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Planeta Criança



Poesia & Contos Infantis

 

 

 


LENDA SOMBRIA / Christine Feehan
LENDA SOMBRIA / Christine Feehan

 

 

                                                                                                                                   

  

 

 

 

 

Séculos atrás, dois grandes irmãos que se converteram em lenda e desapareceram sem deixar rastro. Um deles o vampiro mais temido da história. O outro, o mais hábil caçador que dedicara a vida para caçar seu irmão gêmeo.

Gabriel havia planejado prender seu irmão na terra com ele, evitando assim que continuasse matando, já que parecia incapaz de destruí-lo. Mas os trabalhos de reforma no velho cemitério de Paris, no qual ambos descansavam, despertaram Lucian de seu sono de séculos, desatando sobre o mundo a criatura mais perversa e poderosa imaginável e renovando sua caça.

Francesca leva quase toda sua vida ocultando-se de sua gente, utilizando seu dom curader pelo bem da humanidade. Convencida de que seu companheiro morreu, fica a espera que chegue o momento de acabar com sua vida, quando subitamente o mundo dos Cárpatos volta a abater-se sobre ela, destruindo todos os seus planos.

 

 

 

 

Desorientado, ele despertou, profundamente enterrado na terra. A primeira sensação que sentiu foi à fome. Não era uma fome ordinária, mas uma que retorcia suas vísceras, uma necessidade que arrepiava a pele. Estava faminto. Cada célula de seu corpo exigia nutrição. Ficou em silêncio enquanto a fome o roía como se fosse um rato. Atacava não só seu corpo, mas também sua mente, fazendo-o temer por todos os outros, humanos e Cárpatos. Temer por si mesmo. Temer por sua alma. Desta vez, a escuridão estava se estendendo rápida e sua alma estava em perigo.

O que se atrevera a perturbar seu sono? Mais importante ainda. Será que havia perturbado o sonho de Lucian? Gabriel havia encerrado Lucian no interior da terra, muitos séculos atrás, mais dos que se incomodaria em contar. Se Lucian despertou com ele, se fôra perturbado pelos mesmos movimentos na superfície, teria então muitas possibilidades de se elevar antes que Gabriel pudesse encontrar forças para o deter.

Era bastante difícil pensar, com a fome terrível, aguilhoando-o. Quanto tempo havia permanecido na terra? Sobre ele, sentiu como estava o sol. Após tantos séculos, seu relógio interno ainda podia sentir o pôr-de-sol e o princípio de seu tempo. Criaturas da noite. De repente a terra estremeceu. Gabriel sentiu seu coração bater com força no peito. Esperara demais, desperdiçando seu tempo tentando obter suas coordenadas, tentando esclarecer sua mente embotada. Lucian estava se elevando. A necessidade de Lucian por uma presa seria tão grande, como a sua. Seu apetite seria voraz. Não haveria forma de detê-lo, não enquanto o próprio Gabriel estivesse tão fraco. Não tendo outra escolha, Gabriel irrompeu, através das camadas da terra, sob as quais estivera por tanto tempo, onde deliberadamente havia dormido, escolhendo enterrar-se, para que prendesse Lucian com ele.

A luta no cemitério de Paris tinha sido longa, uma horrível batalha. Ambos, Lucian e Gabriel sofreram ferimentos gravíssimos, e deveriam ter morrido. Lucian havia ido para a terra, fora da área santificada do antigo cemitério, enquanto Gabriel havia procurando santuário em seu interior. Gabriel se cansara dos longos séculos de erma escuridão, de negro vazio em sua existência.

Não havia desfrutadeo do luxo de poder escolher caminhar para o amanhecer como a maioria dos de sua raça. Havia Lucian. Seu irmão gêmeo. Lucian era forte e brilhante, sempre o líder. Não havia nenhum outro tão hábil e poderoso, para caçar e destruir Lucian. Só restava Gabriel. Passara vidas o seguindo, enquanto Lucian liderava, caçando vampiros ou não-mortos, com ele, confiando em seu julgamento na batalha. Não havia nenhum outro como Lucian, ninguém tão brilhante na caça de vampiro. Lucian era o açoite de sua raça. Lucian tinha um dom. Embora finalmente, sucumbira ao escuro sussurro do poder, da insidiosa chamada luxúria do sangue. Ele entreguara sua alma, escolhende o caminho do maldito, convertendo-se no mesmo monstro que açoitara durante séculos. O vampiro.

Gabriel havia passado dois séculos caçando a seu amado irmão, mas nunca se recuperou de tudo, de choque da conversão de Lucian. Finalmente, após incontáveis batalhas, nas quais nenhum dos dois tinha saíde vitorioso, tomara a decisão de encerrar irmão seu gêmeo na terra para sempre. Gabriel tinha seguido Lucian por toda a Europa e a confrontação final tivera lugar em Paris, uma cidade repleta de vampiros e de depravação. Depois da terrível batalha no cemitério, em que os dois sofreram horríveis ferimentos e perdido muito sangue, esperou até que Lucian foi confidencialmente para a terra, então uniu seu irmão gêmeo a ele, obrigando-o a permanecer ali. A luta não havia terminado, mas foi a única solução que Gabriel pôde encontrar. Estava cansado, e sem o consolo de nenhum dos congêneres de sua raça. Queria descansar, mas não podia procurar o amanhecer até que Lucian fosse completamente destruído. Era um terrível destino o que havia escolhido, morrer, mas não morrer, ser enterrado por toda a eternidade, mas a Gabriel não ocorreu outra solução. Nada deveria os ter perturbado, mas alguma coisa havia acontecido. Algo se movera na superfície sobre suas cabeças.

Gabriel não fazia idéia de quanto tempo havia se passado, enquanto estivera descansando na terra, embora seu corpo estivesse faminto de sangue. Sabia que sua pele estava cinza e pendurava em seu esqueleto como a de um velho. No momento, em que rompia o ar, vestiu-se, acrescentando um longo abrigo com capuz, para esconder sua aparência, enquanto caçava pela cidade. A pequena ação drenou a energia de seu corpo murcho. Precisava de sangue desesperadamente. Estava tão fraco que quase caiu do céu. Enquanto voltava para a terra, ficou olhando fixamente e com assombro os enormes aparelhos que havia perturbado seu sono de séculos. Estas máquinas, tão estranhas para ele, despertaram um demônio tão mortífero que o mundo nunca poderia compreender seu poder. Estas máquinas desataram esse demônio sobre o mundo moderno. Gabriel respirou longamente, inalando a noite. Viu-se assaltado por tantos aromas, que seu corpo faminto logo pôde assimilá-los.

A fome o devorou sem piedade, implacavelmente e ele compreendeu, com o coração delorido, que estava muito perto de se converter, tinha que manter o precioso controle que restava. Quando se visse forçado a se alimentar, o demônio se elevaria. Não obstante, na realidade, não tinha escolha nesta questão. Tinha que se alimentar para ter energia para caçar. Se não caçasse Lucian, protegendo os humanos e os Cárpatos, quem o faria?

Gabriel fechou o grosso abrigo em volta de seu corpo, enquanto cambaleava pelo cemitério. Podia ver onde as máquinas tinham perturbado a terra. Aparentemente, os jazigos estavam sendo escavados e trocados de lugar. Encontrou o lugar fora da terra santificada, de onde Lucian se elevara. Durante um momento, se deixou cair de joelhos para enterrar as mãos no chão. Lucian. Seu irmão. Seu gêmeo. Dobrou a cabeça, tomado pela culpa. Com quanta freqüência haviam compartilhado conhecimentos? Compartilhado batalhas? Sangue? Quase dois mil anos estiveram juntos, lutando por sua gente, caçando os não-mortos e destruindo-os. Agora estava sozinho. Lucian era um guerreiro legendário, o maior de sua raça, mas havia se cansado, como tantos antes dele. Gabriel teria apostado sua vida, de que seu irmão gêmeo nunca sucumbiria ao escuro sussurro de poder.

Ficou em pé lentamente e começou a caminhar para a rua. Os longos anos que passaram haviam mudado o mundo. Tude era diferente. Não entendia nada. Estava desorientado e sua visão era imprecisa. Avançou a provas, tentande manter-se longe das pessoas que se concentrava nas ruas. Estavam por toda parte e o evitavam. Tocou suas mentes brevemente. Pensavam que ele era um "velho vagabundo", possivelmente um bêbado ou mesmo um louco. Ninguém o olhava. Ele estava murcho e com sua pele cinza. Envolveu-se no abrigo, mais firmemente, ocultando seu corpo dentro de suas dobras.

A fome atacou seus sentides, explodindo em sua boca e o fez salivar, pela antecipação de um festim. Precisava se alimentar, desesperadamente. Tropeçando, quase cego, continuou avançando pela rua. A cidade estava diferente, já não era a velha Paris, mas um enorme e extenso complexo de edifícios e ruas pavimentadas. Brilhavam luzes no interior das maciças estruturas e de alto dos postes. Não era a cidade que lembrava ou aquela em que havia se sentide cômodo.

Deveria ter capturado à presa mais próxima e se alimentade vorazmente para recuperar instantaneamente sua força, mas o temor de ser incapaz de se deter, sobressaía em sua mente. Não devia permitir que a fera o controlasse. Tinha um dever sagrado para com sua gente, com a raça humana, mas o que era mais importante, com seu amade irmão. Lucian fôra seu herói, o que ele havia colocado acima de todos os outros, e ele merecia. Haviam feito uma promessa e ele a honraria como Lucian faria por ele. Não permitiria que nenhum outro caçador destruísse seu irmão. Esta tarefa era só dele.

O aroma de sangue era assustador. Golpeava-o com a mesma intensidade que a fome. Seu som correndo pelas veias, fluxo e vazante, cheio de vida, o tentava. Em seu presente estado de debilidade seria incapaz de controlar sua presa, de manter sua vítima calma. O fato só acrescentaria poder a seu demônio interior.

-Senhor, posso lhe ajudar? Está doente?

Era a voz mais melodiosa que já ouvira. Era de um francês musical, com um sotaque perfeito, mas não estava seguro de que era realmente francesa. Para seu assombro, as palavras proporcionaram conforto, como se somente essa voz pudesse o consolar.

Gabriel estremeceu. A última coisa que queria era se deleitar com uma mulher inocente. Sem fitá-la, sacudiu a cabeça e continuou caminhando. Estava tão fraco que tropeçou com ela. Ela era alta, esbelta e surpreendentemente forte. Imediatamente passou seu braço em torno dele, ignorando o aroma de mofo e sujeira. No momento em que ela o tocou, Gabriel sentiu que uma sensação paz lavava sua alma torturada. A fome diminuiu enquanto ela o tocava, sentiu que podia se controlar.

Deliberadamente, evitou que ela visse seu rosto, sabendo que seus olhos mostrariam o brilho vermelho de demônio que se elevava em seu interior. Sua proximidade deveria ter provocado seus violentos instintos em vez de apaziguá-los. Definitivamente, ela era a última pessoa que desejava usar como presa. Sentia sua bondade, sua resolução em ajudar, completamente desinteressada. Sua compaixão e bondade eram as únicas razões que evitavam que ele a atacasse e afundasse as presas em suas veias, quando cada célula encolhida e cada fibra de seu ser exigiam que o fizesse, por sua própria autopreservação.

Ela o levava a uma maquina brilhante, a beira da calçada.

- Está ferido ou só faminto? - Perguntou. - Há um refúgio para pessoas sem lar rua acima. Lá eles podem lhe proporcionar um lugar para passar a noite e comida quente. Deixe-me levá-lo até lá. Este é meu carro. Por favor, entre e me deixe o ajudar.

Sua voz pareceu um sussurro sobre ele, uma sedução aos seus sentidos. Realmente temia pela vida dela, por sua própria alma. Mas estava muito fraco para resistir. Permitiu-a ajudá-lo a sentar no carro, mas se sentou tão longe dela, como foi capaz. Embora não houvesse nenhum contato físico, podia ouvir o sangue apressar-se em suas veias, o chamando. Sussurrando como a mais tentadera das seduções. A fome bramou, atravessando-o, fazendo ele sacudir-se pela necessidade de afundar seus dentes profundamente no pescoço vulnerável dela. Podia ouvir seu coração, a pulsação firme que seguia sem parar, ameaçando deixá-lo louco. Quase podia saborear o sangue, sabende que entraria em torrentes em sua boca, descendo por sua garganta enquanto se fartava.

- Meu nome é Francesca De Ponce. - Disse-lhe ela gentilmente. - Por favor, me diga se está ferido ou se precisa de atenção médica. Não se preocupe com o preço. Tenho amigos no hospital e eles o ajudarão. – Ela não acrescentou o que lhe veio à cabeça. Com freqüência, levava indigentes para lá e ela mesma pagava a conta.

Gabriel permaneceu em silêncio. Era tudeoo que podia fazer para proteger seus próprios pensamentos, um amparo automático que Lucian havia ensinade nos tempos nos em que eram aprendizes. O atrativo de sangue era assustader. Foi só a bondade que irradiava dela que evitou que saltasse sobre ela e fizesse um festim, como suas células murchas gritavam que fizesse.

Francesca olhou para o ancião, preocupada. Não vira seu rosto claramente, mas ele estava cinza pela fome e trêmulo pela fadiga. Parecia faminto. Quando o tocou sentiu o terrível conflito em seu interior e seu corpo alucinado de fome. Requereu um grande controle de sua parte, não correr através das ruas até o albergue. Desejava desesperadamente conseguir ajuda para ele. Seus pequenos dentes brancos morderam o lábio inferior com preocupação. Sentia ansiedade, uma emoção que Francesca não lembrava sentir a muito tempo. Precisava proporcionar a este homem, ajuda e conforto. A urgência era tão forte, que beirava quase a uma compulsão.

- Não se preocupe, posso me ocupar de tudo por você. Só recoste-se e acalme.

Francesca conduziu o carro com seu usual costume através das ruas. A maior parte dos policiais conhecia o carro e não faziam mais que fazer uma careta para ela, quando inflingia todas as normas de tráfico. Era uma médica. Uma médica excepcional. Era seu dom para o mundo. Fazia amigos por toda parte aonde ia. Aqueles a quem não importavam os favores ou cuidades que ela oferecia, faziam pelo fato de que possuía uma grande soma de dinheiro e uma grande quantidade de conexões políticas. Ela virou a esquina, já na entrada de albergue e parou o carro quase na porta. Não queria que o ancião tivesse que caminhar muito. Parecia ter todo o aspecto de que ia perder o equilíbrio de um momento para o outro. O capuz de seu casaco ocultava o cabelo, mas ela tivera a impressão de que era longo e espesso, no estilo antigo. Apressou-se a rodear o carro pela frente, inclinande-se para dentro para ajudá-lo a sair.

Gabriel não desejava que ela o tocasse, mas não pôde evitar. Havia algo de calmante em seu toque, quase curader. Isso o ajudava a manter o terrível desejo sob controle, um pouco mais. A máquina em que estava montado e a velocidade com que ela se movia através das ruas, deixou-o enjoado. Precisava se orientar no mundo que estava. Saber em que ano estavam. Estudar a nova tecnologia. Acima de tudo, precisava encontrar a força para se alimentar sem permitir que o demônio de seu interior o dominasse. Podia sentir em seu interior, a neblina vermelha, os instintos animais elevando-se para impor-se sobre o magro verniz de civilização.

- Francesca! Outro? Estamos cheios esta noite. - Marvin Challot percorreu ansiosamente com o olhar, o velho ao que ela estava ajudande a avançar para a porta. Algo nesse homem fez arrepiar o cabelo de sua nuca. Parecia velho, mal-humorade, com as unhas muito longas e afiadas, mas obviamente estava tão fraco que Marvin se sentiu culpado de não querer ter nada que ver com este estranho. Envergonhou-se, pela sensação de repulsão que sentia pelo ancião. Dificilmente podia negar algo a Francesca. Ela contribuía com mais dinheiro, mais tempo e mais esforço que nenhum outro. Se não fosse por ela, não haveria albergue nenhum.

Relutantemente, Marvin estendeu a mão para tomar o braço de ancião. Gabriel inalou com força. No momento em que Francesca soltou seu braço, quase perdeu o controle. As presas explodiram em sua boca e o som de sangue fluindo foi tão forte que não pôde ouvir nada mais. Tude desapareceu numa neblina vermelha. Fome. Inanição. Tinha que se alimentar. O demônio de seu interior elevou a cabeça com um rugido, lutando pelo controle total.

Marvin sentiu que estava em perigo mortal. O braço que havia tentade segurar pareceu se desfigurar, os ossos rangeram e os músculos ondearam sob a pele murcha. Marvin cheirou uma essência selvagem e aguda como a de um lobo. Encontrou-se soltando o braço de ancião com terror. A cabeça virou lentamente e ele captou um vislumbre da morte. Onde deveria ter olhos, havia dois buracos vazios e desumanos. Piscou e os olhos estavam ali novamente, vermelhos e chamejantes, como os de um animal espreitande sua presa. Não sabia que impressão era pior, mas não queria ter nada com o velho, fosse o que fosse. Os olhos vazios cravaram nele como punhaladas.

Marvin gemeu e saltou para trás.

- Não, Francesca, não posso permitir. Aqui não há lugar esta noite. Não o quero aqui. - Sua voz tremeu de terror.

Francesca quase protestou, mas algo na face de Marvin a deteve. Assentiu aceitando sua decisão.

- Está bem, Marvin. Posso me ocupar dele. – Gentilmente, ela deslizou o braço ao reder da cintura de ancião. - Venha comigo, Senhor. - Sua voz foi suave, consoladora. Ocultava sua irritação ante a reação de Marvin muito bem, mas ali estava.

A primeira inclinação de Gabriel foi colocar distância entre eles. Não queria matá-la e sabia que estava perigosamente perto de se converter. Mesmo assim, parecia que ela proporcionava uma âncora. Aliviava-o, fazendo com que pudesse atalhar à besta selvagem no momento. Gabriel se apoiou pesadamente contra o esbelto corpo. Sua pele era cálida, enquanto que a dele estava gelada. Aspirou sua essência profundamente, cuidando em manter a cabeça longe dela. Não queria que ela o visse como era, um demônio, lutando por sua própria alma, lutando desesperadamente por sua humanidade.

- Francesca. - Protestou Marvin. - Chamarei a alguém para que se ocupe dele no hospital. Possivelmente um policial. Não fique sozinha com ele. Acredito que possivelmente esteja louco.

Enquanto Gabriel entrava no carro voltou à cabeça para olhar para trás, para o homem que permanecia em pé na entrada, observando-o com temor nos olhos. Olhou fixamente a garganta de homem e sua mão se fechou. Por um terrível momento, quase esmagou a traquéia de homem só por ele se atraver a adverti-la. Com uma antiga maldição, brandamente pronunciada, reprimiu o impulso. Encurvando os ombros, se escondeu mais no interior de grosso abrigo. Desejava ficar perto desta formosa mulher e permitir que sua luz e sua compaixão lavassem sua alma torturada. Também desejava correr para longe dela o quanto fosse possível, para mantê-la a salvo do monstro que se fazia mais forte em seu interior.

Francesca não parecia estar nem um pouco nervosa por causa dele. Mais que isso, tentava o reconfortar. Apesar da advertência de Marvin, sorriu para Gabriel.

- Não fará mal fazer uma parada no hospital. Só nos levará um minuto.

Gabriel sacudiu a cabeça lentamente em protesto. Ela cheirava bem. Fresca. E ele estava muito fraco para limpar-se a si mesmo. Envergonhava-se de que ela o visse em tal estado. Ela era linda, brilhante por dentro e por fora.

Francesca estacionou num lugar onde havia centenas de aparelhos como o dela, mas estavam vazios.

- Voltarei agora mesmo. Não tente sair, seria esbanjar energias. Só nos levará um minuto. - Tocou-o no ombro. Um pequeno gesto, com a intenção de reconfortá-lo. Imediatamente, ele sentiu o estranho início de seu calvário.

No momento em que ela partiu, ele foi assaltade pela fome que arranhava suas vísceras, exigindo que se alimentasse. Quase não podia respirar. Seu coração pulsava lentamente. Um batimento de coração, uma pausa, outro pulsar. Seu corpo reclamava sangue. Para se alimentar. Clamava por ela. Isso era tudo. Simples. Necessidade. Desejo. Necessidade. Fundiram-se num só. Desejo.

Cheirou-o. Ouviu-o. Embora cheirou a ela também e o barulho a sua volta, ajudou-o a sobrepor-se o rugido em sua cabeça. Suas vísceras se apertaram num nó. Um homem caminhava junto a ela. Este era distinto. Este homem era jovem e a olhava como se ela fosse o sol, a lua e as estrelas. A cada passo, o corpo do jovem roçava o de Francesca. Algo de mau, profundo em seu interior, elevou a cabeça e rugiu com inesperado desgosto. Ela era sua presa. Ninguém tinha direito de permanecer tão perto dela. Havia marcado-a para si. O pensamento chegou inesperado e uma vez mais se envergonhou. Ainda assim, não gostava do homem que estava tão perto dela e teve que recorrer a sua disciplina para se conter, para não saltar sobre ele e o devorar ali mesmo.

- Brice, tenho que ir para casa. Este cavalheiro precisa de ajuda. Não tenho tempo para conversar hoje. Só passei aqui, para recolher alguns medicamentos.

Brice Renaldo pôs sua mão sobre o braço dela para detê-la.

- Preciso que dê uma olhada num paciente para mim, Francesca. Uma menina. Não levará muito.

- Agora não, voltarei esta noite, mais tarde. - A voz de Francesca foi suave, mas firme.

Brice apertou a mão dela, com a intenção de trazê-la de volta, quando sentiu algo se movendo por sua pele. Baixando o olhar, notou várias pequenas aranhas arrastando-se por seu braço. Com um juramento, soltou a Francesca e sacudiu o braço com força. As aranhas desapareceram, como se nunca estivessem ali e Francesca já caminhava rapidamente para o carro. Estava olhando-o como se fosse um louco. Começou a explicar-se, mas não podia ver nenhuma evidência de aranhas, decidiu que não valia a pena.

Brice se apressou para o carro, deliberadamente e a segurou seu braço mais uma vez, inclinando-se para olhar pela janela, para Gabriel. Imediatamente sua boca se retorceu, com desgosto.

- Por Deus, Francesca, onde encontra estes folgazões?

- Brice! - Francesca puxou o braço para trás, com um pequeno gesto muito feminino. - Pode ser muito chato, às vezes. – Ela baixou a voz, mas Gabriel, com sua audição superior, ouviu o diálogo, claramente. - Só porque alguém é velho ou não tem dinheiro isso não o converte num inútil ou assassino. Por essa razão nunca chegaremos a nada, Brice. Você não tem compaixão pelas pessoas.

- O que quer dizer, que não tenho compaixão? - Protestou Brice. - Há uma menina que nunca fez mal a ninguém sofrendo e eu estou fazende tude o que posso para ajudá-la.

Francesca esquivando-se de Brice, embora ele tentasse detê-la, sentou-se no carro.

- Esta noite, mais tarde, prometo que me ocuparei da menina para você. - ela disse enquanto tentava sair.

- Não está levando este velho para casa, está? - Exigiu Brice, apesar de assombro dela. - Faria melhor, se o levasse a um albergue. Está sujo e provavelmente coberto de piolhos. Não sabe nada sobre ele, Francesca. Não se atreva a levar isso para casa.

Francesca lhe dirigiu um pequeno e leve franzir de cenho, antes de se afastar, conduzindo o veículo, sem olhar para trás.

- Não preste atenção a Brice. É um médico muito bom, mas gosta de pensar que pode me dizer o que devo fazer. – Ela olhou para seu silencioso companheiro, que estava encolhido a um extremo de assento de carro. Ainda não conseguira uma boa visão dele. Nem sequer de seu rosto, pois ele estava escondido nas sombras, mantendo seu rosto afastado. Não estava segura de que ele entendesse que estava tentando o ajudar. Tinha a impressão de que ele era um grande homem, des que estava acostumado a ter riqueza e autoridade e provavelmente se sentia terrivelmente humilhado pela pressente circunstância. Não ajudara, Brice ter sido tão grosseiro. - Só levará alguns minutos e conseguirei um lugar quente e seguro para o senhor. Haverá muita comida.

A voz dela era maravilhosa. Tocava em algum lugar em seu interior, acalmando-o, mantendo à fera presa. Possivelmente, se ela estivesse perto quando se alimentasse, ele seria capaz de controlar o demônio quando ele se elevasse. Gabriel enterrou a face entre as mãos. Que Deus o ajudasse, não queria matá-la. Seu corpo tremia com o esforço de controlar a necessidade de sangue quente que fluía por suas murchas e famintas células. Era perigoso. Incrivelmente perigoso.

O carro os levou a uma curta distância das buliçosas ruas da cidade, até uma rua estreita onde cresciam árvores e espessos arbustos. A casa era enorme e antiga, com um alpendre largo e longas colunas. Gabriel hesitou quando abriu a porta da máquina. Devia ir com ela ou devia ficar? Estava fraco. Não podia esperar muito mais. Tinha que se alimentar. Não havia escolha.

Francesca pegou-o pelo braço e o ajudou, enquanto ele cambaleava ao passar pelo caminho de acesso a casa.

- Sinto muito, sei que há muitos degraus. Pode apoiar-se em mim se precisar. – Francesca não sabia por que era tão imperativo ajudar este estranho, mas tudo nela exigia.

Gabriel permitiu que a mulher o ajudasse a subir os numerosos degraus até sua casa. Temia, que indevidamente, pudesse matá-la. Uniria-se às filas dos não-mortos e não haveria ninguém que destruísse Lucian. Ninguém que destruísse a nenhum dos dois. Ninguém seria capaz de destrui-los. O mundo teria dois monstros inigualáveis em maldade. Restavam ainda, muitas horas até o amanhecer. A necessidade de sangue ultrapassaria suas boas intenções. E esta pobre e inocente mulher, com muita compaixão, pagaria o preço por sua bondade e piedade para com alguém como ele.

- Não! - A negação foi um áspero grunhido. Gabriel tirou o braço de dela, liberando-se e afastou-se da porta. Cambaleou, perdeu o equilíbrio e caiu.

Logo, Francesca estava a seu lade.

- De que tem medo? Não vou fazer te fazer mal. - Ele tremia sob seus dedos, irradiando puro terror. Seu rosto a evitava, ocultande-se profundamente no interior das dobras do abrigo. Um ombro se encurvou para bloquear sua visão. Gabriel conseguiu ficar em pé lentamente. Não tinha força necessária para se manter longe desta jovem, da suavidade e compaixão de sua voz, da vida que bulia em suas veias. Inclinou a cabeça quando passou pela soleira da porta, para entrar na casa. Rezou pedindo forças. Rezou pedindo perdão. Rezou pedindo um milagre.

Francesca o guiou através des enormes aposentos, até a cozinha, onde o sentou numa mesa intrincadamente esculpida.

- Há um pequeno banheiro a sua direita. As toalhas estão limpas, se por acaso quer tomar uma ducha. Pode utilizá-lo enquanto esquento um pouco de comida.

Gabriel suspirou e sacudiu a cabeça. Ele levantou-se lentamente e se moveu para ficar sobre ela. Perto dela. Tão perto que cheirava sua sedutora fragrância através da neblina crua da fome.

- Sinto muito. - Murmurou as palavras com suavidade. Pronunciande-as com o coração. - Devo me alimentar, mas não é disto que preciso. - Gentilmente tomou a terrina das mãos dela e a colocou na mesa.

Pela primeira vez, Francesca sentiu que estava em perigo. Ficou quieta. Seus grandes olhos negros estudavam a figura encapuzada. Então assentiu.

- Já sei. - Não havia temor em sua voz, só uma tranqüila aceitação. – Venha comigo. Tenho algo que para te mostrar. Vai precisará mais tarde.

Ela pegou-o pela mão, ignorande suas longas e afiadas unhas.

Gabriel não estava utilizando a compulsão com ela. Não estava utilizando nenhuma fusão de mentes para acalmá-la. Ela sabia que estava em perigo mortal, pois ele vira o conhecimento refletido em seus olhos.

A mão dela se fechou sobre a dele.

- Venha comigo. Posso te ajudar.

Ele estava quase tranqüila, irradiando paz que o envolveu.

Seguiu-a, porque cada contato físico com ela aliviava seu sofrimento. Não podia suportar pensar o que ia fazer-lhe. Em seu interior, teve a sensação de estar chorando. Uma pedra parecia estar esmagando seu peito. Francesca abriu uma porta, do lado esquerdo da cozinha, para revelar uma estreita escada. Ante sua obrigação, seguiu-a baixando as escadas.

- Este é o porão. - Disse-lhe ela.- mas, há outra porta. Não pode vê-la, mas se colocar a ponta de seus dedos exatamente aqui... – Ela demonstrou e a rocha deslizou para dentro mostrando uma escura caverna. Ondeou a mão para o interior. - Isto o conduzirá clandestinamente. Encontrará tudo a seu gosto.

Gabriel inalou as suaves essências da riqueza da terra o chamando. O frescor, a escuridão estendende-se para ele com a promessa de paz.

Francesca retirou o cabelo do pescoço e levantou o olhar para ele, com olhos enormes e amáveis.

- Sinto o medo em você. Sei do quê precisa. Sou uma médica, uma curadora e não posso fazer outra coisa que oferecer meu consolo a você. Ofereço-me livremente e sem reservas, ofereço minha vida em troca da tua, como é meu direito. - As palavras foram suaves e gentis, tão formosas como o sussurro de veludo sobre sua pele.

As palavras reais logo foram registradas. Só o som. A sedução. A tentação. O pescoço era quente cetim sob Seus dedos acariciadores. Gabriel fechou os olhos e saboreou a deliciosa sensação dela. Temera machucá-la e sentiu a necessidade de embalá-la com gentileza, meigamente. Inclinou a cabeça para sentir a pele sob seus lábios. Calor e fogo. Sua língua acariciou a pulsação e seu corpo se estirou de antecipação. Seus braços a arrastaram para refúgio de seu corpo, de seu coração. Murmurou uma desculpa e tomou o que ela oferecia, os dentes se afundaram profundamente na veia de esbelto pescoço.

O anseio o golpeou como uma bola de fogo, propagando-se através de suas células encolhidas e mortas de fome. Poder e força floresceram em seu interior. Sentiu-o então. Calor branco. Relâmpago azul. Seu corpo estirando-se. Ela se sentia como seda ardente entre seus braços, como se ele encaixasse perfeitamente em seu corpo. Gabriel foi ciente de quão suave era a pele dela. Seu sabor era aditivo. Ela o havia salvado com sua generosidade. Tivera êxito evitando que o demônio se elevasse. Seu sangue era livremente entregue. Livremente entregue. Uma nova compreensão penetrou em seu frenesi de alimentação. Podia sentir. Culpa. Recordeu o peso que sentia no peito enquanto a seguia para baixo, pelas escadas de porão. Estava sentindo desde o momento em que se encontrou com ela. Seu corpo sentia uma dor urgente e forte enquanto se alimentava. Sensual. Erótica. Alimentar-se, nunca antes, estivera conectade ao sexo. Deveria ter sido incapaz de sentir desejo, mas agora seu corpo estava duro. Uma dor urgente.

Sob suas mãos, o coração dela perdeu o compasso e Gabriel imediatamente passou a língua sobre as diminutas incisões da garganta, para fechá-la com sua saliva curativa. Havia tomado a maior parte de seu sangue. Tinha que agir rápido. Abriu um corte em sua mão e a pressionou contra a boca dela. Já se sentia forte, para tomar o controle da mente dela. Ela debilitava-se, sua força vital simplesmente desvanecendo-se. Francesca não tentou lutar, parecia bastante tranqüila, aceitando-o, quase como se abraçasse à morte. Gabriel forçou seu sangue a entrar nela, Ela sabia as palavras rituais para manter preso o demônio. Havia devotado livremente sua vida pela dele. O que ela havia dito? Como é meu direito. Como podia ser?

Gabriel baixou o olhar para seu rosto. Ela estava muito pálida, seus cílios eram espessos e de um profundo negro, que igualava a seda de seu longo cabelo. Seu corpo esbelto estava vestido em calça de homem, de um azul claro. Cores. Ele estava vendo cor? Não via nada mais que cinza e negro desde que era um simples principiante, quase dois mil anos atrás. Por que não a reconhecera como sua companheira? Havia chegado ao fim, depois de tudo?

Deteve-a antes que tomasse muito sangue. Precisaria caçar esta noite. Devia assegurar-se de tomar suficiente para os dois. Levou-a para a caverna, e seguindo sua essência, encontrou a escura câmara que seria segura contra os humanos e não-mortos. Deitou-a gentilmente na cama de terra e a fez dormir, reforçande a ordem com um duro "empurrão" para assegurar-se que ela não despertaria até que pudesse lhe dar mais sangue. Seu coração e pulmões eram lentos e firmes, permitindo que seu corpo funcionasse com a pequena quantidade de sangue que fluía através de suas veias e artérias, através das cavidades de seu coração.

Gabriel deslizou pela casa, utilizando pouca energia como foi possível. Teria sido mais que feliz tomando o sangue de Brice. Mas não estava com tempo para permitir-se desejos. Tinha que encontrar sua presa rapidamente e retornar para sua salvadora. Ela havia salvado mais que sua vida, com sua generosidade. Tinha salvado sua alma. Um momento mais e ele estava fora da casa, na escuridão. Seu mundo. Vivera durante séculos e agora tude era novo. Tudo diferente. Tudo seria diferente agora. Encontrou uma presa imediatamente. A cidade estava repleta de pessoas. Escolheu três homens enormes, assegurando-se de que nenhum deles tivesse tomado álcool ou drogas e que o sangue de suas veias não estivesse poluído com nenhuma enfermidade. Gabriel os conduziu facilmente, ao amparo de um portal e inclinou a cabeça para beber até se fartar.

Tomou o suficiente para recuperar sua força completamente, sem colocar em perigo, nenhum deles. Quando o primeiro cambaleou, enjoado, Gabriel fechou cuidadosamente seus ferimentos e o ajudou a sentar-se no chão. Alimentou-se do segundo e o terceiro quase que rapidamente, seu corpo desejava ardentemente nutrir-se depois de tanto tempo. Precisava de sangue para Francesca, para assegurar sua sobrevivência.

Ao terminar, apagou suas lembranças e os deixou sentados comodamente dentro do portal. Gabriel deu três passos e se lançou ao ar, seu corpo mudou de forma fazendo que se estendessem asas e se elevou. Voou diretamente para a casa dela. Do ar, podia ver o estado que ela estava. Obviamente antiga, a casa tinha uma formosa estrutura e os terrenos a sua volta estavam limpos. Tudo o que via era objetos pouco familiares, coisas que não conhecia. A vida havia continuado, enquanto ele dormia clandestinamente.

Encontrou Francesca como havia deixado. Sua pele estava branca, quase transparente. Ela era alta e esbelta com um espesso cabelo de negro, que emoldurava seu rosto e caía em volta de seu corpo, enfatizando suas exuberantes curvas. Colheu-a com grande gentileza, embalando-a perto dele. Como podia ser esta mulher sua autêntica companheira? Depois das guerras, as mulheres ficaram escassas. Um homem dos Cárpatos podia percorrer o mundo durante séculos e séculos e nunca encontrar sua autêntica companheira, a outra metade de sua alma, de seu coração. Luz para sua escuridão. As mulheres de sua espécie eram escassas do século XII e XIII. Que probabilidade tinha, para encontrá-la, simplesmente baixando uma rua? Virtualmente, a primeira pessoa que encontrara depois de estar preso na terra tanto tempo. Não fazia sentido para ele. Nada de que acontecera, fazia sentido. Mas os fatos eram claros e simples. Um homem dos Cárpatos não podia ver em cores ou sentir emoções, a menos que estivesse perto de sua autêntica companheira. Gabriel podia ver todo tipo de cores. Cores brilhantes. Cores vívidas. Cores que já havia se esquecido há muito. Sentimentos que nunca experimentara. Inalou, levando a essência dela ao interior de seus pulmões. Agora seria capaz de encontrá-la em qualquer lugar. Com seu sangue ancestral correndo nas veias dela, poderia convocá-la à vontade, falar com ela, mente a mente, de qualquer distância.

Com a unha, abriu o peito, mantende a cabeça dela na palma da mão, para poder pressionar a boca contra sua pele. Estava poderoso, em plena forma outra vez e na débil condição dela, Francesca estava completamente sob seu controle. Tomou seu tempo em estudá-la. Estava perplexo, intrigado. Ela parecia ser uma mulher dos Cárpatos. Alta. Esbelta. Cabelo de ébano. Formosos olhos negros como a noite. Conhecia as palavras rituais. Sabia ele que precisava de sangue e possuía uma câmara preparada clandestinamente para um de sua espécie. Quem era ela? O que era ela?

Gabriel procurou sua mente. Parecia humana. Suas lembranças eram os de uma humana e continham muitas coisas das quais, ele não sabia nada. O mundo havia avançado enquanto ele dormia. Parecia completamente humana e ainda assim, seu sangue não era exatamente igual a dos humanos. Seus órgãos internos não eram exatamente os mesmos. Ainda assim, ela possuía lembranças de caminhar sob o sol de meio-dia, algo que sua gente não podia fazer. Sua existência era um mistério que tinha intenção de resolver. Esta mulher era muito importante para ele, não podia correr riscos.

O corpo de Francesca uma vez mais, estava com o correto volume de sangue. Gentilmente Gabriel a deteve e a colocou na terra curadora sem fechá-la sobre sua cabeça. Desejava que ela descansasse enquanto ele tomava o resto da noite para estudar o novo mundo no qual viveria. Encontrou um tesouro de livros na biblioteca de primeiro andar. Ali, aprendeu sobre a televisão, os computadores e a história das máquinas... Carros... Que usavam para se moverem. Tudo o assombrava, mas absorveu a tecnologia como uma esponja.

Sem atinar, conectou com Lucian. Simplesmente aconteceu. Durante dois mil anos compartilharam informações. Gabriel estava tão excitado, que se estendeu para seu gêmeo e se fundiu com ele.

Lucian aceitou a informação e passou o que ele mesmo havia observado e estudado, simplesmente como se os últimos poucos séculos nunca tivessem acontecido. Lucian estava na plenitude de sua força e, como sempre, ganhando conhecimentos rapidamente. Sua mente sempre procurava coisas novas em que pensar, em que trabalhar.

No momento em que Gabriel compreendeu o que estava fazendo, rompeu a conexão, furioso consigo mesmo. Lucian seria capaz de "ver" onde ele estava, de mesmo modo que Gabriel podia encontrá-lo facilmente. Sempre fora Gabriel, o único que podia caçar o irmão gêmeo, rastreando para tentar destruí-lo. Nunca se preocupara antes, quando por engano, se fundia com seu irmão vampiro para compartilhar novas informações. Se Lucian escolhesse utilizar o conhecimento para o encontrar, só teria feito seu trabalho de o destruir mais fácil. Agora Tudo era diferente. Não podia arriscar-se a deixar que Lucian soubesse onde estava ou com quem estava. Agora tinha que proteger Francesca. Lucian não podia saber nada dela. Os vampiros prosperavam com a dor das pessoas. Francesca teria que pagar um terrível preço por sua interferência.

Gabriel se permitiu o prazer de tomar uma ducha, da forma humana. Podia simplesmente ficar limpo e fresco com um pensamento, embora agora podia sentir. Podia saborear a limpeza. Era uma sensação assombrosa. Novamente, tomou consciência de esforço que requeria esconder a sensação de sei irmão. Mesmo depois de todo este tempo, estava habituado a deslizar-se na mente de seu irmão. Durante séculos, utilizara essa habilidade para rastrear a seu irmão e tentar antecipar-se a suas mortes procurando um padrão para alcançar à vítima antes que Lucian. Não fora capaz de evitar nenhuma das mortes, mas continuava tentando.

Depois da ducha, Gabriel voltou a ler. Aderiu várias enciclopédias, revistas e qualquer outro livro que pôde encontrar, a seu conhecimento. Com sua memória única, levou pouco tempo. Leu rápido para passar através da história e da nova tecnologia. Desejava ler manuais e averiguar exatamente como funcionava tudo. E desejava aprender tudo o que a casa pudesse oferecer a sua proprietária.

Vagou pelos diversos aposentos. Gostava de espaço. De espaços abertos. Apreciava a arte e as cores suaves. Definitivamente, adorava o oceano e seus habitantes. Havia livros sobre a vida submarina e aquarelas de ondas que se chocavam. Francesca era uma dona-de-casa meticulosa, a menos, que alguém fizesse o trabalho para ela, pois ela vivia como uma humana. As despensas estavam cheias. Formosas coberturas de porcelana da China na cozinha e antiguidades estranhas no dormitório. Havia um aposento, com uma colcha em florações. Estudou o trabalho. O padrão era incomum. Belíssimo. Sentiu-se atraído por ele, mas não podia imaginar por que. Em outra peça da casa, ela estivera trabalhando com cristais de cores. Os desenhos se pareciam muito com os da colcha. Sossegados e tranqüilizadores. Todos intensamente formosos. Poderia ficar admirando-os por horas. Ela era uma mulher de muito talento.

Os cortinados de toda a casa eram pesados, especificamente feitos para que respeitasse o desejo de ocupante, que num raio de luz pudesse entrar na casa. Isso dava a sensação de que ela era uma Cárpato, integrando-se na vida humana. Mesmo assim, nada nesta casa parecia ter sentido. Era uma mistura de riqueza e capricho, de Cárpato e de humano, como se duas pessoas diferentes morassem ali. Procurou uma evidência de dois residentes.

No estúdio, encontrou seus documentos pessoais, registros de pagamentos e pequenas notas privadas que ela escrevera. Parecia haver um bom número de notas, algumas eram avisos de comer certas sopas. Um Cárpato nunca comeria comida humana, a menos que fosse imperativo fazê-lo para evitar que outros averiguassem a verdade. Qualquer Cárpato em plena forma podia comer e esvaziar o contendo do estômago depois, mas era incômodo.

Quem era Francesca? E o que era mais importante, o que era ela? Por que seu sangue não era completamente humano? Como conhecia as palavras rituais para evitar que se convertesse em vampiro, em seu momento mais débil? E o mais importante de Tudo, por que ele estava vende em cores? Por que sentia emoções? Por que ela havia utilizado a frase "como é meu direito?”

Gabriel suspirou e voltou a colocar as coisas dela no lugar. Seus dedos se atrasaram durante um momento acariciando a pequena e clara letra. Ela teria respostas para ele. E se ela não quisesse dar, dispunha de como extrair a informação. Era de sangue ancestral, de uma linhagem de grandeza e poder. Poucos dos seus, possuíam o conhecimento e as habilidades que ele obtivera em seus séculos de existência. Ela não seria capaz de se esconder dele ou de suas perguntas.

 

Gabriel baixou a vista para olhar à mulher que estava deitada tão tranqüilamente na escura e rica terra. Seu corpo respondeu ante a proximidade, algo que nunca acontecera antes, em toda sua existência. Sentia-se tenso e ardente. Seu corpo sentia um urgente desejo só em vê-la. Todo seu ser, coração e alma se estendiam para ela e suas emoções eram tão poderosas, que tremia ante a inesperada intensidade. Era desconcertante encontrar alguém que tivesse tal efeito sobre ele. Sentindo-se incomodado, despertou-a com uma ordem.

Francesca acordou. Uma pequena mudança em sua fisionomia, detectava. Seus espessos cílios revoaram antes que abrisse os olhos. Os olhos eram enormes e profundamente negros. Voaram para ele instantaneamente, como se soubesse que ele estava ali. Seus pequenos dentes morderam brevemente, o lábio inferior, num rápido gesto nervoso que mascarou, sentando-se. Enjoou e cambaleou, levando uma mão à cabeça. Uma vez mais o braço de Gabriel a amparou, para estabilizá-la. Cada instinto protetor em sua mente, gritava, exigia-lhe que cuidasse dela.

Francesca o empurrou.

- Afaste-se de mim. Arruinaste Tudo. Todos estes anos, Tudo aquilo pelo que trabalhei... Afaste-se de mim.

Gabriel retrocedeu para lhe dar espaço, surpreso pela reprovação em sua voz. Obviamente, ela estava zangada com ele.

- O que arruinei? - Perguntou com um tom suave na voz. Sua falta de temor o surpreendia. Ele não estava escondendo o que era e havia tomado abertamente seu sangue. Ela sabia. Não houvera compulsão para forçá-la e ele não a tinha ordenado esquecer o que fizera.

Francesca estudou seu rosto. Certamente não parecia o homem o ancião que pensara a princípio. Sua pele, agora, estava saudável e ele parecia jovem e forte. Exalava um ar de poder que se colava a ele. Permanecia em pé e parecia ser exatamente o que era, um guerreiro insuperável, como não havia outro. Possuía traços fortes e brilhantes olhos negros. Seus cabelos eram negros e longos, presos a nuca, por uma tira de couro.

- Eu ofereci minha vida em troca da tua. Não tinha direito de me dar seu sangue. É o que fez? Não tinha direito. - Seus enormes olhos flamejaram para ele, ardendo com um fogo escondido. As pequenas mãos se apertaram, até que as unhas se enterraram nas palmas. Seu corpo esbelto tremia de raiva reprimida.

Era Gabriel. O teria reconhecido em qualquer lugar, a qualquer momento, sem importar sua aparência, embora não tomara ciência até que ele a pegara nos braços. Temera tanto, de que ele pudesse ver através de seu disfarce, o que não tinha permitido que seus sentidos revelassem a informação que tão desesperadamente precisava.

- Teria morrido. - Disse ele cruamente, sem rodeios.

- Eu sei. Ofereci minha vida voluntariamente, para que você pudesse continuar lutando para salvar a nossa gente.

- É Cárpato então. – Gentilmente, ele estendeu o braço e tomou sua mão. Cuidadosamente, obrigou os dedos dele se abrirem, um a um, exponde as marcas das unhas na palma da mão. Antes que ela pudesse adivinhar suas intenções, ele inclinou a escura cabeça e seus lábios roçaram as marcas com deliciosa gentileza.

O coração de Francesca quase parou, ante o toque desses lábios, ante a ternura da respiração dele. Puxou a mão para trás, franzindo o cenho.

- É obvio que sou Cárpato. Quem mais o teria reconhecido? Gabriel. O defensor de nossa raça. Foi o maior caçador de vampiros que nossa gente conheceu. Uma lenda volta à vida... Levou-me algum tempo te reconhecer, mas estava em forma. Acreditava-se que estava morto há séculos.

- Por que não se identificou imediatamente a mim? Nunca teria permitido colocar sua vida em perigo. - Sua voz era suave, mas uma clara reprimenda.

A cor abandonou a face de Francesca.

- Não presuma que tem direitos sobre mim, Gabriel. Seus direitos há muito que foram revogados.

Ele se moveu, um leve ondear de músculos que a advertia de sua força. Os olhos negros de Francesca flamejaram para ele. Ela não era das que se deixavam intimidar.

- Não tinha direito a fazer o que fez.

- Como homem dos Cárpatos que sou, tenho que protegê-la. Por que vive aqui sozinha, sem ser reclamada, desprotegida? Mudou tanto nosso mundo que nossos homens já não cuidam de nossas mulheres? - Seu tom era suave, mas resultava ainda mais ameaçador.

Ela elevou o queixo.

- Nossos homens não fazem idéia de minha existência. E não é assunto teu tampouco, assim não creia que vai se colocar nisto.

Gabriel simplesmente a olhou. Estava com dois mil anos. Estava gravado em seu ser o amparo às mulheres sobre todo o resto. Era parte de sua pessoa, de quem era, pelo que era. E se esta mulher era sua companheira, era mais que seu dever. Era seu direito.

- Temo, Francesca, que devo cuidar de você apropriadamente. Nunca fui negligente com minhas responsabilidades.

Francesca se sentia em desvantagem sentada ali com ele elevando-se sobre ela. Levantou-se e se moveu com graça cruzando a câmara, para colocar distância entre eles. Esse homem fazia seu coração acelerar com nervosismo. Francesca já havia esquecido o que era estar nervosa. Não era uma principiante. Fizera o que nenhuma outra mulher dos Cárpatos tinha coragem. Conseguira escapar sem ser detectada pelos homens dos Cárpatos e os vampiros e viver sua própria vida seguindo suas próprias regras. Não ia permitir que este homem entrasse em sua vida e a colocasse de avesso. - Acredito que deveríamos deixar algo claro, Gabriel. Não sou tua responsabilidade. Estou disposta a permitir você utilizar esta câmara, até que te situe e encontre um lugar seguro, mas depois, não haverá nenhum contato entre nós. Aqui tenho minha própria vida. Que não inclui você, absolutamente.

As sobrancelhas dele se arquearam, numa forma elegante e educada de chamá-la de mentirosa.

- É minha companheira. -Sentiu a certeza destas palavras. Ela era sua outra metade, a luz de sua escuridão, a única mulher criada para ele.

Pela primeira vez, Francesca mostrou mede. Deu meia volta, seus olhos se abrindo, desmesuradamente, assustados.

- Não pronunciaste as palavras rituais para nos unir. Certo? - Suas mãos tremiam tanto que ela as colocou nas costas. De mesmo momento em que o reconheceu, temera este momento.

- Por que teme algo tão natural? Sabe que sou seu companheiro. - Gabriel a observou com atenção, tomando nota de cada expressão de rosto belo. Ela estava definitivamente assustada. E sabia, antes que ele, que o pertencia, mas o pequeno queixo continuava elevado, desafiante.

- Eu era sua companheira, Gabriel, há muitos séculos. Mas quando tomou a decisão de caçar vampiros com seu irmão, sentenciou-me a uma vida de solidão. Aceitei a sentença. Isso foi há muito tempo. Você não pode voltar, simplesmente para entrar em minha vida e decretar outra coisa.

Gabriel estava em silêncio, tocando a mente dela facilmente com uma união leve. Descobriu uma vívida lembrança dele, mesmo avançando entre os humanos, Lucian a seu lado. Os dois legendários caçadores de vampiros. As pessoas se afastavam de seu caminho, com respeito. Gabriel se viu movendo-se rapidamente, com largos e seguros passos, seu cabelo flutuando no ar noturno. O movimento de uma menina chamou sua atenção e ele voltou à cabeça sem afrouxar o passo. Seus olhos negros deslizaram sobre um grupo de mulheres, e então Lucian disse algo que o distraiu. Girou a cabeça na direção em que caminhavam, sem voltar a olhar atrás. A menina o seguiu com o olhar durante muito tempo, ferimento, em silêncio.

- Não sabia.

Os olhos dela relampejaram.

- Não quis saber. Há uma diferença, Gabriel. Em qualquer caso, não importa, agora. Sobrevivi à humilhação e a der. Tudo isso passou há muito tempo. Vivi uma boa vida durante muitos séculos. Agora estou cansada e desejo procurar o amanhecer.

Gabriel a avaliou firmemente.

- Isso não é aceitável, Francesca. – Disse, tranqüilamente, sem inflexão.

- Não tem direito a me dizer o que é ou não é aceitável em minha vida. A mim concerne. Você perdeu todos seus direitos sobre mim, quando te afastou sem olhar para trás. Não sabe nada de mim. Não sabe nada sobre a vida que vivi ou o que quero ou não. Forjei minha própria vida. Fui relativamente feliz e mais que um pouco útil. Vivi o suficiente, obrigado. Só porque de repente decide voltar da morte isso não muda nada, absolutamente. Não voltaste por mim. Voltaste por ele. Lucian. Ele elevou-se, verdade? Está lhe caçando.

Gabriel assentiu lentamente com a cabeça.

- É verdade, mas deve compreender. Encontrar você muda Tudo.

- Não. Não é assim. - Negou Francesca. Abriu de um puxão, a porta da câmara e apressou a se afastar dele percorrendo o túnel para o porão. Não melhorou seu humor, que ele a alcançasse passeando lentamente com bastante facilidade, seus músculos ondeavam poderosamente, sugestivamente. Como ele se atrevia a dar tão pouca importância a sua vida?

- Não mudou nada. Você ainda tem uma tarefa e eu tenho minha vida. Essa vida me pertence, somente, Gabriel e não pode tomar decisões por mim.

- Nosso Príncipe tem muito de que responder ante mim. - Disse Gabriel com sua voz suave e amável. - Não a vigiou como era seu dever. Mikhail ainda está no poder?

- Vá para o inferno, Gabriel! - Soltou Francesca, raivosamente, ante sua declaração. Depois, abriu passo até a cozinha e cruzou-a, até o espelho de vestíbulo. Prendendo o cabelo para trás, examinou o pescoço em busca de qualquer marca reveladora.

- Vai sair?

A voz foi tão baixa e suave, que o coração dela, retumbou no peito. Francesca afastou o rosto, para evitar que ele a visse.

- Sim. Disse ao Brice que visitaria um de seus pacientes. Não posso deixar que se preocupe e venha a me buscar.

- Brice pode esperar. - Disse Gabriel simplesmente.

- Não há razão para que Brice espere. - Respondeu-lhe Francesca. - Espero que tenha ide quando retornar, Gabriel.

Um pequeno sorriso suavizou os lábios dele.

- Não acredito que isso aconteça.

Gabriel observou-a seguir para a porta da frente. A diversão uma vez mais tocava seus ardentes olhos negros. No momento em que a pesada porta se fechou ruidosamente atrás dela, Gabriel flutuou através da sala até a janela. Francesca descia a rua rapidamente, a pé. Não usara seu carro como teria feito um humano e não se havia dissolvido em névoa e flutuado pelo ar como poderia ter feito um Cárpato. Enquanto Gabriel a observava, ela começou a correr. Seu corpo se movia ligeiro, poesia em movimento.

Estendeu a mente e a fundiu com a dela, convertendo-se numa calada sombra. Francesca estava com muito mede dele e havia dito a sério cada palavra. Ela estava tentando alguma experiência, que a permitia permanecer sob o sol, como os humanos. Empenhara grande quantidade de tempo e energia para conseguir, procurando uma forma de realizar a mudança. Tinha demorado vários séculos para conseguir que seu corpo chegasse ao ponto em que podia fazê-lo. Era tão adepta a parecer humana em pensamentos e ações, que havia enganado a um antigo como ele. Agora ele arruinara Tudo, dando seu sangue ancestral a ela. E ela estava muito brava por isso. E decidida a que estes fossem os últimos poucos anos de sua vida, e o pior, estava considerando passar seus últimos anos com Brice, envelhecendo a maneira dos humanos. E estava com a intenção de enfrentar o amanhecer quando estes anos chegassem a seu fim. Ela estava fazendo planos, há algum tempo.

- Não acredito, Francesca. - Murmurou ele em voz alta. Seu corpo lentamente flutuou, brilhando até se tornar transparente. Dissolveu-se numa fina neblina e flutuou saindo da casa através da janela parcialmente aberta. Em seguida, a neblina tomou a forma de uma enorme coruja branca, sua forma favorita de viajar. Fortes asas se estenderam e o elevaram alto sobre a cidade.

Francesca correu tão rápido como pôde. Podia ouvir seu coração pulsando fortemente. Ouvia o som de seus pés golpeando a calçada e o ar entrando e saindo de seus pulmões. Nem em seus mais selvagens sonhos, pensara que isto pudesse acontecer. Gabriel. Sua gente murmurava sobre ele. Gêmeos. Lendas. Estavam mortos, não vivos. Como podia ser isto? Ele tinha arrebatado sua vida, obrigando-a a viver uma interminável e solitária existência. E agora, quando finalmente havia encontrado a forma de viver como um humano, de ter possivelmente uma relação humana, de viver e morrer como outros que tinha visto chegar e partir através dos anos, Gabriel voltara da morte. E o que aconteceria se ele insistisse em reclamá-la?

Não havia forma de fugir de alguém como Gabriel. Ele era um caçador de elite. Gabriel poderia rastrear uma pista fantasma, mais ainda a sua própria companheira. Francesca reduziu a velocidade. Possivelmente partiria, pois admitira que Lucien havia se elevado. Ainda o caçava. Não teria interesse nela. E ela nunca aceitaria sua reclamação. Ele a obrigara a se exilar de sua própria gente, de sua própria terra. Não teve escolha neste assunto. Uma mulher solitária vivendo entre homens tão desesperados por encontrar suas companheiras, teria convertido suas vidas numa interminável miséria. E sabia que não poderia tolerar a perda de sua liberdade. O Príncipe de sua gente teria que guardá-la cuidadosamente, com a constante esperança que um dos homens fosse seu autêntico companheiro. Precisavam de crianças, desesperadamente. Ela sabia que era compatível só com um homem dos Cárpatos e ele a tinha rechaçado, para dedicar-se ao amparo de sua gente. Vivera como quisera durante aqueles séculos, segura de que era forte e poderosa, que nenhum humano poderia igualá-la e nenhum vampiro podia detectá-la. Era bastante fácil esconder-se de sua gente, porque tal comportamento era inesperado.

Os Cárpatos haviam perdido a tantas de suas mulheres e crianças ao longo dos séculos, que cada mulher era guardada zelosamente, pois eram necessárias para trazer crianças ao mundo, especialmente meninas. A maior parte dos bebês nascidos eram meninos e a maioria não sobrevivia além de seu primeiro ano de vida. Sua espécie estava à beira da extinção. Francesca já tinha chegado a um acorde com sua solitária existência. Não ia mudar sua vida inteira só porque Gabriel de repente havia decidido aparecer de alguma parte.

Sentiu a umidade em seu rosto e levantou a vista para o céu. Estava perfeitamente claro e as estrelas brilhavam com absoluta claridade. Surpreendida, levantou a mão e tocou as lágrimas de seu rosto. Isso a decidiu ainda mais, que Gabriel não tivesse nada que ver com sua vida. Já a havia feito chorar. Havia arruinado tudo. Arrebatara o sol, sem pensar. Esse era Gabriel. Tomava decisões e esperava que o resto do mundo se ajustasse a ele. Ele era uma lei em si mesmo e esperaria que Francesca fizesse o que ele ditasse.

Francesca dobrou a esquina, respirou e entrou no estacionamento de hospital. Não queria que nada parecesse anormal. Brice a encontrou não entrou no edifício, fazendo-a pensar que tinha deixado estritas ordens de que o avisassem imediatamente de sua chegada. Conduziu-a através das salas até um apartamento privado. Havia ursinhos de pelúcia, balões e flores por toda parte. A garotinha da cama estava muito pálida e tinha círculos escuros sob os olhos. Como sempre, Brice não dissera exatamente o que acontecia ao paciente, em vez disso, permitiu-a levar a cabo, seu próprio "conhecimento”.

- Os pais dela sabem que você me pediu que a visse? - perguntou Francesca, baixinho.

Embora sua voz tinha sido baixa, a menina se moveu e abriu os olhos. Sorriu a sua visitante.

- É a senhora que o Doutor Brice diz que ajuda às pessoas. Minha mamãe disse que viria me ver.

Francesca olhou para Brice, com um rápido olhar de impaciência. Havia dito a ele mil vezes, que não mencionasse ela a ninguém. Não poderia confrontar a publicidade. Mais de uma vez, havia falado sobre o assunto. Tocou a diminuta mão da menina com a ponta dos dedos.

- Dói muito. Não é?

A garotinha encolheu de ombros.

- Está bem. Agora estou acostumada.

Um ar frio moveu as cortinas inesperadamente e Brice olhou para a janela, para assegurar-se de que estivesse fechada. A última coisa que precisavam era uma corrente de ar no aposento. Francesca estava totalmente concentrada. Nada mais tocava sua mente nesses momentos. Era como se só existissem Francesca e a menina.

- Meu nome é Francesca. E o teu?

- Chelsea.

- Bem, Chelsea, você me deixa segurar suas por alguns minutos? Ajudaria-me a entender o que acontece com você.

Um lento sorriso iluminou a face da menina.

- Não vai me cravar agulhas?

Francesca devolveu um sorriso.

- Acredito, com toda segurança, que podemos deixar esse trabalho para o Brice. – Francesca tomou a pequena mão na dela. A pele era muito fina, quase translúcida. Esta menina se consumia. - Só vou me sentar aqui com você e me concentrar. Pode acontecer que você que sinta calor aqui e ali, mas não te fará mal.

Os olhos da Chelsea descansaram sobre a face de Francesca, estudando sua expressão, antes de decidir confiar nela. Depois, assentiu solenemente.

- Adiante, estou preparada.

Francesca fechou os olhos, concentrando-se na menina, tirando qualquer outro pensamento da mente. Enviou-se fora de seu próprio corpo, tornando-se tão invisível como a energia, o calor e a luz. Entrando na menina, começou um lento e cuidadoso exame. O sangue da menina parecia uma calamidade. Empreenderam-se ataques maciços, contra a veia sangüínea e seus penosos anticorpos não tinham possibilidades de triunfar contra o exército invasor. Francesca continuou inspecionando cada órgão, tecido e músculo, o cérebro mesmo. A pena a afligiu durante um momento, fazendo perigar sua posição dentro de corpo da menina. Sentiu uma grande empatia com esta garotinha que havia sofrido tanto durante sua jovem vida.

Cambaleou, piscando rapidamente, voltando a entrar em seu próprio corpo. Como sempre, sentiu-se desorientada e fraca depois de uma experiência extracorporal. Sentou-se durante um momento em silencio antes de levantar a vista para Brice.

- Francesca. - Ele pronunciou seu nome suavemente, com grande esperança. Não era uma pergunta. Ele era médico. Sabia que clinicamente Chelsea estava morrendo, seu corpo sucumbia ante o terrível exército que tão ferozmente o atacava. Parecia exausto e a pena esculpia seu rosto. Fizera Tudo o que estava em suas mãos e isso não haviam sido suficiente.

- Possivelmente. - Francesca olhou o relógio da parede. Eram as três e meia da madrugada. Quanto tempo levaria curar à menina e liberar este corpo de todo rastro de câncer? Seria capaz de terminar e voltar para casa antes que saísse o sol? Importava acaso? A vida da menina valia o risco. E a ela não importava enfrentar o amanhecer.

- Me deixe com ela, Brice e verei o que posso fazer. - Francesca jogou para trás o cabelo de Chelsea. – Você vai dormir, céu e veremos se podemos fazer alguma coisa, para que se sinta mais cômoda.

Ela esperou até que Brice fechasse a porta antes de enviar-se outra vez ao interior de corpo da menina.

O tempo não significava nada quando trabalhava como curadora. Estava dentro da pequena forma humana de Chelsea, mantende-a a salvo e cálida em sua mente, enquanto sua energia lutava a terrível batalha pela vida da menina. Era meticulosa em seu trabalho, incansável, cuidadosa em seu afã de assegurar que nenhum vestígio da vil enfermidade ficasse no corpo da menina. Não teve idéia das horas que passavam ou de sua força decrescente, até que se encontrou vacilando, seu corpo já cansado, antes que seu espírito tivesse tempo de terminar a tarefa. De repente, o poder a tomou, uma forte onda de energia chegava de uma fonte exterior. Aceitou a energia sem questionar, sabendo qual era sua origem. É claro que Gabriel sabia quando ela estava arriscando sua saúde. Ele estava em seus pensamentos através de um vínculo de sangue. Naturalmente a ajudaria. Era, depois de Tudo, um homem dos Cárpatos. Não havia nenhum significado profundo em sua ajuda. Certamente não o fazia porque se importasse.

Francesca utilizou a energia imediatamente, agradecida, embora não desejava ter nada que ver com Gabriel. Só uma coisa importava. Curar o corpo fragmentado de Chelsea e restituir sua saúde. Quando esteve segura de ter erradicado até o último rastro da enfermidade, Francesca voltou para seu próprio corpo.

Respirava com dificuldade, tremendo da cabeça aos pés. Durante um momento permaneceu caída sobre a pequena, recuperando-se lentamente depois da difícil tarefa. Acrescentado ao cansaço da cura, estava o esforço necessário para defender sua atividade a todo o resto. Através dos anos tinha aprendido a levantar uma barreira para esconder sua onda de poder a Cárpatos e vampiros.

Levantando a vista para o relógio, notou que era quase cinco horas da manhã. Tinha que voltar para casa. Cansada que estava, não queria estar fora quando saísse o sol. Ainda que, freqüentemente dissesse, que não se importava, Francesca temia em segredo, morrer de uma forma tão dolorosa. Gabriel se ocupara de que o sol pudesse lhe fazer mal novamente.

- Isso não foi intencional, carinho.

- Mas o resultado é o mesmo.

Brice estava esperando por ela, apoiando-se contra a parede do outro lado da porta.

- Pôde ajudá-la?

- Assim espero. - Francesca não se comprometeu, apesar de saber muito bem que a menina se recuperaria completamente. - Por favor, tenha a cortesia de não me mencionar a ninguém. Brice, tínhamos um acordo. Não posso ter pessoas batendo em minha porta à espera de um milagre. Dê-lhe um dia ou dois antes de submetê-la a exames. Sabe que odeio publicidade. Atribua o crédito a você, se funcionar.

Ele manteve o passo junto a ela.

- Estou arrebentado. Quer tomar o café da manhã? É um pequeno agradecimento por ter levado a toda à noite com um de meus pacientes.

Francesca jogou para trás, a pesada cascata de cabelo negro azulado.

- Estou cansada, Brice. Sabe que isto sempre me esgota.

- Se soubesse o que faz, possivelmente poderia ajudar e você não se cansaria tanto. - Brincou ele. – Você veio a pé? Vamos, levarei você em tua casa.

Ele pegou o braço dela e a conduziu até seu carro.

Francesca foi voluntariamente. Só levaria alguns minutos, chegar à casa de carro e estava exausta. Instalada no assento de couro, prendeu-se ao cinto de segurança automaticamente e sorriu para ele.

- Você gosta de luxo, Brice.

- Não há nada errado nisso. Sei o que quero e vou atrás. - Os olhos dele a percorreram sugestivamente.

- Não comece - Advertiu ela, com uma risada na voz. - O que acontece com você, Brice? Já disse a você que não podemos nos ver.

- Vemo-nos todos os dias, Francesca. - Assinalou ele com um sorriso. – E isso fazemos bastante bem.

- Estou muito cansada para discutir com você. Só me leve a casa.

- O que tem fez com o velho? Tem que deixar de recolher gente da rua, Francesca. Por isso é que precisa de mim. É muito amável para seu próprio bem. Mais cede ou mais tarde recolherá um assassino.

- Não acredito que fosse muito perigoso. - Francesca olhou pela janela, quando sua casa surgiu grande ao final da entrada.

- Não está em sua casa, verdade? - Perguntou Brice, enquanto estacionava o carro e desabotoava o cinto de segurança.

Francesca lançou um rápido sorriso.

- Acredito que pensa que vou te convidar a entrar.

Brice rodeou o carro para lhe abrir a porta.

- Definitivamente vou entrar. Não quero nem pensar que tenha colocado um velho pulguento aí. Seria tão próprio de você.

Como se fosse um sinal, a porta principal abriu de repente e a enorme forma de Gabriel encheu a soleira. Certamente não parecia um velho pulguento. Francesca sentiu que a cor abandonava seu rosto e seu coração se sobressaltou. Voltou o olhar, ansiosamente para Brice. Gabriel parecia invencível, um predador. Parecia capaz de comer Brice, vivo. Permanecia alto e elegante com seus traços sensuais, cuidadosamente inexpressivos. Gabriel parecia um antigo príncipe escuro. O poder em seu interior era tanto, que parecia ser uma segunda pele. Era incrivelmente bonito e ela não pôde evitar notar, apesar de sua resolução.

Brice a deteve eficazmente, segurando seu braço e a manteve imóvel.

- Quem demônios é este? – Ele tentava colocá-la atrás dele, protetoramente.

O gesto foi tão doce que provocou um nó na garganta. Ninguém nunca fora tão protetor e atento com ela, como Brice. Não importava com quanta freqüência o repreendesse, Brice teimava em sua perseguição.

Gabriel baixou as escadas. Deslizando-se. Fluídico. Movia-se com a graça de um enorme gato da selva, com os poderosos músculos ondeante sob a seda de sua camisa.

- Agradeço-lhe que tenha trazido Francesca para casa. Estava começando a me preocupar. - Disse Gabriel, simplesmente. Sua voz foi suave, impossível de ignorar. Abria caminho a qualquer que fosse a compulsão que decidisse implantar na mente de seu ouvinte.

Gabriel se colocou à direita de Francesca, ignorando seu pequeno gesto de retirada. Sua mão se fechou sobre a dela, para colocá-la atrás de si.

- Esteve fora toda à noite, carinho. Deve estar exausta. Espero que tenha conseguido ajudar a seu paciente. - Sua mão deslizou possessivamente em volta dos ombros de Francesca, ancorando-a firmemente a ele.

Se lutasse ou protestasse ela colocaria Brice em posição inaceitável. Sentiria que tinha a obrigação de sair em sua defesa e não havia ninguém sobre a face da terra, como acreditava, que pudesse derrotar Gabriel, a menos que fosse seu irmão gêmeo, Lucian.

- O que acredita que está fazendo? – Exigiu ela, utilizando sua união mental.

Gabriel era alto e sua força enorme. Ele a fazia sentir-se pequena e delicada, quando não era, absolutamente. A fazia sentir-se vulnerável.

- Quem é você? - Perguntou Brice ansiosamente.

- Ele está sentindo seu mede, Francesca. Não me obrigue a fazer algo que te resultará difícil perdoar.

- Não faça mal a ele.

- Sou Gabriel. - Gabriel estendeu a mão para Brice, tão amigavelmente, como uma pantera adulta. Parecia elegante. Parecia perigoso. Parecia indomável. Parecia fora de moda, com seu cabelo preso na nuca com uma tira de couro.

Brice estreitou a mão oferecida, inseguro sobre como dirigir a situação. Francesca não estava dando nenhuma pista. Parecia tensa e assustada e seus enormes olhos, evitavam deliberadamente, seu olhar interrogante. Permanecia sob o ombro de Gabriel e dava a sensação de que pertencesse a esse lugar. Certamente, não havia lugar a duvidas, na forma possessiva em que Gabriel a tocava, a advertência estava em seus olhos quando olhava Brice. Gabriel o fazia saber, de homem para homem, que considerava Francesca dele e que não permitiria nenhum outro homem em sua vida. Estava escrito na postura de seu corpo, quando abrigava a esbelta forma feminina de Francesca, contra a sua própria.

- Suponho que sabe quem sou. - Disse Brice desagradavelmente. O desconhecido cheirava a perigo. Emanava dele. E Francesca simplesmente ficava ali em silêncio, impotente, como se não tivesse idéia de que fazer.

Totalmente consciente da iminente sublevação de sol, Gabriel estava levando-a escada acima, sua pesada forma, urgia à dela para a porta. Francesca o seguiu, porque Gabriel não deu escolha. Se protestasse, de algum modo, estaria colocando Brice em terrível posição. Forçou um sorriso.

- Falarei com você esta noite, Brice.

- Não conte muito com isso.

Francesca continuou a charada com uma saudação sem entusiasmo, antes de agachar, passando rapidamente sob o braço de Gabriel, até a segurança da casa.

- Como te atreve a interferir em minha vida?

A adrenalina surgia em suas veias. Passeou de um lado a outro, com passos rápidos e apressados, traindo seu ânimo. Não podia ficar quieta nem que quisesse.

Recorrendo à paciência nascida de um milhar de batalhas, Gabriel a observou com os olhos semicerrados, seu corpo tão imóvel como as montanhas.

- Está extremamente zangada comigo. – Disse ele tranqüilamente, sem a mais mínima expressão no rosto.

Os olhos negros dela flamejaram fogo, ao virar a cabeça, seu cabelo formou uma pesada cortina negra. Imediatamente o corpo dele reagiu. Ela era intensamente bela, cada movimento era sensual.

- Gabriel... Não comece a me dar ordens. Não é nada para mim. Não foi nada em minha vida. Dei uma mão a um companheiro Cárpato, isso é Tudo o que há entre nós. Era meu dever, nem mais nem menos.

- Age como se estivesse tentando convencer a si mesma, Francesca. – Ele inclinou a cabeça, avaliando-a com firmeza. - Foste convidar esse homem a entrar em sua casa.

- Esse homem é meu amigo. – Assinalou, ela.

Ele não piscou. Sequer uma vez. Só a olhou. Francesca o achou desconcertante. Estava tão imóvel como uma estátua, com aspecto tranqüilo, mas perigoso, e quando mais tempo ficava ali parado, mais rápido pulsava o coração dela. Francesca sentia que ele possuía poder sobre ela. Era porque era seu companheiro. Ainda era suficientemente Cárpato, para notar que a alma dele chamava à sua. Igual seu corpo. Podia senti-lo. Podia sentir a fome e o desejo atravessando-a com uma lenta chama. Cuidadosamente evitou seus olhos, olhando fixamente o tapete sob seus pés, em vez de fascinante corpo dele.

- Francesca. – Ele pronunciou seu nome suavemente. Gentilmente. Seu sotaque era muito antigo e produziu um frenesi pouco familiar em seu coração. Sua voz era tão formosa e pura, que ela sentia quase uma compulsão por olhar, mas manteve os olhos resolutamente baixos.

Francesca sabia que Gabriel era um ser extremamente poderoso. Sua voz era premente, seus olhos hipnotizadores. Em ser seu autêntico companheiro, seria mais difícil para ela resistir a ele, mas não tinha escolha.

- Vivi minha vida, Gabriel. Já não desejo continuar minha existência. Estou segura de não querer começar um novo estilo de vida totalmente diferente. Estive sozinha, tomando minhas próprias decisões durante todos estes anos. Nunca poderia ser feliz sendo dominada por um homem. Não pode me pedir que mude aquilo no que me converti sozinha, porque você quer. Diga-me, ainda está decidido a destruir a seu irmão?

- É meu dever, prometi a ele.

Francesca suspirou de alívio. Estava extremamente cansada. Seu corpo uma vez mais, sentia os enervantes efeitos de sol que começava a sair.

- Não temos mais nada a discutir.

- Se eu não tivesse te ajudado a curar a menina, não teria tido forças para escapar de sol. – Gabriel pronunciou as palavras como se dissesse Tudo, sem inflexão, embora ela sentiu o peso de sua censura.

Deliberadamente encolheu de ombros, num movimento descuidado.

- Não me importava se o fizesse ou não.

