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Planeta Criança



Poesia & Contos Infantis

 

 

 


LENDAS DE DUNA - p.2 / Frank Herbert
LENDAS DE DUNA - p.2 / Frank Herbert

 

 

Biblioteca Virtual do Poeta Sem Limites

 

 

LENDAS DE DUNA

Parte II

 

Sejamos ricos, pobres, fortes, débeis, inteligentes ou estúpidos, as máquinas pensantes nos tratam como se fôssemos pedaços de carne. Não compreendem como são os humanos.

 

 IBLIS GINJO,

 planos preliminares para a Jihad

 

 Enquanto outros capatazes humanos fiscalizavam os projetos de monumentos para o Foro, Iblis Ginjo recebeu ordens de distribuir um carregamento de novos escravos. Os cativos vinham de Giedi Prime, e tinham sido conduzidos à Terra por ordem de Omnius. O chefe dos capatazes grunhiu para si, pois suspeitava que os cimeks quereriam construir outro enorme monumento para celebrar a vitória de Giedi Prime, e suas equipes teriam que se encarregar do trabalho...

 Ao que parecia, Erasmo tinha interesse particular em uma fêmea, selecionada para ele pelo titã Barba Azul. Iblis tinha lido a documentação e sabia que o novo grupo de prisioneiros eram de índole rebelde, considerando o lugar onde tinham sido capturados.

 Quando os desalinhados e desorientados escravos saíram do transporte com suas roupas sujas, Iblis os examinou com olho perito e pensou em que forma os distribuiria: alguns artesãos, alguns operários qualificados, a maioria simples escravos. Destinou um homem musculoso de pele negra ao projeto do pedestal de Ajax. Depois de lhe dedicar um sorriso, enviou outros a equipes necessitadas de mais mão de obra.

 Um dos últimos prisioneiros em sair da nave foi uma mulher que, face aos hematomas que cobriam seu rosto e braços, e sua expressão estupefata, caminhava com orgulho, demonstrando uma energia interna em cada movimento. Era a fêmea de Erasmo. Problemas.

 Por que o robô estaria interessado nela? Afinal, acabaria viviseccionando-a. Um desperdício. E uma pena.

 Iblis a chamou, mas ela ignorou seu tom suave embora autoritário. Por fim, com certa colaboração dos guardas robô, a mulher se plantou em frente a ele. Embora fosse de estatura média, a fêmea tinha olhos de um muito belo tom lavanda, cabelo castanho claro e um rosto que seria formoso uma vez limpo da sujeira e da cólera.

 Iblis lhe dirigiu um cálido sorriso, com a intenção de derrubar suas defesas.

 - A documentação afirma que você se chama Serena Linné. Sabia muito bem quem era.

 Iblis a olhou nos olhos e detectou um brilho desafiante. A mulher sustentou seu olhar, como se fosse sua igual.

 - Sim. Meu pai era um funcionário de menor patente de Giedi Prime, moderadamente acomodado.

 - Já trabalhou antes como faxineira? - perguntou o capataz.

 - Sempre fui uma faxineira... de meu povo.

 - A partir de agora, servirá a Omnius. - O homem suavizou a voz. - Prometo que não será muito duro. Aqui tratamos bem nossos trabalhadores. Sobre tudo aos inteligentes como você. Talvez possa aspirar a uma posição privilegiada, de confiança, se contar com a inteligência e personalidade necessárias. - Iblis sorriu. - Entretanto, não seria melhor que utilizássemos seu verdadeiro nome, Serena Butler?

 A mulher o transpassou com o olhar. Ao menos, não negou.

 - Como sabe?

 - Depois de capturá-la, Barba Azul inspecionou os restos da sua nave. Haviam muitas pistas a bordo. Teve sorte de que os cimeks não precisassem interrogá-la a fundo. - Lançou um olhar a suas notas eletrônicas. - Sabemos que é a filha do vice-rei Manion Butler. Tentava ocultar sua identidade por temer que Omnius a utilizasse como chantagem? Asseguro-lhe que a supermente não pensa dessa forma. Omnius jamais consideraria semelhante possibilidade.

 Serena elevou o queixo com ar desafiante.

 - Meu pai jamais cederia nem um centímetro de território, face ao que me fizessem as máquinas.

 - Sim, sim, é muito valente, disso estou seguro. - Iblis dedicou-lhe um sorriso irônico, com o propósito de consolá-la. - O resto depende do robô Erasmo. Solicitou que seja levada a sua vila. Está muito interessado em suas circunstâncias particulares. É um bom sinal.

 - Deseja me ajudar?

 - Eu não diria tanto - respondeu Iblis com certo tom humorístico. - Estou seguro de que Erasmo deseja falar contigo. Falar sem cessar. Ao final, estou seguro de que a deixará louca com sua famosa curiosidade.

 Iblis ordenou a outros escravos que lavassem e vestissem devidamente esta fêmea, e seguiram as ordens do humano como se também fosse uma máquina. Embora seu comportamento projetasse hostilidade e ressentimento, Serena Butler não esbanjou esforços nem opôs resistência. Tinha cérebro, mas sua inteligência e espírito não demorariam para ser esmagados.

 Não obstante, a revisão médica comportou uma surpresa. Olhou para Iblis com olhos coléricos, tentando conservar seu muro defensivo de ira, mas um brilho de curiosidade apareceu em seus olhos lavanda.

 - Sabia que estava grávida? Ou se trata de um desafortunado acidente? - A julgar por sua reação, compreendeu que não fingia. - Sim, parece que de três meses. Deve ter suspeitado em algum momento.

 - Isso não te interessa.

 Falou com dureza, como se tentasse agarrar-se a algo estável. A notícia pareceu afetá-la mais que os maus tratos recebidos durante seu cativeiro.

 - Até a última célula de seu corpo me interessa, ao menos até que entregue a seu novo amo. Depois, começarei a ter pena de você

 Não havia dúvida de que o robô independente pensaria em experimentos interessantes para ela e o feto...

 

A psicologia do animal humano é maleável, pois sua personalidade depende da proximidade de outros membros de sua espécie e da pressão exercida sobre eles.

 

 ERASMO,

 notas de laboratório

 

 A vila de Erasmo consistia em um edifício alto construído sobre uma colina que dominava o mar. Na parte que dava para o interior, a seção principal se abatia sobre uma agradável praça ladrilhada. Para a costa, os recintos dos escravos, onde cativos humanos viviam amontoados como gado, empelotavam-se no lado contrário.

 Dos balcões mais elevados, o robô considerava curiosa a dicotomia.

 A capa facial de polímero metálico de Erasmo formou um sorriso paternal, enquanto via dois robôs sentinela que atravessavam um recinto atrás de duas meninas as gêmeas que necessitava para sua nova ronda de experimentos. Aterradas as humanas fugiram, mas Erasmo não franziu o cenho. Suas numerosas fibras ópticas analisaram as formas fracas e sujas.

 Tinha visto as meninas alguns dias antes, e reparado em seu cabelo negro e curto e seus olhos castanhos, mas tinha a impressão de que se escondiam em algum lugar. Estavam brincando com ele? Os sentinelas entraram por uma porta a um túnel que conduzia a outro recinto.

 - Localizamos os dois sujeitos - transmitiram por fim. Bom, pensou Erasmo, impaciente por iniciar o trabalho. Queria ver se podia obrigar uma das gêmeas a matar a outra.

 Seria um experimento fundamental, revelador das fronteiras morais e de como as definiam as irmãs.

 Gostava de muito trabalhar com gêmeos idênticos. Ao longo dos anos, tinha processado dúzias de gêmeos em seu laboratório, e reunido relatório médico detalhados, assim como estudos psicológicos intensivos. Dedicava grandes esforços a meticulosas autópsias comparadas, analisava as diferenças sutis entre irmãos que eram cópias genéticas. Os capatazes que trabalhavam nos abarrotados recintos tinham instruções de identificar e selecionar qualquer par novo entre a população cativa da Terra.

 Por fim, teve às gêmeas a sua frente, sujeitas por robôs. Compôs um sorriso sereno. Uma de as meninas cuspiu na superfície refletiva. Erasmo se perguntou por que a saliva possuía conotações tão negativas para os humanos. Não causava danos e eram fáceis de limpar.

 - As formas do desafio humano nunca paravam de assombrá-lo.

 Pouco antes que Erasmo abandonasse sua propriedade de Corrin, vinte e dois escravos haviam tirado as capas protetoras oculares e fixado a vista no gigantesco sol vermelho até ficarem cegos. Desobedientes, rebeldes e estúpidos. Do que servia aquele ato desafiante, além de inutilizá-los para trabalhar como escravos?

 Tinham imaginado que os matariam, e Erasmo não os decepcionou, mas tampouco desejava que se transformassem em mártires. Ele os tinha separado dos outros escravos, para que seu exemplo não se propagasse. Cegos, não poderiam encontrar nem ganhar comida. A estas alturas, supunha que já teriam morrido de fome em sua escuridão auto-infringida.

 Mesmo assim, maravilhava-se de sua coragem, de sua vontade coletiva de desafiá-lo. Embora os humanos constituíssem uma raça molesta, não paravam de fasciná-lo.

 Um olho espião zumbiu nas cercanias, emitindo ruídos estranhos. Por fim, Omnius falou por seu intermédio.

 - A recente perda de Giedi Prime é sua culpa, Erasmo. Tolero seus incessantes experimentos na esperança de que desconstruas e analise o comportamento humano. Por que não predisse o ataque suicida que aniquilou meus cimeks? Os dados e experiências de minha contraparte de Giedi Prime nunca chegaram a serem carregados. Barba Azul também é insubstituível, pois ele criou minha programação original.

 O Omnius da Terra já estava informado da retomada de Giedi Prime, graças a uma bóia de emergência automática lançada pelo robô Seurat, cuja nave de atualização havia topado inesperadamente com o desastre. A mensagem tinha chegado à Terra naquela manhã.

 - Não me subministraram dados de que as feiticeiras de Rossak tinham desenvolvido esta capacidade de destruição telepática. - A cara do robô recuperou sua falta de expressividade habitual. - Por que não interroga Vorian Atreides quando retornar à Terra? O filho de Agamenon já nos ajudou em outras ocasiões a replicar um comportamento humano instável.

 - Nem sequer suas contribuições teriam podido nos preparar para o que aconteceu em Giedi Prime. Os seres conscientes biológicos são imprevisíveis e temerários.

 Quando as sentinelas levaram as gêmeas arrastadas, Erasmo dedicou sua atenção ao olho espião.

 - Então, é evidente que tenho mais trabalho a fazer.

 - Não, Erasmo, é evidente que suas investigações não dão os frutos desejados. Deveria se esforçar por alcançar a perfeição, em vez de investigar combinações de enganos. Recomendo que substitua seu núcleo mental por um subconjunto de meu programa. Converta-se em uma máquina perfeita. Uma cópia de mim.

 - Você seria capaz de sacrificar nossos fascinantes e intermináveis debates? - respondeu Erasmo, esforçando-se por dissimular seu alarme. - Sempre expressou interesse em minha peculiar maneira de pensar. Todas as supermentes desejam acessar seu registro de meus atos.

 O zumbido do olho espião se intensificou, o que indicava que Omnius estava pensando. A situação era preocupante. Erasmo não queria perder sua identidade independente, que tanto o havia custado conseguir.

 Uma das gêmeas tentou libertar-se dos guardas, e correu em direção à duvidosa segurança dos recintos. Como Erasmo tinha sugerido por antecipado, o guarda elevou sua irmã por um braço, e deixou que se debatesse entre gritos. A outra vacilou, embora pudesse ter chegado com facilidade a seu refúgio provisório. Deteve-se pouco a pouco, derrotada.

 Fascinante, pensou Erasmo. E o sentinela nem sequer se viu obrigado a infligir danos celulares a outra menina.

 - Talvez se desviasse minha atenção para temas de importância militar - se apressou a continuar, - compreenderia melhor as possibilidades de meu trabalho. Deixe que analise por você a mentalidade destes humanos selvagens. O que impulsiona a auto-imolação, como vimos em Giedi Prime. Se for capaz de conseguir uma explicação, seus Planetas Sincronizados nunca mais serão vulneráveis a ataques imprevisíveis.

 O olho espião flutuou no ar, enquanto milhões de possibilidades passavam pela fértil mente de Omnius. Pouco depois, o computador tomou uma decisão.

 - Tem minha permissão para continuar. Mas não continue pondo a prova minha paciência.

 

 As pessoas necessitam de continuidade

 

 BOVKO MANRESA,

 primeiro vice-rei da Liga de Nobres

 

 Em Poritrin, a virulenta febre fazia estragos nas terras baixas e moles onde os escravos se amontoavam. Face à quarentena e todos os esforços, a enfermidade havia matado certo número de funcionários e mercadores, e também se propagou aos escravos que trabalhavam nos laboratórios de Tio Holtzman, a que provocou problemas aos trabalhos do cientista.

 Quando Holtzman reparou pela primeira vez nos sintomas da enfermidade que afetava seus calculadores de equações, ordenou imediatamente que transportassem os doentes para câmaras de isolamento e confinassem a outros. O distraído sábio pensou que os escravos se alegrariam de livrar-se de suas tarefas matemática. Em vez disso, os calculadores gemeram e rezaram, e se perguntaram por que Deus lhes castigava em lugar de seus opressores.

 Ao cabo de duas semanas, a metade de seus escravos tinham morrido ou estavam em quarentena. A mudança produzida nas rotinas diárias não ajudava ao trabalho mental do sábio.

 Estavam executando vários simulacros em grande escala, seguindo o desenvolvimento gradual de parâmetros estabelecidos pela brilhante Norma Cenva. Holtzman, irritado, sabia que interromper o trabalho requereria novas equipes que começassem do zero. Com o fim de conservar seu prestígio, necessitava de um êxito o quanto antes.

 Nos últimos tempos, tinha sido o trabalho de Norma, mais que o seu próprio, que tinha sustentado sua reputação. É obvio, apropriou-se de todo o mérito de haver transformado os geradores decodificadores em armas ofensivas. Lorde Bludd havia apresentado com orgulho os dois protótipos à força de liberação da Armada com o destino a Giedi Prime. A verdade era que os projetores tinham prestado um grande serviço aos planos de resgate, mas os protótipos tinham consumido energia suficiente para deitar em terra dois transportes de tropas, e os engenhos se avariaram, de forma irreparável, depois de utilizá-los apenas uma vez. Além disso, o pulso decodificador tinha produzido resultados inesperados, porque muitos robôs tinham gozado da proteção de paredes, e não haviam sido afetados pelo campo destruidor. De qualquer modo, a idéia era promissora, e os nobres incentivaram Holtzman a melhorar o invento, ignorantes do papel desempenhado por Norma.

 Ao menos, a reputação de Holtzman estava a salvo. Por enquanto.

 Norma era tranqüila, mas diligente. Como estava muito pouco interessada em diversões e passatempos, trabalhava com esforço e analisava suas idéias. Face aos desejos de Holtzman, insistiu em efetuar os cálculos em pessoa, em lugar de encaminhá-los às equipes de calculadores. Norma era muito independente para entender a economia de delegar tarefas. Sua dedicação a convertia em uma pessoa aborrecida.

 Depois de resgatar a jovem prodígio de sua escuridão no Rossak, Holtzman havia acreditado, talvez sem uma base sólida, em que Norma lhe traria inspiração quando menos esperasse. Durante uma festa recente celebrada nas torres cônicas de lorde Bludd, o nobre havia dito em brincadeira a Holtzman que concedesse umas férias a seu brilhantismo habitual.

 Embora o comentário o ofendesse, o inventor tinha rido junto com outros nobres. Mesmo assim, abundava na idéia (ao menos em sua opinião) de que fazia tempo que não tinha criado nada original.

 Depois de uma noite inquieta de sonhos extravagantes, Holtzman pensou em uma idéia que devia explorar. Se desenvolvesse algumas características eletromagnéticas que tinha utilizado para seus escudos decodificadores, possivelmente poderia criar um “gerador de ressonância modificado”. Sintonizado da maneira apropriada, um indutor de campo térmico se conectaria com metais, os corpos dos robôs, por exemplo, ou inclusive as formas de combate adotadas pelos cimeks.

 Uma vez ajustado corretamente, o gerador de ressonância poderia fazer se chocar uns contra outros átomos metálicos selecionados, até gerar um calor enorme que destruiria as máquinas.

 A idéia parecia promissora. Holtzman tinha a intenção de atacar seu desenvolvimento com entusiasmo e celeridade.

 Mas antes necessitava de mais matemáticos e ajudantes que construiriam o protótipo. Antes, tinha que desperdiçar um dia na tarefa mundana de substituir os escravos que tinham morrido por causa da febre. Saiu dos laboratórios com um suspiro de frustração e seguiu o caminho sinuoso que conduzia à base dos escarpados, onde subiu a uma lancha a motor que cruzou o rio.

 Na borda oposta, na parte mais larga do delta, visitou um buliçoso mercado. Havia balsas e barcaças apertadas desde fazia tanto tempo, que já pareciam parte da paisagem. O bairro dos mercados não estava muito longe do espaçoporto de Stardi onde numerosos vendedores ofereciam produtos de outros planetas: drogas de Rossak, madeiras e plantas interessantes de Ecaz, jóias de Hagal, instrumentos musicais de Chusuk.

 Em lojas que flanqueavam uma estreita ruela, havia alfaiates que copiavam a última moda salusiana, cortavam e costuravam tecidos exóticos importados e linho de Poritrin. Holtzman havia utilizado muitos desses alfaiates para melhorar sua imagem. Um sábio eminente como ele não podia passar todo o tempo nos laboratórios Afinal, pediam-lhe com freqüência que aparecesse em público para responder a perguntas dos cidadãos, e falava freqüentemente ao comitê de nobres, para convencê-los de sua importância.

 Mas hoje, Holtzman não estava interessado nessas lojas. Precisava comprar escravos, não roupa. O cientista viu um letreiro no mole em frente, escrito em galach: RECURSOS HUMANOS. Aproximou de um grupo de balsas onde se amontoavam cativos. Separados por grupos atrás de cercados, os ásperos prisioneiros foram vestidos com uniformes idênticos, embora não fossem de sua talha. Os escravos eram magros e angulosos, como se não estivessem acostumados a comer com regularidade. Estes homens e mulheres procediam de planetas que muito poucos cidadãos livres de Poritrin tinham ouvido falar, e muito menos haviam visitado.

 Os traficantes pareciam altivos, como se não tivessem vontade de exibir a mercadoria ou regatear. Depois da recente praga, muitos lares e propriedades precisavam substituir seu pessoal, e os vendedores se aproveitavam.

 Outros clientes se apertavam contra os cercas, esquadrinhavam os rostos abatidos, inspecionavam a mercancia. Um velho que segurava um maço de créditos chamou um vendedor e pediu examinar quatro mulheres adultas.

 Holtzman não era muito exigente, nem tampouco queria perder tempo. Como necessitava de muitos escravos, sua intenção era adquirir todo um lote. Assim que chegasse a seu imóvel, escolheria os mais inteligentes para ocupar-se dos cálculos, o resto cozinharia, limparia ou cuidaria de sua casa.

 Detestava estas tarefas mesquinhas, mas nunca as tinha delegado para outra pessoa. Sorriu, quando percebeu que tinha repreendido Norma por fazer o mesmo, por não querer utilizar matemáticos.

 Holtzman, impaciente e ansioso, chamou o traficante mais próximo, agitou a frente de seus narizes a autorização de crédito de Niko Bludd e se abriu passo até a primeira fila.

 - Quero um número elevado de escravos.

O mercador se aproximou, sorriu e fez uma reverência.

 - É obvio, sábio Holtzman! Providenciarei o que desejar. Diga suas necessidades, e eu as satisfarei.

 - Necessito de escravos que sejam inteligentes e independentes - replicou Holtzman, temeroso de que tentassem enganá-lo, - mas capazes de seguir instruções. Imagino que com setenta ou oitenta terei suficiente.

 Alguns clientes que se empelotavam contra a cerca grunhiram, mas não se atreveram a desafiar ao célebre inventor.

 - Um bom pedido - disse o vendedor, - sobretudo nestes tempos de crise. A praga provocou escassez, até entre os mercados de carne de Tlulaxa entreguem mais mercadoria.

 - Todos conhecem a importância de meu trabalho - disse Holtzman, ao mesmo tempo em que tirava um cronômetro da ampla manga de seu manto. - Minhas necessidades gozam de prioridade sobre cidadãos ricos que desejam substituir a mulher da limpeza. Se assim o desejarem, obterei uma permissão especial de lorde Bludd.

 - Sei que pode fazê-lo, sábio - disse o mercador. Gritou para outros clientes que se amontoavam contra o cerca. - Basta! Se não fosse por este homem, agora estaríamos varrendo o chão das máquinas pensantes! - O vendedor sorriu para Holtzman. - A questão é que os escravos lhes serão de mais utilidade. Acaba de chegar uma nova remessa de Harmonthep, todos zensunni. Dóceis, porém creio que mereçam uma bonificação.

 Holtzman franziu o cenho. Preferia gastar sua riqueza em outras coisas, sobretudo considerando o grande investimento necessário para o novo gerador.

 - Não tentem me extorquir, senhor.

 O homem avermelhou, mas não retrocedeu em seu empenho, intuindo que o sábio tinha pressa.

 - Talvez outro grupo lhe seria mais conveniente. Acaba de chegar um do Anbus IV. Indicou uma balsa em que escravos de cabelo negro olhavam com hostilidade para os clientes. São zenshiítas.

 - Qual é a diferença? São mais baratos?

 - Uma simples questão de filosofia religiosa. - O mercado esperou para ver se ele compreendia suas palavras, e ao ver que não, sorriu aliviado. -Além disso, quem pode compreender os budislâmicos São trabalhadores, e isso é o que conta, não é verdade? Posso-lhes ceder esses zenshiítas a um preço menor, apesar de que são muito inteligentes. Talvez mais educados que os de

 Harmonthep. São saudáveis, também. Tenho certificados médicos. Nenhum deles esteve exposto ao vírus da praga.

 Holtzman examinou o grupo. Todos tinham subido a manga esquerda, como se fosse uma espécie de distintivo. Na primeira fila, um homem musculoso de olhos ferozes e espessa barba olhou-o com indiferença, como se se considerasse superior a seus captores.

 Depois de uma inspeção superficial, Holtzman não distinguiu nada especial nos cativos do Anbus IV. Necessitava com desespero de serventes, assim como técnicos de nível inferior para seus laboratórios. Cada dia era uma luta por encontrar trabalhadores capazes de calcular equações progressivamente mais complexas.

 - Mas por que são mais baratos? - perguntou.

 - Abundam mais. É uma questão de oferta e demanda. O vendedor sustentou seu olhar. Disse um preço. Muito impaciente para regatear, Holtzman assentiu.

 - Levarei oitenta. - Elevou a voz. – Tanto faz de Anbus IV ou de Harmonthep. Agora estão em Poritrin, e trabalham para o sábio Tio Holtzman.

 O mercador se voltou para o grupo de cativos e gritou:

 - Ouviram? Deveriam estar orgulhosos.

 Os cativos se limitaram a olhar para seu novo amo, sem dizer nada. Holtzman sentiu alívio. Devia significar que seriam mais amigáveis.

 Entregou a quantidade de créditos solicitada.

 - Faça com que sejam lavados e os enviem a minha residência.

 O mercador sorridente agradeceu profusamente.

 - Não se preocupes, sábio Holtzman. Ficará satisfeito com este lote.

 Quando o grande homem se afastou do mercador, outros clientes começaram a gritar e agitar seus cartões de crédito, brigando pelos outros escravos. Ia ser um dia movimentado.

 

Durante o curso da história, a espécie mais forte sempre ganha.

 

 TLALOC

 A Era dos Titãs

 

 Depois de refugiar-se nos desertos de Arrakis, os zensunni foram pouco mais que nômades, e não muito valentes. Inclusive em suas incursões mais afastadas para procurar objetos úteis, os nômades não se separavam das rochas, para evitar o deserto e os vermes.

 Muito tempo atrás, depois de que o químico imperial Shakkad o Sábio houvesse descoberto as propriedades rejuvenescedoras da misteriosa especiaria melange, tinha surgido um pequeno mercado da substância natural entre os forasteiros que faziam escala no espaçoporto de Arrakis City. Entretanto, como o planeta se achava muito longe de pistas de aterrissagem mais conhecidas isso havia impedido que a melange se transformasse em uma mercadoria valiosa. “Uma raridade, não uma mercadoria”, havia dito Aniv Dhartha um desabrido mercador.

 Mesmo assim, a especiaria constituía um elemento primitivo da alimentação, e devia ser compilada... mas somente em terrenos próximos às rochas.

 Dhartha, à frente de um grupo de seis homens, atravessava uma cordilheira de areia que retinha os rastros de suas pegadas como fossem beijos no pó. Tinham a cabeça coberta com um tecido branco que só deixava descoberto seus olhos. A brisa agitava suas capas, e revelava cinturões com acessórios, ferramentas e armas. Dhartha subiu o tecido sobre o nariz para não respirar pó. Arranhou a tatuagem da bochecha, e depois entreabriu os olhos, sempre alerta ao perigo.

 Ninguém pensou em jogar olhar para o céu transparente até que ouviram um leve silvo, que logo se transformou em um uivo. O naib Dhartha o comparou ao grito de uma mulher que acabara de descobrir a morte de seu marido.

 Elevou a vista e viu uma bala chapeada que rasgava a atmosfera, em seguida reconheceu o zumbido de impulsores. Um objeto em forma de bolha apareceu no céu, girou sobre si mesmo e oscilou no ar, como se estivesse escolhendo um lugar onde aterrissar. Depois, a menos de um quilômetro do grupo, o objeto se chocou contra as dunas como um punho que golpeara o estômago de um mercador corrupto. Um jorro de areia e pó saiu disparado para o alto.

 O naib ficou imóvel e observou, enquanto seus homens começavam a tagarelar entre si. O jovem Ebrahim estava tão entusiasmado como o filho de Dhartha, Mahmad. Ambos os meninos queriam ir correndo investigar.

 Mahmad era um bom moço, respeitoso e prudente, mas Dhartha não tinha muito boa opinião de Ebrahim, que gostava de contar histórias e falar de façanhas imaginárias. Lembrou do incidente do roubo da água tribal, um delito imperdoável. À princípio, o naib pensou que havia dois jovens implicados, Ebrahim e Selim, mas Ebrahim tinha se apressado a negar toda responsabilidade e acusar o outro menino. Selim tinha parecido assombrado pela acusação, mas tampouco a tinha negado.

 Para cúmulo, o pai de Ebrahim tinha fechado um substancioso trato com Dhartha para salvar seu filho, de maneira que o órfão tinha sido condenado à pena máxima. Tampouco foi uma grande perda para a tribo. Com freqüência, um naib se via obrigado a tomar decisões difíceis.

 Enquanto os homens olhavam para Dhartha, com os olhos cintilando entre as dobras de tela, compreendeu que não podia desperdiçar a oportunidade de saquear a nave caída, fosse o que fosse.

 - Temos de ir ver o que é isso - gritou.

 Seus seguidores correram para a coluna de fumaça que assinalava o impacto, com Ebrahim e Mahmad à frente. Dhartha não tinha a menor vontade de se aventurar longe das rochas, porém o deserto o atraia para um tesouro desconhecido.

 Os nômades coroaram uma duna, deslizaram pela sua face e subiram pela outra. Quando chegaram à cratera produzida pelo impacto, todos ofegavam. O naib e seus homens se detiveram na borda da fossa. Manchas vidradas de silício aquecido se pulverizaram sobre a areia como saliva.

 No interior da fossa havia um objeto mecânico do tamanho de dois homens, com salientes e componentes que zumbiam e se moviam, acordados agora que o artefato havia aterrissado. O objeto ainda fumegava por causa do calor gerado ao entrar na atmosfera. Talvez uma espaçonave?

 Um dos homens de Dhartha retrocedeu e fez um sinal advertência com os dedos. Entretanto, o ansioso Ebrahim se inclinou para frente. O naib apoiou uma mão sobre o braço esquerdo de Mahmad para evitar que cometesse imprudências. Que o outro se arriscasse.

 O módulo era muito pequeno para transportar passageiros. As luzes piscaram, e os lados da sonda se abriram como asas de dragão para deixar a descoberto extremidades mecânicas garras articuladas e uma complexa maquinaria interna. Processadores, aparelhos de investigação e destruição. Conversores de energia refletivos se estenderam a luz do sol.

 Ebrahim deslizou pela borda do poço.

 - Imagine o que isso valerá no espaçoporto, naib! Se eu chegar primeiro, deveria receber uma parte maior.

 Dhartha quis discutir com o jovem entusiasta, mas quando percebeu que ninguém, exceto seu filho, parecia ansioso por unir-se a Ebrahim assentiu.

 - Se tiver êxito, receberá uma parte extra.

 Embora o objeto se avariou por completo, os nômades utilizariam o metal para fins próprios.

 O atrevido jovem parou na metade do caminho e olhou para o aparelho com suspeita, pois continuava vibrando e zumbindo Componentes flexíveis projetavam braços e pernas, enquanto lentes e espelhos estranhos giravam nos extremos de tentáculos flexíveis de fibra de carbono. Parecia que a sonda estava examinando o terreno circundante, como se não soubesse onde tinha aterrissado.

 A máquina não prestava atenção aos humanos, até que Ebrahim agarrou uma pedra da parede da cratera.

 - Ai! Ai! - gritou, e lançou a rocha. Chocou-se contra o material da sonda com um ruído metálico.

 O aparelho se imobilizou, e depois suas lentes e exploradores giraram para o humano solitário. Ebrahim flexionou as pernas sobre a areia.

 Um raio de luz incandescente brotou de uma lente. Uma língua de fogo envolveu Ebrahim e o projetou para trás, uma nuvem de carne e ossos carbonizados. Fragmentos de roupa, mãos e pés voaram para o alto da cratera.

 Mahmad gritou, e Dhartha ordenou imediatamente a seus homens que retrocedessem. Fugiram para um terreno baixo entre as dunas. A meio quilômetro de distância, subiram a uma cúpula de areia bastante alta para observar sem perigo a cratera. Os homens rezaram e fizeram gestos supersticiosos, enquanto Dhartha levantava o punho direito. O temerário Ebrahim tinha chamado a atenção do objeto mecânico e pago com a vida por sua ousadia.

 Os homens continuaram vigiando a fossa. A sonda não lhes dava atenção. Parecia que estava se remodelando, e construía estruturas a seu redor. Mãos mecânicas vertiam areia em uma abertura de seu bojo, e projetavam varinhas de vidro que utilizava para sustentar-se. A máquina acrescentou novos componentes, cada vez maiores, e por fim começou a sair do poço, com grande estrépito. Dhartha continuava perplexo. Ainda que fosse o líder de uma tribo, não sabia o que fazer. Não entendia o que ocorria. Talvez o contaria a alguém do espaçoporto, mas detestava relacionar-se com forasteiros. Além disso, o objeto podia ser valioso, e não queria entregar sua descoberta.

 - Olhe, pai. - Mahmad apontou para o deserto. - Essa máquina endemoninhada pagará por ter matado meu amigo.

 Dhartha viu a conhecida ondulação, o movimento do monstro sob a areia. A sonda continuava produzindo seus movimentos rítmicos, alheia a sua volta. O mecanismo elevou-se, um composto monstruoso de materiais cristalinos e escoras de silicato, reforçados por vigas de fibra de carbono auto-geradas.

 O verme de areia se aproximou a toda velocidade, até que sua cabeça se elevou sobre a areia. A boca era maior que a circunferência da cratera.

 A sonda robô agitou seus braços sensores e lentes, pressentindo que estava sofrendo um ataque, mas sem saber como. Vários raios de fogo brotaram do chão.

 O verme tragou o demônio mecânico. Depois, o monstro do deserto se ocultou debaixo das dunas como uma serpente do mar em busca de águas profundas.

 O naib Dhartha e seus homens ficaram petrificados sobre as dunas. Se corressem, as vibrações atrairiam o verme. Ao cabo de pouco tempo, viram que o verme se afastava. A cratera tinha desaparecido, sem que ficasse nem rastro da construção mecânica, nem tampouco do corpo de Ebrahim.

 Dhartha meneou a cabeça e se voltou para seus companheiros.

 - Isto se transformará em uma história lendária, uma balada que se entoará de noite em nossas cavernas... - Respirou fundo e deu meia volta. - Embora duvide que alguém acredite.

 

O futuro? Eu o odeio, porque não viverei para vê-lo.

 

 JUNO,

 Vistas dos titãs

 

Depois do inesperado encontro com a Armada da Liga em Giedi Prime, o avariado Dream Voyager demorou um mês para voltar a Terra para ser reparado. Devido à lentidão provocada pelos danos, Seurat enviou imediatamente sua bóia de emergência, com intenção de transmitir a Omnius a notícia de queda do novo planeta sincronizado e a perda do titã Barba Azul. A estas alturas, a supermente já devia estar inteirada de ocorrido.

 O capitão robô fez o possível para reparar ou derivar os sistemas danificados e isolar seções para proteger seu frágil co-piloto humano. O general Agamenon não gostaria que seu filho biológico sofresse o menor percalço. Além disso, Seurat tinha desenvolvido certo afeto por Vorian Atreides...

 Vor insistiu em vestir um traje isolante e sair da nave para examinar o casco. Seurat o prendeu com dois cabos, enquanto três robôs de inspeção o acompanhavam. Quando o jovem viu a ferida enegrecida provocada pelos disparos dos humanos, sentiu-se envergonhado uma vez mais. Concentrado em entregar as atualizações vitais de Omnius, Seurat não havia lançado nenhuma agressão contra os hrethgir, porém estes o haviam atacado. Os humanos selvagens não tinham honra.

 Agamenon e seu amigo Barba Azul tinham entregue a indisciplinada população de Giedi Prime ao domínio de Omnius, mas os hrethgir tinham desprezado a civilização superior dos Planetas Sincronizados, transformando na passagem Barba Azul em um mártir. Seu pai estaria muito afetado pela perda de um amigo tão íntimo, um dos últimos titãs sobreviventes.

 O próprio Vor poderia ter morrido, sua branda e frágil forma humana destruída sem ter gozado da oportunidade de transformar-se em um neocimek. Um só disparo da Armada poderia ter acabado com todas as chances de Vor, com seu futuro trabalho. Não podia atualizar ou carregar lembranças e experiências, ao contrário das máquinas. Haveria desaparecido, assim como o Omnius de Giedi Prime. Assim como os outros doze filhos de Agamenon. A idéia o fez estremecer.

 Durante sua viagem de volta, Seurat tentou animar Vor com piadas ridículas, como se não tivesse acontecido nada. O robô elogiou seu companheiro por sua rapidez de pensamento e as inovações táticas que tinham permitido enganar o comandante hrethgir. A mentira de Vor, fingindo ser um humano rebelde que tinha capturado uma nave das máquinas pensantes (que astúcia!), tinha concedido alguns segundos preciosos, e as projeções falsas tinham permitido que escapassem. Talvez a ensinariam nas escolas de humanos de confiança da Terra.

 Não obstante, Vor estava preocupado pelo que diria seu pai. A aprovação do grande Agamenon era indispensável.

 Quando o Dream Voyager aterrissou no espaçoporto central de Terra, Vorian baixou correndo a rampa, com os olhos acesos a expressão ofegante, mas logo ficou decepcionado ao não ver nem sinal do general cimek.

 Vor engoliu em seco. A menos que lhe ocupassem assuntos importantes, seu pai sempre ia recebê-lo. Eram escassos os momentos que passavam juntos, quando podiam trocar idéias, falar de planos e sonhos.

 Equipes de manutenção e máquinas de reparos se aproximaram para inspecionar a nave danificada. Uma das máquinas falou.

 - Vorian Atreides, Agamenon ordena que o encontre na instalação de acondicionamento. Apresente-se ali imediatamente.

 O jovem sorriu. Deixou que o robô voltasse para seu trabalho e se afastou a bom passo. Quando já não pôde conter-se mais, começou a correr.

 Embora tentasse fazer exercícios durante os longos trajetos com Seurat, os músculos biológicos de Vor eram mais fracos que os de uma máquina, e não demorou para cansar-se. Outro aviso de sua mortalidade, de sua fragilidade, e da inferioridade da biologia natural. Isso somente aumentou seu desejo de receber algum dia um corpo de neocimek e descartar sua forma humana imperfeita.

 Vor entrou na câmara de cromo e plaz onde poliam e recarregavam com eletrolíquidos o contêiner cerebral de seu pai. Assim que o jovem entrou na estadia fria e bem iluminada, dois guardas robô se situaram atrás dele para impedi-lo de sair. No centro da habitação se erguia a forma colossal utilizada por Agamenon neste momento. O gigante avançou dois passos, e o chão estremeceu sob seus pés. Tinha três vezes a estatura de Vor.

 - Estava te esperando, meu filho. Tido está preparado. Por que se atrasou?

 Vor, intimidado, ergueu a vista para o contêiner.

 - Vim correndo, pai. Minha nave aterrissou a apenas uma hora.

 - Tenho entendido que o Dream Voyager sofreu danos em Giedi Prime, atacado pelos rebeldes humanos que assassinaram Barba Azul e reconquistaram o planeta.

 - Sim, senhor. - Vor sabia que não devia perder tempo com detalhes desnecessários. O general já teria recebido um relatório completo. - Responderei todas as perguntas que me faça, pai.

 - Eu não faço perguntas, dou ordens.

 Em vez de indicar a seu filho que começasse a limpar e tirar seus componentes, Agamenon levantou uma mão enluvada agarrou Vorian pelo peito e o empurrou contra uma mesa vertical.

 Vor bateu contra a superfície e sentiu uma onda de dor. Seu pai era tão forte que podia quebrar ossos ou partir a coluna vertebral sem querer.

 - Que aconteceu, pai? O que...?

 Agamenon imobilizou suas mãos, a cintura e os tornozelos. Vor, indefeso, torceu a cabeça para ver o que seu pai fazia, e reparou nos complicados instrumentos que havia reunido na câmara. Observou, nervoso, cilindros ocos cheios de líquidos azulados, bombeadores neuromecânicos e máquinas ruidosas que agitavam sensores no ar.

 - Por favor, pai. - Os piores temores de Vor cruzaram sua mente, aumentando suas dúvidas e terrores. - O que eu fiz?

 Agamenon, sem mostrar a menor expressão em sua torre, estendeu uma série de agulhas para o corpo tremulo de seu filho. As pontas perfuraram seu peito, abriram caminho entre as costelas, encontraram por fim os pulmões e o coração. Duas agulhas chapeadas cravaram-se em sua garganta. Brotou sangue por toda parte. Os tendões do pescoço de Vor se incharam quando apertou a mandíbula e os lábios para reprimir um grito.

 Mas o grito surgiu assim mesmo.

 O cimek manipulou a maquinaria conectada com o corpo de Vor, e aumentou a dor até níveis inimagináveis. Convencido de que tinha falhado em algo, Vor chegou a conclusão de que tinha chegado o momento de sua morte, como seus doze irmãos desconhecidos que lhe tinham precedido. Pelo visto, não tinha estado à altura das expectativas de Agamenon.

 A dor era insuportável. Seu grito se transformou em um uivo prolongado, enquanto líquidos de cor ácida eram bombeadas em seu corpo. Ao cabo de pouco, suas cordas vocais se renderam, e o grito só continuou em sua mente... Já não podia agüentar mais. Era incapaz de imaginar a tortura que seu corpo tinha padecido.

 

 Quando tudo acabou e Vor voltou a si, não soube quanto tempo tinha permanecido inconsciente, talvez inclusive às portas da morte. Sentia o corpo como se o houvessem transformado em uma bola, para logo estirá-lo até adotar forma humana.

 A figura gigantesca de Agamenon se abatia sobre ele. Uma galáxia de fibras ópticas brilhava em seu corpo. Embora os restos da dor ainda ressonavam em seu crânio, Vor se negou a gritar. Afinal, seu pai o tinha conservado com vida, pelo motivo que fosse.

 Esquadrinhou o implacável rosto metálico do titã, e confiou em que seu pai não o houvesse revivido para infligir-lhe uma agonia ainda pior.

 - O que eu fiz?

 Entretanto, o cimek não desejava matá-lo.

 - Estou muito satisfeito com seu comportamento a bordo do Viajante onírico, Vorian. Analisei o relatório de Seurat e cheguei à conclusão que sua proeza tática, empregada para escapar da Armada da Liga, foi inovadora e inesperada.

 Vorian não entendia aonde seu pai queria chegar. Suas palavras não pareciam ter relação com as torturas que o general havia lhe infligido.

 - Nenhuma máquina pensante teria considerado semelhante argúcia. Duvido que outro humano de confiança tivesse sido capaz de pensar com tal rapidez. De fato, o resumo de Omnius conclui que qualquer outra reação teria resultado na captura ou destruição do Viajante onírico. Seurat nunca teria sido capaz de sobreviver por seus próprios meios. Não só salvou a nave, e as atualizações de Omnius, e você as devolveu intactas. - Agamenon fez uma pausa. - Sim, estou muito satisfeito, meu filho. Algum dia, você será, um grande cimek.

 A garganta do Vor tremeu quando tentou articular palavras. Tinham-lhe tirado as agulhas, e Agamenon o libertou agora das correias que lhe sujeitavam à superfície da mesa. Os músculos atormentados de Vorian não puderam sustentá-lo, e desabou como um saco, até cair de joelhos no chão. Então perguntou com voz estrangulada.

 - Por que me torturou? Por que me castigou?

 Agamenon imitou uma gargalhada.

 - Quando quiser te castigar, meu filho, você saberá. Foi uma recompensa. Omnius concedeu-me permissão para te fazer este singular presente. De fato, nenhum humano em todos os Planetas Sincronizados já recebeu tal honra.

 

 - Mas o que está dizendo, pai? Por favor, me explique. Minha mente ainda está confusa.

 Sua voz era vacilante.

 - O que são uns breves momentos de dor, comparados com o dom que recebeu? - O colosso passeou de um lado a outro, e as paredes estremeceram. - Por desgraça, não consegui convencer Omnius a transformá-lo em neocimek (é muito jovem), mas estou seguro de que o momento chegará. Eu queria que servisse a meu lado, não como simples humano de confiança, mas sim como meu sucessor. - Suas fibras ópticas brilharam com maior intensidade. - Em vez disso, fiz o que pude por você.

 O general cimek explicou que tinha submetido Vorian a um intenso tratamento biotécnico, um sistema de substituição celular que prolongaria radicalmente sua vida humana.

 - Especialistas geriátricos desenvolveram a técnica no Império Antigo... embora ignoro com que propósito. Esses idiotas não fizeram nada produtivo durante seu lapso de vida normal, de modo que para que queriam viver durante séculos e obter ainda menos coisas? Mediante proteínas novas, eliminação de radicais livres e mecanismos de regeneração celular mais eficazes, prolongaram suas vidas inúteis. Quase todos eles acabaram mortos durante as rebeliões que consolidaram o controle dos titãs.

 Agamenon girou na articulação de seu torso.

 Quando ainda tínhamos corpo humano, no início de nosso domínio, os Vinte Titãs nos submetemos a prolongação de vida biotécnica, assim como você, de maneira que conheço muito bem a dor que suportou. Precisávamos viver séculos, porque nos era imprescindível esse tempo para impor uma liderança competente ao Império Antigo. Inclusive depois de nos transformar em cimeks, o procedimento contribuiu para impedir que nossos cérebros biológicos degenerassem, devido a sua avançada idade.

 Seu corpo mecânico se aproximou.

 - Este processo de alargar a vida é nosso pequeno segredo, Vorian. A Liga de Nobres enlouqueceria se soubesse que possuímos tal tecnologia. - Agamenon emitiu uma espécie de suspiro. - Mas tome cuidado, meu filho: nem sequer esta técnica pode te proteger de acidentes ou de tentativas de assassinato. Como acaba de descobrir Barba Azul, por desgraça.

 Vor conseguiu ficar em pé por fim. Localizou um dispensador de água, bebeu uma jarra do frio líquido e notou que seu coração se acalmava.

 - Acontecimentos assombrosos o aguardam, meu filho. Sua vida já não é uma vela exposta ao vento. Tem tempo para experimentar muitas coisas, coisas importantes.

 O colossal cimek aproximou um arnês e utilizou uma complicada rede de mãos artificiais e braçadeiras que partiam da parede metálica para conectar os mentrodos de seu contêiner cerebral. Braços flexíveis extraíram o cilindro do núcleo corporal e o depositaram sobre um pedestal de cromo.

 - Agora, está um pouco mais perto de alcançar seus objetivos, Vorian - disse Agamenon por um alto-falante, arrancado do corpo móvel.

 Embora fraco e dolorido, Vorian sabia o que seu pai esperava dele agora. Correu aos aparelhos de acondicionamento e conectou com mãos tremulas os cabos elétricos as tomadas magnéticas do contêiner cerebral. O eletrolíquido azulado parecia cheio de energia mental.

 Com a intenção de recuperar certa sensação de normalidade, face à incredulidade produzida pelo que acabava de lhe acontecer, Vor se dedicou a cuidar dos sistemas mecânicos de seu pai. O jovem contemplou com ternura a massa enrugada de cérebro, a memória anciã tão cheia de idéias profundas e decisões difíceis, como expressavam as detalhadas memórias do general. Cada vez que as lia, Vor esperava compreender melhor seu complicado pai.

 Perguntou-se se Agamenon o havia mantido ignorante para lhe pregar uma brincadeira cruel, ou para colocar a prova sua força de caráter. Vor sempre aceitaria o que ordenasse o general, nunca tentaria fugir. Agora que a agonia tinha terminado, imaginou que havia superado a prova a que seu pai o tinha submetido.

 Enquanto Vor continuava sua tarefa, o general Agamenon falou em um sussurro.

 - Você está muito calado, meu filho. O que acha do grande dom que recebeu?

 O jovem parou por um momento, sem saber o que responder. Agamenon estava acostumado a ser impulsivo, difícil de compreender, mas muito poucas vezes atuava sem ter um propósito definido em mente. Vor só queria compreender a idéia global.

 - Obrigado, pai - disse por fim, - por me conceder mais tempo para obter tudo quanto deseja que eu faça.

 

Por que os humanos dedicam tanto tempo preocupando-se com o que chamam “questões morais”? É um dos muitos mistérios de seu comportamento.

 

 ERASMO,

 Reflexões sobre os seres biológicos sensíveis

 

 As gêmeas idênticas pareciam adormecidas e tranqüilas, estendidas uma ao lado da outra, como anjos em um leito fofo. Apenas se viam os sinuosos exploratórios cerebrais conectados em buracos feitos em seus crânios.

 Imobilizadas mediante droga, as meninas inconscientes jaziam sobre uma mesa de laboratório da zona experimental. O rosto gentil como um espelho de Erasmo adotou um cenho exageradamente franzido, como se a severidade de sua expressão pudesse obrigá-las a revelar seus segredos sobre a humanidade.

 - Malditos sejam!

 Não podia compreender aqueles seres inteligentes que tinham criado Omnius e uma assombrosa civilização de máquinas pensantes. Tratava-se de um golpe de sorte milagroso?

 Quanto mais aprendia Erasmo, mais pergunta se acumulavam. O êxito inegável de sua caótica civilização lhe expunha um verdadeiro enigma. Havia diseccionado os cérebros de mais de mil espécimes, jovens e velhos, machos e fêmeas, inteligentes e diminuídos. Havia realizado análise detalhadas e comparações, processado dados através da capacidade ilimitada de Omnius.

 Ainda assim, as respostas não eram claras.

 Não havia dois cérebros humanos exatamente iguais, nem sequer quando os sujeitos tinham sido criados em circunstâncias similares, nem que fossem gêmeos. Uma massa confusa de variáveis desnecessárias! Nenhum aspecto de sua fisiologia era comum a todas as pessoas.

 Exceções irritantes, por toda parte!

 Não obstante, Erasmo observava regras. Os humanos estavam infestados de diferenças e surpresas, mas como espécie, seu comportamento se atinha a algumas regras generais. Sob certas condições, sobretudo amontoados em espaços confinados, as pessoas reagiam com mentalidade tribal, seguiam cegamente à massa, renunciavam a sua individualidade.

 Às vezes, os humanos eram valentes. Outras, eram covardes. Intrigava em especial a Erasmo ver o que acontecia quando levava a cabo “experimentos de pânico” nos recintos, matando alguns e poupando a vida de outros. Em tais circunstâncias de extrema tensão, surgiam sempre líderes, gente que se comportava com uma energia interior superior à de outros. Erasmo gostava de matar estes indivíduos, para logo observar o efeito devastador que causava no resto.

 Talvez o grupo de amostra de sujeitos experimentais utilizado ao longo dos séculos fosse muito pequeno. Possivelmente necessitaria viviseccionar e diseccionar dezenas de milhares mais, antes de chegar a uma conclusão significativa. Uma tarefa monumental, mas por ser uma máquina, Erasmo não tinha limitações de energia ou paciência.

 Tocou a bochecha da menina maior com uma de suas sondas pessoais, e tomou seu pulso estável. Tinha a impressão que cada gota de sangue lhe ocultava segredos, como se toda a raça humana estivesse conspirando contra ele. Seria considerado Erasmo o maior idiota de todos os tempos? A sonda fibrosa se recolheu ao interior de seu corpo, mas não sem que antes arranhasse intencionalmente a pele da menina.

 Quando o robô independente tinha tirado estas gêmeas idênticas dos recintos, sua mãe o tinha amaldiçoado e chamado de monstro. Os humanos podiam chegar a ser tão curtos de idéias, sem compreender a importância do que estava fazendo.

 Com um escalpelo de laser auto-cauterizador, efetuou um corte no cerebelo da menina menor (que media 1,09 centímetros menos e pesava setecentos gramas menos), e viu que a atividade cerebral de sua irmã se desatava: uma reação de simpatia. Fascinante.

 Mas as meninas não estavam conectadas fisicamente entre si, nem tampouco mediante uma máquina. Sentia cada uma a dor da outra?

 Repreendeu-se por sua falta de previsão e planejamento. Teria que ter posto à mãe na mesma mesa.

 Omnius, que falou de um alto-falante mural, interrompeu seus pensamentos.

 - Sua nova prisioneira chegou, o último presente do titã Barba Azul. Está à espera na sala de estar.

 Erasmo levantou suas mãos ensangüentadas. Tinha esperado com impaciência a chegada da mulher capturada em Giedi Prime, ao que parecia era a filha do vice-rei da liga. Seus vínculos familiares sugeriam uma superioridade genética, e ansiava por lhe formular muitas perguntas acerca do governo dos humanos selvagens.

 - Também vai viviseccioná-la?

 - Prefiro manter as opções abertas.

 Erasmo olhou para as gêmeas, uma já morta por causa da incisão. Uma oportunidade desperdiçada.

 - Analisar escravos dóceis trás resultados irrelevantes, Erasmo. Toda idéia de rebelar-se foi extirpada deles. Por conseguinte, qualquer informação que infira é de utilidade militar questionável.

 Erasmo molhou suas mãos de plástico orgânico em um solvente, para eliminar o sangue seco. Tinha acesso a milhares de anos de estudos compilados de psicologia humana, mas inclusive com tantos dados não era possível obter uma resposta clara. Muitos auto-proclamados “peritos” ofereciam respostas muito díspares.

 A gêmea sobrevivente continuava expressando sua dor e medo.

 - Não concordo, Omnius. O ser humano é rebelde por natureza. É uma característica inerente de sua espécie. Os escravos nunca nos serão leais por completo, por mais gerações que tenham passado. De confiança, operários, é a mesma coisa.

 - Você superestima sua força de vontade. - A supermente parecia muito confiante. - E ponho a prova suas deduções errôneas.

 Picado pela curiosidade, seguro de si mesmo, Erasmo se plantou ante a tela.

 - Com tempo suficiente e a incitação adequada, poderia voltar contra nós qualquer trabalhador leal, inclusive o humano de confiança mais privilegiado.

 Omnius rebateu com uma litania de dados extraídos de seus bancos. A supermente estava segura de que seus escravos continuariam sendo dóceis, embora talvez tivesse sido muito complacente, inclusive indulgente. Queria que o universo funcionasse com eficácia, e não gostava das surpresas nem das reações imprevisíveis os humanos da liga.

 Omnius e Erasmo discutiram com crescente aquecimento, até que o robô independente pôs fim ao debate.

 - Nós dois estamos fazendo conjeturas apoiadas em idéias preconcebidas. Portanto, proponho um experimento para determinar a resposta correta. Você escolhe aleatoriamente um grupo de indivíduos que pareçam leais, e eu demonstrarei que posso voltá-los contra as máquinas pensantes.

 - O que obterá com isso?

 - Demonstrar que é impossível confiar até nos humanos mais confiáveis. É um defeito fundamental de sua programação biológica. Não lhe pareceria uma informação útil?

 - Sim, e se sua asserção é correta, Erasmo, nunca mais poderei confiar em meus escravos. Tal resultado exigiria o extermínio de toda raça humana.

 Erasmo se sentiu inquieto. Talvez tivesse sido apanhado em própria lógica.

 - Pode ser que... essa não seja a única conclusão razoável.

 Desejava saber a resposta a uma pergunta retórica, mas também a temia. Como era um robô curioso, isto era muito mais que uma simples aposta com seu superior. Significava uma investigação das motivações mais profundas e os processos de decisões dos seres humanos.

 Mas as conseqüências de descobrir as respostas podiam ser terríveis. Necessitava ganhar a discussão, mas de tal forma que Omnius não cancelasse seus experimentos.

 - Deixe que reflita na mecânica do experimento – sugeriu Erasmo, e depois saiu muito contente do laboratório para ir conhecer sua nova prisioneira, Serena Butler.

 

O universo é um pátio de recreio onde tudo se improvisa.

 Nenhuma pauta externa o controla.

 

 PENSADOR RETICULUS,

 Observações da perspectiva de um milênio

 

  Cifras e idéias dançavam em seus sonhos, mas cada vez que Norma Cenva tentava manipulá-las, escapavam como flocos de neve que se derretessem em seus dedos. Entrou com passo vacilante em seu laboratório, e contemplou as equações durante horas, até que se transformaram em linhas flutuantes ante seus olhos. Apagou parte do cálculo com um gesto irado sobre o tabuleiro magnético, e depois voltou a começar.

 Agora que trabalhava sob o amparo do legendário Holtzman, Norma já não se considerava um fracasso, uma decepção para sua mãe. Graças a seus poderes telepáticos, uma feiticeira tinha conseguido atirar um golpe mortal às máquinas pensantes de Giedi Prime, mas os decodificadores portáteis de Norma também tinham contribuído para a vitória, apesar de o sábio Holtzman não ter destacado seu importante papel na criação da idéia.

 Norma não se importava com a fama ou o prestígio. O mais importante sua era contribuição ao esforço bélico. Oxalá pudesse extrair algum significado destas teorias vagas, embora imensamente promissoras...

 Norma fantasiava enquanto contemplava o rio Isana dos laboratórios. Às vezes, sentia falta de Aurelius Venport, que sempre a tratava com doçura e afeto. Entretanto, quase sempre dava voltas em sua cabeça a idéias descabeladas, quanto mais estrambóticas melhor. Em Rossak, sua mãe nunca a tinha animado a levar em conta as possibilidades irreais, mas Tio Holtzman não as desdenhava.

 Embora os computadores conscientes estivessem proibidos nos planetas da liga, sobretudo no bucólico Poritrin, Norma dedicava grande parte de seu tempo a compreender o funcionamento dos complicados circuitos gelificados. Com o fim de destruí-lo, primeiro tinha que compreender o objetivo.

 Holtzman e ela jantavam de vez em quando juntos, comentavam idéias enquanto bebiam vinhos importados e saboreavam pratos exóticos. Norma, que logo que provava a comida, falava com paixão, movia suas pequenas mãos, sentindo falta de um punção e uma tabuleta para poder esboçar suas idéias. Terminava os ágapes depressa com o desejo de retornar quanto antes a seus aposentos, enquanto o grande inventor desfrutava de uma esplêndida sobremesa e escutava música. “Recarregar idéias”, chamava-o.

 Holtzman gostava de falar de seus êxitos e hospedagens anteriores, ler as distinções e prêmios que lorde Bludd lhe havia concedido. Por desgraça, nenhuma dessas conversas havia conduzido a nenhuma descoberta importante, na opinião de Norma.

 Estava de pé rodeada de luzes brilhantes. Contemplava uma pedra de cristal suspensa do tamanho de um corredor. Estava coberta por um fino filme translúcido que conservava todos seus traços quando anotava pensamentos e idéias. Um artefato tresnoitado, mas para Norma era o melhor método de documentar suas idéias erráticas.

 Examinou a equação que tinha escrito, saltou alguns passos e deu saltos intuitivos, até chegar a uma anomalia quântica que ao que parecia, permitia que um objeto estivesse em dois lugares ao mesmo tempo. Um era uma simples imagem do outro, mas nenhum cálculo podia determinar qual era real.

 Embora não estivesse segura de que este conceito heterodoxo pudesse ser utilizado como arma, Norma recordou que seu mentor a tinha animado a seguir cada atalho até sua conclusão lógica. Armada com equações e disposta a efetuar um simulacro completo, correu pelos corredores bem iluminados até chegar a sala dos calculadores sobreviventes.

 Os técnicos estavam inclinados sobre suas mesas e utilizavam instrumentos de cálculo, inclusive a esta hora tardia. Havia muitos assentos livres, pois um terço dos calculadores tinham sucumbido por causa da febre mortífera. Holtzman tinha comprado um novo grupo de trabalhadores zenshiítas procedentes dos “Recursos Humanos” de Poritrin, mas ainda não estavam bastante preparados para cálculos complicados.

 Depois de entregar o novo problema ao capataz da equipe, Norma explicou com paciência suas intenções, e esclareceu que já tinha feito alguns adiantamentos. Apontou os calculadores na direção que desejava, e sublinhou a importância de sua teoria, até que elevou os olhos e viu Tio Holtzman na porta.

 O homem conduziu Norma até o pátio com o cenho franzido.

 - Perde seu tempo ao tentar fazer amizade com eles. Lembre-se que os escravos calculadores são simples maquinaria orgânica, processadores que proporcionam resultados. Não custa nada substituí-los, assim não lhes dê personalidades nem temperamentos. A única coisa que nos interessa são as soluções. Uma equação carece de personalidade.

 Norma preferiu evitar discussões, mas voltou para seus aposentos para continuar sós seus esforços. Opinava que as ordens mais esotéricas da matemática tinham personalidade, que certos teoremas e integrais exigiam uma delicadeza e consideração que a aritmética vulgar nunca necessitava.

 Passeou até situar-se atrás da pedra de cristal, para examinar o reverso de suas equações. Os símbolos pareciam absurdos, porém se obrigou a contemplar a questão de uma perspectiva diferente. Os calculadores tinham finalizado o conjunto anterior de tediosos cálculos, e enquanto analisava seu trabalho, o resultado continuava deixando-a perplexa.

 Como sabia no fundo qual era a resposta, desprezou o resultado dos escravos e se colocou diante do cristal. Apagou os símbolos e escreveu outros, e logo andou entre a parte anterior e posterior da tabela tentando descobrir uma maneira de sair de seu apuro.

 Tio Holtzman arrancou Norma de seu universo teórico. Olhou surpreso.

 - Você estava em transe.

 - Estava pensando. - Retificou ela.

 Holtzman sorriu.

 - Do outro lado do cristal?

 - Procurava novas possibilidades.

 O homem se esfregou o queixo.

 - Nunca tinha visto ninguém tão concentrado como você.

 Norma encontrou em sua mente a solução que tinha desenvolvido, mas não soube verbalizá-la.

 - Sei qual deveria ser o resultado, mas sou incapaz de reproduzi-lo. Os calculadores contribuem com respostas diferentes das que eu espero.

 - Cometeram um engano? - perguntou o sábio com ar irritado.

 - Se erraram, eu não localizei o erro. Seu trabalho parece correto. Entretanto, pressinto que está errado.

 O cientista franziu o cenho.

 - A matemática não existe para satisfazer desejos, Norma. Terá que seguir todos os passos e ater-se às leis do universo.

 - Você se refere às leis conhecidas do universo, sábio. Eu só desejo ampliar nosso pensamento, alargá-lo e recolocá-lo sobre si mesmo. Estou segura de que há maneiras de resolver o problema. Rodeios intuitivos.

 A expressão do sábio parecia paternalista, perplexa, mas incrédula.

 - As teorias matemáticas com as quais trabalhamos são esotéricas e difíceis de compreender, mas sempre seguem regras fixas.

 Norma se virou, frustrada pelas dúvidas de Holtzman.

 - Para começar, a obediência cega às regras permitiu a criação das máquinas pensantes. Seguirmos às regras pode nos impedir de derrotar nossos inimigos. Você mesmo disse sábio. Temos que procurar alternativas.

 O homem, ao encontrar-se com um tema que lhe interessava, enlaçou as mãos, e as largas mangas escorregaram sobre suas mãos.

 - Com efeito, Norma! Terminei meu desenho do gerador de ressonância, e o protótipo não demorará a ser produzido.

 Muito preocupada para mostrar-se diplomática com ele, a moça negou com a cabeça.

 - Seu gerador não funcionará. Estudei a fundo seus primeiros desenhos. Acredito que sofrem de uma falha fundamental.

 Holtzman olhou-a como se o tivesse esbofeteado.

 - Perdão? Repassei todo o trabalho. Os calculadores verificaram cada passo.

 A jovem encolheu os ombros, distraída com sua lousa.

 - Não obstante, sábio, acho que sua idéia não é viável. Os cálculos corretos nem sempre são corretos, se estiverem apoiados em princípios imperfeitos ou hipóteses incorretas.

 Franziu o cenho quando reparou por fim na expressão irritada do homem.

 - Por está zangado? Disseram-me que o propósito da ciência é provar idéias e desprezá-las se não funcionam.

 - Precisa demonstrar suas objeções - disse o sábio em tom encrespado. – Mostre-me, por favor, nos desenhos onde cometi um engano.

 - Não se trata tanto de um engano... - Meneou a cabeça. - É uma intuição.

 - Eu não confio em intuição - replicou Holtzman.

 Decepcionada por sua atitude, a moça respirou fundo. Zufa Cenva nunca tinha sido partidária da diplomacia, e Norma tampouco. Tinha crescido isolada em Rossak, e quase todos seus conhecidos a tinham deixado de lado, exceto Aurelius Venport.

 Parecia que Holtzman não cumpria o que pregava, mas afinal era um cientista, e Norma acreditava que um propósito importante os tinha reunido. Seu dever consistia em denunciar os enganos que acreditava detectar. Ele teria feito o mesmo com ela.

 - Ainda acredito que não deveriam dedicar mais esforços nem tempo ao gerador de ressonância.

 - Como os recursos são meus e posso administrá-los como quiser - replicou Holtzman, - continuarei fazendo isso, com a esperança de demonstrar que você está enganada.

 Saiu da sala feito um touro.

 Norma o chamou, com a intenção de aplacar seu ânimo.

 - Espero que esteja certo, sábio, acredite. 

 

Existe uma certa má vontade na formação dos ordens sociais, uma luta profunda, com despotismo em um extremo e escravidão no outro.

 

 TLALOC,

 As debilidades do Império

 

 O delta fluvial de Poritrin não se parecia em nada com os tranqüilos riachos e pântanos de Harmonthep. Mais que nada, o menino escravo Ishmael desejava voltar para casa... mas ignorava quão longe estava. Pelas noites, despertava freqüentemente gritando no recinto, torturado por pesadelos. Poucos escravos se incomodavam em consolá-lo, já tinham muito com que se preocupar.

 Tinham queimado sua aldeia, capturado ou assassinado quase todos os seus habitantes. O menino recordava que seu avô enfrentou os invasores, chamado sutras budislâmicos para convencê-los da baixeza de suas ações. Em resposta, os malvados caçadores tinham ridicularizado o ancião Weyop, como se fosse um ser insignificante e ineficaz. Poderiam ter matado o ancião.

 Muito tempo depois de que os caçadores tivessem deixado Ishmael inconsciente, tinha despertado no interior de um ataúde de plaz e pranchas transparentes, uma câmara de êxtase que lhe tinha mantido imóvel, mas vivo. Nenhum escravo teria podido causar problemas durante a viagem da nave da Tlulaxa até chegar a seu estranho destino. Haviam despertado todos os cativos pouco antes de descarregá-los... e os venderam como escravos no mercado de Starda.

 Alguns prisioneiros de Harmonthep tinham tentado escapar, sem saber para onde podiam fugir. Os caçadores deixaram sem conhecimento alguns para que parassem de choramingar e revolver-se. Ishmael teve vontades de resistir, mas intuiu que seria melhor observar e aprender, até que descobrisse uma forma mais eficaz de rebelar-se. Antes de tudo, precisava compreender Poritrin. Depois, chegaria a alguma conclusão. Era o que seu sábio avô o teria aconselhado.

 Weyop tinha chamado sutras que falavam de uma maldade exterior iminente, de invasores desalmados que acabariam com sua forma de vida. Devido a estas profecias, os zensunni haviam renunciado à companhia de outros homens. No decadente Império Antigo, as pessoas tinham se esquecido de Deus, e sofrido quando as máquinas pensantes tomaram o poder. O povo de Ishmael acreditava que era sua a não ser, o grande Kralizec, a praga que acabaria com o universo, tal como tinha sido predito desde milênios antes. Os seguidores do credo budislâmico haviam escapado, pois sabiam o resultado da batalha desesperada.

 Entretanto, a batalha não tinha terminado segundo a profecia. Parte da raça humana tinha sobrevivido aos demônios mecânicos, e agora essa gente se revoltara contra os “covardes” refugiados budislâmicos com ânimo de vingança.

 Ishmael não acreditava que as antigas escrituras estivessem equivocadas. Tantos sutras, tantas profecias. Seu avô parecia muito seguro quando falava das lendas... mas seu pacífico povo de Harmonthep tinha sido invadido, e seus membros mais fortes e sãos tomados como escravos. Agora, Ishmael e seus vizinhos se achavam em um planeta estranho, com seu corpo em pedaços.

 Como Ishmael era o cativo mais jovem, os mercadores esperavam pouco dele. Ordenaram a seu grupo de trabalho que vigiasse o moço, que comprovasse o cumprimento de suas tarefas, ou em caso de falhar, que recolhessem os despojos.

 Apesar de seus músculos doloridos e a pele em carne viva, Ismael trabalhava igual aos demais. Via seus desesperados companheiros perder o tempo com queixas, uma atitude que encolerizava os proprietários e conduzia a castigos desnecessários. Ishmael calava os protestos.

 Passou semanas metido até os joelhos em restingas lamacentas onde cordas e estacas limitavam os bancos de moluscos. Recolhia punhados dos diminutos moluscos e corria a transportá-los aos campos úmidos. Se apertava com muita força, destroçava as delicadas conchas, e tal descuido tinha lhe proporcionado um açoite com um látego sônico quando o capataz viu o que tinha feito. O açoite tinha levantado bolhas em sua pele, sem deixar marcas, mas sim uma cicatriz indelével em seu cérebro. Ishmael sabia que faria todo o possível por evitar o castigo novamente.

