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Planeta Criança



Poesia & Contos Infantis

 

 

 


MAGO E VIDRO / Stephen King
MAGO E VIDRO / Stephen King

 

 

Biblioteca Virtual do Poeta Sem Limites

 

 

MAGO E VIDRO

 

— ME PASSEM UMA ADIVINHAÇÃO — Blaine convidou.

— Vá se foder — disse Roland. Ele não ergueu a voz.

— O QUE DISSE? — Em sua evidente perplexidade, a voz do Grande Blaine ficou muito parecida com a voz de seu insuspeitado gêmeo.

— Eu disse vá se foder — Roland repetiu calmamente —, mas se isso o confundiu, Blaine, posso deixar a coisa mais clara. Não. A resposta é não.

Durante um longo, longo tempo não houve reação de Blaine, e quando ele respondeu não foi com palavras. Em vez disso, as paredes, o chão e o teto começaram de novo a perder a cor e a solidez. Num espaço de dez segundos o Vagão do Baronato deixou mais uma vez de existir. Estavam agora disparando sobre a cadeia de montanhas que tinham visto no horizonte: picos num tom cinza metálico corriam para eles em velocidade suicida, depois se afastavam revelando vales estéreis por onde rastejavam besouros gigantescos como tartarugas de vida terrestre. Roland viu uma coisa que parecia uma enorme cobra desenrolar-se da boca de uma caverna. O animal pegou um dos besouros e arrastou-o para sua toca. Nunca em sua vida Roland vira tais animais nem uma região como aquela, e a imagem pareceu fazer sua pele rastejar para fora da carne. Talvez Blaine os tivesse transportado para algum outro mundo.

— TALVEZ EU DEVESSE NOS DESCARRILAR AQUI — disse Blaine. A voz era meditativa, mas sob ela o pistoleiro ouviu uma raiva profunda, pulsante.

— Talvez devesse — disse o pistoleiro num tom de indiferença.

A cara de Eddie parecia furiosa. Ele sussurrou as palavras: O que você está FAZENDO? Roland o ignorou; estava de todo ocupado com Blaine e sabia perfeitamente bem o que estava fazendo.

— VOCÊ É RUDE E ARROGANTE — disse Blaine. — ESTAS QUALIDADES PODEM SER INTERESSANTES PARA VOCÊ, MAS NÃO SÃO PARA MIM.

— Ah, posso ser muito mais rude do que tenho sido.

Roland de Gilead espalmou as mãos e foi ficando lentamente de pé. Ficou parado no que parecia ser nada, pernas afastadas, a mão direita na cintura e a esquerda no cabo de sândalo do revólver. Ficou como já ficara tantas vezes antes, nas ruas empoeiradas de uma centena de cidadezinhas esquecidas, em muitas zonas de matança em desfiladeiros rochosos, num sem-número de saloons escuros com seus cheiros de cerveja amarga e velhas frituras. Era apenas outra exibição em outra rua deserta. Era só isso, e já era o bastante. Era khef, ka e ka-tet. Que esse tipo de exibição sempre ocorresse era o fato central de sua vida, o eixo em torno do qual seu próprio ka revolvia. Que desta vez a batalha tivesse de ser travada com palavras e não com balas não fazia diferença; continuaria sendo uma batalha mortal. O fedor de morte no ar era tão nítido, tão inconfundível quanto o fedor de carniça se decompondo num pântano. Então o fervor da batalha se abrandou, como sempre acontecia... e ele realmente já não parecia tão absorvido por uma determinada idéia.

— Acho que você é uma máquina ridícula, maluca, de mente vazia. Acho que é uma criatura estúpida, insensata, cujo juízo não é mais sólido que o som de um vento de inverno numa árvore oca.

— PARE COM ISSO.

Roland continuou no mesmo tom sereno, ignorando completamente Blaine.

— Você é o que Eddie chama de “engenhoca”. Se fosse mais que isso, valeria a pena ser ainda mais rude.

— SOU MUITO MAIS QUE APENAS...

— Tenho vontade de chamá-lo de boqueteiro de merda, por exemplo, mas você não tem boca. Poderia dizer que é mais vil que o mais vil patife que já rastejou pelas vielas mais baixas da criação, mas mesmo essa criatura seria melhor que você; você não tem joelhos para rastejar e não cairia com eles no chão se os tivesse porque não tem noção de certas fraquezas humanas, como a misericórdia. Acho que foderia sua própria mãe, se tivesse uma.

Roland parou para respirar. Coisa que seus três companheiros tinham parado de fazer. Por todo lado, sufocante, havia o silêncio atônito do Mono Blaine.

— Posso dizer que é uma criatura sem fé, que deixou sua única companheira se matar, um covarde que tem se deliciado com a tortura dos tolos e a carnificina dos inocentes, uma tosca e barulhenta traquitana mecânica que...

— ORDENO QUE PARE OU VOU MATAR TODOS VOCÊS AQUI MESMO!

Os olhos de Roland brilharam com um clarão azul tão selvagem que o próprio Eddie saiu encolhido de perto dele. Vagamente, Eddie ouviu a arfada de ar de Jake e Susannah.

— Mate quem quiser, mas não me dê ordens! — roncou o pistoleiro. — Você esqueceu as faces daqueles que o criaram! Comece a nos matar agora ou fique calado e escute o que eu, Roland de Gilead, filho de Steven, pistoleiro e senhor de antigas terras, tenho a dizer! Não atravessei tantos quilômetros durante tantos anos para dar ouvidos à sua palestra infantil! Está entendendo? Agora é você quem vai ME ouvir!

Outro momento de silêncio chocado. Ninguém respirava. Roland olhava inflexível para a frente, cabeça erguida, a mão na coronha do revólver.

Susannah Dean levou a mão à boca. Sentiu o sorrisinho que havia lá como uma mulher sentiria uma nova e estranha peça de roupa — um chapéu, talvez — que lhe desse a sensação de ainda ser atraente. Tinha receio de estar no fim de sua vida, mas a sensação que dominou seu coração naquele momento não foi de medo, mas de orgulho. Deu uma olhada para a esquerda e viu Eddie contemplando Roland com um riso de espanto. A expressão de Jake era ainda mais simples: pura adoração.

— Diga a ele! — Jake cochichou. — Chute o rabo dele! Boa!

— É melhor prestar atenção, Blaine — Eddie fez eco. — Ele não se importa muito em se foder. Não é por acaso que o chamam de Cachorro Louco de Gilead.

Após uma longa, longa pausa, Blaine perguntou:

— É ASSIM QUE O CHAMAVAM, ROLAND, FILHO DE STEVEN?

— Talvez já tenham chamado — Roland respondeu, calmamente pousado no ar rarefeito sobre as colinas.

— QUE UTILIDADE VOCÊS TÊM PARA MIM SEM AS ADIVINHAÇÕES? — Blaine perguntou. Agora parecia uma criança resmungona, emburrada, que deixaram ficar acordada até muito depois da hora de dormir.

— Eu não disse que não temos adivinhações — respondeu Roland.

— NÃO? — Blaine parecia desorientado. — NÃO ESTOU ENTENDENDO, MAS O ANALISADOR VOCAL INDICA DISCURSO RACIONAL. POR FAVOR EXPLIQUE.

— Você disse que queria as adivinhações de imediato — respondeu o pistoleiro. — Era isso que eu estava recusando. Sua avidez o deixou malcriado.

— NÃO ESTOU ENTENDENDO.

— Ela fez você ficar rude. Entende isso?

Houve um silêncio longo e meditativo. Haviam se passado séculos desde a última vez que o computador lidara com reações humanas diferentes da ignorância, da negligência ou da subserviência supersticiosa. Tinham transcorrido eternidades desde a última vez em que deparara com um simples sinal de coragem humana. Finalmente:

— SE O QUE EU DISSE LHE PARECEU RUDE, PEÇO QUE ME PERDOE.

— Está perdoado, Blaine. Mas há um problema maior.

— EXPLIQUE.

— Feche novamente o vagão e explicarei. — Roland se sentou tranqüilo, como se novas discussões e a perspectiva de morte imediata fossem agora impensáveis.

Blaine fez o que ele pediu. As paredes se encheram de cor e a paisagem de pesadelo abaixo deles foi mais uma vez apagada. O ponto no mapa indicando a trajetória piscava agora ao lado do ponto denominado Candleton.

— Tudo bem — disse Roland. — A rudeza é perdoável, Blaine; foi o que me ensinaram quando eu era jovem. Mas também me ensinaram que a estupidez não é.

— POR QUE ACHA QUE FUI ESTÚPIDO, ROLAND DE GILEAD? — A voz de Blaine era suave e sinistra. Susannah imaginou um gato de tocaia na frente de um buraco de rato, a cauda se movendo de um lado para o outro, os olhos verdes brilhando com malevolência.

— Temos uma coisa que você quer — disse Roland —, mas a única recompensa que nos oferece se a dermos a você é a morte. Isso é muito estúpido.

Houve uma longa, longa pausa enquanto Blaine refletia sobre o assunto. Então:

— O QUE DIZ É VERDADE, ROLAND DE GILEAD, MAS A QUALIDADE DE SUAS ADIVINHAÇÕES AINDA NÃO FOI PROVADA. EU NÃO OS RECOMPENSAREI COM SUAS VIDAS POR MÁS ADIVINHAÇÕES.

— Compreendo, Blaine — disse Roland abanando a cabeça. — Agora escute e compreenda você o que eu digo. Já contei uma parte disso aos meus amigos. Quando eu era garoto, no Baronato de Gilead, havia sete Dias de Feira por ano... Inverno, Terra Ampla, Semeadura, Meados de Verão, Terra Plena, Colheita e Fim do Ano. As adivinhações eram uma parte importante de cada Dia de Feira, mas eram o acontecimento mais importante do Dia de Feira da Terra Ampla e do da Terra Plena, pois se supunha que as adivinhações propostas eram bons ou maus augúrios para o sucesso das safras.

— ISSO É SUPERSTIÇÃO SEM ABSOLUTAMENTE NENHUMA BASE NOS FATOS — disse Blaine. — ACHO ESSAS COISAS ABORRECIDAS E CONSTRANGEDORAS.

— Claro que é superstição — concordou Roland —, mas você não imagina como as adivinhações previam bem as safras. E aliás me responda, Blaine: qual é a diferença entre uma avó e um celeiro?

— ESSA JÁ É MUITO CONHECIDA E MEIO SEM GRAÇA — disse Blaine, mas parecendo feliz por ter alguma coisa para resolver. — UMA NASCE PARENTE, BORN KIN; A OUTRA É UM DEPÓSITO DE GRÃO, CORN-BIN. É UMA ADIVINHAÇÃO BASEADA EM COINCIDÊNCIA FONÉTICA. OUTRA DO MESMO TIPO, CONTADA NO NÍVEL DAS ADIVINHAÇÕES DO BARONATO DE NOVA YORK, ERA ASSIM: QUAL A DIFERENÇA ENTRE UM GATO E UMA FRASE COMPLEXA?

Jake respondeu:

— Eu sei. Um gato tem garras no final das patas e uma frase complexa tem pausa no final da oração.[1]

— É — concordou Blaine. — UMA ADIVINHAÇÃO ANTIGA E MUITO BOBA, QUE SÓ É INTERESSANTE PELA RIMA DAS PALAVRAS.

— Pelo menos nessa eu concordo com você, Blaine, amigo velho — disse Eddie.

— NÃO SOU SEU AMIGO, EDDIE DE NOVA YORK.

— Tranqüilo, bróder. Beije meu cú e vá para o céu.

— NÃO EXISTE CÉU.

Eddie não deu o rebote nesta.

— EU GOSTARIA DE OUVIR MAIS ADIVINHAÇÕES DOS DIAS DE FEIRA EM GILEAD, ROLAND, FILHO DE STEVEN.

— Ao meio-dia da Terra Ampla e da Terra Plena, o Salão dos Antepassados era aberto e lá se reuniam de 16 a trinta adivinhadores. Eram as únicas ocasiões do ano em que gente comum — tipo comerciantes, fazendeiros e sitiantes — tinha permissão para entrar no Salão dos Antepassados, e nesses dias todos se apinhavam ali.

O pistoleiro tinha os olhos distantes e sonhadores; era a expressão que Jake vira em seu rosto naquela nebulosa outra vida, quando Roland lhe contara como ele e dois amigos, Cuthbert e Jamie, tinham um dia se escondido na sacada do tal Salão para assistir a uma espécie de dança ritual. Jake e Roland subiam as montanhas no rastro de Walter quando Roland lhe contara essa história.

Marten estava sentado ao lado de minha mãe e meu pai, dissera Roland. Mesmo de tão alto vi tudo muito bem... De repente ela e Marten estavam dançando, girando devagar. Todos abriram espaço para eles e aplaudiram quando acabou. Mas os pistoleiros não aplaudiram...

Jake olhou curioso para Roland, de novo se perguntando de onde aquele homem estranho teria vindo... e por quê.

— Colocavam um grande barril no meio da pista — prosseguiu Roland —, onde cada adivinhador jogava a tira de um papel feito de casca de árvore com adivinhações escritas. Muitas eram adivinhações antigas, que tinham herdado dos mais velhos... ou até, em alguns casos, tirado de livros... mas muitas eram novas, feitas especialmente para a ocasião. Três juízes, um deles sempre pistoleiro, se pronunciavam sobre estas últimas, que eram lidas em voz alta; e só seriam aceitas se os juízes as julgassem adequadas.

— SIM, AS ADIVINHAÇÕES TÊM DE SER ADEQUADAS — concordou Blaine.

— Esse era o jogo — disse o pistoleiro. Um leve sorriso tocou sua boca com a lembrança daqueles dias, quando tinha a idade do menino ferido sentado na sua frente com o trapalhão no colo. — O jogo se prolongava por horas a fio. Uma fila se formava no meio do Salão dos Antepassados. A posição da pessoa na fila era decidida pela sorte, e como era muito melhor ficar no fim do que no começo, todo mundo queria tirar um número alto. Cada concorrente devia responder corretamente a pelo menos uma adivinhação.

— MUITO JUSTO.

— Cada homem ou mulher... pois alguns dos melhores adivinhadores de Gilead eram mulheres... se aproximava do barril e pegava a primeira adivinhação, que era lida em voz alta. Se a adivinhação ainda não tivesse sido respondida depois que a areia escorresse numa ampulheta de três minutos, o concorrente tinha de deixar a fila.

— E A MESMA ADIVINHAÇÃO ERA PROPOSTA AO SEGUINTE DA FILA?

— Sim.

— ENTÃO QUEM VINHA DEPOIS TINHA MAIS TEMPO PARA PENSAR.

— Sim.

— ENTENDO. PARECE MUITO LEGAL.

Roland franziu a testa.

— Legal?

— Ele quer dizer que parece divertido — disse Susannah em voz baixa.

Roland encolheu os ombros.

— Era divertido para quem assistia, eu acho, mas os concorrentes levavam a coisa muito a sério. Com muita freqüência havia discussões e brigas de soco depois que o prêmio era concedido e o concurso encerrado.

— QUAL ERA O PRÊMIO, ROLAND, FILHO DE STEVEN?

— O maior ganso do Baronato. E ano após ano meu professor, Cort, levava o ganso para casa.

— GOSTARIA QUE ELE ESTIVESSE AQUI — disse Blaine num tom de reverência. — DEVE TER SIDO UM GRANDE ADIVINHADOR.

— Sem dúvida foi — disse Roland. — E agora a minha proposta. Está pronto, Blaine?

— CLARO. VOU OUVI-LA COM GRANDE INTERESSE, ROLAND DE GILEAD.

— Que as próximas horas sejam nosso Dia de Feira. Você não inicia o jogo, pois quer ouvir novas adivinhações, não repetir algumas dos milhões que já conhece...

— CORRETO.

— Não conseguimos resolver a maioria das que conhecemos, pode crer — Roland continuou. — Tenho certeza de que você também conhece algumas que derrubariam até o Cort, se fossem retiradas do barril. — Não tinha nenhuma certeza disso, mas passara a hora de usar os punhos e chegara a de usar a pena.

— CLARO — Blaine concordou.

— Proponho que, em vez de um ganso, nossas vidas sejam o prêmio — disse Roland. — Vamos lhe propor adivinhações durante a viagem, Blaine. Se quando chegarmos a Topeka você tiver adivinhado todas, pode executar seu plano de nos matar. Será o seu ganso. Mas se nós derrubarmos você... se houver uma adivinhação no livro de Jake ou em uma de nossas cabeças que você não conheça e não consiga responder... terá de nos levar a Topeka e depois nos libertar para seguirmos em nossa missão. Este é o nosso ganso.

Silêncio.

— Está entendendo?

— SIM.

— Está de acordo?

Mais silêncio do Mono Blaine. Eddie ficara imóvel, o braço em torno de Susannah, olhando o teto do Vagão do Baronato. Susannah fizera a mão esquerda descer para a barriga, alisando o segredo que podia estar escondido ali. Jake afagava de leve o pêlo de Oi, procurando não encostar nas crostas de sangue onde o trapalhão fora esfaqueado. Esperavam, enquanto Blaine — o verdadeiro Blaine, agora muito lá atrás, vivendo uma semivida sob a cidade onde todos os habitantes tinham sido mortos por um ato seu — examinava a proposta de Roland.

— SIM — disse Blaine por fim. — CONCORDO. SE EU RESOLVER TODAS AS ADIVINHAÇÕES QUE VOCÊS ME PROPUSEREM, VOU LEVÁ-LOS ATÉ A HORA DA VERDADE, NO FINAL DO CAMINHO. MAS SE UM DE VOCÊS APRESENTAR UMA ADIVINHAÇÃO QUE EU NÃO RESOLVA, POUPO A VIDA DE TODOS E OS DEIXO EM TOPEKA, DE ONDE PODERÃO, SE QUISEREM, CONTINUAR A BUSCA DA TORRE NEGRA. ENTENDI CORRETAMENTE OS TERMOS E LIMITES DE SUA PROPOSTA, ROLAND, FILHO DE STEVEN?

— Sim.

— MUITO BEM, ROLAND DE GILEAD.

“MUITO BEM, EDDIE DE NOVA YORK.

“MUITO BEM, SUSANNAH DE NOVA YORK.

“MUITO BEM, JAKE DE NOVA YORK.

“MUITO BEM, OI DO MUNDO MÉDIO.”

Oi ergueu um instante o olhar ao som do seu nome.

— VOCÊS SÃO KA-TET; UM FEITO DE MUITOS. EU TAMBÉM. AGORA VAMOS TER DE PROVAR QUAL KA-TET É O MAIS FORTE.

Fez-se um momento de silêncio, quebrado apenas pelo duro e constante pulsar das turbinas de levitação que os levavam pelas terras devastadas, que os levavam pelo Caminho do Feixe de Luz para Topeka, onde o Mundo Médio acabava e começava o Fim do Mundo.

— ENTÃO VAMOS — gritou a voz de Blaine. — JOGUEM AS REDES, VIAJANTES! PODEM ME FAZER AS PERGUNTAS, E QUE A DISPUTA COMECE.

 

ADIVINHAÇÕES

 

Sob a Lua do Demônio (I)

A cidade de Candleton era uma ruína cheia de veneno e irradiação, mas não estava morta; após tantos séculos ela ainda vibrava com tenebrosas formas de vida: besouros que não voavam e que eram do tamanho de tartarugas, pássaros que lembravam pequenos e disformes lagartos, alguns robôs meio trôpegos que entravam e saíam dos prédios destroçados como zumbis de aço inox, as juntas rangendo, os olhos atômicos piscando.

— Mostre o passe, por favor! — gritou o que estava instalado há 234 anos num canto do saguão do Hotel dos Viajantes de Candleton. Tinha uma estrela de seis pontas incrustada no losango enferrujado da cabeça. Conseguira, durante todos aqueles anos, escavar uma rasa concavidade na parede revestida de ferro que bloqueava seu caminho, mas era só isso.

— Mostre o passe, por favor! Possibilidade de elevados níveis de radiação ao sul e leste da cidade! Mostre o passe, por favor! Possibilidade de elevados níveis de radiação ao sul e leste da cidade!

Um rato inchado e cego, arrastando as tripas atrás de si num saco que lembrava uma placenta podre, lutava para subir pelos pés do robô vigia. Indiferente àquilo, o robô continuava batendo a cabeça de aço contra a parede de ferro.

— Mostre o passe, por favor. Possibilidade de elevados níveis de radiação, morte aos ratões e que a maldição dos deuses caia sobre eles! — No bar do hotel atrás do robô, as caveiras dos que tinham estado lá para um último trago antes de serem alcançados pelo Cataclismo arreganhavam os dentes, como se aqueles homens e mulheres estivessem rindo na hora da morte. Talvez alguns estivessem mesmo.

Quando o Mono Blaine roncou lá no alto, zunindo pela noite como bala disparada pelo cano de arma, vidros se partiram, poeira voou e muitos crânios se desintegraram como velhos vasos de cerâmica. Do lado de fora, um breve furacão de pó radioativo varreu a rua, e o poste de amarrar animais na frente do restaurante Elegante Filé e Lombo foi sugado como fumaça pela tempestuosa corrente de ar. Na praça da pequena cidade, a Fonte de Candleton se partiu em dois sem despejar uma gota d’água, apenas pó, serpentes, escorpiões mutantes e algumas das terrestres e instáveis tartarugas-besouros.

Então a forma que passara ruidosamente sobre a cidade desapareceu como se nunca tivesse estado lá, e Candleton voltou ao estado de contínua putrefação que fora seu substituto para a vida nos últimos dois séculos e meio... e então o estrondo sônico a alcançou, derrubando seu trovão sobre a cidade pela primeira vez em sete anos, provocando vibração suficiente para fazer desabar o armazém de secos e molhados do outro lado da fonte. O robô vigia tentou dar voz a uma última advertência: “Possibilidade de elevados ní...”, e então parou para sempre, olhos fixos no seu canto de parede como uma criança que se portara mal.

A 200 ou 300 rodas dos limites de Candleton, ao longo do Caminho do Feixe de Luz, os níveis de radiação e concentração de DEP3 no solo começavam rapidamente a cair. Ali o trilho do monotrem ficava a menos de 3 metros do chão e uma corça, que parecia quase normal, saiu graciosamente do meio dos pinheiros para beber num regato onde três quartos da massa de água já haviam se purificado.

A corça não era normal — uma quinta pata pendia desajeitada do centro de seu baixo-ventre, como uma teta; uma pata sem ossos que oscilava de um lado para o outro enquanto o animal andava. Um terceiro olho cego espreitava brandamente do lado esquerdo do focinho. A corça, no entanto, era fértil, e seu DNA estava razoavelmente em ordem para uma mutante de 12a geração. Em seus seis anos de vida, ela havia parido três filhotes vivos. Dois deles tinham sido não apenas viáveis, mas normais — estoque excepcional, teria dito tia Talitha de River Crossing. O terceiro, um horror sem pele que não parava de balir, fora bem depressa morto pelo pai.

O mundo — pelo menos aquela parte dele — começara a se curar.

A corça enfiou a boca na água e começou a beber. Logo, porém, estava erguendo a cabeça, olhos arregalados, focinho gotejando. Podia ouvir, ao longe, um som baixo e sussurrante. Pouco depois, uma tira de luz se juntava ao barulho. O alarme soou nos nervos da corça, mas embora seus reflexos fossem rápidos e a luz, ao ser descoberta, ainda estivesse a muitas rodas de distância, no horizonte da campina desolada, ela nunca teve a menor possibilidade de escapar. Antes que conseguisse pôr os músculos em movimento, a distante centelha já havia inchado e se transformado num holofote raiado, que inundava o regato e a clareira com sua luz. Com o clarão, veio o ronco enlouquecedor das turbinas de levitação do Blaine, funcionando a todo vapor. Um borrão rosado passou rente à mureta de concreto que margeava o trilho, deixando uma longa cauda de poeira, pedras, pequenos animais desmembrados e vegetação em redemoinho. A corça foi morta quase instantaneamente pela concussão da passagem de Blaine. Grande demais para ser sugada pela esteira do monotrem, foi arrastada por quase 70 metros, ainda com a água escorrendo do focinho e dos cascos. Boa parte de seu couro (e a quinta perna desossada) foi arrancada de seu corpo e largada atrás de Blaine como uma peça de roupa descartada.

Houve um breve silêncio, frágil como pele nova ou como a primeira camada de gelo num lago no Fim do Ano. Então o estrondo sônico chegou em disparada como uma criatura barulhenta atrasada para a festa de casamento. O barulho rasgou o silêncio, envolvendo um solitário pássaro mutante — que talvez lembrasse um corvo — e fazendo-o cair morto. O pássaro desabou como pedra e bateu de barriga no regato.

Ao longe, um olho vermelho cada vez mais fraco: a lanterna traseira de Blaine.

No céu, a lua cheia saiu de trás de um floco de nuvem, pintando a clareira e o regato com os tons cintilantes de uma loja de bijouterias. Havia um rosto na lua, mas nenhum amante gostaria de vê-lo. Parecia a face descarnada de uma caveira, como as do Hotel dos Viajantes de Candleton; uma face que, com lunática satisfação, contemplava os poucos seres ainda vivos que tentavam sobreviver naquele lugar. Em Gilead, antes que o mundo seguisse adiante, a lua cheia do Fim do Ano fora chamada de Lua do Demônio, e as pessoas achavam que dava azar olhar diretamente para ela.

Agora, contudo, isso não tinha importância. Agora havia demônios por toda parte.

 

 

Susannah olhou para o mapa de viagem e viu que o ponto verde marcando a posição do trem estava a quase meio caminho entre Candleton e Rilea, a parada seguinte de Blaine. Mas quem é que vai parar?, pensou ela.

Do mapa de viagem, Susannah se virou para Eddie. O olhar dele continuava voltado para o teto do Vagão do Baronato. Ela também levantou a cabeça e viu um quadrado que só poderia ser de um alçapão (é claro que, no caso de uma porra futurista como um trem falante, Susannah achava que deveria chamar aquilo de escotilha ou algo ainda menos banal). O esquemático desenho vermelho ali gravado mostrava um homem atravessando a abertura. Susannah tentou imaginar como seria seguir imediatamente a sugestão e sair pela escotilha a mais de 1.200 quilômetros por hora. Teve a rápida mas nítida imagem da cabeça de uma mulher sendo arrancada do pescoço como uma flor de seu caule; viu a cabeça voando para trás por toda a extensão do Vagão do Baronato, talvez batendo uma vez no teto e logo sumindo no escuro, olhos arregalados e cabelo ondulando.

Afastou a imagem o mais rápido que pôde. Até porque a escotilha lá em cima estava quase certamente trancada. O Mono Blaine não pretendia deixá-los escapar. Susannah achava que sair de lá talvez não fosse uma coisa fácil, mesmo que conseguissem derrotar Blaine com uma adivinhação.

Lamento dizer isso, Blaine querido, mas você só está me parecendo mais um branco filho-da-puta, pensou, com uma voz mental que não chegava a ser a de Detta Walker. Não confio nesse seu rabo mecânico. Você é capaz de ser mais perigoso derrotado do que com a fita de campeão espetada nos seus bancos de memória.

Jake estendia o amassado livro de adivinhações para o pistoleiro como se não quisesse mais a responsabilidade de carregá-lo. Susannah sabia como o garoto devia estar se sentindo; a vida deles podia muito bem estar naquelas páginas encardidas, folheadas demais. Ela pensou que também não iria querer a responsabilidade de segurar aquilo.

— Roland! — murmurou Jake. — Quer ficar com isso?

— Eique! — latiu Oi, lançando contra o pistoleiro um olhar decidido. — Fica com? — O trapalhão cravou os dentes no livro, tirou-o da mão de Jake e estendeu o pescoço desproporcionalmente comprido para Roland, oferecendo-lhe O que É o que É! Adivinhações e Quebra-cabeças ao Alcance de Todos!

Roland fitou o livro por um momento com ar distante, preocupado, e sacudiu a cabeça.

— Por enquanto não. — Concentrou-se no mapa de viagem. Como Blaine não tinha cara, o mapa acabava servindo como ponto de referência. Agora o pontinho verde piscava próximo de Rilea. Susannah se perguntou por um instante que aparência teria a região que estavam atravessando, mas acabou concluindo que preferia não saber. Não depois do que tinha visto ao deixarem a cidade de Lud.

— Blaine! — Roland chamou.

— SIM.

— Pode sair um minuto? Precisamos falar em particular.

Você está maluco se acha que ele vai fazer isso, Susannah pensou, mas a resposta de Blaine foi rápida e ansiosa.

— CLARO, PISTOLEIRO, VOU DESLIGAR TODOS OS MEUS SENSORES NO VAGÃO DO BARONATO. QUANDO A PALESTRA ESTIVER CONCLUÍDA E ESTIVEREM PRONTOS PARA DAR INÍCIO ÀS ADIVINHAÇÕES, EU VOLTAREI.

— É, você e o general MacArthur — sussurrou Eddie.

— O QUE VOCÊ DISSE, EDDIE DE NOVA YORK?

— Nada. Estou só falando sozinho.

— PARA ME CHAMAR, BASTA TOCAR NO MAPA DE VIAGEM — disse Blaine. — ENQUANTO O MAPA ESTIVER VERMELHO, MEUS SENSORES ESTÃO DESLIGADOS. ATÉ MAIS, GENTE BOA. ATÉ DAQUI A POUCO. — Uma pausa. Em seguida: — A VIDA É AZEITE, NÃO ÓLEO DE RÍCINO.

O retângulo do mapa de viagem na frente da cabine adquiriu um vermelho tão intenso que Susannah não conseguiu mais olhá-lo sem contrair as pupilas.

— Azeite, não óleo de rícino? — perguntou Jake. — Que diabo significa isso?

— Não importa — disse Roland. — Não temos tempo a perder. O monotrem vai depressa rumo a seu ponto final, quer Blaine esteja conosco ou não.

— Acredita mesmo que ele foi embora? — perguntou Eddie. — Um cara ardiloso como Blaine? Vamos lá, caia na real. Ele está espiando, tenho certeza.

— Duvido muito — disse Roland, e Susannah pensava como ele. Ao menos por enquanto. — Deu para perceber como ficou empolgado com a possibilidade de entrar de novo num jogo de adivinhações depois de todos esses anos. E...

— E ele está confiante — disse Susannah. — Acha que não terá grandes problemas lidando conosco.

— E poderia ter? — perguntou Jake ao pistoleiro. — Poderia ter problemas conosco?

— Não sei — disse Roland. — Não tenho uma bola de cristal escondida na manga, se é o que você está perguntando. É um jogo limpo... mas pelo menos é um jogo que já joguei antes. Todos nós já jogamos, pelo menos até certo ponto. E temos isto. — Ele meneou a cabeça para o livro que Jake tomara de Oi. — Há forças em ação aqui, grandes forças, e nem todas trabalham para nos manter longe da Torre.

Susannah o ouvia, mas pensava em Blaine — Blaine que se recolhera para deixá-los sozinhos, como o garoto na berlinda que tampa honestamente os olhos enquanto os colegas se escondem. E não era isso que todos eles eram? Coleguinhas de Blaine? O pensamento chegava a ser pior que a imagem de tentar escapar pela escotilha e ter a cabeça arrancada.

— Mas o que vamos fazer? — perguntou Eddie. — Você deve ter alguma idéia na cabeça ou nunca o teria mandado sair.

— A grande inteligência de Blaine, combinada com seu longo período de solidão e inatividade forçada, talvez o tenha tornado mais humano do que ele imagina. Essa, pelo menos, é a minha esperança. Primeiro temos de definir uma espécie de geografia. Temos de descobrir onde ele é fraco e onde é forte, onde está bem no jogo e onde não está. Adivinhações não têm a ver apenas com a esperteza de quem pergunta, não se enganem quanto a isso. Elas também têm a ver com os pontos cegos de quem está respondendo.

— E será que ele tem pontos cegos? — perguntou Eddie.

— Se não tiver — disse Roland calmamente —, vamos todos morrer neste trem.

— Eu adoro a sua sutileza quando estamos em situações difíceis — disse Eddie com um sorriso discreto. — É um de seus muitos charmes.

— Para começar, vamos lhe propor quatro adivinhações — disse Roland. — Fácil, não tão fácil, difícil, muito difícil. Tenho certeza de que ele vai responder a todas as quatro, mas estaremos atentos ao modo como responde.

Eddie agora aquiescia, e Susannah experimentava uma pequena, quase relutante centelha de esperança. Parecia, aliás, a atitude sensata.

— Então o mandamos esperar de novo e tornamos a palestrar — disse o pistoleiro. — Talvez tenhamos alguma idéia da melhor direção para mandar nossos cavalos. Essas primeiras adivinhações podem vir de qualquer lugar, mas... — ele inclinou gravemente a cabeça na direção do livro — ...com base na história daquela livraria que Jake nos contou, a resposta de que realmente precisamos deve estar aí, não nas memórias que eu possa ter das adivinhações dos Dias de Feira. Tem de estar aí.

— Pergunta — disse Susannah.

Roland olhou-a, sobrancelhas erguidas sobre seus olhos mortiços, perigosos.

— O que estamos procurando é uma pergunta, não uma resposta — disse ela. — Desta vez são justamente as respostas que podem nos levar à morte.

O pistoleiro aquiesceu. Parecia confuso — frustrado, até —, e aquela não era uma expressão que Susannah gostasse de ver em seu rosto. Mas desta vez, quando Jake estendeu o livro, Roland o pegou. Segurou-o por um momento (a capa vermelha, surrada mas ainda viva, parecia muito estranha naquelas grandes mãos queimadas de sol... especialmente na direita, com seus dois dedos a menos), depois passou-o para Eddie.

— Você é a fácil — disse Roland, virando-se para Susannah.

— Talvez — respondeu ela com um esboço de sorriso —, mas acho que isso não é uma coisa muito educada para se dizer a uma dama, Roland.

Ele se virou para Jake.

— Você entra em segundo lugar, com uma adivinhação não tão fácil. Eu venho em terceiro. E você por último, Eddie. Tire uma do livro que pareça difícil...

— As difíceis estão mais para o fim — esclareceu Jake.

— ...e não invente nenhuma de suas bobagens. É um jogo de vida ou morte. A hora das bobagens passou.

Eddie olhou para Roland — um Roland velho, alto e feio, que só Deus sabia quantas coisas feias já fizera sob o pretexto de alcançar sua Torre — e se perguntou se ele fazia alguma idéia do quanto aquelas palavras o feriam. Aquela advertência casual para ele não se comportar como criança, sorrindo e fazendo piadas, agora que a vida de todos estava ameaçada.

Abriu a boca para dizer alguma coisa — uma tirada especial de Eddie Dean, algo que fosse ao mesmo tempo engraçado e mordaz, o tipo de comentário que sempre costumava deixar seu irmão Henry fora de si — e tornou a fechá-la. Talvez o sujeito velho, alto e feio tivesse razão; talvez fosse a hora de dispensar os gracejos e as piadas infames. Talvez finalmente tivesse chegado a hora de virar adulto.

 

Após mais três minutos de consulta murmurada e rápidas folheadas de O que É o que É!, para extrair as adivinhações de Eddie e Susannah (Jake tinha dito que já sabia que adivinhação queria propor a Blaine), Roland foi até a frente do Vagão do Baronato, pousou a mão naquele retângulo extremamente brilhante e o mapa de viagem reapareceu de imediato. Embora não houvesse sensação de deslocamento agora que o vagão fora fechado, o ponto verde estava mais perto de Rilea que nunca.

— E AÍ, ROLAND, FILHO DE STEVEN! — disse Blaine. Eddie achou-o mais que jovial; parecia quase hilariante. — O KA-TET DE VOCÊS ESTÁ PRONTO PARA COMEÇAR?

— Sim. Susannah de Nova York dará início à primeira rodada. Roland se virou para ela, baixou um pouco a voz (mesmo sabendo que aquilo de nada serviria se Blaine quisesse realmente ouvir) e disse:

— Você não terá de dar um passo à frente como nós, por causa de suas pernas, mas deve falar com firmeza e chamá-lo pelo nome sempre que tiver de se dirigir a ele. Se... quando... ele responder corretamente à sua adivinhação, diga “Obrigada-sai, Blaine, você respondeu a verdade”. Então Jake passará ao corredor e terá sua vez. Tudo certo?

— E se ele responder errado ou não conseguir adivinhar?

Roland sorriu severamente.

— Acho que ainda não temos de nos preocupar com esta hipótese. — Ele tornou a erguer a voz. — Blaine?

— SIM, PISTOLEIRO.

Roland respirou fundo.

— A coisa começa agora.

— EXCELENTE!

Roland fez sinal para Susannah. Eddie apertou uma das mãos dela; Jake deu palmadinhas na outra. Oi encarou-a amorosamente com seus olhos contornados de dourado.

Susannah deu um sorriso nervoso e ergueu a cabeça para o mapa de viagem.

— Olá, Blaine.

— OLÁ, SUSANNAH DE NOVA YORK.

O coração dela pulava, as axilas pareciam úmidas e havia uma coisa que Susannah descobrira quando ainda estava no ensino fundamental: o pior era começar. Não era fácil ficar parada na frente da turma e ser a primeira a cantar, contar a piada, fazer um relato de como havia passado as férias de verão... ou brincar de adivinhação. Naquele momento, havia se decidido por uma adivinhação tirada de uma dissertação maluca de Jake Chambers, a mesma que ele reproduzira quase palavra por palavra durante a longa palestra do grupo após o encontro com os antigos habitantes de River Crossing. A dissertação, intitulada “Minha Compreensão da Verdade”, continha duas adivinhações, uma das quais Eddie já usara contra Blaine.

— SUSANNAH? VOCÊ ESTÁ AÍ, MULHER-CAUBÓI?

Brincando de novo, mas desta vez a brincadeira parecia leve, bem levada. Bem-humorada. Blaine sabia jogar o seu charme quando obtinha o que queria. Como certas crianças mimadas que Susannah havia conhecido.

— Sim, Blaine, estou aqui, e a minha adivinhação é a seguinte: o que é o que é que tem quatro rodas e moscas?[2]

Houve um estalo, como se Blaine estivesse reproduzindo o ruído de alguém fazendo a língua estalar no céu da boca. O estalo foi seguido por uma breve pausa. Quando Blaine respondeu, quase todo o tom de deboche desaparecera de sua voz.

— A CARROÇA DE LIXO, É CLARO. UMA ADIVINHAÇÃO DE CRIANÇA. SE O RESTO DAS ADIVINHAÇÕES NÃO FOR MELHOR, VOU LAMENTAR EXTREMAMENTE TER POUPADO SUAS VIDAS, MESMO QUE POR UM CURTO PERÍODO.

O mapa de viagem cintilava, agora não vermelho, mas rosa-claro.

— Não o enfureçam — instou a voz do Pequeno Blaine. Sempre que aquela voz se manifestava, Susannah imaginava um homem baixo e calvo, muito suado, cujos movimentos lembravam contrações. A voz do Grande Blaine vinha de todos os lados (como a voz de Deus num filme de Cecil B. DeMille, Susannah pensou), mas a do Pequeno Blaine só saía de um lugar: o alto-falante localizado diretamente sobre suas cabeças. — Por favor não o deixem irritado, amigos; ele já levou o mono até o vermelho em termos de velocidade e os batentes do trilho podem não agüentar. A instalação tem se deteriorado terrivelmente desde a última vez que passamos por este caminho.

Susannah, que experimentara em sua época um bom número de bondes desengonçados e trens barulhentos, não sentia nada — a viagem lhe parecia totalmente suave desde a primeira acelerada na saída do Berço de Lud —, mas sem dúvida acreditava no Pequeno Blaine. Achava que se chegassem realmente a sentir algum baque, seria a última coisa que cada um deles teria oportunidade de sentir.

Roland cutucou-a com o cotovelo, trazendo-a de volta para a situação real.

— Obrigada-sai — disse ela, e então, após pensar mais um pouco, deu três batidinhas rápidas na garganta com os dedos da mão direita. Era o que Roland tinha feito ao falar pela primeira vez com tia Talitha.

— OBRIGADO POR SUA CORTESIA — disse Blaine. Parecia novamente satisfeito, e Susannah ponderou que aquilo era bom, mesmo que ele estivesse se divertindo à sua custa. — EMBORA EU NÃO SEJA MULHER. O SEXO QUE EU EVENTUALMENTE POSSA TER É MASCULINO.

Meio confusa, Susannah olhou para Roland.

— Para os homens é com a mão esquerda — disse Roland. — No esterno. — Bateu para demonstrar.

— Ah.

Roland se virou para Jake. O garoto se levantou, pôs Oi em sua poltrona (o que foi inútil; Oi pulou de imediato para o chão e foi atrás do garoto, que avançava pelo corredor encarando o mapa de viagem). Jake concentrou sua atenção em Blaine.

— Olá, Blaine, sou o Jake. Você sabe, filho de Elmer.

— FAÇA SUA ADIVINHAÇÃO.

— O que pode correr mas nunca anda, tem boca mas nunca fala, tem leito mas nunca dorme, tem cabeça mas nunca chora?

— NÃO É MÁ! ESPERO QUE SUSANNAH APRENDA COM SEU EXEMPLO, JAKE, FILHO DE ELMER. A RESPOSTA COSTUMA SER ÓBVIA PARA QUALQUER UM QUE TENHA ALGUMA INTELIGÊNCIA, EMBORA ÀS VEZES EXIJA UM PEQUENO ESFORÇO. UM RIO.

— Obrigado-sai, Blaine, você respondeu a verdade. — Com os dedos da mão esquerda unidos, bateu três vezes no esterno e se sentou. Susannah pôs o braço em volta dele e deu um breve apertão. Jake olhou-a agradecido.

Agora era Roland quem ficava de pé.

— Hail, Blaine — disse.

— HAIL, PISTOLEIRO. — De novo Blaine parecia estar se divertindo... possivelmente com o cumprimento, que Susannah ainda não tinha ouvido. Heil, Hail?, ela se perguntava. A imagem de Hitler entrou na sua mente, o que a fez pensar no avião que tinham encontrado nos arredores de Lud. Um Focke-Wulf, dissera Jake. Ela não conhecia marcas de fábrica, mas sabia que o aparelho conduzira um militar que tivera uma morte bastante séria, ainda que o corpo, velho demais até para feder, continuasse lá. — DIGA SUA ADIVINHAÇÃO, ROLAND, E QUE ELA SEJA ESPIRITUOSA.

— O espirituoso pode ser um ponto de vista, Blaine. De qualquer modo, aí está: O que tem quatro pernas de manhã, duas pernas à tarde e três pernas à noite.

— ESTA É DE FATO ESPIRITUOSA — Blaine reconheceu. — SIMPLES, MAS AINDA ASSIM ESPIRITUOSA. A RESPOSTA É O SER HUMANO, QUE ENGATINHA COM AS MÃOS E JOELHOS NA INFÂNCIA, ANDA SOBRE DUAS PERNAS NA VIDA ADULTA E SE DESLOCA COM O AUXÍLIO DE UMA BENGALA QUANDO ESTÁ VELHO.

Blaine tinha um tom convencido e de repente Susannah descobriu um fato razoavelmente interessante: odiava aquela coisinha presunçosa e criminosa. Máquina ou não, isso ou ele, Susannah odiava Blaine. Acreditava que estaria sentindo a mesma coisa ainda que Blaine não os tivesse obrigado a apostar suas vidas num estúpido jogo de adivinhações.

Roland, contudo, não revelava a menor impaciência.

— Obrigado-sai, Blaine, você respondeu a verdade. — Ele se sentou sem dar tapinhas no esterno e se virou para Eddie. Eddie se levantou e foi para o corredor.

— Tudo bem com você, Blaine, amigão? — ele perguntou. Roland se encolheu e balançou a cabeça, pondo brevemente a mutilada mão direita sobre os olhos.

Silêncio de Blaine.

— Blaine? Você está aí?

— SIM, MAS NÃO ESTOU NO CLIMA PARA FRIVOLIDADE, EDDIE DE NOVA YORK. DIGA SUA ADIVINHAÇÃO. SUSPEITO QUE SERÁ UMA DAS DIFÍCEIS, APESAR DA FIGURA DE TOLO QUE VOCÊ DEIXA PASSAR. ESTOU ANSIOSO À ESPERA.

Eddie olhou de relance para Roland, que sacudiu a mão (Vá em frente, pelo amor de seu pai, vá em frente!) e tornou a olhar para o mapa de viagem, onde o ponto verde acabara de ultrapassar o lugar com a inscrição Rilea. Susannah sentiu que Eddie percebia a mesma coisa que ela: Blaine estava plenamente ciente de que procuravam testar sua capacidade com um espectro de adivinhações. Blaine estava ciente... e gostava disso.

Susannah sentiu um aperto no coração quando qualquer esperança de que pudessem achar um meio rápido e fácil de sair de lá desapareceu.

 

— Bem — disse Eddie —, não sei até que ponto será difícil para você, Blaine, mas para mim parece dureza.

Nem ele sabia a resposta, pois aquela seção de O que É o que É! fora rasgada, embora isso não fizesse diferença; pelas regras estabelecidas, eles não eram obrigados a conhecer as respostas.

— VOU OUVIR E RESPONDER.

— Antes quebrado do que falado. O que é?

— O SILÊNCIO. UMA COISA QUE VOCÊ CONHECE POUCO, EDDIE DE NOVA YORK — disse Blaine sem absolutamente nenhuma pausa e Eddie sentiu o coração se contrair um pouco. Não havia necessidade de consultar os outros; a resposta era evidente. E o fato de ela ter ocorrido a Blaine com tamanha rapidez era uma verdadeira proeza. Eddie jamais confessaria, mas abrigara a esperança (quase uma secreta certeza) de derrubar Blaine com uma única adivinhação, uma ker-smash: todos os cavalos do rei e todos os homens do rei não poderiam recompor novamente Blaine. A mesma segurança secreta que havia nutrido a cada vez que segurava um par de dados no jogo de merda no quarto dos fundos de algum espertalhão, a cada vez que estava com 17 pontos e pedia para pegar outra carta no vinte-e-um. Era aquela sensação de que você não pode fazer nada de errado porque você era você, o melhor, o primeiro e único.

— Sim — disse ele com um suspiro. — Silêncio, uma coisa que não conheço muito. Obrigado-sai, Blaine, você respondeu a verdade.

— ESPERO QUE TENHAM DESCOBERTO ALGUMA COISA QUE POSSA AJUDÁ-LOS — disse Blaine, e Eddie pensou: Não minta, sua porra mecânica. O tom complacente voltara à voz de Blaine e Eddie achou um tanto interessante que uma máquina pudesse expressar tamanha gama de emoções. Teriam os Grandes Anciãos embutido isso nele ou o próprio Blaine havia criado, a certa altura de seu funcionamento, um arco-íris emocional para si próprio? Uma pequena diversidade de sentimentos com a qual atravessar as longas décadas e séculos? — VOCÊS QUEREM QUE EU TORNE A ME RETIRAR PARA QUE POSSAM CONVERSAR?

— Sim — disse Roland.

O vermelho vivo voltou a cintilar no mapa de viagem. Eddie se virou para o pistoleiro. Roland retomou rapidamente a compostura, mas antes que isso acontecesse Eddie viu uma coisa horrível: uma breve expressão de completa desesperança. Eddie nunca vira tal expressão naquele rosto, nem mesmo quando Roland estava à beira da morte por causa das mordidas das lagostrosidades, nem mesmo quando Eddie pegou e voltou contra ele seu revólver de pistoleiro, nem mesmo quando o hediondo Gasher tomou Jake como prisioneiro e desapareceu em Lud com o garoto.

— O que vamos fazer agora? — Jake perguntou. — Mais uma rodada dos quatro?

— Acho que não teria grande utilidade — disse Roland. — Blaine deve conhecer milhares de adivinhações... talvez milhões... e isso não é bom. E pior, muito pior é o fato de ele saber como adivinhar... o fato de conhecer o ponto da mente onde a pessoa tem de ir tanto para propor quanto para resolver uma adivinhação. — Virou-se para Eddie e Susannah, sentando mais uma vez com os braços cruzados. — Estou certo ou não? — ele perguntou. — O que vocês acham?

— Está certo — disse Susannah, e Eddie balançou relutantemente a cabeça. Não queria concordar... mas concordou.

— Então? — Jake perguntou. — O que podemos fazer, Roland? Quero dizer, tem de haver um meio de sairmos disto... não é?

Não diga a verdade a ele, sua porra, Eddie disparou febrilmente na direção de Roland.

Roland, talvez ouvindo o pensamento, fez o melhor que pôde. Estendeu a mão reduzida e passou-a pelos cabelos de Jake.

— Acho que há sempre uma saída, Jake. A verdadeira dúvida é se teremos tempo ou não de encontrar a adivinhação certa. Blaine disse que vai levar menos de nove horas para completar sua rota...

— Oito horas e 45 minutos — Jake esclareceu.

— ...e isso não é muito tempo. Já estamos viajando há quase uma hora...

— E se o mapa estiver certo — disse Susannah com uma tensão na voz —, já estamos quase na metade do caminho para Topeka. Acham que nosso amigo mecânico pode estar mentindo sobre a extensão da rota? Para melhorar um pouco suas chances no jogo?

— Pode ser — Roland concordou.

— Então, o que vamos fazer? — Jake repetiu. Roland respirou fundo, segurou o ar, deixou-o sair.

— Deixem ao menos no início que eu faça sozinho as adivinhações. Serão as mais difíceis, as piores que eu puder tirar da lembrança dos Dias de Feira da minha juventude. Depois, Jake, se estivermos nos aproximando do ponto em que... isto é, se estivermos nos aproximando de Topeka a esta mesma velocidade e com Blaine ainda não derrubado, acho que devia propor a ele as últimas adivinhações que há no seu livro. As mais complicadas. — Esfregou o lado do rosto distraidamente e olhou para a escultura de gelo. A gelada representação de sua imagem tinha agora derretido e se transformado numa pasta irreconhecível. — Ainda acho que a resposta deve estar no livro. Por que outra razão, afinal, você teria sido atraído por ele antes de voltar para este mundo?

— E nós? — Susannah perguntou. — O que eu e Eddie vamos fazer?

— Pensar — disse Roland. — Pensar, pelo amor de seus pais.

— Eu não atiro com minha mão — disse Eddie, de repente se sentindo muito distante, um estranho, até para si mesmo. Fora assim que se sentira ao ver, pela primeira vez, o estilingue e depois a chave em pedaços de madeira, só à espera de sua talha para se libertarem... Ao mesmo tempo, no entanto, havia algo de muito diferente entre esta sensação e a outra.

Roland o olhava com ar atento.

— Sim, Eddie, isso é verdade. Um pistoleiro atira com a mente. No que estava pensando?

— Em nada. — Podia ter dado outra resposta, mas de repente uma estranha imagem... uma estranha lembrança... lhe ocorrera: Roland ao lado de Jake num dos pontos de parada a caminho de Lud. Os dois na frente de uma fogueira apagada. Roland em outra de suas demoradas lições. Era a vez de Jake acender a fogueira. Jake com a vara de pederneira, tentando iniciar o fogo. Centelha após centelha brotando e morrendo no escuro. E Roland tinha dito que Jake estava sendo incapaz. Que estava sendo simplesmente... bem... incapaz.

— Não — disse Eddie. — Não foi absolutamente isso que ele disse. Pelo menos não para o garoto, não foi.

— Eddie? — Susannah. Parecendo preocupada. Quase assustada. Bem, por que não pergunta a ele o que foi dito, bróder? Era a voz de Henry, a voz do Grande Sábio e Eminente Maluco. Pela primeira vez em muito tempo. Pergunte a ele, que está praticamente sentado do seu lado, fale com ele e pergunte o que foi dito. Pare de dar voltas de um lado para o outro como um bebê com alguma coisa pesando na fralda.

Só que não era uma boa idéia, porque não era como as coisas funcionavam no mundo de Roland. No mundo de Roland tudo era quebra-cabeça, você não atirava com a mão mas com a mente, a porra da mente, e o que você diria para alguém que não está conseguindo fazer a centelha tocar o graveto? Chegue a pederneira para mais perto, é claro, e foi isso que Roland tinha dito: Chegue a pederneira para mais perto e segure firme.

Só que essas palavras não reproduziam exatamente o que lá se passou. Chegavam perto, sim, mas perto só conta em jogo de atirar ferraduras, como Henry Dean tinha o hábito de dizer antes de se tornar o Grande Sábio e Eminente Maluco. A memória de Eddie não estava de todo precisa porque Roland o deixara sem jeito... o envergonhara... fizera uma piada à sua custa...

Provavelmente não de propósito, mas houve... alguma coisa. Algo que o deixou se sentindo do modo como Henry costumava fazê-lo se sentir, claro que era isso, por que outra razão Henry estaria ali após tão longa ausência?

Agora todos olhando para ele. Até Oi.

— Continue — ele disse a Roland, parecendo um tanto irritado. — Você queria que a gente pensasse, já estamos pensando.

Sem dúvida Eddie estava pensando com tanto empenho (atiro com minha mente) que a porra dos miolos estavam quase pegando fogo, mas ia continuar na superfície com aquele sujeito velho, feio e alto demais.

— Tome a frente e jogue algumas adivinhações para Blaine — disse. — Faça a sua parte.

— Como quiser, Eddie. — Roland levantou da poltrona, tomou a frente e pousou de novo a mão no retângulo escarlate. O mapa de viagem reapareceu de imediato. O ponto verde tinha se distanciado bastante de Rilea, mas estava claro para Eddie que o monotrem havia diminuído significativamente a velocidade; ou obedecendo a algum programa instalado ou porque Blaine estivesse se divertindo muito para pensar em correr.

— SEU KA-TET ESTÁ PRONTO PARA CONTINUAR AS ADIVINHAÇÕES DE NOSSO DIA DE FEIRA, ROLAND, FILHO DE STEVEN?

— Sim, Blaine — disse Roland e Eddie achou a voz dele pesada. — Por algum tempo, só eu vou propor as adivinhações. Se você não tiver objeções.

— COMO DINH E PAI DE SEU KA-TET, VOCÊ ESTÁ NO SEU DIREITO. SERÃO MESMO ADIVINHAÇÕES DE DIA DE FEIRA?

— Sim.

— BOM. — Odiosa satisfação nessa voz. — GOSTARIA DE OUVIR MAIS ALGUMAS DELAS.

— Está bem. — Depois de respirar fundo, Roland começou: — Alimente-me e viverei. Dê-me de beber e morro. Quem sou eu?

— O FOGO. — Sem hesitação. Só aquele intolerável convencimento, um tom que dizia: Já conhecia essa quando sua avó era moça, mas tente de novo! Há séculos eu não me divertia tanto, tente de novo!

— Passo na frente do sol, Blaine, mas não faço sombra. Quem sou?

— O VENTO. — Nenhuma hesitação.

— Você respondeu a verdade, sai. Seguinte. É leve como pena, mas ninguém consegue segurar por muito tempo.

— A RESPIRAÇÃO. — Nenhuma hesitação.

Mas talvez ele tivesse hesitado, Eddie pensou de repente. Jake e Susannah observavam Roland com angustiada concentração, punhos cerrados, como querendo atiçá-lo a propor a Blaine a adivinhação certa, a insolúvel, aquela com o Passe Livre para o Banho de Sol no Pátio escondido na manga; Eddie não conseguia olhar para eles — em particular para Suze — e manter a concentração. Baixou o olhar para as próprias mãos, que também estavam cerrradas, e forçou-as a se abrirem em seu colo. Foi surpreendentemente difícil fazer isso. Ouvia Roland no corredor, expondo a seleção de ouro das adivinhações de sua juventude.

— Responda esta, Blaine... Se me partir, não paro de trabalhar. Se conseguir me comover, conseguiu me tocar. Se me perder, tem logo depois de achar o meu toque. Quem sou eu?

A respiração de Susannah hesitou um instante e embora de cabeça baixa Eddie percebeu que ela estava pensando o mesmo que ele: aquela era boa, muitíssimo boa, talvez...

— O CORAÇÃO HUMANO — disse Blaine. Ainda sem qualquer vestígio de hesitação. — É UMA ADIVINHAÇÃO EM GRANDE PARTE BASEADA EM CONCEITOS POÉTICOS DOS HUMANOS; VEJA POR EXEMPLO JOHN AVERY, SIRONIA HUNTZ, ONDOLA, WILLIAM BLAKE, JAMES TATE, VERÔNICA MAYS E OUTROS. É NOTÁVEL QUANTOS SERES HUMANOS DEVOTAM SUAS MENTES AO AMOR. UM SENTIMENTO QUE CONTINUA PASSANDO DE UM ANDAR A OUTRO DA TORRE, MESMO NESSES DIAS DEGENERADOS. CONTINUE, ROLAND DE GILEAD.

Susannah recuperou o fôlego. As mãos de Eddie quiseram se fechar de novo, mas ele não permitiu. Chegue a pederneira para mais perto, pensou com a voz de Roland. Chegue a pederneira para mais perto, pelo amor de seu pai!

E o Mono Blaine corria, para sudeste, sob a Lua do Demônio.

 

As Cataratas dos Cães

Jake não sabia até que ponto Blaine acharia fácil ou difícil as últimas dez adivinhações de O que É o que É!, mas ao menos para ele pareciam bem complicadas. Naturalmente, Jake ponderou, ele não era uma máquina pensante com uma rede de computadores do tamanho de uma cidade para auxiliá-lo. Tudo que podia fazer era contar com seus recursos; Deus odeia os covardes, Eddie costumava dizer. Se com as últimas dez não desse certo, tentaria a adivinhação de Sansão de Aaron Deepneau (Do comedor sai a carne e assim por diante). Se isso também não desse certo, ele provavelmente... merda, não sabia o que faria ou como ia se sentir. A verdade, Jake pensou, é que estou numa encrenca.

E era de admirar? Atravessara, nas últimas oito horas, um extraordinário enxame de emoções. Primeiro o terror: ter certeza que ia cair com Oi da ponte suspensa e morrer com ele no rio Send; terror de ser empurrado por Gasher pelo louco labirinto que era Lud; de ter de encarar os terríveis olhos verdes do Homem do Tiquetaque e tentar responder a suas irrespondíveis perguntas sobre o tempo, os nazistas e a natureza dos circuitos transitivos. Ser questionado pelo Tiquetaque fora como prestar um exame final no inferno.

Então a satisfação de ser resgatado por Roland (e Oi; sem Oi ele agora estaria quase certamente torrado), o espanto com tudo que tinha visto sob a cidade, seu temor ante o modo como Susannah resolvera a primeira adivinhação de Blaine e a maluca corrida final para subir a bordo do monotrem antes que Blaine liberasse os estoques de gás letal guardados embaixo de Lud.

Depois de sobreviver a tudo isso, uma espécie de gloriosa segurança caíra sobre ele — sem dúvida Roland derrotaria Blaine, que teria de cumprir sua parte no acordo, deixando-os sãos e salvos em sua parada final (fosse qual fosse o lugar que estivesse se fazendo passar por Topeka naquele mundo). Então encontrariam a Torre Negra, onde fariam o que tivessem de fazer, endireitando o que estivesse torto, consertando o que precisasse de conserto. E depois? Viveriam felizes para sempre, é claro. Como acontece com as pessoas num conto de fadas.

Só que...

Compartilhavam os pensamentos uns dos outros, Roland dissera; compartilhar o khef era parte do que o ka-tet significava. E o que estivera se destilando para a cabeça de Jake desde que Roland pisara no corredor e começara a testar Blaine com adivinhações dos tempos de juventude foi um sentimento de condenação. E não estava vindo apenas do pistoleiro; Susannah estava mandando a mesma vibração sombria e severa. Só Eddie não enviava aquele tipo de coisa, o que acontecia pelo fato de Eddie ter conseguido de alguma forma se desligar, se voltar para seus próprios pensamentos. A situação podia continuar sob controle, mas não havia garantias e...

...e Jake começou a ficar de novo assustado. Pior, sentiu-se desesperado, como uma criatura encurralada, empurrada cada vez mais para trás em seu último canto por um inimigo implacável. Seus dedos acariciavam sem cessar o pêlo de Oi e, ao baixar os olhos, Jake percebeu uma coisa espantosa: a mão que Oi mordera para não cair da ponte já não doía. Jake via os buracos que os dentes do trapalhão tinham feito e ainda havia crostas de sangue na palma e no pulso, mas a mão não doía mais. Ele a flexionou com cuidado. Houve apenas uma dormência, muito pequena e distante, nada que pudesse incomodar.

— Blaine, o que pode subir numa chaminé fechado, mas não pode descer por uma chaminé aberto?

— A SOMBRINHA DE UMA SENHORA — Blaine respondeu naquele tom de alegre complacência que também Jake estava começando a odiar.

— Obrigado-sai, Blaine, de novo você respondeu a verdade. Seguinte...

— Roland?

O pistoleiro se virou para Jake e o ar de concentração se abrandou um pouco. Não chegou a haver um sorriso, mas algo que deu alguns passos naquela direção e alegrou Jake.

— O que é, Jake?

— Minha mão. Estava doendo terrivelmente e agora nem sinto!

— BOBAGEM — disse Blaine com a fala arrastada de John Wayne. — NÃO POSSO VER UM CÃO SOFRENDO COM UM MACHUCADO NA PATA, O QUE DIRÁ UMA ÓTIMA MÃO DE ALPINISTA COMO A SUA. ENTÃO CONSERTEI.

— Como? — Jake perguntou.

— DÊ UMA OLHADA NO BRAÇO DE SUA POLTRONA.

Jake obedeceu e viu uma pequena rede de fios em forma circular.

Lembrava um pouco o alto-falante do rádio transistor que tivera aos sete ou oito anos.

— OUTRA VANTAGEM DE VIAJAR NA CLASSE DO BARONATO — continuou Blaine em seu tom presunçoso. Passou pela mente de Jake que Blaine se adaptaria perfeitamente ao Colégio Piper. O primeiro filhinho de papai com turbinas de levitação do mundo. — O SCANNER MANUAL AMPLIFICADOR DE ESPECTRO É UMA FERRAMENTA DE DIAGNÓSTICO TAMBÉM CAPAZ DE ADMINISTRAR A MEDICAÇÃO INCLUÍDA NOS PRIMEIROS SOCORROS, COMO FIZ COM VOCÊ. É TAMBÉM UM SISTEMA FORNECEDOR DE NUTRIENTES, UM DISPOSITIVO QUE REGISTRA OS PADRÕES CEREBRAIS, UM ANALISADOR DE ESTRESSE E UM ATIVADOR EMOCIONAL QUE PODE ESTIMULAR NATURALMENTE A PRODUÇÃO DE ENDORFINA. O SCANNER MANUAL TAMBÉM É CAPAZ DE CRIAR ILUSÕES E ALUCINAÇÕES BASTANTE CONVINCENTES. NÃO GOSTARIA DE TER SUA PRIMEIRA EXPERIÊNCIA SEXUAL COM UMA DESTACADA BELDADE DE UM DOS ANDARES DA TORRE, JAKE DE NOVA YORK? QUEM SABE MARILYN MONROE, RAQUEL WELCH OU EDITH BUNKER?

Jake riu. Achou que rir na frente de Blaine podia ser arriscado, mas daquela vez simplesmente não pôde evitar.

— Edith Bunker não existe — disse. — É apenas uma personagem numa novela de TV. O nome da atriz é, hum, Jean Stapleton. Além disso, ela se parece com a Sra. Shaw, que é nossa governanta. Simpática, mas não... você sabe... uma beldade.

Um longo silêncio de Blaine. Quando a voz do computador retornou, uma certa frieza substituíra a graça do antigo tom estamos-nos-divertindo-cara.

— PEÇO QUE ME DESCULPE, JAKE DE NOVA YORK. EU TAMBÉM RETIRO MINHA OFERTA DE EXPERIÊNCIA SEXUAL.

Isso vai me servir de lição, Jake pensou, erguendo a mão para ocultar um sorriso. Em voz alta (e no que esperava fosse um tom de voz adequadamente humilde), ele disse:

— Tudo bem, Blaine. E acho que ainda sou um pouco criança para isso.

Susannah e Roland se entreolhavam. Susannah não sabia quem era Edith Bunker... Tudo em Família ainda não passava na TV em seu quando. Mas ela não deixou de apreender a essência da situação; Jake viu seus lábios grossos formarem uma palavra muda e enviá-la para o pistoleiro como uma mensagem numa bolha de sabão:

Erro.

