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Planeta Criança



Poesia & Contos Infantis

 

 

 


LÁZARO / Morris West
LÁZARO / Morris West

                                                                                                                                                   

                                                                                                                                                  

 

 

Biblioteca Virtual do Poeta Sem Limites

 

 

LÁZARO

 

Há vinte e cinco anos, escrevi uma novela, As Sandálias do Pescador, que previam a eleição de um papa eslavo.

Quinze anos a seguir à publicação, a ficção revelou-se profética, correspondendo em muitos pormenores peculiares à eleição e ao reinado de Karol Woytila, João Paulo II.

Agora, um quarto de século depois da publicação de As Sandálias do Pescador, decidi-me a escrever outra história, a respeito de outro pontífice no mundo actual.

A experiência de Lázaro é também a minha. Compreendo perfeitamente a noção de metanóia (mudança, renascimento) e a premência dela na comunidade dos cristãos praticantes em todo o mundo.

O esquema da novela é claro e extremamente simples: 4 livros. O livro 1 começa com toda a luz centrada num pequeno grupo de personagens no centro da tela. O campo de visão alarga-se consideravelmente nos livros 2 e 3, para que o leitor seja levado a compreender a enorme variedade e complexidade da comunidade universal e os seus conflitos internos e externos.

O âmbito estreita-se de novo no livro 4 quando as dimensões, heróica e trágica, da vida humana, se concentram e revelam no Pontífice moribundo.

A novela é, em si, um livro independente. Mas no tempo da ficção podemos considerá-la como uma sequência de As Sandálias do Pescador e de Os Palhaços de Deus. A longo prazo pode ser vista e publicada como o terceiro painel de um tríptico sobre o Papado do século XX.

 

 

LÁZARO DOENTE

 

            Era um homem alto e forte. O grande nariz, os maxilares protuberantes e os olhos escuros e brilhantes de obsidiana davam -lhe o ar de uma velha águia, altiva e hostil. No entanto, perante a evidência da sua mortalidade, sentiu-se, subitamente, pequeno e ridículo.

            O cirurgião, mais novo que ele um quarto de século, em pé ao lado da secretária, fez um esboço numa folha de um bloco-notas amarrotado e explicou rapidamente.

            - Estas são as duas artérias do lado esquerdo do seu coração. Estão praticamente bloqueadas com placa de ateroma, constituída, de facto, pelos detritos da sua corrente sanguínea. Formam-se nas paredes das artérias, como cascão numa tubagem. O angiograma que fizemos ontem, mostra que tem só cinco por cento de circulação normal no lado esquerdo. É a causa das dores no peito, da falta de ar, da sonolência e da fadiga que tem sentido ultimamente. O que vai acontecer a seguir é isto... - Desenhou um glóbulo escuro com uma seta a indicar a direcção do seu fluxo. - Ao longo da artéria viaja um pequeno coágulo sanguíneo. Aloja-se aqui, na parte mais estreita. A artéria fica bloqueada. O senhor tem o clássico ataque cardíaco. E morre.

            - E o risco de isso acontecer...?

            - Não é um risco. É um acontecimento inevitável. Pode acontecer qualquer dia, qualquer noite. Até mesmo agora, enquanto estamos a conversar. - Deu uma curta gargalhada, sem alegria. - Para os peregrinos na Praça de S. Pedro, o senhor é Leão XIV, vigário de Cristo, Supremo Pontífice. Para mim é uma bomba relógio ambulante. Quanto mais cedo a puder desmontar, melhor.

            - Tem a certeza de que consegue?

            - Sob um ponto de vista puramente clínico, sim. Fazemos um by-pass duplo, substituindo as artérias bloqueadas por uma veia retirada da sua perna. É um simples trabalho de encanador... a percentagem de sucesso é de mais de noventa por cento.

            - E quanto tempo de vida é que isso me dá?

            - Cinco anos. Dez. Talvez mais. Depende do seu comportamento após a operação.

            - E que é que isso significa exactamente? - Sua Santidade estava visivelmente impaciente. O cirurgião continuava calmo e de bom humor.

            - Significa que o senhor tem vindo a dar cabo do seu corpo há anos. Tem, no mínimo, quinze quilos a mais. Come que nem um trabalhador do campo. Tem gota. O seu ácido úrico é anormalmente elevado, mas continua a beber vinho tinto e a comer alimentos condimentados e de elevado teor úrico. O único exercício que faz é andar de cá para lá a ler o breviário. Passa o resto do tempo a esta secretária, ou a andar devagar durante os longos rituais cheios de nuvens de incenso, ou sendo transportado por aí em automóveis e aviões... A menos que altere drasticamente o seu estilo de vida, todo o meu saber terá sido em vão. O Osservatore Romano deixará escrito para a posteridade que morreu em odor de santidade. Quando, o que é de facto verdade, é que terá morrido de auto-violação.

            - Mas que impertinência, Doutor!

            - Estou a dizer-lhe uma verdade necessária. A menos que me dê ouvidos, só sairá daqui num caixão.

            Um clarão de cólera surgiu nos olhos escuros de ave de rapina. Parecia um predador prestes a atacar. Depois, tão rapidamente como surgira, a cólera desapareceu. Os olhos tornaram-se melancólicos, a voz fraca e lamentosa.

            - Disse há pouco: “A um nível puramente clínico é um mero trabalho de encanador”... Isso implica algumas reservas?

            - Reservas, não. Cautela, precauções para o doente, sim.

            - É capaz de me esclarecer, por favor?

            - Muito bem. Primeiro, o factor risco. Dou-lhe dez por cento. E por aí me fico. A natureza do risco? Colapso súbito, uma apoplexia, uma infecção pericárdica. É tal e qual como guiar um automóvel ou entrar para um avião. Assume-se o risco e esquece-se. No seu caso, imagino, entrega-se nas mãos de Deus.

            - Nem tanto. -A sombra de um sorriso repuxou-lhe os cantos da boca austera. - Tenho de deixar algumas instruções. A primeira é a de que, se surgir um colapso, você dê o processo por terminado e me deixe morrer. A segunda é, caso haja lesões cerebrais, que eu não seja colocado em qualquer meio artificial de suporte de vida. Nem você nem eu somos obrigados ao prolongamento oficioso de uma vida vegetal. Você vai receber estas instruções por escrito, firmadas e seladas por mim. Que mais?

            - As sequelas... as consequências, a curto e longo prazo, dos processos cirúrgicos. É muito importante que as compreenda, que pense nelas, que fale nelas com à vontade. Não deve... e não consigo enfatizar o suficiente... tentar lutar contra elas reprimindo-as e tentando convertê-las numa qualquer espécie de experiência mística e expiatória: uma noite negra da alma, um estigma para o espírito... - Encolheu os ombros e sorriu de um modo desarmante. - De qualquer modo, acho que não é homem para proceder assim. Mas pode, por outro lado, ser tentado a suportá-las num silêncio orgulhoso e digno. Seria um tremendo erro.

            O velho respondeu de uma forma cortante.

            - Ainda não me disse o que é que eu vou ter de suportar.

            - Não estou a falar de dor. Esse é um factor controlável. Vai estar inconsciente durante pelo menos quarenta e oito horas, com um potente anestésico em perfusão. Continuará a tomar narcóticos e analgésicos até que o desconforto se situe em limites toleráveis. No entanto, vai sofrer outra coisa: um trauma psíquico, uma alteração da personalidade cujas dimensões ainda escapam a uma explicação cabal. Vai ficar emocionalmente frágil... tão propenso às lágrimas como à ira. Vai ficar sujeito a depressões, súbitas, negras e por vezes de carácter suicida. Num dado momento, será dependente como uma criança, procurando conforto depois de um pesadelo. Noutro, estará irritado e frustrado devido à sua própria incapacidade. A sua memória de curto prazo pode ser afectada. A sua tolerância ao stress emocional estará muitíssimo reduzida. Vai ser vivamente advertido pelos conselheiros que vão trabalhar consigo a não tomar quaisquer decisões importantes, quer emocionais, intelectuais ou administrativas durante pelo menos três meses... A maioria destas sequelas vai passar. Mas vão permanecer algumas mais fracas, mas sempre presentes na sua vida psíquica. Quanto melhor for a sua condição física, menor será a sua desvantagem emocional. E depois, a seguir ao primeiro período de convalescença será posto a dieta rigorosa para perder quinze ou vinte quilos. Vai ter de fazer exercício diariamente, de uma forma gradual e se descurar alguma destas coisas, a sua desvantagem psíquica perdurara e a sua condição física deteriorar-se-á rapidamente. Resumindo, tudo o que se fez terá sido em vão e doloroso. Lamento ter de fazer disto um bicho de sete cabeças, mas é absolutamente necessário que compreenda o que se passa. Creia que não estou a exagerar.

            - Acredito. Seria tolo se não o fizesse.

            O velho senhor pareceu, subitamente, ter-se recolhido para dentro de si mesmo. Os olhos ficaram melancólicos e sem expressão, como se uma membrana tivesse sido corrida sobre eles. O cirurgião aguardou em silêncio, até as palavras começarem de novo a fluir - Você põe, claro, a questão fundamental: se eu terei capacidade para reassumir os deveres do meu cargo.

            - Exacto. E o senhor não será o único interessado. A sua irmandade do Sacro Colégio terá acesso à mesma informação clínica que acabei de lhe dar.

            Pela primeira vez, a sua expressão descontraiu-se num sorriso de verdadeiro humor. Os olhos melancólicos iluminaram-se e o Vigário de Cristo pronunciou uma heresia muito sua:

            - Deus é um grande brincalhão, meu amigo. Sempre o soube.

            O cirurgião esperou uma explicação da frase. Mas nada. Em vez disso o Pontífice perguntou:

            - Quanto tempo posso esperar pela operação?

            - Rigorosamente nenhum. Quero-o na minha clínica antes do meio-dia de amanhã.

            - Porquê a sua clínica? Por que não a Gemelli ou a Salvator Mundi?

            - Porque eu só trabalho com a minha equipa em condições que possa garantir. Controlo os processos pós-operatório e de convalescença. O seu médico dir-lhe-á que sou o melhor de Itália. Mas uma vez entregue aos meus cuidados, há um contrato em vigor. Faz o que lhe mandam, ou lavo daí as minhas mãos.

            - Antes de me sujeitar a um tal contrato, gostaria de ouvir uma segunda opinião.

            - Já ouviu uma segunda e uma terceira. Morrison de Londres e Haefliger de Nova Iorque. Ambos viram imagens das radiografias ampliadas pelo computador. Concordam com o meu diagnóstico e com os procedimentos cirúrgicos. O Morrison vem de Londres de avião para assistir à operação.

            - E diga-me lá, quem autorizou esses trâmites?

            O cirurgião encolheu os ombros e sorriu.

            - O deão do Colégio dos Cardeais. Os seus irmãos bispos acharam que precisavam de estar cobertos pelo seguro.

            - Não duvido! - O Pontífice deu uma gargalhada curta e aguda. - Alguns deles gostariam de me ver morto, mas não querem correr o risco de perder outro Pontífice em circunstâncias suspeitas!

            - O que me conduz a um último conselho. Gostaria que fosse uma ordem, mas não posso... Não passe a sua convalescença no Vaticano, nem tão pouco em Castel Gandolfo. Tire um mês, no mínimo, para ser uma pessoa anónima. Instale-se em casa de amigos ou de familiares; entre em contacto apenas com os seus mais íntimos executivos em Roma. O Verão está a chegar. Não se dará muito pela sua falta... acredite. Tudo o que os verdadeiros crentes precisam de saber é que o senhor está vivo e no seu posto. Uma breve aparição e dois comunicados devem bastar.

            - Você é atrevido, meu rapaz! Este é o meu lar. O pessoal da minha casa é a única família que tenho. Por que é que não hei de recuperar aqui?

            - Por duas razões: primeira, a atmosfera em Roma está inacreditavelmente poluída. Agravará quaisquer problemas respiratórios que possa ter a seguir à operação. A segunda é a mais importante: a sua própria casa, queira ou não queira, será também o seu campo de batalha. A sua competência será julgada dia a dia. Qualquer fraqueza da sua parte será amplamente comentada. O senhor saberá disso, esperará por isso. Pôr-se-á à defesa. E o resultado? Stress, hipertensão, ansiedade; ou seja, tudo o que tentamos evitar a seguir a uma cirurgia cardíaca. Se isto é atrevimento, peço desculpa. Vossa Santidade tem a reputação de ser obstinado e rude. A minha primeira obrigação sob o juramento de Hipócrates, é a de mantê-lo longe do perigo... Primum non nocere. Portanto prefiro ser atrevido do que faltoso. Mas a decisão é sua. Temos um contrato?

            - Temos.

            - Ainda bem. Espero por si ao meio-dia de amanhã. Terá um dia e meio de preparação e pré-medicação. Vamo-nos reunir e conversar com os principais membros da equipa. Operaremos às sete da manhã de quarta-feira... Confie em mim, Santidade! Hoje está nas sombras da morte. Daqui a uma semana, estará como Lázaro saindo do túmulo e piscando os olhos à luz do sol.

            - Lázaro sempre me fez confusão. - O velho recostou-se na cadeira e sorriu sardonicamente ao cirurgião. - Ele tinha atravessado os portões da morte. Tinha visto o que havia do lado de lá. Quereria ele regressar à vida? Será que agradeceu a Jesus por tê-lo trazido de volta? Em que homem se terá tornado? Como é que o mundo o encarou? Como encarou o mundo?

            - Talvez... - o cirurgião sorriu e fez um gesto levemente depreciativo com as mãos. - Talvez esse possa ser o primeiro discurso de Sua Santidade, depois da sua recuperação!

            O breve diálogo tinha-o abalado até ao âmago do seu ser. De repente, via-se despojado de tudo o que o tinha mantido de pé: magisterium, auctoritas, potestas; o cargo, a autoridade, o poder fazer uso de ambos. Era um homem condenado à morte. Até mesmo se especificava o instrumento da execução: um pequeno rolhão de sangue coagulado, cortando o fluxo vital para o seu coração. Era-lhe permitida a comutação da pena; mas tinha de a aceitar das mãos de um tipo arrogante, que admitia ser um mero canalizador, que se atrevia a repreender o Vigário de Cristo por ser demasiado gordo, auto-indulgente e comer como um lavrador.

            Porquê ter vergonha? Era um camponês, nascido Ludovico Gadda, filho único de membros de uma cooperativa de fruta, dos arredores de Mirandola, um antigo principado perto de Ferrara. Aos 12 anos passava as manhãs na escola, as tardes fazendo o trabalho de um homem, reunindo o gado, cavando as leiras para os legumes, juntando e empilhando o estrume que se iria usar como adubo. Um dia, o pai caiu morto agarrado ao arado. A mãe vendeu os seus direitos na cooperativa, empregou-se como governanta de um proprietário local e decidiu educar o filho para uma vida melhor. Já era bom em matemática e capaz de ler qualquer livro que lhe viesse parar às mãos, porque a mama, que tinha em tempos querido ser professora, se tinha sentado a seu lado, durante os longos e escuros Invernos do campo, e à luz do candeeiro lhe tinha transmitido os conhecimentos que ela nunca tivera oportunidade de utilizar. O saber, repetia ela, era a chave para a liberdade e a riqueza. A ignorância era um ferrete de escravo na testa. Mandou-o primeiro para os Salesianos, pedagogos à moda antiga, que o assustaram terrivelmente, pobre púbere inocente, com histórias de fogo do Inferno e pragas horríveis que caíam sobre os promíscuos. Atafulharam-no de latim e grego e matemática, um dicionário completo de definições dogmáticas e preceitos morais, para não falarmos dos vinte séculos da história expurgada da Igreja Triunfal. Também lhe inseriram, como uma pérola numa ostra, a noção de “vocação” - um chamamento especial feito a uma alma especial, para uma vida especial ao serviço de Deus. Tendo a sua devoção sido acarinhada nesta estufa, fácil foi dar o passo que o levou ao seminário e à candidatura ao sacerdócio na Arquidiocese de Ferrara.

           Depois da dura vida do campo para que fora preparado, as normas do seminário urbano e da vida de estudante não eram, de maneira nenhuma, difíceis de cumprir. Estava habituado a uma vida ritmada. Alimentava-se bem, e não passava frio. A mãe estava abrigada e satisfeita, e não escondia que preferia mil vezes a tranquilidade de ter um filho na vida clerical, a ter um bando de netos barulhentos na cozinha de outra mulher. A ambição fez de Ludovico um bom aluno. Aprendeu rapidamente que, para um homem que aspirava a subir na hierarquia da Igreja, os melhores atributos eram uma teologia ortodoxa, uma sólida compreensão da lei canónica e uma aceitação instantânea de toda e qualquer norma de autoridade - sábia, tola ou apenas oportuna...

            Todos os relatórios a seu respeito eram unânimes. Era de bom estofo eclesiástico. Não era de uma grande profundidade espiritual, mas tinha, como dizia o seu reitor, animam naturaliter rectam, um espírito congenitamente recto.

            Recompensava os que tinham tido uma juventude igual à sua; isto, à medida em que ia subindo de coadjutor eclesiástico a monsignore, a bispo sufragado, a secretário da congregação para a Doutrina da Fé, primeiro sob o formidável Leone e depois sob o punho de ferro do alemão Jozef Lorenz, que o levou, lenta mas firmemente, até à sua candidatura à sub-prefeitura.

            Fora o Pontífice ucraniano Cirilo I que o nomeara e lhe entregara o solidéu vermelho correspondente ao cargo. Cirilo, que nos primeiros anos do seu reinado tinha sido considerado um inovador e apaixonado reformador, tinha-se tornado mais tarde um viciado em viagens, totalmente entregue ao seu papel público de Pastor Universal, fazendo tilintar as Chaves de Pedro por onde quer que lhe fosse dada autorização para aterrar. Mas, enquanto viajava, as cabalas da Cúria tomaram o controlo da administração da Igreja, e a sua vida interior, o seu envolvimento nos novos dilemas da experiência humana, definharam à míngua de interlocutores corajosos.

            Quando se pôs a questão do seu sucessor, Ludovico Gadda foi incluído entre ospapabili - um possível candidato à eleição. No entanto, quando Cirilo morreu num voo de Roma para Buenos Aires, o homem escolhido para lhe suceder foi um francês, Jean Marie Barette, que adoptou o nome de Gregório XVII.

            Este Gregório era um liberal, que achou pouco meritórias as práticas de vigilância, censura e silêncio forçado, que o cardeal Gadda tinha reinstituído na Congregação para a Doutrina da Fé. Assim, propô-lo para prefeito da Congregação de Bispos, sabendo que os bispos eram todos gente crescida e perfeitamente capazes de tomarem conta de si mesmos.

            Porém, Ludovico Gadda, o sempre obediente servidor do sistema, manobrou hábil e discretamente e conseguiu arranjar um grande número de amigos nas fileiras mais elevadas do Episcopado. E assim, naquela época estranha e insólita em que Gregório XVII jurava ter tido uma revelação íntima da Segunda Vinda e que tinha sido chamado a pregá-la como uma das mais antigas e constantes doutrinas da Cristandade, Gadda conseguiu obter a sua abdicação com a ameaça de um voto do colégio no sentido de o depor, com base em incapacidade mental.

            Encenou tudo de forma tão hábil que, no conclave convocado à pressa que se seguiu, o cardeal Ludovico Gadda foi eleito papa à primeira votação e tomou o nome de Leão XIV. Com um mandato destes, tão rápida e solidamente obtido, nada agora o detinha. Em seis semanas publicara a sua primeira encíclica...Obediente até à morte..., uma fria exortação à disciplina, à uniformidade, à submissão incontestada aos ditâmes da autoridade papal dentro da Igreja.

            A imprensa, e uma grande fatia do clero e dos leigos, ficaram abismadas com o seu tom reaccionário, a memória de tempestades antigas, o cheiro de velhas fogueiras. A tendência geral foi a de a ignorar; mas isso era muito mais difícil do que parecia. Leão XIV tinha passado uma vida inteira a aprender como funcionava a máquina da Igreja, e manipulava todos os mecanismos como um torno para pressionar os recalcitrantes, quer do clero quer do laicado.

            Tal um intrépido general, calculara as perdas com antecedência e, se bem que para muita gente elas parecessem espantosas, estava preparado para as justificar pelo resultado final: menos clérigos, congregações mais pequenas, mas todos abrasados pelo zelo da redenção e da reforma.

 

            Foi a ilusão pós-Tridentina. Reagrupar os partidários, definir os indecisos, afastar os opositores pela excomunhão; por fim, com a graça de Deus, os escolhidos converteriam os apóstatas pela oração e o exemplo. Em vez disso, cada vez mais gente honesta prosseguiu na sua vida honesta, num cisma silencioso de indiferença para com este narigudo metediço, que ainda acreditava que podia governar por fiat (1) as consciências de um bilião de almas espalhadas por todo o planeta em rotação.

            Mas Ludovico Gadda, o camponês de Mirandola, era um autêntico conservador.Sempre acreditara que, se se procede bem, se tem razão - e se se procede mal, mas de boa fé, cabe a Deus encarregar-se das consequências.

[1 Em latim no original: faça-se (NT)]

 

            E agora, de um só golpe, via-se privado destas certezas que lhe davam alento. Podia morrer sem terminar a tarefa. Podia sobreviver, sem no entanto estar em condições de a completar.

            Ao diabo com estes pensamentos mórbidos! Deus disporia as coisas , a Seu tempo e feitio. O Seu servo não ia, não podia, ficar sentado a meditar. Havia coisas a fazer. Trabalho e oração são o mesmo. Sempre tinha procurado ajuda na acção, muito mais do que na contemplação. Carregou na campainha para chamar o secretário e mandá-lo reunir os Membros da Cúria, às cinco em ponto, na sala Bórgia.

            A sua alocução à Cúria foi quase bem disposta, mas nem por isso menos concisa.

            - ... O jornal encarregue de participar o que se passa à imprensa mundial, será o Sala Stampa. A declaração será correcta e minuciosa. O Pontífice sofre de uma doença cardíaca que necessita de ser corrigida por uma operação by-pass. Será feita na Clínica Internacional do professor Sérgio Salviati. A operação tem uma grande percentagem de êxito. O prognóstico é positivo. O Pontífice agradece as orações dos fiéis... bem como as dos seus irmãos nesta assembleia.

            “Os boletins médicos serão escritos na Clínica e enviados por fax para o Sala Stampa, para publicação e distribuição. A nossa atitude para com a imprensa será cordial e esclarecedora. As perguntas concernentes às hipóteses de mau sucesso terão respostas absolutamente francas, com o apoio da Clínica.

            “Uma questão que se levantará inevitavelmente... e que tenho a certeza que está no espírito de todos vós, mesmo agora enquanto falo convosco, é se eu ficarei ou não apto, fisica e mentalmente, para levar até ao fim o meu pontificado. É demasiado cedo para fazermos conjecturas; mas daqui a três meses todos saberemos a verdade. Quero apenas participar-vos, como já o fiz por escrito ao deão do Sagrado Colégio, que, visto sermos agora uma Igreja combativa, sou o último dos homens a querer vê-la comandada por um general incompetente. A minha abdicação já está escrita. Faço notar, apenas, que pode ser prematuro e embaraçoso publicá-la neste momento.

            Perante as últimas palavras todos se riram e o aplaudiram. A tensão que se tinha vindo a acumular ao longo do dia desvaneceu-se de repente. Afinal, dava a ideia que o seu irmão provinciano não era tão casmurro como isso. As palavras que se seguiram, advertiram-nos a que não esperassem pela renúncia do Selo Papal de mão beijada.

            - O cirurgião recomenda vivamente que me afaste dos assuntos de Estado e das cerimónias públicas durante mais ou menos três meses. Parece-me sensato seguir o seu conselho e passar um tempo no campo, afastado tanto do Vaticano como de Castel Gandolfo... Ainda não decidi para onde ir, ou até se farei uma ausência tão prolongada, mas, esteja eu muito ou pouco tempo ausente, continuo a ser o Pontífice, e exorto-vos a que continuem diligentemente as políticas que já tínhamos decidido em conjunto. Vão surgir muitas ocasiões... melhor dizendo, exigências diárias... para exercerem o vosso arbítrio e autoridade colegiais, mas a Cadeira de Pedro não fica vaga até eu morrer ou concordar convosco, meus irmãos, a descer dela... Reservo-me o direito de anular quaisquer decisões tomadas na minha ausência, que não estejam em conformidade com os planos de acção que tão arduamente elaborámos.

            Fez-se um silêncio incómodo, quebrado finalmente pelo cardeal Drexel, deão do Sagrado Colégio, de 82 anos de idade, mas ainda de olhar vivo e argumentação vigorosa.

            - Acho que devo chamar a atenção para um facto, Santidade. Faço-o porque os regulamentos não permitem que um homem da minha idade vote em qualquer futura eleição papal. Sua Santidade reserva-se o direito de anular quaisquer decisões tomadas por um membro da Cúria, ou pela Cúria no seu todo, durante a sua ausência. Nenhum de nós, creio eu, tem qualquer problema acerca disso. Mas os membros do Colégio Eleitoral, podem, igualmente, reservar-se o direito de decidir contra a competência de Sua Santidade para continuar em exercício. Parece-me que os critérios aplicados na abdicação de Sua Santidade Gregório XVII deviam ser mutuamente aceites, aqui e agora, como linhas de conduta. Foi, com efeito, Sua Santidade que os definiu quando era o chefe da Congregação dos Bispos.

            Desta vez, o silêncio foi ainda mais longo. Leão XIV estava curvado na cadeira, os olhos focados num qualquer ponto no centro do soalho.

            Drexel era o último homem do mundo sobre quem podia descarregar a sua ira. Era demasiado velho, demasiado sabido, demasiado versado nas subtilezas dos cânones. Fora Drexel quem persuadira Jean Marie Barette a abdicar sem luta nem escândalo, e quem continuava a manter-se em contacto com ele lá no seu secreto exílio no estrangeiro. Fora Drexel quem criticara asperamente a sua proposta à eleição, e que, contudo, quando ela aconteceu, lhe beijara as mãos e o servira como sempre fizera, sem pedir favores, não perdoando nenhum dos erros do seu novo amo mas não deixando que eles interferissem nas suas relações. Drexel não fazia segredo do seu desgosto e da sua raiva no que se referia ao extremismo no governo da Igreja. Tal como o Paulo da antiguidade enfrentara o Pontífice cara a cara, vociferando que ele já cometera um erro gnóstico ao tentar construir um Reino dos Puros, sem ter em conta o resto do rebanho pecador e titubeante dos filhos de Deus.

            Encorajara outros conselheiros Papais, e era muito franco na sua intenção de criar um corpo oposicionista dentro da Cúria-”porque”, como o dissera rudemente ao Pontífice, “Sua Santidade age por vezes como uma mula saloia e não podemos francamente tolerar tal comportamento, nesta época”.

           Mas, por mais firmeza que tivesse na luta, soube fazê-lo sempre discretamente, tal como no caso de Jean Marie Barette. Melhor que ninguém em Roma, sabia quão graves eram as estatísticas que mostravam o afastamento dos crentes, e não queria de forma alguma, nem por palavras nem por actos, alargar o fosso entre o Pontífice e o povo. Então, finalmente, Leão o Bispo, respondeu ao seu irmão bispo.

            - Tanto quanto me lembro, redigi uma minuta das regras que foram revistas e aceites pelo Sacro Colégio antes de serem submetidas a aprovação ao Pontífice em exercício, que concordou com a sua aplicação até mesmo no seu próprio caso... Portanto ninguém duvide de que também me submeterei a elas, se e quando for necessário. E agora, talvez possamos tratar de outros pormenores essenciais...

            Pormenores que eram uma imensidade: comunicações, segurança, protocolos com a República da Itália enquanto o papa residisse fora do território do Vaticano, uma lista dos que podiam ter acesso à clínica enquanto ele estivesse nos cuidados intensivos e em cada etapa da convalescença...

            Até que lá se chegou ao fim. Então, e perante a surpresa de toda a assembleia, o Pontífice fez algo que era a primeira vez que eles ouviam da sua boca. Justificou-se!

            - Tencionava dizer Missa convosco esta noite. Mas não sou capaz. Cheguei à conclusão de que estou no limite das minhas forças. No entanto, não me posso retirar sem vos pedir a todos que me oiçam em confissão, e me absolvam em conjunto. Não me arrependo do que fiz no exercício deste cargo. Tenho é de arrepender-me do que sou... teimoso, cego, arrogante, rápido na ira, lento no perdão. Atingido pela corrupção do poder? Sim. Cobarde? Também, porque tenho muito medo do que me espera quando sair daqui. Sou falho de compaixão, porque desde criança que fui impelido a afastar-me das misérias da condição humana. Todavia, não posso repudiar aquilo em que acredito, que só uma obediência simples como a de uma criança, aos ensinamentos de Nosso Senhor e Salvador, e à luz da Santa Sé, é o único e verdadeiro caminho para a salvação. Se estou equivocado, creiam-me que não é por falta de boa vontade, mas por falta de esclarecimento e compreensão. Assim, na presença de todos, confesso-me e arrependo-me, e peço ao nosso irmão Drexel que me absolva em nome de Deus e de todos vós.

            Penosamente, levantou-se da grande cadeira de talha e ajoelhou perante eles. Drexel aproximou-se e deu-lhe a absolvição ritual:

            - Deinde ego te absolvo a peccatis tuis in nomine Patris etFilii et Spiritus Sancti...

            - E a penitência? - perguntou Leão, o Pontífice.

            - Nossa, nenhuma. Vai passar por um grande sofrimento. Desejamos-lhe coragem para o aguentar. - Drexel estendeu-lhe a mão, para o ajudar a pôr-se de pé, e por entre um silêncio gélido conduziu-o para fora da sala.

            Enquanto os cardeais da Cúria se iam dispersando pela noite cálida de Roma, MacAndrew, o escocês da Propaganda Fide (1) dava um giro com Agostini, da Secretaria de Estado. Juntos, eram uma metáfora quase perfeita da natureza da Igreja.

[1 Em latim no original: Propagação da Fé (NT)]

            A Congregação de MacAndrew estava encarregue da evangelização das nações, da propagação da fé entre os pagãos e da manutenção das missões. O trabalho de Agostini era criar e manter as relações políticas que possibilitavam tais tarefas. MacAndrew exclamou, no seu modo seco e cheio de humor:

            - Esta agora! Eis algo a que não assistíamos desde os tempos de seminário! Confissão pública, o reitor de joelhos perante a comunidade. Que pensa disto?

            Agostini, sempre diplomata, encolheu eloquentemente os ombros e citou do Dies Irae (2): “Timor mortis conturbat me!” (3). Está assustado. É natural. Sabe que pode morrer durante a operação, mas também sabe que se não for operado morre de certeza.

[2 Em latim no original: Dia da Ira, do Julgamento Final (NT)]

[3 Em latim no original: O medo da morte perturba-me (NT)]

            - Fiquei com a sensação - disse MacAndrew deliberadamente - de que ele estava a fazer as contas e encontrou um saldo negativo.

            - Todos sabemos que há um saldo negativo. - O tom de Agostini era sombrio.

            - Vocês na Propaganda Fide estão em condições de saber como é catastrófico. As congregações são cada vez mais pequenas, cada vez há menos candidatos ao sacerdócio, às missões e à vida religiosa: os sítios onde a fé é mais forte, parecem ser os mais afastados da nossa jurisdição ou da nossa influência! É bem possível que o nosso amo e senhor se comece a aperceber de que é responsável por, pelo menos, uma parte desta trapalhada.

            - Todos somos responsáveis. - MacAndrew pôs ênfase na frase. - Você, eu, todo o nosso ilustre bando. Somos os cardeais, os homens-chave da organização. Somos também bispos, revestidos de autoridade Apostólica por direito próprio. E no entanto, veja como nos comportámos hoje. Como nos comportamos todos os dias! Parecemos barões feudais lidando com o seu suserano. Pior ainda, às vezes penso que somos um bando de eunucos da corte. Aceitamos o pálio e o solidéu vermelho e a partir daí damos crédito a tudo o que ele nos transmite como se fosse a voz de Deus, do mais santo dos santos. Assistimos às suas tentativas para fazer recuar as vagas de acontecimentos milenários, para silenciar por fiat os sussurros da humanidade confusa. Ouvimo-lo falar das questões sexuais e dá-nos a ideia que passou a juventude entre osManiqueus, como Agostinho, e que não conseguiu tirar as ideias porcas da cabeça. Sabemos como tem feito calar teólogos e filósofos que estão a tentar tornar inteligível a redenção cristã, a este nosso universo a ferro e fogo. Mas quantos de nós estamos aptos a dizer-lhe que talvez esteja errado, ou precise de lentes novas, ou esteja a ver a verdade de Deus através de um espelho deformante?

            - Acha que ele nos dava ouvidos, se lho disséssemos?

            - Provavelmente, não... mas teria de lidar connosco como um todo. Actualmente, só precisa de dividir para reinar. Funciona nessa base. E assim, cada um de nós tem de encontrar uma maneira própria de lidar com ele. Posso citar-lhas: manipulação, subterfúgios, lisonja, diplomacias paralelas... Drexel parece-me ser o único capaz de estar em pé de igualdade com ele e fazer-lhe frente.

            - Talvez - sugeriu Agostini suavemente - Drexel seja, de todos nós, o que tem menos a perder. O que ele mais gostaria de fazer era retirar-se completamente, e viver no campo no meio das suas vinhas. Além disso, enquanto nos mantivermos em exercício e nas graças do Pontífice, podemos fazer alguma coisa. Mas sem uma coisa nem outra, não temos qualquer hipótese.

            - Que belo trecho de casuística - disse MacAndrew tristemente. -Mas não nos absolve das nossas faltas, pois não? Estou a tentar imaginar o que sentiria esta noite, se fosse eu a enfrentar o fio da navalha do Dia do Juízo Final.

            - Sou um diplomata. -Agostini, com muito esforço, lá conseguia uma pontinha de humor envinagrado.-Posso ter... melhor, sou obrigado a ter... heresias que a outros são extremamente condenáveis. Lido não com o perfeito, mas com o possível, o relativamente bom ou o aceitavelmente mau. Não me pedem que forneça definições doutrinárias, mas apenas soluções práticas: qual é o melhor acordo que podemos fazer entre os uniatas e os ortodoxos na Rússia? Por quanto tempo conseguimos manter a nossa precária posição na Síria? Como é que posso desfazer a complicação com os Cristãos Azuis na China? O nosso amo compreende isto. Mantém os moralistas bem afastados do meu molho de bróculos. Mas quando temos de falar destas coisas, ele mesmo é um inquisidor nado e criado. Você está ciente de que estivemos, por várias vezes, muito perto de mais um Sílabo de Erros... Você interroga-se sobre como se sentiria, ou como me sentiria eu. Posso responder por mim. Talvez um servidor desiludido. Talvez um empregado a prazo. Mas pelo menos teria sido eu próprio, sem surpresas. Mas Leão XIV é, nitidamente, um homem dividido em dois. Acabámos agora mesmo de ouvir essa confissão. Que se afirmava nela? Os meus planos de acção são indiscutivelmente correctos, embora eu tenha tantos defeitos, como um coador tem buracos. Terá de ser um absolutista até ao fim. Tem de o ser, se não, não é nada.

            - Então você reza para que aconteça o quê? - MacAndrew mantinha-se cheio de humor. - A rápida recuperação ou a morte feliz?

            - Seja o que for aquilo por que rezemos, temos de estar preparados para o que der e vier: Lázaro regressando da morte, confirmado na visão Beatífica, ou um cadáver que temos de enterrar e um novo candidato que temos de descobrir.

            - Quem foi que recomendou Salviati?

            - Drexel. Teceu-lhe o maior dos elogios.

            - Então, quer o nosso Lázaro viva quer morra, Drexel vai ter uma grande responsabilidade, não vai?

            A Clínica Internacional de Sérgio Salviati era uma propriedade magnífica, cheia de jardins e pinhais, alcandorada na cratera do Lago Nemi.

            Desde a alvorada da história que era um sítio sagrado, dedicado a Diana Caçadora, cujo santuário no bosque escuro estava a cargo de um estranho guardião, a que chamavam o rei dos Bosques. Este rei era um escravo fugitivo, que garantia a sua liberdade desde que matasse o guardião e tomasse posse do santuário. Todos os anos chegava outro assassino, para cometer o crime ritual. O próprio Calígula, o imperador demente, entrava neste jogo horroroso mandando um dos seus jovens escravos para matar o rei em exercício.

            Depois, muito depois, afamília Colonna tomou posse da propriedade e transformou-a numa quinta e casa de veraneio, para fugir ao calor doentio de Roma. Mais tarde foi vendida aos Gaetani, que lhe puseram o nome que ainda hoje conserva, Villa Diana. Durante a segunda guerra mundial, os alemães utilizaram-na como posto de comando, e depois disso o arcebispo de Westminster comprou-a para colónia de férias dos estudantes e corpo docente do Colégio Inglês. No entanto, como as vocações baixaram e os custos de manutenção subiram, foi novamente vendida, desta vez a um consórcio de negociantes de Milão e de Turim, que estavam financiando a fundação de uma moderna clínica de cardiologia, sob a direcção de Sérgio Salviati.

            O local era o ideal para o fim em vista. O palacete do século XVI foi arranjado para residência do pessoal superior e de visitantes profissionais estrangeiros. A clínica propriamente dita, com os seus anexos e o gerador eléctrico auxiliar, ficava situada na parte plana da antiga quinta, e ainda ficou terra suficiente para se plantar legumes e árvores de fruto, e para espaços de lazer e jardins onde os convalescentes podiam praticar os seus exercícios.

            Apoiado pelas maiores companhias da Itália - Fiat, Pirelli, Mon-tecatini, Italcimento, Snia Viscosa - Sérgio Salviati pôde realizar a ambição da sua vida: uma clínica moderna, apetrechada com os melhores equipamentos, com pessoal de renome internacional, cujos graduados estavam a começar a rejuvenescer o sistema hospitalar italiano, arcaico e pouco funcional.

            Aos 43 anos, Sérgio Salviati era já o menino prodígio da medicina italiana a par dos maiores nomes da Inglaterra, resto da Europa e América. Como cirurgião, era frio, preciso, e em caso de crise, firme como uma rocha. Como chefe de equipa e administrador, era franco e bem humorado, sempre pronto a ouvir uma opinião oposta ou uma proposta imaginativa. No entanto, depois de assinados os contratos, não admitia nem negligências nem transigências. A Clínica Internacional era dirigida com a minúcia de uma companhia de aviação e ai de qualquer membro do pessoal que hesitasse num acto rotineiro ou falhasse em dar apoio sorridente e conforto a um doente.

            Quando o Pontífice chegou, a escolta de motos fornecida pela República deu a volta aos portões da Villa Diana, onde um grupo misto de polícias secretas italianas e da vigilanza do Vaticano já estava a postos. Acompanhado apenas pelo seu criado e por um prelado doméstico, o Pontífice foi cumprimentado no átrio pelo administrador da clínica e escoltado imediatamente ao seu quarto, uma sala clara e arejada, que dava para sul, sobre os parques e vinhedos ondulantes e para as vilas do topo da colina, vilas que outrora tinham sido fortalezas.

            O criado tirou da mala a roupa que o papa ia usar no hospital e arrumou o breviário e o pequeno estojo portátil com o necessário para a Missa, que possuía desde o seu primeiro dia de padre. O Pontífice assinou os papéis de admissão e o termo de responsabilidade para a operação. O prelado juntou-lhes um sobrescrito selado com as armas papais, contendo as instruções pessoais do doente para a eventualidade de um colapso imprevisto ou de morte cerebral. Depois disso, o prelado e o criado foram mandados embora e Sua Santidade Leão XIV ficou só; um homem gordo, idoso, de nariz bico de águia, em camisa de noite e chinelos, esperando nervosamente pelo pessoal médico.

           O seu primeiro visitante foi uma mulher, envergando um uniforme hospitalar: bata branca por cima de uma saia e blusa e, para completar a imagem, a papeleta. Calculou que tivesse quarenta e poucos anos, fosse casada - se a aliança não servisse só como defesa - e, pelo seu italiano correcto mas académico, escandinava. Ela cumprimentou-o com um sorriso e um aperto de mão.

            - Bem-vindo a Villa Diana. Sou Tove Lundberg, directora do nosso grupo de conselheiros.

            O Pontífice vacilou perante o cumprimento informal, e depois sorriu à ideia de uma jovem enfermeira aconselhando o Vigário de Cristo sobre o que quer que fosse. Arriscou uma pequena ironia.

            - E vai aconselhar-me sobre quê, signora Lundberg?

            Riu, de uma forma franca e bem disposta, e sentou-se em frente dele.

            - Primeiro, a como se adaptar a este ambiente desconhecido. Segundo, a como lutar contra as sequelas da operação. Cada doente tem necessidades específicas. Cada um desenvolve um conjunto muito próprio de problemas. O meu pessoal e eu, estamos aqui exactamente para ajudar na altura em que eles surjam.

            - Não sei se estou a perceber muito bem.

            - Por exemplo, um homem de negócios jovem tem de repente um problema cardíaco. Fica aterrorizado. Tem mulher e filhos pequenos. Tem dívidas, que em circunstâncias normais podia pagar facilmente. E agora? Está ameaçado por todos os lados... nas suas finanças, na sua vida sexual, na sua auto-estima como marido e pai, na sua eficácia dentro da força de trabalho... Noutro caso, uma viúva mais velha pode estar obcecada pelo medo de se tornar um fardo para a família e por acabar num asilo para pessoas idosas. O que é importante é que cada um destes doentes seja capaz de confessar os medos e compartilhar os problemas. É aí que o meu trabalho começa.

            - E acha que eu também posso vir a ter problemas? - Ainda não tinha deixado de ironizar.

            - Tenho a certeza de que vai tê-los. Podem levar um pouco mais de tempo a vir à superfície, mas, sim, vai tê-los. E agora, podemos começar?

            - Com certeza!

            - Primeiro ponto. O cartão na sua porta identifíca-o apenas como Sr. Ludovico Gadda.

            - Confesso que não tinha reparado.

            - Há uma razão para isso que vou tentar explicar. A seguir à operação, vai ser levado primeiro para a unidade de cuidados intensivos, onde normalmente permanecerá cerca de 48 horas. Depois disso, será transferido para um quarto de duas camas com outro doente que está há mais um ou dois dias em tratamento do que o senhor. Chegámos à conclusão de que, neste período crítico, os factores companhia e mútua preocupação são vitais. Mais tarde, quando começar a andar pelos corredores, vai partilhar as experiências de recuperação com homens e mulheres de todas as idades e condições... Os títulos e honrarias são um impedimento a esta comunicação descontraída. Por isso, dispensamo-los. Isso incomoda-o?

            - Claro que não. Eu vim do povo. Ainda não me esqueci, por completo, da linguagem!

            - Pergunta seguinte. Quem são os seus parentes mais próximos?

            - Tanto a família do meu pai como da minha mãe já não existem. Era filho único. Assim, a minha família é adoptiva... a Igreja, e especificamente a Família Pontifical do Vaticano.

            - Tem alguns amigos íntimos... o que os italianos chamam amigos do peito?

            - Posso saber a razão da pergunta? - Ficou, subitamente, circunspecto e retraído. Ela foi lesta em acalmá-lo.

            - Até mesmo para um homem tão superior como o senhor, haverá momentos de profunda angústia emocional. Sentirá, como nunca sentiu antes, necessidade de companhia, consolo, uma mão para segurar, uma voz de conforto. Gostaria de saber quem devo chamar para junto de si.

            A pergunta, tão simples, mostrava bem quão solitário ele era na realidade, e o preço que tivera de pagar para chegar à alta roda. Os seus tempos de seminário tinham sido vividos à maneira antiga, em que o mais importante era demarcar o indivíduo das relações mundanas. A ambição bem intencionada da mãe tinha funcionado no mesmo sentido. Ao fim e ao cabo, era como matar o nervo de um dente. O que se obtinha, por fim, era como que uma anestesia permanente contra a paixão e o afecto. Como lhe faltavam a coragem e as palavras para poder explicar tudo isto a Tove Lundberg, disse-lhe simplesmente:

            - Não tenho nenhum amigo assim. Nem pensar. A natureza do meu cargo assim o determina.

            - É lamentável.

            - Nunca dei por isso.

            - Mas se necessitar de alguém, espero que me chame. Estou habituada a compartilhar desgostos.

           - Lembrar-me-ei disso. Obrigado. -Agora já não estava a brincar. Sentiu-se, de repente, menos másculo do que desejaria. Tove Lundberg retomou o fio da sua exposição.

            - Tudo o que aqui fazemos é no sentido de aliviar a ansiedade e ajudar os nossos doentes a cooperar, tão calmamente quanto possível, no processo de cura. Não é como nos velhos tempos, em que o cirurgião chefe e o médico chefe estavam equiparados a Deus, e tudo o que o doente tinha a fazer era inclinar a cabeça e deixá-los exercer nele os seus truques mágicos...

            Mais uma vez, bem que podia ter enriquecido o aparte dela. Era esse tipo de Igreja que ele estava a tentar recriar: uma em que o Supremo Pastor era o verdadeiro Médico das Almas, o Cirurgião Geral cortando os membros enfermos. Mas Tove Lundberg já passara adiante.

            - Então, está tudo explicado. Pedimos a sua ajuda porque é um elemento necessário na terapia. Olhe para isto...

            Entregou-lhe o que parecia ser um livro de banda desenhada, no qual o processo de cirurgia de coração aberto era descrito numa série de quadrinhos cheios de cor, numa linguagem acessível a qualquer criança.

            - Devia lê-lo quando tivesse tempo. Se surgirem dúvidas, ponha - as ao cirurgião ou a mim. A ideia do livro fomos buscá-la aos americanos. O título, inventámo-lo nós: Um guia de coração aberto para a cirurgia 'do coração. Acho que vai achá-lo interessante.

            - Tenho a certeza. - Não estava nada convencido, mas tinha de ser bem educado. - Que é que me vai acontecer a seguir?

            - Hoje e amanhã, exames: análise ao sangue e às urinas, electrocardiograma, radiografias ao tórax. Depois disso tudo, toma um purgante, e depois rapam-no da cabeça aos pés.-Riu-se.-Pelo que vejo, é um homem peludo; por isso vai ser um trabalho e tanto. Finalmente, põem-no a dormir com sedativos. Na manhã seguinte, muito cedinho, vão pré-medicá-lo e depois disso não dará por nada, até tudo ter terminado.

            - Parece extremamente simples.

            - E é... para nós. Já passámos por tudo isto centenas de vezes. Sabemos que a percentagem de erro é muito, muito baixa. Mas para si, para qualquer doente, a espera é a parte pior, o conjecturar se se vai ser o “tal” que altera os dados estatísticos. Claro que para um homem religioso como o senhor, tudo se passa provavelmente de um modo muito diferente. Não faço ideia. Eu sou... como é que se diz em italiano?... uma não crente. Vocês não nos ensinam que a fé é um dom? Pois bem, eu sou um daqueles que faltou à distribuição dos prémios. No entanto, não sentimos a falta do que nunca possuímos, não é? Por falar nisto, informo-o de que há capelões para dar assistência a todos os credos. Católicos romanos, ortodoxos, anglicanos, valdesianos, judeus e ultimamente, por cortesia do governo do Egipto, temos um imam que visitará todos os doentes muçulmanos... Nunca percebi por que é que vocês discutem tanto a respeito do mesmo Deus! Disseram-me que houve uma época em que teria sido impossível haver uma tal diversidade de cerimónias religiosas em Roma, porque o Vaticano o não permitia. É verdade?

            - É. -Ele próprio tivera grandes dúvidas a respeito da tolerância religiosa na sociedade moderna; mas até corava se as contasse a esta mulher. Felizmente, ela não insistiu e limitou-se a encolher os ombros.

            - Aqui, pelo menos, não há discussões. Na Villa Diana tentamos agradar a toda a gente. Se quiser o capelão católico, chame a sua enfermeira e ela tratará de o trazer cá. Se quiser meditar, há uma sala sossegada perto da entrada. Está aberta a todas as fés... muito tranquila, muito calma. Se quiser dizer Missa de manhã, pode fazê-lo aqui ou utilizar essa tal sala. Ninguém tem nada com isso.

            - É muito atenciosa, Signora. Não preciso de chamar o capelão. Já recebi os Últimos Ritos... Mas isso não quer dizer que não tenha medo. Tenho. A doença mais grave que tive na vida foi gota. Não estava à espera disto!

            - Bem pode dar graças a Deus. -Havia um tom novo, de autoridade, na sua voz. - É um homem cheio de sorte. Tem milhões de pessoas a preocuparem-se consigo e a rezar por si. Não tem mulher, nem filhos, nem quaisquer dependentes. Assim, tem de se preocupar apenas consigo.

            - E com o Deus, a Quem tenho de prestar contas do meu cargo.

            - Tem medo Dele?

            Perscrutou na cara dela qualquer sinal de troça, mas não encontrou nenhum. No entanto, a sua pergunta exigia uma resposta. Precisou de alguns momentos para a encontrar.

            - Não é de Deus que tenho medo; é do que terei de sofrer para chegar até Ele.

            Olhou para ele durante bastante tempo, em silêncio, e depois admoestou-o gentilmente.

            - Deixe-me sossegá-lo. Em primeiro lugar, somos peritos em aliviar a dor. Não vemos qualquer interesse no sofrimento desnecessário... Em segundo, o seu caso foi discutido em pormenor, ontem à noite, na reunião dos cirurgiões. Todos concordam que o prognóstico é excelente. Como disse o Dr. Salviati, o senhor é rijo como uma velha oliveira. Pode durar mais dez ou vinte anos!

            - É reconfortante saber isso. E a senhora também tem o dom do conforto, Signora Lundberg. Gostei muito que tivesse vindo falar comigo.

            - E vai tentar ter confiança em todos nós?

            Mais uma vez, ficou circunspecto e desconfiado.

            - Por que é que acha que eu não tenho confiança?

            - Porque é um homem poderoso habituado a mandar nos outros e a controlar o seu próprio destino. E aqui não pode fazer isso. Tem de abrir mão do controlo e confiar nas pessoas que o estão a tratar.

            - Parece que já estou rotulado de doente difícil.

            - É um homem público. A imprensa popular nunca foi simpática para consigo.

            - Eu sei. - O seu sorriso era pouco bem disposto. - Sou o malho e a bigorna dos dissidentes e dos pecadores. Os caricaturistas fazem uma ópera cómica completa com este meu horroroso nariz e com a minha queixada tipo quebra-nozes!

            - Tenho a certeza de que não é, nem por sombras, tão ameaçador como eles o pintam.

            - Não se fie nisso, Signora! Quanto mais velho estou, mais feio fico. A única altura em que me vejo ao espelho, é quando me estou a barbear...epor isso, na maior parte dos dias, deixo que seja o meu criado a fazê-lo.

            Nesse momento chegou o almoço: uma refeição simples, de caldo, pasta primavera e fruta fresca. Mirou-a com fastio. Tove Lundberg riu-se e, para sua surpresa, citou as Escrituras.

            - “Alguns demónios só se expulsam pela oração e pelo jejum.” A obesidade é um deles.

            - Julguei que me tinha dito que não era crente.

            - E não sou; mas o meu pai era pastor luterano em Aalund. Assim, tenho um vasto repertório de citações bíblicas. Bom apetite. Até amanhã.

            Quando ela saiu, espalhou, com um ar apático, a comida no prato, comeu uma pêra e uma maçã e deixou o resto. Tove Lundberg tinha-o perturbado. Toda a sua formação-até a obsessiva devoção da mãe pela sua carreira celibatária - tinha sido condicionada pelo desapego às mulheres. Como padre, tinha-se escudado delas com o biombo protector do confessionário e com os protocolos da vida clerical. Como bispo tinha-se acostumado às suas homenagens, e tinha ficado severamente chocado e sido brutalmente repressivo quando alguma Madre Superiora de espírito forte e com tendências modernistas tinha posto em causa as suas ordens ou directivas. Como Pontífice, tinha-se tornado ainda mais distante: a Congregação para os Religiosos tratava dos assuntos dos conventos, e o Pontífice recusava-se terminantemente a encetar quaisquer conversações a respeito da ordenação das mulheres ou dos seus direitos a serem ouvidas nos conselhos superiores da Igreja.

            Contudo, em menos de uma hora, Tove Lundberg, auto-intitulada conselheira, tinha-se tornado mais íntima com ele do que qualquer outra mulher. Tinha-o levado à beira de uma confissão que até aí só confiara ao seu mais secreto diário:

            Um homem feio vê um mundo feio, porque o seu aspecto suscita zombaria e hostilidade. Não pode fugir do mundo, tal como não pode fugir de si próprio. Assim, tenta transformá-lo, esculpir formas de anjo na tosca rocha fundida pela mão do Todo Poderoso. Quando chega a compreender que isto é uma tão grande presunção que toca as raias da blasfémia, é demasiado tarde... Eis o pesadelo que me obceca. Disseram-me, e eu aceitei com total convicção, que o poder - espiritual, temporal e financeiro - era o instrumento necessário para reformar a Igreja, o apoio e a alavanca para desencadear todo o processo. Recordava-me da sabedoria simples do meu pai, enquanto trabalhava na forja lá na quinta: “Se eu não espevitar o fogo com o fole, e não bater com o malho, então os cavalos nunca seriam ferrados, as grades do arado nunca seriam feitas, os torrões nunca seriam revolvidos para o cultivo.

           Conspirei pelo poder, intriguei por ele, esperei por ele. Finalmente, alcancei-o. Fui vigoroso como Tubal Cain na sua forja. Espevitei o fogo do zelo, vibrei o malho da disciplina, com todo o coração. Arei os campos eplantei a semente do Evangelho... Mas as colheitas foram fracas. Ano após ano, foram resvalando para a falência e a fome. O povo de Deus já não me escuta. Os meus irmãos bispos querem que eu me vá embora. Estou mudado, eu também. As fontes da esperança e da caridade estão a secar dentro de mim. Sinto-o. Sei-o. Rogo luz, mas não vejo nenhuma. Tenho 68 anos. Sou o mais absoluto monarca do mundo. Faço e desfaço na terra e no céu. No entanto, sinto-me impotente e à beira do desespero. Che vita sprecata! Que desperdício de vida...

 

            O relatório mais completo e minucioso dos acontecimentos destes dois dias no Vaticano, foi escrito por Nicol Peters, do Times de Londres. A sua fonte oficial era o gabinete de imprensa da Comissão Pontifical para a Comunicação Social. Os seus informadores oficiosos eram desde cardeais da Cúria a funcionários de segunda - e terceira - categoria das Congregações, até aprendizes do Arquivo Privado.

            Confiavam nele, pois nunca tinha traído uma confidência, nunca distorcera um facto, nem ultrapassara a linha invisível que separava o crítico honesto do caçador capcioso de cabeçalhos sensacionalistas. O seu velho mestre, George Faber, deão do Corpo de Imprensa na altura do papa ucraniano Cirilo I, tinha-lhe repetido vezes sem conta:

            - ... Resume-se tudo numa só palavra, Niekr. fiducia... confiança. Não é uma virtude italiana; mas, por Deus, eles respeitam-na quando a vêem. Nunca faça uma promessa que não possa cumprir, nunca falte a uma promessa que fez. É uma sociedade antiga, complicada e por vezes, violenta... Não queremos que nos pese na consciência a morte de um homem, nem sequer o prejuízo da sua carreira... Mais uma coisa. Roma é uma cidade pequena. O escândalo espalha-se como o fogo. O Vaticano é um reino de brinquedo - dois quilómetros quadrados, eis tudo!... mas o seu poderio estende-se a todas as cidades do planeta. O relatório que escreve hoje, atravessará o mundo... e se for um trabalho de trampa, a trampa acabará por lhe vir parar à porta... Primeiro, tem de ter a certeza de que os seus arquivos estão sempre actualizados. A Igreja Romana tem um bilião de aderentes em todo o mundo. Nunca se sabe, mas um dia, um bispo menor, e exilado, pode tornar -se num cardeal in petto! (1) [1 Em latim no original: secretamente (NT)]

 

            Os arquivos de Nicol Peters, armazenados em discos de computador, escondidos atrás de painéis de carvalho no seu escritório, eram tão ciosamente guardados como os Códices na Biblioteca do Vaticano. Continham biografias de todos os prelados superiores em todo o mundo, e uma análise actualizada da influência e importância de cada um nos assuntos da Igreja Romana. Tinha traçado os caminhos oficiais bem como os atalhos sinuosos e obscuros que os levaram quer à proeminência, quer ao esquecimento na organização global. A sua informação acerca dos assuntos financeiros do Vaticano era incomo-damente exacta.

            Sua mulher, Katrina, tinha as suas fontes próprias. Era dona de uma loja elegante na Via Condotti e tinha óptimo ouvido para as bisbilhotices políticas e eclesiásticas. Recebia constantemente no seu apartamento - o último andar de um palazzo do século XVI, na velha Roma. Alista de convidados para as suas recepções, era uma das mais exóticas da cidade. Foi ela quem fez notar ao marido que, embora o boletim de admissão do Pontífice ao hospital fosse invulgarmente franco e optimista, havia uma nítida atmosfera de inquietação, tanto dentro como fora dos muros da Cidade do Vaticano.

            - ... Toda a gente diz a mesma coisa, Nicki. As probabilidades são todas a favor da sua recuperação; mas há graves dúvidas a respeito do seu comportamento posterior. Diz-se que ele já consentiu em abdicar se ficar diminuído; mas diz-se que terá de haver grande pressão para que ele o faça. Duas abdicações de enfiada causariam um escândalo dos diabos.

            - Duvido, Kate. O colégio eleitoral já está preparado para um conclave a curto prazo, em caso de morte ou incapacidade do papa. As regras existem. Gadda escreveu-as quando era cardeal... Mas tens razão. Está tudo em polvorosa. Drexel falou comigo esta tarde... em particular, para não fazer uso disso, a conversa do costume. Perguntou: qual a maneira mais rápida de partir o coração de um actor? E respondeu: deixá-lo representar Hamlet perante um teatro deserto. A seguir fez-me um primoroso discursozinho sobre aquilo que apelidou de Era da Indiferença, e sobre o auditório que se auto-afastou da Igreja.

            - E como é que ele explicou a ausência de auditório?

            - Citou S. Paulo. Conheces o texto... Embora fale pelas línguas dos homens e dos anjos e não tenha caridade... E depois acrescentou o seu próprio comentário: “Resumindo, Nicki, as pessoas voltam-nos as costas, porque acham que nós já não compreendemos ou partilhamos das suas preocupações. Não são escravos a disciplinar. São pessoas livres, nossos irmãos e irmãs; precisam de um toque de compaixão. Quando elegemos este Pontífice, escolhemos um candidato apologista da lei e da ordem, um imperialista papal à moda antiga, para nos sentirmos seguros numa época de dúvida e confusão. Não acreditamos nas pessoas. Recorremos à polícia. Ora bem, temos aquilo em que votámos: um homem férreo, absolutamente inflexível. Mas ficámos sem as pessoas. Perdêmo-las, Nicki, numa vã tentativa de restaurar a noção medieval de uma monarquia papal, suporte dessa misteriosa autoridade, que engloba em si tanta coisa diferente e que é o magisterium. O grande gongo ressoa, mas as pessoas tapam os ouvidos. Não querem trovões. Querem a voz salvadora que diz 'Vinde até mim, todos os que trabalham e estão sobrecarregados... e Eu vos aliviarei'“... Digo-te, Kate, ele estava emocionado. E eu também. É este artigo que estou agora a tentar escrever.

            - Mas isso ainda não esclarece completamente este nervosismo de que estávamos a falar. Nem toda a gente pensa como Drexel. Muitos romanos gostam do actual pontífice. Compreendem-no. Sentem necessidade de uma pessoa como ele.

            - Tal como alguns dos mais velhos sentiam a falta de um Musso-lini!

            - Se pões as coisas nesses termos, de acordo! É a síndroma do Fúhrer, do homem forte e bondoso, com o povo a marchar atrás dele, até à morte ou à glória. Mas sem o povo, o chefe é um espantalho roto com o conteúdo a sair-lhe por todos os lados.

            - É exactamente isso, meu Deus! - Nick Peters ficou, de repente, excitadíssimo. - É esse o tema de que tenho andado à procura. O que sucede ao Pontífice que aliena a Igreja? E não estou a falar apenas da parte histórica, não obstante isso constituir só por si um ensaio, uma crónica sangrenta e violenta de pontífices cercados, exilados, perseguidos como cães por assassinos. Estou a falar do homem em si, no momento em que se apercebe de que não passa de um espantalho, açoitado pelas tempestades, com os corvos a arrancarem com os bicos a palha das suas orelhas. Claro que se ele não se apercebe, não há história, mas se ele se apercebe... e está sob a mira de uma espingarda como Leão XIV o está hoje... O que sucede? Toda a sua filosofia de vida foi uma monstruosidade?

            - Há uma maneira de o saberes, Nicki.

            - Ah, sim, e qual é?

            - Convida o cirurgião dele para jantar.

            - E achas que ele vem?

            - Quantas recusas tive em dez anos? Eu trago-o cá; confia em mim.

            - Que sabes a respeito dele?

            - Disseram-me que é divorciado, sem filhos, é judeu e sionista ferrenho!

            - Isso é que são notícias! Tens a certeza de que são verdadeiras?

            - Soube-o através de uma fonte normalmente fidedigna, aprin-cipessa Borromini. Salviati é um apelido veneziano, e parece que ele nasceu de uma das antigas famílias sefarditas que negociavam fora do gueto de Veneza e iam até às colónias adriáticas da república. Há também ligações com a Suíça e o distrito de Friuli, porque a Borromini conheceu-o em S. Moritz e ele fala o dialecto de Graubunden e o veneziano, tão bem como fala o italiano. Diz-se também que é mação, mas daqueles à moda antiga e não destes da Loja P2. Se tudo isto é verdade, é interessante especular sobre quem, no Vaticano, o escolheu e por que razão. Sabemos como são obstinados e sensíveis a toda a questão sionista, já para não falarmos de divórcio e sociedades secretas.

            Nicol Peters abraçou a mulher, beijou-a sonoramente, e rodopiou com ela pelo salone pavimentado a mosaico.

            - Kate, doce Kate! És um espanto. Divorciado, judeu, sionista... que mais?

            - Fanaticamente devotado ao seu trabalho, e... mais uma vez cito a minhaprincipessa... a uma das mulheres dos quadros superiores da clínica.

            - Sabes o nome dela?

            - Não, mas tenho a certeza de que saberei dentro em breve. Mas não vais escrever um artigo escandaloso, pois não?

            - Pelo contrário. Estou a seguir a lógica do Drexel. Leão XIV perdeu as pessoas. Sabê-lo-á? Se sabe, o que sentiu? Como o afectará no futuro?... Vê lá se consegues marcar um jantar com o Salviati... e a namorada, seja ela quem for.

            - Quando?

            - O mais brevemente possível; mas não vou visitar nem convidar ninguém, até sabermos o resultado da operação. Não é coisa de pouca monta, mesmo para Salviati, ter nas mãos a vida do Vigário de Cristo!