 Decidiu não conceder outra vitória fácil a seus amos. Apesar de se tratar de um assunto insignificante, tentaria controlá-lo ao máximo.

 Enquanto contemplava seus companheiros de fadigas, Ishmael quase se alegrou de que seus pais tivessem morrido em uma tormenta, alcançados por um raio no lago poluído quando navegavam em um barco. Ao menos, agora não podiam vê-lo, nem tampouco seu avô...

 Depois do primeiro mês em Poritrin, as mãos e pés de Ishmael estavam tão impregnadas de barro negro que nem sequer a higiene constante podia erradicar as manchas. Tinha as unhas rotas e incrustadas de barro.

 Em Harmonthep, Ishmael tinha se dedicado a recolher ovos de ninhos de qaraa, pescar insetos tartaruga e arrancar tubérculos osthmir que cresciam nas águas salobras dos brejos. Tinha trabalhado desde muito pequeno, mas não gostava de trabalhar neste planeta, porque não era pela glória do Budalá, nem pela saúde e bem-estar de seu povo, e sim para benefício de outros.

 As mulheres cozinhavam no recinto, utilizando os ingredientes e especiarias desconhecidos que lhes cediam. Ishmael tinha saudades o sabor do pescado cozinhado sobre folhas de lírio, e dos canos doces, cujo suco podia embebedar de agradar a um menino.

 De noite, a metade das moradias estavam vazias, porque muitos escravos tinham morrido por causa da febre. Quase sempre, Ishmael se arrastava para seu leito e caia dormido. Outras vezes, obrigava-se a permanecer acordado e escutar as histórias que contavam em círculos.

 Os homens falavam entre si, discutiam sobre a melhor maneira de escolher um líder para seu grupo. Para alguns, a idéia era absurda. Não havia escapatória, e um líder só poderia impulsioná-los a correr riscos que os conduzissem à morte. Ishmael se sentia triste quando recordava que seu avô tinha esperado nomear algum dia seu sucessor. Os mercadores de carne de Tlulaxa haviam mudado tudo. Incapaz de chegar a uma decisão, os zensunni seguiam falando sem parar.

 Ishmael queria mergulhar no esquecimento do sonho.

 Gostava mais que os homens contassem contos, ou recitassem as poéticas “Canções do longo êxodo”, que louvavam os zensunni originais, o relato de como seu povo tinha procurado um lar onde estivessem a salvo das máquinas pensantes e dos planetas da liga.

 Ishmael não tinha visto jamais um robô, e se perguntava se eram monstros imaginários utilizados para assustar meninos desobedientes. Mas sim tinha visto homens malvados, os invasores que tinham assolado sua aldeia, maltratado seu avô e tomado tantos cativos inocentes.

 Sentado na beira da fogueira, Ishmael escutava os relatos de seu povo. Os zensunni estavam acostumados às tribulações, e teriam que suportar gerações de escravismo neste planeta tão afastado de seu lar. Entretanto, seu povo agüentaria o que fosse.

 De todas as histórias que escutou, as alianças e as profecias, aferrou-se a uma acima das demais: a promessa de que a desdita terminaria algum dia.

 

Não existe uma clara divisão entre deuses e homens: uns se confundem com outros.

 

 IBLIS GINJO,

 Opções para a libertação total

 

 O pedestal desenhado para sustentar a estátua do titã Ajax estava terminado. O capataz Iblis Ginjo examinou em sua caderneta eletrônica a marcha das obras e o material necessário para sua conclusão. Tinha aberto os olhos de seus escravos ao perigo real, no caso de que o brutal cimek perdesse a paciência. Trabalhavam com esforço, não só por medo de perder a vida, mas sim porque Iblis os tinha inspirado.

 Depois, um desastre ocorreu em outra parte do projeto.

 Enquanto Iblis fiscalizava a estabilização do robusto pedestal do andaime de observação, viu que a parte superior da estátua quase terminada de Ajax começava a mover-se. O colosso de ferro, polímero e pedra cambaleou de um lado para outro, como se a gravidade estivesse agitando a enorme obra de arte.

 De repente, o gigantesco monumento caiu com grande estrépito, acompanhado de gritos e chiados. Quando uma nuvem de pó se elevou para o céu, Iblis compreendeu que os escravos apanhados sob a estátua podiam considerar-se afortunados.

 Assim que Ajax soubesse da catástrofe, começaria a verdadeira matança.

 Inclusive antes que o pó e os escombros se assentassem, Iblis correu a intervir na furiosa discussão entre neocimeks e capatazes. Ele não era responsável pela parte do monumento que tinha vindo abaixo, mas suas equipes sofreriam as conseqüências dos inevitáveis atrasos. Mesmo assim, Iblis confiava em que sua mediação carismática contribuíra para diminuir o desastre.

 Encolerizados os neocimeks consideravam o acidente uma afronta pessoal a seus reverenciados titãs predecessores. Ajax em pessoa tinha esquartejado um capataz membro a membro, e partes ensangüentadas de seu corpo jaziam dispersas no pó.

 Iblis Ginjo conseguiu sossegar as queixa dos neocimeks com palavras apaixonadas.

 

 - Esperem, esperem! Se me deixarem, tudo se arrumará!

 Ajax se erguia em toda sua estatura, mais ameaçador que qualquer outro titã, mas Iblis continuou com prosa aveludada.

 - É certo, a enorme estatua padeceu alguns danos, mas tão só arranhões superficiais. Lorde Ajax, este monumento foi pensado para suportar o passar dos séculos. É muito capaz de agüentar alguns golpes sem importância. Seu grande legado é imune a acidentes de pequeno tamanho.

 Fez uma pausa, enquanto os cimeks admitiam a verdade de seu veredicto. Depois, assinalou sua zona de trabalho e prosseguiu seu discurso.

 - Escutem, minhas equipes quase terminaram o robusto pedestal desenhado para sustentar a estátua. Por que não a erigimos de qualquer modo, para demonstrar ao universo que somos capazes de superar impedimentos sem importância? Meus operários se encarregarão de levar a cabo os reparos necessários no local. Os olhos do Iblis brilharam com entusiasmo artificial. - Não existem motivos para mais atrasos.

 Enquanto andava de um lado a outro em seu corpo blindado, Ajax esmagou um capataz que não parava de choramingar sua inocência. Depois, o irado titã se voltou para Iblis, e suas fibras ópticas brilharam como estrelas incandescentes.

 - Você aceitou a responsabilidade de que o trabalho continue conforme o cronograma estabelecido. Se sua equipe falhar, a culpa recairá sobre você.

 - Por suposto, lorde Ajax.

 Iblis não delatou o menor alarma. Podia convencer os escravos de que arcassem com a responsabilidade. Fariam por ele.

 - Então, limpem este desastre! - trovejou Ajax, com uma vez que se ouviu até no Foro.

 Mais tarde, Iblis fez promessas a seus esgotados e explorados escravos. Fazia tempo que se mostravam descontentes e rebeldes, mas os pôs no bolso com a oferta dos incalculáveis benefícios que receberiam: as melhores pulseiras sexuais, orgias sem conta, dias de descanso na campina.

 - Eu não sou como outros humanos de confiança. Alguma vez lhes decepcionei? Prometi recompensas que não entreguei?

 Com tais incentivos, para não falar de uma potente dose de medo do titã Ajax, os trabalhadores recomeçaram o trabalho com renovadas energias. No frio da noite, iluminados por holofotes que flutuavam sobre a obra como supernovas, Iblis conseguiu que sua equipe trabalhasse com eficácia. De sua plataforma de madeira, viu que os escravos elevavam a imensa estátua sobre seu pedestal reforçado e a fixavam em seu lugar.

 Equipes de artesãos escalaram a superfície curva de ferro pedra, e montaram andaimes improvisados para começar as obras de restauração. O rosto legendário do Ajax tinha o nariz desfigurado e um braço amassado, assim como profundos cortes no uniforme. No fundo de seu coração, Iblis suspeitava que o Ajax humano real tinha sido um indivíduo feio e disforme.

 Durante toda a longa noite, Iblis lutou por permanecer acordado, apoiado contra o corrimão. Adormeceu, e logo despertou sobressaltado quando ouviu o zumbido do elevador de carga que subia.

 Mas levou uma surpresa ainda maior ao ver que não havia ninguém. Apenas uma pequena folha de metal enrolado, um cilindro de mensagem. Iblis olhou-o com o coração acelerado, mas o elevador de carga não se moveu, como se esperasse. Olhou pela borda, mas não viu quem tinha deixado a mensagem.

 Como Iblis ia desdenhá-lo? Apoderou-se do cilindro. Rompeu o selo, desenrolou a folha leu com crescente estupor.

 “Representamos um movimento organizado de humanos insatisfeitos. Estamos esperando o momento e o líder adequados para iniciar uma revolta contra os opressores. Você precisa decidir se deseja se unir a nossa causa. Voltaremos a entrar em contato contigo.”

 Enquanto Iblis contemplava com incredulidade a mensagem anônima, as letras se apagaram, se transformaram em gotas de óxido corrosivo que devoraram o metal até destruí-lo totalmente.

 Era autêntico, ou uma armadilha dos cimeks? Quase todos os humanos odiavam seus amos mecânicos, mas se esforçavam muito para dissimulá-lo. E se existisse um grupo semelhante? Nesse caso, necessitariam de líderes com talento.

 A idéia o exaltou. Iblis nunca tinha pensado nessa possibilidade, e ignorava o que havia dito ou feito para revelar seus pensamentos e sentimentos mais ocultos. Por que suspeitavam? Sempre tinha sido respeitoso com seus superiores, sempre tinha sido...

 E se tivesse sido demasiado obsequioso? Talvez tivesse exagerado na hora de aparentar lealdade.

 Um abaixo de onde se achava, os artesãos continuavam trabalhando nas reparações da estátua de Ajax, como térmites que devorassem um tronco. A aurora iluminou a estátua, e Iblis compreendeu que logo terminariam. As máquinas recompensariam seu esforço.

 Como as detestava!

 Iblis se debateu com sua consciência. As máquinas pensantes lhe tinham tratado bem, se comparado com outros escravos, mas tão somente uma fina capa de amparo lhe salvava da mesma sorte. Em privado, Iblis refletia freqüentemente no valor da liberdade, e no que faria se lhe concedessem uma oportunidade.

 Um grupo rebelde? Logo que podia acreditá-lo. À medida que transcorriam os dias, Iblis se descobriu pensando cada vez mais na possibilidade... e à espera de que voltassem a entrar em contato com ele.

 

 Nosso apetite abrange tudo.

 

 PENSADOR EKLO,

 além da razão humana

 

 Com tanto ódio escondido em sua mente, Agamenon tomava precauções especiais quando Omnius estava em condições de espiá-lo. Isto significava quase sempre, e em quase todos os lugares, inclusive quando Agamenon e Juno praticavam sexo com paixão. Ao menos, o que passava por sexo entre os titãs.

 Para consumar sua entrevista, corpos móveis transportavam aos dois cimeks até uma câmara de manutenção situada no pavilhão de controle da Terra. Estavam rodeados de tubos cheios de líquidos nutritivos, que serpenteavam até depósitos de armazenamento pendurados do teto. Servidores robô se transladavam desde geradores de manutenção vital até bancos de análise, obtinham dados dos mentrodos, vigiavam que todos os sistemas se mantivessem dentro dos parâmetros normais.

 Agamenon e Juno conversavam em uma banda de onda curta privada, giravam seus respectivos sensores e enviavam descargas aos mútuos mentrodos mediante o eletrolíquido.

 Uma espécie de estimulação erótica prévia ao ato sexual. Até sem corpo físico, as mentes cimek podiam experimentar um intenso prazer.

 Elevadores automáticos desengancharam o contêiner cerebral do corpo móvel de Agamenon, e depois depositaram o núcleo pensante sobre um pedestal de cromo, ao lado do contêiner que albergava o cérebro de Juno. Graças às fibras ópticas e as normas comparativas eletrônicas, reconheceu as dobras e lóbulos da mente de sua amante.

 Ainda formosa depois de tantos séculos.

 Agamenon recordou sua antiga beleza física: corpo cor obsidiana com reflexos azulados, nariz afilado, rosto estreito, sobrancelhas que se arqueavam de uma maneira misteriosa. Sempre recordava de Cleopatra, outro gênio militar perdido na bruma da história, como o primeiro Agamenon da guerra da Tróia.

 Muito tempo antes, durante o brilho de tempo em que tinha usado um frágil corpo humano, Agamenon tinha se apaixonado por esta mulher. Embora Juno fosse muito desejável do ponto de vista sexual, tinha-lhe atraído sua mente antes de conhecê-la em pessoa. Primeiro, tinha reparado nela em uma complexa rede virtual, jogando simulacros táticos e jogos de guerra que tinha praticado com o com os dóceis computadores do Império Antigo. Naquela época os dois eram adolescentes, quando a idade importava.

 Agamenon tinha crescido na mimada Terra, com o nome do Andrew Skouros. Seus pais tinham abraçado um estilo de vida hedonista mas desapaixonado, como tantos outros cidadãos. Existiam, vegetavam, mas nenhum vivia realmente. Depois de transcorrido tanto tempo, ainda recordava o rosto de seus pais. Agora, todos os humanos lhe pareciam muito iguais.

 Andrew Skouros sempre tinha sido inquieto. Formulava perguntas incômodas que ninguém sabia contestar. Enquanto outros se absorviam em jogos de salão frívolos, o jovem investigava base de dados, onde descobriu histórias e lendas. Encontrou proezas heróicas de gente que tinha existido em um passado tão remoto, que pareciam míticos como a raça dos titãs, os primitivos deuses destronados por Zeus e um panteão de deidades gregas. Analisou as conquistas militares e chegou a compreender as táticas, em um momento em que se tratava de uma habilidade obsoleta para o pacífico Império.

 Sob o aliás de Agamenon, interessou-se em jogos de estratégia praticados na rede informática que controlava as atividades da humanidade escravizada pelo tédio. Nela tinha encontrado uma pessoa tão perita e dotada como ele, uma alma gêmea compartilhava seus interesses. As idéias inovadoras e inesperadas do misterioso jogador provocaram que êxitos e fracassos se equilibrassem nas campanhas do jovem, mas seus surpreendentes êxitos mais que compensavam seus espetaculares fracassos. Seu intrigante aliás Juno, tirado da rainha dos deuses romanos, esposa de Júpiter.

 Atraídos mutuamente por sua ambição compartilhada, sua relação foi tempestuosa e desafiante, muito mais que sexo. Procuravam prazer desenvolvendo experimentos mentais. A princípio, foi um jogo, mas logo se tornou um pouco mais ambicioso.

 Suas vidas deram um giro radical quando ouviram falar com o Tlaloc.

 O visionário de outro planeta, com suas duras acusações contra a humanidade complacente da Terra, revelou aos dois intrigantes que seus planos podiam transformar-se em algo mais que aventuras e fantasias.

 Juno, cujo nome autêntico era Julianna Parhi, havia reunido os três. Andrew Skouros e ela se encontraram com Tlaloc, o qual se entusiasmou ao descobrir que compartilhavam seus sonhos. “Talvez sejamos poucos - havia dito Tlaloc, - mas nos bosques da Terra cheios de lenha seca, três fósforos bastam para provocar um incêndio.”

 O trio rebelde se reunia em segredo para derrubar o Império adormecido. Graças à experiência militar de Andrew, perceberam que um modesto investimento em maquinaria eletrônica e mão de obra bastariam para conquistar muitos planetas caídos em um estupor apático. Com um pouco de sorte e uma tática aceitável, compartilhando a mesma mentalidade poderiam cerrar uma mão de ferro ao redor do Império Antigo. De fato, se os planos fossem colocados em prática da forma correta, os conquistadores obteriam a vitória antes que alguém se desse conta.

 - É pelo bem da humanidade - disse Tlaloc com olhos cintilantes.

 - E pelo nosso - acrescentou Juno. - Um pouco, ao menos.

 Juno imaginou o plano inovador de utilizar a rede de máquinas pensantes e seus robôs servis. Concedeu inteligência artificial aos dóceis computadores para que fiscalizassem todos os aspectos da sociedade humana, mas Julianna os considerava uma invasão já em marcha, desde que fossem capazes programá-los para lhes insuflar ambição humana. Foi então quando somaram a suas forças um especialista em informática chamado Vilhelm Jayther (autodenominado Barba Azul nas redes informáticas), com o fim de que se ocupasse dos detalhes técnicos.

 Assim começou a Era dos Titãs, durante a qual um punhado de humanos entusiastas controlou o povo adormecido. Tinham trabalho que fazer, um império a governar.

 Durante as fases de planejamento, Julianna Parhi pediu opinião com freqüência a um reticente pensador, Eklo. Durante estas consultas com o ancião, uma das numerosas mentes espirituais que respondiam a perguntas esotéricas, tinha compreendido as possibilidades de viver como um cérebro imaterial. Não só visando a introspecção, mas sim a ação. Percebeu as vantagens que um tirano cimek teria sobre os humanos, capaz de mudar de corpo quando as circunstâncias o aconselhassem.. Como cimeks, os titãs viveriam e governariam durante milhares de anos.

 Talvez fosse suficiente.

 Agamenon tinha apoiado imediatamente a idéia de Juno, embora alimentasse um temor primitivo para a cirurgia. Juno e ele sabiam que, quando os titãs experimentassem os perigos do universo e a fragilidade de seus corpos humanos, todos acessariam.

 Para demonstrar a fé que depositava em sua amante, Agamenon foi o primeiro em submeter-se a transformação em cimek. Juno e ele passaram uma última tórrida noite juntos, com o fim de armazenar lembranças de sensações nervosas que deveriam perdurar durante milênios.

 Juno jogou para trás seu cabelo negro como asa dá corvo, deu-lhe um último beijo de despedida e o conduziu até a sala de cirurgia. Aparelhos médicos eletrônicos, cirurgiões robô e dúzias de sistemas de manutenção vital o esperavam.

 O pensador Eklo tinha dado os conselhos necessários, instruções precisas para os cirurgiões robô. Juno tinha acompanhado o processo de transformação de seu amante.

 Agamenon temia que ela se arrependesse e desistisse de seus planos, mas assim que o cérebro de Agamenon flutuou em um eletrolíquido dinâmico, assim que ativaram os mentrodos e pôde “ver” de novo através de uma galáxia de fibras ópticas, descobriu Juno em frente a ele admirando o contenedor cerebral.

 Ela tocou a caixa transparente com seus dedos. Agamenon via tudo, ao mesmo tempo em que enfocava e adaptava seus novos sensores, entusiasmado pela possibilidade de observar tudo ao mesmo tempo.

 Uma semana depois, quando estava acostumado a seus novos sistemas mecânicos, Agamenon devolveu-lhe o favor, e não perdeu Juno de vista enquanto os cirurgiões robô abriam o crânio e extraiam seu brilhante cérebro, desprezando para sempre o corpo frágil da Julianna Parhi...

 Séculos mais tarde, mas sem corpos biológicos, Juno e ele continuavam juntos sobre pedestais de cromo, conectados mediante receptores e ajuste estimuladores.

 Agamenon sabia muito bem que partes do cérebro de Juno devia pulsar para ativar os centros de prazer, e o tempo de estimulação necessário. Ela respondeu do mesmo modo, reproduziu as lembranças armazenadas que Agamenon guardava de quando faziam amor como humanos, e logo amplificou as sensações recuperadas, até lhe assombrar com novos topos de euforia. O titã replicou com una descarrega inesperada, e o cérebro de Juno se estremeceu.

 Durante todo o tempo, os olhos espiões de Omnius observaram o intercâmbio, como um olheiro mecânico. Inclusive em momentos como este, Agamenon e Juno nunca estavam sozinhos.

 Ela o agradou duas vezes mais. Agamenon queria que parasse para poder descansar, mas também desejava que continuasse. Agamenon correspondeu, até o extremo de arrancar uma leve vibração dos alto-falantes presos aos contêineres, uma estranha música que simbolizava seu orgasmo conjunto. O prazer apenas lhe permitia pensar.

 

 Mas sua ira continuava alimentando-se. Embora Omnius permitisse que Juno e ele alcançassem o êxtase tantas vezes como desejassem, Agamenon obteria um prazer muito maior se pudessem escapar por fim do domínio das malditas máquinas pensantes.

 

Temo que Norma nunca chegará a nada. O que revela isso de mim e de meu legado à humanidade?

 

 ZUFA CENVA

 

 Durante a aborrecida viagem de um mês pelo espaço para visitar sua filha em Poritrin, Zufa Cenva teve muito tempo para refletir sobre o que diria quando chegasse. Teria preferido passar esses dias e semanas ocupada em seu importante trabalho. A perda da querida Heoma pesava como uma pedra incandescente sobre seu peito. Do primeiro ataque contra os cimeks de Giedi Prime, Zufa tinha planejado mais incursões com suas feiticeiras.

 Embora quase todos os membros da liga atribuíssem todo o mérito dos projetores de decodificação portáteis ao sábio Holtzman, tinha ouvido rumores de que Norma havia inspirado o desenho. Era possível que sua excêntrica filha tivesse feito algo tão notável? Não tão notável como uma tormenta psíquica que aniquilasse os cimeks, mas mesmo assim respeitável.

 Talvez eu tenha estado cega durante todo este tempo. Zufa nunca tinha desejado que Norma fracassasse, mas já tinha renunciado a toda esperança. Talvez sua relação mudaria. Devo abraçá-la? Merece meu apoio e fôlego, ou obterá que me dela envergonhe?

 Corriam tempos inseguros.

 Quando Zufa desceu do transporte em Starda, uma delegação a estava esperando, escoltada por um guarda de dragões. Lorde Niko Bludd se achava à frente do grupo, com a barba frisada, roupa perfumada e vistosa.

 - É uma honra para Poritrin receber a visita de uma feiticeira.

 O nobre avançou sobre o solo coberto por um mosaico. Budd vestia um colorido traje cerimonial com lapelas largas cor carmim, punhos brancos de encaixe e sapatos dourados. Uma espada cerimonial pendurava de sua cintura, embora não parecia que tivesse utilizado jamais um arma branca para algo pouco mais perigoso que cortar queijo.

 Norma nunca tinha prestado atenção às ninharias quando havia trabalho de por meio, e a aparição de Bludd a surpreendeu. Tinha esperado concluir seu assunto com Norma de maneira discreta, para depois retornar quanto antes a Rossak. Ela e suas armas psíquicas tinham que preparar outro golpe mental contra os cimeks.

 - O capitão da nave nos avisou de sua chegada, madame Cenva - disse Bludd, enquanto a guiava para a saída do terminal. - Apenas tivemos tempo de lhes preparar uma recepção. Imagino que veio para ver sua filha. Lorde - Bludd sorriu. - Estamos muito orgulhosos de sua contribuição aos trabalhos do sábio Holtzman. Ele a considera indispensável.

 - É mesmo?

 - Zufa tentou controlar um franzimento de sobrancelhas céptico.

 - Convidamos Norma a que se reunisse conosco, mas está imersa em um trabalho muito importante para o sábio. Pelo visto, pensava que compreenderia seus motivos.

 Foi como se houvessem acertado uma bofetada na feiticeera.

 - A viagem durou um mês. Se eu posso encontrar esse tempo, uma simples... ajudante de laboratório deveria ser capaz de vir me receber.

 Uma vez fora do espaçoporto, um chofer a conduziu até um elegante iate aéreo, e os dragões tomaram posições nas laterais.

 - Nós a transladaremos sem mais demora aos laboratórios de Holtzman.

 Quando Bludd se sentou a seu lado, a mulher enrugou o nariz ao receber seus intensos aromas corporais. O homem lhe ofereceu um pequeno pacote, mas Zufa não o aceitou.

 Com um suspiro de exasperação, Zufa se sentou muito rígida no assento quando a nave se afastou do espaçoporto. Tirou o papel prateado que envolvia o pacote e encontrou uma garrafa de água de rio, assim como uma toalha de deliciosa confecção.

 Apesar da sua falta de interesse, o fátuo nobre insistiu em dar explicações.

 - É uma tradição que nossos convidados de honra lavem as mãos com a água do rio Isana e se sequem com nosso melhor tecido.

 Zufa não fez o menor movimento por utilizar os presentes. Sob o iate, os navios fluviais sulcavam o rio em direção a enorme cidade do delta, onde se distribuíam grãos, metais e produtos manufaturados aos fornecedores de Poritrin. Centenas de escravos trabalhavam nos pântanos para plantar alevinos de marisco.

 - A residência do sábio Holtzman está ali adiante. - Bludd assinalou um penhasco elevado. - Estou seguro que sua filha se alegrará muito em vê-la.

 Alguma terá se alegrado em ver-me? - Perguntou-se Zufa. Tentou acalmar-se com exercícios mentais, porém a angustia o impedia.

 Desceu do ostentoso iate assim que pousou sobre a mole de aterrissagem de Holtzman.

 - Lorde Bludd, tenho que falar de assuntos pessoais com minha filha. Estou seguro de que compreenderão.

 Sem mais despedidas, Zufa subiu a escada do pátio que conduzia à mansão, deixando plantado um perplexo Bludd. Agitou seus largos braços para indicar que se afastasse.

 Zufa entrou na mansão como se ela lhe pertencesse, com seus sentidos telepáticos afinados. O vestíbulo de Holtzman estava lotado de caixas, livros e instrumentos. Ou os criados não faziam seu trabalho, ou o inventor os tinha proibido que “organizassem” demais.

 Zufa abriu caminho entre os obstáculos, entrou em um comprido corredor, investigou em habitações, pediu informação às pessoas com as quais se cruzou e localizou por fim sua filha. A feiticeira entrou em um laboratório auxiliar, onde viu um tamborete alto ante uma mesa cheia de cianotipos. Nem sinal de Norma.

 Reparou em uma porta aberta que conduzia a um balcão, viu uma sombra e ouviu algo que se movia. Zufa entrou no balcão e ficou estupefata quando viu sua filha subindo no corrimão. Norma segurava um contêiner de plaz vermelho em suas pequenas mãos.

 - O que está fazendo? - perguntou Zufa. - Desça daí!

 Norma, sobressaltada, olhou para sua mãe, agarrou o objeto com força e saltou ao vazio.

 - Não! - gritou Zufa. Mas já era muito tarde.

 Correu para a borda e viu com horror que o balcão dominava um precipício que caia até o rio. A jovem se precipitava irreparavelmente para sua morte.

 De repente, Norma parou no ar e girou de uma forma peculiar.

 - Funciona, veja! - gritou. – Você chegou a tempo. - Como uma pluma no vento, a moça se elevou. O aparelho vermelho a devolveu ao balcão como uma mão invisível.

 Norma chegou à altura do corrimão, e sua irritada mãe puxou-a para dentro.

 - Por que faz experimentos tão perigosos? O sábio Holtzman não prefere que utilize ajudantes para este tipo de testes?

 Norma franziu o cenho.

 - Aqui há escravos, não ajudantes. Além disso, é meu invento, e queria prová-lo eu mesma. Sabia que funcionaria.

 Zufa não quis discutir.

 - Você veio até Poritrin e utilizou os melhores laboratórios da liga para desenhar uma espécie de... jogo voador?

 - Não acredito, mãe. - Norma abriu a tampa do engenho e ajustou os comandos eletrônicos do interior. - É uma variação da teoria do sábio Holtzman, um campo suspensor, ou repelente. Espero que goste.

 - É claro que sim, é claro que sim! - O cientista apareceu como por arte de magia e se imobilizou atrás de Zufa. Apresentou-se imediatamente, e depois contemplou o novo invento de Norma. – Vou mostrá-lo a lorde Bludd, e ver o que pensa de suas possibilidades comerciais. Estou certo de que o patenteará em seu nome.

 Zufa, que ainda não se recuperara da “queda” de sua filha, continuava examinando o objeto, enquanto tentava imaginar quais seriam suas aplicações práticas.

 - Poderia ser modificado para carregar tropas ou objetos pesados?

 Norma deixou o gerador sobre una mesa e cruzou a habitação com passo capengante. Subiu em seu tamborete para ficar à altura dos cianotipos e começou a passar páginas.

 - Também pensei na maneira de aplicar este principio em aparelhos de iluminação. O campo suspensor pode fazer flutuar luzes e carregá-las de energia residual. Tenho todos os cálculos... em algum lugar.

 - Luzes flutuantes? - disse Zufa em tom desdenhoso. - Para que, um lanche campestre? Dezenas de milhares de pessoas morreram no ataque cimek contra Zimia, milhões foram escravizadas em Giedi Prime, e você vive isolada com todas as comodidades... fabricando luzes flutuantes?

 Norma dirigiu a sua mãe um olhar condescendente, como se Zufa fosse estúpida.

 - Tente ir além do evidente, mãe. Uma guerra precisa de algo mais que armas. Os robôs são capazes de alterar seus sensores ópticos para ver na escuridão, mas os humanos precisam ter luz para ver. Centenas de luzes suspensoras como esta poderiam dispersar-se de noite em uma zona de combate, o que neutralizaria toda vantagem das máquinas pensantes. O sábio Holtzman e eu pensamos em possibilidades similares a cada dia.

 O cientista assentiu, ansioso por dar-lhe razão.

 - Para usos comerciais, poderiam desenhar-se em diversos estilos, inclusive sintonizadas com qualquer cor ou tom.

 Norma estava sentada em seu tamborete como um gnomo em um trono. Seus olhos pardos brilharam de entusiasmo.

 - Estou segura de que lorde Bludd se sentirá muito satisfeito.

 

 Zufa franziu o cenho. Havia cosas mais importantes nesta guerra que satisfazer um nobre presunçoso.

 - Vim de muito longe para vê-la - disse impaciente.

 Norma arqueou as sobrancelhas com ceticismo.

 - Se tivesse se incomodado em se despedir antes de minha partida de Rossak, mãe, não teria necessitado fazer uma viagem tão longa para acalmar sua culpa. Mas estava muito ocupada para perceber.

 Tio Holtzman, embaraçado pela situação, desculpou-se. As duas mulheres apenas repararam em seu desaparecimento.

 Não tinha sido a intenção da Zufa iniciar uma discussão, mas agora ficou na defensiva.

 - Minhas feiticeiras demonstraram suas habilidades no combate. Podemos exercer um tremendo poder com nossas mentes para erradicar os cimeks. Certo número de candidatas estão se preparando para oferecer o sacrifício definitivo se nos chamarem para liberar outro planeta dominado pelas máquinas. - Seus olhos claros cintilaram, e logo meneou a cabeça. - Mas não se preocupe por isso, Norma, porque você não tem capacidades telepáticas.

 - Possuo outros talentos, mãe. Eu também estou fazendo uma valiosa contribuição.

 - Sim, suas equações incompreensíveis. - Zufa moveu a cabeça em direção ao gerador de campo suspensor que descansava sobre o chão. - Sua vida não está em jogo. Segura e mimada, passa os dias jogando com estes brinquedos. Deixou-se cegar por êxitos imaginários. - Mas sua filha não era a única. Muita gente vivia rodeada de comodidade e segurança, enquanto Zufa e suas feiticeiras levavam a cabo tarefas perigosas. Como podia Norma comparar seu trabalho com isso? - Quando soube que eu vinha, Norma, não pôde encontrar tempo para me receber no espaçoporto?

 Norma falou em um tom falsamente dócil, com os braços cruzados sobre seu pequeno peito.

 - Eu não te pedi que viesse, mãe, porque sei que tem coisas mais importantes que fazer. E eu tenho tarefas mais urgentes que receber convidados inesperados. Além disso, sabia que lord Bludd iria recebê-la.

 - Os nobres da liga são seus novos meninos dos recados? - Agora que tinha aberto as comportas de sua ira, Zufa não pôde reprimir as palavras seguintes. - Só queria me sentir orgulhosa de ti, Norma, apesar das suas deformidades. Mas nunca chegará a nada. Que sacrifícios faz vivendo aqui rodeada de luxo? Sua visão é muito pequena para que seja útil à humanidade.

 Antes, Norma teria desmoronado ante tal ataque, mas o fato de estar trabalhando com Holtzman, e seu evidente êxito nos aspectos técnicos, tinha-lhe proporcionado uma nova perspectiva de si mesma. Olhou com frieza a sua mãe.

 - Só porque não coincido com a imagem do que você queria que eu fosse, não significa que minha contribuição deixe de ser essencial. O sábio Holtzman percebe, e Aurelius também. Você é minha mãe. Por que não vê isso?

 Zufa soprou ao ouvir o nome de Venport e começou a passear de um lado a outro.

 - Aurelius não é mais que um homem sofrendo de alucinações provocadas pelas drogas que ingere.

 - Eu havia me esquecido de quanto intolerante você pode ser, mãe - disse Norma com serenidade. - Obrigado por vir me refrescar a memória. - A moça se virou em seu tamborete e continuou com suas planos e equações. - Estou tentada a chamar algum escravo para que a acompanhe até a saída, mas não quero interromper seu trabalho, que é mais importante.

 

 Furiosa consigo mesma e com sua filha (e pelo tempo desperdiçado), Zufa retornou ao espaçoporto. Não ficaria nem um momento mais em Poritrin. Para afastar suas preocupações da mente, concentrou-se em exercícios mentais, e pensou em suas amadas alunas da selva que estavam dispostas a sacrificar tudo, sem pensar em considerações pessoais.

 Zufa esperou todo um dia o transporte militar que a devolveria a Rossak. Quando se rodeou ondas de seus poderes de clarividência, descobriu uma debilidade corrupta em Poritrin, que não estava relacionada com Norma. Era tão evidente que não podia ignorá-la.

 Em Starda, nas zonas de carga próximas ao espaçoporto, nos armazéns e restingas, Zufa detectou a aura individual e coletiva dos explorados trabalhadores. Uma ferida psicológica coletiva, um profundo descontentamento que pareciam alheios aos cidadãos livres de Poritrin.

 Esta carga de ressentimento lhe deu mais uma razão para desejar se afastar daquele lugar.

 

A intuição é uma função mediante a qual os humanos vêem o que espreita ao dobrar uma esquina. É útil para pessoas que vivem expostas a condições naturais e perigosas.

 

 ERASMO,

 Diálogos de Erasmo

 

 Educada como filha do vice-rei da liga, Serena Butler estava acostumada a trabalhar com todas as suas forças a serviço da humanidade, com a esperança de caminhar para um futuro brilhante, apesar da cortina de fundo de guerra constante. Nunca tinha imaginado que trabalharia como escrava no lar de um inimigo robô.

 Desde que viu Erasmo na praça de entrada da vila pela primeira vez, Serena experimentou uma profunda aversão por ele. Por sua vez, a máquina pensante estava intrigada por ela. Serena suspeitava que dito interesse seria perigoso. O robô se decantava por vestir objetos de qualidade, mantos folgados e esponjosos, peles adornadas que dotavam seu corpo robótico de um aspecto absurdo. O seu rosto refletivo parecia alienígena, e seu comportamento arrepiava os pêlos da jovem. Sua insaciável curiosidade pela humanidade se demonstrava muito perversa e anormal. Quando cruzou o lugar em direção a Serena, sua máscara metálica se transformou em um sorriso satisfeito.

 - Você é Serena Butler - disse. - Informaram-lhe que os humanos selvagens reconquistaram Giedi Prime? Que decepção. Por que os humanos estão dispostos a sacrificar tantas coisas para manter seu caos ineficaz?

 O coração de Serena se encheu de júbilo ao saber da notícia da liberação, em parte graças a seu esforço. Afinal, Xavier tinha ido com a Armada, e os engenheiros de Brigit Paterson tinham conseguido ativar os transmissores secundários. Mesmo assim Serena continuava sendo uma serva, e estava grávida do filho de Xavier. Ninguém sabia onde estava ou o que tinha sido feito dela. Xavier e seu pai deviam estar loucos de dor, convencidos de que as máquinas a haviam matado.

 - Talvez não seja surpreendente que não compreenda os valores ou conceito humano de liberdade - respondeu a jovem. – Apesar de seus complicados circuitos gelificados, é apenas uma máquina. Não foi programado para compreender.

 Sentiu que as lágrimas se amontoavam em seus olhos quando pensou no muito que desejava ajudar ao próximo. Em Salusa, nunca tinha dependido da fortuna familiar, porque queria pagar as bênçãos que lhe tinham concedido.

 - Por tanto, é inquisitivo ou inquisidor? - perguntou.

 - Talvez ambas as coisas. - Inclinou-se para examiná-la, e levantou orgulhoso queixo. - Espero que me ofereça muitos dados. - Tocou sua bochecha com um dedo frio e flexível. - Uma pele adorável.

 Serena se obrigou a não retroceder. A resistência tem que servir para algo mais que para demonstrar o orgulho de um cativo, havia dito sua mãe em uma ocasião. Se Serena resistisse, não custaria nada a Erasmo sujeitá-la com sua mão poderosa; ou forçar a colaboração com aparelhos de tortura mecânicos.

 - Minha pele não é mais adorável que a sua - disse, - salvo que minha não é sintética. Minha pele foi desenhada pela natureza, não pela mente de una máquina.

 O robô lançou uma risada de timbre metálico.

 - Espero aprender muito com você.

 Guiou-a até suas exuberantes estufas, que a jovem observou com reticente prazer.

 Era fascinada pela jardinagem desde a idade de dez anos, e tinha entregue plantas, ervas e frutos exóticos a centros médicos, campos de refugiados e asilos de veteranos, onde também prestava seus serviços. Serena tinha fama em Zimia de cultivar as flores mais formosas. Graças a seus tenros cuidados, floresciam deliciosas rosas immianas, assim como hibiscos de Poritrin e até as delicadas violetas matutinas do longínquo Kaitain.

 - Vou atribuir-lhe o cuidado de meus valiosos jardins - disse Erasmo.

 - Por que as máquinas não podem se encarregar dessas tarefas? Estou certa de que seriam muito mais eficientes... ou sente prazer obrigando seus “criadores” a se encarregarem do trabalho?

 - Você não se considera capacitada para a tarefa?

 - Farei o que me ordenar... pelo bem das plantas. – Tocou a flor vermelha e alaranjada de forma estranha, sem fazer caso do robô. - Parece um ave do paraíso, uma variedade pura procedente de uma antiga estirpe. Segundo a lenda, estas plantas eram as favoritas dos reis marinhos da Velha Terra. - Serena voltou-se para o robô com olhar desafiante. - Acabo de lhe ensinar algo, percebeu?

 Erasmo riu de novo, como se reproduzisse uma gravação.

 - Excelente. Bem, agora me diga no que está pensando realmente.

 Serena recordou as palavras de seu pai; O medo convida à agressão. Não o revele ante um predador, e se sentiu encorajada.

 - Enquanto falava de uma formosa flor, estava pensando que desprezo você e a toda a sua espécie. Eu era um ser livre e independente, até que vocês me tiraram isso tudo. As máquinas me despojaram de meu lar, minha vida e do homem que amo.

 O robô não se sentiu ofendido.

 - Ah, seu amante! É o pai da criatura?

 Serena olhou para Erasmo, e logo tomou uma decisão. Talvez pudesse aproveitar a curiosidade deste robô para voltá-la contra ele.

 - Quanto mais colaborar, mais aprenderá de mim. Posso ensinar coisas que nunca aprenderia por si mesmo.

 - Excelente.

 O robô parecia muito satisfeito.

 A expressão de Serena se endureceu.

 - Mas espero algo em troca. Garanta-me a segurança de meu filho. Permita-me que crie o menino em sua casa.

 Erasmo sabia que era um imperativo da espécie humana preocupar-se com sua prole, o que lhe proporcionava certa vantagem.

 - É arrogante, ou ambiciosa. De qualquer forma, considerarei sua petição, em função da satisfação que derive de nossas discussões e debates.

 Erasmo divisou um grosso escaravelho na base de um suporte de vasos terracota e o empurrou com o pé. O inseto tinha desenhos vermelhos na carapaça. A máscara facial de Erasmo passou por várias fases, até adotar uma expressão divertida. Deixou que o escaravelho escapasse, mas antes que conseguisse moveu o pé para impedi-lo. O animal, insistente, virou para outra direção.

 - Você e eu temos muito em comum, Serena Butler - disse.

 Ativou com um comando a distância um cubo musical de Chusuk conseguido de contrabando, com a esperança de que a melodia revelasse os sentimentos internos da jovem.

 - Cada um possui uma mente independente. Respeito essa característica em você porque é uma parte integral da minha personalidade.

 A comparação ofendeu Serena, mas mordeu a língua.

 Erasmo recolheu o escaravelho com uma mão, mas seu principal interesse continuava concentrado em Serena. Estava intrigado pela persistência dos humanos em ocultar o que sentiam. Talvez, se aplicasse diversas pressões, conseguiria chegar ao núcleo.

 Erasmo continuou, com o fundo musical.

 - Alguns robôs conservam sua personalidade, em lugar de carregar uma parte da supermente. Eu comecei a ser uma máquina pensante em Corrin, mas decidi não aceitar as atualizações regulares de Omnius que me sincronizariam com a supermente. - Serena viu que o escaravelho estava imóvel em sua palma metálica. perguntou-se se o havia matado. - Mas um evento singular me mudou para sempre - disse Erasmo com voz plácida, como se descrevesse um passeio pelo bosque. - Fui explorar os territórios desabitados de Corrin. Como era curioso e não queria aceitar as análise correntes compiladas por Omnius, aventurei-me sozinho na região. Era acidentada, rochosa e selvagem. Eu nunca tinha visto vegetação, salvo nas zonas onde os terraformadores do Império Antigo tinham plantado novos ecossistemas. Corrin não era um planeta vivo, exceto onde os humanos o haviam colonizado. Por desgraça, cuidar de campos férteis e embelezar a paisagem não era uma prioridade de minha espécie.

 Olhou para Serena para saber se estava gostando de seu relato.

 - Inesperadamente, longe da cidade e os sistemas de auxílio robóticos, estalou uma tormenta solar. O gigante vermelho do Corrin é muito instável, com atividade freqüente e repentinos furacões radiativos. Tais fenômenos são perigosos para as formas de vida biológicas, mas os colonizadores humanos originais eram resistentes. Não obstante, meus delicados circuitos neuroelétricos eram mais que sensíveis. Deveria ter enviado analisadores de reconhecimento para vigiar a formação de tais tormentas, mas estava muito abismado em minhas investigações. O fluxo radiativo me afetou, e me encontrei desorientado e confuso, longe do complexo central controlado pelo Omnius de Corrin. - Parecia que Erasmo estava envergonhado. - Afastei-me dando tombos... e caí em una rachadura estreita.

 Serena olhou surpresa para ele.

 - Apesar de não cair até o fundo, meu corpo sofreu danos. - Elevou um braço, olhou seu membro flexível, a pele de polímero orgânico, a capa de metal líquido. - Estava apanhado, fora do campo de transmissão, basicamente imobilizado. Não pude me mover durante um ano inteiro do Corrin... vinte anos padrão terrestres.

 “As sombras profundas da rachadura me protegiam das radiações, e meus processos mentais não demoraram a se recuperarem. Estava acordado, mas não podia ir a lugar nenhum. Não podia me mover... só pensar, durante muito, muito tempo. Passei um verão que me pareceu eterno, apanhado entre as rochas, e logo suportei o correspondente inverno, entre capas de gelo compacto. Durante todo esse tempo, duas décadas, não tive outra coisa que fazer senão meditar.

 - Sozinho podia falar consigo mesmo - disse Serena. - Pobre e solitário robô.

 - Tal odisséia alterou minha natureza fundamental de formas que jamais teria imaginado - disse Erasmo, sem fazer caso do comentário. - De fato, Omnius ainda não me compreende.

 Quando por fim outros robôs o descobriram e resgataram, Erasmo já tinha desenvolvido uma personalidade individual. Depois de reintegrar-se na sociedade das máquinas, Omnius tinha perguntado a Erasmo se desejava uma atualização que comportasse traços de caráter normais.

 - Uma atualização, - disse comentou Erasmo com ironia. - Rechacei a oferta. Depois de alcançar esse... esclarecimento, negava-me a apagar meus impulsos e idéias, meus pensamentos e lembranças. Seria uma perda muito grande. O Omnius de Corrin não demorou para descobrir que desfrutava com nossas discussões.

 Erasmo olhou para o escaravelho imóvel.

 - Sou uma celebridade entre as supermentes - disse. – Elas anseiam por receber atualizações que contenham meus atos e declarações, como uma publicação periódica. São conhecidas como os “Diálogos de Erasmo”.

 Serena moveu a cabeça em direção ao inseto.

 - Incluirá uma discussão a respeito desse escaravelho? Como pode compreender algo que acabou de matar?

 - Ele não está morto – tranqüilizou-a. - Detecto um tênue mas inconfundível batimento do coração. O animal quer me fazer acreditar que está morto, para que o liberte. Apesar de seu pequeno tamanho, possui uma poderosa vontade de sobreviver.

 Ajoelhou-se e deixou o escaravelho sobre um ladrilho com surpreendente suavidade, e logo retrocedeu. Momentos depois, o inseto correu refugiar-se sob o suporte de vasos.

 - Está vendo? Desejo entender todos os seres vivos... inclusive você.

 Serena enrijeceu. O robô tinha conseguido surpreende-la.

 - Omnius pensa que nunca alcançarei seu nível intelectual - disse Erasmo, - mas continua intrigado com minha agilidade mental, pela forma que minha mente evolui sem cessar para novas e impulsivas direções. Assim como esse escaravelho, sou capaz de recobrar a vida e perseverar.

 - Espera se transformar em algo mais que uma máquina?

 - Superar a si mesmo é um traço humano, não? - respondeu Erasmo sem ofender-se. - É só o que desejo fazer.

 

 Uma direção é tão boa como outra.

 

 Dito da Terra Aberta

 

À décima vez que montou em um verme de areia, Selim era perito o bastante para saborear a experiência. Nenhuma outra emoção podia comparar-se ao poder de um gigante do deserto. Gostava de correr entre as dunas no lombo de um verme, cruzar um oceano de areia em um só dia.

 Selim tinha extraído água, roupa, equipamentos e comida da estação tática abandonada. Sua presa de cristal era uma ferramenta valiosa, assim como um símbolo de orgulho pessoal. Às vezes, dentro da estação vazia, tinha contemplado a suave curva leitosa da folha sob a débil luz dos painéis de recarga, e imaginado que o objeto possuía um significado religioso.

 Era uma relíquia da prova suprema que tinha superado no deserto, e um símbolo de que Budalá velava por ele. Talvez os vermes estivessem relacionados com seu destino.

 Chegou a acreditar que os vermes não eram Shaitan, e sim bênçãos de Budalá, talvez inclusive manifestações tangíveis de Deus.

 Depois de meses de recuperar-se e aborrecer-se na antiga instalação, vivendo sem um objetivo definido, Selim soube que devia sair e montar um verme outra vez. Precisava averiguar com exatidão o que Budalá esperava dele.

 Tinha feito com supremo cuidado a localização da estação. Por desgraça, como não podia guiar os vermes, sabia que seria um grande desafio retornar a seu refúgio secreto. Depois ao sair, tinha carregado todo o necessário a suas costas.

 Era Selim Cavaleiro de Vermes, eleito e guiado por Budalá. Necessitava ajuda dos demais.

 

 Depois de matar mais dois vermes, por montá-los até que desabaram de cansaço, Selim descobriu que não era necessário matar um verme para poder fugir sem perigo. Havia a possibilidade de desmontar de uma besta cansada saltando da cauda, para logo depois correr para as rochas. O verme, muito cansado para lhe caçar afundava na areia, amuado.

 O que satisfazia Selim, porque não lhe parecia justo destruir os animais que facilitavam seu transporte. Se os vermes eram emissários de Budalá, e anciões do deserto, devia tratá-los com respeito.

 Em sua quarta viagem, descobriu a maneira de manipular as bordas sensíveis dos anéis do dragão, utilizando uma espécie pá e a afiada lança metálica para açular o Shaitan na direção que Selim desejava. Era uma idéia simples, mas exigia muito trabalho. Seus músculos doíam quando saltou de um verme esgotado e correu para o refúgio das rochas próximas. Seguia perdido nas profundidades do deserto, mas em um sentido muito real, o deserto lhe pertencia agora. Era invencível! Budalá velava por ele.

 Selim ainda guardava uma provisão razoável de água procedente das unidades de destilação da estação, e sua dieta consistia em grandes quantidades de melange, que lhe proporcionava força e energia. Assim que aprendesse a dominar os vermes, poderia viajar para onde quisesse e voltar para a estação abandonada.

 Outros zensunni o teriam chamado de louco, assombrados por seu audaz intento de domar aos terríficos vermes, mas ao jovem exilado não importava o que seu povo pensaria dele. Estava em contato com outro reino. Acreditava no fundo de seu coração que tinha nascido para isto.

 Sob a luz das duas luas, Selim guiou suas arreios entre as dunas. Horas antes, o animal tinha cessado de tentar desmontar seu cavaleiro, e seguiu adiante, resignado às ordens do demônio que não parava de lhe machucar a pele sensível que tinha entre os anéis. Selim se guiava pelas estrelas, desenhava linhas como flechas entre as constelações. A implacável paisagem começava a lhe parecer familiar, e pensou que já estava perto da estação botânica, seu refúgio. Seu lar.

 Naquela solidão, rodeada pelo aroma amargo impregnado de enxofre e a canela, se permitiu pensar e sonhar. Pouco mais podia fazer desde seu exílio. Não tinham começado assim os grandes filósofos?

 Algum dia, possivelmente utilizaria a estação abandonada como semente de sua própria colônia. Talvez poderia reunir gente insatisfeita de outros povos zensunni, exilados como ele e desejosos de viver sem normas opressivas, que rigorosos naibs obrigavam a cumprir. Graças ao controle dos vermes, a gente de Selim contaria com uma força que nenhum foragido havia possuído jamais.

 Era isso o que Budalá queria que fizesse?

 O jovem sorriu, mas logo se entristeceu quando lembrou de Ebrahim, que com tanta facilidade havia se voltado contra ele. Para piorar, tinha lançado pedras e insultos em Selim, imitando aos outros.

 Por fim, o cavaleiro divisou a formação rochosa familiar. Seu coração deu um salto de alegria. O colosso lhe tinha transportado com mais celeridade da que tinha suposto. Sorriu, e logo percebeu que seria outro desafio desmontar deste demônio, que ainda não estava exausto. Outra prova?

 Selim desviou o verme para as rochas, com a ajuda da pá e da lança, com a idéia de parar o animal próximo dos afloramentos, embora logo poderia voltar para seu refúgio de areia. O monstro sem olhos intuiu as rochas, reconheceu uma diferença de viscosidade e vibrações na areia, e girou em direção contrária. Selim o atormentou com a lança e a pá. O confuso verme se retorceu e diminuiu a velocidade. Quando passou perto da primeira linha rochosa, Selim saltou junto com seu equipamento. Quando tocou o chão, pôs-se a correr a toda a velocidade de suas pernas.

 O recife de rocha se encontrava a menos de cem metros de distância, e o animal se revolveu de um lado a outro, como se não acreditasse na sua repentina liberação. Por fim, percebeu o ritmo dos passos de Selim. O monstro se precipitou para ele. Selim correu mais depressa, e se desviou em direção aos penhascos. Saltou sobre uma capa de lava rochosa e continuou correndo. O verme surgiu da areia, com as cavernosas fauces abertas. Vacilou como se temesse aproximar-se mais da barreira rochosa, e logo deixou-se cair sobre o solo.

 Selim já tinha saltado a segunda fileira de penhascos e encontrado refúgio em um pequeno vazio. O verme golpeava o penhasco como um martelo gigante, mas não sabia onde se tinha oculto o pequeno humano.

 O verme, enfurecido, virou-se para trás, e um potente fedor de melange brotou de sua boca. Descarregou sua enorme cabeça contra as rochas uma vez mais, e depois retrocedeu. Frustrado e vencido, afastou-se por fim, até afundar-se sob uma duna. Encaminhou-se para as profundidades do deserto, lento e indignado.

 Selim saiu de seu refúgio com o coração acelerado. Passeou a vista ao seu redor, assombrado de estar vivo. Riu e deu graças a Budalá com toda a força de seus pulmões. A antiga estação botânica se elevava sobre ele, esperando-o. Passaria vários dias em seu lar repondo suas provisões e bebendo muita água.

 Quando começou a subir com braços e pernas fatigados, Selim viu algo que brilhava à luz da lua, perdido nas rochas rotas que o furioso verme tinha triturado. Outro dente de cristal, e mais largo. Quebrado durante o ataque da besta, e escorregado até o fundo de uma fenda. Selim se apoderou da arma leitosa. Uma recompensa de Budalá! Elevou-a com ar triunfal antes de retornar para a estação abandonada.

 Agora, tinha dois.

 

O tempo depende da posição do observador e da direção em que olhe.

 

 PENSADORA KWYNA,

 arquivos da Cidade da Introspecção

 

 Ainda furiosa, Zufa Cenva retornou a Rossak, onde tinha a intenção de concentrar-se na guerra. Depois de descer na pista de aterrissagem construída sobre as folhas púrpura e prata, se dirigiu de imediato à ampla habitação que compartilhava com Aurelius Venport.

 Zufa tinha ganho a suntuosa residência graças a sua habilidade política e seus poderes telepáticos. Não podia evitar franzir o cenho cada vez que via as ambições comerciais de Venport, seus abundantes benefícios e suas metas hedonistas. Prioridades estúpidas. Tudo isso não significava nada se as máquinas pensantes ganhassem a guerra. Por acaso não compreendia que estava cego para essa terrível ameaça?

 Esgotada da longa viagem, e ainda desgostosa pela discussão sustentada com sua filha, Zufa entrou em seus aposentos de paredes brancas, com o único desejo de descansar antes de planejar a rodada seguinte de ataques contra as máquinas pensantes.

 Encontrou Venport sozinho, mas não a estava esperando. Achava-se sentado a uma mesa de nervuras verdes esculpida dos escarpados. Seu rosto, coberto de suor, continuava sendo formoso, com as feições nobres que ela havia elegido, um bom complemento de sua linhagem.

 Venport nem sequer reparou nela. Seu olhar estava distante, sumida nas seqüelas de alguma nova droga que estaria experimentando.

 Havia em frente a ele sobre a mesa uma caixa de malha metálica que continha vespas escarlate, de aguilhão comprido e asas ônix. Tinha o braço nu metido na caixa, com a malha metálica fechada ao redor de seu cotovelo. Irritadas as vespas lhe tinham picado em repetidas ocasiões, e injetado veneno em sua corrente sanguínea.

 Mais furiosa que horrorizada, Zufa olhou estupefata.

 - É a isto que se dedica enquanto eu tento salvar à raça humana? - Apoiou as mãos sobre o cinturão que rodeava sua túnica escura, enquanto sua boca formava uma linha reta e magra. - Uma feiticeira morreu em combate, alguém a quem eu treinei, alguém a quem queria. Heoma deu sua vida por nossa liberdade, e aqui está você, entregue a orgias alucinógenas.

 O homem não se moveu. Sua expressão vaga não se alterou.

 As agressivas vespas se lançavam contra a malha metálica, enquanto emitiam uma espécie de zumbido musical. Os insetos aguilhoaram sua carne uma e outra vez. Zufa se perguntou que substância psicotrópica proporcionava o veneno, e como Venport a havia descoberto.

 - Você me dá asco - disse por fim, incapaz de encontrar palavras que expressassem sua fúria.

 Uma vez, depois de fazer amor, Aurelius tinha afirmado que experimentava as droga procurando algo mais que divertir-se ou conseguir lucros comerciais. Enquanto velas perfumadas ardiam em um vazio rochoso situado sobre seu leito, Venport lhe tinha dito:

 - Em algum lugar da selva, espero encontrar uma substância farmacêutica capaz de despertar o potencial telepático masculino.

 De tal forma, confiava que os homens estivessem tão aptos quanto as feiticeiras. Zufa tinha rido de suas ridículas fantasias. Ferido, Aurelius nunca mais tinha voltado a falar do tema.

 Muito tempo antes, os primeiros colonos de Rossak tinham ficado poluídos por produtos químicos da selva, os quais tinham aumentado sua potência mental. De que forma, se não, teriam obtido as mulheres tais poderes extra-sensoriais neste planeta, e não em outro? Entretanto, fosse por diferenças hormonais ou cromossômicas, os homens pareciam imunes a tais efeitos do ambiente.

 Zufa ordenou aos gritos que retirasse a mão da jaula, porém Venport não pronunciou nenhuma palavra.

 - Você joga com drogas, e minha filha leva a cabo experimentos absurdos com campos suspensores e abajures flutuantes. São minhas feiticeiras as únicas pessoas de Rossak com senso de responsabilidade?

 Embora os olhos do Aurelius se voltassem para ela, não pareceu vê-la.

 - Grande patriota parece - disse por fim Zufa, enojada. - Espero que a história o recorde por isso.

 Partiu em busca de um lugar onde pudesse pensar em formas de continuar lutando contra as máquinas pensantes, Enquanto outros se divertiam alheios a ameaça.

 

 Quando sua parceira saiu, os olhos frágeis de Venport começaram a brilhar como brasas. Se concentrou na porta aberta de seus aposentos, e o silêncio pareceu crescer, como se estivesse absorvendo som e energia do ar. Sua mandíbula se tencionou, e se concentrou mais... e mais.

 A porta se fechou pouco a pouco sozinha.

 Satisfeito, porém esgotado, Venport tirou o braço da jaula e caiu ao chão.

 

As hipótese formam um ralo transparente através do qual vemos o universo, e às vezes nos enganamos com a falácia de que o ralo é esse universo.

 

 PENSADOR EKLO,

 da Terra

 

Como recompensa por terminar a estátua de Ajax em um prazo impossível, concederam a Iblis Ginjo quatro dias de férias. Até os capatazes dos trabalhadores neocimek se alegraram de que o chefe das equipes humanas os tivesse salvado da ira de Ajax. Antes de partir, Iblis se assegurou de que seus escravos recebessem os prêmios que tinha prometido. Tratava-se de um investimento, e sabia que trabalhariam com maior afinco no projeto seguinte.

 Graças a uma permissão especial de seus amos, Iblis se afastou da cidade até entrar na região rochosa, o cenário de uma batalha ocorrida muito tempo atrás. Os humanos de confiança gozavam de privilégios e liberdades especiais, e também a possibilidade de receber prêmios por um trabalho bem feito. Às máquinas pensantes não preocupava que fugisse, em primeiro lugar porque não havia a menor chance de abandonar o planeta, e tampouco podia conseguir comida ou refúgio.

 De fato, tinha outra coisa em mente: uma peregrinação.

 Iblis montava escarranchado de um burcavalo, um animal de laboratório utilizado no passado, quando os humanos governavam a Terra. O desagradável animal tinha uma cabeça de grande tamanho, orelhas pendentes e patas redondas desenhadas para trabalhar. O animal projetava um fedor similar ao de uma pele empapada em águas fecais.

 O burcavalo subiu por um caminho estreito e serpenteante. Fazia anos que Iblis não visitava o lugar, mas conhecia o caminho de cor. Essas coisas não se esqueciam com facilidade. A curiosidade tinha esporeado suas visitas anteriores ao monastério do pensador Eklo. Desta vez, necessitava com desespero guia e conselho.

 Depois de receber a mensagem revolucionária anônima, Iblis tinha meditado na possível existência de outros humanos insatisfeitos, gente decidida a desafiar Omnius. Durante toda sua vida, tinha estado rodeado de escravos aferrolhados pelas máquinas. Jamais tinha imaginado que pudessem existir outras possibilidades. Transcorridos mil anos, qualquer perspectiva de mudança ou melhora parecia impossível.

 Depois de muitas deliberações internas, Iblis desejava acreditar que existiam células de humanos rebeldes na Terra, talvez inclusive em outros Planetas Sincronizados. Grupos dispersos animados pela idéia da rebelião.

 Se formos capazes de construir monumentos tão enormes, por que não podemos derrubá-los?

 A idéia prendeu fogo a seu profundo ressentimento para com Omnius, os robôs, e sobretudo os cimeks, que pareciam especialmente agressivos contra os humanos. Mas antes de decidir se a mensagem não era mais que uma pura fantasia, tinha que realizar algumas investigações. Iblis tinha sobrevivido durante tanto tempo porque era cauteloso e obediente. Devia realizar suas investigações de maneira que as máquinas não suspeitassem de suas intenções.

 Com o fim de obter respostas, não existia melhor fonte que o pensador Eklo.

 Anos atrás, Iblis tinha feito parte de um grupo dedicado a perseguir escravos. Caçava os escassos desgraçados que escapavam da cidade sem plano forjado, capacidade de sobrevivência ou provisões. Rumores falsos tinham convencido estes desesperados que os pensadores, politicamente neutros, lhes concederiam asilo. Uma idéia absurda, tendo em conta que os cérebros imateriais só desejavam isolamento para abismar-se em seus pensamentos esotéricos. Aos pensadores pouco importava a Era dos Titãs, as Rebeliões Hrethgir ou a criação dos Planetas Sincronizados. Os pensadores não desejavam ser molestados, de maneira que as máquinas pensantes os toleravam.

 Quando Iblis e sua equipe tinham rodeado o isolado monastério, Eklo tinha ordenado a seus subordinados humanos que expulsassem os fugitivos de seu esconderijo. Os escravos haviam amaldiçoado e ameaçado o pensador, mas Eklo não se importou. Continuando, Iblis e seus companheiros tinham retornado com os escravos, destinados a uma “enérgica missão”, depois de jogar sua líder do alto de um escarpado.

 O robusto burrhorse subiu o íngreme caminho que desmoronava sob seus cascos. Iblis distinguiu ao fundo a alta torre do monastério, um impressionante edifício de pedras envolto em parte pela névoa. Suas janelas projetavam um brilho avermelhado, que depois se alterava para azul, segundo o humor da grande mente contemplativa.

 Quando o treinaram para chegar a ser um humano de confiança, Iblis soube da existência dos pensadores, dos restos primitivos de religião que ainda se manifestavam nos grupos mais numerosos de escravos. Omnius tinha cessado em seus intentos de reprimi-la, embora a supermente não compreendesse as superstições e os rituais.

 Muito antes da conquista do Império Antigo, Eklo tinha abandonado seu corpo físico e dedicado sua mente à análise e a introspecção. Enquanto planejava a conquista da humanidade, a titã Juno tinha adotado Eklo como assessor pessoal, à espera de respostas. Eklo, indiferente às repercussões, sem querer tomar partido no conflito, tinha respondido às perguntas de Juno, e seu conselho tinha redundado sem querer na vitória dos titãs. No milênio transcorrido depois da conquista, Eklo havia permanecido na Terra. A grande paixão de sua longa vida era sintetizar uma interpretação completa do universo.

 Ao chegar ao final da pista, na base da torre de pedra, Iblis se encontrou rodeado de repente por uma dúzia de homens armados com lanças arcaicas e paus. Seus mantos eram de um tom marrom escuro, e ostentavam faixas. Um dos subordinados agarrou as rédeas do burrhorse.

 - Deixe-o aqui. Nós não oferecemos refúgio.

 - Nem eu o busco. - Iblis olhou para os homens. - Só vim para formular uma pergunta ao pensador.

 Desmontou e, depois de lhes seduzir com seu bom humor e sinceridade, encaminhou-se para a torre, enquanto os homens se encarregavam de seus arreios.

 - O pensador Eklo está imerso em seus pensamentos e não deseja ser incomodado - gritou um dos subordinados. Iblis lançou-lhe um sorriso.

 - O pensador leva mil anos meditando. Tenho certeza que poderá dedicar alguns poucos minutos para me escutar; já que sou um humano de confiança. E se lhe proporciono informação que ainda não possui, terá algo no que pensar durante outro século ou mais.

 Vários subordinados seguiram Iblis, enquanto murmuravam entre si, confusos. De repente, quando chegou ao arco de entrada, um monge de ombros largos lhe fechou o caminho. Os músculos de seus braços e peito brilharam e lhe olhou com olhos bovinos.

 Iblis infundiu um tom persuasivo a sua voz.

 - Honro os conhecimentos adquiridos pelo pensador Eklo. Não desperdiçarei seu tempo.

 O monge olhou para Iblis com ceticismo e ajustou a faixa.

 - É muito descarado, e o pensador deseja escutar suas perguntas.

 Revistou o visitante a procura de armas.

 - Sou Aquim. Siga-me.

 O homem guiou Iblis por um estreito corredor de pedra, e logo subiram por uma escada em caracol.

 - Já estive aqui antes - disse Iblis, - perseguindo escravos fugitivos...

 - Eklo lembra-se – interrompeu-lhe Aquim.

 Chegaram à parte mais alta do edifício, uma sala redonda situada no pináculo da torre. O contêiner de plexiplaz do pensador descansava sobre um rebordo similar a um altar, sob uma janela. O vento ululava nas bordas da janela e agitava a névoa. Uma iluminação interna dotava as janelas de um brilho azul.

 Aquim deixou para trás os outros subordinados, aproximou-se do contêiner cerebral transparente e se deteve um momento, enquanto o observava com reverência. Introduziu uma mão em um bolso, e seus dedos trementes emergiram com uma tira de papel incrustada de pó negro. Introduziu a tira em sua boca e deixou que se dissolvesse. Pôs os olhos em branco, como se tivesse alcançado o êxtase.

 - Semuta - disse Iblis, - um derivado dos resíduos incinerados de madeira elaca, que chega-nos de contrabando. Ajude-me no cumprimento de meus deveres. - Apoiou com serenidade ambas as mãos sobre a tampa do contêiner. - Não entendo nada.

 Teve a impressão de que o cérebro nu, flutuando em sua sopa de eletrolíquido azul, pulsava, à espera.

 O monge respirou fundo com um sorriso beatífico, e introduziu os dedos no líquido. O líquido gelatinoso umedeceu sua pele, empapou seus poros, conectou-se com suas terminações nervosas. A expressão do Aquim mudou.

 - Eklo deseja saber por que não formulou sua pergunta da última vez que esteve aqui.

 Iblis ignorava se devia falar com o subordinado ou diretamente ao pensador, de modo que dirigiu a resposta ao espaço intermediário.

 - Naquele momento, não compreendia o que era importante. Agora, desejo saber algo de ti. Ninguém mais poderia me proporcionar uma resposta objetiva.

 - Nunca há julgamento ou opinião completamente objetivos - replicou o monge com serena convicção. - Os absolutos não existem

 - Você é menos parcial que qualquer pessoa a quem pudesse consultar.

 O altar se moveu seguindo trilhos invisíveis, e o pensador se deteve ante outra janela, seguido de Aquim, que não havia tirado a mão do contenedor.

 - Formule sua pergunta.

 - Sempre trabalhei com lealdade para meus amos cimek - começou Iblis, escolhendo suas palavras com toda cautela. - Recentemente, inteirei-me de que talvez existam grupos de resistência humanos na Terra. Desejo saber se esse informe é real. Há gente que deseja derrocar seus governantes e conseguir a liberdade?

 Durante um momento de vacilação, o subordinado cravou a vista no espaço, fosse pelo efeito da semuta ou por estar conectado com o cérebro do filósofo. Iblis confiou em que o pensador não se sumisse em um longo período de contemplação. Por fim com voz profunda e sonora, Aquim disse:

 - Nada é impossível.

