vidro do estúdio onde Nessim trabalha num retrato de sua mulher. Nessim surpreendeu-a diante do fogo, com uma guitarra nas mãos, o pescoço apertado num lenço mosqueado, cantando com a cabeça levemente inclinada. O som da sua voz perde-se no fundo do seu cérebro como o ruído de um tremor de terra. Prodigiosa sarabanda de setas nos parques, onde as palmeiras foram arrancadas pela raiz; uma mitologia de vagas de juba leonina investe contra o Pharos. À noite, a cidade fica cheia de novos sons, os empurrões e as pressões do vento, até que ficamos com a impressão de que estamos a bordo de um velho navio cujo madeiramento range e geme sob o embate das vagas.

Scobie adora este tempo. Estendido na cama, acaricia amorosamente o seu telescópio, lançando um olhar indignado contra a parede de tijolos que lhe rouba a vista do mar.

Scobie aproxima-se dos setenta anos, mas tem medo de morrer; o seu grande temor é acordar uma bela manhã para descobrir que está morto - Comandante Scobie, Oficial da Ordem do Império Britânico. Em consequência disso, quando o aguadeiro o acorda todas as madrugadas com o seu pregão, uivado debaixo da janela, o velho sofre invariavelmente uma grande comoção. Segundo ele próprio conta, por um momento, não ousa abrir os olhos. Conservando-os bem fechados (pois temia, se os abrisse, que se lhe deparasse um bando de anjinhos preparando-se para entoar hinos de boas-vindas ao novo hóspede celeste), apalpa o tampo da mesinha-de-cabeceira e apodera-se do cachimbo. Fica sempre carregado da noite anterior, com uma caixa de fósforos aberta, ao lado. A primeira fumaça restitui-lhe imediatamente o sangue-frio e a vista. Respira profundamente, grato por se sentir tranquilizado. Sorri. Exulta. Puxando para o queixo a pesada pele de carneiro que lhe serve de cobertor, entoa o seu cântico triunfal matutino com uma voz que lembra o ruído do papel de estanho amassado. “Taisez-vous, petit babouin; laissez parler votre mère.”

As suas bochechas de corneteiro ficam coradas com o esforço. Auscultando-se minuciosamente, descobre que tem a inevitável dor de cabeça. A língua está ainda saburrosa em consequência da aguardente ingerida na véspera. Mas, em comparação com estes pequenos contratempos, a alegria de ter um dia de vida diante de si torna-os insignificantes. “Taisez-vous, petit babouin”, etc. Uma pausa para introduzir a dentadura postiça. Coloca os dedos enrugados sobre o peito e sente-se confortado pelo som do coração a palpitar, mantendo naquele sistema venoso uma precária circulação cujas deficiências (não sei se reais se imaginárias) só são compensadas pela ingurgitação de doses mortais de aguardente. O velho tem muito orgulho no seu coração. Se alguém o visita quando se encontra ainda na cama é mais do que certo ele pegar com a manápula córnea a mão do visitante para o fazer sentir as pancadas do músculo vital:

- Forte como um boi, hem? Não é verdade que bate lindamente, apesar do grogue...

O infeliz engole em seco e mete a mão debaixo da camisa de noite para surpreender aquelas palpitações tristes, abafadas, remotas, que lembram o pulsar do coração de um feto de sete meses. Então, Scobie torna a apertar a camisa com um comovente gesto de pudor e solta aquilo que ele supõe ser um rugido de saúde animal.

- Salto da cama como um leão - é uma das suas expressões favoritas.

Para surpreender todo o encanto da sua figura é necessário vê-lo sair do meio dos lençóis de estopa, dobrado em dois pelo reumatismo. Somente nos meses mais quentes do ano, quando o sol derrete os cristais que lhe anquilosam os membros, é que ele consegue conservar-se comparativamente direito. No Verão, pela tarde, costuma passear no parque, dando passinhos miúdos, o crânio atrofiado luzindo ao sol como um espelho, o cachimbo apontando para o céu, os maxilares contraídos numa careta lúbrica.

Uma mitologia da cidade estaria incompleta sem Scobie, e Alexandria ficará mais pobre no dia em que o seu corpo ressequido e envolvido na Union Jack descer ao coval que o espera no cemitério católico, perto da linha do eléctrico.

A sua magra reforma mal chega para pagar a renda do quarto, infestado de carochas, que ele habita no bairro miserável nas traseiras de Tatwig Street; além dessa pensão, recebe do Governo egípcio um pequeno soldo que este lhe atribui juntamente com o ressonante título de bimbashi das forças de Polícia. Clea pintou um retrato dele magnífico, em grande uniforme de polícia, turbante escarlate na cabeça, e o enxota-moscas graciosamente atravessado sobre os joelhos.

Clea fornece-lhe o tabaco. Eu forneço-lhe a admiração, companhia, e, quando pode ser, aguardente. Ocupamo-nos alternadamente a aplaudir-lhe a saúde e a ajudá-lo a recuperá-la quando, no seu entusiasmo de a demonstrar, desfecha algum soco excessivamente violento no peito. Não tem origens e o seu passado prolifera através de uma dúzia de continentes, como uma verdadeira personagem mitológica. E a sua presença é tão rica com uma saúde imaginária, que tudo quanto necessita é de uma viagem ao Cairo na época do Ramadã, quando a repartição onde trabalha se fecha, sem dúvida pela perene esperança de que não se pratiquem crimes durante o jejum.

A segunda infância, tal como a juventude, não tem barba. Scobie cofia ternamente os poucos pêlos que lhe restam de uma barba outrora florescente, mas sem puxar, com receio de arrancá-los, ficando assim com o rosto nu para o resto dos seus dias. Agarra-se à vida como uma lapa, e cada ano produz alterações que só são sensíveis para o rochedo a que ele adere. É como se o seu corpo se fosse contraindo, afundando-se em si próprio na passagem do tempo; o seu crânio, em breve, não será maior do que o de um recém-nascido. Dentro de um ano ou dois, poderá caber dentro de um frasco e ser guardado em conserva para a eternidade. As rugas tornam-se cada vez mais vincadas. Sem dentes, a sua cara é a cara de um velho chimpanzé; para cima da barba rala, as suas bochechas vermelhas, que ele chama afectuosamente pelos nomes de “bombordo” e “estibordo”, estão sempre coradas, em qualquer estação do ano.

Fisicamente, deve muito à secção de sobresselentes; em mil e novecentos, um tombo do alto da mezena atirou com a queixada dois pontos para oés-sudoeste e quebrou-lhe o nariz. Quando fala, a dentadura comporta-se como uma gaveta de rodízios, descrevendo na cavidade anterior do crânio círculos e espirais inesperadas. O seu sorriso é caprichoso; pode surgir de qualquer lado como o Gato de Cheshire. Em oitenta e quatro lançou os olhos sobre uma mulher casada (é ele quem o diz) e perdeu um deles.

Está estabelecido que só Clea é que sabe que ele usa um olho postiço, mas a verdade é que, neste caso, o sobresselente foi de muito má qualidade. Em repouso a coisa escapa, mas, quando se anima, a disparidade entre os dois olhos torna-se óbvia. Demais, levanta-se um pequeno problema de ordem técnica: o olho verdadeiro está quase permanentemente injectado de sangue. Da primeira vez que ele me proporcionou um recital fanhoso do Watchman, What of the Night?, que não deixava de ser patético, embora o actor conservasse por esquecimento numa das mãos um velho penico, reparei que o olho direito se movia um tudo-nada mais vagarosamente do que o esquerdo. Pareceu-me então uma réplica, em maior, do olho da águia empalhada que reina, com ar majestoso, num dos nichos da biblioteca pública. No Inverno, pelo contrário, é o olho de vidro que treme insuportavelmente, o que lhe aflige e lhe amarga a boca até que um pouco de aguardente vem colocar as coisas novamente em ordem.

Scobie é uma espécie de perfil protozóico em nevoeiro e chuva, pois acompanha-o uma espécie de clima inglês, e nunca se sente tão feliz como quando, no Inverno, se pode sentar diante de uma miniatura de lareira a conversar. Uma após outra, as suas recordações gotejam do avariado mecanismo da sua memória, até que chega um momento em que já não se lembra se foi a outro ou a ele que tais coisas sucederam. Para além dele, vejo as extensas vagas cinzentas do Atlântico, rolando sobre as suas memórias, cobrindo-as de espuma, cegando-o. Quando fala do passado, é em estilo telegráfico, obscuro - como se as comunicações estivessem más e o tempo fosse adverso à transmissão. Em Dawson City, os dez que subiram o rio morreram gelados. O Inverno caiu sobre eles às marteladas: whisky, ouro, crime - paradigmas das cruzadas americanas! Foi por essa época que seu irmão caiu nas cataratas de Uganda; no seu sonho, ele via uma figura distante despenhar-se, cair como uma mosca, e depois desaparecer sugada pelas goelas amareladas do abismo. Não: foi mais tarde, quando ele visava com a sua carabina o crânio de um bóer. O velho tenta recordar-se de quando sucederam estas coisas, deixando cair a cabeça escalvada entre as mãos; mas as grandes vagas avançam rumorosas, inundando a fronteira que se estabelece entre o presente e o passado. O crânio de Scobie parece amassado e sugado de tal modo que apenas ténues tegumentos separam o seu sorriso presente do sorriso que a caveira prepara. Vede aquela caixa craniana com os seus profundos sulcos; os palitos ósseos no interior dos seus dedos macilentos; as varas de cera que suportam o seu corpo vacilante... Na verdade, como observara Clea, o velho Scobie assemelha-se a uma comovente peça de museu, uma espécie de pequena locomotiva dos primeiros tempos dos caminhos de ferro, qualquer coisa como a boa e velha Rocket de Stephenson.

Scobie vive na sua desmantelada mansarda como um anacoreta. “Um anacoreta!” é, ainda, uma das suas expressões favoritas; e, pronunciando-a, introduz o dedo na boca, distende a bochecha, e retira o dedo com um ruído de rolha que salta, rebolando os olhos para insinuar a espécie de complacências femininas que desfruta em segredo. Isto é, contudo, representado em benefício de Clea; na presença de uma “verdadeira senhora” julga-se obrigado a assumir ares protectores que abandona mal ela parte. A verdade é um pouco mais triste.

- Nos meus tempos, fartei-me de gozar - confessou-me ele sotto voce. - Fui chefe de escuteiros, depois de reformado. Mas tive de sair de Inglaterra, meu velho. A tensão era excessiva para mim. Esperava a cada semana ler no News of the World: “Mais um jovem vítima dos imundos desejos do seu monitor.” Os meus rapazes eram muito bons. Eu costumava chamar-lhes uns verdadeiros etonianos. O monitor que me antecedeu apanhou vinte anos de cadeia. Coisas destas fazem uma pessoa reflectir. De resto, eu não me sentia nada tranquilo nem tinha nenhum desejo de ficar. Isso tudo já se passou há muito tempo, mas, mesmo assim, prefiro viver aqui com o espírito sossegado. E na Inglaterra ninguém parece seguro presentemente. Repara como eles metem na cadeia os padres e até os bispos por coisas desse género. Eu ficava, de noite, estendido na cama, sem poder dormir. Finalmente, vim para aqui como corneteiro particular - Toby Mannering era filho de um membro do Parlamento e procurava um pretexto para viajar. Disseram-lhe que precisava de levar consigo um corneteiro. Ele queria ingressar na Marinha. Foi assim que vim cá ter. Percebi logo que era um lugar onde a gente se sentia à vontade. Entrei na Brigada do Vício sob a direcção de Nemrod Paxá. E aqui estou, meu rapaz. E nada tenho de que me queixar, não é verdade? Olhando desde o extremo ocidental até ao extremo oriental deste fértil delta, que vejo eu? Milhas e milhas de negrinhos angélicos!

O Governo egípcio, com a generosidade quixotesca, típica do Levante, para com todos os estrangeiros que revelam alguma simpatia pela terra, tinha-lhe oferecido a possibilidade material de viver em Alexandria. Mas, depois da sua nomeação para a brigada de repressão do vício, este tomou tais proporções que foi necessário promovê-lo e confiar-lhe outro posto; mas defendeu sempre a teoria de que a sua afectação a uma repartição da polícia secreta se devia aos seus méritos particulares e nunca tive coragem de entrar com ele a esse respeito. O trabalho que lhe compete não é fatigante. Durante duas horas, todas as manhãs, permanece num desmantelado gabinete, na companhia das pulgas que habitam a sua velha escrivaninha. Almoça modestamente no Lutelia e, se lhe sobra o dinheiro, enriquece a refeição com uma maçã e uma garrafa de aguardente. As intermináveis e ardentes sestas de Verão passa-as a dormir ou a folhear os jornais que um grego capelista, seu amigo, lhe empresta. (Enquanto lê, uma veia pulsa mansamente no alto do crânio desguarnecido.)

Os objectos que se encontram no seu quarto revelam um espírito muito ecléctico: os poucos que adornam a sua vida de anacoreta têm um tom severamente pessoal, como se no conjunto integrassem a personalidade do seu proprietário. É por isso que o retrato de Clea dá uma tal impressão de perfeição: ela reproduziu em plano de fundo todos os bens do velho Scobie. Por exemplo: o pequeno crucifixo pendurado na parede por cima do leito; desde há alguns anos Scobie aceitou as consolações da Santa Igreja Católica Romana contra a velhice e contra aquelas imperfeições de carácter que com o tempo se tinham tornado numa segunda natureza. Ao lado do crucifixo, vê-se uma pequena reprodução colorida da Mona Lisa, cujo sorriso enigmático lhe recordava o sorriso da mãe. (Para mim, esse famoso sorriso fez-me sempre pensar no sorriso de uma mulher que acaba de enganar o marido.) Seja como for, a pequena reprodução também se integrou na existência de Scobie, criando um laço especial e íntimo. Era como se esta Mona Lisa se não assemelhasse a nenhuma outra; como se tivesse abandonado Leonardo.

Há, ainda, naturalmente, a antiga mesa de chá que serve de cómoda, de estante e de escrivaninha. Clea tratou-a no estilo generoso que lhe convinha, pintando-a com uma fidelidade microscópica. A mesa tem três prateleiras, todas elas limitadas por um bisel estreito e elegante. Custou-lhe nove dinheiros e um quarto em Euston Road, no ano de 1911, e já deu, com ele, duas vezes a volta ao mundo. Scobie apresenta-a com o ar mais sério deste mundo. “É entendido em antiguidades, não é verdade?”, pergunta com um ar descontraído enquanto passa um pano na mesa para sacudir a poeira. A parte superior era destinada às torradas com manteiga, a parte do meio aos biscoitos e a prateleira inferior a “duas qualidades de bolos”. Actualmente, as prateleiras têm uma utilização bastante diversa: ao alto encontra-se a Bíblia e o telescópio; no meio a sua correspondência, que se limita aos sobrescritos em que recebe os salários; no fundo, reina com imponente majestade um penico a que chama o “morgado”, por estar ligado a uma misteriosa história de família que ele um dia me há-de contar.

A sala recebe iluminação de uma fraca lâmpada eléctrica e de um cacho de lampadazinhas que, num nicho, iluminam uma taça de barro cheia de água gelada. A única janela, sem cortinas, deita para um muro desmantelado. Quando o vejo estendido na cama, com o pálido reflexo das luzes a reflectir-se no vidro da bússola, depois da meia-noite, o crânio entorpecido pelo álcool, lembra-me um velho bolo de aniversário que espera que alguém lhe sopre para apagar as velas.

A derradeira observação que nos faz, depois de bem aconchegado no leito -além de um vulgar “Beija-me, filhinho ...” acompanhado dum olhar lúbrico e de um horrível ruído de sucção-, é de um género sério: “Diga-me com franqueza: aparento a idade que tenho?”

Para falar francamente, Scobie tem todas as idades que se lhe quiser atribuir: mais velho que o nascimento da tragédia, mais novo do que a morte de Atenas. Concebido na Arca, do coito fortuito de um urso e de uma avestruz, nascido prematuramente quando a quilha raspou o monte Ararat, Scobie saiu do ventre de uma cadeira de rodas com um chapéu de caça e uma cinta de flanela encarnada. Nos pés trazia o mais brilhante de todos os pares de botas de elástico. Na mão, a maltratada Bíblia da família em cujo frontispício se liam estas palavras: “Joshua Samuel Scobie, 1870. Honrarás a teu pai e a tua mãe.” A estes bens acrescentam-se olhos de lua nova, uma curvatura particular da espinha dorsal e um gosto para quinquerremes. Nas veias de Scobie, em vez de sangue, corria água salgada verde, das profundidades do mar. O seu andar é lento, doloroso, o andar de um santo que se arrasta a caminho da Galileia. A sua linguagem é um calão sorvido nas águas verdes dos cinco oceanos - uma loja de antiguidades pejada de sextantes, astrolábios, portulanos e barómetros... Quando canta, o que não é raro, parece-nos escutar o próprio Neptuno. Como um santo patrono, deixou pedaços da sua carne espalhados pelo mundo - em Zanzibar, Colombo, Togolândia, Wu Fu: todos os fragmentos caducos que vem perdendo desde há muito tempo: amuletos de corno, botões de punho, dentes e cabelos... Agora, a maré vazante deixou-o em seco por sobre as velozes correntes do tempo, Joshua, o homem que não paga o tributo ao Tempo, o navegador, o anacoreta.

Clea, a doce, a adorável, a incompreensível Clea é a melhor amiga de Scobie e passa grande parte do seu tempo na companhia do velho pirata; ela abandona a sua teia para lhe vir preparar o chá e ouvi-lo naqueles intermináveis monólogos acerca de uma vida há muito ultrapassada, que perdeu toda a vitalidade e que só subsiste nos labirintos tenebrosos da sua memória.

E quanto a Clea: é apenas a minha imaginação que torna tão difícil esboçar o seu retrato? Penso muito nela - e, contudo, reparo como nesta narrativa tenho evitado falar de si directamente. A dificuldade provém, possivelmente, de não haver aparentemente relação imediata entre os seus hábitos e a sua verdadeira natureza. Se eu descrevesse a estrutura externa da sua vida - duma simplicidade, duma graça e duma reserva desconcertantes - arriscava-me a apresentar uma freira para quem toda a gama de paixões humanas tivesse sido substituída por uma procura absorvente do próprio eu subliminar, ou então uma virgem, agreste e recalcada, que voltava as costas ao mundo, devido a qualquer instabilidade psíquica ou a alguma ferida precoce e incurável.

Tudo o que nela toca toma tons dourados e quentes. Os lindos cabelos louros e ondulados que ela usa simplesmente apertados atrás, na nuca, valorizam o seu rosto de musa cândida e o sorriso dos seus olhos verdes. As mãos de um perfil extraordinariamente puro têm uma habilidade e uma subtileza que só se descobrem quando as vemos a trabalhar, quando, por exemplo, seguram um pincel, ou quando seguram entre três paus de fósforo a pata quebrada de um pardal para fazer uma tala.

Dela eu poderia dizer isto: foi fundida, ainda quente, no molde de uma jovem Graça, o que significa num corpo sem instintos e sem desejos.

Ser muito linda; ter o dinheiro suficiente para levar uma vida independente; ter talento... outros tantos crimes aos olhos dos invejosos e dos falhados que pretendem que ela não merece a sua sorte. Mas, por que motivo - perguntam os que a observam e criticam - nunca se quis casar?

Ela vive, modestamente, num sótão confortável arranjado em estúdio, tendo por mobiliário apenas uma cama de ferro e algumas cadeiras de viagem que no Verão transfere para a sua cabana de praia em Sidi-Bishr. O seu único luxo é uma casa de banho, de ladrilhos reluzentes, num canto da qual instalou uma pequena grelha onde cozinha quando lhe apetece preparar uma refeição pelas suas próprias mãos; e uma biblioteca cujas prateleiras sobrecarregadas demonstram que ela nada lhes recusa.

Vive sem amantes e sem laços de família, sem malícia, sem cão nem gato, concentrando-se com sinceridade na sua arte de pintar, que toma a sério, mas não demasiado a sério. É, também, feliz na sua obra: as suas telas ousadas e elegantes emitem uma radiação de bom humor e clemência.

Reparo agora que, tolamente, falei dela como “não querendo casar-se”. Tal coisa havia de aborrecê-la: recordo-me de me ter dito certo dia: “Se devemos ser amigos nunca pense nem diga que sou daquelas pessoas que se recusam a aceitar a vida. A minha solidão não me isola nem me priva de nada mas não posso ser diferente do que sou. Quero que compreenda como a minha vida tem sido bem sucedida e não pense que oculto fracassos íntimos. E quanto ao amor, cher ami, já lhe disse que o amor me interessa pouco e que os homens ainda me interessam menos; de todas as experiências por que passei, a única que realmente marcou foi com uma mulher. Vivo ainda na felicidade dessa união perfeitamente realizada: qualquer outra relação física, a partir de então, parecer-me-ia terrivelmente vulgar e vazia. Não pense, porém, que sofro algum desgosto de amor, oculto e elegante. Não. De certo modo sinto que o nosso amor se valorizou pela perda do objecto amado; era como se a presença física da outra impedisse a verdadeira existência do amor, a sua realização. Isto parece-lhe catastrófico?” Clea desatou a rir.

Lembro-me de que passeávamos na Corniche, lavada por uma bátega de Outono caindo de um céu desmaiado. Enquanto falava, prendera o meu braço no seu, afectuosamente. Sorria-me com tanta meiguice que quem nos visse poderia tomar-nos por namorados.

- E, demais - continuou ela -, há outra coisa que acabará por descobrir por si próprio. Há no amor alguma coisa (não direi que seja um defeito do amor porque o defeito está em nós próprios), mas qualquer coisa que não compreendemos na sua natureza. Por exemplo, o amor que sente por Justine não é um amor diferente por um objecto diferente, mas o mesmo amor que sente por Melissa tentando realizar-se através de Justine. O amor é terrivelmente permanente e cada um de nós só tem direito à sua pequena porção. Pode aparecer sob uma infinidade de formas e prender-se a um infinidade de pessoas. Mas é limitado em quantidade, e não pode esgotar-se e desaparecer antes de alcançar o seu verdadeiro objecto. O seu destino oculta-se algures, nas mais profundas regiões da alma, onde acabará por se reconhecer como o amor de si, o terreno sobre o qual construímos uma espécie de saúde da alma. E isto não é nem egoísmo nem narcisismo.

Foram conversas deste género, conversas que se prolongavam pela noite adiante, que me aproximaram inicialmente de Clea e que me ensinaram a apoiar-me na força que ela tinha colhido na reflexão e na introspecção. A nossa amizade permitia-nos partilhar as ideias e os pensamentos mais íntimos e compará-los de uma maneira que teria sido impossível se nos encontrássemos unidos por esses laços mais estreitos, que, por paradoxal que pareça, mais afastam que aproximam, verdade que a ilusão humana se recusa a aceitar. Recordo-me de ela me ter dito certo dia em que lhe fiz essa observação:

- É verdade que, em certo sentido, estou mais perto de si do que Melissa ou Justine. Bem vê, o amor de Melissa é excessivamente confiante: cega-a. Ao passo que a covarde monomania de Justine o vê através de uma imagem que ela inventou completamente, o que o obriga a agir de uma maneira demoníaca, como ela. Não se zangue. Não digo isto com maldade.

Além das suas pinturas, não devo esquecer o trabalho que ela fez para Baltasar. Pintura clínica. Por que motivo, não sei, mas o meu amigo não se sentia satisfeito com o método ordinário que consistia em registar fotograficamente as anomalias médicas. A sua teoria pessoal leva-o a conceder grande importância à pigmentação da pele em certos estádios da evolução do mal nos seus doentes. Os destroços da sífilis, por exemplo, em todas as suas manifestações anormais. Clea fixou-os em grandes telas coloridas de uma terrível lucidez e de uma grande ternura. Em certo sentido são verdadeiras obras de arte; o objecto puramente utilitário libertou a artista da procura limitadora de uma expressão pessoal; confina-se a registar; e esses membros humanos torturados que Baltasar diariamente assinala nas longas e tristes filas da sala de espera (como quem retira batatas podres de um cesto) são tão eloquentes como retratos de faces humanas, ventres roídos, peles caindo como a caliça de velhas paredes, carcinomas prestes a romper as membranas elásticas que os contêm... Recordo-me da primeira vez que a vi a trabalhar; eu tinha ido procurar Baltasar na clínica para obter um certificado qualquer que era necessário para a escola onde trabalhava. Através da porta envidraçada do consultório, descobri Clea, que nessa época ainda não conhecia; estava sentada num tronco seco do jardim e vestia uma bata de enfermeira; tinha as tintas colocadas metodicamente sobre uma placa de mármore. Diante dela, numa cadeira de vime, uma camponesa de grandes seios e rosto de esfinge, acocorada, erguia a camisa acima do ventre para expor a parte do corpo que o meu amigo tinha escolhido. Era um belo dia de Primavera e ouvia-se ao longe a marulhada do mar. Os dedos inocentes e inteligentes de Clea aproximavam-se e apartavam-se da superfície branca do papel com uma segurança, uma destreza e uma premeditação sábias. O seu rosto exprimia o encanto, a concentração feliz de uma miniaturista pintando tulipas de tonalidades raras.

Quando Melissa entrou na agonia, mandou chamar Clea; foi Clea quem passou noites inteiras a seu lado, tratando dela, contando-lhe histórias. Quanto a Scobie, não ouso dizer que a inversão constituía um laço oculto, como um cabo submarino ligando dois continentes, porque isso seria cometer uma injustiça para com ambos. O velho, por certo, não tinha a menor ideia do que se passava com Clea; por seu turno, ela tinha bastante tacto para nunca lhe dizer a que ponto eram inúteis as suas gabarolices de pretensas aventuras amorosas. Os dois compreendiam-se perfeitamente, como pai e filha. A única vez que ouvi Scobie provocar Clea, tratando-a de solteirona, ela tomou um ar ingénuo de rapariguinha e, com uma seriedade capaz de desmentir o brilho malicioso dos seus lindos olhos verdes, respondeu que esperava o homem da sua vida; Scobie, abanando gravemente a cabeça, concordou que, com efeito, essa era a melhor linha de conduta a adoptar.

Foi de um montão de velhos desenhos, empilhados no seu estúdio que certo dia exumei um retrato de Justine - a três quartos - tratado à maneira impressionista e manifestamente inacabado. Clea susteve a respiração, olhou para o quadro com o ar de compaixão de uma mãe que contempla um filho defeituoso, o qual só ela teima em considerar belo.

- Oh!, é uma obra antiga - disse ela; mais tarde, depois de longas semanas de reflexão, ofereceu-me o retrato no dia do meu aniversário.

Encontra-se agora por cima da velha chaminé, para me recordar a beleza mordente, ofegante, dessa cabeça sombria e adorada. Ela acaba justamente de afastar um cigarro dos lábios, prepara-se para dizer qualquer coisa que o seu espírito já formulou mas que ainda não passou além dos olhos. Os lábios abertos preparam-se para traduzir em palavras o pensamento em curso.

A mania da justificação é comum aos que têm a consciência perturbada e aos que procuram uma razão filosófica para o seu comportamento: mas em ambos os casos conduz a estranhas formas de pensamento. A ideia não é espontânea mas voulue. No caso de Justine, esta mania leva a uma torrente ininterrupta de ideias, especulações sobre acções passadas e presentes, que se acumulam no seu espírito com a força de um rio comprimindo-se nas paredes de uma barragem. E, para todo este miserável desperdício de energia, para toda a apaixonada engenhosidade que ela aplicava na introspecção, não podíamos fazer outra coisa senão suspeitar das suas conclusões, visto que estavam constantemente a mudar, sem nunca se fixarem. Distribuía teorias em torno dela como se fossem pétalas de rosa. “Não achas que o amor é essencialmente um paradoxo?”, perguntara ela de certa feita a Arnauti. Lembro-me de me ter feito idêntica pergunta com aquela voz túrbida que lhe emprestava um misto de ternura e ameaça.

- E se te disser que consenti em aproximar-me de ti para evitar o perigo e a ignomínia de me apaixonar profundamente por ti? Eu sentia que estava a salvar Nessim em cada beijo que te dava.

Como poderia ser essa a explicação da extraordinária cena da praia? Como resolver a dúvida em que me encontrava? De outra vez tomou o problema de um ângulo diferente:

- A moral é... Mas que é a moral? Não fomos simplesmente levados pelos nossos apetites; ou fomos? E como esta aventura tem realizado todas as promessas que fez... pelo menos a mim! Encontrámo-nos e sucedeu o pior, mas sem atingir o que de melhor temos em nós, os nossos amores. Oh!, por favor, não rias de mim.

Da minha parte sempre me surpreenderam todas as perspectivas que os seus pensamentos abriam; e horrorizavam-me, pois parecia-me estranho o tom de necrológio que ela utilizava para falar da nossa actual experiência. Dessas vezes, sentia-me tentado a exclamar como Arnauti: “Pelo amor de Deus, deixa de te torturar, pois, de outro modo, será o nosso fim. Esgotas a nossa vida mesmo antes de termos tido ocasião de vivê-la.” Naturalmente, eu não ignorava a inutilidade de semelhantes exortações. Há neste mundo naturezas votadas à autodestruição, e com elas são inúteis os argumentos racionais. Justine deu-me sempre a ideia de uma sonâmbula surpreendida no momento em que se prepara para cruzar um precipício; se alguém lhe grita para a acordar, é a catástrofe. Tudo quanto se pode fazer é segui-la em silêncio, na esperança de a afastar gradualmente dos abismos que a espreitam.

Por uma espécie de curioso paradoxo, eram estes vícios de carácter - estas vulgaridades da psique - que constituíam para mim o mais poderoso atractivo desta personagem inquietante e irrequieta. Suponho que correspondiam aos próprios defeitos do meu carácter, que tinha a sorte de dominar melhor que ela. Sei que, para nós, fazer amor não representava senão uma porção menor da imagem projectada por uma intimidade mental que proliferava e se ramificava dia a dia em torno de nós. Como falávamos! Noite após noite nos cafés manhosos da esplanada (na insensata esperança de esconder de Nessim e dos amigos comuns uma atracção culposa). Falando, aproximávamo-nos insensivelmente um do outro, até que as nossas mãos se tocavam, até estarmos quase nos braços um do outro: não em consequência dessa sensualidade que habitualmente atormenta os apaixonados, mas como se o contacto físico pudesse aliviar a dor que nos produzia esta constante exploração do nosso ser íntimo.

Na verdade, esta é a mais triste forma de amor que um ser humano pode experimentar, acabrunhado por essa dilacerante tristeza pós-coito que assombra todas as carícias e que se deposita, como lama impalpável, na água clara de um beijo. “É fácil escrever acerca de beijos - diz Arnauti -, mas onde a paixão devia ser plena de sinais e de chaves, isso só serve para calafetar os nossos pensamentos, sem fornecer nenhum conhecimento novo. Havia outras coisas mais importantes.” Com efeito, fazendo amor com Justine, comecei também a compreender o que ela queria dizer quando descrevia o freio como “o sentimento esterilizante de estar deitado com uma estátua adorável mas incapaz de corresponder ao contacto da carne que a abraça. Havia algo de esgotante e de doentio naquela maneira de amar tão bem, amando tão pouco”.

O quarto, por exemplo, com a sua luz acobreada, fosforescente, e o grande turíbulo tibetano que espalhava pela sala um perfume de rosa. Junto da cama, o odor rico e lancinante do pó de arroz flutuando pesadamente nos cortinados do leito. O toucador com os seus boiões de creme e unguentos. Por cima do leito, o Universo de Ptolomeu! Ela mandou-o desenhar em pergaminho e colocar-lhe em volta uma moldura valiosa. Vela sobre o leito, sobre os ícones nos estojos de cabedal, sobre a fileira marcial dos filósofos. Kant, de roupão, subindo a escada às apalpadelas. Júpiter Tonam. Há um traço de futilidade nesta concentração de grandes homens - onde ela reservou um lugar para Pursewarden. Estão lá quatro dos seus romances, mas não posso garantir que ela não os tenha colocado lá atendendo à circunstância de tê-lo convidado para jantar connosco. Justine rodeada dos seus filósofos faz-me pensar num doente rodeado de médicos - tubos vazios, cápsulas e seringas. “Quando a beijamos - diz Arnauti - ela não fecha os olhos. Abre-os desmesuradamente, com uma dúvida e uma loucura que crescem. A mente está de tal maneira activa que toda a dádiva do corpo é limitada - o seu olhar traduz o sentimento de pânico de uma mulher prestes a sofrer uma raspagem. Durante a noite escuta-se o tiquetaque do seu cérebro a funcionar como se fosse um despertador barato.”