- Não me deixa outra escolha, que me unir a você. – Na verdade, ele teve a intenção, no momento em que compreendeu que ela o pertencia. Durante dois mil anos não havia vivido, simplesmente existira num mundo escuro e feio. Agora era completamente diferente. Tudo. Emoções. Cores. Francesca. Pensara em cortejá-la primeiro, certamente ela merecia. Mas se sua vida estava em perigo, não esperaria mais.

Ela o olhou. Os olhos como opalas negras, formosos e brilhantes.

- Não importa, Gabriel. Não duvidaria em ir ao amanhecer. Não sou responsável por sua vida. Se tomar a decisão de nos unir, será só sua decisão. Nego-me a tomar parte disso. Se escolher me seguir, quando eu for, que assim seja. Mas minha vida é assunto meu.

Gabriel tocou sua mente. A resolução era genuína. Francesca falava sério cada palavra.

- Francesca, me fale de sua relação com este doutor.

Ela se acomodou numa cadeira acolchoada.

- Não estou segura de que quer saber. Não me deitei com ele se é o que quer perguntar. O quer. Acredito que ele gostaria de casar-se comigo. Sei que gostaria. – Ela pensou um momento antes de admitir o resto. – Estive considerando.

As sobrancelhas dele se arquearam.

- E permitiu que um humano desenvolvesse uma atração tão forte você?

- Por que não? Meu companheiro me rechaçou e depois acreditei que tinha morrido. Tinha todo o direito de mundo a procurar afeto, se desejasse. - Replicou ela sem remorso.

- O que sente por este humano?

Havia uma suave ameaça na voz amável, o suficiente para enviar um calafrio por seu corpo. Não se deixaria intimidar por ele. Não havia feito nada de errado. Não se sentiria culpada só porque ele havia voltado da morte. Não lhe devia absolutamente nada.

Gabriel, permanecendo como uma sombra em sua mente, pôde ler seus pensamentos com facilidade. Aceitava que ele era o culpado da solitária vida dela. Acreditava que ela tinha todo o direito de sentir-se assim. Também podia ver que não viveria com gosto, com um homem dominador. Nada disso o importava. Tinha passado toda uma vida ao serviço de sua gente. Batalhas. Guerras. Destruindo ao não-morto. E tinha continuado, interminavelmente. Tinha vivido uma existência cinza e vazia, sempre o predador espreitando, à espera para caçar e matar. A escuridão se estendeu em seu interior, embora sua vontade de ferro resistisse, século após século, enquanto tentava tomar o controle de sua alma.

Havia uma promessa que o mantivera em pé. Uma esperança. Acreditava que encontraria a sua companheira. Ao menos o tinha acreditado até um par de séculos atrás. Sua fé se sacudiu então. Possivelmente ela tinha razão. Possivelmente alguma parte dele a tinha reconhecido e por isso tinha estivera tão seguro de que existia. E possivelmente, a decisão dela em mudar seu corpo Cárpato e viver como uma humana, fizera com que a escuridão em seu interior se tornasse tão forte que s encerrara a si mesmo e a seu gêmeo na terra, durante anos.

Estudou sua mente cuidadosamente. Não podia permitir-se nenhum engano. Tinha tido que lutar sozinho com seus demônios... Essa era a maldição dos homens dos Cárpatos... Mas a vida de Francesca havia sido pior. Ele não tinha sido capaz de sentir a solidão, o vazio, que ela experimentara. Ela possuía sentimentos em todo esse tempo. Desejara uma família, filhos. Um homem que a amasse e compartilhasse seus risos e sua dor. A jovenzinha havia sentido seu descuido como um rechaço. A mulher sabia que haviam sido tempos terríveis para sua gente e estava orgulhosa da decisão dele de entregar sua vida ao serviço de sua espécie moribunda. Fizera sua parte, abandonando as Montanhas dos Cárpatos, para tornar mais fácil para homens que restavam.

Francesca enchera sua solitária existência com música e arte, ciência e estudo. Aprendera a camuflar sua presença de outros Cárpatos dos arredores. Dos vampiros, para não conduzir aos não-mortos a sua cidade. Tinha dedicado sua vida a curar os outros, servindo à comunidade, como ele fizera. Preparara sua mente, para que estes fossem seus últimos anos sobre a terra. Estava cansada e desejava o descanso eterno. Seu retorno não havia feito ela mudar de opinião. Não podia conceber outro estilo de vida. Não tinha intenção de tentar se encaixar novamente, no mundo dos Cárpatos, onde acreditava que já não tinha lugar.

Gabriel não pôde evitar admirá-la. Ela vivera até uma boa vida. E tinha uma força de vontade tão forte como a dele. Seria tolerante com ela. Mas outro homem, não seria tanto.

- Francesca, as coisas são tão diferentes de que eu recorde? Existe em nossa gente todas as mulheres que precisam? Podemos confrontar que uma de nossas mulheres se veja envolta com um humano? Mikhail resolveu o problema de nascimento de meninas ou foi capaz de reduzir o número de nossos homens que se convertem em vampiros?

Ela elevou o queixo, esforçando em ignorar sua voz. Era feita para entrar sob a pele e encher de calor, com desejos poucos familiares.

- Eu não poderia aliviar a angústia de nenhum só homem dos Cárpatos. Não me repreenda com uma declaração tão tola. Minha presença só teria servido para tornar suas vidas ainda mais difíceis.

- E o que tem minha vida? De minha luta contra a escuridão?

- Você escolheu esta vida, Gabriel e é forte para decidir quando deseja terminá-la. Há poucas possibilidades de que perca sua alma, como tantos têm feito antes que você. Agüentaste mais que nenhum outro de nossa raça. Há estas horas, o perigo faz muito que passou.

Ele sorriu então, um rápido relâmpago de seus imaculados dentes brancos. O sorriso suavizou as duras linhas de seu rosto e trouxe uma inesperada ternura a seus olhos negros.

- Possivelmente me dá muito crédito.

Por um momento Francesca devolveu o sorriso, como se ele tivesse dado a resposta adequada.

- Mais que provavelmente.

Nesse pequeno instante, Gabriel sentiu que Tudo estaria bem entre eles. Como supunha que devia ser, como seria. Moveriam-se juntos, respirariam juntos, ririam e amariam juntos. Possivelmente lhe devia a paz final, mas sabia, no mais profundo de sua alma, que era muito egoísta para abandonar as emoções e cores e lhe dar boas vindas a essa paz, alegremente. Ela estava ante ele, o sonho interminável, a promessa jogada aos homens de sua raça, a recompensa por resistir a terrível chamada de poder, da escuridão. Ela estava ali e ela não a abandonaria

Gabriel estendeu a mão para ela.

- Podemos discutir na seguinte sublevação. Vamos a terra comigo.

Francesca olhou fixamente a mão durante o que pareceu uma eternidade. Por um instante pensou que poderia discutir com ele. Lentamente, permitiu ele enredar os dedos com os dela.

No momento em que ele a tocou, Francesca sentiu a alegre resposta de seu corpo, a forma em que seu coração sintonizava com o dele, a forma em que suas respirações se emparelhavam. Seu corpo voltava para a vida, suave, sensual, desejando o dele. Em seguida, tentou se afastar, tirando sua mão da dele, como se ele queimasse, mas Gabriel não a permitiu e simplesmente caminhou a seu lado para a cozinha.

- Não me respondeste. Preciso saber o que sente por esse humano. Tratei você com respeito e não tomei a resposta de sua mente. Possivelmente teria a cortesia de me responder. - A voz de Gabriel era humilde, mas a ameaça de que tomaria a informação traiu a firme possessividade de um homem dos Cárpatos.

Francesca levantou o olhar para ele, enquanto caminhavam lado a lado. Ele estava estudando o que os rodeavas, notando cada aspecto de sua casa. Assombrava-a, que ele pudesse estar tão tranqüilo, depois de despertar num novo século com uma tecnologia tão diferente, num mundo tão diferente. Gabriel parecia absorver Tudo com calma. Possuía confiança em si mesmo, fato que era um pouco desconcertante.

- Estou muito afeiçoada com Brice. Passamos muito tempo, juntos. Ele gosta de ópera e de teatro. É bastante inteligente. - Respondeu honestamente. - Faz-me sentir viva, embora saiba que na realidade, já estou morta por dentro.

Gabriel sentiu a der de suas palavras, o apunhalando. Dor. Real, não imaginada. Genuína der ante o muito que sofrera, porque ele não a procurara ativamente. Seus dedos se apertaram em volta dos delas e a embalou contra seu peito, contra seu coração.

- Sinto muito, Francesca. Esteve mal por minha causa, em não pensar no que poderia acontecer a minha companheira se não a encontrasse. Mas está equivocada ao dizer que está morta por dentro. É a pessoa mais viva que conheço.

A onda de calor que sentiu ante suas palavras alarmou Francesca. Sorriu para cobrir sua confusão.

- Não conhece ninguém mais.

Gabriel lhe sorriu, saboreando a sensação de felicidade. Podia ficar olhando-a para sempre. Escutando o som de sua voz. Nunca se cansaria de estudar a revoada de expressões que cruzavam seu rosto. Tudo nela era um milagre e estava começando a precaver-se de que podia ser real e não uma fantasia. Poderia estender a mão e tocar sua pele, maravilhar-se em sua suavidade.

- Isso não foi muito agradável.

- Eu sei. - Francesca foi consciente de poder de corpo dele, quando desceram juntos à câmara de sono. Não havia utilizava a passagem há anos, mas sabia que agora era necessário. Não poderia dormir o sono dos mortais ou caminhar sob o sol outra vez. O sangue ancestral de Gabriel havia mudado Tudo. Estava exausta e só a boa recepção dos braços da terra, a rejuvenesceria, restaurando seu pleno poder uma vez mais.

Gabriel ondeou a mão para abrir o chão. Francesca esperou durante um momento, pensando de se mover. Gabriel simplesmente a pegou pela cintura e flutuou para o interior da terra que os esperava, com ela. Fechou a casa com fortes proteções, que poucos seriam capazes de desentranhar. Lucian. Só Lucian. O que Gabriel sabia, ele também sabia. Era só seu gêmeo quem o preocupava. Só seu amado irmão poderia destruí-los. Durante um momento, seu coração encolheu com o tortura da traição, um calvário que sentiu como uma autêntica der física.

Francesca fez Tudo o que pôde para colocar espaço entre eles, mas ele sentiu seu cansaço e simplesmente abraçou para aproximá-la, envolvendo-a com seu corpo enquanto deslizava dentro da mente dela e emitia a ordem de dormir. Ele era incrivelmente forte e a sucumbiu, sem lutar em excesso. Teria que enfrentá-la na próxima sublevação, mas agora simplesmente saboreou a oportunidade de sustentá-la perto de si, de descansar sua cabeça sobre a dela, de sentir a seda de seu cabelo contra sua própria pele.

- Gabriel? Está ferido, sinto sua dor.

Lucian. Mesmo agora, encerrado na terra durante as horas vulneráveis, seu gêmeo sentia a der que retorcia seu coração. Não havia ali, nada da satisfação que alguém esperaria de um não-morto. Gabriel manteve a mente em branco, não desejava dar nenhuma oportunidade a seu irmão, de descobrir Francesca.

- Gabriel? Esta batalha é entre você e eu. Nenhum outro pode interferir. Se precisar de mim, avise-me.

A respiração de Gabriel ficou presa na garganta. Havia compulsão nessa voz, nessa ordem e era tão poderosa, que podia sentir o suor de sua fronte, enquanto lutava para romper o contato. No fim foi mais fácil responder.

- É um ferimento sem importância, devido a um descuide de minha parte. A terra me curará.

Houve um suave silêncio como se Lucian estivesse decidindo se acreditava ou não, depois nada. Gabriel ficou deitado durante um tempo, pensando em seu irmão. Como pôde acontecer isso a Lucian? Ele fora sempre o mais forte, o único em que Gabriel dependia para continuar, no que acreditava. Lucian tinha sido sempre o líder. Mesmo agora, como vampiro, completamente perverso, completamente depravado, Lucian fazia o inesperado. Sempre estudando, sempre infalivelmente cortês, sempre compartilhando conhecimentos.

Gabriel nunca tinha considerado a possibilidade de que seu gêmeo se convertesse em vampiro. Sabia que Lucian perdera seus sentimentos e a habilidade de ver cores, muito novo ainda, embora fosse forte e seguro de si mesmo, absolutamente poderoso. Como tinha acontecido? Se ao menos tivesse visto, possivelmente poderia ter ajudado seu irmão antes que fosse tarde. Sua terrível culpa era opressiva.

Com um leve suspiro, Gabriel atraiu a Francesca mais perto e descansou a face na riqueza de seu cabelo. Proporcionava uma sensação de paz, ter seu corpo enredado tão possessivamente ao dela. Precisava dela, desesperadamente, muito mais de que ela precisava dele. Com seu último fôlego, tomou a essência dela em seu coração e seus pulmões, levando-a com ele ao sono reparador de sua gente.

 

Gabriel despertou ardendo, faminto, precisado. Obsessão. Cada partícula de sua pele voltava para a vida, com fogosas línguas de calor. Seu corpo estava duro e dolorido, exigindo urgentemente que reclamasse o que era seu por direito. Junto a ele, Francesca estava pálida e imóvel, sua pele fresca contra ele. Ignorando as conseqüências, despachou a fina barreira de roupa que os separava, com um simples pensamento. Roubou-lhe o fôlego, ver o corpo esbelto, perfeitamente moldado para ele.

Ficou ali abraçando-a, calculando cuidadosamente suas opções. Não tinha intenção de permiti-la escolher a morte. Desejava uma oportunidade para viverem juntos. Não podia existir sem ela. Mas unindo-a a ele, com as palavras rituais, não seria suficiente para evitar que ela enfrentasse o amanhecer. Lêra sua mente, sentira sua vontade. Podia pensar numa única forma de dissuadi-la. Havia uma única maneira de forçar sua conformidade. Imperdoável. Teria que aceitar. Ela não o perdoaria, mas depois escolheria a vida para os dois. Isso daria tempo para ele prendê-la, emocionalmente.

Gabriel pensou em sua falta de opções durante algum tempo. Enquanto estava ali deitado abraçando-a, sua determinação só aumentou. Tomaria-a. Era egoísta, estava errado e não era digno dele, mas não permitiria que ela escolhesse a morte antes que a vida. Podia fingir que estava salvando a sua raça, que os dois deviam a sua espécie fazer Tudo o que pudessem para continuar, mas sabia que não havia nada de nobre em sua decisão. Desejava-a. Ela o pertencia e ia assegurar-se, de que não só a possuiria, como também não tivesse escolha.

Fechou os olhos e se enviou fora de seu corpo e entrou no dela. Moveu-se com lentidão e segurança, decidido a não cometer enganos. Era um antigo, com incrível poder e conhecimento. Assegurou-se de despertar seu corpo enquanto encontrava o que procurava. Havia uma única coisa a fazer. Quando emergiu, entrando de volta no próprio corpo, reconheceu nela a uma médica, a curadora, uma mulher que vivera muito tempo na terra. Tinha que se assegurar, de que ela não tivesse tempo de pensar ou sentir mais nada, que o desejo dançando entre eles. Estava completamente seguro de poder dirigi-la com facilidade. O ritual Cárpato de emparelhamento podia ser feroz e intenso.

Gabriel colocou seu corpo sobre o dela para poder sentir o frescor acetinado de sua pele contra o calor abrasador da dele. Inclinou sua cabeça e tomou com os lábios, seu primeiro fôlego, enquanto demandava a ordem de despertar, dela ir a ele, de o desejar. Sua mente se fundiu completamente com a dela. Um homem completamente excitado no calor de ritual Cárpato de emparelhamento. O batimento de coração de sua companheira encontrou o ritmo de dele, seus pulmões seguiram a direção dos dele e sua mente ficou instantaneamente presa pelo desejo que irradiava de Gabriel. Alimentou o fogo até uma feroz conflagração. Precisava dela, desesperadamente, para sobreviver. Tinha que tê-la. Seu corpo enlouquecia por ela, exigia-a. Nada mais poderia apagar as chamas que ameaçavam devorá-los completamente.

Seu desejo era o desejo dela, precisava convertê-lo, no dela. O corpo dela ardia e doía. Os seios inchavam incitantes contra seu peito, seus quadris moviam inquietos. Gabriel encontrou um pouco de consolo, no sedoso calor de sua boca, saboreando cada descobrimento, mas não podia dar tempo a ela, para escapar de suas mentes fundidas. Acariciou seu pescoço com a língua, sentindo sua pulsação acelerada. A mão dele se infundiu para a união de suas pernas, o joelho empurrou as empurrou, abrindo-as para lhe proporcionar melhor acesso.

Francesca só podia sentir o feroz desejo e o terrível e vazio da fome. Havia uma neblina vermelha de loucura, um fogo que deslizava atravessando-a. Em cada lugar que ele a tocava, dançavam chamas. Ouviu o gemido surgir da própria garganta, quando os dedos encontraram seu ardente e úmido sexo. Só a fez sentir o desejo mais intenso. Os dentes dele acariciaram gentilmente seu seio, atormentando o mamilo, acetinado. Sentiu-o, grosso e duro, pressionando em seu interior. A mente dele alimentava a sua, com imagens eróticas, projetando sua feroz urgência em possuí-la. Não podia pensar, só podia senti,r interminavelmente. A sensação, a fome e o arder.

O cabelo dela estava em todas as partes, acariciando-os. Os sedosos fios eram insuportavelmente eróticos sobre suas peles sensibilizadas. Havia um estranho rugido em seus ouvidos. Francesca se estendeu para ele, desesperada, seus braços rodearam a cabeça dele, trazendo-a até ela, enquanto seus lábios conseguiam expulsar qualquer outro pensamento de sua mente, até que restou ele. Não havia terra ou céu, nem tempo ou espaço, só Gabriel e seus ombros rijos, sua pele ardente e seu corpo exigente. Sentia-se como se seu corpo já não a pertencesse e era suave e flexível, tão desejoso como o de Gabriel.

Ele sussurrou. Ela reconheceu a linguagem ancestral, mas as palavras ficavam amortecidas contra seus seios. Elevou os quadris, e os reteve durante um pequeno tempo, com o olhar fixo nele, aturdida por sua pura beleza sensual.

O negro olhar sustentou a dela.

- Reclamo-te como minha companheira.

O corpo rijo tomou posse de dela.

Francesca gritou, suas mãos se enredaram no cabelo negro, como protesto pelo que ele estava fazendo.

- Relaxe, Francesca. - Gabriel deixou escapar as palavras, sua voz formosa, hipnotizadora, cativante. Seus quadris se moveram numa lenta e sexy investida para frente, dando ao corpo dela, tempo para ajustar-se a invasão. Ele inclinou a cabeça para beijar a acetinada pele. Os lábios quentes moveram-se sobre a pulsação. Gabriel tentava evitar introduzir-se apressadamente a seu interior. Ela estava úmida e apertada, rodeando-o como fogo. Ela era completamente perfeita. Fechou os olhos durante um momento, saboreando a sensação por completo.

Francesca sabia que deveria protestar, mas esses lábios estavam deixando-a louca de desejo. Depois, um relâmpago a atravessou, quando ele cravou os dentes profundamente, unindo-os da forma mais erótica de todas. Coração, mente, alma e corpo. Sua força vital entrou nele ao tempo que seu corpo dele tomava posse de dela. Seus quadris se moveram num ritmo duro e profundo, levando-os para uma explosiva liberação. Gabriel tremia pelo esforço de tentar manter o controle. Sabia que nunca conhecera nada igual. Ardente, sexy, Tudo o que poderia ter desejado. Doce. Aditiva. Seu corpo ardia em chamas, enterrando-se mais profundo e mais forte, tornando-os um só.

Gabriel deslizou a língua sobre o seio dela.

- Por favor, Francesca. - As palavras surgiram roucas pelo desejo.

Ela respondeu a urgente súplica. Seus lábios moveram-se sobre os músculos de peito dele. Sentiu o corpo dele esticar-se em resposta, enquanto seus dentes brincavam sobre a pulsação, mordiscando-o.

- Francesca. – Ele pronunciou seu nome com se desesperada urgência.

Francesca compreendeu que tinha que parar. Era mais que um feitiço de magia negra, a velha luxúria a possuía. O corpo dele era forte, duro e perfeito. Cheirou seu sangue, a força vital a chamava. Moveu a boca sensualmente sobre os músculos dele, seus dentes brincaram com ele até o fazer gemer de desejo. Então, cravou os dentes profundamente.

Um relâmpago estalou atravessando-os e Gabriel penetrou profundamente, o ardente e úmido sexo de Francesca, perdendo-se no puro êxtase de seu corpo.

- Reclamo-te como minha companheira. Pertenço a você. Ofereço-te minha vida. Deu-te meu amparo, minha lealdade, meu coração, minha alma e meu corpo. Tomo em mim os teus para guardá-los de mesmo modo. – Ele apenas as pôde pronunciar as palavras que os uniriam. O corpo dela estremecia envolvendo-o, tremendo, fragmentando-se, consumindo-o, ardente e feroz. Francesca era tão apertada, que Gabriel pensou que a romperia, que estalaria em chamas. - É minha companheira, unida a mim por toda a eternidade e sempre a meu cuidado.

Francesca deslizou a língua sobre as diminutas incisões que havia nele e abraçou-o, fortemente. Ele era sua âncora segura, enquanto seu corpo estava devastando-se em ondas de puro prazer. Estava afogando-se nele. Seu corpo já não a pertencia. Nunca voltaria a pertencer. Estava sob ele, o coração dele batia forte em seus ouvidos e seu sangue corria por suas veias, seu sabor a tomava. O corpo dele estava enterrado profundamente no seu e pela primeira vez em sua interminável existência, Francesca se sentiu verdadeiramente feliz.

Gabriel, sobre ela, imobilizava-a e sentia que não desejava afastar-se da beleza desse corpo. Levantou a cabeça para olhar diretamente os olhos dela, seguro de que encontraria censura neles.

Francesca o acariciou, acariciando o cabelo úmido.

- Então isto é o que estivemos perdendo todos estes anos. - Disse ela, com voz suave, com admiração.

Ele inclinou a cabeça para depositar um beijo na vulnerável linha de sua garganta. As mãos se enterraram no cabelo dela, possessivamente.

- É incrivelmente formosa, Francesca.

Sua voz sussurrava sedutora sobre a pele dela. Francesca fechou os olhos e o permitiu penetrar em seu corpo e mente. Ela unira-os. Esperara que ele não o fizesse, mas isso estava fazendo nenhuma diferença. Francesca se alegrava de ter experimentado o que deveria ter sido para ele, mas não o suficiente para mantê-lo na terra. Centenas de anos haviam passado e sua vida tinha continuou interminavelmente. Não podia começar outra vez, como uma mulher dos Cárpatos, unida a um homem dominante. Relaxou o corpo, desfrutando da sensação de dele. Era diferente, muito musculoso e firme, todo masculinidade.

Gabriel estava se movendo novamente, lenta e gentilmente, fazendo surgir o calor entre eles uma vez mais.

Francesca evitara meticulosamente todo pensamento sobre sexo e o ato sexual quando compreendeu que nunca aconteceria com ela. Agora desejava tê-lo incluído em sua extensa educação.

Gabriel uma vez mais tomou o controle completo de seus corpos. Dirigiu-a com sua mente, suas mãos, embalaram o traseiro arredondado, movendo o corpo dela para ajustá-lo ao ritmo de dele.

Francesca não se negou a ele, sequer desejava. Em todos os longos séculos de sua vida solitária, nunca traíra seu companheiro. Enquanto pensava que ele vivia, esperara esperançada, como devia fazer as mulheres. Mas à medida que os anos vazios passavam, compreendeu que ele não viria por ela. Então canalizara sua atenção em procurar a maneira de sair ao sol. Sua vida com Brice teria sido o próximo passo. Mas agora Tudo era diferente. Nenhum outro poderia fazê-la sentir como Gabriel fazia. Ele era chamas e êxtase, suas mãos se moviam sobre ela como se conhecessem cada linha e cada curva de cor. Como se a adorasse. Como se tivesse que tê-la.

Gabriel a desejava. Só ela podia apaziguar o feroz arder de seu corpo. E sabia absolutamente que só Gabriel poderia fazê-la voltar para a vida desta forma. Completamente viva. Só Gabriel podia fazer com que seu corpo ardesse com semelhante intensidade, com absoluto prazer sensual que a rompesse em pedaços e a fizessem perder o controle. O corpo dele se movia em seu interior com um ritmo dominante, conduzindo-a mais perto da borda dos mais altos escarpados.

A boca de Gabriel se moveu sobre os seios cheios, ardente e faminto, fazendo com que seu corpo explodisse e se convertesse em lava fundida. Desejava que ele a tocasse, que explorasse cada centímetro de sua pele com os lábios. A língua dele acariciava um mamilo, enquanto o membro rijo e ardente tomava-a, tornando-a aveludada, fazendo-a afogar-se no prazer. Ele se movia com seguras e firmes investidas, seus corpos estavam unidos. Gabriel segurou seus quadris enquanto a mantinha imóvel para sua invasão. E ela queria-lhe assim.

Francesca podia ler as imagens eróticas da mente dele, as coisas que tinha intenção de fazer com ela, o que queria que ela fizesse com ele e desejou cada uma delas. Seu corpo estava perdendo o controle e se segurou a ele e um suave ronronar de puro prazer escapou de seus lábios, antes que pudesse conter-se. Não queria que ele parasse, desejava que este momento durasse para sempre, por toda a eternidade. Desejava tomar seu tempo e explorar cada centímetro de duro e perfeito corpo dele. Desejava deixá-lo louco de prazer como sabia que podia fazer.

Deslizou os braços ao reder de seu pescoço e o manteve perto, enquanto ele investia em seu interior, levando-a ao alto, enquanto se lançavam em queda livre e Gabriel explodiu em seu interior, caindo com ela, com seus corpos tão entrelaçados, que nenhum podia dizer onde começava um ou terminava o outro.

Gabriel a abraçou, ralentizando os batimentos de seus corações, mais que satisfeito com a reação dela. Apesar dela estar furiosa com ele por sua deliberada sedução, apertava os lábios contra seu ombro, com o corpo relaxado. Em sua mente, pode ler a satisfação, seu crescente desejo. Desejava a cor e o fogo. Desejava suas mãos sobre ela. Era absolutamente distinto, algo que nenhum dos dois haviam experimentado.

De repente ela se moveu e empurrou seu peito. Gabriel permitiu poucos centímetros de liberdade. Uma gota de suor rolava para baixo, por entre seus incitantes seios e prazeromente, ele inclinou a cabeça, apanhando-a com a língua.

Sentiu que o corpo dela ficava rígido e se apertava a ele. Ela empurrou-o novamente e em seguida ele procurou sua mente. A culpa a invadia. Culpa e confusão por sentir uma atração sexual tão forte quando nunca antes, experimentara.

- É natural, Francesca. - Sussurrou consoladoramente, seus dentes mordiscando os seios sensíveis, depois ele procurou a suavidade de sua boca.

- Possivelmente seja para você, mas não para mim. Preciso de tempo, Gabriel, para reordenar Tudo isto. Preciso estar sozinha. Preciso pensar. Por favor, deixe me levantar.

Havia lágrimas em sua voz? Ele estudou a face que ela evitava mostrar, durante um longo momento, desejando encontrar seu escuro olhar, mas ela se empenhava em evitá-lo. Contra vontade liberou seu corpo de dela e imediatamente se sentiu abandonado. Ela também, mas se negava a admitir. Queria estar sozinha. Gabriel afastou-se de corpo dela, sua mão vagou sobre a suave pele uma vez mais, porque não pôde se conter. Ficou deitado olhando o teto da câmara, um pequeno sorriso de satisfação curvava sua boca.

Desejava-a tanto como ela a ele. Havia uma mulher sensual e muito apaixonada escondida no interior de Francesca. Gabriel fechou os olhos e pensou em como gostaria de abraçá-la a cada amanhecer, despertar cada noite com ela a seu lado, tomar seu corpo profundamente, desmanchar-se no acolhedor calor dela. Nunca imaginara semelhante paraíso em todos os séculos de sua existência e agora mais que nunca, estava decidido a não perdê-la.

Francesca havia se retirado para o banho. Permanecia em pé sob a ducha, com lágrimas descende por seu rosto. Como podia ter acontecido agora, no final de sua vida? Como podia Gabriel estar vivo, quando todos no mundo Cárpato acreditavam que houvesse morrido? Ele era uma lenda, um mito, não alguém que vivia, respirava e exigia seus direitos.

- Não te faz nenhum bem se esconder aí.

Ela sentiu que Gabriel estava perto. Apressadamente lutou por conter as lágrimas e fechou a água. Saiu da ducha, envolveu seu corpo esbelto com enorme toalha. Estava com a pele tão sensível que se ruborizou sem nenhuma razão. Ele tinha feito isto. Ele havia mudado-a para sempre. Ele havia dado seu sangue e a devolvido completamente ao mundo dos Cárpatos. Unira-a ele, completando o ritual de forma que as duas metades de suas almas se fundissem, que seus corações fossem um. Agora precisaria dele, precisaria tocar sua mente e sentir o calor de seu corpo durante o resto de seu tempo sobre a terra.

Francesca, que nunca precisara de ninguém. Francesca, que nunca havia respondido perante ninguém.

Gabriel se apoiava contra o marco da porta, seus olhos negros a estudavam cautelosamente. Ela era tão bela que lhe roubava o fôlego, mas as lágrimas que desciam por seu rosto, sangravam em seu coração.

- Não estou me escondendo. - Replicou ela enquanto se colocava resolutamente ante de espelho de corpo inteiro. Parecia diferente? Notava-se que havia sido amada, tão profundamente por um homem? - Estava recomponde minhas idéias.

- Nada mudou.   - Foi uma declaração.

- Não posso dar o que desejas de mim. Não apresse este assunto, Gabriel ou me obrigará a levá-lo ante nosso Príncipe.

Gabriel sorriu, deixando a descoberto, seus dentes de predador. Não havia humor, só ameaça. Pela primeira vez, Francesca teve mede.

- Ninguém a separará de mim, Francesca, certamente não Mikhail. Em qualquer caso, não colocaria outra pessoa em meio de nossa batalha pessoal. Isto é entre você e eu. Você acredita tão profundamente como eu. Não se equivoque, minha lealdade está primeiro com minha companheira, em proteger sua segurança.

- E sua felicidade?

- Me dê tempo e assegurarei isso também. Nem pense em cruzar espadas comigo. Não ganhará.

- Admiro sua arrogância. - Disse Francesca simplesmente e permitiu que a toalha caísse ao chão, simultaneamente se vestiu, à maneira de sua raça. - Tenho que sair esta noite. - Não ia se deixar arrastar a uma discussão com ele.

- Se busca se alimentar proverei para você. - Disse Gabriel simplesmente.

Ela tentou evitar que a cor espalhasse por seu pescoço e seu rosto. Não queria pensar em como ele proveria para ela. Convertia o simples ato de se alimentar em intimidade sexual.

- Muito obrigado pela oferta, mas vou para o hospital. Havia uma mensagem de Brice sobre outro paciente.

Gabriel estendeu a mão e enredou os dedos em sua esbelta cintura, um grilhão que certamente não poderia romper. Não o fazia por mal, seu toque era terno, mas embora lutasse desesperadamente, nunca romperia sua garra.

- Eu mantenho o que é meu, Francesca. Não coloque este médico em nossa batalha.

- Não há nenhuma batalha, Gabriel. - Replicou ela brandamente. - Brice é meu amigo. Vou ao hospital com freqüência para ajudar onde precisam de mim. É uma grande parte de minha vida, de quem sou. Não tem nada que ver com Brice, que além de médico e somos amigos.

- Apega-se a ele porque é simples. É alguém que te é familiar e cômodo. Eu te assusto.

Os olhos negros dela descansaram em seu rosto.

- Não sei exatamente o que planeja, Gabriel, mas posso ler suas intenções. Pensa em evitar que eu faça as coisas que tenho planejado a tanto tempo.

Gabriel encolheu de ombros casualmente, sem incomodar-se em negar.

- Possivelmente ajudaria que considerasse outras possibilidades, outras formas de vida.

- porque você acredita que mudou seu estilo de vida. Não o fez e sabe disso. Num ou dois dias haverá um assassino nesta cidade e você o seguirá para caçá-lo, sem olhar atrás, sem um só pensamento para mim, como já fez antes.

Gabriel sorriu, mostrando os dentes brancos.

- Não tenho outra escolha que caçar ao vampiro, mas não só olharei atrás. Voltarei.

- Não precisa ter nenhuma pressa. - Disse Francesca, serenamente. Enquanto tentava se livrar dele, elevou a mão para acariciar seu pescoço.

Gabriel sentiu a mesma calma e consolo que havia experimentado no instante em que a vira pela primeira vez. Não compreendia até agora quão tenso estava. Francesca reconhecia e sabia o que fazer para acalmá-lo.

- É um grande homem, Gabriel, uma lenda entre nossa gente e sua reputação é enorme. Desejaria poder te dar Tudo o que deveria ter. - As longos cílios de Francesca baixaram para ocultar a profunda pena e culpa escrita em seus olhos. - Mas eu possuía uma vida antes que você chegasse aqui. Não o conheço. Meu corpo reage como deveria fazer o de sua companheira Cárpato, mas meu coração não te pertence.

Gabriel segurou sua mão e levou-a até o peito e a sustentou contra seu coração.

- Sente admiração por este médico humano, Francesca. Posso ler facilmente em sua mente, mas não confunda com amor.

- Por que acredita que eu não poderia amar um humano?

- Porque é minha companheira e não há outro homem para você mais que eu. Agora estou aqui, Francesca. Deveria ter estado antes, mas agora estou aqui. Não permita que o mede a faça correr até este homem.

- Sinto afeto por Brice a muito tempo, Gabriel. É certo que estava considerando a idéia de compartilhar meus últimos anos com ele. Mereço alguma felicidade em tão longa vida. - Francesca não podia entender por que ele se sentia culpado. Não devia nada a Gabriel. Não pedira que os unisse, e mesmo assim ele o fizera. Sentia-se abandonada e confusa.

- Desfruta da companhia deste médico porque compartilha seus interesses. É uma curadora de nascimento. Ele também cura às pessoas. Mas essa afinidade não é amor, Francesca. Afeto, admiração e amizade não somam amor.

- Se tivesse pedido que me casasse com ele, Gabriel, o teria encontrado vivendo comigo.

Os olhos negros de Gabriel se moveram sobre a face dela. Gentilmente, ele estendeu a mão para elevar seu queixo.

- Não tenho que ler sua mente para saber com que freqüência tem feito essa pergunta a você mesma. Nenhum homem, humano ou de qualquer outra espécie, tomaria tanto tempo em tentar te fazer dele. Não o ama, Francesca.

- Não amo você, Gabriel e isso é o que me importa. Vivi muito para entrar tão tarde numa relação só porque desejo experimentar sexo.

Os olhos dele sorriram para ela.

- Um sexo estupendo. – Corrigiu ele.

Um pequeno sorriso de resposta flertou na boca dela.

- De acorde então, um sexo estupendo. - Concedeu. - Não tire conclusões, estou concedendo ao diabo seu crédito. Todo este tempo nossa gente o chamou o anjo da luz e Lucian, o anjo escuro. Acredito que poderiam ter confundido. – Francesca retirou a mão ele e se afastou. - Não me importaria que encontrasse outro lugar de descanso, Gabriel. Não conte muito ganhando esta batalha entre nós. Mesmo depois de que aconteceu entre nós, ainda estou decidida a levar a cabo meus planos de envelhecer. Vivi muito tempo e estou cansada de ver morrer a outros.

- Não existe tal batalha, céu. - Murmurou Gabriel, com suavidade, enquanto a observava entrar na escura noite. Ela não tinha possibilidade de escapar dele. Ele se assegurara disso. Ninguém, nem humano nem de nenhuma outra espécie, poderia afastar ela dele agora. E sua apólice evitaria que ela procurasse a paz de amanhecer, como não poderia ter feito outra coisa. Deslizou-se atravessando o quarto até a porta e ficou olhando as luzes da cidade. Havia tantas. Iluminavam brilhantemente os céus.

Gabriel se encerrara clandestinamente por longo tempo e havia muito que recuperar. Tinha que voltar a conhecer Paris, encontrar cada beco e cada escuro buraco. Este era um terreno de caça perfeito para um demônio como o que Lucian se converteu. Logo começaria. Os assassinatos, as mortes, a interminável caça e as muitas batalhas.

Em algum lugar, fora na cidade adormecida, espreitava um assassino desumano e implacável. Ninguém estava seguro, ninguém voltaria a estar seguro até que Gabriel o destruísse. Agora com Francesca a quem proteger, Gabriel sabia que era imperativo ganhar desta vez. Tinha que encontrar a forma de destruir seu irmão. Se tivera dúvidas sobre sua lealdade no passado, já não podia permitir-se. Francesca devia ser protegida todo o tempo. Com um peso no coração, se lançou ao ar.

Francesca demorou a chegar no hospital. Amava a noite. Tanto como havia desejado o sol, embora havia trabalhado para ser capaz de caminhar sob ele, amava a noite. Havia uma paz e uma tranqüilidade depois de pôr-do-sol, enquanto que com freqüência o caos reinava durante o dia. Adorava o ruído das criaturas noturnas, o roçar das asas no alto, que só uns poucos seletos ouviam. Era um mundo secreto de qual sempre formara parte e agora Gabriel exigia que voltasse para ele.

Quanto tempo fazia que não visitava sua terra natal, as Montanhas dos Cárpatos? Como seria caminhar entre sua própria gente? Afundar os dedos profundamente na rica terra curadora? Fazia muito tempo que tinha deixado para trás, esse sonho. Por que ele havia voltado depois de todo este tempo? Por que agora? Era pelo que ela sentia por Brice? Poderia entregar seu corpo de tão de boa vontade, tão completamente a Gabriel e sentir afeto por Brice? Gabriel não havia tomado nada que ela não tivesse entregado voluntariamente. Pode ser que ele tivesse despertado o desejo em seu corpo, mas não era uma principiante. Não podia colocar a culpa nos ombros de Gabriel. Podia havê-lo detido ou ao menos tornar as coisas extremamente difíceis. Não, não podia colocar a culpa sobre Gabriel. Ela o desejara quase no primeiro momento em que o despertou com seu sangue correndo pelas veias.

O que significava isso? Era a classe de mulher que podia estar com mais de um homem de uma vez? Podia amar Brice? Se realmente o amava, por que não lhe havia dito que se casaria com ele antes? Gabriel estaria com a razão? Estava correndo para Brice porque era seguro, alguém a quem conhecia? Alguém que alguma vez a dominaria? Albergava ainda em seu interior a uma menina ferimento e humilhada? Acreditara esquecidos há muito tempo, esses absurdos sentimentos.

Estava unida a Gabriel. Sua mente sintonizava com a dele. Seu corpo clamava pelo dele. Estavam unidos, embora seu caprichoso coração parecia ter mente própria. Como podia ser? Tornara-se tão humana, que não podia se sentir atada pelas palavras rituais? Não, havia sentido o ardente desejo, o terrível anseio que só Gabriel podia aliviar.

Suspirando, Francesca esfregou as têmporas que batiam aceleradas. Traíra suas próprias crenças. Nunca se comprometera com Brice, mas secretamente jogara com a idéia de que havia uma oportunidade para eles. A Brice, ela importava muito, sentia seu genuíno afeto cada vez que estavam juntos. Seria impossível ele mentir para ela, pois podia ler sua mente com facilidade. Ele ficaria sentido pelo repentino retrocesso de sua relação. Ela havia permitido que ele tivesse sentimentos por ela. Não seria responsável? Sentia-se confusa e sozinha. E estava tão cansada de viver tão completamente sozinha.

- Não está mais sozinha, Francesca. Eu estou aqui falando com você. Não há necessidade de sentir traição. Cheguei a sua vida inesperadamente. Não posso dizer que me faz feliz, vê-la pensando constantemente em outro homem e preocupando-se mais por sua felicidade que pela minha, mas entende. Compliquei as coisas para você.

Francesca piscou para conter as lágrimas. Era reconfortante e muito íntimo, ter alguém falando com tanto carinho em sua mente, sussurrando palavras consoladoras de compreensão e de camaradagem, para enfrentar sua crise pessoal. Tinha passado tanto tempo desde que tinha utilizado tais meios de comunicação. A voz de Gabriel era uma ferramenta poderosa, roçando sua mente como uma carícia. Pela primeira vez em muitos séculos sentiu que não estava sozinha. As mulheres de sua espécie precisavam de sua outra metade. Gabriel. Francesca fechou os olhos brevemente. Por que havia voltado?

- Francesca! Graças a Deus. - Brice chegou apressadamente saindo da entrada de urgências. - Envelheci a metade de minha vida, me preocupando com você. Quem era esse homem?

O braço de Brice se apossou de seus ombros e uma vez mais, ela sentiu o peso da desaprovação de Gabriel. Os homens dos Cárpatos não eram bons compartilhando suas mulheres. Gabriel era de Velho mundo. Tinha passado séculos de sua vida caçando demônios e protegendo as pessoas. Possuía os instintos de um predador, embora também fosse um cavalheiro elegante e cortês. Podia o sentir lutar por manter-se equilibrado quando sua natureza exigia que ele eliminasse a competência rapidamente. Já havia passado muito tempo desde que Francesca vivera nesse mundo. Quase se esquecera de como eram os homens de sua raça, com suas mulheres. Protetores. Possessivos.

- Seu nome é Gabriel, Brice. Sinto muito, não tinha idéia de que ele viria aqui. Se soubesse, teria falado dele a você, antes que o conhecesse.

- Você age como se ele fosse seu dono. - Brice a abraçou, sentindo de repente que já a tinha perdido. Havia uma cautela nos olhos dela que nunca estivera ali antes. Francesca estava diferente, mas não podia dizer exatamente como. - Acredita que é, certo? O que é ele para você?

- Era meu maride. Pensava que estivesse morto. - Disse Francesca, com sinceridade. - Eu fiquei mais... De o ver vivo de que deve estar você. De verdade, Brice. Pensava que ele estava morto, durante todos estes anos.

- Nunca mencionou um maride, Francesca. - Brice estava claramente surpreso.

Ela assentiu.

- Sei que não. Faz muito tempo e eu havia aceitado a idéia de que ele havia morrido. Sua volta foi um choque e ainda tenho que assimilar. Todos nós temos que fazê-lo.

Brice engoliu a saliva com força, visivelmente contrariado, tanto que automaticamente, Francesca pretendeu lhe consolar com seu toque. Imediatamente ele entrelaçou Seus dedos nos dela.

- O que significa isso? Ele não pode acreditar que depois de todo este tempo, possa simplesmente voltar a entrar em sua vida. Não é verdade, Francesca? Sabe o que sinto por você. Declararam ele legalmente morto? Que significa, agora, para nós?

- Honestamente não sei o que pensar agora, Brice. Como lhe disse, estou em completo estado de choque. – Já que não podia suportar ser desonesta com ele, Francesca se obrigou a ir mais longe. - Mas isto muda as coisas. Como poderia não fazê-lo? Gabriel é um homem muito impressionante e certamente nunca o declararam morto.

Brice se afastou dela, seus olhos passearam pela face de Francesca com censura.

- Ainda se sente atraída por ele, verdade? - Foi uma acusação.

Francesca afastou o olhar, tomada pela culpa.

- Foi meu maride, Brice.

- Demônios, Francesca! Você deveria ter se casado comigo a tempo. Certamente pensaste, não pode negar. E o que tem, ele ter voltado? Já não tem nada o que fazer em sua vida. - De repente, Brice ficou quieto. – Ele não vai ficar em sua casa, certo?

Francesca permaneceu em silêncio, seu olhar evitou o dele.

Brice se irritou.

- Francesca! Ficou louca? Sequer conhece mais este homem. Onde ele esteve tode este tempo? Sabe ao menos o que esteve fazendo ultimamente? Aposto que simplesmente o recebeste como se o tempo não tivesse passado. Poderia ter passado todo esse tempo na prisão. –Colocando uma mão sobre seu braço, Brice deteve seu avanço. - É isso, Francesca? Ele esteve na prisão em algum lugar e você não me quer contar isso Acredito que me deve isso.

- Embora quisesse, não poderia. - Protestou Francesca. - Onde Gabriel esteve e o que fez, é assunto dele, só dele e não te devo essa informação.

- Deitou-se com ele. – Declarou Brice.

- Isso tampouco é assunto seu. – Ela tinha o queixo elevado e seus olhos brilhavam em sinal de advertência. Francesca podia sentir-se culpada, mas não ia deixar que Brice ou nenhum outro homem a encostasse-se à parede. Sempre fora honesta com ele, sempre. Mais de uma vez o tinha animado a procurar outra mulher, alguém que o amasse como ele merecia. Francesca não era de você que ele pensava. Entristecia-a que fosse assim. A fazia sentir-se inadequada por não poder entregar seu coração completa e totalmente. Algo estava errado com ela nela. Sentia-se mal. Ao escolher seguir outro caminho, Gabriel a tivesse declarado que sua vida com ela seria menos satisfatória.

- Você já parou para pensar que possivelmente ele esteve vivendo com outra mulher todos estes anos? Poderia ter outra mulher e filhos em algum lugar e você não sabe. - As palavras escaparam maliciosamente antes que Brice pudesse evitar.

Os enormes olhos dela relampejaram com raiva, ante a sugestão.

- Você não é homem disso, Brice. – Francesca o repreendeu.

- Francesca, por favor. Não faça isso. - Brice rodeou sua cintura com o braço, mas quando tentou aproximá-la de seu corpo foi consciente de ter cruzado alguma linha.

No momento ela se sentiu incômoda, tensa. Podia sentir o perfume da colônia de Brice. Embora fosse cara, a fez sentir-se ligeiramente enjoada. Era estranho, sempre gostara bastante da colônia dele, mas agora pensava no cheiro de Gabriel, sua essência almiscarada e masculina. Era parte de ritual da união, tornar que fosse impossível tocar outro homem? Era esse o segrede que os homens de sua raça guardavam de suas mulheres? Ela passou uma mão impaciente pelo cabelo, notou que Seus dedos tremiam. Possivelmente, devia havia uma forma de desfazer o que as palavras rituais teceram. Depois de Tudo o que ela fizera, mais que o impossível, de como encontrar uma forma de caminhar entre os humanos a plena luz de sol. Gabriel podia dar valor ao que fizera, mas não podia negar o fato de que ela conseguira o que nenhum outro Cárpato conseguiu.

- Não estou fazendo nada, Brice. Não sei o que fazer, então não vou fazer nada absolutamente. Não estou pedindo que mantenha sua vida em suspense ou pedindo que me espere. Sempre disse a você que encontrasse a uma garota e sentasse a cabeça. - Francesca afastou o cabelo, num gesto nervoso, estranho a ela.

- Amo você, Francesca. - Disse Brice infeliz, - Não vou sair correndo para procurar outra mulher. Você é a única que quero. Não posso dizer que goste da idéia de que tenha um ex-maride vivendo em casa, mas não quero que me deixe fora, porque pense que não posso confrontar a situação.

Francesca sacudiu a cabeça.

- Eu não posso confrontá-la, Brice. Não tem idéia de quanto estou confusa, de como me sinto. Preferiria não falar disso agora. Que tal se deixar ver esse teu paciente?

Brice segurou seu braço e a fez diminuir o passo para evitar que entrasse no hospital.

- Ama-o?

Francesca deixou escapar o fôlego lentamente, desejando ser completamente sincera.

- Como poderia, quando não o vejo a tanto tempo? Não o conheço. Não me permiti conhecer, não quero o conhecer agora. Posso te dizer que acredito que é temerário e o admiro como nunca admirei ninguém em toda minha vida. E merece ter uma boa vida, só que não desejo, necessariamente, ser parte dela.

Brice se amaldiçoou silenciosamente.

- Não deve nada a ele, Francesca. Não me importa se foi seu maride. Soa como se pensasse que deve, mas não lhe deve absolutamente nada. Não me importa se era um agente secreto e esteve salvando o mundo. Não pode voltar aqui simplesmente e decidir que a quer novamente.

Gabriel salvara o mundo, provavelmente mais de uma vez. E com um poderoso vampiro solto na cidade, uma vez mais protegeria os humanos, com grande risco para sua vida. Ele havia deixado de lado, sua oportunidade de ser feliz, de ter uma família, de sentir emoções e cores. Fazia muito mais que arriscar sua vida, tinha arriscado sua alma para manter a salvo, os mortais e imortais. Não tivera uma autêntica vida e sua própria gente temia seu poder. Ele estava completamente sozinho.

Gabriel. Seu coração se condoeu por ele, por muito que sua mente se revoltasse contra esse poder que ele tinha sobre ela.

- Gabriel é diferente, Brice. Não posso explicar e depois, tive uma noite difícil e peço a você para mudarmos o assunto. Não posso te dar a resposta que quer ouvir, se me pressionar, pois teria que te dizer não. Dizer que não há esperança para nós e que simplesmente me esqueça. – Ela esfregou as têmporas. - O que tem que esse teu paciente? Quer que o ajude ou não?

Brice sacudiu a cabeça tentando ocultar sua frustração.

- Está bem, Francesca. Será a sua maneira. Deixaremos o assunto, por hora. Mas quero que você o mande embora ou o coloque num desses albergues que sempre está fundando. Em algum deles deve ter uma cama para ele.

Francesca sabia muito bem que Gabriel provavelmente era bastante rico. Não importava quando tempo tivesse passado dormindo clandestinamente, teria ouro ou outros bens igualmente valiosos, que o manteria. Ele deveria ter suas propriedades. Se não fosse assim, todos os Cárpatos contribuiriam com quantidades significativas para facilitar sua volta à sociedade. Essa era a forma deles se ajudarem, uns aos outros, sempre que era necessário. Na sociedade Cárpato, a riqueza não significava nada. Compartilhá-la significava a continuidade de sua raça, de se manter em segrede. Gabriel ainda não tinha tido tempo de recuperar o que era seu por direito, mas o faria. Em qualquer caso, Francesca não poderia fazer mais que viver segundo o código de sua gente e compartilhar o que era seu com ele.

- Pedi que ele encontre um outro lugar para ficar, não se reorganize, mas não o obrigarei a abandonar minha casa. Agora me fale de seu paciente ou vou embora.

Se Brice a pressionasse um pouco mais, simplesmente ela iria embora e nem tão cede voltaria.

Ele reconheceu a decisão em sua voz.

- Ela tem quatorze anos e parece que foi atropelada por um caminhão. Os raios X mostram muitos ossos quebrados, alguns já tratados e alguns curados por si mesmos. Está virtualmente em coma. Ela me olha, mas não diz uma palavra. Não posso dizer sequer que me ouça. Está muito mal. Tem algumas cicatrizes com mau aspecto, nas costas e outras particularmente feias nas mãos e nos braços como se tivesse lutado muitas vezes. Parece ter sido golpeada repetidamente. Seu pai a trouxe. É um homem brutal, asqueroso e não disse muito. Não há outros parentes. Os policiais dizem que ele tem ficha policial, mas não antecedentes de abuso de menores. Não podemos provar que o pai seja um pederasta sádico, sem a declaração da menina e ela não nos pode contar isso. Ele a quer levar para casa, diz que é atrasada, mas não acredito.

Francesca sentiu que seu coração bateu forte no peito. Odiava este tipo de atitude. Lutara durante séculos para estabelecer refúgios seguros para mulheres e crianças, embora nunca eram suficientes. Quatorze anos. Por que um pai torturaria e abusaria de sua própria filha, quando sua espécie lutava duramente para preservar seus filhos? Os homens dos Cárpatos sempre protegiam às mulheres e as crianças, acima de suas próprias vidas. Simplesmente não tinha nenhum sentido e seu coração se derreteu pela pobre adolescente que não tinha ninguém que a protegesse da mesma pessoa que deveria amá-la, mais que Tudo.

- Houve abuso sexual?

Brice assentiu.

- Absolutamente. Abusaram desta menina.

- Precisa de minha ajuda, carinho?

A formosa voz de Gabriel acariciou gentilmente, sua mente.

- Mostre-me Brice. – Pediu Francesca, ao mesmo tempo em que respondia - Uma menina. Vou vê-la agora. Brice diz que ela foi abusada e suspeitam de pai. - Sem notar, Francesca enviou a Gabriel, toda a informação que Brice havia proporcionado. - Estarei bem.

- Espero que me chame, tal como deveria, se for necessário. - Junto com a suave ordem, ela se encontrou imediatamente flutuando em ternura e conforto. Fortes braços a sujeitavam enquanto s enfrentava outro golpe emocional.

 

Brice abriu a porta de quarto da jovem e retrocedeu, para permitir a entrada de Francesca. Felizmente o pai da garota não estava presente. Esse homem era um valentão e Brice tinha mede. Francesca atravessou o quarto sorrindo gentilmente, para a jovenzinha encolhida na cama. Ela não levantou o olhar ou indicou, de em forma, que havia notado sua entrada.

- Skyler, eu gostaria que conhecesse uma amiga minha. Sei que pode me ouvir, Skyler. Esta é Francesca. É uma mulher extraordinária. Não tem que ter mede.

Francesca observou Brice, notando o cuidado em que ele se movimentava em volta da adolescente. Essa era uma das coisas que a atraíam a Brice. Como ele tratava crianças que haviam sido feridas ou maltratadas. Importava-se com elas. Não tinha nada a ver com dinheiro, estava segura disso. Brice queria fazer o que era certo, desejava ajudar a estas pequenas almas perdidas. Seu coração se esquentou e ela sorriu para ele, enquanto se deslizava para a cadeira que Brice tinha colocado junto à cama.

- Olá, Skyler. Seu médico me pediu que viesse te visitar. Acredito que pediremos para que ele saia. Assim poderemos conversar sozinhas. Só nós duas.

Brice se inclinou e sua boca se aproximou tanto de ouvido de Francesca, que pôde sentir sua respiração.

- Vou manter um olho no pai dela. Se ele a encontra aqui, não sei o que posso fazer.

- Acredita que ficará violento? - Francesca murmurou a pergunta, não queria que a menina a ouvisse. A última coisa que precisava a garota era uma horrível cena que envolvesse seu pai. – Está o esperando?

- Não tão cede. Normalmente a esta hora desta noite, está se embebedando. - Tranqüilizou-a Brice. Dirigindo uma piscada crédula diante da adolescente insensível, ele saiu de quarto.

Francesca estudou a menina com atenção. Ela estava deitada em posição fetal e seu cabelo pendia em grandes mechas díspares, como se alguém o tivesse cortado indiscriminadamente. Tinha uma cicatriz feia na fronte, branca e magra e hematomas por toda a face. Os olhos estavam inchados e a mandíbula cheia de sombras verdes e azuis.

- Então você se chama Skyler. - Baixou a voz até convertê-la num sussurro suave e formoso, que escondia a compulsão subjacente, com um som prateado.

Francesca tomou a mão frouxa e cheia de cicatrizes da garota entre as suas, alcançando ao mesmo tempo sua mente. Queria examinar as lembranças da menina, ver o que tinha acontecido para deixá-la assim, sem se mover, tão vazia de vida e esperança. Em seguida, uma onda de violência e depravação a assaltou. Arderam lágrimas nos olhos de Francesca. Que terrível existência. Sentiu cada golpe que a menina havia recebido, cada queimadura, cada violação, cada ato de força exercido contra ela. Francesca sentiu cada tortura, mental e física, como se fosse nela. As cicatrizes estavam tanto por dentro como por fora. Eram cicatrizes que poderiam desaparecer com o tempo, mas que nunca se desvaneceriam complemente. Seu próprio pai a tinha vendido a outros homens, espancando-a repetidamente se resistisse a eles e castigando-a cada vez que ela tentava fugir. Ela a agredia, se chorava, quando os homens a devolviam, queixando de que era como uma boneca de madeira, pouco cooperativa e frígida.

As imagens eram terríveis, de dedes abrindo passo no interior de pequeno corpo, mãos retorcendo e manuseando, homens avançando para ela com cheiro de álcool. Havia uma der que cortava o fôlego, quando irrompiam com violência, num corpo muito pequeno para acomodá-los. Enormes punhos, como martelos impactavam o pequeno rosto e seu pequeno corpo era arrojado contra a parede. O pesadelo seguia, ilustrando o horrível destino de uma menina jovem, sem ajuda e sem esperança. Encerrada a chave num armário asfixiante. Encerrada num arrepiante e frio banheiro. Faminta, sedenta, sabendo cada vez que ouvia passos, começaria Tudo de novo.

Francesca pressionou seu estômago, que se retorcia. Durante um momento, temeu que pudesse de verdade estar doente. Esta menina não só tinha sofrido um inferno físico, mas também havia perdido completamente à vontade de lutar. Francesca empurrou de lado, o passado de total desespero e retrocedeu. Queria encontrar à autêntica Skyler, a que existia antes que seu espírito fosse tirado golpes. Skyler era uma lutadora. Uma amante da vida, da poesia e encontrava alegria em Tudo o que a rodeava. Gostava de coisas simples, como fazia sua mãe. Skyler Rose era como havia chamado sua mãe. Uma formosa rosa sem espinhos. Possuía uma voz que podia cantar até o céu, embora seu brutal pai a houvesse silenciado. Esse homem era tão malvado como um vampiro. Ardiloso, cruel e completamente depravado. Sua existência adoecia Francesca. Vivia para o álcool e para a droga. Essa era sua única vida.

- Ouça o som de minha voz, Skyler, mais que minhas palavras. - Francesca projetou sua voz na mente da garota, estendendo-se para tocar o espírito encolhido de mede. - Não posso mentir para você. Sei que não deseja voltar para este mundo e não a culpo. Escapaste para tão longe deste corpo, para não ter que o ver ou o ouvir ele. Para não ter mais que sentir o que ele faz. Posso te curar. Posso acabar com as coisas que ele tem feito, as cicatrizes de seu corpo. Posso aliviar o impacto, para que possa voltar a viver de novo. Posso inclusive fazer possível que tenha um filho, se algum dia quiser. Pode ter sua própria família. Acredite-me, sobre todas as coisas, você não é responsável pelas coisas que aconteceram. Sei que ele tem feito você acreditar que merecia, mas a verdade Skyler, que ele não podia suportar sua bondade natural, sua beleza o incomodava. Ele recorda cada dia sua, própria depravação doentia.

Acariciando as irregulares mechas de cabelo dela, com dedes suaves, Francesca se inclinou mais perto da cabeça da garota. Queria abraçá-la para sempre, mantê-la a salvo e amá-la como ela deveria ser amada. Por que não a encontrara antes? Antes que o pai cruel tivesse feito tanto dano? Podia sentir as lágrimas correndo por seu rosto, o peso da pena pressionando seu peito. Os antigos sentiam a der, as emoções, muito mais intensamente que os principiantes. Francesca desejava deitar-se junto à garota e chorar, mas em vez disso se obrigou a olhar mais à frente da der que agora, ambas compartilhavam.

Fechou os olhos, concentrando-se completamente na jovem adolescente, fazendo seu corpo se converter em energia e luz. Em seguira, moveu-se para fundir-se a Skyler. Seu jovem corpo era uma massa de músculos machucados, ossos quebrados, tecidos arroxeado. Havia cicatrizes internas por toda parte. Mas o pior de Tudo, o corpo parecia morto, como se o espírito de Skyler partira a muito. Francesca sabia que não era assim, pois havia se conectado com a garota, sabia que a menina estava ouvindo-a, em algum lugar nas profundezas de sua mente. Um pequeno espírito despedaçado, miserável só pela compulsão da voz de Francesca. Francesca sabia que a garota estava esperando, quieta entre as sombras. Ela simplesmente estava esperando ver se Francesca estava dizendo a verdade. Como podia acreditar? Ela era a raridade. O puro som prateado da voz de Francesca e o fato de que ela fosse "diferente", foi o que captara toda sua atenção.

- Pequena. - Francesca murmurou brandamente, com o coração dolorido. - Pequena. Sinto tão não ter estado aqui antes, mas não a abandonarei. Cuidarei de você sempre, durante toda sua jovem vida. Assegurarei-me de que ninguém, nunca mais volte a te fazer mal assim. – Ela se aproximou mais à força vital que estava diminuindo-se. - Volta e viva, Skyler. Posso te trazer de volta à vida. Não sou sua mãe, eu sei, mas nunca permitirei que ninguém de faça mal outra vez. Deu-te minha palavra. – E ela se aproximou ainda mais, banhando à miserável menina com sua luz, sua compaixão, com toda a força de sua bondade. - Me acredite, confia em mim. Sei que posso te manter a salvo como ninguém nunca fez. Ouça minha voz, Skyler. Sou incapaz de mentir a alguém como você. Sei que sente que minhas palavras são sinceras.

Sua voz era premente, arrastando o destroçado espírito da menina como um ímã. Inundou a adolescente com conforto e a promessa de que nunca teria que enfrentar de novo ao bruto que tinha por pai. Que a protegeria dele todo o tempo. Tudo o que ela tinha que fazer era voltar. Simplesmente permitir-se, a si mesmo, confiar em alguém.

Suavemente, Francesca cantarolou um ritual curador na língua ancestral, palavras tão antigas como o tempo, enquanto começava a trabalhar para reparar o corpo prejudicado de Skyler. Trabalhou veloz e meticulosamente, prestando muita atenção aos detalhes, não desejava deixar nenhuma evidência dos golpes ou violações em seu corpo. Depois de um momento, foi consciente de uma nota discordante, pois unida como estava à menina, foi consciente de que a garota se encolhia de mede, irradiando temor. Não estava assustada de Francesca, mas sim de algo mais. O espírito destroçado se moveu relutantemente para ela em busca de amparo. A menina parecia sentir a presença de seu pai. Ele devia estava em algum lugar perto, dentro de hospital, aproximando-se de quarto.

Francesca captou o temor da jovenzinha. Teria sido impossível não sentir, quando a garota estava tão aterrorizada e elas estavam conectadas. Francesca tinha um tremendo controle, nascido de séculos de paciência. Sabia que era poderosa e podia dirigir situações perigosas, embora ao mesmo tempo, era também consciente de que devia aparentar ser humana. Treinara-se, a si mesma, para parecer humana. Tais precauções a tinham protegido dos não-mortos. Também evitava que os homens dos Cárpatos a encontrassem. Mesmo uma exploração mental, a identificaria como humana, não como Cárpato. Nunca se arriscara a que uma onda de poder pudesse conduzir, sua própria gente ou aos não-mortos, para ela.

- Tudo vai ficar bem, céu. Não deixarei que ele a toque. Sei de Tudo. Sei de cada coisa terrível que te tem feito. A polícia o levará para longe e o encerrarão por tanto tempo, que nunca voltará a sair. - Uma vez mais utilizou sua voz, os tons puros de sinceridade e honestidade, para que a garota não retrocedesse muito longe, quando seu pai entrasse.

Francesca voltou lentamente para seu próprio corpo. Como sempre, quando curava fora de seu corpo, estava cansada até o ponto da extenuação. Levantou-se com calma, com movimentos pausados, abriu a porta e fez gestos a Brice, para que entrasse.

- É seu pai. Cometeu terríveis crimes contra esta menina. Chame à polícia e se assegure de que venham agora mesmo, prendê-lo. Pergunte pelo Argassy, dê meu nome. Diga-lhe que eu disse que é uma emergência.

Brice olhou fixamente para Skyler, imóvel em posição fetal, com os olhos empanados.

- Se ela não pode contar, Francesca... - calou-se quando os olhos negros de Francesca começaram a acender-se. Às vezes, a compassiva curadora podia parecer bastante intimidante.

- Ela não atestará. - É um decreto. Francesca se voltou, afastando-se dele.

Brice estava uma mão na porta, quando esta se abriu de repente, o arrojando para trás, para cair contra a cama. Um homem corpulento, como um urso, entrou cambaleando, olhando para eles com olhos cheios de ódio. Suas enormes mãos se abriam e fechavam, alternadamente. Logo olhou para Brice, claramente o desprezando como obstáculo. Seu olhar se fixou sobre Francesca cujas mãos estavam unidas às de Skyler.

- O que é isto? - Bramou. - Como se atreve a entrar no quarto de minha filha, quando eu disse que não queria ninguém aqui? Quem é você?

Francesca baixou a voz até ficar suave e tranqüila, como uma gentil brisa.

- Sou a defensora desta menina. Ela está muito doente, senhor Thompson, e quero que saia desta aposento antes que a aflija mais.

Sua voz foi tão convincente, que o homem já se voltava para sair. Chegou a levantar a mão para empurrar a porta. Então deu a volta sacudindo a cabeça e um ardiloso e feroz ódio se acumulava em seus olhos.

- Sua puta. Você não pode me dizer o que fazer com minha própria filha.

Deliberadamente, ele cruzou o quarto para ela. Skyler era essencial para ele, sua única forma de conseguir drogas.

Ele vive intimidando os outros, admitiu Francesca. Havia aperfeiçoado sua técnica durante anos de prática, com Skyler e sua mãe. Era um bruto asqueroso, com uma necessidade especial de infringir der e temor aos outros. Lendo sua mente, reconheceu como ele desfrutava em fazer mal aos outros... Homens, crianças ou mulheres, não importava. Precisava fazer. Francesca podia ver que Brice se encolhia, acovardado, tentando chegar à porta. Se ele conseguisse, poderia chamar segurança e conseguir ajuda imediatamente.

Francesca controlou o batimento de seu coração, sabendo que Skyler estava ainda unida a ela, ainda esperando saber se podia confiar em sua palavra. Francesca enviou ondas de tranqüilidade a ela. Uma tranqüilidade, que na realidade não sentia. Este homem deveria ter saído pela porta, a sua ordem. Ele era humano e a compulsão oculta em sua voz deveria ter sido suficiente para o controlar, mas não havia funcionado. Podia dirigir a situação utilizando outros poderes e habilidades, mas era arriscado, com o Brice no quarto e um vampiro legendário em algum lugar da cidade. Lucian sentiria a onda de poder e reconheceria o toque feminino. Poderia ocasionar um problema maior ao hospital, a seus amigos e a ela também.

O homem estava tão perto, que ela podia ver os pelos de seu peito através da camisa suja. Cheirava a uísque barato e cerveja. A corrupção das drogas gotejava pelos poros de sua pele. Enfrentou seu olhar, com uma calma aceitação de sua raiva. Se ele a golpeasse, seus amigos o veriam e o encerrariam durante muito tempo. E ia golpeá-la. O ar se espessava com a tensão.

- Puta... Você precisa é de um homem de verdade que te ensine como se comportar. Seu pequeno doutorzinho amaneirado provavelmente salta cada vez que você move um dede. – Deliberadamente, ele segurou o sexo por cima da calça suja, lascivamente. – Você cheira bem, duquesa, e quero ver se sua pele é tão suave como parece. – Ele respirava muito rápido, já duro e lambendo-os lábios por antecipação. Ele moveu a mão para tocar seu rosto, para sentir se era possível que sua pele fosse tão suave como parecia.

- Não o fará! - Foi uma ordem clara.

Francesca não se moveu. Seus olhos negros o atravessavam, olhando-o com desprezo. Ele era incapaz de levar a cabo o ato sexual. Sabia muito dele.

Vulgarmente, o homem cuspiu uma enxurrada de maldições enquanto lançava o punho para ela. Francesca permaneceu em pé, quieta, esperando tranqüilamente o golpe. Brice gritava a plenos pulmões, chamando os seguranças. Só um batimento de coração, um diminuto espaço de tempo, mas nesse espaço, o ar de quarto se espessou com uma negra malevolência. A porta explodiu para dentro, no momento em que o punho de Thompson conectava com a carne.

Gabriel sorria enquanto esmagava o punho de Thompson com a mão. Pegara-o, antes que ele pudesse golpear Francesca. Movendo-se com velocidade sobrenatural, inserira seu corpo entre o de Francesca e o de Thompson, capturando o murro antes que ele pudesse encontrar o rosto de sua companheira.

os olhos negros pareciam vivos em seu rosto impávido. No mais profundo deles, ardia a brilhante chama vermelha de demônio. Revelava sua autêntica natureza, a de um predador.

Para surpresa de Brice, o pai de Skyler pareceu encolher-se ante Gabriel. Brice leu o terror na face de homem e esqueceu continuar chamando os seguranças. Sentiu mede por si mesmo, uma crescente onda de adrenalina que se negava a terminar. Gabriel parecia um anjo vingador, um antigo guerreiro, invencível e implacável. Olhava diretamente os olhos de Thompson.

- Não queria atingir Francesca, não é verdade?

A voz foi suave, quase amável. Embora para um ouvinte atento, era muito mais aterradora porque não expressava nenhuma emoção.

Thompson sacudia a cabeça como um menino. Tinha a der gravada no rosto e Brice podia ver que Gabriel continuava em posse de seu punho. Os nódulos dos dedos de Gabriel não estavam brancos, não estavam com o aspecto dele estar exercendo nenhuma pressão, embora a face de Thompson estava tornando-se cinza e começou um gemido baixo e agude que rapidamente se elevou até um grito. Gabriel inclinou sua cabeça para o homem e sussurrou algo que Brice não pôde ouvir, mas Thompson deixou de chorar, gemendo baixo. Seus olhos continuavam fixos na face de Gabriel, cheios de horror, de puro terror.

Os seguranças irromperam o quarto e imediatamente Gabriel retrocedeu, afastando-se de homem. Seu corpo alto defendendo protetoramente o de Francesca. Levaram Thompson até o vestíbulo, surpreendidos de que ele os acompanhasse tão docilmente. Ouviu-se o ruído de um peso golpeando o chão, um terrível ataque de tosse e depois um resfolegar. Quase em seguida, uma enfermeira chamou Brice com voz tensa. Ele se apressou para Thompson que estava estendido no chão, segurando a garganta com as duas mãos. Ele estava com a face acinzentada, enquanto lutava desesperadamente procurando ar.

- O que aconteceu? O que está acontecendo? - Brice estava de joelhos junto ao homem.

- Ele começou a ofegar e segurar a garganta. Estava louco, atuou como se estivesse lutando com alguém durante alguns minutos, como se estivessem o estrangulando e então caiu. - Balbuciou o guarda de segurança.

Francesca ouviu a explicação e afundou-se uma vez mais na cadeira junto à cama de Skyler.

- Obrigado, Gabriel. - Disse sinceramente. Ele não fazia idéia de quanto aliviada e feliz ela se sentia com sua inesperada chegada.

A mão dele moveu sobre seu sedoso cabelo, numa lenta carícia.

- Deveria saber que nunca permitiria que ninguém colocasse a mão em você. - Sua voz era amável, quase terna e estava lhe proporcionando uma sensação pouco familiar. Isto era o que sentia ao ser protegida por um homem dos Cárpatos. Apreciada. Sabia que Thompson estava morto. Gabriel sabia Tudo, absolutamente Tudo, cada coisa terrível que essa besta havia feito com a filha. Gabriel estava ali, uma sombra em sua mente. O tempo todo, comprovando os arredores como faziam normalmente os homens de sua espécie, para assegurar a segurança de sua companheira.

Havia sentido o terror da menina e tinha sofrido junto com Francesca, cada tortura que a adolescente sofrera. Compartilhara cada lágrima que Francesca havia derramado e o terror que havia sentido quando Thompson irrompeu no quarto. E ela sentia-se estranhamente agradecida de não estar sozinha. Ao mesmo tempo estava ressentida com a idéia de que gostasse de ser protegida.

Francesca observou a forma em que Gabriel tocava Skyler. Sua mão era gentil e sua voz um instrumento musical. A ternura deste homem enormemente e poderoso, provocou um nó em sua garganta.

- Ela já não pode te fazer mais mal, pequena. Francesca cuidará de você, como eu. Está sob nosso amparo e te deu minha palavra de honra de que assim será para sempre. Volte conosco, una-se a nós.

Não havia forma de ignorar a compulsão da voz de Gabriel. A menina se moveu, piscou rapidamente, deixou escapar um suave som de nervosismo. Em seguida, Gabriel retrocedeu para que ela pudesse enfocar Francesca. Skyler precisava de uma mulher. Francesca era toda compaixão e honestidade, bondade e pureza. Skyler notaria. Ela veria a alma de Francesca, pois qualquer pessoa que a conhecesse, poderia vê-la brilhar em seus olhos.

Skyler olhou primeiro para o teto, surpreendida de que seu corpo não sentisse der. Lembrava-se da voz de um anjo reconfortando-a, fazendo promessas. Uma voz que havia escutado, mas a assustava muito, a possibilidade de tê-la inventado. Voltou à cabeça e encontrou seu anjo. Ela era formosa. Tão formosa como qualquer anjo que Skyler tivesse imaginado. Seu cabelo era comprido e espesso, tão negro como o carvão. Seu rosto era a de uma Madonna e ela tinha uma estrutura óssea clássica, delicada, quase frágil. Era tão formosa que Skyler ficou sem fôlego. Não tinha pronunciado uma palavra em meses. Era difícil encontrar a voz.

- Você é real? - Sua voz tremeu e vacilou, num fio.

Francesca sentiu a onda de orgulho de Gabriel por ela. Nunca esperara poder receber tão alta consideração dele. Gabriel, o caçador. Ninguém obtivera o que ele conseguira em séculos de sua existência. Não queria sentir sua ternura ou mesmo saber que ele estava tão orgulhoso dela, mas ele a fazia sentir como se ninguém mais tivesse seus talentos e sua capacidade. Nenhuma outra mulher tinha sobrevivido como ela, por si mesma, durante tantos séculos. E nenhuma outra mulher era tão formosa ou tão valente. Ele a fazia sentir-se assim, apesar de sua determinação em não o deixar se aproximar dela. Ele só residia nela, numa união de mentes e almas. Sentia-o.      

- Pertencemos um ao outro. Não expresso, mas ali estou, de todas formas.

Francesca o ignorou, mas um pequeno sorriso curvou sua boca.

- Sou muito real, tesouro. Disse a sério cada palavra. Já não tem nada que temer.

Skyler sacudiu a cabeça e seus olhos se encheram, de repente, de um terror selvagem.

- Enviarão-me de volta com ele. Sempre enviam ou ele me arrastará de volta. Nunca posso escapar dele. Encontra-me. Ele sempre me encontra.