 Iblis provou diversas variações da pergunta, dando rodeios com frases, polindo sua escolha de palavras. Não queria revelar suas intenções, ainda que neutro o pensador poderia imaginar que Iblis queria localizar os rebeldes, fosse para destruí-los ou para unir-se a eles. E em cada vez, Iblis recebeu a mesma resposta enigmática.

 - Se uma organização secreta tão grande existisse - disse por fim, escolhendo as palavras, - teria chances de triunfar? Poderia pôr fim ao reinado das máquinas pensantes?

 Desta vez, o pensador meditou um momento mais longo, como se analisasse diferentes fatores da pergunta. Quando chegou a mesma resposta por mediação do monge, as palavras, pronunciadas de uma forma mais intensa, deram a impressão de transmitir um profundo significado.

 - Nada é impossível.

 Continuando, Aquim retirou sua mão gotejante do contêiner cerebral de Eklo, dando a entender que a audiência havia terminado. Iblis fez uma cortês reverencia, expressou sua gratidão e partiu, assaltado por milhares de idéias.

 Enquanto descia o caminho a pé, o assustado mas exultante capataz decidiu que, se não podia localizar os grupos de resistentes, tinha outra opção.

 Iblis formaria una célula rebelde com seus leais trabalhadores.

 

Um conflito que se prolongue durante um dilatado período de tempo tende a autoperpetuar-se, e é fácil perder o controle.

 

 TLALOC,

 A Era dos Titãs

 

 - Depois de mil anos, só restamos cinco.

 Poucas vezes os titãs sobreviventes se reuniam, sobretudo na Terra, onde os olhos de Omnius os vigiavam em cada momento mas o general Agamenon estava tão indignado pelo desastre de Giedi Prime e o assassinato de seu amigo e aliado, que não queria perder tempo preocupando-se com a supermente.

 Tinha outras prioridades.

 - Os hrethgir contam com uma nova arma que utilizaram contra nós com devastadoras conseqüências - disse Agamenon.

 Os titãs se achavam em uma câmara de manutenção, com seus contêineres sobre pedestais. Agamenon tinha ordenado com tom severo a Ajax, Juno, Xerxes e Dante que se desprendessem de suas formas móveis. Os ânimos se encrespariam, e era difícil controlar os impulsos individuais quando estavam instalados em um poderoso corpo de combate, já que os mentrodos podiam transformar qualquer impulso irrefletido em destruição imediata.

 Agamenon confiava em poder controlar sua ira, mas alguns titãs, sobretudo Ajax, destruíam primeiro e reconsideravam depois.

 - Depois de muitas investigações e análise, averiguamos que a assassina da Barba Azul procedia de Rossak, e os humanos selvagens a chamavam feiticeira - disse Dante, que se ocupava desses assuntos. - Rossak alberga mais destas feiticeiras, mulheres que possuem potentes capacidades telepáticas.

 - É evidente - disse Juno, com sarcasmo evidente em sua voz sintética.

 Dante continuou em seu tom moderado habitual.

 - Até agora, as feiticeiras não tinham sido utilizadas em nenhuma função agressiva em grande escala. Depois de seu triunfo em Giedi Prime, não obstante, é provável que os hrethgir as empreguem para atacar de novo.

 - Sua ação também nos recordou que somos muito vulneráveis - disse Agamenon. - Os robôs podem ser substituídos.. Nossos cérebros não.

 - Mas não é certo que essa feiticeira teve que acabar com sua vida para eliminar Barba Azul e um punhado de neocimeks? - perguntou Xerxes. - Foi um suicídio. Acha que estarão dispostas a repetir a jogada?

 - Só porque você é um covarde, Xerxes, não significa que os humanos selvagens tenham medo a autosacrificar-se - replicou Agamenon. - Uma feiticeira eliminou sete neocimeks e um titã. Uma perda escandalosa.

 Depois de mil anos de vida, durante os quais se perderam milhares de milhões de vidas humanas (muitas nas mãos de Agamenon ou em sua presença), acreditava-se imune à contemplação da morte. Dos primeiros titãs, Barba Azul, Juno e Tlaloc tinham sido seus amigos mais íntimos. Os quatro tinham semeado a semente da rebelião. Outros titãs tinham aparecido mais tarde.

 Apesar do fato de que suas imagens mentais serem muito antigas, o titã ainda recordava de Barba Azul em sua forma humana. Vilhelm Jayther era um homem de braços e pernas magros, ombros largos e peito fundo. Alguns diziam que seu aspecto era desagradável, mas seus olhos possuíam a intensidade que Agamenon apreciava. Além disso, era um gênio programador sem comparação.

 Jayther tinha aceito o desafio de acabar com o Império antigo, tinha passado semanas sem dormir até descobrir a maneira de solucionar o problema. Entregou-se por inteiro à tarefa, até descobrir como manipular a sofisticada programação e colocá-la ao serviço dos rebeldes. Ao implantar ambições e objetivos humanos na rede informática, obteve que as máquinas desejaram participar na derrocada do Império.

 Entretanto, Omnius tinha desenvolvido mais adiante ambições próprias.

 Jayther, um homem de tremenda prudência, tinha incluído instruções que proibiam às máquinas pensantes fazer mal a qualquer titã. Agamenon e todos os seus companheiros estavam vivos graças a Vilhelm Jayther, Barba Azul.

 Mas as feiticeiras o tinham matado. Um fato que não deixava de atiçar sua cólera.

 - Não podemos permitir que este ultraje fique sem castigo - disse Ajax. - Eu digo para irmos a Rossak, matemos a todas as mulheres e convertamos seu planeta em uma bola carbonizada.

 - Querido Ajax - disse Juno com doçura, - devo lembrar-lhe que uma só dessas feiticeiras destruiu Barba Azul e a todos os neocimeks que o acompanhavam?

 - E o que? - respondeu com orgulho Ajax. - Eu sozinho exterminei à praga humana de Walgis. Juntos, podemos nos ocupar de umas poucas feiticeiras.

 - Os rebeldes do Walgis já estavam derrotados quando você começou a carnificina, Ajax - disse Agamenon. - Estas feiticeiras são diferentes.

 - Omnius nunca autorizará um ataque em grande escala - disse Dante com voz monótona. - Os gastos seriam excessivos. Já levei a cabo uma análise preliminar.

 - Não obstante - respondeu Agamenon, - seria um grande erro tático deixar de vingar esta derrota.

 - Como restamos tão poucos - disse Xerxes, depois de alguns segundos de molesto silêncio, - os titãs nunca deveriam atacar juntos. Pensem no risco.

 - Mas se formos juntos a Rossak e esmagarmos às feiticeiras, a ameaça haverá desaparecido - disse Ajax.

 Juno emitiu um vaio.

 - Vejo seu cérebro no contêiner, Ajax - disse, - mas parece que você não o usa. Possivelmente deveria trocar seu eletrolíquido. As feiticeiras demonstraram que podem nos destruir, e você quer se lançar contra a maior ameaça que os titãs confrontaram até hoje como ovelhas que vão para o matadouro.

 - Poderíamos utilizar naves robô que atacassem da órbita - propôs Dante. - Não é necessário nos colocarmos em perigo.

 - Se trata de algo pessoal - grunhiu Ajax. - Um dos titãs foi assassinado. Não vamos lançar mísseis do outro extremo do sistema planetário. É um método de covardes, Ainda que as máquinas pensantes o chamem de eficácia.

 - Há espaço para o compromisso - disse Agamenon. - Juno, Xerxes e eu podemos reunir voluntários neocimek e atacar com uma frota robô. Seria suficiente para infligir danos imensos a Rossak.

 - Mas eu não posso ir, Agamenon - disse Xerxes. - Estou trabalhando com Dante. Nossos maiores monumentos da praça do Foro estão a ponto de ser concluídos. Começamos a trabalhar em uma nova estátua para Barba Azul.

 - No momento preciso - disse Juno. - Estou segura de que ele se alegrará, agora que está morto.

 - Xerxes tem razão - disse Dante. - Também temos que pensar no imenso monumento da vitória dos titãs, que estamos construindo na colina próxima ao centro metropolitano. Há capatazes de equipes, mas necessitam vigilância constante. Do contrário, os gastos disparariam, e os prazos não...

 - Devido ao recente desastre de sua estátua, Ajax está familiarizado com tais problemas - disse Juno. - Por que ele não fica, em lugar de Xerxes?

 - Não ficarei aqui enquanto outros obtêm a glória! - rugiu Ajax.

 - Xerxes, você virá conosco - disse Agamenon. - Ajax, ficará aqui para vigiar o ritmo dos trabalhos com Dante. Faça-o em memória da Barba Azul.

 Tanto Xerxes como Ajax protestaram, mas Agamenon era o líder, e impôs o controle que tinha exercido durante séculos.

 - Você conseguirá convencer Omnius a nos dar permissão, meu amor? - perguntou Juno.

 - Os hrethgir de Giedi Prime não só mataram a nosso amigo, mas sim também aniquilaram à nova encarnação de Omnius antes que fosse atualizada. Há muito tempo, quando Barba Azul alterou a programação original da rede, introduziu algo na mente do computador, suficiente para que compreendesse a natureza da conquista. Com certeza ele também sentirá nossa necessidade de vingança. - Os titãs meditaram sobre este comentário em silêncio. - Iremos a Rossak e o deixaremos em chamas - disse Agamenon.

 

Na guerra, há incontáveis fatores impossíveis de predizer, e que não dependem da qualidade do comando militar.

No calor da batalha surgem heróis, nas ocasiões mais improváveis.

 

 VORIAN ATREIDES,

 Momentos decisivos da história

 

Era um soldado, não um político. Xavier Harkonnen sabia de táticas e estratégias militares, tinha pensado em dedicar sua vida ao serviço da tropa salusiana e a Armada da Liga. Mas agora não tinha outra alternativa senão falar aos representantes da liga reunidos no Parlamento.

 Depois da vitória agridoce em Giedi Prime, era preciso decidir algumas coisas.

 Tinham reparado e escorado o antigo edifício do Parlamento, enquanto que os restos de andaimes e muros provisórios indicavam os pontos em que as obras continuavam. Ainda viam-se rachaduras e retoques apressados na plazpedra, as colunas e os murais. Cicatrizes de guerra, medalhas de honra.

 Pouco antes da intervenção do jovem oficial, o vice-rei Butler tinha assistido junto com sua esposa a honras fúnebres em memória de Serena e os camaradas caídos em Giedi Prime.

 - Morreu fazendo exatamente o que se exigia de si mesma e de nós - disse o vice-rei. - Uma luz se apagou em nossas vidas.

 No ano transcorrido do ataque cimek contra Salusa, o povo tinha padecido muitos funerais e muito dor. Mas Serena, a jovem e apaixonada representante, sempre tinha insistido que a liga servia ao povo e ajudava aos necessitados.

 Ao lado do vice-rei, Livia Butler vestia o hábito de meditação que utilizava na Cidade da Introspecção. Já havia visto morrer seu único filho varão Fredo por causa de uma enfermidade do sangue. Agora, as máquinas pensantes tinham assassinado sua filha maior. Só reatava a etérea Octa.

 Os representantes dos planetas da liga guardavam silêncio e compartilhavam a tristeza. Apesar da sua juventude, Serena Butler tinha deixado uma forte impressão por seu idealismo e impetuosidade. Depois do laudatório oficial, muitos oradores se alternaram no pódio para elogiar sua generosidade.

 Xavier escutou os tributos. Os representantes olhavam-no com compaixão. Pensou na vida que Serena e ele tinham desejado compartilhar.

 Por ela, Xavier não se poria a chorar em público. Se a raça humana chorava pelos caídos, ficaria paralisada em uma estado de dor permanente. Seus lábios tremeram, e sua visão se nublou, mas obrigou-se a ser forte. Era seu dever. Embora com o coração destroçado, a mente de Xavier não cessava de pensar com fúria no inimigo, e nos traidores humanos que lutavam ao lado dos robôs.

 Sua lembrança de Serena seria fonte constante de energia e inspiração. Até morta, arrastaria cúpulas que nunca teria alcançado sem ela. Ainda guardava o colar de diamantes negros que projetava sua última mensagem, sua valente chamada às armas para ajudar Giedi Prime. A adorável Serena cuidaria dele sempre, como neste momento, quando estava a ponto de reagrupar os recursos e poderio militar das massas enfurecidas.

 Xavier, pálido e trêmulo, entrou na cúpula de projeção, seguido pelo vice-rei Butler. Ambos vestiam mantos e capas chapeadas e azuis, com cintas negras na cabeça em honra de seu ser querido caído em combate.

 Tinha chegado o momento de continuar cuidando da humanidade. Depois de suas recentes vitórias militares, necessitava de poucas apresentações.

 - Somos seres humanos, e sempre lutamos por nossos direitos e nossa dignidade. Formamos a Liga de Nobres para que os homens livres pudessem opor-se aos titãs, e depois às máquinas pensantes. Só graças a estar unidos pudemos deter a rajada de conquistas de nossos inimigos. - Esquadrinhou os representantes sentados na abarrotada sala. - Mas às vezes, a liga é nosso pior inimigo. - Os assistentes respeitavam muito este herói para discutir, e Xavier se apressou a continuar. - Enquanto elogiamos nossa aliança, os planetas da liga continuam sendo egocêntricos e independentes. Quando um planeta acossado pede ajuda, a liga discute durante meses antes de decidir nossa resposta... até que seja muito tarde! Isso ocorreu em Giedi Prime. Somente a temeridade de Serena nos obrigou a agir a toda velocidade. Sabia muito bem o que fazia, e o pagou com sua vida.

 Quando alguns representantes começaram a murmurar, Xavier se irritou e obrigou-os a se calar com voz troante.

 - A Liga de Nobres tem que formar uma coalizão mais forte sob uma liderança moderna. Para lutar com eficácia contra uma supermente eletrônica altamente organizada, necessitamos de um governo de humanos unido, em vez desta estrutura pouco rígida.

 Agitava as mãos Enquanto falava.

 - Como pregava Serena Butler, temos que fazer todos os esforços para ganhar a colaboração dos Planetas Não Aliados, para fortalecer nosso marco defensivo e acrescentar uma zona de amortecimento a nosso território protegido.

 O vice-rei se aproximou do jovem e acrescentou, com voz transita de emoção:

 - Esse foi sempre o sonho de minha filha. Agora, temos que convertê-lo em nosso sonho.

 Vários nobres vacilantes se levantaram em sinal de respeitosa oposição.

 - Reunir tantos planetas sob um governo forte - disse um homem magro de Kirana III, - sobretudo de tipo militar, recorda-me a Era dos Titãs.

 - Não queremos mais impérios! - gritou um nobre de Hagal.

 Xavier elevou a voz.

 - Acaso não é melhor um império que a extinção? Enquanto se preocupam com matizes políticos, Omnius vai conquistando sistemas estelares!

 - Durante séculos - disse outro representante, - a Liga de Nobres e os Planetas Sincronizados se mantiveram mutuamente a raia, em um precário equilíbrio. Omnius nunca transpassou as fronteiras do Império Antigo. Sempre acreditamos que as máquinas pensantes não o consideravam eficaz nem digno de valor. Por que iriam mudar isso agora?

 - Pelo motivo que for, já mudaram! As máquinas pensantes parecem decididas ao genocídio. - Xavier apertou os punhos. Não tinha esperado ter que discutir por isso, quando as provas eram evidentes. - Temos que nos esconder atrás de nossas defesas de papel reagir somente quande Omnius nos põe a prova? Como fizemos em Salusa faz um ano, como fizemos em Giedi Prime?

 Em um estalo melodramático, elevou o suporte de livro e o lançou através da cúpula de cristal. A primeira fila de nobres fugiu da chuva de fragmentos. Estupefatos representantes gritaram que o comportamento de Xavier era inaceitável. Outros chamaram os guardas de segurança para que o expulsassem da sala oficial.

 Xavier passou através do cristal quebrado e gritou sem necessidade de amplificador.

 - Bem! Esse é o tipo de espírito que quero ver! A liga esteve prostrada durante muito tempo. Falei com outros comandantes da Armada, e a maioria está de acordo. Temos que mudar nossa tática e surpreender as máquinas. Deveríamos gastar o dinheiro que fosse necessário, monopolizar a imaginação de todos os nossos cientistas e desenvolver novas armas, armas capazes de destruir Omnius, não só de nos proteger em casa. Um dia, acredito que teremos que passar à ofensiva. É a única maneira de ganhar este conflito.

 Pouco a pouco, os congregados compreenderam que Xavier tinha provocado de propósito uma reação. Com uma bota polida, afastou fragmentos quebrados do estrado.

 - A experiência é nosso melhor professor. As máquinas poderiam atacar Salusa de novo a qualquer momento, Poritrin, Rossak, Hagal, Ginaz, Kirana III, Seneca, Colônia Vertree ou Relicon... Tenho que continuar? Nenhum de nossos planetas se encontra a salvo. - Elevou um dedo. - Mas se virarmos a mesa, podemos expulsar os agressores com movimentos atrevidos e inesperados. - Fez uma pausa. - Temos os meios de fazê-lo? Somos capazes de desenvolver as armas necessárias? O tempo da complacência acabou.

 Na discussão seguinte, Zufa Cenva ofereceu mais ataque telepatas contra os cimeks. Muitas feiticeiras já se apresentaram como voluntárias, ela disse. Lorde Niko Bludd gabou-se dos contínuos trabalhos de Tio Holtzman, que planejava testar um novo “ressonador de liga”. Outros representantes da liga ofereceram sugestões, objetivos, formas de fortalecer sua posição.

 Xavier, aliviado e inspirado, passeou a vista a seu redor. Ele os tinha envergonhado até serem obrigados a proclamar aos gritos seu belicoso apoio, e no momento, as vozes dos dissidentes não se ouviam. Escorreram lágrimas sobre seu rosto, e notou um sabor salgado nos lábios. Purgado de emoções e energias, observou que o vice-rei Butler olhava para ele com orgulho, como se fosse seu filho.

 Estou assumindo a missão de Serena, compreendeu Xavier, fazendo o que ela teria feito.

 

Para equilibrar a dor e o sofrimento, a guerra também foi o berço de alguns de nossos maiores sonhos e lucros.

 

 TIO HOLTZMAN,

 discurso de aceitação da Medalha do Valor de Poritrin

 

Tio Holtzman se lançou ao vazio com sua nova idéia, de modo que Norma Cenva se sentiu como uma folha a mercê do vento. Com seu gerador de ressonância de liga, o inventor pretendia demonstrar-lhe quem era o gênio.

 Embora duvidasse que a idéia funcionasse, Norma não podia demonstrar a razão de sua insegurança com provas matemática. O instinto lhe falava como uma voz importuna, mas ela calava suas preocupações. Depois da azeda reação de Holtzman as suas reservas iniciais, não havia tornado a pedir sua opinião.

 Norma esperava estar equivocada. Afinal, era humana e longe de ser perfeita.

 Enquanto o sábio trabalhava em excesso no laboratório de demonstrações (um edifício do tamanho de um teatro situado sobre um penhasco antigo), Norma esperava sem fazer nada. Até sua mais inocente contribuição lhe punha nervoso, como se concedesse mais crédito a suas dúvidas do que admitia em voz alta.

 Norma se achava na ponte que comunicava as diversas seções do penhasco, e se agarrou ao corrimão. Enquanto escutava a brisa que sussurrava entre os cabos, olhou o tráfico fluvial. Ouviu Holtzman dentro do laboratório, gritando com os escravos enquanto erigiam um volumoso gerador que produzia um campo de ressonância, cujo propósito era desmantelar e fundir uma forma metálica. O sábio, uma presença imperiosa com seu manto branco e púrpura, levava as cadeias de seu cargo ao redor do pescoço, a como diversas medalhas que documentavam seus prêmios científicos. Holtzman fulminava com o olhar seus trabalhadores, passeava de um lado a outro, vigiava cada detalhe.

 Lorde Bludd e um punhado de nobres de Poritrin deveriam presenciar o experimento, de modo que Norma compreendia a angústia de Holtzman. Ela jamais teria preparado uma apresentação tão extravagante de um aparelho que ainda não tinha sido posto a prova, mas o cientista não mostrava nem a sombra de uma dúvida.

 - Ajude-me aqui, Norma, por favor - chamou Holtzman em tom exasperado. Norma correu para o recinto. O sábio apontou seus escravos com desagrado. – Eles não entendem nada. Já disse. Fiscalize-os, para que possa avaliar a calibração.

 No centro da câmara couraçada, o pessoal de Holtzman tinha colocado um manequim metálico com a aparência de um robô de combate. Norma nunca tinha visto uma máquina pensante autêntica, mas sim muitas imagens armazenadas. Contemplou o simulacro. Esse era o inimigo contra o que se dirigiam todos seus esforços.

 Olhou para seu mentor com mais compaixão, ao compreender seu desespero. Holtzman estava obrigado moralmente a perseguir qualquer idéia, a descobrir qualquer método de continuar este nobre combate. Era um perito em energias projetadas, campos de distorção e armas que não fossem projéteis. Confiou que seu gerador de ressonância de liga funcionasse.

 Antes que os escravos terminassem de conectar os aparelhos, ouviu-se um estrépito em frente ao edifício principal. Tinham aparecido barcaças cerimoniosas sobre os picos, onde os balcões de Holtzman dominavam o rio. O guarda de honra se erguia na nave capitania com lorde Bludd, além de cinco senadores e um historiador da corte vestido de negro. Holtzman abandonou sua atividade.

 - Norma, acabe isto, por favor.

 Sem virar-se para olhá-la, correu pela ponte para receber seus visitantes importantes.

 Norma animou os escravos a que se apressassem, enquanto ajustava os calibradores e sintonizava o aparelho segundo as especificações do inventor. A luz se filtrava através das clarabóias e iluminava o simulacro de robô. Vigas metálicas reforçadas se cruzavam no teto, sujeitando polias e cabrestantes que se utilizaram para içar o gerador de ressonância.

 Vários escravos zenshiítas formigavam por toda parte com sua vestimenta tradicional, macacões de trabalho cinzas adornados com franjas vermelhas e brancas. Muitos proprietários de escravos não permitiam que seus cativos exibissem sinais de individualidade, mas Holtzman não se importava com isso. Só desejava que os escravos cumprissem suas tarefas sem queixar-se.

 Quando terminaram seu trabalho, os escravos retrocederam para a parede, com a vista afastada. Um homem de barba negra e olhos tenebrosos falou-lhes em um idioma desconhecido para Norma. Momentos depois, um sorridente Holtzman entrou com seus convidados na zona de demonstração.

 O sábio efetuou uma entrada majestosa. A seu lado, Niko Bludd vestia uma túnica azul e um espartilho escarlate preso sobre o peito. Alisou a barba avermelhada. Nas comissuras das pálpebras destacavam-se pequenos círculos tatuados, similares a bolhas.

 Bludd reparou em Norma e lhe dedicou um sorriso condescendente e paternal. Norma fez uma reverência e tomou sua mão polida e perfumada.

 - Sabemos que seu tempo está valioso, lorde Bludd. portanto, tudo está disposto. - Holtzman enlaçou as mãos. - O novo aparelho nunca foi testado, e na apresentação de hoje serão as primeiras testemunhas de suas possibilidades.

 A voz de Bludd era profunda, porém musical.

 - Sempre esperamos o melhor de você, Tio. Se as máquinas pensantes tiverem pesadelos, não me cabe dúvida de que você é o protagonista deles.

 O séquito riu, e Holtzman fez um esforço por ruborizar-se. Virou-se para os escravos e começou a gritar ordens. Meia dúzia de trabalhadores sustentavam aparelhos para gravar dados, situados em pontos importantes ao redor do simulacro.

 Tinham transportado macias poltronas da residência principal para acomodar aos convidados. Holtzman se sentou ao lado de lorde Bludd, e Norma teve que ficar junto à porta. Seu mentor parecia seguro e concentrado, mas ela sabia que estava muito preocupado. Se fracassasse hoje, sua glória ficaria diminuída aos olhos dos poderosos nobres de Poritrin.

 Holtzman contemplou o gerador e passeou a vista a seu redor como se estivesse rezando em silêncio. Dedicou um olhar tranqüilizador a Norma, e depois ordenou que ativassem o protótipo.

 Um escravo acionou um interruptor, tal como lhe tinham instruído. O volumoso gerador começou a zumbir, e dirigiu seu raio invisível para o simulacro de robô.

 - Se for utilizado com fins práticos - disse Holtzman, com um tremor na voz apenas perceptível, - encontraremos formas de fazer o gerador mais compacto, podendo instalá-lo mais facilmente em naves pequenas.

 - Ou podemos construir naves maiores - disse Bludd com uma risada profunda.

 O zumbido aumentou de intensidade, uma rítmica vibração que fez os dentes de Norma tremerem. Observou que uma fina capa de suor se formava sobre o roato de Holtzman.

 - Já se pode perceber a reação - indicou o cientista. O robô começou a tremer. - O efeito continuará aumentando.

 Bludd estava muito satisfeito.

 - Esse robô já deve estar arrependido de ter se rebelado contra a raça humana, não é verdade?

 O simulacro começou a emitir um brilho avermelhado, e seu metal se reaqueceu quando as ligas se sintonizaram com o campo destrutivo projetado sobre ele. Virou um tom amarelado, combinado com manchas de um branco incandescente.

 - A esta altura, a estrutura interna de um robô já teria sido destruída - disse Holtzman, que parecia contente por fim.

 De repente, as pesadas vigas do teto começaram a vibrar, uma ressonância secundária transmitida do robô ao vigamento estrutural da cúpula. As grosas paredes gemeram e estremeceram-se. Um zumbido agudo percorreu a estrutura.

 - O campo de ressonância está transbordando de seus limites - gritou Norma.

 As vigas do teto se esticaram como serpentes iradas. Uma greta se abriu na cúpula.

 - Desconectem! - gritou Holtzman, mas os aterrorizados escravos fugiram assustados para um canto da sala, o mais longe possível do gerador.

 O robô ondulou e se retorceu, ao mesmo tempo que seu núcleo corporal se fundia. Os pontos de apoio que o sustentavam se curvaram.

 A máquina de combate se precipitou para frente, até cair ao chão convertida em uma massa de metal enegrecido.

 Holtzman agarrou a manga de Niko Bludd.

 - Meu senhor, corram pela ponte até meus aposentos principais. Parece que temos um... pequeno problema.

 Outros nobres já estavam cruzando a ponte de alta tensão. Norma se achava entre eles. Olhou atrás e percebeu que os escravos zenshiítas não sabiam o que fazer. Tio Holtzman não lhes tinha dado instruções.

 De um lugar seguro, Norma viu que seis escravos presas do pânico entravam na ponte. Atrás, o homem do cabelo escuro os animava a seguir em frente, gritando em seu estranho idioma. A ponte começou a ondular, quando a ressonância do projetor se sintonizou com as conexões metálicas da ponte.

 O barbudo líder zenshiíta voltou a gritar. Norma desejava ajudar aqueles desgraçados. Acaso os dragões não podiam fazer algo? Holtzman tinha ficado sem fala, paralisado pela surpresa.

 Antes que o primeiro grupo de escravos pudesse cruzá-lo, a ponte se partiu pela metade, com um chiado de metal agonizante. As desafortunadas vítimas se precipitaram de duzentos metros de altura até a base do penhasco, e logo foram parar no rio.

 O líder dos escravos amaldiçoou da borda do abismo. Atrás dele, uma seção da cúpula veio abaixo, destruiu o protótipo e deteve por fim a pulsação incessante.

 O pó se hospedou. Algumas chamas e um fio de fumaça se elevaram no ar, entre os uivos dos homens que continuavam apanhados no interior do edifício.

 Norma estava enjoada. A seu lado, Holtzman suava profusamente e parecia doente. Piscou repetidas vezes, e logo secou a fronte. Sua pele se tingiu de um tom cinzento.

 - Não se pode considerar um de seus esforços mais notáveis, Tio - disse Bludd em tom irônico.

 - Mas devem admitir que a idéia é promissora, Lorde Bludd. Pensem em seu potencial destrutivo – respondeu Holtzman, enquanto olhava para os impassíveis nobres, sem pensar sequer nos escravos mortos e feridos. - Podemos agradecer que ninguém tenha se ferido.

 

Ciência: a criação de dilemas mediante a solução de mistérios.

 

 NORMA CENVA,

 notas de laboratório inéditas.

 

No interior do centro de experimentos destruído, as manchas de sangue eram limpas com facilidade, mas cicatrizes mais profundas se negavam a desaparecer. Enquanto um novo grupo de escravos retirava os escombros, Tio Holtzman cruzou uma ponte provisória e não muito sólida. Contemplou com tristeza as ruínas de seu laboratório.

 Do lugar onde trabalhava, Bel Moulay, o líder dos escravos zenshiítas, trespassou o inventor com o olhar. Odiava a pele pálida, o cabelo curto e as roupas de cores arrogantes do homem. As frívolas medalhas de honra do cientista não significavam nada para Bel Moulay, e ofendia todos os cativos zenshiítas que um homem tão inútil e avoado se pavoneasse de sua riqueza enquanto que pisoteava os fiéis.

 O líder deu instruções a seus companheiros e os consolou. Moulay sempre tinha sido algo mais que uma figura carismática. Era também um líder religioso, educado em Anbus IV nas leis mais estritas da interpretação zenshiíta do budislam. Tinha estudado as verdadeiras escrituras e sutras, analisado cada parágrafo. Outros escravos pediam a Bel Moulay que as interpretasse.

 Apesar da sua fé, estava tão indefeso como seus companheiros, obrigado a obedecer o menor capricho dos infiéis, que se negavam a deixar os zenshiítas viverem segundo suas normas, e além disso insistiam em lhes arrastar a uma guerra desesperada contra os demônios mecânicos. Era um castigo terrível, una série de tribulações Karmicas que Budalá lhes tinha enviado.

 Mas eles as superariam, e sairiam fortalecidos...

 Sob a liderança de Bel Moulay, os escravos afastaram escombros até desenterrar os cadáveres esmagados de companheiros com os quais tinham trabalhado cotovelo com cotovelo, irmãos zenshiítas que tinham sido capturados quando as naves de Tlulaxa atacaram as cidades de Anbus IV.

 Com o tempo, Budalá lhes ensinaria o caminho da liberdade. Durante veladas junto às fogueiras, o líder tinha prometido que os opressores seriam castigados... senão nesta geração, na seguinte, o na outra. porém ocorreria. Um simples homem como Bel Moulay não podia apressar a Deus.

 Com gritos de alarme, dois escravos afastaram a seção derrubada de uma parede e descobriram a um homem que ainda se aferrava à vida, embora tivesse as pernas esmagadas e o torso esfaqueado por fragmentos do plaz das janelas. Holtzman, preocupado, se aproximou e examinou ao ferido.

 - Não sou médico, mas acredito que há poucas esperanças.

 Bel Moulay mirou-o com seus olhos escuros e penetrantes.

 - Não obstante, temos que fazer o que pudermos - disse em galach.

 Três operários zenshiítas retiraram os escombros e transportaram o homem através da ponte. Os médicos se ocupariam das feridas nos alojamentos dos escravos.

 Depois do acidente, Holtzman tinha proporcionado fornecimentos médicos básicos, embora um gesto similar não tivesse impedido que a febre se estendesse entre a população escrava. O cientista fiscalizava o trabalho dos operários que limpavam os entulhos, mas estava concentrado em suas prioridades.

 O sábio fez um gesto impaciente em direção aos escravos que continuavam procurando possíveis sobreviventes.

 - Você e você, parem de desenterrar corpos e recuperem o que restou do meu aparelho.

 Os ásperos cativos olharam para Moulay em busca de conselho. O homem meneou a cabeça.

 - Não vale a pena resistir agora - murmurou em seu idioma misterioso. - Mas prometo que o dia chegará.

 Mais tarde, durante seu breve momento de sonho, dedicariam a seus mortos os rituais que sua religião observava. Queimar os corpos dos fiéis era algo que seu credo não aceitava com facilidade, mas era o costume de Poritrin. Bel Moulay estava seguro de que Budalá não podia culpá-los por desobedecer as normas tradicionais, já que não tinham opção.

 Não obstante, sua deidade podia enfurecer-se muito. Moulay confiava em viver o suficiente para ver a vingança abater-se sobre estes opressores, embora fosse na forma de máquinas pensantes.

 Quando o centro de experimentos ficou limpou, Holtzman começou a falar consigo mesmo, planejando novos experimentos e provas. Pensava em comprar mais escravos para compensar as perdas recentes.

 No total, recuperaram-se doze escravos do centro de experimentos, enquanto os que haviam caído da ponte já tinham sido recolhidos do rio e conduzidos aos fornos crematórios públicos. Bel Moulay conhecia os nomes de todas as vítimas, e se encarregaria de que os zenshiítas elevassem contínuas preces pelos falecidos. Nunca esqueceria o acontecido aqui.

 Nem quem era o responsável: Tio Holtzman. 

 

A mente impõe um marco arbitrário chamado “realidade”, que é independente por completo da informação proporcionada pelos sentidos.

 

 Pensadores,

 Postulados fundamentais

 

 “Nada é impossível”, havia dito o cérebro imaterial.

 Na quietude cinza que precede à aurora, Iblis Ginjo dava voltas sem parar em sua cama improvisada. Como fazia um calor próprio da época, havia colocado a cama fora do alpendre de casa simples que os neocimeks lhe tinham dado. Tinha permanecido acordado, contemplando as longínquas estrelas e perguntando-se quais estavam ainda sob o controle dos humanos livres.

 Muito longe, a liga tinha conseguido manter Omnius a raia durante mil anos. Ouvindo, mas sempre temeroso de fazer perguntas ou chamar a atenção, Iblis tinha se informado de que as máquinas tinham conquistado, e depois perdido, Giedi Prime. Os humanos tinham expulso às máquinas, liquidado o titã Barba Azul e destruído um novo Omnius. Um feito incrível. Mas como? O que tinham feito para alcançar tal vitória? Que tipo de líderes tinham? Como ele faria o mesmo aqui?

 Cansado e aturdido, Iblis se remexeu. Uma vez mais, passaria o dia convencendo a escravos de nível inferior de que terminassem trabalhos absurdos para seus amos mecânicos. Cada dia era igual, e as maquinas pensantes podiam viver milhares de anos. Que objetivos poderia alcançar durante a mísera duração de sua vida humana? Mas Iblis se confortava com as palavras do pensador: nada é impossível.

 Abriu os olhos, com a intenção de ver sair o sol. Em vez disso, viu um reflexo distorcido, uma parede curva de plexiplaz, contornos orgânicos rosados suspensos em um contêiner de líquido carregado de energia.

 Levantou-se imediatamente. O pensador Eklo descansava sobre o chão da terraço. Ao lado do contêiner estava sentado o gigantesco monge, Aquim, que se mexia para frente e para trás com os olhos fechados, meditando em um transe de semuta.

 - O que faz aqui? - perguntou Iblis em voz baixa. O medo ardia em sua garganta. – Se os cimeks os encontrarem no acampamento, vocês...

 

 Aquim abriu seus olhos nublados.

 - Os humanos de confiança não são os únicos mantêm acordos com os titãs, e com Omnius. Eklo deseja falar contigo sem intermediários.

 Iblis engoliu em seco e passeou a vista entre o cérebro suspenso no eletrolíquido e o monge.

 - O ele que quer?

 - Eklo deseja te falar de revoltas humanas abortadas. - Apoiou uma mão sobre o contêiner e acariciou a lisa superfície, como se captasse vibrações. – Já ouviu falar das Rebeliões Hrethgir?

 Iblis olhou a seu redor com ar furtivo. Não viu nenhum olho espião de Omnius.

 - Esse tipo de histórias estão proibidas aos escravos, inclusive a um capataz de meu nível.

 O subordinado se inclinou para frente e arqueou as sobrancelhas. Falou de coisas que havia averiguado, sem necessidade de conectar-se através do eletrolíquido à mente do pensador.

 - Ocorreram rebeliões sangrentas depois que os titãs se transformassem em cimeks, mas antes que Omnius despertasse. Ao acreditarem-se imortais, os cimeks foram se tornando cada vez mais brutais, em especial o chamado Ajax, que se mostrou tão cruel na hora de torturar os humanos sobreviventes, que sua esposa Hécate o abandonou e desapareceu.

 - Os séculos não mudaram muito ao Ajax - comentou Iblis.

 Os olhos avermelhados do monge brilharam. O cérebro do Eklo falou no interior de sua solução nutritiva.

 - Devido à excessiva brutalidade de Ajax, os humanos oprimidos se rebelaram, sobretudo em Walgis, mas logo a chama se estendeu a Corrin e Richese. Os escravos elevaram-se e destruíram dois dos primeiros titãs, Alexandre e Tamerlão. Os cimeks responderam de uma forma contundente e decisiva. Ajax se encarregou com grande prazer de isolar Walgis e exterminar metodicamente todos os humanos. Bilhões foram aniquilados.

 Iblis se esforçou por refletir. O pensador tinha saído da Torre para lhe ver. A magnitude do gesto o deixava atônito.

 - Está me dizendo que uma revolta contra as máquinas é possível, ou que está condenada ao fracasso?

 O enorme monge agarrou a mão de Iblis.

 - Eklo lhe responderá isso.

 Iblis experimentou uma onda de inquietação, mas antes que pudesse opor resistência, Aquim afundou os dedos do capataz no viscoso eletrolíquido que rodeava o cérebro do pensador. Primeiro, sentiu a solução fria, e depois quente. A pele de sua mão formigou, como se milhares de diminutas aranhas corressem sobre sua carne.

 De repente, percebeu pensamentos, palavras e impressões que Eklo lhe transmitia à mente.

 - A revolta fracassou, mas ai, que glorioso intento!

 Iblis recebeu outra mensagem, este sem palavras, mas transmitia um significado, como uma manifestação divina. Era como se lhe tivesse sido revelada a maravilha do universo revelado, tantas coisas que antes não tinha compreendido... tantas coisas que Omnius ocultava aos escravos. Possuído de uma grande serenidade, afundou mais a mão no líquido. As pontas de seus dedos acariciaram a malha do pensador.

 - Você não está sozinho. - As palavras do Eklo ressonaram em sua alma. - Eu posso ajudar. Aquim pode ajudar.

 Durante alguns momentos, Iblis olhou para o horizonte, onde o sol dourado se elevava sobre a Terra escravizada. Agora já não considerava esta história de uma rebelião fracassada como uma advertência, mas sim como um sinal de esperança. Uma revolta melhor organizada poderia triunfar, contando com a liderança e o planejamento adequados. E o líder adequado.

 Iblis, que não tinha tido outro objetivo em sua vida que desfrutar da comodidade de seu cargo como humano de confiança das máquinas, notou que a ira começava a crescer em seu interior. A revelação entusiasmou seu coração. O monge Aquim parecia compartilhar a mesma paixão atrás de sua expressão aturdida por causa da semuta.

 - Nada é impossível - repetiu Eklo.

 Iblis, assombrado, tirou a mão do líquido e contemplou seus dedos. o monge recolheu o contêiner cerebral do pensador e o fechou. Embalou o cilindro contra o peito e se dirigiu a pé para as montanhas, deixando Iblis meditando nas visões que haviam inundado sua alma.

 

Acreditar em uma máquina “inteligente” engendra desinformação e ignorância. Abundam as hipóteses não analisadas. Não se formulam as perguntas cruciais. Não compreendi minha arrogância, ou meu engano, até que foi muito tarde para nós.

 

 BARBA AZUL,

 Anatomia de uma rebelião

 

 Erasmo desejava que a sofisticada supermente tivesse dedicado mais tempo a estudar as emoções humanas. Afinal, os planetas Sincronizados tinham acesso a imensos bancos de dados compilados durante milênios de estudos humanos. Se Omnius houvesse tomado a tarefa, talvez compreenderia agora a frustração do robô independente.

 - Seu problema, Omnius - disse o robô à tela de uma sala situada no alto da vila, - é esperar respostas específicas e precisas em um sistema fundamentalmente inseguro. Quer grandes quantidades de sujeitos experimentais, todos humanos, que se comportem de uma maneira previsível, tão regulamentados como seus robôs sentinela.

 Erasmo passeou ante o visor, até que ao fim Omnius ordenou a dois olhos espiões que o enfocassem de direções diferentes.

 - Eu o encarreguei de desenvolver um modelo detalhado e reprodutível que explique e prediga com precisão o comportamento dos humanos. Como transformá-los em seres úteis? Confio em você para me explicar isto a minha inteira satisfação. - Omnius adotou um tom agudo. - Tolero seus incessantes experimentos com a esperança de receber uma resposta algum dia. Faz muito tempo que está tentando. É como um menino, que joga com as mesmas trivialidades uma e outra vez.

 - Sirvo a um propósito valioso. Sem meus esforços para compreender aos hrethgir, experimentaria um estado de extrema confusão. Para utilizar o jargão humano, sou seu “advogado do diabo”.

 - Alguns humanos o chamam de diabo - replicou Omnius. - Meditei longamente sobre o tema de seus experimentos, e devo concluir que, descubra o que descobrir sobre os humanos, não nos revelará nada novo. São completamente imprevisíveis. Os humanos necessitam de muita manutenção. Criam desordem...

 - Eles nos criaram, Omnius. Acha que somos perfeitos?

 - Acredita que emular os humanos os fará mais perfeitos?

 Embora a supermente não extraísse nenhum significado do gesto, Erasmo franziu o cenho de seu rosto maleável.

 - Pois... sim - disse por fim o robô. - Podemos chegar a ser o melhor de ambos.

 Os olhos espiões lhe seguiram quando cruzou a sala até chegar ao balcão, vários pisos acima da praça ladrilhada que se abria ao centro da cidade. As fontes e gárgulas eram magníficas, imitações da Idade de Ouro da arte e a escultura da Terra. Nenhum robô apreciava a beleza tanto como ele. Nesta tarde ensolarada, os artesãos decoravam com volutas os marcos das janelas, e se estavam abrindo novos ocos na fachada para instalar mais estátuas e suportes de vasos, pois Serena Butler gostava de muito cuidar deles.

 Da altura vigiava os dóceis humanos. Alguns operários elevaram a vista para olhar para ele, e imediatamente se dedicaram com mais diligencia a suas tarefas, como temerosos de que os castigasse, ou pior ainda, lhes elegesse para algum de seus horríveis experimentos de laboratório.

 Erasmo continuou a conversação com a supermente.

 - Estou seguro de que alguns de meus experimentos o intrigam. Omnius, ao menos um pouco.

 - Já sabe a resposta.

 - Sim, o experimento para pôr a prova a lealdade de seus súditos humanos segue seu rumo. Enviei mensagens críticas a punhado de candidatos escolhidos entre os humanos de confiança (prefiro não revelar o número), sugerindo que se unam a incipiente rebelião contra você.

 - Não há nenhuma rebelião incipiente contra mim.

 - Claro que não. E se os humanos de confiança lhe são absolutamente leais, nunca pensarão em tal possibilidade. Por outra parte, se fossem leais a sua autoridade, teriam vindo denunciar a mim tais mensagens incendiárias. Por conseguinte, suponho que haverá recebido informe de meus sujeitos, não?

 Omnius vacilou durante um longo momento.

 - Voltarei a checar meus registros.

 Erasmo observou o trabalho dos artesãos na praça, e logo se encaminhou ao outro lado da mansão. Lançou um olhar aos miseráveis recintos de onde que extraia suas cobaias.

 Muito tempo antes tinha criado um subgrupo de cativos abaixo dessas condições. Ele os tinha tratado como animais para ver como afetava seu tão propagado “espírito humano”. Ao cabo de uma ou duas gerações, tinham perdido todo vestígio de comportamento civilizado, valores morais, noção de família e dignidade.

 - Quando impusemos um sistema de castas aos humanos nos Planetas Sincronizados - disse Erasmo, - você tentou transformá-los em seres mais regulamentados, como máquinas. - Esquadrinhou as sujas e ruidosas massas que se amontoavam nos estábulos. - Ao mesmo tempo em que o sistema de castas os compartimentava em certas categorias, perpetuamos um modelo de comportamento humano que lhes permitisse apreciar as diferencia com outros membros de sua raça. É próprio da natureza humana lutar pelo que não se possui, apoderar-se das recompensas que poderiam ir parar a outra pessoa. Invejar as circunstâncias alheias.

 Enfocou suas fibras ópticas para o mar, que relava ao outro lado e os recintos de escravos, as ondas branco-azuladas que rompiam próximas ao terraço. Elevou o rosto para poder ver as gaivotas que voavam. Tais imagens satisfaziam seu sentido da estética programado, muito mais que o recinto.

 - Seus seres humanos mais privilegiados - continuou Erasmo, - como o filho atual de Agamenon, gozam da posição mais elevada entre os de sua raça. São nossos bichinhos domésticos de confiança, e ocupam um degrau intermediário entre os seres biológicos conscientes e as máquinas pensantes. Deste grupo extraímos candidatos a neocimeks.

 O olho espião se aproximou da polida cabeça do robô com um zumbido.

 - Tudo isto eu já sei - disse Omnius por meio do objeto voador.

 Erasmo prosseguiu como se não tivesse ouvido.

 - A casta inferior a dos humanos de confiança inclui humanos civilizados e educados, criadores e pensadores consumados, como os arquitetos que desenham os intermináveis monumentos dos titãs. Atribuímos-lhes tarefas sofisticadas, como as que levam a cabo os artesãos e ourives de minha vila. Logo vem o pessoal de minha mansão, meus cozinheiros, meus jardineiros.

 O robô olhou para os recintos de escravos, e percebeu que sua monstruosa fealdade lhe impelia a voltar para seus jardins botânicos para passear entre as espécies cultivadas.

 Serena Butler já havia feito maravilhas com as plantas. Tinha intuição para a jardinagem.

 - Na verdade, essa sujeira de meus estábulos serve para pouco mais que procriar novos sujeitos para serem diseccionados em experimentos médicos.

 Em um aspecto, Erasmo era como Serena: necessitava com freqüência podar e escavar a raça humana em seu próprio jardim.

 - Me apresso a acrescentar - disse o robô - que a humanidade em seu conjunto é de supremo valor para nós. Insubstituível.

 - Já ouvi seus raciocínios em outras ocasiões - murmurou Omnius, enquanto o olho espião se elevava, para desfrutar de uma vista mais ampla. - Apesar de que as máquinas poderiam realizar todas as tarefas que você enumerou, aceitei a lealdade de meus súditos humanos, e lhes é concedido alguns privilégios.

 - Seus raciocínios não parecem... - Erasmo vacilou, porque a palavra que lhe tinha vindo à mente significaria um tremendo insulto para um computador. - Lógicos.

 - Todos os humanos - disse Omnius, - com sua estranha inclinação para as crenças religiosas e a fé em coisas incompreensíveis, deveriam rezar para que seus experimentos me dêem a razão sobre a natureza humana, e não a você. Porque se você estiver certo, Erasmo, se produzirão conseqüências inevitáveis e violentas para toda sua raça.

 

A religião, freqüentemente considerada uma força que divide as pessoas, também é capaz de unir o que de outra maneira poderia separar-se.

 

 LIVIA BUTLER,

 jornais privados

 

As restingas de Isana se estendiam em um amplo leque, onde o rio se transformava em uma massa de água e esterco. Ishmael, sem camisa, erguia-se no lodo, apenas capaz de manter o equilíbrio. Cada noite lavava sua palmas doloridas e lhes aplicava emplastros de ervas.

 Os capatazes não mostravam a menor compaixão pelos padecimentos dos escravos. Um deles agarrou a mão de Ishmael e a virou para examinar as chagas, e logo a afastou.

 - Continue trabalhando. Assim se endurecerá.

 Ishmael voltou para trabalho, não sem antes observar em silêncio que as mãos do homem estavam em muito melhor estado que as suas. Assim que terminasse a temporada de plantar moluscos, os proprietários dos escravos lhes dariam outro trabalho. Possivelmente lhes enviariam ao norte para cortar cana de açúcar.

 Alguns zensunni murmuravam que, se fossem transportados a terrenos agrícolas, escapariam de noite para as terras despovoadas. Mas Ishmael não tinha nem idéia de como sobreviver em Poritrin, não conhecia a parte comestível das plantas nem os predadores nativos, ao contrário que em Harmonthep. Qualquer fugitivo se veria privado de ferramentas ou armas, e se o capturassem enfrentaria sem dúvida um violento castigo.

 Alguns escravos ficaram cantando, mas as canções folclóricas variavam de planeta em planeta, e os versos mudavam entre as seitas budislâmicas. Ishmael trabalhou até que todos os seus músculos e os ossos doíam, e seus olhos só viam o reflexo do sol na água. Nas intermináveis viagens de ida e volta às conchas de abastecimento, devia ter plantado um milhão de crias de molusco. Sem dúvida, pedir-lhe-iam que plantasse outro milhão.

 Quando ouviu três apitos seguidos, elevou a vista e viu o supervisor de lábios de rã subido a sua plataforma, seco e cômodo. Ishmael sabia que ainda não era a hora do breve descanso matutino dos escravos.

 O supervisor passeou a vista sobre a equipe com os olhos entreabertos, como se estivesse escolhendo. Apontou para um punhado dos plantadores mais jovens, entre eles Ishmael, e lhes ordenou que se encaminhassem para uma zona de espera situada em terreno seco.

 - Lavem-se. Vocês vão para outro lugar.

 Ishmael sentiu que uma mão fria espremia seu coração. Mesmo odiando o barro fedorento, estes refugiados de Harmonthep eram sua única conexão com seu planeta natal e sua família.

 Alguns “voluntários” gemeram. Dois que não tinham sido selecionados se aferraram a seus companheiros mais afortunados, negando-lhes que se fossem. O supervisor ladrou umas palavras e moveu as mãos com gestos ameaçadores. Um par de dragões armados chegaram para fazer cumprir a ordem. Seu uniforme dourado se manchou de barro quando separaram os escravos.

 Ainda que triste e aterrorizado, Ishmael não ofereceu resistência. Se resistisse, nunca ganharia.

 O supervisor estirou os lábios em um sorriso.

 - Você têm sorte. aconteceu um acidente nos laboratórios do sábio Holtzman, e necessita de novos escravos que se encarreguem dos cálculos. Meninos preparados. Trabalho fácil, comparado com isto.

 Ishmael, cético, lançou um olhar ao grupo de moços.

 Desarraigado de novo, afastado de uma existência espantosa que estava começando a lhe parecer normal, Ishmael caminhou com outros, sem compreender o que esperavam dele. Encontraria alguma forma de sobreviver. Seu avô lhe tinha ensinado que a sobrevivência era a chave do êxito, e que a violência era o último refúgio de um fracassado. Era a tradição zensunni.

 Limpo e esfregado, com o cabelo cortado, Ishmael se remexia inquieto com sua roupa nova. Esperava em uma sala grande com uma dúzia de recrutas chegados de todo Starda.

 Havia dragões apostados nas portas. Suas armaduras de escamas douradas e os trabalhados cascos lhes davam aspecto de aves de rapina.

 Ishmael se colocou ao lado de um menino moreno de sua mesma idade, que tinha a pele castanho claro e a cara enxuta.

 - Me chamo Alüd - disse o menino em voz baixa, embora os guardas lhes tivessem ordenado que guardassem silêncio. Alüd projetava uma energia que pressagiava problemas, ou talvez um futuro líder. Um visionário ou um criminoso.

 - Eu sou Ishmael.

 Passeou um olhar nervoso a seu redor.

 Um dragão se voltou para os sussurros, e ambos os meninos formaram plácidas expressões em seus rostos. O guarda afastou a vista, e Alüd falou de novo.

 - Fomos capturados em Anbus IV, de onde vem você?

 - De Harmonthep.

 Um homem bem vestido entrou na habitação com grande aparato. De pele pálida e cabelo grisalho, comportava-se como um grande senhor. Levava correntes decorativas ao redor do pescoço e um manto branco de mangas folgadas. Seu rosto e seus olhos penetrantes demonstravam pouco interesse pelo grupo de escravos. Examinou seus jovens trabalhadores sem grande satisfação, só resignação.

 - Servirão, se os preparar bem e os vigiar em todo momento.

 Estava ao lado de uma diminuta jovem de traços vulgares que tinha corpo de menina, embora seu rosto parecesse muito maior. O homem do manto branco, preocupado, murmurou algo em seu ouvido e se foi, como se tivesse coisas mais importantes a fazer.

 - Era o sábio Holtzman - disse a jovem. - O grande cientista é agora seu amo. Nosso trabalho contribuirá para a derrota das máquinas pensantes.

 Dedicou-lhes um sorriso de esperança, mas parecia que poucos recrutas estavam interessados nas intenções de seu novo amo. Confusa por sua reação, a mulher continuou.

 - Sou Norma Cenva, e também trabalho com o sábio Holtzman. Ele lhes ensinará a realizar cálculos matemáticos. A guerra contra as máquinas pensantes nos afeta a todos, e desta maneira poderão contribuir.

 Parecia que tinha ensaiado o discurso muitas vezes.

 Alüd franziu o cenho.

 - Sou mais alto que ela!

 Como se lhe tivesse ouvido, Norma se voltou e olhou diretamente para Alüd.

 - Com um só risco de sua pluma, podem terminar um cálculo que talvez obtenha a vitória sobre Omnius. Não esqueçam disso.

 Quando se virou, Alüd disse pelo canto da boca:

 - E se os ajudarmos a ganhar a guerra, nos deixarão em liberdade?

 

 De noite, em suas habitações comunitárias, ninguém incomodava os escravos. Aqui, os cativos budislâmicos mantinham viva sua cultura. Ishmael ficou surpreso ao ver que tinha sido aceito entre membros da seita zenshiíta, uma interpretação diferente do budislam que se separou dos zensunni muitos séculos atrás, antes da grande fuga do Império Antigo.

 Conheceu o musculoso líder, Bel Moulay, um homem que tinha conseguido permissão para que sua gente pudesse levar os tradicionais objetos sobre os uniformize de trabalho.

 A vestimenta tribal era um símbolo de sua identidade, o branco da liberdade e o vermelho do sangue. Os amos de Poritrin não sabiam nada de simbolismos, e era melhor assim.

 Alüd, com os olhos brilhantes, sentou-se ao lado de Ishmael.

 - Escute Bel Moulay. Ele nos dará esperança. Tem um plano.

 Ishmael se agachou. Sua barriga estava cheia de uma comida insípida e estranha, mas nutritiva. Apesar de que não gostasse muito de seu novo amo, o garoto preferia trabalhar aqui de que nas horríveis restingas.

 Bel Moulay ordenou-lhes que rezassem com voz firme, e depois entoou sutras sagrados em um idioma que o avô de Ishmael tinha empregado, uma língua oculta compreendida somente pelos mais devotos. Dessa forma, podiam conversar sem que seus amos entendessem.

 - Nosso povo esperou a vingança - disse Moulay. - Fomos livres, logo nos capturaram. Alguns somos escravos há pouco, outros serviram a homens malvados durante gerações. - Seus olhos eram ardentes, seus dentes muito brancos em contraste com os lábios escuros e a barba negra. - Mas Deus nos deu nossas mentes e nossa fé. Cabe a nós encontrar as armas e a resolução necessária.

 Os murmúrios inquietaram Ishmael. Parecia que Bel Moulay estava pregando a revolta, um levantamento violento contra os amos. Para Ishmael, isso não era o que Budalá tinha pregado.

 Os escravos de Anbus IV, que tinham se sentado juntos, vaiaram ameaças de desforra.

 Moulay falou da desastrosa prova do ressonador de liga que tinha provocado a morte de dezessete escravos inocentes.

 - Temos padecido indignidades sem conta - disse Moulay. Os escravos expressaram com grunhidos seu assentimento. - Fazemos tudo o que nossos amos exigem. Ficam os benefícios do que obtemos, mas os zenshiítas - dirigiu um rápido olhar para Ishmael e aos novos membros do grupo, - assim como nossos irmãos zensunni, nunca obtêm a liberdade. – Inclinou-se para frente, como se escuros pensamentos cruzassem sua mente. - A resposta está em nossas mãos.

 Ishmael recordou que seu avô tinha pregado métodos filosóficos e não violentos de solucionar os problemas. Mesmo assim, o velho Weycop não tinha podido salvar seus aldeões. Os costumes pacifistas zensunni lhes tinham falhado em um momento crítico.

 Bel Moulay elevou um punho calejado, como se fosse a afundá-lo no fogo.

 - Homens que se auto-proclamam “caçadores justiceiros” nos dizem que não têm o menor escrúpulo na hora de obrigar nosso povo a trabalhar. Afirmam que estamos em dívida com a humanidade porque nos negamos a participar de sua louca guerra contra os demônios mecânicos, demônios que eles tinham criado e acreditavam controlar. Mas depois de séculos de opressão, a população de Poritrin está em dívida conosco. E essa dívida tem que ser paga com sangue. - Alüd prorrompeu em vivas, mas Ishmael se sentiu inquieto. Não estava de acordo com esta proposta, mas era incapaz de oferecer uma alternativa. Como somente era um menino, não elevou a voz nem interrompeu a assembléia.

 Como seus companheiros, continuou escutando Bel Moulay...

 

 Os homens sedentos não falam de mulheres, mas sim de água.

 

 Poesia de acampamento zensunni

 

 Muito longe dos planetas da liga, milhares de povoados não documentados salpicavam os Planetas Não Aliados, lugares onde seres esquecidos viviam do que encontravam. Ninguém saberia de que tinha atacado algumas aldeias.

 Por tradição, um bom mercador de carne de Tlulaxa não colhia com freqüência no mesmo planeta, pois preferia surpreender grupos despreparados, sem lhes conceder a chance de se defender. Um caçador de escravos engenhoso encontrava novas cepas de vida, recursos ainda não explorados.

 Tuk Keedair deixou seu transporte em órbita e enviou uma nave de carga, com uma tripulação nova, à superfície, junto com créditos suficientes para contratar alguns nativos ambiciosos.

 Depois, dirigiu-se sozinho ao espaçoporto de Arrakis City para dar uma olhada, antes de planejar um ataque contra alguma comunidade local. Tinha que ser precavido quando investigava novos objetivos, sobretudo neste mundo desolado situado nos limites do espaço.

 Os custos de chegar aqui (combustível, comida, naves e tripulação) eram muito altos, para não falar do tempo investido na viagem e o gasto de conservar os escravos em ataúdes de êxtase. Keedair duvidava que a incursão em Arrakis saísse em conta. Não era sem motivos que todos se esquivassem deste planeta.

 Arrakis City se aferrava como uma crosta à feia pele do planeta. Fazia muito tempo, erigiram-se neste lugar abrigos e moradias pré-fabricadas. A escassa população sobrevivia de emprestar serviços a comerciantes extraviados ou naves de reconhecimento, e de vender fornecimentos a fugitivos da lei. Keedair suspeitava que alguém desesperado o bastante para fugir até aqui devia ter problemas muito sérios.

 Quando se sentou no sujo bar do espaçoporto, seu pendente de ouro triangular brilhou a tênue luz. Sua trança escura pendurava no lado esquerdo de sua cabeça. Seu comprimento testemunhava anos de arrecadar fortuna, que gastava com prodigalidade mas sem extravagâncias.

 Inspecionou aos ásperos nativos, notou seu contraste com um grupo de forasteiros barulhentos refugiados em um canto, homens que deviam reunir um montão de créditos, mas se sentiam decepcionados pelas poucas oportunidades que Arrakis lhes proporcionava de gastar seu dinheiro.

 Keedair apoiou um braço sobre a arranhada barra metálica. O garçom era um homem magro cuja pele era uma massa de rugas, como se houvesse perdido toda a umidade e a gordura corporal, deixando-o ressecado como uma uva passa. Sua cabeça calva, similar à ponta de um torpedo, estava coberta de manchas típicas de uma idade avançada.

 Keedair exibiu seu dinheiro metálico, créditos da liga que eram de curso legal inclusive nos Planetas Não Aliados.

 - Tive um grande dia hoje. Qual é a sua melhor bebida?.

 O garçom lhe dedicou um pequeno sorriso.

 - Tem em mente algo exótico? Acha que Arrakis poderia ocultar algo que aplacasse sua sede, eh?

 Keedair começou a perder a paciência.

 - Tenho que pagar um extra pelo bate-papo, ou posso tomar minha bebida? A mais cara. Qual é?

 O garçom riu.

 - Água senhor. A água é a bebida mais valiosa de Arrakis.

 O garçom disse um preço mais elevado do que Keedair esperava pagar pelo combustível da nave.

 - Por água? Não acredito.

 Passeou a vista a seu redor, para comprovar se o garçom estava brincando, mas teve a impressão de que outros clientes aceitavam suas palavras totalmente. Tinha imaginado que o líquido transparente dos copos era álcool incolor, mas a verdade era que parecia água. Observou um extravagante mercado local, cujas roupas coloridas e avultadas, assim como os grandes adornos, assinalavam como um homem rico. Até tinha pedido cubos de gelo para a água.

 - Ridículo - disse Keedair. - Sei muito bem quando me enganam.

 O garçom sacudiu sua cabeça calva.

 - É difícil encontrar água por aqui, senhor. Posso lhe vender álcool por preço melhor, porque os nativos de Arrakis não querem nada que lhes desidrate mais. E um homem com muito álcool de graduação elevada no corpo pode cometer enganos. No deserto, se não estiver atento a tudo isso custará sua vida.

 Ao final, Keedair aceitou uma substância fermentada chamada “cerveja de especiaria”, potente e picante, que deixava um forte sabor de canela ao escorregar pela garganta. Achou a bebida estimulante e pediu uma segunda.

 Enquanto seguia duvidando sobre a viabilidade de Arrakis para seu negócio, Keedair ainda tinha vontade de celebrar algo. O êxito de sua incursão no Harmonthep, quatro meses antes, lhe tinha retornado créditos suficientes para viver durante um ano. Depois do ataque, Keedair tinha contratado uma equipe nova, pois nunca gostava de conservar empregados durante um grande período de tempo, eles acabavam se sentindo confortáveis e se acomodavam. Um bom mercador de Tlulaxa sabia que essa não era a forma de levar um negócio. Keedair fiscalizava o trabalho, encarregava-se em pessoa dos detalhes e obtinha grandes benefícios, que foram parar em seus bolsos.

 Bebeu a cerveja de novo, e gostou mais que antes.

 - Do que é feita? - Como nenhum dos clientes parecia interessado em sua conversa, olhou para o garçom.

 - A cerveja é feita aqui, ou é de importada?

 - É feita em Arrakis, senhor. - Quando o garçom sorriu, suas rugas se renderam sobre si mesmas, como uma misteriosa escultura origami feita de couro.

 - O povo do deserto nos traz, nômades zensunni.

 A atenção de Keedair se despertou ao ouvir falar da seita budislâmica.

 - Me disseram que alguns bandos habitam no deserto, Como posso localizá-los?

 O garçom deu uma risada.

 - Ninguém quer encontrá-los. São gente suja e violenta. Matam os forasteiros. - Keedair não acreditou na resposta. Teve que formular sua pergunta duas vezes, porque os efeitos da cerveja de especiaria o tinham apanhado de surpresa, e arrastava as palavras.

 - Mas os zensunni... Pensei que eram pacifistas.

 O garçom riu.

 - Pode ser que alguns sejam, mas estes não têm medo de derramar sangue em caso de necessidade, me entende.

 - São numerosos?

 O garçom emitiu um bufo.

 - Nunca vemos mais de uma ou duas dúzias de uma vez. São tão endogâmicos, que não estranharia se todos os bebês fossem mutantes.

 Keedair ficou boquiaberto, e passou a trança para o outro lado. Seus planos começavam a desmoronar. Além dos gastos de ter trazido a equipe até Arrakis, seus homens teriam que explorar o deserto só para desenterrar alguns poucos ratos. Keedair suspirou e tomou um grande gole de cerveja. Não valia a pena. O melhor seria atacar Harmonthep de novo, embora ficasse mal ante outros caçadores de escravos.

 - Poderia haver mais dos que acreditam, é claro - disse o garçom. - Envoltos com essas roupagens do deserto, todos se parecem.

 Enquanto Keedair saboreava a bebida, um formigamento percorreu seu corpo. Não se tratava de euforia, mas sim de uma de bem-estar. Então, uma idéia iluminou em sua mente. Afinal, um homem de negócios, sempre busca novas oportunidades.

 Não se importando de onde procedesse a mercadoria.

 - O que me diz desta cerveja de especiaria? - Agitou sobre o copo quase vazio com uma grossa unha. - Onde os zensunni encontram os ingredientes? Não acredito que no deserto possa crescer nada.

 - A especiaria é uma substância natural do deserto. Encontram-se jazidas nas dunas, que ficam descobertas graças ao vento ou explosões de especiaria. Mas também é o reino dos vermes gigantes, e estalam tormentas que matam qualquer coisa. Se quer saber minha opinião, que os zensunni se ocupem do assunto. Os nômades trazem carregamentos de especiaria a Arrakis City para comercializar.

 Keedair pensou em levar amostras de melange aos planetas da liga. Encontraria mercado na rica Salusa, ou entre os nobres de Poritrin? Certamente, a substância obrava um efeito incomum no corpo... Era relaxante, de uma forma que jamais havia experimentado. Se pudesse vendê-la, possivelmente compensaria uma parte dos gastos desta viagem.

 O garçom moveu a cabeça em direção à porta.

 - Não recebo suficiente cerveja de especiaria para vender-lhe como intermediário, mas um bando de nômades chegou esta manhã. Ficarão dentro de suas tendas para suportar o calor do dia, mas os encontrará no mercado esta noite, no extremo leste do espaçoporto. Venderão o que tiverem. É claro que eles tentarão enganá-lo.

 - A mim ninguém engana - disse Keedair, e mostrou seus dentes afiados em um cruel sorriso. Não obstante, percebeu que arrastava as palavras de uma maneira alarmante ao falar. Teria que deixar passar os efeitos da cerveja antes de se encontrar com os zensunni.

 

 Toldos de tecido marrom e branco ofereciam retalhos de sombra. Os nômades estavam sentados longe do bulício do espaçoporto. Estes zensunni tinham construído lojas e refúgios a base de lonas impermeabilizadas e pacotes de carregamento. Algumas tecidos pareciam feitos de um tipo diferente de polímero, uma espécie estranha de plástico que Keedair nunca havia visto.

 O sol caia depois da barreira de montanhas, ao mesmo tempo em que tingia o céu de tons laranja e vermelho sangue. Quando a temperatura caiu, se elevou o vento, que levantou a areia. Os toldos se agitaram e sacudiram com estrépito, mas os nômades não fizeram conta, como se o ruído fosse música para seus ouvidos.

 Keedair se aproximou sozinho, ainda um pouco enjoado, embora tivesse a cabeça muito limpa depois de ter tomado somente água durante o resto da tarde... a um preço exorbitante. Ao vê-lo, duas mulheres esperançosas entraram em suas lojas e pulverizaram objetos sobre uma mesa. Havia um homem perto delas, com um símbolo geométrico tatuado em seu rosto magro, os olhos escuros e desconfiados.

