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Planeta Criança



Poesia & Contos Infantis

 

 

 


LÁGRIMAS DA LUA / Nora Roberts
LÁGRIMAS DA LUA / Nora Roberts

                                                                                                                                                   

                                                                                                                                                  

 

 

Biblio VT

 

 

 

Aqueles que sonham acordados trazem beleza ao mundo. A arte e a música, as histórias e o coração. A Irlanda sente um grande carinho pelos seus sonhadores. Apesar disso, ao mesmo tempo que preza os seus poetas e artistas, a Irlanda também pode ser bastante prática. Por um lado, os irlandeses conservam a sua magia; por outro, trabalham arduamente.

Em Lágrimas da Lua, juntei as mãos do sonhador Shawn Gallagher e da objectiva e pragmática Brenna O'Toole. Carrick, o príncipe das fadas, terá muito trabalho com estes dois, se os quiser unir e dar o passo seguinte para romper o encanto que o separa do seu próprio amor e do seu destino.

Ele tem um presente para os dois, que, no entanto, o devem aceitar - e um ao outro - com os corações desprendidos. Orgulho e ambição devem ser superados por amor e generosidade. Duas pessoas que se conheceram durante toda a vida terão agora de se contemplar com olhos diferentes.

Muito acima da fascinante aldeia de Ardmore, num penhasco varrido pelo vento, perto da fonte de um antigo santo irlandês, há magia e música no ar. Sente-se no banco que há ali perto e escute.

 

 

 

 

                                                   CAPÍTULO UM

A Irlanda é uma terra de poetas e de lendas, de sonhadores e rebeldes. E a música envolve todos, por completo. São melodias para dançar ou chorar, para a batalha ou para o amor. Em tempos antigos, os harpistas viajavam de um lugar para o outro, tocando as suas melodias por uma refeição e uma cama, por alguma generosa moeda que as pudesse acompanhar.

 

Os harpistas e os seanachais - os contadores de histórias - eram bem recebidos por toda a parte, num chalé, numa estalagem ou à beira de uma fogueira de acampamento. O dom que espalhavam pela Irlanda era sempre apreciado, mesmo nos palácios do mundo das fadas, sob as verdes colinas.

 

E continua a ser apreciado.

 

Certa ocasião, não assim há tanto tempo, uma contadora de histórias chegou a uma aldeia tranquila, à beira mar, e teve uma recepção afectuosa. Ali, ela encontrou o seu coração e o seu lar.

 

Um harpista vivia na aldeia. Ali tinha o seu lar e era onde se sentia feliz. Mas ainda precisava de encontrar o seu coração.

 

Havia música a soar na sua cabeça. Às vezes surgia de uma forma suave e sonhadora, como os sussurros de uma pessoa apaixonada. Noutras ocasiões, aflorava como um grito ou como uma gargalhada. Uma velha amiga, a convidá-lo para tomar uma cerveja no pub. Podia ser doce, veemente ou transbordar de lágrimas de desespero. E ele sentia sempre imenso prazer em ouvi-la.

 

Shawn Gallagher era um homem satisfeito com a vida. Naturalmente havia quem dissesse que ele se sentia feliz porque era raro ele sair dos seus sonhos para verificar o que acontecia no mundo. E Shawn não se importava com essas pessoas.

 

O seu mundo era a música e a família, o lar e os amigos é que contavam. Por que razão se deveria incomodar com qualquer outra coisa?

 

A família vivia há gerações na aldeia de Ardmore, no condado de Waterford, na Irlanda. Os Gallagher eram donos do pub local, oferecendo canecas de cerveja, uma boa refeição e um lugar para conversar há tanto tempo quanto a maioria das pessoas se podia lembrar.

 

Desde que os pais se haviam mudado para Boston, algum tempo antes, cabia a Aidan, o irmão mais velho de Shawn, dirigir o pub. O que era óptimo para Shawn Gallagher, já que ele não hesitava em admitir que não tinha queda para os negócios nem queria ter. Sentia-se feliz em ser o homem da cozinha, pois cozinhar relaxava-o.

 

A música era parte dele, no pub ou na sua cabeça, enquanto atendia os pedidos ou preparava a ementa do dia.

 

Claro que havia ocasiões em que a sua irmã, Darcy - que tinha uma quota adicional de energia e ambição da família -, entrava na cozinha, enquanto ele preparava um guisado ou fazia uma sanduíche, e provocava uma discussão.

 

Mas isso servia para dar mais animação.

 

Shawn não se incomodava em dar uma ajuda para servir os clientes, especialmente se alguém estivesse a tocar música ou houvesse pessoas a dançar. E ajudava na limpeza sem se queixar, depois de fecharem, pois os Gallagher mantinham um pub impecável.

 

A vida em Ardmore convinha-lhe - o ritmo lento, as ondas a chocarem contra os penhascos, as colinas verdes ondulantes, que se estendiam até às montanhas escuras. A ânsia de conhecer outras terras, pela qual os Gallagher eram famosos, não se manifestava nele. Shawn tinha raízes profundas no solo arenoso de Ardmore.

 

Não tinha o menor desejo de viajar, como fizera o irmão, Aidan, ou como Darcy planeava fazer. Podia encontrar ali mesmo tudo aquilo de que precisava. Não via sentido em mudar de paisagem.

 

Embora, de certa forma, isso tivesse acontecido.

 

Durante toda a sua vida, Shawn olhara pela janela do seu quarto para ver o mar, que estava sempre ali, a desmanchar-se em espuma na areia, pontilhado de barcos, sereno ou furioso, com todos os ânimos intermediários. O cheiro da maresia era a primeira coisa que ele inspirava pela manhã, ao abrir a janela, inclinando-se para fora.

 

Quando o irmão casara com Jude Francês Murray, uma linda ianque, no Outono passado, pareceu-lhe apropriado promover alguns ajustes.

 

De acordo com o costume dos Gallagher, o primeiro a casar-se ficava com a casa da família. Por isso, Jude e Aidan instalaram-se na casa enorme, na zona limítrofe da aldeia, quando voltaram da lua-de-mel em Veneza.

 

Quando lhe ofereceram a opção entre o apartamento por cima do pub e o pequeno chalé que pertencia ao lado Fitzgerald da família de Jude, Darcy escolheu o apartamento. Pressionara Shawn, e quem mais se deixara envolver pelos seus encantos, a pintar e remodelar, até que os aposentos, antes espartanos, de Aidan, se transformassem no seu pequeno palácio.

 

Shawn não se incomodara.

 

Preferia mesmo o chalé na colina das fadas, com a vista dos penhascos, o lindo jardim e o bendito sossego.

 

Também não se importava com o fantasma que vagueava pelo chalé.

 

Ainda não o vira, mas sabia da sua presença. Era Lady Gwen, que se lamentava por ter rejeitado o seu amor, o príncipe das fadas. Esperava agora que o encanto chegasse ao fim, para libertar os dois. Shawn conhecia a história da jovem donzela que ali vivera trezentos anos antes. Naquele mesmo chalé, naquela mesma colina.

 

Carrick, o príncipe das fadas, apaixonara-se por ela. Mas, em vez de dizer as palavras certas, em vez de oferecer o seu coração, mostrara a grandiosidade da vida que proporcionaria à sua amada. Por três vezes levara a Lady Gwen, num saco de prata, as pedras mais preciosas do mundo. Primeiro, foram diamantes moldados no fogo do sol, depois as pérolas feitas com as lágrimas da lua e, finalmente, as safiras arrancadas do coração do mar.

 

Mas, duvidando do coração de Carrick e do seu próprio destino, ela recusara-o. E as pedras preciosas que ele despejara aos pés de Gwen, segundo a lenda, haviam-se transformado nas flores que ostentavam o jardim no chalé.

 

A maior parte das flores dormia agora, pensou Shawn, sob o vento frio do Inverno que soprava ao longo da costa. Os penhascos, onde se dizia que Lady Gwen passeava, em lágrimas, estavam áridos e inóspitos, sob o céu ameaçador.

 

Uma tempestade concentrava-se ali, prestes a desabar.

 

Era uma manhã gelada, com o vento a sacudir as janelas e a infiltrar-se por todas as frestas para enfriar o chalé. Como tinha a lareira acesa na cozinha e um chá bem quente nas mãos, Shawn não se importava com o vento. Até apreciava a sua música arrogante, enquanto, sentado à mesa da cozinha, comia biscoitos e pensava na letra de uma melodia que acabara de compor.

 

Só precisava de ir para opub dali a uma hora. Mas, para ter a certeza de que chegaria dentro do horário, ligara o alarme do relógio do forno. Como reforço, deixara o despertador também programado no quarto. Sem ninguém ali para o arrancar dos seus sonhos e dizer que tinha de sair, ele tendia a esquecer-se das horas por completo.

 

Já que Aidan ficava irritado quando ele se atrasava e Darcy aproveitava o pretexto para o criticar, Shawn fazia o seu melhor para ser pontual. O problema era que ignorava o alarme e não ouvia a campainha do despertador quando ficava absorvido demais na música.

 

Era o que acontecia agora, toda a sua atenção concentrada numa canção de amor, um amor jovem e confiante. O tipo de amor, pensou Shawn, caprichoso como o vento, mas divertido enquanto durava. Uma melodia para dançar, decidiu ele, que exigiria pés ágeis e rápidos, um flirt incessante.

 

Poderia apresentá-la no pub, depois de limar um pouco mais as arestas. Talvez conseguisse persuadir Darcy a cantá-la. A voz da irmã era a mais apropriada para a canção.

 

Demasiado aconchegado na cozinha para se dar ao trabalho de ir até à sala, onde instalara o velho piano que comprara ao mudar-se para o chalé, Shawn marcava o ritmo com o pé, enquanto trabalhava na letra.

 

Não ouviu as batidas na porta da frente, o barulho dos passos no corredor nem o resmoneio irritado.

 

Era típico, pensou Brenna. De novo perdido num mundo qualquer de sonhos, enquanto a vida continuava em seu redor. Ela nem sabia porque se dera ao trabalho de bater à porta. Afinal, Shawn quase nunca ouvia; além disso, estavam os dois acostumados a entrar, sem bater, na casa um do outro, desde a infância.

 

Só que já não eram crianças. Por isso, ela preferia bater antes de entrar, para não se deparar com alguma coisa que não gostasse de ver.

 

Tanto quanto ela sabia, Shawn poderia ter uma mulher no chalé. Ele atraía-as, como água com açúcar atrai abelhas. Não que ele fosse doce, necessariamente. Mas bem que poderia ser.

 

Como era bonito! O pensamento aflorou espontaneamente na sua mente, e Brenna detestou-se por isso. Mas, no final de contas, era difícil não notar isso.

 

Aquele lindo cabelo preto que parecia algo desleixado, já que Shawn nunca se lembrava quando era tempo de o cortar. Olhos tranquilos, de um azul sonhador... a não ser quando alguma coisa o excitava, pois nessas ocasiões eram capazes de se inflamar, frios ou quentes, de igual forma. Shawn tinha pestanas pretas e longas, pelas quais as quatro irmãs de Brenna venderiam a própria alma. A boca era cheia e firme; na opinião de Brenna, feita para beijos longos e palavras suaves.

 

Embora ela não tivesse qualquer experiência pessoal, ouvira comentários.

 

O nariz era comprido e um pouco torto, resultado de uma Une drive, a bola arremessada no basebol que sai baixa, rápida e directa. Fora ela quem a lançara, quando jogavam juntos, há mais de dez anos.

 

Tendo tudo em conta, Shawn tinha o rosto de um príncipe do mundo das fadas. Ou de um galante cavaleiro andante numa busca interminável. Ou de um anjo um pouco desleixado. Acrescentando-se a isso o corpo comprimido e esguio, as mãos maravilhosas, de palmas largas, dedos de artista, a voz como uísque aquecido por fogo de turfa, a embalagem admirável estava completa.

 

Não que ela tivesse algum interesse pessoal. Apenas apreciava as coisas que eram bem feitas.

 

E era uma mentirosa incorrigível. Até a si mesma mentia.

 

Sentia atracção por Shawn antes mesmo de acertar com a bola no seu nariz... e tinha catorze anos contra os dezanove dele na ocasião. Uma atracção assim tendia a tornar-se algo mais quente, mais intenso, quando a rapariga se tornava uma mulher de vinte e quatro anos.

 

Só que Shawn nunca a contemplara como mulher.

 

Ainda bem, Brenna pensou, enquanto mudava de posição. Não tinha tempo para perder com homens como Shawn Gallagher. Algumas pessoas precisavam de trabalhar.

 

Com um sorriso irónico, ela baixou devagar a caixa com as ferramentas, para depois a deixar cair, com o maior estardalhaço. O facto de ele ter saltado como um coelho ao ouvir um disparo deixou-a satisfeita.

 

- Santo Deus! - Shawn virou-se na cadeira, num movimento brusco. Apertou o peito, como se estivesse a fazer com que o coração batesse de novo. - O que aconteceu?

 

- Nada. - Brenna manteve o sorriso. - Dedos de manteiga.

 

- Ela falou num tom doce, tornando a pegar na caixa. - Apanhaste um susto, hein?

 

- Quase me mataste.

 

- Eu bem que bati à porta, mas tu não te deste ao trabalho de te levantares para a abrir.

 

- Não ouvi. - Shawn suspirou. Empurrou os cabelos para trás. Franziu o rosto. - A OToole veio fazer uma visita. Há aqui algo avariado?

 

- A tua mente é igual a um balde enferrujado. - Brenna tirou o casaco e largou-o no espaldar de uma cadeira. Acenou com a cabeça para o fogão. - O teu forno não funciona há uma semana. E a peça que encomendei acaba de chegar. Queres que o conserte ou não?

 

Ele soltou um grunhido de concordância, acenando com a mão.

 

- Biscoitos? - disse Brenna, enquanto passava pela mesa. - Que tipo de pequeno-almoço é esse para um homem crescido?

 

- Estavam aqui. - Shawn sorriu, da forma que a deixava com vontade de o aconchegar no seu colo. - É uma chatice, cozinhar apenas para mim de manhã. Mas, se estiveres com fome, posso fazer alguma coisa para nós os dois.

 

- Não precisas de te incomodar. Já comi. - Ela voltou a largar a caixa no chão, ao lado do fogão. Abriu-a e começou a vasculhar lá dentro.

 

- Tu sabes que a minha mãe faz sempre mais comida do que é necessário. Ela ficaria feliz se aparecesses por lá qualquer dia para um café da manhã.

 

- Dispara um foguete de sinalização quando ela fizer aquelas panquecas especiais. Mas não queres tomar um chá? O bule ainda está quente.

 

- Não me importaria. - Enquanto escolhia as ferramentas e pegava na peça nova, Brenna observou os pés de Shawn, a circular pela cozinha. - O que estavas a fazer? A compor?

 

- A procurar palavras para a letra de uma melodia. - respondeu ele, distraído. Os seus olhos haviam focado o voo de um pássaro solitário, preto e lustroso, contra o céu cinzento. - Parece que está muito frio lá fora.

 

- Frio e húmido. O Inverno ainda mal começou e já estou a torcer para que acabe em breve.

 

- Aquece um pouco os ossos.

 

Shawn baixou-se com uma caneca de chá, preparado da forma como sabia que ela gostava, forte, com bastante açúcar.

 

- Obrigada.

 

O calor da caneca passou para as mãos de Brenna quando pegou nela.

 

Ele permaneceu agachado, tomando o seu chá. Os joelhos encostavam-se, numa atitude de companheirismo.

 

- O que vais fazer com esse ferro velho?

 

- Que importância tem isso para ti, desde que volte a funcionar? Shawn alteou uma sobrancelha.

 

- Se eu souber o que tu fizeste, posso ser eu a consertar na próxima vez.

 

O comentário fê-la rir-se tanto, que teve de se sentar no chão, para não perder o equilíbrio.

 

- Tu? Oh, Shawn, não és sequer capaz de dar um jeito na tua unha partida.

 

- Claro que sou.

 

Sorrindo, ele fez o gesto de roer uma unha, o que levou Brenna a uma nova gargalhada.

 

- Não te metas no que vou fazer nas entranhas desta coisa, e eu também não me envolverei com o próximo bolo que tu preparares aqui. Afinal, cada um tem as suas habilidades.

 

- Até parece que nunca usei uma chave de fendas. - murmurou ele, pegando numa das que estavam na caixa.

 

- E eu também já usei uma batedeira. Mas sei qual das duas coisas se ajusta melhor na minha mão.

 

Brenna tirou-lhe a chave de fendas. Mudou de posição, enfiando a cabeça dentro do forno, para começar a trabalhar.

 

Ela tinha mãos pequenas, pensou Shawn. Um homem poderia considerá-las delicadas, se não soubesse o que eram capazes de fazer. Já a

observara a manejar um martelo, a empunhar um berbequim, a levantar madeira, a apertar uma rosca. Na maior parte do tempo, aquelas pequenas mãos de fada estavam cortadas, arranhadas ou lesionadas nas articulações.

 

Era uma mulher pequena para o trabalho que escolhera... ou fora o trabalho que a escolhera, pensou Shawn, enquanto se erguia. Sabia como isso era. O pai de Brenna consertava tudo, e a filha mais velha saíra a ele. Assim como se dizia que Shawn saíra à mãe da sua mãe, que muitas vezes se esquecia de lavar a roupa ou fazer o jantar, enquanto tocava a sua música.

 

Enquanto ele começava a recuar, Brenna mexeu-se, com o rabo a apertar-se ao fazer força para tirar um parafuso. Shawn franziu as sobrancelhas, no que considerou ser apenas o interesse reflexivo de um homem por uma parte atraente da anatomia feminina.

 

Afinal, Brenna tinha um corpo esguio e firme. E um homem poderia apalpar tudo aquilo com apenas uma das mãos. Mas, se alguém tentasse, Shawn imaginava que Brenna OToole o deixaria estendido no chão, inconsciente.

 

A ideia fê-lo sorrir.

 

De qualquer forma, preferia sempre contemplar o rosto de Brenna. Era extraordinário. Os olhos faiscavam, de um verde profundo, sob sobrancelhas elegantes, apenas um pouco mais escuras do que os cabelos ruivos lustrosos. A boca estava sempre preparada para sorrir, entreabrir-se em desprezo ou contrair-se em fúria. Brenna raramente usava baton - ou qualquer outra maquilhagem no resto do seu rosto, diga-se de passagem -, embora fosse unha e carne com Darcy, que não punha os pés fora de casa enquanto não estivesse pintada com perfeição.

 

O nariz era pequeno e arrebitado, com a tendência para tremer em desaprovação ou desdém. Na maioria das vezes, os cabelos ficavam presos sob o boné, onde ela prendera a pequena fada que Shawn lhe havia dado, anos antes, por algum motivo que já não se conseguia lembrar. Mas, quando Brenna tirava o boné, parecia haver quilómetros de cabelos de um ruivo forte e brilhante, todo encrespado.

 

O que combinava com ela.

 

Como queria ver de novo aquele rosto, antes de partir para o pub, Shawn encostou-se ao balcão, relaxado. Sorriu na expectativa.

 

- Ouvi dizer que andas a sair com o Jack Brennan.

 

Brenna levantou a cabeça abruptamente, batendo na parte superior do forno, com um estrondo. Shawn estremeceu. Por uma questão de sensatez, tratou de reprimir o riso.

 

- Não ando, não! - Como ele esperava, Brenna tirou a cabeça de dentro do forno. Havia um pouco de fuligem no nariz. Enquanto esfregava a cabeça dolorida, ela entortou o boné. - Quem disse?

 

- Hum... - Com ar inocente, como três cordeiros, Shawn encolheu os ombros e terminou de tomar o chá. - Pensei ter ouvido por aí, em qualquer lugar. Sabes como são essas coisas.

 

- Vives com a cabeça nas nuvens e não prestas atenção a nada. Não ando a sair com ninguém. Não tenho tempo para essas idiotices.

 

Irritada, Brenna voltou a enfiar a cabeça dentro do forno.

 

- Nesse caso, estou enganado. O que pode acontecer com a maior das facilidades hoje em dia, numa altura em que a aldeia está cheia de romance. Noivados, casamentos e bebés a caminho.

 

- Pelo menos essa é a ordem apropriada.

 

Shawn soltou uma gargalhada. Voltou a ajoelhar-se ao lado de Brenna. Num gesto cordial, pousou a mão no rabo dela, mas não notou que ela ficou subitamente imóvel.

 

- O Aidan e a Jude já estão a escolher nomes, e ela mal completou dois meses de gravidez. Formam um casal adorável, não achas?

 

- Acho. - Brenna sentia a boca ressequida com o anseio, perigosamente próximo da necessidade. - É bom vê-los felizes. A Jude gosta de acreditar que o chalé é mágico. Apaixonou-se pelo Aidan aqui, iniciou uma vida nova, escreveu o seu livro. Diz que todas as coisas com que tinha até medo de sonhar aconteceram ao mesmo tempo. Tudo aqui.

 

- É um chalé adorável. Tem algo de diferente. - Shawn falava em parte para si mesmo. - Pode-se sentir em momentos inesperados. Quando se cai no sono ou se acaba de acordar. É como... uma sensação de espera.

 

Com a nova peça no lugar, Brenna tirou a cabeça do forno. Ele subiu a mão pelas suas costas, tranquilo, depois afastou-a.

 

- Já viste a Lady Gwen?

 

- Não. Às vezes sinto uma espécie de movimento no ar, à beira do meu campo de visão. Mas, quando viro a cabeça, não vejo nada. - Shawn afastou-se dela. Sorriu e levantou-se. - Talvez ela não queira que eu a veja.

 

- Eu diria que és o candidato perfeito para um fantasma com o coração partido. - Brenna desviou os olhos da expressão surpresa de Shawn. Mexeu nos botões do fogão, enquanto acrescentava. - Agora já deve funcionar em condições. Vamos a ver se está a aquecer.

 

- Podes verificar por mim, querida? - O alarme do forno tocou, provocando um sobressalto em ambos. - Tenho de ir agora.

 

Ele inclinou-se para desligar o alarme.

 

- É esse o teu sistema de alerta?

 

- Um deles. - Shawn levantou um dedo. Como se fosse uma deixa, o despertador no quarto começou a tocar. - É a segunda ronda. Mas vai desligar-se automaticamente, quando a corda acabar. Se não fosse assim, eu teria de subir a correr para o desligar todos os dias.

 

- Quando precisas és bastante esperto, não és?

 

- Tenho os meus momentos. O gato saiu. - Shawn pegou no casaco, pendurado num gancho. - Não tenhas pena dele, se voltar para arranhar a porta. O Bub sabia no que se estava a meter quando insistiu em se mudar para cá comigo.

 

- Lembraste-te de lhe dar comida?

 

- Não sou um idiota chapado. - Sem se sentir ofendido, Shawn passou o cachecol em torno do pescoço. - Ele tem comida suficiente... e se não tiver, vai suplicar à porta da tua cozinha. É capaz de fazer qualquer coisa só para me envergonhar. - Shawn colocou o boné na cabeça, enquanto acrescentava: - Vais aparecer no pub?

 

- É bem provável.

 

Brenna não suspirou, até ouvir a porta da frente ser fechada.

 

Qualquer anseio por Shawn Gallagher era um absurdo, disse ela a si mesma. Pois Shawn jamais sentiria a mesma coisa por ela. Pensava nela como uma irmã... ou, pior ainda, compreendeu Brenna, como uma espécie de irmão honorário.

 

E era também culpa dela, admitiu Brenna, olhando para as gastas calças de trabalho e as botas arranhadas. Shawn gostava do tipo feminino, e ela estava longe disso. Poderia tentar arranjar-se. Entre Darcy e as suas irmãs, além de Jude, é claro, não haveria limite de consultas sobre o embelezamento de Brenna OToole.

 

Mas, além do facto de ela detestar todo esse trabalho e confusão, qual seria o sentido? Se, por acaso, se arranjasse e se maquilhasse, se apertasse e se enfeitasse para atrair um homem, ele não seria atraído pelo que ela era de facto.

 

E, de qualquer maneira, se pusesse baton e usasse jóias, acompanhando algum vestido insinuante, Shawn provavelmente riria até mais não poder, para depois fazer qualquer comentário idiota, que não lhe deixaria outra opção senão acertar-lhe com um soco na sua cara.

 

Não fazia mesmo qualquer sentido.

 

Deixaria a fantasia para Darcy, que era a campeã da aparência feminina. E para as suas irmãs, que gostavam dessas coisas, pensou Brenna. Quanto a ela... continuaria com as suas ferramentas.

 

Brenna voltou a concentrar-se no forno. Ligou-o em diferentes temperaturas. Verificou a grelha, apenas por precaução. Satisfeita por estar a funcionar em ordem, desligou-o e guardou as suas ferramentas.

 

Pretendia sair sem demoras. Afinal, não havia qualquer motivo para ficar por mais tempo. Mas o chalé era muito aconchegante. Um lugar em que sempre se sentira à vontade. Quando a velha Maude Fitzgerald vivera ali, por mais anos do que Brenna poderia contar, Brenna aparecia com frequência para uma visita.

 

Depois, Maude morrera, e Jude viera dos Estados Unidos para passar uma temporada no chalé. Haviam-se tornado amigas. Por isso, fora fácil retomar a rotina de parar ali de vez em quando, ao voltar para casa ou a caminho da aldeia.

 

Brenna ignorava o impulso de parar com mais frequência, agora que Shawn morava ali. Mas era difícil resistir. Gostava do sossego do chalé e de todas as coisas bonitas que Maude acumulara ao longo dos anos. Jude deixara tudo no lugar, e Shawn parecia contente em fazer a mesma coisa. A pequena sala continuava alegre como sempre, com os seus adornos, as estatuetas encantadoras de fadas e magos, com os livros e o velho tapete desbotado.

 

É verdade que agora, após Shawn ter posto o piano em segunda mão no espaço restrito, quase não dava para uma pessoa se virar. Mas Brenna achava que o piano aumentava o charme. E a velha Maude sempre gostara de música.

 

Ela ficaria satisfeita, pensou Brenna, enquanto passava um dedo pela madeira preta escalavrada, porque havia alguém a fazer música no seu chalé outra vez.

 

Distraída, ela deu uma vista de olhos pelas partituras que Shawn deixara em cima do piano. Ele estava sempre a compor uma nova canção ou a mudar alguma coisa numa canção antiga. Brenna franziu o rosto, enquanto estudava os rabiscos e os pontos. Podia cantar, é verdade, de preferência uma canção de protesto, sem fazer com que algum cachorro uivasse em resposta. Mas tocar era muito diferente.

 

Como estava sozinha, ela decidiu satisfazer a sua curiosidade. Tornou a largar a caixa de ferramentas no chão, pegou numa partitura e sentou-se ao piano. Com alguma dificuldade, mordendo o lábio, encontrou o dó médio no teclado. Lentamente, começou a tocar, uma nota de cada vez.

 

Era adorável, é claro. Tudo o que Shawn compunha era lindo. Nem mesmo a maneira lamentável como ela tocava poderia acabar com a beleza da música.

 

Ele acrescentara palavras àquela melodia, como fazia com frequência. Brenna limpou a garganta e tentou adaptar a voz a cada nota.

 

A noite, quando estou sozinho e a lua derrama as suas lágrimas, sei que o mundo voltaria a ser maravilhoso se estivesses aqui.

 

Sem ti, o meu coração fica vazio, apenas com as lembranças que guarda. Tu, só tu, existes dentro de mim, à noite, quando a lua chora.

 

Brenna parou. Suspirou, já que não havia ninguém que a ouvisse. As canções de Shawn deixavam-na sempre comovida, mas desta vez era um pouco mais profundo. E um pouco mais genuíno.

 

Lágrimas da lua, pensou ela. Pérolas para Lady Gwen. Um amor que pedia, mas não conseguia ser atendido.

 

- É muito triste, Shawn. O que há dentro de ti para compores uma música de tanta solidão?

 

Por melhor que o conhecesse, Brenna não sabia qual era a resposta para essa indagação. E bem que gostaria de saber. Sempre quisera conhecer a chave para Shawn. Mas ele não era como um motor ou uma máquina, que ela podia desmontar para saber como funcionava. Os homens eram mais complicados, enigmas frustrantes.

 

Era o segredo de Shawn, o seu talento, pensou Brenna. Tudo interior e misterioso. Enquanto as suas próprias habilidades eram... Ela olhou para as mãos pequenas e eficientes. As suas habilidades eram as mais simples possíveis.

 

Mas pelo menos ela tirava um bom proveito e ganhava a vida com o que sabia fazer. E o que Shawn fazia com o seu enorme talento, a não ser sentar-se e sonhar? Se ele tivesse um pingo de ambição, ou um orgulho sincero pelo seu trabalho, venderia as suas canções, em vez de apenas compô-las e guardá-las em caixas.

 

O homem precisava de um bom pontapé no rabo por desperdiçar o talento que Deus lhe dera.

 

Mas isso, pensou Brenna, era uma irritação para outro dia. Agora, tinha o seu trabalho para fazer.

 

Ela começou a levantar-se, estendendo a mão para a caixa de ferramentas. E foi nesse instante que um movimento atraiu a sua atenção. Empertigou-se toda, mortificada ao pensar que Shawn voltara - ele passava a vida a esquecer-se de algo - para a surpreender a tocar a sua canção.

 

Mas não era Shawn quem parara à porta.

 

A mulher tinha cabelos dourados, mais para o claro, caindo em torno dos ombros. Usava um vestido cinzento, simples, que descia até ao chão. Os olhos eram de um verde suave, o sorriso tão triste que partia o coração ao primeiro olhar.

 

Reconhecimento, choque e uma exaltação inebriante envolveram Brenna ao mesmo tempo. Ela abriu a boca, mas o que quer que fosse que tencionava dizer saiu num chio, enquanto o seu coração disparava.

 

Tentou de novo, um pouco embaraçada ao descobrir que os seus joelhos tremiam.

 

- Lady Gwen... - balbuciou ela.

 

E achou que era admirável ainda ter conseguido dizer isso, ao deparar-se com um fantasma de trezentos anos.

 

Enquanto a observava, uma única lágrima, brilhante como prata, deslizou pelo rosto da mulher.

 

- O coração dele está na canção. - A voz era tão suave como pétalas de rosa, mas, mesmo assim, deixou Brenna a tremer. - Presta atenção.

 

- O que...

 

Mas antes que pudesse concluir a pergunta, Brenna descobriu-se sozinha, apenas com a fragrância de rosas silvestres a pairar no ar.

 

- Essa não! - Ela tinha de se sentar. Não havia como evitar. E sentou-se no banco do piano. - Essa não! - Murmurou outra vez.

 

Teve de respirar fundo, várias vezes, até o coração parar de bater fortemente dentro do peito.

 

Quando achou que as pernas seriam capazes de a sustentar de novo, decidiu que era melhor contar a história a alguma pessoa, sábia, sensata e compreensiva. E não conhecia ninguém que se ajustasse a esses requisitos tão bem como a sua mãe.

 

Acalmou-se ainda mais no curto percurso até à sua casa. Ficava fora da estrada, quase como se fosse um quebra-cabeças, com peças acrescentadas aqui e ali ao longo dos anos. Ela própria ajudara a construir algumas. Quando o pai tinha uma ideia para aumentar a casa, Brenna tinha o maior prazer em ajudá-lo, serrando e martelando. Algumas das suas lembranças mais felizes eram do trabalho ao lado de Michael OToole, que gostava de assobiar enquanto fazia as coisas.

 

Ela parou atrás do carro velho da mãe. Precisavam de pintar aquela lata velha, pensou Brenna, distraída, como sempre fazia. A fumaça saía pela chaminé.

 

Lá dentro, havia aconchego e calor, o cheiro da comida da manhã. Ela encontrou a mãe, Mollie, na cozinha, tirando o pão do forno.

 

- Mãe...

 

- Santo Deus, rapariga! Pregaste-me um susto.

 

Com uma gargalhada, Mollie colocou o tabuleiro em cima do fogão. Virou-se para a filha, sorrindo. Tinha um rosto bonito, ainda jovem e liso, com os cabelos ruivos que legara à filha presos no alto da cabeça, por conveniência.

 

- Desculpa. Estás a ouvir música.

 

- É pela companhia.

 

Mollie estendeu a mão para desligar o rádio. Por baixo da mesa, Betty, a cadela amarela da família, virou-se e soltou um gemido.

 

- Porque voltaste tão cedo para casa? Pensei que tinhas trabalho para fazer.

 

- Tinha. E tenho. Preciso de ir à aldeia ajudar o pai. Mas passei no Faerie Hill para consertar o forno do Shawn.

 

- Hum...

 

Mollie virou-se, para tirar os pães do tabuleiro, e deixá-los numa armação até esfriarem.

 

- O Shawn saiu antes que eu acabasse. Por isso, fiquei mais algum tempo no chalé. - Quando Mollie voltou a soltar o mesmo grunhido distraído, Brenna mudou de posição. - E quando eu já ia sair... Lady Gwen apareceu.

 

- Hum... Como?

 

Finalmente registando as palavras da filha, Mollie virou a cabeça para a fitar.

 

- Eu vi-a. Eu estava a tocar algumas notas no piano. Quando virei a cabeça, avistei-a na entrada da sala.

 

- Deve ter sido um susto e tanto.

 

Brenna suspirou. Mollie O'Toole era mesmo uma pessoa sensata, abençoada fosse.

 

- Fiquei tão atordoada que quase engoli a língua. Ela é mesmo muito bonita, como a velha Maude costumava dizer. E triste. Uma tristeza tão profunda que parte o coração.

 

- Sempre tive a esperança de a ver. - uma mulher prática, Mollie serviu duas chávenas de chá e levou-as para a mesa. - Só que isso nunca aconteceu.

 

- Sei que o Aidan falou durante anos que a via. E depois foi a vez da Jude, quando se instalou no chalé. - Relaxada de novo, Brenna sentou-se à mesa. - Eu tinha acabado de conversar com o Shawn sobre Lady Gwen. Ele disse que nunca a vira... sentira, mas não vira. E, de repente, lá estava ela, a aparecer para mim. Por que razão achas que isso aconteceu?

 

- Não sei, querida. O que sentiste?

 

- Além de um choque pela surpresa, acho que compaixão. E depois perplexidade, porque não entendi o que ela me disse.

 

- Lady Gwen falou contigo? - Os olhos de Mollie arregalaram-se.

- Nunca soube que ela tenha falado com qualquer pessoa. Nem mesmo com Maude, que me teria contado. O que disse Lady Gwen?

 

- O coração dele está na canção. E acrescentou que eu deveria prestar atenção. Quando recuperei o controlo, para perguntar o que isso significava, ela já havia desaparecido.

 

- Já que é o Shawn quem ali mora agora, e era o piano dele que estavas a tocar, eu diria que a mensagem foi bastante clara.

 

- Mas eu oiço a música dele durante todo o tempo. Não se pode ficar cinco minutos na companhia de Shawn sem a ouvir.

 

Mollie tinha intenção de falar. Mas mudou de ideias, Limitou-se a colocar a mão sobre a da filha. A sua querida Mary Brenna, pensou ela, tinha a maior das dificuldades em reconhecer qualquer coisa que não pudesse desmontar e montar de novo.

 

- Eu diria que vais acabar por perceber, quando chegar o momento.

 

- Ela faz com que a gente sinta vontade de a ajudar. - murmurou Brenna.

 

- És uma boa rapariga, Mary Brenna. Talvez, antes de tudo acabar, possas mesmo ajudá-la.

 

                                                     CAPÍTULO DOIS

Como fazia frio e o vento soprava forte, Shawn optou por preparar um mulligan, um cozido com vários ingredientes disponíveis. A manhã sossegada na cozinha dopub era um dos seus momentos predilectos. Enquanto cortava os legumes e dourava pedaços de cordeiro, ele desfrutava dos últimos minutos de solidão, antes que o pub abrisse as portas.

 

Dali a pouco, Aidan estaria a perguntar se ele fizera isto ou aquilo, se já tratara de alguma coisa. Depois, Darcy começaria a movimentar-se lá em cima, os passos a ressoar pelo soalho, o eco da música mais condizente com o seu ânimo naquele dia a descer pela escada dos fundos.

 

Mas, por enquanto, o Gallaghers era todo seu.

 

Shawn não queria a responsabilidade de o dirigir. Preferia deixar isso para Aidan. Sentia-se grato por ser o segundo filho. Mas o pub era importante para ele, uma tradição que passava de geração para geração, desde que Shamus Gallagher, juntamente com a mulher, construíra o prédio na Baía de Ardmore e abrira as portas para oferecer hospitalidade, abrigo e bom uísque.

 

Ele nascera filho de comerciante e compreendia que o trabalho ali era proporcionar conforto a todos os que entrassem no pub. Ao longo dos anos, o Gallaghers passara a significar conforto para todos que o conheciam. Tornara-se famoso também pela sua música, o chamado seisiun, uma reunião informal de músicos tradicionais. Apresentava ainda espectáculos mais estruturados, com músicos contratados de todas as partes do país.

 

O amor de Shawn pela música viera por meio dopub, ou seja, pelo sangue. Era parte dele tanto quanto os olhos azuis, ou o jeito do seu sorriso.

 

Havia poucas coisas de que ele gostava mais do que trabalhar na cozinha ouvindo a música que alguém tocava no pub. É verdade que havia ocasiões em que se sentia compelido a largar o que fazia e a participar na música. Mas que mal havia, se todos acabavam por receber o que pediam, mais cedo ou mais tarde?

 

Era raro - não impossível, mas raro - que ele deixasse alguma comida queimar na panela ou permitisse que um prato fosse servido frio. Afinal, orgulhava-se da sua cozinha e de tudo o que dela saía.

 

Agora, o vapor começava a elevar-se da panela, impregnando o ar com um aroma apetitoso, enquanto o caldo engrossava. Shawn acrescentou manjericão e alecrim, da horta que fizera. Era uma ideia nova usar aquelas ervas que ele cultivava; inspiração de Mollie OToole. Ele considerava-a a melhor cozinheira da paróquia.

 

Também acrescentou manjerona, mas essa foi tirada de um pote. Tencionava plantá-la, usando o que Jude dissera ter o nome de grow light, uma lâmpada fluorescente que ajudava certas plantas a crescer. Depois de satisfeito com a mistura de ervas, verificou os outros pratos no cardápio. Começou a cortar repolho para a salada, que preparava aos quilos.

 

Ouviu os primeiros passos lá em cima, depois a música. Música britânica hoje, pensou Shawn, reconhecendo a sucessão hábil e sofisticada das notas. Satisfeito com a escolha de Darcy, ele cantou em conjunto com Annie Lennox, até que Aidan entrou na cozinha.

 

Aidan tinha vestida uma grossa camisola de pescador para se proteger do frio. Era mais corpulento do que o irmão, com os ombros mais largos. Os cabelos eram da mesma tonalidade de castanho-escuro do balcão do pub, com reflexos ruivos ao sol. Embora o rosto de Shawn fosse mais enxuto, os olhos de um azul mais suave, os genes da família ainda predominavam. Ninguém que os visse juntos duvidaria de que eram irmãos.

 

Aidan alteou uma sobrancelha.

 

- De que te estás a rir?

 

- De ti. - respondeu Shawn, descontraído. - Tens a expressão de um homem contente e satisfeito.

 

- E porque não deveria ter?

 

- Tens razão. - Shawn despejou, do bule para uma caneca, o chá que já preparara. - E como se sente a nossa Jude esta manhã?

 

- Sentiu náuseas assim que se levantou, mas parece não se importar. - Aidan bebeu um gole do chá. Soltou um suspiro. - Não me envergonho de dizer que sinto o estômago às voltas ao vê-la empalidecer no instante em que sai da cama. Depois de uma hora, mais ou menos, ela volta ao normal. Mas é uma hora comprida para mim.

 

Shawn encostou-se ao balcão, também com uma caneca nas mãos.

 

- Não gostaria de ser mulher por nenhuma quantia de dinheiro do mundo. Queres que eu lhe leve o guisado mais tarde? Ou talvez uma canja, se ela se sentir melhor com alguma coisa mais leve.

 

- Acho que ela pode aguentar o guisado. Tenho a certeza de que ficará agradecida... e eu também.

 

- Não há problema. Estou a fazer um guisado mulligan, como prato do dia. Estou a pensar em fazer também um pudim de pão e manteiga. Podes acrescentá-lo ao prato do dia.

 

O telefone começou a tocar. Aidan revirou os olhos.

 

Espero que não seja o distribuidor a avisar que temos outro problema. O nosso stock de cerveja preta é menor do que me agrada.

 

E isso, pensou Shawn, enquanto o irmão deixava a cozinha para atender o telefone, era apenas um dos muitos motivos pelos quais se sentia contente em deixar que Aidan cuidasse da parte dos negócios no pub.

 

Todos aqueles cálculos e planeamento, pensou Shawn, enquanto reflectia sobre quantos quilos de peixe ele precisaria para fazer face ao movimento do dia. E Aidan ainda tinha de lidar com as pessoas, argumentar, exigir, insistir. Não era apenas ficar de pé no outro lado do balcão, a encher canecas e a ouvir o velho Sr. Riley contar uma história.

 

Havia outras coisas a considerar, como registos bancários, despesas gerais, taxa de manutenção e impostos. Era suficiente para deixar qualquer um com dores de cabeça, só de pensar nisso.

 

Shawn verificou o guisado. Mexeu uma vez rapidamente a enorme panela, depois foi até à escada dos fundos e chamou Darcy, gritando para que deixasse de ser preguiçosa e descesse rapidamente. Falou assim por hábito, sem qualquer irritação. O insulto que ela gritou em resposta foi da mesma espécie.

 

Satisfeito com o começo do seu dia, Shawn deixou a cozinha, a fim de ajudar Aidan a tirar as cadeiras de cima das mesas, como preparativo para o primeiro turno.

 

Mas Aidan estava parado ao lado do balcão, o rosto franzido, o olhar perdido no espaço.

 

- Problemas com o distribuidor?

 

- Não, não foi isso. - Aidan olhou para o irmão. - Era uma ligação de Nova Iorque. Um homem chamado Magee.

 

- Nova Iorque? É estranho, porque lá ainda nem são cinco horas da manhã.

 

- Eu sei. Mas o homem parecia bem desperto e sóbrio. - Aidan coçou a cabeça. Sacudiu-a. Levantou a caneca com o chá. - Ele quer montar um auditório em Ardmore.

 

- Um auditório? - Shawn pôs a primeira cadeira no chão. Apoiou-se nela. - Para funcionar como cinema?

 

- Não. Para música... música ao vivo. Talvez também apresente algumas peças de teatro. Disse que me estava a telefonar porque soubera que o Gahlaghers era o centro musical aqui. Queria a minha opinião acerca disso.

 

Pensativo, Shawn pôs outra cadeira no chão.

 

- E o que disseste?

 

- Não tinha nada para dizer, já que fui apanhado de surpresa. Pedi que me desse um ou dois dias para pensar acerca disso. Ele vai ligar-me de novo no fim-de-semana.

 

- Porque pensaria um homem de Nova Iorque em construir um auditório aqui? Não pensarias logo em Dublin? Ou então em Clare ou Galway?

 

- Foi parte do seu argumento. - Explicou Aidan. - Ele não se mostrou uma grande fonte de informações, mas deixou bem claro que queria esta área em particular. Comentei que talvez ele não soubesse que somos apenas uma aldeia de pescadores, não mais que isso. Claro que temos turistas nas praias, enquanto outros vêm visitar a catedral de São Declan, tirar fotos, essas coisas. Mas não se pode dizer que temos por aqui uma multidão animada.

 

Aidan encolheu os ombros, enquanto contornava o balcão para ajudar Shawn a arrumar as mesas.

 

- Ele limitou-se a rir. Disse que sabia de tudo isso, mas estava a pensar numa casa em pequena escala, para espectáculos mais íntimos.

 

- Posso dizer-te o que penso? - Quando Aidan balançou a cabeça, Shawn acrescentou: - Acho que é uma grande ideia. Se vai ou não dar certo, não sei, mas é uma grande ideia.

 

- Tenho de avaliar algumas coisas primeiro - murmurou Aidan.

- É mais do que provável que o homem reconsidere e opte por outro lugar mais movimentado.

 

- Mas se isso não acontecer, convence-o a construir a casa atrás do pub. Como parte da rotina, Shawn começou a pôr cinzeiros nas mesas. O terreno ali é nosso. Se o auditório ficar ligado de alguma ao Gallaghers, seríamos os mais beneficiados.

 

Aidan pôs a última cadeira no chão, sorrindo.

 

- É uma boa ideia. Surpreendes-me, Shawn, a pensar como um homem de negócios.

 

- De vez em quando, uma ou outra ideia costumam aflorar na minha cabeça.

 

Mas ele não pensou muito a respeito disso depois de o pub abrir e os clientes começarem a entrar. Ainda teve tempo para uma rápida e divertida briga com Darcy, que lhe proporcionou o prazer de a ver sair da cozinha em fúria, jurando que só voltaria a falar com ele depois de ele ter estado já seis anos na sepultura.

 

Shawn duvidava de que tivesse tanta sorte.