 

            Fora um dia recheado de pequenas humilhações. Tinha sido furado para tirar sangue, içado para uma máquina que vomitara em forma de garatujas e linhas ondulantes, a história do seu coração. Tinha sido auscultado, picado, enfiado numa camisa sem costas e ficado de pé, de rabo ao léu, em frente de um aparelho de raios X. Todas as suas perguntas tiveram, como resposta, monossílabos nada esclarecedores.

            Enquanto o levavam numa cadeira de rodas para o quarto, teve uma súbita e muito viva recordação daquelas sessões na Congregação para a Doutrina da Fé, onde um teólogo - de Notre Dame, Tubingen ou Amsterdão - caído em desgraça era infamemente humilhado com acusações que nunca ouvira, por homens que nunca vira, e em que o seu único defensor era um clérigo cujo nome nunca lhe era revelado. Quando sub-prefeito, e mais tarde prefeito da Congregação, Ludovico Gadda nunca reconhecera qualquer necessidade em alterar o método. O objecto da investigação, a figura central da sessão, era, por definição, menos importante que o objecto da discussão: a possível distorção de uma verdade, a fraqueza de um erro, coisas que sendo um mal, tinham de ser extirpadas. Antigamente chamara-se-lhe Congregação da Inquisição Universal, depois Santo Ofício e agora tinha o nome, aparentemente inócuo, de Doutrina da Fé. Mas as suas atribuições permaneciam as mesmas, definidas nos termos mais explícitos... “todas as questões ligadas à doutrina da fé e aos seus usos e costumes, estudo das novas teorias, a promoção de seminários e conferências sobre essas mesmas teorias, a reprovação daqueles que se tinham mostrado contrários aos princípios da fé, o estudo e a eventual condenação de livros; o Privilégio da Fé, julgamento de crimes contra a fé.”

           E agora era ele, o dono desta antiga mas ainda sinistra máquina, que estava sob a inquisição de enfermeiras sorridentes, de técnicos de rostos inexpressivos e de gente debruçada sobre as notas que ia escrevendo. Eram bem-educados, tal qual o eram os prelados da Piazza del Sant'Ufficio. Eram desprendidos, impessoais. Não se preocupavam minimamente com o que ele era ou com o que sentia. Estavam apenas interessados nas doenças que habitavam a sua carcaça. Não lhe davam qualquer opinião. Eram, tal como os seus próprios inquisidores, adeptos da Disciplina Arcani, a Disciplina do Segredo, um culto de sussurros e mistérios.

            Ao anoitecer estava desgastado e de mau génio. O jantar não lhe agradou mais que o almoço. As paredes do quarto oprimiam-no como as de uma cela monástica. Teria gostado de passear no corredor com os outros pacientes, mas intimidou-se subitamente por causa do seu corpo volumoso e das roupas a que não estava habituado, camisa de noite e pijama. Em vez disso, sentou-se numa cadeira, pegou no breviário e começou a ler as vésperas e as completas. O ritmo familiar dos salmos embalou-o, como sempre acontecia, num alívio calmo mas sem alegria, próximo das lágrimas que não se lembrava de ter chorado desde criança.

            Faz nascer em mim um coração puro, ó Deus E renova um espírito recto dentro de mim Não me afastes da Tua presença E não leves de mim o Teu Espírito Santo Restaura em mim a alegria da salvação...

            A estrofe hipnotizou-o. Os seus olhos não conseguiam ver para além dela. Os lábios recusaram-se a pronunciar a anti-estrofe...

            A alegria fora a experiência que faltara na sua vida. Tinha conhecido a felicidade, a satisfação, o triunfo; mas a alegria, essa singular sublimação do prazer, essa vibração próxima do êxtase, em que cada fibra do ser é como uma corda de violino tangendo sob o arco do músico genial, a alegria tinha-lhe sempre escapado. Nunca tivera oportunidade de se apaixonar. Tinha-se autoprivado, por um voto perpétuo, da experiência do contacto carnal com uma mulher. Até mesmo na sua vida espiritual, as torturas e exaltações dos místicos não estavam ao seu alcance. Catarina de Siena, o Irmãozinho Francisco, S. João da Cruz, Santa Teresa de Ávila, eram estranhos ao seu modo de pensar. Os modelos-padrão que escolhera foram os grandes pragmatistas, os fazedores de acontecimentos - Benedito, Inácio de Loyola, Gregório o Grande, Basílio de Cesareia. O seu primeiro director espiritual explicou-lhe os graus da comunhão meditativa com Deus: o purificador, o iluminativo e o unitivo.

            Depois abanou a cabeça e, dando uma palmadinha nas costas do seu discípulo, mandou-o embora: “Mas para ti, Ludovico, meu rapaz, será sempre, do princípio ao fim, pelo modo purificador. Não te impacientes com isso. Nasceste para trabalhar com o arado. Continua a trabalhar perseverantemente, esquerda-direita, esquerda-direita, até que Deus decida Ele Mesmo erguer-te do sulco do arado. Se Ele não o fizer, dá graças na mesma. A alegria da luz, a maravilha do casamento místico com Deus, traz tanto o sofrimento como o êxtase. Não se pode ter um sem o outro...” Era estranho que agora, aos 68 anos, se sentisse subitamente tão despojado e defraudado. O resto do salmo fez ecoar a sua tristeza:

            Protege-me coma presença do Teu espírito

            Pois não desejas sacrifício para além das minhas forças.

            Não te comprazes em ofertas ardentes

            Um espírito perturbado e um coração desfeito e contrito São um sacrifício piedoso que não desprezas...

            Tinha justamente acabado a última oração, quando Salviati entrou com um tipo magro de andar bamboleante e de cinquenta e muitos anos, que apresentou como sendo James Morrison do Real Colégio de Cirurgiões de Londres. Morrison encarou-o com um ar enrugado e afável, e piscou-lhe os olhos castanhos e alegres, vagamente trocistas. Para surpresa do Pontífice, falava um italiano aceitável. Explicou, com um sorriso:

            - Tenho o que se pode chamar ligações italianas. Um dos meus antepassados chefiou um bando de mercenários escoceses, ao serviço de Pio II. Os Morrisons, que agora se auto-intitulam Morrissone, fabricam sapatos de luxo em Varese.

            Leão XIV deu uma gargalhada curta e aguda e, encolhendo os ombros, respondeu à piada com uma citação latina:

            - Têmpora mutantur... Os tempos mudam, e nós com eles. Obrigado por ter vindo, Sr. Morrison. Posso pedir-lhe a sua opinião sobre o meu caso?

            - Não difere em nada da do Dr. Salviati. De facto, devo dizer que não tenho nada de novo a acrescentar. Saio caro e sou supérfluo.

 

            - Pelo contrário, James, você é a minha apólice, médica e política.

            Morrison tirou o livro de banda desenhada da mesa-de-cabeceira e perguntou:

            - Leu isto, Santidade?

            - Li. Mas não posso dizer que tenha achado graça.

            Morrison riu-se.

            - Concordo consigo. É uma boa tentativa; mas as doenças cardíacas não são propriamente um tema que faça rir. Há alguma coisa especial que me quisesse perguntar?

            - Quanto tempo vou ficar no hospital?

            - Isso é do pelouro do Dr. Salviati. Mas o tempo normal é de cerca de duas semanas.

            - E a seguir?

            - Seis a oito semanas de convalescença, para dar tempo a que os ossos das suas costelas unam de novo. Sabe, é que temos de cortar o esterno e depois voltar a cosê-lo com arame. Há um certo desconforto associado a esta etapa da convalescença, mas que é bastante controlável. A recuperação da anestesia também leva o seu tempo. Os traumas físicos e psíquicos são grandes, mas, graças a Deus, os tratamentos são praticamente infalíveis. E intimamente, como se sente?

            - Assustado.

            - É normal. Que mais?

            - Perturbado.

            - Com quê, em especial?

            - Coisas feitas, coisas por fazer.

            - Também é normal.

            - A sua conselheira veio ver-me esta tarde. - Falava agora com Salviati.

            - A Tove Lundberg? Eu sei. Li esta tarde o primeiro relatório dela.

            - Relatório?

            Salviati riu-se.

            - Por que é que está tão chocado? Tove Lundberg é uma profissional competentíssima. É doutorada em Ciências do Comportamento e Medicina Psiquiátrica. A informação dela é vital para os nossos tratamentos pós-operatórios.

            - E que diz ela a meu respeito?

            Salviati ponderou a pergunta durante uns momentos, e depois deu uma resposta fria e lógica.

            - Ela dá relevo a dois problemas. O primeiro é que um homem como o senhor, investido de enorme autoridade, dificilmente se resigna à dependência que a doença traz com ela. Isso não é novidade nenhuma para nós. Já cá tivemos príncipes árabes, cujo poder tribal é tão absoluto como o seu. Têm exactamente o mesmo problema. Mas não o reprimem. Bramam, protestam, fazem cenas. Bene! (1) Sabemos lidar com isso. Mas o senhor, segundo o relatório... e os meus próprios contactos consigo confirmam-no... tem um segundo problema. Vai reprimir-se, aguentar, sofrer em silêncio, tudo isso fruto da sua disciplina clerical e da sua concepção do comportamento que deve ter o Supremo Pontífice da Igreja Romana. Vai também, consciente ou inconscientemente, reagir mal a ordens dadas por mulheres. O que não vai ajudar à sua recuperação, e até pelo contrário a pode atrasar. Para usar uma figura de retórica, o senhor não é feito de aço com características elásticas, forjado, temperado e flexível. O senhor é de ferro moldado. É forte, claro; mas não é flexível. É rígido, vulnerável aos choques. Mas... - encolheu os ombros e estendeu as mãos num gesto de desdém - estamos habituados também a isso. Havemos de saber lidar consigo.

[1 Em italiano no texto: bem (NT)]

 

            - Mas - perguntou enfaticamente Leão, o Pontífice -, por que é que se há-de preocupar? Arranja a canalização, guarda as ferramentas e parte para outra!

            James Morrison teve um sorriso astuto tipicamente escocês, e disse:

            - Nunca se meta com a Igreja, Sérgio! Há séculos que ela brinca ao jogo das palavras!

            - Eu sei - disse Salviati asperamente. - Desde os tempos em que Isidore escreveu as suas primeiras falsificações e Gratian fez delas lei. -Ao Pontífice, respondeu mais suavemente.-Por que me preocupo? Porque sou mais do que um canalizador. Sou um homem que cura. Depois da operação, começa outra tarefa. Não nos limitamos a ensiná-lo a viver com o que aconteceu. Temos de ensiná-lo a viver de modo a que não volte a acontecer. Esperamos também tirar do seu caso conhecimentos que possamos aplicar a outros. Isto é uma instituição de pesquisa e ensino. O senhor também cá pode aprender muita coisa, a seu respeito e a respeito das outras pessoas.

            Neste momento, o aparelho avisador de Salviati emitiu uma série de sinais agudos e rápidos. Franziu as sobrancelhas e voltou-se para Morrison.

            - Temos uma emergência. Paragem cardíaca. Venha comigo, James. Com sua licença, Santidade!

            Saíram rapidamente, deixando o Pontífice às voltas com mais um comentário irónico sobre a sua própria impotência e irrelevância, em situações de vida e de morte do comum dos mortais.

            Fora esta ironia que o vinha perturbando cada vez mais nos últimos meses, enquanto tentava, primeiro alterar, e depois compreender, o crescente afastamento entre si e a Assembleia Cristã. As razões eram variadas e complexas; mas na sua maior parte, estavam ligadas ao desenvolvimento da educação popular e à rapidez e poder das comunicações modernas: imprensa, rádio, televisão e disseminação da informação por satélite.

            A história já não era o domínio dos eruditos, esquadrinhando em bibliotecas poeirentas. Era revivida todos os dias, em forma de ficção ou de documentário nos ecrãs da televisão. Era invocada em debates televisivos como um paradigma do presente, um aviso para o futuro. Mexia com as águas turvas da memória tribal, fazendo recordar velhos fantasmas e o fedor de antigos campos de batalha.

            Já não era possível tornar a escrever a história - com os factos mais que demonstrados pela demasiada ficção. Não era possível pôr estuque sobre os desenhos esboçados nas velhas pedras. O estuque desfazia-se em flocos ou esboroava-se sob as leves batidas dos martelos dos arqueólogos.

            Ele próprio tinha escrito duas encíclicas: uma sobre o aborto, a outra sobre a fertilização in vitro. Nas duas, as palavras eram da sua autoria; em ambas tinha insistido com sinceridade absoluta e eloquência pouco vulgar na santidade e no valor da vida humana. E mesmo quando as escrevia, os demónios cabriolantes do passado troçavam da sua nobre retórica.

            Inocêncio III tinha reclamado o domínio soberano de vida e morte sobre todos os Cristãos. Tinha decretado que a mera recusa em prestar juramento era um crime passível de condenação à morte. Inocêncio IV tinha ordenado o uso da tortura pelos seus inquisidores. Benedito XI tinha declarado aos inquisidores que a utilizassem absolvidos de culpa e de castigo... Que respeito pela vida existia na loucura dos julgamentos sobre bruxaria, na carnificina das Cruzadas contra os Cátaros, na perseguição aos judeus ao longo dos séculos? Os massacres de Montsegur e Constantinopla eram ainda recordados, como os de Belsen e Auschwitz. As dívidas por pagar permaneciam assentes nos livros, acumulando juros.

            Já não bastava afirmar cruamente que esses horrores pertenciam a outros tempos, cometidos por homens primitivos e bárbaros. Os actos executavam-se sob o mesmo magisterium (1) que ele exercia. Justificavam-se com a mesma lógica em que ele tinha sido educado. Não podia confirmar a sua integridade sem admitir que essa lógica era defeituosa, que os homens que o tinham antecedido tinham errado.

[1 Em latim no original: cargo (NT)]

 

            Mas a prática romana há muito que tinha determinado que nenhum papa se devia retractar nem tentar explicar os erros dos seus antecessores. Recomendava-se o silêncio como o remédio mais eficaz - silêncio, segredo e a incrível tolerância dos crentes, cuja necessidade de fé era maior do que o desagrado pelos seus sacerdotes sem fé. Mas a sua tolerância estava a diminuir, e a sua fé era dolorosamente posta à prova pelas omissões e falsas aparências dos seus intérpretes oficiais. Para eles, era agora a única oportunidade de salvação.

            Aúnica esperança de alívio era uma sublime ilusão; uma amnistia universal, um único acto de purificação e arrependimento, universalmente confirmado. Mas se o homem que a si mesmo se chamava de Vigário de Cristo não podia planear uma penitência pública, quem mais se atreveria a sonhar com isso?

            Décadas atrás, o bom papa João tinha reconhecido os erros e tiranias do passado. Tinha reunido um grande Concílio, para esclarecer as mentes dos Povos de Deus e deixar o sopro do Espírito Santo passar sobre a assembleia. Por um breve momento, houve uma vaga de esperança e caridade, uma mensagem de paz para as nações em guerra. Depois a esperança diminuiu e a caridade arrefeceu, e Ludovico Gadda chegou ao poder na maré de desconfiança e medo que se seguiu. Viu-se pela primeira vez como o estabilizador, o grande restaurador, o homem que iria tornar a trazer a unidade a uma comunidade cansada e dividida por uma busca incessante de coisas novas.

            Mas não foi isso que aconteceu. Na privacidade da sua própria consciência, neste momento de íntimo encontro com a Irmã Morte, tinha de admitir a derrota e o falhanço. Se não conseguisse acabar com o cada vez maior distanciamento entre o Pontífice e o povo, então não teria apenas desperdiçado a sua vida, mas teria deixado desperdiçar a Cidade de Deus.

            Olhou para o relógio. Eram só oito e meia. Desejando ser poupado à humilhação da sua doença, tinha recusado todas as visitas nesta sua primeira noite na clínica. Agora, arrependia-se disso. Precisava de companhia, como um homem sedento precisa de água. Para Ludovico Gadda, chamado Leão XIV, Bispo de Roma, Patriarca do Ocidente, Sucessor do Príncipe dos Apóstolos, a noite prometia ser longa e sem repouso.

 

            Aos 80 anos de idade, Anton, cardeal Drexel, tinha dois segredos ciosamente guardados. O primeiro, era a sua correspondência com Jean Marie Barette, anteriormente papa Gregório XVIII, a viver agora num retiro secreto nos Alpes, no sul da Alemanha. O segundo, a menina dos olhos da sua velhice, uma pequena herdade nas colinas Alban, a uns quinze minutos de automóvel de Villa Diana.

            Tinha-a comprado muitos anos antes a Valério, cardeal Rinaldi, que fora camerlengo ao tempo da eleição de Cirilo I. A compra processara-se em termos de pura benevolência. Valério Rinaldi tinha sido um príncipe papal à moda antiga - um erudito, um humanista, um céptico, um homem de muita bondade e muito humor. Drexel, recém-nomeado cardeal e transferido para Roma, tinha invejado quer o seu estilo de vida, quer a perícia com que soubera navegar nas águas agitadas e cheias de escolhos da vida curial. Rinaldi fizera um generoso negócio com ele, e iniciou-se com gosto e habilidade na sua nova vida de cavalheiro anónimo e de idade madura retirado no campo.

            E então, aconteceu algo de extraordinário. Aos 70 anos, Anton, cardeal Drexel, deão do Sagrado Colégio, cardeal bispo de Óstia, apaixonou-se perdidamente.

            Aconteceu de uma forma muito simples. Num quente dia de Primavera, vestido com roupas de campo, camisa aos quadrados, calças amarradas com um cordel e botas cardadas, fez os cinco quilómetros até Frascati, para tratar da venda do seu vinho a uma cantina local. As árvores do pomar estavam em flor, a relva nova chegava aos tornozelos e nasciam nas videiras as primeiras gavinhas. Apesar da sua idade, sentia-se ágil e flexível e capaz de caminhar até onde quer que a estrada o levasse.

            Sempre gostara muito da velha cidade, com a sua catedral barroca, o seu palácio em ruínas e as adegas escuras e cavernosas nas ruelas secundárias.

            Há já muito tempo, tinha sido a sede episcopal de Sua Alteza Sereníssima, Henrique Benedito Maria Clemente, cardeal duque de York, último dos Stuarts, que se autoproclamara um dia Henrique IX de Inglaterra. Era agora uma próspera estância de turismo, cheia de fins-de-semana horrorosos, repletos de veículos motorizados e de fumos de tubos de escape. Mas nas vielas pavimentadas com pedras redondas, permaneciam o encanto do passado e as maneiras à moda antiga das pessoas do campo.

            O destino de Drexel era uma cave funda, talhada num tufo de rocha, onde grandes tonéis de carvalho velho se agrupavam encostados às paredes, e onde os circunspectos clientes e os compradores se sentavam a compridas mesas de refeitório, com garrafas poeirentas e travessas de azeitonas verdes postas à sua frente. O padrone (1), que conhecia Drexel apenas como il Tedesco - o velho alemão -, discutiu um bocado o preço e o prazo de entrega, e depois lá concordou em aceitar uma amostra à consignação e abriu uma garrafa do seu melhor vintage para selar o negócio.

[1 Em italiano no original: patrão (NT)]

 

            Um pouco depois, o padrone deixou-o para atender outro cliente. Drexel sentou-se descontraidamente à meia-luz, olhando para a pequena passagem de pessoas no pavimento solarengo, frente à entrada. De repente, sentiu um puxão na perna das calças e ouviu um estranho murmúrio, como de água saindo rapidamente de uma pipa. Quando olhou para baixo, viu uma cascata de caracóis loiros, uma garota com uma carinha de anjo, e uma confusão de braços e pernas de aranhiço que pareciam não ter nada a ver com o corpinho franzino. A voz também estava descontrolada, mas a boca parecia estar a tentar formar sons com uma certa sequência...

            “Ma-No-No, Ma-No-No...”

            Drexel puxou a criança para cima da mesa, de modo a que se sentasse de frente para ele. As suas mãos muito pequeninas, de saguim, macias como seda, apalparam-lhe a cara e o cabelo. Drexel falou-lhe com doçura.

            - Olá, pequenina! Como te chamas? Moras aqui perto? Onde está a mamã?

            Mas tudo o que obteve por resposta foi o torção doloroso da boca e o som murmurante da garganta pequenina, “Ma-No-No, Ma-No-No”. E no entanto, não estava assustada. Os olhos sorriam para ele, e havia neles, ou parecia haver, um brilho de inteligência. O padrone voltou. Conhecia a criança de vista. Já a tinha visto antes, umas vezes com a mãe, outras com uma ama. Vinham às compras a Frascati. Não moravam na cidade, mas talvez numa das villas próximas, no campo. Não sabia o nome delas, mas a mãe parecia estrangeira. Era uma bionda (1), tal como a miúda. Abanou tristemente a cabeça.

[1 Em italiano no original: loira (NT)]

 

            - Pobre migalha de gente. Somos levados a pensar que Deus devia estar meio a dormir, quando cometeu erros como este.

            - Achas que és um erro, pequenina? - Drexel acariciou os caracóis loiros. -Tenho a certeza de que sabes falar a língua dos anjos. Eu não sei. Que é que me queres dizer?

            - Tenho quinze netos - disse-lhe o padrone. - Nenhum é deficiente. Posso dar-me por feliz. E o senhor?

            Drexel sorriu e abanou a cabeça.

            - Não tenho filhos. Nem netos.

            - Isso é duro, especialmente para a sua mulher. Uma mulher precisa sempre de ter alguém com quem se preocupar.

            - Não sou casado - disse Drexel.

            - Ah..., então está bem! - O padrone parecia embaraçado. -Se calhar, você é que tem sorte. Afamília empobrece-nos... e quando morremos, caem em cima de nós, ainda quentes, como abutres. Quer que chame a polícia e participe que encontrou esta criança?

            - Talvez a possa levar lá fora e procurar a mãe.

            - Não é boa ideia! - Opadrone foi muito firme neste ponto.-Assim que saia daqui com ela, torna-se suspeito. Rapto, violação. É assim a época em que vivemos. Não o nosso povo local, mas os forestieri, os de fora. Pode ter uma data de maçadas ao tentar provar que não se passou nada de especial. É melhor ficar aqui sentado e deixar-me chamar a polícia.

            - Tem alguma coisa para ela comer ou beber... uma aranciata (1), um biscoito, talvez? Gostas de coisas doces, pequenina?

[1 Em italiano no original: laranjada (NT)]

 

            As mãozitas suaves apalparam-lhe a cara e ela disse “Ma-No-No, Ma-No-No”...

            O padrone trouxe um pires com bolinhos e um copo de laranjada. A criança entornou a bebida, mas Drexel segurou-a e limpou-lhe os lábios com o lenço. Ajudou-a a levar o bolinho até à boca. Ouviu-se uma voz de mulher falar por detrás dele.

            - Sou a mãe. Espero que não lhe tenha dado muita maçada.

            - De modo algum. Estamos a dar-nos lindamente. Como é que ela se chama?

            - Britte...

            - Parece que ela me quer dizer qualquer coisa. Soa assim... Ma, No, No.

            Ela riu-se.

            - É o som mais aproximado de Nonno (2) que ela consegue articular. Acha que o senhor se parece com o avô. E, vendo bem, até parece... É alto e de cabelo branco como o senhor.

[2 Em italiano no original: avô (NT)]

            - Não estava preocupada por não saber dela?

            - Ela não estava perdida. Eu estava do outro lado da rua na salumeria (3). Vi-a vir para aqui. Sabia que não lhe acontecia mal nenhum. Os italianos tratam bem as crianças.

[3 Em italiano no original: charcutaria (NT)]

 

            A miúda mexeu-se desastradamente para tirar outro biscoito. Drexel deu-lho. E perguntou:

            - Qual é o problema dela?

            - Paralisia cerebral. É devida a um defeito das células nervosas no córtex central.

            - Tem cura?

            - No caso dela, há esperanças de melhoras, mas não de cura. Trabalhamos muito com ela para estabelecer a coordenação muscular e uma suficiente linguagem. Felizmente, ela é uma das especiais...

            - Especiais?

            - Apesar da falta de coordenação muscular e da fala praticamente incoerente, é muito inteligente. Algumas vítimas desta doença tendem para a idiotia. A Britte pode vir a ser um génio. Temos é que arranjar maneiras de fugir desta... desta prisão.

 

            - Estou a ser muito mal educado - disse Anton Drexel. - Não se quer sentar e beber um copo de vinho? A Britte ainda não acabou nem a bebida, nem os biscoitos. Chamo-me Anton Drexel.

            - E eu Tove Lundberg...

            E assim começou a paixão entre um velho cardeal da Cúria e uma menina de 6 anos, vítima de paralisia cerebral. O seu encantamento foi instantâneo, o seu empenhamento total. Convidou a mãe e a filha para almoçarem na sua trattoria (1) favorita. Tove Lundberg levou-o a casa de carro, onde ele apresentou a criança ao casal que cuidava dele, ao jardineiro e ao perito em vinhos que lhe fazia os seus. Anunciou que fora oficialmente adoptado como seu nonno, e que daí em diante viria lá passar todos os fins-de-semana.

[1 Em italiano no original: restaurante (NT)]

 

            Se ficaram surpreendidos, não o demonstraram. Sua Eminência tinha o direito de fazer escolhas fora do vulgar... e além disso, nas cidades antigas das colinas, a discrição a respeito dos feitos do clero e da nobreza era tradicional. A menina seria bem-vinda; a signora também, sempre que Sua Eminência as convidasse.

            Mais tarde, no miradouro, olhando o terreno que descia na direcção das cúpulas enevoadas de Roma, trocaram-se confidências enquanto a miúda andava coxeando, toda satisfeita, por entre os canteiros de flores. Tove Lundberg era solteira; o seu parceiro amoroso não fora suficientemente forte para aguentar a tragédia de uma filha ilegítima aleijada. O rompimento foi de qualquer modo menos trágico do que o mal que causou à sua auto-imagem e amor-próprio de mulher. E assim, evitou, por desconfiança, novas ligações, e devotou-se à sua carreira e aos cuidados e educação da miúda. A sua prática como médica ajudou-a. Salviati tinha sido mais que um apoio. Pediu-a em casamento, mas ela ainda não se sentia capaz, talvez nunca mais se sentisse. Viver o dia a dia já era suficiente... Quanto a Sua Eminência, não o tinha como um homem sentimental ou impulsivo. Que teria ele de facto em mente, quando se autopropôs como avô adoptivo? Um pouco menos eloquentemente do que desejaria, Anton, cardeal Drexel, explicava a sua loucura...

            - De acordo com alguns dos mais antigos protocolos do mundo ocidental, sou um príncipe... um príncipe da Santa Igreja Católica e Apostólica Romana. Sou o membro mais velho do Colégio dos Cardeais, prefeito de uma Congregação, membro de Secretariados e Comissões... o tipo acabado do burocrata eclesiástico. Aos 75 anos, vou propor a minha demissão ao Santo Padre. Aceitará, masvai convidar-me a continuar a trabalhar, sine die, para que a Igreja possa usufruir do benefício da minha experiência. Mas quanto mais velho vou ficando, mais sinto que vou deixar este planeta, tal como um floco de neve que desaparece sem deixar rasto, sem uma marca permanente que assinale a minha passagem. O pouco amor que me resta está a secar dentro de mim, como uma noz seca na casca. Gostaria de gastar o que me resta dele com esta criança. Porquê? Deus o sabe! Ela apoderou-se de mim. Pediu para ser o seu nonno. Todas as crianças devem ter dois avôs. Por enquanto só tem um!-Riu-se da sua própria franqueza. - Noutros tempos, teria tido amantes e teria criado os meus próprios filhos a quem teria chamado, por uma questão de decência, sobrinhos e sobrinhas. Tê-los-ia enriquecido à custa dos cofres da Igreja, teria tratado de tudo para que os meus filhos fossem bispos e as minhas filhas casassem com nobres. Não posso fazer isso pela Britte, mas posso proporcionar-lhe todo o exercício e terapia de que precisa. Posso dar-lhe tempo e amor.

            - Estou a pensar - Tove Lundberg tornou-se, subitamente, retraída e pensativa. - Duvido que compreenda aquilo que vou dizer.

            - Posso tentar.

            - O que a Britte precisa é da companhia de crianças iguais a ela, crianças diminuídas, mas muito inteligentes. Precisa da inspiração de professores amorosos e esclarecidos. O instituto que frequenta neste momento é dirigido por freiras italianas. São boas, dedicadas, mas têm a visão latina da vida institucional. São caridosas e cuidadosas por rotina, rotina à moda antiga... O que resulta com crianças mentalmente diminuídas e com tendência a serem dóceis e colaborantes. Mas, para as iguais à Britte, inteligências encarceradas, está longe, muito longe de ser suficiente. Não tenho nem tempo, nem dinheiro, mas o que eu adorava ver ser iniciado era um grupo, aquilo a que os italianos chamam colónia, com pessoal adequado, pessoas que se especializaram na Europa e na América, apoiado por grupos de pais, e se possível, subsidiado pelo Estado e pela Igreja. -Interrompeu-se e encolheu um pouco os ombros, como troçando de si mesma.-Sei que é impossível, mas seria uma maneira de o senhor arranjar uma família tardia.

            - Para isso - disse Anton Drexel -, é precisa mais vida do que a que eu tenho ao meu dispor... Contudo, se Deus me deu uma neta, não vai com certeza negar-me a graça de cumprir os meus deveres para com ela. Vamos dar uma volta. Vou mostrar-lhe o que temos aqui, as vinhas, a quinta. Depois vai escolher o quarto onde você e a Britte vão passar a ficar sempre que nos vierem visitar...Uma colónia, é? Uma colónia de novas inteligências para agraciar este planeta em destruição! Tenho a certeza de que não posso dar-me a esse luxo, mas a ideia é maravilhosa!

 

            E era este, sempre que olhava para trás, o dia que identificava como o início da sua carreira como avô adoptivo de Britte Lundberg e de mais outros dezasseis rapazes e raparigas que, ano após ano, tomaram posse da sua herdade, da maior parte dos seus rendimentos, e do mais feliz recanto da sua vida-pequeno e secreto local, donde se propunha lançar a mais temerária aventura da sua carreira.

 

            Eram dez horas, quando a enfermeira da noite chegou para aconchegar o Pontífice e dar-lhe um sedativo. Já era quase uma da manhã quando caiu num sono desconfortável, assombrado por uma série de sonhos.

            ... Estava à sua secretária no Vaticano, rodeado de dignatários expectantes, dos mais categorizados na Igreja: patriarcas, arcebispos, de todos os ritos e nacionalidades-bizantinos, melquitas, italo-gregos, rutenianos, coptas, búlgaros e caldeus. Estava a escrever um documento que tencionava ler-lhes em voz alta, procurando o seu apoio e endosso. Bruscamente, pareceu ter perdido o controlo dos dedos. A caneta fugiu-lhe da mão. O seu secretário apanhou-a e deu-lha de novo; só que agora era uma pena de ganso demasiado leve para se segurar, que entornava tinta e se movia rabiscando o papel.

            Por qualquer motivo, estava a escrever em grego em vez de latim, porque estava ansioso por dar a impressão aos bizantinos, de que estava aberto ao seu espírito e compreensivo às suas necessidades.

            De repente, teve um bloqueio numa palavra. Só conseguia lembrar-se da primeira letra (Mu). O patriarca de Antióquia chamou-o, delicadamente, à atenção:

            “É sempre mais seguro usar um tradutor cuja língua materna seja o idioma que se quer escrever.”

            O Pontífice acenou numa concordância relutante, mas continuou a procurar a palavra, às apalpadelas por entre as teias de aranha que pareciam ter-lhe invadido a mente.

            A seguir, sem saber como, viu-se na varanda de S. Pedro, a olhar para a Piazza em direcção à villa della Conciliazione, que estava apinhada de pessoas, e à margem do Tibre. Separava nas mãos a proclamação que ia fazer à cidade e ao mundo. Quando olhou para o papel não viu texto nenhum, só a letra grega (Mu) no meio da página. Quando ergueu novamente os olhos, aPiazza e a Rua da Conciliação estavam vazias. Todas as pessoas tinham desaparecido e encontrava-se sozinho na varanda, de bata branca como um velho herético feito palhaço antes de ser queimado.

            Ainda com o papel na mão, viu-se a atravessar a Praça de S. Pedro até à Via del Sant'Ufficio. Parecia ser importante que ouvisse os Consultores da Congregação para a Doutrina da Fé, para obter uma explicação da misteriosa carta. Eram guardiãos vigilantes da verdade antiga, que primeiro se ergueriam para saudar o Vigário de Cristo e depois o iluminariam com a sua sabedoria.

            Não fizeram nada disto. Quando entrou na sala onde os conselheiros estavam reunidos, permaneceram sentados e mudos, enquanto o prefeito apontava para um banco onde se devia sentar, isolado, sob a observação minuciosa e hostil da parte deles. O papel foi-lhe tirado da mão e passado à volta de toda a assembleia. Conforme o iam lendo, cacarejavam e sacudiam a cabeça, emitindo o som Mu com a boca, e em breve a sala se encheu daquele som, qual enxame de abelhas a zunir: Mu... Mu... Mu...

            Tentou gritar, para protestar que estavam a gozar com uma encíclica da maior importância, mas o único som que conseguiu emitir foi Mu... Mu..., até que, muito envergonhado, se calou, fechou os olhos e esperou o veredicto. Da escuridão, uma voz ordenou-lhe:

            - Abra os olhos e leia!

            Quando obedeceu, viu-se outra vez rapaz, numa aula poeirenta, fixando um quadro onde estava escrita a palavra que durante tanto tempo lhe escapara, (metanoia). Percorreu-o uma sensação de enorme alívio. Gritou: “Vêem, era o que eu tentava dizer... arrependimento, uma mudança de sensibilidade, um novo rumo.” Mas ninguém respondeu. A sala estava vazia. Estava só.

            Então a porta abriu-se e ele gelou de terror perante a visão que se lhe deparou: um homem velho, com nariz bico de águia, com rugas de fúria à volta da boca, e olhos negros como vidro vulcânico. Quando o homem avançou para ele, silencioso e ameaçador, gritou, mas o som não saiu. Era como se tivesse um nó corredio à volta do pescoço, cortando o ar e a vida...

            ... A enfermeira da noite e um jovem estagiário ajudaram-no a levantar-se. Enquanto o estagiário arranjava a cama desfeita, a enfer-meiralevou-o à casa de banho, tirou-lhe o pijama encharcado, limpou com uma esponja o suor do seu corpo e depois trouxe-lhe roupa limpa e uma bebida fresca. Quando lhe agradeceu e pediu desculpa pelo incómodo, ela riu-se.

            - A primeira noite no hospital é sempre má. Está cheio de medos com que sonha, por não conseguir falar sobre eles. Os sedativos põem-no a dormir, mas podem perturbar os ritmos normais de descanso e sonho... Agora já está melhor. A sua pulsação está a normalizar. Porque não lê um bocadinho? Vai provavelmente dormitar outra vez...

 

            - Que horas são, por favor?

            - Três da manhã.

            - Já é preciso ter azar, não é?

            - Azar? Não estou a perceber.

            O Pontífice Leão deu uma gargalhada, curta e trémula.

            - Em Mirandola, onde nasci, os camponeses dizem que os sonhos que temos depois da meia-noite são os que se concretizam.

            - Acredita nisso? :

            - Claro que não. Estava a brincar. São tretas de velhas.

            Mas, exactamente no momento em que dizia isto, sabia que estava a fugir ao que sentia. O sonho tinha muito de verdadeiro, e o que ainda o não era, podia bem tomar-se como uma profecia.

            Não conseguia ler. Não conseguia dormir. Sentia-se demasiado árido e vazio para rezar. Assim, acordado, e à pálida luz de silêncio, começou a pensar no seu muito incerto futuro.

            A palavra que tinha perseguido nos sonhos viera-lhe muitas vezes ao pensamento ao longo do dia. Exprimia rigorosamente o que desejava introduzir na Igreja - uma penitência pelos erros do passado, uma mudança para melhor, uma nova abertura aos interesses dos crentes e aos desígnios do Todo-Poderoso. Mas a mudança tinha de passar primeiro por ele, e não conseguia encontrar argumentos suficientemente fortes a que se agarrar durante o processo.

            Acontecia, porém, que tudo na sua vida se encaminhara para a conservação e não para a mudança: a determinação de espírito, a educação, as etapas da sua carreira. Que importância tinha que tantas das reivindicações históricas da Igreja se baseassem em fraudes; que importância tinha que grande parte da legislação canónica fosse injusta, usurpadora e que tão desesperadamente preterisse sempre o indivíduo em favor da instituição; que importância tinha que se afirmassem do púlpito tantas coisas dúbias com carácter de doutrina oficial, quando afinal pouco ou nada tinham a ver com as escrituras ou com a tradição; que importância tinha que as reformas saídas de um grande Concílio continuassem por fazer quatro décadas mais tarde... Que importância tinha, que importância tinha! E era assim que a história permanecia ignorada, os cânones intocáveis, e os ensinamentos dúbios incontestáveis, já que cada geração havia de fazer, como sempre, a sua própria interpretação do paradoxo. Era preferível expulsar os não crentes, silenciar os cépticos e censurar os desobedientes, a que houvesse qualquer sinal de ruptura no inconsútil manto da unidade Romana.

            Nesta linha de pensamento, os teólogos e os filósofos eram um luxo perigoso, os eruditos bíblicos um aborrecimento tendencioso, ainda às voltas com a confirmação de um Jesus histórico, em vez de apresentarem um Jesus Cristo de ontem, de hoje e de sempre. Quanto aos crentes, eram, na melhor das hipóteses, uma família caprichosa, facilmente seduzível pela paixão ou pela novidade.

            Esta atitude autoritária, datava de há muitos séculos, vinha de uma época em que os fiéis eram analfabetos e não críticos, e tudo o que dizia respeito ao tratamento da fé, juntamente com o exercício do poder, era prerrogativa apenas dos letrados, os clérigos, que eram os detentores naturais do conhecimento e da autoridade. Quanto aos extraviados, especuladores e teóricos demasiado arrojados, tratava-se facilmente deles. O erro não tinha direito à existência. O que errava, ou se arrependia ou era lançado à fogueira.

            No entanto, no século XX, em sociedades pós-revolucionárias, pós-conciliares, estas atitudes não tinham cabimento. Eram, no pior dos casos, uma tirania inaceitável, e no melhor um privilégio de classe, que os clérigos, superiores ou inferiores, mal tinham meios de praticar. Os crentes, pelos cabelos com os problemas da vida moderna, tinham a necessidade, o direito e o dever de discordar dos seus pastores, e não menos o direito e o dever de os responsabilizar pelo seu exercício do magistério, porque se a magistratura fosse um exercício autárquico sobre o qual se não pudesse protestar, então caíam rapidamente outra vez nas denúncias secretas, na caça às bruxas, autos de fé e excomunhões automáticas. Os fiéis não iam voltar a aceitar esse estado de coisas. Eram Filhos de Deus, agentes livres cooperando no Seu divino plano. Se se restringisse essa liberdade, não aceitariam, e ausentar-se-iam da assembleia, para aguardar um tempo mais propício ou um pastor mais caritativo.

            Na ténue média luz do quarto do hospital, cujo silêncio era apenas quebrado por um gemido distante, ou pelo som da campainha de um doente, o Pontífice Leão via tudo isto de uma forma muito clara. Por muito amargamente que lamentasse os seus próprios defeitos, não vislumbrava uma maneira simples de os corrigir. Faltava-lhe o tal talento especial que, quer o Bom Papa João, quer Jean Marie Barette tinham possuído: sentido de humor, facilidade em rir de si mesmos e das egrégias loucuras da humanidade. Não existia uma única fotografia de Leão XIV a rir-se. Até mesmo o seu raro sorriso mais parecia uma careta do que uma expressão de alegria.

            No entanto, e em toda a verdade, apenas lhe pertencia uma parte da culpa. O tamanho e o volume total da instituição criavam uma inércia como a de um buraco negro nas galáxias. Uma grande quantidade da energia era sugada por ela. A energia emergente era cada vez menor. O velho lema da cúria “Pensamos em séculos e planeamos para a eternidade”, tinha-se tornado numa maldição.

            A grande árvore da parábola do Evangelho, na qual todas as aves do céu podiam fazer ninho, estava a morrer a partir das extremidades dos seus extensos ramos. O tronco ainda estava sólido, a grande massa de folhas parecia intacta; mas nas extremidades havia rebentos mortos e folhas secas, e a seiva da raiz principal corria cada vez mais lentamente.

            A lenta maldição do centralismo estava a actuar na Igreja, como tinha actuado em todos os impérios desde o de Alexandre. Os britânicos tinham-lhe sucumbido, os russos e os americanos eram os últimos a ser forçados a despojar-se dos seus territórios e esferas de influência. Os sintomas de mal estar eram sempre os mesmos; deslealdade nos progressos externos, desencantamento com a burocracia, alienação e indiferença pela parte do povo e do governo, e um impulso crescente para a reacção e a repressão.

            Em termos religiosos, o númen do papado estava a fenecer à medida que a sua aura de mistério se ia dissipando, pela exposição constante na televisão e na imprensa. O governo por fiat trouxe pouca alegria ao povo em crise, povo que ansiava por compaixão e compreensão do Deus permanente no seu seio. Não rejeitavam o cargo pastoral. Prestavam homenagem ritual ao homem que o desempenhava, mas perguntavam a si mesmos como é que ele intercedia por eles, no duplo mistério da Natureza criativa de Deus e da humanidade confusa. Para o Pontífice Leão, a questão era pessoal e imediata; mas ainda não chegara a nenhuma conclusão, quando o sono voltou. Desta vez, misericordiosamente, não sonhou. Acordou ao raiar do dia, para deparar com Salviati, de pé, ao lado da cama, e a enfermeira da noite um pouco atrás dele. Salviati estava a tomar-lhe o pulso.

            - A enfermeira disse-me que teve uma má noite.

            - Tive pesadelos. No entanto, acabei agora mesmo de dormir umas duas horas de sono descansado. Como está o seu doente?

            - A que doente se refere?

            - O da paragem cardíaca. Você e o Sr. Morrison saíram daqui à pressa ontem à noite.

            - Oh.essa... - Salviati abanou a cabeça. - Perdêmo-la. Já tinha tido dois ataques cardíacos, antes de ma trazerem para eu a ver. O caso dela era sempre uma hipótese remota. Mas triste; deixa marido e dois filhos pequenos... Se percebi bem a história, o marido é um dos seus.

            - Meus?

            - Um padre do clero romano. Segundo consta, apaixonou-se, engravidou a rapariga e abandonou o sacerdócio para casar com ela. Passou os últimos cinco anos a tentar ver a sua situação regularizada pelo Vaticano... o que, pelo que me dizem, não é tão fácil como já foi antes.

            - É verdade - disse o Pontífice Leão. -Não é fácil. A disciplina está mais apertada.

            - Bom, agora não vale a pena pensar nisso. A rapariga morreu. Ele tem duas filhas para criar. Se for esperto, vai tentar arranjar-lhes uma madrasta. E a situação repete-se; não é?

            - Se me der o nome dele, eu talvez possa...

            - Não o aconselho.-Salviati foi deliberadamente extemporâneo. - Sou judeu, por isso não percebo como é que vocês, cristãos, discutem por causa destas coisas; mas o rapaz está muito amargurado e a sua intervenção podia não ser bem recebida.

            - Gostaria na mesma de saber de quem se trata.

            - A sua vida está suficientemente complicada. A partir de amanhã, inicia uma vida reduzida ao mínimo... Comece desde já a dar graças, e deixe que o Todo-Poderoso governe o Seu próprio mundo. Por favor, desaperte o pijama. Quero auscultá-lo. Respire fundo, agora. - Depois de alguns minutos de auscultação, pareceu satisfeito. -Vai conseguir! Vem aí um dia lindo. Devia dar um passeiozinho no jardim, para meter ar puro nos pulmões. Não se esqueça de avisar a enfermeira quando sair. Não se perde, mas gostamos de saber onde estão todos os nossos doentes.

            - Vou seguir o seu conselho. Obrigado... Continuo a querer saber o nome do tal jovem. -Está a sentir-se culpado.-Era mais uma acusação do que uma pergunta.

            - É verdade.

            - Porquê?

            - Você mesmo deu a razão. É um dos meus. Infringiu a lei. Fui êu quem estabeleceu as penalidades em que incorreu. Quando quis voltar, o caminho estava-lhe vedado por regras que eu estabeleci...Queria reconciliar-me com ele, e também ajudá-lo se ele mo consentir.

            - ATove Lundbergvai dar-lhe o nome e a morada dele. Mas hoje, não; só quando eu decidir que está apto a ocupar-se de outros assuntos para além do da sua própria sobrevivência. Fui claro?

            - Muito - disse Leão, o Pontífice. - Gostaria que o meu espírito tivesse metade da lucidez do seu.

            Ao que Sérgio Salviati respondeu com um provérbio:

            - “Quem não quer ser lobo, não lhe veste a pele.”

            - Se quer jogar aos provérbios - disse o Pontífice Leão -, digo-lhe um da minha terra: “É um Inverno duro, quando os lobos se comem uns aos outros.”

            Salviati pareceu recolher-se durante uns momentos nalgum recanto escuro de si mesmo; a seguir, riu-se, um riso estrondoso, profundo e feliz, que durou muito tempo. Por fim, esfregou suavemente os olhos lacrimejantes e dirigiu-se à enfermeira da noite.

            - É uma testemunha da história, minha menina! Anote-a e conte-a aos seus netos. Eis um judeu de Veneza entrando em disputa com o papa de Roma, na sua própria cidade.

            - Anote também isto... - O Pontífice riu-se. - O papa está a ouvir muito atentamente, porque desta vez é o judeu que tem a faca e o queijo na mão! Dele depende' a minha morte ou a minha salvação!

            - Também há um provérbio próprio para essa situação - disse Sérgio Salviati.-”Agarrou um lobo pelas orelhas. Não tem forças para o segurar e não pode largá-lo...”

            Nessa linda manhã de Primavera, havia mais gente agarrada às orelhas de um lobo. A Secretaria de Estado estava inundada de perguntas de todos os cantos do globo, feitas por embaixadores, núncios, arcebispos metropolitanos, cardeais e patriarcas, diplomatas e agências de investigação de várias cores políticas. O mote das perguntas era sempre o mesmo: a que ponto era grave a doença do Pontífice; quais eram as probabilidades da sua recuperação; que aconteceria se...?

            A Secretaria, dirigida por Matteo, cardeal Agostini, conduzia normalmente os seus assuntos com um ar de olímpica indiferença. Os seus funcionários eram uma tribo bem escolhida de poliglotas, que mantinham relações diplomáticas - e não diplomáticas - com todos os países da terra, do Zaire a Tananarife, de Seul a Santo André, do Equador à Alexandria dos coptas. Os seus meios de comunicação iam dos mais modernos aos mais antigos: satélites, emissários da maior confiança, coscuvilhices em festas mundanas. Tinham paixão pelo mistério e talento para a casuística e discrição.

            Nem podiam ser doutro modo, visto que as suas atribuições, definidas pela Constituição Apostólica, eram as mais vastas de toda a organização da Igreja: “ajudar de pronto e de perto (da vicino) o Supremo Pontífice, tanto nos assuntos da Igreja Universal, como nas suas relações com os dicastérios da Cúria Romana.” Dicastérios esses que, como salientavam os cínicos, punham a tarefa de administrar a Cúria ao mesmo nível da preocupação de cuidar de um bilião de almas!

            A palavra dicastérios tinha a sua própria coloração bizantina. Significava um tribunal, e por extensão um ministério ou departamento. Implicava um protocolo complicado, uma intrincada teia de interesses, uma velha subtileza na condução dos assuntos. Assim, quando os diplomatas da Secretaria de Estado lidavam com os seus pares seculares ou com os dicastas da Sagrada Congregação, era-lhes exigido que andassem depressa, fossem ágeis no falar e muito, muito atentos.

            As respostas às perguntas que choviam nos seus gabinetes eram suaves, mas não demasiado suaves. Eles eram, acima de tudo, agentes naluta pelo poder. No momento, eram os porta-vozes da Santa Sé.

 

            Tinham que dar indicações claras de que Roma nunca era apanhada de surpresa. O que não era revelado pelo Espírito Santo, sabiam-no através dos seus requintados serviços de informação.

            Sim, os boletins médicos sobre Sua Santidade podiam e deviam ser levados à letra. O Santo Padre tinha decretado uma política de informação aberta. Não, o Colégio Eleitoral não tinha sido intimado, nem o seria sem que o Camerlengo declarasse que o trono de Pedro estava vago. De facto, a Secretaria desencorajava vivamente quaisquer viagens a Roma de cardeais e arcebispos do estrangeiro. O Santo Padre compreendia e elogiava o seu desejo de oferecer apoio e lealdade, mas, francamente, preferia que tratassem dos assuntos de Deus nos seus próprios ministérios.

            Perguntas acerca da futura capacidade do Pontífice, eram tratadas de um modo conciso. Eram inoportunas e estéreis. O bom senso determinava que se desencorajasse a especulação pública nesta delicada matéria. Elemento tempo? Os médicos aconselhavam um período de três meses de convalescença, até que o Pontífice reassumisse as suas tarefas normais. Na realidade, isso apontava o seu regresso para depois das usuais férias de Verão, talvez mais ou menos um mês depois de Ferragosto (1)... Com toda a certeza, Excelência! Sua Santidade saberá que telefonou. Vai querer, sem dúvida, agradecer pessoalmente, depois de recuperado. Entretanto, queira aceitar os nossos cumprimentos para Vossa Excelência e sua família....

[1 Em italiano no original: Agosto (NT)]

 

            Tudo muito correcto, mas dificilmente satisfatório para os homens charneira da Igreja, os príncipes papais, que teriam de emitir pareceres sobre a competência de um papa vivo, ou escolher o sucessor de um morto. No contexto do terceiro milénio, tornava-se impraticável o segredo absoluto, e a calma para uma decisão bem ponderada era um luxo asiático. Tinham de estar preparados a qualquer momento. Os seus relacionamentos tinham de ser estáveis, as suas alianças testadas, os termos dos seus acordos e o preço dos seus votos, tratados com antecedência. Por isso havia um tráfego enorme - por telefone, por telefax, por portador -, cobrindo totalmente Roma e não só. Chicago falava com Buenos Aires, Seul com Westminster, Bangkok com Sydney. Algumas das conversas eram bruscas e práticas: “Estão de acordo...?”, “Podem dar-se ao luxo...?”. Algumas eram em sfumature, com insinuações, cambiantes e alusões cuidadosas, que podiam ser desmentidas ou interpretadas doutra maneira, se surgisse alguma alteração no rumo dos acontecimentos.

            A questão cuja discussão exigia maior tacto era a de resposta menos simples. Até que ponto se podia confiar num Pontífice doente para dirigir os assuntos de uma comunidade global em crise?

 

            A tradição, estabelecida por dinastas papais que morreram há muito tempo, determinava que um Pontífice exercia até cair. A história, por sua vez, provava sem sombra de dúvida que, se algum sobrevivia para além da sua utilidade se tornava num elo de ligação para a comunidade dos fiéis-uma ligação momentânea, porque no mundo moderno o tempo ajustava-se a si próprio, porque o acto e a consequência se associavam de imediato. Era um bom argumento para um fim de serviço fixado pelos estatutos canónicos, como acontecia no caso de cardeais e outros prelados; mas o homem que levantou o argumento podia muito bem ver a sua própria carreira terminada de repente.

            Contudo, tocou-se no assunto numa conversação telefónica de manhã cedo, entre Anton Drexel e o seu velho amigo Manfred, cardeal Kaltenborn, arcebispo do Rio de Janeiro. Ambos eram alemães de nascimento, um nascido em Brasília, o outro em Rhineland. Falavam na língua natal e a sua conversa era codificada e bem disposta. Eram velhos amigos e determinados em se adaptar às circunstâncias e que sabiam todos os truques.

            - Podemos falar à vontade, Anton?

            - Não tão à vontade como seria de desejar. -Drexel tinha um saudável respeito pela tecnologia por satélite e pelas possibilidades de espionagem. - Mas deixa-me pintar-te um pouco do cenário. O nosso amigo já está em tratamento. Sei através da autoridade máxima, que as probabilidades são todas a favor da recuperação.

            - Total?

            - Sim; mas cá para mim tenho que não vai ser assim.

            - Então, que se passa?

            - Parece ter escapado à maioria dos nossos colegas que o nosso amigo está a passar uma Gewissenskrise, uma crise de consciência. Tentou reformar a Igreja. Em vez disso criou um baldio. Não encontra maneira de o pôr fértil de novo. Tem poucos confidentes, nenhuns apoios emocionais, e uma vida espiritual totalmente baseada em Or-thopraxis... conduta correcta, segundo os seus limitados conhecimentos. Não arriscará nem argumentará para além disto. Portanto está desesperadamente só e assustado.

            - Como é que os outros não deram por isso? São todos observadores inteligentes.

            - A maioria tem medo dele. Passam a vida ou a evitá-lo ou a manejá-lo. Estou demasiado velho para me preocupar. Ele sabe disso. Não tenta intimidar-me.

            - Então, que vai ele fazer?

            - Ou quebra ou torce. Se quebra, suponho que renuncia simplesmente ao cargo e se calhar à vida. Se torce, vai precisar da experiência de uma caridade que nunca soube o que era.

            - Não podemos dotá-lo dela. É algo por que temos de rezar.

 

            - Também me proponho a trabalhar para isso. Convidei-o a passar parte da convalescença na minha herdade. Fica muito perto de Castel Gandolfo e a uma hora de carro do Vaticano... É filho de lavrador, pode ser que aprecie uma mudança para os hábitos rurais. Pode também conhecer a minha pequena tribo e ver como ela cuida da sua vida.

            Fez-se um breve silêncio. A seguir, Sua Eminência do Rio de Janeiro sussurrou um aviso:

            - Alguns dos nossos colegas podem não compreender as tuas intenções, Anton. Desconfiam dos fazedores de reis e das eminências pardas.

            - Então que o digam. - O tom de voz de Drexel era rabugento. - E Sua Santidade decidirá por si. Pode ser que a caridade dobre a sua obstinada vontade. A oposição não fará mais do que fortalecê-la.

            - Pois bem, vamos dar mais um passo em frente, Anton. O nosso amo tem o seu segundo Pentecostes... línguas de fogo, um sopro do Espírito, um ímpeto de caridade como a excitação da Primavera. E a seguir? Que é que ele faz com isso? Como se liberta das trincheiras que cavou para si mesmo... para todos nós? Sabemos como ele funciona em Roma. Nunca se explica, nunca se desculpa. Parece nunca tomar uma decisão precipitada.

            - Falei a esse respeito, até à exaustão, com o médico dele, que está tão preocupado como eu, se bem que por outras razões. É judeu. Perdeu familiares no Holocausto e no Domingo Negro em Roma... Para ele, é um momento de extrema ironia. Tem a vida do Pontífice romano nas mãos. Estás a ver as implicações?

            - Algumas delas, nitidamente. Mas que resposta dá à minha pergunta? Que vai o Santo Padre fazer a seguir?

            - Salviati enfatiza que,o Pontífice nada pode fazer, a menos que nós o ajudemos. Estou de acordo. Conheço a sua história familiar. Lavoura de subsistência. Um pai morto demasiado cedo. Uma mãe decidida a tirar o filho e ela própria da pilha de estrume. A melhor, se não a única solução, era a Igreja. É uma história triste e estéril. A única coisa que nunca viveu é a vida de família, as zaragatas, os beijos, os contos de fadas à volta da lareira.

            - Tu e eu, meu caro Anton, também não somos peritos na matéria.

            - Subestimas-me, meu amigo - Anton Drexel riu-se. - Tenho uma enorme descendência adoptiva, dezasseis rapazes e raparigas. E todos vivem sob o meu tecto.

            - Não ensines o Padre Nosso ao vigário, Anton! Aqui tenho um milhão de filhos, nas favelas, sem casa! Se alguma vez tiveres escassez, posso sempre mandar-te alguns substitutos.

            - Manda-me antes as tuas orações. Nesta matéria, não tenho nem metade da confiança que aparento.

 

            - Parece-me que estás a fazer malabarismos com a alma de um homem... e muito possivelmente com a sua sanidade. Estás também a seguir uma política muito perigosa. Podes ser acusado de tentar fazer uma marioneta de um homem doente. Por que é que o estás a fazer, meu velho amigo?

            Era a pergunta que Drexel temia, mas tinha de responder.

            - Sabes que me correspondo com Jean Marie Barette?

            - Sei. Onde está ele agora?

            - Ainda na Alemanha, naquela pequena comuna na montanha de que te falei; mas consegue estar muito bem informado sobre o que se passa no mundo. Foi ele que me entusiasmou neste trabalho com as crianças... Conheces o Jean Marie; consegue contar anedotas como um artista de variedades parisiense, e no momento a seguir discorrer sobre os mistérios mais profundos. Mais ou menos há um mês, escreveu-me uma carta muito estranha. Parte dela era profecia pura. Dizia - me que o Santo Padre seria em breve forçado a fazer uma perigosa viagem e que eu era o escolhido para o acompanhar na jornada. Pouco tempo depois, foi diagnosticada a doença do Pontífice; o médico papal indicou Salviati como sendo o melhor cirurgião cardíaco de Itália... e a mãe da minha enkelin (1) favorita é conselheira na clínica. E assim, começou a formar-se à minha volta todo um padrão de acontecimentos relacionados entre si. Isto responde à tua pergunta? - Estás-te a esquecer de uma coisa, Anton.

[1 Em alemão no original: nota (NT)]

 

            - De quê?

            - Por que te preocupas tanto com um homem que detestaste durante tanto tempo?

            - Estás a ser severo comigo, Manfred.

            - Responde à minha pergunta. Por que te preocupas tanto?

            - Porque já passei dos 80. Estou talvez mais perto de ser julgado do que o nosso Pontífice. Foram-me concedidas muitas das coisas boas da vida. Se não as compartilho agora, serão como frutos do Mar Morto... pó e cinza na minha boca!

 

            Nicol Peters estava sentado debaixo de um caramanchão de videiras no seu terraço, sorvendo o café, comendo bolos acabados de fazer e olhando os moradores das águas furtadas da velha Roma, acordando na manhã quente de Primavera.

            O seu vizinho mais próximo era um solteirão escanzelado, com uma toalha à volta da cintura, que lavava a sua roupa e pendurava todas as manhãs a camisa, as cuecas, a camisola de algodão e as meias que tinha acabado de lavar no chuveiro. Feito isto, acendia um cigarro, observava o acto de amor dos seus vizinhos e ia para dentro para reaparecer uns minutos mais tarde com café e um jornal matutino. Acima deles, surgiam os primeiros pássaros que giravam à volta dos campanários e através da floresta de antenas e pratos de parabólica, enquanto figuras indefinidas passavam e tornavam a passar por portas e portadas abertas, até um crescendo cacafónico de música, anúncios radiofónicos e rumor do trânsito das ruas lá em baixo.

            Estas pessoas eram o tema do texto que Nicol Peters estava a escrever para a sua coluna semanal, “Uma Vista Do Meu Terraço”. Empilhou as páginas espalhadas, pegou num lápis e começou o artigo.

            Os romanos têm um sentido de posse em relação ao papa. São donos dele. É o seu bispo eleito. Os seus domínios são todos em solo romano. Não podem ser exportados, mas podem, nalguma crise futura, ser expropriados. Não há um único cidadão de Roma que não admita de livre vontade que a maior parte do seu rendimento pessoal depende, directa ou indirectamente, do Pontífice. Quem, além dele, faz com que os turistas e os peregrinos, os amantes da arte e os românticos, jovens e velhos, encham o aeroporto e abarrotem os hotéis, e injecta moeda forte para o centro financeiro da cidade?

            O facto de precisarem dele, não obriga os romanos a amá-lo. Alguns amam-no. Outros não. A maioria aceita-o com um encolher de ombros e um expressivo “Boh!”, um monossílabo que desafia a tradução, mas transmite um sentimento totalmente romano: ”Ospapas vêm, ospapas vão. Aplaudimo-los. Enterramo-los. Não espere que tremamos a cada proclamação e a cada anátema que proferem.”

            É a nossa maneira de ser, percebe. Os estrangeiros nunca entendem. Fazemos leis horrendas, carregamo-las com penalizações terríveis... e depois diluímo-las com tolleranza e casuística!...

            Não tem nada a ver com fé e só um pouco com moral. Tem a ver com arrangiarsi, a arte de progredir, de se governar por si, num mundo contraditório. Se os dentes da roda da criação engatam, isso é devido a defeitos na mão de obra original. Assim, Deus não pode ser demasiado severo com as suas criaturas, que vivem num planeta defeituoso.

            O papa dir-lhe-á que os casamentos cristãos são talhados no céu. Feitos para durar toda a vida. Somos bons católicos, não vamos discutir por causa disso. Mas o Beppi e a Lúcia, que moram aqui mesmo ao lado, quase que se matam todas as noites, e não nos deixam dormir. Isto é cristão?Isto é um casamento? Tem o selo do céu? Permita-nos que duvidemos da premissa. Quanto mais depressa se separarem, mais depressa podemos todos dormir - mas, por piedade, não os impeçam de procurar novos companheiros; ou então as nossas vidas serão outra vez dilaceradas por um toiro lascivo e uma vitela com cio...

            Evidentemente que não há hipóteses de que o romano comum queira discutir este assunto com opapa. No fim de contas, umpa-pa dorme sozinho e ama toda a gente no Senhor, portanto está pouco preparado para lidar com tais assuntos. Assim, o romano ouve educadamente tudo o que ele tem a dizer, tem os seus arranjinhos, e volta cheio de fé à Igreja, para os casamentos, baptizados, funerais e Primeiras Comunhões.

            Até aqui, tudo bem -para os romanos! Não precisam, nem querem mudar o seu investimento de capital nopapa. Mas, e o resto da Cristandade -para não falar dos milhões fora do âmbito da Igreja? A atitude é exactamente a oposta. Ficam felizes por aceitar o papa-ou outro qualquer, isso não tem importância - como um paladino do bom comportamento, trato justo, relações familiares estáveis, responsabilidade social. O problema de raiz que surge agora, é a sua teologia. Quem, questionam eles, quem determina que o papa passe a ver toda a criação com tanta facilidade como vê o dia, no momento imediatamente a seguir a ser eleito? Quem lhe confere e sanciona o direito de criar, por simples decreto, uma doutrina como a da Assunção da Virgem, ou para declarar que é um crime dos mais graves um casal controlar o seu próprio ciclo criador pelo uso da pílula ou de preservativos?

            As perguntas, na opinião deste escrevinhador, são legítimas e merecem ampla discussão e respostas mais francas, do que as que têm sido dadas até agora. E precisam de mais qualquer coisa, também-compaixão da parte do interlocutor, abertura à história e aos argumentos, respeito pelas dúvidas honestas e pelas reservas dos que as têm. Não fui capaz de saber quem foi o autor da citação seguinte, mas não hesito minimamente em adoptá-la como minha: “Não haverá esperança de reforma na Igreja Católica Romana, não haverá restabelecimento da confiança entre os fiéis e a hierarquia, a não ser e quando um pontífice reinante estiver preparado para admitir e repudiar os erros dos seus antecessores...

