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Planeta Criança



Poesia & Contos Infantis

 

 

 


LOJA DE ANTIGUIDADES Tomo I / Charles Dickens
LOJA DE ANTIGUIDADES Tomo I / Charles Dickens

                                                                                                                                                   

                                                                                                                                                  

 

 

Biblioteca Virtual do Poeta Sem Limites

 

 

LOJA DE ANTIGUIDADES

Tomo I

 

É de noite que mais gosto de passear. Muitas vezes, no Verão, saio de casa logo de manhã e vagueio o dia todo por ruas e azinhagas, ou desapareço durante dias ou mesmo semanas, mas, a não ser quando estou no campo, raramente saio antes do anoitecer, embora, louvado seja Deus, como qualquer outra criatura, eu goste da luz e sinta a alegria que ela espalha sobre a terra.

 

Adquiri este hábito quase sem dar por isso: em primeiro lugar porque me ajuda um pouco na minha doença e, depois, porque favorece a minha tendência natural para especular sobre os temperamentos e ocupações daqueles que se cruzam comigo pelas ruas. A luz e a agitação do meio-dia não se adaptam ao meu deambular ocioso. A observação momentânea de rostos iluminados por um candeeiro de rua ou uma montra iluminada servem melhor os meus intuitos do que a sua plena revelação à luz do dia, e, a falar a verdade, a noite é mais favorável neste aspecto do que o dia, que muitas vezes, sem cerimónia nem remorso, destrói o castelo no ar que acabámos de construir.

 

O constante movimento, o eterno bulício, o constante bater dos pés, alisando as pedras ásperas... não é espantoso como as pessoas que vivem em ruelas estreitas conseguem suporta-lo? Imaginem um homem doente num local como St. Martin’s Court, a ouvir os passos, que no meio da dor e sofrimento, fosse obrigado, como se se tratasse de uma sua obrigação, que tivesse de cumprir, a distinguir os passos da criança dos passos do adulto, o ruído das chinelas do mendigo do das botas do elegante, o tacão arrastado do indolente do rápido pisar do homem ocupado na busca do prazer. Pensem nos ruídos e barulhos sempre presentes aos seus sentidos, e na corrente da vida que não pára de correr, correr, correr através dos seus sonhos agitados, como se ele estivesse condenado a estar ali, morto, mas consciente, num cemitério barulhento, sem esperança de repouso ao longo dos séculos.

 

Depois, observo as multidões a passar vezes sem conta pelas pontes (pelo menos por aquelas onde não se paga portagem) onde nas noites de calmaria muitos param a olhar calmamente para a água, pensando vagamente que ela mais adiante corre por entre socalcos verdes que vão alargando até se juntarem ao mar sem fim, onde outros param para descansar, pousando os seus pesados fardos e, olhando por cima do parapeito, pensam que fumar e preguiçar a vida toda, e dormir deitados ao Sol, deitados sobre a coberta de oleado de um barco vagaroso, é certamente a maior das felicidades, e onde outros ainda, de uma classe muito diferente, fazem uma breve paragem, carregados com fardos maiores ainda, lembrando-se de ter ouvido ou lido em qualquer sítio que morrer afogado não é uma morte terrível, mas sim o mais fácil e o melhor dos suicídios.

 

Também gosto do mercado de Covent Garden, ao amanhecer, na Primavera e no Verão, quando a doce fragrância das flores paira no ar, sobrepondo-se aos odores doentios das orgias da noite anterior, e pondo o pobre tordo, cuja gaiola ficou toda a noite pendurada à janela de um sótão, meio louco de felicidade! Pobre pássaro! A única coisa ali, semelhante às flores, também elas prisioneiras! Algumas, caídas das mãos quentes de compradores embriagados, jazem caídas por terra, enquanto outras, murchas pelo contacto umas com as outras, esperam o momento em que virão regá-las e refrescá-las de forma a agradarem a compradores mais sóbrios, e darem a velhos empregados de escritório que por ali passam a ilusão de uma visão campestre.

 

Mas a minha intenção neste momento não é divagar acerca dos meus passeios. A história que pretendo contar nasceu de uma dessas minhas caminhadas, e foi isso que me levou a referi-las, à guisa de prefácio.

 

Uma noite, tinha-me dirigido à cidade, ia caminhando lentamente, como é meu hábito, deixando que o meu pensamento corresse veloz, à rédea solta, quando fui surpreendido por uma pergunta cujo sentido não entendi imediatamente, mas que parecia ser-me dirigida, numa voz doce e suave que me deixou agradavelmente surpreendido. Voltei-me bruscamente e vi então a meu lado uma bonita rapariguinha que me pediu que lhe dissesse o caminho para uma rua bastante distante, noutro bairro da cidade.

 

- Fica muito longe daqui, minha filha - respondi-lhe.

 

- Eu sei - disse ela timidamente. - Eu sei que é muito longe, foi de lá que vim esta noite.

 

- Sozinha? - perguntei com alguma surpresa.

 

- Sim, não faz mal, mas agora estou com um bocadinho de medo, porque me perdi pelo caminho.

 

- E porque é que me perguntaste a mim? E se eu te enganasse?

 

- Eu sei que o senhor não me fazia isso - disse a criaturinha. -Já é tão velho, e também anda tão devagar...

 

Não saberei descrever a forma como este pedido me impressionou, a energia com que me foi dirigido, a lágrima que brilhava nos seus olhos claros e o seu rosto trémulo que me fitava.

 

- Vem comigo - disse-lhe eu. - Eu vou-te lá levar.

 

Ela deu-me a mão tão confiante como se me conhecesse desde o berço, e pusemo-nos juntos ao caminho. A criança acertou o seu passo pelo meu, e mais parecia ser ela quem me conduzia e tomava conta de mim do que eu quem a protegia. Reparei que de vez em quando me deitava um olhar curioso, como para se certificar de que eu não a estava a enganar, e cada um desses olhares, rápidos e furtivos, parecia aumentar a sua confiança em mim.

 

Pela minha parte, a minha curiosidade e o meu interesse por ela eram no mínimo equivalentes ao interesse da criança por mim, porque de uma criança se tratava, embora me tivesse parecido que o seu aspecto infantil se devia em parte à sua constituição delicada. Não estava muito agasalhada, mas estava limpa e não dava mostras de pobreza ou desmazelo.

 

- Quem é que te mandou tão longe sozinha? - perguntei.

 

- Uma pessoa que é muito boa para mim.

 

- E que foste tu fazer?

 

- Isso eu não posso dizer - disse a pequena com firmeza. Houve nesta sua resposta qualquer coisa que me fez olhar

 

para a pequena criatura com uma involuntária expressão de surpresa. Perguntava-me a mim próprio que espécie de recado poderia ser para que ela tivesse de antemão uma resposta preparada para o caso de lhe fazerem perguntas. Pareceu ler-me os pensamentos, pois ao cruzar os seus olhos com os meus acrescentou que não tinha ido fazer nada de mal, mas que era um grande segredo, um segredo que nem ela própria conhecia.

 

Enquanto dizia isto, não parecia esconder astúcia nem falsidade, mas sim uma franqueza confiante que trazia a marca da verdade. Ela continuava a andar como há pouco, à medida que prosseguíamos o nosso caminho tornava-se-me mais familiar, conversando alegremente, mas sem adiantar mais nada sobre a sua casa para além de comentar que estávamos seguindo por outro caminho e perguntar se era mais curto.

 

Entretanto, eu ia revolvendo na minha cabeça uma centena de possíveis explicações para o enigma e ia-as rejeitando uma a uma. Sentia-me envergonhado de me estar a aproveitar da ingenuidade e do sentimento de gratidão da criança com o intuito de satisfazer a minha curiosidade. Eu gosto de crianças, e quando elas, ainda tão cheias da graça de Deus, nos amam, isso é uma coisa extraordinária. A confiança que esta criança depositara em mim tinha-me agradado e decidi-me a merecê-la, prestando assim homenagem à natureza que a levara a confiar em mim.

 

Não havia, no entanto, razão para que me abstivesse de ver a pessoa que a tinha enviado a uma distância tão grande, sozinha e de noite, com tanta falta de consideração e, como podia suceder que ela, quando se visse perto de casa, se despedisse de mim privando-me assim dessa oportunidade, evitei as ruas mais frequentadas e tomei o caminho mais complicado, pelo que foi só quando chegámos à rua onde morava que a minha amiguinha percebeu onde estava. Bateu palmas de contentamento, correu um pouco à minha frente, em seguida parou junto a uma porta e, ficando junto ao degrau, esperou que eu chegasse até junto dela, e só então bateu à porta.

 

Uma parte desta porta era de vidro e não estava protegida por gelosias, mas esse detalhe não dei por ele imediatamente, uma vez que estava tudo muito escuro e silencioso, e eu estava ansioso, como a criança estava também, por uma resposta à nossa chamada. Bateu duas ou três vezes, em seguida ouviu-se um ruído de alguém que se movia lá dentro e, após um bocado, uma pálida luz surgiu através do vidro, aproximando-se lentamente, como se a pessoa que a segurava tivesse de abrir caminho por entre uma grande quantidade de objectos espalhados, e assim compreendi que tipo de pessoa era que avançava e qual o tipo de lugar por onde avançava.

 

Era um velhinho de cabelos compridos grisalhos, e à medida que se aproximava, segurando a luz acima da cabeça e olhando em frente, eu conseguia ver perfeitamente o seu rosto e o seu vulto. Apesar de muito enrugado, pareceu-me reconhecer nos seus traços secos e magros alguma coisa dos traços delicados que notara na pequena. Os seus olhos azuis, brilhantes, certamente se assemelhavam, mas o rosto dele estava tão marcado pela velhice e pelas preocupações que toda a parecença cessava aí.

 

O lugar através do qual ele tinha lentamente aberto caminho era um daqueles depósitos de velharias e curiosidades que parecem encafuados nos mais inesperados cantos desta cidade, escondendo os seus tesouros poeirentos dos olhos do público com sofreguidão e desconfiança. Havia armaduras de ferro pelos cantos, erectas como fantasmas, esculturas fantásticas trazidas de claustros de conventos, armas ferrugentas de vários tipos, estranhas estatuetas de porcelana, madeira, ferro e marfim, tapeçarias e estranhas peças de mobiliário que mais pareciam ter sido desenhadas em sonhos. O velhinho tinha um aspecto doentio que condizia perfeitamente com o local. Ele parecia o tipo de pessoa capaz de ter andado a rebuscar entre velhas igrejas, túmulos e casas abandonadas. Não havia em toda a colecção nada que não estivesse a condizer com ele. Nada que parecesse mais velho ou mais gasto do que ele.

 

Deu a volta à chave, olhando-me com uma surpresa que não diminuiu quando olhou a pequena. Quando a porta se abriu, a garota, tratando-o por avô, contou-lhe a forma como nos tínhamos conhecido.

 

- Valha-te Deus, filha! - disse-lhe o velho, acariciando-lhe a cabeça. - Como é que te foste perder? E se eu tivesse ficado sem ti, Nell?

 

- Eu havia de encontrar o caminho para casa, avô - disse a garota corajosamente. - Não tenha medo.

 

O velho beijou-a e, em seguida, voltou-se para mim e convidou-me a entrar, e eu assim fiz. Fechou a porta à chave, passou à minha frente com a luz e conduziu-me através do aposento que eu já tinha visto através do vidro. Chegámos a uma saleta nas traseiras onde havia uma porta que estava aberta, deixando ver uma espécie de cubículo com uma cama tão pequenina e tão bem arranjada que podia ser o quartinho de uma fada. A pequena pegou numa vela e entrou no quartinho, deixando-me a sós com o velho.

 

- O senhor deve estar cansado - disse ele enquanto puxava uma cadeira para junto da lareira. - Como lhe posso agradecer?

 

- Tendo mais cuidado com a sua neta para a próxima vez, meu bom amigo - respondi-lhe.

 

- Mais cuidado? - disse o velho numa voz aguda. - Mais cuidado com Nelly? Mas será que alguém no mundo já amou uma criança como eu amo Nelly?

 

Disse estas palavras com uma surpresa tão evidente que eu fiquei perplexo, sem saber o que lhe responder, tanto mais que, para além de qualquer coisa de vago e de irresoluto que havia nos seus modos, o seu rosto estava tão profundamente marcado pela ansiedade que percebi que, ao contrário do que no primeiro momento me tinha parecido, ele não estava esclerosado ou caquético.

 

- Pareceu-me que o senhor não pensou... - comecei.

 

- Não pensei? - exclamou o velho interrompendo-me.

- Não pensei nela? Ah, bem se vê que o senhor não conhece a verdade! Minha pequena Nelly! Minha pequena Nelly!

 

Seria impossível a qualquer homem, fosse qual fosse a sua linguagem, expressar maior afecto do que o antiquário expressava naquelas poucas palavras. Esperei que dissesse mais qualquer coisa, mas ele apoiou o queixo sobre a mão, abanou a cabeça por duas ou três vezes e fixou o olhar na lareira.

 

Enquanto assim estávamos sentados em silêncio a porta do cubículo voltou a abrir-se e voltou a aparecer a pequena, com os seus cabelos castanhos-claros caindo soltos em volta do pescoço, e as faces coradas da pressa de regressar para junto de nós. Foi logo preparar a ceia, e enquanto ela se atarefava reparei que o velho me observava agora com mais interesse. Notei com alguma surpresa que era ela quem fazia tudo, e que parecia não haver mais ninguém em casa para além de nós. Aproveitei um momento em que ela não estava ao pé de nós para esclarecer esse ponto, ao que o velho me respondeu que poucas pessoas adultas eram mais dignas de confiança ou mais cuidadosas do que ela.

 

- Faz-me sempre pena - observei eu, irritado com o que me parecia ser o egoísmo dele. - Faz-me sempre pena ver as crianças serem obrigadas a contemplar a face áspera da vida, quando são ainda muito pequenas. Não é bom para a sua confiança e para a sua simplicidade, duas das melhores qualidades que Deus lhes dá, e faz com que conheçam as nossas tristezas antes de conhecerem as nossas alegrias.

 

- Nunca prejudicará Nelly - disse o velho, olhando fixamente para mim. - Estão demasiado enraizadas para isso. Para além disso, os filhos dos pobres conhecem poucas alegrias. Até as pequenas alegrias da infância têm de ser compradas e pagas.

 

- Mas... perdoe que lhe diga isto, o senhor não é com certeza assim tão pobre - disse eu.

 

- Ela não é minha filha - retorquiu o velho. - A mãe dela é que era. E era muito pobre. Eu não poupo nada, nem um centavo, e vivo desta maneira - pousou a sua mão sobre o meu braço, e disse num sussurro: - Mas um dia ela ainda vai ser rica, há-de ser uma grande senhora. Não pense mal de mim, por eu aceitar a ajuda dela. Ela dá-ma alegremente como o senhor está a ver, e ia ficar muito triste se eu aceitasse que outra pessoa fizesse para mim aquilo que as suas pequenas mãos conseguem fazer. Eu não penso nela? - exclamou ele com súbita irritação. - Deus bem sabe que esta criança é a minha razão de viver e, no entanto, não me concede a prosperidade. Ah, não!

 

Por esta altura, o objecto da nossa conversa regressou, o velho fez-me sinal que me aproximasse da mesa, calou-se e não disse mais nada.

 

Mal tínhamos começado a nossa refeição quando bateram à porta por onde eu havia entrado. Nell começou a rir com prazer, um riso infantil e alegre que dava gosto ouvir, e disse que era com certeza o bom Kit que estava de volta.

 

- Tola! - disse ele acariciando-lhe os cabelos. - Ela está sempre a rir do pobre Kit.

 

A criança riu de novo, com mais entusiasmo ainda do que da primeira vez, e eu não pude deixar de sorrir, enternecido. O velhinho pegou numa vela e foi abrir a porta. Regressou seguido por Kit.

 

Kit era um rapaz de cabeleira desgrenhada, tosco e desajeitado, com uma boca invulgarmente grande, bochechas muito coradas, nariz arrebitado e uma expressão no rosto que era a mais cómica que já vi na minha vida. Ao ver um estranho parou bruscamente, junto à porta, fazendo girar na mão um velho chapéu redondo e sem vestígios de aba e, ora apoiando-se numa perna, ora mudando rapidamente para a outra, deixou-se ficar à entrada da porta a olhar para dentro da saleta com o ar mais malandro que já vi na minha vida. A partir daí nutri um sentimento de gratidão em relação a ele, pois compreendi que ele representava a comédia na vida da garotinha.

 

- Foi uma boa caminhada, não foi, Kit? - perguntou o velhinho.

 

- É verdade, patrão, ainda foi um esticão - respondeu Kit.

 

- Encontraste a casa facilmente?

 

- Não senhor, foi um bocado difícil, patrão - disse Kit.

 

- Agora deves estar com fome...

 

- Pois estou, parece-me que sim, patrão - respondeu ele. O rapaz tinha uma maneira estranha de falar. Punha-se de lado, e esticava a cabeça para a frente, por cima do ombro, como se de outra forma não conseguisse que a voz lhe saísse. Penso que o teria achado engraçado em qualquer lugar, mas o facto de a criança apreciar tanto o seu lado cómico, e o facto de, naquele lugar que parecia tão pouco apropriado para ela, surgir um pouco de alegria, era verdadeiramente irresistível. Era também muito bom que o próprio Kit se sentisse lisonjeado pela impressão que causava. Após alguns esforços para manter o seu ar grave, estalou a rir ruidosamente, e ali ficou com a boca muito aberta e os olhos semicerrados a rir à gargalhada.

 

O velho estava de novo absorto nos seus pensamentos, parecendo não notar o que se passava à sua volta, mas observei que, no momento em que a criança parou de rir, os olhos dela, brilhantes, estavam cheios de lágrimas, provocadas pela alegria com que recebera o seu desajeitado amiguinho, depois do susto daquela noite. Quanto a Kit, cujo riso, todo ele, não estivera muito longe do choro, levou uma grande fatia de pão com carne e uma caneca de cerveja para um canto, e começou a comer vorazmente.

 

- Ah! - disse o velho dirigindo-se-me com um suspiro como se tivéssemos acabado naquele momento de ter a nossa conversa de há pouco. - O senhor não tem ideia do que está a dizer. Eu não penso nela?

 

- Você também não deve dar tanta importância a uma observação que fiz baseado numa primeira impressão, meu amigo - disse eu.

 

- Não - respondeu o velho pensativamente. - Vem cá, Nell!

 

- A garota saltou da cadeira e foi colocar os seus braços à volta do pescoço do velho.

 

- Eu gosto de ti, Nell? - perguntou ele. - Diz lá, Nell, Eu gosto de ti ou não?

 

A criança respondeu acaríciando-o e encostando a cabeça ao peito dele.

 

- Porque estás a chorar? Será porque sabes que te amo e ficas triste porque eu pareço estar a duvidar? Ora, ora, digamos então que te amo ternamente.

 

- Claro que sim! Claro que sim! - disse a pequena com grande sinceridade. - O Kit também sabe que é verdade.

 

Kit, que enquanto devorava o seu pão com carne, a cada dentada parecia engolir dois terços da lâmina da sua faca com a mestria de um saltimbanco, ao ver-se chamado para a conversa parou de comer e exclamou:

 

- Ninguém é tão tolo que diga o contrário - em seguida engoliu um grande bocado de uma dentada só, ficando incapaz de dizer mais o que quer que fosse.

 

- Ela agora é pobre - disse o velho afagando o rosto da pequena. - Mas volto a dizer que há-de vir um dia em que ela há-de ser rica. Esse tempo demora, mas vai chegar. Chegou para outros que não fazem mais nada senão gastar e desbaratar, quando chegará para mim?

 

- Eu sinto-me feliz assim, avô - disse a criança.

 

- Ora, ora - respondeu o velho. - Tu não sabes. Como é que podias saber? - em seguida murmurou entre dentes. Esse tempo vai chegar, eu sei que vai, e se demorar, tanto melhor. - depois suspirou e de novo pareceu absorto nos seus pensamentos, com a criança nos joelhos. Por essa altura faltavam poucos minutos para a meia-noite, levantei-me para sair, e isso pareceu chamá-lo de novo a si.

 

- Um momento, senhor - disse ele. - Vamos, Kit, é quase meia-noite, e tu ainda aqui estás. Vai para casa, vai para casa e vê se amanhã chegas a horas, que há trabalho para fazer. Boa noite! Pronto, Nell, diz-lhe boa noite e deixa-o ir embora!

 

- Boa noite, Kit - disse a criança com os olhos a brilhar de alegria e afecto.

 

- Boa noite, menina Nell - respondeu o rapaz.

 

- E agradece a este senhor - interpôs o velho. - Se não fosse ele, esta noite eu podia bem ter perdido a minha menina.

 

- Não, não, patrão - disse Kit. - Isso não acontecia.

 

- O que é que tu queres dizer com isso? - exclamou o velho.

 

- Eu havia de a encontrar, patrão - disse Kit. - Havia de a encontrar. Aposto que a encontrava, se ela estivesse ao de cima da terra, encontrava, e num instante, patrão. Ha, ha, ha!

 

Abrindo de novo a boca, e fechando os olhos, rindo com toda a sua energia, Kit foi recuando até à porta e foi saindo, ainda a rir.

 

Saiu, desapareceu rapidamente, e enquanto a pequena levantava a mesa, o velho disse-me:

 

- Creio que ainda não lhe agradeci o bastante, senhor, por aquilo que fez esta noite, mas quero agradecer-lhe humildemente e de todo o coração, e ela também, e os agradecimentos dela valem mais do que os meus. Eu não queria que o senhor se fosse embora a pensar que não lhe estou agradecido, ou que não sei tomar conta dela, porque não é verdade.

 

- Com certeza - disse eu, acrescentando em seguida.


- Mas... posso fazer-lhe uma pergunta?

 

- Sim, senhor - respondeu o velho. - E o que é?

 

- Esta criança delicada... - disse eu. - Cheia de beleza e inteligência, não tem mais ninguém que tome conta dela para além de si? Não tem outra companhia, outra pessoa que a aconselhe?

 

- Não - respondeu ele, olhando-me com ansiedade. - Não tem, nem quereria ter.

 

- Mas o senhor não tem medo... - disse eu. - De não ser capaz de lidar com a fragilidade dela? Tenho a certeza que só quer o bem dela, mas tem a certeza de ser capaz de executar uma tarefa como esta? Eu sou um velho, como o senhor, e o que me faz falar é a minha preocupação de velho por tudo aquilo que é jovem e promissor. Não lhe parece natural que o que esta noite fiquei a conhecer de si e desta pequena criatura me tenha interessado, mas também deixado apreensivo?

 

Após um momento de silêncio, o velho disse: - Não tenho o direito de me sentir ofendido com o que o senhor acaba de me dizer. Em muitos aspectos é verdade que a criança sou eu e ela é a pessoa adulta, isso já o senhor percebeu. Mas acordado ou a dormir, de noite ou de dia, doente ou de boa saúde que eu esteja, ela é o único objecto dos meus cuidados, e se o senhor soubesse como cuido dela, havia de olhar para mim com outros olhos, havia, sim. Ah, a vida é triste para os velhos... muito, muito triste, mas há uma grande recompensa no fim, e eu não me esqueço disso!

 

Vendo que estava excitado e impaciente, virei-me para vestir o sobretudo que despira ao entrar na sala. Fiquei surpreendido por ver a criança, pacientemente, à espera, com um casaco no braço e um chapéu e uma bengala na mão.

 

- Essas coisas não são minhas, minha querida - disse eu.

 

- Pois não, são do avô - respondeu calmamente a criança.

 

- Mas ele não vai sair agora de noite.

 

- Vai, sim - disse a criança com um sorriso.

 

- E tu, minha linda?

 

- Eu? Fico aqui, claro. Fico sempre.

 

Olhei com surpresa para o velho, mas este estava, ou fingia estar, ocupado a compor o seu fato. Em seguida voltei a olhar para a figura frágil da pequena. Sozinha! Naquele sítio tão triste, toda a longa e horrível noite.

 

Ela não parecia notar a minha surpresa. Ajudava alegremente o velho a vestir o casaco, e quando acabou pegou numa vela para nos alumiar. Reparando que não a seguíamos como ela esperava, olhou para trás, sorriu e esperou por nós. O velho mostrava, pela expressão do rosto, que compreendia perfeitamente a causa da minha hesitação, mas limitou-se a ficar silencioso e a fazer-me um aceno com a cabeça para que o precedesse. Eu não podia fazer outra coisa.

 

Quando chegámos junto da porta, a criança levava a vela, virou-se para dizer boa noite e levantou o rosto para me beijar. Em seguida correu para o velho que a acolheu nos seus braços e lhe deu a bênção.

 

- Dorme bem, Nell


- disse ele em voz baixa. - Que os anjos guardem o teu leito. E não te esqueças de fazer as tuas orações, meu amor.

 

- Não, não esqueço - respondeu a criança com fervor. - Fazem-me sentir tão feliz!

 

- Muito bem. Eu sei. Assim é que deve ser - disse o velho.

- Deus te abençoe cem vezes. De manhã cedo estou de volta.

 

- Não vai tocar duas vezes - disse a criança. - Acordo com a campainha, mesmo quando estou a meio de um sonho.

 

Com isto se separaram. A criança abriu a porta, protegida agora por uma gelosia que eu ouvira o rapaz colocar antes de sair e, despedindo-se outra vez de uma forma doce e terna que mil vezes recordei, segurou a porta até nós passarmos. O velho esperou um momento que Nell fechasse a porta devagarinho e se trancasse por dentro, e quando se assegurou de que isto estava feito afastou-se com o seu passo lento.

 

Chegou à esquina, parou, olhando-me preocupado, disse que os nossos caminhos eram opostos, e que tinha de ir andando. Eu gostaria de ter falado com ele ainda um pouco, mas ele, com uma vivacidade inesperada numa pessoa com a aparência dele, afastou-se rapidamente. Ainda o vi olhar para trás por duas ou três vezes, como para verificar se eu ainda o observava, ou talvez para se certificar de que o não seguia à distância. A escuridão da noite favoreceu o seu desaparecimento, e depressa o perdi de vista.

 

Deixei-me ficar no sítio onde ele me havia deixado, sem vontade de me ir embora, e sem saber por que motivo me deixava ficar. Olhei pensativo para a rua de onde viéramos, e daí a nada dirigi os meus passos para lá. Passei e voltei a passar defronte da casa, parei, escutei à porta. Tudo estava escuro e silencioso como um túmulo.

 

No entanto, ainda me demorei por ali. Não conseguia afastar-me, pensando em todo o mal que podia acontecer à criança... um fogo, um roubo ou até a morte, e sentindo que algum mal poderia acontecer-lhe se eu me afastasse dali. O ruído de uma porta ou de uma janela que se fechava trouxe-me de novo diante da loja de curiosidades. Atravessei a rua e olhei para a casa a fim de verificar se o barulho não teria vindo dali. Não. Tudo estava tão negro, frio e morto como dantes.

 

Havia, pouca gente por ali. A rua, triste e sombria, era praticamente toda minha. Alguns retardatários dos teatros passavam apressados, e de vez em quando eu afastava-me de um bêbado barulhento que seguia para casa a cambalear, mas estas interrupções eram raras, e depressa cessaram completamente. Os relógios bateram uma hora. Eu continuava a passear para trás e para a frente, de cada vez prometendo a mim próprio que essa seria a última vez, e quebrando de cada vez a minha palavra, dando a mim próprio uma nova desculpa de cada vez que o fazia.

 

Quanto mais pensava no que o velho tinha dito, no seu aspecto e nos seus modos, menos compreendia aquilo que tinha acabado de ver e ouvir. Tinha um forte pressentimento de que ele se ausentava para ir fazer qualquer coisa de mal. Só soubera do facto devido à inocência da criança, e embora o velho ali estivesse naquele momento, e assistisse à minha surpresa, que não disfarcei, tinha mantido um estranho mistério sobre o assunto, e não tinha dado uma única palavra de explicação. Estas reflexões tornavam mais clara para mim a lembrança do seu rosto crispado, dos seus modos agitados, do seu olhar inquieto e preocupado. O seu afecto pela garota não era prova de que não pudesse cometer crimes da pior espécie. Até essa afeição era uma espantosa contradição, pois de outro modo como será capaz de a abandonar assim? Embora estivesse tentado a pensar mal dele, eu nunca duvidara da verdade do seu amor por ela, lembrando-me de tudo o que se passara, e do tom de voz com que pronunciara o seu nome.

 

«Eu fico aqui, claro.” Tinha dito a pequena em resposta à minha pergunta. «Fico sempre.” O que poderia fazê-lo sair de casa de noite, todas as noites? Tentei recordar-me de todas as histórias que alguma vez tinha ouvido sobre a noite e sobre secretos crimes cometidos em grandes cidades, cujos autores durante longos anos haviam conseguido fugir à justiça. Algumas dessas histórias eram verdadeiramente extraordinárias e, no entanto, eu não conseguia adaptar nenhuma delas a este mistério que eu teimava em resolver e se adensava cada vez mais.

 

Ocupado com estes pensamentos, e muitos outros, dirigidos todos eles na mesma direcção, continuei a deambular por aquela rua ao longo de mais duas horas. Depois começou a chover fortemente e então, ainda vivamente interessado em tudo aquilo, mas vencido pela fatiga, tomei a carruagem mais próxima e fui para casa. O lume ardia alegremente na lareira, a luz do candeeiro brilhava, o meu relógio deu-me as boas-vindas com o seu ruído familiar. Tudo estava calmo, quente e acolhedor, num feliz contraste com a tristeza e a escuridão do local de onde eu viera.

 

Sentei-me na minha poltrona, enterrei-me nas suas grandês almofadas, imaginei a criança deitada na sua cama, sozinha, sem ninguém que a protegesse, que cuidasse dela, à excepção dos anjos, e no entanto imersa num sono profundo. Uma criaturinha tão jovem, tão pura, tão delicada como uma fada, a passar a interminável noite num lugar tão desagradável! Não conseguia afastá-la dos meus pensamentos.

 

Estamos muito habituados a permitir que objectos exteriores determinem em nós impressões que deveriam ser antes o resultado das nossas reflexões, impressões que sem essas ajudas exteriores dificilmente experimentaríamos. Por isso, não estou certo se teria ficado tão impressionado com toda a cena se não fosse a quantidade de objectos extraordinários que vira na loja de antiguidades. Estes objectos, cruzando-se na minha mente juntamente com a criança, rodeando-a, traziam perante mim, de forma palpável, a sua situação. Via sem grande esforço a sua imagem cercada de objectos estranhos à sua natureza, estranhos ao seu sexo e à sua idade. Se a minha imaginação não tivesse recebido estes estímulos, e eu tivesse podido apenas imaginá-la num quarto de cama vulgar, sem nada de estranho ou extravagante no seu aspecto, é provável que tivesse ficado menos impressionado com a sua estranha e solitária situação. Assim, a pequena parecia existir numa espécie de alegoria e, rodeada por estes objectos, atraía tão fortemente a minha atenção que, como já referi, não conseguia, por mais que quisesse, afastá-la do meu pensamento.

 

Seria um tema interessante de meditação - disse eu depois de atravessar a passos rápidos o quarto de um lado para o outro. - Imaginá-la na sua vida futura, percorrendo o seu caminho solitário por entre uma multidão de boçais e grotescos companheiros. A única coisa pura, fresca, jovem, no meio da turba. Seria interessante de observar.

 

Aqui refreei-me, pois estes pensamentos estavam a levar-me a passos muito rápidos, e eu já antevia na minha frente um domínio onde não me interessava penetrar. Concordei comigo próprio que tudo isto eram pensamentos inúteis, e decidi então ir para a cama procurar o esquecimento.

 

Mas ao longo de toda aquela noite, estivesse eu acordado ou a dormir, os mesmos pensamentos regressaram e as mesmas imagens voltaram a tomar posse da minha mente. Continuava a ver na minha frente as velhas salas escuras e poeirentas, as armaduras esguias com o seu ar de fantasmas silenciosos, os rostos retorcidos, a rir na madeira e na pedra, o pó, a ferrugem, o caruncho, e no meio de todos estes trastes, destes pedaços de lixo e destas feias velharias, a linda criança dormindo suavemente, sorrindo de dentro dos seus sonhos leves e luminosos.

 

Após uma luta, que durou quase uma semana, contra o sentimento que me impelia a visitar de novo o lugar que havia deixado nas condições que já descrevi, cedi finalmente. Tendo decidido apresentar-me desta vez à luz do dia, encaminhei uma tarde os meus passos nessa direcção.

 

Passei defronte da casa, caminhei um pouco pela rua, hesitando, como é natural num homem que sabe que a sua visita não é esperada, e talvez não seja muito desejada. Entretanto, como a porta da loja estava fechada, e não era provável que, continuando a passear para trás e para diante, as pessoas lá dentro me reconhecessem, rapidamente venci a minha hesitação e me encontrei dentro da loja de antiguidades.

 

O velho estava nos fundos da loja, com outra pessoa, e pareciam ter altercado, porque no momento em que entrei, as suas vozes, que se ouviam muito alto, se calaram bruscamente, o velho precipitou-se para mim e disse, trémulo, que estava muito contente por eu ter vindo.

 

- O senhor apareceu no meio de um momento crítico - disse ele apontando para o homem em cuja companhia eu o tinha encontrado. - Este rapaz um dia destes ainda é capaz de me assassinar. Há muito tempo já que o teria feito, se se atrevesse.

 

- Ora, e você, se pudesse, havia de me rogar uma praga disse o rapaz depois de me deitar um olhar insolente e carrancudo. - Toda a gente sabe.

 

- Quase que era capaz de o fazer, sim - respondeu o velho sem se virar para ele. - Se com pragas, ou rezas, ou palavras, me conseguisse ver livre de ti, não hesitava. Via-me livre de ti. Seria um alívio para mim, se tu morresses.

 

- Eu sei - replicou o outro. - Não foi o que eu disse? Mas não vão ser as suas pragas, nem as suas rezas, nem as suas palavras, que me vão matar, e por isso eu estou vivo, e tenciono continuar vivo.

 

- E a mãe dele morreu! - exclamou o velho, juntando as mãos emocionado e erguendo os olhos. - E é isto, a justiça divina!

 

O outro deixou-se ficar com um pé sobre uma cadeira, com um sorriso de desprezo. Era um jovem de vinte e um anos, ou por aí, de boa figura e certamente bem parecido, embora o seu rosto estivesse longe de ser simpático, e os seus modos, e até a sua roupa, tivessem um ar atrevido e insolente que tornava a sua presença desagradável.

 

- Com ou sem justiça - disse o rapaz. - Estou aqui e aqui hei-de ficar enquanto me apetecer, a não ser que resolva chamar por ajuda para me porem fora, e eu sei que não fará isso. Já lhe disse que quero ver a minha irmã.

 

- A tua irmã! - disse o velho com amargura.

 

- Ah! Você não nos pode mudar o parentesco - replicou o outro. - Se pudesse, há muito que o teria feito. Quero ver a minha irmã, que você mantém aqui fechada, envenenando-lhe o espírito com os seus segredos cheios de manha, e fingindo ter-lhe um afecto que é só um pretexto para a matar com trabalho e juntar uns centavos mais ao dinheiro que tem, e que mal consegue contar. Quero vê-la, e hei-de vê-la.

 

- Ora vejam o moralista a falar de pensamentos envenenados! Ora vejam o rapaz generoso, a desprezar os centavos economizados! - exclamou o velho, virando-se agora para mim. - Ele é um malvado, senhor, que perdeu todos os direitos não só em relação àqueles que têm a infelicidade de pertencer ao seu sangue, mas em relação a toda a sociedade, que bem conhece os seus crimes. E também é um mentiroso - acrescentou, aproximando-se de mim e baixando o tom de voz. - Que sabe como ela me é querida e até nesse ponto me tenta ferir, na presença de um estranho.

 

- Eu não quero saber de estranhos para nada, avô - disse o rapaz pegando-lhe na palavra. - Nem eles querem saber de mim, espero eu. O melhor que têm a fazer é meterem-se no que lhes diz respeito e deixarem-me a mim em paz. Está um amigo meu à espera lá fora, e como parece que ainda me vou demorar um bocado, vou chamá-lo, se não se importa.

 

Dizendo isto, foi até à porta, olhou para a rua, acenou repetidamente para uma pessoa invisível para nós, pessoa que, a avaliar pelo ar impaciente com que o rapaz acompanhava os seus gestos, não era fácil de persuadir a entrar. Depois, do outro lado da rua, fingindo passar por ali por acaso, surgiu uma figura notável pela sua elegância enxovalhada que, após uma quantidade de caretas e de sinais de recusa, lá atravessou a rua e entrou na loja.

 

- Pronto. Este é o Dick Swiveller - disse o rapaz empurrando-o para dentro. - Senta-te, Swiveller.

 

- Mas o velho não se importa? - disse Mr. Swiveller em voz baixa.

 

- Senta-te - repetiu-lhe o amigo.

 

Mr. Swiveller obedeceu, e olhando em volta com um sorriso cúmplice, observou que a semana anterior tinha sido uma semana boa para os patos, e que esta tinha sido uma boa semana para a poeira. Comentou ainda que, enquanto estivera à espera, à esquina da rua, tinha estado a reparar num porco com uma palha na boca a sair da tabacaria, de onde concluía que se aproximava outra boa semana para os patos, e que a seguir certamente choveria. Depois aproveitou para pedir desculpa por qualquer negligência que fosse perceptível na sua roupa, explicando que na noite anterior o Sol lhe tinha dado nos olhos com muita força, o que era uma forma delicada de explicar a quem o ouvia que estivera completamente embriagado.

 

- E então? - disse Mr. Swiveller com um suspiro. - Que importância tem isso, se a chama da felicidade for ardendo na vela da alegria, e a asa da amizade não perder nenhuma pena. Que diferença faz, se o espírito se mantiver alegre graças ao vinho vermelho, e o momento presente for o menos feliz da nossa vida?

 

- Aqui não precisas de fazer o papel de presidente!

- disse-lhe o amigo um pouco agastado.

 

- Fred! - exclamou Mr. Swiveller batendo no nariz. - A bom entendedor, meia palavra basta. Podemos ser bondosos e felizes sem riquezas, Fred. Sei bem como devo agir. Compreendo bem as coisas. Só uma coisa, Fred: O velhote está de bom humor?

 

- Não te importes com isso - respondeu-lhe o amigo.

 

- Tens razão, tens toda a razão - disse Mr. Swiveller. Cuidado com as palavras, cuidado com os actos. Dito isto, piscou um olho, como que disposto a guardar um grande segredo, cruzou os braços, recostou-se na cadeira, fez um ar de profunda gravidade e olhou para o tecto.

 

Talvez não se andasse muito longe da verdade se se suspeitasse que Mr. Swiveller não estava ainda completamente recuperado do sol que apanhara, e se não fosse o seu discurso a levantar esta suspeita, o seu cabelo escorrido, os seus olhos embaciados e a sua tez doentia teriam testemunhado fortemente contra ele. A sua roupa, como ele próprio comentara, não primava pelo bom aspecto. Estava num tal estado de desalinho que certamente se deitara vestido. Consistia de um casaco castanho com muitos botões de latão à frente e apenas um atrás, uma gravata de quadrados berrantes, um colete de fazenda escocesa, unias calças brancas muito amarrotadas e um chapéu amachucado com a parte de trás virada para a frente, para disfarçar um buraco na aba. O casaco era enfeitado à frente com uma grande algibeira, da qual pendia o canto menos sujo de um lenço muito grande e muito enxovalhado. Os punhos sujos da sua camisa estavam puxados e ostensivamente revirados por cima das mangas do casaco. Não trazia luvas. Trazia uma bengala amarela com um castão de osso que era uma mão a segurar uma bola preta com um anel fingido no dedo pequenino. Com este magnífico aspecto, ao qual podemos acrescentar um forte odor a tabaco e qualquer coisa de gorduroso na aparência geral, Mr. Swiveller deitou-se para três na cadeira e, com os olhos fixos no tecto, afinava a voz, oferecia aos presentes algumas notas de uma canção melancólica, e de repente parava e voltava a ficar silencioso.

 

O velho sentou-se numa cadeira, cruzou os braços, olhando para o neto e para o seu estranho amigo, como se não tivesse maneira de se impor, nem tivesse outro remédio senão deixá-los fazer o que quisessem. O rapaz encostou-se a uma mesa, perto do amigo, parecendo indiferente a tudo o que se passara. Quanto a mim, sentindo alguma dificuldade em interferir, apesar de o velho ter apelado para a minha ajuda, através de olhares e de palavras, fingia, o melhor que podia estar ocupado a observar os objectos à minha volta, e não estar a prestar atenção às pessoas que tinha na minha frente.

 

O silêncio não foi muito duradouro, porque Mr. Swiveller, depois de melodiosamente nos garantir que o seu coração estava nas montanhas e que só precisava do seu cavalo árabe para realizar grandes feitos de cavalaria, desviou os olhos do tecto e recomeçou a conversa.

 

- Fred! - disse Mr. Swiveller bruscamente como se a ideia tivesse acabado de lhe ocorrer, e falando no mesmo tom de sussurro de há momentos atrás. - O velhote está bem disposto?

 

- O que é que isso interessa? - respondeu o amigo irritado.

 

- Nada, mas está?

 

- Sim, claro, mas eu quero lá saber que ele esteja ou não. Parecendo animado por esta resposta e interessado em estender a conversa a temas mais gerais, Mr. Swiveller fazia agora tudo para chamar a nossa atenção.

 

Começou por observar que a água gaseificada, embora em abstracto pudesse ser considerada uma boa coisa, fazia muito frio no estômago, a menos que fosse temperada com um pouco de gim ou de uísque, dos quais ele preferia o segundo, excepto no que dizia respeito ao preço. Ninguém punha em causa estas opiniões, e assim ele prosseguiu observando que o cabelo humano era um bom retentor do cheiro do fumo de tabaco, e que os rapazes de Westminster e Eton, que consumiam grandes quantidades de maçãs para que os seus companheiros não notassem o cheiro, eram facilmente descobertos porque este lhes ficava entranhado no cabelo. Assim, ele concluía que se a Royal Society se debruçasse sobre o fenómeno, e tentasse descobrir através da ciência um meio de impedir que fossem denunciados, poderiam vir a ser considerados benfeitores da humanidade. Uma vez que, à semelhança das outras, também estas opiniões eram incontroversas, continuou, explicando agora que o rum da Jamaica, embora fosse inquestionavelmente uma bebida agradável e com urna grande riqueza de paladar, tinha a desvantagem de o seu gosto vir constantemente à boca no dia seguinte. Como esta teoria também não foi contrariada por ninguém, ele pareceu ganhar mais cofiança em si mesmo e tornou-se ainda mais bem disposto e comunicativo.

 

- É um problema dos diabos, cavalheiros... - disse Mr. Swiveller. - Quando numa família as pessoas não se dão bem, ou não estão de acordo. Se a asa da amizade não deve nunca perder uma única pena, a asa das relações familiares não deve nunca ser cortada, mas deve manter-se sempre estendida e serena. Por que motivo um avô e um neto hão-de estar tão zangados um com o outro, quando podiam viver em paz e concórdia? Porque não hão-de dar as mãos e esquecer o passado?

 

- Cala-te - disse-lhe o amigo.

 

- O senhor... - respondeu Mr. Swiveller. - Não interrompa a presidência. Cavalheiros, que temos nós na nossa frente?

 

Temos aqui um bom e velho avô, digo-o com todo o respeito, e temos um neto um tanto estouvado. O bom avô diz para o seu neto estouvado: «Criei-te e eduquei-te, Fred. Dei-te uma enxada para a vida. Fizeste algumas asneiras, como os jovens sempre fazem, e não vais ter outra oportunidade, nem sombra disso.- O neto estouvado responde então: «O avô é tão rico... nunca teve grandes despesas por minha causa, anda a poupar montões de dinheiro para a minha irmã que vive consigo uma vida de segredo e mistério, uma vida sem divertimentos. Porque não há-de dar alguma coisa também ao seu neto mais velho?» A isto, o bom avô responde não só que se recusa a dar seja o que for com a alegria sempre tão simpática e tão agradável num cavalheiro da sua idade, como ainda por cima se zanga, chama-lhe nomes e ralha com ele de cada vez que se encontram. Então, eu faço uma pergunta muito simples: Não é uma pena que este estado de coisas continue? Não seria muito melhor se o cavalheiro de idade largasse uma boa quantia, resolvendo as coisas de uma vez por todas?

 

Após pronunciar este discurso, fazendo com as mãos muitos gestos e muitos floreados, Mr. Swiveller tapou a boca bruscamente com o castão da sua bengala, como para se impedir de dizer uma palavra mais que fosse, estragando assim o efeito do seu discurso.

 

- Valha-me Deus, porque me persegues e me aborreces?

 

- disse o velho virando-se para o neto. - Porque trazes para aqui os teus amigos devassos? Quantas vezes tenho de te dizer que sou pobre e levo uma vida de privações?

 

- E quantas vezes tenho eu de lhe dizer... - respondeu o outro, olhando para ele com frieza. - Que sei muito bem que isso não é verdade?

 

- Escolheste o teu próprio caminho - disse o velho.

 

- Segue-o e deixa-nos em paz, a Nell e a mim, com a nossa vida de penas e de trabalhos.

 

- Em breve Nell será uma mulher - retorquiu o outro.

- Educada por si, em breve esquecerá o irmão, se este não se for mostrando uma vez por outra.

 

- Tem cuidado... - disse o velho com os olhos a brilhar muito.- Que ela não se esqueça de ti quando tu mais gostarias que se lembrasse. Tem cuidado que ela não se esqueça de ti quando passar na sua própria carruagem e tu fores descalço pelas ruas.

 

- Quer dizer, quando ela tiver o seu dinheiro? - respondeu o outro. - Isso é que é falar como um pobre!

 

- E, no entanto... - disse o velho baixando o tom de voz e falando como alguém que está pensando em voz alta.

 

- Como nós somos pobres, e a vida que levamos! Está em causa a felicidade de uma criança, pura e inocente, e no entanto a nossa vida é muito dura. Temos de ter esperança e paciência, esperança e paciência!

 

Estas palavras foram pronunciadas num tom demasiado baixo para que o jovem as pudesse ouvir. Mr. Swiveller parecia pensar que elas eram o resultado de uma luta mental, fruto do poderoso efeito do seu discurso, pois tocou o amigo com a ponta da sua bengala e segredou-lhe que entendia que tinha utilizado um argumento indiscutível, e que esperava uma comissão sobre os lucros. Tendo em seguida verificado que se enganara, pareceu ficar sonolento e descontente, e mais de uma vez sugeriu que deveriam partir imediatamente, quando a porta se abriu e a criança apareceu.

 

A criança era seguida de perto por um homem de idade, de expressão muito dura e aspecto desagradável, tão baixo que parecia um anão, embora a sua cabeça e o seu rosto fossem do tamanho das de um gigante. Os seus olhos negros eram inquietos, matreiros e velhacos. A sua boca e queixo eram cerdosos, devido a uma barba áspera e irregular, e a sua pele era daquelas que nunca parecem limpas nem saudáveis. Mas o que mais tornava a sua expressão grotesca era um sorriso horrendo, que parecia ser apenas o resultado de um hábito adquirido, sem nenhuma relação com qualquer sentimento bondoso ou complacente, e mostrava permanentemente os poucos dentes enegrecidos que tinha espalhados pela boca, e lhe davam um ar de cão ofegante. O seu vestuário consistia de um grande chapéu alto, um fato escuro puído, um grande par de sapatos e um lenço de pescoço branco, enxovalhado, e tão torcido que deixava à mostra a maior parte do seu pescoço ressequido. O seu pouco cabelo era grisalho, cortado curto e a direito nas fontes, e caía-lhe em madeixas desgrenhadas por cima das orelhas. As suas mãos, ásperas e grosseiras, estavam muito sujas. As unhas eram tortas, compridas e amarelas Tive bastante tempo para reparar nestes pormenores, porque, por um lado, eram tão óbvios que não requeriam um exame de muito perto, e para além disso decorreram alguns momentos até que o silêncio fosse quebrado. A criança avançou timidamente para o irmão e deu-lhe a mão. O anão, se assim lhe podemos chamar, olhou atentamente para todos os presentes, e o antiquário, que claramente não esperava a visita desta personagem desagradável, parecia desconcertado e embaraçado.

 

- Ah! - disse o anão que, com a mão em pala sobre os olhos, observara atentamente o jovem. - Este deve ser o seu neto, vizinho.

 

- Diga antes que não devia ser - respondeu o velho.

 

- Mas é.

 

- E aquele? - perguntou o anão, apontando para Dick Swiveller.

 

- É um amigo dele, tão desejado nesta casa como ele - disse o velho.

 

- E aquele? - perguntou o anão voltando-se e apontando para mim.

 

- É um cavalheiro que noutro dia à noite teve a bondade de trazer Nell para casa quando vinha de sua casa e se perdeu.

 

O homenzinho voltou-se para a criança, como se fosse repreendê-la ou manifestar a sua surpresa, mas, como ela estava a falar com o jovem, calou-se e inclinou a cabeça para escutar.

 

- Então, Nelly - disse o jovem em voz alta. - Eles ensinam-te a odiar-me, não é?

 

- Não, não, que horror, oh, não! - exclamou a criança.

 

- A amar-me, talvez? - continuou o irmão com um sorriso maldoso.

 

- Nem uma coisa nem outra - respondeu ela. - Nunca me falam de ti. Acredita que não.

 

- Não me custa nada acreditar - disse ele lançando ao avô um olhar amargo. - Não me custa nada acreditar, Nell. Ah, eu sei que isso é verdade!

 

- Mas eu gosto muito de ti, Fred. - disse a garota.

 

- Claro!

 

- Gosto, sim, e hei-de gostar sempre - repetiu a criança com grande emoção. - Mas... se parasses de afligir o avô e de o fazer infeliz, gostaria mais ainda.

 

- Pois sim! - disse o rapaz debruçando-se sem grande interesse sobre a criança, beijando-a e afastando-a de si.

- Bom, agora já te podes ir embora, já recitaste a tua lição. Não precisas de ficar para aí a choramingar. Ficamos amigos, está bem?

 

Deixou-se ficar silencioso, seguindo-a com os olhos até que ela entrou no seu pequeno quarto e fechou a porta. Então, voltando-se para o anão, disse abruptamente.

 

- Oiça lá, oh cavalheiro...

 

- Está a falar comigo? - respondeu o anão. - Chamo-me Quilp. É um nome curto, é fácil de lembrar. Daniel Quilp.

 

- Então oiça lá, Mr. Quilp - prosseguiu o outro. - O senhor parece ter alguma influência sobre o meu avô.

 

- Alguma - respondeu ele enfaticamente.

 

- E está dentro de alguns dos seus mistérios e segredos.

 

- Alguns - respondeu Quilp no mesmo tom seco.

 

- Então deixe-me, através de si, dizer ao meu avô que tenciono entrar e sair desta casa as vezes todas que me apetecer, enquanto Nell aqui estiver. E que se ele se quiser ver livre de mim, terá primeiro de se ver livre dela. Que mal fiz eu para fazerem de mim um papão, e para causar medo e horror como se trouxesse comigo a peste? Ele vai-lhe dizer que eu sou incapaz de um afecto. Que me interesso tanto por Nell como me interesso por ele próprio. Deixe-o falar. Deve ser por capricho que ando de cá para lá, só para lhe lembrar que existo. Hei-de vê-la todas as vezes que me aprouver. É aí que quero chegar. Vim hoje aqui para manter aquilo que disse e hei-de vir cinquenta vezes com o mesmo objectivo e sempre com o mesmo sucesso. Disse que me deixaria ficar até conseguir o que pretendia. Consegui-o e por isso dou a minha visita por terminada.

 

- Espera! - gritou Mr. Swiveller quando o seu companheiro se dirigia para a porta. - Senhor!

 

- Um seu criado, senhor - disse Quilp a quem a palavra tinha sido dirigida.

 

- Antes de deixar esta cena alegre e festiva, estes salões de luz estonteante, senhor... - disse Mr. Swiveller. - Gostaria, com sua licença, de fazer uma breve observação. - Eu vim aqui hoje convencido de que o velhote estava de bom humor.

 

- Prossiga, senhor - disse Daniel Quilp, uma vez que o orador tinha feito uma pequena pausa.

 

- Inspirado por esta ideia, e pelos sentimentos que ela me inspirou, e pensando, como amigo de ambos, que as más palavras, a falta de educação e a falta de delicadeza não são as coisas mais favoráveis para as almas ou para promover a harmonia social entre aqueles que se desentenderam, resolvi sugerir algo que me parece ser a melhor solução a ser adoptada neste caso. Posso segredar-lhe uma palavrinha, senhor?

 

Sem esperar que lhe dessem licença, inclinou-se sobre o anão, apoiou-se no seu ombro e disse-lhe numa voz perfeitamente audível a todos os presentes. .

 

- A palavra senha para o velho é «sacar».

 

- O quê?

 

- «Sacar», cavalheiro! «Sacar» - respondeu Mr. Swiveller dando uma palmada na algibeira. O senhor está a compreender?

 

O anão acenou afirmativamente com a cabeça. Mr. Swiveller recuou e acenou também com a cabeça, a seguir recuou um pouco mais para trás e voltou a acenar, e assim por diante. Assim, acabou por chegar à porta. Aqui, tossiu alto por forma a chamar a atenção do anão e conseguir uma oportunidade de exprimir por mímica a confidência mais íntima, o segredo mais inviolável. Quando acabou de representar a sua pantomima, necessária para expressar estas ideias, precipitou-se no encalço do amigo e desapareceu.

 

- Hum! - disse o anão com um olhar azedo e um encolher de ombros. - E são estes os caros parentes! Graças a Deus, não reconheço nenhuns! E você bem podia fazer o mesmo

- acrescentou ele voltando-se para o velho. - Se não fosse fraco e desmiolado como um caniço.

 

- Que quer você que eu faça? - replicou ele com uma espécie de impotência desesperada. - é fácil falar e troçar, mas o que é que eu hei-de fazer?

 

- Quer saber o que é que eu faria, se estivesse no seu lugar? - perguntou o anão.

 

- Qualquer coisa violenta, com certeza,

 

- Lá nisso tem razão - respondeu o homenzinho, parecendo muito satisfeito com aquilo que evidentemente considerava um cumprimento. Em seguida fez um sorriso diabólico, e esfregou as suas mãos sujas. - Pergunte a Mrs. Quilp, à bonita Mrs. Quilp, à obediente, tímida e doce Mrs. Quilp. Mas agora me lembro, deixei-a sozinha e ela fica ansiosa, não tem um momento de sossego enquanto eu não chego. Eu sei que ela fica nesse estado sempre que eu saio, embora não se atreva a dizer-mo, a menos que eu insista, ou lhe diga que pode falar livremente e que não me zangarei com ela. Oh, a minha mulher está bem ensinada!

 

A criatura tinha um aspecto horrível, com a sua cabeça enorme e o seu corpo tão pequeno, enquanto ia esfregando as mãos, devagar, com repetidos gestos circulares, com qualquer coisa de fantástico até na sua maneira de levar a cabo este seu gesto insignificante e, baixando as suas fartas sobrancelhas e levantando o queixo para o ar, olhou em volta com um ar de furtiva satisfação que até um demónio poderia ter copiado para si próprio.

 

- Tome - disse ele levando a mão ao peito e aproximando-se do velho enquanto falava. - Trouxe-o eu, com medo de algum acidente. É ouro, e achei que era grande e pesado demais para que fosse transportado por Nell, mas é bom que ela se vá habituando a estes pesos, pois quando o vizinho morrer hão-de passar para ela.

 

- Deus permita que sim! Espero que assim seja - disse o velho com uma espécie de gemido.

 

- Espere! - ecoou o anão aproximando-se do seu ouvido.

- Vizinho, eu gostava de saber em que é que emprega as suas reservas. Mas você é um homem cauteloso e guarda bem o seu segredo.

 

- O meu segredo! - disse o outro com um olhar assustado. - Sim, tem razão, está... está bem guardado, muito bem guardado.

 

Não disse mais nada mas pegou no dinheiro, virou-se com passo vagaroso e incerto e levou a mão à cabeça como um homem cansado e deprimido. O anão observava-o atentamente enquanto ele atravessava a pequena sala e guardava o ouro num pequeno cofre de ferro por cima da chaminé, e depois de reflectir um momento preparou-se para sair, observando que se não se despachasse, quando chegasse já Mrs. Quilp certamente teria tido um ataque.

 

- Por isso, vizinho... - acrescentou ele. - Vou regressar a casa; deixo saudades à Nell e espero que ela não se volte a perder, embora isso me tenha proporcionado uma honra inesperada. - Com isto fez-me uma vénia com ar velhaco e, lançando em volta um olhar arguto que pareceu observar tudo em redor, mesmo os objectos mais pequenos e vulgares, foi-se embora.

 

Por várias vezes tentei sair também, mas o velho não me deixava, e pedia-me que ficasse. Quando ficámos a sós voltou a insistir para que ficasse e, com muitos agradecimentos, aludia à noite em que havíamos estado juntos, e assim aceitei o seu convite, e sentei-me fingindo examinar algumas miniaturas curiosas e medalhas antigas que ele colocou à minha frente. Não teve grande dificuldade em convencer-me a ficar, pois se da primeira vez a minha curiosidade havia ficado espicaçada, não o estava menos agora.

 

Daí a pouco Nell juntou-se a nós, trouxe para a mesa a sua costura e sentou-se ao pé do velho. Era agradável observar as flores frescas pela sala, o passarinho cuja pequena gaiola era sombreada por um ramo de verdura, o cheiro a frescura e a juventude que parecia perpassar por aquela casa velha e triste e envolver a criança. Era curioso, embora menos agradável, passar da beleza e da graça da rapariga para o vulto curvado, o rosto marcado pelos desgostos e o aspecto cansado do velho. À medida que ele envelhecesse e fosse ficando mais fraco, que seria desta criaturinha sem ninguém? Talvez ele fosse um fraco protector, mas qual seria o destino da criança quando ele morresse?

 

O velho pareceu ler os meus pensamentos. Deu a mão à garota e disse em voz alta:

 

- Vou tentar passar a estar mais alegre, Nell - disse ele.

- A felicidade tem de te estar reservada. Não é para mim que a peço, mas para ti. São tantas as desgraças que ameaçam cair sobre a tua cabeça inocente, que tenho de acreditar que alcançarás um dia a felicidade.

 

Ela olhou alegremente o seu rosto, e não disse nada.

 

- Quando penso - disse ele - em todos os anos, muitos, na tua vida ainda tão curta, que viveste sozinha comigo... na tua existência monótona, sem conheceres companheiros da tua idade nem os prazeres próprios da infância... na solidão em que cresceste até te tornares no que és e na vida triste que viveste, afastada da gente da tua idade, na companhia deste velho... penso por vezes que fui demasiado severo contigo, Nell.

 

- Avô! - disse ela surpreendida

 

- Não foi de propósito, não - disse ele. - Sempre desejei ver chegar o dia em que te pudesses dar com as mais belas crianças, as mais alegres, ver-te ocupar o teu lugar entre os melhores, mas continuo à espera, Nell, continuo ansiosamente à espera, e penso: se tivesse de te deixar, como foi que te preparei para fazeres frente à vida? O passarinho que ali vês está tão bem preparado como tu para a enfrentar, abandonado à sua mercê. Escuta! O Kit está lá fora, eu ouvi-o. Vai ter com ele, Nell, vai ter com ele.

 

Ela levantou-se e correu para a porta, parou, voltou para trás, abraçou o pescoço do velho e só então saiu, mais rapidamente ainda, para esconder as lágrimas.

 

- Deixe-me fazer-lhe uma confidência, cavalheiro - murmurou o velho. - Fiquei inquieto com o que o senhor me disse na outra noite, e a única coisa que lhe posso dizer é que fiz sempre tudo pelo melhor. Agora é tarde para voltar atrás, mesmo que o pudesse fazer, e não posso. Para além disso, ainda tenho esperança de atingir os meus objectivos. Tudo o que faço, faço-o para bem dela. Eu próprio suportei muita pobreza, e quereria poupar-lhe todos os sofrimentos que a pobreza arrasta consigo. Quereria poder poupá-la a todas as misérias que causaram uma morte prematura à mãe dela, a minha querida filha. Quero deixá-la, não com bens que possam facilmente ser gastos ou desbaratados, mas com algo que a coloque para sempre acima das necessidades. O senhor está a compreender? Ela não vai ter uma pequena quantia, vai ter uma fortuna. Chiu! Não posso dizer mais nada sobre o assunto, nem agora nem nunca. Ela aí vem.

 

A veemência com que estas palavras foram lançadas ao meu ouvido, a mão trémula com que ele agarrava o meu ombro, os olhos fixos, espantados, com que me olhava, a louca inquietação, a agitação dos seus modos, tudo me enchia de espanto. Tudo o que eu tinha ouvido e visto, e muito do que ele próprio tinha dito, me levavam a supor que ele seria um homem muito rico. Eu não conseguia compreender o seu temperamento, a menos que se tratasse de um daquelês miseráveis que, tendo tido o lucro como único objectivo das suas vidas, e tendo conseguido acumular grandes riquezas, são continuamente atormentados pelo terror da pobreza, torturados pelo medo da perda e da ruína. Muitas das coisas que ele tinha dito e que eu não tinha conseguido compreender eram perfeitamente conciliáveis com os pensamentos que agora me vinham à mente, e acabei por concluir, para lá de qualquer dúvida, que o velhote só podia pertencer a esta raça infeliz.

 

Esta opinião não era o resultado de uma reflexão precipitada, para a qual, aliás, naquele momento, nem sequer tinha tido tempo, porque a criança já estava de regresso, e preparava-se para dar a Kit a sua lição de caligrafia. Dava-lhe estas lições duas vezes por semana, e calhava justamente naquela tarde, com grande alegria para Kit e também para a sua professora. Seria demasiado longo relatar o tempo que levou até que a modéstia de Kit lhe permitiu sentar-se na sala, na frente de un cavalheiro desconhecido. Quando finalmente se convenceu, arregaçou as mangas da camisa, espetou os cotovelos para fora e colou o rosto ao caderno, entortando os olhos. Não vale a pena contar em detalhe a forma como Kit, a partir do momento em que se viu com a pena na mão, começou a nadar em borrões e a salpicar-se de tinta até à raiz dos cabelos, nem a forma como quando, por acaso, conseguia fazer uma letra direita, imediatamente a esborratava com o braço ao tentar fazer a letra seguinte, ou a forma como a cada erro se seguia uma alegre exclamação da criança, e uma gargalhada ainda maior e mais alta do próprio Kit, ou ainda a forma como havia da parte dela um desejo carinhoso de ensinar, e da parte dele um desejo ansioso de aprender. Seria demasiado longo relatar esses detalhes, e basta por isso dizer que a lição foi dada, que a tarde passou e chegou a noite, que o velho de novo ficou agitado e impaciente, que de novo saiu de casa à mesma hora da outra noite, e que de novo a criança ficou sozinha entre aquelas paredes tão tristes.

 

Agora que conduzi a história até aqui pela minha mão, e já apresentei estas personagens aos leitores, afastar-me-ei da narrativa, que assim ficará beneficiada, deixando falar e agir por si próprias as personagens que dela fazem parte.

 

Mr. e Mrs. Quilp moravam em Tower Hill, e Mrs. Quilp, no seu refúgio de Tower Hill, lamentava-se da ausência do seu senhor que a deixara para ir tratar do assunto que já conhecemos.

 

Não se podia dizer que Mr. Quilp tivesse uma ocupação propriamente dita ou se dedicasse a um negócio específico, porque as suas ocupações eram numerosas e os seus negócios muito diversificados. Ele recebia as rendas de bairros inteiros, de ruas e ruelas imundas da zona ribeirinha, emprestava dinheiro a juros a marinheiros e oficiais menos graduados da marinha mercante, negociava com a pacotilha dos pilotos da rota da índia, fumava os seus charutos de contrabando debaixo do nariz dos funcionários da Alfândega, e todos os dias se encontrava com homens de sobrecasaca e chapéu lustroso para discutir os câmbios. Junto ao rio, para os lados de Surrey, havia um pequeno pátio sombrio e infestado de ratazanas denominado Cais de Quilp, onde havia um pequeno escritório de madeira, tombado para um lado, enterrado no pó, como se tivesse caído das nuvens e ali tivesse ficado, mergulhado no chão. Havia alguns pedaços de âncoras ferrugentas, várias argolas grandes de ferro, montes de madeira podre e duas ou três pilhas de folha de cobre velha, amolgada, rasgada, torcida. Ali possuía Daniel Quilp o seu armazém de sucata de navios, mas a julgar pelas aparências, ele seria um sucateiro de navios em pequena escala, ou então desmantelava os seus navios em pedaços muito pequenos. O local também não parecia fervilhar de actividade, uma vez que o seu único ocupante era um rapaz anfíbio vestido de lona cuja ocupação variava entre estar sentado sobre uma pilha e atirar pedras para a lama quando a maré estava baixa, e na maré alta, de mãos nos bolsos, contemplar apaticamente a actividade e a agitação do rio.

 

A casa do anão, em Tower Hill, incluía, para além dos aposentos necessários para ele e para Mrs. Quilp, um pequeno quarto destinado à mãe desta, que vivia com o casal e mantinha uma guerra permanente com Daniel, embora o receasse muitíssimo. De facto, esta criatura tão feia conseguia, de um modo ou de outro, fosse pela sua fealdade, fosse pela sua ferocidade, fosse pela sua astúcia natural, isso não nos importa grandemente, que aqueles que com ele conviviam diariamente temessem a sua ira. Sobre mais ninguém tinha no entanto o ascendente que tinha sobre a própria Mrs. Quilp, uma mulher pequena e bonita, de falas suaves e olhos azuis, que, tendo-se ligado ao anão pelos laços do matrimónio devido a um desses estranhos impulsos dos quais não faltam exemplos, cumpria por esse seu momento de loucura uma terrível penitência em todos os dias da sua vida.

 

Já aqui dissemos que Mrs. Quilp se lamentava no seu retiro. Ela lá estava, de facto, mas não estava sozinha, porque para além da velha senhora sua mãe, que já mencionámos, estavam presentes também meia dúzia de senhoras da vizinhança que, por uma estranha coincidência (e devido também a uma pequena combinação entre elas), tinham aparecido umas atrás das outras por volta da hora do chá. Esta era uma estação propícia às conversas, e a sala era um lugar fresco e confortável, com algumas plantas junto da janela aberta, que não deixavam entrar a poeira, interpondo-se agradavelmente entre a mesa do chá, no interior, e a velha torre, no exterior. Era portanto natural que as senhoras se sentissem tentadas a conversar indolentemente, especialmente se tomarmos em linha de conta a presença de manteiga fresca, pão fresco, camarões e agriões.

 

Assim, estando as senhoras reunidas neste ambiente, era natural que o tema da conversa fosse a tendência por parte dos homens para tiranizarem o sexo fraco, e o dever que esse mesmo sexo fraco tinha de resistir a essa tirania e exigir os seus direitos e a sua dignidade. Era natural por quatro motivos: primeiro, porque Mrs. Quilp era uma mulher jovem, claramente debaixo do domínio do marido, que tinha de ser convencida a tomar uma atitude de revolta; segundo, porque a mãe de Mrs. Quilp era conhecida como sendo uma mulher corajosa, capaz de resistir à autoridade masculina; terceiro, porque cada uma das presentes estava desejosa de mostrar como nesse aspecto era superior às outras mulheres em geral; quarto, porque, estando habituadas a juntarem-se aos pares para dizerem mal umas das outras, e vendo-se privadas do seu tema de conversa preferido, agora que ali estavam todas reunidas como boas amigas, o assunto que lhes restava era atacar o inimigo comum.

 

Movida por estas considerações, uma senhora forte começou por perguntar como estava Mr. Quilp, ao que a mãe de Mrs. Quilp respondeu: - Oh, ele está bem, a ele não há mal que lhe chegue, as ervas daninhas estão sempre de boa saúde.- Então as senhoras suspiraram em coro, abanaram a cabeça com ar grave e olharam para Mrs. Quilp como para uma mártir.

 

Ah! - disse a senhora que tinha falado. - A senhora, Mrs. Jiniwin, é que devia aconselhá-la. - Era esse o nome de solteira de Mrs. Quilp, e portanto também da sua mãe. - Ninguém melhor do que a senhora sabe o que nós, mulheres, devemos a nós próprias.

 

- Devemos, de facto, minha senhora! - replicou Mrs. Jiniwin. - Quando o meu pobre marido, o querido pai dela, era vivo, se alguma vez se tivesse atrevido a dirigir-me uma má palavra, eu tinha-lhe...

 

A boa e idosa senhora não chegou a acabar a sua frase, mas torceu a cabeça a um camarão com uma fúria vingativa que parecia significar que a acção se destinava de algum modo a substituir as palavras. Isto foi imediatamente compreendido pela outra senhora, que imediatamente aprovou e replicou: - A senhora compreende bem os meus sentimentos, eu própria não teria feito outra coisa.

 

- Mas não precisa de o fazer - disse Mrs Jiniwin. - Felizmente para si, tem tanta razão para o fazer como eu.

 

- Nenhuma mulher precisa de chegar a essa situação, se for honesta consigo própria - disse a senhora forte.

 

- Estás a ouvir isto, Betsy? - disse Mrs. Jiniwin em voz de reprimenda. - Quantas vezes te disse já estas mesmas palavras e quase me pus de joelhos para que me ouvisses?

 

A pobre senhora Quilp, que olhava, aflita, de um rosto condoído para outro, corou, sorriu e abanou a cabeça com ar hesitante. Foi isto que despoletou o clamor geral que começou por um leve murmúrio e gradualmente se transformou num barulho enorme, com toda a gente a falar ao mesmo tempo, dizendo que ela era muito jovem, pelo que não podia pretender fazer prevalecer as suas opiniões contra a experiência daquelas que sabiam melhor; que ela fazia mal em não aceitar os conselhos de pessoas que só queriam o que era melhor para ela; que a atitude dela estava muito próxima da ingratidão; que se não tinha respeito por ela própria devia ao menos tê-lo pelas outras mulheres, a quem a sua humildade comprometia; e que se ela não tinha respeito pelas outras mulheres, um tempo viria em que as outras mulheres o não teriam por ela, e que havia de se arrepender, asseguravam-lhe elas. Tendo-a assim admoestado, as senhoras começaram a atacar ainda com mais violência o chá, o pão fresco, a manteiga fresca, os camarões e os agriões, e disseram que a sua indignação era tão grande por vê-la agir daquela maneira, que mal conseguiam engolir uma migalha.

 

- É muito fácil falar - disse Mrs. Quilp com muita simplicidade. - Mas eu sei que se morresse amanhã, Quilp podia voltar a casar com quem lhe apetecesse. Podia, que eu bem sei!

 

Estas palavras geraram um grito de indignação. Casar com quem lhe apetecesse? Ele que se atrevesse a pensar em casar com alguma delas! Ele que fizesse a mais pequena tentativa nesse sentido! Uma das senhoras, viúva, garantia que lhe dava uma facada à menor tentativa que ele fizesse.

 

- Muito bem! - disse Mrs. Quilp abanando a cabeça.

- Como eu já vos disse, é muito fácil falar, mas volto a dizer-vos que sei, tenho a certeza... Quilp quando quer sabe ser tão insinuante, que a mais bonita mulher que aqui estiver não conseguia recusá-lo se eu morresse, e ela estivesse livre, e ele a quisesse. Ora!

 

Todas se empertigaram perante esta observação, como se dissessem: «É de mim que ela está a falar, eu sei. Pois ele que experimente!» E por qualquer razão oculta todas elas estavam zangadas com a viúva, e cada uma delas segredou ao ouvido da sua vizinha que a viúva julgava que era a ela que se referiam, e como ela era dissimulada.

 

- A minha mãe sabe... - disse Mrs. Quilp. - Que o que eu estou a dizer é verdade, porque ela própria o disse muitas vezes antes de eu me casar. Não disse, mãe?

 

Esta pergunta colocou a respeitável senhora numa posição muito delicada, porque ela própria tinha encorajado o casamento da filha e, por outro lado, não era propriamente uma honra para a família pensar-se que a filha tinha casado com um homem que mais ninguém queria. Por outro lado ainda, exagerar as qualidades cativantes do genro seria enfraquecer a causa da revolta na qual tinha investido todas as suas energias. Perante estas considerações contraditórias, Mrs. Jiniwin reconheceu o poder de insinuação do genro, mas negou o seu direito à autoridade, disse uma amabilidade à senhora forte e conseguiu oportunamente fazer regressar a conversa ao ponto de partida.

 

- Oh! O que Mrs. George disse é uma coisa muito sensata e justa - exclamou a velha senhora. - Se as mulheres ao menos fossem honestas consigo próprias! - Mas Betsy não é, para minha pena e vergonha.

 

- Antes de deixar que um homem mandasse em mim como Quilp manda nela, antes de consentir em submeter-me a um homem como ela se submete a ele, eu... eu matava-me e deixava uma carta a dizer que foi ele.

 

Estas palavras foram comentadas e aprovadas em voz alta, quando outra senhora, das Minorias, tomou a palavra:

 

- Mr. Quilp pode ser um homem muito simpático - disse ela. - Eu não tenho dúvida nenhuma a esse respeito, uma vez que é a própria Mrs. Quilp quem o diz, e Mrs. Jiniwin, que têm obrigação de saber isso melhor do que ninguém. Mas não é exactamente aquilo a que chamamos um bonito homem, nem é propriamente um jovem, e isto pode ser uma desculpa para ele, se é que ele tem alguma desculpa. Ora a mulher dele é jovem e bonita, e é uma mulher, e isso é o mais importante.