Sim. Blaine havia cometido um erro. Pior. Jake Chambers, um garoto de 11 anos, fora capaz de percebê-lo. E se Blaine errara uma vez, podia errar outra. Talvez, afinal, houvesse alguma esperança. Jake decidiu encarar essa possibilidade como encarara a graf de River Crossing e se conceder um pouco de descanso mental.

 

Roland balançou imperceptivelmente a cabeça para Susannah, depois tornou a se virar para a frente do vagão, possivelmente para continuar com as adivinhações. Antes que ele pudesse abrir a boca, Jake sentiu seu corpo empurrado para a frente. Era engraçado; não se sentia nada quando o monotrem estava em velocidade de cruzeiro, mas no instante em que começava a desacelerar, a pessoa sentia.

— AQUI ESTÁ UMA COISA QUE VOCÊS REALMENTE DEVIAM VER — disse Blaine. Parecia novamente animado, mas Jake não confiou naquele tom; ele algumas vezes tinha ouvido o pai iniciar conversas ao telefone daquele jeito (geralmente com algum subordinado que tivesse um saco de ouro para agüentá-lo). No fim da conversa, Elmer Chambers já estaria de pé, curvado sobre a escrivaninha como um homem com dor no estômago e gritando com toda a força dos pulmões, as bochechas vermelhas como rabanetes e, debaixo dos olhos, círculos de carne roxos como berinjela. — DE QUALQUER MODO TENHO DE PARAR AQUI. A PARTIR DESTE PONTO PASSO A SER MOVIDO POR BATERIAS, O QUE SIGNIFICA TER DE CARREGÁ-LAS ANTES.

O mono parou com um solavanco quase imperceptível. As paredes em volta do grupo mais uma vez perderam a cor e ficaram transparentes. Susannah arfou de medo e espanto. Roland ficou de pé, estendendo a mão para sentir a parede do vagão e não bater de cabeça nela; depois se inclinou para a frente com as mãos nos joelhos e os olhos contraídos. Oi começou de novo a latir. Só Eddie parecia indiferente à esplêndida vista que lhes era fornecida pelo Vagão do Baronato. Olhou uma vez ao redor, a expressão preocupada, imersa em pensamentos. Logo tornou a olhar para as mãos. Depois de observá-lo com certa curiosidade, Jake voltou a se concentrar na paisagem.

Estavam no meio de uma grande ravina e pareciam flutuar numa atmosfera banhada pela lua. Em segundo plano, Jake viu um grande rio de águas agitadas. Não era o Send, a não ser que os rios, no mundo de Roland, conseguissem correr em direções opostas em diferentes trechos de seus cursos (Jake não sabia o bastante sobre o Mundo Médio para descartar de todo essa possibilidade); o rio de fato não era plácido, mas cheio de corredeiras, uma impetuosa torrente se lançando montanhas abaixo como algo que tivesse sido irritado e agora roncasse pelas encostas.

Por um instante, Jake ficou contemplando as árvores que cobriam as colinas íngremes nas margens do rio, registrando com alívio que não parecia haver nada de anormal com elas — lembravam o tipo de pinheiro que se espera ver nas montanhas do Colorado ou, digamos, do Wyoming.

Então seus olhos foram atraídos para a borda da ravina. Ali a torrente se rompia e criava uma queda-d’água larga e funda. Jake se lembrou de uma das três férias em família (as outras duas tinham sido logo interrompidas por chamadas urgentes da rede de TV do pai). O Niágara, onde estivera com os pais, virava a cascata que podemos ver num parque temático de terceira classe. A atmosfera que rodeava o semicírculo das quedas era engrossada por uma névoa flutuante que lembrava vapor; era nela que uma dúzia de arcos de lua brilhavam de forma quase excessiva, como peças entrelaçadas de joalheria. Jake achou-os parecidos com os anéis que simbolizam os Jogos Olímpicos.

Projetando-se do centro das quedas, talvez 60 metros abaixo do ponto onde o rio começava a cair, havia duas enormes saliências de pedra. Embora Jake não fizesse idéia de como um escultor (ou uma equipe deles) poderia ter chegado àquele ponto, achou realmente impossível que aquelas formas fossem apenas resultado da erosão. Pareciam as cabeças de enormes cães rosnando.

As Cataratas dos Cães, ele pensou. Havia mais uma parada além daquela — Dasherville — e depois Topeka. Ultima parada. Todos para o desembarque.

— UM MOMENTO — disse Blaine. — TENHO DE AJUSTAR O VOLUME PARA DESFRUTAREM O EFEITO INTEGRAL.

Houve um ruído entrecortado, sussurrante, breve — uma espécie de limpada mecânica de garganta — e então foram assaltados por um grande ronco. Era água — um bilhão de galões por minuto, pelo que Jake sabia — se derramando pela beirada da ravina e mergulhando talvez 600 metros na profunda bacia de pedra na base da cachoeira. Torrentes de névoa passavam pelas expressões rudes dos cães na pedra, como vapor saído das chaminés do inferno. O nível de ruído continuava aumentando. Agora toda a cabeça de Jake vibrava e, ao levar as mãos aos ouvidos, ele viu que Roland, Eddie e Susannah faziam o mesmo. Oi estava latindo, mas Jake não conseguia ouvi-lo. Os lábios de Susannah se moviam de novo, e de novo ele pôde ler as palavras (Pare com isso, Blaine, pare com isso!), mas, assim como os latidos de Oi, elas também não podiam ser ouvidas, embora Jake tivesse certeza que Susannah gritava a plenos pulmões.

E Blaine ainda aumentou o som da queda-d’água. Quando sentiu os olhos estremecendo nas órbitas, Jake teve certeza que seus ouvidos iam entrar em curto, como alto-falantes estéreos com sobrecarga.

De repente acabou. Ainda flutuavam sobre a depressão cheia de névoa e luar, os discos das luas continuavam fazendo suas lentas e etéreas revoluções ante a cortina de água interminavelmente caindo, as faces de pedra, brutais e molhadas dos cães-guardiães, continuavam a brotar da torrente, mas o trovão de fim de mundo se fora.

Por um momento, Jake achou que o que ele temia tinha acontecido, que ficara surdo. Então sentiu que podia ouvir Oi, ainda latindo, e Susannah chorando. A princípio esses sons pareceram distantes, abafados, como se os ouvidos tivessem sido entupidos com miolo de pão, mas as coisas foram ficando mais nítidas.

Eddie pôs o braço em volta dos ombros de Susannah e deu uma olhada no mapa de viagem.

— Boa gente, o Blaine.

— EU SÓ ACHEI QUE VOCÊS IAM GOSTAR DE OUVIR O BARULHO DAS QUEDAS EM VOLUME MÁXIMO — disse Blaine. A voz retumbante parecia ao mesmo tempo risonha e injuriada. — ACHEI QUE TALVEZ ISSO AJUDASSE A ESQUECER MEU LAMENTÁVEL EQUÍVOCO NA QUESTÃO DE EDITH BUNKER.

Minha culpa, Jake pensou. Blaine pode ser apenas uma máquina, e urna máquina suicida, mas sem dúvida não gosta que riam dele.

Sentou-se ao lado de Susannah e pôs o braço em volta dela. Ainda podia ouvir as Cataratas dos Cães, mas agora era um som distante.

— O que acontece aqui? — Roland perguntou. — Como carrega suas baterias?

— LOGO VAI SABER, PISTOLEIRO. ENQUANTO ISSO, DIGA UMA ADIVINHAÇÃO.

— Tudo bem, Blaine. Essa foi inventada pelo próprio Cort e foi muito repetida naquele tempo.

— ESTOU ESPERANDO COM GRANDE INTERESSE.

Roland, fazendo uma pausa talvez para pôr os pensamentos em ordem, ergueu os olhos para o lugar onde ficava o teto do vagão e onde, naquele momento, só se via uma extensão estrelada de céu noturno (Jake pôde identificar Aton e Lydia — o Velho Astro e a Velha Mãe —, e ficou estranhamente confortado com a visão dos dois, sempre brilhando um para o outro de suas localizações habituais). Então o pistoleiro se virou para o retângulo iluminado que funcionava como face de Blaine.

— Somos criaturas muito pequenas; cada uma diferente da outra. Uma de nós é a primeira em jarro; outra, a segunda, não aparece em jato. Uma terceira você verá em sim, e uma quarta confirma oh, sim! Se com uuuh a última você chamar, essa quinta não conseguirá escapar. Quem somos nós?

— A, E, I, O, U — Blaine respondeu. — AS VOGAIS DA LÍNGUA SUPERIOR. — Ainda nenhuma hesitação, nem o menor vestígio. Só aquele tom zombeteiro, a dois dedos do riso; o tom de um garotinho cruel vendo insetos correrem de um lado para o outro em cima de uma estufa quente. — MAS OLHE QUE ESSA ADIVINHAÇÃO NÃO VEM DE SEU MESTRE, ROLAND DE GILEAD; CONHEÇO-A DE JONATHAN SWIFT, DE LONDRES... UMA CIDADE DO MUNDO DE ONDE VÊM SEUS AMIGOS.

— Obrigado-sai — disse Roland e este sai soou como um suspiro. — Você respondeu a verdade, Blaine, e sem dúvida sua opinião sobre as origens da adivinhação também é verdadeira. Suspeitei durante muito tempo que Cort sabia da existência de outros mundos. Talvez ele tenha mantido palestras regulares com o manni que vivia fora da cidade.

— NÃO DOU IMPORTÂNCIA AOS MANNI, ROLAND DE GILEAD. FORAM SEMPRE UMA SEITA MALUCA. DIGA OUTRA ADIVINHAÇÃO.

— Está bem. O que...

— ESPERE. ESPERE. A FORÇA DO FEIXE DE LUZ AUMENTA. NÃO OLHEM DIRETAMENTE PARA OS CÃES, MEUS INTERESSANTES NOVOS AMIGOS! E PROTEJAM OS OLHOS!

Jake desviou o olhar das colossais esculturas de pedra que brotavam da cachoeira, mas não ergueu a mão para proteger seu campo de visão. Com sua visão periférica viu aparecerem, naquelas cabeças amorfas, olhos de um azul extremamente brilhante. Faíscas denteadas de luz pularam deles em direção ao monotrem. Jake se deitou rapidamente no chão acarpetado do Vagão do Baronato, agora com as costas das mãos chapadas nos olhos fechados. Oi choramingava a seu lado, mas seu ouvido parecia meio entorpecido. Mais nítido que Oi, ele ouvia o crepitar da eletricidade que se agitava ao redor do monotrem.

Quando Jake tornou a abrir os olhos, as Cataratas dos Cães tinham desaparecido; Blaine havia desativado a transparência da cabine. Ainda era possível, no entanto, ouvir o som do fluxo de eletricidade, uma força extraída do Feixe de Luz e emitida através dos olhos nos focinhos de pedra. Blaine estava se alimentando de alguma coisa. Quando continuarmos, Jake pensou, ele vai estar sendo acionado por bateria. Então realmente deixaremos Lud para trás. Para sempre.

— Blaine — disse Roland. — Como o poder do Feixe de Luz é estocado neste lugar? O que o faz sair dos olhos daqueles cães sagrados de pedra? Como você o utiliza?

Silêncio de Blaine.

— E quem esculpiu os cães? — Eddie perguntou. — Foram os Grandes Anciãos? Não foram eles, não é? Houve pessoas aqui antes mesmo deles. Ou... eram mesmo pessoas?

Mais silêncio de Blaine. E talvez isso fosse bom. Jake não tinha certeza do quanto queria saber sobre as Cataratas dos Cães ou do que se passava sob elas. Já estivera uma vez nos subterrâneos do mundo de Roland e tinha visto o suficiente para acreditar que a maior parte do que se desenvolvia ali não era bom nem seguro.

— Melhor não perguntar essas coisas — veio a voz do Pequeno Blaine de cima de suas cabeças. — Mais seguro.

— Não faça perguntas bobas, ele não vai participar de jogos bobos — disse Eddie. Aquele olhar distante, sonhador, brotara de novo em seu rosto, e quando Susannah disse seu nome, ele nem pareceu ouvir.

 

Roland sentou-se à frente de Jake e sua mão direita se levantou e coçou devagar a barba que espetava do lado do rosto, um gesto inconsciente que ele só parecia fazer quando estava em dúvida ou cansado.

— Vou cair fora das adivinhações — disse.

Jake voltou a olhar para ele, alarmado. O pistoleiro já tinha proposto pelo menos cinqüenta adivinhações ao computador. Jake sabia que não era fácil tirar tanto material da cabeça de uma hora para outra, mas considerando que as adivinhações haviam adquirido tamanha importância no lugar onde Roland fora criado...

Roland pareceu ler parte desta avaliação no rosto de Jake, pois um leve sorriso, um tanto amargo, tocou os cantos de sua boca, e ele abanou a cabeça como se o garoto tivesse falado em voz alta.

— Eu também não entendo. Se você me perguntasse ontem ou anteontem, eu diria que tinha pelo menos umas mil adivinhações guardadas numa mochila no fundo da mente. Talvez duas mil. Mas...

Sacudiu um dos ombros, balançou a cabeça, tornou a passar a mão pelo rosto.

— Não é como esquecer. É como se elas jamais estivessem estado lá. O que está acontecendo com o resto do mundo está acontecendo comigo, eu acho.

— Você está seguindo adiante — disse Susannah olhando para Roland com uma expressão de piedade que Roland só pôde suportar um segundo ou dois; era como se fosse queimado por aquele olhar. — Como tudo mais por aqui.

— Sim, receio que sim. — Virou-se para Jake, lábios contraídos, olhar aguçado. — Vai estar pronto com as adivinhações de seu livro quando eu o chamar?

— Sim.

— Bom. E se anime. A coisa ainda não acabou.

Do lado de fora, o vago crepitar da eletricidade cessou.

— ACABEI DE CARREGAR MINHAS BATERIAS E ESTÁ TUDO BEM — Blaine anunciou.

— Maravilhoso — disse secamente Susannah.

— Lhoso! — Oi concordou, percebendo exatamente o tom sarcástico de Susannah.

— TENHO DE CUMPRIR ALGUMAS FUNÇÕES DE REDISTRIBUIÇÃO DE ENERGIA. ISSO VAI LEVAR CERCA DE QUARENTA MINUTOS E É UM PROCESSO QUASE TOTALMENTE AUTOMÁTICO. ENQUANTO OCORRE A REDISTRIBUIÇÃO E É FEITA A CHECAGEM DE TODO O SISTEMA, DEVEMOS CONTINUAR NOSSA DISPUTA. ESTOU GOSTANDO MUITO DELA.

— É como quando você tem de passar da eletricidade para o diesel no trem de Boston — disse Eddie. Seu tom ainda era o de quem não estava inteiramente ali. — A coisa acontece em Hartford, New Haven ou num daqueles lugares onde ninguém na porra de seu juízo perfeito ia querer viver.

— Eddie? — Susannah chamou. — O que está...

Roland tocou no ombro dela e balançou a cabeça.

— NÃO IMPORTA, EDDIE DE NOVA YORK — disse Blaine em seu tom expansivo, tipo cara-isso-é-mesmo-engraçado.

— Falou Blaine... — disse Eddie. — Não, não importa, Eddie de Nova York.

— ELE NÃO CONHECE BOAS ADIVINHAÇÕES, MAS VOCÊ CONHECE MUITAS, ROLAND DE GILEAD. ME DIGA OUTRA.

E enquanto Roland obedecia, Jake pensou em sua próxima redação. Blaine é um saco, ele escreveria. Blaine é um saco, e isso é a verdade. Era a verdade, sem dúvida.

A tremenda verdade.

Pouco menos de uma hora depois, o Mono Blaine começou de novo a se mover.

 

Susannah viu com extrema fascinação o ponto cintilante se aproximar de Dasherville, ultrapassar o lugar e iniciar a arremetida para seu destino final. O movimento do ponto dizia que Blaine estava se deslocando um pouco mais devagar agora, quando passara a trabalhar com baterias, e ela teve a impressão de que as luzes do Vagão do Baronato estavam um pouco mais fracas, mas achou que, no final das contas, isso não ia fazer grande diferença. Blaine podia atingir o terminal em Topeka fazendo 900 quilômetros por hora em vez de 1.200, mas sua última carga de passageiros teria, de um modo ou de outro, sérios problemas.

Roland também estava indo mais devagar, remexendo cada vez mais fundo naquela mochila mental para encontrar adivinhações. Contudo, sempre as encontrava e se recusava a desistir. Como sempre. Desde que começara a ensinar Susannah a atirar, ela desenvolvera um relutante sentimento de amor por Roland de Gilead, um sentimento que parecia uma mistura de admiração, medo e piedade. Achou que jamais gostaria integralmente dele (e sua parte Detta Walker talvez o odiasse pelo modo como se apoderara dela e a arrastara, delirando, para o sol), mas seu amor era não obstante forte. Roland, afinal, salvara a vida e a alma de Eddie Dean; resgatara seu bem-amado. Só por isso ela já teria de amá-lo. Mas o amava ainda mais, ela própria suspeitava, pelo fato de Roland jamais, jamais desistir. A palavra retirada não parecia fazer parte de seu vocabulário, mesmo nos momentos em que ficava deprimido... como sem dúvida estava se sentindo agora.

— Blaine, onde se encontram estradas sem carroças, florestas sem árvores, cidades sem casas?

— NUM MAPA.

— Você respondeu a verdade, sai. Próxima. Tenho cem pernas mas não posso ficar de pé, um pescoço comprido mas sem cabeça; ando com a criada. Quem eu sou?

— UMA VASSOURA, PISTOLEIRO. OUTRA VARIAÇÃO TERMINA: “DANÇO COM A CRIADA.” ACHO A SUA MELHOR.

Roland ignorou o comentário.

— Não pode ser visto, não pode ser sentido, não pode ser ouvido, não pode ser cheirado. Fica atrás das estrelas e na sombra das colinas. Está no fim da vida e não mostra o riso. O que é, Blaine?

— O ESCURO.

— Obrigado, sai, você respondeu a verdade.

A reduzida mão direita subiu de novo para a face direita — o velho gesto de ansiedade —, e o leve ruído de coçar produzido pelos calos nas pontas dos dedos fez Susannah estremecer. Jake estava sentado no chão, de pernas cruzadas, contemplando o pistoleiro com uma espécie de febril intensidade.

— Uma coisa que gira, mas não pode andar, às vezes toca, mas não canta nunca. Não tem braços, tem hastes; não tem cabeça, mas tem janela de vidro. O que é, Blaine?

— UM RELÓGIO.

— Merda — Jake murmurou, lábios contraídos.

Susannah olhou para Eddie e sentiu um certo início de irritação. Ele parecia ter perdido todo o interesse pelo que se passava ali; “entrara em outra”, em seu estranho jargão dos anos 80. Pensou em despertá-lo com uma cotovelada, mas se lembrou de Roland balançando a cabeça e não o fez. Era impossível dizer, ante o ar de apatia no rosto de Eddie, se havia alguma possibilidade de ele estar pensando; talvez estivesse.

Nesse caso, é melhor se apressar um pouco, meu amigo. O ponto no mapa de viagem ainda estava mais próximo de Dasherville que de Topeka, mas alcançaria a metade do caminho aproximadamente dentro dos próximos 15 minutos.

E o confronto continuava, Roland propondo os enigmas, Blaine despachando as respostas com precisão mecânica e com distante frieza pelo que estava em jogo.

O que constrói castelos, escorre pelas montanhas, cega alguns, ajuda outros a ver? AREIA.

Obrigado-sai.

O que vive no inverno, morre no verão e cresce com as raízes para cima? UM PINGENTE DE GELO.

Blaine, você respondeu a verdade.

O homem passa em cima; o homem passa embaixo; em tempo de guerra ele a faz em pedaços? UMA PONTE.

Obrigado-sai.

Um desfile passava diante de Susannah, uma adivinhação atrás da outra, algo aparentemente interminável que ia dissipando qualquer senso de jogo e divertimento. Será que fora assim nos dias da juventude de Roland, durante os concursos de adivinhações da Terra Ampla e da Terra Cheia, quando Roland e seus amigos (embora ela desconfiasse que nem todos eram de fato amigos, não, nenhuma chance que fossem) tinham competido pelo ganso do Dia de Feira? Ela achava que a resposta era provavelmente sim. O vencedor provavelmente seria aquele capaz de ficar o maior tempo possível de cabeça fria, capaz de manter arejados os pobres miolos submetidos a tal espancamento.

O mais terrível era o modo como, a cada vez, Blaine tinha a resposta tão incrivelmente pronta. Por mais difícil que a adivinhação pudesse parecer, Blaine devolvia a bola com um golpe certeiro, ka-direto.

— Blaine, o que é que tem olho mas não vê?

— HÁ QUATRO RESPOSTAS — Blaine respondeu. — AGULHAS, TEMPESTADES, BATATAS E UM APAIXONADO.

— Obrigado-sai, Blaine, você respondeu...

— OUÇA, ROLAND DE GILEAD. OUÇA, KA-TET.

Roland se calou de imediato. Estreitou os olhos, levantou ligeiramente a cabeça.

— LOGO OUVIRÃO MEUS MOTORES ACELERAREM A ROTAÇÃO — disse Blaine. — ESTAMOS AGORA EXATAMENTE A SESSENTA MINUTOS DE TOPEKA. NESTE PONTO...

— Se já estamos viajando há sete horas ou mais, eu sou filho do King Kong — disse Jake.

Susannah olhou apreensiva para o lado, esperando algum novo terror ou pequeno ato de crueldade em resposta ao sarcasmo, mas Blaine só deu uma risadinha. Quando voltou a falar, a voz de Humphrey Bogart tinha vindo outra vez à superfície.

— O TEMPO É DIFERENTE AQUI, MEU QUERIDO. A ESSA ALTURA VOCÊ JÁ DEVE TER PERCEBIDO ISSO. MAS NÃO SE PREOCUPE; AS COISAS FUNDAMENTAIS VÃO SE AJUSTANDO À MEDIDA QUE O TEMPO PASSA. ACHA QUE EU IA MENTIR PARA VOCÊ?

— Acho — Jake murmurou.

Isso aparentemente provocou alguma coceira em Blaine, pois ele começou a rir novamente — uma risada louca e mecânica que fez Susannah pensar nas casas malucas de certos parques de diversão baratos, geralmente em beira de estrada. Quando as luzes começaram a pulsar em sincronia com o riso, ela fechou os olhos e tapou os ouvidos com as mãos.

— Pare com isso, Blaine! Pare com isso!

— PERDÃO, MADAME — disse a voz arrastada e metálica de Jimmy Stewart. — LAMENTO REALMENTE MUITO SE ARRUINEI SEUS OUVIDOS COM MINHA APTIDÃO PARA O RISO.

— Arruine isto — disse Jake, levantando o dedo médio para o mapa de viagem.

Susannah esperou que agora fosse a vez de Eddie dar uma risada — afinal, ele costumava achar divertida a vulgaridade a qualquer hora do dia ou da noite —, mas Eddie simplesmente continuou de olhos baixos, a testa franzida, os olhos vagos, a boca ligeiramente caída e aberta. Lembrava demais o idiota da aldeia, e Susannah teve novamente de reprimir a vontade de lhe dar uma cotovelada para tirar aquele olhar estúpido de seu rosto. Ela não teria de se controlar por muito tempo; se fossem todos morrer no fim do trajeto de Blaine, queria os braços de Eddie ao seu redor quando a coisa acontecesse, os olhos de Eddie nos seus e a mente de Eddie sintonizada com a dela. Mas, por ora, era melhor deixá-lo em paz.

— NESTE PONTO — Blaine retomou em seu tom normal — PRETENDO COMEÇAR O QUE GOSTO DE CONCEBER COMO MINHA CORRIDA CAMICASE. ISTO VAI CONSUMIR RAPIDAMENTE MINHAS BATERIAS, MAS ACHO QUE O TEMPO DE CONSERVAÇÃO PASSOU, NÃO É? QUANDO EU ATINGIR A PLATAFORMA DE MANOBRAS NO FINAL DA LINHA ESTAREI VIAJANDO A MAIS DE 1.400 QUILÔMETROS POR HORA... UMA VELOCIDADE EQUIVALENTE A 530 RODAS. VEJO VOCÊS MAIS TARDE, FAUNA RARA. MANDEM NOTÍCIAS! DIGO ISTO A VOCÊS NO ESPÍRITO DO JOGO JUSTO, MEUS INTERESSANTES E NOVOS AMIGOS. SE ESTAVAM DEIXANDO AS MELHORES ADIVINHAÇÕES PARA O FIM, FARIAM MUITO BEM EM USÁ-LAS AGORA.

A inequívoca voracidade na voz de Blaine (seu franco desejo de ouvir e resolver as melhores adivinhações antes de matá-los) fez Susannah sentir-se velha e cansada.

— Talvez eu não tenha tempo de esgotar todo o meu repertório daquelas adivinhações realmente especiais — disse Roland num tom de voz pausado, mas casual. — Seria uma vergonha, não é?

Uma pausa (breve, mas uma hesitação que o computador não havia concedido a nenhuma das respostas às adivinhações de Roland) e então a risada de Blaine. Susannah detestava o som daquele riso maluco, mas agora a risada revelava um cinismo frio que a deixou completamente arrepiada. Talvez porque parecesse um riso quase equilibrado.

— BOM, PISTOLEIRO. UM BRAVO ESFORÇO. MAS VOCÊ NÃO É SCHEHERAZADE, NEM TEMOS MIL E UMA NOITES PARA MANTER NOSSA PALESTRA.

— Não entendi. Não conheço essa Scheherazade.

— ESQUEÇA. SUSANNAH PODERÁ INFORMÁ-LO SE REALMENTE QUISER SABER. TALVEZ O PRÓPRIO EDDIE. O FATO, ROLAND, É QUE NÃO ME DEIXAREI SEDUZIR PELA PROMESSA DE MAIS ADIVINHAÇÕES. ESTAMOS COMPETINDO PELO GANSO. NA CHEGADA A TOPEKA ELE SERÁ CONCEDIDO, DE UM MODO OU DE OUTRO. COMPREENDE ISSO?

Mais uma vez a mão reduzida subiu para o rosto de Roland; mais uma vez Susannah ouviu a silenciosa raspagem dos dedos contra o arame da barba crescida.

— Disputamos a sério. Ninguém rói a corda.

— CORRETO. NINGUÉM RÓI A CORDA.

— Tudo bem, Blaine, disputamos a sério e ninguém rói a corda. Aí vai a próxima.

— COMO SEMPRE, ESPERO COM PRAZER.

Roland baixou os olhos para Jake.

— Fique preparado com a suas, Jake; as minhas estão no fim.

Jake abanou a cabeça.

Embaixo deles, as turbinas de levitação do monotrem continuavam a rodar — aquele bit-bit-bit que Susannah, mais que ouvir, sentia nas articulações do queixo, nas concavidades das têmporas, nos locais onde os pulsos latejavam.

A coisa não vai acontecer a não ser que haja algo realmente muito bom no livro de Jake, ela pensou. Roland não pode derrubar o Blaine e acho que sabe disso. Acho que já sabia disso uma hora atrás.

— Blaine, ocorro uma vez num minuto, duas a cada momento, mas nenhuma em 100 mil anos? O que sou?

E assim continuaria a disputa, Susannah percebeu, Roland perguntando e Blaine respondendo com aquela falta de hesitação cada vez mais terrível — como um deus vendo tudo, sabendo tudo. Susannah se mantinha sentada com as mãos frias entrelaçadas no colo e observava a mancha brilhante de Topeka aproximando-se cada vez mais, o ponto terminal do serviço do monotrem, o lugar onde a trajetória de seus ka-tet se concluiria na clareira. Pensou nos Cães das Cataratas, em como se projetavam das trovejantes ondas brancas sob um céu escuro e cheio de estrelas; pensou nos olhos deles.

Nos olhos azuis elétricos.

 

O Ganso do Dia de Feira

Eddie Dean — que não sabia que Roland às vezes pensava nele como ka-mai, o bobo do ka — ouvia tudo aquilo e não ouvia nada; via tudo aquilo e não via nada. A única coisa que realmente chegou a impressioná-lo assim que o jogo começou a sério foi o fogo saindo dos olhos de pedra dos Cães; ao levantar a mão para proteger os olhos daquele clarão de raio, lembrou-se do Portal do Feixe de Luz na Clareira do Urso, como encostara a orelha nele e ouvira o ronco distante, vago de um maquinismo.

Vendo os olhos dos Cães se iluminarem, ouvindo Blaine trazer para suas baterias a corrente que abastecia o monotrem para o mergulho final através do Mundo Médio, Eddie pensara: Nem tudo é silêncio nos salões dos mortos e nos espaços em ruína. Mesmo agora algumas coisas que os Grandes Anciãos deixaram ainda funcionam. E isso é realmente o horror da coisa, você não concordaria? Sim. O exato horror da coisa.

Por um breve tempo depois da carga nas baterias, Eddie estivera mental e fisicamente com seus amigos, mas logo tornara a ficar imerso em seus pensamentos. Eddie está apagado, Henry teria dito. Deixem-no em paz.

Era a imagem de Jake esfregando a vara de pederneira que continuava voltando; Eddie permitia que sua mente lidasse um segundo ou dois com ela, como abelha pousando numa flor adocicada; depois ele tornava a decolar. Porque essa memória não era bem o que estava querendo; era apenas o caminho disponível para o que estava querendo, outra porta como as da praia do mar Ocidental ou como aquela que rabiscara na terra do círculo falante antes de puxarem Jake... Só que agora a porta estava em sua mente. O que ele queria estava atrás dela; o que ele estava fazendo era uma espécie de... bem... teste na fechadura.

Azarando, no linguajar de Henry.

O irmão passava a maior parte do tempo a rebaixá-lo (porque Henry tinha medo e ciúmes dele, como Eddie finalmente acabara percebendo), mas se lembrava de um dia em que Henry o surpreendera dizendo alguma coisa boa a seu respeito. Melhor do que boa; atordoante.

Era um punhado de garotos no beco atrás do Dahlie’s, alguns comendo Popsicles e Hoodsie Rockets, outros fumando os Kents do maço que Jimmie Polino (isto é, Jimmie Pólio, como todos os chamavam, porque ele tinha aquela porra daquele defeito, aquele pé torto) tinha surripiado da gaveta da cômoda de sua mãe. Henry, sem a menor dúvida, era um dos que fumavam.

Havia certos meios de qualificar determinadas coisas na gangue de que Henry fazia parte (e de que Eddie, como irmão caçula, também participava): era o jargão daquele pequeno e miserável ka-tet. Na gangue de Henry, você nunca batia em ninguém; você despachava o cara com uma porra quebrada. Você nunca namorava uma moça; você fodia a porra da guria até ela berrar. Você nunca ficava drogado; você entrava numa porra duma trincada. E você nunca criava problema com outra gangue; você peitava a porra da patota.

A discussão naquele dia fora sobre quem você ia querer que o acompanhasse se você resolvesse peitar a porra da turma adversária. Jimmie Pólio (que pôde falar primeiro porque fornecera os cigarros, que os afiliados a Henry chamavam a porra das varas de câncer) optou por Skipper Brannigan, pois, segundo ele, Skipper não tinha medo de ninguém. Certa vez, disse Jimmie, Skipper ficou furioso com um professor — numa festa de colégio, sexta-feira à noite — e resolveu atacá-lo. Mandou A PORRA DO PALHAÇO para casa com uma porra quebrada, se é que você agüenta ouvir isso. Esse era o parceiro Skipper Brannigan.

Todos prestaram solene atenção ao relato, abanando as cabeças enquanto comiam seus Rockets, chupavam os Popsicles ou fumavam os Kents. Todos sabiam que Skipper Brannigan era um garoto fodido e Jimmie era um merda, mas ninguém rejeitou a idéia. Cristo, não. Se não fingissem acreditar nas mentiras injuriosas de Jimmie Pólio, ninguém fingiria acreditar nas mentiras deles.

Tommy Fredericks optou por John Parelli. Georgie Pratt quis Csaba Drabnik, também conhecido na área como Porra de Húngaro Maluco. Frank Duganelli designou Larry McCain, embora Larry estivesse na Detenção Juvenil; Larry comandava mesmo, disse Frank.

Então chegou a vez de Henry Dean, que depois de conceder ao problema a grave consideração que ele merecia, pôs o braço em volta dos ombros de seu espantado irmão. Eddie, disse. Meu irmãozinho. Ele é o homem.

Todos os encararam, atônitos — e ninguém mais atônito que Eddie. Seu queixo tinha caído quase até a fivela do cinto. E então Jimmie Pólio disse: Vamos lá, Henry, pare com essa porra. Isto é uma coisa séria. Quem você ia querer na tua cola se desse merda?

Estou falando sério, Henry respondera.

Por que Eddie?, Georgie Pratt havia perguntado, dando voz à interrogação que estava na mente do próprio Eddie. Ele não conseguiria escapar nem de um saco de papel. Um saco molhado. Então por que a porra do cara?

Henry pensou mais um pouco — não porque não soubesse a resposta, Eddie estava convencido, mas porque tinha de achar um modo de verbalizá-la. E Henry acabou dizendo: Porque quando Eddie fica mesmo fodido, é capaz de convencer o diabo a tocar fogo no próprio corpo.

A imagem de Jake voltou, uma lembrança puxando a outra. Jake esfregou a vara de pederneira, lançando centelhas nos gravetos da fogueira, centelhas precárias que morriam antes de acender o fogo.

É capaz de convencer o diabo a tocar fogo no próprio corpo.

Chegue a pederneira para mais perto, Roland disse, e agora havia uma terceira lembrança: a imagem de Roland na porta que tinham atingido no final da praia, Roland ardendo em febre, próximo da morte, tremendo como maraca, tossindo, o azul dos olhos de artilheiro fixo em Eddie, Roland dizendo: Chegue um pouco mais perto, Eddie... Chegue um pouco mais perto pelo amor de seu pai!

Porque ele queria me agarrar, pensou Eddie. Vagamente, quase como um som vindo de algum outro mundo através de uma daquelas portas mágicas, ouviu Blaine dizendo que o último estágio do jogo havia começado; se estivessem deixando para o final as adivinhações melhores, o momento era aquele. Tinham uma hora.

Uma hora! Só uma hora!

Sua mente tentou se concentrar nisto e o próprio Eddie deu-lhe uma cotovelada. Alguma coisa estava acontecendo dentro dele (pelo menos rezava para que estivesse), algum desesperado jogo de associação, e não podia deixar a mente se foder de preocupação com prazo-limite, resultados e toda essa porra; se o fizesse, não teria mais nenhuma chance. Era, de certo modo, como descobrir alguma coisa incrustada num cepo de madeira, algo que se poderia talhar — um arco, um estilingue, talvez uma chave para abrir alguma porta inimaginável. Você não podia olhar tempo demais, no entanto, ao menos para começar. Você perderia a coisa se agisse assim. Era quase como se você tivesse de começar talhando de costas.

Podia sentir os motores de Blaine ganhando força debaixo do piso. O olho de sua mente via a pederneira chamejar contra o ferro e a orelha de sua mente ouvia Roland mandando Jake chegar a pederneira para mais perto. Não bata com a pederneira, Jake; esfregue-a.

Por que estou aqui? Se isto não é o que eu quero, por que minha mente continua me trazendo para este lugar?

Porque é o mais próximo que posso chegar sem penetrar na zona da dor. Só uma dor de tamanho médio, sem dúvida, mas ela me faz pensar em Henry. Em ser rebaixado por Henry.

Henry disse que você podia convencer o diabo a tocar fogo no próprio corpo.

É. Sempre o amei por isso. Essa foi grande.

E agora Eddie via Roland movendo as mãos de Jake, uma segurando o sílex e a outra o ferro, para mais perto da fogueira. Jake estava nervoso. Eddie percebia isso; Roland também percebera. E para acalmar os nervos do garoto, desviar sua mente da responsabilidade de acender o fogo, Roland tinha...

Tinha feito uma adivinhação para o garoto.

Eddie Dean aplicou mais um sopro no buraco de fechadura de sua memória. E desta vez a lingüeta se moveu.

 

O ponto verde estava se colocando em Topeka e pela primeira vez Jake sentiu a vibração... como se o trilho embaixo deles tivesse se deteriorado a tal ponto que os compensadores de Blaine já não conseguiam contornar integralmente o problema. Depois da sensação de vibração veio uma sensação de velocidade. As paredes e o teto do Vagão do Baronato ainda estavam opacos, mas Jake achou que não precisava ver os campos passando borrados para imaginá-los. Blaine estava rodando a toda, enchendo com um último estrondo sônico as terras devastadas, levando o barulho até o ponto onde o Mundo Médio acabava; Jake também achou fácil imaginar os batentes de aço no final do monotrilho. Estariam pintados em listas diagonais de amarelo e preto. Não sabia como sabia disso, mas sabia.

— VINTE E CINCO MINUTOS — disse Blaine num tom complacente. — NÃO QUER ME PROPOR OUTRA ADIVINHAÇÃO, PISTOLEIRO?

— Acho que não, Blaine. — Roland parecia exausto. — Encerrei com você; você me derrotou. Jake?

Jake ficou de pé e encarou o mapa de viagem. No seu peito, a batida do coração pareceu ter ficado muito lenta, mas muito forte, cada pulsação era como um punho batendo num tambor. Oi estava agachado entre os pés dele, erguendo ansioso o focinho para seu rosto.

— Olá, Blaine — disse Jake, molhando os lábios.

— OLÁ, JAKE DE NOVA YORK. — Era um tom suave... talvez o tom de um velho simpático com o hábito de molestar as crianças que de vez em quando levava para o mato. — NÃO QUER ME TESTAR COM ALGUMAS ADIVINHAÇÕES DE SEU LIVRO? O TEMPO QUE PASSAREMOS JUNTOS ESTÁ SE ACABANDO.

— Sim — disse Jake. — Gostaria de testá-lo com essas adivinhações. Mostre que compreende a verdade contida em cada uma delas, Blaine.

— MUITO BEM DITO, JAKE DE NOVA YORK. VOU FAZER O QUE ESTÁ PEDINDO.

Jake abriu o livro na página que estivera marcando com o dedo. Dez adivinhações. Onze, contando a de Sansão, que estava deixando por último. Se Blaine respondesse a todas (como Jake agora achava provável que acontecesse), ele se sentaria ao lado de Roland, colocaria Oi no colo e esperaria pelo fim. Havia, afinal, outros mundos além daqueles.

— Escute, Blaine: num túnel de escuridão jaz uma besta de ferro. Que só pode atacar quando puxada para trás. O que é?

— UMA BALA. — Nenhuma hesitação.

— Ande nas vivas, elas nem sussurram. Ande nas mortas, elas murmuram e chiam. O que são?

— FOLHAS CAÍDAS. — Nenhuma hesitação, e se algo realmente dizia a Jake que o jogo estava perdido, por que tanto desespero, tanta amargura, tanta raiva?

Porque ele é um pé no saco, por isso. Blaine é realmente um GRANDE pé no saco, e eu gostaria muito de amassar a cara dele, só uma vez. Acho inclusive que fazê-lo parar vem depois disso em minha lista de desejos.

Jake virou a página. Agora estava bem perto da seção de respostas de O que É o que É!; podia senti-la embaixo do dedo, uma espécie de relevo recortado. Bem próximo do fim do livro. Pensou em Aaron Deepneau no Restaurante da Mente em Manhattan, Aaron Deepneau convidando-o a voltar qualquer dia para um joguinho de xadrez e, ah, só para não esquecer, o velho gordão sabia preparar um café excelente. Uma enorme onda de saudade passou sobre ele. Jake sentiu que seria capaz de vender sua alma para dar uma simples olhada em Nova York; diabo, teria vendido a alma por uma simples respiração profunda do ar da rua 42 na hora do rush.

Reprimiu essas idéias e passou à próxima adivinhação.

— Sou esmeralda e diamantes perdidos pela lua. Sou encontrado pelo sol e logo recolhido. O que sou?

— ORVALHO.

Ainda preciso. Ainda sem hesitação.

O ponto verde faiscava cada vez mais perto de Topeka, concluindo o último trecho da trajetória marcada no mapa de viagem. Jake foi propondo uma adivinhação atrás da outra; uma atrás da outra Blaine foi respondendo. Quando atingiu a última página, Jake viu uma mensagem do autor, editor ou de qualquer outro responsável pela difusão de livros como aquele: Esperamos que tenha gostado da singular combinação de imaginação e lógica conhecida como ADIVINHAÇÃO!

Não gostei, Jake pensou. Não gostei nem um pouco e espero que você suma. Contudo, ao ler a adivinhação sobre a mensagem, Jake experimentou um filete de esperança. Pareceu-lhe que, ao menos naquele caso, o melhor tinha sido realmente deixado para o fim.

No mapa de viagem, o ponto verde estava a não mais de um dedo de Topeka.

— Depressa, Jake — Susannah murmurou.

— Blaine?

— SIM, JAKE DE NOVA YORK.

— Não tenho asas, mas vôo. Não tenho olhos, mas vejo. Não tenho braço, mas subo. Assusto mais que qualquer animal e sou mais forte que qualquer adversário. Sou astuta, cruel e elevada; no final das contas, governo tudo. O que sou?

O pistoleiro tinha levantado a cabeça, um brilho nos olhos azuis. O rosto de Susannah, tomado pela expectativa, começou a se virar de Jake para o mapa de viagem. A resposta de Blaine, no entanto, foi pronta como sempre:

— A IMAGINAÇÃO DO HOMEM E DA MULHER.

Por um instante, Jake considerou contestar, mas depois pensou: Por que desperdiçar nosso tempo? Como sempre a resposta de uma adivinhação, estando certa, parecia quase óbvia.

— Obrigado-sai, Blaine, você está dizendo a verdade.

— E O GANSO DO DIA DE FEIRA É QUASE MEU, ESTOU CIENTE. DEZENOVE MINUTOS E CINQÜENTA SEGUNDOS PARA A CONCLUSÃO. GOSTARIA DE DIZER MAIS ALGUMA COISA, JAKE DE NOVA YORK? SENSORES VISUAIS INDICAM QUE CHEGOU AO FIM DE SEU LIVRO, QUE ALIÁS NÃO ERA TÃO BOM QUANTO EU ACHAVA.

— Todo mundo é tremendamente crítico do trabalho dos outros — disse Susannah em voz baixa, enxugando uma lágrima no canto do olho. Sem olhar diretamente para ela, o pistoleiro pegou sua mão livre. A mão se fechou com força na dele.

— É, Blaine, tenho mais uma — disse Jake.

— EXCELENTE.

— Do comedor veio a carne, e do forte, a doçura.

— ESTA ADIVINHAÇÃO VEM DO LIVRO SAGRADO CONHECIDO COMO “VELHO TESTAMENTO, BÍBLIA DO REI JAMES”. — Blaine parecia estar se divertindo e Jake sentiu o resto de sua esperança escapar. Achou que ia chorar... não tanto de medo quanto de frustração. — É UMA ADIVINHAÇÃO DE SANSÃO, O FORTE. O COMEDOR É UM LEÃO; A DOÇURA É MEL, FEITO PELAS ABELHAS QUE TÊM A COLMÉIA NA CAVEIRA DO LEÃO. PRÓXIMA? AINDA FALTAM UNS 18 MINUTOS, JAKE.

Jake balançou a cabeça. Largou O que É o que É! e sorriu quando Oi pegou-o cuidadosamente com os dentes e estendeu o pescoço comprido para Jake, para que ele tornasse a pegar o livro.

— Disse todas as adivinhações. Acabei.

— BOBAGEM, ESTOU CHEGANDO DEVAGAR, É VERGONHA DESISTIR — disse Blaine. Jake achou a imitação da fala arrastada de John Wayne realmente insuportável naquelas circunstâncias. — PARECE MESMO QUE VOU GANHAR AQUELE TAL GANSO, A NÃO SER QUE HAJA MAIS ALGUÉM DISPOSTO A FALAR. QUE TAL VOCÊ, OI DO MUNDO MÉDIO? BRINQUE DE ADIVINHAÇÕES, MEU AMIGÃO TRAPALHÃO.

— Oi! — respondeu o trapalhão, a voz abafada pelo livro. Ainda sorrindo, Jake pegou o livro e sentou-se ao lado de Roland, que pôs um braço em volta dele.

— SUSANNAH DE NOVA YORK?

Ela balançou a cabeça, sem erguê-la. Tinha virado a mão de Roland dentro da sua e alisava os tocos cicatrizados onde os primeiros dois dedos do pistoleiro haviam existido.

— ROLAND, FILHO DE STEVEN? NÃO SE LEMBRA DE MAIS ADIVINHAÇÕES FEITAS NOS DIAS DE FEIRA DE GILEAD?

Roland também balançou a cabeça... e então Jake viu que Eddie Dean estava erguendo a dele. Havia um sorriso estranho no rosto de Eddie, um brilho estranho nos olhos de Eddie, e Jake achou que sem dúvida a esperança ainda não o abandonara. De repente ela tornou a florescer também em sua mente — vermelha, quente, muito nítida. Como... bem, como uma rosa. Uma rosa na plena febre de seu verão.

— Blaine? — Eddie perguntou em tom baixo. Jake achou que a voz dele parecia estranhamente abafada.

— SIM, EDDIE DE NOVA YORK. — Inconfundível desprezo.

— Eu tenho duas adivinhações — disse Eddie. — Só para matar o tempo daqui até Topeka, você entende.

Não, Jake percebeu, Eddie na realidade não estava com a voz abafada; a impressão que dava é que tentava segurar o riso.

— FALE, EDDIE DE NOVA YORK.

 

Sentado, ouvindo Jake dizer suas últimas adivinhações, Eddie refletira sobre a história que Roland contara do ganso do Dia de Feira. Daí sua mente retornara a Henry, viajando do Ponto A ao Ponto B através da mágica do pensamento associativo. Ora, se você quer chegar ao estado zen via Transpássaros Airlines vá do ganso ao pássaro da noite da privação. Um dia ele falara com Henry da possibilidade de se livrarem da heroína. Henry dissera que enfrentar a privação não era o único meio; haveria também, segundo ele, uma espécie de caminho de privação relativa. Eddie pedira a Henry a seringa onde ele acabara de se aplicar uma dose e, sem perder um segundo, Henry tinha dito: você chama isso ficar triturado, mas não trincado. Como tinham rido... mas agora, passado tanto e tão estranho tempo, parecia que a graça seria muito mais útil ao irmão Dean caçula, para não mencionar os novos amigos do irmão Dean caçula. Sem dúvida não ia demorar muito para que todos ficassem triturados, e não meramente trincados, entre os restos de um monotrem.

A não ser que você possa tirar-nos da zona de perigo.

Sim.

Então faça isso, Eddie. Era de novo a voz de Henry, aquela velha moradora de sua cabeça, só que agora Henry parecia sóbrio e bastante lúcido. Henry soava como seu amigo, não como seu inimigo, como se todos os velhos conflitos tivessem finalmente se resolvido, todas as velhas lanças guardadas. Faça isso... faça o diabo tocar fogo no próprio corpo. Talvez seja um pouco difícil, mas você já enfrentou coisas piores. Droga, eu mesmo já lhe causei muitos problemas e você sobreviveu. Sobreviveu muito bem. E agora sabe para onde olhar.

É claro. Conversando com o pistoleiro sobre a fogueira, Jake conseguira finalmente acender o fogo. Roland fizera uma adivinhação, querendo deixar o garoto mais relaxado. Depois que Jake conseguiu provocar um início de labareda num graveto, sentaram-se todos ao redor do fogo, conversando. Conversando e fazendo adivinhações.

Eddie também percebeu outra coisa. Blaine tinha dado resposta a centenas de adivinhações enquanto avançavam para sudeste pelo Caminho do Feixe de Luz, e todos achavam que ele havia respondido a cada uma sem a menor hesitação. Eddie tinha achado o mesmo... mas agora, rebuscando a memória desde o início da disputa, Eddie percebia uma coisa interessante: Blaine havia hesitado.

Uma vez.

Ele também estava nervoso. Nervoso como Roland.

O pistoleiro, embora freqüentemente provocado por Eddie, só uma vez deixara transparecer uma verdadeira raiva com relação a ele. Fora depois do entalhe da chave, quando Eddie quase perdeu o fôlego. Roland tentara disfarçar a profundidade dessa raiva — fazê-la parecer como um simples adicional de exasperação —, mas Eddie sentira o que estava acontecendo. Tinha morado um longo tempo com Henry Dean e continuava extremamente sensível a todas as emoções negativas. A coisa o havia machucado — não a raiva de Roland propriamente dita, mas o desprezo com que ela fora manifestada. O desprezo sempre fora uma das armas favoritas de Henry.

Por que o bebê ciscou quando atravessou a estrada?, Eddie havia perguntado. Porque era um filhote de galinha, piu-piu-piu!

Mais tarde, quando Eddie tentou defender sua adivinhação, argumentando que era sem gosto mas não sem sentido, a resposta de Roland fora estranhamente parecida com a de Blaine: Gosto não me interessa. É arbitrário e inexplicável, o que o transforma numa tolice. Uma boa adivinhação não é uma coisa nem outra.

Mas, quando Jake acabou de sabatinar Blaine, Eddie percebeu algo esplêndido, libertador: a palavra boa estava pronta para ser mexida. Sempre estivera, sempre estaria. Mesmo se fosse usada por um homem com mil anos de idade, capaz de atirar como Buffalo Bill, aquela palavra continuaria discutível. O próprio Roland tinha admitido que nunca fora muito bom no jogo das adivinhações. Seu tutor dizia que Roland pensava profundo demais; o pai achava que tinha falta de imaginação. Independentemente da verdadeira razão, Roland de Gilead jamais vencera o jogo adivinhatório de um Dia de Feira. Sobrevivera a todos os seus contemporâneos, o que sem dúvida era um privilégio medíocre, mas nunca levara para casa o prêmio de um ganso. Sempre consegui sacar um revólver mais rápido que qualquer um de meus companheiros, mas nunca fui muito bom para pensar através de rodeios.

Eddie se lembrava de ter tentado explicar a Roland que as piadas ajudavam a desenvolver esse freqüentemente desprezado talento, mas Roland o ignorou. Eddie pensou: tal como uma pessoa cega para as cores ignoraria a descrição que alguém faz de um arco-íris.

Eddie achou que Blaine também poderia ter dificuldade para pensar através de rodeios.

Ouviu Blaine perguntando se ninguém tinha outras adivinhações — perguntando inclusive a Oi. Ouviu o tom de zombaria na voz de Blaine, ouviu muito bem. Certamente que ouviu. Pôde ouvir porque estava voltando. Voltando daquela região fabulosa. Voltando para ver se poderia convencer o diabo a se atirar no fogo. Desta vez nenhuma arma podia ajudar e talvez isso fosse ótimo. Talvez fosse ótimo porque...

Porque eu atiro com minha mente. Minha mente. Deus me ajude a derrubar esta máquina de calcular melhorada com a mente. Me ajude a derrotá-la através de rodeios.

— Blaine? — disse ele, e então, quando o computador o reconheceu:

— Eu tenho duas adivinhações. — Enquanto falava, Eddie descobriu uma coisa maravilhosa: estava lutando para conter o riso.

 

— FALE, EDDIE DE NOVA YORK.

Sem tempo para mandar os outros ficarem alertas, porque alguma coisa podia acontecer, mas, pelo olhar deles, não havia nenhuma necessidade de fazer isso. Eddie esqueceu-os e concentrou toda a sua atenção em Blaine.

— O que tem quatro rodas e voa?

— A CARROÇA DE LIXO, COMO EU JÁ DISSE. — Desagrado... e antipatia? Sim, provavelmente... Coisas se destilando nitidamente daquela voz. — SERÁ QUE É TÃO ESTÚPIDO OU DESATENTO A PONTO DE NÃO LEMBRAR? FOI A PRIMEIRA ADIVINHAÇÃO QUE ME PROPÔS.

Sim, Eddie pensou. E o que ninguém se deu conta... porque estávamos concentrados em atordoá-lo com algum demolidor cerebral do passado de Roland ou do livro de Jake é que a disputa quase terminou ali mesmo.

— Você não gostou dessa, não foi, Blaine?

— ACHEI-A TREMENDAMENTE ESTÚPIDA — Blaine concordou. — TALVEZ SEJA POR ISTO QUE A ESTÁ DIZENDO DE NOVO. OS SEMELHANTES SE ATRAEM, EDDIE DE NOVA YORK, NÃO É ASSIM?

Um sorriso iluminou o rosto de Eddie; ele sacudiu o dedo para o mapa de viagem.

— Paus e pedras podem quebrar meus ossos, mas palavras nunca me feriram. Ou, como costumávamos dizer em nossa vizinhança: “Você pode me colocar mais baixo que os cães, mas nem por isso vou perder a tesão que uso pra foder sua mãe.”

— Ande logo! — Jake murmurou. — Se pode fazer alguma coisa, faça agora!

— Ele não gosta de perguntas bobas — disse Eddie. — Não gosta de jogos bobos. E nós sabemos disso. Sabemos desde Charlie Chuu-Chuu. Como podemos ser tão estúpidos? Diabo, esse era o livro com as respostas, não O que É o que É!, mas não percebemos isso!

Eddie procurou a outra adivinhação que entrara no Ensaio Final de Jake, encontrou-a e perguntou:

— Blaine: quando é que uma porta não é uma porta?

De novo, e pela primeira vez desde que Susannah tinha perguntado a Blaine o que tinha quatro rodas e voava, houve um estranho estalido, como alguém fazendo a língua saltar no céu da boca. A pausa foi mais breve que a que havia se seguido à adivinhação de abertura de Susannah, mas se repetira... Eddie a ouviu.

— QUANDO É UMBRAL, É CLARO — disse Blaine, que parecia abatido, infeliz. — FALTAM TRINTA MINUTOS E CINCO SEGUNDOS PARA A CONCLUSÃO, EDDIE DE NOVA YORK... GOSTARIA DE MORRER COM ADIVINHAÇÕES TÃO ESTÚPIDAS NA BOCA?

Eddie aprumou o corpo encarando o mapa de viagem e embora pudesse sentir gotas quentes de suor escorrendo pelas costas, o sorriso que tinha no rosto se alargou.

— Pare com a choradeira, cara. Para ter o privilégio de espalhar nossas tripas pela paisagem, vai precisar enfrentar algumas adivinhações que não estão de todo afinadas com seus padrões de lógica.

— NÃO DEVE FALAR COMIGO DESSA MANEIRA.

— Ou o quê? Vai me matar? Não me faça rir. Apenas jogue. Concordou com o jogo; então jogue.

Uma fina luz rosa brilhou por um instante fora do mapa de viagem.

— Está conseguindo irritá-lo — queixou-se o Pequeno Blaine. — Ah, está conseguindo deixá-lo muito irritado.

— Vá brincar, rapazinho! — disse Eddie, mas sem muita dureza, e quando o brilho rosado sumiu e de novo apareceu um cintilante ponto verde quase em cima de Topeka, Eddie continuou: — Responda esta, Blaine: o grande idiota e o pequeno idiota estão parados na ponte sobre o rio Send. O grande idiota caiu. Por que o pequeno idiota também não caiu?

— ESTA É INDIGNA DE NOSSA DISPUTA. NÃO VOU RESPONDER.

Na última palavra a voz de Blaine adquirira um registro mais baixo, lembrando o tom de um adolescente de 14 anos com mudança de voz.

Agora os olhos de Roland não estavam apenas brilhando, mas faiscando.

— O que está dizendo, Blaine? Não entendi bem. Está querendo roer a corda?

— NÃO! É CLARO QUE NÃO! MAS...

— Então responda, se puder. Responda à adivinhação.

— NÃO É UMA ADIVINHAÇÃO! — Blaine quase berrou. — É UMA PIADA, ALGO PARA DIVERTIR CRIANÇAS BOBALHONAS NO RECREIO!

— Responda agora ou declare a disputa encerrada e nosso ka-tet como vencedor — disse Roland. Falava no tom seco e confiante de uma autoridade, um tom que Eddie ouvira pela primeira vez na cidadezinha de River Crossing. — Tem de responder. Queixar-se é uma estupidez porque não houve transgressão das regras sobre as quais ficamos de comum acordo.

Outro daqueles barulhos de estalo, mas desta vez muito mais alto... de fato tão alto que Eddie estremeceu. Oi achatou as orelhas contra a cabeça. E aquilo foi seguido pela mais longa das pausas; pelo menos três segundos. Então:

— O PEQUENO IDIOTA NÃO CAIU PORQUE ESTAVA UM POUCO MAIS EM CIMA[3] — disse Blaine num tom de mau humor. — MAIS COINCIDÊNCIA FONÉTICA. A SIMPLES RESPOSTA A UMA QUESTÃO TÃO DESPREZÍVEL. ME PARECE UMA DESONRA.

Eddie levantou a mão direita, esfregando o polegar contra o indicador.

— O QUE ISTO SIGNIFICA, TOLA CRIATURA? — perguntou Blaine.

— É o menor violino do mundo, tocando “Meu Coração Bombeia uma Urina Roxa pra Você” — disse Eddie. Jake caiu num incontrolável acesso de riso. — Mas esqueça o humor barato de Nova York; de volta à disputa. Por que os homens da polícia usam cintos?

As luzes no Vagão do Baronato começaram a piscar. Algo estranho acontecia também com as paredes; elas começavam a sumir e a voltar, em geral fora de encaixe; de repente ficavam transparentes e depois novamente opacas. Ver aquela coisa, mesmo que pelo canto do olho, deixou Eddie um pouco alvoroçado.

— Blaine? Responda.

— Responda — interveio Roland. — Responda ou declaro a contenda encerrada e exijo o cumprimento de sua promessa.

Algo encostou no cotovelo de Eddie, que baixou os olhos e viu a mão pequena e bem-feita de Susannah. Ele a pegou, apertou, sorriu. Torceu para o sorriso transmitir mais confiança que aquela que Blaine lhe passava. Iam vencer a disputa — tinha quase certeza disso —, mas não fazia idéia do que Blaine faria se e quando isso acontecesse.

— PARA... PARA SEGURAR AS CALÇAS? — A voz de Blaine se firmou e repetiu a pergunta como afirmativa. — PARA SEGURAR AS CALÇAS. UMA ADIVINHAÇÃO BASEADA NA EXAGERADA SIMPLICIDADE DE RACIOC...

— Certo. Boa resposta, Blaine, mas não procure ganhar tempo... não vai dar certo. Próxima...

— INSISTO PARA QUE PARE DE FAZER ESSAS TOLAS...

— Então pare o monotrem — disse Eddie. — Se ficou tão transtornado, pare aqui mesmo e eu também paro.

— NÃO.

— Tudo bem, então, lá vai. O que é irlandês e fica nos fundos da casa, mesmo quando chove?

Houve outro daqueles cliques, desta vez tão alto que deu a sensação de um cravo pontudo espetando o tímpano. Uma pausa de cinco segundos. Agora o pontinho verde no mapa de viagem estava tão perto de Topeka que a cada piscada iluminava o nome do lugar como um letreiro de néon. Então:

— ARROZ OU MOBÍLIA.[4]

Resposta correta para uma adivinhação-piada que Eddie ouvira pela primeira vez na viela atrás do Dahlie’s ou em algum ponto de encontro do mesmo gênero, mas Blaine, ao que parece, pagara um preço por forçar a mente a penetrar num canal onde pudesse encontrar a solução: as luzes do Vagão do Baronato estavam piscando mais forte que nunca e Eddie pôde ouvir um rumor baixo saindo de dentro das paredes — o tipo de som que seu amplificador estéreo fez pouco antes de explodir.

Uma luz rosada oscilou no mapa de viagem.

— Pare! — gritou o Pequeno Blaine, a voz trêmula como a voz de um personagem de um velho desenho animado da Warner Bros. — Pare com isso, está acabando com ele!

E o que você acha que ele está tentando fazer conosco, rapazinho?, Eddie ponderou.

Pensou em atirar contra Blaine uma adivinhação proposta por Jake quando estavam todos sentados, certa noite, em volta de uma fogueira (O que tem limo, pesa cem toneladas e vive no fundo do oceano? Resposta: um inimigo da Máfia com uma pedra no pescoço!), mas não o fez. Queria pressionar as fronteiras da lógica com mais força do que aquela adivinhação permitia... e podia fazer isso. Achava que não precisaria ir muito além do nível de surreal aceito por um garoto de colégio. Bastava, sem dúvida, uma coleção mediana de anedotas e trocadilhos para foder régia... e definitivamente o Blaine. Porque, a despeito da carga de emoções que seus fantásticos circuitos dipolares lhe permitiam reproduzir, ele continuava sendo um isso — um computador. Só para seguir Eddie até aquela soleira do Além da Imaginação no mundo dos quebra-cabeças, Blaine precisara pôr em risco a própria sanidade.

— Por que as pessoas vão para a cama, Blaine?

— PORQUE... PORQUE... MALDIÇÃO, PORQUE...

Uma estranha comoção começou debaixo deles e, de repente, o Vagão do Baronato sacudiu com violência da direita para a esquerda. Susannah gritou. Jake foi atirado no colo dela. O pistoleiro agarrou-se aos dois.

— PORQUE A CAMA NÃO VAI ATÉ ELAS, MALDIÇÃO! NOVE MINUTOS E CINQÜENTA SEGUNDOS!

— Desista, Blaine — disse Eddie. — Pare antes que eu tenha de explodir sua cabeça de todo. Se não desistir, é o que vai acontecer. Nós dois sabemos disso.

— NÃO!

— Tenho um milhão delas. Passei a vida inteira ouvindo adivinhações desse tipo. Grudaram na minha mente como as moscas grudam em papel de moscas. Às vezes saem da minha boca até sem eu querer. Então o que me diz? Quer desistir?

— NÃO! NOVE MINUTOS E TRINTA SEGUNDOS!

— Tudo bem, Blaine. Você pediu. Aí vai o meteoro. Por que o bebê ciscou quando atravessou a estrada?

O monotrem deu outro gigantesco solavanco; Eddie não entendeu como ele conseguiu ficar no trilho depois disso, mas de algum modo ficou. O guincho embaixo deles se tornou mais alto; as paredes, piso e teto do vagão começaram a oscilar loucamente entre opacidade e transparência.

Num momento o carro parecia fechado, segundos depois eles pareciam estar voando na paisagem de um dia escuro que se estendia monótona e uniformemente até um horizonte estendido em linha reta nos limites do mundo.

A voz que vinha dos alto-falantes era agora a de uma criança em pânico:

— EU SEI, SÓ UM MOMENTO, EU SEI, REPARAÇÃO EM PROGRESSO, TODOS OS CIRCUITOS LÓGICOS EM USO...

— Responda — disse Roland.

— PRECISO DE MAIS TEMPO! TÊM DE ME DAR MAIS TEMPO! — Agora havia uma espécie de tom esganiçado naquela voz rachada. — NÃO FORAM ESTABELECIDOS LIMITES TEMPORAIS PARA AS RESPOSTAS, ROLAND DE GILEAD, ODIOSO PISTOLEIRO DE UM PASSADO QUE DEVIA TER CONTINUADO MORTO!

— Não — Roland concordou —, não foram estabelecidos limites, tem toda razão. Mas você não pode nos matar com uma adivinhação com resposta pendente, Blaine, e Topeka está cada vez mais perto. Responda!

O Vagão do Baronato tornou a se precipitar na invisibilidade e Eddie viu o que pareceu ser um elevador de grãos, alto e enferrujado, passar em disparada; o tempo que ficou à vista mal foi suficiente para ser identificado. Agora ele pôde avaliar mais completamente a louca velocidade em que estavam viajando; no mínimo uns 400 quilômetros mais rápidos que um jato comercial em velocidade de cruzeiro.

— Deixe-o em paz! — gemeu a voz do Pequeno Blaine. — Está acabando com ele, estou vendo isso! Acabando com ele!

— Mas não era isso que Blaine queria? — perguntou Susannah com a voz de Detta Walker. — Morrer? Foi ele mesmo que disse. Bem, não nos interessa o que ele queria ou não. Você não é tão mau, Pequeno Blaine, mas mesmo um mundo como este pode ficar um pouco menos fodido depois da morte do teu mano mais velho. A única coisa a que fizemos objeção foi ele querê nos levá junto.