A voz de Gabriel chegou por trás de Francesca. Era tranqüila, calma e consoladora.

- Ele já deixou este mundo, pequena. Foi embora para sempre. Nunca poderá te encontrar ou se aproximar de você, novamente. Sofreu uma parada cardíaco ao se ver obrigado a enfrentar seus pecados.

A garota segurou a mão de Francesca entre as suas.

- O que diz este homem, é verdade? Aonde irei? Como viverei? – Ela estava sob um ataque de pânico. Só conhecia uma vida de der e tirania brutal. Não tinha nem idéia de como viver no mundo. Nem sequer sabia se era possível.

Francesca acariciou o cabelo dela, amavelmente.

- Não há necessidade de se preocupar com nada. Tenho amigos que nos ajudarão. Estará bem atendida, prometo. Por ora, Tudo o que tem que fazer é ficar aqui deitadinha neste quarto e ficar bem. Trarei um pouco de roupa e livros para você e possivelmente, um ou dois ursinhos de pelúcia. Traremos alguma coisa para tornar sua estadia aqui, menos aborrecida. Voltarei amanhã à noite para te visitar. Falaremos mais sobre o que você gostaria de fazer com sua vida e aonde poderemos ir.

Skyler apertou sua mão sobre Francesca.

- Ele está realmente morto?

- Gabriel não mentiria a você. - Disse Francesca com suavidade, mas com grande convicção. - Precisa dormir, pequena. Voltarei amanhã como prometi.

Skyler não parecia disposta a soltar a mão de Francesca. Enquanto estavam psiquicamente conectadas, acreditou estar a salvo. Acreditava que tinha uma oportunidade de viver uma vida normal. Aterrorizava-a soltar essa esperança. Algo em Francesca a consolava, a fazia acreditar de verdade você tenha uma oportunidade.

- Não me deixe sozinha. - Sussurrou com uma súplica frenética em seus olhos. - Não poderei ficar sem você.

Francesca estava tomada pelo cansaço. Gabriel rodeou seus ombros com um braço forte, trazendo-a sob seu ombro, para que ela pudesse apoiar nele. Depois, inclinou-se mais perto de Skyler, capturando seu olhar, com a negra intensidade de seus olhos.

- Você vai dormir, pequena. Um longo e pacífico sono reparador. Quando trouxerem a comida, estará faminta. Comerá o que trouxerem. Nós voltaremos amanhã à noite. Não se preocupe com nada até que estejamos aqui para te ajudar a colocar em ordem sua vida. Durma, Skyler. Tenha formosos e pacíficos sonhos, sem temor.

Em seguira, os olhos da garota se fecharam e ela se retirou de mundo. Desta vez, num sono reparador, pois havia sido enviada pela magia da voz de Gabriel. Sonharia com anjos e coisas formosas, num mundo completamente novo e excitante para ela.

No momento em que dormiu a menina, Gabriel voltou sua completa atenção para Francesca.

- Precisa se alimentar, carinho. - Sua voz era hipnotizadora, cheia de segurança, imensamente terna. Suas mãos se moveram pelos braços dela, até lhe emoldurar a face. - O que fez aqui é mais que um milagre. Sabe. Um milagre. - Enquanto falava, ele a abraçava, pressionando seu rosto contra seu próprio pescoço onde a pulsação era forte.

A luxúria era aguda e tentadora. Francesca estava exausta depois da drenagem de energia provocada pelo trabalho. Mais que isso, mais que a chamada de suas células esgotadas que clamavam alimento, era um novo vício, o sabor dele, que a abraçava gentilmente, mas possessivamente, protetoramente. Era calor e luz, segurança e companheirismo. A fazia sentir-se completa. Fechou os olhos e inalou sua essência, tomando-se só um momento para descansar a cabeça contra o ombro de Gabriel. Sua boca contra a pele nua dele, o tecido de sua camisa roçando seu rosto. Ele estava perto. A pele dele. A sua. O sangue dele surgindo e fluindo, chamando-a.

- Está muito cansada, Francesca. Por favor, me conceda a honra de fazer este pequeno ato por você. Não o tomarei como uma rendição. Conheço sua mente. Não me enganou. Alimentei-me bem esta noite. - As palavras sussurradas eram uma sedução, uma tentação. Gabriel era um escuro feiticeiro, roçando sua mente como o toque das asas de uma borboleta.

Francesca se fundiu com sua ternura, física e mentalmente. A sensação de seu corpo perto, protetor era um presente. Quando a havia sustentado, um homem, em seus braços? Quando tivera um corpo masculino, abrigando-a tão perto?

- Por que ele não respondeu o a ordenei sair?- Perguntou ela a Gabriel, pois continuava surpresa, inclusive alarmada. Tinha prometido à menina. Nunca antes havia ocorrido. Os humanos sempre ouviam e obedeciam ao "empurrão" de sua voz.

Gabriel reconheceu sua preocupação, entendendo que ela julgava a si mesma, menos que ele, um fracasso.

- Você é a luz, meu amor. Eu sou a escuridão. Thompson era completamente mau. Você pôde refrear e conter o mal, mas não pode tocar seu íntimo, porque não pode conectar com ele. A maior parte dos humanos são formados de bondade e maldade. Não pura maldade. Pode se conectar com eles, porque pode tocar o que têm de bom. Eu levo o demônio em meu interior; é minha natureza. Ele reside aqui, escondido, esperando saltar quando me esqueço de podá-lo. Conheci o mal em cada dia de minha existência. Quando você leva controlando-o, toda uma vida, não é um lucro grande destruí-lo. - Gabriel descartou suas ações facilmente. – Você não é menos que eu, Francesca. Nunca foste menos. Você salva vistas e eu as arrebato. Quem é maior?

Os braços dela subiram para rodear o pescoço dele, aparentemente por vontade própria.

- Você salvou a nossa gente. Salvaste à raça humana. Não só uma vez. Foram décadas atrás de década. É sua natureza que te permitiu fazer. - A voz de Francesca sussurrou sobre ele, com um suave som de admiração, de uma sedução.

O fraco sombreado do queixo dele prendeu os fios sedosos de cabelo dela, quando esfregou o rosto, numa pequena carícia.

- Deve se alimentar, céu. Está caindo de cansaço.

- Brice está de outro lado da porta. Deixou de tentar salvar Thompson. Estará aqui a qualquer momento.

A voz suave acariciou o corpo dele, como se fossem dedes, produzindo uma der selvagem e incomparável, mas Gabriel se manteve estritamente sob controle. Ela precisava que ele a abraçasse, que a reconfortasse, que cuidasse dela, não que a assaltasse.

- Tome o que precise, sou bastante capaz para proporcionar uma ilusão para os humanos. - Havia uma nota rouca em sua voz, tão dolorida e solitária, que fez bater forte o coração de Francesca. Ele precisava da intimidade, tanto como ela precisava de se alimentar.

Quase cegamente Francesca voltou à cabeça para sua garganta, inalando o almiscarado e masculino aroma. O coração dele pulsava com força, no mesmo ritmo que o dela. O sangue fluía em suas veias chamando-a, estirando o corpo dele até o ponto da der. Gabriel apertou os dentes em resposta e sua mão se enterrou no espesso cabelo dela.

Os lábios de Francesca se moveram sobre sua pele, sensual e sedutora. A necessidade golpeou Gabriel com tanta força, que ele tremeu de urgente desejo. Os dentes dela rasparam sua pulsação, a língua formou uma suave carícia aveludada. A mão de Gabriel se fechou entre os cabelos dela, pressionando-a mais perto de sua pele, subitamente ardente. Em resposta a tal urgência, os dentes dela se afundaram, açoitando-o com um relâmpago ardente e um cintilante fogo azul que nunca mais voltaria a apagar. Ela estava em seu corpo, em sua mente, no sabor de sua boca, com uma der feroz no coração que dançava em seu sangue. A ternura se estendeu como lava fundida. Seu coração a desejava. Não eram simplesmente desejos físicos de seu corpo, mas algo mais profundo. A cercania da mente dela, a forma em que encaixava nele, entrando sob sua pele. Lembrou das lágrimas que ela derramara por uma desconhecida e sua coragem em enfrentar o monstro com aparência de homem, e compreendeu que ela era mais que um corpo com o que saciar seus selvagens apetites e que o manteria a salvo da crescente escuridão.

Conscientizou-se da presença de Brice no vestíbulo, voltando-se lentamente para olhar fixamente a porta com o cenho franzido e a suspeita em sua mente. Brice teria de ser dirigido com cuidado. Mas não com muito cuidado. Um lento sorriso curvou a boca de Gabriel e havia um pouco de humor nela. Ondeou uma mão e cobriu seu corpo e o de Francesca para que ficassem invisíveis ao olho humano. Construiu a ilusão de Francesca inclinada perto de Skyler, sussurrando brandamente para ela, dando ânimo. Seu clone estava no canto de quarto, dando privacidade às duas mulheres.

Brice entrou empurrando a porta, revelando algo próximo ao medo nos olhos, quando viu o clone de Gabriel. Olhou fixamente para Francesca que falava tão intimamente com a adolescente e se deteve. Voltou-se para o Gabriel, que lhe sorriu sardonicamente, com a arrogância esculpida em seus clássicos traços gregos. Brice se incomodava, que este homem fosse de aparência agradável. O resgate de Gabriel, que se apressou em acudir Francesca, o deixava em maus lençóis, com ela, mas ele não podia permitir o risco de machucar as mãos. Era médico, Por Deus!

Gabriel semicerrou os olhos quando Francesca deslizou a língua sobre as diminutas incisões de seu pescoço, saboreando o momento, a sensação. Ela levantou a cabeça e seu olhar era preguiçoso, sexy e saciado, como se tivessem feito amor. Ele inclinou a cabeça e a beijou na testa, amavelmente, sustentando-a perto durante alguns minutos, antes de permitir que se afastasse, para tomar o lugar de seu clone na cadeira junto à cama.

- Obrigado, Gabriel. Sinto-me melhor.

De onde estava, ele se inclinou, num gesto elegante e cortês enquanto Francesca lhe devolvia um pequeno e secreto sorriso. As mãos de Brice se apertaram. Havia algo diferente em Francesca, algo que ele não podia assinalar. Ela estava mais formosa que nunca, mas era algo elusivo. Algo que compartilhara com Gabriel.

- Devo falar com Francesca sobre meu paciente. - Anunciou Brice e se sentiu zangado, por soar como um menino malcriado e desafiante. Caprichoso e mesmo grosseiro. Fez um esforço por baixar a voz. - Em particular, se não se importa, Gabriel.

- É obvio que não.

Brice fez uma careta ante a pureza e bondade dessa voz, comparada a sua. Era tão gentil como uma brisa de verão e suave como velude.

Brice segurou o cotovelo de Francesca e a tirou de quarto. Francesca tentou não comparar a forma tão distinta em que a tocavam, os dois homens, mas foi impossível.

- O que acontece, Brice? Está alterado. - Falou com calma, enquanto se livrava de sua mão.

- É obvio que estou alterado. Acabo de perder um homem que não estava doente, não tinha absolutamente nada. Exceto uma mão amassada, aliás, pulverizada. Os ossos se quebraram como se fossem fósforos. - Era uma acusação e uma vez mais Brice notou que levantava a voz.

Ela arqueou uma sobrancelha perfeita.

- Não entende o que está dizende. O pai de Skyler morreu por causa de uma mão quebrada? Que estranho. Não sei como é isso possível.

- Sabe condenadamente bem que não é. - Respondeu ele. – O homem foi estrangulado. Estava com a garganta torcida, completamente fechada, só que sem nenhuma razão aparente.

- Vão fazer uma autópsia?

Ele passou uma mão pelo cabelo. Ela estava deixando-o louco.

- É obvio que vão fazer uma autópsia. Essa não é a questão. – Brice apertou a mandíbula. Em sua mente, juraria estar ouvindo a risada de Gabriel, baixa e divertida. - É esse homem.

- Que homem?

Os olhos de Francesca estavam totalmente abertos e pareciam formosos, completamente inocentes. É obvio que ela não saberia, nunca suspeitaria nenhuma maldade.

Exasperado, Brice deu um passo para ela, desejando sacudi-la. Mas, sentiu uma opressiva malevolência acumulande-se no vestíbulo, espessando o ar, exatamente a mesma sensação que teve no quarto, antes da entrada de Gabriel. Nervosamente, olhou para a porta, limpou a garganta, sacudindo a cabeça para o quarto de Skyler.

- Ele.

- Gabriel? Está insinuande que Gabriel teve algo a ver com a morte de Thompson? - Francesca estava, entre ultrajada e divertida. - Não pode estar falando sério, Brice.

- Ele amassou-lhe a mão, Francesca. Seu Gabriel. Ele esmagou o punho e a mão de homem e nem sequer fez força. Sequer o vi entrar no quarto. Simplesmente estava lá. Há algo bastante estranho nele. Seus olhos... Não são humanos. Ele não é humano.

Francesca o olhou com os olhos muito abertos.

- Não é humano? Então o que é? Um fantasma? Um fantasma que voa pelo ar? Um gorila? O que? Possivelmente levanta pesos. Possivelmente é forte porque levanta pesos e sua adrenalina entrou em ação. O que está dizende?

- Não sei, Francesca. - Brice passou a mão pelo cabelo, mais uma vez. - Não sei o que pensar, mas seus olhos não são humanos.

- Conheço Gabriel. É perfeitamente normal. - Insistiu Francesca, moderadamente.

- Possivelmente o conhecia. As pessoas mudam, Francesca. Aconteceu alguma coisa. É obvio que não é um fantasma e não pode voar, mas é perigoso.

- Gabriel é um dos homens mais amáveis que conheço. – Francesca começou a voltar para o quarto.

Brice segurou seu braço fortemente e uma onda de raiva o fez apertar mais forte que o necessário. Instantaneamente, algo beliscou um nervo em seu braço, fazendo com que inchasse completamente. Ele gritou e soltou-a imediatamente e seu braço caiu inutilmente para um lade.

- Que demônios? Francesca, meu braço! Aonde vai?

- Estou muito cansada para conversar com você. Está ciumento, Brice. Não o culpo pelo que sente, mas estou exausta e não quero discutir mais sobre Gabriel, especialmente se for começar a dizer coisas tão horríveis sobre ele. Não sabe nada sobre ele. – Ela abriu a porta e quase correu para os braços de Gabriel.

Ele se inclinou sobre ela com uma postura protetora.

- O que aconteceu, céu. O que te incomodou? - Seus braços rodearam o corpo esbelto dela e a trouxe para o amparo de seu corpo. Ouvira cada palavra que havia dito Brice, cada acusação e cada insinuação não pronunciada. Sobre a cabeça dela, seus olhos encontraram com os do doutor. Nas profundezas dos olhos negros arderam chamas de pura ameaça.

Brice parou em seco, aterrorizado. Mais que nunca, ficou convencido de que Gabriel era um homem perigoso. Seu braço havia voltado ao normal e ele pensou em avaliá-lo depois. Apoiou-se na porta em busca de apoio, decidido a chegar a fundo no assunto.

- Francesca, temos que decidir que faremos com Skyler. Duvido muito que seu pai tenha deixado alguma coisa para ela e pelo que ela nos disse, não tem nenhum outro parente.

Francesca se voltou imediatamente.

- Tenho intenção de me converter em sua tutora legal. Prometi que estarei aqui com ela.

Brice levantou as mãos no ar, com exasperação.

- Não pode fazer isso, Francesca. Mais uma vez está tentandeosalvar cada alma ferimento do mundo. Não é responsável por esta garota. Sequer a conhece. Poderia se tornar igual a seu pai. Precisará de terapia durante os próximos vinte anos.

- Brice... - Francesca soou como se estivesse à beira das lágrimas. Repirando fundo tentou com calma, raciocinar com ele. - É isso o que importa a você?

Ele fez uma tentativa de retroceder.

- Sei que quer ajudar esta garota. Deus sabe que eu também quero ajudá-la, mas não podemos ir tão longe. Ela precisa de ajuda profissional, não de nós dois.

- É o que sugere, doutor? - Perguntou Gabriel maciamente, com voz amável, mas não havia nada de amável em seus olhos imóveis e vigilantes. Para Brice, eles lembravam os olhos de um predader. Um lobo com intenções mortais. Esse olhar lhe produzia uma sensação estranha. Lutou para manter a compostura.

- Sugiro que deveria ser entregue a profissionais. Há pessoas que se ocupam deste tipo de coisa. Se Francesca quer ajudá-la, pode doar dinheiro.

Francesca olhou para Brice.

- Dei-lhe minha palavra, Brice. Ela voltou porque acredita em mim.

- Então a visite de agora em diante. Não lhe deve sua vida. Nós dois temos planos, Francesca. Não pode tomar este tipo de decisão sem mim.

Gabriel se moveu, um ondeio de músculos, nada mais, mas foi intimidante.

- Eu posso me ocupar da menina, Francesca. Apagarei a lembrança de sua promessa e a substituirei com a minha. Ocuparei-me dela com cuidade e atenção, enquanto decide o que vai fazer com este humano. Não desejo complicar sua vida ainda mais de que tenho feito, mas como você, não posso abandonar à menina.

- Manterei minha promessa, Gabriel. - Francesca sacudiu a cabeça.

- Não vou discutir, Brice. Estou muito cansada. Vou sair, olhar as estrelas ou algo assim. Preciso de ar fresco. Dei a Skyler minha palavra. Não há nada mais que dizer.

- Eu acredito que sim. - Respondeu Brice, zangado porque Gabriel estava sendo testemunha desta discussão entre eles. Raramente discutiam, mas não podia ficar calado agora. Esta adolescente afetaria suas vidas, se fossem viver juntos. Não ia arriscar que uma louca viesse a morar com eles. Nem pensar. E Gabriel tinha que partir.

Gabriel simplesmente tirou a questão das mãos de Francesca. Podia sentir o cansaço dela e sua tristeza. Mais ainda, podia sentir a necessidade dela, de sair deste espaço confinado e estar a céu aberto. Brice não podia compreender, o que ela tinha que passar ela para curar seus pacientes. Cura que exigia fundir-se com eles e averiguar cada detalhe de suas vidas, cada momento de seus sofrimentos. Estava além da compreensão de Brice, mas não da de Gabriel.

Colocando o braço em volta dos ombros de Francesca, ele percorreu tranqüilamente o quarto, levando-a com ele, sujeitando-a amável, mas implacavelmente. Francesca não pareceu notar. Foi com ele, voluntariamente. Gabriel girou a cabeça lentamente, voltando-se para olhar sobre o ombro, enquanto deslizava silenciosamente para fora de aposento. Seus olhos negros percorreram a face de Brice. Seu olhar era desumano e implacável. Por um momento, seus dentes brancos relampejaram num sorriso sem humor, expondo suas presas afiadas.

 

A brisa acariciou a face de Francesca, quando ela levantou o olhar para o céu noturno. Milhares de estrelas brilhavam e faiscavam sobre suas cabeças. Inalou o ar noturno, expulsando o aroma de hospital de seus pulmões. Gabriel passeava sem apressar-se pelas ruas e seus passos eram lentos, para equiparar-se aos delas. Não falava, nem exigia resposta e não lhe dava ordens. Simplesmente caminhava a seu lade, sem pedir nada.

Infalivelmente, Francesca encontrou o caminho para seu lugar favorito, descendo por estreitos e retorcidos caminhos, até as ruas pavimentadas que conduziam ao bairro antigo. Seguiu o caminho, subindo uma pequena colina até uma ponte que se estendia através de um pequeno lago. Era a única ponte peatonal e há esta hora não havia ninguém por ali. Tinham o enorme parque e o lago, para eles sozinhos. Francesca avançou para o centro da ponte e parou para apoiar-se contra os pequenos pilares de proteção.

- Me sinto, como se sempre tivesse que te agradecer de alguma coisa. – Disse ela, tranqüilamente. Ela olhava ao lago.

A água brilhava quase negra à luz da lua. Podia ouvir um peixe saltitande de vez em quando. O som da água lambendo as bordas e o peixe saltitante, a aliviava e confortava. Francesca sorriu sobre seu ombro, para Gabriel.

- Venho aqui com bastante freqüência.

- Quando se sente sozinha. – Disse ele, com voz suave.

Ela voltou a olhar a água, seu sorriso decaiu.

- Suponho que averiguaste minhas lembranças.

Ele se baixou para procurar uma pedra plaina e arredondada e a lançou sobre a superfície da água.

- Não tive muito tempo para examinar suas lembranças, ainda estou tentando conhecer a mulher que você é agora. Compreendo que ainda sou um estranho para você e que comprometeu seu coração com outro, sinto que seria mal de minha parte, invadir sua privacidade mais de absolutamente necessário.

Francesca notou que uma risada inexplicavel escapava de seus lábios.

- Invadir minha privacidade é necessário às vezes?

- Sou, acima de tudo, um homem dos Cárpatos e seu companheiro. Não posso mudar o que sou e certas coisas são necessárias para minha paz mental. Mas estou tentando não me colocar onde não me chamam.

Ele permanecia em pé, alto e solitário com o vento soprando os longos cabelos negros em volta de seus ombros. Não procurava aprovação, declarava um fato.

Francesca estudeu seu rosto e a forma em que a lua o iluminava com sua luz prateada. Era muito bonito. Gabriel possuía a face de um homem, não de um moço... Sua boca era sensual, seus olhos podiam estar fundidos pela paixão ou frios como o gelo. Os cílios dele, a fizeram sorrir. Eram longos e negros. Qualquer mulher o invejaria. Mantinha-se afastado, cuidando em não pressioná-la. Gostava disso. Sentia-se pressionada em todas partes, em todas direções e a alegrava ver que Gabriel simplesmente queria estar em sua companhia.

- Precisava um lugar que não fosse exatamente parte da cidade. Finjo que estou nas Montanhas. Algumas vezes posso ouvir os lobos chamando uns aos outros. Algumas vezes eu gostaria de voltar para lá, embora tenha vivido em Paris a tanto tempo, que não estou segura de que eu gostasse tanto como lembro.

Ele assentiu.

- Sei o que quer dizer. Passaram-se muitos séculos, desde que estive ali. As pessoas se sentiam incômodas em minha presença e uma vez que Lucian se converteu, não podia fazer outra coisa que o seguir, aonde me conduzisse.

- Como tem feito toda sua vida. - Assinalou Francesca sem rancor. - Estou orgulhosa de você Gabriel. Se que não me comportei tão bem como deveria, mas em minha defesa, sua súbita aparição foi bastante surpreendente e não encaixa com nenhum de meus planos. A minha maneira, sempre apoiei sua luta por nossa gente. Aceitei seu compromisso e sabia que foi incapaz de se esquivar de sua responsabilidade. Também eu tentei fazer algo importante com minha vida. Nunca quis que pensasse que a tinha esbanjado. – Ela baixou o olhar para as mãos. - Foram tantas as vezes que me senti sozinha.

- Tinha medo? - Perguntou ele, amavelmente.

O tom de sua voz a fez voltar à cabeça.

- Com freqüência, especialmente no começo. Sabia que tinha que desaparecer pelo bem dos outros homens de nossa raça. Assim o fiz durante as terríveis guerras, quando nossa gente perdeu muito dos nossos. Requereu um grande planejamento. Era bastante jovem, uma simples principiante. Tinha medo de que Gregori me descobrisse e me levasse até Mikhail. Era meu maior temor, embora algumas vezes me senti tão só, que rezava para que me encontrassem e depois, me envergonhava de meu egoísmo.

- Sinto ter colocado você numa posição tão terrível. - Sua voz era sincera, contrita. Ele parecia triste, os olhos hipnotizaderes revelavam sua confusão interna.

Francesca tocou sua mente, não pôde evitar, apesar de que secretamente se envergonhava de duvidar dele. Precisava saber se ele estava dizendo a verdade ou o que pensava que ela queria ouvir. Examinou sua mente cuidadosamente. Ela não era, de nenhum modo, de idade parecida com a dele, nem tinha suas habilidades e poder, mas não era uma principiante fácil enganar. Gabriel sentia genuíno pesar, por sua parte de responsabilidade, em sua solidão. Sabia que não podia mudar o que tinha feito... Muitos teriam sofrido... Mas desejou que pudesse ter sido diferente. Havia estado sozinho, num grande poço escuro. A cada morte, a escuridão se estendia por sua alma, sempre tentando o reclamar. Fôra uma batalha interminável. Francesca ofegou quando compreendeu que ele quase tinha perdido essa guerra com a fera. Acontecera no momento no que ela havia tomade a decisão de tentar se converter em humana. Será que influenciara, sua decisão, no resultade da luta dele? Será que houve uma conexão e inadvertidamente, tornara a vida dele mais difícil?

- Francesca. - Disse ele, gentilmente. - Te ocorreu pensar que, meu quase desastre com a fera, poderia ter influenciado sua decisão? Por que insiste em se culpar? Fui eu quem a sentenciou a uma existência solitária. Não gostaria que sentisse nenhuma culpa. Não é tua culpa. Se existisse uma conexão...

- E provavelmente existe. - Interveio ela.

Gabriel assentiu concedendo.

- Poderia ser. Mas não pode atribuir a você, a culpa. Jamais. Sou um homem dos Cárpatos. Agüentei mais que a maioria de nossos homens e isso foi, provavelmente, devido em sua maior parte, a você e ao feito de que estava em alguma parte no mundo. Minha alma sabia. Então todo este tempo me deste distração e me manteve forte.

- Sou mil anos mais jovem que você, - Disse ela e depois estalou em gargalhadas. - Vivendo tanto tempo no mundo humano, pensando em términos humanos, entende o absurdo que isso soa? Não há possibilidade de que sejamos compatíveis. É muito velho para mim.

Gabriel se encontrou sorrindo também. Havia calor em seu coração, uma alegria genuína de estar em sua companhia. Encontrava conforto e uma consoladora tranqüilidade que nunca tinha experimentara antes. Fazia tanto que não sentia nada, absolutamente. Agora havia luz, risos e vívidas cores e texturas e uma vida que viver. Havia Francesca. Ela lhe dera isso.

- Acredito que isso roça os limites da insubordinação. Os jovens podem ser impetuosos.

- Você acredita? - Francesca se inclinou e encontrou uma pedra plaina, seus dedos se fecharam em volta dela.

- Sou bastante boa nisto. Não é o único que pode atirar pedras. Consigo fazer esta aqui, cruzar o lago com dez toques na água.

As sobrancelhas de Gabriel se arquearam.

- Não deu crédito a minhas palavras. A arrogância da juventude...

Francesca sacudiu a cabeça.

- Não da juventude, o poder feminino.

Ele deixou escapar um som, entre a risada e um grunhido ofendido.

- O poder feminino? Nunca ouvi tal coisa. A magia feminina talvez, mas nunca o poder feminino. O que é exatamente? – brincou ele.

- Está pedindo a gritos, que lhe de uma surra, Gabriel. - Advertiu ela. - Sou uma campeã.

Ele mostrou o lago.

- Deixe que eu acredito...

- Quer uma exibição preliminar? Acredito que não. Façamos uma aposta. Se eu ganhar, a câmara de sono é minha. Se você ganhar, fica com ela.

Ele a olhou pensativamente, seus olhos negros sorriram.

- Está tentando me fazer cair numa armadilha de algum tipo, por que sinto que me arrependerei disto durante o resto de meus dias. Se vamos apostar, o prêmio terá que ser algo mais que a câmara de sono. Se eu perder escovarei teu cabelo toda noite, durante um mês. Se você perder, escovará o meu, durante o mesmo tempo.

- Que aposta é essa? - Exigiu Francesca, gargalhando. Não podia evitar. Ele era muito bonito para seu próprio bem. Seus olhos negros dançavam e apesar de sua decisão de não deixar se arrastar, sabia que ele era terrivelmente sexy. No momento em que o adjetivo entrou em sua mente, empurrou-o a para um lado, mas a cor traiçoeira ruborizou sua pele.

Não ia voltar a compartilhar seu corpo com ele. Não tinha nada que estar fazendo amor com a química e o ardor Cárpato. Queria alguém que a quisesse por si mesma, não porque tinha que tê-la. Não porque não tivesse nenhuma esolha. Só por uma vez, antes de abandonar o mundo, gostaria de ser amada. Realmente amada. Por si mesma.

- Francesca. - Foi tudo o que ele disse. Seu nome. Havia dor em sua voz. Aveludada sedução. Magia negra.

Ela fechou os olhos contra as inesperadas lágrimas.

- Não, Gabriel. Não finja comigo. Já não sou humana. Conheço seus pensamentos.

- Nunca foi humano, céu. Possivelmente esteve perto, mas não completamente humana. Você pertence a meu mundo. Fez coisas que nenhum outro conseguiu e a felicito, mas está pronta para ser a outra metade de minha alma. Realmente acredita que não te amo e a honro por si mesma? Que não te conheceria melhor que o bom doutor ou qualquer outro humano ou Cárpato para o caso? Vi o interior de seu coração e sua mente. Deveria ter estado aqui todos esses anos, te protegendo, cuidando de você, construindo uma família com você. Castigue-me, me culpe, eu mereço, mas não creia que não pode ser ou que não será amada por ti mesma.

Ele estava rompendo seu coração com a sinceridade de suas palavras. Não podia tocar sua mente, se o fizesse perderia a compostura. Havia passado por tanto... Descobrir que ele estava vivo, o intercâmbio de sangue, que ele tivesse arrebatado o sol para sempre de sua vida, a experiência de fazer o amor com ele e a terrível experiência dos dois pacientes no hospital. Brice. Thompson. Tudo.

Ele se moveu. Deslizou-se. Era poder e coordenação combinados, tão fluidico que a deixou sem fôlego. Movia-se como um animal, um grande lobo espreitando silenciosamente sua presa. Fechou os olhos quando a mão dele se enredou em sua nuca. Gentil, mas possessivo.

- Não estou tentando assumir o controle de sua vida, só desejo compartilhá-la. Peço uma oportunidade. Só uma oportunidade. Não havia planejado terminar sua vida dentro de poucos anos? Compartilhe esses anos comigo. Deixe-me tentar compensar a ofensa que te fiz.

- Não me sinta piedade por mim, Gabriel. Não poderia suportar. Tive uma boa vida, notável na realidade, para uma mulher de nossa espécie. – Ela realizou um pequeno movimento de retirada.

A mão dele se apertou mais em volta de sua nuca.

- É uma mulher formosa, Francesca, com muitos talentos. Não há compaixão em mim, quanto ao que você pensa. Em qualquer caso, não precisamos discutir isso agora. Tiveste que fazer frente a muitas situações difíceis ultimamente. A última coisa que precisa é se preocupar pelo que sente por um desconhecide e se tiver ou não uma dívida com ele. - Sua mão moveu gentilmente sobre as sedosas mechas do cabelo dela, numa pequena carícia. - Sei que isso é o que sou para você. Um desconhecido. Dê-me a oportunidade de ser seu amigo.

O toque da mão de Gabriel enviou calor a seu corpo, que o atravessou. Possivelmente fosse o fato de que ele compreendesse que precisava de espaço e se importasse em lhe dar

- Acredito que isso poderia ser uma boa idéia. - Replicou. Soaram-lhe campainhas de alarme em sua cabeça. Ele era muito bonito, muito cortês. Muito tudo. Como ele conseguira roubar seu coração depois de tudo? Estava cansada e queria ir para casa.

Gabriel suprimiu uma súbita onda de triunfo, envergonhado de senti-la. Sorriu-lhe. Um relâmpago de dentes brancos que suavizou a dura linha de sua boca.

- Não me respondeste. Está disposta a apostar?

Ela assentiu, desesperada para mudar de asssunto.

- Bem, apostarei com você, mas só porque nunca ouviste falar do autêntico poder feminino. - Desta vez, quando ela se afastou, ele a permitiu retroceder. Francesca evitou olhar para ele, concentrando-se na superfície do lago e em sua pedra. Com um rápido movimento da mão enviou a pedra através do lago. Dez toques, exatos, na superfície do lago. Não pôde evitar sorrir triunfante para Gabriel. Ele demorou a encontrar a pedra perfeita. A mão enorme ocultava a forma exata.

- Tenho que tocar onze vezes para ganhar?

Ela assentiu solenemente.

- Absolutamente.

Ele sorriu outra vez. E definitivamente era um sorriso de predader. Malicioso. Sexy. Muito tentador. Francesca elevou o queixo e obrigou seu olhar fascinado, a afastar-se do corpo másculo e perfeito e dirigir-se para o brilho da superfície de lago. Por que ele tinha de ser diabolicamente masculino? Parecia muito bom para ser certo.

- Estou esperando. - Disse ela, consciente da proximidade dele. Do odor dele. De seu sabor. Segurou um gemido e olhou decididamente para a água, fingindo não estar afetada com sua proximidade. A pedra escapou da mão dele, tão rápida, que ela ouviu o zumbido cruzando o ar e tocar a superfície do lago, como uma rã saltande. Seguiu-a até que cruzou todo o lago.

- Bem. - Murmurou ele, brandamente, com um toque de riso em sua voz. - Eu diria que a superei. Vinte e dois toques até o outro lado. – Ele parecia feliz. - Acredito que é minha escrava e agora me escovará o cabelo a cada sublevação.

Francesca sacudiu a cabeça.

- O que eu acredito é que você forjou a aposta. Fez algo para ganhar.

- Isso se chama prática. Passei muito tempo lançando pedras em um lago.

Francesca sorriu.

- Está mentindo, Gabriel. Não acredito que tivesse atirado uma pedra em toda sua vida, até agora. Fez uma armadilha para mim.

- Você acredita? - Perguntou ele inocentemente. Muito inocentemente.

- Sabe que sim. Só para ganhar uma estúpida aposta. Não posso acreditar.

Ele estendeu a mão para colocar uma mecha do cabelo dela, atrás da orelha, provocando batidas fortes em seu coração.

- Não foi só uma estúpida aposta, céu, foi à forma de conseguir que me escovasse o cabelo. Ninguém tem feito nada por mim e acredito que preciso desesperadamente de atenção. - Ele sorriu quase como um menino. – Uma vez pedi a Lucian que o fizesse e ele ameaçou me bater até me fazer virar mingau. – Ele encolheu os ombros. - Algumas coisas simplesmente não valem a pena pagar seu preço, já sabe.

- Está louco. - Decidiu Francesca, mas se estava gargalhando, incapaz de se conter. - Bem, escovarei seu cabelo. – Concedeu. Seus dedos ansiavam enterrar-se entre os sedosos fios. Não deixou de ser consciente, de que estava mais que do gostaria, feliz em escovar o cabelo. Ele passaria os dias com ela na câmara de sono. Retirariam-se juntos.

Gabriel era muito consciente desse fato. Estava fazendo progressos.

- Que vamos fazer com nossa pequena nossa dama, Francesca? A senhorita Skyler. Podemos garantir que sua mente se cure, mas não podemos eliminar todas as cicatrizes, a menos que apagamos suas lembranças. Poderíamos suavizar o impacto dessas lembranças no melhor dos casos. Podemos dar educação, roupa, tudo o que precisar, apoio emocional, mas não podemos estar com ela durante certas horas do dia. Considerou o que teremos que fazer para cobrir essas horas?

Francesca estendeu a mão para trás até a proteção da ponmte, tentande subir a ela. As enormes mãos de Gabriel se estenderam por sua cintura e a elevaram sem esforço, sentando-a sobre a estrutura. Surpreendia-a que ele soubesse o que ele desejava quase antes que ela mesma. A idéia era de uma vez engraçada e assustadora. Não havia compartilhado seus pensamentos, sua mente, mais que consigo mesma, há muito, esquecera como era. Tentação. Sussurrava sua mente mechendo com as fibras sensíveis de seu coração.

- Eu sei. Sei que foi impulsivo de minha parte prometer que estaria lá para ela, mas para ser honesta, caminhei sob o sol muitos anos e não me lembrei que já não podia fazer. Não posso suportar a idéia de enviar Skyler para algum lugar onde não lhe darão amor e afeto. Ela precisa disso, o apoio que deveria ter tido. Compartilhei sua vida. – Francesca levantou o olhar até ele, com repentino assombro, com compreensão. – Nós dois o fizemos. Sei que posso lhe dar o amor que precisa. E você?

Gabriel assentiu lentamente.

- É uma menina, Francesca. Não podemos fazer outra coisa que oferecer nosso amor e amparo. Ninguém mais a entenderá ou entenderá a enormidade do que sofreu. Não acredito que possamos entregá-la a outros.

Francesca deixou escapar o fôlego com um suspiro de alívio. Não notara que o havia contido, esperande sua resposta.

- Estamos os dois de acordo. Agora só temos que pensar o que fazer com ela.

Gabriel encolheu seus poderosos ombros.

- Em sua mente está a idéia que de seu advogado se ocupe das ações legais necessárias para conseguir a custódia. Vamos levá-la para casa conosco. Será necessário encontrar alguém que nos ajude a cuidar dela. Parece-me que recordo que havia uma família em nossa terra natal, que possuía humanos que cuidavam de sua casa. Os humanos eram excepcionalmente leais a eles. Faz vários séculos. Possivelmente valeria a pena buscá-los. Estive pensando em várias coisas que tem em seu computador e este parece ser um uso possível para semelhante máquina.

Francesca ouviu a própria risada. Despreocupada. Feliz. Sobressaltou-a.

- Só quer uma desculpa para utilizar o computador.

Ele sorriu.

- Tem que admitir que é uma boa idéia. Deve haver algum entre os nossos que se lembre dessa família e possa nos dizer o que foi feito deles. Se não, sempre podemos tomar o sangue dos serventes humanos e dar ordens a vontade. Não é a forma em que preferiria proceder, mas é uma possibilidade viável. Podemos oferecer amparo em troca.

Gabriel estava apoiado a seu lado, quando endireitou o corpo lentamente, estirando-se como um felino preguiçoso. Não houve, na realidade, uma mudança em sua expressão, ainda assim imediatamente Francesca se encontrou tremendo de medo. Algo nele tinha mudado completamente. Colocou as mãos em sua cintura e a levantou posando-a sobre a ponte.

- Estamos sendo observades, céu. Não é Lucian e estou mais que agradecido por isso.

- O não-morto está aqui. - Declarou ela. - Agora o sentia, a asquerosa maldade se estendia como uma horrenda mancha cruzande o ar. - O que podemos fazer? Ela sempre conseguira esconder sua presença desses cruéis assassinos. Agora estava a descoberto e isso a assustava. Tinha sentido a evidência de sua maldade.

- Primeiro é te colocar a salvo. É uma mulher dos Cárpatos. Será seu objetivo. – Gabriel estava com uma mão na nuca dela, aliviando sua tensão. Inclinava-se sobre ela protetoramente, como um amante, seus lábios muito perto dos dela.

Francesca sabia que era tudo teatro, mas ainda assim, a atenção a fazia sentir-se querida. Sentiu o súbito desejo selvagem de colar-se a ele, em sua força e tranqüilidade. O vampiro não a tinha perturbado de nenhuma forma. Gabriel exsudava completa confiança em sua habilidade para destruir a criatura.

- O Arrastarei a campo aberto. Quando o fizer, espere até que eu esteja seguro de que há só um. Quando souber, avisarei-a. Dissolverá-te em moléculas diminutas, indetetáveis para qualquer um, exceto o melhor de nossos caçadores. Vá para casa e coloque salvaguardas. Permanecerei com você, em sua mente, a menos que deva romper o contato para matar. Não tente tocar minha mente a menos que esteja em perigo. Não há necessidade de que experimente tal coisa. - Sua boca roçou a dela, Suavemente e se atrasou um momento como se estivesse saboreando a sensação e o sabor dela.

Francesca lembrou a si mesma que era tudo era teatro. Seu corpo não tinha necessidade de estalar em chamas e seu coração não precisava sobressaltar-se tão traiçoeiramente.

- Diga-me o que posso fazer para te ajudar. Não quero te deixar sozinho para lutar com esta coisa.

Ele riu baixinho e seu hálito soprou o cabelo da linha de seu pescoço. Orgulhava-o que ela se oferecesse quando podia sentir seu medo. Não pôde evitar, sabia que estava se aproveitando da situação, usando-a como desculpa para tocá-la, para beijá-la, avançando centímetro a centímetro, para sua total reclamação sobre ela. Disse a si mesmo que devia tomar-lhe com calma, que não devia pressioná-la. Um ataque pelas costas. Rodeá-la, mover-se e assumir o controle antes que compreendesse o que estava ocorrende.

- Sou um caçador antigo, coração. Não terei problemas para despachar este lixo. Beijou-a na fronte, imensamente gentil, e contra vontade, a soltou.

Gabriel se voltou, afastou-se dela até chegar ao final de ponte. Levantou o olhar para o céu.

- Saia, pequeno. Saia e enfrente a quem desafiaste tão abertamente. - Sua voz foi suave, gentil e firme. Exigia obediência. Gabriel se moveu paras mais longe de Francesca, para um lugar coberto pela grama. - Vieste reclamar a justiça de nossa gente, ímpio e não posso fazer mais que agradá-lo. Venha a mim.

Francesca não podia afastar seus olhos do guerreiro ancestral. Ele permanecia em pé. Alto, com os ombros firmes, com o cabelo flutuando com a ligeira brisa. Seu rosto estava severo, mas gentil. Parecia tranquilo, embora dava a impressão de imenso poder. Sua voz era hipnotizadera, seus gestos confiados. Parecia invencível. A criatura se arrastou para frente, lutando a cada passo do caminho, grunhindo e cuspindo, sibilando ódio. Ela nunca vira um vampiro tão de perto e era horrível. Tinha os olhos afundados e avermelhados. Os dentes estavam podres e manchades de uma cor escura. Sua carne parecia pendurar como se não encaixasse sobre os ossos.

Mais que sua aparência, foi o ódio ardiloso e malicioso da repulsiva criatura, que a aterrorizou. Francesca, mesmo longe que estava dele, ainda podia sentir o mau cheiro que o rodeava. Obrigou-se a olhar à criatura, a sentir sua maldade. Era importante compreender o que Gabriel tinha confrontado sua vida inteira. Este monstro. Quantos deles? Com que freqüência? A quantos tinha conhecido pessoalmente, crescido com eles antes que se converteram? Pensava que sua vida tinha sido difícil e solitária, embora agora olhando o não-morto, começou a compreender que a de Gabriel devia ter sido igual.

Todes esses séculos, nos que o vira como um herói, um reverenciado e legendário protetor de imortais e mortais. Agora o reconhecia pelo que era, um caçador consumado. Sua própria gente temia seu poder e habilidades. Os homens se mantiveram longe dele, temendo que cedo ou tarde, ele tivesse que caçá-los e destrui-los. Nunca pôde se permitir ter amigos. Pior ainda, seu amado irmão se convertera em vampiro e Gabriel se viu obrigado a o perseguí-lo, lutar com ele durante séculos.

- Posso ajudar.

- Pode fazer o que te disse. Estou mais em perigo tendo que me preocupar em te proteger. Ele procurará te utilizar. Quando compreender que não pode me derrotar, tentará te destruir em represália. – Ele enviou-lhe uma onda de ternura. Obrigado, Francesca. Logo me reunirei com você em casa.

Gabriel voltou sua atenção para o vampiro, que livre de feitiço de sua voz, estava começande a espreitar. Gabriel sorriu, com dentes imaculadamente brancos.

- Vejo que está ansioso para que sua sentença seja executada. Sou de sangue ancestral, um autêntico defensor de nossa gente. Sou Gabriel. Conhece-me, cresceste com as histórias de minhas cruzadas. Não há forma de derrotar alguém como eu. Venha e aceite sua sentença tranqüilamente, com dignidade, em lembrança do grande Cárpato que foi.

O vampiro sibilou, saltaram chamas em seus olhos vermelhos, seus pés o arrastaram para mais perto, apesar de sua resolução em atacar, por conta própria. O som da voz de Gabriel era tão puro e sincero que causava autêntica dor. Não podia enfrentar essa voz mais que poderia ter cuidado seu próprio reflexo no espelho. Não podia ignorar a compulsão entre as notas da voz. Não tinha outra escolha, que se aproximar ainda mais do caçador. As palavras minaram sua confiança em suas próprias habilidades para lutar e destruir. Quem poderia derrotar semelhante caçador? Quantos outros tinham caído antes que ele, ante a este guerreiro que tinha vivido tantos séculos?

O vampiro sacudiu a cabeça com força, cantarolando em sua mente, tentando rebater o feitiço com que o caçador o tinha apanhado. Não importava quanto o tentasse romper, seus pés continuavam avançando. A terrível voz continuou, baixa, pura e muito amável.

- Não é capaz de me desafiar. Você está proibido de mudar de forma. Virá para mim e receberá a justiça de nosso autêntico Príncipe.

Gabriel não se moveu, um passo. Permaneceu tranqüilo, com as mãos ao lado do corpo e a face sem emoção. Não se via raiva. Nem remorsos. Só seus olhos estavam vivos, ardendo com intensidade. Implacáveis. Desumanos. Os olhos vigilantes de um predador. Brilhavam, com ferocidade. Ainda assim, o vampiro não podia deter sua aproximação. Sacudia-se e suas pernas continuavam avançando, enquanto ele se agitava e lutavam por deixar de se mover para frente, para evitar obedecer à voz suave e gentil. A voz da morte, seguia. Suave e persuasiva, persistente, compelidora.

Francesca sabia que devia obedecer Gabriel. Dissolver-se numa fina névoa e afastar-se des combatentes. Nunca tinha visto nada tão aterrador como o vampiro. Exsudava maldade, embora Gabriel mantesse a calma, alto e ereto, incrivelmente formoso em sua luz e verdade. Ela o via como um anjo com sua espada, um escuro guardião da porta, defensor dos menos poderosos. Deixava-a sem fôlego. Sentiu-se verdadeiramente orgulhosa dele. Orgulhosa de sua decisão em aceitar o sacrifício que fizera.

O vampiro fez o que pôde para evaporar-se e não pôde. Era como se suas células e tecidos já não respondessem a suas ordens. O caçador o enfeitiçara, o apanhara com sua voz para que seu corpo de carne e osso só respondesse à pureza dessas notas, deste tom perfeito.

Furiosa, a criatura voltou sua horrenda face, novamente, para o Gabriel. Sua cabeça balançou para frente e para trás como a de um réptil, seus olhos brilhavam de fúria. Um longo e lento assobio escapou por entre seus dentes afiados e quebrados. Sobre a cabeça de Gabriel, rangeu um enorme ramo de árvore, que logo caiu.

Francesca sentiu que seu coração se fechava dolorosamente, o ar parou de circular em seus pulmões, mas Gabriel simplesmente levantou uma mão para o ramo e o separou dele, jogando-o para um lado, a uma boa distância de onde permanecia.

- É ainda jovem para ter escolhido semelhante caminho. As pessoas perdem sua alma por causa da idade e a debilidade, mas você fez sua escolha muito cedo. Por que?

- A única oportunidade de salvação que tem qualquer um de nós é conseguir uma mulher. O Príncipe escolheu seus favoritos para entregar as mulheres. Não há esperanças para o resto de nós a menos que tomemos uma por nós mesmos. - O não-morto rendende-se, deixou cair sua mão para o lado, para ver se podia mudar de forma, se concentrasse numa região de seu corpo. No braço ondeou a pele, suas unhas se alongaram.

Houve uma rajada de vento inesperada, que frisou a superfície de lago. O vento golpeou a criatura, em cheio no peito, com um profundo e pesado golpe, mais ouvido que sentido. O vampiro piscou e olhou para Gabriel, que estava em pé diante dele, seu braço se estendia em toda sua longitude. A surpresa se estendeu pela face do não-morto. Baixou o olhar, perguntande-se, por que não podia ver a mão no final do braço de Gabriel. Esta estava enterrada profundamente em seu peito.

Ouviu-se um ruído de sucção enorme e Gabriel extraiu o coração do vampiro, afastando-se em seguida. O vampiro gritou. O sangue corrupto salpicou o ar como um geiser. A criatura se estendeu para o caçador, enquanto caía, impotentemente. Sobre suas cabeças um relâmpago se arqueou de nuvem em nuvem e golpeou a terra com uma nervura branco azulada, de pura energia. Incinerou o coração, enquanto banhava as mãos de caçador limpando o sangue envenenado.

Os movimentos de Gabriel eram grácis e fluídicos, revelando poder e coordenação como os de um bailarino, um guerreiro. Ele levantou a cabeça e uma vez mais e dirigiu o raio até o corpo da desventurada criatura. Converteu-o em cinzas, desintegrando-o ante seus olhos.

Virou-se então lentamente. Uma solitária figura contra o céu noturno, com a face entre as sombras, enquanto olhava para o ponto onde permanecia Francesca. Ela brilhou até alcançar uma forma sólida, com seus enormes olhos fixos nele.

- Você está bem? – Francesca moveu-se rápidamente, um simples borrão, enquanto se aproximava dele. Sua mão encontrou a dele, seus dedos se entrelaçaram.

Imediatamente Gabriel sentiu uma paz profunda, no interior de sua alma torturada. Ela tinha um poder curador, provavelmente como nenhum outro que tivesse. Havia tomado outra vida, uma de tantas. Gabriel tinha dedicado o que restava de vida, para caçar a seu gêmeo. Durante anos tinha caçado Lucian, quase exclusivamente, só raramente se detinha destruir algum não-morto com o qual cruzava. Fazia anos. E essa era a primeira morte que levara a cabo, desde que tinha encontrado sua companheira. Sentia emoção. Não culpa exatamente. Aceitava sua tarefa como uma sagrada responsabilidade. Mas arrebatar uma vida diante de alguém como Francesca, o incomodava. Ela era pura, compassiva e tão boa. Ela havia curado durante todos os séculos e ele destruindo.

Gabriel evitou seus enormes olhos negros. A inocência estava ali. Sem emoções, era muito mais fácil enfrentar aos que o rodeavam, os que o temiam. Estava acostumado aos murmúrios, à forma em que as pessoas de afastavam de seu caminho. Estava acostumado ao medo em suas mentes e corações. Ele era necessário, mas nunca aceito.

A pequena mão se moveu por seu braço, um gesto curiosamente íntimo que o deixou quente por dentro. Ela se colocava dentro. Abrindo passo até sua alma. Não estava preparado para isto. Agora sabia o que era uma companheira. Quão importante era uma companheira. Intelectualmente, sabia que as mulheres dos Cárpatos eram a luz da escuridão de seus homens. Aceitara Francesca e o que devia ser entre eles. Sua união não só significava a continuação da sobrevivência dele, mas sim também garantia que não se uniria a Lucian nas filas dos não-mortos.

Por isso tinha que respeitar Francesca. Desejava-a. Não estava nada preparado para os ciúmes que faziam difícil não despachar Brice com um tapa. Não estava nada preparado para as selvagens demandas que seu corpo fazia quando estava perto dela. Mais ainda, não estava preparado para que seu coração se derretesse, quando ela estava triste ou ferimento ou se sentia cansada. Não tinha contado em como reagiria a ela, absolutamente. Desejava ouvir sua voz todo o tempo, observar seu sorriso, ver a forma em que iluminava sua face, seus olhos tão suaves e derretidos, formosos. Pensava muito nela.

- Gabriel. - A voz de Francesca sussurrou sobre ele como uma brisa de verão. Sentiu que o suor banhava seu corpo, em reação. – Pediu que eu abandonasse este lugar e eu devia fazê-lo mas, por favor, não se sinta envergonhado por ter realizado um trabalho tão importante em minha presença. Crê que seu talento é menor que o meu.

- Você salva vidas eu as destruo. - O toque dos dedos dela parecia um milagre. Sua essência, fresca e feminina. Nunca havia prestado atenção antes, em outras mulheres. A forma em que cheiravam, embora agora ela enchia seus pulmões e desejava tê-la sempre ali. - Não estou seguro de que matar se considere um talento.

- O não-morto já não está vivo. Escolheram perder o que os fazia seguirem vivos. Os vampiros são monstros sem igual, desumanos, vivem para a depravação e matar. Sem você para permanecer em guarda, Gabriel, não haveria forma de ocultar a existência de nossa gente. Mesmo agora, uma minoria de humanos ainda odeiam a idéia de nossa existência. Têm uma sociedade profissional e outros mais, que nos caçam para matar. Parece-me que sem você, nossa gente há muito, teria sido caçada até a extinção.

Um sorriso pequeno, mas de prazer escapou de Gabriel antes de poder contê-lo. Havia algo lindo, nela. Não cabiam dúvidas a ele, do por que Brice a desejava. Não era porque fosse uma médica como Brice. Não era por sua beleza de mulher dos Cárpatos que atraía os homens. Era por tudo. Era por Francesca. Sua Francesca.

- Concede-me muito crédito. - Respondeu com suavidade. - Agradeço-lhe. Obrigado por facilitar uma situação difícil. Não esperava me sentir desta forma. - Lançou-lhe outro sorriso. - Estas emoções são difíceis de controlar.

Ela levantou a cabeça para fitá-lo. Deveria ser declarado um pecado, um homem ter esse aspecto. Fazia seu coração se sobressaltar nos momentos mais inesperados. Seus olhos podiam criar uma tempestade de fogo nela, só com um ardente olhar. Podia comover uma mulher, qualquer mulher. Francesca limpou a garganta, tentando não ruborizar, recordando de repente, que ele era mais que uma sombra em sua mente, lendo seus pensamentos mais íntimos.

- Deveríamos ir a casa.

- Quer caminhar ou prefere voar? – Perguntou ele, amavelmente. Não desejava influenciar sua decisão em outro sentido. Ela sempre escolhia o modo humano. Teria permitido que o monstruso pai de Skyler a batesse, só para preservar seu estilo de vida. Sua imagem. Ele desejava que ela aceitasse que era uma Cárpato. Totalmente Cárpato. Era muito cedo para isso, sabia, mas um sinal de que estava abrandando um pouco e lhe daria esperanças.

Francesca entrelaçou os dedos deles, mais uma vez.

- Temos bastante tempo antes que saia o sol. Possivelmente deveríamos passear e discutir mais o que vamos fazer com o Skyler.

 

Francesca evitou seus olhos enquanto passeavam pelas ruas vazias, de mãos dadas. Ele era intensamente masculino e seus movimentos fluídicos. Encontrou-se desejande acariciar as ondas de seu cabelo, suavizar as linhas de seu rosto. Sua boca era perfeita. Olhou-o pelo canto do olho. Desejava sentir os lábios dele.

Era o som de sua voz quando lhe falava. Um som suaave, sexy, um íntimo pecado.

Gabriel lhe lançou um sorriso e Francesca sentiu uma resposta instantânea. Ele roçou-se contra ela, enquanto caminhavam, o mais ligeiro dos movimentos, mas fez seu coração bater forte no peiro e enviou diminutas línguas de fogo a percorrer sua pele. As palmas das mãos ardiam em sentir os duros músculos desse corpo, por percorrê-lo com as mãos. Baixou o olhar para o tecido estirado que o apertava. Morria dwe vontade de o acariciar, por deslizar a boca sobre ele só para ver sua reação. Para ouvir seu gemido.

Não podia pensar em mais nada. Doíam-lhe os seios e seu sexo umidecido a incitava. Sentia as roupas incômodas, muito apertadas. Perguntou-se o que ele faria, ele se de repente arrancasse sua blusa e oferecia seus seios a ele, ali mesmo, na rua. Tudo o que podia pensar era em Gabriel. Seu corpo duro, suas mãos enquanto se movia sobre sua pele. A forma em que lhe dizia as coisas mais adoráveis.

A forma em que desejava ajudar uma jovem desconhecida. A forma em que se colocara ante de seu corpo, defendendo-a antes que um homem brutal pudesse golpeá-la. Tudo nele era extraordinário e ela se via consumida pela súbita necessidade de abraçá-lo, tocá-lo e beijar cada centímetro dele.

Uma loja apareceu ante eles. Estava deserta, pelo adiantado das horas.

- Minha amiga é a proprietária desta loja. Deu-me uma chave e o código de alarme. Eu a ajudo e ela se encarrega de minha contabilidade. - Sua voz foi rouca, sexy, um convite patente. - Podemos entrar e procurar algumas coisas necessárias para Skyler. - Sua mão tremia ao girar a chave na fechadura.

Gabriel a estudou intensamente com seus aveludados olhos negros, enquanto ela introduzia o código no sistema de alarme. A loja estava escura, deserta. O silêncio se via quebrado só por suas trabalhosas respirações. Ela se voltou para ele, sua mão acariciou sua face. Encontrou seu cabelo infalivelmente, seus dedos se embrenharam entre as espessas mechas.

Um suave som escapou da garganta dele.

- Francesca, tem que te deter antes que não haja mais volta. Não sou nenhum anjo, como com freqüência, persiste em pensar. Posso ler cada um de seus pensamentos e o que está fazendo a meu corpo é um pecado.

Seus polegares roçaram o contorno dos lábios dela.

- De verdade? - As mãos dela tiraram da camisa de Gabriel e a liberou da calça.

Imediatamente suas mãos deslizaram pelo peito nu, seus dedos se estenderam ampliamente para tomar toda a pele. Acariciou cada músculo bem definido, dolorida por ele. - Sempre pensei que pecar poderia ser uma experiência interessante. - Havia um convite em sua voz. Pura sedução.

- Estou faminto de você, Francesca, faminto. – Gabriel ergueu o rosto dela, para fitar os olhos escurecidos pelo desejo. - Não pode me tocar com sua mente e seu corpo e não esperar que reaja. É um cru desejo em meu sangue e sei que estará aí para sempre. Sabe quantas vezes sonhei com você? Quantas vezes despertei na noite sozinho, sem você?

- Igual a mim. - Disse ela brandamente, seus olhos mantiveram o olhar dele, com firmeza. Não se sobressaltou pela crua paixão concentrada do olhar dele. - Gabriel. - Sussurrou seu nome, inclinande-se para frente para pressionar seus lábios contra os dele. Sua boca tomou a pulsação dele. – Você fala muito quando eu preciso de ação. – Ela levantou a cabeça, para que ele visse que seus olhos riam dele. - Minha roupa é pesada e incômoda. - Acrescentou enquanto se inclinava para saborear um mamilo dele com a língua. Ficou nas pontas dos pés, para pressionar seus seios turgentes, firmemente contra o peito dele.

Gabriel não pôde suportar que o mais fino dos materiais separasse seus corpos. Tirou a blusa dela pelos ombros, jogando-a para o lado, no calor do momento. Suas mãos deslizaram gentilmente sobre a pele nua, traçando a delicada curva de seus seios. O fôlego escapou de seus pulmões num longo suspiro, quando os segurou entre as mãos e seus polegares acariciaram os mamilos.

A loja estava em silêncio, os manequins observavam com seus olhos parados, entre os cabides de roupa. Gabriel levou-a para o interior da loja, longe das janelas, entre as sombras, onde podiam ter privacidade ante qualquer pessoa que passasse pela rua.

O calor e a fome do ritual de emparelhamento Cárpato estava sobre ele, provocado pelos eróticos pensamentos de sua companheira. Ela era deliciosa. Era excitante e provocador saber que ela o desejava tanto, que sabia exatamente o que queria e exigia dele.

Sua companheira. Francesca celebrava seu direito de tocar esse corpo, de ser capaz de atraí-lo a uma tormenta de fogo, de desejo, fazendo-o arder por ela, do mesmo modo que ela ardia por ele.

O toque dele sobre sua pele nua era tortura e prazer. Quando lentamente ele inclinou a escura cabeça para encontrar seu seio com o calor da boca úmida, tremeu com uma urgência que nunca antes conhecera. Seus dedos se entranharam nos cabelos dele, abraçando-o a ela.

- É... Quase muito, Gabriel. Não sei se posso suportar.

As mãos dele acariciavam seu corpo, enquanto tirava o resto das roupas. Seus dedos se atrasaram e saboreavam, roçando e acariciando.

- Suportará, está feita para isto. - Sussurrou ele e inclinou a cabeça, para lamber o estômago plano. - Está feita para mim. – Facilmente, ele a levantou até o alto de um mostrador, sentando-a. - Está feita para estas longas noites, Francesca. Longas noites preguiçosas de fazer amor. - Suas mãos acariciaram os quadris dela, enquanto ele pressionou a mão sobre seu úmido e ardente sexo, sorrindo quando ela estirou o corpo e estremeceu de prazer. Inclinou ainda mais, a fim de que seu sedeso cabelo roçasse as coxas sensibilizadas e um gemido suave escapou da garganta dela.

Francesca gritou ao primeiro toque, ao primeiro roçar de sua língua.

- Sabe a que sabe?

Ele fez a pergunta, intimamente, na mente dela. Sua voz abrasou o interior de sua mente, da mesma forma sua língua abrasava o centro de seu corpo. Podia sentir como seu corpo se arrepiava e o prazer ganhava força e intensidade, provocando sua liberação, se apressasse a dominá-la com tal poder que só pôde segurar a cabeça dele enquanto a intensa sensação a afligia.

- Gabriel. - Pronunciou seu nome, respirou seu nome, tomando a masculina essência dele até o interior de seus pulmões. - Gabriel.

- Só estamos começande, preciosa. - Respondeu ele suavemente, elevando a cabeça para lhe sorrir.

Era bonito. Perfeito para ela, Francesca podia sentir as lágrimas ardendo em seus olhos. Aqui na noite que clamava algo selvagem deles, ele a prendia com seus olhos ardentes de desejo. Ardente. Urgente. Exigente. Ela havia esperado tanto para que esses olhos a fitassem assim.

E então ele roubou a prudência de sua mente, substituindo-a por frenética paixão. Francesca não podia pensar mais, que em ter o corpo dele enterrado profundamente em seu interior. Uma vez mais as mãos dele acariciaram as pequenas dobras de seu sexo e depois lentamente inseriu um dedo, todo o tempo estudando sua face, observande o prazer que a tomava, enquanto seu sexo se fechava em volta dele.

- Não é suficiente, preciosa. - Havia sorriso em sua voz, quando ele inclinou a cabeça para saboreá-la outra vez, enquanto lentamente seu dedo a aliviava. Dois dedos entraram nela, empurrando profundamente até fazê-la ofegar de prazer. - E isto também não é suficiente. - Havia satisfação puramente masculina em sua voz, em seu rosto.

Ela podia sentir novamente, a ardente pressão, lava fundida recolhendo-se mais e mais até que seu corpo inteiro esteve em perigo de explodir. Ele acariciou-a, tocando-a com sua língua dançande.

- Isto é o que quero, céu. Sinta por mim. Quero ver em seu rosto, quero saber como o sente também. - Sua voz atenuada, tornou-se rouca. - Por mim, meu amor, simplesmente se deixe levar.

Com um grito sufocado, Francesca se deixou cair pelo precipício. Seu corpo se enrijeceu e subiu vertiginosamente, fora de controle. Os lábios dele intensificaram a caricia, levando-a a um orgasmo interminável que parecia continuar para sempre e ainda assim não ser suficiente. Fechou os olhos e permitiu entregar-se à pura sensação, a beleza das mãos e da língua dele em seu corpo, fazende carícias desumanas que só a faziam arder ainda mais. Seus quadris estavam incapazes de permanecerem imóveis sob o assalto a seus sentidos. Então, ele acrescentou sua mente, empurrando profundamente até o interior da dela, mostrande o que desejava fazer, para que assim ela pudesse sentir seu próprio corpo através da mente dele, o sedoso calor, os músculos firmes e tensos.

Francesca podia sentir o desejo que dominava Gabriel, a forma em que o corpo dele ardia e a desejava, endurecendo-se até o extremo da dor. Suas mãos estavam tornando-se mais exigentes e ela celebrou a idéia de sua perda de controle.

- Quero você dentro de mim, Gabriel. - Murmurou, com exigência. - Quero seu corpo no meu. Não quero que me trate como se pudesse me romper. – Disse deliberadamente, sabende o que isso faria ao corpo dele, sabendo que ele se veria preso na mesma tormenta de fogo em que ela estava imersa.

Olhou além dele, até o banco de espelhos e viu a perfeita forma masculina de seu corpo, os músculos marcados, o longo e brilhante cabelo e seu corpo se fragmentou de novo, uma explosão de tal força que a lançou, sacudiu-a, fazendo-a gritar com sua fúria.

- Gabriel, agora, agora mesmo.

- Que você sobre o chão, onde possa estar tão profundamente dentro de voce, que nunca se liberará de mim. - A admissão a rasgou quando ele pegou-a nos braços e deitou no espesso tapete do mostrador. Seguiu-a, grosso, duro e dolorido de desejo.

Francesca levantou os quadris para encontrar-lo com quando ele penetrou-a, enchende-a. Seu sexo escorregadio, molhado e quente, enredando-se em volta de seu membro, de sua ereção. Ela perdeu a respiração, ele abandonou o próprio corpo. O anseio era aditivo e completo. Gabriel segurou seus quadris com as mãos, e penetrou-a profundamente, com duras e seguras investidas, se introduzia em busca da alma dela.

Francesca voltou à cabeça para olhar o reflexo de ambos no espelho, para ver a beleza de seus corpos unindo-se em perfeita harmonia. A face dele estava esculpida pelo esforço, o êxtase, com total concentração. Sabia o que ele desejava antes que o fizesse. Fez alguns pequenos ajustes em seu corpo, para que ele pudesse penetrar ainda mais profundo, enchê-la até que ambos ofegaram de prazer. Ela elevou a cabeça, observando-o intensamente, enquanto lambia em seu peito uma gota de umidade. As mãos dele se apertaram, o corpo se estirou. Seus dentes mordiscaram, uma carícia sobre a pele.

Gabriel jogoua cabeça para trás e seu cabelo se estendeu durante um momento. Seu corpo tomou o dela, mais duro e mais rápido, estirando-a até que ela pensou que estalariam perdendo o controle. Brincou com a língua prazerozamente.

- Arderei!

A voz dele era quase implorava, uma ordem, uma súplica, uma rouca e sensual carícia. Francesca o recompensou, afundando os dentes profundamente para unir os corpos, as almas e as mentes. Um relâmpago branco se arqueou entre eles e os fez arder. Seu corpo já não a pertencia, era dele para fazer o que quisesse, o que desejasse. O corpo dele pertencia a ela. Um justo intercâmbio quando ela estava gemendo de prazer, sulcando o espaço, remontando as ondas de mar.

Gabriel a seguiu, gritando seu nome aos céus, ante o silêncio dos manequins, até um lugar inominável de pura sensação. Francesca deslizou a língua sobre as duas diminutas incisões, ofegando em busca de ar. Seu coração pulsava no mesmo ritmo do dele, surpreendida pela intensidade de seu selvagem ato de amor.

Gabriel a abraçou aproximando-a mais a ele, apoiando-se numa mão para evitar que seu corpo a esmagasse.

- Você está bem? - Perguntou gentilmente. Acariciou-lhe o cabelo com a mão livre e seu escuro olhar procurou a dela, sobriamente.

- É obvio que estou bem. Foi formoso. Está além das palavras. Desejo você, Gabriel. É tão cuidadoso comigo. – Ela traçouos lábios dele com a ponta de um dedo. - Aprecio sua consideração, seriamente, mas sou uma mulher forte e tomo minhas próprias decisões. Não estaria sob você, com seu corpo dentro de meu, se não fosse exatamente o que desejo.

Ela estava em sua mente, podia sentir sua culpa, embora ele era um antigo muito hábil. Havia algo mais ali, algo não podia definir.

Ele inclinou a cabeça e a beijou. Completamente. Um beijo que a derreteu e trouxe inesperadas lágrimas a seus olhos.

- Surpreende-me, Francesca. Acreditava que nunca voltaria a me surpreender neste mundo, por nada ou por ninguém, mas você é muito mais que tudo que tenha conhecido. - Beijou-a novamente, gentilmente desta vez, com calma. Relutantemente se retirou dela, movendo-se para ficar em pé. Estendeu as mãos e a levantou ela. - O tapete deve ser duro. Acredito que precisaremos uma cama da próxima vez. - Pronunciou as palavras com cuidado, como se temesse que ela pensasse que ele a pressionasse.

Francesca não pôde se conter. Era hilariante ter tanto poder sobre um antigo Cárpato. Inclinou-se para frente e lhe deu um beijo por própria vontade. Lento, ardente e claramente desejando mais.

- Nunca serei capaz de voltar para esta loja sem pensar nesta noite. - afastou-se dele, limpando-se e vestindo-se, amaneira de sua gente. Havia tremendas vantagens em ser Cárpato, coisas que fora incapaz de fazer, enquanto mantinha a ilusão de ser humana. Era divertido e agradável, todos esses pequenos detalhes que tinha tentado manter fora de sua mente.

- Procurarei umas quantas coisas para o Skyler enquanto você tenta conter a respiração. - Ela lançou um sorriso descarado para ele.

Ele a seguiu pela loja, observando-a escolher cuidadosamente, roupas com que pensava que a jjovem se sentiria cômoda. Sabia que ela estava com a intenção de comprar toda a última moda, mas esta primeira expedição de compras era simplesmente para comodidade. Gabriel encontrou um animal de pelucia, um fofo lobo de brilhantes olhos azuis e imediatamente se sentiu atraído por ele.

- Quero lhe levar isto. Está me dizendo que precisa ir para casa conosco.

Francesca sorriu para ele.

- Esse é da fundação do Dimitri. Agora protege lobos selvagens na Rússia e escreve livros com formosas fotografias. Era um menino quando você o conheceu, lembra-se? Uma parte das vendas vai para sua fundação, para os lobos. Salvou a muitos de nossos irmãos lobos da morte ou captura.

- É bom saber que Dimitri está ainda entre nós. Já menino era diferente. Já era m solitário muito antes que tivessem passado seus dias de principiante e havia um escuro centro de violência nele, a marca de um bom caçador, embora com freqüência também a marca de uma conversão à escuridão.

- Bom, neste último século empenhou sua vida em preservar os lobos selvagens. É um renomado cientista e sua fundação é florescente. Não me surpreende que tenha se sentido atraído por seus animais de pelúcia. Cada um deles é uma obra de arte.

Gabriel despiu seus dentes brancos para ela.

- Tenho bons instintos. - Havia uma rica insinuação em seu tom.

Francesca sorriu e redigiu um rápido pedido de suas compras e uma nota pedindo a sua amiga que enviasse os artigos a sua casa na noite seguinte. Fez uma rápida e automática comprovação da loja antes de conectar o alarme.

- Eu gosto de estar com voce, Gabriel. Vamos.

Gabriel apertou seus dedos aos de Francesca, tentando convencer-se de que na mente dela havia só aceitação do que havia acontecido entre eles essa noite. Ela queria tempo para ajustar-se à idéia de ter um companheiro, mas a química entre eles parecia saltar ao mais ligeiro contato. Tinha intenção de levar a cabo um lento cortejo, ganhá-la gentilmente, não saltar sobre seu corpo cada vez que a olhava. Os passos dela não eram como os dele, assim conscientemente, cortou a longitude de cada passo seu. Surpreendia-se do quanto estava gostando de simplesmente caminhar na noite com ela.

- Se nunca tiver oportunidade de voltar a fazer isto com você, Francesca, agradeço-te este passeio. – As palavras escaparam antes dele poder censurá-las. Baixou o olhar para a cabeça inclinada dela. - Não queria te fazer sentir incômoda. Mas nunca havia feito isto antes. Simplesmente caminhar na noite, sem pressar, sem nenhum plano, só me deixando levar. E certamente nunca tive a oportunidade de ter uma mulher formosa a meu lado. A voce pode parecer um prazer singelo, mas para mim é único.

Ela levantou a vista para ele, deixando que Gabriel a fitasse.

- Estou segura de que teve várias oportunidades, Gabriel. - Era um homem extraordinariamente bonito a sua escura e masculina maneira e sabia que atrairia às mulheres facilmente. - Não pode me fazer acreditar que passou séculos sem... - interrompeu-se quando ele se deteve bruscamente. Era muito bom agradando-a, muito bom sabendo exatamente o que precisava.

Gabriel ergueu seu queixo com a mão, obrigando-a a levantar a cabeça para o fitar.

- Sou um caçador, Francesca, um caçador Cárpato. Não sentia paixão como você acredita. Não houve desejo por uma mulher. Desejava sentir desejo e me fundi aos outros, às vezes para ver o que sentiam os humanos que ocasionalmente conhecia. Mas nunca deseje a ninguém até que despertei da morte e ouvi sua voz. - Um débil sorriso tocou seus lábios brevemente, e depois desapareceu. - As sensações que me produz são muito diferentes das criadas pelos humanos. Muito mais intensas e urgentes. - Deixou cair à mão longe dela. - Minhas palavras a pressionam e isso não é o que precisa neste momento e não quero que seja assim. Na realidade quero respeitar a distância que desejas colocar entre nós. Tenho toda a intenção de esperar até que esteja mais cômoda com nossa relação.

Ela sorriu, brejeiramente.

- Dificilmente pode se atribuir à culpa de que tenhamos feito amor, Gabriel. Isso foi inteiramente obra minha.

Um pequeno sorriso atravessou rapidamente, a face dele.

- Não sei se posso dizer isso honestamente, mas acredito que já tiveste suficiente aventura para várias sublevações.

- Deve aprender a dizer dias e noites. - Corrigiu-lhe ela amavelmente. - Esta é a era dos computadores. É perigoso, o quanto rapidamente se pode trocar informação. Estiveste longe por muito tempo. Sei que assimila informação rapidamente, mas a tecnologia faz com que seja muito mais difícil ocultar nossa presença ao mundo. Está acostumado a um mundo onde a ameaça humana era quase inexistente, mas isso mudou com os computadores. - A mão dele roçou a sua e sem pensar, ela entrelaçou seus dedos com os dele enquanto começavam a percorrer a calçada.

- Devo admitir que nunca considerei os humanos uma ameaça. São facilmente manejáveis.

- Soas muito arrogante, Gabriel, embora sinta que não tem intenção de ser. Nossa gente está numa difícil situação, nossa raça está quase condenada. Estou sempre atenta às notícias que correm por aí, assim sei o que está se passando. Há algumas mulheres humanas com extraordinário talento psíquico que são compatíveis com nossa raça. O Príncipe de nossa gente tem como companheira, uma mulher que já foi humana.

