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Planeta Criança



Poesia & Contos Infantis

 

 

 


LAÇOS DE VINGANÇA / Lynne Graham
LAÇOS DE VINGANÇA / Lynne Graham

                                                                                                                                                   

                                                                                                                                                  

 

 

Biblioteca Virtual do Poeta Sem Limites

 

 

LAÇOS DE VINGANÇA

 

Sarah estava junto da janela de vidro, imóvel como uma estátua. Seus grandes olhos verdes ardiam, e todos os músculos do corpo acusavam a tensão acumulada por doze horas. Somente a disciplina rígida com que fora educada possibilitava o controle da exaustão. Havia sido uma longa noite e um amanhecer devastador. E cada minuto de agonia havia sido gravado para sempre em sua alma. A enfermeira que a acompanhava agora debruçou-se sobre o berço de seu sobrinho recém-nascido e mostrou-o com um sorriso amplo.

Provavelmente não sabia, Sarah pensou entorpecida, olhando para a moça com o rosto inexpressivo, os músculos congelados numa máscara. Então, ela deixou de sorrir, mas Sarah não notou. Sua atenção era toda para o sobrinho, um bebê de cabelos negros e olhos muito escuros.

Não havia nada de Callie nele. Era moreno como os habitantes do Mediterrâneo, a ascendência estrangeira claramente estampada nos traços. E estava chorando. Parecia tão infeliz! Sarah imaginou se, de alguma forma estranha e inexplicável, ele sabia que a mãe estava morta. Morta. Ela encolheu-se involuntariamente ao pensar na palavra e começou a caminhar muito devagar pelo corredor, já quase sem forças para sustentá-la.

Nos dias de hoje as mulheres já não morriam de parto. Pelo menos era o que ela imaginava. E Callie ainda não era sequer uma mulher na opinião da irmã. Aos dezoito anos, ainda estava tentando atravessar a fronteira entre a infância e a idade adulta. Uma menina de ouro, bela, inteligente e tudo mais que uma jovem pode desejar... até Damon Terzakis entrar em sua vida e destruí-la. Uma imensa amargura a invadiu. Era uma emoção tão intensa que chegava a amedrontá-la.

— Srta. Hartwell...

O som daquela voz a fez parar. O sotaque carregado era como um peso sobre seu peito. Devagar, Sarah ergueu a cabeça e o viu parado a alguns passos de distância. Um homem impossível de se ignorar. Devia ter mais de um metro e oitenta, e o terno bem cortado emoldurava músculos definidos e ombros largos. O tecido falava de riqueza. Ele possuía a graça natural e perigosa de um animal selvagem e a autoridade ameaçadora de um homem nascido para comandar.

Incrédula, Sarah o viu estender a mão morena.

— Por favor, permita-me oferecer minhas mais sinceras condolências pela morte trágica de sua irmã.

Sarah retrocedeu um passo, enojada pela ameaça de qualquer espécie de contato físico.

— O que está fazendo aqui? — perguntou com voz trêmula.

— Você deixou um recado urgente com minha secretária.

— Callie me fez telefonar, mas eu não pedi que viesse, sr. Terzakis. Pedi a presença de seu irmão.

— Damon está na Grécia. — Alex a encarava com olhos negros e frios como uma noite de inverno. — Já o informei sobre a morte de sua irmã, e ele está profundamente consternado.

Um riso histérico brotou da garganta de Sarah.

— É mesmo? — ela perguntou entre a ironia e a incredulidade.

— Gostaria de ver meu sobrinho — Alex respondeu, ignorando a demonstração de hostilidade.

— Não! — Sarah reagiu com violência. Odiava Alex Terzakis como jamais odiara outro ser humano, e seu ódio havia sido nutrido durante vários meses. Agora o sentimento era como um câncer a devorá-la, consumindo todas as outras emoções.

— Você não tem mais direitos que eu...

— Direitos? — ela repetiu ultrajada. — Ainda se atreve a falar de direitos depois do que fez a Callie? Você não tem nenhum direito sobre o filho de minha irmã!

— Você está perturbada — Alex constatou com tom calmo, apesar da tensão evidente.

Sarah sabia que as pessoas não falavam com Alex Terzakis dessa maneira. Era um homem fabulosamente rico e poderoso. Sua família fazia apenas aquilo que ele determinava, e sua palavra era lei. Não esperava oposição. A mídia sempre publicava histórias terríveis sobre os tolos que ousavam desafiá-lo nos negócios. Mas Sarah não tinha medo. Daria vinte anos de sua vida para ter o poder de ferir Alex Terzakis como ele havia ferido sua irmã.

— Você a matou... assassinou-a friamente. Espero que agora esteja satisfeito! — Sarah o acusou.

— Srta. Hartwell — Alex chamou, segurando-a pelo pulso ao perceber que ela pretendia dar-lhe as costas.

— Tire a mão de mim, seu porco!

— Não fosse por seu evidente estado de desequilíbrio e pela dor que a dilacera, eu exigiria um pedido de desculpas. Componha-se, antes que eu perca a paciência!

Furiosa, abalada com o contato físico e com o olhar penetrante do grego, Sarah o esbofeteou sem pensar nas conseqüências de sua atitude. Alex a soltou e emitiu uma exclamação incrédula enquanto levava uma das mãos ao rosto.

— Nunca mais se aproxime de mim! — ela disparou, assustada com a própria violência. Jamais havia agredido alguém antes!

Sem esperar para saber qual seria a reação de Terzakis, ela atravessou o corredor e deixou o hospital.

Estava tão profundamente chocada que não sabia sequer para onde ir. Callie estava morta. Ainda não conseguira aceitar tão dura realidade. Seus pais haviam morrido num acidente automobilístico quando Sarah tinha dezessete anos. Não tinham nenhum dinheiro, e Callie era apenas uma menina de onze anos.

— Cuide de Callie — sua mãe havia repetido várias vezes antes de morrer. Mary Hartwell ainda repetia o nome da filha caçula quando fora interrompida pelo último suspiro.

Sarah deixara a escola, desistira de qualquer tipo de investimento no próprio futuro e passara a preocupar-se com as necessidades da irmã. Convencera a prima de seu pai a aceitá-las em sua casa e, com Gina por perto, as autoridades do serviço social desistiram de levar Cal­lie. Sarah havia trabalhado como garçonete. Todos os dias, quando voltava para casa, ainda tinha de cozinhar, lavar, passar e cuidar de todas as tarefas domésticas de Gina, que a tratava como uma empregada barata e, como se não bastasse, ainda ficava com quase todo o dinheiro que Sarah ganhava servindo as mesas de um bar.

Assim que completara dezoito anos, Sarah havia encontrado outras acomodações. Fizera o possível para dar à irmã um lar repleto de amor e segurança, transformando-a em sua prioridade absoluta. E Callie aproveitara. Loira, dona de pernas longas e bem torneadas, ela lembrava a beleza das garotas da Califórnia. E Sarah não podia deixar de sentir orgulho. Não fora fácil fazer a irmã extrovertida e cheia de vida concentrar-se na necessidade de estudar e trabalhar para progredir num mundo tão competitivo.

Mas Sarah havia conseguido. Callie concluíra o colégio com notas excelentes e fora para a universidade estudar idiomas. Sarah sentira o orgulho que qualquer mãe teria experimentado, e conseguira outro emprego no horário noturno para impedir que a irmã passasse qualquer tipo de privação. Tudo havia sido perfeito antes de Damon Terzakis aparecer.

— Conheci um grego fabuloso! — Callie anunciara ao telefone. — Ele é lindo, rico e louco por mim...

— Parece bom demais para ser verdade — Sarah murmurara hesitante, desconcertada com o entusiasmo da irmã. Seus namorados costumavam aparecer e desaparecer em seguida sem que ela fizesse qualquer comentário sobre eles. Linda desde o início da adolescência, Callie conquistara dezenas de rapazes.

— Vou levá-lo para conhecê-la em breve — Callie havia prometido.

Mas semanas se passaram antes que Sarah finalmente pudesse conhecer Damon, um jovem de vinte e cinco anos, de uma beleza quase infantil e de um charme descuidado. Seus olhos castanhos e brilhantes acompanhavam cada movimento de Callie, e ele falara com Sarah como se estivesse diante da mãe da namorada, e não da irmã mais velha.

Damon não poupara esforços para convencê-la de suas boas intenções. Segurando a mão de Callie, ele dissera:

— Amo sua irmã, e quero me casar com ela. Apesar do sorriso gentil, Sarah sentira-se assustada.

Callie era jovem demais para assumir um compromisso tão sério! Temera que a irmã abandonasse os estudos, ou que permitisse que o romance prejudicasse seu rendimento na universidade. Mas, com a sensatez que sempre guiara seus passos, não havia demonstrado suas preocupações. Ao menor sinal de oposição, Callie certamente rebelaria-se. Conhecia a teimosia da irmã, e aprendera desde cedo a convencê-la através do tato e da diplomacia.

— É claro que só pretendemos nos casar no futuro — Damon acrescentara.

— Uma decisão de bom senso — Sarah sorrira aliviada. — Vocês têm todo o tempo do mundo.

— Não me venha com essa história de futuro! — Callie irritara-se.

— Mas nós já discutimos esse assunto, Callie mou — Damon protestara, antes de dirigir-se novamente a Sa­rah. — Nosso amor terá de resistir ao teste do tempo, ou não terei o consentimento de meu irmão.

— Do seu irmão? — Sarah surpreendera-se.

— Famílias gregas funcionam como hierarquias rígidas — Callie explicara. — No topo da pirâmide há sempre um homem. O pai de Damon morreu, e seu irmão Alex é o grande cacique da tribo Terzakis.

Damon encarou-a com ar de reprovação, o rosto tingido por um rubor intenso.

— Acho que não devia fazer piadas com a família de Damon — Sarah a repreendera enquanto preparavam o jantar na pequena cozinha. — Ele ficou ofendido.

— Bobagem! Ele é um homem adulto, tem um emprego e responsabilidades, mas quando fala sobre o irmão, é como se voltasse a ser um garoto. Ele nunca pára de falar sobre o sujeito. Alex isso, Alex aquilo... E como se Alex fosse Deus na vida dele.

— Damon é grego. Sua cultura, sua formação e sua criação devem ser muito diferentes daquilo que conhecemos. Se realmente o ama, Callie, vai ter de aceitar tudo isso.

Sarah retornou do passado e descobriu-se num banco do parque próximo ao hospital. E pensar que chegara a sentir-se aliviada ao ouvir Damon mencionar a necessidade de obter o consentimento do irmão para se casar!

Os sinais de alarme só ecoaram em sua mente no dia em que vira o nome Terzakis no noticiário noturno e vira um homem de beleza impressionante cercado por executivos e câmeras, recusando-se a comentar a aquisição de uma certa companhia em Nova York. No dia seguinte comprara um jornal e lera tudo sobre Alex Terzakis com crescente apreensão. Naquela noite havia telefonado para Callie solicitando sua presença em casa.

— Você disse que Damon estava administrando o hotel da família em Oxford — Sarah recordara. — Mas não disse que os Terzakis eram bilionários!

— Alex é bilionário. — Callie corrigira. — Damon só tem o que leva no bolso.

— Pensei que Damon pertencesse a uma família de hoteleiros...

— Sarah, pelo amor de Deus! Não lê as colunas comerciais? A família de Damon possui uma linha de navegação, uma cadeia internacional de hotéis, fábricas, corretoras financeiras... Eles estão em todos os ramos que puder imaginar.

Sarah ficara perturbada. Não havia percebido que o namorado da irmã fazia parte de uma família tão rica. Damon parecera tão simples! Naquela noite, quando os três conversaram em sua sala de estar, Callie mencionara seu emprego de secretária e abandonara o assunto rapidamente.

Na verdade, Sarah era apenas auxiliar de arquivo num grande escritório, e não conseguira progredir porque, dividida entre dois empregos, não havia tido tempo para freqüentar cursos noturnos e aprimorar seus conhecimentos. Passara quase todas as noites dos últimos sete anos servindo mesas ou fazendo faxina para conseguir algum dinheiro extra.

Naquela noite em que conhecera Damon, tentara não sentir-se magoada ao ouvir a irmã pedindo que não revelasse essas últimas fontes de renda. Callie ficava embaraçada com os subempregos da irmã mais velha, e Sarah a compreendia. Callie sempre quisera ser alguém, e sua segurança fora despertada quando, na universidade, passara a conviver com jovens provenientes de lares mais confortáveis e estáveis que os dela. Sempre havia escondido que a origem de suas roupas, modernas, porém baratas, eram as faxinas que a irmã mais velha costumava fazer em prédios comerciais depois do horário de expediente.

E agora Callie se fora. Sarah levou as mãos trêmulas ao rosto como se o gesto pudesse conter a angústia que a devorava por dentro. Não conseguia imaginar a vida sem Callie. Callie e sua energia exuberante, sua alegria envolvente e seu temperamento explosivo. Era seis anos mais velha que a irmã. Criança quieta e solitária, Sarah encantara os pais com sua generosidade, não demonstrando qualquer sinal de ciúmes com a chegada da irmã. Fascinada com a pequena, lera incontáveis histórias, le­vantara-a de muitos tombos, ensinara canções infantis antes que ela fosse para a escola e mais tarde, a ajudara com as lições. Os pais trabalhavam fora, e Sarah preenchera sua vida com a irmã.

— Srta. Hartwell.

Sarah ergueu a cabeça e, incrédula, reconheceu Alex Terzakis.

— Permita que eu a leve para casa — ele pediu com tom neutro.

Sarah explodiu num ataque de riso histérico e cobriu o rosto com as mãos. Que tipo de bárbaro era ele? Não tinha sequer o discernimento para deixá-la em paz com sua dor?

Apenas algumas horas haviam se passado desde que fora arrancada da cabeceira de sua irmã para que os médicos tentassem reanimá-la. Fora tudo muito rápido, mas a eficiência da equipe não conseguiu evitar que Callie perdesse a batalha para um infarto dias antes de completar dezenove anos. Devastada, Sarah ouvira a explicação da obstetra com crescente espanto.

No início da gravidez, Callie fora prevenida sobre sua condição cardíaca. Exames de rotina revelaram o que ninguém jamais imaginara, mas ela recusara-se a se submeter ao aborto aconselhado pela médica. Também não comentara o assunto com a irmã. Sarah havia estranhado a freqüência das consultas durante o pré-natal, mas não imaginara que pudesse haver algum problema tão sério.

— Callie estava absolutamente decidida a ter o bebe — a obstetra dissera. — Foi uma decisão pessoal, e é provável que ela tenha preferido esconder a verdade para não ter de ouvir seus conselhos.

— Srta. Hartwell — Alex insistiu com impaciência. Por que ele não ia embora? Por que não a deixava em paz com seu sofrimento?

— Não posso deixá-la aqui nessas condições — ele prosseguiu, como se lesse seus pensamentos. — Quero deixá-la em casa, e depois irei tomar todas as providências com relação ao funeral e...

— Seu... selvagem! Não permitiu que ela se casasse com seu irmão, mas mal pode esperar para enterrá-la!

— Não pretendo ficar aqui ouvindo insultos num local público.

— Então já sabe o que deve fazer, não? Desapareça!

— Se não fosse uma mulher... — ele ameaçou, avançando alguns passos em sua direção.

— Você já estaria morto. Se eu fosse um homem, teria feito você pagar pelo que fez com Callie em seu escritório há cinco meses.

— Só estava tentando oferecer apoio num momento difícil para todos nós — ele encolheu os ombros, virando-se para partir.

Só então Sarah foi atingida pelo impacto da realidade. Callie havia partido para sempre, e ela ainda não derrubara uma única lágrima. Seus olhos haviam queimado como brasas, mas permaneceram secos. E agora as lágrimas corriam numa torrente silenciosa, varrendo seu rosto e provocando uma mistura de alívio e tristeza. Felizmente não havia chorado diante dele.

— Aposto que não adivinha quem acabou de chegar — Gina, com o rosto gorducho iluminado pela curiosidade, cutucou Sarah pouco depois da cerimônia religiosa ter começado. — São eles... aposto que sim. Quem mais poderia ser?

— Psiu — Sarah a censurou de cabeça baixa, tentando acompanhar a primeira oração.

Alex e Damon Terzakis. A visão dos dois atingiu-a como um soco no estômago. Pálida e ultrajada, Sarah considerou a presença dos irmãos uma ofensa à memória de Callie. Como atreviam-se a chorar a morte de sua irmã, se haviam transformado seus últimos meses de vida num inferno? Damon olhava para o chão. Estava mais magro, e parecia mais velho do que se lembrava.

— Uma atitude decente da parte deles — Gina cochichou. Uma mulher de mais de quarenta anos e bastante robusta, ela sempre falava demais.

Terminado o serviço, as pessoas começaram a partir, e todos aproximavam-se para cumprimentar Sarah. Eram todos jovens, amigos de Callie da época de colégio. Ninguém da universidade. Callie abandonara os estudos meses antes, sem conservar uma única amizade. Sem aviso prévio, Gina afastou-se de Sarah e aproximou-se dos irmãos Terzakis. Furiosa, Sarah acompanhou o pastor e despediu-se dele ao lado do carro de Gina.

Com asco notou a limusine de vidros escuros e o motorista que aguardava do lado de fora. Não pudera pagar sequer um carro funerário. Mas coisas desse tipo não tinham importância, ela recordou com tristeza. Agora tinha de conservar cada centavo de seu dinheiro para o sobrinho.

— Vou chamá-lo de Nikos, o mesmo nome do pai de Damon — Callie anunciara meses antes, depois de descobrir o sexo do bebê através de uma ultra-sonografia. — Damon não será capaz de manter-se afastado — ela previra, a mão sobre o ventre arredondado. — Quando souber que nosso filho é um menino...

Sarah surpreendera-se com a ingenuidade da irmã, capaz de ainda acreditar num homem que a abandonara com um filho no ventre. Depois de tudo que havia acontecido, não pudera compreender como Callie ainda alimentava esperanças, e temera o momento em que, com o filho nos braços, sua irmã tivesse de enfrentar a dura realidade. Damon era um fraco dominado pelo irmão mais velho, e a ameaça de ser deserdado e esquecido pela família fora o bastante para que ele desistisse do grande amor que dissera sentir por Callie.

Gina aproximou-se com um sorriso luminoso no rosto redondo e abriu o carro.

— Por que foi falar com eles? — Sarah perguntou em voz baixa.

— Porque você está sendo absolutamente estúpida! Se quer conservar aquele bebê, seja prática. Morda a língua e deixe que eles sustentem vocês dois...

— Prefiro a morte!

— Ele é o pai do pequeno Nicky, não é? Por que não deveria sustentar a criança? Aposto que eles pagariam uma fortuna para manter toda essa história longe dos jornais.

— Gina...

— Precisa ser realista, querida. Você quer o pequeno Nicky. Pessoalmente acho que isso é loucura, mas você sempre foi o tipo maternal, mesmo quando ainda era pouco mais que uma criança. Portanto, fique com ele, eduque-o, e faça esses dois pagarem caro por isso.

— Não quero nada deles!

— Se não aceitar o dinheiro dessa família, vai ter de viver de caridade. O serviço social irá atrás de Damon.

— Na Grécia?

— Eles não teriam nenhuma dificuldade para encontrá-lo, teriam?

— Não aceitarei nada deles. Nunca!

— Callie teria gostado de dar o melhor ao filho. E acho que é hora de admitir que Callie sabia o que estava fazendo quando engravidou.

— O que disse? — Sarah perguntou com um misto de choque e reprovação.

— Não acredito que tenha sido acidental. Callie não era descuidada. Ela queria o rapaz, e quando as coisas começaram a escapar de seu controle, ela engravidou. As mulheres usam esse mesmo truque há séculos, querida. Adolescentes são especialmente atraídas pelo método. Infelizmente sua irmã cometeu um erro de cálculo.

— Não concordo — Sarah respondeu, lutando para aparentar uma calma que estava longe de sentir. — Callie não usou nenhum truque. Damon já havia feito o pedido de casamento, e até comprara um anel de noivado.

— Falar é fácil! Mas onde ele estava quando o navio começou a afundar? Partiu para a Grécia e Callie nunca mais voltou a vê-lo. Ele sequer respondeu as cartas. O canalha! Enterraria esses dois no meu quintal com o maior prazer, não fosse pelo pequeno Nicky. E pela beleza do Terzakis mais velho, é claro.

Uma vizinha havia ficado com Nicky para que as duas pudessem ir ao funeral, e Sarah subiu a escada correndo para ir vê-lo. O bebê dormia tranqüilo no berço. Trou­xera-o do hospital no dia anterior, e já sentia um profundo amor pela criança. Enquanto o fitava com os olhos cheios de lágrimas, Sarah sentiu vontade de tomá-lo nos braços. Mesmo nas horas mais dolorosas, aprendera a agradecer a Deus pela bênção que era o filho de Callie. Sentia-se necessária mais uma vez, e isso a fortalecia.

Gina estava do lado do fora quando ela saiu do quarto.

— Se ficar com essa criança, nunca mais terá vida própria. Não acha que já sacrificou o bastante opor Callie?

— Do que está falando?

— Você tem apenas vinte e quatro anos e já parece uma tia solteirona. — Gina olhou para os cabelos dourados presos numa severa trança, o rosto desprovido de maquiagem e a roupa escura que já havia conhecido dias melhores. — Nunca quis ter um homem em sua vida?

Sarah riu. Odiava quando Gina falava dos homens como se eles fossem o início, o meio e o fim da vida de uma mulher. Durante a adolescência, fora tímida e retraída, e depois de adulta nunca tivera tempo ou oportunidade para aproximar-se do sexo oposto. Saíra com alguns colegas de trabalho, mas logo descobrira que eles não estavam interessados em sua companhia. Só queriam sexo.

Ainda lembrava a experiência dolorosa e humilhante com o único rapaz por quem apaixonara-se, aos dezesseis anos. Ele a convidara para ir a um baile e ela aceitara imediatamente, mas sua felicidade terminara no banheiro feminino da escola, onde ouvira algumas garotas comentando sobre uma certa aposta... As palavras ainda permaneciam gravadas em sua memória.

— Sarah...

Sarah voltou ao presente com um sobressalto. Gina pousou a mão em seu braço com ar sério.

— Convidei Alex e Damon Terzakis para uma visita.

— Você o quê?!

— Bem, alguém tinha de fazer isso. Você agiu como se eles não estivessem lá!

— Se eles entrarem, eu saio — Sarah prometeu veemente.

— Sarah, o que deu em você nesses últimos meses? Parece possuída por um estranho...

— Não há nada errado comigo — ela respondeu enquanto descia a escada.

— Você costumava ser bondosa, gentil, mas vem mudando desde que Calhe revelou que estava grávida. Sei o quanto a amava, e posso entender o que está sentindo...

— Não pode.

— O rapaz deve querer ver o filho.

— Se Damon quiser ver Nicky, ele que providencie uma ordem judicial. Lutarei contra eles com todas as armas possíveis.

— Mas eles virão até aqui!

— Pois que venham!

A campainha tocou um minuto depois, e Gina enca­rou-a com ar de súplica antes de ir para a cozinha. Sarah ergueu os ombros e foi abrir a porta. Alex Terzakis estava parado na soleira, sozinho.

— Não o convidei para vir aqui. Você não é bem-vindo — Sarah disparou.

Uma poderosa mão a impediu de fechar a porta, e a violência do gesto a surpreendeu. Aproveitando a hesitação momentânea, Alex entrou e fechou a porta.

— Agora vamos conversar — ele anunciou.

Como não era fisicamente capaz de expulsá-lo da casa, Sarah preferiu dirigir-se à sala de estar antes que ele tomasse a iniciativa.

— Francamente, sr. Terzakis, não temos nada a discutir. Onde está o pequeno canalha?

— Pequeno canalha?

— O irmão caçula, o fantoche.

— Você é a mulher mais venenosa que já conheci. Não sabe como gostaria de cortar essa sua língua ferina.

Sarah riu pela primeira vez em dias. Damon sempre havia dito que o irmão era um bloco de gelo, mas agora era como se estivesse diante de um vulcão prestes a entrar em erupção.

— Meu Deus! — ele exclamou. — No dia do funeral! Não tem nenhum sentimento decente?

— Os mesmos que você teve quando chamou minha irmã de prostituta barata há cinco meses.

— Não empreguei esse vocabulário ofensivo.

— Você disse que ela estava interessada no dinheiro de seu irmão e que dormia com todos os homens que conhecia. Qual é a diferença?

— Não acreditei que ela estivesse grávida.

— Quero que saia daqui imediatamente. Você não tem nada a fazer nesta casa.

— Meu irmão está muito envergonhado para encará-la...

Sarah estava começando a divertir-se. As duas últimas admissões pareciam ter sido arrancadas de Alex a ferro, tal a angústia estampada em seu rosto. O caçula era um fracote, um canalha desonesto, e isso o ofendia infinitamente. Alex estava sendo obrigado a lidar com uma mulher que desprezava numa situação sobre a qual não tinha controle, e isso a fazia sentir-se muito mais segura. Ele estava em sua casa para comprar silêncio.

Para comprar o silêncio dela. Talvez tivesse medo de que ela fosse aos jornais para contar a história suja protagonizada por Callie e Damon. Uma jovem adolescente pobre e ingênua enganada pelo milionário grego que a abandona assim que consegue o que quer. E como se não bastasse, a jovem é ameaçada por advogados poderosos que lhe oferecem dinheiro para desaparecer e esquecer que um dia conheceu alguém chamado Terzakis!

Sarah sentiu-se enojada. Era uma história terrível, que transformava-se em tragédia quando se descobria o quanto Callie amara esse rapaz. Até o fim... Lágrimas queimavam seus olhos, mas ela conseguiu contê-las.