 

Esta última frase foi dita de uma forma extraordinariamente enfática, o que produziu nas ouvintes um murmúrio como resposta e, assim estimulada, a senhora observou ainda que se este marido era mau e pouco razoável com semelhante esposa, então...

 

- Se é! - interpôs a mãe pousando a sua chávena de chá e sacudindo as migalhas do colo, o que deixava antever que se preparava para fazer uma solene declaração.- Se é! Ele é o maior tirano que já existiu, ela não manda nem na sua própria alma, ela treme a uma palavra dele, ou mesmo a um olhar, ele assusta-a de morte, e ela não tem coragem para lhe responder uma palavra, não, nem uma palavra!

 

Apesar de todas as visitas estarem ao corrente do que se passava, e de tudo isto já ter sido discutido e comentado em todos os chás bebidos na vizinhança ao longo dos últimos doze meses, assim que foi feita esta comunicação oficial começaram todas a falar ao mesmo tempo, excedendo-se umas às outras em veemência e volubilidade. Mrs. George observou que as pessoas falavam, que já lho tinham dito várias vezes, que Mrs. Simmons, ali presente naquele momento, lho tinha dito vinte vezes, e que ela tinha sempre respondido: «Não, Henrietta Simmons, enquanto não vir com os meus olhos, e não ouvir com os meus ouvidos, não vou acreditar.» Mrs. Simmons corroborou este testemunho e acrescentou-lhe fortes argumentos de sua autoria. A senhora das Minorias relatou o tratamento que tinha aplicado ao marido quando este, ao fim de um mês de casamento, havia começado a transformar-se num tigre, e que desta forma se tinha tornado um verdadeiro cordeiro. Outra senhora contava a sua luta e vitória final, para a qual se tinha visto obrigada a chamar para sua casa a mãe e duas tias, e chorar incessantemente, noite e dia, durante seis semanas. Uma terceira, que no meio da confusão geral não tinha conseguido outra pessoa que a ouvisse, agarrou-se a uma jovem ainda solteira que também lá estava, e exortava-a, se tinha amor à paz da sua alma e à sua felicidade, a aproveitar aquela ocasião solene, aprender com o exemplo de fraqueza dado por Mrs. Quilp e, a partir daquele momento, dirigir todos os seus pensamentos no sentido de subjugar o rebelde espírito masculino. O barulho era muito, e metade do grupo gritava para abafar as vozes da outra metade, quando viram Mrs. Jiniwin mudar de cor e agitar o seu dedo indicador, a mandá-las calar. Então, e só então, é que viram que a causa de todo aquele burburinho, Daniel Quilp em pessoa, estava na sala, observando e ouvindo com profunda atenção.

 

- Continuem, minhas senhoras, continuem... - disse Daniel.

- Mrs. Quilp, por favor convide as senhoras para jantar, umas lagostas, um jantar leve e saboroso.

 

- Eu... eu... não as convidei para o chá, Quilp - gaguejou a mulher dele. - Foi um puro acaso.

 

- Tanto melhor, Mrs. Quilp. Estas festas que acontecem por acaso são sempre as mais agradáveis - disse o anão esfregando as mãos com tanta força que parecia ocupado a fabricar, com a sujidade que as cobria, pequenas cargas para espingardas de pressão de ar. - O quê? As senhoras não se vão embora, não se vão embora, com certeza!

 

As suas belas inimigas abanavam ligeiramente a cabeça enquanto procuravam os seus xailes e chapéus, deixando a desavença verbal a cargo de Mrs. Jiniwin que, vendo-se em lugar de destaque, fez uma fraca tentativa para manter a pose.

 

- E porque não haviam de ficar para o jantar, Quilp... disse a velha senhora.- Se a minha filha o desejasse?

 

- Claro - respondeu Daniel. - Porque não?

 

- Não há nada de desonesto ou de errado num jantar, acho eu - disse Mrs. Jiniwin.

 

- Certamente que não - volveu o anão. - Porque haveria? E também não há nada que faça mal à saúde, a menos que seja servida salada de lagosta, ou gambás, que dizem que são difíceis de digerir.

 

- E você não havia de querer que a sua mulher passasse por isso, ou por qualquer outra coisa que a incomodasse, não é verdade? - disse Mrs. Jiniwin.

 

- Por nada deste mundo - respondeu o anão com um sorriso sarcástico. - Nem mesmo para ter meia dúzia de sogras ao mesmo tempo... e que bênção isso seria!

 

- Não há dúvida, Mr. Quilp, que a minha filha é sua esposa - disse a velha senhora com um sorriso que pretendia ser satírico, insinuando assim que ele precisava de ser lembrado do facto. - Sua esposa legítima.

 

- Não há dúvida que é, não há dúvida - observou o anão.

 

- Tem então, espero, o direito de fazer o que lhe apetecer, Quilp - disse a velha senhora tremendo, em parte de raiva, em parte de secreto medo do seu malvado genro.

 

- Espera que tenha? respondeu ele. - Então não sabe que tem? Não sabe que tem?

 

- Sei que devia ter, Quilp, e que teria, se pensasse como eu.

 

- Porque é que não pensa como a sua mãe, minha querida? - disse o anão voltando-se e dirigindo-se à mulher.

 

- Porque é que não imita sempre a sua mãe, minha querida? Ela é o ornamento do seu sexo, o seu pai dizia isso todos os dias, estou certo disso.

 

- O pai dela era uma criatura abençoada, Quilp, e valia vinte mil vezes mais do que certas outras pessoas, vinte milhões de vezes.

 

- Gostaria de o ter conhecido - comentou o anão.

 

- Ousaria então afirmar que era uma criatura abençoada, mas agora com certeza que o é. A sua morte foi um alívio. Creio que teve um longo sofrimento, não foi?

 

A velha senhora abriu a boca, mas não conseguiu articular nenhum som. Quilp continuou, com a mesma malícia no olhar e a mesma polidez sarcástica na ponta da língua.

 

- Parece que não se está a sentir bem, Mrs. Jiniwin. Creio que se deve ter excitado hoje demasiado, talvez a falar, que é o seu ponto fraco. Vá para a cama. Peço-lhe que vá para a cama.

 

- Hei-de ir quando me apetecer, Quilp, não antes.

 

- Mas eu peço-lhe que vá agora. Peço-lhe que vá agora

- disse o anão.

 

A velha olhou zangada para ele, mas foi recuando à medida que ele avançava, e acabou por bater em retirada à sua frente enquanto ele lhe fechava a porta na cara e a trancou, deixandoa no meio da escada, entre as visitas que neste momento desciam as escadas apressadamente. Quando ficou sozinho com a mulher, que se sentou a um canto, a tremer, de olhos fixos no chão, o homenzinho plantou-se na frente dela, cruzou os braços e deixou-se ficar, sem dizer nada, a olhar para ela.

 

- Oh, doce criatura! - foram as palavras com que rompeu o silêncio, estalando os lábios como se não estivesse utilizando uma figura de retórica, e quisesse de facto significar aquilo que dizia. - Oh, precioso amor, delicioso encanto!

 

Mrs. Quilp soluçava e, conhecendo o feitio do seu bom senhor, parecia tão assustada com estas amabilidades como se se tratasse de palavras de extrema violência.

 

- Ela é... - disse o anão com um sorriso sarcástico. - É uma jóia, um diamante, uma pérola, um rubi, um cofrezinho doirado com pedras preciosas embutidas! Ela é um tesouro! Como eu gosto dela!

 

A pobre mulherzinha tremia dos pés à cabeça e, levantando para ele os olhos suplicantes, voltou a baixá-los e soluçou de novo.

 

- O que ela tem de melhor... - disse o anão avançando com uma espécie de pulinho que, juntamente com as suas pernas tortas, o seu rosto horrendo e os seus modos sarcásticos fazia lembrar um demónio. - O que ela tem de melhor é ser tão humilde e tão doce, não ter nunca uma vontade própria e ter uma mãe tão insinuante.

 

Disse estas palavras com uma malícia refinada, da qual outro que não ele não teria conseguido aproximar-se sequer, a seguir colocou as mãos nos joelhos e afastando muito as pernas, devagar, foi-se curvando, curvando, curvando, até que, inclinando muito a cabeça para um lado, se interpôs entre os olhos da mulher e o chão.

 

- Mrs. Quílp!

 

- Sim, Quilp!

 

- Sou agradável à vista? Seria o mais belo homem do mundo se usasse bigodes? Sou um homem galante? Sou, Mrs. Quilp?

 

Mrs. Quilp respondeu obedientemente: - Sim, Quílp. - E, fascinada pelo seu olhar, ficou timidamente a olhar para ele, enquanto ele lhe oferecia sucessivas caretas tão horrendas que só ele ou uma figura de pesadelo seriam capazes de fazer. Durante toda esta representação, que foi bastante demorada, ele manteve-se em absoluto silêncio excepto quando, com um salto inesperado, fazia a mulher recuar sem conseguir reprimir um grito. Dava então uma risadinha.

 

- Mrs. Quilp - disse ele por fim.

 

- Sim, Quílp - respondeu ela humildemente.

 

Em vez de prosseguir, dizendo aquilo que tinha em mente, Quilp levantou-se, cruzou novamente os braços e olhou para ela com uns olhos ainda mais ameaçadores, enquanto ela desviava os seus e os mantinha fixos no chão.

 

- Mrs. Quilp.

 

- Sim, Quilp.

 

- Se volta a dar ouvidos a essas tolas, eu mordo-lhe! Com esta ameaça lacónica, que acompanhou com uma rosnadela que dava a impressão de dizer isto muito a sério, Mr. Quilp mandou-a levantar a mesa do chá e trazer o rum. Quando a bebida foi colocada na frente dele, num enorme garrafão vindo da despensa de algum navio, mandou que ela lhe trouxesse água fria e a caixa dos charutos. Quando ela lhos trouxe acomodou-se num cadeirão com a sua grande cabeça e a sua cara larga recostadas para trás, e as suas perninhas pousadas em cima da mesa.

 

- Agora, Mrs. Quilp - disse ele -, apetece-me fumar e é provável que fique a fumar toda a noite, mas fará o favor de se deixar estar aí sentada, para o caso de eu precisar de si.

 

Ela não foi capaz de responder outra coisa que não fosse o «Sim, Quilp» do costume, e aquele pequeno senhor da criação pegou no seu primeiro charuto e preparou o primeiro grogue. Entretanto pôs-se o Sol, surgiram as estrelas, a torre passou da sua cor natural para cinzento, e de cinzento para negro, a sala mergulhou na escuridão, com a ponta do charuto de um vermelho ardente, mas Mr. Quilp continuava a fumar e a beber na mesma posição, olhando apaticamente pela janela com o seu eterno sorriso de cão. Quando Mrs. Quilp fazia um pequeno movimento de nervoso ou cansaço ele fazia uma careta maldosa de prazer.

 

Se Mr. Quilp dormitou ou permaneceu toda a noite acordado, o que é certo é que o seu charuto permaneceu aceso toda a noite, acendendo cada charuto novo no borrão daquele que estava prestes a consumir-se, sem precisar de acender uma vela. O bater dos relógios, hora após hora, também não parecia cansá-lo ou provocar nele uma natural vontade de descansar, parecendo, pelo contrário, aumentar a sua falta de sono, que ele demonstrava, à medida que a noite ia avançando, através dos ruídos abafados que ia emitindo com a garganta e os movimentos dos ombros que ia fazendo, como alguém que ri com vontade, mas sorrateira e maliciosamente. Por fim nasceu o dia, e a pobre Mrs. Quilp, tremendo com o frio da madrugada e derreada pelo cansaço e pelo sono, lá estava, pacientemente sentada na sua cadeira, levantando os olhos de tempos a tempos, num mudo apelo à compaixão e à clemência do seu senhor, lembrando-lhe docemente através de uma leve tosse que ainda não tinha sido perdoada e que a sua penitência já havia durado muito. Mas o anão seu marido continuava a fumar o seu charuto e a beber o seu rum sem lhe dar importância. E foi só quando o Sol já tinha nascido há um bom bocado e o ruído e a actividade do dia começaram a fazer-se sentir pela rua, que ele se dignou dar pela sua presença, o que até aí não tinha feito, através de uma palavra ou sinal que fosse. Talvez nem então o tivesse feito, se não fossem as pancadas impacientes que se ouviram e pareciam indicar que um punho enérgico se manifestava activamente do outro lado da porta.

 

- Valha-nos Deus! - disse ele olhando à volta com uma careta maliciosa. -Já é dia! Abra a porta, doce Mrs. Quilp.

 

A sua obediente esposa correu o ferrolho e a senhora sua mãe entrou.

 

Ora Mrs. Jiniwin entrou na sala com grande impetuosidade. Julgando o genro ainda deitado, vinha dar largas aos seus sentimentos criticando severamente a conduta e o carácter de Quilp. Vendo que ele estava levantado e vestido, e que parecia ter havido gente na sala toda a noite, parou rapidamente um pouco desorientada.

 

Nada escapava à argúcia do olhar do horrendo homenzinho que, percebendo facilmente o que se estava passando na mente da velha senhora, se tornou mais feio ainda na plenitude da sua satisfação, e lhe deu os bons dias com uma careta de triunfo.

 

- O quê, Betsy? - disse a velha senhora.- Tu não ficaste... não me vais dizer que ficaste...

 

- Aqui sentada toda a noite? - disse Quilp respondendo à pergunta. - Ficou, sim.

 

- Toda a noite? - exclamou Mrs. Jiniwin.

 

- Sim, toda a noite, será que a minha querida e velha sogra ficou surda? - disse Quilp com um sorriso sarcástico.

 

- Quem é que disse que o homem e a mulher não são boa companhia? Ha, ha! O tempo voou!

 

- Que selvagem! - exclamou Mrs. Jiniwin.

 

- Ora, ora... - disse Quilp fingindo não ter compreendido que o epíteto lhe era dirigido. - A senhora não   devia chamar-lhe nomes. Ela agora é   uma mulher casada, sabe, e embora me tenha retido aqui, e não   me tenha deixado ir para a cama, a senhora não deve ser tão carinhosa comigo a ponto de se zangar com ela. Deus lhe pague, minha querida e velha sogra. Bebo à sua saúde!

 

- Estou-lhe muito grata! - respondeu a velha senhora, dando a entender através da agitação   das suas mãos que o seu desejo era bater no genro com o seu punho de matrona.

 

- Oh, estou-lhe muito grata!

 

- Que alma tão grata! - exclamou o anão. - Mrs. Quilp.

 

- Sim, Quilp - disse a sua tímida vítima.

 

- Ajude a sua mãe a preparar o pequeno-almoço, Mrs. Quilp. Vou ao cais, esta manhã, e quanto mais cedo, melhor, por isso despache-se.

 

Mrs. Jiniwin fez uma fraca tentativa para se rebelar, sentando-se numa cadeira junto à porta e cruzando os braços como que determinantemente resolvida a não fazer coisa nenhuma, mas algumas palavras que lhe segredou a filha, e a amável pergunta do genro que quis saber se não se sentia bem, e lhe lembrou que no quarto ao lado havia água fria em abundância, rapidamente fizeram desvanecer todos os sintomas, e aplicou-se a preparar o que lhe pediam com carrancuda diligência.

 

Enquanto mãe e filha se ocupavam da sua tarefa, Mr. Quilp passou para a sala contígua e puxando a gola do casaco para trás, começou a esfregar-se com uma toalha húmida de aparência mais que duvidosa, que deu à sua pele um aspecto mais sujo ainda do que dantes. Entretanto, enquanto assim se ocupava, a sua atenção e curiosidade não abrandaram, porque com a sua expressão arguta e malvada de sempre, mesmo durante esta rápida operação, por várias vezes parou e ficou a ouvir a conversa no quarto ao lado, pensando que poderia ser a seu respeito.

 

- Ah! - disse ele após um breve esforço de atenção.

- Não era a toalha nos meus ouvidos, bem me parecia que não era. Eu sou um malvado de um marreco e um monstro? Sou, Mrs, Jiniwin? Oh!

 

O prazer desta descoberta fez reaparecer no seu rosto, com toda a força, o seu velho sorriso canino. Quando se cansou sacudiu-se como um cão e regressou à presença das senhoras.

 

Mr. Quilp avançara para a frente de um espelho e estava agora ali colocando o seu lenço de pescoço, quando Mrs. Jiniwin, que estava atrás dele, não resistiu à tentação de ameaçar com o punho o seu despótico genro. Foi um gesto que durou apenas um instante, mas no momento em que o fazia, acompanhando-o com uma expressão ameaçadora, os seus olhos cruzaram-se no espelho com os de Quilp, que a apanhava em flagrante. O mesmo olhar mostrou-lhe no espelho o reflexo de um rosto distorcido e horrivelmente grotesco com a língua pendente. No instante seguinte, o anão voltou-se com uma expressão perfeitamente serena e plácida, e perguntou num tom extremamente carinhoso:

 

- E como é que se sente agora, a minha querida velhinha?

 

Este incidente tinha sido insignificante e ridículo, mas fazia Quilp surgir aos olhos da velha senhora com um aspecto tão diabólico, e também tão severo e astucioso, que a velha senhora sentiu tanto medo dele que não foi capaz de pronunciar uma única palavra, e deixou-se conduzir com extrema delicadeza até à mesa do pequeno-almoço. Aqui, de forma alguma ele diminuiu a impressão que acabava de causar, porque comeu ovos cozidos com casca e tudo, devorou enormes gambás com cabeça, rabo e tudo, mastigou tabaco e agriões ao mesmo tempo com extraordinária brutalidade, bebeu chá a ferver sem pestanejar, mordeu o garfo e a colher até os dobrar, e cometeu tantos actos horripilantes e fora do comum que as duas mulheres estavam quase loucas de medo e começaram a duvidar se ele seria de facto uma criatura humana. Por fim, dando por terminadas estas coisas e muitas outras que eram seu hábito, Mr. Quilp deixou-as reduzidas a um estado de perfeita submissão e dirigiu-se para a beira do rio onde tomou um pequeno barco para o cais a que havia dado o seu nome.

 

Estava maré alta quando Daniel Quilp se sentou no barco para atravessar para a outra margem do rio. Algumas barcaças avançavam preguiçosamente, umas de lado, outras de frente, outras de popa, todas elas com um ar turbulento, obstinado, teimoso, dando encontrões aos barcos maiores, passando por baixo da proa dos navios a vapor, metendo-se por todos os lados, por todos os buracos onde não tinham de se meter, esmagadas por todos os lados como outras tantas cascas de noz. Cada uma delas, com o seu longo par de remos a debater-se e a bater na água, parecia um grande peixe em desespero. Nalguns dos barcos que estavam ancorados, todos os braços estavam ocupados a enrolar cabos, a estender as velas a secar, a carregar e a descarregar mercadorias. Noutros barcos não se via mais sinal de vida para além de dois ou três rapazes sujos de alcatrão ou um cão a ladrar e a correr de um lado para o outro ou trepando mais acima para ladrar ainda com mais força ao mundo à sua volta. No meio de uma floresta de mastros, um navio a vapor avançava lentamente, batendo na água a intervalos impacientes com as suas pesadas pás como se precisasse de espaço para respirar, avançando com o seu enorme vulto como um monstro marinho entre os cadozes do Tamisa. De um lado e do outro estendiam-se longas filas negras de barcos carvoeiros. Pelo meio deles passavam navios vagarosos que saíam do porto com as velas a brilhar ao Sol e ruídos a bordo que se ouviam em todos os lados. A água e tudo o que estava à sua superfície, tudo se movia activamente, dançando, flutuando, borbulhando, enquanto a velha torre cinzenta e os aglomerados de construções nas margens, com campanários no meio apontados para o céu, pareciam olhar com frieza e desprezo esta vizinhança barulhenta.

 

Daniel Quilp, para quem a única coisa importante numa manhã bonita era que lhe evitava a maçada de levar guarda-chuva, desembarcou perto do cais e dirigiu-se para lá por uma azinhaga que, partilhando da natureza anfíbia dos seus frequentadores, era composta por água e lama, ambas em grandes quantidades. Chegado ao seu destino, a primeira coisa que viu foi um par de pés muito mal calçados, levantados no ar com as solas para cima. Era o rapaz, que era um pouco excêntrico e gostava de dar cambalhotas, quem se encontrava nesta estranha posição, e contemplava o rio desta forma curiosa. Assim que ouviu a voz do patrão pôs-se rapidamente de pé, e assim que a sua cabeça voltou para o seu lugar, Mr. Quilp, para falar com propriedade, e à falta de melhor expressão, «pregou-lhe um tabefe».

 

- Vamos, deixe-me em paz - disse o rapaz defendendo-se de Quilp com as duas mãos alternadamente. - Se não me deixa em paz ainda é   capaz de receber uma coisa de que não vai gostar, sou eu que lhe digo.

 

- Cão ! - rosnou Quilp. - Bato-te com uma trave de ferro! Coço-te com um prego ferrugento! Arranco-te os olhos se dizes mais alguma coisa! Vais ver!

 

Enquanto lhe fazia estas ameaças cerrou o punho de novo, e enfiando-o habilmente no meio dos cotovelos do rapaz, agarroulhe a cabeça enquanto ele se esquivava para um lado e para o outro, e pregou-lhe três ou quatro bons socos. Feito isto, deixou-o.

 

- Você não volta a fazer isso - disse o rapaz sacudindo a cabeça e afastando-se com os cotovelos preparados à espera do pior.

 

- Está quieto, cão! Eu não vou voltar a fazer isto porque já o fiz as vezes todas que queria. Agora, pega lá a chave.

 

- Porque é   que não   vai bater em alguém do seu tamanho? - disse o rapaz aproximando-se muito devagar.

 

- E onde é   que há uma pessoa do meu tamanho, cão?

- respondeu Quilp. - Agarra na chave ou ainda te ponho os miolos de fora - dizendo isto, deu-lhe uma forte pancada com ela. - Agora, abre o escritório.

 

O rapaz obedeceu contrariado, primeiro a resmungar, mas desistindo quando olhou à volta e viu que Quilp o observava atentamente. Aqui queremos observar que entre este rapaz e o anão existia uma espécie de estranha e recíproca amizade. Como havia nascido, e como se desenvolvera, alimentada com pancadas e ameaças de um lado, e do outro com respostas tortas e desafios, não vem agora ao caso. O que é verdade é que o rapaz era a única pessoa que Quilp admitia que o contradissesse, e que o rapaz não admitiria que mais ninguém lhe batesse senão Quilp, uma vez que podia perfeitamente fugir dali para fora quando quisesse.

 

- Agora - disse Mr. Quilp entrando no barracão de madeira - vigia o cais. E volta a pôr-te de pernas para o ar, que eu corto-te um pé.

 

O rapaz não respondeu, mas assim que Quilp fechou a porta voltou a fazer o pino na frente desta, em seguida começou a andar sobre as mãos até às traseiras do barracão, ali ficou de cabeça para baixo, e depois foi até ao lado oposto onde repetiu a sua habilidade. O escritório tinha, é claro, quatro lados, mas ele evitou aquele que tinha a janela, calculando que Quilp poderia estar a observá-lo. Foi uma medida prudente, pois, de facto, conhecendo o temperamento do rapaz, o anão estava à espreita a uma pequena distância da janela, armado com um pedaço de madeira áspera, ponteagudo e cravejado de pregos partidos, que poderia perfeitamente tê-lo ferido.

 

Este escritório era um caixote de madeira pequeno e sujo, mobilado apenas com uma secretária velha e carunchosa, dois bancos, um cabide para chapéus, um velho almanaque, um tinteiro vazio, o coto de uma pena e um relógio com corda para oito dias que não trabalhava pelo menos há dezoito anos e cujo ponteiro dos minutos tinha sido arrancado para servir de palito. Daniel Quilp puxou o chapéu para a testa, trepou para cima da secretária, cujo tampo era liso, e, estendendo o seu pequeno corpo por cima dela adormeceu com uma facilidade que lhe vinha de uma longa prática. Tinha certamente a intenção de se compensar da falta de descanso da noite anterior, fazendo uma longa e profunda soneca.

 

É possível que tenha sido profunda, mas não foi longa, pois não tinha ainda dormido um quarto de hora quando o rapaz abriu a porta e enfiou lá dentro a cabeça, que mais parecia um pedaço de estopa emaranhada. Quilp tinha o sono leve e ergueu-se imediatamente.

 

- Está aqui uma pessoa à sua procura - disse o rapaz.

 

- Quem é ?

 

- Não sei.

 

- Pergunta! - disse Quilp, pegando no pedaço de madeira que já mencionámos e, atirando-lho com tanta pontaria que foi bom o rapaz ter desaparecido antes de o pedaço de madeira chegar ao lugar onde ele tinha estado. - Pergunta, cão!

 

- Pouco interessado em se aventurar de novo ao alcance de semelhantes projécteis, o rapaz mandou discretamente em seu lugar aquela que havia sido a causa da interrupção, e esta apresentava-se agora junto à porta.

 

- O quê, Nelly? - exclamou Quilp.

 

- Sim - disse a criança, sem saber se havia de entrar ou recuar porque o anão, acabado de acordar, com o cabelo todo desgrenhado e um lenço amarelo à volta do pescoço, era uma visão assustadora. - Sou eu, Mr. Quilp.

 

- Entra - disse Quilp sem descer da secretária. - Entra. Espera. Olha para o pátio e diz-me se vês um rapaz a fazer o pino.

 

- Não senhor - respondeu Nell. - Está com os pés no chão.

 

- Tens a certeza? - disse Quilp. - Bom, então entra e fecha a porta. Qual é o recado que me trazes, Nelly?

 

A criança entregou-lhe uma carta. Mr. Quilp, sem mudar de posição a não ser para se virar um pouco mais de lado e pousar o queixo sobre a mão, procedeu à leitura do seu conteúdo.

 

A pequena Nell deixou-se ficar timidamente de pé, com os olhos postos no rosto de Mr. Quilp, enquanto ele lia a carta, com uma expressão que mostrava claramente que, a par do receio e da desconfiança que sentia em relação a ele, sentia também uma grande vontade de rir do seu ar tosco e da sua atitude grotesca. E, no entanto, era visível a ansiedade com que a pequena esperava a resposta, e que estava perfeitamente consciente de que ele poderia torná-la desagradável ou aflitiva, o que contrariava o seu impulso e a obrigava a conter-se muito mais do que se fosse ela própria a fazer um esforço nesse sentido.

 

Era evidente que Mr. Quilp estava perplexo devido ao conteúdo da carta. Mal tinha acabado de ler as duas ou três primeiras linhas, abriu muito os olhos e franziu horrivelmente o sobrolho. Quando leu as duas ou três linhas seguintes coçou a cabeça de uma forma extremamente deselegante, e quando chegou ao fim deu um prolongado assobio de surpresa e assombro. Dobrou a carta, pousou-a e começou a roer as unhas dos seus dez dedos com enorme voracidade. Depois, pegando bruscamente na carta e voltou a lê-la. A segunda leitura pareceu


tão pouco satisfatória como a primeira e fê-lo mergulhar em profunda meditação da qual acordou para de novo começar a roer as unhas, olhando fixamente para a pequena que, de olhos baixos, esperava que ele se decidisse a falar.

 

- Olha lá! - disse ele por fim num tom e com uma brusquidão que a pequena se assustou como se lhe tivessem disparado uma arma junto ao ouvido. - Nelly!

 

- Sim, senhor?

 

- Sabes o que diz esta carta, Nell?

 

- Não, senhor.

 

- Tens a certeza, a certeza absoluta, juras pela tua alma?

 

- Sim, senhor. Tenho a certeza.

 

- Que morras se souberes, heim?

 

- Mas eu não sei - respondeu a pequena.

 

- Está bem - disse Quip percebendo que ela dizia a verdade. - Eu acredito em ti. Hum! Desapareceu. Desapareceu em vinte e quatro horas. Que diabo lhe terá ele feito? Que mistério!

 

Enquanto assim reflectia, coçava a cabeça e ia roendo as unhas. Entretanto as suas feições foram-se descontraindo naquilo que nele era um sorriso de alegria e noutro homem seria um esgar de dor. Quando a criança olhou para cima percebeu que ele a estava olhando com extraordinária benevolência e agrado.

 

- Estás muito bonita hoje, Nelly. Encantadoramente bonita. Sentes-te cansada, Nelly?

 

- Não, senhor. Estou com pressa de voltar para casa, porque ele vai ficar em cuidado enquanto eu não voltar.

 

- Não há pressa, minha pequena Nell. Não há pressa nenhuma - disse Quilp. - Gostavas de ser a minha número dois, Nelly?

 

- Ser o quê?

 

- A minha número dois, Nelly, a minha segunda, a minha Mrs. Quilp - disse o anão.

 

A criança fez um ar assustado, mas pareceu não o compreender. Mr. Quilp, apercebendo-se disso, apressou-se a explicar mais claramente o significado das suas palavras.

 

- Seres a segunda Mrs. Quilp, quando a primeira tiver morrido, minha linda Nell - disse Quilp, franzindo os olhos e chamando-a com o dedo para si. - Seres a minha mulher, a minha mulher de faces rosadas e lábios de cereja. Se Mrs. Quilp viver cinco anos, ou apenas quatro, estarás na idade apropriada para mim. Ha, ha! Sê boa menina, Nelly, muito boa menina, e vais ver, um dia vens a ser Mrs. Quilp de Tower Hill.

 

Longe de se sentir contente e estimulada com esta perspectiva deliciosa, a criança afastou-se dele toda a tremer. Mr. Quilp, talvez porque assustar as pessoas fosse para ele uma sensação deliciosa, ou porque lhe desse prazer imaginar a morte de Mrs. Quilp número um e a elevação de Mrs. Quilp número dois ao lugar e título da primeira, ou porque tivesse decidido, por conveniência pessoal, mostrar-se naquele momento agradável e bem disposto, limitou-se a rir e fingiu não reparar no susto da pequena.

 

- Tu agora vens comigo a Tower Hill. Vais visitar a actual Mrs. Quilp - disse o anão. - Ela gosta muito de ti, Nell, embora não tanto como eu. Vais acompanhar-me a casa.

 

- Eu tenho de me ir embora - disse a criança. - Ele disse-me que voltasse para casa assim que tivesse a resposta.

 

- Mas tu ainda não a tens, Nelly - retorquiu o anão. E não vais tê-la nem podes tê-la enquanto eu não for a casa, por isso estás a ver que para fazeres o teu recado tens de vir comigo. Dá-me dali o meu chapéu, minha querida, e vamos agora mesmo. - Com isto, Mr. Quilp começou a deslizar pela secretária até que as suas pequenas pernas tocaram no chão. Depois pôs-se em pé e seguiu à frente do escritório até ao cais, onde a primeira coisa que se lhes apresentou foi o rapaz que tinha estado a fazer o pino e um outro jovem aproximadamente da sua estatura. Rolavam os dois na lama, fortemente agarrados um ao outro, e batiam-se violentamente.

 

- É o Kit! - exclamou Nelly batendo as mãos. - É o pobre Kit que veio comigo! Oh, por favor faça-os parar, Mr. Quilp.

 

- Eu já os faço parar - gritou Quilp, entrando no pequeno escritório e regressando com um pau. - Eu faço-os parar. Andem, rapazes, continuem a lutar, que eu chego bem para os dois, chego para os dois ao mesmo tempo, para os dois ao mesmo tempo!

 

Com estas ameaças, o anão fez voltear o cacete, pôs-se a dançar à volta dos dois rapazes que lutavam, pisando-os, saltando por cima deles, numa espécie de frenesi, batendo desesperadamente ora num ora noutro, na cabeça, pancadas dignas de um verdadeiro selvagem. Este tratamento, mais violento do que eles esperavam, depressa lhes arrefeceu os ânimos, até que se levantaram e pediram tréguas.

 

- Hei-de fazer-vos em picado, cães! - disse Quilp tentando em vão aproximar-se de um e de outro para lhes aplicar uma última paulada. - Hei-de bater-vos até ficarem vermelhos! Até vos partir a cara! Vocês vão ver!

 

- Vamos! Largue esse pau, ou vai ser pior para si! - disse o rapaz dele a saltar à volta, à espera de uma oportunidade de se atirar a ele. - Largue esse pau!

 

- Chega-te cá, que eu largo-o mas é na tua cabeça, cão! disse Quilp com os olhos a cintilarem. - Chega-te mais perto... mais perto...

 

Mas o rapaz declinou o convite até que o patrão pareceu distrair-se por um momento. Então precipitou-se sobre ele e, agarrando na arma, tentou arrancar-lha das mãos. Quilp, que , era forte como um leão, continuou a segurá-la sem dificuldade até ver que o rapaz a agarrava com todas as forças e então largou-a de repente, fazendo com que o rapaz caísse para trás, batendo com a cabeça com toda a força. O sucesso desta manobra divertiu Mr. Quilp até mais não poder ser. Pôs-se a rir e a bater com os pés no chão como se se tratasse de uma graça irresistível.

 

- Não faz mal - disse o rapaz sacudindo a cabeça e esfregando-a ao mesmo tempo. - Você vai ver se eu torno a oferecer pancada a alguém por dizerem que você é mais feio que um anão de circo, pronto!

 

- Quer dizer que não sou, cão? - retorquiu Quilp.

 

- Não! - respondeu o rapaz.

 

- Então porque é que andas à pancada no meu cais, parvalhão? - disse Quilp.

 

- Por ele o ter dito - respondeu o rapaz, apontando para Kit. - Não porque você não o seja.

 

- E porque é que ele disse que Miss Nelly era feia... - gritou Kit. - E que ela e o meu patrão tinham de fazer tudo o que o patrão dele quisesse? Porque é que ele disse isso?

 

- Ele disse isso porque é um palerma e tu disseste o que disseste porque és sensato e esperto, quase esperto demais para viveres, se não tomares muito cuidado contigo, Kit - disse Quilp com muito bons modos mas também com muita malícia nos olhos e na boca. Toma lá seis pences para ti, Kit. E diz sempre a verdade. Seja em que circunstâncias for, Kit, diz sempre a verdade. E tu, cão, fecha o escritório e traz-me a chave.

 

O outro rapaz, a quem esta ordem era dirigida, fez o que lhe mandavam, e foi recompensado pela sua lealdade ao seu senhor com uma pancada certeira no nariz que lhe fez vir as lágrimas aos olhos. Mr. Quilp partiu então com a criança e com Kit num barco, e o rapaz vingou-se fazendo pinos na outra margem durante o tempo que durou a travessia.

 

Em casa só estava Mrs. Quilp, e esta, que não esperava que o seu senhor regressasse tão cedo, preparava-se para uma agradável sesta, quando foi sobressaltada pelo som dos passos dele. Mal teve tempo de se fingir ocupada na sua costura, quando ele entrou acompanhado pela criança, tendo deixado Kit no andar de baixo.

 

- Aqui tem a Nelly Trent, querida Mrs.


Quilp - disse-lhe o marido. - Dê-lhe um copo de vinho, minha querida, e biscoitos, porque ela fez uma longa caminhada. Ela vai ficar aqui sentada ao pé de si, meu coração, enquanto eu escrevo uma carta.

 

Mrs. Quilp olhou a tremer para o rosto do marido, tentando perceber a razão desta delicadeza pouco habitual, e, obedecendo aos sinais que ele lhe fazia, seguiu-o até à sala contígua.

 

- Escute o que lhe vou dizer - sussurrou Quilp. - Veja se consegue que ela lhe conte alguma coisa sobre o avô, ou sobre o que fazem, a vida que levam, as coisas que ele lhe diz. Eu cá tenho as minhas razões para querer saber o que puder. Vocês mulheres falam mais abertamente umas com as outras do que falam connosco, e com a sua suavidade vai ser fácil conquistá-la. Ouviu bem?

 

- Sim, Quilp.

 

- Então vá. O que foi agora?

 

- Querido Quilp - balbuciou a mulher. - Eu gosto desta criança. Se não tivesse de a enganar...

 

O anão murmurou uma terrível praga e olhou em volta como se estivesse à procura de uma arma com a qual pudesse ministrar um castigo condigno à sua desobediente mulher. A submissa mulherzinha apressou-se a suplicar-lhe que não se zangasse e prometeu que faria tudo como ele tinha mandado.

 

- Está a ouvir-me? - segredou Quilp beliscando-lhe o braço. - Descubra todos os segredos dela. Eu sei que é capaz de o fazer. Vou ficar aqui escondido, a ouvir. Se não for bastante esperta eu faço ranger a porta deste lado, e mal si se tiver de a fazer ranger muito. Vá!

 

Mrs. Quilp obedeceu. O seu amável marido, escondendo-se atrás da porta semiaberta, encostou o ouvido e pôs-se à escuta com uma expressão atenta e velhaca.

 

A pobre Mrs. Quilp estava a pensar na forma como havia de começar, e nas perguntas que havia de fazer, e foi só quando a porta, rangendo com impaciência, lhe ordenou que começasse o seu inquérito sem mais delongas, que o som da sua voz se fez ouvir.

 

- Já são umas poucas de vezes que andas para cá e para lá para falar a Mr. Quilp, minha querida.

 

- Eu também já disse a mesma coisa ao meu avô, mais de cem vezes - respondeu Nelly inocentemente.

 

- E o que é que ele te responde?

 

- Suspira, e baixa a cabeça, e fica tão triste que se a senhora o visse com certeza que tinha vontade de chorar, sem se poder conter, como eu. Como aquela porta range!

 

- Range muitas vezes - disse Mrs. Quilp, deitando um olhar inquieto na direcção da porta - Mas o teu avô... antigamente não costumava andar assim tão triste.

 

- Pois não! - disse a pequena com veemência. - Era tão diferente! Antigamente éramos tão felizes, e ele estava sempre tão alegre e satisfeito! Não pode imaginar a triste mudança que desde então caiu sobre nós.

 

- Tenho muita pena, muita pena de te ouvir dizer isso, minha querida! - disse Mrs. Quilp. E dizia a verdade.

 

- Obrigada - respondeu a criança, beijando-a no rosto. - A senhora é sempre muito boa para mim e é tão bom falar consigo. A única pessoa com quem posso falar sobre ele é com o pobre Kit. Mas eu sinto-me muito feliz. Talvez devesse sentir-me mais feliz ainda do que sinto, mas a senhora não pode imaginar a forma como me entristece vê-lo naquele estado.

 

- Ele há-de mudar outra vez, Nelly - disse Mrs. Quilp.

 

- E há-de voltar a ser como era dantes.

 

- Oh! Se Deus permitisse que isso acontecesse! - disse a criança com lágrimas nos olhos. - Mas agora já lá vai tanto tempo desde que ele começou a... parece-me que vi aquela porta mexer!

 

- É o vento - disse Mrs. Quilp em voz fraca. - Começou a fazer o quê?

 

- A andar tão pensativo e tão triste, e a esquecer-se da forma como passávamos o tempo, antigamente, ao serão. Quando ficávamos a conversar, e ele me contava coisas sobre a minha mãe, e como ela tinha sido parecida comigo, e como até falava como eu, quando era criança. Então costumava pegar-me ao colo e explicava-me que ela não estava deitada no seu túmulo, que tinha voado para um lugar muito bonito do outro lado do céu, onde as pessoas não morriam, nem envelheciam. Antigamente éramos tão felizes!

 

- Nelly, Nelly! - disse a pobre mulher. - Eu não posso ver uma menina da tua idade assim tão triste. Por favor não chores.

 

- Eu choro poucas vezes - disse Nelly. - Mas há muito tempo já que guardo estas coisas dentro de mim e agora acho que não devo andar muito bem, porque me vêm as lágrimas aos olhos e não consigo retê-las. Não me importo de lhe falar dos meus desgostos, porque sei que não vai contar a ninguém.

 

Mrs. Quilp voltou a cabeça e não respondeu.

 

- Antigamente... - disse a criança - íamos muitas vezes passear para o campo, por entre as árvores verdes, e à noite, quando voltávamos para casa, estávamos tão cansados que ainda gostávamos mais da nossa casa, e sentíamo-nos felizes. E se ela era escura e triste, isso não nos ralava, porque nos fazia recordar com mais prazer o passeio que tínhamos acabado de dar, e esperar pelo próximo com mais vontade. Mas agora já não damos esses passeios e, embora a nossa casa seja a mesma, é muito mais escura e mais triste do que dantes.

 

Aqui fez uma pausa, e embora a porta rangesse mais de uma vez, Mrs. Quilp não disse nada.

 

- Mas a senhora não pense - disse a criança gravemente

- que o meu avô já não é tão bom para mim como era dantes. Acho que ele cada dia gosta mais de mim, e cada dia é mais bondoso e mais afectuoso do que no anterior. A senhora não imagina como ele é meu amigo.

 

- Eu imagino que ele goste muito de ti - disse Mrs. Quilp.

 

- Gosta, sim, gosta - exclamou Nelly. - Tanto como eu gosto dele. Mas ainda não lhe contei a maior mudança que aconteceu com ele, mas isto é uma coisa que a senhora não pode contar a ninguém. Ele nunca descansa nem dorme, a não ser durante o dia, no seu cadeirão, porque sai todas as noites e fica toda a noite fora de casa.

 

- Nelly!

 

- Chiu! - disse a pequena colocando um dedo na frente dos lábios e olhando à volta. - Quando ele volta para casa de manhã, antes de nascer o dia, sou eu que lhe abro a porta. Ontem à noite veio muito tarde, já era dia claro. Eu vi que a cara dele estava pálida como a de um morto, que os olhos dele estavam injectados de sangue e que as pernas lhe tremiam enquanto andava. Voltei para a cama, e então ouvi-o gemer. Levantei-me, corri para ele, e ouvi-o dizer, antes de perceber que eu estava ali, que não podia suportar muito mais tempo a vida que levava, e que se não fosse pela criança, o seu desejo seria morrer. O que é que eu hei-de fazer? Oh! O que é que eu hei-de fazer?

 

Nell tinha aberto o seu coração. Sobrecarregada pelo peso das suas tristezas e angústias, emocionada pela primeira confidência que fizera na vida e pela piedade com que a sua história tinha sido escutada, escondeu o rosto nos braços da sua pobre amiga e rebentou num choro convulsivo.

 

Daí a momentos entrou Mr. Quilp e ao vê-la naquele estado exprimiu uma grande surpresa. Fê-lo com muita naturalidade, conseguindo um bom efeito, pois estava habituado a este tipo de representações. Tinha muita prática e desempenhava-as muito à vontade.

 

- Está a ver, Mrs. Quilp, ela está cansada - disse o anão, entortando horrivelmente os olhos para indicar à mulher que entrasse na conversa. Foi uma longa caminhada de casa dela até ao cais, e depois assustou-se de ver aqueles dois malandros à pancada e também estava com medo da água. Foi muita coisa para ela. Pobre Nell!

 

Mr. Quilp, sem querer, adoptou aquilo que lhe pareceu a melhor atitude para ajudar a sua jovem visita a recompor-se, e fez-lhe uma festa na cabeça. Este gesto, vindo de uma outra mão, poderia não ter tido um efeito tão forte mas a criança recuou tão bruscamente daquele afago e sentiu um desejo instintivo e tão forte de sair do seu alcance, que imediatamente se levantou e disse que estava pronta para voltar para casa.

 

- Mas era melhor ficares mais um bocadinho, jantavas aqui com Mrs. Quilp e comigo - disse o anão.

 

- Já estive fora de casa tempo demais - disse Nelly, enxugando os olhos.

 

- Está bem - disse Mr. Quilp. - Se te queres ir embora, vai. Aqui tens a carta. Basta dizeres-lhe que irei vê-lo amanhã ou talvez depois, e que esta manhã não pude tratar do negociozinho dele. Adeus, Nelly. Olha lá, oh rapaz, toma conta dela, ouviste?

 

Kit, que surgiu ao ouvir estas palavras, não se dignou responder a uma recomendação tão inútil. Ficou a olhar para Quilp com ar ameaçador, como que desconfiado de que tivesse sido ele o causador das lágrimas de Nelly, e estivesse quase disposto a fazê-lo pagar por isso, apesar de não ter a certeza, deu meia volta e seguiu Nelly, que já se tinha despedido de Mrs. Quilp e se tinha posto ao caminho.

 

- Que geito que a senhora tem para fazer perguntas, não tem, Mrs. Quilp? - disse o anão voltando-se para ela assim que ficaram os dois sozinhos.

 

- Que mais podia eu fazer? - replicou a mulher humildemente.

 

- Que mais podia fazer! - disse Quilp com um sorriso sarcástico. - Não podia ter feito um pouco menos? Não podia ter feito o que tinha para fazer, sem fazer aquela fita toda, sua parva?

 

- Eu tenho muita pena daquela criança, Quilp - disse a mulher. - Parece-me que fiz o bastante. Convenci-a a contar-me o seu segredo quando ela supunha que estávamos sós, e eu a saber que você estava à escuta o tempo todo, Deus me perdoe.

 

- Convenceu-a! Grande coisa, realmente! - disse Quilp.

- O que foi que eu lhe disse sobre a porta a ranger? A sua sorte foi que, daquilo que ela disse, eu apanhei a pista que queria, porque se não tivesse apanhado, teria sido a senhora a pagar por isso, garanto-lhe eu.

 

Mrs. Quilp, certa da verdade destas palavras, não respondeu. O marido acrescentou satisfeito:

 

- Mas pode agradecer à sua estrela protectora, a mesma estrela que fez de si Mrs. Quilp, pode agradecer-lhe que eu estou atrás do velho e tenho uma ideia nova. Por isso não quero voltar a ouvir falar mais disto, nem agora nem noutra altura, e não faça nada de muito bom para o jantar, porque eu não estarei cá para o comer.

 

Dizendo isto, Mrs. Quilp pôs o chapéu na cabeça e saiu imediatamente, e Mrs. Quilp, que estava extremamente angustiada com o papel a que acabara de se prestar, fechou-se no quarto e, escondendo a cabeça debaixo da roupa, arrependeu-se do seu acto mais amargamente do que muitas pessoas de coração menos bondoso se teriam arrependido de uma falta muito mais grave, pois na maioria dos casos, a consciência é uma coisa muito flexível e elástica, que pode ser muito esticada e adaptar-se a um grande número de circunstâncias. Há mesmo algumas pessoas que, através de gestos calculados, se vão desfazendo dela, pedaço a pedaço, como de um colete de flanela em tempo quente. Mas outras pessoas há que conseguem ir vestindo e despindo o colete conforme lhes apetece, e sendo este método o melhor e o mais conveniente, é também o que está mais na moda.

 

- Fred! - disse Mr. Swiveller. - Vê lá se te lembras daquela cantiga que antigamente toda a gente cantava, «Vai-te embora, triste inquietação». Ateia a chama moribunda da hilariedade com a asa da amizade, e passa para cá o vinho rosado.

 

O apartamento de Mr. Richard Swiveller era nas proximidades de Drury Lane e, para além de estar num lugar tão conveniente, tinha ainda a vantagem de se situar por cima de uma tabacaria, de forma que ele podia a qualquer momento tomar uma pitada consoladora, bastando-lhe para isso descer rapidamente alguns degraus, para além de lhe poupar o trabalho e a despesa de manter uma caixa de rapé. Era neste apartamento que Mr. Swiveller se exprimia, como já dissemos, tentando consolar e encorajar o seu desalentado amigo, e não deixa de ser interessante e apropriado observar que até estas poucas palavras estavam imbuídas do duplo sentido e do temperamento figurativo e poético de Mr. Swiveller, uma vez que o vinho rosado era afinal um copo de gim com água, que à medida que iam bebendo iam enchendo de uma garrafa e de um jarro pousados em cima da mesa. Dada uma falta de copos que podemos mencionar sem corar, uma vez que Mr. Swiveller morava num apartamento de solteiro, iam passando o copo um ao outro. Imaginativa e agradavelmente, também o seu apartamento era sempre designado no plural. Quando estivera vago, o dono da tabacaria tinha colocado um anúncio na sua montra dizendo -aposentos para cavalheiro solteiro-, e Mr. Swiveller adoptara a expressão, referia-se-lhe sempre como os seus aposentos, as suas instalações, as suas salas, dando àqueles que o escutavam uma sensação indefinida de espaço, e permitindo assim que a sua imaginação percorresse longas filas de nobres salões.

 

Mr. Swiveller era ajudado nesse voo de imaginação por um estranho móvel que, sendo na realidade uma cama, mais parecia uma estante de livros, ocupava no seu quarto um lugar de destaque e parecia convidar à suspeita e provocar as perguntas. Era evidente que durante o dia acreditava firmemente que este secreto móvel era uma estante e nada mais, que fechava os olhos à cama, resolutamente negava a existência dos cobertores e afastava o travesseiro dos seus pensamentos. Nunca uma palavra sobre a sua real utilidade, uma insinuação sobre os seus serviços nocturnos ou uma alusão às suas características particulares tinha alguma vez perpassado entre ele e os seus amigos mais íntimos. Uma fé implícita neste disfarce era o primeiro artigo do seu credo. Para ser amigo de Swiveller era preciso rejeitar todas as evidências circunstanciais, toda a razão, toda a observação, toda a experiência, e depositar uma crença cega naquela estante. Era a sua fraqueza e ele acalentava-a.

 

- Fred! - disse Mr. Swiveller achando que o comentário que tinha feito não tinha produzido efeito. - Passa-me o «rosado».

 

O jovem Trent empurrou o copo para ele com um gesto impaciente e retomou o ar aborrecido de que havia sido despertado contra vontade.

 

- Vou dar-te, Fred, - disse o amigo mexendo a bebida

- uma ideiazinha apropriada à ocasião. Estamos em Maio, o...

 

- Bah! - interrompeu o outro. - Aborreces-me de morte com a tua conversa. Consegues estar alegre em quaisquer circunstâncias!

 

- Fique sabendo, Mr. Trent - retorquiu Dick. - Há um provérbio que nos aconselha a sermos alegres e sensatos. Há pessoas que são alegres sem serem sensatas, e outras que são sensatas, ou pensam que o são, mas não são alegres. Eu por mim pertenço ao primeiro grupo. Se o provérbio diz a verdade, acho que conseguir metade é melhor que nada. Acho que é melhor ser alegre e não ser sensato, do que ser como tu, que não és nem uma coisa nem outra.

 

- Ora! - resmungou o outro mal humorado.

 

- Sinceramente! - disse Mr. Swiveller. - Entre as pessoas bem educadas, não me parece que isso seja coisa que se diga a um cavalheiro em sua própria casa, mas não faz mal. Está à tua vontade - acrescentando a esta observação que o seu amigo parecia estar de muito mau humor, Richard Swiveller acabou o «rosado», começou a preparar uma nova mistura, provou-a com grande satisfação e propôs um brinde a alguns imaginários companheiros.

 

- Cavalheiros, vamos beber ao sucesso da antiga família dos Swiveller e de Mr.


Richard em particular. A Mr. Richard, cavalheiros - disse Dick entusiasticamente - que gasta todo o seu dinheiro com os seus amigos, que lhe agradecem dizendo-lhe «Bah!». Apoiado, apoiado!

 

- Dick! - disse o outro, sentando-se depois de dar duas ou três voltas pelo quarto. - Podemos conversar seriamente dois minutos? Sei de uma forma de fazeres fortuna sem te incomodares muito.

 

- Já me disseste isso tantas vezes... - respondeu Dick - e de todas elas o resultado foi o mesmo, nem um centavo na algibeira!

 

- Desta vez não tarda que fales doutra maneira - disse o amigo puxando a cadeira para a mesa. - Tu viste a minha irmã Nell?

 

- O que é que tem? - perguntou Dick.

 

- É bonitinha, não é?

 

- Sim, claro - replicou Dick, - devo dizer que não é muito parecida contigo.

 

- Sim, mas é uma cara bonita? - repetiu o amigo com impaciência.

 

- Sim - disse Dick. - É uma cara bonita, muito bonita, e então?

 

-Já te explico - respondeu o amigo. - Parece claro que o velho e eu vamos andar às turras até ao fim da vida, e que não tenho nada a esperar dele. Isto é claro, não é?

 

- Até um morcego via isso, à luz do dia - disse Dick.

 

- Também é claro que o dinheiro do velho sovina, diabos o levem, que eu dantes pensava que quando ele morresse viria a ser repartido entre a minha irmã e eu, afinal vai ser todo para ela, não é verdade?

 

- Acho que sim - respondeu Dick. - A menos que ele tenha ficado impressionado com aquilo que eu lhe disse. Pode ter acontecido. Fui convincente, Fred. «Ora aqui está um bom avô». Achei que era um argumento de peso, muito amigável e natural. Não ficaste impressionado?

 

- Ele é que não ficou - respondeu o outro. - Por isso não vale a pena falarmos mais nisso. Mas agora ouve lá isto: A Nell tem quase catorze anos.

 

- Bela rapariga para a idade, embora miúda - observou Richard Swiveller, abrindo um parêntesis.

 

- Se queres que eu continue, cala-te por um minuto

- disse Trent, irritado com o pouco interesse do amigo pela conversa. - Vamos ao que interessa.

 

- Está bem - disse Dick.

 

- A rapariga é muito meiga, e com a idade que tem, e da maneira como foi educada, pode facilmente ser influenciada e persuadida. Se eu me ocupar dela, não vai ser preciso pressioná-la muito nem ameaçá-la, para a dobrar à minha vontade. Para não andar mais à volta da questão, pois as vantagens deste plano levariam uma semana a enumerar, o que é que te impede de casares com ela?

 

Richard Swiveller, que tinha estado a olhar por cima da borda do copo enquanto o seu amigo lhe dizia estas coisas com grande energia e parecendo muito convencido, quando ouviu estas palavras fez um ar de grande consternação e foi com dificuldade que pronunciou um monossílabo:

 

- Hein?

 

- Digo que não há nada que te impeça - repetiu o outro com uma firmeza à qual sabia por experiência que o seu amigo não podia ficar insensível. - Nada que te impeça de casares com ela.

 

- E ela tem «quase catorze anos»!

 

- Eu não estou a dizer para te casares com ela agora

 

- retorquiu, zangado, o irmão da pequena. - Daqui a dois anos, ou três ou quatro. Achas que o velho ainda vai viver muito tempo?

 

- Não tem cara disso - disse Dick abanando a cabeça, - mas estes velhos, é melhor a gente não se fiar, Fred. Tenho uma tia lá para os lados do Devonshire que está para morrer desde que eu tinha oito anos, e não há meio de se resolver. São tão irritantes, têm tanta falta de princípios, são tão rancorosos, que a menos que na tua família sofram de apoplexias, é melhor não contar com eles, e mesmo assim enganam-nos muitas vezes.

 

- Então, vê a questão pelo seu lado pior - disse Trent com a mesma firmeza de há pouco, e sem desviar os olhos do amigo. Supõe que ele não morre.

 

- Claro! - disse Dick. - Esse é que é o problema.

 

- Pronto - tornou o amigo. - Vamos supor que ele não morria, e que eu conseguia persuadir, ou para tu perceberes bem o que quero dizer, eu conseguia obrigar Nell a casar-se contigo em segredo. O que é que achas que acontecia?

 

- Uma família, e nenhum rendimento para a sustentar disse Richard Swiveller após um momento de reflexão.

 

- Podes ter a certeza - disse o outro com uma expressão ainda mais sincera que, fosse verdadeira ou fingida, impressionava o amigo do mesmo modo. - Ele vive para ela, todas as suas energias e pensamentos são dirigidos para ela, e nunca seria capaz de a deserdar por um acto de desobediência, como nunca mais me vai tornar a ver com bons olhos, por muitos actos de obediência e de virtude que eu venha a praticar. Não é capaz. Tu ou qualquer outro homem com olhos na cara. Qualquer um consegue ver isso, se quiser.

 

- Sim, parece de facto pouco provável - disse Dick com ar pensativo.

 

- Parece improvável, porque é improvável - respondeu o amigo. - E se queres dar ao velho mais um motivo para te aceitar, vamos arranjar uma querela irreconciliável, uma zanga de morte entre ti e mim. Vamos fingir, quero eu dizer, e vais ver como ele vai gostar de ti. Quanto a Nell, «água mole em pedra dura, tanto dá até que fura». No que lhe diz respeito a ela, sabes que podes contar comigo. Por isso, que ele viva ou que morra, o que é que acontece? Acontece que passas a ser o único herdeiro da fortuna do velho ricaço, fortuna que tu e eu gastaremos juntos, e acontece que arranjaste uma mulher jovem e bonita.

 

- Mas tu não tens dúvidas de que ele é mesmo rico - perguntou Dick.

 

- Dúvidas? Não ouviste o que ele disse noutro dia quando lá estivemos? Dúvidas! Depois disto, de que vais tu duvidar, Dick?

 

Seria maçador seguirmos o resto da conversa através do seu astucioso desenrolar, ou desenvolver a forma como gradualmente Richard Swiveller se deixou conquistar. Basta-nos saber que a vaidade, o interesse, a pobreza e as considerações tecidas pelo gastador o levaram a olhar favoravelmente a ideia, e que, ainda que outros motivos não existissem, a natural negligência do seu temperamento o levava a ver as coisas pelo lado mais fácil. A estas razões acrescentamos ainda a ascendência que o amigo há muito estava habituado a exercer sobre ele, uma ascendência exercida inicialmente com base na bolsa e na situação do pobre Dick, e que se mantinha inalterável apesar de Dick sofrer as consequências dos vícios do amigo, e ser geralmente olhado como o seu tentador, quando era o seu joguete inconsciente e despreocupado.

 

Os motivos do outro lado eram entretanto mais profundos do que Richard Swiveller podia pensar ou compreender, mas como iremos desenvolvê-los mais adiante, não parece necessário que deles nos ocupemos neste momento. O negócio foi fechado de forma muito agradável, acabando Mr. Swiveller por declarar em termos floridos que não tinha nenhuma objecção inultrapassável a casar com alguém tão profusamente rodeada de dinheiro e bens, e que se deixasse convencer a aceitá-lo, quando o seu discurso foi interrompido por uma pancada na porta e a consequente necessidade de gritar:

 

- Entre!

 

A porta abriu-se, mas a única coisa que entrou foi um braço ensaboado e uma forte baforada a tabaco. O cheiro a tabaco provinha da loja no piso de baixo, e o braço ensaboado provinha do corpo de uma criada a quem por vezes mandavam lavar a escada. Tinha acabado de o retirar de dentro de um balde de água quente para entregar uma carta, carta que segurava na mão, apregoando em voz alta, com aquela rápida percepção para nomes que encontramos facilmente nas pessoas da sua classe, que era para Mr. Swiveller.

 

Dick empalideceu


e ficou com um ar apalermado quando olhou para a direcção, e mais ainda quando leu o conteúdo, observando que este era um dos inconvenientes de ser um galã, e que era muito fácil falar, como eles tinham estado a falar, mas que se tinha esquecido dela por completo.

 

- Ela, quem? - inquiriu Trent.

 

- Sophy Wackles - disse Dick.

 

- Quem é ela?

 

- É tudo o que a minha imaginação consegue pintar, cavalheiro, eis o que ela é - disse Mr. Swiveller, fazendo um gesto largo, puxando para si o «rosado», e olhando muito sério para o amigo. É linda, é divina! Tu conhece-la.

 

- Sim, já me lembro - disse o amigo despreocupado. - E então?

 

- Então, cavalheiro - respondeu Dick. - Entre Sophy Wackles e o humilde indivíduo que tem neste momento a honra de estar a falar consigo, brotaram doces e ternos sentimentos, sentimentos dos mais honrosos e inspiradores. A deusa Diana, cavalheiro, que chama para a caça com a sua trombeta, não é mais recatada no seu comportamento do que Sophy Wackles, posso garantir-lhe.

 

- Devo acreditar que há alguma verdade naquilo que me estás a dizer? - perguntou o amigo. - Quer dizer que têm andado a namorar?

 

- Sim, mas nunca lhe fiz promessas - disse Dick. - Ela não pode processar-me por ter faltado à minha palavra, o que é uma consolação. Nunca me comprometi por escrito, Fred.

 

- E não me queres dizer o que vem escrito nessa carta?

 

- É para eu não me esquecer, Fred. Logo à noite, uma pequena reunião de vinte pessoas, somando ao todo duzentos lindos e fantásticos dedinhos de pé, supondo que todas as senhoras e cavalheiros tenham o que lhes é devido. Tenho de me ir embora, já que é para começar o rompimento... Eu trato disso, não te preocupes. Gostava de saber se foi ela em pessoa que deixou ficar a carta. Se foi, sem suspeitar da nuvem que paira sobre a sua felicidade, é enternecedor, Fred.

 

Para deslindar esta questão. Mr. Swiveller chamou a criada e soube que de facto Miss Sophy Wackles tinha vindo em pessoa deixar a carta, que viera acompanhada, sem dúvida por uma questão de decoro, pela sua irmã mais nova, e que tendo sido informada de que Mr. Swiveller estava em casa, e tendo sido convidada a subir a escada, tinha ficado extremamente chocada, e tinha dito que preferia morrer. Mr. Swiveller ouviu este relato com uma admiração nem por isso muito coerente com o projecto com que acabava de concordar, mas o seu amigo deu muito pouca importância ao seu comportamento a esse respeito, provavelmente por saber que tinha influência suficiente sobre Richard Swiveller para controlar o seu procedimento neste assunto ou noutro qualquer, sempre que, a bem dos seus interesses, lhe parecesse necessário exercê-la.

 

Resolvido este assunto, uma voz interior lembrou a Mr. Swiveller que se aproximava a hora de jantar, e para que a sua saúde não fosse prejudicada por uma abstinência mais longa, enviou um mensageiro ao restaurante mais próximo pedindo o imediato fornecimento de carne cozida e legumes para dois. O restaurante, no entanto, conhecendo o seu cliente, recusou-se a fornecer a encomenda, mandando dizer com rudeza que se Mr. Swiveller queria carne cozida teria de lá ir comê-la, trazendo consigo, como accção de graças, a quantia referente a uma contazinha que há muito aguardava pagamento. Nada intimidado por esta recusa, que não fez senão aguçar-lhe o apetite e a esperteza, Mr. Swiveller enviou a mesma mensagem a outro restaurante mais distante, acrescentando ao seu pedido que se via obrigado a mandar buscar tão longe o seu jantar, não só devido à muita fama e popularidade de que gozava a sua carne, mas porque a carne do outro restaurante onde se tinham recusado a servi-lo era muito dura, imprópria não só para o consumo de pessoas de classe, mas de qualquer ser humano. O efeito que estas palavras produziram ficou demonstrado pela rápida chegada de uma pequena pirâmide de loiça curiosamente constituída por pratos cobertos, e tendo na base as travessas com a carne cozida e no topo uma caneca de cerveja espumosa. Mr. Swiveller e o amigo desmancharam esta complicada pirâmide composta por tudo o necessário a uma boa refeição, e entregaram-se-lhe em seguida com grande entusiasmo e satisfação.

 

- Que o momento presente - disse Dick espetando com o seu garfo uma grande batata de casca avermelhada. - Seja o pior das nossas vidas! Gosto desta ideia de servirem as batatas com casca. Há um certo encanto no gesto de extrair a batata do seu elemento natural, se assim me posso expressar, que os ricos e poderosos desconhecem. «Ah, o homem de pouco precisa neste mundo, e esse pouco durante pouco tempo.» Como isso é verdade, depois de jantar!

 

- Eu espero que o dono do restaurante precise de pouco dinheiro, e que não to peça daqui a pouco tempo, porque me parece que não tens com que pagar esta despesa! - respondeu o seu companheiro.

 

- Eu depois passo por lá a pagar - disse Dick com uma piscadela de olho significativa. - O criado agora já não pode fazer nada. A comida já aqui não está, e pronto.

 

O criado pareceu de facto compreender este argumento indiscutível, porque quando regressou a buscar os pratos e travessas e Mr. Swiveller lhe disse com digno desprendimento que mais tarde passaria por lá a pagar, pareceu um tanto perturbado e murmurou algumas palavras como «pagamento no acto da entrega», «não há fiados» e outras expressões desagradáveis, mas acabou por se contentar em perguntar a que horas é que o cavalheiro pensava passar por lá, uma vez que, sendo pessoalmente responsável pela carne cozida, pelos legumes e pelas outras coisas, gostaria de estar presente nessa altura. Mr. Swiveller fez um cálculo às suas actividades desse dia e respondeu que estaria lá entre as seis menos dois minutos e as seis e sete minutos. Quando o homem desapareceu com esta fraca consolação, Richard Swiveller retirou do bolso uma agenda engordurada e tomou um apontamento.

 

- Isso é para te refrescar a memória, para o caso de te esqueceres de lá passar? - perguntou Trent com um sorriso irónico.

 

- Não exactamente, Fred - respondeu o imperturbável Richard continuando a escrever com um ar muito sério. - Eu aponto neste livrinho os nomes das ruas onde não posso passar enquanto que as lojas estão abertas. Este jantar fechou-ne Long Acre. Comprei um par de botas em Great Queen Street na semana passada, pelo que também não posso passar por lá. Já só tenho uma avenida por onde posso ir para o Strand, e penso ir lá hoje comprar um par de luvas. As ruas estão-se-me a fechar tão depressa em todas as direcções que dentro de um mês, se a minha tia não me manda algum dinheiro, vou ter de caminhar uns poucos de quilómetros por fora da cidade para sair do bairro.

 

- E não há perigo de ela te falhar? - perguntou Trent.

 

- Espero bem que não - disse Mr. Swiveller. - Mas em média são precisas seis cartas para a enternecer, e desta vez já lhe escrevi oito, e ainda não fizeram efeito. Amanhã de manhã escrevo-lhe outra vez. Vou esborratá-la bastante e salpicá-la de água com o pimenteiro, para lhe dar um ar arrependido. «Estou num estado de espírito tal que já nem sei o que escrevo.» - borrão - «Se a tia me pudesse ver neste momento, derramando lágrimas de arrependimento pela forma errada como me conduzi no passado!» - pimenteiro - «As minhas mãos tremem quando penso...» - outro borrão - se com isto não conseguir nada, está tudo acabado.

 

Neste momento Mr. Swiveller já tinha acabado de tomar o seu apontamento, guardou o lápis no seu pequeno estojo e fechou o livro num estado de espírito profundamente grave e sério. O amigo entendeu então que era tempo de cumprir outras obrigações, e assim Richard Swiveller ficou sozinho na companhia do «rosado» e dos seus pensamentos sobre Miss Sophy Wackles.

 

- É muito inesperado - disse Dick sacudindo a cabeça com um ar de infinita sabedoria e falando, como costumava fazer, em verso que mais parecia prosa feita à pressa. Quando o coração do homem de tristeza estremece, o nevoeiro vai-se, Miss Wackles aparece. É uma boa rapariga. Parece uma rosa vermelha, vermelha e fresca, a florescer em Junho. Ninguém o pode negar. E também é como uma melodia tocada docemente. De facto, tudo isto é muito inesperado. E não há necessidade, por causa da irmãzinha de Fred, de perder o entusiasmo, mas é melhor não avançar depressa demais. E se pretendo refrear um pouco as coisas com Miss Wackles, mais vale começar já. Posso ter um processo por faltar à minha palavra, e isso é uma boa razão. Sofia pode arranjar outro marido, e isso e outra. Há também a possibilidade... não, não há, mas é sempre melhor jogar pelo seguro.

 

Esta possibilidade que se recusava a admitir até para si próprio, era a de ele, Richard Swiveller, não conseguir resistir aos encantos de Miss Wackles e, num momento de fraqueza, para sempre ligar o seu destino ao dela, perdendo a possibilidade de levar a cabo o plano com o qual tão prontamente tinha concordado. Por todos estes motivos, decidiu arranjar sem perda de tempo uma desavença com Miss Wackles e, procurando um pretexto, decidiu-se por ciúmes injustificados. Tendo-se decidido neste ponto tão importante, fez girar o copo da mão esquerda para a direita, e depois no sentido contrário, preparando-se para ir desempenhar o seu papel da melhor maneira, e a seguir, depois de fazer alguns melhoramentos na sua «toilette», dirigiu os seus passos na direcção do local onde habitava o belo objecto dos seus pensamentos.

 

Este local era Chelsea, pois era aí que Miss Sophy Wackles residia com a mãe viúva e duas irmãs, com quem mantinha uma escola de pequenas dimensões para jovens senhoras de dimensões igualmente pequenas, facto que era anunciado à vizinhança através de um letreiro oval colocado na janela do primeiro andar, no qual apareciam, no meio de muitos floreados, os seguintes dizeres: «Escola para Meninas», e também pela chegada, entre as nove e meia e as dez da manhã, de uma única menina que, sobre o capacho, em bicos de pés, com o livro do ensino básico nas mãos, fazia inúteis tentativas para chegar ao batente da porta. As várias disciplinas estavam distribuídas da seguinte forma neste estabelecimento de ensino: a gramática inglesa, redacção, geografia e ginástica, eram dadas por Miss Melissa Wackles. A escrita, aritmética, dança, música e etiqueta eram dadas por Miss Sophy Wackles. Os lavores eram dados por Miss Jane Wackles. Os castigos corporais, jejuns e outras torturas estavam a cargo de Mrs. Wackles. Miss Melissa Wackles era a mais velha, Miss Sophy era a seguir e a mais nova era Miss Jane. Miss Melissa devia ter trinta e cinco primaveras, a cair para o outono. Miss Sophy era uma rapariga de vinte anos, fresca, alegre e bonita. Miss Jane mal teria dezasseis anos. Mrs. Wackier era uma excelente mas venenosa senhora de sessenta anos.

 

Foi para esta «Escola para Meninas» que Richard Swiveller se dirigiu, com inconfessáveis desígnios acerca da paz de espírito da bela Sophy, que, vestida de um branco virginal, sem nenhum outro ornamento que a embelezasse para além de uma rosa vermelha, recebeu-o à chegada no meio de preparativos muito elegantes, para não dizer brilhantes, como o arranjo da sala com os pequenos vasos de flores que estavam sempre do lado de fora da janela excepto quando havia vento, porque então eram varridos para o pátio. Os vestidos elegantes das alunas externas, autorizadas a comparecer à festa, os caracóis de dia de festa de Miss Jane Wackles que no dia anterior tinha mantido a cabeça enrolada num papel amarelo, e o ar solene e figura imponente da velha senhora e da sua filha mais velha pareceram um pouco exagerados a Mr. Swiveller, mas não o impressionaram para além disso.

 

A verdade é que, e já que os gostos não se discutem, até um gosto como este pode ser referido sem parecer uma invenção perversa e maliciosa, a verdade é que nem Mrs. Wackles nem a sua filha mais velha tinham nunca favorecido grandemente as pretensões de Mr. Swiveller, e estavam habituadas a referir-se-lhe como «um rapaz pouco sério» e a suspirar e a abanar agoirentamente a cabeça cada vez que o seu nome era mencionado. A conduta de Mr. Swiveller em relação a Miss Sophy tinha sido sempre daquele tipo que geralmente se considera como «não tendo intenções matrimoniais sérias», de tal forma que a própria jovem pensava já também que era preferível que a situação se resolvesse, de uma forma ou de outra. Assim, decidira por fim considerar a possibilidade de substituir Richard Swiveller por um vendedor de hortaliça que se sabia que estava muito apaixonado e apenas aguardava um pequeno estímulo para avançar com a sua proposta. Daí, e porque a ocasião não podia ser mais propícia, o empenho dela em que Richard Swiveller estivesse presente, e por isso lhe deixara o bilhetinho que o vimos receber.

 

- Se ele tem algumas intenções, e se tem meios para manter uma mulher - disse Mrs. Wackles à sua filha mais velha - terá de fazer a sua proposta, ou hoje ou nunca mais.

 

- Se ele gosta de mim a sério - pensava Miss Sophy - é esta noite, com certeza, que se vai declarar.

 

Mas todas estas coisas que eram feitas, e ditas, e pensadas, como Mr. Swiveller não tinha delas conhecimento, não o afectavam minimamente. Mr. Swiveller estava nesse momento ocupado a pensar na melhor forma de lhe fazer uma cena de ciúmes, desejando que Sophy estivesse nesse momento um pouco menos bonita, ou que fosse parecida com a irmã, o que viria a dar no mesmo, quando os convidados começaram a chegar, entre os quais um vendedor de hortaliça, de nome Mr. Cheggs. Mas Mr. Cheggs não veio sozinho, ou sem companhia, uma vez que trouxe consigo a irmã, Miss Cheggs, que avançou para Miss Sophy, lhe pegou em ambas as mãos, a beijou em ambas as faces e lhe segredou ao ouvido, numa voz perfeitamente audível, que esperava que não tivessem chegado cedo demais.

 

- Cedo demais? Não! - respondeu Miss Sophy.

 

- Oh minha querida - disse Miss Cheggs no mesmo murmúrio de há pouco. - Tenho estado tão aflita, tão arreliada, que foi um milagre não termos chegado às quatro da tarde. O Alick esteve num estado de impaciência para vir para cá! Não vai acreditar, mas antes da hora de almoço já ele estava vestido, e de então para cá ainda não parou de olhar para o relógio e de me aborrecer. E a culpa é sua, sua marota.

 

Nesta altura Miss Sophy corou, e Mr. Cheggs, que era tímido na frente das senhoras, corou também, de forma que, para evitar que corasse mais ainda, a mãe e as irmãs de Miss Sophy rodearam-no de amabilidades e atenções, deixando Richard Swiveller entregue a si próprio. Eis que Richard Swiveller tinha aquilo que queria, eis que lhe era dado um bom motivo, uma boa razão, um bom fundamento para se fingir zangado, mas tendo o motivo, a razão, o fundamento de que tinha vindo à procura e não esperava encontrar, Richard Swiveller estava agora zangado a sério, sem perceber o que é que esse diabo do Cheggs pretendia com o seu atrevimento.