Houve vários momentos de silêncio. Uma vez mais, sem atinar, Gabriel havia se estendido para compartilhar este novo conhecimento com Lucian. Tocou a mente de seu gêmeo facilmente, ligeiramente, como tinha feito durante quase dois mil anos. Lucian estava imerso num complicado texto altamente interessante. Isso sempre deixava Gabriel atônito. Que Lucian tivesse retido sua necessidade de conhecimento. Sempre tinha sido como uma esponja que absorvia todo tipo de informação. Agora em contrapartida, compartilhou toda a informação que tinha aprendido do mundo moderno, enchendo Gabriel com tantos dados, que ele começou a rir.

- O que? - Perguntou Francesca suavemente, vendo genuíno afeto durante um momento, nos olhos dele.

Gabriel rompeu o contato instantaneamente, amaldiçoando brandamente na língua ancestral. Por que não pensava? Nunca antes havia importado seu enraizado hábito de procurar seu irmão. Mesmo depois que Lucian se convertera, não tinha lutado contra o hábito. Por que deveria se incomodar? Quanto mais conhecimentos tivessem ambos, melhor seria a batalha. Agora era diferente. Desta vez poderia lhe custar à vida de Francesca. Gabriel tinha lutado com Lucian muitas vezes nos últimos séculos.

Ele havia inflingido ferimentos mortais em mais de uma ocasião, embora nunca fosse melhor que Lucian, nunca tinha conseguido o destruir. Não tinha razão para acreditar que suas batalhas vindouras fossem ser diferentes. Não podia permitir o luxo de cometer um engano. Lucian não devia saber da existência de Francesca.

- O que é? - Repetiu Francesca, sacudindo-o. – Passou de sorrir feliz um lobo com olhos imóveis e vigilantes. O que aconteceu em tão curto espaço de tempo? - Sua voz foi suave e compeledora, uma mistura de interesse e compaixão.

Gabriel sacudiu a cabeça.

- Cometi engano atrás de engano. Descansar todos estes séculos não me fez bem. É confuso despertar e sentir emoções, ver cores. Tude é vívido e brilhante. As emoções são violentas e cruas, difíceis de manter sob controle. Há um desejo sempre presente em meu corpo, por voce.

Gabriel estava falando pensativamente, que Francesca teve a impressão de que ele pensava em voz alta.

- Conduzi esse vampiro diretamente a você. - Gabriel passou a mão pela brilhante massa de seu cabelo negro azulado. - Todo este tempo, você teve êxito em se esconder. Agora eu chamei a atenção sobre sua presença e esse não será o único a te buscar.

Ele deteve-se. Sua mão se curvou ao reder da nuca dela.

- Nunca deveria ter estabelecido minha reclamação sobre voce sem seu consentimento. Deveria ter posto sua segurança acima de minhas próprias necessidades e desejos. Equivoquei-me com você, de forma imperdeável.

Francesca tocou seus lábios. Suas palavras e a sinceridade de sua voz estavam colocando seu mundo de pernas para o ar. Já não sabia o que queria. Longe dele, tudo estava muito claro, mas quando ele estava perto e a permitia ver o interior de sua alma torturada, sentia-se completamente diferente.

- Não poderia ter tomado meu corpo tão facilmente, Gabriel, se eu não tivesse desejado que assim fosse. Não estava sob compulsão.

Os dedos dele massageavam sua nuca e seus polegares roçavam intimamente a delicada linha do pequeno queixo. Cada carícia enviava espiral de calor através de seu corpo e pequenas chamas dançavam sobre sua pele. Perdido em seu arrependimento, Gabriel não parecia notar a forma em que o corpo dela respondia a seu toque.

- Despertei-a com a ordem de vir para mim com desejo. Seu corpo respondeu a essa ordem, ante meu deliberado despertar de seu desejo. Devia ter esperade até que você tivesse tempo de me conhecer. Deveria ter te cortejado como merece.

- Não foi você sozinho, Gabriel. Não sou uma principiante. Reconheci o "empurrão" enquanto despertava. Não estou carente de poder próprio. Não me teria tomado tão facilmente sem meu consentimento. Desejava-o. Desejava te sentir, sentir como era. – Confessou ela, corajosamente, tomando sua parte da culpa sem duvidar. - Não forçou meu consentimento. Em qualquer caso, mais cedo ou mais tarde o ciclo Cárpato teria começado e nenhum dos dois teria muita eleição.

- Pronunciei as palavras rituais para nos unir sem seu consentimento.

- Os homens o fazem o tempo todo, Gabriel. É o costume de nossa gente e assim foi durante milhares de anos. Não tem feito nada tão imperdoável. Esta situação é difícil para nós dois.

Ele deixou cair os braços e se afastou dela.

- Por que aceita estas coisas tão facilmente, Francesca? Por que não me condena como deve? Cólera facilitaria... – ele tornou a passar a mão pelo cabelo. - Aí o tem outra vez, desejando que seja mais fácil. Sou egoísta, meu amor, muito egoísta, e prendi você a mim.

- Gabriel? Está perturbado. Precisa de mim?

A voz chegou inesperadamente, facilmente a sua cabeça. Lutou para manter a mente em branco, para assegurar-se de que nenhuma informação viajava para essa perfeita voz. Lucian sempre tinha sido capaz de dirigir às pessoas com sua voz. Podia fazer que qualquer um acreditasse no que fosse com essa voz. Essa arma. Gabriel nunca tinha ouvido algo tão formoso. Lucian tinha retido esse dom, mesmo depois de ter perdido sua alma.

Quando Gabriel se negou a responder chegou à risada. Uma gargalhada zombeteira, quase preguiçosa, que congelou Gabriel até os ossos. Tinha que proteger Francesca das mutretas de Lucian. Seu gêmeo era inteligente e ardiloso. Cruel. Desumano. Gabriel o conhecia melhor que nenhum outro. Vira-o em ação durante dois mil anos.

Francesca colocou a mão sobre o braço de Gabriel.

- Estava tentando me dizer alguma coisa, mas não conseguiste.

- Você está grávida. - Pronunciou as duas palavras com precisão, claramente, rigorosamente.

Os enormes olhos negros de Francesca se abriram com surpresa.

- Isso não pode ser. Não é tão fácil. Por que acredito que nossa raça está à beira mesmo da extinção? Nossas mulheres são capazes de ter filhos só a cada poucas centenas de anos. Sou uma médica. Estudei durante muitos séculos, decidida a desentranhar o segredo de nossos corpos para que pudéssemos conceber com mais freqüência e ter mais êxito. Queria entender porque concebemos homens em vez de mulheres, mas não pude encontrar a resposta. - Sacudiu a cabeça. - Não, isso não pode ser.

- Sabe que digo a verdade. Sabia que nossas mulheres só podem conceber a cada muitos anos e que podia se manipular essa ocasião, mas também sabia que as oportunidades eram muito boas. Como nunca concebeste, estaria amadurecida e me aproveitei ampliamente disso.

Ela levantou o olhar para Gabriel durante um momento, em silêncio, com surpresa.

- Mas sou uma mulher, uma curadora. Nunca poderia ter feito tal coisa sem que soubesse... - Se voz decaiu, enquanto se pressionava o estômago plano com as mãos, maravilhada. - Não pode ser. - Mesmo enquanto negava, Francesca fechou os olhos e procurou dentro de si mesma. Aí estava. O milagre da vida. O que tanto havia ansiado. Por que tanto havia chorado. O que tinha desejado mais que tudo. Precisamente o que acreditara que nunca teria. Crescendo. Mudando. Células dividinde-se. Um filho. Quis sentir-se brava. Tinha abandonade a idéia, várias centenas de anos atrás. Preparou-se para que entrasse no próximo mundo. Não estava preparada para tal acontecimento.

Francesca estirou o pescoço para que seus olhos encontrassem os dele.

- Realmente o tem feito?

- Eu gostaria de dizer que sabia que queria um filho mais que tudo no mundo. Li em suas lembranças. Li também sua resignação e a aceitação de que não seria mãe. Eu gostaria de dizer que o fiz por você ou mais nobremente, por uma causa, pela continuação de nossa raça, mas a crua verdade é muito mais horrível que isso. Fiz para não te perder. Isto a prenderia a este mundo e não escaparia de mim. Até que Lucian esteja morto, não poderia a seguir. Não quero voltar a estar sozinho. Atuei por egoísmo. Mudei a direção de sua vida inadvertidamente faz muitos séculos e agora, tornei a mudar deliberadamente.

Francesca ficou ali, de pé, com a surpresa gravada em seu rosto.

- Um bebê. Tinha esquecido de toda a possibilidade de um bebê. - Não havia condenação em sua voz, só uma suave surpresa, como se não pudesse compreender tal coisa.

- Sinto muito, Francesca. Realmente não há forma de a desagravar. - Gabriel esfregou a testa com a palma da mão. - Não há desculpa e não pode haver perdão.

Ela não estava o ouvindo. Sua mente estava voltada para dentro. Desejara um bebê, uma família. Mesmo se tivesse escolhido passar os últimos anos de sua vida com o Brice, nunca haveria um filho de sua união. Sua gravidez era um milagre e não podia acreditar realmente com a idéia. - Um bebê. Não recordava como era sonhar com algo assim. Não pode ser, Gabriel. Como? Como não soube?

- Não está me ouvindo, Francesca. - Disse ele e seus olhos negros estudavam o céu sobre suas cabeças como se este pudesse oferecer respostas. Esfregou as têmporas. Precisava de uma saída para a confusão que tinha criado com sua arrogante decisão, embora não houvesse nenhuma. Não havia sido honesto com ela. Respeitava Francesca muito para lhe dar algo menos que a verdade. Em qualquer caso, era sua companheira e cedo ou tarde, leria suas lembranças.

Deveria ter esperado. Teria evitade que escolhesse o amanhecer de vez. Mas tinha tomado a decisão como se ela o pertencesse e devesse render-se completamente a ele.

Francesca respirou fundo e tocou o braço dele. Podia ler facilmente seu torvelinho interior, sua fúria consigo mesmo. Na realidade, ela não sabia como se sentia, mas não gostava da forma em que a mente dele estava tão consumida pela culpa. Gabriel, seu caçador legendário. Ele havia dado tanto de si a sua gente, sempre tinha feito o correto. Francesca não encontrou condenação.

- Em sua defesa, Gabriel, não foi uma decisão consciente por sua parte.

- Francesca! - Gabriel caminhou afastando-se dela, incapaz de suportar que ela o tocasse quando a tinha ofendido tanto. - Está me tocando, embora não me suporta. Não está vende o que tem diante de seus olhos. Não quero começar nossa relação com desonestidade entre nós. É obvio que foi uma decisão consciente. Manipulei o resultade de nossa união, enquanto despertava com algo mais que meu corpo. - Sacudiu a cabeça com admiração. - Realmente é o oposto a mim. Não pode conceber uma decepção semelhante e eu não posso conceber tanta bondade. Olhe-me, Francesca, me observe com todas minhas faltas. Não quero que me aceite como amigo só porque sou um Cárpato e está sozinha e longe de sua terra natal. Acreditava que seria suficiente para mim só tê-la, mas agora vejo que não. Não sabe o quanto está equivocada. O próprio Lucian a caçará e não estou seguro de poder te proteger dele.

Os olhos dela se moveram sobre seu aspecto ameaçador.

- É obvio que pode, Gabriel. Ele não tem poder sobre voce, não a menos que o permita. – Ela levantou a cabeça, seu cabelo comprido caía em cascata brilhante. - E é muito duro com você mesmo. É certo que não me uni voluntária ou completamente com você, mas quando te toco posso ler sua mente. Deseja que eu fique com você, mas na realidade não atuou por egoísmo. Simplesmente não podia permitir que uma mulher dos Cárpatos, qualquer mulher des Cárpatos, destruísse a si mesma. Esse preceito foi impresso em você antes que nascesse. Se fosse outra mulher que escolhesse enfrentar o amanhecer, ainda assim, você teria encontrado a forma de detê-la.

Ele olhou para a mão que estava fechada sobre seu antebraço. Gentilmente a capturou, levando-a aos lábios. Um gesto íntimo e terno que fez que o coração dela se contraísse.

- Deixa-me sem fôlego, Francesca. Se viver outros mil anos, nunca poderei encontrar alguém com sua compaixão natural. Não a mereço.

Um pequeno sorriso curvou a boca dela.

- É obvio que não. Soube desde o começo. – ela brincou, desejando aliviar a tensão. - Vamos, sigamos caminhando. Quero te mostrar algumas coisas.

Obedientemente Gabriel se deixou levar, permanecendo de posse de sua mão.

- Não me castiga, nenhuma palavra.

- De que serviria? Posso mudar o que já parece? Não posso mudar o passado. Por que querer te fazer sentir pior de que já se sente? Seus remorsos e arrependimentos são genuínos. Castigar-te não ajudará a nenhum de nós. Na realidade não sei como me sinto agora. Estudarei depois, quando estiver sozinha. Tudo o que sei é que estou muito cansada e neste momento extranhamente feliz. É uma formosa noite e esta uma cidade verdadeiramente bela. E não há ninguém com quem eu gostasse mais de compartilhá-la, que com você.

Gabriel teve que apartar o olhar dela, da beleza interior que desprendia. Arderam lágrimas em seus olhos e ele se envergonhou. Não a merecia, nunca poderia remediar os terríveis enganos que tinha cometido com ela, não importava quanto tentasse. Moveu seu corpo protetoramente para o dela enquanto caminhavam percorrendo as ruas quase desertas balançando suas mãos unidas.

 

- Me fale de seus cristais coloridos. É muito formoso e transmite paz. Quando estive examinando as peças de seu estudio pude sentir a presença de poder nos padrões. Salvaguardas de algum tipo. - Gabriel sentia respeito pelo talento curador dela. Poucos possuíam um semelhante. Só seu toque podia transmitir uma paz tranqüilizadora e detectava a mesma sensação de paz em seu trabalho.

Francesca sorriu, um rápido relâmpago de felicidade devido que ele se interessasse pelas coisas que ela desfrutava. Alegrava-se de ter por fim, alguém com quem poder falar de seus descobrimentos.

- Comecei faz muito tempo, trabalhando com peças pequenas. A idéia era usar colchas e materiais naturais para ajudar aos doentes. Com freqüência descobria ao examinar a um paciente, que havia outras coisas que o afetavam, além da enfermidade física. Aflição pela perda de um ser amado, problemas matrimoniais, coisas como essas. Comecei a experimentar fazendo artigos específicos para indivíduos que sofriam de algum problema mental. Teci padrões que ajudariam meus pacientes enquanto dormiam. No final, meu trabalho ficou bastante popular. As pessoas se sentiam atraídas pelos artigos porque eram consoladores. - Levantou o olhar para ele. - Não estou explicando bem. Só leio às pessoas e sei o que precisam e tento confortar-lhes. Assim foi como começou tudo.

- Realmente é uma mulher assombrosa. - Disse ele amavelmente. Assombrava-lhe com seus talentos. - E agora?

- Criei uma empresa. Minha identidade está profundamente enterrada. Se alguém investigar será difícil averiguar quem sou realmente. - Sorriu-lhe. Francesca se orgulhava por conseguir enganar os mais antigos homens dos Cárpatos. - Inclusive acrescentei salvaguardas para desalentar detetives humanos.

- Um Cárpato sentiria o poder e certamente reconheceria os símbolos ancestrais de seu trabalho. - Assinalou ele.

- Naturalmente. - Disse ela complacente. - Por isso tomei a iniciativa de criar um fictício homem dos Cárpatos, um artista, um ermitão. Meu trabalho é freqüentemente solicitado pelos Cárpatos para proteger suas casas e trazer paz a sua volta. Enviam seus pedidos através de minha empresa e eu faço o trabalho. Alguns solicitam ver o artista, mas sempre declino da oferta.

- Qualquer Cárpato que se aprecie pode distinguir a diferença entre o toque de um homem ou o de uma mulher.

Ela arqueou uma elegante sobrancelha.

- Seriamente? Possivelmente me subestima, Gabriel. Vivi durante séculos em segredo, sem ser descoberta pelos não-mortos, pelos homens dos Cárpatos que chegavam à cidade, e inclusive por voce ou seu irmão. Algumas vezes suspeitei que Lucian podia ter sido consciente de minha existência. Voltava com freqüência para esta cidade e explorava mais vezes do que me incomodei em contar ou recordar.

- Ele fez isso? - Gabriel ficou nervoso. Se Lucian suspeitava que algo remotamente parecido a uma mulher des Cárpatos vivia na cidade, insistiria até encontrá-la. Nada escapava à atenção de Lucian. Gabriel recordeu como Lucian o conduzira de volta a Paris uma e outra vez. Sua última e terrível batalha tivera lugar na cidade. Lucian teria sido consciente, de algum modo, de uma presença feminina? Compartilhavam sempre o conhecimento. O que um sabia, o outro também. Ocultaria-lhe Lucian semelhante informação?

Francesca assentiu solenemente.

- Senti sua presença com freqüência durante séculos, e devo confessar que me enterrei profundamente na terra para me esconder dele. Tinha medo de que me encontrasse. Havia vivido tanto tempo só fazendo o que desejava, que já não desejava um homem em minha vida. - O que não disse foi que havia temido que ele pudesse rechaçá-la de novo e não poderia suportar uma segunda vez.

- Francesca, Francesca. - Murmurou Gabriel brandamente. - Em que pequena mentirosa se converteu. O que é o bom doutor a não ser um homem? Por que queria saborear o amor com alguém como ele?

Ela separou sua mão da dele, retirando seu toque consolador. Ocultou a face, sob a cortina de seu cabelo.

- Isso simplesmente aconteceu de forma inesperada.

- Viveu muito tempo entre humanos, coração. - Disse ele, com ternura, gentilmente. - Esqueceu como é entre nossa gente, entre companheiros, homens e mulheres. Sou uma sombra em sua mente, em seus pensamentos. Pode mentir a Brice, mas nunca a mim. Viveste como uma humana e não quer estender seus próprios sentimentos, além de suas capacidades. Tem mede da intensidade das emoções Cárpato. Fiz mal a você, Francesca e não quer voltar a experimentar uma dor semelhante.

Ela afastou o cabelo do rosto e sua mão tremeu, traindo-a, enquanto encolhia os ombros com estudada frivolidade.

- Não sei tem razão. Certamente nunca o culpei. Senti-me ferimento a princípio, era só uma menina, mas sempre entendi que o bem-estar de nossa raça era muito mais importante que a felicidade de uma só pessoa.

Ele a segurou pelos ombros, colocando-a em pé abruptamente, com controlada violência que fez acelerar o coração de Francesca. Gabriel possuía uma força enorme.

- Nunca pense que eu tinha um nobre propósito ao te deixar para trás, Francesca. Se soubesse de sua existência nunca a teria deixado. Sou muito mais egoísta do que pode imaginar, porque você não é. Nunca a teria deixado e muito menos tenho intenção de fazê-lo agora. É a única pessoa que me importa. Vi a lembrança desse dia em sua mente. Atravessava a passos, um povoado, como atravessara a tantos outros. Senti algo incomum, mas minha mente estava ocupada por pensamentos de guerra. Voltei à vista e vi mulheres, não, na realidade não as vi. Rostos de mulheres e crianças me perseguiam como fantasmas, nunca podia fitá-los diretamente. Quando me voltei, meu irmão falou comigo. Se a tivesse visto, nossas vidas teriam sido diferentes. Tinha um trabalho a fazer, mas o teria abandenado nnaquele tempo. Naquele tempo. Teria permitido que Lucian caçasse sozinho.

Ela estudou seu rosto durante um longo momento, então um lento sorriso curvou sua boca e ela sacudiu a cabeça.

- Não. Sacrificaria voluntariamente sua felicidade pelo bem-estar de nossa gente.

- Mas não a tua. Ainda não entende. Não teria sacrificado tua vida. Nunca teria permitide que fosse infeliz. Odeio-me pelo que teve que sofrer para sobreviver sozinha, sentindo-se rechaçada e não desejada.

- Essa era a menina, Gabriel, não a mulher. Minha vida teve um propósito, um significadeo Que esteja cansada não significa que não tenha desfrutado dos anos que tive. Vivi bem e tenho fiz o que pude para que minha vida valesse a pena. Vivi experiências que outras mulheres de nossa raça nunca poderiam ter. Fui independente e adorava ser. Se, perdi de ter uma família, mas houve outras coisas que me mantiveram ocupada. Não foi uma vida terrível. E sempre tive uma escolha. Poderia me haver revelado a você novamente. Poderia ter procurado o amanhecer. Poderia inclusive ter escolhide voltar para casa, onde ao menos a terra e a companhia de nossa gente teria me proporcionado distração. Não escolhi fazer isto. E foi estritamente minha escolha e não a tua. Sou uma mulher, não uma menina escondida entre as sombras. Tudo o que fiz, foi por minha própria vontade. Não sou uma vítima, Gabriel. Por favor, não tente me converter numa.

- Não ama Brice, só o admira. Têm algo em comum. Respeita a forma em que se comporta com as crianças e sua habilidade para curar, sua concentração na medicina. Mas também tem reservas com respeito a ele.

- Não. - Negou ela inflexiblemente. - Por que pensaria isso?

- Se não as tivesse, Francesca, teria unido sua vida a dele. Estive em sua mente...

- Bom, pois saia de uma vez.

- Não é fácil de fazer, meu amor. De fato, está me pedindo um impossível. Você não gosta da forma em que Brice trata os pacientes menos afortunados, os que não têm nada. Você não gosta da forma em que ele é capaz de esquecer completamente a seus pacientes uma vez que os tratou. Há muitas coisas sobre ele, que você tem sérias reservas. Compartilha muito com ele, mas parte de você sabe que ele precisa curá-los por causa de seu próprio ego.

Os olhos escuros chamejaram para ele.

- Talvez eu também faça isso. - Havia muita verdade nas palavras dele para sua comodidade e ela estava mais brava consigo mesma, que com ele. Queria prender-se a Brice porque ele nunca a faria mal da forma em que tinha feito Gabriel. Seu companheiro arrancara seu coração. Sua voz, tão tranqüila, tão sincera, era suficiente para fazê-la retorcer-se de mortificação. Ela era uma mulher, não uma menina que se ocultava atrás de um mortal. Ainda assim era o que estava fazendo em vez de enfrentar seu companheiro.

- Faz porque é uma curadora de nascimento com um dom incomparável. Nunca deixaria Skyler numa casa com desconhecidos depois de tudo pelo que ela passou. Nunca te ocorreria. Se não pudesse cuidá-la você mesma, sempre a vigiaria. Você é assim. O doutor simplesmente a esqueceria.

- Não está sendo justo com ele, Gabriel. Depois, ele não compartilhou suas lembranças. Não sabe pelo que ela passou. - Francesca se encontrou defendende Brice, quase automaticamente.

- Examinou-a exaustivamente. - Disse Gabriel. – Viu-a abstraída como estava. Isso provém de um trauma. Ele sabe. Provavelmente sabe tudo, a parte física ao menos e pode supor a mental e o trauma emocional. Mas tudo isso não o afetará, uma vez deixe de ser seu paciente. E isso Incômoda você.

Francesca se voltou afastando-se dele e começou a caminhar pela calçada.

- Possivelmente tenha razão, Gabriel. Não sei. Estou muito confusa. - Ele tinha arrancado seu coração. Faria-o novamente, quando a deixasse para perseguir a seu irmão gêmeo, como devia fazer. Podia sentir o toque de sua mente procurando gentilmente a dela. Apressadamente, se obrigou a pensar em Skyler, a concentrar-se na adolescente.

- Sei que está confusa, amor e não é de sentir saudades. - Disse Gabriel com suavidade, mas a observou com seu intenso e negro olhar. – Mas, por ora devemos nos concentrar em como trazer Skyler a casa e em proporcionar um lar decente a ela. Precisaremos decidir que lembranças apagar completamente e quais minimizar.

- Não acredito que tenhamos o direito de apagar as coisas pelas quais ela passou, mas não faria mal apagar as lembranças para que possa tratar com eles. O mais importante é ajudá-la a sentir-se a salvo, a confiar em nós. Acredito que precisaa disso, mais de que qualquer outra coisa. - Disse Francesca, preocupada. - É obvio, perdeu a maior parte de seus estudos também.

Gabriel encolheu de ombros, indiferente.

- Essa é a menor de nossas preocupações. Podemos repartir o conhecimento que deveria ter. Neste momento, ela precisa estabilidade e um lar decente para viver. Uma vez que tenha o necessário para reconstruir sua confiança, a escola chegará.

- Ajudá-la será um enorme compromisso, Gabriel. Não peço que o compartilhe comigo.

- Senti sua dor. É só uma menina. Mas logo será uma mulher. Uma mulher com habilidades psíquicas.

Francesca se voltou para lhe enfrentar uma vez mais.

- Está seguro? Pensei que poderia ser, já que a conexão entre nós foi tão forte.

- Não poderia me equivocar com semelhante dom. Acredito que não poderia estar menos que as nossas. Podemos cuidar de sua felicidade, protegê-la, e evitar que os não-mortos detectem sua presença. É jovem e já sofreu muito, não podemos permitir que sofra nenhum mal. E quando crescer poderia ser a companheira de algum dos nossos.

Francesca se enrijeceu.

- Ela será livre, Gabriel, para escolher seu próprio destino. Não chamará os homens de nossa raça e a entregará. Falo sério. Sofreu muito nas mãos dos homens e nossa raça é dominante e às vezes brutal. Ela tem em mente evitar toda relação dessa natureza e devemos respeitar seus desejos. Pode que nunca se recupere completamente de dano que infringiram.

Ele sorriu e abraçou-a.

- Nossos homens nunca são brutais com sua companheira. Acredito que temos uma mamãe tigre entre mãos. É uma dama formidável. Da classe que escolheria para ser a mãe de meu filho.

Ela fez uma careta. Seus olhos negros eram abrasadores, mas havia uma suavidade em sua boca que desmentia as chamas de seu temperamento.

- Skyler será uma jovem bem amada em nossa família. Oferecerei o amparo que daria a minha própria filha. Será feliz, meu amor. Muito feliz. Nunca permitirei que ninguém a reclame sem seu consentimento, como fiz com você. Esquece que pode não ser compatível com nenhum de nossos homens. Eu acredito no destino. Se ela for reclamada por um de nossos homens, permitirei encontrá-la e cortejá-la como deve. Ele a apreciará sobre todas as coisas. - Como faço eu com você.

As palavras brilharam no ar entre eles.

Francesca se ruborizou e os longos cílios baixaram para ocultar a expressão alegre. Havia sinceridade em Gabriel e ela adorava seu sotaque do Velho Mundo e a intensa paixão oculta sob o verniz de civilização. Suas emoções eram extremas e devastadoras, cruas e reais. Ele fitava-a com tanto desejo e fome, que cortava sua respiração.

Francesca manteve os olhos fixos à frente. Gabriel podia afligi-la facilmente, engoli-la com sua faminta paixão. Ninguém nunca a quis antes da forma que ele parecia querê-la. Sempre pensara nele como um ser inteiramente auto-suficiente, mas agora via que ele era muito sozinho. Um guerreiro eterno caminhando pela terra em busca de seu inimigo. Não queria simpatizar com sua solidão, admirar sua honra.

- Está sorrindo outra vez. Esse seu sorriso misterioso que me faz desejá-la, abraçá-la e te beijar até me perder em você. Prometi que me comportaria em sua presença, Francesca, mas está sendo extremamente difícil. - Ele pronunciou as palavras, com a voz cheia de ternura. Um ardente e aveludado sussurro de sedução.

Ela se encontrou súbitamente, com receio de chegar em casa, embora ao mesmo tempo, desejava desesperadamente que estivessem já lá.

- Não pode me beijar Gabriel. Já está me deixando louca. Não sei o que fazer com você. Eu tinha uma vida agradavel, com um agradável e cômodo futuro, totalmente planejado e agora você chega e vira meu mundo.

Gabriel sorriu. Um rápido quase juvenil e travesso, que mostrava seus imaculados dentes brancos.

- Não posso me conter, meu amor. Você é belíssima, corta-me a respiração, observá-la. Que homem não teria tais pensamentos, passeando a noite com voce, com as estrelas sobre nossas cabeças e a brisa o tentando com sua essência?

- Cale-se, Gabriel. - Francesca tentou não deixar que nenhum prazer se mostrasse em sua voz. Certamente ele não precisava que o animasse. - Para ser um homem que reclama não saber nada sobre mulheres, certamente parece saber justo o que tem que dizer.

- Deve ser inspiração. - Replicou ele.

Francesca estalou em gargalhadas, não pôde evitar. Ele estava se tornando galanteador.

- Está para amanhecer e estou cansada. Vamos para casa.

Gabriel gostou de ouví-la falar assim. Ir para a casa. Nunca tivera uma. Podia admitir que tinha sido afortunado na única relação que compartilhara com Lucian. Vivera sempre sozinho, mas nunca verdadeiramente só, como os outros homens de sua espécie. Mesmo depois que Lucian se converteu, fundiam-se com freqüência. Um hábito de dois mil anos de antigüidade não poderia ser rompido tão facilmente. Era automático.

Incomodava-o, ainda não ter encontrado à primeira presa de Lucian na cidade. Qualquer morte. Lucian se elevara faminto de seu longo aprisionamento. Teria se fartado com o primeiro humano que se cruzara, embora Gabriel houvesse percorrido a cidade em busca de evidências, não tinha encontrado nada. Sabia que havia mais de um vampiro na região. Lêra os jornais, em busca de notícias de estranhos assassinatos, mas nenhum desses assassinatos havia sido obra de Lucian. Lucian era um artista, com um estilo muito peculiar. Não havia nada negligente nele. Cada morte levava sua assinatura pessoal, como se zombasse por seu irmão ir atrás dele. Algumas vezes, Gabriel pensava que tudo não era mais que um jogo para Lucian.

- Você ficou ausente, de repente.

Gabriel não fingiu saber de quem ela falava.

- Algumas vezes nos fundimos inadvertidamente. Nesses momentos você está em grave perigo.

- Você o quer muito, não é? - Francesca fechou os braços em volta da cintura dele, roçando seu corpo mais perto do dele, para oferecer consolo.

No ato, Gabriel sentiu a consoladora presença, e a paz o invadiu como acontecia sempre. Quando Francesca o tocava. Perguntou-se, por um momento, se ela podia ter curado Lucian antes que ele se convertesse. Ela podia ter dividido a mesma paz de sua alma, a seu irmão gêmeo?

Eles entraram na rua que conduzia a dela casa. Gostava de olhar a casa, a forma em que se estendia e o chamava. Casa. Esta era sua casa. Havia alguma possibilidade de uma família para ele? Poderiam realmente, viverem juntos? Criar seu filho? Cuidar de Skyler? Seria Francesca capaz de o amar? Ela o desejava, seu corpo ansiava o dele, mas ela o amaria? Perdoaria-o?

- Fica muito calado quando pensa nele. - Murmurou Francesca meigamente. - Posso sentir a dor que isso te causa. Embora sua mente tenha só bons pensamentos sobre ele. Deve ter sido um grande homem.

- Nunca houve outro como ele. Era um professor na batalha. Em tudo. Eu nunca tinha que olhar para ver se estava ali, sempre estava. Lucian era uma legenda. Salvou muitas vidas ao longo dos anos, tanto humanas, como de Cárpatos. Seriam impossíveis de contar. Nunca vacilava em seu dever. Absolutamente. Éramos unidos, Francesca. - Admitiu Gabriel, com baixa. - Muito unides.

Eles caminhavam através da propriedade, para a porta da frente.

- Me fale dele. Poderia ajudar compartilhar suas lembranças. Sinto sua relutância em falar dele, crê que seria desleal. Mas nunca me atreveria julgá-lo. Você o amava e admirava e eu posso fazer o mesmo.

Gabriel abriu a porta principal, retrocedendo para permiti-la entrar. Continuamente, explorava o lugar que os rodeava, um hábito inculcado por seu irmão perdido. A pena o dominou, chegada de algum lugar em sua mente.

- Às vezes acredito que não o destruí, pelo fato de que não poderia suportar seguir no mundo sem ele. Dei-lhe minha palavra de honra, a muito tempo, de que eu seria o único que o destruiria se ele perdesse sua alma. Ambos prometemos. Se um se convertesse, o outro o caçaria e destruía, embora até agora fui incapaz de cumprir minha promessa. Foi deliberado, Francesca? Foi? – Gabriel soava perdido e sozinho.

Ela fechou a porta firmemente contra a luz que começava a romper através do céu da manhã.

- Não, Gabriel. Teria honrado sua promessa se pudesse. E acredito que o fará, que honrará.

- Lucian perdeu seus sentimentos quando era um aprendiz, muito antes que normalmente fazem nossos homens, mesmo assim resistiu durante dois mil anos. Eu senti emoções por mais tempo, então compartilhei com ele o que sentia. Ainda não posso acreditar que se converteu. Vi a evidência de suas mortes. E inclusive topei com ele quando matava. Mas algumas vezes não consigo acreditar isso. Não posso compreender que um homem tão forte, um líder semelhante, um defensor de nossa gente, possa ter escolhido entregar sua alma à escuridão, para toda a eternidade.

- Gabriel, é natural que deseje que ele permaneça em seu coração como sempre o conheceu. - Disse Francesca, suavemente, pegando sua mão e moveu-se pela casa, levando-o com ela. – Tenho que chamar a meu advogado e pedir que faça toda a papelada necessária para me converter em tutora de Skyler. Antes de irmos a nossa câmara, devemos fazer pesquisas para averiguar se algum dos nossos tem famílias humanas que confiem para nos ajudar a cuidar de Skyler durante o dia enquanto dormimos.

Ele a seguiu ao estudio, observande-a falar rápida e firmemente com o advogado. Na realidade, ela não deu oportunidade dele discutir com ela, havia compulsão em sua voz e Gabriel automaticamente a ajudou, acrescentando o peso de seu poder ao dela. O advogado teria tudo em ordem para eles, ao cair à noite. Ninguém protestaria. Quem iria querer Skyler Rose Thompson? Ela era uma órfã sem parentes. Francesca tinha dinheiro e influências. Qualquer juiz aceitaria seu desejo.

Gabriel observou cuidadosamente como ela se voltava para seu computador e começava a digitar rapidamente. Assombrava-o, a capacidade da nova tecnologia. Os dedos dela voavam sobre o teclado, com total confiança. Ela tinha visto como se desenvolvia a tecnologia. Havia experimentado coisas que ele havia lido. Ele podia ler sobre elas, mas não podia voltar atrás e observar como aconteciam. Francesca se sentia cômoda com carros velozes e aviões que sulcavam o céu. Com naves espaciais e satélites. Com Internet e os computadores.

- Tenho algo aqui, Gabriel. - Disse Francesca. - Savage, Aidan Savage nos Estados Unidos. Fiz várias peças para sua casa. Estou segura de ter ouvido que sua companheira foi humana e possuía capacidades psíquicas. Aidan tem um irmão gêmeo, Julian.

Um lento sorriso se estendeu pela face de Gabriel.

- Julian, lembro-me dele. Era um moço com um selvagem cabelo loiro, muito incomum para nossa espécie. Ele ouviu às escondidas, uma conversa entre Lucian, eu, Mikhail e Gregori. Era bastante hábil, mesmo ainda moço. Senti uma escuridão nele, mas não tive tempo de o examinar atentamente. - Seus dentes brancos brilharam. - Gregori era muito protetor com ele e eu não quis desafiar meu próprio parente. Levávamos centenas de anos sem nos ver, mas nosso sangue era o mesmo. Eu gostaria de saber o que aconteceu aos dois.

- Bom, não sei muito sobre o destino de Julian... Cuidei em não despertar a curiosidade de ninguém com minhas pesquisas... Mas tenho feito negócios com Aidan em mais de uma ocasião. Ele não me conhece, só meu fictício homem dos Cárpatos, o artista que possui minha companhia. Enviarei um email a Aidan e verei o que pode nos contar de sua família humana e como funciona. Posso incluir uma pergunta sobre Julian. Quanto a Gregori, sei que sua companheira é a filha de nosso Príncipe.

- Por favor, pergunte pelo Julian. É interessante que possa falar tão rapidamente com alguém que está a meio mundo de distância. Um dos nossos. Deve ser cuidadesa com o que diz sobre nossa gente. Qualquer pode ser capaz de interceptar seu email. - Advertiu ele.

- Confia em mim, Gabriel. Sou cuidadosa. Eu sempre tenho que ser cuidadosa. – Francesca desligou o computador e tomou sua mão uma vez mais, para o conduzir à câmara clandestina. Seu coração pulsava tão ruidosamente, que sabia que ele poderia ouvi-lo. Atravessaram os salões com tranquilidade, depois a enorme cozinha e em seguida, a passagem que conduzia a câmara de sonho.

Gabriel roçou suas têmporas com os lábios, demorando em sua pulsação. – Desejo você, Francesca, não fingirei, mas disse que quero que sejamos amigos. Contentarei-me em abraçá-la. - Desejava o conforto dos braços dela, sua cercania.

Francesca apertou os dedos dele. Era capaz de ler seus pensamentos como ele de ler os dela. Estava decidido a deixar de um lado suas próprias necessidades e cuidar das dela primeiro. Desejava dar o tempo que ela precisasse, para aceitar sua reclamação. Seu coração acelerou, ante tanta consideração.

- Como fez para caminhar em pleno sol do meio-dia? Nossos antigos foram incapazes de fazer tal coisa e você conseguiu encontrar o segredo.

Havia tanta admiração na voz dele, que Francesca sentiu que a cor espalhava por seu rosto.

- Sabia que o único modo de evitar que minha gente me reconhecesse era treinar para pensar como uma humana, caminhar e falar como uma humana, sempre. Quando alcancei o ponto que acreditei ser capaz de sair ao sol, já havia renunciado a muitos de nossos dons, parecia uma espécie de retribuição, um pagamento. Estava investigando o por que de nossas mulheres normalmente não podem conceber mais de um filho com êxito. Cheguei à conclusão de que era uma forma natural de equilibrar nossa população. Então voltei minha atenção, a por que perdíamos a tantas crianças durante seu primeiro ano de vida. Nossos filhos são muito parecidos com as crianças humanas... Não bebem sangue, seus dentes não estão desenvolvidos ainda, não podem ir para a terra, mudar de forma, ou fazer tudo o que faz os adultos. Seus pais, entretanto, devem descansar durante as horas diurnas e os filhos estão certamente em perigo sem supervisão, porque devem ficar na superfície quando seus pais dormem.

- Isso é muito interessante, mas não explica como conseguiu sair ao sol. - Seu queixo esfregou contra a parte alta do cabelo dela, numa pequena carícia. Mechas de seu cabelo ficaram presas na pele áspera, pela barba que o sombreava, enredando-os.

Ela sorriu para ele.

- Teorizei que, se pudéssemos voltar a ser crianças, poderíamos fazer tudo novamente. O que nos mudou? Nossa química se alterou e precisamos de sangue para manter nossas vidas e nossos dons. Embora possamos sobreviver durante longo períodes com transfusões e sangue animal. Experimentei e finalmente troquei a química atual de meu corpo. Estava fraca e incapaz de mudar de forma ou fazer muita das coisas que são necessárias para nossa espécie.

Junto a ela, ele se moveu inquieto. Ela sentiu o repentino bater de seu coração. Sua companheira estivera sozinha, desprotegida, tentando perigosos experimentos que a permitiam caminhar sob o sol. Estava orgulhoso dela, mas a idéia o aterrorizava. Francesca se encontrou agradada ante essa reação. Ocultou seu sorriso enquanto movia a enorme porta com uma ordem para que pudessem acessar à câmara clandestina.

A câmara estava fresca e convidativa e a escuridão interior chamava ao descanso. Francesca ondeou a mão e a terra se abriu para revelar a escura e rica terra. Gabriel olhou fixamente para a cama. A colcha era grossa e suave com intrincades redemoinhos e símbolos ancestrais. Liberou-se dos dedos de Francesca e foi examinar o fino artesanato.

Francesca tinha contribuído muito, em seu tempo na Terra.

- Como mudou a química de seu corpo? - Perguntou ele. - É um lucro tremendo que pode ser muito útil para nossa gente.

Francesca sacudiu a cabeça com pesar.

- Experimentei durante muitos anos, Gabriel, mas foi uma tentativa de emular o metabolismo que têm nossos filhos, de nem humano nem Cárpato. Assim podem ficar tempo sob o sol, mas não ir para a terra, igual acontecia comigo. Para os Cárpatos que estão no final de seus dias e desejam tentar coisas novas poderia ser bom, mas o processo é doloroso e muito longo. Requer quase cem anos. Na verdade, meus olhos nunca se acostumaram ao sol. Existiam ainda algumas fraquezas. Gravei-o tudo cuidadosamente em nossa língua ancestral e teria enviado a informação a Gregori antes de morrer.

Ela voltou à cabeça, para estudar os brilhantes olhos dele. Escuros. Perigosos. Esse era Gabriel, uma lenda que voltava à vida.

Ele estendeu a mão e segurou a dela.

- Desejo-te. Outra vez. – Ele disse cruamente, sem embelezamentos e levou a mão dela para sua calça, mas o tecido já havia desaparecido, deslizando-se longe de seu corpo, à maneira de sua gente, para que a mão dela segurasse a dura e grossa ereção. Estava ardente, pulsando de desejo.

Francesca apertou os dedos ao reder dele, sujeitando-o durante um momento e depois seus dedos começaram a se mover por vontade própria. Uma pequena experiência, enquanto ela estudava a face dele intensamente, enquanto sua mente se fundia profundamente com a dele para compartilhar o que sentia. Logo ela se viu recompensada pelo puro prazer esculpido nas linhas de seu rosto, em sua mente.

- A cama tem possibilidades. - Murmurou ela brandamente.

- Se dispa para mim, à maneira dos humanos. - Disse ele de repente. Seus olhos se tornaram muito negros, ardendes e com tal intensidade que ela podia sentir diminutas línguas de fogo percorrende sua pele. - Há algo de muito erótico na forma em que uma mulher tira a roupa.

As sobrancelhas dela se arquearam.

- Eu acredito que há algo muito erótico na forma que sua roupa desaparece e me deixa explorar o que quero. - Sua voz zombava dele, mas era um convite. Afastou-se dele, com os braços caindo lentamente, seus dedos roçando a dura ereção enquanto o fazia. Francesca inclinou a cabeça para que seu cabelo deslizasse como uma sedosa cortina negra sobre seus ombros. Suas mãos foram até os pequenos botões de seu sueter. Liberou cada um deles, para que revelassem a acetinada pele de seus seios. Deliberadamente, suas mãos empurraram o sueter lentamente de seus ombros, deixando que caísse ao chão despreocupadamente. Viu-se recompensada pelo escurecimento dos olhos dele e o pelo enrijecimento de seu membro, até proporções alarmantes.

Liberou a calças do quadril para revelar a calcinha de renda. Tirou as sandálias enquanto, saía da calça e permaneceu durante um momento, com s roupa intima. Seus mamilos já estavam duros de antecipação, presos no soutien que a sensibilizava ainda mais.

Com um lento e estudado movimento, se liberou dele e o jogou para um lado.

- Estou dolorida por você. - Disse ela, com suavidade, segurando os seios como oferenda. - Quero você... Seus lábios são ardentes, Gabriel. - Suas mãos desceram pelo estômago plano até tirar a calcinha.

Os olhos dele resplandeciam de desejo.

- Está molhadinha e pronta, me desejandeo Francesca? – A voz de Gabriel era rouca e seus olhos percorriam o corpo dela possessivamente.

A mão dele deslizou entre suas pernas, procurou seu sexo, comprovando a umidade que havia ali.

Com os olhos fixos em seu rosto, ele deliberadamente lambeu os dedos. As pernas de Francesca fraquejaram. Ele fundiu-se com ela. Tudo era formoso com Gabriel. Adorava como ele a desejava.

Seus braços rodearam a cintura de Francesca, trazendo-a para mais perto, para beijá-la, devorando sua boca.

- Sabe ser tão sexy, Francesca, quero me alimentar em você por toda a eternidade. - Murmurou ele, na boca dela. – Saboreie-se, meu amor, sinta como é para mim quando a tomo. Quando a tomo, ardente e apertada, quando me introduzo profundamente em seu corpo. - Sua boca vagou pelos seios dela, suas mãos acariciaram as nádegas, esfregando-a deliberadamente contra sua ereção.

Francesca entregaou-se ao êxtase compartilhado. Gabriel a empurrou sobre a cama.

- Que desejas, meu amor?

Ela não duvidou. Por que deveria? Ele era seu companheiro e só devia haver desejo entre eles. Tinha todo o direito de recrear-se com ele e o desejava. Abriu as pernas ampliamente, sua mão foi até o próprio sexo ardente. Levou os dedos à boca.

- Quero te alimentar para sempre. Faça-me amor, Gabriel. Agora e sempre. Desejo-te enterrado profundamente em mim e quero despertar de mesmo modo.

Ele levantou as pernas dela até seus ombros e inclinou a escura cabeça. Sua língua acariciou, brincou e explorou até que ela se contorceu sobre a cama, incapaz de ficar imóvel. Os dedos dele inspecionaram, exploraram, entraram profundamente em seu interior, sendo só substituídos por sua língua. Ela gritou então, estremecendo de prazer, fechando os olhos enquanto ele baixava até seu corpo, tomando-a, possuindo-a até que ela se fragmentou.

Gabriel mergulhou, nela dura e rapidamente, tão faminto e feroz em sua união, como ela. Gostava de vê-la assim, desejando-o ardentemente, precisando dele, seu corpo tremendo de prazer, seu sexo apertado e ardente era o lar de seu próprio corpo, revelando a sempre presente raivosa necessidade de seu interior. Desejava que durasse para sempre. Possuí-la com força, seus quadris se elevavam para encontrar os dele, seu corpo e o dela se integravam numa união perfeita, os seios cheios, firmes e eretos, o cabelo estendido a sua volta e seus olhos fixos nele. Juntos. Como deviam estar.

Quando o alívio chegou, arderam em chamas, um longo espiral interminável, um terremoto com fortes tremores secundários. Nos braços um do outro, beijando-se. Os lábios fundidos, expressando uma feroz necessidade e uma fome que pareciam não poder aliviar. Foi Gabriel quem os enviou flutuando à terra, ainda enredados, sua boca deminando a dela, suas mãos sujeitando-a perto.

Colocaram-se na terra e não conseguiam parar. Ele tomou-a uma segunda vez, mais duro que a primeira, e ainda não pôde deixá-la. Ela estava deitada a seu lado, durante um longo momento, com as mãos em seu cabelo, a boca em seu peito. Permaneceram deitados juntos até que a luz no céu, se fez impossível continuar acordados. Relutante, Gabriel colocou salvaguardas sobre a câmara e cobriu seu lugar de descanso. Seus corpos precisavam do sono rejuvenesceder da terra durante as horas diurnas. Algumas vezes dormiam em câmaras na superfície, mas precisaavam dos benefícios da terra curadora para rejuvenescer.

Ela se acomodou em seus braços, sentindo-se segura e protegida. Sentindo-se como se já não estivesse sozinha. Francesca se aconchegou a ele, respirando sua fragrância masculina. Seu corpo estava feito para o dela. Perfeito. A forma em que encaixava contra ele, a forma em que ele parecia defendê-la, fazende-a sentir tão parte dele. Dentro dela estava seu filho, vivendo, crescendo, desenvolvendo-se, quente e a salvo. Um presente precioso de seu companheiro, nenhum tesouro poderia nunca superar.

- Durma, minha formosa companheira, descanse enquanto pode. - Disse Gabriel.

Ela sentiu os lábios preguiçosos acariciar seu cabelo. Os braços dele se apertaram seu corpo e eles permitiram que o ar escapasse de seus corpos e seus corações deixassem de pulsar.

 

Quando Francesca abriu a porta do quarto de Skyler, levava um pacote de roupa e o animal de pelúcia. O lobo de olhos azuis que haviam comprado para ela a noite anterior. A adolescente estava deitada de costas olhando o teto. Suos longos cílios tremularam ao sentir que já não estava sozinha, mas não voltou à cabeça. Francesca podia notar que seu pequeno e maltratado corpo se enrijeceu. O medo da menina enchia o quarto.

- Skyler. - A propósito, Francesca usou sua suave e amável voz. – Lembra-se de mim?

A garota voltou à cabeça lentamente e seus enormes e suaves olhos cinzas se fixaram na face de Francesca, como se ela fosse um salva-vidas.

- Nunca poderia te esquecer. - Como Francesca, Skyler falava em francês, embora Francesca sentisse que este não era seu idioma materno. Houve vários batimentos segundos de silêncio antes que a garota se atrevesse a continuar. - É certo? Ele está realmente morto?

Francesca deslizou através do aposento. Seus movimentos eram fluídos e graciosos como os de uma bailarina. Ela colocou o pacote de roupa nos pés da cama e cuidadosamente, colocou o lobo de pelucia junto à garota e tomou a mão de Skyler na sua, amorosamente.

- Sim, carinho, ele passou para a outra vida e já não pode te tocar. Espero que queira viver comigo. - Com sua mão livre, ela acariciou o cabelo despenteade de Skyler. - Desejo muito, seriamente, que viva comigo. - Havia um risco de compulsão na pureza prateada de sua voz.

Para seu assombro, o olhar firme de Skyler vacilou. Fechou os olhos, os longos cílios baixaram contra sua pele pálida.

- Senti você dentro de mim, se estendendo para mim. Sei que não é como a maioria das pessoas. – A voz de Skyler foi suave, um simples fio de voz. - Sei coisas que supõe não deveria saber sobre as pessoas. Quando os vejo, sei coisas. Você também faz isso. Sabe o que ele me fez, as coisas que deixou que seus amigos me fizessem. Quer arrumar tudo, minhas lembranças, mas nunca poderá me fazer inocente e boa outra vez.

- Não pode acreditar nisso, Skyler. Você é mais inteligente que isso. Eles podem ter abusado de seu corpo, mas não de sua alma. Podem ter destruído seu corpo, mas nunca sua alma. Você é boa e inocente. Sempre foi. As coisas que fizeram com você, não mudam sua natureza. Podem ter tornado você mais forte. Sabe que é forte, certo? Encontrou a forma de sobreviver em vez de destruir os outros.

Os pequenos dentes de Skyler tocaram seu lábio inferior com agitação, mas ela não respondeu.

Francesca sorriu, um terno sorriso de compromisso com a cura de Skyler.

- Tem razão sobre mim. Sou diferente, como você é diferente. Possivelmente o mundo a nosso redor possa nos mudar, mas somos fortes por dentro. Está inteira. Não há mancha em sua alma que possa causar o que tenha medo de estar comigo. Compartilhei tudo com você, sua dor, a degradação, os golpes, o medo, tudo. Quero você comigo, onde possa te proteger, te oferecer as coisas que deveria ter tido, as coisas que de verdade você merece. Você está segurando minha mão, sabe que digo a verdade.

- Havia outros com você, quando estava compartilhando minhas lembranças. Senti-os. Havia dois homens conosco.

- Havia um só homem. - Corrigiu Francesca, amavel. - Gabriel. É um homem muito poderoso. Sob seu amparo, não há ninguém que possa te fazer dano.

Skyler pareceu perplexa.

- Havia outro. Estou segura. Havia um aqui, em pé, nos emprestando sua força. Mas o outro permaneceu passivo enquanto você estava aqui comigo. Depois que você foi embora, recordo-o me abraçando, embora não me tocasse, absolutamente. Seus braços eram fortes e produziam uma sensação muito diferente de qualquer outra pessoa. Não desejava nada de mim, só me consolar e ajudar. Quem é?

- Só Gabriel estava conosco, meu amor. Possivelmente estava sonhando.

- Sentia os três, claramente. Ele era muito forte. Não havia raiva ou fúria, só uma tranqüila aceitação. Examinou minhas lembranças. Sei que ele estava aprendendo coisas sobre você, através de mim, senti isso. - Skyler suspirou com resignação. - Sei que não acredita. Pensa que invento isso.

- Não, não acredito nisso absolutamente, Skyler. - Disse Francesca. Ele estava aprendendo coisas de você através de mim. - Simplesmente não sei quem era. Eu senti só você. Depois compreendi que Gabriel tinha compartilhado comigo, mas nesse momento estava concentrada somente em você. Como poderia ser de outra forma? Não pode me mentir. Embora eu não possa "ver" este homem em sua mente, isso não significa que ele não estivesse com você. Sabe que compartilhei suas lembranças como poucos poderiam ter feito. É consciente de que sou diferente dos outros. Fique conosco, Skyler, com o Gabriel e comigo. Somos diferentes. Não vou fingir outra coisa, mas nossos sentimentos por você são genuínos. – Ela enviou um rápide relatório mental da conversa a Gabriel. Alarmava-a que Skyler recordasse tão vividamente, a sensação de outro compartilhando suas mentes, quando unidas.

- Como posso voltar a me olhar no espelho? - Pela primeira vez, a diminuta voz continha emoção, um soluço de dor, reprimida. Imediatamente, a tortura de Skyler reclamou a completa atenção de Francesca.

Ela apertou seu abraço sobre Skyler.

- Olhe-me, meu amor. Olhe-me. - Foi uma suave ordem.

Skyler girou a cabeça uma vez mais e levantou os olhos. Podia ver seu rosto refletido nos olhos negros de Francesca. Como um espelho. Skyler parecia formosa.

- Essa não sou eu.

- Sim. Esta é você. Assim é como te vejo eu. Assim é como a via, sua mãe. Assim é como te vê Gabriel. Quem mais importa? Esse homem que dizia ser seu pai? Uma pobre e bêbada imitação de um ser humano, que só queria utilizar as drogas para escapar daquilo no que se converteu? Não é possível que sua opinião importe, Skyler.

- Eu não queria voltar. Estava segura onde estava. - Havia uma súplica em sua jovem voz, uma súplica que rompia o coração. - Não posso confrontar com tudo outra vez.

Francesca jogou para trá,s uma mecha de cabelo que caía sobre a fronte da garota. Seu toque consolava e curava ao mesmo tempo.

- Pode sim. Você é forte, Skyler e já não está sozinha. Sabe que sou diferente, tenho certas habilidades. Posso apagar a intensidade de suas lembranças, te dar tempo para se curar, apropiadamente. Ainda sentirá dor, mas será passível. Estará rodeada por aqueles que a amam e a vêem como é realmente, não como esse homem tentou te fazer. Ele estava morto por dentro, um monstro feito de drogas e álcool.

- Ele não é o único monstro de mundo.

- Não, meu amor, não é. O mundo está cheio de criaturas semelhantes e podem ter todo tipo de formas e tamanhos. Só podemos fazer o que pudermos para detê-los e resgatar os inocentes de suas mãos. Gabriel dedicou sua vida a fazer isto, igual a mim. Nos dê a oportunidade de te amar e cuidar de você como deveria ter sido.

- Tenho medo. - Disse Skyler. - Não sei se posso voltar a estar completa. Não posso suportar a visão de um homem. Tudo me assusta.

- No mais profundo de seu coração e sua alma, Skyler, sabe que não pode condenar todos os homens pelas coisas desprezíveis que fez seu pai. Nem todos os homens são iguais. A maior parte deles são justos e carinhosos.

- Ainda tenho medo, Francesca. Não me importa saber que o que está dizendo pode ser certo. Não posso me arriscar, não quero me arriscar.

Francesca sacudiu a cabeça, amavelmente.

- Está retrocedendo para não se tornar como eles. Quer ser como sua mãe, ver a bondade das pessoas e ter compaixão. Isso lerão em você facilmente.

Os olhos de Skyler, corajosamente, permaneceram abertos.

- Queria-o morto.

- É obvio que sim. Eu também o queria morto. Isso não significa que sejamos monstros, meu amor, só que não somos anjos. Se una a nós. Quero-a comigo, estive dentro de sua cabeça e a conheço como conhecia sua própria mãe. Melhor possivelmente. Consideraria uma bênção compartilhar minha vida com você. Se não for isso o que deseja, contribuirei com dinheiro para sua educação e manutenção. Seja como for, é sua escolha. Não a abandonarei.

Skyler retorceu os dedos firmemente ao reder dos de Francesca.

- Sabe o que está pedindo. Sei que sabe. Terei que voltar para mundo, com os outros. Nunca serei igual a eles.

- Você se acertará comigo. - Insistiu Francesca. - Com Gabriel e comigo. Apreciamos um talento como o seu, seriamente. Podemos te ajudar a desenvolvê-lo. Há formas de amortecê-lo ou expandi-lo, quando for necessário. E teria suficiente tempo para se curar, antes que tenha que e enfrentar o mundo. Tente se incorporar, Skyler. É suficientemente forte.

- Não acredito que queira que minha habilidade se desenvolva muito mais de que já está. Quando toco às pessoas, sei coisas sobre eles que não deveria saber. Algumas vezes vejo coisas terríveis. Ninguém acredita quando conto. - Não havia rastro de autocompaixão na voz de Skyler ou em sua mente. A adolescente simplesmente contava os fatos como ela os via. Skyler relutantemente retirou sua mão e com a ajuda de Francesca, tentou se sentar.

- Comprei algumas poucas coisas para você. Um pouco de roupa de baixo e camisetas e uma blusa. – Francesca pegou o lobo de pelúcia. - E isto. Gabriel pensou que você poderia gostar de ter um amigo.

A garota olhou fixamente o animal de pelúcia durante um momento, seus olhos se abriram de par em par.

- Para mim? Seriamente? – Ela estendeu a mão para ele, atraindo o animal em seus braços. Por um momento, a paz pareceu roubar seu coração. – Ninguém, a não ser minha mãe, me deu alguma coisa. Obrigado e, por favor, agradeça o Gabriel. – A jovem disse com voz chorosa. Pressionou a face contra o lobo e o olhou durante um momento, arrebatada por seus olhos azuis. Despertou de um longo pesadelo e o mundo parecia ser mais fantasia que realidade. Lutou por centrar-se, não deslizar-se para dentro de sua própria mente.

Francesca estudou a adolescente. Skyler era pequena, Francesca podia ver cada osso de seu corpo. Parecia tão frágil, Francesca tinha medo de que ela pudesse se romper. Colocou travesseiros em torno de Skyler, subindo as mantas. A face de Skyler ainda mostrava vestígios dos machucados, mas estava ali, os olhos que haviam visto muito para ser os de uma jovem.

- Bom, que aspecto tenho? - Perguntou Skyler com indiferença, sua voz mais cansada que interessada. Não soltava o animal de pelúcia.

- Acredito que Gabriel tem razão, teremos que investir uma boa quantia de alimentação em você. Ele estava te matando de fome.

- Considerei isso. Pensei até que se não estivesse realmente morta, seus amigos não me quereriam. - O lobo, nas mãos de Skyler foi pressionado firmemente. - Havia um que não se importava. Chamava-me de feia o tempo todo, mas voltava sempre. Acredito que era pior que meu pai.

Francesca enviou ondas de segurança, mas permaneceu em silêncio, desejando que Skyler continuasse falando, desejando que ela colocasse tudo para fora. Conhecia homem, o único que a garota se referiu. Havia compartilhado as lembranças dele, de sua brutalidade com uma pequena menina inocente. A que tinha completamente em seu poder. Paul Lafitte. Skyler nunca o esqueceria, nunca esqueceria aos outros três que a tinha utilizade e maltratado. Tinha suas faces gravadas a fogo na mente, o som de suas vozes gravado para sempre em sua memória. Estariam gravadas para sempre na mente de Francesca também.

- Ele está aqui de novo. - Disse Skyler de repente. - Está aqui, comigo.

Francesca levantou a cabeça. Explorou o quarto rapidamente, mas não encontrou ninguém que pudesse considerar um inimigo. Não havia rastro de poder, nem vazios que indicassem maldade. Fosse o que fosse, o que se estendia para Skyler era poderoso, para evitar a busca de Francesca.

- O que quer dizer com isso de que ele está aqui? Lafitte? Um dos outros? Conte-me, Skyler.

Skyler sacudiu a cabeça.

- O que é como você. Que esteve aqui antes e permaneceu em silêncio enquanto me curava. Ele toca minha mente quando minhas lembranças são entristecedoras. Faz-me sentir a salvo.

- Gabriel? - Francesca havia pensado que estaria percorrendo a cidade procurande evidências da presença de Lucian. Ele lera os jornais, dera uma desculpa rápida e partira antes que ela pudesse perguntar. Quando Francesca recolheu o jornal, havia um artigo sobre um homem não indentificado, encontrado num beco com a garganta aberta. Encontraram-no numa parte da cidade em que pouca gente decente frequentava. Francesca estava segura de poder reconhecer o toque de Gabriel na mente de Skyler. Estendeu-se em busca de Gabriel e o encontrou.

- Está a salvo?

Perguntou ela brandamente, um pouco vacilante, sabendo pela profunda concentração dele, que ele estava em meio de algo importante.

- Lucian está aqui. Isto foi obra dele. Ainda está na cidade. Não sei por que não está me esperando como deveria.

- Ele esteve aqui conosco a pouco? Skyler diz que sentiu a presença de outro como nós enquanto estávamos falando.

Houve um momento de silêncio. Gabriel examinou as lembranças de Francesca, da conversa que ela tivera com a adolescente.

- Não fui eu, meu amor. Isto me preocupa. Lucian é extremamente ardiloso e gosta de jogos. Se for consciente de Skyler, é consciente de você. Não perderá a oportunidade de usar qualquer das duas para me pegar. Deve ser cuidadosa. Agora está matando, deixando a presa para que eu a encontre.

- Por que ele iria reconfortar Skyler?

- Não poderia saber. Possivelmente a utilizará contra você. Não sei, Francesca, mas não podemos subestimar Lucian. Devemos assumir que ele encontrou Skyler e é consciente de que ela está ligada a mim, através de você. É extremamente poderoso e sensível, ao menor indício de poder. Nós somos vulneráveis para detectá-lo. Devemos ser mais cuidadosos.

- Você o sentiria se ele estivesse unido a nós enquanto estamos com Skyler? Ela me disse que havia sentido uma terceira presença. Definitivamente sentiu outro homem, não você, que a abraçou, não estava presente fisicamente.

Novamente houve um longo silencio.

- Eu não gosto disto, Francesca. Deve mesmo ser Lucian. Só ele é capaz de deslizar dentro e fora de minha mente sem meu conhecimento. Estão em grande perigo, você e Skyler. Ele deve estar tramando alguma coisa. Esta morte foi deliberada. Uma mensagem para mim, indicando que ele começou o jogo e agora a vez é minha.

- Como sabe?

- Sua vítima é um dos homens das lembranças de Skyler.

Francesca mordeu o lábio inferior com suficiente força para provocar uma gota de sangue. Deixou escapar o fôlego lentamente. Skyler se estendeu para reconfortá-la.

- O que acontece? Por que está nervosa?

- Não sei quem é este homem, que veio a você esta manhã. Não foi Gabriel como eu esperava. Há outro nesta cidade como nós, com a habilidade de se conectar sem presencia física, embora não seja como nós. É perigoso. - Francesca tentou manter o medo fora de sua voz. Sabia de que era capaz o vampiro. Era um assassino cruel e desumano que brincava com as pessoas e suas emoções, por diversão. O não-morto podia aparentar ser bonito e cortês, amigável e gentil, quando na realidade, possuía escuros e demoníacos pensamentos. Lucian era o Carpato vivo mais perigoso, depois de seu gêmeo. Agora que havia escolhido perder sua alma era duplamente perigoso. Era temido antes, agora era considerado o inimigo mais ameaçador de todos os tempos. Era um pensamento aterrador, saber que Lucian pudesse estar espreitando-os por seus próprios e mortíferos motivos.

- Eu não senti maldade nele. - Disse Skyler, brandamente. - Sempre tenho medo dos homens. Até o doutor me põe nervosa, mas por alguma razão este homem é diferente. Quase me senti, quando Gabriel está perto, a salvo. Nunca me havia sentido a salvo antes assim estou segura.

Francesca assentiu.

- Espero que tenha razão, meu amor, mas quero que seja cautelosa com este homem. Muito cautelosa. Agora me fale de seu talento.

As pálpebras de Skyler caíram.

- Estou realmente cansada, Francesca. Não é exatamente um talento, só sei coisas. E às vezes posso ler os pensamentos das pessoas, como você. Como Gabriel e o outro. Prefiro os animais, às pessoas. Não podia ter nenhum, mas conhecia todo os animais da vizinhança e eles am meus amigos, inclusive os cães que supunha ser guias de ruas. Conectava com eles.

- Como nos vê, a Gabriel e a mim? O que pode dizer de nós? - Perguntou Francesca com curiosidade. Quanto poderia ver Skyler?

Skyler deslizou para baixo, entre os lençóis. Tentar ser cortês depois de viver em silencio durante tanto tempo era uma tarefa difícil e muito extenuante.

- De verdade quer que responda a essa pergunta, Francesca? Vejo mais do que você acredita.

- Acredito que se formos viver juntos e ser uma família, deveria haver sinceridade entre nós, não acha? - Perguntou Francesca amavelmente.

- Não é como eu nem como outros. Não sei que é, Francesca, mas pode curar os doentes e consolar os que precisaam. Há só bondade em você. Desejaria ser como você. Desejaria de verdade ser parte de sua família. - Skyler acrescentou o último tristemente, e depois o sono a superou.

Francesca levou a pequena mão cheia de cicatrizes até os lábios. Beijou as cicatrizes e depois, virou-a para inspecionar a palma. A menina lutara com alguém que a cortara com um afiado pedaço de vidro. Teria sido seu pai? Gabriel repartira rápida e compassiva justiça. Francesca examinou as lembranças da adolescente uma vez mais. Não era seu pai, mas um homem alto e magro com cabelo negro e mãos grandes. Ele estava furioso porque Skyler se negava a beijá-lo voluntariamente. Ela não poderia ter mais de oito ou nove anos nessa época.

Enojada, Francesca deixou cair à mão da garota, temerosa de despertá-la com a violenta reação. Levou-se a mão às têmporas latentes e sua palma se separou manchada de sangue.

- Respire, Francesca. A ela não pode fazer nenhum bem reviver estas lembranças. Lucian pode ter me lançado uma luva, mas sem me pretender, ajudou a fazer justiça para esta menina. Nossa menina. E vamos amá-la muito.

Gabriel a encheu com calor e paz. Podia sentir a sensação de seus braços rodeando-a, a força de seu corpo como se estivesse abraçando-a, apesar de estar a milhas de distância.

- Onde está?

Francesca deu uma olhada onde ele estava... Era cheio de escritórios e de pessoas, a maioria homens.

- Numa delegacia de polícia. Sou invisível no momento. Preciso saber tudo sobre esta morte. Quero ouvir os comentários do pessoal e ler os boletins. Já visitei o lugar. Não sei o que trama Lucian, mas quero que seja muito cuidadosa. Estude as lembranças de Skyler cada vez que a visite.

- Está dormindo e ficando muito nervosa

- Quero que esteja a salvo, meu amor. Possivelmente deveria voltar para casa e colocar salvaguardas. Se estiver em perigo, deve me chamar. Não espere.

- Tenho que ver meu advogado. Está arrumando os decumentos e o juiz me verá esta noite. É um favor especial que me faz e devo acudir. O juiz perguntará a Skyler se estiver de acordo, não a Brice, de sua aprovação, poderemos levá-la para casa conosco. Houve uma resposta de Aidan Savage via e-mail. Poucos membros de sua família estão em Londres no momento. Ele entrará em contato com eles e verá se eles estariam dispostos a nos ajudar a cuidar Skyler durante as horas diurnas.

- Por favor, tome cuidado Francesca. Advertiu Gabriel enquanto lentamente permitia que a conexão entre eles caísse. Não estava gostava. Só podia ser Lucian fundindo-se com Skyler. Gabriel sabia que detectaria facilmente a qualquer outro de sua raça ou ao não-morto. Tudo apontava para o trabalho de seu gêmeo. Esta morte era clássica de Lucian. Ordenada. Não identificável para qualquer pessoa, exceto para Gabriel. Era a abertura do jogo que compartilhavam.

Considerou tentar conduzir Lucian para longe da cidade e das duas mulheres. Ambas estavam em perigo.

Gabriel examinou as fotos do corpo de todos os ângulos. Em poucos minutos iria ao necrotério e se asseguraria que não havia ali sinais reveladeres de vampirismo. A maioria des vampiros eram descuidados em suas mortes e normalmente os restos tinham que ser incinerades até finas cinzas, deixando pouco para que a polícia humana rastreasse. Lucian sempre fizera diferente. Era como se deliberadamente mantivesse o jogo só entre eles dois. Este corpo era obra de Lucian. Ele era como um cirurgião, nunca deixava muito mais que um ferimento. O sangue havia sido drenado do corpo, nenhuma só gota salpicou no chão. Em volta do pescoço do homem havia um finíssimo corte, como um sorriso gigante. O médico nunca poderia saber o que a causara. A evidência apontava a uma só garra afiada. O único sangue que permanecia dentro ou sobre a vítima era como uma gargantilha. Esse macabro mistério era o cartão de visita de Lucian, sua idéia de uma brincadeira. No passado, ninguém conseguia determinar o que causava um ferimento desses ou como houvera a perda de sangue. Quando Gabriel estava um passo por atrás de Lucian, como agora e a polícia encontrava os corpos, estas mortes sempre causavam sensação. E todo mundo gostava de um bom mistério.

Agora, todos especulavam sobre o ferimento. Era tão preciso, que diziam ser feito por um instrumento cirúrgico e por um cirurgião. Gabriel passeou entre eles, invisível. Enquanto se movia, notou que alguns detetives eram mais sensíveis que os outros. Um ou dois estremeceram inesperadamente, olhando em volta, para ver o que estava provocando o calafrio.

Os computadores deixavam que as coisas fossem mais perigosas agora. Com sua habilidade para rastrear tudo, do DNA a voz ou os rastros digitais, podiam fazer que o trabalho de ocultar as evidências da existência dos Cárpatos extremamente difícil. Gabriel compreendeu que precisava aprender cada um dos últimos descobrimentos científicos. Um grande número de tópicos estavam sendo discutidos, coisas das quais, ele não tinha nenhum conhecimento real. Automaticamente, compartilhou a informação com Lucian, e para sua grande surpresa soube que Lucian já havia estudado os últimos avanços médicos. O fluxo de dados que ele absorveu, o deixou atônito, embora não deveria estar surpreso. Entre os de sua raça, Lucian era surpreendentemente inteligente e assimilava informação a uma velocidade mais rápida que outros. Era como se o seu cérebro desejasse constantemente mais dados. Naturalmente, Lucian já havia descoberto os avanços científicos, a extraordinária tecnologia que podia tornar as coisas mais difíceis a sua gente. Cárpatos e vampiros teriam indubitavelmente, muito mais dificuldade para esconder sua existência.

- Não se preocupe tanto, Gabriel, sou muito cuidadoso. Eles não encontrarão nada que eu não queira ter deixado para trás.

Gabriel aproveitou a oportunidade de "ver" através des olhos de seu gêmeo. Se pudesse fixar a posição de seu irmão, poderia ter a oportunidade de cumprir seu voto. A suave e zombeteira risada de Lucian ressonou em sua mente e a vista se distorceu evitando que Gabriel tivesse oportunidade de ver alguma coisa que pudesse o ajudar.

- Não acreditaria que mostraria nosso jogo tão fácil, não é? Deve seguir as pistas que vou deixando. Assim é como deve ser. Não pode tecer armadilhas, Gabriel.

- Isto é entre nós dois, Lucian. Pode haver outros caçadores na cidade. Eu manteria isto entre nós, como deve ser.

- Não se preocupe tanto pela segurança de seu irmão. Estou seguro de que derrotarei a tudo o que se atreva a me desafiar. Estou aprendendo muito sobre este mundo tão veloz e o conhecimento é bastante hilariante. Há muitas coisas com as quais posso jogar aqui. Eu gosto deste lugar e não desejo apressar nossa batalha.

Lucian se foi e Gabriel sentiu uma dor peculiar na região de seu coração. Seu irmão. Sentia falta de sua cercania. Sentia falta do homem seguira por tantos séculos. Uma mente genial. Um guerreiro insuperável. Ninguém podia orquestrar uma batalha como Lucian. A dor absorveu Gabriel, quase o fazende cair de joelhos. Destruir a um homem tão grande. Destruir o que sempre havia estado com ele, para ele, o que tinha salvado sua vida tantas vezes. Era mais do que se podia pedir a alguém.

- Gabriel, não está sozinho. - A voz de Francesca foi gentil e consoladora. - Sabe que esse já não é verdadeiramente o Lucian. Honrará-o cumprindo seu compromisso com ele, destruindo à mesma coisa contra a qual ele lutou durante tantos séculos.

- Lembre-me desse fato com freqüência. Intelectualmente sei que é certo, mas meu coração se afunda sob o peso da dor.

- Felizmente, só tem que estender a mão e me encontrar aqui. Sou uma curadora. - Havia um leve toque de brincadeira em sua voz.

Gabriel instantaneamente sentiu a ternura envolvendo seu coração. Devia ser assim. Nunca estar mais sozinho. Os dois caminhariam pela vida juntos. Um ajudando ao outro nos enredos emocionais, em cada crise que acontecesse. Essa nota na voz de Francesca proporcionou um pouco de consolo, deu-lhe esperança. Tocou sua mente para ver se ela estava falando com Brice. Não queria perguntar e se envergonhava de ser o bastante ciumento, como invadir sua privacidade para ver se ela compartilhava seu tempo com o doutor. Possivelmente deveria deixar Skyler, para que descanse e atendesse o assunto de conseguir sua custódia, para poder voltar para a segurança de casa. Fez a sugestão cuidadosamente, escolhendo suas palavras para que não soassem como uma ordem.

A risada de Francesca foi suave.

- Estou tocande sua mente como você está tocando a minha. Não é nem de perto tão sutil como acredita que é. Deixarei o hospital, Gabriel, porque tenho muitos assuntos a atender.

Não ia lhe dar a satisfação de lhe deixar saber que estava evitando Brice de propósito. Já não via Brice da mesma forma de antes de Gabriel ter entrado em sua vida. Isso a fazia se sentir culpada. Francesca não tinha idéia de como dizer a Brice. Sabia que Skyler estava destinada a viver com ela, embora Brice não queria ter nada a ver com a adolescente. Ele não sabia o que era Francesca, o que ela precisava para sobreviver. Tudo era diferente agora que Gabriel havia voltado. Estava muito confusa e precisava de tempo para colocar tudo em seu lugar, apropiadamente.