— Última chance — disse Roland. — Responda ou desista do ganso, Blaine.

— EU... EU... VOCÊ... DEZESSEIS LOG 33... TODO CO-SENO SUBSCRITO... ANTI... ANTI... EM TODOS ESSES ANOS... FEIXE... ENCHENTE... PITAGÓRICO... LÓGICA CARTESIANA... POSSO... TENHO CORAGEM... UM PÊSSEGO... COMER UM PÊSSEGO... ALLMAN BROTHERS... PATRÍCIA... CROCODILO E SORRISO NO CHICOTE... RELÓGIO DE MOSTRADORES... TIQUETAQUE, 11 HORAS, O HOMEM ESTÁ NA LUA E PRONTO PARA AGITAR... INCESSAMENT... INCESSAMENT, MON CHER... AH MINHA CABEÇA... BLAINE... BLAINE TEM CORAGEM... BLAINE VAI RESPONDER... EU...

Blaine, agora gritando com a voz de um menino, caiu sem querer em alguma outra linguagem e começou a cantar. Eddie achou que era francês. Não conhecia nenhuma daquelas palavras, mas quando a bateria entrou, reconheceu a música perfeitamente bem: “Velcro Fly”, do Z. Z. Top.

O vidro que cobria o mapa de viagem estourou. Pouco depois, o próprio mapa de viagem saltou de seu encaixe, revelando luzes que piscavam e uma rede de placas com circuitos eletrônicos. As luzes pulsavam no ritmo da bateria. De repente brotou um fogo azul, chiando ao redor do buraco na parede onde o mapa estivera e tudo chamuscando. Do fundo daquela parede, na região central dos comandos de Blaine, de uma saliência em forma de bala, veio um rangido grosso.

— O bebê ciscou quando atravessou a estrada porque era um filhote de galinha, sua porra cretina! — Eddie gritou ficando em pé e começando a se aproximar do buraco enfumaçado onde o mapa de viagem estivera. Susannah agarrou-o pelas costas da camisa, mas Eddie mal sentiu o puxão. Na realidade, mal sabia onde estava. O fogo da batalha tinha caído sobre ele, queimando cada parte sua com um calor justiceiro, tornando sua visão febril, fritando os neurônios e assando o coração num clarão sagrado. Eddie tinha Blaine em sua mira, e embora a coisa atrás da voz já estivesse mortalmente ferida, ele não conseguia parar de apertar o gatilho: Eu atiro com a mente.

— Qual a diferença entre uma carga de bolas de boliche e uma carga de cadáveres de marmotas? — Eddie disparava. — Você não pode descarregar uma carga de bolas de boliche com um forcado!

Um terrível grito de raiva misturada com agonia saiu do buraco onde o mapa de viagem estivera. Foi seguido por uma rajada de fogo azul, como se em algum lugar da parte dianteira do Vagão do Baronato um dragão elétrico tivesse soprado violentamente. Jake gritou uma advertência, mas Eddie não precisava dela; agora seus reflexos estavam afiados como lâminas de navalha. Ele mergulhou e a rajada de eletricidade saltou para seu ombro direito, deixando em pé o cabelo daquele lado da nuca. Sacou o revólver que tinha na cintura — um .45, pesado, com um cabo meio gasto de madeira de sândalo, um dos dois revólveres que Roland havia trazido das ruínas do Mundo Médio. Eddie continuava andando, gesticulando para a frente do vagão... e naturalmente continuava falando. Roland tinha dito que Eddie morreria falando. Como seu velho amigo Cuthbert, Eddie achava que havia muitos meios piores de morrer e preferia ficar com a língua solta.

— Vamos lá, Blaine, sua porra deprimente e sádica! Já que estamos falando de adivinhações, qual é a maior adivinhação do Oriente? Muitos homens fumam mas poucos Fu Manchu! Sacou? Não? Tão tola, Mestre! E que tal essa outra? Por que a mulher chamou o filho de Coelho? Porque tirou o nome de dentro de uma cartola!

Tinham atingido o quadrado pulsante. Ele ergueu o revólver de Roland e o Vagão do Baronato se encheu de repente com seu trovão. Enfiou todas as seis balas no buraco, manejando o gatilho com a palma da mão, do modo ensinado por Roland. Eddie só sabia que era certo, era justo fazer aquilo... aquilo era ka, maldição, era a porra do ka, era o modo como você concluía as coisas se fosse um pistoleiro. Ele era da tribo de Roland, sem dúvida, sua alma estava provavelmente condenada ao mais fundo abismo do inferno, pois um dia já a negociara por uma certa heroína da Ásia.

— TENHO ÓDIO DE VOCÊ! — Blaine gritou com sua voz infantil. O timbre rachado, no entanto, já não existia; a voz parecia cada vez mais mole, pastosa. — VOU ODIÁ-LO ETERNAMENTE!

— Não é a morte que o preocupa, certo? — Eddie perguntou. As luzes no buraco onde ficava o mapa de viagem estavam enfraquecendo. Mais fogo azul faiscava, mas Eddie quase não precisava fazer a cabeça recuar para evitá-lo; a chama era pequena e fraca. Logo Blaine estaria morto como todos os Pubes e Grays de Lud. — O que o desagrada é perder.

ODEIO... ETERRRRnnnmm...

A palavra degenerou num rumor. O rumor tornou-se uma espécie de trovejar entrecortado. Depois sumiu.

Eddie olhou em volta. Roland estava lá, segurando Susannah com um braço curvado em volta de sua nádega, como se estivesse segurando uma criança. As coxas delas se agarravam na cintura dele. Jake estava parado do outro lado do pistoleiro, com Oi no calcanhar.

Um cheiro de queimado peculiar, de alguma forma não de todo desagradável, saía do buraco onde havia estado o mapa de viagem. Eddie achava que era o cheiro de folhas queimando em outubro. A não ser isso, o buraco estava morto e escuro como um olho de cadáver. Todas as luzes lá dentro tinham se apagado.

Seu ganso queimou na panela, Blaine, Eddie pensou, mas o pássaro da morte está no ponto para recebê-lo. Feliz partida.

 

O guincho que vinha de baixo do monotrem cessou. Houve um áspero baque final saído da frente e do alto do trem e então os outros sons também cessaram. Roland sentiu as pernas e os quadris serem suavemente impelidos para a frente e estendeu sua mão livre para manter o equilíbrio. O corpo soube antes da cabeça o que havia acontecido: os motores de Blaine tinham parado. Estavam agora simplesmente deslizando para a frente ao longo da trilha. Mas...

— Para trás — disse ele. — O mais que puderem. Estamos avançando no impulso. Se estivermos perto demais do ponto terminal de Blaine ainda podemos nos arrebentar.

Cruzou com os outros os restos empilhados da escultura de gelo de boas-vindas de Blaine. Foram todos para a traseira do vagão.

— E fiquem longe dessa coisa — disse ele, apontando para o instrumento que parecia uma cruz entre um piano e um cravo. Estava numa pequena plataforma. — Isso pode mudar a direção. Deuses, gostaria de saber onde estamos! Deitem. Ponham os braços sobre as cabeças.

Fizeram o que Roland mandava. E ele fez o mesmo. Deitou-se apoiando o queixo no pêlo do carpete azul-real, olhos fechados, pensando no que podia acontecer.

— Peço seu perdão, Eddie — disse. — Incrível como gira a roda do ka! Um dia tive de pedir as mesmas desculpas a meu amigo Cuthbert... e pela mesma razão. Há uma espécie de cegueira em mim. Uma cegueira arrogante.

— Não acho que seja preciso se desculpar — disse Eddie num tom constrangido.

— Mas é. Tinha desprezo por suas piadas. Agora elas salvam nossas vidas. Peço seu perdão. Esqueci a face de meu pai.

— Não precisa pedir nenhum perdão nem esquecer a face de ninguém — disse Eddie. — Você não pode ir contra sua natureza, Roland.

O pistoleiro pensou cuidadosamente neste comentário e descobriu uma coisa que era ao mesmo tempo maravilhosa e terrível: uma idéia que jamais havia lhe ocorrido. Nem uma só vez em toda a sua vida. Que era prisioneiro do ka... era algo que sabia desde a mais tenra infância. Mas de sua natureza... de sua própria natureza...

— Obrigado, Eddie. Acho que...

Antes que Roland pudesse dizer o que achava, o Mono Blaine executou uma derradeira e brutal parada. Os quatro foram violentamente atirados pelo corredor central do Vagão do Baronato, Oi nos braços de Jake e latindo. A parede frontal da cabine vergou e Roland atingiu-a primeiro com o ombro. Mesmo com o enchimento (a parede era almofadada e parecia ter sido também recheada com uma camada de alguma substância elástica), o golpe foi bem forte para deixá-lo atordoado. O lustre foi jogado para a frente e desprendeu-se do teto, crivando-os de pingentes de vidro. Jake rolou para o lado, escapando por pouco da aterrissagem do lustre. O piano e o cravo, saltando de seus encaixes, bateram num dos sofás e emborcaram, não antes de encerrar o tombo com um dissonante som de brrrannnggg. O mono se inclinou para a direita e o pistoleiro abraçou a si mesmo, querendo proteger Jake e Susannah com o próprio corpo se o vagão chegasse mesmo a capotar. Mas o vagão se acomodou, o piso ainda um pouco tombado, mas parado.

A viagem terminara.

O pistoleiro se levantou. O ombro continuava dormente, mas o braço suportou seu peso, o que era um bom sinal. A sua esquerda, sentado, com um ar meio tonto, Jake recolhia as contas de vidro caídas em seu colo. A sua direita, Susannah passava a mão num corte embaixo do olho esquerdo de Eddie.

— Tudo bem — disse Roland. — Quem está feri...

Houve uma explosão acima deles, Pam!, um barulho surdo que fez Roland se lembrar das bombinhas que Cuthbert e Alain às vezes acendiam e atiravam nos ralos ou nos banheiros atrás da cantina. E um dia Cuthbert havia atirado algumas bombas com seu estilingue. Não fora brincadeira, não fora uma travessura infantil. Fora...

Susannah deixou escapar um grito breve... mais de surpresa que de medo, o pistoleiro pensou... e então a luz de um dia enevoado estava brilhando em seu rosto. Aquilo parecia bom. O gosto do ar que entrava pela saída de emergência que saltara da parede era ainda melhor — impregnado do aroma de chuva e terra úmida.

Houve um chocalhar de ossos e uma escada — que parecia estar equipada com degraus feitos de arame trançado — caiu de uma abertura no alto.

— Primeiro atiram o lustre na sua cabeça, depois mostram a você a porta da rua — disse Eddie. Depois de lutar para ficar de pé, ele ergueu Susannah. — Tudo bem, sei quando sou demais. Vamos imitar as abelhas e zumbir em outra freguesia.

— Me parece uma boa idéia — disse Susannah, estendendo novamente a mão para o corte no rosto de Eddie. Eddie pegou os dedos dela, beijou-os e mandou que ela parasse de mexer com a moichandise.

— Jake? — o pistoleiro perguntou. — Tudo bem?

— Sim — disse Jake. — E você, Oi?

— Oi!

— Acho que ele está bem — disse Jake erguendo a mão ferida e examinando-a com ar sério.

— Doendo de novo, é? — perguntou o pistoleiro.

— É. O que Blaine fez com ela, seja lá o que for, está perdendo o efeito. Mas não faz mal... Estou muito contente por ainda estar vivo.

— Sim. A vida é boa. E asmina também. Ainda sobrou um pouco.

— Está querendo dizer aspirina.

Roland balançou a cabeça. Uma pílula de propriedades mágicas, mas uma das palavras do mundo de Jake que jamais conseguiria pronunciar de forma correta.

— Nove entre dez médicos receitam Anacin, querido — disse Susannah, e logo, quando Jake a encarou com ar curioso: — Bem, acho que não usam mais Anacin em seu quando, hã? Não importa. Estamos aqui, doce de coco, inteiros neste lugar, e é isso que tem importância. — Puxou Jake para seus braços e deu-lhe um beijo entre os olhos, no nariz e um selinho na boca. Jake riu e ficou muito vermelho. — Eis o que tem importância. Ao menos por enquanto é a única coisa no mundo que faz sentido.

 

— Os primeiros socorros podem esperar — disse Eddie pondo o braço em volta dos ombros de Jake e conduzindo o garoto para a escada. — Pode usar a mão para subir?

— Posso. Mas não dá para levar Oi. Quer pegá-lo, Roland?

— Claro. — Roland pegou Oi e enfiou-o na camisa como tinha feito ao descer por um poço sob a cidade no encalço de Jake e Gasher. Oi olhava para Jake com seus brilhantes olhos de orla dourada. — Suba primeiro.

Jake subiu. Roland seguiu rente o bastante para que Oi, esticando o longo pescoço, pudesse farejar os calcanhares do garoto.

— Suze? — Eddie chamou. — Precisa de uma força?

— E ver você passando as mãos sujas na minha bunda? Esqueça isso, garoto branco! — Então Susannah deu uma piscada para ele e começou a subir, impelindo-se com facilidade com os braços musculosos e equilibrando-se com os tocos das pernas. Foi rápida, mas não o suficiente para Eddie, que acabou estendendo a mão e lhe dando um leve empurrão no lugar onde o empurrão teria efeito. — Olhe a minha virgindade! — disse Susannah rindo e revirando os olhos. Então desapareceu pela passagem. Só Eddie sobrou, parado no pé da escada e dando mais uma olhada no luxuoso vagão que por pouco não servira de caixão para todo o ka-tet.

Conseguiu, garotão, disse Henry. Fez ele se jogar no próprio fogo. Sabia que ia conseguir, fodido Mestre que você é. Lembra quando disse isso para aqueles malucos atrás do Dahlie’s? Jimmie Pálio e os outros caras? E como eles riram? Mas você conseguiu. Mandou o sujeito para casa com uma puta quebradura.

Bem, sem dúvida a coisa funcionou, Eddie pensou, tocando o cabo do revólver de Roland sem ter sequer consciência disso. Funcionou bem o bastante para nos pôr de novo a caminho.

Depois de subir dois degraus, tornou a olhar para trás. O Vagão do Baronato já parecia morto. Morto há muito tempo, aliás, só mais um artefato de um mundo que seguira adiante.

— Adios, Blaine — disse Eddie. — Até mais ver, parceiro.

E cruzando a saída de emergência que havia no teto, foi atrás dos amigos.

 

Topeka

Jake parou no teto ligeiramente inclinado do Mono Blaine, olhando para sudeste ao longo do Caminho do Feixe de Luz. O vento agitava seu cabelo (agora bastante comprido e decididamente fora de moda), levantando mechas das têmporas e da testa. Tinha os olhos arregalados de espanto.

Não sabia o que esperava ver — talvez uma versão menor e mais provinciana de Lud —, mas o que não havia esperado era o que despontava sobre as árvores de um parque vizinho. Era uma placa verde de estrada (contra o cinza mortiço de um céu de outono, a placa quase gritava seu colorido) com inscrições em azul:

 

INTERTASTE 70

 

Roland juntou-se a ele, tirou cuidadosamente Oi de dentro da camisa e colocou-o no chão. O trapalhão cheirou a superfície rosada do teto de Blaine, depois olhou para a frente do monotrem. Ali o liso formato de bala do trem era interrompido por metal amassado e cortado em tiras irregulares. Dois talhos escuros, que começavam na ponta do monotrem e se estendiam até cerca de 10 metros de onde Jake e Roland se encontravam, seccionavam o teto em linhas paralelas. No final de cada uma havia um largo mastro de metal liso pintado com listas amarelas e pretas. Os mastros pareciam se projetar do alto do monotrem, num ponto logo à frente do Vagão do Baronato. Para Jake lembravam um pouco balizas de futebol.

— Aquelas são as traves do terminal onde ele dizia que ia bater — Susannah murmurou.

Roland abanou a cabeça.

— Tivemos muita sorte, rapazes, sabem disso? — ele perguntou. — Se esta coisa estivesse indo um pouco mais depressa...

— Ka — disse Eddie atrás deles. Tinha o tom de quem podia estar sorrindo.

— Exatamente — Roland assentiu. — Ka.

Sem dar importância aos batentes do terminal, Jake tornou a se virar para a placa. Estava meio convencido que ela já não estaria lá quando olhasse de novo ou que estaria indicando alguma outra coisa (Mundo Médio — Via Expressa, por exemplo, ou Cuidado, Demônios na Pista), mas a placa continuava lá e continuava dizendo a mesma coisa.

— Eddie? Susannah? Estão vendo isso?

Seguiram o dedo que ele apontava. Por um momento — suficientemente demorado para Jake achar que estava tendo alguma alucinação — ninguém disse nada. Então, suavemente, Eddie se manifestou:

— Que boa merda. Será que voltamos para casa? Se voltamos, onde estão todos? E se uma coisa como Blaine fez realmente uma parada em Topeka... nossa Topeka, Topeka, no Kansas... como não vi nada sobre isso nos Sessenta Minutos?

— Que Sessenta Minutos é esse? — Susannah perguntou com a mão protegendo os olhos que miravam a sudeste, na direção da placa.

— Um programa de TV — disse Eddie. — Você teria de esperar cinco ou dez anos para assistir a ele. Coroas brancos de gravata. Esqueça isso. Aquela placa.

— É o Kansas, tudo bem — disse Susannah. — Nosso Kansas. Eu acho. — Ela havia visto outra placa, que mal aparecia sobre as árvores. Ficou apontando até Jake, Eddie e Roland verem também:

 

KANSAS KTA TURNPIKE

 

— Existe um Kansas em seu mundo, Roland?

— Não — Roland respondeu, observando as placas. — Estamos muito longe das fronteiras do mundo que conheci. Aliás, eu já estava muito longe do mundo que conheci bem antes de ter encontrado vocês três. Este lugar...

Parou e esticou a cabeça para o lado, como se estivesse ouvindo um som quase distante demais para ser ouvido. E a expressão em seu rosto... Jake não gostou muito dela.

— E aí, garotos! — disse Eddie num tom animado. — Hoje estamos estudando Geografia Pirada no Mundo Médio. Como estão vendo, guris e gurias, no Mundo Médio a gente começa em Nova York, viaja para sudeste até chegar ao Kansas e continua seguindo o Caminho do Feixe de Luz até a Torre Negra... que por acaso está chapada no meio de tudo. Primeiro a batalha contra as lagostas gigantes! Depois a viagem no trem psicótico! E aí, após uma visita a um fast food para um ou dois popquins...

— Estão ouvindo alguma coisa? — Roland interrompeu. — Algum de vocês está?

Jake prestou atenção. Escutou o vento passando entre as árvores do vale (as folhas tinham começado a se agitar) e ouviu o barulho das unhas das patas de Oi que voltava para perto deles pelo teto do Vagão do Baronato. Então Oi parou, assim mesmo o barulho das unhas...

A mão de alguém agarrou o braço de Jake, fazendo-o dar um pulo. Era Susannah com a cabeça empinada, os olhos arregalados. Eddie também prestava atenção. Oi também; tinha as orelhas levantadas e um ganido no fundo da garganta.

Jake sentiu os braços repuxarem com o arrepio. Sentiu também a boca se contrair numa careta. O som, embora muito fraco, era a versão amplificada de dar uma dentada num limão. E não era a primeira vez que ouvia aquela coisa. Tempos atrás, quando ele não tinha mais que cinco ou seis anos, havia um cara maluco no Central Park que se considerava músico... bem, havia centenas de malucos no Central Park que se consideravam músicos, mas aquele foi o único que Jake viu tocando um instrumento experimental. O sujeito tinha uma tabuleta ao lado do chapéu virado no chão que dizia: O MAIOR TOCADOR DE SERROTE DO MUNDO! CERTO, PARECE COISA HAVAIANA! POR FAVOR CONTRIBUA PARA MEU BEM-ESTAR!

Greta Shaw estava com Jake da primeira vez que ele viu o tocador de serrote, e Jake se lembrava de como tinham andado mais depressa ao passar pelo sujeito. O homem estava simplesmente lá sentado como um violoncelista numa orquestra sinfônica, só que com um serrote enferrujado em cima de suas pernas abertas; Jake se lembrava da expressão de cômico horror na cara da Sra. Shaw e no tremor de seus lábios contraídos, como se... sim, como se ela tivesse acabado de dar uma dentada num limão.

O som daquele momento não era exatamente igual ao

(CERTO, PARECE COISA HAVAIANA)

que o cara no parque fazia ao vibrar a lâmina do serrote, mas chegava perto: um som ondulante, trêmulo, metálico, que deixava a pessoa se sentindo como se bolsas atrás dos olhos estivessem se enchendo e logo a água fosse começar a escorrer. Estava vindo da frente deles? Jake não saberia dizer. Parecia estar vindo de todos os lados e de parte alguma; ao mesmo tempo, era tão baixo que ele poderia ser tentado a crer que toda a coisa não passava de fruto da sua imaginação, se os outros não tivessem...

— Cuidado! — Eddie gritou. — Me ajudem, caras! Acho que ele vai desmaiar!

Jake se virou para o pistoleiro e viu que o rosto dele, sobre o poeirento descolorido da camisa, ficara branco como ricota. Os olhos arregalados encaravam o vazio. Um canto da boca se retorcia espasmodicamente, como se um anzol invisível estivesse enterrado ali.

— Jonas, Reynolds e Depape — disse ele. — Os Grandes Caçadores de Caixões. É ela. Os Cöos. Eram eles. Eram eles que...

De pé no teto do monotrem, as botas sujas e rompidas, Roland oscilava. Em seu rosto o mais terrível ar de angústia que Jake já vira.

— Ah, Susan — disse. — Ah, minha querida.

 

Aproximaram-se, formaram um anel protetor em torno dele e o pistoleiro sentiu-se coberto de culpa e auto-aversão. O que fizera para merecer protetores tão entusiásticos? O que, além de arrancá-los de suas vidas conhecidas e comuns tão cruelmente quanto um homem tirando mato do jardim?

Tentou dizer que estava bem, que podiam ficar tranqüilos, ele estava ótimo, mas não conseguiu pronunciar uma só palavra; aquele terrível som ondulante o transportara para o desfiladeiro retangular a oeste de Hambry tantos e tantos anos atrás. Depape, Reynolds e o velho coxo Jonas. Acima de tudo, no entanto, era a mulher da colina que ele odiava, e das profundezas mais negras de sentimentos que só um homem muito jovem podia atingir. Ah, mas como poderia ter feito outra coisa a não ser odiá-los? Seu coração fora partido. E agora, tantos e tantos anos mais tarde, parecia-lhe que o fato mais horrível da existência humana era que corações partidos saram.

Primeiro pensei: ele mentiu a cada sentença, o coxo encanecido, com olhos cheios de malícia...

Quais palavras? De quem era o poema?

Não sabia, mas sabia que as mulheres podiam mentir, também; mulheres que dançavam, riam e viam demais pelo canto de seus olhos velhos e remelentos. Pouco importava quem havia escrito os versos da poesia; as palavras eram palavras verdadeiras, e era só isso que tinha importância. Nem Eldred Jonas nem a velha bruxa na colina tinham sido da estatura de Marten — nem mesmo da de Walter — no que se referia ao mal, embora o mal referido a eles fosse o suficiente.

Então, depois... no desfiladeiro retangular a oeste da cidade... que parecia... que, nos gritos dos homens e cavalos feridos... por uma vez na vida, mesmo o habitualmente volúvel Cuthbert fora reduzido ao silêncio.

Mas tudo aquilo acontecera muito tempo atrás, em outro quando; no aqui e agora, o som cantante desaparecera ou caíra temporariamente abaixo do limiar da audição. Iam, porém, ouvi-lo de novo. Roland sabia disso tão bem quanto sabia que estava seguindo uma trilha que levava à danação.

Levantou a cabeça e conseguiu sorrir. O tremor no canto da boca havia desaparecido, o que já era alguma coisa.

— Tudo bem comigo — disse. — Mas escutem com atenção: estamos muito próximos do ponto onde o Mundo Médio acaba, muito próximos do ponto onde começa o Fim do Mundo. O primeiro grande trecho de nossa busca está concluído. Soubemos completá-lo; não esquecemos as faces de nossos pais; nos mantivemos juntos e fomos leais uns com os outros. Mas agora chegamos a uma lúmina. Precisamos ter muito cuidado.

— Uma lúmina? — perguntou Jake, olhando nervoso em volta.

— Lugares onde o tecido da existência está quase inteiramente roto. Há outros além deste, pois a força da Torre Negra começou a declinar. Estão lembrados do que vimos abaixo de nós quando deixamos Lud?

Abanaram gravemente as cabeças, recordando o solo que tinha virado uma espécie de vidro escuro, canos antigos que brilhavam com uma estranha luz turquesa, pássaros disformes com asas que pareciam grandes velas de couro. De repente Roland não pôde suportar vê-los agrupados em torno dele daquela maneira, observando-o como as pessoas podiam observar um desordeiro que tivesse sido derrubado numa briga de bar.

Ergueu as mãos para seus amigos — seus novos amigos. Eddie pegou-as e ajudou Roland a ficar de pé. O pistoleiro concentrou sua enorme vontade em manter o corpo firme.

— Quem era Susan? — perguntou Susannah. A ruga no meio de sua testa sugeriu que estava transtornada, porque provavelmente havia ali mais que uma simples coincidência de nomes.

Roland olhou-a, depois olhou para Eddie, depois para Jake, que, apoiado num joelho, coçava as orelhas de Oi.

— Vou contar — disse ele —, mas este não é o lugar nem o momento adequado.

— Não é a primeira vez que diz isso — observou Susannah. — Espero que não esteja querendo nos deixar novamente à margem, não é?

Roland balançou a cabeça.

— Vai ouvir minha história... pelo menos esta parte dela... mas não em cima desta carcaça morta de metal.

— Pois é — disse Jake. — Estar aqui em cima é como brincar num esqueleto de dinossauro ou coisa parecida. Continuo tendo a impressão de que Blaine vai voltar à vida e começar de novo, não sei, a mexer com nossas cabeças.

— Aquele ruído parou — disse Eddie. — A coisa que soava como um pedal de amolador.

— Ele me fez lembrar de um coroa que eu costumava ver no Central Park — disse Jake.

— O homem do serrote? — Susannah perguntou. Jake ergueu a cabeça, olhos arregalados de espanto, e ela assentiu. — Só que ele não era coroa quando o conheci. Não é só a geografia que pirou por aqui. O tempo também ficou engraçado.

Eddie pôs um braço em volta dos ombros dela e apertou-a.

— É de dizer amém.

Susannah se virou para Roland. Não era um olhar acusador, mas havia uma franqueza e um foco de análise naqueles olhos que o pistoleiro não pôde deixar de admirar.

— Vou cobrar sua promessa, Roland. Quero saber sobre essa moça que teve o meu nome.

— Vai saber — Roland repetiu. — Mas por ora vamos sair das costas deste monstro.

 

Era mais fácil dizer do que fazer. Blaine acabara parando ligeiramente de lado numa versão ao ar livre do Berço de Lud (uma trilha desordenada de metal rosado rompido marcava o último trecho da última viagem de Blaine) e do teto do Vagão do Baronato ao cimento havia pelo menos uns 8 metros. Se tivesse havido alguma escada para descer, como a que saltara convenientemente na saída de emergência, ela teria sido esmagada quando o monotrem fez sua parada brutal.

Roland soltou sua bolsa, revirou-a e tirou de lá os arreios de pele de corça que usavam para carregar Susannah quando o caminho ficava acidentado demais para a cadeira de rodas. A cadeira, pelo menos, não os perturbaria mais, o pistoleiro ponderou; tinha sido deixada para trás na louca manobra para subir a bordo de Blaine.

— Para que vai querer isso? — Susannah perguntou num tom truculento. Sempre parecia truculenta quando via os arreios. Odeio esses brancos chifrudos lá do Mississipi mais do que odeio os arreios, um dia ela disse a Eddie com a voz de Detta Walker, mas às vezes detesto os dois quase igual, docinho.

— Tranqüila, Susannah Dean, tranqüila — disse o pistoleiro com um início de sorriso. Desemaranhou a teia de correias dos arreios, separou o assento e amarrou as pontas das correias. Uniu isto a seu último rolo de corda utilizável com um antiquado nó em xadrez. Enquanto trabalhava, prestava atenção ao rumor da lúmina... assim como os quatro tinham prestado atenção aos tambores-deuses; assim como ele e Eddie tinham prestado atenção quando as lagostrosidades começaram a fazer suas perguntas de advogado (“Dad-a-cham? Did-a-chee? Dum-a-chum?”) quando, a cada noite, saíam aos trambolhões das ondas.

O ka é uma roda, pensou. Ou, como Eddie gostava de dizer, qualquer coisa que sai rodando chega rodando.

Quando a corda acabou, ele fez um laço no fundo da parte trançada. Jake pôs o pé ali com perfeita confiança, agarrou a corda com uma das mãos e instalou Oi no gancho de seu outro braço. Oi olhou em volta, nervoso, ganiu, esticou o pescoço, lambeu a cara de Jake.

— Não está com medo, está? — Jake perguntou ao trapalhão.

— Mido — Oi concordou, mas ficou realmente quieto enquanto Roland e Eddie ajudavam Jake a descer pelo lado do Vagão do Baronato. A corda não era comprida o bastante para levá-lo até o chão, mas Jake não teve dificuldades em tirar os pés da corda e pular o último metro e meio. Pôs Oi no chão. O trapalhão saiu trotando, farejando e levantando a pata contra a parede do prédio do terminal. O lugar estava longe de ser grandioso como o Berço de Lud, mas tinha uma aparência antiquada de que Roland gostava — paredes brancas, beirais salientes, janelas estreitas, altas, com vidraças que lembravam superfícies de ardósia. Era uma atmosfera de western. Gravada em letras douradas numa placa estendida sobre a fileira de portas do terminal havia esta mensagem:

 

ATCHISON, TOPEKA E SANTA FÉ

 

Cidades, Roland deduziu, e a última lhe pareceu familiar; não tinha havido uma Santa Fé no Baronato de Mejis? Mas isso o levou de volta a Susan, à adorável Susan na janela com o cabelo solto e caído nas costas, seu cheiro de jasmim, rosa, madressilva e feno velho e doce, cheiros dos quais o oráculo nas montanhas só conseguira fazer a mais pálida imitação. Susan recostada, erguendo solenemente os olhos para ele, depois sorrindo e pondo as mãos atrás da cabeça para que os seios se erguessem, como se ansiassem por suas mãos.

Se você me ama, Roland, então me ame... como pássaro, urso, lebre e peixe...

— ...a próxima?

Olhou para Eddie, tendo de usar toda a sua força de vontade para voltar do quando de Susan Delgado. Havia mesmo lúminas ali em Topeka, e de diferentes tipos.

— Minha mente estava viajando, Eddie. Peço que me desculpe.

— Susannah é a próxima? Foi o que perguntei.

Roland balançou negativamente a cabeça.

— Agora é você, depois Susannah. Desço por último.

— Não vai ter problemas? Com essa sua mão e o resto?

— Vou descer bem.

Eddie aquiesceu e enfiou o pé no laço. Quando Eddie entrou pela primeira vez no Mundo Médio, Roland poderia tê-lo baixado facilmente, estivesse ou não com dois dedos a menos na mão, mas Eddie estava há meses sem a droga e ganhara cinco ou sete quilos de músculo. Roland aceitou com satisfação a ajuda de Susannah e juntos o ajudaram a descer.

— Agora a senhora — disse Roland, sorrindo para ela. Parecia mais natural sorrir num dia como aquele.

— Está bem. — Mas por algum tempo ela ficou simplesmente parada, mordendo o lábio inferior.

— O que houve?

A mão de Susannah foi até o estômago e o esfregou, como se estivesse sentindo alguma dor ou aperto. Roland achou que ela ia falar, mas Susannah se limitou a balançar a cabeça e a dizer:

— Não houve nada.

— Não acredito. Por que esfregou a barriga? Está sentindo alguma dor? Estava sentindo alguma dor quando paramos?

Ela tirou a mão da túnica como se a carne logo abaixo do umbigo estivesse pegando fogo.

— Não. Estou bem.

— Está mesmo?

Susannah pareceu refletir muito cuidadosamente sobre a pergunta.

— Vamos conversar — disse por fim. — Vamos palestrar, se prefere que eu fale assim. Mas você tem razão, Roland... Este não é o lugar nem o momento adequados.

— Vamos palestrar nós quatro ou apenas eu, você e Eddie?

— Só eu e você, Roland — disse ela, passando o toco de sua perna pelo laço. — Só uma galinha e um galo, ao menos para começar. E por favor não precisa franzir a testa.

Mas Roland ficou muito sério, a encará-la, torcendo de todo o coração para que sua primeira idéia — a que chegara à sua mente assim que ele viu aquela mão inquieta esfregando — estivesse errada. Porque Susannah havia estado no círculo falante e o demônio que ali fazia sua toca estivera a sós com ela enquanto Jake tentava passar entre os mundos. Às vezes — freqüentemente — um contato demoníaco mudava muita coisa.

Nunca para melhor, na experiência de Roland.

Ele puxou a corda depois de Eddie pegar Susannah pela cintura e ajudá-la a subir na plataforma. O pistoleiro avançou para um dos batentes que tinham rasgado o teto em forma de bala do trem, dando um laço apertado na ponta da corda enquanto andava. Atirou o laço sobre o batente, deu um puxão (tendo o cuidado de não torcer a corda para a esquerda) e foi descendo para a plataforma curvado até a cintura e deixando marcas de botas na parede rosada de Blaine.

— Muito mau perder a corda e os arreios — Eddie comentou quando Roland estava ao lado deles.

— Eu não tenho pena dos arreios — disse Susannah. — Preferia rastejar pelo pavimento até virar uma goma de mascar dos dedos aos cotovelos.

— Não perdemos nada — disse Roland, pegando o laço da corda onde apoiara o pé e atirando-o com força para a esquerda. A corda escorregou pelo batente e Roland a foi recolhendo quase tão rápido quanto ela caía.

— Belo truque! — disse Jake.

— Elo! Uque! — Oi concordou.

— Cort? — Eddie perguntou.

— Cort — Roland concordou, sorrindo.

— O sargento instrutor do inferno — disse Eddie. — Melhor você do que eu para seguir as lições dele. Melhor você do que eu, Roland.

 

Enquanto avançavam para as portas que levavam à estação, aquele som baixo, líquido, cantante começou de novo. Roland achou divertido ver todos os membros de sua tropa torcerem ao mesmo tempo os narizes e os cantos das bocas; pareciam parentes consangüíneos, não apenas ka-tet. Susannah apontou para um estacionamento. Despontando sobre as árvores, as placas ondulavam um pouco, como as coisas parecem fazer sob ondas de calor.

— Isso vem da lúmina? — Jake perguntou. Roland assentiu.

— Vamos conseguir atravessá-la?

— Sim. Lúminas não são mais perigosas que aqueles pântanos cheios de areia movediça e saligues. Conhecem essas coisas?

— Conhecemos areia movediça — disse Jake. — E se saligues são coisas compridas com grandes dentes, conhecemos também.

— É isso que são.

Susannah se virou e deu uma última olhada em Blaine.

— Nem perguntas nem jogos tolos — disse. — O livro estava certo a esse respeito. — De Blaine ela voltou os olhos para Roland. — E o que me diz de Beryl Evans, a mulher que escreveu Charlie Chu-Chu? Acha que ela é parte disto? Que podemos encontrá-la? Gostaria de lhe agradecer. Eddie imaginou isso, mas...

— É possível, eu acho — disse Roland —, mas não sei até que ponto. Meu mundo é como um enorme navio que afundou suficientemente perto da costa para a maioria dos destroços ir dar na praia. Muito do que achamos é fascinante, alguma coisa, se o ka permitir, pode ser útil, mas tudo continua sendo destroço. Destroço sem sentido. — Olhou em volta.

— Como este lugar, eu acho.

— Eu não chamaria isto aqui exatamente de destroço — disse Eddie.

— Veja a pintura da estação... Está um pouco suja por causa das goteiras que caem dos beirais do telhado, mas parece que não está descascada em parte alguma. — Parado diante das portas, Eddie passou os dedos por uma das vidraças. Eles deixaram quatro marcas bastante nítidas. — Poeira, muita poeira, mas sem rachaduras. Eu diria que este prédio está sem manutenção no máximo desde... desde o início do verão, o que acham? Olhou para Roland, que abanou os ombros e assentiu. Só estava ouvindo com metade de uma orelha e só prestava atenção com metade da mente. O resto dele estava fixado em duas coisas: o trinado da lúmina e manter afastadas as recordações que queriam tomar conta dele.

— Lud demorou séculos para chegar à completa ruína — disse Susannah. — Este lugar... pode ser ou não Topeka, mas o que realmente me lembra é uma daquelas horripilantes cidadezinhas de Além da Imaginação. Provavelmente vocês, caras, não se lembram, mas...

— Sim, eu me lembro da série — disseram Eddie e Jake em perfeito uníssono, olhando um para o outro e rindo. Eddie estendeu a mão e Jake bateu nela.

— Ainda estão reprisando a coisa — disse Jake.

— É, sem parar — Eddie acrescentou. — Geralmente patrocinados por advogados falidos parecidos com terriers de pêlo curto. E vocês têm razão. Este lugar não é como Lud. Por que haveria de ser? Não é o mesmo mundo que Lud. Não sei onde atravessamos de um lado para outro, mas... — Tornou a apontar para o azul da placa Interestadual 70, como se aquilo provasse sua tese, afastando qualquer sombra de dúvida.

— E se é Topeka, onde estão as pessoas? — Susannah perguntou. Eddie abanou os ombros e ergueu as mãos... quem poderia saber? Jake pôs a testa no vidro da porta do centro, fazendo concha com as mãos dos lados do rosto, e espreitou. Depois de observar por vários segundos, viu algo que o fez rapidamente recuar.

— Ah, ah — disse. — Não é de admirar que a cidade esteja tão silenciosa.

Atrás de Jake, Roland avançou um passo e espiou sobre a cabeça do garoto, também fazendo concha com as mãos para reduzir os reflexos. O pistoleiro tirou duas conclusões antes mesmo de observar o que Jake havia visto. A primeira foi que embora aquilo fosse com toda a certeza uma estação ferroviária, não era uma estação do Blaine... não era um berço. A outra era que a estação de fato pertencia ao mundo de Eddie, Jake e Susannah... mas talvez não a seus onde.

É a lúmina. Temos de ter cuidado.

Havia dois cadáveres, um ao lado do outro, num dos compridos bancos que enchiam a maior parte do salão; mas a julgar pelos rostos enrugados, inchados, e pelas mãos sujas, podiam ter sido farristas que haviam caído no sono na estação após uma festa quente e perdido o último trem para casa. No muro atrás deles havia uma placa, PARTIDAS, com os nomes das cidades, vilas e baronatos que se sucediam na linha. DENVER lia-se em uma. WICHITA, em outra. OMAHA em uma terceira. Roland conhecera um dia um jogador caolho chamado Omaha; ele havia morrido com uma faca na garganta durante uma rodada de bisca. Entrara na sua clareira de final de caminho com a cabeça atirada para trás e a última respiração borrifara sangue do chão até o teto. Pendendo do teto daquela sala (que a mente estúpida e preguiçosa de Roland insistia em identificar como um posto de parada de diligências em alguma estrada semi-esquecida, como aquele que o tinha levado a Tull) havia um bonito relógio de quatro faces. Os ponteiros tinham parado às 4h 14 e Roland achou que jamais tornariam a se mover. Era um triste pensamento... mas aquele era um mundo triste. Não via outras pessoas mortas, mas a experiência sugeria que onde havia dois mortos à vista, provavelmente haveria mais cinco ou seis fora de vista. Ou cinco ou seis dúzias deles.

— Não devíamos entrar? — Eddie perguntou.

— Por quê? — se opôs o pistoleiro. — Não temos nada a fazer aí; isso não faz parte do Caminho do Feixe.

— Você daria um ótimo guia turístico — disse Eddie azedamente. — Fiquem juntos, todos, por favor não se dispersem pelo...

Jake interrompeu com um pedido que Roland não entendeu.

— Alguém aí tem uma moeda de 25 centavos? — O garoto estava olhando para Eddie e Susannah. Ao lado dele havia uma caixa quadrada de metal. Nela havia escrito em azul:

 

O Grande Diário de Topeka

A melhor cobertura do kansas!

O jornal da sua cidade!

Leia todo dia!

 

Eddie balançou a cabeça, achando engraçado.

— Perdi minhas moedas em algum lugar. Provavelmente subindo numa árvore, pouco antes de você se juntar a nós. Era um esforço radical para não virar fast food de urso robô. Desculpe.

— Espere um instante... espere um instante... — Susannah abrira a bolsa e a revistava de um modo que fez Roland dar um grande sorriso apesar de todas as preocupações. Aquilo parecia tão incrivelmente feminino... Susannah pegou os lenços de papel espalhados, sacudiu-os para se certificar de que não havia nada dentro deles, pescou um estojo de maquiagem, examinou-o, tornou a jogá-lo na bolsa, apareceu com um pente, tornou a jogar esse pente lá dentro...

Estava absorvida demais para erguer a cabeça quando Roland passou por ela e tirou o revólver do coldre improvisado em sua roupa. Atirou uma única vez. Susannah deixou escapar um pequeno grito, soltando a bolsa e batendo no coldre vazio logo abaixo do seio esquerdo.

— Chifrudo, foi como tirar um pedaço do meu coração!

— Tome mais cuidado com a arma, Susannah, ou da próxima vez que alguém tirá-la de você, vai sentir o pedaço tirado do meio dos olhos em vez de... o que é isso, Jake? Uma nova engenhoca com noticiários? Ou mais alguma coisa com papel?

— As duas coisas. — Jake parecia sobressaltado. Oi tinha se distanciado um pouco na plataforma e olhava desconfiado para Roland. Jake pôs o dedo no buraco de bala no centro da tranca da caixa de jornais. Um rolinho de fumaça saía lá de dentro.

— Vamos — disse Roland. — Abra.

Jake puxou a alça. Ela ofereceu alguma resistência, mas logo uma peça de metal tilintou em algum lugar e a portinhola se abriu. A caixa estava vazia; a inscrição na parede dos fundos dizia: QUANDO NÃO HOUVER MAIS JORNAIS, LEVE, POR FAVOR, O EXEMPLAR DO MOSTRUÁRIO. Jake tirou o jornal de seu suporte e todos se agruparam para ler.

— Pelo amor de Deus, o que...? — O murmúrio de Susannah foi ao mesmo tempo de horror e de acusação. — O que isso significa? Pelo amor de Deus, o que aconteceu?

Abaixo do nome do jornal, ocupando a maior parte da metade superior da primeira página, havia berrantes letras pretas:

 

SUPERGRIPE “CAPITÃO VIAJANTE” SE ALASTRA SEM CONTROLE

LÍDERES DO GOVERNO PODEM TER FUGIDO DO PAÍS HOSPITAIS DE TOPEKA REPLETOS DE DOENTES E MORIBUNDOS

MILHÕES REZAM PELA CURA

 

— Leia em voz alta — disse Roland. — As letras são as da língua de vocês. Não consigo entender todas elas e gostaria de ficar realmente a par dessa história.

Jake olhou para Eddie, que abanou com impaciência a cabeça.

Jake abriu o jornal, revelando uma detalhada gravura (Roland já tinha visto gravuras como aquela; chamavam-se “fotograffs”) que chocou a todos: mostrava uma cidade à beira de um lago com seus edifícios em chamas. Cleveland Arde sem Controle, dizia a legenda da foto.

— Leia, garoto! — Eddie mandou. Susannah não disse nada; já estava lendo a matéria (a única da primeira página) sobre o ombro do garoto. Jake pigarreou, como se a garganta de repente tivesse ficado seca, e começou.

 

— A matéria tem uma reportagem de John Corcoran e equipe de redação, mais informes da AP. O que significa que pessoas muito diferentes trabalharam nela, Roland. Ok. Aí vai.

“‘A maior crise da América — e talvez do mundo — se aprofundou durante a noite quando a chamada supergripe, conhecida como Entubada no Meio-Oeste e Capitão Viajante na Califórnia, continua a se espalhar.

‘“Embora o número de mortes possa apenas ser estimado, peritos médicos dizem que o total de vítimas já supera horrivelmente nossa compreensão: 20 a 30 milhões de mortos nos Estados Unidos continental é a estimativa do Dr. Morris Hackford, do St. Francis Hospital e do Centro Médico de Topeka. De Los Angeles, na Califórnia, a Boston, em Massachusetts, os corpos estão sendo incinerados em crematórios, fornalhas de fabricas e aterros sanitários.

“‘Aqui em Topeka, os familiares que ainda estão saudáveis e suficientemente fortes para fazê-lo são instados a levar seus mortos para um dentre três locais: o depósito de lixo ao norte de Oakland Billard Park; o fosso junto à trilha de corridas do Heartland Park; o aterro sanitário na rua 61 Sudeste, a leste de Forbes Field. Quem vai usar o aterro deve seguir pela avenida Berryton; a Califórnia está bloqueada por destroços de automóveis e de pelo menos um avião de transporte da Força Aérea acidentado, fontes nos informam.’”

Jake ergueu a cabeça para os amigos com olhos assustados. Depois de dar uma olhada para trás, para o silêncio da estação ferroviária, voltou a se concentrar no jornal.

— “A Dra. April Montoya, do Centro Médico Regional Stormont-Vail, destaca que o número de mortes, por mais horrível que isto pareça, constitui só uma parte da terrível história. ‘Para cada pessoa que morreu até agora como resultado dessa nova epidemia de influenza, disse Montoya, ‘há outras seis que continuam acamadas em suas casas, talvez até mesmo outras 12. E pelo que temos sido capazes de determinar, a taxa de recuperação é zero.’ Tossindo, ela contou a este repórter: ‘Falando pessoalmente, não estou fazendo planos para o fim de semana.’

‘“Quanto a outros desdobramentos locais da situação:

‘“Todos os vôos comerciais saindo dos aeroportos Forbes e Phillip Billard foram cancelados.

‘“Todas as saídas dos trens da Amtrak foram suspensas, não só em Topeka, mas em todo o território do Kansas. A estação Gage Boulevard Amtrak foi fechada até segunda ordem.

‘“Todas as escolas de Topeka também foram fechadas até segunda ordem. Isto inclui as escolas públicas distritais 437, 345, 450 (em Shawnee Heights), 372 e 501 (metrô Topeka). A Topeka Lutheran e o Topeka Technical College também foram fechados, assim como a Kansas University, em Lawrence.

‘“Os habitantes de Topeka devem esperar cortes parciais de energia elétrica ou mesmo apagões nos dias e semanas à frente. A Kansas Power and Light anunciou uma ‘gradual paralisação’ da Usina Nuclear de Kaw River, em Wamego. Embora ninguém do departamento de relações públicas da usina tenha respondido às chamadas telefônicas feitas por este jornal, uma mensagem gravada adverte que não existe qualquer situação de emergência na usina e que aquela paralisação é apenas uma medida de segurança. A usina Kaw voltará à plena atividade, conclui a mensagem, ‘quando a atual crise passar’. Qualquer conforto transmitido por esta declaração, no entanto, é em grande parte negado pelas palavras finais da gravação, que não dizem ‘Até logo’ ou ‘Obrigado por ter ligado’, mas ‘Deus nos ajudará a superar nosso tempo de provação’”.

Jake fez uma pausa ao passar à página seguinte, onde a matéria continuava com novas fotos: um caminhão basculante virado e incendiado nos degraus do Museu Kansas de História Natural; o tráfego na ponte Golden Gate, em São Francisco, congestionado pára-choque a pára-choque; pilhas de cadáveres em Times Square. Um dos corpos, Susannah observou, pendia de um poste de rua, o que trouxe lembranças sinistras da jornada para o Berço de Lud que ela e Eddie tinham feito após se separarem do pistoleiro; recordações de Luster, Winston,’ Jeeves e Maud. Desta vez, quando os tambores de deus começaram, foi a pedra de Spanker que saiu do chapéu, dissera Maud. Nós o colocamos para dançar. Exceto, é claro, que o que ela pretendera era que o colocassem pendurado. Como tinham enforcado algumas pessoas, ao que parecia, na pequena e velha Nova York. Quando as coisas ficam estranhas demais, alguém sempre acha um bode expiatório.

Ecos. Tudo agora ecoava. Os ecos saltavam de um lado para outro, de um mundo para outro, nunca se enfraquecendo como fazem os ecos comuns, mas crescendo e se tornando mais terríveis. Como os tambores de deus, Susannah pensou, estremecendo.

— “Em termos de desdobramentos nacionais” — Jake continuou a ler —, “continua a se desenvolver a convicção de que, após negar a existência da supergripe durante seus primeiros dias, quando medidas de quarentena ainda podiam ter tido algum efeito, líderes nacionais fugiram para abrigos subterrâneos que haviam sido criados como refúgios para nossos melhores cérebros no caso de guerra nuclear. O vice-presidente Bush e membros de primeiro escalão do gabinete Reagan não foram vistos nas últimas 48 horas. Não temos conseguido localizar o próprio Reagan desde a manhã de domingo, quando ele esteve presente ao serviço religioso da igreja metodista Green Valley, em San Simeon.

‘“Foram para os bunkers como Hitler e os demais ratos de esgoto nazistas no fim da Segunda Guerra Mundial’, disse o senador Steve Sloan. Quando perguntado se fazia alguma objeção a ser citado pelo nome, este representante do Kansas, um republicano, riu e disse: ‘Por que faria? Tenho uma última causa realmente boa para defender. A essas horas, daqui a uma semana, eu não vou passar de poeira no vento.’

“‘Incêndios, muito provavelmente criminosos, continuam a se alastrar em Cleveland, Indianapolis e Terre Haute.

‘“Uma gigantesca explosão, cujo centro se situou perto do Riverfront Stadium, em Cincinnati, aparentemente não foi de natureza nuclear, como a princípio se temeu, mas ocorreu como resultado da explosão de um reservatório de gás natural causada pela falta de supervisão no...’”

Jake deixou o jornal cair de suas mãos. Uma rajada de vento pegou-o, arrastando-o por toda a extensão da plataforma, as poucas folhas se soltando umas das outras. Oi esticou o pescoço e conseguiu abocanhar uma delas. Depois correu para Jake com o pedaço de jornal na boca, obediente como um cachorro com um pedaço de pau.

— Não, Oi, não quero — disse Jake com voz de um menino muito novo se sentindo um pouco mal.

— Pelo menos sabemos onde as pessoas estão — disse Susannah, se curvando e tirando o jornal da boca de Oi. Eram as duas últimas páginas. Estavam repletas de obituários com as menores letras que ela já vira. Não havia fotos, nem menção às causas das mortes, nem comunicado de serviços fúnebres. Só este morreu, pai e irmão de beltrano e fulano, a outra faleceu, mãe e irmã, uma terceira passou, querida de uns, amada de outros. Tudo naquele tipo minúsculo e não inteiramente uniforme. Mas foi a imprecisão do tipo que convenceu Susannah de que tudo aquilo era real.

Mas como tentavam honrar seus mortos, mesmo no fim, ela pensou, e um nó pareceu lhe subir à garganta. Como tentavam.

Dobrou a folha e deu uma olhada atrás — a última página do Grande Diário. Ela estampava uma gravura de Jesus Cristo, olhos tristes, mãos estendidas, testa marcada pela coroa de espinhos. Abaixo dele, três palavras severas em tipo enorme:

 

ORAI POR NÓS

 

Ela se virou para Eddie, olhos acusadores. Depois passou-lhe o jornal, um dedo pardo batendo na data que havia no alto. Era 24 de junho de 1986. Eddie fora puxado para o mundo do pistoleiro um ano mais tarde.

Ele ficou um longo tempo segurando a folha, os dedos deslizando pela data, de um lado para o outro, como se a passagem daquele dedo tivesse, de alguma forma, o poder de alterá-la. Então Eddie ergueu os olhos e balançou a cabeça.

— Não. Não posso explicar esta cidade, este jornal ou as pessoas mortas nesta estação, mas posso lhe garantir pelo menos uma coisa... tudo estava tranqüilo em Nova York quando parti. Não é, Roland?

O pistoleiro pareceu um tanto amargo.

— Não achei nada muito tranqüilo em sua cidade, mas as pessoas que moravam lá não pareciam sobreviventes de uma praga como esta, isso não.

— Havia uma coisa chamada síndrome dos legionários — disse Eddie. — E a Aids, é claro...

— Essa é a sexual, não é? — Susannah perguntou. — Transmitida por bichas e viciados em drogas?

— Sim, mas chamar gays de bichas já não era hábito em meu quando — disse Eddie. Tentou sorrir, mas em seu rosto o sorriso pareceu rígido, artificial, e ele o despachou.

— Então isto... isto nunca aconteceu — disse Jake, tocando hesitantemente a face do Cristo no verso da página do jornal.

— Mas aconteceu — disse Roland. — Aconteceu em junho-semeadura do ano 1986. E aqui estamos nós, depois da chegada dessa praga. Se Eddie estiver certo sobre a extensão de tempo que transcorreu, a praga dessa “supergripe” foi nessa última semeadura de junho. Estamos em Topeka, Kansas, na Colheita de 1986. Esse é o quando da coisa. Quanto ao onde, tudo que sabemos é que não é o de Eddie. Pode ser o seu, Susannah. ou o seu, Jake, porque vocês deixaram seu mundo antes de isso chegar. — Ele bateu com o dedo na data do jornal, depois olhou para Jake. — Um dia você me disse uma coisa interessante. Duvido que ainda se lembre, mas eu não esqueci; foi uma das coisas mais importantes que já ouvi de alguém: “Vá, então, há outros mundos além destes”.

— Mais adivinhações — disse Eddie, franzindo a testa.

— Não é um fato que Jake Chambers morreu uma vez e agora está na nossa frente, vivo e bem? Ou não acreditaram na história da morte de Jake sob as montanhas? Sei que, de vez em quando, vocês têm duvidado de minha sinceridade. E acho que têm suas razões.

Depois de pensar um pouco, Eddie balançou a cabeça.

— Você mente quando a mentira serve a seus objetivos, mas acho que quando nos falou de Jake estava fodido demais para conseguir dizer alguma coisa que não fosse verdade.

Roland se sobressaltou ao se sentir ofendido pelo que Eddie tinha dito — Você mente quando a mentira serve a seus objetivos —, mas continuou. Afinal, aquilo era essencialmente verdadeiro.

— Voltamos ao lago do tempo — disse o pistoleiro — e puxamos Jake antes que ele se afogasse.

— Você o puxou — Eddie corrigiu.

— Todos ajudaram — disse Roland —, nem que fosse apenas me mantendo vivo, mas vamos deixar isso de lado. Não é exatamente o que nos interessa. O que temos de reter é que existem muitos mundos possíveis e uma infinidade de portas levando a eles. Este é um desses mundos; a lúmina que podemos ouvir é uma dessas portas... só que muito maior que aquelas que encontramos na praia.

— Até que ponto maior? — Eddie perguntou. — Maior como a porta de carga e descarga de um depósito de mercadorias ou do tamanho do próprio depósito?

Roland sacudiu a cabeça e levantou as palmas das mãos para o céu... quem sabe?

— Esta lúmina — disse Susannah. — Não estamos apenas perto dela, não é? Nós a atravessamos. Foi como chegamos aqui, a esta versão de Topeka.

— Pode ter sido — Roland admitiu. — Algum de vocês sentiu alguma coisa estranha? Uma sensação de vertigem ou um momento de náusea?

Todos balançaram negativamente as cabeças. Desta vez Oi, que observava atentamente Jake, também balançou o focinho.

— Eu também não senti nada — disse Roland, como se já estivesse esperando a negativa de todos. — Bem, estávamos nos concentrando nas adivinhações...

— Estávamos nos concentrando em não sermos mortos — Eddie resmungou.

— Sim. Então talvez tenhamos atravessado sem estarmos conscientes disso. Seja como for, as lúminas não são naturais... São feridas na pele da existência, capazes de existir porque há coisas dando errado. Coisas em todos os mundos.

— Porque as coisas não vão bem na Torre Negra — disse Eddie. Roland assentiu.

— E mesmo se este lugar aqui... este quando, este onde... não é o ka de seu mundo agora, ele pode se tornar esse ka. Essa praga... ou outras ainda piores... poderiam se espalhar. Exatamente como as lúminas continuarão a se espalhar, aumentando em tamanho e número. Vi talvez uma meia dúzia em todos os meus anos de busca da Torre e soube talvez da existência de mais duas dúzias. A primeira... a primeira que encontrei foi quando eu ainda era muito jovem. Foi perto de uma cidade chamada Hambry. — Esfregou de novo a mão pelo rosto e não ficou espantado ao encontrar suor entre os pêlos da barba. Me ame, Roland. Se você me ama, então me ame.

— O que quer que tenha nos acontecido nos eliminou de seu mundo, Roland — disse Jake. — Fomos jogados fora do Feixe. Olhe.

Ele apontou para o céu. As nuvens se moviam lentamente sobre eles, mas já não na direção para onde apontava o nariz quebrado de Blaine. O sudeste continuava sudeste, mas os sinais do Feixe de Luz que eles tinham ficado tão acostumados a seguir haviam sumido.

— Isso tem importância? — Eddie perguntou. — Quero dizer... o Feixe pode ter sumido, mas a Torre existe em todos os mundos, não é?

— Sim — disse Roland —, mas talvez não seja acessível de todos os mundos.

Um ano antes de dar início à sua maravilhosa e gratificante carreira de viciado em heroína, Eddie tivera um breve e não muito bem-sucedido emprego como mensageiro de bicicleta. Agora se lembrava de certos elevadores de prédios comerciais onde fizera entregas, prédios ocupados em geral por bancos ou firmas de investimento. Havia alguns andares onde você não podia parar o carro e saltar a não ser que tivesse um cartão especial para enfiar no escaninho sob os números. Quando o elevador chegava àqueles andares reservados, o número na janelinha de vidro era substituído por um X.

— Acho — disse Roland — que precisamos encontrar novamente o Feixe.

— Tenho certeza — disse Eddie. — Vamos lá, vamos continuar. — Depois de dar alguns passos, ele se voltou para Roland com uma sobrancelha erguida. — Para onde?

— Pelo mesmo caminho que estávamos seguindo — disse Roland, como se aquilo fosse evidente. E ultrapassando Eddie com suas botas cortadas e cheias de poeira tomou o rumo do estacionamento do outro lado da estrada.

 

Estrada Trincada

Roland andou até o fim da plataforma, chutando pedaços de metal rosado para tirá-los do caminho. Na escada, fez uma pausa e, com ar sombrio, olhou para o grupo que vinha atrás.

— Mais mortos. Estejam preparados.

— Não viraram... hum... uma pasta, viraram? — Jake perguntou. Depois de uma testa franzida, a expressão de Roland se desanuviou com a compreensão do que Jake queria dizer.

— Não. Pasta nenhuma. Estão secos.

— Então tudo bem — disse Jake, mas estendeu a mão para Susannah, que naquele momento estava sendo carregada por Eddie. Ela sorriu para o garoto e dobrou os dedos em volta dos dele.

No pé da escada que levava ao estacionamento ao lado da estação, meia dúzia de cadáveres jazia juntos como espigas de milho caídas. Dois eram mulheres, três eram homens. O sexto era uma criança num carrinho. Um verão no sol, no calor e na chuva (para não mencionar o fato de estarem à mercê de gatos vadios, guaxinins ou marmotas de passagem) dera à criança um ar de antiga sabedoria e mistério, tipo múmia infantil descoberta em pirâmide inca. Pelo traje azul desbotado que usava, Jake deduziu que fosse um menino, mas era impossível ter certeza. Sem olhos, sem lábios, com a pele reduzida a um cinza-escuro, seu sexo não era identificável.

Por que o bebê ciscava atravessando a estrada? Porque era um filhote da supergripe.

Mesmo assim, a criança parecia ter viajado pelos vazios meses pós-praga de Topeka melhor do que os adultos à sua volta, que eram pouco mais que esqueletos com cabelo. Numa esquelética penca de ossos sem pele que um dia haviam sido dedos, um dos homens segurava a alça de uma maleta que lembrava as pastas Samsonites que os pais de Jake usavam. Como acontecia com a criança (como acontecia com todos eles), os olhos tinham ido; enormes órbitas escuras encaravam Jake. Abaixo delas, um anel de dentes sem cor se projetava num sorriso belicoso. Por que demorou tanto, garoto?, o morto que ainda segurava a maleta parecia estar perguntando. Fiquei esperando você, e o verão foi longo e quente.

Para onde vocês, caras, pretendiam ir?, Jake se perguntou. Onde acham que ainda poderia haver um lugar seguro, longe de toda essa cagada? Des Moines? Sioux City? Fargo? A lua?

Desceram a escada, Roland na frente, os outros atrás, Jake ainda segurando a mão de Susannah com Oi nos calcanhares. O trapalhão, corpo comprido, parecia descer cada degrau em duas etapas, como um trailer duplo descendo uma serra.

— Devagar, Roland — disse Eddie. — Quero checar os espaços pernetas antes de continuarmos. Podemos ter sorte.

— Espaços pernetas? — disse Susannah. — O que é isso? Jake abanou os ombros. Ele não sabia. Nem Roland. Susannah voltou sua atenção para Eddie.

— Só pergunto, doce de coco, porque a coisa soa um pouco não-agradável. Você sabe, é como chamar negros de “pretos” ou gays de “bichas”. Sei que sou apenas uma pobre pretinha ignorante saída das trevas de 1964, mas...

— Ali. — Eddie apontou para uma fileira de placas marcando as vagas de estacionamento mais próximas da estação. Havia na realidade duas placas em cada baliza, o topo de cada par era azul e branco, o fundo vermelho e branco. Quando chegaram um pouco mais perto, Jake viu que a placa no alto era um símbolo com cadeira de rodas. A que havia no fundo era uma advertência:

 

MULTA DE 200 DÓLARES

PELO USO IMPRÓPRIO

DE VAGAS DE ESTACIONAMENTO

RESERVADAS À DEFICIENTES

APLICAÇÃO ESTRITA PELO DEPARTAMENTO DE POLÍCIA DE TOPEKA

 

— Vejam! — disse Susannah num tom triunfante. — Deviam ter feito isso muito tempo atrás! Tenham certeza que no meu quando vocês tinham sorte se conseguissem passar com a cadeira de rodas pelas portas de qualquer coisa menor que a Shop’n Save. Diabo, teriam sorte até se conseguissem passar com ela pelos meios-fios! E vaga especial para estacionar? Esqueça isso, docinho!

O estacionamento estava praticamente lotado, mas mesmo com o fim do mundo tão iminente só dois carros que não tinham pequenos símbolos com cadeiras de rodas em suas placas estavam estacionados na fileira que Eddie havia chamado de “espaços pernetas”.

Jake achava que respeitar os “espaços pernetas” era uma daquelas coisas que exercia um misterioso poder de coação sobre as pessoas, como pôr o código postal em cartas, repartir o cabelo ou escovar os dentes antes do café-da-manhã.

— E aí está! — gritou Eddie. — Segurem suas cartas, pessoal, mas acho que tenho um Bingo!

Sempre carregando Susannah no quadril — coisa que, um mês atrás, ainda teria sido incapaz de fazer por qualquer período de tempo mais longo —, Eddie correu para o capô de um Lincoln. Amarrada na capota havia uma bicicleta de corrida de aparência complicada; brotando da mala semi-aberta havia uma cadeira de rodas. E aquela não era a única; examinando a fileira de “espaços pernetas”, Jake viu pelo menos mais quatro cadeiras de rodas, em geral amarradas em bagageiros nas capotas, embora houvesse algumas dobradas nas traseiras de vans ou caminhonetes, uma delas (que parecia antiga e assustadoramente pesada) jogada no baú de uma picape.

Eddie colocou Susannah no chão e se curvou para examinar o suporte que amarrava a cadeira que despontava da mala. Havia uma porção de cordas elásticas em xadrez mais uma espécie de tranca de ferro. Eddie sacou o Ruger que Jake havia tirado da gaveta da escrivaninha do pai.