 

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Na parede do fundo há um ídolo cujos olhos se acendem do interior graças a uma lâmpada eléctrica, e é diante deste mentor esculpido que Justine desempenha o seu papel secreto. Imaginem uma lâmpada colocada no fundo do pescoço de um esqueleto de tal maneira que iluminasse a abóbada do crânio, onde meditam as órbitas cegas. Sombras palpitam no cárcere de ossos. Quando falta a electricidade a lâmpada é substituída por uma vela de cera encaixada na tomada: Justine alçando-se na ponta dos pés, nua, para introduzir um fósforo aceso no olho do deus. E logo tomam relevo os sulcos da mandíbula, e o osso frontal salienta-se sobre a aresta perfeitamente rectilínea do nariz. Ela não se sente tranquila enquanto este visitante de uma longínqua mitologia não vela sobre os seus pesadelos. Aos pés do deus jazem várias bugigangas, uma boneca de celulóide, um marinheiro... sobre cuja origem nunca tive coragem de a interrogar. É para este ídolo que ela compõe os seus mais maravilhosos diálogos. Ela afirma ser capaz de lhe falar durante o sono, e esta máscara tutelar acabou por representar o que ela chama o seu Nobre Eu - acrescentando tristemente, com um sorriso sem convicção: “Existe, tu sabes.”

As páginas de Arnauti perseguem-me quando a contemplo e quando lhe falo. “Um rosto esfomeado pela luz interior dos seus terrores. Durante a noite, quando já durmo há muitas horas, ela permanece acordada, reflectindo em tal ou tal coisa que eu possa ter afirmado a respeito do nosso amor. Sempre que acordo, encontro-a agitada por qualquer problema, fumando um cigarro e batendo o pé sobre a rica passadeira persa.” É estranho que veja sempre Justine no contexto deste quarto onde ela não podia ter estado antes de conhecer Nessim. Mas é sempre nesse cenário que eu a vejo entregar-se às terríveis intimidades que Arnauti descreve no seu livro. “Não há pior sofrimento do que amar uma mulher que nos entrega o corpo sem ser capaz de entregar o seu verdadeiro ser - porque não sabe onde encontrá-lo.” Quantas vezes, deitado a seu lado, não debati eu estas observações, que podem passar despercebidas ao leitor comum, no fluxo e refluxo de ideias que atravessa os Moeurs.

Ela não escorrega dos beijos para o sono - uma porta para jardim particular - como faz Melissa. Na luz quente e acobreada, a sua pele parece ainda mais pálida, e as flores rosadas crescem nas faces saborosas, espalham-se, absorvem a luz e guardam-na toda. Ela levanta a saia para soltar as meias e mostra a cicatriz morena entre os dois sulcos das ligas. Não sou capaz de descrever o que sinto quando vejo essa marca - espécie de personagem fora do livro - e me lembro da sua terrível origem. No espelho, a cabeça morena, mais fresca e mais graciosa do que o original, restitui a imagem de uma Justine jovem - como as marcas dos fetos, fossilizados na rocha calcária: a juventude que ela julga ter perdido.

Não posso acreditar que ela tenha existido, assim, totalmente, em qualquer outro quarto; que o ídolo possa ter estado fora daqui, num quadro diferente. Vejo-a sempre subindo a interminável escadaria, atravessando a galeria com os seus putti e os seus fetos, depois abrindo a porta baixa para entrar nesta câmara secreta. Fatma, a criada etíope, segue-a. Invariavelmente, Justine deixa-se cair sobre o leito, estendendo as mãos carregadas de anéis; como uma sonâmbula, a negra tira-lhos dos dedos, lançando-os num pequeno cofre colocado no toucador. Na noite em que eu e Pursewarden jantámos a sós com ela, Justine levou-nos a visitar a parte “pública” da residência e, depois de ter percorrido os grandes salões frios e solenes, voltou-se bruscamente e conduziu-nos de novo para o refúgio cujo ambiente contribuiria para descontrair o meu amigo, a quem ela muito admirava e temia.

Pursewarden tinha-se mostrado taciturno durante toda a noite, o que nele já era um hábito, e a única coisa que parecia interessá-lo era o copo. O pequeno ritual com Fatma teve o condão de libertar Justine de qualquer espécie de constrangimento; podia, enfim, agir com naturalidade, mover-se “com aquele seu andar desigual e insolente, amaldiçoar o vestido que se tinha deixado prender na porta do aparador”, ou parar defronte do espelho em forma de lança para deitar a língua de fora. Falou-nos da máscara, acrescentando com tristeza: “Bem sei que tudo isso é vulgar e um pouco teatral. Volto-me para a parede e falo-lhe. Perdoo as minhas ofensas como perdoo aos que me ofenderam. Às vezes divago e lanço-me contra a parede quando me lembro das loucuras que podem parecer insignificantes aos outros ou aos olhos de Deus - se é que existe algum Deus. Dirijo-me à pessoa que sempre imaginei vivendo num lugar tranquilo e verdejante como o salmo 23.” Depois, pousando a cabeça no meu ombro e rodeando-me com os braços: “É por isso que tantas vezes te peço que sejas meigo comigo. É a minha fraqueza. Preciso que me acaricies como fazes a Melissa; bem sei que é a ela que tu amas. Quem poderia amar-me?” Pursewarden não estava imunizado contra o tom de voz que ela usava para dizer essas coisas, e, por isso, afastou-se discretamente para ir dar uma olhadela aos livros arrumados num canto do quarto. A descoberta dos seus romances fê-lo empalidecer, depois corar, mas não posso afirmar se foi de confusão ou de cólera. Voltando-se para nós, ia dizer qualquer coisa, mas mudou de ideia. Com um ar culpado e entristecido retomou a sua observação da estante. Justine disse então:

- Se não considerasse o meu pedido uma impertinência desejaria que autografasse um dos seus livros.

Ele não respondeu. Ficou imóvel, olhando à transparência o copo que segurava entre os dedos. Depois, de repente, fez meia volta, e apercebi-me de que se encontrava completamente embriagado; as suas palavras jorraram metálicas e ferozes:

- O romance moderno! O grumus merdae que os criminosos deixam no local do delito.

E, deixando-se cair no tapete, tendo o cuidado de não entornar o copo que pousou cuidadosamente à sua beira, afundou-se imediatamente num sono magistral.

O longo colóquio que se seguiu travou-se por cima do corpo prostrado. Eu acreditava que ele dormia quando, na verdade, devia estar bem acordado porque depois reproduziu, quase integralmente, as palavras de Justine numa novela cruelmente satírica que, não percebo a razão, a divertiu, ao passo que me desgostou a mim profundamente. Pursewarden descrevia os seus olhos brilhantes de todas as lágrimas que não tinham derramado, enquanto dizia (sentada em frente do espelho, passando o pente nos cabelos que crepitavam e se encrespavam com a sua voz): “Quando encontrei Nessim pela primeira vez e descobri que me tinha apaixonado por ele, tomei a decisão de salvar ambos. Arranjei deliberadamente um amante - um sueco bruto e sombrio -, esperando, assim, feri-lo nos seus sentimentos e afastá-lo de mim. A mulher do sueco tinha-o abandonado e eu prometi-lhe, para não ter de escutar por mais tempo os seus queixumes: “Diz-me como ela fazia contigo e eu farei o mesmo. No escuro, temos todas a mesma forma, ainda que os nossos cabelos se enrosquem e a nossa pele cheire mal. Diz-me, e eu arranjo um sorriso de noite de núpcias e caio nos teus braços como uma montanha de seda.” E, no meio de tudo isto, pensava sem cessar: “Nessim. Nessim.”

Isto faz-me recordar uma observação de Pursewarden que resumia a sua atitude para com os nossos amigos. “Alexandria! - exclamou ele no decurso de um longo passeio ao luar -, e os seus judeus exibindo um misticismo de cervejaria! Como se pode exprimir tudo isso por palavras? Um lugar e gente?” Pensaria ele já, porventura, na sua novela cruel e procurava compreender-nos melhor? “Justine e a cidade assemelham-se na medida em que ambas são extraordinariamente interessantes sem, contudo, possuírem qualquer substracto real.”

Recordo-me, agora, dessa última Primavera (a última!), quando caminhávamos os dois, acabrunhados pela atmosfera embriagadora da cidade, sob as tranquilas abluções de água e de luar que lhe davam um brilho de escudo polido. Uma demência aérea entre as árvores negras das praças desertas, e as grandes estradas poeirentas que iam de uma meia-noite para outra, e eram de um azul mais puro que o oxigénio. As faces que encontrávamos, rutilantes como pedras preciosas, faces de êxtase: o padeiro que amassava a vida do dia seguinte, o amante que se apressava no caminho de casa, os cartazes dos cinemas onde o luar punha um resplendor fantasmagórico, a Lua que parecia deslizar sobre as cordas de uma rabeca...

Dobramos uma esquina: o mundo é agora um labirinto de artérias borrifadas de prata e franjadas de sombras. Nem uma só alma neste fim do mundo de Kom El Dick, além do perfil teimoso de um polícia, errando como um desejo vergonhoso no espírito da cidade. Os nossos passos batem com uma regularidade de metrónomo o lajedo deserto: dois homens avançam no tempo da sua cidade, longe de tudo, como se percorressem os lúgubres canais lunares. Pursewarden fala do livro que tenciona escrever e das dificuldades que assaltam um cidadão que se propõe cometer uma obra de arte.

- Se você pudesse ver-se como vê uma cidade adormecida, por exemplo... não é? Podia ficar tranquilamente sentado vendo as coisas sucederem-se por si próprias: volição, desejo, vontade, percepção, paixão, de novo a volição. Como uma centopeia de costas, agitando em vão as patas, incapaz de se voltar. Esgotamo-nos a circum-navegar esses imensos campos de experiência. Nós, os profissionais da literatura, jamais somos livres. Se fosse dia, explicaria tudo isso melhor. Aspiro a ser musical de corpo e espírito. Quero ter estilo. Não do género desses jactos mentais que se soltam do espírito como as fitas de um telescritor. É o mal do século, não é verdade? Isso explica as enormes vagas de ocultismo que nos rodeiam. Agora, esse Baltasar com a sua Cabala. Ele nunca compreenderá que é justamente com Deus que é necessário ser-se mais prudente; é Ele que cria uma atracção por tudo quanto de mais vil existe da natureza humana - o sentimento da nossa insuficiência, o nosso receio do desconhecido e os nossos insignificantes fracassos pessoais; e, sobretudo, o nosso egoísmo monstruoso que vê na coroa do martírio o prémio de uma acrobacia difícil de executar. A verdadeira e subtil natureza de Deus não admite distinções: um copo de água da nascente, inodora, insípida, um puro refresco; e, certamente, isso não pode atrair senão um número restrito de contemplativos. No que respeita à massa, ele faz parte daquele sector da sua natureza que eles menos desejam admitir ou examinar. Não creio que possa existir algum sistema que não desnature a ideia essencial. E, também, todas essas tentativas para circunscrever Deus nos limites das palavras e das ideias... Uma explicação só não explica tudo, embora tudo possa explicar alguma coisa. Deus!, devo estar bêbedo. Se Deus fosse alguma coisa devia ser uma arte. Como a escultura ou a medicina. O considerável desenvolvimento dos conhecimentos e das ciências nos nossos dias faz com que estejamos quase impossibilitados de utilizar as essências necessárias à nossa vida.

“Se você segurar uma vela na mão, pode projectar na parede a sombra dos seus vasos sanguíneos. Mas não é ainda bastante silencioso. Aqui, nunca se obtém uma imobilidade absoluta: nunca há bastante tranquilidade para alimentar o trismegisto. Pela noite adiante, ouve-se a corrente precipitada do sangue nas artérias cerebrais. As entranhas do pensamento. Isso leva-o a percorrer a cadeia das acções históricas: causa-efeito. Não é possível repousar, parar para interrogar calmamente o futuro em frente de uma esfera de cristal. Parte-se à conquista do mundo físico, afastando delicadamente os tecidos para abrir caminho. Examina-se o motor de arranque dos intestinos no abdome, o pâncreas, o fígado entupido como um filtro de trampa, o odre da urina, o cinturão vermelho dos intestinos, o suave corredor córneo do esófago, a glote com a sua mucilagem mais suave que a bolsa de um canguru. Que quero eu dizer com isto? Quero dizer que se procura uma combinação que tudo coordene, uma sintaxe da vontade que tudo estabilizaria e expulsaria a tragédia. Um suor frio inunda-nos a testa, e somos atacados pelo pânico quando sentimos as doces contracções e descontracções das vísceras em pleno trabalho, indiferentes ao homem que as observa e que somos nós. Toda uma cidade de processos, uma fábrica de excrementos. Senhor!, um sacrifício quotidiano. Para cada oferenda ao altar dos deuses, uma viagem à retrete! Onde se encontram as duas naturezas? Onde se correspondem? Lá fora, junto da ponte de caminho de ferro, uma mulher espera o amante e dentro de seu corpo existe a mesma agitação; o vinho escorre nas condutas, o piloro desagua como um cano, o incomensurável universo bacteriológico multiplica-se em cada gota de esperma, de saliva, de muco. O homem aperta nos braços uma coluna vertebral, as condutas carregam a sua dose de amoníaco, as meninges expelem o seu pólen, a córnea brilha no seu minúsculo crisol...

E Pursewarden desata a rir, naquele seu rir infantil e vulgar, voltando a cabeça até que a Lua se põe a chispar nos seus dentes imaculados, debaixo do melancólico bigodinho louro.

Foi no decurso de uma destas noites que os nossos passos nos conduziram junto da casa de Baltasar, e, vendo luz acesa, batemos. Nessa mesma noite, ouvi num velho gramofone de campânula (com uma emoção tão intensa que quase era de horror), recitados por qualquer admirador do velho poeta, o poema que principia por estes versos:

Vozes ideais, vozes tão queridas

Dos que já não existem mais.

Mas às vezes, ouvimos no coração de um sonho

Vivas as vozes dos que já morreram,

Às vezes também, um pensamento nosso

Ressuscita-os...

Estas memórias fugidias nada explicam, nada esclarecem; e, contudo, elas impõem-se sempre que penso nos meus amigos, como se as mínimas particularidades dos nossos hábitos, os papéis que representávamos, tivessem ficado impregnados com o que ele sentia. O chiar dos pneus nas pistas do deserto debaixo de um céu azul prisioneiro do Inverno; um temeroso bombardeamento lunar que transformava o mar numa toalha de fósforo - corpos brilhando como lâmpadas que se acendem; dirigimo-nos para a última língua de areia perto de Montaza, escorregamos para dentro das trevas glaucas dos jardins do Rei, nas barbas da sentinela adormecida, a caminho do recanto onde a força do mar, domada, se perdia nas vagas que vinham lamber a areia. Ou, então, de braço dado, atravessávamos a galeria já ensombrecida por um nevoeiro amarelado de Inverno. Ela tem a mão fria e esconde-a no meu bolso. Hoje, como não se sente encadeada por nenhuma emoção especial, confessa, pela primeira vez, que me ama. Subitamente, a chuva agride as janelas. Os seus olhos negros olham-me divertidos. Um centro de negrume varrendo as coisas, que tremem e mudam de forma.

- Nessim assusta-me. Mudou muito. Parámos diante das pinturas chinesas do Louvre.

- O sentido do espaço - observou ela com desgosto.

Já não há formas, nem pigmentações, nem lentes, nada senão um abismo por onde o infinito se introduz lentamente na sala: simplesmente um buraco escancarado onde se encontrava o corpo de um tigre, vazando-se na atmosfera preocupada do estúdio. Depois disso, trepámos à sombria escadaria, fomos visitar Sveva, pusemos um disco na grafonola e dançámos. A rapariga, que serve de modelo, conta-nos que tem o coração despedaçado. Pombal abandonou-a depois de um “turbilhão de amor” que durou quase um mês.

O meu amigo foi o primeiro a surpreender-se por ter sido capaz de se ligar a uma mulher durante tanto tempo. Cortou-se quando fazia a barba e agora tem um ar grotesco com o adesivo róseo no lugar do bigode.

- Esta cidade embrutece. Estive quase para casar com ela. É inverosímil. Felizmente a venda caiu no momento oportuno. Observava-a; estava nua diante do espelho. E, de repente, fiquei farto, sem deixar de reconhecer uma espécie de dignidade renascentista nos seios caídos, na pele cor de cera, no ventre afundado e nas patas de campónia. Saltei da cama e disse para mim próprio: “Santo Deus! Ela não passa de um elefante a pedir uma camada de tinta!”

Neste momento, Sveva assoa-se contando a história das extravagantes promessas que Pombal lhe tinha feito.

- Foi uma curiosa e perigosa dedicação por um homem que não toma nada a sério.

(Oiço a voz de Pombal a explicar a coisa: “Era como se a fria e sanguinária caridade da sujeita tivesse devorado os meus centros motores e paralisado o meu sistema nervoso. Graças a Deus, estou de novo livre e posso trabalhar.”)

Ele está a passar maus pedaços no consulado. Rumores a respeito do seu comportamento e das suas opiniões começaram a chegar aos ouvidos do cônsul. Estirado sobre a cama, traça planos de campanha para se corrigir e obter um lugar que lhe dê mais liberdade.

- Decidi conseguir o meu penduricalho. Vou arranjar as coisas de forma a dar algumas recepções. E conto consigo: de princípio, preciso de algumas pessoas modestas para que o meu chefe fique com a impressão de que me pode ajudar a trepar. Claro que o sujeito é tudo quanto há de mais provinciano; conseguiu vir à tona, graças à fortuna da mulher e a ser um terrível manteigueiro. O pior é que sente um complexo de inferioridade diante de mim; a minha família, enfim, não era qualquer coisa! Ainda não decidiu se deve queimar-me ou não; mas já indagou no Quai d'Orsay, para saber se tenho as costas quentes por lá. Evidentemente, depois da morte do meu tio, e depois do meu padrinho, o bispo, se ter envolvido no grande escândalo dos bordéis de Reims, as minhas costas já não estão tão quentes como estavam. Preciso de dar a esse velho gorila a impressão de que ele me protege, a impressão de que preciso ser amparado e aconselhado. Para começar, uma recepçãozinha com uma única celebridade. Raios! Porque me meti eu nesta carreira? Porque diabo não tenho uma fortunazinha pessoal?

Eu revia tudo isto através das lágrimas artificiais de Sveva, depois, sempre de braço dado, voltámos a descer as escadas trespassadas por correntes de ar, e já não pensava nem em Sveva nem em Pombal mas na passagem em que Arnauti diz de Justine: “Há mulheres que pensam por preceitos biológicos e sem o apoio da razão. Que erro fatal entregarmo-nos a mulheres dessa espécie; tudo quanto restará será um pequeno ruído de mastigação, como quando o gato quebra a espinha do rato.”

Os passeios brilham depois da chuva e o pavimento está escorregadio; o ar torna-se denso com a humidade ardentemente desejada pelas árvores dos jardins públicos, as estátuas e outros visitantes. Justine mudou de ideias e caminha devagar, no seu resplandecente vestido de seda sob a capa de aplicações escuras, a cabeça caída. Pára diante da montra de uma loja e segura-me pelo braço para me obrigar a olhar para ela, de frente: “Creio que me vou embora - disse ela numa voz tranquila e enigmática. - Não sei o que se passa com Nessim mas há alguma coisa que não está bem.” E as lágrimas inesperadas, inundam-lhe os olhos e ela geme: “Pela primeira vez na minha vida, tenho medo, e nem sequer sei o que temo.”

 

No decurso dessa segunda Primavera o khamsin foi o pior de que eu guardo memória. Antes do poente, o céu do deserto tornava-se castanho, depois ia escurecendo lentamente, entumecia-se como uma face esbofeteada e fazia explodir as franjas das nuvens, gigantescas oitavas de almagre que se acumulavam sobre o delta como cortinas de cinzas debaixo de um vulcão. A cidade contrai-se como preparando-se para enfrentar uma tempestade. Algumas rajadas de vento trazendo esparsas gotas de chuva são as guardas avançadas da obscuridade que apaga o céu. E, impalpável, invisível, na obscuridade das alcovas com as persianas fechadas, a areia invade tudo, aparece, como por magia, nas roupas há muito fechadas nos armários, insinua-se entre as páginas dos livros, deposita-se sobre os quadros e sobre as colheres. Nas fechaduras e debaixo das unhas. O ar soluça, vibra, seca as mucosas e injecta os olhos de sangue. Nuvens de sangue seco percorrem as ruas como profecias; a areia cai sobre o mar como a poeira sobre os caracóis de uma velha cabeleira suja. As canetas de tinta permanente entopem, os lábios estalam e as lâminas das persianas cobrem-se de uma fina película branca como se fosse neve fresca. Os faluchos fantasmagóricos que deslizam no canal são tripulados por lobisomens com a cabeça envolvida em trapos. De vez em quando, uma rabanada de vento estala como uma chicotada, de cima para baixo, faz turbilhonar toda a cidade, e tem-se a impressão de que as árvores, os minaretes, os monumentos e as pessoas são arrastados no derradeiro turbilhão de um tornado gigantesco, levados pelas areias do deserto de onde provieram, regressando ao imenso nada esculpido das planícies infinitas das dunas...

Não posso negar que nesse momento nos encontrávamos ambos presos de um esgotamento de espírito que nos desesperava e nos enervava, tornando-nos ávidos de descobertas. A culpa anseia sempre pelo seu complemento: o castigo. É só nele que se encontra a satisfação plena. Um oculto desejo de expiação ditava a conduta de Justine, que era mais insensata do que a minha: ou talvez sentíssemos obscuramente que, encadeados como nos encontrávamos um no outro, somente uma profunda revolução, uma catástrofe, seria capaz de nos libertar. Cada dia trazia a sua carga de presságios e de prevenções que nutriam a nossa ávida ansiedade.

Hamid, o Zarolho, revelou-me, certo dia, que um misterioso visitante lhe tinha recomendado que velasse cuidadosamente o seu amo, ameaçado de um grande perigo por uma pessoa altamente colocada. Segundo a descrição que ele me fez, poderia tratar-se de Selim, o secretário de Nessim; mas podia, também, ser outro qualquer dos cinquenta mil habitantes do distrito. A atitude de Nessim para comigo tinha mudado e transformara-se numa espécie de gentileza e solicitude que me apertavam o coração. Tinha abandonado a primitiva reserva. Quando me falava, utilizava expressões de uma grande familiaridade e chegava a pousar a mão sobre o meu braço. Às vezes corava ou então, de repente, subiam-lhe as lágrimas aos olhos e ele voltava a cara para as ocultar. Justine observava tudo isto com uma inquietação que me fazia dó. A humilhação que sentíamos e as censuras que cada um de nós fazia a si próprio, atribuindo-se as culpas daquele desgosto que Nessim estava a sofrer, só serviam para nos aproximar um do outro ainda mais, como cúmplices. Ela falava, uma vez por outra, em se ir embora. Mas nenhum de nós se sentia com forças para dar o primeiro passo decisivo. Sentíamo-nos constrangidos a esperar o desenlace com um sentimento de fatalidade e de cansaço verdadeiramente assustador.

A despeito de todas as prevenções, as nossas imprudências multiplicavam-se. Éramos terrivelmente levianos, e todos os nossos actos eram assinalados por uma horrível indiferença. Nem sequer esperávamos escapar ao que o Destino nos pudesse ter reservado (e agora compreendo até que ponto eu tinha perdido o domínio de mim próprio). A nossa única preocupação era a perspectiva de que o castigo nos separasse, pois desejávamos ardentemente partilhar a expiação! E reparo que nesta sede de martírio o nosso amor mostrava-se no seu aspecto menos vigoroso, no seu aspecto menos pleno.

- Como te deve parecer repugnante - disse-me um dia Justine - esta confusão obscena de ideias contraditórias que existem dentro de mim; esta doentia procura de Deus e a minha absoluta incapacidade para me submeter aos mais ligeiros imperativos morais da minha natureza, como, por exemplo, ser fiel ao homem a quem adoro. Tremo por mim, meu querido. Se eu, simplesmente, pudesse deixar de ser uma judia típica, histérica e maçadora... Se eu pudesse arrancar esta pele judaica...

Durante estes meses, enquanto Melissa tinha ido fazer uma cura na Palestina (Justine tinha-me emprestado o dinheiro), conhecemos diversos momentos de perigo, como, por exemplo, num dia em que eu e Justine conversávamos no grande quarto da casa. Tínhamos estado no mar e acabávamos de tomar um duche para retirar o sal da pele. Justine estava nua, sentada na cama sobre a toalha onde se tinha enxugado. Nessim estava no Cairo onde devia falar na rádio. Debaixo das janelas, as árvores agitavam a ramagem poeirenta no ar húmido de Verão, e ouvíamos o rumor distante que sobe da Rua Fouad.

A voz de Nessim chega-nos através do pequeno rádio da cabeceira, e é a voz de um homem prematuramente envelhecido. As frases vazias estoiram no meio do silêncio e depressa todo o quarto parece ficar cheio de lugares-comuns. Mas à voz não faltava beleza; era a voz de um homem que deliberadamente se tinha despojado de todo o sentimento. Atrás de Justine, a porta da casa de banho permanecia aberta. E, no fundo desta, no meio de uma parede de alvura imaculada, havia uma outra porta que desembocava numa escada de salvação - a casa fora construída em torno de um poço central, de modo que os quartos de banho e as cozinhas se encontravam ligados por uma rede de escadas de ferro como se vê em torno das casas das máquinas de um navio. Subitamente, enquanto a voz continuava a falar e nós continuávamos a escutá-la, ouvimos um ligeiro ruído de passos nos degraus da escada de ferro que conduzia à casa de banho; passos que só poderiam pertencer a Nessim - ou a um dos cinquenta mil habitantes do distrito. Olhando por sobre as espáduas de Justine vi surgir, por detrás do vidro despolido do batente, a cabeça e os ombros de um homem grande e magro, trazendo na cabeça um chapéu de feltro, abatido sobre os olhos. Apareceu como um negativo que se vai revelando lentamente na tina de um fotógrafo. A sombra parou com a mão estendida para a maçaneta da porta. Justine, seguindo a direcção do meu olhar, voltou a cabeça. Passou o braço nu em volta do meu ombro e ficámos, assim, invadidos por uma extraordinária calma interior, numa expectativa febril, retraída, excitante, inclinados para a sombra que se conservara além, entre dois mundos, projectando-se como no écran de um aparelho de radioscopia. Ter-nos-ia encontrado absurdamente imóveis, como se estivéssemos pousando para uma fotografia, com uma expressão onde não havia medo, mas inocência e alívio.

A sombra permaneceu imóvel bastante tempo, como se reflectisse ou escutasse. Finalmente, abanando a cabeça lentamente, afastou-se com um gesto perplexo e foi-se dissolvendo gradualmente no vidro. Quando se voltou, deu-me a impressão de que guardava alguma coisa no bolso direito do casaco. Ouvimos o som dos passos nos degraus de ferro que iam dar ao pátio. Não pronunciámos qualquer palavra mas voltámo-nos para o pequeno posto de rádio onde a voz de Nessim continuava a proferir frases de inesgotável delicadeza. Era impossível encontrar-se em dois lugares ao mesmo tempo. Mas compreendemos tudo quando o locutor informou que o discurso tinha sido previamente gravado. Então, porque não tinha ele aberto a porta?

A verdade é que Nessim tinha sido tomado pela vertiginosa incerteza que nas naturezas pacíficas se segue à decisão de agir. Alguma coisa se tinha acumulado nele, gota a gota, até que o seu peso se tornou intolerável. Tinha consciência da profunda mudança que se havia operado na sua natureza e que acabara por sacudir o longo e impotente torpor apaixonado que até então dirigira os seus actos.

A ideia de agir imediatamente, de uma maneira precisa, com as suas consequências inelutàvelmente boas ou más, apresentara-se-lhe com o aspecto de uma excitante novidade. Sentia-se (disse-mo mais tarde) como um jogador que vai arriscar numa única jogada tudo quanto lhe resta. Que forma tomaria o seu acto? Sentia-se queimado por um tropel de ideias fantásticas e desagradáveis.

Duas correntes maiores tinham confluído nesse desejo de agir: por um lado, o processo informativo que os seus agentes tinham reunido acerca de Justine atingira tais proporções que não era possível continuar a ignorá-lo; por outro lado, era perseguido pela ideia terrível, e nova para ele, ideia que, por qualquer razão, nunca lhe tinha ocorrido antes, de que Justine estava, agora, verdadeiramente apaixonada. Toda a sua personalidade acusava mudanças; pela primeira vez, mostrava-se reflectida, pensativa e cheia dos ecos de uma doçura que uma mulher pode sempre permitir-se conceder ao homem a quem já não ama. Também ele tinha lido as páginas de Arnauti:

“Inicialmente pensei que era melhor deixá-la debater-se na sua selva interior para lhe permitir vir ao meu encontro. Todas as vezes que me sentia torturado pelo pensamento da sua infidelidade tranquilizava-me pensando que ela não era mulher para se entregar ao prazer pelo prazer, que, pelo contrário, ela procurava o sofrimento para se descobrir a si própria e para me encontrar a mim. Acreditava que se ela encontrasse um homem capaz de a libertar se tornaria, então, acessível a todos os homens, e a mim também, que mais do que nenhum outro desejava possuí-la. Mas, quando comecei a vê-la derreter-se como a neve sob os beijos do sol, assaltou-me o terrível pensamento de que aquele que conseguisse vencer a inibição a conservaria para sempre, pois que a paz que lhe desse era justamente aquilo que ela freneticamente buscava, através dos nossos corpos e dos nossos destinos. Pela primeira vez, o ciúme, multiplicado pelo medo, conseguiu dominar-me.”

Pareceu-me sempre fantástico que, mesmo então, ele pensasse em toda a gente menos em mim. A despeito da soma esmagadora de provas nunca lhe ocorreu a ideia de suspeitar de mim. Não é o amor que é cego, é o ciúme. Levou muito tempo até se decidir a dar crédito à enorme massa de provas que os seus agentes tinham reunido a nosso respeito: os nossos encontros, os nossos menores gestos. Mas os factos impunham-se com tal evidência que não havia a menor possibilidade de erro. O problema, agora, era saber como se havia de desembaraçar de mim. “Não quero dizer desembaraçar-me, simplesmente, de si como ser vivo: você não passava de uma imagem que me eclipsava a luz. Às vezes imaginava-o morto, ou muito longe de nós. Não sabia. Era essa incerteza o que mais me enervava.”

Juntamente com estas preocupações, havia os problemas póstumos que Arnauti não fora capaz de resolver e que Nessim tinha estudado durante anos com uma curiosidade oriental. Encontrava-se na pista do homem da banda negra, mais perto dele do que qualquer de nós tinha estado. Era outra evidência de que ele não sabia que partido tomar. Se Justine se preparava para o abandonar, de que servia vingar-se do ente misterioso? Por outro lado, se eu ia tomar o lugar deixado vago pelo primeiro, de que servia eliminar-me?

Perguntei, inesperadamente, a Selim se tinha sido ele quem viera a minha casa prevenir Hamid. Não respondeu directamente mas baixou a cabeça e murmurou:

- O meu amo não se encontra neste momento no seu estado normal.

Entretanto, os meus assuntos pessoais tinham tomado um rumo inesperado e absurdo. Certa noite, ouvi bater rudemente à minha porta; fui abrir e encontrei-me na presença de um elegante oficial do Exército egípcio, botas radiantes, turbante impecável, e debaixo do braço um impressionante enxota-moscas de cabo de marfim. Tinha o aspecto solene e importante de um cretino formado por Cambridge. Hamid serviu-lhe café forte e licor e ele anunciou-me que um amigo altamente colocado desejava falar-me. Pensei imediatamente em Nessim, mas esse amigo, informou-me o oficial, era um funcionário inglês. A missão que o trouxera era confidencial. Quereria eu acompanhá-lo até junto do meu amigo?