— Se Damon pudesse trazê-la de volta à vida, sem dúvida ele a traria — Alex comentou com tom neutro, recuperando a postura com rapidez espantadora. — Mas isso é impossível. A única coisa que meu irmão pode fazer é cuidar de seu filho e dar a ele a vida a que ele tem direito.

— Dar a ele... — Sarah gaguejou incrédula. — O que está dizendo?

— Naturalmente, Damon quer criar o filho em sua casa, onde é o lugar dele.

 

Sarah precisou de alguns segundos para vencer a incredulidade. Os Terzakis queriam Nicky! Queriam o filho de Callie!

Alex interpretou o silêncio como encorajamento.

— Damon adora crianças. Nikos será muito amado.

— Francamente... não acredito no que estou ouvindo — Sarah confessou tremula. — Não permitiu que seu irmão se casasse com Callie, mas acha que ele tem direito sobre o filho dela? Ele a esqueceu por completo, ignorou suas cartas e a deixou enfrentar sozinha uma gravidez muito difícil, e agora você vem dizer que ele quer a criança?

— Quaisquer que sejam seus sentimentos por meu irmão, ele é o pai desse bebê.

— Não acredito que tenha aceitado esse fato...

— Damon herdou um grupo sanguíneo muito raro, característica da família de minha mãe, e soube que Nikos tem o mesmo tipo de sangue — ele comentou, reconhecendo que não teria acreditado sem a prova definitiva. — As chances de estarmos diante de uma coincidência são muito remotas.

— E você deve estar verificando todas elas!

— Não estou disposto a enfrentar uma discussão, srta. Hartwell. Só estou aqui pelo bem da criança, como intermediário e representante de meu irmão nessa negociação.

— Negociação?

— Conciliação, se preferir. Já que o passado não pode ser mudado, devemos pensar no futuro de meu sobrinho.

— O futuro de Nicky está aqui, comigo!

— Sem dúvida espera conseguir uma oferta melhor com essa encenação de afeto pelo filho de um homem que despreza...

— Oferta?

— Diga seu preço. Estou disposto a pagar o que for necessário.

Sarah estava tão indignada que não foi capaz de responder.

— Desista de Nikos sem criar problemas ou escândalos, e prometo que terá o que quiser. Pense bem. Você tem uma vida dura... Qual é sua idade? Trinta, trinta e um?

Trinta? Estaria aparentando tantos anos além de sua verdadeira idade?

— Poderia fazer o que quisesse — Alex apontou com frieza. — Não é tarde demais. O dinheiro pode comprar beleza. Com algum esforço e atendimento especializado, poderia tornar-se uma mulher muito atraente... Pense nas viagens, nas roupas, no conforto... Sei que é uma mulher inteligente. Talvez possa até encontrar um marido.

Sarah respirou fundo, dividida entre a indignação e a humilhação. Apesar da raiva que sentia, da certeza de estar diante um homem arrogante, grosseiro e insuportável, era impossível ignorar o estranho fascínio que experimentava. De maneira sutil, porém clara, ele estava dizendo que um homem seria a solução para todos os seus problemas. Jamais passaria pela cabeça de alguém como ele que o celibato pode ser uma escolha perfeitamente natural.

E como poderia? Alex Terzakis tinha duas amantes! Uma em Atenas e outra em Paris. Sarah engoliu em seco, tentando disfarçar a repulsa provocada por comportamento tão promíscuo. Era evidente que seu apetite sexual era voraz e primitivo, o que o tornava uma espécie de peça de museu na sociedade atual. Um homem digno de piedade, ela disse a si mesma enquanto erguia o queixo. Deixar um bárbaro como esse feri-la e embaraçá-la era ridículo.

— Nicky não está à venda — Sarah respondeu com tom seco, questionando os pensamentos íntimos dos últimos segundos.

— Nem eu sugeri que estivesse. Só pensei que não gostaria de prender-se a uma criança tão pequena e cheia de necessidades quando pode construir uma nova vida.

— Não quero uma nova vida. Estou perfeitamente feliz com a que tenho.

— Nesse caso sou forçado a ser grosseiro...

— Oh, não acredito que precise de qualquer estímulo!

— Sarah cortou com sarcasmo. — Diria que a grosseria é parte de sua natureza. O desafio seria tentar um pouco mais de sensibilidade.

— Você é uma mulher de discernimento — ele sorriu, surpreendendo-a com sua reação. — Apesar de ter piedade por sua falta de feminilidade, sua língua ferina e sua malícia descarada, realmente sinto-me intimidado em sua presença.

Pálida, Sarah sentiu o ódio crescer até tornar-se uma força assassina.

— Não vamos perder tempo. Está dizendo que pretende privar Nikos da presença do pai e de sua herança natural — ele afirmou com tom gelado. — E o que oferece em troca? Um buraco mal iluminado e pequeno onde ele terá de crescer, o rótulo da ilegitimidade e os ensinamentos de uma mulher que não tem sequer um bom caráter. Se tivesse um pingo de decência, não teria encorajado sua irmã adolescente a prosseguir com o relacionamento com meu irmão...

— E você, por que não impediu esse romance, se tinha tanto poder sobre seu irmão? — Sarah explodiu furiosa.

— Só descobri tudo quando já era tarde demais. Você sabia desde o início. Teve sua parcela de culpa na morte prematura de Callie.

— Meu Deus!

— E como se não estivesse satisfeita com essa tragédia, agora quer destruir o futuro de meu sobrinho. Não vou permitir, ouviu bem? Ele pertence à minha família. Podemos dar tudo a essa criança. Parentes que o tratarão com amor e respeito, uma mãe atenciosa e um pai de verdade. As melhores escolas, uma linda casa e a capacidade de manter a cabeça erguida em qualquer situação. Ele é um Terzakis!

E isso, evidentemente, devia ser motivo de orgulho. Agora entendia porque Callie Hartwell, filha de um operário e uma enfermeira, fora tratada com tanto desprezo. De repente seus pensamentos retornaram alguns segundos, enfocando palavras que Alex havia pronunciado pouco antes. Uma mãe atenciosa?

— Androula amaria esse bebe como se fosse sua mãe verdadeira. Não há lugar para ressentimento ou mágoa em seu coração generoso. Ela teve alguns meses para habituar-se à idéia de que outra mulher carregava no ventre o filho de seu marido.

Sarah ficou paralisada. Androula... filho de seu marido? Damon casara-se com outra mulher, enquanto Callie alimentara esperanças patéticas de uma eventual reconciliação!

— Vamos ver se entendi... Está sugerindo que eu entregue Nicky para Damon e essa... And...

— Androula.

— A esposa de Damon — ela repetiu, só para certificar-se.

— Uma jovem bondosa e adorável.

Não uma prostituta como Callie, Sarah interpretou com amargura. Estava tão perplexa com o que Alex sugeria que só conseguiu conter a raiva com enorme esforço. O fato dele sequer perceber o quanto estava ferindo seus princípios morais era a prova definitiva da falta de decência dos membros da família Terzakis.

Se Callie estivesse viva, também teriam se aproximado para exigir que ela entregasse o filho? Alex estaria acusando sua irmã de privar o bebê da riqueza material e de todas as vantagens que Damon poderia oferecer? Provavelmente. Esse homem havia tratado Callie como um monte de lixo, e em nenhum momento considerara a possibilidade dela ser a mulher adequada para seu irmão caçula, nem mesmo ao saber que ela estava grávida. Aparentemente, Alex Terzakis não admitia que uma mulher pobre e simples como Sarah Hartwell pudesse ter sentimentos.

Callie teria preferido a morte a entregar o filho à esposa de Damon! Revoltada, Sarah aproximou-se do telefone.

— Se não sair dessa casa imediatamente, vou chamar a polícia. Afinal, você não foi convidado a entrar.

— Isso é tudo que tem a dizer? Será que não tem nenhuma vergonha? Eu aqui falando sobre a generosidade de Androula...

— Generosidade! Essa é boa! O que acabou de sugerir é tão absurdo, que não merece sequer consideração. E a proposta mais vil que já ouvi!

— Vil?

— Saia daqui imediatamente!

— Não tenho nenhuma intenção de sair antes de chegarmos a um acordo.

— Se não sair, juro que irei procurar o jornal mais sensacionalista que existir e contarei tudo.

— Teria coragem de fazer isso com Androula? — ele perguntou chocado.

— Não estou preocupada com sua generosa Androula!

— Se fosse um homem, partiria todos os ossos de seu corpo com minhas mãos.

— Imagino como isso o faria feliz. Mas não pode tocar em mim, é isso que o deixa tão furioso. Se você ou seu irmão aproximarem-se de mim novamente, irei procurar a imprensa. Damon poderia estar com o filho nesse momento, sr. Terzakis. Ele teve a oportunidade de conviver com essa criança, mas preferiu abandoná-la. Minha irmã deu a vida para trazer Nicky ao mundo. Esse era o valor que ela dava ao bebê, e esse é exatamente o valor que eu dou ao meu sobrinho.

— Não tem direito de ficar com Nikos!

— Não? Então vá aos tribunais... onde toda a história será revelada. Damon e a esposa jamais ficarão com o filho de Callie. Aceite esse fato e fique longe de nós.

Alex estava pálido e furioso, mas conseguia manter as emoções controladas.

— Então essa será sua vingança... — ele disse.

— Não é nem um centésimo do que eu gostaria de fazer com você e sua família. Damon é um fraco, um covarde, mas foi você quem destruiu a vida de minha irmã. E por quê? Porque ela não era boa o bastante! Porque era pobre e não correspondia aos seus padrões esnobes!

— Não foi bem assim. E usar uma criança inocente como arma de vingança é que é vilania!

— Sabe qual seria a verdadeira vingança? — ela riu, sabendo que jamais alcançaria tamanha felicidade. —Fazê-lo sofrer pelo que fez a Callie. Se Nicky é ilegítimo, você é o único culpado. O orgulho de sua família arrogante está acima da honra e da decência. Quando disse que eu não tenho bom caráter, eu devia ter rido em sua cara! Como se atreve a falar em caráter, quando coleciona amantes e paga para ter sexo com elas? Você e seus padrões duplos, você e sua hipocrisia! Tente me prejudicar, ou encostar um dedo em mim, sr. Terzakis, e o mandarei para a prisão!

— Um dia, um homem de muita sorte vencerá sua estupidez e a fará compreender o significado da palavra respeito — Alex resmungou com os punhos cerrados.

— Quer saber o que realmente merece? Uma esposa capaz de transformar sua vida num inferno! Uma verdadeira cadela!

— Como você? — ele disparou.

— Eu não tenho estômago para me aproximar de você! Não me lembro de ter conhecido homem mais repulsivo em toda minha vida! Posso não ser um modelo de beleza, mas meus padrões morais são bastante elevados, ao contrário dos seus.

— Nenhuma mulher jamais me considerou... repulsivo.

— O dinheiro fala alto — Sarah concluiu, abrindo a porta para convidá-lo a sair.

Por um segundo Alex pareceu disposto a agredi-la fisicamente, tal era a raiva estampada em seu rosto. Por alguma razão, era como se não pudessem desviar os olhos um do outro, atraídos por um poderoso e estranho fascínio. Mas de repente ele recuperou-se e saiu com passos rápidos e firmes. Sarah bateu a porta e virou-se, e só então compreendeu por que ele Alex decidira partir tão subitamente. Gina estava sentada no último degrau da escada, perplexa e boquiaberta. O espanto em seus olhos era tão grande, que ela nem sequer tentou negar o pecado da curiosidade. Estivera ouvindo a conversa.

Batidas violentas na porta atraíram a atenção de Sa­rah, que abriu-a com um gesto furioso.

— Receberá notícias de meus advogados — Alex avisou com o dedo em riste.

— Faça isso. Uma visita, uma ameaça, uma tentativa de intimidação, e irei cantar no ouvido da Imprensa — ela respondeu, antes de bater a porta novamente.

Gina continuava boquiaberta, os olhos arregalados e cheios de espanto.

— Duvido que ele volte a nos aborrecer.

— Não acredito no que acabei de escutar... Você o enfrentou!

— Apenas disse algumas verdades. E esse sujeito não é tão frio como Callie dizia. Aposto que todas as mulheres que ele conhece o idolatram, alimentam sua vaidade...

— Por isso disse que ele era repulsivo, e que tinha de pagar para ter sexo?

— Quis bater onde a dor seria mais forte.

— Não acredito que um homem tão lindo tenha de pagar para ter uma mulher em sua cama. Está afirmando que ele se relaciona com prostitutas?

— Ele mantém duas amantes. E se as mantém, está pagando pelo próprio prazer.

— Não é bem assim!

— Por que está defendendo esse sujeito, Gina?

— Sarah, ele não é responsável pela morte de Callie. Ninguém tem culpa. Está se tornando obcecada. Sei que está sofrendo, mas não pode agir como se a morte de sua irmã fosse uma ofensa pessoal!

— Perder Calhe foi muito pessoal — Sarah soluçou. Gina aproximou-se e abraçou-a.

— Sim, eu sei, mas precisa pensar em Nicky, querida.

— Está tentando dizer que acha que devo entregá-lo a Damon e sua esposa?

— Se essa mulher está realmente disposta a receber o bebê, se tudo isso não for apenas uma encenação para conservar o marido... Por outro lado, como poderemos saber? Não faça essa cara de quem está sendo traída — Gina implorou, o rosto redondo cheio de incerteza e preocupação. — Também estou muito confusa. Não sei mais o que pensar. A única coisa que sei é que o bem estar de Nicky tem de vir acima de tudo, e nem com toda a boa vontade do mundo... como poderá alcançar um décimo de tudo que eles podem dar ao bebê?

— Dinheiro não é tudo — Sarah protestou. Sei que Nicky tem o direito de usufruir da fortuna da família paterna, mas não às custas da memória de Calhe! De qualquer forma, Gina estava certa. A felicidade e o futuro de Nicky tinham de ser colocados acima de tudo, e os sentimentos dela, por mais dolorosos que fossem, não podiam impedi-lo de desfrutar de um lar confortável e da segurança que a família Terzakis podia proporcionar.

Mas se Damon e a esposa queriam criar Nicky, eles que viessem fazer a oferta pessoalmente, que demonstrassem sinceridade e honestidade de propósitos. Alex não tinha o direito de interferir, e seu sobrinho não era um pacote a ser remetido para um destino desconhecido. Era um ser humano, e ela o amava muito!

— Nicky é um bebê, e vai acabar descobrindo que a carga de criá-lo é muito maior do que foi criar Calhe — Gina suspirou. — Terão de morar aqui comigo. Não há outra solução.

A semana seguinte foi um período de tormenta para Sarah. Nicky era adorável, mas não dormia muito. E também não queria ser alimentado a cada três ou quatro horas, mas constantemente. Gina tentava ajudar, mas Sarah preferia seguir todos os conselhos do pediatra, pois mais difícil que fosse. Ao mesmo tempo, ainda tentava ajustar-se à ausência da irmã. Visitava sua sepultura três vezes por semana na intenção de conformar-se, mas a cada visita seu pranto era mais angustiado e revoltado.

Uma semana depois da primeira visita, Alex voltou a procurá-la e encontrou-a sozinha com o bebê. Eram cerca de oito da noite. Sarah havia acabado de sair do banho, e estava a caminho da cama, disposta a aproveitar as horas de sono de Nicky para descansar um pouco, quando ouviu a campainha.

Ao ver Alex Terzakis ela empalideceu, uma das mãos agarrando a gola do robe atoalhado e a outra tentando amarrar a faixa em torno da cintura. Estava nua sob o tecido macio, e isso a embaraçava e enfurecia.

— O que quer agora? — perguntou irritada.

— Cinco minutos de seu tempo — Terzakis respondeu, entrando sem esperar pelo convite.

— Se me der licença, vou me vestir.

— Para que perder tempo? Não me perturbaria nem se estivesse completamente nua.

Vermelha de raiva e vergonha, Sarah passou por ele e foi sentar-se no sofá sem qualquer cerimônia. A toalha que protegia seus cabelos molhados ameaçava cair, e ela preferiu retirá-la e jogá-la longe.

Uma cascata de cabelos dourados caiu por suas costas até quase a cintura. Alex parou subitamente, os olhos fixos nela como se a estivesse vendo pela primeira vez. Segundos se passaram antes que ele recuperasse o poder de ação e se aproximasse de uma poltrona.

— Posso me sentar?

— Como quiser — Sarah respondeu com tom frio.

— Podia me oferecer um drinque.

— Você não é uma visita bem vinda, sr. Terzakis.

Sem o menor sinal de constrangimento, Alex aproximou-se das bebidas dispostas sobre uma mesa de canto, localizou o uísque, escolheu um copo e serviu-se.

— Devia ter avisado que não consigo ser muito cortês em sua presença.

Sarah preferiu refugiar-se no silêncio, mas seus nervos estavam tensos como as cordas de um violino.

Terzakis foi sentar-se numa poltrona, os olhos negros iluminados por um brilho arrogante.

— Na semana passada, cometi diversos erros de cálculo. — ele anunciou. — É evidente que não tem nenhuma intenção de desistir de Nikos.

— Nicky — Sarah corrigiu irritada.

— Nicky... Não pretende abrir mão dele, certo?

— Certo. — Certo? Havia passado noites em claro, pensando se havia sido correto recusar a proposta que Alex fizera para o futuro do bebê. Em termos materiais, a família Terzakis tinha muito a oferecer a seu sobrinho, e a sugestão de dar a ele um lar, um pai e uma mãe... Mas eram exatamente o pai e a mãe que mais a preocupavam.

— Acho que não tive muito tato ao sugerir que meu irmão e sua esposa assumissem a responsabilidade sobre a criança.

Estranhando sua atitude conciliatória, Sarah franziu a testa.

— Não estamos falando de tato, mas de sensibilidade. — ela respondeu.

— O futuro do menino pode ser garantido de outra forma. Posso adotá-lo e criá-lo como meu filho.

Sarah ficou perplexa com a proposta oferecida de maneira tão casual. Tentando ganhar tempo, umedeceu os lábios com a ponta da língua e notou que os olhos dele cravaram-se em sua boca, notando o formato perfeito dos contornos voluptuosos.

Havia tensão no ar. Não sabia de onde ela viera, mas podia senti-la como um toque gelado sobre sua pele. Um sorriso apagado desenhou-se no rosto de Terzakis. Num minuto estava ali, e no outro havia desaparecido, deixando-a com.uma suspeita que não sabia sequer definir. Qual era o problema com ele? A bebida, talvez? O que quer que fosse, o estranho comportamento de Alex estava desviando sua atenção do assunto principal. E quanto à proposta de adotar Nicky... não merecia nem mesmo resposta!

— Você entregaria a criança ao seu irmão — ela disse, como se pensasse em voz alta.

— Sou um homem de palavra, um homem honrado. Sei que não acredita nisso, mas é imperativo que Nicky seja reconhecido como um Terzakis.

— Imperativo para quem?

— Acredita realmente que um dia esse garoto será grato por tê-lo privado de seu lugar de direito na sociedade?

Sarah abaixou a cabeça, assaltada novamente pela dúvida e a incerteza.

— Sua determinação de negar a Nicky o que minha família pode dar a ele é absolutamente egoísta.

Tensa, Sarah manteve os olhos fixos no tapete. Egoísta? A acusação a perturbava. Então ele não compreendia que, de seu ponto de vista, os homens da família dele eram um péssimo cartão de visitas? Damon: fraco, cruel e egoísta, como fora revelado pela maneira com que havia tratado sua irmã. Alex: grosseiro, arrogante e igualmente cruel e egoísta com os menos favorecidos pela sorte. Não estava tentando conservar a custódia de seu sobrinho apenas para vingar-se, ou por simples respeito à memória de Callie. Não, realmente...

Uma criança precisa de mais que riqueza e status para desabrochar. Uma criança precisa de tempo, compreensão e amor para crescer e tornar-se um adulto responsável. Seria possível que tais necessidades fossem totalmente supridas pela família Terzakis? Acreditava que não, mas gostaria muito de ter uma bola de cristal para descobrir a resposta, pois não queria prejudicar o futuro de Nicky com uma decisão errada. Nicky jamais a perdoaria...

— Não entregaria Nicky aos seus cuidados — ela disse.

— Estamos falando de um bebê, e você é um homem ganancioso e obcecado por trabalho. Sem dúvida o deixaria aos cuidados de uma babá. E quando se casar? Nicky terá uma madrasta que dará preferência aos próprios filhos.

— Com que direito atreve-se a emitir opinião sobre meu caráter? — ele perguntou, levantando-se como um tigre preparando-se para o ataque.

Uma palavra de crítica e ele ameaçava explodir.

— E não podemos esquecer de seu temperamento... — Sarah prosseguiu.

— Meu temperamento?

— Não tem muito controle sobre ele. Crianças podem ser irritantes, sabe? Elas costumam testar a paciência dos adultos a cada instante.

— Não sabe nada sobre meu temperamento. Sou um homem muito disciplinado.

— Sim, deve ser calmo e dócil como um cordeiro, desde que todos à sua volta estejam fazendo exatamente aquilo que você quer — ela opinou, levantando-se para aproximar-se da porta e convidá-lo a sair. — O que não suporta é ser contrariado, especialmente por uma mulher.

— Poderia lidar com você com uma das mãos presa às costas, mas garanto que não gostaria dos meus métodos — Alex sorriu.

Por alguma razão, a arrogância daquele olhar a fez perder o fôlego por alguns segundos. O tempo parecia caminhar mais devagar. E de repente ele desviou os olhos dos dela e dirigiu-se à porta.

— Nikos está chorando — Terzakis informou com voz tensa, como se o choro de um bebê fosse uma ofensa imperdoável.

— Nikos? — Confusa, Sarah piscou algumas vezes para quebrar o encanto. Devia ser o cansaço, a preocupação... Sentia-se estranha nos últimos dias.

Impaciente com a demora da resposta, Alex aproximou-se da escada e, sem olhar para trás, disse:

— Não se deve deixar um bebê chorando.

 

Alex já estava com Nicky nos braços quando Sarah chegou ao quarto. Seu sobrinho berrava com toda a força dos pulmões, o rosto vermelho em sinal de insatisfação.

— Deixe-me pegá-lo — ela pediu, estendendo os braços na intenção de oferecer todo o conforto possível.

— Sei o que fazer com um bebê — Alex respondeu com frieza. —- Com que freqüência costuma deixá-lo chorando?

— Eu nunca o deixo chorando!

— Em minha casa, ele teria atenção imediata em todos os segundos do dia.

— Se o colocar no berço, irei esquentar a mamadeira.

— Vou ficar aqui com Nikos até você voltar.

O atrevido! Sarah dirigiu-se à cozinha com passos apressados, furiosa por ele estar segurando o filho de Callie. Recusava-se a reconhecer o laço de sangue entre eles. Nenhum dos irmãos Terzakis tinha direito a tal reconhecimento.

De repente o passado voltou a desfilar por sua mente, trazendo de volta a amargura e a raiva.

Há sete meses, Damon partira para a Grécia numa viagem de negócios. De acordo com Callie, ele soubera sobre a gravidez e ficara absolutamente encantado com a idéia de ser pai. Callie naturalmente havia sugerido que já era hora de Damon apresentá-la ao irmão. Com o anel de noivado no dedo e o filho dele a caminho, Callie tivera certeza de que em breve estaria casada.

Damon prometera conversar com o irmão durante o período que passaria em casa. Depois havia retornado abatido e desanimado, sem o entusiasmo de antes. Alex estava irredutível, ele dissera a Callie. Não queria nem conhecê-la. Só então Callie revelara a gravidez à irmã. Arrastara Damon até a casa de Sarah para que fizessem o comunicado juntos, e os três haviam enfrentado uma noite de muito constrangimento.

Não sabia que a irmã caçula estava morando com Damon no apartamento que ele mantinha em Oxford. Callie justificara a mudança de telefone e endereço dizendo que decidira ir dividir um apartamento mais barato com algumas colegas de classe.

— Não tenho condições de me casar com Callie neste momento — Damon informara sem rodeios.

— Alex está ameaçando deixá-lo sem um centavo! Quem poderia imaginar um drama tão antiquado nos dias de hoje? — Callie comentara exasperada.

— Não posso desafiar meu irmão — Damon havia dito embaraçado, incapaz de suportar o olhar de Sarah. — Pelo menos por enquanto...

Uma desculpa das mais descaradas. Callie tornara-se histérica. Devia estar esperando que a irmã mais velha erguesse a mão e solucionasse o problema num passe de mágica. Mas Damon era um homem adulto. Se não tinha coragem para enfrentar o irmão tirano e impor à família a mulher que escolhera para esposa, ninguém podia fazer nada por ele.

Uma semana mais tarde Damon partira novamente para a Grécia sem aviso prévio.

— Sabia que ele estava partindo? — Sarah perguntara à irmã com ar preocupado.

— Fique tranqüila... ele vai voltar. Damon quer essa criança — Callie informara com aparente segurança.

Naquela noite Sarah refletira muito sobre o assunto, questionando se não estaria sendo maldosa por suspeitar que, de repente, Damon já não tinha tanta certeza sobre o que sentia pela noiva. Em nenhum momento ele voltara a jurar o amor eterno que fizera questão de manifestar no primeiro encontro. Além disso, estava abatido, desanimado e retraído. Mas não quisera preocupar a irmã com seus temores.

Quinze dias mais tarde um advogado apresentara-se no apartamento em Oxford e apresentara uma notificação de despejo. Callie fora refugiar-se na casa de Sarah, ultrajada com o que havia acontecido, mas certa de que o despejo não era obra de Damon. Tudo não passava de um estúpido mal entendido com o proprietário, insistira. Depois recusara-se a voltar para a universidade, apesar dos pedidos insistentes da irmã.