— Atirar na fechadura — ele disse com entusiasmo, e antes que desse tempo de alguém ao menos pensar em tapar as orelhas, puxou o gatilho e estourou a fechadura da trave de segurança. O som foi rolando para o silêncio, depois voltou como eco. O som cantante da lúmina retornou com ele, como se o tiro o tivesse despertado. Parece havaiano, não é?, Jake pensou com uma careta de aversão. Meia hora atrás, não teria acreditado que um som pudesse ser tão perturbador em termos físicos quanto... digamos, quanto um cheiro de carne podre, mas agora já acreditava. Ergueu os olhos para as placas do pedágio. Daquele ângulo só podia ver seus topos, mas isso foi suficiente para confirmar que estavam brilhando. Irradiam uma espécie de campo, Jake pensou. Assim como liquidificadores e aspiradores produzem estática no rádio ou na TV ou assim como aquele tal de cyclotron fez os pêlos dos meus braços se arrepiarem quando o Sr. Kingery trouxe a engenhoca para a sala de aula e pediu que alguns voluntários se aproximassem e se colocassem ao lado do cyclotron.

Eddie deslocou a tranca de ferro para o lado e usou a faca de Roland para cortar os cordões elásticos. Depois tirou a cadeira de rodas da mala, examinou-a, abriu-a e encaixou o suporte que corria pelas costas no nível do assento.

— Voilà! — disse.

Susannah tinha se apoiado numa das mãos (Jake achou-a um pouco parecida com a mulher que havia numa pintura de Andrew Wyeth que ele gostava, Christmas World) e examinava a cadeira com alguma admiração.

— Deus Todo-poderoso, parece tão pequena e tão leve!

— O melhor da tecnologia moderna, querida — disse Eddie. — Foi para isso que lutamos no Vietnã. Suba aí.

Ele se curvou para ajudá-la. Ela não resistiu, mas tinha o rosto tenso e franzido quando Eddie a colocou no assento. Como se achasse que a cadeira fosse desabar sob seu peso, Jake pensou. A medida, no entanto, que Susannah foi passando as mãos pelos braços do novo veículo, sua expressão relaxou.

Jake se distanciou um pouco, avançando por outra fileira de carros, correndo os dedos pelos capôs, deixando marcas na poeira. Oi trotava atrás dele, parando uma vez para levantar a perna e molhar um pneu, como se tivesse passado a vida inteira fazendo aquilo.

— Com saudades de casa, querido? — Susannah perguntou atrás de Jake. — Quem sabe achou que jamais voltaria a ver um bom e honesto carro americano, não é?

Jake pensou um pouco e concluiu que ela não tinha razão. Jamais passara em sua mente a idéia de ficar para sempre no mundo de Roland; ou jamais voltar a ver um carro. Ainda não pensara muito no assunto, mas achava que seu destino não estava assim tão definido. Pelo menos ainda não. Havia um certo terreno baldio em Nova York quando ele saiu de lá. Ficava na esquina da Segunda Avenida com a rua 46. Já tinha existido uma lanchonete ali — Tom e Jerry, Especialidade da Casa: Bandejas para Bufês —, mas agora tudo era apenas entulho, mato, vidro quebrado e...

...e uma rosa. Só uma simples rosa selvagem crescendo num terreno baldio onde o punhado de prédios de um condomínio estava programado para ser construído, mas Jake acreditou que em nenhum outro ponto da Terra crescia algo exatamente semelhante àquela rosa. E talvez também não em nenhum daqueles outros mundos que Roland havia mencionado. Havia rosas quando a pessoa se aproximava da Torre Negra; rosas aos bilhões, segundo Eddie, grandes e fantásticos alqueires delas. Eddie as vira num sonho. Contudo, Jake suspeitava que sua rosa era diferente até mesmo daquelas... e que até seu destino estar decidido, de um modo ou de outro, ele não estava quite com o mundo de carros, televisões e policiais que queriam saber se você tinha alguma identificação e quais os nomes de seus pais.

E por falar de pais, posso também ainda não estar quite com eles, Jake pensou. A idéia acelerou a batida de seu coração com uma mistura de esperança e alarme.

Pararam no meio da fileira de carros, Jake olhando espantado para uma rua bem larga (Gage Boulevard, ele presumiu) enquanto pensava nessas coisas. Agora Roland e Eddie os alcançavam.

— Empurrar a dama de ferro que é esta cadeira seria um bom exercício para um bebê — disse Eddie com um sorriso. — Aposto que uma pessoa poderia empurrá-la apenas com o sopro. — Para demonstrar, soprou profundamente na parte de trás da cadeira de rodas. Jake pensou em dizer a Eddie que provavelmente havia cadeiras com motor nos “espaços pernetas”, mas percebeu o que Eddie já devia ter deduzido há muito tempo: as baterias estariam gastas.

Naquele momento, Susannah estava ignorando Eddie; era em Jake que estava interessada.

— Não me respondeu, docinho. Todos esses carros não dão saudade de casa?

— Não. E estou mesmo é curioso em saber se cheguei a conhecer todos os carros que estão aqui. Achei que talvez... se esta linha de 86 foi desenvolvida de um mundo diferente do meu 1977 haveria um meio de descobrir. Mas não posso descobrir. Porque as coisas mudam extremamente depressa. Mesmo em nove anos... — Balançou os ombros e olhou para Eddie. — Mas você podia ser capaz de dizer. Quero dizer, você realmente viveu em 1986.

Eddie resmungou.

— Passei por esse tempo, mas não cheguei exatamente a observá-lo. Estava a maior parte do tempo fodido até a raiz dos cabelos. Mesmo assim... acho...

Eddie recomeçou a empurrar Susannah pelo asfalto liso do estacionamento, apontando para os carros pelos quais iam passando.

— Ford Explorer... Chevrolet Caprice... e este aqui é um velho Pontiac, você identifica a partir da grade dividida...

— Pontiac Bonneville — disse Jake, divertido e um tanto comovido pelo espanto nos olhos de Susannah... A maioria daqueles carros devia parecer tão futurista para ela quanto as naves-patrulha do Buck Rogers. Jake teve curiosidade de saber quais seriam as impressões de Roland e olhou para o lado.

O pistoleiro não revelava o menor interesse pelos carros. Concentrava o olhar do outro lado da rua, no final do estacionamento, nos arredores do pedágio... só que Jake não achava que estivesse de fato olhando para nenhuma dessas coisas. Jake desconfiava que Roland estava simplesmente contemplando os próprios pensamentos. Se fosse mesmo isso, a expressão em seu rosto sugeria que não estava encontrando nada de bom neles.

— Este é um daqueles pequenos Chrysler Ks — disse Eddie, apontando — e este é um Subaru. Mercedes SEL 450, excelente, o carro dos campeões... Mustang... Chrysler Imperial, bom estado, mas deve ser mais velho e Deus...

— Olhe, garoto — disse Susannah com um toque do que Jake encarou como uma real aspereza na voz. — Este eu reconheço. Não é novo para mim.

— Desculpe, Suze. Realmente. Mas este é um Cougar... outro Chevy... e mais uma... Topeka adora a General Motors... fodida surpresa ali... o Honda Civic... um VW Rabbit... um Dodge... um Ford... um...

Eddie parou, olhando para um carrinho perto do final da fileira, um carrinho branco com frisos vermelhos.

— Um Takuro — disse ele, principalmente para si mesmo. Fez a volta para dar uma olhada na mala. — Um Takuro Spirit, para ser exato. Já ouviu falar desta marca e modelo, Jake de Nova York?

Jake balançou negativamente a cabeça.

— Eu também não — disse Eddie. — Nunca ouvi falar dessa porra.

Eddie começou a empurrar Susannah para o Gage Boulevard (Roland com eles, mas ainda muito isolado em seu mundo particular, andando quando eles andavam, parando onde paravam). Junto ao acesso automatizado do estacionamento (PARE — PEGUE SEU TÍQUETE), Eddie parou.

— A esta velocidade vamos estar velhos antes de conseguirmos ultrapassar o estacionamento e mortos antes de passarmos no pedágio — disse Susannah.

Desta vez Eddie não se desculpou, não pareceu sequer ouvi-la. Estava olhando para um adesivo no pára-choque dianteiro de um velho AMC Pacer cheio de ferrugem. O adesivo era azul e branco, como os desenhos da pequena cadeira de rodas marcando os “espaços pernetas”. Jake se agachou para ver melhor, e quando Oi baixou o focinho sobre seu joelho, o menino o acariciou com ar distraído. Estendendo a outra mão, tocou o adesivo, como se precisasse conferir sua realidade. KANSAS CITY MONARCHS, dizia o adesivo. E o O dos Monarchs era uma bola de beisebol com marcas de velocidade em cima e embaixo, como se estivesse rolando para fora do estacionamento.

— Confira se estou errado — disse Eddie —, mas conheço quase tudo sobre beisebol a oeste do Yankee Stadium e acho que o adesivo devia dizer Kansas City Royals. Você sabe, aquela equipe com George Brett e os outros.

Jake abanou a cabeça. Conhecia os Royals e conhecia Brett, embora Brett fosse um jogador ainda jovem no quando de Jake e já devesse ser razoavelmente velho no quando de Eddie.

— Kansas City Athletics, você quer dizer — interveio Susannah, parecendo confusa. Roland ignorava tudo aquilo; continuava cruzando sua própria camada pessoal de ozônio.

— Não por volta de 86, querida — disse Eddie num tom gentil. — Em 86 os Athletics estavam em Oakland. — Seus olhos passaram do adesivo no pára-choque para Jake. — Um time da segunda divisão, não pode ser? — perguntou. — Triple A?

— Os Triple A Royals continuam sendo os Royals — disse Jake. — Jogam em Omaha. Vamos, vamos em frente.

E embora não soubesse do estado dos outros, Jake continuou com o coração mais leve. Talvez isso fosse estúpido, mas estava aliviado. Não acreditava que aquela terrível praga estivesse à espera no horizonte de seu mundo, pois nele não existiam os Kansas City Monarchs. Talvez essa informação fosse insuficiente para servir de base a uma conclusão, mas a conclusão parecia verdadeira. E foi um enorme alívio ser capaz de acreditar que sua mãe e seu pai não estavam condenados a morrer de um vírus que as pessoas chamavam de Capitão Viajante e serem queimados num... aterro sanitário, ou coisa parecida.

Só que isso não era uma coisa de todo segura, mesmo que aquilo não fosse uma versão 1986 de seu mundo 1977. Porque mesmo que aquela terrível praga tivesse acontecido num mundo onde havia carros chamados Takuro Spirits e George Brett jogava para o K. C. Monarchs, Roland dizia que a perturbação estava se espalhando... que coisas como a supergripe estavam corroendo o tecido da existência como o ácido de uma bateria podia corroer uma peça de roupa.

O pistoleiro havia falado do lago do tempo, uma frase que Jake, a princípio, achara romântica e charmosa. Mas e se o lago estivesse ficando salobro, pantanoso? E se as coisas tipo Triângulo das Bermudas, que Roland chamava de lúminas, outrora grandes raridades, estivessem se tornando regra e não exceção? Suponhamos — ah, e aqui estava um pensamento horripilante, com certeza capaz de mantê-lo acordado até bem depois das três — que toda a realidade estivesse cedendo à medida que as fraquezas estruturais da Torre Negra cresciam? Suponhamos que houvesse um colapso, com um andar caindo no de baixo... e no de baixo... e no de baixo... até...

Quando Eddie agarrou-lhe o ombro e apertou, Jake teve de morder a língua para se impedir de gritar.

— Está inventando seus próprios vodus — disse Eddie.

— E o que você tem a ver com isso? — Jake perguntou. Soava rude, mas ele estava furioso. Por estar assustado ou por ser flagrado com medo. Não sabia. Também não se importava muito.

— Quando a coisa entra no vodu, sou sempre uma autoridade — disse Eddie. — Não sei exatamente o que vai na sua cabeça, mas seja lá o que for, acho que está numa excelente hora para parar de pensar no assunto.

Provavelmente, aquele era um bom conselho, Jake concluiu. Atravessaram a rua juntos. Na direção do Gage Park e de um dos maiores choques da vida de Jake.

 

Passando sob o arco de ferro trabalhado com a inscrição GAGE PARK em antiquadas letras cheias de floreios, viram-se numa trilha de lajotas seguindo através de um jardim que era metade parque inglês e metade selva equatoriana. Sem ninguém para tomar conta dele durante o quente verão do Meio-Oeste, mergulhara na desordem; sem ninguém para tomar conta dele naquele outono, começara a se deteriorar. Uma placa logo após o arco proclamava que estavam no Reinisch Rose Garden, e havia rosas, sem dúvida; rosas por toda parte. A maioria já havia morrido, mas algumas das selvagens ainda floresciam, fazendo Jake se lembrar da rosa no terreno baldio da rua 46 com a Segunda Avenida e sentir uma saudade tão profunda que chegava realmente a doer.

Em um dos lados do parque havia um bonito e antigo carrossel, os empertigados corcéis e garanhões agora imóveis em seus postos. Muito silencioso, com as luzes que piscavam e a ondulante música de realejo desligadas para sempre, o carrossel deixou Jake arrepiado. Pendurado no pescoço de um cavalo, pendendo de uma correia de couro, havia a luva de beisebol de algum garoto. Jake mal pôde olhar para ela.

Além do carrossel, a folhagem ficava ainda mais densa, fechando boa parte da trilha e obrigando os passantes a seguir em fila indiana, como crianças perdidas num bosque de conto de fadas. Espinhos de grandes arbustos floridos e não podados agarravam-se nas roupas de Jake. De alguma forma ele havia conseguido tomar a frente (provavelmente porque Roland continuava profundamente mergulhado em seus pensamentos) e assim foi o primeiro a ver Charlie Chuu-Chuu.

Seu único pensamento ao se aproximar dos trilhos de bitola estreita que cruzavam a trilha (sem dúvida pouco mais que trilhos de brinquedo) foi a imagem do pistoleiro dizendo que o ka era como uma roda, sempre tornando a rolar para o mesmo lugar. Estamos obcecados por rosas e trens, ele pensou. Por quê? Não sei. Acho que é apenas outra adiv...

Então se virou para a esquerda e um “Ócristotodopoderoso” saiu de sua boca, tudo numa só palavra. A energia abandonou suas pernas e ele teve de se sentar. Sua voz parecia trêmula e distante de seus próprios ouvidos. Não chegou a desmaiar, mas o mundo foi perdendo as cores até as folhagens do lado oeste do parque ficarem quase tão cinzentas quanto o céu de outono lá no alto.

— Jake! Jake, o que está havendo? — Era Eddie, e Jake pôde ouvir a genuína preocupação na voz dele, mas parecia estar chegando de uma antiga conexão telefônica de longa distância. Chegando de Beirute, digamos, ou talvez de Urano. E pôde sentir a mão de Roland tentando se firmar em seu ombro, mas distante como a voz de Eddie.

— Jake! — Susannah. — Qual é o problema, querido? O que... Então ela viu e parou de falar. Eddie viu e também parou de falar. A mão de Roland escorregou. Estavam todos de pé, imóveis, olhando... exceto Jake, que estava sentado, imóvel, olhando. Achava que a energia e as sensações acabariam retornando a suas pernas e ele se levantaria, mas naquele momento as pernas pareciam macarrão mole.

O trem estava parado a uns 15 metros de distância, junto a uma estação de brinquedo que parodiava a que havia do outro lado da rua. Pendendo dos beirais de seu telhado, uma placa dizia Topeka. O trem era Charlie Chuu-Chuu, com limpa-trilhos e tudo; uma locomotiva Big Boy Steam 402. E, Jake sabia, se conseguisse reunir energia suficiente para ficar de pé e ir até lá, encontraria uma família de camundongos aninhada no assento onde o engenheiro (cujo nome teria sido sem a menor dúvida Bob de Tal) havia um dia se sentado. Haveria outra família, agora de andorinhas, escondida na chaminé.

E as lágrimas pretas, gordurosas, Jake pensou, vendo o minúsculo trem parado na frente da minúscula estação e sentindo a pele se arrepiando por todo o corpo, as bolas duras e um nó no estômago. A noite ele chora aquelas lágrimas pretas, gordurosas, que estão enferrujando até a alma o ótimo aro do farol Stratham. Mas na sua época, Charlie, meu garoto, você levou sua cota de crianças, não foi? De um lado para outro do Gage Park você rodava e as crianças riam, mesmo que algumas não estivessem realmente rindo; algumas, aquelas que percebiam o seu jogo, estavam gritando. Do modo como eu gritaria agora, se tivesse forças.

Mas suas forças estavam voltando, e quando Eddie pôs a mão sob um de seus braços e Roland pôs a mão sob o outro, Jake conseguiu se levantar. Ficou firme depois de cambalear uma vez.

— Só para constar, eu não o censuro — disse Eddie. Tinha a voz sombria; assim como o rosto. — É mais ou menos como se fosse eu quem tivesse caído. Há um lance desses em seu livro; que vale também para a vida.

— Então agora sabemos de onde a Srta. Beryl Evans tirou a idéia para Charlie Chuu-Chuu — disse Susannah. — Ou morava aqui, ou em algum momento antes de 1942, quando a maldita coisa foi publicada, ela visitou Topeka...

— ...e viu o trenzinho de crianças que circulava pelo Reinisch Rose Garden e pelo Gage Park — disse Jake. Estava superando o susto e tendo sido não apenas uma criança sozinha, mas, na maior parte da vida, um menino solitário, sentiu uma onda de amor e gratidão por seus amigos. Tinham visto o mesmo que ele, tinham compreendido a fonte de seu terror. É claro... eles eram ka-tet.

— Ninguém vai responder a perguntas tolas, ninguém vai entrar em jogos tolos — disse Roland num tom pensativo. — Pode continuar caminhando, Jake?

— Posso.

— Tem certeza? — Eddie perguntou, e quando Jake assentiu, Eddie voltou a empurrar Susannah e ultrapassou os trilhos. Roland foi em seguida. Jake ainda ficou um instante parado, recordando um sonho: estava com Oi num cruzamento de estrada de ferro e de repente o trapalhão saltava para os trilhos, latindo freneticamente para o farol que se aproximava.

Jake se curvou e pôs Oi nos braços. Contemplou o trem enferrujado, estacionado em silêncio na estação, o farol escuro lembrando um olho morto.

— Não tenho medo — disse em voz baixa. — Não tenho medo de você.

Então o farol se acendeu e piscou, um clarão breve, mas enfático, brilhante: Aposto que não é bem assim; aposto que não é bem assim, meu rapazinho de olhar de lado.

Aí se apagou.

Nenhum dos outros tinha visto. Jake deu mais uma olhada no trem, achando que o farol podia acender de novo — achando que a maldita coisa podia realmente começar a andar e lhe dar uma corrida —, mas nada aconteceu.

Com o coração batendo forte no peito, Jake correu atrás de seus companheiros.

 

O zoológico de Topeka (o Mundialmente Famoso zoológico de Topeka, segundo as placas) estava cheio de jaulas vazias e animais mortos. Alguns dos animais libertados tinham sumido, mas outros haviam morrido bem perto. Os grandes macacos continuavam na área com a placa Habitat do Gorila, e pareciam ter morrido de mãos dadas. O que deixou Eddie com uma certa vontade de chorar. Desde que o último vestígio de heroína lhe saíra do sistema nervoso, as emoções pareciam sempre à beira de explodir num ciclone. Seus velhos parceiros teriam se rido.

Atrás do habitat dos gorilas, um lobo cinzento jazia morto na trilha.

Oi aproximou-se com cuidado, cheirou, depois esticou o pescoço comprido e começou a rosnar.

— Tire esse Oi de lá, Jake, está me ouvindo? — disse Eddie com aspereza, percebendo de repente que estava sentindo o cheiro dos animais em decomposição. O odor era fraco, pois grande parte dele se evaporara nos dias quentes do verão que acabara de passar, mas o que sobrou ainda deixava Eddie à beira do vômito. E ele nem conseguia se lembrar com precisão da última vez que havia comido.

— Oi! Aqui!

Oi rosnou uma última vez e voltou para Jake. Parou junto aos pés do garoto, ergueu a cabeça com aqueles fantásticos olhos que lembravam duas alianças de casamento. Jake suspendeu-o, descreveu um círculo contornando o lobo e tornou a pousá-lo na trilha de lajotas.

O caminho levou-os a uma escada íngreme (o mato já começara a fazer pressão no encaixe das pedras) e no topo Roland atirou um olhar sobre o zôo e os jardins. De lá podiam ver com facilidade o circuito que os trilhos do trenzinho faziam, permitindo que os passageiros de Charlie cumprissem um tour por todo o perímetro do Gage Park. Mais além, folhas caídas deslizavam pelo Gage Boulevard devido a uma rajada de vento frio.

— Assim caiu Lorde Perth — murmurou Roland.

— E o campo balançou com aquele trovão — Jake concluiu. Roland olhou-o com surpresa, como alguém acordando de um sono profundo. Depois sorriu e pôs um braço em volta dos ombros de Jake.

— Fiz o papel de Lorde Perth na minha época — disse ele.

— Foi mesmo?

— Foi. Logo você vai saber.

 

Além da escada havia um aviário cheio de pássaros exóticos mortos; depois do aviário, uma lanchonete com a placa (talvez cruel, dada a localização): O MELHOR BUFALOBÚRGUER DE TOPEKA; depois da lanchonete havia outro arco de ferro trabalhado com uma placa: VOLTE EM BREVE AO GAGE PARK REAL! Depois disto havia o aclive em curva de uma rampa de acesso controlado para os carros. Acima da rampa, as placas verdes que eles tinham identificado do outro lado da estrada apareciam nítidas.

— Estrada trincada — disse Eddie numa voz quase baixa demais para ser ouvida. — Droga. — E suspirou.

— Que é estrada trincada, Eddie?

Jake não achou que Eddie fosse responder. Quando Susannah esticou o pescoço, virou a cabeça e começou a observar os dedos de Eddie em volta das alças da nova cadeira de rodas, Eddie virou o rosto. Depois voltou a olhar para a frente, primeiro para Susannah, em seguida para Jake.

— Não é uma coisa bonita. Pouca coisa é bonita na vida que levei antes de este Gary Cooper aqui me fazer atravessar a Grande Fronteira.

— Você não tem de...

— Mas também não é grande coisa. Um punhado de nós se reunia... eu, meu irmão Henry, geralmente Bum O’Hara, porque ele tinha um carro, Sandra Corbitt e talvez aquele amigo do Henry que chamávamos de Jimmie Pólio... e púnhamos todos os nossos nomes num chapéu. Aquele que sorteávamos era o... o guia de viagem, como Henry costumava dizer. Ele... ela, quem fosse sorteado, tinha de se manter careta. Pelo menos até certo ponto. Todos os demais ficavam seriamente tocados. Então nos empilhávamos no Chrysler de Bum e subíamos a I-95 para Connecticut, ou talvez tomássemos a Taconic Parkway no estado de Nova York... só que chamávamos a estrada de Catatonic Parkway. Íamos ouvindo Creedence, Marvin Gaye ou Os Maiores Sucessos de Elvis no toca-fitas.

E ele continuou:

— Era melhor à noite, melhor ainda quando era lua cheia. Andávamos às vezes horas com as cabeças se projetando das janelas como fazem os cachorros quando andam de carro. Olhávamos para a lua e procurávamos estrelas cadentes. Chamávamos isto de “estrada trincada”. — Eddie sorriu. Aparentemente com esforço. — Vida fascinante, pessoal.

— Parece bem divertido — disse Jake. — Não a parte da droga, é claro, mas rodar com seus amigos à noite, olhando a lua e ouvindo música... Isso parece excelente.

— E realmente era — disse Eddie. — Mesmo que às vezes o pessoal ficasse tão cheio de droga que mijava no sapato achando que era no mato, mesmo assim aquilo era excelente. — Fez uma pausa. — Mas tinha a parte horrível, não é?

— Estrada trincada — disse o pistoleiro. — Vamos segui-la um pouco.

Deixaram o Gage Park e cruzaram a estrada até a entrada da rampa.

 

Alguém tinha usado o spray nas duas placas que indicavam a curva ascendente da rampa. Na que continha ST LOUIS 215, alguém borrifara

 

CUIDADO COM O TIPO QUE ANDA

 

em preto. Na outra, indicando PRÓXIMA ÁREA DE PARADA, 16 KM:

 

TODOS SALVEM O REI RUBRO!

tinha sido escrito em gordas letras vermelhas. A cor continuava suficientemente brilhosa para permanecer berrante mesmo depois de todo um verão. Cada inscrição fora decorada com um símbolo

— Você sabe o que essas coisas significam, Roland? — Susannah perguntou.

Roland balançou a cabeça numa negativa, mas parecia inquieto e o ar de introspecção não abandonava seus olhos.

Seguiram adiante.

 

No ponto onde a rampa se incorporava ao pedágio, os dois homens, o garoto e o trapalhão se agruparam ao redor de Susannah, instalada era sua nova cadeira de rodas. Todos olhavam para leste.

Eddie não sabia como estaria o tráfego quando deixassem Topeka, mas ali todas as pistas, tanto as que seguiam para oeste quanto as do lado deles, que rumavam para leste, estavam apinhadas de carros e caminhões. A maioria dos veículos estava cheia até o topo de trastes pessoais que enferrujavam após a chuva de toda uma estação.

Mas o tráfego era a menor preocupação deles, ali parados, olhando silenciosamente para leste. Por cerca de um quilômetro para um lado e para o outro a cidade continuava... Podiam ver torres de igreja, uma fileira de fast foods (Arby’s, Wendy’s, McD’s, Pizza Hut e um de que Eddie jamais ouvira falar: Boing Boing Burgers), agências de automóveis, o teto de uma pista de boliche chamada Heartland Lanes. Havia outro trevo de saída à frente, na placa junto à rampa dizendo Hospital Estadual de Topeka e S.W. 6th. Na saída do trevo brotava o vulto maciço de um velho edifício de tijolo vermelho com janelas minúsculas, que espreitavam como olhos desesperados entre a hera que subia pelas paredes. Eddie imaginou que um lugar tão parecido com Attica tinha de ser um hospital, provavelmente o tipo de purgatório da rede pública onde gente pobre ficava sentada horas sem fim em cadeiras de plástico vagabundas, tudo para que algum médico pudesse olhar para elas como se fossem cocô de cachorro.

Além do hospital, a cidade terminava abruptamente e a lúmina começava.

Para Eddie, era como ver água estagnada num vasto pântano cheio de gases. Ela se achatava contra as saídas da I-70, envolvendo de ambos os lados a estrada, prateada e cintilante, fazendo as placas, os guardrails e os carros parados ondularem como miragens; desprendia aquele som murmurante e líquido como um mau cheiro.

Susannah pôs as mãos nos ouvidos, a boca caída.

— Realmente não sei como consigo suportar isto. Não pretendo ser desmancha-prazeres, mas já estou sentindo vontade de vomitar e hoje ainda não tive nada para comer.

Eddie se sentia do mesmo jeito. Contudo, por pior que se sentisse, mal podia tirar os olhos da lúmina. Era como se a irrealidade tivesse recebido... o quê? Uma face? Não. O vasto e cantante brilho prateado à frente deles não tinha face, era, de fato, a própria antítese de uma face, mas tinha um corpo... uma aparência... uma presença.

Sim; a última era a melhor. Tinha uma presença, como o demônio que se aproximara do círculo das pedras enquanto eles tentavam puxar Jake tivera uma presença.

Roland, enquanto isso, estava remexendo nas profundezas de sua bolsa. Pareceu ter de cavar realmente até o fundo para achar o que queria: um punhado de balas. Puxou a mão direita de Susannah do braço da cadeira e pôs duas balas em sua palma. Depois pegou mais duas e enfiou-as, pelas pontas de trás, nos ouvidos. Susannah pareceu primeiro espantada, depois divertida, depois em dúvida. No final, seguiu o exemplo dele. Quase de imediato uma expressão de abençoado alívio tomou conta de seu rosto.

Eddie tirou a mochila do ombro e puxou de lá a caixa de munições de .44, cheia pela metade, que viera com a Ruger de Jake. O pistoleiro balançou negativamente a cabeça e estendeu a mão, onde ainda havia quatro balas, duas para Eddie e duas para Jake.

— Algum problema com as minhas? — disse Eddie, tirando agora duas cápsulas da caixa que estivera atrás do fichário na gaveta da mesa de Elmer Chambers.

— São de seu mundo e não conseguirão bloquear o som. Não me pergunte como sei disso; simplesmente sei. Se quiser, tente usá-las, mas não vai funcionar.

Eddie apontou para as balas que Roland estava oferecendo.

— Essas também são de nosso mundo. A loja de armas na esquina da Sétima com a 49. Clements’, não é esse o nome?

— Estas não vêm de lá. Estas são minhas, Eddie, recarregadas muitas vezes mas originalmente trazidas da terra verde. De Gilead.

— Está se referindo às molhadas? — Eddie perguntou num tom de incredulidade. — As últimas balas molhadas da praia? As que realmente ficaram ensopadas?

Roland assentiu.

— Mas você disse que elas jamais voltariam a detonar! Por mais secas que ficassem! Que a pólvora tinha ficado... como foi que você disse? “Choca.”

Roland tornou a concordar com a cabeça.

— Então, por que as conservou? Por que andar com um punhado de balas inúteis?

— O que o ensinei a dizer após o abate de um animal, Eddie? Para manter sua mente concentrada?

— Pai, guie minhas mãos e meu coração para que nenhuma parte do animal seja desperdiçada.

Roland assentiu uma terceira vez. Jake pegou duas cápsulas e colocou-as nos ouvidos. Eddie pegou as duas últimas, mas primeiro experimentou as que tirara da caixa. Elas abafaram o som da lúmina, mas de modo algum o eliminaram. O canto continuou bastante presente, vibrando no centro da testa de Eddie, fazendo os olhos lacrimejarem como se ele estivesse resfriado, dando a sensação de que a ponte do nariz ia explodir. Eddie substituiu-as pelas maiores — aquelas dos antigos revólveres de Roland. Pondo balas nos ouvidos, pensou. Minha mãe ia ficar uma arara. Mas isso não vinha ao caso. O som da lúmina se fora (ou pelo menos se reduzira a um zumbido distante), e era o que importava. Quando se virou e se dirigiu a Roland, Eddie acreditou que sua própria voz pareceria abafada, como acontecia quando a pessoa estava usando fones de ouvido, mas percebeu que podia se ouvir perfeitamente bem.

— Há alguma coisa que você não saiba? — ele perguntou a Roland.

— Há — disse Roland. — Muita coisa.

— E Oi? — Jake perguntou.

— Oi vai ficar bem, eu acho — disse Roland. — Vamos, vamos andar alguns quilômetros antes de escurecer.

 

Oi não parecia incomodado pelo trinado da lúmina, mas passou toda a tarde grudado em Jake Chambers, olhando desconfiado para a massa de carros que obstruía as pistas da I-70. E no entanto, percebeu Susannah, os carros não atravancavam completamente a rodovia. A retenção diminuía à medida que os viajantes iam deixando para trás o centro da cidade, mas mesmo no ponto onde o tráfego fora mais pesado, alguns veículos tinham encostado num lado ou no outro; outros haviam sido empurrados completamente para fora da rodovia ou colocados sobre a divisória central, que era inteiramente de concreto na área metropolitana e virava um canteiro de grama na saída da cidade.

Acho que alguém esteve trabalhando recentemente com um cortador de grama, Susannah pensou. A idéia a deixava contente. Ninguém iria se preocupar com a grama do canteiro no centro da rodovia se a praga ainda estivesse à solta; e se alguém limpara o canteiro depois da praga (se houvesse alguém por ali para limpar o canteiro depois da praga), sem dúvida a praga não levara a todos; as páginas de jornal apinhadas de Obituários não estariam contando a história toda.

Havia cadáveres em alguns carros, mas estavam secos, como os encontrados embaixo da escada da estação, não pastosos... Eram múmias, em geral usando cintos de segurança. A maioria dos carros estava vazia. Muitos motoristas e passageiros presos no trânsito congestionado haviam provavelmente tentado escapar da área da praga, mas Susannah achava que não fora apenas por isso que tinham resolvido fugir a pé.

Susannah achava que só acorrentada ao volante se manteria dentro do carro se começasse a sentir os sintomas de alguma doença fatal; se ia morrer, que fosse sob o abençoado ar livre. Um morrote, algum local com uma pequena elevação, seria o melhor lugar, mas mesmo um trigal serviria, serviria até muito bem. Qualquer coisa seria melhor que desperdiçar seu último estoque de fôlego cheirando o purificador de ar pendurado no retrovisor.

A certa altura, Susannah achou que veriam muitos cadáveres das pessoas que fugiram, mas logo percebeu que isso não ia acontecer. Por causa da lúmina. Foram sempre se aproximando dela, e Susannah soube exatamente quando a penetraram. Um tremor e uma espécie de formigamento correram pelo seu corpo, fazendo-a encolher as pernas já abreviadas; e a cadeira de rodas ficou um momento parada. Quando virou a cabeça, viu Roland, Eddie e Jake pondo as mãos nas barrigas e fazendo caretas. Era como se todos tivessem sido atingidos ao mesmo tempo por alguma cólica. Então Eddie e Roland endireitaram o corpo. Jake se curvou para fazer carinho em Oi, que o observava com ar ansioso.

— Tudo bem com vocês, rapazes? — Susannah perguntou. A pergunta veio na voz meio belicosa, meio divertida de Detta Walker. Na realidade ela nunca planejava usar esta voz; era algo que simplesmente acontecia.

— Sim — disse Jake. — Mas é como se eu tivesse uma bolha na garganta. — Olhava inquieto para a lúmina. A brancura prateada estava agora por toda parte, como se o mundo inteiro tivesse se transformado, ao amanhecer, numa planície pantanosa de Norfolk. Nos arredores, despontavam árvores daquela superfície prateada, lançando reflexos deformados que nunca pareciam estar inteiramente imóveis ou inteiramente em foco. Um pouco mais adiante, Susannah viu uma torre de estocagem de grãos, que parecia flutuar. As palavras ALIMENTOS DO GADDISH estavam escritas ao lado em letras rosadas, que talvez já tivessem sido vermelhas em condições normais.

— Estou me sentindo como se tivesse uma bolha na mente — disse Eddie. — Caras, olhem a merda daquele brilho.

— Ainda pode ouvir a lúmina? — Susannah perguntou.

— Sim. Mas fracamente. Posso conviver com isso. Você não?

— Hã-hã. Vamos.

Era como pilotar um avião de cabine aberta por entre nuvens fragmentadas, Susannah concluiu. Pelo que pareceu ser um trecho de muitos quilômetros, avançaram por aquela cintilação murmurante que não era de todo neblina nem de todo água. Às vezes divisavam formas (um celeiro, um trator, um cartaz da Stuckey) saindo da lúmina, depois não viam mais nada além da estrada, que corria solidamente sobre a brilhante mas um tanto vaga superfície da lúmina.

Então, de um momento para outro, se viram num local mais claro. O murmurar se reduziu a um débil zumbido; era possível até liberar os ouvidos e não se sentir incomodado, pelo menos até a pessoa se aproximar do outro lado da brecha. Mais uma vez havia panoramas...

Bem, não, isto seria pretensioso, Kansas não tinha exatamente panoramas, mas havia campos abertos e algum eventual agrupamento de árvores de outono circundando uma fonte ou um pequeno lago assoreado. Nenhum Grand Canyon ou arrebentação de ondas num Farol de Portland, mas pelo menos a pessoa podia ver um fantástico horizonte a distância e perder um pouco daquela sensação de sepultamento. Para Susannah, Jake foi quem chegou mais perto de descrever a coisa quando disse que estar na lúmina era como finalmente atingir a brilhante miragem de água ondulante que a pessoa freqüentemente via, em dias quentes, no horizonte das rodovias.

Seja lá como fosse, a despeito de qualquer descrição, estar no interior da lúmina era claustrofóbico, purgatorial; nada mais se via lá além das divisórias da estrada e as montanhas de carros, carros que eram como navios encalhados e abandonados num oceano de gelo.

Por favor nos ajude a sair disto, pediu Susannah a um Deus em quem não mais chegava exatamente a acreditar... ainda acreditava em alguma coisa, mas desde que despertara para o mundo de Roland na praia do mar Ocidental seu conceito do mundo invisível mudara consideravelmente. Por favor nos ajude a encontrar novamente o Feixe de Luz. Por favor nos ajude a escapar deste mundo de silêncio e morte.

Depararam com o maior espaço limpo que já tinham visto ao se aproximarem de uma placa de sinalização que dizia BIG SPRINGS, 3 KM. Atrás deles, no oeste, o sol poente brilhou através de uma breve fenda nas nuvens, lançando faíscas escarlates no topo da lúmina, iluminando, em tonalidades de fogo, as janelas e as lanternas dos carros. De ambos os lados se estendiam campos vazios. A Terra Plena veio e se foi, pensou Susannah. A Colheita também veio e se foi. Isto é o que Roland chama de fechar o ano. O pensamento a fez estremecer.

— Vamos acampar aqui para passar a noite — disse Roland logo depois que ultrapassaram a rampa de saída de Big Springs. À frente viam outra vez a lúmina, além dos limites da estrada e a quilômetros de distância; a pessoa conseguia ver tremendamente longe nas planícies do leste do Kansas, Susannah estava descobrindo. — Podemos encontrar lenha sem chegar muito perto da lúmina e o som não será tão mau. Talvez possamos até dormir sem balas enfiadas nos ouvidos.

Eddie e Jake subiram nos guardrails, desceram o barranco e seguiram o leito seco de um riacho à procura de lenha, conservando-se sempre juntos como Roland os advertira. Quando voltaram, as nuvens tinham novamente engolido o sol e um crepúsculo muito cinzento e desinteressante começava a rastejar sobre o mundo.

O pistoleiro escolheu os gravetos para iniciar o fogo e cercou os menores com uma paliçada dos maiores, construindo uma espécie de chaminé de madeira no meio da estrada. Nesse meio-tempo, Eddie tinha ido para o canteiro divisor no meio da rodovia e parado lá, mãos nos bolsos, olhando para leste. Pouco depois Jake e Oi se juntavam a ele.

Roland puxou a vara de pederneira, para acender o fogo de sua chaminé, e logo a pequena fogueira ardia.

— Roland! — Eddie gritou. — Suze! Venham aqui! Vejam isto! Susannah começara a rodar sua cadeira para Eddie quando Roland — após dar uma última olhada no fogo — pegou as alças do encosto e empurrou-a.

— Ver o quê? — Susannah perguntou.

Eddie apontou. A princípio Susannah não viu nada, só a estrada, que continuava perfeitamente visível mesmo além do ponto onde a lúmina tornava a se fechar, talvez uns 5 quilômetros à frente. Então... sim, podia ver alguma coisa. Talvez. Uma espécie de forma, na orla mais distante da visão. Se não fosse o dia estar escurecendo...

— Não é um prédio? — Jake perguntou. — Caras, parece construído em cima da estrada!

— O que me diz disso, Roland? — Eddie perguntou. — Seus olhos são os melhores do universo.

Durante algum tempo o pistoleiro não disse nada, se limitando a olhar para a divisória da estrada com os polegares presos no cinturão.

— Vamos ver melhor — disse por fim — quando chegarmos mais perto.

— Ah, vamos lá! — disse Eddie. — Droga, que merda! Sabe o que é ou não?

— Vamos ver melhor quando chegarmos mais perto — repetiu o pistoleiro... o que significava, é claro, não responder absolutamente. Ele retrocedeu pela pista da direita para checar a fogueira, os saltos das botas estalando no asfalto. Susannah olhou para Jake e Eddie. Abanou os ombros. Eles também abanaram os ombros... e então Jake explodiu numa risada cristalina. Em geral, Susannah pensou, o garoto agia mais como um menino de oito anos do que como um de 11, mas aquele riso o deixava com uma idade indefinida, que aliás Susannah pouco se interessou em avaliar.

Ela baixou os olhos para Oi, que os observava com avidez, mexendo o lombo sobre as patas dianteiras como se estivesse sacudindo os ombros.

 

Chegando mais perto do fogo, comeram aquelas iguarias cozinhadas em cima de folhagens que Eddie chamava de petiscos do pistoleiro. Alimentaram o fogo com mais lenha quando a escuridão ficou maior. Em algum ponto, ao sul, um pássaro gritou — talvez o som mais solitário que Eddie já ouvira. Nenhum deles falava muito e ocorreu a Eddie que dificilmente alguém costumava jogar conversa fora nas horas do crepúsculo. O momento em que a terra trocava o dia pela noite continuava sendo especial, algo que de alguma forma conseguia romper certos laços da poderosa irmandade que Roland chamava ka-tet.

Jake deu a Oi alguns pedacinhos da carne de corça de seu último petisco recheado. Sentada em sua cadeira, pernas cruzadas sob a barra da roupa, Susannah olhava sonhadora para o fogo, enquanto Roland, que se recostara apoiando-se nos cotovelos, erguia a cabeça para o céu, onde as nuvens tinham começado a se separar das estrelas e a se dissolver. Olhando também para o alto, Eddie viu o Velho Astro e a Velha Mãe desaparecerem, dando vez à Estrela Polar e à Ursa Maior. Talvez aquele não fosse o mundo de Eddie (carros Takuro, o Kansas City Monarchs e um fast food chamado Boing Boing Burgers, tudo sugeria que não era), mas se aproximava bastante e o deixava tranqüilo. Talvez, Eddie pensou, fosse o mundo vizinho.

Quando o pássaro tornou a gritar lá longe, ele endireitou a cabeça e olhou para Roland.

— Você tinha alguma coisa para nos contar — disse. — Uma história eletrizante de sua juventude, eu acho. Susan... era esse o nome dela, não era?

O pistoleiro continuou um bom tempo de cabeça erguida, olhando para o céu (agora era Roland quem devia estar se sentindo à deriva nas constelações, Eddie considerou), mas de repente voltou o olhar para seus amigos. Parecia estranhamente inquieto e tinha no rosto uma expressão esquisita de quem se desculpava.

— Vão achar que estou brincando com vocês — disse —, se eu pedir mais um dia para pensar nessas coisas? Ou talvez o que eu realmente queira seja uma noite para sonhar com elas. São coisas antigas, coisas mortas, mas... — Ergueu as mãos num gesto de aparente confusão. — Certas coisas não descansam em paz mesmo quando estão mortas. Os ossos ficam gritando de dentro da terra.

— São fantasmas — disse Jake, e Eddie viu em seus olhos uma sombra do horror que ele devia ter sentido dentro da casa em Dutch Hill. O horror que devia ter sentido quando o porteiro saiu da parede e estendeu a mão para ele. — Às vezes há fantasmas e às vezes eles voltam.

— Sim — disse Roland. — Às vezes estão lá e fazem coisas.

— Talvez seja melhor não remoer — disse Susannah. — Às vezes... principalmente quando se sabe que o assunto vai nos machucar... às vezes o melhor é subir logo no cavalo e dar a partida.

Roland pesou cuidadosamente as palavras dela, depois ergueu os olhos para contemplá-la.

— Junto à fogueira que vamos acender amanhã à noite, vou contar a história de Susan — disse. — É uma promessa que faço em nome de meu pai.

— Acha que precisamos mesmo ouvir a história? — Eddie perguntou abruptamente, sem dúvida muito espantado por sua boca estar fazendo uma pergunta daquelas; afinal, ninguém tinha mais curiosidade que ele em conhecer o passado do pistoleiro. — Quero dizer, se a coisa realmente machuca, Roland... se machuca em grande estilo... talvez...

— Não sei se precisam mesmo ouvir a história, mas acho que preciso contá-la. Nosso futuro é a Torre e, para continuar seguindo em direção a ela com meu coração totalmente aberto, tenho de ajustar as contas com meu passado. Seria impossível contar tudo que aconteceu nele... no meu mundo, mesmo o passado está em movimento, reformando-se em muito do que lhe é essencial... mas esta história, em especial, pode dar uma idéia de todo o resto.

— É um lance de faroeste? — Jake perguntou de repente. Roland olhou-o, confuso.

— Não sei o que está querendo dizer, Jake. Gilead é um Baronato do mundo do oeste, sim, e Mejis também, mas...

— Será um faroeste — disse Eddie. — Todas as histórias de Roland, quando você as observa mais de perto, viram faroestes. — Ele se recostou e puxou o cobertor. Debilmente, vindo ao mesmo tempo de leste e oeste, ouvia o murmurar da lúmina. Remexeu o bolso atrás das balas que Roland lhe dera e concordou satisfeito com a cabeça quando conseguiu senti-las. Acreditou que poderia dormir sem elas naquela noite, mas certamente ia querê-las de novo no dia seguinte. Ainda não tinham concluído a estrada trincada, ainda não.

Susannah se inclinou sobre ele, beijou-lhe a ponta do nariz.

— Fechado para a noite, docinho?

— Estou — disse Eddie, entrelaçando as mãos atrás da cabeça. — Não é todo dia que viajo no trem mais rápido do mundo, destruo o mais inteligente computador do mundo e descubro que todo mundo morreu sufocado de gripe. Tudo antes do jantar, é claro. Uma porra dessas deixa o cara meio cansado. — Eddie sorriu e fechou os olhos. Ainda sorria quando o sono tomou conta dele.

 

Em seu sonho, estavam todos parados na esquina da Segunda Avenida com a rua 46, observando o terreno baldio cheio de mato que havia atrás de uma baixa cerca divisória. Usavam as roupas do Mundo Médio — uma bizarra combinação de couro de corça com camisas velhas, quase tudo unido por laços e cordões —, mas nenhum dos pedestres que seguiam apressados pela Segunda Avenida parecia reparar. Nenhum reparava no trapalhão nos braços de Jake nem na artilharia que carregavam.

Porque somos fantasmas, Eddie pensou. Somos fantasmas e não descansamos em paz.

Havia cartazes na cerca — um das Pistolas do Sexo (parecia um convite para começarem a se conhecer numa excursão erótica, o que Eddie achou muito engraçado... um grupo de pistoleiros jamais voltaria inteiro de uma excursão daquelas), outro para o espetáculo de um cômico, Adam Sandler, de quem Eddie jamais ouvira falar, um terceiro para um filme chamado The Craft, sobre bruxas adolescentes. Ao lado deste, escrito em letras que imitavam o tom rosado e poeirento de flores de verão, havia o seguinte:

Veja o URSO assustador e grandão!

Em seus olhos o MUNDO cabe dentro.

O TEMPO é vago, o passado uma adivinhação;

E a TORRE o aguarda no centro.

— Ali — disse Jake, apontando. — A rosa. Vejam como nos espera, ali no centro do terreno.

— Sim, é muito bonita — disse Susannah. Então ela apontou para a placa fincada perto da rosa, de frente para a Segunda Avenida. Sua voz e seus olhos pareciam transtornados. — Mas o que acham disso?

Segundo a placa, dois empreendedores — Construtora Mills e a Imobiliária Sombra e Associados — iam se combinar em algo chamado Condomínios de Luxo Baía da Tartaruga, que seria erguido exatamente ali. Quando? EM BREVE era tudo que a placa tinha a dizer a esse respeito.

— Eu não me preocuparia com isso — disse Jake. — Essa placa já estava aqui antes. Provavelmente é tão velha quanto o...

Nesse momento, a aceleração de um motor rasgou o ar. De trás da cerca, no lado em que o terreno dava para a rua 46, descargas de uma fumaça suja de escapamento subiram como sinais de fumaça dando más notícias. De repente, as tábuas daquele lado da cerca explodiram e uma enorme retroescavadeira vermelha atirou-se pela abertura. A própria lâmina de terraplenagem era vermelha, embora as palavras talhadas em sua pá — UM GRANDE SALVE AO REI RUBRO — estivessem escritas num amarelo brilhante como o pânico. Sentado no banco de comando, com um rosto em decomposição a observá-los de esguelha sobre os controles, estava o homem que seqüestrara Jake na ponte sobre o rio Send: o velho camarada Gasher. Na frente de um boné virado para trás, havia, em preto, as palavras FUNDIÇÃO LAMERK. Sobre elas fora pintado um olho arregalado.

Gasher baixou a lâmina da retro. Ela foi cortando o terreno em diagonal, esmagando tijolos, reduzindo a cacos brilhantes garrafas de soda e cerveja, tirando centelhas das pedras. Diretamente no caminho da pá, a rosa inclinava seu delicado botão.

— Vamos ver se agora vão fazer alguma daquelas perguntas tolas!— a nada bem-vinda aparição gritava. — Perguntem o que quiserem, minha querida ralé, por que não? Gasher, o velho camarada de vocês, também gosta muito de adivinhações! Desde que compreendam isso, não importa o que perguntem, porque vou dar um amasso nessa coisa nojenta, achatá-la e moê-la, ah, é o que vou fazer! Rolar de um lado para o outro em cima dela! Cortar pela raiz, minha querida ralé! Ah, cortar pela raiz!

Susannah gritou quando a lâmina da retro escarlate caiu sobre a rosa e Eddie se agarrou à cerca. Teve vontade de saltar sobre ela, se atirar sobre a rosa para tentar protegê-la...

...só que já era tarde. E Eddie sabia disso.

Ele se virou para a coisa que cacarejava no assento do maquinista da retro e viu que Gasher não estava mais lá. Agora quem estava nos controles era o Engenheiro Bob, do Charlie Chuu-Chuu.

— Pare! — Eddie gritou. — Pelo amor de Deus, pare!

— Não posso, Eddie. O mundo seguiu adiante e não posso parar. Tenho de seguir adiante com ele.

E quando a sombra da retroescavadeira caiu sobre a rosa, quando a lâmina cortou uma das pilastras que seguravam a placa (o EM BREVE se transformara em AGORA), Eddie percebeu que o homem nos controles também não era o Engenheiro Bob.

Era Roland.

 

Eddie sentou-se no acostamento da rodovia, ansiando pelo fôlego que podia ver como nuvem no ar e com o suor já esfriando na pele quente. Tinha certeza que havia gritado, tinha de ter gritado, mas Susannah ainda dormia a seu lado com uma pequena ponta de cabeça despontando da coberta que compartilhavam e Jake ressonava baixo à sua esquerda, um braço fora de seu próprio cobertor abraçando Oi. O trapalhão também dormia.

Roland não. Roland estava calmamente sentado do outro lado da fogueira apagada. Limpava os revólveres à luz das estrelas e observava Eddie.

— Pesadelos. — Não era uma pergunta.

— É.

— Uma visita de seu irmão?

Eddie sacudiu negativamente a cabeça.

— A Torre, então? O campo de rosas e a Torre?

O rosto de Roland se mantinha impassível, mas Eddie percebeu a sutil impaciência que sempre penetrava em sua voz quando o assunto era a Torre Negra. Um dia Eddie chamara o pistoleiro de viciado na Torre e Roland não negara que fosse.

— Não desta vez.

— O que foi, então?

— Está frio. — Eddie tremia.

— É. Mas graças aos seus deuses pelo menos não há chuva. A chuva de outono é um mal que sempre que possível devemos evitar. Como foi o seu sonho?

Eddie, no entanto, hesitava.

— Nunca nos trairia, não é, Roland?

— Ninguém pode responder com certeza a uma coisa dessas, Eddie, e já estive mais de uma vez no papel de traidor. Para minha vergonha. Mas... acho que aqueles dias estão encerrados. Somos um só; ka-tet. Se eu trair a algum de vocês, incluindo talvez o amigo peludo de Jake, traio a mim mesmo. Por que pergunta?

— E você jamais trairia sua busca.

— Renunciar à Torre? Não, Eddie. Isso não, jamais. Me conte seu sonho.

Eddie obedeceu, nada omitindo. Quando acabou, Roland contemplava seus revólveres de testa franzida. Eles pareciam ter-se montado sozinhos enquanto Eddie falava.

— Então o que significa eu ver você dirigindo aquela retro no final do sonho? Que ainda não confio em você? Que subconscientemente...

— É aquela ciência-da-psique? A cabala de que ouvi você e Susannah falarem?

— É, acho que é.

— E é uma merda — disse Roland num tom de desprezo. — Atoleiros da mente... Os sonhos ou nada querem dizer ou querem dizer tudo... e quando querem dizer tudo, quase sempre vêm como mensagem da... bem, como mensagem de outros andares da Torre. — Encarou Eddie com uma expressão enfática. — E nem todas as mensagens são mandadas por amigos.

— Alguém ou alguma coisa está fodendo com minha cabeça? É isso que está querendo dizer?

— Acho que é possível. O que não significa que não deva ficar de olho em mim. Aliás, já estou acostumado a ser observado, como você bem sabe.

— Confio em você — Eddie falou e o próprio constrangimento com que falou deu sinceridade às suas palavras. Roland pareceu grato, quase comovido, e Eddie não entendeu como um dia poderia ter visto naquele homem um robô desprovido de emoções. Roland podia ser um pouco pobre de imaginação, mas sem dúvida tinha sentimentos.

— Há uma coisa que me envolve muito diretamente nesse seu sonho, Eddie.

— A retroescavadeira?

— A máquina, sim. A ameaça feita à rosa.

— Jake viu a rosa, Roland. Era linda.

Roland assentiu.

— No quando de Jake, no quando daquele dia em particular, a rosa estava florescendo. Mas isso não significa que ela continue assim. Se a construção de que a placa falava for realizada... Se a retroescavadeira chegar...

— Há outros mundos além destes — disse Eddie. — Lembra?

— Algumas coisas podem só existir num deles. Num determinado onde, num determinado quando. — Roland se deitou e olhou para as estrelas. — Temos de proteger aquela rosa — disse. — Temos de protegê-la, custe o que custar.

— Acha que ela é outra porta, não é? Uma porta que se abre para a Torre Negra?

O pistoleiro contemplou-o com olhos que tinham o brilho das estrelas.

— Acho que ela pode ser a Torre — disse. — E se for destruída... Seus olhos se fecharam. Ele se calou.

Eddie ficou acordado até tarde.

 

O novo dia surgia claro, brilhante, frio. No forte sol da manhã a coisa que Eddie encontrara na noite anterior estava mais nitidamente visível... mas ele ainda não conseguia dizer o que era. Outra adivinhação, e Eddie estava ficando realmente farto delas.

Contraiu os olhos, usando a mão para protegê-los do sol. De um lado estava Susannah, do outro, Jake. Roland estava atrás da fogueira, ainda cuidando do que chamava seus trabucos, uma palavra que parecia resumir todos os seus bens terrenos. Parecia não estar preocupado com a coisa à frente, nem em descobrir o que era.

A que distância estaria? Cinqüenta quilômetros? Oitenta? Para calcular seria preciso saber qual era a distância que o olho nu de uma pessoa conseguia ver naquela planície, e Eddie não sabia a resposta. Não tinha, no entanto, a menor dúvida de que Jake acertara em pelo menos dois pontos: era uma espécie de edifício e se espalhava por todas as quatro pistas da rodovia. Era natural que fosse algo grande; de outra forma como conseguiriam ver? De outra forma seria algo perdido na lúmina, não é?

Talvez esteja localizado num daqueles trechos abertos — o que Susannah chama “buracos nas nuvens”. Ou talvez a lúmina termine antes de chegarmos tão longe. Ou talvez seja uma maldita alucinação. Seja como for, por enquanto era possível tirar a coisa da cabeça. Tinham um pouco mais de estrada trincada pela frente.

Mas o prédio o fascinava. Parecia um produto etéreo em azul e dourado das Mil e uma Noites... só que Eddie achava que o azul fora tirado do céu e o dourado do sol que há pouco se erguera.

— Roland, venha cá um instante!

A princípio, achou que o pistoleiro não viria, mas Roland apertou um laço de couro na mochila de Susannah, levantou-se, pôs as mãos atrás das costas, se espreguiçou e caminhou para eles.

— Deuses, será que sou a única pessoa neste grupo capaz de resolver tudo? — disse Roland.

— Estamos trabalhando em conjunto — Eddie respondeu — sempre trabalhamos, não acha? Mas dê uma olhada nessa coisa.

Roland olhou, mas com um olhar muito rápido, como se não estivesse muito interessado em identificar o que via.

— É vidro, não é? — Eddie perguntou. Roland deu mais uma olhada rápida.

— Eventualmente — disse, uma expressão que parecia significar pode ser que sim, parceiro.

— Temos muitos edifícios de vidro no lugar de onde eu vim, mas a maioria deles são prédios comerciais. Isso lá na frente lembra mais alguma coisa tirada da Disney World. Já sabe o que é?

— Não.

— Então por que não quer olhar para lá? — Susannah perguntou. Roland realmente deu outra olhada naquele brilho distante de luz sobre vidro, mas continuou sendo uma olhada rápida — pouco mais que uma espiada.

— Porque é um problema — disse Roland — e está na nossa estrada. Vamos chegar lá quando for a hora. Não é preciso viver o problema antes de o problema começar.

— Chegaremos hoje lá? — Jake perguntou. Roland abanou os ombros, a cara ainda fechada.

— Só Deus sabe quando é tempo de achar o poço no deserto — disse.

— Rapaz, você ganharia uma fortuna escrevendo aqueles bilhetes que o passarinho tira — disse Eddie. Esperou pelo menos um sorriso, mas não recebeu nenhum. Roland simplesmente virou as costas, voltou ao ponto onde estava, se abaixou pondo um joelho no chão, pegou a bolsa, a mochila, colocou-as nos ombros e ficou à espera dos outros. Quando todos estavam prontos, o grupo retomou seu caminho para leste, seguindo a Interestadual 70. O pistoleiro foi na frente, andando de cabeça baixa e com os olhos nos bicos das botas.

 

Roland permaneceu o dia todo calado e, quando a construção na frente deles ficou mais perto (um problema, e na nossa estrada), Susannah percebeu que Roland não se achava exatamente preocupado ou emburrado com o que viam lá na frente, mas com o que teria de fazer naquela noite. Estava pensando na história que prometera contar e estava muito mais que meramente preocupado.

Ao pararem para a refeição do meio-dia, podiam ver claramente o prédio à frente: um palácio de muitas torres que parecia feito inteiramente de vidro espelhado. A lâmina o cercava de perto, mas o palácio se erguia serenamente acima de tudo, com todas as suas torres estiradas para o céu. Sem dúvida era incrivelmente estranho encontrar aquilo nas planícies do leste do Kansas, mas Susannah achou que era a mais bela construção que já tinha visto na vida; mais bonita até que o prédio da Chrysler, e isso não era dizer pouco.

À medida que chegavam mais perto, ela foi achando cada vez mais difícil desviar o olhar. Ver os reflexos das nuvens infladas navegando pelos vãos azul-celeste e paredes do castelo de vidro era como contemplar alguma esplêndida miragem... ainda que ali também houvesse uma solidez. Uma impenetrável materialidade. Alguma coisa na construção era provavelmente apenas sombra da construção propriamente dita (miragens, pelo que Susannah sabia, não projetavam sombras), mas não tudo. Ela simplesmente existia. Susannah não fazia idéia do que algo tão fabuloso estava fazendo ali, na terra do Stuckey’s e do Hardee’s (para não mencionar o Boing Boing Burgers), mas estava lá. E achou que com o tempo ficaria a par do resto da história.

 

Acamparam em silêncio. Roland montou em silêncio a chaminé de madeira que seria a fogueira e sentaram todos em silêncio diante dela, vendo o pôr do sol transformar o enorme edifício de vidro à frente num castelo de fogo. As torres e ameias brilharam primeiro com um vermelho febril, depois com um tom laranja, depois com um dourado que esfriou rapidamente numa tonalidade ocre quando a Velha Estrela apareceu no firmamento sobre eles...

Não, Susannah pensou na voz de Detta. Num é a merma estrela, garota. Bisolutamente num é. Essa é a Estrela do Norte. A merma que tu via em casa, sentada no cólu do teu papai.

Mas aquela era a Velha Estrela acompanhada da Velha Mãe. Ficou espantada por sentir aquela nostalgia com o mundo de Roland, mas logo se perguntou por que tanto espanto. Era um mundo, afinal, onde ninguém a chamara de crioula puta (pelo menos ainda não), um mundo onde encontrara alguém para amar... e onde também fizera bons amigos. Essa última idéia deixou-a com uma certa vontade de chorar e ela se abraçou a Jake. Ele se deixou abraçar, sorridente, olhos meio fechados. A alguma distância, desagradável, mas suportável mesmo sem as balas servindo de fones de ouvido, a lúmina murmurava sua canção chorosa.

Quando os últimos traços de amarelo começaram a se dissipar no castelo estrada acima, Roland deixou-os para se sentar na pista da direita da estrada e retornar à sua fogueira. Cozinhou mais carne de corça recheando-a com folhagens e serviu a comida. Comeram em silêncio (Roland, na realidade, quase nada comeu, constatou Susannah). Quando terminaram, puderam ver a Via Láctea se espalhando pelos muros do castelo à frente deles, intensos pontos de reflexo que ardiam como chamas saindo de água parada.

Foi Eddie quem finalmente rompeu o silêncio.

— Não precisa contar nada — disse. — Está desculpado. Ou absolvido. Ou seja o que for a maldita coisa que esteja precisando para tirar esse olhar da cara.

Roland o ignorou. Bebia água, levantando o cotovelo e o cantil como um matuto tomando aguardente de uma moringa, a cabeça jogada para trás, os olhos nas estrelas. Cuspiu para o lado da estrada o último gole.

— Vida para a colheita — disse Eddie, mas não sorriu.

Roland não disse nada. Tinha o rosto pálido como se tivesse visto um fantasma. Ou ouvido um.

 

O pistoleiro virou-se para Jake, que o encarou com ar sério.

— Passei pelo teste da maturidade com 14 anos de idade. Fui o mais moço a fazer o teste no meu ka-tet... e também na minha turma... Talvez nunca ninguém tenha feito o teste tão novo. Já lhe contei um pouco da história, Jake. Está lembrado?

Já contou a todos nós parte da história, Susannah pensou, mas manteve a boca fechada e, com um olhar, advertiu Eddie a fazer o mesmo. Roland estivera meio fora de si durante aquele relato; com Jake ao mesmo tempo morto e vivo dentro de sua cabeça, tivera de lutar contra a loucura.

— Está se referindo àquela vez em que estávamos caçando Walter — disse Jake. — Depois do posto de parada mas antes que eu... que eu caísse.

— Foi isso.

— Eu me lembro um pouco daquilo, mas não muito. É como a gente se lembra da coisa com que sonhou.

Roland fez que sim com a cabeça.

— Agora escute. Desta vez vou lhe contar um pouco mais, Jake, porque já está mais velho. Acho que todos nós estamos.

Susannah não estava menos fascinada com a possibilidade de ouvir pela segunda vez a história: ouvir como Roland, garoto, encontrara por acaso Marten, conselheiro do pai (mago do pai) no aposento particular de sua mãe. Só que, no fundo, nada daquilo acontecera por acaso, é claro; o garoto teria passado e no máximo olhado de relance para a porta da mãe se Marten não a tivesse aberto e o convidado a entrar. Marten dissera a Roland que a mãe queria vê-lo, mas uma olhada no sorriso pesaroso da mãe, e nos olhos abatidos quando ela se sentou na cadeira de encosto baixo, informou ao garoto que ele era a última pessoa no mundo que Gabrielle Deschain queria ver naquele momento.

A vermelhidão no rosto dela e a mordida de amor do lado do pescoço lhe disseram o resto.

Assim fora ele incitado por Marten a se lançar numa prova prematura de maturidade. Mas empregando uma arma com a qual seu mestre não havia contado (David, seu falcão), Roland derrotara Cort, tomara-lhe o bastão... e transformara Marten Broadcloak num inimigo para a vida inteira.

Depois de terrível derrota, com o rosto muito inchado transformado numa espécie de máscara infantil de duende, entrando em estado de coma, Cort resistira à perda de consciência por tempo suficiente para dar um conselho de pistoleiro a seu antigo aprendiz: que procurasse ficar o mais longe possível de Marten.

— Pediu também que eu deixasse o relato de nossa batalha virar uma lenda — disse o pistoleiro a Eddie, Susannah e Jake. — E que esperasse até minha sombra ter pêlo na cara para começar a assombrar os sonhos de Marten.

— Seguiu os conselhos dele? — Susannah perguntou.