            Eram palavras duras, as mais duras que Nicol Peters escrevia de há muito tempo. Dado o tema e as circunstâncias, um pontífice doente sob a ameaça da morte, podiam até ser consideradas uma grande falta de etiqueta. Quanto mais ia evoluindo na sua profissão, mais consciente se tornava da dinâmica da linguagem, da palavra e da escri ta como acontecimentos em si mesmos. A mais simples e amais óbvia das premissas, posta na linguagem mais elementar, conseguia chegar tão alterada ao espírito do leitor, que podia expressar a antítese daquilo que o escritor pretendia. O que escrevera como prova para a defesa, podia levar à forca o homem que estava a defender.

            O crédito e a credibilidade de Nicol Peters como comentador do Vaticano, dependiam da sua capacidade de tornar o mais complexo dos argumentos, em prosa perceptível ao leitor apressado. Afacilidade da prosa, dependia de uma compreensão exacta da matéria em questão. Neste caso era muito delicada. Tinha a ver com a perspectiva romana da ortodoxia (doutrina correcta), e orto-praxis (prática correcta), a natureza do direito do pontífice em prescrever ambas - e a sua obrigação em retratar-se de qualquer erro que pudesse insinuar-se nessa prescrição.

            Era este o problema que ainda mantinha dividida a Cristandade e que o absolutismo retrógrado de Leão XIV só fazia exacerbar. Não dava para se resolver como o faziam os romanos, pela indiferença cínica. Não desaparecia como um cravo, nem cicatrizava por si, como um corte feito com a navalha de barba. Iacrescere inflamar como um cancro, minando a vida interior da Igreja, reduzindo-a à invalidez e à indiferença.

            O que colocava outras dúvidas a Nicòl Peters, decano do corpo de imprensa, confidente de cardeais, confortavelmente instalado na sua morada romana: “Por que me preocupo tanto? Nem sequer sou católico, por amor de Deus! Por que hei-de suar sangue a cada mutação da opinião clerical, enquanto os chefes hierárquicos permanecem satisfeitos dentro das muralhas da Cidade do Vaticano, contemplando o declínio e a queda da Igreja Romana?”

            Ao que a mulher, Katrina, aparecendo com café acabado de fazer e o seu sorriso de bom dia, deu a resposta perfeita:

            - Hoje estamos de mau humor, é? O sexo matinal não faz o teu género? Anima-te, meu querido. A Primavera chegou. A loja está a dar dinheiro. E acabei de ter um telefonema fascinante a respeito de Salviati e da namorada e, entre tanta gente que há no mundo, do teu amigo Drexel. '

 

            Precisamente às dez horas dessa mesma manhã, Monsenhor Malachy O'Rahilly, secretário privativo superior do Pontífice, esperava pelo seu amo na clínica.

            O seu aspecto era radioso: cara redonda e corada, olhos azuis de uma inocência límpida, um sorriso pleno de alegria, falando seis idiomas com um lindo sotaque irlandês que os tornava mais doces. Sua Santidade, um homem rabugento, dependia do seu bom humor e mais ainda do seu talento celta para detectar os ventos da intriga, que nos territórios da cúria sopravam quentes e frios e de todos os lados ao mesmo tempo.

            A lealdade de Monsenhor O'Rahilly era absoluta. Apontava sempre para o norte magnético, onde morava o poder. Estatisticamente, os secretários papais sobreviviam aos seus chefes; os sensatos certificavam-se de que tinham o seguro post-mortem sempre em ordem. Claro que todo o seguro exigia o pagamento de prémios: uma recomendação discreta, uma chamada à atenção do Pontífice sobre uma pasta, um nome mencionado no momento certo. A moeda corrente podia variar, mas o princípio era rigoroso e apoiado por mandato bíblico: faz amigos entre os inimigos, para que quando falhes (ou quando o teu protector morrer, o que é exactamente a mesma coisa) eles te possam acolher nas suas casas!

            Nessa manhã, o Monsenhor estava ao serviço do seu outro chefe, o cardeal secretário de Estado, que o tinha avisado com firmeza: “Nada de trabalho, Monsignore, absolutamente nada! Amanhã ele vai à faca e não há nada, absolutamente nada, que ele possa fazer sobre seja o que for!”

            Ao Pontífice, Malachy explicou com um volúvel bom humor:

            - ... Incorro na pena de exílio imediato, se fizer subir a sua pressão arterial um ponto que seja. Estou aqui a mando de suas Eminências da Cúria, para lhe dizer que tudo decorre de acordo com as suas instruções, e que as orações e votos de felicidade estão fluindo como água da Fons Bandusiae... Há até uma nota de amizade do Kremlin, e outra do patriarca Dimitri de Moscovo. O presidente Tang mandou um recado muito delicado de Pequim, e o Secretariado está a fazer uma lista completa de todas as outras comunicações. O cardeal Agos-tini disse que o vinha ver antes do almoço. Mais uma vez uma visita estritamente pessoal, nada de trabalho, como o médico exigiu categoricamente. Mas se tem alguma coisa pessoal de que gostasse que eu tratasse...

            - Há só uma coisa. -Monsignore Malachy O'Rahilly aprontou-se instantaneamente... bloco-notas aberto, caneta erguida na mão rechonchuda. - Morreu aqui na noite passada uma mulher ainda jovem. Deixa marido e duas filhas pequenas. O marido é um padre da diocese de Roma, que quebrou os votos e contraiu casamento civil. Fui informado de que nos apresentou uma data de requerimentos, para o tornarmos laico e poder regularizar a união. Os requerimentos foram todos indeferidos. Quero que me arranje detalhes pormenorizados do caso e cópias de todos os documentos da pasta...

            - Esteja descansado. Vou já tratar disso. Sua Santidade pode dar-me algum nome?

            - Ainda não. Estou à espera de falar com a conselheira.

            - Não interessa. Vou descobri-lo de qualquer maneira... Não que o senhor lhe vá poder dar muita atenção durante uma ou duas semanas...

            - Mesmo assim, vai tratar do assunto com a maior urgência.

            - Pode saber-se a razão do seu interesse neste caso, Santidade?

            - Duas crianças e um marido desgostoso, meu caro Malachy... e um texto que não pára de girar na minha cabeça: “Não quebrará o junco ferido, não apagará o fumo do linho.”

            - Em primeiro lugar, num assunto confuso como este, tenho de descobrir quem é que tem os papéis... a Doutrina da Fé, a Congregação dos Clérigos, a Penitenciária Apostólica, a Rota. Ninguém vai gostar de uma interferência de Sua Santidade.

            - Não se lhes pede que gostem. Diga-lhes que é um assunto que me diz respeito a mim. Quero os documentos na mão, assim que esteja apto a lê-los.

            - Isso agora - Monsenhor O'Rahilly parecia muito cheio de dúvidas -, vai ser o âmago de uma data de argumentos. Quem vai dizer quando Sua Santidade está apta... e para quê? É uma grande operação para um homem que já passou da meia idade, e requer uma prolongada convalescença... Fez um belo e eficiente trabalho, ao concentrar o poder nas suas mãos. Agora agrossipezzi (1) na Cúria vai trabalhar para lhe cravar de novo as garras. Posso mantê-lo informado, mas não posso encenar uma batalha campal com o prefeito de uma Congregação Romana.

[1 Em latim no original: grande parte, maioria (NT)]

 

            - Quer dizer que já teve problemas?

            - Problemas? Eis uma palavra que nem me atrevo a sussurrar a Sua Santidade, especialmente numa altura destas. Estou apenas a fazer notar que os membros do seu pessoal vão ficar bastante isolados durante a sua ausência. Vão entrar em jogo autoridades maiores que as nossas. Por isso, precisamos de uma directiva clara da Cadeira de Pedro.

            - Já a tem!-O Pontífice tornou-se subitamente igual ao que era, carrancudo e enfático. - Os meus assuntos particulares, e os meus documentos privados, continuam a sê-lo. Noutras matérias, você apresenta o que sabe ser a minha opinião. Se forem dadas ordens em contrário, por qualquer membro da Cúria, você pede que o façam por escrito, antes de agir. Se tiver problemas, vá ter com o cardeal Drexel e ponha-lhe a questão. Percebeu?

            - Percebi - disse Monsenhor O'Rahilly -, mas estou um pouco surpreendido. Sempre me pareceu que havia uma certa tensão entre Drexel e Sua Santidade.

            - Havia e há. Somos duas pessoas muito diferentes. Mas Drexel tem duas grandes.virtudes: já ultrapassou a fase da ambição e tem um sentido de humor raro nos alemães. Discordo dele muitas vezes; mas confio sempre nele. Faça o mesmo.

            - É bom saber isso.

           - Mas também o aviso, Malachy. Não tente nenhum dos seus truques irlandeses com ele. Eu sou italiano, compreendo... a maior parte das vezes!... como funciona a sua cabeça. Drexel é muito pão, pão, queijo, queijo. Lide da mesma maneira com ele.

            Monsenhor O'Rahilly sorriu e curvou a cabeça à advertência. O Pontífice tinha razão. Os irlandeses e os italianos entendiam-se muito bem uns aos outros. Afinal de contas, o próprio grande S. Patrício era natural de Roma; mas quando os celtas se converteram foram eles que exportaram conhecimentos e civilização para a Europa, enquanto o Império caía em ruínas. Além disso, havia muita experiência em comum entre o filho de um cavador de turfa de Connemara e um homem que tinha empilhado estrume numa quinta cooperativa em Mirandola. Tudo isto dava a Malachy O'Rahilly uma certa liberdade em aconselhar o seu chefe máximo.

            - Com o maior respeito, Santidade... -Fez uma cuidadosa pausa teatral.

            - Fale, Malachy! Fale claramente, sem arrebiques! Em que é que está a pensar?

            - No relatório das finanças da Igreja. Vai aterrar na sua secretária no fim deste mês. Não é, definitivamente, um assunto que possa confiar ao cardeal Drexel.

            - Não há razão nenhuma para que o faça. Posso estudar o documento enquanto convalesço.

            - Quatro anos de trabalho de quinze prelados e leigos? Com todos os bispos do mundo a espreitarem por cima do seu ombro? E com todos os fiéis a perguntarem a si mesmos se hão-de contribuir ou não para o dinheiro de S. Pedro e Propaganda da Fé, no ano que vem? Não se iluda, Santidade. Melhor será não abrir o relatório, a não ser quando puder atamancar o seu conteúdo.

            - Sou perfeitamente capaz de...

            - Não é. Não o será durante algum tempo. E eu seria um mau servidor se não lho dissesse! Pense em todos os tipos metediços, que trabalharam durante quatro anos nesse documento. Pense em todas as trapaças que desenterraram e naquelas que tentaram, por todos os meios, enterrar... E o senhor estará, justamente, a recuperar de uma maciça intervenção cirúrgica. Não tem hipóteses de fazer um trabalho correcto.

            - E quem vai fazê-lo por mim, Malachy? Você?

            - Oiça-me por favor, Santidade! - Agora estava a suplicar, honestamente. -Lembro-me do dia e da hora em que o senhor jurou por todos os santos do calendário, que havia de sanear o couo di ladri (1) que estava a dirigir o Instituto para Obras Religiosas e todas as suas agências bancárias. Estava tão furioso, que eu pensei que ia inchar e rebentar. O senhor disse: “... Estes banqueiros pensam que me impressionam com o seu calão monetário. Em vez disso, estão a insultar-me! São como os prestidigitadores de feira, fazendo correr vinho dos cotovelos, tirando moedas das orelhas dos miúdos! Sou filho de lavrador. A minha mãe guardava todo o dinheiro que conseguia poupar num frasco de compota. Ensinou-me que, se se gasta mais do que se ganha, abre-se falência... e que se nos deitamos na pocilga, ficamos porcos. Nunca serei canonizado porque sou demasiado mal-disposto e obstinado, mas prometo-lhe, Malachy, que serei um papa a quem nunca chamarão nem vigarista, nem amigo de vigaristas... e se eu encontrar outro financeiro corrupto vestindo a púrpura, tiro-lha dos ombros antes de ele ter tempo de se deitar!...” Lembra-se de tudo isto?

[1 Em italiano no original: covil do ladrões (NT)]

 

            - Lembro.

            - Então, tem de reconhecer que este relatório será a sua primeira e última hipótese de cumprir a promessa. Não pode, não se atreva, a tentar estudá-lo enquanto a sua mente está distorcida por anestésicos ou nublada por depressões. O Salviati preveniu-o de uma forma categórica. Tem de dar-lhe ouvidos. Não se esqueça, também, de que prometeu convocar um Sínodo Especial para analisar o relatório. Antes de se confrontar com os seus irmãos bispos, tem de estar cabalmente informado dos números e factos do documento.

            - Que sugere que eu faça entretanto?

            - Receba-Q. Guarde-o in petto. Feche-o no cofre. Não admita discussões. Faça saber que está em jogo a carreira de quem quebrar o silêncio antes de o senhor falar. Se não o fizer, a Cúria garante o direito de prioridade, e quando chegar a fazer o seu depoimento, haverá armadilhas e pistolões em todos os cantos.

            - Então, responda-me a isto, Malachy. Suponha que eu não sobrevivo à operação? O que acontecerá (1) então?

            Monsenhor O'Rahilly tinha a resposta na ponta da sua fluente língua.

            - É elementar. O Camerlengo tomará posse dele, como toma do Anel, do Selo, do seu testamento e de todos os seus bens móveis pessoais. Se a história passada serve de guia... e se o sexto sentido da minha mãe ainda funciona..., numa dada altura, entre o seu funeral e a nomeação do seu sucessor, vão perder o documento, encafuá-lo no arquivo, mergulhá-lo mais fundo que o Titanic.

            - E por que é que haviam de fazer isso?

            - Porque eles estão convencidos de que o senhor cometeu um erro ao mandar fazer esse estudo. Eu penso a mesma coisa... embora não me fique bem dizê-lo. Oiça! O mistério mais profundo nesta Santa, Romana e Universal Igreja, não é o da Santíssima Trindade, nem o da Encarnação, nem o da Imaculada Concepção. É o facto de estarmos atolados em dinheiro até ao pescoço. Somos o maior cofre do mundo. Recebemos em dinheiro, emprestamos, investimos em acções e hipotecas. Fazemos parte da comunidade mundial dos homens de dinheiro. Mas o dinheiro cria as suas regras próprias, como cria os seus génios próprios e os seus próprios patifes... dos quais temos a nossa justa parte, quer no clero, quer fora dele. A Cúria espera que o senhor compreenda isso... porque já o viram engolir uma data de outros factos indigestos inerentes ao lugar e ao cargo. Mas, neste particular, não o fez. Por qualquer razão o senhor calou-se a esse respeito; mas eles ainda têm como válido de que se quer ter o seu orçamento equilibrado, manter o seu pessoal e manter em funcionamento a enorme fábrica da Igreja, então tem de permanecer no negócio bancário. Se estiver nele, segue as regras e tenta atrapalhar o menos possível os seus colegas! Há muito bom senso nisto, se não houver até muita religião... E agora que já recitei o meu papel, como é que Sua Santidade quer a minha cabeça... numa salva de prata ou espetada numa lança pela Guarda Suíça?

            Pela primeira vez, o Pontífice Leão sorriu, e o sorriso tornou-se na sua peculiar gargalhada aguda.

            - É uma cabeça astuta, Malachy. Não posso dar-me ao luxo de a perder numa altura destas. Quanto ao seu futuro, tenho a certeza de que já percebeu que talvez não seja eu a determiná-lo.

            - Já pensei nisso, também - disse Malachy O'Rahilly. - Não tenho a certeza se quereria ficar no Vaticano... partindo do princípio remoto que me convidassem. Dizem que trabalhar com um pontífice é o máximo que a estrutura humana pode aguentar.

            - E com Ludovico Gadda, ainda pior! É o que me está a querer dizer, Malachy?

            Malachy O'Rahilly sorriu de lado e teve um encolher de ombros de desaprovação.

            - Não tem sido sempre fácil; mas para um provinciano grande como eu, não seria nada divertido lutar com um peso-pluma... nada mesmo. Disseram-me que não me podia demorar muito. Assim, se não há mais nada que possa fazer por Sua Santidade, vou andando.

            - Tem a minha permissão, Malachy. E não se esqueça daquele outro assunto, está bem?

           - Vou começar a tratar disso já hoje. Deus proteja Sua Santidade. Vou oferecer a minha missa da manhã em seu nome...

            - Vá com Deus, Malachy.

            O Pontífice Leão fechou os olhos e recostou-se nas almofadas. Sentia-se estranhamente despojado, um destroço humano vogando à deriva num vasto e deserto oceano.

            Ao sair da clínica, Malachy O'Rahilly parou na recepção, presenteou a recepcionista com o seu sorriso irlandês mais encantador e perguntou:

            - A senhora que morreu aqui a noite passada...

            - A signora de Rosa?

            - Ela mesmo. Estou ansioso por entrar em contacto com o marido. Tem a morada?

            - Por acaso, Monsignore, ele está aqui agora, a falar com a signora Lundberg. Os homens da agência funerária levaram agora mesmo o corpo da mulher dele. Vai ser enterrada em Pistoja. Se não se importar de esperar um bocadinho, tenho a certeza que ele não se demora.

            O'Rahilly fora apanhado na sua própria ratoeira. Não se podia ir embora e fazer figura de parvo, mas a última coisa que lhe apetecia era confrontar-se com um marido desgostoso e ofendido. De repente, fez-se luz no seu cérebro. De Rosa, Lorenzo, de Pistoja, na Toscânia, seu contemporâneo na universidade Gregoriana. Fora um diabo de um rapaz bonito, estoirando de inteligência, paixão, encanto e tanta arrogância inconsciente, que quer os amigos quer os mestres garantiam que um dia seria ou cardeal ou hereje.

            Em vez disso, ei-lo apanhado numa pequena tragédia matrimonial, mesquinha, e que não lhe trazia, nem a ele, nem à Igreja, boa reputação-e da qual nem sequer o papa o podia livrar agora. Não era a primeira vez que Malachy O'Rahilly agradecia ao céu a boa educação jansenista irlandesa que tivera, que assegurava que, embora pudesse um dia ser apanhado pelo vício da bebida, nunca o seria por uma mulher.

            Nesse momento, parecendo um cadáver ambulante, Lorenzo de Rosa surgiu no átrio. A sua pele, pálida e transparente, estava esticada, como a pele de um tambor, sobre os ossos do seu rosto de feições clássicas. Os olhos tristes, os lábios exangues. Andava como um sonâmbulo. O'Rahilly tê-lo-ia deixado passar sem dizer palavra, mas a recepcionista fez funcionar a ratoeira.

            - Signor de Rosa, está aqui um senhor que quer falar consigo. Embaraçado e desorientado, de Rosa estacou. O'Rahilly levantou- se e estendeu-lhe a mão.

            - Lorenzo? Lembras-te de mim? Malachy O'Rahilly da Gregoriana. Vim visitar uma pessoa e fiquei a saber da tua triste perda. Lamento, lamento sinceramente.

            A sua mão estava estendida, inútil, diante dele, como uma folha outonal. Deixou-a tombar. Fez-se um silêncio, longo e hostil. Os olhos tristes observaram-no da cabeça aos pés, como se se tratasse de um bocado de matéria daninha. Os lábios exangues abriram-se e uma voz monocórdica e mecânica respondeu-lhe.

            - Sim, lembro-me de ti, O'Rahilly. Quem me dera nunca te ter conhecido, nem a ninguém da tua laia. Vocês são todos uns embusteiros e uns hipócritas e o Deus que nos impingem é o mais cruel embusteiro de todos. Se bem me lembro, tornaste-te secretário papal, não foi? Então diz ao teu chefe, da minha parte, que estou ansioso por lhe cuspir na sepultura!

            Desapareceu de seguida, uma figura escura e espectral, saída de um conto tradicional. Malachy O'Rahilly estremeceu no frio repentino provocado pela raiva e desespero do homem. De algures, muito longe, ouviu a voz da recepcionista, meiga e solícita.

            - Não se preocupe, Monsignore. O pobre homem sofreu um choque terrível; a mulher dele era amorosa. Adoravam-se um ao outro e adoravam os filhos.

            - Tenho a certeza que sim - disse Malachy O'Rahilly. - É tudo muito triste.

            Esteve tentado a voltar para trás e a contar ao Pontífice o que tinha acontecido. Mas pôs a si mesmo a clássica pergunta: Cui bono? O que se ganhava com isso? Todo o mal fora feito há séculos atrás, quando a lei se sobrepusera à caridade simples, e as almas sofredoras foram consideradas como perdas necessárias, na Cruzada sem fim contra as loucuras da carne.

            O resto do seu dia foi uma lenta caminhada em direcção à misericordiosa escuridão que lhe tinham prometido. Sozinho, passeou vagarosamente no jardim, perfumado com as primeiras árvores em flor, o cheiro da relva aparada e da terra acabada de revolver. Sentou-se na extremidade da fonte de mármore e o guarda contou-lhe ser aquele o local do antigo santuário de Diana, onde o novo rei dos bosques se lavava depois do assassínio ritual. Subiu o talude do limite da propriedade, para espreitar para as profundezas, negras como tinta de escrever, do Lago Nemi;mas quando chegou lá acima, estava sem fôlego e tonto, e sentiu o familiar aperto no peito. Encostou-se a um tronco de pinheiro, até a dor passar e ter o alento suficiente para voltar à segurança do quarto onde o esperava o secretário deEstado.

            A actuação de Agostini, estava, como sempre, impecavelmente ensaiada. Só trazia boas notícias: os solícitos votos de felicidade de realezas e chefes de Estado, os devotos cumprimentos dos membros do Sagrado Colégio e da hierarquia superior... as minutas das respostas para o Pontífice dar o seu aval. Tudo o resto funcionava segundo as normas que Sua Santidade tinha aprovado. Recusou-se terminantemente a encetar qualquer discussão de trabalho ou de política de Estado.

            Havia, contudo, um assunto importante. Se Sua Santidade quisesse passar parte da sua convalescença fora do território do Vaticano, na República de Itália, não se levantariam objecções, desde que se pudesse garantir a segurança adequada, e o Vaticano estava preparado para custear um contingente de Segurança do Estado. O único óbice, era que a República insistia no seu direito de aprovar o local, e que as autoridades provinciais e comune tinham de ser consultadas primeiro sobre problemas de trânsito e ajuntamentos públicos.

           O secretário de Estado compreendia muito bem que Sua Santidade não quisesse tomar uma decisão antes da operação, mas pelo menos já se tinham aberto as alternativas. O Pontífice agradeceu-lhe. Agostini perguntou:

            - Tem alguns assuntos pessoais de que eu possa tratar para Sua Santidade?

            - Nenhum, Matteo, obrigado. Sinto-me bem aqui. Já aceitei que o futuro não está mais nas minhas mãos. Estou num sítio calmo... mas solitário, também. - Era bom que fosse possível partilhar a experiência, tornar a solidão um pouco mais suportável.

            - Não é, meu amigo; mas não se chega à solidão totalmente desprevenido. É quase como se houvesse um mecanismo no espírito, no corpo, que nos preparasse para este momento. Posso dizer-lhe uma coisa? Quando era um jovem padre, costumava pregar muito ardentemente a respeito do consolo dos últimos sacramentos, a Confissão, a Extrema Unção, o Viático... Pareciam ter um significado especial para mim, porque o meu pai, a quem amei com muita ternura, tinha morrido sem eles. Caiu morto, assim, sem mais nem menos, no sulco do arado. De certo modo, suponho que me senti ofendido com isso. Era um homem bom, que merecia melhor sorte. Eu sentia que ele tinha sido privado de alguma coisa que verdadeiramente merecia...

            Agostini esperou em silêncio. Era a primeira vez que via o Pontífice nesta atitude de luto.

            - ... Como sabe, antes de vir para cá, pedi ao meu capelão que me desse os últimos sacramentos. Não sei do que estava à espera de sentir. .. um sentimento de alívio, talvez de excitação, como quando se está numa estação de caminho-de-ferro, com a bagagem toda, à espera de apanhar um comboio para um lugar exótico. Mas não foi nada assim. Foi... como é que hei-de explicar?... apenas convencional, uma coisa bem feita mas, digamos, um pouco redundante. O que quer que tivesse ficado entre mim e o Todo-Poderoso, foi, como sempre até aí, completo e definitivo. Eu estava, como sempre estive, na palma da Sua mão. Podia saltar de lá, se me apetecesse; mas enquanto quisesse lá ficar, ficava. Fiquei, fico. Tenho de reconhecer que é o bastante. Estou a embaraçá-lo, Matteo?

            - Não. Mas estou um pouco surpreendido.

            - Porquê?

            - Talvez porque Sua Santidade não costume falar tanto a respeito das suas emoções.

            - Ou ser tão sensível às das outras pessoas? Matteo Agostini sorriu e abanou a cabeça.

            - Sou seu secretário de Estado, não seu confessor.

            - Assim, não precisa de me julgar; mas pode conceder-me mais um minuto. Pergunte a si mesmo quanto do que fazemos em Roma, quanto do que mandamos e legislamos, é realmente relevante para a vida íntima de cada alma humana. Há séculos que tentamos convencer-nos, e aos crentes, de que o que decretamos vai, ou direito aos portões do Céu, ou direito à ponte levadiça do Inferno. Não acreditam em nós. No fundo, nós também não. Estou a chocá-lo?

            - Nada choca um diplomata, Santidade. Bem sabe. Mas preferia que tivesse pensamentos mais alegres.

            - Então, Matteo! Cada um tem, ao chegar ao fim, a sua específica agonia. A minha é esta: o saber quanto errei como homem e como pastor, e o não saber se sobreviverei para reparar os danos. Agora vá para casa. Escreva aos seus primeiro-ministros, presidentes e reis. Envie-lhes os nossos agradecimentos e a nossa Bênção Apostólica. E guarde um pensamento para Ludovico Gadda, que tem de iniciar em breve a sua vigília nocturna no Horto das Oliveiras.

 

            A vigília nocturna, contudo, foi precedida por uma série de pequenas humilhações.

            O anestesista veio explicar o que se ia passar, acalmar os receios do seu doente quanto às dores que o esperavam, e para lhe ler depois um relato do regime que deveria seguir mais para diante para reduzir o peso, aumentar o exercício e manter os pulmões livres de líquido.

            A seguir veio o barbeiro, um napolitano volúvel, que o rapou, liso como um ovo, da garganta às virilhas, e rindo lhe prometeu toda a espécie de bizarros desconfortos quando os pêlos começassem outra vez a crescer. Ao barbeiro seguiu-se uma enfermeira que lhe empurrou um supositório pelo recto, e o avisou de que iria defecar, rápida e frequentemente, durante uma ou duas horas, e que a partir daí só podia ingerir líquidos - e nada de nada, depois da meia-noite.

            Foi assim que Anton Drexel o encontrou, vazio de dignidade, vazio de barriga e azedo de temperamento, quando veio fazer-lhe a última visita permitida do dia. Drexel levava uma pasta de cabedal e o seu cumprimento foi vivo e directo como sempre.

            - Vejo bem que teve um mau dia, Santidade.

            - Já tive melhores. Disseram que esta noite me vão pôr a dormir com um comprimido. Muito folgo.

            - Se quiser, dou-lhe a comunhão e leio as completas consigo antes de me ir embora.

            - Obrigado. É um homem muito atencioso, Anton. Pergunto a mim mesmo como é que levei tanto tempo a perceber.

            Anton Drexel riu-se.

            - Somos um par de cabeças duras. Custa a meter o juízo lá dentro... Deixe-me girar um pouco o candeeiro da cama. Tenho uma coisa para lhe mostrar. -Abriu a pasta e tirou um grande álbum de fotografias, encadernado em couro trabalhado, que pousou no colo do Pontífice.

            - Que é isto?

            - Veja primeiro. Explico-lhe depois.

            Drexel atarefava-se a dispor na mesa-de-cabeceira uma toalha de linho, um cibório, um pequeno frasco de prata e uma taça. Junto, pôs o breviário. Quando terminou, o Pontífice já ia a meio do volume de fotografias. Estava visivelmente intrigado.

            - Que é este lugar? Onde fica?

            - É uma propriedade, a quinze minutos daqui. Pertencia a Valério Rinaldi. Deve tê-lo conhecido. Trabalhou com o seu antecessor, o papa Cirilo. A família dele pertencia à velha nobreza, bastante rica, creio.

            - Conheci-o, mas mal. O local parece encantador.

            - É mais do que isso. É próspero e rentável... herdade, vinha e horta.

 

            - Quem é o dono, agora?

            - Eu.-Drexel não conseguiu resistir a um pequeno gesto teatral. -”E tenho a honra de convidar Sua Santidade a passar lá a sua convalescença. O que está a ver agora é a vivenda para os hóspedes. Há espaço para um criado interno, se quiser levar o seu próprio criado. No entanto, o meu pessoal terá muito gosto em servi-lo. Temos um terapeuta residente e um dietista. O edifício grande é ocupado pela minha família e pelas pessoas que cuidam dela...

            - Vejo que é uma família muito grande. - O tom de voz do Pontífice era seco.-Tenho a certeza de que Sua Eminência me vai explicar tudo isto, na devida altura. Espero que também me esclareça de como é que um membro da Cúria pode sustentar um estabelecimento como este.

            - Essa parte é fácil.-Drexel estava obviamente divertido.-Rinaldi vendeu-me a propriedade mediante um pequeno depósito e uma longa hipoteca, que foi financiada pelo Instituto para Obras Religiosas ao juro normal. Há também uma cláusula que estipula que, à minha morte, a propriedade passa para uma reputada obra de caridade. Com um pouco de sorte e boa gestão, fui capaz de ir amortizando a hipoteca com os rendimentos da quinta e com o meu salário como prelado... Sabia que era um luxo, mas também sabia que não aguentava viver em Roma, sem ter um sítio para onde me pudesse retirar, ser eu mesmo. Além disso - gracejou-, como Sua Santidade sabe, nós, os alemães, temos uma longa tradição de bispos príncipes! Apreciava a maneira como Rinaldi vivia. Admirava o seu estilo à moda antiga. Fui suficientemente auto-indulgente para querer imitá-lo. E fi-lo, sem nenhum mérito espiritual, mas com grande satisfação humana... até que decidi formar esta minha família.

            - Que até agora conseguiu esconder de todos nós! Explique-se, Eminência! Explique-se!

            Drexel explicou, eloquentemente e com pormenores, e o Pontífice Leão teve ciúmes da alegria patente na sua voz, nos olhos, em cada gesto, quando contou o episódio do encontro em Frascati, com a pequenina Britte e de como ela o tinha adoptado como avô. Agora já tinha 16 anos, declarou ele cheio de orgulho, e era uma talentosa artista que pintava com um pincel preso entre os dentes, e cujos quadros eram vendidos por uma galeria muito conceituada na Via Margutta.

            Quanto às outras crianças? Tove Lundberg tinha-lhe apresentado alguns pais de crianças diplégicas os quais, por sua vez, apresentaram outros. Anton Drexel tinha pedido dinheiro a colegas mais ricos dos Estados Unidos, da América Latina e da Europa. Tinha melhorado a qualidade do seu vinho e dos produtos da quinta, o que duplicou o rendimento da terra. Salviati tinha-o apresentado a especialistas em malformações do cérebro e a um reduzido quadro de financeiros, que ajudavam a pagar o seu pessoal de ensino e de enfermagem...

            - E assim, embora tenhamos vivido bastante precariamente durante dez anos, estamos a preparar artistas e matemáticos e inventores de programas para computadores... mas, acima de tudo, temos dado a estas crianças a oportunidade de serem verdadeiramente humanas, de demonstrarem que foram realmente feitas à imagem Divina, apesar das suas atrozes incapacidades... O convite para vir e começar a restabelecer-se connosco, Santidade, é tanto delas como meu. Não precisa de decidir já. Vá pensando nisso. Uma coisa lhe posso garantir: somos uma família muito feliz.

            A reacção do Pontífice foi estranha. Por um momento, pareceu muito próximo das lágrimas, mas o seu rosto logo endureceu e surgiu aquela máscara, familiar e implacável, de predador. A sua voz era desagradável, acusativa e impiedosamente formal.

            - Parece-nos, Eminência, que, por mais meritório que seja esse empreendimento, você nos teve em muito pouca conta ao escondê-lo portanto tempo. Desaprovamos, como sabe, todos e quaisquer tipos de luxo na vida dos nossos irmãos bispos. Mas, pondo isso de lado, parece que você é culpado de uma certa presunção no tocante ao nosso cargo como vigário de Cristo. Não estamos tão mal informados, nem tão surdos aos mexericos palacianos, como as pessoas às vezes julgam. Sabemos, por exemplo, que o Dr. Salviati é judeu por raça e sionistapor simpatia; que a sua conselheira de confiança, a Signora Lundberg é solteira e que se fala numa ligação entre eles. Como não pertencem à nossa Fé, os seus assuntos morais não nos dizem respeito. Mas que você tenha feito este... este relacionamento quase de ficção com a filha dela, e, por consequência, com ela, que tenha escondido isso por tanto tempo e agora tente arrastar-nos para ele, por muito boa que seja a intenção... Achamos isso intolerável, e altamente perigoso para nós e para o nosso cargo.

            Anton Drexel já tinha ouvido, até à data, algumas das tiradas clássicas de Leão XIV, mas esta superava-as. Tinha expressado nela todos os medos, frustrações e zangas do homem, todas as raivas surdas do rapaz do arado que tinha trepado e escavado o seu caminho até ser príncipe. Agora, tendo descarregado com tanta fúria, esperava, tenso e hostil, o contra-ataque. Em vez disso, Drexel replicou com calma formalidade.

            - Sua Santidade demonstra à evidência que eu tenho de responder por tudo isto. Mas agora não é a altura de o fazer. Deixe-me dizer apenas que se ofendi Sua Santidade o lamento profundamente. Estava a oferecer o que pensei ser uma gentileza e um serviço. Mas não nos devemos separar assim, zangados. Não podemos rezar juntos, como irmãos?

 

            O Pontífice não falou, mas pegou nos óculos e no breviário. Drexel abriu o seu livro e recitou o primeiro versículo: “Munda cor meum... Purifica o meu coração, Senhor, para que os meus lábios possam anunciar as Tuas glórias...” Em breve se apoderou deles o ritmo dos salmos antigos, acalmando-os como ondas num mar tranquilo. Um pouco depois, a face rígida do Pontífice começou a relaxar-se e a hostilidade desapareceu dos seus olhos escuros. Quando leu as palavras “Sim, embora eu caminhe no vale da morte, o Seu bordão e o Seu báculo con-fortàr-me-ão...”, a voz vacilou e começou a chorar silenciosamente. Era Drexel agora que carregava o peso da recitação, ao mesmo tempo que a sua mão se fechava sobre a do seu amo, e a apertava, firme e reconfortante.

            Depois de pronunciado o último Amen, Drexel pôs uma estola à volta do pescoço, deu a comunhão ao Pontífice, e sentou-se silenciosamente, enquanto ele dava graças. Durante quarenta minutos não falaram, só rezaram. Drexel começou a meter as coisas na pasta. E depois, como manda o protocolo, pediu licença para se ir embora.

            - Por favor! -Era um apelo pungente num homem grande e orgulhoso. - Por favor, fique mais um pouco! Lamento o que disse. Você compreende-me melhor que ninguém. Sempre assim foi. É por isso que eu discuto consigo. Você não me dá ilusões nenhumas.

            - Sabe porquê? - Drexel foi gentil com ele, mas não cederia nem um centímetro.

            - Gostaria de o ouvir da sua boca.

            - Porque já não se pode dar ao luxo de as ter. O povo de Deus exige o pão da vida. Nós estamos a dar-lhe pedras.

            - E você acha que eu tenho procedido assim?

            - Pergunte a si mesmo, Santidade.

            - E tenho perguntado... todos os dias, todas as noites, há meses para cá. E estou a fazê-lo esta noite, antes que me levem daqui em cima de rodas, e me gelem e me cortem como a uma carcaça de um animal e me ponham sem sentidos... Sei que as coisas têm de mudar e que eu sou o catalisador da mudança. Mas como, Anton? Sou aquilo que sou. Não posso arrastar-me até ao ventre da minha mãe e tornar a nascer.

            - Fui informado - disse Drexel devagar - por aqueles que já passaram por uma operação destas, que é o que há de mais parecido com o tornar a nascer. Salviati e Tove Lundberg dizem-me o mesmo. É uma nova posse da vida... e, forçosamente, uma nova espécie de vida. Portanto, o que eu pergunto, o que a Igreja pergunta, é que uso vai dar à nova dádiva.

            - E você tem uma receita para me dar, Anton!

            - Não, não tenho. O senhor já sabe qual é. Vem repetida vezes sem conta nas Escrituras. “Meus filhos, amai-vos uns aos outros”... “Que haja entre vós, acima de todas as coisas, uma caridade constante e mútua”... A pergunta que se põe é como vai o senhor interpretar a Revelação, como vai corresponder-lhe no futuro.

            - Como é que o tenho feito até aqui?

            - À antiga maneira romana! Legislação, repreensão, fiat! Somos os guardiãos da verdade, os censores dos costumes, os únicos e verdadeiros intérpretes da Revelação. Somos os que fazemos e desfazemos, os arautos das boas novas. Torna recto o caminho do Senhor! Prepara as veredas para Ele passar!

            - E você não concorda com isso?

            - Não, não concordo. Há cinquenta e cinco anos que sou padre no rito romano. Fui treinado no sistema e para o sistema. Mantenho os meus votos de padre e vivo de acordo com os cânones. Servi quatro Pontífices... dois como membro do Sagrado Colégio. Sua Santidade poderá testemunhar que, embora estando muitas vezes totalmente em desacordo, sempre me inclinei em obediência ao magisterium!

            - É verdade, Anton, e respeitei-o por isso. Mas agora afirma que falhámos, que eu falhei.

            - Toda a evidência o demonstra.

            - Mas porquê?

            - Porque o senhor e eu, todos nós, tal como a Cúria e a hierarquia, somos quase produtos acabados do nosso sistema romano. Nunca lutámos contra ele. Demos com ele todos os passos do caminho. Cauterizámos as nossas emoções, endurecemos os nossos corações, tornámo-nos eunucos por amor a Deus!...como cheguei a odiar esta frase!... e algures pelo caminho, muito no início, creio eu, perdemos a simples capacidade de amar. Se se começar a pensar nisto, conclui-se que somos muito egoístas, nós, os padres solteiros. Somos os autênticos fariseus da Bíblia. Pomos pesos insuportáveis às costas dos homens, e não mexemos um dedo para os ajudar! E, assim, as pessoas afastam-se; não se viram para outros deuses, como gostamos de pensar; nem para orgias e auto-indulgências a que não podem dar-se ao luxo; mas para a busca de coisas simples, que nós, os guardiãos, censores e governadores, lhes ocultámos. Elas querem atenção e compaixão e amor, e uma mão que as guie no labirinto. A sua mão está lá? E a minha? Acho que não. Mas se um homem honesto, franco e valente se sentasse na cadeira de Pedro e pensasse em primeiro lugar, em último e sempre nas pessoas, poderia haver uma hipótese. Talvez!

            - Mas eu não sou esse homem?

            - Hoje, não o é. Mas mais tarde, tendo-lhe sido concedida uma vida nova e a graça de a utilizar acertadamente, quem sabe se um dia Sua Santidade não acaba por dar a grande notícia pela qual o povo anseia: a mensagem do amor, da compaixão, do perdão. É um grito que tem de soar alto e bom som, como a trompa de Rolando em Roncesvalles... - Interrompeu-se, subitamente consciente do seu fervor. - Em todo o caso, é esta a razão do meu convite para passar parte da sua convalescença com a minha família. Verá, todos os dias, o amor em acção. Verá pessoas a dá-lo, a recebê-lo, crescendo no seu calor. Posso garantir-lhe que também entrará em si, e um dia há-de ter tanto que também o poderá dar... Precisa deste tempo; precisa desta experiência. Constato o que este cargo lhe faz... e a qualquer homem! Seca a sua seiva, mirra-o como uma passa ao sol. Eis chegada a sua oportunidade de renascer. Agarre-a! Seja, ao menos uma vez, generoso com Ludovico Gadda que está há tanto tempo afastado do seu lar!

            - Pergunto a mim mesmo - disse o Pontífice com um sorriso meio torcido - porque é que não fiz de si o Pregador da Casa Pontifícia.

            Drexel riu-se.

            - Sua Santidade sabe muito bem porquê. Ter-me-ia mandado para o pelourinho no prazo duma semana. -... Logo a seguir voltou a ser formal. - Já passa muito da hora de me deitar. Se Sua Santidade o permitir, retiro-me.

            - Faça favor.

            - Mais uma vez, peço desculpa da minha vaidade. Faço votos para que haja finalmente paz entre nós.

            - Já há paz, Anton. Deus sabe que não sobra tempo para discussões e banalidades. Estou-lhe grato pelo seu conselho. Talvez vá ficar consigo; mas como bem sabe, há outras coisas a considerar: protocolos, rivalidades palacianas, recordações antigas de maus tempos na nossa vivência comum. Não os posso ignorar, nem passar por cima deles precipitadamente. No entanto, uma vez atravessado o túnel, pensarei nisso. Agora vá para casa, Anton! Vá ter com a sua família e dê-lhe a minha bênção!

            No último tempo de seu que lhe restava antes da chegada da enfermeira da noite, Leão XIV escreveu o que sabia poder ser a última entrada no seu diário. Ainda que viessem a haver outras entradas, seriam escritas por outro Leão, um homem reconstruído, que fora desligado da sua fonte de vida, e depois posto novamente a trabalhar, como um boneco mecânico. Assim, havia como que uma urgência brutal neste registo.

            ... Portei-me estupidamente. Insultei um homem que não queria senão o meu bem. Porquê? Pura e simplesmente por ciúme, sempre tive ciúmes de Anton Drexel. Aos 80 anos, é muito mais saudável, feliz e sensato do que alguma vez fui. Para me tornar no que sou, Supremo Pastor da Igreja Universal, trabalhei brutalmente toda a minha vida. Drexel, pelo contrário, é um homem auto-indulgente cujo estilo e talento o levaram, praticamente sem esforço, à notoriedade dentro da Igreja. Na época renascentista, tê-lo-iam certamente feito papa. Tal como o meu homónimo Leão X, estaria preparado para usufruir da experiência. Quaisquer que sejam os seus defeitos como clérigo, é o melhor dos diplomatas. Dirá sempre a verdade, porque é o seu amo e não ele quem arca com as consequências. Defenderá uma opinião nos termos mais fortes, mas no fim inclinar-se-á à decisão da autoridade. Roma é um lugar muito confortável e compensador para um homem como ele.

            No entanto, esta noite foi óbvio que me estava a oferecer que partilhasse de uma experiência de amor que transformou a sua vida e até tirou proveito da sua auto-indulgência. Não tive coragem de lhe dizer o quanto invejei a intimidade e imediação do seu amor pelos filhos adoptivos, enquanto qualquer amor que eu possa sentir se dispersa e enfraquece até desaparecer no meio de uma multidão humana.

            Mas nem por isso senti menos que estava ainda a tentar manipular-me, a tentar dirigir, se bem que indirectamente, o que pode restar da minha vida e autoridade como Pontífice Supremo. Até isso eu consegui admitir, porque preciso dele. O meu problema é que ele pode dar-se ao luxo de se enganar, sem consequências demasiado graves. Eu estou amarrado por todos os protocolos, consciente de todos os riscos. Sou o poder personificado, mas o poder impotente e estagnado.

            Estes são os factos nus e crus. A minha política provou mal. É necessária a todos os níveis uma mudança, uma mudança radical no governo da Igreja. Mas mesmo que eu sobreviva, como posso alterar as coisas?Fui eu que criei o clima de rigor e repressão. Fui eu que recrutei os zelotaspara impor a minha vontade. Assim que eu sugerir uma alteração, vão reunir-se para me enredar, peando as minhas comunicações, confundindo-me com cenários de escândalo e cisma, deturpando as minhas opiniões e directivas.

            Não posso travar sozinho esta batalha. Já me preveniram que vou ficar vulnerável durante algum tempo, emocionalmente frágil, sujeito a depressões súbitas e perigosas. Seja sou uma baixa, como posso empreender uma campanha que pode degenerar numa guerra civil?

            É um risco enorme; mas se não estou preparado para ele, também não estou preparado para governar. Terei de considerar a hipótese da abdicação - que, por sua vez, traz outros riscos para a Igreja.

            Até mesmo ao escrever estas palavras, sou apanhado pelas recordações dos meus dias de escola. O meu professor de história estava a tentar explicar-nos a Paz Romana, o período de calma e prosperidade durante o império de Augusto. Explicou-nos do seguinte modo: “Enquanto as legiões estivessem em marcha, as estradas que trilhavam se mantivessem e expandissem, a paz durava, o comércio florescia, o império mantinha-se. Mas no dia em que erguessem o último acampamento, firmassem as últimas fortificações militares de terra epaliçadas e se mantivessem atrás delas apenas como guarnição militar, a Paz Romana acabava, o império acabava, os bárbaros avançavam para o centro de Roma.

            Enquanto estou aqui sentado a escrever estas linhas, para distrair o meu pensamento do dia de amanhã, imagino esse último comandante desse último castro nas manobras externas. Vejo-o fazer as suas rondas nocturnas, verificar os postos da guarda, enquanto por detrás dos fossos e das paliçadas e do campo raso, homens com máscaras de animais faziam as suas danças guerreiras e invocavam os antigos deuses malignos dos bosques, da água e do fogo.

            Não havia fuga para ele. Não há fuga para mim. Oiço a enfermeira da noite empurrando o seu carrinho, corredor abaixo. Por fim, chegará a minha vez. Verificará os meus sinais vitais, pulso, temperatura, pressão arterial. Vai perguntar-me se urinei e se os meus intestinos funcionaram. Depois, Deus seja louvado, vai dar-me um comprimido que me fará dormir até de madrugada. Estranho, não é, que eu que sempre fui um homem pouco dado à quietude namore agora tão persistentemente esse sono que é o irmão da morte. Ou talvez não seja assim tão estranho, talvez seja a última clemência misteriosa, e que Deus nos prepare para a morte, antes de a morte estar preparada para nós.

            É tempo de acabar, pousar a caneta e fechar o livro. Já chega de mal por hoje. Mais do que suficientes são os medos e as raivas e a vergonha que sinto por Ludovico Gadda, o homem feio que vive dentro da minhapele... Deus, perdoa-lhe os seus pecados, como ele perdoa os que pecaram contra ele. Poupa-o de julgamentos que não consiga suportar e livra-o do mal... Ámen.

 

            Quando regressou aos seus aposentos na Cidade do Vaticano, Monsenhor Malachy O'Rahilly telefonou ao seu colega Monsenhor Matthew Neylan da Secretaria de Estado. Matt Neylan era um tipo alto e bem parecido, moreno como um cigano, com um sorriso torcido e satírico e com uma postura solta e atlética, que fazia com que as mulheres o olhassem duas vezes, e a seguir lhe deitassem mais uma olhadela para o fixarem na memória e imaginar qual seria o aspecto dele à civil. O seu título era segretario di Nunziature di prima classe, o qual, ainda que grosseiramente traduzido, o colocava à volta do vigésimo na ordem do direito de eleição. O que também lhe proporcionava o acesso a uma enorme quantidade de informação num vasto leque de assuntos diplomáticos. O'Rahilly cumprimentou-o cheio de sotaque irlandês e adulação.

            - Matt, meu caro rapaz! Daqui Malachy! Tenho uma pergunta para te fazer.

            - Então, cospe-a, Mal. Não deixes que te fira a boca!

            - Se te convidasse, muito educadamente, para jantares hoje comigo, que respondias?

            - Ora, depende.

            - De quê?

            - De onde íamos comer e de quem pagava... e porquê quid me convida o O'Rahilly quo!

            - Três respostas numa só, rapaz. Comemos no Romolo, pago a conta, e dás-me um conselho.

            - Vamos no carro de quem?

            - Vamos a pé! São dez minutos para um perneta!

            - Já estou a caminho. Encontramo-nos na Porta Angélica... ah, é verdade, traz dinheiro; eles não gostam de cartões de crédito.

            - Isto é que é um amigo cuidadoso!

            Da Romolo, perto da Porta Settimiana, fora em tempos a casa da Fornarina, amante e modelo do pintor Rafael. Mesmo que a lenda fosse pouco de fiar, a comida era boa, o vinho honesto, e o serviço, em estilo romano antigo, impertinente quanto baste e improvisado. No Inverno comia-se no interior aquecido por um fogo de madeira de oliveira que ardia no velho forno de padeiro. Na Primavera e no Verão, jantava-se cá fora sob um dossel de videiras. Por vezes aparecia um guitarrista que cantava canções folclóricas em dialectos napolitano e romano. Havia sempre apaixonados, velhos, novos e assim-assim. Os clérigos também apareciam, com ou sem hábito, pois eram tão característicos da cena romana como os apaixonados, os músicos vagabundos e os ladrões de malas por esticão nos becos do Trastevere.

            Em perfeito estilo romano, O'Rahilly deixou a pergunta para depois da pasta e do primeiro litro de vinho:

            - Diz-me lá então, Matt, lembras-te de um tipo chamado Lorenzo de Rosa na Gregoriana?

            - Lembro. Belo como Lúcifer. Tinha uma memória fantástica. Conseguia recitar, de uma assentada, páginas e páginas de Dante! Segundo me lembro, tornou-se laico há uns anos.

            - Não, não se tornou. Passou por cima das formalidades e casou-se pelo civil.

            - Bravo, pelo menos teve juízo suficiente para cortar a direito!

            - De facto, não. Tem sido esse o problema dele. Tem tentado pôr em ordem toda essa trapalhada. Mas, naturalmente, ninguém tem cooperado muito.

            - E então?

            - Então, na noite passada a mulher morreu na clínica Salviati, deixando-o com duas miúdas.

            - Mas que chatice.

            - Mais chato do que pensas, Matt. Estive esta noite na clínica para visitar o nosso amo e senhor. De Rosa ia mesmo a sair e falámo-nos. O pobre diabo está quase louco de desgosto. Disse... e eu cito: “Estou ansioso por cuspir na sepultura do seu amo!”

            - Certo. Já ouvi o mesmo dito por outras pessoas... mas, claro, de uma forma mais bem educada.

            - Não tem graça nenhuma, Matt.

            - E eu disse que tinha? Afinal qual é o teu problema, Mal?

            - Não consigo chegar à conclusão de se ele é ou não uma ameaça para o Santo Padre. Se é, tenho de tomar uma atitude.

            - Como por exemplo?

            - Falar com o nosso pessoal de segurança. Para eles contactarem os Carabinieri e pô-lo sob vigilância.

            - Eles não se vão limitar a pô-lo sob vigilância, Mal. Vão assá-lo num espeto para o assustarem. É muito duro para um homem com dois filhos e cuja esposa mal acabou de morrer.

            - É por isso que estou a pedir a tua opinião, Matt. Que hei-de fazer?

            - Antes de mais nada vamos pensar legalmente. Ele proferiu uma maldição, não uma ameaça. Foi uma frase dita em particular a um padre. Portanto, não cometeu crime nenhum; mas, se lhes der na gana, os rapazes da segurança podem fazer com que o pareça num abrir e fechar de olhos. Mais ainda, o teu relatório mais os arrebiques que eles lá acrescentarem, vão para a ficha dele... e lá ficarão até ao dia do juízo final. Todas as outras circunstâncias da sua vida serão encaradas à luz dessa única denúncia. É assim que funciona o sistema. É uma carga dos diabos para se pôr às costas de um inocente!

            - Eu sei. Eu sei. Mas pressupõe o pior dos cenários: o homem é realmente um caso de loucura, virado para a vingança de uma injustiça feita a ele e à mulher que amava. Num dia de Verão vai a uma audiência pública na Praça de S. Pedro e mata o papa. Como me sentirei então?

            - Não sei - disse Matt Neyland com ar inocente. - Como é que o Homem te tem tratado ultimamente?

            Malachy O'Rahilly riu-se.

            - Não tão bem que mereça uma medalha de bom comportamento. Nem tão mal, que me leve a desejar vê-lo abatido. Tens de concordar que esse risco existe.

            - Não tenho que estar de acordo com nada desse género. Tu é que falaste com o de Rosa. Não eu. Além disso, se queres eliminar toda e qualquer possibilidade de ameaça à Sagrada Pessoa, terias de fazer prisões preventivas por toda a península. Pessoalmente, teria tendência para ignorar o assunto.

            - Sou secretário do homem, por amor de Deus! Tenho alguns deveres especiais para com ele.

            - Espera um pouco! Deve haver uma maneira simples de tratar do caso, sem sofrimento desnecessário para ninguém. Deixa-me pensar nisso, enquanto mandas vir outra garrafa de vinho. Mas que seja um tinto decente, desta vez. Este da casa Frascati é tão fraco, que até peixinhos dourados poderiam viver dentro dele.

            Enquanto Malachy O'Rahilly levava a cabo a sua cantilena a respeito do vinho, Matt Neylan molhou pão no resto do molho da pasta e depois deu o seu veredicto.

            - Há um tipo que trabalha para o pessoal da segurança aqui no Vaticano. Chama-se Baldassare Cotta. Deve-me um favor, porque meti uma cunha para o filho ir trabalhar para os correios. Foi investigador da Guardiã di Finanza e sei que trabalha à noite para uma agência de detectives particulares aqui na cidade. Podia pedir-lhe que investigasse o de Rosa e me fizesse um relatório. Deves ter de pagar umas cem mil liras. Consegues tirar esta quantia dos gastos menores de caixa?

            - Não faria isso por amor à arte?

            - Fazer, fazia, mas depois lá o tinha à perna para me pedir mais um favor. Vá lá, Mal! Quanto vale o Bispo de Roma?

            - Depende de que lado estás - disse Malachy O'Rahilly com um sorriso. -Mas é uma boa ideia. Hei-de angariar fundos de qualquer lado. És bom homem, Matt. Ainda vais chegar a bispo.

 

            - Não vou estar por aqui o tempo suficiente, Mal.

            Malacby O'Rahilly olhou-o, rápida e avaliadoramente.

            - Parece que estás a falar a sério.

            - O mais a sério possível.

            - Que é que pretendes dizer-me?

            - Estou a pensar em desistir, ir-me simplesmente embora, tal como o nosso amigo de Rosa.

            - Para te casares?

            - Raios, não! Só ir-me embora! Sou o homem errado, no local errado, Mal. Há muito tempo que sei disso. Mas só nos últimos tempos é que consegui arranjar coragem para o admitir!

            - Diz-me com toda a franqueza, Matt, há alguma mulher envolvida nisso?

            - Era capaz de ser mais fácil se houvesse... mas não há. E não é a outra coisa, também.

            - Queres falar a respeito disso?

            - Depois do bife, se não te importas. Não me quero engasgar a meio da minha despedida.

            - Estás a encarar isso de uma forma muito leviana.

            - Tive muito tempo para reflectir, Mal. Estou muito calmo. Sei exactamente o que Lutero pretendia dizer ao afirmar “Por aqui me fico, não posso fazer mais nada”. Estou apenas a tentar arranjar maneira de dar o passo com o menor número possível de aborrecimentos... Aqui estão o bife e o vinho. Vamos saboreá-los. Temos muito tempo para falar depois.

            O bife Florentino era tenro. O vinho suave e, encorpado, e para quem enfrentava uma drástica mudança na vida e na carreira, Matt Neylan era um homem muito tranquilo. Malachy O'Rahilly foi obrigado a conter a curiosidade até que os pratos fossem retirados e que o criado consentisse em deixá-los em paz para escolherem a sobremesa. Ainda assim, Neylan fez um longo desvio até abordar o assunto.

            - Por onde começar? Só isso já constitui um problema, comoves. Agora, é tudo tão simples e tão real que mal posso acreditar nas angústias que sofri. Tu e eu, Mal, percorremos o mesmo caminho, sem tirar nem pôr: escola nos Irmãos em Dublin, seminário em Maynooth, depois Roma e a Gregoriana. Completámos ao mesmo tempo: Filosofia, Estudos Bíblicos, Teologia... Dogmática, Moral e Pastoral..., Latim, Grego, Hebraico e Exegese e História. Conseguimos escrever uma tese, defendê-la, virá-la do avesso como uma meia suja, e torná-la numa heresia para ser debatida na aula seguinte. Roma estava bem para nós, nós estávamos bem para Roma. Éramos os vivaços, Mal. Vínhamos do país católico mais ortodoxo do mundo. Só tínhamos de subir a escadaria, e fizemo-lo, tu para o governo Papal, eu para a Secretaria de Estado, adido de segunda classe... A única coisa de que nos esquecemos foi daquela que, antes de mais nada, íamos jurar, nos tinha trazido para o sacerdócio: trabalho pastoral, a preocupação com as pessoas, Mal! Não fizemos nada de valor, aprendizes de tudo e oficiais de nada! Demos em clérigos de carreira, abades de cortes antigas das monarquias da Europa. Não sou um sacerdote, Mal. Sou um raio de um diplomata... e bom, ainda por cima, que se podia governar em qualquer embaixada do mundo..., mas sê-lo-ia de qualquer maneira sem ter de renunciar às mulheres, ao casamento e à vida de família.

            - Pronto, já lá chegámos!-disse Malachy O'Rahilly.-Sabia que ia ser assim, mais cedo ou mais tarde. Sentes-te só, farto de dormir sozinho, aborrecido da companhia da rapaziada solteira. Não há descrédito nisso, rapaz. É apenas uma das consequências. Estás a atravessar agora a parte desértica!

            - Estás enganado, Mal! Enganado, enganado, Roma é o local mais fácil do mundo para se chegar a acordo com a carne e o demónio. Sabes muito bem que aqui se pode dormir a dois numa cama durante vinte anos, sem que ninguém saiba! A verdade... dura como punhos, meu velho amigo, é que eu já não tenho fé.

            - Podes repetir, por favor. - O'Rahilly estava muito calmo. - Quero certificar-me de que ouvi bem.

            - Ouviste perfeitamente, Mal. -Neylan estava calmo como um professor ao quadro. - Seja o que for que nos dá a fé... a graça, o dom, a tendência, a necessidade... eu não o possuo. Foi-se. E o que é estranho é que não estou nada perturbado. Não sou como o desgraçado do Lorenzo de Rosa, lutando por justiça dentro de uma comunidade a que ainda está ligado, de alma e coração, e desesperando porque não a obtém. Eu não pertenço à comunidade, porque já não acredito nas ideias e nos dogmas que a escoram...

            - Mas ainda fazes parte dela, Matt.

            - Apenas por cortesia. Cortesia minha! - Matt Neylan encolheu os ombros. - Estou a fazer um favor a todos, não fazendo escândalo, continuando a trabalhar até conseguir arranjar uma saída airosa. Que será provavelmente uma conversa calma com o cardeal Agostini, no princípio da próxima semana, um pedido de resignação muito delicado e presto! Desapareço como um floco de neve.

            - Mas não te vão deixar sair assim, sem mais nem menos, Matt. Conheces a algaraviada toda: suspensão voluntária a sacris (1) requerimento de uma dispensa...

[1 Em latim no original: sagrada (NT)]

 

            - Não me diz respeito. - Matt Neylan explicou cheio de paciência. - A algaraviada só funciona quando se acredita nela. O que têm eles para me reter, além de sanções morais? E essas não me afectam, porque eu já não subscrevo o códice. Eles já não têm a Inquisição. O testemunho Papal não existe. Os sbirri (1) do Vaticano não podem vir prender-me à meia-noite. Portanto, vou-me embora quando me apetecer e à minha maneira.

[1 Em italiano no original: esbirros (NT)]

 

            - E vais contente, pelo que me é dado ouvir. - O tom de voz de O'Rahilly era azedo.

            - Olha que não, Mal. Há uma certa tristeza nisto... uma espécie de tristeza enevoada e cinzenta. Perdi ou orientei mal uma parte da minha vida. Diz-se que um amputado pode ser perseguido pelo fantasma de um membro que já não tem; mas a perseguição acaba ao fim de um certo tempo.

            - E como é que vais sobreviver?

            - Oh, aí não há problemas. A minha mãe morreu o ano passado. Deixou-me uma pequena propriedade em County Cork. E na semana passada, valendo-me da minha experiência diplomática no Vaticano, assinei um contrato para dois livros com um editor de Nova Iorque, por muito mais dinheiro do que jamais imaginei. Portanto não tenho problemas financeiros, e posso gozar a vida.

            - E problemas de consciência, também não?

            - O único problema que tenho, Mal... e ainda é muito cedo para saber como é que me vou adaptar a ele... é o de como conseguirei viver à rédea solta, sem o credo e o códice.

            - Pode ser que seja mais difícil do que pensas.

            - Já é difícil. -Matt Neylan sorriu-lhe do outro lado da mesa. - Neste exacto momento! Entre ti e mim! Tu pertences à Confraterni-dade dos Santos. Eu estou por fora. Tu és um crente. Eu sou um miscredente, um infiel. Parecemos iguais, porque usamos o uniforme de dois oficiais da marinha da Barca de Pedro. Mas tu ainda levas o piloto. Eu larguei o meu e estou pilotando o meu próprio navio; o que é uma coisa solitária e perigosa de fazer em águas pouco fundas.

            - Onde pensas ir viver depois? O Vaticano não te vai querer a rondar Roma. Eles podem tornar as coisas muito desagradáveis se quiserem, como tu sabes muito bem.

            - Ainda não tinha pensado nisso, Mal. Vou primeiro à Irlanda para regularizar o legado, e ver se a propriedade está bem dirigida. Depois vou dar a volta ao mundo, para ver que aspecto tem ele aos olhos de um mero turista de cabeça fresca. Esteja onde estiver, espero que continuemos a ser amigos. Se assim não for, compreenderei.

            - Claro que continuamos amigos, homem! E, para to provar, vou deixar que me ofereças um grande copo de brande... que, depois deste choque, vem mesmo a calhar!

 

            - Faço-te companhia... e, se isso te dá alguma felicidade, participo que te arranjo o relatório sobre o de Rosa de borla!

            - É muito generoso da tua parte, rapaz. Vou arranjar maneira de que pese a teu favor no dia do julgamento final!

 

            Para Sérgio Salviati, nascido italiano, judeu por ancestralidade e tradição, sionista por convicção, cirurgião singular para um Pontífice romano, já tinha chegado o dia do julgamento. Estava entregue à sua guarda e cuidados uma personalidade sagrada para um bilião de pessoas no mundo. De repente, antes que um bisturi tivesse sido erguido, a personalidade sagrada estava sob ameaça - uma ameaça tão mortífera como um enfarte ou um aneurisma.

            A novidade tinha sido levada por Menachem Avriel, embaixador israelita na Itália, que a revelou a seguir ao jantar em casa de Salviati.

            - Ao fim da tarde, fui informado pelo nosso serviço de informações de que é possível que haja uma tentativa de assassinato ao Pontífice, durante a estada dele na sua clínica.

            Salviati considerou a informação por uns momentos e depois encolheu os ombros.

            - Foi sempre previsível, suponho. Que valor tem a informação?

            - É de toda a confiança e em primeira mão de um Mossad, que trabalha sob disfarce num grupo Iraniano chamado Espada do Islão. Diz que oferecem um contrato... cinquenta mil dólares de entrada, e mais cinquenta mil no fim do trabalho. Não sabe ainda se há interessados.