Sentia-me pouco tranquilo. Essa Alexandria de aparência tão calma não era um lugar muito seguro para os Europeus. Ainda na semana anterior Pombal me contara a trágica aventura do vice-cônsul da Suécia, cujo automóvel tinha sofrido uma avaria na estrada de Matrugh. Deixando a mulher dentro do carro, dirigiu-se à aldeia mais próxima para telefonar ao consulado pedindo que lhe mandassem outra viatura. Quando regressou, encontrou a mulher sentada no mesmo lugar onde a deixara - mas decapitada. A Polícia, alertada, passou toda a zona a pente fino. Alguns beduínos que acampavam nas redondezas foram particularmente interrogados. Enquanto eles protestavam a sua inocência, afirmando que nada tinham com o assunto, do avental de uma das mulheres soltou-se a cabeça da sueca. Tinham tentado arrancar os dentes de ouro que tão mal ficavam ao sorriso voluntarioso da dama. Este género de ocorrências não era, infelizmente, bastante raro para que uma pessoa sentisse coragem para se aventurar de noite em certos bairros da cidade, e não foi, portanto, de ânimo ligeiro que eu segui o oficial numa viatura militar, que levava ao volante um soldado uniformizado, principalmente quando notei que nos dirigíamos para os bairros mais mal afamados da cidade. Sabia que não servia de nada fazer perguntas e não queria trair o receio que sentia. Capitulei, acendi um cigarro e olhei para fora, vendo desfilar a extensa fita da Corniche que se ia envolvendo nas trevas à nossa passagem.

O carro parou e o soldado conduziu-me, a pé, através de um labirinto de ruelas e de corredores na vizinhança da Rua das Irmãs. Se o passeio tivesse o objectivo de me despistar, tinha-o alcançado imediatamente. O soldado caminhava com decisão, cantarolando em voz baixa. Finalmente, desembocámos numa rua de arrabalde cheia de lojas e parámos diante de um portão de madeira esculpida que o meu guia empurrou depois de tocar uma sineta. Um pátio com uma palmeira raquítica, atravessado por uma vereda iluminada por um par de pálidas lanternas, pousadas no saibro. Subimos uma escada no cimo da qual brilhava uma lâmpada, suspensa diante de uma grande porta branca. O soldado bateu, entrou e fez a continência. Segui-o, entrando numa grande sala confortável e bem iluminada, com o soalho encerado coberto por um belo tapete da Arábia. Num canto, atrás de uma imponente secretária, com um ar de quem se sente pouco à vontade, estava sentado Scobie, com um ar grave e compenetrado. Acolheu-me com um sorriso que não conseguiu, todavia, apagar o dignificante franzir de sobrolho.

- Santo Deus! - exclamei.

O velho pirata soltou uma gargalhadinha educada:

- Enfim, caro amigo, enfim.

No entanto, não se levantou, afundando-se na sua incómoda cadeira de espaldar alto, turbante na cabeça, enxota-moscas sobre os joelhos, todo ele a compor um aspecto impressionante. Notei a existência de uma estrela suplementar nas platinas, prova Deus sabe de que acréscimo de prestígio e poder.

- Sente-se, meu caro amigo - convidou com um gesto de mão.

O soldado foi despedido e afastou-se com uma careta. Tive a impressão de que Scobie não se sentia muito à vontade neste ambiente opulento. Dir-se-ia que se encontrava na defensiva.

- Pedi-lhes que o fossem buscar - disse-me ele baixando a voz para um tom teatral - por uma razão muito particular.

Havia uma pilha de pastas de cartolina verde sobre a secretária e um bule com um ar curiosamente impressionante de coisa sem alma. Sentei-me.

Scobie ergueu-se vivamente e abriu a porta. Ninguém! Abriu a janela: ninguém lá fora! Colocou o bule ao lado do telefone e tornou a sentar-se. Então, debruçando-se para mim e falando com precaução, rolando o olho de vidro com ares de conspirador, recomendou-me:

- Não diga nada a ninguém, meu amigo. Jure-me que guardará segredo.

Jurei.

- Pois bem: nomearam-me chefe do Serviço Secreto.

As palavras silvavam entre os seus dentes. Abanei a cabeça estupefacto. Scobie soltou um grande suspiro como se acabasse de pousar um fardo incómodo e continuou:

- Meu caro, estamos em vésperas de guerra. Informações secretas. (Apontou o comprido indicador em direcção à cabeça.) Vai haver guerra. O inimigo trabalha dia e noite, e - sabe uma coisa? - ele encontra-se entre nós.

Não havia resposta para aquilo. Tudo quanto conseguia fazer era maravilhar-me perante aquele novo Scobie que parecia saído de uma revista americana de aventuras.

- Você pode ajudar-nos a desmascará-lo - continuou num tom autoritário. - Precisamos de si, você tem que entrar para o nosso serviço.

A coisa começava a ter um aspecto mais interessante. Pedi pormenores.

- A organização mais perigosa é aqui em Alexandria - lançou o velho com um ar de triunfo - e você encontra-se no centro dela. Todos os seus amigos...

Diante do sobrolho franzido e do olho de vidro que tremia de excitação, a figura de Nessim interpôs-se imediatamente num relâmpago de intuição; revi-o diante da sua grande secretária tubular, olhando para o telefone que tocava, enquanto gotas de suor lhe humedeciam a testa. Esperava uma mensagem a respeito de Justine - uma nova punhalada. Scobie sacudiu a cabeça.

- Ele não é o mais importante. Claro que faz parte do grupo. O chefe chama-se Baltasar. Repare no que a censura descobriu.

Retirou uma carta de dentro de uma das pastas e passou-ma. Baltasar tem uma letra bonita, e não havia a menor dúvida de que esta carta fora escrita por ele; mas não pude deixar de sorrir verificando que se tratava de uma pequena mensagem em boustrophédon, uma quadrícula onde em cada quadrado havia uma letra grega.

- O sujeito teve o atrevimento de mandá-la pelo correio. Examinando o diagrama tentava recordar-me do pouco que o meu amigo me tinha ensinado sobre a escrita secreta.

- É um sistema baseado na nona potência. Não consegui decifrá-la - acrescentou Scobie suspirando. - Eles reúnem-se regularmente para confrontar as informações que recebem. Sabemos isso de fonte segura.

Conservava a carta entre os dedos e parecia-me escutar a voz de Baltasar dizendo-me: “O objectivo do pensador é fazer pensar; o do santo é calar o que descobriu.”

Scobie, espapaçado na cadeira, não ocultava a sua satisfação. Tinha o papo dilatado como um pombo. Retirou o turbante, considerou-o por um momento com condescendência e acendeu uma lamparina de álcool debaixo do bule. Coçando o crânio lavrado com os seus dedos de esqueleto, prosseguiu:

- Não conseguimos decifrar o código. Todos os especialistas tentaram, mesmo os mais notáveis matemáticos da Universidade. Nada a fazer, meu velho.

Isso não me surpreendia. Deixei cair a carta sobre a secretária e voltei de novo as minhas atenções para Scobie.

- É aí que você entra - explicou ele com uma careta. - Se quiser, bem entendido. Precisamos que decifre o código. Não deixaremos de ser generosos. Que lhe parece?

Que podia eu dizer? Era demasiado fácil para desperdiçar a oportunidade. Demais, o meu trabalho na escola tinha decaído de tal maneira nos últimos meses que estava certo de que no fim do ano lectivo não me renovariam o contrato. Chegava sempre atrasado de qualquer encontro com Justine, não revia as provas dos alunos e mostrava-me cada vez mais irritável com os meus colegas e superiores. Era uma oportunidade inesperada de conseguir a independência. Pareceu-me ouvir Justine dizendo “O nosso amor assemelha-se a uma citação terrivelmente inexacta de um rifão popular”, no momento em que, inclinando-me de novo, fiz um sinal de concordância. Scobie soltou um suspiro de alívio e reentrou, com manifesto prazer, na sua pele de pirata. Confiou a repartição a um anónimo Mustafá que aparentemente se encontrava em qualquer ponto do telefone negro - enquanto falava, Scobie olhava sem cessar para o bocal como se estivesse a fitar um olho humano. Deixámos juntos o edifício e um carro da Polícia levou-nos,em direcção ao mar. Os pormenores do meu novo emprego podiam ser discutidos diante da garrafa de aguardente que ele tinha em casa à nossa espera.

Saltámos na Corniche e percorremos a pé o resto do caminho, sob a luz intensa da lua cheia, vendo a cidade dissolver-se e reintegrar-se por detrás da desfilada lenta de uma bruma preguiçosa, carregada com toda a inércia do deserto próximo e das ricas águas esverdeadas do delta que o embebiam até aos ossos, pondo as suas formas em relevo. Scobie tagarelava sem nexo, disto e daquilo. Recordo-me de ele se lastimar, por ter ficado órfão muito novo. Os pais tinham morrido juntos em circunstâncias dramáticas que lhe davam motivo para amplas reflexões:

- Meu pai foi um pioneiro do automobilismo, meu caro. Corridas em estrada, a vinte milhas por hora, está a ver o género. Tinha o seu próprio carro. Ainda o vejo, atrás do volante, com a sua grande bigodeira. Coronel Scobie, cruz de guerra. Estava nos lanceiros. A minha mãe sentada a seu lado. Ela nunca o abandonava, nem mesmo durante as corridas. Era o seu mecânico. Os jornais fotografavam-nos sempre juntos, à partida, com as cabeças escondidas nos enormes véus pára-poeiras - como dois apicultores... Todos os pioneiros da época usavam esses véus.

Mas os véus foram fatídicos. Na velha corrida Londres-Brighton o véu do pai prendera-se no eixo dianteiro do carro em que iam. Ele tinha sido atirado para a estrada enquanto a companheira ia esmagar a cabeça de encontro a uma árvore.

- A única consolação que me resta é pensar que era, justamente, essa espécie de morte que ele desejava. Iam adiante na corrida, com uma vantagem de meio quilómetro.

Sempre tive uma certa predilecção por mortes grotescas e esforçava-me por não rir sempre que Scobie me contava esta história rolando o olho de vidro de uma maneira sinistra. Mas, enquanto o escutava, ia pensando noutras coisas, reflectindo sobre o novo trabalho em que me ia ocupar, considerando, sobretudo, a liberdade que me proporcionava. Nessa mesma noite, um pouco mais tarde, Justine devia encontrar-se comigo perto de Montaza - o grande automóvel zumbindo como uma falena debaixo da frescura das palmeiras que marginam a estrada negra. Que diria ela? Naturalmente ficaria satisfeita por eu me poder libertar das obrigações do meu actual emprego. Mas uma parte dela havia de contrair-se com a ideia de que esta liberdade nos dava ocasião para mais frequentes e longos encontros, para mais infidelidades, para nos entregarmos, mais do que nunca, aos nossos juízes. Ainda outro paradoxo do amor: justamente aquilo que nos tinha aproximado - o boustrophédon - ia agora separar-nos para sempre, pelo menos essas partes de nós próprios que se nutriam com as imagens apaixonadas do outro concebidas no espírito.

“No entretanto - como dizia Nessim com a sua voz doce toda impregnada daquela sabedoria, daquela medida e daquele bom-senso que vibra na voz dos que amaram verdadeiramente sem serem retribuídos -, tinha-se apoderado de mim uma febre e uma vertigem que não podiam ser apaziguadas senão por um acto cuja natureza não conseguia adivinhar. Extraordinários acessos de confiança eram seguidos de depressões tão profundas que pensava nunca mais ser capaz de voltar à superfície. Com o vago sentimento de que me esperava uma rude prova - como um atleta que se prepara para um jogo decisivo - comecei a aprender esgrima e a treinar-me à pistola. Estudei a composição e os efeitos dos venenos num manual de toxicologia que o Dr. Fouad Bey me emprestou.”

Nessim tinha começado a nutrir sentimentos que frustravam qualquer análise. Os períodos de embriaguez eram seguidos por longos momentos em que sentia pesar sobre si, como se fosse pela primeira vez, todo o peso da sua solidão: uma angústia interior que nada conseguia apaziguar - nem a pintura nem o trabalho. Ruminava incessantemente recordações da sua infância tão rica de promessas: a tranquila casa de sua mãe à sombra das palmeiras de Aboukir; os inquietos reflexos das águas nos alicerces das antigas fortalezas, todo um edifício de emoções construído sobre as relíquias de imagens mortas. Agarrava-se às suas recordações com um terror e uma lucidez que até então não tinha experimentado. E, constantemente, por detrás da tela da depressão nervosa - visto que a acção incompleta que meditava lhe dava a mesma sensação de um coitus interruptus - dissimulava-se o germe de uma exaltação teimosa e desorientada. Era como se se sentisse impelido cada vez mais para... para quê, afinal? Não teria sabido dizê-lo; mas, nessa ocasião, tomava-o o seu antigo terror da loucura, abalando o seu equilíbrio físico, de tal modo que era acometido de vertigens que o obrigavam a caminhar às apalpadelas, como um cego, à procura de qualquer objecto em que se pudesse sentar, cadeira ou sofá. Sentava-se então, arquejante, sentindo o suor escorrer-lhe pelo rosto; mas, ao mesmo tempo, confortava-o a ideia de que aqueles que o podiam ver não adivinhavam a sua luta interior. Surpreendia-se, também, a proferir em voz alta as frases que o seu espírito consciente se recusava a ouvir. “Bom! - ouviu-o ela um dia pronunciar diante do espelho -, estás a tornar-te neurasténico!” E mais tarde, quando saiu sob um céu palpitante de estrelas, no seu elegante fato de noite, Selim, ao volante, ouviu-o acrescentar: “Creio que esta raposa judia me devorou a alma.”

De outras vezes, alarmava-se até ao ponto de procurar, se não a ajuda, pelo menos o alívio que lhe podia proporcionar o contacto com as pessoas: um médico que lhe prescrevia um tónico que ele nem sequer pensava em tomar, por exemplo. Um bando de carmelitas, tonsuradas como mandris, atravessando a Rua Nebi Daniel, incitou-o a renovar as relações com o padre Paulo, que não via há já bastante tempo, e que lhe parecera, outrora, bastante feliz, abrigado na sua religião como uma navalha no estojo. Contudo, as consolações que esse bruto feliz e sem imaginação lhe podia oferecer davam-lhe náuseas.

Uma noite, ajoelhou-se aos pés da cama - coisa que nunca mais fizera desde os doze anos - com a intenção de rezar. Ficou muito tempo nessa postura, o espírito vazio, incapaz de formar uma só palavra, um só pensamento. Estava paralisado, atingido por uma pavorosa inibição mental. Deixou-se ficar assim até se sentir a ponto de sufocar. Então, saltou para a cama e cobriu a cabeça com o lençol, proferindo, a meia voz, súplicas e obscenidades, surpreendendo-se simultaneamente por poder abrigar tais horrores nas profundezas do seu ser.

Contudo, exteriormente, não se viam vestígios destas lutas; as suas palavras eram sempre secas e comedidas, a despeito da febre que fervia por debaixo delas. O médico felicitava-o pela excelência dos seus reflexos e assegurava-lhe que na sua urina não se encontravam vestígios de albumina. Somente uma ocasional dor de cabeça demonstrava que ele sofria do petit mal - ou de alguma dessas mil indisposições que só os ricos e os ociosos podem adquirir.

Mas aceitava o sofrimento enquanto o pudesse dominar na sua consciência. O que o apavorava, porém, era a sensação de um abandono total - e não ignorava que não podia confessar esse pavor aos seus amigos ou médicos, pois se apressariam a descobrir nas anomalias do seu comportamento os sintomas de uma afecção orgânica.

Tentou febrilmente voltar à pintura, mas sem sucesso. A sua lucidez actuava como um ácido que parecia corroer a própria substância da pintura, e as suas telas não passavam de pobres coisas sem vida. Sempre que pegava num pincel, tinha a impressão de que uma mão invisível lhe segurava a manga, roubando-lhe toda a liberdade, toda a fluidez de movimentos.

Assaltado de todos os lados por este ameaçador crepúsculo dos sentimentos, voltou-se uma vez mais, numa vã tentativa de recuperar o seu equilíbrio e o seu sangue-frio, para a perfeição do Palácio de Verão - como se chamava, por graça, ao pequeno grupo de pavilhões árabes de Abou El Suir. Certo dia, havia já muito tempo, no decurso de uma cavalgada a Benghazi, ao longo da costa deserta, tinha descoberto numa elevação de terreno, a menos de uma milha do mar, uma fonte que brotava fresquíssima no meio da areia, indo a água perder-se um pouco mais longe, do lado do mar, absorvida pelas dunas. Aí os Beduínos, impelidos pela sede inata de verdura, que dormita no coração de todos os verdadeiros amantes do deserto, tinham plantado uma palmeira e uma figueira que se haviam enraizado fortemente no subsolo humedecido pela fonte. Detendo o cavalo à sombra das árvores, Nessim ficou durante muito tempo a contemplar o antigo forte árabe, cujas ameias se apercebiam ao longe, e a longa cicatriz branca da praia deserta onde, sem cessar, dia e noite, as vagas vinham quebrar-se. As dunas erguiam-se em volta e formavam um extenso vale que a sua imaginação já via povoado de palmeiras murmurantes e de figueiras verdes oferecendo, como sempre sucede na vizinhança de águas correntes, uma sombra tão espessa que envolve a cabeça das pessoas como uma toalha húmida. Nessim deixara amadurecer este sonho durante um ano, regressando ao local em diversas épocas para poder estudá-lo convenientemente, até ao dia em que se decidiu a adquiri-lo. Não dera parte do seu projecto a ninguém; propunha-se construir uma casa de campo para Justine - um oásis em miniatura -, onde ela pudesse alojar os seus três cavalos árabes e passar o Verão tomando banhos de mar e fazendo correrias pelo deserto.

Abriram um poço, e a água, agora, subia numa cisterna de mármore que formava o centro do pátio pavimentado de argila vermelha, em torno do qual se erguiam a casa e as cavalariças. Com água, surgiu a verdura; a sombra engendrou as formas abstractas e agressivas dos cactos e a exuberância espessa do milheiral. Conseguiu-se, mesmo, animar um poio de melões, que estavam ali exilados da Pérsia. Uma cavalariça única, no estilo severo dos Árabes, voltava as costas aos ventos do alto mar, enquanto se multiplicava em forma de L uma série de celeiros e de pequenos salões de janelas gradeadas.

Dois ou três quartos pequenos, não maiores que celas de mosteiro, deitavam, directamente, para uma bela sala central de tecto baixo, que servia de salão e refeitório; ao fundo, uma chaminé maciça, branca, decorada com motivos e cerâmicas árabes, e, em oposição, uma mesa e bancos de pedra lembravam os refeitórios dos antigos monges do deserto. Ricos tapetes da Pérsia e arcas maravilhosamente trabalhadas desmentiam, porém, a severidade do aposento. Era tudo daquela simplicidade organizada em que se reconhece a mais elevada expressão do bom gosto. Sobre os muros brancos e severos, entre as janelas gradeadas que descobriam alguns aspectos magníficos da praia ou do deserto, alguns trofeus de caça ou de meditação: um pendão de lança árabe, uma mandala búdica, algumas azagaias exiladas, uma trompa, ainda usada na caça à lebre, uma bandeira de iate. Nenhuns livros, além de um velho Corão de marfim, com fechos de metal velho, mas diversos baralhos de cartas espalhados pelos peitoris das janelas faziam companhia a um grande samovar, sendo ambas as coisas um complemento comum do chá.

Os trabalhos avançaram lentamente e com grandes hesitações, mas quando Nessim, incapaz de conservar por mais tempo o segredo, levou Justine a visitar a casa, ela, sem poder conter as lágrimas, desatou a correr de sala em sala, prendendo-se às janelas para contemplar, aqui, a imagem de um mar de esmeralda derramando-se sobre a areia, além, uma paisagem atormentada de dunas que, para oriente, se projectavam nas brumas do céu. Depois, sentou-se diante de um fogo de pinhas, como era seu hábito dilecto, e ficou a escutar as pulsações do mar no litoral, o nitrir dos cavalos nas novas cavalariças do outro lado do pátio. Estava-se no fim do Outono, e, na sombra densa que caía, os pirilampos bailavam satisfeitos por descobrir naquele oásis outros seres vivos a quem podiam acompanhar.

Competia, agora, a Justine concluir o que Nessim tinha começado. O pequeno terraço debaixo das palmeiras foi prolongado para oriente e rodeado de muros para abrigá-lo das tempestades de areia que, a despeito dessa precaução, o cobriam durante o Inverno com uma camada que às vezes chegava a atingir os vinte centímetros de espessura. Um renque de zimbros forneceu uma primeira camada de húmus, que alimentaria mais tarde os primeiros silvados e as árvores de maior porte.

Para agradecer ao marido tantas atenções, mandou construir num ângulo da residência um pequeno observatório onde instalou um telescópio onde Nessim se poderia entregar ao seu passatempo favorito - a astronomia. Nessim passava ali as noites inteiras durante o Inverno, vestido com a sua velha abba cor de ferrugem, a contemplar gravemente as estrelas, compulsando as suas tabelas de cálculo como um astrólogo da Idade Média. Os amigos iam lá também contemplar a Lua, ou mesmo, abaixando a luneta, as nuvens de pérolas, que, de longe, a cidade parecia exalar constantemente.

Era necessário contratar um guarda, e o problema ficou resolvido quando Panayotis veio instalar-se num pequeno compartimento cerca das cavalariças. Este velhote, com barba de padre e olhos pequeninos, tinha sido durante vinte anos professor em Damanhur. Depois, tinha tomado ordens e passara nove anos no Mosteiro de Santa Catarina do Sinai. O que o trouxera a este oásis não podia ele dizê-lo porque, num determinado momento da sua vida, aparentemente sem história, tinham-lhe cortado a língua. Através de sinais para responder às perguntas que lhe faziam, compreendeu-se que ia numa peregrinação a pé ao pequeno santuário de S. Menas, situado a ocidente, quando descobriu o oásis. Em todo o caso, a sua decisão de lá se instalar não parecia fortuita. Era, exactamente, o tipo de homem que Nessim necessitava, e, em troca de um modesto salário, ele passaria ali o ano inteiro, desempenhando os cargos de jardineiro e de guarda. Era um velhinho esperto, activo como uma aranha, terrivelmente ciumento de todas as coisas verdes que deviam a vida aos seus cuidados e ao seu engenho. Foi ele quem fez medrar o meloal e quem persuadiu uma vinha a enroscar-se nos umbrais da porta principal. O seu riso era um gorgolejar inarticulado, e quando lhe dirigiam a palavra ele escondia o rosto, por timidez, debaixo da manga remendada da sua velha sotaina de sacristão. A sua loquacidade grega, não podendo expandir-se pelas vias normais, refluía inteiramente nos olhos que se agitavam e brilhavam, chispando à menor observação ou pergunta. Que mais se poderia exigir da vida - pareciam eles dizer -, do que este oásis à beira-mar?

Com efeito, que mais se poderia pedir? Era a pergunta que Nessim repetia a si próprio, incansavelmente, enquanto o automóvel saltava na pista do deserto, conduzido pela mão hábil de Selim, impassível, como uma ave de rapina, por detrás do volante. Algumas milhas antes do forte árabe, a estrada afasta-se do litoral e inflecte para o interior. Para alcançar o oásis é necessário percorrer uma caravana de dunas esbranquiçadas, semelhantes a ovos batidos em neve, onde cintilam milhões de fragmentos de mica. De cada vez que o carro ameaça atolar-se, acaba por encontrar apoio numa placa daquela argila friável que forma a espinha dorsal de todo o promontório, e era uma inenarrável alegria fender esse mar de uma alvura resplandecente com um trenó abrindo sulcos na estepe gelada.

Havia muito tempo que Nessim pensava - recebera a sugestão de Pursewarden - recompensar a dedicação de Panayotis da única maneira que o velho poderia compreender e aceitar: nesse dia, levava na sua pasta uma dispensa do patriarca de Alexandria para a construção de uma pequena capela dedicada a Santo André. A escolha do santo, como sempre sucede em casos análogos, tinha sido meramente ocasional. Clea tinha descoberto um ícone do século XVIII de Santo André, muito belo, num antiquário do Cairo. Tinha-o oferecido a Justine como prenda de aniversário.

Foram, portanto, estes tesouros que ele levou ao velhote. Foi necessário certo tempo para lhe fazer compreender do que se tratava; percebia muito mal o árabe e Nessim não falava grego. Finalmente, depois de ter lido a dispensa do patriarca, ergueu a cabeça e juntou as mãos sorrindo beatificamente; a sua emoção era tão forte que mal tinha força nas pernas para suster-se de pé. Agora compreendia tudo. Sabia que Nessim devia ter consagrado um tempo considerável para conseguir obter a dispensa. Tomou as mãos do amo e conservou-as um momento entre as suas, soltando sons inarticulados. Nessim observava esta manifestação de gratidão com uma curiosidade enternecida, mesclada de ciúme. Do mais profundo da câmara escura dos seus pensamentos, ele estudava o velho bedel, surpreendendo-o que um acontecimento tão simples pudesse encher de tanta felicidade o coração de um homem, dando-lhe uma tamanha paz de espírito.

“Construir aqui qualquer coisa, pelas minhas próprias mãos, apaziguará, por fim, a minha angústia”, pensava Nessim, e considerava as mãos calejadas do velho grego com admiração e inveja, pensando em todos os trabalhos que elas tinham realizado, em todos os pensamentos dolorosos que elas lhe tinham poupado. Lia nessas mãos todos os anos de sã actividade física que tinham mantido subjugada a imaginação, que tinham afastado a reflexão. E, contudo... quem sabe? Esses longos anos de noviciado; os anos passados no mosteiro; e agora a dilatada solidão do Inverno que encerra o oásis, quando toda a companhia possível era o incessante pulsar do mar e o gemido das palmeiras... Há sempre lugar para as crises espirituais, mesmo que nos dediquemos a misturar o cimento e a areia num almofariz de madeira.

Mas nem mesmo aqui lhe seria concedida a paz. Justine, com aquela exasperante solicitude culposa que sentia para com o homem a quem amava e que, contudo, tentava destruir, apareceu com o seu trio de cavalos árabes e montou no oásis o seu quartel de Inverno. Demónio fantástico, pleno de vida, em constante movimento. E eu, torturado pela sua ausência, logo lhe escrevi, pedindo-lhe que regressasse ou que persuadisse Nessim a convidar-me para o Palácio de Yefão. Selim veio buscar-me sem demora, para me conduzir ao oásis, fechado num silêncio compreensivo onde não se permitia deixar escapar o menor indício de desprezo.

Nessim recebeu-me com manifestações de simpatia estudadas: sentia-se feliz por nos ter de novo reunidos, o que lhe dava oportunidade de se libertar do edifício imaginário dos relatórios dos seus espiões e de julgar por si próprio se nós... como hei-de dizer? Será lícito empregar a palavra “amor”? Esta palavra implica uma plenitude que a minha amante não possuía; Justine assemelhava-se a uma deusa antiga, na medida em que os seus atributos proliferavam e se multiplicavam através da sua vida, sem jamais se condensarem numa qualidade de coração, adorável ou odiosa. “Posse” é, pelo contrário, excessivamente violento; éramos seres humanos e não caricaturas das irmãs Brontë. Ao inglês faltam subtilezas idiomáticas que exprimam (como sucede no grego) o amor-paixão.

Além disto, e como eu ignorava o caminho que os pensamentos de Nessim iam tomando, sentia-me capaz de apaziguar os seus mais íntimos temores, dizendo-lhe que Justine procurava, simplesmente, prosseguir comigo a mesma obcecante tarefa que já tinha prosseguido nas páginas de Arnauti. Ela criava um desejo da vontade que, nutrindo-se secretamente de si próprio, não podia senão apagar-se e extinguir-se. Eu só tinha uma semiconsciência de tudo isso: foi aí que descobri a verdadeira fraqueza da nossa união. Não se fundava em nenhum abandono da vontade. E, contudo, como ela parecia viver magicamente - uma amante tão completa e encantadora, que me sentia incapaz de compreender como antes dela pudera amar e sentir satisfação amando.

Ao mesmo tempo, surpreendia-me descobrir que a parte de mim que permanecia ligada a Melissa vivia a sua existência autónoma, pertencendo-lhe, tranquila e seguramente, embora não desejasse o seu regresso. As cartas que ela me escrevia eram alegres e plenas e sem qualquer sombra de censura ou de lamento; em tudo quanto ela escrevia, eu descobria um crescendo de confiança em si própria. Ela descrevia o sanatório com humor e perspicácia, falando nos médicos e nos outros doentes nos termos que usaria um visitante ocasional. Escrevendo, parecia ter amadurecido, ter-se tornado outra mulher. Eu respondia-lhe regularmente, mas era difícil disfarçar a confusão que reinava na minha vida; era igualmente impossível aludir à minha obcecação por Justine - movíamo-nos num mundo diferente, de flores, livros e ideias, um mundo completamente estranho para Melissa. Não era por falta de ternura que para ela se tinham fechado as portas do círculo em que nós vivíamos. “A pobreza exclui - disse um dia Justine - e a riqueza isola.” Mas ela tinha tido acesso aos dois mundos, o mundo da necessidade e o mundo da dissipação, e por isso tinha a liberdade de viver naturalmente.

Mas, pelo menos, aqui no oásis, tínhamos a ilusão de uma beatitude que nos escapava na cidade. Levantávamo-nos cedo e trabalhávamos na capela até o sol se tornar incómodo, quando Nessim se retirava para o pequeno observatório e eu e Justine cavalgávamos as macias dunas em direcção ao mar para nos banharmos e conversarmos. A cerca de uma milha do oásis, tinha-se formado uma pequena laguna pouco profunda, separada do mar por uma comprida duna em forma de alfanje; uma cabana de caniços, coberta de folhas, permitia o repouso à sombra e servia para mudar os fatos de banho. Era ali que passávamos juntos a maior parte do dia. Tínhamos sabido recentemente da morte de Pursewarden e falávamos dele, recordo-me que com entusiasmo e um pouco assustados, como se tentássemos pela primeira vez avaliar uma pessoa cujas qualidades e defeitos tinham escondido a sua verdadeira natureza. Dir-se-ia que, morrendo, tinha abandonado a sua personalidade terrestre para tomar a forma e as proporções grandiosas dos seus escritos, os quais ganhavam cada vez mais relevo à medida que o homem se esfumava. A morte fornecia um novo critério e conferia uma nova grandeza intelectual ao homem enfadonho, brilhante, incapaz e às vezes fastidioso que nós tínhamos conhecido. Nunca mais o poderíamos ver senão através do espelho deformador da anedota ou do prisma traiçoeiro da memória. Mais tarde, ouvi pessoas perguntarem-me se Pursewarden era alto ou baixo e se usava bigode: eram estas coisas banais as mais difíceis de recordar e nunca tive a certeza de as minhas respostas corresponderem à realidade. Entre os que o tinham conhecido bem, uns afirmavam-me que os olhos dele eram verdes, outros, que eram castanhos... Era surpreendente descobrir com que facilidade a imagem humana se dissolve, dando lugar à imagem mítica que ele próprio tinha inteiramente forjado no seu tríptico Deus É Um Humorista.

Aqui, nestes dias de um sol encegueirante, falámos dele como pessoas ansiosas por capturar e fixar a memória do homem antes dela se perder inteiramente no mito que crescia; falámos dele, confirmando, negando e comparando, como agentes secretos ensaiando um papel, porque, no final das contas, se o mito pertencia ao mundo, o ser humano tinha-nos pertencido. Foi então que soube ter ele dito a Justine certa noite em que viam Melissa dançar: “Se eu tivesse qualquer esperança de ser bem sucedido propunha-lhe imediatamente casamento. Mas ela é tão ignorante e tem o espírito tão deformado pela pobreza que recusaria, pensando tratar-se de um gracejo.”

Mas, passo a passo, por trás de nós, Nessim deixava-se arrastar pelos seus terrores. Certo dia, encontrei escrita na areia, com um pau, a palavra “atenção”. Escrita em grego, sugeria a mão de Panayotis, mas Selim também conhecia bem o grego.