 

Ele serviu o guisado, fez peixe frito com batatas, preparou sandes com presunto e queijo quente. O zumbido constante de vozes no outro lado da porta era companhia suficiente. E durante a primeira hora do turno do almoço, Darcy cumpriu a palavra, de cara zangada, furiosa, enquanto entrava e saía, trazendo e levando os pratos. Olhava para a parede ao comunicar os novos pedidos.

 

Shawn estava a achar tão engraçado, que a agarrou e beijou na boca, ruidosamente, quando ela voltou à cozinha com os pratos vazios.

 

- Fala comigo, paixão. Estás a partir o meu coração.

 

Darcy empurrou-o, bateu nas suas mãos, irritada. Mas depois mudou de ideias e riu-se.

 

- Está bem, volto a falar contigo, seu casmurro. E agora quero que me soltes.

 

- Só depois de prometeres que não vais partir qualquer coisa na minha cabeça.

 

- O Aidan vai descontar do meu salário tudo o que eu partir, e tenho de poupar para um novo vestido.

 

Darcy atirou para trás a massa de cabelos pretos sedosos, torcendo o nariz para o irmão.

 

- Nesse caso, estou absolutamente seguro.

 

Shawn largou-a. Virou a posta de linguado que fritava na frigideira.

 

- Temos um casal de turistas alemães a querer experimentar o teu guisado, com pão degraham e salada de repolho. Estão hospedados no hotel. - Darcy falava sem parar, enquanto o irmão enchia as tigelas. - Disseram que vão para Kerry amanhã, e depois vão seguir para Clare. Se fosse eu, a ter férias em Janeiro, passaria o tempo todo na ensolarada Espanha ou em alguma ilha tropical, onde não se precisa de mais nada além de um biquini e um protector solar.

 

Ela vagueava pela cozinha enquanto falava, uma mulher de rosto deslumbrante, a pele cremosa, os olhos azuis a faiscar. Tinha uma boca cheia, com uma sensualidade ostensiva, quer estivesse de cara zangada ou a sorrir. Pintara-a de vermelho-ardente naquela manhã, a fim de se manter alegre num dia tão frio e horrível.

 

Tinha um corpo que não deixava qualquer dúvida sobre a sua feminilidade. A paixão pela moda concentrava-se em roupas de cores fortes e tecidos leves.

 

Possuía o anseio dos Gallagher em viajar e a determinação de o fazer no estilo com que sonhava. Na mais alta classe.

 

Como hoje não era o dia para isso, ela pegou na bandeja com a comida. Já ia deixar a cozinha, quando Brenna entrou.

 

- Onde te meteste desta vez? - Perguntou Darcy. - Estás com o rosto todo preto.

 

- Fuligem. - Brenna fungou e passou o dorso da mão pelo nariz.

- O meu pai e eu fomos limpar uma chaminé. Estava com muito lixo. Já consegui limpar-me quase completamente.

 

- Pensas assim porque ainda não te olhaste num espelho. Darcy deixou a cozinha, passando longe da amiga.

 

- Ela passaria o dia inteiro a olhar-se num espelho, se pudesse escolher. - Comentou Shawn. - Vieste almoçar?

 

- O meu pai e eu vamos querer o guisado. O aroma está delicioso. Brenna avançou, a fim de se servir. Mas Shawn interpôs-se entre ela e o seu precioso fogão.

 

- Prefiro servir eu mesmo, já que não limpaste tanta fuligem daquela chaminé quanto pareces pensar.

 

- Está bem. E também vamos querer um chá. Antes que eu me esqueça, preciso de conversar contigo mais tarde.

 

Shawn olhou para trás.

 

- Porque não podemos conversar agora? Estamos ambos aqui.

 

- Prefiro deixar para um momento em que não estejas tão ocupado. Voltarei depois do turno do almoço, se não te importares.

 

- Sabes onde me encontrar, certo? Shawn pôs o guisado e o chá numa bandeja.

 

- Claro que sei.

 

Brenna pegou na bandeja e levou-a para o último compartimento dopub, onde o pai esperava.

 

- Aqui está, pai. Guisado quente, saído directamente da panela.

 

- E cheira como o paraíso.

 

Mick OToole era como um garnisé, pequeno e magro, com uma massa de cabelos louro-avermelhados, olhos sempre animados, que oscilavam, como o mar, entre o verde e o azul.

 

Tinha um riso que parecia o zurrar de um burro, mãos como as de um cirurgião e um ponto fraco por histórias românticas.

 

Era o amor da vida de Brenna.

 

- É bom sentirmo-nos aquecidos e aconchegados agora, não achas, Mary Brenna?

 

- Tens toda a razão.

 

Brenna pegou num pouco do guisado com a colher. Soprou com todo o cuidado, pois o aroma, embora fosse tão apetitoso, deixava-a com vontade de correr o risco de ter a língua queimada.

 

- E agora que estamos aqui, prestes a encher a barriga, porque não me contas o que tanto te preocupa?

 

O pai percebia tudo, pensou Brenna. O que às vezes era um conforto, mas em algumas ocasiões poderia ser inconveniente.

 

- Não é uma preocupação tão grande. Lembras-te do que nos contaste que aconteceu quando eras jovem e a tua avó morreu?

 

- Lembro-me muito bem. Eu estava aqui mesmo, no Gallaghers Pub. Claro que foi no tempo em que o pai do Aidan trabalhava aqui, antes de partir para a América com a mulher. Tu não eras mais do que um desejo no meu coração e um sorriso nos olhos da tua mãe. Eu estava a consertar a pia, que não parava de pingar, o que levou o Gallagher a pedir a minha ajuda.

 

Ele fez uma pausa para provar o guisado. Depois, passou o guardanapo pelos lábios, já que a esposa era rigorosa com os modos à mesa, e o treinava de acordo com isso.

 

- Eu estava deitado no chão. Levantei os olhos e avistei a minha avó, a usar um vestido florido e um avental branco. Ela sorriu para mim. Quando tentei falar com ela, ela sacudiu a cabeça. Depois, levantou a mão, num gesto de despedida, e desapareceu. Compreendi naquele momento que ela havia morrido. Acabara de ver o seu espírito, que viera despedir-se. Eu era o seu neto predilecto.

 

- Não era minha intenção deixar-te triste. - Murmurou Brenna. Mick soltou um suspiro.

 

- Era uma boa mulher. Teve uma vida longa e proveitosa. Mas os vivos sentem sempre saudade dos que já não estão aqui.

 

Brenna lembrava-se do resto da história. Como o pai deixara o trabalho e correra até à pequena casa em que morava a avó, viúva há dois anos. Encontrara-a na cozinha, sentada à mesa, de vestido florido e avental branco. Tivera uma morte tranquila.

 

- Às vezes, aqueles que morrem sentem saudades dos outros.

- Comentou Brenna, escolhendo as palavras com o maior cuidado. - Vi Lady Gwen esta manhã, no Faerie Hill Cottage.

 

Mick balançou a cabeça. Inclinou-se para a frente, a fim de ouvir melhor o relato da filha.

 

- Pobre mulher... - murmurou ele, quando Brenna acabou. - É muito tempo para esperar que as coisas aconteçam.

 

- Algumas pessoas esperam muito. - Brenna olhou para Shawn, que saía da cozinha com uma bandeja cheia de pratos. - Quero conversar acerca disso com o Shawn, depois de o movimento no pub diminuir. A Darcy diz que uma torneira no apartamento dela não está a funcionar em condições. Acho que vou subir para dar uma vista de olhos, assim que acabarmos de almoçar. E depois poderei conversar com o Shawn. A menos que tenhas outra coisa que eu precise de fazer hoje.

 

- Hoje, amanhã... - Mick encolheu os ombros. - O que não fizermos num momento, faremos noutro. Vou dar um salto até ao hotel no penhasco para saber se eles já decidiram que quarto vão remodelar primeiro. - Ele fez uma pausa, piscando o olho à filha. - Podemos ter um bom trabalho durante todo o Inverno. Num lugar quente e seco.

 

- E onde te possas esgueirar para dar uma olhada na Mary Kate, que passa o dia inteiro no escritório a mexer naquele computador.

 

Mick sorriu, contrafeito.

 

- Eu não iria até lá muitas vezes. Mas fico satisfeito que ela tenha decidido aceitar um emprego perto de casa, depois de concluir a Universidade. Espero que ela encontre em breve um trabalho mais apropriado a tudo o que aprendeu, em Dublin ou Waterford City. Todas as minhas meninas estão a voar do ninho.

 

- Eu continuo. E ainda terás a Alice Mae por muitos anos.

 

- Mas sinto saudades do tempo em que tropeçava numa das minhas cinco meninas cada vez que me virava. Agora, Maureen já é casada, e a vez de Patty chegará na próxima Primavera. Não sei o que farei, querida, quando te ligares a um homem e me deixares.

 

- Ainda estou encalhada em casa, pai. - Ela cruzou os pés, ao terminar o guisado. - Os homens não perdem a cabeça ou o coração por mulheres como eu.

 

- O homem certo perderá.

 

Brenna teve de recorrer a todo o seu esforço para não olhar na direcção da cozinha.

 

- Não vou prender a respiração enquanto espero. De qualquer maneira, somos sócios, não é assim? - Ela levantou os olhos e sorriu para o pai. - Portanto, com homem ou sem homem, será sempre O'Toole e OToole.

 

E era assim que ela queria, pensou Brenna, enquanto usava a casa de banho da Darcy para lavar o resto da fuligem. Tinha um trabalho que lhe agradava, e a liberdade de ir e vir, que seria impossível para uma mulher presa a um homem.

 

Teria o seu quarto em casa enquanto quisesse. A companhia da família e dos amigos. Deixaria todos os problemas de cuidar de uma casa e agradar a um marido para as suas irmãs Maureen e Patty. Tal como deixaria para Mary Kate o problema de sair do escritório e marcar a hora no relógio de ponto.

 

As suas ferramentas e a carrinha eram tudo aquilo de que precisava para sobreviver.

 

E o seu anseio por Shawn Gallagher só lhe trazia frustração e irritação. Imaginava que um dia acabaria por lhe passar.

 

Como conhecia muito bem Darcy, Brenna teve o cuidado de deixar tudo limpo. O lavatório branco ficou impecável, e ela usou os seus próprios panos para enxugar o rosto e as mãos, em vez de pegar nas toalhas franjadas que Darcy deixava ao lado do lavatório. Na opinião de Brenna, era um completo desperdício de pano, porque ninguém que, de facto, precisasse, usaria toalhas assim.

 

A vida seria muito mais simples se todos comprassem toalhas pretas. - Não haveria gritos e insultos quando as toalhas brancas felpudas acabassem por ficar encardidas.

 

Ela passou alguns minutos a trocar a tomada da sala. Estava a aparafusar o espelho quando Darcy entrou.

 

- Eu tinha mesmo esperança que tratasses disso. Já começava a irritar-me. - Darcy despejou o dinheiro das gorjetas naquilo a que chamava pote dos desejos. - Antes que eu me esqueça, o Aidan pediu-me para te informar de que ele e a Jude querem renovar o quarto que será do bebé. Vou visitar a Jude agora. Se quiseres vir comigo, poderás saber o que ela quer.

 

- Tenho outra coisa para fazer antes, mas podes avisá-la de que passarei por lá mais tarde.

 

- Mas que treta, Brenna! Deixaste as marcas das tuas botas sujas por todo o chão!

 

Brenna estremeceu, enquanto se apressava a terminar de aparafusar o espelho da tomada.

 

- Peço desculpa, Darcy. Mas limpei o lavatório com todo o cuidado.

 

- Também podes limpar o chão. Não tenho a menor intenção de lavar o que sujas. Porque não usaste a casa de banho dopub? É a semana do Shawn limpar.

 

- Não me lembrei. E pára de reclamar, Vou limpar tudo antes de sair. Deverias agradecer-me pela tomada que acabei de consertar, antes que desse um curto-circuito.

 

- Obrigada por isso. - Darcy voltou-se, vestindo um casaco de couro que comprara como presente de Natal para si mesma. - Eu espero por ti na casa da Jude.

 

- Está bem. - Resmungou Brenna, irritada com a perspectiva de lavar o chão da casa de banho.

 

Ela continuou a resmungar enquanto trabalhava. Disse alguns palavrões, furiosa, quando notou que também havia terra e lama ressequida no soalho da sala. Para não provocar a ira de Darcy, pegou no aspirador e limpou tudo.

 

Em consequência, o pub estava silencioso quando ela desceu. Shawn quase acabara de lavar a louça.

 

- Quer então dizer que a Darcy te contratou para fazeres fascina no apartamento?

 

- Sujei tudo com lama. - À vontade, ela serviu-se de uma chávena de chá. - Não pretendia demorar tanto. E não te quero deter aqui, se precisares de fazer alguma coisa antes de começar o movimento do jantar.

 

- Não tenho nada para fazer. Mas quero tomar uma caneca de cerveja. Vais continuar com o chá?

 

- Por enquanto.

 

- Vou buscar a cerveja. Sobrou um pouco de pudim, se quiseres.

 

Brenna não queria verdadeiramente, mas como tinha uma fraqueza por doces, serviu algumas colheradas numa tigela. Estava sentada quando Shawn voltou com uma caneca de Harp.

 

- O Tim Riley garante que o tempo vai melhorar amanhã.

 

- Parece que ele acerta sempre.

 

- Mas teremos humidade por muito mais tempo. - Shawn sentou-se em frente de Brenna. - O que aconteceu?

 

- Eu já te conto. - Brenna experimentou uma dúzia de maneiras diferentes para começar, na sua mente. Optou pela que parecia melhor.

- Depois de teres deixado o chalé, esta manhã, fui até à sala para dar uma vista de olhos no tubo da chaminé.

 

Era uma mentira, claro, e ela estava preparada para a confessar ao padre. Mas não poderia dizer a Shawn que quisera tocar a sua música. O orgulho valia a penitência.

 

- Está em condições.

 

- Eu sei. - Brenna encolheu os ombros. - Mas é sempre melhor verificar essas coisas de vez em quando. Seja como for, quando me virei, deparei-me com ela na entrada da sala.

 

- Ela quem?

 

- Lady Gwen.

 

- Tu viste-a?

 

Shawn largou a caneca, a loiça a ressoar ao bater na madeira.

 

- Tão bem como te estou a ver agora. Ela estava ali parada, a sorrir para mim, muito triste. E depois...

 

Brenna não queria contar o que ouvira, mas sentia-se na obrigação. Uma coisa era dizer uma pequena mentira, outra coisa era enganá-lo.

 

- Depois o quê?

 

A rara demonstração de impaciência de Shawn deixou Brenna contrariada.

 

- Eu já ia dizer. E depois ela falou comigo.

 

- Falou contigo?

 

Shawn empurrou a cadeira para trás. Levantou-se e começou a andar de um lado para o outro da cozinha. Era uma reacção tão inesperada, que Brenna ficou espantada.

 

- O que te deu, Shawn?

 

- Sou eu quem mora no chalé, certo? Ela aparece para mim? Fala comigo? Não. Espera até tu ires consertar o forno e dares uma vista de olhos no tubo da chaminé para se mostrar.

 

- Lamento muito ter sido a escolhida pelo teu fantasma, mas não pedi isso, pois não?

 

Brenna encheu a boca com o pudim.

 

- Está bem, está bem... Não precisas de discutir comigo. - Com o rosto franzido, ele voltou a sentar-se. - O que disse ela?

 

Brenna olhou além de Shawn, enquanto comia o pudim. Quando Shawn revirou os olhos, ela pegou no chá e bebeu um gole.

 

- Desculpa, mas estavas a falar comigo? Ou há alguma outra pessoa aqui com quem tenhas decidido gritar sem qualquer motivo?

 

- Eu é que peço desculpa. - Shawn mostrou um sorriso, porque quase sempre funcionava. - Podes contar-me o que ela te disse?

 

- Já que decidiste pedir polidamente, vou dizer-te. Lady Gwen murmurou: "O coração dele está na canção" Pensei que ela se referia ao príncipe do mundo das fadas. Mas quando contei à minha mãe, ela comentou que poderia ser uma referência a ti.

 

- Se é verdade, não faço a menor ideia do que significa.

 

- Também não percebi. Mas queria saber se não te importarias se eu aparecesse por lá de vez em quando.

 

- Já apareces quando queres. Brenna irritou-se com o comentário.

 

- Se não queres a minha presença, basta dizeres.

 

- Não foi isso que eu disse. Comentei apenas que tu já apareces de vez em quando.

 

- Pensei em ir até ao chalé também durante a tua ausência. Como hoje. Só para saber se Lady Gwen voltará a aparecer. E posso aproveitar para arrumar algumas coisas enquanto lá estiver.

 

- Não precisas de procurar trabalho para aparecer. Serás sempre bem-vinda.

 

Brenna acalmou-se não só por ele ter dito isso, mas também porque era sincero.

 

- Eu sei, mas gosto de me manter ocupada. Assim, farei alguma coisa quando passar por lá de vez em quando, se não te importares.

 

- E vais contar-me se voltares a vê-la?

 

- Serás o primeiro a saber. - Brenna levantou-se, para levar a chávena e a tigela até à pia. - Tu achas...

 

A voz definhou. Ela sacudiu a cabeça.

 

- O que foi?

 

- Nada. Trenguice.

 

Shawn aproximou-se por trás. Pressionou a nuca de Brenna com os dedos ágeis. Ela teve vontade de se arquear toda e ronronar como uma gata. Mas sabia que não devia fazê-lo.

 

- Se não podes dizer trenguices a um amigo, com quem te vais poder abrir?

 

- Eu estava a pensar se o amor realmente dura assim tanto, além da morte e do tempo.

 

- É a única coisa que realmente dura.

 

- Já estiveste alguma vez apaixonado?

 

- Nada que fincasse raízes... e, se isso não acontecesse, acho que não é amor.

 

Brenna soltou um suspiro que surpreendeu os dois.

 

- Se finca raízes num, mas não no outro, deve ser a pior coisa do mundo.

 

Shawn sentiu o coração palpitar. Achou que a reacção era de compaixão.

 

- Brenna, querida, será que te apaixonaste por mim?

 

Ela virou-se abruptamente. Shawn fitava-a com tanta... com tanta afeição, tanta paciência e compaixão, que ela teve vontade de espancá-lo. Em vez disso, limitou-se a empurrá-lo. Pegou na sua caixa de ferramentas.

 

- Shawn Gallagher, decididamente és um idiota chapado!

 

Com o nariz empinado, as ferramentas a fazer um enorme estrondo na caixa, ela saiu da cozinha.

 

Shawn apenas balançou a cabeça. Depois, foi terminar de lavar a loiça. Com o coração a palpitar de novo, especulou por quem OToole estaria apaixonada.

 

Quem quer que fosse, pensou Shawn, batendo a porta de um armário com algum exagero, era melhor que o homem se mostrasse digno dela.

 

                                                    CAPÍTULO TRÊS

Brenna não estava no melhor dos ânimos quando entrou na casa dos Galla-gher. Não bateu à porta... nem pensou nisso. Entrava e saía daquela casa antiga, assim como Darcy entrava e saía da casa dos O'Toole, há tanto tempo quanto qualquer uma das duas se podia lembrar.

 

A casa passou por pequenas mudanças, ao longo dos anos. Ela e o pai haviam trocado o chão da cozinha - agora de um azul tão bonito quanto o céu do Verão - há apenas cinco Invernos. E ela própria pusera o papel de parede no quarto de Darcy, com aqueles adoráveis desenhos de botões de rosa, em Junho do ano passado.

 

Apesar de todas as remodelações, no entanto, o coração da casa permanecia igual. Era um lugar acolhedor, e parecia que a música ecoava entre as paredes, mesmo quando não havia ninguém a tocar.

 

Agora que Aidan e Jude moravam ali, havia sempre flores frescas em vasos, tigelas e garrafas. Porque Jude adorava flores. E Brenna sabia que a amiga tinha planos de criar um novo jardim na Primavera. Até conversara com Brenna sobre a construção de um caramanchão.

 

Teria de ser em estilo antigo, na opinião de Brenna, para combinar com a casa, em pedra e madeira, de crescimento desordenado. Ela já tinha uma ideia do que ficaria perfeito. Pouco a pouco, poderia trabalhar nisso.

 

No preciso momento em que Brenna entrou na casa, de cara séria, a gargalhada de Darcy desceu pelas escadas, fazendo-a contrair os lábios. A companhia das mulheres, reflectiu ela enquanto subia, era muito melhor que a dos homens.

 

Ou, pelo menos, do que grande parte dos homens, na maioria das vezes.

 

Brenna encontrou Darcy e Jude no que fora o quarto de Shawn, embora restasse pouca coisa dele ali, apenas a cama e a cómoda. Ele tinha levado para o chalé as estantes cheias de partituras, o violino e o bodhran, o tambor céltico tradicional.

 

O velho tapete continuava ali, castanho, desbotado. Brenna sentara-se nele por vezes incontáveis, fingindo estar entediada, enquanto Shawn tocava alguma música.

 

Na primeira vez em que se apaixonara, fora pela música de Shawn Gallagher. Acontecera há tanto tempo, pensou ela agora, que já não conseguia lembrar-se da canção ou da ocasião. Era uma daquelas músicas que pareciam ter sempre existido. Mas é claro que ela nunca o deixara perceber. Na sua opinião, as pessoas agiam mais depressa com estocadas do que com afagos. Embora Deus soubesse que nada, até agora, inspirara Shawn a mexer-se e fazer alguma coisa com as suas canções.

 

Brenna queria isso por ele, por aquele homem teimoso como uma mula. Queria que Shawn fizesse aquilo a que estava destinado, levando a sua música para o mundo.

 

Mas, Brenna lembrou-se a si mesma, isso não era da sua conta, e afligir-se com isso não era o motivo da sua visita agora.

 

O motivo, pensou ela, contraindo os lábios, era o problema de Jude.

 

Numa rápida avaliação, Brenna decidiu que as paredes estavam horríveis, com as marcas dos quadros e sabe-se lá mais o quê, pendurados por Shawn, a destacarem-se na tinta desbotada pelo sol. Havia também dezenas de buracos de pregos, provando que o homem não tinha o mínimo jeito com o martelo.

 

Mas Brenna conseguia lembrar-se que sempre que a Sra. Gallagher tinha o capricho de arrumar o quarto do filho, Shawn sorria e dizia que não precisava de se incomodar. Ele gostava dele tal como estava.

 

Brenna encostou-se à porta, já visualizando como transformar aquele espaço masculino negligenciado num alegre quarto de bebé. E, pensando nisso, fitou as amigas, paradas na janela, a olhar para fora.

 

Darcy, com os cabelos deslumbrantes a caírem soltos, Jude, com os seus exuberantes cabelos castanhos, presos atrás da cabeça. Eram um contraste em estilos, pensou Brenna; Darcy era brilhante como o sol, Jude subtil como um raio de luar. Tinham mais ou menos a mesma altura, que era a média para mulheres. O que as deixava uns oito centímetros acima de Brenna. Os corpos também eram similares, embora Darcy fosse mais abundante em matéria de curvas e não se desse ao trabalho de as ocultar.

 

Ambas eram inconfundivelmente femininas.

 

Não era uma coisa que Brenna invejasse... claro que não. Mas ela gostaria, de vez em quando, de não se sentir tão tola sempre que vestia uma saia e sapatos de mulher.

 

Como não era um assunto que lhe agradasse remoer, ela enfiou as mãos nos bolsos das calças largas e inclinou a cabeça para o lado, indagando:

 

- Como vais determinar o que desejas que seja feito no quarto, se passas o dia inteiro a olhar lá para fora?

 

Jude virou-se, com um sorriso que iluminou o rosto bonito e sério.

 

- Estamos a observar o Aidan na praia com o Finn.

 

- Ele saiu a correr como um coelho assustado no instante em que começámos a falar de papel de parede, cor de tinta e tecidos. - Comentou Darcy, enquanto Brenna avançava. - Disse que precisava de exercitar o cão.

 

- Ora, ora... - Brenna foi até à janela. Avistou Aidan e o cão ainda pequeno, Finn, sentados na areia, a olharem para as ondas. - É mesmo um belo espectáculo. Um homem de ombros largos e um lindo cachorrinho, na praia de Inverno.

 

- Eu aposto que ele está absorvido em pensamentos profundos, concentrado na iminente paternidade. - Darcy lançou um último olhar afectuoso para o irmão, depois virou-se, com as mãos nas ancas. - E cabe-nos a nós tratar dos aspectos práticos, enquanto ele se senta e filosofa.

 

Brenna deu uma pequena palmada, cordial, na barriga de Jude.

 

- E como estás?

 

- Muito bem. O médico disse que estamos ambos saudáveis.

 

- Ouvi dizer que estiveste enjoada esta manhã. Jude revirou os olhos verdes como o mar.

 

- O Aidan preocupa-se demais. Até parece que sou a primeira mulher a conceber uma criança desde Eva. É apenas um enjoo matutino. Passa rapidamente.

 

- Se fosse eu - declarou Darcy, sentando-se na cama antiga do irmão -, exploraria ao máximo esse enjoo. Vê se tratas de ser mimada, Jude Francês, tanto quanto puderes. Porque, depois da criança nascer, vais estar ocupada demais para te lembrares do teu nome. Lembras-te de quando a Betsy Duffy teve o primeiro filho, Brenna? Adormeceu durante a missa, todos os domingos, durante dois meses. Com o segundo, ficava ali, atordoada, de olhos desvairados. E quando teve o terceiro...

 

- Já chega! - Jude riu-se, dando uma palmada nos pés de Darcy.

- Já percebi a ideia. Mas neste momento estou a lidar apenas com os preparativos para o primeiro. Brenna... - Ela ergueu as mãos, antes de acrescentar: - Estas paredes estão demais.

 

- Um espectáculo e tanto, não é? Mas podemos dar um jeito nisso. Limpar tudo, tapar os buracos... - Brenna pôs o dedo num buraco enorme. - E pintar em condições.

 

- Pensei em pôr papel de parede, mas decidi que pintar é melhor. Uma cor bem clara. E, depois, podemos pendurar quadros... quadros de contos de fadas.

 

- Devias pendurar os teus próprios desenhos. - Sugeriu Brenna.

 

- Não desenho assim tão bem.

 

- Suficientemente bem para venderes um livro com as tuas histórias e os teus desenhos. - Lembrou Brenna. - Acho as tuas ilustrações encantadoras. E para o bebé, quando crescesse, significaria muito mais ter quadros da própria mãe pendurados no seu quarto.

 

- Achas mesmo? - Jude bateu com um dedo nos lábios, o prazer pela ideia evidente nos seus olhos. - Talvez eu mande emoldurar alguns desenhos, para ver como ficam.

 

- Molduras de cores vivas. - Declarou Brenna. - Os bebés gostam de cores alegres. Pelo menos a minha mãe disse sempre isso.

 

- Muito bem. - Jude respirou fundo. - Não quero cobrir o soalho, mas vai ser preciso lixá-lo e passar outra camada de verniz.

 

- Não há problema. Alguns remates precisam de ser trocados. Mas posso arranjar outros para combinar com o resto.

 

- Óptimo. Tive outra ideia, na qual tenho vindo a pensar muito. Como é um quarto grande, achei que poderia aproveitar este canto para uma área de brincar. - Jude atravessou o quarto, gesticulando. - Prateleiras aqui em cima, para guardar os brinquedos, uma mesinha e uma cadeira, que ficariam debaixo da janela.

 

- Podemos fazer isso. Mas, se as prateleiras contornarem o canto, podemos aproveitar melhor o espaço. Seria como um local separado, não sei se entendes o que quero dizer. E posso fazer prateleiras ajustáveis, que possam mudar de posição, de acordo com as necessidades.

 

- Contornar o canto... - Jude contraiu os olhos, tentando visualizar. - Já percebi. A ideia agrada-me. O que achas, Darcy?

 

- Acho que vocês as duas sabem muito bem o que é preciso aqui, mas cabe-me a mim levar-te a Dublin para comprares algumas roupas elegantes de maternidade.

 

Numa reacção instintiva, Jude levou a mão à barriga.

 

- Ainda não se nota.

 

- Porque deverias esperar? Vais precisar das roupas muito antes de o bebé precisar das prateleiras, e já estás a pensar nelas, certo? Iremos na próxima quinta-feira, tenho o dia todo de folga. - E levaria no bolso a parte do seu ordenado que reservava para se divertir. - Está bem para ti, Brenna?

 

Brenna já tinha tirado a fita métrica da caixa de ferramentas.

 

- Não posso ir. Tenho muito trabalho a fazer para tirar um dia de folga, visitar lojas em Dublin e esperar enquanto vocês as duas ficam a olhar embasbacadas para um par de sapatos sem o qual não podem continuar a viver.

 

- Bem precisas de botas novas. - Comentou Darcy. - As tuas dão a impressão de que marchaste até aos condados do oeste e voltaste.

 

- Servem muito bem para mim. Jude, diz ao Shawn para tirar a tralha dele daqui logo que possa, e poderei começar o trabalho na próxima semana.

 

- Isso não é tralha. - Declarou Shawn, da porta. - Passei muitas noites felizes nessa cama em que a Darcy se refastela agora.

 

- Pois agora é tralha. - Insistiu Brenna, desdenhosa. - E está a atrapalhar. E quantas vezes, se é que posso saber, tiveste de bater num prego para abrir buracos deste tamanho na parede?

 

- Pendura quadros por cima, e o tamanho dos buracos já não terá qualquer importância.

 

- Já que pensas assim, se estás a pensar em pendurar alguma coisa no chalé, é melhor chamares alguém que saiba distinguir um lado do martelo do outro. Tens de o obrigar a jurar isso, Jude, caso contrário o chalé vai-se tornar em escombros até à Primavera.

 

- Eu próprio taparei os malditos buracos, se isso fizer com que cales a boca.

 

O tom era agradável... perigosamente agradável. E foi o suficiente para provocar um pequeno sobressalto no coração de Brenna, levando-a a encobrir a reacção com sarcasmo.

 

- Claro, claro, vais consertar... da mesma forma como consertaste a pia dopub na última vez que entupiu, obrigando-me a avançar por três ou quatro centímetros de água no chão para dar um jeito.

 

Quando Darcy se riu, Shawn lançou-lhe um olhar frio e silencioso.

 

- Eu vou tirar tudo o que é meu amanhã, Jude, se não houver problema contigo.

 

Ela começou a avançar, apressada, reconhecendo o orgulho masculino abalado.

 

- Não há pressa, Shawn. Estávamos apenas...

 

Jude parou de falar, enquanto o quarto começava a girar, deixando-a nauseada.

 

Antes que ela cambaleasse e caísse, Shawn atravessou o quarto, numa velocidade que deixou Brenna espantada, para amparar a cunhada.

 

- Não foi nada. - Já sentindo a cabeça a desanuviar, Jude apertou o ombro de Shawn. - Fiquei tonta por um instante. Foi só isso. Acontece de vez em quando.

 

- Agora vais ficar deitada. - Declarou ele, encaminhando-se para a porta, com Jude ao colo. - Chama o Aidan.

 

Shawn deu a ordem a Darcy, olhando para trás.

 

- Não precisas de o incomodar, Shawn. Estou bem e...

 

- Chama o Aidan. - Repetiu Shawn. Mas Darcy já começara a correr.

 

Brenna continuou parada por um momento, com a fita métrica na mão. Como a mais velha das cinco irmãs, vira a mãe estendida no chão com tonturas devido à gravidez. Por isso, não se sentia muito alarmada com o comportamento de Jude. Estava aturdida, porém, com a demonstração de força que acabara de testemunhar. Shawn pegara em Jude ao colo como se ela não tivesse qualquer peso.

 

Onde se escondia essa força?

 

Ela sacudiu a cabeça, para a clarear. Seguiu apressada para o quarto principal, a tempo de ver Shawn a pousar Jude na cama, com extrema gentileza, e a puxar a colcha para a cobrir.

 

- Shawn, isto é um absurdo. Eu sei...

 

- Fica deitada. - Ele sacudiu um dedo para a cunhada, de uma forma que fez Jude obedecer, e deixou Brenna de olhos arregalados. - Vou chamar o médico.

 

- Ela não precisa de um médico. - Brenna quase se encolheu com o olhar furioso de Shawn, ao virar-se para ela. Mas também viu o medo masculino no fundo dos seus olhos, o que a deixou comovida. - É apenas parte do processo de gravidez, mais nada. - Ela foi até à cama, sentou-se e afagou a mão de Jude. - A minha mãe costumava deitar-se no chão da cozinha quando tinha vertigens, especialmente com a Alice Mae.

 

- Eu estou bem agora.

 

- Claro que estás. Mas um pouco de descanso não faz mal a ninguém. Porque não vais buscar água para a nossa Jude, Shawn?

 

- Ainda acho que deveríamos chamar o médico.

 

- É provável que o Aidan o chame de qualquer maneira. - Como Jude parecia muito infeliz, Brenna lançou-lhe um olhar de simpatia. - Não fiques tão angustiada. A minha mãe diz que o pai fazia a mesma coisa quando estavam à minha espera. Quando as outras vieram, ele ja se tinha habituado. E, afinal, um homem tem o direito de sentir pânico. Não sabe o que está a acontecer dentro do teu corpo, pois não? Shawn, precisamos da água.

 

- Já a vou buscar. Mas não deixes a Jude levantar-se.

 

- Eu estou bem.

 

- Eu sei. Já recuperaste a cor, os olhos ficaram claros. - Brenna apertou de novo a mão de Jude. - Queres que eu saia para falar com o Aidan, para tentar acalmá-lo?

 

- Se achas... - Ela parou de falar quando ouviu a porta da frente, com um estrondo, depois os passos na escada. - Tarde demais.

 

Brenna levantou-se e atravessou metade do quarto, antes que Aidan entrasse a correr.

 

- Ela está bem. Teve apenas uma vertigem, como acontece com qualquer mulher grávida. Não precisa...

 

Brenna suspirou quando Aidan passou por ela, sem prestar a menor atenção.

 

- Estás bem? Desmaiaste? Alguém já chamou o médico?

 

- Vamos deixar que ela o acalme.

 

Brenna acenou com a cabeça para Darcy, empurrando-a para fora do quarto e fechando a porta.

 

- Tens a certeza que ela está bem? Ficou muito pálida, de repente.

 

- Garanto-te que ela está bem. E o Aidan provavelmente vai mantê-la na cama durante o resto do dia, mesmo que ela proteste.

 

- Já é terrível demais para uma mulher ficar enorme como uma vaca quando espera uma criança. Pior ainda é passar a manhã inteira com a cabeça metida na retrete e desmaiar nos momentos mais inesperados.

- Darcy soltou um suspiro, fazendo um esforço para se acalmar. - É uma situação lamentável que a mulher tem de suportar. E vocês... - Ela espetou um dedo em Shawn, que passava pelo corredor, com um copo cheio de água. - Tudo o que os homens têm de fazer é divertir-se, passar nove meses a assobiar e depois distribuir charutos fedorentos.

 

- O que serve para provar que Deus é homem. - Comentou ele, com um ténue sorriso.

 

Os lábios de Darcy contraíram-se com o comentário, mas ela limitou-se a balançar a cabeça.

 

- Vou preparar um chá com torradas para a Jude.

 

Ela afastou-se, deixando Shawn a olhar para a porta fechada do quarto.

 

- Vamos dar um pouco de privacidade aos dois.

 

Brenna pegou-o pelo braço e levou-o na direcção das escadas.

 

- Ela não precisa da água?

 

- É melhor beberes tu. - Brenna, sentindo muita ternura por ele, levantou a mão e tocou no seu rosto. - Estás branco como um lençol.

 

- O susto roubou-me dez anos de vida.

 

- Dá para perceber. Mas agiste depressa e fizeste o que era correcto. Brenna foi para o quarto ao lado. Pegou na fita métrica.

 

- Uma porção de coisas está a mudar dentro dela, e provavelmente não tem descansado como deveria. Ainda por cima, está absorta nos seus planos. - Ela tirou uma medida e anotou no seu pequeno caderno. - É muita coisa nova na sua vida, em pouco tempo.

 

- Acho que é mais fácil para as mulheres absorver essas mudanças.

 

- É possível. - Brenna continuava a medir e anotar. - Tu deves lembrar-te de quando a tua mãe esperava a Darcy.

 

- Um pouco.

 

Shawn tomou um gole de água, já que sentia a garganta ressequida devido ao nervosismo. Brenna estava bastante calma, ele notou, a circular graciosa pelo quarto, naquelas suas botas velhas, a medir tudo, a anotar, a fazer marcas com o lápis, escrevendo números nas paredes.

 

Alguns fios de cabelo saíam do boné, apenas uns poucos cachos ruivos, provavelmente soltos na sua corrida até ao outro quarto.

 

- De que mais te lembras?

 

- Como?

 

Shawn perdera o fio da conversa em algum ponto. Agora, transferiu o olhar dos cachos ruivos provocantes, por cima do ombro, para o rosto de Brenna.

 

- Do tempo em que a tua mãe estava grávida da Darcy. De que te lembras mais?

 

- De encostar a cabeça à barriga dela e sentir todos aqueles pontapés e movimentos. Era típico da Darcy, impaciente para sair e fazer o que queria.

 

- Gostei do comentário. - Brenna guardou a fita métrica e o pequeno caderno de anotações. Levantou a caixa de ferramentas. - Desculpa ter sido antipática contigo. Estava de mau humor hoje.

 

- Estás de mau humor na maioria dos dias. - Mas ele sorriu, puxando a pala do boné para cima dos olhos de Brenna. - Já me acostumei tanto aos teus ataques de fúria, que já nem me importo.

 

Naquele momento, Brenna queria mesmo ter um ataque... e mordê-lo bem ali, junto do queixo. Para descobrir qual era o sabor. E se tentasse, imaginou que seria Shawn a desmaiar.

 

- Não vou começar a trabalhar aqui antes de segunda ou terça-feira. Por isso, não precisas de te apressar para tirar as tuas coisas. Mas...

 

Ela levantou um dedo, para o espetar no peito de Shawn.

 

- Falo a sério quanto a pendurar quadros no chalé. Shawn riu-se.

 

- Se eu sentir o impulso de pegar no martelo... - Ele deixou-a atordoada, ao inclinar-se para dar um beijo rápido no seu rosto. - Podes ter a certeza que chamarei a OToole.

 

- Mas faz mesmo isso.

 

Excitada de novo, Brenna encaminhou-se para a porta. Aidan, com uma cara de exausto, saiu do quarto principal.

 

- Ela está bem. Diz que está bem. Liguei para o médico e ele disse que não preciso de me preocupar. Basta fazer com que ela descanse um pouco, com os pés levantados.

 

- A Darcy foi fazer um chá.

 

- Uma boa ideia. A Jude ficou aborrecida, porque tencionava levar flores para o túmulo da velha Maude esta tarde. Eu poderia fazer isso, mas...

 

- Podes deixar que eu levo as flores - ofereceu-se Shawn. - Tu vais sentir-te melhor se puderes passar mais tempo com a Jude. Posso ir até lá de carro, visitar a velha Maude, e voltar a tempo de começar a preparar tudo para o jantar nopub.

 

- Ficaria grato. - O rosto contraído de Aidan relaxou um pouco.

- A Jude contou-me que pegaste nela ao colo e a levaste para a cama. E obrigaste-a a permanecer deitada.

 

- Só quero que lhe peças para não desmaiar de novo em cima de mim. O meu coração não aguentaria.

 

Shawn levou flores para Maude, alegres amores-perfeitos púrpuras e amarelos, que Jude já havia colhido. Ele não ia com frequência ao velho cemitério. Não perdera ninguém muito próximo que tivesse sido sepultado ali. Mas, como o chalé ficava perto, pensou ele, poderia assumir o encargo de Jude, até que ela tivesse mais condições para a caminhada.

 

Os mortos estavam enterrados perto da Fonte de São Declan, onde as pessoas que faziam a peregrinação para homenagear o antigo santo irlandês costumavam lavar as mãos e os pés. Havia três cruzes de pedra nas proximidades, a guardar o lugar sagrado; e talvez, reflectiu Shawn, proporcionando conforto aos vivos que subiam aquela colina para apresentar o seu respeito aos mortos.

 

A vista era espectacular, com a Baía de Ardmore a estender-se como uma faixa cinzenta, sob o céu pronto para uma tempestade. E a vasta extensão do Mar Céltico, o coração que pulsava dia e noite, projectando-se para o horizonte. Entre o rumor das ondas e o vento havia música; e as aves cantavam, desafiando o Inverno.

 

O sol era fraco e branco, o ar húmido, começando a esfriar ainda mais. A relva que crescia entre as lápides e pedras tornara-se pálida com o Inverno. Mas Shawn sabia que a estação nunca era muito prolongada ali. Não demoraria muito até que hastes verdes e novas começassem a surgir entre as velhas.

 

O ciclo que lugares assim representavam nunca acabava. O que dava algum conforto.

 

Ele sentou-se ao lado da sepultura de Maude Fitzgerald. Cruzou as pernas, descontraído, e começou a ajeitar as flores sobre a lápide, onde havia a inscrição Wise Woman, a sábia mulher.

 

A mãe de Shawn fora uma Fitzgerald antes do casamento, prima em algum grau da velha Maude. Ele lembrava-se dela com bastante clareza, uma mulher baixa e magra, cabelos brancos, olhos verdes, sempre enevoados, de alguém que via longe.

 

Lembrava-se também da forma como Maude o fitava às vezes, um olhar penetrante e sereno, que o deixava inquieto. Mais do que isso, apreensivo. O que não o impedia de se sentir atraído por ela. Quando criança, costumava sentar-se a seus pés, quando ela aparecia nopub. Nunca se cansava de ouvir as suas histórias. Mais tarde, anos mais tarde, transformara algumas daquelas histórias em canções.

 

- É a Jude, quem te manda estas flores - murmurou Shawn. Ela está a repousar agora, já que teve uma vertigem devido à gravidez. Mas não precisas de te preocupar, porque não foi nada demais. Como queríamos que a Jude descansasse, eu disse-lhe que te traria as flores. Espero que não te importes.

 

Shawn permaneceu em silêncio por um momento, deixando o olhar vaguear em redor.

 

- Estou a morar no teu chalé agora, pois o Aidan e a Jude instalaram-se na casa. É o costume dos Gallagher, como tenho a certeza de que sabes. Especialmente agora, com a vinda do bebé, o chalé seria pequeno demais. A avó de Jude, a tua prima Agnes Murray, deu-lhe o chalé, como presente de casamento.

 

Sentado no chão, ele procurou uma posição mais confortável. Os dedos começaram a tamborilar no joelho, de uma forma inconsciente, acompanhando o ritmo do mar.

 

- Gosto de viver no chalé, pelo sossego. Mas não entendo porque não vi Lady Gwen. Sabias que ela apareceu para a Brenna OToole? Deves lembrar-te da Brenna. É a mais velha das raparigas O'Toole, que moram na casa mais próxima do chalé. Ela é a ruiva... bem, quase todas as raparigas O'Toole são ruivas, mas com a Brenna é como... como se tivesse o fogo do sol nas pontas. Dá até para pensar que se podem queimar os dedos ao tocar naqueles cabelos. Em vez disso, porém, eles são sedosos e macios.

 

Shawn fez uma pausa. Franziu um pouco o rosto. Limpou a garganta.

 

- Seja como for, já estou no chalé há quase cinco meses, e Lady Gwen ainda não me apareceu. Ou pelo menos não claramente. A Brenna foi arranjar o forno, e Lady Gwen não só se mostrou, como também lhe falou.

 

- As mulheres são mesmo umas criaturas impertinentes.

 

O coração de Shawn sobressaltou-se, já que não esperava que alguém lhe pudesse responder, naquele lugar. Levantou os olhos para se deparar com um homem de cabelos pretos compridos, olhos de um azul penetrante, com um sorriso malicioso a contrair os cantos dos lábios.

 

- Tenho pensado assim muitas vezes.

 

Shawn respondeu com bastante calma, mas o seu coração decidira que um sobressalto não era suficiente, e agora disparara dentro do peito.

 

- Mas parece que não podemos passar sem elas, não é assim?

 

O homem levantou-se da cadeira de pedra, ao lado das três cruzes. Os seus movimentos eram graciosos quando avançou sobre a relva e as pedras, nas suas botas de couro macio, para se sentar no outro lado da sepultura.

 

O vento, agora mais forte e mais frio, desmanchava os seus cabelos e ondulava a capa vermelha, presa nos ombros.

 

A claridade aumentou, de tal forma que tudo - pedras, relva, flores - parecia sobressair, em alto-relevo. À distância, misturando-se com o som do mar e do vento, podia-se ouvir a música de dança, gaitas e flautas a tocar.

 

- Não por muito tempo - respondeu Shawn, mantendo o olhar firme e rezando para que o coração acalmasse.

 

O homem pôs as mãos nos joelhos. Usava um calção antigo e um gibão de prata, com fios de ouro. E numa das mãos tinha um anel de prata com uma pedra azul brilhante.

 

- Sabes quem eu sou, certo, Shawn Gallagher?