            - Os italianos estão a par disto... e o Vaticano?

            - Foram ambos informados às seis horas da tarde.

            - Que disseram?

            - Obrigado... e tomaremos as medidas necessárias.

            - Assim o espero. - Salviati foi conciso. - Já não está mais nas minhas mãos. Começo a trabalhar com a equipa às seis da manhã. Não posso preocupar-me com mais nada.

            - A nossa suposição mais plausível... quero eu dizer, a suposição da Mossad... é que se tentará actuar durante o período de convalescença, e que a tentativa virá do interior, através de drogas, medicamentos, ou os sistemas de suporte de vida.

            - Tenho quase cem pessoas a trabalhar na clínica. Eles têm oito, e falam dez idiomas diferentes entre eles. Não posso garantir que um deles não seja um agente lá colocado. Raios, sei que pelo menos três são agentes da Mossad!

            Menachem Avriel riu-se.

            - Agora bem pode regozijar-se por me ter deixado lá metê-los! Ao menos estão a par da rotina e podem orientar as pessoas que vamos mandar amanhã para lá.

 

            - E se não se importa, quem são eles?

            - Ah, não sabia? A Agenzia Diplomática recebeu um pedido no fim da tarde, de duas criadas de enfermaria, dois técnicos de manutenção eléctrica e dois estagiários. Apresentam-se ao serviço às seis da manhã. Estará de serviço Issachar Rubin. Não tem que se preocupar com nada... e a Mossad paga a conta. Pode concentrar-se no seu distinto doente. A propósito, qual é o diagnóstico?

            - Bom. Muito bom, mesmo. O homem está obeso e em baixo de forma, mas em rapaz comeu e trabalhou numa quinta. Tem também uma vontade de ferro. O que o ajuda agora.

            - Pergunto a mim mesmo se nos irá ajudar?

            - A quê?

            - Ao reconhecimento pelo Vaticano do Estado de Israel.

            - Está a brincar! -Salviati ficou de repente tenso e irritável. - Isso é uma impossibilidade desde o princípio! Não vão, de forma nenhuma, apoiar Israel contra o mundo Árabe! Não interessa o que eles digam oficialmente, somos por tradição os assassinos de Cristo, amaldiçoados por Deus. Não temos direito a uma pátria, porque expulsámos o Messias e fomos, por nossa vez, expulsos! Nada mudou, creia-me. Passámos melhor sob o império romano do que sob os papas. Foram eles que nos puseram a estrela amarela, séculos antes de Hitler. Durante a guerra, enterraram seis milhões de mortos no Grande Silêncio. Se Israel fosse desmembrado de novo, lá estariam eles, esgravatando à procura dos documentos comprovativos à posse exclusiva dos seus Lugares Sagrados.

            - E contudo, você, meu caro Sérgio, vai dotar este homem com uma vida nova! Porquê você? Por que não remetê-lo aos seus?

            - Você sabe porquê, meu amigo! Quero que ele me fique em dívida. Quero que me fique a dever a vida. Quero que de cada vez que ele olhe para um judeu, se lembre que deve a sua sobrevivência a um e a sua salvação a outro. - Consciente, subitamente, da sua veemência, sorriu e estendeu as mãos num gesto de demissão. -Menachem, meu amigo, desculpe. Fico sempre irritável na noite anterior a uma grande operação.

            - Tem de passá-la sozinho?

            - Nunca, se o puder evitar. A Tove Lundberg vai aparecer mais tarde. Dorme cá e leva-me de manhã à clínica. É boa para mim... a melhor coisa da minha vida!

            - Então, quando é que casa com ela?

            - Amanhã, assim ela o quisesse.

            - Qual é o problema?

            - Filhos. Ela não quer ter mais nenhum. Fez o necessário para não poder tê-los. Diz que é injusto pedir a um homem que aguente isso, mesmo que ele esteja disposto a tal.

 

           - É sensata!-O embaixador ficou de repente muito calado. -Teve sorte em arranjar uma boa mulher em termos tão fáceis. Mas se está a pensar em casamento e numa família...

           - Já sei! Já sei! A sua Leah arranja-me uma rapariga judia, boa e inteligente, e vocês os dois despacham-nos para Israel, para a lua-de-mel. Esqueça isso!...

            - Vou adiar o assunto, mas não esquecê-lo. Onde está a Tove agora?

            - Está a fazer companhia a James Morrison, o nosso cirurgião visitante.

            - Pergunta: ela está a par dà Agenzia Diplomática, e dos seus outros contactos?

            - Ela sabe que apoio Israel. Conhece as pessoas que você me manda para serem recebidas. Quanto ao resto, não faz perguntas e eu não ofereço respostas.

            - Ainda bem! Como sabe, a Agenzia é muito importante para nós. Foi uma das melhores ideias que tive na vida...

            Menachem Avriel estava a falar verdade. Antes do seu primeiro cargo diplomático, quando não passava de um agente da Mossad, tinha proposto a ideia de uma rede de agências de emprego, uma em cada capital diplomática, que podiam oferecer trabalhadores eventuais -cozinheiros, criados de mesa, criados de quarto, amas, enfermeiras, motoristas - a diplomatas em serviço e a famílias de negociantes em períodos de serviço ultramarino. Cada pretendente à inscrição nos registos da agência era investigado, contratado e bem pago. Cumpriam-se rigorosamente as leis de emprego locais. Pagavam-se impostos. Os registos eram correctos. A clientela expandia-se através de recomendações. Agentes israelitas, homens e mulheres, eram infiltrados nas listas e a Mossad tinha olhos e ouvidos em todas as recepções diplomáticas e festas de negócios. O próprio Sérgio Salviati mantinha lugares em aberto na sua lista de serviço, para pessoal eventual da Agenzia, e se alguma vez teve dúvidas a respeito do duplo papel que desempenhava, enterrou-as sob uma avalancha de recordações amargas do seu povo: os decretos dos papas medievais que antecederam as leis de Nuremberga de Hitler em 1935, a i nfâmia da existência de guetos, o Domingo Negro de 1943, o massacre das Grutas Ardiatinas.

            Havia momentos em que se sentia prestes a estoirar, tal era a violência que ia no seu íntimo - a monomania que fez dele um grande cirurgião e um reformador da medicina, o apego violento de todos os latinos ao seu paese, seu país, a influência de dez mil anos de tradição tribal, a nostalgia dos salmos que se tornaram a própria voz do seu secreto coração: “Se eu te esquecer, Ó Jerusalém, faz com que a minha mão direita esqueça o que sabe.”

 

            - Vou andando - disse Menachem Avriel. - Precisa de se deitar cedo. Obrigado pelo jantar.

            - Eu é que lhe agradeço o ter vindo avisar-me.

            - Não deixe que isso o preocupe.

            - Não. Trabalho com a vida nas mãos e a morte a espreitar por cima do meu ombro. Não posso dar-me a esse luxo.

            - Tempos houve - disse Menachem Avriel secamente -, em que era proibido a um judeu dar assistência médica a um cristão... e um médico cristão tinha de converter o judeu antes de o poder tratar.

            Foi então que, pela primeira vez, Sérgio Salviati revelou o tormento que o dilacerava.

            - Aprendemos bem, não aprendemos, Menachem? Israel atingiu a maioridade. Temos agora os nossos próprios guetos, a nossa própria inquisição, as nossas próprias brutalidades; e os nossos próprios bodes expiatórios especiais, os palestinianos! Foi a pior coisa que os gentios nos fizeram. Ensinaram-nos a ser corruptos!...

            No seu apartamento, do outro lado do pátio, Tove Lundberg estava a descrever Salviati ao seu colega inglês.

            - É como um caleidoscópio, a mudar a todo o momento. É tão variável que parece ter uma vintena de homens dentro dele, e tecemos conjecturas sobre como pode ele lidar com tantos... e até como consegue lidar com ele mesmo. E então, de repente, torna-se claro e simples como a água. É assim que o vai ver amanhã de manhã, no anfiteatro. Estará absolutamente controlado. Não dirá uma só palavra desnecessária, nem fará um gesto redundante. Já ouvi as enfermeiras dizerem que nunca viram ninguém tão cuidadoso com o tecido humano. Mexe-lhe como se fosse uma teia de aranha.

            - Respeita-o. - James Morrison saboreou o resto do vinho. - É característico de um grande médico. Vê-se... E como é o seu toque com outras coisas?

            - Sempre cuidadoso. Muito suave a maior parte das vezes. Mas há imensas raivas dentro dele, que eu gostaria que pudesse poupar a si mesmo. Nunca me tinha apercebido, até chegar a Itália, como é profundo o preconceito contra os judeus... mesmo contra os nascidos cá, com uma ancestralidade grande no país. Sérgio contou-me ter decidido muito jovem que a melhor maneira de lidar com o facto era estudando as suas raízes e causas. Consegue falar sobre esse tema durante horas. Cita passagens dos Doutores da Igreja, de encíclicas e decretos papais, de documentos de arquivo. É uma história triste e de lamentar, especialmente quando se pensa que o gueto aqui em Roma foi abolido e o povo judeu emancipado por decreto real, apenas em 1870.

 

            “A despeito de rumores de acalmia e compensações verbais indiferentes, o Vaticano nunca repudiou a sua posição anti-semítica. Nunca reconheceu o direito e a justiça do povo judeu a uma pátria tradicional... Estas coisas perturbam o Sérgio. Ajudam-no, também, pois levam-no ao seu melhor, a tornar-se uma espécie de porta-bandeira do seu povo... E, no entanto, a outra parte dele é a de um homem da Renascença, que tudo vê, tentando desesperadamente compreender e perdoar tudo.

            - Ama-o muito, não ama?

            - Sim.

            - E então...?

            - Então, penso de vez em quando que o amo demasiado para o meu próprio bem. Mas de uma coisa tenho a certeza, o casamento seria um mau passo para ambos.

            - Por ele ser judeu e você não?

            - Não. É porque... - Hesitou bastante tempo quanto às palavras que devia usar, como se estivesse a pesar cada uma delas.-E porque eu já me posicionei na vida. Sei quem sou, onde estou, do que preciso, o que posso ter. O Sérgio ainda anda viajando, procurando, porque ele irá muito mais longe e chegará muito mais alto do que eu sequer sonharia. Há-de chegar um momento em que vai precisar de uma pessoa diferente de mim. Nessa altura serei como que um excesso de bagagem... Quero tornar esse momento o mais simples possível, tanto para ele como para mim.

            - Pergunto... -James Morrison serviu-se de mais um copo de vinho. -Pergunto a mim mesmo se você sabe, realmente, o quanto é importante para ele?

            - Pode crer que sei. Mas há limitações àquilo que eu posso dar. Gastei tanto amor e carinho com a Britte, é preciso ainda dar-lhe tanto, que não resta nenhum para dispensar a outra criança. Não dei nem um pouco de má vontade; mas o meu capital está esgotado... Estou quase no fim do meu tempo de poder ser mãe... assim, essa parte tão especial da minha paixão por um homem, já não a tenho. Sou uma boa amante e o Sérgio precisa disso, porque, como o James sabe muito bem, os cirurgiões passam tanto tempo das suas vidas a pensar nos corpos de outras pessoas, que por vezes se esquecem daquele que está a seu lado na cama. E, ainda por cima, sou dinamarquesa. Nem o estilo de casamento italiano, nem o judeu, fazem o meu género. Respondi à sua pergunta?

            - Respondeu, obrigado. Mas põe-me outra. Que pensa do nosso ilustre doente?

            - Gosto dele. Ao princípio, não gostei. Reparei em todas as características indesejáveis que sessenta anos de educação clerical, celibato profissional e egoísmo de solteiro podem causar a um homem... para não falar da ânsia de poder que parece afectar alguns solteirões de idade madura. É feio, rabugento, chega até a ser mal-educado. Mas, ao longo da nossa conversa, captei vislumbres de uma pessoa diferente, um homem que podia ter existido. Vai rir-se disto, já sei, mas fez-me lembrar o velho conto de fadas da Bela e o Monstro... está a ver qual é? Bastava que a princesa conseguisse arranjar coragem para beijar o Monstro, e ei-lo transformado num bonito príncipe.

            James Morrison deitou a cabeça para trás e riu à gargalhada.

            - Deliro com essa! Você não tentou, pois não?

            - Claro que não. Mas esta noite, quando ia para casa, fiz-lhe uma visita. Pouco passava das nove. Tinham acabado de dar-lhe os sedativos para sossegar durante a noite. Estava sonolento e tranquilo, mas reconheceu-me. Tinha um caracol a cair-lhe para os olhos. Instintivamente, penteei-o com os dedos. Agarrou a minha mão e segurou-a por um brevíssimo momento. E depois disse, de uma forma tão simples que quase chorei:

            - A minha mãe costumava fazer isso. Fingia que era o meu anjo da guarda, a pentear-me com as asas dela.

            - Foi assim que ele disse, “asas dela”?

            - Exactamente. E de repente eu vi um rapaz, pequenino e solitário, com um anjo-rapariga como companheira fantasmagórica. É triste, não é?

            - Mas alegre, enquanto durou. Você é uma mulher e tanto, Tove Lundberg, uma mulher e tanto! E agora vou-me deitar, antes que faça figura de parvo.

 

            No Palácio Apostólico na Cidade do Vaticano, as luzes estiveram acesas até muito tarde. O cardeal secretário de Estado tinha reunido em conferência os funcionários superiores do seu Secretariado e os do Conselho para Assuntos Públicos da Igreja. Em conjunto, estes dois agregados tratavam de todas as relações externas do Estado da Cidade do Vaticano e, simultaneamente, conduziam juntos os interesses complexos e por vezes conflituosos dentro da própria Igreja. Na condução diária dos assuntos da Cúria, eram um grupo de conselheiros paralelo; mas esta noite, com a segurança do Pontífice em jogo, constituíam um conselho de guerra muito calmo e quase cruel.

            Agostini, o secretário de Estado, fez o ponto da situação.

            - Tomo a informação Israelita como verdadeira. Aceito, com bastante alívio, que os agentes secretos da Mossad vão trabalhar com o pessoal normal, nas imediações da unidade de cuidados intensivos e, mais tarde, na enfermaria ocupada por Sua Santidade. Trata-se de uma operação irregular e particular, de modo que não podemos ter uma atitude formal. Dependemos das forças armadas da república de Itália... especialmente do Núcleo Centrais Anti-Terrorismo, que estão neste momento a reforçar o perímetro de protecção da clínica e vão colocar guardas à paisana em pontos estratégicos dentro do próprio edifício. É mais ou menos tudo o que nos é possível fazer no que diz respeito à segurança física do Pontífice, durante a sua doença. Contudo, numa rápida análise feita esta tarde com os nossos contactos diplomáticos, há indícios de que as coisas podem não ser tão simples como parecem. O nosso colega Anwar El Hachem tem algo a dizer sobre o ponto de vista Israelo-Árabe do assunto.

            El Hachem, um Maronita do Líbano, fez o seu relatório.

            - ... A Espada do Islão é um pequeno grupo dissidente de Iranianos do Líbano, actuando em plena Roma. Não pertencem à corrente principal de opinião da Palestina, mas são reconhecidos como tendo capacidade para obterem grandes financiamentos. Neste exacto momento, agentes da segurança italiana estão a apertar alguns deles com interrogatórios. Representantes das embaixadas da Arábia Saudita e das Repúblicas Norte Africanas, bem como dos Emiratos, renegam qualquer envolvimento na ameaça e oferecem total cooperação contra o que eles consideram uma operação pirata, que só lhes pode ser prejudicial. Alguns de entre eles sugeriram que talvez fossem os israelitas que estivessem por detrás de tudo isto, como atitude provocatória. Mas não concordo muito com esta tese.

            - Obrigado, Anwar. - O secretário prosseguiu. -Resta alguma dúvida de que a oferta de 100 000 dólares fosse feita pela Espada do Islão?

            - Nenhuma. Mas o homem que a fez é desconhecido.

            - Os americanos não sabem de nada. -Agostini apressava-se na leitura da lista.-Os russos negam qualquer conhecimento, mas gostariam de trocar notícias se souberem de alguma coisa. Os franceses remetem-nos para Paris. E os britânicos?

            Os britânicos eram o território do reverendo Hunterson, arcebispo titular de Sirte, um funcionário superior do Vaticano durante muitos anos. O seu relatório foi breve mas esclarecedor.

            - A embaixada britânica disse blá-blá-blá mas que aflição, prometeu ir ver o que se passava e reapareceu à volta das nove horas com a mesma informação de Anwar, que a Espada do Islão é um título de fachada para um grupo apoiado pelo Irão fora do Líbano. Têm de facto dinheiro nas quantidades mencionadas. Financiam realmente o fazer de reféns e assassinatos. Nesta instância, Sua Santidade é um alvo de oportunidade eminente.

            - O que não aconteceria - disse o secretário adjunto asperamente - se o tivéssemos mandado para Salvator Mundi ou Gemelli. Só temos que nos culpar por o termos exposto a um ambiente hostil.

            - Não é o sítio que é hostil. - Agostini estava irritado. - São os terroristas. Duvido que pudéssemos ter mais segurança noutro sítio qualquer. Mas isto coloca uma questão importante. Sua Santidade tinha falado em passar a sua convalescença fora do território do Vaticano, talvez numa herdade particular. Parece-me que não devemos consentir nisso.

            - Podemos impedir?-Falou um membro alemão do Conselho. - O nosso amo não aceita de bom grado que se lhe oponham.

            - Tenho a certeza-disse o secretário de Estado-que a república tem muito boas razões para não querer vê-lo ser assassinado no seu próprio solo. Sua Santidade, nascido italiano, tem muito boas razões para não querer embaraçar a república. Deixem esse problema comigo.

            - Quando é que o temos em casa?

            - Se tudo correr bem, dentro de dez a catorze dias.

            - Vamos assumir que são dez. Podemos colocar uma equipa de freiras enfermeiras em Castel Gandolfo. Eu podia falar com a Madre Geral da Little Company of Mary. Ela até podia mandar vir de avião algum do seu melhor pessoal do estrangeiro.

            - Pelo que sei - disse o arcebispo Hunterson -, a maioria das ordens de enfermagem tem dificuldade em manter operacionais os seus hospitais. Está dependente agora de pessoal leigo. Muito francamente, não vejo qual é a pressa. Desde que se possa garantir a segurança, por mim ele ficaria na Villa Diana.

            - A Cúria propõe - disse Agostini, com um humor ácido -, mas o Pontífice dispõe... mesmo da sua cama de doente! Deixem-me ver que ideias lhe consigo meter na cabeça enquanto ainda está consciente.

            Foi precisamente neste ponto da discussão que Monsenhor Malachy O'Rahilly chegou, respondendo a um chamado da reunião através do gabinete da central de comunicações. Estava aturdido e sem fôlego e ligeiramente - só ligeiramente - embriagado por causa dos vinhos branco e tinto e dos fortes brandies que tinha bebido, para o ajudar a aguentar toda a apostasia de Matt Neylan sobre a Fé.

            Neylan, por sua vez, foi convocado porque era um secretário de Nunziatures de primeira classe, e o seu trabalho era publicar as notícias e espalhá-las pela sua mordomia. Fizeram uma vénia aos prelados reunidos, sentaram-se em silêncio e escutaram respeitosamente quando Agostini, primeiro, lhes chamou a atenção para a discrição e depois lhes deu um resumo das ameaças e precauções.

            Monsenhor Matt Neylan não fez comentários. As suas funções estavam predeterminadas. A sua actuação exacta era tida como certa. O'Rahilly, pelo contrário, tendo bebido umas coisas, tendia a comportar-se voluvelmente. Como um dos assistentes pessoais do Pontífice e delegado Papal na condução do seu cargo, a sua conversa com Agostini foi mais para o enfático que para o discreto.

 

            - Já tenho uma lista daqueles que podem ter acesso a Sua Santidade na clínica. Dadas as circunstâncias, não se lhes devia fornecer um cartão de admissão especial? No fim de contas, não podemos exigir que o pessoal da segurança reconheça caras, e uma sotaina ou um colarinho romano disfarçam facilmente um terrorista. Podia ter tudo imprimido e distribuído dentro de meio dia.

            - Boa ideia, Monsignore. -Agostini acenou aprovadoramente. - Se puser as coisas a funcionar logo de manhã com os impressores, o meu gabinete responsabiliza-se pela distribuição... sempre contra assinaturas.

            - Assim se fará, Eminência. - Caprichosamente estimulado pelo elogio... raro e precioso nos meios curiais... O'Rahilly decidiu forçar a nota. - Falei com Sua Santidade esta tarde e ele pediu-me que fizesse investigações especiais no caso de um certo Lorenzo de Rosa, antigo padre desta diocese, cuja esposa... quero dizer, no registo civil... morreu ontem na clínica de Salviati. Parece que de Rosa fez repetidos, mas mal sucedidos requerimentos, para ser laicizado canonicamente e ter o seu casamento validado, mas...

            - Monsignore! - O secretário de Estado mantinha a calma. - Pareceria que esse assunto não é nem relevante para as nossas preocupações actuais, nem está dentro do contexto...

            - Olhe que sim, Eminência!

            O'Rahilly, com o freio nos dentes, faria corar um corredor do Derby. No meio de um silêncio gélido, descreveu à assembleia o seu encontro com de Rosa e a sua posterior discussão com Monsenhor Matt Neylan, sobre se se devia levar ou não a sério a ameaça.

            - Aqui o Matt Neylan foi da opinião, com que eu concordei, que o desgraçado do homem estava simplesmente abatido pelo desgosto, e que expô-lo ao interrogatório e vexame pelas forças de segurança seria uma enorme e desnecessária crueldade. No entanto, depois do que acabamos de ouvir, tenho de perguntar a mim mesmo... e a Vossas Eminências... se não se deviam tomar, pelo menos, umas certas precauções.

            - Mas com toda a certeza!-O secretário adjunto não tinha a mais pequena dúvida. Chamava-se Mikhaelovic e era um jugoslavo já condicionado a procedimentos de segurança. -A protecção do Santo Padre é uma preocupação suprema.

            - Essa é, no melhor dos casos, uma proposta dúbia. - Matt Neylan tornou-se, de repente, numa presença hostil na pequena assembleia. - Com o maior respeito, eu declaro que fatigar e vexar este homem desgostoso com inquéritos policiais seria uma crueldade exorbitante. O próprio Santo Padre teme que, ainda antes do seu desgosto, de Rosa possa ter recebido uma parte menor de justiça e caridade cristãs. Além disso, o que Monsenhor O'Rahilly se esqueceu de mencionar, é que eu já mandei instaurar um inquérito particular aos incidentes de de Rosa...

            - E ao fazê-lo excedeu a sua autoridade. - O cardeal Mikhaelo-vic não gostou da rectificação. -A mínima precaução que podemos tomar é denunciar este homem ao pessoal da segurança. Eles é que são os peritos. Não nós.

            - É exactamente aí que bate o ponto, Eminência. -Neylan estava solicitamente formal. - As tropas anti-terroristas não se guiam pelas regras normais dos procedimentos policiais. Acontecem acidentes durante os seus interrogatórios. Pessoas partem braços e pernas. Caem das janelas. E devia também chamar-lhes a atenção para o facto de estarem duas crianças pequenas envolvidas nisto.

            - Descendentes ilegítimos de um padre renegado!

            - Por amor do doce Cristo! Que raio de padre é você?

            A blasfémia chocou-os a todos. A repreensão de Agostini foi gelo.

            - Está a esquecer-se de si, Monsignore. Já apresentou o seu caso. Vamos ponderar muito nele. Quero que esteja no meu gabinete amanhã, às dez. Está dispensado.

            - Mas Sua Eminência não está dispensada... nenhum de vocês o está... do dever da compaixão comum! Desejo boa noite a Vossas Excelências!

            Curvou-se à saída da reunião e correu de volta ao seu pequeno apartamento no Palácio de Mint. Estava pior que fulo: com Mal O'Rahilly que não tinha conseguido manter fechada a sua grande boca de irlandês, e tinha desempenhado o papel de tipo importante, perante um bando de eminências e excelências maduras; com as próprias eminências e excelências, na medida em que simbolizavam tudo o que, ano após ano, o tinha afastado da Igreja e faziam uma palhaçada da caridade, que era indispensável à sua existência.

            Eram mandarins, todos eles, Kuan (1) imperiais àmoda antiga, que vestiam roupa clara e cabeções abotoados, e tinham a sua própria linguagem esotérica e desdenhavam de todo e qualquer argumento do rebanho comum. Não eram sacerdotes, cuidando apaixonadamente das almas. Não eram apóstolos, zelosos na divulgação do evangelho. Eram funcionários, administradores, delegados, tão privilegiados e protegidos como qualquer dos seus pares em Whitehall, Moscovo, ou no Quai d'Orsay.

[1 Em chinês no original (NT)]

 

            Para eles, um homem como Lorenzo de Rosa não existia como pessoa, não passava de um excomungado, entregue com um encolher de ombros à Divina Misericórdia, mas excluído para sempre de qualquer intervenção compassiva da parte da Assembleia humana - a menos99 que fosse ganha pela humilhação da penitência e por uma vigília de Inverno em Canossa. Sabia exactamente o que ia acontecer a de Rosa. Iam denunciá-lo aos Serviços de Segurança. Quatro brutamontes iam buscá-lo ao seu apartamento, levavam-no para a baixa, entregavam as crianças a uma matrona da polícia para as guardar, e punham de Rosa entre a espada e a parede durante duas ou três horas. A seguir obrigavam-no a assinar um depoimento que estaria demasiado tonto para conseguir ler. Tudo se passaria de modo muito impessoal. Eles não queriam realmente fazer nada de mal. Era o procedimento normal, para obter rapidamente os factos antes que uma bomba explodisse, e para desencorajar qualquer oposição de um suspeito inocente - mas depois, sob o velho sistema inquisidor, ninguém era inocente até o ter provado em tribunal.

            E quanto a ele mesmo, Matt Neylan? A retirada tranquila que tinha planeado para si era agora impossível. O que não se podia dizer tinha sido dito. Não havia maneira de recolher as palavras... e tudo porque Mal O'Rahilly não tinha aguentado o álcool e tinha tido de ir arrastar as asas de grilo para uma conferência de crise dos maiores chefões na Santa Igreja Romana! Mas não era esta a regra, todo o processo condicionante que produzia o perfeito clérigo romano assexuado? As palavras-chave da fórmula nunca tinham mudado desde Trento - hierarquia e obediência. O efeito que produziam num simples padre ou num bispo lorde era sempre o mesmo. Ficavam de pé a olhar para o chão, arrepelando os cabelos, como se estivessem a ouvir os trovões da Montanha da Revelação.

            Pois bem, esta noite tinha sido a última gota para Matt Neylan. Amanhã faria as malas e partiria, sem pena, sem um pedido de demissão. No dia seguinte, apelidá-lo-iam de renegado como de Rosa e riscariam o seu nome do livro dos Eleitos e comprometê-lo-iam perante Deus que o criara, com uma qualquer ninharia. Pegou na lista telefónica de Roma e percorreu com o dedo os nomes de Rosa... Havia seis com a inicial L. Ligou uns a seguir aos outros, confiante que uma menção à clínica Salviati obtivesse uma resposta identificativa. Tinha esperanças de que o homem estivesse suficientemente são para aceitar um aviso de um antigo colega. Seria agradável que o Irmão Raposa tomasse a dianteira no seu caminho para uma terra segura, antes que os cães começassem a persegui-lo, ladrando na sua peugada.

 

            Por sobre o conjunto da casa de Salviati, a lua nova de Verão vogava alto num mar de estrelas. Um rouxinol começou a cantar nas sombras do jardim. Aluz e a música traziam uma magia antiga ao quarto abobadado onde Salviati dormia e Tove Lundberg, apoiada no cotovelo, o olhava como uma deusa protectora.

 

            O seu acto amoroso tinha seguido o padrão que lhes era familiar: um prelúdio longo e terno, uma súbita transição para a brincadeira, uma transposição rápida para o êxtase da paixão, uma série de impetuosos orgasmos, um lento recordar de prazeres lânguidos, depois o brusco cair no sono de Sérgio, as suas feições clássicas, jovens e sem rugas encostadas à almofada, os músculos dos ombros e do peito tornados mármore ao luar. Tove Lundberg ficava sempre acordada um bocado, pensando em como é que a uma tempestade tão violenta se podia seguir uma calma tão mágica.

            Não tinha uma imagem clara de si mesma; mas sabia de cor o papel que lhe cabia nestas noites de crise. Era a escrava do corpo dele, a perfeita cortesã, derramando-se sobre ele, sem pedir nada a não ser servi-lo. O porquê dele estava enterrado bem no fundo do seu inconsciente e ela não tinha vontade de o trazer à força para a luz. Sérgio Salviati era o perpétuo estranho. Tornara-se num príncipe pela conquista. Precisava dos despojos para provar as suas vitórias - o ouro, as jóias, as raparigas escravas, e o respeito dos poderosos da terra.

            O porquê dela era diferente, e podia enfrentá-lo sem vergonha. Como mãe, tinha parido uma descendência defeituosa; não queria repetir a experiência. Como amante, dava um prazer perfeito, e ainda que o tempo pudesse diminuir o seu encanto ou as suas capacidades como parceira na cama, não podia senão fazer aumentar a sua estatura e influência como camarada de profissão. Nada melhor que o próprio reconhecimento de Sérgio:

            “És o único lugar totalmente calmo na minha vida. És como um lago fundo no meio da floresta e, de cada vez que chego até ti, sinto-me fresco e renovado. Mas tu nunca me pedes nada. Porquê?”

            - Porque - disse-lhe ela - não preciso de nada além do que já tenho: um trabalho que faço bem, um local onde a minha Britte pode crescer e tornar-se numa mulher independente e talentosa, um homem em quem confio e admiro e amo.

            - Quanto é que gostas de mim, Tove Lundberg?

            - Quanto tu quiseres, Sérgio Salviati. Quanto tu me deixares.

            - Por que é que não me perguntas quanto gosto de ti?

            - Porque já sei...

            - Sabes que tenho sempre medo?

            - Sei.

            - De que é que eu tenho medo?

            - De que um dia, num mau momento, te falhe a magia da cura, que interpretes mal os sinais, percas o toque de mestre. Mas isso não vai acontecer. Prometo-te.

            - Nunca tens medo?

            - Só de uma coisa.

 

            - Que coisa?

            - Tenho medo de precisar tanto, mas tanto, de qualquer coisa, que alguém me possa magoar só por ma tirar.

            E, podia ela ter acrescentado, provinha do velho ramo nórdico de mareantes cujas mulheres esperavam em dunas varridas pelo vento, sem se importarem que os seus homens viessem bêbados, sóbrios ou com cicatrizes de rixas, mas que apenas, e mais uma vez, tivessem escapado ao cinzento fazedor de viúvas.

 

            Nas horas curtas e escuras antes da alvorada, Leão o Pontífice começou a rolar a cabeça de um lado para o outro na almofada e a resmungar, inquieto. A sua garganta estava cheia de mucosidades e a sua testa pegajosa do suor da noite. A enfermeira de vela acomodou-o melhor na cama, limpou-lhe a cara com uma esponja e humedeceu-lhe os lábios com água. Ele falou sonolentamente.

            - Obrigado. Desculpe a maçada. Estava a ter um sonho mau.

            - Já passou. Feche os olhos e volte a dormir.

            Durante um momento breve e confuso esteve tentado a contar-lhe o seu sonho, mas não se atreveu. Tinha nascido como uma nova lua dos lugares mais recônditos das suas memórias de infância; ela iluminava com uma luminosidade impiedosa uma área escondida da sua consciência de adulto.

            Na escola havia um rapaz, mais velho e maior que o ameaçava constantemente. Um dia confrontou-o e perguntou-lhe por que era tão cruel para ele. A resposta ainda ecoava na sua memória: “Porque estás entre mim e o sol, estás-me a roubá-lo.” Como é que isso podia ser, perguntou, se ele era muito mais pequeno e mais novo. Ao que o atormentador respondeu: “Mesmo um cogumelo faz sombra. Se ela cai sobre a minha bota, eu desfaço-o em pedaços aos pontapés.”

            Foi uma brutal mas duradoura lição sobre o uso do poder. Um homem que está de pé contra o sol, torna-se numa sombra negra, sem rosto e ameaçadora. Contudo, a sombra está cercada pela luz, como um halo ou como a coroa de um eclipse. Assim, o homem sombra torna-se numa divindade. Combatê-la é um sacrilégio, um crime altamente condenável.

            Assim, nas últimas horas antes que o drogassem e o despachassem para o bloco operatório, Ludovico Gadda, Leão XIV, Vigário de Cristo, Supremo Pastor da Igreja Universal, compreendeu como, aprendendo com o atormentador, ele tinha sido preparado para a tirania.

            Desafiando os ensinamentos bíblicos, os hábitos históricos, o descontentamento entre os clérigos e os fiéis, tinha nomeado como arcebispos responsáveis, na Europa e nas Américas, homens escolhidos por si, conservadores da linha dura, defensores obstinados de bastiões há muito ultrapassados, cegos e surdos a qualquer tentativa de mudança. Eram chamados os homens do papa, a guarda pretoriana no Exército do Eleito. Eram o eco da sua própria voz, abafando os murmúrios dos clérigos descontentes e da multidão anónima fora dos santuários.

            Tinha sido uma luta difícil e uma grande vitória. Até mesmo ao recordá-la, a sua face endurecia e adquiria o velho ar de predador. Padres dissidentes tinham sido silenciados de duas formas: suspensão das suas funções e a nomeação de um administrador apostólico especial. Quanto às pessoas, também se tornavam mudas quando os seus pastores eram silenciados. Não tinham voz na assembleia. A sua única liberdade de expressão era fora dela, entre os heréticos e os infiéis.

            Foi o pesadelo de infância que envergonhou Leão, o Pontífice, ao ponto de admitir o mal que tinha feito. Foi a sombra da faca do cirurgião que lhe lembrou que possivelmente nunca teria hipóteses de o emendar. Quando os primeiros galos cantaram nas capoeiras de Villa Diana, fechou os olhos, virou a cara para a parede e fez a sua última e desesperada oração.

            - ... Se a minha presença tapa a Tua luz, oh Deus, afasta-me! Risca-me do livro dos vivos. Mas se me deixas aqui, dá-me, peço-Te, olhos para ver e coração para sentir os terrores solitários dos Teus filhos!

 

LÁZARO RECOMPOSTO

 

            "Ele exclamou em voz alta:

            'Lázaro, vem cá ter comigo!' No que o homem morto saiu, as mãos e os pés ligados com tiras de linho, a face coberta com um véu. Jesus disse: 'Soltai-o. Deixai-o ir em liberdade.'“ João XI, 43. 44.

 

            Mais ou menos à mesma hora da mesma manhã, Monsenhor MattNeylan conseguiu finalmente contactar telefonicamente com Lorenzo de Rosa, antigo padre da diocese de Roma, excomungado, viúvo recente, pai de duas crianças. Neylan explicou-se de um modo conciso.

            - Há uma ameaça terrorista ao Pontífice, que neste momento está internado na Clínica Internacional. Suspeita-se de si, porque você expressou ontem, alto e bom som, as suas opiniões a Malachy O'Rahilly. Portanto candidatou-se a uma visita da brigada anti-terrorista. O que sugiro é que saia da cidade o mais rapidamente que puder.

            - E por que é que se está a ralar?

            - Sabe Deus. Talvez porque uma visita dos Squadristi me pareça exagerado, tendo em vista a sua situação actual.

            - Agora, já não nos podem fazer nada. Mas obrigado por ter telefonado. Adeus.

            Matt Neylan ficou de pé, com cara de parvo, com o telefone mudo na mão. Depois, apossou-se dele um pressentimento desagradável que o fez correr para o automóvel e guiar como um louco no tráfego matinal em direcção a EUR.

            A casa de de Rosa era uma modesta mas bem conservada vivenda num cul de sac (1) perto da via del Giorgione. Estava um carro na estrada e o portão do jardim estava aberto. Aporta da frente também. Neylan saudou, mas não obteve resposta. Entrou. O rés-do-chão estava deserto. Ao cimo das escadas, no quarto das crianças, duas miudinhas estavam deitadas na cama, quietas e com as caras cor de cera. Neylan chamou-as docemente. Não responderam. Tocou-lhes nas bochechas. Estavam frias e sem vida. Do outro lado do átrio, na grande cama de casal, Lorenzo de Rosa jazia ao lado do corpo da mulher, vestida como que para uma noite de núpcias. O rosto de de Rosa estava distorcido no último estertor da morte. Tinha um pouco de espuma nos lábios.

[1 Em francês no original: beco (NT)]

 

            Matt Neylan, recém-chegado à descrença, deu por si a sussurrar uma prece por todas as suas tristes almas. Depois a prece explodiu numa blasfémia contra toda a hipocrisia e tolice que estavam na origem da tragédia. Hesitou, por um brevíssimo momento, em chamar ou não a polícia; decidiu-se pela negativa, e saiu então da casa para a rua deserta. A única testemunha da sua partida foi um gato vadio. A única pessoa a saber do acontecido foi o cardeal secretário de Estado, a quem expôs, de uma assentada, a sua descoberta da tragédia e a sua decisão de abandonar a Igreja.

            Agostini, o eterno diplomata, aceitou a notícia com toda a calma. Com Neylan, não havia argumentação possível. Como descrente, pertencia, daí em diante, a outra espécie de pessoas. O caso com a polícia foi ainda mais simples de resolver. A ambas as partes interessava o mesmo. Sua Eminência explicou-o muito simplesmente.

            - Procedeu sensatamente ao abandonar o local. Doutro modo, estaríamos atolados em depoimentos e interrogatórios. Nós avisámos a polícia da sua presença na casa e da sua descoberta dos corpos. Considerarão a sua presença como uma visita pastoral, passível de segredo de confissão. Não o vão envolver em quaisquer futuras investigações.

            - O que, evidentemente, deixa tudo em boa ordem.

            - Poupe-me as ironias, Monsignore! - Sua Eminência ficou, de repente, furiosa. - Lamento tanto o que aconteceu como você. Estava tudo errado desde o início. Não aprecio nem os zelotas nem os intolerantes, por mais altamente colocados que estejam no Sagrado Colégio; mas sou obrigado a trabalhar com eles, com o máximo de tolerância e caridade que consigo arranjar. Você pode dar-se ao luxo da sua raiva. Escolheu retirar-se da comunidade dos fiéis e dispensar-se a si mesmo das obrigações que ela implica. Não o censuro. Compreendo o que o levou a essa decisão.

            - Não se lhe pode chamar decisão, Eminência. É um novo modo de estar na vida. Já não sou crente. A minha personalidade está mudada. Não tenho lugar em qualquer assembleia cristã. Assim, estou a desligar-me o mais discretamente possível. Abandono hoje o meu gabinete. O meu apartamento é arrendado a particulares, não é pertença do Vaticano; assim, não há qualquer dificuldade. Tenho um passaporte irlandês, por isso devolvo-lhe os meus documentos do Vaticano. Assim deve ficar tudo arrumado.

            - Quanto a nós - Agostini estava solicitamente bem disposto - , suspendemo-lo formalmente da prática das funções de sacerdote, e tratamos imediatamente do seu processo de laicização.

            - Com todo o respeito, Eminência, é-me indiferente.

            - Mas, meu amigo, você não me é indiferente. Há muito tempo que andava a ver que isto ia suceder. Era como assistir à mutação gradual de uma rosa clássica em flor vulgar. A beleza da florescência desapareceu, mas a planta está ainda cheia de vigor. Censurei-o ontem à noite; mas compreendi a sua raiva e admirei a sua coragem. Devo dizer-lhe que naquele momento você me pareceu extremamente cristão!

 

            - Estou com curiosidade - disse Matt Neylan.

            - A respeito de quê?

            - Ambos sabemos que o Santo Padre tinha pedido um relatório especial sobre o caso de Rosa.

            - E então?

            - A minha pergunta é: como vai ele reagir ao saber das suas mortes... assassínio e suicídio?

            - Não tencionamos dizer-lhe nada... até que ele esteja suficientemente forte para o saber.

            - E depois como vai ser? Como irá reagir? Arrepender-se-á da sua severidade original? Como irá julgar de Rosa e a ele mesmo? Corrigirá as leis dos cânones, ou suavizará as penas?

            - O que você está de facto a perguntar-Agostini permitiu-se um rápido e triste sorriso - é uma pergunta eterna. A Igreja muda quando um papa muda a sua maneira de pensar ou de sentir? Pelo que sei, não. A inércia é demasiado grande. Todo o sistema está montado contra os movimentos bruscos. E além disso... e esse é o fulcro da questão... a Igreja está agora tão centralizada, que cada leve tremor é ampliado à escala de terramoto. O acto mais simples de tolerância oficial, pode tornar-se num escândalo. A especulação mais inocente do teólogo mais ortodoxo, sobre os mistérios da Fé, dá azo a uma caça à heresia. -Agostini tornou-se, de repente, triste. -Vivendo a esta altitude neste lugar, é como estar encarrapitado na extremidade da falha de Santo André. Daí a resposta à sua pergunta: qualquer pronunciamento público do Pontífice está ritualmente controlado. Na sua vida privada, pode vestir-se de sarapilheira, polvilhar-se com cinzas, lamentar-se como Job sobre a sua pilha de estrume; mas quem saberá disso? A Igreja tem a sua própria omerta, a sua lei do silêncio, em que mesmo os mais ínfimos pormenores são tão vinculativos como os da Mafia.

            - E que aconteceria... -Matt Neylan riu-se ao pôr a questão. - Que aconteceria se eu decidisse quebrar o muro do silêncio?

            - Nada. -Agostini afastou o pensamento com um gesto.-Absolutamente nada! Que autoridade podia você invocar? Seria considerado um padre apóstata e renegado. Dentro da Igreja será desprezado e ignorado. Fora dela, trar-lhe-ia outro estigma: um tolo que se deixou enganar durante meia vida antes de se demitir.

            - Isso é uma advertência, Eminência?

            - Apenas um conselho. Sei que está a tentar uma nova carreira como escritor. Não vai, tenho a certeza, prejudicá-la com escândalos insignificantes, ou traindo segredos profissionais.

            - A sua confiança em mim lisonjeia-me - disse Matt Neylan.

            - Todos o recordaremos como um colega discreto e leal. Rezaremos pelo seu bem-estar.

            - Obrigado... e adeus, Eminência.

 

            E assim, desta maneira simples e breve, terminou toda uma vida, e como se fosse a pele de um réptil largou uma identidade completa. Passou pelo Palácio Apostólico para se despedir de Malachy O'Rahilly, mas informaram-no de que ele estava esperando na clínica, até saber como tinha decorrido a operação do Pontífice.

            E assim, como precisava pelo menos de uma paragem entre a sua antiga e a sua nova vida e de uma arma contra a burocracia impiedosamente recta do Vaticano, telefonou a Nicol Peters a perguntar se lá podia ir beber um café.

            - É o meu dia de sorte.-Nicol Peters meteu outra cassete no gravador. - Duas histórias importantes e você forneceu-me o miolo das duas. Fico em dívida para consigo, Matt.

            - Não me deve nada. - Neylan pôs enfâse na frase.- Acho que o assunto de Rosa é um escândalo que precisa de ser ventilado... Você pode fazê-lo. Eu não posso... pelo menos enquanto não tiver definida uma nova identidade e autoridade. O que, a propósito, é um problema que tem de resolver. Se se sabe que fui eu que o informei, a sua história será desacreditada. Os caídos em desgraça como eu, podem ser um empecilho.

            Nicol Peters encolheu os ombros à advertência.

            - Já estabelecemos as regras. Acredite que as sigo.

            - Tudo bem.

            - Então, vamos lá voltar atrás. A ameaça de assassínio é a história principal, se bem que não saiba muito bem como é que a vou utilizar se ela pode comprometer a vida de um agente secreto. De qualquer modo, o problema é meu e não seu. Demos uma olhadela à sequência dos acontecimentos. A Mossad sabe da coisa através de um agente no local. Os israelitas passam a história às autoridades do Vaticano e às italianas. Estas montam uma operação conjunta de segurança, dentro e fora da clínica de Salviati. Os israelitas não podem participar abertamente; mas é óbvio que estão metidos nela até ao pescoço.

            - Obviamente.

            - Até agora o Pontífice não sabe de nada disto?

            - De nada. A notícia chegou ontem ao princípio da noite. A reunião a que estive presente, não demorou até muito tarde. A contagem decrescente para a operação do Pontífice já tinha começado. Não havia nenhuma justificação para o estar a incomodar com as novidades.

            - Concordo. Vamos especular um pouco mais para diante. Identifica-se um assassino antes de se dar o atentado contra a vida do papa. Quem trata dele... ou talvez dela, o que é bem possível?

            Matt Neylan serviu-se de mais café e fez uma exposição levemente brincalhona do argumento.

 

            - Aposição do Vaticano é extremamente fácil de definir. Redigi suficientes declarações de tomadas de posição para lha dar verbatim (1). A sua única preocupação é a segurança da Sagrada Pessoa de Sua Santidade. Deixam que a república trate da parte criminal. Simples! Mãos limpas! Nada de confusões com o mundo muçulmano. Aposição da República de Itália é, de algum modo, diferente. Tem o direito, o poder, a autoridade soberana para lidar com criminosos e terroristas. Mas tem interesse nisso? Uma ova! Isso implica mais actos de terrorismo... desvio de aviões, reféns, raptos para se poder fazer a troca com criminosos que estão presos. Conclusão: embora nunca o admitam, adorariam que a Mossad tratasse do assunto rápida e eficazmente e enterrasse o corpo ainda antes do nascer do sol. Quer que eu prove tudo isto? Nem pense. Quer que jure que foi isto que ouvi no Palácio Apostólico... também não pense! Isto nunca foi dito. Nunca o seria!

[1 Em latim no "original: tal o qual, tim-tim por tim-tim (NT)]

 

            - Parece-me - disse Nicol Peters amavelmente -, parece-me que a dama já protestou o suficiente! Tenho o bastante para estruturar a história e abrir caminho para o resto dela através de outras fontes. Falemos agora de de Rosa. Mais uma vez, a sequência é evidente. De Rosa deixa o sacerdócio, vai para a cama com umarapariga sem a bênção do clero, tem duas filhas. São felizes. Querem regularizar a sua união... uma situação já com precedentes, de modo nenhum impossível sob o ponto de vista dos cânones...

            - Mas absolutamente contrária à política actual, que é a de tornar as coisas o mais difíceis possível para os que prevaricam e fazer perder a esperança em soluções misericordiosas.

            - Tal e qual. Então a tragédia ataca. A mulher morre, ainda sem ter feito as pazes com a Igreja, apesar de o seu desejo ser esse. O marido desesperado encena uma macabra reunião de família, mata as filhas com uma overdose de comprimidos para dormir e suicida-se com cianeto... tudo isto enquanto está sob suspeita de ser um possível assassino do mesmo papa que lhe negou a liberdade canónica.

            - Muita atenção! Até eu ter telefonado a de Rosa de manhã cedo, ele não sabia que era suspeito. Não podia saber.

            - Será possível que o que lhe contou tenha precipitado a sua decisão de matar as filhas e de se suicidar?

            - É capaz disso. Mas tenho as minhas dúvidas. O facto de ter trazido o corpo da mulher para casa, parece indicar que já tinha decidido fazer uma cerimónia fúnebre especial... Mas que sei eu? Tudo isto é de loucos... tudo porque um bando de clérigos burocratas recusou uma legítima aspiração de uma situação humana. Deixe que lhe diga uma coisa, Nico! Esta é uma história que eu quero que Sua Santidade leia, tenha ela o efeito que tiver na sua sagrada pressão arterial! -Acha que tem algum interesse o que ele pensa ou diz a respeito?

            - É capaz de ter. Pode modificar uma quantidade de vidas do dia para a noite se ele tiver a vontade e a coragem. Ele pode trazer de novo compaixão e clemência para aquilo que, pode crer, se tornou numa instituição inflexível.

            - Acredita mesmo nisso, Matt? Vivo nesta cidade há mais tempo do que você e não acredito nisso nem por um minuto. Na Igreja Católica Romana, todo o sistema... a hierarquia, a educação do clero, a administração da cúria, o colégio eleitoral... está concebido para perpetuar o status quo e ir eliminando todo e qualquer elemento que saia das normas. O homem que está no cimo é o mais parecido possível com o Enviado da Manchúria, o representante perfeitamente condicionado do interesse maioritário do próprio colégio eleitoral.

            - É um bom argumento - disse Matt Neylan com um sorriso. - Eu próprio sou um homem condicionado. Sei como ficamos profundamente marcados, como se podem tornar fortes as palavras-chave. Mas, por sinal, sou também a excepção que confirma a regra. Perdi todo o condicionamento. Tornei-me noutra pessoa. Sei que a mudança é impossível pelo bem ou pelo mal... e que os dois instrumentos mais poderosos da mudança são o poder e o sofrimento.

            Nicol Peters olhou-o perscrutadoramente durante um bom espaço de tempo, e depois disse suavemente:

            - Dá-me ideia que me escapou qualquer coisa, meu amigo. Será que tem pachorra para me contar o que foi?

            - Não é nada de especial, Nico. E no entanto, é, de certa maneira, tudo. É por isso que me sinto tão furioso com o que aconteceu a de Rosa. Agostini disse-o esta manhã muito rudemente. Agora estou rotulado... sou um apóstata, um renegado, um desertor, um néscio. Mas não é nada disso que sinto. Perdi algo, uma capacidade, uma faculdade... como se pode perder a potência sexual ou o dom da visão. Estou modificado, irrevogavelmente. Voltei ao primeiro dia da criação, quando a terra era ainda um enorme espaço vazio e a escuridão pairava sobre as profundezas... Quem sabe? Pode ser que haja maravilhas ainda por descobrir, mas eu não conto com isso. Vivo no aqui e no agora. O que vejo é o que é. O que sei é o que experimentei e... o mais aterrador de tudo, Nico!... o porvir depende apenas do acaso!... O que faz do mundo um sítio muito medonho, Nico. Tão medonho, que o próprio medo vai sobreviver dificilmente.

            Nicol Peters esperou bastante até comentar secamente:

            - Pelo menos você está no começo de um mundo novo, não no fim dele. E não é assim tão novo. É o mesmo lugar onde muitos de nós vivemos sem nunca termos sido condicionados ou dotados com as certezas maciças da Cristandade. Temos que nos governar com o que temos...

 

            a luz transitória, a tempestade passageira, amor que baste para temperar as lágrimas das coisas, o raro vislumbre de razão num mundo louco. Portanto, não esteja tão desanimado, camarada! Entrou num grande clube... e até os cristãos acreditam que Deus foi sócio fundador!

 

            Enquanto o Pontífice, frio e cianosado, cheio de tubos e eléctrodos, era colocado na Unidade de Cuidados Intensivos, Sérgio Salviati bebia café com James Morrison, e escrevia o seu primeiro comunicado para o Vaticano.

            - Sua Santidade, o papa Leão XIV, foi hoje submetido a uma operação electiva de by-pass, em consequência de uma história curta de Angina Pectoris. A operação, na qual se inseriram três enxertos de veia safena na circulação coronária, foi realizada na Clínica Internacional sob a direcção do professor Sérgio Salviati, assistido pelo Dr. James Morrison do Colégio de Cirurgiões de Londres, na presença do médico papal, professor Carlo Massenzio. A operação foi um êxito, tendo demorado duas horas e cinquenta minutos. Sua Santidade está agora na Unidade de Cuidados Intensivos e o seu estado é estável e satisfatório. O professor Salviati e o médico assistente prevêem uma convalescença sem complicações e estão optimistas quanto ao prognóstico a longo prazo.

            Assinou o documento com um arabesco e entregou-o à secretária.

            - Mande duas cópias para o Vaticano, uma pessoalmente para o secretário de Estado, e outra para o Sala Stampa. A seguir dactilografe este texto que as nossas telefonistas utilizarão verbatim para responder a todas as perguntas a respeito do Pontífice. Texto: “A operação ao Santo Padre correu bem. Sua Santidade está ainda nos Cuidados Intensivos.

            “Para maispormenores, contacte o Sala Stampa, Cidade do Vaticano, que publicará todos os futuros boletins.”

            - Mais alguma coisa, Professor?

            - Sim. Por favor, diga ao chefe do pessoal Hospitalar e aos dois oficiais superiores de segurança para virem ter aqui comigo dentro de trinta minutos. É tudo por agora.

            Quando a secretária saiu, James Morrison fez-lhe um rasgado elogio.

            - Nota dez, Sérgio! Tem uma grande equipa. Nunca trabalhei com melhor.

            - Eu é que lhe agradeço, James. Foi muito gratificante tê-lo junto de mim. Esta era uma das difíceis.

            - O velho bútio devia estar grato por cair nas suas mãos!

            Salviati atirou a cabeça para trás e riu-se.

            - É mesmo um bútio velho, não é? Aquele grande bico, aqueles olhos hostis, de falcão. Mas é um passarão rijo. Vai durar ainda mais uns dez anos.

            - Claro que é uma coisa a discutir, o saber-se se o mundo e a Igreja lhe vão agradecer o que você fez.

            - É verdade, James! Bem verdade! Mas ao menos honramos o juramento de Hipócrates.

            - Pergunto a mim mesmo se ele o agraciará com uma condecoração do Vaticano.

            - A um judeu? Duvido muito. Eu não aceitaria. Não posso. De qualquer modo é demasiado cedo para pensar em êxito, deixemos as recompensas sossegadas. Ainda temos que o manter vivo até ao fim da convalescença.

            - Está assim tão preocupado com a ameaça de assassinato?

            - Pode crer que estou! Ninguém entra ou sai da Unidade de Cuidados Intensivos sem uma verificação da identidade. Este doente não toma nenhum remédio a não ser dado por pessoal designado e retirado de frascos selados. Até as malditas mulheres da limpeza e os recolhe-dores do lixo são revistados!

            - Mas já reparei que, tanto você como a Tove, entram e saem da clínica sem um guarda-costas. Será aconselhável?

            - Nós não somos o alvo.

            - Podem bem ser um alvo secundário.

            - James, se eu fosse a pensar em todos os riscos deste trabalho, fechava-me à chave numa cela almofadada... Mudando de assunto, quais são agora os seus planos?

            - Vou dar um passeio até ao norte para ver os meus familiares italianos, e depois sigo para Londres.

            - Em que moldes quer que se faça o seu pagamento?

            - Francos suíços em Zurique, se possível.

            - Uma vez que o dinheiro vem do Vaticano, tudo é possível. Quando é que se vai embora?

            - Dentro de dois dias, talvez três. O embaixador britânico convidou-me para jantar. Quer tirar alguns dividendos da minha estada... no que não o censuro, porque estarei a comer dos meus próprios impostos. Mas antes de me ir embora, gostaria de o convidar a si e à Tove para sair. Vocês escolhem o sítio e eu pago a conta.

            - Está combinado. Quer vir dar uma volta comigo, e dar uma olhadela ao nosso doente? Já deve estar instalado. E esse monsignore irlandês, secretário dele, insiste em ter uma conversa particular...

            Monsignore Malachy O'Rahilly estava cansado e em baixo. O ligeiro calor do álcool e da rectidão que o tinha aguentado na reunião do Secretariado, tinha-se afundado nas cinzas pardas do remorso. Tinha ido de carro para a clínica, justamente quando o Pontífice era levado numa maca com rodas para a sala de operações, e tinha passado três longas horas às voltas com os pensamentos, sob os olhares vigilantes de homens armados.

            Ainda antes de ter saído o comunicado de Salviati, já ele tinha telefonado para o secretário de Estado para lhe comunicar que a operação tinha sido um sucesso. Sua Eminência tinha retribuído com um breve resumo do caso de de Rosa e advertindo que nenhuma das reportagens dos jornais-as que tivessem tendências lúgubres-deviam ser comunicadas a Sua Santidade, até ele estar a caminho da recuperação. O'Rahilly interpretou a ordem como uma reprovação às suas indiscrições, e desejou ter perto de si alguém parecido com Matt Neylan a quem se poderia confessar como a um irmão.

            Assim, ao ficar de pé ao lado da cama do Pontífice, com Salviati e Morrison, sentiu-se perturbado e desconfortável. O seu primeiro comentário foi uma banalidade.

            - O pobre homem parece tão... tão vulnerável.

            Morrison sossegou-o animosamente.

            - Ele está em grande forma. Correu tudo como vem nos livros. Não há nada afazer agora além de vigiar o monitor e mudar o soro. Só vai estar semilúcido daqui a um dia e meio. Se fosse a si, ia para casa e deixava o pessoal do professor Salviati tomar conta dele.

            - Tem toda a razão, claro. - O'Rahilly ainda precisava de dar uns retoques na sua dignidade. -Interrogo-me se não seria melhor rever consigo os dispositivos de segurança, Professor Salviati; só assim posso tranquilizar o secretário de Estado e a Cúria.

            - Nem pensar, Monsignore!-Salviati foi um pouco rude. -A segurança não é do seu pelouro, nem do meu. Devemos deixá-la nas mãos dos profissionais!

            - Eu pensei apenas que...

            - Basta, por favor! Estamos todos cansados. Eu não lhe ensino a escrever as cartas do papa. Não me queira ensinar a dirigir a minha clínica. Tenha paciência, Monsignore! Tenha paciência!

            - Desculpe. - Malachy O'Rahilly moderou-se mas não se calou. - Também tive uma má noite. Tenho a certeza de que a segurança é de primeira. Não conseguiria andar uma vintena de metros no jardim sem ter uma espingarda apontada. Quando é que Sua Santidade pode receber visitas?

            - A qualquer momento. Mas ele só vai dizer coisa com coisa daqui a pelo menos trinta e seis horas. E, mesmo nessa altura, os seus momentos de lucidez vão ser muito limitados, e as suas emoções muito pouco controladas. Limite-se a avisar a sua gente a não esperar demasiado dele, e a demorar-se pouco tempo nas visitas.

            - Pode estar certo de que o farei. Mas há uma coisa que devia saber...

            - O quê?

 

            E isto bastou para que o despachado Malachy O'Rahilly despejasse a história do suicídio de de Rosa, o assassinato das suas filhas e as macabras exéquias que preparara na sua casa.

            Morrison e Salviati ouviram-no em silêncio; depois Salviati indicou o caminho de saída da Unidade de Cuidados Intensivos, para o corredor. Estava profundamente chocado, mas o seu comentário foi propositadamente contido.

            - Que posso eu dizer? É uma trágica embrulhada, e um triste desperdício de vidas humanas.

            - Estamos ansiosos.-Malachy O'Rahilly estava satisfeito por estar outra vez no centro das atenções. - Estamos muito ansiosos que Sua Santidade seja poupado a estas notícias, pelo menos até que esteja suficientemente forte para as aguentar.

            Salviati afastou o pensamento com um encolher de ombros.

            - Tenho a certeza de que não vai saber nada através do nosso pessoal, Monsignore.

            Ao que James Morrison acrescentou um ácido lembrete.

            - E ele não vai conseguir segurar, quanto mais ler um jornal durante uma data de dias.

            - Portanto tem de ter cuidado com os seus mexericos, Monsignore. -Salviati já ia a caminho dos elevadores. -Agora tem de nos desculpar. Temos tido uma manhã muito atarefada; e ainda não acabou.

 

            Anton Drexel também estava tendo uma manhã atarefada; mas muito mais descontraída. Tinha-se levantado cedo, feito a sua meditação matinal, dito missa na pequenina capela da propriedade acolitado pelo seu perito em vinhos, e com a assistência voluntária do seu pessoal doméstico e da colónia. Tinha tomado um pequeno almoço de café e pãezinhos feitos em casa, e mel das suas próprias colmeias. Agora, vestido com roupas de trabalhador, com um grande chapéu de palha na cabeça branca e com um cesto no braço, dava a volta aos canteiros do jardim, apanhando alcachofras frescas, arrancando alfaces e rabanetes, colhendo tomate vermelho e pêssegos brancos e os grandes diospiros amarelos a que as pessoas da região chamavam “kaki”.

            O seu companheiro era um rapaz, magro e aleijado, com hidrocefalia, que se ajoelhava entre as fiadas de leguminosas, empunhando um gravador para o qual, de vez em quando, murmurava algumas palavras rúnicas muito suas. Drexel sabia que, mais tarde, os sons seriam transcritos para um registo escrito de uma experiência de Mendel sobre a hibridação das fave (1), as leguminosas largas que floresciam no solo friável dos sopés das encostas. O rapaz, Tonino, tinha só 15 anos, mas sob a orientação de um botânico da Universidade de Roma, já sabia muita coisa sobre as leis da genética das plantas.

[1 Em latim no original: favas (NT)]

 

            A comunicação verbal com Tonino era difícil, como o era de resto com muitas das crianças da colónia, mas Drexel tinha desenvolvido uma técnica de audição paciente e uma linguagem de sorrisos, gestos e carícias aprovativas, que de algum modo parecia satisfazer estes génios, pequenos e aleijados, cujo coeficiente intelectual, sabia ele, estava anos-luz à frente do seu.

            Enquanto ia prosseguindo as tarefas simples e gratificantes de lavrador, Drexel pesava os paradoxos, humanos e divinos, com que se defrontava em todos os preciosos dias do seu Verão de S. Martinho. Via-se muito nitidamente como um homem-charneira de uma Igreja em crise, um homem cujo tempo estava a acabar, que em breve seria julgado sobre o que fizera e o que deixara por fazer.

            A sua melhor qualidade fora sempre a de um navegador. Sabia que não se pode velejar contra o vento nem atacar os mares de proa. É preciso chegar-se ao vento e fazer um bordo, aguentar as ondas grandes, abrigar-se por vezes, e dar sempre graças por chegar são e salvo.

            Tinha sempre recusado envolver-se nas batalhas dos teólogos, bastando-lhe aceitar a vida como um mistério, e a Revelação como um archote para o poder explorar. Para ele, a Fé era o dom que tornava o mistério aceitável, enquanto a Esperança o tornava suportável e o Amor lhe trazia alegria mesmo nas trevas do desconhecido. Não acreditava de modo nenhum na eficácia daRomanita, o antigo costume romano de prescrever uma solução jurídica para todos os dilemas humanos, e depois imprimir todas as soluções com um carácter sagrado sob a chancela do magistério.

            O seu método de lidar com a Romanita - e de salvaguardar a sua consciência-fora sempre o mesmo. Apresentava o seu protesto, francamente mas segundo as regras do protocolo, defendia a sua causa sem paixão, e depois submetia-se em silêncio ao veredicto quer do Pontífice, quer da maioria curial. Se tivesse sido desafiado a justificar tal concordância - e nem mesmo o Pontífice se atrevia a uma oposição frontal com Anton Drexel!-responderia, com bastante verdade, que um conflito aberto não traria vantagens nem para ele nem para a Igreja, e que embora gostasse de resignar e tornar-se pároco de aldeia, não via qualquer virtude em abdicar, e ainda menos em rebelar-se. Na vida oficial adoptara o lema de Gregório, o Grande: “Om-nia videre, multa dissumulare,pauca corrigere.” Vê tudo, cala bastante e corrige umas quantas coisas!