Este primeiro aviso foi reforçado por um incidente ocorrido logo a seguir, quando, precisando de uma folha de papel para escrever a Melissa, entrei no pequeno observatório de Nessim e rebusquei a sua escrivaninha à procura do que necessitava. Reparei, então, que o telescópio não apontava para o firmamento, mas na direcção das dunas, naquela direcção em que se podia descortinar, de noite, o estranho nevoeiro que a cidade exalava. Isso não tinha, em si, nada de extraordinário, porque nos sucedia frequentemente vir, assim, contemplar os minaretes e as brumas de Alexandria. Instalando-me no pequeno tripé e colando os olhos à luneta, tentei focar a imagem fluida e trémula. Qual não foi a minha surpresa vendo aparecer, em vez dos cimos da cidade, conforme esperava, a pequena cabana onde, menos de uma hora antes, eu e Justine, nos braços um do outro, falávamos de Purse-warden! Sobre a areia havia uma pequena mancha brilhante: a cobertura envernizada de uma colecção de bolso do Rei Lear que eu tinha levado comigo e esquecido na praia; se a imagem não estivesse tão trémula, garanto que mesmo de onde me encontrava seria capaz de ler o título na capa. Fiquei esquecido a olhar em frente, quase sem respirar, sentindo o medo apoderar-se de mim. Era como se, de repente, num quarto escuro e familiar onde nos julgamos sós, sentíssemos a mão de alguém abater-se sobre a nossa espádua. Peguei no papel e na tinta e, na ponta dos pés, deixei o observatório. Fui sentar-me numa cadeira do terraço, diante do mar, tentando pensar no que havia de dizer a Melissa.

Nesse Outono, quando levantámos o campo e regressámos à cidade para passar o Inverno, nada tinha sido decidido; o sentimento de crise tinha mesmo diminuído. Estávamos todos em suspenso, por assim dizer, na solução turva da vida quotidiana onde o futuro acabava por se cristalizar, qualquer que fosse o drama que nos esperasse. Fui convocado para inaugurar as minhas novas actividades com Scobie e pus-me a estudar desesperadamente o boustrophedon em que Baltasar continuava a iniciar-me entre duas partidas de damas. Devo reconhecer que iludi a minha consciência tentando, para começar, revelar a verdade aos serviços de Scobie - ou seja, que a Cabala era uma seita inofensiva que se dedicava à filosofia hermética- e que as suas actividades nada tinham que ver com a espionagem. Responderam-me, secamente, que isso era apenas a fachada e que eu devia tentar decifrar o código. Pediram-me relatórios sobre as reuniões e eu tive certa satisfação em transcrever na íntegra os discursos de Baltasar sobre Ámon e Hermes Trismegisto, imaginando os funcionários egípcios estafando-se a patinhar as caves húmidas, a mil milhas de distância. Mas pagavam-me, e bem; pela primeira vez, tive possibilidade de remeter algum dinheiro a Melissa e de tentar amortizar o que devia a Justine.

Era interessante, também, descobrir entre os meus conhecimentos aqueles que se entregavam verdadeiramente à espionagem.

Mnemjian, por exemplo; a barbearia era o centro de filtragem de todas as informações respeitantes à cidade, e a escolha tinha sido judiciosamente feita. O corcunda desempenhava-se com uma prudência e discrição prodigiosas, e, desde que me soube colega, insistiu em me barbear grátis; muito mais tarde, descobri que ele copiava pacientemente os seus relatórios em três exemplares, vendendo-os a outros tantos serviços de espionagem rivais!

Um outro aspecto interessante deste trabalho era a faculdade de fazer buscas ao domicílio dos amigos. Por exemplo: fui o instigador de uma busca em casa de Pombal que me divertiu enormemente. O caro amigo tinha o desastroso hábito de trazer para casa papéis oficiais, para trabalhar à noite. Apanhámos toda uma série de documentos que encantaram Scobie, porque continham, entre outras coisas, diversos memorandos pormenorizados sobre a influência francesa na Síria e uma lista dos agentes franceses na cidade. Numa dessas listas notei o nome de Cohen, o meu antigo rival.

Pombal ficou muito perturbado quando deu pela busca e, durante cerca de um mês, caminhou sempre rente aos muros, olhando incessantemente para trás, persuadido de que o perseguiam. Acabou por se convencer que Hamid, o Zarolho, tinha sido peitado para o envenenar e, se jantava em casa, só comia depois de ver que eu provava a comida. Continuava à espera da condecoração e da transferência; receava muito que a perda dos documentos concorresse para prejudicar uma e outra, mas, como lhe tínhamos deixado as capas dos processos, pôde sair-se do aperto dizendo que tinha queimado o conteúdo “de acordo com as instruções”.

Os seus recentes cocktail-parties, cautelosamente graduados segundo o seu próprio plano - convidando as pessoas das mais humildes camadas da cidade, tais como as prostitutas e os artistas -, tinham obtido o sucesso previsto. Mas as despesas e o tédio dessas reuniões enfadavam-no e recordo-me de um dia ele me ter explicado as origens destas manifestações: os cocktail-parties, como o seu próprio nome indica, foram inventados pelos cães. Não são outra coisa senão o hábito de cheirar o traseiro do próximo, elevado à categoria de instituição mundana.

Mas insistiu e obteve os favores do cônsul-geral como recompensa. A despeito de desprezá-lo, Pombal sentia por ele uma espécie de temor infantil. Conseguiu, até, persuadir Justine, depois de muita insistência, a vir contribuir para o sucesso da sua crucificação. Isso deu-nos a oportunidade de observar Pordre e o pequeno círculo diplomático de Alexandria - criaturas que na sua maioria davam a impressão de terem sido pintadas à pistola, tão murchas e difusas essas personalidades oficiais me pareciam.

O próprio Pordre era um fantoche. Exibia um carão pálido e gasto, coroado por uma magnífica cabeleira prateada que era o seu orgulho. Era uma vaidade de lacaio. A falsidade dos seus gestos (a sua solicitude e as demonstrações de exagerada amizade que ele distribuía indiscriminadamente) fazia-me ranger os dentes, e compreendi então todo o sal da divisa que o meu amigo tinha composto para o Ministério dos Negócios Estrangeiros francês, que devia, dizia-me ele, servir de epitáfio ao seu titular. (“A sua mediocridade foi a sua salvação.”) Tudo isto se passou, naturalmente, muitos anos antes de Pordre ter adquirido a celebridade que lhe valeram as suas negociações em prol da frota francesa. Não posso crer, entretanto, que o homem que eu vi tenha podido mudar: a sua personalidade era tão delgada como uma folha de ouro - esse verniz de cultura que mais do que ninguém os diplomatas se encontram em posição de adquirir.

A reunião foi um sucesso, e um convite de Nessim para jantar foi acolhido pelo velho diplomata com transportes de alegria absolutamente sinceros. Era notório que o Rei era hóspede frequente de Nessim e o velhote redigia já, em espírito, um relatório, que devia começar assim: “Jantando com o Rei na semana passada, conduzi a conversa para... Ele disse... Eu respondi que...” Os seus lábios começaram a tremer, os olhos a piscar, e entrou num dos seus famosos transes públicos de que saía em sobressaltos, com grande espanto dos interlocutores, com um sorriso de peixe frito, à laia de desculpa.

Pela minha parte, parecia-me idiota entrar no antigo apartamento onde tinham decorrido quase dois anos da minha vida; onde, pela primeira vez, encontrara Melissa. A última amante de Pombal tinha-o instigado a fazer grandes transformações. Insistira para que ele colocasse painéis de madeira, pintados de branco, com frisos castanhos. As velhas poltronas esgaçadas tinham sido reparadas, forradas de cabedal espesso, com motivos de flores-de-lis; quanto aos três antigos sofás, tinham sido banidos por ocuparem demasiado espaço. Haviam, provavelmente, sido vendidos ou desmantelados. “Algures - pensei, citando um poema do velho bardo -, algures, essas velhas coisas devem ainda palpitar.” Como é ciumenta a memória e como se apega cruelmente à matéria primeira do seu trabalho quotidiano!

O lúgubre quarto de dormir de Pombal tinha tomado um tom vagamente fin de siècle e estava limpo como um alfinete novo. Oscar Wilde teria considerado aquele aposento um cenário apropriado para o primeiro acto de uma das suas peças. O meu quarto regressara à sua anterior função de cacifo, mas conservava ainda a minha cama, de pé contra a parede, ao lado do balde de ferro. A cortina amarela tinha desaparecido e em seu lugar estava um trapo sujo. Passei a mão pela enferrujada cama e senti a dolorosa recordação de Melissa, voltando para mim os seus olhos límpidos na penumbra do quartinho. Surpreendeu-me essa tristeza e quase me senti tomado de vergonha. Quando Justine me seguiu e entrou no quarto, fechei a porta com um pontapé e comecei a devorar-lhe os lábios com beijos até que ela descobriu que eu tinha os olhos rasos de lágrimas. Compreendeu imediatamente e, devolvendo os meus beijos com aquele ardor de que só a amizade é capaz, murmurava: “Eu sei, meu amor, eu sei.”

Depois, soltando-se docemente do meu abraço, levou-me para fora do quarto, fechando a porta atrás de nós.

- Preciso falar-te de Nessim - disse ela em voz baixa. - Escuta: quarta-feira, na véspera do dia em que deixámos o Palácio de Verão, fui passear a cavalo, só, à beira-mar. Havia um bando de gaivotas voando rente às vagas, muito perto da costa, e eu observava-as quando, de repente, vi aproximar-se o carro em direcção ao mar. Selim guiava. Não compreendia o que eles faziam. Nessim estava no assento de trás. Pensei que iam atolar-se, mas não; conseguiram chegar à beira-mar, onde a areia está dura, e começaram a seguir a costa na minha direcção. Eu não estava na praia, mas numa depressão a uns cinquenta metros do mar. Quando chegaram perto do ponto onde me encontrava fazendo levantar as gaivotas, reparei que Nessim trazia na mão a sua velha carabina automática. Levou a arma à cara e fez fogo contra o bando, disparando até consumir o carregador. Três ou quatro gaivotas tombaram, mas o carro afastou-se sem parar. Quando voltei para casa, meia hora depois, o carro já tinha recolhido. Nessim estava metido no observatório. Tinha a porta fechada à chave e quando bati respondeu-me que estava ocupado. Perguntei a Selim o que significava tudo aquilo; encolheu os ombros e, apontando para a porta de Nessim, limitou-se a dizer: “Executo ordens.” Mas, meu amigo, se tivesses visto a cara de Nessim quando ele ergueu a espingarda... - E recordando, ela levou involuntariamente os dedos às faces, como para reproduzir a expressão que Nessim tinha nesse momento. - Tinha um ar de louco.

No outro aposento, falava-se, muito comedidamente, da política mundial e da situação na Alemanha. Nessim tinha-se debruçado graciosamente sobre a cadeira de Pordre. Pombal engolia os bocejos, que se vingavam saindo em forma de soluço. Eu sentia o espírito ainda muito cheio da recordação de Melissa. Tinha-lhe remetido nessa tarde algum dinheiro, e a ideia de que ela poderia comprar com ele alguns vestidos decentes, ou mesmo desperdiçá-lo em ninharias, confortava-me.

- O dinheiro - dizia Pombal a uma velha dama que fazia pensar num camelo constipado - é uma coisa que nunca nos devia faltar. Só com dinheiro é que se faz dinheiro. Vossa Excelência conhece, certamente, o provérbio árabe que diz: “A riqueza pode comprar riqueza, mas tudo quanto a pobreza pode comprar é o beijo de um leproso.”

- Temos de nos ir embora - disse Justine.

E quando olhei para o fundo dos seus olhos sombrios, a despedir-me, soube que tinha compreendido como me encontrava dominado por Melissa nessa noite; o seu aperto de mão pareceu-me ainda mais caloroso e reconfortante.

Creio que foi nessa noite, quando ela se vestia para jantar, que Nessim entrou no seu quarto e se dirigiu à imagem que se reflectia no espelho em forma de lança.

- Justine - disse ele com firmeza -, não vás pensar que estou louco ou coisa parecida: Baltasar foi alguma vez para ti mais do que um amigo?

Justine preparava-se para prender uma cigarra de ouro no lóbulo da orelha esquerda; levantou os olhos e considerou-o um momento, antes de responder em tom neutro:

- Não, meu caro.

Nessim contemplou longamente a sua própria imagem no espelho, sem a menor complacência. Depois, soltou um suspiro e retirou do bolso do roupão uma pequena chave de ouro.

- Não compreendo como isto possa ter vindo parar às minhas mãos - disse ele corando e estendendo-lhe o objecto para ela o poder examinar.

Era a pequena chave do relógio e cuja perda tanto tinha perturbado Baltasar. Justine olhou-a, depois olhou para o marido, com ligeira surpresa.

- Onde a encontraste?

- No meu guarda-jóias.

Justine continuou a sua toilette, agora com maior lentidão, observando curiosamente o marido, que, por sua vez, continuava a examinar-se no espelho com uma atenção excessiva.

- Tenho de restituir-lha. Talvez ele a tenha deixado cair no decurso de alguma reunião. Mas é tão estranho... - suspirou novamente. - Não consigo recordar-me.

Era evidente, tanto para um como para outro, que ele a tinha roubado. Nessim abandonou a sua contemplação e disse:

- Espero-te lá em baixo.

Quando a porta se fechou docemente, Justine examinou a pequena chave com curiosidade.

Nessa época, ele tinha começado já a percorrer o grande ciclo de sonhos históricos que tinham vindo tomar o lugar dos seus sonhos da infância, e onde a cidade se lançava, como se tivesse, enfim, encontrado um sujeito sensível, através do qual pudesse exprimir os seus sonhos e os seus desejos colectivos que formavam o essencial da sua cultura. Despertava para ver as torres e os minaretes projectados no céu baixo, pesado de poeira, e via, como numa imagem compósita, as pegadas gigantescas da memória histórica que dormita no fundo das lembranças da personalidade individual, seu mentor e seu guia: efectivamente o seu inventor, porque o Homem não passa duma extensão do espírito do lugar.

Estas visões perturbavam-no, não eram, de forma nenhuma, os sonhos que o sono engendra. Sobrepunham-se à realidade e violavam o seu pensamento como se a membrana da sua consciência se tivesse dilacerado para as deixar passar.

Paralelamente a estas construções gigantes - galerias paladinas de imagens extraídas de leituras e meditações sobre o seu passado e sobre o passado da cidade - sucumbia aos ataques, cada vez mais agudos, de um ódio cego pela verdadeira Justine, aquela que ele tão mal tinha conhecido, a amiga sincera e a amante fiel. Eram de curta duração, mas de tal violência que, considerando-as a justo título o reverso do amor que sentia por ela, começou a temer não pela segurança da mulher mas pela sua própria. Tinha medo, todas as manhãs, no quarto de banho branco e estéril, quando o pequeno barbeiro vinha barbeá-lo. E muitas vezes este surpreendeu as lágrimas nos olhos do seu cliente quando lhe apertava a toalha em torno do pescoço.

Ao passo que a galeria de sonhos históricos ocupava o plano de fundo do seu espírito, os perfis dos seus amigos e conhecidos, palpáveis e reais, iam e vinham entre eles, entre as ruínas da antiga Alexandria, povoando um surpreendente espaço-tempo histórico como personagens vivas. Laboriosamente, como um amanuense, ditava tudo quanto via e sentia ao impassível Selim, que lhe manuscritava o diário pessoal.

Viu, por exemplo, o Mouseion, com os seus artistas insatisfeitos e altamente subvencionados, trabalhando numa gravura mental dos seus fundadores; mais tarde, entre os solitários e os sábios, o filósofo, ensinando pacientemente ao mundo uma forma particular e inútil para quem não fosse ele - porque, em cada fase do seu desenvolvimento, o homem resume todo o universo e adapta-o à sua própria natureza interior, à medida que cada pensador, cada pensamento, fecunda novamente o universo inteiro.

As inscrições dos mármores do museu, quais lábios vivos, murmuravam-lhe aos ouvidos quando ele passava. Baltasar e Jus-tine esperavam-no ali. Ele tinha vindo procurá-los, ofuscado pela claridade da Lua e pelas cascatas de sombra que caíam das colunatas. Ouvia as vozes deles na obscuridade e divagava, assobiando o sinal que chamaria a atenção de Justine: “Que vulgaridade de espírito passar o tempo a estar tão seguro dos primeiros princípios, como faz Baltasar!” Ouve o outro afirmar: “E a moral não é nada se não passar de mera forma de boa conduta.”

Avançava lentamente para eles, através das arcadas, por entre blocos de mármore zebrados por fitas alternadas de sombra e luar. Os dois estavam sentados sobre um sarcófago de mármore, enquanto mais adiante, na sombra inexorável de um jardim, Purse-warden passeava no relvado elástico, trauteando uma ária de Donizetti. As cigarras de ouro das orelhas de Justine transformaram-na imediatamente numa projecção de um dos seus sonhos, e viu-as envolvidas em roupagens amplas e vagas, profundamente marcadas pelo luar. Baltasar, com uma voz torturada pelo paradoxo que jaz no cerne de todas as religiões, dizia: “Naturalmente, em certo sentido, mesmo orar diante dos Evangelhos é um dos absurdos da lógica humana. Pelo menos, não é o Evangelho mas a oração que nos coloca em contacto com as potências das trevas. Por isso é que a Cabala tem para nós tantas virtudes; ela nada postula para além de uma ciência da Atenção Justa.”

Tinham-lhe reservado um lugar no seu banco de mármore, mas mesmo antes de poder alcançá-los, o ponto de apoio da sua visão vacilou e outras cenas intervieram pesadamente, sem consideração pela congruência e pelo período, sem consideração pelo tempo histórico e pela probabilidade comum.

Viu distintamente o templo que a infantaria elevou à Afrodite dos Pombos sobre este deserto de aluviões. Tinham fome. A caminhada extenuara-os, aguçando a visão da morte que se aninha no coração de cada soldado até ao ponto de vê-la brilhar diante deles com uma precisão de traços e um esplendor insustentáveis. Os animais morrendo por falta de forragem e os homens por falta de água. Não ousavam servir-se dos poços e das fontes envenenados. Os burros selvagens, pairando para além do alcance das suas flechas, enlouqueciam-nos com a promessa de uma carne que jamais poderiam comer, à medida que a coluna avançava através da vegetação desta encosta espinhosa. Deviam avançar sobre a cidade, a despeito dos augúrios. A infantaria marchava aligeirada, embora não ignorasse que isso era uma loucura. As armas vinham em carroças que se atrasavam constantemente. A coluna deixava para trás o odor agressivo dos corpos suados dos homens e dos animais; fundibulários macedónios peidando-se como bodes...

Os inimigos eram de uma elegância de tirar o fôlego - cavalaria de armadura branca que aparecia e desaparecia como nuvens no caminho. De perto, via-se que os homens vestiam mantos de púrpura, túnicas bordadas e calças de seda coleante. Traziam cadeias de ouro em torno dos pescoços negros e braceletes no braço que lançava o dardo. Eram apetitosos como um bando de mulheres. Tinham vozes agudas e frescas. Que contraste o deles com os veteranos de pele curtida que só tinham consciência dos Invernos que lhes gelavam as sandálias debaixo dos pés, ou dos Estios quando o suor as endurecia tornando-as mais rijas que mármore! Não fora a paixão mas o ouro que os tinha arrastado para esta aventura que eles suportavam com o estoicismo de todos os mercenários. A vida para eles não passava de uma correia sem sexo que se afundava cada dia um pouco mais profundamente na sua carne. O sol tinha-os mirrado e dissecado e a poeira tinha-lhes roubado a voz. Os capacetes emplumados, bravios, ardiam sob o sol do meio-dia e tinham de retirá-los da cabeça. A África que eles tinham imaginado como um prolongamento da Europa - uma extensão de termos, de referências a um passado definitivo - tinha-se já manifestado bem diferente: uma terra lúgubre, tenebrosa, onde o crocitar dos corvos se casava com as exclamações selvagens de homens insensatos, onde o riso se estrangulava na garganta e morria nos lábios num chilreio de babuinos.

Às vezes capturavam um - algum caçador de lebre solitário e assustado- e ficavam surpreendidos descobrindo que era tão humano como eles próprios. Arrancavam-lhe a tanga e consideravam demoradamente os seus órgãos genitais com um interesse misturado de incredulidade. Às vezes pilhavam uma aldeia ou o domínio de algum rico na base das colinas, e faziam um festim de carne de delfim em conserva (soldados embriagados patuscando num estábulo no meio dos bois, titubeando, carregando guirlandas grotescas de urtigas selvagens, bebendo em taças de ouro ou em grandes cornos). Tudo isso fora ainda antes de alcançarem o deserto...

Na encruzilhada, tinham sacrificado a Hércules (e, para demonstrar ao deus a sua fé, mataram nessa ocasião os dois guias); mas, a partir desse momento, tudo tinha corrido mal. Bem no fundo, eles sabiam que nunca alcançariam a cidade que iam cercar. E quisesse Deus que não houvesse novo acampamento de Inverno! Os dedos e o nariz gelados! As razias! Na sua memória, escutava ainda o ruído dos passos da sentinela triturando a neve mole durante todo o Inverno. Neste país, o inimigo usava capuchos de pele de raposa com longas viseiras, e protegia as pernas com túnicas compridas. Eles calavam-se, pertencendo, unicamente como vegetação, a estas ravinas aguçadas e desfiladeiros vertiginosos das margens extensas.

Com uma coluna em marcha, a memória torna-se numa indústria, fabricando sonhos que as desgraças reúnem numa comunidade fundada na privação. Sabia que aquele homem calmo pensava na rosa descoberta no seu leito no dia dos Jogos. Um outro não conseguia esquecer o homem da orelha arrancada.

O historiógrafo que tinha sido alistado, amargamente, sentia-se tão deslocado numa batalha como um penico numa reunião de mulheres. E aquele homem gorducho, que tinha um curioso cheiro a bebé, o bobo cujas farsas sustentavam o moral dos destacamentos avançados, pensava num novo depilatório do Egipto, num leito macio com a marca de Hércules, em brancas pombas esvoaçando em torno da mesa de um banquete. Em toda a sua vida, tinha sido acolhido à porta dos bordéis por gargalhadas e uma saraivada de babuchas. Havia outros que pensavam em prazeres menos vulgares - cabelos embranquecidos com alvaiade, ou então escolares nus, caminhando aos pares, dirigindo-se para a escola do mestre de harpa, sob a neve que caía grossa como farinha. Traziam para as lupercais grosseiras das campanhas, entre o rugir das turbas, o gigantesco falo de couro, mas, apenas iniciados, tomavam o sal consagrado e o falo, tremendo num silêncio recolhidos. Os seus sonhos proliferavam nele, e, escutando-os, abria a sua consciência à memória, generosamente, prodigamente, como se abre uma veia.

Era estranho caminhar ao lado de Justine nesse crepúsculo de Outono manchado de luar, no meio desse mórbido fervilhar de recordações: sentia o seu corpo físico deslocá-las pelo simples efeito do seu peso e densidade. Baltasar tinha-se afastado para lhe dar lugar e ele continuava a falar com a sua mulher em voz baixa. (Bebiam vinho com ar solene e espalhavam a borra sobre as roupas. Os generais tinham-lhes simplesmente dito que nunca chegariam, que nunca encontrariam a cidade.) Lembrava-se muito bem de como Justine, depois de ter feito amor, se sentava na cama, cruzando as pernas e, começando a dispor as cartas do pequeno baralho que se encontrava sempre na prateleira, ao lado dos livros, como se quisesse medir o grau de probabilidades que ainda lhe restavam depois deste último mergulho na ribeira subterrânea e gelada que ela não podia dominar nem cevar. “Os espíritos desmembrados pelo sexo - dissera certo dia Baltasar - não encontrarão a paz senão quando a velhice e a impotência os persuadirem de que o silêncio e a quietude nada têm de hostil.”

Estava toda a discordância das suas vidas na medida da angústia que tinham herdado da vida e do século? “Oh! meu Deus - perguntava ele - porque não havemos, Justine, de sair desta cidade? Porque não vamos em busca de outros ares menos impregnados do sentimento do exílio e do fracasso?” Os versos do velho poeta voltavam-lhe à memória, amplificados como sob a pressão do pedal de um piano, faziam vibrar a frágil esperança que esta ideia tinha acordado no seu sono tenebroso.

 

         Não existe outra terra, meu amigo, nem outro mar,

         Porque a cidade irá atrás de ti; as mesmas ruas

         Cruzam sem fim as mesmas ruas; os mesmos

         Subúrbios do espirito passam da juventude à velhice,

         E tu perderás os teus dentes e os teus cabelos

         Dentro da mesma casa.

         A cidade é uma armadilha.

         Só este porto te espera,

         E nenhum navio te levará onde não podes.

         Ah! então não vês que te desgraçaste neste lugar miserável

         E que a tua vida já não vale nada

         Nem que tu vás procurá-la nos confins da terra?

 

“O meu problema - pensou palpando a testa para ver se tinha febre - é o de que a mulher a quem amei me trouxe uma satisfação plena que nunca atingiu a própria felicidade dela”; e reflectia em todos os erros que encontravam agora a sua confirmação em certos sinais físicos. A saber: que tinha espancado Justine, batendo-lhe até lhe doer o braço, até que o cacete se quebrou nas suas mãos. Claro que tudo isso não passava de um sonho. Mas tinha despertado com uma dor no braço e a mão inchada. Em que se poderá acreditar quando a realidade troça da imaginação?

Ao mesmo tempo, naturalmente, compreendeu que o sofrimento, como qualquer doença, era uma forma aguda de presunção, e todo o ensino da Cabala desfilava diante dele inundando-o de desprezo por si próprio. Escutava, como os ecos longinquos da memória da cidade, a voz de Plotino falando, não de fugir das intoleráveis contingências temporais, mas para uma nova luz, uma nova cidade de Luz. “Não é uma viagem no espaço. Observa-te, recolhe-te, observa.” Era, contudo, o único acto de que se conhecia irremediavelmente incapaz.

Ainda agora me surpreendo, recordando estes factos, quão poucos traços superficiais se notavam destas lutas interiores - mesmo nós, os que o conhecíamos mais intimamente, de nada nos apercebíamos. Nada de verdadeiramente tangível, no máximo a imperceptível sensação de qualquer coisa de falso na sua pessoa - como uma ária bem conhecida cantada ligeiramente fora de tom. É certo que nessa altura ele já tinha começado a dar as suas festas com uma prodigalidade ainda desconhecida na cidade, mesmo entre os mais ricos. Agora, a grande casa nunca se encontrava vazia. A enorme cozinha poeirenta e deserta, aonde tantas vezes tínhamos vindo cozer um ovo e tomar um copo de leite depois do teatro ou de um concerto, estava agora permanentemente povoada por uma equipa de cozinheiros, de carapuços e aventais brancos, imaculados: era como se estivéssemos num hospital ou nos bastidores de um teatro. As salas de cima, os corredores, as escadas e os salões, onde outrora os únicos corações que palpitavam eram os pêndulos soturnos dos relógios, encontravam-se, agora, patrulhados por escravos negros, majestosos como cisnes, misteriosos e atarefados. A túnica, de um branco imaculado, exalando um ténue odor de amido, era apertada na cintura por uma faixa vermelha presa por alfinetes de ouro em forma de cabeças de tartaruga, o emblema que Nessim tinha escolhido para si. Sobre os seus olhos doces de marsuínos, via-se o tradicional vaso de flores escarlates; traziam as mãos de gorilas comprimidas em luvas brancas. E eram silenciosos como a própria morte.

Se ele não tivesse ultrapassado em prodigalidade as mais altas figuras da sociedade egípcia, dir-se-ia que pretendia qualquer benefício político. A casa ressoava perpetuamente com os ecos de um quarteto e as clarinadas bramiam na noite, como veados.

Os grandes e magníficos salões de recepção tinham sido varados por alcovas e recantos inesperados para aumentar a sua capacidade, já considerável, e permitir aos duzentos ou trezentos convidados que se amontoavam poderem participar nos jantares exóticos e sem sentido - enquanto Nessim se perdia na contemplação de uma rosa colocada diante dele sobre um prato vazio. Mas não era uma distracção da sua parte: opunha às vulgaridades das conversas um sorriso... tão surpreendente como se se levantasse uma taça invertida para descobrir qualquer raro exemplar entomológico cujo nome científico se ignorasse.

Que mais se podia acrescentar? As pequenas extravagâncias do seu trajar eram apenas perceptíveis num homem cuja fortuna tinha parecido sempre curiosamente em oposição com um gosto acentuado para as velhas calças de flanela e fatos de algodão. Agora, no seu impecável smoking que deixava entrever uma faixa de seda escarlate, assemelhava-se àquilo que sempre devia ter sido, o banqueiro mais rico e mais elegante da cidade. As pessoas sentiam que ele tinha, finalmente, reentrado na sua personalidade. Era assim que um homem da sua condição devia viver. Somente o corpo diplomático farejava nesta prodigalidade inaudita todas as espécies de motivos ocultos, possivelmente uma conjura para prender o Rei, que frequentava os salões de Nessim. Sob os rostos indiferentes e educados adivinhava-se uma curiosidade constantemente alerta, uma vontade de descobrir as intenções secretas de Nessim. O Rei era um hóspede cada vez mais assíduo da casa.

Tudo isso não fazia progredir a intriga principal. Era como se a acção que Nessim meditava se desenvolvesse com uma tal lentidão, à maneira como se formam as estalactites, que ele tinha a certeza de ter o tempo necessário para se consagrar, no intervalo, a estas fastidiosas futilidades, enquanto os foguetes traçavam a sua esteira de estrelas no céu aveludado, penetrando cada vez mais profundamente na noite onde, Justine e eu, jazíamos nos braços um do outro. Na água tranquila das fontes, via-se o salpico das faces humanas, iluminadas por essas estrelas de escarlate e ouro que se fundiam assobiando a caminho dos céus como cisnes sedentos. Na obscuridade, a sua mão tépida pousada sobre o meu braço, eu contemplava o firmamento de Outono nas suas convulsões de cores e chamas com a calma daquele para quem todo o sofrimento do universo humano recuou e se difundiu - como sempre sucede com um sofrimento excessivamente demorado -, saindo de um membro específico para se espalhar por toda a região do corpo ou do espírito. As esteiras maravilhosas dos fogos-de-artifício, no céu sombrio, penetravam-nos de um sentimento de extraordinário acordo com toda a natureza do mundo do amor, que em breve devia abandonar-nos.

Essa noite foi pródiga daquela rara luminosidade que só o Estio costuma oferecer; e mal se acabou o espectáculo, elevou-se do deserto um ligeiro ribombo de trovão, formando uma crosta fina e contínua na superfície melodiosa do silêncio. Depois, veio uma chuva fresca e benfazeja, e logo a sombra se povoou de vultos correndo para o abrigo dos salões iluminados, vestidos e calças erguidos acima dos tornozelos, entre a algazarra das vozes e das exclamações de prazer. As lâmpadas imprimiam um curto instante de nudez aos corpos sob os vestidos transparentes que os cobriam. Quanto a nós, dirigimo-nos, sem palavras, para a alcova oculta pelos vasos de perfumadas flores e deitámo-nos no banco de pedra em forma de cisne. A multidão ruidosa passava rindo diante da alcova, a caminho da luz; nós estávamos no nosso berço de sombras, sentindo os salpicos da chuva picarem-nos docemente as faces. Os últimos foguetes eram lançados por sujeitos que teimavam elegantemente em desafiar o tempo nos seus fatos de cerimónia e, através do cabelo de Justine, vi as últimas estrelas apagarem-se na treva. Saboreei, com o cérebro ainda excitado pela orgia de cores dessa noite, a pressão da sua língua na minha, dos seus braços em torno dos meus. A imensidade desta felicidade... não podíamos, sequer, falar, e os nossos olhares estavam velados pelas lágrimas contidas.

De dentro de casa, chegam-nos os estalos secos do champanhe desrolhado e as gargalhadas humanas.

- Agora dá uma festa todas as noites. Nunca se encontra só.

- Que se passa com Nessim?

- Não sei também. Quando temos alguma coisa para ocultar, pomo-nos a representar um papel. Isso obriga os que nos rodeiam a transformarem-se em actores.

O mesmo homem, é verdade, percorria a superfície da vida em comum do casal - o mesmo homem doce, afável, pontual: mas num certo e horrível sentido tudo se tinha modificado, e ele desaparecera.