 

- Vi as ilustrações que a Jude fez para o livro dela. Ela é muito boa a desenhar.

 

- E sente-se muito bem e feliz agora, não é assim? Casada e à espera de uma criança?

 

- Exactamente, Príncipe Carrick.

 

Os olhos de Carrick faiscaram, com um brilho de poder e divertimento.

 

- Preocupa-te conversares com o príncipe do mundo das fadas, Gallagher?

 

- Não tenho o menor desejo de ser levado para um palácio das fadas pelos próximos cem anos, já que tenho muitas coisas para fazer aqui.

 

Com as mãos ainda nos joelhos, Carrick inclinou a cabeça para trás e riu-se. Era um som forte e firme. Sedutor, cativante.

 

- Tenho a certeza de que algumas mulheres na corte ficariam felizes com a visita, pela tua aparência e pelo teu talento musical. Mas és útil para mim aqui, do teu lado. Terás de permanecer neste mundo. Por isso não precisas de te preocupar.

 

Ele ficou sério abruptamente. Inclinou-se para a frente.

 

- Disseste que a Gwen falou com a Brenna O'Toole. O que disse ela?

 

- Não sabes?

 

Carrick estava de pé, sem ter feito qualquer movimento.

 

- Não tenho permissão para ir ao chalé, nem sequer para entrar no jardim, embora more por baixo. O que disse ela?

 

O coração de Shawn palpitou em compaixão. A pergunta era mais uma súplica do que uma ordem.

 

- "O coração dele está na canção". Foi isso que ela disse à Brenna.

 

- Nunca lhe dei música. - Carrick levantou um braço. Com um movimento do pulso, fez a luz resplandecer. - Diamantes tirados do fogo do sol, foi o que lhe dei a ela. Despejei-os a seus pés, quando lhe pedi para vir comigo. Mas ela rejeitou-os. E rejeitou-me. Do fundo do seu coração. Sabes o que é isso, Gallagher, ser rejeitado pela mulher que queres, a única que alguma vez irás querer?

 

- Não, não sei. Nunca desejei alguém dessa forma.

 

- Tenho pena de ti, porque não se está vivo enquanto não se sentir algo assim.

 

Carrick levantou a outra mão. Tudo em redor caiu na escuridão, cortada por raios e faíscas prateados. Um nevoeiro, denso e húmido, espalhou-se pelo chão.

 

- Apesar de tudo, mesmo depois de ela ter acatado a ordem do pai, ainda recolhi as lágrimas da lua e despejei-as como pérolas a seus pés. E, mais uma vez, ela me rejeitou.

 

- Os diamantes do sol e as lágrimas da lua transformaram-se em flores - continuou Shawn. E ela cuidou dessas flores, ano após ano.

 

- O que representa o tempo para mim? - Com a impaciência a aflorar, Carrick fitou Shawn com uma expressão irritada. - Um ano, um século.

 

- Um ano é um século quando se espera o amor.

 

A emoção transbordou dos olhos de Carrick, antes que ele os fechasse.

 

- És hábil com as palavras, não apenas com as melodias. E tens toda a razão.

 

Ele voltou a movimentar o pulso, e o sol pálido de Inverno voltou.

 

- Mas esperei tempo demais para procurá-la pela última vez. E do fundo do mar, das profundezas azuis, tirei o seu coração. Fiz centenas de safiras. Também as levei para ela. Despejei-as a seus pés. Para a minha Gwen, tudo o que tinha e ainda mais. Mas ela disse-me que estava velha, que era tarde demais. Pela primeira vez, eu vi-a chorar, enquanto me dizia que, se eu lhe oferecesse as palavras que tinha no coração, em vez de pedras preciosas, em vez de promessas de eternidade e riqueza, ela poderia ter trocado o seu mundo pelo meu, o dever pelo amor. Não acreditei.

 

- Estavas furioso. - Shawn perdera já a noção das vezes em que tinha ouvido contar a história. Quando era pequeno, costumava sonhar acerca disso, o impetuoso príncipe do mundo das fadas montado no seu cavalo branco alado, voando para o sol, para a lua, para o fundo do mar.

 

Porque a amavas, mas não sabias de que outra forma demonstrá-lo, de que outra forma dizer-lho.

 

- Que mais pode um homem fazer? Shawn sorriu.

 

- Isso não te posso dizer. Mas lançar um encantamento que deixou os dois à espera, ao longo dos séculos, não foi provavelmente a atitude mais sensata.

 

- Tenho o meu orgulho, não é? - Carrick sacudiu a cabeça. - E o meu feitio. Três vezes pedi, e três vezes ela recusou. Agora temos de esperar até que o amor encontre o amor três vezes, e aceite tudo. Defeitos e virtudes, tristezas e alegrias. Tu és hábil com as palavras, Gallagher. - Carrick fez uma pausa. O sorriso nervoso voltou. - Ficarei insatisfeito se demorares tanto tempo quanto o teu irmão para as usar.

 

- O meu irmão?

 

- Três vezes. - Os olhos azuis de Carrick eram profundos e cintilantes. - A primeira já aconteceu.

 

Shawn também se levantou, de punhos cerrados.

 

- Estás a falar do Aidan e da Jude? Ousas dizer-me, seu desgraçado, que lançaste um encantamento sobre eles?

 

- És um grande tolo. Os encantamentos de amor não existem. Não se pode fazer magia no coração, que é mais poderoso que qualquer encantamento. Pode-se despertar a luxúria com um piscar de olhos, o desejo com um sorriso. Mas o amor é o amor, e não há nada que o possa afectar. O que o teu irmão tem com a Jude Francês é tão real quanto o sol, a lua e o mar. Tens a minha palavra.

 

Lentamente, Shawn relaxou.

 

- Então peço perdão.

 

- Não me posso ofender com um irmão que defende um irmão. Se me sentisse ofendido, já estarias agora a zurrar como um burro.

- Carrick riu-se, desdenhoso. - Também tens a minha palavra sobre isso.

 

- Agradeço a tua moderação... - Shawn fez uma pausa, voltando a ficar tenso. - Pensas que eu serei o segundo passo para que o teu encantamento seja quebrado? Se pensas assim, devo dizer-te que estás a olhar na direcção errada.

 

- Sei muito bem para onde olho, jovem Gallagher. Tu é que não sabes. Mas saberás, muito em breve. Garanto-te.

 

Carrick fez uma galante reverência. Desapareceu em seguida, no instante em que o céu se abriu e a chuva desabou, furiosamente.

 

- Perfeito, simplesmente perfeito.

 

Shawn ficou parado sob o aguaceiro, perplexo e furioso. E atrasado para o trabalho.

 

                                             CAPÍTULO QUATRO

Ele não gostava de se apressar em nada. Meditava e considerava, avaliava e media. Por isso, decidiu não contar a ninguém, pelo menos por enquanto, sobre o seu encontro com Carrick ao lado da sepultura da velha Maude.

 

Mas sentia-se um pouco preocupado. Não tanto por se encontrar com um príncipe do mundo das fadas. Estava no seu sangue aceitar a existência da magia, e no seu coração apreciá-la. A forma da conversa é que o preocupava, o rumo que tomara.

 

Não admitia escolher uma mulher - ou ser por ela escolhido - e apaixonar-se perdidamente só para se submeter aos planos e desejos de Carrick.

 

Não era do tipo de casar e assentar, como Aidan. Gostava das mulheres, é claro. O cheiro delas, os seus corpos, o calor que irradiavam. E havia muitas disponíveis. Todas cheirosas, cheias de curvas e ardentes.

 

Por mais que tendesse a fazer canções sobre o amor, em todas as suas variedades maravilhosas e angustiantes, preferia esquivar-se no nível pessoal.

 

O amor, do tipo que agarrava o coração com as duas mãos e apertava com toda a força, era uma tremenda responsabilidade. E a vida era bastante agradável da maneira como ele a levava. Tinha a sua música e o pub, a família e os amigos, e agora o pequeno chalé na colina, todo seu.

 

Isto é, excepto pelo fantasma, que de qualquer forma parecia não querer a sua companhia.

 

Por isso, Shawn resolveu pensar bastante a respeito do que acontecera, enquanto trabalhava. Tinha peixe para fritar e batatas para cortar, tinha um enorme pastelão de pastor no forno, como chamavam ao bolo de carne moída com puré de batata. Os sons da noite de sábado começavam a esquentar, no outro lado da porta da cozinha. Os músicos de Galway, contratados por Aidan, tocavam uma balada. O tenor cantava sobre Ballystrand, muito bem.

 

Como tinha uma excursão de compras em Dublin combinada com Jude, Darcy estava com um ânimo excepcional, toda sorridente e cooperativa. Os pedidos que ela transmitia a Shawn saíam como canções; e ela parecia dançar quando os levava para as mesas, depois de prontos. Os dois não haviam trocado uma única palavra áspera durante o dia inteiro.

 

Shawn calculou que seria um recorde.

 

Quando ouviu a porta da cozinha a ser aberta, deixando a música passar, ele pôs num prato uma posta comprida de peixe frito.

 

- Só falta preparar o último pedido, querida. E o pastelão estará pronto em cinco minutos.

 

- Adorarei comer um pouco, mal fique pronto. Shawn olhou para trás, com um sorriso radiante.

 

- Mary Kate! Pensei que fosse a Darcy. Como estás, querida?

 

- Muito bem. - Ela largou a porta, deixando-a fechar nas suas costas. - E tu?

 

- A mesma coisa.

 

Ele recolheu as batatas fritas da frigideira e preparou os pedidos, enquanto a estudava.

 

A irmã mais nova de Brenna desabrochara durante os anos na Universidade. Deveria pesar agora uns cinquenta e cinco quilos. Era linda como uma pintura. Os cabelos eram mais dourados do que os de Brenna, mas também avermelhados, descendo em ondas até à altura do queixo. Os olhos tinham um toque de cinza sobre o verde, e ela procurava realçá-los com uma maquilhagem subtil. Não era muito mais alta do que a irmã mais velha, mas tinha mais peito e ancas. Trazia um vestido verde-escuro, próprio para noites de sábado e para mostrar como o seu corpo era atraente.

 

- Pareces-me melhor do que muito bem. - Shawn ajeitou os pratos prontos no forno, depois encostou-se ao balcão para conversar um pouco. - Como foi que conseguiste crescer assim tanto, sem que eu me apercebesse? Deves andar a arrebatar corações masculinos todos os dias.

 

Mary Kate riu-se, fazendo um esforço para que o som parecesse maduro e feminino, em vez da gargalhada infantil que aflorara na sua garganta. A atracção que sentia por Shawn Gallagher era muito recente... e muito forte.

 

- Tenho andado demasiado ocupada para arrebatar corações, com todo o trabalho no hotel.

 

- Gostas do que lá fazes?

 

- Muito. Devias aparecer por lá. - Ela adiantou-se, tentando manter os movimentos ao mesmo tempo descontraídos e sedutores. - Tira um dia de folga e deixa-me oferecer-te uma refeição no hotel.

 

- É uma ideia.

 

Shawn piscou-lhe o olho, fazendo o coração de Mary Kate disparar. Depois, virou-se para abrir o forno e verificar o pastelão. Ela aproximou-se.

 

- O aroma está delicioso. Tens uma mão incrível para cozinhar. Muitos homens são desastrados numa cozinha.

 

- Quando um homem... ou uma mulher, diga-se de passagem, é desastrado numa cozinha, é quase sempre porque sabe que alguém vai aparecer para o expulsar de lá e fazer tudo, a fim de poupar tempo e aborrecimentos.

 

- É verdade. - Ela falou quase num sussurro, com uma reverência evidente. - Mas, embora sejas tão bom, aposto que de vez em quando gostarias que alguém te preparasse uma refeição em vez de teres de cuidar sempre da comida.

 

- Não posso dizer que não gostaria.

 

Quando Brenna entrou, pela porta dos fundos, a primeira e única coisa que viu na cozinha foi Shawn Gallagher a sorrir para os olhos deslumbrados da sua irmã.

 

- Mary Kate! - A voz de Brenna soou ríspida, como o estalo de um chicote. Ao ouvi-la, a irmã corou e recuou. - O que estás a fazer aqui?

 

- Eu... estava apenas a conversar com o Shawn.

 

- Não tens nada a fazer aqui, a usares o teu melhor vestido e a atrapalhares o Shawn.

 

- Ela não me atrapalha.

 

Acostumado a ser repreendido pelos mais velhos, Shawn inclinou-se para bater de leve, num gesto confortador, no rosto de Mary Kate. E, sendo um homem, nem se apercebeu das nuvens de sonho que surgiram nos olhos da jovem.

 

Mas Brenna apercebeu-se. Adiantou-se, rangendo os dentes, pegou no braço da irmã, apertando com força, e levou-a para a porta.

 

A humilhação das circunstâncias acabou com a sofisticação madura que Mary Kate tanto se empenhara em exibir.

 

- Larga-me, sua mandona desgraçada!

 

A voz alteou-se, estridente, enquanto ela se debatia. As duas quase esbarraram em Darcy, que entrava na cozinha naquele momento.

 

- O que te deu? Não tens o direito de fazer isto comigo! Vou contar à mãe!

 

- Podes contar!

 

Sem hesitar, nem afrouxar a pressão no braço, Brenna arrastou a irmã para a pequena sala reservada na extremidade do balcão. Fechou a porta.

 

- Podes-lhe contar, sua idiota desmiolada, e eu aproveitarei para lhe contar também como te estavas a oferecer ao Shawn Gallagher.

 

- Não estava, não!

 

Solta, Mary Kate fungou, ergueu o queixo, e alisou com todo o cuidado a manga do seu melhor vestido.

 

- Estavas quase a morder o pescoço dele quando eu entrei. O que te deu? O Shawn tem quase trinta anos, e tu mal completaste vinte. Sabes o que estás a pedir quando esfregas os seios num homem, daquela forma? Mary Kate baixou os olhos para a camisola folgada da irmã.

 

- Pelo menos eu tenho seios.

 

Era um ponto sensível, uma área muito delicada, pois Brenna ressentia-se do facto de todas as suas irmãs, até a jovem Alice Mae, terem maiores seios do que ela.

 

- O que é ainda mais um motivo para ter respeito por eles e não os espetar na cara de um homem.

 

- Não fiz isso! E já não sou uma criança que precisa de ouvir um sermão de alguém como tu, Brenna OToole! - Ela empertigou-se, ergueu os ombros. - Sou uma mulher adulta agora. Já estive na universidade. Tenho uma carreira.

 

- E suponho que isso justifica que pules para cima do primeiro homem que desperta a tua fantasia, para te divertires.

 

- Ele não é o primeiro que desperta a minha fantasia.

 

Com um sorriso lento, que fez os olhos de Brenna tornarem-se frios e contraídos, Mary Kate sacudiu os cabelos e acrescentou:

 

- Mas que o Shawn me atrai, não vou negar... e não há motivo para não o deixar saber disso. É da minha conta, apenas, Brenna. Tu não tens nada que te meter.

 

- Claro que tenho. Ainda és virgem?

 

O choque total nos olhos de Mary Kate foi suficiente para Brenna compreender que a irmã não costumava desfilar nua pelos corredores da Universidade de Dublin. Mas, antes que ela pudesse suspirar, Mary Kate explodiu.

 

- Quem pensas tu que és? A minha vida romântica não é da tua conta. Tu não és nem a minha mãe nem o meu padre confessor para te meteres. Cuida da tua vida.

 

- Tu fazes parte da minha vida.

 

- Não quero que te metas, Brenna. Tenho o direito de conversar com o Shawn, sair com ele ou fazer qualquer outra coisa que eu venha a decidir. E se achas que podes sair a correr para contar histórias sobre o meu comportamento à mãe, veremos o que ela pensa do dia em que te encontrei com a Darcy a jogarem póquer com as cartas sagradas dela.

 

- Isso aconteceu há muitos anos. - Mas Brenna sentiu um indício de pânico. A mãe não acharia que a passagem dos anos faria alguma diferença. - Foi uma brincadeira inofensiva de raparigas. E o que encontrei na cozinha não é inofensivo, Mary Kate. Mas sim absurdo. Não te quero ver magoada.

 

- Posso cuidar de mim própria. - Mary Kate voltou a sacudir os cabelos. - Se queres ter inveja porque sei como atrair um homem, em vez de tentar ser um, o problema é teu. Não meu.

 

A farpa entrou tão depressa e verdadeira, que Brenna ficou imóvel. Não compreendeu que sangrava até que Mary Kate saiu, furiosa, batendo a porta. As lágrimas arderam nos seus olhos. A sua vontade foi de sentar-se numa daquelas cadeiras e deixar as lágrimas correrem.

 

Não estava a tentar ser um homem. Apenas queria ser ela própria.

 

E apenas quisera proteger a irmã. Detê-la antes que fizesse alguma coisa que a pudesse magoar ou embaraçar. Ou pior.

 

Era tudo culpa de Shawn, decidiu ela. A pequena voz na sua cabeça que sussurrava que não era bem assim foi ignorada. Era culpa de Shawn por seduzir a sua jovem e inocente irmã, fazendo-a pensar que estava apaixonada. Pois dar-lhe-ia uma lição agora mesmo.

 

Brenna deixou a pequena sala, balançando a cabeça. Desviou-se quando Aidan pôs a mão no seu braço e perguntou o que havia acontecido. Quando voltou a entrar na cozinha, os seus olhos brilhavam. Mas não com lágrimas. O sentimento estava mais próximo de fúria assassina.

 

- Porque arrastaste a Mary Kate para fora da cozinha daquela forma, Brenna? Estávamos apenas...

 

Shawn parou de falar, porque ela marchou até ele, as botas quase batendo nas pontas dos seus sapatos, enquanto um dedo tentava abrir um buraco no seu peito.

 

- Mantém as mãos longe da minha irmã!

 

- Pelas verdes colinas de Deus, de que estás a falar?

 

- Sabes muito bem de que estou a falar, seu devasso incorrigível. Ela tem apenas vinte anos! É quase uma criança!

 

- Mas o que foi? - Ele empurrou a mão de Brenna, antes que o dedo alcançasse o seu coração. - O que aconteceu?

 

- Se pensas que vou ficar de braços cruzados enquanto tu a acrescentas à tua lista de conquistas, então é melhor pensares duas vezes!

 

- A minha lista... Mary Kate? - O choque veio primeiro. Depois ele lembrou-se como a rapariga... não, já não era uma rapariga, apressou-se em corrigir... o fitara, sorrira e batera as lindas pestanas. - Mary Kate... - repetiu Shawn, pensativo agora, com a insinuação de um sorriso.

 

Um nevoeiro vermelho de raiva turvou os olhos de Brenna.

 

- Tira o brilho dos teus olhos, Shawn Gallagher, ou juro que deixarei os dois bem roxos.

 

Como Brenna tinha os punhos levantados, ele recuou um passo, cauteloso. Ergueu as mãos, com as palmas viradas para a frente.

 

- Acalma-te, Brenna. Nunca toquei na tua irmã. Nem pensei nisso.

 

E mais, nunca pensei em Mary Kate dessa forma até tu mesmo o teres dito. Afinal, eu conheço-a desde os tempos em que usava fralda.

 

- Ela já não usa fraldas, agora.

 

- Tens razão, não usa mesmo. - Talvez Shawn tivesse falado com uma insinuação insensata de aprovação. Por isso, ele supôs que o punho que acertou na sua barriga foi culpa sua. - Ora, Brenna, um homem não pode ser culpado por apreciar uma mulher.

 

- Se quiseres, aprecia à distância. Se fizeres algum movimento para chegares mais perto, prometo que te parto as pernas. As duas.

 

Era raro Shawn perder a calma. Por isso, reconheceu que estava perigosamente próximo. Para resolver a questão, ele colocou as mãos sob os cotovelos de Brenna e levantou-a, até que os seus olhos ficassem ao mesmo nível. O choque e a fúria incendiavam os olhos de Brenna.

 

- Não me ameaces. Se eu tivesse pensamentos nesse sentido em relação à Mary Kate, já teria agido. E o caso seria apenas do nosso interesse, não do teu. Percebeste?

 

- Ela é minha irmã!

 

Brenna não disse mais nada quando ele a sacudiu com força.

 

- E achas que isso te dá o direito de a embaraçar e esmurrares-me, quando não fizemos mais do que conversar aqui na cozinha? Estou a conversar contigo agora, como já fizemos muitas e muitas vezes antes. Por acaso rasguei as tuas roupas e fiz o que queria contigo? - Shawn largou-a de novo no chão e deixou-a mais furiosa do que nunca ao virar as costas.

- Deverias envergonhar-te por te deixares levar pela imaginação, Brenna.

 

- Eu... - As lágrimas iam correr, afinal. Brenna fez um esforço para as conter, engolindo em seco, várias vezes. Atordoada, viu Darcy a entrar na cozinha. - Tenho de ir - foi o máximo que ela conseguiu balbuciar.

 

E saiu a correr pela porta dos fundos.

 

- Shawn... - Darcy largou os pratos vazios na pia. Virou-se para fitar o irmão, indignada. - O que fizeste para deixar a Brenna a chorar daquela forma?

 

Culpa, raiva e emoções que ele não queria explorar travavam uma guerra terrível dentro dele.

 

- Não chateies! - Resmungou ele, rispidamente. - Já tive que chegasse com mulheres por uma noite.

 

Brenna sentia-se mortificada e desesperada. Ficara transtornada, insultara e embaraçara duas pessoas de quem gostava muito. E intrometera-se no que não era da sua conta.

 

Não, não acreditava nisso. Era mesmo da sua conta. Mary Kate fazia flirt de uma forma vergonhosa, e Shawn mostrava-se indiferente.

 

O que era típico.

 

Mas ele não deveria permanecer indiferente. A irmã de Brenna era muito bonita, meiga e inteligente. E, sem menor sombra de dúvida, era uma jovem a desabrochar em toda a sua plenitude.

 

Protegê-la não fora um erro. Mas o método fora inepto, e mais do que um pouco egoísta. Porque - e ela tinha de encarar esse ponto - também agira como uma mulher a defender o seu território.

 

Um facto a que Shawn também se mostrava indiferente.

 

Tudo o que ela podia fazer agora era tentar reparar a situação, da melhor forma possível.

 

Dera uma longa caminhada pela praia. Para derramar todas as lágrimas, reflectir, recuperar o controlo. E ter a certeza de que os pais estariam na cama quando voltasse para casa, a fim de poder conversar a sós com Mary Kate.

 

Havia uma luz acesa na varanda, e outra na janela da frente. Brenna deixou-as acesas, porque duvidava que a sua irmã Patty voltasse cedo do seu encontro na noite de sábado.

 

Outro casamento, pensou ela, enquanto tirava o casaco. Mais confusão e planeamento, mais lágrimas absurdas por causa de flores e amostras de tecidos.

 

Brenna não conseguia entender como uma pessoa sensata poderia querer passar por tudo aquilo. Maureen tornara-se numa pilha de nervos

- e deixara toda a família com os nervos à flor da pele - antes de finalmente descer pela nave da igreja, no Outono.

 

É verdade que ela fora uma noiva adorável, pensou Brenna, enquanto pendurava o boné no gancho do armário. Radiante e viçosa, no seu lindo vestido branco, com o véu de rendas que a mãe usara no seu casamento. A felicidade era como raios de sol, quase projectando-se das pontas dos seus dedos. Ao contemplar toda aquela onda de amor que irradiava da irmã, Brenna deixara de se sentir, pelo menos por um momento, uma tola enfiada no vestido azul de dama de honra, todo enfeitado.

 

Se desse aquele salto - e, como queria ter filhos, teria de se casar algum dia -, a simplicidade seria a regra.

 

Aceitaria um casamento na Igreja, como imaginava que a mãe e o pai queriam para todas as filhas. Mas não passaria meses a olhar para vestidos, a procurar em catálogos, a discutir os prós e os contras de rosas ou tulipas, todas essas coisas.

 

Usaria o vestido e o véu da mãe. Talvez levasse um bouquet de margaridas amarelas, já que as achava lindas. E desceria pela nave, de braço dado ao do pai, ao som de flautas, em vez de um velho órgão. E depois, teriam uma festa em casa. Um ceili grande e barulhento, onde todos poderiam afrouxar a gravata e relaxar.

 

E porque, pensou ela, balançando a cabeça diante do quarto partilhado pelas irmãs mais novas, Mary Kate e Alice Mae, porque sonhava com isso agora?

 

Brenna entrou no quarto. Parou por um instante, aspirando a fragrância feminina adocicada, enquanto os seus olhos se ajustavam. Depois, foi até à cama perto da janela, no fundo do quarto.

 

- Mary Kate, estás acordada?

 

- Está, sim. - A silhueta da cabeça e ombros de Alice Mae, cercados por cabelos revoltos, ergueu-se na outra cama. - E devo dizer que ela te odeia como veneno, sempre te vai odiar, até ao dia em que ela deixar este mundo. Nunca mais vai falar contigo.

 

- Volta a dormir.

 

- Como posso dormir, se ela volta para casa e incendeia os meus ouvidos com insultos contra ti? É verdade que a expulsaste da cozinha do Gallaghers e depois lhe deste um sermão?

 

- Não, não é.

 

- Claro que é - corrigiu Mary Kate, a voz tensa e formal. - E, por gentileza, Alice Mae, diz-lhe para tirar esse rabo magro da minha cama.

 

- Ela pediu para tirares...

 

- Já ouvi. E não vou sair daqui.

 

- Se ela não quer, então saio eu.

 

Mary Kate tinha a intenção de se levantar, mas foi imobilizada. Ao som de luta e insultos abafados, Alice Mae acendeu o candeeiro na sua mesinha de cabeceira para assistir ao espectáculo.

 

- Nunca vais conseguir vencer-lhe, Katie, pois lutas como uma mulher. Nunca prestaste atenção ao que ela nos ensinou?

 

- Fica quieta, sua desmiolada. Como posso pedir-te desculpa se estás a tentar morder a minha mão?

 

- Eu não quero o teu pedido de desculpa!

 

- Mas vais ter de o aceitar, nem que to tenha de enfiar pelas goelas abaixo.

 

Aborrecida, sem saber o que mais fazer, Brenna tomou a providência mais simples. Sentou-se em cima da irmã.

 

- A Brenna esteve a chorar.

 

Com o coração mais gentil da Irlanda, Alice Mae saiu da cama e aproximou-se.

 

- Calma, calma... - Gentilmente, ela beijou as faces de Brenna.

- Não pode ser assim tão mau, querida.

 

- Mãezinha... - murmurou Brenna.

 

Ela quase recomeçou a chorar. A sua irmã pequenina já não era pequenina. Tornara-se uma rapariga esbelta e bonita, prestes a tornar-se uma mulher adulta. E isso, pensou Brenna com um suspiro, seria uma preocupação para outro dia.

 

- Volta para a tua cama, querida. Os teus pés vão ficar gelados.

 

- Eu vou sentar-me aqui. - Ela subiu para a cama e acomodou-se sobre as pernas de Mary Kate. - Para te ajudar a imobilizá-la. Se foi suficiente para te fazer chorar, ela deve pelo menos ter a cortesia de te ouvir.

 

- Foi ela quem me fez chorar primeiro - protestou Mary Kate.

 

- As tuas lágrimas eram de raiva - declarou Alice Mae, transtornada, usando uma das expressões da mãe.

 

- Acho que parte das minhas também. - Com outro suspiro, Brenna estendeu um braço pelos ombros de Alice Mae. - Ela tinha o direito de estar zangada comigo. Eu comportei-me muito mal. Desculpa, Katie, pela forma como agi, pelas coisas que disse. Estou arrependida.

 

- Estás mesmo?

 

- Do fundo do coração. - As lágrimas voltaram a subir, pela garganta, pelos olhos. - Eu amo-te.

 

- Eu também te amo - soluçou Mary Kate. - E também te peço desculpa. Disse coisas horríveis. Não era a sério.

 

- Não tem importância. - Brenna mudou de posição para que a irmã se pudesse sentar na cama e ser abraçada. - Mas não posso deixar de me preocupar contigo - murmurou ela, contra os cabelos de Mary Kate.

- Sei que já és crescida agora, mas não é fácil pensar em ti assim. Não é tão difícil com a Maureen e a Patty. A Maureen é apenas dez meses mais nova do que eu, e Patty nasceu um ano depois. Mas com vocês as duas... - Ela abriu os braços, para que Alice Mae também se pudesse aconchegar, antes de acrescentar: - Lembro-me muito bem da ocasião em que vocês nasceram. Por isso, é diferente.

 

- Mas eu não estava a fazer nada errado.

 

- Eu sei. - Brenna fechou os olhos. - És muito bonita, Katie. E imagino que precises de testar as tuas habilidades. Eu simplesmente gostaria que fizesses isso com um rapaz da tua idade.

 

- Já fiz. - Com uma gargalhada embaraçada, Mary Kate afastou a cabeça do ombro da irmã, a sorrir. - E acho que estou pronta para subir um nível.

 

- Santa Maria! - Brenna voltou a fechar os olhos. - Só quero que me respondas a uma coisa. Achas que estás apaixonada pelo Shawn?

 

- Não sei. - Mary Kate encolheu os ombros, apreensiva. - É possível. Acho que ele é muito bonito, como um cavaleiro andante num cavalo branco. E é como um poeta, romântico e profundo. E fita as pessoas nos olhos. Muitos rapazes olham para um ponto abaixo. Por isso, sabes que não estão a pensar em ti, mas sim na possibilidade de te tirar a camisa. Alguma vez já reparaste nas mãos de Shawn, Brenna?

 

- Nas mãos?

 

Longas, estreitas, hábeis. Deslumbrantes.

 

- São as mãos de um artista. E tu sabes, só de olhar para elas, qual seria a sensação se ele te acariciasse.

 

- É verdade... - Brenna concordou com um longo suspiro. Apressou-se em recuperar o controlo. - O que eu quis dizer é que sei como ele pode agitar... certos sentimentos, sendo tão bonito. Só quero que tenhas cuidado. Mais nada.

 

- Terei todo o cuidado.

 

- Pronto, já fizeram as pazes - disse Alice Mae, levantando e beijando as duas. - Agora, Brenna, queres fazer o favor de sair, para que possamos dormir um pouco?

 

Brenna não dormiu muito; e, quando lhe pegou o sono, teve sonhos. Sonhos estranhos, confusos, com momentos de clareza que quase doíam no cérebro. Um cavalo branco alado, montado por um homem vestido de prateado, de cabelos pretos compridos a esvoaçar, com um rosto bonito e firme.

 

Voava pela noite, com as estrelas a cintilarem em seu redor, cada vez mais alto, na direcção da bola branca e reluzente que era a lua cheia. Uma lua da qual a luz pingava, como lágrimas. O cavaleiro recolheu essas lágrimas, como pérolas, no seu saco de prata cintilante. E foi despejá-las no chão, aos pés de Lady Gwen, no chalé na colina das fadas.

 

- Estas são as lágrimas da lua. Representam o meu anseio por ti. Aceita as pérolas e a mim também.

 

Mas ela derramou as suas próprias lágrimas, enquanto se virava, rejeitando-o. E as pérolas luziram na relva, transformando-se nas flores-dalua.

 

E foi Brenna quem as colheu, à noite, quando as delicadas pétalas brancas se abriam. Deixou-as no pequeno alpendre, ao lado da porta do chalé, para que Shawn as encontrasse. Porque ela carecia da coragem para entrar com as flores. E oferecê-las.

 

A falta de sono e o excesso de sonhos deixaram-na com olheiras e sombria no dia seguinte. Depois da missa, tratou de se ocupar com alguma coisa.

 

Desmontou e voltou a montar o motor do velho cortador de relva. Limpou as velas da sua carrinha, embora não fosse preciso.

 

Estava debaixo do velho carro da mãe, a mudar o óleo, quando avistou os sapatos do pai.

 

- A tua mãe disse que eu deveria vir cá fora para descobrir o que te atormenta, antes que resolvas desmontar o motor desse ferro velho.

 

- Eu estava apenas a cuidar de algumas coisas que precisavam de reparos.

 

- Dá para perceber. - Mick agachou-se. Depois, com um suspiro agudo, meteu-se por baixo do carro, ao lado de Brenna. - Quer dizer que não tens nada na cabeça?

 

- Talvez tenha. - Ela trabalhou em silêncio por mais alguns momentos, sabendo que o pai a deixaria organizar os seus pensamentos.

 

- Posso perguntar-te uma coisa?

 

- Sabes que podes.

 

- O que quer um homem?

 

Mick contraiu os lábios, satisfeito ao constatar como as mãos da filha eram rápidas e eficientes com uma chave de porcas.

 

- Uma boa mulher, um emprego firme, uma refeição quente, e uma caneca de cerveja ao final do dia satisfazem a maioria.

 

- É na primeira parte que estou interessada. O que quer um homem de uma mulher?

 

- Hum... - Aturdido, quase em pânico, ele fez menção de sair de baixo do carro. - Vou chamar a tua mãe.

 

- Tu és um homem, ela não. - Brenna segurou na perna do pai, antes que ele pudesse escapar. Mick era vigoroso, mas ela tinha a mão firme.

 

- Quero ouvir de um homem o que ele procura numa mulher.

 

- Um... bom senso... - Mick falou num tom jovial demais. - É uma boa qualidade. E paciência. Verdade seja dita, um homem precisa da paciência de uma mulher. Já houve um tempo em que ele queria que a mulher criasse um lar confortável. Mas no mundo de hoje... tem de ser mais um arranjo de ajuda mútua. Uma companheira em tudo. - Ele agarrou-se à palavra como se fosse uma corda lançada da beira de um penhasco muito alto, em cuja encosta se equilibrava numa saliência estreita, destronando-se sob os seus pés. - Um homem quer uma companheira pelo resto da vida.

 

Brenna deu um impulso para sair debaixo do carro. Sentou-se ao lado. Continuou a segurar o pai pelo tornozelo, pois sentia que ele escaparia, se tivesse a oportunidade.

 

- Acho que ambos sabemos que não estou a falar sobre bom senso, paciência e companheirismo.

 

O rosto de Mick ficou rosa, depois branco.

 

- Não vou falar sobre sexo contigo, Mary Brenna. Podes tirar essa ideia da cabeça. Não tenho a menor intenção de falar sobre essas coisas com a minha filha.

 

- Porquê? Sei que já fizeste sexo, ou eu não estaria aqui, certo?

 

- Acho que já chega - murmurou Mick, comprimindo os lábios.

 

- Se eu fosse um homem, em vez de mulher, poderíamos conversar acerca disso?

 

- Tu não és um homem. Portanto, não vamos falar sobre isso. Ponto final.

 

Mick cruzou os braços.

 

Sentado como estava, fez Brenna pensar num duende irritado. Não pôde deixar de especular se Jude o usara como modelo para um dos seus desenhos.

 

- E como me posso orientar acerca disso, se não podemos conversar?

 

Como Mick não estava interessado pela lógica naquele momento, limitou-se a olhar para o espaço, de cara séria.

 

- Se queres falar sobre essas coisas, procura a tua mãe.

 

- Está bem, está bem... - Brenna decidiu tentar por outro ângulo. O próprio pai não lhe ensinara que havia sempre mais de uma maneira de encarar um trabalho? - Gostaria que me dissesses uma coisa.

 

- Sobre outro assunto?

 

- Pode-se dizer que sim. - Ela sorriu para Mick, apertando a sua perna. - Se quisesses alguma coisa e já quisesses há muito tempo, o que farias?

 

- Se eu quisesse, porque não poderia ter?

 

- Porque ainda não fizeste qualquer esforço para conseguir o que queres.

 

- E porque não fiz? - Mick franziu as sobrancelhas avermelhadas. - Sou lerdo ou apenas estúpido?

 

Brenna pensou um pouco acerca disso. Concluiu que ele não poderia saber que insultara a sua primogénita. Balançou a cabeça, devagar.

 

- Talvez um pouco de ambas as coisas, neste caso.

 

Aliviado porque a conversa se deslocara para uma área segura, Mick exibiu um sorriso decidido.

 

- Então eu deixaria de ser lerdo e estúpido, focalizaria o que queria, e não perderia mais tempo. Porque quando um O'Toole se concentra em algo, quando mira direito, nunca erra o alvo.

 

Brenna sabia que era a pura verdade. O que certamente se podia esperar.

 

- Mas talvez te sintas um pouco nervoso, sem teres muita segurança sobre a tua habilidade nessa área.

 

- Se não correres atrás do que queres, nunca vais conseguir. Se não pedires, a resposta será sempre não. Se não deres um passo à frente, permanecerás sempre no mesmo lugar.

 

- Tens razão. - Brenna pôs as mãos nos ombros do pai, transferindo um pouco de graxa para a camisa dele, enquanto dava um sonoro beijo no seu rosto. - Tens sempre razão, pai. Era justamente isso o que eu precisava de ouvir.

 

- É para isso que os pais servem.

 

- Será que te importarias de terminar aqui? - Brenna sacudiu o polegar por baixo do carro. - Não gosto de deixar nada por acabar, mas tenho de resolver um problema.

 

- Não te preocupes.

 

Mick esgueirou-se para baixo do carro. Satisfeito por ter deixado a filha mais tranquila, ele assobiava enquanto trabalhava.

 

                                                 CAPÍTULO CINCO

Shawn deixou o chá curtir, até ficar tão denso, que dava para dançar uma jiga em cima. Pegou nos bolinhos do dia anterior, que trouxera do pub. Tinha uma hora até ter de sair para trabalhar. Tencionava desfrutar do seu breve pequeno-almoço, enquanto lia o jornal, que pegara na aldeia, depois da missa.

 

O rádio no balcão tocava músicas gaélicas tradicionais. Um fogo de turfa crepitava na lareira da cozinha. Para ele, era como um pequeno pedaço do paraíso.

 

Dali a pouco estaria a cozinhar para as multidões do domingo, com Darcy a entrar e sair da cozinha do Gallagher's, reclamando acerca de uma coisa ou de outra. E uma pessoa ou outra apareceria para lhe dizer alguma coisa. Era bem provável que Jude passasse uma ou duas horas na cozinha, e ele trataria de que ela tivesse uma refeição farta e saudável.

 

Não se importava com nada disso. Nem um pouco. Mas se não arranjasse um tempo só para ele de vez em quando, tinha a sensação de que o seu cérebro poderia explodir. Imaginava-se a viver no chalé pelo resto da sua vida, com o gato preto mal-humorado deitado ao lado da lareira, uma manhã sossegada a seguir a outra.

 

A sua mente vagueava ao som das gaitas e flautas que saía do rádio. O pé começou a bater no chão, marcando o ritmo. Quando ouviu o baque forte contra a porta dos fundos, o coração quase lhe saiu pela boca.

 

A enorme cadela amarela sorria para ele, com a língua a pender para fora, as patas enormes comprimidas contra o vidro. Shawn balançou a cabeça, mas levantou-se para abrir a porta. Nunca se importava com a presença da Betty dos OToole. Era uma boa companhia. Depois de alguns afagos, iria enroscar-se num canto e mergulhar nos seus próprios sonhos.

 

Bub arqueou as costas e sibilou, mas isso era rotina, e não irritação genuína. Como a paciente Betty não reagia, o gato simplesmente levantou o rabo e tratou de se limpar com a língua.

 

- Vieste visitar-me de novo, hein? - murmurou Shawn, enquanto deixava Betty entrar, acompanhada por um vento firme, que anunciava uma chuva iminente. - Serás sempre bem-vinda para partilhar um pão e fogo... e não importa o que aquele demónio ali pense acerca disso.

 

Quando já ia fechar a porta de novo, ele avistou Brenna. A sua primeira reacção foi uma vaga irritação. Afinal, Brenna não se contentaria com alguns afagos e exigiria uma conversa. Mas manteve a porta aberta, observando, o corpo interpondo-se entre o vento e o calor.

 

Uns poucos fios de cabelos haviam-se soltado do boné e esvoaçavam em torno do rosto, vermelhos como rubis. Brenna mantinha os lábios contraídos, levando-o a especular se ele - ou qualquer outra pessoa - havia feito algo para a irritar. O que era fácil de acontecer, concluiu Shawn, agora que pensava a respeito disso. De qualquer forma, era uma boca bonita, quando se encontrava tempo para a contemplar.

 

Para uma mulher tão pequena, ela tinha passadas largas, observou Shawn. E determinadas. Andava como se tivesse alguma coisa para fazer e quisesse acabar com aquilo o mais depressa possível. Conhecendo muito bem a OToole, ele não tinha a menor dúvida de que ela lhe diria qual era o problema, da forma mais sucinta possível.

 

Brenna contornou a plantação de ervas, que ele estava a pensar em expandir para uma horta completa. O vento pusera um pouco de cor no seu rosto. Por isso, quando ergueu a cabeça para o fitar, ela exibiu as faces rosadas.

 

- Bom dia para ti, Mary Brenna. Se saíste para dar um passeio com a tua cadela, parece que ela já se cansou. Entrou para se deitar por baixo da mesa. O Bub resolveu ignorá-la, como se ela não valesse o seu tempo.

 

- Ela é que quis passear comigo.

 

- Posso imaginar. E se andasses de vez em quando, em vez de marchar, acho que a Betty poderia fazer-te companhia por mais tempo. Entra e sai do vento. - Shawn começou a recuar, quando ela alcançou o alpendre dos fundos. Parou de repente e inspirou. Não pôde deixar de sorrir. - Tu recendes a flores e graxa de eixo ou algo parecido.

 

- É óleo de carburador e o que restou do perfume com que a Alice Mae me impregnou esta manhã.

 

- Uma combinação e tanto. - E típica de Brenna OToole, pensou Shawn, enquanto ela entrava no chalé. - Queres um chá?

 

- Quero.

 

Brenna tirou o casaco e pendurou-o num cabide. Depois, um pouco atrasada, lembrou-se do boné, e tirou-o também.

 

Shawn sentia sempre uma pequena contracção no estômago ao contemplar aqueles cabelos a derramarem-se. O que era um absurdo, pensou ele enquanto pegava no bule. - Sabia que estavam ali, por baixo daquele boné horrível. Mas de cada vez que Brenna os deixava cair, era uma nova surpresa.

 

- Tenho bolinhos.

 

- Não quero, mas obrigada. - Brenna teve vontade de limpar a garganta, que parecia coberta por alguma coisa grossa e quente. Em vez disso, sentou-se à mesa, empurrando a cadeira para trás. Decidira, enquanto andava, fazer tudo da forma mais descontraída que pudesse. - Queria saber se tu vais querer que eu dê uma olhada no teu carro esta semana. Da última vez em que o ouvi, parecia estar prestes a emperrar.

 

- Não me importaria, se tiveres tempo.

 

Ele observou Bub a aproximar-se, para se esfregar nas pernas de Brenna, e depois pular para o seu colo. A OToole era a única pessoa que o gato apreciava. Shawn concluíra que era pelo facto de serem ambos mal-humorados.

 

- Não vais estar ocupada na casa, a renovar o quarto para o bebé da Jude?

 

Brenna afagou a cabeça de Bub, que ronronou como um comboio de carga.

 

- Tenho tempo suficiente.

 

Shawn sentou-se no outro lado da mesa. Betty levantou-se, suplicando por um pedaço de bolo, que ele lhe deu.

 

- Como vão as coisas?

 

Ele decidiu que até era agradável, no final de contas, sentar-se com Brenna na cozinha aquecida, em companhia dos animais.

 

- Muito bem. A maior parte do que a Jude quer não é obra grande, serve apenas para ajeitar e embelezar. Mas ao melhor estilo das mulheres, ela já começou a pensar que os outros quartos vão parecer vergonhosos assim que o do bebé fique pronto. E agora quer renovar também o quarto principal.

 

- O que há de errado com ele? Brenna encolheu os ombros.

 

- Nada que eu possa ver. Mas a Jude e a Darcy já descobriram uma dúzia de coisas para mudar. Papel de parede novo, outra pintura para os remates, lixar o soalho. Comentei de passagem que a vista das janelas da frente era maravilhosa. A Jude disse no mesmo instante que gostaria de ter um banco perto da janela. Respondi que seria bem simples fazê-lo. E antes que eu pudesse pestanejar, ela pediu-me para o fazer.

 

Distraída, Brenna pegou em metade de um bolinho e deu uma mordidela.

 

- Aposto que o pai e eu teremos de mexer em todas as divisões daquela casa, de alto a baixo. Agora a Jude tomou-lhe o gosto. Acho que é como arrumar o ninho.

 

- Se isso lhe agrada, e o Aidan não se importa...

 

Shawn parou de falar, tentando imaginar como seria a vida no meio de todo o barulho de martelos e serrotes. Preferia ser assado vivo em fogo lento.

 

- Se ele se importar? - Brenna soltou uma gargalhada desdenhosa. - O Aidan apareceu durante uma das nossas discussões. Limitou-se a sorrir, como um idiota. Está completamente apaixonado. Se a Jude dissesse que deveriam virar a casa para o outro lado, ele não hesitaria em concordar.

 

- Ela suspirou e tomou um gole do chá, antes de murmurar: - É lindo ver aqueles dois juntos.