            Mas na vida privada e íntima, na herdade, com as crianças e seus pais e professores, já não podia dar-se ao luxo de se refugiar no protocolo e na obediência. De uma maneira muito especial, era o patriarca da família, o pastor do pequeno rebanho de quem todos esperavam orientação e decisão. Já não podia esconder a evidência factual de uma humanidade a ferro e fogo, e a ocasional natureza da tragédia humana. Já não podia expressar aprovação pessoal à proibição do controlo artificial da natalidade, nem afirmar que os casamentos formalmente contraídos na Igreja, eram, por natureza, cristãos, feitos no céu e portanto indissolúveis. Já não estava preparado para pronunciar um decisivo julgamento moral sobre o dever de um cirurgião perante o nascimento de um monstro, ou a consciência de uma mulher desesperada em terminar uma gravidez para evitar que tal acontecesse. Ficava furioso quando os teólogos e os filósofos eram silenciados ou censurados ao tentarem tornar mais lata a compreensão da Igreja. Travou uma longa batalha de atritos contra os secretismos e as injustiças do sistema inquisidor, que subsistiam na Congregação da Doutrina da Fé. Dava por ele a insistir cada vez mais na liberdade de esclarecimento de consciência e na necessidade constante que todo o ser humano tem de compaixão, caridade e perdão.

            Era para conseguir isto que pensou em persuadir os seus amigos da hierarquia superior e finalmente o próprio Pontífice, se e quando ele viesse passar uns tempos com as crianças da colónia. Era nessa intenção que oferecia a sua missa diária e as suas preces nocturnas. Era nessa intenção que pensou em preparar-se mental e espiritualmente por meio das suas meditações no jardim de Verão. Até mesmo a colheita dos frutos de Verão serviu de pretexto para o discurso às crianças e aos professores, reunidos na relva para tomar o café da manhã.

            - ... Estão a ver, há ordem mesmo naquilo que se nos apresenta como um cataclismo. O Lago Nemi, ali em cima, foi em tempos um vulcão em actividade. Esta terra já esteve coberta com cinza, pedra-pomes e lava negra. Agora é doce e fértil. Não assistimos à mudança. Se tivéssemos assistido, não teríamos compreendido o que se estava a passar. Teríamos tentado explicar o fenómeno através de mitos e simbologia... Mesmo agora, com todo o nosso conhecimento do passado, ainda temos dificuldade em separar os factos históricos dos mitos, porque os próprios mitos são parte da história... É por isso que nunca devemos ter medo de especular... e nunca, mas nunca, ter medo daqueles que nos incitam a contemplar o aparentemente impossível, a examinar antigas fórmulas à procura de novas explicações. Acreditem em mim, somos mais rapidamente traídos pelas nossas certezas do que pelas nossas dúvidas e curiosidades. Tenho a certeza de que não teria havido nem metade das heresias nem dos cismas, se os cristãos se tivessem disposto a ouvir uns aos outros com paciência e caridade, e não tivessem tentado converter os mistérios Divinos em teoremas geométricos que se podiam explicar com compasso e esquadro... Oiçam agora, meus amigos, o que disseram os padres do Concílio do Vaticano II, a respeito das nossas perigosas certezas: “Se a influência dos acontecimentos ou dos tempos levou a deficiências na conduta, na disciplina da Igreja, ou mesmo na formulação da doutrina (o que tem de se distinguir cuidadosamente da consignação da Fé em si mesma) isso tem de se corrigir apropriadamente no momento certo.”... Mas que é que eu quero realmente dizer com este palavreado todo? Sou um homem velho. Pertenço à velha Fé Apostólica. Jesus é o Senhor, o Filho do Deus Vivo. Encarnou. Sofreu e morreu pela nossa salvação e, ao terceiro dia, Deus ressuscitou-O. Tudo o que vejo neste jardim é um símbolo desse nascimento, morte e ressurreição... Toda a verdade alguma vez dita na Igreja deriva daí. Todo o mal que foi alguma vez feito na Igreja, deriva da negação desse acto de salvação... Assim, não me peçam para vos julgar, meus filhos, minha família. Deixem-me apenas amá-los, como Deus vos ama a todos...

            Apalestra acabou tão informalmente como tinha começado. Drexel foi até à grande mesa de armar, onde uma das mulheres lhe deu café e um bolo. Foi então que se apercebeu da presença de Tove Lundberg a uns passos de distância, acompanhada de James Morrison. Tove Lundberg apresentou-o a Drexel. Morrison cumprimentou-o serenamente.

            - Há muitos anos que não ouvia um sermão, Eminência. Pois este comoveu-me profundamente.

            Tove Lundberg explicou a presença deles.

            - Sérgio queria que o senhor soubesse pessoalmente que a operação correu bem... E eu achei que James devia ver o que o senhor está a fazer aqui pela Britte e os outros.

            - Foi muita amabilidade. - Drexel sentia-se como se lhe tivessem tirado um enorme peso dos ombros. -Penso, Dr. Morrison, que isso quer dizer que não houve consequências imprevistas... apoplexia, danos cerebrais, esse tipo de coisas?

            - Nada que possamos ver ou prever de momento.

            - Graças a Deus!... e a vocês, cavalheiros habilidosos, também!

            - No entanto, também trazemos notícias tristes. - Tove Lundberg contou-lhe o caso de de Rosa como Monsignore O'Rahilly o tinha relatado. Drexel ficou subitamente carrancudo.

            - Que horror! É absolutamente vergonhoso que se permita que aconteça uma tragédia dessas! Vou levantar esse assunto com os dicastérios envolvidos e com o Santo Padre quando ele estiver suficientemente recomposto.-Virou-se para James Morrison.-Os burocratas são os malditos de Deus, Dr. Morrison. Registam tudo e não compreendem nada. Inventaram uma matemática espúria, pela qual cada factor humano é reduzido a zero...-A Tove Lundberg disse mais calmamente: - Calculo que o Dr. Salviati tenha ficado extremamente aborrecido.

 

            - Mais do que alguma vez confessará, mesmo a mim. Odeia o desperdício de vidas humanas. Além disso, a clínica parece agora um campo de tropas e isso faz lembrar outro tipo de desperdício.

            - Vá lá!-disse Anton Drexel abruptamente.-Vamos ser gratos por um momento. Vou levá-los a dar uma volta pela vivenda e pelas vinhas... e a seguir, Dr. Morrison, vai provar um dos melhores vinhos que se fez nesta região de há muito tempo para cá. Chamo-lhe Fontamore, e bebe-se melhor que oFrascati. Tenho muito orgulho nele...

 

            A reunião de Sérgio Salviati com os homens da segurança demorou quase uma hora. Tratou, sobretudo, dos pormenores do controlo do pessoal: uma chamada à entrada de cada novo turno, comparação dos cartões identificativos do hospital com os documentos pessoais, tais como passaportes e cartas de condução, acessos aos armários de remédios e instrumentos cirúrgicos, itinerários e horários em que determinadas pessoas-chave podiam entrar em áreas específicas, a vigilância móvel de pontos estratégicos dentro e fora do edifício. Combinou-se que por enquanto se daria uma explicação ao pessoal dentro da propriedade, que continuaria a cumprir as tarefas habituais. Os visitantes podiam ser tratados sem demasiadas complicações. Os fornecedores seriam recebidos por homens armados, e as mercadorias por eles entregues visionadas em ecrã e revistadas à mão, antes de entrarem nos armazéns. Até aqui, tudo bem. Os homens da segurança garantiram ao professor que podia dormir tão calma e sossegadamente como se estivesse na própria cripta de S. Pedro.

            A sua entrevista seguinte foi menos agradável: um tipo magro, lívido, de olhos frios, envergando o casaco branco dos enfermeiros. Era um dos homens da Mossad que vivia permanentemente na clínica, um tipo em disfarce mas que todos reconheciam, sempre disponível para toda e qualquer emergência, se bem que o seu nome não aparecesse nunca em qualquer lista oficial. As suas primeiras palavras foram como que em código:

            - Subsídios e bolsas de estudo.

            - Que é que se passa?

            - Você dá uns tantos a não italianos. Qual é o critério de distribuição?

            - Na base do mérito e das recomendações. Só aceitamos candidatos com certificados completos de enfermagem dos seus países de origem e referências dos seus consulados ou embaixadas em Roma. Damos dois anos de treino na especialidade cardíaca e na prática pós-cirurgia. As bolsas são publicitadas nos consulados e nos jornais especializados na Tunísia, Arábia Saudita, Oman, Israel, Quénia e Malta. Fornecemos comida, alojamento, uniformes, treino e cuidados de saúde. Os candidatos, ou o país seu patrocinador, fornecem o resto. Funciona maravilhosamente. Recebemos pessoal ansioso por aprender, os países patrocinadores recebem pessoal treinado habilitado a ensinar o que aprendeu. Fim da história...

            - Os pretendentes passam por algum teste de segurança?

            - Sabe que sim. Têm de requerer os vistos e as licenças de residência temporária para estudantes. Os italianos fazem funcionar o seu sistema de veto. A sua gente faz uma investigação particular para mim. Portanto, não deveria haver surpresas.

            - Não devia, não; mas desta vez temos uma bem desagradável. Reconhece-a?

            Atirou para cima da secretária uma fotografia pequena, tipo passaporte, de uma rapariga. Salviati reconheceu-a instantaneamente.

            - Miriam Latif. Está cá há um ano. Veio do Líbano. Está a trabalhar na unidade de hematologia. E é bestialmente competente. Que raio é que você pode ter contra ela?

            - Tem um namorado.

            - A maioria das raparigas têm-no... e Miriam é muito bonita.

            - O namorado é um tal Omar Asnan, tido como negociante de Teerão. Negoceia em tabaco, peles, algum petróleo e ópio para fins farmacêuticos. Dispõe também de grandes quantias em dinheiro e tem uma cadeia de namoradas, algumas delas ainda mais bonitas que Miriam Latif. E também um reputado pagador do grupo Espada do Islão.

            - E então?

            - Então, o mínimo que podemos dizer é que tem uma amiga, uma aliada, uma possível assassina, colocada na clínica... E, se pensar bem, a unidade de hematologia é um sítio muito útil para a ter.

            Sérgio Salviati abanou a cabeça.

            - Não vou nessa. A rapariga está cá há doze meses. A operação do Pontífice foi decidida apenas há alguns dias. A ameaça de assassinato surgiu em resposta à oportunidade.

            - E para quê? - perguntou o homem da Mossad pacientemente. -Para que é que você tem aqui gente, muito bem disfarçada, sem dar nas vistas... a não ser para tirar proveito das oportunidades imprevisíveis? Para que raio pensa que eu estou aqui? Pense em todas as pessoas famosas ou importantes politicamente que passam pela clínica. É como se fosse um palco que se limita a esperar que surja um drama... E Miriam Latif pode ser a vedeta da tragédia.

            - E então que vai fazer a respeito dela?

            - Vigiá-la. Pôr um dos nossos anéis mágicos à volta dela, de maneira que nem sequer possa ir à casa de banho sem nós sabermos. Não temos muito tempo. Quantos dias faltam para o seu doente ter alta?

            - A não ser que haja complicações, dez dias, catorze quando muito.

 

            - Está a ver, portanto, que eles têm de ser rápidos. Mas agora, que já estamos alertados, podemos ser ainda mais rápidos.

            - Os italianos estão a par disto?

            - Não. E não tencionamos pô-los. Só o faremos se for necessário. Há uma coisa que não pode esquecer. Se a rapariga não vier trabalhar, quero que faça um grande banzé à volta disso... interrogue o pessoal, informe a polícia, fale para a embaixada dela, enfim, essas coisas todas!

            - E não lhe faço perguntas?

            - Exactamente-disse o homem da Mossad. - O senhor é um macaco muito sábio, que não vê, não ouve, não fala.

            - Mas podem estar enganados a respeito de Miriam Latif.

            - Esperemos que sim, Professor. Nenhum de nós quer sangue no asfalto! Nenhum de nós quer represálias por um agente perdido.

            Sérgio Salviati sentiu-se de repente afogado nas águas escuras do medo e do nojo de si próprio. Ali estava ele, um homem que cura, amarrado como um atum numa armadilha labiríntica, aguardando desesperado que se desse o assassínio. A mensagem que lhe fora transmitida era clara como a luz do dia. No jogo do terror, a matança era em [ série; tu matas o meu, eu mato o teu. Agora havia uma modalidade nova no desporto - mata, mas culpa outrem: um automobilista que atropela e foge, um amante vingativo, um drogado em busca de uma dose. E desde que o sangue não salpicasse a soleira da sua porta, Ser-| gio Salviati manteria o silêncio, não fossem acontecer coisas piores.

            De seguida, porque era quase meio-dia, dirigiu-se para a Unidade de Cuidados Intensivos, para dar uma olhadela à causa de todos os seus problemas, Leão XIV, Pontifex Maximus. Todos os sintomas demonstravam que ele ia bem; a sua respiração era regular, as fibrilações das aurículas estavam dentro dos limites normais, os rins estavam a funcionar e a temperatura do corpo estava a subir lentamente. Salviati sorriu com azedume e interpelou silenciosamente o seu doente:

            - Você é um velho terrível! Dou-lhe vida e o que me dá a mim? Apenas desgosto e morte... Morrison tinha razão. É uma ave agoirenta... E contudo, Deus me proteja!, continuo empenhado em mantê-lo vivo!

 

            Estavam ultrapassadas as primeiras confusões provocadas pelas drogas: as horas longas e instáveis em que vagueava entre o sono e a vigília, a vaga procissão de visitantes do Vaticano sussurrando solícitas amabilidades, as noites interrompidas em que o seu toráx lhe doía abominavelmente e tinha de chamar a enfermeira para o mudar de posição na cama e lhe dar um comprimido que o ajudasse a adormecer de novo. Mas nem as confusões nem o sofrimento conseguiam ofuscar o dado principal: tinha sido desmanchado como um relógio e montado de novo; tinha sobrevivido. Fora exactamente como Salviati tinha prometido. Ele era como Lázaro saindo do túmulo para ficar de pé, piscando os olhos e pouco seguro, à luz do sol.

            Agora, cada dia era uma dádiva nova, cada passo pouco firme uma nova aventura, cada palavra dita uma experiência reconfortante de contacto humano. Haviamomentos em que a novidade era tão acutilan-te que se sentia de novo rapaz, acordando para aquele primeiro fluxo súbito da Primavera em que todas as árvores em flor de Mirandola pareciam rebentar repentinamente em chamas. Queria compartilhar a experiência com toda a gente: o pessoal, Malachy O'Rahilly, os cardeais que vinham como cortesãos ao beija-mão e felicitá-lo.

            O que foi estranho foi que ao tentar expressar a Salviati, quer a sensação maravilhosa quer a sua gratidão por ela, as palavras lhe pareceram de repente vazias e inadequadas. Salviati foi gentil e en-corajador; mas depois de ele ter saído, Leão, o Pontífice, sentiu que um acontecimento da maior importância lhe tinha escapado, para nunca voltar a ser sentido.

            Este sentimento de perda mergulhou-o, sem aviso, numa negra depressão e numa prolongada vontade de chorar que o envergonhou e o fez ficar ainda mais melancólico. Nessa altura apareceu Tove Lundberg que se sentou ao lado da cama, segurou-lhe na mão e convenceu-o a sair da fossa. Ele não fugiu ao seu toque, antes pelo contrário rendeu-se-lhe grato, sabendo, se bem que vagamente, que tinha necessidade de todos os apoios possíveis para ficar são. Ela usou o próprio lenço para lhe limpar as lágrimas e ralhou-lhe docemente:

            - Não deve ter vergonha. É assim com toda a gente... nos píncaros e logo a seguir o desespero, um abismo de emoções. Acabou de ser submetido a uma enorme invasão. Salviati diz que o corpo chora por causa do que lhe fizeram. E ainda diz mais. Todos pensamos que somos imortais e invulneráveis. Então acontece uma coisa qualquer e a ilusão de imortalidade fica despedaçada para sempre. Choramos então pelas nossas ilusões perdidas. Contudo, as lágrimas fazem parte do processo de cura. Portanto, deixe-as correr... O meu pai costumava lembrar-nos que Jesus chorou por amor e por perda, exactamente como todos nós...

            - Eu sei disso. Então, por que estou tão pouco preparado e incapaz?

            - Porque...-Tove Lundberg completou a resposta com muito cuidado. - Porque até agora tinha sido sempre capaz de dirigir a sua vida. Em todo o mundo não há ninguém que esteja colocado tão alto e mais seguro, porque foi eleito perpetuamente e ninguém pode competir consigo. Todos os seus títulos confirmam, sem sombra de dúvida, que o senhor é o homem do leme. Todo o seu carácter o está a pressionar para se agarrar a esse leme.

            - Penso que sim.

            - Sabe que sim. Mas agora já não é o dono de si mesmo nem das situações. Quando o meu pai estava na parte terminal da sua doença, costumava citar-nos uma passagem do Evangelho de S.João. É, creio eu, parte da Mensagem de Cristo a Pedro... Como é que é? “Quando eram jovens, costumavam afivelar o cinto e irem para onde lhes apetecia...”

            Leão, o Pontífice, disse o resto do texto, como se fosse uma resposta em coro.

            - ”Mas quando são velhos, estendem as mãos e outras vos cingirão e vos levarão onde não querem ir...” Para um homem como eu, é uma lição difícil de aprender.

            - Como é que a pode ensinar, se nunca a aprendeu?

            O fantasma de um sorriso torceu-lhe os cantos dos lábios exangues. Disse suavemente:

            - Agora é diferente! O papa está a aprender doutrina da boa com um herege... e uma mulher, ainda por cima!

            - Era capaz de ser muito mais sensato, se desse ouvidos tanto aos hereges como às mulheres!-O seu riso desfez a conotação de censura. -Tenho de me ir embora. Tenho mais três doentes pára ver antes do almoço. Amanhã vamos passear no jardim. Levamos uma cadeira de rodas para poder descansar quando necessitar.

            - Agrada-me a ideia. Obrigado.

            Como despedida, pôs água de colónia numa toalha de rosto e passou-lha suavemente na testa e nas faces. O gesto proporcionou-lhe uma emoção desconhecida. A única mulher que alguma vez o acariciara assim fora a sua mãe. Tove Lundberg passou as pontas dos dedos pelo queixo dele.

            - Tem tanto restolho como um campo de trigo. Vou mandar alguém para lhe fazer a barba. Não podemos consentir que o papa pareça um desgraçado a todos os seus ilustres visitantes.

            - Por favor, antes de se ir embora...

            - Sim?

            - No dia em que cheguei, morreu cá uma mulher. Escapa-me o nome, mas o marido dela tinha sido padre. Mandei o meu secretário investigar a respeito dele e da família. Até agora não me deu nenhuma informação. Pode ajudar-me?

            - Vou tentar.-Ele pareceu não dar pela pequeníssima hesitação. -Existem determinadas regras no concernente à confidencialidade: mas vou ver o que posso fazer. Então até amanhã.

            - Até amanhã. E muito obrigado, signora.

            - Sua Santidade é capaz de me fazer um favor?

            - Tudo o que estiver ao meu alcance.

            - Então trate-me só por Tove. Não sou casada, embora tenha realmente uma filha. De modo que também não sou propriamente uma signorina.

           - Porquê? - perguntou-lhe ele gentilmente. - Por que é que achou necessário dizer-me isso? - Porque se eu não o fizesse, outros o fariam. Se estou aqui para o ajudar, tem de ser capaz de confiar em mim e de não se escandalizar nem com o que sou nem com o que faço.

            - Fico-lhe muito grato. E já sabia o que é e o que faz, através do cardeal Drexel.

            - Claro! Devia ter pensado nisso. A Britte ainda hoje lhe chama Nonno Anton. Ele tem um papel muito importante nas nossas vidas.

            - Como o seu o é na minha neste momento. - Pegou nas mãos dela e segurou-as na sua um longo momento, depois ergueu-a e fez o sinal da cruz na testa dela com o polegar.

            - A bênção de Pedro para Tove Lundberg. Não difere em nada da do seu pai.

            - Obrigada.-Hesitou um momento e depois pôs a pergunta blasfema. -Um dia há-de explicar-me por que é que a Igreja Romana não permite que os seus sacerdotes se casem. O meu pai era um bom homem e um bom pastor. A minha mãe ajudava-o na igreja e no trato com as pessoas... Por que é que um padre não há-de poder casar, amar como os outros homens...?

            - É uma pergunta complicada-disse Leão, o Pontífice. -Talvez demasiado complicada para lhe poder responder. Mas podemos certamente falar disso noutra ocasião... Neste momento, deixe-me apenas dizer-lhe como estou contente e grato pelo que está a fazer por mim. Preciso dessa ajuda de uma maneira que você talvez nunca venha a perceber.

            “Vou rezar pelo seu bem-estar e o da sua filha... Agora, por favor, mande-me o barbeiro e uma enfermeira com um pijama lavado. Um papa com um ar desgraçado, realmente! Imperdoável!

            A ternurinha que ela lhe demonstrara e o eflúvio de emoção que despertara nele, deu mais ênfase à pergunta dela sobre o celibato dos padres e à sua diligência, ainda sem resposta, sobre Lorenzo de Rosa. Este amontoado de pequenos incidentes era meramente uma amostra ínfima dos problemas que o vinham atormentando há muito tempo e vinham flagelando a Igreja há mais de mil e quinhentos anos.

            A regra do celibato obrigatório na confraria Romana tinha dado mostras de ser, no melhor dos casos, duvidosa, e no pior um revés que se arrastava, do ponto de vista da comunidade dos crentes. Atentativa de fazer equivaler o celibato, o estado de solteiro, à castidade, ao evitar de relações sexuais ilícitas, estava condenada ao falhanço e a fazer surgir uma data de males, de que não era o menor a hipocrisia oficial e um monte de tragédias entre os próprios sacerdotes. Proibidos de casar, alguns encontravam consolo em ligações secretas, outros em práticas homossexuais, ou, mais vulgarmente, no álcool. Não poucas vezes, uma carreira auspiciosa acabava num esgotamento nervoso.

            No meio da década de 60, depois do Concílio do Vaticano Segundo, abrandou-se a disciplina e permitiu-se que aqueles que se sentiam mal abandonassem a vida sacerdotal e casassem legalmente. Deu-se então uma corrente súbita de demissões. Dezenas de milhares abandonaram o sacerdócio. Quase que cessaram as novas vocações. Tinha vindo à luz do dia a triste realidade, que afinal não se tratava de um grupo feliz de irmãos, alegremente ao serviço do Senhor, mas de um cargo solitário de homens solitários à espera de uma velhice ainda mais solitária.

            Daí em diante, todas as tentativas para afogar o problema numa maré de piedosa retórica tinham falhado miseravelmente. A sua própria maneira de actuar inflexível - poucos mas bons, e sem saída fácil para ninguém - pareceu ter êxito ao princípio, com um pequeno grupo de zelotas espartanos, que se foi apresentando todos os anos para se ordenar. Mas até ele, Leão XIV, Martelo de Deus, tinha de admitir no seu íntimo, que o remédio mais não era do que um placebo. Tinha bom aspecto, sabia bem, mas não ajudava em nada a saúde do Corpo Místico. Havia pouquíssimos pastores para o imenso rebanho. Os zelotas - nos quais se reconhecia quando novo - estavam fora da realidade. A teologia gasta que apoiava uma legislação de fachada não era desculpa para privar as pessoas da Palavra Salvadora.

            O que ele podia ou devia fazer acerca disto era um assunto completamente diferente. Não tinha-pelo menos de momento - a mínima intenção de ficar na história como o primeiro papa que, num período de mil anos, tinha tornado legal um clero casado. Quaisquer que fossem as consequências morais de tal atitude, as suas consequências económicas davam azo a uma nova série de horrores. Entretanto, iam proliferando as tragédias pessoais; os crentes eram tolerantes e afectuosos para com os seus sacerdotes, velhos e novos, e tratavam de manter o fogo sagrado da Palavra viva. Não podia fazer nada, além de esperar e pedir que o seu próprio espírito confuso se iluminasse, e que os seus membros ainda trémulos se fortalecessem.

            Apareceu o barbeiro, diferente do primeiro, pálido e melancólico, empunhando uma navalha corta-gargantas antiquada, que o rapou deixando-o liso como uma bola de bilhar e que não pronunciou mais de uma dúzia de palavras durante o tempo todo. Uma enfermeira trouxe-lhe um pijama lavado e depois acompanhou-o ao chuveiro e ajudou-o a esfregar-se, na medida em que o peito e as costas ainda lhe doíam. Já não se sentia humilhado ou sequer desagradado pela sua dependência; mas estava pelo menos a começar a fazer uma comparação entre a sua própria situação e a de um qualquer sacerdote idoso, forçado a depender dos cuidados das mulheres, de quem tinha sido afastado por decreto durante toda a vida. Por fim, barbeado, vestido e mais leve de espírito, voltou para o quarto, sentou-se na cadeira e esperou que chegassem as visitas.

            A primeira, como sempre, foi Monsenhor Malachy O'Rahilly, que trazia com ele uma lista das pessoas que se tinham interessado sobre o estado do Santo Padre, que mandavam cumprimentos e que pediam para se manterem e aos seus assuntos sob a atenção Pontifícia. Tinham sempre reconhecido nele um italiano tradicional à moda antiga, e esta era a maneira à moda antiga de lidar com os assuntos papais: protocolo, correcção, cumprimentos e cortesia.

            Perante as melhoras do seu amo, Malachy O'Rahilly estava também renovado, pairando com diligente bom humor.

            - E estão a tratá-lo bem, Santidade? Precisa de alguma coisa? Apetece-lhe algum manjar especial? Trago-lho dentro de uma hora. Bem sabe.

            - Sei, Malachy. Obrigado. Mas não preciso de nada. Quem consta hoje da sua lista?

            - Apenas quatro pessoas. Estou a manter o número baixo, porque assim que vejam o brilho do seu olhar desatam a falar de trabalho... e isso é verboten (1)! O primeiro da lista é o secretário de Estado. Ele tem de o ver. Depois é o cardeal Clemens da Congregação para a Doutrina da Fé. Ainda está aos saltos por causa da Petição Tubingen. Há cada vez mais discussão na imprensa e na televisão. Sua Eminência quer o seu aval para tomar medidas disciplinares imediatas contra os teólogos que assinaram o documento... Conhece os argumentos dele, é um desafio directo à autoridade papal, põe em questão o seu direito próprio de nomear bispos para igrejas locais...

[1 Em alemão no original: proibido (NT)]

 

            - Conheço os argumentos. - O ar familiar de predador transformou-o instantaneamente num adversário.-Disse muito claramente ao Clemens que precisamos de tempo antes de responder. Precisamos de luz e não de calor neste assunto. Muito bem. Recebo-o às quatro e meia. Quinze minutos. Apenas. Se ele se alargar, você entra e corre com ele. Quem se segue?

            - O cardeal Frantisek, da Congregação para os Bispos. É uma visita de cortesia em nome da hierarquia. Será breve. Sua Eminência é um modelo de tacto.

            - Quem dera que houvesse mais como ele, Malachy! Cinco e um quarto?

            - E por fim o cardeal Drexel. Veio passar o dia a Roma; pergunta se o pode vir visitar entre as sete e as oito, no seu regresso a casa. Fiquei de telefonar para o gabinete dele, se o senhor estiver de acordo.

            - Diga-lhe que terei o maior prazer em o receber.

            - E é tudo, Santidade. O que não quer dizer que eu não tenha estado muito ocupado. Quer dizer é que o secretário de Estado me cortava a cabeça se eu submetesse o senhor ao mais pequeno vestígio de cansaço que fosse.

            - Eu mesmo lhe direi que você é um Camarista modelo, Malachy. Agora, você tem de fazer algumas diligências acerca da rapariga que morreu na noite em que eu cá cheguei. A que era casada com um padre da diocese de Roma.

            Malachy O'Rahilly sentiu-se entre a espada e a parede. O Pontífice queria informações. O secretário de Estado tinha-lhe prometido que o fervia em azeite se deixasse escapar uma palavra sobre o assunto. Sempre de acordo com a sua maneira de ser, Malachy O'Rahilly decidiu que se queria manter o emprego tinha de unir-se ao bispo de Roma e não aos seus adjuntos na Cúria. Assim, disse a verdade; mas desta vez, finalmente, contou-a tim-tim por tim-tim, sem mencionar os recortes de jornal que guardava na pasta, sem fazer referência à reunião de segurança no Palácio Apostólico, nem à apaixonada intervenção de Matt Neylan em defesa de de Rosa.

            Quando terminou a sua história, o Pontífice manteve-se em silêncio durante muito tempo. Sentava-se direito como um fuso, as mãos agarradas aos braços da cadeira, os olhos fechados, a boca como um golpe de navalha pálido atravessando o rosto branco como a cal. Finalmente, falou. As palavras saíram num sussurro rouco e fatigado, simples e definitivas como as mortes que as motivavam.

            - Fiz uma coisa horrível. Que Deus me perdoe. Que Ele nos perdoe a todos.

            E então começou a soluçar convulsivamente, de tal modo que todo o seu corpo se sentiu destroçado pela dor e o desgosto. Malachy O'Rahi-lly, o perfeito secretário, ficou sem fala e sem acção, incapaz de erguer a mão ou a voz para o confortar. Saiu em bicos dos pés do quarto e fez sinal a uma enfermeira que passava, para lhe dizer que o seu doente estava aflito.

            - Preciso de explicações, se não se importa, Professor.-O homem da Mossad, sem ponta de humor e lacónico como sempre, empurrou uma papeleta ao longo da secretária de Salviati. - Sei quase tudo, mas quero confirmá-lo consigo.

            - Continue.

            - Isto é um exemplar do cartão que está pendurado aos pés da cama de todos os doentes, certo?

            - Certo.

            - Onde é que são feitos os cartões?

            - Na nossa copiadora da clínica.

            - Agora, importa-se de ler os cabeçalhos das colunas?

            - Data. Temperatura. Pulsação. Pressão arterial. Tratamento administrado. Remédios administrados. Notas da enfermeira. Notas do médico. Tratamento prescrito. Remédios prescritos. Assinatura.

            - Agora dê uma vista de olhos ao cartão que está à sua frente. Repare na data de ontem. Quantas assinaturas estão aí?

            - Três.

            - Consegue identificá-las?

            - Consigo. Carla Belisario, Giovanna Lanzi, Domenico Falcone.

            - Funções?

            - Enfermeira de dia, enfermeira de vela, médico de serviço.

            - Agora repare nas anotações. Quantas caligrafias diferentes há?

            - Seis.

            - Como é que explica isso?

            - É simples. As enfermeiras que assinam são responsáveis pelo doente. Cada uma delas tem vários doentes. A temperatura, a pulsação e a pressão arterial são tiradas pelos estagiários. As dosagens são administradas pelo pessoal farmacêutico, o tratamento pode ser dado, por exemplo, por um fisioterapeuta. O sistema é, na sua essência, simples. O médico prescreve, a enfermeira fiscaliza, os outros trabalham sob direcção e fiscalização... Agora talvez me possa dizer de que é que anda à procura.

            - De buracos - disse o homem da Mossad. - Como matar um papa numa clínica judaica e safar-se.

            - E já encontrou algum?

            - Não tenho a certeza. Torne a olhar para o cartão. Faz alguma referência à hematologia?

 

            - Mesmo no princípio, no estádio pré-operatório deste doente. Há uma sequência para toda uma série de análises sanguíneas.

            - Diga exactamente como é que teriam sido feitas... em relação ao paciente.

            - A análise é prescrita no cartão. O gabinete deste piso liga para hematologia e faz seguir a ordem. Eles mandam alguém para tirar sangue, que é levado de novo para o laboratório para as análises.

            - Esse alguém que leva as amostras de sangue. Que equipamento tem? Como é que actua?

            - É normalmente uma ela - disse Salviati com um sorriso. - Tem um tabuleiro pequeno, onde há álcool, esfregaços de algodão, pequenos pedaços de adesivo, frascos rolhados com o nome do doente e o número do quarto escritos nas etiquetas e uma agulha hipodérmica esterilizada dentro de uma embalagem de plástico selada. Pode levar uma pequena tira de borracha para constringir a circulação e entumecer a veia. É tudo.

            - Que é que ela faz?

            - Identifica a veia na parte curva do braço, esfrega o sítio com álcool, espeta a agulha, tira o sangue e transfere-o para o frasco rolhado. Estanca a picada com algodão, depois cobre-a com um bocado de adesivo. Está tudo terminado em dois minutos.

            - Não está mais ninguém no quarto enquanto ela faz isso?

            - Geralmente não. Por que é que havia de estar?

            - Exactamente. É aí que está o buraco, não é? A rapariga está sozinha com o doente. E ela tem uma arma letal.

            - Qual, exactamente?

            - Uma seringa vazia, com a qual se pode extrair sangue de uma veia, ou bombear uma bolha de ar mortal para dentro dela!

            - Eis uma coisa em que eu não tinha pensado. Mas há um grande obstáculo que ela tem de saltar antes disso. O nosso distinto paciente já fez todas as análises ao sangue. Quem vai prescrever os novos testes no seu cartão? Quem vai mandar chamar a hematologia?

            - Esse é o segundo buraco - disse o homem da Mossad. - Dentro do seu muito perfeito sistema, Professor, as papeletas são trazidas para o gabinete no fim do turno diário e do nocturno. São penduradas em ganchos numerados e a enfermeira-chefe inspecciona cada uma delas antes de completar o relatório do seu giro de serviço. Qualquer pessoa pode passar por lá e fazer uma anotação. Já vi fazer isso. A rapariga que tirou a temperatura do doente esqueceu-se de assentar a pulsação ou a tensão arterial. Sabe que isso sucede, e como sucede. Quantas vezes já uma enfermeira lhe teve de perguntar se uma determinada dosagem é ou não para continuar a ser dada?

            Salviati rejeitou todo o raciocínio com um gesto de mão.

            - Não acredito nisso... nem no estupor de uma palavra! Você está a sintetizar uma ficção; como se pode dar um crime! Está afabricar um assassino a partir do ar. Essa rapariga faz parte do meu pessoal. Não vou consentir que a trame dessa maneira.

            O homem da Mossad ficou impávido. Declarou redondamente:

            - Ainda não acabei, Professor. Quero que ouça uma coisa. - Pousou na secretária um pequeno gravador portátil, ligou-lhe um auscultador que entregou a Salviati. - Temos a Miriam Latif sob escuta há uns dias... o quarto, a farda de 1 laboratório, o forro da sua agenda. Ela utiliza sempre um telefone público, de modo que tem de levar gettoni (1). Leva a agenda sempre com ela. O que vai ouvir é uma série de breves conversações com Omar Asnan, o namorado. São em dialecto farsi, portanto tem de acreditar na minha palavra sobre o seu significado.

[1 Em italiano no original: fichas para o telefone (NT)]

 

            Salviati ouviu durante alguns minutos e depois, irritado pela sua incapacidade de seguir o diálogo, tirou o auscultador e devolveu-o.

            - Traduza, faça favor.

            - A primeira conversa era sobre um bar na aldeia. Ela diz que sim, que é possível fazer-se o combinado. Asnan pergunta quando. Ela diz que só daí auns dias. Ele pergunta porquê. Ela responde que é por causa da lógica. Ele pergunta o que quer ela dizer com lógica. Ela diz que não pode dizer-lhe naquele momento. Que tentará explicar no telefonema seguinte... A explicação aparece um pouco mais adiante, na fita. Ela explica que ninguém pode ter acesso ao homem sem passar pela peneira da segurança. Faz notar que não seria lógico prescrever-se uma análise ao sangue no meio da convalescença. Que seria mais normal fazè-lo imediatamente antes de o doente ter alta. Asnan diz que as coisas estão a correr muito bem. Que terá de pensar nos dispositivos secundários. A resposta dela a isto é um argumento concludente no que nos diz respeito. Ela diz: “Tem cuidado. Isto é um viveiro de canalhas e ainda não os identifiquei a todos.” Há mais coisas, mas isto é o principal.

            - Não resta dúvida nenhuma de que é ela a assassina?

            - Nenhuma.

            - Que é que acontece agora?

            - Você não pergunta. Nós não dizemos.

            - Serviria de alguma coisa... é uma hipótese remota e eu detestaria ter de fazê-lo... serviria de alguma coisa se eu transferisse o doente para a Gemelli ou Salvator Mundi?

            - Seria bom para o doente? - O homem da Mossad parecia disposto a considerar a hipótese.

            - Bem, não seria a melhor das coisas, mas sobreviveria.

            - Então, qual é o interesse, Professor? No que diz respeito a Miriam Latif, não faz diferença nenhuma. Está identificada como uma assassina. O Vaticano não a quer. Como ainda não cometeu crime nenhum, os italianos limitar-se-ão a mandá-la de volta ao Líbano. Nós de certeza que não a queremos à solta a passear-se no nosso teatro de operações. A conclusão é bastante óbvia, não?

            - Por que raio - perguntou Sérgio Salviati amargamente - tinha de me contar o que se passa?

            - É a vida - disse o homem da Mossad calmamente. -Você é da família. Esta é a sua terra, estamos a protegê-lo e a todos que vivem aqui. De resto, qual é a aflição? Você é um médico. Até mesmo os seus casos mais bem sucedidos acabam por ir parar ao cangalheiro!

            E depois foi-se embora, um fantasma sinistro e exangue, assombrando os corredores de um submundo que as pessoas comuns só muito dificilmente acreditariam que existisse. E agora ele, Sérgio Salviati, era um habitante desse mundo subterrâneo, apanhado nas armadilhas das suas conspirações tal como uma vespa numa teia de aranha. Agora ele, o homem que cura, tornar-se-ia num parceiro silencioso do crime; mesmo que não aceitasse silenciar-se, continuariam a perpetrar-se mais crimes e ainda mais sangrentos. Como italiano, não tinha ilusões acerca do lado oculto da vida na república; como judeu e sionista, compreendia quão amarga e brutal era a luta pela sobrevivência no Crescente Fértil.

            Querendo ou não, há muito tempo que participava no jogo. A sua clínica era um posto de escuta e um refúgio para gente disfarçada no comércio das informações. Ele próprio, gostasse ou não, estava a ter um papel político; não podia, ao mesmo tempo, fazer de vítima inocente. Por pensar nisso, se a pessoa do papa fosse directamente ameaçada, seria que os homens da segurança do Vaticano não disparariam? Sabia que disparariam. Não se pedia a Sérgio Salviati que puxasse o gatilho, mas apenas que se calasse enquanto os profissionais seguissem o seu trabalho costumeiro. O facto de o seu alvo ser uma mulher, nada alterava. A fêmea era um instrumento tão letal como o macho. Além do mais, se algum sangue salpicasse as mãos de Sérgio Salviati, podia sempre ver-se livre dele ao desinfectar-se para uma operação. Nessa altura, ao menos e por fim, teria de estar limpo...

            Enquanto estava envolvido nesta sombria meditação, um portador trouxe o convite para Tove Lundberg e ele próprio jantarem com o Sr. e a Srª Nicol Peters no Palazzo Lanfranco.

 

            O secretário de Estado tinha uma mente metódica e subtil. Detestava ter em agenda uma série de insignificâncias; insistia sempre em despachá-las, antes de meter ombros a tarefas mais importantes. Assim, na sua visita da tarde à clínica, falou primeiro com Salviati, que lhe garantiu que o Pontífice estava a fazer uma recuperação normal e satisfatória e que provavelmente podia ter alta dentro de cinco ou seis dias. Falou também rapidamente com os funcionários italianos e do Vaticano encarregues da segurança, sempre cuidadoso em evitar quaisquer perguntas que pudessem sugerir que Sua Eminência estava a par de algo mais para além das suas orações. Depois apresentou-se ao Pontífice e andou com ele até um sítio abrigado no jardim, enquanto um enfermeiro aguardava a uma discreta distância com a cadeira de rodas. Sua Santidade entrou bruscamente no cerne da questão.

            - Estou doente, meu amigo; mas não estou cego. Olhe à sua volta! Este lugar parece um campo de manobras militares. Lá dentro sou cercado e guardado onde quer que vá. Que se passa?

            - Tem havido ameaças, Santidade... ameaças terroristas contra a sua vida.

            - De quem?

            - De um grupo extremista árabe, que se autodenomina Espada do Islão. A informação é considerada verdadeira pelos serviços de informações.

            - Continuo a não acreditar. Os Árabes sabem que a nossa política prefere o Islão a Israel. Que têm eles a ganhar com a minha morte?

            - As circunstâncias são especiais, Santidade. O senhor é paciente numa clínica dirigida por um proeminente sionista...

            - Que no entanto trata muitos doentes Árabes!

            - Mais uma razão para dar uma lição a toda a gente. Mas por muito distorcida que esteja a lógica, a ameaça é real. Há dinheiro em jogo... muito dinheiro.

            - Vou-me embora dentro de muito poucos dias... menos de uma semana, provavelmente.

            - O que me leva ao assunto seguinte, Santidade. Muitos de nós, na Cúria, opomo-nos terminantemente à sua proposta de ir morar com Anton Drexel. Isso acarreta mais uma operação de segurança muito cara, possível perigo para as crianças e... deixe-me que lhe diga francamente... a última coisa no mundo que o senhor quer: ciúmes no seio do próprio Sacro Colégio.

            - Que Deus me dê forças! Mas que é que eles são! Um bando de meninas de escola?

            - Não, Santidade. São todos adultos, que sabem das tricas do poder... e nem todos eles são amigos de Anton Drexel. Por favor, Santidade, peço-lhe que medite seriamente no assunto. Quando sair daqui, vá direito a Castel Gandolfo. Será muitíssimo bem tratado, como sabe. De lá, poderá visitar Drexel e a sua pequena tribo sempre que lhe apetecer...

 

            O Pontífice ficou calado muito tempo, observando Agostini com olhos hostis, e sem pestanejar. Por fim, desafiou-o:

            - Há mais qualquer coisa, não há? Quero saber o que é, e já. Não esperava uma evasiva. E não a teve. Agostini retomou o âmago da questão.

            - Todos nós sabemos, Santidade, da sua preocupação com as divisões e dissenções na comunidade dos fiéis. Aqueles que lhe são mais íntimos, têm sentido, há já algum tempo, que está a atravessar um período de... bem, de dúvida e de revalorização da política que tão vigorosamente seguiu durante o seu pontificado. Esse estado de incerteza aumentou com a sua doença. Há aqueles... e apresso-me a dizer que não me conto entre eles... que acreditam que a mesma doença, o sentimento de ansiedade que ela provoca, possa levar Sua Santidade a empreender acções precipitadas que, em vez de serem boas para a Igreja, ainda a possam prejudicar mais. Eis o que penso: se vão haver modificações para melhor, precisará de toda a ajuda que puder ter da Cúria e da hierarquia superior das Igrejas Nacionais. É um homem do mundo que sabe como o sistema funciona e como pode ser usado para frustrar o mais determinado ou o mais subtil dos Pontífices... Confia em Drexel. Eu também. Mas ele é um homem no fim dos seus dias; é alemão; não tem pachorra para as nossas loucuras romanas. É, no meu ponto de vista, uma desvantagem para os seus planos; e se lhe pusesse este problema creio que ele concordaria consigo.

            - Você já lho pôs, Matteo?

            - Não.

            - E qual é a sua posição na questão da política?

            - Sempre a mesma. Sou um diplomata. Lido com as possibilidades. Tenho sempre medo de decisões precipitadas.

            - Drexel vem visitar-me esta noite. Devo-lhe a cortesia de uma troca de impressões, antes de decidir seja o que for.

            - Mas com certeza... Há outro assunto para o qual preciso de uma autorização pessoal de Sua Santidade, se não vai andar de Congregação em Congregação durante meses. Esta semana, perdemos um dos nossos melhores homens da Secretaria, Monsenhor Matt Neylan.

            - Perdêmo-lo? Que é que isso quer dizer, exactamente?

            - Deixou-nos.

            - Alguma mulher?

            - Não. De certo modo, preferia que fosse. Veio dizer-me que já não é crente.

            - É uma triste notícia. Muito triste.

            - Do nosso ponto de vista, portou-se com uma correcção fora do vulgar. É mais correcto laicisá-lo sem dar nas vistas.

            - Faça-o, e faça-o rapidamente.

            - Obrigado, Santidade.

            - Vou dizer-lhe um segredo, Matteo. - De repente, parecia que o Pontífice se tinha retirado para um mundo só seu. - Muitas vezes, teci conjecturas sobre como seria acordar uma manhã e descobrir que já não se tinha a Fé que se professara uma vida inteira. Saber-se-ia tudo, como se pode saber um tema de leis ou uma equação química ou um período da História; mas não teria qualquer importância... Qual é aquela frase de Macbeth? “É um conto, contado por um idiota, cheio de som e de fúria, significando coisa nenhuma.” Nos velhos tempos, sabe, afastar-nos-íamos de um homem assim, tratando-o como um leproso, como se a perda fosse sua culpa. Como é que alguém sabe isso? A Fé é um dom. O dom pode ser retirado, tal como os dons da vista ou do ouvido podem ser tirados. Pode acontecer com a mesma facilidade a si ou a mim... Creio que você era amável para ele. Sei que não seria nunca menos do que cortês.

            - Tenho a impressão de que ele não estava muito contente comigo, Santidade.

            - Por que não?

            A pergunta levou-os de um só passo à história do envolvimento final do Vaticano no destino de Lorenzo de Rosa e da sua família. Desta vez, porém, parecia que o Pontífice já tinha gasto toda a emoção. O que fez foi lamentar as esperanças perdidas.

            - Estamos a perder demasiada gente, Matteo. Não são felizes na família dos fiéis. Não há alegria na nossa casa, porque há muito pouco amor. E somos nós, os mais velhos, quem tem a culpa.

 

            Uma vez por semana, a uma hora não determinada, Sérgio Salviati fazia o que chamava de “a ronda da luva branca” da clínica. Tinha adoptado a frase de um parente mais velho que costumava enaltecer os longos dias de viagens por mar sob a bandeira britânica, quando o comandante, acompanhado pelo comissário e o oficial maquinista, calçava luvas brancas e inspeccionava o navio, da proa à popa. As luvas brancas mostravam todo e qualquer vestígio de pó ou fuligem, e protegiam as delicadas mãos da autoridade.

            Sérgio Salviati não usava luvas brancas, mas o seu chefe de pessoal levava um bloco de notas e uma fotocópia da planta da instituição, na qual se anotava cada falta, para resolução imediata. Era um procedimento muito pouco latino; mas Salviati tinha demasiadas coisas em jogo como patrão e profissional reputado, para se poder fiar nos padrões de eficiência de um pessoal composto por pessoas das mais variadas nacionalidades.

            Conferia tudo: armazém de equipamentos, roupa branca, farmácia, patologia, arquivos e registos, destruição dos desperdícios cirúrgicos, cozinha, casas de banho. Recolhia, até, micro-amostras das condutas de ar condicionado, que no quente Verão romano podiam conter bactérias perigosas.

            As inspecções eram sempre feitas no fim da tarde, quando o seu trabalho na sala de operações estava acabado e as suas rondas às enfermarias estavam todas feitas. E a esta hora, também o pessoal estava mais descontraído e franco. Estavam a chegar ao fim do dia e [ eram vulneráveis à crítica, e ficavam muito satisfeitos com uma palavra de louvor. Pouco passava das cinco desse dia nefasto, quando chegou ao Departamento de Hematologia, onde o sangue e o soro eram armazenados e se faziam as análises das amostras trazidas das enfermarias.

            Normalmente, estavam três pessoas de serviço no laboratório. Desta vez estavam apenas duas. Salviati quis saber porquê. Foi informado de que Miriam Latif tinha pedido dispensa da parte da tarde, para tratar de assuntos pessoais. Entrava de novo de serviço no dia seguinte. Tinha-se resolvido o assunto com o gabinete do chefe de pessoal. De facto, nestes casos, o pessoal do departamento supria a falta do colega.

            De volta ao seu gabinete, Salviati mandou chamar o homem da Mossad e falou com ele a respeito da ausência da rapariga. O homem da Mossad abanou tristemente a cabeça.

            - Para um tipo inteligente, Professor, é uma pessoa que aprende muito devagar. O seu próprio pessoal disse-lhe tudo o que precisa de saber. Melhor ainda, disseram-lhe a verdade. A rapariga teve que tratar de assuntos pessoais. Pediu pessoalmente autorização. Deixe ficar as coisas como estão!

            - E a ameaça ao nosso doente?

            - A ausência dela afastou-a. A sua presença trá-la-ia de novo. Nós esperamos e observamos, como sempre. Esta noite, pelo menos, pode dormir descansado.

            - E amanhã?

            - Esqueça o amanhã! - O homem da Mossad estava impaciente e brusco. - Você, Professor, tem de tomar uma decisão hoje... agora, neste momento!

            - A respeito de quê?

            - Sobre o papel que quer desempenhar: o reputado homem que cura, continuando o seu reputado trabalho num mundo perverso, ou o intrometido que não consegue deixar de se meter nos assuntos das outras pessoas. Conseguimos conciliar os dois, em qualquer caso. Mas se entra nisso, fica metido até ao pescoço e segue as nossas regras. Fui claro?

            - Em qualquer caso-disse Salviati -, parece que estou a ser manipulado.

            - Claro que está! - O homem da Mossad teve um sorriso amargo. - Mas há uma grande diferença: como professor Salviati, é manipulado na inocência e na ignorância. Da outra maneira, faz o que lhe mandamos, olhos abertos, boca fechada. Se quisermos que minta, mente. Se quisermos que mate, mata... apesar do Juramento de Hipócrates. Consegue aguentar isto, meu amigo?

            - Não. Não consigo.

            - Ponto final na conversa - disse o homem da Mossad. - Goze o seu jantar esta noite e durma muito mais descansado.

 

            - Mas não dormes - ralhou ternamente Tove Lundberg. -Nem sequer gostaste de fazer amor; porque não és inocente, não és ignorante e a culpa te atormenta a todo o momento.

            Estavam sentados a tomar uma bebida no terraço da casa de Salviati, olhando para um céu estrelado, enevoado e manchado pelas emanações de Roma: nevoeiro do rio, escapes do tráfego, poeira e as exalações de uma cidade sufocando-se lentamente até à morte. Ele não tinha querido compartilhar a história com ela, pois o seu mero conhecimento dela colocava-a num certo risco. Contudo, o encobrimento punha-o a ele em muito maior risco, porque obscurecia a sua capacidade de julgar, tirava-lhe esse desprendimento do qual dependiam as vidas dos seus doentes. Tove Lundberg resumiu os seus argumentos.

            - O problema, meu amor, é que sabes muito pouco e queres muito.

            - Sei que Miriam Latif vai ser morta... seja não o estiver.

            - Não sabes. Estás a conjecturar. Não podes sequer ter a certeza que ela desapareceu, até amanhã.

            - Então que é que eu faço?

            - O que farias se fosse de todo outra pessoa?

            - Eu viria a saber muito mais tarde que todos os outros. O gabinete do chefe de pessoal já teria inquirido sobre a sua ausência. Se ela não tivesse aparecido dentro de um período de tempo razoável, pedir-me-iam autorização para a substituírem. Provavelmente aconselhá-los-ia a contactar a polícia e os funcionários da emigração, na medida em que a clínica patrocinou a vinda da rapariga e garantiu o seu emprego. Feito isso, já não está mais nas nossas mãos.

            - Exactamente o que o teu homem da Mossad te disse desde o princípio.

            - Mas não vês...?

            - Não! Não vejo. Não consigo ver um passo, além do procedimento rotineiro que acabaste de descrever. A quem mais vais tu contar? Ao papa? Ele sabe da ameaça à sua vida. Está a par das medidas de segurança. Concorda, pelo menos tacitamente, com tudo o que possa acontecer como resultado dessas medidas. Se a rapariga é terrorista, ela mesma já aceitou todos os riscos decorrentes da tarefa para a qual foi treinada.

            - Mas o problema é mesmo esse. - Salviati zangou-se, subitamente. -Todas as provas contra ela são meramente circunstanciais. Algumas são negativas, no sentido em que não apareceu outro candidato mais plausível nas listas da Mossad. Portanto está a ser condenada e executada sem julgamento.

            - Talvez!

            - Está bem. Talvez!

            - Mais uma vez, o que podes tu fazer a esse respeito, quando o governo italiano abdica da sua autoridade legal a favor da acção directa dos israelitas? É o que acontece, não é?

            - E o Vaticano agarra-se comodamente ao protocolo da Concordata. Os guarda-costas do papa podem protegê-lo pela força das armas se for necessário, mas o Vaticano não pode interferir na administração da justiça na república.

            - Então, qual a vantagem de continuares a bater com a cabeça no teu próprio Muro das Lamentações?

            - Porque já não sei muito bem onde estou nem a quem devo lealdade. O papa é meu doente. A Itália é o meu país. Os israelitas são o meu povo.

            - Ouve, meu amor! -Tove Lundberg esticou-se sobre a mesa, e prendeu as mãos dele nas suas. -Não vou aceitar esse tipo de conversa vindo de ti. Lembra-te do que me disseste quando comecei a trabalhar contigo. “A cirurgia cardíaca é uma coisa arriscada. Depende da livre escolha, de uma aceitação de probabilidades conhecidas, claramente definidas entre cirurgião e doente. Não se pode voltar atrás, se algum factor desconhecido fizer tombar as probabilidades no sentido errado!” Assim, parece-me que estás na mesma posição no caso de Miriam Latif. As probabilidades são de ela ser uma assassina treinada, designada para matar o papa. Tomou-se uma decisão: impedi-la disso, sem atrair represálias. Neste caso, porém, a decisão foi tomada por outros. A tua identidade não é posta em risco; antes pelo contrário, é confirmada. És uma pessoa que cura. Não tens cabimento no terreno dos assassínios. Afasta-te disso!

            Sérgio Salviati libertou-se do aperto das mãos dela e afastou-se da mesa. O seu tom de voz era áspero e ríspido.

            - Ora bem! Aconteceu finalmente! Em Roma é sempre assim! A minha leal conselheira tornou-se num jesuíta. Deve dar-se muito bem com Sua Santidade.

            Tove Lundberg permaneceu um longo momento silenciosa e depois, com uma formalidade singular e distante, respondeu-lhe.

            - Há muito tempo, meu caro, tu e eu fizemos um acordo. Não podíamos compartilhar nem as nossas histórias nem as nossas tradições. Nem iríamos tentar. Amar-nos-íamos um ao outro, tanto quanto pudéssemos, o máximo de tempo que pudéssemos, e quando o amor acabasse ficaríamos amigos para sempre. Sabes que não tenho nem gosto nem talento para brincadeiras cruéis. Sei que as tens, de vez em quando, quando estás frustrado e assustado, mas sempre pensei que me respeitavas demasiado para me forçares a elas... Portanto, vou-me embora agora. Espero que quando nos encontrarmos de manhã, possamos esquecer este momento desagradável.

            Saiu logo de seguida, uma forma esbatida andando apressadamente no crepúsculo até ao seu automóvel. Sérgio Salviati não ergueu nem a mão nem a voz para a deter. Permaneceu de pé, como um homem de pedra, agarrado à balustrada semiarruinada, mais só e mais desolado do que alguma vez se sentira na vida. O bravo do Sião tinha-o rejeitado com satisfação. Uma mulher gentia tinha sondado com pontaria infalível e atingido o lugar vazio do seu coração. Ambos o tinham aceite como uma pessoa que cura. Ambos o tinham desafiado a fazer o impossível, consertar o seu eu danificado.

 

            Naquela noite, o Pontífice ficou até tarde com Anton Drexel. Depois das tempestades emocionais do dia, sentia necessidade da conversa calma e tranquila que Drexel proporcionava. A sua resposta às objecções levantadas contra a estada papal na colónia, era mesmo típica dele.

            - ... Se isso levanta problemas, então esqueça a ideia. Pretendia-se que fosse uma terapia, não um factor de tensão. Além disso, Sua Santidade precisa de aliados e não de adversários. Quando o burburinho tiver esmorecido e os riscos de ataque à sua pessoa tiverem diminuído, como sempre acontece, pode então visitar as crianças. Pode convidá-las a visitá-lo...

            - E que é feito dos seus planos para mim, Anton? A minha educação para novos pontos de vista e novas políticas?

            Drexel riu-se, um homem à vontade consigo mesmo e com o seu amo.

            - Os meus planos dependem da ajuda do Espírito, Santidade. Sozinho, não consigo dobrá-lo nem um milímetro. Além disso, o seu secretário de Estado tem razão... como acontece na maioria das vezes. Sou demasiado velho e ainda demasiado estrangeiro para ser um verdadeiro agente do poder no seio da Cúria. Foi assim que Sua Santidade ganhou a batalha sobre Jean Marie Barette. Uniu os latinos contra os alemães e os anglo-saxónicos. Eu nunca tentaria a mesma estratégia duas vezes.

            Foi a vez de o Pontífice se rir - uma coisa dolorosa e ao fim e ao cabo pouco divertida.

 

            - Então qual é a sua estratégia, Anton? E o que espera ganhar de mim, ou através de mim?

            - O que eu creio que espera também para si... um renascimento na Assembleia dos Fiéis, uma alteração das mentalidades de quem dita as leis que são o maior obstáculo à caridade!

            - Fácil de dizer, meu amigo. O trabalho de uma vida inteira para cumprir... e eu aprendi como a vida pode ser curta e frágil.

            - Se está a pensar em soluções em série... atingindo os problemas um a um, como patos numa carreira de tiro... então claro que tem razão. Cada assunto faz levantar um novo debate, novas disputas e ca-suísticas. Por fim, instala-se o cansaço e aquele desespero arrastado que se apossou de nós desde o Concílio Vaticano Segundo. O fogo da esperança que João XXIII ateou, desfez-se em cinzas. Os conservadores... o senhor mesmo, Santidade, não é o menor entre eles... tiveram uma série de vitórias pírricas, e os fiéis ficaram sempre a perder.

            - Diga-me então a sua solução, Anton.

            - Uma só palavra, Santidad... descentralizar.

            - Ouvi o que disse. Mas não sei se o percebi.

            - Então vou tentar simplificar. Do que precisamos não é de reforma, mas de liberalização, um acto de alforria que nos liberte das grilhetas que moralmente nos têm limitado desde Trento. Devolva às igrejas regionais a autonomia que é delas por direito apostólico. Comece a desmantelar esse edifício decrépito da Cúria, com as suas tiranias e secretismos, e sinecuras para prelados medíocres ou ambiciosos. Abra o caminho para a consulta livre com os seus irmãos bispos... Confirme nos termos mais explícitos possíveis, o princípio da colegialidade e a sua determinação em fazê-lo funcionar... Tudo isto começaria com um documento... uma única encíclica escrita por si, e não construída por um comité de teólogos e diplomatas, e depois castrada pelos latinistas e sangrada até ficar vazia de sentido pelos comentários conservadores...

            - Está a pedir-me que escreva um programa de acção para a revolução.

            - Se bem me lembro, Santidade, o Sermão da Montanha era um manifesto revolucionário.

            - As revoluções deviam ser feitas por jovens.

            - Os velhos escrevem os documentos, os jovens passam-nos à acção. Mas, primeiro, têm de sair da prisão em que estão agora. Dê-lhes liberdade de pensamento e de expressão. Dê-lhes a sua confiança e uma motivação para usar a liberdade. Talvez então não tenhamos tantas baixas, como as de de Rosa e de Mathew Neylan.

            - Você é um homem obstinado, Anton.

            - Sou mais velho que o senhor, Santidade. Tenho ainda menos tempo.

            - Prometo-lhe que vou pensar no que me disse.

            - Pense também nisto, Santidade. Com a posição que temos agora na Igreja, a luta velha de séculos pela supremacia papal está ganha... e os custos dessa vitória estão a sair-nos muito caros, Todo o poder está centrado num só homem, o senhor; mas só o pode exercer através da complicada oligarquia da Cúria. Neste momento é praticamente impotente. E ainda vai ficar assim muitos meses. Entretanto, os homens que nomeou para cargos poderosos estão prontos a agruparem-se em oposição a quaisquer novos planos de acção. É um facto. Agostini já o avisou do mesmo. É esta uma situação correcta? É esta a verdadeira imagem da Igreja da qual Cristo é a cabeça e todos nós somos membros?

            - Não, não é.-O Pontífice Leão estava agora cansado. -Mas não há absolutamente nada que possamos fazer de momento, para além de pensar e rezar. Vá para casa, Anton! Vá para junto da sua família e das suas vinhas. Devem estar quase a começar as vindimas, não?

            - Muito brevemente. Duas semanas, segundo o meu empregado.

            - Talvez eu possa ir nessa altura. Não vou a uma vindima desde miúdo.

            - Será muito bem recebido. - Drexel inclinou-se para beijar o Anel do Pescador. - E uma bênção papal pode operar maravilhas no vinho de Fontamore.

            Muito depois de Drexel se ter ido embora, e de a enfermeira de vela o ter preparado para dormir, Leão XIV, sucessor do Príncipe dos Apóstolos, permanecia acordado ouvindo os ruídos nocturnos, tentando decifrar o seu destino nas sombras projectadas pela luz de silêncio.

            O argumento que Drexel lhe tinha posto, continha, por um lado uma enorme simplicidade, e por outro uma muito subtil distinção entre a autoridade e o poder. O conceito do poder papal tinha atingido a sua definição mais rígida e extrema com Bonifácio VIII no século XIV e com Pio V no século XVI. Bonifácio tinha declarado tout court que “por causa da necessidade de salvação, toda a criatura humana está sujeita ao Pontífice Romano”.

            Pio V tinha elaborado a proposição com uma presunção de cortar o fôlego. Leão XIV, o seu moderno sucessor, herdeiro da sua vontade rígida e do seu temperamento irascível, conseguia recitar as palavras de cor:

            “Aquele que reina no céu, a quem é dado todo o poder no céu e na terra, entregou a única Santa Igreja Católica e Apostólica, fora da qual não existe salvação, para que a governasse com plena autoridade, a um só homem, ou seja, a Pedro, o Príncipe dos Apóstolos e ao seu sucessor, o Pontífice Romano. Ele estabeleceu este único dirigente como príncipe de todas as nações e reinos, para arrancar pela raiz, destruir, dissipar, dispersar, plantar e construir...”

 

            Esta foi a última e mais flagrante reivindicação de um papado imperial, desacreditada há muito tempo pela história e pelo bom senso; mas os seus ecos ainda permaneciam nos corredores do Vaticano. O poder era ainda a maior das ganâncias humanas e aí residia a capacidade de comandar cerca de um bilião de pessoas, pela última das sanções - timor mortis, o medo da morte e do seu misterioso seguimento.

            A proposta de Drexel era no entanto uma abdicação de posições mantidas durante séculos, a que se renunciava a pouco e pouco e apenas sob extrema coacção. Envolvia não apenas um conceito imperial, mas um muito mais primitivo e radical, que era o de que a Igreja era uma só, porque possuía uma fé, um baptismo e um Senhor, Jesus Cristo, no qual todos estavam unidos como ramos de uma videira viva. Envolvia não o poder, mas a autoridade - uma autoridade fundada no consentimento livre, livre consciência, um acto de fé livremente assumido. Os investidos de autoridade, deviam usá-la com respeito e ao serviço dos outros. Não deviam perverter a autoridade num instrumento de poder. Para a usar correctamente, não deviam apenas delegá-la, mas dar a conhecer livremente a fonte da qual ela lhes era delegada e as condições do seu uso. Era uma das ironias de uma hierarquia celibatária, a de que quando se priva um homem de um prazer, se aguça o seu apetite para outros, e o poder tinha um gosto muito agradável.