 

Entretanto, Mr, Swiveller tinha pegado na mão de Miss Sophy para a primeira quadrilha, já que as danças regionais eram consideradas de baixo nivel e tinham sido postas de parte, e obteve assim uma vantagem sobre o seu rival que se sentou muito aborrecido num canto, a contemplar a gloriosa figura da jovem que se movia na complicada dança. E não foi esta a única vantagem que Mr. Swiveller conseguiu sobre o vendedor de hortaliças. Resolvido a mostrar à família quem era o homem com quem pretendiam brincar, e influenciado talvez pelas suas últimas libações, executou tais feitos de agilidade e tais voltas e reviravoltas, que encheu a assistência de pasmo, a ponto de um cavalheiro muito alto que dançava com uma aluna muito baixinha ficar parado de espanto e admiração. Até Mrs. Wackles se esqueceu por um momento de vigiar três jovens que davam largas à sua alegria, e não conseguiu evitar pensar que se sentiria orgulhosa de ter na família um tal dançarino.

 

Neste momento de crise Miss Cheggs provou ser uma aliada vigorosa e útil, pois não se limitou a sorrir desdenhosa, demonstrando um grande desprezo pelas habilidades de Mr. Swiveller, como aproveitou todas as oportunidades para segredar ao ouvido de Mis Sophy palavras de simpatia e condolência por estar a ser incomodada por uma criatura tão ridícula, acrescentando ainda que estava com um enorme receio de que Alick, num ímpeto de cólera, resolvesse atirar-se a ele e dar-lhe uma tareia, e pedindo a Miss Sophy que reparasse como os olhos de Alick brilhavam de paixão e raiva, sentimentos tão fortes, podemos acrescentar, que cios olhos lhe passavam para o nariz, enchendo-o de um súbito rubor.

 

- Tem de dançar com Miss Cheggs - disse Sophy para Dick Swiveller, depois de ter dançado duas vezes com Mr. Cheggs e dando a entender que as suas atenções não lhe desagradavam. - É uma rapariga muito simpática. E o irmão é encantador.

 

- Ai sim, é encantador? - murmurou Dick. - E também parece que está encantado, a julgar pela maneira como olha para aqui.

 

Foi nesta altura que Miss Jane, que tinha sido previamente instruída nesse sentido, enfiou pelo meio dos dois os seus numerosos caracóis, e segredou à irmã que reparasse como Mr. Cheggs estava ciumento.

 

- Ciumento? É preciso ter descaramento! - disse Richard Swiveller.

 

- Descaramento, Mr. Swiveller? - disse Miss Jane abanando a cabeça. - Tenha cuidado que ele não o oiça, ou ainda pode arrepender-se.

 

- Oh, por favor, Jane! - disse Miss Sophy.

 

- Que disparate! - replicou a irmã. - E porque é que Mr. Cheggs não há-de ter ciúmes, se quiser? Ora essa! Mr. Cheggs tem tanto direito a ter ciúmes como outra pessoa qualquer, e talvez em breve tenha mais direito ainda, se não o tem já. Tu é que sabes, Sophy!

 

Embora isto tivesse sido combinado entre Miss Sophy e a irmã, com intenções humanamente compreensíveis, pois destinava-se a fazer com que Mr. Swiveller se declarasse de uma vez por todas, acabou por falhar o seu efeito, pois Miss Jane, que era uma destas raparigas prematuramente espevitadas e atrevidas, representou o seu papel com tal convicção que Mr. Swiveller se retirou para um canto, abandonando a sua amada a Mr. Cheggs e lançando a este um olhar de desafio que Mr. Cheggs retribuiu furioso.

 

- O cavalheiro falou comigo? - disse Mr. Cheggs seguindo-o até ao canto da sala. - Tenha a bondade de sorrir, para ninguém suspeitar de nada. O cavalheiro falou comigo?

 

Mr. Swiveller olhou com um sorriso altivo para os pés de Mr. Cheggs. Levantou depois os olhos para o seu tornozelo, subiu pela barriga da perna até ao joelho, e por aí foi, muito devagar, subindo pela sua perna direita até ao colete, foi erguendo o olhar de botão para botão, até lhe chegar ao queixo, e seguindo até ao nariz fixou-lhe os olhos e disse bruscamente:

 

- Não, cavalheiro. Não falei.

 

- Hum! - disse Mr. Cheggs olhando por cima do ombro.

- Tenha a bondade de sorrir novamente. Talvez o cavalheiro deseje falar-me...

 

- Não, cavalheiro, também não.

 

- Talvez o cavalheiro não tenha nada para me dizer neste momento - disse Mr. Cheggs agressivamente.

 

A estas palavras, Richard Swiveller desviou o olhar do rosto de Mr. Cheggs, desceu pela cana do nariz, pelo colete abaixo, pela perna direita até chegar de novo à ponta do sapato, que observou minuciosamente. Feito isto, passou para o outro sapato, subiu ao longo da outra perna, pelo colete como havia feito antes, e foi só quando de novo encontrou os olhos de Mr. Cheggs, que disse:

 

- Não, cavalheiro, não tenho.

 

- Ah sim? - disse Mr.Cheggs. - Ainda bem. Creio que o cavalheiro sabe onde me pode encontrar, se tiver alguma coisa para me dizer, não é verdade?

 

- Posso facilmente perguntar, cavalheiro, quando quiser saber.

 

- Estamos então conversados, cavalheiro, não é assim?

 

- Efectivamente, cavalheiro. - E com isto puseram fim a este diálogo desagradável, franzindo-se mutuamente o sobrolho. Mr. Cheggs apressou-se a oferecer a mão a Miss Sophy e Mr. Swiveller sentou-se muito aborrecido a um canto.

 

Ali perto estavam sentadas Mrs. e Miss Wackles, observando os pares que dançavam. De cada vez que o seu par estava ocupado com a sua parte da dança, Miss Cheggs corria para lá e fazia observações que caíam como fel na alma de Richard Swiveller.

 

Sentadas muito direitas em dois bancos de madeira estavam duas alunas externas que não tiravam os olhos de Mrs. e Miss Wackles tentando causar boa impressão. Quando Miss Wackles sorria, e Miss Wackles sorria, as duas meninas sorriam também, amavelmente, tentando agradar. Diante desta atitude Mrs. Wackles franziu imediatamente o sobrolho, e disse que se alguma delas se atrevesse a repetir uma tal impertinência, seriam imediatamente enviadas sob escolta para as suas casas. Esta ameaça fez com que uma das meninas, de temperamento mais frágil e nervoso, começasse a chorar, e por esse crime foram ambas expulsas com uma rapidez que semeou o terror entre as outras alunas.

 

- Tenho umas novidades! - disse Miss Cheggs aproximando-se outra vez. - O Alick tem estado a dizer coisas à Sophy... palavra! Podem ter a certeza, não há dúvida que é mesmo a sério!

 

- E o que é que ele lhe tem estado a dizer, minha querida?

 

- Muitas coisas - respondeu Miss Cheggs. - E vocês nem imaginam como ele fala bem!

 

Richard Swiveller achou preferível não ouvir mais nada, mas aproveitando uma pausa na dança, e a chegada de Mr. Cheggs que vinha conversar um pouco com a velha senhora, dirigiu-se para a porta com um ar altivo e estudadamente despreocupado, passando por Miss Jane Wackles que, no meio dos seus gloriosos caracóis, namoriscava, para não perder a prática, e à falta de melhor, com um senhor magro e de idade que se encontrava no salão. Perto da porta estava sentada Miss Sophy, ainda nervosa e confusa com as atenções de Mr. Cheggs, e Richard Swiveller parou ao pé dela por alguns momentos para lhe dizer uma palavra de despedida.

 

- O meu navio está no cais, o meu barco no mar, mas não saio aquela porta sem adeus lhe acenar - disse Dick olhando-a com um ar muito triste.

 

- Vai-se embora? - disse Miss Sophy com o coração desfeito ao ver que o seu estratagema não resultara, mas aparentando a mais completa indiferença.

 

- Se me vou embora? - repetiu Dick amargamente. - Vou, sim, porquê?

 

- Por nada, é só porque ainda é muito cedo - disse Miss Sophy. - Mas você é senhor de si próprio, claro.

 

- Antes tivesse também sido senhora - disse Dick -, antes de ter alimentado uma ilusão a seu respeito. Miss Wackles, eu pensava que a menina era sincera, e isso dava-me uma grande alegria, mas agora lamento ter conhecido uma rapariga tão bonita e afinal tão desleal.

 

Miss Sophy mordeu o lábio e fingiu olhar com grande interesse para Mr. Cheggs que, à distância, bebia uma limonada.

 

- Eu vim cá - disse Dick esquecendo um pouco o verdadeiro motivo que o fizera lá ir. - Com o peito aberto e o coração dilatado e os meus sentimentos também. Parto com sentimentos que se podem imaginar, mas


não descrever. Sinto dentro de min a verdade desoladora de que esta noite os meus melhores sentimentos foram troçados.

 

- Não creio que o esteja a compreender, Mr. Swiveller

 

- disse Miss Sophy de olhos baixos. - Lamento muito, se...

 

- A senhora lamenta? - disse Dick. - Lamenta, com um pretendente como Cheggs? Mas desejo-lhe muito boa noite e despeço-me com esta pequena observação: Existe uma jovem que neste momento está a criar-se para mim. Uma menina que possui não só grande beleza mas também uma considerável fortuna. Esta menina pediu a um parente próximo que me oferecesse a sua mão que, pela consideração que devo à sua família, eu aceitei, tendo-lhe prometido casamento. É uma linda jovem, quase uma mulher, e está-me destinada. Achei que devia participar-lhe isto. Resta-me pedir-lhe desculpa pelo tempo que lhe tomei. Boa noite.

 

- De tudo isto, há uma coisa boa que posso retirar:

 

- disse Richard Swiveller para si mesmo no momento em que se debruçava sobre a vela com o abafador na mão.

- Posso agora entregar-me de corpo e alma, da cabeça aos pés, ao projecto do Fred para a pequena Nelly. Ele vai ficar satisfeito quando souber da minha resolução. Amanhã conto-lhe tudo. Entretanto, como já é bastante tarde, vou dormir uma soneca.

 

O sono não se fez esperar. Em poucos minutos, Richard Swiveller dormia profundamente, e sonhava que tinha casado com a pequena Nelly, estava de posse de toda a sua fortuna, e que a primeira coisa que fizera, quando se vira rico e poderoso, fora destruir a horta de Mr. Cheggs e transformá-la numa fábrica de tijolos.

 

A criança, na confidência que fizera a Mrs. Quilp, não descrevera senão uma pequena parte dos seus tristes e infelizes pensamentos, e do peso da nuvem que pairava sobre a sua casa e a envolvia numa sombra escura. Era, por um lado, extremamente difícil fazer compreender toda a sua desoladora solidão a alguém que não conhecesse de perto a vida que ela levava, e por outro ela tinha um receio muito grande de comprometer ou prejudicar aquele velho a quem amava ternamente. Por isso refreou os impulsos do seu coração e não mencionou a verdadeira causa da sua ansiedade e tristeza.

 

Porque não eram os dias monótonos, sempre iguais, sem a alegria de uma companhia agradável; não eram as tardes sombrias e deprimentes nem as noites longas e solitárias; não era a ausência dos prazeres pequenos e simples que os jovens tanto apreciam, nem o facto de ignorar da infância tudo o que não fosse a fragilidade e o espírito sensível que tinha trazido as lágrimas aos olhos de Nell. A figura do velho, abatido sob a pressão de um qualquer secreto desgosto; o seu estado de espírito inconstante e instável; o receio de que ele pudesse estar a perder o juízo; as suas palavras e os seus olhares, que pareciam dar sinais de uma loucura irremediável; esperar, aguardar dia após dia, uma confirmação de tudo isto e sentir, saber que, viesse o que viesse, estavam sozinhos no mundo sem ninguém que os ajudasse, que os aconselhasse, que se preocupasse com eles, tudo isto eram factores capazes de pesar num peito mais forte e com outras defesas e outros recursos, quanto mais o coração de uma criança tão pequena que tinha sempre presentes estes pensamentos inquietos e agitados.

 

E, no entanto, aos olhos do velho, Nell continuava a ser a mesma. Quando ele, por um momento, conseguia afastar o seu pensamento do fantasma que sobre ele pairava e pesava constantemente, lá estava a sua jovem companheira, sempre com o mesmo sorriso, as mesmas boas palavras, o mesmo riso alegre e o mesmo amor e cuidado que penetravam na alma do avô e pareciam existir desde sempre. E assim continuava do mesmo modo, satisfazendo-se em ler o livro do coração cie Nell a partir da primeira página, que era a que tinha na sua frente, sem suspeitar daquilo que estava escondido no meio das outras folhas, e murmurando para si próprio que pelo menos a criança era feliz.

 

Fora-o no passado. Nessa altura cantava por aquelas tristes salas, e saltitava alegremente por entre os seus tesouros poeirentos, tornando-os mais velhos ainda por contraste com a sua juventude, e mais severos e hirtos por contraste com a sua alegre e animada presença. Mas agora as salas pareciam-lhe frias e desoladas, e quando deixava o seu pequeno quarto tentando ocupar os seus tempos livres, e se sentava numa delas, deixava-se ficar tão quieta como os seus habitantes inanimados, sem coragem para, com o som da sua voz, despertar os ecos que o tempo enrouquecera.

 

Numa destas salas havia uma janela que dava para a rua, e muitas vezes ao entardecer a criança se sentava diante dela, às vezes pela noite fora, sozinha e pensativa. Não há ansiedade como a daqueles que espreitam e esperam, e nesses momentos o seu espírito era assaltado por multidões de pensamentos fantásticos.

 

Sentava-se ali ao entardecer, a ver as pessoas que passavam para cá e para lá ou que apareciam nas janelas do outro lado da rua, pensando se essas salas seriam tão desoladoras como aquela em que ela se encontrava, e se aquelas pessoas se sentiriam acompanhadas ao vê-la ali sentada como ela se sentia ao vê-las espreitar cá para fora e voltarem outra vez para dentro. Havia num dos telhados umas poucas de chaminés tombadas, e à força de olhar para elas acabavam por lhe parecer feios rostos que a espreitavam, maldosos, e tentavam entrar dentro da sala, ficava contente quando ficava muito escuro e já não conseguia vê-los, e voltava a ficar triste quando aparecia o homem que acendia os candeeiros da rua, porque isso queria dizer que já era tarde, e dentro de casa tudo se tornava mais triste ainda. Metia então a cabeça para dentro e olhava em volta, a ver se estava tudo no seu lugar, e nada se tinha mexido. Olhava depois de novo para a rua e via, por exemplo, um homem que passava com um caixão às costas, seguido por mais dois ou três, silenciosos, até à casa onde havia alguém que tinha morrido, e isto fazia-a estremecer e pensar em coisas que lhe lembravam o rosto e os modos alterados do avô, e muitos outros pensamentos fantasiosos e assustadores. Se ele morresse, se fosse tomado de alguma súbita doença e já não regressasse vivo a casa... se uma noite, depois de voltar para casa, depois de a beijar e de lhe dar a bênção como sempre fazia, depois de ela se ir deitar e estar a dormir serenamente, a sorrir, talvez, no seu sono, ele se matasse, e o seu sangue viesse a escorrer, a escorrer pelo chão, até à porta do quarto dela... Estes pensamentos eram demasiado terríveis para ela, que de novo refugiava os seus olhos na rua, onde agora passavam menos pessoas e estava mais escura e mais silenciosa ainda do que antes. As lojas começavam a fechar, iluminavam-se as janelas dos pisos superiores, era a hora de a vizinhança se deitar. Aos poucos e poucos as velas iam-se extinguindo, ou iam sendo substituídas pela ténue luz de lamparinas que ficavam acesas toda a noite. Havia, contudo, ali perto, uma loja que não tinha ainda fechado, projectava a sua luz clara sobre o pavimento e brilhava como uma companhia amiga. Mas também esta loja fechou, apagou-se a luz e tudo mergulhou na escuridão e no silêncio. Só de quando em vez soavam os passos de algum transeunte, ou algum vizinho retardatário batia ruidosamente à porta de casa para acordar os seus habitantes já adormecidos.

 

Quando a noite ia já assim adiantada, e ultimamente era raro que acontecesse antes disso, a pequena fechava a janela e descia a escada de mansinho, pensando em como ficaria aterrorizada se uma daquelas caras horríveis que estavam na loja, e muitas vezes perturbavam os seus sonhos, se iluminasse e lhe surgisse pela frente. Mas estes receios desvaneciam-se perante o seu candeeiro bem aceso e o aspecto familiar do seu quarto. Depois de rezar fervorosamente e derramando abundantes lágrimas pelo velho, para que este recuperasse a paz de espírito, e pelo retorno da felicidade que outrora tinham conhecido, deitava a cabeça na almofada e adormecia, acordando muitas vezes antes do amanhecer, para ouvir a campainha e responder ao toque imaginário que a despertara do seu sono.

 

Uma noite, a terceira após a conversa que tivera com Mrs. Quilp, o velho, que tinha estado fraco e doente o dia todo, disse que não sairia. Os olhos da criança brilharam ao ouvir isto, mas a sua alegria desvaneceu-se quando pousaram no rosto febril e doente do velho.

 

- Dois dias! - disse ele. - Dois dias inteiros passaram, e ainda não veio uma resposta. Ao certo, que foi que ele te disse, Nell?

 

- Exactamente aquilo que eu já lhe disse, avô.

 

- Sim - disse o velho numa voz fraca. - Sim, mas diz-me outra vez, Nell. A minha cabeça já me falha. O que foi que ele te disse realmente? Disse só que viria visitar-me no dia seguinte ou no outro dia? Isso também estava escrito no pápel.

 

- Mais nada - disse a criança. - Quer que eu vá visitá-lo amanhã, querido avô? Muito cedo? Posso ir e estar de volta antes do pequeno-almoço.

 

O velho abanou a cabeça, suspirou tristemente e puxou a criança para si.

 

- Não vale a pena, minha querida, não vale a pena. Mas se ele me abandona agora, quando, com a ajuda dele, eu devia receber a recompensa de todo o tempo e de todo o dinheiro que perdi, e de todas as angústias por que passei, e que fizeram de mim aquilo que vês, estou arruinado, e pior, muito pior do que isso, arruinei-te a ti, por quem arrisquei tudo. Vamos ser pedintes!

 

- E se formos? - disse a pequena corajosamente. - Vamos ser pedintes e felizes.

 

- Pedintes e felizes! - disse o velho. - Pobre criança!

 

- Querido avô! - exclamou a criança com uma energia que se notou no seu rosto ruborizado, na sua voz trémula, nos seus gestos nervosos. - Eu já não penso como uma criança, mas ainda que assim fosse, por favor, ouça-me. Podemos trabalhar onde calhar, dormir ao relento, isso seria melhor do que a vida que agora vivemos.

 

- Nelly! - disse o velho.

 

- Sim, sim seria melhor do que vivermos a vida que agora vivemos - repetiu a criança de uma forma ainda mais sincera do que há momentos atrás. - Se o avô anda triste, deixe-me partilhar da sua tristeza. Se está doente, e mais pálido, e mais fraco de dia para dia, deixe-me tratar de si, e tentar confortálo. Se vive na pobreza, vamos ser pobres os dois juntos, mas deixe-me ficar consigo, deixe-me ficar consigo, não deixe que eu assista a essa mudança sem saber o que se passa, ou morrerei de desgosto. Querido avô, vamos abandonar amanhã esta casa tão triste e pedir esmola de porta em porta.

 

O velho cobriu o rosto com as mãos e escondeu-o na almofada do sofá onde se encontrava.

 

- Sejamos pedintes - disse a pequena passando-lhe um braço em volta do pescoço. - Eu não tenho medo. Havemos de ter o suficiente, eu tenho a certeza. Vamos percorrer essas aldeias, vamos dormir pelos campos, debaixo das árvores, não vamos nunca mais pensar em dinheiro, nem em nada que possa pô-lo triste, vamos descansar de noite, e durante o dia vamos ter o Sol e o vento a baterem-nos no rosto, e vamos agradecer a Deus. Não vamos nunca mais pôr os pés em quartos escuros ou casas tristes, mas antes vaguear por onde nos apetecer, e quando o avô estiver cansado senta-se no lugar mais agradável que conseguirmos encontrar, e eu irei pedir esmola para os dois.

 

A voz da criança perdeu-se em soluços enquanto ela se abraçava ao pescoço do velho. Não chorava sozinha.

 

Estas palavras não eram destinadas a outros ouvidos e esta cena não era destinada a ser vista por outros olhos. E, no entanto, outros ouvidos e outros olhos estavam lá, prestando sôfrega atenção a tudo o que se estava a passar. Ainda por cima esses ouvidos e esses olhos eram nada mais nada menos que os de Mr. Daniel Quilp em pessoa, que, tendo entrado sem ser visto no momento em que a criança viera para junto do velho, não quis, certamente por uma questão de pura delicadeza, interromper a conversa, e ali ficou parado, a olhar, com o seu habitual sorriso sarcástico. Como, no entanto, manter-se de pé, era uma atitude um tanto cansativa para um cavalheiro que vinha fatigado da sua caminhada, e o anão não era pessoa para grandes cerimónias, rapidamente o seu olhar encontrou uma cadeira para cima da qual saltou com espantosa agilidade, sentando-se sobre as costas e apoiando os pés no assento, ficando assim capaz de ver e ouvir mais confortavelmente, para além de satisfazer ao mesmo tempo o seu gosto em fazer qualquer coisa de estranho, como um macaco faria, o que era algo que tinha para ele um forte poder de atracção. Assim ficou, pois, despreocupadamente sentado, de pernas cruzadas, com o queixo apoiado na palma da mão, a cabeça ligeiramente inclinada para o lado, as suas feições desagradáveis contorcidas numa careta de complacência. Foi nesta posição que o velho, com grande surpresa, o viu quando por acaso olhou naquela direcção.

 

A criança deu um grito abafado quando viu esta figura simpática. Um e outro, no primeiro momento, surpreendidos, não sabendo o que dizer, e duvidando ainda daquilo que viam, olharam-no assustados. Sem se desconcertar com esta reacção, Daniel Quilp manteve-se na mesma posição, abanando a cabeça duas ou três vezes com ar condescendente. Por fim, o velho pronunciou o nome dele e perguntou como viera ali parar.

 

- Pela porta! - disse Quilp apontando com o ombro e o polegar. - Não sou tão pequeno que consiga entrar pelo buraco da fechadura, era bom se fosse. Quero falar consigo, particularmente, em privado, sem a presença de mais ninguém, vizinho. Adeus, Nelly!

 

Nell olhou para o velho, que lhe fez sinal para se retirar e lhe beijou a face.

 

- Ah! - disse o anão estalando os lábios. - Que rico beijo! No sítio mais rosado! Que esplêndido beijo!

 

A este comentário, Nell desapareceu ainda mais rapidamente. Quilp olhou-a cobiçoso, e quando ela fechou a porta começou a elogiar ao velho os encantos da pequena.

 

- Aquilo é um botãozinho de flor, vizinho, fresco, modesto... - disse Quilp balançando a sua curta perna e com os olhos a brilhar muito. - É tão rechunchudinha, tão rosadinha, tão bonita, a sua pequena Nell!

 

O velho respondeu com um sorriso forçado, e lutava visivelmente com um sentimento de aguda impaciência. Este sentimento não passou despercebido a Quilp, que sentia um enorme prazer em torturá-lo, a ele ou a qualquer outra pessoa, sempre que podia.

 

- Ela é tão... - disse Quilp falando muito devagar, fingindo estar completamente absorto no assunto. - Tão pequenina, tão perfeitinha, tão bem modelada, tão loira, com umas veias tão azuis numa pele tão transparente, uns pezinhos tão pequeninos, uns modos tão delicados, mas valha-me Deus, você está nervoso! Porquê, vizinho? O que é que se passa? Garanto-lhe - continuou o anão desmontando da cadeira e sentando-se nela com um vagar propositado, muito diferente da rapidez com que para ela tinha subido sem ser notado.

- Garanto-lhe que não fazia ideia que o sangue dos velhos corresse tão depressa ou pudesse aquecer tanto. Pensava que ele corria devagar, e que não aquecia tanto, nem por sombras. Suponho que é assim que deve ser. Deve haver qualquer problema consigo, vizinho.

 

- Penso que sim. - gemeu o velho, segurando a cabeça com ambas as mãos. - Creio que tenho febre, e volta e meia sinto também uma outra coisa à qual receio dar um nome.

 

O anão não disse uma palavra, mas olhava para o seu interlocutor que caminhava na sala para cá e para lá, e em seguida voltou a sentar-se, deixando-se ficar algum tempo com a cabeça descaída para o peito, até que subitamente a ergueu e disse:

 

- De uma vez por todas, trouxe-me algum dinheiro?

 

- Não! - respondeu Quilp.

 

- Então - disse o velho juntando as mãos e olhando para cima. - A criança e eu estamos perdidos!

 

- Vizinho - disse Quilp olhando friamente para o velho, e dando duas ou três pancadas na mesa para lhe chamar a atenção. - Deixe-me ser honesto consigo, e jogar um jogo mais franco do que aquele que jogávamos quando era você que detinha todas as cartas, das quais eu não via senão a parte de trás. Você agora já não tem segredos para mim.

 

O velho olhou-o, trémulo.

 

- Ficou surpreendido? - disse Quilp. - Bom, talvez isso seja natural. Mas volto a dizer-lhe que você agora não tem segredos para mim. Não, nem um. Porque agora eu sei que todas aquelas somas de dinheiro, todos aqueles empréstimos, adiantamentos que lhe fiz, foram parar... quer que lhe diga aonde?

 

- Ai! - respondeu o velho. - Diga, se quiser.

 

- A uma mesa de jogo - continuou Quilp. - Que você frequenta todas as noites. Era esse o seu precioso plano para fazer fortuna, não era? Era essa a sua secreta fonte de riqueza onde eu ia perder o meu dinheiro, se fosse tão louco como você pensava; era essa a sua inesgotável mina de ouro, o seu Eldorado, heim?

 

- Sim! - exclamou o velho olhando para ele com os olhos a brilhar. - Era, é e há-de ser enquanto eu for vivo!

 

- E eu que me deixei enganar! - disse Quilp olhando-o com desprezo. - Por um reles batoteiro!

 

- Eu não sou um batoteiro! - bradou o velho. - Deus é testemunha de que nunca joguei para o meu próprio benefício, ou pelo vício do jogo. De cada vez que jogava uma moeda, murmurava o nome daquela órfã e pedia a Deus que abençoasse a jogada, mas não era atendido. E quem é que era favorecido? Quem eram aqueles com quem jogava? Homens que viviam do roubo, da perversidade e da depravação, homens que com o seu ouro só espalhavam o vício e o mal. Era deles que eu tentava ganhar, e os lucros que tivesse destinavam-se, até ao último centavo, a uma criança inocente, cuja vida teriam adoçado e tornado mais feliz. E o que ganhavam eles? Os meios para espalhar a corrupção, a desgraça e a miséria. Lutando por uma causa destas, quem não teria tido esperança? Diga-me, quem não teria tido a esperança que eu tive?

 

- Quando é que você começou esta actividade insensata?

- perguntou Quilp cuja tendência para o escárnio ficou por um momento paralisada pelo desespero louco do velho.

 

- Quando foi que comecei? - respondeu ele passando as mãos pela testa. - Quando foi que comecei? Quando havia de ser? Foi quando comecei a pensar no pouco que tinha conseguido poupar, nos anos que levara até conseguir pôr de parte uma quantia tão pequena, no pouco tempo que tenho para viver e na forma como ela vai ficar entregue às agruras deste mundo, sem nada que a proteja dos sofrimentos da vida dos pobres. Foi nessa altura que comecei.

 

- Depois de me vir pedir que arranjasse um lugar na marinha para o seu precioso neto? - perguntou Quilp.

 

- Foi pouco tempo depois disso - respondeu o velho.

 

- Pensei longamente no assunto, sonhei com isso durante meses! Foi então que comecei. Não sentia nenhum prazer. Nem esperava senti-lo. Mas o que é que tudo isso me trouxe, para além de dias de ansiedade e noites de insónia? Perdi a saúde e a paz de espírito, e ganhei a fraqueza e os desgostos.

 

- Perdeu, primeiro, o dinheiro que tinha economizado, e a seguir veio ter comigo. Enquanto que eu pensava que você estava a construir a sua fortuna, era o que você dizia, você estava a transformar-se num mendigo, não era? Valha-me Deus! E eu agora tenho nas mãos todas as hipotecas que você fez, e um título de posse de tudo, do prédio e do recheio - disse Quilp levantando-se e olhando em volta, como se quisesse certificar-se de que nada fora retirado da loja.

 

- Mas você nunca ganhou?

 

- Nunca! - gemeu o velho. - Nunca ganhei aquilo que perdi!

 

- Eu pensava - disse o anão com um sorriso trocista - que quando um homem jogava durante muito tempo, acabava por ganhar, ou pelo menos não ficava a perder.

 

- Geralmente é assim - exclamou o velho despertamdo bruscamente do seu estado de abatimento, e ficando de repente muito excitado. - Geralmente é assim. Foi o que eu senti, desde o início, sempre o soube, e nunca tive tanto a certeza como tenho agora. Quilp, há três noites que sonho com a mesma elevada quantia. Nunca tinha tido um sonho assim, embora tenha tentado muitas vezes. Não me abandone, agora que tenho esta oportunidade. Não tenho mais ninguém a quem recorrer. Ajude-me, dê-me esta última chance.

 

O anão encolheu os ombros e abanou a cabeça.

 

- Veja, Quilp, bondoso Quilp - disse o velho retirando alguns papéis da algibeira com a mão a tremer, e agarrando o anão pelo braço. - Veja só isto. Veja estes números, o resultado de longos cálculos e de uma dura e dolorosa experiência. Eu tenho de ganhar. Já só preciso de uma pequena ajuda. Pouco dinheiro, vinte libras apenas, meu caro Quilp.

 

- O último empréstimo foi de setenta - disse o anão.

- E foi-se numa noite.

 

- Eu sei - respondeu o velho - mas essa foi a noite mais azarada que já tive, é a minha hora ainda não tinha chegado. Quilp, pense bem, pense bem! - exclamou o velho tremendo tanto que os papéis na sua mão pareciam soprados pelo vento. - Aquela órfã! Se eu estivesse sozinho, morreria contente; talvez até antecipasse esse triste momento que é repartido de forma tão injusta, indo ao encontro dos que, na sua força, se sentem orgulhosos e felizes, e evitando os desgraçados e os aflitos que o chamam no seu desespero. Tudo o que fiz, foi por ela que o fiz. É por ela que lhe imploro que me ajude, por ela, não por mim.

 

- Lamento, mas tenho um encontro na cidade - disse Quilp olhando para o relógio perfeitamente senhor de si.

- Teria o maior prazer em passar meia hora consigo, enquanto se recompõe. Teria muito prazer.

 

- Não, Quilp, bondoso Quilp - gritou o velho ofegante agarrando-se-lhe às abas do casaco. -Já lhe contei mais de uma vez a história da pobre mãe de Nelly. Talvez tudo isto se deva ao pavor que tenho de a ver na miséria. Não seja tão duro comigo, lembre-se disso. Você pode ganhar muito dinheiro comigo. Empreste-me dinheiro para esta última tentativa.

 

- Não posso, realmente - disse Quilp com uma delicadeza pouco usual nele. - Mas devo dizer-lhe, e isto é algo que vale a pena não esquecer, que até os mais espertos se deixam enganar. Eu estava tão impressionado com a penúria em que você vivia, sozinho com a sua Nelly...

 

- Tudo isso era só para poupar dinheiro, para tentar a sorte e conseguir para ela uma grande fortuna - exclamou o velho.

 

- Sim, sim, agora compreendo - disse Quilp. - Mas como ia a dizer, eu andava tão impressionado com a vida miserável que vocês levavam, e a reputação que, entre os que o conhecem, você tem de ser um homem rico, e as suas repetidas promessas de triplicar ou mesmo quadriplicar os juros que me pagava, que ainda hoje, contra uma simples nota de débito, lhe teria emprestado aquilo que me pediu, embora suspeitasse já de qualquer coisa estranha, isto se quando menos esperava não tivesse ficado a conhecer a sua vida secreta.

 

- Quem foi - retorquiu o velho desesperado -   que lhe contou, apesar de todas as minhas cautelas? Vá, diga-me o nome, quem foi?

 

O velhaco do anão, pensando que se denunciasse a criança estaria a desmascarar o artifício que ele próprio utilizara, e não tendo nada a ganhar com isso, era preferível não o dizer. Por isso, conteve-se a tempo e respondeu:

 

- Ora, quem é que podia ser?

 

- Foi Kit, deve ter sido o rapaz. Andou a espiar-me e você obrigou-o a falar - disse o velho.

 

- Como é que se lembrou dele? - disse o anão num tom de grande comiseração. - Sim, foi Kit. Pobre Kit!

 

Dizendo isto, abanou a cabeça com ar amistoso e saiu, parando, um pouco mais adiante, e sorrindo maldoso e deliciado.

 

- Pobre Kit! - murmurou Quilp - Não foi ele que disse que eu era mais feio que um anão de circo? Ha! Ha! Ha!

 

E com isto seguiu o seu caminho, rindo baixinho.

 

Daniel Quilp não tinha entrado nem saído despercebido da casa do velho. Na sombra de uma arcada que se encontrava quase defronte, e conduzia a uma das muitas ruas que saíam da rua principal, estava uma pessoa que, tendo-se ali colocado aos primeiros raios da manhã, ainda lá estava, com a mesma paciência, encostado à parede como alguém que sabe que tem ainda muito que esperar e, estando muito habituado a isso, lá estava, resignado, mal mudando de posição à medida que as horas passavam.

 

Este paciente ocioso não atraía muito a atenção dos que passavam, nem lhes prestava também muita atenção. Os seus olhos estavam fixos numa direcção, a janela onde a criança costumava sentar-se. Quando os desviava por um momento, era apenas para lançar um rápido olhar ao relógio de uma das lojas da vizinhança, e em seguida voltar a fixar a janela, mais sério e atento do que dantes.

 

Já observámos que esta personagem, no seu esconderijo, não dava sinais de cansaço. Nunca os deu, embora a sua espera fosse longa. Mas à medida que o tempo passava, começou a manifestar alguma ansiedade e surpresa, olhando para o relógio com mais frequência e de novo para a janela, parecendo menos esperançado do que antes. Entretanto, o baixar de umas persianas invejosas escondeu o relógio da sua vista, por essa altura os campanários das igrejas bateram as onze da noite, depois as onze e um quarto e por fim pareceu convencer-se de que não valia a pena esperar mais. Que esta ideia não lhe agradava, e a aceitava contra vontade, isso era visível na relutância que mostrava em deixar aquele lugar, nos passos vagarosos com que frequentemente se afastava, continuando a olhar para a janela por cima do ombro, e pela forma precipitada como algumas vezes voltava atrás, quando um ruído imaginário ou a luz trémula o levavam a pensar que a janela fora levantada devagarinho. Por fim perdeu a esperança por essa noite, e de repente começou a correr, como se quisesse obrigar-se a si próprio a sair dali, e desapareceu rapidamente sem se atrever a olhar para trás, com receio de ser tentado a regressar.

 

Sem abrandar as suas passadas, sem parar para tomar fôlego, este indivíduo misterioso enfiou-se pelo meio de ruelas e azinhagas estreitas e complicadas, até que por fim chegou a uma praça quadrada e pavimentada onde afrouxou o passo e se dirigiu a uma casinha onde brilhava uma luz, levantou o ferrolho e entrou.

 

- Valha-me Deus! - exclamou uma mulher voltando-se rapidamente. - Quem é? Oh, és tu, Kit!

 

- Sim, mãe, sou eu.

 

- Pareces tão cansado, meu filho!

 

- O patrão esta noite não saiu, e ela hoje não veio para a janela - dizendo estas palavras sentou-se ao pé do lume parecendo muito triste e desconsolado.

 

A divisão onde Kit se sentara era muito simples e pobre, mas possuía aquele ar confortável que, a menos que se trate de um lugar verdadeiramente miserável, sempre se consegue com um pouco de limpeza e arrumação. Era tarde, como se podia ver pelo relógio holandês, mas a pobre mulher engomava ainda energicamente. Ao pé do lume, deitada num berço, uma criança dormia, enquanto no cesto da roupa estava outra criança, um rapazinho de dois ou três anos, gordinho, com uma touca de dormir muito apertada e uma camisa de noite muito pequena para ele, estava sentado, espreitando por cima do cesto com uns olhos redondos, muito abertos, como se estivesse perfeitamente decidido a não voltar a adormecer, o que era um alívio para a família e para os amigos, já que se recusava a dormir e por esse motivo tinha sido levantado da cama. Toda aquela família tinha um ar muito patusco, e todos eles, Kit, a mãe e os pequenos se pareciam muito uns com os outros.

 

Kit estava de mau humor, como acontece com as melhores pessoas, mas olhou para a criança mais pequena, que dormia profundamente, depois olhou para o outro, instalado no cesto da roupa, e em seguida para a mãe, que estava a trabalhar desde manhã, e não se lhe ouvia uma queixa, de forma que achou que era melhor e mais simpático mostrar-se bem humorado. Assim, embalou o berço com o pé, fez uma careta ao rebelde que estava no cesto da roupa, o que pareceu encantá-lo, e decidiu conversar um pouco e mostrar uma disposição agradável.

 

- Oh mãe! - disse Kit puxando do canivete e atirando-se a um pedaço de pão com carne que há horas que estava preparado para ele. - A mãe é a melhor mãe que há. Não conheço outra assim!

 

- Acho que sim, que há outras muito melhores, Kit - disse Mrs. Nubbles. - Há, ou deve haver, pelo menos é o que diz o pastor na igreja.

 

- Ele não percebe nada disso! - respondeu Kit com ar de desprezo. - Deixe-o ficar viúvo e ter de trabalhar como a mãe trabalha, que recebe tão pouco e nunca perde a boa disposição, e então talvez eu passe a acreditar nele.

 

- Olha - disse Mrs. Nubbles fugindo ao assunto, - a tua cerveja está ali ao pé do guarda-fogo, Kit.

 

- Já vi - disse o rapaz, pegando na caneca. À sua saúde, mãe. E à do pastor também, se quiser. Eu não lhe desejo mal, era lá capaz disso!

 

- Disseste-me ainda agora que o teu patrão esta noite não saiu?

 

- É verdade - disse Kit - infelizmente.

 

- Devias dizer -felizmente» - retorquiu a mãe - porque assim Miss Nelly não ficou sozinha.

 

- Ah! - disse Kit. - Tinha-me esquecido. Disse «infelizmente» porque estive à espreita desde as oito horas, e não consegui vê-la.

 

- Gostava de saber o que é que ela diria - disse a mãe parando o que estava a fazer e olhando em volta. - Se soubesse que todas as noites, enquanto que ela, coitadinha, fica sozinha, sentada àquela janela, tu ficas a guardar a rua com medo que lhe possa acontecer algum mal, e que apesar do cansaço ficas lá, e não te vens deitar até teres a certeza de que ela também já se deitou em segurança.

 

- Deixe lá o que ela diria - disse Kit com uma espécie de rubor na fisionomia rude. - Ela não vai saber de nada, por isso também não vai dizer nada.

 

Mrs. Nubbles continuou a engomar em silêncio mais um minuto ou dois, em seguida foi até à lareira buscar o outro ferro que estava a aquecer, então olhou disfarçadamente para Kit enquanto esfregava o ferro numa tábua e o limpava com um pano, mas não disse nada até se encontrar de novo junto da sua tábua. Aproximou o ferro do rosto para lhe experimentar a temperatura, deitou então um olhar à sua volta, sorriu e disse:

 

- Eu sei o que algumas pessoas diriam, Kit.

 

- Que tolice! - interpôs Kit adivinhando imediatamente o que a mãe ia dizer em seguida.

 

- Diriam, sim. Muita gente era capaz de dizer que estás apaixonado por ela. Tenho a certeza.

 

A isto Kit respondeu atrapalhadamente à mãe que não dissesse essas coisas», começou a gesticular estranhamente com as pernas e os braços, que acompanhava com estranhas caretas. Não conseguindo deste modo aliviar a sua tensão, mordeu uma enorme dentada no seu pão com carne e bebeu um rápido golo da sua cerveja e com este truque conseguiu engasgar-se e desviar a atenção da conversa

 

- Falando a sério, Kit - disse a mãe daí a pouco, voltando ao assunto. - Há bocadinho eu estava a brincar. Tu és muito bom e generoso, e é por isso que fazes isto e não queres que ninguém saiba, mas um dia ela há-de vir a saber, e estou certa de que te ficará muito grata e sensibilizada. É uma crueldade manter a garota ali fechada. Não me admiro que o velho não queira que tu o saibas.

 

- Ele não faz isso por maldade, valha-nos Deus! - disse Kit. - Ele não tem intenção de cometer nenhuma crueldade, mãe, não seria capaz de o fazer. Acho mesmo, mãe, que ele não fazia uma coisa dessas nem por todo o ouro e toda a prata deste mundo. Não, não fazia. Eu conheço-o muito bem.

 

- Então porque é que o faz, e porque é que o faz às escondidas de ti? - disse Mrs. Nubbles.

 

- Isso eu não sei - respondeu o filho. - Mas se ele não tivesse tido tanto empenho em que eu não soubesse, eu nunca teria descoberto. Foi só quando ele começou a mandar-me para casa muito mais cedo do que de costume que despertou a minha curiosidade. Ouça! O que foi aquilo?

 

- É alguém que vem para aqui - disse Kit levantando-se e pondo-se à escuta. - E vem depressa! Ele poderia ter saído depois de eu me vir embora, mãe, e a casa ter pegado fogo?

 

A este pensamento, o rapaz deixou-se ficar um momento, perfeitamente estático. Os passos aproximavam-se, a porta foi aberta precipitadamente, e a própria criança, pálida e sem fôlego, mal agasalhada, entrou rapidamente no quarto.

 

- Miss Nelly! O que foi que aconteceu? - exclamaram mãe e filho ao mesmo tempo.

 

- Não me posso demorar nem um momento - respondeu ela. - O avô está muito mal, teve um ataque, encontrei-o caído no chão.

 

- Eu vou a correr buscar um médico - disse Kit pegando no seu chapéu sem abas. - Eu vou lá ter... eu...

 

- Não, não! - exclamou Nell. - Já lá está um, tu não és lá preciso, tu... tu... não podes lá voltar nunca mais!

 

- O quê? - gritou Kit.

 

- Nunca mais - disse a criança. - Não me perguntes porquê, porque também não sei. Por favor não me perguntes porquê, por favor não fiques triste, por favor não fiques zangado comigo, eu não tenho culpa de nada!

 

Kit olhou para ela com os olhos muito abertos, começou a abrir e fechar a boca, mas não lhe saía uma palavra.

 

- Ele queixa-se de ti, está furioso - disse a criança. - Eu não sei o que foi que tu fizeste, mas espero que não fosse nenhuma coisa horrível.

 

- O que eu fiz? - gritou Kit.

 

Ele disse que foste tu a causa de toda a sua desgraça - respondeu a criança com os olhos cheios de lágrimas. - Ele gritou, chamou pelo teu nome, dizem que se tu voltas a aproximar-te dele, ele pode morrer. Não podes lá ir nunca mais. Foi isso que eu te vim dizer. Achei que era melhor do que ser outra pessoa estranha a dizer-te. Oh Kit! O que foi que tu fizeste? Tu, em quem eu confiava tanto, e que eras praticamente o único amigo que eu tinha!

 

O infeliz Kit olhava para a sua jovem patroa cada vez mais fixamente e com os olhos mais esbugalhados, mas estava completamente estático e silencioso.

 

- Eu trouxe o salário dele desta semana - disse a criança olhando para a mulher e pousando o dinheiro sobre a mesa ,

- e... e... mais qualquer coisa, porque ele foi sempre bom para mim. Espero que ele se arrependa e se porte bem para o futuro, e não fique muito triste. Custa-me muito ter de me separar dele desta maneira, mas não há outra coisa a fazer. Tem de ser. Boa noite!

 

Com as lágrimas a cairem-lhe pelo rosto, e a sua frágil silhueta toda a tremer com a agitação da cena que tinha acabado de se passar, o choque que tinha recebido, o recado que acabara de transmitir e mil sentimentos de dor e aflição, a criança precipitou-se para a porta e desapareceu tão rapidamente como tinha entrado.

 

A pobre mulher, que não tinha nenhum motivo para suspeitar da conduta do filho, tinha antes todos os motivos para confiar na sua honestidade e no seu carácter, estava pasmada pelo facto de ele não dizer uma palavra em sua defesa. Imaginava aventuras galantes, maroteiras e roubos, e pensava que as suas ausências nocturnas, para as quais não dava uma explicação satisfatória, pudessem ter sido ocasionadas por quaisquer más acções. Estes pensamentos encheram-na de medo de o interrogar. Balançava-se numa cadeira torcendo as mãos e chorando amargamente, mas Kit não tentava confortá-la e continuava desorientado. O bebé que estava no berço acordou e chorou, o rapazinho que estava dentro do cesto da roupa caiu de costas com o cesto por cima dele e deixou de se ver, a mãe chorava ainda mais alto e balançava-se mais depressa, mas Kit, insensível a toda esta confusão, a todo este tumulto, continuava num estado de perfeita estupefacção.

 

Estava escrito que o sossego e a solidão deixariam de constituir uma regra inquebrantável debaixo do tecto que abrigava aquela criança. Na manhã seguinte o velho ardia em febre, delirava, e assim esteve durante várias semanas, em perigo de vida. Havia agora quem cuidasse dele, mas eram pessoas estranhas que faziam disso um comércio ganancioso e que, nos intervalos dos cuidados que prestavam ao doente, se reuniam em vergonhosas farras, comiam, bebiam e divertiam-se, porque a doença e a morte eram os seus deuses favoritos.

 

E, no entanto, no meio da confusão e de toda aquela gente, a criança sentia-se ainda mais solitária do que alguma vez se sentira dantes. Solitária espiritualmente, solitária na sua devoção àquele que definhava no seu leito de morte, solitária na sua dor sincera, no seu carinho desinteressado. Dia após dia, e noite após noite, ela não se afastava da cabeceira do doente que mal dava acordo de si, e no entanto antecipando-se a todos os seus desejos, e ouvindo-o repetir o seu nome e outros chamamentos por ela, angustiados, que reflectiam a preocupação do velho e ocupavam os seus delírios.

 

A casa já não era deles. Até o quarto do doente parecia ser ainda utilizado apenas por um especial favor de Mr. Quilp. Ainda o velho não tinha adoecido há muitos dias, quando ele tomou formalmente posse da casa e de tudo o que ela continha, em virtude de certas determinações legais que poucos compreendiam e ninguém ousava pôr em causa. Dado este primeiro passo, apoiado por um homem de leis que trouxe consigo para o efeito, o anão estabeleceu-se a si e ao seu assessor dentro de casa, como forma de reivindicar os seus direitos à sua posse daqueles bens, contra outros credores que pudessem surgir, e tratou de transformar as coisas ao seu geito e ao seu gosto.

 

Para isso, Mr. Quilp acampou na sala das traseiras, não sem antes fechar a loja, impedindo todo e qualquer negócio. Procurou entre os velhos móveis e escolheu a cadeira mais elegante e mais confortável, que reservou para seu uso pessoal, e uma outra particularmente feia e desconfortável, que considerou apropriada para o seu amigo, fê-las transportar para esta sala e ali se instalou em grande estilo. Esta sala ficava muito longe do quarto de cama do velho, mas Mr. Quilp julgou prudente, a fim de evitar o contágio das febres, e como forma de desinfecção, não só fumar ele próprio sem cessar, como insistir com o amigo para que fizesse o mesmo. Para além disso, ainda mandou um recado ao cais, ao rapaz das cambalhotas, que chegou a toda a pressa e foi mandado sentar numa cadeira ao pé da porta e fumar continuamente um grande cachimbo que o anão tinha mandado providenciar para o efeito, e que ele não devia atrever-se a retirar da boca sob nenhum pretexto, ou por um minuto que fosse. Terminados estes preparativos, Mr. Quilp olhou à sua volta com grande satisfação e observou que àquilo chamava ele conforto.

 

O jurista, cujo melodioso nome era Brass, também chamaria àquilo conforto, se não fossem dois pequenos inconvenientes: o primeiro era que não conseguia encontrar uma forma confortável de se sentar naquela cadeira, cujo assento era muito duro, anguloso, escorregadio e inclinado; o segundo era que o fumo do tabaco sempre o havia deixado agoniado e mal disposto. No entanto, como era uma espécie de lacaio de Mr. Quilp, e tinha mil razões para querer agradar-lhe, tentou sorrir e aquiesceu com o rosto mais simpático que conseguiu fazer.

 

Este Brass era um solicitador nem por isso com muito boa reputação, de Bevis Marks, na «city» de Londres. Era um homem alto, magro, com um nariz de batata, uma testa proeminente, os olhos encovados e cabelos de um ruivo escuro. Usava uma casaca preta que lhe chegava quase aos tornozelos, umas calças pretas que lhe ficavam curtas, botas e meias de algodão de um cinzento azulado. Tinha modos delicados, mas uma voz muito áspera, e os seus sorrisos mais amáveis eram tão desagradáveis que quem quer que estivesse na sua companhia nas circunstâncias mais favoráveis, desejaria vê-lo irritar-se e franzir o sobrolho.

 

Quilp olhou para o seu consultor de leis, e vendo que este não parava de pestanejar por causa do fumo, que por vezes parecia ter um calafrio, quando inalava a fundo o seu perfume, e não parava de afastar o fumo de si, ficou radiante e esfregou as mãos de gozo.

 

- Continua a fumar, cão - disse Quilp voltando-se para o rapaz. - Volta a encher o cachimbo e fuma-o depressa, até ao fim, se não queres que o ponha na lareira até ficar em brasa, e depois te esfregue a língua com ele.

 

O rapaz, felizmente, já estava habituado, e teria fumado um pequeno forno se lho tivessem ordenado. Assim, contentou-se em murmurar uma resposta torta ao patrão, e fez o que lhe mandavam.

 

- É bom, Brass, é agradável, é perfumado, você não se sente como o grão-turco? - disse Quilp.

 

Mr. Brass pensou que, se assim fosse, não era ele que invejava as sensações do grão-turco, mas garantiu que era delicioso, e que não tinha dúvidas de que se estava a sentir como o dito soberano.

 

- Esta é a melhor maneira de afastar as febres, é a melhor maneira de evitar todas as calamidades da vida. Não vamos parar durante todo o tempo que aqui estivermos. Fuma, cão, ou eu faço-te engolir o cachimbo.

 

- Vamos ficar aqui muito tempo, Mr. Quilp? - inquiriu o solicitador depois de o anão dar ao rapaz esta última amável reprimenda.

 

- Devemos ficar, acho eu, até o velhote morrer - respondeu Quilp.

 

- He, he, he! - riu Mr. Brass. - Oh, muito bem!

 

- Fume! - exclamou Quilp. - Não pare! Você pode ir falando enquanto fuma. Não perca tempo.

 

- He, he, he! - exclamou Brass com voz fraca, enquanto de novo se ocupava do odioso cachimbo. - Mas... e se ele melhorar, Mr. Quilp?

 

- Nesse caso teremos de aqui ficar até que ele morra, e só depois nos iremos embora - respondeu o anão.

 

- Que bondade a sua, esperar esse tempo todo! - disse Brass. - Outra pessoa, no lugar do senhor, já teria vendido ou levado a mercadoria. Claro! Assim que a lei o permitisse! Algumas pessoas teriam sido de rocha e granito, saiba o senhor que algumas pessoas teriam...

 

- Algumas pessoas não estariam aqui a ouvir um papagaio como você - interpôs o anão.

 

- He, he, he! - exclamou Brass. - O senhor é tão espirituoso!

 

A sentinela que fumava junto da porta interrompeu-os sem sair do seu lugar, e sem tirar o cachimbo da boca, grunhiu:

 

- Vem aí a miúda a descer a escada.

 

- O quê, cão? - disse Quilp.

 

- A miúda! - repetiu o rapaz. - Ficou surdo?

 

- Oh! - disse Quilp sorvendo o ar com grande satisfação como se se tratasse de sopa quente. - Tu e eu daqui a pouco vamos ter uma conversa. Nem sabes os arranhões e a tareia que te esperam, meu menino! Ahá! Nelly! Como é que ele está agora, minha jóia?

 

- Está muito mal - respondeu a criança que chorava.

 

- Que linda criança é esta Nell! - exclamou Quilp.

 

- Oh, linda, realmente muito bonita - disse Brass. - É de facto encantadora.

 

- Veio sentar-se um pouco no colo do Quilp - disse o anão num tom que pretendia ser gentil. - Ou vai-se deitar lá dentro no seu quartinho? O que é que a pobre Nelly vai fazer?

 

- Como ele sabe lidar com crianças! - murmurou Brass como se fosse uma confidência trocada entre ele e o tecto.

 

- Até dá gosto ouvi-lo, palavra de honra!

 

- Não vou ficar aqui - disse Nelly com voz trémula.

 

- Vim só buscar umas coisas que estão naquele quarto, e depois eu... eu já não volto mais aqui.

 

- É um quartinho tão bonito! - disse o anão espreitando lá para dentro no momento em que a criança lá entrava.

 

- Um perfeito ninho! Tens a certeza que não vais querer voltar a usá-lo, não vais querê-lo de volta, Nelly?

 

- Não - respondeu a criança afastando-se rapidamente com as peças de vestuário que tinha vindo buscar. - Nunca mais! Nunca mais!

 

- Ela é muito sensível! - disse Quilp seguindo-a com o olhar. - Muito sensível! É uma pena. A cama é mesmo à minha medida. Parece-me que este quartinho vai ser para mim.

 

Mr. Brass apoiou a ideia, como teria apoiado qualquer outra ideia que tivesse tido a mesma proveniência, o anão entrou para experimentar como se sentia, e para isso atirou-se de costas para cima da cama com o cachimbo na boca, e começou a espernear e a fumar violentamente. Mr. Brass aplaudiu muito este quadro, e a cama era macia e confortável, de forma que Mr. Quilp resolveu passar a servir-se dela, como local para dormir durante a noite, e como uma espécie de sofá durante o dia, e a fim de lhe dar imediatamente esta última função, deixou-se ficar onde estava e fumou o seu cachimbo até ao fim. O homem de leis, que nesta altura se sentia já um pouco tonto e com as ideias confusas, o que era um efeito do tabaco no seu sistema nervoso, aproveitou a oportunidade para sair para a rua para respirar um pouco de ar puro e ao fim de algum tempo regressou com uma aparência um pouco mais composta. Mas logo o malicioso anão o pôs de novo a fumar até ele ter uma recaída, e nesse estado se atirou para cima de um sofá e lá ficou a dormir até de manhã.

 

Tais foram as primeiras atitudes de Mr. Quilp quando entrou de posse da sua nova propriedade. Durante alguns dias esteve muito ocupado com os seus negócios para se lembrar de pregar as suas partidas do costume, pois o seu tempo foi todo ocupado com a elaboração de um minucioso inventário de todos os bens existentes na loja, o que fez com a ajuda de Mr. Brass, e algumas saídas para tratar de outros negócios, que felizmente o retinham fora de casa durante várias horas seguidas. No entanto, como a sua avareza e a sua manha estavam agora de sobreaviso, não dormia fora de casa uma única noite, e como, para além disso, à medida que o tempo passava, cada vez mais desejava que, de uma forma ou de outra, a doença do velho terminasse, cedo se lhe começaram a ouvir murmúrios e exclamações de impaciência.

 

Nell evitava timidamente todas as tentativas que o anão fazia para conversar com ela, fugia ao ouvir o som da sua voz, e os sorrisos do solicitador não eram para ela menos terríveis do que as caretas de Quilp. Vivia num tal contínuo pavor de se cruzar com algum deles na escada ou no corredor se saísse do quarto do avô, que mal saía de lá por um momento sequer excepto de noite, já muito tarde, quando o silêncio a encorajava a ir respirar um pouco de ar puro numa sala vazia.

 

Uma noite, tinha-se chegado à sua janela do costume, e lá se tinha sentado muito triste, porque o avô tinha piorado nesse dia, quando lhe pareceu ouvir uma voz na rua que a chamava pelo seu nome. Olhando para baixo reconheceu Kit que depois de muitas tentativas tinha finalmente conseguido chamar a sua atenção, despertando-a dos seus tristes pensamentos.

 

- Miss Nell! - disse o rapaz em voz baixa.

 

- Sim! - respondeu a criança sem saber se devia manter alguma comunicação com o suposto culpado, mas sentindo uma força que a atraía para o seu velho amigo. - O que é que tu queres?

 

- Há muito tempo que queria falar consigo, mas as pessoas cá em baixo mandavam-me embora e não me deixaram vê-la. A menina não acredita, eu espero que não acredite, que eu fiz alguma coisa para merecer ser despedido daquela maneira, não acredita, pois não?

 

- Tenho de acreditar - respondeu a criança. - Senão, porque é que o avô havia de ficar tão zangado contigo?

 

- Não sei - respondeu Kit. - Tenho a certeza que nunca mereci uma coisa daquelas da parte dele, não, nem da menina. Posso-lhe dizer isto com toda a sinceridade do meu coração. E então ser corrido daquela porta, quando só tinha vindo saber notícias do patrão!

 

- Eu não sabia isso - disse a pequena. - Realmente não sabia. Por nada deste mundo os teria deixado fazer uma coisa dessas.

 

- Obrigadinha, menina - respondeu Kit. - Faz-me bem ouvi-la dizer isso. Eu disse-lhes que não acreditava que tivesse sido uma ordem sua.

 

- É verdade! Não foi! - disse a criança energicamente.

 

- Miss Nell - disse o rapaz aproximando-se da janela e falando em voz mais baixa. - Agora cá em baixo há outros patrões. É uma mudança para si.

 

- Pois é - respondeu a garota.

 

- E para ele também vai ser, quando melhorar - disse o rapaz apontando para o quarto do doente.

 

- Se ele alguma vez melhorar! - acrescentou a criança incapaz de suster as lágrimas.

 

- Oh, ele vai melhorar, vai sim - disse Kit, - eu tenho a certeza disso. A menina não se pode deixar ir abaixo, Miss Nell. Peço-lhe que não deixe!

 

Estas palavras de encorajamento e consolação foram poucas e rudes, mas comoveram a criança, e naquele momento fizeram-na chorar mais ainda.

 

- Ele agora tem de melhorar - disse o rapaz ansiosamente. - Se a menina não se deixar abater, e adoecer também. Nessa altura é que ele piorava, nem iam servir de nada as melhoras que está a ter. Quando ele ficar bom, diga-lhe uma palavrinha, diga-lhe uma palavrinha por mim, Miss Nell.

 

- Disseram-me que durante muito, muito tempo, ao pé dele eu não devia nem sequer falar no teu nome - acrescentou a criança. - Não tenho coragem! E mesmo que o pudesse fazer, em que é que isso te pode ajudar, Kit? Vamos ser muito pobres, mal vamos ter pão para comer!

 

- Não é para conseguir o meu emprego de volta - disse o rapaz - que lhe estou a pedir este favor. Não foi por causa da comida e do salário que eu esperei este tempo todo, na esperança de conseguir falar consigo. A menina acha que numa altura destas eu a vinha importunar com uma coisa dessas?

 

A garota olhou para ele reconhecida e carinhosamente, mas esperou que ele falasse de novo.

 

- Não, não é isso - disse Kit um pouco hesitante. - É outra coisa muito diferente. Eu sou um tolo, bem sei, mas se a menina conseguisse convencê-lo de que fui sempre um criado que o serviu fielmente, fiz semmpre o melhor que sabia, e nunca quis senão o vosso bem, então talvez ele não pensasse...

 

Nesta altura Kit hesitou durante tanto tempo que a criança lhe pediu que dissesse o que ia a dizer, sem mais demora, porque era muito tarde e ela tinha de ir para dentro.

 

- Talvez ele não achasse um grande atrevimento da minha parte se eu dissesse... pronto, se eu dissesse isto: - exclamou Kit com súbita ousadia. - Esta casa já não é vossa. A minha mãe e eu temos uma casa pobre, mas é melhor que esta, com as pessoas que cá estão agora. Porque é que não hão-de vir para lá, até encontrarem outra coisa melhor?

 

A criança não disse nada. Kit, aliviado por ter conseguido finalmente fazer a sua proposta, sentiu a língua solta e falou em seu favor com toda a eloquência de que era capaz.

 

- A menina está a pensar - disse o rapaz - que a casa é pequena e sem conforto. É verdade, mas é muito limpa. Se calhar pensa que é barulhenta, mas olhe que não há, em toda a cidade, um pátio tão sossegado como o nosso. Não se preocupe com as crianças. O bebé quase nunca chora e o outro é muito bonzinho. Além disso, eu tratava deles. Não iam incomodá-la muito. Tenho a certeza. Experimente, Miss Nelly, experimente! O quartinho da frente, do andar de cima, está-se lá muito bem. Entre as chaminés vê-se um pedaço da torre da igreja, quase que se conseguem ver as horas. A minha mãe diz que era mesmo o que convinha à menina, e é verdade. Ela servia-vos aos dois, e tinham-me a mim para vos fazer os recados. Não queremos dinheiro, valha-me Deus! A menina agora não deve pensar em dinheiro. Vai falar com ele, sim, Miss Nell? Diga-me que sim, faça com que o patrão venha morar connosco, pergunte-lhe primeiro o que foi que eu fiz de mal. Promete-me isso, Miss Nell?

 

Antes que a criança pudesse responder a este convite sincero, a porta da rua abriu-se e Mr. Brass, com a cabeça enfiada num gorro de dormir, perguntou em voz ameaçadora:

- Quem está aí? - Kit deslizou imediatamente dali para fora, e Nell, fechando a janela devagarinho, voltou para dentro.

 

Antes de Mr. Brass repetir a pergunta muitas vezes, Mr. Quilp, também ele embelezado por um barrete de dormir, apareceu também à porta, observou atentamente a rua em ambas as direcções, e foi ao outro lado da rua para dali observar todas as janelas da casa. Vendo que não estava ninguém à vista, acabou por voltar para casa com o seu amigo das leis, protestando, a criança ouvia-o da escada, que havia uma conspiração contra ele, que estava em perigo de ser roubado e saqueado por um bando de conspiradores que não paravam de rondar a casa, e que iria sem demora tomar as disposições necessárias para tomar imediatamente posse da propriedade e regressar à tranquilidade do seu lar. Depois de resmungar esta e muitas outras ameaças parecidas enroscou-se de novo na cama da pequena, e Nelly subiu as escadas silenciosamente.

 

É natural que este curto diálogo, aliás não terminado, com Kit, a tivesse deixado fortemente impressionada e tivesse influenciado os seus sonhos nessa noite e os seus pensamentos durante muito, muito tempo. Rodeada por credores sem sentimentos e por enfermeiros mercenários, e encontrando, no auge da sua angústia e tristeza, tão pouca simpatia e compaixão, até nas mulheres que a rodeavam, não é de surpreender que o coração afectuoso da criança tivesse sido facilmente tocado por um espírito bom e generoso, por muito boçal que fosse o templo que esse espírito habitava. Graças a Deus, estes templos não são a obra de mãos humanas, e podem ser mais bem decorados com pedaços de tecido remendado do que com púrpura e linho fino.

 

Aos poucos o velho foi melhorando. Aos poucos e poucos, muito devagar, recobrou a consciência, mas a sua cabeça ainda estava fraca e todo o seu organismo debilitado. Deixava-se ficar sossegado, paciente, muitas vezes se sentava a meditar, nunca se deixando abater. Facilmente se deixava encantar com um raio de sol na parede ou no tecto. Não se queixava de que os dias eram longos e as noites intermináveis, e parecia de facto ter perdido a noção do tempo e a consciência da realidade. Ficava sentado horas a fio com a mão de Nell na sua, brincando com os seus dedos e parando de quando em vez para lhe acariciar os cabelos ou lhe dar um beijo na testa, e quando via os olhos dela cheios de lágrimas, ficava espantado procurando a sua causa dentro de si, e no mesmo momento esquecia aquilo em que estava a pensar.

 

Davam alguns passeios. O velho apoiado em almofadas, a criança ao lado dele. Continuavam de mãos dadas, como sempre. O ruído e o movimento nas ruas fatigavam-lhe a cabeça ao princípio, mas não ficava surpreendido, ou curioso, ou satisfeito, ou irritado. Perguntavam-lhe se se lembrava disto ou daquilo. - Oh, sim, muito bem, como não? - Por vezes virava a cabeça, esticava o pescoço e olhava com verdadeiro interesse um qualquer estranho na multidão, até este desaparecer de vista, mas quando lhe perguntavam porque fazia isto, não respondia uma palavra.

 

Um dia, estava ele sentado no seu cadeirão, e Nell sentada num banco ao lado dele, quando do outro lado da porta uma voz de homem perguntou se podia entrar. - Sim - disse ele sem qualquer emoção. Sabia que era Quilp. Quilp era agora o senhor de tudo naquela casa. É claro que podia entrar, e entrou.

 

- Folgo muito em saber que finalmente está restabelecido, vizinho - disse o anão sentando-se na frente dele. - Já está mesmo bom?

 

- Sim - disse o velho com voz fraca. - Sim.

 

- Sabe, vizinho, eu não quero apressá-lo - disse o anão levantando a voz porque o velho começava a perder algumas capacidades, - mas quanto mais cedo o vizinho resolver a sua vida, melhor.

 

- Claro - disse o velho. - Melhor para todos.

 

- Bem vê - prosseguiu Quilp após uma curta pausa, - no momento em que os móveis saírem daqui, esta casa vai-se tornar desconfortável, inabitável, mesmo.

 

- É verdade - respondeu o velho. - Coitadinha da Nelly, que iria ser dela?

 

- Claro! - disse o anão abanando a cabeça. - Está bem observado. O vizinho vai resolver também essa questão?

 

- Com certeza - replicou o avô. - Nós vamo-nos embora.

 

- Eu já calculava. - disse o anão. - Já vendi os móveis todos. Não renderam aquilo que podiam ter rendido, mas não foi mau de todo, não foi mau de todo. Hoje é terça-feira. Quando é que podem vir buscá-los? Não há pressa... que tal esta tarde?

 

- Digamos sexta de manhã - disse o velho.

 

- Muito bem - disse o anão. - Seja, então. Mas fique claro que não posso ir além dessa data, vizinho. Sob nenhum pretexto.

 

- Está bem - respondeu o velho. - Eu não me esqueço.

 

Mr. Quilp parecia um tanto baralhado com a forma estranha, quase apática, como tudo isto foi dito. Mas como o velho concordou com a cabeça e repetiu: - Sexta de manhã. Eu não me esqueço. - Não tinha pretexto para repisar mais o assunto, e por isso despediu-se amigavelmente com muitos votos de felicidades e muitas amabilidades a propósito do bom aspecto do seu amigo, e desceu as escadas para ir relatar o seu sucesso a Mr. Brass.

 

Ao longo de todo esse dia e do segundo, o velho continuou no mesmo estado. Andava para cima e para baixo dentro de casa, entrava nas suas várias divisões, como que pretendendo vagamente despedir-se delas, mas não fez uma única alusão, directa ou indirecta, à conversa dessa manhã ou à necessidade de encontrarem outro abrigo. Parecia aperceber-se de que a criança estava desolada e a precisar de ajuda, porque várias vezes a puxou para si, e lhe pediu que se animasse, prometendo-lhe que não se separariam um do outro, mas parecia incapaz de encarar lucidamente a posição real em que se encontravam, e era ainda a criatura incapaz de emoções e de paixões que o sofrimento físico e espiritual tinham feito dele.

 

Chamamos a isto o retorno à infância, mas esta não é uma comparação para ser tomada a sério. Onde está, nos olhos baços dos homens senis, a luz risonha e a vivacidade da infância, a alegria que ainda não conheceu desilusões, a sinceridade que ainda não conheceu a mentira, a esperança que ainda não conheceu desgostos, a alegria que floresce para logo murchar? Onde está, nos traços angulosos da morte disforme e rígida, a beleza tranquila do sono, que é o repouso das horas passadas mas também reflecte o sonho das que hão-de vir? Coloquem a morte e o sono lado a lado, e digam se há alguém que lhes encontre semelhanças. Comparem a criança e o homem senil, e corem do tolo pretenciosismo que é dar-se o nome da nossa época mais feliz a um estado que reflecte uma imagem afinal feia e desfigurada.

 

Chegou quinta-feira, e o velho continuava na mesma. Nesse dia, porém, à tardinha, quando ele e a criança estavam sentados em silêncio, um ao lado do outro, operou-se nele uma mudança.

 

Num pequeno pátio sombrio, debaixo da sua janela, havia uma árvore, bastante verdejante e viçosa, atendendo ao lugar onde estava. À medida que o vento perpassava por entre as suas folhas, projectava a sua sombra oscilante sobre a parede branca. O velho sentou-se até ao pôr-do-sol a observar as sombras que tremiam sobre aquele pedaço de luz, e quando veio a noite e a Lua começava a erguer-se lentamente no horizonte, ele continuava sentado no mesmo sítio.

 

Para uma pessoa que se tinha agitado febril numa cama ao longo de tanto tempo, até estas poucas de folhas verdes e esta luz serena, embora brilhasse por entre chaminés e telhados, eram coisas agradáveis de ver. Sugeriam-lhe lugares de calmaria, longínquos, sugeriam-lhe descanso e paz.

 

Por mais de uma vez a criança pensou que ele estava emocionado e por isso abstinha-se de lhe falar. Mas agora pelo rosto dele caíam lágrimas, lágrimas que iluminaram o coração da pequena. Então, o velho, fazendo uma tentativa para se ajoelhar, pediu-lhe que o perdoasse.

 

- Perdoar-lhe... o quê? - disse Nell impedindo-o de se ajoelhar. - Oh avô! O que é que eu tenho para lhe perdoar?

 

- Tudo o que se passou, tudo o que recaiu sobre ti, tudo o que aconteceu ao longo daquele sonho aflitivo - respondeu o velho.

 

- Não diga isso - disse a criança. - Por favor, não diga isso. Vamos falar de outra coisa.

 

- Sim, sim, vamos - acrescentou ele. - Vamos falar de uma coisa de que falámos há muito tempo. Há muitos meses. Foram meses, ou foram semanas? Ou foram dias?

 

- Não compreendo - disse a criança.

 

- Veio-me hoje à mente, desde que aqui estamos sentados. E abençoo-te por isso, Nell!

 

- Porquê, avô?

 

- Por aquilo que disseste quando nos transformámos em pedintes, Nell. Vamos falar baixinho, chiu! Se eles nos ouvissem lá em baixo haviam de dizer que endoideci, e tiravam-te de mim. Não vamos ficar aqui nem mais um dia. Vamo-nos embora para longe daqui.

 

- Sim, vamos! - disse a criança com entusiasmo. - Vamo-nos embora deste lugar, e nunca mais cá voltamos, vamos esquecê-lo completamente. Vamos andar por aí, descalços, por esse mundo fora. É melhor que ficarmos aqui.

 

- Vamos - respondeu o velho. - Caminharemos através de campos e bosques, pela margem dos rios, nas mãos de Deus e para os lugares para onde Ele nos quiser dirigir. É melhor dormir ao relento, sob um céu como este que temos por cima de nós, vê como é luminoso! Do que dormir debaixo de um tecto, mas sempre cheios de aflições e de pesadelos. Tu e eu juntos, Nell, podemos ainda viver uma vida alegre e feliz, e esquecer essa época das nossas vidas, como se nunca tivesse existido.

 

- Vamos ser felizes, sim! - exclamou a criança. - Aqui nunca poderíamos sê-lo.

 

- Não, nunca mais seria possível, nunca mais, tens razão.

- acrescentou o velho. - Vamos fugir daqui amanhã de manhã, muito cedo e sem fazer barulho, de maneira que não nos vejam nem nos ouçam, sem deixarmos marcas ou sinais que lhes permitam encontrar-nos. Pobre Nell, estás tão pálida, os teus olhos estão cansados de cuidar de mim, de chorar por mim. Por mim, eu sei, mas em breve irás recuperar a saúde, e a alegria também, quando estivermos longe daqui. Amanhã de manhã, minha querida, voltaremos o rosto a este triste cenário, e vamos ser felizes e livres como os passarinhos.

 

O velho, então, juntou as mãos sobre a cabeça da pequena, e em poucas palavras, soluçadas, disse que daí para a frente andariam por aí, sempre juntos, e nunca mais se separariam até que a morte levasse um dos dois.

 

O coração da garota bateu mais forte com esperança e confiança. Não pensava na fome, nem no frio, nem na sede, nem no sofrimento. Via em tudo isto um retorno às alegrias simples que outrora tinham conhecido, um alívio para a triste solidão em que tinham vivido, uma libertação daquelas pessoas horríveis de quem tinha vivido rodeada nos últimos tempos tão difíceis, o regresso da saúde e da tranquilidade do velho, e uma vida de serena felicidade. O Sol, os ribeiros, os campos e os dias de verão brilhavam aos seus olhos num quadro luminoso sem mácula de tristeza.