 

- A Jude era o que o meu irmão esperava. - Shawn balançou a cabeça, diante do olhar perplexo de Brenna. - Claro que ele estava à espera. Bastava observá-lo para perceber. Quando a Jude entrou no pub, naquela primeira noite, foi o momento da decisão. A vida mudou a partir daquele instante, embora nenhum dos dois soubesse disso na ocasião.

 

- Mas tu sabias?

 

- Não posso dizer que sabia com precisão. Apenas pressenti que tudo mudaria.

 

Intrigada, Brenna inclinou-se para a frente.

 

- E tu, de que estás à espera?

 

- Eu? - Shawn franziu as sobrancelhas. - Gosto das coisas como estão.

 

- É esse o teu problema, Shawn. - Brenna espetou um dedo nele.

 

- Caminhas pela mesma linha até que se torne uma rotina. Nunca percebes, porque vives com a cabeça nas nuvens.

 

- Se é uma rotina, é minha, e sinto-me à vontade nela.

 

- O que precisas mesmo é de assumir o comando. - Ela lembrou-se das palavras do pai. - E avançar. Se não avançares, ficas sempre no mesmo lugar.

 

Com olhos suaves e divertidos, Shawn pegou no seu chá.

 

- Mas gosto de como está.

 

- Eu estou pronta para mudar, para avançar. - Os olhos contraíram-se enquanto o estudava. - E não me importo de assumir o comando, se é assim que tem de ser.

 

- E desta vez pretendes assumir o comando de quê?

 

- De ti. - Ela recostou-se, ignorando o sorriso de Shawn, enquanto tomava um gole do chá. - Acho que devemos fazer sexo.

 

Shawn engasgou-se. Derramou o chá quente na mão e no jornal, num violento ataque de tosse. Ela soltou um grunhido contrariado. Pôs no chão o irritado Bub, para se levantar e bater com firmeza nas costas de Shawn.

 

- Não pode ser uma perspectiva assim tão terrível.

 

- Jesus! - Foi o máximo que ele conseguiu balbuciar. - Doce Jesus Cristo! - Quando Brenna se voltou a sentar, ele continuou a fitá-la com os olhos esbugalhados, ainda lacrimejando. No final, respirou fundo e soltou o ar devagar. - Como podes dizer uma coisa dessas?

 

- É simples e objectiva. - Determinada a controlar os nervos e a impetuosidade, Brenna estendeu o braço por cima do encosto da cadeira.

- A verdade é que sinto algum desejo por ti. Um anseio profundo. E há já algum tempo. - Desta vez ele ficou boquiaberto. O choque no seu rosto fez com que a fúria de Brenna se aproximasse da superfície. - Em que estás a pensar? Que só os homens se podem coçar quando sentem uma comichão?

 

Claro que Shawn não pensava assim. Mas também não achava que uma mulher pudesse entrar assim na cozinha de um homem e fazer um anúncio desse tipo.

 

- O que pensaria a tua mãe se te ouvisse a falares assim? Brenna inclinou a cabeça.

 

- Ela não está aqui, pois não?

 

Shawn empurrou a cadeira para trás, de uma forma tão abrupta que fez Betty levantar-se de um pulo. Como nenhum dos pensamentos a agitarem-se na sua cabeça parecia querer acalmar-se, ele encaminhou-se para a porta.

 

- Preciso de um pouco de ar fresco.

 

Por um momento, Brenna continuou sentada. Ordenou a si mesma que respirasse devagar, bem fundo, até ter a certeza de que poderia manter o controlo. Que seria razoável, madura e lúcida. A razão lutou contra a raiva por quase dez segundos, antes de meter o rabo entre as pernas e abandonar o campo de batalha.

 

A desfaçatez do homem! O descaramento! O que era ela afinal, alguma espécie de gárgula que um homem nem podia pensar em acariciar? Precisaria de desfilar de saia curta, com o rosto todo pintado, para que Shawn Gallagher se apercebesse dela? Não faria isso de forma alguma!

 

Brenna levantou-se e saiu pela porta, avançando contra o vento.

 

- Se não estás interessado, tudo bem. Basta dizeres.

 

Ela alcançou-o. Parou diante dele, que resolveu o problema ao virar-se e caminhar na direcção inversa.

 

E poderia considerar-se um homem de sorte porque Brenna não tinha uma arma na mão.

 

- Não te afastes de mim dessa maneira, seu cobarde miserável! Ele olhou para trás, com os olhos azuis a faiscar.

 

- Deverias ter vergonha de ti mesma.

 

Shawn voltou a virar o rosto e continuou a andar.

 

Sentia-se mortificado, até aos ossos. E que Deus o ajudasse, porque também... se sentia excitado. Recusava-se a pensar em Brenna dessa maneira. Sempre se recusara. E, se uma ou outra vez os seus pensamentos se desviaram nessa direcção, não se apressara em interrompê-los, com firmeza e rapidez? Era o que faria agora.

 

- Vergonha? - A voz dela era agressiva como um punho a golpear. - Quem és tu para decidir de que devo ter vergonha?

 

- Sou o homem a quem acabas de te oferecer, com a mesma facilidade de quem oferece uma cerveja e um prato de batatas fritas.

 

Brenna alcançara-o de novo, mas as palavras deixaram-na atordoada, drenaram toda a cor do seu rosto.

 

- É isso o que tu pensas? Que não há mais nada além disso? Nesse caso, és tu quem deveria sentir vergonha.

 

Shawn apercebia-se da mágoa nos seus olhos, o que aumentava ainda mais a confusão em que se sentia emaranhado.

 

- Brenna, tu não podes sair por aí a dizer a um homem que queres fazer sexo com ele. Não está certo.

 

- Mas está certo um homem dizer isso a uma mulher?

 

- Não. Também não acho correcto. É um... deveria ser... Santa Mãe de Deus, não posso ter uma conversa assim contigo. És quase da família!

 

- Porque não podem os homens que conheço falar de sexo como uma função humana normal? E eu não sou da tua família.

 

Poderia ser cobardia, mas era também uma questão de prudência. Ele deu um passo para trás.

 

- Fica longe de mim.

 

- Se não queres ir para a cama comigo, basta dizeres que não sentes a mínima atracção por mim dessa forma.

 

- Eu não estou a pensar em ti dessa forma. - Shawn deu outro passo para trás, pisando o pequeno canteiro de ervas. - És praticamente minha irmã.

 

Brenna mostrou os dentes, um sinal infalível de explosão de raiva prestes a ocorrer.

 

- Mas eu não sou tua irmã, pois não?

 

O vento fez os cabelos de Brenna esvoaçarem, deixando Shawn com vontade de pegar neles... algo que poderia ter feito numa centena de outras ocasiões, em que seria um gesto inofensivo.

 

Agora, ele receava, nada mais entre os dois voltaria a ser inofensivo.

 

- Não, não és minha irmã. Mas tenho pensado em ti... tenho tentado pensar... como minha irmã, durante a maior parte da minha vida. Como esperas que eu mude de repente e... Não posso fazer isso. - Shawn sentiu que o seu sangue recomeçava a ferver. - Não está certo.

 

- Se não queres fazer sexo comigo, o problema é teu. - Brenna balanceou a cabeça, com absoluta frieza. - Outros hão-de querer.

 

Com isso, ela virou-se e começou a marchar de volta para casa.

 

- Ei, espera aí! - Shawn era capaz de se movimentar depressa quando era necessário. Segurou Brenna pelo braço antes que ela desse três passos. Virou-a e segurou também o outro braço, com firmeza. - Se pensas que te vou deixar ir embora com isso na cabeça, estás muito enganada. Não vou admitir que te ofereças a qualquer homem só porque estás zangada comigo.

 

O brilho nos olhos de Brenna deveria ser aviso suficiente, mas a sua resposta saiu tão calma, tão fria, que ele não notou.

 

- Tu achas que és o máximo, Shawn Gallagher. Se eu quiser ir para a cama com um homem, podes ter a certeza de que irei. E tu não tens nada a dizer. Pode ser um choque para ti, mas já fiz sexo antes, e gostei. Farei de novo, quando tiver vontade.

 

Foi como se ela tivesse acertado com um martelo na barriga de Shawn.

 

- Tu... quem...

 

- É um assunto que apenas a mim diz respeito - interrompeu Brenna, com uma expressão presunçosa. - Não é da tua conta. E, agora, quero que me largues. Não tenho mais nada a dizer-te.

 

- Pois eu tenho muito mais para te dizer!

 

Só que ele não conseguia pensar em nada, não com a imagem de Brenna abraçada a um homem sem rosto a arder no seu cérebro. Ela inclinou a cabeça para trás e voltou a fitá-lo nos olhos.

 

- Queres ou não fazer sexo comigo?

 

Verdade ou mentira? Shawn pensou que qualquer resposta o enviaria directamente para o inferno. - Mas achou que a mentira era mais segura.

 

- Não.

 

- Nesse caso, acabou.

 

Humilhada e furiosa, ela empurrou-o. Depois... talvez fosse por orgulho, ou apenas por necessidade, mas ela agiu antes de pensar.

 

Num salto ágil, estava nos braços de Shawn, as pernas a envolvê-lo pela cintura, a boca a fundir-se com a dele. Teve a impressão de ouvir Betty latir... uma vez, duas, três, em rápida sucessão, quase como uma gargalhada. Agarrava-se como um carrapicho, enquanto Shawn cambaleava. Deu uma mordidela, não muito leve, no seu lábio inferior. Alguém gemeu, e ela não sabia nem se importava quem fora. Despejou tudo o que sentia naquele encontro ardente dos lábios.

 

Brenna apanhara-o de surpresa. Era por isso que ele não se desvencilhava. Claro que era. Era apenas uma reacção instintiva ao contacto com aquele rabo maravilhosamente firme nas suas mãos, que logo subiram pelas costas de Brenna e se perderam nos seus cabelos.

 

E sentiu um choque no momento em que inspirou. Não era culpa sua que a fragrância intensa o envolvesse por completo, deixasse a sua cabeça a girar.

 

Tinha de parar. Pelo bem de Brenna, tinha de parar agora... só mais um pouco. Mais cedo ou mais tarde.

 

O vento fustigava-os em rajadas frias. O sol escondeu-se por trás das nuvens, deixando na sua esteira uma claridade frágil e tremeluzente. Uma chuva fina começou a cair. Shawn sentiu o sangue quase a esvair-se da sua cabeça, deixando-a vazia... a não ser pela imagem de levar Brenna ao colo para o chalé, subir as escadas, largá-la na cama, e saborear ainda mais.

 

Mas nesse instante ela soltou-o, voltou a pôr os pés no chão. Embora o desejo turvasse os seus olhos, Shawn ainda pôde ver a expressão desdenhosa que ela exibiu.

 

- Pensei que deverias ter uma amostra do que rejeitaste. Enquanto ele permanecia imóvel, tão excitado que nem conseguia falar, Brenna sacudiu a manga da sua camisa.

 

- Eu dou uma vista de olhos ao teu carro quando tiver um tempito livre. É melhor desceres já para a aldeia. Já estás atrasado.

 

Shawn não disse nada, enquanto ela se afastava. Continuava parado, sob a chuva fina, quando Brenna e a cadela amarela desapareceram ao longe.

 

- Estás atrasado - disse Aidan, no instante em que Shawn passou pela porta da cozinha do pub.

 

- Então podes despedir-me ou sair da minha frente.

 

Aidan alteou as sobrancelhas, diante da inesperada resposta rígida. Observou Shawn a abrir o frigorífico, e a começar a tirar os ovos, o leite e a carne.

 

- É difícil despedir um homem que tem uma participação na firma igual à minha.

 

Shawn bateu com uma panela no fogão.

 

- Então compra a minha parte. Porque não fazes isso? Quando Darcy entrou na cozinha, Aidan ergueu a mão, balançou a cabeça, e fez sinal para que ela recuasse. Darcy não ficou nada satisfeita, mas obedeceu.

 

- Qual é o problema?

 

- Não há problema nenhum. Apenas tenho coisas na cabeça e trabalho para fazer.

 

- Pelo que sei, nunca foste incapaz de falar e trabalhar ao mesmo tempo.

 

- Não tenho nada para dizer, e preciso de preparar um pastelão de carne. Mas, afinal, que raio se passa com as mulheres? - Ele virou-se, olhando para o irmão com o rosto franzido. - Primeiro é uma coisa, depois outra, e nunca sabes o que vão fazer em seguida.

 

- Ah, isso...

 

A preocupação de Aidan transformou-se em divertimento. Ele serviu-se de chá e encostou-se ao balcão, enquanto Shawn continuava a trabalhar e resmungar.

 

- Podemos conversar durante o dia inteiro e metade da noite, Shawn, sem sequer chegarmos perto de resolver esse enigma. O problema é complexo demais. Mas não concordas que é mais agradável ter uma mulher a causar problemas do que não ter mulher alguma?

 

- Neste momento, não, não acho. Aidan riu-se.

 

- Qual delas te deixou tão angustiado?

 

- Ninguém. Não houve nada. É tudo ridículo.

 

- Hum... não queres dizer. - Aidan tomou um gole de chá, enquanto considerava a situação. - Nesse caso, deve ser muito sério.

 

- É fácil para ti sorrires, com essa expressão presunçosa. - A voz de Shawn tinha uma irritação amargurada. - Só porque estás muito feliz com a tua Jude Francês.

 

- É verdade. - Aidan balançou a cabeça. - Mas nem sempre foi assim, e tu deste-me um bom conselho quando eu estava desesperado. Talvez devesses encontrar tempo para dares os conselhos a ti próprio, se não os quiseres ouvir de mim.

 

- Não quero uma mulher na minha vida neste momento - murmurou Shawn. - Muito menos esta em particular. Não quero sequer saber.

 

Ele tentou não pensar naquele beijo ardente e frenético, no modo como o corpo compacto de Brenna se comprimira contra o seu.

 

- De forma alguma! - Reiterou ele.

 

Shawn ajustou o fogo sob a panela da carne, enchendo-a com movimentos rápidos.

 

- Sabes melhor do que ninguém o que te convém e o que não te convém. Posso apenas dizer-te que chega um momento em que a cabeça está a dizer uma coisa, mas o resto de ti não quer ouvir. Um homem pode tornar-se uma criança quando se trata de uma mulher, querendo o que não deve ter e pegando em mais do que aquilo com que pode lidar. Saber que uma coisa não é boa para ti não te impede de a quereres.

 

- Eu não seria bom para ela. - Mais calmo agora, Shawn pegou numa tigela para preparar a massa do pastelão. - Mesmo que não houvesse outros factores envolvidos, eu não seria bom para ela. Ponto final.

 

Com a farinha de trigo e a água misturadas numa massa firme, ele cobriu a tigela e guardou-a no frigorífico.

 

- Também vou fazer bolinhos - declarou Shawn, enquanto misturava manteiga e banha para a próxima fase do pastelão. - E tenho guardado em potes de conserva funcho-marítimo que o jovem Brian Dufiy colheu para mim. Vou servi-lo juntamente com o salmão que compraste esta manhã. Diz à Jude para aparecer, que eu faço-lhe um prato especial.

 

- Está bem. Obrigado. E Shawn...

 

Aidan parou de falar quando Darcy voltou a passar pela porta, com uma expressão magoada.

 

- Pedes-me para descer mais cedo e depois expulsas-me da cozinha. Se vocês os dois vão ficar trancados aqui a contar os vossos segredinhos de homens, vou subir para arranjar as unhas, já que só abrimos daqui a uma hora.

 

- Deixa-me servir-te uma chávena de chá, querida, já que abusei de ti de uma forma tão lamentável.

 

Aidan tocou levemente no rosto da irmã e depois puxou uma cadeira, com um floreio, para que ela se sentasse.

 

- Vou tomar o chá, mas também quero biscoitos para acompanhar.

 

Darcy cruzou as mãos sobre a mesa depois de se sentar, lançando um olhar desafiante a Aidan.

 

- Muito bem, os biscoitos. - Ele pegou numa lata e pô-la em frente da irmã. - Preciso de conversar com vocês os dois, já que envolve o pub.

 

- Então vais ter de falar enquanto eu trabalho.

 

Shawn tirou a tigela do frigorífico e começou a amassar a massa com o rolo.

 

- Porque chegaste atrasado, não é assim? - Murmurou Aidan, jovial. - Lembram-se do Magee, aquele homem de Nova Iorque? Ele está interessado na ideia de ligar ao Gallaghers o teatro que planeia construir aqui. Pensei em arrendar-lhe o terreno, num contrato de longo prazo, mas ele quer comprar. Se vendermos, ficamos sem o terreno, e sem qualquer controlo que pudéssemos vir a ter sobre o teatro.

 

- Quanto quer ele pagar? - Perguntou Darcy, mordendo um biscoito.

 

- Por enquanto, não entrámos em detalhes mais concretos sobre as condições. Mas tenho a impressão de que ele aceitará o que pedirmos. Preciso de telefonar ao pai e à mãe, mas o pub está nas nossas mãos agora, para decidirmos tudo.

 

- Se ele pagar bem, acho que devemos vender. Nunca usamos aquele terreno para nada.

 

- Mas é terreno - declarou Shawn, olhando para Darcy, enquanto cobria o rectângulo de massa com a mistura de banha e manteiga. - Terreno nosso. Sempre foi nosso.

 

- E o dinheiro também será. Dinheiro nosso.

 

- Tenho pensado muito nos dois lados. - Aidan contraiu os lábios, enquanto girava a chávena de chá. - Se não quisermos vender, o Magee poderá encontrar outro terreno para o seu projecto. E o teatro pode beneficiar o pub, se tivermos alguma ligação. O Magee parece-me muito inteligente. Já lhe disse que prefiro negociar pessoalmente, em vez de usar apenas o telefone. Mas ele diz que não pode viajar neste momento. Tem outros negócios em andamento e não se pode ausentar enquanto não concluir tudo.

 

- Então manda-me para Nova Iorque. - Darcy bateu as pestanas muito pretas. - E vou usar toda a minha sedução para que ele abra a carteira.

 

Aidan assobiou.

 

- Não creio que a sedução funcione com um homem assim. Na minha opinião, só o dinheiro lhe interessa. Estou a pensar em pedir ao pai para dar um pulo até Nova Iorque e se encontrar com Magee. Afinal, o pai é tão esperto como qualquer negociante ianque. Mas, antes de fazer isso, precisamos de decidir o que queremos nós os três desse negócio.

 

- Lucro - respondeu Darcy sem hesitar, enquanto acabava de mastigar o biscoito.

 

- Claro que isso também, mas que mais, a longo prazo?

 

- Reputação - declarou Shawn. Quando Aidan o fitou, ele explicou: - Temos trabalhado durante os últimos anos para transformar o Gallaghers num centro de música. Não conseguimos incluir o pub nos guias turísticos, como um lugar de boa comida e bebida, com a melhor música da região, que nós mesmos tocamos ou contratando outros? Não há bandas ou agentes das mesmas a telefonar-te constantemente para falar sobre apresentações aqui?

 

- É verdade - confirmou Aidan. - Temo-nos saído muito bem nessa área.

 

- Se esse tal de Magee está a pensar em expandir as apresentações de música em Ardmore, isso pode atrair mais turistas, mais clientes, aumentando a nossa reputação.

 

Shawn dobrou a massa em três, fechou as extremidades e voltou a colocá-la no frigorífico.

 

- Mas tem de ser feito à maneira dos Gallagher, certo?

 

Aidan recostou-se na cadeira, enquanto Shawn levava as batatas do depósito para a pia, começando a lavá-las.

 

- És uma constante surpresa para mim, Shawn. Tens toda a razão. À maneira dos Gallagher, ou nada feito. O que significa tradicional, moderado e irlandês. Não queremos nada espalhafatoso e absurdo vinculado ao nosso pub.

 

- O que significa que tens de o convencer de que precisamos de trabalhar em conjunto - acrescentou Shawn. - Já que conhecemos Ardmore e Old Parish, enquanto ele não conhece.

 

- A nossa participação é indispensável - declarou Aidan. - E teremos uma percentagem do teatro. Essa é a minha ideia. Quero transmitir tudo ao pai e pedir-lhe que converse com o Magee, em Nova Iorque.

 

Darcy tamborilou com os dedos sobre a mesa.

 

- Ou seja, venderemos o terreno pelo nosso preço ou faremos um arrendamento de longo prazo, sob a condição de termos uma participação no prédio, no planeamento e nos lucros.

 

- Muito bem resumido. - Aidan piscou o olho à sua irmã. Darcy tinha mesmo um cérebro arguto e frio para os negócios. - É a maneira dos Gallagher. - Ele levantou-se, indagando: - Estamos de acordo?

 

- Concordo - respondeu Darcy, pegando noutro biscoito. - Vamos a ver se esse Magee nos pode deixar ricos.

 

Shawn colocou as batatas na água a ferver.

 

- Também concordo. Agora, quero que os dois saiam da minha cozinha.

 

- Com todo o prazer.

 

Darcy atirou um beijo galante a Shawn e saiu, já a sonhar com a forma como gastaria o dinheiro do ianque.

 

Uma vez que considerava que Aidan tinha tudo sob controlo, Shawn não voltou a pensar na venda do terreno, na construção do teatro e na participação nos lucros. Preparou os pratos que planeara, mantendo a cozinha quente e impregnada dos aromas deliciosos quando o pub abriu as portas.

 

Começou a preparar os pedidos, entrando na rotina sem qualquer dificuldade. Mas a música que sempre ressoava na sua cabeça insistia em esquivar-se. Imaginava uma melodia enquanto trabalhava e deixava que as notas e o ritmo seguissem o seu caminho. Mas de repente voltava à chuva fina, com Brenna a envolvê-lo, e a única música que restava agora era o zumbido do seu próprio sangue. E isso não lhe agradava nem um pouco.

 

Brenna era sua amiga, e um homem não poderia pensar numa amiga dessa forma. Mesmo que ela tivesse começado tudo. Crescera a zombar dela, como se fosse sua irmã. Sempre que a beijava, o que acontecera muitas vezes, era um beijo fraternal.

 

Como poderia voltar a essa situação, agora que sabia qual era o sabor de Brenna? Quando sabia como as bocas se ajustavam uma à outra e quanto... quanto calor havia dentro daquela embalagem pequena? E como poderia livrar-se da intensa e ardente consciência do seu corpo, algo que ele nunca pedira?

 

Brenna não era o seu tipo... nem de longe. Apreciava as mulheres macias, bem femininas, que gostavam de fazer flirt e aconchegar-se. E, acima de tudo, mulheres que o deixassem tomar a iniciativa. Afinal, ele não era um homem? E um homem deveria usar o romance para levar uma mulher para a cama, não ouvir que deveria ir porque ela sente... como foi que Brenna lhe havia dito? Um anseio. Uma comichão.

 

Mas ele não seria a comichão de ninguém, disse a si mesmo.

 

E disse também que se manteria a uma boa distância de Brenna OToole, por um bom tempo. E não ficaria na expectativa de ver aquele boné horrível ou ouvir a sua voz, cada vez que saísse da cozinha para o pub.

 

Ainda assim, os seus olhos esquadrinharam a multidão, os ouvidos aguçaram-se. Mas Brenna não apareceu no Gallaghers naquela noite de domingo.

 

Shawn fez o seu trabalho, e aqueles que o experimentaram, durante a noite, voltaram para casa de barriga cheia e em profunda satisfação. Depois de arrumar a cozinha, foi a sua vez de voltar para casa. Só que sentia a barriga vazia, apesar da refeição que tivera, e a satisfação parecia muito distante.

 

Tentou de novo perder-se na música e passou quase duas horas ao piano. Mas as notas pareciam, de alguma forma, amargas, as melodias dissonantes.

 

A determinada altura, quando os dedos deslizavam sobre as teclas e sacudia a cabeça porque os acordes não lhe proporcionavam qualquer prazer, sentiu uma mudança no ar. A mais ténue palpitação de movimento e som. Mas, quando levantou os olhos, não havia nada ali, apenas a sala do chalé, e o vão da porta que levava ao corredor.

 

- Sei que estás aqui. - Shawn falou baixinho. Esperou um pouco. Não houve resposta. - O que queres que eu saiba?

 

Enquanto o silêncio se prolongava, ele levantou-se para apagar o fogo, ouvindo o sussurro do vento. Embora tivesse a certeza de que se sentia nervoso demais para dormir, subiu e preparou-se para se deitar.

 

Quase no mesmo instante em que a cabeça se encostou à travesseira, ele mergulhou num sonho com uma mulher adorável, parada no jardim, com o luar a pratear os seus cabelos dourados. As asas do cavalo branco agitavam o ar, aquietando-se no momento seguinte, quando os cascos tocaram no chão. O cavaleiro só tinha olhos para a mulher. Quando desmontou, o saco de prata na sua mão faiscava, irradiando luz, como se fossem pequenas chamas.

 

E aos pés da mulher ele despejou as pérolas, tão brancas e puras quanto o luar. Mas a mulher virou-se, nem sequer olhou para a beleza deslumbrante das pérolas. Por trás do movimento amplo da sua camisola, as pérolas desabrocharam em flores, que faiscaram como fantasmas na noite.

 

E naquela noite, cercado pelas flores que o luar banhava, Shawn avançou em direcção à mulher. Os cabelos dourados transformaram-se em chamas, os olhos suaves tornaram-se penetrantes e verdes, como esmeraldas. Foi Brenna quem ele puxou para os seus braços, foi Brenna quem ele abraçou.

 

No sonho, onde não há lugar para a razão e a lógica, foi Brenna quem ele saboreou.

 

                                         CAPÍTULO SEIS

- Podes passar-me o desentortador, querida?

 

Brenna pegou no nível do pai - ele tinha nomes afectivos para a maioria das suas ferramentas - e atravessou a lona salpicada de tinta para lho entregar.

 

A renovação estava bem adiantada. Na mente de Brenna, já era o quarto do bebé, em vez do antigo quarto de Shawn. Alguns poderiam não se aperceber do potencial do trabalho concluído, além da confusão de ferramentas, cavalete de serrador, o rodapé em falta e a chuva de serrim. Mas ela adorava o tumulto da fase média de um projecto, tanto quanto o produto final.

 

Gostava dos cheiros e do barulho, o suor saudável causado por marteladas ou pelo levantamento de uma tábua pesada. Agora, enquanto recuava para observar o pai a usar o nível na armação das prateleiras que estavam a montar, Brenna pensou no quanto apreciava as etapas do trabalho. Medir, cortar, conferir, voltar a conferir, até que tudo se tornasse o reflexo perfeito do que se tinha na cabeça.

 

- Acertámos em cheio! - Anunciou Mick, jovial.

 

Ele deixou o nível no canto. Sem se aperceberem, ambos assumiram a mesma posição: mãos nas ancas, pernas bem abertas, os pés firmes no chão.

 

- E como foi construído pelos OToole, foi feito para durar.

 

- É assim que se tem de fazer. - Ele deu uma palmada cordial no ombro da filha, de puro companheirismo. - Tivemos uma boa manhã de trabalho aqui. Que tal irmos até aopub para almoçar agora? Faremos o resto de tarde.

 

- Não estou com fome. - Brenna foi examinar os remates que já haviam preparado para encaixar as prateleiras, evitando os olhos do pai.

 

- Podes ir sozinho - acrescentou ela. - Vou ficar aqui para terminar os remates.

 

Mick coçou a cabeça.

 

- Não estiveste no Gallaghers durante a semana inteira.

 

- Ah não?

 

Brenna sabia muito bem que não passara pela porta do pub desde a noite de sábado. E calculava que precisaria de mais um ou dois dias antes que o seu nível de humilhação baixasse o suficiente para que pudesse entrar e ver Shawn.

 

- Pois não. Na segunda-feira alegaste que tinhas trazido comida de casa. E na terça, que irias comer mais tarde. Ontem, disseste que querias terminar qualquer coisa e que irias até lá assim que acabasses... o que não aconteceu. - Mick inclinou a cabeça para o lado, lembrando-se a si mesmo que ela era uma mulher e que as mulheres tinham atitudes estranhas. - Tu e a Darcy brigaram?

 

- Não. - Brenna sentiu-se grata pelo facto de o pai ter presumido isso, o que não a obrigaria a mentir. - Conversámos ontem, quando ela veio até aqui. Tu tinhas saído para dar uma vista de olhos ao cano de esgoto dos Clooney.

 

Com um esforço para manter a voz e os gestos casuais, ela levantou os remates.

 

- Acho que estou ansiosa para ver como isto vai ficar quando estiver no lugar. E comi muito ao pequeno-almoço. Podes ir almoçar, pai. Se eu sentir fome, desço para assaltar a cozinha da Jude.

 

- Como queiras. - As filhas, abençoadas fossem todas elas, eram um enigma para Mick. Mas, pela sua própria vida, não conseguia imaginar qualquer coisa errada com Mary Brenna. Por isso, ele piscou o olho à primogénita, enquanto vestia o casaco. - Depois de acabarmos aqui, o mínimo que podemos fazer é levantar uma caneca de cerveja ao final do dia.

 

- Boa ideia. Imagino que estarei a morrer de sede.

 

Brenna tinha a certeza de que poderia encontrar uma boa desculpa para voltar directamente para casa.

 

Depois de o pai ter saído, ela colocou o remate no lugar com cola; em seguida, usou pregos e o martelo do seu cinto de ferramentas. Prometera a si mesma que não ficaria a remoer em pensamentos. E, ao empenhar-se no dia a dia, superaria muito em breve os sentimentos que acalentava por Shawn, quaisquer que fossem.

 

Havia muitas coisas que ela queria e não teria. Um coração gentil e generoso como o de Alice Mae, uma natureza metódica como a de Maureen, a paciência da sua mãe. E mais alguns centímetros na altura, acrescentou ela, enquanto puxava a escada para prender a parte superior do remate.

 

Vivia sem tudo isso e sentia-se muito bem. Poderia também viver sem Shawn Gallagher. Poderia viver sem qualquer homem, se fosse preciso.

 

E um dia construiria a sua própria casa, com as próprias mãos. Viveria nela como bem lhe apetecesse. Teria um grupo de sobrinhos e sobrinhas para mimar, e ninguém para atormentar a sua vida em casa com exigências e queixas.

 

Uma pessoa não precisava de pedir mais do que isso, não é assim?

 

Claro que não se sentiria solitária. Brenna pôs o remate seguinte no lugar, calculando a posição com absoluta precisão. Estava convencida de que não se sentiria solitária em nenhum dia da sua vida; então tinha de começar agora? Afinal, contava com o seu trabalho, a família, os amigos.

 

Mas a verdade é que sentia a maior das saudades daquele desgraçado.

 

Mal passara um dia, nos seus vinte e quatro anos de existência, em que não tivesse visto Shawn. No pub, a andar pela aldeia ou arredores, na casa de um ou do outro. Sentia saudades das conversas, das provocações, da aparência e do som de Shawn. De alguma forma, teria de reprimir o desejo que sentia por ele, para que pudessem voltar a ser amigos.

 

Ela era a culpada. Pela sua fraqueza. Mas poderia consertar isso. Com um suspiro, Brenna encostou o rosto à madeira lisa. Era boa a consertar as coisas.

 

No instante em que ouviu passos no corredor, ela empertigou-se e começou a martelar com vigor.

 

- Oi, Brenna! - Jude entrou no quarto, radiante. - Não posso acreditar que acabarão dentro de poucos dias! Está maravilhoso!

 

- Vai ficar - corrigiu Brenna. Ela desceu da escada para pegar no remate seguinte. - O meu pai acabou de sair para almoçar. Mas vamos montar todas as prateleiras ainda hoje. Acho que está a ir muito bem.

 

- E o bebé também. Senti-o a mexer-se ontem à noite.

 

- Mas isso é incrível! - Exclamou Brenna, virando-se para a amiga. Os olhos de Jude ficaram marejados de lágrimas.

 

- Não tenho palavras para descrever. Nunca pensei que poderia ter todos estes sentimentos... ou ser tão feliz, com alguém como Aidan para me amar.

 

- Porque não deverias ter tudo isso e muito mais?

 

- Nunca me senti bastante inteligente ou bastante atraente. Com a mão na barriga, Jude adiantou-se para passar um dedo pelo remate.

- Agora, ao lembrar-me disso, não consigo entender porque me sentia tão... inadequada. Era eu mesma que me fazia sentir assim. Mas queres saber uma coisa? Acho que tinha de ser daquela forma, sentir-me assim, para que a vida, passo a passo, me trouxesse para cá.

 

- Essa é a forma irlandesa de ver as coisas.

 

- O destino... - murmurou Jude, com meia gargalhada. - Às vezes eu acordo durante a noite, no escuro, a casa em silêncio, com Aidan a dormir a meu lado, e penso: Estou aqui. Jude Francês Murray... Jude Francês Gallagher. - A correcção foi feita com um sorriso que criou covinhas nas faces. - A viver na Irlanda, à beira do mar, casada, com uma vida a crescer dentro de mim. Uma escritora, com um livro prestes a ser publicado e outro a ser já escrito. Mal posso reconhecer a mulher que eu era em Chicago. E sinto-me muito contente por já não ser aquela mulher.

 

- Ela ainda é parte de ti, ou não apreciarias quem és agora, tudo o que tens.

 

Jude franziu as sobrancelhas.

 

- Tens toda a razão. Talvez tu devesses ser a psicóloga.

 

- Não, obrigada. Prefiro martelar um prego na madeira a martelar a cabeça de alguém. - Brenna rangeu os dentes e bateu com força num prego. - Com algumas excepções.

 

Aqui está, pensou Jude, a abertura de que precisava!

 

- E o meu cunhado estaria no topo dessa lista de excepções? Com a pergunta, a mão de Brenna tremeu, errando o alvo e acertando no polegar.

 

- Mas que treta!

 

- Deixa-me dar uma vista de olhos. Magoaste-te muito? Brenna respirou fundo, enquanto a dor se irradiava. Jude estava aflita.

 

- Não. Não é nada demais. Apenas a falta de jeito de uma idiota. A culpa foi toda minha.

 

- Vamos descer até à cozinha para pôr gelo.

 

- Não foi nada - insistiu Brenna, balançando a mão.

 

- Vamos lá. - Jude pegou-a pelo braço, puxando-a na direcção da porta. - A culpa é minha, porque te distraí. O mínimo que posso fazer agora é cuidar do teu dedo.

 

- Apenas inchou um pouco.

 

Mas Brenna deixou que a amiga a levasse pelas escadas, até à cozinha.

 

- Senta-te, enquanto eu vou buscar o gelo.

 

- Não vai fazer mal se me sentar por uns momentos.

 

Brenna sempre se sentira à vontade na cozinha dos Gallagher. Pouco mudara desde o seu tempo de criança, embora Jude estivesse a acrescentar a sua marca aqui e ali.

 

As paredes eram cor de creme e pareciam quase delicadas em contraste com a madeira escura. Os parapeitos das janelas eram largos e grossos. Jude pusera ali pequenos vasos com ervas, para que apanhassem sol. O velho armário de porta de vidro, com muitas gavetas, estendendo-se pela parede lateral, sempre fora branco, com uma aparência confortável de antigo. Agora, Jude pintara-o de um verde bem claro, o que fazia com que parecesse novo, bonito e feminino.

 

Os melhores pratos estavam à mostra através do vidro... a louça que os Gallagher usavam para os feriados e comemorações especiais. Eram brancos, com pequenas violetas a contornar pratos e chávenas.

 

A pequena lareira era de pedras redondas naturais. A escultura de uma fada, que Brenna dera a Jude pelo seu trigésimo aniversário, guardava o fogo que ardia por baixo.

 

Sempre fora um lar, pensou Brenna, agradável e aconchegante. Agora, era de Jude.

 

- Esta cozinha combina muito bem contigo - comentou Brenna, enquanto Jude, com todo o cuidado, passava um pano com gelo em volta do seu polegar magoado.

 

- É verdade. - Jude mostrou um sorriso radiante, sem notar que já estava a apanhar o ritmo de falar dos irlandeses. - Gostaria era de saber cozinhar.

 

- Acho que te sais muito bem.

 

- Nunca será um dos meus pontos fortes. E agradeço a Deus pelo Shawn. - Jude foi até ao frigorífico, esperando manter uma atitude descontraída. - Ele mandou uma sopa ontem à noite, pelo Aidan. Batata e ligústica. Já que não foste almoçar aopub com o teu pai, vou aquecer a sopa para nós as duas.

 

Brenna ainda pensou em recusar, mas acabou por aceitar, pois o seu estômago ameaçava roncar de fome.

 

- Obrigada.

 

- O pão fui eu que fiz - informou Jude, enquanto despejava a sopa numa panela, para aquecer. - Por isso, não posso garantir.

 

Brenna olhou com aprovação para o pão que Jude tirou da gaveta.

 

- Pão de centeio? É um dos meus predilectos. E parece muito saboroso.

 

- Acho que estou a começar a apanhar-lhe o jeito.

 

- Porque te dás ao trabalho, quando bastaria pedires ao Shawn para te mandar um pouco?

 

- Gosto do processo. Misturar, amassar, ver a massa crescer. Jude pôs as fatias que cortara num prato. - E é uma boa oportunidade para pensar.

 

- A minha mãe diz sempre isso. Mas eu prefiro deitar-me quando quero pensar. Tens o maior dos trabalhos para cozinhar alguma coisa e...

- Brenna pegou numa fatia do prato e trincou-a, para depois acrescentar, sorrindo: - Desaparece.

 

- Observar a desaparecer é um dos prazeres de cozinhar. - Jude foi mexer a sopa que estava a aquecer. - Tiveste uma discussão com o Shawn, e não foi uma das vossas discussões habituais.

 

- Não sei se realmente foi uma discussão, mas com certeza nada teve de habitual. Vai passar, Jude. Não te preocupes.

 

- Eu adoro-te. Adoro-vos aos dois.

 

- Eu sei. Mas juro que não foi nada importante.

 

Sem dizer mais nada, Jude pegou nas tigelas e colheres, especulando. Até que ponto se podia interferir na vida de uma amiga? Onde ficava a linha divisória? Depois de um momento, a suspirar, ela concluiu que não havia nenhuma.

 

- Tens sentimentos por ele.

 

Os nervos de Brenna agitaram-se pelo tom suave.

 

- Claro que tenho. Afinal, somos muito ligados desde a infância. O que é um dos muitos motivos pelos quais ele me irrita tanto, deixando-me com vontade de lhe acertar com um martelo.

 

Ela sorriu ao falar, mas o rosto de Jude permaneceu sério.

 

- Tu tens sentimentos por ele, Brenna... e que nada têm a ver com infância ou amizade, mas sim com a atracção de uma mulher por um homem.

 

- Eu... - Brenna sentiu o calor a espalhar-se pelas faces... a maldição de uma ruiva. - Não é... - As mentiras tremeram na ponta da língua, mas recusaram-se a sair. - Oh, que treta! - Ela passou a mão magoada pelo rosto. Parou de repente, os dedos abrindo-se em torno dos olhos, arregalados e consternados. - Jesus, Maria e José, é assim tão evidente?

 

Antes que Jude pudesse responder, Brenna já estava de pé, a andar de um lado para o outro, batendo com as palmas das mãos nos lados da cabeça, balbuciando palavrões.

 

- Tenho de me mudar. Deixar a minha família. Posso ir para os condados de oeste. Tenho parentes em Galway, do lado da minha mãe. Não, não, não é suficientemente longe. Terei de deixar o país, ir para Chicago, morar com a tua avó, até me organizar. Ela vai aceitar-me, certo?

 

Brenna virou-se. Voltou a ranger dos dentes ao constatar que Jude se ria, enquanto servia a sopa nas tigelas.

 

- Talvez tu aches tudo engraçado, Jude Francês, mas para mim é uma coisa horrível. Eu sinto-me humilhada à frente de pessoas que me conhecem, só porque tenho algo por um homem de rostinho bonito e cérebro de minhoca.

 

- Não foste humilhada, e peço-te desculpa por me ter rido. Mas a tua cara... - Jude pôs as tigelas na mesa, reprimindo outra gargalhada. Apertou o ombro de Brenna. - Senta-te e respira fundo. Não precisas de deixar o país.

 

Como Brenna resistia, foi Jude quem respirou fundo.

 

- Não é evidente. Nem um pouco óbvio. Mas estou acostumada a observar as pessoas, a analisá-las. Além disso, acho que uma pessoa apaixonada fica mais em sintonia com as emoções dos outros. Alguma coisa... Não sei bem o que é. Talvez as ondulações no ar quando vocês os dois se encontram. Depois de algum tempo, compreendi que não era a ligação afectuosa habitual que amigos e parentes às vezes têm, mas sim algo mais... elementar.

 

Brenna acenou com a mão para encerrar a conversa. Só estava interessada num ponto.

 

- Não se percebe?

 

- Não, a menos que se observe atentamente. Agora, vê lá se te sentas.

 

- Está bem. - Brenna deixou escapar um suspiro ao sentar-se, mas ainda não se sentia completamente aliviada. - Se a Darcy tivesse notado, já teria comentado. Ela não resistiria a provocar-me. Por isso, se apenas tu e o Shawn sabem, acho que posso aguentar.

 

- Tu contaste-lhe?

 

- Parecia estar mais do que na hora. - Sem muito interesse, Brenna tomou uma colher da sopa. - Tenho vindo a sentir estes impulsos por ele, digamos assim, há bastante tempo. E concluí, há poucos dias, que, se fòssemos para a cama uma ou duas vezes, eu conseguiria remover tais impulsos do meu organismo.

 

Jude largou a colher, com estrondo.

 

- Pediste ao Shawn para ir para a cama contigo?

 

- Isso mesmo. E pela reacção dele até parecia que eu lhe tinha acertado com uma chave de fendas nos ovos. O que foi o ponto final em tudo.

 

Jude cruzou as mãos. Inclinou-se para a frente.

 

- Vou-me intrometer.

 

Os lábios de Brenna contraíram-se.

 

- Ainda não começaste a intrometer-te?

 

- Não como devo. O que lhe disseste tu exactamente?

 

- Pura e simplesmente, disse-lhe que deveríamos fazer sexo. E o que há de errado nisso? - Brenna gesticulou com a colher. - Seria de esperar que um homem apreciasse uma conversa franca e objectiva.

 

- Hum... - Jude não sabia o que pensar. - E presumo que o Shawn não tenha apreciado.

 

- Isso mesmo. Diz que sou como uma irmã para ele. E que deveria sentir-me envergonhada. Envergonhada... - A fúria de Brenna voltou.

- E depois diz-me que não me quer dessa maneira. Foi quando lhe saltei em cima.

 

- Tu... - Jude tossiu. Tornou a pegar na colher. Precisava de alguma coisa para atenuar a irritação na garganta. - Saltaste-lhe em cima?

 

- Foi isso mesmo que eu disse. Dei-lhe um beijo que ele não vai esquecer tão cedo. E não posso dizer que o Shawn tenha resistido como se a sua vida dependesse disso. - Ela cortou uma fatia de pão em duas. Meteu metade na boca. - E depois do beijo deixei-o ali parado, completamente atordoado.

 

- Posso imaginar. Ele retribuiu o beijo?

 

- Claro. - Brenna descartou essa reacção de Shawn encolhendo os ombros. - Os homens são previsíveis. Mesmo que uma mulher não seja do seu agrado, eles querem experimentar, não é assim?

 

- Hum... acho que sim.

 

Insegura de novo, Jude voltou ao hum.

 

- Agora, quero manter-me distante do Shawn por algum tempo, enquanto tento decidir se estou mais zangada ou embaraçada pelo que aconteceu - acrescentou Brenna.

 

- O Shawn tem-se mostrado muito perturbado nos últimos dias.

 

- A sério?

 

- E muito irritado.

 

Brenna descobriu que o seu apetite voltava.

 

- Fico feliz por saber disso. Espero que ele sofra bastante, o idiota.

 

- Se eu quisesse que um homem sofresse, acho que gostaria de o observar na maior das angústias. - Jude tomou outra colher da sopa.

- Mas é só a minha opinião.

 

- Acho que não há mal nenhum em passar pelo pub hoje, depois do trabalho. - Brenna mostrou um sorriso malicioso a Jude. - Obrigada.

 

- Não foi nada.

 

Brenna passou o resto do dia de trabalho a assobiar, de ânimo exuberante, com mãos ágeis. Reflectiu que não era muito simpático da sua parte sentir tanto prazer pela infelicidade de outra pessoa. Mas era humana, no final de contas.

 

Quando entrou no Gallaghers, sentia-se mais animada do que em muitos dias. Ainda era cedo, e o pub estava calmo, apenas com algumas mesas ocupadas. Em vez de circular de um lado para o outro, Darcy estava parada no balcão, a conversar com Jack Brennan.

 

- Vai sentar-te com os teus amigos - disse Brenna a Mick, ao avistar dois deles sentados junto da lareira, segurando nas canecas. - Vou pôr a conversa em dia com a Darcy.

 

- Está bem. Mas podes levar-me uma caneca, querida?

 

- Claro.

 

Brenna foi sentar-se no banco ao lado do de Jack Brennan.

 

- Temos aqui uma estranha. - Automaticamente, Aidan pôs uma caneca e um copo debaixo das torneiras, pois conhecia as preferências dos seus clientes habituais. - Onde andaste a esconder-te, Mary Brenna?