Francesca tocou a barriga com a palma da mão, numa ligeira carícia. Um filho. Gabriel lhe tinha dado um filho, quando ela estava segura de que nunca teria tal presente. E agora Skyler. Capaz de tocar mentes como ela, Francesca sabia tudosobre a jovenzinha. Tudo. E já amava a menina como uma filha.

Uma suave risada masculina roçou sua mente.

- Não parece velha para ter uma filha da idade de Skyler.

- Sou o suficientemente velha para ser uma de seus ancestrais. Ela sabe que não somos humanos.

- Não sabe não. Sabe que somos diferentes. Acredita que somos psíquicos como ela. Cedo ou tarde contaremos toda a verdade. Enquanto isso, devemos tratá-la como os humanos com dinheiro tratam seus filhos. Precisaará de um guarda-costas durante as horas diurnas quando não pudermos estar com ela, e o pessoal para cuidar de suas necessidades.

- Tenho que fazer isto, Gabriel. Não posso deixá-la enfrentar o mundo sozinha. Precisará de mim. - Francesca não estava segura, se estava desculpando-se ou não.

- Ela precisa de nós dois. - Corrigiu-a Gabriel, gentilmente. - Deve aprender de alguém, que nem todos os homens são os monstros que ela conheceu. Ainda se sente dividida. Deseja retirar-se de volta a esse lugar onde nada pode tocá-la, mas por outro lado sua mão estendida para ela é muito tentadora. Ela sentiu o amor que você tem pelos outros, a compaixão de seu coração e isso a chama gritos.

- Escolherá ficar conosco, Gabriel. É tremendamente valente.

Francesca pegou um táxi para ir até escritório do juiz. Seu advogado se encontraria com ela lá.

- Precisamos voltar para hospital quando tuda a papelada estiver terminada, para que o juiz possa perguntar a Skyler se ela é de acordo em ficar sob minha tutela. Preocupa-me, que Brice possa fazer uma cena quando te ver. Está preparado para isso?

Gabriel censurou seus pensamentos imediatamente. Estava gravada nele a necessidade de não chamar a atenção injustificadamente sobre si mesmo. Esta era uma situação pouco familiar para ele. Seu instinto pedia que afastassse a ameaça sobre si e Francesca e inclusive sobre Skyler. Brice não interferiria em seus planos. Não permitiria tal coisa.

- Gabriel? A voz de Francesca foi suave por causa da preocupação. - Por que fechaste sua mente para mim? Não fará mal a Brice, certo? Foi um bom amigo quando eu precisava de um.

Gabriel amaldiçôou-se em várias línguas, misturando-as enquanto o fazia. Francesca tinha uma forma de forçar sua concordância. Sentia-se como um boneco de pano. O que ia fazer se ela sempre restringia suas ações?

- Atenda sua reunião, mulher e me deixe em paz. Estarei aqui se precisar mais tarde. Por ora, estou caçando e não posso perder tempo te consolando.

- Não me provoque, embusteiro. Não fui eu que monitorou seus pensamentos. Você abriu esta conversa, não eu.

Ela estava zombando dele. Dele, Gabriel. O caçador de vampiros. Um guerreiro de dois mil anos de idade. Os homens o temiam, mas Francesca estava zombando dele. Era uma nova experiência e que definitivamente, não estava acostumado. Ela tinha uma forma de dar a volta em seu coração e se fundir, até que quase não reconhecia a si mesmo.

Gabriel sulcou a cidade, comprovando cada lugar conhecido que se lembrava, de séculos antes. Agora conhecia o planejamento da enorme cidade. Cada esconderijo, cada beco estreito e cada escuro buraco. Conhecia os cemitérios, as catedrais, os hospitais e bancos de sangue. Olhou em cada lugar que lhe ocorreu em busca de sinais de Lucian. Sabia que seu gêmeo estava na cidade embora era como se estivesse procurande o próprio vento. Não havia outro rastro da existência de Lucian, a não ser o corpo que tinha deixado para a polícia.

Gabriel tocou a mente de Francesca, sabia que ela tinha voltado para hospital e estava entrando no quarto de Skyler. Decidiu encontrar-se com ela. Francesca precisava apoiar-se em alguém, admitindo ou não. E ele tinha toda a intenção de ser esse alguém. Moveu-se através de ar noturno, um retalho de neblina soprada com as bandas de névoa que se elevava de chão. Não ia permitir que o doutor estivesse sozinho com Francesca, se algo saísse errado. Não queria arriscar que Brice pudesse tentar influenciar o juiz contra a idéia de permitir Skyler viver com Francesca. Um pequeno sorriso curvou sua boca, mas não tocou seus olhos negros como o carvão. Gabriel tinha formas de assegurar que o juiz desse a Francesca algo que ela quisesse. Entrou no aposento como finas moléculas para poder deslizar-se facilmente por baixo da porta. Enquanto entrava, sua poderosa forma voltou a se formar novamente, ainda invisível aos que estavam no ali.

Ela estava sentada na beirada da cama de Skyler, segurando a mão da jovenzinha. A simples vista de Francesca tirou seu fôlego. Sabia que sempre seria assim.

O juiz era um homem alto, magro e muito bonito para a paz mental de Gabriel. Ele também estava olhando para Francesca com uma espécie de êxtase na face. Outro fã. Ela parecia os ter por toda parte.

- Skyler, se quer viver comigo, o juiz está disposto a autorizar, mas terá que falar com ele. - Francesca falou, amavelmente, com a adolescente. Não estava utilizando sua voz para incliná-la.

O juiz se aproximou dos pés da cama. Skyler tremia visivelmente. Gabriel se estendeu automaticamente para sua mente. Ela estava sob seu amparo, uma menina com habilidade psíquica, um precioso tesouro para ser guardado todo o tempo. Não gostava de vê-la agitada, o terrível desassossego em seu rosto. Francesca também estava nessa mente, respirando sua coragem, consolando-a, ajudando-a a enfrentar os desconhecides que invadiam seu quarto. O terror de sua infância estava arraigado em sua mente, para ela ser capaz de passar por semelhante transe sozinha.

Ele envolveu Skyler em seus braços mentais, vertende sua força e poder nela, fazendo-a piscar com assombro. Ele estava rodeando sua mente, repetindo um canto curador na língua ancestral de sua gente e depois, quando a sentiu mais calma, cochichou brincadeiras que faziam Skyler tentar manter a seriedade. Seus enormes e suaves olhos passearam pelo aposento o buscande, mas Gabriel não estava em nenhuma parte onde pudesse ser encontrado. Viu-a olhar para Francesca, interrogadoramente, mas Francesca só pôde sorrir e encolher os ombros. Tampouco ela sabia sua localização exata, só que a presença de Gabriel era forte para indicar que estava muito perto das duas.

- Bem, Skyler. - Pronunciou o juiz amavelmente. - Não tenha medo. Queremos o melhor para você, o que te fará feliz. Francesca assinalou firmemente que gostaria de ser responsável por você, ser sua tutora. Viverá em sua casa e ela pode te dar facilmente todas as vantagens, mas você é o maior para escolher por você mesma. Eu gostaria de ouvir o que tem a dizer.

A porta do quarto abriu e Brice entrou.

- Posso perguntar o que está acontecende aqui? Esta garota é minha paciente.

O juiz se voltou lentamente, arqueande uma sobrancelha.

- Acreditava que estava de acorde em que podíamos falar com ela hoje. – Ele olhou fixamente para advogado de Francesca.

Gabriel alcançou a mente de Brice. O tipo era uma vertiginosa massa caótica de contradição. Estava zangado com Francesca, seguro de que ela já havia escolhido Gabriel. Tinha em mente sabotar seus esforços em ganhar a custódia de Skyler. Gabriel se esforçou por sufocar o próprio desejo de permitir que o homem arruinasse completamente suas possibilidades com Francesca. Por ora, tomou a decisão de interferir. Solidificou-se fora da porta, abriu-a e entrou decidido.

Brice amaldiçoou em voz alta, retrocedendo apressadamente para permitir a entrada de Gabriel. A alta e poderosa forma de Gabriel diminuiu a do médico. Ele inclinou se aproximando, para que suas palavras fossem ouvidas por Brice.

- Dirá a verdade. – Emitiu uma suave ordem, sua voz exigia do outro homem, que fizesse sua vontade.

Brice se encontrou respondendo, com palavras que não tinha intenção de pronunciar.

- Claro que Skyler pode responder a suas perguntas. - Admitiu contra gosto. Olhou fixamente para Gabriel. – Ela está altamente sedada. Todas estas visitas poderiam transtorná-la e provocar uma regressão. - Evitou os olhos escuros de Francesca e a censura que sabia encontraria ali. - Tenho sérias reservas que Francesca proporcione um lar a Skyler. Sua situação em casa mudou e ela já não vive sozinha. – Disse ele em tom beligerante, seus ciúmes o faziam temerário.

O juiz olhou para o Gabriel.

- Você deve ser o marido de Francesca. – estendendo sua mão. – Ela contou-me maravilhas sobre você. É um privilégio o conhecer.

- O que lhe contaste?

Gabriel perguntou a Francesca enquanto tomou a mão que o juiz oferecia, com uma firme e cortês sacudidela. Seu olhar negro capturou e sustentou o de juiz. O homem ficou hipnotizado, como se estivesse caindo diretamente dentro desse olhar.

- O único relatório que encontrarão de você está etiquetado de “secreto”. Criei um arquivo que explicasse sua ausência. Estava servindo heroicamente seu país. Não é nada difícil fazer coisas assim quando sabe trabalhar com um computador. Também ajuda, conhecer pessoas nas altas esferas, que lhe devam favores. Parecerá um herói para qualquer pessoa que queira investigar. - A suave voz de Francesca roçou sua mente, bem satisfeita.

- Espero que o fato de que eu esteja vivendo na casa de Francesca não seja um problema. - Disse Gabriel, olhando diretamente aos olhos de juiz. – E depois, ainda estamos casados. Ela foi muito amável me proporcionande um lugar para ficar. Obviamente Francesca é a melhor pessoa do mundo para Skyler. Não quero fazer nada que possa colocar em perigo, semelhante arrumação.

O juiz nunca ouvira uma voz tão pura e formosa como a de Gabriel. Todo seu ser se inclinava para essa voz, desejava agradar o orador.

- Francesca, não tem necessidade de seguir casada com ele. Não é obrigada só porque ele retornou da morte. – Explodiu Brice, furioso. - É que ele fez, para que perca a cabeça? Já não conhece este homem. Não o viu em anos. Não sabe nada dele. Deveria ter continuado morto! - De repente consciente das coisas que estava gritando, da diferença entre sua voz e a de Gabriel, Brice fez um esforço para acalmar-se.

Skyler segurava com força, à mão de Francesca, seus grandes olhos cinzas, ocultavam seu crescente terror. Francesca tocou sua mente para acalmá-la, reconhecendo o toque de reconfortante de Gabriel.

- Estamos com você, Skyler.

Para assombro de Gabriel e Francesca, a jovem foi capaz de responder por um caminho mental que nenhum des dois usara antes.

- O que acontecerá se o doutor não me deixa ir? Não posso viver sem sua ajuda. Sei que não posso. Seria melhor simplesmente me largar. - Havia um medo desesperado nela. Alguém havia olhado-a com amável compreensão, alguém a tinha reconhecido como boa pessoa. Alguém que entendia o quanto era diferente. Alguém que a valorizava apesar das coisas terríveis que aconteceram. Podia perder seus resgatadores.

Os olhos escuros de Gabriel deslizaram sobre a menina encolhida contra Francesca em busca de amparo.

- Olhe-me. Foi uma ordem suave, mas impossível de desobedecer. Os enormes olhos de Skyler encontraram os dele, instantaneamente. - Confiará em mim, em Francesca e acreditará que podemos nos ocupar disto. Não há necessidade de ter medo. Aqueles que estão sob meu amparo não podem sofrer nenhum tipo de mal. Francesca continuará te curando e deixará de se preocupar por assuntos corriqueiros tais como esta desagradável discussão. Eles não podem mudar sua vida, pequena. Nunca permitiria tal coisa. Só acreditam que tem tal poder.

Skyler visivelmente relaxada deixou que o ar escapasse de seus lábios, num longo suspiro de alívio.

Francesca se encontrou sorrinde radiante para o Gabriel, com o coração nos olhos.

 

Brice observava a face de Francesca. Encontrou-se amaldiçoando silenciosamente, ao ver como ela olhava para Gabriel, cheia de orgulho. Sabia que tinha que retroceder ou a perderia. Nunca sentira ciúmes antes e achara a emoção extremamente desagradável. O que se apropriara dele? Era este seu verdadeiro caráter? É obvio que o melhor para Skyler seria viver com Francesca. Como podia não ser? Mas Brice não queria compartilhar Francesca com mais ninguém. Francesca tinha muitos amigos, mas ele era o único que ela permitia se aproximar. Estava acostumada a ter um lugar especial em sua vida. Uma adolescente não figurava em seus planos de futuro. Francesca conhecia muita gente, tinha dinheiro e se movia com facilidade nos círculos mais seletos. Era formosa e gostava de todos. Ele escoltara-a em bailes de caridade e festas, também ele fôra aceito.

Gabriel se moveu. Foi um simples movimento de seus músculos, sutil, mas arrepiante ao mesmo tempo. Havia algo muito perigoso em Gabriel, embora Brice não podia precisar o que era. Algo em seus olhos dizizm que ela não era completamente humano. Tentou afastar seu olhar, dos olhos negros e vazios, mas apesar disso estava indo diretamente para suas pupilas. Sentiu envergonhade de si mesmo. Brice sentiu uma muito forte necessidade de retratar de suas palavras.Pigarreou e falou quase contra sua vontade.

- Francesca é uma tutora perfeita. É obvio não há dúvida disso.

Ele lutou para afastar seu olhar dos frios olhos negros. Tinha a sensação de que Gabriel secretamente ria dele. Para seu assombro, encontrou-se apertando as mãos. Não era um homem violento, mas desejava desesperadamente bater em alguém. Também tinha o estranho pressentimento de que Gabriel sabia exatamente o que ele estava pensando, sabia e deliberadamente se opunha. Estava em seu olhar, em seu sorriso, em seus olhos desumanos. Por que Francesca não podia ver que esses olhos eram frios como a morte?

Gabriel sorriu, um relâmpago de perfeitos dentes brancos.

- É obvio, Francesca é a tutora perfeita. Você também acredita, não é, Skyler? - Sua voz era suave e amável, tão formosa que fazia que a de Brice soasse áspera. Mas era mais que isso, era a forma em que pronunciava o nome de Francesca, que fazia Brice sentir vontade se atirar coisas. Havia algo muito íntimo, muito possessivo em seu tom.

O juiz olhou a jovem.

- Skyler, você gostaria de viver com Francesca? Depende de você. Se preferir responder em privacide, podemos ficar só nós dois para ouvir o que tem que dizer.

Skyler sacudiu a cabeça, abraçande o lobo de pelúcia, com força.

- Sei o que quero. - Respondeu brandamente, mas muito claro. - Quero viver com Francesca.

O juiz sorriu como se ela fosse uma menina brilhante.

- Naturalmente. Posso ver que Francesca e você já estabeleceram um estreito vínculo. Confio que possamos levar a cabo o processo tão rapidamente como é possível. - Fixou um olhar severo primeiro sobre o advogado e depois sobre Brice.

Enquanto o advogado de Francesca assentia solenemente, Brice se retorceu.

- Não esclarecemos o fato das circunstâncias domésticas de Francesca a minha satisfação. Sou eu quem deve decidir se o ambiente é seguro ou não para Skyler antes de deixá-la partir. Ela sofreu um tremendo trauma. Não sei se viver com um homem, um desconhecido, vá ser adequado para sua recuperação.

- Brice... - Francesca pôs toda uma riqueza de sentimentos em seu nome. - Por favor, não me obrigue a ir ao tribunal com isto. Skyler e eu precisamos estar juntas como uma família.

Brice se passou uma mão pelo cabelo.

- Não estou discutindo esse assunto, Francesca. É que acredito que não devemos nos precipitar. Normalmente se faz uma investigação a fundo, de alguém que solicita a custódia de uma criança e não acredito que a dispensar disso seja apropriado já que não sabemos nada sobre seu amigo aqui presente.

- Mas Francesca é quem solicita a custódia.- Disse o juiz. - Não Gabriel. E tive muito tempo para ler o arquivo preparado pelo Senhor Ferrier sobre Gabriel e acredito que é um homem bom e decente, bem preparado para cuidar de uma menina.

- Que arquivo? Eu não vi nenhum arquivo. - Protestou Brice.

Uma vez mais o juiz foi capturado pelo agudo olhar negro de Gabriel durante um longo minuto. Sorriu amigavelmente.

- Eu asseguro, li o arquivo a fundo e sei todo o necessário sobre o Gabriel. É um documento confidencial, não aberto ao público. - Dirigiu seu olhar para Brice. - Estou seguro de que aceitará minha palavra nisto.

Brice estava mais que seguro de que Gabriel estava manipulando o juiz. Chantagem? Dinheiro? Era rico este homem? O que era? Cada vez que pensava que estava com um argumento convincente, Gabriel de algum mode captava a atenção do juiz e o voltava tudo contra Brice. Olhou fixamente a seu rival. Quando Gabriel devolveu o olhar, os condenadores olhos negros deslizaram sobre ele com malícia, enviando arrepios de medo por sua espinha. Quem era ele? Onde estivera nos últimos anos? Era um assassino do governo? Realmente o governo possuía assassinos que rondavam por aí livremente? Ele era um criminoso e o juiz o conhecia de alguma experiência passada? Brice estava seguro de que Gabriel blandía algo sobre a cabeça de Francesca. Tinha que ser isso. Estava forçando seu consentimento. Possivelmente era bom que levassem ao Skyler para casa. Ela podia ver o que acontecia e informar a ele. Seria necessário enrolar a garota e persuadi-la que vigiasse Francesca. Teria que convertê-la em sua aliada.

Brice assentiu lentamente.

- Darei meu consentimento.

Gabriel sorriu, complacentemente.

- Obrigado, Doutor, embora eu não era consciente de que sua aprovação fosse necessária neste caso. Skyler está tecnicamente sob a custódia do tribunal. - Sorriu medianamente divertido ante a presunção de que Brice fosse necessário.

Brice viu tudo vermelho. Ao demônio com esse homem e suas maneiras. Sua voz era tão formosa e perfeitamente amigável, que ninguém podia o pegar em falta, mesmo assim era deliberadamente insultante.

- Skyler é minha paciente. Precisa de minha aprovação para deixar o hospital. Levo meu trabalho muito a sério. – Ele moveu-se imediatamente para estabelecer sua autoridade.

Gabriel se inclinou com uma reverência antiquada, um gesto cortês, como se ele fosse um príncipe lidando com um plebeu. Brice apertou os dentes para evitar amaldiçoar. Odiava tudo em Gabriel. Sua forma alta e bem musculada, seus ombros largos, o longo e brilhante cabelo, preso com uma cinta de couro na nuca. Como podia um homem adulto parecer tão bem vestido com um cabelo como esse? Brice odiava a elegância de suas roupas, a sensualidade de sua boca, o desumano de seus olhos. Mas acima de tudo odiava o poder que Gabriel exsudava, a completa confiança em si mesmo. Ele agia como um homem acostumado a dar ordens a outros e ser obedecido. Era fácil imaginar como um suserano em outra vida. Brice sentia, como se Gabriel estivesse rindo secretamente dele, como se para ele, fosse uma fonte de diversão.

Gabriel sorriu para ele facilmente, uma amostra dos imaculados dentes brancos. Como conseguia tê-los tão brancos? Brice quis fazer pedaços dos resplandecentes dentes, até lançá-los pela garganta dele.

- Skyler está em vias de recuperação. Francesca me diz que está mais forte a cada dia que passa. Estou seguro de que não demorará muito antes que seja capaz de vir para casa conosco.

Tode mundo se surpreendeu de que fosse Skyler a respondesse.

- Sinto-me bem mais forte. – Disse ela, desafiadoramente, sua voz suave e tremente, mas clara. - E se a alguém interessa minha opinião, quero viver com Francesca e Gabriel. – A garota não tinha nem idéia de porquê havia sentido a súbita compulsão de acrescentar o nome de Gabriel quando na realidade queria dizer Francesca. Os homens a assustavam. Inclusive Gabriel, embora tinha a sensação de que este só sentia compaixão e interesse por seus sentimentos. Ela ficou mais surpreendida por sua explosão, que os outros. Não falava com ninguém há meses, e agora estava num aposento cheio de adultos, desconhecidos que estavam decidindo sua vida. Era aterrador e se sentia agradecida pelo lobo de pelúcia e o estranho consolo que este lhe oferecia.

- Me alegro de ouvir isso. - Disse Brice imediatamente, reconhecendo a necessidade de retroceder. - Você está forte e nós contentes, Skyler. – Ele voltou à cabeça para o Gabriel enquanto falava. Sabia que Gabriel leria a mentira em seus olhos. Skyler deveria estar agradecida. Ele era seu médico, ele tinha sido quem arriscara sua licença trazendo Francesca para que visse sua paciente sem o consentimento paterno.

Brice se obrigou a sorrir para a menina. Depois, podia ser encantador com as mulheres. Era seu melhor atrativo.

- Estará fora daqui, em não muito tempo, Skyler e isso deveria te agradar imensamente. - Seu olhar deslizou ao reder para abranger a todos os presentes. - Se terminaram aqui, sugiro que saiam e permitam descansar minha paciente. Está bastante pálida.

Francesca se inclinou para abraçar ao Skyler.

- Vou me divertir muito preparando seu quarto. Sei as coisas que você gosta.

Skyler a segurou, baixando a voz, até um suave sussurro.

- Escondi o camafeu de minha mãe em meu antigo dormitório. Está atrás de painel que está perto da cama. Não quero nada, exceto ele. Não quero nada dele.

Francesca assentiu solenemente.

- Não se preocupe, céu. Esse camafeu estará te esperando em casa. Ocuparei-me pessoalmente. - Murmurou a promessa brandamente, enquanto roçava os lábios contra a testa de Skyler.

Gabriel passou diante de Brice como se ele não estivesse ali e capturou a mão de Francesca, entrelaçando seus dedos aos dela como se pertencessem.

- Tem que assinar os papéis, carinho e depois, acredito que visitaremos várias lojas para nossa jovenzinha. - Lançou um sorriso a Skyler, que podia iluminar o céu e tirar o fôlego de Francesca que o amou nesse preciso momento. Amava a forma em que ele consolava Skyler com genuíno carinho. Sentia nele. Ele era seu companheiro e não podia mentir ou ocultar seus verdadeiros sentimentos. Ele queria que Skyler compartilhasse suas vidas e seu amparo. Queria-a salva de todo mal. Havia autêntica bondade em Gabriel.

Francesca o permitiu empurrá-la fora do quarto, até a sala de espera onde poderia terminar seus assuntos com o juiz e seu advogado. Gabriel permaneceu a seu lado, silencioso, mas pormenorizado. Não tentou captar seu olhar ou chamar sua atenção, embora ela não podia pensar em nada mais que nele. Estava ali, cheio de vida. Ele era vida. E risos. Queria sorrir só de pensar nele. Como ele conseguira alterar suas lealdades em tão curto período de tempo?

Quando era uma jovem há tantos séculos, havia estado segura de que era ela, orgulhosa de quem era. Sabia que havia sido criada para ser a companheira de alguém extraordinário. Sempre soubera. Era orgulhosa de Gabriel, sempre orgulhosa dele, mesmo quando pensou que o tinha perdido. Ele era uma lenda, um grande lutador contra os vampiros, um caçador insuperável. Francesca sabia que a chamada de seu companheiro era poderosa, mas havia estado segura de que os séculos passados teriam diminuído esse forte empurrão. Contara com isso. Ela mordeu o lábio, tentando se concentrar no que seu advogado estava dizendo, embora a todo o momento, ele estava em sua mente, enchendo seus sentidos e confundindo-a completamente.

Ela desejava paz. Descanso. Depois de todo esse vazio, de todos os longos anos de solidão, merecia descanso. Fôra útil, não tinha desperdiçade sua vida ou seus dons.

- Não, meu amor, não o fez. Não poderia estar mais orgulhoso. Obteve muito, tudo por bondade. Enquanto eu estava cobrando vidas, você estava salvando-as. - A voz foi suave em sua cabeça, cheia de respeito, de dor. Como se ele não se considerasse digno dela.

Os enormes olhos escuros dela giraram para capturar os dele.

- Você estava salvando vidas também. Gabriel. É o guardião de nossa gente. Deve saber que você se interpõe entre a humanidade e o não-morto.

Observando-os da soleira da porta, Brice viu a crua emoção nos formosos olhos de Francesca enquanto ela olhava amorosamente para Gabriel. Ela não fazia idéia de seus sentimentos, mas ele podia ver a verdade naqueles olhos. Era como se os dois vivessem em seu próprio mundo secreto. Pareciam comunicar-se sem palavras.

Seus dedos se fecharam firmemente, apertando-os até que os nódulos ficaram brancos e seu corpo tremeu de fúria e desilusão. Havia cortejado Francesca durante muito tempo, dedicando-se só a ela, ainda assim, ela nunca o tinha olhado dessa forma. E estava mais formosa que nunca, mais encantadera. Observando-a, Brice notou que ela estava mais sexy que nunca. Sempre a achara formosa, um ornamento perfeito para se mostrar nos círculos sociais nos quais pretendia se introduzir. Brice nunca pensara nela, em sexos de ardente, úmidas e calorosas noites de sexo, mas agora, olhando-a, não podia se conter.

Gabriel elevou a cabeça e o olhou. Um longo e frio olhar que enviou em calafrio por todo o corpo de Brice.

O médico se voltou e se afastou. Não havia como Gabriel ler mentes de verdade, não havia forma de que pudesse julgar a intensidade com a que Brice o odiava. Não havia forma de que ele pudesse ver as imagens eróticas de sua cabeça. Brice precisava a Francesca em todos os sentidos e a merecia. Não ia permitir que Gabriel chegasse e o arrebatasse tudo. Possivelmente ninguém mais o pudesse ver, mas ele sabia que havia algo mau em Gabriel, algo escuro e perigoso. Um monstro espreitava dentro dele e Brice captava uma centelha em seus olhos. Tinha intenção de proteger Francesca de sua própria natureza compassiva.

A mão de Gabriel automaticamente estreitou as do juiz e do advogado de Francesca. Estava acostumado a pensar e inclusive falar em dois níveis diferentes. Sustentava um bate-papo superficial com facilidade, enquanto todo o tempo cuidava de Brice em sua mente. O doutor estava ciumento e obcecado por Francesca. Estava-se convertendo numa ameaça para o bem-estar dos seus. O ódio de Brice parecia desproporcional em relação a sua personalidade branda. Havia uma sutil mancha de poder que Gabriel não tinha captado? Poucos não-mortos poderiam esconder dele, tal coisa. Lucian. Estava seu gêmeo jogando outra vez, utilizando seu inimigo humano contra ele? Examinou a mente de Brice. Se tivesse sido corrompida pelo poder do não-morto, quem fosse que o tivesse feito tinha sido extremamente hábil. Deveria reconhecer o rastro de seu irmão, mas não estava. Embora Brice parecia sentir um ódio retorcido. Esse ódio estava centrado em Francesca, como Gabriel sabia que seria. Brice estava decidido a recuperá-la, colocá-la contra Gabriel. Se o não-morto estava utilizando o humano, Gabriel não podia detectar um poder tão sutil.

- O que está acontecendo? - Perguntou Francesca, colocando sua mão na dele.

Ele sorriu. Ela era seu mundo. A única. Lentamente levou a palma da mão dela até seus lábios, atrasando-se durante um momento, para inalar sua fragrância.

- É uma mulher extraordinária, Francesca.

Francesca se alegrou pos já estarem sozinhos. Podia ouvi-los enquanto percorriam o vestíbulo, felizes com o resultado da reunião. A cor espelhou pela face dela, como se fosse uma colegial. Estava ruborizada porque ele havia beijado sua mão. Francesca tentou colocar a mão nas costas.

Gabriel reteu-as, seus dentes brancos eram mais evidentes.

- Ainda se sente tímida comigo depois de tudo o que compartilhamos? – Deliberadamente, sua voz se fundiu até uma rouca sedução, uma zombeteira tentação.

- Não. - Mentiu ela, envergonhada por sua própria reação. Uma vez, pensara que os olhos dele estavam vazios de emoção, mas quando eles descansavam sobre ela, estavam cheios de tanto desejo, de tal intensidade, que apenas a deixavam pensar com claridade.

Os dentes brancos brilharam para ela.

- Acredito que temos que encontrar uma loja e comprar móveis para o quarto de nossa adolescente. Nunca pensei que teria que "criar" a uma garota de sua idade, e uma humana. Ler a mente é muito útil em certas situações.

Francesca elevou o queixo.

- Obrigado por desejar fazer isto comigo. Sinto-me realmente entusiasmada com a idéia de levar Skyler para casa conosco e me alegra que compartilhe comigo. É uma garota muito bonita.

- Sim. Deveria ter roupa que a faça sentir-se bem consigo mesma. - Sorriu de repente. - Sei bastante sobre o mundo, quase sobre qualquer tema, mas não tenho nem idéia do que desejaria ter, uma garota adolescente em seu quarto. Terei que confiar em você, nesse departamento. Não havia imagens na cabeça de Skyler de que gostaria.

- Acredito que nunca tenha pensade em tais coisas. Sua vida foi sobreviver. Estive pensando que poderíamos lhe dar o quarto do andar de cima, o que tem o balcão e a pequena torre anexa.

Ele assentiu solenemente.

- Acredito que ela gostará muito, Francesca. – Gabriel segurou-lhe a mão. - Voe comigo esta noite. Podemos ir às lojas e caminhar sem sermos vistos, até que decidamos o que nós gostaríamos de comprar. Permita-se sentir a liberdade de nossa raça uma vez mais. Faz muito que não desfruta de algo assim.

Francesca sorriu ante a idéia. Era verdade. Ela renunciara muito dos dons de sua gente para pensar, sentir e atuar como uma humana. Fôra necessário para se ocultar. Mas agora, a tentação era muito forte para resisti-la. Permitiu a seus sentidos, estender-se na noite. Esquadrinhando a região completamente, esperou até que soube que não havia ninguém nas imediações, depois com uma carreira saltou para o céu. Enquanto se lançava no ar, brilharam plumas iridescentes e formosas, fazendo com que pudesse voar silenciosamente sulcando o céu estrelado.

A sensação de voar através da noite era tão incrível, que ela não podia suportá-la. Havia passade muito tempo desde que se permitiu o luxo de pensar como um Cárpato. Pretendera que seus padrões mentais fossem completamente humanos. Agora podia desfrutar dos privilégios especiais de sua raça uma vez mais. Riu de pura alegria, enquanto se movia através de céu.

Gabriel se uniu a ela. Um enorme pássaro predador, silencioso, veloz e mortal, voando pelo céu, para o coração da cidade. Conhecia a mente dela, sabia que ela começaria primeiro pela casa do pai de Skyler, para pegar o precioso camafeu. Vôou perto de Francesca, decidido a protegê-la de sua exuberante necessidade. Estava em sua mente, assegurando-se de que ela mantivesse a imagem de pássaro no vôo, para que não pudesse cometer enganos. Compartilhava sua alegria e celebrava sua liberdade, mas permanecia como uma sombra, decidido a protegê-la.

Francesca pousou no alto de telhado do velho edifício onde vivera o pai de Skyler. Estava severamente deteriorado.

Havia barrotes nas janelas e na porta, não era uma barreira para dois poderosos Cárpatos. O pequeno apartamento era uma ruína de garrafas e pratos sujos. Não havia comida na geladeira, só cerveja. Os armários guardavam caixas de bolachas salgadas e duas latas de sopa. Francesca tocou a pia.

Voltou-se para olhar Gabriel com lágrimas nos olhos. Podia sentir a violência que encerrava o pequeno apartamento. O terror de uma menina. A brutalidade que um homem podia impor. Viu imagens da vida de Skyler, do pai, um homem enorme, balançande um cinturão para ela no banheiro. Skyler encolhida a um canto enquanto um homem se aproximava com um sorriso malvado no rosto. Gabriel abraçou Francesca e a sacudiu gentilmente.

- Abandona este lugar maligno. É muito sensível.

- Skyler também era. Essa formosa menina esteve sujeita a esta depravação. Conduziram-na a beira da loucura, Gabriel.

As lágrimas em sua voz foram quase mais do que ele podia suportar.

- Ela está a salvo conosco, Francesca. Não permitiremos que ninguém volte a lhe fazer mal.

- É uma humana com capacidades psíquicas. Um tesouro estranho para nossos homens. Ela seria de um valor incalculável para nossa raça, mas depois de semelhantes atrocidades, não posso imaginar que seja capaz de amar alguém tão dominante e selvagem como nossos homens. O que vamos fazer? - Havia desespero em sua voz.

- Esse dilema é a longo prazo, céu. Não algo que tenhamos que resolver neste momento. Em qualquer caso, não sabemos ela é companheira de um des nossos. Nosso primeiro dever é agora para com ela. É nossa filha e merece nosso amparo. Vamos encontrar o camafeu de sua mãe. - Assegurou-lhe Gabriel.

Ela entrelaçou seus dedos com os dele, precisando do consolo de sua cercania. Não se questionou por que seu toque parecia tão correto. Só sabia que desejava ser embalada por seus braços e sentir sua enorme força, quando tudo o que via a sua volta era a maldade da raça humana.

Gabriel a colocou sob seu ombro, sabendo instintivamente que ela estaria melhor com ele neste lugar maligno que só lá fora. Compreendê-lo o fez sentir humilde. Levou a pequena mão dela aos lábios, respirando um beijo sobre sua pele, sua boca tremeu dizendo sem palavras, que ela era a magia de sua vida.

Encontraram o camafeu de Skyler e ele mesmo o colocou em volta do pescoço, enquanto passeavam pelas lojas. Francesca estava em seu elemento. Conhecia a cidade, conhecia os vendederes. Com freqüência comprava roupa por valor de milhares de dólares que doava aos pobres. Gabriel seguia-a. Este não era o ponto forte dele, mas ela estava mais que disposto a compartilhar a excitação dela. Observou o rubor de Francesca e sua beleza quase etérea. Ela iluminava a loja e ela não pôde evitar pensar na noite compartilhada na loja de sua amiga. Quando sorriu, ela se ruborizou e rapidamente afastou o olhar, compartilhando as lembranças do selvagem encontro.

As horas passaram. Gabriel se surpreendeu ao se divertir observando-a através das lojas, examinando roupas e móveis, selecionando estilos juvenis apropriados para o mais recente membro de sua família.

- Está planejando comprar um guarda-roupa completo? – brincou ele, enquanto ela mostrava um conjunto de jeans descoloridos. - Por que esta fascinação que têm as mulheres modernas, por calças de homem?  - Nossa filha tem que vestir estas coisas? Vestidos e blusas serão muito mais apropriades.

As sobrancelhas de Francesca se arquearam e sua boca se curvou num pequeno sorriso.

- Possivelmente, você tenha razão. Precisamos buscar roupa um pouco mais feminina.

Foi sua voz que o advertiu de que ele não ia gostar. Seguiu-a com um pouco de apreensão a um lugar diferente da loja. Francesca pegou um traje azul marinho e o sustentou no alto.

- Este é encantador, Gabriel. Você não gosta? Tem razão. Acredito que precisamos nos concentrar em objetos muito mais femininos.

Ele a rodeou e tocou o suave material.

- Onde está o resto? – Ele estava muito sério e seus olhos escuros procuravam na face dela, algum sinal de brincadeira.

- Este é todo o vestido. As garotas os usam bastante curtos agora. Não notaste? - Francesca não podia acreditar que ele não tivesse notade às mulheres da cidade e as roupas que com freqüência revelavam uma generosa porção da perna.

- Você não usa uma roupa como esta. - Fez uma declaração.

- É obvio que sim. Vestidos curtos e longos. Tudo vale nesta época.

- Você veste coisas como este vestido diante dos homens? – Ele não entendia por que de repente desejava arrancar a cabeça do doutor. Será que ele a vira com tais objetos? A idéia provocou uma sensação vulcânica pouco familiar em seu íntimo.

Francesca sorriu. Diretamente riu dele. Seus olhos escuros brilhavam de alegria.

- Hum... Isto soa como se alguém estivesse um pouco ciumento por aqui.

A mão dele se estendeu, quase que por vontade própria e seus dedos rodearam a garganta dela.

- Está brincando comigo, verdade, Francesca?

Francesca tentou manter a face séria.

- Eu não faria isso. - Disse docemente. - Mas sou uma dinamite quando me visto e me arrumo.

- Meu coração não pode suportar a imagem. - Disse ele. - Não, se você se vestir para outro homem. Não me conte mais nada.

- Sua idade se mostra, ao fim. - Riu ela, o som despreocupado atravessou seu coração como uma flecha. - Acabemos com isto e me ajude a encontrar algum vestido que goste.

- Encontrarei algum vestido que a permitirá estar em público. - Contra-atacou ele, resmungnado e olhando pela primeira vez os pequenos vestidos dos manequins. - Onde estão os que chegam aos tornozelos?

- Você vai ser um desses pais que insistem em ter guarda-costas e estritos toques de silêncio? - Perguntou ela com uma sobrancelha arqueada.

- Pode contar com isso. – Gabriel não fez questão de fingir outra coisa.

O sorriso de Francesca se alargou, deixando claro que ela não estava impressionada por sua fisionomia severa. Encontrou a seção de roupa íntima e passou um momento escolhendo conjuntos de lanjerie de renda e cetim, enquanto ele simplesmente sacudia a cabeça com assombro. Ela arrumou para que suas compras fossem entregues na noite seguinte.

Skyler teria um quarto desenhado especificamente para ela, os artigos escolhidos pareceriam com as lembranças das coisas que ela tinha visto e gostado. O resto escolheriam por ela, desejando sua felicidade e comodidade. Os padrões de sua colcha e lençóis eram um desenho realizado por Francesca para ajudar a curar e promover consolo e bons sentimentos. O aposento que havia decidido dar a ela era uma torre redonda onde os intrincandos cristais coloridos continham um poderoso feitiço para proteger a ocupante de danos externos e pesadelos.

Francesca sorriu para Gabriel enquanto desciam sobre o balcão de sua casa, uma vez mais mudando suas próprias formas.

- Foi uma noite maravilhosa, Gabriel. Muito obrigado por compartilhar este momento comigo. É muito mais divertido compartilhar a vida da gente.

- Está se acostumando a mim, apesar de sua intenção em não fazê-lo. - Aventurou ele enquanto a conduzia baixando as escadas, até a cozinha.

- Temos que lembrar de preparar a casa com comida e coisas que uma adolescente. - Disse Francesca, decidida a não deixar se arrastar a uma conversa sobre sua relação. Não estava preparada para pensar muito no assunto.

- Skyler deveria comer o que é mais nutritivo para ela. É toda pele e ossos. E deve fazer algo com seu cabelo. Ela o coloca no rosto, porque acredita que as cicatrizes a enfeiam.

Francesca o seguiu para a câmara sob a terra.

- Sei disso, embora acredite que é mais o que representam, lembranças desagradáveis. Não posso esperar para trazê-la a casa. Esta casa será diferente. Música, ruído, trabalho, provavelmente guardas... Nossas vidas serão muito diferentes, Gabriel.

Ele rodeou os ombros dela com um braço, agradecendo mentalmente, que ela não se separasse dele. Estava fazendo progressos sem que ela fosse consciente disso.

- A mudança é boa, Francesca. Minha existência esteve vazia e erma durante dois mil anos. Gostarei imensamente da mudança. - Sua mão deslizou pelo braço dela, avançou por seu estômago até que a palma descansou sobre seu filho que ali crescia. Fechou os olhos durante um momento, saboreando a sensação dela, de seu filho.

Francesca lhe sorriu.

- O amanhecer se aproxima, Gabriel, deve descansar.

- É você que está grávida. – Ele abriu a terra e flutuou com ela, para terra acolhedora, seus braços a trouxeram para o amparo de seu corpo. – Durma, céu. Amanhã prepararemos o quarto para ela. - Seu corpo, sua alma, coração e mente, estavam felizes. Ela estava com ele, seus braços a rodeavam, sua fragrância enchia seus pulmões e isso era suficiente.

“É você a que está grávida”. Francesca repetiu essas palavras em sua mente. Abraçou-as, assombrando-se ante semelhante milagre. Sentiu a boca dele contra sua fronte, sua mão sobre o filho deles e fechou os olhos, descansando.

Quando despertou, Gabriel já estava fora, procurando pistas sobre o paradeiro de Lucian. Seu mundo seria frágil e cheio de perigos enquanto seu irmão caçasse em sua cidade. Francesca sentiu Gabriel movendo-se em sua mente, sentiu sua ternura, embora tremeu enquanto percorria os aposentos familiares de sua casa. Durante o dia, os carregadores haviam chegado, deixando caixas de todas as formas e tamanhos. Ela se esquecera de quantas coisas havia comprado para Skyler na noite anterior. Francesca desfrutou de cada momento, colocando as roupas de Skyler no guarda roupa e armário. Colocou cuidado especial ao trabalhar na pesada colcha, colocou amor em cada ponto enquanto a confeccionava especialmente para Skyler.

Agora estava começando a se preocupar com Gabriel. Por seus pensamentos se inteirou de que Lucian havia matado novamente. Seria outro assassinato sem solução para a polícia. Tinha a sensação de que Lucian colocava uma isca de propósito, para Gabriel, o conduzinde a uma armadilha. Moveu-se pela casa, cuidando dos negócios, antes de sair para ver Skyler. Fez várias chamadas a organizações conhecidas, membros de sociedades e velhas relações. Sempre era necessário manter as aparências, agora mais que nunca, com Skyler a seua cuidados.

Primeiro teria que se assegurar de encontrar pessoas para trabalharem, no qual pudessem confiar. Aidan Savage, nos Estados Unidos havia recomendado um casal de confiança. O próprio filho de seus serventes. Santino e sua esposa, Drusilla. Eles se mudariam e protegeriam Skyler durante o dia. Santino sabia que Aidan era Cárpato, e Aidan assegurou a Francesca que era seguro confiar nele.

Satisfeita, ela foi ao hospital. Skyler sorriu quando a viu entrar no aposento.

- Pensei que tinha mudado de opinião. - Disse a garota. O lobo de pelucia estava em seu lugar habitual, em seus braços.

- Nada disso, menina. - Corrigiu-a Francesca, com um sorriso. - Teve um ataque de pânico? Tudo está em seu lugar, céu. Gabriel e eu encontramos seu camafeu. Está num portaz jóias em seu quaarto, em casa. Tem tudo o que precisa, esperando por voce em casa. Tude o que tem que fazer é sarar completamente. Está se alimentando?

- Tento comer. - Respondeu Skyler, honestamente. - Não é fácil. Não tenho me alimentado direito há muito tempo. Agora nunca tenho fome. Onde está Gabriel?

Francesca pensou que era um bom sinal que Skyler tivesse perguntado por ele.

- Fora, caçando.

Skyler ficou em silencio durante um momento.

- Caçando? – Ela repetiu. - Não acreditei que ele fosse do tipo de pessoa que gosta de matar a uma criatura viva. - Parecia decepcionada.

Skyler obviamente sentia afinidade com os animais. Francesca sorriu amavelmente.

- Não animais, tolinha. Coisas. – Ela afastou o cabelo dos olhos da garota. Seu toque era terno e consolador. O contato lhe deu acesso às emoções de Skyler.

A menina estava assustada, mas tentava ser valente. O futuro a aterrorizava, viver a atemorizava, mas não Francesca e tampouco Gabriel. Havia preparado sua mente para tentar dar outra oportunidade à vida.

- Não posso ir à escola. - Balbuciou ela, de repente. - Não posso estar com ninguém a minha volta. Não quero que ninguém me veja.

Francesca assentiu sobriamente.

- Entendo, céu. Acredito que o melhor será que nos mantenhamos unidos durante um tempo, nós três e as pessoas que trabalharão em casa. Vou contratar um casal que trabalhará conosco. Eles cuidarão de você.

Francesca tomou a mão pequena entre as suas e a sustentou, permitindo que seu dom especial fluísse dela até o interior da garota.

- Agora, quero que descanse, jovenzinha. Vou perguntar a Brice se já pode te dar alta. Se tiver problemas para comer, ou tem medo, busque Gabriel ou a mim em sua mente. Como você, somos telepatas. A ouviremos e viremos em sua ajuda. Chame se for necessário. Espero que o faça, entendido?

A garota assentiu solenemente.

- Estou cansada todo o tempo.

- Isso não é estranho. Sofreu um trauma, Skyler. Foi agredida brutalmente. Seu corpo e sua mente precisam de tempo para se curar, igual seu espírito. Voltarei depois. Por ora, descanse. - Com um ondeio da mão, ela abriu a porta e deslizou para fora.

- É Francesca De Ponce? - Havia um desconhecido esperando fora do quarto de Skyler.

Francesca pressentiu que ele estava ali há algum tempo. Sabia que ele esperava para falar com ela.

Sorriu plácidamente. Seus longos cílios velaram a expressão irritada de seus olhos. Durante um breve momento, considerou utilizar um "empurrão" mental, mas havia algo nele que não estava de todo bem. Não pôde precisar o que era, enquanto parava para falar com ele.

- Sim. Eu sou Francesca. - Lançou-lhe um sorriso, um que captou sua atenção imediatamente.

- Barry Woods, Senhorita De Ponce. Sou um repórter em busca de uma boa história. Soube que você cura as pessoas.

As sobrancelhas dela se arquearam e um pequeno sorriso curvou sua suave boca.

- Sinto muito, devo ter ouvido errado. Faço o quê?

- Cura pessoas. Curou uma garotinha que tinha câncer.

Francesca pensou durante um momento antes de responder. Havia algo neste homem que a incomodava, algo que não estava bem. Um matiz. Um sutil tom de malvadeza. Possivelmente estava equivocada, mas ele provocou-lhe um calafrio. Tocou sua mente, delicadamente.

A respiração prendeu em sua garganta. Obrigou seus lábios a sorrir, seus enormes olhos negros se abriram fazendo-os parecer negros como a noite.

- Desejaria ter tão maravilhosa habilidade. A verdade é que não possuo semelhante talento. - Com o estômago encolhido, Francesca se obrigou a tocar a mente de homem. Gabriel precisaria informação. Este homem não era o que parecia na superfície. Era um fanático, sua mente estava cheia de imagens de vampiros, estacas e alho.

O repórter segurava continuamente a corrente de ouro que rodeava sua garganta. Ela sabia que em sua mão, ele sustentava uma cruz.

- Minha fonte é muito confiável, senhorita De Ponce.

- Os médicos daqui são bastante bons. - Disse ela brandamente. -Não acredita que é bem mais provável que eles curassem à menina, se câncer estava em remissão? Leio para as crianças com freqüência, mas não posso curá-los. Bem que eu gostaria. Você os viu na sala de câncer? São tão bonitos e valentes. É bastante desconsolador. Possivelmente deveria visitá-los. A história seria de tremendo interesse humano, não acredita? – Ela enterrou a sutil compulsão, cuidadosamente.

O repórter sacudiu a cabeça para esclarecer-se.

- Tenho que conseguir a história.

Ela assentiu gentilmente, seu cabelo se moveu como uma cortina de seda em volta de seus ombros.

- É verdade, a história sobre os médicos daqui e do hospital e o quanto são bons, é muito interessante. - Seus olhos escuros se fixaram diretamente nos dele. - Realmente deve escrever sobre o trabalho deles.

Woods ficou calado e quando já se voltava para a sala de câncer, sacudiu a cabeça com força, para esclarecer a mente. Durante um momento, ficou desorientado, incapaz de lembrar exatamente o que tinha estivera fazendo. Sua mente se via afligida pelo desejo de escrever uma história sobre crianças e o câncer. Ele sacudiu a cabeça outra vez, seguro de que não tinha vindo por essa razão. Uma mulher se afastava dele e seus quadris balançavam suavemente. O cabelo longo descia até sua cintura e era espesso, rico e brilhante, por causa das intensas luzes. Ela era tão bonita, que lhe cortava sua respiração e nem sequer tinha visto a face dela.

Ficou em pé um momento, relutante em se mover. Não conseguia lembrar o que estava fazendo. Desejava que ela se voltasse para poder vê-la. Desejava segui-la, mas seus pés pareciam de pedra. Viera ali, por uma razão, uma razão importante, mas só podia lembrar que queria escrever uma história sobre crianças que sofriam de câncer. Havia um doutor com quem tinha de conversar. Não era francês e nem inglês. Um nome estranho. Brice alguma coisa. Woods coçou a cabeça e voltou resolutamente às costas à ala de câncer. Sentia-se perdido e muito confuso. Não tinha idéia do que estava fazendo.

 

-Quanto tempo acha que pode continuar me evitando? - Exigiu Brice, enquanto aparecia atrás de Francesca.

- Não me incomode, Brice. - Disse Francesca exasperada. - Não é o melhor momento para enfrentar-me. Acabo de desfrutar da pequena visita de um insípido repórter. Está me fazendo parecer uma espécie de alucinada. Suspeito que tenho que agradecer a você, não?

Brice teve a decência de parecer envergonhado, enquanto tentava escapar de sua acusação.

- Só disse a verdade. Examinou minha paciente e ela era um doente terminal. Não há dúvida de que era. Isso estava completamente decumentado e tenho todos os relatórios para provar. Depois, todas as amostras de sangue resultaram em nada, estavam limpas, Francesca. Ela está completamente curada. Eu não fiz isso e não tenho nem idéia de como aconteceu.

- E daí me jogou aos repórteres, a alienada milagrosa em ação. Assegurou-se de que minha privacidade fosse completamente destruída. Supõe-se que é assim que se paga o favor? - Francesca jogou a cabeça para trás e seu espesso cabelo voou. - Estou ocupada evitando seus repórteres, Brice. Não tenho tempo para bate-papo.

- Francesca, não aconteceu assim. Vamos, conhece-me melhor que isso. Admito que eu gosto de estar entre os grandes, mas não fui eu quem falou com os repórteres. – Ele segurou-a pelo braço, detendo-a. - Deixe de fugir, Francesca, me esgota. Não fui eu. Foram os pais da menina. Seu nome é Chelsea Grant. Seu pai é um senador dos Estados Unidos. Mencionei você diante de sua mãe, sem pensar. Não havia esperanças para Chelsea. Nenhuma. Seus pais sabiam. Eu não fui o único médico que a examinou. A minha, era só, entre uma longa lista de opiniões. O senhor Grant a tinha investigado. Vários pacientes anteriores estavam tão contentes, que falaram de você e do milagre que realizara com eles.

Francesca baixou o olhar até os dedos que seguravam seu braço. Não havia passado muito, que o toque desses dedos esquentavam seu coração, agora a irritavam. Fôra tão superficial, que seus sentimentos podiam mudar tão facilmente, tão rapidamente? Ou havia enganado a si mesma sobre o verdadeiro caráter de Brice só porque se sentia muito sozinha? Gostaria de poder compartilhar sua vida com alguém antes de se permitir morrer. Agora podia ver claramente quão importante era para Brice, agradar à esposa de um senader.

- Suficientemente importante para me vender. - Pensou em voz alta. - Queria que ela te devesse um favor.

- Sinto muito, Francesca, queria o melhor para meu paciente. E se, acontecer deles terem pais que poderiam aplainar meu caminho para o hospital... Claro que quero. Quero um lugar onde minhas habilidades possam realmente marcar diferença.

- Pensava que se importavam com estas crianças.

- É obvio que me importam. Dediquei minha vida a eles. Você não sabe que é sadio desejar ter uma vida decente. Você tem dinheiro, Francesca. Tem mais que suficiente, embora o dá de presente a uma velocidade alarmante. Eu preciso ganhar a vida. É tão fácil e heróico ajudar uma menina rica doente como ajudar uma vagabunda.

- Como Skyler. - Disse Francesca brandamente. - Ela não pode fazer nada por sua carreira. Não a quer em sua vida e tenta se assegurar de que não entre na minha. Isso é desprezível, Brice. Essa menina precisa de um lar e eu posso proporcionar. Sua intenção de evitar que a leve para casa é absolutamente imperdoável. Como pôde fazer tal coisa?

- Demônios, Francesca. É você que mudou, não eu. Sabia que eu queria certas coisas. Isto não é sobre mim, é sobre ele. O que é ele exatamente? Um espião do governo? Ele está a ameaçando com alguma coisa? Ou ao juiz? Todos têm medo dele? Não diga que não a adverti se alguma coisa não der certo com ele. Esteve na prisão, por causa de um crime? Onde ele esteve todos estes anos?

- Já ouviu o que disse o juiz. Ele sabe tudo o que precisa saber sobre Gabriel. Sua vida é um assunto de segurança nacional. É secreto.

Brice refreou uma explosão de juramentos.

- É isso o que ele te contou? E simplesmente você acredita nele? Não o vê, Francesca? Poderia ser um criminoso da pior índole. É muito confiada. Simplesmente ele entra em sua vida e você o aceita. O juiz o aceita. Seu advogado o aceita. Por Deus, não vê? Ele não é como nós.

- Não, não é. É bom, amável e não tem motivos ocultos no que se refere a Skyler. - Os olhos escuros de Francesca flamejaram para ele. Ela estava tão bonita que Brice se encontrou estendende-se para ela, desejando tomá-la nos braços. Devia ter piscado, porque ela se afastou tão rápido que, na realidade, ela não a viu se mover. Então deixou cair os braços vazios.

- Isso não é justo. Eu quero que Skyler melhore. Fui eu quem pediu que a visse, em primeiro lugar. Seu pai não tinha dinheiro. Não esqueça isso, Francesca, enquanto está tão ocupada me condenando. E não acredita nem por um minuto, que seu precioso Gabriel não tenha motivos ocultos, no que diz respeito a Skyler. Seu motivo é você. Quer a você e usará qualquer coisa para te conseguir. Está te ameaçando? Está com medo dele? É isso? Pode me dizer. Posso te ajudar. Não pode ser tão poderoso, para que não possamos o vencer, juntos.

Francesca quase estalou em gargalhadas. Brice não fazia idéia do que era o poder, de verdade. Eles dois juntos e acompanhados de todo um exército, não poderiam derrotar Gabriel.

- Não, Brice. Não tenho medo de Gabriel, mas obrigado por perguntar. Agradeço-te que queira me ajudar.

- Por que o recebeste em sua vida sem lutar? - Exigiu Brice. - Simplesmente apareceu em sua porta e você o permitiu entrar. Por que? Por que não toma algum tempo para o conhecer novamente? Não vê o engano que é tudo isto? Sou seu amigo e posso ver mais claramente que você. Ele é perigoso, Francesca. E quero dizer, que é realmente perigoso. É um criminoso de algum tipo.

Francesca sacudiu a cabeça, cansada.

- Não quero seguir discutindo, Brice. Posso te assegurar que Gabriel não é um criminoso. Se o juiz teve informações sobre ele e está disposto a permitir que Skyler fique conosco, você deve aceitar que ele é um bom homem. Sabe que não é um criminoso. Só está zangado porque eu permiti-o voltar para minha vida. Não sei o que vou fazer com o Gabriel, mas sou eu quem decide. Nunca o enganei, nenhuma só vez, sobre nossa relação. Nunca disse que te amava, nunca me comprometi.

- Mas sempre soube como eu me sentia. Eu não mudei. Sinto muito, se estou sendo ciumento. Só passa um pouco de tempo comigo. - Sua voz de repente se tornou apaziguadora. – Venha para casa comigo. Passe a noite comigo. - Brice se inclinou sobre ela. Seu rosto estava repentinamente cheio de uma espécie de ardilosa e ávida luxúria. Seus olhos vazios e pouco familiares.

O coração de Francesca bateu de alarme. Foi tudo o que pôde fazer para não saltar, afastando-se dele. Foi consciente de que súbitamente ela segurava com força seus braços e puxava para o próprio corpo. Ele parecia diferente, um desconhecido. Não era o Brice que ela pensava que conhecia. Podia ter estadotão equivocada? Tinha estado tão desesperada por um pouco de companheirismo, que tinha passado por cima do verdadeiro caráter dele? Não tinha sentido. Não era próprio de Francesca fazer uma cena e era inato nela atuar como humana todo o tempo. Permaneceu quieta. Quando os lábios dele estavam a ponto de tocarem os seus, Brice tossiu, levou as mãos à garganta, enquanto começava a se afogar. Seus olhos brilharam com alarme instantânea.

- O que está errado com você, Brice? – Francesca, deliberadamente tocou o braço dele, para ler o que acontecia com seu corpo. Era Gabriel? Não sentia a onda de poder que a presença dele deveria causar, mas era um antigo. Não fazia idéia de seu autêntico poder. Tudo o que podia dizer era que as vias respiratórias de Brice estavam bloqueadas. Não podia dizer o que estava errado. Sua garganta parecia torcida, quase como se estivesse sofrendo uma reação alérgica de algum tipo.

Brice cambaleou, virou os olhos e seus joelhos se dobraram e ele começou a cair para o chão. Francesca o segurou facilmente com sua força sobrenatural, o colocando com cuidado no chão e abrindo sua camisa, tentando freneticamente abrir suas vias respiratórias. - Gabriel! - Buscou-lhe quase automaticamente. - Ajude-me.

Ele esteve instantaneamente em sua mente, uma calma consoladora no olho da tempestade, tomando conta da situação. Francesca estava tentando respirar por Brice, mas nenhum ar podia atravessar a traquéia. Quando tentou entrar em seu corpo, usando energia e luz, encontrou algum tipo de obstrução que não pôde transpassar. Gabriel a agradecia que não houvesse suspeitade dele desde o começo, tornou-se instantaneamente a ele em busca de ajuda. Começava a confiar nele, mais do que acreditava.

- Lucian, sei que você está aqui. - Gabriel estava muito tranqüilo. - Você está matando este homem. Deixa-o.

- Você não luta suas próprias batalhas.

Era uma reprimenda. Francesca renovou seus esforços por entrar no corpo de Brice para o curar, mas a obstrução era como uma parede de vocêjolos. Compartilhando a mente de Gabriel foi capaz de "ouvir" o intercâmbio entre os irmãos gêmeos.

- Quem é este homem, que não se livra dele, quando te causa tanta dor de cabeça? Abrandaste-se, Gabriel. Esperas manter duas mulheres, quando não pode sequer destruir a seus inimigos?

A voz era formosa. Tão formosa que Francesca tentou bloqueá-la. Era premente sem que o vampiro sequer tentasse. Temia pensar no poder que ele exercia tão facilmente.

- Se apresse, Gabriel.

Ela sussurrou através do caminho mental que ambos compartilhavam. Brice já estava sem ar há muito tempo.

Em seguida, ela ouviu a suave e formosa risada ressoando em sua mente.

- Ela está suplicando pela vida deste humano inútil. Sua mulher, Gabriel, suplicande pela vida de outro homem. O que significa isto, irmão? Não pode sequer reter sua mulher.

Era chocante descobrir que o caminho mental privado entre companheiros havia sido facilmente invadido pelo vampiro. Era impensável. Seu coração começou a pulsar ruidosamente. Sentia-se muito vulnerável e agora estava desesperada em salvar Brice. Gabriel, entretanto, permanecia tranqüilo como sempre, completamente imperturbável.

- Mantenhamos isto entre nós dois, Lucian. Está ficando bastante tedioso com estes desdobramentos. Pavonear ante uma mulher está por abaixo de você. Tem tanto medo, então, de que eu não esteja prestande atenção? Irei a você no momento, se esse for seu desejo. – Gabriel procurava uma forma de localizar o vampiro.

Brice tossia e se afogava, ofegando em busca de ar. Francesca sentiu a inconfundível onda de poder. Encheu o espaço a sua volta, vibrou no ar e depois desapareceu. Estremeceu, sentando-se sobre o calcanhar, junto a Brice, com a mão sobre o ombro dele, seus olhos estavam ansiosos.

- Deveria chamar alguém?

- Água. – Ele coaxou. Sua voz era estrangulada e rouca. Suas mãos abriram passo para o pescoço, com visível debilidade.

Francesca podia sentir a frustração de Gabriel ao compreender que mais uma vez, o vampiro havia escapado, antes que ele pudesse fixar sua localização. Já que não havia nada que ela pudesse fazer para ajudar Gabriel, apressou-se a procurar um copo de água para Brice, quase o atirando enquanto o ajudeu a sentar-se.

- Foi Gabriel. - Acusou ele, com voz ofegante. - Senti suas mãos em minha garganta, me estrangulando.

- Brice, não foi Gabriel. Não está sequer perto deste hospital. Você estava se afogando. Eu limpei suas vias aéreas para que pudesse respirar. – Ela fez a sugestão tranqüila e claramente.

Os olhos de Brice flamejaram para ela.

- Foi Gabriel. Inclusive senti seu cheiro. Suas mãos estavam em volta de minha garganta e tentava me matar. Eu vi. Sei que o vi e você está tentando o encobrir.

- Não tem sentide tentar persuadi-lo de outra coisa, Francesca. - Gabriel disse, tranquilamente. Um fato consumado, a ele não importava a opinião de Brice. - Lucian é muito poderoso para que você possa superar a compulsão que enterrou neste homem. Vi-o destruir a exércitos inteiros. Quando caçávamos juntos, com freqüência ordenava o vampiro liberar o mundo de sua própria existência, usando só sua voz e este fazia sem lutar. O vampiro terminava com sua existência sem lutar muito. Sabe que os vampiros fariam algo para continuar com vida, mesmo assim Lucian era capaz de controlá-los só com a voz. Não tem idéia de seu poder. Permite que Brice acredite no que queira. Terei um álibi perfeito com o juiz. Não será muito difícil.

Francesca ficou em pé lentamente, voltando toda sua atenção ao problema que tinha nas mãos.

- Pode pensar o que quiser, Brice, mas lembre-se que quando acusa Gabriel desse terrível crime, também me está acusando de o ajudar. Eu estava aqui com você, te auxiliando. Que motivo teria para mentir?

Brice sacudiu a cabeça, esfregando a garganta e o pescoço dolorido.

- Sei que ele é mau, Francesca. Sei que tem que fazer o que ele te manda. Sei que você não queria me fazer mal. Ele está te obrigando a fazer e dizer estas coisas. Tem medo dele, não é? Provavelmente me salvaste a vida, mas está o encobrindo porque tem medo. Se me contasse com o que te ameaça, poderia te ajudar.

Francesca suspirou, impaciente.

- Eu pensava que você me conhecia, Brice. Que me conhecia de verdade. Se tivesse medo de Gabriel e pensasse que é capaz de matar a sangue frio, se estivesse me ameaçando de alguma forma... Pense por um momento, se eu iria expor Skyler a uma pessoa semelhante? Nunca. Nunca poderia, sob nenhuma circunstância, ser persuadida ou induzida a colocá-la em perigo. Se não sabe nada mais sobre mim, deveria saber disso. E se Gabriel tivesse tentade te estrangular, você estaria morto. Eu não seria capaz de lutar contra ele, nem nada poderia me induzir a lhe proteger, se ele tivesse tentade te matar.

- Não sei que ele tem feito a você, mas pode esperar uma visita das autoridades, porque tenho intenção de apresentar denuncia contra ele. - Brice massageou o pescoço e a garganta, tossindo várias vezes.

- Faça o que acha que deve fazer, Brice. - Disse ela brandamente. – Obviamentevoce acredita que sou capaz de ser cúmplice de um assassinato. - Regiamente, ela voltou às costas e percorreu o vestíbulo para as portas de saída, deixando Brice cambaleando, instável e por sua conta.

- Não sei onde está Lucian, Francesca. - A voz de Gabriel era tão tranqüila como sempre, mas ela estava começando a conhecê-lo o bastante, para compreender que ele estava preocupado. - Não saia de hospital até que eu esteja outra vez com você. Estou a caminho.

- É precisamente o que quer? O que acontece, se ele me utilizar como isca para te atrair aonde possa te fazer mal? - Havia autêntico medo em sua voz.

- Ele nunca me derrotou em batalha, carinho. Deveria ter mais fé em seu companheiro. Lucian é um vampiro pouco usual. Igual, foi um Cárpato pouco usual. Não há outro como ele. Não é boa idéia procurar nele segundas intenções. Sempre faz o inesperado. Poderia facilmente ter atacado você ou Skyler. É inteligente além de sua imaginação e tão poderoso como contam as lendas. Supor o que ele trama é impossível, mas se ele a encontrou, encontrou Skyler. Não quero que dê um passo na noite sem mim.

Por alguma razão, Francesca se sentia irritada.

- Não vou permitir que este vampiro mude minha vida, Gabriel. Esta é minha cidade. Muito do que tenho feito está aqui. Muitas coisas que amo. Durante séculos, os vampiros vieram e se foram. Para o caso, também houve muitos homens dos Cárpatos, ainda assim segui vivendo e fazendo o que queria.

- Lucian gosta dos jogos, Francesca. Sua mente deseja ação todo o tempo. Não é alguém com quem possa "jogar" e esperar ganhar.

- Não viverei temendo-o.

Disse Francesca, desafiante. Falava tanto para Gabriel, como para o vampiro, se por acaso ele estivesse monitorando sua conversa. Não acreditava que fosse possível, mas tampouco tinha pensado que fosse possível que alguem, exceto Gabriel, pudesse "utilizar" seu canal privado. Todos os Cárpatos se comunicavam por um vínculo mental comum, mas isto era diferente. Gabriel era seu companheiro. O caminho que compartilhavam era individual, muito íntimo, pessoal. Nenhum outro deveria ter sido capaz de penetrar em sua comunicação privada. Lucian era certamente poderoso e único.

Enquanto se introduzia na escuridão da noite que era seu mundo, no ar fresco onde poderia respirar sem o cheiro do sofrimento humano, Gabriel se materializou a seu lado. Seu braço forte rodeou a esbelta cintura.

O coração de Francesca quase parou ante a presença era tão inesperada.

- Pensava que estava estabelecendo um álibi em alguma parte.

- Isso não é tão difícil, céu. Enviar imagens vívidas aos humanos. O juiz e eu passamos uma aprazível noite, juntos, em sua casa. Ele joga xadrez, sabia? Naturalmente eu saí vitorioso, mas foi uma partida justa. Acredita que bebi seu brandy favorito e conversamos sobre todos os assuntos. Como vive sozinho, não foi nada complicado plantar as lembranças em sua mente.

- Houve outro assassinato? - Perguntou Francesca. - Foi Lucian, não foi? O que ele espera ganhar com isto?

Gabriel encolheu de ombros facilmente. O movimento foi um sutil ondeio de poder.

- Busca me prender em sua rede. Não se preocupe, céu. Ele não me derrotará no cenário de uma de suas mortes. Pode ser poderoso para suas vítimas, mas eu conheço seus costumes. Sei como luta, como pensa, como se move e planeja. Será muito mais inteligente que um vampiro ordinário. É um professor planejando. Isto só acaba de começar, é como o movimento de abertura de uma partida de xadrez. – Ele inclinou a cabeça, para inalar a fragrância dela, desejando nesse momento esconder a face em seu pescoço. Podia sentir a velha chamada da pulsação, seu sangue, a essência de vida que o tentava. Seu corpo estava duro e dolorido e sua fome se intensificava.

Francesca se surpreendia, em como seu corpo respondia ao dele. Cada uma de suas células estava viva. Em seu interior, o calor se estendia ante a simples visão dele. Mesmo com o vampiro os espreitande e Brice sujando o nome de Gabriel, tudo o que podia pensar era no corpo dele, no calor de sua pele, na suavidade de seu cabelo e na perfeição de sua boca.

- Pare! - Havia uma rouca sensualidade na voz de Gabriel. As palavras foram baixas e sua mão passeou sob os seios dela, para que a cada passo que davam ela pudesse sentir o roçar de seu polegar contra a parte inferior dos seios túmidos. - Estou tentando ser o caçador, a lenda que você me chamaste. Não me tente. Não sou nem de perto tão forte como você gostaria de acreditar.

Ela sorriu, seus longos cílios ocultaram o súbito desejo de seus olhos. Gostava da forma em que se sentia com ele, a salvo e protegida. Cuidada. Ficara tanto tempo sozinha permitindo ele a caçar um tempo mais.

Gabriel parou bruscamente e segurou o queixo dela com a mão.

- Eu também estive sozinho, Francesca. Todes esses anos vazios. Totalmente sozinho. Agora está a salvo. E protegida. É minha razão de existir, o ar que respiro. - Seu olhar negro ardeu sobre ela. Desejo. Ela ficava sem fôlego a cada vez que seus olhos se moviam sobre ela, com possessividade.

- Desejo você. - Ela pronunciou as palavras no mesmo tom baixo que ele tinha utilizado. Desejava-o ardentemente, incapaz de resistir à tentação. Já não o queria controlado. Não era o jeito dela e sabia que estava errada, mas olhar para ele, afazia querer seu lado selvagem e ele tinha um trabalho que fazer, não deveria distraí-lo, não deveria deixar que notasse que sabia que ele a desejava de mesmo modo em que desejava ele. Sabia que estava brincando com fogo, mas não se importava. O mundo afundava a sua volta e desejava os braços dele em seu corpo, nas ardentes chamas que só ele podia prender. Desejava-o, não controlade e com calma, mas desejava-o além de qualquer outra coisa. Mais que caçar Lucian.

Ele produziu um som em sua garganta. Lia facilmente cada um dos pensamentos dela.

- Não me está deixando fácil, Francesca. Estamos num lugar público e você me está fazendo ser difícil dar um passo sem dor.

Um lento sorriso formou na boca dela. Sua mão roçou o peito dele, numa carícia incitante, até o vulto que já se mostrava duro e grosso. Suas largas unhas rasparam o tecido da calça, tentando-o deliberadamente, o provocande mais ainda. Ele tomou o caminho até o Rio, seu corpo se incendiava a cada passo. Seus seios estavam doloridos e inchados de desejo e sua fome se elevava com acuidade. Dentro de sua mente, ardentes e eróticas imagens a enlouqueciam.

Francesca se elevou e lentamente começou a soltar os botões de sua blusa, enquanto se aproximavam da proteção das árvores.

Gabriel a observou, completamente fascinado. A blusa se abriu lentamente para revelar a pele sedosa dos seios que saltavam incitantes para ele. O sorriso dela era pura sedução.

- Acredita que pode resistir a mim, companheiro?

- Não estamos em lugar seguro. - Replicou ele, mas seu negro olhar ardia sobre a pele nua, tão intensamente que os mamilos dela se endureceram em resposta. Ele havia esquadrinhado o lugar, como a ela. Sabia que estavam sozinhos e saber o não ajudava sua disciplina, absolutamente. Sabia que se alguém chegasse pelo rio, ele seria perfeitamente capaz de esconder sua presença.

Ela tirou a camisa dele, desejando ver o poder de seus duros músculos. Sua mão moveu sobre a pele quente. Seus dedos imprimindo a lembrança dele em seu cérebro para sempre.

- Quero sentir o que você sente. - Disse ela brandamente. - Quero saber o que posso fazer a seu corpo, a sua mente. - Suas mãos foram até a calça dele e com deliberada lentidão abriu o zíper para que o membro dele estalasse para fora grosso, duro e latente de plenitude e desejo. A ternura das mãos de o acariciaram e os dedos o rodearam.

Gabriel gemeu de prazer, permitinde que a mente dela se fundisse completamente com a sua, para que pudesse sentir a intensidade com que a desfrutava, a luxúria que se elevava nele, a fome que ameaçava o consumir. O cabelo sedoso dela roçou a ponta sensível e seguidamente, seus lábios suaves seguiram o caminho que os dedos haviam tomado antes. Outro gemido escapou dele, quando ela se moveu tão lentamente, que pensou que poderia morrer antes que o tocasse.

Os lábios dela tocaram a dura ereção, sua língua o saboreou gentilmente, o princípio. Depois, a boca, ardente e apertada, levou-o a um lugar que nunca teria imaginado existir, seguindo-o.

Francesca podia sentir todo o prazer que ela mesma lhe dava. Sabia exatamente o que ele queria, que precisava. Sua mão encontrou os apertados músculos do traseiro dele, através do tecido da calça e o urgiu profundamente em seu interior, celebrando o poder que esgrimia nesse momento. Celebrando o fato de que ele não pudesse fazer nada mais que elevar os quadris, impotentemente. Suas mãos seguravam o cabelo sedoso. Francesca sentia-se ardente, sexy e loucamente erótica. Parecia incrível ter tanto poder sobre um ser legendário.

Ele murmurou seu nome, com a sua voz rouca de desejo e jogou a cabeça para trás. Sem se conter mais, ele erqueu-a, tomando seus lábios, duro e impaciente, dominante e faminto, intensamente masculino.

Beijou-a até se afogar nela, os unindo tão profundamente que não sabia onde começava ela e onde terminava ele. Suas mentes e seus corpos eram um só.

Francesca. Sua vida. O ar que respirava. Seus braços a apertaram possessivamente. Seus lábios vagaram do calor de seus lábios até a garganta, baixando até encontrar os seios suaves, cheios e invitadores. Seus lábios se fecharam sobre o duro mamilo, uma tortura para os dois.

Francesca rodeou a cabeça com os braços, o embalando.

- Me diga que isto é real, Gabriel. Que somos você e eu, não o calor dos Cárpatos se elevando entre nós. - Havia uma súplica em sua voz, uma dolorosa necessidade de que fosse real.

- Só você, Francesca. - Sussurrou ele ferozmente, erguendo o rosto e fitando-a. - Olhe no interior de minha mente e lris a verdade. Está aí para que a tome. Desejo você e só você. Por ti mesma, não só por seu formoso corpo. Para mim nunca haverá outra. Ninguém poderia satisfazer este desejo desesperado que tenho a cada vez que te toco. Um desejo tão antigo como o tempo. Formosa e mágica. Você viu a lembrança dos intermináveis séculos, de todas aquelas guerras e batalhas, minha gente convertendo-se em não-mortos e as incontáveis vezes que me vi obrigado a destrui-los. Você é a razão pela qual o fiz, a razão pela qual resistia. Só você. Não foi nenhum nobre propósito, a não ser saber que em algum lugar deste planeta podia estar você. Uma menina, a princípio e que era necessário te manter a salvo. - A palma de sua mão se moveu pela curva dos quadris dela, enquanto baixava o jeans, seguindo a esbelta linha de suas pernas. - Pensava em você a cada vez que matava, quando minha vida era escura e vazia, sem esperança. Pensava em você em cada povoado ou cidade, no alto das montanhas ou abaixo no vale. Sussurrava, dizendo a você que eu estava a caminho, que continuaria te buscande enquanto existisse. E eu continuava existindo, século após século. - Gabriel fechou os olhos e suas mãos se moveram sobre seu corpo, saboreando a sensação dela. Sua perfeição, gravada a cada curva, em sua memória. Para levá-la com ele para sempre. Todo o tempo. Por toda a eternidade. - Por você, Francesca, continuei existindo. - Para levá-la com ele aonde fossem depois da morte.