— Nunca tive oportunidade de segui-los — disse Roland, cuja face se fendeu num triste, doloroso sorriso. — Pretendia pensar neles, e seriamente, mas antes mesmo de começar a pensar as coisas... mudaram.

— Elas têm uma mania de fazer isso, não é? — disse Eddie. — Por Deus, como têm.

— Enterrei meu falcão, a primeira arma que manejei e talvez a melhor. Então... e tenho certeza que não lhe contei esta parte, Jake... fui para a cidade baixa. O calor daquele verão desaguava em tempestades cheias de trovão e granizo, e no sobrado de um dos bordéis onde Cort tinha o costume de se divertir, deitei com uma mulher pela primeira vez.

Cutucou Pensativamente o fogo com um graveto, mas pareceu tomar consciência do inconsciente simbolismo do que estava fazendo e jogou fora o graveto com um sorriso torto. O graveto caiu em brasa junto do pneu de um Dodge Aspen abandonado ali e se apagou.

— Foi bom. O sexo foi bom. Não a grande coisa em que eu e meus colegas pensávamos tanto, que era objeto de tantas conversas e interrogações, é claro...

— Acho que o serviço das putas tende a ser superestimado pelos jovens, docinho — disse Susannah.

— Adormeci ouvindo os bêbados no andar de baixo cantando com o acompanhamento do piano e do granizo batendo na janela. Acordei no dia seguinte em... bem... vamos dizer que acordei de um modo que eu jamais teria esperado acordar em tal lugar.

Jake jogou mais lenha no fogo, que se inflamou um pouco mais, fazendo brilhar o rosto de Roland, pintando meias-luas de sombra sob suas sobrancelhas e embaixo do lábio. E enquanto ele falava, Susannah achou que quase podia ver o que tinha acontecido naquela manhã, tanto tempo atrás, que devia ter um cheiro de pedras molhadas na rua e calor de verão abrandado pela chuva; o que tinha acontecido no cubículo de uma puta no andar de cima de uma taberna na cidade baixa de Gilead, sede do Baronato de Nova Canaã, um pequeno lote de terra situado nas regiões ocidentais do Mundo Médio.

Um garoto, ainda dolorido da batalha do dia anterior e recentemente instruído nos mistérios do sexo. Um garoto, agora parecendo ter 12 em vez de 14 anos, as pestanas chicoteando repetidamente a face, as pálpebras tapando aqueles extraordinários olhos azuis; um garoto com a mão envolvendo com cuidado o seio de uma prostituta, o pulso machucado por um falcão pousando bronzeado na colcha. Um garoto nos instantes finais do último bom sono de sua vida, um garoto que estará em breve em movimento, que estará caindo como uma pedra deslocada cai pela íngreme e acidentada encosta de um precipício; uma pedra caindo que empurra outra, e outra, e outra, e cada uma delas empurrando muitas mais, até que toda a encosta entra em agitação e a terra estremece com o som do deslizamento.

Um garoto, uma pedra numa encosta cheia de pedras soltas e prontas para deslizar.

O nódulo de um galho explodiu na fogueira. Em algum lugar naquele sonho passado no Kansas, um animal ganiu. Susannah viu os clarões rodopiarem pela face incrivelmente antiga de Roland e viu naquela face o garoto adormecido de uma manhã de verão, deitado na cama de uma cafetina. E então viu a porta se abrir de repente, dando fim ao último sonho inquieto de Gilead.

 

O homem que entrou a passo largo, cruzando o quarto e se aproximando da cama antes que Roland pudesse abrir os olhos (e antes que a mulher a seu lado tivesse sequer começado a registrar o som), era alto, magro e usava uma calça de brim desbotado e uma camisa de cambraia azul. Em sua cabeça havia um chapéu cinza-escuro com uma tira de pele de cobra. Amarrados bem embaixo de sua cintura havia dois velhos coldres de couro. Saltando deles, os cabos de sândalo dos revólveres que um dia o garoto levaria para terras das quais aquele homem de cara feia e furiosos olhos azuis jamais ouviria falar.

Roland estava em movimento antes mesmo de abrir os olhos, rolando para a esquerda, a mão tateando embaixo da cama para pegar o que estava lá. Foi rápido, de uma rapidez assustadora, mas — e Susannah viu isto também, viu claramente — o homem com a calça desbotada foi mais rápido ainda. Agarrou o ombro do garoto e puxou, fazendo-o rolar nu para fora da cama. Assim que caiu no chão, rápido como um relâmpago, o garoto estendeu novamente a mão para o que estava embaixo da cama. O homem com a calça de brim pisou-lhe os dedos antes que ele pudesse pegar o que quer que fosse.

— Canalha! — disse o garoto num tom ofegante. — Ah, seu ca...

Mas agora seus olhos estavam abertos. Roland olhava para cima e via que o canalha invasor era seu pai.

A prostituta havia se sentado, os olhos inchados, a expressão indolente, petulante.

— Escute aqui! — ela gritou. — Escute bem! Não pode vir invadindo assim, realmente não pode! Se eu agora começasse a gritar e...

Ignorando-a, o homem pôs a mão embaixo da cama e puxou dois cinturões. Na ponta de cada um havia um coldre com um revólver. Eram armas grandes, impressionantes naquele mundo de tão poucas armas, mas não tão grandes quanto os revólveres usados por ele, e os cabos eram placas de metal amassadas, não madeira trabalhada. Quando a prostituta viu os revólveres na cintura do invasor e os que agora estavam em suas mãos — aqueles que o jovem freguês que chegara na noite anterior estava portando até que ela o levasse para o andar de cima e o despojasse de todas as armas salvo daquela com a qual estava mais familiarizada —, a expressão de sonolenta petulância deixou seu rosto. O que a substituiu foi o olhar de um filhote de raposa lutando pela sobrevivência. Ela estava de pé, longe da cama, cruzando o quarto e a porta antes que sua nádega nua pudesse brilhar mais que um breve instante no sol da manhã.

Nem o pai parado junto da cama nem o filho caído nu aos seus pés chegaram sequer a se virar para ela. O homem de calça de brim estendia os cinturões que Roland tirara do depósito sob o alojamento dos aprendizes na tarde anterior, usando a chave de Cort para abrir a porta do arsenal. O homem sacudia os cinturões diante do nariz de Roland como se podia sacudir uma roupa rasgada diante do focinho do filhote bagunceiro de cachorro que a tivera na boca. Sacudiu-os com tanta força que um dos revólveres caiu. Apesar de seu espanto, Roland pegou-o no ar.

— Achei que estava no oeste — disse Roland. — Em Cressia. Após Farson e seu...

O pai de Roland esbofeteou-o com força suficiente para fazer o rapaz atravessar a sala aos trambolhões e bater num canto com o sangue escorrendo do canto da boca. O primeiro apavorante instinto de Roland foi apontar o revólver que ainda segurava.

Steven Deschain o encarava, mãos na cintura, lendo seu pensamento antes mesmo que ele o tivesse plenamente formado. Os lábios recuaram num sorriso singularmente sombrio, um sorriso que mostrou todos os seus dentes e a maior parte das gengivas.

— Atire em mim se quiser. Por que não? Leve este aborto até o fim. Ah, deuses, isto seria bem-vindo!

Roland pousou o revólver no chão e, com as costas da mão, empurrou-o para o lado. Naquele momento quis ter os dedos o mais longe possível do gatilho de uma arma. Eles não estavam mais de todo sob seu controle, aqueles dedos. Roland havia descoberto isso na noite anterior, mais ou menos na hora em que quebrara o nariz de Cort.

— Pai, ontem passei no teste. Peguei o bastão de Cort. Venci. Sou um homem.

— É um idiota — disse o pai, cujo sorriso desaparecera. Ele agora parecia velho, abatido. Desabou na cama da prostituta, contemplou os cinturões que ainda segurava e jogou-os entre os pés. — Um idiota de 14 anos, o que é o pior; o mais desesperado tipo de idiota. — Ergueu os olhos, de novo extremamente furioso, mas Roland não se importou; a raiva era melhor que o olhar anterior de fraqueza. O olhar anterior de velhice. — Desde que você começou a andar, soube que não era um gênio, mas só ontem à noite descobri que era idiota. Deixar os outros o levarem como uma vaca numa travessia de rio! Deuses! Você esqueceu a face de seu pai! Admita isso!

E isso despertou a raiva do próprio garoto. Tudo que fizera na véspera fora feito com a face do pai muito bem fixada na mente.

— Não é verdade! — gritou de onde estava sentado, o traseiro nu no chão áspero junto à cama desarrumada da prostituta e as costas apoiadas na parede, o sol passando pela janela e tocando a penugem da barba na cara lisa, sem cicatrizes.

— É verdade, guri! Guri maluco! Quero que se retrate ou vou lhe tirar o pêlo sem sequer...

— Os dois estavam juntos! — Roland explodiu. — Sua esposa e seu ministro... seu mago! Vi a marca da boca no pescoço dela! No pescoço de minha mãe! — Estendeu a mão para o revólver e segurou-o, mas mesmo em sua fúria e vergonha teve o cuidado de não deixar os dedos se aproximarem do gatilho; agarrava sua arma de aprendiz pelo metal liso, sem ornamentos, do cano. — Hoje posso dar um fim à traiçoeira vida de sedutor do sujeito com isto e, se o senhor não é bastante homem para me ajudar, pelo menos fique de lado e me deixe...

Um dos revólveres que Steven trazia na cintura estava fora do coldre antes que os olhos de Roland vissem qualquer movimento. Houve um único tiro, ensurdecedor como trovão no pequeno quarto; e se passou um minuto inteiro antes de Roland conseguir ouvir o alvoroço de perguntas, a comoção no andar de baixo. Sua arma de aprendiz, no entanto, estava longe, arrancada de sua mão com um tiro e só deixando uma espécie de coceira e vibração. A arma voara pela janela, caíra lá fora, o cabo transformado num destroço de metal amassado. A acusação pairava no ar com a fala incompleta de Roland.

Chocado, atônito, ele olhava para o pai. Steven sustentava o olhar, mas ficaria um bom tempo sem nada dizer. Naquele momento, porém, mostrava a face que Roland se lembrava de ter conhecido nos primeiros anos de infância: calma e segura. A fraqueza e o ar de fúria quase descontrolada tinham se dissipado como os trovões da noite anterior.

Por fim o pai falou.

— Cometi um erro e me desculpo. Você não esqueceu a minha face, Roland. Mas continua sendo idiota. Deixou-se manipular por outro idiota, só que muito mais velho do que você jamais conseguirá ser em toda a sua vida. Só pela graça dos deuses e pela ação do ka não foi mandado para oeste e transformado em mais um pistoleiro tirado do caminho de Marten... tirado do caminho de John Farson... e tirado do caminho que leva à criatura que comanda os dois. — Ele parou e estendeu os braços. — Se eu o tivesse perdido, Roland, teria morrido.

Roland ficou de pé e se aproximou sem roupa do pai, que o abraçou febrilmente. Quando Steven Deschain o beijou primeiro numa face, depois na outra, Roland começou a chorar. Então, no ouvido de Roland. Steven Deschain sussurrou seis palavras.

 

— Quais? — Susannah perguntou. — Que seis palavras?

— “Há dois anos eu sabia disso” — disse Roland. — Foi o que ele sussurrou.

— Santo Deus — disse Eddie.

— O pai me disse que eu não podia voltar ao palácio. Se o fizesse, seria morto ao cair da noite. Ele disse: “Você nasceu para seguir seu destino, não importa o que Marten pense disso; mas ele jurou matá-lo antes que você se transforme num problema. Parece que, tendo ou não sido vencedor no teste, deve partir de Gilead. Ainda que só por algum tempo. E irá para o leste em vez do oeste. Mas não quero que vá embora sozinho, nem sem um objetivo.” Então, quase como uma lembrança atrasada, ele acrescentou: “Ou apenas com um par de ‘revólveres de aprendiz’ ruins.”

— Que objetivo? — Jake perguntou, nitidamente fascinado pela história; seus olhos estavam quase tão brilhantes quanto os de Oi. — E com que amigos?

— Já vou deixá-lo a par dessas coisas — disse Roland —, e daqui a pouco vou saber como me julgará.

Roland exalou um suspiro — o suspiro profundo de um homem que conclui um trabalho árduo — e atirou lenha nova na fogueira. Quando as chamas subiram, fazendo as sombras recuarem um pouco, voltou a falar. Ia falar por toda aquela noite singularmente longa. Não concluiria a história de Susan Delgado antes que o sol estivesse subindo no leste, derramando sobre o castelo de vidro, que permanecia ao longe, todos os brilhantes matizes de um novo dia e mostrando a estranha tonalidade de luz esverdeada que era a verdadeira cor da construção.

 

SUSAN

 

Sob a Lua do Beijo

Um perfeito disco de prata — a Lua do Beijo, como a chamavam na Terra Plena — pendia sobre a acidentada colina 8 quilômetros a leste de Hambry e 16 quilômetros ao sul da Garganta do Parafuso. Embaixo da colina, o calor do final do verão persistia, sufocante, apesar de já passadas duas horas do pôr do sol, mas no alto do Cöos era como se a Colheita já tivesse chegado, com suas fortes brisas e ar congelante. Para a mulher que vivia ali, tendo como única companhia uma cobra e um velho gato vira-lata, aquela ia ser uma longa noite.

Mas não importava; não importava, meu caro. Mãos ocupadas são mãos felizes. Era como estavam as dela.

Esperou até o barulho dos cascos dos cavalos de seus visitantes cessar por completo. Estava sentada tranqüila junto à janela, no aposento maior da cabana (havia apenas mais um cômodo, um quarto, pouco maior que um banheiro). Musty, o gato de seis pernas, estava em seu ombro. O colo da mulher estava cheio de luar.

Três cavalos, levando embora três homens. Os Caçadores do Grande Caixão, chamavam a si próprios.

Ela deu uma risada. Os homens eram engraçados, sim, é claro que eram, e o que havia de mais divertido era que praticamente eles não tinham a menor consciência disso. Homens, com nomes que lhes pareciam tão valentes, tão capazes de impor respeito. Homens, tão orgulhosos de seus músculos, suas aptidões para a bebida, suas aptidões para a comida; tão incessantemente orgulhosos de suas picas. Sim, mesmo naqueles tempos em que um número imenso deles não conseguia soltar nada além do sêmen estranho e corrompido que produzia crianças que só serviam para ser afogadas no poço mais próximo. Ah, mas a culpa jamais era deles, certo, meu caro? Não, era sempre a mulher — seu útero, sua falha. Homens eram tão covardes. Tão francamente covardes. Aqueles três não tinham fugido da regra geral. O velho que mancava sabia olhar de frente — sim, sabia, um par de olhos claros e francamente curiosos tinha partido daquela cabeça e se fixado nela —, mas a mulher não viu nada naqueles olhos com que não soubesse lidar, a verdade foi essa.

Homens! Não conseguia entender por que tantas mulheres os temiam. Não tinham os deuses criado os homens com a parte mais vulnerável de seus órgãos pendendo fora dos corpos, como um pedaço deslocado de tripa? Chutem aquilo e eles se curvarão como caracóis. Acariciem aquilo e seus cérebros se derreterão. Qualquer um que duvidasse de sua sabedoria precisaria apenas ver como ia enfrentar o resto do trabalho da noite, o que ainda tinha pela frente. Thorin! Prefeito de Hambry! Chefe da Guarda do Baronato! Ninguém mais cretino que um velho cretino!

Contudo, nenhum destes pensamentos tinha qualquer poder real ou produziria qualquer malefício real contra eles, pelo menos não agora; os três homens que se autodenominavam Caçadores do Grande Caixão tinham lhe trazido um prodígio e ela saberia contemplá-lo; claro, encheria os olhos com ele, faria isso.

O coxo, Jonas, insistira para que guardasse o prodígio — fora informado de que possuía um lugar para guardar essas coisas, não, é claro, que ele quisesse vê-lo, não queria conhecer nenhum de seus lugares secretos, que Deus o livrasse (neste ponto Depape e Reynolds tinham começado a rir como dois malucos). Ela o guardara, e agora que o barulho dos cascos dos cavalos já fora engolido pelo vento, faria o que bem entendesse. A moça cujas tetas tinham roubado o pouco que Hart Thorin ainda possuía de cérebro não chegaria antes de uma hora (a velha mulher insistira para que viesse a pé da cidade, mencionando o valor purificador de tal caminhada ao luar, mesmo que quisesse apenas garantir um seguro intervalo de tempo entre seus dois encontros), e durante essa hora ela faria o que bem entendesse.

— Ah, é bonito, tenho certeza que é — sussurrou.

Será que não sentiu um certo calor naquele lugar onde as pernas velhas e tortas se juntavam? Uma certa umidade na fenda seca que ali se escondia? Deuses!

— Ié, mesmo com ele fechado naquela caixa sinto sua força. Belo, Musty, como você. — Tirou o gato do ombro e segurou-o na frente dos olhos. O velho bichano ronronou e esticou o focinho de pugilista em sua direção. A mulher o beijou no nariz. O gato fechou os olhos mansos, cinza-esverdeados, em êxtase. — Belo como você... não é, não é? E aí?

Pôs o gato no chão. Ele caminhou devagar para a lareira, onde um resto de fogo consumia, agitado, uma última tora. A cauda de Musty, repartida na ponta, lembrando o forcado na cauda de um demônio num velho desenho, oscilava de um lado para o outro na vaga atmosfera alaranjada do aposento. As pernas extras, projetando-se pelos lados do corpo, contorciam-se sonhadoramente. A sombra que se estendia pelo chão e subia pela parede era um horror: parecia um cruzamento de gato com aranha.

A velha mulher se levantou e foi para seu cubículo de dormir, para onde tinha levado a coisa que Jonas lhe dera.

— Perca isso e perderá sua cabeça — ele tinha dito.

— Fique tranqüilo, meu bom amigo — a mulher respondera virando-se para trás com um sorriso tímido e servil. Homens!, pensava ela. Que criaturas arrogantes e tolas!

Ela se aproximou dos pés da cama, ajoelhou-se e passou as mãos sobre o chão de terra. Apareceram marcas na terra dura quando ela o fez. Formavam um quadrado. Usando os dedos, ela empurrou uma dessas marcas, que cedeu sob seu toque. Ergueu a portinhola oculta (oculta de tal forma que ninguém sem o toque certo conseguiria descobrir), revelando um compartimento de talvez uns 30 centímetros quadrados e uns 70 centímetros de profundidade. Lá dentro havia uma caixa de carvalho. Enroscada no alto da caixa havia uma fina cobra verde. Quando a mulher encostou a mão na cobra, o animal levantou a cabeça. A boca se abriu com um silvo silencioso, exibindo quatro pares de presas — dois no alto, dois embaixo.

Ela pegou a serpente, murmurando alguma coisa. Quando aproximou do rosto o focinho chato da cobra, o animal abriu ainda mais a boca e o silvo tornou-se audível. A mulher abriu a própria boca e enfiou a língua amarelada, fedorenta da cobra no meio dos lábios cinzentos e franzidos. Caíram duas gotas de veneno, suficientes para matar todos os convidados de um banquete se misturadas ao ponche. Ela engoliu o veneno, sentindo a boca, a garganta e o peito arderem, como se tivesse tomado uma forte aguardente. Por um momento o quarto saiu de foco e ela ouviu vozes cochichando no ar malcheiroso da cabana — as vozes daqueles que chamava de “amigos invisíveis”. Seus olhos derramaram um líquido viscoso pelas cavidades que o tempo lhe cavara no rosto. Então ela respirou fundo e o quarto voltou ao normal. As vozes cessaram.

Beijou Ermot entre os olhos sem pálpebras (tempo da Lua do Beijo, tudo bem, ela pensou) e colocou-a de lado. A cobra resvalou para baixo da cama, enroscou-se e viu a mulher passar as palmas das mãos sobre a tampa da caixa de carvalho. A mulher podia sentir os músculos tremerem em seus antebraços e aquele calor no ventre ficou mais pronunciado. Tinham se passado anos desde a última vez que sentira o apelo do sexo, mas voltava a senti-lo agora, sem dúvida, e não era o efeito da Lua do Beijo, ou pelo menos era muito mais que isso.

A caixa estava trancada e Jonas não lhe dera nenhuma chave, mas isso nada significava para ela, que já vivera muito tempo, estudara demais e lidara com criaturas de quem a maioria dos homens, apesar de toda a conversa arrogante e do jeito pomposo, correria como se estivesse em chamas se chegasse a vê-las, mesmo que de relance. Estendeu a mão para a fechadura onde estava incrustada a forma de um olho e uma inscrição na Língua Superior: Vejo quem me abre. Depois puxou a mão. De imediato pôde cheirar o que o nariz, em condições normais, já não percebia: mofo, pó, um colchão sujo e as migalhas da comida consumida na cama; o fedor misturado de cinzas e velho incenso; o odor de uma velha mulher com olhos úmidos e (habitualmente, pelo menos) uma vagina seca. Não abriria a caixa ali dentro para contemplar a maravilha; ia sair da cabana para onde o ar era limpo e os únicos cheiros vinham da artemísia e do algarobo.

Contemplaria o luar da Lua do Beijo.

Rhea, da colina Cöos, tirou a caixa de seu buraco com um resmungo, ficou de pé com outro resmungo (este provocado pelas regiões mais baixas do corpo), pôs a caixa embaixo do braço e saiu do quarto.

 

A cabana ficava suficientemente abaixo do ponto mais alto da colina para não ser atingida pelas rajadas mais fortes do vento do inverno que, naquelas altitudes, soprava quase sem parar da Colheita até o fim da Terra Ampla. Uma trilha levava ao ponto mais alto da encosta; sob a lua cheia, parecia uma vala prateada. A velha mulher avançou por ela, ofegante, o cabelo branco envolvendo sua cabeça em cachos sujos, as velhas tetas sacudindo de um lado para o outro sob o vestido preto. O gato seguia em sua sombra, sempre soltando, como um cheiro ruim, o ronronado fraco.

No topo da colina, o vento tirou o cabelo das rugas de seu rosto e trouxe até ela o lamento sussurrante da lúmina que abrira caminho para a extremidade da Garganta do Parafuso. Poucos simpatizavam com aquele som, Rhea sabia, mas ela o amava; para Rhea do Cöos, soava como uma canção de ninar. Lá no alto a lua seguia, as sombras na superfície brilhante esboçando as faces de amantes se beijando... se a pessoa, é claro, acreditasse na visão dos tolos. A visão dos tolos encontrava uma face ou um conjunto de faces diferentes em cada lua cheia, mas a bruxa sabia que só existia uma: a face do Demônio. A face da morte.

Ela, no entanto, jamais se sentira tão viva.

— Ah, minha beleza — sussurrou, tocando a fechadura com os dedos torcidos. Um fraco brilho de luz vermelha apareceu entre as juntas dos nós dos dedos e houve um clique. Respirando forte, como quem tivesse disputado uma corrida, pousou a caixa e abriu-a.

Uma luminosidade rosada, menos intensa que a emitida pela Lua do Beijo mas infinitamente mais bonita, brotou de lá. Tocou a face encarquilhada sobre a caixa e, por um momento, transformou-a de novo no rosto de uma jovem.

Musty fungou, a cabeça esticada para a frente, as orelhas para trás, os velhos olhos refletindo aquela luz rosada. Rhea ficou instantaneamente enciumada.

— Saia daqui, tolo, isto não é para bichos como você!

Deu uma palmada no gato. Musty se afastou, assobiando como uma chaleira, avançando ressentido para a saliência que marcava a verdadeira extremidade da colina Cöos. Parou lá, simulando desprezo, lambendo a pata, deixando o vento pentear incessantemente seu pêlo.

Dentro da caixa havia um globo de vidro. Cheio daquela luz rosa que dele fluía num pulsar suave, como a batida de um coração satisfeito.

— Ah, meu verdadeiro amor — ela murmurou, puxando o globo. Segurou-o na frente do rosto; deixou a radiância pulsante se derramar como chuva pela cara franzida. — Ah, você vive, sim, está vivo!

De repente a cor dentro do globo escureceu, adquirindo um tom escarlate. E ela sentiu o globo vibrar em suas mãos como um motor tremendamente possante e de novo sentiu aquela impressionante umidade entre as pernas, aquela onda de excitação que Rhea acreditava já ter ficado há muito tempo para trás.

Então a vibração cessou e a luminosidade no globo pareceu se desdobrar em três pétalas. Da antiga luz restava apenas uma sombra rosada... de onde saíam três cavaleiros. A princípio ela achou que fossem os homens que lhe tinham trazido o globo — Jonas e os outros. Mas não, eram mais jovens, até mais jovens que Depape, que tinha em torno de 25 anos. O que vinha à esquerda do trio parecia ter uma caveira de pássaro encaixada na frente de sua sela — estranho, mas verdadeiro.

Então esse e o que seguia à direita desapareceram, de alguma forma obscurecidos entre os reflexos do vidro, ficando apenas o do meio. Ela observou a calça de brim e as botas que ele usava, o chapéu de aba caída que escondia a metade superior do rosto, a facilidade com que montava o cavalo e seu primeiro e alarmado pensamento foi: Um pistoleiro! Chegando dos Baronatos Interiores, ié, talvez da própria Gilead! Mas não precisou ver a metade superior da face do cavaleiro para saber que ele era pouco mais que uma criança, e que não havia revólveres em sua cintura. Contudo, não achou que o jovem viesse desarmado. Quem sabe, se olhasse com um pouco mais de atenção...

Quase encostou o vidro na ponta do nariz e sussurrou:

— Mais perto, amor! Chegue mais perto!

Não sabia o que esperar (e talvez o mais lógico fosse não esperar absolutamente nada), mas dentro do escuro círculo de vidro o vulto chegou mais perto. Praticamente flutuou para mais perto, como um cavalo e um cavaleiro sob a água, e ela reparou que hastes de flechas se agitavam nas suas costas. Diante dele, na cabeça da sela, não havia uma caveira mas um pequeno arco. E do lado direito da sela, onde um pistoleiro normalmente carregaria um rifle num estojo, havia o contorno ornado das penas de uma lança. Ele não era um exemplar do povo antigo, a aparência de sua face era outra... mas Rhea também não achava que fosse do Arco Exterior.

— Quem é você, figura? — ela sussurrou. — E como vou poder conhecê-lo? Tem a aba do chapéu tão embaixo que não consigo ver esses olhos testados por Deus, não consigo! Pelo cavalo, talvez... ou talvez pelo... saia daqui, Musty! Por que não pára de me perturbar? Arre!

O gato retornara de seu posto de vigia e agora ondulava de um lado para outro entre os velhos e inchados tornozelos da mulher. Uivava para ela com uma voz ainda mais trêmula que a do ronronar. Quando a mulher tentou chutá-lo, Musty se esquivou e se distanciou alguns passos... mas voltou imediatamente e recomeçou a carícia, contemplando a mulher com olhos banhados pelo luar e dando aqueles uivos macios.

Rhea tornou a chutá-lo, um chute tão no vazio quanto o outro, depois tornou a olhar para o globo de vidro. O cavalo e seu curioso e jovem cavaleiro haviam desaparecido. A luz rosada também sumira. A coisa já não passava de uma inerte bola de vidro que ela continuava segurando. A única luz era um reflexo provocado pelo luar.

O vento soprava, achatando o vestido contra a ruína que era seu corpo. Musty, sem se assustar com os débeis chutes de sua dona, deu um salto para a frente e recomeçou a ondular em volta das pernas dela, o tempo todo gritando para ela.

— Vê, está vendo o que você fez, seu maldito saco de doenças e pulgas? A luz desapareceu do globo, sumiu justo quando eu...

Então ela ouviu um barulho na trilha de carroças que levava para sua cabana e compreendeu por que Musty estava cada vez mais agitado. Era uma canção o que ela estava ouvindo. Era a moça o que ela ouvia. A moça chegava cedo.

Fazendo uma careta terrível — odiava ser apanhada de surpresa e a mocinha que vinha lá embaixo pagaria pela insolência —, ela se curvou e tornou a colocar o globo na caixa. No interior da caixa havia um forro de seda e o globo nele se ajustava com a perfeição de um ovo na pequena xícara que o senhor Lorde usava no café-da-manhã. E, sem parar, chegava da subida da colina (se o maldito vento não estivesse tão forte, teria ouvido a coisa há mais tempo), o som da moça cantando, cada vez mais perto:

Amor, ah amor, ah descuidado amor, Não vê o que fez o amor descuidado?

— Vou lhe mostrar esse amor descuidado, virgem de merda — disse a velha mulher. Podia sentir o fedor ácido do suor embaixo dos braços, mas aquela outra umidade tinha de novo secado. — Vou lhe dar a recompensa por chegar tão cedo à casa da velha Rhea, pode apostar!

Passou os dedos pela fechadura na frente da caixa, mas ela não fechou. Desconfiou que, na ânsia de abri-la, quebrara alguma coisa ao usar o toque. O olho e a inscrição pareciam zombar dela: Vejo quem me abre. A coisa podia ser consertada, e num instante, mas naquele momento mesmo um instante era mais do que poderia ter.

— Maldita boceta! — ela se queixou, erguendo brevemente a cabeça para a voz cada vez mais próxima (já quase lá, pelos deuses, e 45 minutos antes da hora!). Então fechou a tampa da caixa. Sentiu angústia ao fazê-lo, pois o vidro ganhara vida de novo, enchendo-se daquele brilho rosado, mas não dava tempo para olhar ou ficar sonhando com aquilo. Mais tarde, talvez, depois que o objeto da indecorosa putaria da última fase da vida de Thorin tivesse sumido.

Mas você deve se controlar para não fazer nada de muito terrível à moça, advertiu a si própria. Lembre que está aqui por causa de Thorin e não é uma daquelas sirigaitas que já botou o pãozinho no forno e fica gritando para o namorado se casar com ela. É coisa de Thorin, é nela que ele pensa depois que o velho e feio urubu da mulher adormece e ele pega seu instrumento na mão e começa a ordenha noturna; é coisa de Thorin, a antiga lei está do lado dele e o homem tem poder. Além do mais, o que há naquela caixa foi trazido por um de seus homens, e se Jonas descobre que olhei lá dentro... que usei a bola...

Ié, mas nenhum medo por causa disso. E, aliás, a posse significava estar em nove décimos com a lei, era verdade ou não?

Ela pôs a caixa embaixo do braço, levantou as saias com a mão livre e correu pela trilha de volta à cabana. Ainda conseguia correr quando era preciso, sim, embora pouca gente fosse capaz de acreditar nisso.

Musty foi aos saltos atrás dela, a cauda fendida no ar e as pernas extras batendo de um lado para o outro sob o luar.

 

Provando a Castidade

Rhea disparou para a cabana, passou correndo pelo resto de fogo na lareira e, passando a mão no cabelo num gesto distraído, parou na porta de seu minúsculo quarto. A puta não a vira fora da cabana (certamente teria parado com um grito se a tivesse visto ou, pelo menos, começaria a tropeçar nervosa na direção da casa), o que era bom, mas o maldito esconderijo tinha se fechado outra vez, o que era ruim. Não dava tempo para abri-lo de novo. Rhea correu para a cama, ajoelhou-se e empurrou a caixa bem para o fundo das sombras que havia lá embaixo.

Bem, estava ótimo; até Susy Greengown ir embora, aquilo estava ótimo. Sorrindo pelo lado direito da boca (o esquerdo estava quase todo paralisado), Rhea se levantou, sacudiu o vestido e foi ao encontro de seu segundo compromisso da noite.

 

Atrás dela, a tampa não trancada da caixa deu um clique e se abriu. A tampa subiu menos de 2 centímetros, mas foi o bastante para permitir que uma réstia de pulsante luz colorida de rosa brilhasse.

 

Susan Delgado parou a uns 40 metros da cabana da feiticeira, o suor provocando a sensação de frio nos braços e na nuca. E não acabara de surpreender uma velha mulher (sem dúvida aquela que tinha vindo ver) correndo pelo último trecho do caminho que vinha do alto da colina? Achava que sim.

Não pare de cantar... quando uma velha senhora corre daquele jeito é que não quer ser vista. Se você parar de cantar, ela provavelmente vai saber que a viram.

Por um momento, Susan achou que de qualquer modo ia parar... que sua memória ia se fechar como mão ansiosa e negar-lhe qualquer outro verso da melodia que cantava desde quando ainda era muito criança. Mas o próximo verso lhe ocorreu sem problemas e ela continuou (com os pés e também com a voz):

Outrora meus cuidados eram muito poucos,

Sim, outrora meus cuidados eram muito poucos.

Agora meu amor se afastou de mim

E a angústia está no meu coração para ficar.

Uma canção imprópria para uma noite como aquela, talvez, mas seu coração agia à sua própria maneira, sem muito interesse pelo que a cabeça pensava ou queria; ele sempre fora assim. Ela estava assustada em estar lá fora sob o luar, quando se dizia que os lobisomens gostavam de andar, estava assustada com sua missão e estava assustada com o que aquela missão pressagiava. Contudo, quando chegara à Grande Estrada fora de Hambry e seu coração lhe exigira que corresse, ela havia corrido... Sob a luz da Lua do Beijo e com a saia suspensa acima dos joelhos, ela havia galopado como um pônei, sua sombra galopando bem ao lado. Correra 1 ou 2 quilômetros, até cada músculo do corpo formigar e o ar que tragava pela garganta ganhar o sabor de um líquido doce, quente. E ao entrar na trilha que avançava para aquelas alturas sinistras, começara a cantar. Porque seu coração exigira isso. E ela achava que sem dúvida a idéia não fora má; na pior das hipóteses, a canção manteria sob controle seus piores medos. Pelo menos para isso cantar seria bom.

Agora avançava para o final da trilha, cantando o refrão de “Descuidado Amor”. Quando se aproximou da fraca luminosidade que passava pela porta aberta e banhava os degraus de acesso, uma voz áspera de gralha falou das sombras:

— Pare com esse berreiro, senhorita... Ele entra no meu cérebro como um anzol!

Susan, que toda a sua vida ouvira dizer que cantava com uma bela voz, um dom recebido da avó, ficou de imediato em silêncio, envergonhada. Continuou parada diante da porta com as mãos entrelaçadas na frente do avental. Sob o avental usava seu segundo melhor vestido (ela só tinha dois). Sob ele, o coração batia com muita força.

Um gato — uma coisa hedionda com duas pernas extras se projetando do lombo como um garfo de churrasco — chegou primeiro à entrada da porta. O animal ergueu os olhos para ela, parecendo avaliá-la, depois contorceu o focinho adquirindo uma expressão sinistramente humana: era um ar de desprezo. Bufou e disparou para a noite.

Bem, boa-noite para você também, Susan pensou.

A velha mulher que a tinham mandado visitar parou no umbral da porta. Olhou para Susan de cima a baixo com a mesma expressão do gato, um mortiço olhar de desprezo. Depois recuou para lhe dar passagem.

— Entre. E bata bem a porta. O vento tem a mania de escancará-la, percebe?

Susan entrou. Não queria ficar fechada naquele cômodo malcheiroso com a velha mulher, mas quando não havia alternativa, a hesitação era sempre um erro. Assim seu pai costumava dizer, quer o assunto em pauta fosse somas e subtrações ou como uma moça devia tratar os rapazes em danças no barracão, quando as mãos deles ficavam francamente arrojadas. Susan puxou a porta com firmeza e ouviu-a trancar.

— E aqui está você — disse a velha mulher, mostrando um grotesco sorriso de boas-vindas. Um sorriso que sem dúvida faria mesmo uma moça corajosa se lembrar das histórias que ouvira nos tempos de criança: contos passados no inverno, com velhas que tinham dentes quebrados e caldeirões ferventes com um repugnante líquido verde. Naquele cômodo não havia caldeirão no fogo (nem o fogo que havia lá era dos melhores, na opinião de Susan), mas a moça achou que podia ter havido algum no passado, e coisas dentro dele nas quais talvez fosse melhor não pensar. Que aquela mulher era uma verdadeira feiticeira e não apenas uma velha senhora querendo se passar por bruxa era algo de que Susan teve certeza desde o momento em que vira Rhea correndo para a cabana com o deformado gato nos calcanhares. Era algo que a pessoa podia quase cheirar, como o desagradável odor que emanava da pele da megera.

— Sim — disse a moça sorrindo. Tentou mostrar um bom sorriso, caloroso e destemido. — Aqui estou.

— E chegou muito cedo, meu pequeno doce. Cedo demais! Pois é!

— Fiz um trecho do caminho correndo. A lua entrou no meu sangue, eu acho. É o que teria dito meu pai.

O horrendo sorriso da mulher se ampliou, transformando-se em algo que fez Susan pensar no modo como as enguias pareciam às vezes sorrir após a morte e pouco antes da panela.

— Ié, mas está morto, morto há cinco anos, Pat Delgado do cabelo e da barba ruivos, a vida lhe foi tirada pelo próprio cavalo, ié, e ele chegou à clareira no fim do caminho com a música de seus próprios ossos estalando nos ouvidos, foi isso!

O sorriso nervoso deixou o rosto de Susan, como se enxotado por uma bofetada. Ardendo atrás dos olhos, ela sentiu as lágrimas, que sempre se aproximavam à simples menção do nome do pai. Mas não as deixaria correr. Não na frente daquela velha gralha sem coração, não.

— Vamos logo tratar do que temos a tratar — disse numa voz seca bem distante de seu tom habitual, um tom geralmente simpático, alegre, pronto para o riso. Mas ela era a filha de Pat Delgado, filha do melhor tropeiro que já existiu na Baixa Ocidental e se lembrava muito bem de sua face; podia mostrar um temperamento mais forte se fosse necessário, como agora obviamente era. A velha mulher pretendia estender a conversa, cavar o mais que pudesse e, quanto mais achasse que seus esforços estavam sendo bem-sucedidos, mais fundo ia querer chegar.

A megera também não parava de observar Susan com ar astuto. Tinha as mãos, com aqueles nós dos dedos tão salientes, plantadas na cintura enquanto o gato ondulava em volta de seus tornozelos. Os olhos estavam remelentos, mas Susan via o bastante deles para perceber que tinham o mesmo tom cinza-esverdeado dos olhos do gato e se perguntou que tipo de coisa mágica aquilo podia ser. Sentiu um ímpeto — bastante forte — de baixar a cabeça, mas não o fez. Nenhum problema em ter medo, mas podia ser uma péssima idéia deixar isso transparecer.

— Parece atrevida, mocinha — Rhea disse por fim, o sorriso aos poucos se dissolvendo num franzido petulante.

— Não, velha mãe — Susan respondeu calmamente. — Sou só alguém que deseja tratar do assunto para que veio e ir embora. Vim até aqui a pedido de Meu Senhor, prefeito de Mejis, e de minha tia Cordelia, irmã de meu pai. Meu querido pai, de quem nunca ouvi ninguém falar mal.

— Falo do meu jeito — disse a velha mulher. Eram palavras de desprezo, mas havia também um traço de bajulação e servilismo na voz da megera. Susan não deu importância àquilo; era um tom que uma coisa como aquela provavelmente adotara a vida inteira e que brotava automaticamente quando ela respirava. — Há muito moro sozinha, sendo inteiramente senhora de mim, e minha língua, quando começa a se mover, vai sempre aonde quer.

— Então às vezes talvez seja melhor não deixá-la dar o primeiro passo. Os olhos da velha faiscaram sinistramente.

— Preste atenção no que diz, menina afoita, para que ninguém resolva ordenar que as palavras morram na sua boca e depois apodreçam, fazendo o prefeito pensar duas vezes antes de beijá-la por causa do fedor, ié, pensar duas vezes mesmo sob uma lua como esta!

O coração de Susan se encheu de angústia e perplexidade. Fora até lá com um único objetivo: tratar de determinado assunto o mais depressa possível, executar um mal explicado rito que poderia ser doloroso e certamente seria vergonhoso. Agora aquela velha mulher a olhava com um ódio franco, direto. Como poderiam as coisas ter dado errado tão depressa? Ou seria sempre assim com as feiticeiras?

— Começamos mal, senhora... Podemos tentar de novo? — Susan perguntou de repente, estendendo a mão.

A megera pareceu sobressaltada, embora tenha também estendido a mão e feito um breve contato, as pontas retorcidas dos dedos tocando as unhas de corte rente da moça. Aos 16 anos, com um brilho no rosto de pele clara e o cabelo comprido arrumado em tranças que lhe caíam pelas costas, Susan teve de fazer um real esforço para não reagir com uma careta ao toque, por mais breve que fosse, da mulher. Os dedos eram frios como os de um cadáver, embora não fosse a primeira vez que Susan tocava em dedos gelados (“Mãos frias, coração quente”, tia Cord às vezes dizia). A verdadeira sensação de mal-estar vinha da textura, da sensação de carne esponjosa, solta nos ossos, como se a mulher que a cumprimentava tivesse se afogado e ficado por muito tempo submersa num lago.

— Naum, naum, nada de tentar de novo — disse a velha mulher. — Mas talvez consigamos prosseguir melhor do que começamos. Você tem um poderoso amigo no prefeito e eu não gostaria de transformá-lo em meu inimigo.

Pelo menos é franca, Susan pensou, depois acabou rindo com seus botões. A mulher só estava sendo franca porque não tinha nenhuma outra saída; se pudesse agir como quisesse, mentiria acerca de tudo — do tempo, das safras, do vôo dos pássaros chegados para a Colheita.

— Veio antes do que eu esperava e isso sempre me deixa irritada, é verdade. Trouxe alguma coisa para mim, mocinha? Aposto que sim, estou certa? — Os olhos tornaram a brilhar, mas desta vez não brilhavam de raiva.

Susan pôs a mão embaixo do avental (uma estupidez ter de usar um avental para cumprir uma missão nos confins do nada, mas era o que pedia o costume) e remexeu no bolso. Ali, amarrada num cordão para não se perder com facilidade (por obra, por exemplo, de moças que de repente resolvessem correr sob o luar), havia uma bolsa de pano. Susan cortou o cordão e suspendeu a bolsa. Pousou-a na mão estendida à sua frente, a palma tão gasta que as linhas eram pouco mais que sombras. Susan teve o cuidado de não encostar novamente em Rhea... embora a velha mulher estivesse disposta a tocá-la outra vez, e muito em breve.

— É o barulho do vento que a faz tremer, mocinha? — Rhea perguntou, embora Susan tivesse certeza que sua mente estava concentrada na pequena bolsa; os dedos, agitados, soltavam o nó dos cordões.

— Sim, é o vento.

— E não sem razão. São as vozes dos mortos que se ouvem no vento e quando eles gritam assim é porque têm algo a lamentar... ah!

O nó cedeu. A mulher soltou o cordão e duas moedas de ouro caíram na sua mão. Eram toscas, irregularmente cunhadas — há gerações não eram fabricadas —, mas pareciam pesadas e as águias gravadas nas faces tinham um certo poder. Rhea levou uma à boca, contraiu os lábios revelando alguns dentes horríveis e mordeu. A megera contemplou as marcas leves que os dentes haviam deixado no ouro. Ficou vários segundos observando aquilo, extasiada, depois apertou com força os dedos ao redor das moedas.

Enquanto a atenção de Rhea estava distraída pelas moedas, Susan olhou por acaso pela porta aberta à sua esquerda e encontrou o que presumiu fosse o quarto de dormir da bruxa. E ali viu uma coisa estranha e inquietante: uma luz embaixo da cama. Uma luz rosada, pulsante. Parecia estar saindo de uma espécie de caixa, embora ela não pudesse de todo...

A feiticeira ergueu a cabeça e Susan deslocou rapidamente os olhos para um canto da sala, onde havia uma rede, com três ou quatro estranhas frutas brancas, pendurada num gancho. Então, quando a mulher se moveu e sua enorme sombra deslizou pesadamente para longe daquele trecho de parede, Susan viu que não eram absolutamente frutas, mas caveiras. Sentiu um angustiante vazio no estômago.

— O fogo precisa ser alimentado, mocinha. Faça a volta pelo lado da casa e me traga um punhado de lenha. Estou precisando de toras de bom tamanho e não me venha dizer que não pode arrastá-las. Você é uma garota alta e forte, sem dúvida que é!

Susan, que deixara de reclamar das tarefas que lhe eram exigidas mais ou menos na época em que deixara de urinar nas fraldas, não disse nada... embora tenha realmente passado em sua mente a idéia de perguntar a Rhea se todos que lhe traziam ouro eram também convidados a arrastar sua lenha. Na verdade, ela não se importava; o ar lá fora teria um sabor de vinho após o fedor da cabana.

Tinha quase alcançado a porta quando seu pé esbarrou em alguma coisa quente e molenga. O gato uivou. Susan tropeçou e quase caiu. Atrás dela, a velha emitiu uma série de ruídos arquejantes, sufocados, que Susan acabou identificando como riso.

— Cuidado com o Musty, docinho! Ele é brincalhão! E às vezes traiçoeiro, é mesmo! Pois é! — E a mulher explodiu em outra gargalhada.

O gato ergueu o focinho para Susan, orelhas recuadas, os olhos cinza-esverdeados muito abertos. Bufou. E Susan, só percebendo o que estava fazendo depois de ter feito, bufou também. Como aquela expressão de desprezo, o olhar de espanto de Musty foi estranhamente — e, neste caso, comicamente — humano. Musty virou as costas e fugiu para o quarto de Rhea, a cauda fendida açoitando o ar. Susan empurrou a porta e saiu para pegar a lenha. Tinha a impressão de já estar ali há mil anos e de que talvez ainda se passassem outros mil antes de poder voltar para casa.

 

O ar era doce como ela havia previsto, talvez mais doce ainda e, por um instante, ficou parada diante da porta, respirando fundo, tentando limpar os pulmões... e a cabeça.

Após cinco boas respirações, pôs-se em movimento. Seguiu pelo lado da casa... mas devia ser o lado errado, pois não encontrou nenhum monte de lenha. Havia, no entanto, meio escondida atrás de uma trepadeira feia e seca, uma fenda muito estreita que se fazia passar por janela. Ficava mais ou menos nos fundos da casa e devia dar para o cubículo de dormir da mulher.

Não olhe por aí; o que há debaixo da cama, seja lá o que for, não é da sua conta, e se ela a pegar espiando...

Apesar das advertências, aproximou-se da janela e deu uma espiada.

Era improvável que Rhea conseguisse ver o rosto de Susan atrás do parasita espesso que substituía a hera, mesmo que a velha bruxa estivesse olhando naquela direção — e não estava. Estava ajoelhada. Com a bolsa de cordão presa num dente, esticava a mão sob a cama.

Puxou uma caixa e abriu a tampa, que já estava entreaberta. A face da mulher foi inundada por um suave brilho rosado e Susan ofegou. Por um momento foi a face de uma jovem... mas cheia de crueldade assim como de juventude, a face de uma criança teimosa determinada a aprender todas as coisas erradas por todas as razões erradas. Talvez a face da moça que a megera fora um dia. A luminosidade parecia estar vindo de uma espécie de bola de vidro.

A velha mulher contemplou a bola por algum tempo, olhos arregalados, fascinados. Os lábios se moveram como se estivesse falando com a coisa ou talvez até cantando para ela; a bolsinha que Susan trouxera da cidade, com o cordão ainda preso no dente, balançava para cima e para baixo enquanto a mulher falava. Então, aparentemente como resultado de uma grande força de vontade, a mulher fechou a caixa, tapando a luz rosada. Susan sentiu-se aliviada... Havia algo ali que não lhe agradava.

A velha fechou uma das mãos na fechadura de prata que havia no meio da tampa e uma luz escarlate escapou entre seus dedos. Tudo isto com a bolsa de cordão pendendo da boca. Então pôs a caixa na cama, ajoelhou-se e começou a passar as mãos pelo chão sob a beirada da cama. Embora as palmas das mãos só se aproximassem do solo, iam aparecendo linhas, como se ela estivesse usando uma ferramenta de desenho. As linhas escureceram, transformando-se numa espécie de entalhe.

A lenha, Susan! Pegue a lenha antes que ela perceba quanto tempo está demorando! Pelo amor de seu pai!

Susan puxou a saia até a cintura — não queria que a mulher visse sujeira ou folhas em sua roupa quando voltasse para dentro, não queria responder às perguntas que a visão dessas coisas poderia provocar — e rastejou sob a janela com a calcinha branca de algodão cintilando ao luar. Assim que ultrapassou a janela, ficou novamente em pé e recomeçou a contornar, rápida e silenciosamente, a extremidade da cabana. Acabou encontrando a pilha de lenha sob um velho couro de animal cheirando a mofo. Pegou meia dúzia de ripas de bom tamanho e voltou para a frente da casa com elas nos braços.

Quando entrou, virando de lado para passar com a lenha pela porta sem deixar cair nenhuma ripa, encontrou a velha de novo na sala. Olhava de mau humor para a lareira, onde praticamente só havia brasas. Não havia sinal da bolsa de cordões.

— Demorou bastante, mocinha — disse Rhea. Continuava a olhar para a lareira, como se Susan não tivesse a menor importância... mas um pé batia no chão sob a suja bainha do vestido e as sobrancelhas tinham se aproximado numa testa franzida.

Susan atravessou a sala, espreitando entre a pilha de lenha que trazia nos braços para ver por onde andava. Não ficou nem um pouco surpresa ao ver o gato de tocaia por perto, esperando o momento mais adequado para fazê-la tropeçar.

— Vi uma aranha — disse ela. — Dei-lhe com o avental para ver se corria. Não suporto ver aranhas, detesto.

— Muito em breve vai encontrar uma coisa que gostará ainda menos de ver — disse Rhea, mostrando seu peculiar sorriso de um lado só da boca. — Ela sairá do camisão de dormir do velho Thorin, dura como um bastão e vermelha como ruibarbo! Pois é! Espere um minuto, garota; pelos deuses, trouxe o suficiente para o acampamento de um Dia de Feira.

Rhea tirou duas boas ripas da pilha de Susan e atirou-as com ar distraído sobre os carvões. Chamas fracas desenharam espirais na escuridão e crepitaram no cano da chaminé. Mas olhe, está espalhando o que resta do seu fogo, sua velha tola, e provavelmente vai ter de acender desde o primeiro graveto, Susan pensou. Então Rhea estendeu para a lareira a mão espalmada, proferiu uma palavra rouca e as toras começaram a arder como se estivessem ensopadas de azeite.

— Ponha o resto ali — disse apontando para a caixa de lenha. — E cuidado para não espalhar nada no chão, mocinha.

E sujar estas ripas tão limpinhas?, Susan pensou mordendo as bochechas por dentro para sufocar o sorriso que queria transparecer em sua boca.

Rhea, no entanto, talvez tenha percebido a coisa; quando Susan se recompôs, a velha a contemplava com uma expressão severa, inteligente.

— Está bem, minha senhora — disse Rhea —, vamos logo tratar de nosso assunto. Sabe por que está aqui?

— Vim a mando do prefeito Thorin — Susan repetiu, sabendo que era uma resposta falha. Agora estava assustada... mais assustada do que quando olhara pela janela e vira a mulher cantarolando para a bola de cristal. — A esposa dele tem se mostrado estéril ao final de cada tentativa. Ele deseja ter um filho antes que fique também incapaz de...

— Calada, me poupe das bobagens e palavras finas. Ele quer vagina e tetas que não excitem apenas seus dedos e uma caixa que não solte o que ele empurrar para lá. Se, é claro, ainda for homem para empurrar. Se sair um garoto, ié, muito bom, ele dará a criança para você criar e educar até que tenha idade suficiente para a escola; depois disso você não o verá mais. Se for menina, provavelmente vai tirá-la logo de você e entregá-la a seu novo capitão, aquele com a cabeleira de menina e a perna manca, que vai afogá-la no charco mais próximo.

Susan arregalou os olhos, chocada a mais não poder.

A velha viu o olhar e riu.

— Não gosta de como soa a verdade, não é? Poucos gostam, mocinha. Mas sua tia sempre foi uma mulher trabalhadeira que cuidou bem de Thorin e dos tesouros de Thorin, embora a contribuição que ele deu em ouro possa ter ficado abaixo do que ele espera de você em filhos! Pois é! Tire esse vestido!

Não vou tirar, foi o que começou a brotar nos lábios de Susan, mas para que dizer aquilo? Para ser expulsa da cabana (e ser expulsa exatamente como tinha vindo, não como um lagarto ou uma rã saltitante seria provavelmente o destino mais piedoso que poderia esperar) e mandada para oeste com a roupa do corpo, sem ao menos as duas moedas de ouro que levara para lá? E isso era apenas a parte menos pior. A outra parte era que ela tinha dado sua palavra. A princípio havia resistido, mas quando tia Cord invocara o nome de seu pai, Susan cedera. Como sempre cedia. Na realidade não tinha opção. E quando não há alternativa, a hesitação é sempre um erro.

Susan sacudiu a frente do avental, onde lascas de madeira tinham se grudado, depois desamarrou-o e tirou-o. Dobrou o avental, estendeu-o numa almofada pequena e encardida perto da lareira e desabotoou o vestido até a cintura. Depois sacudiu os ombros, fez o vestido cair e saiu de dentro dele. Dobrou-o e estendeu-o sobre o avental, tentando ignorar o modo voraz com que Rhea, da colina Cöos, a observava à luz do fogo. O gato serpenteou com volúpia pelo assoalho, sacudindo o grotesco par de pernas extras, e sentou-se aos pés de Rhea. Do lado de fora, o vento soprava com força. Fazia calor perto da lareira, mas Susan continuava sentindo o mesmo frio, como se, de alguma maneira, o vento tivesse conseguido entrar nela.

— Depressa, garota, pelo amor de seu pai!

Susan puxou a camisa pela cabeça, dobrou-a sobre o vestido e ficou parada de calcinha no meio da sala, os braços dobrados sobre os seios. O fogo desenhava quentes tiras alaranjadas em suas coxas; deixava círculos de sombras negras nas tenras dobras atrás dos joelhos.

— E ainda não está nua! — riu a velha gralha. — Se bem que não falta muito! Bem, aqui vamos nós, muito bom! Tire essa calcinha, minha senhora. Fique como saiu de dentro de sua mãe! Se bem que na época ainda não tinha certos dotes capazes de atender aos gostos de Hart Thorin, não é? Pois é!

Sentindo-se apanhada num pesadelo, Susan fez como lhe era mandado. Com seu sexo e pêlos a descoberto, os braços cruzados pareciam pura tolice. Deixou-os cair ao lado do corpo.

— Ah, não admira que ele queira você! — disse a velha. — Você é tão bonita, e inteira! Não é, Musty?

O gato uivou um miado.

— Seus joelhos estão sujos — Rhea disse de repente. — Como aconteceu?

Susan teve um horrível momento de pânico. Levantara a saia para rastejar embaixo da janela da megera... e sujara os joelhos.

Então uma resposta acudiu aos seus lábios e ela conseguiu falar com bastante calma.

— Quando vi a cabana pela primeira vez, fiquei amedrontada. Me ajoelhei para rezar e levantei a saia para não sujá-la.

— Estou comovida... Querer encontrar de vestido limpo pessoas como eu! Como é bondosa! Não concorda, Musty?

O gato uivou seu miau e começou a lamber uma das patas.

— Vamos continuar — disse Susan. — Você foi paga e estou lhe obedecendo, mas pare de caçoar de mim e faça o que tem de fazer.

— E a senhora sabe o que eu tenho de fazer?

— Não sei — disse Susan. As lágrimas estavam perto de novo, queimando o fundo de seus olhos, mas não as deixaria cair. Não ia deixar. — Faço uma idéia, mas quando perguntei à tia Cord se eu estava certa ela disse que você trataria de me instruir a esse respeito.

— Tia Cord não sujaria a boca com certas palavras, não é? Bem, não faz mal. Só que sua tia Rhea talvez não seja tão boazinha a ponto de dizer o que tia Cordelia não quis dizer. Mas posso atestar que está física e espiritualmente intacta, mocinha. Os mais velhos chamavam isto de “provar a castidade” e é um nome bastante bom. Então é isso. Venha até aqui.

Susan avançou dois passos relutantes, quase tocou com a ponta dos pés os chinelos da velha e seus seios nus quase tocaram o vestido da outra.

— Se algum espírito ou demônio poluiu seu espírito e puder corromper a criança que você venha a gerar, haverá certamente uma marca física. Na maioria das vezes é uma marca de chupada ou mordida de amor, mas há outras... Abra a boca!

Susan obedeceu e quando a velha se inclinou para espiar, o mau cheiro foi tão forte que a moça sentiu um aperto no estômago. Prendendo a respiração, rezou para que aquilo não demorasse.

— Ponha a língua de fora.

Susan pôs a língua de fora.

— Agora sopre na minha cara.

Susan exalou o ar que havia prendido. Rhea cheirou-o e então, misericordiosamente, afastou um pouco o rosto. Chegara suficientemente perto para Susan ver os piolhos saltando no cabelo.

— Bastante doce — disse a velha. — Sim, um bom petisco. Agora vire-se.

Susan obedeceu e sentiu os dedos da velha bruxa descerem por suas costas até as nádegas. As pontas dos dedos eram frias como lodo.

— Curve-se e abra as pernas, mocinha, naum seja tímida. Naum é o primeiro cú que Rhea vai ver!

Com o rosto muito vermelho — ela podia sentir a batida do coração no centro da testa e nas cavidades das têmporas —, Susan fez o que lhe mandavam. E então sentiu um daqueles dedos que pareciam de cadáver abrindo caminho em seu ânus. Susan mordeu os lábios para não gritar.

A invasão foi piedosamente breve... mas, Susan temeu, haveria outra.

— Vire.

Ela virou. A velha passou as mãos sobre os seios de Susan, examinou-os cuidadosamente por baixo e tocou de leve nos mamilos com os polegares. Rhea deixou um dedo deslizar para dentro do umbigo da moça, depois puxou a própria saia para cima e caiu de joelhos com um gemido de esforço. Passou as mãos pelas pernas de Susan, primeiro pela frente, depois por trás. Pareceu especialmente interessada na área logo abaixo da barriga das pernas, onde os tendões se juntavam.

— Levante o pé direito, moça.

Susan obedeceu e deixou escapar um riso nervoso, estridente, quando Rhea foi passando a unha do polegar por trás do joelho na direção do calcanhar. Em seguida a velha foi abrindo os dedos dos pés, olhando entre cada par.

Depois do processo ser repetido no outro pé, a mulher — ainda de joelhos — disse:

— Sabe o que vem agora?

— Sei. — A palavra saiu com uma trêmula ansiedade da boca de Susan.

— Continue parada, mocinha. Tudo o mais está bom, limpo como uma folha de salgueiro, sem dúvida, mas agora chegamos ao recanto aconchegante que é exatamente o que interessa a Thorin; chegamos ao ponto onde a castidade tem de ser realmente provada. Então continue parada!

Susan fechou os olhos e pensou nos cavalos correndo pela Baixa — nominalmente eram cavalos do Baronato, inspecionados por Rimer, chanceler de Thorin e ministro do Inventário do Baronato, mas os cavalos não sabiam disso; achavam que eram livres e, quando estamos mentalmente livres, nada mais importa.

Deixe-me mentalmente livre, livre como os cavalos na Baixa, e não permita que ela me machuque. Por favor, não permita que ela me machuque. E se ela o fizer, por favor me ajude a suportar num silêncio digno.

Dedos frios entreabriram o pêlo macio sob seu umbigo; houve uma pausa e, então, dois dedos frios deslizaram para dentro dela. Houve dor, mas só por um instante, e não foi grande; sentia mais dor quando dava uma topada ou uma canelada a caminho do banheiro no meio da noite. A humilhação era a parte má, e a repulsa ante o velho contato de Rhea.

— Está bem apertada, sem dúvida! — Rhea gritou. — No seu melhor estado! Mas Thorin vai cuidar disso, se vai! Quanto a você, minha menina, vou lhe contar um segredo que nem essa sua tia fresca com aquele nariz comprido, aquela coisa também apertada e aquelas tetinhas que parecem inchaços deve saber: mesmo uma menina que está intacta pode muito bem ter prazer de vez em quando, se souber como!

Os dedos da megera recuaram e se fecharam suavemente em volta do pedacinho de carne na entrada da fenda de Susan. Por um terrível segundo, Susan achou que ela ia beliscar aquele ponto tão sensível, que às vezes a fazia respirar fundo quando roçava contra a escora da sela durante uma cavalgada, mas em vez disso os dedos fizeram uma carícia... depois apertaram... e a moça ficou horrizada ao sentir um calor na barriga que estava longe de ser de tipo desagradável.

— Como um pequeno botão de seda — a velha cantarolou e os dedos intrometidos moveram-se mais depressa. Susan sentiu os quadris se projetarem para a frente, como se tivessem vida e vontade própria, e então pensou na expressão ávida, obstinada da mulher se debruçando sobre aquela caixa guardada no quarto, um rosto vermelho como o de uma prostituta sob um lampião de gás; pensou na bolsa de cordões com as moedas de ouro pendendo da boca franzida como alguma desmembrada peça de carne, e o calor que sentia se dissipou. Ela recuou tremendo, os braços, a barriga e os seios sendo envolvidos por um arrepio.

— Já concluiu aquilo para que foi paga — disse Susan. A voz era seca e áspera.

A cara de Rhea se contorceu.

— Naum é você quem tem de me dizer, não, não é, menina malcriada e sem pudor! Eu sei quando terminei, eu, Rhea, a Feiticeira de Cöos, e...

— Cale a boca e fique de pé antes que eu a jogue com um chute na lareira, coisa anormal.

Os lábios da velha recuaram dos poucos dentes que lhe sobravam num rosnado de cachorro e agora, Susan percebeu, ela e a bruxa estavam de volta ao ponto onde tinham estado no início: cada uma pronta para pôr as garras nos olhos da outra.

— Levante a mão ou o pé para mim, boceta sem-vergonha, e o que sair de minha casa sairá sem mãos, sem pés e cega de um olho.

— Não tenho grande dúvida de que possa fazer isso, mas Thorin ficaria muito irritado — disse Susan. Era a primeira vez na vida que invocava o nome de um homem em busca de proteção. A percepção disto lhe deu uma sensação de vergonha... mesmo que passageira. Não entendia por que tinha de se sentir assim, principalmente porque fora ela mesma quem concordara em dormir na cama dele e gerar seu filho, mas se sentia.

A velha a encarava, a face manchada se contorcendo até se vergar numa paródia de sorriso que foi pior que o rosnado. Bufando e se apoiando no braço de uma cadeira, Rhea conseguiu ficar de pé. Nesse momento. Susan começou rapidamente a se vestir.

— Sim, ele ficaria irritado. Acho que no fundo você tem razão, mocinha; tive uma noite estranha, que despertou partes de mim que deviam ter continuado adormecidas. A despeito do que possa ter havido aqui, quero cumprimentá-la por sua juventude e sua pureza... e também por sua beleza. Sim. É uma coisa bonita, não há por que duvidar. E seu cabelo... quando o deixa cair, como fará na frente de Thorin, eu sei, ao se deitar com ele... brilha como o sol, não é?

Até certo ponto aquele estado de espírito da megera agradava a Susan, mas ela também não queria encorajar tal tipo de adulação. Principalmente porque ainda podia ver a raiva nos olhos remelentos de Rhea e sentir o toque da mulher rastejando como um besouro em sua pele. Sem dizer nada, Susan se limitou a entrar no vestido, puxando-o para os ombros e começando a abotoá-lo na frente.

Talvez Rhea tenha compreendido a direção que seguiam os pensamentos da moça, pois o sorriso lhe morreu na boca e seus modos se tornaram formais. Susan observou a transformação com grande alívio.

— Bem, não importa. Sua castidade está provada; pode acabar de se vestir e ir embora. Mas, veja bem, nem uma palavra a Thorin do que se passou entre nós! As palavras que as mulheres trocam não precisam perturbar os ouvidos de um homem, principalmente alguém com a grandeza de Thorin. — Neste ponto, Rhea não pôde conter um certo esgar de repulsa. Susan não saberia dizer se ela teria ou não consciência disso. — Estamos de acordo?

De acordo com qualquer coisa, qualquer coisa, desde que eu possa me ver fora e longe daqui.

— Então me declara casta?

— Sim, Susan, filha de Patrick. Faço isso. Mas não é o que eu digo que importa. Agora... espere... em algum lugar aqui...