Desesperada, Sarah julgara-se no dever de ir procurar Alex Terzakis para discutir o assunto. Ela já havia pedido isso antes, mas Callie recusara-se. Apenas a inabalável fé da irmã no noivo a convencera a entrar em ação. Ele concordara em recebê-la na próxima vez em que estivesse em Londres.

Ainda lembrava aquele dia em seu escritório. Alex Terzakis a intimidara desde o momento em que pusera os olhos nele. Dirigira-se ao encontro certa de que ele só precisaria conhecer Callie para perceber que seu preconceito era tolo e sem fundamentos.

Mas Alex não chegara a conhecer Callie. Deixara as duas irmãs entrarem em seu escritório e cravara os olhos apenas na mais velha, como se a outra sequer existisse.

— Acho que devemos conversar a sós, srta. Hartwell — havia dito.

Callie fora levada para outra sala, onde dois advogados incumbiram-se de ameaçá-la e amedrontá-la. Sem saber o que estava acontecendo, Sarah ficara aliviada com a possibilidade de falar a sós com Alex Terzakis, certa de que poderia convencê-lo de seu ponto de vista.

Alex fora sentar-se na imponente cadeira atrás da mesa grandiosa e dissera:

— Sou todo ouvidos, srta. Hartwell.

— Vim perguntar o que considera tão inadequado em minha irmã. E por que recusa-se até mesmo a considerar a possibilidade de conhecê-la.

Um sorriso sardônico distendera seus lábios.

— O fato de ter a ousadia de fazer essa pergunta revela muitas coisas. Não tenho o menor desejo de conhecer sua irmã. A única coisa que espero dela é que saia definitivamente da vida de Damon.

—Ainda não respondeu minha pergunta — Sarah insistira.

— E por que deveria? Sua irmã dormiu com meu irmão... só isso.

— Ele a pediu em casamento.

— Conversa de travesseiro — ele havia disparado com sarcasmo. — Não estamos mais no século dezenove, srta. Hartwell. Damon é grego. Tem sangue quente, é jovem...

— Callie também é jovem! E está grávida!

— Não acredito nisso. E também não acredito que seja tão ingênua.

— Callie está esperando um filho de seu irmão.

— Não entendo onde acha que esse tipo de afirmação pode levá-la. Na verdade, esperava que fosse inteligente o bastante para perceber que perderam a batalha. A galinha dos ovos de ouro voou, srta. Hartwell. Voltou para a Grécia, onde vai permanecer. O romance com sua irmã acabou.

— Porque você o ameaçou!

— Eu jamais ameacei meu irmão! Damon sabe o que é esperado dele, e uma... mocinha qualquer com a atenção voltada para sua carteira não é suficiente para afastá-lo de seus deveres.

Chocada com os insultos, Sarah tentara defender o caráter e a reputação da irmã, mas Alex jogara a cabeça para trás e rira.

— Apesar de jovem, sua irmã não era nenhuma virgem. Soube que ela era bastante liberal antes mesmo de Damon aparecer, e também não foi muito fiel enquanto esteve com ele.

— Como... como se atreve?

— Se vamos falar em atrevimento, srta. Hartwell, sua decisão de vir até aqui foi bastante impertinente. Um conselho: da próxima vez em que for ajudar sua irmã a caçar um grego milionário, não esqueça de dizer a ela para manter a boca fechada sobre seus ex-amantes. Os gregos são notoriamente antiquados no que diz respeito à liberação feminina. Eles gostam de serem os primeiros, ou pelo menos de poderem fingir que são.

— Você é grosseiro, rude e...

— E se ela quer uma aliança na mão esquerda, que mantenha as pernas bem fechadas até sair da igreja. Ir morar com Damon foi seu segundo erro — ele concluiu, os olhos iluminados por um brilho triunfante. — E agora pode sair. Já disse tudo que tinha a dizer.

Sarah encontrara Callie na recepção, igualmente trêmula e abalada, apertando entre os dedos um cheque de valor astronômico. Sarah o rasgara e atirara os pedaços no lixo, mas horas haviam se passado antes que ela conseguisse arrancar toda a história da irmã.

— Eles me fizeram sentir suja, Sarah, como se eu fosse uma chantagista!

Callie fora ameaçada e amedrontada por dois advogados que prometeram repercussões desastrosas caso ela procurasse a Imprensa para falar sobre Damon.

Callie continuara escrevendo para Damon, furiosa por não receber uma única resposta, mas ainda cheia de esperanças.

— Aposto que minhas cartas estão sendo interceptadas antes dele recebê-la — ela dizia. — Alex Terzakis é capaz de qualquer coisa. Espere só até meu filho nascer. Então a história será muito diferente. Nada poderá manter Damon longe de mim.

A lembrança odiosa daquele dia ainda resistia na memória de Sarah, dolorosa e viva. O ódio parecia ainda mais intenso, alimentado pela amargura e o desespero da perda. Ela parou na soleira do quarto de Nicky.

Uma cena inesperada a esperava do lado de dentro.

Alex estava recostado em sua cama de solteiro, o sobrinho aninhado de encontro ao peito. Falava com o bebê em grego, e Nicky havia parado de chorar.

Era estranho. Alex parecia tão humano! Mas a maneira como tratara Callie fora desumana. E agora ele queria o filho dela, e esperava que o entregasse sem resistência. Por quê? Nicky também era Nikos, como todas as implicações trazidas pelo nome. Era um Terzakis. Callie acertara ao prever o valor de seu filho para a família Terzakis.

Mas Sarah ainda estava atônita com a intensidade do interesse deles por Nicky. Ou deveria dizer do interesse de Alex por Nicky? Por que, aparentemente, o desejo de Damon de criar o filho fora rapidamente silenciado e sufocado. Assim, até que ponto a oferta havia sido sincera? Sarah tinha a impressão de que Damon oferecera-se para cuidar da criança apenas para impressionar o irmão mais velho.

Seria o medo de ser exposto publicamente que obrigava Alex a exigir a custódia do sobrinho? Algum tipo de obsessão paranóica? Sabia que não era uma questão de honra ou consciência. A experiência de Callie com aquela família havia deixado claro com que tipo de gente estava lidando. Sarah olhou para o homem e o bebê e tremeu com a força da própria frustração.

Sim, queria vingança. Queria, precisava ferir Alex Terzakis, mas não podia. Não tinha esse poder. Além do mais, tinha de considerar o bem estar de Nicky, sua principal preocupação. Num silêncio chocado, removeu a criança dos braços de Alex e foi sentar-se numa cadeira para alimentar o sobrinho.

Alex levantou-se repentinamente.

— Tem de aceitar o fato de que Nicky não pertence a este lugar.        

Apesar de todo mise-en-scène, Alex ainda não conseguira convencê-la da honestidade de propósitos de sua família. Nem todo o dinheiro do mundo poderia compensar a falta de amor. De qualquer maneira, sentia-se dividida e confusa, e tinha medo de estar tomando uma decisão precipitada. Temia que seus sentimentos a impedissem de enxergar a melhor solução para o bebê que aprendera a amar como se fosse seu.

— Seria melhor para vocês dois se desistisse dele agora.

O que pretendia oferecer agora? Já havia tentado dinheiro. Também experimentara a intimidação. Fizera de tudo para pintar Damon e Androula como os pais perfeitos. E finalmente oferecera-se. Mas se Nicky fosse para a Grécia, Sarah não teria mais qualquer influência sobre o futuro do sobrinho. Até onde podia confiar nos homens da família Terzakis?

— Não sou muito paciente — Alex suspirou.

— Diga algo que eu não saiba.

— Sou um inimigo perigoso. Vou tirar essa criança de você, custe o que custar.

Sarah havia terminado de alimentar Nicky, Tentando esconder o tremor das mãos, ela o colocou de volta no berço. Com que direito ele entrava em sua casa e a ameaçava? Não estava satisfeito com o sofrimento que já provocara? Os irmãos Terzakis mataram sua irmã!

Damon devia ter dito a Callie que não a amava mais. Em vez disso fugira, deixara sua pobre irmã cheia de esperanças vãs. O que aqueles meses de angústia haviam feito com seu coração frágil? E qual teria sido o desfecho da história, se Damon houvesse cumprido a promessa de se casar com ela? Callie podia estar viva.

— Escute... — Alex exigiu com impaciência, segurando-a pelo braço.

Sarah soltou-se com um gesto violento e dirigiu-se à escada.

— Não ponha suas mãos imundas em mim! Não suporto a idéia de ser tocada por você!

— Mentirosa.

Furiosa, tomada por uma curiosa mistura de emoções, ela virou-se para encará-lo e o viu encostado na parede da sala, exalando uma aura de sensualidade impressionante.

— Acho que gostaria de ser tocada por mim — ele provocou.

Confusa, Sarah retrocedeu alguns passos, tentando livrar-se da tensão sufocante que penetrara a atmosfera.

— Você não passa de um animal — ela sussurrou, sem saber como interpretar o que sentia.

Alex sorriu arrogante. Julgava-se irresistível, mas o que realmente a irritava era o fato de estar conseguindo perturbá-la.

— Infelizmente, quando disse que estava disposto a pagar qualquer preço, não estava me incluindo na oferta — ele prosseguiu insolente. — Quando vou para a cama com uma mulher, tenho de gostar dela. É o mínimo que exijo.

Se Sarah tivesse uma faca na mão, ele estaria sangrando a seus pés. Além de insinuar que ela o considerava atraente, ainda tinha a ousadia de dizer que, caso estivesse disposto a recebê-la, ela teria se atirado em seus braços com entusiasmo! Francamente! Não conseguia sequer verbalizar o que estava sentindo!

De repente Sarah teve certeza de qual seria o pior castigo para Alex Terzakis. O que poderia feri-lo profundamente. Ser obrigado a casar-se com ela para obter a custódia de Nicky. Ele não concordaria, é claro, mas seria uma vingança perfeita. Uma idéia insana, mas uma deliciosa fantasia. Pensando bem, por que tinha de ser uma fantasia? Se fizesse tal exigência, certamente conseguiria livrar-se dele.

— Estou feliz por ter encontrado algo de divertido nessa situação — ele comentou, fitando-a com ar intrigado. — Confesso que ainda não sou capaz de rir.

— Você disse que eu devia estipular o preço para entregar Nicky... certo?

— Já estava imaginando quanto tempo levaria para desistir do ato da tia amorosa. Por que me fez perder tempo com essa encenação?

— Não vai gostar do que vou propor — ela suspirou, indo acomodar-se numa das poltronas. Queria estar o mais longe possível quando ele perdesse a calma e explodisse.

— Pagarei o que for necessário para tirá-la definitivamente da vida dessa criança.

— Bem, não seria bem assim — ela avisou, os olhos verdes brilhando como esmeraldas. — A única coisa que quero é o que minha irmã não pôde ter.

— Vá direto ao ponto.

— É um pouco... delicado.

— Você não é nenhuma flor do campo — ele irritou-se.

— Quero que se case comigo. Quero ser a sra. Alex Terzakis. Apenas oficialmente, é claro. Por mais que duvide, não tenho nenhum interesse pessoal em você, nem o considero irresistível. Não pretendo exigir de você o imenso sacrifício de deitar-se pensando na glória da Grécia.

Alex estava pálido, como que petrificado.

— Cristos... Acha que eu me casaria com você?

— Um destino pior que a morte, mas uma doce vingança. Devo deduzir que sou ainda menos aceitável que minha pobre irmã? Bem, você disse que eu devia estipular o que queria...

— Não pode estar falando sério! Isso é uma brincadeira! Não pode estar me pedindo tal coisa...

— Posso — ela confirmou, deliciando-se com a expressão chocada em seu rosto.

— Que tipo de mulher é você, que é capaz de exigir isso de mim?

— Bem, parece que não é um homem de palavra — Sarah o acusou, notando que ele apertava as mandíbulas numa tentativa de controlar-se.

Alex estava tendo aquilo que merecia. Os últimos quinze dias haviam sido um pesadelo para Sarah, uma espécie de túnel longo e escuro através do qual forçara-se a continuar caminhando. Desde o momento em que Callie morrera, esse grego insolente a atormentara, invadindo seu luto. A morte de sua irmã não significara nada para ele. Pelo contrário, devia ter sido um alívio. E no entanto, ele atrevera-se a aparecer no funeral, e no mesmo dia havia tido a ousadia de oferecer dinheiro em troca do filho de sua irmã. E ainda recusava-se a deixá-los em paz!

— Isso está fora de cogitação — ele respondeu com falsa tranqüilidade. — E saiba que a desprezo ainda mais por ter feito tal sugestão.

Sarah sorriu com amargura. Então ele acreditava que dava alguma importância ao que pensava a seu respeito? Alex atravessou a sala com passos decididos, ansioso para partir.

— Adeus — ela despediu-se.

De repente ele virou-se e encarou-a com aqueles incríveis olhos negros.

— Por acaso sugeriu esse casamento pelo bem da criança?

— O que você acha? — Sarah devolveu, momentaneamente sem ação. Estava apenas fazendo um jogo, exigindo a única coisa que, sabia, ele se negaria a oferecer.

— A vingança é uma faca de dois gumes.

Momentos mais tarde a limusine afastava-se imponente, atraindo olhares curiosos dos vizinhos. Sarah atirou-se na cama, dominada pela exaustão. De onde havia tirado coragem para falar em casamento? Da certeza de que ele reagiria com surpresa e espanto à idéia de ver-se definitivamente ligado a uma mulher sem atrativos. Ha­via sido divertido vê-lo boquiaberto, sem saber o que dizer. Só não sabia por que não conseguia rir...

Na semana seguinte Sarah retornou ao trabalho para completar as duas semanas de trabalho exigidas para o pagamento do salário integral. Não podia deixar de receber esse dinheiro. Uma vizinha de Gina ofereceu-se para cuidar de Nicky e, sem outra alternativa, Sarah foi obrigada a enfrentar a angústia de deixá-lo todas as manhãs.

— Você pode ir trabalhar para mim na loja — Gina sugeriu ao final da primeira semana, enquanto tomavam o café da manhã.

Dona de uma floricultura, Gina sempre fizera questão de contratar apenas pessoas experientes.

— Mas eu não sei nada sobre flores... — Sarah lembrou.

— Você pode aprender. E pode começar cuidando da papelada da loja. Nicky ficaria em seu cesto, ao lado de sua mesa.

— Não sei o que dizer. Estou realmente grata, Gina.

— Nunca a ajudei com Callie, mas acho que dessa vez devemos unir nossas forças. Gosto de ter companhia em casa. Embora as coisas ainda estejam um pouco caóticas, tudo irá melhor assim que Nicky crescer. Ele estará indo para a escola antes que notemos.

— Acha que estou tomando a decisão correta... mantendo-o comigo?

— Acho que está fazendo o que deve fazer. De qualquer forma, agora a bola está no campo dos Terzakis, certo?

— O que quer dizer?

— Bem, mais cedo ou mais tarde Damon virá procurá-la, e se quer um conselho, acho que deve deixá-lo ver o garoto. Nicky tem todo o direito de conhecer o pai.

Gina tinha razão. Para ser franca, Sarah esperava que Damon já houvesse aparecido para conhecer o filho.

— Francamente, ele já devia ter vindo — Gina comentou, como se pudesse lei seus pensamentos.

Naquela manhã, Sarah estava cuidando dos arquivos do escritório, quando um movimento na porta da sala chamou sua atenção. Alguns dos diretores da empresa estavam parados na soleira, fitando-a como se fosse a mais estranha das criaturas. Assustada, ela encarou o diretor administrativo, o sr. Soames.

— Srta. Hartwell — ele começou hesitante, já que não a conhecia.

O grupo de executivos abriu-se como o Mar Vermelho para dar passagem a uma outra figura.

— Vim buscá-la para o almoço — Alex Terzakis informou sem rodeios.

— Mas...

— Não se preocupe com o horário, srta. Hartwell — Soa­mes ofereceu. — Tire o resto do dia de folga, se desejar.

— A srta. Hartwell não trabalha mais aqui — Alex avisou. — Tenho outros planos para ela.

— Uma excelente funcionária — o diretor comentou. Que diabos estava acontecendo? Confusa e irritada,

Sarah adiantou-se alguns passos, mas, antes que pudesse exigir explicações, Alex pousou uma das mãos em suas costas e empurrou-a com firmeza em direção à porta.

— Precisa apanhar alguma coisa?

— Sim, mas...

— Mande alguém limpar a mesa da srta. Hartwell, e envie os objetos pessoais para a casa dela — ele ordenou sem olhar para trás.

— Que brincadeira é essa? — Sarah explodiu ao ser empurrada para dentro do elevador.

— Acabei de demiti-la — Alex informou.

— Você... me demitiu?

— Sou o dono dessa companhia. Suas roupas são muito estranhas, sabe?

— Você possui essa empresa?

— Vim até aqui apenas para levá-la para almoçar, mas alguém me reconheceu na recepção e o pânico instalou-se. Nunca estive sequer perto da empresa — ele explicou, retirando a presilha que mantinha os cabelos dela presos na altura da nunca.

— Mas... o que está fazendo? Você enlouqueceu?

— Recuso-me a ser visto em público com uma mulher que parece uma carcereira.

— Seu... machista arrogante! Primeiro diz que me demitiu, e depois me arrasta para um almoço! Não comeria com você nem que estivesse morrendo de fome!

— Não me provoque — Alex murmurou com tom seco.

— E quanto à demissão, está perdendo seu tempo. Eu ia mesmo deixar a empresa, e já tenho outro emprego.

— E tão difícil imaginá-la lidando com flores, que mal posso esperar para ouvir sobre esse novo trabalho.

— Como sabe que vou trabalhar com flores?

— Gina me contou.

— Quando? — ela espantou-se, parando na calçada para encará-lo. Alex havia empurrado a porta giratória com tanta força, que quase a atingiu. — Suas maneiras são grotescas.

Ele sorriu, e pela primeira vez Sarah teve de admitir que Gina estava certa a respeito da beleza do grego.

— Você me chamou de machista. Só um machista perde tempo segurando portas para uma mulher.

Sarah sentou-se no banco traseiro da limusine com a graça de um soldado de chumbo, O que ele podia querer desta vez? Talvez pretendesse atirá-la no rio mais próximo com um bloco de cimento amarrado ao pescoço. Uma estranha inquietação a invadiu. Alex Terzakis era imprevisível. Embora tivesse facilidade para julgar o caráter das pessoas, não conseguia sequer imaginar o que ia na cabeça desse homem. Mesmo assim, podia apostar que ele era complexo, frio e cruel.

— Quer beber alguma coisa? Tensa, ela balançou a cabeça.

— Nem mesmo para celebrar sua vitória?

— Do que está falando? — ela perguntou desconfiada.

— Decidi pagar o preço.

— Que preço?

— Vamos nos casar.

 

Sarah esperava qualquer coisa, menos isso. Atônita, concentrou-se em manter o rosto inexpressivo, apesar das batidas frenéticas do coração. Exigira o mais absurdo dos sacrifícios, e ele concordara! Por quê? Por que Nicky era tão importante para a família Terzakis? Devia ser o primeiro neto, e do sexo masculino, mas Damon e sua preciosa esposa podiam ter os próprios filhos, não? Por que Alex concordaria em se casar com uma mulher que desprezava, quando o máximo que podia conseguir com isso era a adoção do sobrinho?

— Parece que Nicky é muito importante para você — ela disse, escolhendo as palavras com cuidado para não trair as emoções. — Estou realmente surpresa com a mudança. Callie estava grávida de quatro meses quando foi expulsa do apartamento de seu irmão.

— Acha que eu teria feito isso se acreditasse na gravidez? Que tipo de homem pensa que sou?

— Um completo canalha — ela respondeu com franqueza.

— Teria me comportado diferente, se acreditasse na gravidez de sua irmã.

— Não acredito. O cheque era suficiente para cobrir o custo de um aborto... não acredito que estivesse preocupado com o destino de Callie, ou da criança que...

— Como se atreve. Nunca pensei em tamanho absurdo! Jamais teria concordado com o assassinato do filho de meu irmão!

Era surpreendente, mas Sarah acreditava nele. Ninguém seria capaz de fingir tamanha indignação.

— Damon não disse nada sobre a gravidez de Callie?

— Não — Alex admitiu relutante.

Então as mentiras existiram, Sarah constatou com desgosto. Quantas outras Damon teria produzido para li­vrar-se da ira do irmão? Sem dúvida era responsável pela idéia que Alex fazia sobre o caráter de Callie.

Alex levou-a para almoçar em sua casa, uma imponente mansão com vista para um parque bem cuidado. A refeição foi servida por um criado grego, e o silêncio do dono da casa já começava a perturbá-la quando ele anunciou que o café seria servido na sala de estar.

Nervosa, Sarah mal conseguira tocar na comida. Além do mais, a decoração luxuosa a impressionava, e a profusão de criados era irritante para alguém que acostumara-se a fazer tudo sozinha.

Assim que o mordomo serviu o café e retirou-se, Alex murmurou:

— Vamos direto ao ponto. Já instruí meus advogados para preparem um contrato pré-nupcial, e espero que o assine sem impor condições.

Estaria realmente disposta a se casar com Alex Terzakis? Não seria um casamento normal, mas um acordo comercial em benefício de Nicky. O bem estar de seu sobrinho e seu direito à herança estariam garantidos. Nicky a teria por perto... e ela o teria em caráter definitivo, percebeu aliviada. Alex passaria boa parte do tempo viajando pelo mundo, e não teria de suportar sua presença constantemente. Era a única maneira de assegurar a satisfação de todas as necessidades de Nicky, tanto as materiais quanto as afetivas.

— Não me casarei sem esse contrato.

— Eu concordo — Sarah respondeu sem encará-lo, certa de que a única coisa que o preocupava era não correr o risco de perder parte de sua preciosa fortuna.

— Mandarei alguém cuidar de todos os detalhes burocráticos, e você será informada cobre o andamento dos planos para o casamento. Alguma dúvida?

— Por que concordou?

— Pelo bem do bebê. — Os olhos negros cravaram-se em seu rosto e Sarah experimentou um estranho arrepio. — Quero que ele tenha tudo que é necessário para o bem estar de uma criança: segurança, amor e um lar tranqüilo.

Por que não estava convencida? Uma espécie de sexto sentido a avisava de que ele não estava dizendo a verdade, mas Sarah censurou-se em silêncio. Alex não tinha nada a ganhar com o casamento desprovido de amor, desejo ou simpatia. E por que a idéia provocava tamanha amargura?

Devia ter sido Callie e Damon. Segurando a xícara de porcelana com mãos tremulas, Sarah disse a si mesma que queria fazer Alex pagar pr-r ter ferido e humilhado sua irmã, e por privá-la da companhia do grande amor de sua vida. Sim, ele merecia pagar por isso... e pagaria, nem que tivesse de dar a própria vida!

— Você não parece ter muito a dizer — ele comentou.

— Já consegui o que queria — Sarah respondeu com um sorriso gelado.

— Parece muito segura disso.

— E estou — ela devolveu triunfante. Havia justiça no mundo, afinal. Alex Terzakis não era intocável. Conseguira colocá-lo exatamente onde desejava... na palma de sua mão.

 

— E então, o que acha? — Sarah perguntou, fingindo não notar o espanto de Gina. Depois de deixar as caixas e pacotes no chão, ela girou pela sala para mostrar a roupa nova. — Combina comigo?

— Cortou os cabelos — Gina constatou perplexa. — E essa roupa, os sapatos... Não a teria reconhecido se a encontrasse na rua!

— Ótimo — Sarah respondeu enquanto subia a escada.

— Acha mesmo que devia estar gastando o dinheiro de Alex antes do casamento?

— Adoro gastar o dinheiro de Alex. Ele acha que sou gananciosa e interesseira. O contrato é prova disso. Vinte páginas de insultos! Não acha que devo me comportar de acordo com as expectativas de meu futuro marido?

— Já parou para pensar que vai ter de viver com esse homem?

— Não tenho a menor intenção de viver com ele. A julgar pelo que sentimos um pelo outro, nossos encontros serão poucos e esporádicos,

— Nesse caso, por que a transformação?

— Está pensando que é por causa dele? — Sarah riu. — É por Nicky!

— Por Nicky?

— Tenho de desempenhar o papel de mãe dele, não? Tenho de me adaptar, parecer adequada. Caso contrário, acabarei por embaraçá-lo no futuro. Além do mais, fiz apenas o que Alex sugeriu. Coloquei-me nas mãos de profissionais competentes para tornar-me apresentável...

Gina analisou a figura delicada de Sarah, as curvas suaves do corpo realçadas pelas roupas bem cortadas e elegantes. Agora já não parecia mais a garota solitária e triste de antes, mas uma mulher segura que jamais conhecera a dor de ser rejeitada.

Sarah examinou-se no espelho do quarto e aprovou o que viu. Não parecia mais uma carcereira. O dinheiro havia comprado a ilusão da beleza. O dinheiro de Alex. Ficara furiosa ao ler aquele contrato ofensivo e ridículo. O documento havia sido redigido em grego, e fora obrigada a exigir uma tradução para o seu idioma antes de finalmente assinar a versão original. Em recompensa por sua aparente docilidade, recebera vários cartões de crédito e fora informada sobre diversas contas bancárias abertas em seu nome.

— Ainda não é tarde demais para mudar de idéia — Gina sugeriu da porta.

Sarah suspirou. Gina estava tentando convencê-la a desistir do casamento há uma semana!

— Não pretendo desistir. Estou fazendo isso por Nicky, lembra-se?

— Não sente-se infeliz sabendo que o casamento será um sacrifício para Alex Terzakis?

— O que você acha? — ela disparou irritada.

— Acho que não gostaria de desafiá-lo. Acho que é maluca e ele é ainda mais louco por ter concordado.

 

— Como conseguiu isso? — Alex perguntou.