 Sem dizer uma palavra, Keedair deixou que as mulheres exibissem seus tecidos de cores, junto com rochas de formas estranha, polidas por tormentas de areia, e alguns irrisórios objetos oxidados de uma tecnologia já esquecida, que Keedair não poderia vender nem ao mais crédulo e excêntrico colecionador de antiguidades. Meneou a cabeça com ar áspero a cada vez, até que o homem (uma das mulheres o tinha chamado de naib Dhartha) disse que não tinha nada mais.

 Keedair foi direto ao ponto.

 - Hoje provei cerveja de especiaria. O homem que me vendeu sugeriu que falasse contigo.

 - Cerveja de especiaria - disse Dhartha. - Feita de melange. Sim, pode-se conseguir.

 - Quanta pode entregar, e a que preço?

 O naib estendeu as mãos e sorriu apenas.

 - Tudo está aberto à discussão. O preço depende da quantidade que deseje. O bastante para um mês de uso pessoal?

 - Por que não toda a adega de uma nave? - replicou Keedair, e viu assombro no rosto dos nômades. Dhartha se recuperou rapidamente.

 - Demoraremos um tempo para reuni-la. Um mês, possivelmente dois.

 - Posso esperar... se chegarmos a um acordo. Vim com uma nave vazia. Tenho que levar algo. Lançou um olhar aos objetos e as rochas. - E não quero carregar nada disso. Seria o bobo da liga.

 Apesar do interesse de Tlulaxa por produtos biológicos, Keedair não estava amarrado com o negócio da escravidão. Em caso de necessidade, faria seu próprio caminho e não retornaria jamais ao sistema solar de Thalim. Além disso, muitos tlulaxa eram fanáticos religiosos, e tinha se cansado de dogmas e política. Sempre haveria demanda de bebidas e drogas, e se pudesse introduzir algo novo e exótico, uma droga que os nobres mais ricos não tivessem provado ainda, poderia alcançar uma boa margem de lucros.

 - Mas antes, me diga exatamente o que é a melange - continuou Keedair. - De onde sai?

 Dhartha fez um gesto a uma das mulheres, que se agachou sob o toldo. Levantou-se uma brisa cálida, e o tecido de polímero estalou com mais força que antes. O sol estava se ocultando atrás do horizonte, o que obrigava a entrecerrar os olhos se olhasse naquela direção.

 Isto o impediu de captar matizes na expressão do homem do deserto.

 Depois de alguns momentos, a mulher trouxe duas pequenas taças fumegantes de um líquido espesso e negro que cheirava a canela picante. Serviu primeiro a Keedair, e este baixou a vista, intrigado mas cético.

 - Café misturado com melange pura - explicou Dhartha. - Você gostará.

 Keedair recordou o preço exorbitante da água que tinha adquirido no bar, e decidiu que o nômade estava investindo na conversa. Tomou um gole, com cautela a principio, porém não lhe ocorreu nenhum motivo para que quisessem envenená-lo. Saboreou o café quente na língua e experimentou uma sensação elétrica, um delicioso sabor que lhe recordava a cerveja de especiaria, que seu sistema ainda não havia eliminado. Tinha que ser precavido, ou perderia seu instinto para os negócios.

 - Colhemos melange no Tanzerouft, o deserto onde vivem os vermes diabólicos. É um lugar muito perigoso. Perdemos muitos dos nossos, porém a especiaria é preciosa.

 Keedair tomou outro gole de café e teve que reprimir-se para não aceitar um trato de imediato. As possibilidades estavam aumentando. Enquanto os dois homens mudavam de posição, Keedair pôde ver bem o rosto enxuto de Dhartha. Os olhos do naib não só eram escuros; eram de um azul profundo. Até os brancos estavam tintos de anil.

 Muito peculiar. Perguntou-se se seria um defeito provocado pela endogamia dos zensunni.

 O homem do deserto introduziu a mão em um bolso e extraiu uma pequena caixa, que ao abri-la revelou um pó marrom escamoso e comprimido. Estendeu-a para Keedair, que removeu o conteúdo com a ponta do dedo menor.

 - Melange pura. Muito potente. Nós a utilizamos em nossas comidas e bebidas.

 Keedair levou a ponta do dedo à língua. A melange era forte e estimulante, mas também relaxava. Sentiu-se pleno de energia e sereno ao mesmo tempo. Sua mente parecia mais afiada, não nublada como quando tomava álcool ou drogas em excesso. Conteve-se, para não parecer muito ansioso.

 - Se consumir melange durante um longo período - estava dizendo Dhartha, - ela ajuda a conservar sua saúde e manter-se jovem.

 Keedair não fez comentários. Tinha escutado afirmações similares sobre diversas “fontes da eterna juventude”. Pelo que ele sabia, nenhuma delas se demonstrou eficaz.

 Fechou a tampa da caixinha e a guardou no bolso, embora ela não tivesse sido oferecida como presente.

 Levantou-se.

 - Voltarei amanhã. Conversaremos mais. Tenho que refletir sobre este assunto.

 O naib grunhiu em concordância.

 Keedair caminhou para sua nave, que se encontrava dentro dos limites do espaçoporto.

 Os cálculos preliminares o aturdiam. Seus homens se sentiriam decepcionados por não haver levado a cabo nenhuma incursão, mas Keedair pagaria o mínimo que ditava seu contrato.

 Precisava meditar sobre as possibilidades desta potente especiaria antes de negociar um preço com os nômades. Arrakis estava muito longe das rotas comerciais habituais. A idéia o entusiasmava, mas não estava seguro de poder exportar a substância exótica e conseguir lucros.

 Como era realista, duvidava de que a melange fosse algo mais que mera curiosidade.

 

Os humanos são sobreviventes por antonomásia. Fazem coisas por egoísmo, e depois tentam ocultar seus motivos mediante complicados subterfúgios. Dar de presente coisas é um exemplo emblemático do comportamento secretamente egoísta.

 

 ERASMO,

 nota sobre os recintos de escravos

 

 Pouco antes de meia-noite, Aurelius Venport estava sentado em uma mesa larga de madeira de opala, em uma reverberante câmara afundada nas profundidades da cova que albergava a cidade de Rossak. Tinha mobiliado esta habitação para suas reuniões de negócios com prospectores de drogas, bioquímicos e mercadores de produtos farmacêuticos, mas Zufa Cenva utilizava-a de vez em quando para seus encontros privados.

 Apesar de que a escuridão já tinha caído, a feiticeira se achava na perigosa selva, treinando suas jovens protegidas e preparando-as para ataques suicidas. Venport não sabia muito bem se Zufa, estava ansiosa ou aterrada pela possibilidade de que voltassem a solicitar a ajuda de suas pupilas.

 Confiava em que sua parceira não tivesse idéias de deixá-lo sozinho, embora certamente ficaria encantada em transformar-se em mártir. Zufa pensava conhecê-lo bem, culpava-o por seus fracassos imaginários, mas Venport ainda a amava. Não desejava perdê-la.

 Fazia uma hora que Zufa deveria ter retornado, e ele a estava esperando. Não adiantaria de nada ser impaciente. A altiva feiticeira se atinha a seus próprios horários, e dizia que as prioridades de Venport careciam de toda importância.

 Face à escuridão, a habitação estava iluminada por uma luz cálida e confortável, procedente de uma esfera amarela que flutuava sobre a mesa como um sol individual portátil.

 Norma a tinha enviado desde Poritrin como presente, uma fonte de luz compacta mantida por um novo campo suspensor que ela tinha desenvolvido. Apoiado no mesmo princípio que o painel luminoso, mas muito mais eficaz, o aparelho gerava luz como subproduto resultante do próprio campo suspensor. Norma o chamava globo de luz, e Venport tinha estado estudando suas possibilidades comerciais.

 Venport tomou um longo gole de cerveja de ervas amarga. Fez uma careta, e depois bebeu um pouco mais, para acalmar seus nervos. Zufa deveria chegar de um momento a outro, e desejava vê-la. As feiticeiras tinham erigido na selva um altar em honra a defunta Heoma. Possivelmente estavam todas ali neste momento, dançando a seu redor baixo a luz das estrelas, salmodiando encantamentos como bruxas. Talvez, Apesar da sua lógica e determinação fria e agnóstica, escolhiam momentos de intimidade para adorar a força vital de Gaia, uma mãe Terra que encarnava o poder feminino. Qualquer coisa que pudesse afastá-las do que chamavam os “débeis” homens...

 Exércitos de mosquitos começaram a invadir a sala vindos dos corredores exteriores, atraídos pela luz do globo suspensor. Os insetos noturnos possuíam um voraz apetite de sangue humano, mas somente dos homens. Era uma das brincadeiras de Rossak, como se as feiticeiras tivessem lançado um encantamento sobre os diminutos animais, para manter os homens em casa à noite, enquanto as mulheres levavam a cabo seus ritos secretos na selva.

 Outro quarto de hora se passou, e Zufa não veio. Frustrado, Venport terminou a cerveja e deixou o copo vazio sobre a mesa, com um suspiro de desgosto. Poucas vezes pedia vê-la, mas isto era importante para ele. Acaso não podia lhe conceder alguns momentos de seu precioso tempo?

 Continuava lutando para ganhar sua compreensão e respeito. Durante anos, Venport tinha exportado com êxito narcóticos destinados a fins médicos e produtos farmacêuticos manufaturados nas fábricas de Rossak. No mês passado, seus homens tinham obtido esplêndidos benefícios pela venda de drogas psicodélicas a Yardin. Eram as drogas favoritas dos místicos budislâmicos que governavam o planeta. Os místicos utilizavam os alucinógenos de Rossak em rituais religiosos, com a intenção de alcançar o esclarecimento.

 Venport contemplou uma leitosa pedra soo que havia sobre a mesa. Um contrabandista de Buzzell, um dos Planetas Não Aliados, tinha-lhe vendido a pedra, muito valiosa e estranha. O contrabandista tinha afirmado que algumas destas pedras, de pureza extraordinária, possuíam capacidades hipnóticas. Queria que Zufa a usasse com orgulho, talvez em um pendente. A feiticeira poderia valer-se dela para potenciar seus poderes.

 Introduziu uma tira enrolada de casca de alcalóide em sua boca e a mastigou para relaxar.

 Diminuiu a luz do globo e ajustou seu espectro a um brilho mais alaranjado, o que fez que a pedra soo dançasse com as cores do arco íris. A casca de alcalóide o acalmava... e distanciava. A pedra emitia um resplendor hipnótico, e perdeu o sentido do tempo.

 Quando Zufa entrou na sala, tinha as faces ruborizadas e os olhos brilhantes. Parecia um ser etéreo à luz cálida da habitação. Vestia um vestido comprido e diáfano, com diminutas jóias que brilhavam como um campo de flores cor rubi.

 - Vejo que não tem nada importante para fazer - disse, - já com o cenho franzido.

 Aurelius procurou recuperar o sentido.

 - Nada mais importante que esperar por você. – Pôs-se em pé com todo o orgulho que foi capaz de reunir e agarrou a pedra. - Encontrei isto, e pensei em você. Um presente de Buzzell, onde meus mercadores obtiveram extraordinários benefícios de...

 Ao ver a expressão de desdém em seu rosto, Venport se sentiu compungido e se calou.

 - E o que devo fazer com ela? - Examinou o presente sem tocá-lo. - Quando me interessei por bagatelas?

 - É uma pedra soo muito estranha, e disse que pode... potencializar as capacidades telepáticas. Possivelmente possa utilizá-la com suas pupilas. - Ela estava imóvel como uma estátua, indiferente, e Venport continuou rapidamente. - Os budislâmicos de Yardin se tornam loucos por nossas drogas psicodélicas. Ganhei um montão créditos nestes últimos meses, e pensei que isto lhe agradaria.

 - Estou cansada e vou para a cama - respondeu Zufa. - Minhas feiticeiras já estão demonstrando suas capacidades. Tendo em conta que as máquinas ameaçam todos os planetas da liga, não teremos tempo a perder com pedras soo.

 Venport meneou a cabeça. O que lhe haveria custado aceitar o presente? Por que não podia lhe oferecer nenhuma palavra de carinho? Ferido profundamente, uma dor que nem sequer a casca podia acalmar, gritou:

 - Se renunciarmos a nossa humanidade para combater às máquinas, Zufa, Omnius já terá ganhado!

 A mulher vacilou um momento, mas não se voltou para ele, mas se encaminhou para seus aposentos e o deixou sozinho.

 

Ao sobreviver, perdurará nossa humanidade? Aquilo que faz que a vida resulte doce para os seres vivos, cálida e cheia de beleza, também isso tem que sobreviver. Mas não conquistaremos esta humanidade permanente se negarmos a totalidade de nosso ser, se negarmos emoção, pensamento e carne. Se negarmos a emoção, perdemos todo contato com nosso universo. Se negarmos o pensamento, não podemos interagir com o mundo evidente. E se ousarmos negar a carne, inutilizamos o veículo que transporta a todos nós.

 

 PRIMEIRO VORIAN ATREIDES,

 Anais do exército da Jihad

 

 A Terra. Vorian viajava no interior de uma esquisita carroça branca, debaixo de uma fina chuva de verão, arrastada por quatro esplêndidos corcéis brancos. Erasmo tinha ordenado ao chofer robô que vestisse um uniforme com largas lapelas militares, abundantes cintas douradas e um tricornio extraído de uma antiga imagem histórica.

 A extravagância era ineficaz e desnecessária, além de anacrônica, mas o humano havia ouvido que Erasmo estava acostumado a fazer coisas inexplicáveis. Vor não podia imaginar por que um representante tão importante da supermente queria vê-lo.

 Talvez Erasmo tivesse estudado alguns dos simulacros e jogos de guerra que Vorian tinha praticado com Seurat. Sabia que o robô tinha construído extensos laboratórios para investigar questões sobre a natureza humana, que atormentavam sua mente inquisitiva. Mas o que posso lhe dizer?

 Quando as rodas da carruagem ressonaram sobre os paralelepípedos da entrada da mansão, Vor limpou o vapor da janela. Ainda debaixo de chuva, a impressionante vila grogipcia era mais magnífica que e as cidades redesenhadas pelos robôs. Parecia digna de um príncipe.

 Com jardins ornamentais e edifícios com teto de telha suficientes como para formar uma pequena aldeia, a propriedade abrangia muitos hectares. A casa principal, adornada com um balcão, contava com altas colunas adornadas e gárgulas aladas que dominavam uma praça de recebimento tão grande como a de uma cidade, cheia de fontes e esculturas retorcidas, zonas de encontro pavimentadas e edifícios anexos com paredes de pedra. O que estou fazendo aqui?

 Dois humanos uniformizados se aproximaram, e abaixaram os olhos como se Vor fosse um dignitário mecânico. Um homem abriu a porta, Enquanto outro o ajudava a descer.

 - Erasmo o espera.

 Os cavalos brancos estavam inquietos, talvez porque tinham poucas oportunidades de fazer exercício.

 Um dos criados segurava um guarda-chuva para proteger a cabeça de Vor da chuva. Estremeceu, pois estava vestido com uma túnica sem mangas e calças de verão. Detestava se molhar, e o desconforto lhe recordou os defeitos e debilidades do corpo humano. Se fosse um cimek, teria ajustado sua temperatura interna, e os mentrodos apagariam respostas sensoriais irritantes. Algum dia.

 Uma jovem o recebeu na entrada.

 - Vorian Atreides? Tinha exóticos olhos lavanda e um aura de independência que contrastava com os acovardados criados. - Um leve sorriso desafiante curvou seus lábios. - Assim você é o filho do malvado Agamenon.

 Vor, confuso, ergueu-se em toda sua estatura.

 - Meu pai é um general reverenciado, o primeiro entre os titãs. Suas façanhas militares são legendárias.

 - Ou infames.

 A mulher fitava-o com uma absoluta falta de respeito.

 Vor não sabia como reagir. Todos os humanos de casta inferior dos Planetas Sincronizados sabiam qual era seu lugar, e ela não podia ser uma humana de confiança como ele. Nenhum escravo lhe tinha falado jamais dessa maneira. Depois de suas numerosas missões de atualização, Vor tinha recebido como recompensa os serviços de servas dedicadas ao prazer, mulheres que lhe aqueciam a cama. Nunca lhes tinha perguntado seu nome.

 - Quero saber seu nome porque desejo recordá-lo - disse por fim. Havia algo intrigante nesta mulher de beleza exótica e em seu inesperado desafio.

 Parecia tão orgulhosa de sua linhagem como o próprio Vor.

 - Sou Serena Butler.

 Guiou-lhe por um corredor flanqueado por estátuas e quadros, e logo entraram em um jardim botânico protegido da chuva por um teto de cristal.

 - O que faz aqui? É uma das... pupilas privilegiadas de Erasmo?

 - Somente sou uma serva, mas ao contrário que você, eu não sirvo às máquinas pensantes por vontade própria.

 Vorian considerou seu comentário uma medalha de honra.

 - Sim, estou a seu serviço, e com orgulho. Colaboro em conseguir o melhor possível para nossa defeituosa espécie.

 - Ao colaborar com Omnius, você é um traidor da sua raça. Para os humanos livres, é tão mau como seus amos mecânicos. Nunca havia pensado nisso?

 Vor estava desconcertado. O comandante humano de Giedi Prime também havia lançado acusações similares.

 - Mau, em que sentido? Você não percebe o bem que Omnius nos trouxe? É evidente. Pense nos Planetas Sincronizados. Controla-os até o último detalhe, tudo funciona às mil maravilhas. É concebível que alguém queira acabar com isso?

 Serena olhou-o, como se tentasse decidir se ele falava sério. Por fim, meneou a cabeça.

 - Você é um idiota, um escravo que não vê as correntes. É inútil tentar convencê-lo. - Deu meia volta e se afastou, deixando-o sem fala. - Apesar de toda sua educação, não serve para nada.

 Antes que pudesse pensar em uma resposta adequada, Vor reparou no robô independente. Embelezado com opulentas roupagens, Erasmo estava de pé junto a um lago, e seu rosto ovalado refletia a água. Caiam gotas de chuva por uma seção aberta do teto de cristal, e o empapavam. De fundo, soava um pouco de música clássica.

 Serena se foi anunciar a chegada de Vor. Surpreso por sua rudeza seguiu-a com o olhar. Admirava seu rosto e seu cabelo castanho âmbar, assim como seu porte e sua evidente inteligência.

 Tinha a cintura um pouco avultada, e se perguntou se estaria grávida. Sua arrogância conseguia que fosse ainda mais cativante, o desejo de algo inalcançável.

 Não cabia dúvida de que Serena Butler não aceitava seu papel de serva. Tendo em conta as vistas miseráveis dos escravos amontoados nos estábulos, do que se queixava? Era absurdo.

 - Desbocada, não é verdade? - disse Erasmo, ainda exposto à chuva. O robô formou um sorriso simpático em seu rosto dúctil.

 - Me surpreende que tolere sua atitude irritante - disse Vor, a salvo da chuva.

 - As atitudes podem ser esclarecedoras. - Erasmo continuou estudando a queda de as gotas de chuva no lago refletivo. - Considero-a interessante. De uma sinceridade refrescante... como a sua. - O robô avançou um passo para ele. - Cheguei a um ponto morto em meu estudo do comportamento humano, porque quase todos os meus sujeitos são cativos dóceis criados para a escravidão. Não conheceram outra vida além do serviço e subjugação, e carecem da menor faísca. São ovelhas, assim como você, Vorian Atreides, é um lobo. Como Serena Butler... a sua maneira.

 O visitante fez uma reverência, muito orgulhoso.

 - Me alegrarei de ajudá-lo no que puder, Erasmo.

 - Espero que tenha gostado do passeio de carruagem. Eu treino os corcéis e os tenho preparados para ocasiões importantes. Deu-me uma desculpa para utilizá-los.

 - Foi uma experiência pouco comum - admitiu Vor. - Um modo de transporte muito... arcaico.

 - Venha sob a chuva comigo. - Erasmo indicou-lhe que se aproximasse com uma mão sintética. - É agradável, asseguro-lhe.

 Vor obedeceu, tentando dissimular seu aborrecimento. A chuva empapou sua túnica num instante, molhou seus braços nus. A água escorregava de seu cabelo, caia sobre a fronte e lhe entrava nos olhos.

 - Sim, Erasmo. É... agradável.

 O robô simulou uma gargalhada.

 - Você está mentindo.

 - É o que os humanos fazem melhor - disse Vor de bom humor. Por sorte, o robô afastou-se da chuva.

 - Vamos falar de Serena. É atraente, segundo os padrões humanos de beleza, não é verdade? - Vor não sabia o que dizer, mas Erasmo insistiu. – Vi você com ela. Você gostaria de copular com essa humana selvagem, não é certo? Agora está grávida de um amante hrethgir, mas teremos muito tempo. Não se parece com nenhuma escrava sexual que tenha possuído, não é?

 Vor meditou nas perguntas, intrigado pelo propósito do robô.

 - Bem, é formosa... e sedutora.

 Erasmo emitiu um som artificial similar a um suspiro.

 - Por desgraça, apesar das minhas numerosas melhorias sensitivas, sou incapaz de experimentar a atividade sexual, ao menos não como um homem biológico. Dediquei séculos desenhando melhorias e modificações que pudessem reproduzir as sensações de êxtase que até os humanos mais inferiores são capazes de experimentar. Até o momento, meus progressos foram limitados. Meus intentos com as escravas terminaram como fracassos alarmantes.

 Erasmo indicou a Vor que o seguisse até a estufa. Enquanto passeavam pelos atalhos do jardim, a majestosa máquina identificou diversas plantas por seu nome e origem, como se estivesse dando aula a um menino ou presumindo de seus conhecimentos.

 - Serena sabe muito de plantas. Era algo assim como horticultora em Salusa Secundus.

 Vor devolvia respostas corteses, sem saber no que podia ajudar ao robô. Secou a água dos olhos. As roupas molhadas lhe grudavam ao corpo, uma sensação desagradável.

 Por fim, Erasmo explicou por que havia feito o jovem vir a sua casa.

 - Vorian Atreides, seu pai te submeteu recentemente a um tratamento para prolongar a vida biológica. - O rosto mecânico se transformou em um espelho, para que Vor não pudesse adivinhar o que desejava. – Diga-me, como se sente, agora que acrescentou séculos a seu ciclo normal de vida? É um grande presente de Agamenon, tão significativo como sua doação de esperma original.

 Antes que Vor pudesse pensar na pergunta, Serena entrou na estufa com um jogo de chá prateado. Deixou a bandeja com estrépito sobre uma mesa de pedra polida e serviu um líquido escuro em duas taças. Estendeu uma a Vor e outra ao robô. Erasmo introduziu uma sonda fibrosa no chá, como se o provasse. Sua máscara refletiva mudou para uma expressão de supremo prazer.

 - Excelente, Serena. Um sabor notável e interessante!

 Vor não gostou do sabor. O chá lhe recordava chocolate amargo misturado com suco de fruta em más condições. Serena parecia divertida por sua expressão.

 - É bom? - perguntou Erasmo. - Serena o preparou especialmente para você. Eu pedi que ela escolhesse uma receita apropriada.

 - O sabor é... único.

 O robô riu.

 - Está mentindo outra vez.

 - Não, Erasmo. Estou evitando uma resposta direta.

 Vor viu hostilidade nos olhos de Serena quando olhou para ele, e se perguntou se teria azedado o chá de propósito. A jovem deixou a bandeja sobre a mesa de pedra.

 - Possivelmente deveria assistir a uma escola de humanos de confiança para aprender a ser uma criada melhor.

 Vor olhou para Serena, surpreso de que Erasmo ignorasse sua grosseria.

 - Me diverte presenciar suas tentativas de resistência, Vorian. Um desafio inofensivo. Sabe que não pode escapar. - Durante um momento de silêncio, o robô continuou estudando-o. – Você não respondeu a minha pergunta sobre o prolongamento da vida.

 - A verdade - respondeu Vor, que tinha tido tempo de pensar, - é que não estou muito seguro do que sinto. Meu corpo humano é frágil, e se avaria com facilidade. Embora ainda seja propenso a acidentes ou enfermidades, ao menos não ficarei velho e débil. - Vor pensou em todos os anos que restavam, como créditos para gastar. Viveria o equivalente a várias vidas humanas, mas transformar-se em cimek seria muito mais importante. - Mesmo assim, meus anos suplementares não são mais que um piscar de um olhos, comparados com a vida de uma máquina pensante como você.

 - Sim, o piscar de um olho, um reflexo humano involuntário que sou capaz de compreender física e conceitualmente. Utiliza-o como uma metáfora inexata para indicar um breve período de tempo.

 Ao observar as telas nas paredes da estufa, Vor compreendeu que a supermente devia estar escutando.

 - Você sempre é tão curioso?

 - Só se aprende graças à curiosidade - disse Erasmo. – Pergunto-me porque sou curioso. É lógico, é verdade? Ilumine-me. Eu gostaria de voltar a falar contigo. Você, e Serena, podem me dar uma perspectiva interessante.

 Vor fez uma reverência.

 - Como desejar, Erasmo. Entretanto, devo combinar estas visitas com meu importante trabalho para Omnius. O Dream Voyager não demorará para estar reparado e preparado para partir em outra excursão de atualização.

 - Sim, todos trabalhamos para Omnius. - Erasmo fez uma pausa. A chuva tinha parado, e brechas tinham se aberto entre as nuvens. - Pense mais sobre a mortalidade e a longevidade. Venha falar comigo antes de partir em sua próxima viagem.

 - Pedirei permissão para isso, Erasmo.

 Intrigado pelo fascinante diálogo entre os dois humanos, Erasmo voltou a chamar Serena e ordenou que acompanhasse seu convidado até a carruagem. Mostrou-se francamente hostil contra o filho de Agamenon, quando este parecia interessado nela... física, mentalmente? Como podia discernir a diferença? Outro experimento, talvez?

 Embora tivessem trocado poucas palavras, a jovem poluía a imaginação de Vorian. Nunca tinha conhecido uma mulher como ela, de tal beleza, inteligência e sinceridade. Era óbvio que tinham educado Serena Butler para que valorizasse sua individualidade, do mesmo modo que Erasmo se esforçava por aperfeiçoar sua independência.

 - Quando nascerá o menino? Espetou o jovem quando chegaram à porta exterior da vila. Os cavalos pareciam ansiosos por partir para galope. O chofer robô estava imóvel como uma estátua.

 Os olhos de Serena se abriram de par em par. Esteve a ponto de responder que não era assunto dele, mas pensou melhor. Talvez Vorian Atreides era a oportunidade que havia estado esperando. Possuía informação que poderia ajudá-la a escapar, e gozava da confiança das máquinas. Seria uma estupidez hostilizá-lo logo no princípio. Se travasse amizade com ele, poderia lhe ensinar o que era um ser humano livre.

 Respirou fundo e sorriu, vacilante.

 - Não estou preparada para falar de meu filho com um completo desconhecido. Mas talvez a próxima vez que venha possamos falar. Seria um bom princípio.

 Já o tinha feito.

 Entrou na vila e fechou a porta a suas costas.

 Enquanto observava a carruagem do pórtico da vila, Serena Butler se sentiu insegura e confusa a respeito deste homem enganado que servia com tanto orgulho às máquinas. Não gostava dele, não estava segura de poder confiar nele, mas talvez o fosse de ajuda.

 Correu ao interior para secar-se e trocar de roupa. Grávida já de seis meses, pensou em seu amado Xavier. Poderia Vorian ajudá-la a voltar com ele, o seu filho cresceria no cativeiro, sem jamais conhecer seu pai?

 

De todos os aspectos do comportamento humano, dois foram muito estudados: a guerra e o amor.

 

 PENSADOR EKLO,

 Reflexão sobre coisas perdidas

 

 A trágica perda de Serena Butler tinha desfocado Xavier, que se esforçava por continuar sua vida. Três meses antes, tinha visto os restos do couraçado nos mares de Giedi Prime, e tinha lido as irrefutáveis análise de DNA do sangue encontrado no interior.

 Não pretendia compreender seus sentimentos, e se absorvia em seu trabalho. A princípio, tinha desejado atacar outro feudo dos robôs, porém Serena o haveria repreendido. Pensar em sua desaprovação foi a única coisa que o deteve.

 Serena tinha morrido lutando contra o inimigo desumano. Xavier precisava aferrar-se a algo, alguma forma de estabilidade, antes de continuar em frente. Para honrar sua lembrança, a luta devia continuar até a destruição da última máquina pensante.

 Os pensamentos de Xavier derivaram até Octa, que tanto lhe recordava sua irmã. Por si formosa, era sensível e reservada, muito diferente de Serena. Mesmo assim, de uma maneira sutil, a moça recordava Serena pela forma da boca e o sorriso doce. Era como o eco de uma lembrança agradável. Xavier estava esmigalhado entre o desejo de olhá-la sem cessar e evitá-la por completo.

 Estava a seu lado quando necessitava de consolo, deixava-lhe sozinho se o sentia arrasado, alegrava-o quando assim o desejava. Octa estava enchendo um vazio em sua vida, silenciosa e mansamente. Embora sua relação fosse tranqüila e plácida, lhe demonstrava um amor atento. Se Serena tinha sido um furacão de emoções, sua irmã era firme e previsível.

 Um dia, impulsionado mais pela dor e o desejo que pelo sentido comum, Xavier pediu a Octa que fosse sua esposa. Ela tinha olhado para ele com olhos esbugalhados, estupefata.

 - Tenho medo de me mover, Xavier, de emitir um som, porque devo estar sonhando.

 Ele vestia seu uniforme da Armada, limpo e engomado, com a nova insígnia de segundo. Xavier se erguia muito rígido, com as mãos enlaçadas, como se falasse a um oficial superior, em vez de pedir a Octa que fosse a companheira de sua vida. Sempre havia sabido que a irmã de Serena estava apaixonada por ele como uma colegial, e agora confiava que seus sentimentos se transformariam em verdadeiro amor.

 - Ao optar por me casar contigo, querida Octa, não me ocorre uma maneira mais valente de avançar para o futuro. É a melhor maneira de honrar a memória de Serena.

 As palavras soaram como um discurso oficial, mas Octa avermelhou como se fossem um encantamento mágico. Consciente de que não era o motivo ideal para casar-se com ela, Xavier tentou acalmar suas inquietações. Tinha tomado uma decisão, e esperava que pudessem curar-se mutuamente as suas feridas.

 Tanto Manion como Livia Butler aceitaram e encorajaram a mudança de afetos de Xavier. Inclusive apressaram as núpcias. Acreditavam que a união com Octa beneficiaria a todos.

 No dia das bodas, Xavier procurou a paz interior, fez o possível por isolar a parte de seu coração que sempre pertenceria a Serena. Ainda desejava o toque de sua risada, sua linguagem descarada, o tato elétrico de sua pele. Passou revista a suas lembranças favoritas, e depois, entre lágrimas, desprezou-as.

 A partir daquele momento, a doce Octa seria sua esposa. Não faria mal à moça, já frágil por si, com ataques de nostalgia ou comparando-a com sua irmã. Seria injusto com ela.

 Certo número de representantes da liga se reuniu na propriedade dos Butler, onde sete meses antes Xavier e Serena tinham participado da caçada. Perto, no pátio, tinham celebrado a notícia dos esponsais iminentes com música e baile, para logo receber a terrível noticia da queda de Giedi Prime.

 Por insistência de Xavier, as bodas tiveram lugar em um novo pavilhão com vistas para os vinhedos e olivais. O material era tão luminoso e trabalhado que custava mais que uma casa modesta.

 Na fachada, três bandeiras ondeavam ao vento, simbolizando as casas Butler e Harkonnen, além da de Tantor, a família adotiva de Xavier. No vale, os edifícios brancos de Zimia brilhavam à luz do sol, com amplas avenidas e enormes complexos administrativos, remoçados durante os quatorze meses transcorridos do ataque cimek.

 A cerimônia foi breve e triste, face à falsa alegria dos convidados e o insistente júbilo de Manion Butler. Novas lembranças substituiriam as antigos. O vice-rei, sorridente como não se via fazia meses, passeava-se ufano de convidado em convidado, provava os diversos ponches e degustava as variedades de queijos e vinhos.

 Os silenciosos noivos esperavam junto a um pequeno altar erigido diante do pavilhão, de mãos dadas. Octa, com um vestido de noiva tradicional salusiano azul claro, tinha um aspecto etéreo, adorável e frágil ao lado de Xavier. Tinha o cabelo loiro avermelhado preso com alfinetes.

 Alguns diziam que este matrimônio precipitado com a irmã de Serena era uma reação de Xavier a sua dor, mas ele sabia que estava fazendo o que a honra o ditava. Recordou-se mil vezes que Serena teria lhe dado sua aprovação. Octa e ele poriam fim, juntos, a tanta dor e tristeza.

 A abadessa Livia Butler estava dentro do pavilhão. Fios dourados ressaltavam seu cabelo castanho âmbar. Tinha vindo da Cidade da Introspecção para celebrar a cerimônia. Segura e orgulhosa, como se tivesse purgado toda dúvida e pena de sua mente, Livia olhou para os noivos, e depois sorriu a seu marido. Manion Butler quase não cabia em seu smoking vermelho e dourado. Pele fofa sobressaía do pescoço e dos extremos das mangas.

 Um grupo de músicos começou a pulsar seus balisets. Um moço com voz de tenor cantou uma lenta balada. Ao lado de Xavier, Octa parecia refugiada em seu mundo onírico particular, sem saber muito bem como reagir às circunstâncias. Apertou a mão de Xavier, e ele a levou aos lábios e a beijou.

 Da morte de seu irmão gêmeo Fredo, Octa tinha desenvolvido a capacidade de escapar dos problemas, de não curvar-se com grandes preocupações. Talvez isso lhe permitisse ser feliz, e também a Xavier.

 O vice-rei Butler, em cujos olhos expressivos brilhavam lágrimas, avançou para rodear as mãos do casal. Ao fim de um longo momento, voltou-se com solenidade para sua esposa e assentiu. A abadessa Livia iniciou a cerimônia.

 - Estamos aqui para cantar uma canção de amor, uma canção que uniu homens e mulheres desde os primeiros dias da civilização.

 Quando Octa sorriu para Xavier, este quase imaginou que era Serena, mas afastou a inquietante imagem. Octa e ele se queriam de uma maneira diferente. Seu vínculo se fortaleceria cada vez que a rodeasse em seus braços. Xavier só tinha que aceitar a ternura que ela oferecia de bom grado.

 Livia pronunciou as palavras tradicionais, cujas raízes remontavam aos textos pancristãos e budislâmicos da antigüidade. As melodiosas frases eram formosas, e a mente de Xavier seguia expandindo-se, pensando no futuro e no passado. As palavras transmitiam uma serenidade infinita, enquanto a abadessa Livia os fazia pronunciar seus votos.

 Logo, todo o necessário estava dito. Enquanto compartilhava o ritual do amor e deslizava um anel no dedo de Octa, Xavier Harkonnen prometeu-lhe eterna devoção. Nem sequer as máquinas pensantes poderiam destruir sua relação.

 

Falar se apóia na presunção de que pode chegar a algum lugar se continuar colocando uma palavra atrás de outra.

 

 IBLIS GINJO,

 nota à margem de um caderno roubado

 

Ajax entrou na praça do Fórum com sua aterradora forma móvel, inspecionou cada fase das obra em busca de defeitos. Com seu desdobramento de fibras ópticas, o titã examinou o colosso que reproduzia sua antiga forma humana. Ajax estava frustrado pelo fato de que Iblis Ginjo tivesse fiscalizado até tal ponto a execução da obra, pois não podia encontrar nenhuma desculpa para impor castigos divertidos...

 Iblis, por sua parte, também procurava uma oportunidade. Sua imaginação retornava uma e outra vez às notáveis coisas que tinha aprendido do pensador Eklo, sobretudo os detalhes do glorioso fracasso das Rebeliões Hrethgir. Ajax personificava a brutalidade e a dor daquelas arcaicas batalhas.

 Poderia o pensador ajudar Iblis a propagar a chama da revolução? Aprenderiam dos enganos do passado. Teria existido um rebelde com a mesma patente de Iblis? Como o subalterno Aquim podia ajudá-lo?

 Apesar das suas sutis investigações, sua habilidade para manipular conversas e conseguir que outros divulgassem sem querer seus segredos, Iblis ainda não tinha encontrado provas de que existissem outros grupos de resistentes. Talvez sua liderança estivesse dispersa, desorganizada, debilitada. Quem lhe tinha enviado as mensagens secretas, cinco nos últimos três meses?

 A falta de provas frustrava Iblis, porque queria acelerar o levantamento, agora que tinha tomado a decisão. Por outra parte se os dissidentes pudessem ser localizados com excessiva facilidade, não teriam nenhuma chance contra as organizadas máquinas pensantes.

 Depois de exigir o máximo de seus escravos para que terminassem as obras a tempo, Iblis pediu permissão para outra peregrinação à torre de pedra de Eklo. Só o pensador proporcionaria as respostas que necessitava. Quando falou com Dante, o cimek administrativo, exibindo documentos que demonstravam sua produtividade e eficácia, o titã burocrata lhe deu permissão para sair da cidade. Entretanto, Dante deixou claro que não entendia por que um simples capataz estava tão interessado em temas filosóficos improdutivos. Pensava que não era próprio dos humanos de confiança.

 - Não lhe trará o menor benefício.

 - Estou seguro de que está certo, lorde Dante... mas me diverte.

 Iblis partiu antes da aurora e esporeou seu burrhorse em direção às muralhas do monastério. Aquim o esperava na escada circular que conduzia à torre, com aspecto desarrumado uma vez mais e um pouco aturdido pela semuta. Desde a primeira vez que Iblis havia mergulhado a mão no eletrolíquido e tocado os pensamentos do pensador, não conseguia entender por que Aquim queria embotar suas percepções. Talvez os complicados pensamentos de Eklo eram tão imensos e entristecedores que o subordinado precisava moderar o fluxo de revelações confusas.

 - Vejo que me olha com desaprovação - disse Aquim com os olhos entreabertos.

 - Oh, não - disse Iblis, e acrescentou, porque sabia que a mentira era muito evidente: - Só estava me dizendo que você gosta muito da semuta.

 O homem sorriu e falou, arrastando um pouco as palavras.

 - Um forasteiro possivelmente acredita que pus travas a meus sentidos, mas a semuta me permite esquecer meu passado destrutivo, antes que recebesse a inspiração de me unir ao pensador Eklo. Também permite que me concentre no mais importante, fazendo ignorando as distrações sensuais da carne.

 - Não posso imaginá-lo como um homem destrutivo.

 - Pois eu era. Meu pai lutou contra a escravatura e morreu no intento. Depois, procurei me vingar das máquinas, e o obtive com bastante êxito. Estava à frente de um pequeno grupo de homens e... destruímos alguns robôs. Lamento dizer que também matamos certo número de escravos de confiança que se interpuseram em nosso caminho, homens como você. Mais tarde, Eklo se encarregou de me facilitar o resgate e a reabilitação. Nunca explicou por que me elegeu, ou como levou a cabo os trâmites. Há muitas coisas que o pensador não revela a ninguém, nem sequer a mim.

 O monge deu meia volta com brutalidade e subiu com passo inseguro a escada, guiando Iblis até a câmara onde o pensador vivia em um estado de contemplação eterna.

 - Eklo meditou longa e intensamente sobre sua situação - disse Aquim. - Faz muito tempo presenciou as mudanças ocorridas na humanidade, depois que os titãs esmagaram o Império Antigo, mas não fez nada. Eklo pensou que a provocação e a adversidade melhorariam a raça humana mediante a potenciação de sua mente, obrigá-los-ia a abandonar sua existência de sonâmbulos. - O monge secou uma mancha do canto da boca. - Ao separar a mente do corpo, os titãs cimek poderiam ter acessado o esclarecimento, como os pensadores. Essa era a esperança de Eklo quando ajudou a Juno. Mas os titãs nunca superaram seus defeitos animais. Esta debilidade permitiu a Omnius conquistá-los, e com eles à humanidade. - Aquim avançou para o contêiner cerebral que descansava sobre o parapeito de uma janela. - Eklo acredita que talvez você possa instigar uma mudança.

 O coração de Iblis saltou em seu peito.

 - Nada é impossível.

 Mas sabia que não podia lutar sozinho contra as máquinas, teria que encontrar outros que lhe ajudassem. Muitos outros.

 O contêiner de plexiplaz brilhava em frente a janela transparente, banhado pelo sol dourado da manhã. Ao longe, divisou a interminável linha do céu de megalitos e monumentos desenhados pelos cimeks e construídos pelos humanos com suor e sangue. Realmente quero vê-los transformados em pó?

 O supervisor vacilou quando pensou nas conseqüências, e recordou os milhares de milhões de vítimas das Rebeliões Hrethgir, em Walgis e outros planetas. Então, sentiu uma intrusão em pensamentos.

 Aquim tirou a tampa protetora do contêiner e descobriu o líquido nutritivo que alimentava a mente anciã.

 - Venha, Eklo deseja estabelecer contato direto contigo.

 A solução nutritiva era como líquido amniótico, carregado de uma energia mental incomensurável. Iblis afundou os dedos no eletrolíquido pouco a pouco, reprimindo sua ansiedade por saber e aprender, tocou a superfície escorregadia do cérebro de Eklo e liberou todos os pensamentos que o pensador desejava transmitir-lhe.

 Aquim se afastou para um lado com uma expressão estranha no rosto, em parte complacência beatífica, em parte inveja.

 - A neutralidade é um ato de equilíbrio muito delicado - disse Eklo na mente de Iblis, mediante o contato neuroelétrico facilitado pelo circuito orgânico. - Há muito tempo, respondi muitas perguntas de Juno a respeito de como derrocar o Império Antigo. Minhas respostas e conselhos objetivos permitiram aos titãs traçar planos definitivos, e o futuro da raça humana mudou para sempre. Durante muitos séculos refleti sobre o que havia feito. - Parecia que o cérebro se apertava contra as pontas dos dedos de Iblis. - É essencial que os pensadores observem uma escrupulosa neutralidade. Temos que ser objetivos.

 - Nesse caso - perguntou Iblis, perplexo, - por que está falando comigo? Por que mencionou a possibilidade de que as máquinas podem ser derrotadas?

 - Com o fim de restabelecer o equilíbrio da neutralidade. Em uma ocasião, ajudei sem perceber aos titãs, de maneira que agora devo responder a suas perguntas com a mesma objetividade. Em última análise, manterei o equilíbrio.

 Iblis engoliu em seco.

 - Então, já chegou a uma conclusão?

 A mente de Iblis dava voltas em busca de perguntas úteis sobre debilidades e pontos vulneráveis das máquinas.

 - Não posso proporcionar detalhes militares ou políticos concretos - disse Eklo, - mas se verbalizar suas perguntas com inteligência, como fez Juno, obterá o que necessita. A arte da inteligência é uma lição primitiva da vida. Tem que estar mais preparado que as máquinas, Iblis Ginjo.

 Eklo guiou Iblis durante mais de uma hora.

 - Eu meditei sobre este problema durante séculos, muito antes de que você viesse para me ver. Se você não triunfar, continuarei refletindo.

 - Mas não posso fracassar. Tenho que triunfar.

 - É necessário algo mais que desejo de sua parte. Tem que se conectar com os sentimentos mais profundos das massas. - Eklo guardou silêncio por vários segundos. Iblis se esforçou por compreender.

 - Amor, ódio, medo? Refere-se a isso?

 - São componentes, sim.

 - Componentes?

 - Da religião. As máquinas são muito poderosas, e você precisará de algo mais que um levantamento político ou social para derrotá-las. As pessoas tem que aglutinar-se ao redor de uma idéia poderosa que penetre na essência de sua existência, no que significa ser humano. Tem que ser algo mais que um humano de confiança: um líder visionário. Os escravos precisam elevar-se em uma grande Guerra Santa contra as máquinas, um Jihad que seja impossível de parar e que derrube seus amos.

 - Uma guerra Santa? Um Jihad? Mas como posso fazer isso?

 - Somente digo o que intuo, Iblis Ginjo, o que pensei e imagino. Você tem que descobrir as outras respostas. Mas lembre-se: de todas as guerras humanas da história, a Jihad é a mais apaixonada, conquista planetas e civilizações, arrasa tudo em seu caminho.

 - As pessoas que me enviam as mensagens... como se encaixam em tudo isto?

 - Não sei nada deles - disse Eklo, - e não os vejo em minhas visões. Talvez você foi eleito especialmente, ou também poderia ser uma argúcia ou uma armadilha das máquinas. - O pensador guardou silêncio um momento. -Agora tenho que te pedir que parta, porque minha mente está fatigada e preciso descansar.

 Quando Iblis partiu da torre, experimentou uma estranha mescla de júbilo e confusão. Precisava organizar a informação em um amplo plano. Embora não fosse um homem santo nem um militar, sabia manipular grupos de pessoas, canalizar suas lealdades para obter seus propósitos. Suas equipes fariam qualquer coisa por ele. Seu talento para a liderança constituiria sua arma mais importante. Mas não podia conformar-se com um grupo reduzido de fiéis. Para triunfar, necessitava de algo mais que umas poucas centenas de pessoas.

 E tinha que ser muito precavido, para o caso das máquinas pensantes estarem preparando uma armadilha.

 

 Como tinha acesso aos olhos espiões e as equipes de vigilância de Omnius, Erasmo controlava as atividades de seus sujeitos experimentais. Muitos humanos de confiança leais tinham ignorado as insinuações que lhes tinha enviado. Outros se haviam assustado muito para reagir. Mas alguns tinham demonstrado uma divertida capacidade de iniciativa.

 Sim. Erasmo acreditava que Iblis Ginjo era o candidato perfeito para demonstrar que ele tinha razão e ganhar a aposta de Omnius.

 

“Sistemático” é uma palavra perigosa, um conceito perigoso. Os sistemas são obra de seus criadores humanos. Os sistemas assumem o comando.

 

 TIO HOLTZMAN,

 discurso de aceitação da Medalha da Glória de Poritrin

 

Sentado na abarrotada sala dos calculadores, Ishmael examinava os móveis do sábio Holtzman, percebia o aroma dos produtos utilizados para lhes dar brilho, dos ramos de flores, das velas perfumadas. Era um lugar limpo, confortável e acolhedor... muito mais agradável que os barracões dos escravos amontoados no delta do rio lamacento.

 O menino deveria sentir-se afortunado.

 Mas este lugar não era Harmonthep. Sentia falta de seu barquinho, navegar pelos riachos entre canas altas. Tinha saudades em especial das noites, quando os zensunni se reuniam na cabana central para contar contos, recitar poesia ou escutar seu avô ler os consoladores sutras.

 - Odeio este lugar - disse Alüd a seu lado, em voz bastante alta para que Tio Holtzman lhe dirigisse um olhar de recriminação.

 - Possivelmente preferiria voltar para as restingas ou aos campos de lavoura, não é?

 Alüd franziu o cenho, mas sustentou o olhar do cientista.

 - Também odiava esses lugares - murmurou, mas não como desculpa.

 O trabalho parou. Todos os olhos se cravaram nele.

 Holtzman sacudiu a cabeça, incrédulo.

 - Não entendo por que se queixam de tudo. Eu os alimento e os visto, dou-lhes tarefas simples que servem à causa da humanidade, e ainda desejam voltar para suas miseráveis aldeias para viver na enfermidade e na sujeira. - O inventor parecia muito furioso. - Não percebem que as máquinas pensantes tentam matar todos os seres vivos? Pensem quantos humanos exterminaram em Giedi Prime, e nada pode detê-las. Para Omnius é indiferente sua religião ou sua estúpida política anti-civilização. Se descobrir suas cabanas, ele as destruirá e queimará.

 O mesmo fizeram os caçadores de escravos de Tlulaxa com meu povo, Ishmael pensou. Viu que os olhos escuros de Alüd cintilavam e compreendeu que seu amigo estava pensando o mesmo.

 Holtzman meneou a cabeça.

 - Os fanáticos não têm nenhum sentido da responsabilidade. Por sorte, meu trabalho é impor-lhes isso pela força. - Voltou a sua tabuleta de escrever e assinalou os símbolos.

 - Isto são segmentos de equações. Necessito que resolvam. Cálculos simples. Tentem seguir os passos que lhes ensinei. - Entreabriu os olhos. - Cada resposta correta equivalerá a uma ração diária completa. Se cometerem enganos, passarão fome.

 Ishmael voltou para seus papéis e aparelhos de cálculo, e se esforçou por resolver as equações.

 Em Harmonthep, todos os meninos do povo tinham recebido educação básica de matemática, ciência e engenharia. Os anciões pensavam que esses conhecimentos eram importantes para eles, quando sua civilização florescesse de novo e os crentes construíssem grandes cidades como as nomeadas nos ensinos zensunni. O avô de Ishmael, como muitos anciões do povo, também dedicava parte de seu tempo a instruir os jovens nos sutras, em adivinhações lógicas e filosóficas que só podiam ser resolvidas com os princípios do budislã.

 No planeta de Alüd, Anbus IV, as luas, que orbitavam muito perto, mudavam as estações de maneira radical, e faziam que o planeta oscilasse. Por isso, haviam ensinado ao menino ramos diferentes de matemática e astronomia, porque o calendário, sempre variável, afetava às marés que rugiam entre gargantas de rocha vermelha, onde haviam sido eretas as cidades zenshiítas. Os trabalhadores encarregados de controlar as marés necessitavam de cálculos sofisticados para compreender as variações. Alüd tinha aprendido as técnicas com o fim de ajudar seu povo. Aqui, não obstante, era obrigado a ajudar a seus amos que o tinham escravizado, e detestava a idéia.

 O primeiro trabalho de Alüd em Poritrin tinha sido colher cana de açúcar. Durante semanas tinha cortado canas altas, cujo doce suco se convertia em açúcar ou se destilava para produzir rum de Poritrin. O resíduo fibroso da cana se utilizava para fabricar roupa. Tinham entregado-lhe uma foice afiada, para cortar caules que derramavam um líquido pegajoso. Os caules eram recolhidos depois das monções, quando estavam carregados de suco e pesavam mais.

 Para finais da temporada, seu amo lhes tinha entregue aos mercadores de escravos de Starda, depois de lhes acusar de provocar um incêndio suspeito nos silos de cana e destruir metade da colheita. Alüd tinha contado a Ishmael com um alegre sorriso, mas nunca havia confessado sua participação em nenhuma sabotagem.

 Ishmael, inclinado sobre seus cálculos, comprovava-os uma e outra vez mediante grades deslizantes e contadores móveis do aparelho de cálculo. Seu estômago já estava grunhindo, pois Holtzman, irritado pelos numerosos equívocos do dia anterior, tinha jurado que não daria de comer aos calculadores até que demonstrassem sua idoneidade para o trabalho. Quase todos os escravos tinham terminado o trabalho como era devido.

 Passados alguns dias, depois que os novos calculadores tivessem realizado à perfeição seus exercícios, Holtzman lhes deu trabalho de verdade. Ao princípio, o inventor lhes deixou acreditar que era uma prova mais. Entretanto, Ishmael deduziu por sua expressão e nervosismo que estava muito interessado naqueles resultados.

 Alüd trabalhou com diligência, mas Ishmael notou por sua expressão que tramava algo.

 Ishmael não estava seguro de querer saber o que era.

 Depois de trabalhar em seus cálculos durante vários dias mais, Alüd se aproximou por fim de Ishmael.

 - É o momento de efetuar poucas mudanças - disse sorridente. - Muito pequenas para que ninguém perceba.

 - Não podemos fazer isso - protestou Ishmael. – Eles descobrirão.

 O outro menino franziu o cenho, impaciente.

 - Holtzman já verificou nosso trabalho, e não voltará a fazê-lo. Agora que confia em nós, pode concentrar-se em algum outro objetivo. É nossa única oportunidade de nos vingar. Pense em tudo o que sofremos.

 Ishmael não pôde contradizê-lo, e depois de ter ouvido Bel Moulay falar de sangrentas desforras, parecia-lhe uma forma melhor de expressar sua insatisfação.

 - Olhe. - Alüd assinalou algumas equações, e com seu punção fez uma marca diminuta, mudando um sinal de menos por um de mais, e logo deslocou a vírgula dos decimais para uma parte diferente da equação.

 - Erros muito simplos, facilmente desculpáveis, mas que produzirão resultados muito diferentes.

 Ishmael não estava muito tranqüilo.

 - Entendo que prejudicará as invenções de Holtzman, mas não vejo no que vai nos ajudar. Preocupa-me mais a maneira de voltar para casa.

 Alüd olhou para ele.

 - Ishmael, conhece os sutras tão bem como eu, talvez melhor. esqueceu o que diz “Quando ajuda a seu inimigo, prejudica aos crentes”?

 Ishmael tinha ouvido seu avô pronunciar a frase, mas nunca tinha significado grande coisa para ele.

 - De acordo. Mas nada que possa parecer deliberado.

 - Se entendo algo deste trabalho - disse Alüd, - até menor engano causará tremendos danos.

 

Psicologia: a ciência de inventar palavras para coisas que não existem.

 

 ERASMO,

 Reflita sobre os seres biológicos sensíveis

 

 No ensolarado jardim botânico da grandiosa villa do robô, Serena Butler recolhia flores e folhas mortas, cuidava das plantas em seus leitos e suportes de vasos. Serena se ocupava de suas tarefas cotidianas como qualquer outra escrava, mas Erasmo a vigiava sempre como se fosse um animal doméstico. Era seu amo e carcereiro.

 Serena vestia um macacão negro, e prendia o cabelo âmbar em um rabo-de-cavalo. O trabalho lhe permitia pensar em Xavier, nas promessas que tinham trocado, quando fizeram amor depois do ataque do javali, e na noite anterior a sua fuga para Giedi Prime.

 A cada manhã, Serena ia cuidar das flores do robô, contente de poder pensar, sem que ninguém a incomodasse, sobre as possibilidades de fugir da Terra. Dia após dia, procurava uma via de fuga (os obstáculos pareciam insuperáveis), ou um meio de causar danos significativos as máquinas pensantes, apesar do fato de que a sabotagem lhe custaria a vida, e também a vida de seu filho. Podia fazer isso com o Xavier?

 Era incapaz de imaginar a dor que padeceria. Encontraria uma forma de voltar para seu lado. Devia isso a ele, a ela e a seu bebê. Tinha alimentado a esperança de que Xavier seguraria sua mão quando desse a luz. A estas alturas já seria seu marido, suas vidas entrelaçadas em uma união mais forte que a soma de suas individualidades, um bastião contra as máquinas pensantes. Ele nem sequer sabia que ainda estava viva.

 Acariciou seu estômago curvo. Serena sentia crescer ao menino em seu interior e temia o pior. Dois meses mais, e o bebê nasceria. Quais eram as intenções de Erasmo a respeito do menino? Tinha visto as portas fechadas com chave dos detestáveis laboratórios, tinha contemplado com horror e asco os sujos recintos de escravos.

 E ainda assim, o robô a mantinha ocupada com as flores.

 Erasmo estava acostumado a ficar imóvel a seu lado enquanto trabalhava, com seu rosto oval impenetrável enquanto discutiam.

 - A compreensão começa pelo princípio havia dito. Devo construir alguns alicerces antes de poder compreender algo.

 - Mas como utilizará esse conhecimento? - Serena arrancou mais erva. - Pensará em formas mais extravagantes de infligir aflição e dor?

 O robô fez uma pausa, seu rosto convertido em um espelho que refletia uma imagem distorcida de Serena.

 - Esse não é... meu objetivo.

 - Então, por que mantêm os escravos encerrados em condições tão terríveis? Se não pretender causar aflição, por que não lhes dá um lugar limpo onde viver? Por que não lhes proporciona melhor comida, educação e cuidados?

 - Não é necessário.

 - Para você possivelmente não - disse, surpreendida por sua audácia, - mas seriam mais felizes e trabalhariam melhor.

 Serena era testemunha de que Erasmo vivia rodeado de luxos (uma afetação, já que nenhum robô necessitava de tais coisas), mas os escravos da mansão, sobretudo os que se amontoavam nos recintos comunais, viviam na imundície e no medo. Continuasse cativa ou não, talvez pudesse melhorar suas condições. Ao menos, consideraria isso uma vitória sobre as máquinas.

 - Seria necessário uma máquina pensante verdadeiramente... sofisticada – continuou - para compreender que a melhora da qualidade de vida dos escravos aumentaria sua produtividade, beneficiando seu amo. Os escravos limpariam e cuidariam de suas moradias se contassem com um mínimo de recursos.

 - Pensarei nisso. Entregue-me uma lista detalhada.

 Depois de lhe dar suas sugestões, tinham transcorrido dois dias sem que Serena visse o robô. Sentinelas mecânicos se encarregavam dos trabalhadores da vila, com Erasmo desaparecido em seus laboratórios.

 As paredes à prova de som lhe impediam de ouvir qualquer ruído, embora os aromas nauseabundos e o desaparecimento de algumas pessoas a deixaram intrigada.

 - Você não gostaria de saber o que acontece aí dentro - disse por fim outra escrava. – Considere-se afortunada se não lhe pedirem que vá limpar depois.

 Serena trabalhava a terra margosa enquanto escutava a música clássica que Erasmo sempre punha. Doía-lhe as costas e tinha as articulações inchadas por causa de seu avançado estado de gestação, mas não retrocedia em seus esforços.

 Erasmo se aproximou com tal sigilo que ela não reparou nele até que elevou a vista e viu seu rosto refletivo embutido em um colar de flores. levantou-se imediatamente para dissimular o susto e secou as mãos no avental.

 - Aprende mais me espiando?

 - Posso espiar sempre que quiser. Aprendo muito das perguntas que faço. - A capa de polímero metálico transformou seu rosto em uma expressão petrificada de regozijo. - Bem, eu gostaria que escolhesse a flor que considere mais formosa. Sinto curiosidade por sua resposta.

 Erasmo já a tinha posto a prova em outras ocasiões. Parecia incapaz de compreender as decisões subjetivas, em seu desejo de quantificar questões de opinião e gosto pessoal.

 - Cada planta é formosa a sua maneira - respondeu a jovem.

 - Apesar disso, escolha uma. Depois, me explique por que. - Serena passeou pelos atalhos de terra, olhando de um lado a outro. Erasmo a seguiu, gravando cada momento de vacilação. - Há características visíveis, como cor, forma e delicadeza o robô, e variáveis mais esotéricas, como o perfume.

 - Não esqueça o componente emocional. - A voz de Serena se tingiu de nostalgia. - Algumas destas plantas me recordam meu lar em Salusa Secundus. Certas flores poderiam ter um valor maior para mim, embora não necessariamente para ninguém mais. Recordo uma ocasião em que o homem ao que amo deu de presente um ramo. Mas você não compreenderia tais associações.

 - Não me venha com desculpas. Escolh.

 Serena assinalou uma imensa flor elefante com franjas de um laranja e vermelho brilhantes, realçadas por um estigma em forma de corno no centro.

 - Neste momento, esta é a mais formosa.

 - Por que?

 - Minha mãe as cultivava em casa. Quando menina, nunca pensei que fossem muito bonitas, mas agora me recordam dias mais felizes... antes de conhecer a você.

 Arrependeu-se imediatamente de sua sinceridade, porque revelava muito sobre seus pensamentos íntimos.

 - Muito bem, muito bem.

 O robô não fez caso do insulto e contemplou a flor elefante, como se analisasse todos os seus aspectos com suas capacidades sensoras. Como um perito em vinhos, tentou descrever os méritos de seu perfume, mas a Serena suas análises soaram clínicas, sem sutilezas e componentes emocionais que tinham motivado sua opção. O mais estranho era que Erasmo parecia consciente de suas deficiências.

 - Sei que os humanos são, em alguns aspectos, mais sensíveis que as máquinas... por enquanto. Entretanto, as máquinas contam com mais possibilidades de chegar a ser superiores em todos os campos. Por isso desejo compreender todos os aspectos da vida biológica consciente.

 Com um estremecimento involuntário, Serena pensou nos laboratórios fechados, convencida de que as atividades secretas de Erasmo abrangiam algo mais que o estudo das flores formosas.

 Erasmo supôs que estava interessada em suas observações.

 - Bem desenvolvida, uma máquina pensante poderia ser mais perfeita intelectual, criativa e espiritual que qualquer humano, com uma capacidade e liberdade mentais sem paralelo. Inspiram-me as maravilhas que poderíamos obter, se Omnius não exercesse tanta pressão sobre as outras máquinas para que se conformem com o que há.

 Serena escutava, com a esperança de obter informação. Captava um conflito em potencial entre o Erasmo e a supermente?

 - A capacidade de solicitar informação é a chave - continuou o robô. - As máquinas absorverão não só mais dados, mas também mais sentimentos, assim que os compreendamos. Quando isso ocorrer, poderemos amar e odiar com mais paixão que os humanos. Nossa música será mais sublime, nossos quadros mais deliciosos. Uma vez adquiramos um conhecimento total de nós mesmos, as máquinas pensantes criarão o maior renascimento da história.

 Serena franziu o cenho.

 - Podem continuar melhorando, Erasmo, mas os seres humanos só utilizam uma ínfima parte do cérebro. Possuímos um enorme potencial de desenvolver novas aptidões. Sua capacidade de aprendizagem não é maior que a nossa.

 O robô ficou petrificado, como surpreso.

 - Muito certo. Como pude passar por cima de um detalhe tão importante? - Seu rosto se transformou em uma máscara passiva e contemplativa, e logo se transformou em um amplo sorriso.

 - O caminho da perfeição será longo. Será necessário mais investigações. - Mudou bruscamente de tema, para sublinhar a vulnerabilidade de Serena. - Como vai seu bebê? Fale-me das emoções que sente por seu pai e me descreva o ato físico da copulação.

 Serena guardou silêncio, enquanto tentava deter a maré de lembranças dolorosas. Erasmo considerou fascinante sua reticência.

 - Sente-se atraída fisicamente por Vorian Atreides? - Submeti a todo tipo de análise esse jovem. É de uma casta excelente. Quando tiver terminado sua gestação, gostaria de copular com ele?

 A respiração de Serena se acelerou, e concentrou sua mente nas lembranças de Xavier.

 - Copular? Apesar de seus numerosos estudos, há muitas coisas da natureza humana que seu cérebro mecânico nunca compreenderá.

 - Isso veremos - respondeu com calma Erasmo. 

 

 A consciência e a lógica não são critérios confiáveis.

 

 Pensadores,

 Postulados fundamentais

 

 Um grupo conectado de robôs operário brincou de correr sobre o casco do Dream Voyager quando a nave pousou sobre uma estrutura que abrangia uma cratera artificial nos terrenos do espaçoporto. Diminutas máquinas rastejaram no interior dos fogos de escapamento e esfregaram as câmaras do reator, um exército coordenado de unidades de manutenção que reparavam os danos infligidos pela Armada da Liga.

 Vor e Seurat contemplavam os operários do alto de uma plataforma, certos de que os reparos seriam executados segundo as especificações programadas.

 - Logo poderemos partir - disse o capitão robô. - Deve estar ansioso por me derrotar de novo em seus jogos de guerra.

 - E você por me contar piadas que eu não considero divertidas - replicou Vor.

 Ansiava voltar a bordo do Dream Voyager, mas também lhe assediava outro tipo de impaciência, uma dor no peito que piorava cada vez que pensava na formosa escrava de Erasmo. Apesar do desprezo de Serena Butler, não podia deixar de pensar nela.

 O pior era que não entendia o motivo. Devido a seus vínculos paternos, Vor Atreides havia gozado de numerosas escravas sexuais, algumas tão adoráveis como esta. Tinham sido criadas e educadas para estas tarefas, e viviam em cativeiro entre as máquinas pensantes. Mas a escrava de Erasmo, apesar de ter sido levada a vila contra sua vontade, não parecia sentir-se derrotada.

 Vor recriava em sua mente seu rosto, seus lábios sensuais, o olhar penetrante de seus olhos lavanda quando olhava para ele com desagrado. Embora sua gravidez fosse evidente, mesmo assim se sentia atraído por ela, e experimentava um estranho ciúme. Onde estava seu amante? Quem era?

 Quando Vor regressasse à vila da Erasmo, ela não lhe faria caso ou voltaria a lhe insultar. Não obstante, ansiava vê-la antes que Seurat e ele partissem em outra longa excursão de atualização.

 Ensaiava o que ia dizer-lhe, mas até em sua imaginação ela sempre se mostrava mais geniosa que ele.

 Vor subiu uma escada e se internou em um estreito espaço interior, onde viu que um operário de manutenção dispunha novas redes de circuitos líquidos no painel de navegação principal. O operário escarlate trabalhava com suas ferramentas incorporadas. Vor avançou alguns centímetros e lançou uma olhada ao painel aberto. Observou a placa repleta de componentes coloridos.

 - Ficará decepcionado se espera pilhá-lo cometendo um engano - disse Seurat atrás dele. - Ou tenta levar a cabo suas tantas vezes anunciadas sabotagens?

 - Sou um hrethgir sujo. Nunca sabes o que eu poderia fazer, velha Mente Metálica.

 - O fato de que não ria minhas piadas indica que carece de inteligência para criar um plano tão tortuoso, Vorian Atreides.

 - Talvez tudo se reduza a que não é divertido.

 Por desgraça, as piadas e os trabalhos de reparação não impediam que continuasse pensando em Serena. Sentia-se como um adolescente, excitado e confuso ao mesmo tempo. Queria falar com alguém de seus sentimentos, mas não com seu amigo robô, que compreendia as mulheres ainda menos que Vor.

 A verdade era que precisava falar com Serena. Talvez com sua perspicácia e inteligência, ela tivesse lido em seu interior, mas o que viu não lhe agradou. Ela o havia chamado de “escravo incapaz de ver as correntes”. Um insulto desconcertante, tendo em conta todos os privilégios de sua vida. Não tinha nem idéia do que se referia.

 O operário mudou de ferramentas para instalar um posto de coleta de dados. O braço esbelto da máquina se estendeu mais para manipular um botão de ajuste do interior do painel.

 Seurat, que se achava de pé na cabine do Dream Voyager, ativou os controles principais da nave, utilizando métodos de diagnóstico incorporados para verificar os sistemas de navegação.

 - Descobri um atalho a nossa segunda escala da rota. Por desgraça, exige atravessar uma estrela azul gigante.

 - Nesse caso, aconselho uma rota diferente - disse Vor.

 - Concordo, embora me incomode perder tempo.

 Perguntou-se o que seria de Serena quando o menino nascesse. Erasmo o destinaria aos recintos de escravos para que não interferisse nas tarefas de Serena? Pela primeira vez em sua vida, Vor sentiu compaixão por um cativo humano.

 Como homem de confiança, sempre tinha se considerado súdito dos Planetas Sincronizados, e ansiava por transformar-se em neocimek algum dia. Acreditava que Omnius governava os humanos para seu bem. Do contrário, a galáxia se inundaria no caos.

 Estava acostumado a situações em que uma parte dominava e a outra se submetia. Pela primeira vez, se perguntou se existiria outro tipo de relações, apoiadas na igualdade. Estava claro que o capitão robô do Dream Voyager era o chefe de Vorian, mas tinham chegado a um acordo positivo para ambos.

 Vor se perguntou se Serena e ele seriam capazes de forjar uma relação em que ambos se tratassem com absoluta igualdade. Tratava-se de um conceito radical, que feria sua sensibilidade.