Francesca sentiu lágrimas arder em seus olhos. Surpreendida, por que essas palavras pudessem comovê-la tão profundamente.

A sensação da língua dele vagando sobre seu seio, sua ternura enquanto sussurrava palavras amorosas contra sua pele era tão atraente como qualquer feitiço de que ele pudesse ter utilizado.

- Faz-me envergonhar de ter abandonado toda esperança. - Sussurrou ela com lágrimas nos olhos, enquanto segurava seu rosto.

Ele a levantou facilmente com sua enorme força.

- Não quero que sinta tal coisa, nunca. – Ele repreendeu-a, com suavidade. - Você é a força em minha mente, o ferro de minha vontade. É valente e formosa, por dentro e por fora e não mereço alguém como você. Foram tantos séculos vivendo sozinha, separada de sua gente... Para qualquer outra, teria sido um inferno em vida, mas você se preparou para fazer algo bom com sua vida.

Francesca entrelaçou as mãos na nuca dele, jogando a cabeça para trás, enquanto enredava as pernas em volta de sua cintura e se colocava sob dura ereção. Seu cabelo caiu como uma escura cortina de seda, envolvendo-os num mundo privado. Desejava a união de seus corpos, tão perfeita como o ar noturno. Como noite, a quem pertenciam, onde sua gente vivia e prosperava. Abraçou-se a ele e o envolveu com braços e pernas, a princípio lentamente, saboreando a ardente e aguda sensação dele enchendo-a com sua força, enviando prazer através de seu corpo. Sujeitou-o firmemente, tremendo de êxtase. Inclinando a cabeça lentamente, sedutoramente para a garganta dele.

Gabriel havia se alimentado e ela tremia pelo deseja de ter cada parte dele, de o consumir com sua feroz necessidade, no fogo de seu escuro desejo.

Ele sussurrou seu nome, seus braços a envolveram mais. Fechou os olhos enquanto os seios dela se moviam sobre seu peito, enquanto o apertado sexo o envolvia, o prendia com um ardente atrito aveludado.

Incrível prazer. Os dentes de Francesca afundaram profundamente em seu pescoço e o ardente relâmpago branco o atravessou, atravessou-os, fundindo-os.

Ele começou a investir nela, tomando o controle, afundando-se profundamente, procurando o centro dela. O cabelo dela deslizava sobre sua pele, sensibilizando-a ainda mais. Ela era seu mundo, seu fôlego, seu sangue, seu corpo, seu prazer. O anseio se acumulou como uma bola de fogo, uma tormenta fora de controle. Ouviu os gemidos dela, como ela fechava as incisões com a língua, numa carícia sensual, seu corpo colando-se ao dele, drenando-o até que ele desejou gritar sua alegria aos céus. Sentir isto. Experimentar isto. O amor fluiu e derramou sobre ele. Seu corpo explodiu no espaço, seguindo-a. Estrelas explodiram em todas as direções e cores, formando um caleidoscópio.

Apertou-a contra ele e seus corações pulsavam como um só, seus corpos unidos. Pertenciam-se.

Gabriel permaneceu ali, na escuridão, abraçando-a com força.

- Amo você, Francesca. De verdade.

Ela ficou quieta, com a cabeça enterrada contra o pescoço dele.

- Gabriel...

- Amo você, Francesca, muito. Muito mais de que pensei que poderia amar alguém. Não sabia quão forte podia ser tal emoção. Não estou pedindo nada, meu amor, não pense isso. Só quero que saiba o que sinto. Quero dizer as palavras em voz alta. E só para que saiba... Também adoro seu corpo.

Ela riu suavemente.

- Fui eu quem seduziu você. - Queria deixar isso bem claro. – Várias vezes.

- Não foi por falta de desejo, senhora e você bem sabe. Estava tentando me mostrar cavalheiro. – Gentilmente, ele permitiu que os pés dela tocassem o solo. - E eu fui o primeiro a dizer que te amava. Lembre-se quando estiver presunçosa.

Francesca se estirou sensualmente, voltando à face para as estrelas.

- Me leve para casa, Gabriel. Coloque salvaguardas para Skyler e me leve a casa. Quero passar o resto da noite fazendo o amor com você. - Sorriu-lhe travessa.- E você se lembre, quando se puser presunçoso, que eu sugeri primeiro.

- É justo que passe um pouco de tempo com seu companheiro. Logo nossa casa estará cheia de gente. Acredito que vai chegar hora de que fique comigo e admita que cometeu um terrível engano com essa pobre imitação de humano.

- Não é tão mau como parece neste momento. - Havia genuína perplexidade na voz de Francesca. Sem ocupar um só segundo mais em pensar em Brice, ele se vestiu, mantendo seu corpo muito perto do de Gabriel.

- Para mim está claro que demonstrava ter pouco gosto nesta pequena área antes de minha chegada. – Disse ele, com semblante sério. - Depois de tudo, mostra sentido comum em todo o resto.

Francesca começou gargalhar tão forte, que teve que colocar os braços em volta do pescoço de Gabriel para se manter em pé.

- Não posso acreditar que seja tão presunçoso depois de dois mil anos. Qualquer um pensaria que teria alguma idéia de como falar com uma mulher.

Ele inclinou sua escura cabeça para a dela.

- Meu amor, quer ouvir o que te digo? - Sua voz era mais suave que à noite. Os olhos escuros dela encontraram os dele. Ele estava olhando-a com fome. Nada mais o descreveria. Fome. - Porque seriamente quero te falar. - Sua mão acaricou o seio dela, atormantando o mamili. - Pode ouvir o que estou dizende?

Francesca estremeceu e enredeu os braços em volta dele.

- Vamos para casa, Gabriel. Skyler precisa ficar mais alguns dias no hospital e eu quero desfrutar de cada minuto a sós com você. Cada minuto.

 

Algo terrível esta acontecendo na cidade. Francesca não podia suportar mais ver as notícias. Uma onda de assassinatos e mutilações. Coisas terríveis que pareciam estar se estendende pela cidade. Seria Lucian? Seria ele o responsável pelos crimes que alagavam sua amada Paris? Se ela e Gabriel partissem, ele os seguiria?

Era mais que os brutais assassinatos, era a sensação da cidade, como se algo perverso residisse ali. Algo escuro e malévolo, escondido, esperande o momento de se elevar. De algum modo, parecia haver permeado a cidade até que os moradores fossem afetados. Estouravam lutas, distúrbios nas ruas e conflitos por toda parte.

Era importante para ela passar todo o tempo que fosse possível com Gabriel. Desejava estar com ele a cada sublevação, quando a noite era tão formosa que lhe tirava o fôlego. Desejava as horas mais moderadas da manhã. Desejava fazer amor com ele, observar como seu olhar se tornava tão intenso que a fazia sentir calor por todo o corpo. Passavam cada momento que podiam, juntos. Sua única responsabilidade era comprovar o estado de Skyler. Francesca ainda não estava preparada para renunciar seu tempo com Gabriel, mas ele era um caçador e os jornais informavam que o mal abria passo por sua cidade. Ele não podia fazer outra coisa que destruir o que ameaçava a sua família.

Gabriel subiu atrás dela, silencioso como era seu costume, com seu toque quente.

- Não é Lucian sozinho, meu amor. Acredito que Skyler e você são o objetivo dos não-mortos. Agora está a descoberto. Tenho exposto ao perigo que conseguiu evitar durante séculos. Skyle é jovem, mas sua habilidade é forte. O não-morto procura alguém como Skyler. Precisamos trazê-la para casa imediatamente e colocar fortes proteções para ela.

- Brice disse que um dia mais... - Murmurou Francesca, consciente das mãos dele.

Sempre era consciente de Gabriel. Sua rica essência, o poder de seu corpo quando se movia. Mas acima de tudo, a forma em que precisava dela. O quanto era necessário para ele tocá-la, permitir que seus dedos se enredassem no cabelo dela, tocar sua pele. A conexão entre eles. Francesca adorava a forma em que ele deslizava atrás dela e a rodeava com seus braços, suas mãos fechadas protetoramente sobre seu filho.

Seu filho crescia em seu interior, uma parte dela, uma parte dele. Um milagre que completamente inesperado. Ele acreditava ter cometido um crime imperdoável, mas ela desejava chorar de alegria. Ele a presenteara além de toda medida, além de seus sonhos. Francesca ria em voz alta. Que tola e infantil havia sido, ao pensar em caminhar para o amanhecer.

Era uma curadora, uma mulher poderosa, que conhecia seu corpo intimamente. Gabriel não poderia tê-la enganado a menos quisesse ser enganada. Aceitara o escuro desejo dele voluntariamente, devolvendo-o aumentado dez vezes. Ele acreditava ter exercido muito poder sobre ela, mas em algum nível, ela soubera sempre o que estava acontecendo. Não era uma principiante, era uma antiga. Ele não podia havê-la seduzido sem seu consentimento.

Era a chamada de um companheiro, tão forte? Ou era a atração de Gabriel, em si mesma? A lenda. O mito. O Cárpato que desejava compartilhar sua vida... Não, que precisava compartilhar sua vida com ela. Apoiou-se nele, seus corpos se encaixavam perfeitamente, como se parecesse um.

Gabriel, uma sombra em sua mente, refreou-se para não o recordar o que pareciam um para o outro. Exclusivamente. Francesca era a outra metade de sua alma, seu coração. Ela era seu mundo, a razão por que passara dois mil anos na escuridão. Ela era a razão de que lutasse duramente para liberar o mundo do não-morto. Francesca precisava saber que ele era a razão pela qual se manteve com vida durante tanto tempo como tinha feito. Pertenciam-se o um ao outro. Francesca olhou por cima do ombro, para ele. Seus enormes olhos negros estavam expressivos.

- Estou lende sua mente, Gabriel. - Disse brandamente, um pequeno sorriso intrigante em sua boca.

- Se estivesse lendo minha mente. - Respondeu ele maliciosamente. - Ruborizaria-se já.

Ela se encontrou ruborizando-se ante o som de sua voz, ante o toque de veludo.

- Alto já. Temos trabalho que fazer esta noite. – Ela respirou fundo. - Especialmente você. – Francesca pôde sentir como seu próprio coração saltava um ante as palavras. Ela estava o enviando à cidade para caçar o vampiro, para que tentasse averiguar que acontecia em seu amado lar. O mal espreitava Paris. Lucian. O anjo escuro, o anjo caído. Ela se sentiu incrivelmente triste e soube que estava captando a dor de Gabriel, tão intensa que se derramava nele como uma turbulenta tempestade.

Gabriel se afastou dela, afastando seu toque, igual a sua mente, para que ela não continuasse sentindo a intensidade de sua dor, mas Francesca girou imediatamente e o capturou no círculo de seus braços. - Calma, tranqüilidade, sua curadora é igual a sua companheira. - A mente dela encontrou a sua, infalivelmente, enviando paz e conforto.

- Estou com você, Gabriel, sempre com você. Não se sinta como se estivesse sozinho em sua tarefa.

- Se está compartilhando minha mente, Francesca, então o verá como era, um guerreiro sem igual. Deu sua vida por nossa gente, pela humanidade. Acreditei nele sempre e nunca me decepcionou. Depois de todas as batalhas, de todas as vezes que fui testemunha de suas mortes, ainda é impossível para meu coração aceitar o que sei que é certo. - Gabriel passou uma mão pelo cabelo negro, seus olhos escuros cheios de aflição. - Lutou com o vampiro noite após noite. Sofreu muitos ferimentos, ferimentos terríveis e com freqüência se interpôs entre esses ferimentos e eu. Movia-se veloz, inserindo seu corpo entre o meu e o não-morto, quando lutávamos. Nunca o ouvi se queixar, nem sequer uma vez em todos esses séculos intermináveis. Sempre fazia o que era certo, sem importar o custo para si mesmo, mas agora me vejo obrigado a o destruir.

Francesca escolheu suas palavras, cuidadosamente.

- Já não é o homem o que caças, Gabriel. É uma concha que deixou para trás. Aquele que uma vez foi grande. A alma, a mente e o coração de seu gêmeo faz muito que abandenou esta terra. Não pode pensar nele como o ser que uma vez amou, o que tinha em tão alta estima. É um vampiro, um não-morto não é mais seu gêmeo.

Gabriel segurou sua mão, mantendo-a em seu peito, sobre seu coração.

- Sei que o que diz é certo, mas não é como nenhum não-morto dos que caçei e destruí. Ele mantém certas qualidades que eu nunca teria esperado.

Ela se aproximou mais a ele, um pequeno gesto protetor que ele entesourou.

- Possivelmente essas pequenas coisas foram sua perdição, Gabriel. Possivelmente é o suficientemente ardiloso para saber que as lembranças o derrotarão ali onde ele não pode.

Ele levou a mão dela aos lábios.

- Só sei que era um grande homem e eu o amava muito. Estivemos juntos durante dois mil anos, Francesca, durante os últimos séculos nos que lutamos. Sempre estava ali, tocando minha mente, compartilhando informação, um desafio num mundo de guerras. Foi Lucian quem me permitiu continuar quando a escuridão ameaçou e o sussurro de poder me chamava. Sempre estava ali, minha missão neste mundo. Permitir que outro o destrua é um sacrilégio e dei minha palavra de honra. - Sacudiu a cabeça, sua dor era tão grande que os curvava, uma pedra em seus corações.

- Gabriel?

A voz brilhou na mente dele e Francesca a ouviu tão claramente como Gabriel. Era suave e formosa. Solitária. Preocupada. Provocou um profundo calafrio em sua alma. Como podia alguém tão mau possuir semelhante dom? Uma arma semelhante? Se ele ordenava obedecer, seria suficientemente forte para resistir à atração dessa voz?

- Se me buscar, Lucian, simplesmente revele onde está e irei a você a toda pressa.

Gabriel soava fragilizado e seu tom alarmou a Francesca. Ela segurou com força seu braço, temendo que essa voz sedutora tivesse de alguma forma, derrotado Gabriel e ele já não confiasse em suas habilidades.

- Está cansado, irmão. Não quero ter uma vantagem injusta quando há presas muito mais entretidas. Deixarei você descansar.

O contato se interrompeu tão velozmente, como tinha começado. Gabriel enterrou a face no pescoço de Francesca.

-Vê o que estou dizendo? Foi minha dor que o atraiu sua mente à minha. Mantém uma forte conexão comigo que não posso romper. - Levantou a cabeça, seus olhos negros procuravam a face dela com tal intensidade, que ela não pôde suportar seu escrutínio.

- Quero que saiba de uma coisa, Francesca. Deste-me mais felicidade no curto tempo em que estivemos juntos, que a que conheci em todos os séculos de minha existência. Sinto-me honrado de ter tido alguém tão maravilhoso como companheira, uma mulher de coragem e beleza quando eu só conheci maldade. Nunca antes tive um lar. Olho em volta nesta nossa morada e a vejo por toda parte. Entro e a vejo no aposento que preparamos juntos para Skyler e é tão formosa que traz lágrimas a meus olhos. Olho a colcha que fez para ela. É você. Consolando-a. Compassiva. Valente. Está cheia de vida, de amor e de risos. Sinto as salvaguardas que manterão os pesadelos longe dela. São fortes, iguais a você.

Envergonhada por estas palavras, Francesca afastou o olhar das negras profundezas desses olhos. De certa forma, suas palavras eram aterradoras, quase como se ele estivesse dizendo adeus. Ele segurou seu queixo com os dedos, imobilizando-a para que seu olhar pudesse capturar o dela.

- Não afaste o olhar de mim. Você merece ver o interior de meu coração e minha mente e comprovar a verdade de minhas palavras. Não há nenhuma outra mulher no mundo, como você. Não iria querer nenhuma outra. Se algo me acontecer, sei que escolherá permanecer neste mundo. Será forte para criar nosso filho com bastante amor por nós dois. Cuidaria de que nosso filho saiba quem fui e o que defendi.

- Gabriel, não! - Francesca saltou para longe dele. - Está falando de você mesmo no passado. Destruirá Lucian, sei que o fará.

Ele assentiu lentamente.

- Sim. Não tenho escolha.

Francesca se encontrou segurando-se ao braço dele, dando uma pequena sacudida.

- Não acredita que retornará para mim.

- Não. Lucian me levará com ele. - Suas mãos emolduraram a face dela. - Você é meu coração e aonde eu for, levarei sua lembrança comigo até o momento em que possamos nos reunir novamente. É imperativo que você, Skyler e nosso filho permaneçam a salvo.

- Sou sua companheira, Gabriel. Insistiu no ritual, prendeu-nos, deu-me um filho. Não pode ir à batalha com a idéia de que não voltará. Os companheiros devem permanecer juntos. - Protestou ela. Estava convencida do que dizia, e pela primeira vez compreendeu que ele era tudo o que tinha desejado na vida. Gabriel, seu companheiro. Sua legenda que voltava à vida.

Um pequeno sorriso apareceu nos lábios dele.

- Você é valente, meu amor, permanecerá aqui, quando outros não fariam. Conheceu uma vida nesta terra que poucos teriam suportado. Nunca abandonaria Skyler quando ela precisa tanto de você. Deve ser protegida todo o tempo e deve aprender a conhecer seu próprio poder e força. Sem você, Skyler retrocederia ao interior de sua mente e isso seria uma perda para nossa gente. Em seu coração, você sabe que é só o vínculo que forjaste com ela, que a mantém conosco. Não pode deixá-la. E nosso filho, está crescendo dentro de você. Parte de mim, parte de você. Deve ser você quem o eduque e o guie para que tenha a força que outros não têm. Não gostaria que nenhum outro fizesse esta tarefa. Ele deve te conhecer e através de você, me conhecer. - Gabriel beijou a fronte dela, gentilmente, brincando com o cabelo dela.

- E você deve estar aqui para me ajudar nessas tarefas, Gabriel. - Replicou Francesca, lutando por manter a calma. Ele estava calmo, tranqüilo. Sentia seu profundo pesar, mas havia aceitação nele, completa aceitação ante o futuro. – Estou falando sério, Gabriel. Chame os outros. Chame o Gregori. É um grande caçador de não-morto. Não conhece sua reputação, mas os vampiros fogem dele. Há vários outros que poderiam ajudar. Aidan viria dos Estades Unidos. É temido pelos que caça. Seu irmão é poderoso e o Príncipe viria em sua ajuda. Todos o fariam. Lucian não poderia derrotar a todos.

Gabriel levou a mão dela à boca, atrasando-se sobre a pulsação freneticamente de sua mão.

- Tudo isto é um jogo para o Lucian, Francesca. Agora, ele está absorvendo o que este século tem a oferecer, alimentando seu intelecto, mas logo se aborrecerá e o jogo começará a sério. Se romper a promessa que fiz ou minha palavra de honra, não poderia viver comigo mesmo, e pior, ele usaria seu poder de tal forma que destruiria a todos os que se colocarem diante dele. O Príncipe tem companheira, acredito que os outros também. Suas amadas poderiam ser o objetivo. Não podemos nos arriscar. Você não gostaria que ele fizesse tal coisa.

Ela descansou a testa em seu peito, esforçando-se por não chorar.

- Estou muito assustada, Gabriel. Atribui-me todo tipo de traços maravilhosos, mas sou uma mulher que tinha escolhido terminar sua solitária existência antes que você chegasse. Agora, você acredita que eu não só escolheria ficar aqui sem você, mas o farei durante ao menos dois séculos mais. Sozinha.

- Ou mais se precisar. O bebê provavelmente será um menino. Precisará que alimente sua vontade até que encontre a sua companheira.

- Pode derrotar Lucian. Sei que você pode. Deve haver uma forma, Gabriel. Temos que encontrar uma forma. – Ela levantou a cabeça para olhar diretamente em seus olhos. - Examinei as lembranças que você tem dele. Sei que foi melhor que ele algumas vezes. Pegou-o de surpresa e o prendeu a terra com voce. Ele não esperava um ataque semelhante de sua parte e funcionou. Só temos que pensar em algo similar, algo que ele nunca esperaria. Trabalharei com você. Não lhe ocorrerá que uma mulher possa fazer tal coisa. Não sorria, Gabriel, estou falando sério.

Ele inclinou sua cabeça escura para beijá-la. Ela era bela em todos os sentidos. Quando a olhava, esquentava-se. Quando ela o falava desta forma, derretia seu coração.

- É incapaz de fazer mal a uma mosca, Francesca. Não gostaria de me ajudar; apesar disso, tentaria. Mas a curadora que há em voce evitaria que destruísse a outro. Ele tem uma aparência formosa e é mais mortal que todos outros. Duvidaria, e ele a mataria. Eu nunca permitiria que acontecesse algo semelhante.

- Então não o enfrente, até que tenhamos esboçado um plano que funcione. - Disse Francesca decididamente. - Não o entregarei a ele tão facilmente. Não o farei, Gabriel. Deve lhe derrotar e viver.

- Estivemos unidos durante dois mil anos. - Repetiu ele tristemente.

- Nós estamos unidos agora. O que acontece com você, me acontece. Não permitirei que o leve com ele. - Disse ela ferozmente. Seu cabelo sedoso voava em todas as direções. Ele está utilizando sua voz para o derrotar, utilizando suas próprias emoções. Você é um antigo e a força de seu amor é enorme. Sabe o que sente por ele enquanto que ele não pode sentir nada. Essa é sua vantagem. Deve separar os restos dele que ficam sobre esta terra, daquele que perdeu. Ele já não é Lucian, seu irmão gêmeo, seu herói. É um pestilento ímpio e essa foi sua escolha.

Gabriel sacudiu a cabeça.

- Desejaria que fosse certo, meu amor. Tornaria minha tarefa muito mais fácil, mas Lucian não teve escolha. Esperou muito tempo por mim, deixou passar o momento em que poderia enfrentar o amanhecer. Esperou para me proteger, apesar de ter perdido suas emoções muito antes que eu. Esperou muito, pelo meu bem. E no final foi incapaz de levar a cabo uma escolha racional. Estava muito perto. Um dia, se elevou sem mim e já transformou. – Gabriel inclinou a cabeça, envergonhado. - Eu lutava com o demônio. Estava comigo constantemente, chamando, me sussurrando sobre tudo o que estava perdido para mim. Pensei que me converteria se não escolhesse o amanhecer. Havia tanta morte a nossa volta, tanta violência. Com freqüência, me pergunto, se minha luta o empurrou ao limite.

Francesca levantou os braços ao pescoço dele.

- Não faça isto a você mesmo, Gabriel. Já temos suficiente carga para suportar em nossa vida sem tomar as que pertencem a outros. Deve honrar a última petição de Lucian e o derrotar. Lembre a seu autêntico irmão, que você compartilhou sua vida durante esses dois mil anos. Lutou por seproteger para que pudesse me encontrar, e conseguiu. Seu irmão gostaria que vivesse, não que morresse.

Ele roçou as mechas de ébano que emolduravam a face dela.

- Deste-me muito que pensar, Francesca. Enquanto isso, devo caçar esta noite, os vampiros menores que invadiram a cidade. Deixaram um mau cheiro no ar, impossível de ignorar.

- Enviarei as colchas e peças de cristal colorido nas que estive trabalhando. Tenho um negócio que manter. - Disse Francesca, tentando pensar em coisas que evitassem que vivesse com o terror constante do que Lucian poderia fazer a Gabriel.

- Não há necessidade de se preocupar. - Disse ele com voz tranqüila. Com voz mágica e tão pura que Francesca imediatamente se sentiu melhor. Ele era como uma brisa limpa soprando através de seu corpo, afastando o terrível medo.

Francesca sabia que ele estava utilizando sua voz, sua mágica voz para ajudá-la, mas não se importou. Pressionou o abdomem com as mãos e pensou em seu bebê com mais tranqüilidade. Gabriel, como todos outros de sua raça, acreditava que seria um menino. Embora ela sabia que era uma de suas preciosas meninas. Ela tinha uma filha. Frágil e vulnerável. Francesca respirou e deixou o ar escapar lentamente. Era seu bebê, uma das estranhas meninas que nasciam por causa de que durante um tempo, ela tinha sido capaz de mudar a química de seu corpo, para caminhar sob o sol? Como curadora era importante encontrar a resposta. As meninas eram tão incomuns em sua raça e muito poucas sobreviviam depois dos nove meses de gestação. A única, num século e ainda enfrentaria seu primeiro e difícil ano de vida. Francesca não queria enfrentar essa luta sem Gabriel. Não queria perder sua menina e não o ter o seu lado, uma rocha firme em quem se apoiar.

Os olhos de Gabriel encontraram os dela com súbito entendimento. Abraçou-a, quase esmagando o corpo esbelto entre os braços. Embora ao mesmo tempo, sustentou-a tão meigamente que a fez desejar chorar.

- É impossível. Nossa família produziu só uma filha em oitocentos anos. Antes disso, haviam passado quase mil anos e a menina não sobreviveu. Não podemos ter sido agraciados por Deus, com uma menina.

Francesca se apoiou nele, saboreando sua ternura, sua pele, sua forma masculina.

- Examinei-a antes quando você saiu para se alimentar. É uma menina e se apega à vida ferozmente. Não quero confrontar esta prova sozinha, Gabriel. Encontre uma forma de viver por nós. Tem razão sobre Skyler. Sem minha ajuda, sem sua fé em mim, ela deslizará para trás, em sua mente. Certamente perderemos outro de nossos homens ante o não-morto. Mais ainda, perderemos um brilhante e estranho tesouro. Não posso fazer isso se você, Gabriel. Viva por nós.

Ele enterrou a face na sedosa cortina dos cabelos dela.

- Não posso fazer outra coisa, já que o que ordena, meu amor. É meu dever cuidar de sua felicidade. Encontrarei uma forma.

E ele fala a sério. Francesca pôde perceber a resolução em sua voz. A debilidade havia desaparecido, igual à aceitação de sua própria destruição. Lucian o tivera durante dois mil anos. Francesca não o entregaria tão facilmente a seu gêmeo escuro. Lutaria com cada célula de seu corpo, com cada arma que possuía para o manter com ela. Lucian não ganharia. Não importava que fosse o gêmeo de Gabriel e tivesse sido um grande homem uma vez. Agora era a maior ameaça para sua família. Ela encontraria a forma de combatê-lo. Havia uma forma. De algum modo. Havia uma forma.

Ficaram abraçados durante alguns minutos, conscientes dos pensamentos um do outro. Cada um decidido a encontrar a forma de derrotar o vampiro.

- Deve partir. – Sussurrou Francesca, finalmente e contra vontade. - Tenho muito que fazer esta noite e devo atender Skyler. Fui negligente com muitas de minhas responsabilidades.

O sorriso de Gabriel foi lento e sexy, desses que paravam o coração.

- Estou muito feliz de ter sido capaz de te proporcionar tal distração.

Sem nenhuma razão aparente, Francesca encontrou ruborizando-se e baixou a cabeça para que o cabelo escondesse sua face. Ele sorriu.

- Minha formosa mulher. Não posso acreditar que ainda se ruborize depois de tudo o que temos feito juntos.

- Pelo menos não mencionaste minha idade. - Disse ela.

- Não estou tão louco, embora tenha que admitir que não tenho muita prática com as mulheres.

Gabriel fez-lhe uma reverência. Reverência curiosamente cortês que sempre ele fazia e que parava o coração dela. Francesca o olhou fixamente.

- , Gabriel. Está com esse olhar... Hum... Tenho muito que fazer.

A mão dele se moveu possessivamente sobre o cabelo dela.

- Nada é mais importante que satisfazer as necessidades de seu companheiro. - Seu rosto era inocente e muito sério.

Francesca piscou e depois lhe deu um bom empurrão.

- Isso se dizia no século passado, antigo. Sou uma mulher moderna com muitos compromissos.

- É uma mulher que se empenha em rondar entre homens humanos e estou começando a achar tedioso.

As sobrancelhas dela se arquearam.

- Tedioso? - Repetiu. - Ouvi uma ameaça velada por alguma parte?

Ele inclinou a cabeça para beijá-la.

- Não foi absolutamente velada. - Seu sorriso era infantil e sedutor ao mesmo tempo. - Não posso deixar de admitir que me incomodam todos os que procuram sua atenção quando eu sou seu companheiro. Como antigo que sou estou acima de coisas tão corriqueiras.

Francesca gargalhou.

- Está bem acima de alguma coisa, mas não estou de todo segura de que é.

- Cuidado esta noite, Francesca. - Advertiu Gabriel, enquanto deslizava através para a porta. - Deve lembrar sempre que agora é um objetivo e também Skyler.

- Enviarei uma mensagem a Aidan sobre essa família, pedindo que eles não se atrasem. Dessa forma quando Skyler estiver em casa, poderá estar protegida enquanto dormimos. - Seus olhos escuros ficaram súbitamente ansiosos. - Gabriel, não permita que Lucian mine sua confiança. Realmente precisamos de você. Nossas filhas.

Ele parou na porta, voltando-se para fitá-la. Seu mundo, a única alegria real que havia conhecido.

- Adoro esta tua casa. - Respondeu brandamente.

Ela o observou sair.

- Nossa. – Francesca corrigiu, sabendo que ele ainda poderia ouvi-la, mesmo com a porta estava fechada. A audição de Gabriel era fenomenal e com freqüência compartilhava sua mente.

Esta era sua casa, sua vida. Gabriel teria que se separar de seu irmão gêmeo queria sobreviver à batalha. Francesca estava colocando cuidadosamente as colchas em enormes caixas, quando de repente lhe ocorreu que Lucian poderia o conduzir para fora da cidade e longe dela. Sua mão voou protetormente à garganta.

- Deixe de se preocupar pelo que não aconteceu. - Havia amor na voz de Gabriel e dava a sensação de uma carícia.

Ela olhou-se no espelho.

- Deixa de estar no mundo da lua e continue trabalhando. Tem muito que fazer e pouco tempo para tanto. – Ela foi muito severa consigo mesma, mas uma sensação de calor atravessou seu corpo, quando a suave risada de Gabriel ressoou em sua mente.

Francesca completou tantas tarefas como pôde. Recebeu pedidos de peças de cristal e de colchas. Enviou as que havia terminado e pagou as faturas meticulosamente. Havia refúgios e hospitais que chamar. Eram as obras de caridade que havia deixado de lado e amigos com os quais queria manter contato. Manteve conversas breves, mas proveitosas. Era necessário manter a aparência humana todo otempo. Estava firmemente implicada na sociedade e não podia desaparecer sem mais. Seus contatos seriam úteis para Skyler.

Uma vez que as conversas telefônicas foram concluídas, Francesca foi até o hospital, explorando a sua volta, em todo o caminho. Estava preocupada com Skyler, preocupada de que algo fosse perturbar os cuidadesos planos que tinha para ela. Tinha estado vagamente inquieta desde que encontrara o repórter. Algo nele a incomodava intensamente. Era o tipo de homem que poderia lhe causar tremendos problemas. Caminhou até o hospital, saudando as enfermeiras com um ondeio de mão, enquanto se dirigia para o aposento de Skyler. Seu coração quase caiu nos pés, quando captou uma visão do repórter postade a poucos metros da porta do quarto. Francesca se deteve durante um momento, ondeande sua mão para criar uma ilusão, enquanto se ocultava. Enviou sua suave voz musical à frente, assim que seu corpo pareceu mover-se rapidamente, enquanto chamava uma enfermeira invisível do outro lado.

O repórter girou a cabeça, dando uma olhada em sua esbelta forma e no cabelo longo. Ele apressou-se, na intenção de alcançá-la. Francesca sorriu esperando, até que ele desapareceu, antes de entrar no quarto de Skyler.

A garota voltou à cabeça. Seus olhos cinza, enormes e formosos, fixaram Francesca. Havia calor em seu olhar, que ainda não havia estado antes ali.

- Estava te esperando. - Sua voz era forte e Francesca compreendeu pela primeira vez quão melodiosa era. - Acreditei que nunca chegaria.

- Tinha um pouco de trabalho que fazer. - Disse Francesca, sentando-se e estendendo sua mão para ela. - Faço janelas de cristal coloridas e também colchas para pessoas que precisam.

Um lento sorriso curvou a boca da jovem.

- Tenho aqui meu amigo, que me faz companhia. – Ela abraçou o lobo de pelúcia. - Eu gosto da forma em que diz isso "pessoas que precisam". Gente como eu. Notei que tenta uma forma de fazer com que me sinta como se tudo estivesse bem. Algumas vezes, quando minha mente está caótica, penso em voce e te sinto em minha mente. - Os longos cílios baixaram, ocultando sua expressão, mas Francesca sustentava sua mão e podia ler seus sentimentos confusos. A garota estava lutando para se adaptar à idéia de voltar a viver.

- Estarei com você a cada passo do caminho, Skyler. – Francesca reconfortou-a. - Não estará sozinha e não espera que enfrente mais do que possa suportar. Vejo que está preocupada com seus estudos. Não é necessário pensar nisso agora.

Skyler voltou à face para a parede.

- O Doutor Brice diz que terei que ir à escola imediatamente ou ficarei atrazada. Não quis dizer-lhe, mas não fui à escola. Sou diferente. Nunca daria certo.

- É diferente - Admitiu Francesca - mas isso não é mau. A escola não tem importância. Podemos te proporcionar professores e eu posso ajudar quando for necessário. Certamente não é nada com que se preocupar. O doutor Brice é um bom homem e quer o melhor para você, mas não tem nem idéia de seus talentos especiais e seus dons. Não entende o que é ser uma mulher e que abusem de você. Não entende o que é ser uma menina e não ter a ninguém que te guie, ninguém que a ame incondicionalmente. Ele não tem nada que dizer sobre seu futuro, Skyler.

Os dedos de Skyler se retorceram, um pequeno gesto que traía seu nervosismo.

- Eu não gosto de estar aqui. Nunca me sinto a salvo a menos quando você está aqui, O... - deteve-se como se tivesse feito algo mal. - Algumas vezes, o outro toca minha mente e me sinto segura.

O coração de Francesca bateu forte.

- Gabriel?

- Ele está aqui às vezes, mas é diferente. O outro nunca diz nada, na realidade, só está aí, me tocando, mas posso sentir que não estou sozinha e ele somente vem quando estou muito assustada. Como quando tenho um pesadelo e me acordo. No meio da tarde, quando esteve aqui esse desconhecido. Eu não gostava dele e estava tão assustada. Foi então quando o outro tocou minha mente. Foi consolador e reconfortante.

Francesca mordeu o lábio. O outro tinha que ser Lucian. Ele era forte o bastante, para derrotar a luz do dia e se estender para tocar Skyker, quando ela se assustava? Estava tão conectado a ela, que podia ler seu medo, mesmo quando sua força estava em seu ponto mais baixo?

- Que desconhecido entrou aqui, Skyler?

- Um homem. Fez-me um montão de perguntas sobre você, mas não respondi nem olhei. Retraí-me, como estou acostumada a fazer, no interior de minha própria mente. - Skyler continuava olhando à parede, como se estivesse ligeiramente envergonhada de si mesmo. Suas mãos seguravam o pequeno animal de pelúcia até que os nódulos de seus dedfos ficaram brancos. - Não sei se posso continuau fazendo isso, quando estou realmente assustada.

Francesca acariciou amavelmente o cabelo dela. Não podia esperar mais, para levá-la para casa, onde estaria rodeada de amor, de coisas femininas. Não podia esperar mais, para cuidar dela, de seus cabelos que pareciam estar sem cuidados a muito tempo.

- É um repórter, carinho, nada mais. Alguém contou uma história a ele, sobre mim e ele quer escrever sobre isso. Não tem nada que ver com você, mas me assegurarei de que haja um guarda em sua porta todo o tempo. Ninguém mais entrará aqui. - Deveria já ter colocado um guarda, muito antes.

Um pequeno som escapou da garganta de Skyler, algo entre uma risada e um grito.

- Um guarda? Não acredito que tenhamos que ir tão longe. Acredito que é um pouco tarde para guardas.

Francesca se inclinou sobre a adolescente e se roçou a testa dela com os lábios, numa pequena carícia.

Não é muito tarde para ter um guarda aqui, jovenzinha. Você é formosa e única, um estranho tesouro. Tenho intenção de cuidar e te manter a salvo todo o tempo. Não há necessidade de ter repórteres estúpidos irrompendo seu quarto de hospital e te interrogando.

- Ele perguntava coisas estranhas. Queria saber se eu já tinha visto você, durante o dia. Não é uma coisa estranha para perguntar?

Francesca ficou quieta. Havia muitas pessoas em Paris que atestaria que tinha sido vista durante as horas diurnas. Havia fotografias que provavam. Sua foto havia aparecido mais de uma vez nos jornais em várias funções de caridade por toda a cidade. O repórter logo perderia o interesse nela se é que não era mais que um simples repórter e ela não encaixaria no perfil que ele estava procurando. Mas se era mais que um repórter, se ele era um membro da sociedade de caçadores de Cárpatos, procurande provas de sua existência, precisava saber.

- Francesca? - Skyler soava cansada e desamparada. - Quero ir para casa com você. Quando posso sair daqui? Tudo me assusta, inclusive o doutor Brice, e sei que ele tem boa intenção. É só que não consigo estar perto dele. Não o sinto igual a antes.

Skyler era muito sensível às emoções dos outros. A sua volta, o ambiente se espessava. Francesca tinha que conseguir que Brice permitisse que a menina fosse para casa com ela. Teria que enfrentá-lo e usar o poder de sua voz se fosse necessário. Poderiam protegê-la melhor se ela estivesse em casa.

- Acredito que tem razão, carinho. Procurarei o bom doutor e conseguirei sua permissão para que a deixe sair. Você gostará de casa. É grande, tem muitos aposentos e está cheia de todo tipo de livros e tesouros.

- Vi cristais coloridos nas Igrejas. Isso é o que faz você?

- A maior parte das vezes, confecciono peças para casas. Algumas vezes me pedem que faça janelas para Igrejas ou catedrais. Prefiro fazê-las, para casas. Desejo sabê-lo tudo sobre as pessoas e conseguir sentir a sensação de quem é e do que precisam. Tento incorporar sensações de segurança e conforto nos padrões. - Francesca encolheu os ombros, casualmente. - Algumas vezes tenho êxito.

- Posso aprender como fazê-los? - Havia interesse em sua voz. Autêntico interesse. - Uma vez, fiz desenhos de lobos. São tão formosos. Estava acostumada a ler tudo o que podia encontrar sobre eles. Por isso, adoro meu lobo de olhos azuis. Sempre quis estudá-los, mas sei que isso nunca acontecerá. Não aqui, de qualquer modo. Mas poderia fazer um desenho em cristal colorido.

- Pode fazer o que quiser, Skyler. Se deseja estudar o comportamento dos animais, apoiarei você. E sei que pode trabalhar o cristal colorido. Eu adoraria trabalhar com você. Descansa enquanto vou procurar ao Brice. - Deu um golpecito gentil ao lobo e se inclinou para beijar a cabeça da garota antes de sair.

 

Francesca mordeu o lábio enquanto fechava a porta do quarto de Skyler. O repórter a estava esperando, como ela sabia que estaria. Havia ouvido seus passos, o som de seu andar. Leu sua determinação a enfrentá-la, enquanto falava com Skyler. Muito bem, pois era o que ela também queria. Precisava de informação e ele estava esperando convenientemente do outro lado da porta. Não teria que ir buscá-lo.

O homem se voltou, de repente, com um olhar decidido na face.

- Preciso falar com você.

O sorriso de Francesca foi misterioso e incitante.

- O que posso fazer por você?

Os olhos dele a devoravam, vagando livremente por seu corpo. Havia algo nela que estava deixando-o louco. A forma em que ela o olhava, o balanço de seus quadris, seu sorriso provocante. Nunca havia conhecido a uma mulher que o provocasse, como esta. Ela gostava de mulheres, desde que se mantiveram em seu lugar, mas costumava a pagar pelo direito de seus corpos e o mantinha estritamente como uma questão de negócios. Nem confusões, nem enredes emocionais. Esta mulher era diferente da mulher comum. Havia algo misterioso e sexy nela. Poderia ficar olhando para os olhos dela, para sempre e ouvindo o som de sua voz. No momento, suas suspeitas lhe pareceram completamente ridículas. Ela não era um vampiro que fazia da raça humana sua presa. Era uma mulher de talentos extraordinários e desejava protegê-la dos que a buscavam para estudá-la.

Francesca podia sentir o poder de Gabriel fluindo através dela, enquanto olhava os olhos do repórter. Não era igual ao dela, mas um poder mais agressivo. Gabriel se asseguraria de que este homem nunca lhe fizesse mal, faria o que fosse necessário para salvá-la. Fez com tanta facilidade como fazia tudo. As ordens fluíram através da mente dela até a do repórter. Não fazia idéia de como Gabriel podia fazer as coisas que fazia. Estava ajudando-a ao mesmo tempo em que caçava ao não-morto. Inclusive quando o perigo era alto para sua própria vida.

- Nada é mais importante para mim que sua vida.

Sua voz foi debilitando, afastando-se como se ele estivesse movendo-se para algum lugar.

Francesca não procurou manter a conexão entre eles. Queria se concentrar inteiramente no repórter. Precisava saber tudo o que ele sabia sobre a sociedade da que fazia parte, uma sociedade que tinha caçado e matado, humanos e Cárpatos, chamando-os de vampiros.

Sorriu-lhe.

- Barry Woods? Disse-me que era repórter. Lamento tanto sobre a outra noite. Estava com muita pressa. Estava atrasada para uma entrevista, não posso me lembrar exatamente o que consersamos. Juro que agora terá toda minha atenção. Importaria que fôssemos a algum lugar e tomar um chá?

- Francesca. Ele é muito suscetível a você e isso pode ser perigoso.

Desta vez havia um grunhido inconfundível na voz de Gabriel.

Ela elevou o queixo, embora sabia que ele não podia vê-la.

- Bah...Posso dirigir este problema, sozinha. Você um peixe maior que pescar. – Ela soava ligueramente arrogante, insolente, o advertinde que retrocedesse.

Barry Woods a olhava boquiaberto, surpreso que de que ela o buscasse ativamente. Ela se inclinou aproximando-se, envolvendo-o em sua misteriosa fragrância. “Nunca tentará voltar a ver o Skyler Rose”. A ordem foi uma das mais fortes que havia emitido. Pôde ler como ele aceitava sua autoridade, mas ao mesmo tempo, Francesca guiava o repórter a uma dos quartos vazios, com a intenção de assegurar sua obediência, tomando seu sangue.

- Não o fará! - A ordem foi aguda e autoritária. Agora Gabriel não estava brincando. – Me ocuparei deste palhaço para que não faça mal a nossa menina, mas você não fará tal coisa.

Exasperada Francesca decidiu não discutir sobre as táticas tirânicas de Gabriel. No momento, sentiu que Gabriel relaxava, sentiu sua diversão e sacudiram a cabeça ante a estupidez dos homens.

- Tem algumas pergunta a me fazer? - Inquiriu brandamente, olhando diretamente os olhos de Barry Woods. - Ou você tem alguma informação que acredita ser importante, para me falar?

Ele podia sentir-se cair para frente, profundamente, até que esteve tão hipnotizade que quis ficar com ela, ali, para sempre. Pigarreou, incapaz, de se afastar desses formosos olhos.

- Tenho amigos que ouviram coisas sobre você. São homens perigosos. Caçam vampiros. Vampiros de verdade, não essas coisas dos filmes. Ninguém acredita que essas criaturas existam, exceto nós. Estivemos reunindo provas durante anos. Só precisamos de um corpo, algo tangível para que o mundo leve a sério. Agora, acreditam que somos fanáticos, loucos, mas somos científicos e estamos tentando salvar o mundo.

Francesca o envolveu em ondas de ternura, aumentando sua aprovação, com a idéia de que acreditava nele e no que ele estava fazendo. Ele suava, mas seu olhar continuava preso ao dela. Queria fazer o que ela quisesse, algo que a fizesse feliz. Desejava que ela acreditasse nele.

Francesca inclinou a cabeça para um lado, para que seu cabelo caísse numa sedutora cortina de seda sobre o ombro e se caísse até sua cintura.

- Por que alguém pensaria algo assim de mim? Vivo nesta comunidade já há algum tempo e me envolvi em muitas coisas. Acredito que minha vida é um livro aberto. Não será muito difícil encontrar pessoas que me conheçam.

Woods se inclinou para frente. Precisava ouvir a pureza dessa voz, precisava tocar seu cabelo. Não estava realmente seguro, do que era mais importante nesse momento.

- Acredito que posso conseguir provas indiscutíveis de que não é você um vampiro. - Havia um traço de humor em sua voz. A idéia de que ela estivesse entre as filas de não-mortos era totalmente ridícula. Podia convencer seus companheiros, de que estavam equivocades com ela e a tiraria de sua lista.

- Há muitos de vocês? - Francesca solicitou a informação, moderadamente. - Há muitos outros nomes nesta lista de ameaças potenciais? Possivelmente posso o ajudar, de algum modo.

- Agora temos que nos proteger. Perdemos muitos des nossos. É uma guerra, uma guerra de verdade, entre eles e nós. Só conheço alguns dos nomes dos outros membros, pois nossas reuniões são reduzidas. Usamos números de telefones e lugares da Internet para nos deixar mensagens. Dessa forma, se a sociedade for descoberta, perderemos poucos.

Francesca podia ver que havia algo, que o deixava relutante a compartilhar os nomes dos que estavam na lista de vampiros, até estando profundamente enredado em sua compulsão. Empurrou ainda mais em sua mente e encontrou um estranho fenômeno. Imediatamente se estendeu em busca de Gabriel e compartilhou a informação, assombrada pelo que tinha encontrade na mente de Barry Woods.

- Ele está sob a influência de algum tipo de hipnose. - Replicou Gabriel. - Posso mudá-la, mas poderia ter conseqüências. Posso eliminar todo rastro seu, de sua memória. Não é difícil extrair a informação de sua mente. Ele nunca saberá.

- Adiante então, Gabriel. Não quero tê-lo por aqui muito mais tempo.

Francesca queria ocupar-se de seus assuntos e voltar para Gabriel. Não gostava que ele estivesse pela cidade caçando ao não-morto. Queria-o de volta, na segurança de sua casa. Queria Skyler a salvo entre muros de sua casa. Queria que o repórter se fosse de uma vez.

- Está tentando me distrair de minha tarefa com seus caprichosos pensamentos? - Havia uma frisada carícia na voz de Gabriel, roçando as paredes da mente dela, fluindo em seu corpo, com calor e excitação.

- Caprichosos pensamentos? Precisa de uma verificação, pequeno. Seu mundo de fantasia parece estar crescendo mais e mais com o passar do tempo. Quero você em casa para que tire o lixo. Ela estava olhando diretamente para Barry Woods, para que Gabriel pudesse usá-la como seu instrumento, para que pudesse "ver" o repórter e extrair a informação que precisavam de sua mente.

As brincadeiras de Gabriel levantaram seu espírito, dando a impressão de uma limpa e refrescante brisa que se movia através de sua mente, apagando suas preocupações.

Francesca sorriu ao repórter. Gabriel tinha o que precisaavam e já era hora de que ela reforçasse sua ordem mais importante. Inclinou-se para ele, para que seus olhos sustentassem seu olhar.

- Nunca, sob nenhuma circunstância, se aproximará novamente de Skyler.

Francesca sentiu o poder de Gabriel movendo-se através de sua mente, veloz e mortal, inquebrável, implacável. Emitiu sua própria ordem, mais forte ainda. O repórter a protegeria, assegurando-se de que os outros a deixavam em paz. Francesca sacudiu a cabeça ante a veemência dessa ordem, mas se sentiu valiosa para ele. Apreciada.

- Você é apreciada. Agora faça alguma coisa, que se supõe que as mulheres fazem. Algo não que me preocupará, absolutamente.

- Cuidado com o que diz! – Francesca tentou soar indignada, mas ela a estava fazendo rir com suas tolices.

- Não são tolices. Estas são as ordens de seu companheiro e deveria as ouvir e obedecer. – Ele soava tão arrogante, como só Gabriel podia ser.

- Mais uma vez, você mostra sua idade. Despertaste no século vinte e um. As mulheres já não escutam e obedecem aos homens. Que má sorte. Tenho trabalho a fazer e você está em algum lugar. O que está fazendo?

- Fazendo secretos rituais masculinos.

Francesca se encontrou gargalhando. Woods a sobressaltou sorrindo e estendendo a mão para estreitar a sua. Quase que ela havia se esquecido de sua existência.

- Obrigado por deixar-me tomar seu tempo, desfrutei do chá. – Ele estava enérgico e sério. Gabriel tinha assegurado sua obediência e o repórter estava fazendo exatamente o que lhe fora ordenado. Estava deixando Francesca e indo compartilhar a informação com seus amigos. Acreditariam-no. Francesca era uma humana com extraordinários talentos, mas caminhava à luz do dia e bebia chá. Woods estava seguro de ter compartilhado ambas as coisas com ela.

Francesca sorriu amavelmente.

- Estou encantada de tê-lo conhecido, senhor Woods. Boa sorte com seu trabalho.

Francesca voltou-se e abriu passo pelos corredores, movendo-se silenciosamente. Estava em busca de Brice. Com freqüência, ele dormia num dos aposentos vazios, se trabalhara todo o dia e até tarde na noite. Quando não estava assistindo a eventos sociais, Brice passava a maior parte de seu tempo no hospital. Captou seu aroma e se voltou infalivelmente para o pequeno quarto no final do corredor. Era um dos lugares favoritos de Brice para se esconder.

 

Gabriel se moveu silenciosamente pelo de cemitério, o mesmo lugar onde havia passado tantos anos, preso na terra. A terra estava revolvida onde os jazigos haviam sido abertos e os ataúdes transladados, para abrir passo ao progresso. Sacudiu a cabeça ante as coisas da vida. Cem anos atrás, ninguém consideraria perturbar um jazigo, de tal forma. Seria um sacrilégio. O mal espreitava Paris e dormia dentro deste antigo cemitério que continha os corpos de tantos mortos.

Enquanto se movia através da terra sagrada, como um fantasma silencioso, pensou na batalha de anos atrás, quase dois séculos atrás. Havia encontrado Lucian sobre sua última vítima, um homem próximo aos trinta anos. A vítima havia visto drenada de seu sangue. Era um boneco de trapo sem vida, que Lucian tinha jogado descuidadamente no chão, quando se voltou para enfrentar Gabriel. Como sempre, Gabriel fora envolvido pela elegância de seu gêmeo, a forma em que se movia, tão silenciosamente. Nunca havia rastro de sangue em sua roupa, em seus dentes ou unhas. Estava sempre imaculado. Nada nele parecia diferente, embora fosse um terrível monstro, não o legendário caçador sobre o que sua gente sussurrava.

A lembrança de seu irmão, alto e elegante e tão cortês, enviou uma onda de amor através de Gabriel. Não o sentia a muito, só lembtava a emoção, mas agora era forte e mais intensa que antes. Gabriel inclinou a cabeça. Lucian. Seu irmão. A culpa o afligia e ele sacudiu a cabeça com decisão para esclarecê-la. Essa seria sua destruição. Sua mente tinha que estar limpa e concentrada na caça. Precisava de cada vantagem sobre os não-mortos. Claramente estavam ali.

Um jazigo despertou seu olhar. Voltou-se para examiná-lo. Terra recém escavada e era uma das mais novas de cemitério. A maquinaria pesada não a havia alcançado ainda e ele estava perto do muro de pedra. Tocou a terra e sentiu as vibrações das forças destruidoras. Sensibilizado, afastou a mão. A terra gemia por causa do toque da vil abominação. Permaneceu abaixado e seus olhos procuravam no solo de cemitério, enquanto seus sentidos esquadrinhavam a sua volta.

Gabriel suspirou. Ouviu o suave retumbar de botas na terra. Som pesado da respiração de ghoul que um vampiro havia criado. Criaturas perigosas, os ghouls viviam para servir seus amos, alimentando-se de sangue corrompido e da carne de humanos. Eram vis e não tinham piedade. Esperou, seu poder crescendo ainda mais, acumulando-se até que fluiu dele e envolveu o ar que o rodeava.

O ghoul se aproximava por trás. Aproximava-se arrastando os pés, um ser malvado, torpe, mas muito ardiloso e impossivelmente forte. Um ser humano estaria em grave perigo ao encontrar-se com um dos serventes de vampiro. Gabriel era um dos antigos, poderoso e muito mais experiente do que o ghoul havia pensado. Quando a grotesca criatura fechou a distância entre eles, Gabriel deu a volta e capturou a cabeça deformada entre as mãos sacudindo-a com força, para romper o pescoço. O som foi estrondoso no silêncio da noite. O monstro gemeu ruidosamente, agitando violentamente os braços, mas Gabriel desvaneceu. Sua velocidade era muito grande para a macabra marionete.

O ghoul chiava como um animal raivoso, de dor e fúria. Moveu-se com passos corcoveantes, balançando seu corpo de um lado a outro, procurando Gabriel. Procurando como tinha sido programade para fazer. Sua cabeça caía em seu ângulo doentio e a criatura babava continuamente. Gabriel se materializou diante dele, mergulhando sua mão, profundamente dentro da cavidade torácica e arrancando o coração, já morto. Imediatamente um relâmpago golpeou a terra, incinerando o corpo até as cinzas. Gabriel lançou o órgão putrefato dentro da nervura branco azulada e se afastou, sacudindo a cabeça ante o horror da criatura já há muito, morta.

Sentiu suas presenças, antes de vê-los. Três vampiros se moviam silenciosamente para ele, deslizando através do ar para que seus pés não tocassem a superfície da terra. Inalou o mau cheiro de seus corpos sujos e envenenados. Voltou-se lentamente, para enfrentá-los. Eram mais velhos do que teria gostado e mais poderosos.

- Venham para mim então. - Disse brandamente. - Darei-lhes a escura morte, que os liberará de seu caminho escolhido.

 

Brice se endireitou quando Francesca pronunciou seu nome. Passando uma mão pelo cabelo, avaliou-a com olhos especuladores.

- Francesca. Não a esperava esta noite.

Conseguiu ficar em pé e alisou a roupa amassada.

Francesca notou que ele estava com a roupa suja. Antes, sempre era imaculado e meticuloso com sua aparência. Isto a surpreendeu. Havia inclusive, uma débil sombra de barba, algo que teria horrorizado Brice, no passade. Ele era quase compulsivo com sua aparência. Com freqüência, dizia que era porque ia a muitas reuniões e conferências da imprensa.

A culpa a tomou. Seria ela, a causadora disto? Iria ser ela, o instrumento de sua destruição?

- Queria ver você, Brice. Fomos amigos durante muito tempo.

Francesca suspirou, suavemente. Por respeito a sua amizade, nunca havia "lido" sua mente a menos que fosse por causa de um paciente ou uma crise em que ele precisaasse ajuda. Havia sido importante para ela, ser tão humana com Brice, como fosse possível. Agora era uma tentação poder olhar sua mente. Ele estava realmente bem? Seria verdade que realmente quebrara o coração dele? Possivelmente deveria plantar uma sutil compulsão em sua mente para liberá-lo dela.

- Eu não estou seguro de que continuamos a ser amigos. – Respondeu, ele. - Saiamos daqui. Vamos para algum lugar tranqüilo onde possamos discutir isto.

Francesca percorreu o aposento, com um olhar.

- Aqui está bastante tranqüilo, Brice. - Por alguma estranha razão, Francesca se sentia relutante em deixar o hospital com ele. Gabriel estava na cidade caçando o não-morto. Ela precisava ocupar-se de contratar um guarda que vigiasse o aposento de Skyler e até que estivesse segura de que a menina estava a salvo, queria ficar por perto.

- Sei que se ficarmos no hospital, nos interromperão. De verdade, quero que continuamos a ser amigos. Vamos, Francesca. Não estou pedindo muito.

Ela assentiu contra vontade. Brice abriu imediatamente a porta e a conduziu pelo corredor, seguindo-a de perto e descansando ocasionalmente uma mão na sua. Francesca sentia sua palma quente e suarenta, através da roupa. Retorceu-se para se afastar dele, caminhando mais rápido pelo corredor e saindo para a noite. As nuvens formavam redemoinhos sobre suas cabeças.

- O tempo parece sombrio, Brice. Aonde vamos?

- Nunca temeste um pouco de chuva nos velhos tempos, Francesca. Antes que tivesse de se fazer perfeita para seu herói.

Francesca parou imediatamente onde estava, perto do estacionamento.

- Se for te pôr sarcástico, Brice, não há razão para seguir com isto. Não quero voltar a brigar com você. Sempre valorizei sua amizade e preferiria não perdê-la, mas se não puder ser civilizado com Gabriel, ou ao menos evitar o assunto, então nossa conversa é uma completa perda de tempo. - De repente, ela não quis mais sair com ele. Um escuro pressentimento de temor estava capturande-a e ela quis voltar com Skyler, ou melhor, enroscar-se na segurança dos braços de Gabriel, no santuário de sua casa.

Brice a tomou, deliberadamente, pelo braço.

- Sinto muito. O ciúme é algo horrível, Francesca. Comportarei-me. Só venha comigo. Por favor.

Devia-lhe muito e sabia. Brice sempre fôra seu amigo. Não era culpa dela que não fosse humana. Ele não tinha idéia de sua autêntica natureza. Não podia entender a relação entre autênticos companheiros. Francesca levantou o olhar para a face dele, enquanto o seguia. Pensou que tinha visto algo em seus olhos, por um momento. Algo matreiro e ardiloso, mas ele piscou e o que estivera ali, desapareceu antes que estivesse segura. De todos os modos, Francesca estava intranqüila.

Brice pigarreou, num gesto nervoso, enquanto avançavam pela beira do rio, para o parque.

- Eu não tenho gostado muito de mim ultimamente. - Admitiu ele.- Não gostei de compreender certas coisas sobre mim mesmo.

- Brice - A voz de Francesca foi suave e triste. - Não queria te fazer mal, por nada desse mundo. Sou eu quem sente. Não te contei nada sobre meu passado com Gabriel, porque de verdade, pensava que ele estava perdido para mim. Por outro lado, nunca o fiz acreditar que havia uma oportunidade para nós. Sabia que não te amava. Disse-lhe isso.

- Eu te amava o suficiente para os dois.

Suas palavras apunhalaram o coração de Francesca.

- Brice, uma só pessoa não pode fazer que uma relação funcione. Requer os dois trabalhando nisso. Desejaria ser a mulher perfeita para você, mas sei que não sou. Aí fora há alguém, alguém muito especial que te amará como merece. - Utilizou sua voz, dando um pequeno empurrão, embora não gostava de fazer isso com seus amigos. Odiava sua dor, odiava saber que ela era a causa.

Brice ficou em silêncio por um momento, depois soltou seu braço e segurou a cabeça.

Francesca o tocou. Em seguida pôde sentir sua dor. Uma aguda e crescente dor de cabeça, que crescia a um ritmo alarmante. Ela colocou a mão em seu braço.

- Me deixe ajudar, Brice. Sabe que posso.

Ele se afastou dela, respirando com dificuldade.

- Não, Francesca. Deixe-me por um momento. Estou sofrendo essas dores de cabeça há dias e são letais. Inclusive fiz um exame completo, para ver se tinha algum tumor. – Ele pegou um pequeno vidro do bolso, tirou a tampa e lançou várias pílulas à boca.

Francesca pôde ver que tremia sua mão.

- Não precisa de medicação. Posso te liberar da dor. – Disse ela, apiedada, sentindo-se doída por seu rechaço.

Ele sacudiu a cabeça novamente e desta vez com decisão.

- Não esbanje seu tempo e talento comigo. As pílulas bastarão. Dê-me alguns minutos e estarei bem.

- Brice, sei que está zangado comigo, mas estas dores de cabeça parecem ser sérias. Sabe que posso ajudar. Com quanta freqüência toma essas pílulas? O que são?

Ele encolheu de ombros e cortou caminho através de parque para o escuro atalho, afastando os ramos baixos para evitar que acertassem Francesca.

- Não importa. Por que me buscava?

- Aonde vamos, Brice? Este atalho nos conduz fora do parque. Ele vai para o cemitério. Voltemos.

Ele se voltou para enfrentá-la e uma vez mais, Francesca pensou ver algo matreiro em seus olhos. Então, outra vez era Brice olhando-a com olhos tristes. Mas Francesca se sentia agora, muito intranqüila. Pressentia que nada estava bem, nem Brice, nem o caminho que estavam tomando, sequer à noite. Mordeu o lábio inferior enquanto tentava pensar o que ele poderia estar planejando. Brice não era um homem violento, conhecia-o bem. Era gentil e carinhoso, mesmo com sua ambição.

- Não vamos voltar, Francesca, não até que nos falemos. Se não puder haver mais nada, quero que sigamos amigos. Sinto-me ferido, não vou negar. Agi como um menino malcriado, mas sempre pensei que estaria aqui, que se casaria comigo. De verdade. Em minha mente já estávamos comprometidos. – Ele sacudiu a cabeça, enquanto abria passo pela superfície irregular de caminho. - Nunca olhou para outro homem, nunca. Pensei que isso significava que sentia algo por mim, que alguém havia a machucado e que estava com medo de amar de novo.

Francesca pôde ver a primeira das muitas lápides, em pé, como silenciosas sentinelas da morte, no cemitério. Era, na realidade, um lugar formoso e antigo, um lugar que se acreditava sagrado e que mantinha a parte, os malditos. A um lado estava a terra santificada, benzida, enquanto que do outro estavam aqueles que tinham vivido com o pecado e a depravação, criminosos e assassinos. Agora estavam sendo desenterrades e transladados a um novo cemitério, longe de centro da cidade. As máquinas não haviam alcançado a área em que caminhavam. A iminente destruição a entristeceu. Possuía tantos amigos humanos enterrados ali.

- Nunca me interessei por ninguém mais, Brice. Preferia sua companhia, mas era amizade o que sentia, o amor de uma irmã. Com freqüência desejei sentir mais, e quando pensava no futuro, desejava poder te amar como desejava, mas nunca amei nenhum outro homem que não fosse Gabriel. Pensava que estava morto, todos estes anos, mas não tinha superado.

- Por que não o mencionou sequer? - Exigiu Brice, soando petulante. – Nenhuma vez sequer pronunciou seu nome. Se fomos tão bons amigos, por que não compartilhou comigo uma tragédia tão terrível, como a perda de seu marido? – Ele cuspiu a última palavra, enojado. - Sequer sabia que havia sido casada. – Ele estava movendo-se mais rápido agora, tomando a dianteira, abrindo passo sobre a pequena parede de pedra, para um caminho pouco utilizado, que conduzia um mausoléu.

- Nunca falei dele com ninguém, Brice. Era muito duro. - Isso era verdade. Nem sua mãe soubera sobre o pequeno incidente do povoado. Quando sua família se dispersou durante as guerras, ela fugira das Montanhas dos Cárpatos, para Paris, onde aprendeu a se ocultar de sua gente. Lágrimas inesperadas arderam em seus olhos escuros, as lembranças desses momentos ainda doíam. Piscou, afastando-as e seguiu Brice pelo sinuoso caminho.

- Eu não era ninguém, Francesca. Era seu melhor amigo. Mas sempre manteve uma parte de você mesma, à parte. Não importava quanto tentasse, nunca podia me aproximar de você.

Ela odiava essa nota dolorida na voz de Brice, pois a fazia sentir-se mais culpada que nunca. Ele tinha toda a razão do mundo para sentir-se mal pelo que tinha acontecido entre eles. Ela tinha pensado em passar seus últimos anos com ele. Francesca baixou a cabeça e seu cabelo caiu sobre a face.

- Não tive intenção de te enganar, Brice. Espero que acredite. Tentei ser honesta com você, mas houve vezes nas quais pensei seriamente em estar com você. Por causa do que estava considerande ter uma relação com você, posso haver enviado inadvertidamente, mensagens que indicassem que finalmente acabaríamos juntos. Isso foi mal de minha parte, mas não o fiz de propósito.

Ele girou a cabeça durante um momento, com fúria nos olhos.

- Isso não muda o que sinto, Francesca, ou te absolve de sua culpa.

Ela suspirou. Parecia que ele avançava entre a recriminação e o genuíno desejo de manter sua amizade.

- Possivelmente é muito cedo para que tenhamos uma conversa como esta. Quem sabe deveríamos esperar algumas semanas para que possa ver que nunca eu o teria utilizado, que nunca teria sentido o que quer que sinta.

- Alguma vez, saberemos com segurança, a verdade? - Disse ele, movendo-se rapidamente através do cemitério, afastando-se das lápides mais novas para a parte mais velha do cemitério, onde as pedras eram tão antigas que desmoronavam.

Francesca desacelerou o passo.

- Brice, tem idéia de onde vamos ou está caminhando rápido porque está zangado comigo? - Podia ouvir o sangue bombeande furiosamente através do coração dele, a rajada de adrenalina que o percorria enquanto se movia.

Ele a segurou pela mão bruscamente, uma careta retorceu sua fisionomia.

- Vamos, Francesca, se apresse.

Ela o seguiu e deliberadamente tocou sua mente enquanto o fazia. Assustou-se. Não havia nada em sua mente, exceto o desejo de levá-la a um certo lugar no extremo mais afastado do cemitério. Ele estava disposto a utilizar qualquer método para conseguir, desde adulá-la a levá-la a força bruta. Sua necessidade de levá-la a esse lugar era tão forte que bloqueava todo o resto.

- Brice. Está me fazendo mal. Por favor, me solte. Posso caminhar por mim mesma. - Ele precisava ajuda, desesperadamente. Fosse o que fosse o que estava mal nele. Ele podia ter sido escurecido por um vampiro ou tomando drogas, ou mesmo estivesse à beira de um colapso mental, Francesca queria ajudar. Agora temia por ele mais que por si mesma. Algo estava terrivelmente errado nele e ela estava decidida a curá-lo.

- Bom, nos apressemos então. - Grunhiu ele, que ainda permanecia em posse de seu braço. Perdeu o contato, porque ela acelerou o passo e caminhou voluntariamente com ele.

- Honestamente, Francesca, não é próprio de você. Não quer me falar de nossa amizade. Provavelmente quer discutir sobre nossa pequena paciente.

- Quero saber quando poderei levar ao Skyler para casa. Ela está ansiosa e aborrecida no hospital. E um repórter entrou em seu quarto. Estava muito assustada. – Francesca manteve a voz razoável enquanto caminhava a seu lado, estudando-o, intensamente. Se usasse seu poder, as vibrações se pulverizariam na noite atraindo atenção indesejada. Teria que ser persuasiva para levá-lo a sua casa, onde poderia o controlar e ajudar sem a ameaça de interferências.

- Se ela estiver assustada, por que não me disse isso? - Exigiu ele, furioso, outra vez. - Eu sou seu médico, não você, nem tampouco Gabriel. Se tiver uma queixa, ele me pode expressar. Sabemos que pode falar. Embora não dirija a palavra a ninguém mais, que a você.

- Brice. - Protestou Francesca, desacelerando novamente, o passo. Ele parecia estar empurrando-a a toda pressa, quase como se estivesse tão furioso que não soubesse o que estava fazendo. - Mais devagar, Brice. Vou cair. Tem alguma reunião importante por estes lados? Voltemos para minha casa. Farei um chá para nós, de sua marca favorita e podemos conversar.

Instantaneamente, ele diminuiu o passo, sacudindo a cabeça.

- Sinto muito... Sinto muito, Francesca. - Repetiu. - Não sei o que está me acontecendo. Não é bom para a garota depender tanto de você. Não falou com o psicólogo que enviamos, não fala com as enfermeiras, nem comigo, só com você.

- Está muito traumatizada, Brice. Sabe disso. Ela não se recuperará rapidamente de sua dor. Teremos de dar um passo de cada vez. Uma vez que esteja estabelecida em casa, conseguirei-lhe um psicólogo. Seguirei seu conselho. Sabe que te respeito como médico. Sinto o que nos aconteceu, mas nossos sentimentos um pelo outro são genuínos. Ainda queremos ser amigos. Provavelmente, agora não seja capaz de aceitar minha amizade, mas com o tempo... Enquanto isso podemos manter uma relação profissional, manter essa conexão. - Francesca tentou parecer esperançada. Pôs uma mão na mão dele para o conter, para fazer que a seguisse. Agora estava, realmente, com medo por ele, estava segura de que ele estava perdendo o controle de si mesmo. Brice sacudiu a cabeça, voltando para o caminho que atravessava espessos arbustos. Francesca se sentia como se estivesse num labirinto.

Agora a sensação do perigo iminente crescia. Sobre suas cabeças, as nuvens de tempestade escureciam e se tornavam mais pesadas. O vento soprava forte e trouxe a essência de perigo. Francesca parou sobre seus passos. Por que não havia explorado o lugar como devia fazer feito? Sabia que o não-morto estava em algum lugar da cidade.

- Gabriel!

Enviou a chamada instantaneamente. Colocara-se diretamente na armadilha e o pobre do Brice estava com ela. Já tinha arruinado sua vida e agora, porque falhara em estar alerta, provavelmente faria que o perdesse.

O mau cheiro de não-morto impregnou o ar a sua volta. Brice segurou seu braço uma vez mais, insistindo em tirá-la dos arbustos. Na distância, Francesca pôde ver Gabriel. Ele estava em pé, com os braços nos flancos. Alto. Forte e poderoso. O cabelo longo e negro flutuava sobre seus ombros.

Por três lados, se aproximava o inimigo, rodeando-o, movendo-se na intenção de tecer um feitiço. Ao princípio, os três lhe pareceram ser altos e bonitos, mas Francesca viu atraves da ilusão. Brice parou bruscamente, quando viu Gabriel e ficou súbitamente confuso. O que ele estava fazendo neste escuro e lúgubre lugar? Gabriel parecia poderoso, em pé, em meio aos outros homens.

Antes que Brice pudesse articular um som, Francesca o puxou para trás, de volta ao interior do labirinto de arbustos, mas ele girou em outra direção, para poder ver os combatentes. Havia três vampiros, todos ruborizados por mortes recentes, carregados de adrenalina. Gabriel poderia precisar de sua força ou se estivesse ferido, seu sangue depois da batalha.

Tocou a mente de Gabriel, incapaz de evitar. Ele era Gabriel, sempre o mesmo. Tranqüilo. Calmo. Sem medo. Sua força a permitiu respirar com mais facilidade. Francesca empurrou Brice até que estivessem na parte baixa de cemitério. Moveu-se até onde pudesse ver melhor o que acontecia. A cena lá encima era aterradera. De sua posição, pôde ver uma forma escura sobre a terra perto dos jazigos. Uma moça, pelo que lhe pareceu, com a garganta aberta. Jazia como uma boneca de trapo, com uma das mãos estendida para a cruz que marcava o jazigo. Gabriel tinha sentido morte e violência no cemitério, mas não tinha sido capaz de ver o corpo, pois as maquinas bloqueavam sua linha de visão. Francesca enviou-lhe uma visão imediatamente, advertindo-o do que tinha acontecido.

Francesca fechou os olhos durante um momento, enviou uma rápida e fervorosa prece pela vítima e sua família. Como podia pedir ao Gabriel que fosse que o que era, um caçador entre sua gente, exterminando às viciosas criaturas que cometiam semelhantes atos cruéis e insensíveis? Junto a ela Brice se removeu, saindo do semi-estupor, no que tinha caído.

- Que demônios está acontecendo? - Respondeu, observando a cena. Podia ver claramente o corpo da jovem, longe deles, onde estavam as máquinas pesadas, podia discernir o que parecia outro corpo, perto da escavadera. Um homem. – Disse a você que Gabriel era um criminoso. Está envolto num assassinato.

Francesca ondeou uma mão para o silenciar, com a atenção centrada em outra coisa. O vampiro da esquerda se lançou sobre Gabriel. Formaram-se asas em suas costas e ele saltou no ar, com garras retorcidas, em vez de mãos. Seu rosto se contorceu até formar um bico afiade. Enquanto este atacava, o corpo de segundo vampiro ondeou e seu rosto se tornou num comprido focinho, para acomodar os dentes que enchiam sua boca. Enquanto o pássaro voava alto, o lobo atacava embaixo. O terceiro vampiro ondeou tornando-se transparente, dissolvendo-se em gotas de névoa, para Gabriel. Para o horror de Francesca, ela pôde ver que uma raiz se arrastava pelo chão. Um longo tentáculo mortal que se estendia para o tornozelo de Gabriel. Ela pressionou uma mão sobre a boca para conter um grito. Não faria mais que o distrair, se gritasse. Tinha que confiar no fato de que Gabriel tinha mais experiência e veria todas as ameaças dirigidas a ele, embora o ataque fosse arrojado simultaneamente.

- Vá a casa, agora!

A voz de Gabriel emitiu a ordem na mente dela. Enviou-a, com uma forte compulsão a obediência. Sabia que ele não tinha energias para impor sua vontade.

Francesca sentiu profundamente dentro do seu corpo, a seriedade de sua ordem. Sua primeira preocupação era protegê-la, não sua vida e estande a descoberto, vulnerável, seria uma arma que poderia ser utilizada contra ele. A informação fluiu em sua mente, vinda de nenhuma parte. Não estava segura, se procedia de Gabriel, mas se voltou em seguida para o obedecer.

Sua mão agarrou a de Brice.

- Vamos, temos que sair daqui, agora mesmo.

Começaram a correr pelo aterro, para o rio, longe de cemitério e da terrível batalha que estava. Enquanto Francesca se voltava para as luzes da cidade, uma figura solitária surgiu na noite e bloqueou o caminho deles para a liberdade.

A besta era alta e magra, com pele cinza estirada sobre sua caveira. Seus dentes estavam enegrecidos e afiados, manchados com o sangue de muitos inocentes. Sorriu-lhes, numa terrível parodia de sorriso.