Do que estava falando? Sarah lançou um olhar de soslaio para o homem sentado a seu lado na limusine. Apesar de manter a maior distância física possível, a presença dele a incomodava, provocando um estranho desconforto. Era a primeira vez que Alex falava desde a cerimônia no cartório. Passara todo o tempo observando-a com atenção, como se estivesse surpreso com a transformação, mas sabia que algumas roupas novas e um pouco de maquiagem não eram suficientes para impressionar um profundo conhecedor da beleza feminina.

— Como consegui o quê? — Sentia-se vazia sem Nicky. Preocupada, olhou para trás e viu o carro que transportava Nicky... e uma babá. Uma babá de verdade, com uniforme e vários certificados!

Ao ser entregue aos cuidados da profissional. Nicky havia chorado como se alguém estivesse tentando estrangulá-lo.

— Vejo que é um garotinho muito mimado — a sra. Brown dissera com ar de reprovação.

Mal podia esperar para dizer a Nicky que não precisavam de uma babá, pois pretendia dedicar-se pessoalmente aos cuidados com o bebê.

— Como conseguiu operar tão grande transformação da noite para o dia?

Sarah ruborizou, convencida de que ele estava sendo sarcástico.

— Contratei um consultor de estética.

— Um... o quê?

— Quando não sei fazer alguma coisa, costumo procurar os serviços de uma autoridade no ramo.

— E o que não sabia fazer?

Sarah virou-se e viu que ele mantinha os olhos fixos em seus lábios, enriquecidos pelo batom cor de pêssego. Qual era o problema com o sujeito? Por que estava fazendo perguntas tão estúpidas, se a idéia havia sido dele?

— Com algum esforço e ajuda profissional, poderia tornar-se bem atraente... — dissera.

— Não sabia como lidar com roupas, maquiagem, esse tipo de coisas. Francamente, nunca tive tempo ou interesse para aprender. Nem dinheiro para gastar com futilidades.

— Você gastou uma ninharia.

Não podia estar falando sério. Gastara uma fortuna! Isto é, de acordo com sua escala de valores... Seu novo guarda-roupa não incluía grifes famosas, mas contava com peças básicas e clássicas que podiam ser combinadas entre si, criando vários conjuntos elegantes e discretos, e uma variada coleção de sapatos, bolsas e peças íntimas. O trabalho do consultor, indispensável em sua situação, custara os olhos da cara!

— Uma ninharia — Alex repetiu, os olhos fixos em seu rosto.

Estava falando sério!

Virtude número um: Alex não era mesquinho.

— É lisonjeiro saber que fez tamanho esforço por mim.

— Por você? Fiz isso por Nicky! Não quero embaraçá-lo.

— Ele tem seis semanas de idade.

— Não quero que ele se envergonhe da própria mãe — Sarah insistiu.

— E quanto a não querer que eu sinta vergonha de minha esposa?

Sarah encarou-o com um sorriso sarcástico, demonstrando que tal ambição jamais passara por sua cabeça. O rubor que tingiu o rosto de Alex provou que ele estava ofendido com seu desinteresse, o que era ridículo nas circunstâncias. Tinham um casamento de conveniências! Por que pensaria em tornar-se mais atraente para ele?

— Gostaria que parasse de olhar para mim desse jeito — ela indicou.

— 0 que esperava? Você está irreconhecível! Com exceção da cor dos cabelos...

Tensa, Sarah o viu erguer a mão para tocar seus cabelos e afastou-se ainda mais.

— Pare com isso — Alex exigiu irritado.

— Parar com... o quê? — ela gaguejou, sentindo os dedos em seus cabelos. Estava trêmula, ofegante, e o corpo parecia estar reagindo por conta própria. Não sabia o que esperar. E se Alex fosse violento? Teria a intenção de agredi-la fisicamente? Tentando distraí-lo, ela decidiu dizer a primeira coisa que passou por sua cabeça. — Não quero que Nicky tenha uma babá.

Por um instante os olhos que a fitaram expressaram frustração e incredulidade.

— Uma babá? — Alex repetiu, como se não conhecesse o significado da palavra.

— Eu mesma cuidarei dele.

— Estará ocupada demais cuidando de mim.

— Você tem empregados para isso.

— Agora tenho uma esposa, e não preciso mais dos criados — ele insistiu, aproximando-se devagar e tocando seu queixo para forçá-la a encará-lo.

Irritada, Sarah plantou as duas mãos em seu peito e em­purrou-o. Alex riu com uma espontaneidade que a perturbou.

— Tire as mãos de mim... agora! — ela exigiu, enlouquecida com o comportamento inexplicável do marido.

— Tente me obrigar.

Sarah o encarou e o encontro com aqueles olhos negros foi eletrizante. Um aroma pungente penetrava por suas narinas, uma mistura de colônia fina com algo profundamente erótico. Erótico? Deus, de onde havia tirado essa idéia?

Alex riu e afastou-se com um movimento confiante, fitando-a com ar de... satisfação?

— Obrigada — Sarah agradeceu com tom frio, deslizando as mãos pela roupa como se estivesse amarrotada.

— Essa aliança em seu dedo significa que estamos casados.

— E daí?

— Agora você é minha esposa.

E o que ele esperava? Que corresse horrorizada, ou agradecesse orgulhosa? Para ela, o casamento havia sido apenas uma cerimônia sem qualquer significado, como a aliança em seu dedo. Apenas um meio para satisfazer duas necessidades: a de poder cuidar de Nicky e de seu futuro, e a de vingar-se. Fizera Alex Terzakis pagar por ter destruído a vida de sua irmã, e agora que conseguira realizar seu desejo, não tinha muito mais a dizer ao sujeito. Adiante, via apenas a vida ao lado do bebê que amava. Alex seria um apêndice, e desempenharia o papel de pai ocasionalmente. Não tinham nada a dividir, a partilhar. Nada em comum além de Nicky. Então, por que ele fazia questão de dizer que agora era sua esposa?

— Está tão embriagada com o doce sabor da vitória que deixou de enxergar à sua volta.

Exasperada, Sarah jogou os cabelos para trás e desejou tê-los cortado. Não gostava da maneira como Alex olhava para eles.

— Não gosto de ser ignorado — ele disse.

— Se precisa mesmo falar, devia tentar entabular uma conversa mais normal — ela retrucou, irritada com seus comentários misteriosos.

— Quer falar sobre o tempo. Seria bem adequado ao seu nível intelectual.

— A chuva na Espanha é mais constante nas áreas de planície — ela provocou.

— Quantos anos tem?

— Por que não lê a certidão de casamento?

— Não seja infantil.

— Farei vinte e cinco dentro de um mês... o que significa que ainda tenho algum tempo antes de chegar aos trinta.

— Isso a magoou, não?

— Nada do que diga ou faça poderá me magoar. Com relação a você, sou inatingível.

— Você é muito confiante.

— Tenho razões para ser.

Sarah havia pensado em tudo com antecedência. O que ele poderia fazer? Deixá-la sem dinheiro? Isso não a aborreceria. Poderia ignorá-la. Isso a satisfaria. Poderia ser rude. Reagiria à altura. Poderia deitar-se com uma mulher a cada noite, entregando-se à promiscuidade diante de toda a sociedade... e isso não a incomodaria, exceto pelo fato dele não ser um exemplo para Nicky seguir no futuro. E se fosse violento, divorciaria-se dele... ou do que restaria dele quando terminasse de fazer o que considerava adequado à situação. Ao menor sinal de abuso físico, Alex seria um homem morto!

Embarcaram no jato que os levaria a casa dele na França. Quando a sra. Brown subiu a escada, Sarah ouviu os gritos de Nicky e aproximou-se com os braços estendidos, perturbada e aflita.

— Está tudo bem, senhora — a babá afirmou com um sorriso frio. — Nikos vai precisar de algum tempo para aprender a me reconhecer. Cuido de crianças há trinta anos, e garanto que ele logo estará acostumado comigo.

— Podemos tentar ir aos poucos. Ele tem medo de estranhos — Sarah explicou.

— Talvez ele não esteja bem — Alex intercedeu, os olhos perturbados fixos no rosto congestionado do sobrinho.

— Não há nada de errado com ele, exceto uma boa dose de manha — a babá respondeu. — Os bebês precisam habituar-se a uma determinada rotina.

Incapaz de suportar tal discurso por mais tempo, Sarah simplesmente arrancou a criança dos braços da sra. Brown e aninhou-o junto ao peito, murmurando palavras doces enquanto dirigia-se ao fundo da aeronave. Nicky abriu os olhos inchados e cheios de lágrimas e fitou-a, pronto para mais um ataque de choro. Ao reconhecê-la, o pequeno acalmou-se e recostou a cabeça em seu peito. Sarah sentou-se, satisfeita, e Alex estudou-os com expressão surpresa.

— Ele a conhece...

— É claro que sim... não é, meu benzinho?

Por que Alex a observava com aquele ar intrigado, como se estranhasse seu comportamento? Independente de sua opinião, estava desempenhando o papel que assumira recentemente e, a menos que a babá adotasse uma atitude mais suave e carinhosa, não tinha a menor intenção de deixar o sobrinho aos seus cuidados.

Enquanto alimentava o bebê, Sarah ouviu os comentários de desaprovação da sra. Brown, que fora sentar-se numa poltrona próxima.

— Está tentando me impressionar? — Alex perguntou irritado.

— Do que está falando? — Sarah espantou-se.

— De toda essa falsa atenção com Nikos. Por que acha que contratei uma babá?

— Não há nada de falso no que sinto por meu sobrinho. E prefiro não comentar a contratação da babá, embora deva dizer que não gostei do que vi até agora.

— Ela apresentou excelentes referências.

— Não quero parecer crítica ou injusta, mas você fez exatamente o que eu esperava, interferindo num assunto sobre o qual sabe muito pouco... algo que, imagino, costuma fazer com regularidade. É um desses homens que acredita saber tudo...

Alex ficou vermelho, visivelmente perturbado. Não podia ouvir uma ou duas verdades sem perder a calma e explodir. Devia ter sido excessivamente mimado quando criança. Rico, inteligente, bonito. Ambicioso, obcecado por trabalho e dominador, certamente encorajado por uma família amorosa, empregados servis e mulheres estúpidas a acreditar-se a mais perfeita das criaturas em todos os campos.

— Você é lésbica?

Depois de uma pausa ultrajada, Sarah encarou-o e riu. O ego do sujeito! Não era capaz de aceitar que uma mulher não o considerasse atraente.

— Eu imaginava que não. — Longe de estar constrangido, Alex a observava com interesse, a boca distendida por um sorriso divertido. — Devia perguntar-se por que sente tamanha compulsão para me agredir.

Sarah arregalou os olhos verdes numa encenação de ingenuidade.

— Eu faço isso? E está querendo dizer que percebeu? Francamente, não gosto muito de você, Alex...

— Gostar não é necessário. Mas exijo respeito.

— Um homem deve ter sempre um objetivo a alcançar. Mesmo que esse objetivo seja quase inatingível...

— Está correndo um risco que nem os inimigos mais poderosos quiseram correr.

— Não tenho medo de você.

— Não é o que seu corpo está dizendo — ele sorriu, notando a mão agarrada ao apoio do assento. — Se não tivéssemos a companhia da babá e da aeromoça, já teria corrido daqui com o rabo entre as pernas.

— Esse tipo de comparação diz muito a seu respeito — Sarah devolveu, tentando esconder o nervosismo que a invadia. — Se não pode conquistar a admiração de uma mulher, contenta-se em despertar temor. Na verdade, prefere despertar qualquer tipo de sentimento a lidar com uma mulher em outro nível...

— Se estamos falando de uma mulher como você, tem razão. E não foi isso que imaginei para o dia do meu casamento.

Sarah foi tomada pela tensão.

— E o que imaginou?

— Esperava dividir essa ocasião com uma esposa digna de meu nome.

— E ainda quer que eu acredite que não é um esnobe...

— Não estou preocupado com seu nível social, mas com sua falta de moral.

— Minha falta de moral?

— A mulher com quem devia ter me casado tem os mais elevados princípios morais.

— Está tentando dizer que ia se casar com outra mulher?

— Exatamente.

— E amava essa mulher? — Sarah atreveu-se a perguntar, invadida por uma estranha ansiedade.

— Não pretendo discutir minha vida íntima com você.

— Ela o amava? Deus, por que não me disse? Não pode vir me cobrar por algo que... Por que não disse que havia alguém em sua vida, alguém além de...

— Das mulheres que levo para a cama em troca de dinheiro?

Sarah não respondeu, perturbada com a possibilidade de ter partido o coração de outra mulher.

— Elise nunca esteve em minha cama.

Então não estavam falando de um romance apaixonado.

— Jamais discutimos a possibilidade de um casamento, mas teríamos formado uma bela aliança. Na família Terzakis, casamento é um passo definitivo. Não assumimos compromisso tão sério movidos pela ilusão.

Muito apropriado. Sexo com as amantes, estabilidade com a esposa. O amor não fazia parte da equação. E por que deveria surpreender-se? Callie fora julgada e rejeitada de acordo com esses mesmos padrões. Androula devia ser rica, bem educada e absolutamente adequada.

Entretanto, estava surpresa com a equação matrimonial de Alex. Por mais que tentasse ignorar, estava diante de um homem capaz de emanar uma carga emocional impressionante, um homem que saía em defesa da família com paixão e ardor, mesmo que não aprovasse seus métodos. Havia afastado Damon de Callie por acreditar que essa era a melhor solução para o irmão, e certamente tratara de casá-lo em seguida para afastar o perigo de novas alianças inadequadas.

— Elise o ama?

Alex ergueu uma sobrancelha diante da intimidade da pergunta.

Sarah ruborizou, mas recusou-se a desistir do assunto.

— Odeio pensar que posso ter sido a causa do sofrimento de outra mulher.

— Eu feri o orgulho de Elise — Alex afirmou com tom frio. — E como todos acreditarão que Nikos é meu filho, e você é a mãe...

— Isso é necessário?

— Absolutamente. Como Damon e Androula não poderão criar o menino como filho, prefiro que a verdade permaneça em segredo dentro do círculo familiar. Não quero que Androula seja humilhada.

Sarah não compreendia como Androula podia ser humilhada por algo que havia acontecido antes de seu casamento com Damon... a menos que ela já estivesse em cena na época do envolvimento entre ele e Callie. Era bem possível, especialmente tratando-se de um sujeito sem caráter como Damon.

— Assim que tiver idade para compreender, Nikos será informado sobre os fatos relativos à sua origem, desde a adoção até a verdade sobre os verdadeiros pais...

— Sua verdade, ou a minha?

— Você é uma mulher má e perigosa, mas saiba que não vou tolerar interferências quando o momento da verdade chegar. Isto é, se ainda estiver por perto.

— E por que não estaria? — ela o desafiou.

— Porque vai precisar de muita determinação e humildade para permanecer a meu lado. E francamente, não acredito que tenha toda essa fibra.

— Obrigada pelo voto de confiança.

Mas Sarah estava perturbada, apesar da aparente tranqüilidade. Não pelas ameaças que Alex fazia, mas por ter acabado de perceber que ele era repleto de sentimentos e até fragilidades.

Um homem amargurado. Há três semanas, teria sentido-se capaz de lidar com Alex com uma só mão e ainda conter um batalhão com a outra. Chorando a morte de Calhe, perturbada pelo ressentimento e dominada pelo desejo de vingança, não dera importância a uma verdade básica. Damon era o homem que havia mentido para Callie, que a engravidara e abandonara, que negara-se a ampará-la e mentira para o irmão. Alex agira de acordo com as informações que havia recebido. Damon poderia ter desafiado o chefe do clã dos Terzakis e assumido seu romance com Callie, se quisesse. Mas a verdade era que Damon jamais tivera a intenção de se casar com sua irmã, e não hesitara em permitir que Alex o livrasse de uma situação embaraçosa.

Portanto, Damon era o verdadeiro pecador, mas era Alex quem fazia todos os sacrifícios. Por que só agora se dava conta disso? Por que forçara Alex a pagar pelos erros de seu irmão?

Vira-se diante de um Terzakis, e não hesitara em mirar e fazer fogo em nome da vingança.

E em nome de Nicky, é claro. Infelizmente, só agora percebia que havia destruído a vida de Alex, enquanto Damon escapara ileso da confusão que criara.

Perturbada, fitou o marido que conquistara através da força e desviou os olhos apressada, assustada com a intensidade daquele olhar. Estava decepcionada consigo mesma, e a idéia de que tivesse agido de modo tão precipitado fez seu sangue gelar nas veias, mas não podia perder a cabeça à essa altura dos acontecimentos!

 

Um castelo no Vale do Loire... o que mais poderia ser para um Terzakis? Sarah olhava pela janela da limusine, encantada com a paisagem criada pelas árvores frutíferas ao longo da alameda que levava à entrada.

— Há quanto tempo vive aqui? — perguntou, os olhos arregalados constatando a existência de mais duas alas na construção de três andares.

— Esta era a casa da família de minha mãe.

— Ela era francesa? Quando morreu?

— Quando eu era criança — Alex respondeu com tom frio.

Sarah inclinou a cabeça, subitamente constrangida com a própria curiosidade. Mas jamais estivera fora do país, e era difícil agir com frieza diante de tantas mudanças.

De repente Alex inclinou-se e olhou incrédulo para a mulher que aproximava-se do carro, o rosto traindo uma enorme irritação.

— Se deixar escapar uma única pista sobre a verdadeira origem de Nikos, pode considerar-se uma mulher morta — ele avisou em voz baixa.

— Mas quem é...?

Sarah não pôde' concluir a pergunta. O motorista abriu a porta do automóvel e uma loira de baixa estatura e ansiosa envolveu-os num abraço entusiasmado.

— Sou sua sogra — ela apresentou-se sem rodeios.

— Sarah, essa é Vivien, minha madrasta...

— Sempre tão preciso, quando tudo que fiz foi amá-lo como se fosse meu por mais de vinte anos — Vivien suspirou.

— Você é inglesa — Sarah constatou com tom confuso.

— Alex, sei que estou sendo inconveniente aparecendo sem avisar em sua noite de núpcias, mas não pude esperar para conhecer Sarah, que vai fazê-lo incrivelmente feliz. Quer saber como posso afirmar, se nem sequer a conheço? Ela retribuiu meu abraço. Foi agarrada por uma estranha, mas abraçou-me de volta porque não quis ferir meus sentimentos.

— Vivien... — Alex tentou.

— Não vai me dar um abraço?

Alex inclinou-se e beijou o rosto da madrasta.

— Vejo que ele ainda sente-se constrangido em sua presença, Sarah. Normalmente Alex é mais entusiasmado. Bem, onde está ele?

— Quem?

— Alex, qual é o problema com você? Seu filho! Estou morrendo de vontade de pegá-lo no colo!

O segundo carro estacionou atrás da limusine e a babá desceu com Nicky nos braços. Vivien aproximou-se apressada, mas de repente parou e retrocedeu um passo.

— Vamos entrar. Vou levá-la ao seu quarto — Alex indicou, segurando o braço de Sarah e arrastando-a com certa ansiedade, desesperado para tirá-la de perto da madrasta.

Mas Vivien os impediu de escapar.

— A babá disse que ele está dormindo e não deve ser perturbado. Essa mulher parece um dragão! A escolha foi sua, Alex?

— Sim — Sarah confirmou.

— Seu filho é lindo, querida. E você também é muito bonita. Como conseguiu emagrecer tão depressa? Olhando para você, ninguém diria que é mãe há tão pouco tempo. Está amamentando?

— Não.

— Vou levar o bebê para o quarto, senhora — a babá informou de passagem.

— Ela é como um tanque de guerra, não? Posso até vê-la armando barricadas para nos manter fora do quarto — Vivien comentou.

— Tem razão — foi a resposta desanimada de Sarah.

— Alex, não vou ficar. Nem mesmo para o jantar — Vivien prometeu. — Embarcarei de volta para casa assim que sair daqui. Só vim para conhecer sua esposa e dizer a ela que implorei para realizar esse casamento com estilo, mesmo com três semanas de antecedência. Mas você não quis... — ela suspirou, lendo no rosto de Sarah o espanto diante da criadagem perfilada no hall. — Medieval, não?

Alex fez as apresentações, mas Vivien baniu qualquer vestígio de formalidade com seus comentários divertidos. Em seguida ela segurou o braço de Sarah e conduziu-a até a imponente escada de mármore.

— Deve estar louca por um bom banho — disse, antes de baixar a voz para um sussurro. — Há uma certo clima entre vocês, não? Adoro Alex, mas o acho muito difícil às vezes. E, isso acontece mesmo nas melhores famílias. E quem poderia chamar um bebê tão lindo de acidente? Eu o chamaria de milagre. Alex foi salvo na última hora de viver até o fim da vida com aquela Elise... sabe a respeito dela, não?

— Um pouco.

— Já é o bastante. Ela é a mais assustadoramente perfeita das mulheres. Fala vários idiomas, é uma artista talentosa, possui uma das mais famosas videiras do Loire e é capaz de traçar a árvore genealógica de sua família por gerações e gerações. Também é muito bonita. Mas E tem aquele ar de superioridade... e insiste em me tratar como a proverbial loira burra, o que não sou. Ela teria estragado todo o trabalho que tive para descontrair Alex. Elise não tem emoções. Acho que livrou-se delas numa operação especial para poder funcionar com o máximo de perfeição.

— Mas ela deve ter ficado magoada...

— De jeito nenhum. Ela não ama Alex, e ele também nunca a amou. Iam unir-se algum dia e iniciar uma dinastia perfeita, provavelmente num tubo de ensaio. Não consigo imaginá-la gerando um filho da maneira habitual. Felizmente, Sarah, seu método anticoncepcional falhou! Você salvou meu enteado de um destino pior que a morte.

Pelo menos não precisa fingir que era uma noiva feliz. Alex devia ter dito que estava se casando com o único objetivo de legitimar o filho, e isso tornava as coisas mais fáceis.

Vivien levou-a a um quarto repleto de flores.

— Preparei tudo sem que ele soubesse — ela confidenciou.

— É lindo! Estonteante — Sarah comentou, atordoada com o perfume inebriante.

— Alex disse que eu não gostaria de você. Estava apavorada. Quero dizer, alguém pior de Elise, depois de todo os planos que tracei para mantê-la afastada! E Alex agia como se estivesse se debatendo numa armadilha.

— Não foi exatamente uma armadilha, mas tive de fazer uma certa pressão.

— Está brincando! Com Alex? O canalha! Sempre pensei que ele fosse um homem decente, responsável...

— Oh, ele é!

— Eu sabia. Alex é tão honrado e decente que às vezes torna-se entediante. E adora crianças.

— É verdade.

— Mas tem idéias muito rígidas. Eu estraguei Damon, o irmão mais novo de Alex. Sei que o mimei terrivelmente, e agora me preocupo com ele. Vai rir de mim, mas quando soube sobre a existência desse bebê, pensei que Alex estivesse tentando encobrir o irmão.

Sarah não respondeu, petrificada pela observação.

— Andy tem andado calada, pálida...

— Andy?

— Minha filha, Androula.

— Sua filha é casada com o irmão de Alex?

— Eu era viúva quando conheci o pai deles. Androula era uma garotinha. Meu primeiro marido também era grego, e eu trabalhava no escritório de Nikos. Era péssima em datilografia, mas ele vivia me chamando para ditar suas cartas. Nikos havia me escolhido como sua próxima amiguinha de travesseiro.

— Amiguinha de travesseiro?

— É um eufemismo grego para amante. Passei um ano resistindo, até que ele caiu de joelhos e me pediu em casamento. Precisei de dois anos para me livrar da bagagem de seu antigo estilo de vida.

— Do que está falando?

— Das amantes que ele ainda conservava. Nikos não conseguia compreender por que não podia continuar com elas. Sabe que Alex mantém suas amiguinhas em Atenas e Paris, não?

— Eu... sim.

— Os gregos têm padrões duplos. Quer saber como me livrei da tal bagagem?

— Adoraria.

— Despertei seus ciúmes. É um jogo perigoso, mas [comigo funcionou. De repente ele percebeu o que eu sentia e nunca mais me traiu, pois passava o tempo todo me observando. Eu o amava muito, sabe? Por isso fiz questão de mantê-lo na linha. Quais são seus planos?

- Planos?

- Vai precisar de uma estratégia para liquidar a oposição. Lembre-se de que estou sempre ao alcance do telefone, e venho à Paris com freqüência. Estarei aqui dentro de quinze dias para conhecer meu neto com mais calma. — Vivien aproximou-se da porta e virou-se antes de sair. — Alex tem consciência. Use-a... e isso, também. — ela sorriu, apontando para a enorme cama de casal. — Já deve ter percebido que o que acontece aqui é mais importante que tudo. Não deixe o entusiasmo esfriar.

Sarah afirmou com a cabeça e esperou que a sogra fechasse a porta para deixar-se cair sobre uma cadeira, exausta e confusa. Vivien era um furacão! E estava disposta a ajudá-la por considerá-la melhor que Elise.

Mas Vivien era a mãe da esposa de Damon, e isso a deixava ainda mais confusa. Não sabia nada sobre a família Terzakis. Callie falara pouco sobre o clã, e não havia visto Alex nas três semanas entre sua decisão de aceitar o casamento e a cerimônia, algumas horas antes. Agora entendia por que o marido ficara tão abalado ao ver a madrasta. Naturalmente temia que a esposa revelasse toda a verdade assim que se visse sozinha com a sogra.

Androula andava abatida... Perturbada, Sarah compreendeu subitamente o quanto havia resistido diante da verdade. Negara-se a ver as coisas a partir do outro lado da cerca. Ficara ultrajada ao saber que Damon ca­sara-se com outra mulher enquanto Callie carregava seu filho no ventre, e considerara Androula como uma espécie de rival triunfante.