 

O velho já dormia na sua cama, profundamente, há algumas horas, e ainda ela estava ocupada a preparar tudo para a partida. Queria levar algumas peças de vestuário para si, outras para o avô, roupas usadas, de acordo com a sua nova condição de pobres, e um cajado para, na sua fraqueza, o ajudar a caminhar. Mas isto não era tudo. Ainda queria percorrer pela última vez as divisões da casa.

 

E como esta despedida era diferente de tudo o que alguma vez imaginara! Como é que ela podia adivinhar que um dia sairia daquela casa em triunfo, quando a lembrança de todos os momentos que lá passara lhe pesava no coração e fazia com que esse desejo lhe parecesse uma crueldade, apesar de muitas dessas noites terem sido tristes e solitárias. Sentou-se à janela onde tinha passado tantas noites, muito mais escuras do que esta, e todos os pensamentos de esperança e alegria que ali lhe tinham ocorrido regressaram à sua mente, e num instante dissiparam todas as ideias tristes e lúgubres.

 

Mas havia também o seu pequeno quarto, onde tantas vezes à noite se tinha ajoelhado e rezado, rezado pelo dia que via agora chegar. O quartinho onde tinha dormido tão descansada, e tivera sonhos tão lindos. Custava-lhe não voltar a vê-lo, ser obrigada a partir sem lançar um último olhar carinhoso ou uma lágrima de gratidão. Havia lá algumas bugigangas, coisas sem valor, que gostaria de levar consigo, mas isso era impossível.

 

Lembrou-se então do seu passarinho, o seu pobre passarinho, que lá estava pendurado na sua gaiola. Chorou sentidamente a perda da pequena ave, até que pensou, não sabia como nem porquê, que talvez este acabasse por ir parar às mãos de Kit, que tomaria conta dele, fá-lo-ia, sim, e talvez pensasse que ela deixara o passarinho para que ele ficasse com ele e soubesse que ela lhe ficara grata. Ficou mais tranquila e confortada por este pensamento, e foi dormir com o coração mais leve.

 

Depois de muitos sonhos em que caminhava por paisagens luminosas e banhadas pelo Sol, mas nos quais sentia senpre uma vaga sensação de qualquer coisa que não conseguia alcançar, acordou e viu que ainda era noite e que as estrelas brilhavam muito no céu. Depois começou a nascer o dia, e as estrelas foram ficando mais pálidas e foram desaparecendo. Quando teve a certeza disso, levantou-se e vestiu-se para a viagem.

 

O velho ainda dormia, e ela, com pena de o acordar, deixou-o dormir até nascer o Sol. Ele, ansioso como estava de deixar aquela casa sem demora, rapidamente se aprontou.

 

A criança, então, deu-lhe a mão, e desceram a escada em silêncio, cautelosamente, estremecendo de cada vez que uma tábua rangia, e parando várias vezes à escuta. O velho esqueceu-se de uma espécie de saco onde estava a sua pouca bagagem, e os poucos passos que tiveram de voltar atrás pareceram uma demora interminável.

 

Chegaram por fim ao corredor do rés-do-chão, onde os roncos de Mr. Quilp e do amigo lhes pareceram mais terríveis que rugidos de leões. Os ferrolhos da porta estavam ferrugentos, e era difícil abri-los sem fazer barulho. Depois de os conseguirem abrir, verificaram que a porta estava fechada à chave e, pior do que isso, a chave tinha desaparecido. A criança lembrou-se então que uma das enfermeiras lhe tinha dito que Mr. Quilp todas as noites fechava à chave as portas de casa, e deixava as chaves no quarto, em cima da mesa.

 

Foi a tremer de medo que a pequena Nell descalçou os sapatos, deslizou pela Loja de Antiguidades onde Mr. Brass, a coisa mais feia que se encontrava dentro da loja, dormia em cima de um colchão, e foi até ao seu pequeno quarto.

 

Aqui ficou por um momento, paralisada de terror, quando viu Mr.Quilp que estava de tal fora pendurado para fora da cama que parecia que estava a fazer o pino, e que, para além de se encontrar nessa estranha posição, e do seu aspecto grotesco de sempre, ressonava e roncava com a boca toda aberta, e com o branco, ou melhor, o amarelo sujo dos seus olhos, perfeitamente à vista. Mas aquele não era o momento de perguntar se ele se estaria a sentir bem e, assim, lançou um rápido olhar em volta, apoderou-se da chave, voltou a passar por Mr. Brass e conseguiu regressar em segurança para junto do velho. Conseguiram abrir a porta sem fazer barulho, saíram para a rua e ficaram um momento imóveis.

- Para que lado? - perguntou a criança. O velho olhou hesitante e assustado, primeiro para ela, depois para a esquerda, para a direita, outra vez para ela, e abanou a cabeça. Era claro que a partir daqui era ela que ia ser a sua guia. A criança sentiu-o, mas não tinha dúvidas nem receios. Deu-lhe a mão e levou-o carinhosamente para longe dali. Era o principio de um dia de Junho. O céu azul e profundo não tinha uma nuvem e cintilava de luminosidade. Nas ruas ainda não se via quase ninguém. As casas e as lojas ainda estavam fechadas, e o ar saudável da manhã era como a respiração dos anjos na cidade adormecida.

 

O velho e a criança atravessaram aquela agradável atmosfera de silêncio inebriados de esperança e prazer, Estavam de novo os dois sozinhos e unidos. Tudo à sua volta era fresco e brilhante. Só o contraste lhes lembrava a monotonia e a tristeza que tinham deixado para trás. As torres das igrejas e os campanários, que noutros momentos se tornavam escuros e sombrios, brilhavam agora e cintilavam ao Sol. Cada humilde recanto rejubilava de luz. O céu, esbatido pela distância, espalhava o seu sorriso pleno de bonomia sobre o mundo aos seus pés.

 

Os dois pobres aventureiros afastaram-se do centro da cidade ainda adormecida, e continuaram a sua caminhada sem destino.

 

Daniel Quilp, de Tower Hill, e Sampson Brass, de Bevis Marks, na cidade de Londres, um «gentleman» e um dos advogados de Sua Majestade, com assento na Suprema Corte Real e no tribunal de Direito Civil em Westminster e solicitador no Supremo Tribunal de Justiça, continuavam a dormir tranquilamente, sem pensarem em nenhum infortúnio. De repente, ouviu-se bater à porta da rua, umas pancadas insistentes e cada vez mais fortes, começando com uma pancadinha leve e temerosa, que se transformou num perfeito ribombar, como um canhão disparando grandes descargas a intervalos muito curtos.

 

Foi com dificuldade que o referido Daniel Quilp conseguiu alcançar uma posição horizontal, ficando de olhos pregados no tecto, com sonolenta indiferença, o que mostrava que ouvira o ruído, interrogando-se sobre a razão do mesmo, mas não conseguia ocupar mais o seu pensamento com o caso.

 

Mas como as pancadas, em vez de respeitarem a modorra de quem dormia, aumentassem, tornando-se mais insistentes, como uma severa admoestação por ele ter recaído no sono depois de haver aberto os olhos, Daniel Quilp começou gradualmente a perceber que talvez estivesse alguém a bater à porta e, assim, lentamente, acabou por se lembrar que era manhã de sexta-feira e que tinha mandado Mrs. Quilp vir cedo, para lhe prestar serviço.

 

Mr. Brass, depois de se ter contorcido em muitas e estranhas atitudes, fazendo umas caretas, como faz geralmente quem se arrisca a comer groselhas antes de elas estarem maduras, também já estava acordado nesta altura e, ao ver que Mr. Quilp começava a vestir a sua roupa habitual, apressou-se a fazer o mesmo, mas enfiou os sapatos antes de calçar as meias, meteu as pernas pelas mangas do casaco, cometendo outros pequenos dislates semelhantes, como acontece por vezes a quem se veste à pressa, perturbado por ter sido arrancado ao sono repentinamente.

 

Enquanto o advogado estava entregue àquela ocupação, o anão, debaixo da mesa, andava às apalpadelas, lançando surdas maldições contra si próprio e contra a humanidade em geral e todos os objectos inanimados que pudessem ser alvo dos seus pontapés, o que levou Mr. Brass a perguntar:

 

- O que foi?

 

- A chave - respondeu o anão, deitando-lhe um olhar malévolo. - A chave da porta, isso é que é o problema. Sabe onde é que ela está?

 

- Mas, senhor, como é que eu hei-de saber onde está?

- retorquiu Mr. Brass.

 

- Como é que há-de saber? - repetiu Quilp, com ar sarcástico. - Saiu-me cá um advogado! Um idiota, é o que é!

 

Mr. Brass, sem se preocupar em objectar ao anão, no seu estado de espírito, que não se poderia realmente dizer que o facto de outra pessoa perder uma chave afectasse, de alguma maneira, os seus (dele, Brass) conhecimentos das leis, aventou timidamente a hipótese de que devia ter ficado esquecida durante a noite, e que seguramente agora se encontrava onde devia: no buraco da fechadura.

 

Mr Quilp, embora grandemente convencido do contrário, pois lembrava-se de a ter cuidadosamente retirado da porta, sentiu um alívio ao pensar que ela podia realmente lá estar e, assim, dirigiu-se resmungando para a porta, onde de facto a encontrou.

 

Ora, no preciso momento em que Mr. Quilp pôs a mão na fechadura, verificando, com grande surpresa sua, que o fecho estava aberto, voltaram a soar as pancadas na porta, com uma força irritante, e os raios de sol que passavam através do buraco da fechadura foram interceptados de fora por um olho humano.

 

O anão sentiu crescer-lhe uma enorme irritação, e querendo descarregar o seu mau humor sobre alguém, resolveu arremessar-se bruscamente sobre Mrs. Quilp, manifestando-lhe, assim desta maneira amável, todo o seu apreço pela dedicação que ela revelava, com aquele enorme barulho.

 

E, assim pensando, puxou o fecho, muito devagarinho, sem fazer o menor ruído e, abrindo a porta bruscamente, lançou-se sobre a pessoa que lá se encontrava e que, naquele momento, ia levantar a argola da porta para uma nova insistência; o anão embateu de cabeça, erguendo as mãos e os pês juntos, e abocanhando o ar, todo ele transbordando malícia.

 

Porém, não foi a uma pessoa que não oferecia qualquer resistência e que implorava perdão que Mr. Quilp se atirou. Assim que ficou nos braços da pessoa que julgara ser a sua mulher, recebeu logo à laia de cumprimento, dois socos na cabeça que o fizeram cambalear, e outros dois aplicados no peito com a mesma energia. Engalfinhando-se no seu agressor, desabou sobre ele uma tal saraivada de pancadas que não lhe deixaram dúvidas de que se encontrava em mãos hábeis e experientes.

 

Nada intimidado com esta recepção, agarrou-se tão denodadamente ao seu adversário, dando dentadas e murros com as mãos com tanto ardor e energia que decorreram pelo menos alguns minutos, até ele conseguir desprendê-lo. Foi então, e só então, que Daniel Quilp se encontrou no meio da rua, todo desgrenhado e afogueado, e à sua volta, descrevendo uma espécia de dança, Mr. Richard Swiveller ia-lhe perguntando se «se queria mais».

 

- Há muito mais, na mesma loja - declarou Mr. Swiveller, ora avançando, ora recuando, numa atitude ameaçadora.

- Uma grande e variada colecção, sempre à mão. Encomendas de fora, executadas com celeridade e prontidão. Deseja mais, meu senhor? Não diga que não, veja lá.

 

- Pensava que fosse outra pessoa - respondeu Quilp, esfregando os ombros. - Porque é que você não disse quem era?

 

- E porque é que você não disse quem era - retorquiu Dick, - em vez de se lançar de dentro de casa como um louco?

 

- Foi você que... que bateu - perguntou o anão, levantando-se com um breve gemido - não foi?

 

- Fui eu mesmo - respondeu Dick. - Quando cheguei, já cá estava aquela senhora, mas ela batia muito baixinho, por isso tomei o lugar dela. E, ao dizer isso, apontava para Mrs. Quilp que se encontrava a uma curta distância, trémula.

 

- Hum! - resmungou o anão, lançando uma olhar irado à mulher, - Julguei que eras tu! E o senhor não sabe que tem estado aqui uma pessoa doente, para bater dessa maneira, como se quisesse deitar a porta abaixo?

 

- Com mil diabos! - respondeu Dick. - Foi mesmo por isso. Julguei que houvesse aí algum morto.

 

- Veio aqui por alguma razão - disse Quilp. - O que é que queria?

 

- Queria saber como está o senhor de idade - respondeu Mr. Swiveller. - E como vai a Nell, com quem gostava de falar um pouco. Sou um amigo da família. Sou amigo, pelo menos, de uma das pessoas da família, o que vem a dar no mesmo.

 

- Então, é melhor entrar - disse o anão. - Entre, senhor, entre. Vamos, Mrs. Quilp. Passe à minha frente, minha senhora.

 

Mrs. Quilp hesitou, mas Mr. Quilp insistiu. E não se tratava de uma questão de cortesia, nem, de modo nenhum, de uma mera formalidade. Ela sabia muito bem que era por esta ordem que o marido pretendia entrar em casa, constituindo uma boa oportunidade para lhe aplicar alguns beliscões nos braços, que não raramente apresentavam as marcas dos dedos dele, em tons negros e azulados. Mr. Swiveller, que não estava a par deste segredo, sentiu com alguma surpresa um grito abafado e, olhando à volta, verificou que Mrs. Quilp, que o seguia, se contraiu subitamente, mas não proferiu qualquer reparo sobre o facto e depressa o esqueceu.

 

Quando entraram na loja, o anão disse: - Agora, Mrs. Quilp, faça favor de ir lá acima, ao quarto da Nelly, e diga-lhe que precisamos dela.

 

- Você, aqui, parece que está mesmo em sua casa - afirmou Dick, que desconhecia o poder de Mr. Quilp.

 

- Estou mesmo em minha casa, cavalheiro - retorquiu o anão.

 

Estava Dick a meditar no significado destas palavras e, ainda, na razão da presença de Mr. Brass ali, quando Mrs. Quilp, que havia descido as escadas a correr, entrou, dizendo que não estava ninguém nos quartos de cima.

 

- Ninguém? És estúpida! - exclamou o anão.

 

- Dou-te a minha palavra, Quilp - respondeu-lhe a mulher, tremendo. - Vi todos os quartos e não havia vivalma em nenhum deles.

 

- Aí está! - interveio Mr. Brass, dando uma palmada com as mãos, de modo enfático. - Assim se explica o mistério da chave!

 

Quilp atirou-lhe um olhar carrancudo e carrancudo


olhou para a mulher e para Richard Swiveller, mas, não conseguindo qualquer esclarecimento de nenhum deles, precipitou-se pelas escadas acima, voltando pouco depois em igual precipitação, com a mesma notícia que tinha acabado de receber.

 

- É uma maneira estranha de ir embora - disse ele com um relance de olhos para Swiveller. - É muito estranho que não me tenha informado, a mim, que sou tão seu amigo. Ah! Mas ele não vai deixar de me escrever, ou mandar a Nelly escrever. Sim, é isso mesmo, é isso que vai acontecer. A Nelly gosta muito de mim. A bela Nelly!

 

Mr. Swiveller estava boquiaberto, revelando todo o seu espanto. Continuando a olhar furtivamente para ele, Quilp voltou-se para Mr. Brass, observando, com uma simulada indiferença, que tal facto não iria perturbar a saída da mercadoria.

 

- Efectivamente - acrescentou, - sabíamos que eles se iam embora hoje, mas não esperávamos que fossem tão cedo, nem tão discretamente. Mas eles lá têm as suas razões, eles lá têm as suas razões.

 

- Mas para onde diabo é que eles foram? - perguntou Dick, espantado.

 

Quilp abanou a cabeça e fez um trejeito de lábios, como a significar que sabia muito bem, mas não podia dizer.

 

-E o que é que quer dizer com isso da saída da mercadoria? - perguntou Dick, deitando um olhar a toda a confusão que o rodeava.

 

- Quer dizer que a comprei, cavalheiro - respondeu Quilp.

- Hem? E então?

 

- Então a velha raposa amontoou uma fortuna e arranjou uma vivenda num local aprazível, donde se pode ver o irrequieto mar, ao longe? - perguntou Dick, extremamente surpreendido.

 

- E manteve bem secreto o local do seu isolamento, para não ser visitado com muita frequência pelos seus queridos netos e pelos seus dedicados amigos, não é? - acrescentou o anão, esfregando energicamente as mãos. - Eu não disse nada, mas não é isso o que o senhor quer dizer, cavalheiro?

 

Richard Swiveller ficou extremamente consternado com esta inesperada alteração das circunstâncias, que ameaçava destruir completamente o plano em que ele próprio desempenhava um papel tão importante e parecia pôr um fim às suas expectativas, como um botão de flor queimado pela geada. Fora só na véspera, já noite avançada, que Frederick Trent o informara sobre a doença do velho, por isso vinha efectuar uma visita de condolências e sondar a Nell, trazendo pronto o primeiro episódio da longa série de fascículos do romance que iria finalmente incendiar o seu coração.

 

E agora, depois de ter estudado todo o género de abordagens elegantes e insinuantes, depois de ter preparado a terrível desforra que ia maquinando lentamente contra Sophy Wackles, agora Nell, o velho e todo o dinheiro tinham desaparecido, como metal derretido, haviam-se escapulido sem ele saber para onde, como se tivessem pressentido a intriga, resolvendo destruí-la logo à partida, antes de ser dado o primeiro passo.

 

No íntimo do seu coração, Daniel Quilp sentia surpresa e ao mesmo tempo preocupação com aquela fuga. Não havia escapado ao seu olhar astuto que os fugitivos tinham levado algumas peças de vestuário indispensáveis e, conhecendo a debilidade de espírito do velho, perguntava a si mesmo qual teria sido aquele plano, para o qual obtivera a rápida anuência da jovem. Não se julgue (o que seria uma grande injustiça para com Mr. Quilp) que o preocupava uma desinteressada amizade por eles. A sua inquietação devia-se ao receio de que o velho possuísse algum secreto esconderijo de dinheiro de que ele não suspeitasse, e a simples ideia dele escapar às suas garras enchia-o de aflição e de raiva.

 

Neste estado de espírito, era-lhe de alguma consolação verificar que Richard Swiveller, embora por outras razões, estava também manifestamente irritado e desiludido. Era evidente, pensou o anão, que ele viera aqui por causa do seu amigo, para obter do velho, por meio de lisonjas ou de ameaças, alguma pequena parte daquela fortuna que pensavam que ele possuía em abundância. Era por isso com alívio que o vexava com a descrição das riquezas que o velho tinha acumulado, e discorria em pormenor sobre a astúcia que havia revelado, afastando-se para onde não pudesse ser importunado.

 

- Bem - disse Dick, com um olhar vago, - penso que não vale a pena continuar aqui.

 

- Nada, mesmo - replicou o anão.

 

- Talvez não se importe de lhes falar da minha visita?

- perguntou Dick.

 

Mr. Quilp acenou afirmativamente com a cabeça, respondendo que não deixaria de o fazer, assim que os visse.

 

- E diga-lhes - acrescentou Mr. Swiveller, - diga-lhes, cavalheiro, que vim até aqui trazido pelas asas da concórdia, que vim aqui para arrancar, com o ancinho da amizade, as sementes da violência mútua e do ódio, e para semear em seu lugar os germes da harmonia social. Terá a bondade de se encarregar desta missão, cavalheiro?

 

- Com certeza! - replicou Quilp.

 

- Terá a gentileza de dizer também, cavalheiro - acrescentou Dick, estendendo um cartão minúsculo e flácido

- que isto é a minha morada e que estou em casa todos os dias de manhã. Batendo-se duas pancadas bem espaçadas, aparece logo a criada, a qualquer hora que seja. Os meus amigos íntimos, cavalheiro, têm o hábito de dar um espirro quando se abre a porta, para a rapariga perceber que eles são meus amigos, e que não são levados por razões interesseiras a perguntar se estou em casa. Desculpe, permite-me que veja novamente o cartão?

 

- Oh! Mas certamente! - replicou Quilp.

 

- Devido a um pequeno lapso, o que é natural, cavalheiro

 

- afirmou Dick substituindo o cartão por um outro, - tinha-lhe dado o meu cartão de sócio de um círculo restrito de convívio, denominado os Gloriosos Apoios, do qual tenho a honra de ser Sócio Honorário Perpétuo. Este documento é que está certo, cavalheiro. Muito bom dia.

 

Quilp retribuiu-lhe o cumprimento, o Grão-Mestre Perpétuo dos Gloriosos Apoios ergueu o chapéu em honra de Mrs. Quilp, e deixando-o cair com negligência, de lado, sobre a cabeça, fez um floreado e saiu.

 

Nesta altura já tinham chegado alguns veículos para transporte da mercadoria, e vários homens possantes, com espessos gorros, equilibravam à cabeça cómodas e outros objectos semelhantes, realizando proezas musculares, o que lhes engrandecia consideravelmente a compleição. Mr. Quilp, para nào ficar atrás no meio de toda aquela azáfama, pôs-se ao trabalho com surpreendente energia, apressando e empurrando as pessoas, como um espírito mau, utilizando Mrs. Quilp para toda a espécie de tarefas árduas e impraticáveis, transportando grandes pesos para cima e para baixo sem qualquer esforço aparente, dando pontapés no rapaz do cais sempre que conseguia chegar perto dele e, dissimuladamente, com as cargas que transportava ia desferindo grande quantidade de pancadas nas costas de Mr. Brass, que estava nos degraus da porta para responder a todas as perguntas dos curiosos vizinhos, visto ser essa a sua função. A presença e o exemplo de Quilp despertaram tanta diligência nos trabalhadores que, ao fim de poucas horas, a casa estava completamente vazia, restando apenas alguns pedaços de esteira, garrafas de cerveja preta vazias e algumas palhas espalhadas pelo chão. O anão, sentado na sala sobre um desses pedaços de esteira, tal como um chefe de tribo africano, regalava-se comendo pão com queijo e bebendo cerveja, quando se apercebeu, embora sem o dar a entender, de um garoto que o espreitava pela porta da rua. Estando certo de que era Kit, embora tivesse visto pouco mais do que o nariz dele, Mr. Quilp chamou-o pelo nome, e assim Kit apareceu, perguntando-lhe o que é que queria.

 

- Venha cá, cavalheiro - disse-lhe o anão. - Então o velho e a patroinha lá partiram?

 

- Para onde? - perguntou Kit, olhando em redor.

 

- Queres dizer que não sabes para onde foram? - retorquiu Quilp, com rispidez. - Para onde é que foram, hem?

 

- Não sei - respondeu Kit.

 

- Anda lá - retorquiu Quilp. - Deixa-te disso. Não me venhas dizer que não sabes que eles se foram embora hoje em segredo, logo que surgiu a luz do dia?

 

- Não - respondeu o garoto, com manifesta surpresa.

 

- Tu não sabes? - exclamou Quilp. - Então eu nào sei que na noite passada andaste a rondar a casa, como um ladrão, hem? Como é que não te disseram?

 

- Não disseram - respondeu o garoto.

 

- Não? - exclamou Quilp. - Então o que é que te disseram? De que foi que vocês falaram?

 

Kit, que não via qualquer razão especial para manter o assunto em segredo, contou o motivo por que tinha vindo nessa ocasião e a proposta que tinha apresentado.

 

- Oh! - exclamou o anão, após ter reflectido alguns momentos. - Então parece-me que eles ainda vêm ter contigo.

 

- Acha que vêm ? - gritou Kit ansiosamente.

 

- Sim, penso que hão-de vir - respondeu o anão. - Olha, e quando eles vierem, diz-me, estás a ouvir? Diz-me, que depois dou-te uma coisa. Quero oferecer-lhes uma prenda, e não posso, se não souber onde é que eles estão. Estás a ouvir o que estou a dizer?

 

Kit podia ter atirado alguma resposta que não fosse do agrado do seu irascível inquiridor, se o rapaz do cais, que tinha andado sorrateiramente pela sala, procurando alguma coisa que pudesse ter ficado atrás esquecida, não tivesse gritado: - Está aqui um pássaro. O que é que vamos fazer com ele?

 

- Torce-lhe o pescoço - respondeu Quilp.

 

- Oh, não, não faças isso - disse Kit, avançando. - Dá-mo.

 

- Oh! Está claro - exclamou o outro rapaz. - Ora deixa lá a gaiola, deixa-me torcer-lhe o pescoço, estás a ouvir? Ele disse para eu o fazer. Deixa estar a gaiola, ouviste?

 

- Dêem-no cá, dêem-mo a mim, seus cachorros - bradou Quilp. - Lutem por ele, seus cachorros, senão sou eu mesmo que lhe torço o pescoço.

 

Não foi preciso mais incitamento. Os dois rapazes atiraram-se um ao outro com unhas e dentes, enquanto Quilp, segurando ao alto a gaiola com uma mão e retalhando o chão com uma navalha que tinha na outra, todo entusiasmado, os ia incitando com os seus insultos e os seus gritos para continuarem a lutar mais ferozmente. A luta estava muito equilibrada, e ambos rolavam juntos, dando-se murros que estavam longe de ser uma brincadeira de crianças, até que, finalmente, Kit, aplicando um soco bem dirigido ao peito do seu adversário, conseguiu libertar-se e, saltando agilmente, arrebatou a gaiola das mãos de Quilp e fugiu com o seu prémio.

 

Não parou uma única vez até chegar a casa, e aqui, o seu rosto a escorrer sangue foi motivo de grande consternação, e o seu irmão mais velho desatou a berrar assustado.

 

- Meu Deus, Kit, o que é que aconteceu, o que estiveste a fazer? - gritou Mrs. Nubbles.

 

- Não se preocupe, mãe - respondeu-lhe o filho, limpando o rosto a uma toalha pendurada atrás da porta. - Não estou ferido, não se preocupe comigo. Foi uma briga por causa de um pássaro, e ganhei-o, foi só isso. Pára lá com o barulho, meu Jacob. Nunca vi um garoto mais impertinente em toda a minha vida!

 

- Estiveste à briga por causa de um pássaro! - exclamou a mãe.

 

- Ah! Estive à briga por causa de um pássaro! - repetiu Kit. - E aqui está ele, o pássaro de Miss Nelly, e eles queriam torcer-lhe o pescoço ao pé de mim, mas eu não ia deixar, nunca! Não estava bem, mãe, não estava nada bem!

 

Kit, com a sua cara inchada e ferida a espreitar de dentro da toalha, ria com tanto gosto que o pequeno Jacob se pôs também a rir e o pequenito soltava gritinhos de alegria, agitando as perninhas, contente, e depois todos riram em conjunto, não só pelo êxito de Kit, mas também porque todos eles eram muito unidos. Quando o acesso de riso terminou, Kit mostrou o pássaro a ambos os garotos, como se se tratasse de uma grande e rara preciosidade, era apenas um pobre pintarroxo, e olhando para a parede, à procura de algum prego velho, improvisou um escadote com uma cadeira e uma mesa, e arrancou-o todo contente.

 

- Deixa-me ver - disse o garoto. - Parece-me que vou pendurá-lo na escada, porque tem mais luz, é mais alegre e de lá pode ver o céu, sempre que levantar a cabeça. Canta tão bem, digo-vos eu...

 

Voltou, então, a montar o escadote e, subindo com o atiçador do lume a fazer de martelo, espetou o prego e pendurou a gaiola, com enorme satisfação de toda a família. Ajustou-o e endireitou-o um sem-número de vezes depois recuou, na direcção da lareira, para o admirar, e finalmente a obra foi considerada perfeita.

 

- E agora, mãe, antes de me pôr a descansar - disse o garoto, - vou sair para ver se me dão algum cavalo a guardar, e assim já posso comprar um bocado de alpista e ainda alguma coisa para si.

 

Como era muito fácil para Kit convencer-se de que a velha casa ficava no seu caminho, embora o seu caminho fosse para qualquer sítio, tentou considerar a sua nova passagem por ela como uma necessidade imperiosa e desagradável, completamente independente da sua vontade, sobre a qual não detinha qualquer poder de decisão e à qual tinha de se submeter.

 

Não é raro pessoas muito melhor alimentadas e com muito mais instrução do que Christopher Nubbles alguma vez alcançara, transformarem em deveres as suas tendências sobre questões de mais duvidosa rectidão, considerando como um grande mérito seu a abnegação que lhes serve de auto-satisfação.

 

Desta vez, não havia necessidade de tomar qualquer precaução, nem qualquer receio de ser retido para um jogo de desforra com o rapaz de Daniel Quilp. A residência estava completamente deserta, e apresentava-se tão suja e tão cheia de pó como se tivessem passado vários meses. Um cadeado ferrugento prendia a porta, restos de persianas e de cortinas desbotadas oscilavam tristemente nas janelas semiabertas do andar superior, e os buracos irregulares nas janelas cerradas de madeira, do piso inferior, deixavam ver a escuridão do interior. Na janela que ele havia contemplado tantas vezes, alguns vidros haviam sido quebrados, na apressada agitação da manhã, e aquela sala apresentava um aspecto mais desolado e sombrio do que qualquer uma das outras.

 

Um grupo de garotos maltrapilhos tinha ocupado os degraus da porta: uns estavam ocupados com a argola da porta e escutavam com um encanto, não isento de temor, os sons cavos que ecoavam pela casa vazia; outros amontoavam-se junto do buraco da fechadura, espreitando, meio trocistas, meio sérios, «o fantasma», que um dia lúgubre havia já feito nascer, ajudado pelo mistério que pairava sobre os últimos moradores da residência.

 

Ali deserta, no meio da agitação e da azáfama da rua, a casa era uma imagem de fria desolação, e Kit, recordando a lareira que ali ardia alegremente numa noite de Inverno e o riso, não menos alegre, que ecoava na pequena sala, retirou-se com o coração oprimido.

 

Há que salientar especialmente, e para fazer justiça ao pobre Kit, que ele não tinha, de modo nenhum, tendência para ser sentimental, e talvez nem nunca tivesse mesmo ouvido esse adjectivo em toda a sua vida. Era apenas uma alma generosa e cheia de gratidão, mas a quem faltava tudo o que se pode chamar boa educação ou refinamento; por isso, em vez de voltar para casa para bater nas crianças ou insultar a mãe, pois quando essas pessoas delicadas se sentem aborrecidas querem que todos os outros fiquem igualmente tristes, orientou os seus pensamentos na direcção daquele expediente trivial, que consiste em torná-los mais agradáveis, no caso de o poder fazer.

 

Meu Deus, que quantidade de senhores a cavalo, uns passando para cima e outros para baixo, e tão poucos queriam que lhes guardassem o cavalo!

 

Um bom especulador da cidade ou um delegado do parlamento poderiam calcular até à mais pequena fracção baseando-se nas muitas pessoas que cavalgavam a meio galope para um lado e para outro, que soma de dinheiro era movimentada em Londres, durante um ano, só a guardar cavalos. E teria sido, indubitavelmente, uma soma muito elevada, se pelo menos uma vigésima parte dos senhores sem moço de estrebaria tivessem oportunidade de desmontar; mas não tinham, e muitas vezes é uma circunstância adversa como esta que vem frustrar o cálculo mais engenhoso do mundo.

 

Kit pôs-se a andar, ora com passos rápidos, ora mais vagarosos; ora retardando o passo, quando algum cavaleiro moderava a andadura do seu cavalo olhando em redor, ora lançando-se numa louca correria por uma estrada secundária, ao avistar algum cavaleiro ao longe que, subindo indolentemente a rua, pelo lado da sombra, parecia querer parar a cada porta. Mas todos prosseguiam o seu caminho, um após outro, e nem um «penny» lhe vinha ter ao bolso. «Será que«, pensou o garoto, «se algum destes senhores soubesse que a nossa despensa está vazia, será que ele parava de propósito, fingindo que queria ir a qualquer lado, para que eu pudesse ganhar alguma coisinha?».

 

Estava completamente exausto por andar a calcorrear as ruas, para não dizer nada das contínuas desilusões que experimentava, e tinha-se sentado num degrau para descansar, quando avistou, na sua direcção, uma pequena carruagem de quatro rodas, retinindo alegremente os seus chocalhos, puxada por um pequeno pónei, de ar obstinado e pêlo eriçado, e conduzida por um senhor de idade, gordo e baixinho, de rosto sereno. Ao lado do senhor de idade estava sentada uma senhora baixinha, também de idade, roliça e de ar sereno como ele, e o pónei vinha trotando à sua vontade, fazendo exactamente o que lhe apetecia em toda aquela viagem.

 

Se o senhor protestava, agitando as rédeas, o pónei recalcitrava, abanando a cabeça. Era óbvio que o máximo que o pónei consentiria em fazer seria avançar, à sua maneira, por qualquer rua que o senhor tivesse especial empenho em percorrer, mas estava subentendido entre ambos que ele realizava a tarefa à sua própria maneira, ou então não a fazia mesmo.

 

Quando passavam junto de Kit, este lançou um olhar tão ansioso sobre a pequena carruagem com o seu cavalinho que o senhor de idade olhou para ele, e Kit ergueu-se, levando a mão ao chapéu; então o senhor indicou ao pónei que desejava parar, alvitre este a que o pónei (que raramente contestava esta parte das suas obrigações) acedeu com benevolência.

 

Queira desculpar, senhor - disse Kit. - Desculpe ter parado, senhor. Só desejava saber se queria que tomasse conta do seu cavalo.

 

- Vou descer na rua já a seguir - respondeu o senhor.

- Se quiseres seguir-nos, podes encarregar-te do serviço.

 

Kit agradeceu e obedeceu, todo contente. O pónei arrancou, descrevendo uma curva apertada, para inspeccionar um poste de iluminação, no outro lado da rua, em seguida disparou, em tangente, para outro poste de iluminação, situado no lado oposto.

 

Tendo-se assegurado que ambos eram do mesmo modelo e feitos do mesmo material, acabou por se deter, aparentemente absorvido em profunda meditação.

 

- Importa-se de continuar, cavalheiro - disse o senhor para o pónei, com um ar muito sério, - ou vamos ter de esperar aqui por si, até passar a hora da nossa entrevista?

 

O pónei continuou imóvel.

 

- Oh, «Whisker» mau! - disse a senhora. - Que vergonha ! Estou envergonhada do teu comportamento.

 

O pónei pareceu ser sensível a este apelo aos seus sentimentos, pois, embora amuado, meteu logo a trote, não voltando a parar até chegar junto de uma porta que ostentava uma placa de latão onde se podia ler : «Witherden - Notário». O senhor desceu aqui, ajudou a senhora a descer, em seguida retirou, de debaixo do assento, um ramalhete de flores que, pela sua forma e dimensões, fazia lembrar um aquecedor a carvão para o leito, mas com o cabo cortado. A senhora entrou para a casa, com ar sério e imponente, levando o seu ramalhete, e o senhor, que tinha um pé defeituoso, seguiu atrás dela.

 

Como era fácil de identificar pelo som das suas vozes, entraram para a sala da frente, que devia ser uma espécie de escritório. Como fazia muito calor e a rua era tranquila, as janelas estavam abertas de par em par, pelo que se tornava fácil ouvir, através das persianas, tudo o que se passava no interior.


Primeiro, houve muitos apertos de mão e arrastar de pés, a que se seguiu a entrega do ramalhete, uma vez que se ouviu uma voz que, no entender de quem escutava, devia ser a de Mr. Witherden, o Notário, e que exclamava repetidamente: - Oh, que maravilha! Oh, que aroma! - e ouviu-se um nariz, que se considerou também pertencer ao referido senhor, aspirar o perfume, fungando com grande deleite.

 

- Trouxe-o para celebrar esta data - disse a senhora.

 

- Ah! E é realmente uma data, minha senhora, uma data que me honra, minha senhora, que me honra - retorquiu Mr. Witherden, o Notário.

 

- Muitos cavalheiros fizeram a sua aprendizagem aqui, minha senhora, muitos. Alguns vivem agora na opulência, olvidando o seu velho companheiro e amigo, outros conservam ainda o hábito de me efectuarem uma visita, dizendo: Mr. Witherden, alguns dos momentos mais agradáveis que vivi na minha vida foram passados neste escritório, foram passados aqui, neste mesmo banco. - Mas nunca houve nenhum entre eles, minha senhora, e se me tenho afeiçoado a tantos! A quem eu tivesse profetizado os feitos brilhantes que profetizei ao vosso filho único.

 

- Meu Deus! - declarou a senhora - Como nos sentimos realmente tão felizes, ouvindo-o dizer isso!

 

- O que lhes estou a dizer, minha senhora - continuou Mr. Witherden, - é aquilo que penso, como homem honrado que sou, o que, como diz o poeta, constitui a obra mais nobre de Deus. Estou de acordo com o poeta, em todos os aspectos, minha senhora. Os montanhosos Alpes, ou o beija-flor, nada são, sob o ponto de vista de obra criada, em comparação com um homem honrado, ou de uma mulher honrada.

 

- Tudo quanto Mr. Witherden possa dizer de mim - proferiu uma voz baixa e tranquila - posso certamente dizer eu dele, com muito maior fundamento.

 

- Foi um acontecimento feliz, um acontecimento verdadeiramente feliz - observou o Notário - que coincidiu com o seu vigésimo oitavo aniversário, e espero saber como apreciálo devidamente. Creio, Mr. Garland, meu caro senhor, que nos podemos congratular mutuamente nesta data feliz.

 

O senhor respondeu estar certo de que podiam congratular-se. Parece que se seguiram mais apertos de mão, e quando terminaram, o senhor declarou que, embora não lhe ficasse bem dizê-lo, em seu entender nunca nenhum filho tinha sido de maior consolo para os seus pais do que Abel Garland fora para os seus.

 

- Tendo casado tarde na vida, como minha mulher e eu fizemos, depois de esperarmos durante muitos anos até conseguirmos um certo desafogo, termo-nos unido quando já não éramos jovens, sendo depois abençoados com um filho sempre obediente e carinhoso, isso constitui para nós ambos motivo de grande felicidade.

 

- Certamente que constitui, não tenho a menor dúvida sobre isso - respondeu o Notário, em tom de aprovação. - E é a contemplação de casos como este que me fazem lamentar o meu destino de celibatário. Houve uma vez, uma jovem,   filha de um negociante de roupas da maior respeitabilidade, mas foi uma fraqueza. Chuckster, traga os documentos de Mr. Abel.

 

- Sabe, Mr. Witherden - disse a senhora, - o Abel não foi criado como o comum dos outros jovens. Sempre gostou da nossa companhia e tem estado sempre connosco. O Abel nunca esteve longe de nós, nem por um dia, pois não, querido?

 

- Nunca, querida - respondeu o senhor, - excepto quando foi a Margate, num sábado, com Mr. Tomkinley, que tinha sido professor na escola onde ele andava, e voltou na segunda-feira. Mas depois disso esteve muito doente, lembras-te, querida? Foi uma leviandade.

 

- E que ele não estava habituado - disse a senhora - e não se deu bem, essa é que é a verdade. Além disso, não sentia qualquer satisfação por estar ali, longe de nós, e não tinha ninguém com quem conversar ou com quem se distrair.

 

- Foi isso mesmo - interveio a mesma voz baixa e tranquíla que já havia falado antes. - Sentia-me muito confuso, mãe, muito triste, e pensar que havia o mar a separar-nos. Oh! Nunca hei-de esquecer o que senti quando percebi pela primeira vez que o mar nos separava!

 

- O que é muito natural, em tais circunstâncias - observou o Notário. - Os sentimentos de Mr. Abel realmente honram a sua natureza e honram também a sua, minha senhora, assim como a do seu pai e a natureza humana. Noto agora nele a mesma tendência, permeando todo o seu comportamento sereno e discreto. Vou agora assinar o meu nome, como vai ver, na margem inferior dos documentos, e Mr. Chuckster servirá de testemunha. Agora vou pôr o dedo sobre esta chancela azul, com gola à Van Dyke, e tenho de declarar, em voz bem clara, não se assuste, minha senhora, trata-se de uma mera formalidade, que faço a entrega deste documento legal. Mr. Abel vai assinar o seu nome sobre a outra chancela, repetindo as mesmas palavras cabalísticas e está tudo resolvido. Ah! Ah! Ah! Estão a ver como tudo isto se faz tão facilmente?

 

Houve um breve silêncio, certamente enquanto Mr. Abel efectuava as formalidades indicadas, seguiram-se novos apertos de mão e o arrastar de pés, e pouco depois ouviu-se o tilintar de copos de vinho, enquanto todos falavam animadamente. Decorrido cerca de uma quarto de hora, Mr. Chuckster, com uma caneta atrás da orelha e o rosto vermelho de vinho, surgiu à porta e, condescendendo em dirigir-se a Kit pelo jocoso título de «Jovem Presunçoso», comunicou-lhe que as visitas iam sair.

 

E saíram logo. Mr. Witherden, baixo, de rosto bochechudo, alegre, com aspecto sadio e ar pomposo, conduzia a senhora com extrema cortesia, e pai e filho seguiam-nos, de braço dado. Mr. Abel, que tinha um aspecto estranhamente antiquado, parecia quase da mesma idade do pai e apresentava uma extraordinária semelhança com ele, no rosto e na figura, embora lhe faltasse um pouco do seu claro e franco bom humor, revelando em vez disso uma tímida reserva. Em tudo o resto, no esmero do trajar, e até mesmo no pé defeituoso, um e outro eram absolutamente iguais.

 

Depois de se certificar que a senhora estava comodamente sentada no seu lugar e de a ter ajudado a arranjar a capa e um cestinho, que constituía um elemento essencial do seu equipamento, Mr. Abel, subindo para uma pequena boleia atrás, que, obviamente, havia sido preparada expressamente para ele, sorriu para todos os presentes, a cada um por sua vez, começando pela mãe e terminando no pónei. A seguir gerou-se uma grande confusão até se conseguir que o pónei levantasse a cabeça para prender a rédea. Por fim, lá se conseguiu, e o senhor, tomando o seu lugar, segurou nas rédeas e enfiou a mão no bolso, à procura de uma moeda de seis •pence», para dar a Kit.

 

Mas não tinha nenhuma moeda dessas,


a senhora também não tinha, nem Mr. Abel, nem o Notário, nem Mr. Chuckster. O senhor considerou que um xelim era demais, mas como não havia nenhuma loja naquela rua, para o poder trocar, acabou por o dar ao garoto.

 

- Toma - disse, e acrescentou gracejando: - Vou voltar aqui outra vez, na próxima segunda-feira, à mesma hora, e não te esqueças, meu rapaz, de estar aqui, para fazeres o serviço que já te paguei hoje.

 

- Muito obrigado, senhor - respondeu Kit. - Eu estou aqui, de certeza.

 

Falava a sério, mas todos se riram com gosto ao ouvi-lo, principalmente Mr. Chuckster, que ria às gargalhadas, parecendo divertir-se extraordinariamente com aquela brincadeira. Como o pónei, pressentindo que ia para casa, ou decidido a não ir a mais lado nenhum, o que ia a dar no mesmo, largou no seu trote ágil, Kit não teve tempo de se justificar e foi também à sua vida.

 

Depois de ter gasto o seu tesouro nas aquisições que sabia iriam ter o melhor acolhimento em casa, sem esquecer a alpista para o seu querido passarinho, apressou-se a voltar para casa com toda a celeridade que podia, tão orgulhoso do seu êxito e da sua boa sorte, que nutria até uma secreta esperança de que Nell e o senhor de idade já tivessem regressado antes dele.

 

Enquanto caminhavam ainda pelas ruas silenciosas da cidade, naquela manhã em que partiram, a jovem tinha estremecido muitas vezes, com uma sensação que era um misto de esperança e de receio, quando a sua imaginação, nalguma figura distante, indistintamente percebida ao longe, lhe desenhava a imagem do bom Kit. Mas, embora lhe tivesse estendido a mão com prazer, agradecendo-lhe o que ele lhe havia dito na última vez que se viram, era sempre um alívio verificar, quando a outra pessoa se aproximava, que não era ele, mas um desconhecido, pois mesmo que não temesse o efeito que a imagem dele poderia exercer sobre o seu companheiro de viagem, sentia que despedir-se agora de alguém, principalmente dele, que havia sido tão leal e tão sincero, era demais para ela.

 

Já bastava deixar para trás coisas silenciosas e objectos insensíveis ao seu afecto e à sua dor. Ter de se separar do seu outro amigo, o único que possuía, para além daquele que a acompanhava, no início daquela precipitada viagem, era como arrancar-lhe o coração.

 

Por que será que conseguimos suportar melhor a separação em espírito do que na realidade, e embora tenhamos a firmeza para representar a despedida, não conseguimos a coragem para a efectuar? Na véspera de longas viagens, ou de uma ausência para muitos anos, amigos unidos por um profundo afecto separam-se com o olhar habitual, o habitual aperto de mão, combinando um derradeiro encontro para o dia seguinte, embora ambos saibam tratar-se apenas de um dissimulado fingimento para evitar a mágoa de proferir aquela outra palavra, e que o encontro nunca irá realizar-se. Será que é mais difícil suportar a possibilidade do que a certeza? Não fugimos dos amigos que estejam às portas da morte. O facto de não nos termos expressamente despedido de um deles, a quem deixámos com toda a sua bondade e afecto, poderá muitas vezes vir a amargurar-nos durante o resto da nossa vida.

 

A cidade mostrava-se feliz com a luz matinal. Locais que, durante toda a noite se tinham revelado desagradáveis e desconfiados, ostentavam agora um sorriso. Brilhantes raios de Sol, dançando nas janelas dos quartos e cintilando, através de cortinas, diante de olhos que dormiam, irradiavam luz até para os sonhos e afugentavam as sombras da noite.

 

Em quartos quentes, pássaros com as suas gaiolas tapadas sentiam, no escuro, que a manhã tinha chegado e, inquietos, lançavam os seus lamentos dentro das suas minúsculas celas. Ratinhos de olhar vivo esgueiravam-se para as suas pequeninas tocas, aconchegando-se timidamente uns contra os outros. Dentro de casa, o gato de pêlo macio, esquecido da sua presa, piscava os olhos aos raios de Sol que penetravam pelo buraco da fechadura e pelas frinchas da porta, aguardando com ânsia o momento da sua corrida furtiva e do quente banho de Sol, lá fora.

 

Encerrados em jaulas, os animais mais nobres permaneciam imóveis por detrás das suas grades e contemplavam os ramos de árvores baloiçando-se e a luz do Sol espreitando através de alguma estreita janela, com os seus olhos onde luziam velhas florestas. Depois trilhavam com impaciência os sulcos já feitos pelas suas patas prisioneiras, depois paravam e retomavam a sua contemplação.

 

Homens em masmorras estendiam os membros enregelados e hirtos, amaldiçoando a pedra que nenhuma luz do Sol conseguia aquecer. As flores que dormem de noite abriam os seus delicados olhos, voltando-os para a luz do dia. A luz, o espírito da criação, estava em toda a parte e o seu poder estendia-se a todas as coisas.

 

Os dois peregrinos prosseguiam o seu caminho em silêncio apertando-se muitas vezes a mão um do outro, ou trocando um sorriso ou um olhar feliz. Embora a atmosfera estivesse brilhante e alegre, havia algo de solene nas longas ruas desertas que, tal como um corpo sem alma, estavam despojadas de toda a sua individualidade habitual e de toda a sua expressão, restando-lhes apenas uma sonolência morta e uniforme, que as tornava todas iguais.

 

Estava tudo tão silencioso naquela hora matinal, que as escassas pessoas que encontravam, de rosto pálido, pareciam tão pouco adequadas àquele cenário como a débil lamparina, deixada acesa aqui e ali, se revelava impotente e tímida perante o glorioso Sol.

 

Antes de terem avançado muito pelo labirinto das habitações humanas e que se estendia entre eles e os arrabaldes, aquela atmosfera começou a dissipar-se, usurpada pelo ruído e pela azáfama. O encanto foi, primeiro, quebrado por algumas carroças e carruagens errantes e ruidosas, outras se seguiram e ainda outras, mais apressadas, depois uma multidão delas. Primeiro era uma surpresa ver aberta a montra de um mercador, mas pouco depois raramente se via alguma encerrada.

 

Depois, começou lentamente a subir fumo das chaminés, subiam-se as vidraças das janelas para deixar entrar o ar, abriam-se as portas, e as criadas, olhando preguiçosamente para todos os lados menos para a vassoura, espalhavam nuvens de escura poeira para os olhos dos retraídos transeuntes, ou escutavam tristemente leiteiros que contavam de feiras campestres, de galeras em pátios de cavalariças, com os seus toldos e tudo o resto, e falavam ainda dos galantes mancebos que iriam encontrar, passada que fosse mais uma hora.

 

Uma vez passado este bairro, encontraram-se em locais fervilhantes de actividade e de azáfama, com grande movimento de pessoas e abundância de comércio. O velho lançou um olhar’ em redor, amedrontado e confuso, pois era exactamente locais como este que pretendera evitar.

 

Comprimindo os lábios com um dedo, arrastou a jovem por estreitas vielas e ruas tortuosas, e só se sentiu a salvo quando se afastaram para bem longe dali, olhando muitas vezes para trás, murmurando que a cada esquina os espreitava a desgraça e o suicídio, e que os perseguiriam, se os vislumbrassem. Por isso tinham que fugir, e quanto mais depressa, melhor.

 

Passando também este bairro, chegaram a uma zona isolada, onde casas humildes, repartidas em cubículos, e janelas remendadas com trapos e papéis, revelavam a populosa miséria que aqui se abrigava. As lojas vendiam coisas que só a pobreza comprava, e tanto quem vendia como quem comprava apresentava o mesmo aspecto faminto e miserável. Aqui havia ruas esquálidas onde um resto de nobreza decadente tentava, num espaço minúsculo e com arruinados recursos, erguer o seu último e débil bastião, mas o cobrador de impostos e o credor vinham tanto aqui como a qualquer outro sítio, e a miséria que ainda lutava debilmente era pouco menos esquálida e ostensiva do que aquela que já há muito se havia rendido e abandonado a luta.

 

Era uma estrada larga, muito larga, pois os humildes seguidores do acampamento da riqueza armavam as suas tendas em redor desta por muitas milhas, mas conservava sempre a mesma natureza.

 

Casas húmidas e miseráveis, muitas para alugar, outras ainda em construção, outras semiconstruídas e a desfazerem-se, habitações, essas, perante as quais seria difícil saber quem mereceria mais a nossa piedade, se o senhorio, se o inquilino; crianças, subalimentadas e esfarrapadas, surgiam de todas as ruas, espreguiçando-se na poeira; mães que gritavam, batendo com os sapatos cambados nas pedras da rua e lançando ruidosas ameaças; pais andrajosos, apressando-se com ar desesperado para o trabalho, que lhes dava «o pão de cada dia» e pouco mais; engomadeiras, lavadeiras, sapateiros, alfaiates, fabricantes de velas, faziam o seu negócio em saletas, cozinhas, quartos de traseiras, sótãos, por vezes todos eles sob o mesmo tecto; fornos de tijolos, ombreando com jardins cercados por aduelas de velhos barris, ou restos de madeira roubados de casas que as chamas haviam devorado, tornando-as negras e cheias de bolhas; montes de ervas daninhas, urtigas, erva-rude, cascas de ostra, amontoavam-se na maior desordem. Pequenos capítulos discordantes que ensinavam, com abundantes ilustrações, as misérias da Terra, e uma profusão de igrejas novas, erguidas com alguma supérflua riqueza, para indicarem o caminho do Céu.

 

Por fim, estas ruas foram rareando cada vez mais, foram minguando e definhando, até que restaram apenas pequenos fragmentos de jardins ladeando a estrada, com muitas casinhotas virgens da pintura, construídas com velhos pedaços de madeira ou restos de algum barco, verdes como os robustos talos de couve que cresciam à sua volta, e com as frinchas ornamentadas por cogumelos e caracóis bem colados. Àquelas casinhotas seguiram-se arrogantes chalés, sucedendo-se a dois e dois, com terrenos à frente, arranjados em canteiros angulosos entre espessas sebes e estreitas veredas, onde os passos nunca se desviavam para perturbar os seixos da areia.

 

Depois apareceu a estalagem, pintada de novo cie verde e branco, com uma esplanada para beber chá e um relvado para jogar «bowling», olhando desdenhosamente o seu velho vizinho, com o tanque para os cavalos beberem e onde paravam as galeras; seguiam-se campos, algumas casas, separadas umas das outras, de consideráveis dimensões e com relvados, algumas mesmo com uma casinhota para o porteiro, onde este morava com a sua mulher.

 

Mais à frente surgiu uma barreira onde havia que pagar portagem; novamente campos com árvores e montes de feno; e uma colina. No cimo desta colina o viajante poderia deter-se e, olhando para trás, para a vetusta Catedral de S. Paulo ao longe, entre o fumo, com a sua cruz espreitando acima das nuvens, se o dia estivesse límpido, e brilhando ao Sol; e o viajante, lançando o olhar sobre toda aquela torre de Babel, no meio da qual ela se destacava e seguindo o seu perfil até às guardas mais avançadas do exército invasor dos tijolos e da argamassa, e cujo acampamento, naquele momento, ficava quase a seus pés, finalmente o viajante poderia sentir que tinha abandonado Londres.

 

Foi junto de um sítio como este, num campo aprazível, que o velho e a sua jovem guia, se é que se pode chamar guia a quem desconhece o local para onde se dirige, se sentaram para repousar. Ela tivera o cuidado de abastecer o seu cesto com algumas fatias de pão e carne, e ali tomaram o seu frugal pequeno-almoço.

 

A frescura do dia, o canto das aves, a beleza da relva ondulante, o verde-escuro das folhas, as flores silvestres e os milhentos delicados aromas e sons que pairavam no ar, que constituem uma profunda satisfação para muitos de nós, mas principalmente para aqueles que passam a vida entre multidões ou que levam uma existência solitária em grandes cidades, tal como no balde de um poço humano, penetravam no íntimo dos dois viajantes, com grande deleite seu.

 

A jovem tinha rezado as suas singelas orações naquela manhã, talvez com maior fervor do que já alguma o fizera em toda a sua vida, mas ao contemplar toda aquela maravilha, vieram-lhe de novo aos lábios. O velho tirou o chapéu. Já não se recordava das palavras mas disse «amen» e disse que elas eram muito bonitas.

 

Em casa havia, numa prateleira, um velho exemplar do «Pilgrim’s Progress», com umas estranhas gravuras, sobre as quais ela ficava debruçada noites inteiras, meditando e perguntando a si mesma se tudo aquilo seria verdade, e onde é que ficariam aqueles países longínquos, de estranhos nomes. Ao olhar para trás, para o sítio de onde tinham partido, parte do livro voltava-lhe insistentemente à memória.

 

- Querido avô - disse ela, - este sítio é tão parecido com o do livro, só que é mais bonito e muito melhor, sinto como se fôssemos dois cristãos a deixarmos sobre esta relva todos os cuidados e preocupações que nos afligem, para nunca mais eles se apoderarem de nós.

 

- Não.., nunca mais voltamos... nunca mais - replicou o velho, agitando a mão para a cidade. - Agora, tu e eu estamos livres dela. Nunca mais nos hão-de lá ver, Nell.

 

- Não está cansado? - perguntou a jovem. - Tem a certeza de que não está doente, depois desta longa caminhada?

 

- Nunca mais hei-de adoecer, agora que nos viemos embora - foi a sua resposta. - Vamos andando, Nell. Temos de ir para bem longe, para muito longe. Estamos ainda muito perto para parar e descansar. Vamos!

 

No campo havia uma lagoa de água límpida, onde a jovem lavou as mãos e o rosto, depois refrescou os pés antes de se levantar, e se pôs novamente a caminho. Quis que o velho se refrescasse também, e fazendo-o sentar na relva, despejou-lhe água por cima com as mãos e enxugou-o com o seu modesto vestido.

 

- Não posso fazer nada sozinho, minha querida - disse o avô. - Não sei como é, dantes podia, mas esse tempo já passou. Não me abandones, Nell, diz que não me abandonas. Sempre te amei, sempre. Se também ficar sem ti, morro!

 

Deixou cair a cabeça sobre o ombro dela, gemendo de modo comovente. Tempo houve e ainda muito poucos dias antes, em que a jovem não teria podido reter as lágrimas, chorando também com ele. Mas agora tranquilizava-o, com palavras ternas e carinhosas, sorrindo com o seu receio de que alguma vez se pudessem separar, zombando até dele alegremente pelo gracejo. Ele em breve se acalmou, e adormeceu, cantarolando baixinho, como uma criança.

 

Acordou revigorado, e prosseguiram a viagem. O caminho era agradável, estendendo-se entre belas pastagens e searas, sobre as quais a cotovia, pairando lá no alto, contra o céu azul, soltava o seu alegre trinado. A atmosfera estava pejada dos aromas que ia captando, e as abelhas, suspensas na brisa perfumada, zumbiam em sonolenta satisfação, flutuando pelo ar.

 

Encontravam-se agora em campo aberto, com muito poucas casas afastadas umas das outras, muitas vezes a milhas de distância. Por vezes encontravam um aglomerado de cabanas pobres, algumas tinham uma cadeira ou uma tábua atravessada na porta, em baixo, para evitar que as crianças gatinhassem até à estrada, outras estavam cuidadosamente fechadas, enquanto toda a família trabalhava nos campos. Estas casas encontravam-se frequentemente no início de uma pequena aldeia e, a uma certa distância, surgia a choupana de um carpinteiro, ou então a forja de algum ferreiro. Mais adiante, uma próspera quinta, com vacas sonolentas deitadas pelo pátio e cavalos espreitando sobre o muro baixo e que, ao verem passar na estrada cavalos ajaezados, se afastavam, correndo como triunfantes da sua liberdade. Havia também vagarosos suínos, remexendo o solo, à procura de saboroso alimento, e grunhindo os seus monótonos queixumes, ao vaguearem de um lado para o outro, ou ao cruzarem-se entre si nas suas pesquisas; gordos pombos, voando sobre o telhado, ou pavoneando-se nos beirais; patos e gansos, muito mais graciosos, na sua própria opinião, bamboleando-se desajeitadamente nas bordas do lago ou deslizando agilmente pela superfície do mesmo.

 

Uma vez passada a quinta, vinha a pequena hospedaria, a humilde taberna, a mercearia da aldeia, depois a casa do advogado e a do pároco, cujos temíveis nomes faziam tremer a taberna; mais à frente era a igreja que espreitava recatadamente, entre um arvoredo. Seguiam-se mais algumas cabanas, após elas a cadeia e o curral e, não raras vezes, um velho poço, fundo e poeirento, à beira da estrada. Depois surgiam os campos, de sebes aparadas, de ambos os lacios do caminho, e novamente a estrada aberta.

 

Caminharam durante todo aquele dia, e à noite dormiram num pequena cabana, que alugava camas aos viajantes. Na manhã seguinte puseram-se de novo a pé e, embora de início muito fatigados, depressa se restabeleceram, prosseguindo activamente o seu caminho.

 

Paravam com frequência para descansar, mas só por pouco tempo, continuando a avançar, embora desde manhã. Eram quase cinco horas da tarde e aproximavam-se agora de outro conjunto de cabanas de trabalhadores, a jovem olhando pensativamente para todas elas, hesitante em qual devia pedir licença para descansar por algum tempo e comprar um pouco de leite.

 

Não era fácil decidir-se, pois era tímida e receava ser repelida. Numa havia uma criança a chorar, noutra uma mulher gritava com o marido. Nesta, os moradores pareciam ser muito pobres, naquela eram demasiados. Por fim deteve-se junto de uma outra, onde a família estava sentada à volta de uma mesa. Parou aqui principalmente porque avistou lá um velho, sentado numa cadeira almofadada, junto à lareira, e pensou que ele era avô, e se compadeceria do seu.

 

Além dele, havia ainda o camponês, a sua mulher e três robustas criancinhas, trigueiras como frutos secos. Logo que o pedido foi formulado, imediatamente foi satisfeito. O filho mais velho correu para fora a buscar leite, o segundo arrastou dois bancos até à porta e o mais novo agarrava-se ao vestido da mãe, olhando para os forasteiros por baixo da sua mão queimada pelo Sol.

 

- Deus o salve, senhor - saudou o velho aldeão, numa voz débil e aflautada. - Vão para longe?

 

- Sim, senhor, ainda temos muito que andar - respondeu a jovem, pois o avô apelou para ela.

 

- Vêm de Londres? - perguntou o velho. A jovem respondeu afirmativamente.

 

Ah! Tinha estado em Londres muitas vezes, dantes costumava ir lá muito, com galeras. A última vez que lá estivera, fora quase há trinta e dois anos, e entretanto tinha realmente ouvido dizer que estava tudo muito diferente. Não era de estranhar! Ele próprio tinha mudado, desde então. Trinta e dois anos era muito tempo, e oitenta e quatro uma idade muito avançada, embora tivesse conhecido gente que viveu até muito perto dos cem, e que não possuíam o seu vigor, não senhor, muito longe disso.

 

- Sente-se aí, senhor, na cadeira de braços - disse o velho, batendo com a bengala no chão de tijolos e tentando aparentar energia.

 

- Tire uma pitada, aí dessa caixa. Eu cá não tiro muito, porque fica caro, mas acho que às vezes me espevita, e vossemecê não passa de uma criança, ao pé de mim. Podia ter um filho quase da sua idade, se tivesse vivido, mas foi para as sortes... voltou para casa, tanto passou que só lhe deixaram uma triste perna. Ele sempre disse que queria ser enterrado junto do relógio de sol, onde costumava encarrapitar-se quando era pequeno. Fazia sempre isso, o meu desgraçado rapaz, e acabou por ser assim mesmo. Pode ver onde é, com esses seus olhos, deixámos sempre a erva crescer, desde esse dia.

 

Abanou a cabeça, e olhando para a filha, com os olhos rasos de água, disse-lhe que ela escusava de ter receio, porque já não ia dizer mais nada sobre aquilo. Não queria importunar ninguém, e se tivesse importunado alguém com o que tinha dito, que o desculpassem, e pronto.

 

O leite chegou, a jovem agarrou no seu cestinho, e escolheu os melhores pedaços para o avô, e assim tiveram uma boa refeição. Os móveis da casinha eram, naturalmente, muito simples. Umas toscas cadeiras e uma mesa, um armário de canto com o seu pequeno sortido de louça de barro e de louça holandesa, uma pomposa bandeja, com a figura de uma dama pintada em vermelho vivo, a passear com um guardasol de um azul muito vivo, algumas gravuras a cores com as habituais cenas da Bíblia penduradas na parede e sobre a chaminé, um velho guarda-fato minúsculo e um relógio com corda para oito dias, algumas caçarolas bem polidas e uma chaleira completavam o conjunto dos apetrechos domésticos. Mas tudo estava limpo e bem arranjado, e quando a jovem olhou em volta sentiu um ambiente tranquilo, agradável e feliz a que ela desde há muito não estava habituada.

 

- A que distância fica a cidade, ou a aldeia? - perguntou a jovem ao pai das crianças.

 

- São para aí umas boas cinco milhas, minha menina - respondeu-lhe ele. - Mas não vão continuar a viagem esta noite, pois não?

 

- Vamos, sim, Nell, vamos - respondeu apressadamente o velho, realçando as suas palavras com acenos. - Temos de andar, andar, querida, temos de ir para longe, nem que seja preciso caminhar até à meia-noite.

 

- Há um bom celeiro aqui perto, senhor - disse o homem.

- E há quartos em «Plow an’Harrer», sei que lá alugam quartos a viajantes. Desculpe, mas parece-me que está um bocado fatigado, e se não tem muita pressa de continuar...

 

- Temos, sim, temos - respondeu o velho, agastado.

 

- Vamos, querida Nell, peço-te, vamos embora.

 

- Temos mesmo de ir - disse a jovem, cedendo à inquietação do avô. - Agradecemos muito, mas não podemos parar tão depressa. Já estou pronta, avô.

 

Mas a mulher havia notado, pelo modo de andar da jovem, que um dos seus pezinhos estava ferido e tinha uma bolha e, como era também mulher, e mãe, não consentiu que ela partisse antes de lhe ter lavado a ferida e aplicado um curativo simples, e fê-lo com tanto cuidado e tanto desvelo, embora as suas mãos estivessem ásperas e calejadas pelo trabalho, que a jovem se sentiu tão emocionada que não conseguiu dizer mais do que um fervoroso «Deus a abençoe!».

 

Nem olhou para trás, nem teve coragem para falar, enquanto não se afastaram até certa distância da casinha. Quando voltou a cabeça, viu toda a família, incluindo o avô, na estrada a vê-los afastarem-se, e deste modo se separaram, com muitos acenos de mão e alegres saudações, mas não sem algumas lágrimas, pelo menos num dos grupos.

 

Caminharam penosamente, mais devagar e com mais dificuldade do que até então, durante cerca de uma milha, quando ouviram atrás de si o barulho de rodas e, olhando em redor, viram uma carroça vazia que se aproximava rapidamente. Ao chegar junto deles, o condutor da carroça parou o cavalo e fixou os olhos em Nell.

 

- Não foram vocês que estiveram a descansar naquela choupana, ali atrás? - perguntou.

 

- Fomos, sim - respondeu a jovem.

 

- Ah! É que eles pediram-me para ver se vos encontrava.

- disse o homem. - Eu vou para esses lados. Dê cá a mão, suba, senhor.

 

Foi um grande alívio para eles, pois estavam extremamente fatigados e mal podiam continuar a arrastar-se pelo caminho. Para eles, a ruidosa carroça era como uma luxuosa carruagem, e a viagem dentro dela a mais bela do mundo. Nell, mal acabara de se sentar sobre um pequeno monte de palha, num dos cantos, quando adormeceu pela primeira vez naquele dia.

 

Despertou com a paragem da carroça, que ia voltar para uma ruela. O condutor desceu gentilmente para a ajudar a apear-se e, apontando para umas árvores que se seguiam a curta distância, à sua frente, informou que a cidade ficava ali, e que era melhor seguirem pelo atalho que iam encontrar, e que atravessava o cemitério. E assim, foi naquela direcção que encaminharam os seus passos fatigados.

 

O Sol estava a descer no horizonte, quando chegaram à cancela onde principiava o atalho e, como a chuva cai igualmente sobre o justo e sobre o pecador, também ele derramava o seu doce calor sobre o lugar de repouso dos mortos, convidando-os a terem esperança na vida eterna. A igreja, antiga e escura, estava coberta de hera, trepando pelas paredes e à volta do pórtico. Evitando os túmulos, rastejava sobre os pequenos montes de terra das campas, debaixo das quais dormia gente humilde, entrelaçando para essas pessoas as primeiras grinaldas que conquistavam, mas menos susceptíveis de definhar e, no seu género, muito mais duradouras do que algumas profundamente gravadas na pedra e no mármore, relatando, em termos pomposos, virtudes humildemente ocultas durante muitos anos e, por fim, reveladas só a executores testamentários e legatários enlutados.

 

O cavalo do pároco, tropeçando nas sepulturas, com um ruído melancólico e abafado, estava a aparar a relva, obtendo assim um ortodoxo consolo dos paroquianos já mortos e, ao mesmo tempo, reforçando o sermão do último domingo, de que toda a carne acabava assim. Num curral próximo, sem pitada de comida, um pobre burro, que havia tentado efectuar os mesmos comentários, sem possuir habilitações e sem estar ordenado, empinava as orelhas e deitava um olhar esfomeado sobre o seu clerical vizinho.

 

O velho e a jovem saíram do atalho de areia e vaguearam entre os túmulos, pois ali o chão era macio e suave para os seus pés fatigados. Quando passavam por trás da igreja, sentiram vozes perto, e daí a pouco aproximavam-se das pessoas que tinham falado.

 

Eram dois homens, sentados na relva, numa atitude despreocupada e tão entretidos que de início não se aperceberam da presença dos recém-chegados. Não era difícil perceber que pertenciam à classe dos artistas ambulantes.

 

Apresentavam as fantasias de Polichinelo e atrás deles, sobre a pedra de um túmulo e de pernas cruzadas, estava empoleirada a figura daquele mesmo herói, de nariz e queixo curvos e rosto radiante como sempre. E talvez o seu carácter imperturbável nunca tivesse sido apresentado de um modo tão notável, pois conservava o seu habitual sorriso uniforme, apesar do seu corpo bamboleante, numa posição extremamente desconfortável, todo desconjuntado, vacilante e disforme, enquanto a sua grande carapuça mal equilibrada sobre as suas pernas, muito fininhas, ameaçava derrubá-lo, a qualquer momento.

 

As outras personagens do drama encontravam-se em parte espalhadas pelo chão, junto dos dois homens, em parte misturadas desordenadamente dentro de uma caixa comprida e baixa. Lá estava a mulher do herói e um dos filhos, o cavalinho de pau, o médico, o fidalgo estrangeiro que, desconhecendo o idioma, consegue exprimir as suas ideias no palco proferindo a palavra «Shallabalah» três vezes, bem nitidamente, o vizinho extremista que se recusa a admitir que uma campainha de lata é um órgão, o carrasco e o diabo, todos estavam ali.

 

Era óbvio que os seus proprietários tinham ido ali para efectuarem umas reparações indispensáveis no material de cena, pois um deles estava ocupado a prender uma pequena forca com um fio, enquanto o outro estava concentrado a aplicar uma nova cabeleira preta, com a ajuda de um martelinho e de uns preguinhos, na cabeça do vizinho extremista, que ficara careca das pancadas que tinha levado.

 

Quando o velho e a sua jovem companheira chegaram perto deles, ergueram os olhos e, interrompendo o trabalho, ohservaram-nos com a mesma curiosidade com que aqueles os olhavam. Um deles, sem dúvida o artista propriamente dito, era baixo, de aspecto jovial, olhar cintilante e nariz avermelhado, que inconscientemente parecia um pouco imbuído do carácter do seu herói. O outro, aquele que recolhia o dinheiro, tinha um ar cauteloso e precavido, devido talvez também às suas funções.

 

O homenzinho jovial foi o primeiro a saudar os desconhecidos com um aceno de cabeça e, seguindo a direcção do olhar do velho, observou que era talvez a primeira vez que via um Polichinelo fora do palco. Refira-se, a propósito, que Polichinelo parecia estar a apontar, com a extremidade da sua carapuça, para um epitáfio todo grandiloquente, que o fazia rir a bom rir.

 

- Porque é que vieram para aqui fazer isso? - perguntou o velho, sentando-se ao lado deles e olhando para as figuras com enorme satisfação.

 

- Ora - respondeu o homenzinho, - é que vamos pernoitar na hospedaria, lá em baixo, e não convinha que eles nos vissem a arranjar o grupo de teatro.

 

- Não? - gritou o velho, fazendo sinais a Nell, para escutar. - E porque não? Porque não?

 

- Porque ia destruir toda a ilusão e roubar todo o interesse, não ia? - replicou o homenzinho. - Ligava alguma importância a Lord Chanceler, se o conhecesse em privado e sem a sua peruca? Naturalmente que não!

 

- Bom! - disse o velho, tocando timidamente num dos bonecos, e retirando depois a mão, com um riso estridente.

- Vão fazer uma representação esta noite, não vão?

 

- É essa a nossa ideia, patrão - replicou o outro. - E, se não estou muito enganado, Tommy Codlin está neste momento a calcular quanto perdemos por vocês terem vindo ter connosco. Anima-te, Tommy, não há-de ser muito.

 

O homenzinho acompanhou estas últimas palavras com um piscar de olhos bem expressivo quanto à sua avaliação das finanças dos viajantes.

 

Mr. Codlin, que tinha um ar carrancudo e rabugento, replicou, arrancando Polichinelo de cima do túmulo e atirando-o para dentro da caixa:

 

- Não me importo se perdemos uma ninharia, mas tu és demasiado franco. Se estivesses do lado de fora da cortina e visses a cara do público, como eu, já conhecias melhor a natureza humana.

 

- Ah! O que te estragou é aquilo que agora fazes - replicou o companheiro. - Quando fazias de fantasma nos dramas que representávamos nas feiras, acreditavas em tudo excepto em fantasmas. Mas agora desconfias de tudo e de todos. Nunca vi uma pessoa mudar tanto.

 

- Deixa lá - retorquiu Mr. Codlin com o ar de um filósofo desgostoso. - Agora sei melhor como é a vida, e talvez me custe sabê-lo.

 

Revolvendo os bonecos dentro da caixa, como quem os conhecia bem e os desprezava, Mr. Codlin retirou um e mostrou-o ao amigo, para este o examinar:

 

- Olha aqui, o vestido desta Judy está outra vez a cair aos bocados. Não tens, por acaso, uma agulha e uma linha?

 

O homenzinho abanou negativamente a cabeça, coçando-a com ar desolado, ao verificar esta grave enfermidade de um dos principais actores. Notando a perplexidade dos dois, a jovem propôs, timidamente: - Tenho aqui uma agulha, no meu cesto, senhor, e também linha. Importam-se que seja eu a coser? Talvez consiga fazê-lo melhor do que os senhores.

 

Nem mesmo Mr. Codlin teve alguma coisa a objectar contra uma oferta tão sensata. Nelly, ajoelhando-se junto da caixa, entregou-se toda à sua tarefa, conseguindo um verdadeiro milagre.

 

Enquanto ela estava assim ocupada, o homenzinho jovial observava-a com um interesse que não pareceu diminuir ao relancear o olhar para o desamparado companheiro da jovem. Quando ela terminou o trabalho ele agradeceu-lhe e perguntou-lhe para onde iam.

 

- Hoje n... não andamos mais, penso eu - respondeu ela olhando para o avô.

 

- Se precisarem de um sítio para pernoitar - observou o homem, - aconselho-vos a hospedarem-se na mesma casa onde nós estamos. É ali, aquela casa branca, comprida e baixa. É muito barato.