 

- Na tua casa. Dá uma vista de olhos no quarto do bebé quando chegares a casa e depois diz-me o que achas.

 

- Assim farei.

 

- Deixámos a tua mulher a suspirar e fungar por causa das prateleiras que acabámos de montar. - Brenna olhava para a porta da cozinha enquanto falava. - Como tens passado, Jack?

 

- Muito bem, Brenna. E tu?

 

- Também. Não te estás a apaixonar pela nossa Darcy, pois não? Ele corou como uma beterraba madura. Jack tinha um rosto tão grande quanto a lua e os ombros tão largos quanto o condado de Waterford. Nunca deixava de ficar vermelho como um rapazinho quando era provocado a propósito de mulheres.

 

- Tenho bom senso suficiente para nem sequer pensar nisso. Ela esmagaria o meu coração como se fosse um insecto.

 

- Mas morrerias como um homem feliz - declarou Darcy.

 

- Não prestes atenção ao que ela diz, Jack. - Aidan trabalhava nas torneiras enquanto falava, preparando a Guinness com a maior das habilidades. - Não pode haver mulher mais volúvel e caprichosa.

 

- É verdade - concordou Darcy, com uma risada irreverente e sonora. - Estou a reservar-me para um homem rico, que me porá num pedestal e espalhará jóias aos meus pés. Mas enquanto espero... - Ela passou levemente os dedos pelo rosto corado de Jack, enquanto acrescentava:

- Gosto da atenção de homens enormes e bonitos.

 

- Leva a caneca para o meu pai, Darcy, antes que o nosso Jack aqui perca por completo a capacidade de falar. - Brenna tocou com a bota no joelho de Darcy e entregou-lhe a caneca passada por Aidan. - Estás a são e salvo comigo, Jack querido.

 

- És tão bonita como ela.

 

- Não digas isso muito alto, pois ela pode ouvir e esfolar-nos vivos. Comovida e divertida, Brenna inclinou-se para o beijar no rosto.

 

Foi nesse instante que Shawn passou pela porta da cozinha.

 

Foi cómico, concluiu ela. Era uma pena que ninguém tivesse notado a forma como ele parou abruptamente, olhando aturdido, para depois ter um sobressalto, quando a porta balançou de volta, batendo no seu rabo.

 

Com um prazer secreto, ela apenas alteou as sobrancelhas, enquanto punha a mão, descontraída, no ombro largo de Jack.

 

- Boa noite, Shawn.

 

- Brenna...

 

Estava a acontecer tanta coisa dentro de Shawn, que ele sabia que não poderia separar uma sensação de outra. Sabia que uma era de irritação, outra de constrangimento. E outra, raios a partam, era o desejo puro e simples, que não tinha porque se manifestar ali. Mas o resto era uma confusão total.

 

Brenna bebeu um gole de cerveja, observando-o por cima da espuma.

 

- Comi um pouco da tua sopa para almoço hoje, juntamente com Jude. Estava muito boa.

 

- Esta noite, temos áste no cardápio. A Sra. Laury abateu alguns porcos esta semana.

 

- Vais aumentar a banha nas tuas costelas, hein Jack?

 

- É verdade. Vais ficar para jantar, Brenna?

 

- Não. Vou voltar para casa assim que acabar a Guinness.

 

- Se mudares de ideia, podes jantar comigo. Gosto de ciste, e o Shawn sabe fazê-lo muito bem.

 

- Ele tem uma mão boa para a cozinha, não achas? - Ela sorriu ao falar, mas a expressão nos seus olhos era provocante e desdenhosa. - Tu cozinhas, Jack?

 

- Apenas para fazer bacon e ovos. E batata cozida. - Sendo Jack, ele levou a pergunta a sério. Franziu a testa, enquanto pensava no seu repertório culinário. - Também sei preparar uma sanduíche, quando tenho os ingredientes, embora isso não seja a mesma coisa que cozinhar.

 

- É mais do que suficiente. - Brenna deu uma palmada cordial no ombro de Jack. - Nós os dois podemos deixar a cozinha para pessoas como o Shawn. Aidan, vais precisar da minha ajuda para trabalhar nopub neste fim-de-semana?

 

- Bem que preciso de umas mãos extra na noite de sábado, se estiveres disponível. A banda contratada é muito popular, e a Mary Kate avisou-nos que um grupo de turistas deve chegar ao hotel no sábado. É possível que alguns apareçam no Gallaghers.

 

- Então estarei aqui às seis horas. - Ela esvaziou o copo e levantou-se. - Também vens aopub na noite de sábado, Jack?

 

- Claro. Gosto da banda.

 

- Nesse caso, até sábado.

 

Brenna notou que o pai estava absorvido na conversa com os amigos. Uma hora de conversa, calculou ela. Gritou para Mick:

 

- Vou para casa agora, pai. Eu aviso a mãe que vais chegar mais tarde. Darcy, podes despachá-lo dentro de uma hora?

 

- Podes deixar que o levo até à porta. - Darcy pôs em cima do balcão uma bandeja com copos e canecas vazias. - Tenho um encontro na terça-feira com um dublinense que passou por aqui. Ele vai levar-me a jantar em Waterford City. Porque não arranjas um homem e nos fazes companhia?

 

- Talvez faça isso.

 

- Melhor ainda. Vou pedir ao dublinense para levar um amigo.

 

- Combinado. - Brenna não tinha o menor interesse em jantar em Waterford com estranhos, mas era gratificante planear tudo com Shawn a ouvir. - Depois durmo contigo, pois imagino que vamos chegar tarde.

 

- Ele vem-me buscar às seis horas em ponto - gritou Darcy, à medida que Brenna se encaminhava para a porta. - Vê lá se chegas a horas, e a parecer uma mulher.

 

Jack suspirou para a sua cerveja quando Brenna saiu.

 

- Ela cheira a serragem - murmurou ele, mais para si mesmo.

- É muito agradável.

 

- O que achas que estás a fazer? A farejar a Brenna? - Indagou Shawn.

 

Jack olhou para ele, aturdido.

 

- Como?

 

- Volto já.

 

Shawn passou pela saída na extremidade do balcão, deixando cair a tampa com um estrondo, o que levou Aidan a protestar. Correu atrás de Brenna.

 

- Podes esperar, Mary Brenna? Só um pouco!

 

Ela parou junto da porta da carrinha. Numa das poucas ocasiões da sua vida, experimentou a exultação intensa e profunda da pura satisfação feminina. Uma sensação agradável, reflectiu ela. Uma sensação muito agradável.

 

Virou-se, controlando o rosto para demonstrar apenas um ligeiro interesse.

 

- Algum problema?

 

- Claro que há um problema! Porque estavas a fazer flirt com o Jack Brennan daquela forma?

 

Ela franziu as sobrancelhas, sob a pala do boné.

 

- Podes explicar-me porque achas que isso é da tua conta?

 

- Há poucos dias pediste-me para fazer amor contigo. Eu rejeitei, e agora pões-te a fazer flirt com o Jack, a fazer planos para jantar com um dublinense qualquer.

 

Brenna esperou um momento antes de falar.

 

- E daí?

 

- E daí? - Shawn sentia-se perturbado e furioso. - E daí que não esteja certo!

 

Ela levantou um ombro, para o dispensar. Virou-se para abrir a porta da carrinha.

 

- Não está certo - repetiu Shawn, segurando-a e fazendo com que ela se virasse para o fitar. - Não posso aceitar.

 

- Já disseste isso, em termos bem claros.

 

- Não é isso que quero dizer.

 

- Hum... Se decidiste que, afinal, queres fazer sexo comigo, devo dizer-te que mudei de ideias.

 

- Não decidi... - Ele parou de falar, surpreso. - Mudaste de ideias?

 

- Isso mesmo. Beijar-te não foi o que pensei que seria. Ou seja, estavas certo, e eu errada. - Ela tocou no rosto de Shawn, num gesto deliberadamente insultuoso. - E ponto final.

 

- Nada disso! - Shawn empurrou-a contra a carrinha, com rapidez e firmeza suficientes para fazer com que ela sentisse excitação e raiva.

- Se eu te quiser, vou ter-te, e esse é que será o ponto final! Entretanto, quero que te comportes em condições!

 

Brenna não podia falar. Tinha a certeza de que se sufocaria com as palavras, se tentasse. Por isso, fez a única coisa que lhe passou pela cabeça. Acertou um soco, com toda a força, na barriga de Shawn.

 

Deixou-o totalmente sem fôlego. A cor da raiva, que se espalhara pelo rosto dele, esvaiu-se por completo. Mas ele manteve-se firme no lugar. O facto de o conseguir, de ser capaz, quando ela sabia que tinha um murro potente, provocou outra onda de excitação em Brenna.

 

- Falaremos sobre tudo isso em privado, Brenna.

 

- Está bem. Tenho muito a dizer.

 

Convencido de que conseguira o que queria, Shawn recuou.

 

- Podes ir até ao chalé de manhã.

 

Ainda a ferver de raiva, ela entrou na carrinha e bateu com a porta.

 

- Poderia, mas não vou - disse ela, enquanto ligava o motor. Fui procurar-te uma vez, mas rejeitaste-me. Não voltarei lá.

 

Shawn deu outro passo para trás, a fim de evitar que a roda passasse por cima dos seus pés. Se ela não queria procurá-lo, pensou ele enquanto Brenna se afastava, arranjaria outra forma de a encontrar a sós, para que pudessem... chegar a um acordo, concluiu Shawn.

 

Em privado.

 

                                                     CAPÍTULO SETE

Qualquer um pensaria que aquela mulher nunca saltara para os seus braços e lhe dera um beijo ardente. Um homem poderia pensar que sofria de alucinações, que ela nunca se sentara à sua frente, à mesa da sua própria cozinha, e sugerira que tivessem uma aventura na cama.

 

Mas ela fizera ambas as coisas. E Shawn sabia disso porque sentia os músculos da barriga a contraírem-se de cada vez que chegava a meio metro de Brenna.

 

Shawn não gostava dessa situação. Nem um pouco. Assim como também não gostava da forma como ela parecia agir descontraída e normal, ao entrarem na rotina da noite de sábado nopub. Cada vez que saía da cozinha, por uma razão ou por outra, Brenna lançava-lhe um olhar que era um meio-termo entre o desprezo e o sorriso.

 

O que o levava a especular porque sempre gostara, no passado, de ver aquela mesma expressão no rosto de Brenna.

 

Ela trabalhava num conjunto de torneiras numa extremidade do balcão comprido de castanheira, enquanto Aidan tratava do outro conjunto. Brenna conversava com os clientes, ria-se muito com o velho Sr. Riíey, que tinha o hábito de pedir em casamento todas as mulheres bonitas que encontrava. Se os músicos tocassem uma música de que gostasse, Brenna acompanhava os outros no coro.

 

Fazia tudo o que sempre fizera numa centena de outras noites de sábado, quando o pub estava lotado e a música era animada.

 

Deveria ser um alívio - disse ele a si mesmo - o facto de os dois parecerem ter voltado a um terreno tranquilo e familiar.

 

Mas, na verdade, deixava-o na mais profunda irritação.

 

Ela vestia calças de ganga e uma camisola folgada. Shawn provavelmente já a vira vinte vezes ou mais com aquela camisola. Então porque nunca o fizera pensar no corpo esguio e atraente que havia por baixo? O tipo de corpo que era rápido, ágil e forte, com seios pequenos e firmes, como pêssegos pouco antes de amadurecerem.

 

Distraído, ele queimou os dedos no óleo quente quando tirou as batatas fritas. Censurou-se por pensar, mesmo que apenas por um momento, em subir as mãos pelo corpo de Brenna, acariciar os seios.

 

Fora o plano dela, concluiu Shawn. Aquela bruxa insidiosa. Plantara a semente no seu cérebro, atiçara os seus sentidos, já que ele era apenas um homem, no final de contas, e agora podia atormentá-lo pela simples proximidade.

 

Mas duas pessoas poderiam fazer o mesmo jogo.

 

Em vez de esperar que Darcy fosse buscar os pedidos, ele passou a levá-los pessoalmente. Apenas para mostrar a Brenna O'Toole que ela não o perturbava nem um pouco.

 

Aquela criatura impertinente nem sequer olhava na sua direcção quando ele entrava no pub e se esgueirava entre a multidão. Nada disso. Apenas para o enfurecer, Shawn tinha a certeza, ela operava as torneiras e continuava a conversar com um casal de turistas, como se os dois fossem a melhor companhia do mundo, e aquela fosse a sua habitual reunião de sábado.

 

Brenna usava os cabelos à mostra, presos atrás por uma fita preta. À claridade difusa, pareciam arder como fogo.

 

E Shawn gostaria de poder manter os pensamentos longe daqueles cabelos. Pois desejava passar as mãos por eles.

 

- Olá, Shawn.

 

Mary Kate aproximou-se no instante em que ele servia a travessa de batatas fritas para a família Clooney. Ela aproximou-se tanto quanto ousava, esperando que ele gostasse do novo perfume que colocara.

 

- Uma noite movimentada.

 

- A música está animada. Acho que todo o teu grupo de turistas veio.

 

- E estão a divertir-se muito. - Mary Kate alteou a voz, num tom estridente, para ser ouvida acima da música, fazendo um esforço para a manter sensual, enquanto a banda iniciava uma vigorosa apresentação de Maloney Wants a Drink. - Mas prefiro ouvir-te a ti a tocares.

 

Shawn ofereceu-lhe um sorriso, enquanto ajeitava a bandeja vazia debaixo do braço.

 

- Podes ouvir-me de graça sempre que quiseres. Estes tipos de Galway têm muito fogo. - Ele olhou para a linha da frente, admirando a forma como o violinista manejava o arco. - Estás aqui com a tua família?

 

O ego de Mary Kate desceu a pique. Porque pensaria Shawn sempre nela como uma das raparigas O'Toole? Era uma mulher crescida agora.

 

- Não, não estou com ninguém.

 

Não era uma mentira, assegurou ela a si mesma. Apesar de ter vindo com os pais e Alice Mae, não estava com eles.

 

- Isso é que é tocar - murmurou Shawn, esquecendo-a no seu prazer pela música. - Eles são brilhantes. Não é de admirar que tenham conquistado tanta reputação. O tenor é a voz mais forte, mas sabe como fundi-la sem prevalecer sobre os companheiros da banda.

 

Ele especulou sobre o que fariam com uma das suas baladas, e só voltou a si quando Mary Kate tocou no seu braço.

 

- Tu também podes conquistar uma reputação. - Ela tinha os olhos cheios de sonhos ao fitá-lo. - Maior. E mais brilhante.

 

Shawn evitou uma resposta... ou pensou a sério na possibilidade, dando um beijo leve no seu rosto.

 

- És muito querida, Mary Kate. E agora é melhor eu voltar para a cozinha.

 

Mal a porta fechara atrás de si, Brenna entrou.

 

- Eu disse-te para ficares longe da minha irmã!

 

- Como?

 

Ela assumiu a postura que Shawn sabia muito bem que indicava a disposição para uma briga.

 

- Não conversei contigo há uma semana, dizendo-te qual era a situação em relação a Mary Kate?

 

Era verdade. E Shawn admitiu para si mesmo, enquanto passava a mão pelos cabelos, que não pensara outra vez no assunto.

 

- Apenas tive uma conversa com ela, Brenna. Não passou disso. Foi tão inofensivo quanto fazer cócegas a um bebé.

 

- Ela não é um bebé, e tu beijaste-a.

 

- Por Jesus Cristo na Cruz, Brenna! Eu beijaria a minha própria mãe da mesma maneira!

 

- Os alemães estão famintos - anunciou Darcy, jovial, entrando na cozinha com a bandeja carregada de tigelas e pratos vazios. - Querem mais três doses do teu guisado e dois pratos de peixe. Dá até para pensar que nenhum deles comeu desde que deixaram a terra deles.

 

Ela largou os pratos na pia. Calculou o peso no bolso do avental com um movimento dos dedos.

 

- Mas, abençoados sejam, dão gorjetas a todo o instante, e ainda por cima generosas. E apenas uma vez um deles me deu uma palmada no rabo.

 

Quando ela tencionou começar a lavar a loiça, Brenna respirou fundo, para se controlar.

 

- Darcy, importavas-te de fazer isso depois? Preciso de ter uma conversa em particular com o Shawn.

 

Darcy olhou para os dois. Alteou uma sobrancelha. Podia aperceber-se, agora, da tensão a correr em ondas de um para o outro. Na sua opinião, os dois não se sentiam felizes se não estivessem a discutir. Mas agora parecia... diferente.

 

- Algum problema?

 

- A OToole pensa que tenho planos para a Mary Kate e está a avisar-me.

 

Shawn abriu a porta do frigorífico para pegar no peixe de que precisava. Mas não antes de ver Brenna a estremecer.

 

- Não é isso. - Porque ela falou sem veemência, sem a fúria habitual, Shawn voltou a fitá-la. - Mas a Mary Kate tem planos para ti.

 

- Não resta a menor dúvida de que ela se sente atraída pelo Shawn

- confirmou Darcy. - Embora ele jamais se tenha apercebido.

 

- Tudo o que fiz esta noite foi conversar com ela. - Contrafeito com os dois pares de olhos femininos que o fitavam, com compaixão e repulsa ao mesmo tempo, Shawn virou-se para o fogão, a fim de aquecer o óleo. - Da próxima vez, vou empurrá-la para o lado e seguir em frente. Está bem assim?

 

Darcy suspirou.

 

- És mesmo estúpido, não és, Shawn?

 

Ela apertou o braço de Brenna, num gesto rápido de apoio, e deixou-os a sós.

 

- Desculpa ter entrado daquela forma, a gritar contigo. - As desculpas quase nunca saíam da boca de Brenna, e por isso mesmo o impacto era ainda maior. - É tudo novidade para a Mary Kate, agora que deixou a Universidade e se iniciou na carreira. Olha para a Maureen, feliz porque acabou de se casar, e para a nossa Patty, tão excitada com o casamento na Primavera, e começa a pensar...

 

Desamparada, Brenna agitou as mãos. Não era boa com as palavras, quando se tornavam mais importantes.

 

- Ela acha que já é crescida, que está pronta para começar tudo na sua vida. Mas no fundo do coração ainda é uma menina... e romântica. Muito delicada, Shawn. Podes magoá-la.

 

- Não farei isso.

 

- Nunca terias a intenção. - Ela sorria agora, mas o sorriso não alcançava os seus olhos, como costumava acontecer. - Não és desse género.

 

- Prefiro ver-te zangada comigo a ver-te triste. Não gosto de te ver infeliz. Brenna...

 

Mas, quando Shawn estendeu a mão para tocar nos cabelos dela, ela sacudiu a cabeça e recuou.

 

- Não. Agora vais dizer-me algo gentil e doce, e não estou com a menor disposição para ouvir. Além do mais, temos ambos muito trabalho a fazer.

 

- Penso em ti de uma forma que não pensava antes - murmurou ele, com a voz bem suave, quando Brenna se virou para sair. - E penso com frequência.

 

Ela sentiu o coração a estremecer. Respirou fundo para se controlar.

 

- Belo momento foste tu escolher para levantar o assunto. Mas também nunca tiveste o dom de encontrar o ritmo certo, a não ser na tua música.

 

- Penso em ti com frequência - reiterou Shawn.

 

Ele avançou, satisfeito quando os olhos de Brenna se voltaram cautelosos.

 

- O que queres?

 

Ela sentia-se perturbada; e nunca alguém a deixara assim. Muito menos Shawn. Poderia controlá-lo, é claro. Sempre fora capaz e sempre seria. Mas não conseguia mexer as pernas.

 

Não era interessante?, reflectiu Shawn, enquanto se aproximava. Brenna parecia nervosa, com o vermelho a espalhar-se pelas suas faces.

 

- Nunca pensei em fazer isto. - Ele estendeu a mão de dedos compridos para a nuca de Brenna, puxou-a um passo à frente, enquanto a fitava nos olhos. - Agora, penso o tempo todo.

 

Ele roçou os lábios sobre os de Brenna. Um contacto provocante, sussurrante, irresistível.

 

Brenna deveria saber que ele a beijaria daquela forma, se assim decidisse. Lento, suave, sensual, deixando uma mulher quase sem qualquer pensamento na cabeça. A mão na sua nuca apertava e soltava, apertava e soltava, irradiando pulsações pelo seu corpo. O calor envolveu-a, preenchendo a garganta, os seios, o ventre, enfraquecendo os joelhos, até que ela começou a balançar, ao ritmo sedutor da sua própria vibração, que Shawn determinava somente com o contacto dos lábios.

 

Ela tremia. E Shawn absorveu a primeira e gloriosa sensação de ter Brenna OToole a tremer contra ele. E, no instante seguinte, quis sentir a mesma coisa de novo.

 

Mas resistiu à vontade quando ela pôs a mão no seu ombro, para o deter.

 

- Apanhaste-me de surpresa quando me beijaste na semana passada - murmurou ele, enquanto os olhos de Brenna desanuviavam pouco a pouco. - Parece que fiz a mesma coisa agora.

 

Trata de te controlar, mulher, ordenou Brenna a si mesma. Aquela não era a forma de controlar o homem.

 

- Nesse caso, estamos empatados. Os olhos de Shawn contraíram-se.

 

- Queres dizer que é uma competição, Brenna?

 

Mais à vontade com a ligeira irritação na voz de Shawn do que se sentira antes com o tom suave e sedutor, ela acenou com a cabeça.

 

- Sempre pensei assim. Mas, na forma afortunada das questões sexuais, ambos podemos vencer. Tenho clientes para atender.

 

Os seus lábios ainda formigavam quando ela deixou a cozinha.

 

- Talvez ambos possamos vencer, mas eu não vou entrar no teu jogo, querida Brenna - murmurou ele.

 

Satisfeito consigo mesmo, Shawn voltou para o fogão para cuidar da felicidade dos turistas alemães.

 

O sol decidiu brilhar no domingo. O céu estava claro, muito azul. A mancha cinzenta distante, a leste, dizia que a tempestade a pairar sobre a Inglaterra provavelmente alcançaria a Irlanda ao cair da noite. Por enquanto, porém, era um dia bastante agradável para se passear pelas colinas.

 

Shawn pensou que se faria de convidado para tomar um chá com biscoitos se por acaso passasse pela casa dos O'Toole. E apreciaria a reacção de Brenna ao vê-lo sentado na sua cozinha depois do que acontecera entre os dois na noite anterior.

 

Achava que compreendia o que se passava na cabeça de Brenna. Era uma mulher que gostava de ver as coisas feitas... à sua maneira. Passo a passo, e num ritmo dinâmico. Por algum motivo, Brenna concentrara-se nele, uma situação que começava a agradar-lhe. E muito, para ser franco.

 

Só que ele também tinha a sua maneira de fazer as coisas. Um passo não poderia seguir outro em linha tão recta, e preferia um ritmo mais lento e despreocupado. Afinal, avançando sempre em frente, perdem-se muitas coisas que acontecem em redor.

 

E ele prezava muito as pequenas coisas. Como o cantar estridente de uma pega ou o reflexo do sol numa lâmina da relva. E a maneira firme como os penhascos resistiam à investida incessante do mar.

 

Poderia caminhar durante horas, e era o que fazia quando se esquecia de si mesmo. Sabia que a maioria das pessoas o contemplava com um sorriso indulgente, achando que ele não fazia nada durante os seus devaneios. Na verdade, porém, Shawn fazia tudo nessas ocasiões. O pensamento, o restabelecimento, a observação.

 

E porque estava a observar, não avistou Mary Kate, até que ela o chamou e correu na sua direcção.

 

- Está um lindo dia para se passear.

 

Por precaução, Shawn enfiou as mãos nos bolsos.

 

- Mais quente do que em muitos outros dias. - Ela alisou os cabelos, para o caso de se terem despenteado com a corrida. - Eu estava a pensar em dar um pulo até ao teu chalé, e de repente encontro-te aqui.

 

- O meu chalé?

 

Mary Kate trocara o traje dominical, ele notou, mas usava o que parecia ser uma camisola nova, com brincos, perfume e baton. Todos os engodos que as mulheres usam.

 

E, subitamente, ele teve a certeza de que Brenna tinha razão quanto à situação. O que o deixou apavorado.

 

- Pensei em ir cobrar o que disseste ontem à noite.

 

- Ontem à noite?

 

- Que eu poderia ouvir a tua música quando quisesse. Adoro ouvir-te tocar.

 

- Hum... Eu ia até à tua casa, para conversar com a Brenna sobre um assunto.

 

- Ela não está em casa. - Mary Kate decidiu que Shawn precisava de um pequeno estímulo, e passou o braço pelo dele. - Era preciso consertar qualquer coisa na casa da Maureen. A Brenna foi até lá, com a mãe e a Patty.

 

- Então vou falar com o teu pai...

 

- Ele também não está em casa. Levou a Alice Mae até à praia, para procurar conchas. Mas serás bem-vindo de qualquer maneira.

 

Mesmo sabendo que era um gesto ousado, ela subiu e desceu a mão pelo braço de Shawn, enquanto andavam. A sensação de músculo - um braço de homem, não de um rapazinho - fez com que o seu coração acelerasse.

 

- Terei o maior prazer em fazer-te um chá e arranjar qualquer coisa para comer.

 

- É muito gentil da tua parte.

 

Shawn sentia-se perdido. Avistou a casa dos O'Toole quando chegaram ao cimo da colina. Embora uma fumaça ténue saísse pela chaminé, dava a impressão de estar vazia.

 

A carrinha de Brenna não estava estacionada na frente. E a cadela amarela não se encontrava à vista. Ao que parecia, até Betty o abandonara, no seu momento de necessidade.

 

A única opção que lhe restava agora era uma retirada apressada e cobarde.

 

- Mas como me pude esquecer? - Ele parou de repente, batendo com a mão na testa. - Fiquei de ajudar o Aidan... em casa. Já me ia esquecendo. - Tão depressa quanto era possível, Shawn libertou o braço, empurrando gentilmente a mão de Mary Kate, como poderia fazer com um cachorrito que insistisse em morder. Quieta, menina! - Estou sempre a esquecer-me das coisas. Por isso, acho que ele não ficará surpreendido com o meu atraso.

 

- Mas se já estás atrasado...

 

Mary Kate inclinou-se para ele, quase a encostar-se ao seu corpo, num gesto que até mesmo um cobarde distraído, como Shawn, reconheceria como um convite.

 

- Ele deve estar a procurar-me.

 

Desta vez Shawn tocou-lhe na cabeça, como poderia fazer com uma criança. Pela expressão amuada que se insinuava no rosto de Mary Kate, compreendeu que ela considerava o gesto da forma como ele queria.

 

- Passarei cá para tomar o chá noutra ocasião. Dá cumprimentos meus à tua família, está bem?

 

Shawn já percorrera vinte passos, afastando-se, antes de soltar um suspiro aliviado. O que estava a acontecer, subitamente, com as OToole? Agora, em vez de uma caminhada sossegada, talvez um chá numa cozinha aconchegante, um tempo a sós no chalé, a trabalhar na sua música, era obrigado pela honra a descer até à aldeia, e encontrar alguma coisa para fazer na casa de Aidan.

 

- O que estás a fazer aqui? - Perguntou Aidan.

 

- É uma história longa e complicada. - Shawn olhou em redor, cauteloso, enquanto entrava. - A Jude está em casa?

 

- Está lá em cima, com a Darcy. A nossa irmã está com problemas para decidir o que vestir para levar o tal dublinense à loucura.

 

- O que as deve manter ocupadas por algum tempo. Ainda bem.

 

- Quando Aidan o fitou inquisitivo, ele explicou: - Ando cheio das mulheres. Eis um belo cão! - Ele abaixou-se para coçar a cabeça de Finn. - A crescer muito depressa, hein?

 

- E é sempre jovial, não és, rapaz?

 

Finn olhou para Aidan, em adoração, abanando a cauda com tanto entusiasmo, que batia nos joelhos de Shawn e na mesa ao lado da porta.

 

- Se crescer ainda mais, o Finn vai começar a derrubar os candeeiros das mesas com a cauda. Podes ceder-me uma cerveja?

 

- Posso ceder duas, uma para cada um de nós. - Enquanto se encaminhavam para a cozinha, Aidan acrescentou: - As mulheres, para me manter no assunto, sempre te hão-de causar desgosto, de uma forma ou de outra. Por causa desse teu rostinho lindo.

 

Divertido, Shawn sentou-se à mesa, enquanto Aidan pegava em duas garrafas de Harp e as abria. Estendeu a mão para a cabeça de Finn, distraído, quando o cão se meteu por baixo da mesa.

 

- Tu saías-te muito bem no departamento feminino, pelo que me lembro. E não és tão bonito como eu.

 

- Mas sou mais esperto. - Aidan estendeu a garrafa ao irmão, sorrindo. - Guardei-me para a melhor de todas.

 

- Eis uma coisa que não posso contestar. - Depois de bater com a garrafa na de Aidan, Shawn bebeu um gole longo, com evidente satisfação.

 

- Não foi para conversar sobre as mulheres que vim até aqui, mas para escapar delas por algum tempo.

 

- Se estás a pensar em falar de negócios, tenho algumas informações. - Aidan pegou numa lata de batatas fritas e colocou-a na mesa, antes de se sentar. - O pai telefonou-me esta manhã. Ele e a mãe enviam carinhos. Disse que ia ligar-te a ti também.

 

- Saí cedo. Devo ter perdido o telefonema.

 

- A notícia é que ele irá a Nova Iorque na semana que vem para se' encontrar com o Magee. - Como o cão o fitava, esperançoso, e Jude não se encontrava presente para desaprovar, Aidan atirou uma batata frita para Finn. - Ele quer ter uma ideia do homem, antes de aprofundarmos a negociação.

 

- Ninguém avalia um homem mais depressa e com mais objectividade do que o pai.

 

- É verdade. Entretanto, o Magee vai enviar um homem para cá, a fim de fazer também uma avaliação. O seu nome é Finkle, e vai hospedar-se no hotel no penhasco. O pai e eu concordámos que é melhor não falar sobre as condições financeiras com o Finkle até termos uma ideia de quem é Magee.

 

- Tu e o pai sabem mais dessas coisas do que eu. Mas...

 

- Mas o quê?

 

- Parece-me que uma das coisas que queremos descobrir é o que ganharemos nesse negócio. Em libras, claro, mas também na forma como o projecto de Magee pode beneficiar opub.

 

- Tens razão.

 

- Portanto, a manobra mais sensata seria encontrar um jeito qualquer de obter informações sem dar muita coisa em troca - comentou Shawn, depois de beber um gole de cerveja, pensativo.

 

- O pai está a fazer isso em Nova Iorque.

 

- O que não nos impede de fazermos a mesma coisa aqui. - Shawn fez uma pausa. Com um coração tão mole como o de Aidan, atirou outra batata frita para Finn. - O que temos na nossa pequena e feliz família, é o homem de negócios... - Shawn inclinou a cerveja na direcção do irmão.

- que serias tu.

 

- Pode ser.

 

- E lá em cima... - Shawn apontou um dedo para o tecto.

- temos duas mulheres adoráveis. Uma é graciosa e encantadora. Tem uma atitude tímida, que encobre, para aqueles que não olham em condições, um cérebro inteligente. A outra, coquete e linda, tem o hábito de envolver os homens por completo, antes que eles percebam que ela tem uma espinha de aço.

 

Aidan balançou a cabeça, devagar.

 

- Continua.

 

- E depois venho eu, o irmão que não tem a menor queda para os negócios. O irmão afável e jovial, que não dá a menor atenção às questões de dinheiro.

 

- Não nego que sejas afável e jovial, Shawn, mas também tens uma cabeça para os negócios tão boa quanto a minha.

 

- Não chega a esse ponto, mas é o suficiente para ajudar... para saber que Finkle se vai concentrar em ti. - Ele gesticulou distraído para Aidan, com a garrafa de cerveja, enquanto pensava acerca disso. - E enquanto ele estiver a fazer isso, os outros podem cercá-lo e sondá-lo, cada um à sua maneira. Creio que, no final, saberemos tudo o que precisarmos de saber. E, depois, tu poderás fechar o negócio, Aidan. O Gallaghers vai tornar-se o melhor pub do país, a casa a que todos obrigatoriamente terão de se referir quando se falar de hospitalidade e música irlandesa.

 

Aidan recostou-se, pensativo e sério.

 

- É isso que tu queres, Shawn?

 

- É o que tu queres.

 

- Não foi isso que perguntei.

 

Antes que Shawn pudesse levantar a garrafa de novo, Aidan segurou no seu pulso. Apertou com bastante firmeza para Shawn inclinar a cabeça numa indagação.

 

- É isso que tu queres, Shawn?

 

- O Gallaghers é nosso - murmurou Shawn. - Deve ser o melhor.

 

Depois de um momento, Aidan soltou-o. Irrequieto, levantou-se.

 

- Nunca pensei que ficasses connosco.

 

- Para onde iria eu? E porque partiria?

 

- Sempre pensei que um dia descobririas o que queres fazer com a tua música, e irias embora para o conseguir.

 

- Tenho o que quero da minha música. E proporciona-me o maior dos prazeres.

 

Como não recebia mais nenhuma batata frita, Finn deitou-se por baixo da mesa, aos pés de Shawn.

 

- Porque nunca tentaste vendê-la? Porque nunca foste para Dublin, Londres ou Nova Iorque, a fim de tocar nos pubs de lá, para que outros te pudessem ouvir?

 

- As minhas músicas não estão prontas para serem vendidas.

 

- Era uma desculpa, mas era tudo o que ele tinha. O resto, pelo menos, poderia ser a verdade pura e simples. - E não tenho o menor desejo de ir para Dublin, Londres ou Nova Iorque, Aidan, nem qualquer outro lugar, e cantar para pessoas a jantar. Este é o meu lugar. É aqui que está o meu coração.

 

Ele recostou-se, esfregando o flanco de Finn com o pé, distraído.

 

- Não tenho a sede de conhecer o mundo, como tu tinhas. Como a Darcy, o pai e a mãe têm. Quero ver o que conheço quando acordo pela manhã, ouvir os sons que me são familiares. - Enquanto Aidan o estudava, acrescentou: - Encontro um certo equilíbrio em conhecer os nomes dos rostos em meu redor, em me sentir em casa para onde quer que olhe.

 

- Tu és o melhor de nós, Shawn - murmurou Aidan.

 

O comentário fez com que Shawn sorrisse, em surpresa e embaraço.

 

- Eis uma declaração que ficará para a eternidade.

 

- És mesmo. Tens o coração que absorve a terra aqui, o mar e o ar, considerando tudo com respeito e amor. Eu não poderia fazer isso se não tivesse partido para conhecer outros lugares. E, quando fui embora, Shawn, garanto-te que não pensava em voltar. Não para ficar.

 

- Mas foi isso que fizeste, voltaste e ficaste.

 

- Porque descobri o que sempre soubeste. Este é o nosso lugar no mundo. Por direito, se seguíssemos o coração, em vez da ordem do nascimento, estarias tu a dirigir o pub.

 

- E levá-lo-ia à falência no espaço de um ano. Não, obrigado.

 

- Tenho a certeza de que isso não aconteceria. Nem sempre te dei o reconhecimento que mereces.

 

Shawn virou a garrafa de Harp na sua mão, contemplando-a com uma expressão pensativa. Piscou o olho ao cão a seus pés.

 

- Quantas destas garrafas bebeu ali o homem antes de eu ter chegado, Finn?

 

- Não tinha bebido nada antes. Quero que compreendas os meus sentimentos e pensamentos antes que as coisas entre nós mudem de novo. E tenho a certeza de que mudarão, se fecharmos o negócio.

 

- Tens razão, vão mudar, mas nós é que decidiremos o rumo da mudança.

 

- Vai exigir mais do teu tempo.

 

Shawn já pensara nisso, e como usaria esse tempo.

 

- Tenho tempo de sobra.

 

- E da Darcy... ela não vai ficar nada satisfeita.

 

- É verdade. - Shawn deixou escapar um suspiro. - Mas vai ficar bastante satisfeita com todas as jóias e roupas que poderá comprar com os lucros. E irá sempre defender o Gallaghers, Aidan. Tens de reconhecer isso.

 

- Pelo menos até conquistar o tal marido rico.

 

- Mesmo depois, se ela se dignar a fazer uma visita aos que permanecerem camponeses, ainda lhe poderás pedir para pôr um avental e pegar numa bandeja.

 

- E acertaria com ela na minha cabeça. - Mas Aidan balançou a cabeça em concordância. - Tens razão. Ela ajudaria, se fosse preciso. Sei disso.

 

- Não precisas de acartar com o peso todo... os negócios, preocupações e trabalho. Somos três... ou melhor, quatro, agora que temos a nossa Jude Francês Gallagher na família. Vamos dar-nos bem com este negócio, Aidan. Tenho um bom pressentimento.

 

- Ainda bem que vieste cá. Estou mais lúcido agora do que me sentia antes.

 

- Isso vale mais uma cerveja antes que eu... - Shawn parou de falar ao ouvir vozes femininas. - Ah, abençoada Maria, lá vêm as mulheres! Vou-me embora, pela porta dos fundos.

 

- Na próxima vez, vou deixar-te bêbado como um cacho para descobrir porque estás com tanto medo das mulheres.

 

- Se eu não chegar em breve a uma conclusão sobre o que devo fazer, eu aviso.

 

Shawn escapou pela porta dos fundos.

 

                                                   CAPÍTULO OITO

A melodia que ressoava na cabeça de Shawn deixou-o no melhor dos ânimos. Enquanto a fumaça das panelas se elevava e o óleo quente começava a chiar, ele deixou que tocasse, acorde após acorde, para depois mudar o tom, a fim de a tornar mais dramática. As palavras ainda não eram claras, mas logo surgiriam. Parecia-lhe uma canção de Verão, a transbordar de luz. E o facto de pensar acerca disso, ouvi-la dentro da sua cabeça, expulsava o sombrio Inverno.

 

A cerveja e a conversa na cozinha de Aidan, no dia anterior, haviam-no acalmado. E era assim que Shawn preferia.

 

Nesse momento, não conseguia entender porque se sentira tão nervoso. A pequena Mary Kate atravessava uma daquelas fases típicas das raparigas. Passaria tão depressa quanto surgira. Ele também não enfrentara as suas fases? Ainda se lembrava de que sonhara e suspirara pela linda Colleen quando tinha dezoito anos. Por sorte, nunca tivera coragem para fazer outra coisa além de sonhar e suspirar, já que a linda Colleen Brennan tinha vinte e dois anos na altura e estava noiva de Tim Riley.

 

Ele ultrapassara isso numa questão de semanas, mas depois passara a suspirar por outro rosto bonito. A vida era assim, no final de contas. Eventualmente, é claro, ele fizera mais do que suspirar, e descobrira a maravilha extraordinária de ter uma mulher nua sob o seu corpo. E fora inesquecível.

 

Apesar disso, ele tinha cuidado com quem trocava toques e como tocava, a fim de poder sair feliz da experiência, quando tudo acabasse. Não era homem de considerar o acto de amor algo casual. E era por isso, supunha Shawn, que não praticava aquela maravilha excepcional há meses.

 

E, também, era provavelmente o motivo pelo qual a O'Toole tanto atiçara as suas glândulas.

 

Não que ele tivesse qualquer certeza, pelo menos por enquanto, se tencionava fazer alguma coisa quanto a isso. Brenna era um enigma, e talvez fosse melhor deixá-lo sem solução. Um pouco de tempo, concluiu Shawn, um pouco de cuidado, e voltariam ao terreno antigo e familiar, se pudessem deixar que tudo continuasse como estava.

 

A sua mente voltaria a sossegar-se, e a vida retomaria a rotina que devia ter.

 

Ele só precisava de esquecer como fora estimulante aquele encontro entre as bocas.

 

Verificou o crubeens que estava a cozinhar com repolho e batatas com casca. Acrescentou um pouco de manjerona, para dar mais sabor ao caldo, um recurso que aprendera à base da experiência.

 

Gostava de apresentar aquele prato quando havia ianques no pub. Era sempre divertido observar as variadas reacções ao prato de pés de porco. Jude trabalhava como empregada naquela noite, e Shawn achava que ela não o iria desapontar.

 

Enquanto esperava que o outro prato ficasse pronto, ele tinha de fritar o peixe para os dois excursionistas de Wesford. Pôs o hadoque no óleo. Virou a cabeça no momento em que a porta dos fundos foi aberta.

 

No mesmo instante, o rosto de Shawn empertigou-se, os olhos contraíram-se, e teve a sensação de que agulhas o espetavam por todo o corpo.

 

- O aroma está delicioso - comentou Brenna, descontraída, inspirando fundo. - Estás a preparar crubeens'? Duvido de que tenhamos um prato assim em Waterford City.

 

Ela pintara o rosto. Tinha coisas cintilantes penduradas nas orelhas. E usava um vestido, que não deixava a questão das curvas para a imaginação de um homem, além de mostrar boa parte das pernas bem torneadas e firmes.

 

- Onde vais, vestida desse jeito?

 

- Vou jantar com a Darcy e os seus dublinenses.

 

Brenna preferia puxar uma cadeira, sentar-se à mesa da cozinha e comer o crubeens. Mas dera a sua palavra; não poderia mudar de ideias agora.

 

- Vais sair com um homem que nunca viste antes.

 

- A Darcy já viu. Agora, é melhor eu subir para a arrancar da frente do espelho, ou ela vai passar mais uma hora a arranjar-se, e nunca mais vou ter o meu jantar.

 

- Espera um instante.

 

Bastaria o tom para a fazer parar. Era incisivo, ríspido, diferente da forma habitual de Shawn. Mas, antes sequer que Brenna se pudesse virar, ele segurou-a pelo braço.

 

- Qual é o problema?

 

- Perfume também... - murmurou ele, com um desgosto evidente, enquanto inalava a fragrância que Brenna exalava. - Eu devia saber. Podes dar a volta e seguir directamente para casa. Não vou permitir que saias vestida dessa forma.

 

A raiva teria irrompido, numa reacção violenta, se conseguisse passar pelo espesso muro do choque.

 

- Não vais permitir? Vestida como?

 

- Não vou mesmo. E tu sabes muito bem como estás vestida. Estou surpreendido que a tua mãe te tenha deixado sair de casa dessa maneira.

 

- Tenho vinte e quatro anos, caso te tenhas esquecido. A minha mãe deixou de aprovar a minha escolha de roupas há vários anos. E não é da tua conta o que uso ou deixo de usar.

 

- Estou a fazer com que seja. Agora vai para casa, tira essa roupa e limpa o rosto.

 

- Não vou fazer nada disso!

 

A verdade é que ela só aplicara baton e o resto porque sabia que Darcy besuntaria o seu rosto duas vezes mais se aparecesse sem maquilhagem. Mas não havia motivo para mencionar isso, ainda para mais quando a raiva começava a prevalecer sobre o choque.

 

- Como queiras. Nesse caso, faço-o eu por ti, aqui e agora.

 

Ele suspendeu-a com um braço, ignorando os gritos estridentes e o punho que tentou apertar a sua zona temporal. Levou-a para a pia. Teve uma visão, através do nevoeiro escuro da sua fúria, de meter a cabeça de Brenna ali e abrir a torneira de água fria no máximo.

 

Já estava a estender a mão para a torneira quando Jude entrou a correr.

 

- Shawn!

 

A voz aturdida e um pouco maternal deteve-o, mas foi por pouco.

 

- O que estás a fazer? Larga a Brenna imediatamente!

 

- Estou a fazer o que precisa de ser feito. Vê como ela se arranjou para sair com um estranho. Não está certo, Jude.

 

Entre insultos, Brenna virou a cabeça e tentou dar uma mordidela em Shawn. Mas os dentes cravaram-se na camisa de flanela. Ela ameaçou fazer uma coisa tão infame e violenta com a sua virilidade que Shawn, cauteloso, apertou-a com mais firmeza.

 

Essa é muito boa, pensou Jude, fazendo um esforço para não sorrir.

 

- Põe-la no chão, Shawn. Devias sentir-te envergonhado.

 

- Eu devia? Ela está quase nua com esse vestido, e eu é que me deveria sentir envergonhado?

 

- A Brenna está linda.

 

Como não via outra opção, Jude avançou, tendo cuidado para evitar os pés de Brenna, que não parava de se espernear, e puxou-o pela orelha.

 

- Larga-a.

 

- Ai! Mas que raio! - A última mulher a torcer a sua orelha daquela forma fora a sua mãe... e deixara-o completamente incapaz de se defender. - Só estou a querer protegê-la. Está bem, está bem...

 

Quando Jude torceu com mais força ainda, ele largou Brenna. Depois, respirou fundo, com ar de insultado.

 

- Tu não compreendes a situação...

 

Shawn não pôde continuar. Cambaleou quando Brenna pegou numa panela e acertou na sua cabeça.

 

- Desgraçado! Não sou o teu cão para me tratares assim! Nunca mais te esqueças disso!

 

Ele apoiou-se na beira da pia, vendo três Brennas a encaminharem-se para a escada dos fundos.