- Separámo-nos - murmurou ela desfalecida.

E estreitando-nos até ao próprio limite dos sentidos, esmagávamos os nossos beijos que eram como o sumário de tudo o que tínhamos partilhado, que conservávamos nas mãos por um instante efémero, antes de se espalharem de novo na corrente do mundo, abandonando-nos. E, todavia, era como se a cada carícia ela repetisse: “Talvez através disto que me faz tanto mal e que eu desejo que nunca acabe venha um dia a encontrar o caminho que me devolverá a Nessim.” Sentia-me, então, invadido por um intolerável desânimo.

Horas depois, atravessando o bairro indígena com as suas luzes cruas e os seus odores de carnes e suores, perguntava-me, como era frequente fazê-lo, onde nos conduzia o tempo. E como para pôr à prova o valor das emoções sobre que tanto amor e tanta angústia podia assentar, entrei num barracão iluminado, decorado por um fragmento de cartaz de cinema - metade do rosto de uma mulher tão vazia de sentido como uma baleia morta de ventre para o ar - e sentei-me na cadeira reservada ao cliente, como num barbeiro, para esperar a minha vez. Uma cortina imunda separava-me de um compartimento de onde chegavam sons abafados, como provenientes de uma assembleia de criaturas ignoradas da ciência, não particularmente revoltantes - na verdade interessantes como são as ciências naturais para aqueles que renunciaram ao cultivo de qualquer espécie de sensibilidade. Estava embriagado e cansado - embriagado em doses equitativas, por justine e pelo champanhe.

Na cadeira, a meu lado, havia um turbante que distraidamente coloquei na cabeça. Estava húmido e o forro de cabedal colou-se-me à testa. “Quero saber o que significa tudo isto”, disse para mim próprio, olhando para um espelho quebrado e reparado com um papel gomoso. Pensava, sem dúvida, em toda essa monstruosa confusão do sexo, nesse acto de penetração que pode conduzir um homem ao desespero por uma dessas criaturas com um par de seios e um croissant, para utilizar o pitoresco calão levantino. Por detrás da cortina havia, agora, um duo grasnando e chiando, uma voz humana excitada somando-se aos sobressaltos da velha cama de madeira com as travessas desconjuntadas. Era, provavelmente, o mesmo acto que Justine e eu praticávamos tal como todo o resto da humanidade. Onde estava a diferença? Até que ponto os nossos sentimentos nos afastavam da brutal sinceridade dos que praticam o acto animalescamente? E qual seria a parte do espírito traiçoeiro, careteando com o seu interminável catalogue raisonné do coração? Tentava resolver um problema que ficará eternamente insolúvel; mas invadia-me uma tal sede de certeza que me parecia que se pudesse surpreender o acto no seu estado natural, motivado por um agente científico e não pelo amor, ainda não contaminado pela ideia, seria capaz de descobrir a verdadeira natureza dos meus sentimentos e dos meus desejos. Impaciente por me libertar desta dúvida, levantei a cortina e avancei silenciosamente no reduto onde a chama baixa de uma pequena lamparina lançava um clarão sujo.

O leito estava ocupado por uma massa indistinta de carne movediça, tremendo em vários lugares ao mesmo tempo como um formigueiro. Demorei certo tempo a distinguir no meio do montão os membros lívidos e cabeludos de um velhote misturados com os da sua companheira, convexidade branco-esverdeada de uma mulher com uma cabeça de jibóia, cabeça de onde pendiam sobre a infame travesseira as madeixas negras, um matagal hirsuto e buliçoso. A minha brusca aparição devia ter sido tomada por uma rusga de Polícia, porque se lhe seguiu um arquejo e depois o mais completo silêncio. Era como se o formigueiro tivesse ficado, bruscamente, abandonado. O homem grunhiu e lançou na minha direcção uma rápida olhadela, depois, como para evitar ser reconhecido, afundou a cabeça no meio dos enormes seios da mulher. Era impossível explicar-lhes que tinha entrado ali para investigar tão-somente o próprio acto em que eles se encontravam envolvidos. Aproximei-me do leito deliberadamente, como para desculpar-me, e, com um ar o mais científico possível, apoiei-me à barra carcomida da cama e olhei, não para eles, pois apenas tinha uma vaga noção das suas existências, mas para mim e Melissa, para mim e Justine. A mulher levantou um par de grandes olhos de tição e disse qualquer coisa em árabe.

Eles continuavam ali, como vítimas de uma terrível catástrofe, desastradamente enlaçados, como se no decurso de uma experiência incoerente fossem o primeiro casal da história humana a tomar consciência deste meio particular de comunicação. A sua postura, grotesca e desajeitada, parecia ser o resultado de qualquer tentativa anterior que poderia, depois de séculos de experiência, dar aos corpos uma disposição tão harmoniosa como uma figura de balet. Contudo, eu reconhecia que a postura tinha imutavelmente fixada, desde sempre e para sempre, esse enlace eternamente trágico e grotesco. Foi dela que derivaram todos os aspectos do amor que o espírito dos poetas e dos loucos utilizaram para elaborar uma filosofia, uma estética e uma mística. Foi a partir dela que todas as loucuras e todas as doenças lograram proliferar. Nela se encontra, também, a origem daquelas caras lúgubres e desiludidas dos velhos esposos, ligados e contrafeitos como cães depois da cópula.

A gargalhadinha que lancei surpreendeu-me mas teve o condão de tranquilizar os outros. O homem levantou a cabeça alguns centímetros e escutou atentamente como para se convencer de que nenhum polícia poderia emitir semelhante risada. A mulher tentou novamente justificar-se e sorriu-me.

- Espera um pouco - gritou-me ela agitando uma das mãos, amarelada e pustulenta -, espera que já não demora muito.

E o homem, como se tomasse aquelas palavras por uma censura, fez alguns movimentos convulsivos, como um paralítico tentando andar, impelido não pelas exigências do prazer mas pela mais pura cortesia. A sua atitude era a de um homem que se sente tomado, de repente, por um acesso de delicadeza e, num comboio repleto, cede o seu lugar a um mutilado de guerra. A mulher grunhiu e crispou os dedos.

Deixando-os entregues à harmonia e ao enlace em que se compraziam, saí para a rua, rindo, e pus-me de novo a percorrer o bairro que fervilhava com as irrisórias e concretas vidas dos homens e das mulheres. A chuva tinha cessado e a terra molhada exalava o tormentoso e adorável odor de argila, de corpos e de jasmim murcho. Comecei a caminhar vagarosamente, profundamente estupefacto, e a descrever para mim, em palavras, todo este bairro de Alexandria, porque sabia que em breve seria esquecido e apenas revistado por aqueles cujas memórias tivessem sido modeladas pela cidade febril, agarrando-se ao espírito dos velhos como perfume à manga de um casaco: Alexandria, capital da Memória.

A rua era de terra barrenta e perfumada, doce depois da chuva, mas não húmida. De ambos os lados havia casas de meretrizes cujos corpos de um mármore comovente se conservavam modestamente postados diante das suas respectivas portas, como no limiar de um santuário. Sentavam-se em tripeças, colocadas em plena rua, como as pitonisas, os pés ocultos nas pantufas de cor viva. A originalidade da iluminação dava a toda a cena as tintas de uma fábula eterna: em vez de ser iluminada do alto, toda a rua recebia a luz de uma série de lâmpadas de carbureto, de chama radiante, pousadas no chão, lançando irreais sombras violetas nas esquinas e sobre as empenas dessas casas de bonecas, nos olhos e nas narinas das locatárias, na submissa doçura dessas trevas de forro de casaco. Eu percorria lentamente esse extraordinário jardim de flores humanas, pensando que uma cidade, tal como uma pessoa, reúne as suas predisposições, os seus apetites e os seus temores. Cresce para a maturidade, produz os seus profetas, declina na senilidade, na velhice ou na solidão, que é ainda a pior de todas as coisas. Inconscientes de que a cidade está moribunda, os vivos continuam a sentar-se nas ruas, como cariátides sustentando a noite, com as dores do futuro pintadas nas pálpebras; observando insones os caçadores de imortalidade, através de toda a fatídica extensão do tempo.

Havia aqui uma casa inteiramente decorada com flores-de-lis cuidadosa e correctamente desenhadas num pavimento azul-real.

No umbral da porta, sentava-se uma negra de olhos azuis, gigantesca, tendo, porventura, dezoito anos, vestida com uma camisa de noite de flanela vermelha, o que vagamente a assemelhava às alunas das escolas de freiras. Sobre a sua cabeça negra e lanosa, usava uma radiante coroa de narcisos. Conservava as mãos humildemente sobre o colo. Parecia um grande coelho negro acocorado diante da toca. A seu lado, uma mulher frágil como uma pena, e mais adiante uma outra lembrando uma fórmula química, enxaguada pela anemia e pelo fumo do cigarro. E, sempre, nas paredes das casas, o mesmo talismã comum a todo o país, a marca azul de uma mão infantil, os dedos afastados, para afugentar os terrores que povoam as trevas exteriores da cidade. A minha passagem era assinalada, não por gritos humilhantes e venais, mas por doces e murmurantes propostas de pombas, e aquelas vozes serenas envolviam a rua numa paz de claustro. Não era o sexo que elas ofereciam, na sua monótona reclusão cortada pelas chamas amareladas, mas, como verdadeiras filhas de Alexandria, o profundo esquecimento das responsabilidades, juntamente com os prazeres colhidos sem aversão física.

As casas de bonecas estremeceram e vacilaram um momento sob uma brusca rajada de vento do mar que chegou até ali, fazendo voar as roupas soltas, tentando soltar o que estava preso. Uma das casas não tinha parede de fundo e via-se distintamente o pátio com uma palmeira atrofiada. Em volta de uma braseira onde ardiam cavacas, três raparigas sentadas em tamboretes, vestindo quimonos esgaçados, pairavam em voz baixa e estendiam as mãos para o fogo. Pareciam tão longe, tão absorvidas, como se estivessem em torno da fogueira de um acampamento na estepe distante.

(Nos recessos da minha mente, via os grandes bancos de gelo - as geleiras de Nessim atulhadas das garrafas de champanhe, de rótulos azul-esverdeado, como velhas carpas no fundo de um tanque doméstico. E, como para despertar a minha memória, aproximei das narinas a manga do casaco onde restava um pouco do perfume de Justine.)

Por fim, entrei num café de povoado, onde um saidi me serviu uma xícara de café. O homem sofria de um estrabismo grotesco que parecia duplicar todos os objectos onde pousava os olhos. Num recanto da sala, encolhida de encontro a uma arca e tão imóvel que conseguia tornar-se quase invisível, uma velha fumava um narguilé que emitia de tempos a tempos um pequeno gorgolejo semelhante ao arrulho de um pombo. Aí, repensei toda a história, desde o princípio ao fim, desde a época em que ainda não conhecia Melissa até a um ponto próximo de uma morte puramente pragmática numa cidade a que eu não pertencia; pensei nisso tudo de uma forma curiosamente impessoal, como fundida na trama do fundo histórico do lugar. Eu via as coisas como fazendo parte do comportamento da cidade, de tudo o que fora e de tudo o que seria. Era como se a minha imaginação tivesse sido subtilmente envenenada pelo ambiente deste lugar e não pudesse responder aos cômputos pessoais, individuais. Tinha perdido, até, a faculdade de me aperceber do arrepio do perigo. O meu maior desgosto, e isso era bastante característico, referia-se ao maço de notas manuscritas que podiam sobreviver-me. Tive sempre o horror do inacabado, do fragmentário. Decidi então destruí-las sem perda de tempo. Levantei-me e imediatamente senti um choque: acabava de compreender que o homem que eu tinha encontrado na pequena barraca não era outro senão Mnemjian. Como tinha sido possível não reconhecer imediatamente o seu dorso informe? Esta ideia obcecava-me de tal maneira que voltei a atravessar o bairro dirigindo-me para as grandes avenidas perpendiculares ao mar. Atravessei esta miragem de ruas emaranhadas como se atravessa o campo de batalha onde os nossos amigos foram mortos; e, contudo, não podia impedir-me de gozar o mínimo odor, o mínimo som. - um prazer de sobrevivente. Na esquina de uma rua, um comedor de fogo erguia a cabeça para o céu e cuspia uma coluna de chamas que lhe enegrecia a boca e dilacerava a noite. De vez em quando, ensopava uma varinha num recipiente de petróleo e depois, atirando novamente a cabeça para trás, soprava chamas de dois metros de altura. Por todas as esquinas, as sombras violetas afundavam-se e fundiam-se, riscadas pela experiência humana - simultaneamente selvagens e ternamente líricas. Considerava como uma prova de maturidade o facto de não me compadecer já do seu desespero, de não ter outro desejo senão ser reivindicado pela cidade, de ser inscrito no rol das suas memórias banais ou trágicas - se essa fosse a sua vontade.

Era igualmente sintomático que depois de entrar no meu apartamento e de pegar no pequeno caderno de capa cinzenta, onde rabiscava as minhas notas, não pensasse mais em destruí-lo.

Pelo contrário, sentei-me a escrever mais impressões, enquanto Pombal, na outra poltrona, discorria sobre a vida.

De regresso ao meu quarto, sento-me em silêncio, ouvindo os pesados acordes do seu perfume: um perfume composto, porventura, de carne, de fezes e de ervas, tudo combinado no denso brocado do seu ser. É uma espécie particular de amor porque não tenho o sentimento de possuí-la - e nem sequer o desejo. É como se nos uníssemos unicamente numa posse pessoal de cada um, associados num momento comum da nossa evolução. Com efeito, ultrajámos o amor, demonstrando que os laços da amizade são os mais fortes. Estas notas, sejam quais forem as mãos em que vão cair, não pretendem ser outra coisa senão o comentário dolorosamente afectuoso de um mundo onde nasci para partilhar os meus momentos mais solitários - os do coito - com Justine. Não posso aproximar-me mais da verdade.

Nestes últimos tempos, quando, por qualquer razão, não podia encontrar-me com ela, desejava-a tão intensamente que cheguei ao ponto de me dirigir a Pietrantoni para comprar um frasco do seu perfume. Em vão. A amável caixeira bem se afadigou a borrifar-me as mãos com toda a espécie de essências que havia na perfumaria, sem jamais conseguir descobrir o que procurava. Por uma vez ou duas pensei ter acertado, mas logo me desiludia. Faltava sempre alguma coisa - penso que era o próprio odor da pele, que o perfume nada mais fazia do que revestir. Todos os perfumes que me propunham careciam de um corpo. Foi somente quando, desesperado, mencionei o nome de Justine que a rapariga tornou ao primeiro perfume que tínhamos experimentado.

- Porque não o disse mais cedo? - exclamou num tom de censura profissional.

Toda a gente, parecia ela insinuar, conhecia o perfume de Justine, menos eu. Era imperdoável. Surpreendeu-me descobrir que o Jamais de la vie não era dos perfumes mais caros nem dos mais exóticos.

“(Quando eu trouxe para casa o pequeno frasco de perfume encontrado no bolso de Cohen o duplo espectral de Melissa ainda se encontrava aprisionado nele. Era possível, ainda, pressenti-lo.)”

Pombal lia em voz alta a extensa e terrível passagem dos Moeurs intitulada “A Morte fala”: “Em todas as colisões fortuitas com o macho nunca experimentei o conforto da libertação, embora tenha entregado o meu corpo a todas as espécies de experiências. Vejo, constantemente, no espelho, a imagem de uma fúria envelhecendo e gritando: 'J'ai até mon propre amour - mon amour à moi. Mon amour-propre, mon propre amour. Je l’ai raté. Je n'ai jamais souffert, jamais eu de joie simple et candide.'“

Pombal afastou o livro e observou:

- Se isto é verdade, você, amando-a, nada consegue senão adoecer.

Esta observação atingiu-me como o gume de um machado manejado por alguma entidade dotada de uma força prodigiosa e inconsciente.

Quando chegou a época das grandes partidas de caça no lago Mareotis, um sentimento quase mágico de alívio começou a apoderar-se de Nessim. Sabia que era agora, ou jamais, que aquilo que devia ser decidido se decidiria. O seu aspecto era o de um homem que acaba de triunfar de uma doença grave. Teria sido o seu juízo tão débil se não estivesse consciente? Durante os sete longos anos do seu casamento tinha repetido diariamente para si próprio: “Como sou feliz!”, palavras fatais como o som de um relógio de parede sobre o qual o silêncio sem cessar se dilata. Mas agora já não podia dizê-las. A vida do casal assemelhava-se a um cabo enterrado na areia e que, de maneira inexplicável, se tinha quebrado num ponto impossível de determinar, mergulhando ambos numa obscuridade inusitada e impenetrável.

A própria loucura não dava a menor importância às circunstâncias. Aparecia sobrepondo-se não às personalidades torturadas para além do suportável, mas unicamente a uma dada situação. Na verdade, todos nós a partilhávamos, embora Nessim fosse o único actor visível, ilustrando-a na sua carne, como um ser distinto. O breve período que precedeu as grandes partidas de caça no lago Mareotis durou cerca de um mês, não mais, com certeza. E, mesmo então, aqueles que não o conheciam, não podiam suspeitar de nada. Entretanto, as ilusões amplificavam-se a tal ponto que se tinha a impressão, lendo as suas memórias, de observar bactérias a um microscópio - as células sãs tinham caído em demência, proliferando como no cancro, e eram incapazes de recuperar o domínio próprio.

As misteriosas séries de mensagens cifradas transmitidas pelos nomes das ruas onde ele passava manifestavam os sinais precisos e irrefutáveis de uma acção sobrenatural em curso, carregando a ameaça de um castigo invisível - embora não soubesse dizer se destinado a ele próprio ou aos outros. O tratado de Baltasar amarelecendo na montra de uma livraria e, no mesmo dia, o túmulo de seu pai no cemitério judaico - com todos aqueles nomes gravados nas lápidas, evocando a insondável melancolia dos judeus europeus no exílio.

Depois, o caso dos ruídos no quarto vizinho; uma espécie de respiração pesada e, de repente, o som simultâneo de três pianos. Isso, estava ele certo, não eram ilusões mas as malhas de uma cadeia oculta que só um espírito que tivesse ultrapassado os quadros da casualidade poderia considerar lógicas e persuasivas. Era cada vez mais difícil fingir saúde de espírito apoiando-se nas normas do comportamento ordinário. Nessim passava por aquela Devastatio descrita por Swedenborg.

O fogo dos carvões tomava formas extraordinárias. Acendia-se e reacendia-se sem cessar, para verificar as suas descobertas - feições e paisagens terrificantes. O sinal no pulso de Justine era também um grande motivo de perturbação. À mesa, tinha que lutar tão fortemente contra o desejo de tocá-lo que empalidecia e sentia-me desfalecer.

Certa tarde, um vestido pôs-se a respirar, durante cerca de meia hora, tomando a forma do corpo que devia cobrir. Uma noite, um gemido de asas rufiando despertou-o e viu uma criatura alada, como um morcego, cuja cabeça em forma de violão descansava no rebordo do leito.

Depois, a potência contrária das forças do bem: uma mensagem trazida pela avezinha que veio pousar na folha de papel onde estava a escrever; a ária de Pã de Weber, que um piano tocava na casa vizinha, todos os dias, entre as três e as quatro horas. O seu espírito transformara-se num campo de batalha onde as forças do Bem travavam contra as forças do Mal uma luta encarniçada, e ele sentia que devia aguçar os seus nervos para ser capaz de distingui-las, mas isso não era fácil. O mundo fenomenal estava a comportar-se com ele de tal modo que os seus sentimentos começavam a acusar a realidade do ser inconstante. Todo o seu edifício mental estava em transe de se cindir em duas partes, que um sopro seria o bastante para derrubar.

Um dia o seu casaco, pendurado nas costas de uma cadeira, começou a palpitar como se estivesse povoado por uma colónia de corações estranhos. Quando quis mostrar o que se passava a Selim, a quem chamara, o fenómeno cessou. Nesse mesmo dia viu as suas iniciais gravadas numa nuvem de ouro reflectida numa montra da Rua Santo Saba. Isto parecia uma prova evidente de tudo.

No mesmo dia, um desconhecido estava sentado no canto habitualmente reservado a Baltasar no Café Al Aktar, e bebia um arak - justamente o arak que tinha intenção de pedir. Quando lhe viu o rosto no espelho descobriu a flagrante semelhança do desconhecido consigo próprio. Não esperou mais e saiu rapidamente.

Quando caminhava pela Rua Fouad, sentiu o asfalto tornar-se numa esponja debaixo dos seus pés; estava já afundado até à cintura quando a ilusão desapareceu. Nessa tarde, às duas e meia, despertou de um sono febril, vestiu-se e saiu para confirmar a poderosa intuição de que tanto Pastroudi como o Café Dordali se encontravam vazios. De facto, estavam, e isso encheu-o de um triunfante alívio; mas durou pouco; entrando no seu quarto teve a impressão de que lhe arrancavam o coração do peito por meio de uma bomba. Chegou a odiar e a temer aquele quarto. Ficava muito tempo sem fazer qualquer movimento, a escutar, esperando que o ruído reaparecesse; um arrastar de fio que se desenrolava no soalho e os gritos agudos de uma gazela que eram sufocados no momento em que a fechavam dentro de um saco. Depois, distintamente, o som de uma tampa de mala fechando-se, fechos que batiam, e a respiração de alguém que se mantinha por detrás da parede da sala vizinha, escutando o menor ruído. Nessim tirava,, então, os sapatos e aproximava-se da janela, na ponta dos pés, para tentar espreitar o quarto fronteiro. O seu agressor, parecia-lhe, era um velho descarnado, com o nariz e o olhar de águia, com os olhos vermelhos e afundados, olhos de urso. Mas não conseguiu confirmar essa impressão. Então, levantando-se cedo na manhã do dia em que devia enviar os convites para a caçada, viu com horror, através da janela do seu quarto, dois homens com ar suspeito, vestidos de árabe, que fixavam uma corda a um cabrestante sobre o telhado. Apontaram para ele e começaram a trocar frases em voz baixa. Depois, puseram-se a arriar qualquer coisa pesada, envolvida num manto de peles. As suas mãos tremiam enquanto preenchia os grandes cartões brancos com a sua bela caligrafia, escolhendo os nomes entre os que figuravam na enorme lista que Selim tinha dactilografado.

Entretanto, sorriu, lembrando-se da importância que a imprensa local consagrava anualmente a este acontecimento memorável: as grandes caçadas no lago Mareotis. Embora tantas preocupações o afligissem, não queria deixar nada ao acaso, e, recusando os bons ofícios de Selim, insistiu em ser ele próprio a redigir todos os convites. O meu, trazendo todos os presságios de um desastre, estava agora sobre a pedra da chaminé. Contemplava-o, com atenção ligeiramente dispersa pela nicotina e pelo vinho, dizendo para mim, que ali, embora de uma maneira indefinível, se encontrava a solução para a qual tendíamos. “Quando falta a ciência, os nervos dominam tudo.” (Moeurs.)

- Naturalmente, recusas. Não vais, não é verdade?

Justine disse aquilo com um ar tão cortante que percebi que ela tinha surpreendido o meu olhar. Debruçada para mim na luz baça da madrugada, e, entre duas frases, apurava a orelha para o fantasma de Hamid que ressonava ruidosamente do lado de fora da porta.

- Não vais tentar o diabo. Diz, responde-me!

E, como para dar mais peso aos seus rogos, despiu-se e voltou docemente para a cama, apertando-se contra mim, os cabelos e a boca quentes, movimentos nervosos e enganadores de um corpo que se comprimia contra outro corpo como se sofresse de uma ferida incurável. Tive, então, o sentimento de que não podia privar Nessim por mais tempo da satisfação que ele esperava de mim, nem das consequências que isso traria para ele. Havia, também, por sobre tudo isso, a sensação fluida e macia duma libertação iminente e sentia-me quase feliz quando vi o rosto daquela que estava nos meus braços. Os seus olhos negros, maravilhosamente expressivos, pareciam mergulhar no fundo da sua memória como do cimo de uma alta janela. Ela olhava, eu sabia-o, nos olhos de Melissa - nos olhos puros e inquietos daquela que, à medida que o perigo se tornava mais iminente, se aproximava cada dia mais de nós. No final das contas, era ela quem ia ser mais ferida pelo acto que Nessim meditava. E os pensamentos regressavam pela inapagável cadeia de beijos que Justine tinha forjado, desciam os abismos da memória, ofegando, tal um marinheiro que desce ao longo das cadeias da âncora até às mais obscuras profundezas de qualquer grande porto da memória.

De entre todas as espécies de fracassos, cada pessoa escolhe aquele que menos compromete o seu orgulho, que menos a decepciona.

Eu tinha fracassado na Arte, na Religião e nas minhas relações com as pessoas. O meu fracasso artístico (isto ocorreu-me agora) tinha por origem a minha falta de fé na discreta personalidade humana. “As pessoas - escreveu Pursewarden - mantêm-se continuamente iguais a si próprias, ou, pelo contrário, perdem-se e tornam a encontrar-se numa cadência tão rápida que lhes dá a ilusão de uma continuidade, como o tremular das imagens no velho cinema mudo?” Não cria na realidade autêntica das pessoas, nem pensava que houvesse qualquer possibilidade de descrevê-las com a mínima probabilidade de veracidade. Em religião? Bem, não descobri em nenhuma religião a menor parcela de apaziguamento, a mais ténue esperança de alívio. Parecia-me que todas as Igrejas, todas as seitas não eram, na melhor das hipóteses, senão escolas para ajudar a vencer o medo. Mas o último, o maior dos meus fracassos (afundo a minha boca na carne viva entre os cabelos de Justine), foi o fracasso com as pessoas: era devido a um desinteresse de espírito cada vez maior que, se me permitia simpatizar, impedia-me, contudo, de me entregar. Gradualmente, inexplicavelmente, tornava-me cada vez mais deficiente em amor, embora fizesse incontestavelmente progressos do dom de mim próprio, a melhor parte do amor. Era isso, descobria-o agora com horror, o que me ligava a Justine. Como mulher, era, naturalmente, possessiva e devia tentar apoderar-se dessa parte de mim próprio que estava definitivamente fora de alcance, cujo último e doloroso refúgio era para mim o riso e a amizade. Essa espécie de amor tinha-a tornado, em certa medida, desesperada: eu não estava na sua dependência; e o desejo de possuir pode, quando insatisfeito, apoderar-se completamente do espírito. Como é difícil analisar estes laços que se ocultam sob a própria pele das nossas acções: o amor não é mais do que uma espécie de linguagem da pele, e o sexo pura terminologia.

E se era necessário esclarecer mais precisamente este triste vínculo que tanto me fez sofrer, eu via que era o próprio sofrimento o único alimento da memória; porque o prazer é um fim em si mesmo, e tudo quanto o repetido prazer me tinha deixado era um fundo permanente de saúde, um desinteresse pela vida. Eu era como uma bateria de pilhas. Sem ligações, tinha liberdade de circular no mundo dos homens e das mulheres como um guardião dos verdadeiros direitos do amor - que não é a paixão nem o hábito (elas apenas o qualificam), mas o pecado divino de um imortal entre os mortais: Afrodite no brasão... Assim cercado, tinha-me, não obstante, definido e realizado em mim próprio pela própria qualidade que (é claro) mais me feria: o desinteresse. As mulheres são gatunos sexuais, e era este tesouro de desinteresse que ela me queria roubar - o diamante na cabeça do sapo. Era a assinatura deste desinteresse que ela via escrita através da minha vida com todos os seus acasos, dissonâncias e desordenamentos. O meu valor não estava em nada do que fazia nem em nada do que possuía. Justine amava-me porque eu representava, para ela, algo de indestrutível - uma pessoa adulta que não podia ser quebrada. Sentia-se perseguida pelo pensamento de que mesmo quando eu estava fazendo amor com ela estava ao mesmo tempo desejando apenas morrer! E isso era-lhe intolerável.

E Melissa? Claro que não penetrava, como Justine, no meu caso. Tudo quanto sabia era que a minha força a amparava quando ela se sentia desanimada naquilo que representava o seu ponto fraco: os contactos com o mundo. Ela entesourava todos os sinais da minha fraqueza humana - hábitos desordenados, incapacidade administrativa, etc. Adorava as minhas fraquezas porque lhe faziam sentir que me podia ser útil; Justine varria todas essas coisas, que não considerava dignas de interesse. Tinha descoberto uma outra espécie de força. Eu interessava-lhe simplesmente nesse particular especial que nem eu lhe podia oferecer nem ela me podia roubar. É isso a posse: estar constantemente em guerra contra as qualidades mútuas; lutar pelos tesouros compreendidos na personalidade do outro. Mas como pode findar tal guerra senão em desespero e destruição?

E tão enlaçados se encontram os motivos humanos que foi a própria Melissa quem foi arrancar Nessim do seu refúgio no mundo da fantasia para uma acção que ele próprio estava certo de vir a lamentar amargamente - a nossa morte. Porque foi ela quem, impelida pelo impulso da sua infelicidade, se aproximou, certa noite, da mesa em que ele se sentava, diante de uma taça vazia, observando o cabaré com um olhar pensativo; tremendo e corando debaixo das suas pestanas postiças, segredou estas três palavras: “Sua mulher engana-o” - uma frase que ficou a vibrar na mente de Nessim como uma faca lançada contra uma porta fechada. É verdade que há muito tempo já os seus processos, contendo informações, se encontravam repletos de relatórios decisivos, mas esses relatórios eram como notícias de um jornal acerca de uma catástrofe ocorrida muito longe, num país que ele não tivesse visitado. Mas, agora, encontrava-se subitamente perante uma testemunha ocular, uma vítima, uma sobrevivente... A ressonância daquela simples frase refecundou a sua capacidade de sofrimento. Todo o mortífero sentido daquele montão de papelada acumulado pelos seus espiões veio esbofeteá-lo brutalmente.

O camarim de Melissa era um fétido cubículo por onde passavam os canos de despejo. Toda a mobília era um espelho quebrado e uma pequena prateleira com os bordos adornados por papel recortado, no género do que se encontra nas caixas de passas. Era aí que ela colocava os seus batons e caixas de pó, de que fazia um uso tão desastrado.

A imagem de Selim projectou-se no espelho, vacilando à luz incerta do bico de gás como um espectro do outro mundo. Falou em voz clara e seca, que era a cópia da voz do seu amo; nessa voz imitada ela sentiu passar um pouco da ansiedade que o secretário sentia pelo único ser humano a quem verdadeiramente venerava e a cujas angústias ele reagia como papel químico.

Melissa, agora, sentia medo: não ignorava que um ultraje contra um poderoso podia ser, segundo os usos da cidade, rápida e horrivelmente punido. Agora compreendia, com terror, o que tinha feito, e lutava contra o seu desejo de gritar, enquanto com as mãos trémulas retirava as pestanas postiças. Não podia recusar o convite. Vestiu o que de melhor havia no pobre guarda-roupa e, arrastando o seu cansaço como um pesado fardo, seguiu Selim até junto do grande automóvel que estacionava com todos os faróis apagados na sombra espessa. Ajudaram-na a subir e a sentar-se ao lado de Nessim. Rolaram docemente no pesado crepúsculo de uma Alexandria que, no seu terror, ela já não era capaz de reconhecer. Voltando as costas ao mar, que tinha tomado tintas de safira, atravessaram os bairros baixos na direcção do Mareotis e das escórias betuminosas de Mex, onde a pressão dos faróis rompia as trevas pondo a descoberto breves cenas íntimas da vida egípcia - um bêbedo que canta, um perfil bíblico montando um burro e levando dois meninos foragidos de Herodes, um porteiro separando os sacos com a presteza de quem dá cartas. Ela surpreendia estas cenas familiares com emoção, porque atrás deles se estendia o deserto, zumbindo no seu vazio como uma concha. Durante todo o tempo, o seu companheiro não havia proferido palavra, e ela não ousara arriscar uma olhadela na sua direcção.

Mas, quando a linha pura das dunas começou a brilhar sob o banho de prata de uma Lua tardia, Nessim mandou parar o automóvel. Retirando desajeitadamente do bolso um livro de cheques, perguntou com uma voz trémula e os olhos rasos de lágrimas:

- Qual é o preço do seu silêncio?