 

Francesca gritava, embora nenhum som surgia de sua garganta. Gabriel estava ocupado numa terrível batalha, com três ferozes inimigos e sua própria vida estava em perigo. Fechou-se a ele imediatamente, não desejando arriscar a lhe distrair de sua tarefa. Ele não podia ajudá-la.

- Que demônios está acontecendo? - Murmurou Brice, com voz estrangulada. Estava aterrorizado, seguro de que alguém colocara algum alucinógeno em seu chá. Isto não podia ser real, lutas de demônios, monstros que se convertiam em lobos, e gárgulas aladas voltando para a vida.

Automaticamente, Francesca se estendeu para o apaziguar, Seus dedos se fecharam ligeiramente em volta da mão de Brice, para poder manipular sua mente. Sua voz foi baixa e a compulsão se incrustou profundamente no cérebro do homem. Podia não ser capaz de salvar sua vida, mas faria o que pudesse para facilitar sua morte. Nunca sentiria os dentes em sua garganta, rasgando e rompendo, enquanto o monstro engolia sangue fresco.

Com a cabeça no alto, enfrentou à criatura, seus olhos brilhande com desafio, sua boca mostrava desgosto.

- Como se atreve a se apresentar desta forma? – Disse, desafiadoramente. - É consciente de que tais coisas vão contra as leis de nossa gente.

O sorriso de vampiro foi uma macabra paródia.

- Saia para o lado, curadora, me permita jantar esta noite.

Francesca seguiu sujeitando Brice, mantendo seu corpo ligeiramente adiante do dele. Seu inimigo estava chamando e a ordem flutuou no ar, mas ela havia conseguido separar Brice de resto do mundo. Eta estava de cabeça baixa, como a de um garotinho, inocente a tudo o que ocorria a sua volta.

- Não o farei. Vá embora. Não pertence a este lugar.

O vampiro sibilou horrivelmente, cuspindo ar entre eles.

- Tome cuidado, mulher, o caçador está muito ocupado. Não te resgatará esta noite. Não quero te fazer mal, mas se não tomar cuidado, será necessário obter à força sua obediência.

- Tome cuidado você, maligno. Não sou uma simples aprendiz para que me obrigue. Não tenho intenção de ir a nenhum lugar com você. - Disse Francesca tranqüilamente. Pressionou uma mão sobre seu estômago protetoramente. Ele a obrigaria a aceitar seu sangue corrompido. Correria por suas veias e poluiria sua filha. Usou o autocontrole que possuía, para não chamar Gabriel. Sua única oportunidade era que Gabriel derrotasse seus inimigos e a resgatasse. Mas seu bebê... Seria muito tarde para sua menina. Os vampiros se enganavam acreditando que se encontrassem uma mulher que fosse sua luz, suas almas poderiam ser restauradas. Procuravam mulheres dos Cárpatos e mulheres humanas com poderes psíquicos com a esperança de recuperar o que haviam escolhido perder. Teria que tomar a decisão de sacrificar Brice a esta coisa, não teria escolha. Seria Brice ou sua filha. Inadvertidamente, sua mão se apertou em volta da mão do médico, como se pudesse ancorá-lo a ela. Manteve sua mente firmemente afastada dos pensamentos de Skyler e se disciplinou para não chamar freneticamente, Gabriel. Ele viria a ela assim que pudesse. Dependia dela entreter ao vampiro.

- Não me enfureça, mulher. Sou muito mais poderoso que esse que te reclama como dele. Um arrivista desconhecido que se acredita um caçador. Conheço cada caçador que existe e este não tem reputação. Sou um antigo. Não acredito que ele a salve.

“Ele não sabe quem é Gabriel”. Francesca se assegurou a essa idéia. Era sua munição. Podia ser um fator surpresa, quando mais precisasse. A cabeça do monstro começou a se mover de um lado a outro, num lento movimento de réptil que resultava curiosamente hipnótico. Francesca sabia melhor que ninguém, que concentrava sua atenção, estreitamente no movimento. Algo que a fascinava, embora ao mesmo tempo a repelia. Isso foi advertência suficiente. Ele piscou com seus olhos empanados e sanguinários.

Aproveitou para rabiscar sua imagem e a de Brice, levando-o com ela, enquanto se apressava com velocidade sobrenatural, quando o vampiro saltava, esfaqueando com suas garras. Ela sentiu a rajada de ar quando ele falhou por escassos centímetros. A criatura chiou de raiva, retorcendo-se numa nuvem de pó e galhos, uma poderosa poeira de maldade, que se elevou, escurecende o ar em volta deles.

O coração de Francesca bateu alarmado. Havia conseguido enfurecê-lo. Não podia saber o que ele poderia lhe fazer agora. Sobre suas cabeças, formava nuvens escuras e ameaçadoras, prelúdio do que viria. Arqueavam-se relâmpagos de nuvem em nuvem, enquanto a sua volta, os céus escureciam até que cada estrela se encobriu, até que a lua não foi mais que uma lembrança.

O vampiro sibilou novamente, num som mortal, enquanto o vento batia sua roupa andrajosa e lançava seu cabelo murcho em volta da face que parecia uma caveira.

- Será castigada por isso. Terei este humano e sua morte será longa e dolorosa. Destruirei a tudo o que tenha algo que ver com você.

Ao coração de Francesca pulsava freneticamente e ela respirou forte, tentando se acalmar. Em seu interior sentiu a sua filha saltar de medo. Imediatamente, cobriu o ventre com as duas mãos enquanto enfrentava à besta. Ele estava movendo a cabeça de novo e atacou com um borrão de movimento. Francesca esperou até o último segundo possível, antes de escapar, arrastando Brice com ela. Antes que o vampiro pudesse reagir, algo se inseriu entre eles de forma que o não-morto se viu obrigado a desistir de seu ataque. Com um uivo de raiva, ele saltou para trás.

Entre ela e o vampiro brilhou uma forma, solidificande-se. Durante um momento, no que parou seu coração, pensou que era Gabriel. A figura era alta, de amplos ombros, com o mesmo cabelo longo e a fisionomia perfeita de seu companheiro. Seus olhos eram negros e estavam vazios, embora Francesca ocasionalmente podia discernir o princípio de pequenas chamas vermelhas ardendo em suas profundezas. O poder se aferrava a ele como se fosse o autêntico poder voltado para a vida, poder personificado. Movia-se com fluída graça, embora quando parou, ficou tão imóvel como as próprias montanhas, uma parte da terra. Parecia Gabriel, mas não era. Fez uma reverência para ela, num gesto cortês e principesco, antes de voltar sua atenção para o vampiro.

O fôlego de Francesca se imobilizou em seu corpo. Este era Lucian. Não podia ser outro. O irmão gêmeo de Gabriel e um vampiro sem igual. Seu coração caiu dolorosamente no desespero. Antes tivera medo de outro vampiro, agora estava aterrorizada. Havia algo em Lucian, algo que não podia nomear, mas parecia invencível, tão poderoso que todo um exército de caçadores não poderia lhe derrotar. Este era o mortal inimigo de Gabriel e aquele que ele amava acima de todos os outros. Mordeu o lábio com força, para evitar chamar a gritos, seu companheiro.

E então Lucian falou. Foi como se soasse música. Música que não era deste mundo, mas pura e formosa que era impossível esquecê-la. Sua voz era a coisa mais formosa que já havia ouvido na vida.

- Vieste a este lugar e me incomodaste, não-morto. Escolhi esta cidade como meu pátio de jogos e ainda assim você acredita que pode simplesmente ignorar minha reclamação. Envia a seus serventes para desafiar meu irmão, enquanto ataca a mulher que ele reclamou como própria. Ela está sob seu amparo e não posso permitir que nenhum outro interfira em nosso jogo. Deve entender. - A voz era perfeita, tão razoável, qualquer um a entenderia. - Perdeu sua alma faz séculos e deseja a liberdade da morte final. Olhe! Seu fôlego já não pode te sustentar e seu coração deixa de pulsar. – Lucian levantou a mão no ar e lentamente começou a fechar os dedos, num punho.

Francesca observou com horrorizada fascinação, como o não-morto obedecia à compulsão da voz docemente mortal. O vampiro ofegou em busca de ar e quando o punho se fechou firmemente, seu rosto começou a mudar de cor, enquanto ele se afogava e estrangulava ante seus olhos. O vampiro apertou o peito onde seu coração vacilava, mas não tentou lutar contra a ordem, tão poderosa como era. Francesca não podia afastar os olhos do gêmeo de seu companheiro. Ela, também, estava presa pelo feitiço de seu poder, hipnotizada pela autêntica beleza de sua voz. Só quando o viu mergulhar o punho na cavidade torácica do vampiro e extrair seu coração, quando o relâmpago golpeou a terra como um látego branco azulado e incinerou o órgão já morto e a seu anfitrião, que conseguiu despertar de repente, uma vez mais consciente de sua própria e precária situação.

Francesca esperou em silêncio, com a mão sobre o ventre, para proteger a sua filha não nascida. A outra, sujeitava Brice, que estava imóvel sob seu controle mental, incapaz de compreender o que acontecia a sua volta.

Lucian era mil vezes mais poderoso e mais mortal que o vampiro que acabava de enfrentar. Ela ficou olhando-o com seus olhos escuros e os pequenos dentes mordendo o lábio inferior, traindo seu nervosismo. Ele se moveu então, com uma graça fluídica e eterna beleza. Uma espada de dois gumes, destruidora. Gabriel tinha razão ao caçar a este monstro. Nada o deteria, nenhum humano o deteria se ele decidisse abandonar o jogo mortal que levava a cabo com seu irmão e passava a convertê-lo num pouco mais cruel.

Francesca tragou o nó de medo que entupia sua garganta e elevou o queixo desafiante.

- Devo te agradecer por vir em minha ajuda, escuro.

- Em ajuda de meu irmão. - Corrigiu ele, suavemente, movendo-se em volta dela, com graça. Parecia não tocar o chão, não perturbar o ar. Os olhos negros de Lucian moviam sobre a face dela e pareciam ver diretamente o interior de sua alma. - Meu irmão é o único capaz de me proporcionar um pouco de diversão. A vida é tediosa quando a gente é muito mais inteligente que todos os outros.

- Por que vieste em sua ajuda? - Perguntou Francesca, assombrada de que ele não parecesse tão horrível, em vista dos outros vampiros que encontrara através dos séculos.

Ele era tão bom criando ilusão, que mesmo uma antiga como ela, não podia reconhecer o quanto horrível e absolutamente malvado ele era? Seu poder era muito perturbador.

Os ombros largos se encolheram, com um preguiçoso ondeio.

- Não permito que outros interfiram em nosso jogo. Você é uma âncora que o freia. Um peão que posso utilizar contra ele, quando assim o desejar. O que há entre meu irmão e eu permanecerá para sempre. Qualquer pessoa que se atreva a interferir, caçador, vampiro ou mulher, morrerá quando eu queira.

Ela elevou o queixo.

- O que vais fazer comigo?

A perfeita boca se enviesou, num breve sorriso sem humor.

- Chame-o, para que a ajude. Ele não iria querer que eu te fizesse minha escrava. Chame-lhe. - Sua voz era suplicante e sutil, um insidioso sussurro de pureza. Não pareceu se mover, embora de repente estava tão perto que ela podia cheirar sua fragrância. Limpa, não um mau cheiro. Podia sentir seu poder.

Francesca engoliu com força e retrocedeu um passo, sacudindo a cabeça para assegurar-se de não estar sob compulsão.

- Nunca. Não há nada que possa fazer, que me obrigue a trair Gabriel, não por própria vontade. Gabriel é um grande homem e meu companheiro. Voluntariamente, entrego minha vida em troca da sua.

Ela esperou que ele caísse no golpe. Fez-se um silêncio, longo e vazio. Nem sequer podia o ouvir respirar, não podia ouvir como pulsava seu coração, se é que tinha coração.

Suos longos cílios revoaram, enquanto avaliava o professor vampiro que permanecia imóvel. Ele parecia à estátua de um antigo deus. Levou um bom momento para compreender que não havia feitiço em sua voz, só simples magia. Sua voz simplesmente fazia que todos desejassem agradar. Cumprir seus desejos.

- Por que não me está obrigando a cumprir sua vontade? - Perguntou curiosamente, passando uma mão nervosa pelo cabelo negro azulado.

- Não preciso da ajuda de nenhuma mulher em minha batalha. - Ela sentiu o látego de desprezo nessas palavras. - Acho bastante surpreendente, que meu irmão tenha se tornado tão fraco para permitir que este mortal ao qual você protege, continue com vida. O que vê nele, que a faz preferir sua companhia, a de um des nossos? É egoísta e sua mente está cheia de planos de vingança. Seu propósito principal na vida parece ser alcançar meu irmão. - Seus olhos negros estavam fixos na face dela. - Mas isso você já sabe, Francesca.

Ela tremeu e esfregou os braços com as mãos. De repente sentia frio. Era a voz. O tom era exatamente o mesmo. Suave. Puro. Formoso. Embora agora se sentia ameaçada. E pior que se sentir ameaçada, sentia o peso de seu desgosto. Isso não deveria significar nada para ela. Ele era um não-morto. Ainda assim, ela se sentia como uma jovem censurada pelo Príncipe de sua gente. Fazia mal e era humilhante. Francesca não podia agüentar o olhar escuro e vazio. Em vez disso, se encontrou baixando o olhar para a ponta de seus sapatos. Queria que ele a entendesse, embora nem ela mesma entendia seus próprios sentimentos. Como podia explicar a alguém que não sentia nenhuma emoção absolutamente?

- Ficaria com você um pouco mais, mas esse tolo está esquecendo tudo o que lhe ensine. - Lucian pronunciou as palavras, brandamente, enquanto brilhava durante um momento. Sua forma sólida se tornou transparente até que ela pôde ver as árvores através dele. Produziu-se um peculiar efeito de prisma que nunca havia presenciado, antes que se dissolvesse em gotas de névoa e fluísse através da névoa que emanava da terra, afastando-se dela.

Francesca deixou escapar o fôlego lentamente e relaxou os músculos, que até então, não havia notade que estavam duros e tensos. No ato, se estendeu em busca de Gabriel, para o advertir. Ele estava em meio a uma desesperada batalha, retorcendo-se entre três vampiros menores, todos serventes do que Lucian tinha destruído. Estavam o golpeando, procurando o alcançar com longas garras afiadas, tentando infringir pequenos e profundes cortes em sua carne, para que se debilitasse.

- Lucian está aqui.

Uma suave risada ressoou em sua mente. A princípio, pensou que de alguma forma Lucian conseguira entrar em sua cabeça, mas então compreendeu que ele estava era na mente de Gabriel. Ao compartilhar os pensamentos e lembranças de Gabriel, podia "ouvir" a estranha conversa que mantinham.

- Esqueceu tudo o que te ensinei, irmão. Por que permite que estes vampiros o rodeiem desta forma?

Lucian reluziu até uma forma sólida entre Gabriel e o maior e mais agressivo dos três vampiros.

Gabriel se lançou para o vampiro menor que se dirigia diretamente para ele, movendo-se tão rapidamente que afundara o punho em seu peito, extraíndo seu coração, enquanto o vampiro ainda olhava surpreso para Lucian. Gabriel já estava sobre o segundo vampiro, antes de tirar o coração do primeiro. A criatura gritou desafiante, esfaqueando, mas já era tarde. Gabriel havia tomado seu coração e o lançou longe, enquanto o relâmpago golpeava a terra, incinerando os dois corpos e seus corruptos corações.

Aconteceu tudo tão rapidamente, que Francesca foi incapaz de compreender como Gabriel fizera. Não houve pensamento, nem plano em sua mente que ela pudesse ler, sequer comunicação entre os irmãos gêmeos, mesmo assim, Gabriel tinha utilizado Lucian como distração, também Lucian utizara Gabriel. Ele atacara o maior dos não-mortos, enquanto este ofegava com horror olhando para Gabriel. O terceiro corpo se retorcia e caía no chão sem vida, quando Lucian atirava o coração corrupto na feroz bola de energia que Gabriel tinha utilizado para destruir os outros dois.

Foi quando Gabriel compreendeu, de repente, que seu irmão, o inimigo mortal de sua gente, uma vez mais o havia ajudado na batalha. Francesca leu sua culpa. A ira consigo mesmo, por não ter aproveitado a oportunidade de destruir Lucian. Estava tão acostumado a trabalhar com seu gêmeo, que simplesmente atuara por instinto. Antes de poder lançar-se em direção a seu irmão, Lucian já havia desaparecido, sem deixar rastros atrás dele. Não havia rastro, a mínima partícula. Nenhuma sugestão de poder ou espaços vazios que Gabriel pudesse utilizar para seguir o rastro do não-morto até sua guarida.

Quando finalmente incinerou aos três vampiros e toda evidência de sua batalha, Gabriel repassou cada detalhe da aparência de Lucian, o tom de sua voz e as coisas que havia dito. Lucian o enchera com mais informações sobre a cidade, os esconderijos usualmente utilizados pelas pessoas do submundo, os que com freqüência eram utilizados como serventes, pelo não-morto.

Gabriel amaldiçoou, eloqüentemente, na língua ancestral.

- Sou um inútil

- Não diga isso, Gabriel.

- Não o destruí. Eu sempre o segui e ele liderava. Ele sabe disso e brinca com meu fracasso. Se não houvesse falhado esta noite, poderia ter tido uma grande vantagem sobre ele.

- Você estava lutando com quatro vampiros, Gabriel. Ele o teria derrotado. Você estaria morto e eu me veria obrigada a fugir para as Montanhas dos Cárpatos, para ter nossa filha. Não pode correr esse risco. A idéia da morte dele, a aterrava. Ele já era uma parte dela, enterrado profundamente em sua alma. Viveria uma vida pela metade sem ele. Teria que procurar proteção e amparo, com o Príncipe de sua gente.

- Gabriel. - Sussurrou seu nome com súbito terror. Ele não podia deixá-la só com isto, não depois de arrastar a de volta a um munde que já tinha abandenade.

- Ele não permitirá que nenhum outro me destrua. - Gabriel soava tranqüilo como sempre. - É um jogo para ele. Ninguém mais pode jogar. Só eu tenho o potencial para o derrotar. Ele teria gostado que eu o atacasse. Provavelmente, se sente decepcionado porque não o fiz.

A formosa e pura voz encheu suas mentes. – Está se tornando brando, Gabriel. Estava preparado para uma reação semelhante, embora você deixou escapar a oportunidade perfeita.

- Você parecia cansado, Lucian. Não queria uma vantagem injusta. - A resposta de Gabriel foi amável. - Precisa descansar, busca um lugar de descanso, uma forma de deixar este mundo pasra trás. Diga-me onde está e poderei ir a você e o ajudar em sua viagem longamente esperada.

O coração de Francesca saltou ante a idéia, o medo correu por suas veias fazendo que se sentisse fisicamente doente. Esperou a resposta, aterrorizada de que Lucian pudesse chamar o Gabriel. Lutariam até a morte. Sabia com tanta segurança como sabia seu próprio nome. Gabriel nunca voltaria ileso tratando-se de um ser tão poderoso.

A risada que seguiu às palavras de Gabriel deveria ser horrível de ouvir, mas a voz de Lucian era um instrumento formoso e cheio de uma sensação de calma e tranqüilidade. Sua tranqüilidade foi rapidamente dissipada quando ele falou.

- Buscas me pegar numa armadilha com sua voz, irmão. Não acredito que seja possível o engano entre nós.

- Uma vez foi.

- Me prender clandestinamente foi um interessante movimento que eu não esperava. - Havia uma certa nota de admiração na formosa voz.

- Está fraco pela perda de sangue.

- Agora, você está procurando me zangar, esperando que eu continue nossa conversa para poder me seguir o rastro. Sou incapaz de qualquer emoção, irmão, nem sequer a raiva. Esse prezade dom não está a meu alcance nem ao de nenhum dos que formam as legiões dos não-mortos. Mas me alegrará te contar onde estou neste momento. Estou inclinade sobre a menina que reclama como tua. É uma raridade única num mundo cheio de cópias de papel carvão. - Havia uma sutil ameaça, um sutil desafio.

Francesca gritou e sem pensar soltou a mão de Brice. Esquecera-se de tudo. Agora pensava em Skyler, indefesa na cama, com o vampiro inclinado perto de seu pescoço. Empurrou Brice para que ele se sentasse, emitindo a ordem de que despertasse de seu sonho, enquanto se dissolvia num milhão de gotas de água e se lançava de volta ao hospital.

- Eu a proíbo, Francesca. - A voz de Gabriel foi tranqüila e autoritária. - É uma armadilha.

- Não a entregarei a ele. - Havia um soluço em sua voz, em sua mente. Sabia que Gabriel já abria passo para seu destino.

- Sinto muito, meu amor. Não posso permitir uma ameaça semelhante sobre você. - A voz de Gabriel sussurrou contra as paredes de sua mente como as asas de uma mariposa.

Sem advertência, Francesca mudou bruscamente de direção. Alarmada, gritou chamando por Gabriel. Já não controlava seus movimentos. Algum outro controlava seu vôo. Instintivamente tentou tomar terra, mudar de forma, mas foi impossível. - Gabriel!

- Não tema, Francesca, só estou cumprindo com meu dever. Esperará por mim no amparo de nossa casa.

A suave e zombeteira risada chegou outra vez, movendo-se através de suas mentes e corpos como um o candente brilho do amanhecer. O poder da voz de Lucian era incrível.

- Que salvaguardas acredita que a manterá? Aprendeste algo que não compartilhaste com seu próprio gêmeo?

- Não creia que é invencível, Lucian. Eu fui melhor uma vez, posso ser novamente. - Replicou Gabriel, tranqüilamente.

Muito tranqüilamente e isso permitiu que Francesca colocasse de lado, seu horror. Estava surpreendida pela força de Gabriel. Ele podia ordenar uma antiga como ela em pleno vôo, manter seu curso firme, protegê-la e ainda assim continuar sua viagem para o hospital, enquanto conversava tranqüilamente com seu mortal inimigo. Sua calma não era um farol. Ele estava completamente crédulo. Era um guerreiro ancestral que tinha batalhado sempre, lutado durante séculos. A batalha que se desdobraria era a culminação desses séculos de experiência. Logo, deixou de resistir, não desejando dificultar ainda mais sua tarefa.

Francesca tinha que se esforçar para não suplicar ao vampiro que não inflingisse mais dor a Skyler. Os vampiros prosperavam com a dor dos outros. Esse era um dos escuros talentos do não-morto. Através de suas vítimas, podiam sentir momentaneamente, um fugaz toque do que haviam perdido. Toda emoção era escura e feia.

Tranqüilizou seus pensamentos, concentrou-se.

- Skyler? Pode me ouvir? - A adolescente estava dormindo. - Não abra os olhos. Está em perigo.

Um ligeiro estremecimento e a jovem estava consciente. Francesca era tão familiar em sua mente, que podia sentir a menina explorando seus arredores, como fazia os Cárpatos. Seu pulso se manteve firme e seu coração não se sobressaltou.

- Não pode ser. Ele está aqui comigo e estou perfeitamente a salvo.

- Não está tomando seu sangue?

Houve um longo silêncio, enquanto Skyler se assombrava ante a pergunta.

- Ele não é enfermeiro. Sei que não é. Por que tem medo que de queira meu sangue?

Francesca pensou um momento. Skyler a tinha obedecido. Permanecia imóvel, respirando tranqüila e fingindo estar dormindo. Embora por alguma razão se sentia a salvo, apesar da ameaça de terrível maldade. Havia uma única resposta. Ele estendia uma armadilha para Gabriel, a fim de o conduzir para ele. Francesca sabia que Gabriel compartilhava sua mente, também. Sua risada chegou outra vez, suave e musical sinfonia de beleza.

- Agora note futilidade de lutar contra alguém como eu. Esta menina é humana, embora seja estranha neste mundo, não pode enganar alguém como eu, fingindo estar dormindo. Não pode protegê-la de mim, nem com suas salvaguardas, nem tentando ocultá-la. O que Gabriel sabe, sei eu também. Quando quizer fazê-la minha escrava, farei-a. Agora é aborrecido pensar em tomar carga semelhante.

- Lucian. - Gabriel pronunciou o nome do irmão, amavelmente. – Você está cansado de sua existência. Não há nada que o prenda a este mundo. Escolheu perder sua alma e seguir o atalho da escuridão, embora não conseguiu nem emoções ou poder que já não tivesse. Permita-me te ajudar a deixar esta loucura para trás. Quero te ajudar. Sempre desejou que eu o fizesse.

- Essa foi sua promessa, irmão e não pode fazer outra coisa que honrá-la. Embora encontro este munde diferente e mudado, desde que me elevei à última vez. A verdade é que é aborrecido continuar, quando não tenho ninguém que me iguale, embora resta você. Então você também procurará o amanhecer? – Ele sorriu, maciamente, como para si mesmo. - Acredito que deveríamos continuar nosso jogo por um tempo neste estranho mundo.

Ele estava debilitando-se. Francesca sentiu, através de seu vínculo com Gabriel. Ele atraíra Gabriel para o hospital, com a intenção de lutar, mas parecia ter perdido o interesse rapidamente, desvanecendo-se do quarto de Skyler, sem deixar rastro de poder atrás.

Gabriel suspirou com frustração. Lucian sabia da existência das duas mulheres. Como poderia não saber? O poder feminino estava ali para que o lesse. Já estava atraindo aos não-mortos à cidade, procurande aquelas que poderia salvá-los. Lucian não podia ter deixade de ler os sinais, saberiam de Skyler, igual de Francesca. E saberiam que Gabriel havia reclamado a Francesca, que era uma antiga Cárpato. Provavelmente sabiam que estava grávida. O que Gabriel sabia, também sabia Lucian. Skyler já não estava a salvo no hospital, longe de seu amparo.

Gabriel mudou de forma enquanto aterrissava, já cruzando o estacionamento do hospital, para a entrada. Rabiscou sua imagem, não desejava lidar com humanos, enquanto comprovava por si mesmo que Lucian não havia incomodado Skyler. Tinha que levá-la o quanto antes. Lucian poderia utilizar serventes humanos durante o dia, quando Gabriel era incapaz de protegê-la. Skyler precisava estar em casa onde poderia colocar salvaguardas. Onde poderia postar guarda-costas humanos, nos quais pudesse confiar para vigiá-la, quando ele estivesse profundamente na terra. Em todos os séculos que tinham lutado, Gabriel soubera que Lucian utilizasse serventes para tentar destruí-lo durante o dia, mas com o Skyler a quem devia proteger, não se arriscaria. E havia outros na cidade, vampiros menos poderosos, mas ainda assim, malvados e viciosos. Qualquer um deles podia tentar pegar Skyler. Não podia permitir tal coisa. A mente da menina não suportaria mais, maus tratos.

Skyler estava deitadatranqüilamente, olhando para o teto, quando ele entrou. Sua sombra, a alcançou primeiro. Alguém com menos percepção, nunca teria notado o pequeno estremecimento que a percorreu.

- Tem medo de mim? - Perguntou Gabriel, suavemente, dando a cortesia de permanecer fora de sua mente. Sabia que teria que "lê-la" para assegurar-se de que Lucian não tinha tomado seu sangue, mas estava decidido a respeitar sua privacidade, sempre que fosse possível.

Os dedos de Skyler se enroscaram nervosamente no lençol.

-Na realidade, não. - Sob a colcha, o contorno do lobo de pelúcia era visível a seu lado.

Havia honestidade em sua voz, mas ela respondeu com um fio de voz.

- Sabe por que estou aqui?

Ela o olhou então. Skyler engoliu com força e levantou a mão coberta de cicatrizes e percorreu a curva de seu rosto. Gentilmente, Gabriel pegou a pequena mão e percorreu com o polegar, a miríade de cicatrizes que cruzavam seu antebraço, pulso e mão.

- Somos uma família, menina. Uma autêntica família. Não há lugar para a vergonha. Estou orgulhoso de você, orgulhoso de como defendeu a ti mesma e manteve inteira sua autêntica alma. Não oculte as provas de seu valor, Skyler. Nem de mim nem, de Francesca.

Os enormes olhos dela se moveram sobre o rosto dele, com um pouco de zanga.

- Sempre estive sozinha, pelo que posso recordar. Desde que minha mãe morreu, estive sozinha. Não estou segura de saber ficar com outras pessoas.

Gabriel tinha um sorriso impressionante e o usou desavergonhadamente.

- Bem-vinda à família então, Skyler. Eu estive sozinho muito tempo, igual à Francesca. Aprenderemos juntos. – Ele acariciou o cabelo dela, com dedos amáveis. - Podemos ser principiantes, mas no final, triunfaremos.

O fantasma de um sorriso brincou na face dela.

- Você acha?

- Sei com segurança. Não fracasso em minhas tarefas, nem nas que me aborreço. Esta é a primeira vez que empreende algo para mim mesmo. Acredite-me, menina, não fracassarei.

Ela o estudou, mais adulta que menina.

- Que tarefas o aborrece?

Seus dentes brancos reluziram para ela, um pequeno tributo ao dom dela, a seu talento especial.

- Há vezes nas que não tenho outra escolha, que dar ordens às mulheres de minha família e fazer que as cumpram. - Respondeu ele travessamente.

Os suaves olhos cinzas dela se iluminaram brevemente, uma pequena vitória.

- E isso é aborrecível? Duvido, Gabriel. – Skyler sentia-se muito valente, devolvendo a brincadeira.

Gabriel sentou-se, já que não queria se elevar sobre ela. Era importante para ele não intimidá-la. A influência de Francesca tinha ajudado que Skyler o aceitasse, que o visse como alguém bom, não um inimigo, mas sua posição era tênue. Assegurou-se de que seus movimentos fossem leves, para não sobressaltá-la.

- Se tomo sua mão como faz Francesca, posso ler seus pensamentos. - Explicou ele, com tranquilidade. - Do mesmo modo, que você recebe informação do que a rodeia. Não quero te assustar com meu tato, mas é necessário que eu "leia" a lembrança de quem te visita com tanta freqüência.

Os longos cílios revoaram, velando seus enormes olhos.

- Eu serei capaz de ler os teus? - Havia uma dúvida em sua voz, como se ela temesse lhe zangar.

- Você gostaria?

- Normalmente posso. - Como ele continuava olhando-a, Skyler retorceu o lençol entre os dedos. - Sempre fui capaz de ler às pessoas quando os olho. - Olhou-o, um rápido e escorregadio olhar. – Não da mesma forma que você e Francesca lêem as mentes. sei coisas. Posso ouvi-la e senti-la. Sei que ela está comigo. - Seus dedos continuaram apertando nervosamente o lençol. - Como o outro que está aqui quando tenho medo.

- Skyler. - Disse Gabriel amavelmente. - Se não desejar ler minhas emoções ou meus pensamentos, então a defenderei deles. Se te tranqüiliza, podemos começar.

Os enormes olhos cinza foram muito expressivos, quando moveram sobre seu rosto. Ele esperou tranqüilamente, permitindo que ela decidisse por si mesma. Finalmente ela assentiu.

Gabriel pegou a pequena mão com extraordinária gentileza, inclinando-se para que seus olhos negros pudessem prender o olhar de Skyler no seu. Ela sequer piscou. Quando ela tinha a idéia de fazer alguma coisa, lançava-se em corpo e alma, se empenhava. Ele teria que se lembrar disso, quando tentasse pôr a prova, suas inexistentes habilidades paternais.

Ela sobressaltou-se com sua risada, não em voz alta, mas em sua mente. - Estou lendo seus pensamentos também. – Ela lembrou-o.

- Genial, igual à Francesca. – Queixou ele, brincando, enquanto tomava sua mente com a extensão de seu amor por Francesca, com a ternura e os sentimentos de amparo para Skyler. Ela havia sentido a presença dele em sua mente, ocasionalmente, mas não tinha compreendido que já havia compartilhado suas lembranças de infância. Isso a teria humilhado. Gabriel soube instintivamente e não tinha intenção de permitir que ela se envergonhasse. Ela leu o que ele queria que lesse. Seu desejo de vê-la sentir-se bem recebida em sua família, sua esperança de ser um bom pai, alguém que a protegeria e guiaria e sempre e a faria sentir-se a salvo. Compartilhou seus sentimentos sobre o pouco adequado que se via como marido, seu temor de fazer algo que decepcionasse a Francesca. Amava a Francesca mais que a sua própria vida e permitiu que Skyler soubesse que a queria do mesmo modo.

Todo o tempo, explorou profundamente a mente da menina, na intenção de encontrar um rastro de poder, um indício de que seu gêmeo estava tentando usá-la para atingir Francesca. Viu o trabalho de Francesca e era perfeito. Encontrou suas salvaguardas combinadas, o forte amparo que juntos haviam colocado, embora não encontrou rastro de Lucian, nem rastro de poder corrupto, nem escuras intenções. Gabriel foi cuidadoso, procurando em todas as partes, a mais ligeira anomalia, examinando-a meticulosamente. Skyler parecia estar livre de forças externas.

Suspirou brandamente, soltando-a, antes que a súbita e inesperada raiva, fosse transmitida a Skyler. Haviam abusado horrorosamente dela e as ferimentos de sua mente deixariam cicatrizes para sempre. Ela era uma jovem extraordinária, com uma estranha percepção e talentos desmedidos. Mas o homem que devia amá-la e protege-la, fôra o mesmo que iniciou e perpetuou o abuso.

Gabriel cuidou em respirar profundamente, desejando aparentar completa calma e controle. Sabia que Skyler se assustaria ante qualquer desdobramento masculino de temperamento. Lucian já tinha acabado com os que tinha abusado de Skyler, um a um. Havia tomado os inimigos da menina, como parte de sua pequena partida de xadrez com o Gabriel, para demonstrar que sabia tudo o que sabia Gabriel.

- Viu algo que tenha feito você mudar de opinião sobre querer me levar para casa, com você e Francesca? - Havia um desafio na suave voz de Skyler, mas seu olhar se separou dele, no instante em que a soltou.

Gabriel segurou seu queixo com dois dedos e a inclinou para cima para que o olhasse.

- Você tem a mente assombrosa. Faz-me respeitá-la as coisas que tem feito e as que é capaz de fazer. Honra-me, que você queira que eu cumpra a função de ser seu guardião junto com Francesca. Não se vê através de meus olhos? – Perguntou ele, amavelmente.

Um débil rubor coloriu a face dela.

- Eu não sou assim. Não como acredita que sou... Valente e formosa. Ninguém mais acredita. - Quando ele continuou olhando-a, ela se ruborizou ainda mais. - Bom, só Francesca, mas ela não tem um só osso mesquinho em seu corpo. Encontraria algo agradável que dizer inclusive de um monstro.

Um pequeno sorriso mudou a boca de Gabriel.

- Provavelmente tenha razão, Skyler. Francesca pensaria o melhor até de um monstro, mas também é muito ardilosa. Em você, ela vê o que vejo. Você tem que começar a se ver como nós. Somos seus guardiões e deve aprender a confiar em nós. Se desejar, pode examinar minha mente e compartilharei meus pensamentos com você abertamente.

- Quero sair deste horrível lugar e ir a casa com você e com Francesca.

- Ela estava se ocupando em conseguir a permissão de doutor quando nos interromperam.

Skyler mordeu o lábio, começou a falar e depois atraiu o lobo de pelucia para seu rosto.

- O que houve, pequena? - Animou-a Gabriel. - Em nossa casa esperarei sinceridade e respeito, que tem que funcionar em ambas as direções. Se deseja me dizer algo, escutarei e valorizarei o que tenha que me dizer.

- Não me acreditará, mas sei que tenho razão. – Ela enterrou os dedos no lobo, em seu nervosismo.

Gabriel colocou sua mão sobre a dela e enviou uma pequena onda de ternura e confiança.

- Se souber que tem razão, Skyler, acreditarei em você.

Ela adorava o som dessa voz, o sotaque que não podia localizar, a diversão que brincava em suas palavras. Mas sobre tudo, adorava a convicção que havia nele, como ele a fazia sentir que acreditava nela.

- Não acredito que o doutor seja realmente bom. Algo está errado com ele.

Gabriel assentiu.

- Está muito apaixonado por Francesca e não muito contente de que eu tenha voltado. Francesca pensava que eu havia morrido. Acredito que o doutor está tendo problemas para dominar seu ciúme.

Skyler o olhou durante um longo momento, depois sacudiu a cabeça.

- É mais que isso. Sinto quando ele me toca.

Por um momento, a vermelha chama de monstro dançou nos olhos de Gabriel e em seu interior, desencaparam as garras. Ele fez uma pausa antes de responder.

- O que quer dizer, pequena? - Sua voz foi mais tranqüila e mais formosa que nunca.

Skyler sentiu que o ar no quarto se imobilizava, como se a terra estivesse esperando que ela respondesse. Suos longos cílios caíram, ocultando seus expressivos olhos.

- Quando ele vem me examinar, tenta ocultar, mas sei que algo está errado. É retorcido. É mais que ciúme, Gabriel.

- Vou me assegurar de que lhe dêem de alta amanhã à noite. Francesca e eu precisamos nos ocupar de certas coisas em casa para poder te cuidar adequadamente, enquanto se recupera. Enquanto isso, Francesca já contratou um guarda-costas para você. É um guarda-costas, não um empregado do hospital e ele se assegurará de que você estará a salvo em nossa ausência. - Tirou uma chave da porta dianteira da casa de Francesca de seu bolso. Pegando uma fina corrente de ouro que tinha no pescoço, colocoau a chave nela. - Esta é a chave da casa, pequena. – Gabriel colocou a corrente no pescoço dela. - Se precisa vir, tem a chave.

Gabriel sentiu o alívio da moça. Ela segurava a chave, sustentando-a como se fosse algo precioso. Gabriel ficou em pé, elevando-se sobre ela. – Seus aposentos já estão preparados, Francesca se superou. – Ele escreveu o endereço numa folha de papel, dobrou e colocou em sua mão.

Um pequeno sorriso se formou na boca de Skyler.

- Sabia que ficaria louca. - O sorriso decaiu em seu rosto, deixando-a séria e pálida. – Acredita em mim, sobre o doutor? - Havia uma nota ansiosa em sua voz, que ela não pôde ocultar.

Gabriel a avaliou gravemente. Seus olhos negros estavam sérios.

- Acredito, Skyler. Sinto a mesma inquietação sobre ele. Não tema por Francesca. Farei tudo o que esteja em meu alcançe para mantê-la a salvo.

Skyler olhou seu rosto durante um longo momento antes que seus olhos se fechassem e se afundasse tranqüilamente na cama, obviamente satisfeita com a tranqüilidade dele.

Gabriel automaticamente explorou a área, enquanto caminhava e sentiu quando Brice entrou no hospital. Afastou-se da cama para a porta. Um pequeno ofego de alarme, o fez voltar-se.

- O que acontece? - Perguntou brandamente.

Skyler o olhava como se fosse um fantasma. Deixou escapar uma risada forçada.

- Você me recorda... - deteve-se.

Ele deliberadamente sorriu, um travesso sorriso juvenil.

- Uma estrela do rock? - Perguntou esperançade. A astúcia de Skyler ia além de que tinha pensade.

Ela deixou escapar uma risada nervosa.

- Dificilmente, Gabriel. Lembra-me um lobo. Um grande lobo mau. - Abraçou o animal de pelúcia. - Como ele.

Ele sorriu com ela, mas cuidou em parecer mais humano quando abandonou o aposento, deixando para trás, uma onda de conforto.

 

-O casal chegará hoje, Gabriel. - Disse Francesca. Ela estava sentada em seu ateliê, tecendo ausentemente, desenhos abstratos. Para Gabriel, parecia uma confusão de tecidos, mas podia ver como os dedos dela traçavam cada linha, amorosamente, apesar de que sua mente não parecia estar no que estava fazendo.

Gabriel cruzou o aposento, para ficar atrás dela, desejando despir o esbelto corpo.

- Sou consciente de sua chegada, Francesca. O que está tentando não me dizer? - Havia um toque de riso em sua voz. Ele era seu companheiro, só tinha que compartilhar a mente dela para descobrir o que a preocupava.

Francesca respirou fundo. Seus dedos procuraram uma parte do tecido e inconscientemente, começou a esfregá-lo com o polegar.

- Aidan pediu que não tomássemos seu sangue.

Um pequeno silêncio disse tudo. O ar carregou com o peso de sua desaprovação. Havia um punhado de humanos que sabiam da existência dos Cárpatos. Gabriel era um antigo, um caçador sem igual, sem contar seu gêmeo. Manteve-se com vida, ocultando suas câmaras de sono, misturando-se com a raça humana. Os Cárpatos podiam controlar facilmente o comportamento humano tomando seu sangue, ainda assim, Aidan tinha pedido não fizessem tal coisa com seus empregados. Se os humanos tinham conhecimento de sua raça e viviam em suas casas, possuiam o poder em suas mãos. Para o Gabriel equivalia colocar sua família em perigo, confiar em duas pessoas que não conhecia.

- O que respondeu a esta estranha petição?

Francesca sentiu que seu coração saltava.

- Gabriel. - Deixou escapar seu nome silenciosamente, sustentando-o. Tinha atuado por sua conta durante muito tempo, tomando suas próprias decisões igual a Gabriel, mas ele a lembrava que era importante considerar as opiniões dela como se fosse sua sócia.

Gabriel notou que um sorriso curvava sua boca. Francesca era sua sócia, sua outra metade. Sua opinião contava onde não importaria a de outro. Estava extraordinariamente orgulhoso dela. Ela não parecia compreender o quanto significava para ele. Isso o surpreendia. Precisava ver-se através de seus olhos. Em sua opinião não havia no mundo ninguém que pudesse comparar a ela.

- É obvio que valorizo sua opinião. Pode ser que não tenha se misturado com nossa gente em todos estes séculos, mas se mantive a par das notícias. Conseguiu ocultar sua identidade dos que poderiam te encontrar ou dos perversos que continuamente procuram as mulheres de nossa raça. Acredito que está preparada para julgar este estranho pedido que eu, que estive enterrado na terra durante quase duzentos anos.

- Ouvi dizer que Aidan não controla sua família, nunca os utilizou para se alimentar e os respeita muito. Eles ajudaram a outros membros de nossa raça em momentos de necessidade. Nem todos eles estão a par de nossos segredos, mas os que sabem nunca nos traíram. Se Aidan recomendou estes dois membros de sua família, para nos ajudar, então acredito que devemos confiar neles, implicitamente. Ele disse, que nos envia o filho de sua governanta. Este homem conhece nossa gente há algum tempo. Acredito que sua mulher soube recentemente, mas provou sua lealdade. Seu marido assegurou a Aidan que é de confiança.

- Eu não gosto da idéia de que a esposa não está sob nosso controle. - Admitiu Gabriel. - Obviamente o marido nos conheceu durante anos e provou sua lealdade, mas esta mulher é um enorme perigo quando estamos sendo assediados. Poderia converter-se num problema.

Francesca assentiu.

- O que diz é certo, especialmente agora, quando Lucian está aqui e nos caça, mas acredito que podemos monitorar seus pensamentos, o bastante, para controlar a situação. Se acreditarem que há perigo, teremos tempo de contatar Aidan.

As sobrancelhas de Gabriel se arquearam e Francesca se afastou dele, para esconder seu súbito divertimento. Gabriel não gostava da idéia de consultar Aidan Savage sobre nenhuma questão e muito menos em assuntos que incumbiam a sua própria casa. Fez o que pôde por manter a face séria.

Gabriel se estirou prazerosamente e a segurou pelos ombros.

- Está rindo de mim? - Inquiriu brandamente. Sua voz supurava ameaça.

- Eu faria isso? - Os olhos dela estavam tão escuros que pareciam negros, e dançavam de riso.

Ele enredou um braço em volta de sua cintura e a trouxe para o amparo de seu corpo.

- Sim. Você faria. - Sussurrou, inclinando sua escura cabeça para o convite do pescoço dela. Sua boca deslizou sobre a suave e acetinada pele. - Está tão ocupada com esta gente, que não tem nada de tempo para se ocupar de minhas doenças? Preciso que me cure.

Ela rodeou o pescoço dele com os braços, apoiando-se nele, para que cada um de seus músculos, se imprimisse no corpo esbelto. Encontrou seus labíos com os dele. A terra conteve o fôlego sob seus pés. Durante um momento, respirar deixou de ser importante. Seus corações tinham um só pulsar, suas mentes estavam totalmente fundidas, suas almas eram uma só. Francesca derreteu dentro dele. Podia fazer isto com seu beijo. Enviar lava fundida através de seu sangue e elevar a temperatura vários graus, em segundos.

- Temos uma menina. - Murmurou ele, incitante, contra a garganta dele. – E está vindo até nós, neste momento.

Gabriel gemeu, moderadamente. Tinha ouvido os suaves passos, dos pequenos pés de Skyler, enquanto ela explorava a casa. Ao se elevar, Gabriel havia caçado, alimentando-se bem para si e para Francesca. Tinham muito o que fazer. Ocupar-se de que Sklyer se estabelecesse em sua nova casa. Gabriel aprovou o guarda-costas que Francesca havia convocado. Jarrod Silva era um homem de quase trinta anos e parecia ser muito capaz. Gabriel lia facilmente seu desejo de fazer um bom trabalho. Reforçou a determinação de Jarrod com uma sutil compulsão e ficou satisfeito sabendo que o homem protegeria Skyler quando fosse necessário.

Francesca se deu à volta entre seus braços, pressionando seu corpo, em toda sua longitude, contra o dele. Gabriel sorriu, abraçando-a.

- Francesca... – Sussurrou ele, cheio de ternura, enquanto emoldurava sua face com as mãos. - Não posso acreditar em minha fortuna. Você é minha vida, meu fôlego. Faz com que a tortura que suportei durante todos esses séculos, valha a pena.

Francesca sentiu lágrimas em seus olhos. Sentia sua absoluta sinceridade, a intensidade de suas emoções. Certamente ele desejava seu corpo, podia sentir o calor e o desejo que se elevava nele como uma maré inevitável, mas mais forte e mais intenso era o amor que ele sentia por ela. Recordou-se que devia respirar, somente respirar e inalar sua fragrância.

Um suave som fez que ambos voltassem à cabeça.

- Adoro o que fazem. - Anunciou Skyler, entrando. Ela movia-se lentamente, cuidadosamente. Seu pequeno corpo ainda estava fisicamente maltratado. - A forma em que vocês olham um para o outro. Nunca vi ninguém se olhar assim. Olham-se com tanto amor. Resplandece entre vós.

Francesca imediatamente estendeu uma mão para a garota.

- E você se perguntava se haveria algum lugar para você aqui.

Skyler parecia muito frágil. Sua pele era pálida, quase translúcida e os olhos eram enormes em sua face delicada. Parecia muito mais jovem que seus quatorze anos, até que se fixasse nos olhos muito... Velhos.

Skyler baixou a cabeça e seus longos cílios velaram a expressão de seus olhos, mas se adiantou e tomou a mão estendida. Francesca segurou-a, gentilmente.

Gabriel cobriu a mãos de ambas, com a própria.

- Temos mor suficiente para todos, Skyler. – Replicou ele, amavelmente. - Mais que suficiente. Somos uma família, nós três. Sempre seremos, não importa o que nos proporcione o futuro. Começa aqui, conosco. Francesca viveu toda sua vida sozinha, como eu. Você também. Faremos isto juntos, ajudando uns aos outros. - Sua voz era formosa e cativante. Poderia dar ordens aos céus e fazer que a terra se elevasse sob seus pés. Fazia de Skyler uma crédula, sem nenhuma compulsão oculta.

Francesca penteou com os dedos, as mechas desiguais de Skyler.

- Nosso pessoal de serviço chega hoje. Viverão conosco, permanentemente, esperamos. Gabriel e eu temos muitas tarefas e durante um breve momento durante as horas diurnas não estaremos em casa e será difícil falar conosco. Quero que alguém em quem confiamos esteja com você todo o tempo, para que se sinta a salvo. Mas lembre-se sempre, que esta é sua casa. Se acontecer algo que você não goste, espero que me comunique, para que possamos solucioná-lo, juntas. Se tiver medo e quer mudar alguma coisa na casa, por favor, diga. Sua felicidade e comodidade nos importam muito. Não é incômodo, realmente queremos fazer coisas por você.

- Minhas acomodações são preciosas, Francesca. - Disse Skyler. Sua voz ainda era suave e fina que Francesca desejou estreitá-la nos braços. - Obrigado por ter tantas preocupações por mim.

- Foi divertido. Fazer compras juntas será divertido. - Francesca sorriu. – Você ficou pálida ante a idéia de sair às compras? A maior parte das garotas estariam emocionadas, dando pulos de alegria. Finalmente consigo uma filha, ou uma irmã pequena, como prefere, e ela não quer ir às compras.

Skyler levou uma mão trêmula, a cicatriz de seu rosto e a esfregou inconscientemente.

- Não saio na rua há muito tempo. - Confessou.

Gabriel segurou a mão dela, amavelmente e a levou ao rosto.

- Quando estiver preparada, sairemos todos e enfrentaremos esses estranhos daí de fora, juntos. Assim será bem mais divertido.

Skyler o olhou fixamente durante um longo momento, seus olhos se moviam sobre os duros traços de Gabriel, estudando cada centímetro de seu rosto. Seu sorriso demorou muito a chegar, mas quando o fez, iluminou seus olhos.

- Acredito que você tenha quase tanto medo de toda essa gente como eu, só que não do mesmo modo.

Francesca gargalhou ante a sardônica expressão de Gabriel. O alegre som encheu a casa de amor. Ela pode, pensou Gabriel. Francesca podia encher cada centímetro dessa enorme casa, de amor. Cada momento passado em sua companhia só aprofundava seus sentimentos por ela. Dela emanava tanta luz, que o fascinava. Gabriel vivera num mundo de escuridão e violência, durante tanto tempo, que só podia ficar olhando Francesca com respeito reverencial. Seus olhos negros encontraram os cinza de Skyler e compartilharam um pequeno sorriso de mútuo entendimento. Ela se sentia igual. Ambos desejavam deleitar-se na luz curativa de Francesca, para toda a eternidade.

Francesca deslizou um braço em volta da cintura de Skyler, um gesto tão natural nela, que Skyler não pensou em afastar-se.

- Não temos que nos preocupar em sair para nenhum lugar público até que você esteja preparada, céu. Só quero que se sinta cômoda e segura aqui em casa. Acredito que você gostará de nossos novos amigos.

Skyler mostrou uma expressão estranha e intercambiou outro rápido olhar com Gabriel. Ele estava da mesma forma. Francesca riu deles.

- Já posso ver como será isto. Vós dois são ermitões. Skyler, você gostou de seu guarda-costas?

Skyler encolheu os ombros.

- Tento não o olhar, nunca.

- Bem, pois deveria. É bastante bonito. - Replicou Francesca.

- Ei... Já é suficiente. - Interrompeu Gabriel. - Não precisa achar nenhum outro homem bonito, que não eu seja.

Francesca sorriu muito decemente.

- Hum... Não me lembro de haver dito que você é bonito.

Skyler sorriu. Durante um momento, ela esqueceu as cicatrizes de seu corpo. Esqueceu as cicatrizes de sua mente e alma. Era uma jovem desfrutando de um momento de felicidade com duas pessoas com as quais estava se afeiçoando cada vez mais. Era quase impossível acreditar que pudesse confiar tanto neles, tão rapidamente, mas confiava.

- Vai deixar que ela diga isso? – Ela perguntou a Gabriel, com olhos faiscantes. – Você é bonito e ela notou. Sei que notou.

Ele sujeitou com firmeza a mão de Francesca, quando esta tentou fugir e a arrastou de volta.

- Vou hipnotizá-la e plantar todo tipo de sugestões. Você pode me ajudar, Skyler. Acredito que ela deveria me reverenciar.

- Enquanto planta todas essas sugestões nela, pode lhe dizer que não preciso que ninguém mais que cuide de mim, só quero a ela. - Disse Skyler, com expressão meio séria.

- Ninguém mais tem autoridade sobre você, Skyler. Estas pessoas que vão te ajudar durante as horas do dia, nas que eu não estou, - Replicou Francesca, gentilmente. – Estão nos fazendo um tremendo favor para que não fique sozinha. - Sua voz foi musical e gotejou na mente de Skyler com uma compulsão curadora.

Gabriel deixou escapar um gemido, atraindo a atenção de Skyler para ele.

- Notei que você utilizou as palavras "ninguém mais", Skyler? Está me excluindo? Acredito que eu sou a autoridade nesta casa.

- Sequer é bonito. - Assinalou Skyler, rinde, apesar da seriedade da situação.

- OH!... Agora você também precisa ser hipnotizada. - Ameaçou ele. - Deveria saber, que vocês mulheres sempre se aliem. Lembre-me disso, quando encontrar você mesma latindo como um cão em seu quarto, se perguntando como chegou ali.

- Eu perguntaria é por que ela estava latindo. - Contradisse-lhe Francesca. - O latido seria excessivo?

- Não sei. - Pensou Skyler. - Se essas pessoas chegarem e encontrar todos nós latindo como cães, perderiam o trazeiro para sair daqui e eu me alegraria muito.

- Dê-lhes uma oportunidade, Skyler?

Skyler suspirou, brandamente.

- Suponho que não tenho muita escolha. Mas sei que me arrumaria por mim mesma. Não sou um bebê e passei a maior parte de minha vida sozinha.

- Tem razão. - Reconheceu Gabriel. - Por favor, não nos interprete mal, Skyler. Francesca e eu desejamos assegurar seu conforto e segurança, não porque não confiemos em você. Somos ricos, pequena e você pode vir a se converter em objetivo, por causa disso. Francesca passaria uma desmesurada quantidade de tempo preocupando-se, se por acaso não estivermos te protegendo adequadamente.

Os olhos de Skyler se fixaram na face dele enquanto decidia se ele estava dizendo a verdade. Finalmente assentiu.

- Não tinha pensado nisso. Não quero que nenhum dos dois se preocupem comigo.

O toque de Francesca foi consolador, como sempre.

- Tente por um tempo, céu. Se não funcionar, encontraremos alguém que você goste.

Skyler tentou aliviar a preocupação da expressiva face de Francesca.

- Não a preocupa estar me mimando?

Francesca sorriu, seus olhos escuros brilhantes.

- Assim espero. Seria tão divertido.

- Não sabem o mínimo de paternidade, certo? - Repreendeu Skyler. - Vou ter que arrumar as coisas por aqui.

O som de batidas na porta de entrada, cortou qualquer outra bricadeira entre eles, apagando o sorriso da face de Skyler. Francesca imediatamente rodeou os ombros muito magros da jovem, com um braço reconfortante.

- São eles, não? - Skyler sussurrou, como se tivesse medo de falar mais alto. Francesca podia sentir como ela tremia.

Olhou para o Gabriel, claramente preocupada. - Possivelmente a estamos pressionando muito, esperando que aceite muita gente em sua vida e muito rápido.

- Ela deve estar protegida, meu amor. Nossa única possibilidade é forçar sua concordância e estamos de acordo que isso não se fará a menos que seja necessário. Gabriel estendeu a mão para tomar a de Skyler.

- Também não gosto de ter estranhos em casa, pequena. Você deveria me dar forças, enquanto Francesca se põe a trabalhar em sua magia. Se nenhum de nós sentir algo de mal nestas pessoas, tentaremos integrá-los em nossa casa. É um trato?

- E o que acontece se eu não gostar do homem? - Perguntou Skyker, colocando em palavras, o pior de seus medos.

- Entendo, Skyler. - Disse ele, suavemente. - Se alguma vez tiver dúvidas a respeito de qualquer homem, eu incluíve, tenha ou não uma razão concreta, vá diretamente a Francesca. Não pense e não se preocupe por isso e nem duvide de nenhuma forma. Diga-lhe imediatamente. Prometa-me que o fará. - Sua voz era mágica, amável e tão perfeita que era impossível resistir.

Skyler permaneceu imóvel durante um momento antes de assentir solenemente. Encontrou-se segurando as mãos de Gabriel e Francesca enquanto avançavam através da casa até a porta de entrada. De algum mode, o contato físico com eles a tranqüilizava. Havia algo extremamente consolador no casal. Quando estava entre eles, a paz parecia enchê-la e manter seus temores à raia. Não recordava de nenhum momento em sua vida que não tivesse mede. Não até que Francesca a tinha encontrado encolhida dentro de sua própria mente e havia a enchido com ondas de ternura e segurança. Nem sequer o fato de que Gabriel fosse um homem tão dominante, a incomodava. Sabia que ele era poderoso, podia sentir quando estava perto dele, ainda assim achava o poder de Gabriel reconfortante. Ele havia dado sua palavra e acreditava. Acreditava nos dois. Eles estavam decididos a voltar a vê-la completa, a fazê-la entender que o amor e a bondade eram a autêntica segurança.

Sobre a cabeça inclinada de Skyler, o negro olhar de Francesca encontrou o escuro de Gabriel com mudo entendimento. Os dois liam os pensamentos da adolescente facilmente. Gabriel sorriu com confiança, desejando poder tomar Francesca nos braços e estreitá-la dentro do amparo de seu coração e sua mente, a proteção de seu corpo. Ela sempre pensava nos outros. Sempre queria ajudar os que necessitavam e sua compaixão pouco a pouco, tocava-o.

- Quero demais você, Francesca. - A emoção foi tão intensa, que as palavras escaparam de sua mente, até a dela.

Francesca sentiu a cor subindo em suas faces. Gabriel a fazia sentir-se como uma adolescente e seu coração revoava ante o toque de sua mão. Algumas vezes, ele se permitia ser vulnerável. Era um traço incomum num homem dos Cárpatos.

A suave risada dele ressoou em sua mente enquanto abria a porta principal. - Você não sabe nada dos homens dos Cárpatos.

Francesca o lançou o mais arrogante dos olhares, quando o que realmente queria era precipitar-se para seus braços. Em vez disso, sorriu ao casal que esperava no alpendre.

- Por favor, entrem. Aidan nos falou de vocês. É muito amável da parte de vocês, nos ajudar neste momento de grande necessidade.

O homem avançou com um sorriso fácil e estendeu sua mão, deliberadamente, a Gabriel.

- Sou Santino e esta é minha mulher, Drusilla. - Estava claramente à vontade, pois suspeitava que Gabriel sabiam quem eles eram e parecia não ter nenhum medo de que Gabriel o "lesse" e Gabriel gostou disso.

Santino era um bom homem, com sentido de dever e decidido a fazer o que fosse necessária para proteger a família. Havia vivido sob o assédio de vampiros e seus serventes e conhecia o perigo que enfrentavam os caçadores para proteger os humanos e Cárpatos. Uniu-se voluntariamente as filas dos lutadores, aceitando a responsabilidade de saber que esses vampiros existiam realmente. Havia uma tranqüila confiança nele, um ar de capacidade nele, que Gabriel gostou imediatamente.

Gabriel quase pôde ouvir o suspiro de alívio de Francesca. Skyler ficou calada durante as apresentações, com a face muito pálida, mas Santino e sua mulher foram extraordinariamente amáveis com ela. Drusilla era uma mulher pequena, com a mesma constituição fr Skyler, dó que com mais curvad e olhar suave. Estava mais nervosa que o marido, mas os dois Cárpatos não puderam detectar outra coisa que sincera compaixão por Skyler e determinação a assistir a menina em sua desgraça. Francesca gostou dela imediatamente, por isso. Skyler obviamente leu bondade no casal porque começou a relaxar lentamente, soltando o aperto mortal das mãos de Gabriel e Francesca, desenhando um débil sorriso na face, uma ou duas vezes no transcurso da conversa.

Francesca mostrou a casa ao casal, excluindo de propósito, os aposentos de Skyler. Era importante para a jovem sentir que tinha seu próprio espaço, um santuário no qual ninguém podia entrar sem permissão ou convite. Drusilla ficou particularmente feliz com a cozinha e o jardim. Santino não estava muito contente com o fácil acesso da rua. Para ele, proteger a casa era um pesadelo de lógica. Os dois falavam francês fluentemente, mas com um inconfundível sotaque americano. Era impossível não se sentir em casa e em paz na casa de Francesca. Havia algo consolador e tranqüilo nessa casa. Drusilla sorriu a seu marido, súbitamente feliz com a decisão que haviam tomado. Não havia sido fácil. Seus dois filhos estavam na universidade e eles estavam preparados para uma mudança, mas a França não entrava em seus planos, absolutamente.

O que os influenciara, em favor da mudança, fôra saber que uma pequena havia sido abusada tão terrivelmente, que precisava de alguém que a amasse e cuidasse dela. Ainda assim, havia sido particularmente aterrader para Drusilla. Ela adorava Aidan e a sua esposa Alexandria, mas não os conhecia muito. As coisas que seu marido havia lhe contado eram vagas. Antes que Santino contasse a verdade sobre Aidan e Alexandria, teria jurado que os via com freqüência durante o dia. Agora sabia que não era assim.

Estudou Francesca atentamente, lançando rápidos olhares, na intenção de julgar sua personalidade. Seria fácil trabalhar para ela? Drusilla queria sentir esta casa como sua. Queria amar a pequena Skyler como uma filha. E desejava gostar de Francesca e Gabriel como gostava de Aidan e Alexandria. Os pais de Santino haviam trabalhado para Aidan toda sua vida de casados. Santino crescera na casa de Aidan e o queria muito. Sabia que a lealdade de seu marido era profunda e os laços eram quase tão fortes como os de seu matrimônio com ela. Possivelmente mais. Suspirou e olhou seu marido. Santino. Queria-o muito. E estava muito orgulhosa dele. Drusilla pilhou a Francesca sorrindo para ela e apressadamente lançou um sorriso em resposta.

- Realmente eu adoro sua casa. - Disse, esperando romper o gelo.

O sorriso de Francesca alcançou seus magníficos olhos.

- Obrigada, vivi aqui muito tempo e me sinto bem. Espero que você se sinta igual. Se os aposentos de acima não são de seu agrado, ou precisaa de alguma coisa para a cozinha, por favor, diga. Esse é seu demínio.

- Eu posso cozinhar. - Disse Skyler de repente, surpreendendo a todos. Ela estivera calada, simplesmente observando como os outros se moviam pela casa. Permanecia muito perto de Francesca e algumas vezes estendia a mão e tocava seu braço, para assegurar-se que não estava sozinha.

- Isso é maravilhoso. - Disse Drusilla imediatamente.- Terá que me ensinar todas suas receitas favoritas. Eu sei o que gosta Santino. Simplesmente algo que seja comestível.

O fantasma de um sorriso apareceu na face de Skyler, mas não alcançou de todo, seus olhos. Ela apertou seus dedos sobre os de Francesca e um estranho olhar cruzou seu rosto. Inclinou-se para Francesca.

- Pediu-me que te dissesse quando o outro estava aqui. Posso o sentir agora.

Francesca ficou muito quieta, Seus dedos se enlaçaram à diminuta cintura de Skyler.

- Não olhe para ninguém da casa, céu. Simplesmente se concentre em algo que mantenha sua mente ocupada. – Gabriel – ela buscou a mente do companheiro. – Lucian está aqui com Skyler. Tenho mede que ele a utilize para fazer mal a alguém. Skyler não poderia suportar.

- Não entre em sua mente enquanto ele estiver com ela. Farei eu e verei o que trama Lucian. Provavelmente procura informação ou simplesmente chatear. Gosta de jogar.

Gabriel sorriu tranqüilizador, para Skyler, enquanto enviava um silencioso sinal a Francesca para que continuasse conversando com Santino e Drusilla.

- Tome cuidade, Gabriel. - Disse Francesca preocupada. Tinha muito medo de Lucian. Conhecia seu poder e sabia que era uma força sem igual. – Você acha que ele utilizará Skyler contra mim, mas eu temo que ele a utilize contra você.

A única resposta de Gabriel foi um fluxo de ternura em sua mente.

- Venha comigo, coração. – Instruiu, amavelmente e tomou a mão de Skyler na sua, avançando com ela para o escritório. Enquanto passeava ante as prateleiras, entregou-lhe um livro.

- Estou seguro de que gostará muito deste livro.

Skyler pegou o livro sem perguntar e o abriu. Leu-o seriamente, mas enquanto o fazia, um pequeno sorriso brincava em seus lábios.

- Este assunto de espionagem é muito interessante. Não é, Gabe?

As sobrancelhas negras de Gabriel saltaram quase até o teto. Em todos os longos séculos de sua vida, ninguém tinha pensade nunca em o apelidar de Gabe.

- Mais respeito, jovenzinha e menos "Gabe".

Fundiu sua mente com a dela rapidamente, sem lhe dar tempo de pensar ou ao Lucian de notar que ele se unira a eles. Imediatamente pôde sentir a onda de poder que assinalava a presença de seu gêmeo na jovem mente da garota.

Lucian o sentiu, imediatamente.

- Um pouco apertado para nós dois.

- Desde quando você desceu o nível a ponto de utilizar crianças para sair com as suas? Acredita que foi é suficientemente forte para se encontrar comigo cara a face, mas já vejo que seu poder foi minguando pouco a pouco. - Gabriel falou com uma voz suave e pura, com tom hipnótico.

- Persiste em me insultar. Isso nunca funcionará, Gabriel. Duvido que me empurre a aceitar seu desafio. Enquanto você se abrandou nessa casa, rodeado de mulheres, eu estou construindo um império.

Gabriel suspirou.

- Sonhas como um menino, Lucian. Aborreceria-se regende um império. Encontre um monastério e leia alguns livros.

- Isso eu já fizeito.

Antes que Gabriel tivesse oportunidade de "ver" através dos olhos de Lucian e ter uma idéia de onde poderia estar seu gêmeo, sentiu sua retirada. Lucian saíra da mente de Skyler.

Skyler levantou o olhar para ele.

- Ele sabia que você tinha me dado o livro. Olhou-o e me disse que olhasse a página oitenta e dois. Comprovei e ele repetiu palavra por palavra. – Skyler parecia impressionada pelo fato.

- Lucian é um gênio, Skyler e tem memória fotográfica.

Ela voltou seus enormes olhos para ele, olhos velhos.

- Você também, verdade?

Gabriel assentiu.

- Sim, céu. Lucian é meu irmão, meu gêmeo. Gosta de estar sempre jogando e nem sempre são agradáveis. Não quero que se assuste, mas ele tem bastante poder e algumas vezes o esbanja.

Skyler sacudiu a cabeça e entregou o livro a Gabriel.

- Não tenho medo dele, absolutamente. Por que Francesca me disse que não olhasse a ninguém? – Ela fez a pergunta para ver se Gabriel dizia a verdade.

Os dentes brancos dele brilharam e pela primeira vez Skyler sentiu um pequeno estremecimento. Durante um momento pôde ver claramente o predador interior.

- Lucian pode fazer mais que falar com você mente a mente. É telepata, mas também tem outros poderes. Posso a utilizar se fundir sua mente com você.

Ela não esperava esta resposta. Skyler deixou de caminhar e levantou o olhar para ele.

- Realmente responderá a todas minhas perguntas? Não importa o quão ruins sejam, contará a verdade?

- E o que esperava, Skyler?

Ela encolheu de ombros.

- A maioria das pessoas mente as crianças, se a verdade for difícil. - Skyler baixou a cabeça. - Não deveria ter colocado você a prova. Suspeitava que era algo como isso

- É inverossímil para que acredite? - Perguntou Gabriel com curiosidade.

- Não é inverossímil que você e Francesca possam falar em minha mente? Não é inverossímil que eu possa falar com os animais?

Ele arqueou uma sobrancelha.

- Pode?

Ela assentiu sem o olhar, quase temendo que ele não acreditasse.

- Sabia que você tinha um sexto sentido para os problemas, mas não compreendi quão talentosa é, na realidade. Trabalharemos nesse talento em particular. Você gosta de animais?

- Mais que das pessoas. - Admitiu ela, com um pequeno sorriso. - Muito mais que de pessoas. Relaciono bem com os animais. Eles têm um código de conduta. Um código honorável.

- Algumas pessoas também vivem segundo um código, céu. Algumas pessoas realmente têm honra e integridade. Você deveria saber. É uma deles.

- Realmente pode me ajudar a falar melhor com os animais?

- Posso te ajudar a desenvolver o talento que tem. - Respondeu ele. - E é possível que Francesca e eu possamos te ensinar a se defender de emoções indesejadas quando está com outras pessoas.

- Isso eu gostaria. - Seus pequenos dentes tocaram o lábio inferior.

- Você tem um sotaque diferente. É agradável. A forma em que retorce as palavras. Como aprendeu a falar de uma vez inglês e francês?

Skyler encolheu de ombros outra vez.

- Sempre me dei bem com idiomas. Na realidade não sei porque, mas acredito que minha mãe era igual.

- Deve ter sido uma mulher notável. Desejaria tê-la conhecido, Skyler.

- Obrigada. - Murmurou Skyler. Sua voz foi suave e doce, reminiscências da de Francesca. Ela afastou-se, com um pequeno e peculiar salto para as escadas.

Gabriel deslizou pela casa silenciosamente, ouvindo os sons dos humanos. Não era ruim como havia pensado que seria, compartilhar a mesma morada com eles. Havia pesquisado a mente de Santino e encontrou lealdade nele, um homem valente. Nunca tinha passado muito tempo entre os humanos, não podia chamar a nenhum, de amigo. Mas Santino era sólido e tinha bom coração. Não havia intenções ocultas nesse homem. E sua mulher era doce e de boa natureza. Não estava segura se acreditava ou não, nas coisas que Santino lhe contara sobre Aidan e sua companheira, mas estava decidida a viver com o Santino onde quer que ele escolhesse e a fazer de seu um lar feliz. Gabriel se encontrou sorrindo enquanto percorria a enorme casa. Os ruídos estavam tornando familiares, reconfortantes. Os diferentes aromas que enchiam o ar faziam a casa muito mais cheia de amor.

- Você gosta. - Francesca estabeleceu o fato enquanto se deslizava atrás de Gabriel para abraçá-lo. Descansou a cabeça contra suas amplas costas.

- Sim. Eu gosto. - Concedeu ele. - Não sei se a mulher sairá fugindo e gritando daqui se um vampiro nos atacar aqui de verdade.

- Pois eu não sei se não seria eu, a que saísse gritando da casa. - riu Francesca. - Skyler foi para cama. Estava muito cansada. Sentei-me com ela um momento para me assegurar de que estava curada. Meu amor... Estou incrivelmente faminta. - Havia uma suave sugestão em sua voz.

Gabriel colocou sua mão sobre a dela.

- Outra vez? Com quanta freqüência vou ter que te alimentar?

As mãos dela passearam sobre o corpo de Gabriel, percorrende seus músculos, explorando os lugares mais intrigantes.

- Não é só por mim. - Recordou-lhe ela. - Em qualquer caso, sabe perfeitamente bem de que fome estou falande.

Ele voltou-se, para colocá-la entre os braços, embalando-a como se ela não pesasse mais que uma menina. Seus olhos negros arderam sobre a face dela, com tanta fome, que lhe tirou o fôlego.

- E que classe de fome seria essa, Francesca? Eu adoro quando me pede o que quer.

- Gabriel. – Ela deixou escapar seu nome com uma espécie de surpresa, acariciando seu queixo. Seu Gabriel. Sua lenda. Incrivelmente sexy. - Não estou pedindo, companheiro, estou exigindo. Meu corpo está faminto do teu. Arde meu interior e só você sabe como me satisfazer.

Eles estavam se movende rapidamente através do corredor, até a câmara.

- Não posso fazer mais que te agradar.

- Hum... Acredito que desejo ser eu a te agradar. Quero-o em minha boca, quero ver seu rosto enquanto faço amor com você, quero te sentir duro e ardente e tão parte de mim que nunca, nunca serei capaz de te tirar.

Os lábios dele encontrou os seus estremecendo seu mundo, enquanto a roupa caía pelo corredor. Os dedos dele procuraram seu úmido e acolheder sexo, penetrando-a, roçando o calor, enquanto a beijava até que não soube mais onde começava ele e terminava ela. Na câmara, ela o empurrou contra a parede, insistindo em seu direito saboreá-lo, tentá-lo. Sua mente, profundamente fundida com a dele, para compartilhar a experiência, para lhe permitir a satisfação de saber que queria conduzi-lo ao limite de seu controle. Gabriel, como sempre tão controlado, lutava impotentemente e um áspero lamento rasgou sua garganta quando ela saboreou sua essência. Ele levantou-a nos braços e a colocou em seu regaço, enchendo-a completamente, suas mãos guiando os quadris dela enquanto observava sua lenta e preguiçosa cavalgada, o cabelo cobrindo seu corpo, mas deixando entrever provocativamente os seios cheios.

- É a mulher mais formosa e sexy da terra. - Sussurrou Gabriel, roucamente, com a intenção de não dormir ou deixar que Francesca dormisse durante muito, muito tempo.

 

O timbre da campanhia produziu um suave e melodioso zumbido, anunciando um visitante. Santino olhou fixamente para sua esposa e desejou não se sentir tão apreensivo. Tudo na casa de Francesca e Gabriel era harmonioso, inclusive o timbre da campanhia da porta, mesmo assim, sentia uma ameaçadora premonição. Skyler empalideceu visivelmente e se encolheu como uma pequena bola na poltrona. Seus olhos pareciam enormes na pequena face, enquanto se abraçava seu lobo de pelúcia. Santino desejou rodeá-la com seus braços e abraçá-la, mas a garota colocava muito cuidado em evitar qualquer contato físico com ele.

Drusilla o olhou e depois se colocou junto à cadeira de Skyler, bloqueando parcialmente ao visitante, a visão da adolescente. Ambos notaram que Skyler parecia saber quando apareciam problemas e agora, ela parecia muito nervosa.

Brice tocou de novo a campanhia, decidido a ver Francesca. Havia desenvolvido uma obsessão. Já não podia dormir a noite, seguro de que ela estava em perigo. Pensava nela a todo o momento, planejando e procurando formas de tirá-la da influência do feitiço negro de Gabriel. Agora sabia o que devia dizer para que ela o escutasse, mas foi um completo desconhecido que abriu a porta. Brice ouviu um zumbido em sua cabeça. Estava ocorrendo mais freqüência, o prelúdio das terríveis e implacáveis dores de cabeça.