Mas como uma mulher recém-casada poderia sentir-se triunfante ao saber que outra mulher daria à luz o filho de seu marido, ou ao ser chamada a assumir a responsabilidade por essa criança e tratá-la como se fosse sua? Em que momento Androula fora informada sobre a situação de Callie? Antes ou depois do casamento?

De repente era novamente forçada a reconhecer que não era a única vítima. Androula também estava sofrendo, apesar de não ter feito nada para merecer tal sina. Damon espalhava a infelicidade por onde passava.

A bagagem foi levada ao quarto por um criado, e uma empregada surgiu pouco depois para avisar que o jantar seria servido em uma hora. A criada desfez suas malas, e depois de um banho relaxante e prolongado, Sarah usou seu francês rudimentar para perguntar onde ficava o quarto do bebê.

A babá havia realmente erguido barricadas. Nicky estava acomodado num grande berço de bronze, alimentado e limpo, pronto para a noite.

— Ele sossegou... finalmente. — a sra. Brown comentou antes que Sarah pudesse entrar.

— Ótimo.

— Não seria uma boa idéia perturbá-lo. Estou muito cansada, e não gostaria de ter de passar a noite acordada.

— Cuidarei das mamadeiras noturnas — Sarah ofereceu sem hesitar.

— De jeito nenhum, senhora. Eu mesma o alimentarei esta noite, e amanhã haverá uma jovem para alimentar o bebê durante a noite e ficar ao lado dele em minhas horas de folga.

Nicky passaria as vinte e quatro horas do dia sob vigilância!

Sarah desceu apressada, os olhos verdes falseando de raiva.

— Odeio falta de pontualidade — Alex disparou ao vê-la entrar na sala de jantar.

Estava apoiado na lareira, saboreando um drinque, e sua aparência formal a fez perceber que cometera seu primeiro erro social. Devia estar usando o único vestido de noite que trouxera na bagagem.

Intimidada, Sarah foi sentar-se na ponta da enorme mesa iluminada por candelabros.

— Sua madrasta é muito gentil — ela comentou. — Vivien me fez sentir em casa.

Alex sorriu e fez um sinal para que o criado acendesse as luzes da sala.

— Os empregados acreditam que temos algo a celebrar — ele disse, apontando para a entrada de ostras que acabara de ser servida.

Sarah já ouvira falar sobre a propriedade afrodisíaca do prato, mas não estava preocupada. Era alérgica a frutos do mar, e não pretendia sequer aproximar-se das ostras.

— E então, como é ser minha esposa?

— Não me sinto sua esposa, o que significa que não deve preocupar-se com isso. Só desejo ser uma excelente mãe para Nicky. Não pretendo interferir em sua vida.

— Palavras amenas. Parece ter acalmado desde que colocou essa aliança no dedo.

— Não sei de onde tirou essa impressão.

— Você disse que eu merecia uma esposa capaz de transformar minha vida num inferno. Uma verdadeira cadela... se não estou enganado quanto ao termo utilizado. Mas agora parece estar mudando seu plano de ação representando a mãe dedicada, apesar de sua limitada habilidade artística.

— Não estou representando! Eu amo Nicky!

— Ele foi seu passaporte para outro mundo. Você o usou para conseguir o que neguei à sua irmã.

— Isso não é verdade! Tudo bem, reconheço que queria vingança, mas nunca imaginei que fosse concordar. Depois, quando aceitou a idéia, percebi que esse casamento era a melhor solução para as necessidades de Nicky.

— Você me obrigou a aceitá-la. Nunca pensei que uma mulher pudesse ser tão desavergonhada. Trocou seu sobrinho por riqueza e status.

— Como se atreve a me acusar?

— Não devia esperar nada melhor da mulher que invadiu meu escritório há cinco meses.

— Eu não invadi seu escritório! Marquei hora com a secretária, lembra-se? Foi você quem agiu como um bárbaro.

— Você e sua irmã nunca se preocuparam com Androula. Que tipo de recepção esperava? Damon já tinha uma esposa e uma família, e você sempre soube disso! Desde o início daquele caso sórdido!

— O que está dizendo? — Sarah sussurrou, o rosto subitamente pálido. — Quer que eu acredite que há cinco meses Damon já era casado há tempo suficiente para ter um filho? Isso é absurdo!

— Fingir ignorância não vai ajudá-la em nada. Sua irmã conheceu Androula e minhas sobrinhas antes de esgueirar-se até a cama de meu irmão. Ela era a babá.

— Isso é mentira! Está inventando essa história para profanar a memória de minha irmã! Callie não pode ter conhecido sua cunhada... Não sabíamos que Damon era casado!

— É claro que sabiam.

— Damon a pediu em casamento! Ele até comprou um anel de noivado!

Alex pronunciou um impropério para manifestar sua incredulidade, e Sarah reagiu de imediato.

— Não se atreva a usar esse tipo de linguagem em minha presença! Não sei onde está querendo chegar com todas essas mentiras. Minha irmã jamais teria se envolvido com um homem casado, a menos que ignorasse seu estado civil.

— Sua irmã conheceu Androula antes de ser apresentada ao resto da família.

— Callie não pode ter conhecido a esposa de Damon! Ela jamais esteve na Grécia! — Sarah soluçou, aflita com as próprias emoções. Damon havia jogado toda a culpa sobre as costas de Callie para redimir-se aos olhos do irmão.

— Eu tenho provas.

— Que provas?

Alex levantou-se e dirigiu-se à porta.

— E então? Vem comigo, ou tem medo de não conseguir sustentar a farsa diante das evidências?

— Não tenho medo de nenhuma evidência que possa ter produzido! — ela devolveu, seguindo-o com passos nervosos até a biblioteca.

Alex pressionou o último livro de uma estante e, espantada, Sarah viu o vão revelado pelas prateleiras que se afastavam.

— Mantenho a prova em local seguro — ele comentou com um sorriso sarcástico.

Sarah respirou fundo, tentando dominar a tensão. Não estava com medo... não, não temia que ele pudesse abalar a confiança que sempre tivera na irmã!

Alex espalhou algumas fotos sobre a mesa, diante dos olhos arregalados de Sarah.

— Foram tiradas em Oxford. Androula e as crianças foram passar algumas semanas com Damon.

Sarah tinha a impressão de que alguém a havia atingido no estômago. Na foto, Callie posava ao lado de uma jovem morena, cada uma delas segurando a mão de uma garotinha de cabelos negros, uma delas com cerca de um ano, e a outra com quatro ou cinco. Todas sorriam.

Alex foi mostrando as fotos numa sucessão lenta e sádica. Callie aparecia em todas elas. Brincando com as meninas num parque, sorrindo ao lado delas... Na última ela sorria ao lado de Damon, cada um deles segurando uma criança.

— Andy perdeu uma das meninas num shopping e sua irmã a encontrou. Foi assim que elas se conheceram. Andy cometeu o engano de convidá-la para jantar em sua casa, e depois ela ficou com as crianças uma ou duas vezes para que meu irmão e a esposa pudessem sair. Minha cunhada voltou para a Grécia e sua irmã viu-se com o campo livre.

A verdade sobre Callie atingira Sarah com tamanho impacto, que ela manteve-se em silêncio por alguns instantes, vítima da dor e da culpa. Deus, onde errara na criação de Callie?

— Ela tinha apenas dezoito anos... e o amava. — Sarah não estava falando com Alex, mas consigo mesma. Tentava convencer-se de que a irmã que amava fora vítima, e não algoz. — E Damon a encorajou. Quando o conheci, ele disse que a amava e pretendia casar-se com ela.

— Damon insiste em negar qualquer tipo de discussão sobre casamento.

— Então ele está mentindo. E ela também mentiu — Sarah admitiu com tom pesaroso. — Há quanto tempo Damon é casado?

— Desde os dezenove anos. Andy tinha dezoito. Tentei convencê-los a esperar, mas Vivien os apoiou, e meu pai não viu razões para negar seu consentimento. Se quiser, pode ficar com isso — Alex ofereceu, estendendo um pacote de cartas em sua direção. — Não foram abertas, como pode ver.

— Então ele nunca as recebeu.

— Não acreditei na gravidez de sua irmã.

— Não tinha o direito de interceptar essas cartas! Cal­lie não era nenhuma mulher fatal que seduziu seu irmão e afastou-o do lar e da família. Era uma adolescente, e Damon era muito mais velho! Independente do estado civil de seu irmão, ela ainda era responsabilidade dele!

— Não posso ser acusado pelos erros de meu irmão.

— Mas você interferiu...

— Duas crianças estavam envolvidas nessa trama, sem falar na paz e na estabilidade de toda minha família. Sempre acreditei que é prerrogativa da mulher dizer não...

— Seu hipócrita!

— Sua irmã sabia que Damon era casado. Ela fez uma escolha... e meu irmão fez a dele. Voltou para a esposa. E como não há mais nada a fazer, acho que devemos terminar nosso jantar.

— Perdi o apetite. Acho que vou para a cama — Sarah murmurou, lutando contra as lágrimas que queimavam seus olhos.

— Sozinha... em nossa noite de núpcias?

Sarah encarou-o e sentiu-se como um fantoche sob a força daqueles olhos. Seu corpo respondia com energia assustadora, como se tivesse vontade própria, e de repente era como se o mundo girasse mais depressa.

— Subirei mais tarde — Alex informou com voz suave. — Mal posso esperar para vê-la deitada, pensando na grande glória da Grécia.

— O que foi que disse? Mas ele já havia saído.

 

Sarah ficou deitada de costas na cama, os olhos fixos na porta. Alex estava brincando, provavelmente para privá-la de uma boa noite de sono. Um homem precisava sentir-se sexualmente atraído por uma mulher para pensar em fazer amor com ela, e Alex não a considerava atraente. Não era sua esposa de verdade.

Pensando bem, não sabia mais o que era. Jamais sen­tira-se tão confusa e dividida.

Até esta noite, antes das revelações de Alex, acreditara que Callie havia sido usada e abandonada, mas agora tudo mudara. Callie escondera a verdade de seu relacionamento com Damon. Envolvera-se com um homem casado, e fora morar com ele enquanto a esposa enganada cuidava do lar em outro país. Damon devia ter prometido divorciar-se e, aplacado o calor da paixão, mudara de idéia. Callie teria tido a coragem de engravidar para forçá-lo a cumprir a palavra?

Sua irmã sempre fora determinada, e tornara-se arrogante ao descobrir que a beleza exercia um forte poder sobre o sexo oposto. Callie não teria tolerado a rejeição, não só por ser vaidosa, mas também porque amara Damon verdadeiramente. E ele? Teria amado sua irmã? E que importância tinha isso agora? Destruiria as cartas sem abri-las. Já sabia o suficiente.

De repente Sarah descobriu-se mais preocupada com o próprio comportamento. Agora compreendia o comportamento de Alex quando, há cinco meses, fora procurá-lo em seu escritório. Naquele dia aprendera a odiá-lo, acreditando na falsa noção de que ele era a barreira entre Callie e o homem que ela amava. Por sua vez, Alex a tratara mal por acreditá-la cúmplice de Callie na intenção de destruir uma família.

Perder a razão do ódio era uma experiência inquietante. Todos os fatos que haviam acontecido desde a morte de Callie agora podiam ser vistos sob uma luz diferente. Alex queria proteger a cunhada da humilhação de ver a traição do marido exposta pela mídia, uma atitude compreensível. Androula já sofrera demais. E o que ela havia feito? Ameaçara-o com a exposição nos tablóides sensacionalistas. Sarah encolheu-se, tomada pela culpa.

Desde o início, a principal preocupação de Alex havia sido com o sobrinho. Julgando-a uma guardiã inadequada para Nicky, mostrara-se determinado a evitar que a criança sofresse as conseqüências dos pecados dos pais. Em vez de oferecer apoio material e contentar-se com a certeza de estar cumprindo sua parte, aceitara sacrificar-se para garantir o bem estar e a formação moral e social daquela criança.

E quanto ao casamento... teriam de conversar e esclarecer todos os mal entendidos. Depois ofereceria a possibilidade de anulação. Essa era a única coisa decente que podia fazer.

Decisão tomada, Sarah sentiu-se mais calma. Estava estendendo o braço para apagar a luz quando a porta se abriu e Alex entrou. Sem desviar os olhos de seu rosto, ele aproximou-se da cama e afrouxou o nó da gravata, os lábios distendidos por um sorriso provocante. Em seguida ele abriu a camisa, expondo o peito forte e bronzeado.

Sarah decidiu que era melhor manter a calma e fingir indiferença, apesar da pulsação acelerada.

— Se quer exibir seu físico, por que não tenta a carreira de modelo? Não estou interessada.

— Francamente — ele riu. —Você compraria a revista e a esconderia sob o colchão. Eu avisei que não apreciaria meus métodos. Devia ter acreditado.

— Seu machismo me causa repugnância.

— Bobagem. Quando a vi pela primeira vez, notei que tem olhos muito bonitos. Na segunda vez reparei em suas pernas, e na terceira fiquei impressionado com seus cabelos. Você revelou-se aos poucos, e a química entre nós foi explosiva.

— Química? — ela gaguejou.

— Não é capaz nem de reconhecê-la. Programou-se para ignorar toda e qualquer mensagem sexual, mas o que sente quando estamos juntos a enerva. Também fiquei perturbado, sabe? Quis você desde o início, mas sabia que não poderia tê-la.

— Alex... essa sua fantasia machista está ultrapassando os limites do bom senso. Está apenas tentando justificar sua presença em meu quarto, e só porque feri seu ego.

— Uma bomba não seria capaz de abalar minha autoconfiança.

— Mentira. Feri seu ego, e agora você quer empatar o jogo.

— Desisti desse tipo de disputa quando saí da adolescência, junto com o hábito de não telefonar quando havia prometido ligar e o de correr atrás de tudo que usasse saia.

— Aposto que sempre foi muito bem sucedido com as mulheres.

— Muito. Mas cresci, superei essa fase de conquistador, e agora você é minha esposa.

Sarah ergueu os olhos para fitá-lo, mas Alex estava nu e ela abaixou a cabeça apressada, sabendo que a imagem ficaria gravada para sempre em sua memória.

— Estou disposta a oferecer uma anulação — ela disse.

— Não, obrigado.

— Estou oferecendo sua liberdade!

— Também está me oferecendo Nicky?

— Não!

— Era o que eu pensava.

Se concordasse em partir deixando Nicky, Alex teria aceitado a anulação. Isso era exatamente o que ele queria, o que planejara desde o início. Agora exigiria seus direitos conjugais e a humilharia na esperança de que, mais cedo ou mais tarde, ela partisse e deixasse Nicky sob sua custódia.

— Eu não sabia que Damon era casado! — Sarah afirmou com veemência.

— Sua encenação foi bastante convincente, mas isso não muda o fato de estarmos casados.

— Não precisamos permanecer casados.

Alex foi para o banheiro sem ao menos responder, como se não a escutasse.

Sarah deixou-se cair sobre os travesseiros como uma boneca de pano e pressionou a mão sobre a boca, tentando abafar os soluços de medo. A possibilidade de Alex forçar intimidade sexual como uma arma a apavorava. A idéia dele vê-la nua, com todos os seus defeitos, de tocá-la com suas mãos frias e humilhantes enquanto tinha de pensar em outra mulher para manter-se excitado... era mais do que podia suportar.

Sarah ouviu a água correndo do chuveiro e encolheu-se. Sabia que não era nenhum modelo de beleza, e logo Alex também saberia. Seu único sinal de vaidade era um sutiã com enchimentos com o qual pretendia disfarçar os seios minúsculos, e não chamar a atenção para eles.

Alex saiu do banheiro e deitou-se a seu lado, e Sarah encolheu-se, apreensiva. Um dedo gelado percorreu suas costas e ela estremeceu.

— Por favor, não me toque. Não posso abrir mão de Nicky, mas concordarei com qualquer outra coisa. Ficarei fora de seu caminho, longe de seus olhos... poderá ter todas as mulheres que quiser!

— Quero você — Alex sussurrou, puxando-a de encontro ao peito.

— Você concordou com um casamento de aparências!

Alex virou-a entre os braços e fitou seus olhos.

— Eu concordei? Quando? Francamente, só aceitei esse casamento por causa de seus dotes físicos. Quero ter filhos... Pensou que eu desistiria disso?

Atônita, Sarah o encarava com um misto de pavor e impotência.

— Se esse casamento durar, será nos meus termos — Alex avisou, inclinando a cabeça na direção dela.

Sarah tentou escapar, certa de que ele pretendia beijá-la, mas Alex segurou-a pelos cabelos.

— Relaxe — disse. — Não farei nada que você não queira.

— Então tire as mãos de mim.

— Ia dizer que não vou machucá-la... mas isso pode ser mentira. Nunca fiz amor com uma virgem antes, mas prometo ser gentil e delicado.

Vermelha, Sarah pensou em negar a própria inocência, mas sabia que sua falta de experiência era evidente.

— Seu... seu...

— Você me incendiou quando nos vimos na casa de Gina, e nem sequer percebeu. Durante todo o tempo que passamos no quarto, fiquei imaginando como seria despi-la e possuí-la ali mesmo, no chão.

— Seu pervertido!

— Fiquei muito excitado, como depois do nosso casamento, no carro. Não percebeu? Não sente quando um homem quer arrancar suas roupas? Olhei para você e pensei, agora ela é minha, e é mulher o bastante para tornar-se ainda mais linda para me agradar.

Sarah jamais imaginara ouvir tais coisas de um homem. Ultrajada com a suposição de que mudara a própria aparência para agradá-lo, ela recuperou o poder de reação.

— Nunca pensei sequer em chamar sua atenção, quanto menos agradá-lo!

— Se você diz... — Alex sorriu.

Sarah ainda estava tentando entender como um simples sorriso podia provocar um calor tão intenso, quando ele a beijou. A reação foi imediata, inevitável, e de repente ela descobriu-se correspondendo, desejando coisas que jamais sonhara querer.

— Sabia que ia gostar — ele murmurou contra seus lábios, voltando a beijá-la em seguida.

A excitação foi crescendo rapidamente, privando-a da capacidade de raciocinar. Apenas as sensações importavam, e Sarah nem tentou resistir à febre que a tomou de assalto. Alex a acariciava com gentileza e experiência, descobrindo recantos sensíveis onde um simples toque era capaz de incendiá-la. Os lábios seguiam as mãos nessa viagem, contribuindo para a insanidade que a dominava.

— Você tem lindos seios...

O desejo na voz dele era explícito, e Sarah teve certeza de que o elogio era sincero. Num segundo, todos os anos de vergonha e complexo provocados pelo que chamava de seu maior defeito desapareceram, definitivamente esquecidas. As barreiras foram caindo, uma a uma, e o prazer fluindo por todo seu corpo a fez desabrochar, de­liciar-se pela primeira vez com a própria feminilidade.

Alex sussurrou algumas palavras em grego e ela abriu os braços para recebê-lo, sem pensar nas conseqüências do que fazia. Seu último pensamento coerente foi que, se houvesse morrido sem conhecer o prazer provocado pelo corpo de Alex Terzakis, jamais teria vivido.

Meia hora mais tarde, quando Alex estendeu-se a seu lado na cama, Sarah compreendeu que não se sentia mais casada que antes, pois um casamento em que as boas relações restringiam-se aos limites da cama não era fácil de suportar, principalmente porque começava a admirar aquele homem a quem acabara de entregar-se.

— Alex... acho que precisamos conversar — murmurou hesitante, forçando-se a pensar em toda a ternura que ele demonstrara pouco antes.

Ele encarou-a, os olhos negros totalmente indecifráveis.

— Por quê?

— Você mudou as regras, E agora, o que vai acontecer com nosso casamento?

— Mas nós não temos um casamento — ele sorriu sarcástico. — Não como está sugerindo. Só me casei com você por não ter outra opção. Queria Nicky, e paguei o preço.

— Você disse que me queria! — ela sussurrou, o rosto pálido e cheio de horror.

— Em minha cama, não como minha esposa.

— Não teria me possuído em outra situação — ela disparou, ferida pela afirmação ofensiva.

— Tem certeza?

— Já disse que não sabia nada sobre o casamento de Damon! Eles mentiram para mim! — Agarrando o lençol de encontro ao peito, Sarah tentou explicar o que sentira após a morte de Callie. — Se soubesse a verdade, não o teria acusado de ter destruído a vida de minha irmã. Damon disse que você havia ameaçado deserdá-lo e privá-lo do convívio familiar se ele assumisse Callie. Ela estava grávida! É claro que o culpei, e é claro que o odiei depois de como falou dela em seu escritório.

— O que está tentando provar com tantas mentiras? — Impaciente, Alex levantou-se da cama. — Não abandonaria meu irmão nem que ele fosse um assassino! Quaisquer que sejam seus defeitos, temos o mesmo sangue! E quanto a deserdá-lo, Damon é bastante rico, e não tenho controle sobre suas finanças.

— Então ele também mentiu sobre esse assunto — Sarah concluiu, vendo-o vestir-se. — Está bem, admito que não devia ter exigido que se casasse comigo...

— Acho que queria agarrar um milionário, e agora quer manter-se ligada a ele. Deve haver alguma razão para ter desistido de bancar a esposa vil.

— Como... como pôde me tocar sentindo essas coisas? — ela perguntou, chocada com o que acabara de ouvir.

— Você é minha esposa, e a tocarei sempre que quiser. É meu direito. Mas fora deste quarto, você não tem nenhum direito além dos que eu decidir lhe dar. Obrigou-me a aceitá-la em minha vida. Não tem do que reclamar. E quanto a oferecer minha liberdade de volta... eu nunca a perdi. Farei tudo que quiser, quando quiser, e não há nada que possa fazer para impedir-me.

Sarah permaneceu onde estava, imóvel, o orgulho exigindo que não demonstrasse a extensão de sua vergonha. Mas cada palavra de Alex a atingira como um dardo envenenado.

— Não quero impedi-lo de nada — ela conseguiu dizer, sabendo que nunca mais poderia deitar-se na mesma cama que Alex.

— Não? Quer dizer que não pretende tornar-se mais e mais possessiva? Não vai perguntar onde vou, quando volto, onde estive e com quem andei? Não vai fazer cenas? Vi meu pai passar por tudo isso com Vivien, e nenhuma mulher conseguirá manipular-me desse jeito!

Então por isso ele planejara casar-se com Elise. Ela não teria feito cobranças, não teria exigido fidelidade, não teria feito perguntas inconvenientes.

— A propósito, está perdendo seu tempo com a rotina maternal. Não estou impressionado. Por que não faz simplesmente o que eu espero que faça?

— O quê?

— Compre. Gaste dinheiro até cair de exaustão.

Sarah abaixou a cabeça, sentindo que merecia os insultos. Afinal, abandonara todos os seus princípios e saíra gastando o dinheiro de Alex antes mesmo de se casar com ele.

— Não devia ter aceitado seu dinheiro antes do casamento — ela murmurou com a honestidade que fazia parte de seu caráter.

— Aquela ninharia? Não esperava que comprasse nem meio vestido com aquela quantia irrisória. E por que acha que lhe dei aqueles cartões de crédito? Estava rezando para que fosse fazer compras e melhorasse sua aparência.

A humilhação era cada vez maior. Em toda sua vida, Sarah jamais estivera tão aflita e vulnerável. Não conseguia encará-lo. Suas mãos, apertadas em sinal de desespero, eram apenas uma imagem nublada diante de seus olhos lacrimejantes. De repente desejava ser uma verdadeira víbora, uma prostituta vulgar, uma mulher sem escrúpulos. Assim, poderia lidar com Alex sem experimentar sentimentos tão conflitantes.

Alex retirou uma das flores do vaso sobre a cômoda e atirou-a sobre a cama.

— Serei muito mais fácil de lidar quando desistir de fingir ser o que não é.

No instante em que a porta se fechou o desespero tomou a forma de pranto. Sarah enterrou o rosto no travesseiro, temendo que ele pudesse ouvir os soluços que sacudiam seu corpo. Estava furiosa com a própria fraqueza, assustada com a vulnerabilidade que a fazia sentir medo do mundo.

Quase vinte e cinco anos de idade, e comportara-se como uma adolescente em chamas quando ele a tocara! Alex só precisara inventar alguns elogios, e ela entrega­ra-se cheia de gratidão e vaidade. A garota de dezesseis anos que um dia fora profundamente ferida ainda existia dentro dela, insegura e solitária. E essa mesma adolescente abrira caminho para a dor ainda maior que acabara de conhecer. Tentara convencer-se de que era feliz sozinha, de que não precisava de companhia masculina para sentir-se mais completa, e conseguira até acreditar nisso, negando a própria solidão, negando que tivesse necessidades e desejos sexuais, como as outras mulheres. Fe­chara-se ao risco de sofrer novamente. Convencera-se de que era sozinha por opção... e essa era a única verdade.

Alex era atraente e interessante, mas havia negado a atração imediata com a facilidade conferida pela prática. Não havia pensado na possibilidade dele também julgá-la atraente, e recusara-se a admitir que sua aparência espetacular e sua poderosa presença física a afetavam de alguma forma. Mas Alex a interpretara como se lesse um livro, e soubera que a teria antes mesmo de tentar uma aproximação.

Agora teria de conviver com a certeza de que ele invadira sua cama simplesmente por considerar-se no direito de possuí-la. Por alguma razão especial que só ele conhecia, Alex a julgava atraente, mas ainda ressentia-se por ter sido obrigado a aceitá-la como sua esposa. Só uma mulher muito estúpida teria baixado a guarda como ela fizera.