 Mesmo assim, acreditava que ela não aceitaria menos.

 O operário de manutenção, encaixado em um estreito espaço atrás do amparo e o painel de navegação, emitia estranhos sons e repetia conexões de prova uma e outra vez.

 - Deixa que prove essa ferramenta - disse Vor ao robô com um suspiro.

 O operário girou para ele e entregou a sonda de diagnóstico, mas parte de suas extremidades recobertas de metal interferiram com uma conexão do campo de circuitos exposto, e se produziu um curto-circuito. O robô chiou. Do painel avariado surgiu um fedor de circuitos e sistemas hidráulicos fundidos.

 Vorian saiu como pôde do estreito espaço, e logo passou a mão pelo rosto. Seurat examinou o robô e os componentes enegrecidos do sistema de navegação.

 - Minha conclusão de perito é que falta um pouco mais de manutenção.

 Quando Vor riu do comentário, Seurat parou surpreso.

 - Por que isso te parece divertido?

 - Nunca peça a ninguém que explique o que é o humor, Seurat. Conforme-se com as gargalhadas.

 Depois de interromper o fornecimento elétrico, Vor tirou o robô avariado e o atirou sobre a coberta. Tratava-se de unidades fáceis de substituir. Seurat enviou a solicitação de um novo operário.

 Enquanto esperavam que continuassem os reparos, Vor falou de seus sentimentos contraditórios. Talvez encontrasse algo útil na base de dados do robô.

 As fibras ópticas do robô cintilavam como pequenos sóis.

 - Não entendo seu problema - disse Seurat, enquanto descarregava um resumo de diagnósticos de um banco de dados da nave. - Goza de uma situação privilegiada entre as máquinas pensantes. Apresente uma solicitação a Erasmo.

 Vor estava exasperado.

 - Não é isso, Seurat. Embora Erasmo cedesse Serena.. o que aconteceria se ela me rechaçasse?

 - Amplie sua busca. Você se expõe a dificuldades desnecessárias. Entre as candidatas humanas da Terra, encontrará com facilidade uma fêmea compatível, inclusive com feições similares às desta escrava em particular, se tanto valoriza seus atributos físicos. Vor se arrependeu de ter tocado no assunto.

 - As máquinas pensantes podem ser tão estúpidas às vezes.

 - Nunca tinha me falado de tais emoções.

 - Porque nunca havia sentido isso.

 Seurat ficou petrificado.

 - Sou consciente intelectualmente do imperativo biológico humano de copular e reproduzir-se. Estou familiarizado com as diferenças físicas entre homens e mulheres, e com suas urgências hormonais. Sempre que a herança genética seja aceitável, a maioria de sistemas reprodutores femininos são iguais. Por que é mais desejável esta tal Serena que qualquer outra?

 - Nunca poderia explicar isso velha Mente Metálica - disse Vor enquanto olhava por uma janela e via que outro operário se aproximava da nave. - Nem sequer posso explicar isso a mim mesmo.

 - Espero que consiga logo. Não posso me permitir o luxo de partir carregando robôs de manutenção.

 

Com freqüência, pessoas morrem porque são muito covardes para viver.

 

 TLALOC,

 A Era dos Titãs

 

 O sol abrasador de Arrakis criava escassas sombras ao redor do monstro e seu confiante cavaleiro. Para sua travessura de hoje, Selim estava muito contente de ter chamado o verme maior que tinha visto até o momento.

 O naib Dhartha ficaria aterrorizado, ou ao menos impressionado. Talvez Budalá aniquilasse o traiçoeiro naib como castigo pelo que tinha feito ao inocente Selim. Ou possivelmente concederia ao jovem a oportunidade de vingar-se a sua maneira. De fato, Selim preferia este último...

 Depois de mais de um ano vivendo de seu engenho, estava bem alimentado, são e feliz.

 Deus continuava sorrindo-lhe. O adolescente consumia mais melange que nunca.

 Selim tinha encontrado seis postos de fornecimento mais por todo deserto, oito no total, incluindo outra estação botânica abandonada que tinha descoberto, ainda mais longe das montanhas colonizadas. Tinha reunido mais material de que acreditava possível, o que o havia convertido em um homem rico, segundo os critérios de seu povo.

 Pelas noites, ria sozinho do naib Dhartha e outros aldeões, que tinham querido lhe castigar com o exílio. Em troca, Selim tinha renascido no deserto. Budalá lhe havia salvo, tinha-lhe protegido. As areias o tinham transformado, convertido em uma nova pessoa.

 Audaz, genioso e desafiante, se transformaria em uma lenda entre os nômades do deserto.

 Selim Cavaleiro de Vermes!

 Mas isso só aconteceria se os zensunni soubessem de sua existência. Só então acessaria ao destino que se fixou, um homem reverenciado por seu povo. Eles mostraria no que se transformara.

 Selim esporeou o monstro até as montanhas que conhecia como a palma de sua mão.

 Depois de tanto tempo vivendo sozinho sem ninguém com quem falar salvo ele mesmo, retornava ao único lugar que podia chamar de lar, apesar de suas deficiências e os desafios que expor.

 Distinguiu as linhas de rochas verticais, como uma fortaleça que protegia os vales dos vermes. Os zensunni originais tinham construído seus lares naquelas covas, ocultando a entrada a olhos estranhos. Selim conhecia o caminho.

 O verme se debatia sob as pernas doloridas do moço reticente a aproximar-se das rochas. Selim o obrigou a passar em frente aos altos penhascos.

 Manteve os segmentos abertos com a lança metálica, ergueu-se em toda sua estatura e conservou o equilíbrio. Sua suja capa branca ondeava ao vento. Quando o verme desfilou ante a entrada das cavernas, divisou diminutas figuras que pareciam olhar para ele com assombro. Os vermes nunca se aproximavam tanto das muralhas rochosas mas ele tinha guiado este, como um monstro através de um oceano imenso. Controlava-o a perfeição.

 Selim viu mais figuras nas rochas e ouviu tênues gritos, gente que chamava a outros. Aos poucos, estupefatos aldeões zensunni invadiram as saliências. Ficou encantado ao ver seus olhos arregalados, todos boquiabertos.

 Selim gritou ao vento e lhes dedicou gestos insolentes. Obrigou o demônio a dar meia volta. O monstro retorceu sua cabeça de réptil e se revolveu diante do penhasco, como um animal amestrado.

 Ninguém se moveu.

 Selim riu e proferiu insultos contra o malvado naib Dhartha e o traidor Ebrahim. Com sua roupa do deserto e a cara tampada, Selim duvidava que alguém adivinhasse quem era. Levariam uma surpresa se descobrissem que ele era o presumido ladrão de água, o exilado.

 Teria obtido mais satisfação se lhes tivesse revelado quem era e escutado suas exclamações entrecortadas, porém naquele momento brincaria um pouco com eles, teceria uma lenda. Um dia, riria de sua incredulidade, talvez se aproximasse o bastante para convidar o naib Dhartha a montar com ele. Riu para si mesmo.

 Depois de um momento, Selim dirigiu o verme para o deserto. O monstro correu para as dunas com um vaio devido à fricção. Selim no parou de rir em todo o caminho, dando graças a Budalá por uma experiência tão divertida.

 Slahmad, o filho do naib Dhartha, viu com incredulidade que o enorme verme girava como um animal doméstico e logo se afastava. Um só homem tinha guiado o monstro, uma pessoa diminuta que se erguia sem medo sobre seu lombo.

 Incrível. Meus olhos viram mais que a maioria de zensunni em toda sua vida. E só tinha doce anhos.

 Mahmad ouviu meninos entusiasmados que falavam de quão emocionante seria montar um verme. Alguns tentavam adivinhar a identidade do forasteiro louco que guiava o demônio. Outros refugiados zensunni tinham baseado povos e cidades em cavernas das montanhas de Arrakis, de modo que podia ser membro de qualquer tribo.

 Mahmad levantou a vista, ansioso por formular todo tipo de perguntas, e então viu seu pai em pé junto a ele, com expressão impenetrável.

 - Garoto idiota - grunhiu o naib Dhartha. - Quem poderia ser tão temerário e indiferente a sua sobrevivência? Merece ser devorado pelas bestas.

 - Sim, pai - assentiu Mahmad pela força do costume, mas interessantes possibilidades tinham desfilado por sua mente.

 

 O deus da ciência pode ser uma deidade cruel

 

 TIO HOLTZMAN,

 jornal codificado (destruído em parte)

 

Quando Tio Holtzman descobriu um erro de cálculo no desenho de seu fracassado gerador de ressonância de liga, foi às nuvens. Estava sentado em seu estudo privado, rodeado pelos novos globos de luz que Norma tinha desenhado, repassando as tediosas réstias de cifras.

 Não tinha pedido a jovem estudasse os detalhes do catastrófico acidente, porque tinha medo de que localizasse um defeito de desenho, e isso seria muito ruim. Norma havia dito desde o começo que o aparelho não funcionaria tal como ele esperava, e tinha tido razão. Maldita fosse!

 Como conseqüência, o inventor tinha dedicado horas repassando o trabalho de seus escravos calculadores. E descobriu três enganos de menor importância. De um ponto de vista objetivo, embora os cálculos tivessem sido corretos, seu desenho original tampouco haveria funcionado... mas isso não vinha ao caso, decidiu.

 Os calculadores tinham cometido erros imperdoáveis, com independência da importância que tivessem para o problema global. Mas bastavam para sacudir culpa em cima.

 Holtzman entrou como uma tromba na silenciosa sala onde os calculadores estavam sentados em suas mesas, tentando resolver os fragmentos de equações que Norma havia entregado. Deteve-se na porta e olhou de marco em marco.

 - Parem toda a atividade! A partir deste momento, todo seu trabalho será controlado e verificado, apesar do tempo que exija. Passarei cada papel, estudarei cada solução. Seus enganos atrasaram a defesa da humanidade em meses, talvez anos, e não estou contente.

 Os escravos inclinaram a cabeça, sem estabelecer contato visual.

 Mas Holtzman não tinha feito mais que começar.

 - Não fui um bom amo para vocês? Não lhes dei uma vida melhor que a que padeciam nos campos de cana de açúcar ou nas restingas? Me pagam com isso? Os calculadores novos olharam para ele aterrorizados. Os antigos, aqueles que não haviam morrido da febre, afundaram-se na tristeza mais atroz. - Quantos enganos mais cometeram? Quantos experimentos mais sua incompetência arruinará? - Olhou jogando faíscas aos escravos, e logo agarrou um papel aleatoriamente.

 - De agora em diante, se descobrir enganos intencionados, serão executados. Não se esqueçam! Como estão trabalhando em um programa de guerra serão acusados de sabotagem e rebelião.

 Norma entrou correndo na sala sobre suas curtas pernas.

 - O que aconteceu, sábio Holtzman?

 O sábio mostrou um papel escrito por ele.

 - Descobri graves equívocos em meus cálculos do gerador de ressonância. Já não podemos confiar no trabalho deles. Você e eu, Norma, repassaremos tudo. A partir de agora.

 A jovem parecia alarmada. Inclinou-se apenas.

 - Como quiser.

 - Nesse ínterim - disse Holtzman, enquanto recolhia os papéis. - Vou reduzir suas rações à metade. Para que vou encher suas barrigas, se sabotarem nossos esforços por derrotar o inimigo? - Os escravos gemeram. Holtzman chamou os dragões para que os levassem. - Não tolerarei tamanha idiotice. Há muito em jogo.

 Quando ficaram sozinhos na sala, Norma e ele se sentaram e começaram a estudar os cálculos novos, folha por folha. A mulher de Rossak olhou para o cientista como se estivesse exagerando, mas o homem se inclinou sobre uma mesa cheia de papéis.

 Depois de um momento, localizaram um erro matemático cometido por um dos novos escravos, o rapaz chamado Alüd. Pior ainda, o engano não tinha sido recebido por seu companheiro, um menino chamado Ishmael.

 - Olhe, teria significado outro desastre econômico! Estarão conspirando contra nós.

 - São só meninos, sábio - disse Norma. - Surpreende-me que sejam capazes de efetuar cálculos matemáticos.

 Holtzman, sem lhe ouvir, ordenou aos dragões que trouxessem os dois moços, e logo, como se tivesse pensado melhor, convocou de novo todos os calculadores.

 Quando os aterrorizados jovens foram arrastados a sua presença, o sábio lhes lançou uma acusação atrás de outra, embora não parecessem capazes de sofisticadas sabotagens matemáticas.

 - Pensam que isto é uma brincadeira, um jogo? Omnius poderia nos destruir a qualquer momento. Este invento poderia ter nos salvado!

 Norma olhava para o inventor, sem saber se conhecia grande coisa de seu projeto, mas agora estava furioso.

 - Quando plantam moluscos ou cortam cana, um erro de alguns quantos centímetros não importa. Mas isto... - agitou os cálculos ante seus rostos, - isto poderia significar a destruição de toda uma frota de combate!

 Passeou seu olhar encolerizado pelo grupo de calculadores.

 - Meias rações deveriam endireitá-los. Talvez quando seus estômagos grunham, concentrem-se melhor no trabalho. - Se voltou para os meninos, que se encolheram de medo. - Quanto a vocês dois, perderam a oportunidade de trabalhar comigo. Pedirei a lorde Bludd que os encaminhe aos trabalhos mais duros. Talvez assim possam demonstrar sua valia, porque não me servem para nada.

 Voltou-se para Norma, resmungando.

 - Eu me desfaria de todos, mas ainda perderia mais tempo ensinando aos novos.

 Surdo aos grunhidos de decepção, sem nenhum desejo de escutar a menor queixa, o encolerizado cientista saiu da sala, seguido pelo olhar de Norma.

 Um par de fornidos dragões levaram Alüd e Ishmael.

 

Aprendam do passado. Não o levem como um peso ao redor do pescoço.

 

 PENSADOR RETICULUS,

 Observações da perspectiva de um milênio

 

 Agamenon ia à frente da frota de naves blindadas preparada para atacar as feiticeiras de Rossak. As naves principais transportavam o general cimek e os dois titãs que o acompanhavam, assim como a dúzias de ambiciosos neocimeks. Os olhos espiões de Omnius controlavam seus movimentos.

 Atrás dos cimeks, uma frota de naves de guerra robóticas acelerou e ultrapassou-os para chegar antes, esbeltos projéteis de motores enormes e carregados de artilharia. Eram unidades descartáveis, que não retornariam a sua base. Seus motores não economizavam combustível para a viagem de volta. Chegaram com tal celeridade que, quando as estações sensoras em órbita ao redor de Rossak as detectaram, as máquinas pensantes já tinham aberto fogo. As naves de vigilância destacadas no perímetro do sistema não puderam lançar nem um disparo.

 Enquanto as naves robô atacavam as estações orbitais, os cimeks planejavam vingar-se na superfície.

 Quando sua força de choque se aproximou de Rossak, os cimeks prepararam suas formas de combate blindadas. Servo-asas instalaram os contêineres cerebrais em cavidades protegidas, conectaram os mentrodos com os sistemas de controle e carregaram as armas. Os três titãs utilizariam poderosas formas deslizantes, corpos voadores armados. Por contrário, os neocimeks levavam corpos de combate destrutivos parecidos com caranguejos, com os quais poderiam abrir caminho sem problemas através da selva.

 Agamenon e seus cimeks aceleraram. Instalado em seu corpo voador, o general provou seus armas integradas. Estava ansioso por sentir o tato de rocha, metal e carne na ponta de suas garras cortantes.

 Estudou diagramas táticos e viu que as primeiras salvas alcançavam as estações defensivas que orbitavam sobre Rossak. Este posto avançado da liga era um planeta menor, de população relativamente escassa concentrada nos vales asfixiados pela selva, enquanto o resto da superfície e os oceanos continuavam desabitados. Rossak ainda não havia instalado os custosos escudos decodificadores Holtzman que protegiam planetas humanos de maior importância, como Salusa Secundus e Giedi Prime.

 Mas as mortíferas feiticeiras, com seus sinistros poderes mentais, tinham despertado a ira dos cimeks. Sem fazer caso da batalha espacial, as naves de Agamenon se precipitaram para a turva atmosfera. Nas cidades das cavernas encontrariam às feiticeiras, seus famílias e amigos. Vítimas, todos.

 Abriu um vínculo mental com sua força de ataque cimek.

 - Xerxes, tome o comando da vanguarda, tal como fez em Salusa Secundus. Quero sua nave à frente de todas.

 A resposta de Xerxes não pode dissimular seu medo.

 - Deveríamos ser precavidos com essas mulheres telepatas, Agamenon. Mataram Barba Azul, destruíram tudo o que encontraram em Giedi Prime...

 - E deram-nos exemplo. Orgulhe-se de ser o primeiro em intervir. Demonstre valor, e agradeça a oportunidade!

 - Eu... já demonstrei meu valia muitas vezes ao longo dos séculos - disse Xerxes em tom petulante. - Por que não enviamos primeiro robôs de combate? Não vimos a menor indicação de que Rossak conte com uma rede decodificadora...

 - Nunca, você dirigirá o ataque. Você não tem orgulho, ou... vergonha?

 Xerxes parou de se desculpar. Fizesse o que fizesse por redimir-se, não poderia compensar jamais o erro que havia cometido um milênio antes...

 Quando os primeiros titãs ainda conservavam a forma humana, Xerxes era um jovem adulador e servil, ansioso por tomar parte nos grandes acontecimentos, mas jamais havia tido a ambição ou o impulso de transformar-se em um revolucionário indispensável. Assim que finalizou a conquista, governou o subconjunto de planetas que lhe cederam outros titãs. Xerxes tinha sido o mais hedonista dos vinte, e se entregava aos prazeres do corpo físico. Tinha sido o último a submeter-se a cirurgia cimek, pois não desejava desprender-se de suas maravilhosas sensações.

 Mas depois de mais de um século de mandato, o extraviado Xerxes delegou excessivas tarefas às máquinas inteligentes programadas por Barba Azul. Até deixou que a rede informática tomasse decisões por ele. Durante as Rebeliões Hrethgir de Corrin, Richese e Walgis, Xerxes tinha deixado a manutenção da ordem em seus planetas às máquinas pensantes. Com sua falta de atenção aos detalhes e sua confiança cega na rede de inteligência artificial, havia concedido muito espaço às máquinas para reprimir os descontentes. Ordenou à rede que se ocupasse de todos os problemas que surgissem.

 O computador consciente utilizou este acesso sem precedentes ao núcleo da informação, isolou Xerxes e se apoderou do planeta imediatamente. Para derrocar ao Império Antigo, Barba Azul tinha programado as máquinas pensantes com a possibilidade de ser agressivas, e assim ter um incentivo para a conquista. Com seu novo poder, a recém criada entidade, depois de autobatizar-se de Omnius, conquistou os titãs e tomou o comando, tanto de cimeks como de humanos, em teoria para seu bem.

 Agamenon tinha se amaldiçoado por não vigiar Xerxes com mais perseverança, e por não lhe executar sumariamente quando conheceu sua negligência.

 A conquista se pulverizou como uma reação nuclear, antes que os titãs pudessem avisar-se entre si. Em um abrir e fechar de olhos, os planetas dominados pelos titãs transformaram-se em Planetas Sincronizados. Novas encarnações da supermente brotaram como ervas daninhas eletrônicas, e o domínio das máquinas pensantes se tornou uma realidade.

 Os sofisticados computadores tinham descoberto ínfimos defeitos na programação de Barba Azul, o qual lhes permitiu travar os antigos governantes. Tudo porque Xerxes tinha lhes aberto a porta. Um ato imperdoável, na opinião de Agamenon.

 As naves cimek deixaram para trás as estações orbitais, que estavam sendo atacadas com projéteis explosivos por naves de guerra robóticas.

 O planeta os aguardava desprotegido, uma bola gigantesca semeada de nuvens com moderados enegrecidos, vulcões ativos, mares venenosos e exuberantes extensões de selva púrpura e casas humanas.

 - Boa sorte, meu amor - disse a voz sensual de Juno por sua freqüência privada. Suas palavras provocaram um formigamento nos contornos do cérebro de Agamenon.

 - Não necessito de sorte, Juno. Necessito da vitória.

 

 Quando começou o inesperado ataque, um punhado de naves de guerra e kindjals blindados separaram do dossel selvagem polimerizado para colaborar na defesa espacial. As plataformas orbitais já estavam padecendo de graves danos.

 Ao mesmo tempo em que convocava seu grupo de pupilas, Zufa Cenva agarrou Aurelius Venport, consciente de que podia realizar uma série de tarefas.

 Demonstre sua capacidade de liderança. Evacue as pessoas. Não temos muito tempo.

 Venport assentiu.

 Os homens desenvolveram um plano de emergência, Zufa. Vocês não foram as únicas que pensaram no futuro.

 Se esperava algum tipo de louvor ou felicitação por parte dela, ficou decepcionado.

 Adiante, pois disse a feiticeira.

 - O ataque contra nossas estações orbitais é só o princípio, uma simples manobra de distração. Os cimeks aterrissarão a qualquer momento.

 - Cymeks? Alguma das naves de reconhecimento...?

 - Pense, Aurelius! Heoma matou um titã em Giedi Prime. Sabem que possuímos um arma telepática secreta. Este ataque não é casual. O que lhes interessa de Rossak? Querem destruir às feiticeiras.

 Venport sabia que Zufa tinha razão. Por que as máquinas pensantes se preocupariam com as plataformas orbitais? Intuiu que muitos outros pressentiam também o perigo. Percebeu o pânico que estava se propagando entre os habitantes das cavernas.

 A maioria de nativos de Rossak carecia de poderes especiais, e muitos padeciam defeitos ou debilidades congênitas causadas pelas toxinas ambientais. Mas uma feiticeira havia causado graves danos aos cimeks em Giedi Prime, e esse era o motivo do ataque das máquinas.

 - Minhas feiticeiras oferecerão resistência... e já sabe o que isso significa. - Zufa ergueu-se em toda sua estatura, e olhou-o com incerteza e compaixão. – Ponha-se a salvo, Aurelius. Você não é importante para os cimeks.

 Uma repentina determinação se instalou no rosto de Aurelius.

 - Organizarei a evacuação. Podemos nos esconder na selva, nos ocupar de qualquer um que necessite de ajuda especial para fugir. Meus homens contam com provisões ocultas, refúgios, cabanas de processamento...

 Zufa parecia agradavelmente surpresa com sua energia.

 - Bem. Deixo em suas mãos os torpes.

 - Os torpes? - Não era o momento de discutir com ela. Venport esquadrinhou seus olhos, se por acaso traiam medo.

 - Vai sacrificar-se? - perguntou, em um intento de dissimular seus sentimentos.

 - Não posso - admitiu com dor Zufa. - Quem treinaria às feiticeiras?

 Aurelius não acreditou nela.

 A mulher vacilou, como se esperasse algo mais dele, e logo se afastou correndo pelo corredor.

 - Cuide-se - gritou Venport.

 Depois, percorreu a toda pressa os corredores, chamando as famílias.

 - Temos que nos refugiar na selva! Avisem aos outros. - Elevou a voz e deu ordens sem vacilar. - Os cimeks estão atacando!

 Venport indicou a meia dúzia de jovens que corressem de moradia em moradia, até assegurar-se de que a mensagem tinha chegado a todos. Enquanto os jovens corriam para terminar sua tarefa, dedicou-se a percorrer as câmaras isoladas. Homens, mulheres, uma mistura de formas corporais. Apesar do alvoroço, um casal de anciões haviam ficado sentados em seu cubículo, à espera de que a emergência terminasse. Venport os acompanhou até uma plataforma de carga que os transportou até o nível do chão.

 Viu que os elevadores baixavam mais gente. Seus exploradores e coletores de drogas controlavam a situação perto dos penhascos. Conheciam os atalhos, sabiam onde se achavam os refúgios.

 Sinais enviados pelas naves da Armada indicaram que a batalha travada ao redor das plataformas orbitais não ia bem. Uma nave de reconhecimento sobrevivente transmitiu a advertência de que dúzias de naves cimek tinham iniciado a descida.

 - Depressa! - gritou Venport. - Evacuem a cidade! As feiticeiras estão preparando a defesa.

 Outro grupo desceu a bordo de uma plataforma sobrecarregada, de repente, projéteis incandescentes perfuraram a atmosfera deixando uma esteira de fumaça negra.

 - Mais depressa! - gritou Venport, e logo se internou nos túneis para procurar os últimos atrasados, consciente de que restavam poucos segundos para salvá-los.

 

 Temos nossas vidas, mas também nossas prioridades.

 Muita gente não reconhece a diferença.

 

 ZUFA CENVA,

 discurso às feiticeiras

 

 As naves cimek aterrissaram sobre a vegetação púrpura e chapeada. As armas dispararam jorros de lava dos cascos e atearam fogo à espessa folhagem. O incêndio se espalhou com toda celeridade.

 As naves se abriram com um estrondo que estremeceu o ar, e os corpos mecânicos emergiram. Três naves descarregaram formas deslizantes blindadas, enquanto o resto cuspia formas móveis similares a caranguejos carregadas de armas.

 Xerxes voou sobre a selva em direção ao enclave das feiticeiras telepatas. Estendeu as asas e se deixou levar pelas correntes de ar.

 - Vou para lá - anunciou.

 - Mate as bruxas por nós, Xerxes - disse Juno, enquanto Agamenon e ela preparavam seus corpos deslizantes.

 - Mate-as por Barba Azul - acrescentou Agamenon com voz irada.

 Xerxes voou para os penhascos. As máquinas de combate dos ansiosos neocimeks penetravam na selva, queimavam obstáculos, destruíam tudo que aparecia a sua frente.

 Quando viu as tocas dos penhascos, Xerxes sobrevoou alguns instantes o dossel polimerizado que formava uma pequena pista de aterrissagem para naves hrethgir, e depois lançou quinze projéteis, a metade se chocou contra as paredes de rocha, e outros penetraram nos túneis onde os humanos viviam como vermes.

 Xerxes efetuou uma veloz retirada e se elevou ao céu.

 - Nosso primeiro golpe! - grasnou quando viu vir para ele Agamenon e Juno.

 - Que os neocimeks continuem a tarefa.

 Os neocimeks de infantaria avançavam entre a vegetação com suas pernas extensíveis.

 Lançaram granadas de plasma que lhes abriram um atalho até as cidades dos túneis. A folhagem púrpura ardia a seu redor, as árvores cobertas de cogumelos estalavam em colunas de chamas que assustavam os animais. Aves majestosas elevavam o vôo, e os cimeks as desintegravam em nuvens de plumas. Embora satisfeito pela boa marcha do ataque, Agamenon não felicitou ninguém.

 Juno e ele avançaram para efetuar o segundo ataque aéreo de posições diferentes. Abaixo, os neocimek em forma de caranguejo tinham chegado aos penhascos para completar a destruição.

 

 Zufa Cenva e suas feiticeiras se prepararam em uma habitação interior que Aurelius Venport tinha destinado a suas reuniões de negócios. Nenhuma manifestava medo, só fúria e determinação. Durante o último ano, estas mulheres haviam aceitado seu principal propósito na vida, ainda que o resultado fosse a morte.

 - Para isto fomos treinadas - disse Zufa. - Mas não as enganarei sobre nossas chances. - Tentava aparentar confiança em si mesma, embora não soubesse muito bem o que dizer.

 - Estamos preparadas, professora Cenva - disseram as mulheres em uníssono.

 Respirou fundo, acalmou-se, utilizou o controle mental que tanto se esforçou por transmitir a suas alunas.

 As paredes de pedra da câmara tremeram quando as primeiras bombas encontraram seus objetivos e dispersaram nuvens venenosas nos túneis. Aurelius Venport tinha se adiantado aos acontecimentos e tomado a precaução de que cada mulher tivesse uma máscara para respirar, enquanto ele evacuava ao resto da população. Zufa se surpreendeu de não ter pensado nisso ela mesma. Confiou em que Aurelius se houvesse posto a salvo, em que não tivesse perdido tempo tentando proteger suas reservas de drogas.

 Olhou para as devotas mulheres em pé à sua frente. Conhecia seus nomes e possibilidades. Tirbes, que poderia transformar-se na melhor se fosse capaz de controlar seu potencial; a impulsiva Silin; a criativa e imprevisível Camio; Ruça, que obedecia seu próprio código de honra... e mais.

 - Camio - disse. – Escolho você para atirar o seguinte golpe.

 Camio ficou a máscara sobre a cara e saiu da câmara protegida. Avançou sem vacilar e começou a meditação necessária para convocar o poder encerrado em seu cérebro. Não viu cadáveres nos corredores de pedra, o que significava que a população tinha sido evacuada com êxito. Agora, nada deteria as feiticeiras.

 O corredor estava semeado de escombros, resultado das explosões. Colunas de vapor esverdeado introduziam veneno nas cavernas. Camio não temia por sua vida, mas tinha que apressar-se.

 Ouviu o assobio de um projétil e se apertou contra a parede do túnel. Uma potente explosão se produziu na cara do penhasco, e a onda de choque invadiu os corredores e as moradias. Camio recuperou o equilíbrio e seguiu adiante. Uma enorme energia contida cantava em sua mente. Não olhou as tapeçarias nem os móveis, as habitações e salas de reuniões onde tinha transcorrido sua vida.

 Rossak era seu lar. As máquinas eram seus inimigos. Camio era uma arma.

 Quando chegou à entrada e olhou a selva em chamas, viu três formas de caranguejo providas de contêineres cerebrais blindados, que se penduravam como sacos de ovos em cima das pernas. Cada uma era um humano que tinha vendido sua alma e jurado lealdade às máquinas pensantes.

 Camio ouviu o trovejar de contínuas explosões na selva, o rugido do plasma que carbonizava a folhagem púrpura. Formas aéreas se preparavam para um novo ataque, descarregavam veneno e pulverizavam chamas. Dúzias de neocimeks corriam para os penhascos protegidos, destruindo tudo que encontravam em seu caminho.

 Devia esperar até o último momento para eliminar o maior número possível de inimigos.

 Camio percebeu o som de três formas móveis que estavam escalando o penhasco, utilizando suportes e garras com bordo de diamante para aferrar-se a parede rochosa.

 Sorriu para o trio de neocimeks semelhantes a caranguejos. Pernas flexíveis blindadas içaram o núcleo corporal carregado de armas até as covas principais. Camio se erguia sozinha na porta, esperando seus inimigos.

 O primeiro invasor se endireitou, e a jovem viu as cintilantes fibras ópticas que rodeavam suas torres carregadas de armas. O cimek a detectou e girou os lança-chamas em direção ao novo objetivo.

 Antes que pudesse disparar, Camio liberou a energia concentrada em sua mente e em seu corpo. Descarregou uma tormenta mental que derreteu os cérebros dos três neocimeks mais próximos e machucou outros dois que começavam a subir pelo penhasco. Cinco cimeks eliminados da batalha.

 Seu último pensamento foi que tinha vendido cara sua vida.

 Depois de Camio, quatro feiticeiras mais foram saindo, de uma em uma. Cada vez que escolhia uma das mulheres, Zufa Cenva experimentava a atroz perda. Eram como verdadeiras filhas, e perdê-las era como engolir goles de ácido. Mas suas voluntárias sacrificavam a vida de bom grado para esmagar a ofensiva cimek,

 - As máquinas pensantes não devem vencer jamais.

 Por fim, a sexta voluntária de Zufa, Silin, retornou viva mas desorientada, com sua pele leitosa avermelhada. Preparou-se mentalmente para morrer, em vez disso, não tinha encontrado nada para destruir.

 - Retrocederam para longe de nosso alcance, professora Cenva - informou.

 Os cimeks estão retornando as suas naves. As formas terrestres e aéreas voltaram para a zona de aterrissagem.

 Zufa correu para a janela. Viu os restos carbonizados de suas cinco comandos caídas, cada mulher abrasada por seu próprio fogo mental. Viu que as terríveis máquinas de cérebro humano subiam a suas naves e se elevavam.

 Com o tempo, os refugiados retornariam. Aurelius Venport os traria de volta. Sob sua supervisão, a gente de Rossak reconstruiria e repararia as cidades dos penhascos com orgulho e confiança, conscientes de que tinham resistido ao assalto das máquinas pensantes.

 Zufa Cenva tinha que aferrar-se a isso.

 - Definimos as vitórias a nossa maneira - disse em voz alta.

 

 Quando os três titãs somaram suas naves à frota robótica, Agamenon deu um resumo antes que Juno ou o idiota do Xerxes proporcionassem às máquinas pensantes informação que não desejava entregar. O general cimek maquiaria a verdade em função de seus propósitos.

 - Causamos danos significativos - declarou Agamenon aos olhos espiões que gravavam. - Embora tenhamos perdido vários neocimeks em nosso ataque direto contra Rossak, infligimos danos mortais a cinco feiticeiras, no mínimo. - Por um canal privado, Juno transmitiu sua surpresa e prazer pelo relatório enviesado do general. Xerxes teve a prudência de se calar. - Demos um golpe mortal à nova arma telepática hrethgir - continuou Agamenon, fingindo orgulho apesar do desastre. - Deve significar uma drástica diminuição de suas capacidades.

 De forma similar, tinha adornado acontecimentos do passado quando escrevia suas memórias, para adaptá-los a sua visão dos fatos. Omnius nunca questionaria o resumo, porque se encaixava tecnicamente com os dados objetivos.

 - O melhor de tudo acrescentou Juno, é que não perdemos nenhum titã na ofensiva. Os neocimeks podem ser substituídos.

 Com as duas estações orbitais de Rossak seriamente danificadas pelas naves de guerra robô, e milhares de humanos mortos a bordo, a frota das máquinas pensantes se afastou dos restos de naves e plataformas. Abaixo, as selvas dos corredores habitáveis continuavam queimando.

 - Em minha opinião, Omnius pode qualificar o ataque contra Rossak como uma vitória sem precedentes - disse Agamenon.

 - Estamos de acordo - fizeram coro Juno e Xerxes.

 

É como se um bruxo perverso se dedicasse a emporcalhar um planeta ao máximo possível... e logo depois o tivesse semeado de melange para rematar a jogada

 

 TUK KEEDAIR,

 correspondência com Aurelius Venport

 

 Mendigos de olhos endurecidos se colocavam em lugares estratégicos das ruas poeirentas de Arrakis City. Olhavam através de estreitas frestas praticadas no tecido sujo que cobria seus rostos, e estendiam as mãos ou agitavam campainhas para suplicar água. Tuk Keedair nunca tinha visto algo semelhante.

 Viu-se obrigado a ficar um mês, enquanto os nômades de naib Dhartha recolhiam melange suficiente para encher a nave de carga tlulaxa. Keedair tinha pagado para alojar-se em Arrakis City, mas ao cabo de uma semana decidiu que em sua nave dormia melhor. Preferia estar longe dos olhos inquisitivos de outros hóspedes, das brigas nos corredores, de camelôs e mendigos. Quando estava sozinho, um homem nunca deveria ter que preocupar-se em confiar em seus acompanhantes.

 Arrakis expor muitos problemas para estabelecer um simples negócio. sentia-se como um nadador que avançava contra a corrente... embora nenhum nativo do deserto entenderia a comparação. Os homens de Keedair estavam perdendo a paciência a bordo do cargueiro em órbita, de modo que teve que subir para resolver as disputas e evitar estalos de violência. Um tlulaxa sabia como acabar com as perdas. Em duas ocasiões, aborrecido por tripulantes indisciplinados que se aborreciam muito para saber comportar-se, tinha vendido seus contratos de trabalho a equipes de investigação geológica enviados às profundidades do deserto. Se aqueles tipos conseguissem retornar a Arrakis City antes que o transporte partisse com sua carga de especiaria, arrastar-se-iam de joelhos e lhe suplicariam que os levasse de volta ao sistema de Thalim.

 Outro problema. Embora o naib Dhartha fosse o teórico sócio de Keedair neste negocio, o líder zensunni não confiava em ninguém mais. Com o fim de aumentar a velocidade e a eficácia, Keedair ofereceu-se a apresentar-se com sua nave no lugar onde os nômades compilavam a especiaria, mas o naib não quis nem ouvir falar disso. Continuando, Keedair se ofereceu a transladar Dhartha e seu grupo de zensunni até seu povoado, para evitar a longa viagem de um esconderijo das montanhas, mas essa idéia também foi rechaçada.

 De modo que Keedair teve que esperar no espaçoporto, semana após semana, enquanto grupos de ratos do deserto desfilavam pela cidade com as costas encurvada debaixo de pesados pacotes cheios de especiaria. Pagava a prazo e regateava quando descobria quantidades anormais de areia mescladas com a melange, com fim de aumentar o peso artificialmente. O naib clamou sua inocência aos gritos, mas Keedair detectou certo respeito reticente por um forasteiro que não se deixava enganar. A adega de Keedair ia se enchendo com tal lentidão, que temeu perder a razão de um momento para outro.

 Keedair acalmava os nervos com ingestões cada vez mais repetidas do produto. Transformou-se em um viciado na cerveja de especiaria, ao café com especiaria e a algo que contivesse o ingrediente.

 Em seus momentos de maior lucidez, Keedair questionava sua decisão de ficar no planeta, e se perguntava se teria sido mais prudente aceitar as perdas de sua incursão e retornar aos civilizados planetas da liga. Ali poderia recomeçar, tomar posse de outro carregamento de escravos, destinados à venda em Poritrin ou Zanbar, ou transportar novos órgãos às granjas de Thulaxa.

 Sentado em seu camarote, Keedair jurou que seguiria até o final, enquanto acariciava sua longa trança. Retornar neste momento lhe obrigaria a aceitar enormes perdas para o resto do ano, e a honra exigiria que cortasse seu formoso cabelo. O orgulho impulsionava-o a permanecer em Arrakis o maior tempo possível.

 Desagradava-lhe o árido entorno, o aroma de rochas queimadas do ar, as tormentas que açoitavam as montanhas e varriam o espaçoporto. Mas como gostava da melange! Dia após dia, Keedair se sentava sozinho em sua nave e consumia enormes quantidades. Inclusive acrescentava especiaria a suas provisões de comida empacotadas, o que fazia que até os mantimentos mais insípidos lhe parecessem ambrósia.

 Envolto em uma neblina induzida pelas drogas, imaginava vender o produto a nobres ricos, a hedonistas da Salusa Secundus, Kirana III e Pincknon, talvez inclusive aos fanáticos bio-investigadores de Tlulax. Sentia-se vibrante e cheio de vida desde que acrescentasse melange a sua dieta, e cada dia via sua cara mais relaxada e jovem. Cravou a vista em um espelho iluminado e estudou suas feições. Os brancos de seus olhos tinham começado a tingir-se de um anil anormal, como tinta diluída na esclerótica.

 

 Os membros da tribo do naib Dhartha tinham esses peculiares olhos azuis. Um poluente ambiental? Talvez uma manifestação do consumo desmedido de melange? Sentia-se muito bem para pensar que fora um efeito colateral debilitador. Devia tratar-se de uma perda de pigmentação temporária.

 Preparou outra taça de potente café com especiaria.

 Na manhã seguinte, quando o céu coberto de estrelas abria caminho para uma aurora colorida, um grupo de nômades se apresentou no espaçoporto, a mando do naib Dhartha.

 Carregavam grandes pacotes de especiaria nas costas.

 Keedair se apressou a recebê-los, enquanto piscava devido à luz brilhante do amanhecer. Dhartha, envolto em poeirentas roupas de viagem, parecia satisfeito consigo mesmo.

 - Aqui está o resto da melange que tinha solicitado, mercador Keedair.

 Para manter as formas, inspecionou quatro pacotes aleatoriamente, e comprovou que continham melange sem acréscimos de areia.

 - Como antes, seu produto é aceitável. É tudo que necessitava para completar meu carregamento. Agora, retornarei à civilização.

 Mas Keedair não gostou da expressão de Dhartha. Se preguntou se obteria algum proveito caso atacasse alguns povoados do deserto e transformasse em escravos aos ratos do deserto.

 - Voltará, comerciante Keedair? - Um brilho de cobiça iluminou os olhos anil do naib. - Se pedir mais melange, será um prazer para mim proporcionar-lhe outro carregamento. Poderíamos chegar a um amplo acordo.

 Keedair emitiu um grunhido incompreensível, já que não desejava dar muitas esperanças ao homem sobre uma futura relação comercial.

 - Depende de obter benefícios deste carregamento. A especiaria é um produto desconhecido na liga, e vou correr um grande risco. – Ergueu-se em toda sua estatura. - Mas chegamos a um acordo em respeito a este carregamento, e eu sempre sou fiel a minha palavra. - Pagou a Dhartha a quantidade restante. - Se voltar, será dentro de muitos meses, talvez um ano. Se perder dinheiro, não voltarei jamais. - Lançou um olhar depreciativo ao imundo aeroporto, ao deserto e às escarpadas montanhas.

 - Pouca coisa mais poderia conseguir que retornasse a Arrakis.

 Dhartha olhou-o nos olhos.

 - Ninguém conhece o futuro, comerciante Keedair.

 Uma vez fechado o trato, o líder do deserto fez uma reverência e se afastou. Os nômades vestidos de branco olhavam para Keedair como abutres que espreitassem um animal moribundo, a espera de despedaçar o corpo.

 Voltou para sua nave sem mais despedidas, pensando que, apesar de tudo, esta aventura traria lucros. Keedair tentou imaginar como transformar a especiaria em um negócio viável a longo prazo, menos problemático que o de capturar e vender escravos.

 Por desgraça, as operações que tinha em mente exigiriam um importante investimento de capital, e não contava com tanto dinheiro. Mas pensou em um investidor concreto. Exatamente a pessoa que necessitava, um perito em drogas exóticas, um homem de grande riqueza e visão... um empresário capaz de julgar com objetividade o potencial dessa operação.

 Aurelius Venport, de Rossak.

 

 “Eu não sou mau disse Shaitan.

 Não rotule o que não compreende.”

 

 Sutra budislâmico

 

 Enquanto Serena se ocupava das flores plantadas em delicados vasos de terracota, Erasmo a observava com incessante fascinação.

 Ela levantou a vista, sem saber até que ponto podia (ou devia) provocar à máquina pensante.

 - Para compreender à humanidade, Erasmo, não é necessário infligir tanta crueldade.

 O robô voltou a face para ela e formou uma expressão de perplexidade.

 - Crueldade? Nunca foi essa minha intenção.

 - Você é mau, Erasmo. Vejo como trata os escravos humanos, como os atormenta, tortura-os, obriga-lhes a viver em terríveis condições.

 - Eu não sou mau, Serena, só curioso. Orgulho-me da objetividade de minhas investigações.

 A jovem se achava atrás de um vaso onde crescia um grupo de gerânios vermelhos, como para proteger-se caso o robô ficasse violento.

 - Ah, sim? O que me diz das torturas que realiza em seus laboratórios?

 Erasmo dedicou-lhe sua expressão mais indecifrável.

 - Se trata de minhas investigações particulares, realizadas sob os controles mais estritos e delicados. Você não deve entrar nos laboratórios. É proibido vê-los. Não quero que se intrometa em meus experimentos.

 - Seus experimentos com eles... ou comigo?

 O robô lhe dedicou um sorriso de uma placidez enlouquecedora e não contestou.

 Irritada com ele, consciente do dano que Erasmo estava fazendo e muito preocupada com o filho que levava no ventre, Serena deu um empurrão no vaso, que ficou destroçado sobre os ladrilhos vidrados da estufa.

 Erasmo contemplou os fragmentos de argila, a terra espalhada, as flores vermelhas pisoteadas.

 - Ao contrário dos humanos, eu nunca destruo de maneira indiscriminada, sem motivo.

 Serena elevou o queixo.

 - Tampouco mostra-te bondoso. Por que não faz coisas boas, para variar?

 - Coisas boas? - Erasmo parecia realmente interessado. - Por exemplo?

 Irrigadores automáticos regaram as plantas com um suave ruído.

 - Alimente melhor seus escravos - disse Serena, que não queria deixar passar a oportunidade, para começar. - Não só aos privilegiados de confiança, mas também os criados da casa e aos pobres desventurados que tem amontoados como animais em seus recintos.

 - Uma alimentação melhor equivalerá a uma coisa boa? - Perguntou Erasmo.

 - Eliminará um dos aspectos de sua aflição. O que pode perder, Erasmo? Tem medo?

 O robô não mordeu o anzol.

 - Pensarei sobre isso - limitou a responder.

 Quatro sentinelas robô interceptaram Serena quando ia passear pela vila. Escoltaram-na até o pátio aberto de frente ao mar. Os robôs estavam bem blindados e portavam projeteis integrados porém não eram aficionados a conversar. Avançaram sem vacilar, com Serena entre eles.

 A jovem tentou reprimir um medo inexplicável. Nunca sabia que brutais experimentos Erasmo podia imaginar.

 Sob o imenso céu azul, viu aves que voavam em círculos sobre os escarpados. Cheirou a sal marinho, ouviu o longínquo sussurro do vento. Entre as extensões de grama verde e os arbustos bem podados que dominavam os recintos de escravos, ficou estupefata ao ver largas mesas rodeadas de centenas de cadeiras. Os robôs tinham disposto um sofisticado banquete sob o sol, as mesas preparadas com talheres cintilantes, copos cheios de líquidos coloridos, e bandejas transbordantes de carnes fumegantes, frutas exóticas e potes de doces. Havia Ramos de flores em cada mesa, o que contribuía para destacar a fartura da cena.

 Multidões de nervosos escravos se achavam imóveis atrás de algumas barreiras, contemplando com desejo e temor os pratos nas mesas. Aromas saborosos e perfumes de frutas impregnavam o ar, tentadores e incitadores.

 Serena parou em seco, assombrada.

 - O que é tudo isto?

 Os quatro robôs que a escoltavam avançaram um passo, e logo também se detiveram.

 Erasmo se aproximou dela com expressão satisfeita.

 - É uma festa, Serena. Não te parece maravilhoso? Teria, que te alegrar.

 - Estou... intrigada - respondeu ela.

 Erasmo elevou suas mãos metálicas, e os robôs sentinela afastaram as barreiras, indicando aos escravos que entrassem. Os escravos escolhidos correram às mesas, com aspecto intimidado.

 - Selecionei o grupo com todo cuidado - explicou Erasmo, - com representantes de todas as diferentes castas: humano de confiança, operários, artesãos e inclusive os escravos mais grosseiros

 Os cativos tomaram assento muito tesos, contemplaram a comida e remexeram as mãos em seu regaço. Sua expressão era de confusão mesclada com medo. Muitos dos convidados tinham aspecto de desejar estar em qualquer lugar menos ali, porque ninguém confiava no dono da casa. O mais provável era que a comida estivesse envenenada, e todos os convidados morreriam de uma maneira espantosa, enquanto Erasmo tomava notas.

 - Comam! - disse o robô. - Preparei-lhes este banquete É minha boa obra.

 Agora, Serena compreendeu o que estava fazendo.

 - Não me referia a isto, Erasmo. Eu queria que lhes desse rações melhores, que melhorasse sua nutrição diária, que fortalecesse sua saúde. Apenas um banquete não resolve nada.

 - Eles se predispõe a meu favor. - Alguns convidados serviram comida em seus pratos, mas ninguém se atreveu provar um bocado. - Por que não comem? Eu estou sendo generoso.

 O robô olhou para Serena em busca de uma resposta.

 - Como saber? Como podem confiar em você? Diga-me a verdade, você envenenou a comida? Algum prato aleatoriamente?

 - Uma idéia interessante, mas não faz parte do experimento. - Erasmo continuava perplexo. - Entretanto, o olhar do observador está acostumado a afetar o resultado de um experimento. Não vejo forma de solucionar este problema. - Então, seu rosto formou um amplo sorriso. - A menos que eu também participe do experimento.

 Estendeu sua sonda sensora, deu a volta à mesa mais próxima e afundou o extremo em diferentes molhos e pratos, ao mesmo tempo que analisava cada especiaria ou sabor. As pessoas olhavam vacilantes. Serena viu que muitos rostos se voltavam para ela, esperançosos. Tomou uma decisão, formou um sorriso tranqüilizador e falou.

 - Escutem. Comam e desfrutem do festim. Erasmo não tem más intenções hoje. - Olhou para o robô. - A menos que me tenha mentido.

 - Não sei mentir.

 - Estou segura de que poderia aprender, se quisesse. - Serena caminhou até a mesa mais próxima, cravou um pedaço de carne e o introduziu em sua boca. Depois, escolheu uma fatia de fruta e provou uma sobremesa.

 Os escravos sorriram, com olhos brilhantes. A jovem tinha um aspecto angélico enquanto ia provando pratos, esforçando-se por demonstrar que o banquete era o que aparentava.

 - Venham, meus amigos, e comam. Embora não possa lhes dar a liberdade, ao menos compartilharemos uma tarde de felicidade.

 Como homens esfomeados, os cativos se precipitaram sobre as bandejas, serviram-se rações abundantes, grunhindo de prazer, derramando molho, chupando os dedos para não desperdiçar nada. Olhavam-na com gratidão e admiração, e Serena sentiu um calor interior, satisfeita de ter conseguido algo para aqueles desventurados.

 Pela primeira vez, Erasmo tinha tentado fazer uma boa ação Serena confiava em animá-lo a continuar.

 Uma mulher se aproximou e puxou a manga de Serena. Esta examinou os grandes olhos escuros, o rosto gasto mas cheio esperança.

 - Como se chama? - perguntou a escrava. - Precisamos saber. Contaremos aos outros o que tem feito.

 - Sou Serena. Serena Butler. Pedi a Erasmo que melhore suas condições de vida. Ele se encarregará de que recebam rações melhores a cada dia. - Se voltou para olhar ao robô e entreabriu os olhos. - Não é mesmo?

 O robô lhe dedicou um plácido sorriso, satisfeito, não do que tinha feito, mas sim das coisas interessantes que tinha observado.

 - Como quiser, Serena Butler.

 

Devido a natureza sedutora das máquinas, supomos que os avanços tecnológicos trazem sempre melhorias e sempre beneficiam os humanos.

 

 Primeiro FAYKAN BUTLER,

 Memórias da Yihad

 

Depois de culpar os calculadores incompetentes pelo fracasso de seu resonador, Tio Holtzman abandonou o projeto sem mais. Pessoalmente, tinha consciência de que o gerador nunca seria seletivo o bastante para machucar um inimigo robô sem danos colaterais significativos.

 Lorde Bludd, um pouco mortificado, tinha insinuado sem rodeios que seu grande inventor trabalhasse em outros conceitos. Mesmo assim, a idéia tinha sido promissora...

 O cientista voltou para seu campo decodificador original, capaz de desorganizar os sofisticados circuitos gelificados das máquinas pensantes. Outros engenheiros continuavam modificando os decodificadores portáteis para utilizá-los em ataques terrestres, porém Holtzman pensava que a coisa não acabava ali, que o desenho do decodificador podia transformar-se em uma potente barreira contra um tipo diferente de armas.

 Absorto em seu trabalho, procurando se esquivar de Norma (devido a sua irritante tendência a assinalar seus enganos), contemplou seus cálculos. Com o objetivo de aumentar a potência e distribuição do campo, lutou com as equações como se fossem coisas vivas. Necessitava corrigir o defeito que tinha permitido aos cimeks penetrar em Salusa Secundus.

 Pensou em armas ofensivas e defensivas ao mesmo tempo, moveu-as em sua mente como brinquedos. Em geral, Holtzman sabia que a destruição total do inimigo se produziria mais ou menos sem problemas assim que a liga burlasse as defesas de Omnius. Um simples bombardeio com um número entristecedor de cabeças atômicas antiquadas desintegraria os Planetas Sincronizados, mas também mataria bilhões de seres humanos escravizados.

 Não era uma solução viável.

 Em um planetário situado ao final de uma estreita escada, Holtzman ativou o holograma de uma enorme lua que orbitava ao redor de um planeta coberto de água. A lua descrevia uma larga elipse, escapava da atração gravitacional de seu planeta e cruzava o sistema solar imaginário até chocar-se contra outro planeta, de maneira que os dois corpos estelares ficavam destruídos. Franziu o cenho e apagou a imagem.

 Sim, a destruição era singela. O escudo trazia muitas dificuldades.

 Holtzman tinha pensado em solicitar a colaboração de Norma para seu novo projeto, mas se sentia intimidado pela jovem. Apesar de seus êxitos anteriores, estava envergonhado pelo fato de que sua intuição matemática fora inferior a dela. Norma teria gostado de trabalhar com ele, certamente, mas Holtzman se sentia proprietário exclusivo da idéia. Por uma vez, queria obter algo sem ajuda, atendo-se aos resultados dos cálculos.

 Porém, para que havia feito Norma vir de Rossak, senão para aproveitar seu talento?

 Irritado por suas vacilações, Holtzman devolveu o projetor planetário a sua prateleira. Havia chegado o momento de voltar ao trabalho.

 Entrou um dragão com seu uniforme de escamas douradas e entregou um pacote de folhas de cálculo, a última série de modelos teóricos.

 Holtzman estudou as cifras finais. Tinha trabalhado uma e outra vez em sua teoria fundamental, e seus calculadores tinham encontrado por fim as respostas que necessitava.

 Entusiasmado, deu um palmada sobre a mesa, fazendo saltar os documentos amontoados.

 - Sim!

 O inventor, satisfeito, organizou seus papéis, empilhou com esmero as notas, esboços e fotocópias. Depois, espalhou as folhas de cálculo como se fosse um tesouro, e chamou Norma Cenva.

 Quando a jovem entrou, ele explicou com orgulho o que havia conseguido.

 - Quero que você estude meus resultados.

 - Será um prazer, sábio Holtzman.

 Norma não era competitiva, não desejava a fama. Isso agradava Holtzman. Mas respirou fundo, nervoso.

 Tenho medo dela. Odiava o pensamento, e tratou de tirá-lo da memória.

 A moça subiu a um tamborete e acariciou o queixo, enquanto repassava as equações. Holtzman passeava por seu laboratório, olhava de vez em quando para atrás, mas nada distraia Norma, nem sequer quando o sábio moveu uma pilha de prismas tonais ressonantes.

 Norma assimilou os novos conceitos como se estivesse em transe hipnótico. O sábio não estava seguro de como funcionavam seus processos mentais, só de que o fazia. Por fim, Norma emergiu de seu mundo alternativo e deixou os papéis a um lado.

 - Trata-se, com efeito, de uma nova forma de campo protetor, sábio. Sua manipulação das equações básicas é inovadora, e até eu encontro dificuldades para compreendê-las totalmente.

 Sorriu como uma menina pequena, e Holtzman teve que reprimir uma expressão de orgulho e alívio. Então, para sua decepção, o tom de Norma mudou.

 - Mas, não estou segura de que a aplicação que deseja seja viável.

 Suas palavras caíram como gotas de ferro incandescente sobre a pele do sábio.

 - O que quer dizer? O campo é capaz de desorganizar tanto os circuitos gelificados dos computadores como uma intrusão física.

 Norma percorreu com os dedos uma seção de cálculos da terceira página.

 - Seu principal fator de limitação é o raio da projeção efetiva, aqui e aqui. Por mais energia que bombeiem no gerador de campo, não podem expandi-la além de um determinado valor constante. Um campo destas características poderia proteger naves e edifícios de grande tamanho, com uma eficácia maravilhosa, na realidade, mas nunca abrangerá o diâmetro de um planeta.

 - Nesse caso, não podemos utilizar vários? - perguntou Holtzman com ansiedade. - Sobrepô-los?

 - Possivelmente - assentiu Norma, mas sem muito entusiasmo. - Mas o que mais me surpreende é esta velocidade variável. - Rodeou outra parte de uma equação com o dedo. - Se repassar os cálculos aqui - agarrou uma caixa de cálculos, oprimiu com um punção diversas aberturas com o fim de pôr em movimento mecanismos internos, e deslizou de um lado a outro estreitas placas, - a velocidade incidental adquire relevância quando a separa como função da eficácia do campo. Desta maneira, com um valor mínimo da velocidade, o fator de proteção é absolutamente insignificante.

 Holtzman a olhou, incapaz de seguir seu raciocínio.

 - O que quer dizer?

 Norma era muito paciente com ele.

 - Em outras palavras, se um projétil se mover muito devagar poderá penetrar em seus escudos. O escudo deterá uma bala rápida, mas algo um pouco mais lento que um certo valor crítico o atravessará.

 - Que tipo de inimigo dispara balas lentas? - disse Holtzman, enquanto recuperava os papéis. - Tem medo de que alguém saia ferido se lhe lançarem uma maçã?

 - Só estou explicando as ramificações dos cálculos, sábio.

 - De modo que meus escudos só podem proteger áreas pequenas, e somente de projéteis rápidos. É isso o que está dizendo?

 - Eu não, sábio Holtzman. É o que dizem suas equações

 - Bem, tem que haver uma aplicação prática. Só queria te mostrar o progresso de meu trabalho. Estou seguro de que te ocorrerá algo muito mais impressionante.

 Parecia que Norma não percebia a petulância de sua voz.

 - Posso ficar com uma cópia?

 Holtzman se repreendeu por ser genioso, inclusive pouco produtivo.

 - Sim, sim, ordenarei aos calculadores que lhe façam uma, enquanto eu vou meditar. Pode se que me ausente por alguns dias.

 - Eu ficarei aqui disse Norma, sem deixar de olhar para os cálculos. Continuarei trabalhando.

 

 Holtzman, a bordo de uma luxuosa barcaça tradicional que sulcava o rio, passeava pela coberta e meditava sobre as possibilidades. As correntes de água que acariciavam os flancos da embarcação transportavam um aroma de metal e barro.

 Na seção de popa coberta, um grupo de turistas bebia vinhos espumosos e cantava canções, o que lhe distraia. Quando uma mulher reconheceu o famoso cientista, todo o grupo convidou-o a sentar-se em sua mesa, e aceitou. Depois de um jantar excelente, compartilharam bebidas caras e uma conversa razoavelmente inteligente, adorava as adulações.

 Mas em plena noite, incapaz de dormir, reatou seu trabalho.

 Obstinado a seus antigos êxitos, recordando com que facilidade fluíam as idéias no passado, negou-se a renunciar à nova idéia. Seus escudos inovadores possuíam um potencial notável, mas talvez lhe escapava algo. Seu tecido era grande, vaga sua missão, mas as pinceladas muito grosas.

 Por que devia preocupar-se com blindar todo um planeta em um dado momento? Era necessário?

 Havia outras formas de guerra: combate pessoal com tropas terrestres, luta corpo a corpo nas quais os humanos podiam liberar seus irmãos cativos dos Planetas Sincronizados. Os ataques em escala planetária sacrificavam muitas vidas. Como uma inteligência artificial podia copiar-se indefinidamente, Omnius nunca se renderia, nem sequer enfrentado a forças militares avassaladoras. A supermente seria quase invencível... a menos que comandos especiais invadissem um centro de controle, como havia sucedido em Giedi Prime.

 Enquanto passeava pela coberta, as estrelas brilhavam no céu. Holtzman cravou a vista nas paredes rochosas do corredor do Isana, uma profunda garganta formada pelo rio torrencial. Ouviu o rugido dos rápidos que se aproximavam, mas sabia que a embarcação desviaria por um canal. Deixou vagar sua mente.

 Escudos menores... Escudos pessoais. Talvez a armadura invisível não detivesse projéteis lentos, mas resistiria a quase todos os ataques militares. E não era preciso que as máquinas conhecessem este ponto vulnerável.

 Escudos pessoais.

 Embora o êxito e os elogios fossem menos gloriosos, o novo conceito defensivo seria muito útil. De fato, salvaria bilhões de vidas. As pessoas poderiam levar os escudos como amparo pessoal. Os indivíduos, como diminutas fortalezas, seriam quase imunes ao ataque.

 Faltou-lhe o fôlego, voltou para seu luxuoso camarote da coberta superior, cujo interior estava iluminado por um globo de luz facetado de Norma. Escreveu e reescreveu suas equações até bem entrada a madrugada. Por fim, estudou seus resultados com olhos cansados, e escreveu com orgulho “Efeito Holtzman”.

 Sim, isto funcionará maravilhosamente.

 Pediria um transporte rápido e retornaria a Starda, rio abaixo. Desejava ver a expressão de perplexidade e admiração no rosto de Norma quando reconhecesse seu autêntico gênio e compreendesse que nunca o tinha perdido.

 

 Não é meu problema.

 

 Dito da Velha Terra

 

 Nas paredes de granito do estreito corredor fluvial, os escravos (em sua maioria meninos, como Ishmael e Alüd se penduravam de arnês sobre o abismo. Os moços trabalhavam longe dos supervisores, sem chance de fuga. Somente podiam descer pela parede rosa até as águas espumantes do fundo.

 A faca abrasiva do Isana tinha aberto uma profunda garganta, deixando as paredes de pedra tão polidas e lisas que nenhuma erva ou arbusto podia crescer. Embora o rio fosse rápido e as águas traiçoeiras, este gargalo fazia parte da rota comercial do rio. As barcaças procedentes das planícies continentais (carregadas de grãos, sucos de ervas fermentados e especiarias locais) passavam pela garganta.

 Lorde Bludd tinha decidido colocar um gigantesco mosaico em uma parede do corredor, um mural colossal que comemoraria os triunfos de sua nobre família. O extremo norte da obra começava com o retrato idealizado de seu antepassado Sajak Bludd, no entanto a parte sul ficaria virgem para os feitos dos futuros senhores de Poritrin.

 Ishmael, Alüd e seus companheiros foram obrigados a construir o mosaico. Os artistas da corte já tinham gravado com laser na parede o desenho, e os moços colocavam metodicamente os mosaicos sobre a ilustração, cada peça como um diminuto pixel do que, de longe, seria a obra definitiva. Os andaimes penduravam carregados de ladrilhos geométricos, cortadas de argila do rio cozida e vitrificada com tinturas importados do Hagal.

 Visto da coberta dos navios, o mural seria impressionante. Mas suspenso de um arnês e de tão perto, Ishmael não podia distinguir detalhes. Apenas via um favo de ladrilhos impreciso, uma cor atrás de outra coladas com resinas.

 Alüd, que estava pendurado a seu lado, fixava ruidosamente os ladrilhos em seu lugar. O ruído das ferramentas ressonava no corredor: serras, martelos bicudos, soldadores elétricos. Alüd, que tinha saudades de sua vida roubada, cantou uma canção de Anbus IV enquanto trabalhava. Ishmael o seguiu com uma balada similar de Harmonthep.

 Dez metros abaixo, pendurado de seu arnês, um menino chamado Ebbin compôs uma melodia improvisada que descrevia seu lar de Souci, uma lua habitada tão isolada que nem Alüd nem Ishmael, tinham ouvido falar dela. Pelo visto, os caçadores de escravos de Tlulaxa eram peritos em localizar refúgios budislâmicos, e perseguiam zensunni e zenshiítas por igual.

 Os meninos tinham mais agilidade e energia que homens ou mulheres adultos. Eram capazes de engatinhar sobre o granito para colocar os ladrilhos de cores, enquanto frios ventos silvavam no corredor. Os supervisores não esperavam problemas.

 Equivocavam-se.

 Alüd estava acostumado a repetir com freqüência as palavras desafiantes de Bel Moulay. O veemente líder zenshiíta sonhava com uma época em que os escravos se livrariam de suas cadeias e voltariam a ser livres, retornariam ao Anbus IV, Harmonthep, ou inclusive ao misterioso Souci. Ishmael escutava aquelas tolices, mas não queria açular mais Alüd.

 Ishmael recordava seu avô, e continuava sendo um paciente pacifista. Sabia que talvez não visse nunca a queda dos caçadores de escravos. Alüd não queria esperar. Acreditava que os escravos mereciam vingar-se, tal, como Bel Moulay tinha prometido em suas idéias incendiárias...

 O ostentoso lord Bludd chegou a plataforma de observação com seu séquito. Os artistas da corte tinham adaptado as idéias e esboços do lorde à parede da garganta, e vinha com freqüência inspecionar os trabalhos. A cada semana, a plataforma de observação descia um pouco mais, à medida que o imenso mosaico crescia com lentidão sobre os penhascos de granito. Flanqueado por seus dragões, o nobre felicitou aos encarregados do projeto.

 Nesta fase, o mural assumia a forma em que seu bisavô, Favo Bludd, tinha criado uma obra de arte única nas grandes pradarias, desenhos geométricos de flores e ervas que brotavam em estações diferentes. Vista do ar, estas obras de arte efêmeras mudavam como imagens caleidoscópicas. A cada estação, as flores cresciam formando desenhos, depois amadureciam, e pouco a pouco formavam mais grupos fortuitos, quando os ventos alteravam a paleta do plantador.

 De onde Bludd olhava, rodeado por mesquinhos aduladores, os escravos pareciam insetos que rastejavam sobre a parede oposta. Ouviu o ruído dos aparatos e o tom agudo das jovens vozes.

 Os trabalhos progrediam de maneira satisfatória. Figuras, rostos e naves gigantes cobriam o granito: uma épica descrição da colonização de Poritrin e a destruição intencional de todos os computadores, o que devolveu o planeta a uma existência bucólica, dependente da mão de obra escrava.

 Bludd, um homem muito orgulhoso, conhecia bem os rostos de seus antepassados. Por desgraça, enquanto estudava o jogo da luz e as cores sobre o mosaico inacabado, descobriu que não lhe satisfazia a cara do velho Favo. Embora o desenho do mosaico seguisse com precisão a imagem gravada a laser no granito, agora que via o resultado, não gostou.

 - Note o rosto de lorde Favo. Não lhes parece pouco correta?

 Todo o séquito se apressou a lhe dar a razão. Chamou o supervisor do projeto, explicou o problema e ordenou que retirassem os ladrilhos do rosto de Favo Bludd, até que modelassem de novo seus traços.

 O capataz vacilou um instante, e logo assentiu.

 Ishmael e Alüd grunhiram em uníssono quando lhes chegaram as insultantes instruções. Aproximaram-se da superfície já terminada. Ishmael se pendurava ante o imenso desenho geométrico que formava o olho do nobre.

 Alüd, enfurecido, fixou seus ganchos protetores, e depois utilizou um martelo de rocha para destroçar os ladrilhos, tal como lhes tinham ordenado. Ishmael o imitou. Não deixava de ser irônico que tirar os ladrilhos fosse mais difícil que colocá-los. A resina epoxi era mais dura que o granito, de modo que não tinham outra alternativa senão destruir o mosaico e deixar que os pedaços caíssem ao rio.

 Alüd estava furioso pelo absurdo de suas tarefas. Ser escravo já era bastante ruim, mas o encolerizava repetir um trabalho entristecedor porque algum amo arrogante tinha mudado de opinião. Descarregou seu martelo com mais força do que a necessária, como se imaginasse as cabeças de seus inimigos, e o rebote bastou para que a ferramenta se soltasse de seu cabo. O martelo caiu.

 - Cuidado aí abaixo! - gritou.

 O pequeno Ebbin tentou afastar-se. Seus pés e mãos escorregaram quando se deslocou sobre a rocha polida. o martelo o acertou no ombro e cortou a correia do torso.

 Ebbin escorregou, sem a metade de seu apoio e com a clavícula quebrada. Gritou e agarrou o laço do arnês restante, que se cravava em seu braço direito.