 

Apesar da sua fadiga, o velho teria permanecido toda a noite no cemitério, se as pessoas com quem acabara de travar conhecimento lá tivessem ficado também. Como ele aceitasse a sugestão com imediata e arrebatada prontidão, levantaram-se todos e partiram juntos. O velho seguia junto da caixa dos fantoches, em que estava completamente absorvido, e que o homenzinho jocoso segurava no braço, com uma correia presa à caixa para esse efeito.

 

Nelly levava o avô pela mão e Mr. Codlin seguia lentamente atrás, lançando à torre de igreja e às árvores vizinhas o mesmo olhar que, na cidade, costumava dirigir às janelas das salas de estar e dos quartos de crianças, quando procurava um lugar rendoso para montar o espetáculo.

 

Os estalajadeiros, um casal idoso e roliço, não levantaram quaisquer objecções ao receberem novos hóspedes, elogiando mesmo a beleza de Nelly e mostrando logo uma predilecção por ela. Não havia mais ninguém na cozinha, excepto os dois artistas, e a jovem sentiu-se feliz por terem encontrado um alojamento tão bom.

 

A estalajadeira ficou muito surpreendida ao saber que haviam percorrido todo o caminho desde Londres e a sua curiosidade sobre qual o seu destino parecia não ter limites. A jovem esquivava-se às suas perguntas o melhor que podia e sem grande dificuldade, pois, verificando que elas pareciam ser-lhe penosas, a boa senhora desistiu.

 

- Estes dois cavalheiros encomendaram a ceia para daqui a uma hora - disse ela conduzindo-a até à sala de jantar - e o melhor que vocês podem fazer é cear juntamente com eles. Entretanto, vai beber aqui uma coisa que lhe há-de fazer bem, estou certa, depois de tudo o que passou hoje. Mas não esteja preocupada com o senhor, porque, quando tiver bebido isso, ele também vai tomar alguma coisa.

 

Porém, como por nada deste mundo a jovem o deixava sozinho, ou acedia a tomar alguma coisa, sem que ele se servisse primeiro e ficasse com maior quinhão, a senhora foi obrigada a servi-lo em primeiro lugar. Depois de se terem assim reconfortado, dirigíram-se todos rapidamente para um estábulo vazio, onde estava montado o espectáculo e onde ia ser imediatamente apresentado, à luz trémula de algumas velas, espetadas à volta do arco de um barril, suspenso do tecto por um arame.

 

Então, Mr. Thomas Codlin, o misantropo, depois de ter soprado numa flauta pastoril até se sentir profundamente infeliz, tomou o seu lugar junto da cortina axadrezada que ocultava o coordenador dos fantoches, e enfiando as mãos nos bolsos prepararou-se para responder a todas as perguntas e comentários do Polichinelo e fingindo, com pouca convicção, ser o seu amigo mais íntimo, acreditar totalmente nele até ao extremo limite, e simulando saber que ele levava uma vida feliz e gloriosa, dia e noite, naquele teatro, e que era sempre, e em todas as circunstâncias, a mesma pessoa alegre e inteligente que os espectadores viam ali à sua frente.

 

Mr. Codlin fazia tudo isto com o ar de alguém que se tinha preparado para o pior e que estava completamente resignado, o seu olhar vagueava lentamente pelo público durante as réplicas mais bem conseguidas, para observar o efeito que despertava, principalmente, sobre os estalajadeiros, o que poderia dar origem a resultados muito férteis no respeitante à ceia.

 

Não havia, porém, razões para preocupação, já que toda a representação foi aplaudida ruidosamente e os donativos voluntários foram prodigalizados com uma abundância que comprovava ainda melhor a satisfação geral. Entre o público, sobressaía o riso do velho, que era sempre quem ria mais alto e mais vezes. O de Nelly nunca se ouviu, pois ela, pobre criança, reclinando a cabeça no ombro do avô, deixara-se adormecer, e tão profundamente dormia que resultaram infrutíferos os esforços dele para a acordar e partilhar com ela a sua alegria.

 

A ceia estava muito boa, mas a jovem sentia-se demasiado exausta para comer, e só abandonou o velho depois de lhe ter dado o beijo da noite, já no leito. Ele, candidamente insensível a todos os cuidados e preocupações, deixou-se ficar sentado, escutando, com um sorriso distante e o espanto no rosto, tudo o que os seus novos amigos iam contando, e só quando estes se retiraram, bocejando, para os seus quartos, é que ele seguiu a jovem pela escada.

 

O aposento onde eles entraram para descansar não passava de um sótão, dividido ao meio, em dois compartimentos, mas eles ficaram bem contentes com este alojamento, e nem tinham esperado encontrar um tão bom. O velho ficou desassossegado depois de se deitar, e pediu a Nelly que viesse para junto dele e se sentasse à sua cabeceira, como havia feito tantas vezes. Ela obedeceu prontamente, permanecendo sentada junto dele até ele adormecer.

 

O quarto de Nelly tinha uma janelinha, pouco maior do que uma pequena abertura na parede, e quando saiu de junto do avô, abriu-a, maravilhando-se com o silêncio exterior. A imagem da velha igreja e dos túmulos à sua volta, banhados pelo luar, e as escuras árvores sussurando entre si, tornaram-na mais pensativa do que antes. Voltou a fechar a janela, sentou-se sobre o leito e ficou a pensar na vida que os aguardava.

 

Tinha algum dinheiro, mas era muito pouco, e quando tivesse acabado, tinham de começar a pedir esmola. Juntamente com esse dinheiro havia uma moeda de ouro e, se houvesse alguma emergência, essa moeda valeria para eles cem vezes mais. O melhor seria escondê-la e nunca a tirar a não ser num caso absolutamente desesperado, em que não lhes restasse mais nenhum recurso.

 

Tendo tomada essa resolução, coseu a moeda de ouro na bainha do vestido e, deitando-se mais tranquila, adormeceu profundamente.

 

Outro dia brilhante surgiu, e os raios de Sol, espreitando através da pequena janela e ansiosos de confraternizarem com os olhos da jovem, seus irmãos, acordaram-na.

 

À vista do quarto estranho e dos objectos desconhecidos, ergueu-se, sobressaltada, perguntando a si mesma como, do quarto que lhe era familiar, onde pensava ter adormecido na noite anterior, teria sido levada para ali, e para onde é que a teriam trazido. Mas, olhando novamente à sua volta, recordou-se de tudo o que se havia passado recentemente, e saltou da cama, cheia de esperança e de confiança.

 

Como era ainda cedo e o velho ainda dormia, saiu para o cemitério, fazendo escorrer o orvalho das altas ervas, à sua passagem, e desviando-se com frequência para os sítios onde ela crescia mais alta, para não pisar os túmulos. Sentia um estranho prazer em estar ali entre aquelas casas dos mortos e em ler as inscrições dos túmulos das pessoas boas. Havia muita gente boa enterrada ali. Deslocava-se de um para outro com renovado interesse.

 

Era um sítio muito tranquilo, como devem ser os cemitérios, exceptuando os gritos das gralhas, que haviam construído o ninho nos ramos de umas árvores muito altas, e gritavam umas para as outras, lá no alto. Primeiro, era uma destas reluzentes aves, pairando perto do seu ninho de formato irregular, oscilando e balançando ao vento, que lançava o seu grito rouco e discreto, parecendo mesmo por acaso, como se estivesse apenas a falar consigo própria. Outra respondia-Ihe, e ela tornava a gritar, mas mais alto do que antes, depois outra respondia e insistia mais vigorosamente no seu argumento. E dos ramos mais baixos, e dos mais altos, e dos do meio, e da direita e da esquerda, e da copa das árvores, outras vozes, até então silenciosas, entravam no coro, e outras, que chegavam apressadamente das sombrias torrinhas da igreja e do velho campanário, juntavam-se ao clamor, que crescia ou abrandava, aumentava ou diminuía continuando sempre. E toda esta ruidosa altercação se desenrolava entre um esvoaçar de um lado para o outro, e um pousar noutros ramos, e uma frequente mudança de lugar, como satirizando o antigo desassossego daqueles que tão silenciosos jaziam, em baixo, sob o musgo e a erva, e as inúteis contendas em que tinham consumido as suas vidas.

 

Erguendo repetidamente os olhos para as árvores, donde provinham todos aqueles sons, e sentindo que eles como que tornavam aquele local mais tranquilo do que um perfeito silêncio teria conseguido, a jovem passeava de uma campa para outra, ora parando para reajustar cuidadosamente a silva que se desprendera de alguma verde campa, cuja forma ajudava a manter, ora espreitando, através das baixas gelosias das janelas, para dentro da igreja, com os seus livros, roídos das traças, sobre as estantes do coro, e a baeta, de um verde-esbranquiçado, apodrecendo, pendurada nos bancos, deixando ver a madeira nua.

 

Havia os assentos onde se sentavam os pobres velhos, e que estavam gastos e amarelados, como eles próprios, a robusta pia baptismal, onde as crianças recebiam os nomes, o singelo altar, onde elas se ajoelhavam mais tarde, a modesta armação preta que suportava o seu peso, na sua última visita à velha e fria igreja. Tudo revelava muito uso e uma serena e lenta decadência. Até mesmo a corda do sino, no pórtico, estava desfiada pela passagem dos anos, formando uma franja cinzenta.

 

Nelly tinha parado a contemplar uma humilde pedra tumular, onde se lia que um jovem de vinte e três anos morrera, havia cinquenta e cinco anos, e nessa altura ouviu uns passos vacilantes a aproximarem-se. Olhando em redor, avistou uma mulher franzina, dobrada sob o peso dos anos, e que, cambaleando, se aproximou dos pés daquela mesma campa, pedindo-lhe que lhe lesse o que lá estava escrito. Depois de ela ter lido, a velha agradeceu-lhe, dizendo que, durante muitos, muitos anos, soubera aquelas palavras de cor, mas agora já não conseguia lê-las.

 

- Era a mãe dele? - perguntou a jovem.

 

- Era a mulher dele, minha menina.

 

Ela era a mulher de um jovem de vinte e três anos? Ah, é verdade! Isso tinha sido cinquenta e cinco anos atrás.

 

- Está admirada de me ouvir dizer isso? - observou a velha abanando a cabeça. - Não é a primeira pessoa. Outros mais velhos do que a menina se têm admirado até agora, pela mesma razão. Sim, eu era a sua mulher. A morte não nos transforma mais do que a vida, minha querida menina.

 

- Costuma vir aqui muitas vezes? - perguntou a jovem.

 

- Venho sentar-me aqui muitas vezes, no Verão. Dantes costumava vir aqui para chorar e lastimar-me, mas isso já foi há muitos anos, Deus meu!

 

- Apanho as margaridas, à medida que elas vão aparecendo, e levo-as para casa - disse a velha, após um breve silêncio. - Não há flores de que mais goste, e sempre tenho gostado delas, durante todos estes cinquenta e cinco anos, É muito tempo, e estou a ficar muito velha!

 

Depois, tornando-se loquaz sobre um assunto que era novo para a sua interlocutora, embora esta não fosse mais do que uma criança, contou como chorara e se havia lastimado, e como queria morrer, quando aquilo ocorreu. E como, ao vir aqui pela primeira vez, jovem, cheia de ardente amor e intenso sofrimento, tinha desejado que o coração se lhe despedaçasse no peito, como parecia prestes a acontecer. Mas, passado esse tempo, e embora fosse sempre com tristeza que aqui vinha, conseguia sempre vir, e assim continuou, até que já não sentia dor, mas apenas um solene prazer e um dever, de que aprendera a gostar.

 

E agora, decorridos cinquenta e cinco anos, falava do morto como se ele tivesse sido seu filho, ou seu neto, com uma espécie de piedade pela juventude dele, piedade essa nascida da sua própria velhice, e exaltando o seu vigor e a sua beleza varonil, ao contrário da sua própria fraqueza e debilidade.

 

E, no entanto, falava também dele como seu marido, e referindo-se a si própria em relação a ele como ela costumava ser e não como era agora, dizia que se iriam encontrar no outro mundo, como se ele só tivesse morrido ontem, e como se, desligada da personalidade que antes era, imaginasse a felicidade daquela jovem singela que parecia ter morrido juntamente com ele.

 

A jovem deixou-a a apanhar as flores que cresciam sobre a campa, e volveu pensativamente pelo mesmo caminho.

 

O velho já se tinha levantado e vestido. Mr. Codlin. sempre condenado a contemplar as duras realidades da existência, estava a arrumar as suas coisas. Colocando entre a sua roupa branca os cotos das velas que restaram da representação da véspera, enquanto o seu companheiro recebia as felicitações de todos os ociosos que se encontravam no pátio da cavalariça e que, não conseguindo separá-lo da personalidade do Polichinelo, lhe atribuíam uma importância quase igual à daquele alegre maladrim, nutrindo por ele uma simpatia quase idêntica.

 

Quando lhe pareceu que a sua popularidade estava suficientemente reconhecida, entrou, para almoçar, e todos se reuniram à mesa, comendo juntos.

 

- Então, para onde é que vão hoje? - perguntou o homenzinho, dirigindo-se a Nell.

 

- Na verdade, não sei lá muito bem, ainda não decidimos - respondeu a jovem.

 

- Nós vamos para as corridas - disse o homenzinho. - Se for esse o vosso caminho, e se quiserem a nossa companhia, podemos ir juntos. Mas se preferem seguir sozinhos, basta que o digam e nós não vos incomodamos.

 

- Nós vamos convosco - disse o velho. - Nell, vamos com eles, vamos com eles!

 

A jovem reflectiu por um momento e lembrando-se de que muito em breve teria de pedir esmola, dificilmente arranjando um local melhor do que aquele onde muitas damas e cavalheiros abastados se reuniam para divertimentos e folguedos, resolveu acompanhar aqueles homens até lá. Por isso, agradeceu ao homenzinho o seu oferecimento e, olhando timidamente para o amigo dele, disse que se não houvesse nenhum inconveniente em seguirem juntos até à cidade das corridas...

 

- Inconveniente! - disse o homenzinho. - Anda, Tommy, sê amável uma vez na vida, e diz que preferes que eles venham connosco. Sei que preferes que eles venham. Sê amável. Tommy.

 

- Trotters - disse Mr. Codlin, que falava muito devagar e comia muito avidamente, o que não é raro em filósofos e misantropos, - tu és demasiado franco.

 

- Porquê, que mal há nisso? - insistiu o outro.

 

- Não há talvez mal nenhum, neste caso específico - replicou Mr. Codlin, - mas é um princípio perigoso, e tu és demasiado franco, digo-te eu.

 

- Mas, vamos lá a saber, eles podem vir connosco, ou não?

 

- Podem, sim - respondeu Mr. Codlin. - Mas podias ter deixado que fossem eles a pedir, em vez de sermos nós a fazer-lhes esse favor, não podias?      

 

O verdadeiro nome do homenzinho era Harris, mas, com o tempo, acabou por se transformar no atributo, menos melodioso, de Trotters, o qual, com o adjectivo Short que o antecedia, lhe havia sido atribuído devido à pequena dimensão das suas pernas. Porém, sendo Short Trotters uma palavra composta, incómoda para empregar num diálogo amigável, o cavalheiro a quem ela havia sido aplicada era conhecido entre os seus amigos como Short, ou como Trotters, e raramente era tratado pelo nome completo de Short Trotters, excepto em conversas formais ou em ocasiões de cerimónia. Short, ou Trotters, como o leitor preferir, respondeu à admoestação do seu amigo, Mr. Thomas Codlin, com um gracejo para lhe fazer passar o desagrado e, atirando-se com grande apetite à carne cozida, ao chá, ao pão com manteiga, deu a entender aos seus companheiros que deviam imitá-lo. Mr. Codlin não precisava, de facto, de tal convite, pois já havia comido tudo o que lhe podia caber dentro, e tratava agora de molhar o barro de que é feito o corpo, com uma forte cerveja, bebendo-a em grandes tragos com silenciosa satisfação e sem convidar ninguém a participar, revelando assim mais uma vez o seu misantropismo.

 

Quando terminaram finalmente o almoço, Mr. Codlin pediu a conta e, lançando o custo da cerveja a débito de todos os comensais, um gesto igualmente revelador da sua misantropia, dividiu a soma total em duas partes absolutamente iguais, metade para si e o seu amigo e a outra metade para Nelly e o avô. Uma vez devidamente liquidada a conta e concluídos todos os preparativos para a partida, despediram-se dos estalajadeiros e puseram-se ao caminho.

 

E agora ficava bem patente a falsa posição de Mr. Codlin na sociedade, assim como o efeito que isso exercia sobre o seu espírito dolorido, pois, enquanto que, na noite anterior, o Sr. Polichinelo o tratava por amo, daí ser o público levado a concluir que mantinha aquele indivíduo à sua custa para seu próprio divertimento e distracção, agora aqui estava ele, caminhando penosamente sob o fardo do teatro desse mesmo Polichinelo, carregando-o em pessoa sobre os seus ombros, num dia sufocante e ao longo de uma estrada poeirenta. E em vez de animar o seu amo com uma saraivada de gracejos ou o alegre matraquear da sua moca sobre as cabeças de parentes e amigos, aqui estava agora o radiante Polichinelo, completamente desprovido de coluna vertebral, todo inerte e dobrado dentro de uma escura caixa, com as pernas à volta do pescoço, não lhe restando nenhuma das suas dignidades sociais.

 

Mr. Codlin caminhava penosa e dificilmente, trocando, por vezes, uma ou duas palavras com Short, e parando de vez em quando para descansar e resmungar. Short seguia na dianteira, com a caixa comprida, a sua bagagem particular, que não era excessiva, atada numa trouxa, e uma corneta de latão pendurada ao ombro. Nell e o avô vinham logo a seguir, um de cada lado, e Thomas Codlin seguia na retaguarda.

 

Quando chegavam a qualquer cidade ou aldeia, ou mesmo a uma casa isolada, de boa aparência, Short soprava na sua corneta de latão e cantava o fragmento de uma canção, naquele tom hilariante comum aos Polichinelos e às suas caras-metades. Se as pessoas acorriam às janelas, Mr. Codlin montava o teatro e, desenrolando apressadamente a cortina e escondendo Short sob ela, preludiava histericamente na sua flauta, antes de tocar uma melodia. Dava-se, então, início ao espectáculo, tão depressa quanto possível.

 

Mr. Codlin era quem tinha a responsabilidade de decidir sobre a extensão do mesmo e de retardar ou acelerar o tempo até ao triunfo final do herói sobre o inimigo da humanidade, conforme entendesse que a colheita dos meio pence iria ser abundante ou escassa. Após recolher a mesma até ao último «farthing», voltava a carregar com o seu fardo, e prosseguiam viagem.

 

Por vezes efectuavam uma representação como forma de liquidação da passagem de uma ponte ou de uma travessia de barco, e uma vez, numa barreira para pagamento de taxa, realizaram-na a especial pedido do cobrador que, ébrio de solidão, pagou um xelim para assistir sozinho à representação. Houve uma povoação pequena, mas rica de promessas, em que as suas esperanças ficaram frustradas, porque uma das personagens preferidas da peça, ostentando cordões dourados no casaco, um sujeito intrometido e tolo, foi considerado como uma sátira ao oficial de justiça da localidade, pelo que as autoridades obrigaram-nos a retirarem-se rapidamete, Mas, de um modo geral, eram bem recebidos e raramente saíam de uma cidade sem um bando de crianças esfarrapadas a gritar atrás deles.

 

Apesar de tais interrupções, fizeram uma longa caminhada nesse dia, e quando a Lua apareceu a brilhar no céu foi surpreendê-los ainda a caminhar. Short iludia o tempo cantando e gracejando, e encarava tudo o que acontecia com optimismo.


Mr. Codlin, pelo contrário, amaldiçoava o seu destino e todas as falsidades deste mundo, Polichinelo principalmente, e avançava penosamente, com o teatro às costas, acabrunhado pela mais amarga humilhação.

 

Tinham acabado de parar para descansar sob um poste indicador, numa encruzilhada, e Mr. Codlin, na sua profunda misantropia, havia armado a cortina, sentando-se no fundo do teatro e ficando invisível ao olhar dos mortais, desprezando a companhia dos seus semelhantes, quando duas sombras monstruosas saíram da curva da estrada por onde eles tinham vindo, aproximando-se sorrateiramente.

 

Ao principio, a jovem ficou completamente aterrorizada ao ver aqueles esqueléticos gigantes, pois assim pareciam, avançando com arrogantes passadas sob a sombra das árvores, mas Short disse-lhe que não havia nada a temer, soprou na corneta, e que foi correspondido com um alegre brado.

 

- É o grupo de Grinder, não é? - gritou Mr. Short.

 

- É! - responderam umas vozes estridentes.

 

- Venham lá, então - disse Short. - Deixem-se ver. Logo vi que eram vocês.

 

Obedecendo a este convite, o grupo de Grinder aproximou-se rapidamente e depressa se juntou ao pequeno grupo. A companhia de Mr. Grinder, familiarmente designada por grupo, era constituída por um jovem cavalheiro e por uma jovem senhora, em andas, e pelo próprio Mr. Grinder, que utilizava as suas pernas naturais para efeitos pedestres e que transportava um tambor às costas. O traje oficial dos dois jovens era de tipo escocês, mas como a noite estava fria e húmida, o jovem trazia, por cima do «kilt», um casacão de marinheiro, que lhe chegava até aos tornozelos, e um chapéu acetinado. A jovem senhora estava também embuçada numa velha capa e tinha um lenço atado à cabeça. Os seus bonés escoceses, enfeitados com plumas de um preto de azeviche, ornamentavam o instrumento que Mr. Grinder transportava.

 

- Estou a ver que vão para as corridas - disse Mr. Grinder, aproximando-se esbaforido. - Nós também. Como estás, Short?

- E assim dizendo, apertaram amistosamente as mãos um ao outro. Os dois jovens, encontrando-se numa posição muito elevada para proceder aos cumprimentos normais, saudaram Short à sua maneira. O jovem, retorcendo a anda direita, bateu-lhe levemente no ombro. A jovem agitou a pandeireta.

 

- Estão a fazer um ensaio? - perguntou Short, apontando para as andas.

 

- Não - respondeu Grinder. - É que é preciso ou andar sobre elas, ou carregar com elas, e eles gostam mais de andar em cima delas. É muito bom para ver a paisagem. Porque caminho é que vocês vão? Nós vamos pelo mais perto.

 

- Ora, a verdade é que nós vamos pelo mais comprido, porque temos onde pernoitar, uma milha e meia mais adiante. Mas ganhando três ou quatro milhas hoje, poupam-se outras tantas amanhã, e se vocês continuarem a andar hoje, parece-me que o melhor que temos é fazer a mesma coisa.

 

- Onde estáo teu sócio - perguntou Grinder.

 

- Aqui está ele - gritou Mr. Thomas Codlin, deixando ver a cabeça e o rosto no proscénio, com uma expressão de compostura, raramente vista num palco. - E preferia ver o seu sócio queimado vivo a continuar a viagem esta noite. Eis o que ele tem a dizer.

 

- Calma, não digas coisas dessas, numa conversa que se quer agradável - insistiu Short. - Respeita os amigos, Tommy, mesmo que tenhas ficado zangado.

 

- Zangado, ou não - respondeu Mr. Codlin, batendo com a mão no pequeno estrado onde o Polichinelo costumava exibir as suas pernas à admiração popular, ao aperceber-se, subitamente, da sua simetria e da distinção que as meias de seda lhes conferem. - Zangado, ou não, esta noite não ando mais do que uma milha e meia. Vou-me hospedar no Jolly Sandboys e em mais lado nenhum. Se quiseres ir para lá, vai. Se quiseres continuar sozinho, continua sozinho, e arranja-te sem mim, se puderes.

 

E assim dizendo, Mr. Codlin saiu de cena e apareceu imediatamente fora do teatro, pô-lo às costas com um arremesso e fez-se ao caminho, com a mais notável agilidade.

 

Estando agora fora de questão prosseguir a controvérsia, Short viu-se obrigado a despedir-se de Mr. Grinder e dos seus pupilos e a seguir o seu taciturno companheiro. Permanecendo ainda alguns minutos junto do poste indicador, para ver as andas afastarem-se, aos saltos, sob o luar, e após elas, o dono do tambor, que caminhava penosamente. Short agarrou na corneta de onde tirou algumas notas, como uma saudação de despedida, e apressou-se a seguir Mr. Codlin.

 

Deu a mão que tinha livre a Nell, e incitando-a a estar alegre porque em breve chegariam ao termo da viagem daquele dia e, animando o velho de igual modo, conduziu-os com passo rápido para o seu destino, sem a menor relutância, já que a Lua começava a ficar encoberta e as nuvens ameaçavam chuva.

 

Os Jolly Sandboys era uma pequena estalagem, muito antiga, à beira da estrada, com uma tabuleta onde se viam três «sandboys» expandindo a sua jovialidade com muitas canecas de cerveja e sacos cheios de ouro, tabuleta essa que estava pendurada, rangendo e baloiçando-se, do outro lado da estrada. Como naquele dia os viajantes tinham notado muitos indícios de estarem cada vez mais perto da cidade das corridas, tais como acampamentos de ciganos, carroças transportando barracas de jogos e seus pertences, artistas itinerantes de vários géneros, mendigos e vagabundos de todos os graus, todos eles dirigindo-se no mesmo sentido, Mr. Codlin receava ir encontrar os alojamentos apinhados.

 

Como este seu receio aumentava à medida que diminuía a distância entre ele e a hospedaria, apressou o passo e, apesar da carga que tinha de transportar, manteve um andamento rápido até chegar ao limiar da porta. Aqui, teve a satisfação de verificar que os seus receios eram infundados, pois o estalajadeiro estava encostado à ombreira da porta, observando indolentemente a chuva que começava então a cair intensamente, e nem um tinir de estridente campainha, nem impetuoso grito, nem ruidoso coro anunciavam a presença de hóspedes no seu interior.

 

- Está sozinho? - perguntou Mr. Codlin, pondo o seu fardo no chão e limpando a testa.

 

- Absolutamente sozinho, até agora - respondeu-lhe o estalajadeiro, relanceando o olhar para o céu, - mas espero receber mais hóspedes esta noite. Um de vocês, aí, rapazes, leve este teatro para o celeiro. Saia daí da chuva, Tom. Quando começou a chover mandei acender a lareira, e agora posso garantir-lhe que há um bom lume na cozinha.

 

Mr. Codlin seguiu-o de bom grado, e depressa verificou que não era sem boa razão que o estalajadeiro havia elogiado os seus preparativos. Na lareira resplandeciam poderosas chamas que subiam estrepitosamente pela vasta chaminé com um crepitar alegre, som este intensificado pela amável colaboração de um caldeirão de ferro, borbulhando e chiando ao calor das chamas.

 

A sala apresentava uma cor quente e rosada, e quando o estalajadeiro remexeu o fogo, fazendo pular e saltar as chamas, e levantou a tampa do panelão de ferro, donde se exalou um aroma apetitoso, quando o ruído da fervura se tornou mais profundo e mais intenso e um vapor untuoso pairou no ar, suspenso sob as suas cabeças, como uma deliciosa névoa, ao ver tudo isto, o coração de Mr. Codlin enterneceu-se. Sentou-se ao canto da chaminé e sorriu.

 

Mr. Codlin estava sentado ao canto da chaminé, observando o estalajadeiro, que com olhar malicioso segurava a tampa na mão e, fingindo assim proceder por imperativos culinários, permitia que o delicioso vapor excitasse as narinas do seu hóspede. O brilho das chamas incidia sobre a calva do estalajadeiro, sobre os seus olhos piscos, sobre o seu rosto cheio de borbulhas e sobre a sua figura gorda e roliça, Mr. Codlin passou a manga sobre os lábios e perguntou num murmúrio de voz-. - O que é?

 

- É um guisado com bucho - respondeu o estalajadeiro fazendo um estalido com os lábios, - mão de vaca, - novo estalido de lábios, - e presunto - outro estalido - e carne pela quarta vez se ouviu o estalido dos lábios, - e ervilhas, couve-flor, batatas novas e espargos, tudo a apurar junto, dentro de um molho delicioso. - Tendo atingido o clímax, deu repetidos estalidos com os lábios e, fungando longa e entusiasticamente o aroma que pairava no ar, voltou a pousar a tampa, com o ar de quem havia terminado as suas labutas sobre a Terra.

 

- Quando é que está pronto? - perguntou Mr. Codlin em voz débil.

 

- Tem que ficar no ponto exacto - respondeu o estalajadeiro, olhando para o relógio da parede, e até o próprio mostrador, gordo e branco, apresentava um certo rubor, e era exactamente o relógio para Jolly Sandboys consultar, - há de ficar no ponto exacto quando faltarem vinte e dois minutos para as onze.

 

- Então - disse Mr. Codlin, - traga-me uma caneca de cerveja quente, e não deixe ninguém trazer para aqui, nem que seja uma bolacha, até chegar a hora.

 

Abanando a cabeça, em sinal de aprovação por esta atitude decidida e varonil, o estalajadeiro retirou-se para ir buscar a cerveja e, voltando daí a pouco com ela, pôs-se a aquecê-la numa pequena vasilha de lata em forma de funil, para se tornar mais fácil introduzi-la bem dentro das chamas e atingir os sítios mais quentes.

 

Rapidamente este trabalho ficou concluído, e a cerveja, apresentando à superfície aquela espuma cremosa que constitui uma das circunstâncias felizes que acompanham o malte quente, foi servida a Mr. Codlin.

 

Tendo ficado consideravelmente acalmado com aquela bebida reconfortante, Mr. Codlin lembrou-se então dos seus companheiros e informou o seu precioso estalajadeiro dos Sandoys que devia contar com a sua chegada para breve. A chuva, que caía em catadupas, fustigava as vidraças das janelas, e tal era a afabilidade de Mr. Codlin que mais de uma vez manifestou o seu sincero desejo de que eles não fossem tolos, a ponto de virem agora, encharcando-se.

 

Finalmente chegaram, ensopados e com um aspecto extremamente deplorável, e apesar de Short ter abrigado a jovem o melhor que podia sob as abas do seu casaco, vinham quase sem fôlego devido à precipitação da caminhada.

 

Mas assim que ouviu os seus passos na estrada, o estalajadeiro, que estivera à porta da rua, esperando ansiosamente a chegada deles, precipitou-se para a cozinha e levantou a tampa da panela. O efeito, assim produzido, foi electrizante. Acendeu-se-lhes um sorriso no rosto, embora a água lhes escorresse da roupa até ao chão, e a primeira observação de Short foi: - Mas que delicioso aroma!

 

Não é muito difícil esquecer a chuva e a lama, junto de um fogo crepitante, dentro de uma sala acolhedora. Tendo-lhes sido proporcionados chinelos e roupas enxutas, conforme foi possível encontrar na casa ou nas suas próprias trouxas, refugiaram-se no quente canto da chaminé, como Mr. Codlin já havia feito, e depressa esqueceram os incómodos por que tinham acabado de passar, ou só os recordando para melhor usufruírem das delícias do momento presente. Subjugados pelo calor, pelo conforto e pelo cansaço, Nelly e o velho adormeceram, pouco depois de se terem sentado.

 

- Quem são eles? - perguntou baixinho o estalajadeiro. Short abanou negativamente a cabeça, respondendo que isso também ele queria saber.

 

- Você não sabe? - exclamou o estalajadeiro voltando-se para Mr. Codlin.

 

- Eu não - respondeu ele. - Penso que não devem ser lá grande coisa.

 

- Não fazem mal a ninguém - disse Short. - Podes estar certo disso. E digo-te uma coisa, é óbvio que o velho não está no seu perfeito juízo.

 

- Se não tiveres outra novidade para dar - resmungou Mr. Codlin, deitando um olhar ao relógio - é melhor que nos deixes saborear a nossa ceia e não nos perturbes.

 

- Importas-te de me ouvir até ao fim? - replicou o amigo.

 


- Além disso, é mais do que evidente, para mim, que eles não estão habituados a este modo de vida. Não me digas que aquela linda criança tem o ar de quem costuma andar a vaguear por aí, como tem feito nestes últimos dois ou três dias. Não acredito.

 

- Ora, e quem é que te disse que ela tem andado? - resmungou Mr. Codlin olhando novamente para o relógio e depois para o panelão. - Não és capaz de arranjar nada mais adequado ao momento, do que dizeres coisas para depois as contradizeres?

 

- Oxalá te servissem já a ceia - replicou Short, - pois não haverá sossego enquanto não a tiveres à tua frente. Não reparaste como o velho está sempre ansioso por continuar a andar, sempre a querer ir mais longe, sempre mais longe? Não notaste?

 

- Ah! E então? - resmungou de novo Thomas Codlin.

 

- Então, é o seguinte - respondeu Short. - Ele fugiu dos amigos. Atenta bem no que te digo, ele fugiu aos amigos e convenceu esta delicada criatura, sempre cheia de ternura por ele, a servir-lhe de guia e de companheira de viagem, e para onde? Sabe tanto, como o homem que está lá em cima na Lua. Mas eu não vou tolerar uma coisa dessas.

 

- Tu não vais tolerar uma coisa dessas? - gritou Mr. Codlin, tornando a olhar para o relógio e arrepelando os cabelos com ambas as mãos, numa espécie de frenesi, mas seria difícil dizer se isso se deveria à observação do companheiro, ou ao lento ritmo do Tempo. - Que mundo este, em que vivemos!

 

- Eu - repetiu Short, com voz lenta e enfática - não vou tolerar uma coisa dessas. Não vou permitir que esta bela criancinha caia nas mãos de pessoas malvadas, pois isso é tão pouco aconselhável como seria essa gente conviver com os anjos. Por isso, quando eles resolverem separar-se de nós, hei-de tomar medidas para os impedir e restituí-los aos seus amigos que, certamente, por esta altura já revelaram o seu desgosto em cartazes colados por todas as paredes de Londres.

 

- Short - disse Mr. Codlin que, até este momento, com a cabeça pousada nas mãos e os cotovelos sobre os joelhos, se abanava impacientemente de um lado para o outro, por vezes batendo com o pé no chão, mas erguendo agora vivamente o olhar. - É possível que tenhas enorme razão no que acabas de dizer. Se assim for, e se derem um prémio, não te esqueças que somos sócios em tudo!

 

O seu companheiro só teve tempo de acenar afirmativamente com a cabeça, já que a jovem acordou nesse instante. Tinham-se aproximado um do outro, segredando, e agora separavam-se precipitadamente, tentando desajeitadamente trocar algumas observações fortuitas no seu tom de voz normal, quando se ouviram passos na rua, e entraram novos visitantes.

 

Tratava-se apenas de quatro tristes cães, que entraram, um após outro, chefiados por um velho cão curvado e de aspecto particularmente triste que, parando quando o último dos seus companheiros chegou à porta, se levantou sobre as patas traseiras e olhou para eles. Estes ergueram-se imediatamente sobre as patas, formando uma fila grave e melancoliça. Isto não constituía o único facto notável nestes cães, pois todos eles traziam uma espécie de casaquinho de cor garrida, enfeitado com lantejoulas desbotadas, e um deles trazia um chapéu na cabeça, muito bem atado debaixo do queixo, que lhe havia descaído sobre o focinho, tapando-lhe completamente um dos olhos. Se se acrescentar a isto que os garridos casacos estavam completamente ensopados e manchados pela chuva, e os animais molhados e sujos, poder-se-á ter uma ideia sobre o invulgar aparecimento destes novos visitantes no Jolly Sandboys.

 

Mas nem Short, nem o estalajadeiro, nem Thomas Codlin, revelaram a menor surpresa, observando apenas que deviam ser os cães do Jerry e que este não devia andar longe. E os cães ali ficaram, piscando os olhos, de boca aberta, e fitando avidamente o panelão a ferver, até que apareceu o próprio Jerry, e todos eles baixaram imediatamente as patas, começando a andar pela casa no seu modo natural. Mas, há que referir, em abono da verdade, que esta nova posição não os favorecia muito, já que as suas caudas e as abas dos seus casacos, ambas as coisas elementos fundamentais, cada um à sua maneira, não se conseguiam harmonizar entre si.

 

Jerry, o empresário destes cães bailarinos, era um homem alto, de barba preta, com um casaco de bombazina, que parecia ser bem conhecido do estalajadeiro e dos seus hóspedes, aproximando-se deles com grande cordialidade. Desembaraçando-se de um realejo, que pousou sobre uma cadeira, mas conservando na mão um pequeno chicote destinado a manter em respeito a sua companhia de comediantes, avançou para o lume para se secar e entabular conversa.

 

- A sua gente não costuma viajar em traje de palco, pois não? - disse Short, apontando para os casacos dos cães.

- Assim, acaba por ficar caro, não?

 

- Não costumam, não - respondeu Jerry. - Mas hoje fizemos algumas actuações pelo caminho e como vamos aparecer com trajes novos nas corridas, achei que não valia a pena estarmos a parar para despir a roupa. Para baixo, Pedro!

 

Esta exclamação era dirigida ao cão com o chapéu na cabeça e que, tendo ingressado recentemente na companhia, não se sentia ainda muito seguro do seu papel, fitando ansiosamente o amo com o olho que tinha livre, e pondo-se constantemente de pé sobre as patas traseiras quando não era necessário e deixando-se cair outra vez.

 

- Tenho aqui um animal - disse Jerry, enfiando a mão no enorme bolso do seu casaco, e entranhando-a num dos cantos, como se procurasse uma pequena laranja, ou uma maçã, ou algo semelhante - um animal que me parece que és capaz de conhecer, Short.

 

- Ah! - gritou Short, - deixa-mo ver.

 

- Aqui está ele - respondeu Jerry, tirando do bolso um cãozinho «terrier». - Ele chegou a ser um Toby teu, uma vez, não chegou?

 

Nalgumas versões do grande drama do Polichinelo, aparece um cãozinho, uma inovação moderna, que é considerado pertencer exclusivamente àquele cavalheiro, e sempre com o nome de Toby. Este Toby, quando ainda era um cachorrinho, fora roubado a outro cavalheiro e vendido fraudulentamente ao nosso confiante herói que, não tendo ele próprio qualquer malícia, estava longe de suspeitar que o mesmo não se passava com os outros.

 

Mas Toby, que guarda uma grata recordação do seu antigo amo, e determinado a não se afeiçoar a novos donos, não só recusa fumar um cachimbo, quando Polichinelo lho ordena, como também, para vincar mais a sua velha fidelidade, agarra-o pelo nariz e torce-o com violência, tocando, assim, profundamente os espectadores, com o seu exemplo de dedicação canina. Fora esta personagem a que o pequeno «terrier» em questão uma vez tinha dado forma. E se alguma dúvida subsistisse sobre o assunto, o comportamento do animal tê-la-ia dissipado rapidamente, pois, assim que viu Short, manifestou logo intensos sinais de o reconhecer e, reparando na comprida caixa, pôs-se a ladrar tão furiosamente para o nariz de papelão que sabia estar lá dentro, que o dono teve que o agarrar e voltar a pô-lo no bolso, para grande alívio de todos.

 

O estalajadeiro estava agora ocupado a pôr a mesa, em cuja tarefa era amavelmente ajudado por Mr. Codlin, que colocou a sua faca e o seu garfo no lugar mais cómodo, sentando-se atrás deles. Quando tudo ficou pronto, o estalajadeiro levantou a tampa pela última vez, irrompendo, deste modo, uma tal promessa de boa ceia que, se ele tivesse anunciado que ia voltar a colocá-la, ou se tivesse aludido a um adiamento da refeição, teria sido certamente sacrificado sobre a sua própria fornalha.

 

Mas nada disso aconteceu, e ajudado por uma robusta criada, vasou o conteúdo do caldeirão para dentro de uma enorme terrina, operação esta que os cães, resistentes a vários salpicos quentes que caíram sobre os seus focinhos, observavam com enorme avidez. A terrina foi finalmente colocada na mesa, sobre a qual já haviam sido distribuídas canecas de cerveja, a jovem Nell arriscou-se a rezar a oração das refeições, e deu-se início à ceia.

 

Nesta conjuntura, os pobres cães, surpreendentemente, puseram-se todos sobre as patas traseiras, e a jovem, condoída, estava prestes a atirar-lhes alguns pedaços de alimento, antes mesmo de começar a comer, embora estivesse cheia de fome, quando o dono se interpôs.

 

- Não, minha menina, não, nem um átomo das mãos de ninguém, só das minhas, se faz o obséquio. Aquele cão, observou Jerry, com voz terrível, apontando para o velho chefe do grupo - perdeu hoje meio «penny». Fica sem jantar.

 

O infeliz animal deixou-se cair logo sobre as patas dianteiras e abanou a cauda, olhando para o dono, de modo suplicante.

 

- Tem de ter mais atenção, cavalheiro - disse Jerry, dirigindo-se friamente para a cadeira onde deixara o realejo, e abrindo o fecho: - Venha cá. Agora, toque isto, enquanto nós ceamos, e não se atreva a parar.

 

O cão começou imediatamente a rodar a manivela, tocando uma música tristíssima. O dono, depois de lhe mostrar o chicote, voltou para o seu lugar e chamou os outros que, obedecendo às suas ordens, formaram-se em fila, ficando aprumados, como uma coluna de soldados.

 

- Agora, cavalheiros - disse Jerry, olhando atentamente para eles: - O cão que eu chamar, come. Os que não forem chamados, não se mexem. Cario!

 

O felizardo, cujo nome foi chamado, abocanhou o bocado que lhe foi atirado, mas nenhum dos outros mexeu um músculo. E deste modo receberam a sua parte, ao arbítrio do dono. Entretanto, o cão caído em desgraça continuava a dar à manivela no realejo, ora rápida, ora vagarosamente, mas sem parar um só momento. Quando as facas e os garfos tilintavam mais animadamenmte, ou algum dos seus companheiros recebia um naco maior de gordura, acompanhava a música com um breve lamento, mas reprimia-se imediatamente, vendo o dono olhar à volta, aplicando-se com redobrado vigor a tocar a velha canção.

 

Ainda a ceia não acabara, quando ao Jolly Sandboys chegaram mais dois viajantes, tal como os restantes, que se dirigiam ao mesmo paraíso, e que haviam caminhado à chuva durante horas, surgindo assim brilhantes e ensopados de água. Um deles era dono de um gigante e de uma mulherzinha sem pernas nem braços e que haviam seguido à frente, aos baldões, dentro de uma carripana. O outro, um cavalheiro taciturno, que ganhava a vida fazendo habilidades com cartas, e que deformara um pouco a expressão natural da sua fisionomia, introduzindo pequenas pastilhas de chumbo dentro dos olhos e extraindo-as pela boca, o que constituía uma das suas habilidades profissionais. O primeiro dos recém-chegados chamava-se Vuffin e o outro Sweet William, talvez em jeito de graciosa sátira pela sua fealdade.

 

O estalajadeiro andava agilmente de um lado para o outro, de modo a proporcionar-lhes todo o conforto que pudesse, e dentro em pouco ambos os cavalheiros estavam sentados, com toda a comodidade.

 

- Como está o gigante? - perguntou Short, quando todos já estavam à volta da lareira, a fumar.

 

- Tem as pernas um pouco fracas - respondeu Mr. Vuffin.

- Começo a ter receio de que ele esteja a fraquejar dos joelhos.

 

- Isso não é nada bom - disse Short.

 

- Pois não! É mesmo mau - respondeu Mr. Vuffin, fitando as chamas com um suspiro. - Quando um gigante começa a tremer das pernas, o público interessa-se tanto por ele como por um talo de couve seco.

 

- O que é que acontece aos gigantes, quando eles ficam velhos? - perguntou Short, após uma breve reflexão.

 

- Geralmente conservamo-los nas caravanas, para tratarem dos anões - respondeu Mr. Vuffin.

 

- Deve sair caro mante-los, quando eles já não podem aparecer em cena, hem? - observou Short olhando para o outro em ar de dúvida.

 

- É melhor isso do que deixá-los ir para receberem auxílio das paróquias, ou para andarem pelas ruas - afirmou Mr. Vuffin. - Se os gigantes se tornarem uma coisa vulgar, nunca mais voltam a atrair as atenções. Veja as pernas de pau. Se houvesse apenas um homem com uma perna de pau, o rendimento que ele não era!

 

- De facto era! - remataram o estalajadeiro e Short, em conjunto. - É mesmo assim.

 

- Mas - continuou Mr. Vuffin, - se se fosse anunciar que Shakespeare iria ser representado só por actores com pernas de pau, estou certo que não se arrecadava nem uma moeda de seis pences.

 

- Também me parece que não - disse Short, e o estalajadeiro afirmou o mesmo.

 

- Isto explica, assim - prosseguiu Mr. Vuffin, agitando o cachimbo, com ar de quem discursa. - Isto explica a nossa política de continuarmos a manter os gigantes gastos nas caravanas, dando-lhes cama e mesa de graça, durante toda a vida, e quase sempre com muita satisfação deles, por poderem cá estar. Aqui há uns anos, houve um gigante, um preto, que deixou a caravana onde vivia, e passou a andar a fazer recados em Londres, tornando-se assim tão banal como um varredor de ruas. Morreu. Não estou a fazer nenhuma insinuação contra ninguém em especial - declarou Mr. Vuffin, olhando em redor com ar solene, - mas estava a arruinar o negócio, e acabou por morrer.

 

O estalajadeiro, inspirando ruidosamente o ar, olhou para o dono dos cães, que assentiu com a cabeça, dizendo laconicamente que se lembrava do caso.

 

- Sei que te lembras - respondeu Mr. Vuffin, em tom significativo. - Sei que te lembras, Jerry, e a opinião geral foi que lhe serviu de lição. Lembro-me do tempo em que o velho Maunders tinha vinte e três carros, recordo-me ainda quando ele tinha na sua casa, em Spa Fields, no Inverno, quando a época acabava, oito anões de ambos os sexos, que abancavam à mesa todos os dias para jantar, e que eram servidos por oito velhos gigantes, vestidos com casaco verde, calção vermelho, meias de algodão azul e botins. E havia lá um anão, velho e mau, que sempre que o seu gigante não vinha depressa para lhe satisfazer os caprichos, costumava espetar-lhe alfinetes nas pernas, já que não conseguia chegar mais alto. Sei que é verdade, porque foi o próprio Maunders quem mo contou.

 

- E os anões, o que é que lhes acontece a eles, quando ficam velhos? - perguntou o estalajadeiro.

 

- O anão, quanto mais velho, mais valor tem - respondeu Mr. Vuffin. - Um anão de cabelos grisalhos, cheio de rugas, está fora de toda a suspeita. Mas um gigante fraco das pernas e que não se consegue manter direito! É conservá-lo dentro da caravana e nunca deixar que o vejam, nunca deixar que o vejam, por nada deste mundo.

 

Enquanto Mr. Vuffin e os seus dois companheiros fumavam o seu cachimbo, e assim discorrendo, iam passando o tempo. O cavalheiro taciturno, sentado num canto confortável, ia engolindo, ou parecendo engolir, como exercício, moedas de meio pences, até ao montante de seis pences, equilibrando uma pena sobre o nariz, e ensaiando outros idênticos fenómenos de destreza, sem prestar qualquer espécie de atenção aos circunstantes que, por sua vez, o ignoravam totalmente. Por fim, a fatigada jovem convenceu o avô a recolher-se, e ambos se retiraram, deixando todo o grupo ainda sentado em redor da lareira, e os cães, bem adormecidos, a respeitosa distância.

 

Depois de ter dado as boas-noites ao velho, Nell retirou-se para o seu humilde sótão, mas, mal acabara de fechar a porta, quando sentiu bater levemente. Abriu-a logo, ficando um pouco assustada ao ver Mr. Codlin que, segundo tudo levava a crer, havia ficado profundamente adormecido, em baixo.

 

- O que foi? - perguntou a jovem.

 

- Não foi nada, minha menina - respondeu-lhe ele. - Sou seu amigo. Talvez não pense assim, mas eu é que sou seu amigo, e não ele.

 

- Não ele, quem? - perguntou a jovem.

 

- Short, minha menina. Vou-lhe dizer uma coisa - declarou Codlin. - Embora ele tenha umas maneiras que levam as pessoas a gostar dele, eu é que sou verdadeiro e sincero. Posso não parecer, mas sou.

 

A jovem começou a ficar inquieta, pensando que a cerveja tinha subido à cabeça de Mr. Codlin e que aquele autoelogio era uma consequência disso.

 

- Short é muito amável e parece boa pessoa - prosseguiu o misantropo, - mas exagera, eu não.

 

Certamente que, se o comportamento de Mr. Codlin revelava alguma falha, era a de não prodigalizar a sua amabilidade para com os outros, utilizando-a antes com parcímónia. Mas a jovem estava perplexa e não sabia o que dizer.

 

- Siga o meu conselho - disse Codlín. - Não me pergunte porquê, mas faça como lhe digo. Enquanto andar connosco, mantenha-se sempre tão perto de mim quanto possível. Não queira sair de junto de nós por nenhuma razão. Mantenha-se sempre ao pé de mim e diga que sou seu amigo. Não se vai esquecer disso, pois não, minha menina, e vai dizer sempre que eu é que era seu amigo?

 

- Dizer onde, e quando? - perguntou a jovem, inocentemente.

 

- Oh, em nenhum sítio especial - respondeu Codlin parecendo ligeiramente embaraçado com a pergunta. - Só pretendo que me considere assim e que me faça justiça. Não pode imaginar quanto me interesso por si. Porque é que não me contou a história da sua vida, a sua e a do pobre senhor de idade? Nunca houve ninguém que desse tão bons conselhos como eu, e estou tão interessado em si, muito mais do que o Short. Parece-me que eles estão a subir as escadas. Não precisa de contar ao Short esta nossa conversa. Deus a abençoe. Não se esqueça de quem é seu amigo, Codlin é que é seu amigo, não o Short. O Short é muito amável, até certo ponto, mas o verdadeiro amigo é Codlin, não o Short.

 

Depois de repetir estes protestos, acompanhados por olhares benevolentes e protectores, e por uma atitude fervorosa, Thomas Codlin afastou-se sorrateiramente, em bicos de pés, deixando a jovem perfeitamente perplexa. Estava ainda a reflectir sobre aquele estranho comportamento, quando os degraus rachados e o patamar rangeram sob os passos dos outros viajantes que iam deitar-se. Depois de todos se terem afastado e quando o ruído dos seus passos já havia desaparecido, um dos hóspedes voltou para trás e, após uma ligeira hesitação e um sussurro, como hesitando a que porta é que se devia dirigir, bateu à sua.

 

- Sim? - perguntou a jovem do lado de dentro.

 

- Sou eu, o Short - respondeu uma voz através do buraco da fechadura. - Só queria dizer que temos de partir amanhã cedo, minha menina, porque, se não nos adiantarmos aos cães e ao mágico, as aldeias depois não valem nada. Levanta-se cedo para vir connosco? Venho chamá-la.

 

A jovem respondeu-lhe afirmativamente e, depois de lhe retribuir as boas-noites, sentiu-o afastar-se devagarinho. O interesse daqueles dois homens causava-lhe uma certa inquietação, aumentada pela lembrança de como segredavam à lareira e pelo seu embaraço quando ela acordou. Tinha também algumas dúvidas se eles seriam os melhores companheiros que poderia ter encontrado. Porém, a sua inquietação nada era, comparada com a sua fadiga, pelo que depressa a esqueceu, adormecendo.

 

Muito cedo ainda, na manhã seguinte, Short veio cumprir a sua promessa, e batendo-lhe delicadamente à porta, pediu-lhe que se levantasse logo, já que o dono dos cães ainda ressonava e, se não perdessem tempo nenhum, podiam conseguir um bom avanço, tanto em relação a ele, como ao mágico, que era sonâmbulo e, a julgar por aquilo que dizia no seu sonho, estava a segurar um burro em equilíbrio. Levantou-se imediatamente e fez levantar o velho, com tanta presteza, que ambos se aprontaram ao mesmo tempo que Short, com grande gratidão e alívio daquele cavalheiro.

 

Após um almoço muito simples e rápido, cujo prato forte era constituído por pão com presunto e cerveja, despediram-se do estalajadeiro e escaparam-se pela porta dos Jolly Sandboys. A manhã apresentava-se agradável e quente, nos pés sentia-se o chão fresco, após as últimas chuvas, as sebes estavam mais vistosas e verdes, o ar estava límpido, e tudo tinha um ar fresco e sadio. Assim, caminhavam com satisfação, no meio deste ambiente aprazível.

 

Não tinham ainda avançado muito, quando a jovem ficou novamente espantada com a transformação operada no comportamente de Mr. Thomas Codlin que, em vez de caminhar no seu andamento vagaroso, solitário e amuado, como até então, se mantinha agora junto dela, e quando tinha oportunidade de olhar para ela, sem o seu companheiro o ver, advertia-a por meio de esgares e movimentos de cabeça, para não depositar a menor confiança em Short e reservar toda a sua confiança para ele, Codlin. E não se limitava a olhares e a gestos, pois quando a jovem e o avô caminhavam ao lado do referido Short, e este, com a sua habitual despreocupação, ia falando sobre vários assuntos vulgares, Codlin revelava o seu ciúme e a sua desconfiança, seguindo logo no seu encalço e admoestando-lhe os tornozelos com os pés do teatro de modo brusco e desagradável.

 

Todas estas atitudes, naturalmente, tornaram a jovem mais cautelosa e receosa. Depressa verificou que, sempre que paravam junto da taberna de uma aldeia, ou noutro local, Mr. Codlin, enquanto ia desempenhando o seu papel no espectáculo, conservava o olhar fito nela e no velho ou, com mostras de grande estima e deferência, convidava este a apoiar-se ao seu braço, segurando-o assim, firmemente, até acabar a representação e a viagem prosseguir. Até Short parecia ter mudado, juntando à sua afabilidade um certo desejo de os manter sob protecção. Isto aumentou as dúvidas da jovem, tornando-a mais preocupada e apreensiva.

 

Entretanto, iam-se aproximando cada vez mais da cidade onde, no dia seguinte, se iam realizar as corridas. Efectivamente, passaram, primeiro, por numerosos grupos de ciganos e vagabundos, que se dirigiam para a cidade, e descendo de todos os caminhos e atalhos, iam depois aumentando gradualmente, transformando-se numa multidão, uns caminhando ao lado de carroças cobertas, outros com cavalos, outros com burros, outros ainda avançando penosamente sob pesados fardos que transportavam às costas, mas todos seguindo na mesma direcção. As tabernas à beira da estrada, que anteriormente haviam estado vazias e silenciosas, como as que se encontravam em locais mais distantes, expeliam agora tumultuosos brados e nuvens de fumo, e das suas janelas embaciadas, cachos de largos rostos avermelhados observavam a estrada. Em cada pequena parcela de terreno baldio ou público, um pequeno proprietário de barraca de jogo realizava o seu ruidoso negócio, gritando aos ociosos viandantes que parassem e tentassem a sua sorte. A multidão ia engrossando e tornando-se mais ruidosa. Sobre balcões tapados com cobertores, bolos dourados de gengibre expunham as suas glórias à poeira e, frequentemente, uma carruagem puxada a quatro cavalos passava em louca correria, obscurecia todos com a nuvem de poeira que levantava, deixando-os ofuscados e atordoados e desaparecia ao longe.

 

Já era noite, quando chegaram à cidade, e bem longas tinham sido, de facto, as últimas milhas. Aqui, era grande o tumulto e a confusão. As ruas estavam apinhadas de gente, entre a qual muitos estrangeiros, segundo parecia, pelos olhares que lançavam em redor, os sinos das igrejas repicavam estrepitosamente e bandeiras flutuavam nas janelas e no cimo das casas. Nos amplos pátios das estalagens, criados corriam de um lado para o outro, embatendo uns contra os outros, patas de cavalo ressoavam no empedrado irregular, degraus de carruagem desciam, com estampido, e odores enjoativos, provenientes de muitas ceias, lançavam um bafo pesado e tépido sobre o olfacto. Nas pequenas tabernas, rebecas chiavam com toda a força, acompanhadas por pés vacilantes. Homens embriagados, esquecidos do refrão da sua canção, soltavam um brado grotesco que abafava o tilintar da débil campainha, despertando neles uma feroz avidez da bebida.

 

Grupos de vagabundos amontoavam-se em redor das portas para verem dançar a bailarina ambulante, e aos seus gritos juntavam-se o guincho do pífaro e o som ensurdecedor do tambor.

 

A jovem, assustada e desgostosa com tudo o que via, conduzia o seu assombrado protegido, mantendo-se bem segura ao seu guia, temerosa de se ver separada dele no meio da multidão e de ter de encontrar o seu caminho sozinha. Apressando o passo para se libertarem de todo aquele ruído e agitação, atravessaram, finalmente, a cidade, e dirigiram-se para o campo das corridas, um terreno baldio, coberto de urzes, situado numa colina, a uma boa milha de distância dos muros da cidade.

 

Embora houvesse aqui muita gente, nenhuma da qual devia muito à beleza nem à elegância, azafamada a montar tendas, a espetar estacas no chão, correndo de um lado para o outro, com os pés cheios de pó e soltando muitas pragas, embora se vissem muitas crianças fatigadas, aninhadas sobre montes de palha entre rodas de carroças, e chorando até caírem de sono, e muitos pobres cavalos e burros esqueléticos que, tendo acabado de ser libertados do seu jugo, pastavam entre homens e mulheres, caçarolas e chaleiras e fogueiras semiacesas e cotos de velas tremeluzindo e consumindo-se rapidamente ao ar, apesar de tudo isto, a jovem sentiu-se aliviada   por ter saído   da   cidade   e   respirou   mais tranquilamente. Após uma ceia frugal, que reduziu de tal modo o seu escasso pecúlio, que lhe restaram apenas algumas moedas de meio «penny» para o almoço do dia seguinte, ela e o velho deitaram-se ao canto de uma tenda para descansar, adormecendo, apesar de toda a azáfama em seu redor, que prosseguiu durante toda a noite.

 

E estava agora a chegar a altura em que tinham de mendigar o seu pão. Pouco depois do nascer do Sol, a jovem saiu furtivamente da tenda e, encaminhando-se para uns campos próximos, colheu algumas rosas silvestres e outras flores humildes, para com elas fazer ramos e oferecê-los às senhoras nas carruagens, quando chegasse a assistência.

 

Enquanto estava entregue a esta ocupação, os seus pensamentos não permaneciam ociosos. Ao regressar à tenda, sentou-se ao lado do velho, num canto, atando as suas flores e, enquanto os dois homens cabeceavam, dormindo noutro canto, puxou a manga do avô e, deitando-lhe um olhar rápido, disse-lhe, baixinho:

 

- Avô, não olhe para aqueles de quem estou a falar, e não julgue que quero dizer outra coisa, além daquilo que vou dizer. O que foi que me contou, antes de abandonarmos aquela casa velha? Contou-me que, se soubessem o que íamós fazer, diziam que o avô estava louco e separavam-nos, não foi assim?

 

O velho voltou-se para ela, desvairado de medo, mas ela tranquilizou-o com um olhar e, pedindo-lhe que segurasse as flores para ela as atar, aproximou os lábios do seu ouvido, dizendo-lhe:

 

- Sei que foi isso que me disse. Não precisou de falar, querido avô. Lembro-me muito bem, não me podia esquecer disso. Avô, estes homens pensam que abandonámos secretamente os nossos amigos e querem conduzir-nos perante um senhor qualquer, para tomar conta de nós e nos mandar de volta. Se continuar a tremer assim com a mão, nunca mais conseguimos fugir deles, mas se se acalmar, poderemos consegui-lo facilmente.

 

- Como? - sussurrou o velho. - Como, querida Nelly? Eles fecham-me dentro de uma cela toda de pedra, escura e fria, prendem-me à parede com correntes, batem-me com chicotes, e nunca mais me deixam ver-te!

 

- Está outra vez a tremer - disse a jovem. - Mantenha-se junto de mim, durante todo o dia. Não se preocupe com eles, nem olhe para eles, só para mim. Hei-de encontrar uma maneira de nos escaparmos. E quando chegar a altura, esteja atento para vir comigo e não pare, nem diga nada. Silêncio! É tudo.

 

- Olá! O que é que a menina estava aí a engendrar?

- perguntou Mr. Codlin, erguendo a cabeça e bocejando. Depois, verificando que o seu companheiro dormia ainda profundamente, acrescentou, sussurrando com ar grave: Não se esqueça que Codlin é que é amigo, não o Short.

 

- Estou a fazer raminhos de flores - respondeu a jovem.

 

- Vou ver se consigo vender alguns, durante estes três dias das corridas. Quer um, oferecido, naturalmente?

 

Mr. Codlin ia levantar-se para o ir buscar, mas a jovem precipitou-se para ele, colocando-lho na mão. Ele enfiou-o na botoeira do casaco, com ar de inefável complacência, apesar de ser um misantropo, e olhando de soslaio e com ar triunfante para o inadvertido Short, murmurou, deitando-se outra vez: - Tom Codlin é o amigo, assim Deus...!

 

À medida que a manhã avançava, as tendas começavam a apresentar-se mais alegres e mais brilhantes, e surgiam carruagens, deslizando suavemente sobre a relva, em longas filas. Homens que tinham andado a vaguear toda a noite vestidos de casaca e botas de couro, apareciam agora envergando túnicas de seda e chapéus de plumas, sob a aparência de ilusionistas ou charlatões, ou com faustosas librés, como empregados de falas mansas, em barracas de jogo, ou fardados de possantes oficiais, servindo de atractivo em jogos ilícitos. Ciganitas de olhos pretos, cobertas com lenços vistosos, surgiam de repente para ler a sina, e mulheres magras e pálidas, com rostos tísicos, seguiam os passos de ventríloquos e mágicos, contando as moedas de seis pences com olhar ansioso, e muito antes ainda de as terem ganho. Todas as crianças que era possível manter recatadas estavam guardadas, juntamente com os restantes sinais de imundície e de miséria, entre burros, carroças e cavalos. E todas aquelas que não era possível guardar deste modo, corriam para dentro e para fora, em todos os locais mais intrincados, rastejavam entre as pernas das pessoas e entre as rodas das carruagens, e saíam ilesas de debaixo das ferraduras dos cavalos. E cães bailarinos, andas, a senhora anã e o homem gigantesco, e todas as outras atracções, com realejos sem conto e numerosas charangas, surgiam das cavidades e dos recantos em que haviam passado a noite, vicejando ostensivamente ao Sol.

 

Short conduzia o seus companheiros ao longo da pista de corridas, ainda não desimpedida, tocando a corneta de latão e divertindo-se a imitar a voz do Polichinelo. Logo a seguir vinha Thomas Codlin, carregando o teatro, como sempre, e vigiando Nelly e o avô, que tardavam atrás. A jovem trazia o cestinho das flores no braço, parando por vezes, para as oferecer, com ar tímido e modesto, a alguma vistosa carruagem. Mas, ai! Junto dela havia muitos mendigos mais atrevidos, ciganas que prometiam casamentos às damas, e outros peritos neste ofício, e embora algumas senhoras sorrissem gentilmente, abanando a cabeça e outras exclamassem para os cavalheiros sentados ao seu lado: - Olha, que lindo rosto!

- passavam pelo lindo rosto, nunca pensando que estivesse fatigado ou com fome.

 

Só houve uma senhora que pareceu compreender a jovem. Estava sentada sozinha, numa bonita carruagem, enquanto dois cavalheiros jovens, trajando com elegância e que haviam acabado de descer da carruagem, conversavam e riam alto a uma certa distância, parecendo ter-se esquecido completamente da senhora. Embora a toda a volta estivessem muitas damas, encontravam-se de costas voltadas, ou olhavam noutra direcção, ou para os dois cavalheiros, com ar benévolo para eles, deixando-a sozinha. Afastou, com um aceno, uma cigana que insistia em lhe ler a sina, dizendo que já estava lida, e há vários anos, e chamando a jovem, pegou-lhe nas flores, meteu-lhe dinheiro na mão trémula, recomendando-lhe que fosse para casa e que, por amor de Deus, não viesse para a rua.

 

Caminharam inúmeras vezes ao longo daquelas longuíssimas fileiras de barracas e de gente, vendo tudo, menos cavalos e corridas. Quando se ouviu a campainha, dando sinal para desimpedir a pista, retrocederam, para descansar entre as carroças e os burros, não voltando às suas deambulações enquanto não passou a canícula do dia. Inúmeras vezes também foi exibido o Polichinelo, no auge do seu bom-humor, mas tudo isto sob o olhar vigilante de Thomas Coldin, pelo que era praticamente impossível escapar sem serem vistos.

 

Finalmente, já no fim da tarde, Mr. Codlin armou o teatro num local adequado, e dentro em pouco os espectadores exultavam com o espectáculo. A jovem, sentada logo atrás juntamente com o velho, reflectia como era estranho que, sendo os cavalos animais tão bonitos e tão bons, pareciam transformar em vagabundos todos aqueles que enxameavam à sua volta, quando um coro de gargalhadas suscitadas por algum gracejo extemporâneo de Mr. Short em alusão às circunstâncias do dia, a despertou da sua meditação, levando-a a olhar em redor.

 

Se havia alguma ocasião em que pudessem fugir, sem serem notados, era exactamente aquela. Short manejava energicamente as mocas e, no ardor da luta, atirava, os fantoches contra as paredes do teatro. As pessoas olhavam, riam-se, e Mr. Codlin abrandara a sua expressão com um sorriso austero, ao aperceber-se com o seu olhar errante, de mãos penetrando em bolsos de coletes e buscando silenciosamente moedas de seis pences.

 

Se havia alguma ocasião em que pudessem escapar, sem serem notados, era naquele preciso momento. E assim fizeram. Abriram caminho por entre barracas, carruagens e multidões de gente, nunca parando para olharem para trás. Quando chegaram junto das cordas que cercavam a pista, esta estava desimpedida e a campainha tocava, mas eles precipitaram -se atravessando-a a correr indiferentes aos gritos e aos protestos que choviam sobre eles, por terem atravessado a mesma. Arrastaram-se penosamente sob a protuberância de uma colina e, em rápidas passadas, dirigiram-se para campo aberto.

 

Dia após dia, ao encaminhar-se para casa, após uma nova tentativa para encontrar trabalho, Kit erguia o olhar para a salínha que tanto havia elogiado à jovem, esperando alguns indícios da sua presença. O seu grande anseio, juntamente com a garantia que Quilp lhe havia dado, haviam enraizado nele a convicção de que ela viria ainda para aceitar o humilde abrigo que ele lhe oferecera e, da morte da esperança de cada dia, outra esperança nascia, para viver no dia seguinte.

 

- Penso que eles devem chegar amanhã, não é, mãe?

- perguntou, tirando o chapéu, enquanto falava, com ar fatigado e suspirando. -Já partiram há uma semana. Com certeza que não vão ficar fora mais do que uma semana, pois não?

 

A mãe, abanando negativamente a cabeça, lembrou-lhe quantas vezes ele já tinha ficado desiludido.

 

- Quanto a isso - disse Kit, - a mãe fala bem verdade e com razão, como sempre. Mas continuo a achar que uma semana chega bem para eles andarem a passear de um lado para o outro. Não acha, mãe?

 

- Chega muito bem, Kit, é mais do que suficiente, mas, apesar disso, podem não voltar.

 

Por um momento, Kit sentiu-se inclinado a ficar vexado com aquela discordância, e tanto mais porque já a previra, e sabia que era bem justa. Mas tratou-se apenas de um impulso momentâneo, e ainda não tinha lançado o seu olhar vexado e já o mesmo se havia desvanecido, assumindo uma expressão amável.

 

- Então, mãe, o que é que acha que é feito deles? De qualquer maneira, não pensa que tenham ido para o mar, pois não?

 

- Certamente que não foram para marinheiros - replicou a mãe, sorrindo, - mas não posso deixar de pensar que tenham ido para algum país estrangeiro.

 

- Oh mãe! - gritou Kit, com ar pesaroso. - Não diga uma coisa dessas.

 

- Receio bem que sim, e essa é a verdade - respondeu a mãe. - É o que todos os vizinhos contam e alguns até dizem que foram vistos a bordo de um navio e sabem mesmo o nome do sítio para onde foram, o que já eu não posso fazer, porque é um nome muito difícil de dizer.

 

- Não acredito - respondeu Kit. - Não acredito sequer uma palavra disso. Uns linguareiros e mandriões, é o que eles são todos. O que é que eles sabem?

 

- Naturalmente que podem estar enganados - respondeu a mãe. - Não sei, embora não me pareça que seja de todo impossível, pois diz-se que o senhor de idade tinha guardado algum dinheiro, sem ninguém saber, nem mesmo aquele feio homenzito de que me falaste. Como é que ele se chama? Quilp! E dizem que ele e Miss Nell foram viver para o estrangeiro, onde não lhes tiram o dinheiro e onde podem viver tranquilos. Isto não parece uma coisa muito improvável, pois não?

 

Kit pôs-se a coçar a cabeça, desalentado, e relutante em admitir que assim era. Depois, subindo penosamente até junto do velho prego espetado na parede, retirou a gaiola, e dispunha-se a limpá-la e a dar de comer ao pássaro. Mas os pensamentos voaram-lhe para o senhor baixinho que lhe havia dado o xelim e, subitamente recordou-se que era exactamente o dia, mais ainda, era quase a hora em que ele havia dito que ia outra vez ao Notário. Logo que se lembrou disto, pendurou precipitadamente a gaiola e, explicando rapidamente a natureza da sua missão, partiu a toda a pressa para o sítio combinado.

 

Passavam quase dois minutos da hora combinada, quando ele chegou ao local, que ficava a considerável distância da sua casa, mas por grande sorte o senhor baixinho ainda não chegara, pelo menos não se avistava nunhuma carruagem com o seu pónei, e não era provável que tivesse chegado e partido, num tão breve espaço de tempo. Sentindo-se profundamente aliviado por não estar atrasado, Kit encostou-se a um poste de iluminação para recuperar o fôlego, aguardando a chegada do pónei com a sua carga.

 

Efectivamente, decorrido pouco tempo, surgiu o pónei à esquina da rua, com o ar obstinado que os póneis costumam apresentar, escolhendo os sítios para colocar as patas, como se procurasse os pontos mais limpos e não quisesse de modo algum sujá-las, nem apressar-se desnecessariamente. Atrás do pónei vinha sentado o senhor baixinho de idade e, ao lado deste, a senhora baixinha, segurando um ramalhete, igual ao que trouxera da última vez.

 

O senhor, a senhora, o pónei e a carruagem subiram a rua, em perfeita harmonia, até chegarem a uma distância de cerca de meia-clúzia de portas do Notário. Então o pónei, enganado por uma placa de bronze, sob a argola da porta de um alfaiate, parou, dando a entender pelo seu obstinado silêncio que era aquela a casa que pretendiam.

 

- Vamos, cavalheiro, tenha a bondade de continuar. Não é esta a casa - disse o senhor.

 

O pónei pôs-se a olhar para uma boca de incêndio perto dele, parecendo absolutamente absorvido na sua contemplação.

 

- Meu Deus, como este Whisker é desobediente! - exclamou a senhora. - Depois de se ter portado como devia, e de ter vindo tão bem! Tenho vergonha dele. Não sei o que se há-de fazer dele, não sei mesmo!

 

O pónei, depois de ter ficado completamente satisfeito, quanto à natureza e características da boca de incêndio, olhou para o ar, procurando as suas inimigas de sempre, as moscas, e como, naquele momento, uma delas parecia estar a fazer-lhe cócegas numa orelha, abanou a cabeça e redemoinhou com a cauda, após o que se quedou pensativo, mas muito satisfeito e tranquilo. Tendo esgotado todos os seus poderes de persuasão, o senhor baixinho desceu para o conduzir, após o que o pónei, talvez por considerar isso uma concessão suficiente, ou talvez por ter avistado a outra tabuleta de latão, ou talvez ainda por se encontrar de mau humor, partiu como uma flecha levando a senhora em cima e parando na casa certa, deixando o senhor a correr ofegante atrás dele.

 

Foi então que Kit apareceu junto à cabeça do pónei, tocou no chapéu e sorriu.

 

- Deus meu! - exclamou o senhor. - O rapaz está aqui! Estás a ver, querida?

 

- Eu disse que estava cá, senhor - disse Kit acariciando o pescoço do Whisker. - Espero que tenha feito boa viagem, senhor. Este poneizinho é muito bonito.

 

- Minha querida - disse o senhor, - este rapaz é fora do comum. É um bom rapaz, tenho a certeza.

 

- Tenho a certeza que é - replicou a senhora. - É muito bom rapaz e tenho a certeza que é um bom filho.

 

Kit agradeceu estas expressões de confiança tocando no chapéu, todo ruborizado. Então, o senhor deu a mão à senhora para a ajudar a descer, e depois de terem olhado para ele com um sorriso de aprovação, entraram na casa, falando dele, enquanto iam andando, conforme Kit pressentiu. Decorridos alguns minutos, Mr. Witherden surgiu à janela aspirando profundamente o aroma do ramalhete, olhou para Kit, e a seguir apareceu Mr. Abel e também olhou para ele, depois vieram o senhor e a senhora, voltando a olhar para ele, o que Kit, profundamente embaraçado, simulou não perceber. Por isso, pôs-se a acariciar cada vez mais o pónei, o qual permitia generosamente esta liberdade.