Ela voltou-se e vendo pela primeira vez a doçura e a tristeza daquele rosto sombrio, o medo que sentia cedeu a um sentimento esmagador de vergonha. Reconheceu na expressão do companheiro uma bondade natural a assegurar-lhe que não nutria para com ela nenhum sentimento hostil. Pousou timidamente a mão no braço de Nessim e disse:

- Se soubesse como tenho vergonha do que fiz... Peço-lhe que me perdoe. Eu não sabia o que dizia.

Ela sentia-se tão cansada que a sua emoção que estivera a ponto de fundir-se em lágrimas se transformou num bocejo. Olharam um para o outro e sentiram-se subitamente unidos pelo mesmo sentimento da sua inocência comum. Um imenso alívio apoderou-se simultaneamente de ambos, e durante um minuto foi como se se tivessem mutuamente apaixonado.

O automóvel retomou a marcha, e, em pouco tempo, estavam a desfilar pelo deserto, para um horizonte ensombrecido pelo marulho surdo das vagas. Nessim, com aquela estranha criatura semiadormecida a seu lado, repetia, sem cessar, esta frase: “Ainda bem que não sou um génio, porque um génio não tem ninguém em quem confiar.”

Os olhares que ele lançava, de vez em quando, permitiam-lhe estudá-la e estudar-me a mim através dela. A sua beleza e a sua graça deviam tê-lo desarmado e perturbado como me perturbaram e desarmaram a mim próprio, porque, quando mais tarde falou nela, disse que a beleza de Melissa era das que fazem terrivelmente pressentir estar votada para servir de alvo às forças de destruição. E, subitamente, sobressaltou-se recordando uma anedota de Pursewarden na qual ela figurava, pois o escritor tinha-a encontrado, tal como Nessim, naquele cabaré piolhoso; nessa noite, ela estava no grupo das empregadas que vendiam os bilhetes para as danças. Pursewarden, que se encontrava solenemente embriagado, abordou-a na pista e, depois de um momento de silêncio, perguntou-lhe com aquela voz triste e autoritária de que tinha o segredo: “Comment vous défendez-vous contre la solitude?” Melissa voltou para ele os seus olhos límpidos e respondeu:

“.Monsieur, je suis devenue la solitude même.” Pursewarden ficou impressionado com esta resposta, o bastante para nunca a esquecer e relatar a historieta mais tarde aos seus amigos, acrescentando: “Então disse para mim que ali estava uma mulher que talvez valesse a pena amar.” Contudo, não se arriscou a ir vê-la novamente porque o seu livro ocupava-lhe todo o tempo e porque reconhecia naquela chama de simpatia a partida que lhe estava pregando o lado mais superficial e ingénuo da sua natureza. Nessa época, estava escrevendo sobre o amor e não queria por nada deste mundo perturbar as ideias que já tinha formulado sobre o assunto. (“Não posso apaixonar-me - dizia uma das suas personagens - porque pertenço a uma antiga corporação secreta: a dos bobos!”; adiante, falando do seu casamento, escreve: “Compreendi que aborrecendo-a a ela me aborrecia também a mim; agora, sozinho, aborreço-me somente a mim. À vossa!”)

Justine não se afastou de mim durante todo o tempo em que a memória destas coisas ardentes me atravessava o espírito. “Tu podes dar qualquer desculpa - insistia ela na sua voz profunda. - Tu não vais a essa caçada.” Selim tinha insistido particularmente neste ponto; saíra do quarto com um soluço seco. Não via como fugir a essa dificuldade. “Não posso recusar-me - disse eu. - Como queres tu que justifique a minha falta?”

Tinham rolado na noite tépida e imóvel do deserto, Nessim e Melissa, tomados, um pelo outro, de uma súbita e muda simpatia. Antes de Bourg El Arab, ele cortou a ligação do motor e o carro afastou-se da estrada. “Venha - disse ele -, quero mostrar-lhe o Palácio de Verão de Justine.”

De mão dada, empreenderam o caminho para a vivenda. O guarda estava a dormir, mas ele tinha uma chave. Os quartos cheiravam a humidade e abandono, e a luminosidade que as dunas reflectiam invadia, em ondas, as salas abandonadas. Não demoraram muito a acender um fogo de pinhas na grande chaminé e, vestindo a sua velha abba, que retirou do cabide, Nessim sentou-se e perguntou:

- Agora, diga-me, Melissa, quem a encarregou de me perseguir?

Pretendera dizer aquilo como gracejo, mas esquecera-se de sorrir, e Melissa ficou vermelha de confusão e mordeu os lábios. Ficaram bastante tempo sentados em frente do fogo, saboreando o calor benfazejo e partilhando a sensação do seu desespero comum.

Justine esmagou o cigarro e saiu vagarosamente da cama. Principiou a andar para cá e para lá, em cima do tapete. Tinha medo, e eu via o grande esforço que ela fazia para não explodir.

- Fiz muitas coisas em toda a minha vida - disse ela voltada para o espelho. - Velhacarias até, provavelmente. Mas nunca agi por distracção, nunca fiz nada em pura perda. Sempre considerei os actos como mensagens, desejos do passado para o futuro que permitem uma descoberta do eu. Não teria razão? Não teria razão?

Não era a mim que ela fazia, então, aquela pergunta, mas a Nessim. É muito mais fácil fazer ao amante as perguntas destinadas ao marido!

- Quanto aos mortos - retomou ela no fim de um intervalo de silêncio -, sempre pensei que os mortos nos consideram mortos. Foram juntar-se aos vivos depois de uma insignificante excursão pela pseudovida.

Hamid começava a dar sinais de despertar e ela lançou a mão às roupas num movimento de pânico.

- Está bem, vai - concedeu ela tristemente. - Eu também vou. Tens razão. Devemos ir.

Depois, voltando-se para o espelho a compor os cabelos, acrescentou, contemplando a desordem do seu lindo rosto:

- Mais um cabelo branco!

Vendo-a assim aprisionada no raio de sol que atravessava a suja vidraça, não podia deixar de pensar, uma vez mais, que nada existia nela capaz de modificar ou de dominar a intuição que ela tinha feito nascer de uma natureza repleta de introspecção: nenhuma educação, nenhum recurso do intelecto para lutar contra as intimações de um coração violento. Os seus dons eram os que às vezes se encontram nas pitonisas ignaras. Tudo o que nela podia ser tomado por pensamento era adquirido - mesmo as observações sobre os mortos que se encontram textualmente nos Moeurs; ela tinha absorvido o essencial de certos livros, não pela sua leitura, mas escutando os inestimáveis comentários de Baltasar, Arnauti e Pursewarden. Ela era um resumo ambulante dos escritores e dos pensadores a quem tinha amado ou admirado - mas que mulher, por mais dotada que fosse, podia pretender mais?

Nessim tomou as mãos de Melissa entre as dele (ela abandonou-as, dóceis, frias, mãos de cera) e começou a fazer-lhe perguntas a meu respeito com uma tal avidez que quase deixava supor que não era por Justine mas por mim que ele sentia tal paixão. Apaixonamo-nos sempre pelo ser que a pessoa a quem amamos escolheu para amante. Quanto não daria eu para saber tudo o que lhe disse, com tanta sinceridade e delicadeza natural que o comoveu profundamente! Tudo quanto sei, porém, é que Melissa concluiu estupidamente:

- Mas nem mesmo agora eles são felizes: têm zangas terríveis; foi Hamid quem o disse da última vez que me viu.

Ela tinha, portanto, bastante experiência para compreender que o verdadeiro objecto das nossas querelas era precisamente o facto do nosso amor. Penso que via aí apenas o egoísmo de Justine - essa ensurdecedora ausência de interesse pelos outros que caracterizava o meu tirano. Faltava-lhe totalmente aquela caridade de espírito que era o essencial da personalidade de Melissa. Não era, realmente, humana - nenhum ser totalmente votado ao seu ego o pode ser. Então, que me atraía nela? Fazia esta pergunta pela milésima vez. Nessim, entretanto, dedicando-se a aprofundar e a amar Melissa como um prolongamento de Justine, circunscrevia perfeitamente a situação humana. E Melissa procurava nele as qualidades que imaginava eu ter encontrado na mulher dele. Éramos todos quatro, sem o sabermos, complementares e inexplicavelmente ligados uns aos outros. (“Nós os que muito viajámos e muito amámos; nós os que, não direi, sofremos, porque sempre descobrimos através do sofrimento a nossa própria vaidade - somos os únicos susceptíveis de sentir as complexidades da ternura e de compreender até que ponto o amor e a amizade se encontram estreitamente ligados.” Moeurs.)

Falavam agora como irmão e irmã que se encontram depois de longa separação, comunicando um ao outro aquele sentimento de libertação que sucede aos que partilham o peso de preocupações jamais confessadas. E, do fundo de toda essa simpatia, a sombra inesperada do desejo ergueu-se entre eles, o fantasma do desejo, filho bastardo da confissão e da confiança. Era como uma premonição do amor que iriam sentir um pelo outro, mais tarde, e que seria muito mais belo que o nosso - falo em mim e Justine. O amor é bastante mais verdadeiro quando nasce, não de desejo, mas de simpatia; porque neste caso não deixa cicatrizes, não deixa feridas. Era já quase dia quando se calaram e se levantaram, curvados e trémulos - o fogo tinha-se apagado havia muito-, e atravessaram as dunas orvalhadas, na luminosidade cor de alfazema da madrugada, e entraram novamente no carro. Melissa tinha encontrado um amigo e um protector; quanto a Nessim, sentia-se transfigurado. A sensação de experimentar uma nova simpatia tinha-lhe permitido, como por magia, reencontrar-se - era agora um homem capaz de agir (capaz de matar o amante de sua mulher se tal lhe apetecesse!).

Percorrendo este litoral recém-nascido, contemplaram os primeiros efeitos do sol invadindo o horizonte do sombrio e altivo Mediterrâneo, cujas margens banhavam simultaneamente Cartago, a Destruída, Salamina e Chipre.

Depois, quando passaram no local onde a estrada, cortando por entre as dunas, se aproximava da costa, Nessim afrouxou o andamento e convidou Melissa para um banho de mar. Tinha mudado tanto naquelas poucas horas que sentia agora o desejo de que Melissa o visse nu, e apreciasse a beleza, que durante tanto tempo tinha permanecido inerte como um belo vestido esquecido num armário.

Nus, rindo, chapinharam na água, de mão dada, sentindo a carícia do sol começar a aquecer-lhes as costas. Era como a primeira manhã depois da criação do Mundo. A própria Melissa tinha-se desembaraçado, com os vestidos, dos últimos resíduos que lhe embaraçavam a carne, e os seus movimentos eram agora os de uma graciosa dançarina; a nudez conferia-lhe sempre a plenitude, o equilíbrio e o talento que lhe faltavam no cabaré.

Ficaram deitados um longo momento, procurando, no meio das trevas dos seus sentimentos, o caminho a seguir. Ele compreendia que tinha adquirido o seu sentimento instantâneo, que ela era agora a sua amante em todos os aspectos.

Retomaram o caminho da cidade, sentindo-se simultaneamente felizes e embaraçados; sentiam ambos uma espécie de vazio no próprio cerne da sua felicidade. Como hesitavam em voltar para a vida que os esperava, o carro avançava vagaroso, e os silêncios entre as carícias que trocavam eram cada vez mais demorados.

Por fim, Nessim lembrou-se de um pequeno e velho café em Mex, onde podiam comer ovos duros e tomar café. Embora fosse muito cedo, o proprietário, um grego ensonado, já se tinha levantado e colocou, para os clientes, duas cadeiras debaixo de uma figueira estéril, num pátio cheio de galinhas e enfezados pintainhos. Em torno deles, só se avistavam os telhados de zinco ondulado, das fábricas e armazéns. O mar apenas se pressentia no cheiro forte de metal aquecido e alcatrão.

Ele deixou-a, finalmente, na esquina da rua que ela lhe indicou e despediu-se de forma “inexpressiva e convencional”, talvez no temor de ser surpreendido por um dos seus funcionários. (Isto é pura conjectura da minha parte, porque as palavras “inexpressiva” e “convencional” que figuram no diário de Nessim parecem-me um pouco deslocadas.) O túmulo inumano da cidade veio interpor-se uma vez mais, obrigando-os a adiar os seus sentimentos e as suas preocupações. Quanto a ela, bocejando e sonolenta, inteiramente natural, entrou na pequena igrejinha grega e acendeu um círio diante da imagem do santo patrono. Persignou-se à direita e à esquerda, segundo o rito ortodoxo, e ajeitou uma mecha rebelde quando se ajoelhou diante do ícone, redescobrindo no seu beijo de prata toda a consolação de um hábito infantil já esquecido. Depois, voltou-se lentamente, fatigada, para dar de frente com Nessim. Ele estava pálido como a morte e contemplava-a com uma curiosidade ardente onde se misturava uma grande ternura. E ela compreendeu tudo, imediatamente. Abraçaram-se com um ardor dilacerante, sem se beijarem nos lábios, os corpos comprimidos, e de repente ele começou a tremer de cansaço e a bater os dentes. Ela conduziu-o ao coro e fê-lo sentar-se; por um momento, Nessim afundou-se numa espécie de vertigem, tentando em vão falar e passando a mão pela testa como um homem que esteve prestes a afogar-se. Não que tivesse nada de particular a dizer-lhe, mas a sua impotência para falar fazia-lhe temer um ataque. Gemeu e conseguiu articular:

- É terrivelmente tarde; são quase seis horas e meia. Então, tomou as mãos de Melissa; levou-as às faces enrugadas, depois levantou-se, e com um passo de velho dirigiu-se para o pórtico, onde emergiu à luz loura do Sol, deixando-a ali, sentada, a vê-lo afastar-se.

Nunca a claridade jovem da aurora parecera tão bela a Nessim. A cidade brilhava como uma pedra preciosa. Os telefones esganiçados, cujos sons inundavam os grandes edifícios comerciais onde os financeiros traficavam, davam-lhe a impressão de grandes aves metálicas e prolíficas. Brilhavam com uma juventude e uma saúde faraónicas. As árvores do parque tinham sido lavadas por uma inusitada bátega nocturna. As folhas brilhavam e davam a impressão de grandes gatos ocupados a analisar o pêlo.

Tomando o elevador para o quinto andar, tentando timidamente tomar um ar apresentável (apertando o nó da gravata e acariciando a face onde a barba crescera), Nessim observava-se no pequeno espelho de bolso e surpreendia-se de toda a gama de sentimentos e de crenças que aquela noite breve despertara nele. Para além de tudo isso, doloroso como um dente cariado ou um dedo ferido, subsistia o febril significado daquelas três palavras que Melissa lhe tinha cravado na carne. Reconhecia, com uma espécie de estupor, que. Justine já tinha morrido para ele; de imagem interior tinha-se tornado num objecto, um medalhão gravado que se poderia trazer, para sempre, suspenso de um cordão em torno do pescoço. Não é sem amargura que se troca a existência, e cada mulher é uma nova existência, concisa, circunspecta, sui generis. Como pessoa, ela tinha-se evaporado. Não mais desejava possuí-la, mas libertar-se dela. De mulher ela tinha passado para situação.

Chamou Selim, e quando o secretário acorreu ditou-lhe as cartas mais neutras que jamais ditara, com uma calma tão surpreendente que as mãos do rapaz tremiam enquanto as estenografava com os seus sinais minúsculos e exactos. Nessim, provavelmente, nunca aparecera sob uma tão terrificante luz aos olhos de Selim, como nessa manhã, sentado em frente da sua enorme secretária com a grande bateria de telefones diante dele.

Decorreu algum tempo antes de Nessim tornar a encontrar Melissa, depois deste episódio, mas escreveu-lhe longas cartas que nunca chegou a remeter. Parecia-lhe necessário, por qualquer fantástica razão, explicar-lhe Justine e justificá-la a seus olhos, e todas as cartas começavam por uma longa e penosa exegese do passado de Justine e do seu. Sem este preâmbulo, pensava ele, era impossível explicar-lhe por que vias Melissa o tinha comovido e conquistado. Ele defendia a sua mulher, bem entendido, não contra Melissa, que não tinha proferido qualquer crítica contra ela (à parte aquela curta frase), mas contra todas as novas suspeitas que se levantavam precisamente a partir da sua experiência com Melissa. Do mesmo modo que a minha experiência com Justine me tinha revelado Melissa sob uma luz mais radiosa e mais profunda, Nessim mergulhava o seu olhar nos olhos cinzentos de Melissa e descobria aí uma Justine completamente nova e inesperada. Compreendam: ele temia vir a odiá-la. E, agora, compreendia que o ódio nada mais é do que o amor não consumado. Quase invejava a rude franqueza de Pursewarden, que no frontispício do seu último livro tinha rabiscado, numa dedicatória a Baltasar, estas palavras de desprezo:

 

               Pursewarden a respeito da vida

  1. B. - A comida é para comer

               O escritor é para escrever

               A mulher é para...

               Fim equiescat in pace

 

Quando eles se tornaram a encontrar, em circunstâncias muito diferentes... Mas não sinto coragem para continuar. Estudei Melissa profundamente no meu espírito e no meu coração, e é-me intolerável recordar o que Nessim descobriu nela - páginas cobertas de rasuras e emendas. Páginas que arranquei do seu diário e destruí. O ciúme sexual é o mais curioso dos vermes, e pode alojar-se em qualquer sítio, mesmo na memória. Afasto-me da imagem dos tímidos beijos de Nessim e dos beijos de Melissa que apenas procurava em Nessim a boca mais próxima da minha...

De um embrulho seco e amarelado retiro um cartão sobre o qual, depois de humilhantes transacções, acabei por convencer um pequeno tipógrafo local a inscrever o meu nome e a minha morada. Pegando na caneta escrevo:

O senhor... aceita com prazer o amável convite do senhor... para uma caçada aos patos no lago Mareotis.

Parece-me que chegou o momento de revelar importantes verdades sobre o comportamento humano.

O Outono tinha chegado finalmente, límpido e fresco. As grandes vagas assaltavam a muralha de pedra da Corniche. As aves migratórias pululavam sobre as águas baixas do Mareotis. As águas perdiam as suas cintilações douradas e tomavam a pigmentação cinzenta do Inverno.

Os convidados reúnem-se em casa de Nessim, à hora do crepúsculo. É uma prodigiosa mistura de automóveis e carruagens.

É lá que começa a interminável embalagem e desembalagem de cestos de vime e de estojos de carabinas, tudo acompanhado de cocktails e sanduíches. Roupas de cabeça. Comparação de carabinas e dos cartuchos, conversação inseparável da vida de um caçador, frases sem nexo, anedotas, conselhos. O crepúsculo amarelado e sem Lua desce lentamente. Os raios do Sol, abandonando a terra, afloram ainda a base lilás das nuvens. O ar está vivo e puro como um copo de água.

Justine e eu agitámo-nos na teia de aranha das nossas preocupações como dois seres já separados. Ela veste o trajo habitual de veludo: saia comprida e ampla com grandes bolsos, chapéu de veludo abatido quase até lhe esconder os olhos, um chapéu de escolar, e botas de couro. Não nos olhamos de frente e se dirigimos a palavra um ao outro é em tom impessoal. Sinto uma atroz dor de cabeça. Ela insistiu para que eu levasse a sua carabina automática, uma bela arma muito leve, uma Purdy calibre doze, o ideal para quem, como eu, era um inexperiente dessas coisas.

Risos e aplausos quando se tira à sorte a composição das diversas equipas. Devemos espalhar-nos amplamente na periferia do lago, e aqueles a quem cabem as posições a ocidente terão que fazer um longo desvio pela estrada de Mex, nos limites do deserto. Os chefes de cada equipa metem, uns após outros, dentro de um chapéu os pequenos papéis dobrados onde se encontram os nomes dos convidados. Nessim já tirou Capodistria, que se apresentou elegantemente vestido com um colete de cabedal com forro de veludo, calças amplas de gabardina caqui e peúgas de xadrez. Na cabeça, traz um velho chapéu de lã, com uma pena de faisão espetada no laço, e leva na bandoleira uma impressionante profusão de cartuchos. A seguir, sai Ralli, o velho general grego, com bolsas cinzentas debaixo dos olhos e calções de montar, remendados; Pallis, o encarregado de negócios francês, numa canadiana de pele de carneiro; finalmente, sou eu quem a sorte designa.

Justine e Pombal calharam na equipa de Lord Errol. Torna-se agora claro que ficaremos separados. Bruscamente, tenho pela primeira vez verdadeiramente medo ao surpreender o brilho inexpressivo dos olhos de Nessim. Entramos nos carros. Selim aperta as correias de um grande estojo de carabina, de pele de porco. As suas mãos tremem. Quando tudo se encontra a postos, as viaturas trepidam num rugir de motores. Um grupo de criados sai, então, da casa com taças de champanhe. Esta diversão permite a Justine aproximar-se do nosso carro e, sob o pretexto de me entregar uma caixa de cartuchos sem fumo, aperta-me o braço, com calor, e os seus olhos negros e brilhantes fixam-me com uma expressão que quase me pareceu de alívio. Tento formar com os lábios um sorriso.

Nessim vai ao volante e partimos, deixando a cidade e as últimas colorações do dia para penetrar numa paisagem ondulada e arenosa na direcção de Aboukir. Toda a gente está bem disposta. Ralli fala-nos nos seus feitos guerreiros enquanto Capodistria nos faz rir a todos contando as aventuras fabulosas de seu pai. (“O seu primeiro gesto quando a loucura se apoderou dele foi intentar contra os dois filhos uma acção em que os acusava de ilegitimidade premeditada e obstinada.”) De tempos a tempos, erguia um dedo para compor a compressa de algodão debaixo da banda negra que lhe tapava o olho esquerdo. Como foi possível não ter reconhecido antes, na pessoa de Capodistria, o autor de todos os males que atormentavam Justine? Pallis colocou um grande chapéu de caça com grandes orelhas que lhe empresta um ar grave de coelho em meditação. De tempos a tempos, surpreendia os olhares que Nessim me lançava pelo retrovisor: sorria-me.

Quando alcançámos as margens do lago, já era noite. O velho hidroplano ronca e cuspinha à nossa espera, carregado de armadilhas. Nessim reúne um par de grandes pateiras e fixa os tripés antes de vir juntar-se a nós no batel de fundo chato, e internamo-nos, através dos juncos, em direcção à cabana isolada onde devemos passar a noite. O nosso horizonte limita-se, agora, às margens dos tenebrosos canais que a nossa ruidosa embarcação percorre; as aves do lago fogem diante dos roncos do motor; os caniços roçam-nos e tornam a fechar-se à nossa passagem. Por uma ou duas vezes, desembocamos numa clareira, levantando uma borrasca de asas - ventres de prata arrancando-se pesadamente da superfície tranquila das águas -, manchas de espuma, estremecimentos, batimentos, compridas maretas... Alcatrazes vêem-nos passar, bico escancarado, pançudos, cheios de ervas e de filamentos lodosos. Em torno de nós, invisíveis, as colónias do lago instalam-se para a noite. Logo que o motor do hidroplano se cala, o silêncio povoa-se de pequenos ruídos inquietantes e familiares: marulhos, patinhagem, suspiros de patos que adormecem docemente.

Levanta-se uma ligeira aragem que arrepia a água em torno da cabana de madeira onde os carregadores nos esperam, sentados na plataforma. Agora a obscuridade é total e as vozes dos barqueiros ressoam claras e alegres. Os carregadores têm qualquer coisa de inquietante e de selvagem; correm de uma ilha para outra, soltando gritos agudos, a galabeah colada à cintura, impermeável ao frio. Grandes e negros, parecem esculpidos nas trevas. Ajudam-nos a subir para a plataforma, depois descem ao barco para depositarem as suas armadilhas, enquanto nós entramos na cabana onde já ardem pequenas lâmpadas de parafina. Da minúscula cozinha, chegam-nos apetitosos odores que aspiramos com satisfação, enquanto nos desembaraçamos das armas e descalçamos as botas. Depois, os caçadores lançam-se em intermináveis histórias de caça, o mais apaixonante tema de conversação masculina que existe no mundo. Ralli unta o interior das suas velhas botas muitas vezes consertadas. O guisado está delicioso e o vinho tinto pôs todos de bom humor.

Cerca das nove horas, todo o grupo está apto a entrar em acção; Nessim sai para dar as últimas ordens aos carregadores, depois volta para a cabana e fixa o velho despertador, enferrujado, para as três horas. Somente Capodistria não sente a menor disposição para dormir. Deixa-se ficar sentado como se estivesse mergulhado em profundas reflexões, bebe pequenas goladas de vinho e fuma. Trocamos frases insignificantes durante alguns minutos; depois, de repente, ele lança-se numa crítica ao terceiro volume de Pursewarden, que acaba de aparecer nas livrarias.

- O que tem de espantoso é que apresenta uma série de problemas espirituais como se estivesse tratando lugares-comuns, e trata as suas personagens como simples ilustrações das suas hipóteses. Reflecti muito sobre a personalidade de Parr, o Sensualista. Parece-se muito comigo. A sua apologia da sensualidade é bizarra, mas é muito bem feita, por exemplo, na passagem em que diz que as pessoas só vêem em nós o desprezível perseguidor de saias, ignorando totalmente o apetite de beleza que nos anima. Ser ferido por um rosto que desejamos devorar, célula por célula. Nem sequer gozar o corpo que sustenta esse rosto nos proporciona qualquer satisfação. Que é possível fazer pelas criaturas assim?

Suspira e, sem transição, começa a falar da Alexandria de outrora. Fala com uma resignação e uma grande doçura dos seus dias pretéritos, vendo passar serenamente o adolescente e o homem novo que tinha sido.

- Nunca compreendi inteiramente meu pai. Ele tinha um espírito dos mais sarcásticos, mas é possível que essa ironia ocultasse qualquer ferimento profundo na alma. Não se é um homem ordinário quando se pronunciam coisas tão chocantes que nunca mais se apagam na memória dos que as escutam. Um dia, falando do casamento, ele disse: “O casamento é a forma de legitimar o desespero” e “cada beijo é uma vitória sobre a repugnância”. Sempre me surpreendeu o sistema coerente das suas opiniões sobre a vida, mas a loucura veio interpor-se entre ele e a vida, e tudo quanto dele me resta é a lembrança de algumas anedotas e algumas frases. É já bastante e eu gostaria de deixar, pelo menos, outro tanto quando morrer.

Continuo acordado, por um momento, sobre a estreita tarimba de madeira, reflectindo no que ele acaba de dizer; agora tudo são trevas e silêncio apenas perturbado pelas ordens que Nessim dá em voz baixa aos carregadores. Não consigo perceber as palavras. Capodistria fica ainda um minuto sentado, deixando consumir o cigarro, e, finalmente, vai deitar-se pesadamente na tarimba debaixo da janela. Os outros já dormem, a julgar pelo ressonar profundo de Ralli. Uma vez mais o medo deu lugar à resignação; no limiar do sono, invoco uma vez mais a imagem de Justine, antes de deixar que a recordação dela deslize para o mundo dos limbos povoados por vozes longínquas e pastosas e pelo ruído lento das águas do grande lago.

É noite cerrada quando acordo com a suave pressão da mão de Nessim sobre o meu ombro. O despertador falhara. Mas a cabana está já agitada pelos vultos que se espreguiçam e bocejam saltando das tarimbas. Os carregadores lá fora tinham dormido em círculo como cães de pastor. Agora, apressam-se a acender as lâmpadas de parafina, cujos clarões espectrais iluminam o nosso pequeno almoço, apressado, de café e sanduíches. Saio e vou lavar a cara na água gelada do lago. Trevas absolutas no céu e na terra. Toda a gente fala em voz baixa, como se sentisse o peso das trevas. Bruscas rajadas de vento fazem estremecer a cabana assente sobre frágeis pilares.

Distribuem-nos um batel e um carregador.

- Fique com Faraj - aconselha-me Nessim. - É o mais competente de todos e de toda a confiança.

Agradeço-lhe. Um rosto negro, talhado à machadada, inexpressivo, debaixo de um turbante sujo. Pega no meu equipamento e regressa em silêncio ao batel. Murmuro uma despedida e sigo o meu guia. Sento-me no banco enquanto Faraj com a vara vai levando o barco pelo canal. De repente, penetramos no coração de um diamante negro. A água povoa-se de estrelas, deslizamos sobre Orion, e a Cabra salpica-nos com as suas fagulhas brilhantes. Durante muito tempo, rastejamos sobre este tapete de estrelas num silêncio pontuado pelo ruído de sucção da vara enterrando-se no fundo lamacento. Depois, desembocamos bruscamente num canal mais largo, e pequenas ondazinhas vêm em fileiras apertadas tamborilar contra a proa, enquanto rajadas de vento vindas do mar invisível assentam sobre os nossos lábios um sabor a sal.

As premissas da aurora estão já suspensas nos ares, à medida que atravessamos as trevas deste mundo perdido. A paisagem alaga-se, agora, na proximidade das águas livres, a teia das ilhas, dos caniçais e das ervas altas torna-se mais frouxa. De todos os lados, chega-nos uma densa e rica revoada, os cacarejos dos patos e os gritos agudos das gaivotas famintas do litoral. Faraj solta um grunhido e dirige o batel para uma ilha próxima. Tacteando na obscuridade, acabo por descobrir os bordos de um tonel dentro do qual me introduzo com dificuldade. As posições de caça são constituídas simplesmente por dois tonéis de madeira, acopulados, e camuflados por uma rede de ervas e caniços. O carregador amarra solidamente o batel enquanto me desembaraço do meu equipamento. Nada mais há para fazer senão esperar a aurora, que desperta lentamente algures e emerge, enfim, desse vago nada.

O ar está, agora, glacial e o meu capote não me oferece mais do que uma protecção insuficiente. Disse a Faraj que carregaria a minha própria espingarda, pois não estava nada interessado em vê-lo estender-me, do tonel vizinho, a arma carregada. Confesso que me sentia um pouco envergonhado, mas tinha os nervos à flor da pele e sentia-me mais tranquilo tomando esta precaução. O carregador aquiesceu em silêncio com um movimento da sua face inexpressiva e foi instalar-se no batel, num canavial próximo, imóvel como um espantalho. Depois, esperámos, olhando as lonjuras remotas do lago por um tempo que me pareceu durar séculos.

Subitamente, no fim do grande corredor, a minha vista excita-se com um pálido estremecimento disjuntivo, enquanto uma linha amarelo-ouro alargando-se progressivamente irrompe na massa sombria das nuvens acasteladas a leste. A emoção das colónias invisíveis de aves precisa-se à nossa volta. Lentamente, dolorosamente, como uma porta entreaberta, a aurora repele as trevas e cresce em torno de nós. Um minuto ainda e uma escadaria de malmequeres, dum louro muito tenro, começa a descer do céu e aborda o nosso horizonte, dando aos olhos e ao espírito uma orientação que já tinham perdido. Faraj boceja pesadamente e coça-se. Agora, rosa ruiva e archotes de ouro. As nuvens passam ao verde-amarelado. O lago espreguiça-se e sacode os últimos vestígios de sono. A sombra negra duma cerceta atravessa o meu campo de visão, dirigindo-se para leste. “É o momento”, murmurou Faraj; mas a grande agulha do meu relógio indica-me que ainda dispomos de cinco minutos. Tenho a impressão de que a noite me penetrou até aos ossos. Sinto que a incerteza e a inércia lutam pela posse do meu espírito entorpecido. Ficara decidido que não se abriria o fogo antes das quatro horas e meia. Armo lentamente a minha carabina e coloco a cartucheira no rebordo do segundo tonel, ao alcance da mão. “É o momento”, diz Faraj com insistência. Não longe de mim, escuto o chape seguido da fuga de algumas aves que não vejo. No meio do lago, um casal de pelicanos medita. Apresso-me a dizer qualquer coisa quando o primeiro tiro estala no sul, como o bater seco e longínquo das bolas de cricket.

Alguns solitários começam a passar, um, dois, três. A luminosidade aumenta, passando do vermelho ao verde. As nuvens debandam para descobrirem os abismos enormes do céu. Quatro triângulos distintos de patos elevam-se a duzentos metros. Atravessam o meu horizonte num ângulo propício e abro fogo com o cano direito para tiro a longa distância. Naturalmente, os patos são mais rápidos do que parecem. Os minutos passam, o coração palpita. As carabinas crepitam mais perto, todo o lago se encontra em estado de alerta. Os patos voam frequentemente em grupos, três, cinco, nove; muito baixos e muito rápidos. O pescoço esticado, as asas zumbem. Mais alto, em pleno céu, navegam belas formações, agrupados como bombardeiros, num voo lento e seguro. As espingardas dilaceram o ar enquanto o voo dos patos, entre os quais há já algumas baixas, inflecte para o mar. Mais alto, e absolutamente fora do alcance, aparecem cadeias de gansos selvagens; os seus gritos lamentosos propagam-se sobre as águas, agora soalheiras, do lago Mareotis.