 Ishmael tentou deslocar-se de flanco para alcançar o cabo que prendia Ebbin. Alüd se esforçava por descer até o moço de Souci.

 Ebbin sacudia os braços e as pernas. Deixou cair o martelo. Ishmael aferrou a corda restante do moço e a prendeu, mas não sabia o que fazer.

 Os escravos que se achavam na borda do canyon começaram a puxar o cabo para subir ao garoto, porém o braço esquerdo de Ebbin jazia inerte, e com uma clavícula quebrada pouco podia fazer para se ajudar. O cabo se prendeu em uma rocha. Ishmael sacudiu a corda com a intenção de soltá-la, com os dentes apertados. O menino se encontrava a pouca distância abaixo dele.

 Ebbin, desesperado, estendeu uma mão e arranhou o ar. Ishmael, sem deixar de segurar o cabo, tentou agarrar seu braço livre para apoderar-se da mão do menino.

 De repente, os trabalhadores da borda lançaram gritos de decepção. Ishmael ouviu o ruído da corda ao romper-se.

 Ishmael se agarrou a seu arnês. A corda fibrosa que prendia Ebbin deslizou em sua mão fechada e queimou sua pele. Apesar da fratura, Ebbin estendeu a mão para cima, e seus dedos roçar os de Ishmael. Depois, o menino se precipitou ao abismo, com a boca aberta, os olhos brilhantes de incredulidade. O extremo desfiado do cabo escorregou pelas mãos machucadas de Ishmael.

 Ebbin caia dando voltas no Isana. A água estava tão longe que Ishmael nem sequer viu o menino fundir-se ao rio...

 Alüd e Ishmael foram içados até a borda do escarpado, onde o responsável pelo projeto curou de má vontade suas queimaduras e contusões.

 Ishmael esteve a ponto de vomitar. Alüd estava silencioso e taciturno, e se culpava pelo ocorrido. Mas o responsável pelo projeto não demonstrou a menor compaixão e gritou a outros moços que voltassem a trabalhar.

 

Existe um limite superior para a inteligência das máquinas, e um limite inferior para a estupidez dos humanos?

 

 BOVKO MANRESA,

 primeiro vice-rei da Liga de Nobres

 

 De todas as moléstias provocadas pelos vis humanos da Terra, Ajax considerava que a rebelião era a mais imperdoável.

 A vítima gemia e soluçava, tentava liberar-se sem êxito de suas ataduras, enquanto o cruel titã passeava acima e abaixo da imensa câmara vazia sobre suas pernas esbeltas.

 Depois de surpreender o capataz em plena traição, Ajax tinha fechado uma mão artificial ao redor do bíceps direito do homem e o tinha arrastado para longe de seus trabalhadores, entre gritos e tropeções.

 Os escravos tinham interrompido suas tarefas, e contemplado com horror e compaixão seu capataz, vítima da ira de Ajax. O cimek desfilou com seu aterrorizado cativo pelas ruas, e o arrastou por fim ao interior de um edifício oco, chamado Palácio de Justiça.

 O que parecia muito apropriado a Ajax.

 Como muitos edifícios da capital da Terra, o palácio de Justiça não era mais que um cenário destinado a transmitir uma aparência de majestosidade. Por dentro, estava totalmente vazio.

 Ajax e o traidor poderiam ter uma longa reunião a sós. A idéia de que os escravos se rebelassem o divertia por sua falta de lógica, sobretudo se um humano de confiança dava seu apóio a tal estupidez.

 Enfocou suas numerosas fibras ópticas no cativo suplicante. O homem havia se sujado e soluçava de uma maneira patética, balbuciando mais desculpas que negativas. Não havia pressa. Pretendia se divertir muito com ele.

 - Você conspirou contra as máquinas pensantes - falou Ajax com voz profunda e firme. - Inventou histórias sobre uma extensa resistência clandestina, com o disparatado propósito de fazer com que os escravos se rebelassem e obtivessem a independência de Omnius.

 - Não é verdade! - uivou o homem. - Juro que não sabia o que estava fazendo. Estava seguindo instruções. Recebi mensagens...

 - Recebeu mensagens que respiravam a rebelião, e não me informou? - A gargalhada poderosa de Ajax fez que o pobre homem se mijasse todo. – Em vez disso, repassou as mensagens em segredo aos seus empregados.

 As provas eram irrefutáveis, e Ajax esperava uma recompensa por solucionar o problema. Afinal, Omnius estava observando. Talvez, pensou o cimek, se arrancasse o coração da rebelião logo no início, poderia solicitar uma recompensa, inclusive exigir a oportunidade de lutar em um espetacular combate de gladiadores, como tinham feito Agamenon e Barba Azul.

 - Vamos gravar essa sessão. - Ajax avançou sobre suas pernas blindadas flexíveis, ao mesmo tempo em que agitava jogos de braços parecidos com patas de inseto. Agarrou a mão esquerda do cativo e a imobilizou com uma presa de polímero metálico. Diga seu nome.

 O homem babou e suplicou, mas Ajax, iracundo, aumentou sua presa e lhe cortou a mão pelo pulso. O homem gritou, e o jorro de sangue cobriu o jogo dianteiro de fibras ópticas do cimek. Ajax se amaldiçoou. Não pretendia infligir tanta dor antes que o homem pudesse responder a perguntas simples.

 Enquanto o capataz uivava e se revolvia, Ajax ativou um lança-chamas e chamuscou o coto.

 - Já está cauterizado. - Ajax esperou a que o homem demonstrasse certa gratidão. - Responda à pergunta. Como você se chama?

 Ajax agarrou a outra mão do homem com uma garra de aspecto ameaçador. O capataz se pôs a gritar, mas teve suficiente presença de espírito para dizer:

 - Ohan. Ohan Freer! Esse é meu nome. Não me machuque mais, por favor.

 - Começamos bem.

 De qualquer modo, Ajax sabia que não tinha feito mais que começar a machucá-lo. Gostava muito desta parte do trabalho, quando podia improvisar os torturas e infligir dor como um professor.

 Os outros titãs consideravam Ajax um demente. Mas se um líder não podia demonstrar seu poder sobre os vencidos, do que tinha servido conquistar o Império Antigo? Inclusive em seus dias de glória, Ajax nunca se interessou, como Xerxes, por comidas ou bebidas extravagantes, na vida mole e abúlica, como sua caprichosa parceira, Hécate.

 Não, Ajax tinha se unido ao grupo pelo puro prazer do desafio. A princípio, quando Tlaloc tinha esboçado planos com seus companheiros de conspiração, a sedutora Juno havia recrutado Ajax para a causa. Um guerreiro duro e agressivo, Ajax tinha contribuído com o músculo que os titãs necessitavam, não só força física, mas também a mente de um guerreiro, de um conquistador insaciável. Depois da derrota dos humanos, fazia o possível por manter a ordem, indiferente ao preço pago em sangue pelos não combatentes.

 Os insetos sempre estavam tramando uma rebelião ou outra, mas Ajax extinguia com facilidade aqueles pequenos incêndios. Quando as Rebeliões Hrethgir, mais organizadas, ameaçaram aos titãs, Ajax tinha reagido com assombrosa crueldade.

 Tinha ido a Walgis, o lugar onde tinha acendido a faísca da rebelião, e isolado o planeta por completo. Tinha deixado as comunicações abertas de propósito para que a população condenada pudesse pedir auxílio. Dessa forma, os escravos ingovernáveis de outros planetas controlados pelos titãs experimentariam o castigo de maneira vigária.

 Depois, colocou mãos a obra.

 O trabalho essencial o ocupou durante anos, mas Ajax conseguiu por fim exterminar todos os seres humanos de Walgis, com a ajuda de armas atômicas, nuvens de gás venenoso e enfermidades personalizadas. Para aniquilar os sobreviventes, Ajax tinha instalado seu contêiner cerebral dentro de um corpo monstruoso e aterrador, e caçava os humanos como se fossem animais selvagens. Acompanhado por esquadrões de robôs programados por Barba Azul, havia queimado cidades, derrubado edifícios, extirpado toda presença humana. Matou até o último dos hrethgir, e divertiu-se muito.

 Aqueles sim tinham sido dias gloriosos para os titãs!

 Esta violência, embora justificada, tinha perturbado sua companheira Hécate, a mais débil e escrupulosa dos vinte primeiros titãs. Embora tivesse se juntado à rebelião de Tlaloc com ânimo de lucro, nunca tinha compreendido as necessidades da tarefa, e tinha adoecido pouco a pouco. Depois que os titãs sacrificaram seus corpos humanos em favor de uma existência imortal como cimeks, Hécate tinha ficado com Ajax, ao mesmo tempo que tentava, sem êxito, mudar sua personalidade. Apesar de seus desacordos, Ajax a tinha querido, se bem que sua necessidade de uma amante houvesse desaparecido junto com sua forma física.

 Consternada pela sangrenta reação de Ajax às Rebeliões Hrethgir, Hécate havia renunciado a sua “posição” entre os titãs. Não desejava participar do governo da humanidade. Encerrada em um corpo cimek de desenho próprio, uma espaçonave de longo alcance, Hécate tinha partido e abandonado os outros titãs.

 Por uma ironia, Hécate tinha escolhido o momento certo para desaparecer. Pouco depois do extermínio dos humanos de Walgis, o fatal engano de Xerxes tinha permitido que a supermente de Omnius se liberta-se...

 No interior do ensangüentado Palácio de Justiça, Ajax se ergueu em toda sua estatura.

 Transmitiu energia a seus sistemas para que o fogo neuroelétrico percorresse suas extremidades de inseto. O traidor gritou ao pensar no que ia acontecer-lhe.

 - Bem, Ohan Freer - disse Ajax, - vou formular mais perguntas. Quero que preste muita atenção.

 

 Por ordem de Omnius, o supervisor Iblis Ginjo conduziu seus trabalhadores à praça da Idade de Ouro. Ajax estava a ponto de sentenciar (a morte, sem dúvida) um homem que havia capturado, um supervisor de outra equipe, Ohan Freer.

 Iblis tinha estudado com o acusado nas escolas especiais, mas nunca tinha visto que seu colega fizesse nada ilegal. Entretanto, Ajax nunca necessitava de muitas desculpas. Ele mesmo tinha experimentado a desaprovação do titã em mais de uma ocasião, mas até o momento tinha conseguido sobreviver. Duvidava de que seu colega saísse bem hoje.

 Uma coluna de metal trabalhado se elevava no centro da praça. Uma chama laranja ardia no extremo, como uma chaminé ornamental. Elegantes fachadas de imensos edifícios, todos vazios, rodeavam a praça como muros do pátio central de uma prisão. Os sentinelas robô de Omnius estavam formados no perímetro da praça, preparados para castigar qualquer teórica infração dos escravos humanos.

 Iblis guiou seu grupo até entrar em as áreas de observação separadas. Dirigiu-lhes algumas palavras para tranqüilizá-los, um discurso breve que não pudesse incomodar os cimeks. Ajax era muito aficionado a montar o espetáculo, queria assegurar-se de que cada olho aterrorizado fosse testemunha de seus atos. Quando Iblis e outros capatazes assopraram seus apitos para indicar que estavam preparados, Ajax apareceu com seu prisioneiro mutilado.

 O titã usava um corpo parecido ao de uma formiga com um impressionante núcleo elipsoidal, pesadas patas para caminhar e quatro braços com os quais prendia Ohan Freer. Olhos espiões captavam as imagens e transmitiam um jorro de dados à supermente.

 Sob a coluna de fogo, Ajax agarrou à vítima como uma gigantesca formiga a um escaravelho indefeso. O desventurado Ohan estava queimado, ensangüentado e ferido. Sua mão esquerda não era mais que um coto carbonizado. Diversos hematomas manchavam sua pele. Um fio de saliva emanava de sua boca.

 Um murmúrio de consternação se elevou dos cativos. Iblis percebeu que aqueles operários não tinham podido constituir a origem da rebelião, face às mensagens misteriosas e provocadoras que tinha recebido. E se estivesse enganando, e a chamada secreta da liberdade era uma simples sugestão ofegante lançada por outra pessoa desesperada?

 Ajax elevou no ar o cativo e amplificou seus sintetizadores vocais para que suas palavras ressonassem como um trovão na praça.

 - Alguns de vocês ouviram este criminoso falar. Alguns talvez tenham tido a desventurada idéia de escutar suas estúpidas fantasias de liberdade e rebelião. Seria melhor que cortassem as orelhas antes de dar ouvidos a tais necessidades.

 A multidão conteve o fôlego. Iblis mordeu o lábio inferior, pois não queria olhar, mas estava fascinado pelo iminente horror. Se desviasse a vista, talvez os olhos espiões detectassem-no, mais tarde padeceria as conseqüências. Por conseguinte, Iblis continuou contemplando a cena.

 - Este pobre iludido já não é necessário para a perpétua glória de Omnius no reino das máquinas pensantes.

 Ohan gritou e se revolveu sem forças. Ajax sujeitava a mão intacta do homem em uma garra e cada perna em outras duas. Com a última garra, Ajax rodeava o peito de Ohan por baixo das axilas.

 - Já não é um trabalhador. Nem sequer é um hrethgir, um dos humanos indisciplinados que sobrevivem a custa de nossos sofrimentos. É lixo. - Ajax fez uma pausa. - E tenho que desfazer-me do lixo.

 Depois, sem o menor esforço ou som, Ajax estendeu seus membros artificiais em diferentes direções e esquartejou o indefenso Ohan. Os braços e as pernas se desgarraram, o peito se abriu pela metade e os ossos quebrados perfuraram a pele. Sangue e vísceras se derramaram sobre os ladrilhos da praça.

 Ajax lançou as partes ensangüentadas à encolerizada multidão.

 - Basta de tolices! Isto não é uma rebelião. Voltem para trabalho.

 Os operários pareciam ansiosos por retornar a suas tarefas. Olharam para Iblis quando se foram, como se pudesse protegê-los. Mas Iblis continuava contemplando o açougue com assombro e incredulidade. Ohan Freer tinha sido um membro da rebelião! O capataz tinha espalhado a dissensão, forjado planos, talvez enviado e recebido mensagens.

 Outro rebelde!

 Iblis, consternado, sabia que, se continuasse atuando, se exporia a um perigo ainda maior. Não obstante, a execução de hoje lhe tinha ensinado uma coisa com muita clareza: a rebelião humana não era coisa de sua imaginação.

 É real!

 Se Ohan tinha participado dela, tinha que haver outros, muitos mais. Esta rede clandestina de lutadores, que incluía Iblis, estava dividida em células para que não pudessem trair-se entre si. Agora compreendia.

 Começou a fazer planos com maior convicção que antes.

 

Os humanos negam um sem-fim de possibilidades, um número infinito de reinos onde sua espécie poderia entrar.

 

 ERASMO,

 nota sobre a natureza humana

 

Era uma sala de concertos improvisada, no interior de um edifício com paredes de mármore construído na propriedade do robô. Erasmo tinha ordenado a seus operários que modificassem o interior, instalassem assentos e alterassem as paredes, com o fim de criar uma acústica perfeita para esta única apresentação. Erasmo tinha estudado discos da melhor música clássica humana, sabia com exatidão o que se esperava das grandes sinfonias, do público até a posição em cena.

 Tinha uma elevada opinião de seus empenhos artísticos.

 O robô convidou Serena Butler, agora em seu oitavo mês de gravidez, a ocupar a cadeira central da sala.

 - O resto do público talvez obtenha prazer da melodia e os sons, mas suas expectativas são diferentes. Em Salusa Secundus, a música sofisticada fazia parte da sua existência.

 Serena pensou em seu irmão e suas aspirações musicais com uma pontada de dor. Tinha aprendido a apreciar as obras de compositores humanos desaparecidos muitos milênios antes.

 - Não é só da música que tenho saudades, Erasmo.

 - Você e eu falamos a mesma linguagem culta - disse o robô, sem reparar em seu comentário. Diga-me se gosta desta composição. Pensava em você quando a escrevi.

 Encheu a sala com escravos escolhidos de diversas especialidades trabalhistas. Foram limpos e vestidos segundo a idéia que Erasmo tinha de um público de classe alta.

 Retratos eletrônicos de grandes compositores humanos estavam pendurados das paredes, como se o robô quisesse colocar-se entre eles. Ao redor do perímetro, exibiam-se instrumentos musicais dentro de vitrines: um alaúde, um rabel, um tambor dourado e um antigo baliset de quinze cordas com conchas de vabalone incrustadas na caixa.

 

 No centro do cenário, Erasmo estava sentado em frente a um piano de cauda, rodeado de sintetizadores musicais, alto-falantes e uma mesa de som. Vestido com um traje negro talhado como um smoking, mas desenhado para acomodar seu corpo robótico, Erasmo se achava imóvel, com o rosto convertido em um espelho ovalado, sem a menor expressão.

 Serena se acomodou no assento e contemplou o robô. Apoiou uma mão sobre seu enorme abdômen, sentiu os movimentos do feto. Dentro de poucas semanas daria a luz.

 O público se remexia inquieto em seu assento, sem saber o que esperar, ou o que se esperava deles. Erasmo voltou o rosto para os espectadores, que se refletiram no espelho enquanto esperava. Por fim, fez-se o silêncio.

 - Obrigado por sua atenção. - voltou-se para um aparelho prateado que havia a seu lado, um sintetizador com longas teclas de polímero que produziam sons e acordes familiares. A música de fundo aumentou de volume, entrelaçada com instrumentos de corda e pesadas cornetas de Chusuk.

 O robô escutou por alguns momentos, e logo continuou.

 - Estão a ponto de experimentar algo notável. Para demonstrar meu respeito pelo espírito criativo, compus uma nova sinfonia especialmente para vocês, meus esforçados trabalhadores. Nenhum humano a escutou antes. - Tocou uma rápida mescla de melodias ao piano, três passagens breves, em um aparente esforço por confirmar que o instrumento estava bem afinado. - Depois de uma análise detalhada do gênero, escrevi uma sinfonia comparável às obras dos grandes compositores humanos Johannes Brahms e Emi Chusuk. desenvolvi minha peça seguindo estritos princípios matemáticos e de ordem.

 Serena passeou a vista pelo público, duvidando de que qualquer humano criado em cativeiro conhecesse a música clássica de que o robô falava. Educada em Salusa Secundus, onde a música e a arte estavam integradas na cultura, Serena tinha escutado as obras de muitos compositores famosos, inclusive as tinha discutido em profundidade com Fredo.

 Erasmo conectou sua mente com o sintetizador, até produzir uma melodia estranha e repetitiva. Depois, seus dedos mecânicos dançaram sobre o teclado, fazendo gestos exuberantes como se estivesse imitando algum famoso concertista de piano.

 A composição agradou a Serena, mas lhe pareceu debulhada. Embora não reconhecesse a melodia exata, havia algo familiar nela, como se o robô tivesse analisado matematicamente uma peça existente e seguido a pauta, trocando um ritmo aqui, uma passagem polifônica ali. Era uma música sem brilho, carente de força.

 Pelo visto, Erasmo acreditava que apreciar uma obra nova era algo instintivo nos humanos, que seu público captaria os matizes e complexidades de sua composição, perfeita do ponto de vista da estrutura. Os escravos se removiam em seus assentos e escutavam. Para eles, era uma diversão agradável, mas também mais uma tarefa. Ao que parecia as notas tranqüilizadoras da melodia agradavam ao público, mas não lhe comovia como o robô pretendia.

 Quando terminou sua atuação, Erasmo se virou para trás, desativou a equipe de apoio sinfônico e deixou que o silêncio caísse sobre a sala. Os tons reverberantes se desvaneceram.

 Por um momento, os escravos vacilaram como se aguardassem instruções.

 - Podem me dedicar uma ovação se a peça lhes agradou. - Aparentemente os operários não entendiam a frase. - Significa que podem aplaudir esclareceu o robô.

 Produziu-se uma primeira salva de aplausos, dispersa como gotas de chuva, e logo aumentaram de volume e quantidade, tal como se esperava deles. Serena se uniu ao resto do público em um gesto de cortesia, mas sem entusiasmo. Um pequeno ato de sinceridade do qual sem duvida Erasmo tomaria nota.

 A máscara do robô se transformou em um sorriso de orgulho. Desceu do cenário ao chão por uma escada. Os escravos continuaram aplaudindo, e o robô desfrutou da adulação. Quando as aclamações cessaram, ordenou aos guardas que acompanhassem o público a seus postos de trabalho.

 Serena compreendeu que Erasmo pensava ter criado uma obra meritória, que talvez superasse outros feitos humanos, mas não queria falar disso com ele, e tratou de escapulir para sua estufa. Entretanto, como se movia com lentidão devido a sua gravidez. Erasmo a alcançou.

 - Serena Butler, escrevi esta sinfonia para você. Não a impressionou?

 A jovem escolheu suas palavras com cautela e evitou uma resposta sincera.

 - Talvez só esteja triste porque sua sinfonia me recorda outras atuações que presenciei em Salusa Secundus. Meu falecido irmão queria ser músico. Foram tempos mais felizes para mim.

 O robô a olhou com atenção, e suas fibras ópticas cintilaram.

 - Matizes do comportamento humano me revelam que minha sinfonia a decepcionou. Explique-me por quê.

 - Você não quer uma opinião sincera.

 - Me julga mal, porque eu sempre procuro a verdade. O resto são dados incorretos. Sua expressão angelical fez que baixasse a guarda. Falha em algo a acústica do local?

 - Não tem nada com a acústica. Estou certa de que testou até o último detalhe. - O público seguia desfilando para as saídas, e algumas pessoas olhavam para Serena, compadecidas do interesse que o robô lhe proporcionava. - É a sinfonia em si.

 - Continue - disse Erasmo com voz inexpressiva.

 - Você alterou a peça, não a criou. Estava apoiada em modelos precisos desenvolvidos há milhares de anos por compositores humanos. A única criatividade que captei procedia de suas mentes, não da tua. Sua música era uma extrapolação matemática, porém nenhum aspecto dela me inspirou. A melodia que... compôs não me evocou imagens nem sentimentos.

 - Não contribuiu com nenhum elemento inovador, não havia nada que apelasse às suas emoções. Como posso quantificar esse componente?

 Serena forçou um sorriso e meneou a cabeça.

 - Esse é seu erro, Erasmo. É impossível quantificar a criatividade. Como escuta uma pessoa uma tormenta e utiliza essa experiência para escrever a abertura de Guilherme Tell? Você se limitaria a imitar os sons do trovão e da chuva, Erasmo, mas não evocaria a impressão de uma tormenta. Como contemplou Beethoven um prado aprazível e adaptou essa experiência em sua Pastoral? A música deveria elevar o espírito, roubar o fôlego, tocar a alma. Sua obra não era mais que... sons agradáveis, executados com perfeição.

 A expressão do robô demorou vários segundos em mudar, e por fim a olhou com perplexidade, parecia na defensiva.

 - Parece que sua opinião está em minoria. O resto do público desfrutou com a obra. Não escutou os aplausos?

 A jovem suspirou.

 - Para começar, esses escravos não entendem de música, não podem comparar. Poderia ter roubado qualquer sinfonia de qualquer compositor clássico, nota a nota, e afirmado que era produto de sua inspiração. Não teriam notado a diferença. Em segundo lugar, acomodar-se em uma sala de concertos, confortáveis, limpos e bem vestidos, deve ser o melhor trabalho que lhes tenha dado jamais. Só por isso já teriam aplaudido. - Serena olhou-o. - E por fim, embora seja o mais importante, você lhes disse que aplaudissem. Como poderiam reagir, quando poderia matá-los a qualquer momento? Em tais circunstâncias, Erasmo, jamais obterá uma resposta sincera.

 - Não entendo, não posso entender - repetiu Erasmo várias vezes. De repente, virou-se e lançou um murro no rosto de um homem que passava a seu lado. O golpe inesperado fez com que a vítima caísse sobre as cadeiras, coberto de sangre.

 - Por que fez isso? - perguntou Serena, enquanto corria para ajudar o homem.

 - Temperamento artístico – Erasmo respondeu com calma. - Os humanos não o chamam assim? Enganou-me sobre seus sentimentos.

 A jovem tentou acalmar o homem, mas quando este viu o robô, tentou afastar-se, com uma mão sobre o nariz para tentar deter a hemorragia. Serena encarou Erasmo.

 - Os artistas de verdade são sensíveis e compassivos. Não se dedicam a fazer mal às pessoas.

 - Não tem medo de expressar sua opinião, até sabendo que poderia me desagradar?

 Serena cravou a vista em seu rosto desumano.

 Você me retém prisioneira, Erasmo. Afirma querer saber minha opinião, assim que eu a dou pode me fazer mal, inclusive assassinar-me, mas já me tomou a vida e ao homem que amo. Qualquer outra dor empalidece em comparação.

 Erasmo a examinou, enquanto analisava suas palavras.

 - Os humanos me desconcertam, e você mais que ninguém, Serena Butler. - Adotou uma expressão sorridente. - Mas continuarei me esforçando por compreendê-los. Obrigado por sua opinião.

 Quando Serena saiu da sala, Erasmo voltou para o piano e ficou praticando.

 

Acima de tudo, sou um homem de honra. Assim é como desejo ser lembrado.

 

 XAVIER HARKONNEN,

 comentário a seus homens

 

 O tempo que tinha passado com Serena lhe parecia agora com um sonho escorregadio.

 Xavier não recordava com exatidão os caminhos que tinham tomado para internar-se nos bosques da propriedade Butler, que agora era seu lar e de Octa, sua esposa. Não podia recordar seu amor perdido com mais precisão do que era capaz de saborear as especiarias exóticas de um prato bem preparado, ou perceber os delicados aromas de um campo de flores. Seus novos pulmões tinham sarado ao máximo possível. Agora, tocava-lhe o turno seu coração.

 Muitas vezes havia dito que não faria isso, que se entregaria à nova vida que havia prometido a Octa. Mas aqui estava, tentando capturar o passado uma vez mais, ou acaso despedindo-se dele.

 Escolheu o mesmo corcel cor chocolate que tinha montado na caçada do javali, quase nove meses antes. Tratou de localizar durante horas o prado mágico onde Serena e ele haviam feito amor, mas parecia que havia se desvanecido... como a própria Serena.

 Como sua felicidade... e seu futuro.

 Enquanto tentava recuperar lembranças das colinas e bosques circundantes, tudo que podia recordar daquela tarde era a beleza do rosto de Serena e o gozo de estar com ela de novo.

 Todo o resto parecia uma fantasia confusa, uma mera cortina de fundo.  A propriedade dos Butler era tão extensa que nem o vice-rei a tinha explorado por completo. Depois do matrimônio de Xavier com Octa, Manion tinha insistido que seu genro fosse residir na mansão dos Butler. Agora que Fredo e Serena tinham morrido, e com Livia ausente, a enorme casa parecia muito silenciosa e solitária. Xavier sempre havia considerado a casa de Tantor seu lar, mas a tristeza dos olhos de Manion Butler e a esperança que brilhava nos de Octa lhe tinham convencido de viver com os Butler.

 Algum dia, tudo deixaria de lhe recordar Serena.

 Ao chegar a um claro, desmontou e cravou a vista na distância, em colinas verdes que apareciam entre a bruma. Sentia-se apanhado em um espantoso pesadelo, mas sabia muito bem que o responsável era ele, por ter ido a este lugar.

 Serena está morta.

 Tinha deixado a doce Octa em casa, com a desculpa de que queria exercitar o corcel. A jovem gostava de cavalgar com ele, mas tinha intuído que Xavier desejava estar sozinho. Embora estivessem casados a menos de dois meses, mostrava-se reservado sobre determinados assuntos. Octa tinha percebido, sem admitir, que nunca seria a proprietária do coração de seu marido.

 Serena e ele tinham compartilhado grandes sonhos. Sua vida com ela teria sido complicada, e às vezes tormentosa, mas sempre interessante. Em contraste, o apressado matrimônio de Xavier com Octa era plácido, mas comum. Os temas que a preocupavam pareciam insignificantes em comparação com as visões humanitárias de Serena. Custava acreditar que eram irmãs. Sabia que suas comparações eram injustas com Octa (que lhe tratava melhor do que merecia) e com a lembrança de Serena, mas não podia evitar.

 O cavalo de Xavier relinchou, e o homem soltou a rédea. Farejou a brisa e procurou com seus sentidos amortecidos algum rastro do perfume de Serena.

 Morta. Ela está morta, meu amor, e devo deixá-la partir.  Voltou a montar e seguiu pelo caminho, mas não reconheceu nenhuma árvore ou colina. O prado podia estar em qualquer lugar. Xavier esfregou os olhos. Relembrou uma última vez seu amor, e a imagem estalou como o sol do verão, sorridente, e lhe disse sem palavras que devia continuar sua vida.

 Despediu-se dela, embora já o tivesse feito antes, mas ela nunca terminava de afastar-se. Não podia falar de sua dor com ninguém, porque não o entenderiam. Tinha que sofrer sozinho. Sempre tinha ocultado seus sentimentos.  Xavier pensava em tudo isto com expressão distante. Momentos depois, quando a luz do sol abriu caminho entre a névoa matinal e banhou seu rosto, começou a sentir-se melhor. O brilho dourado do sol era como Serena, que lhe observava. Cada vez que sentia seu calor pensava nela, e no amor que haviam compartilhado.

 Xavier fez dar meia volta ao cavalo e o pôs ao trote, em direção à mansão dos Butler... e a Octa, sua esposa.

 

O fogo carece de forma, mas se aferra ao objeto que arde.

A luz se aferra à escuridão.

 

 Filosofia dos pensadores

 

 Depois de um mês de reparos, o Dream Voyager estava preparado para partir da Terra em outra excursão de atualização, mas Vorian Atreides tinha que realizar uma tarefa importante antes de viajar, visitar Erasmo tal como o robô havia solicitado.

 Uma vez mais, a extravagante carruagem o conduziu à villa. O tempo ensolarado era muito mais agradável que a chuva de sua visita anterior, e somente algumas nuvens magras flutuavam sobre o mar.

 Imediatamente, como se seu olhar fosse atraído para ela, viu Serena Butler de pé na entrada principal. Vestia um vestido solto de criada, e seu estômago estava tão redondo que não entendeu como podia continuar trabalhando. A data do parto devia estar muito próxima.

 A jovem esperou por Vor como se estivesse executando uma tarefa mais, com os braços cruzados e expressão neutra. Até aquele momento, Vor não sabia o que esperar, mas ao ver sua expressão indecifrável ficou abatido. Tendo em conta o tom que Serena havia empregado ao final de sua última visita, Vor tinha acreditado que se alegraria em vê-lo.

 Talvez estivesse relacionado com o bebê e o baile de hormônios que afetava a seu organismo. Possivelmente estava preocupada com o que seria do menino depois do parto, pelo que Erasmo faria com ele.

 Embora Serena fosse filha de um membro importante da Liga de Nobres, aqui era uma simples escrava, nem sequer uma humana de confiança. Talvez lançassem seu bebê aos recintos onde Erasmo chacinava os humanos de casta inferior, a menos que Vor utilizasse... sua influência para melhorar a situação de mãe e filho. E embora tivesse êxito, ela agradeceria o gesto?

 Vor desceu da carruagem em frente a entrada que se abria entre colunas grogipcias esculpidas.

 - Peço desculpas por a ter ofendido na última vez, Serena Butler - resmungou antes de que ela pudesse dizer algo. Fora o que fosse. Tinha desejado este momento muito tempo, e ensaiado o que diria.

 - Sua linhagem me ofende.

 A brusca réplica de Serena o pegou de surpresa. Como filho de Agamenon, Vor gozava de liberdade para ler as memórias de seu pai e conhecer todas as gloriosas conquistas dos titãs. Tinha tido a sorte de experimentar muitas coisas em suas viagens, de ver muitos lugares interessantes. Ser filho de um titã sempre tinha parecido uma vantagem... até agora.

 Ao ver sua expressão abatida, Serena recordou que devia atraí-lo para sua causa, e decidiu lhe oferecer um sorriso.

 - Mas me enoja tanto como a você.

 Enquanto passavam em frente a estátuas e vasos ornamentais, Vor disse, como se ela necessitasse de uma explicação:

 - Vou viajar logo no Dream Voyager, e seu amo me pediu que viesse falar com ele. Por isso vim.

 Ela arqueou as sobrancelhas.

 - Neste caso, estou segura de que Erasmo se alegrará em vê-lo.

 Chegaram em frente a uma porta.

 - Você aceita desculpas, ou acredita que todas as afrontas são permanentes? - perguntou Vor.

 O comentário pareceu surpreendê-la.

 - Mas você não sente na realidade, não é verdade? Serve voluntariamente às máquinas pensantes, que escravizaram e torturam à humanidade. Suponho que reconhecerá isso, ao menos. Também se orgulha de seu pai, como se pudesse estar orgulhoso de seus atos. Sabe algo dos horrores acontecidos durante a Era dos Titãs, ou as Rebeliões Hrethgir?

 - Li a fundo as memórias de meu pai...

 - Não me refiro à propaganda de Agamenon. Já procurou descobrir qual é a história verdadeira?

 O jovem franziu o cenho.

 - A verdade é a verdade, não? Como pode haver versões diferentes de um mesmo acontecimento?

 Serena suspirou como se Vor fosse um garotinho pequeno e não conseguisse compreender.

 - Em alguns aspectos, você é menos consciente que uma máquina Vorian Atreides, porque não percebe que pode decidir, e acha que não está fazendo nada ruim. - O jovem captou o esboço de um sorriso de resignação em seus lábios. - Do que serve enfurecer-se com alguém tão cego? - Adotou de novo um tom brusco. - Talvez Agamenon esteja muito envergonhado para permitir que alguém conheça a história verdadeira. Você já procurou verificar os dados alguma vez, ou aceita todas as histórias bélicas de seu pai?

 Vor elevou o queixo, sem saber muito bem como interpretar os modos de Serena.

 - Sou um humano de confiança. Posso acessar aos arquivos históricos que quiser.

 Milhares de idéias iam a sua mente.

 - Então, investigue um pouco por sua conta. Terá muito tempo para pensar enquanto viaja em sua nave.

 Quando chegaram à austera sala de estar, as paredes de plaz transparente apresentavam um brilhante resplendor amarelo. As superfícies refletivas mudavam de um momento a outro, passando por diversos tons de cor, cada vez mais suaves. Indicou-lhe um sofá marrom metálico.

 - Erasmo ordenou que esperássemos aqui. - Sentou-se a seu lado com alguma dificuldade. - Os dois.

 Vor sentia sua proximidade, muito consciente da curva de seu estômago sob o vestido. Não havia muito espaço entre eles, tal como era a intenção do Erasmo, sem dúvida. Não havia mais móveis na sala. O pulso do Vor se acelerou enquanto esperava o robô, em um silêncio incômodo. Era muito absurdo sentir-se tão atraído por ela.

 

 Enquanto observava os dois humanos através de telas murais, Erasmo sentiu-se intrigado por sua linguagem corporal, a forma com que se olhavam e logo desviavam a vista. Face à evidente atitude contraditória de Serena, devia sentir certa atração pelo belo jovem. Sem dúvida, Vorian Atreides estava interessado nela.

 Erasmo tinha estudado o comportamento sexual dos humanos, mas não via aqui os sinais típicos. Era mais complicado que tudo o que tinha observado entre os escravos criados em cativeiro.

 

 - Parece mentira que um robô seja tão pouco pontual - disse Serena para aliviar o tedioso silêncio.

 Vor sorriu.

 - Não me importo em esperar.

 Serena parecia incômoda, mas lembrou-se de devolver o sorriso.

 

 Fascinante. Na poesia e na literatura clássicas, Erasmo tinha lido sobre os mistérios do amor romântico, porém nunca o havia visto florescer. Em uma ocasião, setenta e três anos antes, tinha descoberto um casal de jovens amantes que tinham escapado de seu trabalho para passar um momento a sós em um esconderijo secreto. Tinha-os descoberto, é obvio (os humanos eram muito torpes quando tentavam desaparecer às escondidas), e castigado com a separação permanente. Tinha parecido a reação apropriada. Se lhes tivesse perdoado tal demonstração de independência, possivelmente teriam contagiado os outros escravos.

 Depois, entretanto, tinha lamentado sua decisão, pois teria desejado continuar observando a corte humana.

 Para estes dois tinha um plano mais elaborado. Sua relação era outro laboratório, outro experimento, muito diferente das “células rebeldes” imaginárias que tinha começado a fomentar, graças à provocação de Omnius. Era importante observar os humanos em seu estado natural de comportamento.

 E às vezes é necessário enganá-los.

 Enquanto o casal esperava e se remexia inquieto, Erasmo tomou nota de cada gesto, cada piscada, cada movimento dos lábios, cada palavra e tom. O macho e a fêmea estavam inquietos, desconcertados pela situação forçada, sem saber muito bem o que fazer.

 Parecia que Vorian Atreides aproveitava mais as circunstâncias que Serena.

 - Erasmo a trata bem - disse, como se tentasse convencê-la. - Tem sorte de que ele se interesse-se tanto por você.

 Apesar de seu volumoso estômago, Serena se levantou do sofá como se estivesse irritada pela insinuação. Voltou-se para ele, e o robô saboreou a expressão indignada de seu rosto e a olhar estupefato do Vor.

 - Sou um ser humano - disse a mulher. - Perdi minha liberdade, meu lar, minha vida... e acha que deveria estar grata ao meu carcereiro? Talvez fosse interessante a você dedicar certo tempo durante suas viagens a repensar essa opinião. - O jovem parecia perplexo por sua explosão, e Serena continuou. – Tenho pena de você por sua ignorância, Vorian Atreides.

 - Não experimentei seu estilo de vida, Serena - disse depois de um momento. - Nunca estive em seu planeta, assim ignoro o que você perdeu, mas creio que deveria procurar ser feliz.

 - Só posso ser feliz se gozar de liberdade para voltar para casa. - Exalou um profundo suspiro e voltou a acomodar-se no sofá. - Mas eu gostaria que fôssemos amigos, Vorian.

 O robô decidiu que já lhes tinha concedido bastante tempo de intimidade. Deixou a tela e entrou na sala de estar.

 Mais tarde, Vorian se perguntou por que lhe tinham convocado na villa. Erasmo o tinha levado ao jardim botânico, onde conversaram, mas o robô lhe tinha formulado poucas perguntas importantes.

 Enquanto voltava na carruagem para o espaçoporto e para o Dream Voyager , Vor se sentia desconcertado e confuso. Sentia-se frustrado em ser incapaz de contribuir com alegria à vida de Serena.

 Surpreendido, percebeu que a idéia de conseguir sua aprovação ou gratidão lhe entusiasmava tanto como a perspectiva de agradar seu pai. Davam voltas em sua cabeça as coisas que ela havia dito sobre história, propaganda e a vida nos planetas da liga.

 Ela o desafiara. Nunca tinha sentido curiosidade por ler outra coisa além das memórias de Agamenon, mas nunca tinha imaginado que existiria uma perspectiva diferente dos mesmos acontecimentos. Não tinha pensado na vida à margem dos Planetas Sincronizados, dando sempre por certo que os humanos selvagens viviam uma existência miserável e absurda.

 Mas como tinha podido produzir uma civilização tão caótica uma mulher como Serena Butler? Talvez tivesse deixado algo passar.

 

Ciência: perdida em seu próprio mito, redobra seus esforços quando esqueceu seu objetivo.

 

 NORMA CENVA

 notas de laboratório inéditas

 

 Satisfeito com seu novo escudo protetor, Tio Holtzman estava no interior de sua cúpula de demonstrações semi-reconstruída. Zombou da sua adversária, riu das armas mortais.

 Nada podia feri-lo! O gerador pulsava a seus pés, e projetava uma barreira pessoal ao redor de seu corpo.

 Impenetrável... ao menos esperava isso.

 Esta prova devia demonstrar que o conceito funcionava. Até Norma acreditava nele desta vez.

 Como podia falhar?

 A diminuta jovem se encontrava do outro lado do edifício reforçado, e se dedicava a lançar-lhe objetos: pedras, ferramentas e, depois de muita insistência de Holtzman, um pesado pau. Cada objeto ricocheteava no campo de força e caia, sua aceleração anulada pela energia do escudo.

 O homem agitou os braços.

 - Não prejudica minha mobilidade. É maravilhoso.

 Norma agarrou uma faca kindjal, preocupada em feri-lo. Tinha repassado as equações e descoberto que o sábio não tinha cometido erros. Segundo sua análise e instintos, o escudo funcionaria com as velocidades de impacto que estavam utilizando na prova.

 Mas mesmo assim, vacilava.

 - Venha, Norma. A ciência não é para os fracos de coração. - A jovem lançou a adaga com todas as suas forças, e Holtzman fez um esforço para não encolher-se. A arma se chocou contra a capa exterior da barreira. Holtzman sorriu e moveu os dedos.

 - Este invento mudará o conceito de escudo pessoal ao longo e ao largo da liga. Já não haverá ninguém vulnerável a assassinos ou criminosos.

 Norma lançou uma lança improvisada com um grunhido de esforço. chocou-se em frente aos olhos de Holtzman, que retrocedeu com uma piscada de surpresa. Quando a arma caiu ao chão, emitiu uma risada.

 - Não posso fazer menos que lhes dar a razão, sábio Holtzman. - Norma sorriu por sua vez, e terminou lançando um sem-fim de objetos, como uma esposa encolerizada.

 - Parabéns por sua descoberta notável.

 A moça de Rossak parecia realmente satisfeita, sem sentir nada de ciúmes. Pelo menos, poderia apresentar um triunfo pessoal a Niko Bludd, como em seus dias de gloria. Que alivio!

 Quando Norma ficou sem objetos para lançar, o sábio mandou vir os dragões que montavam guarda na ponte provisória.

 - Tragam o líder dos escravos zenshiítas. O homem de cabelo e barba escuros.

 Quando um guarda partiu em busca do escravo, Holtzman dedicou um sorriso travesso a Norma.

 - Vamos pregar-lhe uma pequena peça. É um tipo arisco, e estou seguro de que me odeia.

 Bel Moulay entrou na cúpula. Sua barba era como fumaça de carvão que brotava de seu queixo. Desviava a vista sempre que Holtzman o mirava fixamente.

 Parecia que os dois dragões confiavam muito pouco no líder dos escravos, mas Holtzman desprezou com um gesto suas preocupações, pois se sentia muito seguro atrás de seu escudo corporal.

 - Dê a ele sua pistola Chandler, sargento.

 - Mas, senhor, ele é um escravo!

 O rosto do guarda não mudou de expressão. Moulay pareceu surpreso pela sugestão.

 - Não estou preocupado, sargento. Seu companheiro o vigiará. Disparem em sua cabeça se não seguir minhas instruções ao pé da letra.

 - Talvez devêssemos prolongar os testes, sábio Holtzman - disse Norma. - Poderíamos colocar um manequim dentro do escudo e ver o que acontece.

 - Estou de acordo, sábio - assentiu o sargento. - Nosso dever é protegê-lo, e não posso permitir...

 Holtzman interrompeu, irritado.

 - Tolices, só se pode controlar o sistema de dentro. Meu trabalho, encarregado por lorde Bludd em pessoa, e pela Liga de Nobres, é desenvolver e provar um meio de nos proteger das máquinas pensantes. A menos que desejemos ser capturados pelos atacantes robôs e nos transformar em escravos de Omnius, sugiro que me deixem fazer meu trabalho. Já perdemos bastante tempo.

 O sargento, ainda inquieto, sacou a pistola de agulhas e a depositou nas mãos calejadas do escravo. Bel Moulay agarrou a arma, enquanto olhava de um lado a outro como se não acreditasse na sua boa sorte.

 - Bem, você... se chama Moulay? Aponte essa arma para mim e dispare no meu peito. Vamos, não pode falhar.

 Moulay nem se alterou. Todo mundo tinha ouvido a ordem. Apertou o botão de disparo. Os dragões gritaram. Norma se encolheu.

 Fragmentos de cristal lançados a grande velocidade se chocaram contra o escudo que rodeava Holtzman, e logo caíram ao chão como cristais quebrados. O cientista exalou um silencioso suspiro, e notou que seus joelhos falhavam.

 - Sem dissimular sua cólera e ódio, Bel Moulay apertou o botão uma e outra vez. Uma chuva de cristais afiados se chocaram contra o escudo corporal. Disparou até esvaziar a pistola Chandler.

 Dois precavidos dragões apareceram na porta, com as armas elevadas para abater o escravo caso necessário, mas ao ver Holtzman ileso e rindo, Moulay baixou a pistola com um olhar chamejante. Os guardas arrebataram a pistola.

 Por toda parte havia restos de agulhas cristalinas. O sábio esperava que lhe concedessem outra Medalha do Valor de Poritrin por sua invenção.

 Sem pensar nas conseqüências, o cientista se virou para os dragões.

 - Agora, sargento lhe entregue seu explosivo manual, a pequena granada que pendura de seu cinturão.

 O dragão ficou rígido.

 - Com todo o respeito, sábio, me nego a obedecer.

 - Sua pistola Chandler foi ineficaz, e acontecerá o mesmo com a granada. Imaginem estes escudos serão úteis para você e seus homens uma vez que tenhamos demonstrado sua eficácia.

 Norma interveio.

 - Está bem, sargento. O sábio sabe o que faz.

 Moulay virou-se como um cão de caça e estendeu a mão para receber a granada.

 - Em primeiro lugar - disse o sargento, - quero que todos vão para o outro lado da ponte.

 Outros guardas levaram Norma obedecendo as ordens.

 Por fim, o sargento entregou a granada ao zenshiíta. Sem esperar que dissessem duas vezes, Bel Moulay apertou o botão e lançou a granada contra Holtzman, mas sem lhe imprimir excessiva velocidade.

 Norma teve medo de que a granada se deslocasse com a lentidão suficiente para atravessar o escudo antes de explodir.

 Bel Moulay, consciente de que se achava dentro da zona que abrangeria a onda expansiva, correu pela ponte. Do outro lado, o Norma viu que a esfera rebatia na barreira como fruta podre.

 Uma ruidosa flor de fogo estalou na cúpula de demonstrações. A onda expansiva bastou para derrubar Norma. Caiu de joelhos, lançou um olhar para o rio por cima da borda da ponte, pensou que deveria ter trazido seu novo engenho suspensor, e recordou também os escravos que haviam se precipitado para a morte durante experimento anterior de Holtzman.

 Duas das janelas recém instaladas explodiram em uma nuvem de cristais, e os fragmentos cintilaram quando a luz do sol se refletiu neles. Uma nuvem de fumaça se elevou para o céu.

 Norma se pôs em pé.

 Bel Moulay, ileso, erguia-se com as mãos estendidas. Os guardas ficaram tensos, dispostos a abater o líder dos escravos se parecesse agressivo.

 Norma correu para o edifício. Sua mente lhe dizia que o escudo tinha funcionado, mas no fundo de seu coração temia ter deixado escapar algum pequeno erro no trabalho do cientista.

 Holtzman, como um soldado vitorioso, saiu rebolando, piscando e afastando a fumaça de seu rosto. Tinha desligado o gerador do escudo e abandonado o aparelho no centro da sala. Tinha um aspecto um pouco desalinhado, mas estava ileso.

 - Funciona! Proteção total. Nem um arranhão. – Virou-se para a cúpula de demonstrações. - Não obstante, temo que danificamos um equipamento muito caro.

 Franziu o cenho em sinal de consternação, e logo desatou em gargalhadas.

 

Tudo que possui forma, seja humano ou mecânico, acha-se afetado pela mortalidade. É uma simples questão de tempo.

 

 PENSADOR EKLO, da Terra

 

 Apesar de lembranças perfeitas apoiadas nos princípios informáticos mais confiáveis, as máquinas conscientes tinham limitações. A precisão dependia do método de recolher informação, assim como dos circuitos gelificados, os sistemas neuroeletrônicos e os materiais utilizados em sua construção.

 Portanto, Erasmo preferia ver tudo em pessoa, ao invés de confiar em observadores mecânicos ou gravações armazenadas nos bancos de dados da supermente. O robô queria estar presente. Queria viver a experiência.

 Sobretudo quando teve lugar a memorável experiência do parto de Serena.

 Erasmo aperfeiçoou seu sistema de observação até dispor de uma rede detalhada de fibras ópticas que gravassem sem cessar cada instante de todas as perspectivas. Tinha sido testemunha de outros partos de escravas reprodutoras, que considerou meras funções biológicas normais. Mas Serena lhe impulsionava a pensar que lhe escapava algo. Erasmo abrigava a intenção de seguir passo a passo todo processo.

 Lamentou que não fosse parir gêmeos...

 Serena estava estendida sobre a cama, atormentada pelas contrações, embora de vez em quando se lembrasse de lhe amaldiçoar, e em outras se concentrava no processo biológico ou chamava Xavier aos gritos. Aparatos de diagnóstico implantados e artefatos que deslizavam sobre sua pele transmitiam todo tipo de dados, catalogavam os elementos químicos de seu suor, analisavam seu pulso, respiração e outros ritmos corporais.

 Enquanto o robô sondava e estudava, fascinado pela dor de Serena e suas diversas reações, ela gritava. Os insultos não o ofendiam. Era interessante, inclusive divertido, que a mulher exibisse uma ira tão imaginativa, quando devia estar concentrada no parto.

 Em consideração a ela, e para reduzir ao mínimo as variáveis do entorno de observação, mantinha a temperatura da sala em um nível ótimo. Os escravos haviam despido Serena por completo.

 

 Graças a seus analizadores e olhos espiões ocultos, Erasmo havia visto Serena nua muitas vezes. O robô no tinha o menor interesse erótico por seu corpo despojado de roupas. Só desejava recolher os detalhes clínicos dos quais obteria conclusões mais amplas.

 Percorreu todo o corpo da mulher com sua sonda pessoal, absorveu o aroma almiscarado que projetava, as intrigantes interações químicas. O conjunto era muito estimulante.

 Serena jazia na cama, aterrorizada por seu filho e por ela. Seis parteiras humanas, vindas dos recintos de escravos, atendiam-na.

 Erasmo a observava de muito perto. Seu obsessivo escrutínio assustava a Serena, sobretudo porque a sonda não parava de entrar e sair do compartimento de seu corpo. Sabia que Erasmo não podia estar preocupado pelo bem-estar de uma simples escrava e de seu filho.

 Repentinos acessos de dor abdominal afastaram tais pensamentos, e só pôde concentrar-se no esforço mais básico de qualquer mulher. Em um instante de euforia, Serena maravilhou-se de que a biologia possibilitasse a criação da vida, combinando os genes de homens e mulheres. Quanto desejava que Xavier estivesse a seu lado.

 Apertou os dentes até que a mandíbula doeu. Escorreram lágrimas sobre suas bochechas.

 O rosto de Xavier flutuou ante ela, uma alucinação nascida de seu desejo desesperado. Depois, foi presa de um espasmo mais violento ainda, e não pôde concentrar-se em mais nada.

 Estava em trabalho de parto a dez horas, e as parteiras utilizavam diversos procedimentos para atenuar a dor, cravavam finas agulhas em pontos de compressão, massageavam centros nervosos, injetavam drogas. Erasmo proporcionava às parteiras tudo que necessitavam.

 Inclusive dentro da sala de cirurgia, o robô vestia um manto dourado debruado de azul cobalto.

 - Descreva-me suas sensações. O que se sente ao dar a luz? Tenho muita curiosidade.

 - Bastardo! - ofegou Serena. – Deixe-me em paz!

 As parteiras falavam entre elas, como se sua paciente não estivesse ali.

 - Dilatada por completo...

 - As contrações são cada vez mais freqüentes...

 - Quase chegou o momento...

 Serena ouviu as vozes femininas de muito longe, desta vez dirigidas a ela.

 - Empurre.

 Obedeceu, mas parou quando a dor se tornou insuportável e pensou que não poderia continuar.

 - Mais forte.

 Superou a dor por pura força de vontade, redobrou seus esforços e sentiu que o bebê saia. Seu corpo sabia o que devia fazer.

 - Empurre outra vez. Você pode fazer.

 - Assim.

 - Bem, bem. Já vejo a cabeça!

 Como se uma represa tivesse se partido, Serena sentiu uma diminuição da pressão no canal do parto. Quase desmaiou devido ao esforço.

 Quando levantou a cabeça alguns momentos depois, viu que as parteiras limpavam a placenta. Um filho! Viraram o bebê para ela, e o rosto era exatamente como havia imaginado.

 Erasmo continuava olhando. A imagem do menino se refletia em seu rosto.

 Serena tinha decidido o nome de seu filho.

 - Olá, Manion. Querido Manion.

 O bebê chorava a plenos pulmões, e não parava de engolir baforadas de ar. Apertou o menino contra seu peito, mas ele continuou agitando-se. Erasmo observava ao bebê sem reagir.

 Serena se negava a reconhecer a presença do robô, com a esperança de que partisse e a deixasse com uma lembrança especial. Incapaz de afastar os olhos do bebê, pensou em Xavier, em seu pai, em Salusa Secundus... e em todas as coisas que este menino não gozaria em sua vida. Sim, o menino tinha bons motivos para chorar.

 De repente, Erasmo entrou em seu campo de visão. Com fortes mãos sintéticas feitas de componentes plasticorgânicos, elevou o recém-nascido no ar e o estudou de todos os ângulos.

 - Deixe-o em paz! gritou Serena, banhada em suor, completamente esgotada. Devolva meu bebê.

 Erasmo virou o menino. O rosto dúctil do robô formou uma expressão de curiosidade. O menino continuou chorando e agitando-se, mas Erasmo se limitou a sujeitá-lo com mais força, indiferente.

 Elevou o menino para poder examinar seu rosto, seus dedos, seu pênis. O pequeno Manion urinou no manto do robô.

 Uma das alarmadas parteiras tentou secar o rosto e o pescoço do robô com um pano, mas Erasmo a empurrou para um lado. Queria reunir a maior quantidade de dados possível sobre a experiência, para logo analisá-los em profundidade.

 O recém nascido continuava chorando.

 Serena se levantou da cama, indiferente à dor e o esgotamento.

 - Dê ele aqui.

 Surpreso pela veemência de sua voz, Erasmo se virou para ela.

 - Em conjunto, este processo de reprodução biológica parece o mais incompetente e ineficaz.

 Com algo parecido à repulsão, devolveu o menino a sua mãe.

 O pequeno Manion parou de chorar por fim, e uma das parteiras o envolveu em uma manta azul. O menino se aquietou nos braços de sua mãe. Apesar do poder que Erasmo tinha sobre sua vida, Serena se esforçou por ignorá-lo. Não demonstrou o menor temor.

 - Decidi deixar que você conserve o menino, em lugar de processá-lo em meus recintos de escravos - disse o robô em tom inexpressivo. - A interação de mãe e filho me intriga. Por enquanto.

 

O fanatismo é sempre um sinal de dúvida reprimida.

 

 IBLIS GINJO,

 A paisagem da humanidade

 

 Quando Ajax atravessou as obras do Foro em sua imensa forma terrestre, o solo tremeu e os escravos ficaram petrificados, mortos de medo, para saber o que o titã desejava. De sua plataforma elevada, Iblis Ginjo viu o cimek aproximar-se, mas tentou ocultar seu nervosismo.

 Apertou uma agenda eletrônica em suas mãos suadas.

 Desde a horripilante execução do capataz Ohan Freer, Iblis tinha sido muito cauteloso.

 Acreditava que podia confiar em todos seus leais escravos, que tanto lhe deviam. Era impossível que Ajax estivesse informado dos planos que Iblis tinha posto em marcha, ou das armas secretas que tinha instalado, à espera de um sinal.

 Durante seis dias, Iblis tinha fiscalizado uma equipe numerosa que trabalhava na “Vitória dos Titãs”, um descomunal monumento de pedra que plasmava os vinte visionários originais. Com duzentos metros de largura e cinqüenta de altura, as faces combinadas mostravam os cimeks em poses heróicas, avançando sobre uma massa de humanidade, quebrando ossos e transformando corpos em carne picada.

 Como uma versão moderna de sua aparência no monumento, o corpo cimek de Ajax abriu caminho para a plataforma de observação, ao mesmo tempo em que afastava operários para um lado e pisoteava a um ancião até matá-lo. O coração de Iblis falhou, mas não tentou escapar.

 Ajax se dirigia para ele, e o capataz necessitaria de todos os seus dotes de persuasão para sobreviver à fúria do Titã. O que acredita que fiz?

 A plataforma e o cimek se elevavam mais ou menos à mesma altura. Iblis se ergueu ante o jogo de sensores e fibras ópticas frontais montadas na cabeça do Titã, com aspecto obediente e servil, mas não atemorizado. Fez uma profunda reverência.

 - Saudações, lorde Ajax. No que posso servir-lhe? - Assinalou as equipes de escravos trementes. - Os trabalhos deste último monumento procedem de acordo com os prazos estabelecidos.

 - Sim, sempre tem motivos para te mostrar ufano de seus feitos. Seus escravos lhe fazem conta em tudo, não é verdade?

 - Obedecem minhas instruções. Trabalhamos em equipe pela gloria de Omnius.

 - Não há dúvida de que acreditarão em cada idéia ridícula que surgisse - disse Ajax com voz grave. – Você conhecia bem ao traidor Ohan Freer?

 - Não me relaciono com esse tipo de homem. - Confiou que o cimek pensasse que o suor de sua frente era devido ao esforço desdobrado no trabalho, em lugar do medo. - Com o devido respeito, lorde Ajax, olhe para as folhas de rendimento. Minha equipe tem trabalhado para construir este mural seguindo suas instruções exatas.

 Assinalou a réplica de Ajax no monumento.

 - Já verifiquei as folhas de rendimento, Iblis Ginjo. - O cimek se removeu em seu imenso corpo robótico. Um calafrio percorreu a espinha dorsal de Iblis. O que terá visto?

 - Em duas ocasiões, Dante concedeu uma permissão especial para abandonar a cidade. Aonde você vai?

 Fez um esforço sobre-humano por manter uma expressão inocente. Se Ajax estava informado de seus deslocamentos, saberia a resposta a sua pergunta.

 - Falei com o pensador Eklo, com a intenção de me aperfeiçoar.

 - Muito poucas vezes os hrethgir aspiram tanto - disse o titã. - Se me houvessem deixado, há muito tempo que teria exterminado o resto da humanidade. Teríamos economizado problemas.

 - Até os titãs foram humanos em um tempo, lorde Ajax. - Iblis tentou falar em tom sério e conspiratório. - E Omnius ainda permite que certos humanos leais e trabalhadores se convertam em neocimeks. Acaso não posso sonhar?

 As fibras ópticas da cabeça do Ajax cintilaram. Sua extremidade dianteira artificial se elevou, e dedos de metal líquido formaram uma garra com pele de diamante que poderia triturar Iblis com facilidade. O alto-falante do titã emitiu uma profunda gargalhada. Consegui distrair sua atenção! Iblis se apressou a prolongar sua farsa.

 - Ajax, já sabem que salvei do desastre sua estátua da praça do Foro. De maneira similar, coordenei os esforços de muitos artistas e construtores para alcançar a perfeição neste mural, até o último detalhe. Não teria dado essa tarefa a nenhum outro supervisor. Necessita de mim!, teve vontades de gritar. - Poucos há capazes de tal eficácia... Sabe disso muito bem.

 - O que sei é que há traidores e insurgentes entre os escravos. - Ajax passeou de um lado para outro, o que fez com que os operários se dispersassem. - Talvez você seja um deles.

 Agora, Iblis compreendeu que o cimek precisava de provas, e estava armando uma armadilha. Se o monstro tivesse sabido algo com certeza, teria executado Iblis sem a menor hesitação. O capataz tentou dissimular seu medo com desdém.

 - Os rumores são falsos, lorde Ajax. Meus operários trabalharam com especial dedicação para garantir que sua imagem no monumento ocupasse uma posição privilegiada e ficasse realçada. - Iblis falou com a maior firmeza possível. Já tinha uma surpresa preparada para Ajax, que revelaria no momento apropriado. O titã voltou sua enorme cabeça, para ver melhor.

 - Realçada?

 - É um guerreiro, senhor, o maior e feroz de todos os cimeks. Sua aparência está desenhada para semear o terror no coração dos inimigos.

 - Isso é certo. - Ajax pareceu acalmar-se um pouco. - Falaremos de suas indiscrições em outro momento. - Amplificou sua voz para que ressonasse entre os escravos. - Basta de moleza! Voltem ao trabalho!

 Ajax se afastou em seu corpo artificial. A plataforma de supervisão tremeu, de forma que Iblis teve que agarrar-se ao corrimão para não perder o equilíbrio. Uma onda de alívio se abateu sobre ele.

 Durante toda sua conversa com o raivoso titã, Iblis tinha tido a mão afundada em um bolso, que continha um tosco transmissor eletrônico. Com um simples sinal de ativação, o monumento teria revelado seu mortífero segredo, uma seqüência integrada de lança-foguetes antiquuados que seus cúmplices haviam incorporado na obra.

 A estas alturas, Iblis tinha completado suficientes projetos em grande escala para que as máquinas pensantes não analisassem os detalhes dos planos já passados. Os cimeks nunca reparariam no sistema de destruição.

 Mas terei que escolher o momento com muita precisão. Em primeiro lugar, necessitava recrutar mais soldados para sua causa.

 Enquanto via o cimek afastar-se para o centro da cidade, Iblis pintou mentalmente um branco em seu contêiner cerebral. Se acontecesse uma revolta violenta, este velho e brutal cimek seria um dos primeiros em cair.

 Ao chegar ao perímetro da obra, Ajax estendeu um de seus braços em um gesto petulante que alcançou um grupo de escravos, encarregados de limpar os escombros. Decapitou a um deles, e a cabeça ensangüentada foi parar contra o mural quase terminado.

 Embora o titã parecesse mais nervoso que de costume, Iblis confiava em ter coberto seu rastro.

 

A escuridão do passado da humanidade ameaça eclipsar a luminosidade de seu futuro.

 

 VORIAN ATREIDES,

 Momentos decisivos da história

 

O Dream Voyager percorria de novo a rota dos Planetas Sincronizados, carregado com diversas atualizações de Omnius. Todo havia voltado a normalidade, a rotina habitual. Enquanto a nave negra e prateada parecia a de sempre, Vor havia mudado.

 - Como é possível que não se interesse em praticar nossos jogos militares, Vorian Atreides? - perguntou Seurat. - Nem sequer se incomodou em me insultar por minhas piadas. Está doente?

 - Gozo de uma saúde excepcional, já que meu pai me submeteu a um tratamento prolongador da vida.

 Vor mirou as estrelas por uma janela.

 - Está obcecado com essa escrava - disse por fim o capitão robô. – Você é muito menos interessante quando estás enamorado.

 Vor franziu o cenho e se sentou enfrente a uma tela ovalada da base de dados.

 - Por fim você disse algo um pouco divertido, velha Mente Metálica. Uma máquina me falando de amor.

 - Não é difícil compreender o impulso reprodutor básico da sua espécie. Subestima minhas capacidades analíticas.

 - O amor é uma força indescritível. Nem sequer a máquina pensante mais sofisticada pode senti-lo. Não vale a pena que você tente.

 - Nesse caso, você gostaria de se distrair com outro desafio competitivo?

 Vor olhou para a tela, onde repassava com freqüência as memórias de Agamenon. Mas continha muita mais informação que não se incomodou em examinar.

 - Agora não. Quero investigar algumas bases de dados. Você me autoriza a entrar nos arquivos?

 - Por coincidência. Agamenon me pediu que facilitasse suas investigações sempre que fosse possível, sobretudo em assuntos relativos ao planejamento militar. Afinal, você nos salvou quando nossa nave foi atacada em Giedi Prime.

 - Exato.

 - Quero ver os registros de Omnius sobre a queda do Império Antigo, a Era dos Titãs e as Rebeliões Hrethgir, não só as memórias de meu pai.

 - Ah, uma exibição de ambição interessante.

 - Tem medo de que ganhe muito se aprender mais?

 Vor lançou um olhar à lista de arquivos e se alegrou de ter tanto tempo disponível durante a longa viagem.

 - Não tenho nada a temer de um simples humano.

 Vor ficou sentado durante horas em frente ao console, assimilando informação. Não havia estudado muito dos dias da escola para humanos de confiança. Com sua mente sensibilizada pelas idéias de Serena, Vor esperava encontrar algumas discrepâncias de pouca importância nos registros históricos, comparados com as lembranças do Agamenon. Até um cimek tinha direito a embelezar suas façanhas bélicas. Mas Vor levou uma grande surpresa ao descobrir que existiam diferenças substanciais entre os registros objetivos da supermente e o que Agamenon descrevia.

 Examinou febrilmente os registros sobre Salusa Secundus, a era dos Titãs e o Império Antigo, assombrado pelo que averiguava. Vorian nunca se preocupara em olhar antes, mas tinha a informação diante de seus olhos.

 Meu pai mentiu! Deformou os acontecimentos, atribuiu os méritos a si mesmo, ocultou o grau de brutalidade e sofrimento... Até Omnius sabia.

 Serena, ao contrário, havia dito a verdade.

 Pela primeira vez em sua vida sentiu raiva contra seus amos mecânicos e seu próprio pai, e um ápice de compaixão pela raça humana. Com que valentia tinha lutado!

 Do ponto de vista físico, sou humano. Mas o que significa isso?

 Agamenon tinha provocado horrendas matanças e devastação durante a Era dos Titãs, contra gente que só tentava proteger sua liberdade. Juno e ele eram responsáveis pela morte de bilhões de pessoas e da escravidão dos sobreviventes. Os humanos não mereciam, somente tinham tentado se defender.

 Não é de estranhar que Serena me odeie, se sou o filho de um assassino tão horrível.

 Vor continuou lendo. Toda a história estava ao seu dispor, um registro desapaixonado acumulado por máquinas eficientes, e não podia duvidar delas. As máquinas nunca maquiariam seus registros. Os dados eram sagrados. A informação devia ser exata. O engano deliberado era anátema para elas.

 

 Era necessário uma mente humana para deformar a informação... ou uma mente humana em um corpo cimek. A voz do Seurat o sobressaltou.

 - O que está investigando? Está estudando a horas.

 - Estou aprendendo mais sobre mim - admitiu Vor.

 - Para isso não precisa estudar tanto - disse Seurat tentando ser engenhoso. - Por que perde tempo com coisas desnecessárias?

 - As vezes, é necessário confrontar a verdade.

 Vor fechou a base de dados e apagou o monitor.

 O capitão robô voltou para o console central e se conectou com os sistemas da nave, a fim de iniciar as manobras de aproximação ao planeta.

 - Venha, chegamos a Corrin. É hora de entregar nossa próxima atualização.

 

 A ciência, sob pretexto de beneficiar à humanidade, é uma força perigosa que manipula com freqüência os processos naturais sem admitir as conseqüências. Em tais circunstâncias, a destruição maciça é inevitável.

 

 PENSADOR RETICULUS,

 Observações do milênio

 

 Depois de finalizar os experimentos com todo tipo de explosivos e projéteis, Tio Holtzman estava ansioso por iniciar a produção comercial de seu escudo pessoal. Já tinha falado com os administradores dos centros de fabricação situados no cinturão mineiro de Poritrin, a noroeste do planeta, e as plantas de montagem da Starda. Graças aos escravos, obteria muitos benefícios. Somente as patentes o colocariam, e também a seu protetor lorde Bludd, entre os homens mais ricos da Liga de Nobres.