 

- Ela acertou-me em cheio!

 

- Tu mereceste! - Mas Jude pegou nele pela mão, gentilmente.

- Precisas de te sentar. Tiveste sorte da Brenna não ter pegado na panela de ferro, pois nesse caso estarias agora estendido no chão, desmaiado.

 

- Não quero que ela saia com nenhum dublinense. - Tonto, Shawn deixou que Jude o levasse para uma cadeira. - Não quero que ela ande vestida daquela forma.

 

- Porquê?

 

- Porque não quero.

 

Paciente, mais compreensiva do que deixava transparecer, Jude passou os dedos pelos seus cabelos, com extrema delicadeza.

 

- Nem sempre se consegue o que se quer. Não rasgou a pele, mas vais ficar com um tremendo galo. - Jude levantou o rosto de Shawn. Comovida com a expressão obstinada e angustiada nos seus olhos, beijou-o levemente. - Nunca pensei que tivesses uma cabeça tão dura. Se não queres que a Brenna saia com outro, porque não a convidas para sair contigo?

 

Ele mudou de posição na cadeira.

 

- Não é assim que se faz.

 

Jude pegou no rosto dele entre as mãos.

 

- Não?

 

Ela deixou-o a remoer nisso, enquanto ia até ao fogão para apagar o fogo do peixe, que queimara além de qualquer possibilidade de redenção.

 

- Não quero que seja assim.

 

Os cantos da boca de Jude contraíram-se. De costas para Shawn, pegou noutras postas de peixe.

 

- Tenho de repetir. Nem sempre se consegue o que se quer.

 

- Eu consigo. - Shawn levantou-se. Ficou imóvel por um momento, esperando que a cozinha parasse de rodar. - Tenho muito cuidado com o que quero.

 

- Eu também tinha. E foi querer mais que me trouxe cá.

 

- Já estou onde quero. Por isso, posso ser cuidadoso.

 

Ainda a segurar no peixe, Jude lançou-lhe um olhar impassível.

 

- Tens mesmo a cabeça dura.

 

- E é assim que eu gosto. Não te preocupes com isso. Podes deixar que eu faço. - Shawn pôs a panela de lado. Pegou noutra para aquecer o óleo ainda não usado. - Podes pedir ao Aidan, querida, para servir outra cerveja aos excursionistas, por minha conta, com um pedido de desculpas pelo atraso na refeição?

 

- Claro. - Jude encaminhou-se para a porta. Mas parou antes de sair e virou-se. Os problemas de família ainda eram uma novidade para ela. - Shawn, talvez tu gostes do lugar onde estás. Talvez seja o lugar certo para ti. Mas há ocasiões em que se precisa de ter a certeza. Dar um passo para a frente ou para trás. Não estás a ser justo com a Brenna, nem contigo próprio, ao correr no mesmo lugar.

 

- Isso é a psicóloga a falar? - Ele olhou para trás, a tempo de a ver estremecer e baixar os olhos. - Não o disse como uma ofensa, Jude. E tens razão. Eu apenas não sabia que rumo tomar. - Shawn preparou o peixe para fritar, pensativo. - O facto é que ela me pressionou. E não gosto de ser pressionado. Deixa-me com vontade de fincar os pés no chão e resistir.

 

- Posso compreender isso, assim como também posso compreender que a Brenna é do tipo que precisa de fazer as coisas à sua maneira. De uma forma ou de outra.

 

- É verdade. - Com o rosto franzido, ele tocou com os dedos no galo da cabeça, cauteloso. - De uma forma ou de outra.

 

- Se puderes aceitar mais um conselho, encontra algo para fazer na despensa quando ouvires a Brenna a descer.

 

- És uma mulher sábia.

 

- Está tudo a correr bem, não é?

 

Darcy passava pó-de-arroz no nariz, na casa de banho do restaurante, olhando para Brenna no espelho.

 

- A comida é muito boa.

 

- Tens razão. Mas eu referia-me ao todo. É muito agradável sair com um homem de alguma sofisticação, para variar. O Matthew morou em Paris durante um ano inteiro. Fala francês como um nativo. Acho que não vai demorar muito para ele me convidar a passar um fim-de-semana em Paris.

 

Mesmo contra a vontade, Brenna não pôde deixar de rir.

 

- E tu vais deixá-lo pensar que a ideia foi dele.

 

- Claro. Os homens preferem assim. E o Daniel está fascinado por ti.

 

- Ele é muito simpático.

 

Como sabia que Darcy levaria bastante tempo para se arranjar antes de voltar à mesa, Brenna pegou no seu baton. Para dizer a verdade, era um baton de Mary Kate, surripiado da casa de banho.

 

- Ele tem uma aparência magnífica e é tão rico que chega a ser pecado. Porque não deixamos que os dois nos levem a Paris?

 

- Não tenho tempo para ir a França, nem a menor disposição para pagar a viagem da forma como um homem esperaria.

 

- Temos tempo de sobra. - Darcy ajeitou os cabelos de Brenna.

- E uma mulher esperta não paga, de qualquer forma, a menos que queira. Não estou a pensar em ir para a cama com o Matthew.

 

- Pensei que gostavas dele.

 

- E gosto. Só que ele não me atrai dessa forma. - Uma pausa e ela acrescentou, jovial: - Mas isso pode mudar.

 

Com os lábios contraídos, Brenna observou o baton, enquanto o fazia subir e descer no tubo.

 

- Alguma vez desejaste dormir com um homem que não queria ir para a cama contigo?

 

- Jamais conheci um homem que não estivesse disposto abaixar o fecho à menor provocação. É assim que eles são feitos. Não podemos culpá-los por isso.

 

- Mas pode haver algum que, em determinadas circunstâncias, não acharia uma mulher suficientemente atraente para se querer deitar com ela.

 

- Suponho que hajam excepções para todas as regras. Mas tu não precisas de te preocupar. - Ela apertou o ombro de Brenna, num gesto de apoio. - O Daniel acha-te muito atraente. Tenho a certeza de que ele teria o maior prazer em levar-te para a cama, se quisesses.

 

Com um suspiro, Brenna guardou o baton na bolsa.

 

- É um alívio saber isso.

 

Ela divertira-se muito. O melhor encontro da sua vida. Uma refeição civilizada, num lugar civilizado, com pessoas civilizadas.

 

Na verdade, sentia-se entediada demais, achava a noite muito chata, mas não queria admitir.

 

Com esse bloqueio na cabeça, ela deu o seu telefone a Daniel. Prometeu a si mesma que voltaria a sair com ele, se telefonasse para a convidar. Daniel fora polido e divertido, lembrou ela a si mesma, enquanto seguia para casa na carrinha, partindo do pub, onde fora deixada, depois do jantar. Ele fingira interessar-se pelo seu trabalho, e até se esforçara em encontrar alguma coisa que tivessem em comum. E descobriram que eram os filmes americanos antigos, do tipo noir.

 

Daniel tinha uma colecção grande de vídeos. Até sugerira que ela fosse a Dublin, onde poderiam realizar um pequeno festival.

 

Poderia ser uma coisa que ela apreciasse. Assim como apreciara o beijo de boa noite. Não fora exagerado, e as mãos de Daniel não vaguearam pelo seu corpo, indo a lugares que não deveriam visitar logo no início do relacionamento.

 

Um homem absolutamente simpático.

 

Mas o desgraçado do Shawn Gallagher arruinara o seu paladar para o sabor de qualquer outro homem.

 

Ela diminuiu a velocidade e parou quando chegou perto do chalé de Shawn. Deixou a carrinha em ponto morto, enquanto o ténue nevoeiro a envolvia.

 

Ele estava lá dentro, com toda a certeza, aquela serpente à espreita. Com a luz da sala acesa. Provavelmente tocava a sua música. Se houvesse uma janela aberta, a música sairia para a noite, e ela poderia ouvi-la.

 

E bem que gostaria de a ouvir.

 

Porque sabia que a música de Shawn a abrandava sempre, ela ficou com uma cara séria. Sentiu-se tentada, muito tentada, a entrar com a carrinha no seu terreno, ir bater à porta, dizer tudo o que pensava, e rematar com a palma da sua mão.

 

Mas isso seria atribuir uma importância excessiva ao comportamento anterior de Shawn. E preferia evitá-lo. O desgraçado!

 

Que tipo de homem era capaz de a beijar numa noite, como se pudesse sentir a maior das felicidades se passasse a eternidade assim, para se comportar como um pai furioso na noite seguinte?

 

E até queria lavar o seu rosto!

 

Brenna fungou, começou a virar-se no banco, para agarrar de novo no volante, quando um movimento na janela superior a deteve. Por um instante, ficou apavorada, mortificada, pensando que era Shawn, observando-a a olhar para o chalé.

 

Mas o fluxo embaraçado não teve oportunidade de aquecer o seu rosto, pois ela distinguiu a forma de uma mulher, de cabelos claros iluminados pelo luar.

 

Brenna suspirou. Baixou a janela, cruzou os braços ali, apoiou o queixo em cima.

 

Quantas noites, especulou ela, a pobre Lady Gwen passara naquela janela, sozinha, solitária, com o coração partido? Tudo por causa de um homem.

 

- Porque nos incomodamos com eles, Gwen? Porque deixamos que dominem os nossos pensamentos desta maneira? Quando se põe o resto de lado eles são irritantes.

 

O coração dele está na canção. Brenna ouviu as palavras como se fossem sussurradas directamente no seu ouvido. E tu também. Presta atenção.

 

Brenna fechou os olhos e apertou com força, enquanto alguma coisa assustadora tentava expandir-se e agitar-se na sua cabeça.

 

- Não, não e não! Não quero pensar mais em Shawn, não quero desperdiçar o meu tempo com ele. Shawn teve as duas coisas... em demasiada quantidade.

 

Com um movimento brusco, quase violento, ela engrenou a carrinha e seguiu para casa.

 

Shawn sabia que ela estava sozinha, porque verificara. Mick OToole fora tratar de um trabalho no hotel no penhasco, e Jude saíra para fazer uma caminhada.

 

Enquanto subia as escadas, podia ouvi-la a martelar qualquer coisa. O que significava, reflectiu Shawn, que ela estava armada. Mas era um risco que tinha de correr.

 

Passara a maior parte da noite a pensar na situação... o que se vinha a tornar um hábito e lhe custava muito tempo de sono. Chegara à conclusão de que Jude tinha razão. Era tempo de se movimentar, para um lado ou para outro. E imaginava que a conversa agora poderia determinar em que direcção seguiria.

 

As marteladas, constatou ele, vinham do armário no quarto do bebé. Seguindo um impulso, algo raro nele, Shawn fechou a porta, trancou e guardou a chave no bolso. Isso pelo menos evitaria que Brenna se afastasse antes que ele acabasse o que tinha a dizer.

 

Preparado para a explosão que, tinha a certeza, provocaria, ele encaminhou-se para o armário.

 

- Jude? Já de volta, tão cedo? Dá uma olhada nestas prateleiras para saber se estão do teu agrado.

 

Do terceiro degrau do escadote, ela olhou para trás e avistou Shawn na porta.

 

Ele esperou. Mas, em vez de o fulminar com a língua, Brenna trespassou-o com o olhar, para depois voltar ao trabalho.

 

O que era um péssimo sinal, reflectiu Shawn.

 

- Quero conversar contigo.

 

- Estou a trabalhar. Não tenho tempo para conversas.

 

- Preciso de falar contigo.

 

Shawn adiantou-se. Pôs a mão na anca de Brenna. Precisou de recorrer a toda a sua coragem para não saltar para trás, quando ela o fitou, apertando o martelo com toda a força.

 

- Queres largar isso?

 

- Não.

 

Ele podia ter coragem, mas também tinha cérebro. Num movimento rápido, arrancou o martelo da sua mão.

 

- Tenho um galo do tamanho de uma bola de golfe na cabeça. Não me apetece ter mais um. Só vim trocar algumas palavras contigo, Brenna.

 

- Não tenho nada para te dizer, Shawn. E como prezo a amizade que tivemos durante toda a vida, peço-te que me deixes em paz agora.

 

Era mesmo um mau presságio, pensou Shawn, enquanto um princípio de pânico o envolvia.

 

- Quero pedir-te desculpa.

 

Brenna mudou de posição no escadote outra vez, voltando-lhe as costas, e pegou na fita métrica.

 

Aquela mulher despertava o que havia de pior nele, pensou Shawn, enquanto a segurava pelas ancas e a tirava do escadote. Ela virou-se já com um soco armado. Embora esperasse, ele não se esquivou. Não depois de ter percebido o brilho de lágrimas nos olhos de Brenna.

 

- Desculpa. - O pânico era agora cada vez mais intenso e angustiante. - Não chores. Não posso suportar isso.

 

- Não estou a chorar. - Ela preferia deixar que as lágrimas queimassem os seus olhos do que derramar uma só na presença de Shawn. Eu pedi-te para me deixares em paz. Já que não queres retirar-te, eu vou-me embora.

 

Brenna foi até à porta. Girou a maçaneta. Escancarou a boca, em choque.

 

- Tu trancaste a porta! - Ela virou-se, bruscamente. - Perdeste o juízo?

 

- Eu conheço-te... e sabia que não me irias querer ouvir. Assim, vais ter de ouvir o que tenho a dizer.

 

Shawn apercebeu-se de que ela lançava um olhar para a caixa de ferramentas. Imaginou que Brenna pensasse no amplo armazenamento de armas que ali havia. Por mais sincero que tivesse sido o seu pedido de desculpas, não estava disposto a permitir que fossem abertos buracos no seu corpo. Por isso, interpôs-se entre ela e a tentação.

 

- Dizes que a nossa amizade é importante para ti. Para mim também. E importa muito. És importante para mim, Brenna.

 

- Foi por isso que me trataste como uma vagabunda ontem à noite?

 

A voz de Brenna tremia, deixando-o alarmado. Foi o motivo para que se apressasse em concordar.

 

- Tens razão. Mas deves compreender que não é normal ver-te daquela forma.

 

A frustração fez com que ela erguesse as mãos.

 

- Que forma?

 

- Querida. - Shawn viu os olhos de Brenna arregalarem-se em surpresa e aproveitou a situação para se aproximar. - Estavas refinada e feminina.

 

- Não poderia deixar de ser feminina. Afinal, sou mulher.

 

- Eu sei. Mas não costumas preocupar-te com essas coisas.

 

- Porque deveria? - Era um ponto sensível, que ela detestava esmiuçar. - Só porque sei martelar um prego e consertar um cano, não tenho permissão para ser também mulher? Usar um vestido e baton transforma-me numa vagabunda?

 

- Não, mas transforma-me num idiota por te deixar pensar que foi essa a minha intenção. Inepto, idiota e rancoroso. Peço desculpa.

 

Como Brenna permanecia calada, ele enfiou as mãos nos bolsos. Tornou a tirá-las. E disse a si mesmo que era melhor dizer tudo de uma vez.

 

- A verdade é que eu estava a pensar em ti, em coisas a teu respeito, quando entraste na cozinha, vestida daquela forma, pronta para sair com outro homem. Senti ciúmes. Na ocasião não percebi. E não quis admitir mais tarde, depois da minha mente se ter desanuviado um pouco. Nunca tinha sentido ciúmes antes. E não posso dizer que tenha gostado.

 

Brenna já se acalmara o suficiente para começar a especular. E considerar.

 

- Também não gostei.

 

- Disse a mim mesmo que o tinhas feito de propósito... tinhas usado aquele vestido, deixado os cabelos soltos, os lábios brilhantes e húmidos, só para me provocar.

 

Sim, considerou Brenna. Balançou a cabeça.

 

- Seria bem possível, se eu tivesse pensado nisso. Mas a minha mente não funciona com tanta habilidade.

 

- Eu sei. És uma mulher franca e honesta. - Shawn parou. Inclinou a cabeça para o lado. A cada passo seu, ela dava outro, esquivando-se.

- Brenna, porque te desvias sempre que dou um passo na tua direcção? Não foste tu quem começou tudo?

 

- Tens razão, fui eu. Mas tive tempo de reconsiderar. E quero que te mantenhas à distância, enquanto penso acerca disso. - Ela fez o pedido quando se apercebeu do divertimento masculino nos olhos de Shawn. Não era uma expressão que aquietasse os nervos de uma mulher. - Somos amigos há muito tempo, Shawn. Não quero perder essa parte da minha vida. Se tivéssemos agido quando falei em sexo pela primeira vez, se tu tivesses apenas sorrido e dito "Uma óptima ideia, Brenna, vamos já para a cama", tudo estaria bem. Teríamos desfrutado um do outro, de uma forma bem simples, e separávamo-nos como amigos, da forma que sempre fomos. Mas agora isso deixou de ser uma coisa impulsiva e tornou-se cada vez mais complicada.

 

Shawn resolveu o problema de a manter quieta ao estender uma das mãos para a parede, um pouco acima da cabeça de Brenna. Antes que ela pudesse desviar-se, Shawn encostou a outra mão na parede, imobilizando-a entre os seus braços.

 

- Tu tens o hábito de agir por impulso, enquanto eu pondero tudo. Tu moves-te depressa, mas eu sou mais lento.

 

O sangue de Brenna começava a zumbir. Mas o orgulho mantinha-a imóvel agora, tanto quanto os braços de Shawn.

 

- Pelo amor de Deus, Shawn, um frigorífico desloca-se mais depressa do que tu.

 

- Mas eu acabo na mesma por chegar onde quero, não é? E pensei, Brenna, que avaliando impulso e consideração, rapidez e cautela, ainda podemos encontrar-nos em algum ponto intermédio.

 

- É muito difícil agora.

 

- O teu coração disparou - murmurou ele, chegando ainda mais perto. - Quase posso ouvi-lo. - Sem desviar os olhos dela, Shawn colocou a mão entre os seus seios. A sensação aflorou nos olhos de Brenna, a respiração tremeu entre os lábios. Ela inspirou bem fundo, quando os dedos de Shawn se abriram. - Agora posso sentir. Sempre te quis tocar.

 

Os joelhos de Brenna começaram a vergar-se.

 

- Nunca pensarias nisso se eu não o tivesse mencionado.

 

- Tens razão. Mas não posso dizer que me importo que a ideia tenha sido tua, da forma como penso agora. - Ele baixou a cabeça para morder levemente o lábio inferior de Brenna. - E ando a descobrir que é muito difícil pensar em qualquer outra coisa. Quando vim para cá hoje...

- Shawn deslocou a cabeça, de tal maneira que os seus lábios roçaram no queixo de Brenna. - Pensei em pedir desculpa, deixar tudo bem entre nós. E depois, eu tinha quase a certeza, daria um passo atrás e deixaria assim. Mas agora eu quero tocar-te. - Ele acariciou o mamilo que espetava a camisa. - Quero saborear-te.

 

E, finalmente, as bocas encontraram-se.

 

Ela segurou nos quadris de Shawn, com os dedos a apertar com toda a força, enquanto as línguas se misturavam, o calor de um corpo se unia ao do outro. Brenna queria mais depressa, mais quente, mais duro. Pensou que poderia morrer com aquele calor gentil e glorioso.

 

- Espera! - Algo soltava-se dentro dela. Algo vital, que precisava de permanecer no lugar. - Espera. Tu pensas que preciso de caprichos e fantasias.

 

Ela virou a cabeça, mas o movimento só serviu para expor a sua orelha aos dentes de Shawn.

 

O homem tinha uma boca mágica.

 

- Pois eu não preciso. - A respiração de Brenna saía forte e acelerada, deixando-a tonta. - Nem de seduções.

 

- Mas eu preciso.

 

Ele inclinou a cabeça, a fim de beijar a garganta de Brenna.

 

- Se já decidiste... e parece-me que sim... que, afinal, devemos fazer sexo, tiraremos uma hora de folga e iremos para o teu chalé.

 

A gargalhada de Shawn foi abafada contra a pele de Brenna, uma pele tão macia quando seda aquecida ao sol.

 

- Um ponto intermédio, Brenna. Quero-te. - Ele sentiu-a estremecer, quando as bocas voltaram a encontrar-se. - Mas tenho a intenção de nos levar aos dois à loucura, antes de te ter nua, por baixo de mim.

 

- Porquê?

 

- Porque é mais agradável assim. Gostas quando faço isto? - Ele sorveu a respiração de Brenna, enquanto os seus dedos roçavam a curva do seio, por baixo da camisa. - Já vi que gostas. Ficaste com os olhos turvos.

 

- Estou meio cega. Vamos esquecer o chalé. Faremos tudo aqui mesmo.

 

Mas, quando ela o enlaçou pelo pescoço, Shawn riu-se e girou-a num círculo.

 

- Nada disso. Não vou abreviar o meu prazer nem o teu.

 

- Não parece um ponto intermédio, do meu ponto de vista. Está a inclinar-se cada vez mais para a tua maneira de fazer as coisas.

 

- É possível. Mas tu vais agradecer-me quando acabarmos.

 

- Um pensamento típico de homem... - murmurou Brenna, quando ele a pôs no chão. - Sempre a pensar que sabe o que é melhor e como deve ser feito.

 

Os dentes de Shawn faiscaram num sorriso.

 

- Brenna, querida, se eu não fosse homem, não estaríamos a ter esta conversa.

 

Ela suspirou. Ajeitou o boné com mais firmeza na cabeça.

 

- Estás certo nesse ponto, não é assim?

 

- Disseste-me que tinhas uma comichão. Pois vou coçar-te, no momento em que eu escolher, à minha maneira. Acho que é justo.

 

Brenna fitou-o nos olhos. Balançou a cabeça em concordância.

 

- Frustrante, mas justo.

 

- E qualquer que seja a situação, agora ou depois, continuaremos amigos no final de tudo. Por mais que te deseje, não te tocarei se não prometeres que continuaremos amigos.

 

Como poderia deixar de gostar de Shawn, pensou Brenna, quando ele era o tipo de homem capaz de pensar em algo assim? E a falar absolutamente a sério.

 

- Amigos agora, durante e depois. - Brenna estendeu a mão.

- Prometo.

 

- E eu também prometo.

 

Shawn apertou a mão estendida. Não a largou. E só para ver a reacção, levantou-a para roçar os seus lábios.

 

Ela entreabriu a boca, levando-o a soltar uma gargalhada estrondosa.

 

- Mary Brenna, creio que tu terás algumas surpresas ao longo do caminho.

 

- Talvez. - Ela soltou a mão. Estendeu-as para as costas, onde continuou a formigar. - Mas quero que saibas que também tenho os meus truques.

 

- Contarei com isso. - Shawn tirou a chave do bolso e virou-se para a porta. - Porque não apareces esta noite? Eu faço o jantar, e posso mostrar-te algumas... surpresas que tenho guardadas na despensa.

 

- Na despensa? - Antes que a risada saísse, um pensamento aflorou. - Quantas mulheres, se é que posso perguntar, já surpreendeste na despensa?

 

- Mauverneen. - Shawn piscou-lhe o olho, antes de sair. - Não sou um homem que costuma contar.

 

                                                     CAPÍTULO NOVE

- Finkle, o homem de Magee, está aqui - informou Darcy, entrando apressada na cozinha.

 

Shawn levantou os olhos das sanduíches que estava a preparar.

 

- Como é que ele é?

 

- Enorme. - Por uma questão de hábito, Darcy verificou o rosto e os cabelos no pequeno espelho que pendurara ao lado da porta. - O Aidan está a servir-lhe uma caneca de cerveja e a puxar conversa. Finkle parece estar apenas interessado nos negócios.

 

Shawn gesticulou com a faca, conhecendo as habilidades da irmã.

 

- Dá-me uma descrição dele em cem palavras ou menos. Darcy contraiu os olhos. Bateu com um dedo nos lábios.

 

- Cinquenta e poucos anos. Meio careca. E preocupado com isso, porque penteia os cabelos de um lado para o outro, na tentativa de encobrir o facto. Uma barriga próspera, indicando que gosta de comer. Casado, mas não avesso a contemplar outras mulheres. Não tem o hábito de fazer exercício. Um homem da companhia, acostumado a receber ordens e a transmitilas a quem está por baixo. Poupado, pois a Mary Kate disse que ele regateou pelo preço do quarto, embora a empresa esteja a pagar tudo. Cortês, um pouco sério mesmo. Eu poderia tirar sobrancelhas com o brilho dos seus sapatos.

 

- Bom trabalho. - Os olhos de Shawn faiscaram em expectativa.

 

- Não terás qualquer dificuldade em deixá-lo encantado, não é?

 

Com um sorriso presunçoso, Darcy olhou para as suas unhas.

 

- Será a coisa mais fácil do mundo.

 

- Não estou a falar de o levar à tentação, Darcy. Queremos apenas que o deixes atordoado.

 

- Dá-me algum crédito. Eu disse que ele é casado. Não sou uma destruidora de lares.

 

- Desculpa. Foi a expressão nos teus olhos. És um terror para a humanidade.

 

Ela tirou um tubo de baton do bolso das gorjetas e retocou os lábios, olhando para Shawn pelo espelho.

 

- A humanidade adora terrores como eu.

 

- Não vou discutir esse ponto, já que conheço muitos dos que tombaram pelo caminho. Eu vou ajudar-te a servir as sanduíches, para que o Finkle possa dar uma olhada no irmão inofensivo.

 

Em harmonia com Shawn, Darcy ajudou-o a arranjar a bandeja.

 

- Eu diria que ele está impaciente. Quer apressar tudo, examinar o terreno, discutir as condições.

 

- Ele está na Irlanda, agora - comentou Shawn, descontraído.

- E a precipitação não é a forma dos Gallagher.

 

Depois de colocar os pedidos na bandeja, ele acrescentou algumas tigelas com batatas fritas para o bar.

 

- Eu não estava a sonhar - disse ele para as costas de Darcy, elevando um pouco a voz, ao passarem pela porta da cozinha. - Apenas a pensar.

 

Ela seguiu a deixa do irmão, suspirando.

 

- Não podes preparar os pedidos a tempo se vives com a cabeça nas nuvens. Tenta permanecer aqui em terra firme, como toda a gente, pelo menos de vez em quando.

 

Com uma expressão contrariada, Shawn foi pousar as tigelas ao longo do balcão.

 

- Shawn, anda conhecer o Sr. Finkle, da cidade de Nova Iorque.

 

Com o rosto impassível, Shawn foi até Aidan. Inclinou-se para oferecer um sorriso cordial ao homem de cabelos ralos e olhos pretos, vagamente irritados.

 

- Prazer em conhecê-lo, Sr. Finkle. Temos primos em Nova Iorque, além de amigos. Dizem que é uma cidade movimentada, onde sempre acontece alguma coisa a cada minuto de cada dia. Aidan, tu já estiveste em Nova Iorque. É assim também que te lembras da cidade?

 

Porque teve de reprimir uma gargalhada, Aidan limitou-se a inclinar a cabeça para confirmar. Shawn engrossara o sotaque, apenas o suficiente para acrescentar um toque e uma atmosfera de provinciano.

 

- O Aidan viajou muito. Está no sangue da família. Mas eu sou diferente. Prefiro ficar plantado onde nasci.

 

- Imagino... - murmurou Finkle, obviamente disposto a descartar Shawn, e voltar a tratar de questões importantes.

 

- Quer dizer que veio passar férias em Ardmore, Sr. Finkle? É um bom lugar para isso. Tem sorte porque as coisas andam quietas por aqui. Mas no final de Maio as praias estarão lotadas, já que são muito boas. E haverá tanta gente nopub que mal terei tempo para atender os pedidos. Pelo menos no Inverno um homem pode descansar um pouco.

 

- Estou aqui em negócios. - Finkle falou num tom incisivo, com ênfase nas consoantes que Shawn reconheceu como o sotaque de um novaiorquino nativo. - Para a Magee Enterprise.

 

À expressão convincentemente surpresa de Shawn, Aidan balançou a cabeça.

 

- Shawn, eu falei-te sobre a possibilidade de fazer um negócio com o Sr. Magee. Um auditório... não te lembras?

 

- Nunca pensei que fosse a sério. - Shawn coçou a cabeça. - Um cinema em Ardmore?

 

- Não será um cinema - respondeu Finkle, com óbvia impaciência. - Um auditório para espectáculos ao vivo.

 

- Acho que é uma ideia maravilhosa. - Darcy aproximou-se do bar, fitando Finkle com uma aprovação radiante. - Absolutamente brilhante. Deveria vir ao pub esta noite, Sr. Finkle, para ter uma amostra do tipo de talento local que podemos oferecer à sua casa de espectáculos.

 

- E aquele homem de Londres? - Shawn lançou olhares aturdidos para Darcy e Aidan. - O homem do restaurante?

 

- Falaremos sobre isso mais tarde. - Aidan abanou a cabeça de uma forma curta, mas óbvia. - Não é importante.

 

Os ombros de Finkle empertigaram-se, as sobrancelhas franziram.

 

- Anda a falar com um outro investidor, Sr. Gallagher?

 

- Não é uma questão séria. Nem um pouco. Porque não vamos dar uma vista de olhos ao terreno de que estamos a falar? Quer conhecê-lo, não é? Afinal, não está a comprar nabos em saco. Shawn, sê camarada e cuida de tudo aqui. - Aidan apressou-se em sair de trás do balcão. - Vamos dar uma volta, Sr. Finkle, para que possa ver tudo.

 

- Pode voltar quando acabar, por favor? - Darcy teve a satisfação de ver Finkle corar um pouco ao virar a cabeça para a fitar. - Eu adoraria cantar para si.

 

Ela esperou até que os dois estivessem a uma distância segura.

 

- O homem de Londres... - murmurou ela, rindo-se. - Foi uma ideia inesperada.

 

- Ocorreu-me de repente. E aposto uma libra contra um pence que no instante em que alcançar um telefone, ele vai ligar para o Magee em Nova Iorque, para avisar que estamos a negociar em duas frentes.

 

- Pode também dar errado, Shawn, levando Magee a procurar outro lugar.

 

- Ou pode dar certo. - Ele estendeu a mão para desmanchar os cabelos da irmã, surpreendido ao descobrir como estava a gostar de tudo aquilo. - A vida é um jogo, não é assim?

 

Ele levantou os olhos quando Brenna e o pai entraram para almoçar.

 

- E isso é a metade da diversão de se viver. Bom dia, Sr. OToole - disse ele, quando Mick se aproximou do bar. - Oi, Mary Brenna. O que vão querer?

 

- Estou com muita sede, Shawn. Mick piscou o olho a Darcy.

 

- Podemos ajudá-lo nesse ponto. - Shawn, conhecendo a preferência dos clientes, estendeu uma caneca para baixo da torneira, iniciando o processo de preparar uma Guinness. - E tu, Brenna?

 

- Estou mais interessada naquela sopa do cardápio. - Ela acenou com a cabeça na direcção do quadro com os pratos do dia. - Mas não há pressa.

 

- Absolutamente nenhuma - confirmou Mick, enquanto se sentava num banco. - Quase acabámos tudo na casa do teu irmão esta manhã. E a minha Brenna vai deixar tudo arrumado até ao final do dia. Depois, começaremos a reformar os quartos no hotel. Vou sentir a falta de vir aqui para almoçar, Shawn. Não que o hotel não sirva uma boa refeição, mas ninguém tem a tua mão.

 

- Vai comer a sopa e uma sanduíche hoje, Sr. O'Toole? - Darcy foi para trás do balcão, a fim de servir o chá que presumia que Brenna queria. - Um homem que trabalha tão duro precisa de combustível.

 

- Claro, querida Darcy. Um dia destes vais tornar-te a melhor das esposas para um homem afortunado, pois saberás cuidar dele.

 

Com uma risada rápida e maliciosa, Darcy estendeu o chá para Brenna.

 

- Estou a procurar alguém que cuide de mim... e muito bem. Por falar nisso, o Daniel ligou-te, Brenna?

 

- Daniel? - Ela apercebeu-se das sobrancelhas franzidas de Shawn, e fez um esforço para não se mostrar embaraçada. - Ligou.

 

- Ainda bem. O Matthew disse que ele ia ligar. É um bom rapaz, numa boa situação e está de olho na sua filha, Sr. O'Toole.

 

- E porque não estaria? Ela é uma coisinha linda.

 

- Obrigada, pai.

 

- Mas és mesmo. Qual é o problema de dizer isso? - A palmada que ele deu no ombro de Brenna foi do tipo que a maioria dos homens só daria num filho. - Um homem sentir-se-ia afortunado por conquistar uma mulher como a minha Brenna, já que ela é muito bonita e trabalhadora ainda por cima. Talvez algo temperamental, mas isso serve para aumentar o tempero. Um homem não aprecia uma mulher sossegada demais. Não concordas, Shawn?

 

Shawn despejou no copo o nível seguinte de Guinness.

 

- Depende do homem.

 

- Um homem inteligente não quer uma mosca morta, pois ficaria farto em menos de um ano. Não que eu esteja ansioso em ver a minha Brenna fora de casa e casada. As minhas filhas já estão a deixar o ninho muito depressa, com a Maureen casada e a Patty pronta para se amarrar dentro de poucos meses. - Ele suspirou. - Não sei o que farei sem a minha Brenna, quando chegar o momento.

 

- Não precisarás de ficar sem a minha ajuda, se o momento chegar ou não. Somos sócios. Vou buscar a sopa à cozinha, já que estão com pouca gente a trabalhar aqui.

 

Era uma desculpa tão boa quanto outra qualquer para sair da berlinda e escapar dos assuntos desagradáveis. Brenna foi para trás do balcão e passou pela porta da cozinha tão depressa quanto podia, sem dar a impressão de que estava com pressa. Quando a porta se fechou nas suas costas, ela revirou os olhos e soltou um suspiro profundo.

 

O pai andava a tornar-se muito sentimental ultimamente. Embora ela achasse comovente na maioria das vezes, aquela não era uma delas. Ela pegou nas tigelas. Fez um esforço para não estremecer quando ouviu a porta ser aberta de novo. Não precisava de se virar para saber que era Shawn.

 

- Posso tratar disto. Tu estás ocupado.

 

- E a Darcy pode tratar do bar tão bem quanto eu... ou qualquer outra pessoa. Além do mais, o teu pai quer uma sanduíche. Tu não constróis tão bem com pão e carne como o fazes com madeira e pregos.

 

Porque ele queria e porque sabia que a deixaria atordoada, Shawn aproximou-se por trás, pôs as mãos nas suas ancas, e inclinou-se para a beijar na nuca.

 

O calor desceu até aos pés de Brenna.

 

- O que estás a fazer? Tens de trabalhar.

 

- Tu já és trabalho suficiente.

 

Shawn virou-a. Subiu as mãos pelos seus lados.

 

- Só tenho tempo para comer qualquer coisa à pressa. Tenho de voltar para concluir a renovação.

 

- Eu alimento-te daqui a pouco. - Com as mãos sob os braços de Brenna, ele levantou-a para o balcão. - Mas tens de me alimentar primeiro. Estou a sentir um enorme apetite por ti.

 

Ela fez menção de protestar, embora o seu coração não o quisesse, mas a boca de Shawn cobriu a sua.

 

- Pode entrar alguém... - ela conseguiu balbuciar, já com as mãos nos cabelos de Shawn.

 

- Por que razão se daria alguém ao trabalho? Só quero que te concentres nisto por um momento.

 

Ele pegou no rosto de Brenna entre as mãos e inclinou a cabeça para a beijar de novo.

 

Prometera levá-la à loucura, e ela tinha de reconhecer que ele era um homem de palavra. Há dias que a mantinha num frenesim sexual, ao mesmo tempo frustrante e maravilhoso. Nunca era mais do que um beijo, longo, lento e profundo, ou rápido, ansioso e ardente. As mãos ou as pontas dos dedos apenas a roçarem, provocantes. O olhar intenso que podia fazer com que o coração de Brenna disparasse, sem que uma única palavra fosse trocada.

 

Um apetite por ela, dissera Shawn. Deveria ser verdade, já que ele a provava, saboreava e consumia, em pequenas mordidelas, em beijos longos, sem qualquer pressa. Quando Brenna começou a tremer, ele limitou-se a soltar um murmúrio de aprovação satisfeita.

 

- Shawn... - O homem deixava-a com a cabeça em vertigem e o ventre em fogo. - Não posso continuar assim por muito mais tempo.

 

- Eu posso. - Shawn sonhava sempre com ela. - Seria capaz de continuar assim por anos.

 

- É disso que tenho medo.

 

Ele riu-se. Puxou-a no instante seguinte, satisfeito com as nuvens de desejo nos seus olhos.

 

- O que disseste ao tal Daniel?

 

- Que Daniel? - O sorriso faiscante de Shawn fez com que a mente de Brenna se desanuviasse. Resmungando, ela empurrou-o e desceu do balcão. - Tu não vales nada, Shawn. Pões-te a amansar-me e a atordoar o meu cérebro só para estimulares o teu ego.

 

- Isso foi apenas um benefício colateral. - Ele pegou nos ingredientes para uma sanduíche. - Mas a verdade, Brenna, é que neste momento estou interessado em saber se tu vais voltar a sair com o dublinense.

 

- Eu bem que deveria, só para te dar uma lição. - Ela enfiou as mãos nos bolsos. - A Darcy faria isso.

 

- Mas tu não és a Darcy, pois não, querida?

 

- Não, não sou, e não tenho talento nem energia para manipular os homens. Eu disse ao dublinense que ando a encontrar-me com outro.

 

Shawn virou a cabeça para a fitar nos olhos.

 

- Obrigado por isso.

 

- Mas eu bem que gostaria de saber quando vou para a cama com alguém.

 

Ele acrescentou a mostarda condimentada que sabia que Mick OToole apreciava, mantendo as sobrancelhas alteadas.

 

- Em todos estes anos que te conheço, nunca imaginei que tivesses uma obsessão sexual.

 

- Eu não estaria obcecada se estivesse afazer sexo.

 

- Como podes ter a certeza disso, se nunca fizeste sexo comigo?

 

Brenna teve vontade de o puxar pelos cabelos. Em vez disso, decidiu rir-se.

 

- Por Jesus Cristo, Shawn! Tu és capaz de levar qualquer mulher a beber!

 

- Então sai e pede à Darcy para te servir uma caneca, por minha conta. - Ele voltou a erguer a cabeça quando ouviu o som de vozes através da porta dos fundos. - Não saias agora. Espera um instante. E acompanha-me.

 

- Acompanho-te para onde?

 

- Serve a sopa. - Shawn acenou com a mão na direcção das tigelas. - E acompanha a conversa.

 

A porta dos fundos foi aberta. Aidan deu um passo para o lado, a fim de deixar Finkle passar.

 

- A cozinha é o território do Shawn, como pode observar. Fomos acrescentando isto e aquilo, à medida que ele sentia a necessidade. Olá, Brenna. Esta é a nossa amiga e funcionária eventual, Brenna O'Toole. Brenna, o Sr. Finkle, de Nova Iorque.

 

- Prazer em conhecê-la.

 

Sem ter a menor ideia do papel que deveria assumir, Brenna ofereceu um sorriso neutro, enquanto servia a sopa.

 

- O Sr. Finkle está a pensar em acrescentar um restaurante ao pub

- informou Shawn.

 

- Um teatro. - Aidan falou num tom tão ríspido, que Brenna quase virou a tigela, em surpresa. Um teatro, Shawn. Estás confuso de novo.

 

- Ah, sim, um teatro. Não consigo lembrar-me em condições das coisas por mais de cinco minutos.

 

- Mas fazes uma sopa maravilhosa. - Brenna ofereceu-lhe um sorriso encorajador, do tipo que se costuma oferecer a um menino de doze anos um pouco lerdo. E rezou para que fosse essa a intenção de Shawn. Gostaria de comer uma tigela de sopa agora, Sr. Finkle? Ou já almoçou?

 

- Não, não almocei. - A cozinha recendia como a cozinha de uma avó devotada, deixando-o com água na boca. - O aroma está delicioso.

 

- E posso garantir-lhe que o sabor é ainda melhor. Em que tipo de teatro está a pensar?

 

- Um auditório pequeno, de classe. O meu patrão quer uma casa tradicional.

 

- As pessoas gostam de comer e levantar um ou dois copos antes ou depois do teatro, não é assim?

 

Shawn enfeitou a sanduíche com salsa e rabanete.

 

- De um modo geral.

 

Finkle correu os olhos pela cozinha, observando as panelas lavadas, os balcões limpos, tudo arrumado. O fogão era enorme e parecia mais antigo do que Zeus, mas dava a impressão de estar em perfeitas condições de funcionamento.

 

Aceitável, pensou ele. Faria um comentário a respeito disso no seu relatório.

 

- Não poderiam encontrar um lugar melhor para isso do que o Gallaghers - assegurou Brenna. - Gostaria de se sentar aqui na cozinha, senhor, ou prefere ir para uma mesa?

 

- Uma mesa, se não se importa.

 

Seria melhor para observar o movimento.

 

- Vou tratar disso. - Aidan apontou para a porta. - Basta dizer à nossa Darcy o que deseja para o almoço. Por conta da casa, é claro.

 

Aidan lançou um olhar triunfante para trás, enquanto levava Finkleparaopub.

 

- Que história é essa de teatro? - perguntou Brenna a Shawn.

- E porque te comportas como se tivesses perdido algumas células do cérebro depois de acordares esta manhã?

 

- Vou contar-te tudo. Leva o almoço do teu pai, depois volta e come a tua sopa aqui, para ouvires a história.

 

Depois de ele ter contado, Brenna recostou-se, mordendo o lábio inferior, como fazia quando pensava em coisas concretas.

 

- Conheço esse Magee.

 

- Conheces?

 

- Não pessoalmente, mas sei alguma coisa a seu respeito. Dos dois, para ser mais precisa. Pai e filho. Mas é provável que seja o filho quem dirige os negócios hoje em dia.

 

- Uma empresa de família... - murmurou Shawn. - Eis algo que posso apreciar.

 

- E muito firme, pelo que sei. O tal de Magee constrói prédios sólidos e bonitos. Quase sempre teatros, arenas, coisas assim. A empresa é grande na América e na Inglaterra. O Brian Cagney, sobrinho do primo da minha mãe, foi trabalhar numa das suas equipas de construção em Nova Iorque. Escreveu-me há um ou dois anos, a dizer que, se eu fosse para lá, arranjaria um emprego num piscar de olhos, pois o Magee não olha para a forma como a pele de um carpinteiro está esticada quando o contrata.

 

- Tens planos de ir para Nova Iorque?

 

A mera possibilidade era um choque tão grande que Shawn teve de fazer um esforço para manter o tom leve e casual.

 

- Não. - Brenna respondeu distraída, pois já tinha os pensamentos em outras coisas. - Trabalho com o meu pai, e gostamos de trabalhar aqui. Mas o Brian escreve-me de vez em quando. Diz que o Magee trata muito bem os seus empregados, paga o máximo no mercado, e é capaz de manejar um martelo com perfeição, quando tem vontade. Mas não suporta idiotas. Se alguém fizer uma parvoíce, é despedido no momento. Vou escrever ao Brian, para ver o que ele sabe ou pode descobrir sobre o interesse do Magee aqui.

 

Os olhos de Brenna contraíram-se, fixados nos de Shawn.

 

- Magee pretende trazer uma das suas equipas de construção ou vai contratar o pessoal local?

 

- Não sei.

 

- Ele deve contratar os locais. É assim que tem de ser. Se quiseres construir na Irlanda, tens de usar operários irlandeses. Se quiseres construir em Ardmore, tens de contratar na aldeia ou em Old Parish. O meu pai e eu bem que podemos aproveitar uma parte do trabalho.

 

- Aonde vais? - Perguntou Shawn, quando ela se levantou.

 

- Falar com o Sr. Finkle.

 

- Espera um pouco. Por Deus, mulher, nunca deixas uma mosca pousar no teu nariz, não é? Este não é o momento.

 

- Porque não, se se quer começar pelo primeiro andar?

 

- Vamos deixar que o Aidan feche primeiro o negócio. - Shawn pegou na mão dela. - Ainda está na fase delicada. Depois de acertarmos tudo, como queremos, tu poderás entrar em acção para decidir quem vai construir o prédio.

 

Brenna detestava esperar, mas tinha de reconhecer o bom senso do argumento de Shawn.

 

- Está bem. Mas preciso de ser avisada no instante em que o negócio for fechado.

 

- Isso posso prometer-te.

 

- Vou mostrar como deve ser. - Ela tirou um lápis do bolso. Já se preparava para riscar a parede quando Shawn segurou na sua mão e lhe ofereceu um papel. - Esta é a tua parede norte. Deves abrir aqui, uma porta bem grande. - Brenna desenhava depressa, todas as linhas e ângulos. - E faz uma passagem coberta aqui, para que as pessoas possam ir e vir entre o pub e o teatro. Deveria ficar tão parecido com o pub quanto for possível, a mesma madeira, o mesmo soalho, para se ter... uma simetria, digamos assim, até o saguão. Seria melhor ainda se a passagem coberta se alargasse, para que o saguão se tornasse parte do pub. Por outro lado, o pub também seria parte do saguão.

 

Ela balançou a cabeça. Virou-se para Shawn... e contraiu os olhos.

 

- De que te estás a rir?