Alex acreditava que ela usara um bebê inocente para agarrar um marido rico. Não acreditava em seu amor por Nicky. Não acreditava que o irmão havia mentido... na verdade, não queria ouvir nada sobre os motivos que a levaram a exigir o casamento. Não acreditava em nada que ela dizia. E como se não bastasse, ainda pensava que ela estava fazendo uma espécie de representação para convencê-lo de que o matrimônio podia ter algum futuro.

Sarah sentia-se incapaz de superar tantos obstáculos. Alex jamais acreditaria em sua inocência, qualquer que fosse sua conduta.

Alex era como todos os outros homens que havia conhecido: só estava interessado em sexo, e era capaz de fazer amor com qualquer mulher, mesmo que a odiasse ou desprezasse. A única coisa que o diferenciava dos outros era que conseguira o que nenhum outro havia alcançado. Depois de possuí-la, levantara-se da cama e a fizera sentir-se vulgar, estúpida e ingênua por ter acreditado que ele poderia mudar de alguma forma.

Nunca havia sido tão ferida. Seu orgulho fora reduzido a pó. Pois bem, Alex Terzakis jamais teria chance de repetir a façanha. Casara-se com ele para ser a mãe de Nicky, e nada que ele fizesse a impediria de desempenhar esse papel. Alex era um bárbaro e jamais esqueceria o que ele havia feito esta noite!

 

- Quem é o bebê mais lindo do mundo? — Sarah sussurrou, deitada de bruços sobre o tapeie. Nicky agitava os bracinhos e retribuía o sorriso carinhoso. — Não vai crescer e beijar as garotas para depois fazê-las chorar, vai? Quero que seja sensível, amoroso e romântico. Só um homem de verdade é capaz de cultivar essas qualidades. Nunca dê ouvidos a quem tentar convencê-lo do contrário.

— A sessão de doutrina é privada, ou posso participar?

Sarah virou-se e, horrorizada, reconheceu os sapatos italianos de Alex. Não havia percebido o tempo passar. Normalmente tomava a precaução de estar bem longe durante as visitas do grego ao quarto de Nicky, e nas últimas semanas conseguira passar até dois dias sem vê-lo. Não era difícil programar-se. Alex era uma criatura de hábitos constantes, e as horas que reservava para o sobrinho eram bastante regulares.

Embaraçada, Sarah levantou-se e ajeitou a camiseta, ainda úmida do banho do bebê. Sabia que ela moldava seus seios nus com perfeição constrangedora.

— Se insistir nessa história de transformar o garoto num homem romântico e sensível, ele será presa fácil para todas as caçadoras de ouro da Europa.

— Não sei por quê. — Sarah protestou embaraçada. — Esse tipo de personalidade não exclui inteligência e cautela.

— Está enganada. Olhe para mim...

Tremendo, Sarah fitou aqueles olhos negros e sentiu o mundo girar à sua volta. Trabalhara duro para impedir esse tipo de reação, mas até agora não conseguira nenhum resultado. Cada vez que olhava para Alex, tinha a impressão de vê-lo ainda mais fascinante. E se conseguira transformá-la tão intensamente em uma única noite, que tipo de devastação poderia causar, caso a tocasse novamente?

Mas Alex já conseguira sua vingança. Possuíra seu corpo para provar que era o senhor absoluto de tudo que desejava. Por que haveria de tentar uma nova aproximação?

Notando que ele a fitava com um brilho estranho nos olhos, Sarah abaixou a cabeça e, sentindo a atração sexual no ar, foi colocar Nicky no berço, usando o bebê como uma espécie de escudo.

— O que acha de jantarmos juntos? — Alex sugeriu.

— Já tomei um lanche. — ela respondeu apressada, sabendo qual seria o programa para depois do jantar.

Como Alex nunca voltava para casa a tempo de fazer a refeição em sua companhia, ela havia adquirido o hábito de comer alguma coisa no quarto, aproveitando a solidão para relaxar e escapar da atenção solícita dos criados, sempre tão dedicados à esposa solitária.

Na verdade, as relações com os empregados eram excelentes. Ela, que nunca lidara com um criado em toda sua vida, era tratada como uma rainha. Os pratos preferidos, as flores favoritas... qualquer desejo que expressasse era rapidamente realizado. Não conseguia compreender por que as pessoas que Alex pagava a peso de ouro eram tão gentis com ela.

— Podia me fazer companhia — ele insistiu.

O canalha! Passara duas semanas tratando-a como se fosse invisível, e de repente decidia ser gentil só porque descobrira um súbito desejo por sexo. Era humilhante sentir-se atraída por um homem como Alex Terzakis! Sentia vontade de tomar um banho e esfregar-se até arrancar da pele a impressão deixada por aquelas mãos.

Pálida, Sarah levou as mãos às têmporas e murmurou:

— Não estou me sentindo bem. — Ainda não havia levantando os olhos do carpete quando sentiu que ele a tomava nos braços. — O que está fazendo?

— Se não está bem, é melhor ir deitar-se.

— Não! Quando tenho dor de cabeça, prefiro caminhar ao ar livre e respirar ar puro.

Alex parou para fitá-la e Sarah sentiu que estava perdida. Num minuto seu corpo estava rígido, e no outro sentia-se derreter como sorvete ao sol.

— Por favor, ponha-me no chão.

— Devia ter contratado outra babá, como eu sugeri. Está trabalhando demais.

A sra. Brown permanecera exatamente três dias depois do casamento. Alex a demitira sumariamente no dia em que ela atrevera-se a dizer que ele estava interferindo em sua rotina por aparecer no quarto do bebê antes do café da manhã.

— Bobagem — Sarah respondeu atordoada.

E de repente aconteceu. Alex resmungou alguma coisa em grego e beijou-a com ardor, despertando seu corpo com uma intensidade assustadora. Como se tivessem vontade própria, as mãos dela encontraram os cabelos negros e espessos e os acariciaram. Pelo menos estava viva novamente depois de duas semanas de pesadelo.

E então ele afastou-se com a mesma rapidez com que a beijara. Parecia ultrajado, frustrado, furioso!

— Que diabos está fazendo comigo? — perguntou, co­locando-a no chão.

— Eu? — Sarah espantou-se.

Possuído por uma força que nenhum dos dois compreendia, Alex a puxou pela camiseta, os olhos fixos em seus seios.

— Trate de usar um sutiã quando sair do quarto. E quando for nadar ou tomar banho de sol, não esqueça de vestir um maio. Fui claro?

Sarah afirmou com a cabeça. Sempre ouvira dizer que não se deve contrariar um homem desequilibrado, e esse não era o melhor momento para dizer que nem sabia nadar, e que ainda não tivera tempo para pensar em banhos de sol.

— Não quero mais vê-la exibindo-se por aí desse jeito. E agora vá para cama, antes que sua dor de cabeça piore.

Sarah afastou-se devagar, passo a passo, temendo que um movimento súbito pudesse precipitar um ataque violento. De que diabos ele estava falando? Usava o mínimo possível de roupas para dar banho no sobrinho porque, sem a prática das babás, acabava sempre molhada e morta de calor, uma vez que o aquecimento era ligado no banheiro de Nicky para evitar que ele contraísse um resfriado.

No corredor, Sarah olhou para trás e constatou que Alex voltara para o quarto do bebê. Gostaria de ouvir o que ele dizia ao sobrinho quando via-se a sós com ele. Teria a mesma falta de discernimento que demonstrava com os brinquedos que enviava diariamente? Acreditava realmente que Nicky logo estaria brincando com o trem elétrico, ou com a bicicleta? E quanto ao urso falante com aquela risada histérica que sempre fazia o pobrezinho chorar desesperado?

Sarah suspirou e foi deitar-se, sabendo que estava sendo injusta. A verdade era que não estava preparada para o interesse de Alex pelo sobrinho, e por isso agarrava-se à idéia dele percorrendo lojas de brinquedos e ignorando os estágios mais óbvios do desenvolvimento infantil. Alguma coisa acontecia em seu coração quando tentava imaginá-lo numa loja de brinquedos, arrogante demais para pedir conselhos, mas disposto a acertar pelo bem de Nicky.

Já estava estendida sobre a cama quando lembrou que havia deixado o livro que estava lendo na sala. Podia ir buscá-lo sem preocupar-se com encontros desagradáveis, porque Alex ainda estava no quarto do bebê.

Mas Sarah logo percebeu que se enganara. Estava terminando de descer a escada quando ouviu a voz de Vivien, estridente e furiosa, além da porta da biblioteca.

— ... como não é da minha conta? Você tem uma esposa e um filho! Se acha que vou ficar quieta enquanto humilha aquela garota, Alex...

— Não sabe do que está falando — Alex respondeu com tom frio.

— Seu pai sempre foi discreto. Jamais embaraçou-me em público...

— O que já não se pode dizer a seu respeito.

— Sinto muito — Vivien respondeu perturbada. — Lamento que ainda se lembre disso.

Atenta, Sarah aguçou os ouvidos, mas não conseguiu ouvir o que Alex disse em seguida. Por que Vivien estava interferindo? Sem dúvida era uma pessoa bem intencionada, e só queria contribuir para o sucesso do casamento do enteado, mas não percebia que Alex se ressentiria com isso?

Sarah voltou para o quarto levando o livro. O que Alex estava fazendo para humilhá-la? E por que importava-se com isso? O que ele fazia além das portas do castelo não era de sua conta. Mas, por mais que a razão tentasse convencê-la disso, os sentimentos gritavam o contrário.

Alex mudara as regras do casamento, tornado o relacionamento sexualmente íntimo. Por mais que tentasse, não conseguia mais pensar em Alex desfrutando de sua liberdade sem sentir um nó no estômago, e nem todo o bom senso do mundo era suficiente para aplacar o impacto dessa terrível realidade.

Noite após noite, Alex voltava para casa e saía novamente, sem nunca dizer onde ia ou o que fazia. E Sarah não fazia perguntas, temendo que ele repetisse as coisas que dissera na noite do casamento. De uma coisa tinha certeza: a reação de Vivien à infidelidade do finado marido fizera toda a família sofrer. Alex já havia enumerado todos os defeitos da madrasta, entre eles o fato de ser possessiva e ciumenta, e de criar cenas desagradáveis.

Vivien não tivera o bom senso de manter os problemas conjugais longe dos olhos e ouvidos dos enteados.

Alex planejara o futuro ao lado de uma mulher que fosse o oposto da madrasta. Fria, contida, sem emoções... Esse era seu ideal de esposa. Para ele, o casamento seria apenas uma forma de dar prosseguimento à dinastia sem abrir mão da liberdade, um relacionamento distante no qual apenas as necessidades mais básicas fossem partilhadas. Sarah estremeceu, certa de que ele era capaz de sustentar esse tipo de relação.

Agora sua cabeça doía de verdade. Deitada, sentia-se subitamente triste, prestes a chorar. Qual era o problema com ela? Estava envolvida com Alex como jamais pretendera estar com homem nenhum, e a culpa era toda dele. Se a houvesse deixado em paz, o casamento não teria passado de uma encenação vazia, e agora não estaria se importando com o que ele fazia fora de casa.

Ou estaria? Por quanto tempo teria sido capaz de viver perto de Alex sem admitir a poderosa atração que sentia por ele?

Alex não precisava deitar-se com dezenas de mulheres para humilhá-la. Já era suficientemente humilhada pelos sentimentos que ele despertara nela, necessidades que, dia a dia, a empurravam para uma espécie de abismo emocional.

Cerca de uma hora mais tarde as batidas na porta precederam a entrada de Alex. Sarah puxou as cobertas até o queixo, furiosa com o sorriso sarcástico que bailava em seus olhos. Terzakis deixou um copo sobre o criado-mudo e encarou-a.

— O que é isso? — ela perguntou, como se pudesse estar diante de um veneno letal.

— Algo para melhorar sua dor de cabeça.

— Está brincando!

— Não sei por que tanta incredulidade! — ele irritou-se. — Posso ser tão sensível e atencioso quanto qualquer outro homem.

Vivien havia deixado sua marca. Alex estava visivelmente exasperado e, temendo servir de válvula de escape, Sarah apanhou o copo e bebeu alguns goles do líquido dourado e aromático, tossindo violentamente ao sentir o ardor na garganta. Conhaque, o suficiente para derrubar um elefante! Era como se uma língua de fogo se espalhasse desde a garganta até o estômago, e seus olhos encheram-se de lágrimas.

— É excelente para a tensão menstrual. Sarah encarou-o com o rosto vermelho.

— Por que o espanto? Sei mais sobre TPM que qualquer outro homem. Vivien me obrigou a estudar o assunto.

— Eu não sofro de TPM. Só estou com dor de cabeça.

Alex encolheu os ombros, os traços perfeitos impassíveis, o temperamento novamente sob controle. Depois de fitá-la por alguns instantes, aproximou-se da janela e abriu uma das cortinas.

— Está muito abafado aqui. Sarah não respondeu.

— Acho que devemos ter uma festa.

— Uma... festa? — ela repetiu atônita.

— É hora de ser apresentada à família e aos amigos.

Vivien estivera inventando compromissos. Sarah engoliu em seco, tentando esconder o desgosto provocado pela sugestão.

— Não pensei que pretendesse me apresentar a alguém. E, francamente, não acho que seja uma boa idéia. É melhor deixarmos as coisas como estão, deixar as pessoas pensarem que sou uma espécie de esposa maluca trancada no sótão, jamais vista, jamais mencionada...

— Do que está falando? Eu não a tranquei em lugar nenhum!

— O que não significa que queira me exibir por aí.

— Não me envergonho de você.

— Alex, por que não podemos ser honestos? Sei que está odiando a idéia de aparecer em público em minha companhia e...

— Bobagem! — ele cortou irritado. — Está dizendo um amontoado de... — Alex completou a frase com um impropério e Sarah respirou fundo, tentando conter a revolta provocada por seu vocabulário. — Desculpe. É que não me lembro de ter lho dado motivos para me acusar disso.

Sarah riu com amargura.

— Nós nos casamos no início da manhã, num cartório perdido numa esquina da periferia de Londres, e você atravessou o saguão do aeroporto dez passos na minha frente!

— Há duas semanas, ainda estava furioso. Queria ter certeza de que não apreciaria o dia de seu casamento.

— Pois saiba que conseguiu o que queria — ela confessou, disposta a ser honesta. — Escute, sei usar os talheres corretamente porque trabalhei como garçonete num hotel de luxo. Também limpei casas elegantes e restaurantes requintados. Na verdade, todos os empregos que tive exigiram algum tipo de habilidade doméstica. Estou satisfeita com minha prisão no sótão, desde que possa ficar perto de Nicky. Não quero que respire fundo e tente sorrir cada vez que eu o embaraçar. Isso seria terrível.

— Você não me embaraça. Uma mulher com sua beleza jamais poderia embaraçar-me.

— Alex, pare com isso. Nós dois sabemos que pertencemos a mundos diferentes e jamais teríamos nos encontrado, não fosse pelo bebê.

— Mas nos encontramos e nos casamos.

— Você pode ter um divórcio quando quiser, nos termos que preferir...

— E você adoraria, não? — ele cortou com súbita hostilidade.

Sarah sentiu a cabeça latejar novamente. Cansada, desistiu de tentar convencê-lo com argumentos lógicos. Conversar com Alex não era como falar com qualquer outra pessoa. Um simples diálogo assumia as proporções de um enorme exercício mental temperado por obstáculos quase intransponíveis e incompreensíveis explosões temperamentais.

— Por que não nos separamos? — ela suspirou. — Posso morar perto daqui, e você iria visitar Nicky sempre que quisesse.

— Não.

— Por que não? Essa casa é tão grande que já vivemos como se estivéssemos separados!

— Uma situação que pretendo retificar. Na verdade, acho que vai sentir-se menos perturbada quando tiver seu próprio filho.

— Meu... filho?

— Por que não?

— Posso pensar em centenas de razões!

— Pois eu não consigo imaginar nenhuma. Está obcecada por Nicky, e isso não é saudável. Para você, o mundo não existe além da porta do quarto dele.

— E por que isso o incomoda tanto?

Alex suspirou com impaciência e aproximou-se determinado, puxando as cobertas de sobre seu corpo.

— Alex! — ela assustou-se.

Mãos poderosas a ergueram do colchão.

— Esta noite você vai cuidar de sua dor de cabeça em minha cama. E é melhor acostumar-se, porque vai passar a dormir lá.

— Ponha-me no chão! — Sarah exigiu furiosa. — Você enlouqueceu?

Alex seguiu em frente, sem sequer dar-se ao trabalho de responder. Sarah debatia-se, tentando obrigá-lo a soltá-la.

— Você é maluco! Ofereço a possibilidade de livrar-se de mim através de um divórcio e você enlouquece!

— Então reparou? Ótimo! Já está começando a me conhecer. — ele riu, abrindo a porta do quarto com o pé.

Alex a colocou sobre a cama e ela levantou-se imediatamente, mas sua tentativa de fuga foi bloqueada por um peito musculoso.

— Saia do meu caminho — Sarah exigiu assustada, ajeitando a alça da camisola fina e transparente.

O movimento foi um engano. Atraído pelo gesto, Alex fitou-a com interesse e retrocedeu um passo para trancar a porta.

— Como pode ser tão infantil? — ela irritou-se.

— Não tenho a menor intenção de divertir nossos empregados perseguindo-a pelo castelo. Por que não vai para a cama?

— Porque me recuso a dormir com você!

— Já disse que vai passar a dormir em minha cama a partir de hoje.

Sarah ergueu os ombros. Reconhecer a atração não a obrigava a curvar-se diante do vergonhoso desejo. Prometera a si mesma que jamais o deixaria usá-la novamente, e pretendia cumprir a promessa.

— Não sou o tipo de mulher que atende a um estalar de dedos.

— Então permita-me explicar qual é sua posição — Alex respondeu com tom perigosamente contido. — Se não for para a cama imediatamente, arrancarei sua camisola e farei exatamente o que estou ardendo por fazer... e repetirei tantas vezes, que não terá forças para levan­tar-se por pelo menos vinte e quatro horas. Por outro lado, se for deitar-se, tentarei respeitar sua dor de cabeça.

Sarah meteu-se entre as cobertas sem dizer mais nada. Dócil como um cordeiro, reconheceu furiosa, sabendo que o heroísmo não teria trazido conseqüências favoráveis. Teria sofrido mais uma humilhação. Sexo sem afeto era uma prática que não pretendia adotar em bases regulares.

Alex tocou-a alguns minutos depois.

— Não faça isso! — ela protestou encolhendo-se.

— Se não calar a boca, juro que esquecerei o que prometi — ele sussurrou, puxando-a de encontro ao corpo excitado.

Sarah parou de respirar, certa de que ele não estava brincando. Quente como se estivesse cercada pelo fogo do inferno, ela deixou-se envolver pelos braços musculosos e buscou consolo na escuridão.

— Se não parar de se mexer, é melhor começar a rezar...

Imóvel, quase sem respirar, Sarah tentou lutar contra o calor que corria por suas veias. Não conseguia compreender Alex Terzakis. E, para uma mulher que fazia questão de saber sempre em que terreno estava pisando, esta era uma admissão assustadora.

 

Na manhã seguinte, alguém puxou as cobertas e Sarah sentiu o impacto do ar frio. Assustada, abriu os olhos e viu Alex totalmente vestido num terno escuro e bem cortado.

— Que horas são?

— Sete. E como uma boa esposa, vai levantar-se e tomar café comigo — ele avisou, tirando-a da cama e empurrando-a para a frente do espelho da penteadeira. — Penteie os cabelos, lave o rosto e desça.

Arrepiando-se de frio e atordoada com o despertar abrupto, Sarah balançou a cabeça numa tentativa de clarear as idéias. Gostava de acordar lentamente, em silêncio e na penumbra.

— Não costuma sair da cama à esta hora, não é? — Alex sorriu, colocando a escova de cabelos em sua mão.

— Não tenho um robe.

— Use o meu — ele sugeriu, segurando a peça de roupa para que ela a vestisse. Dedicado, ele amarrou a faixa em torno de sua cintura e dobrou as mangas.

— Estou ridícula.

— Quem se importa?

Empurrada para o banheiro, Sarah gemeu. Não dormira quase nada, e agora a tortura começava ao romper do dia. Qual era o problema com Alex? Haveria uma espécie de gene da insanidade entre os Terzakis? Já não havia lhe dado aquilo que ele dissera querer? Não o deixara em paz, não se colocara fora de seu caminho? A maioria dos maridos infiéis morreria por essa liberdade. Por que Alex começava subitamente a exigir que ela fizesse coisas típicas de uma esposa, como dividir a cama e a mesa do café?

— Não estarei em casa esta noite — ele informou.

Sarah não se abalou. Na verdade, gostaria de saber por que ele estava tendo o trabalho de avisá-la.

— Estarei em Genebra até amanhã. O silêncio prolongou-se.

— Tem algum interesse em meus movimentos? — Alex perguntou em voz baixa.

Nenhum. Não se permitiria esse tipo de interesse. Queria pensar em Alex como o tio de Nicky, não como seu marido. Na verdade, recusava-se a pensar nele nesse papel.

— Quer que eu tenha algum interesse? — ela devolveu, os olhos verdes inexpressivos.

Alex encarou-a por alguns instantes. Em seguida suspirou e balançou a cabeça.

— Até amanhã.

— Alex... — Sarah chamou, disposta a fazer a pergunta que bailava em sua mente há dias. — Quando Damon pretende vir ver Nicky?

— Ele tem toda a liberdade para vir quando quiser — Alex respondeu, sem ocultar a surpresa. — Eu o convidei para uma visita no dia em que nos casamos.

— E por que ele não vem? Por minha causa?

— Não sei. É evidente que não será um encontro muito fácil para nenhum de vocês. De qualquer maneira, um pouco mais de honestidade de sua parte poderia simplificar a situação.

— De minha parte?

— Estou preparado para aceitar que não sabia sobre o casamento de Damon. Mas não acredito que ele tenha pedido a mão de sua irmã...

— Mas ele pediu!

— Ou — Alex prosseguiu — que a tenha deixado sem meios de sobrevivência.

— Pois foi o que ele fez.

— Não acredito. O dinheiro seria a maneira mais rápida e fácil dele apaziguar a própria consciência. Damon sabia que o cheque que eu assinei nunca foi descontado. Quando decidir reconhecer a verdade sobre esse caso, talvez eu comece a pensar que chegou o momento de encorajar uma visita de meu irmão.

— Não estou mentindo — Sarah insistiu irritada, sabendo que não conseguiria convencê-lo de sua inocência sem apresentar provas. E por que isso a incomodava? Seria por que a opinião dele importava? A resposta afirmativa a abalou profundamente.

— Estou disposto a fazer certos sacrifícios pelo bem de Nicky.

— Sacrifícios? — ela repetiu sem entender.

— Sou obrigado a admitir que ama aquela criança de verdade, e reconheço que será uma mãe melhor do que qualquer outra mulher com quem eu pudesse ter me casado. Por isso, decidi fazer tudo que estiver ao meu alcance para fazer esse casamento dar certo.

— Posso imaginar. Você até jantou em casa ontem à noite! — Sarah comentou com sarcasmo.

— Espero que contribua com o mesmo tipo de esforço — ele concluiu, ignorando a provocação.

— Não nos seus termos.

— É assim, ou não é.

Sarah sabia que não sobreviveria às condições impostas por Alex. Ele estava dizendo que pretendia tê-la em sua cama definitivamente. Um gesto magnífico, um sacrifício incomensurável! Estava disposto a aceitá-la como sua esposa. Sarah podia entender a raiva e indignação que a invadiam, mas... por que a dor?

— Não posso aceitar seus termos — ela sussurrou.

Partilhar de sua cama e entregar-se ao desejo sem amor, respeito ou fidelidade acabaria com o respeito que tinha por si mesma. A humilhação não seria aplacada nem por uma possível gravidez. A amargura e o ressentimento acabariam triunfando, e nenhum dos dois poderia ser feliz em tais circunstâncias.

— Se não aceitar meus termos, pedirei o divórcio. Sarah o encarou arrasada. Alex encarou-a de volta, impassível. — E tomarei todas as providências para que Nicky fique comigo — ele completou.

— Não pode fazer isso!

— Como você mesma disse certa vez, o dinheiro fala alto. E de acordo com o acordo pré-nupcial que assinou, não terá direito a absolutamente nada.

Jamais sonhara que Alex pudesse ser tão cruel, e estava realmente perplexa com o emprego de táticas tão baixas. Ele atacava sua maior fraqueza sem nenhum remorso! Sabia o quanto amava Nicky, e estava usando esse sentimento como uma marreta para esmagar uma noz. Tentando entender o motivo de tanta insistência para tê-la em sua cama, Sarah lembrou-se do que ele dissera sobre o futuro.

— Se quer ter filhos, podemos usar um método de inseminação artificial.

— Está tentando me dizer que devo usar um laboratório para engravidá-la?

— Seria uma solução para conservarmos os termos originais de nosso casamento.

— Deve estar maluca para sugerir esse tipo de coisa!

— Alex... se pudesse abrir mão desse machismo e discutir o assunto com um mínimo de bom senso, compreenderia que essa é a melhor solução para o problema.

Alex adiantou-se e segurou-a pelos ombros como se pretendesse sacudi-la.

— Meus filhos não serão concebidos num tubo de ensaio, e isso não tem nada a ver com meu machismo. Quando abordou esse assunto, pensei que estivesse brincando.

Temendo que ele partisse para a agressão física, Sarah encarou-o com aparente frieza, apesar da agitação que crescia em seu interior.

— Não quero dormir com você — ela afirmou. — Não estou preparada para esse sacrifício.

— Sua... víbora! — Alex explodiu, fitando-a com um brilho furioso nos olhos.

— Não sei por que tem de encarar tudo isso de maneira tão pessoal. Não nutrimos sentimentos um pelo outro. Não somos como outros casais.