            Mesmo que estivesse de acordo com o plano de Drexel - e tinha muitas reservas a esse respeito, como as tinha acerca do próprio Drexel - os obstáculos à sua realização eram imensos. Nessa mesma tarde, a sua entrevista de um quarto de hora com Clemens, da Congregação para a Doutrina da Fé, tinha-se prolongado quase por quarenta minutos. Clemens tinha insistido com muita firmeza que a sua Congregação era o cão de guarda que tomava conta do Depósito da Fé - e se lhes era proibido ladrar, muito menos morder, então para que servia? Se Sua Santidade queria responder directamente aos que contestavam Tubigen, estava no seu direito, claro. Mas uma palavra do Pontífice não permite a discussão, nem permite uma oposição, como certamente acontecerá da parte destes cléricos intransigentes.

            Era mais uma vez o jogo do poder e até mesmo ele, o Pontífice, apesar de estar sem forças, não lhe era imune. Que hipóteses tinha um bispo rural, a dezasseis mil quilómetros de Roma, denunciado por um qualquer acto ou pronunciação do Núncio Apostólico local? Drexel podia lutar, na medida em que era par de Clemens, mais velho e mais sabido no jogo. Se bem que o seu ar de olímpica indiferença o tornasse, até certo ponto, um advogado suspeito.

            Por outro lado, um homem que se chamava a si mesmo de Vigário de Cristo, tinha, forçosamente, um lugar na história. As suas palavras e actos eram citados como precedentes através dos séculos e as consequências deles pesados na balança no dia do seu julgamento final. Assim, não era de surpreender que os sonhos que o atormentaram nessa noite fossem um estranho caleidoscópio de cenas de frescos de Miguel Angelo e de homens, mascarados e armados, perseguindo a sua caça num pinhal.

 

            Fora do território da Clínica Internacional, entre as cinco e as dez horas, deu-se uma série de acontecimentos triviais.

            Uma mulher fez um telefonema e deixou uma mensagem; outra mulher embarcou num avião, que duas horas mais tarde chegou ao seu destino. Um caixote, com o rótulo de documentos diplomáticos, foi carregado noutro avião para outro destino. Numa vivenda na Appia Antica, um homem esperou por um telefonema que nunca chegou. Então chamou o seu motorista e mandou-o seguir para um clube nocturno perto da Via Veneto. No aeroporto de Fiumicino, um empregado do escritório das Linhas Aéreas do Médio Oriente fez uma fotocópia de um cupão de um bilhete, pôs a cópia na algibeira e, no caminho para casa, entregou-o ao porteiro de um bloco de apartamentos. Todo este ciclo de pequenos acontecimentos foi relatado ao funcionário de serviço na Embaixada de Israel em Roma. Antes de sair para a Clínica de manhã, o homem da Mossad foi informado do seu significado.

            O telefonema para a clínica, foi feito às sete da manhã do átrio do aeroporto. A voz estava distorcida e quase submersa pelo barulho circundante, mas a telefonista da clínica garantiu ter compreendido a mensagem e que a tinha anotado correctamente. Miriam Latif não se apresentaria ao serviço na manhã seguinte, como tinha prometido. A sua mãe estava muito doente. Ia apanhar o voo nocturno para Beirute nas Linhas Aéreas do Médio Oriente. Se não voltasse, pedia que depositassem o salário na sua conta do Banco di Roma. Pedia desculpa pelo transtorno, mas esperava que o professor Salviati compreendesse o que se passava.

            Às sete e meia, uma mulher, usando o véu tradicional, apresentou-se ao balcão das Linhas Aéreas do Médio Oriente. Tinha um bilhete para Beirute e um passaporte libanês em nome de Miriam Latif. Levava só bagagem de mão. Visto que estava a sair da república e não a entrar, o oficial da alfândega não lhe pediu que tirasse o véu. Três horas mais tarde, a mesma mulher desembarcou no aeroporto de Beirute, apresentou um passaporte com outro nome e desapareceu.

            O caixote com o rótulo de documentos diplomáticos foi carregado no voo da tarde da El-Al para Tel Aviv. Dentro dele, jazia Miriam Latif, fortemente drogada, embrulhada em cobertores térmicos e recebendo ar através de orifícios e de uma botija de oxigénio em baixa graduação. Quando chegou a Tel Aviv, foi rapidamente removida para a enfermaria de um centro de detenção da Mossad, e registada com um número de código que significava interrogatório especial e muito completo.

            No clube nocturno perto da Veneto, Omar Asnan, o mercador de Teerão, encomendou champanhe à rapariga do costume e meteu uma nota de 50 000 liras entre os seus seios. A mensagem dobrada dentro da nota foi entregue dez minutos mais tarde a dois homens que estavam a beber café num dos compartimentos reservados. A entrega foi presenciada pela rapariga que vendia cigarros, uma agente israelita que falava francês, italiano e árabe.

            O seu relatório completou a operação. Miriam Latif, a assassina, tinha sido posta fora do jogo. A Mossad estava na posse de um refém valioso e de uma fonte vital de informações. Omar Asnan e os seus correligionários da Espada do Islão ainda não sabiam o que se tinha passado. Tudo o que sabiam, era que Miriam Latif não tinha comparecido a um encontro. Iam precisar de pelo menos vinte e quatro horas até conseguirem traçar um esboço aceitável dos acontecimentos. Havia apenas uma hipótese muito ténue de que eles conseguissem organizar outra tentativa de assassinato, durante o tempo limitado da convalescença do Pontífice.

            O único problema que restava era o de sossegar Salviati e instruí-lo no seu testemunho. O homem da Mossad fê-lo com a sua costumeira brevidade.

            - A sua telefonista tomou nota da mensagem de Miriam Latif?

            - Exacto. Tenho-a aqui.

            - Ela é normalmente precisa e de confiança?

            - Todas têm de ser. Lidam com assuntos médicos... de vida e de morte.

            - Que é que está a fazer com as roupas da rapariga, os seus objectos pessoais?

            - Pedi à companheira de quarto dela para fazer uma lista deles e emalá-los. Vamos guardá-los, até a Miriam dizer qualquer coisa.

            - Então é tudo - disse o homem da Mossad. - Excepto que eu acho que deve ver isto, para poder sossegar a sua delicada consciência.

            Entregou a Salviati a fotocópia do cupão do bilhete feito em nome de Miriam Latif. Salviati olhou-o rapidamente e devolveu-lho.

            - É óbvio, claro, que nunca viu isto - disse o homem da Mossad.

            - Sou um macaco esperto - disse Sérgio Salviati com azedume. - Surdo, mudo e cego.

            Porém, o homem da Mossad não era cego. Via muito claramente as novas oportunidades de violência abertas pelo desaparecimento de Miriam Latif. A operação contra o Pontífice tinha ido ao ar, como a própria Latif tinha previsto que aconteceria: “o local está pejado de canalhas”. No entanto, tinha-se gasto dinheiro - muito dinheiro - e as regras do jogo do assassínio eram muito explícitas: nós pagamos, vocês apresentam trabalho feito. E dava-se o caso que alguém dera à Espada do Islão uma data de dinheiro. Tinha de devolver o dinheiro ou um cadáver em vez dele.

            Havia mais coisas envolvidas para além do dinheiro. havia honra, crédito, a autoridade do movimento sobre os seus seguidores. Se as regras não fossem cumpridas, se a vítima prometida não fosse entregue, os adeptos adeririam a outra organização.

            E por fim - e esse era provavelmente o golpe mais duro para todos os profissionais - uma vez reconhecido o rapto de Miriam Latif, o grupo terrorista dispersar-se-ia e todo o esforço utilizado em penetrá-lo, todos os riscos assumidos para manter um agente infiltrado, se perderiam sem mais nem menos.

            O que trazia ao homem da Mossad algumas decisões delicadas a tomar. Que coisas deveria contar aos italianos. Que espécie de conselhos, se é que alguns, deveria dar ao pessoal do Vaticano - e se Sérgio Salviati precisava, ou era merecedor, de protecção. Para já, parecia sensato manter as redes de segurança à sua volta. Levaria muito tempo, até a Mossad conseguir arranjar um disfarce tão perfeito, útil e autêntico como a Clínica Internacional.

 

            Num recanto sossegado do jardim, abrigado da brisa por uma muralha antiga e do sol por um dossel de vinhas, o Pontífice Leão sentava-se a uma mesa de pedra gasta pelo tempo e escrevia o diário do seu sétimo dia no hospital.

            Sentia-se agora muito mais forte. Mantinha-se mais direito, conseguia andar durante mais tempo. As mudanças de humor eram menos violentas, embora ainda chegasse facilmente às lágrimas ou a ansiedades dolorosas. Um terapeuta tratava todos os dias das suas costas e ombros e, embora ainda lhe doessem as costelas serradas, começava a poder sentar-se e deitar-se mais confortavelmente. O que o incomodava mais do que tudo, era saber que estava sob apertada vigilância, a todas as horas do dia e da noite. Apesar disso, não falava no assunto com medo de parecer excêntrico e queixinhas.

            Foi o próprio Salviati que mencionou o assunto, quando veio tomar o café da manhã com o seu doente. O Pontífice manifestou agrado perante o privilégio pouco habitual. Salviati encolheu os ombros e riu-se.

            - Não tinha nenhuma operação hoje. Pensei que gostaria de ter companhia. Estes tipos...-O seu gesto englobou três homens que cercavam a zona. - Estes tipos não são muito faladores, pois não?

            - Nem por isso. Acha realmente que preciso deles?

            - Não pediram a minha opinião - disse Salviati. - Como suponho que não lhe pediram a sua. Estranho, quando se pensa nisso. O senhor é o papa. Eu dirijo isto. Mas parece que há sempre um momento em que a Guarda do Palácio toma posse. De qualquer modo, não vai ficar aqui muito mais tempo. Vou dar-lhe alta muito em breve.

            - Quando?

            - Daqui a três dias. No sábado.

            - É uma óptima notícia.

            - Mas tem de manter o regime... dieta e exercício.

            - É o que vou fazer, pode crer.

            - Já decidiu para onde é que vai?

            - Estava com esperanças de ir para a propriedade do cardeal Dre-xel; mas a minha Cúria não está de acordo.

            - E posso perguntar porquê?

            - Dizem-me que isso exigiria uma nova e cara operação de segurança.

            - Duvido. Visitei o local várias vezes com a Tove Lundberg. Deve ser muito fácil de vigiar. O perímetro da muralha vê-se perfeitamente da aldeia.

            - Claro que essa não é a única razão. Já André Gide disse uma vez que o Vaticano é uma corte. E os cortesãos são ciumentos como crianças das suas prioridades e privilégios.

            - Julgava que os Clérigos estavam acima de tais trivialidades mundanas.

            O sorriso de Salviati tinha a malícia da zombaria. O Pontífice riu-se.

            - O hábito, meu amigo, não faz o monge.

            - E desde quando é que o papa lê Rabelais?

            - Acredita, meu amigo, que nunca o li? O que me é permitido ler é extremamente restrito.

            - Mas soube tirar partido do que leu.

            - Aprendi mais na última semana do que em metade da minha vida... e esta é a verdade, senza complimenti (1). Estou profundamente em dívida para consigo e devo muito à sabedoria e gentileza da sua conselheira.

[1 Em italiano no original: sem lisonja (NT)]

 

            - É realmente muito boa profissional. Dou-me por muito feliz por ela trabalhar comigo.

            - É mais que óbvio que vocês gostam muito um do outro.

            - Somos íntimos há muito tempo.

            - Não pensam em casar-se?

            - Já discutimos esse assunto, e chegámos à conclusão de que não resultaria para nenhum de nós... Mas vamos agora falar de si. É evidente que vai voltar para a situação tensa que se vive na sua casa papal. Tinha esperança de que adiasse isso até estar mais forte... Está a recuperar de facto muito bem; mas tem de ter em conta que o sentimento de bem-estar é muito relativo. Hoje é melhor que ontem, amanhã ainda se sentirá mais forte, mas a energia gasta-se rapidamente e ainda está dependente dos cuidados do nosso pessoal. Com sua licença, gostaria de falar disto com o cardeal Agostini. Francamente, acho que o seu bem-estar é mais importante do que as ciumeiras dos seus cardeais da Cúria. Porquê não passar por cima delas e seguir o meu conselho?

            - Podia fazê-lo. Mas preferia não o fazer.

            - Então deixe-me ser o seu advogado. Pelo menos, ninguém me poderá acusar de egoísmo. A minha opinião clínica há-de ter algum peso. Gostaria de falar com o cardeal Agostini.

            - Então fale.

            - É o que farei.

            - Quero que saiba, meu amigo, o quanto lhe estou grato pela sua perícia e pela sua atenção para comigo.

            Salviati sorriu com um ar de menino de escola embaraçado.

            - Já lhe tinha dito que era um óptimo canalizador.

            - É muito mais que isso. Apercebo-me de toda a dedicação que existiu neste lugar, e que ainda se mantém. Mais tarde, gostaria que falássemos de uma contribuição permanente ao seu trabalho... talvez um donativo, qualquer equipamento especial. Depois me dirá.

            - Pode fazer-me o donativo agora. - Salviati foi directo e corajoso. - A Tove Lundberg e eu estamos a organizar uma série de perfis psíquicos de doentes cardíacos no estado pós-operatório. Notamos em todos os nossos pacientes sintomas de uma alteração psíquica radical. Temos necessidade de aprofundar mais esse assunto. Nas suas sessões com a Tove, o senhor tem descrito essa alteração com várias metáforas: uma serpente largando a pele velha, um enxerto numa árvore de fruto que passa a dar frutos diferentes, Lázaro saindo do túmulo, um homem novo num mundo novo...

            - Foi a melhor imagem que consegui arranjar até agora. Claro que sei que não morri, mas...

            - Esteve lá muito perto - disse Salviati secamente. - Não vou discutir por causa de uma ou duas batidelas de coração. Mas a pergunta que ponho é esta. O senhor chegou a esta situação melhor preparado que a maioria das pessoas. Tinha uma fé esclarecida, toda uma bem estruturada bagagem filosófica, teológica e moral... Quanta dessa bagagem deixou para trás? Quanta manteve dentro de si?

            - Ainda não sei. -As palavras saíam devagar, como se as estivesse a pesar uma por uma. - De certeza que nem toda a bagagem sobreviveu à viagem, e a que mantive comigo é muito, muito menos que a que tinha à partida. Quanto ao resto, é demasiado cedo para o saber ou dizer... Talvez que mais tarde eu lhe possa contar mais coisas.

            - A resposta será importante para todos nós. Basta-lhe deitar uma olhadela em redor deste jardim, para se aperceber de que os fanáticos estão a tomar conta do mundo.

            - Parte da bagagem que ainda trago comigo-disse Leão, o Pontífice - é um conjunto de instruções para a sobrevivência. Foi escrito por um judeu, Saulo de Tarso... “E agora restam estas coisas: Fé, Esperança e Caridade. E a maior de todas é a Caridade.” Nem sempre as usei da melhor maneira; mas estou a aprender.

            Sérgio Salviati observou-o longamente, e um pequeno sorriso adoçou a expressão melancólica do seu rosto.

            - Talvez eu tenhafeito um trabalho mais perfeito do que pensava.

            - Eu, pelo menos, nunca o terei em pequena monta - disse Leão, o Pontífice. -Vá com Deus.

            Observou Salviati a caminhar rapidamente e a passos largos através do jardim. Viu os guardas a cumprimentá-lo enquanto ia passando. Depois abriu o diário e recomeçou a tarefa de explicar o seu novo eu ao seu eu antigo.

            - Na minha discussão de ontem com o cardeal Clemens, ele trouxe à baila muitos dos perigos da “nova teologia”, a rejeição por alguns eruditos católicos daquilo que ele chamou “as regras clássicas do ensino ortodoxo”. Sei o que ele queria dizer. Compreendo o seu medo da novidade, a sua preocupação em que novos conceitos das doutrinas tradicionais estejam a ser propostos a alunos de seminários e universidades, antes de terem feito prova através do argumento e experiência contra o Depósito da Fé, do qual Clemens e eu somos os guardiãos escolhidos e eu o árbitro e intérprete derradeiro.

            “Aí está! Escrevi mesmo! Está a olhar para mim fixamente a partir da página... “Eu sou o derradeiro árbitro e intérprete.” Ai sou? E porquê? Por ter sido eleito por um colégio de pares meus? Por ter tido uma conversa privada com o Espírito Santo, da qual pessoalmente não guardo qualquer registo ou lembrança? Apesar de ser papa, teria alguma vez a presunção de discutir com qualquer filósofo, teólogo ou erudito bíblico das grandes universidades? Sei que não. Faria figura de parvo; porque eu só poderia fazer apelo às tais “regras clássicas” e à sua expressão tradicional, na qual fui tão cuidadosamente instruído noutra época. Não fui eleito pelos meus dons intelectuais ou pelo alcance da minha intuição em assuntos espirituais. Não sou nenhum Ireneu, nem Orígenes, nem Aquino. Sou e sempre fui um homem da organização. Conheço-a por dentro e por fora, sei como servi-la, como mantê-la em funcionamento. Mas agora a organização está obsoleta e eu não sou suficientemente inventivo para a remodelar. Sou tão mau em física social como em filosofia e teologia. Assim, sou forçado a admitir que as minhas arbitragens e interpretações são as de outros e que toda a minha contribuição para elas é o selo de Pedro.

            “Qual é a autoridade real daqueles em cujo julgamento confio? Por que razão os escolhi, preterindo outros mais preocupados com o futuro, compreendendo melhor a linguagem, o temperamento e o simbolismo actuais? A resposta é que eu tive medo, como tantos outros neste cargo o tiveram, de deixar o vento do Espírito soprar livremente através da Casa de Deus. Temos sido homens de guarnição militar, defendendo as muralhas de uma cidadela a desmoronar-se, com medo de fazer uma sortida e enfrentar o mundo que nos ignora na estrada peregrina.

            Quando saí de casa pela primeira vez para ir para o seminário, fiquei surpreendido ao descobrir que o comércio do mundo não se fazia no dialecto emiliano da minha terra natal. O primeiro estágio da minha educação foi aprender a linguagem de um mundo mais vasto, os costumes de uma sociedade menos rústica. No entanto, ao governar a Igreja que a si mesma se chama de universal, tentei mantê-la ancorada à linguagem e aos conceitos de séculos atrás, como se, por qualquer passe de mágica, a antiguidade garantisse segurança e pertinência.

            “O Nosso Bem Abençoado Senhor utilizava a linguagem e as metáforas de um povo rural, mas a sua mensagem era universal. Abarcava todas as criaturas, como o mar abarca todos os seres das profundezas. Eu tentei reduzi-la a um compêndio estático, para abafar a especulação acerca dos seus milhares de interpretações.

            “Começo, lentamente, a compreender o que um dos meus críticos mais francos queria dizer quando escreveu: 'Este pontífice é como um cientista a tentar dirigir o terceiro milénio com base num compêndio da física newtoniana. O cosmos não mudou, mas o nosso entendimento de como ele funciona, é mais vasto e diferente... Neste capítulo, todos nós penetrámos um pouco mais profundamente no mistério da Natureza de Deus. Por isso mesmo, nas confusões e ameaças do mundo moderno, a pedagogia do passado não nos chega. Precisamos de um professor que nos fale claramente do mundo em que estamos envolvidos.' “Quando li isto pela primeira vez, senti-me ultrajado. Achei que o escritor, um leigo, estava a proferir um arrogante insulto. Agora vejo a coisa de um modo diferente. Incitam-me a que explore ousadamente os mistérios de uma época nova, à luz da verdade antiga, confiante em que a luz não falhe...

            A página ficou coberta por uma sombra, e ao olhar para cima deparou com Tove Lundberg, de pé, a um ou dois passos de distância. Teve um sorriso de boas-vindas e convidou-a a sentar-se ao pé dele. Ao acabar de dizer isto, sentiu um espasmo na espinha e encolheu-se com a dor. Tove Lundberg pôs-se atrás dele e começou a massajar-lhe o pescoço e os ombros.

            - Quando está a escrever, tem uma postura incorrecta. Por isso, quando se endireita sente uma contracção que se transforma num espasmo... Tente manter-se bem direito.

            - O meu velho professor costumava repreender-me por causa disso. Dizia que eu parecia estar a tentar enfiar-me no papel como uma traça.

            - Mas só agora é que liga a isso, porque lhe dói!

            - É verdade, minha querida Tove. Bem verdade!

            - E agora, sente-se melhor?

            - Muito melhor, obrigado. Aceita uma água mineral?

            - Aceito antes um conselho.

            - Com todo o gosto.

            - Concede o sigilo da confissão aos não crentes?

            - Têm direito a um sigilo especialmente forte. Que é que a preocupa?

            - Sérgio e eu tivemos uma discussão.

            - Lamento ouvir isso. É sério?

            - Temo bem que sim. Desde essa altura, só temos conseguido trocar frios cumprimentos. É algo que vai à raiz do nosso relacionamento. Nenhum de nós está preparado para abdicar das respectivas posições.

            - E quais são exactamente as vossas posições?

            - Em primeiro lugar, fomos amantes durante muito tempo. Sabe disso, eventualmente.

            - Calculava.

            - E não aprova, claro?

            - Não consigo ler dentro das vossas consciências.

            - Falámos várias vezes a respeito de casamento. Sérgio quer casar-se, eu não.

            - Porquê?

            - As minhas razões são extremamente evidentes para.mim. Não estou preparada para correr o risco de ter outro filho. Acho que não tenho o direito de condenar o meu homem... nenhum homem... a um casamento sem filhos. A Britte está a estudar na colónia; mas, a uma dada altura, vai ter de sair de lá e eu vou ter de arranjar uma casa para vivermos e tenho de tomar conta dela. Nem quero, sequer, encarar a ideia de a meter numa instituição. É inteligente de mais para isso. E assim, esse é mais um fardo com que não quero sobrecarregar um marido. Como amante, acho o contrato mais equilibrado, se bem que mais temporário...

            - E Sérgio Salviati? Que pensa ele de tudo isso?

            - Aceita. Penso que até se sente aliviado, na medida em que tambem tem problemas, problemas que calam mais fundo que o meu, mas que são menos fáceis de definir. Em primeiro lugar, é judeu, e o senhor, melhor que ninguém, deve saber o que significa ser judeu, mesmo actualmente, neste país. Em segundo lugar, é um sionista convicto que muitas vezes se sente frustrado e desonrado por estar aqui a fazer dinheiro e reputação, enquanto a sua gente está a lutar pela sobrevivência em Israel. Ao mesmo tempo, a sua posição envolve-o em toda a espécie de transigências. O senhor é uma delas. O senhor é o Pontífice reinante, e mesmo assim recusa-se a reconhecer o Estado de Israel. Os xeques árabes que ele aqui trata são outra transigência... e o facto de este lugar ser também um posto avançado disfarçado onde os agentes da Mossad trabalham em Itália. Não há nada de muito secreto nisso. Os italianos sabem da coisa e aproveitam-se dela. Os árabes sabem-no e sentem-se seguros contra as suas próprias facções. Mas tudo isto mexe com o Sérgio e quando está preocupado e frustrado, vem ao de cima um rasgo de crueldade que eu considero insuportável. Foi o que esteve na origem da nossa discussão.

            - Ainda não me disse a respeito de que é que foi a discussão.

            - Ainda estamos sob sigilo?

            - Estamos.

            - A discussão foi a seu respeito.

            - Mais uma razão para me contar.

            - O senhor não sabe, mas a pessoa indigitada para o assassinar era uma mulher, uma agente iraniana que estava a trabalhar nesta clínica. Agentes da Mossad identificaram-na, raptaram-na e... bem, ninguém sabe exactamente o que aconteceu depois disso. O Vaticano não se envolveu nisto tendo em vista razões jurisdicionais. Os italianos deram-se por muito felizes em deixarem os israelitas tratarem do assunto, pois não estavam interessados em represálias. Sérgio sentiu-se extremamente culpado, porque a rapariga era uma das suas funcionárias; conhecia-a e gostava dela. Achou que as provas contra ela eram altamente circunstanciais. Apesar disso, não podia intervir. Tentei consolá-lo, dizendo que até o senhor teve de desempenhar um papel passivo. Aceitou a presença de guardas armados, o que implica a aceitação do facto de eles terem de matar alguém para o protegerem. Sérgio também não gostou disso. Disse... não interessa o que ele disse. Mas foi muito doloroso e, de certo modo, final.

            - Diga as palavras exactas!

            - Ele disse: “Aconteceu finalmente. É sempre assim em Roma. A minha leal conselheira deu em jesuíta. Deve dar-se muito bem com o papa.”

            Ela estava quase a chorar. O Pontífice esticou-se sobre a mesa e segurou as mãos dela nas suas. Com cuidadosa doçura, disse-lhe:

            - Não seja muito severa com o seu homem. A culpa é um remédio amargo, difícil de engolir. Tenho estado aqui sentado a tentar digerir uma vida inteira cheia dela... E no que toca à crueldade, lembro-me que quando era pequeno, o meu cão partiu uma perna numa armadilha para coelhos. Quando tentei libertá-lo, mordeu a minha mão. O meu pai explicou-me que um animal em sofrimento morde seja quem for. O que pode ele fazer além disso? O seu homem deve estar muito ferido.

            - Então, e eu? Não acha que eu também estou magoada?

            - Sei que está; mas você há-de curar-se sempre mais depressa. Aprendeu a olhar para além de si mesma, para a sua filha, para os seus doentes. De cada vez que o seu Sérgio entra na sala de operações, trava um duelo privado com a morte. Quando sai de lá, descobre que todos os medos que deixou do lado de fora continuam à espera dele.

            - Que pretende que eu faça?

            - Dê um beijo ao seu homem e façam as pazes. Sejam bons um para o outro. Há muito pouco amor no mundo. Não devem desperdiçar nem uma gotinha... E agora, tem tempo para me levar até ao pinhal?

            Ela deu-lhe o braço e caminharam devagar pelo passeio empedrado abaixo até ao abrigo dos pinheiros. Os guardas, vigilantes e impacientes, mudaram de posição para os rodearem. Monsenhor Malachy O'Rahilly, que tinha acabado de chegar para a sua visita matinal, esteve tentado a segui-los. Mas, ao vê-los juntos, animados mas descontraídos, como pai e filha, pensou melhor, sentou-se à mesa de pedra e ficou à espera que o seu amo voltasse.

 

            A recepção de Katrina Peters tinha lugar no terraço do Palazzo Lanfranco, com os cimos dos telhados da velha Roma por pano de fundo, e um caramanchão de videiras por dossel. Os criados tinham sido escolhidos a dedo na melhor agência. O cozinheiro tinha sido cedido por Adela Sandberg, que escrevia sobre a moda italiana nas revistas mais cotadas de Nova Iorque. Os convidados eram escolhidos para satisfazer o prazer dela em encontros exóticos e o talento do marido para fazer comentários excelentes acerca deles.

            Para contrastar com Sérgio Salviati e Tove Lundberg, tinha escolhido o embaixador soviético e a mulher. O embaixador tinha a reputação de ser um notável arabista, que passara cinco anos em Damasco. A mulher era uma pianista afamada. Para par de Matt Neylan - que, de acordo com Nicol, tinha mais que direito a este lugar na mesa-tinha convidado a última pessoa a chegar à Academia Americana, uma atraente mulher de 30 anos, que tinha acabado de publicar uma tese altamente elogiada sobre a condição das mulheres no mistério religioso. A estes, juntou Adela Sandberg para dar mais colorido aos mexericos e Menachem Avriel porque a mulher estava em Israel e ele gostava de Adela Sandberg. E, para tudo estar equilibrado, acrescentou Pierre Labandie, que criava banda desenhada satírica para Le Canard Enchainé, eLolaMartinelli, que fazia ricos casamentos e divórcios proveitosos numa espécie de arte em série. O facto de ser advogada em causa própria acrescentava uma certa patine ao produto.

            As cerimónias tiveram início com champanhe e umapavane à volta do terraço para apreciar o panorama, identificar as cúpulas e os torreões, que se perfilavam negros contra a linha do horizonte. Durante este prelúdio, Katrina Peters andou graciosamente mas com ideias bem definidas por entre os seus convidados, colmatando lacunas desastradas na conversação, apresentando os convivas uns aos outros, sempre atormentada com aquelas maçadas das relações romanas, o aperto de mão mole, as introduções murmuradas, as quase furtivas confissões da identidade e profissão.

            Desta vez, teve sorte. Matt Neylan, habituado à diplomacia, foi fácil e falador. Os russos eram cordiais e obstinados. Encarregaram-se de Tove Lundberg e da senhora dos mistérios, ambas conversadoras agradáveis e simples.

            Nicol Peters aproveitou a oportunidade para uma primeira e rápida troca de palavras com Salviati e Menachen Avriel sobre a ameaça terrorista.

            - Ouvi dizer que você montou quase um campo de manobras armadas lá em Castelli.

            - Protegemo-nos. -Salviati tentou evitar a discussão. - Teríamos de fazê-lo em qualquer caso, com ou sem ameaça.

            - A ameaça é real. -Avriel era uma pessoa experimentada nas intrigas da imprensa. - O grupo foi identificado.

            - Oficiosamente, parece que a Mossad já penetrou no grupo?

            - Não faço comentários - disse Avriel.

            - Ainda não consegui perceber qual a filosofia política que está por detrás disto. As relações entre o Islão e o Vaticano são pelo menos estáveis. Que é que se ganha em assassinar o Pontífice?

            - Uma declaração de princípios. - Menachen Avriel gesticulou enfaticamente.-Israel é um portador de calamidades. Qualquer contacto ou transigência é igual a morte.

            - E por que não abater Salviati? É dono da clínica. E é um conhecido sionista.

            - Contraproducente. Sérgio trata de uma porção de árabes ricos. É o primeiro e o melhor dos médicos entre Karachi e Londres... Para quê perder os seus serviços? Para quê arranjar inimigos entre os homens de massa do Islão?

            - É possível; mas sinto que falta qualquer coisa nessa lógica. Menachem Avriel riu-se.

 

            - Ainda não aprendeu que faltam sempre uma ou duas premissas na lógica Farsi? Você começa com um conjunto de proposições bem definidas, em campo raso e aberto, e daí a pouco, presto!... está a voar com os morcegos na Montanha Mágica!

            - Não sei muito bem se gosto mais da sua lógica - disse Sérgio Salviati.

            - Quem é que se preocupa com a lógica? - Adela Sandberg surgiu impetuosamente para controlar o pequeno grupo. -Acaba de chegar o amor; a lógica sai pela janela! Beije-me, Menachem! Também pode beijar-me, Sérgio Salviati!

           No extremo do terraço, o embaixador soviético estava profundamente embrenhado na sua conversa com Tove Lundberg.

            - Você trabalha com este papa... Como é ele? Como é que ele reage consigo?

            - Tenho de lhe dizer que ele é, mesmo agora, um homem formidável. Às vezes, dou por mim a pensar nele como sendo uma velha oliveira, torcida e retorcida, dando ainda folhas e fruto... Mas dentro da árvore está um homem vulnerável e amoroso, tentando escavar a sua saída antes que seja demasiado tarde. Comigo é muito humilde, ficando muito grato pelo mais simples dos serviços. Mas-sorriu e encolheu os ombros - é como brincar com um leão sonolento. Tenho a sensação de que, se acordasse mal disposto, era capaz de me engolir de uma vez só!

            - Fui informado de que houve ameaças contra a vida dele.

            - É verdade. A clínica está guardada dia e noite.

            - E isso perturba-o?

            - Sim, mas por causa do pessoal e dos outros doentes; por ele, de modo nenhum.

            - Há uma coisa que o senhor tem de compreender, Excelência. - Matt Neylan, de braço dado com a senhora dos mistérios, meteu-se na conversa. - Este homem, Leão XIV, é um arquétipo, um recuo. Ele recusa todo e qualquer diálogo com o mundo moderno.

            - Não estou de acordo - desafiou-o bruscamente Tove Lundberg. - Nem sequer sou crente, apesar de o meu pai ter sido pastor luterano. Mas vejo-o todos os dias, para aconselhamento pós-operatório. Acho-o aberto, autoquestionando-se, sempre preocupado com a questão da mudança dentro da Igreja.

            - Acredito. -Matt Neylan foi suave como mel. -Mas sabe alguma coisa de latim?

            - Um bocadinho - respondeu Tove Lundberg.

            - O meu marido é um bom conhecedor de latim - disse a pianista. - Fala fluentemente dez idiomas.

            - Então não terá a mínima dificuldade com este pequeno provérbio: “Lúpus languebat, monachus tuncesse volebat;sedcum convaluit, lúpus ut ante fuit.”

 

            O embaixador riu-se e traduziu o provérbio num inglês cheio de sotaque.

            - Quando o lobo estava doente, queria ser monge. Quando se restabeleceu, continuou a ser lobo... E o senhor está a dizer, Sr. Neylan, | que é isso que vai acontecer com o seu papa?

            - Vejo muitas hipóteses de assim ser.

            - Como diz?

            - Tenho a certeza, quase a cem por cento, de que ele vai voltar a ser exactamente como era.

            - Aposto cinco mil liras em como está enganado - disse Tove Lundberg.

            Matt Neylan sorriu.

            - Está apostado, minha senhora! E se você ganhar, acrescento à aposta o melhor jantar desta cidade.

            - Hoje em dia é difícil encontrar um restaurante realmente de primeira. - Katrina Peters meteu-se calmamente no grupo.

            - É incomparavelmente mais difícil encontrar um homem de primeira! - exclamou Lola Martinelli.

            - Não desista ainda, Lola - disse Katrina Peters. - Aqui o Matt Neylan acabou de chegar ao mercado... convertido... novo e maravilhosamente preparado!

            - Eu agarrei-o primeiro - disse a dama dos mistérios. -E trabalhamos no mesmo ramo!

            Sentaram-se, os doze, numa mesa redonda posta com uma toalha florentina, copos venezianos, prata Buccellati e louça da casa de Ginori. Nicol Peters fez um brinde de boas-vindas:

            - Esta casa é a vossa casa. Tudo o que se disser aqui esta noite, é dito entre amigos, em verdade e confiança. Salute!

            Foi então servida a refeição, e a conversa generalizou-se, mais alta e mais à vontade conforme a noite ia avançando. Nicol Peters observava, ouvia e recolhia os fragmentos de diálogo que mais tarde se iriam encaixar no mosaico da sua coluna, “Uma Vista Do Meu Terraço”. Era este o cerne do seu trabalho. Era para isto que lhe pagavam. Qualquer idiota podia escrever as notícias: que o papa presidiu à cerimónia do lava-pés na Quinta-feira Santa, que o cardeal Clemens censurou mais um teólogo alemão. Mas era preciso um tipo brilhante e de vistas largas como Nicol Peters, para ler a escala de Richter e prever ousadamente que ia haver um terramoto na Sexta.

            O homem de Moscovo era tão diligente como divertido. Concentrava a sua atenção em Matt Neylan, que, lançado auspiciosamente no mundo das mulheres em voga, distribuía pródigas doses de charme irlandês.

            - Gostaria de saber a sua opinião, Sr. Neylan... Que papel prevê para a Ortodoxia Russa nas políticas da próxima década?

 

            - Fora da Rússia - disse Matt Neylan judiciosamente -, nas comunidades cristãs do ocidente, tem de criar um papel para si mesma, no debate teológico, filosófico e sociopolítico. Não vai ser fácil. A sua vida intelectual tem estado estagnada desde o Grande Cisma no século XI. Politicamente, vocês mantiveram-na cativa desde a revolução... Apesar disso, ainda se mantém o mais próxima possível do espírito dos primeiros padres orientais. Tem muito para oferecer ao ocidente. Para vocês, ela pode muito bem ser o tampão mais forte que têm contra a expansão do Islão dentro da própria União Soviética... Estou certo de que não é preciso dizer-lhe a extensão estatística dessa expansão.

            - E o senhor lidou com esses assuntos na Secretaria de Estado?

            - Pessoalmente, não. Nem directamente. O peritus nessa área é Monsenhor Vlasov, que talvez conheça...

            - Não conheço, mas gostaria de conhecer.

            - Noutras circunstâncias, ter-me-ia oferecido para arranjar um encontro. Agora, como vê, já não pertenço a esse clube.

            - E lamenta o facto?

            - Que é que há para lamentar?-A dama dos mistérios acariciou a mão de Neylan, aprovadoramente.-Não se diz que a última colheita faz o mais doce vinho?

            A seguir à sobremesa, Nicol Peters virou-se de repente para Me-nachem Avriel e disse, absolutamente a despropósito:

            - Ainda estou preocupado com a lógica.

            - E...?

            - Acho que encontrei a premissa que faltava.

            - Que é qual?

            - Pensamento duplo, dupla fraude. O que você designou de “voando com os morcegos na Montanha Mágica”.

            - Troque-me isso por miúdos, Nico.

            - É uma suposição justa... embora você não a possa admitir... que a Mossad tenha penetrado na Espada do Islão.

            - E o que se segue a isso?

            - Um cenário possível. O grupo monta um plano falso. O Vaticano, a República, a Mossad, todos montam dispositivos para o enfrentar. Se calhar até forneceram um falso assassino que é preso ou morto. Depois disso já não precisam nem do papa nem de Salviati. Já têm o que realmente queriam... um casus belli, uma razão para encenar qualquer golpe público que lhes apeteça, desde rapto ao desvio de um avião. É uma ideia, não acha?

            - Um raio de ideia muito desconfortável - disse Sérgio Salviati. Menachem Avriel encolheu os ombros a este pensamento. Era, acima de tudo, um diplomata perito em mentiras em sociedade. Nicol Peters deixou morrer o assunto e concentrou-se no brande. Ele era, antes de mais nada, um jornalista, que sabia que a verdade está muitas vezes no fundo do lago e que é preciso mexer na lama para a alcançar.

            Quando se levantaram da mesa, afastou Sérgio Salviati dos outros para lhe fazer uma pergunta em particular.

            - Gostaria de tornar isto o mais simples possível. Recebo os boletins diários sobre a recuperação do papa. Há alguma coisa que lhes possa acrescentar, sem que haja quebra de ética?

            - Nada de especial. Está afazer uma óptima recuperação. As suas faculdades mentais estão intactas... suponho que é isso que quer saber.

            - Ficará capaz de exercer todas as funções que o cargo exige?

            - Se seguir o regime, sim. Funcionará provavelmente melhor do que o fazia no passado mais recente.

            - De um modo diferente?... Apanhei o final da conversa entre Tove Lundberg e Matt Neylan.

            - Não me pode citar nessa parte.

            - Não o farei.

            - ATove tem razão. O homem está muitíssimo mudado e acho que vai continuar assim.

            - Chamar-lhe-ia uma “conversão”, no sentido religioso do termo? - Isso é uma questão de semântica. Prefiro limitar-me a um vocabulário clínico... E agora, posso eu fazer-lhe uma pergunta?

            - Vamos a ela.

            - O seu cenário do assassino falso; acredita nisso?

            - Acho que é muito praticável.

            - Suponha - disse Salviati cuidadosamente-, suponha apenas que o assassino já foi identificado.

            - E abatido?

            - Suponha isso também, se quiser.

            - Há mais alguma coisa que eu possa supor?

            - Que não houve nenhuma reacção da Espada do Islão.

            Nicol Peters franziu os lábios e depois emitiu um longo assobio de surpresa.

            - Nesse caso, diria eu então, apertem os cintos de segurança. Podem estar a iniciar uma viagem muito agitada! Dir-me-á o que for realmente acontecendo, não é verdade?

            - E provável que o venha a saber antes de mim - disse Sérgio Salviati. - Da maneira que se processa a minha vida, nunca tenho tempo para ler os jornais da manhã!

            Depois disto era altura de se divertirem. À medida que o nevoeiro nocturno subia do Tibre, passaram para o salone. Matt Neylan sentou-se ao piano e cantou canções napolitanas numa suave voz de tenor irlandês. Encorajada com isto, a mulher do embaixador sentou-se e soltou uma torrente de música - Chopin, Liszt, Tchaikovsky. Até Katrina Peters, uma anfitriã extremamente crítica, teve de reconhecer que a noite tinha sido um sucesso. Nicol Peters estava preocupado. Todo o seu instinto lhe dizia que alguma coisa estava prestes a quebrar-se. Não conseguia de maneira nenhuma definir o que era.

 

            A propriedade de Omar Asnan, na Velha Via Appia, tinha-lhe custado uma fortuna. Situada na parte mais cara da velha estrada, entre o túmulo de Cecilia Metella e o cruzamento com Tor Carbone, era uma mistura de construções que iam desde o tempo dos romanos até ao século XX.

            Uma parede branca muito alta, com vidros partidos no topo, escondia-a da estrada e dos campos abertos por detrás dela. O jardim com a sua piscina e cubas de plantas com flores, era resguardado por ciprestes altos e pinheiros de copa larga. Era também patrulhada durante a noite por um guarda armado e dois dobermans.

            Uma característica especial da casa era uma torre de vigia quadrada, construída à volta de uma chaminé, da qual era possível vigiar a Appia Antica em ambas as direcções, observar os pastores apascentando os seus rebanhos na campagna e ver perfeitamente através dos telhados das outras villas até aos blocos de apartamentos da E. U. R.

            A segunda característica, um bónus inesperado para Omar Asnan, era a adega, abobadada e construída em pedra reticular, que datava do mesmo período do Circo de Maxentius, que ficava ali perto. Não havia nada de transcendente na adega em si, mas uma laje solta no chão tinha revelado a existência de um conjunto de dez degraus que ia dar a um túnel.

            O túnel, cavado no tufo calcário friável, percorria cinquenta metros ao longo da campagna e desembocava numa sala grande e circular guarnecida com grandes potes de barro, que em tempos tinham servido para armazenar cereais. O ar era viciado, mas o local estava absolutamente seco e foi a coisa mais simples do mundo instalar um sistema de ventilação, com a entrada e a saída escondidas nos arbustos do jardim.

            E assim, Omar Asnan - graças a Alá, o justo e o misericordioso! - viu-se na posse de um armazém para mercadorias especiais, tais como armas, granadas e drogas, uma sala de reuniões escondida dos olhares curiosos, e uma casa segura para abrigar amigos ou inimigos. Foi aqui que se reuniu com os seus quatro mais fiéis lugar-tenentes, para discutir o desaparecimento de Miriam Latif da Clínica Internacional.

            Sentaram-se em almofadas em cima de uma carpeta, dois de cada lado, com Omar Asnan a presidir. Era um homem pequeno e escuro, tão bem arranjado como um manequim, com mãos eloquentes e um sorriso pronto. O seu discurso foi rápido e prático.

            - Foi isto que conseguimos apurar em vinte e quatro horas. Às três da tarde, eu próprio telefonei à Míriam para a clínica a marcar um encontro aqui. Ela concordou. Disse que conseguia facilmente arranjar tempo livre ao fim do dia. Iria de carro até Roma fazer umas compras e passava por aqui no regresso.

            Voltou-se para o homem que estava à sua direita.

            - Lembras-te de tudo isto, Khalid. Estavas aqui comigo.

            - Pois lembro.

            - Combinámos jantar aqui na villa. Ela nunca chegou a vir.

            - É evidente que ela estava...

            - Por favor! - Asnan ergueu uma mão em advertência. - Por favor, vamos discutir o que sabemos, e não aquilo que pensamos que sabemos. Miriam nunca cá chegou. Cerca das dez da noite, fui até ao clube para passar a palavra de que a nossa operação se tinha, provavelmente, gorado. Todos receberam esta mensagem, não foi?...

            Houve um murmúrio de aprovação.

            - Agora vou contar-lhes o que apurei entretanto, através dos nossos vários contactos na polícia e no aeroporto. O carro da Miriam foi encontrado no parque de estacionamento do longo curso em Fiumicino. O hospital afirma... e eu vi a mensagem de que a telefonista tomou nota... que Miriam telefonou do aeroporto às sete da tarde, para dizer que a mãe estava muito doente e que se ia embora imediatamente para Beirute nas Linhas Aéreas do Médio Oriente. Confirmei pessoalmente com os nossos amigos no escritório da linha aérea. Uma mulher dizendo chamar-se Miriam Latif comprou de facto um bilhete, apresentou um passaporte libanês e entrou no avião. O único óbice é que a dita mulher usava o véu da maneira tradicional. Miriam Latif nunca usou véu... Mais que isso, confirmei com Beirute que ninguém apresentou quer o passaporte de Miriam Latif, quer um cartão de desembarque com o nome dela. A Miriam, por sua vez, não contactou os pais, que estão, aliás, ambos de excelente saúde... Assim, meus amigos, o que devemos concluir de tudo isto?

            O homem que dizia chamar-se Khalid respondeu por todos.

            - Acho que é óbvio. Ela devia estar sob vigilância. Foi interceptada e raptada na viagem para Roma. Outra pessoa qualquer guiou o carro dela até ao aeroporto, e comprou uma passagem em nome dela para Beirute.

            - Qual o objectivo de tanta confusão?

            - Atrasar aquilo que começámos a fazer agora... tentar encontrá-la.

            - Ela está viva ou morta?

            - Cá por mim, acho que está viva.

 

            - E em que é que te baseias para dizeres isso?

            - Em toda a charada que representaram no aeroporto. Era muito mais simples matá-la e pôr o cadáver na lixeira.

            - Pergunta seguinte: quem é que a mantém prisioneira?

            - A Mossad, de caras.

            - Porquê?

            - Boa pergunta! Eles sabem da nossa existência. Devem ter tido qualquer informação sobre os nossos planos; senão, como é que se justificava toda aquela concentração de forças na clínica?

            - Como é que eles teriam sabido?

            - Souberam porque alguém lhes disse.

            - Estás a dizer que há um traidor entre nós?

            - Exacto.

            - Tal e qual - disse Omar Asnan. - E, para desmascarar esse traidor, foi necessário sacrificar a Miriam Latif. Lamento imenso.

            Houve um silêncio de morte na sala. Os quatro homens olharam uns para os outros e depois para Omar Asnan, que estava calma e tranquilamente sentado, gozando o mal-estar deles. A seguir mexeu no bolso e tirou uma caneta e um pequeno bloco de notas com capa de couro. Abriu o bloco de notas e retomou o fio da sua conversa.

            - Vocês sabem como estamos organizados. Aqui, somos cinco. Abaixo de nós, são grupos de três. Cada grupo é autónomo. Cada um dos seus membros, tem contacto apenas com uma pessoa de outro grupo.

            “Deste modo, a traição não se espalha facilmente. Só nós os cinco sabíamos da Miriam Latif e dos nossos planos para ela. Só um de vocês sabia que eu a tinha convocado a cá vir. - Num gesto quase brincalhão, encostou a extremidade da caneta à fonte de Khalid. -Apenas tu, Khalid, meu amigo do coração!

           Pressionou a mola da caneta. Ouviu-se um som rápido e agudo e Khalid deslizou para o chão. Do orifício da sua cabeça, saiu um ténue fio de sangue e de fluido. Omar Asnan disse secamente:

            - Tirem-no do chão. Metam-no no vaso grande, o vidrado com tampa. Selem a tampa com cimento. A seguir ponham um pouco de spray na sala. Mesmo agora já tresanda a judeu! Encontramo-nos lá em cima, quando tiverem terminado.

 

            No seu gabinete na clínica, Sérgio Salviati estava em conferência com o cardeal Matteo Agostini, secretário de Estado. Depois de uma noite que acabara tarde, e de uma operação de pequena cirurgia que sem mais nem menos dera para o torto, a sua paciência era quase nula.

            - Veja se me entende, Eminência. Estou a falar em termos clínicos do bem-estar do meu paciente. Ele disse que se submeteria à sua decisão... Sei que o senhor tem outras preocupações, com as quais eu não tenho nada a ver.

            - Sua Santidade não precisa do meu consentimento para fazer seja o que for.

            - Ele quer a sua aprovação, o seu apoio contra quaisquer possíveis críticas.

            - E isso é um assunto médico?

            - Pois claro que é! - Salviati foi conciso. - Neste estádio de recuperação cardíaca, tudo é assunto clínico... qualquer tensão desnecessária, qualquer choque ou ansiedade. Se não acredita em mim, posso mostrar-lhe como essas coisas aparecem num ecrã de um monitor.

            - Acredito em si, Professor. -Agostini estava absolutamente à vontade. -Portanto, vou tratar do que é preciso para a transferência de Sua Santidade para a propriedade do cardeal Drexel. A segurança será por nossa conta. Assumo que o senhor vai continuar a dar a necessária assistência médica?

            - O médico dele vai assisti-lo no dia a dia. Eu estou perto para qualquer emergência. De qualquer modo, tenho que o ver no fim do mês. Tove Lundberg é uma visita constante da propriedade. No entanto, sugerir-lhe-ia que contratasse um bom fisioterapeuta para acompanhar Sua Santidade nos exercícios diários. Posso recomendar um.

            - Muito obrigado. Agora, tenho umas perguntas a fazer. Sua Santidade está apta a retomar as suas obrigações normais?

            - Vai estar, a seguir a uma convalescença adequada.

            - Quanto tempo demora?

            - Oito semanas para as costelas sararem. A sua actividade será incrementada gradualmente durante, pelo menos, seis meses. Lembre-se de que ele já não é um rapaz. Mas desde que não se meta afazer trabalho físico pesado... então, sim, pode certamente funcionar bastante bem.

            “Há, no entanto, algumas limitações: nada de cerimónias longas, nem missas em S. Pedro, nem carregar a cruz à volta do Coliseu, esse tipo de coisas. Eu sei que o senhor tem de o fazer aparecer em cena de vez em quando, mas cuide para que tudo se passe o mais rapidamente possível. Segunda precaução: nada de longas viagens aéreas durante pelo menos seis meses.

            - Vamos fazer tudo o que estiver ao nosso alcance para o convencermos - disse Agostini. - E a mente dele? Será que ele vai ficar... estável? Deus sabe que ele nunca foi um homem com quem se lide facilmente e sabemos bem que, neste momento, está emocionalmente frágil.

            - Frágil, sem dúvida. Mas compreende a situação e colabora. Tove Lundberg admira-o imenso. Ofereceu-se para ficar encarregue do assunto todo o tempo que a presença dela seja necessária.

 

            - Vou fazer então a minha última pergunta. Ele está mudado? Como? E por quanto tempo?

            - Sem dúvida que está mudado. Nos primeiros tempos, o doente passou pela “experiência de Deus” - a metanóia, que foi o ponto crítico da terapia. A experiência, ainda que muito elaborada, de certeza que envolveu terror, traumas e o combate pela sobrevivência. O seu homem passou por tudo isto... É capaz de soar um pouco dramático de mais, mas...

            - Estou a ver o drama - disse Agostini calmamente. - Estou a tentar imaginar como é que ele se vai comportar em actuações públicas.

            - Aí, lamento, mas não o posso ajudar. - Salviati riu-se e estendeu as mãos num gesto de impotência. - Eu sou apenas o canalizador. As profecias são especialidade da Igreja.

 

            - E então, Anton, para o melhor e o para o pior, lá me vai ter como seu hóspede.

            - Não consigo exprimir a alegria que sinto, Santidade.

            Estavam sentados no seu canto favorito do jardim, debaixo do caramanchão de videiras, bebericando limonada gelada que Tove Lund-berg lhes tinha mandado servir. Drexel estava corado de prazer. O Pontífice parecia ter alguns receios.

            - Espere um momento, meu amigo! Não sou só eu. É toda uma comitiva. Homens da segurança, criado particular, fisioterapeuta, visitantes que não posso deixar de receber. Tem a certeza de que consegue aguentar isto tudo?

            - A certeza absoluta. Vai ficar alojado na villetta, a pequena villa no extremo mais baixo da propriedade. É confortável e isolada, com os seus jardim e pomar privativos. E também é fácil de proteger. Os homens da segurança estiveram a vê-la e não encontraram problema nenhum. Há alojamentos para o seu criado. A sua suite tem um salone, um escritório euma casa de jantar. A minha cozinheira vai trabalhar para si. Mandei-a vir de Roma.

            - Olhe lá, Anton, começo realmente a acreditar que você se está a divertir imenso com todo este reboliço.

            - Pois claro que estou! Já imaginou que o primeiro e último papa a visitar a minha villa foi Clemente VIII, Ippolito Aldobrandini, em 1600? Foi o sobrinho dele, Piero, que construiu este grandepalazzo em Frascati... Mas calcula o que deve ter sido uma visita papal nesses tempos, com cocheiros, batedores, moços de estrebaria, homens de armas, cortesãos e suas mulheres... -Riu-se. -Se me tivessem dado mais tempo, tenho a certeza de que tinha conseguido arranjar pelo menos uma certa pompa para si.

 

            - Ao diabo as pompas.-O Pontífice afastou a ideia com um gesto. -Vou para lá, porque quero tornar a ser um camponês. Quero despir a minha sotaina branca e vestir-me com roupas de trabalho, e ocupar-me com coisas simples, tais como a ferrugem nos tomateiros e se as alfaces estão a ficar bem formadas. Não preciso de um secretário, pois não tenciono abrir nem um livro nem uma carta, se bem que gostasse de ouvir alguma boa música.

            - E vai ouvir.

            “Vou mandar instalar um aparelho e mandar lá para baixo algumas gravações e discos para si.

            - E quero conversar, Anton. Quero que falemos como amigos, passando em revista toda uma vida passada, mas olhando também para a frente, para o mundo que as crianças vão herdar. Quero partilhar da sua família, embora tenha de confessar que isso me assusta um pouco. Não estou certo de possuir a habilidade e a energia necessária para me aguentar com ela.

            - Por amor de Deus! Não se preocupe com isso. Não precisa de lutar com coisa nenhuma. Não precisa de aprender nada, a não ser a como conduzir-se. O senhor chega. Eu apresento-o. Eles dão-lhe as boas-vindas. O senhor dá-lhes a sua bênção. Tudo isto demora, no máximo, cinco minutos. E depois esquece-se deles... Vai descobrir, como aconteceu comigo, que eles são todos muito inteligentes e estão ansiosos por se dedicarem aos seus próprios assuntos. Quando se sentirem preparados para se aproximarem de si, aproximar-se-ão... e estabelecerão a ligação de uma maneira muito mais rápida do que o senhor alguma vez o faria. Tudo o que eles precisam é do seu sorriso e do seu tacto para lhes dar confiança. Lembre-se disso. O tacto é muito importante. São sensíveis a qualquer sinal de retrocesso ou mesmo de timidez. Eles não são tímidos. São corajosos, fortes e muitíssimo inteligentes.

            - E têm um Nonno que os adora.

            - Isso também, suponho. Mas eles dão mais do que recebem. -Tenho uma confissão a fazer-lhe, Anton. De repente, estou com medo de abandonar este lugar. Aqui estou protegido da dor e do desconforto. Sou aconselhado como um noviço. Sei que se alguma coisa correr mal, Salviati saberá exactamente como proceder... compreende o que quero dizer?

            - Acho que sim. - Drexel parecia estar a arrancar as palavras muito do fundo de si mesmo. - Fico acordado de noite a conjecturar em como virá a Irmã Morte ter comigo. Espero que ela prepare decentemente o encontro, sem confusão nem reboliço. Mas se ela resolver de outro modo, Bah!, a quem recorro? As crianças não podem ajudar. As mulheres dormem longe dos meus aposentos... Portanto..., sim! Sei como se sente. É a solidão dos idosos e dos doentes. Mas na medida em que nos deram mais do que o suficiente, devemos suportá-la com mais garbo.

            - Reprovei - disse Leão, o Pontífice, com humor forçado. - Para a próxima vou arranjar um confessor mais complacente.

            - Ninguém está em melhor posição para o fazer - Drexel deu a volta à piada.

            - Agora preciso de um conselho. - O Pontífice pôs em cima da mesa dois pequenos embrulhos envoltos em tecido.-Estas são as minhas prendas para Salviati e Tove Lundberg. Gostava de saber a sua opinião a respeito delas. Pensei muito a respeito de Salviati. É um homem brilhante, obcecado. Eu queria qualquer coisa que lhe desse um momento de alegria. - Desembrulhou a primeira embalagem, para mostrar, colocado sobre seda dentro de uma caixa de veludo, um antigo mezuzah (1) de prata. - O meu eficiente secretário O'Rahilly escolheu isto. Data do século XVI e diz-se que veio de Jerusalém. A proveniência está aqui escrita em hebraico. Acha que ele vai gostar?

[1 Em hebraico no original: objecto que se coloca nas ombreiras das portas e que contém os versículos do Deuterónimo - quinto livro do Pentatêuco - onde se lembra aos fiéis o que têm de adorar e cumprir (NT)]

 

            - Tenho a certeza que sim.

            - E isto para Tove Lundberg. -Mostrou um disco de ouro batido, gravado com letras rúnicas e preso a uma corrente de ouro. - Este, disse-me O'Rahilly, veio originariamente de Istambul, e é atribuído aos primeiros vikings que descobriram o seu caminho descendo os sistemas fluviais da Rússia à Turquia.

            - O'Rahilly tem muito bom gosto... e obviamente um grande conhecimento sobre antiguidades.

            - Para tal, depende do subprefeito do Museu do Vaticano, que também é irlandês! Disseram-me que eles bebem um copo juntos, de vez em quando.

            - Pois a mim contaram-me - disse Drexel - que ele talvez beba demasiado e demasiadas vezes. Na sua presente situação, isso pode ser mais perigoso para Sua Santidade do que para ele.

            - É um bom homem, um homem gentil. E é um secretário muito eficiente.

           - Mas não necessariamente discreto. É possível que tenha de perguntar a si mesmo se pode dar-se ao luxo de o manter.

            - Ou se de facto existe alguém que eu possa manter. É isso que me está a dizer, Anton?

            - Para ser franco, Santidade, é. Somos todos dispensáveis... até o senhor. E esta é a minha opinião. Quando estiver recuperado, como sem dúvida vai acontecer, quando começar a batalha para reconstruir a cidade de Deus, terá menos a temer dos seus inimigos do que dos inactivos e indiferentes, que nunca lhe darão luta, mas que esperarão, bem instalados e felizes, até o senhor morrer.

            - E como vou eu lidar com isso, cara Eminência?

            - Como qualquer bom camponês, Santidade. Lavra a terra e lança a semente... e espera que Deus providencie a colheita!

            A partida do Pontífice da clínica teve muito mais pompa do que a sua chegada. Desta vez, havia três limusinas; uma para o Pontífice, outra para o secretário de Estado, uma terceira para os prelados da Casa Papal. Os homens da Vigilanza tinham os seus próprios velozes carros, à frente, à retaguarda e nos flancos da caravana automóvel. A Polizia Stradale forneceu uma escolta de motos. Tinham-se erguido barricadas ao longo da estrada que ligava a clínica à villa de Drexel, e nos sítios perigosos da estrada sinuosa tinham sido colocados bons atiradores.

            O Pontífice tinha-se despedido de Salviati e deTove Lundberg, na privacidade do seu quarto. Os seus presentes agradaram a ambos. Salviati tinha-lhe dito que ia guardar o mezuzah para pôr na casa que tinha planeado construir no local de uma velha casa de quinta, que tinha acabado de comprar, perto de Albano. Tove Lundberg baixou a cabeça e pediu-lhe que ele mesmo lhe colocasse o talismã rúnico. Depois de assim ter procedido, agarrou nas mãos de ambos e despediu-se.

            - Nunca na minha vida me senti tão pobre como agora. Nem sequer tenho palavras para vos agradecer. O melhor que posso fazer é deixar-lhes a própria dádiva de Deus: paz nas vossas casas. Shalom!

            - Shalom aleichem (1) - respondeu Sérgio Salviati.

[1 Em hebraico no original: paz para todos! (N. da T.)

 

            - Ainda não está livre de mim - disse Tove Lundberg. -Tenho de o apresentar à minha filha.

            Depois instalou-o na cadeira de rodas e empurrou-o ao longo do corredor e lá para fora até à estrada particular, onde o pessoal estava reunido para se despedir.

            Quando a caravana automóvel passou rapidamente pelos portões e entrou na estrada livre, sentiu uma súbita torrente sufocante de emoção. Este era verdadeiramente o dia da ressurreição. Lázaro tinha saído do túmulo, liberto da sua mortalha e andado no meio dos vivos, que estavam alinhados ao longo da berma, acenando com bandeiras e flores, e com rebentos cheios de folhas arrancados às sebes. A exclamação que proferiam era sempre a mesma: Eviva il papa, “Deus proteja o papa”. E o papa esperava piamente que o seu desejo se tornasse realidade.

            Tendo em conta o risco de que todos estavam conscientes, a escolta policial deu um andamento rápido à caravana automóvel e os condutores tiveram de contornar rapidamente as curvas da colina. Os movimentos rápidos esforçaram os músculos das costas e do peito do Pontífice, de tal modo que quando chegaram à villa de Drexel, ele estava a transpirar de dor e de náusea. Ao ser ajudado a sair da limusina, segredou ao motorista:

            - Não se vá embora. Fique comigo. Segure-me.

            O motorista ficou ao pé dele, segurando-lhe o braço, enquanto ele inspirava profundos tragos de ar da montanha e fixava os olhos nas filas cerradas de árvores de fruto e de videiras, e nos ciprestes altos marchando como trabalhadores de picareta ao longo dos contornos das colinas. Drexel, com o tacto de sempre, aguardou até ele estar pronto, e depois guiou-o numa rápida volta até junto às mulheres da colónia, às mães, professores e terapeutas.

           A seguir vieram as crianças até ele, numa procissão estranha e destroçada, umas em cadeiras de rodas, umas andando, outras apoiadas em bengalas ou muletas. Por um momento, sentiu-se como que traído pelas suas instáveis emoções; mas conseguiu contê-las e, numa manifestação de ternura que espantou o próprio Drexel, abraçou todas elas, tocou-lhes nas faces, beijando-as, consentindo que o levassem como lhes apeteceu, de umas para as outras. A última delas foi apresentada pelo próprio Drexel.

            - E esta é a Britte. Ela quer que eu lhe diga que gostaria de pintar o seu retrato.

            - Diga-lhe, diga-lhe...

            A voz tremeu-lhe. Não conseguiu suportar a visão daquela linda face de criança-mulher poisada naquele corpo que parecia uma aranha.

           - Diga-lhe o senhor mesmo. -A voz de Drexel pô-lo firme, como se fosse uma voz de comando militar. - Ela percebe tudo.

            - Vou posar para ti, todos os dias, minha querida Britte. E quando o quadro estiver pronto, vou levá-lo para o Vaticano e pendurá-lo no meu escritório.

            A seguir esticou-se e puxou-a para ele, desejando possuir a fé suficiente para ordenar o milagre que a tornaria completa e linda.

 

            No terraço do Palazzo Lanfranco, Nicol e Katrina Peters tomavam café. Nicol estava a ordenar as mensagens emfacsimile, que se tinham acumulado durante a noite na sua máquina.