Tateou pelo console da lareira, empurrando tocos de velas grudados em pires rachados de um lado ou de outro, levantando primeiro um lampião de querosene, depois uma lanterna de pilhas, fixando um instante os olhos no desenho de um menino e logo colocando-o de lado.

— Onde... onde... arrrrr... aqui!

Agarrou um bloco de papel com uma capa raiada (CITGO estampado em antigas letras douradas) e um toco de lápis. Teve de folhear o bloco quase até o fim para encontrar uma folha em branco. Depois de rabiscar alguma coisa, soltou a folha da espiral de arame no alto do bloco. Estendeu o papel para Susan, que o pegou e deu uma olhada. Era uma palavra que a princípio ela não entendeu:

 

CASTA

 

Abaixo havia um símbolo.

 

— O que é isto? — Susan perguntou, batendo com o dedo no pequeno desenho.

— A marca de Rhea. Conhecida num círculo de seis Baronatos, pois é, e que não pode ser copiada. Mostre este papel a sua tia. Depois a Thorin. Se sua tia quiser ficar com o papel para mostrá-lo a Thorin... eu a conheço, acredite, e conheço seus modos autoritários... diga que não, diga que Rhea diz que não, o papel não deve ficar com ela.

— E se Thorin quiser guardá-lo?

Rhea deu de ombros sugerindo que não tinha importância.

— Deixe Thorin guardá-lo, tocar fogo nele ou limpar a bunda com ele, isso já não me diz respeito. E o papel também nada significará para você, pois você sempre soube que era virgem. Não é verdade?

Susan assentiu. Um dia, voltando a pé para casa depois de um baile, deixara um rapaz pôr a mão por dentro de sua saia por um momento ou dois, mas e daí? Era uma mulher pura. E em mais sentidos do que aquela criatura nojenta poderia perceber.

— Mas não perca o papel. A não ser que queira me visitar outra vez e se submeter pela segunda vez ao mesmo trato.

Que os deuses não a deixassem sequer pensar nisso, Susan ponderou, mas conseguiu ficar sem tremer. Pôs o papel no bolso, onde estivera a bolsinha com cordão.

— Agora vamos para a porta, mocinha. — Rhea fez o gesto de quem ia agarrar o braço de Susan, mas pareceu pensar melhor e as duas caminharam lado a lado até a porta. O cuidado que tomaram para não se tocarem fez o andar das duas parecer desajeitado. Mas uma vez lá, Rhea pegou no braço de Susan. Então, com a outra mão, apontou para o brilhante disco prateado que pairava sobre os altos da colina Cöos.

— A Lua do Beijo — disse Rhea. — São os Meados de Verão.

— Sim.

— Diga a Thorin que ele não deve levá-la para a cama... ou para um monte de feno, o chão da copa ou qualquer outro lugar... antes que a Lua do Demônio se mostre inteiramente no céu.

— Então não antes da Colheita?

Eram três meses... uma eternidade, ela achava. Susan tentou não mostrar sua satisfação com este adiamento. Imaginara que Thorin poria fim à sua virgindade quando a lua aparecesse na noite seguinte. Era impossível ignorar o modo como ele a olhava.

Rhea, enquanto isso, contemplava a lua, parecendo calcular. Sua mão foi para a longa cauda do rabo-de-cavalo do cabelo de Susan e alisou-a. Susan suportou aquilo o mais que pôde e, no momento em que sentiu que já não poderia agüentar, Rhea deixou a mão cair e concordou com a cabeça.

— Não, é, e na realidade não antes do verdadeiro final do ano, fin de año, na Noite da Feira, diga isso a ele. Diga que pode possuí-la após a fogueira. Entendeu bem?

— Verdadeiro fin de año, sim. — Ela mal conseguia conter sua alegria.

— Quando o fogo no Coração Verde queimar baixo e os últimos homens de mãos vermelhas tiverem virado cinzas — disse Rhea. — Só então e não antes disso. Tem de dizer isto a ele.

— Direi.

A mão apareceu e voltou a alisar seu cabelo. Susan suportou-a. Após aquelas boas-novas achou que seria mesquinharia agir de outro modo.

— Use o tempo entre agora e a Colheita para meditar e acumular forças para gerar o filho homem que o prefeito quer... ou talvez apenas para cavalgar pela Baixa e colher as últimas flores de seu tempo de solteira. Entendeu bem?

— Sim. — Ela fez uma mesura. — Obrigada-sai.

Rhea repeliu aquilo com um aceno, como se considerasse o gesto pura bajulação.

— Mas, olhe, não fale do que se passou entre nós. É algo que não interessa a mais ninguém.

— Não vou falar. E nosso assunto está resolvido?

— Bem... talvez haja mais uma pequena coisa... — Depois de sorrir para mostrar que era realmente pequena, Rhea pôs a mão esquerda na frente dos olhos de Susan com três dedos juntos e um separado. Brilhando no intervalo havia um medalhão prateado, que parecia ter saído do nada. De imediato os olhos da moça se fixaram nele. Até Rhea falar uma única palavra rouca ficaram assim.

Depois se fecharam.

 

Rhea contemplou a moça adormecida ao luar, nos degraus à entrada da casa. Quando tornou a guardar o medalhão dentro da manga (seus dedos eram velhos e cheios de calombos, mas se moviam com bastante habilidade quando era preciso, ah, sim), a expressão formal deixou seu rosto e foi substituída por um ar de extrema fúria. Me chutar para a lareira, não era, sua estúpida? Fazer intriga com Thorin? Mas o pior não tinham sido as ameaças nem a insolência. O pior fora o ar de repulsa quando ela rejeitou o toque de Rhea.

Boa demais para Rhea, era mesmo! E também devia se achar boa demais para Thorin, sem dúvida, ela com 16 anos e aquele belo cabelo louro descendo da cabeça, o cabelo onde Thorin sem dúvida sonhava mergulhar as mãos ao mesmo tempo em que atacasse e mergulhasse um pouco mais abaixo.

Não podia machucar a garota, por mais que o quisesse e por mais que a moça merecesse; Thorin ia no mínimo lhe tirar a bola de cristal e Rhea não poderia suportar isso. Pelo menos, ainda não. Então, não podia machucar a garota, mas podia fazer algo que estragaria o prazer de Thorin com ela, ao menos por algum tempo.

Rhea se inclinou sobre a moça, agarrou a trança comprida que lhe caía pelas costas e começou a passá-la no pulso, desfrutando aquela suavidade tão sedosa.

— Susan — murmurou. — Está me ouvindo, Susan, filha de Patrick?

— Sim. — Os olhos não se abriram.

— Então escute. — A luz da Lua do Beijo desceu sobre o rosto de Rhea, transformando-o numa caveira prateada. — Me escute bem e lembre-se. Lembre-se na caverna funda onde sua mente jamais penetra quando está desperta.

Não parava de passar a trança na mão. Sedosa e suave. Como o pequeno botão entre as pernas da garota.

— Lembrar-me — disse a moça na entrada da porta.

— Sim. Há algo que fará depois que ele tirar sua virgindade. Fará de pronto, sem nem mesmo pensar no assunto. Escute o que estou dizendo, Susan, filha de Patrick, escute com muita atenção.

Ainda alisando o cabelo da moça, Rhea pôs os lábios franzidos na suave concha da orelha de Susan e sussurrou alguma coisa sob o luar.

 

Um Encontro na Estrada

Nunca tivera na vida uma noite tão estranha e provavelmente não era de espantar que não tivesse ouvido o cavaleiro se aproximando por trás até estar quase em cima dela.

A coisa que mais a perturbava durante o caminho de volta à cidade era sua nova compreensão do pacto que fizera. Era bom ter um adiamento (se passariam meses antes de ser obrigada a cumprir o resto de sua parte no trato), mas um adiamento não alterava o fato elementar: quando a Lua do Demônio estivesse completa, perderia a virgindade para o prefeito Thorin, um homem magro demais, de andar torto, com um ralo cabelo branco brotando como nuvem ao redor de uma área calva no alto da cabeça. Um homem que a esposa encarava com um abatimento, uma tristeza tão dolorosa de se ver quanto a figura dele. Hart Thorin era um homem que ria estrepitosamente quando uma trupe de atores encenava uma peça envolvendo cabeçadas, brigas simuladas ou frutas podres atiradas nos personagens, mas que revelava um ar de confusão ante uma história trágica ou melodramática. Era um homem grosseiro, truculento, que arrotava na mesa de jantar, alguém que tinha a mania de olhar ansioso para seu chanceler cada vez que proferia uma palavra, como se precisasse se certificar de que não ofendera Rimer de alguma maneira.

Susan tinha observado todas essas coisas com muita freqüência; seu pai estivera durante anos encarregado dos cavalos do Baronato e viajara com freqüência a negócios para o litoral. Muitas vezes levara consigo a filha muito amada. Ah, Susan já tinha encontrado muitas vezes Hart Thorin nos últimos anos e ele também já a vira bastante. Talvez demais! E o que agora parecia o fato mais importante a seu respeito era ser ele quase cinqüenta anos mais velho que ela, a moça que talvez gerasse seu filho.

Mas fizera o trato com facilidade...

Não, não exatamente com facilidade, seria injusta consigo mesma se pensasse assim... mas não perdera muito sono para fechar a coisa, isso era verdade. Depois de ouvir todos os argumentos da tia Cord, havia pensado: Bem, não é tanta coisa assim em troca da documentação das terras; para finalmente possuir de fato, e não só por tradição, nosso pequeno pedaço da Baixa... para ter realmente as escrituras, uma em nossa casa e outra nos fichários de Rimer, dizendo que aquilo é nosso. Sim, para termos de novo cavalos. Só três, é verdade, mas são três além do nenhum que temos agora. E o que é preciso? Deitar com ele uma vez ou duas, e gerar uma criança, coisa que milhões de mulheres já fizeram antes de mim sem nenhum prejuízo. E não é, afinal, com um mutante ou um leproso que estão me pedindo para dormir. Ele é apenas um homem velho com as juntas barulhentas. A coisa não é para sempre e, como diz tia Cord, ainda posso me casar se o tempo e o ka assim determinarem; eu não seria a primeira mulher a chegar a cama do esposo já como mãe. E vou me transformar numa puta por agir assim? A lei diz que não, mas isso não importa; a lei de meu coração é que comanda e meu coração diz que, se posso ganhar a terra que foi de meu pai e três cavalos para cavalgar por ela, não me importaria de ser uma puta.

Havia mais alguma coisa: tia Cord havia trabalhado — um tanto cruelmente, Susan agora via — sobre a questão da criança. Era no bebê que tia Cord insistira, a gracinha de bebê que ela teria. Tia Cord sabia que Susan, guardadas as bonecas da infância há relativamente pouco tempo, adoraria a idéia de ter seu próprio bebê, uma bonequinha viva para vestir, alimentar e com quem se aconchegar no calor da tarde.

O que Cordelia havia ignorado (talvez fosse inocente demais até mesmo para pensar na idéia, Susan ponderou, embora não acreditasse muito nisso) era o que a megera deixara brutalmente claro naquela noite: Thorin queria mais que um filho.

Ele quer vagina e tetas que não excitem apenas seus dedos e uma caixa que não solte o que ele empurrar para lá.

A simples lembrança daquelas palavras fez sua face latejar enquanto ela caminhava no escuro em direção à cidade, depois que a lua se pôs (nenhum espírito positivo funcionando agora; e nenhuma canção). Ela fizera o trato com vagas imagens de como o gado se reproduzia — os animais cruzavam “até o sêmen pegar”, depois se separavam. Mas começava a perceber que Thorin poderia querê-la muitas e muitas vezes, e provavelmente ia querê-la muitas e muitas vezes, e a lei comum, sólida como ferro há duzentas gerações, dizia que o homem podia continuar a deitar com a mulher até que ela, que havia provado sua castidade ao consorte, pudesse provar também sua capacidade de gerar um filho, e um filho para ser o orgulho de todos, não uma aberração mutante. Susan fizera sondagens discretas e sabia que esta segunda prova geralmente ocorria no quarto mês de gravidez... mais ou menos na época em que a barriga começaria a aparecer, mesmo com Susan vestindo todas as suas roupas. E caberia a Rhea fazer a avaliação... e Rhea não gostava dela.

Agora que era tarde demais (agora que aceitara o pacto formalmente proposto pelo chanceler, agora que tivera a castidade provada por aquela estranha cadela), se arrependia do trato. Não parava de pensar em como seria a figura de Thorin com a calça arriada, as pernas brancas e esqueléticas como as pernas de uma cegonha e como, quando se deitassem, ela ouviria os ossos compridos estalando: nos joelhos, nas costas, nos cotovelos, no pescoço.

E os nós dos dedos. Não se esqueça dos nós dos dedos.

Sim. Os grandes nós dos dedos de um velho, com cabelos crescendo deles. Susan deu uma risadinha com a idéia, era realmente cômica, mas ao mesmo tempo uma lágrima quente escorreu pelo canto de um de seus olhos e lhe deixou uma marca no rosto. Susan a enxugou sem mesmo percebê-la, assim como não percebera o barulho dos cascos se aproximando na poeirenta estrada de terra. Sua cabeça continuava muito longe, voltando agora à estranha coisa que tinha visto pela janela do quarto da velha — a luz suave mas um tanto desagradável saindo do globo rosado, o ar hipnotizado da megera contemplando o vidro...

Quando Susan finalmente ouviu o cavalo, seu primeiro e alarmado pensamento foi que tinha de correr para as árvores que havia na beira da estrada e se esconder atrás delas. As chances de alguém honesto estar na estrada numa hora daquelas lhe pareciam pequenas, principalmente quando dias tão ruins haviam chegado ao Mundo Médio. Infelizmente, não dava tempo para se esconder.

Pensou então na vala na beira do caminho, em procurar se encolher dentro dela. Sem a lua, havia pelo menos a esperança de que quem estivesse ali passasse sem...

Mas antes que pudesse começar a correr para a vala, o cavaleiro que cavalgara sorrateiramente enquanto ela remoía seus complicados pensamentos de arrependimento gritou:

— Boa-noite, senhora, e que seus dias sejam longos sobre a terra. Ela se virou, pensando: E se fosse um daqueles homens que estavam agora sempre rondando na Casa da Prefeitura ou no Repouso dos Viajantes? Não o mais velho, a voz não era trêmula como a dele, mas talvez um dos outros... podia ser aquele que chamavam Depape...

— Boa-noite — ouviu sua voz responder ao vulto de homem no cavalo alto. — Que os seus dias também sejam longos.

A voz de Susan não tremia, pelo menos ela não ouvia um tremor. Não achava que fosse Depape nem o sujeito chamado Reynolds. A única coisa que podia dizer com certeza era que o sujeito usava um chapéu de aba caída, do tipo que associava aos homens dos Baronatos Interiores, vistos por ela no tempo em que as viagens entre leste e oeste eram mais freqüentes. Antes de John Farson — o Homem Bom — chegar e o banho de sangue começar.

Quando o desconhecido emparelhou com ela, Susan parou de se culpar por não ter ouvido a aproximação... Não havia fivelas nem guizos nos arreios e tudo parecia amarrado de modo a não abanar ou sacudir. Era quase a equipagem de um fora-da-lei, um saqueador (tinha a impressão de que Jonas, o de voz trêmula, e seus dois amigos talvez já tivessem se enquadrado nos dois tipos, ainda que em outra época e em outros climas) ou um pistoleiro. Mas aquele homem não portava armas, a não ser que estivessem ocultas. Tinha um arco na frente da sela e o que parecia uma lança num estojo, mais nada. E se fosse o caso, ela ponderava, jamais tinha havido um pistoleiro assim tão novo.

O homem fez um som pelo canto da boca para o cavalo, exatamente como o pai costumava fazer (e ela também, é claro). O animal parou de imediato. Quando ele, com inconsciente graça, passou uma perna por cima da sela para descer, Susan disse:

— Não, não, não precisa se incomodar, forasteiro, continue no seu caminho!

Se ouviu o alarme na voz dela, o cavaleiro não prestou atenção. Deslizou do cavalo, não se preocupando em apoiar o pé no estribo, e seus pés pousaram ruidosamente no chão na frente dela, a poeira da estrada formando uma nuvem em volta das botas de bico quadrado. Graças à luz das estrelas, Susan pôde ver como era de fato jovem, quase da mesma idade dela, um pouco menos, um pouco mais. Usava as roupas de um vaqueiro trabalhando no pasto, mas eram roupas novas.

— Will Dearborn, a seu serviço — disse ele tirando o chapéu, arrastando um dos pés sobre o salto da bota e curvando a cabeça como era costume nos Baronatos Interiores.

O espanto ante tão absurda cortesia, ali, no meio de lugar nenhum, com o cheiro ácido da sujeira oleosa das margens da cidade já em suas narinas, livrou-a do medo e lhe deu vontade de rir. Achou que provavelmente aquilo ia ofender o rapaz, mas ele sorriu. Um bom sorriso, honesto, sem artifícios, a frente da boca mostrando dentes alinhados, regulares.

Ela também retribuiu com uma pequena cortesia, segurando um dos lados do vestido.

— Susan Delgado, para servi-lo.

Ele bateu três vezes na garganta com a mão direita.

— Obrigado-sai, Susan Delgado. Que o nosso encontro seja feliz. Não pretendi sobressaltá-la...

— Mas foi o que fez, um pouco.

— Sim, acho que foi. Desculpe.

Sim. Não ié, mas sim. Pelo modo de falar, um jovem dos Baronatos Interiores. Susan o olhou com mais interesse.

— Naum, não precisa se desculpar, pois eu estava mergulhada demais em meus pensamentos — disse ela. — Tinha ido ver uma... amiga... e só percebi como já era tarde quando não vi mais a lua no alto. Agradeço sua gentileza de ter parado, forasteiro, mas pode seguir seu caminho que vou continuar no meu. Vou mesmo para o limite do povoado... Hambry. Agora está perto.

— Uma fala bonita e bons sentimentos — ele respondeu com um sorriso —, mas é tarde, está sozinha e acho que podemos muito bem seguir juntos. Você cavalga, sai?

— Sim, mas realmente...

— Suba e conheça meu amigo Rusher. Ele pode carregá-la pelos últimos três quilômetros. E castrado, sai, e manso.

Susan fitou Will Dearborn com um misto de divertimento e irritação. O pensamento que cruzou sua mente foi: Se ele voltar a me chamar de sai, como se eu fosse sua professora primária ou uma tia-avó tremendamente velha, vou tirar este estúpido avental e lhe dar uma surra.

— Nunca tive a menor preocupação com um cavalo suficientemente dócil para suportar uma sela. Até sua morte, meu papá cuidou dos cavalos do prefeito... e nessa região o prefeito é também Guarda do Baronato. Vivi sempre cavalgando.

Susan achou que ele fosse se desculpar, talvez gaguejando um pouco, mas o rapaz se limitou a balançar a cabeça com um olhar de calma reflexão, que ela apreciou.

— Então pise no estribo e suba, minha senhora. Caminharei do seu lado e não vou perturbá-la com nenhuma conversa, se preferir assim. É tarde e, segundo alguns, as conversas se tornam desinteressantes depois que a lua se põe.

Ela balançou negativamente a cabeça, mas abrandando a recusa com um sorriso.

— Naum. Agradeço a gentileza, mas acho que não ficaria bem me verem montada no cavalo de um jovem desconhecido às 11 da noite. Suco de limão não tira manchas da reputação de uma senhora do modo como tira de uma blusa, você sabe.

— Não há ninguém aqui para vê-la — disse o rapaz num tom febrilmente razoável. — E posso ver como está cansada. Vamos, sai...

— Por favor, não me chame assim. Isso faz com que eu me sinta velha como uma... — Ela hesitou por um instante, pesando a palavra (bruxa) que lhe viera à cabeça. — ...como uma avó.

— Sra. Delgado, então. Tem certeza que não quer montar?

— Certeza absoluta. E de qualquer modo eu não montaria de vestido em hipótese alguma, Sr. Dearborn... Nem mesmo se o senhor fosse meu irmão. Não seria adequado.

O rapaz pisou no estribo, estendeu a mão para o outro lado da sela (Rusher suportou docilmente o movimento, só sacudindo as orelhas, orelhas que Susan também teria gostado muito de sacudir se estivesse na pele de Rusher — eram muito bonitas) e desceu segurando uma peça de roupa enrolada. Estava amarrada com um cordão de couro. Susan achou que fosse um poncho.

— Pode estender isto pelo colo e pelas pernas como um guarda-pó — disse ele. — Há fazenda suficiente para manter o seu decoro. A manta era de meu pai e ele é mais alto que eu. — O rapaz desviou um instante o olhar para as colinas no ocidente e Susan viu que era bonito, uma beleza dura que não combinava com sua juventude. Sentiu um pequeno tremor dentro de si e lamentou pela milésima vez que aquela velha infame não tivesse mantido as mãos estritamente no que o exame exigia, por mais desagradável que tal exame pudesse ser. Susan não queria olhar para aquele bonito forasteiro e se lembrar do toque de Rhea.

— Naum — ela disse suavemente. — Obrigada de novo, reconheço sua amabilidade, mas tenho de recusar.

— Então vou caminhar com você e Rusher só nos acompanhará — disse ele num tom animado. — Pelo menos até os limites da cidade, não haverá olhos para ver e pensar mal de uma jovem senhora perfeitamente distinta e um rapaz mais ou menos distinto. E uma vez lá, toco no chapéu e lhe desejo uma ótima noite.

— Gostaria que não fosse comigo. Acredite. — Susan passou rapidamente a mão na testa. — É fácil dizer que não haverá olhos para nos ver, mas às vezes os olhos estão justamente onde não deveriam estar. E minha posição é... um pouco delicada no meio da noite.

— Ainda assim andarei com você — ele repetiu e agora tinha uma sombra no rosto. — Não estamos numa época boa, Sra. Delgado. Aqui em Mejis a senhora está longe dos problemas piores, mas às vezes os problemas chegam longe.

Ela abriu a boca — para protestar de novo, o rapaz supôs, talvez para dizer que a filha de Pat Delgado era capaz de cuidar de si mesma — e então pensou nos novos homens do prefeito e no modo frio como passavam os olhos por ela quando a atenção de Thorin estava em outro lugar. Tinha visto aqueles três naquela noite mesmo, ao iniciar a jornada para a casa da bruxa. E tinha ouvido os três se aproximarem, mas a tempo de abandonar a estrada e se esconder atrás de uma oportuna árvore piñon (ela se recusava a admitir que tinha de fato se escondido). O grupo havia seguido caminho e ela deduziu que logo estariam bebendo no Repouso dos Viajantes, onde deviam ficar até que Stanley Ruiz fechasse o bar... mas não havia como ter certeza disso. Eles podiam voltar.

— Se não posso fazê-lo mudar de idéia, muito bem — disse ela suspirando com um ar de resignação irritada, que no fundo não sentia. — Mas só até a primeira caixa de correio... a da Sra. Beech. Ela marca o início da cidade.

O rapaz tornou a bater na garganta e fez outra daquelas absurdas mas encantadoras mesuras: o pé avançando como se fosse dar uma rasteira em alguém, o calço da bota riscando a terra.

— Obrigado, Sra. Delgado!

Pelo menos não me chamou de sai, ela pensou. Já é um começo.

 

Achou que, a despeito da promessa de se manter em silêncio, ele ia falar pelos cotovelos, pois era assim que os rapazes agiam com ela. Não se envaidecia de ser olhada, mas sabia que tinha boa aparência, exatamente pelo fato de os rapazes não poderem calar a boca ou parar de mexer os pés quando estavam a seu lado. E aquele estranho certamente viria com perguntas que os rapazes da cidade já não precisavam fazer — quantos anos tinha, se tinha morado sempre em Hambry, onde moravam os pais e meia centena de outras igualmente aborrecidas. No final, ele como os outros se concentraria na mesma dúvida: tinha um namorado firme?

Mas Will Dearborn, dos Baronatos Interiores, não lhe fez perguntas sobre escola, família ou namorados (o modo de abordagem preferido por qualquer rapaz romântico, ela descobrira). Will Dearborn se limitou a caminhar ao lado dela, uma das mãos na rédea de Rusher, olhando para leste, na direção do mar Claro. Embora o vento estivesse vindo do sul, estavam suficientemente perto do litoral para o ardente cheiro de sal se misturar com o fedor pesado do óleo.

Ao passarem por Citgo, ela se sentiu satisfeita com a presença de Will Dearborn, mesmo que o silêncio dele fosse um pouco irritante. Susan sempre achara a reserva petrolífera, com sua esquelética floresta de torres de perfuração, um tanto fantasmagórica. A maioria daquelas torres de aço há muito tinha parado de bombear e não existiam as peças, nem a necessidade, nem o conhecimento para consertá-las. E as que ainda funcionavam — 19 em cerca de duzentas — não podiam ser desligadas. Elas simplesmente bombeavam e bombeavam, como se os depósitos de óleo do subsolo fossem inesgotáveis. Um pouco de óleo ainda era usado, mas muito pouco — a maioria do petróleo simplesmente voltava para os poços sob as mortas estações de bombeamento. Havia um número cada vez menor de máquinas usando o óleo, um número que diminuía a cada ano. O mundo seguira adiante e aquele lugar sugeria a Susan um estranho cemitério mecânico, onde alguns cadáveres ainda não haviam sido inteiramente...

Alguma coisa fria e lisa roçou em sua nuca e ela não conseguiu sufocar de todo um pequeno grito. Will Dearborn virou para ela, as mãos caindo para o cinturão. Então ele relaxou e sorriu.

— É o meio que Rusher tem de dizer que se sente ignorado. Desculpe, Sra. Delgado.

Ela olhou para o cavalo. Rusher olhou mansamente para trás, depois baixou a cabeça como a dizer que também se desculpava por tê-la assustado.

Não é bem isso, garota, Susan pensou, ouvindo a voz calorosa e o tom sensato do pai. Ele quer saber por que está sendo tão pouco sociável, é isso. E eu também não entendo. Você não costuma ser assim, não costuma.

— Sr. Dearborn, mudei de idéia — disse ela. — Gostaria de montar.

 

Ele virou de costas e ficou parado, com as mãos nos bolsos, olhando para a Citgo, enquanto Susan primeiro estendia o poncho sobre a patilha da sela (a sela preta plana com que um vaqueiro trabalha, sem a marca do Baronato ou mesmo um sinete de rancho para identificá-la) e depois subia no estribo. Ao erguer a saia, olhou atenta ao redor, certa de que o rapaz ia tentar uma espiadinha, mas ele continuou de costas. Na realidade, parecia fascinado com as enferrujadas torres de perfuração.

O que há de tão interessante nelas, seu bobo?, ela pensou, um tanto mal-humorada... pelo fato de ser tão tarde e pela lembrança das fortes emoções do dia. Coisas velhas e sujas que estão aí há seis séculos ou mais e cujo fedor tenho sentido minha vida inteira.

— Fique parado, rapaz — disse ela sentindo os pés firmes nos dois estribos. Com uma das mãos segurava o punho da sela, com a outra as rédeas. Rusher, enquanto isso, sacudia as orelhas como a dizer que, se era isso que ela queria, também ficaria parado a noite inteira.

Ela empinou o corpo, a coxa comprida e nua cintilando sob a luz das estrelas, e sentiu a alegria que sempre sentia de estar montada... Só que naquela noite a sensação parecia um pouco mais forte, um pouco mais doce, um pouco mais abrangente. Talvez porque o cavalo fosse tão bonito, talvez porque fosse um cavalo desconhecido...

Talvez porque o dono do cavalo fosse um rapaz estranho, ela pensou, e belo.

Aquilo era absurdo, é claro... e um absurdo potencialmente perigoso. Contudo era também verdadeiro. Ele era belo.

Quando Susan abriu o poncho e estendeu-o sobre as pernas, Dearborn começou a assobiar. E ela percebeu, com um misto de surpresa e medo supersticioso, que a melodia era “Descuidado Amor”. A mesma toada que cantara enquanto subia para a cabana de Rhea.

Talvez seja o ka, garota, sussurrou a voz do pai.

Não acredito, ela pensou discutindo com ele. Não vejo o ka em cada vento ou sombra que passa, como as velhas damas que se reuniam no Coração Verde, nas noites de verão. E uma velha canção; todos a conhecem.

Talvez seja melhor que esteja certa, voltou a voz de Pat Delgado. Pois se for o ka, virá como um vento, e seus planos resistirão a ele tanto quanto um celeiro a um ciclone.

Nada de ka; não seria levada pela escuridão, pelas sombras e pelas formas sinistras das torres de perfuração de óleo a acreditar que fosse. Não o ka, apenas o encontro casual com um rapaz simpático na estrada deserta de volta à cidade.

— Já estou composta — disse com uma voz seca que nem parecia a dela. — Agora pode virar se quiser, Sr. Dearborn.

O rapaz se virou e olhou-a atentamente. Por um momento não disse nada, mas pelo brilho em seus olhos Susan percebeu que ele também a achava atraente. E embora isto a deixasse inquieta (por causa do desejo que pressentia nele), Susan também ficou contente.

— Parece muito à vontade aí em cima — disse ele. — Monta bem.

— E logo vou ter meus próprios cavalos para montar. — Agora começarão as perguntas, Susan pensou.

Mas o rapaz, como se já soubesse muita coisa acerca dela, limitou-se a concordar com a cabeça e retomar a marcha para a cidade. Sentindo-se um pouco desapontada, e sem saber exatamente por quê, Susan fez um som com o canto da boca atiçando Rusher e tocou com os joelhos em seu lombo. O animal voltou a se mexer, logo emparelhando com o dono, que lhe fez uma breve carícia no focinho.

— Como chamam aquele lugar lá embaixo? — o rapaz perguntou, apontando para as torres de perfuração.

— A reserva de óleo? Citgo. Não sei por quê.

— Ainda há bombas funcionando?

— Ié, e não há meio de pará-las. E se houver, já é desconhecido por todos.

— Ah — disse ele e isso foi tudo... apenas ah. Mas quando chegaram ao caminho cheio de mato que levava a Citgo, Dearborn deixou por um momento o posto junto ao focinho de Rusher e foi até o início da trilha, onde ficaria algum tempo contemplando a cabine de controle há muito tempo não usada. Em sua infância, vira ali uma placa dizendo SÓ PESSOAL AUTORIZADO, mas a placa voara em alguma tempestade de vento. Logo Will Dearborn estava voltando a passo rápido para o cavalo, as botas levantando nuvens daquela poeira de verão que ia se grudando em suas roupas novas.

Continuaram seguindo para a cidade, um rapaz com chapéu de aba caída, uma moça a cavalo com um poncho espalhado pelo colo e pelas pernas. A luz das estrelas se derramava sobre eles como costumava fazer com os rapazes e moças desde o início dos tempos e, a certa altura, Susan olhou para cima e viu um meteoro lampejar... uma breve e brilhante esteira alaranjada cruzando a abóbada celeste. Pensou em fazer um pedido e então, com uma espécie de pânico, percebeu que não fazia idéia do que pedir. Absolutamente nenhuma.

 

Ela se manteve em silêncio até estarem a pouco mais de um quilômetro da cidade e então fez a pergunta que tinha em mente. Planejara fazê-la depois que o rapaz começasse a fazer as dele e sentiu um certo mal-estar por ser ela a quebrar o silêncio, mas no fim das contas sua curiosidade fora demais.

— De onde veio, Sr. Dearborn, e o que o traz a este nosso pequeno pedaço do Mundo Médio... se não se importa que eu pergunte.

— Tenha certeza que não — disse ele, erguendo os olhos com um sorriso. — Estou satisfeito por falar e só estava tentando pensar em como começar. Falar não é uma especialidade minha.

Então, qual é sua especialidade, Will Dearborn?, ela se perguntou. Sim, tinha muita curiosidade em saber, pois ao ajustar sua posição na sela havia posto a mão num cobertor enrolado que havia atrás... e tinha encostado em algo que estava escondido dentro do cobertor. Algo que parecia uma arma. Não tinha de ser, é claro, mas Susan lembrou-se do modo como as mãos do rapaz haviam caído instintivamente para o cinturão na hora em que ela gritou de espanto.

— Vim do Mundo Interior. Desconfio que já tenha chegado a esta conclusão. Temos nosso jeito peculiar de nos comunicarmos.

— Ié. De que Baronato, posso perguntar?

— Nova Canaã.

Ela sentiu um pulsar de verdadeiro entusiasmo. Nova Canaã! Centro da Confederação! Isso agora tinha um significado menor que antigamente, é claro, mas ainda assim...

— Naum de Gilead? — Susan perguntou, detestando a sugestão de arrebatamento de menina-moça que ouviu em sua voz. E talvez mais que apenas uma sugestão.

— Não — disse ele com um riso. — Nada tão grande quanto Gilead. Só Hemphill, uma vila cerca de 40 rodas a oeste de lá. Menor que Hambry, sem dúvida.

Rodas, ela pensou, maravilhando-se com o arcaísmo. Ele disse rodas.

— E então o que o traz a Hambry? Pode contar?

— Por que não? Vim com dois amigos, Sr. Richard Stockworth, de Pennilton, Nova Canaã, e Sr. Arthur Heath, um rapaz extremamente alegre que de fato vem de Gilead. Estamos aqui sob as ordens da Confederação e viemos como inspetores.

— Para inspecionar o quê?

— Toda e qualquer coisa que possa ajudar a Confederação nos anos que temos pela frente — disse ele e sua voz agora, Susan percebeu, não era descontraída. — O problema com o Homem Bom ficou sério.

— É mesmo? Ouvimos poucas notícias verdadeiras nestes confins do sul e do leste do eixo.

Ele fez que sim com a cabeça.

— A distância que o Baronato está do eixo é a principal razão que nos trouxe aqui. Mejis sempre foi leal à Confederação e, se tiverem de ser enviados suprimentos desta parte dos Exteriores, eles serão mandados. A questão que precisa ser respondida é com quanto a Confederação pode contar.

— Com quanto de quê...

— Exato — ele concordou, como se Susan tivesse feito uma declaração, não uma pergunta. — E com quanto de quê.

— Fala como se o Homem Bom fosse uma verdadeira ameaça. Ele é apenas um bandido, sem dúvida, querendo ocultar seus furtos e assassinatos falando de “democracia” e “igualdade”.

Dearborn deu de ombros e, por um momento, Susan achou que ele não faria mais comentários sobre o assunto. Mas então ele continuou, com relutância:

— Talvez tenha sido assim antigamente. Mas os tempos mudaram. A certa altura o bandido se transformou em general e agora o general se transformou em alguém que comanda em nome do povo. — Depois de uma pausa, ele concluiu gravemente: — Os Baronatos do Norte e do Oeste estão em chamas, senhora.

— Bem, mas ficam a milhares de quilômetros daqui! — Aquela conversa era perturbadora, mas era também estranhamente empolgante. A maior parte dela parecia exótica após a cansativa monotonia do mundo de Hambry, onde um poço que secava dava assunto para três dias de animada conversa.

— Sim — disse ele. Não ié mas sim... o som era ao mesmo tempo estranho e agradável aos ouvidos. — Só que o vento está soprando nesta direção. — Virou-se para ela e sorriu. De novo o sorriso abrandava uma expressão dura e o fazia parecer pouco mais que uma criança acordada até tarde. — Mas acho que pelo menos hoje à noite não vamos encontrar John Farson, concorda?

Ela devolveu o sorriso.

— Se o encontrássemos, Sr. Dearborn, o senhor me protegeria?

— Sem dúvida — disse ele, ainda sorrindo —, mas eu faria isso com mais entusiasmo se a senhora me deixasse chamá-la pelo nome que seu pai lhe deu.

— Então deixo, no interesse de minha própria segurança. E acho que devo chamá-lo de Will, pelos mesmos motivos.

— Foram duas afirmações sábias e bastante precisas — disse Will, o sorriso se transformando num riso franco, largo, envolvente. — Eu...

Então, como andava com o rosto virado para o alto e um pouco virado para trás, o novo amigo de Susan tropeçou numa pedra saliente e quase caiu. Rusher relinchou e se empinou um pouco. Susan riu gostosamente. O poncho se deslocou, revelando uma perna nua, e ela demorou um momento para pôr a coisa novamente em ordem. Gostava dele, sem dúvida gostava. E que risco poderia haver ali? Afinal, era apenas um garoto. Quando ele sorria, Susan podia ver que estava apenas a um ou dois anos dos brinquedos de criança (a idéia de que ela também mal largara as bonecas tinha de algum modo lhe escapado).

— Não costumo ser tão estabanado — disse ele. — Espero não a ter assustado.

De modo algum, Will; garotos vêm dando topadas perto de mim desde que meus seios se desenvolveram.

— De modo algum — disse ela, voltando ao tópico anterior. Que a interessava muito. — Então você e seus amigos vieram a mando da Confederação para requisitar nossos bens, não foi?

— Sim. Estou muito atento à sua reserva de óleo porque um de nós terá de relatar quantas bombas de perfuração ainda trabalham...

— Posso lhe poupar esse trabalho, Will. São 19. Ele inclinou agradecidamente a cabeça.

— Fico lhe devendo esta. Mas também preciso descobrir, se for possível, que quantidade de petróleo essas 19 bombas estão extraindo.

— Será que em Canaã o número de máquinas que ainda funcionam é tão grande a ponto de tornar essa informação importante? E será que temos a alquimia necessária para transformar o petróleo numa coisa que suas máquinas possam usar?

— Neste caso precisamos de refinaria, não de alquimia, pelo menos é o que eu acho, e creio que existe uma que ainda funciona. Mas não, não temos tantas máquinas assim, embora ainda existam algumas trabalhando na geração de energia fluorescente para o Grande Salão, em Gilead.

— Incrível! — disse ela, deliciada. Vira gravuras de lâmpadas fluorescentes e candelabros elétricos, mas nunca as próprias luzes. As últimas lâmpadas de Hambry (chamadas “fachos elétricos” naquela parte do mundo, mas Susan tinha certeza que eram a mesma coisa) tinham queimado há duas gerações.

— Contou que seu pai cuidou dos cavalos do prefeito até morrer — disse Will Dearborn. — Será que o nome dele não era Patrick Delgado? Era, não é?

Susan baixou os olhos para ele um tanto sobressaltada e se sentindo puxada de volta à realidade.

— Como sabe disso?

— O nome dele estava em nossas lições de criação de animais. Estudávamos gado bovino, carneiro, porcos... e cavalos. Em todo o plantei, os cavalos eram a parte mais importante. Patrick Delgado era o homem que devíamos procurar nesse campo. Sinto saber que ele chegou à clareira no final da trilha, Susan. Aceita meus pêsames?

— Ié, e agradeço.

— Foi algum acidente?

— Ié. — Esperando que sua voz dissesse o que ela não queria dizer: esqueça este assunto, não faça mais perguntas.

— Vou ser sincero com você — disse ele e, pela primeira vez, Susan achou que estava ouvindo uma nota falsa naquele rapaz. Talvez fosse apenas sua imaginação. Certamente ela tinha pouca experiência da vida (tia Cord a lembrava disso quase todo dia), mas achava que as pessoas que saem por aí dizendo vou ser sincero com você são capazes de dizer na cara das outras que a chuva cai para cima, o dinheiro cresce em árvores e os bebês são trazidos pelo Grande Emplumex.

— Ié, Will Dearborn — disse ela, uma ponta, ainda que mínima, de secura entrando em seu tom. — Dizem que a sinceridade é a melhor atitude, não é?

Ele a olhou um tanto inseguro, mas logo seu sorriso voltou a brilhar. Aquele sorriso era perigoso, ela pensou; um sorriso areia movediça, se é que isso existia. Fácil para a pessoa entrar; talvez mais difícil de escapar.

— Nos dias de hoje não há muita Confederação na Confederação. Isso explica, em parte, por que Farson conseguiu chegar tão longe; e é o que tem feito sua ambição crescer. Ele cumpriu um longo caminho desde sua época de salteador de diligências em Garlan e Desoy, e teria chegado ainda mais longe se a Confederação não tivesse sido revitalizada. Talvez já tivesse chegado a Mejis.

Susan não imaginava o que o Homem Bom poderia querer do Baronato mais próximo do mar Claro, onde havia aquela sonolenta cidadezinha, mas permaneceu calada.

— Bem, não foi realmente a Confederação que nos mandou — disse ele. — Não nos mandaria tão longe para fazer o inventário do gado, das torres de perfuração de óleo ou dos hectares de terra cultivada.

Parou um instante, olhando para o fundo da estrada (como se procurasse mais pedras no caminho de suas botas) e alisando o nariz de Rusher com distraída suavidade. Susan achou que o rapaz estava embaraçado, talvez até envergonhado.

— Fomos mandados por nossos pais.

— Seus...

Então ela compreendeu. Eram bad boys, enviados para fazer um suposto trabalho de pesquisa no que não era inteiramente um exílio. Achava que a verdadeira tarefa que tinham em Hambry era reabilitar suas reputações. Bem, ela pensou, aquilo certamente explicava o sorriso areia movediça, não? Cuidado com ele, Susan; é o tipo que derrete corações, entope caixas de correio e de repente segue seu alegre caminho sem ao menos olhar para trás. Não por maldade, mas por simples descaso de rapaz farrista.

Isso fez com que se lembrasse de novo da velha canção, a que estivera cantando, a mesma que o rapaz havia assobiado.

— Sim, nossos pais.

Susan Delgado tinha feito uma travessura ou duas (ou talvez duas dúzias) em sua fase difícil e sentiu simpatia por Will Dearborn, apesar da cautela. E interesse. Bad boys podiam ser divertidos... até certo ponto. A pergunta era: até que ponto Will e seus companheiros tinham sido maus?

— Zoando? — ela perguntou.

— Zoando — ele concordou, ainda meio abatido, mas talvez já recuperando um certo brilho nos olhos e na boca. — Fomos advertidos; sim, advertidos muito seriamente. Houve... uma certa quantidade de bebida.

E algumas garotas apertadas com a mão que não estava apertando a caneca de cerveja? Era uma pergunta que nenhuma boa moça poderia realmente fazer, mas uma pergunta que lhe ocorreu naturalmente.

Agora o sorriso que brincara um instante nos cantos da boca do rapaz se extinguiu.

— Levamos a coisa longe demais e nada teve mais graça. Tolos como nós têm a capacidade de agir assim. Uma noite houve um pega. Uma noite sem lua. Depois da meia-noite. Todos embriagados. Um dos cavalos enfiou o casco numa toca de esquilo e quebrou uma perna. Teve de ser abatido.

Susan estremeceu. Não era a pior coisa em que podia pensar, mas era bastante desagradável. E quando ele tornou a abrir a boca, ficou ainda menos agradável.

— O cavalo era um puro-sangue, um dos três possuídos pelo pai de meu amigo Richard, que não anda muito bem de vida. Houve cenas em nossas casas que não tenho a menor vontade de lembrar, muito menos falar sobre elas. Para não alongar a história, após muito sermão e muitas propostas de punição, fomos mandados para cá, nesta pequena missão. A idéia foi do pai de Arthur. Acho que o pai de Arthur sempre esteve um pouco horrorizado com o temperamento do filho. Certamente as badernas que Arthur apronta não ocorriam por influência de George Heath.

Susan sorriu para si mesma, pensando em tia Cordelia dizendo: “Certamente ela não puxou o nosso lado da família.” Depois a pausa calculada, seguida por: “Ela teve uma tia-avó do lado materno que ficou louca... não sabia? Pois é! Tocou fogo no próprio corpo e se atirou pela Baixa. Foi no ano do cometa.”

— Seja como for — Will resumiu —, o Sr. Heath nos colocou a caminho com um dito de seu próprio pai: “O purgatório é um bom lugar para se meditar.” E aqui estamos nós.

— Hambry fica longe do purgatório.

Ele tornou a esboçar aquela engraçada mesura.

— Se estivesse mesmo, todos iam querer ser suficientemente relapsos para vir para cá ao encontro de suas bonitas cidadãs.

— Trabalhe mais um pouco essa frase — disse ela em seu tom mais seco. — Ainda está muito rude, eu acho. Talvez...

Susan ficou em silêncio quando uma percepção deprimente lhe ocorreu: teria de induzir aquele rapaz a entrar numa limitada conspiração com ela. Ou era capaz de se complicar.

— Susan?

— Eu só estava pensando. Você já chegou aqui, Will? Quero dizer, oficialmente?

— Não — disse ele, percebendo de imediato o significado da pergunta. E provavelmente já entendendo aonde a coisa ia dar. Continuou de forma bastante direta. — Só esta tarde entramos no Baronato e você é a primeira pessoa com quem falamos... a não ser que Richard e Arthur também já tenham encontrado gente daqui. Não pude dormir e por isso saí para cavalgar e pensar um pouco na vida. Estamos acampados aqui perto. — Apontava para a direita. — Naquela encosta comprida que desce para o mar.

— Ié, a Baixa, é assim que a chamam. — Susan percebeu que talvez Will e seus companheiros estivessem acampados em terras que, relativamente em breve, seriam suas por força de um documento escrito. A idéia era divertida, empolgante e um tanto assustadora.

— Amanhã vamos entrar a cavalo na cidade e apresentar nossos cumprimentos a Hart Thorin, My Lord prefeito. Ele é meio maluco, segundo o que nos informaram antes de deixarmos Nova Canaã.

— Disseram mesmo isso a vocês? — ela perguntou, erguendo uma sobrancelha.

— Sim... meio tagarela, chegado a um bom copo, ainda mais chegado a garotas novas — disse Will. — Isso é verdade, não é?

— Acho que terá de julgar por si mesmo — disse ela, sufocando um sorriso com algum esforço.

— Seja como for, também estaremos nos apresentando ao venerável Kimba Rimer, chanceler de Thorin, e pelo que sei ele conhece as manias do prefeito. E também suas contas.

— Thorin o convidará para jantar na Casa da Prefeitura — disse Susan. — Talvez não amanhã à noite, mas certamente na noite seguinte.

— Um jantar oficial em Hambry — disse Will, sorrindo e ainda alisando o nariz de Rusher. — Deuses, como vou suportar a agonia de minha expectativa?

— Brinque à vontade com sua língua — disse ela —, mas se é meu amigo preste atenção no que vou dizer. É uma coisa importante.

O sorriso do rapaz sumiu e Susan tornou a ver (como vira há alguns instantes) o homem que ele seria daí a poucos anos. O ar severo, os olhos concentrados, a boca impiedosa. Era, em certo sentido, uma face assustadora — uma projeção assustadora —, e no entanto, sim, o lugar que a megera havia tocado parecia quente, e Susan começou a achar difícil tirar os olhos dele. Como seria o cabelo embaixo daquele estúpido chapéu que estava usando?

— Fale, Susan.

— Quando você e seus amigos se sentarem à mesa de Thorin, é possível que me vejam. Se você me vir, Will, finja que está me vendo pela primeira vez. Veja a Sra. Delgado, como eu verei o Sr. Dearborn. Compreende o que estou dizendo?

— Ao pé da letra. — Ele a olhava pensativamente. — Serve na corte? Certamente se seu pai era o principal tropeiro do Baronato, você não deixaria de...

— Não importa o que faço ou deixo de fazer. Só me prometa que, se nos encontrarmos em Seafront, estaremos nos encontrando pela primeira vez.

— Prometo. Mas...

— Sem mais perguntas. Estamos quase no ponto onde devemos nos separar e quero lhe dar um aviso... talvez um pagamento justo pela viagem nesta sua bela montaria. Se jantar com Thorin e Rimer, não será o único recém-chegado à mesa deles. Encontrarão provavelmente três outros homens, gente que Thorin contratou para a guarda pessoal da casa.

— Não estão subordinados a um xerife?

— Naum, eles só respondem a Thorin... ou, talvez, a Rimer. Chamam-se Jonas, Depape e Reynolds. Parecem garotos encrenqueiros... mesmo que a juventude de Jonas esteja tão para trás que ele nem deve mais se lembrar que já viveu uma.

— Jonas é o líder?

— Ié. Manca, tem um cabelo que cai pelos ombros, bonito como o de uma moça, e a voz trêmula de um reformado que passasse seus dias polindo o console da lareira. Mas ainda penso que é o mais perigoso dos três. Acho que você e seus amigos jamais conseguiriam participar das zoadas que aqueles três tiveram de esquecer.

Mas por que lhe contar tanta coisa, Susan se perguntava. Não saberia exatamente por quê. Gratidão, talvez. Ele prometera guardar segredo sobre aquele encontro tarde da noite e tinha jeito de quem, rebelde ou não às ordens paternas, honrava suas promessas.

— Vou tomar cuidado com eles. E obrigado pela orientação. — Agora subiam uma lombada suave, mas comprida. No céu, a Velha Mãe brilhava severamente. — Guarda-costas — o rapaz ponderou. — Guarda-costas na sonolenta e pequena Hambry. São tempos estranhos, Susan. Realmente estranhos.

— Ié. — Depois de se interrogar sobre Jonas, Depape e Reynolds, ela própria não conseguiu atinar com nenhuma boa razão para a presença deles na cidade. Estariam lá por obra de Rimer, por decisão de Rimer? Era provável... Um homem como Thorin jamais sequer pensaria em guarda-costas; ter o xerife-mor sempre lhe parecera mais que suficiente... e mesmo assim... por quê?

Chegaram ao alto da colina. Abaixo deles viram um amontoado de casas... o povoado de Hambry. Só algumas luzes ainda brilhavam. No ponto mais iluminado ficava o Repouso dos Viajantes. Do ponto onde estavam e graças a uma brisa quente, Susan pôde ouvir o piano martelando “Hey Jude” e um punhado de vozes embriagadas se atracando alegremente num coro. Delas não participariam as vozes dos três homens sobre os quais advertira Will Dearborn; eles estariam encostados no balcão, observando o salão com olhos mortiços. Aqueles três não eram do tipo que canta. Cada um tinha o contorno de um pequeno caixão azul tatuado na mão direita, mais exatamente na membrana entre o polegar e o indicador. Pensou em contar isto a Will, mas achou que logo ele estaria vendo a coisa por si mesmo. Em vez disso, Susan apontou para alguns metros encosta abaixo. Era uma forma escura, pendendo sobre a estrada e presa num pilar de ferro.

— Está vendo?

— Sim. — Ele deu um suspiro fundo e um tanto cômico. — Não é o objeto que eu temia ver mais que todos os outros? A forma fatal da caixinha de correio da Sra. Beech?

— Ié. E aqui temos de nos separar.

— Se você diz que temos é porque temos. Mas eu queria...

Nesse momento o vento mudou de direção, como às vezes acontecia no verão, e trouxe uma forte rajada do oeste. O cheiro de maresia desapareceu num instante, assim como o som das vozes bêbadas que cantavam. Foram substituídos por algo infinitamente mais sinistro, um barulho que nunca deixava de fazer um jato de arrepios subir pelas costas de Susan; um ruído baixo, atonal, como o uivo de uma sirene sendo girada por um homem a quem não restasse muito tempo de vida.

Will deu um passo para trás, os olhos se arregalando, e de novo ela reparou como as mãos do rapaz executaram um mergulho para o cinturão, como à procura de algo que não estava lá.

— Pelos deuses, o que é isso?

— É uma lúmina — disse ela em voz baixa. — Na Garganta do Parafuso. Nunca tinha ouvido falar?

— Sim, já tinha ouvido falar, mas até agora nunca tinha escutado. Deuses, como vocês suportam isso? Parece viva!

Ela nunca havia pensado na coisa exatamente assim, mas naquele momento, como se estivesse ouvindo com os ouvidos dele e não com os seus, achou que o rapaz tinha razão. Era como se alguma parte doente da noite tivesse ganhado voz e estivesse tentando cantar.

Ela tremeu. Rusher sentiu o súbito aumento da pressão dos joelhos de Susan e se agitou um pouco, virando a cabeça para observá-la.

— Não costumamos ouvi-la tão claramente nesta época do ano — disse ela. — No outono os homens a queimam e a obrigam a ficar quieta.

— Não entendi.

Quem entendia? Quem ainda estaria entendendo alguma coisa? Pelos deuses! Não conseguiam sequer desligar as poucas bombas de perfuração que ainda funcionavam na Citgo, embora metade delas guinchasse como porcos numa tábua de açougueiro. Se bem que, naqueles dias, geralmente as pessoas se sentiam gratificadas meramente por encontrar coisas que ainda funcionavam.

— No verão, no tempo certo, tropeiros e vaqueiros arrastam feixes de galhos e mato para a entrada da Garganta — disse ela. — Mato seco serve, mas verde é melhor, pois o que importa é a fumaça, e quanto mais densa, melhor. A garganta é um desfiladeiro tipo caixote, muito curto e de paredes muito íngremes. Quase como uma chaminé deitada, percebe?

— Sim.

— A época tradicional da queima é a Manhã da Colheita... o dia após a feira, a festa, a fogueira.

— O primeiro dia do inverno.

— Ié, embora nestas regiões o frio demore um pouco mais a chegar e nem sempre a tradição seja respeitada. O mato é às vezes queimado mais cedo se o vento fica muito inconstante ou o som é particularmente forte. A coisa deixa os animais inquietos, você sabe... as vacas dão pouco leite quando o som da lúmina fica pesado... e o sono das pessoas se torna difícil.

— O que não é de espantar. — Will continuava olhando para o norte e uma rajada mais forte de vento tirou-lhe o chapéu, que caiu em suas costas com o cordão de couro repuxando na curva do pescoço. O cabelo que apareceu estava um pouco comprido e era negro como asa de corvo. Ela experimentou uma súbita, uma intensa vontade de alisá-lo, deixando os dedos sentirem sua textura... áspera, suave, sedosa? E que cheiro teria? Neste momento sentiu outra onda de calor na parte de baixo do ventre. O rapaz se virou para ela como se tivesse lido sua mente e Susan corou, grata pelo escuro da noite não permitir que o colorido do rosto transparecesse.

— Há quanto tempo a lúmina tem estado aí?

— Antes de eu nascer já estava — disse ela —, mas não antes de meu papá nascer. Ele contou que a lúmina veio logo depois que a terra foi sacudida por um tremor. Alguns dizem que foi trazida pelo terremoto, outros acham que isso é pura superstição. O que sei é que sempre a ouvi. A fumaça a deixa silenciosa por algum tempo, assim como silencia um enxame de abelhas ou vespas, mas o som sempre retorna. O mato empilhado na boca da garganta também ajuda a manter os animais afastados... às vezes os animais são atraídos para a lúmina, só os deuses sabem por quê. Mas, se após a queimada, bem antes que a pilha de mato do ano seguinte tenha começado a crescer, uma vaca ou uma ovelha acaba de fato entrando ali, ela não volta. Seja aquilo o que for, é faminto.

Susan afastou o poncho para o lado, ergueu a perna direita sobre a sela sem encostar sequer no cabo e desceu do lombo de Rusher — tudo isto num único movimento extremamente ágil. Era uma proeza para ser executada por alguém que usasse uma calça, não um vestido, e Susan percebeu, pelo arregalar dos olhos do rapaz, que mostrara um bom pedaço de sua intimidade... mas nada que tivesse de lavar com a porta do banheiro fechada, portanto não fazia mal. E aquela descida rápida sempre fora seu truque favorito quando se dispunha a dar um pequeno show.

— Beleza! — ele exclamou.

— Aprendi com meu papá — disse Susan, se atendo à interpretação mais inocente da exclamação dele. Mas o sorriso com que entregou as rédeas sugeriu que estava inclinada também a aceitar a exclamação em qualquer outro sentido que pudesse ter.

— Susan? Você já viu a lúmina?

— Ié, uma ou duas vezes. De cima.

— Como é a aparência dela?

— Feia — ela respondeu de imediato. Até aquela noite, quando pudera observar bem de perto o sorriso de Rhea e tivera de suportar seus dedos intrometidos e agitados, Susan achava que a lúmina era a coisa mais feia que já tinha visto. — Lembra um pouco um musgo queimando devagar e um pouco um pântano com água espumosa e cheia de limo. A névoa que se levanta fica às vezes parecida com braços compridos, esqueléticos. Com mãos na ponta.

— A lúmina está crescendo?

— Ié, dizem que sim, dizem que toda lúmina cresce, mas cresce devagar. De qualquer modo, pelo menos no seu tempo de vida ou no meu, ela não vai escapar da Garganta do Parafuso.

Susan ergueu os olhos para o céu e reparou que, durante toda aquela conversa, as constelações haviam continuado a se inclinar sobre a trilha dos dois. Sentiu que poderia conversar a noite inteira com ele — sobre a lúmina, a Citgo, a tia irritante ou simplesmente sobre nada — e a idéia a deprimiu. Por que aquilo tinha de lhe acontecer agora, pelo amor dos deuses? Depois de três anos descartando os rapazes de Hambry, por que tinha de agora encontrar um garoto que despertava tão estranhamente seu interesse? Por que a vida era tão injusta?

E um pensamento anterior, o mesmo que ouvira na voz do pai, voltou a lhe ocorrer: Se for o ka, virá como um vento, e seus planos resistirão a ele tanto quanto um celeiro a um ciclone.

Mas não. E não. E não. Repetia tentando colocar, com toda a sua considerável determinação, a mente contra a idéia. Não se tratava de um celeiro; tratava-se de sua vida.

Susan estendeu a mão e tocou o metal enferrujado da caixa de correio da Sra. Beech, como se precisasse se situar no mundo. Suas pequenas expectativas e devaneios talvez não tivessem tanta importância. O pai a ensinara a avaliar a si própria pela capacidade de fazer as coisas que dizia que ia fazer. Ela não ia desqualificar este ensinamento só por ter encontrado, por acaso, um garoto de boa aparência num momento em que seu corpo e suas emoções estavam agitados.

— Vou deixá-lo aqui para se juntar a seus amigos ou para retomar seu passeio — disse. A gravidade que ouviu na própria voz deixou-a um pouco triste, pois era uma gravidade de pessoa adulta. — E não esqueça o que prometeu, Will. Se me encontrar em Seafront, a Casa da Prefeitura, finja que está me encontrando pela primeira vez. Eu farei o mesmo.

Quando ele fez que sim com a cabeça, Susan viu sua seriedade refletida no rosto do rapaz. E talvez a tristeza.

— Nunca pedi a uma moça para sair comigo ou para aceitar uma visita minha. Pediria a você, Susan, filha de Patrick, a quem eu levaria flores para aumentar as chances de tê-la como namorada... Mas acho que seria inútil.

— Seria — disse ela balançando a cabeça. — A resposta seria naum.

— Já foi prometida em casamento? É atrevimento meu perguntar isso, eu sei, mas tenha certeza que não pretendo irritá-la.

— Tenho certeza que naum, mas preferia não responder. Minha posição atual é bastante delicada, como já lhe disse. Além disso, é tarde. Aqui nos separamos, Will. Mas espere... só um momento...

Ela remexeu no bolso do avental e tirou de lá metade de um bolo enrolado num pedaço de papel verde. Comera a outra metade a caminho de Cöos... no que agora lhe parecia ser a outra metade de sua vida. Estendeu para Rusher esta sobra de um pequeno lanche no final da tarde. Rusher cheirou, comeu e lambeu sua mão. Ela sorriu, desfrutando as cócegas de veludo no meio da palma.

— Claro, é um bom cavalo, sem dúvida é.

Fitou Will Dearborn, parado na estrada, agitando as botas empoeiradas e contemplando-a com ar infeliz. O olhar duro abandonara seu rosto; ele voltava a parecer um rapaz de sua idade, ou ainda mais novo.

— Foi bom este nosso encontro, não foi? — ele perguntou. Susan deu um passo à frente e antes de ter tempo de pensar no que estava fazendo, pôs as mãos nos ombros dele, ficou na ponta dos pés e beijou-o na boca. Foi um beijo rápido, mas não fraterno.

— Ié, foi muito bom esse nosso encontro, Will.

Mas quando Will se inclinou sobre ela (tão espontaneamente quanto uma flor virando as pétalas para acompanhar o sol), querendo repetir a experiência, Susan o fez dar um passo atrás, de modo gentil, mas firme.

— Naum, isso foi apenas um agradecimento e um agradecimento deve bastar para um cavalheiro. Siga em paz seu caminho, Will.

Ele pegou as rédeas como se estivesse num sonho, olhou-as por um instante como se não soubesse mais que diabo era aquilo e tornou a fitá-la. Susan sentiu seu esforço para limpar a mente e as emoções do impacto que o beijo provocara. Gostou de vê-lo assim. E estava muito satisfeita por ter feito o que fizera.

— E você o seu — disse ele, se ajeitando na sela. — Só espero ter a oportunidade de encontrá-la de novo.

Sorriu e ela viu desejo e afeição naquele sorriso. Então Will atiçou o cavalo, virou-o e começou a voltar pela estrada... para dar mais uma olhada na reserva de óleo, quem sabe. Ela ficou onde estava, junto à caixa de correio da Sra. Beech, na expectativa de que o rapaz se virasse, acenasse e pudesse ver seu rosto mais uma vez. Teve certeza que ele ia fazer isso... mas ele não fez. Então, no instante em que Susan ia virar o rosto e começar a descer para a cidade, ele realmente se virou e sua mão, se erguendo, flutuou um momento no escuro como mariposa.

Susan correspondeu erguendo a própria mão e depois seguiu seu caminho, sentindo-se simultaneamente feliz e infeliz. Contudo — e isto foi talvez a coisa mais importante —, não se sentia mais violentada. Ao tocar os lábios do rapaz, teve a impressão de que o contato de Rhea deixara sua pele. Uma pequena mágica, talvez, mas que ela acolheu com prazer.

Continuou andando, com um sorriso leve. Não costumava, quando estava fora depois do anoitecer, olhar com tanta freqüência para as estrelas.

 

Bem Depois de a Lua se Pôr

Ele cavalgou ansioso por quase duas horas, de um lado para o outro, ao largo do que ela chamara a Baixa, não deixando Rusher ultrapassar um simples trote, mesmo que tivesse vontade de pôr o grande garanhão a galope sob as estrelas, até que seu próprio sangue começasse a esfriar um pouco.

Ele ficará suficientemente frio se mantiver a cabeça no lugar, o rapaz pensou. Aliás, manter a calma já ê perceber que não há nada a esfriar. Os bobos são as únicas pessoas da Terra que acreditam que vão conseguir o que merecem. Este velho ditado o fez pensar no homem com cicatriz no rosto e pernas tortas que fora seu maior mestre, e ele sorriu.

Por fim virou o cavalo, desceu a encosta até um filete de riacho que corria por ela e, por mais de 2 quilômetros, seguiu o curso d’água na direção da nascente (cruzou com vários grupos de cavalos que se viraram para Rusher com uma surpresa algo sonolenta, olhando de lado). Finalmente, chegou a um pequeno bosque de salgueiros, de cujo interior um cavalo relinchou suavemente. Rusher respondeu com seu próprio relincho, batendo com um casco no chão e sacudindo a cabeça para cima e para baixo.

Seu cavaleiro abaixou a cabeça quando passaram pela ramagem dos salgueiros e, de repente, havia aquele estreito e inumano rosto branco pairando na frente dele, cuja metade superior parecia engolida por olhos negros e sem pupilas.

As mãos caíram para os revólveres — era a terceira vez que isso acontecia naquela noite, pelos deuses, e pela terceira vez ele admitiu que não havia nada lá. Não foi difícil reconhecer o que balançava num cordão: era aquela idiota caveira de corvo.

O jovem que naquele momento se dizia chamar Arthur Heath a havia tirado da sela (gostava de chamar o crânio de mascote — “feio como bruxa, mas não dá nenhuma despesa de comida”) e a tinha pendurado ali, como um trote de boas-vindas. Ele e suas brincadeiras! O dono do Rusher acertou a caveira com força suficiente para romper o cordão e atirá-la no escuro.

— Que vergonha, Roland — disse uma voz das sombras. E havia (como sempre havia) o borbulhar de uma risada logo abaixo daquele tom de reprovação. Cuthbert era seu amigo mais antigo (as marcas dos primeiros dentes dos dois ficaram gravadas em muitos brinquedos comuns), mas Roland nunca chegara inteiramente a compreendê-lo. E não só por causa de seu riso; no dia já muito distante em que Hax, cozinheiro do palácio, fora levado ao morro do Patíbulo para ser enforcado como traidor, Cuthbert caíra numa agonia de terror e remorso. Disse a Roland que não poderia permanecer ali, que não poderia ver aquilo... mas acabou fazendo as duas coisas. Porque nem as brincadeiras idiotas nem as emoções fáceis e superficiais revelavam a verdade de Cuthbert Allgood.