 Por desgraça, enquanto analisava as projeções de estoque e fornecimentos, pensando como um homem de negócios em vez de cientista, chegou a uma conclusão inevitável: Poritrin, um planeta bucólico, jamais estaria à altura do nível de demanda que sua invenção produziria. Lorde Bludd não ficaria feliz em perder os benefícios que iriam passar a fabricantes de outros planetas, mas Holtzman não tinha outro remédio senão procurar outros centros industriais da liga.

 Antes de enviar as unidades de fabricação a Colônia Vertree, ou às restauradas e famintas indústrias de Giedi Prime, decidiu provar seu escudo pessoal contra uma arma que não fosse um projétil, e sim um raio de energia. As armas laser quase nunca se utilizavam em combate, pois não eram tão eficazes como explosivos ou simples fuzis de projéteis. Mesmo assim, queria estar seguro.

 Para a prova definitiva, ordenou a seus guardas que localizassem um fuzil laser em alguma depósito militar antigo. Depois de procurar muito, preencher numerosos formulários, a arma foi localizada e transportada para os laboratórios. Como seus escudos tinham demonstrado ser eficazes em todas as provas anteriores, as demonstrações tinham deixado de interessar ao cientista, pois não significavam mais que outro passo no processo. Logo, os benefícios começariam a aparecer.

 Norma Cenva tinha voltado para sua análise continuadas das equações de Holtzman. O cientista tinha deixado que se absorvesse em seus cálculos, enquanto ele desfrutava de seu êxito.

 Para a prova com o laser, colocou a um escravo dentro do escudo, com a intenção de disparar a arma em pessoa. Levou apenas um só estudante à cúpula de demonstrações reforçada para que tomasse notas do experimento, como tinham feito tantas vezes. Holtzman lutou com os antiquados controles do fuzil, sem saber muito bem como disparava.

 Norma entrou correndo como uma menina. Tinha a cara avermelhada e agitava seus braços curtos.

 - Espere! Sábio Holtzman, você corre um terrível perigo!

 O homem franziu o cenho, como um pai severo que tentasse persuadir uma filha travessa.

 - Também se mostrou cética durante minha primeira prova do escudo. Nem sequer estou na linha de fogo, fique tranqüila.

 A expressão de Norma era muito séria e preocupada.

 - A interação de seu campo de força com um raio laser terá extraordinárias conseqüências: destruição maciça. - Elevou os papéis cobertos de equações e suas incompreensíveis notas manuais.

 O sábio, impaciente, baixou o fuzil e exalou um profundo suspiro.

 - Suponho que não pode proporcionar nenhuma base científica para seu alarme. - O escravo zenshiíta olhava nervoso através do escudo. - Ou é outra de suas misteriosas intuições?

 Ela entregou-lhe os cálculos.

 - Sábio, fui incapaz de extrair uma base específica da anomalia quando introduzo um fator de energia laser coerente na interface do campo. Mas não cabe a menor dúvida de que existe um potencial singular extraordinário.

 Holtzman lançou um olhar aos cálculos, mas não significavam nada para ele. Estranhas notas simbolizavam fatores que nunca havia visto. Franziu o cenho, sem querer admitir que não entendia nada.

 - Não são provas muito rigorosas, Norma... nem convincentes.

 - Pode refutá-las? Atreve-se a correr o risco? Este desastre poderia ser ainda pior que o do gerador de ressonância, uma enorme catástrofe.

 A expressão de Holtzman não mudou, embora a dúvida começasse a germinar em sua mente. Não podia negar a inteligência da mulher. Sempre tinha suspeitado que Norma compreendesse os conceitos de seu campo melhor que ele.

 - Muito bem. Se insistir, tomarei uma ou duas precauções a mais. Alguma sugestão?

 - Realizem a prova longe, em uma lua, ou melhor ainda, em um asteróide.

 - Em um asteróide! Sabe os gastos que isso traria?

 - Seria menos caro que reconstruir toda a cidade da Starda.

 O sábio lançou uma risada, e depois compreendeu que a jovem não estava brincando.

 - Postergarei a prova para meditar sobre isto, mas insisto que você apresente provas antes que me faça tomar tantas precauções. Não basta sua intuição. Não posso justificar um dispêndio tão exagerado somente porque você sente medo.

 Norma Cenva era uma cientista e uma fanática da matemática, mas nunca tinha aprendido política. Como uma menina ingênua, foi ver lorde Niko Bludd a sua residência, no alto dos penhascos que dominavam o Isana.

 No alto da torre cônica, as telhas esmaltadas do telhado eram diferentes do azul metálico que preponderava em quase todos os edifícios de Starda. Os corredores estavam flanqueados por dragões; como répteis de pele dourada adornados com cascos, capas escarlates e escamas segmentadas.

 Bludd parecia de bom humor. Falou por trás de sua barba grisalha.

 - Bem-vinda jovem dama. Sabia que, em um recente encontro em Salusa, tive a oportunidade de falar com sua mãe? Suas feiticeiras acabavam de repelir outro ataque cimek, desta vez em Rossak. Vejo que você herdou seu talento especial.

 Os olhos azuis do nobre cintilaram.

 Norma, envergonhada, cravou a vista no chão.

 - Com efeito, lorde Bludd. Minha mãe... depositou grandes esperança em mim. Como vê, não obstante - indicou seu corpo disforme, - nunca estarei à altura de sua beleza física.

 - A beleza exterior não significa nada - disse Bludd, sem olhar em nenhum momento para as cinco belas mulheres que revoavam a seu redor. - O sábio Holtzman acredita que sua mente está cheia de idéias notáveis. Ele a enviou? Vai nos oferecer uma demonstração de outro projeto?

 Uma escrava muito bem vestida apareceu com uma bandeja de prata sobre a qual descansavam dois copos de um líquido transparente e borbulhante. Ofereceu um a Norma, que o segurou com suas pequenas mãos. Lord Bludd bebeu de seu copo, e Norma imitou-o.

 - Ele planejou outra demonstração, lorde Bludd. - Norma vacilou. - Mas devo lhe pedir que intervenha.

 O homem enrugou a frente.

 - Por que?

 - O sábio Holtzman quer provar seu novo escudo com uma arma laser, mas há perigo, senhor. Eu... temo que se produza uma violenta interação. Extremamente violenta.

 Começou a falar em termos matemáticos, defendendo suas convicções como pôde, mas isto só conseguiu fazer que o nobre levantasse as mãos, confuso.

 - O que o sábio acha de suas preocupações?

 - Ele... confia em minhas capacidades, porém temo que queira realizar a prova rapidamente e da forma mais simples possível, pois tem medo de desagradá-lo se incorrer em grandes gastos. – Engoliu em seco, assombrada por sua audácia. - Não obstante, se eu estiver no certa, os efeitos secundários poderiam destruir todo um distrito de Starda, talvez mais.

 - Como uma explosão atômica, quer dizer? - Bludd estava estupefato. - Como é possível? Um escudo é uma arma defensiva. Os engenhos atômicos são destrutivos em...

 - É difícil predizer as interações de segunda e terceira ordem, lorde Bludd. Não seria mais prudente tomar precauções, apesar do custo adicional? Pense nos benefícios que Poritrin obterá desta invenção. Cada pessoa importante e cada nave particular necessitará de um escudo pessoal, e vocês receberão direitos de patente por cada um. - Procurou um lugar onde deixar a pesada taça. - Por outro lado, imagine que desgraça se esse defeito surgir depois que o produto tenha começado a ser utilizado. Pense nas perdas que sofreriam.

 O nobre coçou a barba e brincou com as tranças que caiam sobre seu peito.

 - Muito bem, pensarei na possibilidade de aprovar este investimento. O sábio Holtzman nos tem feito ganhar dinheiro suficiente para financiar suas excêntricas idéias cem vezes.

 Norma fez uma profunda reverência.

 - Obrigado, lorde Bludd.

 Enquanto corria para falar com seu mentor, Norma não pensou no erro que tinha cometido ao desafiar sua autoridade. Esperava que um homem como Tio Holtzman decidisse as coisas de maneira racional, não emocional, indiferente a preocupações mesquinhas e conflitos pessoais.

 Depois de crescer debaixo das freqüentes recriminações de sua mãe, os insultos não afetavam Norma. Como poderia zangar o eminente cientista?

 A prova aconteceu em um asteróide deserto que orbitava longe de Poritrin. Uma equipe de construção escavou uma zona em uma cratera lisa, erigiu alguns aparelhos de gravação e colocou um aparelho gerador de escudo no pó do chão da cratera. Depois, partiram do asteróide para subir a bordo de uma fragata com destino a Poritrin.

 Com o objetivo de observar o experimento, Norma e Holtzman estavam sentados em uma pequena nave militar, de cujos controles se encarregava um piloto da Armada na reserva.

 O sábio tinha esperado montar uma série de armas laser sofisticadas, ativadas por controle remoto, na cratera, ao redor da zona escolhida como objetivo. Consciente de suas preocupações orçamentárias, Norma tinha sugerido que seria suficiente voar sobre o objetivo e disparar sobre ele com uma antiga arma laser instalada na nave.

 Enquanto o piloto os guiava sobre a zona de prova, o mal humorado cientista apenas respondia as perguntas de Norma que tentava entabular conversa. Holtzman viu que se aproximavam da cratera. Parecia irritado, ansioso por demonstrar que a jovem se equivocava. Norma contemplou pelos guichês a paisagem torturada, os montículos de penhascos em precário equilíbrio, as profundas rachaduras causadas pela pressão das marés. Parecia que o lugar já havia sido destruído.

 - Acabemos com isso de uma vez - disse Holtzman. - Piloto, dispare a arma laser quando estiver preparado.

 Norma viu pelo guichê que a nave voava a pouca altura, até que tiveram a zona de prova debaixo deles.

 - Preparado para disparar, sábio.

 - Já verá que imaginou perigos excessivos... - começou Holtzman.

 O piloto disparou um raio cegante do laser da nave. O brilho de luz e energia deixou-o sem palavras. Até no silêncio do espaço, a onda de choque pareceu mais violenta que um trovão.

 A pulsação aumentou de intensidade, e o piloto puxou os controles da nave.

 - Segurem-se bem!

 Poderosos motores os afastaram do local do impacto. A aceleração esteve a ponto de deixar Norma inconsciente. Então, um martelo os golpeou por atrás, e sacudiu a nave como se fosse um brinquedo. A nave girou sem controle, e o asteróide se fragmentou em pedras fundidas que irradiavam do centro da explosão, como raios de uma roda.

 Holtzman, apavorado, afastou a vista da luz cegante, enquanto o piloto tentava recuperar o controle da nave militar. A respiração do cientista era entrecortada.

 A seu lado, Norma também estava estupefata. Olhou para seu mentor e seus lábios se moveram sem formar palavras. Não eram necessárias. Se Holtzman tivesse conduzido o experimento em seu laboratório, teria desintegrado o laboratório, sua residência, parte da cidade, e talvez desviado o leito do rio Isana.

 Olhou para Norma, primeiro furioso, e depois assombrado. Nunca mais voltaria a duvidar de sua intuição ou suas capacidades científicas.

 Mesmo assim, sentia como uma punhalada no flanco, um golpe em sua confiança em si mesmo e em sua imagem pública. Seu benfeitor, Niko Bludd, saberia agora a verdade. Norma tinha desafiado publicamente a opinião de Holtzman, e suas dúvidas se demonstraram justificadas.

 Não via forma de evitar que toda Poritrin (os lordes, os dragões, até os escravos) soubessem que a disforme matemática de Rossak o tinha superado. A notícia deste experimento se propagaria como fio de pólvora.

 Tio Holtzman tinha cometido um erro espetacular, e a ferida nunca cicatrizaria.

 

Os animais têm que cruzar a terra para sobreviver, em busca de água, comida, minerais. A existência depende de algum tipo de movimento. Ou se move, ou a terra o prende onde está.

 

Exploração ecológica imperial de Arrakis, documentos antigos

 

 A noite do deserto era silenciosa e tranqüila. A primeira lua já se pôs, enquanto a segunda, mais apagada, pendurava sobre o horizonte como um olho sonolento, amarelo de cansaço.

 Apenas uma sombra, Selim se agachou sobre um penhasco e observou o favo de covas negras que se elevava sobre ele. Não conhecia os aldeões, nem seus tesouros, mas Budalá lhe havia guiado até este lugar isolado. O deserto e todos seus habitantes formavam parte do misterioso destino de Selim, e não questionava, nem se incomodava em justificar, suas ações.

 Esta gente tinha escassos contatos com a tribo do naib Dhartha, mas como todos os zensunni, enviavam expedições regulares a Arrakis City para obter as provisões necessárias. Até com métodos agrícolas protegidos e uma cuidadosa conservação da água, nenhuma tribo do deserto podia ser auto-suficiente por completo.

 Nem tampouco ele, apesar de seus esforços. Os aparelhos de condensação de ar de suas duas estações botânicas abandonadas lhe subministravam água. As provisões armazenadas proporcionavam quase toda a comida que necessitava, mas as reservas tinham diminuído durante um ano e meio passado, junto com seus pacotes de energia, e uma de suas ferramentas se havia quebrado. Necessitava de mais apetrechos para manter sua existência solitária.

 Deus tinha outorgado a Selim muitas bênçãos, muitas vantagens... mas havia coisas que devia obter sem ajuda. Não era preciso que compreendesse como encaixavam todas as peças no plano geral de Budalá. Tinha que existir um motivo, e algum dia o descobriria.

 Selim tinha espiado durante vários dias este povoado, assim como os movimentos dos nativos. As mulheres guardavam colméias no interior das cavernas, onde os insetos podiam procurar pequenas flores do deserto que cresciam com muita dificuldade nas rachaduras protegidas.

 Selim ficou com a boca cheia d’água. Tinha provado o mel uma única vez em sua vida, depois de que o naib Dhartha tivesse adquirido um enorme pote do produto e entregue a cada membro da tribo um pingo. O sabor era delicioso, mas cruel, porque recordava os pobres zensunni os poucos luxos de que podiam desfrutar.

 Assim que Selim cumprisse seu destino, fosse qual fosse, estava seguro de que teria mel todo dia.

 Embora Selim necessitasse de alguns artigos do povoado, também queria dar uma lição.

 Budalá lhe havia insuflado uma nova energia mediante a independência e a auto-suficiência, antes que a cega obediência às antigas leis. Não gostava das rígidas normas dos zensunni.

 De todos os zensunni. Talvez agora Selim fosse um membro satisfeito e trabalhador da comunidade, se o naib Dhartha não tivesse aceito as falsas acusações de Ebrahim e expulso Selim para que morresse no deserto.

 Engatinhou com uma mochila vazia sobre os ombros. Tinha memorizado a rota e identificado a cova em que os aldeões guardavam suas provisões, um lugar vigiado de dia, mas apenas de noite. Confiados em seu isolamento, os sistemas de segurança destes aldeões eram muito deficientes. Entraria às escondidas, tomaria o que necessitava e desapareceria, sem fazer mal a ninguém. Seria um bandido. Selim Cavaleiro de Vermes... Selim o foragido.

 Subiu em silêncio o rochedo, até encontrar um caminho que a gente tomava quando saia para compilar especiaria. Subiu até chegar a borda do rochedo, logo se içou e esquadrinhou a escuridão.

 Tal como esperava, o armazém estava cheio de alimentos empacotados de outros planetas, sem dúvida comprada a preços desmesurados no espaçoporto. Verdadeiras guloseimas, mas para que necessitava a gente do deserto essas coisas? Selim sorriu. Os aldeões não necessitavam de tudo o que tinha no armazém, de modo que lhes aliviaria de certos luxos inúteis.

 Selim encheria sua mochila de discos de energia e complementos nutritivos. Selim guardou comida e células de energia nos compartimentos da mochila.

 Também encontrou sementes, mostra botânicas vitais que utilizaria para montar uma pequena estufa em uma das estações abandonadas. Os produtos frescos constituiriam um magnífico complemento de sua dieta.

 De um banco de trabalho agarrou uma ferramenta para medir e um martelo sônico, desenhado para romper rocha seguindo pautas específicas. Ser-lhe-ia útil se precisasse improvisar esconderijos, talvez alargando covas naturais em afloramentos desabitados.

 Selim tentou achar lugar para as duas ferramentas em sua mochila lotada. Gesticulou na escuridão e deixou cair o martelo sônico ao chão de pedra. Devido ao impacto, o aparelho disparou uma vibração que criou uma fratura no chão da caverna, e ressonou como um tiro no povo adormecido.

 Selim, sobressaltado, recolheu o que pode, amontoou em sua mochila com ambas as mãos. Pendurou-a nos ombros e passou pela borda do penhasco. Já ouvia gritos e perguntas.

 Fortificações de luz iluminaram o rosto do penhasco, de forma que as aberturas das covas pareceram os olhos de um demônio despertado de repente. Tentou descer pelo atalho em silêncio, mas golpeou pequenas pedras, que caíram penhasco abaixo.

 Alguém projetou um raio de luz em sua direção e o descobriu. Outro aldeão gritou. Ao cabo de alguns minutos, homens, mulheres e meninos saíram correndo das cavernas, apontaram para o ladrão, gritaram para que parasse.

 Selim não tinha onde se esconder-se, e a pesada mochila o atrapalhava.

 Os zensunni correram atrás dele, desceram por escadas e degraus de pedra cortados na rocha. Selim, aterrorizado mas jubiloso, correu a toda a velocidade de suas pernas e com um salto final chegou à planície. Seus pés se afundaram na superfície poeirenta, enquanto os nômades gritavam a suas costas. Continuou correndo, com a esperança de que os homens vacilariam se estivesse muito internado entre as dunas. Entretanto, o mais provável era que o alcançassem logo, devido ao peso que carregava. Tudo dependeria se sua indignação era superior ao medo que Shaitan lhes provocava.

 De repente, lhe ocorreu uma idéia. Diminuiu o passo e procurou na mochila até encontrar o martelo sônico roubado. Ajoelhou-se a um lado de uma duna, comprovou que a potência estivesse ao máximo e elevou a ferramenta. Quando a descarregou, a explosão de som ressonou como uma carga de profundidade, e levantou colunas de areia.

 Os zensunni continuaram perseguindo-o, sem deixar de gritar. Selim se pôs a correr outra vez e desceu por uma duna. Caiu aos trambolhões, sem soltar o martelo sônico. Por fim, deteve-se entre as dunas. Ficou de joelhos, sem fôlego, e depois em pé, para logo alcançar o topo seguinte.

 - Venha, velho Verme! Estou chamando!

 Descarregou o martelo de novo, como um sacerdote budislâmico que tocara o gongo.

 Na duna seguinte golpeou pela terceira vez, lançando sinais insistentes. Os homens da aldeia estavam perto, mas ele continuava correndo, com maior rapidez ainda. Os homens pareceram vacilar, e distinguiu menos vozes atrás dele.

 Por fim, Selim ouviu o ruído, o sinal longínquo de que se aproximava um verme gigantesco. Seus perseguidores perceberam ao mesmo tempo e gritaram entre si. Se detiveram, vacilantes. Todos contemplaram a ondulação da areia sob a luz da lua, e depois voltaram correndo até as rochas, como se a visão do monstro do deserto lhes houvesse feito crescer asas nos pés.

 Selim, sorria, sabendo que Budalá o protegeria, se abaixou sobre a duna, petrificado enquanto via seus perseguidores desaparecerem. O verme estava se aproximando com rapidez, e sem dúvida perseguiria os homens da tribo, atraído por suas pisadas. Se ficasse muito quieto, o verme passaria por ele.

 Mas a idéia de que o monstro devorasse os homens o incomodava. Eles o haviam perseguido para se defender. Selim não queria que morressem por sua culpa. Isso não podia fazer parte do plano de Budalá, mas o desafio moral sim.

 Quando o verme estava mais perto, diminuiu a potência do martelo sônico e deixou que ressonasse com suavidade, tump, tump, tump. Como era de esperar, o verme se virou para ele.

 Selim se liberou de sua carga e se abaixou.

 Ao longe, na metade do caminho de sua aldeia, os zensunni se voltaram para olhar, e viram sua figura recortada contra a luz da lua. Selim se elevava em toda sua estatura, plantando em frente ao verme...

 Montado sobre a besta, Selim segurava sua lança e as cordas, contente de não ter perdido nenhum elemento de sua bota de cano longo e de que ninguém tivesse acabado morto. Voltou-se e viu os homens assombrados iluminados pela luz da lua. Tinham-lhe visto montar no lombo do demônio do deserto, e agora se afastava para as profundidades do deserto, controlando a besta.

 - Como pagamento pelo que levei, entrego-lhes uma história que se tornará lendária nos fogos do acampamento! - gritou. - Sou Selim Cavaleiro de Vermes!

 Estava muito longe para que o ouvissem, mas para Selim tinha o mesmo valor. Era o momento adequado de plantar sementes, mas não de revelar sua identidade. De agora em diante, em vez de recitar poesias e lamentos melancólicos de peregrinações ancestrais, os aldeões falariam do homem solitário que controlava os vermes de areia.

 A lenda de Selim continuaria crescendo... como uma árvore que brotasse no meio da areia, onde não teria podido sobreviver.

 

Mãe e filho: uma duradoura, mas no final misteriosa imagem da humanidade.

 

 ERASMO,

 Reflexões sobre os seres biológicos sensíveis

 

 O pequeno Manion alegrou a vida de Serena, como uma vela que brilhasse em um poço de escuridão.

 - Seu filho é um ser irritante e dependente. Não entendo por que exige tantos cuidados.

 Serena estava contemplando os grandes e inquisitivos olhos de Manion, mas voltou a cabeça para o rosto reluzente do robô.

 - Amanhã fará três meses. Nessa idade, não pode fazer nada sem ajuda. Tem que crescer e aprender. É preciso educar os bebês humanos.

 - As máquinas funcionam desde o primeiro dia em que são programadas - disse Erasmo em tom presunçoso.

 - Isso explica muitas coisas. Para nós, a vida é um processo de desenvolvimento gradual. Sem educação, somos incapazes de sobreviver. Você não foi educado. Acredito que deveria introduzir melhorias na educação de seus escravos. Ensiná-los a ser mais bondosos, fomenta sua curiosidade.

 - Sugere outras melhorias? Quantas mudanças traumáticas espera que faça?

 - Tantas quantas me ocorram. Percebeu uma mudança nas pessoas. Agora parecem mais cheios de vida, depois de experimentar um pouco de compaixão.

 - Sua compaixão, não a minha. E os escravos sabem. - O robô compôs uma expressão de perplexidade. - Sua mente é um caos de contradições, surpreende-me que consiga sobreviver sem sofrer um curto-circuito mental. Sobretudo com esse menino.

 - A mente humana é mais resistente do que imagina, Erasmo.

 Serena abraçou o bebê. Cada vez que o robô se queixava dos problemas que Manion causava, temia que levasse o menino. Tinha visto os jardins de infância cheios de meninos de casta inferior. Embora tivesse conseguido melhorar as condições de vida dos escravos, não suportaria que ele fosse criado entre aqueles seres bestiais. Erasmo se erguia junto à estátua de um peixe-espada, e observava Serena brincando com o menino sob o sol da tarde. Os dois chapinhavam em um lago da vila, situado em um terraço elevado que oferecia vistas espetaculares do mar. Serena ouvia o rugir das ondas, assim como os grasnidos dos gansos que se aproximavam.

 Nu nos braços de sua mãe, Manion chapinhava e gritava como um possesso. O robô tinha sugerido que Serena nadasse nua também, mas ela insistiu em cobrir-se com um singelo traje de banho branco.

 Como sempre, Erasmo os observava fixamente. Serena tentou ignorar a atenção do robô, com o objetivo de passar uma hora em paz com Manion. Já tinha percebido que seu filho se pareceria com Xavier, mas o menino gozaria algum dia a liberdade, a personalidade e o desejo de lutar contra as máquinas pensantes?

 Se antes só pensava em assuntos militares e políticos relacionados com a liga, agora só se preocupava com o bem-estar de seu filho. Com renovadas energias, trabalhava sem trégua para dispor de mais tempo livre com Manion, sem conceder motivos a Erasmo para castigá-la. O robô devia estar consciente de que a tinha mais dominada que nunca. Dava a impressão de que gostava quando ela o desafiava em duelos verbais, mas Serena também demonstrava gratidão a contragosto pelas pequenas liberdades que Erasmo lhe concedia.

 Embora nunca tivesse deixado de odiar seu carcereiro, Serena sabia que seu destino, e o de Manion, dependiam do robô.

 Quando olhava para a testa pronunciada e a forma decidida com que apertava a boca, pensou em Xavier e em sua teimosa devoção ao dever. Por que não fiquei com ele? Por que fiquei obcecada em salvar Giedi Prime? Por que ao menos uma vez, não pude ser uma mulher normal?

 Os grasnidos dos gansos aumentaram de intensidade quando sobrevoaram a villa, indiferentes a que humanos ou máquinas governassem a Terra. Excrementos esbranquiçados caíram no pátio, inclusive na estátua próxima ao robô, o que não pareceu incomodar Erasmo. Tudo fazia parte da ordem natural das coisas, em sua opinião.

 Manion deu uma gargalhada quando viu os gansos. Embora apenas tivesse três meses, demonstrava curiosidade por tudo. Às vezes, tentava tirar o broche com o que Serena prendia o cabelo, ou das jóias que Erasmo a animava a usar. O robô parecia considerá-la um adorno da villa. Erasmo avançou um passo para o lago e olhou para o bebê que chapinhava na água, Enquanto sua mãe o segurava.

 - Nunca tinha percebido o caos e a distração que um menino é capaz de provocar em uma casa tranqüila e ordenada. Considero muito... perturbador.

 - Os humanos amam o caos e a distração - disse Serena, em tom relaxado, embora sentisse um calafrio. - Assim aprendemos a inovar, a ser flexíveis e a sobreviver. - Saiu do tanque com o menino e envolveu-o em uma toalha branca.

 - Pense em todas as ocasiões que o engenho dos humanos frustrou os planos de Omnius.

 - Não obstante, as máquinas pensantes os conquistaram.

 - Nos conquistaram, em um sentido real, Erasmo? - A jovem arqueou as sobrancelhas, um dos gestos que eram enloquecedoramente enigmáticos para o Erasmo. - Muitos planetas continuam livres das máquinas pensantes. Se são superiores, por que se esforçam tanto em nos imitar?

 O robô não entendia o vínculo emocional entre mãe e filho. Apesar do tom de firmeza de Serena, estava muito surpreso pelas mudanças nesta mulher, antes tão raivosa e independente. Depois de ser mãe, parecia uma pessoa diferente. Nunca lhe tinha servido com a metade da atenção que concedia a este estúpido, ruidoso e inútil menino.

 Embora suas investigações sobre as relações humanas lhe tivessem proporcionado dados interessantes, Erasmo não podia permitir tais alterações na tranqüilidade de seu lar. Queria que Serena lhe desse toda sua atenção. Um importante trabalho comum os aguardava. Cuidar do menino fazia que não se concentrasse por completo.

 Enquanto Erasmo olhava para o pequeno Manion, a máscara do robô se transformou em uma olhar de ódio, que se tornou imediatamente em um sorriso bondoso quando Serena voltou os olhos em sua direção.

 Esta fase do experimento terminaria logo. Pensou no melhor método para conseguir isso.

 

A paciência é uma arma que utiliza melhor quem conhece seu objetivo concreto.

 

 IBLIS GINJO,

 Opções para a liberação total

 

 Durante oito tensos meses, Iblis Ginjo tinha trabalhado sozinho, tomando decisões e deixando a sua imaginação julgar a amplitude da intranqüilidade que reinava entre os escravos. Como humano de confiança, tinha recebido certos privilégios, mas nunca havia tomado consciência de quão horripilantes eram suas vidas, pois assumia que as ínfimas recompensas e elogios tornavam seus dias suportáveis. Como tinham agüentado durante tantos séculos?

 Iblis estava convencido de que havia outros líderes e membros da resistência. O pensador Eklo e seu subordinado Aquim tinham prometido ajuda, mas não sabia muito bem com que meios contavam. Entretanto, além das constantes suspeitas de Ajax e a execução do Ohan Freer, parecia que as máquinas pensantes não suspeitavam da incrível rebelião que estavam a ponto de enfrentar.

 Logo, isso mudaria.

 Durante semanas, Iblis tinha trabalhado com sigilo mas sem parar, sussurrando nos ouvidos de seus trabalhadores fiéis, formando pouco a pouco um círculo de dissidentes. Havia preparado-os para a possibilidade de uma revolta, e apesar do perigo, foram-se transmitindo a mensagem. Iblis jurou que a rebelião não seria outra causa perdida como as primeiras Rebeliões Hrethgir.

 Durante os últimos dois meses, um decidido Iblis tinha dobrado quase as filas de sua organização secreta, a qual muitas outras pessoas tentavam somar-se. Notava que a onda estava crescendo. Para fazer parte da resistência, cada convertido tinha que realizar uma série de provas recomendadas pelo monge Aquim.

 As centenas de membros da organização estavam divididos em pequenas células que não superavam dez militantes, de forma que cada membro só conhecia a identidade de uns poucos. Ao mesmo tempo, continuavam espalhando a notícia, como se tivessem esperado mil anos por isto.

 O pensador Eklo tinha dado uma explicação bastante esotérica sobre como o movimento alcançaria um ritmo de crescimento exponencial, seguindo o modelo básico da biologia: as células se multiplicariam por mitose. Membros de cada célula rebelde cresceriam, se separariam e formariam outras novas, que continuariam da mesma maneira. Cedo ou tarde, encontrariam outros grupos e se fundiriam, somariam forças. Por fim, os dissidentes alcançariam a massa crítica, e produziriam uma explosão de energia, como uma carga eletroquímica...

 Nada é impossível.

 Iblis tinha recebido mais comunicações secretas em momentos imprevisíveis. As misteriosas notas eram muito vagas, não contribuíam com dados sobre outras células rebeldes nem sobre o que se esperava dele. Quando ocorresse, a revolta seria ampla mas carente de coordenação, Iblis temia que a desorganização condenaria o movimento ao fracasso. Por outra parte, o fato de que os seres humanos fossem tão imprevisíveis poderia supor uma grande vantagem.

 Quando Iblis retornou para casa depois de três dias trabalho sem descanso no monumento da Victoria dos Titãs, viu que um escravo ancião saia com sigilo de sua casa. Correu ao interior e descobriu outra mensagem em cima da cama. Saiu em busca do escravo.

 - Alto! Quero falar contigo.

 O escravo ficou petrificado, como um coelho a ponto de fugir, condicionado para não resistir jamais às ordens de um capataz. Iblis correu até ele, suando devido ao calor.

 - Quem o enviou? Diga-me - o escravo meneou sua cabeça enrrugada. uma peculiar expressão vidrada apareceu em seu rosto. Abriu a boca e a assinalou com o dedo. Tinham cortado sua língua.

 Iblis, impassível, entregou-lhe uma caderneta eletrônica, depois de limpar a tela em que apareciam as atividades de sua equipe. O homem encolheu os ombros, indicando que não sabia ler nem escrever. Iblis compreendeu que era uma forma eficaz de impedir a contaminação entre as células rebeldes. Deixou-o partir, decepcionado.

 - Prossiga a resistência - murmurou.- Nada é impossível.

 O escravo não pareceu entendê-lo, e se foi depressa.

 Iblis voltou para a casa e leu a breve mensagem: Logo estaremos unidos. Nada nos deterá. Fizeram grandes progressos, mas por enquanto devem continuar sem nossa ajuda. As letras já estavam começando a desvanecer-se. Acelerem seus planos e esperem um sinal.

 Ao longe, ao outro lado dos enormes monumentos, o sol amarelo estava se ocultando atrás do horizonte. Esperem um sinal.

 Iblis entreabriu os olhos. Se Omnius ou um dos titãs descobrisse o plano em suas primeiras fases, a revolta fracassaria. O capataz nunca se considerou um herói. Estava trabalhando para libertar os humanos, mas também o fazia por seu próprio bem. Devia aproveitar sua habilidade para influir nas opiniões e atos dos escravos.

 Era fácil animar aos escravos a sonhar com a liberdade, mas quando paravam para pensar temiam as represálias das máquinas pensantes. Nesses momentos de dúvida, Iblis falava com grande convicção a seus seguidores e os persuadia do êxito de seu movimento. Ele os tinha sob seu controle físico e psíquico absoluto. Seu talento para a liderança nunca havia falhado, e fazia pouco tinha descoberto novos aspectos hipnóticos de sua personalidade...

 As equipes de Iblis cumpriam os rígidos prazos do monumento. As pessoas escolhidas por ele trabalhavam com poucos guardas robô e neocimeks à vista, o que lhes permitia incorporar discretamente os componentes mortíferos sugeridos pelo pensador Eklo. De forma similar, Iblis tinha instalado armas ocultas em outras quatro obras da cidade. Até o robô Erasmo tinha pedido trabalhadores peritos para efetuar modificações em sua villa... uma circunstância que Iblis tinha considerado muito interessante.

 Iblis sustentava a folha metálica da mensagem, agora em branco. Atirou-a a uma pilha de sucata que seria entregue ao reciclador. As máquinas eram muito eficientes na hora de utilizar materiais e minimizar gastos de energia industrial.

 Face à escassa informação de que dispunha, Iblis jurou juntar todas as peças do quebra-cabeças. Seu núcleo de operários insatisfeitos estava preparado para levantar-se e atacar a as máquinas pensantes. A necessidade de descarregar sua ira aumentava dia a dia.

 Iblis não podia esperar eternamente. Em algum momento, teria que tomar uma decisão transcendental. Confiou que o sinal prometido chegaria logo.

 

Um dos maiores problemas de nosso universo é o controle da procriação, e a energia que contém. É possível arrastar a raça humana graças a dita energia, obrigá-los a fazer coisas inimagináveis. Essa energia (chame-se amor, concupiscência ou como quiser) tem que ser liberada. Se for reprimida, pode ser muito perigosa.

 

 IBLIS GINJO,

 Opções para a liberação total

 

 Erasmo tolerou durante meses ao irritante bebê, mas quando Manion completou meio ano, o robô se sentia frustrado pela falta de progressos em sua investigação. Queria dedicar-se a outras, mas este bebê, ingovernável se interpunha em seu caminho. Tinha que fazer algo.

 Serena se mostrava cada vez mais protetora com seu filho. Dedicava mais tempo e energias a este menino inútil que a Erasmo. Inaceitável. Não devia ocorrer outra vez.

 Como o intrigava, tinha concedido a Serena mais liberdade que um escravo merecia. O bebê não lhe dava nada em troca, mas ela estava atenta a cada movimento e soluço da criatura. Para Erasmo era um desperdício de tempo e recursos.

 Erasmo a encontrou passeando no jardim posterior, com Manion nos braços. O menino, sempre curioso, demonstrava com ruídos ininteligíveis o muito que gostava das coloridas flores. Serena falava com ele, utilizava palavras estúpidas e um tom lisonjeador. A maternidade tinha transformado a inteligente e veemente Serena em um bufão.

 Um dia, Erasmo chegaria a compreender estes traços da personalidade humana. Já havia averiguado coisas importantes, mas queria acelerar o trabalho.

 Por sua parte, Serena pensava que seu amo robô estava se comportando de uma forma mais estranha que nunca. Seguia-a como uma sombra disforme, acreditando que ela não percebia. Sua reação a Manion, cada vez mais hostil, a assustava e angustiava.

 Aos seis meses de idade, o menino podia engatinhar com rapidez, embora de forma torpe, e tinha a propensão dos bebês a meter-se em confusões se não o vigiasse de perto. Serena preocupava-se que quebrasse objetos frágeis e sujasse tudo, quando seus deveres a obrigavam a deixá-lo aos cuidados de outros escravos.

 Erasmo parecia indiferente à segurança do menino. Em duas ocasiões, quando Serena realizava tarefas que lhe tinham atribuído, o robô tinha permitido que engatinhasse pela villa a suas largas, como se quisesse comprovar que Manion era capaz de sobreviver aos numerosos perigos da casa.

 Alguns dias antes, Serena tinha descoberto seu filho na borda do balcão que dava à praça situada em frente ao edifício principal. Apoderou-se dele e gritou para Erasmo.

 - Não espero que uma máquina se preocupe, mas não parece que você tenha o menor sentido comum.

 O comentário o tinha divertido.

 Em outra ocasião, ela tinha interceptado Manion na porta exterior dos laboratórios de dissecação do robô, local que tinha sido proibido a ela. Erasmo havia avisado que não espiasse. Embora preocupada com as torturas que Erasmo devia infligir a escravos indefesos, não se atreveu a insistir pelo bem de seu filho.

 Erasmo parecia intrigado pelos sentimentos, ao mesmo tempo que os desprezava. Serena o tinha deixado surpreso praticando expressões faciais exageradas quando olhava para Manion. Sua pele sintética desdobrava um desfile de máscaras teatrais que oscilavam entre o asco e a maldade, passando pela perplexidade.

 Serena esperava convencer Erasmo de que ainda não compreendia a natureza humana, e de que devia mantê-la viva com o fim de descobrir as respostas que tanto ansiava...

 Passeava com Manion por um jardim de samambaias, fingindo indiferença. Observou uma porta no outro extremo da estufa, e recordou que contava com uma chave que permitia o acesso à casa principal. Erasmo a observava obsessivamente, como de costume.

 Enquanto estudava as plantas, não olhou para o robô. Depois, como se houvesse pensado melhor, passou como uma flecha pela porta com o bebê e a fechou com chave. Somente conseguiria um momento de pausa da intensa vigilância, e pegaria despreparado seu amo. Ao menos esperava.

 Enquanto percorria depressa o corredor, Manion se remexia em seus braços e lançava gritos de desgosto. Estava apanhado como ela, condenado injustamente a passar o resto de sua vida como escravo. Xavier nunca veria seu filho.

 Arrependeu-se uma vez mais de sua temerária decisão de ir a Giedi Prime. Impulsionada por seu idealismo, só tinha pensado em termos de grandezas, no bem-estar de bilhões de pessoas. Não tinha pensado em seus entes queridos, seus pais, Xavier. Por que devia carregar o peso do sofrimento humano?

 Agora, Xavier e Manion estavam pagando o preço como ela.

 Erasmo apareceu por outra porta diante dela e lhe fechou o caminho. Uma expressão mal-humorada ocupava seu rosto surrealista.

 - Por que tenta escapar, quando sabe que é impossível? Este jogo não me diverte.

 - Não tentava escapar - protestou ela, ao mesmo tempo em que protegia o menino com seus braços.

 - A esta altura já deveria compreender que existem conseqüências para seus atos. - Muito tarde, a jovem reparou em que ele carregava algo brilhante na mão. Apontou o aparelho em sua direção. - Chegou o momento de mudar os parâmetros.

 - Espere...

 Serena viu um estalo de luz branca, e uma profunda fraqueza se apoderou de seu corpo. Não pôde se manter em pé. As pernas lhe falharam como se tivessem se transformado em água. Enquanto caia, tentou proteger Manion, que lançou um choro de medo quando sua mãe e ele desabaram.

 Serena, a ponto de perder os sentidos, não pôde impedir que Erasmo se apoderasse do bebê indefenso.

 

 Em seu centro de dissecção e cirurgia geral, Erasmo estudava Serena. Sua pele nua se via suave e branca, pois tinha se recuperado do molesto parto com surpreendente rapidez.

 Enquanto jazia inconsciente na plataforma branca, Erasmo levou a cabo uma delicada operação. Para ele era uma questão de rotina, pois tinha praticado muitas vezes com escravas durante os últimos dois meses, e só havia morto três.

 Não queria fazer mal a Serena, pois acreditava que ainda podia lhe ensinar muitas coisas. O procedimento era para o seu bem...

 

 Serena despertou por fim, nua mas empapada em suor. Tinha as pernas e os braços presos, e sentia certo desconforto no abdômen. Elevou a cabeça e descobriu que estava em uma sala ampla e cheia de coisas, aparentemente sozinha.

 Onde estava Manion? Seus olhos se dilataram de medo e alarme. Quando tentou sentar-se, sentiu uma pontada de dor na região abdominal. Viu uma incisão e uma cicatriz na parte inferior do estômago.

 Erasmo entrou na sala com estrondo, carregado com uma bandeja que continha objetos metálicos e cristalinos.

 - Bom dia, escrava. Você dormiu mais do que eu tinha previsto. - Deixou a bandeja e começou a liberar os pulsos de Serena. - Estava limpando meus instrumentos médicos.

 Furiosa com ele, e morta de medo, a jovem tocou as marcas da operação, apalpou seu abdômen dolorido.

 - O que você me fez?

 - Uma simples precaução para solucionar um problema que concerne a nós dois - respondeu com calma o robô. – Extraí seu útero. Assim não terá que se preocupar com a distração de ter mais filhos.

 

 A cobiça, a ira e a ignorância envenenam a vida

 

 PENSADOR EKLO, da Terra.

 além da mente humana,

 

 Quatro meses depois do ataque das máquinas pensantes contra Rossak, Zufa Cenva dedicava seu tempo e energias a treinar novas candidatas. Haviam perdido muitas na batalha psíquica contra os cimeks.

 Aurelius Venport se comportou com eficácia durante a crise, evacuando as pessoas para os refúgios da selva enquanto os cimeks destruíam tudo que encontravam em seu caminho.

 Mas Zufa apenas percebeu. Enquanto Venport sofria pela tensão e responsabilidade que a feiticeira carregava sobre seus ombros, a mulher não pensava quase nunca em seu amante.

 Sempre tinha sido assim e Venport estava cansando.

 Zufa nunca se incomodou em descobrir do que eram capazes os homens de Rossak.

 Apesar das suas proezas telepáticas, Zufa não entendia o funcionamento prático de seu mundo protegido. Não sabia quase nada de como o patriota Venport mantinha forte a economia de Rossak.

 Durante anos, suas equipes de químicos tinham estudado o potencial médico e recreativo das plantas, cascas, líquidos e cogumelos da selva. Cirurgiões militares e investigadores médicos de toda a liga dependiam do fornecimento contínuo de drogas procedentes das selvas de Rossak.

 Além disso, tinha começado a produção dos inovadores e eficazes globos de luz que Norma tinha inventado e compartilhado com ele. Os benefícios deste negócio pagariam a reparação e reconstrução das plataformas orbitais danificadas, a reconstrução das cidades nas cavernas e também a presença de mais naves exploradoras e vigias da Armada.

 Pelo visto, Zufa pensava que essas coisas eram grátis. Os negócios do Venport pagavam todos os gastos.

 A qualquer momento que assim o desejasse, poderia recolher seus créditos e viver como um rei em outro planeta, mas se sentia filho de Rossak. Embora a feiticeira lhe tratasse com escasso carinho e afeto, ele a amava.

 Venport sorriu para si enquanto subia à seção ondulante de pavimento que cobria as copas polimerizadas das árvores. As naves pequenas podiam aterrissar ali, mas as barcaças de carga tinham que permanecer no espaço, atracar nas estações orbitais e descarregar as caixas uma a uma. Na selva, trepadeiras e ervas altas já tinham começado a cobrir as zonas queimadas pelos cimeks. A natureza sabia curar a si mesma.

 Elevou a vista e procurou a nave esperada, satisfeito por ver que era pontual. Viu-a descer, uma pequena nave particular propriedade de um mercador de carne tlulaxa chamado Tuk Keedair, um homem que atacava Planetas Não Aliados em busca de escravos. Keedair também vendia órgãos biológicos, cultivados ao que parecia em sofisticados tanques de Tlulax.

 Também comerciante, Venport nunca tinha considerado a escravidão um negócio lucrativo ou sensato. Apenas um punhado de planetas da liga permitia a prática, mas Keedair gozava de boa fama entre seus clientes. Hoje, o homem desejava fazer uma proposta diferente a Aurelius Venport, não relacionada com a escravidão. Venport, picado pela curiosidade, tinha aceitado reunir-se com ele.

 Depois que a pequena nave tlulaxa aterrissou, Keedair desceu. Deteve-se com os braços estendidos, vestido com uma blusa azul enfiada em calças negras rodadas. Uma trança escura marcada de cinza caía sobre seu ombro como uma medalha de honra.

 Venport estendeu uma mão como saudação. Para esta ocasião, levava um cinto apertado na cintura e botas feitas da pele verde negras de um réptil arbóreo. Keedair elevou una mão cheia de calos.

 - Trouxe umas amostras que quero mostrar-lhe - disse o mercado, - e idéias que lhe farão lamber os lábios.

 - Você vem a mim com fama de visionário e homem prudente, Tuk Keedair. Conte-me suas idéias.

 Enquanto as feiticeiras estavam ocupadas em seus intermináveis conselhos de guerra, Venport conduziu seu convidado a uma sala de recepções. Os dois homens ficaram sozinhos, bebendo um potente chá de ervas selvagens para observar os ritos sociais. Por fim, Keedair tirou uma amostra de pó marrom e a entregou.

 - Faz nove meses, encontrei isto em Arrakis.

 Venport cheirou, e devido a insistência de seu convidado, provou a substância.

 Apenas ouviu as palavras posteriores do tlulaxa, tão concentrado estava na notável experiência que exigia toda sua atenção. Embora estivesse muito familiarizado com os estimulantes e substâncias que alteravam o estado de ânimo, procedentes das selvas de Rossak, nunca tinha imaginado que algo assim existisse.

 A melange parecia impregnar cada célula de seu corpo, transmitir energia e vitalidade diretamente a seu cérebro, mas sem as habituais distorções sensoriais. Era um prazer... mas muito mais que isso. Venport se reclinou em sua cadeira e sentiu que a substância o seduzia e relaxava, o controlava sem controlar. Era um paradoxo. Sentia sua mente mais alerta que nunca em sua vida.

 Até o futuro parecia claro.

 - Gostei muito. - Venport exalou um suspiro de satisfação e provou outra amostra do pó. - Posso me transformar nosso melhor cliente.

 - Já suspeitava que encontraria muitos compradores na liga. Muitos, muitos mesmo.

 Os dois homens entraram em acordo sobre os detalhes e apertaram as mãos. Depois, tomaram outra taça de chá de Rossak... misturado com melange.

 Aurelius Venport concordou em viajar com o mercador de carne aos limites do território explorado. Seria uma longa viagem de ida e volta, já que Arrakis se achava muito longe, mas o homem de Rossak queria ver com seus próprios olhos a fonte da melange, e ver como poderia transformar o cultivo de especiaria em um negócio vantajoso.

 Talvez Zufa prestasse atenção nele depois disto.

 

Os governos mais tradicionais dividem ao povo, o enfrentam entre si para debilitar a sociedade e fazê-la governável.

 

 TLALOC,

 Debilidades do Império

 

 Em um magnífico desdobramento militar, um grupo cruzadores e couraçados da liga sobrevoavam Poritrin. Na ponte da nave capitânia, um orgulhoso e inexpressivo segundo Xavier Harkonnen se erguia com o uniforme de gala, estudando o planeta de aspecto plácido.

 Lorde Bludd se ofereceu para equipar as naves da Armada com os novos escudos de Tio Holtzman. No espaçoporto da Starda se montaram instalações provisórias para acomodar às numerosas naves. Todas as naves comerciais tinham sido enviadas a outros lugares para transformar o espaçoporto em base militar e estaleiro provisório. Equipes de escravos especializados tinham sido afastadas de suas ocupações habituais e destinados à instalação.

 Xavier não estava muito convencido de depositar tanta confiança em uma tecnologia tão recente, porém o equilíbrio de poder teria que mudar de maneira significativa antes que a humanidade pudesse conquistar outros Planetas Sincronizados. Tinha que correr riscos.

 As imensas naves de guerra de tipo couraçado desceram com majestosidade. Além de seu armamento regulamentar, cada nave transportava mil e quinhentos tripulantes, vinte transportes de tropas, quinze naves de carga e equipe, vinte naves de passageiros menores, cinqüenta naves de patrulha de longo alcance e duzentos kindjals para combate espacial ou atmosférico. Essas naves tão enormes poucas vezes aterrissavam em superfícies planetárias, mas os couraçados reluziam agora à luz do sol.

 Depois dos couraçados chegaram os cruzadores, menores, capazes de superar em velocidade, embora, em proporção, transportassem maior quantidade de armas para respostas rápidas e decisivas.

 Nobres e cidadãos livres de Poritrin, separados dos escravos, saudavam e assobiavam.

 As barcaças que sulcavam o Isana tocavam as buzinas. Como parte da exibição, esquadrões de kindjals e naves patrulhas voavam ao redor das naves de maior tamanho como vespas protetoras.

 Assim que a nave capitânia aterrissou, Xavier saiu e foi recebido por um coro de vivas. O enorme couraçado se abatia sobre ele, e se sentiu minúsculo.

 Mas todo mundo dependia dele, e tinha um trabalho a fazer. Depois de uma breve pausa para orientar-se, avançou sem vacilar, flanqueado por seus oficiais e seguido pela primeira linha de suas tropas, que formavam uma fileira perfeita. Ele os tinha preparado bem.

 Acompanhado por quatro assessores e onze dragões, lorde Niko Bludd se aproximou dele. O nobre lançou a capa para trás e apertou a mão de Xavier.

 - Bem-vindo a Poritrin, segundo Harkonnen. Embora esperemos terminar nossas tarefas o quanto antes, durante sua estadia meu povo descansará melhor de noite, sabendo que goza de sua magnífica proteção.

 

 Mais tarde, enquanto Bludd os homenageava com um luxuoso banquete, Xavier delegou responsabilidades a seus oficiais de confiança. Seus subcomandantes fiscalizaram a organização das turmas de trabalhadores no espaçoporto, assim como a instalação dos geradores Holtzman. Sob o cauteloso comando do segundo, os novos sistemas se incorporariam a um esquadrão de patrulha, para que pudesse inspecionar as obras e pôr a prova a nova tecnologia.

 Continuando, os mecânicos de Poritrin equilibrariam os sistemas e disporiam múltiplos escudos para cobrir pontos vulneráveis dos cruzadores e couraçados. Se os escudos funcionassem como era de esperar durante as rigorosas demonstrações de prova, Xavier ordenaria que outros grupos de combate ficassem estacionados de maneira provisória em Poritrin para submeter-se a melhoras semelhantes. Não queria que muitas naves da Armada estivessem em dique seco de uma vez, além disso não poderia arriscar que alguns planetas da liga caíssem indefensos, nem tampouco desejava que os espiões de Omnius soubessem o que se estava forjando.

 Quase todas as armas dos robôs se baseavam em projéteis e explosivos, bombas inteligentes programadas que perseguiam seus objetivos até alcançá-los. Enquanto os projéteis de inteligência artificial não aprendessem a diminuir sua velocidade e penetrar nos escudos, o escudo seria suficiente e decisivo.

 Graças a um relatório confidencial, Xavier tinha sido informado do defeito mais importante do escudo, sua violenta interação com os lasers. Entretanto, como tais armas quase nunca eram utilizadas em combate devido a sua ineficácia para a destruição em grande escala, considerou que se tratava de um risco aceitável. Enquanto a Armada pudesse ocultar esse segredo de Omnius...

 Nas torres cônicas do salão da residência de lorde Bludd, Xavier escutou os cantores que cantavam hinos e canções inspiradas por uma festa navacristiana que ainda se celebrava de vez em quando em Poritrin. Não tinha fome, e seus sentidos do olfato e paladar estavam muito diminuídos. Bebeu um pouco do rum local, mas controlou sua ingestão de álcool. Não desejava diminuir a velocidade de suas reações ou embotar seus sentidos. Sempre alerta.

 Enquanto a festa continuava a seu redor, olhou pelas janelas curvas da torre e viu as luzes do espaçoporto, manchas amarelas e brancas que permitiam às equipes de escravos continuar instalando os escudos dia e noite. Nunca tinha gostado da escravidão, sobretudo desde que Serena se pronunciou contra, mas assim eram as coisas em Poritrin.

 Xavier teria preferido estar em casa com Octa. Fazia menos de um ano que estavam casados, e logo seria pai pela primeira vez. No momento, seu dever exigia estar aqui. Resignado, levantou a taça e brindou uma vez mais com lorde Bludd.

 Acompanhado por seu ajudante, o quarto Jaymes Powder, Xavier passeou ante as primeiras filas de kindjals alinhados no campo de aterrissagem. Tinham instalado pequenos geradores de escudo em cada unidade, conectados aos motores das naves. Com os ombros quadrados, as costas muito rígidas e o uniforme imaculado, prestou muita atenção aos detalhes. Jamais permitiria que um erro como o de Giedi Prime voltasse a acontecer.

 Viu do outro lado do delta barcaças e navios de passageiros procedentes do norte. Os assuntos de Poritrin procediam como de costume, e o ataque das máquinas pensantes parecia muito longínquo. Entretanto, Xavier nunca se sentiria em paz. Embora tivesse encontrado a felicidade com Octa, não era a vida que tinha planejado. As máquinas pensantes haviam matado Serena. Em sua luta pela liberdade, sabia que suas motivações eram pessoais.

 Vigiados por capatazes, equipes de escravos letárgicos trabalhavam com a energia suficiente para evitar castigos, ao mesmo tempo em que demonstravam escasso entusiasmo pelo trabalho, embora esse beneficiasse à toda a humanidade, eles incluídos.

 Embora desprezasse a prática da escravidão, Xavier meneou a cabeça, decepcionado e furioso pela atitude derrotista dos escravos.

 - A decisão de lorde Bludd de atribuir escravos a este trabalho... não me inspira confiança.

 O quarto Powder examinou os prisioneiros.

 - Aqui é normal, senhor.

 Xavier umedeceu os lábios. A Liga de Nobres insistia que cada planeta se governasse por suas próprias leis.

 - De qualquer modo, não acredito que um cativo seja o trabalhador mais adequado. Não quero erros, Jaymes... A frota depende disso.

 Passeou a vista pelas equipes de operários, inquieto ao ver tantos escravos encarregados de um trabalho tão delicado. Um homem de barba negra, com olhos que pareciam albergar os sentimentos mais negros, guiava a sua equipe com ordens terminantes, em um idioma que Xavier não entendia.

 Xavier examinou os escravos com ar pensativo. Jogou um olhar aos kindjals que brilhavam à luz do sol. A sensação de perigo provocou-lhe um arrepio na nuca.

 Guiado por um impulso, golpeou com os nódulos o casco de uma nave patrulha. Dois escravos manchados de graxa saíram correndo da nave, uma vez terminado seu trabalho, e se encaminharam à nave seguinte, evitando o olhar de Xavier.

 Afastou-se quatro passados da nave patrulha e virou-se.

 - Quarto, acredito que deveríamos testar um kindjal escolhido aleatoriamente.

 Subiu à cabine da nave. Examinou os controles do painel com dedos experimentados, observou os componentes e multiplicadores de energia recém instalados que projetavam os escudos Holtzman. Acionou interruptores, esperou a que os motores ganhassem vida, e logo acendeu o escudo.

 Fora, o ajudante retrocedeu. Powder protegeu os olhos quando o ar brilhou ao redor do aparato.

 - Parece que funciona bem, senhor!

 Xavier aumentou a energia dos motores, preparado para a decolagem. Os gases de escapamento ficaram presos pelo escudo, até que se filtraram pouco a pouco através da barreira. A nave zumbiu e vibrou abaixo dele. Estudou as leituras do painel, com o cenho franzido.

 Mas quando tentou decolar, o gerador do escudo jogou faíscas e fumaça. Os motores se desconectaram automaticamente. Xavier fechou todos os sistemas antes que mais curtos-circuitos danificassem os delicados componentes.

 Desceu da nave patrulha, com a cara congestionada de fúria.

 - Tragam-me os capatazes imediatamente! E avise lorde Bludd que quero falar com ele.

 Os escravos designados para esse kindjal em particular tinham desaparecido na multidão, e apesar das furiosas pesquisas do segundo, nenhum dos cativos alinhados confessou saber dos erros. Como consideravam todos os escravos pouco importantes, os capatazes não tinham conservado registros dos indivíduos destinados para cada nave.

 A notícia tinha encolerizado a lorde Bludd, que logo se desfez em desculpas. Puxando sua barba grisalha falou.

 - Não há desculpa possível, segundo. Não obstante, descobriremos e castigaremos os trabalhadores negligentes.

 Xavier guardou silêncio quase todo o tempo, à espera da análise definitiva das equipes de inspeção. Seu ajudante retornou por fim, flanqueado por dragões. O quarto Powder vinha carregado com informes detalhados.

 - Terminamos a inspeção de controle de qualidade, segundo. Em todas as naves investigadas, um de cada cinco geradores de escudo foram mal instalados.

 - Uma inépcia criminosa! - exclamou Bludd, desolado.

 - Nós os obrigaremos a reparar seus enganos. Minhas mais sinceras desculpas, segundo.

 Xavier olhou sem pestanejar para o nobre.

 - Uma percentagem de erro de vinte por cento não supõe apenas mera incompetência, lorde Bludd. Tanto se seus cativos são traidores porque estão ligados com nossos inimigos, como se estão furiosos com seus amos, não podemos tolerar isso. Se minha frota tivesse entrado em combate com estas naves, teríamos sido massacrado! - Voltou-se para seu ajudante. - Quarto Powder, carregaremos todos os geradores de escudo a bordo de nossos cruzadores e os conduziremos ao estaleiro da Armada mais próximo. - Dedicou uma reverência ao preocupado nobre. - Agradeço, lorde Bludd, por suas boas intenções. Não obstante, tendo em conta as circunstâncias, prefiro que pessoal militar preparado instale e teste os escudos.

 Deu meia volta para partir.

 - Me ocuparei disso agora mesmo, senhor.

 Powder saiu da sala, seguido dos dragões. Bludd parecia muito envergonhado, mas não podia contradizer ao severo comandante.

 - Compreendo muito bem, segundo. Vou me assegurar de que os escravos sejam castigados.

 Xavier, aborrecido, declinou o convite do nobre de assistir a outro banquete. Como desculpas, Bludd mandou enviar uma dúzia de caixas do melhor rum de Poritrin à nave capitânia.

 Talvez Xavier e Octa compartilhassem uma, para celebrar sua volta a casa. Ou possivelmente esperariam o nascimento de seu primeiro filho.

 Xavier saiu da sala de recepção de lorde Bludd. Trocaram breves mas tensas palavras, e depois o oficial se dirigiu a seu couraçado, aliviado por abandonar aquele lugar. 

 

 A vida é a soma de forças que se opõem à morte.

 

 SERENA BUTLER

 

 Serena havia sido violada, haviam arrancado uma parte de seu corpo, e uma imensa desolação tomava conta dela. Ao cometer tamanha atrocidade, Erasmo a tinha lançado a beira do desespero, destruído a teimosa esperança a que tinha se obstinado.

 Depois de apresentar-se ao Parlamento da Liga, Serena tinha imaginado que realizaria tarefas importantes em benefício da humanidade. Tinha dedicado seu tempo, energias e entusiasmo, sem se arrepender nem um momento. Desde que seu pai tinha tomado juramento como representante da liga, logo depois que completara dezenove anos, com um brilhante futuro pela frente.

 O jovem Xavier Harkonnen tinha comovido seu coração, e juntos tinham sonhado fundar uma família feliz e numerosa. Tinham planejado seu casamento, falado de seu futuro compartilhado.

 Até nas garras de Erasmo, obstinara-se a seus sonhos de fuga, e de uma vida normal posterior, ao lado de Xavier.

 Mas por conveniência própria, o malvado robô a tinha esterilizado como a um animal, tinha roubado a possibilidade de ter mais filhos. Sempre que via a desumana máquina, queria gritar-lhe impropérios. Mais que nunca, sentia falta da companhia de seres humanos civilizados que poderiam ajudá-la nestas circunstâncias difíceis, inclusive o mal aconselhado Vorian Atreides. Apesar da sua suposta fascinação pelo estudo da humanidade, Erasmo era incapaz de compreender por que se indignou por “uma intervenção cirúrgica de pouca importância”.

 Sua fúria e dor se impuseram à inteligência necessária para enfrentá-lo.

 Era incapaz de entusiasmar-se pelos temas esotéricos que Erasmo desejava comentar com ela. Como conseqüência, o robô se sentiu cada vez mais decepcionado com sua cativa.

 Pior ainda, Serena nem percebeu.

 Quando o pequeno Manion completou onze meses, transformou-se em seu único salva-vidas, uma dolorosa lembrança de tudo que tinha perdido, tanto no passado como no futuro. Havia começado a andar, e era uma pilha de energia concentrada que perambulava por todas as partes com passo trôpego, empenhado em explorar todos os cantos da villa.

 Outros escravos tentavam ajudar, ao ver a dor de Serena e sabedores do que fazia para melhorar sua qualidade de vida. Porém Serena não desejava nada deles. Se achava a beira do desespero. Apesar de tudo, Erasmo mantinha as mudanças e melhorias que tinha aceitado realizar.

 Serena ainda trabalhava no jardim e na cozinha, vigiava Manion quando o menino examinava utensílios e brincava com as panelas reluzentes. Como conheciam sua peculiar relação com o Erasmo, outros escravos a observavam com curiosidade e respeito, e se perguntavam o que faria depois. Os cozinheiros e auxiliares brincavam com o menino, divertidos com suas tentativas de falar.

 Manion estava possuído por uma sede insaciável de ver e tocar tudo, das flores e plantas dos jardins da villa até os peixes exóticos dos lagos, passando por uma pluma que encontrou na praça. Estudava tudo com seus vivazes olhos azuis.

 Serena renovou sua determinação de tentar escapar ou atentar contra Erasmo. Para tal fim, precisava averiguar tudo que pudesse sobre o robô independente. Para solucionar esse enigma, decidiu descobrir o que ocorria com exatidão nos detestáveis laboratórios fechados.

 O robô tinha proibido que entrasse neles, e a tinha advertido que não “se intrometesse” em seus experimentos. Tinha ordenado a outros criados da casa que não contassem nada a respeito deles. Do que o robô tinha medo? Aqueles laboratórios deviam ser importantes.

 Tinha que entrar de qualquer modo.

 Apresentou-se uma oportunidade quando Serena falou com dois auxiliares de cozinha que preparavam comidas para humanos encerrados no bloco dos laboratórios. Erasmo insistia em pratos energéticos para que suas vítimas sobrevivessem o máximo possível, mas preferia uma quantidade pequena para “minimizar as defecções” quando infligia dor excessiva.

 O pessoal da cozinha tinha aceito com alívio os gostos sangrentos de Erasmo, satisfeitos de não ter sido escolhidos para os experimentos. Ainda não, em qualquer caso.

 - O que importa a vida de um escravo? - perguntou uma das mulheres, Amia Yo. Era a escrava que havia tocado a manga de Serena durante o festim de “boa vontade” do robô, e Serena a tinha visto trabalhar nas cozinhas.

 - Toda vida humana possui valor - disse Serena, enquanto olhava para o pequeno Manion, - ainda que seja somente seja para sonhar. Tenho que ver esse lugar com meus próprios olhos.

 Então, revelou seu impetuoso plano entre sussurros conspiratórios.

 Amia Yo, reticente, porém com expressão decidida, se ofereceu a colaborar.

 - Só por você, Serena Butler.

 Como as duas mulheres eram mais ou menos da mesma estatura e peso, Serena vestiu sua bata e avental brancos, e cobriu o cabelo com um lenço escuro. Confiava em que os olhos espiões não perceberiam as diferenças.

 Serena deixou Manion aos cuidados dos auxiliares e acompanhou uma escrava esbelta de pele escura. Entraram empurrando um carrinho de comida em uma série de dependências anexas que Serena nunca tinha visitado. O corredor de entrada cheirava a produtos químicos, fármacos e enfermidade. Serena temia o que ia ver. Seu coração acelerou e o suor empapou sua pele, porém apressou o passo.

 Sua companheira parecia nervosa, e seus olhos se moviam de um lado a outro quando atravessaram uma barreira codificada. Entraram juntas em uma câmara interior. Um intenso fedor tornava o ar quase irrespirável. Nada se movia na sala. Serena sentiu náuseas.

 Nada teria podido prepará-la para isto.

 Havia restos humanos amontoados sobre mesas, em tanques borbulhantes e no chão, como brinquedos abandonados por um menino aborrecido. Sangue fresco salpicava as paredes e o teto, como se Erasmo se dedicasse à arte abstrata. Tudo parecia recente e úmido, como se a horrenda matança tivesse acontecido uma hora antes. Serena, consternada, só experimentou asco e raiva. Por que o robô tinha feito isto? Para satisfazer alguma curiosidade macabra? Tinha encontrado as respostas que procurava? A que preço!

 - Passemos a outra sala - disse sua companheira com voz trêmula, enquanto tentava afastar a vista do horror.

 - Aqui já não há ninguém a quem dar de comer.

 Serena avançou cambaleante atrás da outra mulher, que empurrava o carrinho, até entrar em outra câmara, onde prisioneiros de aspecto gasto estavam presos em celas de isolamento. O fato de aquelas pessoas ainda estarem com vida foi ainda pior. Reprimiu as ânsias de vômito.

 Fazia muito tempo que sonhava escapar de sua vida de escrava. Ao ver estes horrores, compreendeu que fugir não seria suficiente. Precisava deter Erasmo, destruí-lo, não por ela, mas por todas as suas vítimas.

 Mas Serena tinha caído na armadilha.

 Graças a aparelhos de vigilância ocultos, Erasmo a vigiava. Considerou sua repugnância agradavelmente predizível. Durante dias tinha esperado que penetrasse às escondidas em seus laboratórios, apesar da sua proibição. Sabia que Serena não conseguiria resistir a essa tentação por muito tempo.

 Sim, compreendia alguns aspectos da natureza humana, e muito bem.

 Agora que sua acompanhante e ela tinham terminado suas tarefas, retornariam à segurança da villa, onde Serena tinha deixado seu impertinente bebê. Erasmo pensou na melhor maneira de manipulá-la.

 Tinha chegado o momento de introduzir mudanças. De acrescentar tensão ao sistema experimental e observar as transformações dos sujeitos. Conhecia o ponto mais vulnerável de Serena.

 Enquanto se preparava para o drama que ia criar, Erasmo transformou seu rosto em um ovalóide inexpressivo. Percorreu os corredores, e o eco de seus passos anunciou sua chegada. Antes que Serena pudesse recuperar seu filho, o robô encontrou Amia Yo brincando com o menino no chão da cozinha.

 O amo da casa não pronunciou nenhuma palavra quando entrou na habitação. Amia Yo, sobressaltada, elevou os olhos e viu o detestável robô. A seu lado, o pequeno Manion contemplou o familiar rosto refletivo e riu.

 A reação do menino provocou fez o robô se deter por um momento. Depois, com um veloz movimento de seu braço sintético, quebrou o pescoço de Amia Yo e agarrou ao menino. A cozinheira caiu morta sem exalar nem um suspiro. Manion se retorceu e gritou.

 Justo quando Erasmo erguia o menino no ar, Serena apareceu na porta, com expressão horrorizada.

 - Solte-o!