            - O papa teve alta esta manhã. O seu estado é satisfatório. A sua convalescença vai ser acompanhada pelo médico papal... sabemos isto tudo... Está aqui uma coisa esquisita. Vem da agência de notícias árabe. A Reuter e a Associated Press captaram-na. Vem titulada: “Desaparecimento Misterioso”. “Teme-se que tenha sido raptada rapariga muçulmana. Miriam Latif, uma atraente técnica de laboratório de 24 anos, trabalha na clínica do Professor Salviati, em Castelli, onde está internado o papa reinante, Leão XIV. Na terça-feira passada, pediu para se ausentar durante a tarde, para ir fazer compras em Roma e a seguir ir jantar com um amigo.

            “Não apareceu no jantar combinado. Às sete da tarde, a clínica recebeu um telefonema, supostamente de Miriam Latif. Disse que estava no aeroporto de Fiumicino e ia partir imediatamente para Beirute, pois a sua mãe estava gravemente doente.

            “O inquérito policial confirmou que uma mulher, usando o nome de Miriam Latif, comprou um bilhete para Beirute nas Linhas Aéreas do Médio Oriente, e que a mesma mulher, fortemente velada à maneira tradicional, apresentou o passaporte de Miriam Latif e embarcou no avião. Chegada a Beirute, a mulher utilizou outro passaporte para passar na alfândega e na imigração e a seguir desapareceu. Foram contactados os pais de Miriam Latif, que vivem em Byblos, a norte de Beirute. Ambos estão de perfeita saúde. Desconhecem os movimentos da filha e não tiveram notícias dela.

            “No fim do dia de hoje, a polícia do aeroporto descobriu o carro de Miriam Latif, no parque de estacionamento do longo-curso, em Fiumicino. A polícia efectua testes no automóvel. O director da clínica, professor Sérgio Salviati, descreve Miriam como um muito competente e estimado membro do seupessoal. Diz que todos os membros do seu pessoal se ausentam ocasionalmente e durante pouco tempo parair às compras e fazer visitas de carácter pessoal a Roma. Não se levantam objecções, desde que se tenha obtido a autorização e que o substituto esteja no seu lugar. A companheira de quarto de Miriam, e os seus amigos dentro do pessoal, descrevem-na como sendo alegre e conscienciosa. Interrogado sobre se Miriam Latif teria quaisquer filiações políticas, o Dr. Salviati afirmou não ter conhecimento de nada, e que de qualquer modo Miriam Latif tinha sido investigada pelas autoridades italianas antes de a deixarem frequentar o estágio dado pela Clínica Internacional.

            “O actual namorado de Miriam, Sr. Omar Asnan, com quem ela ia jantar na noite do seu desaparecimento, está profundamente perturbado e admite francamente que teme pela sua segurança. O Sr. Asnan é um cidadão iraniano que dirige um próspero negócio de importação e exportação entre a Itália e o Médio Oriente...”

            - E isto - disse Nicol Peters - diz-me exactamente tudo o que eu queria saber.

 

            - E achas que me consegues explicar o que se passa?

            - Na recepção, Salviati estava todo excitado, dizendo “suponha isto... suponha aquilo”. Está tudo aqui! Sabíamos que o papa estava sob uma ameaça de assassínio. É óbvio que a Espada do Islão tinha alguém na clínica... Miriam Latif. A Mossad afastou-a, viva ou morta... quem pode saber? E agora a Espada do Islão está a dar início ao processo “mistério e mártir”.

            - E que é que isso lhes adianta?

            - Dá cobertura às suas actividades actuais e prepara o clima para quaisquer represálias que estejam a planear. E, podes crer, vai haver represálias!

            - E então, que vais tu fazer a respeito disso?

            - O costume. Andar por aí a conversar: com os italianos, com os israelitas, com Salviati, com o Vaticano, com todos os embaixadores muçulmanos, incluindo os iranianos. Vou também tentar chegar à fala com este Sr. Omar Asnan, o apaixonado desgostoso.

            - Tem cuidado, rapaz!

            - E não tenho sempre? Há mais café?

            Katrina Peters serviu o café, e depois começou a contar as suas histórias, que refutava de muito mais importantes que as acções terroristas e a teologia. Como se tinha tornado mais velho e mais sensato nos hábitos e costumes de uma cidade muito antiga, Nicol Peters tinha tendência a concordar com ela.

            - ... Os russos convidaram-nos para jantar na embaixada, no dia 25. Ela quer que eu a ajude a escolher um guarda roupa de Outono e Inverno para Roma. Já estou a ganhar qualquer coisa!... Salviati mandou um bilhete muito simpático. Gostou de ter vindo. Tove Lundberg mandou uma peça de porcelana dinamarquesa, o que foi agradável e inesperado. Gosto daquela mulher!

            - O que é um elogio raro em ti! - Nicol Peters sorriu-lhe por cima da chávena de café.

            - Por outro lado, não tenho assim tanto a certeza se gosto de Micheline Mangos O'Hara!

            - E quem é essa?

            - A nossa dama dos mistérios, da Academia Americana. E também não consigo engolir aquele nome. Parece que a mãe era grega e o pai irlandês.

            - Tal como Lafcadio Hearn?

            - Por Deus, quem é esse?

            - Um jornalista, como eu, mas tinha os horizontes mais largos. Casou com uma japonesa. Esquece. Que se passa com Mangos-O'Hara?

            - Dá uma conferência sobre religiões misteriosas. E fomos convidados.

            - Recusa!

            - Já recusei. Mas ela também afirma que Matt Neylan é o macho mais interessante que conheceu nos últimos anos. O bilhete dele diz que lhe achou imensa graça e que naturalmente vai convidá-la a ir morar com ele durante o resto da sua estada em Roma!

            - Isso é o que eu chamo atirar-se de cabeça; mas ele tem realmente uma data de coisas a pôr em dia. - O pensamento de Nicol estava noutro sítio qualquer. - Ele também falou comigo. Os russos estão a dar-lhe manteiga, obviamente por causa do seu passado no Vaticano. Foi convidado para almoçar na embaixada, e o embaixador ventilou a ideia de uma viagem a Moscovo para conhecer membros da hierarquia ortodoxa. Matt não é lá muito perspicaz. Diz que apanhou uma barrigada de assuntos divinos e quer é um bom e longo trago do vinho da vida! O que quer dizer que naturalmente vai é apanhar uma barrigada de realidade. Tem muito que aprender.

            - E vai haver uma data de mulheres, mortas de vontade de o ensinar.

            - Por que não? Ele é inteligente. É divertido. Canta bem... e mesmo depois de todos estes anos de sotaina, não é um tenor castrato.

            - A Lola Martinelli está de olho nele.

            - Como é que sabes?

            - Telefonou para perguntar se eu achava que o Matt estaria interessado em trabalhar como secretário particular dela. Disse-lhe para lhe perguntar directamente.

            - E então?

            - Então ela assim fez, ao que ele respondeu no seu melhor e mais doce sotaque irlandês: “Cara senhora, sou um cavalheiro de posses, portanto não preciso de dinheiro. Sou um homem de muitos talentos, mas daria um péssimo secretário. Mas se tem mais alguma coisa a oferecer, terei muito prazer em discutir isso consigo durante um jantar na altura e no sítio que mais lhe convier”- Bem, mesmo que não seja verdade, é pelo menos ben trovato. É mesmo do Matt. Que é que a Lola respondeu?

            - Mandou-o para o diabo que o carregue. Em seguida telefonou-me e disse-me que ele era mais um desses ex-padres que acham que são muito importantes.

            - Boa malha!

            - Foi o que eu pensei; mas deixemos o Matt na lista de convidados. Pode sempre cantar em troca de ceia.

            - E agora é melhor eu concentrar-me e elaborar uma linha de ataque para esta história da Miriam Latif.

 

            As primeiras pessoas a cumprimentar o Pontífice na sua nova morada foram o seu criado, Pietro, e uma rapariga bochechuda, que usava o véu azul da Little Company of Mary. Tinha um largo sorriso, marcado sentido de humor e apresentou-se como sendo a irmã Pau-line.

            - Sua Eminência trouxe-me de Roma para tomar conta de si. Sou australiana, o que explica o meu mau italiano. A primeira coisa que o senhor vai fazer é deitar-se e descansar durante umas horas. Está pálido e suado e o seu pulso está acelerado com toda esta excitação... O Pietro pode ajudá-lo a despir-se. Eu já volto para o instalar e dar-lhe uns remédios... Sua Eminência diz que o senhor pode ser difícil; mas não vai ser, pois não? Eu tenho uma cura infalível para os doentes difíceis. Começo a falar e nunca mais me calo...

            - Rendo-me. - Ergueu uma mão fraca, em sinal de protesto. - Pode calar-se agora. Estou pronto para a cama.

            Dez minutos mais tarde estava instalado, rodeado do cheiro a lavado da roupa de cama, escutando o som agudo das cigarras lá fora no jardim. A última coisa que ouviu, foi a irmã Pauline dizendo a Pietro:

            - Claro que vou ser capaz de lidar com ele! Não passa de um gatinho. O nosso velho cura da paróquia comia-o ao pequeno-almoço. Esse é que era um autêntico terror!...

            Acordou já ao fim da tarde. Sentiu-se calmo e descontraído, ansioso por explorar este pequeno canto de um mundo, do qual se tinha excluído durante tantos anos. Na mesa ao lado da cama estava uma pequena campainha de prata. Quando tocou, apareceu Pietro, com toalhas, roupão e chinelos - e ordens superiores. !

            - A irmã diz que eu tenho de o barbear, ajudá-lo a tomar duche e a vestir-se, e depois levá-lo a dar uma volta. Começaram a vindimar. Sua Eminência está lá em baixo na vinha. Sugeriu que talvez gostasse de ir até lá e observar um pouco.

            - Vamos fazer isso, Pietro. - De repente, estava tão ansioso como um menino de escola. -Monsenhor O'Rahilly disse-me que tu tinhas trazido fatos à paisana para mim.

            - Trouxe, sim, Santidade. - Parecia vagamente indeciso. - Sei que lhe servem, porque dei as medidas a Monsignore. O estilo foi escolhido por ele.

            Colocou as roupas em cima da cama, para o seu amo as inspeccionar - calças de algodão, camisa de colarinho aberto, sapatos estilo mocassin e uma camisola de aspecto desportivo. O Pontífice hesitou por um momento, e depois rendeu-se dando uma gargalhada.

            - E eu ralado, Pietro! Se houver algum escândalo, atribuímos as culpas a Sua Eminência.

            - Espere até ver como é que ele se veste, Santidade. Parece um velho camponês.

 

            - Talvez fosse isso que devêssemos fazer, Pietro: transformar todos os nossos príncipes em camponeses... eu incluído.

            Quando saiu para o ar livre e ficou de pé, olhando para baixo para o declive da terra fértil, apercebeu-se de repente de quanta da sua vida se tinha gasto em claustros, salas de capítulo, corredores que cheiravam a fénico e a cera de abelhas e capelas que tresandavam a incenso velho. Pior ainda, era pensar no tempo precioso desperdiçado em papelada e perdido em argumentos, gastos por séculos de debate estéril. Na Cidade do Vaticano e em Castel Gandolfo não passava de um prisioneiro, a quem soltavam para ocasiões de cerimónia e para as chamadas viagens missionárias, onde cada movimento era planeado para ele e cada palavra escrita com antecedência...

            E, de repente, ei-lo aqui, numa colina de Castelli, vendo os vindimadores subindo e descendo as filas de videiras, atirando os frutos para dentro de cestos, esvaziando-os no carro atrelado ao tractor amarelo que os havia de levar até às tinas onde seriam esmagados. Toda a gente lá estava: o pessoal da villa, os trabalhadores da quinta, os professores, os terapeutas, a Irmã Pauline. Até as crianças estavam ocupadas com qualquer tarefa que conseguissem realizar. As que estavam em cadeiras de rodas, rodavam-nas por entre as vinhas. As que tinham muletas, encostavam-se às estacas verticais e apanhavam uvas com um esticão do braço. Só a Britte não estava a vindimar. Estava sentada, precariamente encarrapitada - ou seria atada? - num banco, com um cavalete e uma caixa de tintas, desenhando com um pincel preso entre os dentes.

            A cena era tão vívida, tão cheia de pormenores humanos, que o Pontífice permaneceu bastante tempo a contemplar a simples maravilha que era - e a futilidade gelada da maior parte da sua própria existência. Era aqui que se podia encontrar o povo de Deus. Era desta maneira que se deviam encontrar, fazendo coisas de todos os dias ao ritmo de um mundo laborioso.

            E Leão XIV, bispo de Roma, que em tempos dera pelo nome de Ludovico Gadda, que fazia ele? Bem, governava a Igreja, o que queria dizer que na maior parte dos dias se sentava à secretária e recebia pessoas, lia papéis, escrevia papéis, tomava parte numa cerimónia ocasional, fazia um discurso todos os domingos na Praça de S. Pedro - que toda a gente ouvia, mas ninguém compreendia, porque o eco e o retorno do som através da Praça de S. Pedro tornavam toda a cena ridícula... Portanto, em vista disso, não iremos perder nem um momento deste dia maravilhoso, de uma colheita especial...

            Com Pietro a ajudá-lo nos degraus dos terraços, foi descendo devagar para se juntar aos vindimadores. Iam-no saudando conforme ele passava, mas não interrompiam o que estavam a fazer. Era um trabalho sério, havia dinheiro a ganhar quando estivesse acabado. Um dos homens ofereceu-lhe um golo de vinho. Pegou na garrafa, ajustou-a à boca e bebeu, reconhecidamente. Limpou a boca com as costas da mão e devolveu a garrafa com um agradecimento. O homem sorriu e voltou ao trabalho.

            Finalmente, no extremo da terceira fila, deu com Drexel, sentado ao volante de um tractor à espera de se pôr a andar assim que o carro estivesse cheio de uvas. Desceu para cumprimentar o Pontífice.

            - Está com melhor aspecto, Santidade.

            - Tenho obrigação disso, Anton. Descansei maravilhosamente esta tarde. E muito obrigado por me ter arranjado uma enfermeira.

            Drexel riu-se.

            - Conheço a irmã Pauline desde que chegou a Roma. É uma pessoa muito especial. Até a mim me domesticou! Quando visitei pela primeira vez a comunidade, perguntou-me o que era suposto que fizesse um cardeal protector. E eu disse-lhe: proteger os interesses da Congregação. Olhou-me olhos nos olhos, e disse-me naquele italiano horroroso dela: “Pois bem, para começar, tem aqui uma lista completa de coisas nas quais não estamos a receber protecção... e aqui tem outra, onde a protecção que recebemos é bastante inadequada!” E tinha razão, ainda por cima. Ficámos bons amigos desde aí.

            - Que posso eu fazer para ajudar?

            - Por agora, nada. Limite-se a olhar à sua volta e a descansar. Podia ir comigo no tractor, mas era capaz de o sacudir demasiado. Pietro, leve Sua Santidade até ao pomar e apanhe alguma fruta para o jantar. Esta noite vamos comer à moda do campo... e outra coisa! Tem de conhecer a Rosa. Tem uma algibeira cheia de medalhas que quer que o senhor benza - e o nosso jantar depende de como o senhor as benzer!

            No caminho de volta, vacilou um pouco e Pietro ralhou com ele.

            - Por favor, Santidade! Isto não é uma corrida olímpica. Não precisa de provar que é um atleta. Nunca o foi. Nunca o será. Portanto, vamos ter calma. Piano, piano!... Um passo de cada vez.

            Pararam um bocado para ver Britte a trabalhar na sua tela. Estava totalmente absorvida, como se as contorções físicas da operação não permitissem nenhuma quebra na sua concentração. E, no entanto, o quadro que ia crescendo sob o pincel, era de vigor e colorido extraordinários. Com o pincel seguro nos dentes e com a cabeça balanceando entre a paleta e a tela, parecia um pássaro grotesco, subitamente possuído pelo espírito de um mestre pintor. Pietro, só meio consciente do que estava a dizer, fez a pergunta lancinante.

            - Porquê? Por que é que isto tinha de acontecer? Às vezes penso que Deus fica muito cansado e enlouquece momentaneamente. Então como poderia ele cometer tal crueldade?

            Noutro tempo e noutro sítio, Leão, o Pontífice, ter-se-ia sentido obrigado a condená-lo por blasfémia, ou pelo menos a pregar-lhe um sermão sobre os misteriosos desígnios do Todo-Poderoso. Desta vez, limitou-se a abanar tristemente a cabeça.

            - Não sei, Pietro. Por que é que a um velho burro como eu é permitido sobreviver, e esta criança é condenada à prisão e a uma morte prematura?

            - É sobre isso que lhes vai falar no domingo?

            Leão, o Pontífice, virou-se rapidamente para o encarar.

            - Que é que queres dizer com isso?

            - Nada, Santidade... a não ser que as pessoas daqui esperam que o senhor celebre uma curta missa e lhes faça um pequeno sermão. Só umas palavrinhas, claro... Sua Eminência foi muito explícito nesse ponto.

            E ali estava, disfarçado sob a aparência de cortesia da casa-o primeiro teste ao novo homem, a Lazarus rediviuus. Era o mais simples e o mais tradicional dos costumes cristãos: o bispo visitante presidia à mesa da Eucaristia, fazia a homilia, afirmava a unidade de todos os irmãos dispersos no vínculo da fé comum. Como um costume, não podia fugir-lhe; como uma cortesia, não podia recusá-la.

            Mas a pergunta de Pietro incomodava-o muito mais. Todo o seu auditório, mulheres, terapeutas e crianças, eram confrontados com o mesmo paradoxo. Todos esperavam que ele-o infalível intérprete da verdade revelada!-lhes explicasse o paradoxo e o tornasse aceitável e proveitoso nas suas vidas.

            Porquê, Santidade? Porquê, porquê, porquê? Vivemos na fé e na esperança, somos os dadores de amor. Por que é que este tormento caiu sobre nós e sobre as nossas crianças? E como é que o senhor e os seus presbíteros celibatários se atrevem a pedir-nos que procriemos outra vez à toa, ou que vivamos sós e sem amarras, em nome deste Deus que joga, na verdade, um cruel jogo de dados com as suas criaturas?

            - Diz-me então, Pietro - o Pontífice fez a pergunta com rara humildade. - Que é que achas que eu lhes devo dizer?

            - Diga-lhes a verdade, Santidade, exactamente como me disse a mim. Diga-lhes que não sabe, não pode saber. Diga-lhes que, por vezes, Deus lhes dá a eles mais luz e compreensão do que lhe dá a si, e que eles devem seguir a luz de consciência tranquila.

            Leão, o Pontífice, teve de admitir que foi uma maneira muito educada de dizer que nem sequer um papa é herói para o seu criado.

 

            O Sr. Omar Asnan recebeu o seu visitante no jardim da sua villa na Appia Antica. Ofereceu café e fruta cristalizada, e todo o acesso à informação de que dispunha.

            - O senhor tem primeiro de compreender que Miriam Latif é uma amiga, uma amiga muito querida. Estou muito perturbado com o que aconteceu. Acedi a falar consigo, porque acho que o assunto deve tornar-se conhecido o mais rápida e largamente possível.

            - Suponho que você não põe em dúvida o relato do Dr. Salviati sobre o desaparecimento dela?

            - Não, não ponho, mas pelo que sei as suas informações são correctas.

            - Está a sugerir que ele sabe mais do que diz?

            - Claro! Estava., .e está., .numaposição muito difícil. É um judeu, a tratar do papa, que, como qualquer homem público, está condenado a constantes ameaças. Salviati tem pessoal misto: cristãos, muçulmanos, judeus, de toda a bacia mediterrânica. Admiro a sua maneira de actuar. Deixe-me dizê-lo de uma forma simples. Acho que ele é instruído e útil. No entanto, numa atmosfera de ameaças e crise como a que tivemos agora enquanto o papa esteve internado, os próprios membros do pessoal estiveram debaixo de uma certa ameaça... pelo menos à sua privacidade.

            - Como assim, Sr. Asnan?

            - Ora bem, é sabido que a clínica estava fortemente guardada pelos homens da segurança do Vaticano, da Itália... e, creio, de Israel!

            - Está a par disso, Sr. Asnan? Não é permitido, oficialmente, que os agentes israelitas trabalhem em Itália. Até a própria vigilanza do Vaticano trabalha sob protocolos muito rígidos.

            - Não obstante, Sr. Peters, o senhor e eu sabemos, por uma questão de pura lógica, que houve agentes israelitas envolvidos.

            - Está a dizer que eles estiveram envolvidos no rapto de Miriam Latif?

            - Sem dúvida nenhuma.

            - Mas porquê? O professor Salviati só fala bem dela. Tanto quanto sabe, ela não tem ligações políticas.

            - Tanto quanto eu também sei, não tem nenhumas; mas falou, de uma maneira extremamente indiscreta numa dada ocasião. O irmão dela foi morto num raid israelita a Sidon. Ela nunca o esqueceu nem perdoou.

            - E no entanto aceitou um subsídio para trabalhar e estagiar num hospital judeu.

            - Pressionei-a para que o fizesse. Disse-lhe que ela podia encarar isso sob duas perspectivas... como tratamento próprio ou como parte do pagamento de uma dívida de sangue. Preferiu a segunda hipótese.

            - Então, é possível que ela tenha sido identificada... correcta ou incorrectamente... pelos israelitas como uma agente da Espada do Islão?

            - É exactamente isso que estou a dizer.

            - Onde pensa que ela está agora?

            - Tenho esperanças de que ainda esteja neste país. Se não está cá, a situação pode tornar-se muito complicada, muito perigosa.

            - É capaz de explicar isso melhor, Sr. Asnan?

            - Acho que é muito simples. Se Miriam Latif não aparece, vai haver violência. Nenhum de nós quer que isso aconteça, sobretudo eu, que levo aqui uma vida tranquila. Tenho bons negócios e boas relações pessoais com os italianos. Não quero ver essas relações estragadas. Mas, meu caro Sr. Peters, não controlo os acontecimentos.

            - Eu também não - disse Nicol Peters.

            - Mas o senhor pode e deve mesmo influenciá-los, através daquilo que publica, e pela informação que faz circular entre as suas fontes. Sei que sai daqui e vai usar o que eu lhe disse para perceber melhor um comentário que alguém fez. Não me oponho aisso. Não tenho nada a esconder. Pode ser que faça algo de bom... Mas lembre-se da coisa mais importante que eu lhe disse... a agitação está a fermentar!

            - Lembrar-me-ei - respondeu Nicol Peters. - Uma última pergunta, Sr. Asnan. Qual é a sua ligação com a Espada do Islão? É óbvio que sabe da sua existência.

            Omar Asnan minimizou a pergunta com um sorriso.

            - Sei que existe. Mas não tenho a mínima ligação com ela, Sr. Peters. Tal como Miriam Latif, tal como tantos dos meus compatriotas, sou um expatriado. Tento viver confortavelmente sob a legislação do país que me acolheu. Não acredito no terrorismo... e permita que lhe recorde que o único acto de terror que foi cometido foi o rapto de Miriam Latif. Não é de todo impossível que esta história da Espada do Islão não passe de uma ficção cozinhada pelos israelitas. Já pensou nisso?

            - Tenho a certeza de que alguém o fez - disse Nicol Peters animadamente. - Eu continuo a ser o observador neutral, tal como o senhor.

            - Não faça confusões, Sr. Peters. Eu apenas disse que tento viver dentro da lei. Na realidade, sinto-me ultrajado com o que aconteceu a Miriam Latif e não me interessa quem venha a saber disso.

            Nicol Peters registou que esta fora a afirmação mais parecida com uma declaração de guerra que jamais ouvira, e foi um sentimento reiterado em todas as suas entrevistas com fontes muçulmanas em redor de Roma. Os italianos compreendiam este sentimento, e pelo menos oficialmente exprimiam a sua simpatia. Recuavam para manter relações amigáveis com toda a orla mediterrânica. Para problema, bastava o papa- mas, pelo menos, eles já lidavam com papas há séculos. Os imans e os ayatollahs eram outra salganhada.

            Os israelitas, no entanto, foram muito mais pragmáticos. Menachem Avriel ouviu a descrição das suas outras entrevistas, e depois apresentou-lhe um tipo magro com ar de militar, de olhar frio e sorriso ténue e com Mossad escrito na testa. O seu nome - pelo menos para prossecução do objectivo-era Aharon ben Shaul. Ele tinha uma proposta.

            - Vou fornecer-lhe alguns factos, Sr. Peters. Não pode publicar a maior parte deles; mas é um pano de fundo ao qual nunca chegará de outra forma. Depois, vou fazer uma projecção do que poderá vir a acontecer muito em breve. Depois disso, vou pedir o seu conselho na sua qualidade de residente há muito tempo e com bons contactos nesta cidade. De acordo?

            - De acordo.

            - Omar Asnan dirige o grupo da Espada do Islão em Roma.

            - Também acho que sim.

            - Miriam Latif é uma agente desse grupo. Ela está nas nossas mãos em Israel. Presentemente, não tencionamos libertá-la. Foi cara de mais, para desistirmos dela facilmente.

            - Não consigo perceber isso.

            - Tínhamos um homem infiltrado na Espada do Islão. Era íntimo de Omar Asnan. Quando decidimos apanhar a Miriam Latif, acabámos com o disfarce dele. Asnan matou-o, na adega da sua villa.

            - Como podem ter a certeza disso?

            - Porque temos tudo gravado. O nosso homem tinha um microfone no botão do colarinho da camisa. Tinha também instalado mais dois, um no jardim e outro no salone da villa. Assim, temos fragmentos de conversas posteriores, entre Omar Asnan e outros membros do grupo. O teor dessas conversações é duplo: o assassinato do papa passou de alvo de oportunidade para alvo de honra. Ele é agora o Grande Satã que deve ser humilhado pelos Filhos do Profeta, e vai haver uma mulher refém para ser trocada por Miriam Latif. Já se sabe quem é a refém.

            - Quem é ela?

            - Tove Lundberg, a amante de Salviati!

            - Deus Todo-Poderoso! Eles já estão a par disso?

            - Ainda não. Temos ambos sob protecção e não creio que Asnan esteja pronto para actuar já.

            - Como é que sabe?

            - Porque há um fragmento na nossa gravação que dá a entender que Asnan vai tentar usar forças locais para apanhar a rapariga... provavelmente calabreses ou sicilianos. Também sabe que andamos atrás dele, portanto neste momento está mais preocupado em defender-se.

            - Não podem fazer nada quanto a ele?

            - Claro que podemos. Estamos a tentar fazê-lo com a menor probabilidade possível de represálias. Sabemos que ele cometeu um crime e onde está o corpo. Mas se os italianos o acusam de assassínio de um agente israelita, tornar-se-ão, e a nós também, muito pouco populares quando começar a vendetta.

            - E quanto à nova ameaça ao papa?

            - O secretário de Estado vai receber hoje as provas.

            - E qual é o meu papel no meio disto tudo?

            - De tudo o que lhe disse, a única coisa que não pode publicar é o nome de Omar Asnan. De resto, damos-lhe tudo... cópias das gravações, pormenores circunstanciais, tudo. Gostaríamos que arquivasse a história o mais depressa possível.

            - E que é que vocês ganham com isso?

            - - Acção. O Vaticano pressiona os italianos. Os italianos têm de actuar contra Asnan e o seu grupo. Você dá-lhes força com o velho grito de guerra... nada de negociações sob a pressão do terror!

            - E Miriam Latif?

            - Fica connosco, enquanto nos for útil.

            - E Salviati?

            - :É o que está mais seguro. Ninguém o quer ver morto, nem mesmo Asnan.

            - E Tove Lundberg? Tem uma filha deficiente.

            - Sabemos disso. É uma complicação. Durante um certo tempo, pelo menos, temos de a retirar de cena. Ela só tem que desaparecer...

 

            No sábado à tarde, enquanto os vindimadores ainda estavam a trabalhar e os pisadores estavam a vasar o primeiro mosto fusco, houve uma conferência de crise no jardim da villetta. Estavam presentes o próprio Pontífice, o secretário de Estado Drexel, Monsenhor O'Rahi-lly e o chefe da Vigilanza do Vaticano. O secretário de Estado leu os relatórios que tinha recebido dos israelitas e dos italianos. O Pontífice estava sentado na sua cadeira, direito como um fuso, a queixada e o nariz unidos no velho ar de predador. Falou com áspera determinação:

            - Não há a menor dúvida no meu espírito. Não posso permitir-me umas férias que põem outros em risco. Ficarei aqui esta noite, para dizer missa como prometi às crianças e aos pais da colónia. Depois disso, vou para Castel Gandolfo e fico lá até ao fim das férias de Verão... Lamento, Anton. Você teve tanta maçada, e eu estou mais desapontado do que consigo expressar.

            Drexel teve um gesto de resignação.

            - Talvez noutra altura, Santidade.

            - Talvez. Vamos a isto, meus senhores! - A aura de comando envolveu-o. Pareceu tornar-se mais forte aos olhos deles. - O papa retira-se para detrás das muralhas. Deixa ficar uma mulher que, apenas por ter tratado dele, vê agora em perigo, não apenas a sua vida, mas também a da sua filha. Assumo que este perigo não tenha sido exagerado?

            A pergunta era dirigida em primeira instância ao secretário de Estado.

            - Não do meu ponto de vista, Santidade.

            O homem da Vigilanza confirmou o veredicto.

            - A ameaça é muito real, Santidade. O Pontífice pôs outra questão:

            - As autoridades italianas, com os recursos e as habilidades que sabemos possuírem, não podem garantir a protecção a esta mulher e afilha?

            - Não, Santidade, não podem. De facto, nenhuma força policial o pode fazer.

            - Não podem acabar com a ameaça com uma acção sumária; por exemplo, com a prisão e detenção dos conspiradores já conhecidos?

            - Seria possível, se houvesse uma vontade nesse sentido da parte do governo italiano; mas o próprio governo fica severamente embaraçado com a sua vulnerabilidade aos métodos terroristas. Mesmo que se suspendesse a lei de modo a permitir uma intervenção menos ortodoxa, as consequências nem sempre se podem controlar, como acabou de ver no caso presente.

            - Obrigado. Uma pergunta para si, Anton. ATove Lundbergfoi informada desta ameaça?

            - Foi. Telefonou-me hoje a pedir-me conselhos sobre o que há-de fazer a respeito da Britte.

            - Onde está ela agora?

            - Na clínica, a trabalhar como de costume.

            - Importa-se de lhe ligar e pedir-lhe que me telefone para aqui, antes de ir para casa?

            Drexel hesitou um momento e a seguir abandonou a sala. Monsenhor O'Rahilly tentou intervir. , - Posso sugerir, Santidade...

            - Não, não pode, Malachy!

            - Sua Santidade é que sabe.

            O Pontífice tinha começado a transpirar. Enxugou o rosto com um lenço. O'Rahilly estendeu-lhe um' copo de água. Quando Drexel voltou, vinha acompanhado pela irmã Pauline. Ela foi direita ao Pontífice, apalpou-lhe o pulso e anunciou com firmeza:

            - Terminou a reunião. Quero que o meu paciente se vá deitar.

            - É só um momento, Irmã. -Virou-se para os outros e disse simplesmente:

            - Sou responsável pelo que aconteceu, pelo menos em parte. O risco é real para Tove Lundberg e filha. A protecção que se pode dar é mínima. Até que a ameaça seja retirada ou grandemente reduzida, quero que ambas vão viver dentro do território da Cidade do Vaticano. -Voltou-se para o secretário de Estado. -As nossas boas irmãs podem arranjar lugar para elas, e zelarem pelo seu conforto. -A seguir dirigiu-se a Drexel. - Você é o Nonno da família, Anton. Tente convencê-las a ambas.

            - Farei todo o possível, Santidade. Não posso prometer mais nada.

            O Pontífice mandou-os embora com o seu antigo gesto autoritário.

            - Muito obrigado a todos. Têm licença para se retirarem. Irmã Pauline, estou ao seu dispor.

            Enquanto caminhava devagar para casa, a melancolia que já lhe era familiar caiu sobre ele como uma nuvem negra. Esquecendo-se até da irmã Pauline, murmurou para si mesmo.

            - Não posso crer. Simplesmente, não posso crer. O mundo não foi sempre assim... ou terá sido?

            - Tenho a certeza de que não era - disse a irmã Pauline, alegremente. - O nosso velho prior da paróquia costumava dizer que os loucos tinham tomado conta do manicómio; mas cansaram-se depressa e devolveram-no.

            Na capela da villa do cardeal Drexel, arquitectada, assim rezava a história, por Giacomo della Porta, estavam reunidos os membros da colónia: os mais jovens à frente, pais e professores logo atrás; à esquerda, encostados à parede do fundo, os poucos membros da Cúria para com quem Drexel, raposa velha, tinha tido uma atenção especial e feito um teste às suas simpatias. Lá estavam Agostini, Clemens da Doutrina da Fé, MacAndrew da Propagação da mesma Fé e-a uma grande distância da base do poder - Ladislas da Congregação para as Igrejas Orientais. Faziam também uma completa inversão no protocolo: o povo à frente dos príncipes.

            O Pontífice fez a sua entrada, com Drexel como diácono, a irmã Pauline como leitora, e um rapaz e uma rapariga com paralisia cerebral como acólitos.

            Alguma, mas não toda, da subtileza do ritual escapava a Sérgio Salviati e a Tove Lundberg, que se sentavam, com Britte entre os dois, na primeira fila da congregação. Salviati usava o seuyarmulke (1). Tove tinha posto um véu e levava a velha folha de ofício divino do pai. Uma das mães entregou-lhes um missal. Salviati folheou-o e depois segredou a Tove:

 

[1 Em hebraico no original: solidéu (NT)]

 

            - Meu Deus! Roubaram-nos a maior parte disto! - Tove, sufocando uma gargalhada, chamou-lhe a atenção:

            - Vigie o seu doente. É a sua primeira aparição em público. Era mais que isso-muito mais. Era a primeira vez em trinta anos, que dizia missa como um simples padre. Era a primeira vez que falava a um auditório que estava ao alcance do toque da mão e do coração. Sabendo como se cansava depressa, começou o ritual a um ritmo sóbrio; mas, quando chegou às leituras, soube-lhe bem sentar-se. A irmã Pauline leu o sermão no seu italiano enfático e incorrecto e terminou com a exortação de Paulo aos Coríntios:

            - Enquanto ainda estamos vivos, morremos todos os dias por amor a Jesus, de modo que, na nossa carne mortal, também podemos mostrar abertamente a vida de Jesus.

            A seguir, seguraram no livro para o Pontífice ler. Beijou-o e, numa voz firme e clara, leu o Evangelho.

            - Num dia de descanso, aconteceu que Jesus ia andando pelos campos de cereais e, ao longo da caminhada, os Seus discípulos apanharam as espigas e comeram-nas. E os fariseus disseram-Lhe: “Olha, por que é que eles estão a fazer o que é proibido no dia de descanso?...” E Ele disse-lhes: “O dia de descanso é feito para o homem, e não o homem para o dia de descanso...”

            Pálido mas composto, deu um passo em frente para encarar a pequena assembleia. Salviati observava-o com olho clínico, reparando nos lábios exangues, nos nós dos dedos brancos com a força que fazia ao agarrar as extremidades da estante do coro. E então, no meio de uma calma sobrenatural, começou a falar.

            - Esperei ansiosamente por este encontro convosco, como esperei ansiosamente pelas poucas coisas boas da minha vida. Assim que cheguei, senti-me rodeado de amor. Senti o amor brotar do meu coração, como uma nascente milagrosa num deserto. E agora, de uma forma abrupta, tenho de me ir embora. Terminou a minha breve e feliz estada convosco. Fiquei acordado esta noite, a perguntar a mim mesmo que presente vos podia dar para manifestar os meus agradecimentos... a si, Anton, meu velho adversário, que se tornou num querido amigo; a si, Sérgio Salviati, meu austero mas cuidadoso médico; a si, Tove Lundberg, que deu conselhos sábios a um homem muito necessitado deles; a vocês, meus meninos; a vocês, que tratam deles com tanta devoção, e que fizeram de mim, durante estes poucos dias, um membro privilegiado desta família. E então compreendi que a única prenda que tenho é a de que fala Paulo, a boa nova de que em, com e através de Cristo todos nós nos tornámos... crentes e não crentes, de igual modo... membros da família de Deus nosso Pai.

            “Não há condicionamentos a este dom. Foi-me dado. Eu passo-o a vocês... mas vocês já o têm e compartilharam uns com os outros e passaram-mo. Este é o mistério da nossa comunhão com o Criador. Não tem nada a ver com leis, prescrições, proibições. E é isto que o Próprio Senhor enfatiza, quando diz: “O dia de descanso é feito para o homem, não o homem para ele”.

            “Um dos maiores erros que cometemos na Igreja, um erro repetido ao longo dos séculos... porque somos humanos e por vezes muito estúpidos. .. é o de fazer leis para tudo. Enchemos as pastagens de sebes, e assim não há hipótese de as ovelhas correrem livremente. Fazemos isto, dizemos nós, para as manter seguras. Eu sei como é, pois fiz tudo isso vezes de mais. Mas as ovelhas não estão seguras: elas definham num espaço limitado que nunca foi o seu habitat natural...

            “A maior parte da minha vida fui um padre solteiro. Antes disso, era um rapaz solitário, criado pela minha mãe. Que sei eu das relações complexas e íntimas da vida de casado? Confesso: nada. Vocês são os que sabem. Vocês são os que conferem o sacramento uns aos outros, que experimentam a alegria, a dor, as confusões. O que posso eu, o que pode qualquer um dos meus sábios conselheiros e dos meus irmãos bispos dizer-vos que vocês já não saibam? Tenho a certeza de que o meu amigo Anton concorda comigo. Ele não fez uma lei para fazer esta família... criou-a, convosco, através do amor.

            “Então, que quero eu dizer-vos com isto? Vocês não precisam de mim, como não precisam do enorme edifício da Praça de S. Pedro, a complicada organização cuja descrição enche duas mil páginas do Annuario Pontifício. O Senhor está aqui convosco neste lugar. Vocês são uma luz para o mundo, porque vivem na luz da Sua protecção. Não precisam de lei alguma porque vivem do amor... e se tropeçam como todos nós fazemos, se caem como todos nós caímos, há mãos amorosas que vos levantam.

            “Se vocês me perguntarem por que razão os inocentes entre vós, as crianças, são atingidos, por que é que têm de carregar uma deficiência para toda a vida, não lhes consigo responder. Não sei. Os mistérios do sofrimento, da crueldade, das leis da sobrevivência na selva, nunca nos foram explicados. Os segredos de Deus continuam a ser os segredos de Deus. Até o Seu Amado Filho morreu nas trevas, exigindo saber por que é que Deus o tinha abandonado. Seria uma vergonha para mim se dissesse que sou mais sábio ou que estou mais bem informado que o meu Amo.

            “Nisso, se calhar sou mais vosso irmão. Não faço ideia. Caminho muitas vezes na escuridão. Não pergunto de quem é a mão que se estende para me guiar. Toco-a e fico profundamente grato... Deus esteja convosco!

 

            - Obrigada - disse Tove Lundberg. - Obrigada por nos oferecer um refúgio; mas a Britte e eu já chegámos a um acordo, continuamos a viver como até aqui. Ela fica na colónia, Sérgio e eu continuamos a trabalhar como sempre fizemos.

            Anton Drexel sorriu e encolheu os ombros resignadamente.

            - Não posso dizer que lamento. Detestaria perder a minha neta. Era óbvio que Sérgio Salviati achava que se devia dar uma explicação.

            - À primeira vista, pensei que seria boa ideia tê-las a ambas afastadas. A nossa gente é da mesma opinião. Mas depois, quando pensávamos nisso, chegávamos sempre à mesma pergunta: por que é que nos devemos retirar de cena? Por que é que havemos de transigir com tais obscenidades? Portanto, ficamos.

            - Então, vamos tornar a ver-nos. Você, meu amigo complicado, tem que me manter vivo; a Britte tem de me levar o quadro; e para si, minha querida conselheira, a minha casa está sempre ao dispor.

            Abraçou-os a todos; depois disso, Drexel afastou-se com ele, para terem uma breve conversa privada. Disse-lhe:

            - Enquanto o senhor estava a falar, fui observando os nossos colegas. Clemens e Ladislas não gostaram. MacAndrew estava surpreendido, mas agradavelmente, pareceu-me. O seu secretário estava muito surpreendido. Ele tentava ver as reacções de toda a gente.

            - E Agostini?

            - Não estava chocado nem surpreendido; mas ele é assim. Mesmo que se lhe diga que o sol não nasceu, ele fica na mesma. Contudo, há algo de que não se pode esquecer. A partir deste momento, todos os membros da Cúria, excepto os muito velhos como eu, vão passar a considerar-se potenciais candidatos à próxima eleição papal. Esta manhã tem um ar muito cansado, por isso é natural que as pessoas se perguntem se ainda vai durar muito tempo... E, porque são humanos, vão começar a tratar das alianças para o próximo conclave. É um assunto a reter, quando começar a reunir forças para uma limpeza de Primavera.

            - Não me vou esquecer. Ainda não me disse o que achou do meu sermão.

            - Dei graças a Deus por ele. Tenho orgulho por ele ter sido proferido na minha casa. E agora, tenho um favor a pedir a Sua Santidade.

            - Ande lá, Anton.

            - Permita que eu me reforme agora, Santidade. Liberte-me de todas as minhas obrigações em Roma. Há muito que ultrapassei a idade da reforma. Estou ansioso por passar o resto da minha vida aqui, com a minha pequena família.-Deu uma gargalhada, curta e embaraçada. - Como vê, há muito a fazer por aqui.

            - Vou sentir muito a sua falta; mas claro que está livre. Vou ficar muito só agora, Anton.

            - Vai encontrar outros, mais novos e mais fortes. A partir de agora, eu seria apenas um obstáculo no seu caminho.

            - E, por amor de Deus, como vou eu chegar até aos mais novos?

            - Como o fez esta manhã. Faça ouvir a sua própria voz, divulgue o que realmente pensa. Pode fazer isso. Deve fazê-lo.

            - Reze por mim, Anton. E diga às crianças que também o façam. Apertaram as mãos, dois velhos adversários, unidos finalmente depois de uma longa luta. A seguir, o Pontífice reuniu todas as suas forças, endireitou-se e, com Drexel a seu lado, foi reunir-se rapidamente aos Prelados que o esperavam.

 

LÁZARO LUTANDO

 

            Os inimigos de um homem deverão ser os habitantes da sua própria casa.

                                   Mateus X, 36

 

            Durante as três semanas seguintes, os únicos dados sobre o Pontífice foram os relatórios médicos, os mexericos da casa Papal em Castel Gandolfo e as tagarelices ocasionais de Monsenhor Malachy O'Rahilly.

            Os boletins eram propositadamente pouco esclarecedores: o Santo Padre ia progredindo a passos firmes, mas, a conselho do seu médico, tinha cancelado todos os compromissos públicos até fim de Agosto. A missa da Assunção de Nossa Senhora, que teria lugar na Praça de S. Pedro, no dia 15 de Agosto, seria celebrada por Sua Eminência o cardeal Clemens.

            Na casa papal havia muito pouco sobre que mexericar. Sua Santidade levantava-se tarde e deitava-se cedo. Celebrava missa de tarde, em vez de o fazer de manhã. Estava a cumprir uma rígida dieta e perdia peso rapidamente. Todos os dias vinha um terapeuta para o orientar durante uma hora de exercício. De resto recebia visitas das dez às onze da manhã, passeava, lia, repousava e deitava-se pelas nove da noite. Havia, contudo, uma alteração na sua maneira de ser, de que todos se apercebiam. Estava menos rabugento, menos exigente e muito mais gentil. Claro que ninguém sabia quanto tempo iria isto durar. Ao fim e ao cabo, uma intervenção cirúrgica deste tipo diminui a vitalidade de um homem.

            A tagarelice de Monsenhor Malachy O'Rahilly era muito mais informativa. Ávida em Castel Gandolfo era um enorme aborrecimento. Havia o castelo, a aldeia, e o lago negro lá em baixo; parcos divertimentos para um celta gregário que adorava conviver.

            - E com o velho a portar-se como se porta, parece o Terraço Sepulcral, podem crer! Não lê cartas. Tenho de lhe apresentar resumos. Tornou-se quase que obcecado com o que come e com quanto exercício pratica, e eu bem gostaria de perder peso como ele. Mas está muito calmo. Quando tem visitas, só fala de meras cortesias: “Muito obrigado, e como está o seu pai”, este tipo de coisas. Não está a fingir, está apenas distante e abstracto. Por vezes, faz-me lembrar o Humpty Dum-Pty, a tentar juntar de novo todos os seus bocados. Com a diferença de que já não está gordo... e os alfaiates Pontificais estão a fazer horas extraordinárias para o equipar de novo, antes de voltar para o Vaticano... Reparei que lê mais do que lia, reza também muito mais... o que não salta propriamente à vista, mas de que nos apercebemos, porque ele está noutro mundo, se é que percebe o que quero dizer. É como se ele se tivesse posto a si mesmo num retiro, numa solidão auto-imposta...

            “Que é que ele anda a ler? Ora bem, aí está uma coisa interessante. Anda a ler exactamente os mesmos tipos que tiveram problemas com a Doutrina da Fé... os holandeses, os suíços, os americanos. Num momento de descaramento, ou de extremo tédio, chamei-lhe a atenção para isso. Olhou-me com um ar estranhíssimo. Disse: “Malachy, quando era jovem costumava observar os pilotos de ensaio razando o vale do Pó e depois voando sobre o mar. Costumava pensar em como devia ser maravilhoso arriscar-se dessa maneira para descobrir algo de novo, a respeito de uma máquina ou de si mesmo. Quando a minha vida se definiu, esqueci-me dessa maravilha. Agora que a minha vida se tornou menos importante, estou a revivê-la de novo... Tempos houve em que condenávamos à fogueira homens como Giordano Bruno, que especulou a respeito de outros planetas e da possibilidade de os homens viajarem entre eles. Claro que agora já não queimamos os nossos pensadores especulativos. Em vez disso, se forem clérigos, silenciamo-los, demitimo-los dos lugares onde ensinam, proibimo-los de falar em público sobre assuntos controversos. Fazemos tudo isto em nome da santa obediência. Que acha disto, Malachy?”

            “Atrapalhei-me durante um minuto. Não queria pôr o pé na poça, de modo que disse qualquer coisa no género: “Bem, Santidade, suponho que faz parte de um princípio de esclarecimento progressivo.” Ao que ele respondeu: “Malachy, você não é tão parvo como quer fazer parecer. Não brinque comigo. Não tenho tempo para isso!” Escusado será dizer que tentei disfarçar; mas ele não ligou nenhuma. É difícil saber o que ele está de facto a pensar. Adoraria deitar um olho ao seu diário. Escreve nele todas as noites, antes de se deitar. O resto do tempo, mantém-no fechado no seu cofre privativo...

            - Quando era jovem bispo, convidaram-me para benzer um novo barco, prestes a ser lançado ao mar, a partir das estacas em La Spezia. Estava lá toda a gente: os construtores, os donos, os mestres construtores e as suasfamílias. A tensão era extraordinária. Pedi aum dos executivos do cantiere (1) que me explicasse a razão de ser de tal excitação. Ele assim fez: “Assim que os calços são afastados e o barco desliza pelo plano inclinado, todas as nossas vidas vão deslizando com ele. Se os cálculos estão errados e se afunda, é como se morrêssemos... Assim, dê-nos o melhor da sua bênção, por favor, Excellenza...” É assim que eu me sinto. Foram-me retirados todos os apoios temporários... Drexel, Salviati, Tove Lundberg, o pessoal da clínica. Fui lançado ao mar. Flutuo. Mas sou um casco sem aparelhos, sem tripulação, morto na água...

[1 Em italiano no original: estaleiro (NT)]

 

            “O sentimento da isolação pesa-me como uma capa de chumbo. Castel Gandolfo, a Cidade do Vaticano... são o meu império e a minha prisão. Fora dos seus muros, só posso movimentar-me desde que outros me autorizem. Mas a minha limitação não se deve às fronteiras, e sim ao facto de ser quem sou, Bispo de Roma, Sucessor do Príncipe dos Apóstolos, Vigário de Cristo... isto, aquilo e aqueloutro, cada novo título corresponde a mais uma barricada entre mim e a comum humanidade. Há ainda outra limitação... a síndroma de Lázaro. Não sou, nem nunca mais serei, igual aos outros homens. Só agora compreendi. .. e como poderia ser doutro modo?... o trauma de uma mulher jovem que não pode tornar a engravidar devido a uma intervenção cirúrgica... A raiva e o desespero do soldado mutilado por uma mina. Aconteceu-lhes o mesmo que a mim: são, irreparavelmente, outras pessoas...

            “Só posso compartilhar estes pensamentos com quem teve a mesma experiência; mas esses não estão ao meu alcance... Não me vejo a rondaras enfermarias dos hospitais nem as celas das prisões, acariciando mãos e murmurando lugares-comuns. Também não me consigo ver concordando com Clemens, como aconteceu no passado, farejando heresias, pondo sob silêncio e obediência este e aquele académico, para testar a sua fé. É uma tortura mais violenta do que ser esticado no potro ou o esmagamento dos polegares. Não quero mais nada disso...

            “E aí é que está o busílis. Clemens ocupa aquele lugar, porque eu o escolhi para lá. Escolhi-o devido ao que ele é, devido ao que eu era. Que é que lhe posso dizer agora? Que tudo mudou, porque vi a luz? Far-me-á frente, porque é corajoso. E dirá: “Essa é a mais antiga heresia de todas. O senhor não tem o direito de impor a sua gnose íntima ao Povo de Deus.” Serei vulnerável a isso, porque mesmo agora ainda não consigo explicar a mudança que se deu em mim...

            “E essa, Senhor, é a ironia mais estranha de todas. Fiz com que Jean Marie Barette fosse destituído, porque ele reivindicava uma revelação íntima das últimas coisas. Não posso avançar, nem recuar, até ter a certeza de que não caí na armadilha do velho orgulho do conhecimento só meu. Para combater este pecado, o único remédio é a oração e ojejum. E eu estou a jejuar! Meu Deus, se estou a jejuar! Porque se recusa a oração a brotar-me dos lábios? Tem piedade, meu Deus, não me obrigues a passar pelo julgamento das trevas. Acho que não tenho forças para o aguentar!

            “... Acordei esta manhã, com este mesmo medo pairando sobre mim. Não há aqui ninguém a quem o possa contar, como fazia com Tove Lundberg, portanto tenho de me desenvencilhar sozinho. Voltei a essa maravilhosa primeira carta de Paulo aos coríntios, onde ele fala pela primeira vez de cargos e funções na comunidade: “Deus deu-nos posições diferentes na Igreja; primeiro, apóstolos, a seguir profetas, e em terceiro lugar professores; a seguir apareceram os poderes miraculosos, dons de cura, obras de misericórdia, a regulação das coisas...” E depois ele fala da maneira melhor que transcende todas as outras: “Se eu falar as línguas dos homens, e dos anjos, e não tiver caridade, sou como o metal que soa, ou como o sino que tine...”

            “É disto que eu tenho de me lembrar todos os dias, quando, a seguir às férias de Verão, começar os meus diálogos pessoais com a Igreja. Não vou destroçá-la com disputas. Vou curar as graves feridas no seu seio.

 

           Para Nicol Peters, o auge do Verão trouxe consigo a rotina sonolenta. A história de Miriam Latif já dera o que tinha a dar. A Espada do Islão já não era tema para cabeçalhos. O papa estava a salvo em casa. O Sr. Omar Asnan desfrutava a vida agradável de um comerciante próspero. O embaixador israelita estava de férias, o homem da Mossad, Aharon ben Shaul, tinha-se recolhido gradualmente ao seu cinzento mundo interior e já não tinha qualquer utilidade. E assim ia decorrendo a vida no mundo das notícias. Acomodamo-nos ao ritmo dos acontecimentos e dos não acontecimentos. Mantemos os ficheiros actualizados e esperamos estar preparados quando o próximo foguetão descolar.

            Katrina estava atarefada com a loja. Aí estavam em força os turistas de Verão, e a caixa registadora tilintava alegremente todos os dias. Os romanos tinham um provérbio: só os cani e os americani - cães e americanos - conseguiam tolerar o Verão na cidade. Contudo, havia uma arte de o conseguir. Trabalha-se de manhã. Ao meio-dia nada-se e almoça-se no clube de natação, onde também se fazem contactos. Trabalha-se outra vez das cinco às oito, depois acaba-se a noite com amigos numa taverna onde se seja suficientemente conhecido para que a conta seja razoavelmente honesta.

            A sua amizade com Sérgio Salviati e Tove Lundberg ia amadurecendo lentamente. A distância constituía um problema. Demorava quase uma hora de automóvel de Castelli até à cidade e mais tempo na hora de ponta. A sombra da ameaça terrorista ainda pairava sobre eles. Viajavam de e para a clínica a horas variadas, num Mercedes conduzido por um antigo membro da polícia de trânsito, experiente em fugas.

            Aos sábados, Tove trabalhava com os outros pais na colónia. Reservava os domingos para Salviati, que tinha mais trabalho que nunca na clínica, e que dependia cada vez mais dos breves e tranquilos momentos que passavam juntos. Foi Katrina que comentou argutamente:

            - Penso em quanto tempo vão eles conseguir aguentar a situação, ambos tão dedicados e controlados. É como assistirmos a um número de trapézio no circo... Sabemos que se um deles falha, lá caem os dois. De qualquer modo penso que ela está melhor que ele, embora seja ela que esteja sob ameaça.

            MattNeylan tinha-se tornado como que um adorno nas suas vidas. O caso dele com a dama dos mistérios tinha seguido o seu agradável curso e terminara com uma comovente despedida no aeroporto, depois da qual Neylan voltou para Roma para almoçar com a sua editora de Nova Iorque e levá-la para Porto Ercole para uma conferência editorial no fim-de-semana.

            Foi tudo muito agradável, e o livro - um estudo popular sobre a diplomacia do Vaticano e das personalidades nela envolvidas - estava a começar a agarrá-lo. No entanto, ele tinha cada vez mais a noção de que nem toda a atenção que lhe davam se devia só à sua finura de espírito ou à sua boa aparência.

            Apareciam uma data de convites na sua caixa do correio; para embaixadas, para seminários, para exposições de arte patrocinadas por este ou aquele comité cultural, para visionar filmes obscuros, para ajudar as vítimas de guerras diversas e de fomes permanentes. Era um antídoto útil para o tédio, desde que não se estivesse contaminado -como Matt Neylan sabia que estava-com o cinismo do ex-crente. A partir do momento em que se renunciou ao Todo-Poderoso e aos seus profetas, era difícil confiar absolutamente nos propagandistas insignificantes do circuito dos cocktails, ou nos angariadores das redes de espionagem que infestavam a cidade.

            Assim, enquanto se aproveitava dos comes-e-bebes grátis e da companhia, Matt Neylan dedicava metade dos seus dias ao trabalho exaustivo de autor, e a outra metade à perseguição apaixonada de mulheres. Como era perito em cinco idiomas e falava razoavelmente mais três, tinha uma vasta gama por onde escolher. O que era estranho era o sentir-se obrigado, mais cedo ou mais tarde, a apresentá-las a Katrina Peters para ela dar a sua aprovação. Katrina achava divertido, mas Nicol não achava graça nenhuma.

            - Não te iludas, querida. Matt é ingénuo, mas não é estúpido. És a sua mãe galinha. Está dependente de ti para a sua educação sentimental.

            - Acho isso extremamente lisonjeiro, Nico querido.

            - Estou-te a avisar, querida. Matt é um amigo muito agradável, mas tal como uma data de homens com um passado igual, usa as pessoas. Durante todos estes anos, viveu uma vida de solteiro, muito protegida e privilegiada. Nunca teve de se preocupar em ganhar para comer; a sua carreira foi orientada pela Igreja, não teve de lutar por ela; as pessoas respeitavam-no como sempre respeitam os clérigos e não precisava de sujar as mãos para obter esse respeito. Agora que está na vida civil, e menos mal de dinheiros, faz exactamente a mesma coisa: pendura-se nos outros, e pendura-se emocionalmente também... Começo a aborrecer-me ligeiramente com isso, e irrita-me ver-te envolvida no assunto. Pronto! Já disse o que tinha a dizer!

            - E eu ouvi muito educadamente; por isso agora falo eu. Tudo o que disseste é verdade... não só no que diz respeito a Matt, mas a metade dos padres que conhecemos aqui. São como os lentes de Oxford, que vivem nos seus abrigos muito confortáveis, e o resto do mundo que se dane. Mas com Matt passa-se algo que te escapa. É um homem com um enorme buraco negro no centro de si mesmo. Já não tem fé, e nunca ninguém lhe ensinou nada sobre o amor. Está obcecado com o sexo, como se ele estivesse prestes a ser retirado do mercado; e assim, quando a rapariga se vai embora, ou ele a manda ir, conforme o dia, ele volta para o buraco negro. Por isso, não sejas demasiado duro com ele. Há alturas, meu querido, em que o que me apetece é estrangular-te; mas detestaria acordar e ver que não estavas ao pé de mim!

            Para Matt Neylan, havia outros e mais subtis problemas do que os diagnosticados pelos seus amigos. A obra a que tinha metido mãos, pela qual os seus editores lhe tinham avançado uma quantia elevada, fora fácil de esboçar; mas para a acabar era precisa muita pesquisa documental, para a qual a melhor fonte era o próprio Arquivo do Vaticano, onde, classificados em vários graus de confidencialidade, estavam guardados mil anos de registos. Como funcionário interno, tinha, por direito, acesso a eles; como uma pessoa de fora, um recém-renegado das fileiras, mal podia reclamar os privilégios concedidos aos visitantes eruditos e aos investigadores.

            Assim, como bom conhecedor dos expedientes e estratagemas da diplomacia, iniciou um novo naipe de alianças e amizades com clérigos mais novos da Secretaria de Estado, com funcionários laicos do Arquivo, com académicos estrangeiros já acreditados como investigadores no Arquivo e na própria Biblioteca do Vaticano. Neste empreendimento, encontrou ajuda num sector inesperado. Depois de várias fintas, o embaixador soviético fez o que parecia ser uma proposta honesta.

            - ... Você é cidadão de um país neutro. Tem uma longa experiência num campo especializado da diplomacia religiosa e política. De momento não está filiado em coisa nenhuma. Continua os seus estudos na mesma área. Gostaríamos de o contratar, absolutamente às claras, com um contrato escrito, como conselheiro local da nossa embaixada. Terá um bom ordenado... Que me diz a isto, Sr. Neylan?

            - É evidente que me sinto lisonjeado. No entanto, tenho de pensar muito cuidadosamente no assunto - Leve o tempo que quiser. Consulte quem achar mais conveniente. Como disse, trata-se de um assunto de considerável importância no futuro desenvolvimento da nossa política europeia.

            Por fim, Matt Neylan decidiu-se a acreditar na palavra do embaixador. Tentou e obteve um encontro com o secretário de Estado, que o recebeu na gelada sala de conferências reservada aos visitantes casuais. Neylan foi direito ao assunto.

            - Estou a ter uma amabilidade para consigo, Eminência. Em troca, preciso de um favor.

            - Até aqui-Agostini fez uma pequena espiral com as pontas dos dedos e sorriu-lhe por cima dela. -Até aqui, foi muito esclarecedor. Qual a amabilidade que me está a fazer?

            - Estou a fornecer-lhe uma informação. Os soviéticos convidaram-me para seu conselheiro, naquilo a que chamam diplomacia política e religiosa. Oferecem um bom ordenado e um contrato legal... suponho que para me evitarem o ónus da suspeita de espionagem.

            - Vai aceitar a oferta?

            - Tenho de reconhecer que me fascina... mas não. Vou recusá-la. No entanto, acho que é uma boa pista para o vosso departamento saber o que mais preocupa a política soviética.

            - Pode ser que tenha razão. Mas também pode acontecer que você esteja a fazer exactamente o que eles pretendiam que fizesse. Você traz-nos um aviso deles. Seja como for, estou em dívida para consigo. Como posso recompensá-lo?

            - Está a par do trabalho a que me aventurei?

            - Estou, sim.

            - Preciso de ter acesso ao Arquivo... o mesmo acesso que seria normalmente concedido a qualquer erudito ou investigador. Agostini ficou intrigado.

            - Foi-lhe alguma vez negado?

            - Não; mas achei mais elegante não o pedir tão pouco tempo depois de ter saído.

            - Vou mandar um bilhete ao prefeito, amanhã de manhã. Pode começar a trabalhar quando lhe der mais jeito.

            - Muito obrigado, Eminência.

            - Eu é que agradeço. Como vai a sua vida? Soube de várias fontes que tem sido muito solicitado socialmente.

            - Estou a divertir-me-disse Matt Neylan.-E Sua Eminência? Deve ser um alívio ter Sua Santidade a salvo por detrás das muralhas.

            - É de facto; embora eu não acredite lá muito que a ameaça que pesava sobre ele já tenha passado à história. Aí está algo que pode fazer por mim. Se souber de alguma novidade, de algum rumor sobre a actividade terrorista que lhe pareça credível, ficar-lhe-ia muito grato se me pusesse ao corrente. Sua Santidade também está pessoalmente preocupada com a Tove Lundberg e a filha... Roma é uma cidade pequena. Tanto as notícias como os boatos viajam depressa. Muito obrigado por ter vindo, Matt.

            - Para a próxima, Eminência - disse Neylan com um sorriso - , não se importa de me receber no seu gabinete? Não sou nenhum cai-xeiro-viajante.

            - As minhas desculpas. - Agostini foi cortês, como sempre. - Mas tem de reconhecer que é um bocado difícil definir aquilo que você é, exactamente.

            Na sua busca de uma identidade sexual, Matt Neylan estava a descobrir factos que para os homens com metade da sua idade já eram clichés. O primeiro foi que a maioria das mulheres que encontrava nas recepções oficiais eram casadas, divorciadas, sonhando com uma união permanente, ou então sem categoria suficiente para fazerem parte da agenda de um solteirão. Também tinha descoberto que, por vezes, era menos caro e menos cansativo pagar o consumo obrigatório no Clube Alhambra e assistir ao espectáculo, do que perder uma noite num jantar no Piccolo Roma, com uma chata, uma sabichona ou uma imbecil.

            O Clube Alhambra tinha mais uma coisa boa: Marta, a rapariga que vendia cigarros, estava sempre pronta para a brincadeira e para alguns momentos de coscuvilhice quando o trabalho abrandava. Era baixa, morena, cheia de vida e, segundo dizia, húngara. Quando lhe pediu para sair com ele, mostrou-se recatada. Trabalhava todas as noites no clube. Só saía às três da manhã. No entanto, se ele a quisesse levar a almoçar fora um dia...

            O que fez, e gostou da experiência. Tanto que decidiram repeti-la, num dia qualquer, a qualquer hora, em qualquer sítio, na semana seguinte.

            E foi assim que Matt Neylan, em tempos secretário das Nunziatures ao serviço do Vaticano, futuro autor, herdeiro de uma pequena e próspera propriedade no Ould Sod, passou a ir para a cama uma vez por semana com Marta Kuhn, agente da Mossad destacada para o serviço de vigilância no Clube Alhambra, o ponto de contacto dos membros da Espada do Islão.