 

Os rostos tinham desaparecido da janela havia pouco, quando apareceu na rua Mr. Chuckster, com a farda de serviço e o chapéu pendurado na cabeça, exactamente na mesma posição em que ele lhe havia caído em cima ao retirá-lo do cabide e, dizendo a Kit que os senhores queriam que ele fosse lá dentro, mandou-o entrar acrescentando que entretanto tomaria conta da carruagem. Ao dar-lhe estas ordens, Mr. Chukster ia pensando consigo mesmo que diabos o levassem se conseguia entender se ele, Kit, era um grande tolo, ou um refinado espertalhão, mas pelo movimento desconfiado da sua cabeça, percebia-se que se inclinava mais para a segunda hipótese.

 

Kit entrou no escritório todo trémulo, pois não estava habituado a ver-se entre damas e cavalheiros estranhos, além de que as caixas de lata e as resmas de papéis poeirentos despertavam nele respeito e veneração. E Mr. Witherden era uma pessoa atarefada, falando alto e rapidamente, e todos os olhos estavam pousados nele, e ele que se apresentava todo esfarrapado.

 

- Ora bem, meu rapaz - disse Mr. Witherden. - Vieste fazer o serviço com o xelim que já tinhas ganho, e não para receberes mais, hem?

 

- Não, claro que não, senhor - respondeu Kit arranjando coragem para erguer os olhos. - Nunca pensei nisso.  

 

- O teu pai é vivo? - perguntou o Notário.

 

- Morreu, senhor.

 

- E a tua mãe?

 

- Está viva, sim senhor.

 

- Voltou a casar, hem?

 

Kit respondeu, não sem uma certa indignação, que ela era viúva e tinha três filhos, e que quanto a voltar a casar, se o senhor a conhecesse, veria que ela não era pessoa para isso. Após esta resposta, Mr. Witherden voltou a mergulhar o nariz nas flores, sussurrando por trás delas, para o senhor de idade que pensava que o rapaz era absolutamente honesto.

 

Depois de lhe terem feito mais algumas perguntas, Mr. Garland disse: - Agora, não te vou dar nada...

 

- Obrigado, senhor - respondeu Kit com toda a sinceridade, já que esta declaração parecia libertá-lo da suspeita a que o Notário havia aludido.

 

- Mas - continuou o senhor de idade - talvez me interesse saber mais alguma coisa a teu respeito, por isso diz-me onde é que moras, para assentar aqui na minha agenda.

 

Kit deu-lhe a informação pedida, e o senhor escreveu-a, com um lápis. Mal ele tinha acabado, quando se ouviu um grande burburinho na rua, e a senhora, correndo para a janela, gritou que o Whisker tinha fugido. Ouvindo isto, Kit precipitou-se para o ir agarrar, e os restantes seguiram-no.

 

Parece que Mr. Chuckster ficara ali parado, com as mãos nos bolsos, olhando negligentemente para o pónei, insultando-o, de vez em quando, com admoestações como: - Está quieto! Está sossegado! Aí! Pára! - e outras expressções semelhantes, que um pónei temperamental não podia suportar. Por isso o pónei, não se deixando intimidar por quaisquer consideracções de dever ou obediência, e sem ter o menor receio do olhar humano, acabara por se lançar em fuga, e naquele momento seguia a chocalhar pela rua abaixo. Mr. Chuckster, que perdera o chapéu mas conservava a caneta atrás da orelha, seguia pendurado nas traseiras da carruagem, tentando em vão arrastá-la para o outro lado, com enorme espanto de todos os que presenciavam a cena. Porém, mesmo ao fugir, Whisker revelou uma certa malícia, pois não chegara ainda muito longe quando parou repentinamente, e antes de ser possível prestar qualquer auxílio, começou a recuar quase com a mesma rapidez com que tinha avançado.

 

Deste modo, Mr. Chukster viu-se impelido e empurrado novamente até ao escritório, de uma maneira muito ignominiosa, tendo chegado num estado de grande exaustão e de extrema frustração.

 

A senhora subiu então para o seu lugar, e Mr. Abel, a quem tinham vindo buscar, trepou para o seu. O senhor, depois de ter argumentado com o pónei sobre a maneira, absolutamente incorrecta, como ele se havia comportado, e depois de ter apresentado as maiores desculpas a Mr. Chuckster, tomou também o seu lugar, e partiram, acenando ao notário e ao seu escriturário, e voltando-se mais de uma vez para acenar amavelmente a Kit, que ficara parado na rua, a vê-los partir.

 

Kit foi-se embora, e depressa esqueceu o pónei, a carruagem, a senhora baixinha, o senhor baixinho e o jovem cavalheiro, pondo-se a pensar no que poderia ter acontecido ao seu antigo amo e à sua encantadora neta, que eram a origem de todas as suas meditações. Sempre a cogitar nalguma razão plausível que explicasse o seu desaparecimento e que o convencesse a si próprio que eles em breve regressariam, dirigiu-se para casa na intenção de concluir a tarefa que a súbita lembrança do seu compromisso havia feito interromper. Voltaria depois a partir, em busca da sua fortuna daquele dia.

 

Quando chegou à esquina da viela onde morava, vejam só! Lá estava outra vez o pónei. Sim, era mesmo ele, com o olhar mais obstinado do que nunca e, sentado dentro da carruagem e vigiando atentamente todos os seus pestanejes, estava Mr. Abel, sozinho, que ao avistar casualmente Kit, se pôs a acenar-lhe com a cabeça, como se estivesse a embalada para a adormecer.

 

Kit ficou surpreendido ao tornar a ver o pónei tão perto da sua casa, mas nunca lhe passou pela cabeça o que é que ele estava ali a fazer, ou onde é que teriam ido a senhora e o senhor baixinhos, até que, ao levantar a tranqueta da porta para entrar em casa, os viu sentados lá dentro, a falar com a sua mãe. Ao depararem-se-lhe estas inesperadas visitas, tirou o chapéu e inclinou-se algo perplexo.

 

- Chegámos aqui antes de ti, estás a ver, Christopher disse Mr. Garland, sorrindo.

 

- Sim, senhor - respondeu Kit, e ao dizer isto olhou para a mãe com ar interrogativo.

 

- Meu filho, este cavalheiro teve a grande bondade de me perguntar - retorquiu-lhe a mãe em resposta à sua muda interrogação - se tu tinhas um bom emprego, ou se tinhas mesmo algum, e quando soube que não tinhas nenhum, foi tão bondoso que disse...

 

- Que queríamos um bom rapaz para a nossa casa - disseram, em coro, o senhor baixinho e a senhora baixinha - e que talvez pudéssemos pensar nisso, se víssemos que estava tudo ao nosso gosto.

 

Como, pensar nisso, significava claramente pensar dar trabalho a Kit, este ficou imediatamente preso da mesma ansiedade da mãe, e todo excitado, pois os dois senhores baixinhos eram muito metódicos e cautelosos, fazendo tantas perguntas que ele começou a recear que não iria conseguir o trabalho.

 

- Bem vê, boa mulher - disse Mrs. Garland à mãe de Kit.

- Há que ter muito cuidado e muita atenção, num assunto como este, pois somos só três em casa, somos muito sossegados e ordenados, e seria muito penoso se por algum lapso da nossa parte viéssemos a verificar que as coisas eram diferentes daquilo que desejávamos e esperávamos.

 

A mãe de Kit respondeu que era mesmo verdade, e assim mesmo é que devia ser, e assim é que estava certo, e que Deus a livrasse de se esquivar, ou de ter alguma razão para se esquivar a qualquer pergunta sobre o seu carácter, ou sobre o do seu filho, que era muito bom filho. Embora ela fosse a sua mãe, sentia orgulho em dizer que ele era como o pai que, além de ser um bom filho para a sua mãe, era também o melhor dos maridos e o melhor dos pais, o que Kit podia confirmar e confirmaria, tinha a certeza disso, assim como o pequeno Jacob e o bebé, se já tivessem idade para isso, mas infelizmente não tinham, embora não soubessem a grande perda que haviam sofrido, e talvez fosse muito melhor eles serem tão pequenos como eram. E assim a mãe de Kit terminou a sua longa história, enxugando os olhos ao avental e acariciando a cabeça do pequeno Jacob que se balançava dentro do seu berço e fitava com os olhos arregalados aqueles senhores desconhecidos.

 

Quando a mãe de Kit acabou de falar, a senhora baixinha interveio novamente, dizendo ter a certeza que ela era uma pessoa muito honesta e respeitável, pois de contrário nunca teria falado da maneira como acabara de falar, e que certamente o aspecto dos filhos e o estado de limpeza da casa eram dignos de grande louvor e eram o seu máximo elogio. Ao ouvir isto, a mãe de Kit fez uma reverência e sentiu-se muito satisfeita. Em seguida, a boa mulher iniciou uma longa e minuciosa descrição da vida e da história de Kit, desde a sua mais tenra infância até ao momento presente, sem omitir a sua queda e miraculosa salvação de uma janela das traseiras quando era ainda uma criança de tenra idade, e o muito que havia padecido com o sarampo, o que exemplificava imitando rigorosamente a voz chorosa do filho que, dia e noite, pedia água e torradas, dizendo à mãe: «Não chore, mãe, daqui a pouco estou bom.» Para confirmar as suas declarações, indicou como referências o nome de Mrs. Green, inquilina da leitaria da esquina, várias outras damas e cavalheiros, residentes em diversas partes da Inglaterra e do País de Gales, e um certo Mr. Brown que, na altura devia ser cabo nas índias Orientais, e que poderia certamente ser encontrado sem grande dificuldade, os quais haviam tido conhecimento pessoal das circunstâncias em que ocorreram aqueles acontecimentos. Terminada esta narração, Mr. Garland fez algumas perguntas a Kit quanto às suas habilitações e conhecimentos gerais, enquanto Mrs. Garland se voltava agora para as crianças, e como a mãe de Kit referisse certas circunstâncias singulares que haviam rodeado o nascimento de todas elas, relatou outras circunstâncias singulares verificadas quando do nascimento do seu único filho, Mr. Abel, pelo que parecia que tanto a mãe de Kit como ela tinham corrido muitos riscos e perigos, mais do que quaisquer outras mulheres da sua idade e condição. Finalmente, após averiguação do estado e conteúdo do guarda-roupa de Kit, e se ter procedido a um pequeno adiantamento para melhoria do mesmo, Kit foi formalmente contratado, com o salário anual de seis libras, além de cama e mesa, por Mr. e Mrs. Garland, residentes na Vivenda Abel, em Finchley.

 

Seria difícil saber qual das duas partes parecia mais satisfeita com o acordo, cuja conclusão não foi comemorada com mais do que olhares amáveis e sorrisos alegres de ambas as partes. Ficou combinado que Kit devia apresentar-se na sua nova residência daí a dois dias de manhã. Finalmente o casal dos senhores baixinhos, depois de oferecer uma bonita moeda de meia coroa ao pequeno Jacob e outra ao bebé, despediu-se, sendo acompanhado até à rua pelo novo criado que segurou o obstinado pónei pelo freio enquanto eles ocupavam os seus lugares, ficando depois a vê-los afastarem-se com o coração rejubilante.

 

- Então, mãe! - exclamou Kit, voltando a correr para casa.

- Penso estar quase a chegar a minha grande sorte.

 

- Penso que está mesmo, Kit - respondeu a mãe. - Seis libras por ano! Vejam só!

 

- Ah! - disse Kit, tentando manter a gravidade exigida por uma remuneração de tal montante, mas sorrindo contra vontade. É uma fortuna!

 

E ao dizer isto, Kit respirou profundamente, enfiou as mãos bem fundo nos bolsos, como se em cada um deles estivesse pelo menos o salário de todo um ano e olhou para a mãe como se não a visse, embrenhado na contemplação de uma grande quantidade de moedas de oiro.

 

- Se Deus quiser, a mãe há-de vir a ser uma verdadeira senhora, aos domingos! E o Jacob há-de ser um grande estudante e o bebé um belo menino, e havemos de pôr o quarto lá de cima todo bonito! Seis libras por ano!

 

- Eh! - gritou uma voz agoirenta. - O que é isso de seis libras por ano? O que é essa história de seis libras por ano?

 

- E à voz inquisidora seguiu-se a figura de Daniel Quilp, que entrou imediatamente seguido por Richard Swiveller.

 

- Quem é que disse que ele ia receber seis libras por ano?

 

- perguntou Daniel Quilp, olhando bruscamente em seu redor. - Foi o velho que disse, ou foi a Nelly? E o que é que ele vai fazer com elas, e onde é que eles estão?

 

A boa mulher ficou tão assustada com a repentina aparição daquela criatura feia e desconhecida que agarrando rapidamente no bebé, e retirando-o do berço, recuou para o canto mais afastado do quarto, enquanto o pequeno Jacob, sentado no seu banquinho com as mãos nos joelhos, o fitava com uma espécie de fascinação, berrando furiosamente. Richard Swiveller observava tranquilamente aquela família, por cima da cabeça de Mr. Quilp, assim como o próprio Quilp, com as mãos nos bolsos, sorrindo de íntimo prazer com a perturbação que causara.

 

- Não se assuste, senhora - disse Quilp, passado um momento. - O seu filho conhece-me. Eu não como crianças, não gosto delas. Mas aconselho-a a fazer calar esse berrador que aí está, porque posso ser tentado a fazer-lhe alguma. Oh, cavalheiro! Tu calas-te, ou não?

 

O pequeno Jacob impediu a trajectória de duas lágrimas que estava a espremer dos olhos e apaziguou-se imediatamente, permanecendo num silêncio aterrorizado.

 

- E não recomeces, meu malandro - disse Quilp olhando severamente para ele, - senão, faço-te aqui umas caretas que ficas com um ataque de histeria. Agora nós, cavalheiro, porque é que não foste a minha casa, como prometeste?

 

- Porque é que havia de ir? - respondeu Kit. - Não tinha lá nada que fazer, assim como você não tinha nada para mim.

 

- Oiça lá, minha senhora - disse Quilp, voltando-se rapidamente, e apelando do filho para a mãe. - Quando é que o antigo amo dele cá esteve, ou mandou notícias? Ele está cá agora? Se não está, onde é que foi?

 

- Ele nunca cá esteve - respondeu ela. - Bem gostava de saber para onde é que eles foram, porque o meu filho ficava muito mais tranquilo, e eu tanbém. Se é o senhor que se chama Mr. Quilp, penso que devia estar informado, como disse ao meu filho ainda hoje.

 

- Hum! murmurou Quilp - manifestamente desiludido por ter de admitir que aquilo era verdade. - E é também isso que responde a este cavalheiro, é?

 

- Se o cavalheiro me fizer a mesma pergunta, não lhe posso responder outra coisa, senhor. E bem gostava de lhe poder dizer outra coisa, para nossa tranquilidade, - foi a resposta que obteve.

 

Quilp olhou para Richard Swiveller, dizendo-lhe que, como o tinha encontrado à entrada da porta, concluía que viera saber notícias dos fugitivos, não era assim?

 

- É verdade - respondeu Dick, - era esse o objectivo da minha viagem aqui. Julguei que talvez... Mas o melhor é tanger os sinos da fantasia. Vou começar eu.

 

- Parece desiludido - observou Quilp.

 

- Uma frustração, cavalheiro, uma frustração, é só isso

- respondeu Dick. - Lancei-me numa especulação que acabou por resultar numa frustração, e um ser resplandecente e belo será sacrificado sobre o altar de Cheggs. É só isso, cavalheiro.

 

O anão contemplou Richard com um sorriso sarcástico, mas este, que havia comido um rico almoço juntamente com um amigo, não olhava para o anão, continuando a lastimar o seu destino, com ar pesaroso e desesperado. Quilp percebeu claramente que havia uma secreta razão para esta visita e para esta grande desilusão. Por isso resolveu arrancar-lhe o segredo, esperando encontrar uma oportunidade para uma das suas crueldades. Logo que tomou esta resolução, imprimiu a seu rosto toda a sinceridade que era capaz de exprimir e aparentou a maior compaixão por Mr. Swiveller.

 

- Também me sinto desiludido - afirmou Quilp, - por simples amizade para com eles. Mas o senhor tem motivos verdadeiros, motivos particulares, sem dúvida, para a sua desilusão, por isso a sua mágoa é maior do que a minha.

 

- Ora, naturalmente que é - observou Dick, impaciente.

 

- Dou-lhe a minha palavra de honra que lamento muito, lamento mesmo muito. Eu próprio estou desiludido. Mas, sendo nós companheiros no infortúnio, não podíamos ser também companheiros no caminho mais certo para o esquecimento? Se não tem agora quaisquer afazeres especiais que o obriguem a ir a algum lado - insistiu Quilp, puxando-lhe pela manga e espreitando-lhe dissimuladamente o rosto, pelo canto do olho. - Há uma casa à beira do rio que serve o melhor Schiedam do mundo, dizem que é de contrabando, mas isso fica aqui entre nós. O dono já me conhece. Há uma pequena esplanada sobre o rio onde podemos beber um copo deste delicioso licor e saborear o melhor tabaco. Está aqui nesta caixa e garanto-lhe que é da mais fina qualidade. Podemos ficar lá bem confortáveis e felizes, desde que esteja disponível. Ou tem qualquer compromisso especial que o obrigue absolutamente a ir para algum outro lado, Mr. Swiveller?

 

À medida que o anão falava, o rosto de Dick descontraia-se, num sorriso condescendente e o seu sobrolho ia-se desanuviando lentamente. Quando ele terminou, Dick tinha baixado os olhos para Quilp, com o mesmo ar malicioso que Quilp apresentava no olhar que erguia para ele, e nada mais restava do que partir para a casa em questão, o que eles fizeram imediatamente.

 

No mesmo monento em que eles voltaram costas, o pequeno Jacob recuperou o ânimo, recomeçando a sua gritaria no ponto em que a havia interrompido quando Quilp o tinha paralisado de medo.

 

A esplanada de que Quilp falara pouco mais era do que um caixote de madeira, rude e nu, suspenso sobre a lama do rio e ameaçando cair dentro deste. A taberna de que fazia parte era um edifício decrépito, minado e escavado pelos ratos, seguro apenas por grandes traves de madeira que amparavam as suas paredes há tanto tempo que elas próprias estavam arruinadas, cedendo sob o seu peso, e em noites ventosas ouvia-se ranger e estalar, como se tudo aquilo estivesse prestes a desabar. A casa erguia-se, se é que se pode dizer isso de uma coisa tão decrépita e tão arruinada, num pequeno terreno baldio, apresentava-se ressequida pelo fumo doentio das chaminés das fábricas, e nela ecoava o estrépito das rodas de ferro e a torrente das águas turvas. O seu interior não ficava atrás do que o exterior fazia prever. As salas eram baixas e húmidas, as paredes estavam rachadas e cheias de buracos, o chão apodrecido havia-se afundado e os próprios barrotes tinham-se desviado do seu lugar, como que advertindo o temeroso visitante para que se afastasse da sua proximidade.

 

Foi para este local convidativo que Mr. Quilp conduziu Richard Swiveller, rogando-lhe que observasse as suas belezas, à medida que iam passando. Sobre a mesa da esplanada, profusamente ornamentada com desenhos de forcas e iniciais de nomes nelas gravados, apareceu rapidamente um pequeno barril de madeira, cheio do tão encomiástico licor.

 

Mr. Quilp esvaziou-o para os copos com a perícia de uma mão experimentada e misturando-o com aproximadamente um terço de água estendeu-o a Richard Swiveller. Em seguida acendeu o cachimbo com o coto de uma vela, espetada numa lanterna muito velha e amolgada, e refastalou-se numa cadeira, atirando o fumo para o ar.

 

- Não é bom? - perguntou Quilp a Richard Swiveller, que fazia estalar os lábios. - Não é forte e ardente? Até faz piscar os olhos e nos deixa sufocados, com lágrimas nos olhos e sem respiração, não é?

 

- E de que maneira! - gritou Dick, atirando fora parte do conteúdo do seu copo e acabando de o encher com água.

- Não me diga que consegue beber um fogo destes, homem?

 

- Não! - retorquiu Quilp. - Não consigo! Olhe para isto, e para isto e para mais isto. Não consigo!

 

À medida que ia falando, Daniel Quilp encheu e bebeu três cálices do licor puro e em seguida, com uma horrível careta, pôs-se a chupar sofregamente o cachimbo, engolindo o fumo e lançando-o depois pelo nariz, numa nuvem densa. Tendo concluído este feito, aconchegou-se outra vez na cadeira, rindo às gargalhadas.

 

- Vamos fazer um brinde! - exclamou Quilp batendo agilmente na mesa, alternadamente com o punho e o cotovelo, numa espécie de música. - A uma mulher, a uma beldade. Vamos arranjar uma beldade para o nosso brinde e esvaziar o copo até à última gota. Qual é o nome dela? Vamos, diga lá!

 

- Se quer um nome - respondeu Dick, - temos o da Sophy Wackles.

 

- Sophy Wackles - gritou o anão, - isto é, Miss Sophy Wackles, que há-de ser Mrs. Richard Swiveller, há-de ser! Ah! Ah! Ah!

 

- Ah! - exclamou Dick. - Podia dizer isso aqui há umas semanas atrás, mas agora já não, meu amigo. Imolando-se a si própria no santuário de Cheggs...

 

- Envenene-se Cheggs, cortem-se as orelhas a Cheggs!

- retorquiu Quilp. - Não quero ouvir falar mais desse Cheggs. Ela há-de vir a chamar-se Swiveller, ou mais nada. Vou beber à saúde dela, à do seu pai e à da sua mãe, e à de todas as suas irmãs e irmãos, à gloriosa família dos Wackles, todos os Wackles num só copo, e dentro com ela, até à última gota!

 

- Não há dúvida - disse Richard Swiveller, levantando o copo, mas interrompendo o gesto antes de tocar com o copo nos lábios e contemplando, numa espécie de letargia, o anão que saracoteava os braços e as pernas. - Você é um tipo divertido, mas juro pela minha vida que, de todos os tipos divertidos que alguma vez conheci e ouvi falar, você é o mais estranho e o mais notável.

 

Esta ingénua confissão, em vez de reprimir as excentricidades de Mr. Quilp, ainda as exacerbou. Richard Swiveller, espantado com as suas bravatas e alargando-se ele próprio na bebida para acompanhar o outro, começou imperceptivelmente a tornar-se mais amigável e confiante, de tal modo que, habilmente conduzido por Mr. Quilp, acabou por ficar muito expansivo. Tendo conduzido o seu companheiro para este estado de espírito, e sabendo qual a tónica que devia imprimir ao seu discurso quando o via perplexo, a tarefa de Daniel Quilp era agora relativamente fácil, e dentro em pouco estava de posse de todos os pormenores da intriga delineada entre o afável Dick e o seu amigo mais astuto.

 

- Espere aí! - exclamou Quilp. - É isso mesmo, é isso mesmo. Pode conseguir-se, há-de conseguir-se. Dou-lhe a minha palavra de honra, a partir deste momento sou seu amigo.

 

- O quê? Acha que ainda há alguma possibilidade? - perguntou Dick, surpreendido com aquele estímulo.

 

- Alguma possibilidade! - repetiu o anão. - É uma certeza! Sophy Wackles pode vir a ser uma Cheggs, ou qualquer outra coisa que queira, mas não uma Swiveller. Ah, seu felizardo! Ele é mais rico do qualquer judeu vivo, e você é um homem com a vida feita. Agora só o vejo como marido de Nelly, a nadar em prata e ouro. Vou ajudá-lo. Havemos de conseguir. Não se esqueça do que lhe digo, havemos de conseguir.

 

- Mas como? - perguntou Dick.

 

- Temos muito tempo - retorquiu o anão. - E havemos de conseguir. Vamos conversar muito bem novamente sobre isso, bem sentadinhos. Encha o copo, que eu vou sair, mas volto já, não me demoro nada.

 

E com estas palavras apressadas, Daniel Quilp correu para um campo de «bowling» abandonado, situado por detrás da taberna e, atirando-se para o chão, pôs-se a gritar e a rebolar-se, num acesso de incontida alegria.

 

- Que boa partida - gritou. - E vem-me cair assim nas mãos, já toda inventada e preparada para eu me divertir. Foi aquele malandro, de mãozinhas leves, que outro dia me deu conta dos ossos, não foi? E o outro conspirador foi o seu amigo, Mr. Trent, que uma vez andou a fazer rapapé a Mrs. Quilp, andando e rondando à volta dela, não foi? Depois de terem engendrado este precioso plano, durante dois ou três anos, irem encontrar agora uma mendiga, e um deles ficar-Ihe amarrado pelo casamento até ao fim da vida! Ah! Ah! Ah! Há-de casar com a Nell. Ele há-de ficar com ela, e depois terem dado o nó bem apertado, serei o primeiro a revelar-lhes o que ganharam e o que eu ajudei a conseguir. Assim vão ficar saldadas todas as dívidas antigas e será uma ocasião para lhes recordar o grande amigo que eu fui, e como os ajudei a conquistar a rica herdeira. Ah! Ah! Ah!

 

No auge do seu arrebatamento, Mr. Quilp esteve quase a passar por um desagradável dissabor, pois ao rebolar-se muito próximo da velha casota de um cão, saltou de lá um grande cão, de aspecto feroz, que, se não estivesse preso por uma curta corrente, o teria saudado de uma maneira muito pouco amistosa. Assim, o anão permaneceu deitado de costas, em perfeita segurança, provocando o animal com odiosos esgares, e pleno de jactância por este não conseguir avançar mais uns escassos centímetros, embora se encontrasse apenas a poucos passos de distância.

 

- Porque é que não vens cá dar-me uma dentada? Anda, vem cá fazer-me em pedaços, meu cobarde! - dizia Quilp assobiando e irritando o animal até ele ficar quase doido.

 

- Tens medo, meu fanfarrão, tens medo, sabes bem que tens.

 

O cão esticava e forçava a corrente, com os olhos a saltarem-lhe das órbitas e ladrando furiosamente, mas o anão continuava ali deitado, dando estalos com os dedos, em gestos de desafio e desprezo. Depois de se ter recuperado suficientemente do seu ataque de riso, levantou-se e, com as mãos na cintura, pôs-se a efectuar uma espécie de dança diabólica à volta da casota do cão, fora do alcance da corrente, mas bem próximo dela, enraivecendo completamente o cão. Uma vez assim tranquilizado o seu espírito, e sentindo-se finalmente satisfeito, voltou para junto do seu ingénuo companheiro que estava a mirar as águas com extrema seriedade, pensando em toda aquela prata e em todo aquele ouro a que Mr. Quilp havia aludido.

 

O resto daquele dia e todo o dia seguinte foram de azáfama para a família Nubbles, para quem tudo o que estivesse relacionado com o enxoval de Kit e com a sua partida assumia extrema importância, como se ele estivesse prestes a empreender uma viagem pelo interior de África, ou a realizar um cruzeiro à volta do mundo. Seria difícil imaginar um caixote que tivesse sido aberto e fechado tantas vezes, no espaço de vinte e quatro horas, como este, contendo o guarda-roupa e os objectos necessários a Kit. E certamente nunca houve outro que apresentasse, a dois pequenos olhos curiosos, uma tal abundância de vestuário como este poderoso baú, com as suas três camisas e respectiva proporção de meias e lenços de assoar, exibidos ao olhar espantado do pequeno Jacob. Finalmente, foi entregue ao carregador, devendo Kit ir buscá-lo no dia seguinte a casa do carregador, em Finchley. Uma vez despachado o baú, ficavam apenas duas questões por resolver: primeiro, se o carregador iria perder, ou alegar fraudulentemente ter perdido o baú durante o caminho, e segundo, se a mãe de Kit saberia bem tomar conta de si própria, na ausência do filho.

 

- Não me parece que haja grande risco de ele realmente o perder, mas o certo é que os carregadores têm grande tentação de fingir que perderam as coisas - declarou Mrs. Nubbles com ar apreensivo em relação à primeira questão.

 

- Não há dúvida - respondeu Kit, preocupado. - Dou-lhe a minha palavra, acho que não devíamos ter deixado o baú sozinho. Penso que devia ter ficado alguém junto dele.

 

- Agora já não podemos fazer nada - continuou a mãe.

- Mas foi uma imprudência e um erro. Devemos evitar que as pessoas caiam em tentação.

 

Kit decidiu, intimamente, nunca mais induzir um carregador em tentação, excepto com um baú vazio. E depois de tomar esta cristã resolução, voltou os seus pensamentos para a segunda questão.

 

- Mãe, agora não se pode deixar desanimar, nem sentir-se só por eu não estar em casa. Certamente que hei-de poder vir visitá-la muitas vezes, quando vier à cidade, e hei-de-lhe escrever, de vez em quando, e ao fim de três meses posso ter um dia de férias, e depois havemos de levar o pequeno Jacob ao teatro e dar-lhe ostras a comer.

 

- Espero que não seja pecado ir ao teatro, mas receio bem sim - respondeu Mrs. Nubbles.

 

- Sei bem quem é que lhe tem andado a pôr essas coisas na cabeça - respondeu o filho com ar consternado, - tem sido na Little Bethel. Olhe, mãe, peço-lhe que não se ponha a ir lá muitas vezes, pois se o seu rosto bem disposto, que sempre alegrou esta casa, começasse a ficar tristonho, e se o bebé fosse criado também tristonho e lhe ensinassem a dizer que era pecador, valha-o Deus, e filho do diabo, que era caluniar o defunto pai, se eu visse isso e o pequeno Jacob igualmente tristonho, tinha um desgosto tão grande que ia alistar-me como soldado e punha a cabeça em frente da primeira bala de ’canhão que viesse na minha direcção.

 

- Oh, Kit, não fales assim.

 

- Fazia-o, mãe. E, se não quiser ver-me muito triste e infeliz, deixe ficar no seu chapéu aquele laço, que estava com grande vontade de arrancar a semana passada. Acha que pode haver algum mal em termos um ar alegre, e em sermos tão alegres como as nossas humildes circunstâncias o permitem? Há alguma coisa naquilo que eu sou, que me obrigue a ser um indivíduo choramingas, de ar grave, a murmurar furtivamente pelos cantos, como se não pudesse deixar de o fazer, e falando em voz fanhosa e desagradável? Não existem, pelo contrário, tantas razões para não ser assim? Oiça só isto: Ah! Ah! Ah! Não será isto tão natural como caminhar, e igualmente saudável? Ah! Ah! Ah!. Não será isto tão natural como o balir da ovelha, ou o grunhir do porco ou o relinchar do cavalo ou o canto de um pássaro? Ah! Ah! Ah!. Não será, mãe?

 

Havia algo de contagiante no riso de Kit, já que a mãe, que primeiro havia apresentado um ar grave, começou depois a sorrir, acabando por rir também com gosto, o que levou Kit a afirmar que sabia tratar-se de uma coisa natural, e a rir ainda mais. Kit e mãe riram juntos e tão animadamente que o bebé acordou e, parecendo-lhe que se passava alguma coisa alegre e agradável, logo que se encontrou nos braços da mãe, pôs-se a rir e a agitar entusiasticamente os pezinhos. Este novo exemplo a favor da argumentação de Kit provocou-lhe tanta hilaridade que se deixou cair numa cadeira, exausto e todo sacudido pelo riso, apontando para o bebé. Depois de ter acabado de rir duas ou três vezes e de ter recomeçado outras tantas, enxugou os olhos e rezou uma oração. E a sua ceia, embora frugal, foi muito alegre.

 

Com mais beijos e abraços e lágrimas do que qualquer jovem, ao iniciar a sua viagem, deixando para trás uma casa abastada, consideraria dentro das fronteiras do provável, isto é, se um assunto tão comezinho fosse digno de ficar registado, Kit saiu de casa manhã cedo, disposto a fazer a caminhada até Finchley, sentindo um tal orgulho com a sua aparência que seria o suficiente para garantir a sua excomunhão de Little Bethel a partir de então, se alguma vez tivesse pertencido àquela soturna congregação.

 

Se alguém sentir curiosidade em saber como Kit ia trajado, pode-se referir resumidamente que não envergava nenhuma libré, vestia apenas um casaco cor-de-sal e pimenta e um colete cor de canário, sobre calças cinzento-escuro. Além destas maravilhas, ostentava ainda um par de botas novas e brilhantes e um chapéu extremamente rígido e reluzente que, batendo-lhe com as articulações dos dedos, emitia o som de um tambor. Assim ataviado, e surpreendido por atrair tão pouco as atenções, o que atribuiu à indiferença daqueles que têm de se levantar cedo, pôs-se a caminho da Vivenda Abel.

 

Sem ter ocorrido no caminho nada que fosse digno de registo, para além de um encontro com um garoto de boné, a cópia exacta do que Kit fora antes, e a quem ofereceu metade das moedas de seis pences que levava consigo, chegou, na devida altura, a casa do carregador onde, em perpétua honra da natureza humana, verdade seja dita, encontrou o seu baú são e salvo. Tendo pedido informações sobre a localização da casa de Mr. Garland à mulher daquele homem imaculado, pôs o baú ao ombro e dirigiu-se imediatamente para lá.

 

Era, sem dúvida, uma bela vivenda, com um telhado de colmo e pequenos cones nas extremidades das empenas. Algumas das janelas estavam ornamentadas con vitrais, quase do tamanho de uma carteira de bolso. Num dos lados da casa havia uma pequena cocheira, exactamente do tamanho do pónei, e por cima um quartinho mesmo bom para Kit. Cortinas brancas ondeavam ao vento, e nas janelas, dentro de gaiolas brilhantes como se fossem de ouro, cantavam passarinhos. O caminho que conduzia até à porta estava guarnecido de plantas, de ambos os lados, que se aglomeravam junto à porta. O jardim resplandecia de flores em plena floração, libertando um delicado aroma a toda a volta, e oferecendo um belo e gracioso espectáculo aos olhos. Tudo, dentro e fora da casa, parecia estar em perfeita limpeza e ordem. No jardim não havia uma erva daninha, e a julgar por alguns garbosos utensílios de jardinagem junto a um cesto, e por um par de luvas esquecidos numa das veredas, o velho Mr. Garland tinha aí estado a trabalhar nessa mesma manhã.

 

Kit olhava à sua volta, encantado, e tornava a olhar, e assim permaneceu durante muito tempo, antes de se decidir a voltar-se para o outro lado e tocar a campainha. Tinha, porém, muito tempo para se abandonar àquela contemplação, pois que, após ter tocado à campainha uma, duas e três vezes, sem aparecer ninguém, se sentou sobre o seu baú e esperou.

 

Tocou a campainha repetidas vezes, sem que ninguém aparecesse. Mas quando ele estava sentado sobre o baú, pensando em castelos de gigantes e em princesas presas à parede pelo cabelo, e dragões irrompendo por detrás de portões, e outras ocorrências similares que, nos livros de histórias, os jovens de humilde condição muitas vezes enfrentam na sua primeira visita a casas estranhas, finalmente a porta abriu-se delicadamente, surgindo uma criadinha com ar muito limpo, modesto e grave, mas também muito bonita.

 

- Penso que o senhor é o Christopher? - perguntou a criadinha.

 

Kit levantou-se do baú, respondendo que era, sim senhor.

- Deve ter tocado muitas vezes à campainha - disse ela.

 

- mas não ouvimos, porque andávamos a agarrar o pónei. Kit perguntou a si próprio o que ela queria dizer com aquelas palavras, mas como não podia ficar ali parado a fazer perguntas, voltou a pôr o baú às costas e seguiu atrás da rapariga até ao vestíbulo, onde, através de uma porta das traseiras, avistou Mr. Garland conduzindo o Whisker em triunfo através do jardim, depois de o obstinado pónei se ter escapulido para um terreiro situado nas traseiras, obrigando toda a família a persegui-lo, como Kit veio a saber mais tarde, durante uma hora e três quartos.

 

O senhor baixinho recebeu-o com grande amabilidade, assim como a senhora baixinha, e a boa opinião que esta havia formado anteriormente sobre Kit sofreu um considerável incremento, por ele ter esfregado as botas no tapete até ficar com a sola dos pés a arder. Foi então conduzido para a sala de visitas, para ser inspeccionado com o seu novo fato, e depois de ter sido examinado várias vezes e de o seu aspecto ter provocado grande satisfação, foi levado até à cocheira, onde o pónei o recebeu com invulgar complacência. Daqui subiu até ao quartinho que já havia observado, e que era muito limpo e confortável. Em seguida desceu para o jardim onde o senhor baixinho lhe disse que iria ensinar-Ihe as tarefas que ele deveria desempenhar, contando ainda muitas coisas que tencionava fazer para Kit se sentir satisfeito e feliz, se verificasse que ele merecia. Kit agradecia todas estas gentilezas com diversas expressões de gratidão e levando tantas vezes a mão ao chapéu que a aba deste ficou consideravelmente abalada. Quando o senhor disse o que tinha para dizer quanto a promessas e conselhos e Kit disse tudo o que tinha a dizer quanto a garantias e agradecimentos, foi entregue novamente à senhora que, chamando a criadinha, de seu nome Bárbara, lhe disse que o levasse para baixo e lhe desse alguma coisa de comer e beber, depois da caminhada que ele havia feito.

 

Kit desceu, assim, uma escada, ao fundo da qual surgiu uma cozinha como nunca antes tinha visto ou tido notícia fora da montra de uma loja de brinquedos, e tudo o que nela havia era tão brilhante e reluzente e tão meticulosamente ordenado como a própria Bárbara. E foi nesta cozinha que Kit se sentou a uma mesa tão branca como uma toalha, para comer carnes frias e beber um pouco de cerveja, manejando o garfo e a faca ainda mais desajeitadamente por sentir sobre si o olhar de uma Bárbara desconhecida que o observava. E, no entanto, nesta Bárbara desconhecida não parecia haver nada que despertasse qualquer temor. Como tinha levado uma existência muito tranquila, ficava muito ruborizada sentindo-se tão perturbada e insegura sobre o que dizer ou fazer como certamente o próprio Kit.

 

Depois de permanecer sentado alguns momentos, ouvindo o tiquetaque do solene relógio, aventurou-se a olhar com curiosidade para o armário da cozinha onde entre pratos e travessas estava a caixinha de costura de Bárbara, com tampa de correr, para guardar os novelos de linha, e lá estavam também o livro de orações de Bárbara, o seu livro de hinos e a sua Bíblia. O espelhinho de Bárbara estava pendurado perto da janela, num local bem iluminado, e o chapéu de Bárbara encontrava-se atrás da porta, pendurado sobre um prego. Depois de ter observado todos estes silenciosos sinais e testemunhos da sua presença, era natural que olhasse para a própria Bárbara, sentada, tão silenciosa como ele, a descascar ervilhas para dentro de uma tijela. No preciso momento em que Kit contemplava as suas pestanas, tentando adivinhar, em toda a simplicidade do seu coração, de que cor seriam os seus olhos, por mero capricho do destino Bárbara ergueu ligeiramente a cabeça e olhou para ele. Então os dois pares de olhos afastaram-se apressadamente, Kit inclinou-se sobre o seu prato e Bárbara sobre as cascas das suas ervilhas, ambos extremamente embaraçados por terem sido surpreendidos um pelo outro.

 

Mr. Richard Swiveller dirigia-se para casa, de regresso do Wilderness, pois era assim que se chamava o retiro preferido de Quilp, caminhando de modo sinuoso e serpenteado, com muitos recuos e tropeções. Depois de parar repentinamente, ficando a olhar à sua volta, avançava alguns passos a correr e tornava a parar, abanando a cabeça, e fazendo tudo aos solavancos, sem premeditação. Mr. Richard Swiveller dirigia-se pois, para casa, deste modo que os espíritos malévolos consideram sinal de embriagues, sem pensarem que possa significar aquele estado de profunda sabedoria e reflexão em que o nosso protagonista sabia encontrar-se, começando a recear não haver depositado bem a sua confiança, e que o anão podia não ser exactamente o género de pessoa a quem confiar um segredo tão melindroso e tão importante. Induzido e levado pelo arrependimento, Mr. Swiveller caiu então num estado que a classe dos espíritos malévolos atrás referidos designaria por sentimentalismo ou fase de embriagues, e lembrou-se de atirar o chapéu para o chão, lamentando-se e gritando em voz alta que era um infeliz órfão e que, se não tivesse sido um infeliz órfão, as coisas nunca teriam chegado a tal ponto.

 

- Fui abandonado pelos meus pais na primeira infância dizia Mr. Swiveller lastimando a sua dura sorte, - atirado para o mundo na mais tenra idade e à mercê da compaixão de um anão trapaceiro, quem se poderá surpreender com a minha fraqueza! Eis aqui um infeliz órfão. Eis aqui - repetiu Mr. Swiveller, elevando a voz num tom agudo e olhando em redor com ar sonolento - um infeliz órfão!

 

- Então - ouviu-se uma voz grave, perto dele - deixe-me ser seu pai.

 

Mr. Swiveller balançou-se para trás e para a frente, de modo a conseguir manter o equilíbrio e, olhando através de uma espécie de neblina que parecia rodeá-lo, apercebeu-se, por fim, de dois olhos, brilhando vagamente através da névoa, e decorrido pouco tempo, notou que os referidos olhos se encontravam na proximidade de um nariz e de uma boca. E baixando os olhos para aquele quadrante onde, relativamente ao rosto humano, se costumam situar as pernas, verificou que o rosto estava ligado a um corpo, e quando observou mais atentamente percebeu que a pessoa em questão era Mr. Quilp que, efectivamente, tinha estado na sua companhia durante todo aquele tempo, mas que ele se lembrava vagamente de ter deixado, uma ou duas milhas atrás.

 

- O senhor ludibriou um órfão - declarou Mr. Swiveller com ar solene.

 

- Eu? Eu sou um segundo pai para si - respondeu Quilp.

 

- O senhor, meu pai! - retorquiu Dick. - Estou muito bem, cavalheiro, por isso rogo-lhe que me deixe só, e já!

 

- Que tipo divertido que você me saiu! - exclamou Quilp.

 

- Vá-se embora, cavalheiro - prosseguiu Dick encostando-se a um poste, e acenando com a mão. - Vai-te, impostor, vai-te! Talvez um dia o cavalheiro desperte do seu sonho de prazer, para sentir o desgosto dos órfãos desamparados. Faz o favor de se ir embora?

 

Como o anão tivesse ignorado totalmente a sua súplica, Mr. Swiveller avançou para ele, no intuito de lhe infligir uma punição condigna. Mas, esquecendo o seu propósito, ou mudando de opinião antes de ter chegado junto dele, agarrou-lhe na mão e jurou-lhe amizade eterna, declarando com terna candura que, dali em diante, seriam irmãos em tudo, excepto no aspecto físico. Em seguida, contou-lhe novamente o segredo, acrescentando às suas palavras agora um tom patético ao referir-se a Miss Wackles que, segundo deu a entender a Mr. Quilp, era a causa de alguma leve incoerência que naquele momento se pudesse notar na sua fala, e atribuível apenas ao seu grande afecto, e não ao vinho rosado ou outra bebida alcoólica. E depois seguiram juntos, afectuosamente, de braço dado.

 

Ao separarem-se, Quilp disse-lhe: - Eu sou esperto, tão esperto como um furão e tão astuto como uma raposa. Traga-me o Trent, assegure-lhe que sou seu amigo, embora me pareça que ele desconfia um pouco de mim, não sei porquê, não o mereço, e vocês os dois têm a vossa fortuna... em perspectiva.

 

- Isso é que é o pior - respondeu Dick. - Essas fortunas em perspectiva parecem tão distantes!

 

- Mas, por isso mesmo, parecem mais pequenas do que aquilo que realmente são - respondeu Quilp apertando-lhe o braço. - Não faz ideia de qual o valor do seu prémio, enquanto não se aproximar dele. Atente bem no que lhe digo.

 

- Acha que sim? - perguntou Dick.

 

- Claro que sim, e além do mais, tenho a certeza daquilo que digo - respondeu o anão. - Traga-me o Trent. Diga-lhe que sou amigo dele, e seu, por que razão não havia de ser?

 

- Naturalmente que não há nenhuma razão para não o ser - respondeu Dick - e talvez haja muitas para o ser, pelo menos não havia nada de estranho em querer ser meu amigo, se você fosse um espírito de eleição, mas você bem sabe que não é um espírito de eleição.

 

- Eu não sou um espírito de eleição? - exclamou Quilp,

 

- Mesmo nada, cavalheiro - respondeu Dick. - Um homem com o seu aspecto não podia sê-lo. E de qualquer modo, se você é algum espírito, é um espírito mau. Os espíritos de eleição - acrescentou Dick batendo com a mão no peito - têm um aspecto muito diferente do seu, posso jurar-lhe, cavalheiro.

 

Perante a franqueza do amigo, Quilp olhou-o com um misto de astúcia e antipatia e, apertando-lhe quase imediatamente a mão, disse-lhe que ele era uma pessoa fora do vulgar e merecedora da sua mais profunda estima. E assim se despediram, Mr. Swiveller dirigindo-se para sua casa, o melhor que pudesse, para dormir até lhe passarem os efeitos do álcool, e Mr. Quilp cogitando na descoberta que havia feito e exultando com as brilhantes perspectivas de gozo e de desforra que estas lhe abriam.

 

Não foi sem grande relutância e dúvida que, na manhã seguinte, Mr. Swiveller com a cabeça ainda atormentada pelos vapores do célebre Schiedam, se dirigiu aos aposentos do seu amigo Trent, situados no topo de uma velha casa, dentro de uma hospedaria velha e sinistra, relatando-lhe, com grande precaução, o que havia ocorrido na véspera entre ele e Quilp. E não foi sem grande espanto e muita especulação sobre os prováveis motivos de Quilp, e tecendo muitos comentários amargos sobre a loucura de Dick Swiveller, que o seu amigo ouviu a história.

 

- Não pretendo defender-me, Fred - afirmou Richard com ar arrependido, - mas o tipo tem umas artes tão estranhas e é um cão tão manhoso, que primeiro me levou a pensar que não havia mal nenhum em lhe contar, e enquanto eu estava a pensar conseguiu arrancar-me tudo. Se o tivesses visto a beber e a fumar, como eu vi, não conseguias ocultar-lhe nada. Ele é como uma salamandra, sabes, é mesmo isso que ele é.

 

Sem procurar saber se as salamandras eram, necessariamente, boas confidentes, ou se uma criatura à prova de fogo era logicamente digna de confiança, Frederick Trent atirou-se para cima de uma cadeira e, agarrando a cabeça com as duas mãos, tentou descobrir que motivos poderiam ter levado Quilp a captar a confiança de Richard Swiveller, pois o facto de ele ter procurado a companhia de Richard e de se ter insinuado neste mostrava claramente que fora ele que havia pretendido obter a revelação do segredo, e não Dick quem lho revelara espontaneamente.

 

Tinha encontrado o anão por duas vezes, ao tentar obter notícias dos fugitivos. Como antes não havia demonstrado qualquer interesse por eles, isso foi talvez quanto bastou para despertar suspeitas no coração de uma criatura tão ciumenta e desconfiada por natureza, para não falar de qualquer outro impulso de curiosidade que a imprudência de Dick lhe pudesse ter causado. Mas, tendo tomado conhecimento do plano que eles haviam traçado, por que razão se tinha oferecido para ajudar? Esta era uma questão mais difícil de resolver. Mas como geralmente os patifes se superam a si próprios, atribuindo os seus desígnios aos outros, imediatamente lhe ocorreu a ideia de que alguma causa de irritação entre Quilp e o velho, devida aos seus negócios secretos, e talvez relacionada também com o seu repentino desaparecimento, poderia ter despertado naquele o desejo de se vingar dele, procurando atrair o único objecto do seu amor e dos seus cuidados para uma ligação que ele sabia que o velho receava e odiava. Como o próprio Frederick Trent, com absoluta indiferença pela irmã, desejava ardentemente atingir este objectivo, embora em primeiro lugar estivesse a ambição do lucro, convenceu-se ainda mais que seria esse o principal motivo da atitude de Quilp. Tendo assim atribuído ao anão um desígnio dele próprio, e imaginando que este ficaria satisfeito com a realização do objectivo deles, foi fácil convencer-se da sinceridade do anão. E como não podiam subsistir dúvidas de ele vir a ser um poderoso e útil auxiliar, Trent resolveu aceitar o convite e ir a casa dele naquela noite e, se as suas palavras e acções confirmassem a impressão que dele formara, deixá-lo-ia colaborar na execução do plano, mas não dos benefícios.

 

Depois de meditar naquelas questões e de ter tomado a sua decisão, informou Mr. Swiveller sobre aquilo que achou necessário, Dick teria ficado perfeitamente satisfeito se ele lhe tivesse contado menos, concedeu-lhe aquele dia para ele se recuperar dos efeitos da salamandra e acompanhou-o nessa noite a casa de Mr. Quilp.

 

Mr. Quilp ficou extraordinariamente satisfeito quando os viu, ou pareceu ficar extraordinariamente satisfeito, mostrou-se extremamente delicado para com Mrs. Quilp e Mrs. Jiniwin, e deitou um olhar muito severo à sua mulher, verificando como ela ficara agitada ao reconhecer o jovem Trent. Mrs. Quilp estava tão inocente como a sua própria mãe de sentir qualquer emoção, agradável ou desagradável, com a presença de Trent, mas tendo ficado intimidada e confusa pelo olhar do marido, e indecisa sobre o que fazer, ou o que ele pretendia dela, Mr. Quilp não deixou de atribuir a sua preocupação ao motivo de que suspeitava, e embora rindo-se no seu íntimo da sua própria perspicácia, sentia-se mordido pelo ciúme.

 

Não deixou porém transparecer nada do que sentia. Pelo contrário, Mr. Quilp era todo brandura e suavidade, despejando a garrafa de rum com extraordinária liberalidade.

 

- Ora deixe-me ver - disse Quilp. - Deve ter sido há quase dois anos que nos vimos pela primeira vez.

 

- Quase três. parece-me - respondeu Trent.

 

- Quase três! - exclamou Quilp. - Como o tempo voa. Parece-lhe que foi assim há tanto tempo, Mrs. Quilp?

 

- Sim, parece-me que foi bem há três anos, Quilp - foi a sua infeliz resposta.

 

«Ah!, então a senhora tem estado ansiosa, não tem? Muito bem -, pensou Quilp consigo próprio.

 

- Ainda me parece que foi ontem que você partiu para Demerara a bordo do Queen Anne - disse Quilp. - Parece que foi ontem. Também eu gosto de um pouco de extravagância, dantes também era um pouco assim.

 

Mr. Quilp acompanhou a sua confissão com um piscar de olhos tão significativo e revelador de amigas vadiagens e deslizes que Mrs. Jiniwin ficou indignada, não se conteve, e observou em voz baixa que ao menos podia esperar que a mulher se fosse embora para fazer tais confissões. Perante este acto de ousadia e de insubordinação, Mr. Quilp deitou-Ihe primeiro um olhar que a deixou confusa, e depois bebeu cerimoniosamente à saúde dela.

 

- Pensei que você se viesse embora passado pouco tempo, Fred. Sempre pensei - disse Quilp pousando o copo. - E quando o Queen Anne chegou, trazendo-o a si a bordo, em vez de uma carta a dizer da sua tristeza e de como se sentia feliz com o cargo que lhe tinham conseguido, achei graça... achei imensa graça. Ah! Ah! Ah!

 

O jovem sorriu, mas não como se o assunto fosse o mais agradável que se tivesse podido escolher para o distrair, e por isso mesmo Quilp prosseguiu.

 

- Sempre disse que, quando um parente abastado tem dois jovens dependentes dele, irmãs ou irmãos, ou irmão e irmã, e se dedica exclusivamente a um deles, rejeitando o outro, não procede bem.

 

O jovem fez um movimento de impaciência, mas Quilp continuou calmamente, como se estivesse a discorrer sobre uma questão abstracta, em que nenhum dos presentes tivesse o menor interesse pessoal.

 

- É verdade que - continuou Quilp - o seu avô insistiu repetidas vezes em lhe conceder perdão, e falava em ingratidão, devassidão, esbanjamento e tudo o mais. Quando eu lhe disse: «Isso são defeitos normais», respondeu-me: «Mas ele é um malandro.» Eu disse-lhe, então: «Mesmo admitindo isso, e era só em jeito de conversa, claro, há muitos jovens fidalgos e cavalheiros que também são malandros!» Mas ele não se deixava convencer.

 

- Isso espanta-me, Mr. Quilp - replicou o jovem com ar sarcástico.

 

- Pois foi o que eu lhe disse, na altura - prosseguiu Quilp, - mas ele era sempre obstinado. Era, de certo modo, meu amigo, porém sempre obstinado e teimoso. A pequena Nell é uma jovem simpática e encantadora, mas você é irmão dela, Frederick. No fim de contas, você é irmão dela, como lhe disse na última vez que se encontraram, e contra isso ele nada pode fazer.

 

- Mas se ele pudesse, fazia, diabos o levem, por essa e todas as suas outras amabilidades - disse o jovem com impaciência. - Mas essa questão agora não interessa, e o melhor é acabar com ela, com os diabos.

 

- De acordo - respondeu Quilp, - prontamente de acordo, pela minha parte. Porque é que me referi a ela? Só para lhe mostrar, Frederick, como sempre fui seu amigo. Você não sabia muito bem quais eram os seus amigos e quais os seus inimigos. Agora já sabe? Pensava que eu estava contra si, por isso havia uma certa frieza entre nós, mas era só da sua parte, toda da sua parte. Apertemos de novo as mãos, Fred.

 

O anão ergueu-se, com a cabeça enterrada entre os ombros e um sorriso hediondo no rosto, e estendeu o seu curto braço por cima da mesa. O jovem, após um momento de hesitação, estendeu também o seu. Quilp cravou-lhe os dedos com uma força tal que interrompeu, por alguns momentos, a circulação do sangue, e colocando a outra mão sobre os lábios, franziu o sobrolho ao ingénuo Richard. Depois soltou os dedos e sentou-se.

 

A atitude de Quilp não deixou de exercer os seus efeitos sobre Trent que, sabia que Richard Swiveller não era mais do que um simples instrumento nas mãos dele, e que dos seus propósitos só conhecia aquilo que ele achava por bem comunicar-lhe. Verificou, assim, que o anão se apercebia perfeitamente das suas respectivas posições e que havia compreendido bem o carácter do seu amigo. E isto era de apreciar, mesmo entre gente malvada. Esta silenciosa homenagem às suas superiores qualidades, assim como a sensação de poder, que a rápida percepção do anão lhe havia já concedido, dispuseram-no a favor da repelente criatura, levando-o a aproveitar-se da sua ajuda.

 

Era agora a vez de Mr. Quilp mudar de assunto com a conveniente brevidade, para que Richard Swiveller não revelasse descuidadamente alguma coisa que não fosse prudente as mulheres saberem. Por isso, propôs que jogassem às cartas e, depois de tiradas as cartas, para escolha dos parceiros, Mrs. Quilp ficou com Frederick Trent e Dick com Quilp. Mrs. Jeniwin, que gostava muito de jogar às cartas, foi prudententemente excluída pelo genro de qualquer participação no mesmo, tendo-lhe sido atribuída a tarefa de ir enchendo os copos com a garrafa. A partir de então,


Mr. Quilp não a perdeu de vista um só momento, para que ela não tentasse provar o conteúdo da garrafa, submetendo assim a infeliz senhora, que apreciava tanto a bebida, como as cartas, a um duplo suplício, e isto de uma maneira extremamente engenhosa.

 

Mas a atenção de Mr. Quilp não se limitava só a Mrs. Jiniwin. Vários assuntos exigiam a sua constante vigilância. Entre as suas várias excentricidades, estava incluído o hábito divertido de fazer sempre batota ao jogo, o que o obrigava, não só a observar cuidadosamente o jogo e a contar e somar os pontos com truques de prestidigitador, mas também a admoestar constantemente Richard Swiveller, com o olhar, ou o sobrolho franzido, ou com pontapés por baixo da mesa. O pobre Swiveller, desorientado com a rapidez com que as suas cartas eram contadas e a velocidade com que as marcas desciam no tabuleiro, não se pôde conter, e algumas vezes exprimiu a sua surpresa e a sua incredulidade. Havia ainda Mrs. Quilp, parceira do jovem Trent, e cada olhar que trocavam, e cada palavra que diziam, e cada carta que jogavam, não escapavam ao olhar e aos ouvidos do anão. E não atendia só ao que se passava em cima da mesa, mas também aos sinais que pudessem ser transmitidos por baixo dela, armando, assim, toda a espécie de armadilhas para os descobrir, além de pisar repetidamente os dedos dos pés da mulher para verificar se, com aquela punição, ela gritava ou permanecia silenciosa. Neste último caso tornava-se bem evidente que Trent já antes lhe pusera os pés em cima. E contudo, no meio de todas estas ocupações, tinha sempre um olho vigiando a velha senhora, e mesmo se ela aproximasse, furtivamente uma simples colher de chá de algum copo mais perto dela, o que várias vezes tentou fazer, para surripiar ao menos um golo do seu doce conteúdo, Quilp, no preciso momento em que parecia que ela ia consegui-lo, derrubava-lha com a mão, recomendando-lhe com voz trocista que tivesse cuidado com a sua rica saúde. E Quilp nunca fraquejou, nem hesitou, em nenhuma destas suas muitas ocupações, desde a primeira até à última.

 

Finalmente, depois de terem jogado muitas partidas e de terem bebido largamente da garrafa, Mr. Quilp aconselhou a esposa a ir descansar, no que foi obedecido pela submissa mulher, seguida pela indignada mãe, após o que Mr. Swiveller adormeceu. O anão fez sinal ao restante conviva para que o acompanhasse até ao fundo da sala, onde entabulou com ele uma breve conferência em voz baixa.

 

- É melhor não dizer mais do que o que for preciso, diante do nosso respeitável amigo - disse Quilp fazendo uma careta na direcção de Dick, que dormia. - É um acordo que fica entre nós, Fred? Vamos casá-lo, dentro de pouco tempo, com a jovem e bela Nelly?

 

- É evidente que você tem algum objectivo seu em vista respondeu o outro.

 

- Naturalmente que tenho, meu caro Fred - retorquiu Quilp com um sorriso trocista, ao pensar quanto o outro estava longe de suspeitar qual era o seu verdadeiro objectivo. - É talvez uma desforra, ou talvez um capricho. Tenho influência, Fred, e posso utilizá-la para ajudar ou para contrariar.

 

Em que sentido é que devo aplicá-la? Isto é como uma balança, e a minha influência ponho-a num prato, ou ponho-a no outro.

 

- Então, ponha-a no meu - replicou Trent.

 

- Está combinado, Fred - afirmou Quilp, estendendo a mão fechada e abrindo-a em seguida, como se tivesse deixado cair um peso. - Fica na balança, a partir deste momento, e ela está a pender para o seu lado, Fred. Não se esqueça disso.

 

- Para onde é que eles foram? - perguntou Fred.

 

Quilp abanou negativamente a cabeça, dizendo que era necessário descobri-lo, o que era fácil de conseguir. Depois disso, encetariam as diligências preliminares. Ele iria visitar o velho, ou mesmo Richard Swiveller o podia visitar, aparentando um profundo interesse por ele e rogando-lhe que se instalasse numa residência condigna, o que conquistaria a gratidão e as boas graças da jovem. Uma vez que ela estivesse assim bem impressionada - prosseguiu ele, - tornar-se-ia fácil conquistá-la, ao fim de um ou dois anos, já que ela julgava que o velho era pobre, pois que a sua desconfiança, tal como a de muitos outros avarentos, o levava a aparentar uma situação de pobreza perante aqueles que o rodeavam.

 

- Ultimamente, ele tem-na aparentado muitas vezes perante mim - afirmou Trent.

 

- Oh! E também perante min! - replicou o anão. - O que é ainda mais estranho, porque sei como ele é realmente rico.

 

- Penso que realmente deve saber - disse Trent.

 

- Penso que sei, efectivamente - respondeu o anão, e pelo menos neste ponto, estava a falar verdade.

 

Depois de terem trocado mais algumas palavras, sempre em voz baixa, voltaram para a mesa, e o jovem despertou Richard Swiveller, dizendo-lhe que estava à espera dele para partirem. Foi com agrado que Dick ouviu isto e levantou-se imediatamente. Após uma breve troca de palavras de confiança no resultado do seu plano, despediram-se de Quilp, que ao dar-lhes as boas noites apresentava um sorriso trocista.

 

Quilp aproximou-se silenciosamente da janela, quando eles passavam na rua, em baixo, e pôs-se à escuta. Trent estava a fazer um elogio à mulher de Quilp, e ambos manifestavam o seu espanto pelo feitiço que a induzira a casar com um infeliz tão disforme como ele.

 

O anão, depois de ver as duas sombras afastarem-se, e com um sorriso ainda mais trocista do que alguma vez o seu rosto apresentara, dirigiu-se na escuridão, silenciosamente, para a cama.

 

Ao traçarem o seu plano, nem Trent nem Quilp tinham pensado por um momento na felicidade ou na infelicidade da pobre e inocente Nell. Bem singular teria sido, se o descuidado devasso, que constituía o alvo de ambos, tivesse sido atormentado por um tal pensamento, já que a elevada opinião em que tinha os seus méritos e merecimentos próprios, tornava o plano a seus olhos bem louvável. E se tivesse recebido uma visita bem invulgar nele, a reflexão, ele, sendo rude apenas na satisfação dos seus apetites, teria tranquilizado a consciência pensando que não tencionava maltratar nem assassinar a esposa, e que bem vistas as coisas, seria um marido aceitável, igual a todos os outros.

 

Foi só quando se sentiram exaustos e já não conseguiam manter o passo a que tinham caminhado até aí, que o velho e a criança se atreveram a parar e se sentaram para descansar junto de um pequeno bosque. Aqui, e embora a estrada estivesse já fora do alcance da sua vista, conseguiam ainda distinguir o vago rumor de gritos distantes, vozes ao longe e algo de semelhante ao rufiar de tambores.

 

A criança trepou então ao alto da colina que os separava do local que tinham abandonado, e de lá conseguia ainda distinguir as bandeiras ao vento e o topo dos telheiros brancos. Mas não se aproximava ninguém, e o lugar onde estavam a descansar continuava solitário e sossegado.

 

Demorou algum tempo até a criança conseguir sossegar o seu trémulo companheiro, e conseguir que recuperasse um estado de relativa tranquilidade. A sua imaginação delirante fazia-o ver uma multidão de pessoas que os perseguiam a coberto dos arbustos, procurando-os por todos os lados, espreitando por detrás de cada árvore que mexia ao sabor do vento.

 

Estava apavorado pela ideia de que pudessem levá-lo preso para um qualquer sítio escuro onde poderiam acorrentá-lo, maltratá-lo, e pior do que tudo, onde Nell não poderia nunca visitá-lo a não ser através de barras e grades de ferro na parede. Os seus terrores acabaram por afectar a criança. Nada a assustava mais do que a ideia de que pudessem separá-la do avô. Começou a pensar que, fossem para onde fossem, de qualquer forma acabariam sempre por ser encontrados, e que a única coisa que podiam fazer era esconder-se, e então sentiu o ânimo a faltar-lhe e a coragem a fraquejar.

 

Este desânimo não deverá no entanto surpreender-nos, se nos lembrarmos que se tratava de alguém tão jovem e que era a primeira vez que contactava com os ambientes com que ultimamente havia deparado. Mas acontece que a natureza coloca por vezes corações nobres e corajosos nos seios mais frágeis. Muitas vezes em seios de mulheres, benditas sejam, e quando a criança voltou para o velho os seus olhos cheios de lágrimas, se lembrou de como ele era fraco e de como iria ficar desamparado e indefeso se ela lhe faltasse, o seu coração encheu-se de ânimo e ganhou novas forças e coragem.

 

- Estamos agora a salvo, e já não temos nada a temer, querido avô - disse ela.

 

- Nada a temer! - respondeu o velho. - E se te tiram de min? Se me separam de ti? Ninguém me diz a verdade! Não, ninguém, nem sequer a minha Nell!.

 

- Oh, não diga isso - respondeu a criança. - Se alguma vez houve alguém verdadeiro e de coração sincero, essa pessoa sou eu, e o avô bem sabe que é verdade.

 

- Então como é que tu podes - disse o velho olhando receoso à sua volta, - como é que podes pensar que estamos a salvo, sabendo que andam por todo o lado à minha procura, e podem vir até aqui e dar connosco enquanto estamos aqui a conversar?

 

- Porque sei que não fomos seguidos - disse a criança.

- Veja por si, querido avô. Olhe à sua volta e veja como tudo está calmo e sossegado. Estamos sós os dois, e podemos ir para onde quisermos. Não estamos seguros? Acha que eu me sentia tranquila, alguma vez me senti tranquila, quando algum perigo o ameaçava?

 

- É verdade, t verdade - respondeu ele segurando-lhe a mão com mais força, mas olhando ainda asustado à sua volta. - Que barulho foi este?

 

- Um passarinho - disse a criança - que vai a voar para o bosque, a indicar-nos o caminho. Lembra-se de termos dito que andaríamos pelos campos e pelos bosques, e pela margem dos rios, e que seríamos muito felizes? Lembra-se disso? Mas afinal, o Sol brilha por cima das nossas cabeças, tudo à nossa volta irradia felicidade, e aqui estamos nós, sentados, tristes, a perder tempo. Repare neste caminho tão bonito. É ali está o passarinho, o mesmo passarinho. Agora voou para outra árvore e pôs-se a cantar. Vamos!

 

Logo que se levantaram e tomaram o caminho sombrio que os levou através do bosque, ela tomou a dianteira, deixando as suas pegadas na relva que, tendo sofrido uma tão leve pressão, se reerguia elasticamente, da mesma forma que os espelhos devolvem o bafo e, assim, olhando muitas vezes para trás e acenando alegremente, conseguiu que o velho a seguisse.

 

Agora apontava para um passarinho que cantava empoleirado no ramo de uma árvore, junto ao caminho, depois parava para ouvir o pipilar que rompia aquele silêncio tão agradável, ou a olhar para o sol que tremeluzia por entre as folhas e passava por entre os troncos cobertos de hera das velhas árvores, formando largas faixas de luz. À medida que seguiam o seu caminho, afastando os ramos que lhes surgiam pela frente, a serenidade que a princípio a criança fingira sentir entrou-lhe realmente no peito.

 

O velho já não olhava assustado para trás, sentia-se agora mais tranquilo e alegre, pois à medida que iam penetrando naquela sombra verde escura, cada vez mais sentiam que o sereno espírito de Deus estava ali derramando sobre eles a sua paz.

 

Mais adiante o caminho tornava-se mais aberto e mais fácil de seguir, chegaram ao fim do bosque e seguiram então por uma estrada. Seguiram por ela durante algum tempo e chegaram a uma azinhaga tão densamente sombreada por árvores de um lado e do outro que estas se tocavam por cima das suas cabeças e formavam um arco sobre o estreito caminho. Uma tabuleta partida anunciava que este levava a uma aldeia, a três milhas de distância, e resolveram dirigir os seus passos para lá.

 

As três milhas pareceram-lhes tão longas que por várias vezes chegaram a pensar que se tinham enganado no caminho. Por fim, para sua grande alegria, viram que o atalho os conduzia a um combro em socalcos que descia até lá abaixo onde as casas, todas juntas, espreitavam pelo meio do denso bosque.

 

Era uma povoação muito pequena. Havia um grupo de homens e de rapazes a jogar «cricket» sobre um relvado. Havia outros que assistiam ao jogo, e o velho e a criança continuaram a andar, subindo e descendo, à procura de algum humilde abrigo onde pudessem pernoitar. Apenas se via um homem de idade, no pequeno jardim em frente a uma casa, mas eles não ousavam dirigir-se a ele, porque era o professor da aldeia. Por cima da janela estava uma tabuleta branca escrita com letras pretas: -ESCOLA”. Era um homem pálido, de aspecto simples, vestido pobremente, e estava sentado no pequeno alpendre defronte da porta, entre as flores e as abelhas, a fumar o seu cachimbo.

 

- Fala com ele, querida - segredou o velho.

 

- Tenho receio de o incomodar - disse a pequena timidamente. - Ele parece que nem nos vê. Talvez acabe por olhar para nós, se esperarmos um bocadinho.

 

Esperaram, mas o professor não olhava para eles, e continuava sentado, quieto, silencioso, no pequeno alpendre. Tinha cara de boa pessoa. Com o seu velho fato preto, tão simples, parecia mais pálido e mais magro ainda. Também notaram uma atmosfera de tristeza à volta dele e da casa, mas talvez isso acontecesse porque os outros formavam um grupo alegre sobre o relvado, e ele parecia o único homem solitário por aquelas bandas.

 

Estavam muito cansados, e a criança teria ousado dirigir-se até a um professor, mas havia qualquer coisa no seu ar que o fazia parecer perturbado e inquieto. Deixaram-se ficar, a uma certa distância, e observaram que ele se deixava estar sentado uns minutos, muito pensativo, depois pousava o cachimbo ao seu lado, dava umas voltas no jardim, aproximava-se da cancela, olhava para o relvado e, por fim, voltava a pegar no seu cachimbo, suspirava e sentava-se outra vez, tão pensativo como antes.

 

Como mais ninguém aparecia, e não tardava a fazer-se noite, Nell tomou coragem um momento e quando ele mais uma vez tinha pegado no cachimbo e se tinha sentado, atreveu-se a avançar um pouco, levando o avô pela mão. O pequeno ruído que fizeram ao mexer no fecho da cancela chamou a atenção do mestre-escola, que olhou para eles com uma expressão bondosa, mas de quem tinha ficado desapontado, e abanou levemente a cabeça.

 

Nell fez uma cumprimento e explicou que eram dois pobres viajantes à procura de um lugar onde passar a noite, e que estavam dispostos a pagar, desde que o preço estivesse dentro das suas posses. O mestre-escola olhava atentamente para a criança enquanto esta falava, em seguida pousou o seu cachimbo e levantou-se, prestável.

 

- Agradecíamos muito - disse a criança, - se o senhor nos pudesse indicar algum lugar.

 

- Fizeram uma longa caminhada - disse o professor.

 

- Sim, é verdade - respondeu a garota.        

 

- És uma viajante muito jovem, minha filha - disse ele pousando carinhosamente a mão sobre a cabeça dela. - E sua neta, amigo?

 

- Sim, senhor - exclamou o velho. - E é o conforto e o amparo da minha vida.

 

- Entrem - disse o professor.

 

Sem mais explicações, conduziu-os até à pequena sala de aula, que servia também de sala de visitas e de cozinha, e disse-lhes que eram muito bem-vindos a ficar ali até à manhã seguinte. Mal tinham tido tempo de lhe agradecer, já ele estendia sobre a mesa uma toalha branca de tecido rústico, trouxe pratos e facas, pão, carne fria e um jarro com cerveja, e convidou-os a comer e beber.

 

A pequena olhou à sua volta enquanto se sentava. Havia dois bancos compridos, golpeados e todos manchados de tinta, uma pequena secretária com quatro pernas que lhe estava certamente reservada, sobre uma prateleira alguns livros com páginas dobradas, e ao lado destes uma colecção variada de fisgas, bolas, papagaios de papel, linhas de pesca, berlindes, maçãs já meias mordidas e outros objectos apreendidos aos garotos mais preguiçosos. Penduradas da parede por dois ganchos, estavam, para meter respeito aos alunos, o ponteiro e a régua, e ao lado, numa prateleira própria, estavam as orelhas de burro, feitas de jornal velho e enfeitadas com tiras de papel de cores berrantes.

 

Mas o principal ornamento daquelas paredes eram algumas máximas morais muito bem copiadas em letra redonda, e algumas contas, simples somas e multiplicações, mas muito bem feitas, obviamente realizadas pela mesma mão, e que estavam abundantemente espalhadas pela sala, com a dupla intenção, ao que parecia, de testemunhar a excelência da escola, e de incitar os outros alunos através do exemplo.

 

- Sim! - disse o velho mestre-escola ao reparar que estes trabalhos haviam chamado a atenção da pequena. - E uma caligrafia muito bonita!

 

- Muito bonita - respondeu modestamente a criança. - É do senhor?

 

- Minha? - respondeu ele pondo os óculos a fim de melhor apreciar aquelas glórias tão queridas ao seu coração.

- Eu hoje já não era capaz de escrever assim. Não. Foram feitas por uma mão, uma pequena mão, mais pequena que a tua, mas uma mão muito habilidosa.

 

Enquanto isto dizia, o professor reparou que uma das cópias tinha sido salpicada por um pingo de tinta. Tirou então um canivete da algibeira, foi até junto da parede e com muito cuidado raspou fora o borrão. Quando terminou afastouse lentamente como quem contempla uma bela pintura, mas com uma nota de tristeza na voz e nos modos que comoveram a pequena, embora não lhes conhecsse a causa.

 

- Uma mão de facto muito pequena - disse o pobre mestre-escola, - mas muito superior às dos seus companheiros, nos estudos e também nos desportos. E o que ele se afeiçoou a mim! Que eu lhe ganhasse afeição, é compreensível, mas ele a mim? - e aqui o professor fez uma pausa, tirou os óculos e limpou-os, como se estivessem embaciados.

 

- Espero que não tenha acontecido nada... - disse Nell ansiosamente.

 

- Nada de especial, minha querida - respondeu o professor. - Eu estava à espera de o ver hoje à tardinha no relvado. Ele costumava ser o primeiro a lá chegar! Mas há-de vir amanhã.

 

- Tem estado doente? - perguntou a criança compadecida.

 

- Um pouco. Parece que ontem delirou, o querido rapaz, e anteontem também. Mas isso é normal nesta tipo de doença, não é mau sinal, não, não é mau sinal.

 

A pequena estava em silêncio. Ele foi até à porta e olhou tristemente lá para fora. Caíam as sombras da noite e tudo continuava sossegado.