- Quem demônios é você? - Exigiu grosseiramente. Quantos homens tinha Francesca em sua vida? Será que ia ter que recorrer à violência? Gabriel provavelmente tinha algum tipo de bando, possivelmente pertencia ao crime organizado.

Santino arqueou as sobrancelhas.

- Desculpe? - Respondeu moderadamente. Seu rosto era uma máscara inexpressiva.

Brice apertou os dentes, os dedos já apertavam suas mãos.

- Esta casa pertence à Francesca De Ponce e ela é muito amiga minha. Onde está ela?

- Neste momento ela saiu. Poderia me dizer quem perguntou por ela? - Perguntou Santino, cortês. Estudou ao homem atentamente, perguntando-se quem era. Ninguém o havia advertido que esperasse problemas vestidos com trajes tão caro.

Brice engoliu sua raiva e pressionou as têmporas com a ponta dos dedos.

- Sou o médico de Skyler. Estou aqui para fazer uma consulta de rotina.

Drusilla sentiu que a jovezinha instantaneamente ficara imóvel e baixou o olhar para ela. Skyler estava tão branca que parecia um fantasma. A garota tinha enterrado a face contra o lobo de pelúcia e só seus olhos chamavam a atenção pelo alarme que mostravam. Drusilla baixou a mão sobre o ombro de Skyler. O magro corpo da garota estava tremendo.

- Não sabia que Skyler tinha uma consulta com um médico. Francesca normalmente me informa muito bem sobre a agenda do dia. - Improvisou Santino com facilidade.

- Francesca me prometeu que levaria Skyler ao hospital para uma consulta.

Skyler deixou escapar um pequeno som de desassossego, tão baixo que só Drusilla pôde ouvi-la. Santino voltou o olhar para elas e sua mulher sacudiu a cabeça rapidamente.

- Lamento, doutor, mas até que Francesca volte, temo que pouco posso fazer. A lembrarei da consulta. - Disse com suavidade.

- Eu mesmo levarei Skyler ao hospital. - ofereceu-se Brice imediatamente.

Skyler se apertou contra as almofadas, decidida a não se mover um centímetro. Olhou para Santino, impotente.

Santino sorriu com confiança para a adolescente.

- Sinto muito, senhor, mas como não recebi ordens de Francesca, então não posso permitir que Skyler saia. Estou seguro de que Francesca a levará, logo que seja possível. – Ele manteve-se em pé, solidamente na soleira da porta, de forma que Brice não teve oportunidade entrar.

A cor deslizou imediatamente pelo pescoço de Brice até tomar seu rosto, dtingindo sua face, num tom intensamente vermelho. Suas têmporas pulsavam com tanta força, que ele as apertou com os polegares, tentando aliviar a dor.

- Ela é minha paciente goste Gabriel ou não. Não permitirei que esse homem dite se posso ou não examinar meus pacientes.

Santino continuou sorrindo, amavelmente.

- Lamento muito, doutor. Meu francês não deve ser fácil de entender. Gabriel não me deu nenhuma ordem absolutamente concernente ao Senhor. Estava falande de Francesca. Foi ela que insistiu em que Skyler ficasse em casa e não recebesse visitas que a estressassem. Estou seguro de que não se referia ao senhor, já que é o doutor de Skyler, mas não posso ir diretamente contra as ordens dela. Assegurarei-me de que Francesca esclareça o mal-entendido.

Brice amaldiçoou furiosamente, lançando adagas com os olhos, sobre Santino.

- Sequer o conheço. Por que Francesca saiu, deixando-o a cargo de minha paciente? Insisto em entrar e falar com Skyler. Quero me assegurar de que ela está bem.

Santino continuou sorrindo, mas seus olhos eram inexpressivos e frios.

- Está sugerindo que eu poderia estar mantendo a senhorita cativa em sua própria casa?

- Não sei o que está fazendo você. Francesca e eu somos amigos muito íntimos. - O tom de Brice insinuava todo tipo de coisas. – Ela haveria me dito se tivesse feito acertos para o senhor cuidar de Skyler.

- Possivelmente não são tão bons amigos como supõe o senhor. - Replicou Santino, moderadamente.

Brice avançou um passo para intimidar o homem, a fúria o rasgava, quase se sobrepondo a seu sentido comum.

- Como se atreve?

Santino não se moveu. Não se sobressaltou. Simplesmente ficou parado na soleira da porta. Uma sólida e musculosa parede impossível de mover. Atrás de Brice, um homem saiu das sombras.

O guarda-costas de Skyler ficou ao pé da escada, com os braços cruzados. Brice engoliu sua raiva e se afastou de Santino.

- Skyler, saia. Virá comigo. Estou falando a sério. Se não vir agora mesmo, vou diretamente ao juiz e insistirei em que coloque sob custódia, imediatamente.

Skyler enterrou a face entre as mãos com um pequeno gemido de medo.

Clandestinamente, na câmara secreta, permaneciam deitados, dois corpos. Tão imóveis como se estivessem mortos. Um só coração começou a pulsar onde antes só havia silêncio. Gabriel havia sentido a força do medo da garota e isso o despertara. Instantaneamente, sentiu a presença de seu gêmeo. Ambos eram um com um só pensamento. Alguém ameaçava à menina que estava sob o amparo dos dois e isso não seria tolerado.

Gabriel não podia explicar um fenômeno semelhante à Francesca. Isto era o que o fazia único, em Lucian. Era o que tornava difícil o condenar e o caçar. Lucian se fundia com ele e no momento estavam ligados numa só mente, forte e letal, na caça. Fosse qual fosse o motivo, Lucian estava tão decidido como Gabriel, a que Skyler não fosse intimidada nunca mais. Gabriel não podia fechar-se a este irmão, que não deixava de proteger às mulheres. Nesse momento, os dois eram um só ser.

Gabriel se desconectou de seu corpo e seu espírito se elevou e se moveu veloz através da terra, para a casa principal. Era uma sensação peculiar sair do próprio corpo. Desorientava e mesmo assim era extranhamente hilariante. Gabriel estava no ponto mais fraco de seu poder pela tarde, mas podia viajar sem seu corpo e assim o fez, movendo-se pela casa, até que chegou ao lugar do distúrbio.

A luz entrava em torrentes, apesar de que o enorme corpo de Santino bloqueava a entrada. Gabriel se sobressaltou ante a luz do sol, embora não tivesse corpo e a luz não podia o cegar. Foi até a trêmula figura de Skyler, que chamou sua atenção. Ela estava encolhida no sofá, desamparada e perdida sem Francesca e Gabriel protegendo-a de mundo. Encheua-a de ternura e sensação de segurança, enquanto Lucian o apoiava com sua força e poder, para serená-la imediatamente.

Skyler levantou a cabeça e olhou a sua volta, assombrada de poder sentir a presença de Gabriel apesar não vê-lo no aposento com ela. Olhou fixamente para Drusilla, para ver se ela sentia alguma coisa. Não iria com Brice.

- É obvio que não, céu. - Era uma voz indiscutivelmente masculina, consoladora e amável, que a enchia de confiança. - Nem Santino nem eu permitiremos que ninguém a leve contra sua vontade desta casa. Brice está doente.

Skyler sentia a presença de Gabriel, forte e poderosa, em sua mente. Reconheceu o toque do outro, esse pelo que pareciam todos se preocupar tanto, igualmente forte e poderoso como Gabriel. Sua força a alagava juntamente com a de Gabriel. Skyler sabia que a protegeriam. Nunca antes se sentira parte de uma família. Era uma sensação estranha e inclusive antinatural para ela, embora a desejava desesperadamente. Desejava acreditar que Santino, Drusilla e o guarda-costas, Jarrod Silva, protegeriam-na e sentiriam por ela lealdade igual faziam Gabriel e Francesca. Tinha reservas sobre o outro, mas só porque sabia que Gabriel e Francesca desconfiavam dele. Não imaginava o por que, mas ele havia dado muito que pensar e havia tentando "ler" o casal quando eles a tocavam.

Skyler tentou alcançar Gabriel, sentindo-se frustrada durante um momento, depois riu de si mesma. Tudo o que tinha que fazer era pensar a resposta em sua cabeça. Dissera a Francesca que algo estava errado com o doutor. Já não o sentia como antes.

- Tenho mais medo por Francesca que por mim mesma. Acredito que o doutor Brice está louco.

- Deve ter fé em mim. Não permitirei que Brice faça mal a Francesca.

Gabriel sabia o que ela temia. Sabia que Skyler tinha medoode que Brice pudesse fazer mal a Francesca, que de algum mode conseguisse separá-la deles. - Isso não acontecerá, ninguém te afastará de nós. - Sua voz era cheia de confiança, tão perfeitamente tranqüila e calma que Skyler recuperou a confiança imediatamente e foi capaz de olhar além de Drusilla para sorrir um pouco impertinentemente ao doutor.

- Acredito que está você assustando Skyler, senhor. - Disse Santino mais macio que nunca, mas houve uma ligeira nota de ameaça em sua voz.

Junto a ele, Gabriel se moveu e uma brisa fresca estendeu sobre Brice, o enchendo de um temor como nunca antes tinha conhecido. Ele estava ofegante e sua pele estava infestada de diminutos insetos. Milhares deles atacavam seu corpo, fazendo com que começasse a arranhar a carne, tentando se livrar dessas coisas.

Santino intercambiou um olhar preocupado com Jarrod sobre a cabeça do doutor. Este homem atuava como se estivesse louco. Mais que nunca, decidiram proteger Skyler do doutor. Este tipo precisava de uma cela acolchoada, num pavilhão psiquiátrico. Possivelmente num bom centro de desintoxicação. Sem advertência, o doutor empurrou Santino, num esforço para tentar entrar e ver Skyler.

Depois, Brice nunca recordaria por que tinha feito algo tão impulsivo. Sua cabeça pulsava abominavelmente e a pele picava. Pensou, que estava enlouquecendo. Seu único pensamento coerente era Francesca. Ela ressoava em sua mente a cada pulsada de seu coração. Literalmente ricocheteou contra o peito de Santino e aterrissou sobre seu traseiro.

No ato, Jarrod se inclinava sobre ele e seu rosto era uma máscara inexpressiva.

- Acredito que é melhor que se vá, senhor. - Disse firmemente. - Não quero o envergonhar, chamando as autoridades para que o escoltem para fora da propriedade. Sei que é um bom amigo de Francesca e ela ficaria consternada ante semelhante desdobramento. Se não importar que eu diga, senhor, acredito que é você que precisa de uma sonsulta numa clínica. – O Jarrod baixou-se e com facilidade colocou Brice em pé.

Brice era uma ruína, física e mentalmente. Não podia pensar devido o terrível zumbido de sua cabeça. Seu corpo cambaleava e se retorcia quase como se estivesse sofrendo um ataque. Tentou ser razoável. Algum farrapo de orgulho e dignidade o indicou que partisse, embora não podia obrigar seu corpo tremulo a fazê-lo. O guarda-costas teve que o arrastar para fora da propriedade.

Skyler manteve as mãos sobre os olhos, ocultando a visão de seu médico, quase colocando espuma pela boca. Vira-o babar e cuspir enquanto falava.

- O que está acontecendo a ele? - Sussurrou em voz alta, a Gabriel. Sob a mão de Drusilla, a adolescente estava tremendo, retrocedendo. E, seguida, Francesca e Gabriel moveram-se rapidamente, rodeando-a. A ternura e amor era enviados juntos a ondas de confiança. Também sentiu o outro, sua presença forte e poderosa.

Santino fechou a porta firmemente, a desagradável cena.

- Sinto muito, Skyler. Temo que o pobre doutor esteja provando sua própria medicina. Estava muito drogado.

- Por que ele queria me levar? - Perguntou Skyler em voz baixa. Estava começando a acreditar que seriamente podia estar segura nesta casa.

Gabriel decidiu que a verdade seria o melhor. - Acredito que ele pensa em utilizá-la de algum modo, para conseguir Francesca.

- Não sei. - Respondeu Santino amavelmente. - Em sua mente retorcida, ele acredita que está em algum tipo de perigo e ele está resgatando você. Não me conhece, sou um estranho em sua terra. Seja qual for à razão, não pode te tirar desta casa. Aqui está perfeitamente a salvo, Skyler. Dei minha palavra a Francesca.

Skyler estava confusa. Por que de repente toda estas pessoas a protegiam? Eram desconhecidos, mesmo assim voluntariamente se arriscavam para protegê-la. Por que? Abraçou-se firmemente a seu animal de pelúcia, o primeiro presente que tinha recebido na vida.

- É parte de nossa família.

Disse Gabriel, tranqüilamente e com grande autoridade. Não havia forma de discutir com a formosa voz de Gabriel. Falava com tal pureza, que Skyler só podia acreditar. E ela relaxou, permitindo-se respirar normalmente. O coração de Gabriel se retorceu ante a visão dela. Parecia pequena e muito jovem para a idade que tinha. Exceto os olhos. Havia algo em seus enormes olhos cinzas, que diziam que sabia muitas coisas, nenhuma delas boas. Gabriel desejou poder fazer desaparecer esse olhar para sempre, mas era impossível.

- Está se abrandando, Gabriel. Esta menina a quem professa tanto afeto, deveria ter sido vingada.

Francesca, ouvindo através de Gabriel, ficou quieta, tocando de uma vez a mente de Skyler para saber se Lucian estava também falando na mente da adolescente. Ela podia ouvir o vampiro através de sua conexão com seu companheiro. Mas Skyler não era consciente da conversa, em vez disso prestava atenção em Santino.

- Estou me cansando de suas constantes brincadeiras, Lucian. Possivelmente é a única forma que tem de me atormentar, mas está se tornando aborrecido e já não me incomoda. A vingança nunca foi nosso estilo. Fazemos o que devemos para manter o segredo de nossa raça. Destruímos o não-morto, mas porque esse é nosso dever, não por vingança. Em qualquer caso, o homem que dizia ser seu pai, já foi expulso desta terra e você destruiu os outros que estavam nas lembranças dela, me economizando o problema. Esqueceu a diferença entre justiça e vingança. Se encontre comigo, Lucian, podemos discutir os términos.

- Sei o que tem em mente, irmão. Quer me caçar. Ainda acredita que pode me destruir. Se desejar, posso matar a garota, a sua estúpida mulher e a esses humanos que instalou em sua casa. Não pode me evitar com suas salvaguardas. Eu te ensinei como colocá-las.

Gabriel ofereceu o equivalente mental a um encolhimento de ombros. Estava flutuando de volta à câmara, longe da luz do dia, ao interior da terra que abraçava seu corpo. Viu Francesca deitada, embora soubesse que não estava dermindo. Uma sensação de paz e ternura tomou sua alma. Sem pensae, projetou para seu gêmeo. Um oferecimento de intenso amor. Mesmo antes de poder registrar ter feito tal coisa, antes de poder julgar a reação de Lucian, seu irmão se fôra.

O lamento de angústia de Gabriel ante o rechaço de seu irmão ressoou para Francesca. Gabriel estabeleceu seu próprio corpo junto a Francesca, totalmente consciente, mas incapaz de se mover. Seu coração pulsava ruidosamente na câmara subterrânea e seu peito encolhia e ardia de dor por seu irmão perdido.

Junto a ele, o coração de Francesca começou a pulsar, com um forte ritmo. Girou a cabeça lentamente e o olhou. O movimento requereu um tremendo esforço, mas sua expressão era de tanto amor que lhe roubou a respiração. Ela moveu a mão, num lento processo de empurrar seus dedos para ele, até que finalmente se encontraram.

- Nunca está sozinho, meu amor. - Suas palavras foram claras e fortes. - Não importa que ele não possa sentir o que compartilhamos. É um não-morto, já não é seu amado irmão gêmeo. Faz muito que abandonou este mundo. Sua casca vazia ficou para trás, mas aquele que tanto amava, o que honrava, está além da dor e do sofrimento. Eu estou aqui com você, nossa filha cresce em mim e nossa casa está cheia de calor e promessas.

- Por que ele se uniria a mim e me emprestaria seu poder para ajudar Santino e Jarrod a manter Skyler a salvo? Que plano poderia estar tramando para utilizar a esta menina como arma?

- Seus planos não têm importância, Gabriel. Juntos, somos fortes para enfrentar ele. Somos um espelho no qual não pode olhar-se. - Sua voz o enchia de amor e calor. Era uma sensação tão pacífica que Gabriel quis ficar ali por toda a eternidade.

- Queria que só uma vez o visse como eu o via. - Gabriel queria que ela entendesse o grande pesar que enfrentava seu amor. Queria que ela soubesse que a valorizava mais por causa de Lucian, nunca por menos. Abriu sua mente completamente a ela, compartilhande seu passado, as terríveis batalhas, a interminável solidão que só o vínculo com seu gêmeo tinha tornado passível. Mostrou-lhe a inesgotável força e poder de Lucian, sua grande genialidade, sua busca de conhecimento e o afã por entender os mistérios de sua raça. Uma e outra vez, Lucian havia arriscade seu corpo e sua alma pelo bem de Gabriel, pelo bem de sua gente e da raça humana.

Francesca observou as cenas que se desenrolavam nas lembranças de Gabriel. Pôde ver Lucian tal como foi uma vez. Sem a corrupção de vampiro. Inteligente. Sempre ficando em perigo para defender seu gêmeo, sempre tomando a dianteira em cada situação perigosa. Incontáveis vezes dera seu sangue quando ele mesmo estava mortalmente ferido, incontáveis vezes se arrastou e a seu gêmeo e o curou quando também ele estava perto da morte. Gabriel via seu gêmeo como o Cárpato mais sacrificado e tinha compartilhado esse recorde com Francesca. Ela entendeu e seu coração se condoeu ainda mais por seu companheiro.

Havia trocado promessas com Lucian. Prometeu lhe destruir se ele perdesse sua alma e se convertesse naquilo que caçavam. Gabriel sabia que Lucian nunca teria descansado até ter completado sua tarefa e ele não podia fazer menos. Francesca entendeu a enormidade desse voto, sabia que era uma parte de Gabriel muito mais que os pulmões que utilizava para respirar. Amou-o ainda mais por sua devoção, estava decidida a encontrar uma forma de o ajudar.

Agora, também para ela, Lucian estava vivo. Havia compartilhado suas vidas e todos os séculos de solidão que ambos haviam suportado. Agora Gabriel a possuía, mas Lucian estava perdido para os dois, perdido para sua gente, com sua genialidade, sua vontade de ferro e tremendo poder. Sua perda era uma tragédia terrível e sem sentido.

Com esforço, Francesca deslocou seu corpo centímetro a centímetro aproximando-se de de Gabriel até que suas peles se tocaram.

As extremidades de ambos estavam relaxadas, entorpecidas e pesadas. Normalmente detinham seus corações e pulmões durante as horas diurnas, ocultando o terrível conhecimento de sua debilidade e vulnerabilidade a seus inimigos. Francesca ficou deitada perto de Gabriel, por longos minutos, antes de falar.

- Quando sentiu a perturbação, Gabriel, e o temor de Skyler, você se estendeu para Lucian?

Gabriel pensou nisso. Não poderia dizer, com honesdidade. - Senti-o comigo, como sempre acontece nos momentos que preciso de força e poder. É um hábito inato em nós, que nenhum des dois parece capaz de romper. – Ele ficou em silencio durante um momento. - Se pensa em achar uma forma de explorar este estranho fenômeno entre nós para o derrotar, não adianta. Já o tentei. É tão natural como respirar. Não sei quando acontece e tampouco ele.

- Se, mas ele é um vampiro. Um não-morto. Deveria ser incapaz de viajar enquanto o sol está em seu ponto mais alto. Você é o mais poderoso de nossos homens e te requer um grande esforço separar seu espírito de seu corpo. Como ele pode fazer tal coisa, sendo um vampiro?

- Sua mente compartilha a minha e se vale de meu poder. Podia facilmente tentar me deter ou evitar que volte a entrar em meu corpo. É tão sozinho, que qualquer que seja o jogo que pensa jogar comigo, requer a presença de nossa Skyler. Seu poder é grande, Francesca. Eu teria jogado o doutor contra a parede, mas Lucian não. Retorceu meu poder para que Brice sentisse milhares de insetos picando sua pele.

- Não me lembre disso. - Francesca não estava nada contente. Sentia-se culpada por Brice. Algo estava acontecendo, que ela não podia entender. - Tentei apagar suas lembranças para que não pensasse em mim, mais que como uma amiga, mas não funcionou. Nunca tinha me acontecido antes.

Os dedos de Gabriel se apertaram nos dela. Sabia por que razão ela não podia controlar a mente do doutor e Francesca devia saber também. Simplesmente, ela não estava preparada para confrontar a verdade. Gabriel queria sustentá-la em seus braços para protegê-la. Em sua mente a rodeou de amor e apoio.

- De algum jeito, um vampiro estava usando Brice para pegá-la. Não há outra explicação.

Francesca quis sacudir a cabeça, num gesto negativo. Não conseguiu. - Há outras explicações possíveis. Vi ele tomar remédio.

- E por que ele a conduziu até o cemitério onde os vampiros estavam esperando? Está aliado com eles e não sabe. Estão utilizando ele para te pegar. Por isso não pode lhe controlar. Está controlado pelo não-morto. Quando tenta alcançar sua mente, não há nada ali exceto as ordens que lhe deram.

- É Lucian? Lucian está tentando me castigar pelo que sinto por Brice?

- Não pode imaginar o que é ser incapaz de sentir emoção, Francesca. Lucian não tem necessidade de castigar. Não sente nada, absolutamente. Utiliza os outros como marionetes, com a esperança de sentir diversão, mas não pode. Não detectei rastro de seu poder, embora não posso assegurar. Lucian sempre preferiu trabalhar sozinho. Por isso sei que nunca atraiu outro ao que ele se refere como "o jogo".

- Pode desfazer o que têm feito a Brice? Há alguma forma de recuperá-lo? Isto é minha culpa, Gabriel. Completamente culpa minha, porque me fiz amiga de um humano. Agora eles acreditam que podem uzá-lo contra mim. Ele está totalmente indefeso.

Gabriel não podia suportar vê-la infeliz. Faria o que pudesse para afastar a pena de sua mente. Apertou-lhe os dedos, enquanto fluía sua mente com amor, ternura e conforto. - Tem muita razão, meu amor. Não estamos sozinhos em nossa luta e nossas obrigações. Temos que extrair forças um do outro. Enquanto acreditamos um no outro, tudo sairá bem. Farei o que possio por Brice. Se quiser que eu tente salvá-lo, sabe que terei que tomar seu sangue. Sem o vínculo de sangue, duvido que possa desentranhar o que outros cobriram.

A idéia deu voltas na cabeça de Francesca. O vínculo de sangue era uma arma poderosa. Colocaria, de algum modo, em perigo a vida de Gabriel? Poderia o vampiro, possivelmente Lucian, esperar um movimento semelhante e de algum modo ser capaz de utilizar Brice como arma contra Gabriel?

Gabriel, obstinado como estava à mente dela, ficou enormemente feliz de que seu primeiro pensamento fosse para ele, por sua segurança. Ela amava-o como devia fazer uma autêntica companheira. Por quem e o que era. Incondicionalmente. Ela via bondade nele, quando ele mesmo nunca estivera seguro de que existisse, mas de toda forma, esperava estar à altura de suas expectativas.

- Faça então, Gabriel. Tome seu sangue e eu tentarei curá-lo, com você. Devo-lhe muito. É um grande médico e o mundo perderia muito se suas habilidades curadoras fossem destruídas. – Francesca esboçou um sorriso, antes de fechar os olhos.

Gabriel sentiu o sorriso de Francesca em seu coração. Sempre era assim com ela. Ela virava-o do avesso só com o olhar. Só fechando os olhos. Ficou deitado sob a terra durante um momento, sentindo suas vibrações, permitindo que ela murmurasse, o consolasse e o aliviasse, rejuvenescendo seu corpo, com sua nutrição. Deixou a câmara assim que o sol entrou e se alimentou antes de voltar e despertar sua companheira. Elevou o corpo dela entre seus braços, flutuando até o dormitório escondido entre os estratos da terra e cheio de todos os tipos de comodidades humanas, tais como uma confortável cama de quatro colunas, longas e pesadas cortinas, e centenas de velas.

As velas voltaram à vida, com um simples ondeio de sua mão, envolvendo imediatamente a câmara numa suave e fresca essência e luminosidade. Inalou com força, depois deu uma olhada no corpo dela. Era formoso, muito feminino. Gabriel se inclinou e sussurrou suavemente.

- Acorde, meu amor, desejo-a tanto que não acredito que possa esperar até que esteja respirando apropiadamente. – Seus lábios se moveram sobre o pescoço dela, na pequena curva de sua orelha. Encontrou a pulsação e se atrasou, enquanto o corpo dela esquentava sob suas mãos. Seus dentes rasparam a deliciosa pele suave e perfeita.

Gabriel adorava a forma em que as chamas dançavam sobre o corpo dela. Seus seios empinados e firmes estavam cheios e convidativos. Inclinou a cabeça para seguir a clara linha de sua silhueta, seguindo suas sombras com os lábios, enquanto criava suas próprias chamas que lambiam a pele dela. Os lábios exploraram seu estômago e as intrigantes curvas de seus quadris.

Francesca sorriu, com os olhos ainda fechados, enquanto seu coração acelerava. Seu sangue esquentou e o mundo se contraiu para incluir só sensações sensuais e eróticas que Gabriel proporcionava. O cabelo dele roçou seu corpo, enquanto os dentes mordiscavam, a língua acariciava e o sangue dela se convertia em lava fundida dentro de suas veias. Sentiu toda sua adoração, no toque gentil de suas mãos exploradoras, que se atrasavam em cada ponto sensível de seu corpo. Ficou quieta, simplesmente desfrutando das sensações que ele provocava com cada toque de sua língua, cada vez que seu cabelo sedoso se movia sobre a pele nua.

Como podia pensar em seguir adiante sem ele? Como podia voltar a desejar abrir seus olhos, sem a promessa de ver sua amada face? Conhecia cada linha dele. A força de seu queixo, as linhas de sua face, a forma perfeita de sua boca. Suspirou brandamente com satisfação e se moveu para proporcionar melhor acesso a seu seio. Seus braços esbeltos rodearam a cabeça dele, embalando-o, enquanto ele se recreava nela.

Seu aroma a envolvia e sua temperatura se elevava. Com ela, se elevou a fome. Estremeceu sob suas mãos e seu corpo voltava para a vida de desejo, com milhares de segredos. Era uma tentação, um convite. Enterrou a face no pescoço de Gabriel, sentiu seu corpo arder contra o dela. Francesca sorriu, francamente sexy. Era o sorriso de uma mulher que conhecia o próprio poder. Com os dentes, mordiscou o pescoço pulsante, sua língua se retorceu numa pequena carícia. Abriu sua mente completamente, para que ele pudesse ver seu desejo, compartilhar suas sensações, o prazer que dava a seu corpo.

E ele respondeu com imagens eróticas. Suas mãos moveram para encontrar a quente e latente entrada. Ela estava úmida de desejo e excitação, desejando compartilhar seu corpo e seu coração com ele. Gabriel não pôde evitar o estremecimento de prazer que o atravessou, quando as mãos dela moldaram seu corpo, Seus dedos o apertando e seus lábios em seu pescoço. Ela sussurrava, suave e incitante em sua mente. Uma súplica, um desejo, uma fome que ele não podia ignorar.

Gabriel segurou os quadris dela entre as mãos para deslizá-la completamente sob dele, para levar seu corpo até o dela. A respiração ficou presa em sua garganta, enquanto a sustentava imóvel durante um segundo. Um momento, enquanto fitava os formosos olhos. Viu neles a fome crua, sensual e erótica, tudo por ele. Queria reter esse momento, guardá-lo, prolongá-lo, mas então ela baixou lentamente a cabeça até seu peito e deliberadamente acariciou a pulsação com a língua. Foi uma lenta e sexy carícia, além do que sua imaginação pudesse conjurar.

Viu a beleza da curva de seus lábios, enquanto deslizava por seu peito, sentiu o calor de sua chamada, selvagem e indomável, e depois o relâmpago faiscando e dançando através de seu corpo, através de sua mente e coração. Penetrou-a, numa profunda e dura investida, tomando posse de seu corpo, enquanto ela cravava os dentes profundamente em seu corpo pele. Ouviu o grito rouco saindo de algum lugar de sua alma e sentiu as lágrimas que ardiam em seus olhos, ante a pura beleza.

Ela era fogo e veludo, relâmpago e trovão. Era a lava fundida o levando a um lugar que sequer sabia que existia. Seus dedos se afundaram nos quadris dela, prendendo-a a ele, enquanto ela executava a dança mais erótica de sua vida. Ela sabia como se mover para agradá-lo, seu corpo ajustando-se ao ritmo, quase antes que ele o estabelecesse. Ela estava com a mente cheia de pensamentos dele, de seu corpo, de como o agradar, da satisfação que ele a proporcionava. Francesca lambeu-lhe as diminutas incisões de seu peito quando terminou de se alimentar. Depois, atraiu sua cabeça para baixo, até a dela, encontrando sua boca e beijando-o, compartilhando seu erótico sabor enquanto movia os quadris mais rápido, elevando-se para encontrar cada investida dele. Seus músculos apertaram firmemente a sua volta, numa fricção feroz, abraçando-o, aceitando-o. Descontrolando-o, como ela.

Ele ergueu os braços dela sobre a cabeça, enquanto a tomava uma, enquanto a terra se sacudia e seu corpo e sua mente ardiam em chamas. Não lhe deu descanso, lambendo as pequenas gotas de suor, saboreando o prazer que exsudavam os poros da pele dela, desejando-a toda inteira, se por acaso a caso, esta fosse a lembrança que teria que levar dela, para o mundo seguinte.

Sua união com ela era um autêntico ato de amor. Desejava lhe dar tanto prazer como um homem podia dar à mulher que amava. Desejava conservar a lembrança de si mesmo na pele dela e em seu corpo. No mais profundo de sua alma.

Quando ela estava cansada e passiva em seus braços, encontrou os seios cheios e sedutores, que encheu sua boca com sua suavidade, até que os mamilos endureceram e suplicaram. Apertou-a mais a ele. Suas mãos estavam por toda parte, provocando, memorizando, explorando. Nunca teria suficiente dela, não importava o quanto vivesse e se por acaso tivesse só um curto período, desejava lhe dar tanto prazer como pudesse.

Francesca que ficou deitada tranqüilamente, sabendo o que ele estava fazendo, sabende que ele precisava estar com ela esta noite antes de sair para enfrentar o pior de seus inimigos. Desejava que ele fizesse amor com ela e que nunca parasse. Desejava ter seu corpo para sentí-lo abraçado a ela. Desejava-o a salvo em sua câmara, em seu próprio mundo de prazer compartilhando, beleza e amor. Não o queria lá fora na noite, onde algo malévolo o esperava.

Em seguida, Francesca se encontrou no chão e nenhum dos dois fazia idéia de como tinham ido parar ali. Mas quando ela foi subir na cama, ele a segurou contra o colchão, recostando-se sobre ela. Seu era corpo possessivo e suas mãos fortes, enquanto a possuía novamente até que ambos arderam em chamas. Era o paraíso, embora ao mesmo tempo, uma espécie de inferno. Entre eles, o fato de que ele partiria, de que devia caçar o não-morto. Bem depois, as velas ardiam com as chamas baixas. Enroscaram-se nos braços um do outro, abraçando-se. Francesca desejou poder impedir o que aconteceria. Não pediria a ele que não fosse, tinha que ir. Sabia em seu coração, sua mente e sua alma. Assim era Gabriel. Pela primeira vez, compreendeu de verdade por que ele tinha escolhido lutar, caçar. Gabriel era o único capaz de derrotar Lucian. O mundo humano e Cárpato dependiam dele.

Ele estava com as mãos enredadas no cabelo dela, apertando sua boca contra o peito.

- Escute, meu amor. Ouça-me. Embora esta noite, eu não tenha êxito, tudo estará bem. Pegue Skyler e a nossa filha e vá para casa, para as Montanhas dos Cárpatos. Mikhail as cuidará por mim. Você e só você educará a nossa filha. Quero que nossa filha te conheça e me conheça através de seus olhos. Sei que será difícil para você, mas é forte e eu viverei em seu coração. Onde quer que esteja, esperarei pacientemente, sabendo que você se ocupa dessa tarefa que é tão importante para nós.

Francesca fechou os olhos contra as ardentes lágrimas que ameaçavam derramar. Sentiu o hálito dele, quente contra sua pele e seus braços firmes rodeando-a, apanhando-a contra seu corpo. Suas pernas estavam entrelaçadas e ainda assim não era suficiente. Nunca seria. Não podia viver sem ele e se fosse derrotado, não o poderia seguir, enquanto sua filha precisasse dela.

Gabriel se elevou sobre ela, baixando o olhar para sua face.

- Francesca, você pode fazer isto pelos dois. Dê-me sua palavra.

- Tem idéia de que me pede? - As palavras foram um estrangulado sussurro e com a respiração dela, a última chama se extinguiu. A câmara ficou num negro absoluto.

Gabriel podia ver facilmente a face amada, o brilho das lágrimas que ela tão corajosamente tentava conter. Inclinou a cabeça para saborear uma dessas lágrimas.

- Você me deu mais felicidade, que nunca me atrevi esperar. Desejo que nossa filha te conheça, Francesca. Quero que ela conheça seu valor, sua compaixão, sua essência. Você é a melhor parte de mim. Amo-a mais que à vida nesta terra, mais que minha própria vida ou a meu irmão. Dou graças a Deus por você a cada dia. - Sua boca vagou sobre a face dela, ao longo das maçãs de seu rosto, sobre seus lábios e desceu pela garganta. - Por favor, não te entristeça. O que fiz até aqui foi o melhor que pude. Não me arrependo de minhas escolhas e nem mudaria nada exceto a brevidade do tempo que compartilhei com você, céu.

Francesca apertou os braços em volta dele, abraçando-o firmemente a ela. O amor era entristecedor, uma emoção completamente envolvente. Ele era sua vida. De algum modo, Gabriel havia se convertido em sua vida.

- Volte para casa comigo, Gabriel. Não me obrigue a encarar de novo uma vida de vazio, sem você. Fui forte à primeira vez, porque de alguma maneira me convenci que estávamos trabalhando juntos, você caçando e eu curando. Estávamos separados, mas durante muitos séculos, você ainda estava comigo.

A língua dele brincou sobre os seios dela.

- E ainda estarei com você. Não importa onde possa estar meu corpo, eu estarei em seu coração, em sua alma. - Sua boca moveu sobre o coração dela, numa dança de chamas.

- Tem que acreditar que pode derrotar Lucian, Gabriel. Sabe que pode. Eu te ajudarei de boa vontade. Trabalharemos juntos. Posso ao menos compartilhar minha força e poder com você.

Gabriel sorriu contra sua pele acetinada, esfregando o nariz contra o seio dela, incapaz de ignorar tão erótica tentação.

- Não me ajudará de nenhuma forma. Não pode se conectar com minha mente enquanto estou caçando. É perigoso, meu amor. Lucian saberá em que momento está comigo e a utilizará para me fazer mal. Isso seria provável. Tem que confiar em que sei o que faço.

Seu corpo era um milagre para ele. Em qualquer parte que a tocasse e cada vez que a tocava, era uma experiência incrível. Mudou de posição para cobri-la uma vez mais, suas coxas perfilando sobre as dela, seu corpo naturalmente prendendo o dela.

Francesca podia o sentir, pesado e duro, tão ardente de desejo, que em resposta o fogo prendeu imediatamente em seu corpo. Sorriu, elevando os quadris enquanto ele entrava em seu interior, deixando-a sem fôlego, formosa e faminta por ele uma vez mais.

- Volte para mim, Gabriel. - Sussurrou ela, suavemente, contra sua garganta. - Quero-o tanto e já não posso ser forte se você não estiver a meu lado.

Gabriel foi terno e gentil. Seu corpo se moveu dentro de dela com longas e seguras investidas, dirigidas a aumentar seu prazer.

- Sempre estarei com você, Francesca. Nesta vida ou na seguinte, Essa é uma promessa que sei que posso manter.

 

Era bem passado da meia-noite e as luzes da cidade se viam suavizadas e embotadas pelos bancos de névoa que vagavam pelo céu noturno. Gabriel, em pé no balcão, não olhava para a cidade, mas para a jovenzinha adormecida no aposento contigüo. Parecia pequena para sua enorme cama. Uma figura diminuta obstinada a um animal de pelúcia, sob a intrincada colcha que Francesca tinha confeccionado. Seu coração foi para a adolescente. Ela parecia vulnerável, aninhada em seu sono. Ainda não estava completamente a salvo. Era um estranho presente para sua gente e seria muito mais, mas adiante. Era um precioso tesouro que ele tinha que guardar e o peso da responsabilidade era tremendo. Em seu esbelto corpo e a mente dotada, ela podia levar a vida ou a morte de um dos homens dos Cárpatos.

Com um ondeio da mão fechou a porta firmemente e o ferrolho deslizou para seu lugar. Suas mãos se moveram grácilmente, ondeande intrincadas salvaguardas em cada entrada do aposento. Skyler estaria a salvo de todos, exceto de Lcuian. Gabriel não se enganava pensande que seu gêmeo seria incapaz de transpassar o que ele tinha tecido. Os vampiros menores ficariam feridos, presos e provavelmente retidos até o amanhecer que os traria justiça, mas Lucian não. Em dois mil anos, nenhuma armadilha havia conseguido conter e não havia salvaguarda que ele não pudesse desentranhar.

Gabriel descansou as mãos no corrimão de ferro forjado e baixou o olhar para a estufa. O jardim era formoso, as cores se abriam através de ar noturno. Encontrou-se sorrindo. Francesca. Ela possuía uma forma de fazer com que tudo o que tocasse voltasse para a vida. Ela gostava de coisas que agradassem e acalmassem sua casa e seu jardim, sem importar a hora do dia ou da noite. O que importava a ela era que a comodidade e beleza os envolvesse.

Encheu sua mente com pensamentos dela e ela encheu seu coração, instantaneamente. Sempre antepor os outros, antes de suas próprias necessidades. Ela consolava os que a rodeava, só com seu espírito. Não tinha que fazer outra coisa que simplesmente ser quem era, mas fazia muito mais. Mesmo agora, ela estava lhe permitindo partir, sabendo que ela podia não voltar para ela, entregando-o desinteresadamente ao mundo, quando o queria tão desesperadamente a seu lado. Estava grávida. Sua filha. Se morresse esta noite, ela havia prometido continuar sem ele, embora a separação seria uma agonia. Doía-lhe o corpo, em pensar nas horas que acabava de passar com ela. Preciosas, maravilhosas horas que lhe tinham dado muito mais, do que nunca tivesse acreditade possível. Seu coração e sua alma se concoíam por ela. Esta casa era seu lar. Estas pessoas sua família. Mas lá fora na noite, havia criaturas espreitando os inocentes e não tinha escolha que detê-los.

Gabriel observou a pesada névoa que se movia pela cidade. Não era uma névoa natural, fôra criada para permitir que o não-morto se movesse sem ser visto por suas presas. Elevou a face para a sombra da lua e bebeu de sua beleza. Era um caçador da noite. Um predador natural. Saltou facilmente o corrimão e estendeu os braços, abraçando o ar.

Seu corpo reluziu, tornando-se transparente e fazendo com que a pesada névoa pudesse ser vista através dele. Pareceu dissolver-se em milhões de gotas que se estenderam pelo céu, entrando e sainde das escuras nuvens e da densa névoa. Sobrevoou a cidade, esquadrinhando-a, procurando os espaços "mortos" que poderiam indicar onde se escondia o inimigo. Um pequeno grupo de vampiros se reuniu na cidade onde procuravam vítimas, presas vivas, para serem utilizadas e descartadas. Gabriel estava decidido a liberar à cidade dos não-mortos esta noite e queria encontrar Brice. Sabia que o destino de Brice pesava sobre a consciência de Francesca e estava decidido a endireitar as coisas. Livremente, admitia que estava um pouco chateado, mas Francesca sentia afeto pelo doutor e as coisas que ele estava fazendo ultimamente eram sob a influência de um vampiro. Possivelmente, de Lucian, embora Gabriel duvidasse. Ele nunca enviaria Brice a sua casa, para afastar Skyler deles e depois, ele o ajudou a se livrar dele. Isso não fazia sentido.

Poucos locais noturnos ainda estavam abertos, a reserva de caça perfeita, para os vampiros. Encontrariam tantas presas quanto quisessem. Homens e mulher que poderiam manipular para provocar todo tipo de comportamentos, só pelo perverso prazer de retorcê-los antes de lhes dar a morte.

Moveu-se pela cidade em silêncio, explorando em busca do não-morto, enquanto procurava indícios de Brice. Duas vezes pensou em ir ao hospital, sabendo que com freqüência, Brice passava longas horas ali, mas em vez disso, encontrou-o no cemitério miserável, sem dúvida, por sua conexão com o nosferatu. Gabriel permaneceu sobre a névoa, examinando cuidadosamente a zona em busca de um deles. Brice caminhava arrastando os pés sobre terreno acidentado, cambaleando como um bêbado, murmurando e constantemente golpeando-se, como se ainda sentisse insetos picando sua pele.

Gabriel tinha retirado a ilusão de Brice quando ele saíra da propriedade, mas um dos vampiros que controlava o doutor devia ter tirado a lembrança de sua cabeça e o usava para castigá-lo por seu fracasso em obter Skyler. Gabriel sentiu a malévola presencia de um dos vampiros. Não um antigo era mais provável que fosse convertido recentemente, correndo com um grupo para aprender rápido. Pensavam que andando em grupos, se protegeriam dos caçadores, mas com freqüência não era assim. Os vampiros mais antigos utilizavam os menores como peões, para serem sacrificados.

Será que Lucian unira este grupo? Chateava Gabriel, o pensamento. Livrou-se da idéia. Era mais provável que Lucian controlasse a todos os que rodeavam a região, sem que estes soubessem o que estava acontecendo. Gabriel o vira fazer isto com bastante freqüência. Só sua voz era a arma mais poderosa que Gabriel já vira. Lucian não permitiria nunca que ninguém se metesse em suas batalhas, ele já teria despachado os vampiros dos lugares onde Gabriel os perseguisse. Ele nunca deixava rastro que nenhum outro caçador pudesse reconhecer. Lucian não era descuidado com suas mortes.

Gabriel desceu a terra e as diminutas gotas se uniram diante de Brice. Por um momento a enorme forma brilhou e cintilou como cristal antes de se solidificar. Depois Gabriel avançou a passos através de cemitério, cortando o passo de Brice, antes que este pudesse dirigir-se às covas onde o vampiro esperava.

Gabriel podia sentir a compulsão que o não-morto tinha utilizado para convocar suas vítimas. Brice murmurava e suas roupas estavam desarrumadas e sujas. Tinha longos arranhões na pele. Gabriel tentou sentir pena pelo doutor, porque sabia que Francesca ficaria horrorizada se o visse, mas Brice se abrira à compulsão do vampiro, através de seu próprio ciúme e Gabriel não podia lhe perdoar por ajudar o não-morto a tender uma armadilha para Francesca e Skyler.

Brice mantinha a cabeça baixa, enquanto coxeava resolutamente para frente. Não pareceu notar que Gabriel estava em pé e solidamente em seu caminho. Gabriel ondeou uma mão para colocar um bloqueio, invisível para os olhos, mas forte o bastante para interromper a compulsão no ar.

O sangue de Brice obviamente fôra poluído pelo vampiro, pois ele continuou avançando arrastando os pés embora era incapaz de transpassar os limites que Gabriel tinha erguido para ele.

Os olhos do doutor dilataram, fixos e vazios. Ele estava muito influenciado pelo feitiço. Gabriel entrou em sua mente para rebater a compulsão e dar alivio ao humano. A face de Brice se soltou e seus músculos relaxaram detendo sua intenção de avançar para seu destino.

Gabriel, gentilmente o sentou e Brice aceitou como um menino perdido.

De algum lugar próximo, Gabriel ouviu um chiado de raiva. Os vampiros não gostavam que interferisse com suas vítimas. Ele não ia soltar Brice tão facilmente. Gabriel sorriu e voltou à face para o céu. As nuvens se escureciam para um raivoso negro sobre suas cabeças e pequenas veias de relâmpago saltavam de nuvem em nuvem. Ele sacudiu a cabeça ligeiramente e quando a carga elétrica começou a recolher-se onde ele permanecia em pé, elevou a cabeça e a moveu num pequeno semicírculo.

Qualquer um que observasse, não tinha advertido o gesto, mas o relâmpago nas nuvens reagiu imediatamente, golpeando a terra, além da arredondada colina, fora da vista. O trovão foi ensurdeceder, como se um martelo golpeasse a terra e sacudisse as sepulturas. Um grito de ódio e vingança se elevou com o vertiginoso vento. As árvores começaram a se sacudir sob o ataque. Lascas e ramos se sacudiam caindo do céu para Gabriel.

Gabriel soprou entre as palmas de suas mãos e permaneceu em pé alto e reto, sem se preocupar com os restos e escombros que chovia a sua volta. Brice se sentou de joelhos, inconsciente do perigo. Não houve advertência, quando o vento de repente, trocou a direção. De céu choveram folhas, poeira e ramos sobre a pequena colina. Gabriel saltou no ar com o ramo maior, camuflando-se em seu tamanho.

Estava sobre o vampiro antes que este tivesse tempo de compreender que estava em perigo mortal. Gabriel se lançou do céu como um míssil, diretamente para a magra figura em pé sobre a erva chamuscada. Em volta dele as lápides haviam sido quebradas pelos relâmpagos. O vampiro ficou congelado, tentando decidir seu próximo movimento, enquanto se protegia dos objetos que voavam para seu corpo.

Gabriel saiu detrás do ramo, golpeando o vampiro tão forte, que lançou para trás à criatura, quando seu punho se incrustou na cavidade de seu peito. Pegou o enegrecido coração e o extraiu, separando o órgão do corpo. Enquanto o fazia, saltou, apartando-se para minimizar o contato com o sangue poluído.

O chiado de desespero de vampiro ressoou através de cemitério fazendo que os morcegos se elevassem no ar, em grandes nuvens. O não-morto se dobrou e caiu sobre a terra salpicada de sangue. Fracassado, arrastou seu corpo para Gabriel, para o escuro e horrível coração que ele havia atirado sobre as rochas, fora de alcance das garras do vampiro. Conscientemente, Gabriel acumulou uma carga de eletricidade e a dirigiu para o horrível órgão que se esforçava para voltar para corpo. O látego branco incinerou o coração e saltou para o não-morto, reduzindo-o a cinzas. Gabriel lavou as mãos no calor, removendo todo o sangue corrompido antes de comprovar que a terra estava limpa de toda infecção. O vampiro não havia se convertido a muito, pois havia sido pouco hábil e lento. Não podia ter sido um dos que colocara Brice sob compulsão tão bem oculta. A escuridão corria profunda no doutor, corrompia seu sangue e estava comendo sua vontade e o apodrecendo de dentro para fora. Não era um ghoul, que se deleitava com a carne dos mortos humanos e viviam do sangue de vampiro, mas o que o controlava era um ser poderoso.

Gabriel não podia ver a mão de Lucian na corrupção de Brice. Lucian pensaria que fazer tal coisa seria se rebaixare. Poderia fazer mal a Brice ou matá-lo diretamente, mas não o utilizaria para pegar Skyler e finalmente, Francesca. Não tinha necessidade de recorrer a algo parecido. Lucian era um autêntico gênio. Possuía um cérebro poderoso que constantemente ansiava conhecimento. Precisava de desafios para ocupar sua mente. O desafio intelectual era o que o impedia de ficar completamente louco.

Gabriel sacudiu a cabeça, exasperado consigo mesmo. Lucian havia se tornado louco. Havia escolhido perder sua alma, há muitos séculos. Se Gabriel quisesse proteger sua família, não podia continuar pensande em Lucian como uma parte de si mesmo.

Francesca era seu coração e sua alma. Não podia arriscar-se. Gabriel abriu passo de volta a Brice. Precisava levar o humano de volta para casa e o colocar sob uma forte salvaguarda para evitar que o vampiro fizesse mais mal a ele. A corrupção de Brice estava muito avançada, Gabriel não estava seguro de que pudesse ajudar o doutor. Obviamente, o vampiro devia estar trabalhando sutilmente em Brice, a muito.

O doutor estava encolhido como uma bola sobre o chão, ignorando o que o rodeava, profundamente afetado pelo feitiço de Gabriel. Gabriel sabia que ninguém mais que Lucian poderia romper as salvaguardas que mantinham intacta a mente de Brice. Era um risco levar Brice para a casa de Francesca. Teriam que o ocultar na câmara subterrânea para que Skyler não se assustasse ante a visão do doutor. E se não pudesse lhe curar, dependeria de Gabriel mostrar misericórdia e não era algo que Francesca fosse agradecer.

Gabriel levantou o homem como se não fosse mais que um menino. Sob o forte transe hipnótico que o tinha imposto, Brice se mostrava completamente crédulo. Ficou passivo enquanto Gabriel sulcava o ar com ele. As nuvens os cobriam, o suficiente para evitar que fossem vistos por olhos curiosos. Eram como um borrão que se movia veloz através do céu noturno.

Francesca estava esperando por ele no balcão, com um ansioso olhar na face, em vez da normalmente serenidade que sempre ocupava seu rosto. Gabriel não ocultara a extensão de dano e ela sabia que se quisessem salvar Brice da loucura, teriam que trabalhar rápido.

- Obrigado por tentar, Gabriel. - Murmurou ela, e sua voz era uma carícia aveludada. Seus olhos o percorreram com cuidado, procurando qualquer ferimento que pudesse ter sofrido.

No ato, ele sentiu a curiosa sensação candente que se estava tornando familiar. Ela estava preocupada com ele, comprovando e assegurando-se de que estava bem, mesmo quando trazia seu amigo humano cuja mente tinha sido danificada pelo não-morto. Francesca pensava primeiro em seu companheiro e sua preocupação significava muito para ele.

- Drigi Santino e Drusilla para longe da cozinha, para que possamos o levar com segurança até a câmara. Skyler está dormindo em seus aposentos.- Se ocupe de que ela fique ali. - A voz dele foi um tanto brusca, rouca pela emoção que não podia controlar. Ela estava formosa, o amor brilhando em seus olhos, ali em pé na noite, alta e esbelta com seu longo cabelo preso em uma grossa trança. Gabriel estendeu a mão e meigamente percorreu a face dela, com a ponta dos dedos.

- Acredito que há uma possibilidade de que possa o curar, Francesca, mas será difícil. O veneno já está muito avançado em seu sistema.

- O vampiro pode o alcançar em nossa casa? – Ela estava preocupada com a jovem Skyler. A garota já tinha sofrido o suficiente nas mãos de um monstro humano, não precisava ser testemunha do que o não-morto era capaz de fazer.

- A menos que o que o utiliza seja Lucian, não há possibilidade de que possa penetrar as salvaguardas que teci. Não acredito que isto seja obra de Luian. Mas deve ser um antigo para haver nos enganado. Deve ter tomado o sangue de Brice faz algum tempo. Brice está utilizando drogas para rebater a dor de cabeça, mas não entende o que está acontecendo. Ele crê só no que vampiro deseja que acredite. Agora é uma marionete sem idéias próprias. Francesca o dano é grande. Nunca voltará a ser o mesmo.

- Tente. - Suplicou Francesca enquanto o seguia pelas escadas através da cozinha e onde estava a primeira câmara.

Gabriel colocou Brice sobre a cama e se voltou para ajudar sua companheira a encher a aposento com o aroma das ervas curadoras. No momento a expressão lassa da face do médico mudou e ele se moveu intranqüilo. Gabriel tomou a mão de Francesca, levando seus dedos à ternura de sua boca.

- Sabe que devo voltar a sair e encontrar este malvado. Sem sua morte, Brice está perdido sem importar o que eu faça. O vampiro sabe que temos Brice e estará mais zangado que nunca. Não podemos manter este homem prisioneiro aqui para sempre.

Francesca voltou à face longe de Gabriel, tentando esconder sua expressão. Ele voltava a sair para a caça. Ambos sabiam que ele tinha que fazê-lo, mas ela não gostava da idéia. Os braços de Gabriel rodearam os ombros dela e a trouxeram para o amparo de seu corpo.

- Não vou permitir que nenhum vampiro me derrote, meu amor, quando tenho tanto a perder. Acabarei com a ameaça, para a prudência de Brice. Depois veremos o que podemos fazer para o curar.

Contra vontade ela o soltou.

As mãos dele se atrasaram em seu cabelo, acariciando as espessas mechas. Sabia que ela estava com medo por ele, mas o agradava saber que se ela negava a colocar em palavras, seus temores. Em vez disso, sorriu para ele, numa tentativa de despedida.

- Não tente o curar até que eu volte. Seu sangue está poluído pelo do vampiro. Não pode passear por sua mente só e sem ajuda. Se eu não voltar, deve conseguir que outro curador a ajude antes que tente. Prometa-me, Francesca. Seria muito perigoso você sem uma força adicional. Lembre-se que guardas nossas vidas em seu corpo.

Ela lançou um rápido olhar de reprimenda sob os longos cílios.

- Não é necessário que me lembre nenhum desses dois fatos. Não tem que fazer insistência na possibilidade de que pode ou não voltar. E eu nunca, em nenhum momento, esqueço que levo nossa filha em meu seio. Para mim ela é um milagre. Nunca arriscaria o bebê, sequer por Brice. Você voltará para mim esta noite. Espero você em breve e sem nenhuma marca no corpo. Agora vá e faça aquilo para o que nasceste. – Ela apoiou-se nele, descansando seu corpo brevemente contra o dele, saboreando a sensação. Forte. Masculino. Poderoso.

Nunca esperara o amar tanto e tambem de sentir-se tão amada. Gabriel não era tímido ao mostrar suas emoções. Ardia de desejo por ela com uma intensidade que ela nunca teria sonhado. Não só seu corpo, mas sua companhia, seu coração sua alma. Ele gostava de estar em sua mente, compartilhando suas gargalhadas, a forma em que ela via a vida. A forma em que ela vivia a vida. Estava orgulhoso dela, tinha tanta fé nela.

- Gabriel. – Francesca deixou escapar seu nome. Seu corpo suave e disposto, amoldando-se a ele. – Tenha pressa em voltar. - Não tinha intenção de mostrar-se sedutora... A última coisa que tinha em mente era fazer amor... Mesmo assim, sentia uma terrível necessidade dele.

Gabriel encheu sua mente de amor e ternura, enquanto a abraçava, depois retrocedeu, voltando-se para o túnel das grandes historia. Quando alcançou a cozinha era invisível, movendo-se veloz, uma fria rajada de ar.

Gabriel saiu por baixo da porta até o jardim, lançando-se ao céu imediatamente. Destruíra um vampiro menor e arrebatou sua marionete. O vampiro estaria furioso e seria fácil de localizá-lo. Gabriel já podia sentir as perturbadoras vibrações do ar. Fluíam através do céu, o conduzindo como uma flecha para o vampiro.

- Vai a sua guarida como um aprendiz. Tendeu-te uma armadilha, caçador.

Gabriel continuou se movendo. Lucian estava muito perto, para sua comodidade. Se ele tomasse parte na batalha não havia forma de saber de que lado ficaria.

- Sugere outra aproximação? - Replicou Gabriel.

- Retroceda. É muito preparado para entrar em batalha quando o inimigo está esperando.

A voz era suave e gentil como sempre, sem rastro de reprimenda. Gabriel se encontrou sorrindo. A presença de Lucian era tão familiar, tão parte de si mesmo.

- Agradeço-te o conselho, velho. A velha brincadeira era um aviso de que Lucian era mais velho, por uns poucos minutos. Gabriel seguiu firme em seu caminho, mas agora, mais alerta. Não temia a batalha com o vampiro, mas seu gêmeo era uma questão diferente.

- Não está seguinde meu conselho.

- Este não é tão poderoso como aqueles que nos enfrentamos no passado.

- É um antigo.

Gabriel se retirou da união, sua mente baralhava todas as possibilidades. Que trazia Lucian entre mãos? Mudou de curso, dando a volta para procurar uma aproximação diferente, esquadrinhando abaixo dele enquanto o fazia. Sobrevoava o rio, onde uma ponte enorme cobria as águas. Dois tubos corriam ao longo do aterro, esvaziando seu conteúdo no rio. Os tubos eram bastante grandes e estavam rodeados por massas de rocha. Podia sentir a presença de vampiro. Havia uma escura e malévola sensação no ar e era pesada e opressiva.

Gabriel estava muito familiarizado com o pestilento mau cheiro do não-morto. Entupia o ar como nada mais podia. Havia professores de ilusão que se apresentavam a suas presas humanos, bonitos ou formosos, mas na realidade eram fracos e cinzas, com dentes manchados e afiados. Gabriel sentia sua presença como um golpe em seu estômago. Aborrecia-o, as transgressões dos dons e talentos que foram concebidos para o bem.

Abaixo dele, a área parecia estável, mas o vento contava algo diferente. O vampiro estava esperando, escondido entre as sombras, invisível, inchado com seu próprio poder, mas enfurecido. O aroma de sangue alcançou Gabriel antes do grito sufocado que indicava mais uma morte. O vento o levou a história, o medo e a adrenalina do sangue da vítima que tinha dado impulso ao vampiro, tornando-o mais poderoso.

O vampiro sabia que ele estava chegando, pois havia tecido a armadilha e esperava como uma aranha em meio de sua rede. Haviam presas humanas com ele e as mantinha com vida e atemorizadas, assim a adrenalina fluiria em sua corrente sangüínea. O impulso era aditivo para os não-mortos. Acreditavam que isso os fazia mais fortes e mais difíceis de matar. Gabriel não podia assinalar a localização exata do vampiro. Não havia mais que um suspeito indício de "morte" no ar.

Passou pela área, antes de descer na terra. Logo, a terra se estremeceu levemente e seus pés se afundaram numa lama negra que lhe sugou os pés. A garra era surpreendentemente forte como se o pântano realmente quisesse tragar-lhe. Algo se movia para ele sob a superfície, rápido, serpenteante, enorme. Formava largos canais na lama. Gabriel se dissolveu rapidamente em gotas de névoa, fundindo-se com a pesada neblina. Nesse instante começou a soprar um vento feroz, investindo as moléculas escondidas na névoa, tentando o pulverizar e impedir que Gabriel voltasse a recuperar seu corpo. Uma magra e escura forma surgiu do banco de névoa diretamente para as gotas.

A forma golpeou contra uma barreira antes de poder alcançar o corpo de Gabriel. Caiu do céu até o chão enquanto Gabriel tentava evitar a escura massa que habitava o pântano. O monstro escondido na lama atacou imediatamente, arrastando-se até o vampiro, enquanto Gabriel mudava de forma acima da cena. Não havia pensado que fosse necessário levantar uma barreira. Como supunha, seu gêmeo uma vez mais se uniu à batalha, inserindo seu corpo entre Gabriel e o vampiro. Embora Gabriel não pudesse detectar sua presença era próprio de Lucian. Podia passar inadvertido quando outros não poderiam. O vento não sussurraria sua presença ou o delataria ante quem o buscava.

O vampiro uivou de raiva e dor, deixando para o lado, a criatura com forma de verme que ele mesmo tinha criado. Liberou-se de barro, salpicando-o em todas as direções, na tentativa de localizar Gabriel. Gabriel se deixou cair do céu e uma garra afiada rasgou a garganta de vampiro. A criatura chiou de raiva e em seguida, um relâmpago se arqueou nas nuvens e o ar ferveu com escura malevolência.

Golpearam de todas direções, escuras gárgulas aladas e rasgaram Gabriel, arranhando e mordendo, aterrissando sobre sua cabeça e ombros, empurrando-o para voltar a conduzi-lo a terra e à lama negra. Tranqüilamente Gabriel se dissolveu sob elas, fluindo numa rajada de ar para o vampiro. Mudou a sua forma só quando se lançava sobre o peito do vampiro. Seus pés a poucas polegadas do chão.

Seu punho penetrou o peito, mas o vampiro já se movia para longe dele. Sua voz era uma cacofonia irritante, um som horroroso e discordante que feria os ouvidos de Gabriel. Para proteger-se, emudeceu imediatamente o som. Ardia-lhe a mão por causa de sangue venenoso que a recobría. Tinha que se manter em movimento para evitar as gárgulas. Não havia nenhum lugar em que as criaturas não o rodeassem e o golpeassem constantemente. Arranhavam sua pele e seus olhos, para ajudar a seu amo.

Gabriel foi paciente. O vampiro tinha dois ferimentos graves que drenavam sua força. Entre a lama e com sangue derramando-se no chão, o enorme verme estava tornando-se difícil de controlar para seu amo. Estava frenético, cuspindo e mordendo para seu criador, procurande carne e sangue. Gabriel fechara-se a dor e a fadiga. Todo seu ser estava centrado na batalha. Enquanto se preparava para lançar outro ataque sobre o vampiro um relâmpago irrompeu inesperadamente do céu. Gabriel não sentiu a fonte de poder, e ficou tão assombrado como o vampiro, quando o látego de energia candente cruzou o céu. Uma nervura que se dividiu e limpou o ar, instantaneamente, das malévolas gárgulas. Caíram na lama, abrasadas e ardentes. Estavam incineradas pela explosão de energia. Logo, a criatura verme se lançou consumi-las. Outro relâmpago chegou das nuvens, falhando ao vampiro por escassas polegadas e reduziu o verme a cinzas.

O mau cheiro era horrível. Gabriel golpeou enquanto o vampiro cambaleava devido à surpresa que produziu o relâmpago. Rabiscou sua imagem e moveu com velocidade sobrenatural, golpeando-o, conduzindo seu punho com força através do mesmo ferimento, desta vez alcançando o órgão enegrecide e murcho que procurava.

Quando começou a extrair o coração, sentiu a advertência em sua mente e mudou a distribuição do peso de seu corpo. Algo o golpeou com força no flanco, penetrando em seu torso, rompendo ossos, a sua passagem. A dor era execrável, extraiu a respiração de seu corpo. Em seguida, o céu inteiro se iluminou, como se o mundo estivesse ardendo em chamas. O céu escuro se tornou vermelho e laranja, com chamas que cruzavam as nuvens negras. Uma rede de veias, branco azuladas, faiscou e dançou nas nuvens. A sua volta, a terra pareceu explodir a peso de golpes de relâmpagos.

Gabriel extraiu o coração e o atirou no interior da feroz conflagração, voltando-se enquanto o fazia para conhecer a ameaça que estava por trás. O antigo não-morto se revelou, acreditande que Gabriel estaria ocupado com seu companheiro. O vampiro era magro e cinza, com a pele pendurada dos ossos. Seu cabelo era branco e grisalho. Brilhavam seus olhos, de um vermelho ardente e uma feroz astúcia. Retrocedeu afastando-se de Gabriel. Seu olhar procurou dos lados, uma via de fuga. Não entendia a intensidade da tormenta que os envolvia. Não reconhecia o caçador que o enfrentava. Ainda estava vivo, porque sabia como evitar a confrontação com os caçadores, porque estudava seus inimigos e escolhia o momento da luta.

Ouviu uma voz sussurrando em sua mente. A princípio, não podia distinguir as palavras acima das explosões que estalavam a sua volta. Estudou o caçador afastando-se lentamente dele. A voz era pura e formosa, movendo-se através de sua mente quase amavelmente. Era doloroso ouvir essa voz, escutar o som. Já havia passado muito tempo desde que o vampiro escutara tanta pureza. Seu corpo se encolheu afastando do som.

A voz era um roçar de negro velude, um suave sussurro de morte. O vampiro não afastava os olhos do caçador, acreditando que ele tentaria dar o golpe mortal a qualquer momento. Já estava preparado. Tinha truques, ilusões e muito poder. Estava fresco, sem ferimentos, enquanto que caçador estava debilitado por lutar com seu servente. O não-morto sabia que havia infringido ao caçador um incrível golpe e as criaturas havia drenado um sangue precioso, mesmo assim o caçador permanecia em pé, alto e ereto, com olhos negros da morte.

Era sua a voz que sussurrava em sua cabeça? De onde provinha? Nenhum homem dos Cárpatos tinha intercambiado sangue com ele. Não tinha conexão com ninguém, mesmo assim podia ouvir o suave sussurro, chamando-o a sua morte. As palavras eram claras. Falavam amavelmente de morte. Da falta de esperança. Não havia esperança. Este caçador tomaria sua vida. Morreria esta noite, após sobreviver onde outros não conseguiram.

- Quem é? - gritou o vampiro.

- A Morte. - Sussurrou a formosa voz.

- Sou Gabriel. - Replicou Gabriel.

Ele estudara suspicaz, a tormenta de fogo que dançava nos céus. Todos os seus sentides estavam estendidos tratando de localizar a fonte das explosões. Seu criador era definitivamente alguém com muita habilidade e poder. Lucian. Não havia dúvida, nada indicava de onde vinha o poder, simplesmente rodeava Gabriel e o vampiro, numa enorme força destruidora.

O vampiro grunhiu, mostrando seus dentes afiados e manchados, de anos de sangue corrompido.

- Acredita que me derrotará com truques tão evidentes. Nenhum caçador me derrotou em séculos, mas você, um desconhecido, presume que pode me desafiar.

Gabriel se aborrecia. Havias representado esta mesma cena, em tantos campos de batalha, em tantos países e em tantos séculos. Sempre era a mesma coisa. O vampiro tentava utilizar sua voz para debilitar a confiança de Gabriel.

A cabeça de Gabriel se elevou, suas escuras feições se endureceram até formar uma máscara.

- Conhece-me, antigo. Não quer me reconhecer, porque entre os nossos me chamam de lenda. Não pode me derrotar. A batalha já está ganha e a justiça finalmente o alcançou.

Havia um curioso sussurro roçando a mente de Gabriel. Uma nota suave quase censurada, mas não o bastante. Gabriel não estava utilizando sua própria voz para derrotar o assassino como deveria estar fazendo. Estava cansado pela perda de sangue e o mau cheiro da morte enchia sua mente e seu coração. Estava cansado de destruir sua própria gente. Faria o que fosse necessário, mas não tinha que desfrutar com isso.

De repente o vampiro cobriu as orelhas e começou a gemer em tom agudo, tentande afogar o insidioso sussurro da voz de veludo. Havia uma qualidade nessa voz que insistia em ser ouvida. Esgotava sua força, tomando seu poder, acabando com suas habilidades. Chiando seu ódio e medo, o vampiro jogou sua última carta, abrindo os braços de par em par e chamando seus serventes à morte.

Em seguida, a lama erupcionou com centenas de enormes sanguessugas, surgindo de barro para banhar Gabriel. Enquanto o faziam, o ar gemeu com uma súbita infestação de corujas. Um negro enxame de corpos que se lançavam, com as garras estendidas, diretamente para o caçador. O vampiro se voltou para escapar e fugiu diretamente para o Cárpato. O caçador apareceu brilhande no ar e seu rosto era uma máscara de granito.

O vampiro baixou o olhar e viu seu peito, totalmente aberto, seu coração murcho pulsando no punho do caçador. O homem não mudou de expressão, mas lhe pareceu ver, que a imagem se desvanecia, quase como uma ilusão. O vampiro gritou seu ódio e desafio, equilibrando-se, tentando recuperar seu coração roubado. Caiu de cara na lama e as sanguessugas o encontraram imediatamente. Cobriu seu corpo, enchendo o espaço vazio de seu peito.

Gabriel havia se obrigado a se dissolver, quando o vampiro enviou seus serventes para o atacar. Elevou-se alto sobre a terra, até o interior das nuvens e dirigiu a carga elétrica do ar, num látego pela terra, para chamuscar as sanguessugas e fritar as aves de rapina. Elas choveram sobre a terra e seus corpos enegrecidos afundaram no pântano. Podia ver o vampiro estendido na lama junto a seus serventes e se perguntou por um instante se era um truque do não-morto. O que ganharia ele, fingindo-se morto?

Com sua superior acuidade visual, Gabriel pôde ver o coração a vários pés de seu corpo, estendide no alto de uma rocha. Lucian. Definitivamente, ele havia se unido à caça, eliminando ao resto dos jogadores de seu campo de batalha. Gabriel podia ver que o vampiro se arrastava, aproximando-se, centímetro a centímetro, de seu coração arrancado. Ele dirigiu o relâmpago, reduzindo o coração a cinzas, assegurando-se de que o não-morto nunca se elevasse novamente. O vampiro deixou escapar um horroroso grito, o último protesto antes que um relâmpago o alcançasse, incinerando seu corpo, eliminando toda prova de sua existência. Não ficou nada para limpar. Gabriel cuidou de eliminar toda evidência do vampiro e seu trabalho na área. A lama era uma armadilha para animais e humanos e ele utilizou uma energia preciosa erradicando-a. Levou muito tempo para extrair toda maldade do lugar, substituindo-a com bondade.

Fosse o que fosse o tipo de jogo que Lucian Queria jogar, teria que esperar. Os ferimentos de Gabriel estavam sangrando. Ele mantinha a dor a raia, mas estava ficando sem forças. Não tentaria perseguir o Lucian esta noite. Só podia agradecer que seu gêmeo se colocou a seu lado na batalha.

Enquanto Gabriel voltava para casa, a debilidade o apanhou. Estava cansado e seus ferimentos já não podiam ser ignorados. Precisava de sangue e a presença curadora de Francesca. Sentiu-se eternamente agradecido de ter um lar e uma companheira para quem voltar.

 

No momento em que entrou em casa, Gabriel soube que algo estava errado. Sentiu um opressivo pressentimento de perigo. Alguma ameaça perturbava a tranqüilidade habitual.

Automaticamente, tocou a Francesca e a encontrou cheia de temor. Mas o medo era por Gabriel e sua filha não nascida, não por si mesma. Gabriel deslizou pelo piso superior, seus pés não tocavam o chão. O sangue gotejava dos profundos arranhados de seu flanco. O ferimento agudo pulsava a cada movimento. A dor das costelas cortava sua respiração. Estava cansado e sua grande força, drenada.

Naturalmente Lucian escolheria este momento para sua batalha. Sabia que Lucian estava na casa, não havia outra explicação. Só Lucian era o suficientemente poderoso para plasmar sua presença no ar. Enquanto Gabriel continuava atravessando a casa, cortou suas emoções, seu temor por Francesca e Skyler e suas dúvidas sobre sua habilidade em derrotar seu irmão. A dor de seus ferimentos e sua fadiga converteram-no no robô sem emoções que teria que ser, para derrotar o maior e mais poderoso vampiro que existia.

O enorme salão estava vazio, mas deu uma olhada em Santino e Drusilla, estendidos juntos sobre o piso de seus aposentos. Não se incomodou em comprovar se estavam vivos ou mortos, não haveria nenhuma diferença. Aceitava que não podia fazer nada por eles até que se ocupasse de sua tarefa principal. Lucian devia ser derrotado. Gabriel explorou a casa em busca da presença de Skyler e a encontrou em seu quarto, aparentemente dormindo. Podia sentir a mão de Francesca nisso. Havia uma qualidade muito feminina no poder que fechava o aposento de Skyler. Era próprio de Francesca pensar na garota, mesmo num momento de terror extremo. Se ela podia manter Skyler dormindo durante este pesadelo, então devia fazê-lo.

Gabriel esquadrinhou mais à frente, comprovando a câmara subterrânea onde Brice dormia. O sangue poluído de vampiro ainda estava em seu sistema, envenenando-o, inquietando seu sono apesar, das ervas curadoras e o profundo torpor ao qual o haviam induzido, mas não estava em perigo por causa de Lucian. As salvaguardas estavam intactas.

Gabriel continuou atravessando da casa, sem mais tentar esconder sua presença. Lucian o esperava. Moveu-se lentamente entrando no estudio. Francesca estava sentada numa poltrona de respaldo alto de cara para seu irmão gêmeo. Lucian permanecia nas sombras, seu rosto oculto de Gabriel, mas em pé, com seus amplos ombros e suas roupas, como sempre, imaculadas.

- Temos um visitante, Gabriel. - Anunciou Francesca, sua voz estabelecia um fato. - Skyler pensou que foi você quando chegou a nossa porta.

Gabriel assentiu. Uniu-se com Francesca para "ver" suas lembranças, não desejando formular perguntas diante de Lucian. Skyler não sabia que permitira a entrada de seu inimigo em casa. Lucian, um poderoso antigo, tinha mudado facilmente seus padrões mentais e a aura para imitar seu gêmeo. Não tinha revelado sua verdadeira identidade a Skyker e Francesca tampouco o tinha feito. Francesca pôs à menina sob compulsão e a enviou a dormir, tentando savá-la do que acontecia.

- Ele te fez algum mal?

- Me fez muitas perguntas. - Havia uma nota no tom de Francesca, que Gabriel não pôde definir. - Perguntas pessoais sobre mim mesma. Não se aproximou, mas permanece entre as sombras onde não posso o ver ou o tocar. Não tentou tomar meu sangue ou o sangue de nenhum dos que vivem nesta casa.

- Confio em que sua saudação seja satisfatória. - Disse Lucian com sua formosa voz. Pareceu enviar uma onda de pureza e bondade.

- É bem vindo em nossa casa, irmão. - Disse Francesca, de repente. - Por favor, sente-se conosco. Faz muito que você e seu irmão não têm ocasião de estarem tranqüilamente sentados. – Ela fez um gesto para a cadeira, com movimentos graciosos.

Francesca tinha uma forma de ser... Sua voz, a forma em que seu corpo se movia, sua presença... Que consolava e fazia com que os que estavam perto, se sentissem em paz. Agora, sua voz esgrimia sua magia, seu maior dom, numa intenção de alcançar Lucian. Sabia que não havia esperança. Uma vez que um homem dos Cárpatos escolhia entregar sua alma, estava perdido para sempre. Não havia volta atrás. Nem Francesca com seus grandes poderes de cura, podia fazer o impossível. Gabriel ansiou pegá-la entre seus trabalhos e abraçá-la, para consolar-se e a ela.

- Desejam se mostrar civilizados antes de nossa batalha. - Lucian estudou o aposento a sua volta. - Este parece ser mais um lugar de paz que de guerra. - Baixou a voz para convertê-la numa compulsão. – Venham meu então e irmã e compartilham comigo sua força.