Quando Roland penetrou no centro escuro do bosque, uma forma saiu de trás da árvore onde estivera escondida. E na metade de uma clareira que apareceu de repente, a forma se converteu num rapaz alto, esguio, pés descalços aparecendo sob a bainha do jeans e o peito nu. Numa das mãos trazia um enorme e antigo revólver... do tipo que era às vezes chamado de barril de cerveja[5] por causa do tamanho do cilindro.

— Que vergonha — Cuthbert repetiu, como se gostasse do som daquelas palavras. Não chegava a ser uma expressão arcaica, mas fazia parte dos antigos tiques de linguagem ainda usados em Mejis. — Arranjou uma boa maneira de chamar a atenção de um Guarda da Vigília! E que vergonha despachar meu pobre mascote de cara magra para a próxima cadeia de montanhas!

— Se eu estivesse usando um revólver, provavelmente o teria reduzido a cacos e acordaria metade da região.

— Sei que talvez não fosse capaz de controlar sua arma — Cuthbert comentou suavemente. — Mas, apesar de andar com uma aparência horrível, está se aproximando dos 15 anos de idade, Roland, filho de Steven, quando um tolo já não pode fazer o que quer.

— Acho que concordamos em manter os nomes que usamos durante a viagem. Mesmo entre nós.

Cuthbert estendeu a perna, o calcanhar descalço plantado na relva, e fez sua mesura com os braços estendidos e as mãos exageradamente curvadas nos pulsos — inspirada imitação do tipo de cortesão para quem o galanteio se transformava numa carreira. Também ficou notavelmente parecido com uma garça num charco e Roland, mesmo sem querer, soltou uma risada. Então levou à testa a articulação do pulso esquerdo para ver se estava com febre. Sentia-se bastante febril no fundo da cabeça, sabiam os deuses, mas a pele em cima dos olhos parecia fria.

— Peço seu perdão, pistoleiro — disse Cuthbert, os olhos e as mãos ainda voltados, submissos, para baixo.

O sorriso desapareceu do rosto de Roland.

— E não torne a me chamar assim, Cuthbert. Por favor. Nem aqui nem em lugar nenhum. Se tem alguma estima por mim, não faça.

Cuthbert abandonou de imediato sua pose e se aproximou rapidamente do ponto onde Roland fizera o cavalo parar. Agora parecia sinceramente humilde.

— Roland... Will... Me desculpe. Roland deu-lhe uma batidinha no ombro.

— Ninguém nos ouviu. Mas não se esqueça daqui para a frente. Mejis pode estar no fim do mundo... mas ainda é o mundo. Onde está Alain?

— Dick, você quer dizer? Onde acha que está? — Cuthbert apontou para o outro lado da clareira, onde um vulto escuro estava roncando ou sufocando devagar até a morte.

— Aquele ali — disse Cuthbert — seria capaz de dormir no meio de um terremoto.

— E você acordou quando me ouviu chegar.

— Foi — disse Cuthbert. Roland sentiu um certo mal-estar ante a intensidade com que os olhos de Cuthbert procuravam se concentrar em seu rosto. — Aconteceu alguma coisa? Parece diferente.

— Pareço?

— Sim. Nervoso. Meio no ar, sei lá.

Se fosse falar com Cuthbert a respeito de Susan, o momento era aquele. Mas decidiu, sem realmente pensar no assunto (a maioria de suas decisões, e certamente as melhores, tinham sido tomadas exatamente assim), nada dizer. Se ele a encontrasse na Casa da Prefeitura, Alain e Cuthbert também achariam que os dois estavam se vendo pela primeira vez. Não seria melhor assim?

— Achei bom me desligar esta noite — disse ele descendo do cavalo e se curvando para soltar as correias da sela. — Mas acabei vendo algumas coisas interessantes.

— Ah? Fale, meu mais caro amigo do peito!

— Acho que vou esperar até amanhã, quando aquele urso em hibernação tiver finalmente acordado. Assim só vou ter de contar uma vez. Estou realmente cansado. Mas lhe digo uma coisa: há cavalos demais por aqui, mesmo para um Baronato famoso por suas montarias. Realmente demais.

Antes que Cuthbert pudesse perguntar alguma coisa, Roland tirou a sela do lombo de Rusher e pousou-a ao lado de três pequenas gaiolas de vime que tinham sido amarradas uma na outra com correias de couro e podiam ser presas no lombo de um cavalo. Dentro delas, três pombos com argolas brancas ao redor dos pescoços arrulharam num tom sonolento. Um deles tirou a cabeça de baixo da asa, deu uma espiada em Roland e tornou a se encolher.

— Esses garotos estão bem? — Roland perguntou.

— Ótimos. Ciscando e cagando felizes na palha. Pelo que diz respeito a eles, estão de férias. Mas o que você quis dizer sobre...

— Amanhã — disse Roland, e Cuthbert, vendo que não conseguiria nada, limitou-se a assentir. Depois foi esticar sua pele e seus ossos em outro lugar.

Vinte minutos depois, com Rusher descarregado, escovado e levado para comer sua forragem ao lado de Buckskin e Glue Boy (Cuthbert não seria capaz de dar a seu cavalo um nome razoável, como teria feito uma pessoa normal), Roland se deitou de costas em sua manta, contemplando as últimas estrelas no céu. Cuthbert voltara a dormir com a mesma facilidade com que fora acordado pelos cascos de Rusher, mas Roland nunca tivera menos sono em toda a sua vida.

Sua mente se voltou para um mês atrás, para o quarto da prostituta, para o pai sentando na cama da mulher e vendo-o se vestir. As palavras que o pai tinha dito — Há dois anos eu já sabia disso — tinham ecoado como um gongo na cabeça de Roland. Ele desconfiava que as palavras iam continuar fazendo aquele eco pelo resto de seus dias.

Mas o pai teve muito mais a dizer. Sobre Marten. Sobre a mãe de Roland, que era, talvez, mais vítima que autora de certos males. Sobre provocadores que se julgavam patriotas. E sobre John Farson, que de fato havia estado em Cressia e que agora se fora daquele lugar — se dissipara, como era seu costume fazer, como fumaça em vento forte. Antes de partirem, ele e seus homens tinham queimado Indrie, a sede do Baronato, reduzindo-a a pó. A carnificina atingira centenas e talvez não fosse de admirar que, desde então, Cressia repudiasse a Confederação e começasse a falar pelo Homem Bom. O governador do Baronato, prefeito de Indrie, e o xerife-mor tinham chegado ao primeiro dia de verão, que concluíra a visita de Farson, com as cabeças em cima da muralha que guardava a entrada da cidade. Aquilo, dissera Steven Deschain, era a “bela política da persuasão”.

Era um jogo de Castelos onde ambos os exércitos tinham saído de trás de suas colinas e os movimentos finais haviam começado, dissera o pai de Roland, e, como acontecia freqüentemente com revoluções populares, o jogo era capaz de estar encerrado antes que muitos, nos Baronatos do Mundo Médio, tivessem começado a perceber que John Farson era uma séria ameaça... ou um sério agente de mudança, se a pessoa fosse uma das que acreditavam apaixonadamente na visão que Farson tinha da democracia e em sua política de dar fim ao que ele chamava “escravidão de classe e velhos contos de fadas”.

O pai e o pequeno ka-tet de pistoleiros do pai, Roland ficou surpreso em saber, pouco se preocupavam com Farson de um modo ou de outro; encaravam-no como café pequeno. E a própria Confederação, olhada também como café pequeno, dera naquilo.

Vou mandá-lo para longe, dissera Steven sentado na cama e olhando melancolicamente para o filho, o único que conseguira viver. Na verdade, nos dias de hoje, não sobrou nenhum lugar seguro no Mundo Médio, mas nada pode ter se conservado mais próximo da verdadeira segurança que o Baronato de Mejis, no mar Claro... Por isso é para lá que você vai, juntamente com pelo menos dois colegas seus. Alain, eu acho, seria um deles. E só peço que não escolha aquele garoto que não pára de rir para ser o outro. Seria pior que levar um cachorro barulhento.

Roland, que em qualquer outro dia de sua vida teria vibrado com a perspectiva de ver alguma coisa do vasto mundo lá fora, protestara fervorosamente. Se as batalhas finais contra o Homem Bom estivessem próximas, queria ficar ali, lutando ao lado do pai. Agora era um pistoleiro, afinal, e mesmo um aprendiz teria...

O pai sacudira a cabeça devagar e enfaticamente. Não, Roland. Você não compreende. Mas vai compreender; quando puder.

Mais tarde, os dois tinham caminhado pelas altas ameias que dominavam a última cidade com vida própria do Mundo Médio: a esplêndida Gilead cheia de verde no sol da manhã, com seus estandartes batendo ao vento, os vendedores ambulantes nas ruas do bairro Antigo e os cavalos trotando nos caminhos que, irradiados do palácio, chegavam ao centro de tudo. O pai tinha lhe dito mais (não tudo) e Roland compreendera mais alguma coisa (obviamente não tudo... como o pai também não compreendia tudo). A Torre Negra não fora mencionada por nenhum dos dois, mas já pairava na mente de Roland como possibilidade, como nuvem de tempestade no horizonte ao longe.

Era realmente a Torre que estava no centro daquilo tudo? Não um provocador, um salteador com sonhos de governar o Mundo Médio, não o feiticeiro que encantara sua mãe, não a bola de cristal que Steven e seus comandados tinham esperado encontrar em Cressia... mas a Torre Negra?

Ele não perguntou.

Não se atrevera a perguntar.

Agora ele se virava em sua manta e fechava os olhos. Vendo de imediato o rosto da moça; tornou a sentir a firme pressão dos lábios dela nos seus e o cheiro de sua pele. Ficou instantaneamente quente do alto da cabeça à base da espinha e gelado da base da espinha à ponta dos pés.

Então pensou no modo como haviam cintilado as pernas da moça ao deslizarem do lombo de Rusher (também pensou no brilho das peças íntimas sob a saia brevemente levantada) e sua metade quente trocou de lugar com a metade fria.

A prostituta tirara sua virgindade, mas não o beijara; tinha virado o rosto para o lado quando ele tentou beijá-la. Deixara que fizesse qualquer outra coisa, mas não aquilo. Na hora se sentira extremamente frustrado. Agora achava bom que tivesse sido assim.

O olho de sua mente adolescente, ao mesmo tempo inquieto e claro, reviveu a trança de Susan, que lhe caía pelas costas até a cintura, as covinhas suaves que se formavam nos cantos da boca quando ela sorria, a cadência da voz, o modo antiquado de dizer ié, naum e papá. Pensou em como as mãos tinham caído em seus ombros quando ela se esticara para beijá-lo e achou que daria tudo para tornar a sentir o toque daquelas mãos, tão leve e tão firme. E a boca na sua. Uma boca que talvez não soubesse muito bem beijar, mas que sabia um pouco mais do que a dele.

Tenha cuidado, Roland... Não deixe seus sentimentos por esta moça avançarem mais. Ela tem compromisso, não esqueça... foi o que você ouviu. Não é casada, mas está prometida de alguma forma.

Roland estava longe da criatura obstinada que acabaria se tornando, mas as sementes dessa obstinação já estavam lá... como coisas pequenas, aparentemente insignificantes, mas que no tempo certo se transformariam em árvores de raízes profundas... e frutos amargos. Naquele momento, uma das sementes se abriu com um estalo e disparou seu primeiro grão.

O que foi prometido pode não ser cumprido e o que foi feito pode ser desfeito. Nada é certo, mas... eu a quero.

Sim. Isto era a única coisa que ele sabia; e tinha tanta certeza quanto tinha certeza de reconhecer a face de seu pai: ele a queria. Não como quisera ter a puta que se deitava nua na cama com as pernas abertas e os olhos semicerrados olhando para ele, mas do modo como queria comer quando estava faminto ou queria beber quando estava sedento. Do modo, talvez, como tivera vontade de ver seu cavalo arrastando o corpo de Marten pela via Central de Gilead em retribuição pelo que o feiticeiro fizera com sua mãe.

Queria a moça; queria Susan.

Roland virou para o outro lado, fechou os olhos e caiu no sono. O descanso foi leve, iluminado pelos sonhos cruamente poéticos que só garotos adolescentes têm, sonhos onde a atração sexual e o amor romântico se juntam e ressoam com mais força do que jamais conseguirão ter. Nessas visões sedentas, Susan Delgado punha repetidamente as mãos nos ombros de Roland, beijava-o repetidamente na boca, dizia-lhe repetidamente para voltar a vê-la pela primeira vez, para estar com ela pela primeira vez, para observá-la pela primeira vez, para observá-la muito bem.

 

Cerca de 8 quilômetros de onde Roland dormia e sonhava seus sonhos, Susan Delgado estava deitada em sua cama, olhando pela janela e vendo o Velho Astro empalidecer com a aproximação da aurora. O sono continuava tão longe quanto no momento em que se deitara, e havia um latejar entre suas pernas, onde a velha a havia tocado. Era uma coisa perturbadora, mas já não desagradável, pois agora estava associada ao rapaz que encontrara na estrada e que, num impulso, ela beijara, à luz das estrelas. Cada vez que mexia com as pernas, o latejar se inflamava numa ânsia breve e doce.

Quando chegara em casa, tia Cord (que numa noite comum teria ido se deitar uma hora mais cedo) estava sentada na cadeira de balanço junto à lareira (apagada, fria, varrida de cinzas naquela época do ano) com um punhado de rendas no colo que, em cima de seu velho vestido preto, pareciam espuma do mar. Debruava a renda com uma velocidade que Susan julgava quase sobrenatural e nem ergueu os olhos quando a porta se abriu e a sobrinha entrou num redemoinho de brisa.

— Achei que ia chegar uma hora mais cedo — disse tia Cord. E então: — Estava preocupada. — Mas não parecia que estava.

— Ié? — disse Susan, e não disse mais nada. Em qualquer outra noite teria dado uma desculpa tola que soaria falsa a seus próprios ouvidos (era o modo como tia Cord a induzira a agir desde que se entendera como gente), mas aquela não fora uma noite comum. Nunca em sua vida vivera uma noite como aquela. E achou que não ia conseguir tirar Will Dearborn da cabeça.

Tia Cord ergueu novamente os olhos, um olhar concentrado, olhos brilhantes, intensos, inquisidores sobre a ponte estreita de um nariz. Algumas coisas não tinham mudado desde que Susan concordara em ir à colina Cöos. Ela ainda podia sentir os olhos da tia varrendo seu rosto e seu corpo, como escovinhas de roupas com cerdas afiadas.

— Por que demorou tanto? — tia Cord perguntara. — Houve algum problema?

— Problema nenhum — Susan respondera, mas se lembrando da bruxa parada do seu lado na entrada da cabana, puxando sua trança pelo tubo encarquilhado de um frouxo punho fechado. Lembrou-se da vontade de ir embora e de ter perguntado a Rhea se o assunto já não estava resolvido.

Talvez haja mais uma coisinha, dissera a velha mulher... ou assim Susan revivia a cena. Mas o que fora essa última coisinha? Não conseguia lembrar. E, afinal, que importância tinha? Estava livre de Rhea até sua barriga começar a crescer com o filho de Thorin... e se nenhuma criança podia ser gerada antes da Noite da Colheita, só teria de retornar a Cöos do final do inverno para a frente. Uma eternidade! E demoraria mais que isso, se fosse lenta para engravidar...

— Voltei andando devagar, tia. Foi só isso.

— Então por que você está com essa cara? — tia Cord perguntara contraindo as sobrancelhas até elas se unirem com a ruga vertical que marcava sua testa.

— Com que cara? — reagira Susan tirando o avental, amarrando as alças e pendurando-o no gancho do lado de dentro da porta da cozinha.

— Agitada. Vibrante. Como leite que acabou de sair da vaca.

Ela quase riu. Tia Cord, que sabia tanto sobre homens quanto Susan sabia de estrelas e planetas, tinha ido direto ao ponto. Agitada e vibrante era exatamente como se sentia.

— Foi o ar da noite, eu acho — Susan tinha dito. — Vi um meteoro, tia. E ouvi a lúmina. O som estava forte esta noite.

— Ié? — a tia perguntou sem interesse e passou ao assunto que realmente importava. — O exame doeu?

— Um pouco.

— Você chorou?

Susan balançou negativamente a cabeça.

— Bom. Melhor assim. É sempre melhor não chorar. Ouvi dizer que ela gosta quando as moças choram. E me diga, Sue... ela não lhe deu alguma coisa? A velha matrona não lhe deu alguma coisa?

— Ié. — Ela pôs a mão no bolso e puxou o papel com

 

CASTA

 

escrita nele. Susan estendeu o papel, que a tia pegou com um olhar de avidez. Cordelia fora um doce de pessoa durante todo um mês, mas agora que conseguira o que queria (e agora que Susan já fora longe demais e já prometera muito para mudar de opinião), voltava a ser a mulher rabugenta, arrogante, quase sempre desconfiada que criara a sobrinha, a mesma que era levada a ter acessos quase semanais de raiva pelo irmão pachorrento, boa-vida. Em certo sentido, aquilo era um alívio. Fora um tanto enervante ver tia Cord fazendo dia após dia o papel de Fada do Lago.

— Ié, ié, aqui está a marca, certo — dissera a tia passando os dedos pela folha de papel. — Um casco de demônio, dizem alguns, mas o que isso nos interessa, hã, Sue? Mesmo que seja uma criatura horrenda e asquerosa, possibilitou que duas mulheres continuem vivendo mais um pouco neste mundo. E você só precisará vê-la mais uma vez, provavelmente por volta do Fim do Ano, quando já estiver prenhe.

— Será mais tarde que isso — Susan lhe contara. — Naum devo me deitar com ele até que a Lua do Demônio esteja cheia. Após a Feira da Colheita e a fogueira.

Tia Cord tinha ficado parada, olhos arregalados, boca aberta.

— Ela disse isso?

Está me chamando de mentirosa, titia?, Susan pensara com uma aspereza que não era muito do seu temperamento; em geral, revelava o gênio do pai.

— Ié.

— Mas por quê? Por que tanto tempo? — Tia Cord estava obviamente transtornada, obviamente desapontada. Já recebera oito peças de prata e quatro de ouro; estavam enfiadas onde quer que escondesse seu dinheiro (e Susan desconfiava que havia uma boa soma dele, embora Cordelia, sempre que tinha oportunidade, gostasse de dizer que era pobre) e o dobro disso ainda era devido... ou seria devido depois que o lençol com a mancha de sangue fosse para a lavanderia na Casa da Prefeitura. Essa mesma soma seria paga de novo quando Rhea pudesse comprovar que estava grávida de um bebê de Thorin. No final das contas, muito dinheiro. Realmente muito, para um lugar pequeno como aquele e pessoas miúdas como elas. E, agora, ver as datas de quitação tão recuadas...

Então Susan cometeu um pecado (embora sem grande entusiasmo) antes de ir para a cama: gostou de ver a expressão lesada, o ar de frustração no rosto de tia Cord... o ar de decepção da avarenta.

— Por que tanto tempo? — Cordelia repetiu.

— Acho que terá de subir a colina Cöos para perguntar.

Os lábios de Cordelia Delgado, que já eram finos, se comprimiram de tal forma que quase desapareceram.

— Está brincando, mocinha? Está brincando comigo?

— Não. Estou cansada demais para brincar com alguém. Quero me lavar, porque ainda estou sentindo as mãos daquela mulher dentro de mim, e ir para a cama.

— Então faça isso. Talvez de manhã possamos discutir a coisa de forma mais serena. E teremos de ir falar com Hart, é claro. — Dobrou o papel que Rhea tinha dado a Susan, feliz ante a perspectiva de visitar Hart Thorin, e moveu sua mão para o bolso do vestido.

— Não — disse Susan, e seu tom foi inabitualmente áspero... tão áspero que fez a mão da tia ficar parada no ar. Cordelia a havia encarado, realmente sobressaltada. Susan ficara um pouco embaraçada com aquele olhar, mas não abaixara a cabeça e, quando estendeu a mão, sentiu-a bastante firme.

— Esse papel fica comigo, tia.

— Quem a mandou falar assim comigo? — tia Cord havia perguntado, a voz trêmula com a afronta... Era quase uma blasfêmia, Susan pensou, mas por um momento a voz de tia Cord a fizera se lembrar do barulho da lúmina. — Quem a mandou falar assim com a mulher que criou uma menina sem mãe? A irmã do pobre pai morto dessa tal menina?

— Você sabe quem foi — disse Susan, mantendo a mão estendida. — Vou ficar com o papel e vou dá-lo ao prefeito Thorin. Rhea disse que pouco importava que Thorin só quisesse o papel para limpar a bunda — o rubor que tingiu o rosto da tia foi um verdadeiro deleite —, mas, até passar às mãos dele, o papel devia ficar comigo.

— Jamais ouvi um absurdo desses — reagira Cordelia num tom irritado... enquanto devolvia o pedacinho encardido de papel. — Confiar a guarda de um documento tão importante a um reles projeto de mulher.

Mas não tão reles para não poder dormir com Thorin, não é? Para se deitar embaixo dele ouvindo os ossos estalarem, receber seu sêmen e talvez gerar um filho para ele.

Susan baixou os olhos quando tornou a guardar o papel no próprio bolso. Não queria que tia Cord visse o ressentimento que havia neles.

— Suba — disse tia Cord, agarrando o punhado de rendas que tinha no colo e atirando-as em sua cesta de vime, onde ficariam num emaranhado que não era habitual. — E ao se lavar, lave a boca com especial cuidado. Livre-a do descaramento e do desrespeito para com quem deu muito de si por amor a você.

Susan saiu em silêncio, sufocando mil e uma respostas, subindo a escada como fazia todo dia, vibrando com um misto de vergonha e ressentimento.

E agora lá estava, na cama e ainda acordada enquanto as estrelas iam sumindo e as primeiras listas mais brilhantes começavam a colorir o céu. Os acontecimentos da noite resvalavam por sua mente numa espécie de borrão fantástico, como num rápido embaralhar de cartas — e no final, a carta que aparecia com mais persistência tinha a face de Will Dearborn. Ela pensou em como aquele rosto podia ser duro num momento e abrandar-se tão inesperadamente no momento seguinte. E era um rosto bonito? Certamente, achava que sim. Pelo menos para ela.

Nunca pedi a uma moça para sair comigo ou para aceitar uma visita minha. Pediria a você, Susan, filha de Patrick.

Por que agora? Por que tenho de encontrá-lo agora, quando nada de bom pode resultar disso?

Se for o ka, a coisa virá como um vento. Como um ciclone.

Rolava de um lado para o outro da cama, depois se virava de novo de costas. Não haveria sono para ela no que restava daquela noite, Susan pensou. Talvez fosse melhor se levantar e ir até a Baixa, para ver o sol nascer.

Mas continuou deitada, conseguindo se sentir bem e doente ao mesmo tempo, contemplando as sombras, ouvindo os primeiros pios dos pássaros da manhã, pensando no toque da boca do rapaz contra a sua, no lábio macio e na sensação dos dentes por baixo, sentindo o cheiro de sua pele e a aspereza do tecido da camisa sob as palmas de suas mãos.

Ela agora punha essas palmas no alto da camisola e rodeava os seios com os dedos em concha. Os mamilos estavam duros como pedrinhas. E quando ela os tocou, o calor entre suas pernas disparou de repente, urgente.

Poderia dormir, ela pensou. Poderia se cuidasse daquele calor. Se soubesse como.

E sabia. A velha tinha lhe mostrado. Mesmo uma menina que está intacta pode muito bem ter prazer de vez em quando... Com um pequeno botão de seda, assim.

Susan se virou na cama e fez a mão deslizar bem para o fundo do lençol. Forçou os olhos brilhantes e as faces cavadas da velha a saírem de sua mente — descobriu que não era absolutamente difícil fazer aquilo desde que estivesse decidida — e substituiu-os pelo rosto do rapaz com o belo garanhão e o tolo chapéu de aba arriada. Por um momento a imagem em sua mente tornou-se tão clara e tão doce que pareceu real, enquanto todo o resto de sua vida se convertia num sonho mortiço. Na imagem, o rapaz a beijava sem parar, as bocas se abriam mais, as línguas se tocavam; ela tragava o ar que ele soltava.

Ela ardia. Ardia como tocha em sua cama. E quando, pouco tempo mais tarde, o sol finalmente tomou conta do horizonte, Susan dormia profundamente. Tinha um leve sorriso nos lábios e o cabelo jogado ao lado do rosto, com a trança desfeita, salpicava o travesseiro com um certo tom dourado.

 

Na última hora antes do amanhecer, o salão do Repouso dos Viajantes estava, como de hábito, silencioso. Os bicos de gás que, na maioria das noites, transformavam o lustre numa jóia brilhante até cerca das duas da manhã tinham se reduzido a insignificantes pontos azuis e o salão alto e comprido estava sombrio, espectral.

Num canto se achava um punhado de lenha — restos de algumas cadeiras despedaçadas numa briga durante o jogo de bisca (os combatentes estavam naquele momento residindo na célula para embriagados do xerife-mor). Em outro canto havia uma poça razoavelmente grande de vômito coagulado. Na plataforma da ponta direita do salão havia um velho piano; deitado no banco estava o bastão de carvalho que pertencia a Barkie, o leão-de-chácara e o homem mais forte das redondezas. Barkie jazia debaixo do banco, roncando. Como uma medida de massa de pão, o contorno nu de seu estômago com cicatrizes se destacava acima da cintura da calça de veludo. Ele conservava numa das mãos uma carta de baralho: o duque de ouros.

Na extremidade esquerda da sala, ficavam as mesas de carteado. Dois bêbados dormiam com as cabeças numa delas, ressonando e babando no feltro verde, as mãos estendidas se tocando. Na parede acima deles, havia uma gravura de Arthur, o Grande Rei de Eld, chapado em seu garanhão branco, e uma placa que dizia (numa curiosa mistura da Língua Superior e da Língua Vulgar): TODA APOSTA TEM DE SER FEITA EM GRANA SONANTE.

Atrás do balcão, que se estendia por toda a extensão da sala, havia um monstruoso troféu: um alce de duas cabeças com chifres do tamanho de uma pequena floresta e quatro olhos brilhantes. O animal era conhecido pelos freqüentadores locais do Repouso como Brincalhão. Ninguém sabia dizer por quê. Algum brincalhão humano tinha encaixado cuidadosamente um par de preservativos tamanho extra nas pontas de dois de seus chifres. Deitada no próprio balcão, e diretamente sob o olhar desaprovador do Brincalhão, estava Pettie, a Trotadora, uma das dançarinas e moças-amantes do Repouso... embora a verdadeira mocidade de Pettie estivesse agora bem para trás. Logo seria obrigada a praticar seu trabalho de joelhos, nos fundos do Repouso, não no andar de cima, num daqueles minúsculos cubículos. As pernas gorduchas estavam abertas, uma balançando pela beirada do lado de dentro do balcão, a outra pelo lado de fora, o sujo emaranhado da saia brotando no meio. Ela respirava ressonando muito, torcendo de vez em quando os pés e os dedos gordos. Os únicos outros ruídos eram o vento quente de verão do lado de fora e o regular e suave estalar de cartas sendo viradas uma a uma.

Havia uma pequena mesa isolada perto das portas de vaivém que davam para a via Central de Hambry; era ali que Coral Thorin, proprietária do Repouso dos Viajantes (e irmã do prefeito), sentava-se nas noites em que resolvia descer de sua suíte para “fazer parte da companhia”. Quando descia, descia cedo — quando ainda havia mais bifes que doses de uísque sendo servidos no velho e arranhado balcão —, e voltava mais ou menos na hora em que Sheb, o pianista, se sentava e começava a martelar o revoltante instrumento. Quanto ao prefeito, ele nunca aparecia lá, embora fosse de conhecimento geral que detinha pelo menos metade das cotas do Repouso. O clã Thorin gostava do dinheiro que o lugar rendia; só não gostava era da aparência do salão depois da meia-noite, quando a serragem espalhada pelo chão começava a se misturar com a cerveja e o sangue derramados. Coral, no entanto, tinha um caráter forte e, vinte anos antes, fora o que então se chamava “moça rebelde”. Era mais nova que seu irmão político, não tão magra e bem-apessoada, apesar dos olhos muito grandes e da cabeça de fuinha. Ninguém se sentava em sua mesa durante as horas de funcionamento do salão — Barkie teria dissuadido de imediato qualquer um que tentasse —, mas agora as horas de funcionamento haviam passado, a maioria dos bêbados fora embora ou subira para o andar de cima, e Sheb se enroscara e caíra no sono no canto atrás do piano. O garoto de cabeça fresca que limpava o lugar tinha ido embora por volta das duas da manhã (escorraçado por chacotas, insultos e alguns copos de cerveja voando, como sempre acontecia; Roy Depape, em especial, não nutria grande afeição por aquele rapaz). Voltaria por volta das nove, quando começaria novamente a preparar aquele palácio de velhas comemorações para outra noite de diversão, mas até lá o homem sentado na mesa da Sra. Thorin teria o lugar para si.

Um jogo de paciência estava estendido diante dele: preto no vermelho, vermelho no preto, a parcialmente formada praça da corte em cima de tudo, exatamente como acontecia nos assuntos humanos. Sua mão esquerda era o carteador, segurando os restos do baralho. A medida que ele virava as cartas, uma por uma, a tatuagem da mão direita se movia. Era um tanto desconcertante, como se o caixão estivesse respirando.

O homem era um sujeito meio velho, não tão magro quanto o prefeito ou a irmã dele, mas magro. O cabelo branco e comprido lhe escorria pelas costas. Tinha sempre a pele muito bronzeada, exceto no pescoço, onde ela ficava de fato vermelha e onde a carne caía em pequenas dobras. Usava um bigode tão comprido que as pontas brancas e não aparadas batiam quase no queixo — um falso bigode de pistoleiro, muitos pensavam, mas ninguém empregava a palavra “falso” na frente de Eldred Jonas. Usava uma camisa branca de seda e trazia, baixo na cintura, um revólver de cabo preto. Os grandes olhos de orla vermelha pareciam tristes ao primeiro relance. Um segundo olhar, contudo, mais detido, mostrava que eram apenas lacrimosos. Eram tão desprovidos de emoção quanto os olhos do Brincalhão.

Virou o ás de paus. Nenhum lugar para ele.

— Ah, canalha! — disse com uma voz estranha, aguda. Que também tremia, como a voz de um homem à beira das lágrimas. O tom combinava perfeitamente com os olhos úmidos e vermelhos. Juntou as cartas num movimento rápido.

Antes que pudesse embaralhar de novo, uma porta se abriu e fechou suavemente no andar de cima. Jonas pôs as cartas de lado e deixou as mãos caírem para o cabo do revólver. Então, ao reconhecer o som das botas de Reynolds avançando pelo corredor, soltou o revólver e tirou do cinto a bolsinha de tabaco. A ponta da capa que Reynolds sempre usava apareceu e logo ele estava descendo a escada, o rosto recentemente lavado e o ondulado cabelo ruivo caindo sobre as orelhas. O estimado Sr. Reynolds vinha com um ar vaidoso, e por que não? Sua rola já conseguira explorar, naquele sobrado, mais fendas úmidas e aconchegantes do que Jonas em toda a sua vida, e Jonas tinha duas vezes a idade dele.

Depois de descer a escada, Reynolds caminhou ao longo do balcão, parou para apertar uma das coxas roliças de Pettie e atravessou o salão em direção à mesa de Jonas, com seus cinzeiros e seu baralho de cartas.

— Boa-noite, Eldred.

— Em paz, Clay. — Jonas abriu a bolsinha e tirou um papel que salpicou de fumo. Sua voz tremia, mas as mãos eram firmes. — Vai um cigarro?

— Às vezes vai.

Reynolds puxou uma cadeira, virou-a ao contrário e sentou-se com as mãos cruzadas nas costas. Quando Jonas lhe passou o cigarro, Reynolds o fez dançar pelas costas dos dedos, um velho truque de pistoleiro. Os Caçadores do Grande Caixão eram cheios desses truques.

— Onde está Roy? Com Sua Excelência? — Estavam em Hambry há pouco mais de um mês e, durante esse período, Depape desenvolvera uma paixão por uma puta de 15 anos chamada Deborah. O andar pesado, arqueado da moça e seu jeito um tanto vesgo fizeram Jonas suspeitar que ela era apenas mais uma pistoleira de uma longa lista, mas Deborah tinha algum truque na cartola. Foi Clay quem começara a chamá-la de Sua Excelência, Sua Majestade ou, às vezes (quando estava bêbado), a “Soberana Boceta de Roy”.

Reynolds agora abanava a cabeça.

— É como se estivesse embriagado por ela.

— Ele vai ficar bem. Não vai nos jogar no lixo para ficar na toca com uma coelha de espinhas nas tetas. Cara, a mulher é tão ignorante que nem sabe ler. Não consegue entender uma palavra como carteado. Eu perguntei.

Jonas enrolou um segundo cigarro, tirou um fósforo da bolsinha e acendeu-o na unha do polegar. Acendeu primeiro o cigarro de Reynolds, depois o seu.

Um pequeno vira-lata amarelo entrou passando por baixo das portas de vaivém. Os homens o observaram em silêncio, rumando. O cão atravessou a sala, cheirou o vômito coagulado no canto e começou a comê-lo. O coto de uma cauda balançava de um lado para o outro enquanto ele jantava.

A cabeça de Reynolds apontou para a tabuleta alertando que não seriam permitidas brigas no carteado.

— Até o vira-lata entenderia essa, pode crer.

— Não precisa exagerar — Jonas protestou. — Uma coelha vale mais que um cachorro comedor de vômito. Há vinte minutos ouvi um cavalo, sabia? Parando aí na frente, depois saindo. Não era um dos espiões que contratou?

— Você não deixa escapar nada, certo?

— Nunca pague pra ver quando estiver jogando comigo. Era ou não?

— Era. É um sujeito que normalmente trabalha para um dos pequenos proprietários da ponta leste da Baixa. E os viu chegar. São três. Muito novos. Bebês. — Reynolds pronunciou a última palavra com o sotaque dos Baronatos do norte: bebis. — Nada que preocupe.

— Bem, bem, não podemos ter certeza — disse Jonas, a voz trêmula fazendo-o parecer um velho contemporizador. — Dizem que olhos jovens vêem mais longe.

— Olhos jovens vêem para onde os outros apontam — Reynolds respondeu. O cachorro passou trotando por ele, lambendo os beiços. Reynolds ajudou-o a sair com um chute que o vira-lata não foi de todo capaz de evitar. Ele disparou por baixo da porta com pequenos ique-iques que fizeram Barkie resmungar pesadamente de seu lugar de repouso sob o banco do piano. A mão dele se abriu e a carta que ia jogar antes de dormir caiu no chão.

— Talvez sim, talvez não — disse Jonas. — De qualquer modo, são pirralhos da Confederação, filhos de uns figuraços que se meteram numa encrenca qualquer, se Rimer e aquele maluco para quem ele trabalha pegaram a informação correta. De qualquer modo, temos de ter muito, muito cuidado. Andar macio, como em cascas de ovos. Ainda vamos ter de ficar no mínimo mais uns três meses aqui! E aqueles garotos podem resolver ficar aqui esse tempo todo, observando isso e aquilo e pondo tudo no papel. Gente observando coisas não é bom para nós. Nem para os homens encarregados dos suprimentos.

— Vamos lá! Só estão de castigo, mais nada... Uma palmadinha no pulso por se meterem em encrenca. Os papais deles...

— Os papais deles sabem que Farson está tomando conta de toda a Ponta Sudoeste, assumindo o controle dos pontos-chave. Os pirralhos podem saber o mesmo... Esse castigo por não terem feito o dever de casa pode acabar sendo bom para a Confederação e sua asquerosa nobreza. Não podemos saber, Clay. Com gente desse tipo, nunca se sabe como será o próximo pulo. O fato é que os garotos poderão tentar fazer um trabalho relativamente decente para impressionar e ficar numa boa com os pais. Saberemos melhor depois que os encontrarmos, mas tenha certeza do seguinte: se virem alguma coisa, não vamos poder pôr um cano de revólver na nuca de cada um e despachá-los como cavalos de perna quebrada. Os papais podem estar furiosos com eles vivos, mas acho que teriam o maior carinho se estivessem mortos... pois é assim que são os papais. Vamos ter de ser firmes, Clay; o mais firmes que pudermos.

— Então é melhor deixar o Depape fora disso.

— O Roy vai saber agir — disse Jonas com sua voz tremida. Ele jogou a guimba do cigarro no chão e esmagou-a com o salto da bota. Levantou a cabeça para os olhos vidrados do Brincalhão e contraiu a testa, como se estivesse fazendo planos: — Esta noite, seu amigo disse? Chegaram esta noite, os pirralhos?

— Foi.

— Então acho que vão falar amanhã com Avery. — Tratava-se de Herk Avery, xerife-mor de Mejis e chefe de polícia de Hambry, um homem parrudo, mas desengonçado como um carrinho de lavanderia.

— Também acho — disse Clay Reynolds. — Para apresentar seus documentos.

— Sim, senhor, sim, tem razão. Como tem passado, como tem passado e como tem passado de novo!

Reynolds ficou calado. Freqüentemente ele não compreendia Jonas, mas andava com ele desde os 15 anos de idade e sabia que geralmente era melhor não pedir nenhum esclarecimento. Se pedisse, talvez acabasse ouvindo uma conferência manni sobre os mundos que um velho parasita havia visitado graças ao que chamavam “portas especiais”. Pelo que Reynolds sabia, o número de portas comuns que existiam no mundo conhecido já bastava para mantê-lo ocupado.

— Vou falar com Rimer e Rimer vai sugerir ao xerife onde eles deviam ficar — disse Jonas. — Penso nas acomodações do velho rancho Barra K. Sabe a que estou me referindo?

Reynolds sabia. Num Baronato como Mejis, rapidamente se passa a conhecer os poucos marcos identificadores. O Barra K era um trecho de terra deserta ao noroeste da cidade, não muito longe daquele estranho e tempestuoso desfiladeiro. A cada outono faziam queimadas na entrada do desfiladeiro e um dia, há seis ou sete anos, o vento mudara de direção e o fogo retrocedera, arrasando com quase todo o Barra K, queimando celeiros, estábulos e a casa-sede. Sobrou, no entanto, um barracão, que seria um bom lugar para três calouros vindos dos Interiores. Ficava longe da Baixa; também ficava longe da reserva de óleo.

— Você gosta do Barra, não é? — Jonas perguntou, insistindo no sotaque caipira de Hambry. — É, gosta muito de lá, posso ver que sim, meu garoto. Sabe o que dizem em Cressia? Se quer roubar a prataria da sala de jantar, comece levando o cachorro para a copa.

Reynolds assentiu. Era um bom conselho.

— E os caminhões? Aqueles como-é-que-vocês-chamam...?, caminhões-tanques?

— Estão bem onde estão — disse Jonas. — Até porque não poderíamos movê-los agora sem atrair o tipo errado de atenção, né? Você e Roy devem ir até lá e cobri-los com mato. Eles devem ficar embaixo de uma boa e grossa camuflagem. Farão isso depois de amanhã.

— E onde você vai estar enquanto nossos músculos estiverem fazendo flexões na Citgo?

— Em pleno dia? Preparando-me para jantar na Casa da Prefeitura, seu palerma... o jantar que Thorin vai oferecer para apresentar seus hóspedes do Grande Mundo à sociedade de intrigas do mundo menor. — Jonas começou a enrolar outro cigarro. Ergueu os olhos para o Brincalhão em vez de olhar para o que estava fazendo e, mesmo assim, só derramou algumas migalhas de fumo. — Vou tomar um banho, fazer a barba, dar uma aparada nos cachos embaraçados desse meu cabelo de velho... Talvez coloque até um pouco de cera no bigode, Clay, o que me diz disso?

— Não vá se estressar, Eldred.

Jonas riu, um som suficientemente agudo para fazer Barkie resmungar e Pettie se mexer inquieta em sua cama improvisada em cima do balcão.

— Então eu e Roy não fomos convidados para esse fantástico acontecimento...

— Foram convidados, ah, sim, foram calorosamente convidados — disse Jonas passando a Reynolds um cigarro recém-enrolado e começando a fazer outro para uso próprio. — Mas vou apresentar suas desculpas. Que comoverão a todos, confie em mim. Homens fortes também podem chorar.

— E vamos passar o dia inteiro lá fora, no pó e no fedor, cobrindo aquelas carcaças. Você é muito gentil, Jonas.

— Também vou estar trabalhando, fazendo perguntas — disse Jonas num tom de devaneio. — Levantando isso e aquilo... com ar elegante, perfume de louros... e fazendo minhas perguntinhas. Há gente em nosso ramo de atividade que procura, no meio de uma festa, o sujeito bonachão, simpático, que pode saber das coisas: o dono de um botequim ou um garçom, talvez o dono de uma cavalariça ou um daqueles defensores gordões que estão sempre circulando pelo xadrez ou pelo tribunal com os polegares enfiados no bolso dos paletós. Quanto a mim, Clay, acho que a melhor coleta de informações é feita pelas mulheres, e quanto mais reta melhor... me refiro às que têm mais nariz que tetas se projetando do corpo. Procuro uma que não pinte os lábios e use o cabelo bem amarrado atrás da cabeça.

— Tem alguém em mente?

— Sim. Chama-se Cordelia Delgado.

— Delgado?

— Você conhece o nome. Está na boca de todos nesta cidade, eu acho. Susan Delgado, é assim que se chama a prometida de nosso estimado prefeito. Cordelia é tia dela. E agora uma realidade da natureza humana que descobri: as pessoas se mostram mais dispostas a falar com alguém como ela, que olha todo mundo nos olhos, do que com os boas-praças locais, que pagariam uma bebida. E essa senhora sabe jogar com todos. Vou me aproximar dela nesse jantar, cumprimentá-la por um perfume que certamente ela nem estará usando e vou manter seu copo de vinho cheio. O que acha desse meu plano?

— Um plano com que objetivo? Isso é o que eu quero saber.

— Um plano para enfrentar o jogo de Castelos de que podemos ter de participar — disse Jonas, e toda a leveza abandonou sua voz. — Querem que acreditemos que esses garotos foram mandados para cá mais como punição do que para realizar qualquer verdadeiro trabalho. Isso sem dúvida é plausível. Conheci garotos problemáticos em minha juventude e sem dúvida a coisa é plausível. Acredito cada dia nisso até cerca de três da manhã e depois uma pequena dúvida sempre se instala. E sabe de uma coisa, Clay?

Reynolds balançou negativamente a cabeça.

— Tenho razão para duvidar. Assim como tive razão quando fui com Rimer até o velho Thorin para convencê-lo de que o globo de vidro de Farson ficaria melhor, ao menos por enquanto, guardado com a bruxa.

Ela poderia mantê-lo num lugar que um pistoleiro não conseguiria achar, muito menos garotos abelhudos que ainda não acabaram de tirar a fralda do cú. Vivemos tempos estranhos. Uma tempestade se aproxima. E quando você sabe que o vento vai soprar, é melhor manter a vela a meio pau.

Fitou o cigarro que havia enrolado e que, assim como Reynolds, fizera dançar pelas costas dos nós dos dedos. Jonas tirou o cabelo que lhe caía na testa e enfiou o cigarro atrás da orelha.

— Não quero fumar — disse, levantando-se e se espreguiçando. As costas deram alguns estalidos. — Mas às vezes é bom fumar durante a noite. Um bom número de cigarros consegue manter um sujeito velho como eu acordado.

Caminhou para a escada, apertando a perna nua de Pettie ao passar pelo balcão, assim como Reynolds fizera. Ao pé da escada, olhou para trás.

— Não quero matá-los. As coisas já são suficientemente delicadas sem isso. Mesmo que eu sinta o cheiro de algo errado, não vou levantar um dedo, não, nem um só dedo de minha mão. Mas... eu gostaria de fazê-los ver o lugar que ocupam no grande esquema das coisas.

— Dê a eles um olho roxo. Jonas se animou.

— Claro, parceiro, talvez eu esteja com muita vontade de dar a eles esse olho roxo. Fazê-los pensar duas vezes quando resolverem se meter com os Caçadores do Grande Caixão. Fazê-los dar uma boa meia-volta quando nos virem em seu caminho. Sim, senhor, é uma boa coisa para se pensar. Realmente é.

Começou a subir a escada, rindo um pouco, seu andar coxo bastante nítido — ficava pior tarde da noite. Era um coxear que Cort, o velho mestre de Roland, poderia ter reconhecido, pois Cort presenciara o golpe que o causara. Fora o próprio pai de Cort quem tratara do assunto com um bastão de carvalho, quebrando a perna de Eldred Jonas no pátio que ficava atrás do Grande Salão de Gilead antes de tomar-lhe a arma e mandá-lo para oeste, para o exílio, sem armas.

Finalmente, é claro, o homem em que o garoto Jonas havia se tornado encontrara um revólver; os exilados sempre os encontravam, se procurassem com bastante atenção. O fato de que tais armas nunca fossem inteiramente iguais àqueles grandes revólveres com cabos de sândalo poderia acompanhá-los para o resto da vida, mas quem precisava de armas sempre podia consegui-las, mesmo naquele mundo.

Reynolds ficou olhando até ele sumir, depois tornou a se sentar na mesa de Coral Thorin, embaralhou as cartas e continuou o jogo que Jonas deixara pela metade.

Lá fora, o sol estava se levantando.

 

Bem-vindo à Cidade

Duas noites após sua chegada ao Baronato de Mejis, Roland, Cuthbert e Alain passaram com as montarias sob um arco de adobe com as palavras VENHA EM PAZ gravadas sobre ele. Mais além, havia um pátio calçado com pedras arredondadas e iluminado com tochas. A resina que as cobria recebera algum tratamento, pois as tochas brilhavam em diferentes cores: verde, vermelho-alaranjado e um tipo de cor-de-rosa cheio de salpicos que fez Roland pensar em fogos de artifício. Ele podia ouvir o som de guitarras, o murmúrio de vozes, o riso de mulheres. O ar estava impregnado daqueles cheiros que sempre o fariam se lembrar de Mejis: sal marinho, óleo e pinho.

— Não sei se vou conseguir — Alain murmurou. Era um rapaz forte, com um punhado de cabelo rebelde saindo sob o chapéu de vaqueiro. Tinha procurado se arrumar (todos tinham), mas seu traquejo social, mesmo nas melhores circunstâncias, era mínimo e ele parecia mortalmente assustado. Cuthbert estava se saindo melhor, mas Roland achava que o ar de despreocupação que procurava aparentar não convencia. Se tivesse de haver liderança no grupo, ele, Roland, teria de assumir.

— Você vai se sair bem — disse a Alain. — Basta...

— Ele já parece bem — falou Cuthbert com um riso nervoso ao cruzarem o pátio. No fundo, ficava a Casa da Prefeitura, uma casa de fazenda muito ampla, com muitas alas de adobe, que pareciam derramar luz e risos por cada janela. — Branca como um lençol, feia como...

— Cale a boca — disse Roland bruscamente e o sorriso de deboche sumiu de imediato da face de Cuthbert. Roland observou aquilo, depois tornou a se virar para Alain. — Não beba nada que tenha álcool. Você sabe o que dizer a esse respeito. E também não esqueça do resto de nossa história. Sorria. Seja agradável. Use todos os recursos que puder. Lembre-se de como o xerife se desmanchou em gentilezas para que nos sentíssemos bem-vindos.

Alain assentiu, parecendo um pouco mais confiante.

— Em matéria de traquejo social — disse Cuthbert —, eles não devem ser grande coisa, e acho que todos nós estamos um passo à frente.

Roland assentiu e reparou que a caveira de pássaro estava de volta ao apoio da sela de Cuthbert.

— E livre-se disso!

Com ar culpado, Cuthbert enfiou apressadamente “o vigia” no alforje. Dois homens se aproximavam. Vestindo paletós brancos, calças brancas e sandálias, faziam mesuras e sorriam.

— Fiquem calmos — disse Roland, baixando a voz. — Vocês dois. Lembrem-se do motivo de estarem aqui. E lembrem-se das faces de seus pais. — Deu batidinhas no ombro de Alain, que ainda parecia inseguro. Depois se virou para os cavalariços. — Boa-noite, amigos — disse. — Que seus dias sejam longos sobre a Terra.

Os dois sorriam, os dentes brilhando na extravagante luz das tochas. O mais velho curvou a cabeça.

— E os seus também, jovens senhores. Bem-vindos à Casa da Prefeitura.

 

Na véspera, o xerife-mor tinha dado as boas-vindas a eles com exatamente o mesmo entusiasmo que os cavalariços.

Até aquele momento todos os haviam saudado com alegria, mesmo os carroceiros por quem haviam passado a caminho da cidade, e só isso já bastava para deixar Roland desconfiado e de guarda. Dizia a si mesmo que provavelmente estava sendo tolo (os habitantes locais eram mesmo amigáveis e prestativos, e por isso é que tinham sido mandados para lá, pois

Mejis, embora fora do eixo principal, era leal à Confederação), que certas idéias eram pura tolice, mas ainda assim achou melhor ficar extremamente atento. Manter os nervos ligados. Os três, afinal, eram pouco mais que crianças e podiam se meter em encrenca se aceitassem as coisas pelo que pareciam ser.

O combinado escritório do xerife e cadeia do Baronato ficava na rua do Monte, que tinha vista para a baía. Roland não tinha certeza, mas achava que poucos, em qualquer outro lugar do Mundo Médio, teriam o privilégio de acordar, ou de passar suas noites de insônia, diante de vistas tão pitorescas: no sul uma fileira muito colorida de abrigos de barcos; logo abaixo, as docas, com rapazes e velhos pescando com anzol enquanto as mulheres emendavam redes e velas; mais além, a pequena flotilha de pesca de Hambry, movendo-se de um lado para o outro na água cintilantemente azul da baía, instalando as redes de manhã, puxando-as de tarde.

A maioria das construções na via Central era de adobe, mas ali no alto, com aquela vista da área comercial de Hambry, as casas eram de tijolo, embora tão atarracadas quanto as habitações de qualquer ruazinha estreita do bairro Velho de Gilead. Eram bem conservadas, em geral com portões de ferro trabalhado, e ficavam em ruelas arborizadas. Tinham telhas alaranjadas e postigos cerrados por causa do sol do verão. Descendo aquela rua com os cascos dos cavalos estalando nas pedras lisas, era difícil acreditar que a área noroeste da Confederação — a antiga terra de Eld, reino de Arthur — pudesse estar em chamas e à beira de cair.

A cadeia era apenas uma versão ampliada do correio e do cartório; e uma versão menor da Assembléia da Cidade. A diferença, é claro, eram as grades nas janelas que davam para o pequeno porto.

O xerife Herk Avery, um homem barrigudo, vestia a calça cáqui e a camisa cáqui dos agentes da lei. Devia ter visto, através do olho mágico da porta com batentes de ferro, o grupo se aproximar, pois a porta se escancarou antes que Roland pudesse alcançar o sino que havia no centro. O xerife Avery se postou nos degraus da entrada, a barriga o precedendo como um meirinho precede, na entrada de um tribunal, o digníssimo juiz. Seus braços se estenderam para a frente num cumprimento extremamente amistoso.

Depois começou a curvar profundamente a cabeça (Cuthbert diria mais tarde que teve medo que o homem pudesse perder o equilíbrio, rolar os degraus e só parar no porto) e desejou-lhes repetidos bons-dias, parecendo um maluco com os tapinhas que não parava de dar na base da garganta. O sorriso, de tão largo, parecia capaz de cortar sua cabeça em duas. Três policiais, impregnados de um ar típico de peões de fazenda e vestindo a mesma roupa cáqui do xerife, se amontoavam na porta atrás de Avery e arregalavam os olhos como palermas. Era isso, sem dúvida — eram olhares palermas; não havia outra palavra para aquele tipo de olhar abertamente curioso e totalmente espontâneo.

Avery apertou a mão de cada garoto, continuando a curvar a cabeça enquanto o fazia, e nada que Roland dizia conseguiu detê-lo. Ele só ia parar quando ficasse exausto e, quando ficou, fez sinal para que entrassem. O escritório era deliciosamente fresco apesar do sol escaldante do pleno verão. O tijolo tinha a vantagem de refrescar, é claro. Era também uma sala grande e mais limpa que todas as salas de xerife que Roland conhecera... e ele havia conhecido pelo menos uma meia dúzia nos últimos três anos, ao acompanhar o pai em várias viagens curtas e num giro-patrulha mais longo.

Havia uma escrivaninha de tampa de correr no centro, um quadro de avisos à direita da porta (cada milímetro das folhas de papel ofício era utilizado; papel era artigo raro no Mundo Médio) e, na parede oposta, dois rifles num estojo fechado a cadeado. Eram bacamartes tão antigos que Roland se perguntou se haveria munição para eles. E se poderiam mesmo atirar. A esquerda do estojo das armas, uma porta aberta levava ao próprio xadrez... três celas de cada lado de um curto corredor e um cheiro forte de barrela de sopa no ar.

Fizeram uma limpeza para nossa chegada, Roland pensou. Estava divertido, comovido e inquieto. Limpar isto aqui como se fôssemos uma tropa de cavalarianos do Baronato Interior que pudesse encenar uma inspeção severa em vez de três rapazes em missão autopunitiva...

Mas essa exaltação de seus anfitriões seria realmente tão estranha? Afinal, eles eram de Nova Canaã e gente daquele canto esquecido do mundo podia muito bem encará-los como uma espécie de visita real.

O xerife Avery apresentou seus agentes. Roland apertou as mãos de todos, sem tentar memorizar os nomes. Era Cuthbert quem cuidava dos nomes e aquela era uma das raras ocasiões em que deixaria algum passar. O terceiro subordinado, um sujeito calvo com um monóculo pendendo numa fita do pescoço, acabou se atirando com um dos joelhos no chão para saudá-los.

— Não faça isso, ah, grande idiota! — Avery gritou, puxando-o pela nuca para obrigá-lo a se levantar. — Que espécie de labrego vão achar que você é? Além disso, deixou-os sem jeito, foi o que fez!

— Não faz mal — disse Roland (que estava, de fato, muito sem jeito, embora procurasse não deixar isto transparecer). — Não somos realmente nada especiais, você sabe...

— Nada especiais! — disse Avery, rindo. Sua barriga, Roland notou, não balançava como seria normal que fizesse; era mais dura do que parecia. O mesmo podia se aplicar a seu dono. — Nada especiais, ele diz! Andaram 800 quilômetros ou mais do Mundo Interior até aqui. São nossos primeiros visitantes oficiais da Confederação, desde que um pistoleiro passou pela Grande Estrada quatro anos atrás, e agora ele diz que não são nada especiais! Não querem se sentar, meus rapazes? Tenho graf, que certamente não vão querer tão no início do dia... talvez nem cheguem de fato a querer, dadas as suas idades... e me perdoem por declarar tão francamente o fato óbvio da juventude de vocês, pois juventude não pode ser motivo de vergonha, realmente não, todos nós já fomos jovens. Tenho também chá branco gelado, que recomendo fervorosamente, pois foi feito pela esposa de Dave, que é mão de ouro com a maioria das bebidas.

Roland olhou para Cuthbert e Alain, que assentiram e sorriram (sem deixar transparecer o problema com o chá), depois voltaram ao xerife Avery. Chá branco desceria como um veludo pela garganta ressecada, dizia ele.

Um dos agentes foi buscar o chá, outro trouxe cadeiras que alinhou num dos lados da escrivaninha de tampo de correr do xerife Avery e começaram a tratar do assunto do dia.

— Vocês sabem quem são e sabem de onde vieram, e eu também sei — disse o xerife Avery sentando-se em sua cadeira (que mesmo emitindo um gemido fraco sob o corpanzil, ficou firme). — Posso ouvir o Mundo Interior em suas vozes, mas, ainda mais importante, posso vê-lo em seus rostos.

“Contudo, nos prendemos às maneiras antigas aqui em Hambry, por atrasadas e toscas que possam ser; sim, seguimos em nosso curso e fazemos o possível para não esquecer as faces de nossos pais. Assim, embora não pretenda deixá-los longe por muito tempo de seus deveres, e espero que me perdoem pela impertinência, gostaria de dar uma olhada nos papéis e documentos de passagem que por acaso tenham trazido com vocês para nossa cidade.” “Por acaso” tinham trazido todos os, papéis para aquela cidade, e Roland tinha certeza que o xerife Avery sabia muito bem disso. Examinou-os devagar demais para um homem que prometera não afastá-los de seus deveres, esquadrinhando as folhas de papel bem dobradas (o teor de linho tão alto que os documentos pareciam antes de pano que de papel) com um dedo gorducho, os lábios se movendo. De vez em quando, o dedo voltava para reler uma linha. Os outros agentes se mantinham atrás dele, olhando com ar esperto por sobre seus ombros largos. Roland se perguntou se saberiam realmente ler.

William Dearborn. Filho de tropeiro.

Richard Stockworth. Filho de sitiante.

Arthur Heath. Filho de criador de gado.

O documento de identificação de cada um era assinado por alguém que atestava sua veracidade: James Reed (de Hemphill), no caso de Dearborn; Piet Ravenhead (de Pennilton), no caso de Stockworth; Lucas Rivers (de Gilead), no caso de Heath. Tudo em ordem, descrições feitas com cuidado. Os papéis foram devolvidos com profusos agradecimentos. Em seguida, Roland passou a Avery uma carta tirada com algum cuidado da carteira. Avery pegou-a com o mesmo cuidado, seus olhos se arregalando quando viram o timbre.

— Por minha alma, rapazes! Foi um pistoleiro que escreveu isto!

— Ié, ié... — Cuthbert concordou simulando um tom maravilhado. Roland chutou-lhe o tornozelo... com força... mas sem desviar seu olhar respeitoso da face de Avery.

A carta em cima do timbre era de um certo Steven Deschain, de Gilead, um pistoleiro (que se dizia cavaleiro, fazendeiro, juiz de paz e barão... o último título quase não tendo mais significado naquela época, apesar de todo o palavreado de John Farson) da 29a geração, descendente de Arthur de Eld, por linha indireta (em outras palavras, a longa descendência que passava pelas muitas concubinas de Arhur). Para o prefeito Hartwell Thorin, o chanceler Kimba Rimer e o xerife-mor Herkimer Avery eram mandados cumprimentos e recomendados aos seus cuidados os três rapazes que entregavam o documento, Masters Dearborn, Stockworth e Heath. Eles tinham sido enviados em missão especial pela Confederação para fazer o inventário de quaisquer materiais que pudessem servir à Confederação em tempo de necessidade (a palavra guerra era omitida do documento, mas cintilava em cada linha). Steven Deschain, em nome da Confederação de Baronatos, conclamava os senhores Thorin, Rimer e Avery a conceder àqueles inspetores designados pela Confederação todo auxílio de que viessem a precisar em seu serviço e exortava-os a serem particularmente cuidadosos na enumeração de todo o gado, todos os suprimentos de comida e todas as formas de transporte que possuíssem. Dearborn, Stockworth e Heath ficariam pelo menos três meses em Mejis, Deschain escreveu, podendo sua estada chegar a um ano. O documento acabava instando cada um dos homens públicos anteriormente designados a “nos manter informados sobre a conduta dos ditos rapazes, com todos os detalhes que julguem que possam ser de nosso interesse”. E insistia: “Não se acanhem a este respeito, pela estima que têm a nós.”

Em outras palavras: digam-nos se eles estão se comportando bem. Digam-nos se têm feito o dever de casa.

O agente que usava o monóculo voltou enquanto o xerife-mor continuava lendo com atenção o documento. Trazia uma bandeja com quatro copos de chá branco e curvou a cabeça como um mordomo. Roland murmurou agradecimentos e distribuiu os copos. Ficou com o último, levou-o à boca e viu Alain olhando para ele, os olhos azuis brilhando no rosto impassível.

Alain balançou levemente o copo — só o suficiente para fazer o gelo tilintar —, e Roland tranqüilizou-o com um aceno muito discreto de cabeça. Tinha esperado chá fresco, tirado de alguma moringa conservada num jardim de inverno das proximidades, mas havia realmente pedras de gelo nos copos. Inverno em pleno verão. Era interessante.

E o chá, conforme prometido, era delicioso.

Avery acabou de ler a carta e entregou-a a Roland, com o ar de alguém devolvendo uma relíquia sagrada.

— Deve guardar muito bem estes papéis, Will Dearborn... sim, com muito cuidado!

— Sim senhor. — Ele tornou a pôr a carta e o documento de identificação na bolsa. Seus amigos “Richard” e “Arthur” fizeram o mesmo.

— É um excelente chá branco, senhor — disse Alain. — Nunca tomei um melhor.

— Ié — disse Avery, tomando um gole de seu próprio copo. — É o mel que o torna tão gostoso. Não é, Dave?

Ao lado do quadro de avisos, o agente do monóculo sorriu.

— Acho que sim, mas Judy não gosta de revelar o segredo. Ela recebeu a receita da mãe.

— Ié, também devemos lembrar das faces de nossas mães, devemos. — Por um momento o xerife Avery pareceu comovido, mas Roland desconfiou que a face da mãe era a coisa mais distante de sua mente. Ele se virou para Alain e o sentimento foi substituído por uma surpreendente sagacidade.

— Está admirado com o gelo, Master Stockworth.

— Bem, eu... — começou Alain.

— Não esperava ver uma amenidade dessas num lugar tão atrasado quanto Hambry, tenho certeza — disse Avery e, embora houvesse um tom de gracejo na superfície da voz, Roland achou que existia alguma outra coisa ali, inteiramente subterrânea.

Ele não gosta de nós. Não gosta do que considera nossos “modos de cidade grande”. Ainda não nos conhece há tempo suficiente para saber quais são exatamente nossos modos, se é que os temos, mas não gosta antecipadamente deles. Acha que somos um trio de guris desprezíveis; que vemos a ele e aos demais habitantes daqui como caipirões.

— Não apenas Hambry — disse Alain em voz baixa. — Hoje em dia o gelo é tão raro no Arco Interior quanto em qualquer outro lugar, xerife Avery. Depois que eu cresci, só costumo encontrá-lo como atração especial em festas de aniversário e coisas parecidas.

— Sempre houve gelo na festa do Dia Novo — Cuthbert interveio. Falava com uma calma nada cuthbertiana. — Depois dos fogos de artifício, era do gelo que mais gostávamos.

— Claro que sim, ié — disse o xerife Avery naquele tom de espanto, de quem vê uma nova maravilha a cada segundo. Avery talvez não gostasse da idéia de vê-los rondando por ali, talvez não gostasse de perder o que provavelmente chamaria “metade da porra da manhã” com eles; não gostava das suas roupas, de seus desconhecidos documentos de identificação, de seus sotaques, de sua juventude. Principalmente, não de sua juventude. Roland podia entender tudo isso, mas se perguntava se a história estava toda aí. Se houvesse mais alguma coisa, o que era?

— Havia um refrigerador e um fogão a gás na Assembléia da Cidade — disse Avery. — Ambos ainda funcionam. Há muito gás natural na Citgo... aquela reserva de óleo a leste da cidade. Passaram por ela no caminho para cá, passaram.

Eles assentiram.

— O fogão não passa de uma curiosidade nos dias de hoje... só serve para ilustrar as lições de história do grupo escolar... mas o refrigerador continua muito útil, sem dúvida. — Avery ergueu o copo e olhou pelo vidro. — Especialmente no verão. — Sorveu um pouco de chá, lambeu a boca e sorriu para Alain. — Está vendo? Nenhum mistério.

— Estou surpreso por não terem encontrado usos para o óleo — disse Roland. — Não há geradores na cidade, xerife?

— Sim, há quatro ou cinco — disse Avery. — O maior fica no campo, no rancho Rocking B, de Francis Lengyll, e me lembro de quando ainda funcionava. É um HONDA. Conhecem este nome, rapazes? HONDA?

— Vi uma ou duas vezes — disse Roland — em velhas bicicletas a motor.

— Ié? De qualquer forma, nenhum dos geradores funcionaria com o óleo que vem da reserva da Citgo. E grosso demais. Alcatrão melado, é isso. Não temos refinarias aqui.