 

- É muito instrutivo observar o teu trabalho.

 

- Se eu conseguir o que quero, vais observar-me a trabalhar por muitos meses. E será mais fácil para o meu pai vir almoçar aqui e tomar a sua caneca. Mas agora tenho de voltar ao trabalho.

 

- Podes tirar uma hora para saíres comigo, mais tarde? - Perguntou Shawn, segurando-a pela mão, antes que ela pudesse virar-se para sair.

 

- Acho que sim. Não devo precisar de mais do que isso para te tirar as tuas roupas e acabar logo contigo.

 

- Estou a pensar noutra coisa. Para isso que disseste, não quero ter prazos nem horários. - Ele ergueu a mão de Brenna e roçou os lábios pelas articulações. - Quero que dês uma volta na praia comigo.

 

Era típico de Shawn, pensou ela. Uma hora de praia de Inverno, com o mar e o vento.

 

- Vai buscar-me à casa da Jude. Se puderes tirar uma hora de folga, também arranjarei forma.

 

- Então dá-me um beijo de despedida.

 

Mais do que disposta a atender o pedido, Brenna ergueu-se na ponta dos pés e inclinou-se para a frente. Mal tocara os lábios de Shawn quando a porta foi aberta.

 

- Finkle quer aquela sopa e também... - Darcy parou abruptamente, aturdida ao ver a sua melhor amiga a beijar o seu irmão. - Pelo amor de Jesus, o que significa isso?

 

- Justamente o que parecia ser antes de interromperes. - Quando Brenna recuou, para meio metro de distância, Shawn acrescentou: - Ainda não acabaste.

 

- Já, sim. E tenho trabalho a fazer agora.

 

Ela saiu pela porta dos fundos, considerando que era o melhor caminho de fuga.

 

- Tu disseste sopa?

 

Shawn virou-se para o fogão, com um ar casual.

 

- Shawn, tu estavas a beijar a Brenna.

 

- Isso mesmo. Mas não cheguei a sentir o sabor, porque entraste e assustaste-a.

 

- O que pensas que estás a fazer ao beijar a Brenna? Ele olhou para trás, com um rosto impassível.

 

- Tinha a certeza que a mãe te tinha explicado essas coisas. Mas se precisas de um curso para refrescar a memória, farei o que puder para te ajudar.

 

- Não te armes em espertinho comigo. - Mas Darcy sentia-se aturdida demais para assumir a fúria que tanto divertia os dois. - Ela é quase uma irmã para mim, e não vou permitir que zombes dela dessa maneira.

 

Shawn serviu sopa numa tigela grande.

 

- Talvez devesses conversar com a Brenna antes de me esfolares vivo.

 

- Não penses que não farei isso. - Ela pegou na tigela, com um movimento brusco. - Sei como tu és com as mulheres, Shawn Gallagher.

 

Ele inclinou a cabeça.

 

- A sério?

 

- Claro que sei.

 

Darcy falou num tom sombrio, ameaçador. E sacudiu a cabeça, para dar ênfase, antes de sair.

 

Depois de servir Finkle, agradando-lhe com palavras que o deixaram um pouco corado, Darcy comunicou a Aidan que tiraria quinze minutos de folga. E passou pela porta antes que ele pudesse recusar.

 

Na sua pressa, esqueceu-se de tirar o avental e pegar no casaco. Por isso, o dinheiro das gorjetas retinia alegremente no bolso, enquanto corria para a casa da sua família.

 

Em consequência, estava sem fôlego e com as faces vermelhas quando passou pela porta. Subiu directamente para o quarto do bebé, onde Brenna estava a passar o verniz no soalho, que acabara de lixar.

 

- Quero saber o que está a acontecer.

 

- Estou a passar a primeira camada de verniz. Após isso, temos de esperar um ou dois dias para secar e endurecer. E depois vou passar outra camada, para arrematar.

 

- Entre ti e o Shawn. Não podes deixar que ele te beije daquela forma, Brenna. As pessoas vão ficar com a impressão errada.

 

Brenna continuou a passar o verniz. Ainda não ganhara coragem suficiente para fitar a amiga.

 

- Para ser franca, imagino que teriam a impressão certa. Eu devia ter-te contado antes, Darcy, mas não sabia como fazê-lo.

 

Darcy teve de estender a mão para se apoiar na ombreira da porta, enquanto o sangue se esvaía do seu rosto.

 

- Há... há alguma coisa para me contares?

 

- Não muita, para dizer a verdade. Embora não por falta de tentativa da minha parte. - É tempo de enfrentar a música, decidiu Brenna, virando-se. - Quero ir para a cama com o Shawn. É tudo.

 

- Tu queres... - Porque sentia a garganta fechada, Darcy parou de falar e esfregou-a. - Queres ir para a cama com o Shawn? Mas porquê?

 

- Pelos motivos habituais.

 

Darcy tinha intenção de falar. Mas deixou passar um momento, para organizar os seus pensamentos, enquanto erguia a mão num sinal para que Brenna esperasse.

 

- Espera um instante, que estou a pensar. Como estás a passar por uma fase sexual, posso compreender... Não, não posso compreender. É do Shawn que estamos a falar, do Shawn, que sempre foi uma espinha entalada nas nossas gargantas desde que éramos pequenas.

 

- É verdade, e admito que é mesmo estranho. Mas a verdade, Darcy, é que sinto algum... algum desejo por ele... sempre senti. E agora achei que era o momento de o satisfazer, em vez de continuar a sentir apenas. E onde me deixaria isso?

 

- Tenho de me sentar. - Foi o que Darcy fez, no chão, ao lado da porta. - E tu decidiste agir.

 

- Isso mesmo. O Shawn ficou tão surpreso como tu com a ideia, pelo menos no início. E também não se mostrou nem um pouco lisonjeiro. Mas agora está muito interessado. Acontece apenas que descobri que é mais uma coisa em que não se pode apressar Shawn. O que, devo dizer, me está a matar.

 

Meticulosa, ela cobriu o rolo com mais verniz, e começou a espalhá-lo sobre o soalho.

 

- Lamento que tenhas ficado transtornada. Mas esperava que pudéssemos resolver o problema quanto antes, por assim dizer, antes que alguém percebesse.

 

- Queres dizer que não tens nenhum sentimento por ele?

 

- Claro que tenho. - Brenna voltou a levantar a cabeça. - Afinal, somos todos como uma só família, Darcy. Mas isto... isto é diferente.

 

- É mesmo diferente, não hajam dúvidas. - Darcy suspirou, fazendo um esforço para se acalmar. - Eu queria proteger-te do Shawn... porque sei que ele tem um jeito especial com as mulheres. É capaz de as deixar apaixonadas e, na maioria das vezes, nem percebe. Mas agora que te ouvi, Brenna, acho que tenho de inverter a situação.

 

Com surpresa sincera, Brenna largou o rolo ao lado da bandeja de madeira.

 

- Achas que ele precisa de protecção contra mim? Ora, Darcy, não sou exactamente uma femme fatale. - Ela abriu os braços, sabendo como parecia, com as roupas de trabalho encardidas e as botas arranhadas.

- Acho que o Shawn está a salvo de mulheres como eu.

 

- Então tu não o compreendes. Não conheces o seu coração. Há romance no meu irmão, o tipo de sonho que constrói castelos de areia. Ele possui a delicadeza do sentimento. Seria capaz de cortar o braço para não causar sofrimento a outra pessoa. Cortaria os dois por causar um momento de sofrimento a uma pessoa de quem gosta. E ele gosta de ti. Não é um passo assim tão longo para se passar de gostar a amar. O que vais fazer se o Shawn se apaixonar por ti?

 

- Isso não vai acontecer. - Brenna quase deu um passo para trás, recuando diante da pergunta e da possibilidade. - Claro que não.

 

- Não o magoes. - Darcy levantou-se. - Por favor, não o magoes.

 

- Eu... - Mas como Darcy já se afastava, Brenna teve de partir no seu alcanço, apressada. - Não precisas de te preocupar, Darcy. - Ela apoiou-se no corrimão, quando Darcy se virou a meio das escadas, e acrescentou: - Ambos sabemos o que estamos a fazer. E já jurámos que continuaremos amigos, independentemente do que venha a acontecer.

 

- Certifica-te que esse juramento não é violado. Vocês os dois são muito importantes para mim. - Darcy conseguiu exibir um sorriso, porque a amiga parecia precisar, e arrematou, mordaz como sempre: - Ir para a cama com o Shawn... O que está a passar com o mundo?

 

                                               CAPíTULO DEZ

Depois de fechar o pub, quando a aldeia estava tão silenciosa, que só se podia ouvir o sussurro das ondas, os Gallagher reuniram-se à volta da mesa da cozinha, na casa da família, com chá e uísque.

 

- A situação é a seguinte.

 

Aidan pôs a mão sobre a de Jude enquanto falava. Ela virou a sua, entrelaçando os dedos. Ele teve uma visão súbita e nítida dos pais de mãos dadas, exactamente daquela forma, quando se sentavam na ponta da mesa para uma reunião de família.

 

O modo Gallagher, pensou Aidan. Um elo levando a outro, numa corrente de tradição.

 

- E então, qual é a situação? - indagou Darcy.

 

- Desculpa. - Aidan sacudiu a cabeça. - Deixei a mente vaguear. Voltando ao início. O Finkle pode ser um ianque, mas não é inexperiente em negociações. Não acredito que um homem tão bem sucedido como o Magee enviaria alguém que não fosse esperto para tratar dos seus interesses.

 

- É possível, mas ele caiu na história do homem de Londres - comentou Shawn.

 

Aidan sorriu em apreciação.

 

- Acontece que nós também não somos inexperientes, diga-se de passagem. E os irlandeses já negociavam cavalos muito antes de a América ter sido descoberta. Mas não vamos para um extremo nem outro.

 

Ele já ia atirar um biscoito para Finn, que esperava, paciente, mas depois lembrou-se da presença da esposa. Limpou a garganta.

 

- O Finkle gostou do terreno, da situação, localização, essas coisas. Tenho a certeza, embora ele não deixasse transparecer, preferindo comprimir os lábios para não se comprometer. Reiterou que Magee está disposto a comprar, e respondi que podia compreender, que um homem gosta de ter o que é seu, mas insisti que o nosso interesse era arrendar.

 

- Teríamos mais dinheiro e mais cedo, podendo tirar um maior proveito, se vendêssemos - declarou Darcy.

 

- É verdade - concordou Aidan.

 

- E teríamos mais controlo, parte dos lucros e influência no que for feito com o que é nosso se arrendássemos - interveio Shawn. – Pensa no futuro, Darcy. Como será daqui a dez anos. Ou vinte. O legado para os teus filhos.

 

- Quem disse que terei filhos? - Ela encolheu os ombros. - Mas entendo o teu argumento. Só que é difícil, para mim, resistir à tentação de agarrar um bom dinheiro.

 

- Um arrendamento de cem anos é a nossa oferta.

 

- Cem anos?

 

Darcy arregalou os olhos. Aidan apenas olhou para a esposa.

 

- Cem é um número mágico.

 

- Isto é um negócio, não um feitiço.

 

- Usa-se o mundo mágico sempre que for possível. - Shawn acrescentou um pouco de uísque ao chá. Era um hábito naquelas reuniões.

 

- Se o Magee pensa no futuro, um arrendamento de cem anos vai atraí-lo. A Brenna sabe algumas coisas sobre a sua empresa. - Pelo canto do olho, ele apercebeu-se do sobressalto de Darcy à menção de Brenna, enquanto acrescentava: - Pelo que ela me disse, o Magee é um homem justo e não tem nada de inexperiente. Por isso, tenho a impressão de que ele é capaz de pensar além do século.

 

- Como nós também deveríamos fazer. Uma libra por ano, durante cem anos.

 

- Uma libra? - Darcy ergueu as mãos. - Porque não damos logo o terreno de graça?

 

- Por esse preço, pedimos cinquenta por cento do teatro. Darcy recostou-se, com os olhos contraídos.

 

- E aceitamos quanto?

 

- Vinte. E, no final do prazo, o terreno e o teatro serão divididos em partes iguais. Gallagher e Magee.

 

- É um grande negócio, se o teatro tiver sucesso - concordou Darcy. - Bem favorável para nós.

 

- O teatro terá sucesso - declarou Aidan, com os olhos a brilhar.

 

- Com a sorte dos Gallagher e o dinheiro do Magee.

 

- Estou disposta a confiar nessa perspectiva. Mas porque concordaria ele com essas condições?

 

- Eu acho...

 

Jude fechou a boca, não querendo continuar.

 

- Podes falar. - Aidan apertou a mão da esposa. - Fazes parte de tudo.

 

- Eu acho que ele vai concordar. Depois de algumas negociações, contrapropostas, talvez alguns ajustes. É possível que vocês tenham de ceder um pouco mais. No final, porém, terão quase o que desejam... porque, em última análise, todas as partes querem a mesma coisa.

 

- O Magee quer o seu teatro - disse Darcy.

 

- Mais do que isso. - Num gesto automático, Jude bateu na mão de Shawn, antes que ele pudesse dar um biscoito a Finn. - Ele tem motivos para escolher este lugar. Um homem que comanda uma empresa bem sucedida pode permitir-se ter caprichos, de vez em quando. A sua família saiu daqui. O seu tio-avô foi noivo da minha tia-avó.

 

- Mas é claro! - Shawn bateu com um dedo na garrafa de uísque ao lembrar-se. - John Magee, que morreu na Primeira Grande Guerra. O seu irmão mais novo... Dennis, era esse o seu nome... foi para a América e ganhou uma fortuna. Não me lembrei antes.

 

- Não sei até que ponto o sentimento impele Magee a escolher Ardmore - continuou Jude. - Mas, com certeza, faz parte da motivação. Se esse Magee teve uma educação parecida com a minha, cresceu a ouvir histórias da Irlanda, desta região em particular. Agora, quer ter uma ligação mais concreta com o lugar de onde a sua família saiu. Posso compreender.

 

- O sentimento ianque pelos antepassados. - Com uma expressão divertida, Darcy serviu-se do uísque. - Jamais serei capaz de entender. Os antepassados... já estão mortos há muitos anos, não é assim? Mas se o sentimento ajuda a fechar o negócio, por mim está óptimo.

 

- O sentimento será uma parte, mas... desculpem, mas é a psicóloga a falar de novo... ele também terá um olho para o lucro. Se não fosse assim, não seria o dono de uma das maiores empresas dos Estados Unidos. E, pelos mesmos motivos, também se vai preocupar com a sua reputação.

 

- E nós devemos preocupar-nos com a nossa reputação - declarou Shawn, levantando o copo.

 

- E tu tens uma reputação e tanto, não é? Darcy ofereceu um sorriso azedo ao irmão.

 

- Não tão espectacular como a tua, querida.

 

- Pelo menos eu não ando por aí a seduzir amizades de infância. Lentamente, com um brilho perigoso nos olhos, Shawn largou o copo na mesa. Antes que ocorresse uma explosão, Aidan estendeu o braço entre os dois.

 

- O que se está a passar? Podem explicar-me qual é o problema?

 

- Ela ficou furiosa porque beijei a Brenna.

 

- Não há razão para discussões porque... - Aidan baixou a mão para a mesa. - A Brenna OToole?

 

- Claro que foi a Brenna OToole.

 

- E o que pensavas que estavas a fazer ao beijar a nossa Brenna?

 

- Aidan... - Jude puxou a manga do casaco do marido. - Isso é problema do Shawn.

 

- Também é nosso, por ser a Brenna.

 

- Santa Mãe de Deus! Até parece que eu a agarrei pelos cabelos e arrastei para o chão da cozinha, a fim de a obrigar a uma junção carnal, enquanto ela se debatia, tentando escapar.

 

- Vocês estavam no chão da cozinha?

 

- Não, não estávamos. - Irritado, Shawn pressionou os dedos contra os olhos. - Um homem não pode ter uma vida simples nesta família. Beijei a Brenna, e não foi a primeira vez. E não quero que seja a última. Não entendo porque causa tanta perplexidade entre todos os que descobrem. E tanta indignação.

 

Darcy cruzou as mãos. Descobrira uma coisa que esperava saber ao provocá-lo. Ele não mencionara que fora Brenna quem iniciara a mudança no relacionamento. Se fosse outro homem, ela poderia atribuir ao ego. No caso de Shawn, ela sabia que era uma protecção instintiva da mulher envolvida.

 

O facto agradava-lhe e surpreendia-a simultaneamente.

 

- É apenas... surpreendente - comentou Aidan.

 

- Não estou indignada. - Darcy ofereceu a Shawn uma expressão doce e fraternal. - Mas também estou perplexa. Afinal, a Brenna já te viu nu... há vários anos, é verdade, mas essas coisas perduram na mente. E depois de dar uma boa olhadela no teu equipamento, não posso entender porque havia ela de se interessar.

 

- É uma questão que terás de lhe colocar a ela. - Shawn queria parar nesse ponto, distinto, altivo, mas o comentário espicaçara-o. - Eu não tinha mais do que quinze anos na ocasião, e a água estava gelada. Um homem não exibe o melhor da sua condição ao sair da água gelada.

 

- É a tua história, rapaz, e deves insistir nela.

 

- E tu não deverias estar a olhar nessa direcção. Mas sempre foste algo pervertida.

 

- Porque não deveria ter olhado? Toda a gente olhou. - Ela explicou a Jude: - O Shawn perdeu os calções no mar, e não se apercebeu disso até ter saído das ondas, completamente nu. Sempre lamentei não ter tido uma máquina fotográfica à mão.

 

Jude olhou para Shawn, com evidente simpatia.

 

- Eu costumava lamentar o facto de ser filha única. Mas há algumas circunstâncias em que... Ai!

 

- O que foi? - Aidan levantou-se de um pulo, pronto para pegar na esposa ao colo, quando ela apontou um dedo para a barriga. - Vocês deixaram-na transtornada com a discussão.

 

- Não é isso. O bebé está a mexer-se. - Emocionada, ela pegou na mão de Aidan e encostou-a à sua barriga. - Consegues sentir? É como uma ondulação dentro de mim.

 

O pânico transformou-se em reverência e amor, preenchendo os olhos de Aidan, e o coração.

 

- Ele é bem animado.

 

- É uma reunião de família, afinal de contas. Porque não deveria ele participar? - Shawn voltou a levantar o seu copo. - Slaintee.

 

Ele foi visitar Maude. Como se acostumara a vê-la uma ou duas vezes por semana, durante a maior parte da sua vida, Shawn não via motivo para mudar depois da morte dela. E o lugar do repouso final de Maude era um bom local para se pensar.

 

Não tinha muito a ver com o facto de o passeio o levar às proximidades do hotel no penhasco. Não era provável que encontrasse Brenna, mas... Bem, se não seguisse naquela direcção, então aí é que não teria mesmo qualquer hipótese de a ver.

 

Pelo que podia recordar, Maude Fitzgerald era do tipo romântico, e apreciaria a lógica da situação.

 

O hotel ficava na beira do penhasco, com o mar a estender-se à sua frente. E embora o ar da manhã fosse algo frio, já havia alguns hóspedes lá fora, a admirar a vista. Shawn concedeu-se o prazer de fazer a mesma coisa, observando as embarcações que balançavam e deslizavam sobre a água. Aproveitou para agradecer aos seus antepassados o bom senso de terem entrado no ramo da diversão pública, em vez de se dedicarem à pesca.

 

Lá estavam Tini Riley e a sua tripulação a recolher as redes, enquanto as ondas faziam o barco subir e descer. Havia um ritmo naquele movimento que fez Shawn bater o pé, e provocou um duelo musical de flauta contra violoncelo na sua cabeça.

 

Shawn imaginou que os turistas achavam que os barcos eram pitorescos. Provavelmente consideravam a ideia de ganhar a vida do mar uma espécie de aventura romântica, enraizada na história e tradição. Mas, parado ali, com o vento a desmanchar os seus cabelos escuros e a tentar esgueirar-se por baixo da sua camisola, ele só podia pensar que era uma vida fria, solitária e instável.

 

Ele preferia um pub aquecido e uma cozinha movimentada em qualquer dia da semana.

 

Mas era romance o que predominava na cabeça de Mary Kate ao sair a correr do hotel quando o avistou. Teve de comprimir a mão contra o coração, que se povoava de imagens.

 

Contemplou Shawn lá em cima, parado no penhasco, de pernas abertas, com os olhos no horizonte, e viu Heathcliff, Rhett Butler, Lancelote e todas as outras fantasias românticas que poderiam povoar os sonhos de uma jovem apaixonada.

 

Sentiu-se contente por ter levado emprestada a blusa azul nova da irmã Patty naquela manhã. Embora soubesse que Patty não ficaria nem um pouco satisfeita quando descobrisse. Com uma corajosa tentativa de ajeitar os cabelos, Mary Kate aproximou-se, apressada.

 

- Shawn...

 

Quando se virou e a avistou, Shawn soltou um grunhido contrariado. Não pensara na possibilidade de encontrar a irmã de Brenna, não quando se encontrava tão absorto a pensar em Brenna.

 

Tem cuidado com o que fazes, Gallagher, advertiu-se ele a si mesmo.

 

- Bom dia, Mary Kate. Esqueci-me de que o hotel está cheio de OTooles neste momento.

 

Ela teve de fazer um esforço para soltar a língua presa. Os olhos de Shawn eram muito claros sob aquela luz. Se os fitasse, poderia ver o seu reflexo. Era sedutor.

 

- Devias sair do vento. Estou de folga, neste momento. Vou oferecer-te um chá.

 

- É uma oferta muito gentil, mas estou a caminho da minha visita à velha Maude. Parei aqui apenas para observar o Tim Riley a recolher as redes. Pareciam cheias de peixes. Terei de ir negociar com ele por alguns peixes, mais tarde.

 

- Então porque não vens até ao hotel quando voltares? - Mary Kate ergueu a cabeça. Passou as mãos pelos cabelos, fitando-o por baixo das pestanas, num olhar que praticara muitas vezes. - Posso escolher quase sempre a minha hora de almoço.

 

- Hum... - Ela tinha mais habilidade no flirt do que ele lhe dera crédito, pensou Shawn. Era um pouco assustador. - Tenho de ir logo para opub.

 

- Eu adorava sentar-me e conversar contigo, - Ela pôs a mão no braço de Shawn. - Num momento mais tranquilo.

 

- É uma boa ideia. Agora tenho de ir. E tu tens de entrar. Não é bom ficares aqui fora com essa blusa fina. Vais acabar por apanhar uma constipação. Dá cumprimentos meus à tua família.

 

Enquanto Shawn escapava apressado, Mary Kate suspirou. Ele notara a blusa.

 

Safara-se bem do encontro, reflectiu Shawn, congratulando-se. Cordial, com a atitude de um irmão mais velho a conversar com a irmã mais nova. Tinha a certeza de que a pequena crise passara. E até era agradável saber que Mary Kate pensava nele daquela forma. Um homem não poderia deixar de se sentir lisonjeado, ainda mais por ter conseguido escapar das armadilhas sem que mal algum fosse causado.

 

Mas, decidindo que um pouco de apoio era sempre bom, ele tirou água da Fonte de São Declan e espalhou-a pela terra em redor.

 

- Supersticioso? Um homem de pensamento moderno? Shawn levantou a cabeça para fitar os olhos azuis de Carrick, o príncipe do mundo das fadas.

 

- Um homem de pensamento moderno sabe que há uma razão para as superstições, ainda para mais quando dá por si a conversar com alguém como tu.

 

Como viera até ali com um propósito, Shawn afastou-se da fonte, seguindo até à sepultura da velha Maude.

 

- Podes explicar-me porque apareces agora tantas vezes por aqui? Sempre visitei este lugar, durante toda a minha vida, e nunca te vi antes.

 

- Não havia qualquer motivo específico para que me visses antes. Tenho uma pergunta para ti, Shawn Gallagher, e espero que possas responder à mesma.

 

- Tens de a fazer primeiro.

 

- Assim farei. - Carrick foi sentar-se no outro lado da sepultura. Os seus olhos ficaram ao mesmo nível. - Afinal, de que estás à espera?

 

Shawn franziu as sobrancelhas. Pôs as mãos nos joelhos.

 

- De uma porção de coisas.

 

- É típico de ti. - A repulsa impregnava a voz de Carrick. - Eu referia-me à Mary Brenna O'Toole e ao facto de ainda não a teres levado para a cama.

 

- Isso só diz respeito à Brenna e a mim - respondeu Shawn, calmamente. - Não é da tua conta.

 

- Claro que é da minha conta. - Carrick estava de pé agora, num movimento rápido demais para o olho humano captar. O anel no seu dedo irradiava um intenso brilho azul. A bolsa de prata na cintura faiscava. Pensei que tinhas o tipo de natureza que compreenderia, mas agora percebo que és ainda mais estúpido do que o teu irmão.

 

- Não és o primeiro a dizer isso.

 

- Porque não assumes o que deverias, jovem Gallagher?

 

Uma vez que Carrick estava agora parado ao seu lado, e já não à sua frente, Shawn também se levantou.

 

- E que deveria eu assumir?

 

- O teu papel, o teu destino. As tuas opções. Como é possível que conheças tão bem o teu coração para fazeres a tua música, mas não para guiares a tua vida?

 

- A minha vida está como gosto.

 

- Não digas trenguices. Finn, protege-me da idiotice dos mortais! Carrick ergueu as mãos. Uma trovoada ressoou pelo céu azul.

 

- Se pensas que me vais impressionar com os teus truques de salão, podes mudar de táctica. É apenas o teu feitio a manifestar-se, mas eu também sou assim.

 

- Ousas desafiar-me?

 

Como demonstração, Carrick levantou um dedo. Um raio branco ofuscante penetrou a terra, à frente dos pés de Shawn.

 

- Táctica de pressão. - Shawn teve de resistir ao impulso de saltar para trás. - E indigna de ti.

 

A fúria deixou os olhos de Carrick quase pretos e manifestou-se em pequenas chamas vermelhas que dançaram nas pontas dos seus dedos. Mas logo desapareceram, quando ele inclinou a cabeça para trás e se riu.

 

- Tens mais coragem do que eu pensava. Ou então és simplesmente muito estúpido.

 

- Sou suficientemente sensato para saber que podes fazer todos os truques que quiseres, mas não és capaz de causar um mal de verdade. Não me assustas, Carrick.

 

- Eu poderia deixar-te de joelhos, a coaxar como uma rã.

 

- O que afectaria o meu orgulho, mas pouco mais além disso. Não que ele estivesse interessado em verificar se seria apenas isso, pensou Shawn. - Qual o sentido de tudo isso? Ameaças não vão fazer com que eu te aprecie.

 

- Esperei seis das vossas vidas por uma coisa que tu poderias ter num instante, apenas por estenderes a mão. - Mas desta vez Carrick suspirou. - Recolhi lágrimas da lua para ela na segunda vez. - Enquanto falava, ele tirava a bolsa da cintura. - E a seus pés derramei as pérolas em que se transformaram. Mas ela viu apenas as pérolas.

 

Carrick virou a bolsa, despejando uma cascata de pedras brancas reluzentes na sepultura de Maude.

 

- Elas faiscaram na relva, ao luar, brancas e lisas como a pele da Gwen. Mas ela não percebeu que não eram pérolas que eu despejava a seus pés, mas sim o meu coração... o anseio que havia nele, a pureza do amor. Eu não sabia que ela precisava de o ouvir dos meus lábios. Ou que já era tarde demais, porque eu não assumira o papel que ela queria.

 

A voz de Carrick tinha agora um desespero profundo, com tanta infelicidade que Shawn tocou no seu braço.

 

- Que queria ela?

 

- Amor. Apenas a palavra. Uma única palavra. Mas eu dei-lhe os diamantes, tirados do sol, depois estas pérolas e por fim as pedras a que vocês chamam safiras, colhidas no coração do mar.

 

- Conheço muito bem a tua história.

 

- Eu sei que conheces. E a tua nova irmã, a Jude, incluiu-a no seu livro de histórias e lendas. O final ainda é infeliz, porque lancei um encantamento sobre a minha Gwen, em raiva e angústia... e precipitado, Gallagher. Três vezes o amor encontraria o amor, o coração aceitaria o coração, com todas as falhas e fraquezas. E, depois, a minha Gwen e eu seríamos livres para ficarmos juntos. Durante cem anos vezes três eu esperei, e a minha paciência foi posta à prova. Tu és um homem que tem palavras.

 

Pensativo, Carrick contornou Shawn e a sepultura.

 

- Usa-las muito bem com a tua música... música que outros devem ouvir também, mas isso já é outra questão. Um homem que tem esse dom com as palavras é alguém que compreende o que há dentro de uma pessoa, antes mesmo que a própria pessoa saiba. É um dom que possuis. Só te estou a pedir que uses esse dom.

 

Num longo floreio, ele estendeu a mão por cima da sepultura. As pérolas transformaram-se em flores.

 

- As pedras que deu a Gwen transformaram-se em flores. A tua Jude dir-te-á que foram as flores que ela guardou. Algumas mulheres querem as coisas simples, Gallagher, como comecei a compreender.

 

Carrick levantou um dedo. Havia na ponta uma única pérola, perfeita. Com um sorriso, ele atirou-a a Shawn. Balançou a cabeça, satisfeito, quando Shawn a apanhou no ar.

 

- Fica com isso. Guarda-a, até perceberes a quem a deves dar. E quando a entregares, oferece também as palavras. São mais mágicas do que a pérola que tens na tua mão.

 

O ar tremeu, ondulou, enquanto Carrick desaparecia.

 

- Este homem cansa qualquer um - murmurou Shawn, voltando a sentar-se ao lado da sepultura de Maude. - Tens companheiros muito estranhos.

 

Depois, porque precisava, Shawn ficou em silêncio. Contemplou as flores-da-lua, abertas, apesar dos raios de sol que iluminavam a sepultura. Estudou a pérola, passando-a entre os dedos. E guardou-a no bolso, antes de se inclinar para pegar numa flor.

 

- Acho que não te vais importar, já que é para a Jude - disse ele a Maude.

 

Shawn continuou sentado ali, a fazer companhia à velha Maude, por mais vinte minutos, antes de voltar para casa.

 

Ele não bateu à porta. Fora a sua casa por tanto tempo, que não se lembrava de bater. Mas Shawn pensou, no mesmo instante em que fechou a porta, que provavelmente iria interromper o trabalho de Jude.

 

Quando ela apareceu no cimo das escadas, antes que Shawn decidisse se deveria ou não sair de novo, ele levantou os olhos com um ar arrependido.

 

- Deves estar a trabalhar. Eu volto mais tarde.

 

- Não precisas de sair. - Jude começou a descer. - Bem que preciso de uma pausa. Queres um chá?

 

- Quero, sim, mas podes deixar que eu faço para nós os dois.

 

- Não vou discutir por causa disso. - Jude sorriu, indecisa, quando ele estendeu a flor-da-lua. - Obrigada. Não é a altura errada para desabrochar?

 

- Na maioria dos lugares. É uma das coisas sobre as quais gostaria de falar contigo. - Shawn seguiu para a cozinha, acompanhado por Jude.

- Como te sentes hoje?

 

- Muito bem. Acho que o enjoo matutino está a passar. Não lamento vê-lo desaparecer.

 

- E como vai o teu trabalho?

 

Era o método dele, pensou Jude, dar voltas a mais voltas em torno da verdadeira razão da visita, até chegar o momento em que julgasse oportuno. Ela arranjou uma jarra pequena para pôr a flor, enquanto Shawn punha a chaleira ao lume, para ferver a água.

 

- Também vai muito bem. Ainda há alturas em que não posso acreditar que estou a escrever. Nesta época, no ano passado, eu ainda era professora e detestava o meu trabalho. Agora, tenho um livro prestes a ser lançado e já estou a preparar outro, que adquire vida dia a dia. Sinto-me um pouco nervosa porque este último é uma história feita por mim, em vez de uma compilação de histórias que outros me contaram. Mas estou a adorar o processo.

 

- Não achas que, provavelmente, vais escrever uma história melhor por te sentires um pouco nervosa? - À vontade, como se estivesse em sua casa, Shawn pegou na lata de biscoitos e encheu um prato. - Ou seja, terás mais cuidado.

 

- Espero que tenhas razão. Não ficas nervoso quando compões as tuas músicas?

 

- Com as melodias não - disse ele, depois de pensar por um momento. - Às vezes com as letras. Tentar encontrar a forma ideal de transmitir o que a música me está a dizer. Pode ser frustrante.

 

- E como fazes?

 

- Deixo ressoar na cabeça por algum tempo. - Como a água na chaleira já estava a ferver, ele mediu o chá. - Depois, se tudo o que disso resultar for uma dor de cabeça, faço uma caminhada para espairecer. Ou então penso noutra coisa, completamente diferente. Na maioria das vezes, depois de fazer isso, descubro as palavras bem ali, como se estivessem à espera de serem colhidas.

 

- Tenho medo de sair quando não consigo trabalhar. Penso sempre que, se sair, não vou conseguir escrever mais nada quando voltar. O teu método é mais saudável.

 

- Mas tu és a autora publicada, não é assim? Enquanto o chá curtia, ele pegou nas chávenas.

 

- Queres que a tua música seja gravada, Shawn?

 

- Talvez, um dia. Não há pressa. - O que já dizia há anos, ele sabia. - Componho para agradar a mim mesmo, o que é suficiente por enquanto.

 

- A minha agente pode conhecer alguém na indústria da música. Teria o maior prazer em perguntar-lhe.

 

Ele sentiu o estômago a ter um sobressalto, como um coelho diante de uma espingarda.

 

- Não precisas de te preocupar. Na verdade, Jude, eu vim aqui para falar contigo sobre outro assunto.

 

Ela esperou, deixando-o trazer o bule para a mesa e servir o chá. Mesmo depois de se sentar, com o vapor fragrante a elevar-se entre os dois, Shawn continuou calado.

 

- Diz-me em que estás a pensar, Shawn.

 

- Estava a tentar decidir como to devo dizer exactamente. Começarei por isto.

 

Ele enfiou a mão no bolso, tirou a pérola e largou-a ao lado da chávena de Jude.

 

- Uma pérola? - Aturdida, ela estendeu a mão para pegar nela, mas fitou Shawn nos olhos e manteve os dedos a alguma distância da pérola. - Carrick...

 

- Ele fala de ti carinhosamente.

 

- É estranho... muito estranho. - Jude pegou na pérola, pô-la na sua palma. - É a flor-da-lua. As outras pérolas transformaram-se em flores-da-lua.

 

- Na sepultura da Maude. O que achas de tudo isto?

 

- O que pode uma mulher moderna, instruída e razoavelmente inteligente pensar do mundo das fadas? - Ela deixou a pérola rolar na sua palma. Balançou a cabeça. - Acho que é maravilhoso. Literalmente. O Carrick é arrogante e impaciente, um pouco exibicionista, mas entrar em contacto com ele foi uma das coisas que mudaram a minha vida.

 

- Acho que ele está decidido a mudar a minha também. Caso contrário, não me teria dado essa pérola.

 

- Tens razão. - Jude devolveu-lhe a pérola. - E como te sentes tu em relação a tudo isso?

 

- Que deve ser uma longa espera, já que gosto da minha vida tal como ela é.

 

- Tu... - Jude hesitou. Pegou na chávena. - Nunca tive irmãos, e por isso não sei o que está errado. Mas imagino que andes a pensar na Brenna.

 

- Tenho dispensado uma atenção considerável à O'Toole. E dei mais do que uma consideração passageira à ideia do Carrick, de querer a minha união com ela como o próximo passo para ele.

 

- E que mais?

 

- Hum... - Shawn pegou num biscoito, trincou-o. - Eu diria de novo a mesma coisa. Será uma longa espera. - Os seus lábios contraíram-se, enquanto observava Jude a baixar os olhos para o chá. - O que vi nos teus lindos olhos, Jude Francês, foi o brilho ansioso de uma casamenteira.

 

Ela torceu o nariz.

 

- Não sei do que estás a falar.

 

- Falo de uma mulher feliz no casamento, que olha para o cunhado solteiro e pensa: "Não seria óptimo se o nosso querido Shawn encontrasse a mulher certa e assentasse... e o que se pode fazer para que isso aconteça?"

 

- Eu não teria a presunção de interferir. - Por mais formal que fosse o tom de voz, havia riso nos seus olhos. - De forma alguma.

 

- Agradeço-te por isso. - Shawn voltou a guardar a pérola no bolso. - E só para que tenhas conhecimento dos meus pensamentos e sentimentos a respeito disso, devo dizer-te uma coisa: se algum dia acontecer alguma coisa entre mim e a O'Toole, será porque ambos decidimos e não porque alguém decidiu por nós. Nem mesmo porque a minha nova irmã, que amo profundamente, assim deseja.

 

- Eu só gostaria que fosses feliz.

 

- Tenho planos para permanecer assim. E, por isso mesmo, é melhor eu voltar imediatamente para o pub, antes que Aidan se sinta obrigado pela honra a quebrar-me a cabeça por chegar atrasado.

 

                                         CAPÍTULO ONZE

Brenna não considerou que fosse espiar. E teria contestado quem a acusasse. Apenas, por acaso, fora chamada a fazer um trabalho no quarto de Finkle. Ele queixara-se de que o chuveiro não estava a funcionar em condições. Como Brenna já se encontrava ali, o gerente pedira-lhe para dar um jeito.

 

Era culpa sua que ele estivesse ao telefone, a falar com o patrão, quando ela chegou? Claro que não. E poderia ser culpada porque ele era o tipo de homem que não prestava a menor atenção ao pessoal de serviço?

 

A menos que se parecesse com Darcy, reflectiu Brenna; e, neste caso, um homem teria de ser cego e surdo, provavelmente já morto há mais de um ano, para não olhar duas vezes. Mas isso era irrelevante agora.

 

O próprio Finkle abrira a porta, com um movimento da mão ansioso e impaciente. Depois, gesticulara na direcção da casa de banho, e voltara para o telefone. Era um tratamento que não a magoava nem um pouco. Afinal, estava ali apenas para reparar o chuveiro.

 

Mas tinha ouvidos... e havia alguma razão especial para não os utilizar?

 

- Peço desculpas pela interrupção, Sr. Magee, mas apareceu um rapaz para reparar o chuveiro.

 

Rapaz? Brenna mordeu a língua e revirou os olhos.

 

- Vou enviar o relatório por fax, assim que esteja organizado de uma forma coerente. Como posso terminar depois do horário de expediente comercial em Nova Iorque, enviarei também para a sua linha particular.

 

Na casa de banho, Brenna chocalhava as ferramentas. Da posição em que se encontrava, podia apenas ver os sapatos engraxados e uma faixa estreita das meias cinzentas de Finkle.

 

- Não, não consegui descobrir o nome da firma de Londres que também está interessada no terreno. O irmão mais velho, Aidan, descartou o assunto, alegando que o outro está confuso. Devo dizer que é bem possível que o irmão mais jovem confunda as coisas. É bastante amável, mas não me parece ser muito inteligente.

 

Brenna quase se riu, enquanto começava a enfiar um arame especial para desentupir o cano do chuveiro. Tão silenciosamente quanto podia.

 

- Contudo, a julgar pela reacção, a linguagem do corpo, e a rapidez com que o lapso foi coberto, eu diria que há alguma negociação paralela.

 

Finkle ficou calado por um momento. Brenna aguçou os ouvidos. Deu para ouvir o tamborilar dos seus dedos na madeira.

 

- Tem toda a razão. É um lugar adorável. Pitoresco, ainda intacto. "Simples" seria a minha palavra. É também remoto. Depois de o conhecer, de passar algum tempo aqui, tenho de voltar à minha opinião original, senhor. Não vejo qualquer possibilidade de o projecto do teatro se tornar um sucesso financeiro. Dublin seria uma escolha mais lógica. Ou então...

 

Silêncio de novo, seguido por um suspiro quase inaudível.

 

- Claro, senhor. Compreendo que tenha os seus motivos. Posso assegurar-lhe que o terreno dos Gallagher é a melhor localização em Ardmore. O pub parece ser o que esperava. Estamos fora da temporada, é verdade, mas o movimento parece muito bom. É bem dirigido, pelo Gallagher mais velho. A comida é de primeira classe, o que admito que me surpreendeu. Nem um pouco parecida com aquela comida insossa que se espera encontrar num pub. A irmã? Ela é... ela é...

 

A hesitação fez Brenna morder o lado interno da bochecha, para evitar uma gargalhada. Os homens eram absolutamente previsíveis.

 

- Ela parece ser eficiente. Voltei lá por algum tempo na noite passada, a convite deles. Darcy, a irmã, a Sra. Gallagher, possui uma voz excepcional como cantora. Os três, diga-se de passagem, são muito musicais, o que pode ser uma vantagem. Se está mesmo determinado a construir o teatro aqui, em Ardmore, ligá-lo ao Gallaghers Pub é, na minha opinião, a decisão mais lógica.

 

Ainda de quatro, Brenna mexeu com o rabo, já que tinha as mãos ocupadas e não podia erguer um punho cerrado no gesto de vitória.

 

- Não, não, pode confiar em mim para diminuir a percentagem do que eles estão a pedir. Sei que preferia comprar o terreno, mas aquele sentimento da família é inabalável. Em termos objectivos, o arrendamento que eles propõem é menos arriscado, e a longo prazo proporcionaria um vínculo mais firme com o negócio já estabelecido. Acho que lhe será vantajoso usar o Gallaghers e a reputação que este já possui para lançar o teatro.

 

O tamborilar dos dedos recomeçou. Os sapatos foram descruzados e recruzados nos tornozelos.

 

- Claro que compreendo. Não mais do que vinte e cinco por cento. Pode confiar em mim nesse ponto. Espero fechar o negócio em vinte e quatro horas. Tenho a certeza de que poderei convencer o Gallagher mais velho de que não conseguirá obter uma oferta melhor da firma de Londres ou de qualquer outra.

 

Ao pressentir que a conversa estava prestes a terminar, Brenna levantou-se e abriu as torneiras, ao máximo. Cantarolava enquanto observava a água a correr. Depois de fechar a torneira, fez um pouco mais de barulho com as ferramentas. Pegou na caixa e saiu da casa de banho.

 

- A água já está a correr muito bem. Peço-lhe desculpa pela inconveniência.

 

Finkle nem sequer levantou a cabeça para a fitar. Limitou-se a acenar com a mão para que ela saísse, como fizera na entrada, enquanto se inclinava para o computador portátil na pequena mesa.

 

- Bom dia, senhor - disse ela, cordialmente, ouvindo o barulho do teclado ao sair.

 

Assim que ficou fora de vista, ela desatou a correr. Finkle não era o único que sabia apresentar um relatório.

 

- A ideia do homem de Londres parece ter sido inspirada. - Aidan bateu no ombro do irmão e lançou um olhar de aprovação a Brenna. - Deixou-os verdadeiramente ansiosos, não foi?

 

- Algumas pessoas não conseguem resistir à competição. - Como estavam na cozinha, Shawn virou-se para pegar em quatro garrafas de cerveja do frigorífico. - Acho que devemos fazer um brinde à O'Toole e aos seus ouvidos atentos.

 

- Eu estava simplesmente no lugar certo, no momento certo. Mas ela aceitou a garrafa oferecida.

 

- És uma combatente eficiente, sargento OToole. - Aidan bateu com a garrafa dele na dela, depois nas de Shawn e Darcy. - Vinte e cinco por cento e ponto final. Azar o dele por não ter descoberto que nos contentaríamos com vinte por cento sem piar.

 

- O homem... o tal de Magee... está determinado a ter o que quer aqui, embora o Finkle não aprove - explicou Brenna. - Mas ele aprova a comida do Shawn, o rosto da Darcy e a tua capacidade de administração, Aidan. Ah, sim, acha que não és muito inteligente, Shawn, embora sejas bastante amável. E gagueja quando fala da Darcy.

 

Com grande satisfação, Darcy soltou uma gargalhada.

 

- Dá-me mais um dia e ele vai balbuciar ao falar de mim. E poderemos conseguir trinta por cento.

 

Aidan passou o braço pelos ombros da irmã.

 

- Aceitaremos os vinte e cinco por cento para fechar o negócio. Vou deixar o Finkle pensar que me pressionou ao máximo para conseguir isso. Afinal, porque não fazer com que ele se sinta realizado e orgulhoso? Posso informar-vos de que o pai gostou do que viu de Magee até agora. Telefonou esta manhã para me dizer isso. E acrescentou que deixará os detalhes da negociação por nossa conta.

 

- Nesse caso, vamos deixar o Finkle discutir as condições. - Shawn ergueu a sua garrafa. - Até que ele nos dê o que queremos.

 

- É exactamente o que eu penso. E, agora, temos de voltar ao trabalho. Brenna, minha querida, achas que te podes manter à distância do pub até fecharmos o negócio?

 

- Claro que posso. Mas sou invisível para pessoas como ele. O Finkle não vê além da minha caixa de ferramentas. Até pensou que eu fosse um homem.

 

- Nesse caso, ele precisa de óculos. - Aidan pegou no queixo de Brenna e levantou-o. - Muito obrigado.