— Pois eu tenho sentimentos muito fortes por você! — ele exclamou, arrastando-a de volta à cama. — Somos casados. Você é minha esposa, e quero fazer amor agora!

— Tenha certeza de que, se alguma coisa acontecer nesta cama, será estupro!

Alex abriu o robe que ela vestira sobre a camisola como se não a escutasse.

— Jamais o perdoarei se fizer isso, Alex!

— Não... — ele sorriu. — Não perdoará a si mesma. As únicas coisas entre nós são seu orgulho e sua necessidade de manter o controle. E em minha cama você perde o controle.

Assustada com seu poder de percepção, Sarah enca­rou-o com olhos brilhantes.

— Odeio você!

Ele empurrou o robe sobre seus ombros.

— Não acredito. Acho que está assustada com a intensidade do seu desejo por mim.

— Isso é o que gostaria de acreditar...   .

— Essa é a verdade — Alex insistiu, tirando o paletó e jogando-o no chão antes de afrouxar a gravata. — Você me excita, Sarah. Não pode esperar que eu não tenha percebido que também me quer.

— Não quero!

— Nossa noite de núpcias foi inesquecivelmente erótica — Alex lembrou enquanto despia a camisa. — Não consegui pensar em outra coisa durante as duas semanas seguintes. Na verdade, só preciso pensar em como é estar dentro de você e...

— Cale a boca!

Alex sorriu, a irritação banida pela luxúria.

— E a surpresa de encontrar uma mulher de sua idade tão tímida e inocente foi encantadora. Por que ainda era virgem?

— Porque tomei o cuidado de manter-me longe de suínos como você!

— Acho que estava esperando por mim. Sabia que eu faria parte de seu futuro.

— Se eu soubesse, teria entrado em seu escritório com uma metralhadora.

— E eu teria me sentido ainda mais atraído. Durante toda minha vida, as mulheres não pouparam esforços para agradar-me. Fui perseguido, encorajado e adulado por todas as garotas que conheci, desde os quinze anos de idade.

— Seu porco convencido!

— Então você apareceu e fui desafiado pela primeira vez. Acredite, foi um grande desafio manter minhas mãos longe de você até a noite de núpcias. Não queria que desistisse. Por isso desapareci nas três semanas que antecederam o casamento. Passei noites imaginando como seria possuí-la, mas a realidade superou todas as fantasias.

— Alex, não... — ela murmurou, vendo-o deslizar o zíper da calça.

O telefone começou a tocar e ele tirou o fone do gancho sem soltá-la.

— Tire as mãos de mim!

— Precisei de algumas semanas para habituar-me à idéia do casamento — ele prosseguiu, como se não a escutasse. — Algumas semanas para perceber que minha esposa era a amante perfeita. Alguns ajustes mentais... e aqui estou eu. Descobri que não suporto ser ignorado, sabe?

Sarah não sabia sobre o que ele estava falando. Parecia estar sugerindo que evitá-lo havia sido parte de um plano bem traçado para atraí-lo. Prestes a esclarecer mais esse mal entendido, ela entreabriu os lábios e Alex aproveitou o momento para beijá-la.

O beijo provocou uma reação intensa que Sarah tentou ignorar, agarrando-se à imagem dela grávida e infeliz, enquanto ele era perseguido, adulado e encorajado por outras mulheres.

Virando a cabeça, ela disparou:

— Não quero ficar grávida!

— Concordo — ele sorriu. — Pelo menos por um ano. Não quero ter de interromper... isto — e beijou-a novamente, desta vez de forma ainda mais íntima e provocante.

Sarah estremeceu, invadida por um calor incontrolável. Se fosse capaz de ficar inerte como uma boneca, Alex a deixaria em paz. E queria que ele a deixasse em paz, não?

Uma das mãos estava em seus cabelos, a outra sobre um ombro musculoso, e não sabia como elas haviam ido parar onde estavam. Queria tocá-lo, queria tanto estar em seus braços, que a idéia de afastar-se era como uma dor física.

Alex despiu-se completamente, deitou-se de costas e abriu os braços.

— Venha — chamou.

E Sarah obedeceu.

Alex esperava rendição incondicional. Sabia disso, odiava seu tom autoritário, mas sentia-se incapaz de lutar. As mãos dele viajavam por seu corpo numa exploração lenta e audaciosa, e os lábios a atormentavam com o tipo de experiência erótica contra a qual era indefesa.

As necessidades de seu próprio corpo a empurraram por um caminho sem volta, uma estrada cujo final guardava a mais rica e completa das experiências. E Sarah entregou-se às deliciosas sensações despertadas pelas mãos de Alex, embriagada pela paixão.

Ele fazia amor como se não houvesse amanhã, e cada vez que encontrava o clímax, a satisfação era ainda maior e mais completa...

Sarah acordou sem saber sequer que dia era. Cinco horas na cama com Alex eram suficientes para acabar com suas certezas. Tinha uma vaga lembrança de tê-lo visto vestindo-se antes de adormecer. Vestira-se apressado, mas reservara alguns instantes para apreciar a fêmea satisfeita deitada em sua cama.

Sarah encolheu-se. Alex saíra do quarto com passos firmes, revigorado pela sessão de amor, e ela retribuíra seu sorriso com a certeza de ser a mais feliz e abençoada dentre todas as mulheres.

O desejo destruíra sua inteligência. E não podia mais atribuir sua reação intensa a uma experiência de adolescente. Não era tão simples. Estava apaixonando-se por Alex, e tão rapidamente que já podia ver a devastação e a infelicidade no fim do caminho.

Agora sabia por que se sentira tão ferida quando ele a chamara de mentirosa. Sabia por que não fora capaz de combatê-lo. Num nível profundo e inconsciente, já o queria a ponto de aceitar qualquer coisa. Quando e como havia acontecido? Como pudera apaixonar-se por um homem como Alex Terzakis, a antítese de tudo que admirava no sexo oposto?

Mas ele era fantástico na cama, e agora Sarah teria de conviver com essa nova e desconhecida faceta de sua personalidade, esse lado sexualmente intenso que era despertado pela simples presença de Alex. Talvez não fosse amor, mas uma simples atração física. O que sabia sobre o amor? Nada. Uma intensa paixão aos dezesseis anos, e depois o mais completo deserto emocional. Não, não era amor. Apenas seus hormônios entrando em erupção após um longo período de dormência.

Sarah levantou-se da cama e sentiu o corpo todo doer. Alex era um maníaco, e a tratava como uma dessas garotas loucas por sexo. Casara-se com ela contra sua vontade e depois a informara de que seria a amante perfeita! Cada movimento que fazia era distorcido por seu ego super desenvolvido. Alex era tão primitivo, tão elementar, que devia estar extinto!

Mas ele a queria... Sim, ele a desejava, e a desejaria enquanto não percebesse que deixara de ser um desafio. Se deixasse de fazer oposição às suas investidas, perderia o sabor de novidade e passaria a fazer parte da interminável lista de conquistas do passado. Ser casada com Alex, agora percebia, era como ter um caso.

Estava saindo do quarto de Nicky quando Claudine e Henri, o valete inexpressivo de Alex, surgiram.

— Encomenda especial, madame — ele informou, estendendo um pacote em sua direção.

— Para mim? — Sarah estranhou, rasgando o papel dourado que escondia uma caixa de veludo negro. Ela abriu o fecho brilhante, arregalando os olhos ao ler o cartão preenchido pela inconfundível letra de Alex. "Pelas cinco horas mais fantásticas que já vivi... Também posso ser romântico."

Sob o cartão havia um lindo colar de diamantes. Sarah sentiu os olhos queimarem. Também podia ser romântico... O diabo que podia, ela pensou com amargura e ressentimento. O que havia de romântico em ser recompensada por tê-lo satisfeito na cama? Ele não sabia ser romântico, simplesmente porque nunca tivera de preocu­par-se com isso.

Consciente dos olhares curiosos e dos pescoços esticados, Sarah guardou o cartão no bolso e virou a caixa para que os criados pudessem admirar a jóia.

— Oh! — Claudine murmurou extasiada.

— Magnífica! — Henri comentou com ar impressionado.

— Deixe-me ajudá-la, madame — Claudine ofereceu.

Um minuto depois Sarah tinha os diamantes em torno do pescoço. Tudo pelas aparências. Felizmente a audiência cansou-se rapidamente de admirá-la e, aliviada, ela voltou para perto do berço de Nicky.

— Ele não só é incapaz de ser romântico, como também é insensível. E como se estivesse pagando, entende? Alex devia ter mandado flores, ou um bilhete com algumas palavras doces...

Meia hora mais tarde, Sarah havia terminado de retocar a maquiagem borrada pelas lágrimas quando Henri anunciou uma visita. Madame do Pré.

A mulher que atravessou o salão em sua direção a fez perder o fôlego. Muito alta e esguia, os cabelos negros presos à moda das bailarinas, as roupas elegantes... não só era bonita, como evidentemente requintada. Um sorriso polido distendeu seus lábios finos quando ela estendeu a mão pálida.

— Sou Elise. Espero poder chamá-la de Sarah.

— Elise—Sarah repetiu perturbada. — Por favor, sente-se.

— Vejo que não se sente em condições de receber visitas. Lamento incomodá-la num momento tão inoportuno.

— Oh, eu almocei há horas — Sarah respondeu, incapaz de compreender por que não estaria em condições de receber uma visita.

— Nós duas sabemos que não estou me referindo à hora do dia. Conheço Alex há tanto tempo que considero-me uma amiga da família — ela suspirou, acomodan­do-se numa das poltronas. — Não fosse por isso, não teria vindo até aqui para oferecer ajuda.

— Desculpe... — Sarah respondeu confusa, sentando-se diante dela. — Sua ajuda?

— Odiaria que considerasse esta minha visita um ato de invasão.

— Oh, não, você é muito bem-vinda.

— Obrigada. Se ao menos houvéssemos nos conhecido em circunstâncias mais amenas... Desculpe se sou rude, mas sei a que tipo de tratamento Alex a está submetendo. Deve estar se sentindo sozinha, isolada, humilhada...

— Devo?

— Sarah — Elise sorriu com ar piedoso. — Paris inteira está lendo a notícia ultrajante nas colunas sociais. Não precisa fingir para salvar as aparências, querida. Estou aqui para oferecer minha amizade e ajudar no que for possível. Os jornais têm se comportado de forma atroz, mas Alex procurou toda essa publicidade quando desonrou o nome da família.

Sarah não tinha idéia do que Elise estava dizendo. Jornais? Não havia lido um deles desde o dia do casamento. Normalmente preferia os noticiários da televisão, e por isso não percebera a ausência de um informativo diário. Alex procurara publicidade... notícia ultrajante?

— Sim, acho que tem razão — ela sorriu, tentando esconder a própria ignorância.

— Ele devia ter sido mais discreto. Sei que oferecer conselhos pode parecer arrogante...

— Não, eu adoraria contar com seus conselhos.

— Diga a Alex que não vai suportar esse tipo de comportamento. Ele pode ter preferido manter o casamento fora dos noticiários, mas é evidente que toda a sociedade sabe sobre o enlace. Aparecer com uma variedade de mulheres diferentes em locais públicos é o mesmo que pedir a atenção da mídia.

Mulheres diferentes... locais públicos... atenção da mí­dia... As frases chaves brilhavam na escuridão de sua perplexidade.

— Estou surpresa. Não imaginava que Alex pudesse descer tanto.

— Pois eu não me surpreendo — Sarah respondeu subitamente firme.

Elise encarou-a com ar preocupado.

— Estou disposta a conversar com ele em seu nome e chamá-lo à razão.

— E muita gentileza sua, mas não preciso desse tipo de ajuda. — Sarah levantou-se e ofereceu um sorriso frio. — Foi um prazer conhecê-la, Elise. Vivien havia dito que eu ficaria impressionada, e devo admitir que ela estava certa.

Elise levantou-se, a pele pálida tingida por um intenso rubor.

— Mas eu...

— Henri! — Sarah chamou, certa de que ele estava em algum lugar próximo.

— Receio tê-la ofendido — Elise comentou, parecendo desanimada.

— Ah, Henri! Por favor, acompanhe Madame du Pré até a porta.

— Alex ficará furioso quando souber disso...

— Acho que não.

Tremendo violentamente, Sarah viu Elise sair de cabeça erguida, a imagem da dignidade ofendida. Assim que Henri retornou, ela exigiu:

— Quero ver os jornais das duas últimas semanas. O valete empalideceu.

— Todos, madame?

— Acho que sabe quais são os mais importantes — ela respondeu, virando-se para esconder a perturbação que sabia estar estampada em seu rosto.

Todos sabiam... todos, menos ela. Por isso Vivien gritara com Alex. E Alex supunha que ela também soubesse. Agora entendia o que ele tentara dizer com aquela his­tória de sentir-se desafiado, de não suportar ser ignorado.

Claudine trouxe os jornais e saiu em seguida. Todos os empregados lamentavam a sorte da pobre noiva, traída menos de vinte e quatro horas depois do casamento!

A primeira foto mostrava Alex jantando com uma loira; na segunda ele dançava com uma morena. Sarah parou, incapaz de olhar as fotos seguintes. Estava ultrajada, tomada pela dor. Alex a forçara a entregar-se na noite de núpcias e depois a expusera ao ridículo saindo com outras mulheres. Prevenira-a sobre a necessidade de ser humilde para permanecer casada com ele, e não havia exagerado.

Atônita, ficou sentada com os olhos perdidos na distância, invadida por um sentimento de traição tão poderoso que era como se nada mais existisse.

Henri aproximou-se alguns minutos depois para avisar que havia um telefonema para ela. Era Vivien. Sentia-se sozinha em seu apartamento e adoraria recebê-la para jantar.

— Ótima idéia — Sarah respondeu atordoada.

Uma hora mais tarde Henri apareceu novamente, e desta vez estendeu o telefone como se fosse uma arma ofensiva.

— O senhor Terzakis — disse.

Sarah apanhou o aparelho com um gesto brusco, tomada pelo ódio.

— Como vai? — Alex perguntou com tom íntimo.

— Pior impossível!

— Não sei se entendi...

— Esta tarde vi meu primeiro jornal em treze dias. Foi realmente... impressionante!

— Então não sabia? — Alex perguntou surpreso.

— Parece que eu era a única a ignorar, não?

— Posso explicar.

— O que Vivien fez com seu pai não foi nada comparado ao que sou capaz de fazer!

— Estou indo para casa...

— Não estarei aqui — ela avisou. — Esta noite irei à cidade. Se quer guerra, vai ter guerra. Você pode dançar ate a madrugada? Eu também posso! Pode dormir em camas variadas? Eu também. Não há nada que possa fazer que eu não seja capaz de retribuir, seu... seu... O nome Terzakis será um apelido para as mulheres da noite. Estará de joelhos, implorando pelo divórcio, antes de eu terminar o que pretendo fazer!

— Se for à cidade... se tiver a ousadia de sair...

Sarah desligou. Jantar com a sogra... Não era um programa adorável? Especialmente se, durante a sobremesa, pudesse ter certeza do desespero de Alex.

E então ela surpreendeu-se com as próprias lágrimas, o ódio dando lugar à mais profunda infelicidade que jamais experimentara. Deus, por que havia dito todas aquelas coisas idiotas e infantis? Por que descera ao nível dele? Porque quisera feri-lo... porque amava o cretino! E como podia amar alguém assim? Como uma mulher em sã consciência podia amar um monstro?

 

Você conviveu com o canalha durante vinte anos! Por que não o envenenou? — Sarah perguntou entre um gole e outro de champanhe. — Por que não usou um chicote e uma cadeira para obrigá-lo a aceitar alguns princípios morais básicos? Vivien parecia devorada pela culpa.

— Nunca pensei que Alex pudesse comportar-se assim. Damon sempre foi o mais rebelde.

— Alex obtinha segurança na quantidade de mulheres... e naquela insuportável — Sarah fez uma careta, referindo-se a Elise.

— E pensar que teve a coragem de colocá-la para fora!

— Ela teve seus cinco minutos de fama antes disso, e garanto que soube aproveitá-los — ela recordou, enchendo novamente o copo e ignorando a comida em seu prato.

— Nicky não é seu filho — a loira disse de repente. — E também não é filho de Alex, é?

Sarah encarou-a com um misto de pânico e surpresa.

— Andy deixou escapar... sem sequer perceber — Vi­vien suspirou. — Essa criança é um pequeno acidente na vida de Damon, certo?

— Não posso discutir esse assunto.

— Escute, eu já sei. Gostaria muito de acreditar que minhas suspeitas eram infundadas, mas Alex... Não fazia sentido. Se não é a mãe de Nicky, quem...?

— Minha irmã. Ela está morta — e Sarah revelou toda a história.

— O casamento deles enfrentou problemas sérios no ano passado — Vivien comentou, afagando a mão de Sa­rah com gratidão. — Obrigada por não me tratar como uma idiota. Mais cedo ou mais tarde Andy acabará me contando, e estarei preparada. Prometo não dizer nada a ninguém, está bem? E agora, vamos mudar de assunto.

— Como posso conseguir um divórcio sem perder Nicky? — Sarah disparou, aceitando a sugestão.

— Está pensando em divorciar-se?

— E em que mais eu poderia pensar?

— Estratégias...

— Não tenho vontade de lutar por Alex. Esse é um casamento de conveniência que já começou fracassado, não um romance que saiu do curso por algum golpe trágico.

— Vamos a uma boate relaxar um pouco — Vivien sugeriu repentinamente depois de consultar o relógio.

— Dançar até o amanhecer, ficar fora a noite toda.

— Se quiser...

Sarah acompanhou a sogra e as duas entraram na limusine que as esperava na porta. Vivien insistia em sugerir diversos truques para salvar seu casamento, mas Sarah sabia que não havia nada a ser salvo. Depois de cometer o maior erro de sua vida, só queria juntar os próprios pedaços e recomeçar. Mas e quanto a Nicky?

Jamais sentira-se tão infeliz, e sabia que era a única culpada. Apaixonara-se por Alex, e o amor enfraquecera sua vontade, dizimara seu orgulho e a dividira ao meio. Se não houvesse se deixado envolver pelo encanto do grego, teria conseguido manter-se intocável.

— Retoque o batom e sorria como se estivesse radiante — Vivien instruiu.

A boate era um lugar barulhento e lotado, com uma pista de dança cheia de corpos em movimento. Ao acomodar-se numa das mesas, Sarah notou que um rapaz a observava com insistência, mas ele virou-se de costas ao perceber que ela também o observava.

— Vamos beber alguma coisa — Vivien sugeriu.

E uma garrafa de champanhe logo foi colocada sobre a mesa. Sarah aceitou mais uma taça, certa de que acabaria completamente embriagada.

— Sarah! — Vivien exclamou, agarrando seu braço. — Aquele é Stefan!

— Ste... quem? — As luzes da pista de dança foram bloqueadas por um corpo musculoso e, atordoada, ela encarou o jovem sorridente que a encarava do outro lado da mesa.

— Ele é um... acompanhante. Eu o contratei para esta noite.

Sarah riu, incapaz de conter-se. Vivien levantou-se e o rapaz sentou-se no lugar que ela acabara de vagar.

— Vivien? — Sarah chamou assustada.

Mas ela já havia desaparecido no meio da multidão.

Stefan sorriu. Ela retribuiu, disposta a explicar o mal entendido e ir embora, mas então aconteceu. Um flash, uma câmera... O homem que a observara pouco antes estava tirando fotos.

— Gosta de dançar? — Stefan perguntou.

Impossível. Suas pernas não a sustentariam. Vivien retornou com um sorriso triunfante nos lábios.

— E agora, para onde quer ir?

— Para casa — Sarah respondeu, levantando-se com algum esforço. — E sozinha!

— Mas... se for para casa tão cedo o jogo estará arruinado!

— Vivien, não devia ter feito isso.

— Eu precisava fazer alguma coisa!

— E eu preciso de ar fresco. Boa noite, Stefan.

— Não gostou dele? — Vivien perguntou num sussurro preocupado enquanto dirigiam-se à porta.

— Também planejou a foto?

— É evidente que sim! Se ninguém sabe como é a esposa de Alex, como poderiam surpreendê-la em flagrante delito?

— Meu Deus... —Aturdida, Sarah sentou-se na limusine.

— Parece que a aborreci. Só estava tentando ajudar.

Sarah não respondeu. Depois de deixar a sogra em casa, ordenou ao motorista que a levasse para um passeio pela cidade e acabou adormecendo, vencida pela bebida. O ar frio a despertou do estado letárgico. Com esforço, ela apoiou o corpo sobre o cotovelo e, sem levantar-se do banco, virou a cabeça para encarar o homem que incli­nava-se em sua direção.

— Por que não telefonou? — Alex perguntou ao motorista.

— A culpa não é dele — Sarah explicou, tentando sentar-se apesar da tontura,

— Onde esteve? São três horas da madrugada! Saiu de casa há oito horas!

— Uau! — Sarah riu, lutando com as próprias pernas para sair do automóvel.

— E está bêbada!

— Estou, mas posso caminhar — ela defendeu-se, sen­tindo que o marido a amparava.

Alex estava tão furioso que mal conseguia falar. Protegida de sua ira por uma espécie de cortina de algodão, Sarah não sentia dor ou tristeza. O canalha, traidor, duas caras, hipócrita...

Cambaleando, conseguiu entrar e aproximar-se da escada. Antes de subir, tirou os sapatos, levantou a barra do vestido e procurou alguma coisa onde pudesse segu­rar-se, mas Alex a ergueu do chão antes que pudesse dar um único passo.

— Está me machucando — ela reclamou, sentindo que Terzakis a apertava com força desnecessária.

— Se fizer isso novamente, tomarei providências para que se arrependa.

— O sótão! — ela riu.

— Onde estava? Com quem? — Alex perguntou, de­positando-a sobre a cama.

— Está bancando o possessivo, Alex?

— Se esteve com outro homem, juro que vou matá-la. Você é minha esposa!

— Hummm... — ela resmungou sonolenta, incapaz de manter os olhos abertos.

Quando acordou, estava sozinha e a cabeça doía como se fosse explodir. Apesar do mal estar, conseguiu levantar-se e cambalear até o banheiro. Uma ducha a ajudaria a sentir-se melhor.

Estava saindo do chuveiro, enrolada numa toalha, pálida como um fantasma e morta de sede, quando notou a presença de Alex.

— Oh, não — gemeu. — Agora não. Não devia estar no escritório, ou coisa parecida?

— Hoje é sábado.

— Pensei que trabalhasse todos os dias. — Pelo menos nunca o vira passar um dia todo em casa.

— Quem é ele? — Alex brandiu um jornal.

Sarah olhou para a foto onde aparecia sorrindo para Stefan com aparente intimidade. Poderia aproveitar a ocasião para colocá-lo à prova, mas não era Vivien, e não aprovara a estratégia criada pela sogra. Firme, passou por Alex e foi sentar-se na beirada da cama, usando as mãos para ajeitar os cabelos despenteados.

— É um acompanhante que sua madrasta contratou. Ela também pagou o fotógrafo.

— Vivien?

— Escute, não importa se acredita em mim ou não, mas acho que merece a verdade. — E ela relatou os fatos de maneira resumida.

— Não precisava ter dito que o sujeito era um acompanhante. Podia ter mentido — Alex comentou depois de um silêncio prolongado.

— Por quê? Não faço esse tipo de jogo. De que serviria?

— Às vezes esse tipo de jogo funciona com homens como eu.

— Não é o meu estilo.

— Mas é o de Vivien. Por que disse a verdade?

Quantas mentiras Vivien pregara no marido? Quantas Alex havia testemunhado? Vivien era uma mulher carinhosa e dedicada, e Alex nutria um grande afeto por ela, mas era evidente que a última coisa que ele esperava de uma mulher era a verdade. Esperava manipulação e manobras, jogos e fingimentos, nunca a honestidade. Por isso não conseguia entender o procedimento de Sarah.

— Por quê? — ele insistiu. — Ontem, quando telefonei, você disse...

— Disse um monte de bobagens, como você faz quando está zangado — ela cortou, o rosto tingido por um intenso rubor.

— Passei uma noite miserável por sua causa. Pensei que pudesse realmente...

— Fazer papel de idiota só para aborrecê-lo? Não. Sou séria demais para isso.

— Não parecia muito séria quando saiu da limusine.

— Nunca havia me embriagado antes. E duvido que volte a beber algum dia — ela confessou, os olhos fixos no tapete.

Alex suspirou e virou-se de costas. Erguendo a cabeça, Sarah notou a tensão que enrijecia os ombros largos.

— Acho que devo explicações sobre meu comportamento — Terzakis começou. — Quando concordei com esse casamento, não pretendia permanecer casado por muito tempo. Sei que não fui muito honesto, mas estava furioso. Por favor, entenda que passei a amar Nicky.

— Sim, eu sei — ela respondeu, culpada e envergonhada demais para dizer mais alguma coisa.

Alex encarou-a novamente.

— Ele veio ao mundo em circunstâncias que eu jamais teria permitido, e no entanto, eu fui chamado a pagar pela ofensa.

— Sinto muito.

— Mas que alternativa havia? Seus motivos não foram inteiramente puros, mas você tinha mais consciência das necessidades de Nicky que eu. Não poderia criá-lo sozinho, e Elise jamais o teria aceitado. Gosto muito de crianças, mas devo confessar que nunca parei para pensar no que significa ser pai de uma delas. O que estou tentando dizer é que esse bebê precisa de nós dois, e agora aceito esse fato. Entretanto, se houvéssemos mantido a calma depois da morte de sua irmã, não estaríamos casados... Sabia que Alex estava dizendo a verdade, mas a dor era a mesma.