 Erasmo a afastou com um empurrão, e Serena caiu sobre o cadáver da mulher assassinada. Sem olhar para trás, o robô se afastou da cozinha e subiu uma escada que conduzia aos níveis e balcões superiores da villa. Manion pendurava de sua mão como um peixe capturado, sem parar de chorar e gritar.

 Serena ficou em pé e correu atrás deles, enquanto suplicava a Erasmo que não machucasse seu filho.

 - Castigue a mim, se assim desejar, mas a ele não!

 O robô voltou seu rosto indecifrável para ela.

 - Não posso fazer ambas as coisas? - Subiu ao segundo piso.

 Ao chegar ao patamar do terceiro andar, Serena tentou agarrar uma perna do robô. Erasmo nunca tinha visto tamanha exibição de desespero, e se arrependeu de não ter aplicado sondas de controle para escutar seu coração e saborear o suor induzido por seu pânico. O pequeno Manion agitava os braços e as pernas.

 Serena tocou os dedos de seu filho, conseguiu segurá-lo por um instante. Então, Erasmo deu um chute em seu abdômen, e a jovem caiu rodando pelas escadas.

 Conseguiu ficar em pé, sem se importar com as contusões, e prosseguiu a perseguição.

 Interessante. Um sinal de resistência notável, ou de resistência suicida. A partir de seus estudos sobre Serena Butler, Erasmo decidiu que era um pouco de tudo.

 Quando chegou ao último nível, Erasmo se encaminhou ao amplo balcão que dava à praça, quatro pisos mais abaixo. Havia um robô sentinela no balcão, observando as equipes de escravos que instalavam novas fontes e erigiam estátuas. O som da maquinaria e de suas vozes se alçava no ar imóvel. O robô se virou para sua perseguidora.

 - Alto! gritou

 Serena com uma severidade que lhe recordou sua antiga personalidade.

 - Basta, Erasmo! Você ganhou. Farei o que desejar.

 O robô se deteve ante o corrimão do balcão, agarrou Manion pelo tornozelo esquerdo e elevou-o sobre a borda. Serena gritou. Erasmo deu uma breve ordem à sentinela.

 - Impeça que ela se intrometa.

 Colocou o menino de cabeça para baixo sobre a praça pavimentada, como um gato que jogasse com um camundongo indefeso.

 Serena se precipitou para frente, mas o robô sentinela lhe fechou o caminho. Ela golpeou o robô com tal força que o robô foi parar contra o corrimão, antes de recuperar o equilíbrio e segurar o braço de Serena.

 Abaixo, os escravos humanos elevaram a vista e apontaram para o balcão. Uma exclamação coletiva se elevou, seguida de um sussurro.

 - Não! - gritou Serena enquanto tentava libertar-se da mão do robô. - Por favor!

 - Devo continuar meu trabalho. Este menino é um fator perturbador.

 Erasmo balançou ao menino sobre o abismo. A brisa agitou seu manto. Manion se retorcia e gritava, chamava sua mãe.

 Serena olhou o rosto refletivo, mas não viu compaixão nem preocupação. Meu precioso bebê!

 - Não, por favor! Farei o que...

 Os escravos não acreditavam em seus olhos.

 - Serena... Seu nome deriva de “serenidade”. - Erasmo elevou a voz para fazer-se ouvir sobre os uivos do menino. – Entende isso?

 A jovem se lançou contra o robô sentinela, esteve a ponto de soltar-se e estendeu a mão, desesperada por apoderar-se de seu filho.

 De repente, os dedos de Erasmo se abriram. Manion caiu na praça.

 - Bem. Já podemos voltar para trabalho.

 Serena lançou um grito tão estrondoso que não ouviu o terrível som do corpo ao estatelar-se contra o pavimento.

 Indiferente ao perigo que corria, Serena se soltou por fim, rasgando-a pele, e empurrou o robô sentinela contra o corrimão. Quando o robô recuperou o equilíbrio, empurrou-o de novo, desta vez com mais força. O robô rompeu a balaustrada e se precipitou no vazio.

 Sem emprestar atenção à máquina, Serena atacou Erasmo e o golpeou com seus punhos. Tentou trincar ou arranhar sua cara de metal líquido, mas só conseguiu cortar os dedos e quebrar as unhas. Em seu frenesi, Serena rasgou o manto novo do robô. Depois, agarrou um vaso de terracota do bordo do balcão e o quebrou contra o corpo de Erasmo.

 - Pare de agir como um animal - disse Erasmo. Enviou-a com um tapa ao chão.

 

 Iblis Ginjo, que fiscalizava à equipe da praça, contemplava a cena com absoluta incredulidade. “ É Serena!”, gritou um dos trabalhadores da villa, que a tinha reconhecido. Seu nome repetido em coro pelos outros, como se a reverenciassem. Iblis se recordava de Serena Butler de quando a tinha visto com os novos escravos chegados de Giedi Prime.

 Então, o robô soltou o menino.

 Sem se preocupar com as conseqüências, Iblis correu em uma desesperada e infrutífera tentativa de apanhar ao menino. Ao ver a valente reação do capataz, muitos escravos se precipitaram para frente.

 Iblis se deteve em frente o corpo ensangüentado e compreendeu que não podia fazer nada.

 Mesmo depois de todas as atrocidades que tinha visto cimeks e máquinas pensantes cometerem, este ultraje parecia inconcebível. Segurou o corpinho destroçado em seus braços e elevou a vista.

 Serena estava lutando contra seus amos. Os operários lançaram uma exclamação afogada e retrocederam quando lançou por cima do corrimão um robô sentinela.

 Como um brilho metálico, a máquina pensante se chocou contra as lajes de pedra, não longe da mancha de sangue que tinha deixado o menino morto. Ficou em pedaços, seus componentes metálicos e fibrosos quebrados, o líquido dos circuitos gelificados gotejando pelas rachaduras...

 Mortificados e consternados, os escravos contemplavam a cena. Como lenha preparada para arder, pensou Iblis. Uma cativa humana enfrentou as máquinas! Havia destruído um robô com suas próprias mãos! Gritaram seu nome, assombrados.

 No balcão, uma desafiante Serena seguia repreendendo Erasmo, enquanto ele a empurrava para trás com sua força superior. A coragem apaixonada da mulher surpreendeu a todos. Podia ser mais clara a mensagem?

 Um grito de cólera se elevou das gargantas dos operários cativos. Já tinham sido preparados durante meses pelas instruções e manipulações sutis de Iblis. Havia chegado o momento.

 Com um sorriso de triste satisfação, deu a ordem. E os rebeldes se precipitaram para frente, em um ato que seria recordado durante dez mil anos.

 

Os monólitos são vulneráveis. Para perdurar, terá que possuir mobilidade, resistência e diversidade.

 

 BOVKO MANRESA,

 primeiro vice-rei da Liga de Nobres

 

 Quando o grupo de combate da Armada partiu de Poritrin, as multidões de Starda não eram tão numerosas, e os vivas eram muito mais tímidos. Propagou-se a grande velocidade a notícia de que os escravos tinham sabotado um trabalho vital. Era uma vergonha para todo o planeta.

 Niko Bludd, muito decepcionado, viu desaparecer as esteiras jônicas das naves.

 Depois, flutuou em sua plataforma cerimoniosa sobre os escravos reunidos. Tinha ordenado que os supervisores reunissem todos os escravos para uma inspeção.

 Lorde Bludd falou por um projetor vocal que trovejou sobre os escravos.

 - Vocês decepcionaram Poritrin! Desonraram a humanidade. Sua sabotagem malogrou o esforço bélico dirigido contra nossos inimigos. Isto se chama traição!

 Olhou-os com olhos chamejantes, esperando ver sinais de remorso, abjetas súplicas de perdão, cabeças baixas em sinal de culpa. Em vez disso, os escravos pareciam desafiantes, orgulhosos de que haviam feito.

 Dado que os escravos não eram cidadãos da liga, não podiam ser, culpados de traição, mas gostava do som detestável da palavra. Esta gente ignorante não captaria as diferenças sutis.

 Inspirou pelo nariz, e recordou um antigo castigo navacristiano, cuja intenção era aplicar um golpe psicológico não violento.

 - Declaro um Dia de Vergonha. Agradeçam ao segundo Harkonnen por detectar sua incompetência antes que se perdessem vidas valiosas. Mas suas ações prejudicaram nossa luta constante contra Omnius. Não poderão lavar o sangue de suas mãos. - Sabendo que eram supersticiosos, amaldiçoou-os. - Que esta vergonha recaia sobre seus descendentes! Que os covardes budislâmicos nunca se vejam livres de sua dívida com a humanidade!

 Enfurecido, ordenou aos dragões que a plataforma se afastasse do espaçoporto.

 Bel Moulay tinha esperado uma situação explosiva como esta. Nunca mais haveria tantos escravos reunidos ao mesmo tempo. O líder zenshiíta ordenou a seus irmãos que entrassem em ação.

 Os supervisores e dragões tinham ordens de devolver os escravos a seus amos. Quase todo o trabalho rotineiro de Poritrin havia ficado paralisado enquanto as naves da Armada estavam estacionadas no espaçoporto, e alguns nobres tinham expressado sua impaciência por voltar à normalidade.

 Mas agora, os cativos se negavam a se mover, negavam-se a trabalhar.

 Bel Moulay gritou aos que estavam perto dele, despertou as sementes que tinha plantado durante conversas secretas, mês após mês. Falou em galach, para que todos os nobres o entendessem.

 - Não trabalhamos para caçador de escravos! O que é pior, ser oprimidos pelas máquinas pensantes ou por vocês? - Elevou um punho. - Bem sabe Deus que a razão está do nosso lado! Nunca retrocederemos em nossa luta!

 Um uivo ressonou em uníssono. A raiva contida se pulverizou como fogo sobre combustível, antes que os dragões ou os nobres fossem capazes de reagir.

 Moulay gritou em direção à plataforma que se afastava.

 - Niko Bludd, é pior que as máquinas pensantes, porque escraviza os de sua mesma espécie!

 Uma massa de zenshiítas e zensunnis rodearam de repente os estupefatos supervisores e desarmaram-lhes. Um supervisor que levava um lenço negro ao redor da calva elevou os punhos e gritou ordens, mas não soube o que fazer quando os escravos o ignoraram. Os insurgentes rasgaram as mangas do homem, tiraram seu macaco de trabalho e o arrastaram para seus recintos, onde tantos desafortunados companheiros tinham ficado aprisionados depois da febre mortífera.

 Bel Moulay tinha ensinado os escravos a serem eficazes. Deviam tomar reféns, não massacrar os nobres. Somente desta maneira conseguiriam negociar sua liberdade.

 O barbudo líder zenshiíta assinalou vários abrigos destinados a guardar maquinaria, assim como quatro navios velhos que tinham ficado parados na maré baixa. Seus seguidores atearam fogo. As chamas se elevaram como flores laranja, e seu pólen de fumaça cobriu o espaçoporto. Os escravos, liberados repentinamente de toda restrição, saltaram às pistas de aterrissagem, onde espalharam obstáculos para impedir que aterrissassem naves comerciais.

 Alguns jovens insurgentes abriram caminho entre a primeira fila de espectadores atônitos. Os dragões abriram fogo, e vários rebeldes caíram, mas outros escravos invadiram as ruas da Starda e desapareceram como peixes entre a vegetação. Internaram-se em ruelas, saltaram sobre barcaças flutuantes e tetos de armazéns, até encontrar-se com outros meninos escravos que tinham esperado esta oportunidade.

 Os meninos transmitiram a boa nova no antigo idioma de caça chakobsa, que todos entendiam. E a rebelião se propagou...

 

 Tio Holtzman estava mal-humorado e confuso, envergonhado de que a primeira exibição em escala militar de seus novos escudos terminou em fracasso. Preocupado enquanto Norma Cenva trabalhava em seus desenhos, demorou em perceber que a comida não tinha chegado, que sua taça de chá esfriou. Frustrado por uma complicada integral, atirou a toalha, aborrecido.

 Reinava um silêncio estranho na casa e nos laboratórios. Frustrado, tocou a sineta para chamar os criados, e logo voltou para seu trabalho. Minutos depois, como não tinha obtido resposta, chamou de novo, e logo vociferou nos corredores.

 Quando viu uma mulher zenshiíta que se afastava pelo corredor, chamou-a, mas ela se limitou a olhá-lo com uma expressão peculiar e se virou na direção contrária. Não acreditou em seus olhos.

 Depois de chamar Norma, os dois entraram na sala cheia de calculadores. Encontraram aos escravos falando em seu idioma, com os papéis e os aparelhos de cálculo diante deles.

 - Por que não terminam seus deveres? - trovejou Holtzman. - Tem que concluir os projetos. Um trabalho importante!

 Os escravos jogaram no chão o que havia sobre as mesas como um só homem. O sábio ficou surpreso. A seu lado, Norma parecia compreender a situação melhor que ele.

 Holtzman chamou os guardas da casa, mas apenas um respondeu, um sargento suado que se aferrava a suas armas como se fossem âncoras.

 - Minhas desculpas, sábio Holtzman. Outros dragões foram chamados por lorde Bludd para sufocar os distúrbios do espaçoporto.

 Holtzman e Norma correram para a plataforma de observação, onde viram por um telescópio os incêndios no espaçoporto. Havia grandes multidões reunidas, e até daquela distancia o sábio ouviu o ruído da confusão.

 - Já estamos fartos de ser escravos! - gritou um calculador quando seu amo lhe deu as costas. - Não voltaremos a trabalhar para você!

 Holtzman virou-se, mas não pôde identificar quem tinha falado.

 - Estão loucos? acham que me reclino em um divã enquanto vocês trabalham? Não viram os globos de luz que iluminam meu escritório até bem tarde da noite? Esta interrupção prejudica toda a humanidade.

 Norma tentou raciocinar com eles.

 - Nós os alimentamos e vestimos, proporcionamos-lhes uma moradia decente, e o só pedimos em troca sua colaboração em alguns cálculos simples. Temos que lutar contra nosso inimigo comum.

 - Sim - interveio Holtzman, - preferem voltar para seus planetas fedorentos e selvagens?

 - Sim – os escravos gritaram em uníssono.

 - Idiotas egoístas - murmurou o sábio, e olhou de novo pela janela os incêndios e os grupos de escravos. - Inconcebível!

 Não se considerava um mau amo. Trabalhava tanto como estes homens. Da plataforma onde estavam Holtzman e Norma, o rio parecia de um tom cinzento, pois refletia a cor das espessas nuvens.

 - Se esta rebelião se estender aos campos de cultivo e as minas - especulou Norma, há a possibilidade de que as forças militares de lorde Bludd não possam sufocá-la.

 Holtzman negou com a cabeça.

 - Estes arrogantes budislâmicos só pensam neles mesmos, como quando fugiram dos titãs. Jamais serão capazes de ver além de seus estreitos horizontes. - Dirigiu um último olhar a uma sala cheia de indignados calculadores. - Agora, você e eu teremos que perder tempo enfrentando esta gente, em lugar de lutar contra o autêntico inimigo. - Cuspiu no chão, pois não lhe ocorreu outra maneira de expressar seu desgosto. - Será um milagre se conseguirmos sobreviver.

 Ordenou que fechassem a sala dos calculadores e não os alimentassem até que voltassem a trabalhar. Norma, inquieta, trotou a seu lado.

 

 Aquela tarde, lorde Bludd recebeu uma lista de exigências do líder da insurreição. Protegido por seus seguidores, Bel Moulay exigia a liberação de todos os zenshiítas e zensunnis, e salvo-condutos para retornar a seus planetas.

 No aeroporto cercado, os rebeldes retinham muitos nobres e supervisores como reféns. Os edifícios queimavam, no entanto Bel Moulay pronunciava apaixonados discursos do coração das turbas, alimentando as chamas...

 

É real uma religião se não custar nada e não comporta riscos?

 

 IBLIS GINJO,

 nota à margem de uma agenda roubada

 

 O fundamental era escolher o momento. Durante meses, Iblis havia treinado suas equipes e esperado o sinal prometido que lançaria uma revolta violenta e coordenada. Mas havia intervindo algo mais, um acontecimento de proporções incalculáveis. O assassinato de um menino humano perpetrado por uma máquina, e a cena incrível da mãe atacando e destruindo um robô.

 Se utilizasse este crime horrível como trampolim, Iblis quase não necessitaria de suas capacidades de persuasão inatas. Ouviu gritos a seu redor, o ruído de cristais ao romper-se, pés que corriam. Não era preciso manipular os enfurecidos escravos. Ardiam em desejos de rebelar-se.

 A rebelião floresceu e se estendeu pela villa de Erasmo. Três homens jogaram ao chão a estátua de uma águia. Outros se enfureceram com uma fonte de pedra. A turba arrancou trepadeiras que trepavam pelos lados do edifício principal, destroçaram janelas. Irromperam no vestíbulo, envolveram dois confusos robôs sentinelas que nunca tinham presenciado tal reação procedente de prisioneiros em teoria acovardados. Arrebataram as armas dos robôs destruídos e abriram fogo de forma indiscriminada.

 A rebelião tem que propagar-se.

 Iblis temia que se os distúrbios ficassem muito localizados, os sentinelas de Omnius interviriam e exterminariam todos os insurgentes, mas se pudesse entrar em contato com seus outros grupos e enviar o sinal, a revolta continuaria fortalecendo-se e se estenderia de população em população. Por sorte, o pensador e seu subordinado o haviam ajudado em seus planos secretos.

 O verdadeiro trabalho da insurreição devia correr como um fio de pólvora. Quando viu o que acontecia a seu redor, os gritos e a destruição, Iblis decidiu que essa gente já não necessitava dele.

 Com a cidade iluminada por uma fantasmal lua amarela, Iblis deu a ordem tão esperada a seus grupos principais. Avisou os líderes, quem por sua vez enviaram homens e mulheres às ruas, armados com paus, ferramentas pesadas, facas, qualquer arma que pudesse ser eficaz contra as máquinas pensantes.

 Depois de mil anos de dominação, Omnius não estava preparado para isto.

 Como uma avalanche, os exaltados rebeldes arrastaram outros, inclusive os que tinham dúvidas em somar-se ao movimento clandestino. Ao vislumbrar uma chama de esperança, os escravos destruíam todos os objetos tecnológicos que encontravam em seu caminho.

 Na escuridão iluminada pelos incêndios, Iblis subiu ao monumento da Vitória dos Titãs, de onde ativou seu transmissor. Sistemas ocultos embutidos na parede esculpida ganharam vida. Todas as estátuas do mural se abriram e revelaram seu mortífero arsenal.

 Na praça do museu, viu vários neocimeks que se deslocavam em suas formas móveis.

 Guiados por cérebros imateriais, os neocimeks se agrupavam para atacar os humanos rebeldes. Não demorariam para chegar outras máquinas híbridas, providas de corpos cobertos de armas. Iblis não podia permitir que isso acontecesse.

 Apontou as armas. Tubos embutidos no monumento lançaram contra o inimigo foguetes fabricados a base de explosivos utilizados na construção. Cortaram as pernas de dois neocimeks. Enquanto se retorciam no chão e se esforçavam por continuar caminhando, Iblis disparou dois foguetes mais contra seus contêineres cerebrais.

 Embora os seguidores de Iblis derrotassem os neocimeks e os robôs sentinela, a revolução deveria enfrentar à poderosa supermente de Omnius. Iblis, não obstante, experimentou uma onda de confiança e otimismo.

 Banhados pela luz de lua irreal, os humanos prorromperam em vivas. As chamas estenderam-se pelos edifícios vazios da capital. Perto do espaçoporto, um arsenal estalou em uma tremenda explosão. Chamas de centenas de metros se elevaram no ar.

 Iblis viu que o número de seus seguidores crescia ante seus olhos e seu coração se encheu de esperança. Ainda não podia acreditar no que estava acontecendo. Tinham respondido as células rebeldes dispersas a sua chamada, ou tinha iniciado a conflagração sem ajuda de ninguém?

 Como uma reação em cadeia, as turbas invadiram as ruas, sedentas por vingança.

A precisão, sem compreender suas limitações inerentes, é inútil.

 

 PENSADORA KWYNA,

 Arquivos da Cidade da Introspecção

 

 Os habitantes de Poritrin tinham escravos há tanto tempo que se acostumaram a seu cômodo estilo de vida. Quando a restrição imposta ao comércio pelos insurgentes endureceu, a notícia da rebelião chegou aos ouvidos de todos os zensunni e zenshiítas de Starda. O trabalho havia cessado em toda a cidade, e em outros lugares. Os escravos tinham deixado de colher. Alguns tinham incendiado os campos de cana de açúcar. Outros sabotavam a maquinaria agrícola.

 Acampados com outros artesãos sobre o cannyon do Isana, Ishmael e seus esgotados companheiros passavam a noite no interior de tendas ventiladas pela brisa noturna.

 De pronto, Ishmael despertou. Alüd estava sacudindo-o.

 - Saí às escondidas e escutei aos capatazes. Os escravos se rebelaram no delta! Escute isso...

 Os dois meninos voltaram para junto da fogueira do acampamento, que ainda ardia, e tomaram assento. Os olhos do Alüd cintilaram a tênue luz.

 - Sabia que não teríamos que esperar séculos para voltar a ser livres. - Seu fôlego cheirava a papa que tinham comido no jantar.

 - Bel Moulay fará justiça. Lorde Bludd terá que aceitar nossas exigências.

 Ishmael franziu o cenho, pois não compartilhava o entusiasmo de seu amigo.

 - Não espera que os nobres dêem de ombros e mudem os hábitos centenários de Poritrin de um dia para outro.

 - Não terão outro remédio. - Alüd apertou o punho. - Ai, oxalá estivéssemos em Starda para nos unir aos rebeldes. Não quero me esconder aqui. Quero participar da batalha. - Soprou. - Passamos os dias fazendo belos desenhos na parede do canyon para a maior glória de nossos opressores. Isso parece lógico? - Quando o menino se apoiou nas mãos, um sorriso iluminou seu rosto. - Poderíamos fazer algo para colaborar. Inclusive aqui.

 Ishmael temia o que Alüd ia sugerir.

 Em plena noite, depois que os capatazes tivessem ido dormir em seus pavilhões isolados, Alüd recrutou Ishmael para a causa com a promessa de que não haveria derramamento de sangue.

 - Somente vamos deixar as coisas claras - disse Alüd, com um sorriso carente de humor.

 A dupla foi de loja em loja, somando adeptos. Face à rebelião acontecida na longínqua Starda, os guardas não estavam muito preocupados com um punhado de garotos esgotados depois de horas trabalhando nas paredes do canyon.

 Os meninos roubaram um arnês do barraco de equipamentos. Prenderam-se pela cintura e peito, passaram laços sob os braços e os cabos às polias do escarpado.

 Quatro jovens escravos se desprenderam pelo escarpado onde estava desenhada a saga da dinastia Bludd. Os meninos tinham suado para criar cada minúscula ilustração, seguindo os traços gravados a laser que lorde Bludd havia desenhado.

 Os jovens descenderam silenciosamente em seus cabos, correram sobre a suave parede com os pés descalços. Enquanto se pendurava como um pêndulo, Alüd ia golpeando com um martelo os azulejos de cores, deformando a imagem. O estrondo longínquo dos rápidos e o assobio do vento ao redor das formações rochosas apagava o ruído do martelo contra a rocha.

 Ishmael baixou um pouco mais que seu amigo e golpeou uma seção de azulejos azuis que, vistos de longe, teriam formado o olho sonhador de um antigo nobre chamado Drigo Bludd.

 Alüd não tinha nenhum plano em sua mente. Martelava aleatoriamente, deslocava-se lateralmente e golpeava outra vez. Os fragmentos caiam na escuridão insondável. Outros escravos participavam da destruição, como se assim pudessem reescrever a história.

 Trabalharam durante horas. Embora só fossem vagas silhuetas a luz das estrelas, Ishmael e Alüd sorriram com alegria, e logo voltaram a sua tarefa.

 Por fim, quando os primeiros raios de luz começaram a pintar o horizonte, os meninos se içaram em seus arneses, devolveram o equipamento ao barraco e entraram em suas tendas. Ishmael confiava em dormir uma hora antes que os capatazes os chamassem.

 Retornaram sem que ninguém percebesse. Ao amanhecer, soaram gritos de alarme e os homens vociferaram, chamaram os escravos e ordenaram que se alinhassem na borda do escarpado.

 Nervosos capatazes queriam respostas, saber a identidade dos culpados. Açoitaram os moços, um após o outro, com tal vontade que demorariam dias para voltar a trabalhar. Negaram-lhes água e comida.

 Mas nenhum sabia nada, é obvio. Insistiram que tinham dormido em suas tendas durante toda a noite.

 A destruição do magnífico mural significou o golpe definitivo para lorde Bludd. Havia tentado ser razoável e paciente durante a revolta. Ao longo daquelas semanas havia utilizado meios civilizados para controlar Bel Moulay e seus seguidores.

 Quando tinha declarado o dia da Vergonha, não tinha influenciado o ânimo dos cativos incivilizados (para eles tanto fazia), e ao final compreendeu que se enganou. Os zensunni e os zenshiítas eram a escória da raça humana, quase uma espécie diferente na prática. Incapazes de trabalhar pelo bem comum, estes ingratos desfrutavam com o sofrimento da gente culta. A julgar pelo que tinham feito, estava claro que os fanáticos budislâmicos careciam de consciência moral.

 Os escravos tinham sabotado a instalação de escudos nas naves de guerra da Armada, e se negavam a continuar trabalhando nos novos inventos de Tio Holtzman. O líder dos amotinados tinha tomado nobres como reféns, e os retinham nos recintos dos escravos.

 Moulay tinha fechado o espaçoporto de Starda, paralisando o comércio. Seus seguidores criminosos tinham queimado edifícios, destruído instalações vitais e arruinado propriedades agrícolas. Ainda pior, Bel Moulay tinha exigido a emancipação de todos os escravos, como se a liberdade fosse algo que um ser humano pudesse ganhar! Tal idéia era uma bofetada na face dos bilhões de seres humanos que tinham lutado e fenecido para manter as máquinas pensantes à distância.

 Bludd pensava nos cidadãos massacrados de Giedi Prime, nas vítimas do ataque cimek contra Salusa Secundus, nas feiticeiras de Rossak que tinham sacrificado sua vida para destruir cimeks. Irritava-lhe que o tal Bel Moulay açulasse os escravos descontentes para frustrar todos os esforços da raça humana. Arrogância egoísta a desses miseráveis budislamistas!

 Lorde Bludd tentou comunicar-se com eles. Tinha esperado que atendessem a razão, que compreendessem o que estava em jogo e compensassem a covardia passada de seu povo. Percebeu por fim que era uma esperança vã.

 Quando soube da sabotagem do mosaico, voou à garganta e contemplou o desastre da plataforma de observação. Viu os espantosos danos infligidos a seu formoso mural. A orgulhosa história da família Bludd desonrada! Era um insulto que lorde Niko Bludd não podia tolerar.

 Seus nódulos ficaram brancos quando aferrou o corrimão. Seu séquito ficou apavorado ao ver sua expressão, pela determinação que transparecia sob suas feições perfumadas e maquiadas.

 - É preciso deter esta loucura. - Suas palavras foram dirigidas aos dragões. Se virou para o soldado que tinha a seu lado. - Já sabe o que devem fazer, comandante.

 

 Já irritado pelo inexplicável comportamento de seus escravos, Tio Holtzman se alegrou ao receber a convocação para acompanhar lorde Bludd. Estava ansioso por ver a primeira demonstração prática em grande escala de seus novos escudos.

 - Um simples simulacro de defesa civil, Tio, mas necessário - disse Bludd. - Não obstante, veremos seu invento em ação.

 O cientista se erguia junto ao nobre na plataforma de observação. Norma Cenva e um punhado de nobres vestidos com elegância esperavam atrás deles, contemplavam da plataforma à multidão de escravos revoltados. O aroma de fumaça impregnava o ar. Gritos e cânticos irados se elevavam do espaçoporto isolado.

 Um pelotão de dragões avançou, protegido por escudos corporais, armados com paus e lanças. Alguns levavam pistolas Chandler, preparados para abater os insurgentes, se fosse necessário.

 Holtzman observou abaixo o avanço dos dragões.

 - Olhem, os escravos não podem nos deter.

 Norma notou que um calafrio percorria sua espinha. Intuiu a matança que ia a presenciar, mas não teve forças para se opor.

 Os guardas avançaram como uma maré inexorável, embora os encolerizados escravos tentassem cortar seu caminho. Os homens se precipitaram contra os escudos dos dragões. As primeiras filas de soldados de lorde Bludd levantaram seus paus e romperam ossos, repeliram quem opunha resistência. Os escravos gritaram, reagruparam-se e se equilibraram em massa, mas não puderam com os escudos. Os dragões abriram caminho entre os escravos.

 A multidão retrocedeu e tratou de formar uma barreira para proteger o líder da insurreição. Bel Moulay falou com voz alta e clara em chakobsa.

 - Não fraquejem! Aferrem-se a seus sonhos. É nossa única chance. Temos que permanecer unidos!

 Quando a pressão dos escravos conseguiu conter os dragões, o comandante gritou para fazer-se ouvir sobre o estrondo.

 - Tenho ordens de deter o traidor Bel Moulay. Entreguem-no de imediato.

 Nenhum dos insurgentes se moveu. Momentos depois, os dragões sacaram suas pistolas Chandler, desativaram seus escudos e abriram fogo. As agulhas de cristal produziram nuvens de sangue e carne rasgada. Os escravos gritaram e se esforçaram por escapar, mas estavam muito apertados ao redor de Bel Moulay para poderem fugir.

 O líder barbudo vociferou ordens em sua linguagem, mas o pânico se apoderou dos escravos, que começaram a dispersar-se. A chuva de dardos de cristal continuou. Centenas de rebeldes caíram mortos ou mutilados.

 - Não se preocupem com eles - disse Bludd. - Têm ordens de capturar Bel Moulay vivo.

 Norma afastou a vista, respirou fundo, com medo de vomitar, mas fechou a boca e se obrigou a recuperar o controle.

 Enquanto os escravos desabavam sem vida ou dispersavam ao redor de Bel Moulay, o líder agarrou um bastão e tratou de lhes infundir ânimos, mas os dragões viram que se abria um caminho em direção a seu objetivo e avançaram sem vacilar. Um grande grito de desolação se elevou quando os escravos viram cair seu líder sob uma chuva de murros.

 Os sobreviventes se reagruparam e fizeram de tripas coração, porém os guardas voltaram a disparar, e a resistência caiu.

 Os dragões levaram Bel Moulay arrastado, enquanto veículos blindados e soldados de infantaria invadiam o espaçoporto, para resgatar os nobres dos recintos de escravos.

 Da plataforma de observação, Niko Bludd olhou com tristeza as manchas de sangre e os corpos destroçados que semeavam as pistas de aterrissagem.

 - Tinha a esperança de não ter que chegar a isto. Dava aos escravos todas as oportunidades de se renderem, mas não me deixaram outra alternativa.

 Face à carnificina, Holtzman se sentia satisfeito pelo bom funcionamento de seus escudos.

 - Agiu de maneira honrada, senhor.

 Contemplaram durante um momento as operações voltadas a restaurar a ordem. Depois, Bludd convidou sua luxuosa residência para celebrar a liberação de Poritrin.

 

Todo movimento de massas, seja político, religioso ou militar, gira ao redor de acontecimentos pontuais.

 

 PITCAIRN NARAKOBE,

 Estudo de conflitos nos planetas da liga

 

 Quando os insetos humanos iniciaram sua rebelião na Terra, o titã Ajax deu por certo que tinham aberto a vedação. Para ele, voltavam os dias de gloria, e desta vez não teria que suportar o asco de sua amante, Hécate, pelo excesso de violência.

 Selecionou sua melhor forma de gladiador, que tinha desenhado com a esperança de desafiar Omnius no circo. Ajax preferia uma forma que infundisse terror e pavor, indiferente à estética e a eficácia. Adorava esmagar dúzias de vítimas de uma vez.

 Seria como nas Rebeliões Hrethgir de Walgis.

 De um pavilhão de fabricação de corpos cimek situado na cúpula de uma das sete colinas da cidade, os sensores de Ajax captaram os ruídos de uma multidão, apagados à princípio, e logo mais intensos. Não tinha tempo a perder.

 Utilizou delicados aparelhos hidráulicos para içar seu contêiner cerebral e se instalou na forma de combate. O eletrolíquido transportou irados pensamentos, enquanto os mentrodos conectavam-se. Carregou todas as armas. Flexionou suas poderosas extremidades. Preparado.

 O titã saiu para um balcão que rodeava o pavilhão de fabricação. Viu os incêndios que assolavam a cidade. A fumaça se elevava ao céu, e viu grupos de escravos que corriam como baratas. Ouviu o ruído do plaz ao romper-se e dos veículos ao colidir. Os hrethgir tinham enlouquecido.

 Uma explosão sacudiu a praça do Foro. Os rebeldes tinham roubado algumas armas pesadas, talvez as tinham arrebatado dos robôs avariados. Ajax conectou seus sistemas de seguimento, e depois subiu a um elevador que lhe deixou à altura da rua. Se os rebeldes tinham prejudicado sua magnífica estátua, ia se zangar muitíssimo.

 Na base da colina, um grupo de neocimeks e robôs sentinelas tinham disposto um círculo defensivo. Lançavam projéteis contra as massas vociferantes que se precipitavam para eles como animais em correria. Os corpos dos escravos refulgiam quando eram alcançados, e caiam convertidos em montões de carne queimada, porém continuavam acudindo mais, em ondas, mesmo sabendo que iam morrer.

 - Não fiquem aí quietos! - rugiu Ajax. - Preferem que carreguem contra vocês ou persegui-los?

 Era uma pergunta retórica. A linha de neocimeks defensores se lançou para frente, com seus membros carregados de armas. Os cimeks repeliram a primeira carga de rebeldes, enquanto as sentinelas retrocediam e tomavam posições colina acima.

 Ajax subiu em uma plataforma voadora. Sobrevoou as multidões, esquivou de explosões e incêndios. Se dirigiu para a praça do Foro, tão furioso que era difícil controlar os sofisticados sistemas de sua forma de gladiador.

 Ajax viu que máquinas pensantes erigiam perímetros defensivos em outras instalações da cidade. Tinha suposto que a desorganizada rebelião viria abaixo em seguida. Milhares de humanos tinham morrido já. Talvez a diversão não tivesse feito mais que começar.

 Colunas de fogo, foguetes lançados do monumento da Vitória dos Titãs.

 Ajax combinou e otimizou a resolução de suas fibras ópticas, e reconheceu o humano que se erguia sobre o muro de pedra, disparando as armas ocultas: o traidor Iblis Ginjo. Ajax havia suspeitado dele desde o primeiro momento!

 Viu enxames daqueles seres ingratos que utilizava cabos e pequenos explosivos para derrubar as poderosas colunas, que sustentavam as majestosas estátuas dos titãs. Quando avançou na plataforma de carga, Ajax viu que sua forma colossal se destroçava contra as pedras. A escória lançou um grito de júbilo. Outro projétil surgiu do monumento.

 Ajax acelerou a plataforma, rodeou o enorme mural de pedra e se aproximou por trás, longe do alcance dos foguetes. A gigantesca estátua que representava sua forma humana jazia destroçada sobre o solo, como um rei caído.

 Ajax ia esquartejar Iblis Ginjo lenta e minuciosamente, e desfrutaria com cada um de seus gritos.

 De repente, toda uma seção do monumento girou sobre si mesma, e o céu se iluminou quando uma tremenda rajada de projéteis saíram disparados contra Ajax. Um deles alcançou o bastidor da plataforma voadora, e o aparelho se precipitou dando voltas para o chão.

 O titã caiu com um tremendo estrépito. A plataforma explodiu em pedaços, derrubou o gigantesco mural e danificou os lança-foguetes.

 O impacto da forma de gladiador de Ajax pulverizou os ladrilhos. Seus sistemas integrados sofreram as conseqüências. Os mentrodos avariados enviaram um jorro de dados falsos e impressões distorcidas ao cérebro imaterial. Estava rodeado de monumentos destroçados pelos ingratos humanos.

 Ouviu o que Iblis dizia às massas, animando-as a terminar com o titã ferido. Ajax conectou de novo os sistemas de seu corpo de combate mediante um impulso mental enviado pelos mentrodos. Se fosse capaz de ficar em pé, ainda poderia lutar.

 As turbas se equilibraram sobre ele, mas as rechaçou com suas extremidades artificiais, e por fim pôde erguer-se sobre suas poderosas mas danificadas pernas, que se negavam a lhe sustentar com segurança. Inclinou-se para um lado e disparou de forma indiscriminada seu lança-chamas, que deveriam bastar para dissuadir os rebeldes.

 Em vez disso, engatinharam sobre os cadáveres de seus camaradas caídos e continuaram avançando...

 Antes que Ajax pudesse recuperar o equilíbrio, ou acabar de regular suas fibras ópticas para ver com clareza o que estava ocorrendo, Iblis extraiu um foguete intacto do monumento e o lançou manualmente. Ajax tentou esquivar-se, apesar de somente funcionarem metade de seus sistemas, mas o projétil destroçou uma de suas seis patas e lhe fez perder o equilíbrio.

 O guerreiro emitiu um uivo por seu sintetizador de voz e se virou para o Iblis. Os escravos enfurecidos se jogaram sobre o cimek como ratos que tentassem derrubar um touro enlouquecido.

 Ajax se agitou freneticamente em seu corpo volumoso e desequilibrado, pisoteou e esmagou os insetos, derrubou a todos quantos se interpuseram em seu caminho, mas mais rebeldes o atacaram com armas primitivas e dispararam contra ele com fuzis roubados. Ajax matou ou mutilou centenas de seres humanos sem sofrer danos excessivos, mas a pressão dos corpos, e sua pata destroçada, atrapalhavam-lhe.

 - Ele matou bilhões de pessoas! - gritou Iblis do monumento. – Destruam-lhe!

 - Só bilhões? Têm que ser muitas mais!

 Com um supremo esforço de energia mecânica, Ajax se elevou sobre a massa de humanos encolerizados e começou a escalar o mural, graças a uma série de suportes que surgiam de as extremidades ainda funcionais. Iblis dava ordens a seus iludidos rebeldes do alto do mural.

 Enquanto Ajax subia, dúzias de escravos se aferravam a seu corpo segmentado. Repelia-os com uma de suas cinco patas intactas e utilizava as outras quatro para escalar.

 Um escravo situado no alto do monumento lançou um pequeno explosivo que detonou na parede, rachou a pedra e fez com que as patas do cimek perdessem apoio. Uma dúzia de escravos enlouquecidos se desprendeu de sua forma de gladiador, expulsos pela onda de choque, mas muitos outros continuaram agarrados a ele.

 O corpo mecânico do titã se inclinou de maneira precária, e mais humanos subiram sobre suas costas e danificaram seus componentes, o atacaram com machados e bastões de calor.

 Segundos depois, os rebeldes encontraram os condutos neuroelétricos e cortaram as fibras que surgiam de seu contêiner cerebral, paralisando o gigantesco corpo do titã. Ajax tomou consciência de que se precipitava para o chão. Ouviu os gritos quando caiu sobre centenas de hrethgir, que morreram esmagados imediatamente. Os gritos de dor o deleitaram. Mas não podia mover-se, estava paralisado em sua forma de combate como um imenso inseto envenenado.

 - Sou um titã! - rugiu.

 Ajax viu, graças a suas fibras ópticas dispersas, que o capataz era levantado aos ombros dos escravos, e ele o apontava com um dedo acusador.

 - Arranquem-lhe a blindagem!

 Os mentrodos do Ajax detectaram que estavam descobrindo seu contêiner cerebral.

 Com um sorriso de triunfo, Iblis subiu sobre a forma de combate do titã, empunhando um pau improvisado. O capataz, sorridente, destroçou com o bastão metálico as paredes de plaz do contêiner cerebral.

 Golpeou uma e outra vez, e seus seguidores se apressaram a lhe ajudar, até reduzir a pedaços o contêiner e transformar em polpa o cérebro orgânico.

 Eufórico por sua façanha, Iblis se ergueu sobre o cadáver do titã e lançou um grito de vitória. Sua mensagem se elevou sobre as chamas que devoravam a cidade.

 Depois de presenciar a morte de um dos cimeks mais poderosos, o furor das massas aumentou. A notícia se propagou pelas ruas, e os indignados rebeldes se revolveram contra todas as manifestações e símbolos das máquinas. Os neocimeks e robôs sentinelas das linhas defensivas fugiram enquanto os amotinados os perseguiram.

 A supermente de Omnius não teve outra alternativa senão tomar contramedidas radicais.

Nós não somos como Moisés... Não podemos extrair água das pedras... ao menos a um custo econômico.

 

 Exploração ecológica imperial de Arrakis,

 antigos arquivos (investigador não acreditado)

 

 Sob o calor da tarde de Arrakis, os nômades zensunni enfaixaram os olhos de Aurelius Venport com um trapo manchado.

 A gente do deserto tampouco confiava em Keedair, e lhe proporcionaram o mesmo tratamento indigno. Venport considerou a circunstância parte de seu investimento. Havia-lhe custado quase cinco meses de tediosa viagem até chegar aqui, com várias escalas em planetas afastados. Seguiria a corrente.

 - Vamos indo - disse o naib Dhartha. - Podem falar entre si, mas seria melhor que reduzissem sua conversação ao mínimo. Desperdiçar palavras é desperdiçar água.

 Venport notava a presença de gente ao seu redor, que o guiava para frente. Demorou um pouco em acostumar-se, e tropeçava com freqüência porque levantava os pés mais do que o normal, com o fim de medir a superfície arenosa. O terreno era irregular, mas pouco a pouco se foi acostumando.

 - O que me diz dos vermes de areia? - perguntou Keedair. - Não temos que nos preocupar de... ?

 - As cordilheiras nos separam da Grande Extensão, onde habitam os demônios.

 - Não estou convencido de que isto seja absolutamente necessário - disse Venport enquanto avançava.

 Dhartha replicou com firmeza, pois não estava acostumado a que discutissem suas ordens.

 - É necessário porque eu digo que é. Nunca um forasteiro, nem sequer deste planeta, viu nossas comunidades ocultas. Não repartimos planos.

 - É claro. seguirei suas regras - murmurou Venport. - Desde que estejam dispostos a nos oferecer especiaria.

 Embora nas selvas de Rossak abundassem fármacos misteriosos e alucinógenos exóticos, nenhum parecia provocar os notáveis efeitos da melange. Venport intuía que valia a pena investigar a substância, apesar da distancia que havia percorrido e dos incômodos padecidos.

 Durante os últimos meses, Venport tinha vendido com grande facilidade o carregamento de Keedair a buscadores de curiosidades que não se importavam em pagar um preço exorbitante.

 Embora Venport ficasse com a metade dos lucros, Tuk Keedair havia obtido uma soma substancial, mais do que teria conseguido por um carregamento de escravos em boas condições. Já que não tinha perdido dinheiro, não tinha sido obrigado a cortar sua querida trança.

 Venport tropeçou em algo duro. Amaldiçoou e quase caiu de joelhos, mas alguém o agarrou pelo braço e o sustentou.

 - Quando sua gente me trouxe melange de pacote em pacote, demorei uma eternidade em encher minha adega - se queixou Keedair, cuja voz soou a vários passos de distância à frente dele.

 - Naib Dhartha - disse Venport, - espero que possa desenvolver sistema mais eficiente no futuro. - Senão, teria que aumentar os preços, mas estava certo de que o mercado o aceitaria.

 Depois de caminhar durante horas a passo de cego, os zensunni se detiveram. A julgar pelos ruídos metálicos, Venport deduziu que estavam descobrindo um veículo terrestre camuflado.

 - Sentem-se - disse o naib Dhartha, - porém não tirem as vendas.

 Keedair e ele subiram ao veículo, que entrou em marcha a baixa velocidade. Depois de muitos quilômetros, Venport supôs que estavam se aproximando de uma cordilheira, pois era mais fresco à sombra. Haveria formas de localizar esta aldeia isolada, caso desejasse tomá-la. Poderia ter costurado um rastreador no tecido de seu colete ou na sola da bota.

 Mas naquele momento, Venport tinha outras prioridades. Suspeitava que não havia forma de burlar os desejos daquela gente endurecida, que controlavam por completo seus visitantes, e decidiam quem saia vivo do deserto.

 Quando começaram a subir um caminho íngreme, o veículo diminuiu a velocidade. Os zensunni voltaram a escondê-lo e obrigaram seus convidados vendados a caminhar. Os nômades os guiaram entre penhascos e pedras rotas. Por fim, Dhartha tirou as vendas, e viram a entrada de uma cova, logo que iluminada. O grupo se encontrava no princípio de um túnel. Venport piscou para adaptar sua vista à escassa luz projetada por abajures chamejantes montados nas paredes.

 Depois de tanto tempo vendado, teve a impressão de que seu ouvido e olfato se haviam tornado mais precisos e delicados. Quando passeou a vista a seu redor, detectou sinais de muitos habitantes, o fedor de corpos sem lavar, o som de gente que se movia.

 Dhartha os conduziu a aposentos situados no alto de uma parede, e serviram pão crocante com um pouco de mel, e finas fatias de carne seca marinada em um molho de especiaria. Depois, escutaram música zensunni sentados ao redor de fogueiras, assim como relatos contados em um idioma que Venport desconhecia.

 Mais tarde, o naib guiou os dois impacientes visitantes até um rochedo que dominava um mar interminável de dunas.

 - Quero lhes mostrar algo - disse, com seu rosto magro envolto em sombras, a tatuagem geométrica em sua bochecha mais escura que nunca. Os homens estavam sentados com os pés pendurando sobre a borda. Keedair passeou a vista entre Dhartha e Venport, ansioso por iniciar as negociações.

 O naib tocou uma campainha, e um ancião apareceu depois de pouco tempo, robusto e de pele escura. Tinha o cabelo comprido e branco, e ainda conservava quase todos os seus dentes. Como todo o povo do deserto, seus olhos eram de um azul intenso. Venport acreditava que era devido ao vício na melange. Os olhos de Keedair já tinham adquirido um tom anormal.

 O ancião segurava uma bandeja com bolachas escuras, perfeitamente quadradas e cobertas de um xarope pegajoso. Ofereceu-as a Venport, que tomou uma. Keedair agarrou outra, e o naib Dhartha uma terceira. O homem de cabelo cinza continuou de pé a seu lado, observando.

 Pelo que Venport tinha observado, nesta cultura as mulheres sempre serviam aos homens, ao contrário de Rossak. Talvez aos anciões eram relegadas as tarefas domésticas.

 Venport estudou a bolacha, e depois mordeu um pedaço. A comida que haviam provado antes tinha sido preparada com quantidades significativas de melange, mas a bolacha foi como uma explosão de canela em sua boca. Deu uma boa dentada, sentiu que a energia e o bem-estar propagavam-se por todo seu corpo.

 - Delicioso!

 Sem perceber, devorou quase toda a bolacha.

 - Especiaria recolhida na areia esta mesma tarde - explicou Dhartha. - Mais potente que algo que tenha tomado na cerveja ou comida temperada com especiaria.

 - Excelente - disse Venport. As possibilidades desfilaram por sua mente como presentes sem abrir. Keedair também consumiu sua bolacha e exalou um suspiro de satisfação.

 Venport intuía que o comércio de especiaria produziria lucros abundantes, e esperava vender quantidades importantes aos nobres da liga. Para lançar a empresa, tinha previsto acompanhar Zufa Cenva em sua próxima viagem a Salusa Secundus. Enquanto ela pronunciava ardentes discursos no Parlamento reconstruído, Venport faria contatos, deixaria cair insinuações e distribuiria pequenas amostras. Levaria tempo, mas a procura aumentaria.

 Comeu seu último pedaço da bolacha.

 - É isto o que queria nos mostrar, naib Dhartha?

 O líder segurou o braço magro mas musculoso do ancião.

 - Este homem é o que quero que vejam. Chama-se Abdel.

 O naib fez uma breve reverência, que o ancião devolveu por sua vez, e logo se inclinou para os dois convidados, agora que tinha sido apresentado.

 - Abdel, diga sua idade aos visitantes.

 O homem falou com voz tênue mas forte.

 - Já vi a constelação do escaravelho cruzar a Rocha do Sentinela trezentas quatorze vezes.

 Venport, confuso, olhou para Keedair, que deu de ombros.

 - Um diminuto asteróide de nosso céu - explicou o naib. - Vai e vem com as estações e cruza uma magra agulha de rocha próxima ao horizonte. Nós o utilizamos como calendário.

 - Vai e vem - disse Keedair. - Quer dizer dos vezes ao ano?

 O naib assentiu.

 Venport efetuou um rápido cálculo mental.

 - Está dizendo que tem cento e cinqüenta e sete anos de idade.

 - Quase - disse Dhartha. - Os meninos não começam a contar até depois dos três anos, de modo que em teoria tem cento e sessenta anos. Abdel consumiu melange durante toda a sua vida. Observem como é saudável... com olhos brilhantes e a mente alerta. É muito provável que viva algumas décadas mais, desde que continue consumindo especiaria com regularidade.

 Venport estava assombrado. Todos tinham ouvido histórias sobre drogas que prolongavam a vida, de tratamentos desenvolvidos no Império Antigo, para logo cair no esquecimento quando o regime caiu. Quase todas as histórias não eram mais que lendas. Porém se o velho estava dizendo a verdade...

 - Tem alguma prova disto? - perguntou Keedair.

 Um brilho de ira iluminou os olhos do naib.

 - Eu ofereço minha palavra. Não precisam de mais nenhuma prova.

 Venport indicou com um gesto a Keedair que não insistisse. Pelo efeito que havia causado a melange, estava disposto a acreditar.

 - Realizaremos análise para nos assegurar de que não há mais seqüelas que a mudança na cor nos olhos. Pode ser que acrescente a melange a meu catálogo de produtos. Poderiam proporcionar quantidades suficientes para usos comerciais?

 - As reservas são imensas - respondeu o naib.

 Agora somente faltava negociar os detalhes da transação comercial. Em parte, Venport tinha a intenção de oferecer algo incomum como pagamento. Água? Ou talvez estes nômades quisessem alguns globos de luz de Norma, para iluminar seus túneis e covas? De fato, os globos talvez seriam mais úteis aos zensunni que créditos da liga. Tinha algumas amostras no transporte que o esperava em Arrakis City.

 Pegou a última bolacha da bandeja. Venport observou que o ancião sustentava a bandeja imóvel, sem o menor tremor nos dedos. Outro bom sinal, que Tuk Keedair também tomou boa nota. Os sócios assentiram.

 

Meu co-piloto pensa nas fêmeas humanas sem cessar, mas até o momento não parece que isso lhe tenha distraído de seus deveres. Vou vigiá-lo com atenção, no caso de...

 

 SEURAT,

 observação entregue ao Omnius

 

 O Dream Voyager entrou na atmosfera da Terra, de volta de sua longa viagem. Havia passado muito tempo desde a última vez que Vor havia visto Serena Butler, e necessitava discutir com... seu pai as discrepâncias históricas que tinha descoberto.

 A bordo da nave negra e prateada, Seurat e ele controlavam a manobra de aproximação e observavam as leituras da temperatura exterior. O cronômetro da nave se ajustou automaticamente à hora da Terra.

 Isso lembrou a Vor que Agamenon havia adaptado suas memórias a uma versão da história mais a seu gosto. Os titãs não eram os heróis gloriosos e bondosos que seu pai havia retratado.

 Serena Butler tinha obrigado Vor a descobrir a verdade sobre Agamenon. Vor se perguntou se ela teria pensado nele em sua ausência. Serena o respeitaria agora, ou continuaria pensando em seu amante perdido, o pai de seu filho? Vor sentiu um nó no estômago devido à impaciência. Durante toda sua vida nunca enfrentara tanta incerteza como nos últimos meses.

 Talvez Agamenon o estivesse esperando no espaçoporto. Todas as grandes promessas do titã, a oferta de abandonar um corpo frágil e transformar-se em neocimek, já não emocionavam Vor. Tudo tinha mudado.

 Vor desafiaria seu pai, acusaria o general de falsificar a história e deformar os fatos, de enganar seu próprio filho. Em parte, desejava que o titã tivesse uma história preparada, uma explicação tranqüilizadora, para que Vor pudesse voltar para sua vida normal.

 Não obstante, no fundo de seu coração sabia que Serena não tinha mentido. Havia visto provas suficientes com seus próprios olhos, sabia como as máquinas tratavam os seres humanos. Vor não podia continuar fingindo... mas tampouco sabia o que fazer. Tinha muito medo de voltar para a Terra, embora fosse consciente de que devia fazer.

 Agamenon perceberia a mudança de atitude de seu filho, e Vor já sabia que o titã tinha matado doze filhos anteriores que o tinham decepcionado.

 - O que deduz disto, Vorian? - Seurat interrompeu seus pensamentos ao aproximar-se do espaçoporto da capital. - Detecto inconsistências nos dados e um nível alarmante de caos físico.

 O capitão robô buscou imagens nas cercanias.

 Vor ficou estupefato ao ver fogo, fumaça e edifícios destruídos, mesmo com as tropas de robôs e cimeks. Grupos de humanos corriam pelas ruas. Sentiu uma mescla de emoções que nunca havia experimentado.

 - A Armada da Liga terá atacado?

 Apesar das suas descobertas recentes não podia acreditar que grupos dispersos de humanos livres fossem capazes de infligir tal destruição à capital do planeta. Omnius nunca teria permitido isso.

 - As telas não mostram naves humanas nas proximidades, Vorian. Não obstante, o conflito continua.

 Seurat parecia perplexo, mas não muito preocupado. Ao menos, procurou não brincar sobre a situação.

 Vor ajustou os controles ópticos, enfocou a borda do mar e localizou a villa de Erasmo. Viu mais incêndios, edifícios e monumentos danificados, batalha nas ruas. Onde estava Serena?

 Pouco a pouco, a contra gosto, começou a compreender o que estava acontecendo. Os humanos estavam lutando contra as máquinas! A idéia despertou pensamentos que havia preferido evitar, porque se eram desleais a Omnius. Como podia ser isto possível?

 O Dream Voyager detectou um sinal de emergência utilizado pela supermente para conectar com suas forças subsidiárias.

 - Que todas as máquinas pensantes se dirijam aos perímetros defensivos e aos postos de batalha... A revolta humana se estende... O núcleo de Omnius continua defendido... Cortes de energia em muitos setores...

 Vor olhou o rosto refletivo do capitão robô. As fibras ópticas brilhavam como estrelas.

 - Uma situação inesperada. Nossa ajuda é obrigatória.

 - Concordo - disse Vor. Mas a que lado tenho que apoiar? Nunca tinha esperado sentir-se assim, preso entre suas lealdades.

 O Dream Voyager se dirigiu para a cidade em chamas. Perto da villa de Erasmo, as máquinas pensantes tinham formado um cordão contra as turbas. Levantaram barricadas na praça ladrilhada onde Vorian tinha chegado em carruagem durante suas visitas anteriores. Parte da fachada tinha sofrido danos, mas a villa parecia intacta.

 - Espero que ela esteja a salvo.

 Seurat sobrevoou o espaçoporto da cidade, preparado para aterrissar. Reagiu de repente e ganhou altura.

 - Nossas instalações e naves já foram assaltadas pelos rebeldes.

 Vor continuou estudando o caos.

 - Para onde podemos ir?

 - Minhas instruções de aterrissagem sugerem um antigo espaçoporto no lado sul da cidade. A pista de aterrissagem, todavia funciona, e continua sob controle de Omnius.

 Quando a nave aterrissou, Vor viu cadáveres humanos enegrecidos e máquinas despedaçadas ao redor do perímetro. Nas pistas da parte norte acontecia uma violenta batalha entre neocimeks e rebeldes suicidas que teriam tomado as armas de robôs sentinela destruídos.

 Seurat pôs em modo de espera os motores e sistemas eletrônicos da nave. Meia dúzia de robôs armados correram à pista de aterrissagem, para defender a nave e as valiosas atualizações de Omnius que transportava.

 - O que quer que eu faça, Seurat? - perguntou Vor, com o coração acelerado.

 Seurat respondeu com surpreendente intuição.

 - Oferecerei a nave para transportar robôs para onde Omnius quiser. Permanecer a bordo é sua melhor opção, Vorian Atreides. Acredito que será o lugar mais seguro.

 Vor ardia em desejos de localizar Serena Butler.

 - Não, velha Mente Metálica. Poderia me intrometer em seu trabalho. Deixe-me no espaçoporto e não se preocupe comigo.

 - O robô meditou sobre o pedido de Vor.

 - Como quiser. Entretanto, devido à situação, o melhor seria que permanecesse oculto. Afaste-se dos combates. É um elemento valioso, o filho de Agamenon, mas também um humano. Ambos os lados são perigosos para você.

 - Entendo.

 Seurat olhou para ele com expressão indecifrável.

 - Cuide-se, Vorian Atreides.

 - Você também, velha Mente Metálica.

 Enquanto Vor descia correndo a rampa, as máquinas pensantes transmitiram alarmes e mensagens a outras unidades militares. As plataformas de aterrissagem do norte tinham caído em poder dos rebeldes. Centenas de pessoas estavam invadindo a pista. Uma dúzia de robôs tomou posições ao redor do Dream Voyager para protegê-lo.

 Protegido atrás de um veículo terrestre estacionado, e sentindo-se mais vulnerável que nunca, Vor viu que a nave de atualizações decolava. Apenas um dia antes, Seurat e ele haviam se distraído praticando jogos de estratégia. Umas horas depois, tudo tinha mudado de maneira radical.

 Os humanos invadiram os edifícios do espaçoporto. Omnius tinha decidido minimizar as perdas, deixando algumas poucas máquinas pensantes para resistir aos hrethgir. Vor procurou um lugar onde proteger-se, consciente de que vestia o uniforme oficial de um humano de confiança, um servidor dos Planetas Sincronizados. Poucos humanos ocupavam altos cargos no sistema das máquinas pensantes, e se os amotinados o vissem, seria seu fim.

 A pista estava repleta de cadáveres. Vor agarrou um homem de seu tamanho pelos braços e o arrastou até o espaço em sombras que separava dois edifícios fumegantes. Renunciou a uma parte de seu passado, tirou o traje de vôo que tinha utilizado tantas vezes no Dream Voyager e se vestiu com as roupas do rebelde.

 Coberto com uma camisa puída e calças sujas, esperou sua oportunidade e se uniu as massas. Gritavam “Vitória!” e “Liberdade!” enquanto entravam nos edifícios do espaçoporto. Poucos robôs sentinelas opunham resistência.

 Vor confiou em que as turbas não destruíram todas as instalações e naves robô. Se tivessem se preocupado em traçar planos, os líderes da revolta saberiam que seria preciso escapar a qualquer preço dos Planetas Sincronizados.

 Vor se surpreendeu ao compreender que suas convicções estavam mudando rapidamente. Sentiu-se entusiasmado e aterrorizado ao mesmo tempo, afastado da segurança de sua vida cotidiana na sociedade das máquinas e empurrado para o caos do desconhecido e suas raízes biológicas selvagens. Mas sabia que devia fazê-lo. Sabia muitas coisas agora, via a situação com olhos diferentes.

 A seu redor, os frenéticos escravos não se preocupavam com as conseqüências de seus atos. Carregavam todo tipo de armas, desde primitivos paus até sofisticadas pistolas de deslocamento celular, tomadas dos robôs sentinelas. Os rebeldes ativaram artefatos incendiários no edifício de controle do espaçoporto e mataram um neocimek que tentava escapar.

 Quando se considerou a salvo, Vor se separou da multidão e vagou com outros humanos pelas ruas molhadas, até entrar na cidade. Parecia um mendigo, mas tinha um objetivo claro.

 Tinha que chegar à villa de Erasmo. A escuridão começava a impor-se nas ruas que separavam os edifícios, intensificada porque o Omnius da Terra tinha cortado a energia elétrica nos setores invadidos por escravos. aproximavam-se nuvens de tormenta, carregadas de fumaça e chuva. Um vento frio penetrou por entre as roupas finas de Vor, e o jovem estremeceu.

 Esperava que Serena estivesse com vida.

 Um grupo de escravos de aspecto rude derrubou uma porta metálica e entrou em um edifício. Havia restos de máquinas pensantes por toda parte. Comentava-se com entusiasmo que até o titã Ajax tinha morrido. Ajax! A princípio não pôde acreditar, mas depois não duvidou do que tinha ouvido. A pouca distância, um edifício explodiu em chamas, lançando uma luz espectral sobre a rua.

 Face ao que tinha descoberto sobre os crimes e abusos dos primeiros titãs, Vor experimentou uma pontada de preocupação por seu pai. Se Agamenon se encontrasse na Terra, o general cimek estaria tentando esmagar a revolta. Apesar de todas as mentiras que Agamenon havia contado, ainda era seu pai.

 Vor acelerou o passo. Estava cansado e preocupado. Na praça situada em frente à mansão, uma multidão de irados rebeldes se apertava contra uma barricada improvisada. Os combates mais encarniçados se transladaram os centros principais da capital, mas aqui parecia que os escravos liberados estavam montando vigilância, por motivos que Vor não compreendia. Fez perguntas com cautela.

 - Estamos esperando Iblis Ginjo - respondeu um homem barbudo. - Quer comandar o assalto em pessoa. Erasmo continua aí dentro. - O homem cuspiu sobre as pedras. - E também a mulher.

 Vor experimentou uma sacudida. A que mulher se referia? Podia ser Serena?

 Antes que pudesse perguntar, as instalações defensivas robotizadas das colunas ornamentais lançaram disparos isolados, com o propósito de dispersar à multidão. Um grupo vestido com roupas de trabalho manchadas tomou posições estratégicas e disparou dois projéteis explosivos, que destruíram as peças de artilharia do telhado.

 Uma pequena seção da praça, escorregadia por causa da chuva, tinha sido cercada com postes e cabos de plaz, e os humanos a rodeavam como guardiões... ou melhor como peregrinos, embora parecesse estranho. Vor viu flores e cintas coloridas espalhadas pela praça. Intrigado, aproximou-se e perguntou a uma anciã.

 - Terra sagrada - disse a mulher. - Um menino foi assassinado aqui, e sua mãe lutou contra o monstro Erasmo. Serena, que nos ajudou, mudou nossas vidas, melhorou nossas condições. Ao opor resistência às máquinas pensantes, Serena nos mostrou que era possível.

 Vor pediu mais detalhes, inteirou-se de que o robô havia lançado o menino ao abismo.

 O filho de Serena. Assassinado.

 - Serena está bem? - perguntou.

 A mulher encolheu seus ombros ossudos.

 - Erasmo entrincheirou-se na villa, e não a vimos depois. Três dias. Quem sabe o que acontece ao outro lado desses muros?

 A multidão deixou passar um homem de aspecto cansado, que vestia uma túnica negra e uma fita de capataz no cabelo. Uma dúzia de homens armados até os dentes o protegia como se fosse um líder importante. Elevou as mãos, enquanto os escravos aclamavam e gritavam seu nome.

 - Iblis! Iblis Ginjo!

 - Eu lhes prometi que poderíamos ganhar - gritou. – Prometi a vingança! Sua voz ressoou na praça, sem necessidade de amplificação mecânica. - Olhem o que conseguimos. Agora, temos que lutar por outra vitória. O robô Erasmo cometeu o crime que acendeu a chama de nossa gloriosa revolta. Já não pode esconder-se atrás dessas paredes. Chegou o momento de seu castigo!

 A voz apaixonada do homem foi como combustível lançado sobre chamas da rebelião. A multidão prorrompeu em gritos de vingança, e Vor não pôde se conter. Elevou a voz para fazer-se ouvir.

 - Precisa salvar à mãe! Temos que resgatá-la!

 Iblis olhou para ele, e os olhos de ambos os homens se encontraram. O carismático líder vacilou uma fração de segundo.

 - Sim, salvemos Serena! - gritou depois.

 A uma ordem de Iblis, a multidão se transformou em uma arma organizada, um martelo descarregado sobre a bigorna da villa cercada. Utilizaram as armas tomadas dos robôs destruídos para derrubar as paredes da villa, até que as células de energia se esgotaram. Com um aríete improvisado, os homens correram para a porta principal e dobraram o pesado metal.

 Golpearam uma e outra vez, e a porta se curvou. Uma chuva oleosa começou a cair.

 Os guardas da mansão tentaram defender a entrada. Vor supôs que a maioria destes defensores tinham sido reprogramados, e não tinham capacidade para resistir muito tempo.

 O ariete golpeou outra vez, e o buraco das portas se abriu mais. As máquinas estavam cedendo terreno.

 Embora não estivesse muito seguro de seus novos sentimentos para com as máquinas, Vor tampouco confiava na massa enlouquecida. Para ele era indiferente a sorte de Serena, embora tivesse sido a inspiração da revolta. Se a jovem continuasse aqui, se transformaria no objeto de vingança de Omnius.

 Jurou que resgataria Serena. Roubaria uma nave e fugiriam dos Planetas Sincronizados.

 Sim, iria devolvê-la a seu amado Salusa Secundus... embora isso significasse lançá-la nos braços de seu amor perdido.

 

Temos que contribuir com nova informação ao equilíbrio, e com isso modificar nosso comportamento. É uma qualidade humana sobreviver graças à inteligência, como indivíduos e como espécie.

 

 NAIB ISHMAEL,

 Um lamento zensunni

 

 Citando a mais antiga das leis de Poritrin, lorde Bludd decretou o terrível castigo que mereciam os crimes de Bel Moulay. A maioria dos escravos seriam anistiados, já que Poritrin necessitava de mão de obra, mas o líder da insurreição não podia ser perdoado.

 Ishmael se apertou contra Alüd em silêncio. Os jovens cativos do canyon tinham sido transportados a Starda e confinados em uma cela de onde poderiam presenciar a execução.

 Como castigo pelos danos infligidos ao mural, Niko Bludd tinha aumentado os turnos de trabalho, mas antes deviam contemplar as conseqüências da loucura de Bel Moulay. Todos os escravos tinham que estar pressentes.

 Os meninos estavam cansados e famintos, com a roupa suja e o corpo fedorento, porque fazia dias que não se banhavam.

 - Se agem como cães - grunhiram os capatazes, - serão tratados como cães. Quando começarem a se comportar como humanos, talvez voltemos a pensar na situação.

 Alüd resmungou baixo.

 Na praça central de Starda, os dragões arrastaram um Bel Moulay preso por correntes até uma plataforma elevada que tinha sido erguida para propósito. A multidão se calou em um inquieto silêncio. Tinham raspado o cabelo e a barba de Bel Moulay, mas seus olhos brilhavam de raiva e determinação, como se se negasse a aceitar que sua rebelião havia fracassado.

 Os guardas arrancaram as vestimentas do líder zenshiíta até lhe deixar nu por completo para humilhá-lo. Os escravos grunhiram, mas seu líder não deu amostras de desfalecimento.

 A voz de lorde Bludd resoou na praça.

 - Bel Moulay, você cometeu crimes ignominiosos contra todos os cidadãos de Poritrin. Tenho direito a castigar a todos os homens, mulheres e meninos que participaram desta insurreição, mas vou ser compassivo. Só você sofrerá as conseqüências de suas transgressões.

 A multid&atil