Quase não tenho tempo para pensar. Cercetas e marrecos passam em flecha sobre a minha cabeça, e começo a atirar lentamente, metodicamente. Os alvos são tão numerosos que se torna difícil escolher um, durante o breve segundo em que eles se apresentam, simultaneamente, diante da mira. Por uma ou duas vezes atiro ao acaso para o meio de uma formação. Quando é atingida, a ave titubeia, revoluteia no ar, imobiliza-se por um instante, depois cai graciosamente como um lenço da mão de uma senhora. Os canaviais fecham-se sobre os cadáveres castanhos, mas o infatigável Faraj fisga como um demónio para referenciar as aves. Às vezes, mergulha na água com a galàbeah arregaçada até ao umbigo. O rosto animou-se e todo ele vibra na excitação da caçada. De tempos a tempos, solta um grito estridente, gesticulando.

Os patos aparecem, agora, vindos de todas as direcções, sob todos os ângulos possíveis, uns lentamente, os outros zumbindo como flechas. As espingardas uivam e crepitam incansavelmente e as aves cruzam o lago, em todos os sentidos, desorientadas, sem saber onde encontrar um refúgio. Certas “esquadrilhas” revelam ter sofrido duras perdas; os solitários têm o ar de estar tomados de pânico e dão voltas insensatas. Um, novo, pousa no tonel, quase ao alcance da mão de Faraj, depois, descobrindo, subitamente, o risco que corre, voa, apressado, num bater de espuma. Sem me gabar, não me porto muito mal, embora no meio desta excitação seja difícil conservar o sangue-frio e apontar com cuidado. O Sol vai já muito alto e os vapores matutinos dissipam-se completamente. Dentro de uma hora, estaremos a transpirar sob as nossas pesadas vestimentas. O Sol brilha sobre as águas encrespadas do Mareotis e as aves continuam a voar. Os batéis começam a carregar-se dos corpos húmidos das vítimas, e o sangue vermelho a correr dos bicos quebrados para o fundo dos botes, as penas maravilhosas perdendo já o brilho com a fuga da vida.

Utilizo o melhor que posso os meus derradeiros cartuchos, mas às oito horas e um quarto disparei o meu último tiro; Faraj continua a rastejar no meio dos canaviais, com uma fidelidade de cão de caça, recolhendo os trofeus. Acendo um cigarro e pela primeira vez sinto-me desoprimido da sombra de maus presságios, respirando livremente, pensando livremente. É extraordinário como a perspectiva da morte paralisa a livre actividade do espírito, fechando-lhe o acesso do futuro que se nutre unicamente de esperanças e desejos. Sinto a barba que começou a despontar nas faces e no queixo e começo a sonhar com as delícias de um banho quente e de um pequeno almoço copioso. Faraj continua a explorar os canaviais e as ilhotas. A fuzilaria baixou de intensidade e em certos sectores cessou totalmente. Penso em Justine, algures na outra margem do lago. Não me sinto muito inquieto pela sua segurança: ela escolheu para carregador o meu fiel Hamid.

De repente, sinto-me tão bem disposto que grito a Faraj para que ponha termo às suas pesquisas e traga o batel. Ele obedece contrariado e metemo-nos a caminho por entre um dédalo de corredores e canaviais para regressar à cabana.

- Oito pares não é muito! - observa Faraj, pensando provavelmente nas impressionantes matanças de Ralli e Capodistria.

- Para mim já não é mau - respondo-lhe. - Sou fraco atirador. Foi até hoje o meu dia mais feliz.

Penetrámos nessa zona cada vez mais densa que cinge o lago e perguntava a mim mesmo como é que o meu guia não se perdia naquele labirinto de pequenos canais.

Finalmente, em contraluz, vejo um outro batel que se aproxima de nós e reconheço o perfil familiar de Nessim. Faço-lhe sinal mas ele não corresponde. Encontra-se sentado à proa da embarcação, um ar ausente, as mãos cruzadas em torno dos joelhos. Grito-lhe:

- Nessim, qual foi a sua conta? Eu fiz oito pares, além de um que não se encontrou.

Desembocámos no mesmo canal e, agora, já estamos perto da cabana. Nessim espera que os batéis não distem um do outro mais do que poucos metros para dizer com uma curiosa serenidade:

- Não sabe? Houve um acidente. Capodistria...

De repente o coração contrai-se no meu peito. Balbucio:

- Capodistria?

Nessim não perde a sua calma curiosamente maliciosa, como um homem que descansa, depois de um grande dispêndio de energia.

- Morreu - diz ele. E, de repente, escuto o roncar do motor do hidroplano que se põe em marcha para além da cortina de caniços.

Faz um gesto na direcção de onde chega o som e acrescenta na sua mesma voz igual:

- Levam-no para Alexandria.

Um milhão de banalidades, um milhão de perguntas convencionais precipitam-se no meu espírito, mas durante um longo momento fico incapaz de pronunciar qualquer palavra.

Os outros encontram-se já na plataforma, constrangidos, como intimidados; parecem um grupo de estudantes desorientados, depois de terem organizado uma farsa monumental que terminou com a morte de um dos colegas. O hidroplano afasta-se, lentamente, arrastando atrás de si o seu cone rugidor, no ar agora cada vez mais quente. Não longe, ouvem-se chamamentos de vozes e o arrancar das viaturas. Os montões de patos que, normalmente, teriam sido o objecto de milhares de comentários jazem diante da cabana, absurdos, anacrónicos. Parece que a morte é uma coisa muito relativa. Estávamos apenas dispostos a aceitá-la num aspecto muito particular quando penetrámos nas trevas do lago com as nossas armas. A morte de Capodistria está ali, suspensa no ar, como um mau cheiro ou como uma graçola imunda.

Tinha sido Ralli, encarregado de ir chamá-lo, quem o encontrara; o corpo caíra na água pouco profunda, o rosto estava quase enterrado na vasa, e a seu lado boiava a banda negra. Era manifestamente um acidente. O carregador de Capodistria, um velhote magro como um alcatraz, está a comer um guisado de feijões, na plataforma, com a cabeça enterrada nos ombros. Não se consegue tirar dele uma descrição coerente do acontecimento. Veio do Alto Egipto e tem aquela expressão cansada e feroz de um patriarca do deserto.

Ralli está extremamente nervoso e toma copiosas doses de aguardente. Está a contar a sua história pela sétima vez, simplesmente porque necessita de falar para serenar os nervos. O corpo não podia ter estado muito tempo dentro da água, e, contudo, a sua pele assemelhava-se às mãos das lavadeiras. Quando o içaram para o hidroplano, a dentadura postiça caiu-lhe da boca e quebrou-se na borda do barco; este incidente assustou e impressionou profundamente os que o presenciaram. Senti-me bruscamente muito cansado e os meus joelhos começaram a tremer. Pego num canjirão de café, arranco as botas e lanço-me para uma tarimba onde começo a sorver a bebida em pequenas goladas. Ralli continua a falar com uma obstinação ensurdecedora, descrevendo com a mão livre formas impressionantes e sugestivas. Os outros olham-no vagamente aborrecidos e escutam-no com uma curiosidade frouxa, mergulhados nas suas próprias reflexões. O carregador de Capodistria continua a comer, ruidosamente, como um animal faminto, piscando os olhos à luz do Sol. Depois, vemos aproximar-se um batel com três polícias de pé, em equilíbrio instável. Nessim vê-os aproximarem-se, num ar impassível, com certa satisfação; dir-se-ia que dirige a si próprio um sorriso de convivência. Bater de botas e de mosquetes sobre os degraus de madeira; vêm colher os nossos depoimentos nos seus blocos de notas. Olham para todos com um olhar pesado de suspeitas. Um deles lança as algemas em torno dos pulsos do carregador de Capodistria e ajuda-o a entrar no batel. O homem olha, ironicamente incrédulo, as mãos algemadas, como os velhos macacos a quem se ensina a prática de gestos humanos cujo significado, no entanto, não compreendem.

É cerca de uma hora quando a Polícia conclui o seu trabalho. Nesta altura já todas as equipas devem ter voltado à cidade, onde a notícia da morte de Capodistria as precedeu. Mas o dia ainda não acabou.

Uns após outros voltamos para terra com os nossos equipamentos. Os carros esperam-nos, e começa, então, uma longa conferência de regateio com os carregadores e os barqueiros, a quem é preciso pagar e despedir; descarregam-se as espingardas e distribuem-se os sacos; no meio deste tumulto, reparo em Hamid, que avança timidamente no meio da turba enrugando os olhos feridos pelo Sol. Penso que me procura, mas não: dirige-se a Nessim, a quem entrega um sobrescrito azul. Desejaria descrever esta cena pormenorizadamente. Nessim pega no sobrescrito distraidamente, com a mão esquerda, enquanto com a direita coloca uma caixa de cartuchos dentro do carro. Examina o sobrescrito sem grande interesse, depois volta a examiná-lo com mais atenção. Levantando então os olhos para Hamid, respira fundo e abre o sobrescrito para ler o que contém uma pequena folha de papel azul que se encontra no interior. Demora-se um minuto a estudar o conteúdo, e volta a colocar o bilhete dentro do sobrescrito. Lança, então, um olhar em torno, com uma expressão subitamente alterada, como se sentisse bruscamente a necessidade de vomitar e procurasse um lugar onde pudesse fazê-lo. Atravessa a multidão e, apoiando a cabeça contra a esquina de uma parede de tijolos, solta um pequeno soluço arquejante, como um corredor sem fôlego. Depois volta para o carro, já senhor de si, e conclui os seus preparativos para a partida. Este breve incidente passou completamente despercebido aos outros convidados.

Os carros tomam o caminho da cidade no meio de nuvens de poeira; os barqueiros saudam-nos com gritos e gestos e dirigem-nos grandes sorrisos, onde brilha o marfim dos dentes incrustados em rubras gengivas rutilantes. Hamid abre a portinhola do carro e salta para dentro como um macaco.

- Que sucedeu? - pergunto-lhe.

E, estendendo as suas mãos pequenas e brancas numa atitude suplicante que significa “Não condene o portador de más notícias”, diz com voz débil e conciliadora:

- Senhor, a dama foi-se embora. Há uma carta para si em casa.

Tenho a impressão de que a cidade caiu sobre mim; dirijo-me para o apartamento mecanicamente, como julgo que devem fazer os sobreviventes de um tremor de terra que não são capazes de reconhecer a sua cidade nem de compreender que as coisas possam ter chegado a semelhante ponto. Rua Piroua, Rua da França, a mesquita Terbana (cheiro de maçãs), Rua Sidi Abou El Abbas (copos de água e café) Anfouchi, Ras El Tin (cabo das Figueiras) Ikingi Mariut (colhemos ambos flores selvagens, persuadido de que ela não podia amar-me), estátua equestre de Mohamed Ali, na praça... pequeno busto cómico do general Earle, morto no Sudão em 1885... Milhares de andorinhas volteando na tarde... os túmulos de Kom El Shugaffa, obscuridade, passeios húmidos, temos ambos medo da escuridão... Rua Fouad, outrora Rua Rosette... Hutchinson perturbou toda a distribuição de água na cidade quando cortou os diques... A cena dos Moeurs quando ele tenta ler-lhe o livro que estava a escrever a respeito dela. “Ela está sentada na cadeira de vime, as mãos cruzadas sobre os joelhos como se pousasse para um retrato, mas com uma expressão de horror crescente no rosto. Por fim, não suporto mais e lanço o manuscrito na chaminé exclamando: 'De que servem todas estas páginas de um coração despedaçado se tu não compreendes nada?'“ Imagino Selim subindo as escadas a quatro e quatro para encontrar no seu quarto um Nessim desorientado contemplando os armários vazios, o toucador nu, como varrido pela patada de uma pantera.

No porto de Alexandria, as sereias mugem e gemem. As hélices dos navios rasgam as águas esverdeadas das docas. Os iates balançam preguiçosamente, mastros apontados para o céu, respirando sem esforço, como ao ritmo de sístole e diástole da Terra. Em qualquer parte, no núcleo da experiência, há uma ordem e uma coerência que nos surpreenderiam se fôssemos suficientemente atentos, amantes ou pacientes. Chegará o tempo?

 

O desaparecimento de Justine era uma provação totalmente nova. Alterava toda a estrutura das nossas relações. Era como se ela tivesse retirado a base de uma coluna mestra: Nessim e eu, abandonados no meio das ruínas, tínhamos agora a missão de reparar os laços que ela tinha criado e que a sua ausência tornava irrisórios, deixando-nos com um sentimento de culpa que, estava seguro, lançaria para o futuro a sua sombra sobre todas as nossas afeições, ligações e amizades.

Ele não tentava esconder a dor que sentia. Aquele rosto tão expressivo tinha-se tornado de uma palidez doentia - a palidez cor de cera dos mártires da Igreja. Vendo-o assim, não podia deixar de recordar o que eu tinha sentido no dia em que Melissa partiu para a clínica de Jerusalém, havia quase um ano. Com que sinceridade me tinha dito:

- Está tudo acabado... Nunca poderá recomeçar... Pelo menos esta separação...

A sua voz tornara-se húmida e abafada, dando às palavras contornos fluidos. Nesta época, estava muito doente. As lesões tinham-se aberto novamente.

- É altura de começar vida nova... Se eu fosse Justine... sei que é nela que tu pensas quando estás deitado comigo... Não digas nada... eu sei, meu querido... tenho ciúmes até da tua imaginação... É horrível acrescentar o remorso a todas as outras misérias... Não tem importância.

Assoou-se com mão trémula e esforçou-se por sorrir.

- Preciso tanto de descansar... E agora, Nessim apaixonou-se por mim.

Coloquei-lhe a minha mão nos lábios. O táxi palpitava impiedosamente, como alguém que vive sobre os nervos. Em torno de nós, deambulavam as mulheres de Alexandria, belas como fantasmas bem lubrificados. O condutor espiava-nos no retrovisor. Talvez dissesse para consigo que as emoções dos brancos são bizarras e excitantes. Olhava como se olha os gatos que fazem amor.

- Nunca te esquecerei.

- Nem eu. Escreve.

- Voltarei sempre que chames.

- Bem sei. Trata-te, Melissa, é preciso-que te cures. Eu espero. É uma nova vida que vai começar. Já o sinto no fundo do meu coração.

As palavras que os apaixonados empregam às vezes, estão carregadas de falsas emoções. Somente os silêncios possuem aquela precisão cruel que lhes confere a verdade. Calámo-nos, de mão dada. Ela apertou-me nos braços e deu sinal ao condutor para partir.

“Com a sua partida, a cidade tomou para ele um aspecto enervante e estranho - escreve Arnauti. - Em todas as esquinas das ruas familiares, ela recompunha-se toda inteira, viva, e ofuscava os olhos e as mãos dos fantasmas que percorriam as ruas e as praças. Antigas frases de conversas ocorriam-lhe em todos os seus pormenores se, por acaso, passava diante de um café onde ambos tinham estado, olhos postos nos olhos, como leopardos. Ela parava para ajustar a fivela da sandália, ele abordava-a com o coração a palpitar... para descobrir que era outra. As portas pareciam prestes a abrir-se para deixá-la passar. Ele sentava-se, olhando-as com obstinação. Outras vezes, tomava-o a irresistível convicção de que ela chegaria num determinado comboio e, então, precipitava-se para a estação, atravessando a multidão dos viajantes como um homem que atravessa uma ribeira contra a corrente. Ou então ia sentar-se, depois da meia-noite, na sala de espera, húmida e cheia de fumo, do aeroporto, observando as partidas e as chegadas, não fosse ela aparecer de surpresa. Ela dominava, assim, a sua imaginação e demonstrava-lhe como a razão é fraca; a sensação da sua presença era permanente e não se podia separar dela como não nos podemos separar do cadáver de uma criança morta.”

Na noite que se seguiu à partida de Justine rebentou uma tempestade de uma violência inaudita. Tinha errado debaixo da chuva, durante muitas horas, preso não só dos sentimentos que não conseguia dominar mas também do remorso que me invadia pensando no que Nessim devia sofrer. Confesso, francamente, que não me sentia com coragem para enfrentar o meu apartamento vazio, com receio de tomar o mesmo caminho que Pursewarden tomara, como tão pouca premeditação. Passando, pela sétima vez, pela Rua Fouad, sem capa nem chapéu, debaixo daquele dilúvio, notei, por acaso, que havia luz nas águas-furtadas onde Clea vivia; obedecendo a um impulso súbito, toquei. A porta da rua abriu-se e eu entrei na escadaria do prédio, cujo silêncio impressionava depois do estrondear da chuva caindo em cascatas nas ruas, tudo misturado com o jorro das goteiras sobre as sarjetas entupidas.

Ela abriu-me a porta e viu o estado em que me encontrava. Obrigou-me a entrar, a despir-me e a vestir um roupão azul. Felizmente, o pequeno irradiador eléctrico funcionava, e ela apressou-se a preparar-me um café quente.

Clea estava já de pijama, com os cabelos louros penteados para a noite. Um exemplar de Arebours jazia no chão, perto do cinzeiro onde um cigarro ainda fumegava. Os raios crepitavam na janela, iluminando espasmòdicamente as feições graves da rapariga. O trovão rolava e contorcia-se no céu negro para além da vidraça. Na calma deste quarto, era capaz de exorcismar parte dos meus terrores, falando de Justine. Percebi que ela já sabia tudo - nada é possível ocultar à curiosidade dos Alexandrinos. Com isto quero dizer que ela sabia tudo o que respeitava a Justine.

- Você acabaria por adivinhar que Justine foi a mulher a quem tanto amei e de quem um dia falei - disse Clea.

Dissera aquilo com grande dificuldade. Conservava-se perto da porta, no seu pijama de listras azuis e com uma chávena de café na mão. Ela fechara os olhos, ao falar, como se esperasse receber uma pancada no alto do crânio. Dos seus olhos cerrados, soltaram-se duas lágrimas que deslizaram lentamente, contornando a base do nariz. Parecia uma gazela jovem com uma patinha quebrada.

- Ah! Não falemos mais nela - disse por fim num suspiro. - Ela não volta, nunca mais.

Um pouco mais tarde disse-lhe que me ia embora, mas a tempestade continuava a rugir com violência e as minhas roupas estavam ainda tão ensopadas como quando as tirara.

- Pode ficar comigo - disse Clea.

Depois acrescentou, com uma delicadeza que me sufocou:

- Mas, peço-lhe... não sei como hei-de dizer isto... peço-lhe que não me faça mal...

Deitámo-nos no seu leito estreito, falando de Justine e ouvindo a tempestade afastar-se, enquanto a chuva e o vento norte chicoteavam os vidros da janela. Ela estava agora mais calma, com uma espécie de resignação que me comovia. Contou-me muitas coisas do passado de Justine que só ela sabia; falava da outra com um misto de admiração e ternura, como se fala de uma rainha bem-amada mas cruel. Falando das incursões, de Arnauti pelos domínios da psicanálise, disse com um sorriso divertido: “Ela não era verdadeiramente inteligente, sabe, mas tinha reflexos de um animal acuado. Não creio que ela tenha compreendido, realmente, o fim de todas aquelas investigações. Mas se dava respostas evasivas aos médicos, com os seus amigos era de uma franqueza total. Toda essa correspondência a propósito das palavras 'Washington D. C por exemplo, lembra-se? Uma noite em que estávamos as duas aqui deitadas, pedi-lhe que me deixasse ouvir as suas associações livres a partir desse ponto. Naturalmente, pediu-me que guardasse o mais absoluto segredo. Depois, respondeu-me com uma segurança que me demonstrou que ela própria já tinha resolvido o problema, embora nunca tivesse querido falar disso a Arnauti: "Há perto de Washington uma cidade chamada Alexandria. Meu pai falava constantemente em ir visitar uns amigos que lá viviam. Eles tinham uma filha chamada Justine que tinha exactamente a minha idade. Enlouqueceu e tiveram que interná-la. Tinha sido violada por um homem.' Perguntei-lhe o que significava D. C, e ela respondeu-me: 'Da Capo. Capodistria.'“

Não sei quanto tempo mais durou a nossa conversa nem o momento exacto em que adormecemos, mas quando na manhã seguinte acordámos nos braços um do outro a tempestade tinha cessado. A vila tinha sido lavada a fundo. Tomámos o pequeno almoço e dirigi-me, depois, à loja de Mnemjian para fazer a barba; as ruas tinham readquirido as suas cores originais e resplandeciam de beleza na doçura do ar. Conservava ainda a carta de Justine no meu bolso; não ousava relê-la, receando destruir a paz de espírito que Clea me dera. E, contudo, a primeira frase perseguia-me com uma insistência palpitante: “Se regressares vivo do lago, encontrarás esta carta que te espera.”

Sobre a chaminé da sala está outra carta que me oferece um contrato de dois anos como professor de uma escola católica do Alto Egipto. Sento-me à mesa e, sem mesmo reflectir, redijo a minha aceitação. Tudo vai mudar novamente e ficarei livre das ruas desta cidade que começava a perseguir-me a ponto de, ultimamente, sonhar que me arrastava sem fim, percorrendo em todos os sentidos as vielas mal iluminadas do bairro árabe, à procura de Melissa.

Com o envio desta carta começará um novo período; ela separa-me da cidade onde tantas coisas e tantas ocorrências sucederam que me envelheceram consideravelmente. Durante algum tempo ainda, a vida segue o seu curso, as horas engendram os dias. As mesmas ruas e as mesmas praças ardem na minha imaginação como o Pharos arde na história. Quartos onde amei, mesas de café onde a pressão dos meus dedos sobre um pulso me encadeava enfeitiçado, e eu sentia subir das ruas ardentes os ritmos de Alexandria que só se podiam traduzir em beijos famintos e palavras de amor pronunciadas por vozes roucas e maravilhadas. Para o aprendiz do amor, estas separações são uma escola dolorosa, mas necessária à sua ciência. Privam o espírito de tudo, salvo de um crescente apetite de viver.

E novas transformações ainda se produzem: novas separações! Nessim foi passar as férias no Quénia. Pombal apanhou, finalmente, a sua condecoração, e com ela um posto em Roma, onde, estou certo, será mais feliz do que em Alexandria. Estas partidas são o pretexto para uma nova série de despedidas; mas a ausência da única pessoa de quem ninguém fala, Justine, pesa sobre todos de forma sufocante. É evidente que uma guerra mundial se aproxima, surdamente, de nós, nos bastidores da História, o que aumenta o nosso desejo de viver. O odor adocicado e gorduroso do sangue, suspenso sobre as nossas cabeças, contribui para dar ao menor acontecimento uma ressonância extraordinária, uma necessidade de ternura e de frivolidade. Esta nota tinha faltado até agora.

Os candelabros da casa grande, que começo a detestar, derramam as suas luzes sobre os convidados que vieram despedir-se do meu amigo. Lá estão todos os rostos e todas as histórias que eu agora conheço tão bem: Sveva, de preto, Clea e os seus cabelos de ouro, Gaston, Claire, Gaby. Noto que nestas últimas semanas apareceram alguns cabelos brancos na cabeleira de Nessim. Ptolemeu e Fuad discutem com a vivacidade de antigos apaixonados. Em torno de mim, a animação tipicamente alexandrina espuma e transborda em conversas brilhantes e fúteis como taças de champanhe. As mulheres de Alexandria, frívolas, elegantes e perversas estão ali para se despedir do homem que ganhou a simpatia delas dando-lhes a oportunidade de o lastimar. Quanto a Pombal, engordou e tem um ar mais firme desde que subiu de posto. O seu perfil tem alguma coisa de neroniano. Segreda-me que se sente preocupado por mim; há várias semanas que não nos vemos, e só hoje é que toma conhecimento dos meus novos projectos.

- Você devia ir-se embora - repete-me ele -, devia regressar à Europa. Esta cidade destrói-o. E que vai procurar no Alto Egipto? Um calor sufocante, poeira, moscas, um trabalho servil... No final das contas, você não é nenhum Rimbaud.

Os rostos que se aproximam de nós, as mãos que nos oferecem taças, impedem-me de responder-lhe, felizmente. Que poderia, com efeito, responder-lhe? Olho para ele com um olhar vago e lúgubre e sacudo a cabeça. Clea segura-me um braço, leva-me para um canto e murmura:

- Recebi uma carta de Justine. Ela trabalha num kibboutz judaico, na Palestina. Devo dizer a Nessim?

- Sim... não... não sei...

- Nesse caso não deve contar.

Sou demasiado orgulhoso para lhe perguntar se ela fala de mim. Os convidados desatam a cantar For He's a Joly Good Fellow, em tons e sotaques os mais diversos. Pombal está vermelho de satisfação. Aperto discretamente a mão de Clea para que ela se junte ao coro. O pequeno cônsul-geral está tão satisfeito por se ver livre do meu amigo que prodigaliza as demonstrações de amizade e desgosto. O grupo consular inglês tem o ar lastimoso de uma família de perus na época da muda. Madame Venuta marca o compasso com a mão enluvada e delicada. Os criados pretos, com luvas brancas, andam lestamente de um lado para outro como eclipses da Lua. Partir para a Itália, talvez para a França... recomeçar uma vida nova; não numa cidade, desta vez, mas, possivelmente, numa ilha do golfo de Nápoles... Porém, o problema que continua em suspenso para mim não é Justine, mas Melissa. É sobre ela que sempre assentou o futuro, se há algum futuro. E, contudo, sinto-me incapaz de tomar uma decisão, nem sei mesmo o que devo esperar. Sinto que devo aguardar que as sombrias sequências da nossa história tornem a vir à tona, aguardar uma nova cadência. Isso talvez demore muitos anos e tenhamos ambos os cabelos brancos quando a maré voltar, bruscamente. Talvez a esperança morra antes de nascer, ou talvez naufrague nas vagas da vida. Tenho tão pouca fé em mim! O dinheiro que Pursewarden deixou, continua no banco: ainda não lhe toquei. Sem fazer loucuras, talvez conseguíssemos viver dois anos, nalgum recanto soalheiro, com aquela quantia.

Melissa continua a escrever as suas cartas trespassadas de desânimo e eu não consigo responder-lhe sem me acusar da minha imprevidência que tantos danos está causando. Quando tiver deixado a cidade, será mais fácil. Uma vida nova abrirá as suas portas. Escrever-lhe-ei, então, com toda a franqueza, dizendo-lhe tudo o que penso e tudo o que sinto, mesmo essas coisas que creio nunca ser capaz de verdadeiramente compreender. “Estarei de volta na Primavera - escreve Nessim ao barão Thibault -, e assentarei os meus quartéis de Inverno em Abou El Suir. Estou resolvido a afastar-me dos negócios durante dois anos. Matei-me a trabalhar e isso não vale a pena.” A despeito da palidez das suas feições, nota-se uma expressão nova, uma descontracção da vontade; o coração continua atormentado mas os nervos parecem apaziguados. Está fraco como pode estar fraco um convalescente, mas já não está doente. Falamos e gracejamos durante um momento; é evidente que a nossa amizade se estabelecerá, mais tarde ou mais cedo, porque temos um fundo comum onde colher a nossa infelicidade.

- Justine - digo eu, e vejo-o retrair-se como se lhe estivesse cravando um espinho debaixo da unha - escreveu da Palestina.

Ele faz um sinal breve, com a cabeça.

- Bem sei. Conseguimos descobri-la. É inútil... Escrevo-lhe. Pode lá ficar o tempo que quiser e voltar quando lhe apetecer.

Seria loucura roubar-lhe a esperança e a consolação que esta ideia lhe dá, mas sei que ela nunca mais voltará para retomar a sua vida de outrora. Essa certeza transparece em cada frase da carta que me escreveu. Não foi precisamente a nós que ela deixou, mas um modo de vida que ameaçava a sua razão, a cidade, o amor, e a soma de tudo aquilo que partilhámos. Pergunto a mim mesmo: que lhe terá ela escrito, recordando o espasmo que o obrigou a apoiar-se ao muro de tijolos?

Nestas manhãs de Primavera, quando a ilha desperta lentamente no mar e se espreguiça na luz de um novo Sol, percorro as praias desertas, tentando recordar-me dos dois anos passados no Alto Egipto. Fico surpreendido ao descobrir que, se tudo o que diz respeito a Alexandria se fixou na minha memória, indelevelmente, as ocorrências desses dois anos perdidos apenas deixaram traços muito vagos. Não é de admirar: perante o que eu vivi na cidade, esta minha nova existência foi insípida e sem acontecimentos. Recordo-me do trabalho na escola, que parecia uma fornalha, dos passeios solitários na planície fertilizada pelos cadáveres humanos; o Nilo carregando a lama negra através do delta, a caminho do mar; os camponeses, infestados pela bilhárzia, cuja paciência e nobreza se mantinham evidentes a despeito dos farrapos que usavam, como testemunhos duma realeza despojada; salmos dos patriarcas da aldeia; gado cego andando à roda, com os olhos vendados para evitar as vertigens - como o mundo se pode tornar pequeno! Durante todo este tempo não li nada, não pensei em nada, não fiz nada. Na escola, os frades deixavam-me só, nas horas de folga, sentindo talvez instintivamente a minha aversão pela sotaina, por todo o aparato do Santo Ofício. As crianças eram, naturalmente, um suplício, mas que professor dotado de alguma sensibilidade, pode deixar de sentir no fundo do coração estas palavras terríveis de Tolstoi: “Todas as vezes que entro numa escola e me encontro na presença de uma multidão de crianças sujas, magras e esfarrapadas, mas com uns olhos límpidos e rostos inocentes, sinto-me tomado de angústia e terror, como se visse criaturas em risco de afogamento”?

Toda a correspondência me parecia irreal e conservava um contacto muito frouxo com Melissa, que, entretanto, continuava a escrever-me regularmente. Clea escrevia-me uma vez por outra e até mesmo o velho Scobie não se conformava com a minha partida. As suas cartas vinham cheias de invectivas extravagantes contra os Judeus (a quem chamava “niilistas”) e, o que era nele bastante surpreendente, contra os pederastas passivos. Não me surpreendeu saber que o Serviço Secreto tinha dispensado os seus serviços; agora, podia passar todo o dia na cama tendo ao lado aquilo a que ele chamava uma “garrafa de cerveja”. Sentia-se cheio de tédio, o que explicava a sua correspondência.

Estas cartas de nada me serviam. Eu perdia a noção da realidade, a ponto de duvidar das minhas próprias recordações; custava-me a acreditar que tivesse vivido numa cidade como Alexandria. Estas cartas eram a única amarra que me ligava, ainda, a uma existência de onde grande parte do meu ser já se tinha desprendido.

Terminado o meu trabalho, fechava-me no quarto e deitava-me; ao lado, havia uma caixa de jade cheia de cigarros de haxixe. Se a minha maneira de viver prestava o flanco à crítica, pelo menos nada havia a dizer do meu trabalho. Tudo quanto me podiam censurar era um gosto excessivo pela solidão. O padre Racine fez algumas tentativas para me fazer sair da minha concha. Era de todos o mais sensível e inteligente e talvez esperasse obter, com a minha amizade, alguma compensação para a sua solidão intelectual. Lastimei não poder corresponder às suas tentativas de aproximação. Invadia-me um torpor crescente que me tornava retraído perante o menor contacto. Uma ou duas vezes acompanhei-o nos seus passeios à margem do rio (ele era botânico) e ouvi-o discorrer brilhantemente sobre a sua especialidade. A paisagem, desesperadamente chata e pouco sensível aos caminhos das estações, já não despertava em mim nenhum efeito. Dir-se-ia que o sol tinha dissecado em mim todos os apetites: alimentos, companhia, e até conversar. Preferia ficar estendido no leito, com os olhos no tecto, ouvindo os ruídos que me chegavam da sala dos professores: os espíritos do padre Gaudier, que está sempre a abrir e a fechar gavetas; os sons da flauta do padre Racine; o órgão, cujos últimos acordes se pulverizam na sombra tépida da capela. Os cigarros apaziguavam o espírito, libertando-o de todas as preocupações.