— Não estava preparado para deixar Nicky aos seus cuidados, não com a opinião que tinha a seu respeito. Estávamos tão ocupados trocando ofensas, que nenhum de nós mostrou o verdadeiro caráter. Decidi que você não ganharia com o casamento. Sabia que era orgulhosa, e me dispus a destruir esse orgulho. Daí meu comportamento após a cerimônia. Não me sentia um homem casado, não queria ser casado! Para mim, casamento era algo reservado ao futuro distante. Por isso decidi me casar com você e despachá-la novamente o mais depressa possível, usando todos os meios de que dispunha.

Sarah abaixou a cabeça. Destruíra a organizada vida de Alex. Que direito tinha de ressentir-se de seus ataques? Como podia exigir fidelidade de um homem que jamais a quisera como esposa?

— Está muito quieta.

Era mais fácil gritar e ofender, mas sentia-se incapaz de verbalizar emoções profundas e dolorosas que certamente o embaraçariam.

— Talvez esteja surpresa por você estar falando comigo assim.

— Talvez eu também queira me surpreender.

Ficaria surpreso se dissesse o que realmente sentia por ele.

— Sarah, estou tentando esclarecer as coisas entre nós — ele insistiu, ajoelhando-se diante dela e tomando suas mãos. Lágrimas formavam-se em seus olhos, e ela sentia-se incapaz de contê-las. — Lamento se a magoei, e prometo tentar reparar meus erros. Sei que posso fazer esse casamento dar certo.

— É impossível...

— Temos de nos esforçar, por Nicky.

— Amo meu sobrinho, mas... não quero continuar casada com você. Essa situação é insuportável para nós dois. Não temos nada em comum.

— Temos Nicky. E existem diversas facetas de seu caráter que aprendi a admirar.

Sarah sentia-se devastada por dentro. O homem que amava estava dizendo que não a amava, mas que pretendia permanecer casado com ela por causa de seu instinto maternal. Desprezando-se por deixar-se envolver pelo calor provocado por aquelas mãos, ela rompeu o contato e baixou os olhos.

— Alex... eu criei toda essa confusão. Ontem estava furiosa com você, mas agora entendo que não devia ter ficado aborrecida. Se quer sair com diversas mulheres, não tenho o direito de dizer nada, porque não somos realmente casados. Nenhum de nós estava falando sério quando prometeu amor e fidelidade.

— Eu não fiz amor com nenhuma daquelas mulheres. — Alex revelou, segurando novamente as mãos dela. — Já ouviu falar no conceito da segunda chance? Estou praticamente de joelhos implorando por uma nova oportunidade, e você fica aí sentada como uma estátua, cheia de compreensão, mas completamente inatingível.

Surpresa com a revelação, Sarah o viu levantar-se e caminhar até o outro lado do quarto. Seria verdade que Alex não havia feito amor com outra mulher desde o casamento?

— Posso ir onde quiser, quando quiser! — ele explodiu. — Deus, meu pai teria matado para se casar com uma mulher como você! Se disser mais uma vez que posso sair com quantas mulheres quiser, juro que a estrangularei! Como posso me sentir casado, se não estabelece padrões para o meu comportamento?

— Você estabeleceu os padrões em nossa noite de núpcias.

— Mas você não é a mulher que eu julgava ser. Con­fundiu-me, entende? Se queremos que esse casamento funcione, alguns padrões terão de ser observados. Sei o que estou dizendo.

— Sabe mesmo?

— O relacionamento de Vivien e meu pai foi um verdadeiro inferno nos primeiros anos. A infidelidade gerou desconfiança e insegurança. Mesmo depois dele ter abandonado seus casos extraconjugais, Vivien vivia desconfiada. Os dois se amavam muito, mas esse início tumultuado minou todo o casamento. Por não confiar nele, ela fazia jogos... Acho que seria capaz de matá-la por ter tentado trazer esses mesmos jogos para o nosso casamento. Ela precisava ouvir umas boas verdades.

— Alex...

— Tenho de conversar com Vivien, Sarah! O máximo que posso fazer é tentar ser gentil.

— Ela sabe sobre Nicky. E sobre Damon e Callie — Sarah revelou, preparando-se para a explosão.

Alex parou, franziu as sobrancelhas, mas depois encolheu os ombros.

— E daí? Andy e Damon que cuidem de seus problemas. Nosso casamento é mais importante, e Vivien acabaria descobrindo a verdade.

Sarah sabia que era inútil protestar. Alex decidira que permaneceriam casados pelo bem de Nicky, e não havia nada que pudesse fazer senão empenhar-se nessa nova tentativa. Seria capaz de suportar? Seu mundo resumi­ria-se em Alex e Nicky, mas não passaria de uma pequena parte do mundo de Alex. A esposa que ele tentaria suportar, não a que ele escolhera ou amava.

— Se quer tentar novamente, eu fico — ela suspirou.

— Pelo menos até Nicky completar dezoito anos.

O comentário casual a feriu profundamente, pois expressava o grau de distanciamento emocional de Alex.

— Gostaria de me vestir — Sarah indicou, levantan­do-se com um sorriso forçado.

— Por que não saímos para um passeio com Nicky... como uma verdadeira família? — ele sugeriu de repente.

Havia sido um dia maravilhoso. Como um primeiro encontro, Sarah refletiu sonolenta quando voltavam para casa. O passeio a deixara exausta, e às dez ela estava na cama, pronta para dormir, Alex desaparecera depois de receber um telefonema na biblioteca, e já estava quase adormecendo quando ele deitou-se a seu lado e abraçou-a.

Não queria que ele a tocasse, mas sabia que esse era o preço para manter o casamento. Em troca de fidelidade, Alex buscaria a satisfação de suas necessidades no leito matrimonial.

Nesse novo relacionamento não havia lugar para mentiras, e por isso ele não voltaria a dizer o quanto era atraente e desejável. Talvez pensasse em outra mulher enquanto a tinha nos braços... Um soluço escapou do peito de Sarah.

Alex a empurrou com violência e levantou-se.

— Alex... você não entendeu! Estava pensando em outra coisa! Quero dizer... — ela tentou explicar, sabendo que o futuro de seu casamento estava em jogo. — Eu... eu quero você.

Alex encarou-a e um sorriso desenhou-se em seu rosto. Desta vez a sedução lenta e estudada deu lugar à ferocidade do desejo, e Sarah surpreendeu-se com a intensidade da própria satisfação.

— Desculpe — Alex murmurou enquanto levantava-se. — Preciso de uma ducha.

Gostaria de saber o que fizera de errado, mas tinha medo de perguntar e ser ainda mais ferida pela resposta. Dez minutos mais tarde ele deixava o quarto e ela permanecia sozinha na escuridão. Quando retornou, horas mais tarde, Alex trazia o sabor do conhaque nos lábios e o desejo no corpo, e desta vez amou-a devagar, saboreando cada segundo de prazer.

Os dias seguintes transcorreram numa espécie de emaranhado. Os empregados ocupavam-se com a grande festa que Alex decidira organizar, e Sarah dividia-se entre os cuidados com Nicky e a representação de esposa feliz.

À noite saíam para jantar, mas ele evitava assuntos mais pessoais. Durante o dia jamais a tocava, mas a possuía com ardor na escuridão do quarto.

No início da segunda semana Alex passou a chegar em casa com imensos ramalhetes de flores, e então as conversas mais significativas começaram a acontecer. Ele perguntava tudo sobre a infância da esposa, sobre seus pais e cada emprego que tivera, e Sarah começou a inquietar-se, certa de que seu interesse não era genuíno.

— Precisa mesmo fazer tamanho esforço para viver comigo? — ela perguntou no final da segunda semana durante o jantar.

— O que quer dizer?

— Não precisa fingir para me fazer sentir querida. Prefiro que seja você mesmo.

— Não consigo acertar com você, não é? — Alex irritou-se.

Como explicar que sentia-se humilhada por seus esforços? Seria aproximar-se muito da verdade, e não podia correr esse risco. Sentindo-se injusta e ingrata, Sarah abaixou a cabeça numa luta silenciosa contra as lágrimas.

— Gosta de flores, mas não aprecia as que trago para você. Conversa com os empregados como se fossem velhos amigos, mas é incapaz de me dizer sua cor favorita sem ranger os dentes. O único lugar onde me recebe com alguma disposição é na cama, e por quê?

Porque o amava.

— Está sempre atenta às necessidades de Nicky, e não hesita em deixar a cama para ir atendê-lo, apesar de termos uma excelente babá. Se tem tamanha obsessão por bebês, por que esperar até o ano que vem?

— Não estamos preparados para outra criança — ela respondeu de imediato, sem entender o que acontecia com o marido.

— Pense bem, pethi mou. Em vez de ficar imóvel como uma estátua, tolerando minhas lamentáveis exigências sexuais, podia desenvolver um pouco mais de entusiasmo, tocar-me, dizer meu nome... Seria por uma grande causa!

— Não havia notado que estava insatisfeito.

— E como poderia, se não consegue pensar em nada mais excitante que a próxima mamadeira de Nicky?

Sem esperar pela resposta, Alex levantou-se e saiu da sala e Sarah ficou sozinha, lutando contra as lágrimas amargas. Sabia que ele estava certo. Na tentativa de salvar o que lhe restava de orgulho, tornara-se fria e indiferente.

Mas esta noite trataria de mudar seu comportamento. Amava Alex, e a idéia de viver sem ele a enchia de pavor. Diante da terrível ameaça, suas prioridades alteravam-se imediatamente.

Mais tarde, depois de perfumar-se e vestir a melhor camisola que possuía, Sarah saiu à procura do marido e encontrou-o na biblioteca, falando ao telefone de costas para a porta.

— Sim, Elise — ele ria. — Seria estranho se viesse até aqui. É tudo muito delicado, entende? Sim, sei que a culpa é toda minha. Não, ela ainda não tocou nesse assunto. Por que não almoçamos juntos amanhã? Um restaurante seria muito arriscado, mas podemos usar meu apartamento em Paris. E por que ela suspeitaria, se nem sabe que tenho um apartamento em Paris?

Mortificada, Sarah fechou a porta com cuidado e voltou para o quarto. O marido infiel... atacando-a, quando sempre tivera outra mulher em sua vida! Era evidente que Alex pretendia o divórcio, mas só quando julgasse oportuno. Enquanto isso, divertia-se com Elise.

Angustiada, Sarah atirou-se na cama e deixou as lágrimas lavarem parte da dor. Vivien teria sugerido uma estratégia, mas a única coisa em que conseguia pensar nesse momento era assassinato. Se não podia ter Alex, Elise também não o teria.

Sim, Alex tinha razão. Era tudo muito delicado... especialmente o controle que mantinha contidas emoções tão perigosamente primitivas.

 

Alex anunciou:

- Damon e Androula virão para a festa.

Sarah encolheu os ombros com indiferença, tentando engolir o café da manhã. Não conseguia deixar de pensar no almoço adúltero do marido e na própria passividade com relação ao assunto.

Na noite anterior ele não fora para a cama. Dormira em outro lugar. Pelo menos tivera a decência de não procurá-la. Mas por que insistia na festa do dia seguinte? Por que tanto trabalho para apresentar à sociedade uma esposa que já decidira abandonar?

O mordomo trouxe a correspondência e havia uma carta para Sarah. Fora enviada de Londres, de um escritório de advocacia, e tratava... do testamento de Callie! Por que Callie havia feito um testamento, se não possuía nada de valor? Sarah continuou lendo e empalideceu.

A conta bancária de sua irmã guardava mais de duzentos e cinqüenta mil libras, e o saldo crescia mensalmente através de depósitos regulares. Como Sarah era a única beneficiária, os advogados solicitavam sua presença para que fosse decidido o destino de tal conta bancária.

— Algum problema? — Alex perguntou.

Aturdida, ela empurrou a carta em sua direção e cobriu o rosto com as mãos. O dinheiro só podia pertencer a Damon, e a quantia elevada indicava que ele assumira suas responsabilidades desde o início. Mais uma vez, tinha de admitir que Alex estava certo e que sua irmã mentira.

— Sugiro que esse dinheiro seja devolvido — Alex indicou com tom frio.

— Devolvido?

— Já dei início ao processo legal de adoção, e não posso permitir que meu irmão sustente um filho que pretendo criar como sendo meu.

— Tem razão. Se soubesse da existência desse dinheiro já o teria devolvido, mas Callie não me disse nada e...

— De quem foi a idéia de não descontar o cheque que dei à sua irmã?

— Minha, mas...

— Então Callie tinha mais juízo que você. Ela estava pensando no futuro. Sem dúvida sabia que se oporia ao uso desse dinheiro, e por isso guardou segredo.

— As mentiras que Callie me contou... Alex suspirou.

— Ela mentiu porque a amava, e por importar-se com sua opinião. Às vezes é difícil conviver com alguém de princípios morais mais rígidos e elevados.

Sabia que ele estava usando o comportamento de Callie para criticar a maneira como o tratava. Alex a considerava radical, rígida, e por isso desistira do casamento e estava voltando para Elise.

Estava voltando... Então ainda havia tempo para provar que podia ser a esposa que ele queria, certo? Só precisava abrir mão do orgulho e enfrentar a insegurança. E como só contava com algumas horas para convencê-lo de que era muito melhor que Elise, teria de ser rápida e contundente.

— Eu disse... Ah, esqueça o que eu disse — ele irritou-se. E antes que Sarah pudesse fazer alguma coisa Alex já havia saído da sala. Movida pelo pânico, ela o seguiu até a porta a fim de revelar seus sentimentos, mas o piloto o esperava no jardim, e não seria capaz de abordar um assunto tão íntimo diante de testemunhas.

O som da porta se fechando foi como o estrondo de uma pedra caindo sobre seus sonhos, suas esperanças e seu casamento.

Mas ainda contava com algumas horas e muita determinação. Disposta a lutar até o último instante, Sarah procurou o mordomo.

— Henri, a que horas meu marido costuma sair para almoçar?

— Bem, isso depende...

— Preciso saber à que horas ele vai sair hoje, e quero o carro preparado para me levar à Paris a tempo de surpreendê-lo.

— Tomarei as providências, madame — Henri sorriu. Sarah foi para o quarto e vestiu-se combinando ousadia e determinação, usando todas as armas para impedi-lo de pensar no compromisso que deixaria de cumprir. Se Alex podia usar o sexo como instrumento de dominação, como fizera na noite de núpcias, ela tinha o mesmo direito.

Infelizmente seu guarda-roupa não contava com a mais básica ferramenta de sedução que uma mulher pode usar e, apressada, Sarah voltou à cozinha em busca do motorista.

— Preciso ir a Tours imediatamente.

François era um excelente empregado, e uma hora mais tarde Sarah estava de volta ao castelo. Agora poderia preparar-se adequadamente para a grande batalha.

Sarah atravessou o saguão do edifício de cabeça erguida, dizendo a si mesma que ninguém podia enxergar através do casaco preto e longo. Ao deparar-se com a secretária, assumiu um arrogante e avisou:

— Cancele todos os compromissos do sr. Terzakis e não passe nenhuma ligação. Não quero interrupções.

— Mas...

— Faça o que estou dizendo! — ela cortou, entrando antes que a secretária pudesse impedi-la.

Alex falava ao telefone, e espantou-se ao vê-la trancando a porta.

— Sarah?

— Vim para o almoço. Quero dizer, vim para...

— Que idéia encantadora! — ele sorriu, desligando o aparelho. — Mas receio que tenha escolhido...

— Não pude esperar até que fosse para casa — ela adiantou-se, notando que Alex levantava-se e consultava o relógio.

— Não pôde esperar... para quê?

Abandonando a idéia da sedução lenta, ela despiu o casaco.

— Para isso.

Alex parecia chocado. Os olhos arregalados a fitavam intensamente, e era como se ele não acreditasse no que via.

— Sarah...

— A porta está trancada, e sou toda sua. Como vê, sou capaz de ser a esposa de seus sonhos. Não vai precisar de mais ninguém.

— Especialmente se continuar iluminando meus dias de trabalho dessa forma — ele concordou, abraçando-a sem esconder o desejo. — E como nenhuma outra mulher conseguirá me incendiar desse jeito, pode contar com exclusividade pelos próximos cinqüenta anos. Só preciso dar um telefonema e...

— Não! — Elise que ficasse esperando. — Quero você agora...

Alex hesitou por um instante antes de sucumbir. Queimando de paixão, Sarah relaxou e deixou que o marido assumisse o comando.

Já estavam deitados no sofá de couro quando, despin­do-se, Alex disse ofegante:

— Quero me desculpar por ontem à noite. Fui grosseiro, impaciente, e tem todo o direito de estar chocada com o que eu disse.

— Eu entendi o recado, não?

— Perfeitamente — ele sorriu, tomando-a novamente nos braços.

Uma hora mais tarde, exaustos e satisfeitos, repousavam abraçados quando Sarah quebrou o silêncio.

— Sempre me desejou, não é?

— Com verdadeira loucura. E agora a quero ainda mais — Alex confessou com voz terna. — Vamos para casa?

— Mas... e o trabalho?

— Não tenho nenhum compromisso importante, e não seria muito útil se ficasse. Minha cabeça estaria em outro lugar. Iremos de carro, e aproveitarei para resolver um pequeno problema a caminho de casa.

Generosa em seu triunfo, Sarah não fez perguntas. A limusine parou alguns quarteirões à frente do edifício Terzakis.

— Espero não demorar — Alex disse ao descer. Sarah também esperava que ele fosse rápido. Sabia que Elise o esperava no apartamento, apesar do atraso de mais de uma hora.

Alex retornou dez minutos mais tarde, sorridente e seguro de si. Feliz como jamais estivera, aproveitou a viagem até o castelo para abraçá-la e beijá-la, provocan­do-a com comentários sensuais.

Henri tentou dizer alguma coisa quando entraram, mas o patrão estava mais interessado em beijar a esposa. Sem se preocupar com a audiência, ele tomou Sarah nos braços antes de chegarem ã escada, beijando-a com ardor contagiante.

— Alex!

Sobressaltados, os dois voltaram-se na direção da voz.

— Androula! — Alex exclamou com tom irritado. — Damon, eu pedi que fosse para um hotel, não?

— Sarah! — Damon espantou-se. — Quase não a reconheci. Você parece outra mulher!

Androula sorriu divertida.

— Acho que devíamos ter ido para um hotel. Afinal, nos preocupamos por nada. E pensar que Damon estava se culpando por seu casamento com Sarah!

— Agradeço a preocupação, mas prefiro deixar essa conversa para outra ocasião.

— Alex! — Sarah censurou-o. — Não podemos adiar uma conversa tão importante!

— Tem razão — ele suspirou contrariado. — Vamos acabar com isso de uma vez.

Os quatro foram para a biblioteca. Damon sentou-se ao lado da esposa e, de cabeça baixa, confessou:

— Não fui totalmente honesto, Alex.

— Ele está querendo dizer que mentiu — Androula interferiu. Um olhar do marido a fez levantar-se. — Acho melhor ir esperar na sala.

Assim que Andy saiu, Sarah retomou o assunto.

— Sei que não abandonou minha irmã como eu imaginava.

— Fiz pior que isso. Disse a Alex que ela era uma interesseira, e que havia saído com outros homens. Callie não era nada disso, e tem todo toda a razão de estar me odiando.

Só então Sarah descobriu que não o odiava. Damon era imaturo, fraco e superficial, e provavelmente fora envolvido pela personalidade forte e marcante de Callie.

— Mentiu para mim? — Alex perguntou ao irmão com tom autoritário.

— Fique quieto e deixe-o falar — Sarah impacientou-se.

— Quando Andy esteve em Oxford com as crianças, nosso casamento passava por uma fase muito ruim. Pedi o divórcio e Andy concordou. Isso foi antes dela voltar para casa, antes de eu ter encontrado Callie. Apaixonei-me por ela e a pedi em casamento, e pretendia realmente levar essa idéia adiante.

— E eu duvidei de você — Alex disse a Sarah.

— Isso não tem importância — ela respondeu, feliz por estarem finalmente desvendando toda a verdade.

— Callie garantiu que não havia risco de uma gravidez — Damon prosseguiu. — Ela sabia que eu não queria, e quando aconteceu, não soube como lidar com a situação. Callie e eu tivemos uma violenta discussão. Depois disso voltei para casa para ver as crianças e cuidar do divórcio e... bem, percebi...

— Descobriu que queria voltar para sua esposa — Sarah concluiu.

— Callie chamou-me de covarde — Damon suspirou. — Estava arrependido, entende? Tentei terminar tudo, mas ela se negou a aceitar o rompimento.

— Primeiro a pediu em casamento, depois arrepen­deu-se e abandonou-a — Alex resumiu furioso. — Uma garota de dezoito anos, apaixonada por você! Como pôde ser tão egoísta e irresponsável? E ainda deixou que eu acusasse Sarah de...

— Já chega! — Sarah interferiu. — Vamos acabar com isso. Damon não foi o único homem do mundo a abandonar uma mulher.

— Mas sua irmã morreu!

— Por que decidiu levar adiante uma gravidez arriscada. Damon não a deixou desamparada. Mandou dinheiro, lembra-se? E ela nem disse nada a respeito — Sarah lembrou, virando-se para o rapaz. — Por que se ofereceu para ficar com Nicky?

— O que mais podia fazer depois da morte de Callie? Andy concordou...

— Queria mesmo o bebê?

— Não — Damon confessou com honestidade. — Sou grato por você e Alex terem decidido adotá-lo. Essa criança poderia ter destruído meu casamento.

— Interessante, essa mesma criança fez maravilhas pelo meu casamento — Alex comentou.

— Sorte sua...

Damon levantou-se e caminhou até a porta.

— Ainda querem que Androula e eu venhamos à festa?— perguntou embaraçado.

— É claro que sim! — Sarah respondeu apressada, acompanhando-o até a sala.

Ao vê-los, Androula aproximou-se visivelmente emocionada.

— Estive no quarto de Nicky — disse. — Ele é lindo! Quero que saiba que não guardo ressentimentos, Sarah. Damon está comigo, e é isso que importa.

Damon despediu-se sem manifestar o menor desejo de ir ver o filho. Para ele. Nicky era filho de Alex e Sarah.

Mais uma vez, Damon optava pela saída mais fácil.

Sarah e Alex estavam jantando quando ele anunciou:

— Iremos ao Caribe em lua-de-mel. O que acha? Sarah sorriu e tentou conter um bocejo.

— Ótima idéia — respondeu em seguida.

— E melhor ir para a cama. Você parece exausta!

— E estou. Pretende ir... a algum lugar?

— E claro que não! De onde tirou essa idéia? Sarah estava adormecendo quando teve a impressão de ouvir o motor do carro de Alex. Pura imaginação...

— Bom dia. E feliz aniversário — Alex disse antes de beijá-la.

— Mas não é... Meu Deus! — Sarah sentou-se na cama. — Esqueci meu aniversário!

— Mas eu não esqueci — ele sorriu, apontando para a tela aos pés da cama.

Era um retrato de Callie, e a semelhança teve o poder de impressioná-la.

— Mas como...? Por quê...? Pelo amor de Deus, onde o conseguiu?

— Eu o encomendei a partir de algumas fotos. Gostou?

— É fantástico! Jamais ganhei um presente tão importante quanto esse! Quando o encomendou?

— Há duas semanas.

— Já estava pensando no meu aniversário?

— Na verdade, estava pensando em qualquer oportunidade que surgisse para tentar impressioná-la. Queria ser incluído na categoria dos homens românticos e sensíveis.

— Queria? E por quê?

— Porque amo você.

— Não... não pode estar falando sério!

— É claro que estou. E teria confessado meu amor de qualquer maneira, mesmo que não houvesse ido me procurar no escritório ontem.

— Desde quando? — Sarah perguntou atordoada.

— Desde antes de nos casarmos. Em nossa noite de núpcias, surpreendi-me pensando em como seria maravilhoso ter uma esposa como você e...

— E então disse todas aquelas coisas horríveis.

— Não conseguia entender meus sentimentos, e isso me deixava furioso. Saía todas as noites com outras mulheres, e isso só servia para me fazer ver o quanto queria estar com você.

— Também amo você — Sarah sorriu emocionada.

— Eu já sabia.

— Já sabia? Ora, seu... presunçoso!

— Percebi ontem, quando entrou em meu escritório. Não teria vencido a barreira da timidez sem o estímulo do amor. Fiquei tão feliz quando a vi na minha frente, que esqueci que havia combinado um almoço com Elise para apanhar o retrato.

— O... retrato?

— Elise o pintou. Esta noite, quando ela for à nossa festa, talvez possa aproveitar para rever sua opinião a respeito dela.

— Meu Deus! Eu sinto muito, Alex! Pensei que...

— Sei o que pensou — ele riu. — Elise e eu somos apenas bons amigos. Nunca houve nada entre nós, apesar de ter realmente pensado em casamento. Ela veio procurá-la porque estava mesmo preocupada com meu comportamento.

— Eu não sabia que andava encontrando outras mulheres. Acho que a surpresa me levou a reagir daquela maneira estúpida e grosseira.

— Elise compreendeu sua atitude.

— E quanto às suas... amantes?

— Amantes? Sarah, onde acha que eu iria buscar tanta energia?

— Energia nunca foi problema para você.

— Isso foi antes do casamento. Além do mais, não existe mulher melhor que você, meu amor.

— Nem pense em procurar!

— O que acha de nos casarmos novamente? Assim repetiríamos os votos com sinceridade.

— Ótima idéia — ela riu.

— E já que está tão generosa, será que uma vez por ano poderia...

— Sim.

— Mas eu ainda não fiz o pedido.

— Sei o que vai pedir, seu desavergonhado.

— Apaixonado — ele corrigiu. — Uma vez por ano estarei esperando sua visita.

— Só uma vez por ano? Acho que posso fazer melhor que isso, Alex. Espere só para ver...

 

                                                                                Lynne Graham  

 

                      

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