 

- Ainda acho que podemos conseguir trinta por cento sem muito esforço - resmungou Darcy, ao sair para o pub atrás de Aidan.

 

- Ela poderia muito bem conseguir - comentou Brenna.

 

- Não se deve ficar ganancioso. Também te estou agradecido. Brenna inclinou a cabeça, com um sorriso provocante. Era uma das expressões favoritas de Shawn.

 

- Isso significa que me vais beijar, tal como o Aidan fez?

 

- Estou a pensar nisso.

 

- Demoras muito a pensar nas coisas.

 

- Não mais do que é necessário.

 

Ele pegou no rosto de Brenna entre as mãos, ainda apreciando o sorriso provocante. Inclinou a cabeça dela, até à posição que queria, e encostou a boca aos seus lábios.

 

Devagar, tranquilo, descontraído, como uma brisa quente numa manhã de Verão. Brenna relaxou, os lábios entreabriram-se para absorver o prazer. E o beijo foi-se aprofundando, mais e mais, de uma forma tão gradual, com tanta habilidade, que ela ficou completamente atordoada, antes de se aperceber do que acontecia.

 

E deixou escapar um som, intermédio entre um suspiro e um gemido. Enquanto o coração batia forte contra as costelas, Brenna levantou as mãos pelas costas de Shawn, para apertar os seus ombros. Mas enquanto o seu corpo entrava em alerta, preparado para mais, ele afastou-se.

 

- Só te posso agradecer até este ponto, por enquanto. Shawn deixara-a tonta. Com todo o corpo a clamar por mais.

 

- Fizeste isso de propósito.

 

- Claro.

 

- Não vales nada. Vou voltar para o trabalho agora.

 

Brenna baixou-se para pegar na caixa de ferramentas. Ainda atordoada, bateu na mesa da cozinha, ao virar-se para a porta. Virou a cabeça, num movimento brusco, com os olhos contraídos a servirem de advertência para Shawn. Mas ele teve o bom senso de se manter impassível.

 

Ela fungou e abriu a porta dos fundos. Parou aí, lançando-lhe um último olhar.

 

- Sabes, Shawn, quando parares de pensar, farás um bom trabalho com o resto.

 

Ele só sorriu depois de Brenna ter saído.

 

- Ainda bem, pois acabei agora mesmo de pensar.

 

Shawn não se aproximou quando Finkle apareceu no pub, naquela noite. Mas preparou-lhe um jantar excepcional - linguado cozido com manteiga de ervas, batatas cozidas, a que ele acrescentou tomilho, e couve crespa.

 

Depois de Darcy ter vindo avisar que o homem teria lambido o prato se não houvesse ninguém a olhar, Shawn achou que cumprira a sua parte.

 

Assim, foi por pura malícia, tanto quanto por sentido de negócio, que ele resolveu levar pessoalmente uma fatia de torta de limão para Finkle.

 

Relaxado pelo jantar - e pelas atenções da Darcy - Finkle ofereceu-lhe o que poderia passar por um sorriso.

 

- Não me lembro de ter alguma vez comido um peixe tão delicioso. Tem uma cozinha muito criativa, Sr. Gallagher.

 

- É muito gentil da sua parte dizer isso. Espero que também goste da sobremesa. A receita é minha, baseada na torta que a minha querida avó fazia. Não creio que possa encontrar melhor quando voltar a Londres.

 

Finkle, prestes a pôr o primeiro pedaço na boca, parou o garfo em pleno ar.

 

- Nova Iorque - disse ele, incisivo. Shawn piscou os olhos.

 

- Nova Iorque? Ah, sim, claro, claro...Foi Nova Iorque que eu quis dizer. O homem de Londres era muito magro e usava óculos redondos. Eu não devia confundir, pois não?

 

Finkle, mantendo uma expressão afável, provou a torta.

 

- Quer dizer... que conversou com alguém de Londres sobre um restaurante, não é?

 

- O Aidan é que fala sobre negócios. Não tenho cabeça para essas coisas. Gostou da torta?

 

- Deliciosa. - O homem podia ter um cérebro lento, pensou Finkle, mas ninguém poderia encontrar qualquer defeito nas suas habilidades culinárias. - Esse homem de Londres... Por acaso sabe o nome dele? Tenho muitos amigos na cidade.

 

Shawn olhou para o tecto. Esfregou o queixo.

 

- Seria Finkle? Não... esse é o seu nome. - Com uma expressão doce e inofensiva, ele levantou as mãos vazias. - Tenho o péssimo hábito de esquecer nomes. Mas ele era muito simpático, tal como o senhor. Se encontrar espaço para mais uma fatia da torta, é só pedir à Darcy.

 

Ele voltou para a cozinha, piscando o olho a Aidan, quando os seus olhos se encontraram.

 

Dez minutos depois, Darcy estendeu a cabeça pela porta da cozinha e avisou, num sussurro:

 

- O Finkle pediu um momento da atenção de Aidan. Foram para a sala reservada.

 

- Parece um bom augúrio. Avisa-me se precisares de ajuda no bar.

 

- Pois estás avisado. O Frank Malloy acaba de chegar, com os seus irmãos.

 

- Ele discutiu de novo com a esposa?

 

- É o que parece, pela cara dele. Com eles e o resto dos clientes, não conseguirei atender todos os pedidos.

 

- Já estou a caminho.

 

Shawn estava a servir a segunda caneca para os Malloy - todos corpulentos, ruivos, ganhavam a vida no mar - quando Aidan e Finkle saíram da sala reservada.

 

Finkle acenou com a cabeça a Aidan, desejando boa noite, depois a Shawn. Quando olhou para Darcy, o rosto austero desmanchou-se numa suave expressão de cachorrinho esperançoso.

 

- Vai deixar-nos tão cedo, Sr. Finkle?

 

Darcy colocou a bandeja no balcão, oferecendo ao pobre coitado um sorriso que poderia derreter uma barra de chocolate a vinte passos de distância.

 

- Eu... - Contrafeito, ele puxou o nó meticuloso da gravata, ao sentir um aperto na garganta. - Infelizmente, não tenho opção. Tenho de apanhar o voo logo pela manhã.

 

- Vai embora de Ardmore? - Darcy estendeu a mão. - Lamento que não possa ficar por mais tempo. Mas espero que volte o mais depressa possível.

 

- Tenho a certeza de que voltarei. - Incapaz de se conter, Finkle fez uma coisa que jamais considerara antes, em toda a sua vida, nem mesmo com a esposa. Inclinou-se e beijou a mão de Darcy. - Foi um grande prazer.

 

Com um ligeiro rubor a espalhar-se pela sua face, ele deixou o pub.

 

- E então? - indagou Darcy, virando-se para Aidan.

 

- Vamos esperar um minuto só para ter a certeza de que o Finkle não vai voltar a atirar-se aos teus pés e a suplicar-te que fujas com ele para o Taiti.

 

Darcy riu-se, balançando a cabeça.

 

- Não vai acontecer. Ele ama a esposa. Pode permitir-se ter um sonho vago sobre o que nós os dois faríamos no Taiti, mas jamais iria além disso.

 

- Nesse caso, já posso contar. - Aidan pôs a mão sobre a de Darcy, em cima do balcão, e estendeu a outra para o ombro de Shawn.

- Fechámos o negócio, tal como nós os três e Jude tínhamos combinado. Trocámos um aperto de mão para oficializar. Ele vai voltar para Nova Iorque. Vai enviar-me os documentos assim que os advogados os tiverem prontos.

 

- Vinte e cinto por cento? - indagou Shawn.

 

- Vinte e cinco por cento e a aprovação do projecto do teatro. Ainda restam alguns detalhes por definir, mas resolveremos tudo, entre nós, Magee e os advogados.

 

- Quer isso então dizer que conseguimos? Shawn largou o pano que usava para limpar o balcão.

 

- Parece que sim. Dei a minha palavra.

 

- Muito bem... - Shawn pôs a mão sobre a de Aidan, que cobria a de Darcy. - Podes sair para contar à Jude. Eu trato do bar.

 

- Não vai dar. Estamos com bastante movimento.

 

- A boa notícia é mais divertida quando está fresca. Eu trato de tudo aqui, e depois fecho o pub. Em troca, podes dar-me folga na noite de amanhã. Se a Kathy Duffy puder ficar na cozinha. Já faz algum tempo que não tenho uma noite de folga.

 

- É justo. Vou aproveitar para falar também com o pai. - Aidan saiu de trás do balcão. - A menos que vocês prefiram que eu espere até amanhã, quando todos podemos falar com ele.

 

- Podes telefonar. - Darcy acenou com a mão para que Aidan saísse de uma vez. - O pai vai querer saber imediatamente. - Depois de o irmão mais velho ter saído, ela acrescentou para Shawn: - Ele ficou perturbado. Não é o meu caso. Estás a planear alguma coisa para amanhã com a Brenna?

 

Shawn limitou-se a pegar nos copos vazios da bandeja e a pô-los na pia.

 

- Tens clientes para atender, querida, e eu também. - Ele inclinou-se para Darcy. - Tu cuidas da tua vida sem dar satisfações a ninguém. E eu também.

 

Contrariada, Darcy ergueu um ombro.

 

- Não é contigo que me preocupo, mas com a Brenna. Ela é minha amiga. Tu não passas de um irmão... e irritante, ainda por cima.

 

E conhecendo o irmão irritante, ela deixou a conversa por aí. Nada arrancaria de Shawn Gallagher, nem mesmo com dinamite, se ele decidisse permanecer calado.

 

Shawn tinha um plano. Era um bom plano. O que não significava que dava sempre certo. Mas pelo menos sabia calcular bem o que tinha de fazer para conseguir o que queria.

 

Havia comida envolvida, o que o punha no seu elemento. Queria uma coisa simples, um prato que pudesse preparar com antecedência, e deixar esperar até ao momento em que fosse necessário. Por isso, fez um molho de tomate, um pouco picante, e deixou chegar ao ponto de fervura.

 

Precisava também de armar o cenário. Era algo que gostava de fazer, e achava que lhe proporcionaria alguma vantagem. Afinal, um homem deveria contar com todas as vantagens possíveis quando se tratava de Brenna O'Toole.

 

O plano exigia um telefonema, que ele fez dopub, no final do turno do almoço, quando tinha a certeza de que Brenna estaria completamente absorvida no trabalho que fazia, qualquer que fosse.

 

E também tinha a certeza de que ela, sendo a Brenna, passaria pelo chalé depois do trabalho, para dar uma olhadela à máquina de lavar roupa, que ele informara ter avariado.

 

Assim, quando chegou a casa, o molho que deixara a ferver tinha deixado no ar um aroma apetitoso. Colheu algumas petúnias e amores-perfeitos, felizes com o Inverno no jardim, e colocou-as no quarto, juntamente com as velas que comprara no mercado.

 

Já tinha mudado a roupa da cama, o que lhe dera a ideia sobre a máquina de lavar.

 

Havia também a música. Era uma parte tão grande da sua vida, que não poderia deixar de a incluir em qualquer aventura. Seleccionou os CDs de que mais gostava, pô-los na aparelhagem que comprara meses antes. Deixou a música a tocar e desceu para a cozinha, a fim de tratar do resto.

 

Pôs o gato fora de casa. Bub parecia pressentir que alguma coisa importante iria acontecer e por isso interpunha-se no seu caminho sempre que tinha oportunidade.

 

Não esperava vê-la quase até às seis horas da tarde, o que lhe proporcionava tempo suficiente para preparar um prato que dispensasse talheres. Procurou copos de vinho, limpou-os e depois abriu a garrafa de tinto que trouxera dopub. Deixou-a em cima do balcão, para arejar.

 

Provou o molho pela última vez, e mexeu-o. Olhou em redor, balançando a cabeça com satisfação. Estava tudo pronto, em ordem. O relógio indicava que faltavam dez minutos para as seis horas quando ouviu a carrinha a chegar.

 

- Ela é pontual - murmurou ele, surpreso ao sentir que os nervos agitavam a sua barriga. - Pelo amor de Deus, pára com isso! É apenas a Brenna. Conhece-la desde criancinha.

 

Mas não da forma que tencionava conhecer muito em breve, pensou Shawn. E teve um súbito impulso de correr para a lavandaria, rebentar com qualquer coisa na máquina de lavar e esquecer o resto.

 

E desde quando um Gallagher se comportava como um cobarde? Ainda por cima com uma mulher? Com esse pensamento a martelar-lhe a cabeça, ele encaminhou-se para a porta da frente.

 

Brenna já se aproximava, trazendo a sua caixa de ferramentas. As calças de ganga tinham um rasgão novo, imediatamente abaixo do joelho direito. Havia uma mancha de terra no rosto.

 

Ela fechou a porta da frente, deu dois passos, e deparou-se com Shawn. Teve um sobressalto.

 

- Credo, Shawn, porque não me acertaste logo com uma moca na cabeça, em vez de me pregares tamanho susto? E o que fazes aqui, a esta hora do dia?

 

- Tirei a noite de folga. Não estacionaste atrás do meu carro?

 

- Estacionei, mas pensei que tivesses ido a pé ou à boleia. - Enquanto esperava que o coração voltasse ao normal, Brenna farejou. - Pelo aroma, não pareces estar a aproveitar uma noite de folga. O que resolveste cozinhar?

 

- Um molho para esparguete. Pensei em experimentá-lo, antes de o fazer no pub. Já jantaste?

 

Shawn sabia a resposta antes mesmo de perguntar.

 

- Ainda não. A minha mãe vai esperar por mim para o jantar.

 

Já não ia esperar mais, uma vez que Shawn ligara a Mollie para avisar que serviria um jantar a Brenna, aproveitando a visita para consertar a máquina de lavar.

 

- Janta aqui, em vez de comeres na tua casa. - Shawn pegou nela pela mão, e levou-a para a cozinha. - Podes dar-me a tua opinião sobre o molho.

 

- Posso provar, mas primeiro quero dar uma olhadela à máquina, para descobrir qual é o problema.

 

- Não há nenhum problema.

 

Ele tirou a caixa de ferramentas da mão de Brenna. Largou-a no chão, a um canto.

 

- Como assim? Não há nenhum problema? Então porque ligaste para o hotel a avisar que a máquina não funcionava?

 

- Menti. Experimenta isto.

 

Shawn pegou numa azeitona recheada e pô-la na boca de Brenna.

 

- Mentiste?

 

- Isso mesmo, menti. E espero que o pecado valha a penitência.

 

- Mas porque... - A compreensão aflorou lentamente, deixando-a contrafeita e nervosa. - Já percebi. Este é o momento e o lugar que te convêm.

 

- Isso mesmo. Avisei a tua mãe que passarias algum tempo. Portanto, não precisas de te preocupar.

 

- Hum... - Brenna correu os olhos pela cozinha, prestando um pouco mais de atenção. Um molho fragrante no fogo, um lindo prato de hors dbeuvres, uma garrafa de vinho. - Podias ter avisado... ter-me dado algum tempo para que eu me acostumasse à ideia.

 

- Tens tempo agora. - Shawn serviu o vinho nos copos. - Sei que o vinho tende a deixar-te com dores de cabeça na manhã seguinte, mas um ou dois copos não devem fazer mal.

 

Brenna arriscaria a ressaca, se o vinho pudesse esfriar a sua garganta.

 

- Tu sabes que não precisavas de te dar a tanto trabalho por mim. Disse-te desde o início que não era necessário.

 

- Mas eu queria assim, e terás de aceitar. - Shawn sentia-se à vontade de novo, porque ela estava constrangida. Deu um passo na sua direcção, acrescentando: - Tira... - Ele quase se riu quando Brenna arregalou os olhos. - o boné. - O próprio Shawn acabou por o tirar. Largou o boné e o seu copo em cima do balcão, para poder passar as mãos pelos cabelos de Brenna, até que caíssem da maneira que mais lhe agradava. - Senta-te.

 

Ele levou-a para uma cadeira. Sentou-se à sua frente.

 

- Porque não tiras as botas?

 

Brenna baixou-se. Começou a puxar os cordões. Voltou a endireitar-se.

 

- Precisas de ficar a olhar? Isso faz com que me sinta ridícula.

 

- Se agora te sentes ridícula porque eu te vejo a tirar as botas, vais ficar vermelha de vergonha muito em breve. Tira as botas. - A voz era tão suave que fez um calafrio subir pela espinha de Brenna. - A menos que tenhas mudado de ideias sobre as nossas intenções.

 

- Não mudei. - Contrariada, ela voltou a baixar-se, para acabar de tirar as botas. - Fui eu quem começou, e acabo sempre o que começo.

 

Mas não fora absolutamente assim que ela imaginara. Apenas pensara nos dois já nus na cama, a fazer o que tinham de fazer. Não pensara muito no processo para chegar a esse ponto.

 

Ela empurrou as botas para baixo da mesa. Fez um esforço para o fitar nos olhos, com toda a firmeza de que era capaz.

 

- Tens fome?

 

- Não. - Não lhe passava pela cabeça comer qualquer coisa, dadas as circunstâncias. - O meu pai e eu almoçámos tarde.

 

- Ainda bem. Comemos depois. Vamos tomar o vinho lá em cima.

 

Lá em cima... Muito bem, subiriam. Afinal, a ideia fora sua. Mas quando Shawn voltou a pegar na sua mão, ela teve de fazer um esforço para não sair a correr.

 

- Isso não é justo, Shawn. Passei o dia inteiro a trabalhar, e não tive a oportunidade de me lavar.

 

- Queres tomar um duche? - Enquanto subiam, pelas escadas dos fundos, ele limpou a sujidade do rosto de Brenna. - Teria todo o prazer em ensaboar-te as costas.

 

- Simplesmente comentei, mais nada.

 

Não podia tomar um duche com ele, pelo amor de Deus. Não daquela forma. A música envolveu-a, um sussurro de harpa. Brenna tinha os nervos à flor da pele.

 

Ela entrou no quarto. Viu as flores, as velas, a cama. E bebeu o vinho como se fosse água.

 

- Calma, calma... - Shawn tirou o copo da mão dela. - Não te quero bêbeda.

 

- Posso muito bem aguentar o vinho.

 

Brenna esfregou as palmas húmidas nas coxas, enquanto ele circulava pelo quarto, a acender as velas.

 

- Não precisas de fazer isso. Ainda não está escuro.

 

- Vai ficar. Já te vi antes à luz das velas. - Shawn falava descontraído, enquanto levava a chama do fósforo aos pavios das velas em cima da consola da lareira, que já tinha o fogo aceso. - Mas não tomei tempo para te apreciar. Esta noite vou fazer isso.

 

- Não sei porque tens de tornar tudo romântico, em vez do que devia ser.

 

- Não tens medo de um pouco de romance, pois não, Mary Brenna?

 

- Não, mas...

 

Shawn virou-se. A luz das chamas, subtil, em constante movimento, dançava sobre o seu rosto, por trás, em redor. Parecia ter saído de uma das ilustrações de Jude. De príncipes do mundo das fadas, valentes cavaleiros, harpistas românticos.

 

- Há algo na forma como olhas que me deixa com água na boca durante metade do tempo - murmurou Brenna. - Tenho de ser honesta contigo. Não me agrada muito, e quero acabar com isto de vez.

 

- Bem. - A voz de Shawn era tão suave quanto a dela estava irritada. - Porque não vemos o que podemos fazer quanto a isso?

 

E, sempre fitando-a nos olhos, Shawn avançou.

 

                                               CAPÍTULO DOZE

Por mais estranha que fosse a situação, pensou Brenna, ainda era Shawn, um homem que conhecia e de quem gostava, durante toda a sua vida. E, por mais ridículo que tudo parecesse, ela ainda o desejava.

 

O nervosismo era tão inoportuno quanto a música de harpa e as velas acesas.

 

Por isso, quando Shawn pôs as mãos nos seus ombros, quando as desceu pelos braços, para pegar nas suas mãos, ela ergueu a cabeça.

 

- Se eu me rir - murmurou Brenna -, não é nada pessoal. Será apenas porque toda a situação me parece engraçada.

 

- Eu não me importo.

 

Como ele apenas a observava, esperando, Brenna ergueu-se na ponta dos pés e beijou-o na boca. Não tencionava precipitar nada, pois já concluíra que Shawn não o permitiria, mesmo que tentasse. Mas, depois da amostra inicial, ela queria mais. Queria tudo. E depressa. As suas mãos contraíram-se quando mordeu levemente o lábio inferior de Shawn.

 

- Sinto um desejo enorme por ti. Não consigo evitá-lo.

 

- Quem te está a pedir para o evitares?

 

Shawn não se precipitaria, com toda a certeza, mas era tentador acelerar o ritmo. Aquele corpo pequeno e fascinante já vibrava contra o seu. A boca de Brenna era como uma febre. Mas ele reflectiu que seria muito mais satisfatório deixar que ela o levasse à loucura por mais algum tempo.

 

- Sobe para cima de mim. - Ele largou as mãos de Brenna e segurou-a pelas ancas, levantando-a, até que ela passou as pernas à volta da sua cintura, como já fizera uma vez antes. - Beija-me de novo. Gosto disso.

 

Agora ela riu-se. O nervosismo que a preocupava antes desapareceu por completo.

 

- A sério? Pelo que me recordo, na primeira vez em que fiz isto...

- Brenna aproximou a boca ao ponto de sentir a respiração dele, depois recuou. Repetiu o gesto. - Davas a impressão de te ter acertado na cabeça com um martelo.

 

- Isso foi porque eu não estava à espera, e viraste o meu cérebro do avesso. - Shawn apertou o rabo de Brenna, num movimento cordial, de intimidade. - Aposto que não consegues fazer isso de novo.

 

- Com que então é uma aposta, não é? - Os olhos de Brenna faiscaram com o desafio, com a diversão. Ela levou as mãos cerradas aos cabelos de Shawn. - Estás prestes a perder.

 

E ela empenhou-se a fundo, como Shawn teve de reconhecer. Quase podia sentir os seus olhos a revirarem, enquanto Brenna atacava a sua boca. Havia ocasiões em que a rendição não era absolutamente uma experiência humilhante. Havia uma insinuação de vinho na língua de Brenna, forte e quente. Misturada com o seu próprio sabor, formava uma combinação adorável e inebriante, deixando-o tonto.

 

A música de harpa e a luz das velas, uma mulher de sangue quente a abraçá-lo. Shawn deixou que a paixão e o romance o envolvessem por completo. De uma forma sedutora. Excitante. O prazer assumia uma nova intensidade.

 

Ela sentia os dedos de Shawn a comprimir as suas ancas, ouvia a sua respiração a acelerar, como um homem que subira a correr uma longa ladeira. Quando ele mudou de posição, virando-se para a cama, Brenna teve uma sensação de triunfo.

 

Haveria de tê-lo agora. À sua maneira. Rápida e furiosa. Para acabar com aquela terrível pressão no peito, ventre e cabeça. A sua respiração saiu num ofego de riso, quando Shawn a estendeu na cama, cobrindo-a com o seu corpo, comprimindo-a contra o colchão, corpo firme contra corpo firme.

 

- Tenho de admitir que me deixaste atordoado, Brenna. - O brilho intenso nos olhos dela aumentou ainda mais quando Shawn puxou as suas mãos para cima da cabeça, segurando-a pelos pulsos. - Mas agora é a minha vez. Pelo que me recordo, os teus olhos ficaram turvos e cegos na primeira vez em que te beijei. - Ele comprimiu os dentes, gentilmente, sobre o queixo de Brenna. - E tu tremeste.

 

Deliberadamente, ela arqueou as ancas, comprimindo-se contra Shawn.

 

- Aposto que não consegues fazer isso de novo.

 

Um homem tão excitado, tão ansioso, não perderia tempo. Ela tinha a certeza. Apesar disso, preparou-se para tudo. E tremeu quando os lábios de Shawn roçaram os seus, numa imensa ternura, numa interminável tortura. A pressão que se acumulara a um ponto crítico transformou-se num anseio glorioso.

 

A primeira insinuação da lua surgiu no quarto, com o brilho prateado contra o dourado das chamas das velas.

 

Shawn levou as mãos aos seios, os dedos traçando contornos, por cima do blusão de trabalho, antes de se desviarem para os botões. Ela usava uma T-shirt branca, de homem, por baixo. Depois de abrir o blusão, Shawn deu por si fascinado pela forma como os pequenos seios pareciam e eram sensuais, sob o algodão branco simples.

 

- Sempre gostei das tuas mãos. - Brenna mantinha os olhos fechados agora, o que era melhor para absorver os pequenos choques de sensação. - E gosto ainda mais agora. - Mas quando ele se baixou outra vez, quando a sua boca se comprimiu contra o algodão, os olhos arregalaram-se no mesmo instante. - Oh, doce Jesus!

 

Shawn poder-se-ia ter rido, se encontrasse fôlego para isso. Mas tinha os pulmões obstruídos, e a cabeça já começava a girar. Onde estivera aquilo durante toda a sua vida? Aquele sabor, aquela textura, aqueles contornos? Quanto mais perdera?

 

Brenna puxava a sua camisola, enquanto ele a levantava. Fitaram-se nos olhos, ofegantes. Balançaram a cabeça ao mesmo tempo, aturdidos.

 

- Tarde demais - balbuciou Shawn, puxando a T-shirt pela cabeça de Brenna.

 

- Louvado seja Deus!

 

E mergulharam um para o outro.

 

As mãos de Shawn talvez se tivessem tornado mais ríspidas agora, um pouco rudes, aqui e ali. A sua boca poderia ter-se tornado mais ardente, mais impaciente. Mas isso não o impediu de ser meticuloso. Queria cada fragmento de Brenna e lembrar-se-ia de tudo para sempre, o sabor da sua carne, aquele ponto sensível logo abaixo do seio, a curva que se projectava do tórax para a anca, a maciez sedosa de tudo, sob as suas palmas, as pontas dos dedos.

 

A força de Brenna não era insignificante e tornou-se estranhamente erótica enquanto rolavam juntos, com os músculos dela a contraírem-se. E continuou erótica quando ele fez com que a força hesitasse para fraqueza, sentindo-a estremecer, ao encontrar um novo ponto que proporcionava um prazer intenso.

 

A música era de flautas agora, alegre, quase mágica, com algumas gaitas a tocarem em segundo plano. O luar aumentou, um brilho aperolado no ar, fragrante com o fumo das velas de cera e o do fogo de turfa.

 

Brenna comprimiu o rosto contra a sua garganta, fazendo um esforço para recuperar o fôlego.

 

- Pelo amor de Deus, Shawn! Agora!

 

- Ainda não, ainda não, ainda não.

 

Ele falou como se cantasse. Queria que as mãos pequenas e fortes de Brenna nunca parassem de correr pelo seu corpo. Queria descobrir mais, ainda mais, com as suas próprias mãos. Aquelas pernas adoráveis não mereciam a sua atenção, agora que tirara as calças de ganga rasgadas? E a parte posterior do ombro era um lugar adorável para explorar.

 

- Para uma mulher tão pequena, há tanto em ti... Desesperada, ela cravou os dentes em Shawn.

 

- Daqui a um minuto morro.

 

- Calma, calma...

 

E a boca de Shawn voltou a encontrar-se com a dela, enquanto as mãos deslizavam pelas pernas, os dedos alcançavam o calor.

 

Ela veio-se, num fluxo repentino, rápido, intenso, com o corpo a arquear-se contra Shawn. Ele engoliu o grito de choque e libertação, absorveu-o, saboreou-o, mesmo enquanto o seu sangue clamava por mais.

 

E depois Brenna tornou-se dócil, com o corpo mole como a cera que se acumulava na base das velas. Ele estava livre para se banquetear na sua boca, na sua garganta, nos seus seios.

 

- Deixa-me desfrutar de ti por mais algum tempo...

 

A pressão foi-se acumulando de novo, camada por camada, insinuante e envolvente, até que ela resvalou da beira pela segunda vez. Como podia ele aguentar?, especulou Brenna. A carne de Shawn tornara-se tão húmida quanto a sua, o coração saltava tão alto e tão rápido, o corpo achava-se igualmente tenso e pronto.

 

Mais uma vez, ela arqueou-se contra ele, mais uma vez passou as pernas pela sua cintura. E os olhos encontraram-se na claridade tremeluzente.

 

- Agora... - murmurou Shawn, enquanto a penetrava, suavemente, como se já se tivessem amado mil vezes antes.

 

A respiração de Brenna tremia ao entrar e sair. As mãos uniram-se, os dedos entrelaçaram-se. Fitaram-se um ao outro quando começaram a mexer-se.

 

Fácil e adorável, como uma dança lembrada. Subindo e descendo, prazer juntando-se a prazer. E depois, como se a música exigisse, uma subtil aceleração do ritmo. Os olhos de Shawn tornaram-se mais escuros agora, aquele azul sonhador tornando-se opaco, enquanto ele se perdia por completo. Quando Brenna o apertou, quando as suas pálpebras tremeram e fecharam, quando um gemido saiu da sua garganta, ele conteve-se, mais um pouco.

 

E, depois, comprimiu o rosto contra os cabelos dela e soltou-se.

 

Ela precisaria de um minuto. Talvez uma hora. Um dia ou dois poderia ser melhor. Só depois é que poderia mexer-se de novo, ela imaginou. Ou pelo menos pensar em se mexer. Por enquanto, parecia que a melhor ideia era permanecer onde estava, esparramada sobre a cama de Shawn, com o corpo dele a comprimi-la contra o colchão.

 

O seu corpo tornara-se absolutamente dourado. Imaginou que, se tivesse energia para abrir os olhos e ver, descobriria um brilho intenso no escuro.

 

Fora mesmo como ela dissera antes. Quando Shawn parava de pensar, fazia um trabalho maravilhoso.

 

- Não estás com frio, pois não?

 

A voz dele saiu abafada e sonolenta.

 

- Duvido de que pudesse sentir frio, mesmo que estivéssemos deitados nus numa jangada, flutuando a caminho da Gronelândia.

 

- Ainda bem. - Ele mudou de posição, acomodou-se. - Vamos ficar aqui por mais algum tempo.

 

- Só não quero que durmas em cima de mim.

 

Shawn soltou um grunhido. Aconchegou-se contra Brenna.

 

- Gosto do cheiro dos teus cabelos.

 

- Cheiro de serragem?

 

- Um pouco. Mas é bastante agradável. E há também um aroma de limão.

 

- Deve ser o champô que roubei de Patty.

 

O corpo de Brenna começava a despertar. Ela passou a dar mais atenção à forma como o corpo de Shawn se ajustava ao seu, como as pernas se entrelaçavam. E no preciso momento em que o interesse se agitava, ela também notou o seu peso.

 

- És mais pesado do que pareces.

 

- Desculpa. - Ele estendeu um braço por baixo de Brenna, e rolou para o lado. - Melhor?

 

- Não estava mal antes. - Mas agora que ele perguntava, Brenna descobria que era melhor ser capaz de cruzar os braços sobre o peito. Ou contemplar o rosto de Shawn. E era um rosto tão bonito que ela nem se importou, pelo menos por enquanto, com a maneira presunçosa como os lábios se contraíam. - Devo dizer, Shawn, que tu és melhor do que imaginei... em tudo.

 

Ele abriu os olhos. O azul ali era outra vez sonhador.

 

- Admito que tive alguma prática, ao longo dos anos.

 

- Não me vou queixar nesse ponto. Ainda assim, há um problema.

 

- Ah sim? - Shawn fez um anel dos cabelos, e enrolou-o no seu dedo. - E qual é?

 

- A minha ideia, originalmente, era a de fazermos sexo.

 

- Lembro-me de teres mencionado isso. - Ele deixou o cacho desenrolar, cair. Escolheu outro. - E tenho de reconhecer que foi uma excelente ideia.

 

- Essa foi a primeira parte. Comentei também que tinha de fazer isso para eliminar do meu organismo o anseio que sentia por ti.

 

- Também me lembro disso. E a palavra que usaste foi comichão.

- Shawn desceu as unhas levemente pelas costas de Brenna. - Fiz o melhor que podia para coçar.

 

- Fizeste mesmo, e não posso negar. Mas isso é parte do problema.

 

Ela passou um dedo pela sua clavícula, até ao lado do pescoço, observando-o atentamente. Viu as pestanas tremerem, até que os olhos se tornaram fendas azuis por trás.

 

- E qual é o teu problema, OToole?

 

- Parece que não deu certo. Continuo a sentir a comichão. Por isso, teremos de fazer sexo de novo.

 

- Se tem de ser, vamos fazer. - Shawn sentou-se na cama, puxando-a. - Mas, primeiro, podemos tomar um duche e comer. Depois, veremos o que é possível fazer.

 

Ela pôs as mãos nas faces de Shawn, rindo-se.

 

- Ainda somos amigos, não somos?

 

- Ainda somos amigos.

 

Shawn aconchegou-a nos seus braços. Tencionava dar um beijo leve e afectuoso. Mas afundou-se em Brenna.

 

Ela sentia-se atordoada quando Shawn a levou a estender-se de novo na cama. Ergueu os braços para abraçá-lo, murmurando:

 

- E o duche e o jantar?

 

- Ficam para mais tarde.

 

Foi mais tarde, muito mais tarde, e os dois comeram como lobos famintos. Foi fácil recair na amizade, pois já haviam partilhado centenas de refeições antes.

 

Sabias que todas as crianças de Betsy Cboney apanharam varicela? Já notaste que o Jack Brennan tem vindo a olhar muito para a Theresa Fitzgerald, agora que ela rompeu o namoro com o Colin Riley?

 

Enquanto comia, Brenna falou sobre o último ataque de choro da sua irmã Patty, por não saber se deveria usar rosas amarelas ou rosas no bouquet de noiva. E levantaram o copo para brindar à conclusão do negócio com Magee.

 

- Achas que ele vai mandar alguém para aqui para fazer as medições do terreno e preparar o projecto do teatro?

 

Brenna levantou-se para abrir a porta, quando Bub começou a arranhar a mesma.

 

- Se esse é o plano dele, eu ainda não soube de nada.

 

Ele observou o gato a esfregar-se contra a perna de Brenna.

 

- É a única forma de se fazer correctamente. - Ela considerou a possibilidade de servir mais comida no seu prato. Se cedesse à gula, acabou por decidir, sofreria mais tarde. Com algum pesar, empurrou o prato para longe. - O Magee não se pode sentar no seu escritório lá no alto de Nova Iorque e determinar o que tem de ser feito aqui em Ardmore.

 

- Como sabes que ele tem um escritório lá no alto?

 

- Os ricos gostam de ficar nas alturas. - Brenna empurrou a cadeira para trás, sorrindo. - Pergunta à Darcy se ficar nas alturas não é um objectivo, quando ela encontrar o homem rico que está a caçar. Seja como for, eles precisam de ver o que somos e o que temos, antes de decidirem o que seremos.

 

- Concordo nesse ponto. - Ele levantou-se para tirar a mesa. E gostei da tua ideia. Talvez possas fazer um desenho mais formal. Depois mostramos ao Aidan. Se ele gostar, como eu gostei, não há motivo para não encaminharmos para Magee, para termos a opinião dele.

 

Por um momento, Brenna continuou sentada, surpreendida.

 

- Farias isso?

 

Shawn olhou para trás, enquanto abria a torneira de água quente e despejava um pouco de detergente.

 

- Porque não?

 

- Seria muito importante para mim. Mesmo que o Magee se ria e ponha o desenho no lixo, significaria muito para mim. Não sou arquitecta, engenheira, nem qualquer outra coisa... tão alta. - Brenna levantou-se.

- Mas sempre tive vontade de participar no projecto e na construção de um prédio desde o início.

 

- Tu tens uma imagem na cabeça - comentou Shawn. - Um campo ou um terreno vazio, e imaginas tudo o que pode ser construído ali.

 

- É isso mesmo. Como é que sabes isso?

 

- Não é muito diferente de compor uma canção.

 

Ela franziu o rosto para as costas de Shawn, pensando acerca disso. Jamais considerara que tinham alguma coisa em comum nessa área.

 

- Acho que tens razão. Vou fazer o melhor desenho que puder. E mesmo que o Magee nem dê uma olhadela, ficar-te-ei grata por teres pensado nisso.

 

Ela ajudou-o a arrumar tudo. Quando se aproximava a meia-noite, disse que tinha de ir embora.

 

Shawn acompanhou-a até à porta da frente. Já estavam quase lá quando ele mudou de ideias. Levantou-a, pô-la no seu ombro, e carregou-a de novo para o quarto lá em cima.

 

Em consequência, já passava da meia-noite e meia quando Brenna entrou na sua casa. Quase a arrastar-se, pois não tinha energia para mais do que isso. Quem teria imaginado que o homem seria capaz de a deixar quase esgotada?

 

Apagou a luz que a mãe deixara acesa para ela. Mesmo no escuro, sabia que as tábuas do soalho e os degraus da escada iriam ranger sob os seus pés. Conseguiu subir e chegar ao seu quarto sem fazer qualquer barulho.

 

E, como não era mãe, ficou na ignorância confortável de que a sua a ouvira entrar, apesar de todas as precauções.

 

Ao deitar-se na sua cama, ela soltou um longo suspiro, fechou os olhos, e adormeceu no mesmo instante.

 

Sonhou com um palácio prateado por baixo de uma colina verde. Em redor, cresciam flores e árvores enormes, que sobressaíam como pinturas na claridade dourada. Um rio corria pelo meio, com pequenos diamantes a faiscar à superfície, um clarão aqui e ali, deixando os olhos ofuscados.

 

Uma ponte em arco transpunha o rio, as pedras brancas como mármore. Ao atravessá-la, ela podia ouvir o barulho das suas botas, a água a borbulhar lá em baixo, e as batidas do seu coração, não de medo, mas de excitação.

 

As árvores, ela pôde perceber agora, estavam carregadas de maçãs douradas e pêras prateadas. Por um instante, sentiu-se tentada a arrancar uma fruta e dar uma mordidela na polpa saborosa. Mas, mesmo no sonho, sabia que não se podia comer nada numa visita ao mundo das fadas, e apenas se poderia beber água, ou a pessoa ficaria retida ali durante cem anos.

 

Por isso, ela limitou-se a admirar as frutas que cintilavam.

 

E o caminho por baixo das árvores, da ponte branca à enorme porta prateada do palácio, era vermelho, como se estivesse coberto de rubis.

 

Quando ela se aproximou, a porta foi aberta, deixando passar a música de gaitas e flautas.

 

Brenna entrou no palácio, sendo envolvida pela música e pelo ar perfumado, com tochas tão altas como homens ao longo das paredes, cujas chamas se projectavam para cima como flechas.

 

O saguão era largo, cheio de flores. Havia cadeiras ali, com braços curvos e almofadas profundas, com todas as cores de pedras preciosas. Mas ela não viu ninguém.

 

Subiu a escada, seguindo a música, a mão roçando pelo corrimão, que era macio como seda e faiscava como uma safira.

 

Ainda não havia qualquer outro som que não a música, qualquer outro movimento que não o seu.

 

Havia um corredor comprido no cimo das escadas, tão largo quanto o espaço que dois homens cobririam, se um se deitasse com a cabeça nos pés do outro. À esquerda, quando ela começou a avançar pelo corredor, havia uma porta de topázio; à direita, a porta era de esmeralda. Em frente, havia uma terceira porta, que luzia como pérolas brancas.

 

E era dessa porta que vinha a música.

 

Brenna abriu a porta e entrou.

 

Flores subiam pelas paredes, entrelaçadas. Mesas do tamanho de lagos rangiam sob o peso de travessas cheias de comida. Os aromas eram sensuais.

 

O soalho era um mosaico, uma sinfonia de pedras preciosas, em padrões aleatórios.

 

Havia poltronas, almofadas e sofás sumptuosos, mas todos vazios. Com excepção do trono, na frente da sala. Ali, refastelado na sua imponência, havia um homem de gibão prateado.

 

- Não hesitaste em momento algum - disse ele. - Há coragem nessa atitude. Não pensaste uma única vez em voltar. Continuaste a seguir em frente, para o que te era desconhecido.

 

Ele ofereceu um sorriso. Com um aceno da mão, ofereceu também a maçã dourada que surgiu ali.

 

- Podes provar essa maçã.

 

- Bem que gostaria, mas não tenho um século para te dispensar. Ele riu-se. Agitou os dedos, e a maçã desapareceu.

 

- Eu não o permitiria, já que tenho mais proveito contigo lá em cima.

 

Curiosa, Brenna deu uma volta completa.

 

- Vives sozinho aqui?

 

- Claro que não. Mas até os habitantes do nosso mundo gostam de dormir. Deixei a luz acesa para te orientar. Aqui é noite, como no teu mundo. Eu queria conversar contigo, e preferia fazê-lo a sós.

 

- Nesse caso... - Ela ergueu e baixou os braços. - Podes falar.

 

- Tenho uma pergunta para te fazer, Mary Brenna OToole.

 

- Tentarei responder, Carrick, príncipe do mundo das fadas.

 

Os lábios contraíram-se numa aprovação divertida, mas os olhos permaneceram imensos e sérios quando ele se inclinou para a frente.

 

- Aceitarias uma pérola de um apaixonado?

 

Uma estranha pergunta, sem dúvida, pensou Brenna. Mas, no final das contas, era apenas um sonho, e já tivera outros mais estranhos.

 

- Aceitaria, se me fosse dada por livre e espontânea vontade.

 

Carrick suspirou, batendo com a mão no braço largo do trono. O anel no seu dedo cintilava, azul e prateado.

 

- Porque há sempre restrições e condições ligadas às respostas quando se trata dos mortais?

 

- Porque é que os habitantes deste mundo nunca ficam satisfeitos com uma resposta honesta?

 

O humor fez os olhos de Carrick faiscarem.

 

- És atrevida, não és? Sorte a tua que eu sinta uma certa afeição pelos mortais.

 

- Eu sei disso. - Brenna adiantou-se. - Vi a Lady Gwen. Ela anseia por ti. Não sei se isso é um peso ou alivia o teu coração, mas é o que eu sei.

 

Com o queixo encostado aos pés, ele pensou por um momento.

 

- Conheço o coração da Gwen, agora que é tarde demais para fazer outra coisa além de chorar. Tem de haver sofrimento no amor antes que este possa ser consumado?

 

- Não conheço a resposta.

 

- Tu és parte de tudo. - Carrick endireitou-se. - Parte da resposta. E, agora, diz-me o que há no teu coração em relação ao Shawn Gallagher.

 

- Antes que Brenna pudesse responder, ele ergueu a mão, em advertência. Vira a fúria insinuar-se no rosto dela. - Ao falares, lembra-te de uma coisa. Estás no meu mundo. É muito simples obrigar-te a dizeres a verdade. Apenas a verdade. Ambos preferimos que a digas sem qualquer pressão.

 

- Não sei o que há no meu coração. Terás de aceitar isso como a verdade, pois não tenho outra coisa para dizer.

 

- Então é tempo de procurares, tempo de descobrires, não achas?

 

- Carrick suspirou de novo, não se dando ao trabalho de disfarçar o seu desgosto. - Mas não farás isso enquanto não estiveres preparada. Continua a dormir.

 

Com um movimento amplo do braço, ele ficou sozinho, com os seus pensamentos, na claridade ofuscante. E Brenna dormiu, sem sonhos agora, na sua cama.

 

Ela não teve mais do que quatro horas de sono, mas aguentou o dia inteiro com uma incrível energia. Quase sempre, uma noite em que adormecia tarde, seguida por uma manhã em que acordava cedo, deixavam-na mal-humorada durante a maior parte do tempo. Mas naquele dia sentia-se tão animada e jovial, que o pai comentou a sua boa disposição mais de uma vez.

 

Brenna achava que não deveria contar-lhe o que dizia a si mesma.

 

Era o sexo bom e saudável que a fazia assobiar durante o trabalho. Por mais íntimos que fossem, por mais que ela o amasse, duvidava de que o pai gostasse de saber como ela passara a noite.

 

Lembrava-se do sonho, com tanta nitidez, com tanta precisão, que especulou se não estaria a preencher alguns vazios sem sentido. Mas não era uma coisa em que pudesse remoer por muito tempo.

 

- Não achas que é suficiente por hoje, Brenna querida?

 

Mick empertigou-se, esticou as costas. Olhou para o lugar em que a filha se agachava, pintando o rodapé. Os seus lábios contraíram-se quando notou que ela passava o pincel na mesma área de quinze centímetros, muitas e muitas vezes, em movimentos lentos e distraídos.

 

- Brenna...

 

- O que foi?

 

- Não achas que, por esta altura, já passaste tinta demais nesse pedaço do rodapé?

 

- Como? Ah... - Ela voltou a molhar o pincel na tinta, e desta vez passou-o numa nova parte do rodapé. - A minha mente devia estar a vaguear.

 

- É altura de dar o dia por encerrado. -Já?

 

Ele recolheu os pincéis, rolos e bandejas, balançando a cabeça.

 

- O que será que a tua mãe pôs nos teus cereais esta manhã para te deixar tão animada? E porque não fui eu também contagiado?

 

- O dia passou muito depressa. É só isso.

 

Brenna levantou-se. Olhou em redor. Com alguma surpresa, notou quanto fora feito. Reflectiu que passara o dia inteiro em piloto automático.<