 

- Se ele se pudesse apoiar no braço de alguém, tinha-me vindo visitar, eu sei que tinha - disse ele voltando para dentro do quarto. - Vinha sempre ao jardim dizer-me boa noite.

 

Mas talvez só agora ele tenha melhorado, e não tenha vindo cá fora por já ser muito tarde, porque está muito húmido e há esta neblina fria. Fico bem mais contente que ele não venha esta noite.

 

O professor acendeu uma vela, correu as persianas e a porta, depois disto sentou-se silencioso por um momento, em seguida pegou no chapéu e disse que ia saber notícias, se Nelly quisesse ficar levantada até ele chegar. A criança concordou prontamente, e ele saiu.

 

Ela ficou sentada durante meia hora, ou talvez mais, estranhando um pouco o local e sentindo-se só, uma vez que tinha conseguido que o velho se fosse deitar. Só se ouvia o tic-tac de um velho relógio e o vento a soprar por entre as árvores. Quando o mestre-escola regressou sentou-se ao pé da lareira e ficou silencioso por um longo espaço de tempo. Depois dirigiu-se à garota, e falando-lhe de uma forma muito carinhosa, pediu-lhe que fizesse nessa noite uma oração por aquela criança doente.

 

- O meu


aluno favorito! - disse o pobre mestre-escola fumando um cachimbo que se esquecera de acender e lançando um olhar cheio de tristeza às paredes à sua volta.

- Tudo isto foi feito por aquelas pequenas mãos, e agora a doença quer levá-lo! Uma mãozinha tão pequena!

 

Depois de uma boa noite de descanso num quartinho, com telhado de colmo, no qual, ao que parecia, o sacristão tinha vivido durante alguns anos, e que só recentemente trocara por uma mulher e uma quinta, a criança levantou-se de manhã cedo e desceu até à divisão onde tinha jantado no dia anterior.

 

Como o mestre-escola já se tinha levantado e saído, ela resolveu dar uma geito na casa, e tinha justamente terminado a sua tarefa quando o seu hospitaleiro amigo regressou. Agradeceu muito à pequena, e disse-lhe que a velhota que geralmente se ocupava dessas tarefas tinha ido tratar do aluno de quem ele lhe tinha falado. A garota perguntou por ele e desejou-lhe as melhoras.

 

- Não - respondeu o professor, abanando tristemente a cabeça. - Até me disseram que estava pior.

 

- Coitado! - disse a criança.

 

O pobre mestre-escola pareceu sensibilizado com esta palavra sincera, mas também a sua agitação aumentou, pois acrescentou logo a seguir que as pessoas quando estavam muito preocupadas tinham tendência a exagerar os seus males, julgando-os piores do que eram na realidade. - Pela minha parte - disse ele com os seus modos tranquilos e pacientes, - espero bem que assim não seja, e creio que não terá de facto piorado.

 

A criança pediu licença para ir preparar o pequeno-almoço, em seguida o avô desceu as escadas e os três partilharam a refeição. Enquanto comiam, o anfitrião observou que o velho parecia muito cansado, e obviamente precisava de um bom repouso.

 

- Se têm na vossa frente uma longa jornada, e não vos faz diferença perder um dia, são muito bem-vindos se quiserem dormir aqui outra noite. Ficarei realmente muito contente se quiser aceitar o convite, meu amigo.

 

Entretanto, viu que o velho olhava para Nell, indeciso entre aceitar ou declinar a sua oferta, e acrescentou.

 

- Será para mim um prazer passar o dia com a sua jovem companheira. Se quer fazer uma obra de caridade a um homem solitário, e ao mesmo tempo descansar, aceite a minha oferta. Se têm mesmo de continuar o vosso caminho, desejo-vos boa sorte, e acompanho-vos um pouco antes de começar a aula.

 

- O que havemos nós de fazer, Nelly? - perguntou o velho indeciso. - Diz, minha querida, o que havemos de fazer?

 

Não foi preciso insistir muito para que a pequena respondesse que achava melhor aceitarem o convite e ficarem. Agradava-lhe a oportunidade que se lhe deparava de demonstrar o seu reconhecimento ao bom professor dando um jeito na casa, que estava um pouco precisada. Quando terminou, pegou num trabalho de costura que trazia no cesto e sentou-se num banco ao pé da trepadeira, no local onde as madressilvas entrelaçavam as suas pequenas hastes, espreitavam para dentro do quarto e o enchiam com o seu delicioso aroma.

 

Lá fora, o avô dormitava ao Sol, respirando o perfume das flores, e olhava preguiçosamente as nuvens que flutuavam levadas pela brisa de Verão.

 

O professor colocou os bancos compridos à sua frente, sentou-se à sua secretária e começou a tratar dos preparativos para a lição. A criança pensou então que poderia estar a importunar e perguntou se não era melhor retirar-se para o quartinho onde tinha dormido, mas ele não consentiu, e como parecia satisfeito com a sua presença, ela deixou-se ficar, ocupada com a sua costura.

 

- O senhor tem muitos alunos? - perguntou ela.

 

O pobre mestre-escola abanou a cabeça e disse que mal enchiam os dois bancos.

 

- E são inteligentes? - perguntou a criança olhando para os trofeus que estavam na parede.

 

- São bons rapazes - respondeu o professor, - bons rapazinhos, minha querida, mas nunca serão capazes de uma coisa daquelas.

 

Enquanto ele falava, apareceu à porta um rapaz de cabelos quase brancos, parou para fazer um cumprimento desajeitado, entrou e sentou-se num dos bancos. O rapaz de cabelos quase brancos colocou então sobre os joelhos um livro aberto, com as folhas muito dobradas, enfiou as mãos nos bolsos cheios de berlindes e começou a contá-los. Notava-se na expressão da sua cara uma notável capacidade para se abstrair completamente das letras do livro, nas quais mantinha os olhos fixos.

 

Pouco depois chegou outro rapaz de cabelos também muito claros a arrastar os pés, e depois um rapazola ruivo, atrás dele outros dois também de cabelo quase branco, depois um com uma cabeleira amarela e por aí adiante até que os dois bancos ficaram preenchidos com cerca de uma dúzia de rapazes com cabelos de todas as cores menos grisalhos, e com idades que variavam entre os quatro e os catorze anos ou mais. Quando o mais pequeno se sentou, as pernas dele ficavam muito longe do chão, e o maior era um rapagão simpático e um bocadinho pateta com mais meio palmo de altura que o professor.

 

Na ponta do primeiro banco, o lugar de honra da escola, estava um lugar vazio. Era o lugar do aluno que estava doente, e na fila de cabides onde os rapazes penduravam os seus chapéus e bonés também havia um que estava vazio. Nenhum dos rapazes tentou violar o direito sagrado do companheiro ao seu lugar e ao seu cabide, mas muitos deles olhavam do professor para o lugar vazio, punham a mão em frente da boca e segredavam qualquer coisa ao vizinho do lado.

 

Começou então o burborinho das lições que se iam repetindo e decorando, as gracinhas que segredavam uns aos outros, as brincadeiras que iam fazendo às escondidas, e todo o barulho e confusão que se ouvem nas escolas. No meio da barafunda estava o mestre-escola, a imagem da humildade e da simplicidade, que em vão se tentava concentrar na lição e esquecer o seu amiguinho doente. Mas o tédio da sua profissão lembrava-lhe ainda mais o seu aluno favorito, e era claro que os seus pensamentos estavam muito longe dos seus outros alunos.

 

Ninguém sabia isto melhor do que os mais preguiçosos que, certos da impunidade, falavam cada vez mais alto e se tornavam cada vez mais atrevidos, brincavam mesmo na frente dos olhos do mestre, comiam maçãs descaradamente, davam beliscões uns aos outros por brincadeira ou por maldade sem se ralarem nada com isso, gravavam o nome nas pernas da secretária.

 

O burro da classe, que se encontrava à frente para recitar a sua lição do livro, já não olhava para o tecto a tentar lembrar-se das palavras, mas tinha-se aproximado do cotovelo do professor e olhava atrevidamente para a página do livro.

 

O palhaço da aula entortava os olhos e fazia caretas, ao mais pequeno, claro, sem sequer esconder o rosto por detrás de um livro, e o seu público não refreava o riso. Se o mestre parecia de repente prestar atenção ao que se passava à sua volta os rapazes calavam-se por um minuto, ninguém ousava olhar para ele, e todos faziam um ar estudioso e profundamente humilde. No momento em que este de novo mergulhava nos seus pensamentos, a confusão instaurava-se de novo, dez vezes pior do que há momentos atrás.

 

Oh, como alguns destes rapazes preguiçosos desejavam estar lá fora, e os olhares que deitavam à porta e à janela, como se se estivessem a pensar na melhor forma de se precipitarem, indomáveis, para a rua, para se enfiarem pelo bosque e passarem daí para a frente a viver como selvagens. Que pensamentos rebeldes, como a frescura do rio, o lugar melhor para se tomar banho, debaixo dos salgueiros com os ramos mergulhados na água, assaltavam aquele rapagão que, de colarinho desabotoado, sentado todo encostado para trás, abanava o seu rosto corado com um livro de leitura, desejando ser uma baleia, um insecto, uma mosca, qualquer coisa menos um aluno da escola naquele dia de calor abrasador.

 

Calor! Perguntem àquele outro rapaz sentado mais próximo da porta, pormenor que volta e meia lhe permitia escapulir-se para o jardim, e aí mergulhava a cara no balde do poço e rebolava-se na relva deixando os companheiros mortos de inveja. Perguntem-lhe se existiu outro dia como aquele, em que até as abelhas se enfiavam até ao fundo dentro dos cálices das flores e lá ficavam paradas, como se tivessem decidido retirar-se da sua actividade e deixar de fabricar mel.

 

Era um dia que convidava à preguiça, só apetecia uma pessoa deitar-se de costas sobre a relva e olhar para o céu, até que a claridade nos obrigasse a fechar os olhos, adormecer... Seria este um dia para a gente se maçar com livros velhos numa sala escura abandonada pelo Sol? Que monstruosidade!

 

Nell sentou-se junto à janela ocupada com o seu trabalho, mas apesar disso estava atenta a tudo o que se passava, embora por vezes se sentisse um pouco intimidada pelos turbulentos rapazes. Terminada a lição, começou a aula de escrita. Só havia uma secretária, que era a do professor, e por isso os rapazes iam-se sentando à vez para fazerem a sua cópia esborratada, enquanto o mestre passeava por ali. As coisas estavam agora mais tranquilas. Ele punha-se a olhar por cima do ombro do rapaz que escrevia, e dizia-lhe docemente que reparasse na forma como esta ou aquela letra estava desenhada nos modelos que estavam na parede, elogiava um arabesco para cima, outro para baixo, e dizia-lhe que fizesse os outros iguais a esse. Em seguida parava e contava-lhes o que o rapazinho doente havia dito na véspera, e como desejava regressar para junto dos seus companheiros.

 

O professor tinha uns modos tão brandos e afectuosos que os rapazes ficaram tão cheios de remorsos por terem sido tão indisciplinados, que ficaram sossegados, sem comer maçãs, sem riscar a secretária, sem darem beliscões e sem fazerem caretas pelo menos durante dois minutos.

 

- Parece-me, rapazes - disse o mestre-escola quando o relógio bateu o meio-dia, - que vou dar-vos feriado esta tarde.

 

Ao ouvir isto, os rapazes, comandados pelo rapaz alto, deram largas ao seu entusiasmo, no meio do qual o professor continuava a ser visível enquanto falava, mas não conseguia fazer-se ouvir. Depois, quando levantou a mão, tentando fazê-los calar, eles tiveram a consideração de lhe obedecer quando o último deles perdeu o fôlego.

 

- Mas, primeiro têm de me prometer - disse o mestre-escola - que não farão barulho, ou que se o fizerem será longe daqui, longe da aldeia, quero dizer. Vocês com certeza não quererão incomodar o vosso companheiro.

 

Houve um murmúrio geral, e talvez até fosse perfeitamente sincero, uma vez que se tratava de garotos, concordando com o professor, e o rapaz alto, talvez tão sinceramente como os outros, pediu aos que estavam mais perto que testemunhassem que ele só tinha gritado muito baixinho.

 

- Então por favor não se esqueçam, meus queridos alunos - disse o professor, - daquilo que vos pedi, e façam-me esse especial favor. Divirtam-se bastante, e lembrem-se que receberam a grande bênção que é gozar de boa saúde. Adeus a todos.

 

- Obrigadinho, senhor professor! Adeus, senhor professor! - disseram muitas vozes diferentes, e os rapazes saíram devagar e silenciosamente.

 

Mas o Sol brilhava no céu, e os passarinhos cantavam como só acontece quando há um feriado. As árvores convidavam os rapazes em liberdade a treparem-lhes e a aninharem-se lá em cima no meio das folhagens dos seus ramos. O feno parecia estar ali para que os rapazes o espalhassem pelo ar. O milho verde apontava-lhes os bosques e os riachos. A terra macia, que a luz e as sombras misturadas tornavam ainda mais macia, convidava às corridas, às cabriolas e aos passeios sabe-se lá aonde.

 

Era mais do que qualquer rapaz podia suportar, e com um grito de alegria o bando inteiro deitou a correr, e espalharam-se por todo o lado a gritar e a rir.

 

- É natural! Graças a Deus! - disse o bom mestre. - Ainda bem que não deram importância ao que lhes disse.

 

É, no entanto, difícil, agradar a toda a gente, como todos nós sabemos, mesmo sem a fábula que nos diz isto mesmo, e ao longo da tarde várias mães e tias de alunos vieram expressar a sua inteira desaprovação em relação à conduta do professor. Algumas limitaram-se a fazer insinuações, tais como perguntar que dia de santo era aquele no calendário, outras, os espíritos políticos da aldeia, diziam que dar meio dia de feriado sem ser no aniversário natalício do rei, era uma afronta à coroa, à igreja e ao estado, e mostrava claras tendências revolucionárias.

 

Mas a maioria expressou o seu descontentamento por razões de carácter mais prático e em termos mais prosaicos, dizendo que dispensar os alunos das aulas durante meio dia era um roubo e uma fraude. Uma velha, vendo que por muito que dissesse ao professor não conseguia irritá-lo ou fazê-lo zangar, foi-se embora mas ainda ficou com outra velha, a descompô-lo, durante meia hora, debaixo da janela dele.

 

Dizia que ele teria de deduzir aquele meio dia do seu salário semanal, ou teria de enfrentar um forte movimento contra ele. As pessoas preguiçosas não eram desejadas ali nas redondezas (aqui a velha senhora levantou a voz) e certos indivíduos que eram demasiado preguiçosas até para serem professores, ainda eram capazes de se ver substituídos por outros mais trabalhadores, por isso era melhor tomarem cuidado, e olharem com atenção à sua volta. Mas todas estas ofensas e vexames não conseguiram arrancar uma palavra ao pacífico professor, que se sentou ao lado da garota, talvez um pouco mais desanimado, mas em silêncio e sem um queixume.

 

Era já quase noite, uma velha trôpega atravessou o jardim, tão depressa quanto podia, e, encontrando o mestre-escola à porta de casa, disse-lhe que ele tinha de ir depressa a casa de Mrs. West, e era melhor ir a correr à frente dela. O professor e a criança preparavam-se nesse momento para ir dar um passeio e, por isso, sem lhe largar a mão, o professor largou a correr deixando que a mensageira o seguisse no seu passo mais vagaroso.

 

Pararam à porta de uma casa, e o professor bateu suavemente à porta. Abriram-lha sem demora. Entraram num quarto onde estava um pequeno grupo de mulheres que rodeavam uma outra, mais velha, que estava sentada, a chorar copiosamente, a torcer as mãos e a balançar-se para um lado e para o outro.

 

- Minha senhora! - disse o professor aproximando-se da sua cadeira. - Ele está assim tão mal?

 

- Está a morrer! - exclamou a velha. - O meu neto está a morrer! E é tudo por culpa sua. Eu nem devia deixar que o senhor lá fosse vê-lo, ele é que não pára de chamar por si.

 

Foi o que os estudos fizeram! Oh! Meu Deus, meu Deus! O que é que eu posso fazer?

 

- Não diga que a culpa é minha - disse o simpático professor. - Mas eu não me ofendo, minha senhora. Não, não. A senhora está num estado de grande tristeza, e não queria dizer aquilo que disse, eu sei que não queria.

 

- Queria - respondeu a velha. - Queria dizer isso mesmo. Se ele não se tivesse agarrado tanto aos livros, com medo de si, estaria agora feliz e contente, que eu bem sei.

 

O mestre-escola olhou em volta, na direcção das outras mulheres, como a apelar para que alguma delas lhe dissesse uma boa palavra, mas elas abanaram a cabeça, murmuraram umas para as outras que nunca tinham achado que os estudos trouxessem nada de bom, e que agora estavam absolutamente convencidas.

 

Sem lhes responder uma palavra, ou lhes deitar um olhar que fosse de censura, ele seguiu a velha que o tinha ido chamar, e que entretanto já tinha chegado, até outra divisão, onde o seu jovem amigo, meio vestido, jazia numa cama.

 

Era um rapazinho muito pequeno, quase uma criança. Usava ainda o cabelo em caracóis que lhe emolduravam o rosto, e os seus olhos eram muito brilhantes, mas a luz que tinham era uma luz que era do céu, e não da terra.

 

O professor puxou uma cadeira e sentou-se ao pé dele, debruçou-se sobre a almofada e sussurrou o seu nome. O rapaz endireitou-se, esfregando o rosto com as mãos, e atirou-lhe os braços à volta do pescoço, exclamando que ele era o seu querido e bom amigo.

 

- Espero tê-lo sido. Sabe Deus como quis sê-lo - disse o pobre mestre-escola.

 

- Quem é ela? - perguntou o rapaz vendo Nelly. - Tenho medo de a beijar, posso pegar-lhe a doença. Peça-lhe que me aperte a mão.

 

A criança aproximou-se a chorar, e tomou nas suas aquela mão pequena e lânguida. Momentos depois o doente retirou a sua mão e deitou-se devagarinho para baixo.

 

- Lembras-te do jardim, Harry? - murmurou-lhe o professor, com uma vontade imensa de o animar, porque o sentia a entristecer. - Lembras-te de como é bonito, à tardinha? Tens de lá ir depressa visitá-lo outra vez, porque até as flores parece que sentem a tua falta, e parece que estão a perder a alegria que tinham. Vais lá voltar muito em breve, meu amiguinho, muito em breve, não vais?

 

O rapaz fez um débil sorriso. Um sorriso tão débil, tão débil, e colocou a sua mão sobre a cabeça grisalha do seu amigo. Moveu também os lábios, mas não saiu nenhum som, não, nem um som.

 

No silêncio que se seguiu, um rumor de vozes distantes veio trazido pelo ar da tarde e entrou no quarto pela janela aberta. - O que é? - perguntou o doente abrindo os olhos.

 

- São os rapazes a brincar lá fora.

 

Ele então tirou um lenço de debaixo da almofada e tentou acenar com ele por cima da sua cabeça, mas faltaram-lhe as forças, e deixou cair o braço.

 

- Queres que acene por ti? - disse o professor.

 

- Sim, por favor, acene-lhes da janela - foi a sua débil resposta. - Ate-o à persiana. Pode ser que alguns deles o vejam. Talvez se lembrem de mim e olhem nesta direcção.

 

Ergueu a cabeça, olhou para o lenço, desfraldado, olhou para a sua raquete inútil que estava sobre uma mesa, junto da sua ardósia, do seu livro e de outros objectos juvenis, e perguntou se a rapariguinha ainda ali estava, porque não conseguia vê-la.

 

Ela aproximou-se um pouco e apertou nas suas aquela mão inerte, pousada sobre a colcha. Os dois velhos amigos e companheiros, apesar de se tratar de um homem e de uma criança, abraçaram-se longamente, e então o garoto voltou o rosto para a parede e adormeceu.

 

O pobre mestre-escola continuou sentado no mesmo sítio, segurando a pequena mão fria entre as suas, acariciando-a a leve. Era apenas a mão de uma criança morta, mas ele continuava a acariciá-la, sem a conseguir largar.

 

Muito comovidos, Nell e o professor afastaram-se do leito e regressaram a casa. No meio do seu desgosto e das suas lágrimas, a criança ainda teve o cuidado de esconder do velho o verdadeiro motivo destas, pois o garoto que morrera também não tinha mais ninguém senão a sua velha avó para chorar a sua morte prematura.

 

Meteu-se na cama o mais depresse possível, e foi então, quando se viu sozinha, que deu largas à tristeza que lhe pesava sobre o peito. E, no entanto, a triste cena que presenciara também continha uma lição de contentamento e gratidão.

 

De contentamento pela sorte que tinha por gozar de saúde e liberdade. De gratidão pelo facto de viver para a única pessoa que lhe restava e a quem amava, e por viver à sua vontade num mundo tão cheio de beleza, quando tantos jovens, tão jovens e cheios de esperança como ela, sucumbiam a doenças e eram levados para o túmulo.

 

No velho cemitério, onde tinha estado ultimamente, quantas campas verdejantes de crianças! Ela própria pensava como a criança que era, e talvez não pensasse na felicidade que é dada àqueles que morrem jovens, e na sepultura não passam pela dor de ver morrer à sua volta os seres mais queridos ao seu coração, e é isto que faz com que os velhos morram várias vezes no decorrer da sua longa vida. Ela era, no entanto, sensata o bastante para extrair um bom ensinamento daquilo a que tinha assistido nessa noite, e guardar esse ensinamento na sua memória.

 

Sonhou com o pequeno estudante, mas não o via amortalhado num caixão. Via-o rodeado de anjos, sorrindo, feliz. Acordou com alguns raios de Sol que lhe entraram pelo quarto. Agora só lhes restava despedirem-se do pobre mestreescola e meterem-se outra vez a caminho.

 

Quando acabaram os preparativos para a viagem, já a aula tinha começado. Na sala escura, o barulho da véspera tinha recomeçado. Era talvez um pouco mais moderado, mas a diferença era pouca, se é que existia. O professor levantou-se da sua secretária e acompanhou-os até ao portão.

 

Foi envergonhada e a tremer que a criança lhe estendeu o dinheiro que a senhora lhe tinha dado pelas suas flores, nas corridas. Consciente de que era uma quantia bastante pequena, a criança corou no momento em que lhe estendeu o dinheiro e balbuciou os seus agradecimentos. Ele, no entanto, disse-lhe que o guardasse, curvou-se para a beijar e voltou para casa.

 

Não tinham dado ainda meia dúzia de passos, e já ele estava à porta outra vez. O velho voltou para trás alguns passos para lhe apertar a mão, e a criança fez o mesmo.

 

Boa sorte, e felicidades para vocês! - disse o pobre mestre-escola. Eu agora sou um homem muito solitário. Se alguma vez voltarem a passar por aqui, não se esqueçam desta pequena escola de aldeia.

 

- Nunca nos esqueceremos - respondeu Nell, - nem nunca mais havemos de nos esquecer do senhor e da sua bondade para connosco, e havemos de lhe ficar para sempre gratos.

 

- Já ouvi essas palavras muitas vezes da boca dos meus alunos - disse o professor abanando a cabeça e sorrindo pensativo, - mas são palavras que eles depressa esquecem. Eu tinha-me afeiçoado a este jovem amigo, um amigo tanto mais sincero porque era uma criança, mas agora isso acabou. Vão com Deus!

 

Acenaram-lhe ainda muitas vezes, e foram andando devagar, olhando muitas vezes para trás até que deixaram de o ver. Daí a um bocado já tinham deixado a aldeia muito para trás, e já nem o fumo se avistava por entre as árvores. Começaram então a andar um pouco mais depressa, e resolveram tomar a estrada principal, e seguir para onde ela os levasse.

 

Mas as estradas principais são muito, muito compridas. À excepção de um ou outro pequeníssimo povoado, e uma taberna solitária à beira da estrada onde comeram pão com queijo, ao fim da tarde esta longa estrada ainda não os tinha levado a lado nenhum, e continuava ainda, na distância, o seu traçado monótono que tinham palmilhado ao longo do dia. Assim, como não tinham outro remédio que não fosse seguir em frente, continuaram a caminhar, mas agora, muito cansados, o seu passo era muito mais vagaroso.

 

O dia estava a terminar. Era um lindo entardecer quando chegaram a um ponto onde a estrada fazia uma curva e atravessava uns terrenos de pasto. À beira destas pastagens, junto à sebe que as separava dos terrenos cultivados, estava parado um carro de saltimbancos. Estava colocado de tal maneira, e deram com ele tão bruscamente, que não poderiam tê-lo evitado, mesmo que quisessem.

 

Não tinha um aspecto miserável, nem estava sujo ou coberto de poeira. Era uma elegante casinha sobre rodas, com cortinas brancas de algodão a enfeitar as janelas, e portadas verdes com painéis pintados de vermelho berrante. Estas cores faziam um belo contraste e alegravam o conjunto. Também não era uma pobre carroça puxada pelo seu burrico ou por algum cavalo magricela. Uma bela parelha de cavalos estava desatrelada a pastar a erva pouco tratada.

 

Também não era um carro de ciganos, pois junto à porta que estava aberta e era enfeitada por uma aldraba de latão reluzente, estava sentada uma senhora cristã, de aspecto roliço e agradável, com uma grande touca cheia de lacinhos pendurados.

 

Era uma caravana que não estava de forma nenhuma vazia ou desprovida do necessário, e a prova era a ocupação com que a dama estava entretida, que era a muito agradável e refrescante ocupação de tomar chá. Os utensílios necessários, incluindo uma garrafa de aspecto suspeito e um pedaço de presunto frio, estavam pousados sobre um tambor coberto com um guardanapo branco, e na frente desta mesa, como se se tratasse da mesinha mais cômoda do mundo, estava sentada a dama errante, a gozar a paisagem.

 

Ora acontecia que naquele momento a dama do carro levava a chávena que, para que tudo ali fosse redondo e agradável, era uma grande chávena almoçadeira, aos lábios, e tinha os olhos postos no céu a fim de melhor saborear todo o paladar do seu chá, que continha provavelmente um golo do conteúdo da garrafa suspeita, mas isto é pura especulação e não vem agora ao caso, aconteceu pois que, estando tão agradavelmente ocupada, a dama não viu os viajantes no momento em que estes apareceram. Foi só depois de pousar a sua chávena e de ter respirado fundo para se refazer do esforço despendido em fazer desaparecer o seu conteúdo, que a dama do carro viu um velho e uma criança que caminhavam devagar e olhavam para ela com olhos cheios de modesta admiração mas também esfomeados.

 

- Olha lá! - gritou a mulher apanhando as migalhas que lhe tinham caído no regaço e engolindo-as antes de limpar a boca. - Sim, claro, quem é que ganhou a Taça Helter-Skelter, pequena?

 

- Quem é que ganhou o quê, minha senhora? - perguntou Nelly.

 

- A Taça Helter-Skelter, nas corridas, pequena. A taça que era para o segundo dia.

 

- Para o segundo dia, senhora?

 

- Segundo dia, sim, segundo dia - repetiu a mulher com ar impaciente.- Não és capaz de dizer quem ganhou a Taça Helter-Skelter quando te perguntam delicadamente?

 

- Não sei, minha senhora.

 

- Não sabes? - repetiu a senhora da caravana. - Como é que não sabes, se estavas lá? Ru vi-te com os meus próprios olhos!

 

Nell ficou alarmada ao ouvir isto, pensando que a senhora poderia de alguma forma estar ligada à firma de Short e Codlin, mas o que a seguir se passou deixou-a mais sossegada.

 

- E não gostei nada - disse a senhora da caravana - de te ver na companhia daquele palhaço, um malandro baixo e ordinário que toda a gente devia dar ao desprezo.

 

- Não fui eu que quis estar ali - disse a pequena. - Nós não sabíamos o caminho e os dois homens foram simpáticos e deixaram-nos viajar com eles. A senhora... a senhora conhece-os?

 

- Se eu os conheço, minha filha? - gritou a senhora da caravana. - Se eu conheço essa gente? Mas tu ainda és muito jovem e inexperiente, isso desculpa a tua pergunta. Achas que eu tenho o ar de quem os conhece? A caravana tem ar de quem os conhece?

 

- Não senhora, não! - disse a garota receando ter ofendido gravemente a senhora. - Peço desculpa.

 

Foi imediatamente desculpada, embora a senhora ainda parecesse muito perturbada e aborrecida com aquela degradante suposição. A criança explicou então que tinham abandonado as corridas no primeiro dia e que tinham seguido viagem para a próxima cidade onde aquela estrada os conduzisse, onde esperavam passar a noite.

 

Como a expressão da roliça senhora começava a desanuviar-se, a garota aventurou-se a perguntar a que distância ficava. A resposta, que a senhora só deu depois de explicar em detalhe que tinha ido às corridas no primeiro dia num cabriole, e apenas pelo prazer do passeio, e que a sua presença no local não estava de forma alguma ligada a qualquer tipo de negócio com fins lucrativos, foi que a cidade distava ainda umas oito milhas.

 

Esta informação desencorajadora desconcertou um pouco a criança, que mal conseguiu reprimir uma lágrima ao olhar a estrada que escurecia. O avô não se queixou mas suspirou pesadamente ao apoiar-se ao seu cajado, e tentou em vão olhar para lá da distância poeirenta.

 

A senhora da caravana estava já a arrumar os utensílios do chá, levantando assim a mesa, mas ao reparar no ar ansioso da criança hesitou e parou. A pequena cumprimentou, agradeceu a informação, deu a mão ao velho e tinha já caminhado cinquenta metros, ou talvez mais, quando a senhora da caravana a chamou e a fez voltar para trás.

 

- Chega cá. Mais perto - disse ela fazendo-lhe sinal para que subisse os degraus. - Tens fome, pequena?

 

- Não tenho muita, mas estamos cansados, e é uma longa distância.

 

- Bom, com fome ou sem ela, é melhor tomarem um chá - acrescentou a sua nova amiga. - O senhor não se importa, pois não?

 

O avô tirou humildemente o chapéu e agradeceu. A senhora da caravana convidou-o a subir também as escadas, mas como o tambor era uma mesa pouco cómoda para duas pessoas, eles voltaram a descer e sentaram-se na relva. Ela então trouxe-lhes o tabuleiro do chá, o pão e a manteiga, o presunto e, em resumo, tudo aquilo que tinha sido a sua própria refeição, à excepção da garrafa que na primeira oportunidade ela já tinha feito deslizar para dentro da algibeira.

 

- Põe as coisas ao pé das rodas traseiras, pequena. É o melhor lugar - disse-lhe a senhora dirigindo as operações lá do alto. - Agora passa-me o bule, para eu lhe deitar mais um pouco de água quente e mais uma pitada de chá. Agora vocês comam e bebam tudo o que quiserem, e não façam cerimónia, é tudo o que vos peço.

 

Talvez eles lhe tivessem feito a vontade, mesmo que esta tivesse sido expressa menos abertamente, ou mesmo que ela não tivesse chegado a expressá-la, mas como as suas palavras fizeram desvanecer qualquer bocadinho de cerimónia que eles pudessem ser tentados a fazer, fizeram uma excelente refeição e apreciaram-na muitíssimo.

 

Enquanto estavam assim entretidos, a senhora da caravana desceu para o chão, e começou a andar para cima e para baixo, imponente, num passo cadenciado, com as mãos atrás das costas e a touca a tremelicar, deitando de tempos a tempos uma olhadela à caravana com um ar de calma satisfação, e parecendo apreciar muito em particular os painéis vermelhos e a aldraba de latão.

 

Depois deste leve exercício, sentou-se nos degraus e chamou: - George! - E então um homem que vestia um casaco de carroceiro, e tinha estado escondido no meio de umas sebes de forma a ver tudo o que se passava, mas sem ser visto, afastou os ramos que o escondiam e mostrou-se. Estava sentado, sobre os joelhos tinha um prato de ir ao forno e um cantil, na mão direita tinha uma faca e na esquerda um garfo.

 

- Sim, minha senhora - respondeu George.

 

- Que tal achaste a empada fria?

 

- Não estava má, minha senhora.

 

- E a cerveja? - perguntou a senhora da caravana parecendo mais interessada nesta resposta do que na primeira.

 

- Estava razoável, George?

 

- Podia estar melhor, mas mesmo assim não estava má. Para sossegar o espírito da sua patroa, bebeu um golo do tamanho de um quartilho, ou por aí, do cantil, a seguir estalou os lábios, deu uma piscadela de olhos e abanou a cabeça. Animado, em seguida, do mesmo amável desejo, retomou o garfo e a faca como a querer dizer que a cerveja não lhe tinha estragado o apetite.

 

A senhora da caravana olhou-o durante um bocado com ar de aprovação, e depois disse:

 

- Estás quase a acabar?

 

- Quase, minha senhora - e de facto, depois de rapar o prato todo à volta com a faca, à procura de migalhas tostadas que levava à boca, começou a beber do cantil de um modo tão científico que aos poucos, quase imperceptivelmente, a sua cabeça se foi inclinando cada vez mais para trás até que ele ficou praticamente estendido no chão, o jovem declarou-se então satisfeito e saiu do seu lugar.

 

- Espero não te ter obrigado a comer à pressa, George

 

- disse-lhe a patroa que parecia simpatizar muito com aquilo que ele acabava de fazer.

 

- Se tiver - disse o empregado com uma prudente reserva para qualquer contingência favorável que pudesse surgir, - desforramo-nos para a próxima, e pronto.

 

- Não somos uma carga muito pesada, George?

 

- As senhoras dizem sempre isso - disse o homem olhando à sua volta como se apelasse para toda a natureza contra uma coisa daquelas. - Quando vemos uma mulher a guiar, percebemos logo que nunca está quieta com o chicote. O cavalo nunca vai tão depressa como ela quer. O animal pode levar a carga certa, que não há quem consiga convencer uma mulher que ele não pode levar mais nada. Mas porque é que me pergunta isso?

 

- Achas que fazia muita diferença aos cavalos, se levássemos mais estes dois viajantes? - perguntou â patroa sem responder à sua pergunta filosófica, e apontando para Nelly e para o velho que, penosamente, já se preparavam para continuar o seu caminho a pé.

 

- É claro que faz diferença. - disse George com ar teimoso.

 

- Mas achas que era uma grande diferença? - voltou a perguntar a patroa. - Não devem pesar assim tanto...

 

- Os dois juntos, minha senhora - disse ele olhando-os como a medir-lhes o peso com toda a precisão. - devem pesar um bocadinho menos que Oliver Cromwell.

 

Nell estava muito surpreendida que o homem estivesse tão bem informado sobre o peso de um homem que, segundo ela tinha lido nos livros, tinha vivido há muito tempo atrás, mas esqueceu rapidamente o assunto com a alegria de ouvir que seguiriam viagem no carro, pelo que agradeceu muito à senhora, dando largas à sua gratidão.

 

Foi com grande prontidão e alegria que ajudou a arrumar a loiça e os outros utensílios que estavam por ali, e como entretanto os cavalos já estavam atrelados, subiu para o veículo seguida pelo avô, que estava encantado.

 

A sua benfeitora fechou então a porta e sentou-se ao lado do tambor, junto à janela aberta. George retirou os degraus, enfiou-os debaixo da caravana, e lá seguiram, rolando pesadamente pela estrada fora, no meio de muito barulho, com a caravana a bater, a estalar e a ranger, e com a aldraba de metal reluzente, à qual nunca ninguém batia, a bater agora repetidamente por sua livre vontade.

 

Tinham já, vagarosamente, avançado um bom pedaço de caminho, quando Nell se atreveu a olhar em volta da caravana, a fim de a observar um pouco melhor.

 

Metade do seu interior, a metade onde a sua simpática proprietária estava agora sentada, era revestida por um tapete, e ao fundo estava dividida de maneira a formar um espaço para se dormir, semelhante ao beliche de um barco, e que, à semelhança das janelinhas, estava ornamentado com umas cortininhas brancas e parecia muito confortável, embora o exercício de ginástica que a dama da caravana tinha de executar para subir lá para cima fosse um mistério indesvendável.

 

A outra metade estava transformada em cozinha e estava equipada com um fogão, cuja pequena chaminé atravessava o tecto da caravana. Tinha também um armário, ou despensa, vários baús, um grande cântaro com água e algumas loiças e utensílios de cozinha. Estes objectos estavam pendurados na parede do veículo.

 

Do outro lado, destinado à proprietária, esta estava decorada com objectos muito mais alegres e bonitos, como uns ferrinhos e um par de pandeiretas muito usadas.

 

A dama da caravana estava sentada a uma janela, no meio de todo o orgulho e poesia dos instrumentos musicais, e a pequena Nell e o seu avô estavam sentados à outra janela, rodeados da humildade da cafeteira e das panelas, enquanto o carro ia avançando lentamente e a paisagem ia mergulhando na escuridão.

 

A princípio os dois viajantes falavam pouco, em segredo, mas à medida que se foram familiarizando com o lugar ganharam coragem e começaram a conversar mais livremente, sobre a região que atravessavam, sobre os diversos objectos que tinham à sua frente, até que o velho adormeceu. A senhora da caravana, quando viu isto, convidou Nell a aproximar-se e a sentar-se mais perto dela.

 

- Então, minha filha, estás a gostar desta forma de viajar?

 

Nell respondeu que achava que era uma forma muito agradável de viajar, e a dama acrescentou que sim, desde que se estivesse com a disposição necessária. Por ela, disse, sentiase por vezes muito deprimida e precisava permanentemente de um estimulante. Se esse estimulante provinha da garrafa que já mencionámos, ou de outra fonte, isso foi algo que ficou por explicar.

 

Vocês, jovens, são pessoas felizes - continuou ela. - Não sabem o que é uma depressão. Nem conhecem o fastio, e que felicidade que é para vocês não conhecerem essas coisas!

 

Nell pensou que de boa vontade dispensaria por vezes o seu apetite, e que não havia nada, na aparência da senhora, ou na forma como tinha tomado o seu chá, que levasse a supor que de alguma forma tinha perdido o seu apetite. Concordou, no entanto, silenciosamente, como era a sua obrigação, com o que a senhora dissera, e esperou que ela voltasse a falar.

 

Em vez disso, no entanto, a senhora ficou silenciosa um grande bocado a olhar para a pequena, em seguida levantou-se, tirou de um canto um rolo de lona muito comprido, pousou-o no chão e começou a desenrolá-lo com o pé até este quase chegar de uma ponta à outra do carro.

 

- Aqui está, pequena - disse ela. - Lê isto.

 

Nell aproximou-se e leu em voz alta a inscrição em letras maiúsculas, pretas, enormes: FIGURAS DE CERA JARLEY.

 

- Lê outra vez - disse a senhora com ar complacente.

 

- Figuras de cera Jarley - repetiu Nell.

 

- Sou eu - disse a senhora. - Eu sou Mrs. Jarley.      

 

Em seguida deitou à garota um olhar encorajador com a intenção de a sossegar e de lhe dar a entender que, embora estivesse na presença da verdadeira Mrs. Jarley, não valia a pena sentir-se completamente esmagada. A seguir desenrolou outro cartaz onde se lia a inscrição: «Cem figuras em tamanho natural». E depois outro que dizia «A única, a mais magnífica colecção de figuras de cera do mundo», e depois vários outros cartazes mais pequenos onde se lia: «Neste momento em exibição no interior», «A única, a genuína colecção Jarley», «A colecção Jarley faz as delícias da nobreza e da gente fina», «A Família Real patrocina a colecção Jarley».

 

Depois de ter exibido estes cartazes perante os olhos espantados da criança, foi buscar outros espécimes de anúncios de menores dimensões e menor importância, alguns dos quais eram uma espécie de paródias a algumas canções populares, como, por exemplo: «Acredita, as figuras de cera Jarley são uma raridade», «Vi a tua exposição na flor da idade», «Sobre as águas, até à exposição Jarley».

 

Outros ainda, por forma a satisfazer todos os gostos, tinham sido compostos de uma forma mais ligeira e humorística, como era o caso de uma paródia feita com uma canção muito popular, «Se eu tivesse um burro».

 

Se eu tivesse um burro que não quisesse ir ver A exposição JARLEY de figuras de cera Julgas que eu lhe falava? Oh não, não! À exposição JARLEY corramos então.

 

Havia para além disso várias composições em prosa, com diálogos imaginários entre o Imperador da China e uma ostra, ou entre o Arcebispo de Cantuária e um dissidente que não queria pagar o dízimo, mas todos eles com a mesma conclusão moral para o leitor, que deveria apressar-se a ir visitar a exposição Jarley, e que criados e crianças só pagavam meio bilhete. Depois de apresentar à sua jovem companheira de viagem todas estas provas da sua importante posição social, Mrs. Jarley voltou a enrolá-las, arrumou-as, voltou a sentar-se e olhou triunfante para a pequena.

 

- Depois disto - disse Mrs. Jarley, - não quero que voltes a andar na companhia de polichinelos ordinários.

 

- Eu nunca vi uma exposição de figuras de cera, minha senhora - disse Nell. - É mais engraçado do que o Polichinelo?

 

- Mais engraçado? - disse Mrs. Jarley numa voz guinchada. - Não tem graça nenhuma!

 

- Ah! - disse Nell com toda a humildade de que era capaz.

 

- Não tem graça nenhuma - repetiu Mrs. Jarley. - É muito calmo, e... como é que se diz? Crítico? Não, clássico. É calmo e clássico, não há pancadaria ordinária, nem gritos, nem graçolas, como nesses polichinelos de rua, mas há sempre uma atmosfera serena e elegante, e são tão parecidos com pessoas reais que só lhes falta falar e andar por aí. Se não fosse isso, quase nem dávamos pela diferença. Não vou ao ponto de dizer que já vi figuras de cera iguais a pessoas, mas garanto-te que já vi pessoas que eram iguais a figuras de cera.

 

- E estão aqui, minha senhora? - perguntou Nell em quem a descrição tinha suscitado uma grande curiosidade.

 

- O que é que está aqui, minha filha?

 

- As figuras de cera, minha senhora.

 

- Ora, valha-te Deus, pequena! Que ideia a tua! Como é que uma colecção daquelas podia estar aqui, se a única coisa que não está à vista é o interior do armário e de meia dúzia de caixas? Já seguiram nos outros carros, para a sala de exposições, e é lá que vão ser exibidas depois de amanhã. Tu vais para a mesma cidade, e estou certa de que’as verás. É natural que as vejas, estou certa de que as verás. Nem que quisesses, não poderias deixar de as ver.

 

- Parece-me que não vou ficar na cidade, minha senhora - disse a criança.

 

- Não vais? - exclamou Mrs. Jarley. - Então para onde é que vais?

 

- Eu... eu não sei muito bem, não tenho a certeza.

 

- Tu estás a dizer-me que vocês andam a viajar pelo país, sem saberem muito bem para onde? - disse a senhora da caravana. - Que pessoas esquisitas que vocês são! Qual é o vosso ramo de negócio? Tu nas corridas pareceste-me conipletamente fora do teu elemento, e que estavas ali por mero acaso.

 

- Sim, estávamos lá por acaso - respondeu Nelly um tanto confundida com este súbito interrogatório. - Somos muito pobres, minha senhora. Andamos por aí, não temos nada para fazer, antes tivéssemos.

 

- Espantas-me cada vez mais - disse Mrs. Jarley depois de ficar algum tempo tão muda como as suas figuras. - Então, o que é que vocês são? Mendigos?

 

- De facto, minha senhora, não vejo que mais possamos ser - respondeu a criança.

 

- Valha-me Deus! - disse a senhora da caravana. - Nunca ouvi uma coisa assim! Quem havia de pensar!

 

Depois desta exclamação, manteve-se em silêncio durante tanto tempo que Nell receou que ela estivesse a sentir que ter dado protecção e conversado com uma pessoa tão pobre fosse uma ofensa irremediável à sua dignidade. A pequena convenceu-se ainda mais perante o tom com que ela quebrou o silêncio, dizendo:

 

- E no entanto sabes ler! E não me admirava que também soubesses escrever!

 

- Sei, sim, minha senhora - disse a criança receando ofender ainda mais a senhora ao admiti-lo.

 

- E o que isso não vale! - respondeu Mrs. Jarley. - Eu cá não sei!

 

- Ai sim? - respondeu Nell num tom que tanto podia significar que tinha ficado muito surpreendida por saber que a única, a genuína Mrs. Jarley, que fazia o encanto de nobres e gente fina, protegida pela família real, não soubesse ler e escrever, como podia significar que achava que uma senhora tão importante não precisava de possuir conhecimentos tão vulgares. Fosse qual fosse a maneira como Mrs. Jarley interpretasse a observação, a verdade é que não lhe fez mais perguntas nem provocou mais comentários. Mergulhou de novo num profundo silêncio e assim permaneceu durante tanto tempo que Nell passou para a outra janela, juntando-se ao avô, que entretanto acordara.

 

Depois, a senhora da caravana pareceu dar a sua meditação por terminada, chamou o cocheiro para debaixo da sua janela e teve com ele uma longa conversa em voz baixa, como se estivesse a perguntar a sua opinião sobre algum assunto importante, e a discutir os prós e os contras de alguma questão de peso. Esta conversa terminou por fim, ela meteu a cabeça para dentro e fez sinal a Nell para se aproximar.

 

- E o senhor de idade também - disse Mrs. Jarley.

 

- Quero dar-lhe uma palavrinha. O senhor não gostava de arranjar uma boa situação para a sua neta? Se gostava, eu tenho maneira de lhe arranjar uma. O que é que me diz?

 

- Eu não posso deixá-la - respondeu o velho. - Nós não nos podemos separar. O que seria de mim sem ela?

 

- Eu pensava que o senhor já tinha idade para ser capaz de tomar conta de si próprio - retorquiu Mrs. Jarley um pouco asperamente.

 

- Ele nunca vai ser capaz - disse a criança emocionada.

 

- Receio bem que ele nunca mais seja capaz. Por favor não lhe fale com aspereza. Nós estamos-lhe muito gratos - acrescentou ela em voz alta, - mas não nos poderíamos separar, nem que dividissem entre nós todas as riquezas do mundo.

 

Mrs. Jarley ficou um pouco desconcertada que a sua proposta tivesse tido aquela recepção, e olhou para o velho que pegou ternamente na mão de Nelly e a segurou entre as suas como se ela estivesse disposta a prescindir da sua companhia, e mesmo da sua existência.

 

Depois de uma pausa um tanto desconfortável, ela voltou a deitar a cabeça pela janela e teve outra conversa com o cocheiro sobre qualquer coisa acerca da qual não pareceram concordar com tanta facilidade como da primeira vez. Finalmente pareceram pôr-se de acordo e ela voltou a dirigir-se ao avô.

 

- Se o senhor está realmente disposto a trabalhar disse Mrs. Jarley, - eu arranjo-lhe muito com que se entreter. Pode limpar o pó às figuras, receber os bilhetes e outras coisas assim. Agora a sua neta eu quero-a é para mostrar as figuras ao público. Ela num instante aprendia, e tem bons modos, agradaria certamente, embora, é claro, o seu lugar seja a seguir a mim, pois estou muito acostumada a ser eu a mostrar a exposição aos visitantes, e penso continuar a fazê-lo, excepto quando o meu espírito sinta necessidade de um pouco de descanso. E repare que isto não é um convite vulgar - disse a senhora adoptando o tom e a pose com que costumava falar aos visitantes, - trata-se da Exposição Jarley de figuras de cera, lembre-se.

 

O trabalho é leve e agradável, os visitantes muito selectos, a exposição é feita em salões, Câmaras Municipais, salões de hospedarias ou galerias de leilões. Deixam de andar por aí a dormir ao relento, debaixo de uma lona, no meio da serradura.

 

Cumprimos à risca tudo aquilo que vem no prospecto, e depois de armada a exposição tem um efeito que impressiona e brilha como não existe outra neste reino. Lembre-se que o preço da entrada é apenas seis pence, e que esta é uma oportunidade que poderá não voltar a surgir outra vez.

 

Quando chegou a este ponto Mrs. Jarley desceu das coisas sublimes para as mais comezinhas, e observou que em relação ao salário não podia comprometer-se com nenhuma soma específica enquanto não tivesse testado suficientemente as capacidades de Nelly e vigiado atentamente o seu trabalho, mas para já podia garantir dormida e comida para ela e para o avô, e prometeu que a comida seria sempre boa e em quantidade.

 

Nell e o avô conferenciaram por um momento, e enquanto estavam assim entretidos Mrs. Jarley começou a andar para a frente e para trás dentro da caravana, com as mãos atrás das costas, tal como tinha feito em terra firme depois de acabar o seu chá, com um ar de grande dignidade e autoestima. Isto não parecerá um detalhe sem importância, indigno de ser mencionado, se nos lembrarmos que a caravana continuava em andamento, e que só uma pessoa desenvolta e com uma grande dose de autoconfiança teria conseguido não cambalear.

 

- Então, pequena? - exclamou, parando, Mrs. Jarley, quando Nell se voltou para ela.

 

- Nós estamos-lhe muito gratos, minha senhora - disse Nell. - Agradecemos muito a sua oferta e aceitamos.

 

- E não se vão arrepender - respondeu Mrs. Jarley.

- Estou certa disso. E agora, que está tudo resolvido, vamos cear.

 

Entretanto, a caravana ia avançando aos bordos, como se também tivesse bebido cerveja forte, e tivesse ficado um pouco tonta, e chegou finalmente às ruas pavimentadas de uma cidade onde não se viam pessoas, muito sossegada, porque nesta altura já era quase meia-noite e toda a gente já estava deitada.

 

Como era muito tarde para se dirigirem para o recinto da exposição, seguiram para um terreno baldio mesmo ao pé da velha porta da cidade, e lá se instalaram para passar a noite, ao pé de outra caravana que, embora tivesse pintado sobre os painéis de um lado e do outro o glorioso nome dos Jarley e fosse utilizada para transportar de um lado para o outro as figuras de cera que eram o orgulho da sua terra, era designado, através de um simples carimbo oficial, como sendo um «vagão comum de teatro», e tinha o número sete mil cento e qualquer coisa, como se a sua preciosa carga fosse apenas farinha ou carvão.

 

O infeliz vagão tinha depositado a sua carga no recinto da exposição e tinha vindo estacionar aqui até que os seus serviços fossem de novo necessários, tendo assim ficado vazio, pelo que foi decidido que o velho dormiria dentro dele.

 

Entre as suas paredes de madeira, Nell preparou-lhe a melhor cama que pode, com aquilo de que dispunha. Quanto a ela, dormiria na caravana da própria Mrs. Jarley, como prova da amizade e confiança da sua proprietária.

 

A garota tinha dado as boas noites ao avô e preparava-se para regressar ao outro vagão quando a agradável frescura da noite a tentou a dar um pequeno passeio para tomar ar. A Lua brilhava junto à antiga porta da cidade deixando a passagem em abóbada envolta em sombras. Com uma sensação que era um misto de curiosidade e de medo, aproximou-se da porta e deixou-se ficar muito quieta a olhar para cima, admirada de a ver tão negra, tão velha, tão fria.

 

Havia um nicho vazio de onde alguma antiga estátua caíra, ou fora levada, séculos atrás, e ela estava a pensar nas estranhas pessoas que a estátua devia ter visto quando estava lá em cima, nas lutas que devia ter presenciado, nos assassínios que talvez tivesse testemunhado naquele lugar silencioso, quando de repente, do lado mais escuro da arcada, surgiu um homem. Ela reconheceu-o nesse mesmo instante. Quem não teria reconhecido, naquele momento, o horrível, disforme Quilp?

 

A rua por detrás era tão estreita, e a sombra das casas de um dos lados era tão densa, que ele parecia ter emergido da terra. Mas ali estava ele. A criança encostou-se a um canto escuro e viu-o passar muito perto dela. Levava um cacete na mão, e assim que saiu da sombra do arco apoiouse nele, olhou para trás, parecendo que olhava exactamente para o sítio onde ela se encontrava, e acenou com a mão.

 

Para ela? Oh, não, graças a Deus, não era para ela, pois enquanto ela ficara paralisada de medo, sem saber se havia de gritar por socorro ou havia de sair do seu esconderijo e começar a correr, antes que ele se aproximasse mais, outra figura surgiu então de debaixo do arco, o vulto de um rapaz que carregava às costas uma grande mala.

 

- Mais depressa, malandro! - disse Quilp olhando para cima para a velha porta, e surgindo à luz da Lua como uma estátua que tivesse caído do nicho e lançasse um último olhar à sua velha morada. - Mais depressa!

 

- A mala pesa muito - desculpou-se o rapaz - e mesmo assim, tenho vindo depressa.

 

- Tens vindo depressa? - retorquiu Quilp. - Tens vindo a rastejar, cão! Tens vindo a correr como um caracol! Estás a ouvir as badaladas? Meia-noite e meia!

 

Parou à escuta, e então, voltando-se para o rapaz bruscamente e com uma ferocidade tal que o rapaz se sobressaltou, perguntou a que horas é que a malaposta de Londres passava naquela esquina. O rapaz respondeu que era à uma.

 

- Despacha-te - disse Quilp, - senão vou-me atrasar. Mais depressa, ouviste? Mais depressa!

 

O rapaz ia o mais depressa que podia, e Quilp ia à frente voltando-se muitas vezes para trás, a ameaçá-lo e a mandá-lo ir mais depressa. Nell não se atreveu a mexer-se até que já não os via nem os ouvia, e correu então até ao sítio onde tinha deixado ficar o avô, sentindo que o simples facto de o anão ter passado tão perto dele o devia ter enchido de susto e terror. Mas ele dormia profundamente, e ela afastou-se sem fazer barulho.

 

Enquanto seguia a caminho da caravana, onde se ia deitar, decidiu não contar esta aventura a ninguém, pois, fosse qual fosse o motivo que obrigara o anão a deslocarse até tão longe, e ela desconfiava que ele devia andar à procura deles, era claro, pela pergunta que ele tinha feito sobre o horário da malaposta, que estava de regresso a casa, e como já tinha passado por ali, era razoável supor que aquele sítio era agora mais seguro para eles do que outro qualquer.

 

Estes pensamentos não conseguiam no entanto desvanecer-lhe o medo, porque tinha ficado demasiado aterrorizada para se conseguir recompor assim com tanta facilidade, e sentia-se como se à volta dela existissem uma legião de Quilps, e o próprio ar estivesse infestado deles.

 

O encanto da nobreza e das pessoas finas, protegida pela família real, por um qualquer processo de encolhimento conhecido apenas de si própria, tinha-se metido na sua cama de viagem, onde ressonava placidamente, enquanto a sua enorme touca, cuidadosamente pousada sobre o tambor, mostrava as suas glórias à fraca luz de um candeeiro que pendia do tecto.

 

A cama para a pequena estava já preparada no chão, e foi para ela um grande alívio sentir que os degraus da carripana eram retirados mal ela tinha acabado de entrar, e saber que qualquer comunicação entre as pessoas de fora e a aldraba de latão ficava assim impossibilitada. Alguns sons guturais que de tempos a tempos se ouviam através do chão da caravana, e o restolhar da palha, informaram-na de que o cocheiro estava deitado debaixo do carro, e isto fê-la sentir um pouco mais segura.

 

Apesar desta protecção, a criança não conseguiu dormir descansada toda a noite, pois acordava com medo de Quilp, que lhe aparecia, nos seus sonhos agitados, de alguma forma semelhante aos bonecos de cera, ou era ele próprio feito de cera, ou era Mrs. Jarley e também uma figura de cera, ou era ao mesmo tempo ele próprio, Mrs. Jarley, uma figura de cera e um realejo, sem contudo ser nenhuma dessas coisas. Por fim, rompia já a alvorada, sentiu aquele sono que se segue ao cansaço e à vigília, e no qual se perde a consciência de tudo, excepto de um prazer intenso e irresistível.

 

O sono pesou-lhe tanto sobre as pálpebras que, quando acordou, já Mrs. Jarley se tinha enfeitado com a sua grande touca e se afadigava a preparar o almoço. Recebeu bem disposta as desculpas que Nelly lhe apresentou pelo atraso, e disse-lhe que não a teria acordado nem que ela tivesse dormido até ao meio-dia.

 

Porque é bom para a saúde - disse a senhora da caravana, - quando estamos cansados, dormirmos até termos vontade, eliminando assim toda a fadiga, e isso é outra benção da juventude, conseguir passar uma boa noite de sono.

 

- A senhora dormiu mal? - perguntou Nell.

 

- Raramente durmo bem, minha filha - respondeu Mrs. Jarley com ar de mártir. - Às vezes nem sei como é que consigo aguentar.

 

Nell lembrou-se então dos roncos que tinha ouvido, provenientes do cubículo onde a proprietária das figuras de cera passava a noite, e pensou que ela devia ter sonhado que estava acordada. Mostrou-se no entanto muito contristada por saber que a sua protectora estava tão mal de saúde, e pouco depois estava sentada com Mrs. Jarley e o avô para tomar o pequeno-almoço.

 

Terminada a refeição, Nell ajudou a lavar as chávenas e os pratos e arrumou-os nos seus sítios, e assim que esta tarefa caseira ficou terminada Mrs. Jarley envolveu-se num xaile incrivelmente garrido com o propósito de ir dar um passeio pelas ruas da cidade.

 

O vagão há-de vir buscar as caixas, minha filha, e tu podes seguir nele. Eu, pela minha parte, tenho de ir a pé, muito contra a minha vontade, mas as pessoas esperam isso de mim, e as figuras públicas, no que diz respeito a estas coisas, não são senhoras de si próprias. Estou com bom aspecto, pequena?

 

Nell deu-lhe uma resposta satisfatória, e Mrs Jarley, depois de espetar um grande número de alfinetes em diversos pontos do seu vestido, e fazendo em vão várias tentativas para conseguir obter uma vista completa da sua figura de costas, ficou por fim satisfeita com a sua aparência, e saiu com ar majestoso.

 

A caravana seguiu-a de perto. À medida que avançava, balançando, pelas ruas, Nell ia espreitando pela janela, curiosa por saber que tipo de sítio era aquele em que estavam, e por outro lado com receio de ver a qualquer momento a carantonha horrenda de Quilp.

 

Era uma grande cidade com um grande largo que eles iam atravessando devagar, e no meio do qual estava a Câmara Municipal, com a sua torre de relógio e o seu catavento. Havia casas de pedra, casas de tijolo vermelho, casas de tijolo amarelo, casas de vigas e cimento e casas de madeira, algumas delas muito velhas, com carrancas esculpidas nos pilares, a olhar fixamente para a rua. Estas casas tinham janelas muito pequenas, e portas baixas em arco que, em certas ruas mais estreitas, se elevavam pouco acima do solo. As ruas eram muito limpas, muito cheias de sol, muito pouco movimentadas e muito monótonas.

 

Alguns homens preguiçavam nas imediações das duas estalagens, do mercado, que estava vazio, e das lojas. Do lado de fora do muro de um asilo estavam alguns velhos sentados a dormitar. Eram poucos os transeuntes que pareciam ir de ou para algum lugar, levados por alguma razão específica. Quando por acaso passava alguém, os seus passos ficavam a ressoar no chão quente e brilhante ao longo de alguns minutos.

 

Nada parecia mover-se para além dos relógios, e até estes tinham rostos tão sonolentos, ponteiros tão pesados e preguiçosos e vozes tão roufenhas, que não podiam deixar de estar atrasados. Até a canzoada dormia, e as moscas, entorpecidas com o açúcar húmido do merceeiro, esqueciam as asas que tinham, e a sua vivacidade costumeira, e deixavam-se ficar a cozer pelo sol nos cantos poeirentos das janelas.

 

- Avançando barulhentamente, a caravana parou finalmente no recinto da exposição, onde Nell desceu no meio de um grupo de crianças que a olhavam com admiração, supondo certamente que ela fosse uma parte importante do espectáculo, e que ficaram profundamente impressionados, convictos de que o avô era um perfeito boneco de cera. As malas foram descarregadas com a necessária rapidez e levadas para dentro para serem abertas por Mrs. Jarley que, acompanhada por George e por um outro homem que usava calções de bombazina e um chapéu amachucado enfeitado com velhos bilhetes de passagem de pontes, aguardavam para distribuir o conteúdo dos ditos caixotes, que constava de festão vermelho e de alguns outros ornamentos decorativos, de forma a enfeitar o salão, tirando destes o melhor efeito decorativo possível.

 

Puseram-se todos ao trabalho sem perda de tempo, pois havia muito que fazer. Enquanto a estupenda colecção continuava envolvida em panos, a fim de que o pó não lhes sujasse maldosamente a pele, Nell tratava de ajudar a embelezar a sala e o avô foi também de grande utilidade. Os dois homens estavam muito habituados a fazer este trabalho, e assim conseguiam executá-lo a uma grande velocidade. Mrs. Jarley ia-lhes passando pequenos pregos de dentro de uma pequena bolsa de pano que usava para o efeito, como as dos cobradores de impostos, e encorajava os seus empregados no seu trabalho.

 

Enquanto estavam assim entretidos, surgiu à porta a sorrir amavelmente um cavalheiro alto, de nariz de gancho e cabelo preto. Vestia um sobretudo militar, cujas mangas lhe ficavam curtas e apertadas, e que em tempos certamente estivera coberto de dragonas e galões, mas apresentava agora um ar tristemente surrado e desprovido dos seus enfeites. Vestia também umas velhas calças cinzentas que lhe ficavam muito justas nas pernas, e uns sapatos de fivela já no fim da sua vida.

 

Como Mrs. Jarley estava voltada de costas para ele, o cavalheiro do sobretudo militar levantou o dedo indicador fazendo sinal aos empregados para não a avisarem da sua presença, aproximou-se dela, deu-lhe uma palmadinha no pescoço e exclamou com ar brincalhão - Uh!

 

- Ora esta, Mr. Slum! - exclamou a senhora das figuras de cera. - Santo Deus! Não estava à espera de o ver aqui.

 

- Eis uma boa observação - disse Mr. Slum. - Palavra de honra. Eis uma observação inteligente, palavra de honra. Como é que podia estar à espera de me ver? George, meu bom amigo, que tal vai isso?

 

George recebeu esta saudação com uma indiferença carrancuda, respondeu que não ia mal, e continuou a martelar com toda a força.

 

- Eu vim aqui - disse o cavalheiro voltando-se outra vez para Mrs. Jarley, - palavra de honra, nem sei muito bem o que vim cá fazer, seria difícil dizê-lo, com os diabos.


Andava à procura de um pouco de inspiração, a ver se refrescava as ideias, e... palavra de honra, isto está clássico como o diabo! Deus do céu, isto está positivamente minerviano!

 

- Vai ficar muito bem, quando estiver pronto - observou Mrs. Jarley.

 

- Muito bem? - disse Mr. Slum. - Acredita-me se lhe disser que a glória da minha vida é ter escrito poesia sobre esta maravilha? E.... a propósito, não há nenhuma encomenda? Não precisa que lhe faça alguma coisinha?

 

- Sai tão caro! - respondeu Mrs. Jarley. - E francamente, parece-me que não dá muito resultado.

 

- Chiu! Não, não! - retorquiu Mr. Slum levantando uma mão. - Não me queira enganar! Eu não quero nem ouvir uma coisa dessas! Não diga que não dá resultado. Não diga isso. Eu bem sei que dá!

 

- Não me parece - disse Mrs. Jarley.

 

- Ah! Já está a recuar, já está a mudar de ideias. Pergunte aos perfumistas, pergunte aos engraxadores, pergunte aos chapeleiros, pergunte aos vendedores de lotaria, pergunte a qualquer um deles o que os meus versos já fizeram crescer o seu negócio, e pode escrever o que lhe digo, ele só pode bendizer o nome de Slum. Se for um homem honesto, ele há-de levantar os olhos aos céus e bendizer o nome de Slum, pode escrever isto. Conhece a Abadia de Westminster, Mrs. Jarley?

 

- Sim, claro.

 

- Então, palavra de honra, saiba que existe um certo ângulo, nesse triste edifício, chamado o «recanto dos poetas», onde estão alguns nomes bem mais pequenos que o de Slum - disse o cavalheiro batendo expressivamente na sua própria testa, como a atestar da quantidade de miolos existentes no seu interior. - Ora eu tenho aqui uma coisinha - disse Slum tirando o chapéu que estava cheio de pedaços de papel, - uma coisinha feita de improviso que lhe garanto que é exactamente aquilo de que a senhora precisa para pôr esta cidade ao rubro. É um acróstico, neste momento está com o nome de Warren, mas a ideia é perfeitamente adaptável, e um verdadeiro achado para a exposição Jarley. Compre-me o acróstico!

 

- Deve ser muito caro - disse Mrs. Jarley.

 

- Cinco xelins - respondeu Slum palitando os dentes com um lápis. Mais barato do que qualquer prosa.

 

- Não posso pagar mais de três - disse Mrs. Jarley.

 

- E seis pences - acrescentou Slum. - Três xelins e seis pences.

 

Mrs. Jarley não era exactamente imune ao poder de persuasão do poeta, e Mr. Slum tomou nota da encomenda por três xelins e seis pences. Mr. Slum retirou-se então para proceder à alteração do acróstico, não sem antes se despedir muito afectuosamente da sua protectora, e prometendo voltar rapidamente com o texto passado a limpo para ser impresso.

 

Como a sua presença não tinha de forma alguma interferido ou interrompido os preparativos, estes tinham levado um grande avanço, e pouco depois de ele sair o trabalho foi dado por terminado. Quando o festão foi colocado tão artisticamente quanto possível, as estátuas da estupenda colecção foram desenroladas dos panos que as envolviam e erguidas sobre uma plataforma a pouco mais de meio metro acima do solo, em redor da sala, e separadas do público mal educado por um grosso cordão vermelho.

 

As figuras representavam variadas personagens célebres, colocadas sós ou em grupos, vestindo trajes vistosos de várias nações e épocas, pouco seguras nas pernas, de olhos muito abertos, narinas muito abertas também, com os músculos das pernas e dos braços muito desenvolvidos, e expressando todos eles no rosto uma profunda surpresa. Os cavalheiros tinham, todos eles, papos de rola e queixos muito azulados, as damas tinham, todas elas, silhuetas miraculosas, e todos eles, homens e mulheres, pareciam dirigir o seu olhar expressivo para lado nenhum.

 

Depois de Nell exprimir toda a sua admiração por este magnífico espectáculo, Mrs. Jarley mandou que todos saíssem da sala à excepção dela própria e da garota, e sentandose no centro da sala numa cadeira de braços, entregou-lhe formalmente um ponteiro de vime que ela sempre utilizara para apontar as figuras, e começou a ensinar-lhe muito cuidadosamente o que deveria fazer.

 

- Aquela - disse Mrs. Jarley no seu tom de cicerone - é uma infeliz dama da corte da Rainha Isabel, que morreu de uma picadela num dedo, por estar a costurar ao domingo. Reparem nas gotas de sangue que tem no dedo, e na agulha de fundo dourado, da época, com que ela está a trabalhar.

 

Nell repetiu tudo isto duas ou três vezes apontando para o sangue e para a agulha no momento certo, e assim passaram às figuras seguintes.

 

Este, senhoras e senhores, é Jasper Packlemerton, de horrível memória, que namorou e se casou com catorze mulheres, e as matou a todas fazendo-lhes cócegas na sola dos pés, quando, segundo dizem, elas dormiam o sono que conhecia apenas a inocência e a virtude. Quando foi levado para o cadafalso, e lhe perguntaram se estava arrependido do que fizera, ele responeu que sim, que estava arrependido de não as ter feito sofrer mais, e que esperava que todos os maridos cristãos lhe perdoassem essa ofensa.

 

Que isto sirva de aviso a todas as jovens, para que ao escolherem marido, sejam exigentes quanto às suas qualidades de carácter. Reparem como tem este dedo encaracolado, como se estivesse a fazer cócegas a alguém, e o seu rosto é representado a piscar o olho, como fazia enquanto cometia os seus bárbaros crimes.

 

Quando Nell já sabia tudo sobre Mr. Packlemerton, e conseguia recitar sem hesitações, Mrs. Jarley passou então ao homem gordo, ao homem magro, ao homem alto, ao homem baixo, à velha senhora que morreu a dançar aos cento e trinta e dois anos, o rapaz selvagem da floresta, à mulher que envenenou catorze famílias com nozes de conserva, e outras personagens malvadas mas interessantes.

 

Nell soube aproveitar tão bem esta lição, e mostrou uma tal capacidade de memória, que ao fim de duas horas de estarem ali fechadas, já conhecia de uma ponta à outra a história de todas as figuras, e estava perfeitamente apta a esclarecer os visitantes.

 

Mrs. Jarley não lhe poupou os elogios por estes excelentes resultados, e levou a sua amiga e aluna consigo quando foi inspeccionar os outros arranjos, isto é, o corredor, que tinha sido todo coberto de verdura, na qual tinham sido penduradas as inscrições que ela já conhecia, produção de Mr. Slum, e uma mesa muito enfeitada colocada ao fundo para a própria Mrs. Jarley, e onde esta deveria assumir a presidência e cobrar as entradas, na companhia de Sua Majestade o Rei George III, Grimaldi vestido de palhaço, Maria Rainha de Escócia, um cavalheiro anónimo da religião dos Quaker, e Mr. Pitt, segurando na mão uma cópia exacta da lei das janelas.

 

Os preparativos no exterior também não tinham sido negligenciados, pois sobre o pequeno pórtico por cima da porta estava uma linda freirinha a rezar o seu rosário, e um salteador de cabelo muito preto e pele muito clara atravessava nesse momento a cidade sobre um carro admirando uma miniatura de uma senhora.

 

Já só faltava distribuir criteriosamente as composições de Mr. Slum, fazer chegar os versos patéticos às casas particulares e ao comércio, fazer com que a brincadeira que começava por «Se eu tivesse um burro» circulasse apenas pelas tabernas, entre os estudantes de Direito e outros espíritos selectos do lugar.

 

Feito isto, Mrs. Jarley tinha visitado pessoalmente os estabelecimentos de ensino com um texto composto especialmente para esse fim, no qual se provava que as exposições de figuras de cera refinavam o gosto e alargavam a esfera dos conhecimentos humanos, e então a infatigável senhora sentou-se finalmente para jantar, bebendo da garrafa suspeita ao sucesso da exposição.

 

Não havia dúvida de que Mrs. Jarley era dotada de génio inventivo. Entre os vários estratagemas que tinha concebido para atrair visitantes à exposição, a pequena Nell foi também utilizada. No pequeno carro alegremente enfeitado com bandeiras e fitas em que o salteador era geralmente levado a passear pelas povoações, contemplando, como sempre, a miniatura da sua amada, acomodaram também Nell, sentada ao seu lado, rodeada de flores artificiais, e desta forma, e em grande pompa, todas as manhãs era passeada pela cidade, lentamente, distribuindo prospectos que ia tirando de um cesto, ao som de tambores e trombetas.

 

A beleza da criança e os seus modos doces e tímidos fizeram sensação na pequena cidade. O salteador, que até aí tinha sido o único alvo da atenção da população, passou para segundo plano, e se continuou a ter alguma importância, foi apenas por pertencer à companhia da qual a pequena era agora a atracção principal.

 

Os adultos interessavam-se agora muito pela rapariguinha de olhos brilhantes, e muitos rapazinhos se apaixonaram por ela perdidamente, e deixavam-lhe constantemente à porta encomendas de nozes e maçãs endereçadas na sua letrinha de garotos.

 

Esta boa impressão não passou despercebida a Mrs. Jarley que, pouco interessada em que a imagem de Nelly se tornasse demasiado banal, mandou que o carro continuasse a dar as suas voltas só com o salteador, e mantinha Nell na sala de exposições onde de meia em meia hora descrevia as figuras para grande satisfação dos maravilhados visitantes.

 

E estes visitantes eram pessoas de superior condição, incluindo meninas de colégios internos, para obter a simpatia dos quais Mrs. Jarley tinha transformado Mr. Grimaldi vestido de palhaço em Mr. Lindley Murrey ocupado na elaboração da sua Gramática da Língua Inglesa, e uma assassina famosa em Mrs. Hannah More, e o facto é que Miss Monflathers, directora do estabelecimento de ensino para alunas internas e externas mais famoso da cidade, lhes reconheceu as parecenças e condescendeu em vir ver a exposição com oito meninas selecionadas entre as mais bem educadas.

 

Mr. Pitt, de camisa e barrete de dormir, e sem as botas, representava perfeitamente o poeta Cowper, e Maria Rainha da Escócia, com uma cabeleira escura, camisa branca de colarinho e fato de homem, ficou tão parecida com Lord Byron que as meninas, quando o viram, se alvoroçaram todas. Mas Miss Monflathers refreou-lhes o entusiasmo e aproveitou a ocasião para censurar Mrs. Jarley por não ter seleccionado melhor as suas figuras, observando que Lord Byron tinha expresso algumas opiniões demasiado livres que o tornavam pouco merecedor da honra de figurar numa exposição daquelas, e acrescentou qualquer coisa acerca de um Deão e de um Capítulo, que Mrs. Jarley não compreendeu.

 

Embora tivesse de trabalhar bastante, Nell encontrou em Mrs. Jarley uma pessoa boa e compreensiva, que apreciava o bem-estar para si própria mas que gostava que as pessoas à sua volta estivessem confortáveis também, o que, se formos a ver, mesmo entre pessoas a viver em sítios muito mais luxuosos do que uma caravana, é uma qualidade muito mais rara de encontrar do que a primeira, e não constitui de forma alguma a sua natural consequência.

 

Além disso, como a sua popularidade lhe trazia algumas pequenas gorgetas dos visitantes, das quais a sua patroa não lhe pedia contas, e além disso o avô era bem tratado e realizava um trabalho útil, não tinha motivos de preocupação no que dizia respeito ao seu trabalho com as figuras de cera. Lembrava-se no entanto algumas vezes da noite em que tinha avistado Quilp, e receava que um dia, inesperadamente, ele pudesse voltar e encontrá-los.