Certo dia, quando eu atravessava o pátio, Gaudier disse-me que me chamavam ao telefone. A princípio, custou-me a crer no que ouvia. Depois de tão grande silêncio, quem se interessaria por mim a ponto de me telefonar? Talvez Nessim?

O telefone ficava no gabinete do director, um lugar sinistro atulhado de móveis disformes e belas encadernações. O receptor crepitando ligeiramente, estava sobre a folha de mata-borrão, diante dele. Enrugando ligeiramente os olhos, disse-me com repugnância:

- É uma mulher; a chamada vem de Alexandria.

Pensei que devia ser Melissa, mas, com grande surpresa minha, a voz de Clea surgiu do fundo das minhas recordações incoerentes:

- Estou no hospital grego. Melissa está cá, está muito mal. Receio que vá morrer.

Surpresa, confusão, cólera, uma onda desordenada de sentimentos fazia irrupção dentro de mim.

- Ela não quis que o chamasse mais cedo. Não queria que a visse no estado em que se encontra... está tão magrinha! Mas agora quer vê-lo. Pode vir, depressa?

No espaço de um relâmpago, antevi uma interminável noite de comboio com as suas paragens e partidas em cidades e aldeias cobertas de poeira, de calor e de porcaria. Voltei-me para Gaudier e pedi-lhe autorização para me ausentar, durante todo o fim-de-semana.

- Em casos excepcionais, concedemos uma autorização - disse ele com ar pensativo. - Se, por exemplo, se fosse casar, ou se tivesse alguém gravemente doente...

Juro que a ideia de casar com Melissa nunca me tinha ocorrido antes de ele ter proferido aquelas palavras.

Houve ainda outro pensamento que me surgiu enquanto fazia a minha modesta bagagem. Os anéis, os anéis de Cohen, continuavam no meu cofrezinho, embrulhados em papel castanho. Fiquei um momento a contemplá-los, perguntando a mim mesmo se os seres inanimados poderiam ter, também, um destino, tal como os seres humanos. Pobres anéis... dir-se-ia que eles tinham ficado ali à espera, como pessoas, para acabar banalmente no dedo de qualquer um, apanhado num casamento de conveniência. Guardei Os pobres objectos no bolso.

Os factos passados, longínquos, deformados pela memória, adquirem um realce particular porque são vistos isolados do seu contexto, destacados dos pormenores que os precederam e seguiram, que destacamos e lançamos fora como sobrescritos usados. Os próprios actores sofrem uma transformação: afundam-se lentamente e profundamente no oceano da memória, como corpos pesados, descobrindo em cada escalão uma nova avaliação no coração humano.

Não era tanto inquietação o que eu sentia perante o fim de Melissa, quanto uma espécie de furor, de cólera impotente nascida, creio eu, do meu desgosto. A imensa perspectiva do futuro, que em todo o vazio em que o meu espírito flutuava estava cheio de imagens dela, dissolvia-se agora na bruma, e só então é que compreendia até que ponto elas me tinham sustentado. Eram como um imenso tesouro potencial onde eu acreditava poder ir reabastecer-me sempre que quisesse. E, de repente, descobria que estava arruinado.

Baltasar esperava por mim na estação com o seu pequeno automóvel. Apertou-me calorosamente a mão e depois disse-me com a sua voz prosaica:

- A pobrezita morreu ontem à noite. Dei-lhe uma dose de morfina para lhe facilitar o passamento. Sim...

Suspirou e lançou-me um olhar de soslaio.

- É pena que você não tenha o hábito de chorar! Çaurait été un soulagement.

- Soulagement grotesque.

- Approfondir les émotions... les purger.

- Tais-toi, Balthazar, tais-toi!

- Elle vous aimait, je suppose.

- Je sais.

- Elle parlait de vous sans cesse. Clea a été avec elle toute la semaine.

- Assez.

A cidade nunca tinha estado tão bela como nessa manhã doce. A brisa ligeira, do porto, acariciou-me as faces ásperas como uma velha amiga. O Mareotis brilhava aqui e além por entre as folhas das palmeiras, no meio das cabanas de tijolo e dos telhados das fábricas. As lojas da Rua Fouad exibiam todo o luxo e todas as novidades de Paris. Descobri que no Alto Egipto me tinha metamorfoseado num autêntico provinciano. Alexandria parecia-me, agora, uma capital. Em jardins bem tratados, as aias passeavam meninos nos seus carrinhos e cadeirinhas. Os eléctricos cambaleavam, rangiam e tocavam.

- Há ainda outra coisa - acrescentou Baltasar enquanto guiava. - A filha de Melissa, a filha de Nessim. Mas creio que já sabe. A criança está agora no Palácio de Verão.

Ia tão absorvido na contemplação da cidade, que não via há tanto tempo, que não compreendi imediatamente. Em frente da Municipalidade, os escribas sentavam-se atrás das suas carteiras, com os tinteiros, as canetas e as folhas de papel timbrado pousadas na terra, a seu lado. Coçavam-se e conversavam amavelmente. Subimos a colina, onde se encontra situado o hospital, depois de ter percorrido a extensa espinha dorsal do Canopic Way. Baltasar continuava a falar, quando saímos do ascensor, procurando o caminho no dédalo de corredores do segundo andar.

- Eu e Nessim não nos falamos. Quando Melissa voltou, ele recusou recebê-la por uma espécie de desgosto que me parecia desumano, incompreensível. Não sei... Quanto à criança, ele fez diligências para adoptá-la. Mas creio que presentemente quase a odeia. Pensa que Justine não regressará enquanto ele conservar a filha de Melissa. Pela minha parte - acrescentou Baltasar lentamente -, vejo as coisas assim: por uma dessas deslocações temerosas de que só o amor parece capaz, a criança que Justine perdeu foi dada por Nessim não a ela mas a Melissa. Percebe?

O sentimento de fantasmagórica familiaridade que crescia em mim devia-se ao facto de nos estarmos a aproximar do pequeno quarto onde eu visitara Cohen, moribundo. Melissa devia, certamente, jazer na mesma estreita cama de ferro no canto da parede. Era como se a vida real imitasse a arte neste ponto.

Havia um bando de enfermeiras no quarto, murmurando enquanto compunham os cortinados, mas a uma palavra de Baltasar separaram-se e saíram. Ficámos um momento a olhar para o leito antes de fecharmos a porta. Melissa estava pálida e já um pouco ressequida. Tinham-lhe amarrado o queixo e fechado a boca, o que lhe dava um ar de ter adormecido durante um tratamento de beleza. Felizmente, ela tinha os olhos fechados; não poderia ter suportado o seu olhar.

Fiquei só, por um momento, no pesado silêncio deste quarto de paredes imaculadas, e senti-me, de repente, terrivelmente embaraçado. Nunca se sabe o que havemos de fazer diante dos mortos: aquela surdez, aquela rigidez, têm alguma coisa de forçado. Tossiquei e comecei a percorrer o quarto, lançando de vez em quando uma olhadela para o vulto estendido na cama, recordando-me da confusão em que ficara naquele dia em que ela veio visitar-me com um ramo de flores. Gostaria de lhe introduzir nos dedos os anéis de Cohen, mas já a tinham amortalhado e os braços estavam aprisionados ao longo do dorso. Neste clima, os corpos decompõem-se tão depressa que têm de ser lançados na tumba, por assim dizer, ainda quentes. Murmurei por duas vezes “Melissa” muito junto do seu rosto. Depois, acendi um cigarro e sentei-me perto dela, para lhe observar o rosto, e compará-lo com todos os outros rostos de Melissa que se conservavam na minha memória. Embora não se assemelhasse a nenhum, este rosto resumia-os a todos, era a sua conclusão. Este rostozinho sem cor era o termo de uma longa série. Para além deste ponto havia uma porta fechada.

Em momentos tais, procura-se a atitude conveniente perante o terrível repouso da vontade que se descobre na face do morto. Mas nada existe no pobre reservatório das emoções humanas.

“Terríveis são as quatro faces do amor”, escrevia Arnauti a propósito de um outro assunto. Prometi a mim mesmo diante da forma imóvel de Melissa que tomaria a filha a meu cargo, se Nessim consentisse; depois, uma vez concluído este pacto mudo, depus-lhe um beijo sobre a testa pálida e gelada e abandonei-a aos cuidados daquelas que iam prepará-la para o túmulo. Senti-me feliz por sair do quarto, onde reinava um silêncio estudado e sinistro. Creio que nós, os escritores, temos um coração de pedra. Os mortos não contam. São os vivos que nos interessam desde que possamos arrancar-lhes a mensagem que se esconde no cerne de toda a experiência humana.

(“Outrora, os navios que tinham necessidade de lastro, recolhiam as tartarugas que atiravam vivas para dentro de grandes tonéis. As que sobreviviam à terrível viagem eram vendidas para divertir as crianças. Os corpos putrefactos das outras eram descarregados no porto. Não faziam falta; havia muitas mais no país onde aquelas tinham sido aprisionadas.”)

Eu parti à redescoberta da cidade, livre e ligeiro como um prisioneiro evadido. Mnemjian tinha lágrimas nos seus olhos violetas quando me abraçou afectuosamente. Quis ser ele próprio a barbear-me e todos os seus gestos exprimiam uma simpatia e um calor benfazejos. Fora, na rua ébria de sol, deambulavam os cidadãos de Alexandria, encerrados no seu universo de paixões e de temores pessoais, e, contudo, davam-me a impressão de se encontrarem a mil léguas daquilo que ocupava os meus pensamentos e os meus sentimentos. A cidade sorria com uma dilacerante indiferença, cocote, fresca e bem disposta, depois das trevas da noite.

Só me restava fazer uma coisa: procurar Nessim. E, mesmo aí, o tempo reservava-me uma surpresa, pois o Nessim que a minha memória conservava já não existia.

Tinha envelhecido como uma mulher: as ancas e o rosto tinham engordado. Caminhava distribuindo confortàvelmente o peso do seu corpo por toda a superfície dos seus pés, como se já tivesse passado por uma dúzia de partos. A ligeireza e elegância de outrora tinham desaparecido completamente. Em compensação, irradiava, agora, um encanto frouxo, quase irreconhecível. Um ar absurdo de autoridade tinha substituído a sua antiga deliciosa timidez.

Apenas tinha tido tempo de surpreender e examinar estas novas impressões quando ele me sugeriu irmos fazer uma visita ao cabaré onde Melissa dançara. O lugar tinha mudado de proprietário, acrescentou ele, como se esse facto desculpasse, de certa maneira, a nossa ida ali no próprio dia do funeral. Surpreendido e chocado aceitei, sem hesitar, levado, tanto pela curiosidade que me inspiravam os sentimentos dele como pelo desejo de discutir a transacção respeitante à criança.

Quando descemos a escada estreita e sem ar e penetrámos na zona sujamente iluminada da sala, alguém lançou um grito e as raparigas precipitaram-se de todos os cantos como baratas saindo de uma parede. Compreendi que Nessim era um cliente habitual. Ele desatou a rir e abriu-lhes os braços com um gesto grotescamente paternal, depois olhou para mim como procurando a minha aprovação. Tomando a mão de uma após outra, comprimia os dedos das raparigas, voluptuosamente, de encontro ao peito, para que elas sentissem os contornos da carteira que ele agora trazia sempre consigo, cheia de notas de banco. Este gesto recordou-me aquela mulher grávida que me abordou certa noite e que, como eu procurasse afastar-me, me pegou na mão comprimindo-a contra o enorme ventre, talvez para dar uma ideia antecipada do prazer que me oferecia (ou simplesmente para exprimir a que ponto estava necessitada de dinheiro). E agora, olhando para Nessim, lembrei-me do batimento tímido do coração do feto de oito meses.

É difícil descrever a minha surpresa, sentado ao lado deste duplo vulgar do Nessim que eu conhecera outrora. Estudava-o atentamente, mas ele evitava o meu olhar e limitava a conversação a uma série de lugares-comuns atravessados por bocejos que os seus dedos carregados de anéis fingiam pretender disfarçar. Contudo, às vezes, por detrás desta nova fachada, descortinava-se um sinal da sua antiga timidez, mas longínquo, escondido, como uma grande beleza se pode esconder por debaixo de um montão de gordura. No lavabo, Zoltan, o empregado, disse-me:

- Ele encontrou-se a si próprio depois da mulher ter partido. É o que toda a Alexandria diz.

Sim, na verdade ele tinha-se tornado semelhante a toda a Alexandria.

Mais tarde, nessa noite, a fantasia levou-o a conduzir-me a Montaza; a Lua estava alta, e nós rolámos em silêncio vendo as vagas prateadas morrerem na areia do litoral. Fumávamos, e foi nesse silêncio que eu compreendi a verdade sobre Nessim. Ele não tinha, verdadeiramente, mudado o íntimo. Tinha, simplesmente, adoptado uma máscara diferente.

Nos começos do Estio, recebi uma grande carta de Clea que pode muito bem servir de fecho a este breve monumento de introdução a uma crónica de Alexandria.

“Talvez lhe interesse saber o que se passou num rápido encontro que tive com Justine há algumas semanas. Como sabe, correspondíamo-nos de vez em quando, e sabendo que eu devia passar pela Palestina a caminho da Síria ela própria sugeriu que nos encontrássemos. Viria esperar-me à estação da fronteira, onde o comboio de Haifa estaciona meia hora. A colónia onde ela trabalha encontra-se nas proximidades. Poderíamos falar por alguns minutos. Claro que aceitei.

“De início, tive alguma dificuldade em reconhecê-la. O rosto murcho, e os cabelos mal cortados caíam-lhe para o pescoço como rabos de rato. Penso que ela deve usar, agora, o cabelo quase sempre preso numa touca. Não existe o menor vislumbre da sua elegância de outrora. Os traços vincados, o nariz caído sobre uma boca sumida dão-lhe o ar clássico de judia de meia-idade. Fiquei a princípio perturbada pelos seus olhos, onde parecia luzir a febre, pela sua respiração entrecortada e opressa, pela sua maneira de falar, incisiva e quase brutal. Como pode imaginar, sentíamo-nos um pouco Contrafeitas.

“Saímos da estação e fomos sentar-nos à beira de uma ravina seca, um zoadi, com o leito atapetado de flores da Primavera, flores selvagens... Dir-se-ia que ela tinha antecipadamente escolhido este lugar para a nossa entrevista; talvez o julgasse adaptado à circunstância. Não sei. Não fez a princípio qualquer alusão a Nessim nem a si; falou apenas da vida que levava. Tinha encontrado a felicidade perfeita, afirmava ela, no serviço comunitário'; falava de maneira a sugerir uma espécie de conversão religiosa. Não sorria. Bem sei que é difícil ter paciência com os fracos. No trabalho extenuante da colónia colectivista ela pretende ter realizado uma 'nova humildade'. 'Humildade!' A última armadilha que aguarda o eu na sua busca da verdade absoluta. (Aquilo pareceu-me idiota mas não fiz nenhuma observação.) Descreveu-me as actividades da colónia de uma maneira grosseira, sem imaginação, como o teria feito uma camponesa. Notei que as mãos que ela tivera tão belas se tinham tornado secas e calosas. Pensava que as pessoas podem dispor do seu corpo conforme lhes apeteça e sentia-me um pouco envergonhada do meu, resplandecente de asseio e de ócio, de boa comida e de banhos. A propósito, ela ainda não é marxista - é apenas mística, como Panayotis em Abou El Suir. E quanto mais olhava para ela tanto mais me recordava do maravilhoso demónio que tinha sido para todos nós, e menos compreendia como podia ter-se transformado nesta camponesa esfomeada e de mãos calosas. “Penso que os acontecimentos nada mais são do que uma espécie de comentários dos nossos sentimentos - estes podem ser deduzidos daqueles. O tempo leva-nos (imaginando ousadamente que somos egos discretos modelando os nossos próprios futuros) - o tempo leva-nos para diante pelo impulso desses sentimentos de que nós, pelo menos, temos consciência. Demasiado abstracto para si? Então é que me exprimi mal. Quero dizer que, no caso de Justine, tendo-se curado das aberrações mentais provocadas pelos seus sonhos e pelos seus terrores, as esvaziou como um balão. As quimeras ocuparam por tanto tempo o pano de fundo da sua existência que ela não possui, agora, nenhuma reserva. Não foi apenas a morte de Capodistria que suprimiu o principal actor do seu teatro de sombras, o seu carcereiro. A doença já tinha começado a sua obra, e, quando ele morreu, ela encontrava-se num estado de esgotamento total. Ela, por assim dizer, extinguiu com a sexualidade o próprio desejo de viver, e até, quase, a razão. Os que se encontram assim, levados aos limites do livre arbítrio, são obrigados a voltar-se para algum lado em busca de auxílio, a fim de tomarem decisões absolutas. Se não fosse uma alexandrina (quero dizer, céptica) a coisa teria tomado o aspecto de uma conversão religiosa. Como dizer estas coisas? Não se trata de felicidade ou de infelicidade. Toda uma parede da vossa vida rui bruscamente, como talvez lhe tenha sucedido a si com Melissa. Mas (é assim que as coisas se passam na vida, segundo a lei da retribuição, que outorga o bem pelo mal e o mal pelo bem) a sua libertação libertou também Nessim das inibições que governavam a sua vida passional. Penso que ele sentiu, sempre, que enquanto Justine vivesse seria incapaz de suportar a menor intimidade com outra. Melissa demonstrou-lhe que se enganava, pelo menos assim pensou; mas com a partida de Justine o antigo desencorajamento apoderou-se dele e sentiu-se tomado de repugnância pelo que fizera com Melissa.

“Os amantes nunca se combinam bem, não acha? Um deles lança sempre a sua sombra sobre o outro e impede-o de crescer, de modo que, aquele que se sente sufocado procura desesperadamente um meio de evadir-se, para poder crescer sem entraves. Não é este o drama essencial do amor?

“De forma que se, de um outro ponto de vista, Nessim preparou a morte de Capodistria (como não deixaram de suspeitar e espalhar por toda a cidade) não podia ter escolhido uma solução mais desastrosa. Teria sido mais inteligente matá-lo a si. Possivelmente esperava, libertando Justine do seu súcubo (como lhe chamava Arnauti), conseguir reconquistá-la. (Foi você que me contou que ele um dia lhe tinha manifestado semelhantes ideias.) Sucedeu precisamente o contrário. Concedeu-lhe uma espécie de absolvição, a menos que tenha sido o pobre Capodistria sem querer - e ela agora não pensa nele como um amante, mas como uma espécie de arcebispo. Justine fala de Nessim com uma reverência que o horrorizaria se a pudesse ouvir. Ela nunca mais voltará; não seria possível. E se voltasse ele compreenderia logo que a tinha perdido para sempre - porque não se pode amar, amar verdadeiramente o nosso pai espiritual, o nosso confessor.

“De si, Justine disse, simplesmente, encolhendo os ombros: 'Preciso esquecê-lo.'

“Aqui tem algumas das ideias que me atravessaram o espírito, enquanto o comboio me levava através das plantações de laranjeiras a caminho do litoral. E as minhas ideias tomavam tanto mais relevo quanto é verdade que tinha levado para ler no comboio o último volume de Deus É Um Humorista. Como Pursewarden cresceu depois da sua morte! Antes, era como se ele se interpusesse entre os seus livros e a ideia que tínhamos. Agora compreendo que aquilo que julgávamos enigmático no homem provinha de uma imperfeição nossa. Um artista não vive a sua vida pessoal como nós fazemos, oculta-a, obrigando-nos a penetrar nos seus livros se desejamos conhecer a verdadeira fonte dos seus sentimentos. Para além de todas as suas preocupações sexuais, sociais, religiosas, etc. (todas as abstrações que constituem a matéria-prima que alimenta as segregações do cérebro), está simplesmente um homem torturado para além do que é possível suportar, pela falta de ternura que existe no mundo.

“E tudo isto me reconduz à minha própria pessoa, porque eu também mudei de maneira muito curiosa. Esta vida altiva e independente que levei transformou-se em alguma coisa de árido e vazio. Já não corresponde às minhas necessidades mais profundas. Algures, nas profundidades do meu ser, creio que a maré começou a mudar. Não sei porquê, mas é para si, meu querido amigo, que nestes últimos tempos os meus pensamentos se voltam com mais frequência. Posso ser franca? Seria possível uma amizade nesta encosta do amor? Uma amizade que nós pudéssemos procurar e descobrir? Não falo de amor - a palavra com todas as convenções odiosas que invoca tornou-se-me odiosa. Mas não será possível alcançar uma amizade que seja ainda mais profunda, infinitamente mais profunda, para além das palavras e das ideias? Será possível encontrar um ser humano a quem guardemos fidelidade, não no corpo (deixo isso aos padres) mas no espírito culposo? Provavelmente não é este o género de problema que lhe interessa, de momento. Por uma ou duas vezes senti o desejo absurdo de ir ter consigo, talvez para tomar conta da menina. Mas creio que não necessita de ninguém e que, acima de tudo, deseja conservar a sua solidão...”

Seguem-se ainda algumas linhas e depois a afectuosa fórmula final.

As cigarras palpitam nos grandes plátanos; o Mediterrâneo estende-se diante de mim em todo o seu esplendor estival de um azul magnético. Algures, para além da linha lilás e vibrante do horizonte, está a África, está Alexandria, e o seu poder sobre mim assenta, agora, em recordações que se esbatem lentamente num esquecimento imenso; recordações de amigos, recordações de acontecimentos passados há muito. A lenta quimera do Tempo começa a apoderar-se delas, esfumando os contornos... a tal ponto que às vezes pergunto a mim próprio se estas páginas relatam as acções de seres humanos reais ou se é simplesmente a história de alguns objectos inanimados que precipitaram o drama em seu redor: uma banda negra, uma dedeira verde, uma chave de relógio e um par de alianças sem noivos para elas?...

A noite vai cair e no céu formigará uma poeirada de estrelas. E, como sempre, estarei à beira-mar, fumando. Decidi não responder à última carta de Clea. Não quero dominar mais ninguém, não quero fazer mais promessas, não quero pensar na vida em termos de pactos, de resoluções, de contratos. Cabe a Clea interpretar o meu silêncio consoante os seus próprios interesses e os seus próprios desejos, de vir juntar-se comigo ou de não vir, conforme sinta, ou não, que necessita fazê-lo. Não dependem todas as coisas da interpretação que damos ao silêncio que nos rodeia?

DADOS CONSEQUENTES

Tonalidades de paisagem: linhas verticais sobre o céu, nuvem baixa, solo cor de pérola com sombras de nácar violeta. Estio: céu areia e lilás. Outono: cinzentos, azuis, edemas. Inverno: geada branca sobre a areia, céus profundos e puros, magníficos campos de estrelas.

PERFIS

Sveva Magnani: imprudência, insatisfação.

Gaston Pombal: kinkajou, opiatos carnais.

Teresa di Petromonti: Berenice pintada.

Ptolemeu Dandolo: astrónomo, astrólogo, Zen.

Fuad El Said: pedra-de-lua negra.

Josh Scobie: pirataria.

Justine Hosnani: flecha na noite.

Clea Montis: água morta da tristeza.

Gaston Phipps: nariz em forma de peúga, chapéu preto.

Ahmed Zananiri: estrela polar do crime.

Nessim Hosnani: luvas de pele, espelho gelado.

Melissa Artemis: Nossa Senhora das Dores.

  1. Baltasar: fábulas, trabalho, desconhecimento.

Pombal dormindo com o fraque vestido. A seu lado, na cama, um penico cheio com as notas de banco que ganhou no Casino.

Da Capo: “Assar na sensualidade como uma batata no forno.”

Saída de Gaston Philips: “O apaixonado é como o gato com o peixe: “Bem gostaria de se ir embora mas não quer partilhar o seu prato.”

Acidente ou tentativa de assassínio. Justine guiando o Rolls na estrada do deserto que leva ao Cairo; de repente, os faróis extinguem-se. O carro sai da estrada e, silvando como uma flecha, vai cravar-se numa duna de areia. Suspeita-se que os fios tenham sido sabotados. Nessim alcança-a passada meia hora. Beijam-se derramando lágrimas. (Do “Diário” de Justine.)

Baltasar a propósito de Justine: “Verá que os seus ares altaneiros e distantes assentam sobre um edifício vacilante de receios infantis.”

Clea, antes de tomar uma decisão, consulta sempre o seu horóscopo.

Descrição feita por Clea duma noite memorável. Ela ia com Justine no automóvel, quando se apercebeu de uma grande caixa de cartão na berma da estrada. Como estavam atrasadas, arrumaram a caixa no assento de trás. Chegadas a casa, abriram-na: continha um bebé, morto, embrulhado num jornal. Que fazer com aquele homúnculo ressequido? Órgãos parcialmente formados. Os convidados estavam quase a chegar, era necessário despacharem-se. Justine meteu a caixa na gaveta de um dos móveis do salão. O sarau decorreu particularmente animado.

Pursewarden falando da sua trilogia e do “romance a dimensões”: “O fluir da narrativa é travado pelas referências a factos anteriores, o que dá a impressão de um livro que não se inicia a partir do túmulo mas que plana acima do tempo e que gira lentamente em torno do seu eixo para surpreender o conjunto. As coisas não conduzem sempre a outras coisas posteriores; algumas conduzem a coisas que já passaram. Um enlace do passado e do presente, com a multiplicidade do futuro que se precipita para nós. Pelo menos é esta a minha ideia...”

Então quanto tempo vai durar este amor? (em tom de brincadeira).

- Não sei.

- Três semanas, três anos, três décadas?

- Você é, afinal, igual aos outros... procurando meter a eternidade dentro de números! (Com voz calma mas pondo toda a alma no que dizia.)

Enigma: um olho de pavão. Beijos tão inexperientes que se assemelham a uma má prova tipográfica dos primeiros tempos da imprensa.

Poemas: “Adoro o ruído macio dos alexandrinos.” (Nessim.) Clea e o velho pai que ela adora. Cabelos brancos, muito escorreito, tendo no olhar uma espécie de piedade assustada por essa jovem deusa, celibatária, que ele engendrou. No fim do ano vão os dois dançar no Cecil, dignos, elegantes. Ele dança com uma precisão de relógio.

O amor de Pombal por Sveva: fundou-se numa mensagem brejeira que lhe inflamou a imaginação. Quando ele acordou, ela já se tinha ido embora, mas, antes de partir, tinha-lhe atado o laço de cerimónia em torno do membro, num laço perfeito. Esta mensagem seduziu-o de tal modo que ele se vestiu para ir procurá-la e propor-lhe casamento.

Pombal tinha pelo seu pequeno automóvel um amor devotado. Recordo-me de o ter surpreendido a lavá-lo, ao luar, carinhosamente.

Justine: “Sempre surpreendida pela violência das minhas emoções: arrancar com as minhas mãos o coração de um livro, como se arranca uma folha tenra.”

Lugares: rua debaixo das arcadas; pórticos; prataria e pombas. Pursewarden tropeça num cesto e provoca um dilúvio de maçãs.

Mensagem num recanto de jornal. Depois, um táxi fechado, corpos tépidos, noite, aroma de jasmim.

Um cesto de codornizes cai e abre-se em pleno mercado. Elas não tentam escapar, dispersam-se, lentamente, como mel que escorre. Facilmente apanhadas.

Postal de Baltasar: “A morte de Scobie foi uma bela farsa. Como ele deve ter gozado! Os seus bolsos estavam cheios de cartas de amor endereçadas ao seu assistente Hossan, e a brigada dos bons costumes, fardada a preceito, desatou a soluçar sobre a tumba. Esses gorilas negros choravam como meninas. Uma demonstração de afecto bem alexandrina. Claro que a cova era demasiado pequena para a urna. Os coveiros tinham ido almoçar e foi necessário recrutar um grupo de polícias para alargar o coval. A habitual desordem. O caixão cai de lado e por um pouco o velhote não salta cá para fora. Gritos. O padre furioso. O cônsul britânico no limiar de uma crise de nervos. Estava lá Alexandria em peso e todos se divertiram à grande.”

Pombal descendo a Rua Fouad com ar marcial, embriagado, às dez horas da manhã, calças de riscas, jaquetão, capa e chapéu alto - e no peitilho da camisa, escritas com carmim dos lábios, esta legenda: Torche-cul des républicains. (Museu.)

Alexandre adornado com os cornos de Ámon (Loucura de Nessim). Será por causa dos cornos que ele se identifica com A.?

Justine meditando tristemente diante da estátua de Berenice, chorando a sua filha que os sacerdotes deificaram: “Isso serve para apaziguar-lhe a tristeza? Duvido. Creio que, pelo contrário, até lhe confere uma espécie de permanência.”

Túmulo de Apolodoro; representa-o a oferecer um brinquedo ao filho. “É tão comovente que me faz vir as lágrimas aos olhos.” (Pursewarden.) “Não vale a pena: estão ambos mortos.”

Aurélia implorando Petesuco, o deus crocodilo... Leoa segurando um girassol...

Ushabti... pequenas figuras de escravos, sujeitos a trabalhar para as múmias no outro mundo.

Nem mesmo a morte alterou o retrato que conservámos de Scobie. Havia muito tempo já que eu o via no Paraíso - os inhames tenros como traseiros de bebés de leite; a noite caindo sobre Tobago com um arrepio azul profundo como um suspiro, noite mais macia que a plumagem de um papagaio. Flamingos vermelhos com tons dourados elevando-se no céu e recaindo na obscura e cruel confusão dos bambus. A cabaninha de caniços com o leito de vime ao lado do venerando açafate da sua vida terrestre. Certa vez, Clea perguntou-lhe: “O mar não lhe faz falta, Scobie?”, e o velho respondeu-lhe, simplesmente, sem hesitar: “Eu faço aparecer o mar todas as noites, nos meus sonhos.”

Recopiei e entreguei-lhe as duas traduções de Cavafis que tanto lhe tinham agradado embora não sejam literais. Hoje, os leitores de Cavafis são mais numerosos, graças às belas e profundas traduções de Mavrogordato, e agora os outros poetas podem tentar interpretá-lo com mais facilidade: tentei mais transplantá-lo do que traduzi-lo, mas não sei até que ponto posso ter sido bem sucedido.

 

         A CIDADE

Dizes: vou partir

Para outras terras, para outros mares

Para uma cidade tão bela

Como esta nunca foi nem pode ser

Esta cidade onde a cada passo se aperta

O nó corredio: coração sepultado na tumba de um corpo,

Coração inútil, gasto, quanto tempo ainda

Será preciso ficar confinado entre as paredes

Das ruelas de um espírito banal?

Para onde quer que olhe

Só vejo as sombras ruínas da minha vida.

Tantos anos vividos, desperdiçados

Tantos anos perdidos.

Não existe outra terra, meu amigo, nem outro mar,

Porque a cidade irá atrás de ti; as mesmas ruas

Cruzam sem fim as mesmas ruas; os mesmos

Subúrbios do espírito passam da juventude à velhice,

E tu perderás os teus dentes e os teus cabelos

Dentro da mesma casa. A cidade é uma armadilha.

Só este porto te espera,

E nenhum navio te levará onde não podes.

Ah! então não vês que te desgraçaste neste lugar miserável

E que a tua vida já não vale nada,

Nem que tu vás procurá-la nos confins da terra?

 

             O DEUS ABANDONA ANTÓNIO

Quando bruscamente, nas trevas da noite,

Ouvires passar o tropel invisível das vozes puras,

O coro celeste das sublimes harmonias,

Abandonado definitivamente pela fortuna,

Desfeitas em pó as últimas esperanças,

Esvaída em fumo uma vida de desejos.

Ah! não sucumbas lastimando um passado

Que te traiu, mas como um homem

Que se prepara há muito tempo,

Despede-te corajosamente

De Alexandria que te abandona.

Não te deixes iludir e não digas

Que foi sonho ou um logro dos teus sentidos

Deixa as súplicas e os lamentos para os poltrões,

Abandona vãs esperanças

E como um homem que se prepara há muito tempo,

Resignado, altivo, como te compete

E a uma cidade como esta,

Abre a janela e olha para a rua

E bebe a taça inteira da amargura

E a derradeira embriaguez da multidão mística

E despede-te de Alexandria que te abandona.'

 

                                                                                Lawrence Durrell  

 

                      

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