            Às dez horas de uma quente manhã de Verão, Leão, o Pontífice, estava a tomar café no terraço e a debater-se com o problema do cardeal Clemens, um homem que ele mesmo nomeara, que tinha cumprido à risca a missão para que tinha sido designado, mas que era agora um obstáculo aos planos do seu amo.

            Passou um bando de pássaros, ele olhou para cima e viu um homem arrastando-se penosamente à volta da cúpula onde estava guardado o telescópio do observatório do Vaticano. Reconheceu nele o padre John Gates, director do observatório e superior da pequena comunidade de Jesuítas que o dirigiam. Fez sinal a Gates para que descesse e lhe fizesse companhia ao café.

            Se bem que o observatório estivesse encarrapitado no alto das colinas, no cimo do castelo, estava praticamente sem utilidade, na medida em que o ar por cima de Roma e dos arredores era tão poluído que o antiquado equipamento mal podia funcionar. Gates e os seus colegas passavam a maior parte do ano no Instituto Astrofísico de Huston, no Texas. Se o Pontífice estava na residência em Castel Gandolfo, Gates aparecia para o cumprimentar. Depois passava a fazer parte da paisagem, tal como o pessoal da casa e os trabalhadores agrícolas.

            Era um homem vigoroso de quarenta e muitos anos, de sorriso fácil e espírito tranquilo. O seu italiano era fluente e correcto. Tinha o à-vontade de um homem seguro de si e da sua sabedoria. O Pontífice, ávido de companhia e ansioso por se distrair dos seus negros pensamentos, encheu-o de perguntas, delicadas e casuais ao princípio, mas depois cada vez mais indiscretas.

            - Sempre conjecturei em como será que o astrónomo vê o tempo, a eternidade. Como concebe ele a Natureza de Deus?

            Gates considerou a pergunta durante uns momentos, e depois, como todo o bom Jesuíta, tentou definir os termos.

            '- Se Sua Santidade me está a perguntar se eu penso de maneira diversa dos outros crentes, tenho de lhe responder que sim. Cientificamente estamos sempre a deparar com novas revelações a respeito do Universo. Somos, por conseguinte, forçados a encarar novas hipóteses e a inventar termos novos para as expressar. Estamos sempre a esbarrar com as limitações da linguagem e da matemática. Foi esse o último protesto de Einstein: “Esgotei a matemática”. Goethe queixou-se do mesmo, usando outras palavras: “Mais luz!”. Pergunta-me como é que eu concebo a Natureza de Deus. Não concebo. Nem tento. Limito-me a contemplar simplesmente a imensidade do mistério. Simultaneamente, estou consciente de que eu próprio faço parte do mistério. O meu acto de fé é um acto de aceitação da minha própria ignorância.

            - Está a querer dizer que as fórmulas tradicionais da fé nada significam para si?

            - Pelo contrário. Significam muito mais do que conseguem expressar. São definições feitas pelo homem, daquilo que não se pode definir.

            - Vamos então pegar numa fórmula. - O Pontífice estava a pressioná-lo. -A que é a base da nossa fé cristã. “Et verbum carofactum est.” “E a palavra se fez carne e habitou entre nós.” Deus tornou-se homem. Que é que isto significa para si?

            - Exactamente aquilo que diz... mas também muito mais do que diz; de outro modo estaríamos a dar às palavras humanas uma dimensão do infinito mistério de Deus.

            - Não sei se o estou a perceber, Padre.

            - Olho para o céu, à noite. Sei que observo o nascimento e a morte de galáxias, a anos-luz de distância. Olho para esta terra, estas colinas, aquela água escura lá em baixo. Vejo outra face do mesmo mistério, Deus revestindo-se com a sua própria criação, trabalhando dentro dela como fermento na massa, renovando-a todos os dias e, no entanto, transcendendo-a sempre. A Natureza de Deus revestindo-se de carne humana, é apenas parte desse mistério. Dou por mim a afastar-me cada vez mais da velha concepção dualista: corpo e alma, matéria e espírito, em que assenta muita da nossa teologia. Quanto mais se afastam de mim os limites do conhecimento, mais eu me sinto uma identidade.

            O Pontífice olhou-o longamente com um ar astuto e depois remeteu-se ao silêncio durante um bocado. Quando finalmente falou, as suas palavras eram suaves, mas havia uma frieza cortante na sua voz.

            - Por que será que sempre que ouço estas formulações tão pessoais, me sinto pouco à vontade? Pergunto-me se os nossos seguidores reconhecem nelas o simples evangelho que fomos chamados a pregar. - Tentou suavizar a repreensão. - Não pense que isto é uma censura, pois não o é. O senhor é meu convidado. Honra-me com a sua franqueza. Estou a tentar, simplesmente, compreender.

            O Jesuíta sorriu, pegou na caneta e no bloco de notas e escrevinhou uma equação. Entregou-a ao Pontífice.

            - Sabe dizer-me o que isso significa, Santidade?

            - Não, não sei. O que é?

            - É uma expressão matemática do efeito de Doppler, a alteração do comprimento de onda causada por qualquer movimento de uma fonte luminosa ao longo da linha do horizonte.

            O Pontífice sorriu-se e agitou as mãos em desespero de causa.

            - Quase que nem percebi o que disse!

            - Podia explicá-la; mas como não sabe matemática, teria de me servir de metáforas. Que foi exactamente o que Jesus fez. Ele não explicou Deus. Descreveu o que Deus faz, o que Deus é, em imagens acessíveis a um povo rural de uma época longínqua. O senhor e eu somos de outra época. Temos de falar e discorrer na linguagem do nosso tempo, ou de outro modo ninguém nos percebe. Repare! Parte do meu trabalho na América, consiste em ajudar a treinar homens para serem astronautas, viajantes do espaço. O imaginário deles é completamente diferente do seu ou do meu, ou do do próprio Jesus. E por causa disso, vamos ter dúvidas sobre ele? Para quê, hoje e nesta época, tentar meter o espírito humano num colete de forças?

            - Acredita realmente que é isso que estamos a tentar fazer?

 

            O padre Gates encolheu os ombros e sorriu.

            - Sou um convidado à sua mesa, Santidade.

            - Portanto usufrui dos privilégios dos convidados. Fale à vontade. E não se esqueça de que é suposto eu ser o servo dos servos de Deus. Se pequei, mereço ser castigado.

            - Coisa que eu não estou qualificado a fazer-respondeu o Jesuíta com surpreendente firmeza. - Permita que tente abordar a questão de uma maneira diferente. Tenho viajado bastante. Vivi na Ásia, na América do Sul, em África e aqui na Europa. E acabei por chegar à conclusão de que toda a experiência humana é caracterizada pela união. O ciclo trágico... propagação, nascimento, morte... completa-se sempre com uma metamorfose. As campas cobrem-se de flores, campos de trigo florescem sobre antigos campos de batalha. As técnicas modernas de armazenamento e recuperação conferem uma continuidade análoga às nossas noções de imortalidade, até de ressurreição. Belezas mortas, ganham vida no ecrã da televisão. Por vezes pergunto a mim próprio...sei que este é um tema penoso neste momento... o que teriam visto as câmaras de televisão, se tivessem estado assestadas toda a noite sobre o “local de enterro” de Jesus?

            O Pontífice deu uma gargalhada, curta e descontraída, entre dentes.

            - É uma pena que nunca venhamos a saber a resposta.

            - O meu ponto de vista é oposto. Uma vida inteira de exploração científica, facilitou-me muito o acto de Fé. Exijo sempre saber mais, mas estou preparado a arriscar muito mais na ignorância criativa.

            - Ignorância criativa! - O Pontífice pareceu saborear a frase. - Gosto disso. Como somos ignorantes, procuramos saber. Como estamos na escuridão, gritamos por luz. Como estamos sós, ansiamos por amor... Confesso-lhe, meu amigo, que, tal como Goethe, tenho grande necessidade de luz... Tenho inveja dos seus caminhantes estelares. Deve ser fácil rezar lá em cima.

            O Jesuíta sorriu, feliz.

            - Quando eu era rapaz, não conseguia perceber nada da Doxologia... Glória a Deus nas Alturas, e por aí fora. Dava-me a ideia de pessoas a aplaudir num jogo de futebol, lisonjeando o Criador, dizendo-lhe como ele era um tipo formidável. Mas agora, ao olhar através do telescópio e ao ouvir as miríades de sinais que nos chegam do espaço exterior, a única oração que consigo murmurar é a de louvor. Até mesmo o desperdício e o horror que grassam no Universo parecem ter um certo sentido, embora a presença obcecante do mal se erga sempre como um miasma de um pântano... Estou a falar de mais. Vou deixar Sua Santidade em paz. Obrigado pelo café.

            - Obrigado por ter vindo, Padre. Obrigado por se ter aberto comigo.

 

            Depois de ele se ter ido embora, Leão, o Pontífice, pôs a si mesmo uma pergunta quase infantil: por que tinha negado a si mesmo, durante tanto tempo, o prazer de sentar à sua mesa homens como estes? Porque não tinha dado a si mesmo - roubado se fosse preciso - o vagar para aprender com eles? Na maré de depressão que desceu sobre ele, só encontrou uma resposta triste: era um camponês que nunca aprendera a ser príncipe.

 

            A leitura que Katrina Peters fazia da relação entre Tove Lundberg e Sérgio Salviati estava muito próxima da verdade. Cada um deles, e por uma razão diferente, estava a viver sob tensão, e a tensão era evidente mesmo naquela parte das suas vidas que compartilhavam da forma mais completa e íntima.

            Salviati estava profundamente irritado pelo facto de que, mais uma vez no país onde nascera, ele e os seus íntimos estivessem ameaçados simplesmente por ele ser judeu. De todas as vezes que entrava no Mercedes, cumprimentava o motorista, passava revista aos alarmes da casa, observava no monitor as idas e vindas de Tove, sentia um ressentimento terrível. Isto não era maneira de um homem viver, perseguido por outro homem que nunca vira, e que para todos os efeitos vivia que nem um paxá, fazendo grandes negociatas sob a protecção do governo italiano.

            O seu ressentimento era ainda maior, porque sabia que estava a começar a afectar o seu trabalho. No teatro operatório, mantinha-se o técnico frio, totalmente concentrado no doente. Cá fora, nas visitas às enfermarias e nas inspecções “de luva branca”, estava irritável e impaciente.

            Tove Lundberg estava preocupada ao ponto de lhe chamar a atenção.para isso, depois do jantar.

            - Não podes continuar assim, Sérgio. Estás a fazer exactamente aquilo que dizes aos teus doentes para não fazerem... violentando-te, vivendo à força de adrenalina. Hostilizas o pessoal, que tudo faria por ti. Tens de descansar.

            - Então diz-me, por amor de Deus, como é que consigo isso?

            - Convida o James Morrison a deixar Londres. Viria mais rápido que uma bala. Põe o jovem Gallico a trabalhar ao lado dele. Fazia-lhe bem trabalhar com outra pessoa. A administração funciona sempre bastante bem... e eu posso sempre dar uma olhadela às coisas por ti. Sei como isto se dirige.

            - E não vinhas de férias comigo?

            - Não. - Foi muito definitiva. - Acho que precisas de ir sozinho, sentir-te absolutamente solto. Neste momento faço parte do teu fardo, precisamente porque estou ameaçada e tu achas que tens de me proteger. Pois bem, estou protegida, o mais possível. Se isso tornar as coisas mais simples, posso ir-me embora e trabalhar a tempo inteiro na colónia, enquanto tu estiveres fora... Tenho alguns problemas meus a resolver.

            - Ouve, meu amor! - Salviati tentou imediatamente desculpar-se. - Sei que tem sido difícil viver comigo, nestes últimos dias...

            - O problema não és tu. É a Britte. Já é uma mulherzinha. Tenho de resolver que espécie de vida posso fazer para ela e com ela. A colónia não é a resposta definitiva, sabes muito bem. Tem-lhe proporcionado um excelente começo; mas é um grupo pequeno e elitista. Quando Dre-xel morrer, quem vai continuá-la e mantê-la?

            A propriedade está hipotecada à Igreja. Tenho a certeza de que se podia chegar a acordo com eles; mas é preciso muito mais: um plano director, fundo de maneio, preparação de novos professores.

            - E é isso que te vês a fazer?

            - Não é, não. Aí é que bate o ponto. Estou a pensar em algo de muito mais simples... um lar para Britte e para mim, uma carreira para ela. Seria uma carreira limitada, mas ela é uma boa pintora.

            - E quanto a ti?

            - Ainda não sei. Neste momento estou a viver um dia de cada vez.

            - Mas estás a avisar-me de que vai haver uma mudança?

            - Tem de haver. Sabes disso. Nenhum de nós é um ser totalmente livre.

            - Então por que não fazemos o que eu já sugeri... casamos, juntamos forças, damos uma família à Britte?

            - Porque eu continuaria a negar-te a hipótese de teres uma família para ti.

            - Parte do princípio de que eu aceito isso.

            - E então, um dia, tão certo como o sol nascer todos os dias, irias detestar-me por causa disso. Ouve, meu amor, ainda somos amigos, ainda nos conseguimos suportar um ao outro. Vamos continuar assim. Mas sejamos honestos. As coisas estão fora do nosso controlo. Recebeste o homem mais importante do mundo na tua clínica. Foi um triunfo. Toda a gente o reconhece. Agora viajamos para cá e para lá com um guarda armado e pistolas escondidas debaixo dos assentos... A Britte é uma adolescente. Já não pode ser tratada como uma criança. E tu, meu amor, gastaste-te tanto, que deves andar à procura do que sobrou... Temos de mudar!

            No entanto, ele não queria admitir essa necessidade. Era como se ao admitir o processo evolutivo, pudesse subitamente desencadear o terramoto. Já nenhum deles sentia o agradável conforto. Tinha desaparecido o gosto doce do amor, e tudo o que parecia restar era o travo amargo das ilusões perdidas.

            Ela tentou falar disto com Drexel, que além de toda a sua sabedoria amadurecida tinha as suas subtilezas e sofismas. Não queria perder a sua pequena família. Não queria admitir nenhuma alienação da propriedade da villa, enquanto fosse vivo. Trabalharia de bom grado com Tove para aumentar e organizar a colónia; mas ela teria de se entregar totalmente a esse projecto... Tudo isto significava mais outra quantidade de barreiras ao que já tinha sido uma relação franca e carinhosa.

            E então ela compreendeu que, embora ele quase não tivesse consciência disso, o próprio Drexel estava enfrentando outro tipo de problemas. Agora que estava realmente reformado, sentia-se só. A vida rústica que tão ardentemente tinha desejado, não era nem de longe suficiente para satisfazer o seu espírito activo e o seu anseio secreto pela excitação do jogo do poder em que toda a sua vida tinha participado. Era o que significava a pequena e transparente estratégia que propôs a Tove Lundberg.

            - Britte já acabou o retrato de Sua Santidade. Por que é que eu não hei-de tratar de arranjar maneira de ela lho ir entregar? Tenho a certeza de que ele iria gostar de nos receber a todos em Castel Gandolfo.

            Mas a estratégia acabou por ser desnecessária. Na manhã seguinte, recebeu por telefone uma notificação para se apresentar ao Pontífice antes do meio-dia.

            - Leia isto! - O Pontífice bateu com força com a palma da mão nas páginas do Osservatore Romano, aberto em cima da sua secretária. - Leia com muita atenção!

            O artigo intitulava-se “Uma Carta Aberta aos Signatários da Declaração de Tubingen” e era um ataque empolado, nos termos mais formais, ao conteúdo do documento e ao que ele chamava as “atitudes arrogantes e insolentes dos clérigos a que estão acometidas as mais importantes tarefas da educação cristã”. Terminava com a categórica declaração formal: “Não pode permitir-se que o luxo da argumentação académica mine a lealdade que todos os católicos devem ao sucessor de Pedro, ou que ofusque as intenções transparentes da mensagem redentora de Cristo”. Estava assinado Roderigo Barbo.

            A primeira pergunta de Drexel foi a óbvia:

            - Quem é Roderigo Barbo?

            - Perguntei o mesmo. Informaram-me que é, e cito: “Um leigo. Um dos nossos subscritores mais regulares e respeitados”.

            - Há que reconhecer - observou Drexel suavemente - que ele tem uma boa visão da linha oficial.

            - Só isso?

            - Não. Se Sua Santidade quer que eu especule...

            - Quero.

 

            - Pois então, eu detecto... ou penso que detecto... o elegante estilo gótico de Karl Clemens nesta matéria.

            - Também eu. Você sabe que falei com ele na clínica. Disse-lhe que devíamos deixar passar um período de acalmia, antes de termos qualquer contacto com os signatários da Declaração de Tubingen, ou de empreendermos qualquer acção contra eles. Ele não concordou. Insisti e exigi. Acho que ele escolheu este método para contornar a minha ordem explícita.

            - Pode provar isso, Santidade?

            - Não tenho necessidade de o provar. Vou perguntar-lho directamente. Na sua presença. Ele já está à minha espera.

            - E que espera Sua Santidade que eu faça?

            - O que o bom senso e a rectidão lhe ditarem. Defenda-o, se achar que ele o merece.

            “Não quero que o meu juízo sobre este assunto seja influenciado pela ira... e esta manhã eu estava muito zangado.

            Premiu uma campainha em cima da secretária. Pouco tempo depois, Monsenhor O'Rahilly anunciou Sua Eminência, Karl Emil, cardeal Clemens. Trocaram-se os cumprimentos habituais. O Pontífice deu uma breve explicação.

            - Anton está presente a meu mandado.

            - Como Sua Santidade quiser. - Clemens estava firme como uma rocha.

            - Suponho que tenha lido este artigo no Osservatore Romano, assinado por Roderigo Barbo.

            - Li, sim.

            - Sugere-lhe algum comentário?

            - De facto. Vem na linha de outros editoriais publicados em jornais católicos em todo o mundo: em Londres, em Nova Iorque, em Sidney na Austrália, etc.

            - Concorda com o que está escrito?

            - Sua Santidade sabe que sim.

            - Ajudou à sua composição?

            - Muito definitivamente, não, Santidade. Está assinado por Roderigo Barbo, e terá sido encomendado directamente pelo editor.

            - Teve alguma interferência, directa ou indirectamente, através de sugestões ou comentários, na sua encomenda ou publicação?

            - De facto, tive. Dado que Sua Santidade não era a favor de se tomar uma atitude oficial nesta altura, pareceu-me oportuno colocar o assunto à discussão pública pelos fiéis... o que os autores do documento original teriam feito de qualquer modo. Resumindo, achava que se devia, pelo menos, ouvir a outra parte. Achava, igualmente, que se devia preparar o clima para qualquer tomada de posição que a Congregação viesse a ter.

 

            - E fê-lo, apesar da discussão que tivemos na clínica, e da minha explícita directiva sobre o assunto.

            - É verdade.

            - Como explica isso?

            - As discussões foram demasiado curtas para poderem abranger toda a gama das questões. A directiva era limitada. Seguia à letra... nada de acção oficial, nem de respostas.

            - E o Osservatore Romano não é oficial?

            - Não, Santidade. Serve, por vezes, de veículo à publicação de proclamações oficiais. As suas opiniões não são vinculativas.

            O Pontífice ficou silencioso um bom bocado. O seu peculiar rosto de predador, mais magro agora devido à doença e à dieta, estava hermético e carrancudo. Voltou-se para Anton Drexel.

            - Sua Eminência tem algum comentário a fazer?

            - Apenas este, Santidade. O meu colega Karl foi muito franco. Tomou uma posição que, embora não agrade a Sua Santidade, é, no entanto, compreensível, dada a sua índole e a sua preocupação pela manutenção da autoridade tradicionalista. Acho, também, que Sua Santidade deve aceitar que ele teve a melhor das intenções ao tentar poupá-lo à tensão e à ansiedade.

            Foi como um salva-vidas, e Clemens agarrou-o ansiosamente como um homem que se está a afogar.

            - Obrigado, Anton. Eu não teria sido capaz de me defender tão eloquentemente. Há ainda só mais um ponto que eu gostaria de salientar, Santidade. Foi o senhor que me colocou neste cargo. Deu-me instruções precisas para examinar rigorosamente... e a palavra é sua... todas as pessoas e situações que pudessem pôr em perigo a pureza da fé. Citou-me palavras do seu distinto antecessor, Paulo VI: “A melhor maneira de proteger a Fé é promover a doutrina”. Se acha que a minha actuação não tem sido satisfatória, terei muito prazer em lhe apresentar a minha demissão.

            - Tomamos nota da oferta, Eminência. Entretanto, vai ser mais moderada em ulteriores sugestões da imprensa... sagrada ou profana... e interpretar as nossas instruções de um modo mais lato, de^ acordo com o seu espírito, e não estritamente de acordo com a letra. Entendemo-nos?

            - Com certeza, Santidade.

            - Pode retirar-se. - Tocou a campainha para chamar Malachy O'Rahilly. - Anton, espere. Temos outros assuntos a tratar.

            Mal Clemens saiu da sala, o comportamento do Pontífice modificou-se. Os músculos tensos do rosto descontraíram-se. Dobrou vagarosamente o jornal e pô-lo de lado. A seguir dirigiu-se a Drexel e perguntou-lhe bruscamente.

            - Acha que fui demasiado duro com ele?

 

            Drexel encolheu os ombros.

            - Ele conhecia o risco. Assumiu-o...

            - Perdoo-lhe. Mas não confio mais nele.

            - Compete a Sua Santidade decidir.

            Um lento sorriso começou a aparecer nos olhos do Pontífice. Perguntou:

            - Qual é a sensação de se ser apenas lavrador, Anton?

            - Menos interessante do que eu esperava.

            - E as crianças?

            - Aí, também tenho problemas que não tinha previsto. - Contou-lhe das suas conversas com Tove Lundberg e a pergunta que se lhe punha a ela e a todos os outros pais: que futuro se podia oferecer a estas crianças brilhantes, mas terrivelmente deficientes?... Confesso que não tenho resposta para isso... e receio que este país também não esteja preparado para a fornecer. Naturalmente, teremos de nos inspirar no estrangeiro, para conseguirmos modelos e respostas...

            - E por que não, Anton? Por que não propõe isso a Tove Lundberg? Terei muito gosto em contribuir com dinheiro meu... Mas agora, vamos a outros assuntos. Você está reformado. Vai continuar reformado. Vai, no entanto, continuar a ser membro... in petto (1) como sempre, privado e despercebido... da família Pontifícia. Hoje começa a mudança. Clemens cometeu uma tolice e estou muito zangado com ele. No entanto, quanto mais penso no assunto, mais claramente vejo que ele nos fez um grande favor. Pôs nas minhas mãos exactamente o que eu precisava: os instrumentos da mudança, a alavanca e o ponto de apoio para pôr de novo a Igreja em movimento. Esta noite fiquei acordado durante horas a pensar no assunto. Esta manhã levantei-me cedo para celebrar a Missa do Espírito Santo, para pedir orientação sobre o mesmo. Tenho a certeza de que tomei a decisão acertada.

[1 Em latim no original: secretamente (NT)]

 

            - Espero que Sua Santidade permita que eu reserve a minha opinião, até saber qual é.

            - Deixe-me raciocinar consigo. - Ergueu-se da cadeira e começou a percorrer a sala, enquanto ia falando. Drexel ficou pasmado com a quantidade de peso que ele perdera, e com o vigor com que se movia, ainda tão no começo da convalescença. A sua voz era forte e límpida e, melhor que tudo, não vacilava na sua exposição. - ...Clemens vai-se embora. Tem de ir. O seu argumento foi casuístico e inaceitável. Desafiou a autoridade mais ruidosamente do que os signatários de Tubingen, que se queixaram publicamente a respeito do seu alegado abuso... Agora precisamos de um novo prefeito para a Congregação da Doutrina da Fé...

 

            - Tem alguém em mente?

            - Ainda não. Mas você e eu sabemos que aquela Congregação é o mais importante e poderoso instrumento na Igreja. Todos nos curvamos às suas exigências, porque a sua finalidade é defender aquilo de que depende a existência da Igreja... a pureza dos ensinamentos que Cristo nos deu e que vêm do tempo dos apóstolos... Clemens pensou que eu também me submeteria, porque ainda não estou totalmente recuperado e não me atrevo a alienar a herança da antiga fé. Mas enganou-se... como a Congregação Se tem enganado, gravemente, tantas vezes ao longo dos séculos. Vou reformá-la, de alto a baixo. Vou revogar as acções vergonhosas da sua história, as tiranias da Inquisição, o secretismo e as injustiças dos seus métodos. É, e sempre tem sido, um instrumento de repressão. Vou transformá-la num instrumento de testemunho, contra o qual, não só a nossa doutrina mas também a nossa caridade como Assembleia Cristã, possam ser julgados por todos.

            Interrompeu-se, corado e excitado, e depois sentou-se, limpando as mãos e a testa. Drexel deu-lhe um copo de água e depois perguntou calmamente.

            - Como é que pretende fazer tudo isso, Santidade?

            - Por motu próprio. Preciso da sua ajuda para preparar tudo.

            - Precisa de mais do que isso, Santidade. - Drexel deu uma pequena e triste gargalhada. - Há catorze cardeais e oito bispos na direcção da Congregação. Não os pode demitir a todos. E o que vai fazer com Clemens? Ele é tido como um dos seus. Não pode espetar-lhe a cabeça numa lança, do lado de lá da Porta Angélica!

            - Pelo contrário. Vou mantê-lo muito perto de mim. Vou dar-lhe o seu lugar de cardeal Camerlengo e nomeá-lo, ainda, prefeito da minha casa papal. Que lhe parece?

            - Muito adequado - disse Drexel com um humor forçado. - Sua Santidade está obviamente a recuperar muito bem.

            - Alegre-se com isso. -De repente, o Pontífice ficou outra vez carrancudo. - Estou mudado, Anton, mudado até ao âmago do meu ser. Estou disposto a reparar o mal que fiz à Igreja. Mas houve uma coisa em que não mudei. Continuo a ser um rústico provinciano, um cabeça dura. Não quero uma briga; mas se sou forçado a entrar nela, tenho de ganhar ou desistir.

            Nesta altura, Anton Drexel achou prudente mudar de assunto. Perguntou:

            - Antes de o senhor voltar para o Vaticano, posso trazer a Britte e a mãe a visitá-lo? O seu retrato está pronto. Está muito bom...

            - Por que não vêm amanhã às onze?

            - Cá estaremos. E, Santidade, a Tove Lundberg está a atravessar um momento difícil. Seria uma ajuda, se o senhor a encorajasse a falar.

 

            - Mas com certeza. Você pode levar a Britte até ao jardim. Deixe a Tove por minha conta.

            Enquanto ia guiando de Castel Gandolfo para a sua villa, Drexel recapitulava os acontecimentos da manhã. O primeiro e o mais dramático, era a emergência do velho Leão, o homem que sabia como funcionava a imensa máquina e onde pôr o dedo nos centros nervosos que a controlavam. Tinha posto a incerteza de lado. O fogo estava aceso nas suas entranhas. Avançaria implacavelmente em direcção ao objectivo que a si mesmo tinha imposto. Se tinha decidido sensatamente, era outro caso; mas não havia contradição no sentido da história que determinara a sua escolha.

            Antes do século XVI, os assuntos da Igreja Universal, incluindo as matérias doutrinais, eram tratados pela Chancelaria Apostólica. Em 1542, Paulo III, Alessandro Farnese, fundou a Sagrada Congregação da Inquisição. Ao princípio, era uma instituição temporária, substituída por delegações seculares, nos tempos de Pio IV, Gregório XIII, Paulo V. Mas a primeira a consolidar-se, com um plano orgânico, foi montada por Sixto V, que trabalhou ele mesmo como inquisidor em Veneza e que, como papa, governou com severidade draconiana; impôs a pena de morte para casos de roubo, incesto, alcovitice, adultério e sodomia. Foi ele que planeou, com Filipe II de Espanha, mandar a Armada contra a Inglaterra, e quando a Armada se afundou não pagou ao seu aliado. Pio X mudou o nome para Santo Ofício> Paulo VI mudou-o de novo para Doutrina da Fé.

            Mas o carácter essencial da instituição não se alterou. Continuava a ser essencialmente autoritário, repressivo, penal, secreto, e injusto na sua actuação.

            Numa instituição como a Igreja Católica Romana, solidamente construída no velho modelo imperial, inexoravelmente centralizada, esta instituição inquisitorial não era apenas imensamente poderosa, era também um símbolo dos maiores escândalos de todos os séculos: a caça às bruxas, a perseguição aos judeus, as fogueiras onde se queimavam livros e hereges, a aliança profana entre a Igreja e os colonizadores.

            No mundo pós-conciliar, foi identificada com a reacção, com a tentativa concertada em fazer recuar a reforma e os progressos a que o Concílio tinha dado início. Leão XIV tinha-a utilizado precisamente com esses propósitos. Sabia como era importante. A sua tentativa para a reformar dava a medida exacta da alteração do seu modo de estar na vida.

            Os meios que estava a pensar utilizar, também eram interessantes. Um motu próprio era um documento publicado por um papa, pela sua própria iniciativa e com a sua assinatura. Era, por conseguinte, num determinado sentido, uma directiva pessoal. Expunha-o ao desafio das Sagradas Congregações e da hierarquia superior; mas também colocava a sua autoridade pontifícia no enfiamento de um assunto no qual tinha convicções fortemente pessoais.

            Na altura em que o automóvel virou para o seu caminho particular, Drexel estava convencido de que se aproximava um tempo borrascoso, mas que Ludovico Gadda tinha bastantes hipóteses de lhe sobreviver.

 

            Matt Neylan estava a chegar ao fim de um dia muito agradável: de manhã trabalhando no livro, depois o almoço, ténis e piscina, e um jantar de reconciliação com Malachy O'Rahilly, no Romo-lo. O secretário Papal estava eloquente como sempre, mas com sequelas óbvias de uma série de encontros recentes ao serviço do Senhor e do seu Vigário na terra.

            - Ainda estou impressionado com aquela reunião da segurança e com o que aconteceu ao pobre Lorenzo de Rosa e à sua família. Devia estar completamente descontrolado, falando daquela maneira em público, com todas as Eminências à minha volta. E nem sequer me foi ainda permitido esquecer a cena. Hoje mesmo de manhã, recebi um bilhetinho do Próprio Homem... “Malachy”, diz ele, “não tenho, pessoalmente, queixas a fazer; mas há para aí uns passarinhos a segredarem-me que o que eu sei é meio escândalo, e o que você sabe é meia verdade. A ruína dos latinos são as mulheres, e os celtas têm tendência para afogar a sua lascívia e as suas penas em álcool. De modo que você vai ter cuidado, não vai? E vai-me prometer que não torna a guiar nestas estradas da montanha depois de ter bebido mais do que um copo.”... Como vês, não me largam, Matt. Era só um aviso das coisas piores que estão para vir, um tiro no escuro, por assim dizer. É capaz de ser altura de mudar... ou de me juntar aos Alcoólicos Anónimos. Que achas?

            - Já não pertenço ao clube - disse Matt Neylan com firmeza. - Agora, tu e eu temos problemas diferentes. Mas a velha regra mantém-se: se não consegues aguentar o calor, sai da sala da caldeira. E se não aguentas álcool, não bebas.

            - Estás contente com a tua situação, Matt?

            - Absolutamente. Muito satisfeito.

            - Quando vais para a tua terra?

            - Ainda não sei bem, provavelmente no princípio do Outono. O capataz está a fazer um bom trabalho na quinta. Gosto de trabalhar aqui... pelo menos por enquanto.

            Continuas... como é que hei-de dizer?... a viver sozinho?

            Não tenho uma empregada interna, se é isso que queres saber. De momento, tenho-me saído muito bem, com a ajuda das mulheres-a-dias... E que se passa na Colina do Vaticano?

            Nesta altura, nada; mas todo o meu instinto me diz que vai haver um grande reboliço, quando O Velho for para lá. Está cada dia mais forte. Hoje levou o Clemens ao tapete. Sabes bem o rico freguês que ali está. Para teres uma ideia, digo-te que ele só lá esteve cinco minutos, mas deu para sair de lá com um ar de condenado às galés. Com o Drexel reformado... É como estarmos à espera de uma tempestade. Estamos ansiosos que o raio da coisa comece. A propósito, Drexel e O Velho estão muito preocupados com Tove Lundberg e a miúda. Ela é a que...

            - Sei quem é. Conheço-a.

            - O pessoal da segurança diz que ela faz parte de uma lista de pessoas a raptar. Não vai para lado nenhum sem protecção. O Velho ofereceu-lhes guarida na Cidade do Vaticano. Mas recusaram. Não as censuro. Ficariam a matutar no que lhes poderia acontecer na nossa metrópole celibatária. Mas eu tenho uma solução, se bem que ainda não tivesse falado nela a ninguém... Não eras capaz de as convidar, como hóspedes pagantes, a passarem uma temporada na tua casa na Irlanda? Só até tudo isto passar, claro!

            Matt Neylan atirou a cabeça para trás e riu-se até às lágrimas.

            - Malachy, meu rapaz, és transparente como água! Parece-me que já estou a ouvir a conversa...”Uma óptima ideia, Santidade! Surgiu-me enquanto dormia, como as visões de José. Falei com o meu velho amigo Matt Neylan... é uma boa alma, embora ele ache que já não tem alma... e ele ofereceu casa, cama e roupa lavada à mãe e à filha!”

            - Então, fá-lo-ias? Agora?

            - Queres isso mas é por ti, não é, Malachy? Estás com medo que te mandem para casa ter com o teu bispo e que te obriguem a fazer um pouco de trabalho pastoral, para variar. Vá, confessa lá!

            - Confesso. Não precisas de me atirar isso à cara.

            - Fica descansado, farei o que me pedes. Diz ao Drexel. Diz a Sua Santidade. Eu próprio farei a oferta se voltar a encontrar a senhora.

            - És um príncipe, Matt!

            - Sou um descrente nómada, dispondo de tempo e dinheiro como nunca me acontecera. Hei-de voltar a mim um destes dias... Não te esqueças de que quem paga a conta és tu!

            - E alguma vez me ia esquecer de uma ninharia dessas?

            Depois de Malachy O'Rahilly o ter deixado, atravessou o rio, passeou durante um bocado na Piazza del Popolo e depois apanhou um táxi para o Clube Alhambra. Era a altura mais aborrecida para ele na sua nova vida, a hora da barriga cheia e da cama vazia, e do desejo ardente por uma mulher, qualquer mulher, que lhe fizesse companhia na cama. No Alhambra, podia juntar-se a todos os outros machos numa confissão pública da sua necessidade, e escolher entre as ofertas com uma fanfarronice improvisada. Claro que havia mil outras soluções. Os jornais vespertinos traziam montes de anúncios de massagistas, manicuras, secretárias-acompanhantes; havia mais uma dúzia de clubes iguais ao Alhambra, as mesas ao longo da Veneto, a esplanada do Doneys e o Café de Paris. Já tinha tentado todos; mas exigiam uma confissão demasiado pública, os encontros demasiado propensos a problemas ou a aborrecimentos. No Alhambra, toda a gente o conhecia. As raparigas reconheciam-no com um sorriso, disputavam a sua atenção-e Marta tinha-lhe garantido com uma certa seriedade que elas tinham de ser saudáveis, porque o gerente insistia num certificado médico semanal, e qualquer rapariga que pegasse algum mal a um cliente regular apanhava com um mal muito maior em cima. Era, no melhor dos casos, um seguro estilo teia de aranha; mas dava-lhe o sentimento de segurança e de posse que lhe exigiam as suas emoções serôdias.

            Foi uma noite morna. Teve tempo para conversar com Marta no seu cubículo perto da entrada.

            As raparigas esperavam em pequenos grupos, prontas a lançar - lhe as garras mal ele se sentasse a uma mesa, de modo que se encavalitou num banco do bar e iniciou um diálogo com o barman, um tipo bem disposto de Tunis, que sabia como defender um bebedor tranquilo ou generoso nas gorjetas.

            Neylan ia a meio caminho da sua segunda bebida, quando um homem se sentou no banco a seu lado e perguntou:

            - Posso fazer-lhe companhia? Não aguento estas mulheres todas ao mesmo tempo.

            - Sei o que isso é. Faça o favor. Que é que vai tomar?

            - Café, se não se importa, e água mineral. - Apresentou-se formalmente. -Já o vi muitas vezes. Mas nunca nos falámos. O meu nome é Omar Asnan.

            - Matt Neylan.

            - É inglês?

            - Não. Sou irlandês.

            - Eu sou do Irão. Vive aqui em Roma?

            - Já há muitos anos. Sou escritor.

            - Eu sou algo de muito mais prosaico. Comerciante, importador e exportador. E que género de livros escreve, Sr. Neylan?

            - Neste momento estou a trabalhar num ensaio sobre diplomacia religiosa e política, com especial incidência sobre o Vaticano.

            - Conhece bem o Vaticano, Sr. Neylan?

            - Razoavelmente, sim. Uma boa quantidade do meu trabalho é feita no Arquivo.

            - Que interessante. É evidente que sou muçulmano; mas gostaria muito de lá ir.

            - Há excursões diárias: S. Pedro, o Museu, as coisas do costume.

 

            E pode também arranjar uma autorização para visitar a Biblioteca e outros sítios...

            - Garanto-lhe que vou pensar nisso. O Sr. tem lá muitos conhecimentos. Claro que tem.

            - Alguns, de facto...

            - É uma coisa que me fascina, esse conceito da sociedade totalmente religiosa. Apoderou-se, claro, mais uma vez dos países islâmicos, muito especialmente do meu.

            - Achei que precisava de me afastar um pouco de tudo isso. - Matt Neylan queria ver-se livre do assunto o mais depressa possível. -Foi por isso que vim até aqui. Mas parece que vai ser uma noite sem graça e que pode acabar por sair cara. Acho que me vou pôr a andar.

            - Não, espere! -Asnan agarrou-o por uma manga. - O Sr. está aborrecido e eu também. Mas podemos remediar isso facilmente. Conhece um sítio chamado II Mandolino?

            - Não.

            - Fica numa casa antiga, numa praça pequenina, mesmo por detrás da Piazza Navona. Vai lá imensa gente. Há dois rapazes e uma rapariga, que tocam todas as noites música folclórica do país inteiro. Encomendamos as bebidas, sentamo-nos em poltronas ou numa almofada, e ouvimos. É muito simples, muito tranquilo... Se está à procura de uma mulher, claro que não é o sítio indicado; mas para descontrair no fim da noite... Quer lá ir experimentar?

           Depois de um bom jantar e de um par de brandies, Neylan estava suficientemente descontraído para acolher bem a ideia. Que se tornou ainda mais atraente, quando Omar Asnan lhe disse que tinha o motorista à espera, e que o levava a casa depois. Ao sair, parou no cubículo de Marta Kuhn, para comprar cigarros. Neylan despediu-se discretamente, e confirmou baixinho o encontro para o almoço.

            Assim que saíram, ela dirigiu-se ao telefone público do átrio e fez uma chamada para o número de contacto de Aharon ben Shaul.

 

            Um dos fenómenos menos agradáveis da convalescença do Pontífice era o sono interrompido. Podia deitar-se extremamente fatigado. Três horas depois, estava completamente acordado e ficava a ler durante uma hora até o sono voltar, e dormia mais uma ou duas horas. Salviati tinha-o prevenido de que era uma síndroma vulgar a seguir a operações cardíacas, mas também o tinha avisado para que evitasse tornar-se dependente de barbitúricos. Seria muito melhor se ele pudesse passar sem eles, até que um padrão de descanso normal e natural se auto-restabelecesse. Agora, tinha sempre um livro e um diário ao pé da cama. Quando a sua mente começava a insistir sempre na mesma tecla, o que acontecia muitas vezes, tecla essa que eram as preocupações a respeito do futuro desempenho do seu cargo, obrigava-se a escrever sobre elas, como se o acto de as pôr preto no branco pudesse exorcizar o seu terror latente:

            - Não me orgulho do que fiz hoje. Sabia, e Drexel também, que teria deslizado para as velhas tácticas do jogo do poder. Havia um toque de medo no modo como tratei Clemens. Ele tinha agido mal. Eu senti-me ameaçado e vulnerável. Ataquei forte e feio, sabendo que não teria forças para aguentar um combate longo. Lamento menos a dor que lhe infligi, do que o meu próprio fracasso em comportar-me com contenção e caridade cristãs. Parece-me que estou muito longe de estar recuperado. Estou muito longe de estar pronto para cumprir toda a responsabilidade do cargo.

            - ... Por outro lado, continuo convencido de que encontrei o ponto de partida para a reforma. Estou a lidar com uma organização da Igreja, cujos métodos e funções têm sido tema de discussão e descontentamento há muito tempo. Estou a preparar tudo para a remodelar. Se o conseguir, terei feito o que Salviati me fez: desviar uma obstrução da corrente sanguínea vital do corpo da Igreja.

            “Não vou atacar ninguém. Não vou denegrir uma doutrina essencial da Fé. Não vou criar confusão, dando a aparência de que vou inverter os decretos de pontífices anteriores... ou até mesmo as minhas rígidas políticas. Acho que posso começar o processo de descentralização de uma maneira que nem Drexel previra.

            “Grandes esperanças? Muito grandes e devo estar ciente delas. Todavia, a lógica tem sentido. Uma vez mudadas as regras, passa a ser impossível denunciar secretamente um homem ou uma obra, uma vez que um acusado tem o direito de saber em pormenor as culpas que se lhe imputam, o nome do acusador, visto que tem direito a um defensor competente e a um debate aberto sobre a questão e ao livre exercício das suas funções até a questão estar resolvida, e então todo o cenário muda e começa a mudar noutros sectores.

            “As armadilhas medievais serão retiradas dos procedimentos jurídicos. Nos casos de casamento, o velho princípio de dar mais importância ao vínculo do que à pessoa é fundamentalmente injusto; embora deva confessar que tempos houve em que pensava de maneira diferente. Em questões que, mais cedo ou mais tarde, se vão tornar urgentes dentro da Igreja - um clero casado, mulheres sacerdotes, o desenvolvimento da doutrina - vai ser possível que haja, pelo menos, discussões francas entre os estudiosos competentes e as competentes autoridades, e um foro aberto até mesmo nos dicastérios da Igreja.

            “

            É neste sentido que penso que estou caminhando: de volta ao caminho aberto pelo Vaticano II e pelo homem que o convocou, João XXIII. Tal como ele, tenho de estar preparado para a controvérsia - e até mesmo para a conspiração-contra o grande desígnio. Tenho de me preparar para o facto de poder vir a ser o meu maior inimigo. Apesar disso, tenho de andar em frente. Mas esta noite, não, nem sequer amanhã...

 

            O serão de Matt Neylan no II Mandolini acabou por ser uma agradável experiência. O estabelecimento era numa velha casa do século XVI, com fundações abobadadas, do tempo dos romanos. As paredes estavam decoradas com instrumentos musicais antigos. Osalone onde se ouvia a música não tinha espaço para mais de trinta pessoas, confortavelmente instaladas em poltronas, em recantos almofadados das paredes e em banquetas. O trio tinha talento e a sua música consistia num passeio agradável de uma hora através dos atalhos da península italiana.

            O próprio Omar Asnan era um companheiro agradável, bem humorado e discreto. Falou vivamente dos perigos, armadilhas e de uma ou outra situação cómica do comércio do Médio Oriente. Explicou a Matt Neylan o fenómeno do ressurgimento islâmico e os conflitos entre os sunitas e os shiitas. Interessou-se em ouvir Matt Neylan falar da sua rejeição da fé em que tinha sido criado, e sugeriu, com hábil deferência, que talvez um dia ele gostasse de iniciar um estudo sobre o Islão.

           Neylan, por seu lado, ofereceu-se para lhe arranjar uma visita ao Vaticano, através de um dos seus amigos: Peter Tabni, um consultor da Comissão para as Relações Religiosas com o Islão. Omar Asnan parecia ter ficado pasmado com a existência de tal organização. Teria o maior gosto em aceitar tal convite quando ele se proporcionasse.

            Ao voltar para casa na limusina de Asnan, sentiu-se bem por ter assistido a um dos ritos menores da civilização numa cidade que se estava a tornar cada vez mais bárbara. Tomou nota no seu bloco da secretária para falar a Peter Tabni, deixou o cartão de Omar Asnan ao lado, e preparou-se para se deitar. Pelo menos esta noite não tinha que se preocupar com o facto de ter apanhado algo mais do que uma constipação. Pensamento a que se juntou, mesmo antes de adormecer, o de que ultimamente tinha andado a desperdiçar uma data de tempo e dinheiro em alguns tugúrios muito ordinários.

 

            O assunto mais importante que Monsenhor Malachy O'Rahilly viu na agenda do Pontífice foi o seu encontro com Tove Lundberg, Britte e o cardeal Drexel. Foi a deixa para falar do seu jantar com Matt Neylan. A reacção foi cordial e interessada.

            - Fico satisfeito por saber que se mantém em contacto com ele, Malachy. O cardeal Agostini diz muito bem dele, apesar da sua apostasia.

 

            - É culto, Santidade... e generoso. Pedi-lhe um grande favor a noite passada.

            - A sério?

            - Estávamos a falar de Tove Lundberg e da ameaça que pesa sobre ela. Por acaso, ele conhece-a. Encontraram-se em casa de um amigo jornalista. Seja como for, parece que ele tem uma pequena herdade na Irlanda. Perguntei-lhe se se importava de acolher lá as Lundbergs se manifestassem interesse em ir. Pareceu-me ser, pelo menos, uma alternativa viável ao convite que Sua Santidade lhes fez. Respomdeu-me que teria o maior prazer em as receber.

            - Foi muito atencioso da sua parte, Malachy... e muito generoso da parte de Neylan. Vou informar a Tove Lundberg. Se estiver interessada, então pode tratar disso directamente com Neylan. E agora> Malachy, temos de conversar os dois.

            - Santidade? ?

            - Por favor, sente-se. Há quanto tempo trabalha comigo, Malachy?

            - Há seis anos, Santidade; três como funcionário inferior, e os últimos três como secretário particular principal.

            - Foi um bom funcionário.

            - Fiz os possíveis, Santidade.

            - E eu nem sempre fui o melhor dos patrões... Sei, porque você ja mo disse, que ficava sempre mais feliz quando lutávamos um pouco... No entanto, penso que chegou a hora de ambos mudarmos de atitude.

            - Não está contente com o meu trabalho, Santidade?

           - O seu trabalho é excelente, Malachy. É um prazer poder contar consigo. Tem um excelente sentido de humor. Contudo, tem dois defeitos, que infelizmente se tornaram vulgares aos membros superiores da Cúria. Tem uma língua que se solta com muita facilidade e aguenta pouco álcool. Qualquer deles é um empecilho. Os dois juntos constituem um perigo grave... para mim e para si.

            Malachy O'Rahilly sentiu como que um dedo, pequeno e frio, a esquadrinhar as fibras do seu coração. Ficou sentado, calado, olhando fixamente as costas das grandes mãos. Por fim, com mais calma do que alguma vez pensara conseguir, disse:

            - Compreendo, Santidade. Lamento que tenha de ter passado pelo embaraço de mo dizer. Quando quer que me demita?

            - Nunca antes de voltar ao Vaticano e de ter tempo de preparar o seu sucessor.

            - Que vai ser quem?

            - Monsenhor Gerard Hopgood.

            - É um bom homem, um excelente linguista. Está perfeitamente à altura do cargo. Posso passar-lhe a pasta uma semana depois de termos voltado.

            - Gostaria de lhe arranjar um lugar conveniente.

 

            - Com todo o respeito, Santidade, preferia que não o fizesse.

            - Está a pensar em alguma coisa de especial?

            - De facto, estou, Santidade. Quero ser suspenso de todas as minhas obrigações durante três meses. Vou para um sítio que conheço em Inglaterra para me desintoxicar. Depois quero ver se sou talhado para o sacerdócio e se é uma vida que eu consiga aguentar daqui até à eternidade. É uma escolha difícil de fazer depois de todos estes anos, e todo o seu custo em tempo, dinheiro e trabalho para fazer de mim um secretário Papal. Todavia, de uma coisa tenho a certeza: não quero acabar como um padre-alambique com manchas de sopa pela sotaina abaixo e sem ninguém para o receber além de um convento de freiras idosas!

            - Não fazia a mínima ideia de que você se sentia tão em baixo, Malachy. Por que é que não falou comigo há mais tempo? No fim de contas,,, sou o seu pastor.

            - Não é, não, Santidade! E com todo o respeito, não pense que é. O senhor é o sucessor do Príncipe dos Apóstolos. Eu sou o esbirro do príncipe. O senhor é o Supremo Pastor, mas não vê as ovelhas... vê apenas um enorme tapete de costados de lã estendendo-se até ao horizonte! A culpa não é sua. Foi assim que esta instituição foi crescendo ao longo dos séculos. Que falem dos russos ou dos chineses... nós é que somos o maior grupo colectivo do mundo! E até ter adoecido e se ter desnudado até à pele, era assim que pensava da Igreja e a dirigia. É por isso que ela está no estado perigoso em que está... Perdão! Não tenho o direito de me manifestar deste modo; mas trata-se da minha vida, da salvação da minha alma!

            - Não o censuro, Malachy. Deus sabe que tenho bastantes culpas. Mas, por favor, veja se consegue confiar em mim. Há alguma coisa que eu possa fazer para ajudar?

            - Sim, há uma.

            - Diga lá o que é.

            - Se quando acabar a minha purga... coisa por que não anseio muito... chegar à conclusão de que não aguento mais esta vida, quero que me deixe ir embora... o senhor, pessoalmente, porque tem esse poder. Não quero ser sitiado por conselheiros compulsivos, passar pela picadora de carne que são os tribunais. Se cheguei aqui em sã consciência, quero sair de uma forma limpa. Sua Santidade conceder-me-á isso?

            - Por que é que me põe a pergunta neste momento?

            - Sua Santidade sabe porquê?

            - Quero ouvi-lo da sua boca, Malachy.

            - Porque, desta vez, quero fazer a escolha como um homem livre. Pela primeira vez, o Pontífice foi tomado de surpresa. Não estava à espera de uma resposta tão brusca. Voltou a perguntar:

 

            - Está-me a dizer que não foi de livre vontade que entrou para o sacerdócio?

            - É essa a questão principal, não é? Se vou para o deserto é para encontrar a resposta. Mas dado o meu passado na Santa Irlanda, dadas todas as pressões e condicionamentos da minha educação a partir do momento em que as freiras tomaram conta de mim aos 4 anos, não tenho, de todo, a certeza. Sei que não é o tipo de declaração que mais gelo quebra em tribunal, mas é a verdade; tal como é verdade com uma data de casamentos que se transformam num inferno, porque estavam errados desde o princípio. E que fazemos nós? Pomos os advogados atrás deles, em vez de usarmos a compaixão de Cristo como era suposto! Não sei se alguma destas coisas faz sentido para si. Espero que sim; porque estou a sangrar. O senhor fez exactamente o que esta maldita burocracia sempre faz. Despediu-me com base numa denúncia anónima. Acho que merecia mais do que isso.

            Inicialmente, o Pontífice Leão ficou atordoado com o vigor do ataque e depois esmagado pelo sentimento de vergonha e de culpa. Tinha feito exactamente aquilo: condenado um fiel servidor com base no ou-vir-dizer. E, recordando a sua própria infância, recordando quão cedo e quão rigidamente o seu carácter tinha sido moldado, soube que O'Rahilly tinha razão. Tentou arranjar palavras que pudessem exprimir a confusão das suas emoções.

            - Compreendo-o, Malachy. Conduzi tudo isto muito mal. Espero que seja capaz de me perdoar. Vou rezar todos os dias pedindo que consiga viver em paz na sua vocação. Se não o conseguir, então libertá-lo-ei por decreto meu. Houve uma coisa que aprendi da maneira mais difícil: não deve haver escravos na Cidade de Deus.

            - Muito obrigado, Santidade. Mais alguma coisa?

            - Não, Malachy. Pode ir-se embora.

            Foi um momento melancólico, que trouxe recordações de Lorenzo de Rosa, da apostasia de Matt Neylan e, para além destas imagens próximas, as grandes e distantes de seminários vazios, conventos sem noviços, igrejas com padres idosos e congregações também idosas, homens e mulheres cheios de fervor e boa vontade frustrados pelo clericalismo, criando células pequenas e autoprotectoras no interior de uma assembleia em que já não confiavam, pois era governada por fiat e não pela Fé.

 

            A visita de Tove Lundberg e Britte também não lhe deu ânimo. O retrato agradou-lhe muito. A rapariga ficou contente por ele ter gostado, mas a comunicação era difícil e ficou satisfeito quando Drexel a levou dali para lhe mostrar os jardins do castelo. A própria Tove estava a fazer um esforço para transformar os seus problemas numa peça de humor negro:

            - Tirando o facto de estar a ser perseguida por uns tantos mullahs loucos, sou a mais felizarda das raparigas. Tenho um homem que quer casar comigo. Outro quer instalar-me numa quinta na Irlanda. O Nonno Drexel quer mandar-me estudar para a América. Sua Santidade quer-me dar dinheiro. A minha filha sente-se preparada para viver sozinha. Por que será que não me sinto feliz?

            - Está realmente muito aborrecida, não está?

            - Estou, de facto.

            - Porquê?

            - Porque toda a gente tem um objectivo próprio para mim. Parece que ninguém se preocupou em pensar que eu também posso ter um.

            - Acha que está a ser justa? Todos nós estamos extremamente preocupados consigo e com a Britte!

            - Eu sei, Santidade. E estou muito grata por isso. Mas a vida é minha. A Britte é minha filha. Tenho de decidir o que é melhor para ambas. Neste momento estou a ser puxada daqui para ali como uma boneca de trapo. Não aguento mais. Não aguento, pura e simplesmente.

            Subitamente, desatou a chorar e Leão, o Pontífice, ficou de pé a seu lado, afagando-lhe os cabelos, confortando-a como ela o confortara, com palavrinhas calmas.

            - Vá lá! Não é tão mau como pensa! Mas não deve escorraçar as pessoas que a amam. Disse-me isto, logo desde o princípio. Confiei em si. Não pode confiar em mim, nem só um bocadinho? Por que não repensar essa ideia da casa na Irlanda... mesmo só como umas férias?

            Um pequeno sorriso, meio tremido, surgiu por entre as lágrimas e, enquanto secava os olhos, disse-lhe:

            - Não sei muito bem se devo arriscar-me.

            - Arriscar-se a quê?

            - Não sabia, Santidade? Os vikings incendiaram Dublin, há uns séculos atrás. Os irlandeses nunca mais se esqueceram!

            Havia mais um visitante no rol do seu livro de compromissos: o abade do mosteiro Bizantino de Santo Neilus, que ficava a poucos quilómetros de distância, em Grottaferrata.

            O abade Alexis, que desempenhava as funções de bispo naquela região rural, era um velho, ainda vigoroso e arguto, mas irradiando um ar de calma e sossego espiritual extraordinário. A sua visita a Castel Gandolfo era um ritual anual, cumprido sempre de uma maneira privada e de boa vizinhança.

            O mosteiro existia há um milhar de anos e a sua origem vinha do tempo das primeiras comunidades helénicas da Calábria e da Apúlia. O ramo grego original tinha-se misturado com albaneses e outras raças da antiga Ilíria que, a despeito de dificuldades e fricções constantes, conseguiram conservar os seus ritos, costumes e privilégios, e a sua união com Roma até mesmo a seguir ao Grande Cisma.

            Os monges actuais, eram, na sua maioria, italo-albaneses; mas o rito era o grego. Possuíam uma biblioteca de valiosos manuscritos. Mantinham um seminário para padres do rito bizantino. Dirigiam uma escola de paleografia, iluminuras e restauro. O lugar tinha tido sempre um significado especial para o Pontífice Leão, no sentido em que podia ser um degrau na longa caminhada do tempo até se chegar à união com as igrejas ortodoxas do leste. Mas, por qualquer razão, nunca encontrara inspiração para fazer uso dos seus recursos. Talvez demasiado tarde, estava agora preparado para admitir que, no seu primeiro encontro, tinha achado o humor do abade um tanto agressivo.

            Tinha sido este homem que, ao ser-lhe pedido para comparar a prática grega de deixar casar os seus padres com a romana de padres solteiros, dissera: “Achamos que a nossa funciona melhor. No fim de contas, se queremos ter trabalhadores nas vinhas para quê impedi-los de trazer o almoço?” Falando-se da paixão de Roma pela legislação, inventou o seguinte aforismo: “Não é a Igreja que leva as pessoas até Deus. É Deus que as leva até Ele, às vezes através do testemunho visível da sua Igreja... e às vezes apesar dela!”

            Contudo, nos seus últimos anos, o velho tinha-se tornado um contemplativo, e corriam histórias a respeito do seu poder de adivinhar o que se passava no coração dos homens e de os dotar com o dom da paz. A seguir à tensão da sua última entrevista, o Pontífice achou que ele era uma visita muito agradável. Trouxera um presente -uma edição facsimile do maior tesouro do mosteiro, um typikon, ou compêndio li-túrgico do século XI. Acompanhando o presente, vinha uma elegante dedicatória, tirada da Epístola de João: “Bem-amados, desejo acima de tudo que prosperem e estejam de saúde”.

            Passearam juntos pelo jardim e, tal como Tove Lundberglhe ensinara, o Pontífice falou sem constrangimento dos problemas que se lhe deparavam.

            - A minha situação é de uma extrema ironia. Apercebo-me de todos os erros que cometi. E vejo ainda melhor quão pouco tempo me resta para os emendar.

            O velhote riu-se, um som leve e argentino como a gargalhada de uma criança.

            - O povo de Deus é problema de Deus. Por que não confia Nele?

            - Se fosse assim tão simples!

            - E é. Aí é que bate o ponto. Que mais nos dizem as parábolas: “Olhai os lírios do campo. Não trabalham, nem fiam...” É a paixão pela acção que nos destrói a todos. Estamos tão ocupados a organizar e a congeminar e a legislar, que deixamos de ver os desígnios que Deus tem para nós e para este nosso planeta. O senhor ainda está frágil... mais frágil do que eu, que sou quinze anos mais velho. Dê a si mesmo um pouco mais de tempo, antes de voltar a trabalhar. Não consinta que eles o soterrem sob uma pilha de pormenores, como estão a tentar fazer. Uma palavra sua no momento exacto, será mais útil que uma semana de trapalhadas nas Congregações.

            - O problema é que eu tenho tido dificuldades com as palavras. Quanto mais simples precisam de ser, mais difíceis me são de pronunciar.

            - Talvez - disse o Abade suavemente -, talvez porque o senhor esteja a tentar falar duas linguagens ao mesmo tempo: a do coração e a da autoridade.

            - E qual delas me aconselha que utilize, Sr. Abade?

            - Dá-me licença que eu divague um pouco, Santidade?

            - Claro!

            - De uma forma diferente da sua, melhor, que o senhor de facto não conhece, eu debato-me diariamente com essa questão desde que ocupo este cargo. Agora estou velho. As minhas forças são limitadas. Repare bem. Somos, tal como os mosteiros irmãos em Lungro, S. De-métrio, Terra d'Otranto e outros, um pequeno grupo de sobreviventes étnicos... das colónias gregas e de várias tribos dos Balcãs. Na nossa qualidade de padres e monges, somos guardiãos da identidade cultural dos nossos povos, do que sobrou da sua linguagem, das suas tradições, da sua iconografia. Aos olhos de Roma... nos tempos antigos, pelo menos... isto era considerado um privilégio. Já nessa altura o considerámos um direito, e o mesmo fazemos presentemente. Para assegurar esse direito, temos de dar provas de que o merecemos. E assim, eu, na minha qualidade de abade, tenho de manter na nossa comunidade uma disciplina que nos coloque fora do alcance da crítica e do desafio do Vaticano. Nem sempre é fácil, nem para a minha gente, nem para mim. Mas fui descobrindo, com o passar dos anos, que é melhor persuadir do que impor. A diferença entre nós os dois, é que eu posso manter sempre um diálogo cara a cara. O que o senhor não pode fazer, a não ser dentro da sua Casa Papal. Tudo o que o senhor diz é esmiuçado por retóricos e funcionários e traduzido pelos jornalistas. A sua verdadeira voz nunca se ouve. Olhe bem para nós os dois! Tirando este dia especial em cada ano, esta breve e exacta hora, bem se podia dizer que vivemos em planetas diferentes...

            - Um dos conselhos que me deram - disse o Pontífice lentamente - é que eu devo iniciar a descentralização, devolver aos bispos locais a sua autêntica autoridade apostólica. Que pensa disto?

            - Teoricamente, é desejável e possível. Nós, os bizantinos, somos um caso peculiar. Aceitamos a autoridade do Pontífice, é evidente. Mas preservamos a nossa identidade e a nossa autoridade como igreja apostólica. Funciona, porque as barreiras da linguagem e dos costumes nos defendem de interferência demasiada. Mas se o senhor tentar fazer o mesmo com os alemães, os ingleses, os franceses, encontrará oposição dos quadrantes mais inesperados. Lèmbre-se do que aconteceu na Holanda já há uma data de anos! Os holandeses reivindicavam as liberdades expressas nos decretos do Vaticano II. De imediato, os profetas da desgraça começaram a bramar do alto dos telhados. Instalada a reacção, Roma aplicou a tortura. A Igreja Holandesa dividiu-se e chegou quase ao cisma... Mas, devagar, muito lentamente, sim, é capaz de resultar, tem de resultar. Costumo dizer aos meus monges: “Antes de iniciarem uma revolução, pensem na alternativa que têm para o estado de coisas... ou então o que lhes resta é o vazio e sete diabos competindo pela sua possessão!”.

            A caminhada tinha-os levado até um pequeno caramanchão com um banco e uma mesa de pedra. Um jardineiro trabalhava a curta distância. O Pontífice chamou-o, e pediu-lhe que mandasse vir café e água mineral da cozinha. Depois de se terem sentado, perguntou com simplicidade:

            - Sr. Abade, quer ouvir-me em confissão? O velho não se mostrou surpreendido.

            - Se é esse o desejo de Sua Santidade, pois claro que sim. Sentaram-se lado a lado, debruçados sobre a mesa, enquanto Leão, o Pontífice, deitava cá para fora, por vezes vacilante, outras numa catadupa de palavras, as culpas e as confusões que se tinham amontoado como folhas sopradas pelo vento nos escaninhos da sua consciência.

            Falou sem reservas, porque desta vez não estava a pedir conselhos ou a julgar o conselho dado, ou pesando as possíveis consequências. Tratava-se de um acto completamente diferente; era o remate da metanoia, a expiação da culpa, a aceitação da penitência, a resolução de recomeçar. Era um acto anónimo, secreto e fraternal, um irmão servindo de intermediário a outro irmão perante o Pai de todos. Ao terminar, Leão, o penitente, curvou a cabeça e ouviu a voz do velho, pronunciando em grego as palavras da absolvição.

            Na mesma manhã, mas mais tarde, Matt Neylan telefonou a Monsenhor Peter Tabni, consultor da Comissão para as Relações Religiosas com o Islão. O pedido foi feito em termos muito cautelosos.

            - Peter, trata-se de um conhecimento casual, um iraniano muçulmano chamado Omar Asnan. Demonstrou interesse