 

Com efeito, Quilp era um perpétuo pesadelo para a pequena, que pensava constantemente do seu rosto horrível e do seu corpo disforme. Ela dormia, por uma questão de segurança, na sala onde estavam as figuras de cera, e nunca se retirava para lá que não começasse a torturar-se a si própria. Não conseguia evitá-lo. Começava a imaginar semelhanças entre um ou outro daqueles rostos que pareciam de mortos, com o anão, e a sua imaginação dominava-a de tal forma que chegava a imaginar que ele retirara a figura de cera de dentro de um dos fatos e se metera a ele próprio lá dentro. Muitas delas tinham os olhos vidrados como os dele, e como estavam colocadas umas mais à frente outras mais atrás, mas todas à volta da cama dela, pareciam-se tanto com pessoas vivas, e ao mesmo tempo eram tão esquisitas, assim imóveis e em silêncio, que chegavam a infundir-lhe terror.

 

Ela ficava muitas vezes ali deitada, a olhar as silhuetas fantasmagóricas, até que se via obrigada a levantar-se e a acender uma vela, ou a ir sentar-se junto da janela aberta, e pedir às estrelas que lhe fizessem companhia. Nessas alturas lembrava-se da sua velha casa, e da janela onde, sozinha, costumava ir sentar-se, e lembrava-se então do pobre Kit e da sua grande bondade, vinham-lhe lágrimas aos olhos, e então chorava e sorria ao mesmo tempo.

 

Muitas vezes, ansiosamente, a esta hora silenciosa, o seus pensamentos voavam em direcção ao avô, e perguntava-se até que ponto ele lembraria ele da vida que tinham deixado para trás, e se se daria conta da mudança que se tinha dado na sua vida e da fragilidade e abandono da sua vida actual. Quando andavam a viajar ela poucas vezes se lembrava disso, mas agora não podia deixar de pensar no que seria deles se ele adoecesse ou se a ela lhe faltassem as forças.

 

Ele tinha paciência e boa vontade, ficava feliz quando o encarregavam de alguma pequena tarefa e o faziam sentir-se útil. Mas ao mesmo tempo continuava no mesmo estado de inacção, sem melhoras visíveis. Como uma criança. Uma pobre criatura inconsciente e sem nada dentro da cabeça, um pobre velho afectuoso e inofensivo, capaz de ternura e de cuidados em relação à neta, e de sensações agradáveis e desagradáveis, mas apático em relação a tudo o resto. Ela ficava muito triste ao ver tudo isto, tão triste que por vezes, quando ele se sentava, quieto, ao pé dela, sorrindo e abanando a cabeça quando ela se voltava para ele, ou quando ele acariciava alguma criança, e andava com ela ao colo para cá e para lá, durante horas, absorto nos seus pensamentos, simples e paciente perante a sua própria doença, quase parecendo ter consciência dela, humilde até com as crianças, ela ficava tão triste quando assim o via que começava a chorar, escondia-se nalgum lugar mais isolado, caía de joelhos e rezava pelo restabelecimento dele.

 

Mas a amargura da sua dor não provinha do facto de o ver neste estado, porque pelo menos ele vivia contente e tranquilo, nem de o ver pensativo após as alterações que a sua vida tinha sofrido, embora estas fossem já duras provações para um coração tão jovem. Esperava-a um desgosto mais profundo e mais pesado.

 

Um dia, ao entardecer, era o seu dia de descanso, Nell e o avô foram dar um passeio. Há alguns dias que não saíam, o tempo estava quente, e afastaram-se bastante. Saíram as portas cia cidade e tomaram um atalho que os levou por alguns campos aprazíveis, calculando que esse caminho terminaria de novo na estrada que tinham deixado, permitindo-lhes assim regressar. Este dava, no entanto, uma volta muito maior do que eles supunham, e foram assim obrigados a caminhar até ao pôr-do-sol. Nessa altura encontraram a estrada principal e sentaram-se para descansar.

 

Aos poucos e poucos tinha caído a noite, e o céu estava agora escuro e assustador, excepto no sítio onde um sol poente glorioso espalhava manchas de ouro e de fogo ardente, com brasas incandescentes, aqui e ali, através do véu negro, que brilhavam, vermelhas, sobre a terra.

 

O vento começou então a soprar com fortes rajadas, o Sol desapareceu levando consigo o dia claro e alegre, e uma fila de nuvens negras começaram a aproximar-se, trazendo consigo a ameaça de uma trovoada. Começaram então a cair grossas gotas de chuva, e à medida que as nuvens do temporal avançavam rapidamente, outras tomavam o seu lugar, encobrindo todo o céu. Ouviu-se então a trovoada que rebentava ao longe, surgiram os primeiros relâmpagos e então a escuridão que há uma hora se vinha formando pareceu juntar-se toda num instante.

 

Com medo de se abrigarem debaixo de uma árvore ou de uma sebe, o velho e a criança começaram a correr ao longo da estrada, esperando encontrar uma casa onde pudessem abrigar-se da tempestade que rebentava agora em toda a sua força e a cada momento se tornava mais violenta. Encharcados pela chuva torrencial, assustados pelos trovões ensurdecedores, teriam passado por uma casa próxima sem a ver se um homem que estava à porta não lhes tivesse gritado que entrassem.

 

- Os vossos ouvidos devem ser melhores do que os das outras pessoas, com certeza, se vocês não têm medo de ficar cegos com uma faísca - disse ele encolhendo-se para dentro e protegendo os olhos com as mãos quando voltou a relampejar. - Então, não queriam parar? - acrescentou ele fechando a porta e conduzindo-os por um corredor até uma sala nas traseiras.

 

- Nós só vimos a casa quando o senhor nos chamou - respondeu Nell.

 

- Não admira - disse o homem, - com estes relâmpagos tão fortes. É melhor vocês ficarem aqui ao pé da lareira, a enxugar um bocado. Podem pedir o que quiserem. E se não quiserem tomar nada, também não são obrigados. Isto é só uma hospedaria. O Soldado Valente. É muito conhecida por estas bandas.

 

- Esta casa chama-se O Soldado Valente? - perguntou Nelly.

 

- Pensava que toda a gente sabia isso - respondeu o hospedeiro. - De onde é que vocês vêm, para não conhecerem O Soldado Valente tão bem como o catecismo? Esta casa é O Soldado Valente, de James Groves. Jem Groves, o honrado Jem Groves, um homem de carácter e boa reputação que também tem um bom terreno seco para jogar a malha. E se alguém tem alguma coisa a dizer contra Jem Groves, que o diga na cara dele, que Jem Groves é homem para qualquer um, seja rico ou seja pobre.

 

Com estas palavras, o homem que assim falava bateu no colete, de forma a esclarecer que era ele próprio a personagem que tanto elogiava. Em seguida fez um gesto de desafio ao retrato de Jem Groves que olhava para a assistência do alto de uma moldura preta pendurada por cima da chaminé. Em seguida levou à boca o copo com aguardente e água, e bebeu à saúde de Jem Groves.

 

Como a noite estava amena, havia um grande biombo no meio da sala para cortar um pouco o calor da lareira. Era como se alguém do outro lado do biombo tivesse deixado transparecer algumas dúvidas em relação às qualidades de Mr. Groves, dando assim origem a estas palavras egocêntricas, porque Mr. Groves rematou o seu desabafo com uma pancada sonora no biombo, como se esperasse que do outro lado lhe chegasse uma resposta.

 

- Não há ninguém - disse Mr. Groves ao ver que não recebia resposta - que se atreva a vir desafiar Jem Groves na sua própria casa. Só há um homem capaz disso, e esse não está a mais de cem quilómetros daqui, mas é um homem que vale por uma dúzia, e por isso pode dizer de mim o que quiser, e ele sabe disso.

 

Em resposta a este lisonjeiro discurso, oviu-se uma voz muito áspera e rouca dizer a Mr. Groves que parasse de fazer barulho e acendesse uma vela. A mesma voz acrescentou que Mr. Groves não precisava de gastar o seu latim com basófias, porque as pessoas sabiam muito bem de que massa ele era feito.

 

- Nell, eles estão... estão a jogar às cartas - segredou o velho subitamente interessado. - Não ouves?

 

- Despache-se com essa vela - disse a voz - mal se conseguem ver as pintas nas cartas. E feche a persiana assim que puder, sim? A cerveja, com a trovoada, ainda é capaz de ficar pior do que já é. Jogo! Sete.xelins e seis pences para cá, velho Isaac! Deixa ver!

 

- Estás a ouvir, Nell? Estás a ouvi-los? - segredou de novo o velho, cada vez mais ansioso, ao ouvir o dinheiro tilintar sobre a mesa.

 

- Já não via um temporal assim - disse uma desagradável voz de falsete quando um terrível trovão se calou lentamente - desde a noite em que o velho Luke Withers ganhou treze vezes seguidas no vermelho. Todos dissemos que ele estava com uma sorte dos diabos. E era uma daquelas noites em que o diabo anda à solta. Devia estar ali mesmo, debruçado sobre o ombro dele, nós é que não o víamos.

 

- Ah! - voltou a voz rouca. - Apesar de todas as vezes que o velho Luke ganhou nestes últimos anos, eu ainda me lembro de quando ele era o mais infeliz e azarado dos homens. Sempre que pegava nos dados ou nas cartas, ficava teso, depenado, completamente limpo.

 

- Estás a ouvir o que ele está a dizer? - segredou o velho. - Estás a ouvir, Nell?

 

A criança observou com surpresa e alarme que toda a aparência dele tinha sofrido uma brusca mudança. Tinha o rosto corado e com uma expressão de avidez, os olhos esbugalhados, os dentes cerrados, a respiração ofegante e a mão que lhe pousou sobre o ombro tremia de tal forma que ela não podia deixar de tremer também debaixo daquela pressão.

 

- Vocês sabem - murmurou ele olhando para cima - que eu sempre disse, que eu já sabia, já sonhava, sentia que era verdade, que tinha de acontecer! Que dinheiro temos nós, Nell? Vá, eu vi-te ontem com dinheiro. Que dinheiro temos nós? Dá-mo!

 

- Não, não, deixe-me ficar com ele, avô - disse a criança assustada. - Vamo-nos embora daqui. Não se rale com a chuva, por favor vamo-nos embora.

 

- Dá-mo, já te disse - voltou o velho asperamente.

- Chiu, chiu, não chores, Nell, se eu falei de um modo mais brusco, minha querida, foi sem querer. É para teu bem! Prejudiquei-te, Nell, mas ainda vou a tempo de te compensar. Vou, sim. Onde está o dinheiro?

 

- Não mo tire! - disse a criança. - Por favor, querido avô, não mo tire! Para o bem de ambos, deixe que eu o guarde, ou deixe-me atirá-lo fora. Preferia deitá-lo fora a dar-lho neste momento. Vamo-nos embora, vamos!

 

- Dá-me o dinheiro - repetiu o velho. - Preciso dele agora. Isso, isso, linda menina. Ainda te hei-de compensar um dia, minha filha, ainda te hei-de compensar, não tenhas medo!

 

Ela então tirou da algibeira uma pequena bolsa. Ele agarrou-a com a mesma rápida impaciência com que lhe tinha falado, e dirigiu-se bruscamente ao outro lado do biombo. Era impossível refreá-lo, e a criança foi atrás dele, a tremer.

 

O hospedeiro tinha colocado uma vela em cima da mesa, e estava a fechar as cortinas das janelas. As vozes que tinham ouvido eram de dois homens que tinham um baralho cie cartas e algumas moedas de prata na sua frente, e marcavam os jogos a giz, sobre o biombo que tinham atrás de si. O homem da voz grossa era um indivíduo forte, de meia idade, com duas grandes suíças pretas, cara larga, uma boca grande e grosseira, pescoço de touro à mostra, pois para além do colarinho da camisa, só tinha um lenço vermelho com um nó largo. Tinha um chapéu branco sujo, e ao lado tinha um cacete cheio de nós. O outro homem, a quem o companheiro chamara Isaac, era mais esguio. Tinha os ombros altos, as costas curvadas e um rosto desagradável com um olho torto, mau e sinistro.

 

- Então, cavalheiro? - disse Isaac olhando em volta. - O senhor conhece algum de nós? Este lado do biombo é reservado.

 

- Espero não vir incomodar... - respondeu o velho.

 

- Pois por Deus, é claro que está a incomodar - disse o outro interrompendo-o. - Quando se permite vir interromper dois cavalheiros que estão ocupados...

 

- Não queria incomodar - disse o velho olhando ansiosamente para as cartas. - Pensei que...

 

- Mas não tinha nada que pensar, cavalheiro - retorquiu o outro. - Que diabo é que um homem da sua idade tem que pensar?

 

- Então, Isaac? - disse o hometn mais forte levantando os olhos das cartas pela primeira vez. - Não és capaz de o deixar falar?

 

O hospedeiro, que aparentemente tinha resolvido manter-se neutro até ver para que lado pendia o homem mais forte, disse de lá do seu canto: - Pois claro, não és capaz de o deixar falar, Isaac List?

 

- Não sou capaz de o deixar falar? - respondeu Isaac de modo trocista, imitando o melhor que podia, todo esganiçado, a voz do hospedeiro. - Sim, posso deixá-lo falar, Jemmy Groves.

 

- Então deixa, está bem? - disse o hospedeiro.

 

O olho torto de Mr. List tomou então um ar ameaçador, que parecia pronto a recomeçar a discussão, quando o seu companheiro, que tinha estado a observar o velho atentamente, pôs fim à questão.

 

- Quem sabe - disse ele com um olhar matreiro, - se o cavalheiro apenas pretenderia perguntar delicadamente se podia fazer um joguinho connosco?

 

- Era o que eu pretendia - exclamou o velho, - é o que eu pretendo, é o que eu desejo fazer neste momento.

 

- Foi o que eu pensei - exclamou o outro. - Por isso, quem sabe se o cavalheiro, compreendendo a nossa relutância em jogar apenas por prazer, quererá ter a amabilidade de jogar a dinheiro?

 

O velho respondeu fazendo tilintar a pequena bolsa na sua mão ávida, e agarrando-se às cartas como um avarento se agarra ao seu ouro.

 

- Oh! Está bem! - disse Isaac. - Se era isso que o cavalheiro pretendia, eu peco-lhe as minhas desculpas. E esta é a bolsinha do cavalheiro? Que linda bolsinha. Um bocadinho leve - acrescentou Isaac, atirando-a ao ar e apanhando-a habilmente, - mas contém o suficiente para entreter um cavalheiro durante meia hora, ou coisa parecida.

 

- Vamos jogar a quatro, com o Groves - disse o homem forte. - Vem, Jemmy.

 

O hospedeiro, que se comportava como alguém que estava perfeitamente habituado a estas situações, aproximou-se da mesa e sentou-se. A criança, numa verdadeira agonia, chamou o avô de parte e voltou a implorar-lhe, uma vez mais, que se viesse embora.

 

- Vamos! Podemos ainda ser tão felizes!

 

- Nós vamos ser felizes - respondeu o velho asperamente. - Deixa-me ir, Nell. É pelos dados e pelas cartas que se alcança a felicidade. Dos pequenos ganhos passaremos aos grandes. Há pouco a ganhar aqui, mas com o tempo lá havemos de chegar. Ganharei apenas o que me pertence, e é tudo para ti, minha querida!

 

- Valha-nos Deus! - exclamou a criança. - Oh! Que triste destino nos conduziu aqui!

 

- Chiu! - respondeu-lhe o velho, colocando a mão em frente da boca dela. - A sorte não gosta de ser criticada. Quando a criticamos ela foge-nos, isso foi uma coisa que eu descobri.

 

- Então, cavalheiro - disse o homem forte, - se o senhor não vem jogar, faça o favor de nos dar as cartas.

 

-Já vou! - exclamou o velho. - Senta-te, Nell, senta-te aí a assistir. Não percas a coragem, é tudo para ti, tudo, cada penny! Eu não lhes digo isso, não, não, eles já não iam querer jogar, com receio de que a justiça da minha causa pusesse a sorte do meu lado. Olha para eles. Vê o que eles são, e o que tu és. Alguém pode duvidar de que nós temos de ganhar?

 

- O cavalheiro pensou melhor, e decidiu não vir - disse Isaac fazendo menção de se levantar da mesa. - Tenho muita pena que perdesse a coragem... quem não arrisca não petisca... mas enfim, o senhor lá sabe o que faz.

 

- Mas eu estou pronto. Se alguém se demorou não fui eu.

- disse o velho. - Ninguém deve estar mais desejoso de começar do que eu.

 

Enquanto falava puxou uma cadeira para a mesa, ao mesmo tempo as outras três também se aproximaram, e o jogo começou.

 

A garota sentou-se ao lado e ficou, numa tremenda aflição, a ver o desenrolar do jogo. Sem reparar no que a sorte ia decidindo, preocupada apenas com a paixão desesperada que se apoderara do avô, as perdas e os ganhos eram para ela a mesma coisa. Exultando quando conseguia uma pequena vitória, abatido de cada vez que perdia, ali estava, inquieto, angustiado, de tal forma febril e intensamente ansioso, tão terrivelmente ávido e ganancioso pelas pequenas quantias que estavam em jogo, que ela quase teria preferido vê-lo morto. E, no entanto, era ela, a inocente causa desta tortura, e ele, enquanto jogava com uma sede selvagem de ganhar como o mais insaciável dos jogadores nunca sentiu, não havia nele um único pensamento egoísta.

 

Pelo contrário, os outros três, batoteiros, jogadores profissionais, atentos ao jogo, estavam tão calmos e serenos como se no seu peito se albergassem todas as virtudes. Por vezes um deles levantava os olhos, sorria para um dos outros, espevitava o morrão da vela, observava um relâmpago através da janela e da cortina que flutuava, ou ouvia um trovão mais forte, com uma espécie de momentânea impaciência, como se estivesse a ser importunado, e ali estavam sentados, com uma calma indiferença a tudo o que não fossem as suas cartas, com um ar de verdadeiros filósofos, aparentando tanta paixão e tanto enervamento como se fossem feitos de pedra.

 

A tempestade tinha rugido ao longo de três horas. Os relâmpagos eram agora mais fracos e menos frequentes. Os trovões, que ao princípio parecia que rebentavam mesmo por cima das cabeças deles, soavam agora mais longe, e entretanto o jogo continuava, e a ansiosa garota estava abandonada e esquecida.

 

O jogo por fim terminou, e Mrs Isaac List levantou-se depois de ganhar para todos. Mat e o hospedeiro encararam a sua derrota com o desportivismo de jogadores profissionais.

 

Isaac guardou os seus ganhos com o ar de um homem que ganhara porque assim tinha decidido, e não se mostrava surpreendido ou particularmente satisfeito.

 

A pequena bolsa de Nell estava despojada do seu conteúdo, mas embora ali estivesse, vazia, ao lado dele, e os outros jogadores se tivessem já levantado da mesa, o velho continuava sentado, a dar as cartas, e voltando cada rodada para ver que carta teria calhado a cada um deles se tivessem continuado a jogar. Estava perfeitamente absorto, assim ocupado, quando a criança se aproximou dele, lhe pousou a mão sobre o ombro, e lhe disse que era meia-noite.

 

- Vê o que é ser pobre, Nell - disse ele apontando para os montes que tinha espalhado sobre a mesa. - Se eu tivesse continuado mais um bocadinho, só mais um bocadinho, a sorte teria voltado a estar do meu lado. Sim, vejo isso tão claramente como vejo as pintas das cartas. Vê aqui... e aqui... e aqui outra vez...

 

- Deixe lá as cartas - pediu a garota. - Tente esquecê-las.

 

- Tentar esquece -Ias? - retorquiu ele voltando para ela o rosto angustiado e olhando-a com espanto. - Esquece -Ias? Como é que vamos ficar ricos, se eu as esquecer?

 

A pequena só conseguia abanar a cabeça.

 

- Não, não, Nell!


- disse o velho acariciando-lhe o rosto.

- Não posso esquecê-las, temos de emendar isto assim que pudermos. Paciência! Paciência, e ainda havemos de recuperar tudo, prometo-te. Perde-se hoje, ganha-se amanhã. E nada se consegue sem passar por ansiedades e cuidados, nada. Vamos, estou pronto.

 

- Sabe que horas são? - disse Mr. Groves que fumava com os amigos. - Passa da meia-noite...

 

- E uma noite de chuva - acrescentou o homem forte.

 

- O Soldado Valente, proprietário James Groves. Boas camas, acomodações baratas para homens e animais - disse Mr. Groves mostrando a tabuleta. - Meia-noite e meia.

 

- É muito tarde - disse aflita a criança. - Devíamo-nos ter ido embora mais cedo. O que é que eles irão pensar de nós?

 

Não vamos chegar antes das duas da manhã. Quanto nos levaria o senhor, se quiséssemoa passar aqui a noite?

 

- Duas boas camas, dois xelins e seis pences - respondeu o Valente Soldado.

 

Ora Nell ainda tinha a moeda de ouro cosida na bainha do vestido, e quando começou a pensar na hora tardia que era, nos hábitos de sono de Mrs. Jarley, e a imaginar o estado de consternação da boa senhora se fosse acordada a meio da noite, e reflectindo, por outro lado, que se ficassem onde estavam, e se levantassem de manhã muito cedo, talvez conseguissem lá chegar antes de ela acordar, e que poderiam invocar a violência da tempestade que os tinha retido como uma boa desculpa para a sua ausência.

 

Assim, e depois de muita hesitação, decidiu ficar. Chamou de parte o avô, e disse-lhe que tinha ainda o suficiente para pagar o custo do alojamento, pelo que achava que deveriam ficar ali a noite.

 

- Se eu tivesse tido esse dinheiro antes, se tivesse sabido há uns momentos atrás! - murmurou o velho.

 

- Decidimos passar aqui a noite, se o senhor não se importa - disse Nell voltando-se com vivacidade para o hospedeiro.

 

- Acho que é mais prudente - respondeu Mr. Groves. - A vossa ceia já vai ser servida.

 

Com efeito, quando Mr. Groves acabou de fumar o seu cachimbo até ao fim, despejou a cinza e o arrumou cuidadosamente, voltado para baixo, a um canto da lareira, foi buscar pão, queijo e cerveja, elogiando muito a excelência destes produtos, e convidou os seus hóspedes a comer e a estarem à vontade. Nell e o avô pouco comeram, ocupados cada um deles com os seus próprios pensamentos. Os outros cavalheiros, para quem a cerveja era uma bebida muito fraca e sem sabor, consolavam-se com aguardente e tabaco.

 

Como iam partir de manhã muito cedo, a garota estava ansiosa por pagar a hospedagem antes de se irem deitar. No entanto, sentindo a necessidade de esconder do avô o seu pequeno pecúlio, e como tinha de trocar a moeda de ouro, tirou-a discretamente do local onde se encontrava, arranjou maneira de ir atrás do hospedeiro quando este saiu da sala e estendeu-lha por cima do balcão.

 

- Importa-se de me dar o troco aqui, por favor? - disse a criança.

 

Mr. James Groves ficou evidentemente surpreendido, olhou para o dinheiro, bateu com ele no balcão, olhou para a garota, olhou outra vez para o dinheiro, e pensou em perguntar-Ihe como é que uma moeda de ouro lhe tinha vindo parar às mãos. No entanto, como a moeda era verdadeira, e estava a ser trocada na sua casa, ele provavelmente pensou, como um hospedeiro sensato, que o assunto não lhe dizia respeito. Fosse como fosse, contou o troco e deu-o à pequena.

 

Quando regressava à sala, pareceu-lhe ver um vulto esgueirar-se pela porta. Não existia mais nada entre esta porta e o local onde tinha trocado o dinheiro e, como tinha a certeza que ninguém tinha entrado nem saído enquanto ela ali estivera, pensou por um instante que estava a ser observada.

 

Mas por quem? Quando voltou a entrar na sala encontrou todos exactamente como os tinha deixado. O homem gordo estava deitado em cima de duas cadeiras, com a cabeça apoiada sobre a mão, e o homem do olho torto descansava numa atitude semelhante do outro lado da mesa. No meio dos dois estava o avô, olhando fixamente para o vencedor com uma espécie de admiração esfomeada, e escutando as suas palavras como se ele fosse uma espécie de ser superior.

 

Ficou intrigada por um momento, e olhou à volta para se certificar de que não estava mais ninguém na sala. Não estava. Perguntou então ao avô, em voz segredada, se alguém tinha entrado ou saído da sala enquanto ela se ausentara.

 

- Não, ninguém - disse ele.

 

Então devia ter sido a sua imaginação. E no entanto... era estranho que tivesse visto o vulto tão nitidamente, sem antes ter tido nenhum pensamento que pudesse tê-la sugestionado. Estava ainda às voltas a matutar nisto, quando veio uma rapariga com uma vela para a conduzir ao seu quarto.

 

O velho despediu-se ao mesmo tempo, e foram juntos para cima. Era uma casa muito grande, com corredores sombrios e grandes escadarias, que a luz das velas fazia parecer sinistra. Deixou o avô no quarto e seguiu a rapariga até àquele que tinha sido preparado para ela, e que estava situado no fim de um corredor, ao cimo de meia dúzia de degraus meios soltos.

 

A rapariga demorou-se um pouco a conversar e a fazer as suas queixas. Disse que não”gostava do emprego que tinha. O salário era baixo e o trabalho duro. Ia-se despedir daí a quinze dias. A menina não saberia por acaso de outro para onde pudesse recomendá-la? Para dizer a verdade, receava não encontrar com facilidade outra colocação, depois de ter trabalhado ali, porque a casa não tinha muito boa reputação. Jogava-se muito às cartas, e coisas assim. Ou ela estava muito enganada, ou algumas das pessoas que ali vinham mais vezes não eram tão sérias como se pretenderia, mas Deus a livrasse que eles soubessem que ela tinha dito semelhante coisa. Em seguida aludiu vagamente a um namorado rejeitado que ameaçara fazer-se soldado. Por fim prometeu bater à porta no dia seguinte logo ao alvorecer, e deu as boas noites.

 

A criança não se sentia nem um pouco tranquila, no momento em que ficou sozinha. Não conseguia deixar de pensar no vulto que vira esgueirar-se pelo corredor, no andar de baixo. Além disso, o que a rapariga lhe contara também não era muito tranquilizador. Os homens tinham bastante mau aspecto. Podiam viver de matar e roubar os viajantes, quem poderia saber?

 

Quando conseguiu convencer-se de que os seus receios eram infundados, ou conseguiu pelo menos afastá-los um pouco, veio então a inquietação provocada pelas aventuras dessa noite. O antigo vício tinha de novo despertado no coração do avô, e só Deus sabia até onde ele poderia levá-lo!

 

E a aflição que a ausência deles devia ter causado? Talvez àquela hora andassem pessoas à procura deles! Seriam perdoados no dia seguinte? Ou teriam de recomeçar de novo a sua caminhada sem destino? Oh! Porque haviam eles de ter parado naquela casa tão estranha? Teria sido preferível, em quaisquer circunstâncias, terem continuado o seu caminho.

 

Por fim, o sono desceu sobre ela devagarinho. Um sono agitado, interrompido, perturbado por sonhos em que caía do alto de torres muito altas, e acordava em sobressalto, aterrorizada. Seguiu-se depois um sono mais pesado, e depois... o quê? Aquele vulto no seu quarto?

 

Estava ali um vulto. Sim, ela tinha puxado a cortina para deixar entrar a luz quando amanhecesse, e ali estava, entre os pés da cama e o caixilho escuro da janela, agachado, tacteando o seu caminho às apalpadelas, sem fazer barulho, contornando a cama. Ela não tinha voz para gritar por ajuda, nem forças para se mexer, e ali ficou, imóvel, a olhar.

 

O vulto avançava, avançava, silencioso, sorrateiro, até à cabeceira da cama. O bafo dele estava tão próximo da almofada que ela recuou, não fossem as suas mãos tocar-lhe o rosto. Em seguida aproximou-se outra vez da janela e voltou o rosto na direcção dela.

 

O vulto era apenas uma mancha na escuridão um pouco menos densa do quarto, mas Nell viu-o mover a cabeça e sentiu que os seus olhos a observavam, e os seus ouvidos estavam à escuta. Ali estava, tão quieto como ela. Depois, sem deixar de a observar, começou a fazer qualquer coisa com as mãos, até que ela ouviu o som de dinheiro a tilintar.

 

Aproximou-se então de novo, tão silencioso e sorrateiro como da primeira vez, voltou de novo a colocar ao lado da cama as roupas em que pegara, deixou-se cair sobre as mãos e os joelhos, e afastou-se de gatas. Agora que ela o ouvia mas não o via, parecia mover-se muito lentamente, a rastejar pelo chão. Por fim alcançou a porta e pôs-se de pé. Os degraus rangeram sob os seus pés silenciosos, e desapareceu.

 

O primeiro impulso da criança foi fugir, tal era o terror de se encontrar sozinha naquele quarto, o desejo de ter alguém ao pé de si, de não estar sozinha, e só então conseguiria voltar a falar. Sem ter consciência de que se movia, alcançou a porta.

 

A sombra terrível estava parada no último degrau.

 

Não podia passar por ela. Talvez conseguisse fazê-lo, na escuridão, sem ser agarrada, mas o seu coração gelou só de pensar nisso. O vulto continuava quieto, e ela também não se movia, não por coragem mas por necessidade, porque voltar para dentro do quarto lhe parecia tão assustador como permanecer ali.

 

Lá fora a chuva caía furiosamente, e escorria em cataratas pelo telhado de colmo. Alguns insectos estivais, sem terem onde se abrigar, voavam para cá e para lá, os seus corpos chocavam contra as paredes e o tecto e o ruído que faziam enchia de murmúrios aquele lugar silencioso. O vulto voltou a mover-se. A criança, sem querer, moveu-se também. Uma vez no quarto do avô, estaria a salvo.

 

O vulto seguiu pelo corredor até chegar à mesma porta que ela pretendia também alcançar. A pequena, na aflição de se encontrar tão perto, preparava-se para dar uma corrida, entrar dentro do quarto e fechar a porta, quando o vulto parou outra vez.

 

De repente, uma ideia raiou-lhe o espírito. Se ele pretendia entrar ali, a vida do velho corria perigo. Sentiu-se fraca, agoniada. O vultou entrou no quarto. Lá dentro havia luz. O vulto estava agora dentro do quarto, e ela, ainda sem fala, completamente sem fala e quase a perder os sentidos, parou a olhar.

 

A porta estava entreaberta. Sem saber o que faria, mas decidida a salvá-lo ou a morrer com ele, deu alguns passos trémulos e espreitou lá para dentro. E que espectáculo aquele que aos seus olhos se deparou!

 

A cama não tinha sido desmanchada, estava feita e vazia. Sentado a uma mesa estava o velho avô, ele próprio, o único ser vivo que ali estava, com o rosto pálido aguçado por uma avidez que lhe dava um estranho brilho ao olhar, contando o dinheiro que com as suas próprias mãos tinha roubado à neta.

 

Com passos mais trémulos e vacilantes ainda do que aqueles com que se aproximara do quarto do avô, a garota afastou-se da porta e regressou ao seu quarto no meio da escuridão. Os terrores que a vinham afligindo ultimamente não eram nada, comparados com aquilo que agora a oprimia. Nenhum ladrão desconhecido ou hospedeiro traiçoeiro que se aproximasse da cama dos seus hóspedes para os roubar ou para os matar enquanto dormiam, nenhum assaltante nocturno, por muito terrível e cruel que fosse, poderia ter despertado nela metade do horror que lhe inspirara o ter reconhecido o avô no seu visitante nocturno.

 

O velho de cabelos grisalhos a penetrar no seu quarto como um fantasma, agindo como um ladrão quando a julgava profundamente adormecida, fugindo com o produto do seu roubo e debruçando-se sobre ele com o prazer que ela testemunhara, era pior, incomparavelmente pior, naquele momento, e à medida que reflectia sobre isso, do que qualquer coisa que a sua mais viva imaginação podesse imaginar.

 

E se ele voltasse? A porta não tinha fechadura nem tranca, e ele podia imaginar que deixara ficar ainda algum dinheiro e voltar atrás a buscá-lo. Ela sentia um vago pavor, horror, só de imaginar que ele pudesse regressar, muito de mansinho, se voltasse para o leito vazio, com ela agachada junto dos pés dele, para evitar que ele lhe tocasse. Quase não podia suportar a ideia!

 

Sentou-se à escuta. Olha! Passos na escada, e agora alguém abria a porta devagarinho. Não, afinal era só a sua imaginação, mas a imaginação pode aterrorizar tanto como a realidade. Não, era pior ainda, porque a realidade teria entrado e saído, e pronto, mas como era apenas imaginação, ele não parava de entrar, vezes sem fim, e não saía nunca.

 

A garota estava tomada de um vago e estranho sentimento de horror. Ela não tinha medo do seu querido e velho avô, cujo amor por ela dera origem àquela doença mental, mas o homem que nessa noite ela tinha visto, possuído pelo vício do jogo de azar, entrando dissimuladamente no seu quarto e contando o dinheiro à luz trémula da vela, parecia outra pessoa dentro do seu corpo, uma distorção monstruosa da sua imagem, alguém de quem devia fugir, que devia recear, justamente porque se parecia com ele, e vivia com ela, como ele vivia.

 

Era-lhe muito difícil relacionar o seu afectuoso companheiro com este velho tão parecido, e no entanto tão diferente. Ela tinha chorado ao vê-lo apático e insensível, como eram agora mais fortes ainda as razões que tinha para chorar!

 

A criança sentou-se de olhos abertos, a pensar em tudo isto, até que o fantasma que se tinha alojado no seu espírito tomou umas proporções de tal forma aflitivas e aterradoras que ela pensou que se sentiria aliviada se ouvisse a voz do velho, ou se o visse, mesmo adormecido, de forma a afastar de si os medos que rodeavam a imagem dele. Voltou a descer os degraus e a percorrer o corredor. A porta estava ainda entreaberta, como ela a tinha deixado, e a vela continuava acesa como antes.

 

Ela levava a sua vela, e tencionava dizer-lhe, se ele estivesse acordado, que estava agitada e não conseguia dormir, e tinha vindo ver se ainda haveria luz no quarto dele. Olhou para dentro do quarto, viu-o tranquilamente deitado na cama, encheu-se de coragem e entrou.

 

Mergulhado num sono profundo, o seu rosto não exprimia paixão, nem avareza, nem ansiedade, nem desejos loucos. Todo ele era doçura, tranquilidade e paz. Este não era o jogador, nem a sombra que estivera no quarto dela. Também não era o velho cansado e debilitado cujo rosto ela via todos os dias à luz fraca da manhã. Era o seu querido e velho amigo, o seu inofensivo companheiro de viagem, o seu bondoso e terno avô.

 

Não sentiu nenhum medo ao contemplar as suas feições adormecidas, mas sim uma pesada e profunda tristeza que se converteu em lágrimas.

 

- Que Deus o ajude! - disse a criança curvando-se para beijar ao de leve o seu rosto plácido. - Agora compreendo que não deixariam de nos separar, se nos descobrissem. Iam acabar por prendê-lo, por lhe retirar a luz do Sol e o céu. Ele só me tem a mim para o ajudar. Valha-nos Deus!

 

Acendeu então a sua vela e saiu tão silenciosamente como entrara, regressou de novo ao seu quarto e já não voltou a adormecer ao longo dessa noite longa, tão longa e tão triste.

 

Por fim o dia veio empalidecer a luz da sua vela, e Nell adormeceu. Pouco depois era acordada pela rapariga que a tinha conduzido ao seu quarto. Assim que se vestiu preparou-se para ir ter com o avô, mas primeiro procurou na algibeira e viu que todo o seu dinheiro desaparecera. Não ficara nem uma moeda de seis pences.

 

O velho já estava pronto, e daí a nada já seguiam pela estrada. A pequena reparou que ele evitava o seu olhar e parecia estar à espera que ela lhe falasse do dinheiro desaparecido. Achou então que devia fazê-lo, pois caso contrário ele poderia suspeitar da verdade.

 

- Avô - disse ela em voz trémula depois de terem caminhado em silêncio cerca de uma milha. - Acha que as pessoas daquela casa são pessoas sérias?

 

- Porquê? - perguntou o velho a tremer. - Se eu penso que são pessoas sérias? Sim, jogaram com honestidade.

 

- Eu explico-lhe porque é que pergunto isto - acrescentou Nell. - Desapareceu-me dinheiro ontem à noite. Do meu quarto, tenho a certeza. A menos que alguém o tirasse por brincadeira, só mesmo por brincadeira, querido avô. Se eu soubesse que era isso, até havia de achar muita graça.

 

- Quem é que havia de tirar dinheiro por brincadeira?

- respondeu o velho de modo apressado. - As pessoas que tiram dinheiro tiram-no para ficar com ele. Não me fales em brincadeiras!

 

- Então, querido avô, roubaram-no do meu quarto - disse a criança, vendo pelo tom desta resposta que a sua última esperança se desmoronava.

 

- E não sobrou nenhum, Nell? - disse o velho. - Nada, em lado nenhum? Levaram tudo, até ao último centavo? Não ficou mesmo nada?

 

- Nada - respondeu a criança.

 

- Temos de conseguir mais - disse o velho, - temos de o ganhar, Nell, de o descobrir, de o arranjar de alguma maneira. Mas não te preocupes com este que te roubaram. Não contes a ninguém o que aconteceu, e talvez possamos recuperá-lo. Não me perguntes como. Havemos de o recuperar, e muito mais ainda. Mas não contes a ninguém, que isso pode trazer-nos complicações. Tiraram-no então do teu quarto, enquanto tu dormias! - acrescentou ele num tom compadecido, muito diferente da forma dissimulada e astuta como tinha falado até aí. Pobre Nell! Pobre Nell!

 

A garota baixou a cabeça e chorou. O tom compadecido em que ele falara tinha sido perfeitamente sincero, ela não duvidava disso. Mas o facto de saber que o avô agira para o bem dela não tornava o seu desgosto mais leve.

 

- Nem uma palavra sobre isto a outra pessoa para além de mim - disse o velho. - Não, nem a mim - acrescentou apressadamente. - Não vale a pena. Todas as perdas deste mundo não valem as lágrimas dos teus olhos, minha querida. Porque é que hás-de chorar por esse dinheiro, se nós vamos conseguir recuperá-lo?

 

- Não pense mais nisso, disse a criança olhando para cima. Não pense mais nisso, de uma vez por todas, e não me verá mais uma lágrima, nem que cada «penny» valesse mil libras.

 

- Bem, bem - respondeu o velho dominando-se como se tivesse nos lábios uma resposta impetuosa. - Ela não sabe o que diz, ainda bem!

 

- Mas agora ouça-me - disse a criança muito séria. - Quer ouvir o que lhe vou dizer?

 

- Sim, sim, eu ouço - respondeu o velho ainda sem olhar para ela. - Tens uma linda voz, tem sempre um som muito doce aos meus ouvidos, como soava a da tua mãe, pobre criança!

 

- Deixe-me então convencê-lo, oh, deixe-me convencê-lo - disse a criança. - Não pense mais em ganhos e perdas, não queira outra fortuna para além da que já temos por estarmos juntos.

 

- Também nisto estamos juntos - retorquiu o avô continuando a olhar para o lado e parecendo falar sozinho. - Não é a tua imagem que santifica o jogo?

 

- Temos sido menos felizes - acrescentou a criança, - desde que o avô deixou de se preocupar com isso, e andamos a viajar sozinhos? Não temos estado muito melhor e muito mais felizes sem termos uma casa para nos abrigar, do que quando vivíamos naquela casa triste e quando o avô vivia sempre nessa aflição?

 

- O que ela diz é verdade - murmurou o velho no mesmo tom de antes. - Não posso deixar que isso me influencie, mas o que ela diz é verdade, não há dúvida.

 

- Lembre-se só do que tem sido a nossa vida desde aquela manhã luminosa em que virámos as costas à nossa vida de antigamente - disse Nelly. - Lembre-se só do que tem sido a nossa vida desde que nos libertámos de todas aquelas misérias. Os dias de paz e as noites tranquilas que tivemos, os bons momentos que vivemos, a forma como fomos felizes. Quando nos sentíamos cansados ou com fome, logo nos davam de comer, e depois ainda dormíamos melhor. Pense em todas as coisas bonitas que vimos, e na alegria que isso nos dava. E porque é que se deu esta mudança?

 

O avô fez-lhe então um gesto para que não falasse mais com ele naquele momento, porque estava absorto nos seus pensamentos. Daí a pouco beijou-a na face, pedindo-lhe que continuasse ainda calada, e continuou a andar, olhando em frente, parando por vezes com o sobrolho franzido e os olhos fixos no solo, como se estivesse a fazer um tremendo esforço para coordenar os próprios pensamentos desordenados. De uma das vezes ela viu-lhe lágrimas nos olhos.

 

Depois de avançar assim durante algum tempo deu a mão à pequena como costumava fazer, sem nada da violência e da agitação que mostrara ultimamente, e assim, aos poucos, voltou a ficar calmo como costumava ser, e deixou que ela o conduzisse para onde quisesse.

 

Quando chegaram ao local onde estava a fantástica colecção, viram que, tal como Nell havia previsto, Mrs. Jarley ainda não se tinha levantado, e que, embora se tivesse preocupado com a demora deles, e tivesse ficado acordada até depois das onze, tinha acabado por se ir deitar, persuadida de que o temporal os teria surpreendido longe de casa, eles teriam procurado abrigo para passar a noite e só estariam de volta pela manhã.

 

Nell começou logo, diligentemente, a tratar da decoração da sala, e já tinha dado a sua tarefa por terminada e mudado de roupa quando a amada da Família Real desceu para o pequeno-almoço.

 

- Até agora só apareceram - disse Mrs. Jarley quando a refeição terminou - oito meninas de Miss Monflathers, mas ao todo são vinte e seis. Pelo menos, foi o que me disse a cozinheira, quando lhe fiz uma ou duas perguntas e lhe dei uma entrada grátis. Vamos ver se as convencemos com uns prospectos novos, e és tu que os vais levar, minha querida, a ver o que é que consegues.

 

Como esta visita era da maior importância, Mrs. Jarley ajeitou a touca de Nell com as suas próprias mãos e disse que ela estava realmente muito bonita, o que era sempre bom para a reputação da empresa, mandou-a embora com muitas recomendações e com as indispensáveis indicações, como as ruas onde devia virar à direita, e onde não devia portanto virar à esquerda.

 

Assim instruída, Nell não teve dificuldade em encontrar o Estabelecimento de Ensino para Alunas Internas e Externas de Miss Monflathers, que era uma casa muito grande com um muro muito alto, um enorme portão no jardim, uma enorme placa de latão e uma pequena grade, através da qual a criada de Miss Monflathers que estava encarregada de abrir a porta às visitas as inspecionava antes de entrarem, pois nada que se parecesse com um homem, não, nem sequer o leiteiro, era admitido lá dentro sem uma autorização especial. Até o cobrador de impostos, gordo, de óculos e chapéu de abas largas, cobrava os seus impostos através da grade.

 

Mais impenetrável do que se fosse feita de diamante ou de metal, este portão de Miss Monflathers via com maus olhos todos os homens do mundo. Até o homem do talho respeitava o mistério daquele portão, e de cada vez que tocava à campainha parava de assobiar.

 

Quando Nell se aproximou daquela porta tão antipática, esta começou a abrir-se devagarinho, com os gonzos a ranger, e ao fundo do jardim viu-se uma longa fila de meninas que avançavam, a duas e duas, cada qual com um livro aberto nas mãos, algumas ostentando também uma sombrinha. No fim da procissão vinha Miss Monflathers com uma sombrinha de seda lilás, ladeada por duas mestras sorridentes, cada uma delas com uma inveja mortal da outra, mas ambas muito devotadas a Miss Monflathers.

 

Um pouco atrapalhada pelos olhares e segredinhos das raparigas, Nell deixou-se ficar de olhos baixos à espera que elas passassem até que Miss Monflathers, que vinha em último lugar, se aproximou dela. Nell fez-lhe uma vénia e estendeu-lhe o embrulhinho. Miss Monflathers mandou que a fila de meninas parasse.

 

- És a rapariguinha das figuras de cera, não é verdade?

 

- Sim, minha senhora - respondeu Nell corando muito, porque as meninas do colégio se tinham posto à sua volta, e todos os olhos estavam fixos nela.

 

- E não achas que deves ser uma rapariga muito má disse Miss Monflathers que tinha um temperamento desagradável e não perdia nenhuma oportunidade de imprimir verdades morais nos jovens espíritos das suas alunas - para teres essa ocupação?

 

A pobre Nell nunca tinha olhado a questão por esse prisma, e deixou-se ficar muito calada, corando mais ainda do que já estava, sem saber o que dizer.

 

- Não sabes - disse Miss Monflathers - que isso é muito feio e pouco feminino, e uma perversão das propriedades que nos foram sábia e benignamente transmitidas, com poderes comunicativos, prontos a despertar do seu estado latente através da educação?

 

As duas mestras murmuravam a sua aprovação respeitosa a esta observação, e olharam para Nell como se esta tivesse acabado de receber uma justa punição. A seguir sorriram e olharam para Miss Monflathers, e em seguida deitaram uma à outra um olhar que significava que cada uma delas se achava em posição de sorrir a Miss Monflathers, e que a outra, numa posição inferior, não tinha certamente o mesmo direito, e que o facto de ela o fazer era um acto de presunção e de impertinência.

 

- Não vês como é vergonhoso - acrescentou Miss Monflathers - trabalhares com as figuras de cera, quando podias ter a consciência orgulhosa de trabalhares, dentro dos limites da tua pouca idade, para o progresso do teu país, de aperfeiçoares o teu espírito, através da constante contemplação da máquina a vapor, e de ganhares a tua própria subsistência, entre dois xelins e nove pences e três xelins por semana? Não sabes que quanto mais duro for o teu trabalho, mais feliz te sentes?

 

- -Como a pequena abelha...» - murmurou uma das mestras, citando o dr. Watts.

 

- Hem? - disse Miss Monflathers voltando-se rapidamente. - Quem foi que disse isso?

 

- É claro que a mestra que tinha sido foi imediatamente denunciada pela sua rival que não tinha dito nada. Miss Monflathers franziu-lhe o sobrolho e mandou-a calar, dando com isso à outra motivo para uma imensa alegria.

 

- A abelhinha trabalhadora - disse Miss Monflathers empertigando-se toda, - só pode ser aplicada a meninas finas. «A ler, a trabalhar, ou em jogos saudáveis» está muito bem para elas, e neste caso, trabalhar significa pintar sobre veludo, fazer renda, bordar. Agora nestes casos - e com a sua sombrinha apontava para Nell - e no caso de todas as crianças de gente pobre, devemos dar-lhe outra interpretação:

 

         «Que eu passe os meus primeiros anos de vida

 

           a trabalhar, a trabalhar sem fim

 

           para que assim vivendo o dia-a-dia

 

           Boa conta possa mais tarde dar de mim.»

 

Ouviu-se então um forte aplauso, não só das duas mestras, como de todas as alunas que estavam também espantadas de ouvir Miss Monflathers improvisar desta forma brilhante. Há muito que os seus dotes políticos eram conhecidos, mas era a primeira vez que surgia como poetisa original. Justamente nessa altura alguém reparou que Nell estava a chorar, e todos os olhares se voltaram de novo para ela.

 

Tinha com efeito lágrimas nos olhos, e quando tirou o lenço para as enxugar, deixou-o cair. Antes que pudesse curvar-se para o apanhar, uma rapariga de quinze ou dezasseis anos, que se tinha mantido um pouco afastada das outras, como se não tivesse direito a um lugar entre elas, apanhou-o rapidamente e colocou-lho nas mãos. Já se afastava timidamente, quando a directora a fez parar.

 

- Eu sabia que tinha sido Miss Edwards - disse Miss Monflathers. - Agora tenho a certeza de que foi Miss Edwards.

 

Tinha sido Miss Edwards, toda a gente disse que tinha sido Miss Edwards, e a própria Miss Edwards confessou que tinha sido ela.

 

- Não lhe parece - disse Miss Monflathers baixando a sombrinha de forma a adoptar uma pose mais severa perante a culpada - uma coisa espantosa, Miss Edwards, que a menina tenha uma simpatia pelas classes mais baixas, que a faz sempre pender para o lado deles? Ou melhor, não é uma coisa extrordinária, que nada daquilo que eu digo e faço consiga fazê-la perder essa tendência que as suas origens parecem infelizmente ter-lhe transmitido, rapariga de espírito incrivelmente reles?

 

- Eu não fiz por mal, minha senhora - disse uma voz doce. - Foi só um impulso momentâneo.

 

- Um impulso! - repetiu Miss Monflathers em tom de desprezo. - Como é que se atreve a falar-me de impulsos? - as duas mestras concordaram. - Estou espantada! - as duas mestras também ficaram espantadas. - Calculo que seja um impulso que a leva a pôr-se do lado de toda a pessoa baixa e ordinária que encontra pelo caminho - as duas mestras também calcularam.

 

- Mas quero que saiba, Miss Edwards - concluiu a directora num tom de maior severidade, - que não podemos permitir, quanto mais não seja para dar um bom exemplo de decoro neste estabelecimento, que não lhe podemos permitir, nem permitiremos, que a menina se comporte na frente dos seus superiores desta forma extremamente grosseira. Se a menina não tem razões para se sentir superior perante esta gente das figuras de cera, saiba que há aqui outras meninas que têm. Terá pois de mostrar o seu respeito por estas meninas, ou deixar este estabelecimento, Miss Edwards.

 

Esta menina não tinha mãe e era pobre, e era aprendiza do colégio. Era ensinada a troco de nada, alojada a troco de nada. alimentada a troco de nada e tratada e considerada por toda a gente da casa como menos, muito menos do que nada.

 

As criadas sabiam que ela era uma sua inferior, porque eram mais bem tratadas do que ela. Eram livres de entrar e sair e tratadas com mais respeito.

 

As mestras eram-lhe infinitamente superiores, pois no seu tempo tinham pago para aprender, e eram pagas agora para ensinar.

 

As alunas davam pouca importância a uma companheira que não tinha histórias de grandeza para contar acerca da sua família, nem tinha amigos que viessem visitá-la de carruagem e fossem recebidos servilmente pela directora com bolos e vinho. Não tinha nenhum criado cheio de deferências que a viesse buscar nas férias para a conduzir a casa, nem coisas finas para contar, nada para exibir.

 

Mas porque estaria Miss Monflathers sempre aborrecida e irritada com a pobre aprendiza? A que se deveria tal estado de coisas?

 

Acontecia que o maior orgulho de Miss Monflathers, a maior glória da escola de Miss Monflathers, era a filha de um baronete, uma filha autêntica de um baronete autêntico que, por uma extraordinária reviravolta das leis da natureza, não só era feia de cara, como era também pobre de intelecto, enquanto a aprendiza era simultaneamente bonita, elegante e inteligente.

 

Parecia incrível! Miss Edwards, que pagara apenas uma pequena quantia há muito gasta, todos os dias ultrapassava e excedia a filha do baroneie que aprendia, ou pelo menos eram-lhe ensinadas, todas as matérias extras, e cuja conta semestral era o dobro da de qualquer outra aluna, para já não falar na honra e na boa reputação que dava à escola.

 

Assim, e porque Miss Edwards era uma dependente, Miss Monflathers não gostava dela, implicava com ela e ralhava-lhe constantemente, e quando ela se compadeceu da pequena Nell, interpelou-a e maltratou-a como já vimos.

 

- Hoje não irá apanhar ar, Miss Edwards - disse Miss Monflathers. - Tenha a bondade de se retirar para o seu quarto, e não sair de lá sem lhe ser dada autorização.

 

A pobre rapariga afastava-se rapidamente, quando foi bruscamente «abalroada», como se diz em linguagem marítima, por um grito abafado de Miss Monflathers.

 

- Passou por mim sem me cumprimentar! - exclamou a directora levantando os olhos para o céu. - Atreveu-se a passar por mim como se ignorasse completamente a minha presença!

 

A jovem voltou-se e fez uma vénia. Nell viu que ela levantava os olhos para a sua superiora, e que a sua expressão, toda a sua atitude naquele momento, era um mudo mas comovente apelo a um tratamento mais generoso. Como resposta, Miss Monflathers limitou-se a erguer a cabeça, e o grande portão fechou-se sobre um coração angustiado.

 

- E tu, criança malvada - disse Miss Monflathers voltando-se para Nell. - Diz à tua patroa que se ela se atrever a mandar-me mais algum recado, eu escrevo às autoridades legislativas para a meterem na prisão, ou para a obrigarem a fazer penitência, toda amortalhada. E tu podes ter a certeza de que também serás severamente castigada, se voltares a entrar aqui. Vamos, minhas senhoras.

 

A procissão formou-se de novo, a duas e duas, com os livros e as sombrinhas, e Miss Monflathers, que chamou a filha do baronete para ir ao lado dela, a fim de acalmar a sua irritação, abandonou as duas mestras, que tinham trocado os seus sorrisos por expressões de piedade, iam no fim da fila, e ficaram a detestar-se um pouco mais ainda por serem obrigadas a caminhar lado a lado.

 

Quando Mrs. Jarley soube que a tinham ameaçado com a indignidade da prisão e da penitência, a sua fúria foi indescritível. A autêntica, a única Mrs. Jarley, exposta ao desprezo de todos, troçada pelas crianças, escarnecida pelo povinho! O encanto da Nobreza e da Gente Fina despojada de uma touca que faria inveja à mulher de um governador, embrulhada numa mortalha, um espectáculo de mortificação e humildade!

 

E era Miss Monflathers, a criatura atrevida que ousava, embora apenas no mais profundo e escondido do seu pensamento, conceber esta cena vergonhosa! - Quando penso nisso - disse Mrs. Jarley a explodir no auge da sua cólera.

- Quase tenho vontade de passar a ser ateia!

 

Mas em vez de adoptar esta forma de retaliação, Mrs. Jarley pensou melhor, foi buscar a garrafa de conteúdo suspeito, mandou que trouxessem copos para cima do seu tambor favorito, afundou-se numa cadeira à sua frente, chamou os seus satélites, e contou-lhes e voltou a contar-lhes, várias vezes, palavra por palavra, a afronta que tinha recebido.

 

Feito isto, pediu-lhes desesperadamente que bebessem, depois riu, chorou, bebeu um copito, e voltou a rir, e voltou a chorar, e bebeu outro copito, e assim, gradualmente, foi a digna senhora continuando, rindo cada vez mais e chorando cada vez menos, até que por fim ria perdidamente de Miss Monflathers, que deixou de ser o objecto do seu desgosto para se tornar numa criatura ridícula, de um absurdo sem explicação.

 

- Sempre gostava de saber qual de nós é a melhor - disse Mrs. Jarley. - Ela, ou eu? É muito fácil falar, e se ela diz que me manda prender, porque é que não hei-de ser eu a mandá-la prender a ela, que era muito mais engraçado? Santo Deus, afinal, que importância é que isto tem?

 

Tendo chegado a este agradável estado de espírito, para o qual muito tinham contribuído alguns breves comentários do filosófico George, Mrs. Jarley consolou Nell com muitas palavras carinhosas, e pediu-lhe, a título de favor pessoal, que doravante, e até ao fim da sua vida, sempre que pensasse em Miss Monflathers fosse só para se rir à custa dela.

 

Assim se acalmou a fúria de Mrs. Jarley, o que aconteceu muito antes do pôr-do-sol. As angústias de Nell, no entanto, eram mais profundas, e eram para a sua alegria um entrave muito mais difícil de remover.

 

Nessa noite, como ela receara, o avô saiu e só regressou altas horas da noite. Esgotada como estava, de corpo e de espírito, mesmo assim ficou acordada, sozinha, a contar os minutos, até ele voltar, sem um centavo, infeliz, desgraçado, mas ainda e sempre agarrado à sua obsessão.

 

- Arranja-me dinheiro - dissera ele como um louco quando deram as boas noites, - preciso de dinheiro, Nell. Um dia vais recebê-lo de volta, com juros magníficos, mas tens de me entregar todo o dinheiro que te vier parar às mãos. Não para meu uso, mas para eu me servir dele para ti. Lembra-te, Nell. É para ti.

 

O que havia a pequena de fazer, sabendo o que sabia, senão entregar-lhe cada centavo que lhe vinha parar às mãos, com receio que ele fosse tentado a roubar a protectora de ambos? Se contasse a verdade a alguém, pelo menos era o que pensava a criança, ele seria tomado por louco. Se ela não lhe desse dinheiro, ele arranjá-lo-ia de qualquer maneira. Dando-lho, ajudava a atear a fogueira que ardia dentro dele, e talvez lhe estivesse a tirar as possibilidades de se regenerar.

 

Absorta nestes pensamentos, curvada sob o peso do desgosto que não ousava partilhar com ninguém, torturada por mil preocupações sempre que o velho se ausentava, e receando igualmente a demora e o momento da chegada, Nell perdeu as boas cores, os seus olhos entristeceram-se, o seu coração andava oprimido e pesado. Todos os seus antigos desgostos regressavam, aumentados por novos medos e novas dúvidas. Durante o dia estavam presentes no seu pensamento. De noite voavam em volta da sua almofada e atormentavam-lhe os sonhos.

 

Era natural que, no meio da sua aflição, muitas vezes se lembrasse daquela jovem que tinha apenas visto de relance, mas cuja simpatia, expressa num gesto tão pequeno, lhe ficara gravada na memória como se ela a tivesse tratado com bondade durante anos. Muitas vezes pensava que se tivesse uma amiga assim, a quem pudesse contar os seus desgostos, o seu coração ficaria mais leve. Pensava em como se sentiria feliz se pudesse ao menos ouvir a sua voz. Nesses momentos desejava ser alguém, não ser tão pobre, tão humilde, de forma a poder dirigir-se-lhe sem recear ser rejeitada. Sentia então que existia entre elas uma distância inultrapassável, e não tinha esperança de que a outra jovem sequer tivesse voltado a pensar nela.

 

Era agora o tempo das férias, as jovens tinham ido para as suas casas, e dizia-se que Miss Monflathers estava em Londres causando estragos nos corações dos cavalheiros de meia-idade, mas de Miss Edwards ninguém dizia nada, nem se tinha ido para casa, nem se tinha, sequer, casa para onde ir, ou se tinha ficado no colégio, ou o que quer que fosse a respeito dela.

 

Mas um dia, à tardinha, quando Nell regressava de um passeio solitário, aconteceu-lhe passar pela hospedaria onde paravam as diligências, e isto no preciso momento em que uma delas chegava, e lá estava a rapariga tão bonita de que Nell se lembrava tão bem, que se apressava a ir abraçar uma criança que estavam a ajudar a descer do tejadilho.

 

Era a irmã dela, a sua irmâzita mais nova, muito mais nova do que Nell, e conforme Nell viria a saber mais tarde, havia cinco anos que não se viam. Tinha estado a poupar o seu pouco dinheiro para que a irmãzita pudesse vir passar ali uma breve temporada.

 

Quando as viu abraçarem-se, Nell sentiu o coração partir-se-lhe. Afastaram-se um pouco das outras pessoas que rodeavam a carruagem, atiraram-se ao pescoço uma da outra, e soluçaram, e choraram de alegria. Os seus vestidos simples e modestos, a distância que a criança tinha viajado sozinha, a agitação delas, a sua felicidade, as lágrimas que choravam, contavam por si só toda a história.

 

Daí a pouco, já recompostas, foram-se embora, mais agarradas uma à outra do que propriamente de mãos dadas.

 

- Tens a certeza de que te sentes feliz, mana? - disse a criança quando passavam perto de Nell. - Agora estou muito feliz - respondeu ela. - Mas sempre? - perguntou a criança.

 

- Mana, porque é que não olhas para mim?

 

Nell não conseguiu resistir a segui-las a uma pequena distância. Dirigiram-se para casa de uma velha ama, onde a irmã mais velha tinha alugado um quarto para a mais nova.

 

- Eu venho ter contigo todas as manhãs - disse ela - e podemos ficar juntas o dia todo.

 

- E porque é que não ficas comigo também de noite, querida irmã? Achas que se iam zangar contigo por causa disso?

 

Porque se teriam os olhos da pequena Nell humedecido nessa noite, à semelhança dos das duas irmãs? Porque teria ela experimentado um sentimento de gratidão por elas se terem encontrado, e de tristeza por em breve terem de se separar? Não se julgue que os sentimentos da garota eram ditados, ainda que inconscientemente, por algum egoísmo, ligado aos seus próprios desgostos.

 

Graças a Deus, as alegrias inocentes dos outros ainda nos conseguem sensibilizar, e nós, apesar das nossas fraquezas, albergamos ainda uma fonte de emoções puras que não pode deixar de agradar aos céus.

 

À luz da manhã, que é a mais alegre, mas mais frequentemente à luz suave da tarde, a criança, respeitando o curto e feliz encontro das duas irmãs, e não ousando aproximar-se delas e dizer uma palavra de agradecimento, apesar da vontade que tinha de o fazer, seguia-as a pouca distância nos seus passeios.

 

Parava quando elas paravam, sentava-se sobre a relva quando elas se sentavam, levantava-se quando elas se levantavam, e andava encantada com esta companhia que sentia tão próxima de si. À tardinha passeavam pela beira do rio, e também Nell lá estava sempre, sem ser vista, sem ser notada, sem ser observada, mas sentindo-se como se elas fossem suas amigas, como se partilhassem confidências e segredos, como se o seu desgosto se tivesse aligeirado e tornado menos duro de suportar, como se conseguissem unir as suas mágoas e se consolassem mutuamente.

 

Talvez isto fosse uma fantasia tola, uma fantasia infantil de uma criança solitária, mas noite após noite as duas irmãs passeavam pelo mesmo sítio, e a garota continuava a segui-las, sentindo o coração mais leve e reconfortado.

 

Uma noite, ao regressar a casa, ficou muito admirada ao ver que Mrs. Jarley tinha encomendado um cartaz a dizer que a espantosa colecção ficaria naquele local apenas mais um dia. Em cumprimento deste aviso, pois todos os avisos ligados a actividades recreativas são, toda a gente sabe, irrevogáveis e absolutamente exactos, a exposição fecharia no dia seguinte.

 

- Vamo-nos já embora, minha senhora? - perguntou Nell.

 

- Olha para aqui, pequena - respondeu Mrs. Jarley. - Já vais ficar a saber - e, dizendo isto, Mrs. Jarley mostrou-lhe outro cartaz onde estava escrito que, em consequência de numerosos pedidos que tinham sido feitos à porta da exposição, e dado o grande número de pessoas que tinham ficado desapontadas por não terem conseguido bilhete, a exposição ficaria por mais uma semana, reabrindo assim no dia seguinte.

 

- Como as escolas agora estão fechadas, e os visitantes regulares se acabaram - dizia Mrs. Jarley, - resta-nos o público geral, e esse precisa de ser estimulado.

 

No dia seguinte ao meio dia, Mrs.Jarley instalou-se por detrás da mesa toda enfeitada, acompanhada pelas figuras que já mencionámos, e mandou que se abrissem as portas para deixar entrar um público esclarecido e iluminado. Mas as operações do primeiro dia não foram de forma alguma um sucesso.

 

O público geral, embora mostrasse curiosidade em ver Mrs. Jarley pessoalmente, e os seus acompanhantes de cera que se podiam ver de graça, não se entusiasmava ao ponto de pagar seis pences por cabeça. Por isso, e apesar do grande número de pessoas que ficavam à porta a olhar para as figuras que estavam à entrada, e ficassem ali, perseverantes, a ouvir o realejo e a ler os cartazes, e apesar de terem a amabilidade de sugerir aos seus amigos que patrocinassem a exposição dessa mesma maneira, até a porta ficar bloqueada por metade dos habitantes da cidade, que era depois rendida pela outra metade, as finanças na caixa não melhoravam e os cartazes não pareciam ter surtido o efeito desejado.

 

Com o clássico bazar nesta situação depressiva, Mrs. Jarley desenvolveu esforços extraordinários para estimular o gosto e a curiosidade popular. Limparam um mecanismo que havia dentro do corpo da freirinha que estava por cima da porta e puseram-no a funcionar, de forma que a figura passou o dia inteiro a abanar a cabeça, como um paralítico, para grande admiração de um barbeiro muito bêbado mas muito protestante que morava do outro lado da rua, que entendeu que os movimentos eram um exemplo típico dos efeitos degradantes que o cerimonial da Igreja Católica de Roma tinha sobre a mente humana, e discursou sobre o tema com grande eloquência e significado moral.

 

Os dois carroceiros entravam e saíam constantemente da sala de exposições, envergando disfarces variados, garantindo em voz alta que o espectáculo valia o dinheiro, mais do que nenhum outro que alguma vez tivessem visto, e espicaçando com lágrimas nos olhos os que estavam à porta, para que não perdessem uma ocasião daquelas. Mrs. Jarley continuava sentada à caixa, fazia tilintar moedas de prata do meio-dia até à noite, e lembrava solenemente às pessoas que a entrada custava apenas seis pences, e que a partida de toda a colecção para uma breve viagem pelas Cabeças Coroadas da Europa estava marcada, irrevogavelmente, para daí a uma semana.

 

- Por isso não percam tempo, não percam tempo, não percam tempo - dizia Mrs. Jarley no fim de cada um destes discursos. - Lembrem-se de que se trata da estupenda colecção Jarley, mais de cem figuras, uma colecção que é única no mundo. Todos os outros são impostores e decepções, não percam tempo, não percam tempo, não percam tempo!

 

Como o prosseguimento desta história torna-se necessário que, mais tarde ou mais cedo, nos familiarizemos com certos detalhes ligados à economia doméstica de Mr. Sampson Brass, e não parece provável que venha a surgir melhor ocasião para isso do que o momento presente, o autor pega no simpático leitor pela mão, lança-se no espaço sulcando o ar mais rapidamente que Don Cleophas Leandro Perez Zambullo e o seu amigo atravessaram esse aprazível elemento e aterra com ele no solo de Bevis Marks.

 

Os intrépidos aeronautas pousam defronte de uma casa pequena e escura onde em tempos residiu Mr. Sampson Brass.

 

Na janela da sala desta pequena casa, que está tão próxima da rua que o transeunte que passa junto à parede roça a manga do casaco pelo vidro, com grande vantagem para o vidro, que está muito sujo.

 

Na janela desta casa, nos tempos em que Sampson Brass lá viveu, via-se pendurada uma cortina de um verde desbotado pelo Sol, toda torcida e amarrotada, tão gasta pelo tempo que de forma alguma impedia que se olhasse para dentro da pequena e escura sala, mas oferecia antes favoráveis condições para se observar detalhadamente o seu interior.

 

Não havia muito para ver. Uma mesa raquítica, sobre a qual estavam ostensivamente espalhados alguns maços de papéis amarelos e amarrotados após longas temporadas passadas dentro de uma algibeira. De um e de outro lado desta extranha peça de mobiliário estavam dois bancos, um em frente do outro. Junto à chaminé encontrava-se uma velha cadeira traiçoeira cujos braços ressequidos tinham abraçado muitos clientes e ajudado a espremê-los até à última moeda.

 

Uma caixa de cabeleira em segunda mão, que era utilizada para guardar mandatos, declarações e outros pequenos impressos legais, o único conteúdo da cabeça que usara a cabaleira que pertencera à caixa, como eram agora o conteúdo da própria caixa, duas ou três vulgares agendas de trabalho, uma caixa com areia de raspar, uma vassoura velha, um tapete todo rasgado mas continuando a agarrarse desesperadamente ao chão... estes objectos, para além dos frisos amarelos das paredes, o tecto manchado pelo fumo, o pó e as teias de aranha, eram os componentes mais importantes da decoração do escritório de Mr. Sampson Brass.

 

Mas tudo isto não era mais do que uma natureza-morta, sem mais importância do que a tabuleta que se via sobre a porta, «Brass, solicitador», e o anúncio, «Primeiro andar para alugar a cavalheiro solteiro», que pendia do batente. No escritório costumavam estar dois examplares de temperamento animado, que interessam particularmente ao desenrolar desta história.

 

Um deles, claro, era o próprio Mr. Brass, que já conhecemós ao longo destas páginas. O outro era a sua escriturária, ajudante, governanta, secretária, confidente de maroteiras, conselheira, cúmplice e processadora de facturas em débito, Miss Brass, uma espécie de amazona do Direito Comum, da qual talvez seja desejável que façamos uma breve descrição. Miss Brass era então uma rapariga de trinta e cinco anos, ou por aí, com um corpo magro e ossudo, modos resolutos que, se por um lado afastavam os doces sentimentos do amor e mantinham os admiradores à distância, inspirava certamente um sentimento próximo do receio no peito dos homens desconhecidos que tivessem a felicidade de se aproximarem dela.

 

Era de facto tão parecida com o seu irmão Sampson, realmente tão parecida, que se a sua modéstia de rapariga e a sua feminilidade lhe permitissem, por graça, vestir as roupas do irmão, e ela se sentasse ao pé dele, até o mais antigo amigo da família teria dificuldade em determinar qual era Sampson e qual era Sally, sobretudo porque esta senhora tinha sobre o lábio superior certas demonstrações avermelhadas que, se fossem ajudadas pelo traje, poderiam ser tomadas por um bigode. E, no entanto, não eram provavelmente mais do que pestanas fora do lugar, uma vez que os olhos de Miss Brass eram perfeitamente desprovidos de tais impertinências naturais.

 

A pele de Miss Brass era macilenta, de um macilento sujo, por assim dizer, mas esta particularidade era agradavelmente disfarçada pelo brilho saudável que cintilava na ponta do seu narizinho risonho.

 

A sua voz era extremamente impressionante. Era profunda e rica de sonoridade e uma vez ouvida não era facilmente esquecida.

 

O seu traje usual era um vestido verde, de um verde que não diferia muito da cor da cortina da janela do escritório, justo ao corpo, até ao pescoço, abotoado atrás por um botão incrivelmente grande e maciço.

 

Considerando, sem dúvida, que a simplicidade e a modéstia são a alma da elegância, Miss Brass não usava gola ou lenço excepto na cabeça, que era inveriavelmente enfeitada com uma echarpe de gase castanha, como a asa do vampiro da fábula, e que, torcida mais ou menos ao acaso, formava um simples e gracioso turbante.

 

Assim era Miss Brass em pessoa. O seu espírito era forte e vigoroso, e ela tinha-se dedicado desde a primeira infância e com um ardor fora do comum ao estudo das leis, não desperdiçando o seu tempo a estudar os seus voos de águia, que são raros, mas estudando atentamente o seu rastejar de enguia que lhe é muito mais frequente. Também não se tinha, como fazem algumas pessoas de grande valor intelectual, confinado às teorias, parando onde começam as questões práticas, pois era capaz de passar a limpo, copiar e preencher impressos na perfeição, e realizava na generalidade qualquer trabalho normal de escritório, desde preparar uma pele de pergaminho até aparar uma pena.

 

É difícil de compreender como é que, possuindo tantos atractivos juntos, tinha ficado solteira. Mas, ou o seu coração albergava um qualquer ressentimento contra os homens, ou porque aqueles que a poderiam ter desejado e cortejado sentissem abrandar os seus sentimentos pelo medo de que, conhecendo as leis, tivesse demasiado perto da ponta dos dedos aquilo a que se chama -Processo por quebra de promessa-, o que é certo é que ela tinha ficado solteira, e passava o tempo na sua ocupação diária, sentada no seu velho banco, defronte do do irmão Sampson. E também é igualmente certo que, no meio dos dois, muita gente tinha sido «posta de rastos».

 

Uma manhã Mr. Sampson Brass sentou-se no seu banco a copiar um processo legal, enterrando, com raiva, a pena no papel, como se estivesse a escrever sobre o coração da parte que se lhe opunha.

 

Miss Brass estava sentada na sua frente, e preparava uma pena para passar uma pequena factura, que era a sua ocupação favorita. E assim estiveram sentados, calados, por um longo período de tempo, até que Miss Brass rompeu o silêncio.

 

-Já estás quase a acabar, Sammy? - disse Miss Brass, pois nos seus lábios doces e femininos Sampson tornava-se Sammy e todas as coisas se suavizavam.

 

- Não - respondeu-lhe o irmão, - mas há muito já que podia estar pronto, se me tivesses ajudado quando foi preciso.

 

- Oh, sim, claro - exclamou Miss Sally, - queres a minha ajuda, não é? Mas vais meter um empregado!

 

- Vou meter um empregado porque isso me dá prazer, ou porque me apetece, meu estupor irritante? - disse Mr. Brass levando a pena à boca e olhando para a irmã com uma careta malévola. - Porque é que me hás-de estar a aborrecer por causa disso?

 

Devemos esclarecer desde já, para que o leitor não se espante de ele chamar estupor a uma senhora, que ele estava de tal forma habituado a tê-la na sua frente a trabalhar como um homem, que aos poucos e poucos se foi habituando a falar com ela como se fosse de facto um homem. E este sentimento era tão perfeitamente recíproco que não só Mr. Brass muitas vezes tratava Miss Brass por estupor, como até lhe colocava um adjectivo a seguir, e Miss Brass achava isso perfeitamente natural, e ficava tão incomodada como se uma qualquer senhora a tratasse por meu anjo.

 

- Para que é que me estás a aborrecer por eu ir meter um empregado - repetiu Mr. Brass fazendo nova careta e sempre com a pena na boca como se fosse o brasão de um nobre, - se já ontem falámos três horas sobre o assunto? Que culpa tenho eu?