— Entendo — disse Alain. — De qualquer maneira, gelo no verão é ótimo. Seja qual for a quantidade. — Deixou uma das pedras deslizar para a boca e esmagou-a entre os dentes.

Avery olhou-o mais um pouco, como para se certificar de que o tema estava encerrado, depois tornou a se virar para Roland. A cara gorda do xerife ficou de novo radiante. Com aquele sorriso largo, indigno de confiança.

— O prefeito Thorin pediu-me para transmitir a vocês seus melhores cumprimentos e quer que saibam como lamenta por não poder estar aqui... É muito ocupado o nosso Senhor Prefeito, de fato muito ocupado. Mas ele promoverá um jantar em sua casa amanhã à noite... Sete horas para a maioria das pessoas, oito para vocês, jovens amigos... Assim poderão fazer uma entrada mais digna de nota, adicionando um toque de drama, algo do gênero. E não preciso lembrar a vocês, que provavelmente compareceram a mais recepções solenes que eu a almoços de prato feito, como seria bom chegar pontualmente na hora marcada.

— É um jantar a rigor? — Cuthbert perguntou ansioso. — Porque percorremos um longo caminho, quase 400 rodas, e não trouxemos túnicas nem faixas engomadas, nenhum de nós.

Avery estava rindo... desta vez mais honestamente, Roland pensou, talvez porque tenha percebido que “Arthur” exibira um traço de falta de sofisticação e insegurança.

— Naum, jovem senhor, Thorin compreende que vieram fazer um trabalho... quase um trabalho de vaqueiro, eu sei! Cuidem-se para que, da próxima vez, não os mandem puxar redes na baía!

De um canto, Dave... o agente com o monóculo... soltou uma imprevista risada. Talvez fosse o tipo de piada que só os nascidos no lugar entendiam, Roland pensou.

— Usem a melhor roupa que tiverem e estarão muito bem. Não haverá ninguém com faixas engomadas, tenham certeza... não são coisas que tenham importância em Hambry. — Roland ficou novamente impressionado pelo modo como o homem sorria ao denegrir sua cidade e o Baronato... e pelo ressentimento contra os forasteiros que transparecia sob aquele sorriso.

— De qualquer modo — Avery continuou —, vão antes trabalhar que se divertir amanhã à noite, eu imagino. Hart convidou todos os grandes rancheiros, plantadores e criadores de gado desta parte do Baronato... não que sejam tantos, não são, afinal o território de Mejis se transforma em deserto assim que alcança a extremidade oeste da Baixa. Mas todos que têm bens e plantei dignos de serem contados estarão lá e acho que identificarão em todos eles homens leais à Confederação, prontos e ávidos para ajudar. Vão encontrar Francis Lengyll, do Rocking B, John Croydon, do Piano Ranch, Henry Wertner, que é o principal criador de gado e criador de cavalos do Baronato, Hash Renfrew, que possui o Susan Preguiçosa, o maior haras de Mejis (mesmo que não seja grande coisa pelos padrões a que vocês, amigos, estão acostumados, é claro) e haverá outros também. Rimer apresentará vocês e os ajudará com perícia a começar a tratar de seus negócios. Roland assentiu e se virou para Cuthbert.

— Vamos ter de estar bem-dispostos amanhã à noite. Cuthbert assentiu.

— Por mim, fique tranqüilo, Will, vou anotar tudo que vir. Avery tomou mais um gole de chá, observando-os sobre o copo com uma expressão brincalhona. Era uma coisa tão falsa que Roland teve vontade de fazer uma careta.

— A maioria deles tem filhas em idade casadoura e vão levá-las. Vocês, rapazes, vão querer dar uma olhada.

Roland achou que o chá e a hipocrisia já tinham sido suficientes para aquela manhã. Assentiu com a cabeça, esvaziou o copo, sorriu (esperando que o sorriso dele parecesse mais sincero que aquele com que Avery agora o olhava) e ficou em pé. Cuthbert e Alain aproveitaram a deixa e fizeram o mesmo.

— Obrigado pelo chá e pelas boas-vindas — disse Roland. — Por favor mande uma mensagem para o prefeito Thorin agradecendo por sua gentileza e dizendo que ele nos verá amanhã, às oito da noite, em ponto.

— Ié, vou dizer.

Roland então se virou para Dave. O ilustre ficou tão surpreso por ser novamente objeto de atenção que recuou, quase batendo com a cabeça no quadro de avisos.

— E por favor agradeça à sua esposa pelo chá. Estava excelente.

— Vou agradecer. Obrigado-sai.

Saíram, o xerife-mor Avery conduzindo-os como um cão pastor com excesso de peso e manso.

— Quanto ao lugar onde vão ficar... — ele começou quando, depois de descer a escada, pisaram na calçada. Assim que ficaram ao sol, Avery começara a suar.

— Ah, esqueci de perguntar sobre isso — disse Roland batendo com as costas da mão na testa. — Acampamos naquela longa encosta, onde há muitos cavalos pastando na relva, tenho certeza que sabem onde é...

— A Baixa, ié.

— ...mas sem autorização, porque ainda não sabíamos a quem pedir.

— Aquela terra é de John Croydon e tenho certeza que ele não se incomodará, mas acho que temos uma coisa melhor para vocês. Há uma área a noroeste, a Barra K. Costumava ser usada pela família Garber, mas eles foram embora, se mudaram depois de um incêndio. Agora pertence à Associação dos Cavaleiros, um pequeno grupo local de fazendeiros e rancheiros. Falei com Francis Lengyll sobre vocês, rapazes... é o atual presidente da A.C... e ele disse: “Por que não os instalamos nas terras da velha família Garber, por que não?”

— Por que não? — Cuthbert concordou num tom suave, divertido. Roland atirou-lhe um olhar áspero, mas Cuthbert estava contemplando o porto, onde os pequenos barcos de pesca deslizavam para um lado e para o outro como insetos marinhos.

— Ié, foi o que eu disse, “por que não, não é?”. O lugar foi reduzido a cinzas por um incêndio, mas a casa-sede ainda está de pé; o estábulo e o galinheiro também. Seguindo as ordens do prefeito Thorin, tomamos a liberdade de encher a despensa, fazer uma arrumação e dar uma varrida na casa-sede. Talvez encontrem um ou outro inseto, mas nada que possa morder ou ferrar... e nenhuma cobra, a não ser que haja algumas debaixo do piso, e se houver, deixem que fiquem lá. É isso, garotos. Deixem que fiquem lá!

— Deixem que fiquem lá, embaixo do piso, onde estão felizes — concordou Cuthbert, ainda apreciando o porto com os braços cruzados no peito.

Avery dispensou-lhe uma olhada breve, curiosa, um sorriso despontando nos cantos da boca. Então se virou para Roland e o sorriso de imediato se apagou.

— Não há buracos no teto, rapazes, e se chover ficarão secos. O que acham disso? A coisa não parece boa?

— Melhor do que merecemos — disse Roland. — Acho que o senhor foi muito eficiente e o prefeito Thorin extremamente gentil. — E Roland realmente pensava assim. A questão era por quê. — Agradecemos a preocupação que tiveram conosco. Não é mesmo, rapazes?

Cuthbert e Alain concordaram, sacudindo vigorosamente a cabeça.

— E aceitamos sua proposta.

— Vou comunicar ao prefeito — disse Avery. — Vão em paz, rapazes. Tinham atingido o poste onde os animais ficaram amarrados. Avery mais uma vez apertou a mão de todos, agora dirigindo os olhares mais penetrantes para os cavalos.

— Então até amanhã à noite, meus jovens?

— Amanhã à noite — Roland concordou.

— Acham que conseguirão achar o Barra K sozinhos, acham mesmo? De novo Roland ficou impressionado pela sugestão de desprezo e a inconsciente condescendência. Aquilo, contudo, talvez fosse bom. Se o xerife-mor achasse que eram estúpidos, as coisas poderiam ficar mais fáceis.

— Vamos achar — disse Cuthbert, subindo no cavalo. Avery olhava com desconfiança para a caveira de corvo no cabo da sela de Cuthbert. Cuthbert percebeu o olhar, mas ao menos daquela vez conseguiu manter a boca fechada. Roland ficou simultaneamente espantado e satisfeito com a inesperada contenção do amigo. — Passar bem, xerife.

— E você também, rapaz.

O xerife continuou parado ao lado do poste, um homem corpulento com uma camisa cáqui cheia de manchas de suor nas axilas e botas pretas que pareciam brilhantes demais para os pés de um xerife em serviço. E onde está o cavalo no qual ele faz as patrulhas diárias?, Roland pensou. Queria ver a crina do garanhão.

Avery ficou acenando para o grupo. Os outros agentes vieram até a calçada, o agente Dave na frente. Eles também acenaram.

 

Depois que os garotos da Confederação montaram nos caros cavalos dos pais, deram a volta na esquina e começaram a descer para a via Central, o xerife e os policiais pararam de acenar. Avery se virou para Dave Hollis, cuja expressão ligeiramente estúpida de assombro fora substituída por uma relativamente mais inteligente.

— O que você acha, Dave?

Dave levou o monóculo à boca e começou a mordiscar nervosamente o aro de metal, um hábito sobre o qual o xerife Avery já há muito tempo parara de adverti-lo. Mesmo a esposa de Dave, Judy, desistira de tomar qualquer providência a esse respeito, e Judy Renfrew... isto é, Judy Wertner... era bem determinada quando se tratava de pôr em prática sua vontade.

— Frágeis — disse Dave. — Frágeis como ovos que acabam de cair de um cú de galinha.

— Talvez — disse Avery, pondo os polegares no cinto e balançando pesadamente de um lado para o outro —, mas aquele que conduziu a conversa, aquele de chapéu achatado, ele não se acha frágil.

— Não importa o que ele acha — disse Dave, ainda mordendo o monóculo. — Ele agora está em Hambry. Pode ter de mudar seu modo de pensar.

Atrás dele, os outros agentes riram. Mesmo Avery sorriu. Deixariam os filhinhos de papai em paz, se os filhinhos de papai também os deixassem em paz — estas eram as ordens, vindas diretamente da Casa da Prefeitura —, mas Avery teve de admitir que não ia se importar se tivesse de se envolver em alguma pancadaria com eles, não ia se importar. Até gostaria de pôr as botas nas bolas daquele que tinha uma idiota caveira de pássaro na frente da sela — o tempo todo zombando dele, o tempo todo achando que Herk Avery era um caipira estúpido demais para perceber o que gente de fora poderia aprontar —, mas o que realmente ia gostar de fazer seria tirar aquele ar de serenidade dos olhos do rapaz com o chapéu de padre chato no alto, ver uma expressão mais quente de medo tomar conta daquela cara quando o Sr. Will Dearborn, de Hemphill, percebesse que Nova Canaã ficava muito longe e que seu rico papai não ia poder ajudá-lo.

— Ié — disse, dando um tapinha no ombro de Dave. — Talvez ele tenha de mudar seu modo de pensar. — Sorriu... um sorriso muito diferente de qualquer um daqueles que mostrara aos inspetores da Confederação. — Talvez todos eles tenham.

 

Os três rapazes seguiram em fila indiana até ultrapassarem o Repouso dos Viajantes (um homem jovem e obviamente retardado, com cabelo preto encarapinhado, tirou os olhos das lajotas cheias de mato e acenou; eles devolveram o aceno). Depois avançaram lado a lado, Roland no meio.

— O que pensam do nosso novo amigo, o xerife-mor? — Roland perguntou.

— Não tenho opinião — disse Cuthbert de imediato. — Não, realmente nenhuma. Opinião é igual a política, e política é um mal que tem levado à forca muita gente jovem e bonita. — Ele se inclinou para a frente e bateu na caveira do corvo com os nós dos dedos. — Mas o vigia não tem medo de dar sua opinião. E sinto dizer que nosso fiel vigia considerou o xerife Avery um saco gordo de tripas sem um único osso confiável.

Roland se virou para Alain.

— E você, jovem Master Stockworth?

Alain refletiu um pouco, como costumava fazer, mascando o pedaço de grama que, curvando-se sobre a sela, conseguira arrancar da margem da estrada. Por fim respondeu:

— Se ele nos visse pegando fogo na rua, acho que nem ia mijar em cima para apagar.

Cuthbert riu com vontade.

— E você, Will? — ele perguntou. — O que me diz, caro comandante?

— O xerife Avery não me interessa muito... mas uma coisa que ele disse sim. Como aquela pradaria que chamam de Baixa tem de ter pelo menos 30 rodas de comprimento e se estender 5 ou mais para o deserto, como Avery soube tão depressa que estávamos na área do rancho de Croydon’s Piano?

Olharam para ele, primeiro espantados, depois com ar especulativo. Após um momento, Cuthbert se inclinou para a frente e bateu de novo na caveira do corvo.

— Estávamos sendo vigiados e você não nos informou? Vai ficar sem jantar, cavalheiro, e da próxima vez vai para a paliçada!

Mas, antes que pudessem chegar mais longe, as reflexões de Roland sobre o xerife Avery foram substituídas pelas imagens bem mais agradáveis de Susan Delgado. Ia vê-la na noite seguinte, tinha certeza disso. E se perguntava se estaria de cabelo solto.

Não via a hora de descobrir.

 

E agora cá estamos, na Casa da Prefeitura. Que o jogo comece, Roland pensou, sem saber muito bem o que poderia significar aquela frase que atravessava sua mente; ele certamente não estava pensando em carteados... não naquele momento.

Os cavalariços levaram as montarias e, por um momento, os três ficaram parados diante da escada — quase encostados uns nos outros, como fazem os cavalos quando o tempo não está bom. A luz das tochas clareava os rostos sem barba e lá dentro, onde as guitarras tocavam, vozes se erguiam num novo redemoinho de riso.

— Batemos? — Cuthbert perguntou. — Ou simplesmente abrimos e entramos?

Roland não precisou responder. A porta principal da haci se escancarou dando passagem a duas mulheres. Os vestidos longos, com barras brancas, trouxeram à memória dos três rapazes os trajes que as esposas dos pecuaristas usavam na parte do mundo de onde tinham vindo. As mulheres tinham o cabelo preso em redes que cintilavam com alguma coisa que parecia diamante e brilhava à luz das tochas.

A mais velha das duas deu um passo à frente, sorrindo, e dirigiu a eles uma profunda mesura. Seus brincos, que lembravam pedaços quadrados de velhos espelhos, balançavam e reluziam.

— São os jovens da Confederação, já sei, e são bem-vindos. Boa-noite, senhores, e que seus dias sejam longos sobre a terra!

Os três se curvaram em uníssono, botas para a frente, agradecendo num coro espontâneo que a fez rir e bater palmas. A mulher alta ao lado da primeira exibiu um sorriso tão frágil quanto seu corpo.

— Sou Olive Thorin — disse a mulher gorducha —, esposa do prefeito. Esta é minha cunhada, Coral.

Coral Thorin, ainda com aquele sorriso estreito (que mal lhe franzia os lábios e não tinha qualquer efeito sobre o olhar), dispensou-lhes uma breve cortesia. Roland, Cuthbert e Alain tornaram-se a se curvar com as pernas esticadas.

— Sejam bem-vindos a Seafront — disse Olive Thorin, sua dignidade tornada mais leve e agradável pelo sorriso sem artifícios e o evidente deslumbramento com a aparência dos jovens visitantes do Mundo Interior. — Entrem com alegria em nossa casa. É o que lhes desejo de todo o coração, é mesmo.

— E é o que faremos, madame — disse Roland —, pois sua saudação nos deixou muito felizes. — Pegou a mão dela e, de forma totalmente espontânea, levou-a aos lábios e beijou-a. O riso de satisfação da mulher o fez sorrir. Roland gostou de Olive Thorin à primeira vista e talvez tenha sido ótimo ter conhecido alguém simpático logo à chegada pois, com a problemática exceção de Susan Delgado, não encontraria, pelo resto da noite, ninguém mais de quem gostasse, ninguém mais em quem confiar.

 

Estava bem quente, apesar da brisa marinha, e os casacos no cabideiro do Vestíbulo pareciam não ter mais qualquer utilidade. Roland não ficou de todo surpreso ao ver o agente Dave, os restos de cabelo penteados para trás com algum tipo de brilhantina e o monóculo no bolso, branco como neve, de um paletó. Inclinou a cabeça para ele. Dave, as mãos entrelaçadas nas costas, deu o retorno.

Dois homens — o xerife Avery e um sujeito idoso, esquálido como o velho Doutor Morte de um desenho animado — se aproximavam. Mais além, atrás de um par de portas duplas agora escancaradas, havia um aposento cheio de pessoas com copos de cristal nas mãos, conversando e tirando pequenos petiscos das bandejas que circulavam.

Roland só teve tempo de trocar um rápido olhar com Cuthbert: Tudo. Cada nome, cada rosto... cada detalhe. Especialmente aqueles.

Cuthbert ergueu uma sobrancelha — sua discreta versão de um aceno de cabeça —, e Roland se viu puxado, mesmo a contragosto, para uma noite de trabalho, na realidade sua primeira noite de trabalho como pistoleiro. E o trabalho não seria nada fácil.

O velho Doutor Morte converteu-se em Kimba Rimer, chanceler de Thorin e ministro do Inventário (Roland desconfiou que o título fora criado especialmente para a visita deles). Tinha bem mais de 10 centímetros que Roland, que já era considerado alto em Gilead, e pele branca como cera de vela. Não se tratava de uma aparência doentia; apenas pálida.

Anéis de cabelo meio grisalho flutuavam dos dois lados da cabeça, os fios finos como teia de aranha. Era completamente careca no alto da cabeça. Equilibrado na espinha do nariz havia um pince-nez.

— Meus rapazes! — disse ele, depois que as apresentações foram feitas. Tinha a voz suave, tristemente sincera de um político ou de um agente funerário. — Sejam bem-vindos a Mejis! A Hambry! E a Seafront, nossa humilde Casa da Prefeitura!

— Se isto é humilde, só imagino o palácio que as pessoas daqui poderiam construir — disse Roland. Era um comentário bastante suave, um galanteio, não uma caçoada (ele costumava deixar as caçoadas para Bert), mas o chanceler Rimer deu uma boa risada. Assim como o xerife Avery.

— Vamos lá, rapazes! — disse Rimer, quando achou que já tinha expressado suficiente satisfação. — O prefeito os espera com impaciência, tenho certeza.

— Ié — disse uma voz tímida atrás deles. Coral, a esquálida cunhada, havia desaparecido, mas Olive Thorin continuava lá e, com as mãos decorosamente entrelaçadas na área do corpo que um dia fora sua cintura, erguia os olhos para os recém-chegados. Ainda mostrava aquele simpático sorriso de boas-vindas. — Hart está muito ansioso para encontrá-los, muito ansioso, sem dúvida. Posso conduzi-los, Kimba, ou...

— Naum, naum, deixe isso conosco, pois há muitos outros convidados a atender — disse Rimer.

— Acho que tem razão. — Ela fez uma última mesura para Roland e seus amigos. Embora não parasse de sorrir, e embora o sorriso parecesse inteiramente sincero, Roland pensou: Está incomodada com alguma coisa, não há dúvida. Extremamente incomodada, eu acho.

— Cavalheiros? — Rimer perguntou. Os dentes em sua boca eram quase desconcertantemente enormes. — Não querem me acompanhar?

Ultrapassou com eles o sorridente xerife e entraram todos no salão de recepções.

 

Dificilmente Roland se deixaria impressionar com aquele tipo de coisa; conhecera, afinal, o Grande Salão de Gilead — o Salão dos Antepassados, como era às vezes chamado — e chegara a dar uma espiada na grande festa que todo ano acontecia lá, a Dança da Véspera, que marcava o final da Terra Ampla e o advento da Semeadura. Havia cinco candelabros no Grande Salão em vez de apenas um, e iluminado com lâmpadas elétricas, não com bicos de gás. Os trajes dos convivas (muitos deles rapazes e moças ricos que jamais tinham executado qualquer trabalho em suas vidas, um fato de que John Farson falava em cada oportunidade) eram mais vistosos, a música mais majestosa, as linhagens mais velhas e mais nobres, e cada vez mais próximas à medida que a memória as fazia retroceder aos tempos de Arthur Eld, o homem do cavalo branco e da espada unificadora.

Contudo, havia vida ali em Hambry, e muita. Havia uma energia que tinha se perdido em Gilead, e não apenas na Dança da Véspera. A vibração que Roland voltou a sentir ao pisar no salão de recepções da Casa da Prefeitura foi algo cujo desaparecimento ele não havia percebido inteiramente em Gilead, porque havia se escoado em silêncio e sem dor. Como o sangue saindo de uma veia numa banheira cheia de água quente.

O aposento — grande mas não imponente a ponto de ser considerado um grande salão — era circular e tinha as paredes decoradas com pinturas (a maioria delas péssima) dos antigos prefeitos. Numa plataforma erguida à direita das portas que levavam à área dos banquetes, quatro sorridentes guitarristas com jaquetas tati e sombreiros tocavam algo que soava como uma valsa apimentada. No centro do piso havia uma mesa suportando duas tigelas de vidro com ponche, uma grande e pomposa, outra menor e mais ordinária. O sujeito de paletó branco encarregado de servir o ponche era outro dos agentes de Avery.

Contrariamente ao que dissera o xerife-mor no dia anterior, havia muitos homens usando faixas a rigor de várias cores, mas Roland não se sentiu deslocado demais em sua camisa de seda branca, gravata de laço e calça riscada. Para cada homem usando uma faixa, via três usando o tipo de paletó deselegante, de corte quadrado, que ele costumava associar a camponeses na igreja, e via outros (em geral homens mais novos) que nem sequer usavam paletó. Havia mulheres com jóias (embora nada tão caro quanto os brincos espelhados de sai Thorin) e poucas pareciam habituadas a perder a hora do jantar. Também usavam roupas que Roland reconhecia: vestidos longos, de colarinho redondo, geralmente com a orla rendada de uma anágua colorida aparecendo por baixo da bainha, sapatos pretos com saltos baixos e fitas (em geral os sapatos, como os de Olive e Coral Thorin, brilhavam como jóias).

E então ele viu alguém muito diferente.

Era Susan Delgado, é claro, cintilante, quase bonita demais para se olhar. Usava um vestido de seda azul com cintura alta e um corpete de corte quadrado que mostrava a parte de cima dos seios. Trazia ao pescoço um pingente de safira que deixava os brincos de Olive Thorin parecidos com argila. Estava parada ao lado de um homem que usava uma faixa cor de carvão em uma fogueira. O carregado vermelho-laranja era o tom do Baronato e Roland achou que aquele homem devia ser o seu anfitrião, mas Roland não reparava muito nele. Seu olho estava preso em Susan Delgado: o vestido azul, a pele bronzeada, as gradações de cor, pálidas e perfeitas demais para serem maquiagem, que lhe corriam levemente pelo rosto; mais que tudo o cabelo, que naquela noite estava solto e lhe caía até a cintura como um reflexo da mais pura seda. Ele a quis de imediato, completamente, com uma profundidade de sentimento tão desesperada que lembrava uma doença. Tudo que ele era e tudo que fora sua razão de estar lá pareceu secundário diante da moça.

Susan então se virou um pouco e deu uma espiada nele. Os olhos dela (eram castanhos, Roland viu) se arregalaram muito ligeiramente. Roland achou que o colorido em seu rosto ficara um pouco mais vivo. Os lábios — lábios que haviam tocado os dele na estrada escura, pensou maravilhado — se entreabriram um pouco. Então um homem que estava ao lado de Thorin (também alto, magro, com bigode e um cabelo branco comprido que pousava nos ombros do paletó) disse alguma coisa, e Susan se virou para ele. Pouco depois, o grupo em volta de Thorin estava rindo, Susan incluída. O homem de cabelo branco não se juntava a eles, mas sorria debilmente.

Roland, esperando que sua expressão não deixasse transparecer o fato de seu coração estar batendo como martelo, foi levado diretamente para o grupo, que se se achava próximo das tigelas de ponche. Distantemente, podia sentir a conjunção ossuda dos dedos de Rimer agarrando-lhe o braço acima do cotovelo. Mais claramente, podia sentir uma mistura de odores, o óleo das lâmpadas nas paredes, o cheiro do mar. E pensou, sem absolutamente qualquer razão: Ah, estou morrendo. Estou morrendo.

Controle-se, Roland de Gilead. Pare com esta loucura, pelo amor de seu pai. Controle-se!

Ele tentou... e até certo ponto conseguiu... mas percebeu que ficaria perdido da próxima vez que Susan o olhasse. Eram os olhos dela. Na outra noite, no escuro, não pudera ver aqueles olhos tom de névoa. Não percebi como estava sendo afortunado, pensou meio tonto.

— Prefeito Thorin? — Rimer perguntou. — Posso apresentar nossos hóspedes dos Baronatos Interiores?

Com um brilho no rosto, Thorin se afastou do homem do cabelo branco comprido e da mulher que o acompanhava. Era mais baixo que seu chanceler, ainda que magro como ele, e tinha uma constituição muito peculiar: ombros curtos e estreitos sobre um corpo quase impossivelmente longo e pernas muito magras. Parecia, Roland pensou, o tipo de pássaro que se pode ver num pântano, ao amanhecer, pescando seu desjejum.

— Ié, pode! — o prefeito gritou com uma voz alta e forte. — Claro que pode apresentar nossos hóspedes, estamos esperando com impaciência, com grande impaciência, este momento! Será ótimo este nosso encontro, ótimo! Bem-vindos, senhores! Possa a noite que vão passar nesta casa, da qual sou proprietário momentâneo, ser feliz e que seus dias sejam longos sobre a terra!

Roland pegou a mão estendida e ossuda, ouviu os nós dos dedos estalarem, procurou uma expressão de desconforto no rosto do prefeito e ficou aliviado quando não viu nenhuma. Ele então se curvou esticando a perna.

— William Dearborn, prefeito Thorin, a seu serviço. Obrigado por sua recepção e que seus dias sejam longos sobre a terra.

E Roland continuou apresentando:

— Arthur Heath... — E depois: — Richard Stockworth.

O sorriso de Thorin se alargava a cada forte inclinação de cabeça. Rimer fazia o possível para sorrir, mas parecia não estar acostumado àquilo. O homem de cabelo comprido pegou um copo de ponche, entregou-o à sua companhia feminina e continuou a sorrir debilmente. Roland estava consciente de que todos na sala (talvez, no total, uns cinqüenta convivas) olhavam para eles, mas o que mais sentia à flor da pele, batendo na pele como vento suave, era o olhar dela. Roland continuava a ver, pelo canto do olho, a seda azul do vestido, mas não se atrevia a olhar mais diretamente.

— A viagem foi difícil? — Thorin estava perguntando. — Passaram por aventuras e experiências perigosas? Queremos conhecer todos os detalhes no jantar, sim, queremos, pois nos dias que correm recebemos poucos hóspedes do Arco Interior. — O sorriso ávido, levemente convencido, se apagou; as sobrancelhas espessas se uniram. — Encontraram patrulhas de Farson?

— Não, Excelência — disse Roland. — Nós...

— Naum, rapaz, naum... nada de Excelência, não precisamos disso, e os pescadores e criadores que meu governo serve também não gostam de cerimônias. Apenas prefeito Thorin, por favor.

— Obrigado. Vimos muitas coisas estranhas em nossa jornada, prefeito Thorin, mas não os Homens Bons.

— Homens Bons! — Rimer disparou e o lábio superior se levantou num sorriso que o deixou parecido com um cachorro raivoso. — Homens Bons, sei!

— Queremos ouvir o que têm a contar, cada palavra — disse Thorin. — Mas antes que eu, em minha avidez, esqueça das boas maneiras, jovens cavalheiros, deixem-me apresentá-los àqueles que me são próximos. Kimba vocês já conhecem; este formidável sujeito à minha esquerda é Eldred Jonas, chefe de minha equipe de segurança, recentemente formada. — O sorriso de Thorin pareceu momentaneamente embaraçado. — Não estou convencido de que precise de segurança extra, pois o xerife Avery sempre foi capaz de manter a paz em nosso canto do mundo, mas Kimba insiste. E quando Kimba insiste, o prefeito tem de se curvar.

— Muito bem dito, senhor — comentou Rimer, curvando-se ele próprio. Todos riram, salvo Jonas, que se limitou a conservar um sorriso leve.

— É um prazer conhecê-los, amigos, tenham certeza — disse Jonas inclinando a cabeça para os rapazes. Uma voz de cana rachada. Jonas desejou que os dias deles, de cada um dos três, fossem longos sobre a terra, e concluiu em Roland a rodada de cumprimentos. O aperto de mão foi seco e firme, inteiramente em desacordo com o tremor na voz. E agora Roland notava a estranha forma azul tatuada nas costas da mão direita do homem, na articulação entre o polegar e o indicar. Parecia um caixão.

— Longos dias, belas noites — disse Roland, quase sem pensar. Era um cumprimento de sua infância e foi só mais tarde que percebeu que a frase seria mais facilmente associada a Gilead que a um lugar rural como Hemphill. Só um pequeno deslize, mas ele estava começando a crer que a margem de segurança para tais deslizes era bem mais estreita do que imaginara seu pai, quando o mandara para lá, tentando tirá-lo do caminho de Marten.

— E para você também — disse Jonas, cujos olhos brilhantes avaliaram Roland de cima a baixo com uma franqueza quase insolente. Só agora ele soltava sua mão e dava um passo atrás.

— Cordelia Delgado — disse o prefeito Thorin, inclinando a cabeça para a mulher que estivera conversando com Jonas. Quando Roland fez a mesura, percebeu a semelhança... mas o que parecia generoso e adorável no rosto de Susan parecia mesquinho e feio na face que via diante dele. Não era a mãe da moça; Roland achou que Cordelia Delgado era um tanto jovem demais para isso.

— E nossa amiga especial, Srta. Susan Delgado — Thorin concluiu, parecendo perturbado (Roland apostou que ela produziria aquele efeito em qualquer homem, mesmo num homem velho como o prefeito). Thorin puxou-a para a frente, balançando a cabeça e sorrindo. Tinha uma daquelas mãos com os nós dos dedos salientes pressionada contra suas costas, e Roland experimentou um instante de venenoso ciúme. Ridículo, dada a idade do homem e sua esposa gorducha e simpática, mas foi ciúme, sem dúvida, e foi realmente forte. Forte como um ferrão de abelha, Cort teria dito.

Então o rosto de Susan se ergueu para o dele, e Roland estava olhando de novo para dentro dos olhos de Susan. Tinha ouvido, em alguma história ou poema, alguém dizer que se afogava nos olhos de uma mulher e achara ridículo. Ainda achava ridículo, mas compreendia que podia perfeitamente acontecer. E ela percebia a coisa. Roland viu preocupação nos olhos dela, talvez medo.

Se me encontrar na Casa da Prefeitura, finja que está me encontrando pela primeira vez.

A lembrança daquelas palavras teve um efeito apaziguador, esclarecedor, parecendo ampliar um pouco sua visão. Bastava dar uma olhada na mulher ao lado de Jonas, a mesma que compartilhava alguns dos traços de Susan. Ela já olhava para a moça com uma mistura de curiosidade e alarme.

Roland curvou bastante a cabeça, mas só tocou levemente a mão estendida, sem anéis. Mesmo assim, sentiu uma espécie de centelha saltar entre seus dedos. Pelo momentâneo arregalar dos olhos dela, Roland achou que Susan sentira o mesmo.

— E um prazer conhecê-la, sai — disse ele, mas a tentativa de ser descontraído soou fraca e falsa a seus próprios ouvidos. Contudo, já havia começado e teve a impressão de que todos estavam concentrados nele (neles) e nada podia fazer a não ser continuar com a coisa. Bateu três vezes na garganta. — Que seus dias sejam longos sobre...

— Ié, e os seus também, Sr. Dearborn. Obrigada-sai.

Ela se virou para Alan com uma rapidez quase rude, depois para Cuthbert, que inclinou a cabeça, bateu na garganta e disse gravemente:

— Posso me reclinar brevemente a seus pés, senhorita? Sua beleza me enfraqueceu os joelhos. Tenho certeza que alguns momentos contemplando de baixo seu perfil, com a nuca nessas lajotas frias, me colocaria de novo em ordem.

Todos riram... mesmo Jonas e a Sra. Cordelia. Susan ficou bastante corada e deu um tapinha nas costas da mão de Cuthbert. Ao menos por uma vez, Roland achou abençoada a incansável disposição do amigo para a pilhéria.

Outro homem juntou-se ao grupo que estava junto da tigela de ponche. O recém-chegado era atarracado, mais gordo que magro em seu casaco de corte reto. O tom muito vermelho do rosto lembrava uma queimadura de sol, não um fogo de bebida, e os olhos mortiços jaziam em teias de rugas. Um rancheiro; Roland fizera um suficiente número de viagens com o pai para conhecer o tipo.

— Esta noite encontrarão punhados de moças querendo conhecê-los, rapazes — disse o recém-chegado com um sorriso bastante amigável. — Se não tiverem cuidado, ficarão embriagados com os perfumes. Mas gostaria de bater um papo com vocês antes que as encontrem. Fran Lengyll, às suas ordens.

O aperto de mão foi rápido e forte; nenhuma inclinação de cabeça ou mesura absurda o acompanhou.

— Sou o dono do Rocking B... ou ele é dono de mim, façam vocês a opção. Também sou o chefe da Associação dos Cavaleiros, pelo menos até me tirarem de lá. O Barra K foi idéia minha. Espero que tenha sido boa.

— Foi perfeita, senhor — disse Alain. — O lugar é limpo, seco e com espaço para umas vinte pessoas. Obrigado. Foi muito gentil.

— Bobagem — disse Lengyll com ar satisfeito, embora quase derramando seu copo de ponche. — Estamos todos no mesmo barco, rapaz. John Farson é apenas mais uma palha no campo de insensatez que cultivamos nos dias de hoje. O mundo seguiu adiante, dizem as pessoas. Arre! Adiante, ié, e avançando um bom trecho pela estrada do inferno, pois é para lá que segue adiante. Nosso trabalho é manter o feno longe da fornalha o mais que pudermos, e pelo maior tempo possível. Antes até pelo bem de nossos filhos que pelo respeito a nossos pais.

— Bravo, bravo! — exclamou o prefeito Thorin numa voz que, tentando manter um tom de solenidade, caía na mais decidida sugestão de vulgaridade. E então, ao reparar que Thorin, velho e esquelético, agarrava uma das mãos de Susan (parecendo quase inconsciente daquilo, ela olhava atentamente para Lengyll), Roland de repente compreendeu: o prefeito era seu tio ou talvez um primo próximo. Lengyll ignorava os dois, concentrando sua atenção nos três recém-chegados, esquadrinhando um por um e terminando em Roland.

— Se pudermos fazer alguma coisa em Mejis para ajudar, basta pedir, rapaz... a mim, a John Croydon, Hash Renfrew, Jake White ou Hank Wertner. A qualquer um de nós ou a todos nós. Vão encontrá-los esta noite aqui, ié, juntamente com as esposas, os filhos e as filhas, e só precisarão pedir. Podemos estar bastante fora do eixo central de Nova Canaã, mas somos fiéis ao espírito da Confederação. Ié, muito fiéis.

— Disse-o bem — comentou Rimer em voz baixa.

— E agora — continuou Lengyll — vamos brindar à vinda de vocês. E afinal já tiveram de esperar bastante por uma concha de ponche. Devem estar sedentos como areia.

Virou-se para as tigelas de ponche e estendeu a mão para a concha mergulhada na maior e mais ornada das duas, dispensando o homem que servia, sem dúvida querendo homenageá-los servindo ele próprio a bebida.

— Sr. Lengyll — disse Roland. Um tom baixo, mas que tinha uma força de comando. Fran Lengyll ouviu-a e se virou. — O ponche da tigela menor é suave, não é?

Lengyll pensou na pergunta, a princípio não compreendendo. Então sua sobrancelha se ergueu. Pela primeira vez pareceu encarar Roland e os outros não como símbolos vivos da Confederação e dos Baronatos Interiores, mas como verdadeiros seres humanos. Muito jovens. Simples garotos quando se ia direto ao assunto.

— Ié?

— Sirva o nosso dessa tigela, se quer nos fazer a gentileza. Roland sentiu agora todos os olhares sobre eles. Particularmente o olhar dela. Continuou olhando firmemente para o rancheiro, mas tinha uma boa visão periférica e percebeu claramente que o sorriso débil de Jonas havia ressurgido. Jonas já sentira alguma coisa no ar. E Roland começou a achar que também Rimer e Thorin. Aqueles capiaus não eram nada tolos. Sem dúvida, sabiam mais do que aparentavam e seria preciso pensar cuidadosamente nisso mais tarde. Naquele momento, porém, aquela era a menor de suas preocupações.

— Esquecemos as faces de nossos pais num assunto que tem alguma relação com nossa designação para Hambry. — Roland teve a incômoda consciência de que começara um pequeno trecho de discurso, gostasse disso ou não. Não era (graças aos deuses por esta bênção) a toda a sala que estava se dirigindo, mas sem dúvida o círculo mais imediato de ouvintes já superava bastante o grupo original. Não havia, porém, outra saída além de terminar o que havia começado; o barco estava no mar. — Não preciso entrar em detalhes... nem os senhores esperariam ouvi-los, sem dúvida... mas quero que saibam que prometemos não nos entregarmos à bebida durante nossa estada aqui. Como punição, entendem.

O olhar dela. Achava que ainda podia senti-lo na pele. Por um momento houve completo silêncio no pequeno grupo reunido ao redor das tigelas de ponche, e então Lengyll interveio:

— Seu pai ficaria orgulhoso de ouvi-lo falar tão francamente, Will Dearborn... ié, ficaria. E que rapaz que faz jus ao nome não arranja um pequeno barulho de vez em quando? — Bateu no ombro de Roland mas, embora o aperto de mão tivesse sido firme e o sorriso parecesse sincero, seus olhos eram de leitura difícil (difícil especular entre os muitos reflexos mergulhados na ondulação daquelas pupilas). — Posso me colocar no lugar dos pais de todos e transmitir o orgulho pelos filhos que têm?

— Sim — disse Roland, sorrindo. — E agradeço por isso.

— Eu também agradeço — disse Cuthbert.

— E eu — disse Alain calmamente, pegando o copo de ponche suave que lhe era oferecido e inclinando a cabeça para Lengyll.

Lengyll encheu mais copos e distribuiu-os rapidamente ao redor. Os que já estavam segurando copos de ponche forte colocaram-nos de lado, substituindo-os pelos novos copos de ponche suave. Quando todos do grupo mais imediato de convivas já tinham sido servidos, Lengyll se virou, aparentemente para fazer o brinde. Rimer, no entanto, bateu-lhe no ombro, balançou discretamente a cabeça e os olhos apontaram para o prefeito. Thorin observava a cena com olhos um pouco arregalados e o queixo ligeiramente caído. Roland achou-o parecido com um espectador de circo no fundo da arquibancada, fascinado com o espetáculo; só faltava o colo cheio de cascas de amendoim. Lengyll seguiu o rápido olhar do chanceler e aquiesceu.

Em seguida Rimer captou a atenção do tocador de guitarra parado no centro do grupo de músicos. Ele parou de tocar; assim como os outros. Os convidados olharam para lá e depois se viraram para o centro do salão, onde Thorin começava a falar. Sua voz não tinha nada de ridículo quando se elevava numa situação como aquela: era atraente e agradável.

— Senhoras e senhores, meus amigos — disse ele. — Peço que me ajudem a dar as boas-vindas a três novos amigos... jovens dos Baronatos Interiores, jovens valorosos que se arriscaram por grandes distâncias e muitos perigos em nome da Confederação e a serviço da ordem e da paz.

Susan Delgado pousou o copo de ponche, retirou a mão (com alguma dificuldade) do aperto da tia e começou a bater palmas. Outros se juntaram a ela. O aplauso que varreu a sala foi breve, mas caloroso. Roland, no entanto, reparou que Eldred Jonas não pousara seu copo para acompanhar os demais.

Thorin se virou sorrindo para Roland. Ergueu o copo.

— Posso ser direto em meu brinde, Will Dearborn?

— Ié, pode ser, e o agradecimento é meu — disse Roland. Houve risos e novos aplausos com aquele seu modo de responder.

Thorin levantou um pouco mais o copo e todos na sala fizeram o mesmo. Os cristais brilharam como pontos estrelados à luz do grande lustre.

— Senhoras e senhores, brindemos à saúde de William Dearborn de Hemphill, Richard Stockworth de Pennilton e Arthur Heath de Gilead.

Suspiros e murmúrios ante o último nome, como se o prefeito tivesse anunciado Arthur Heath do céu.

— Cuidem bem deles, aproveitem-se de sua estada, façam doces seus dias em Mejis para que levem lembranças mais doces ainda. Ajudem-nos em seu trabalho e a fortalecer a causa que é tão cara a todos nós. Que os dias deles sejam longos sobre a terra. É o que diz o prefeito de vocês.

— É O QUE DIZEMOS NÓS! — trovejou a sala.

Thorin tomou um gole; todos lhe seguiram o exemplo. Houve novos aplausos. Roland se virou, incapaz de se controlar e, mais uma vez, encontrou os olhos de Susan. Por um momento ela o olhou diretamente e, na franqueza daquele olhar, Roland viu que estava praticamente tão abalada por sua presença quanto ele pela dela. Então a mulher mais velha que se parecia com ela se curvou e murmurou alguma coisa em seu ouvido. Susan virou o rosto, recompondo imediatamente a expressão... mas Roland tinha visto o brilho nos olhos dela. E tornou a pensar que o que estava feito podia ser desfeito e o que estava dito podia não ser cumprido.

 

Ao passarem à sala de banquetes, onde naquela noite havia quatro mesas compridas sobre cavaletes (tão próximas umas das outras que mal dava espaço para passar), Cordelia agarrou a mão da sobrinha e afastou-a por alguns momentos do prefeito e de Jonas, que tinham iniciado uma conversa com Fran Lengyll.

— Por que olha dessa maneira para aquele rapaz, menina? — Cordelia murmurou furiosa. A ruga vertical aparecera em sua testa. Seria, naquela noite, profunda como uma vala. — O que vai aí dentro dessa cabecinha louca, estúpida? — Estúpida. Só o uso desta palavra bastava para dizer a Susan que a tia estava realmente furiosa.

— Olho pra quem? E de que maneira? — O tom de voz era alto, mas, ah, seu coração...

A mão em seu braço apertou mais, machucando.

— Não me faça de palhaça, dona Ah-que-Mocinha-Bonita! Onde já tinha visto aquele bonito par de calças? Me diga a verdade!

— Como já podia ter visto? Está me machucando, tia.

Tia Cord sorriu com ar maligno e apertou-a um pouco mais.

— Melhor um pequeno roxo agora que um grande mais tarde. Controle a sem-vergonhice. E controle o flerte dessas olhadas.

— Tia, não tenho a menor idéia do que está...

— Acho que tem — disse Cordelia severamente, empurrando a sobrinha contra uma das paredes para não bloquear o caminho das pessoas. Quando o rancheiro dono do abrigo de barcos ao lado do seu disse alô, tia Cord mostrou um sorriso simpático e desejou-lhe boa-noite antes de voltar a Susan.

— Preste atenção, senhorita... preste atenção no que eu digo. Se vi o que estavam fazendo seus olhinhos de vaca, pode ter certeza que metade dos convidados também viu. Bem, o que está feito, está, mas isso tem de parar agora. O tempo desses jogos de menina-moça já acabou. Entendeu o que eu disse?

Susan permanecia calada, o rosto sendo tomado por certos traços de obstinação que era o que Cordelia mais odiava, uma expressão que lhe dava vontade de esbofetear a sobrinha geniosa até o nariz sangrar e as lágrimas jorrarem daqueles grandes olhos castanhos de coelha.

— Deu sua palavra e firmou um contrato. Documentos de terras foram preparados, a feiticeira foi consultada, dinheiro mudou de mãos. Você prometeu. Se para você isto não significa nada, lembre-se do que significaria para seu pai.

Lágrimas tornaram a brotar nos olhos de Susan, e Cordelia gostou de vê-las. Falar no irmão, que só conseguira gerar aquela mulherzinha bonita e infantil, provocava-lhe uma incômoda irritação... mas falar nele, mesmo depois de morto, sempre podia ter alguma utilidade.

— Agora prometa que vai manter os olhos baixos e que, se vir o rapaz se aproximar, vai se afastar de imediato... ié, sair de imediato do caminho dele... para o mais longe que puder.

— Prometo, tia — Susan murmurou. — Prometo.

Cordelia sorriu. E Cordelia era realmente bem bonita quando sorria.

— Está bem, então. Vamos voltar. Estão nos olhando. Segure no meu braço, menina!

Susan agarrou o braço da tia, cheio de pó-de-arroz. Voltaram lado a lado para o meio do salão, os vestidos farfalhando, o pingente de safira reluzindo no alto dos seios de Susan. Muita gente comentou como eram parecidas e como o pobre Pat Delgado teria gostado de vê-las assim.

 

Roland estava sentado perto da cabeceira da mesa do centro, entre Hash Renfrew (um rancheiro ainda mais alto e pesado que Lengyll) e Coral, a irmã um tanto mal-humorada de Thorin. Renfrew fora hábil com o ponche; agora, com a sopa trazida para a mesa, dispôs-se a provar que era igualmente bom para servir a cerveja.

Conversou sobre o comércio da pesca (“não é mais o que costumava ser, rapazes, embora o que cai em nossas redes ainda tenha um mínimo de qualidade, o que é uma bênção”), o comércio agrícola (“as pessoas daqui sabem plantar quase tudo, mas agora a terra praticamente só dá feijão ou milho”) e, por fim, sobre as coisas que realmente lhe eram mais caras: a criação de cavalos, a caça, os cuidados com o rancho. Os negócios, no fundo, continuavam como sempre, ié, continuavam sim, embora há pelo menos quarenta anos os tempos viessem ficando difíceis nos centros de pesca e nas pastagens dos Baronatos do litoral.

Mas as criações não estavam ficando mais puras?, Roland perguntou. Pelo menos era o que acontecia nas terras de onde vinham.

Ié, Renfrew concordou, ignorando a sopa de batatas e devorando iscas grelhadas de carne. Ele as pegava com a mão, regando-as com mais cerveja. Ié, jovem mestre, as criações não estavam se purificando às mil maravilhas, não estavam mesmo, três potros de cada cinco eram cria limpa... tanto os puros-sangues quanto as linhagens comuns, sem inseminação... e o quarto podia ser mantido vivo e posto para trabalhar, embora não para procriar. Nos dias que corriam só um em cinco nascia com pernas ou olhos extras, ou com as tripas do lado de fora, o que era um bom índice. Mas as taxas de nascimento continuavam caindo, continuavam sim; as pistolas dos garanhões continuavam não negando fogo, mas a qualidade da pólvora e a força dos disparos já não eram as mesmas.

— Peço que me perdoe, senhora — disse Renfrew, inclinando-se brevemente, pela frente de Roland, para Coral Thorin. Ela mostrou um sorriso débil (que fez Roland se lembrar de Jonas), arrastou sua colher pela sopa e não disse nada. Renfrew esvaziou o copo de cerveja, lambeu calorosamente os lábios e estendeu novamente o copo. Quando o reabasteceram, ele se virou para Roland.

As coisas não iam bem, não eram mais como antigamente, mas podiam estar piores. Estariam piores se Farson, aquele puto, estivesse a caminho de lá. (Desta vez ele não se preocupou em apresentar suas desculpas a sai Thorin.) Tinham todos de trabalhar em conjunto, este era o segredo... ricos e pobres, pequenos e grandes, pelo menos enquanto o trabalho ainda pudesse dar alguns de seus frutos. E por fim repetiu as palavras de Lengyll, dizendo a Roland que se ele e seus amigos quisessem alguma coisa, não importa o quê, bastava pedir.

— Acho que só vamos mesmo precisar de informação — disse Roland. — Quantidades de coisas.

— Ié, não podem ser contadores sem números — Renfrew concordou, soltando um riso embriagado. Do lado direito de Roland, Coral Thorin beliscava algumas verduras (mal tocara nas iscas de carne), mostrava seu sorriso breve e continuava revirando a sopa com a colher. Roland, no entanto, achou que ela podia ter ouvidos muito bons e que talvez o irmão recebesse um relatório completo das conversas ali. Ou o relatório poderia ser feito a Rimer. Pois, embora fosse cedo demais para ter certeza, Roland começava a desconfiar que era Rimer quem tinha verdadeiramente força ali. Juntamente, talvez, com sai Jonas.

— Por exemplo — disse Roland —, quantos bons cavalos acha que poderemos reportar à Confederação?

— Por raça ou no total?

— No total.

Renfrew pousou o copo e pareceu calcular. Enquanto ele fazia isso, Roland olhou para a outra ponta da mesa e viu Lengyll e Henry Wertner, o criador dos cavalos de corrida do Baronato, trocarem um rápido olhar. Eles tinham ouvido. E Roland viu mais alguma coisa quando voltou a se concentrar no homem sentado a seu lado: Hash Renfrew estava bêbado, mas provavelmente não tão bêbado quanto queria fazer o jovem Will Dearborn acreditar.

— No total, você diz... o total com que a Confederação pode contar e que lhe deveríamos mandar numa situação crítica.

— Exato.

— Bem, vamos ver, jovem sai. Fran deve manter umas 140 cabeças; quase umas cem de John Croydon. Hank Wertner, sem o auxílio de ninguém, conseguiu juntar quarenta cabeças próprias e seu rancho da Baixa guarda mais umas sessenta para o Baronato. Como acha que ficariam os animais se fossem tratados diretamente pelo governo?

— Como acho? — disse Roland sorrindo. — Bem, de cascos quebrados, pescoços atarracados, incapazes de correr, incapazes de parar de comer.

Renfrew deu uma boa risada, fazendo que sim com a cabeça... mas Roland não deixou de se perguntar se o homem estaria mesmo achando a coisa divertida. Em Hambry, as águas no alto e as águas embaixo pareciam correr em direções diferentes, nada era confiável.

— No que me diz respeito, meus animais enfrentaram uns dez ou 12 anos bastante maus... Infecções na vista, febre cerebral, roubos. A Baixa já chegou a ter duzentas cabeças de cavalos de pista com a marca do haras Susan Preguiçosa; agora eles não somam mais que oitenta.

Roland assentiu.

— Então estamos falando de 420 cabeças.

— Ah, mais que isso — disse Renfrew com uma risada. Ao pegar a caneca de cerveja, Renfrew bateu nela com as costas da mão calejada e vermelha, derrubou-a no chão, disse um palavrão, pegou-a e disse outro palavrão para o criado que se aproximou devagar para tornar a servi-lo.

— Mais que isso? — Roland atiçou quando Renfrew conseguiu se recompor, se aprumar e se mostrar disposto a retomar a conversa.

— Não podemos esquecer, Sr. Dearborn, que nossa região é mais eqüina que pesqueira. Disputamos uns com os outros, nós e os pescadores, mas a verdade é que os próprios pescadores costumam criar um pônei nos fundos de casa ou nos estábulos do Baronato, quando não têm um teto para proteger da chuva a crina de um cavalo. Era o pai dela quem costumava cuidar dos estábulos do Baronato...

Renfrew inclinara a cabeça para Susan, que estava sentada do outro lado da mesa e três lugares à frente de Roland... ao lado do prefeito, que se instalara, é claro, à cabeceira. Roland achou um tanto curioso que Susan estivesse sentada ali, principalmente levando em conta que a mulher do prefeito se acomodara quase na outra extremidade da mesa, com Cuthbert de um dos lados e um rancheiro a quem ainda não tinham sido apresentados do outro.

Roland especulou que talvez um sujeito velho como Thorin quisesse ter uma parenta jovem do lado para ajudar a atrair atenção sobre si ou para estimulá-lo um pouco, mas a coisa ainda era estranha. Pareceria quase um insulto para qualquer esposa. E se estava cansado da conversa de Olive Thorin, por que não a pusera à cabeceira de outra mesa?

Eles têm seus próprios costumes, só isso, e os costumes daqui não são da sua conta. O que tem de contar é o número de bons garanhões deste homem.

— E, afinal, quantos cavalos de corrida a mais? — perguntou a Renfrew. — No total.

Renfrew encarou-o com um ar de esperteza.

— Espero que uma resposta honesta não acabe me prejudicando, certo, meu filho? Sou um homem da Confederação... sou mesmo, da Confederação até a raiz dos cabelos, e vão deixar a Excalibur gravada na cabeceira do meu túmulo, vão mesmo... mas não gostaria que Hambry e Mejis fossem despojados de todo o seu tesouro.

— Isso não vai acontecer, sai. Além do mais, como poderíamos obrigá-los a entregar o que não quisessem? Todas as forças que temos estão ocupadas no norte e oeste, lutando contra o Homem Bom.

Renfrew refletiu um instante e concordou com um movimento de cabeça.

— E por que não me chama de Will? — disse Roland.

Renfrew sorriu, tornou a assentir e estendeu a mão pela segunda vez. Ampliou ainda mais o sorriso quando Roland usou suas duas mãos para apertar a dele, o aperto duplo preferido por tropeiros e vaqueiros.

— Vivemos em tempos ruins, Will — disse ele —, que liquidaram nossas boas maneiras. Eu diria que há provavelmente mais umas 150 cabeças de cavalos em Mejis e em seus arredores. Estou me referindo a bons cavalos.

— Animais puro-sangue.

Renfrew assentiu, bateu nas costas de Roland, ingeriu uma boa quantidade de cerveja.

— Puro-sangue, ié.

Da ponta da mesa chegou uma explosão de riso. Ao que parece, Jonas dissera alguma coisa engraçada. Susan ria abertamente, a cabeça inclinada para trás e as mãos se fechando sobre o pingente de safira. Cordelia, que estava sentada à esquerda da moça (à sua direita estava Jonas), também ria. Thorin parecia absolutamente convulso, balançando para a frente e para trás na cadeira, enxugando os olhos com um guardanapo.

— A moça é adorável — disse Renfrew. O tom fora quase reverente. Roland não seria capaz de jurar não ter ouvido um pequeno murmúrio (algum hummm feminino, talvez) vindo do outro lado da mesa. Olhou naquela direção e viu Coral Thorin ainda remexendo em sua sopa. Voltou a olhar para a cabeceira.

— O prefeito é tio dela, talvez primo? — Roland perguntou.

O que aconteceu em seguida ficaria gravado em sua memória com a mais extrema clareza, como se alguém tivesse intensificado todas as cores e sons do mundo. As cortinas de veludo atrás de Susan pareceram muito mais vermelhas e o grasnido de riso que veio de repente de Coral Thorin foi como um galho quebrando. Certamente suficientemente alto para que todos nas vizinhanças interrompessem a conversa e olhassem para ela... com a única exceção de Renfrew e de dois rancheiros do outro lado da mesa.

— Tio dela! — Era a primeira vez que Coral intervinha nas conversas da noite. — Tio dela, essa é boa. Hein, Renfrew?

Renfrew não respondeu, limitando-se a empurrar a caneca de cerveja um pouco para o lado e a começar, finalmente, a tomar a sopa.

— Estou espantada com você, meu jovem, estou mesmo. Pode ter vindo do Mundo Interior, mas, valha-me Deus, quem devia instruí-lo sobre o mundo real... aquele fora dos livros e mapas... não conseguiu levar o curso até o fim. Ela é sua... — Foi uma palavra tão envolvida com dialetos locais que Roland não compreendeu sequer o som exato. Soava como seefin ou sheevin.

— Como disse? — Ele estava sorrindo, mas o sorriso parecia frio e falso. Tinha um aperto na barriga, como se o ponche, a sopa e a isca de carne (que comera para ser gentil) estivessem girando num grande bolo no estômago. Serve na corte?, ele havia perguntado, querendo saber se a moça servia à mesa. Talvez ela realmente servisse, mas provavelmente num aposento mais exclusivo que aquele. De repente Roland não quis ouvir mais nada; já não tinha o menor interesse pelo significado da palavra que a irmã do prefeito usara.

Outra explosão de riso sacudiu o topo da mesa. Susan ria virando a cabeça para trás, as faces muito coradas, os olhos brilhando. Uma dobra do vestido lhe escorregara pelo braço, revelando a suave cavidade do ombro. Enquanto Roland a observava com o coração repleto de desejo e medo, ela colocou distraída, com a palma da mão, a aba do vestido no lugar.

— A palavra quer dizer “mocinha discreta” — Renfrew explicou com evidente constrangimento. — É um termo antigo, não muito usado nos dias de hoje...

— Pare com isso, Rennie — disse Coral Thorin. E depois, para Roland: — Ele é apenas um velho caubói e anda sempre com merda de cavalo na cabeça, mesmo quando seus belos garanhões não estão por perto. Sheevin significa concubina. No tempo de minha bisavó, significava puta... mas uma puta com certo estilo. — Atirou um olhar mortiço para Susan, que agora tomava cerveja, e voltou a Roland. Havia uma espécie de alegria maligna em seu rosto, uma expressão de que Roland gostou muito pouco. — O tipo de mulher que tem de ser paga com dinheiro de verdade, fina demais para o trato com pessoas simples.

— É seu arranjo, então? — Roland perguntou através de lábios que pareciam encostados em gelo.

— Ié — disse Coral. — Ainda não consumado, não até a Colheita... O que não está agradando nada a meu irmão, tenha certeza. De qualquer modo, assim como acontecia antigamente, a garota já foi comprada e paga. Já foi. — Coral fez uma pausa antes de continuar: — O pai morreria de vergonha se a visse nessa situação. — Um comentário feito com uma espécie de satisfação nostálgica.

— Talvez não devêssemos julgar o prefeito com muita severidade — disse Renfrew num tom embaraçado, contemporizador.

Coral o ignorou. Examinava a linha do queixo de Susan, o suave contorno dos seios sobre a borda sedosa do corpete, a queda dos cabelos.

O ralo senso de humor se fora do rosto de Coral Thorin. Em seu lugar havia agora uma espécie um tanto malévola de desprezo.

Mesmo que não quisesse, Roland não podia deixar de imaginar os nós dos dedos salientes nas mãos do prefeito puxando os cordões do vestido de Susan, rastejando sobre os ombros nus, mergulhando como velhos caranguejos na gruta sob seu cabelo. Desviou o olhar para a outra ponta da mesa, mas o que viu ali não foi melhor. Quem seus olhos encontraram foi Olive Thorin — Olive que fora relegada ao final da mesa, Olive, erguendo os olhos para o grupo sorridente próximo da cabeceira. Erguendo os olhos para o marido, que a substituíra por uma bela moça, presenteada com um pingente que fazia seus brincos espelhados parecerem bijuteria barata. Não havia, porém, em seu rosto nada do ódio e do irado desprezo de Coral. Se houvesse, talvez fosse mais fácil contemplá-la. Apenas observava o marido com um olhar humilde, ansioso e infeliz. Agora Roland entendia por que a tinha achado triste. Olive tinha muitos motivos para ser triste.

Mais risos do grupo do prefeito; Rimer havia se inclinado da mesa vizinha, onde estava à cabeceira, certamente contribuindo com algum dito espirituoso. E que devia ter sido um dos bons. Agora até Jonas ria. Susan pôs a mão nos seios e puxou o guardanapo para tirar uma lágrima de riso do canto do olho. Thorin segurava sua outra mão. Ela se voltou para Roland e, ainda rindo, encontrou os olhos dele. Ele pensava em Olive Thorin, sentada na extremidade da mesa, onde ficavam o sal e as especiarias. Diante dela, um intocado prato de sopa e, em seu rosto, aquele sorriso infeliz. Sentada onde a moça poderia vê-la muito bem. E Roland achou que, se estivesse com seus revólveres, poderia puxar um deles e pôr uma bala no frio e prostituído coraçãozinho de Susan Delgado.

E pensou: Quem você esperava enganar?

Então apareceu um dos rapazes que serviam, pondo um prato de peixe na sua frente. Roland achou que nunca tivera menos vontade de comer em toda a sua vida... mas assim mesmo ia comer, assim como ia fazer a mente voltar às questões levantadas por sua conversa com Hash Renfrew, do rancho Susan Preguiçosa. Não esqueceria a face de seu pai.

Não, de modo algum vou esquecê-la, pensou. Mas gostaria muito de esquecer a face que está sobre aquela safira.

 

O jantar foi interminável e depois dele também não houve escapatória. A mesa no centro do salão de recepções fora removida e, quando os convidados voltaram àquele aposento (como uma onda muito alta que ali tivesse desaguado), formaram-se dois grandes círculos de pessoas junto a um animado homenzinho de cabelo ruivo que, mais tarde, Cuthbert informaria se tratar do secretário de lazer do prefeito Thorin.

A formação dos círculos de cavalheiros e damas se fizera com muito riso e alguma dificuldade (Roland achou que cerca de três quartos dos convidados já estavam razoavelmente altos); agora os guitarristas atacavam uma quesa. O que nada mais era que um tipo de quadrilha. Os círculos evoluíram em sentidos opostos, todos de mãos dadas, até a música fazer uma pausa. Então o casal que estava no ponto onde os dois círculos se tocavam começou a dançar no centro do círculo da dama, enquanto todos batiam palmas e davam bravos.

O chefe da orquestra trabalhava a velha e, sem dúvida, estimada tradição com um olho atento ao ridículo, parando seus muchachos em momentos determinados para que se formassem as duplas mais engraçadas: mulher alta-homem baixo, mulher gorda-homem muito magro, mulher velha-rapaz novo (Cuthbert acabou martelando o chão com uma mulher da idade de sua bisavó, provocando risadinhas sem fôlego na sai e urros generalizados de aprovação na sala).

Então, quando Roland começou a achar que aquela dança estúpida jamais ia acabar, a música parou e ele se viu de frente para Susan Delgado.

Por um momento, a única reação de Roland foi cravar os olhos nela, achar que eles estavam à beira de saltar das órbitas e que não conseguiria mover nenhum de seus dois pés cretinos. Então Susan estendeu os braços, a música recomeçou, o círculo (que incluía o prefeito Thorin e o vigilante Eldred Jonas, sempre com aquele sorriso débil) aplaudiu e Roland começou a dançar com ela.

A princípio, quando a fez executar o primeiro giro (os pés de Roland, entorpecidos ou não, moviam-se com a graça e precisão a que estavam acostumados), sentiu-se como um homem feito de vidro. Então ficou consciente do corpo de Susan tocando o seu, do farfalhar do vestido e logo voltou a se sentir plenamente humano.

Por um breve momento, ela se aproximou um pouco mais e, quando falou, Roland sentiu sua respiração lhe fazer cócegas na orelha. Achou que uma mulher podia enlouquecer um homem — realmente enlouquecer. Até aquela noite julgaria isso impossível, mas aquela noite estava alterando tudo.

— Obrigada por sua discrição e seu decoro — ela sussurrou. Roland recuou um pouco e, ao mesmo tempo, a fez girar, a mão embaixo de suas costas — palma pousada no frio do cetim, dedos encostando numa pele quente. Os pés dela seguiam os seus sem a menor pausa ou hesitação; moviam-se com graça perfeita, sem que Susan demonstrasse o menor temor em rodar próxima do peso de suas botas, mesmo nos giros mais escorregadios e delicados.

— Posso ser discreto, sai — disse ele. — Mas quanto ao decoro... Achei que nem conhecesse essa palavra.

Ela ergueu os olhos para a frieza do rosto de Roland, que viu o sorriso de Susan sendo substituído pela raiva. Mas antes da raiva, havia a injúria, como se ele a tivesse esbofeteado. Roland se sentiu simultaneamente arrependido e satisfeito.

— Por que está dizendo isso? — ela murmurou.

A música parou antes que Roland pudesse responder... embora ele não fizesse a menor idéia da resposta que poderia ter dado. Susan fez uma mesura e ele inclinou a cabeça, enquanto quem os cercava batia palmas e assobiava. Então voltaram todos aos seus lugares, aos círculos distintos, e as guitarras tocaram de novo. Roland sentiu suas mãos sendo seguradas à frente e atrás e começou, mais uma vez, a girar com o círculo.

Rindo. Batendo os pés. Batendo palmas no ritmo. Sentindo que Susan, em algum lugar atrás dele, fazia o mesmo. Imaginando se Susan queria tanto quanto ele estar fora dali, estar no escuro, estar a sós no escuro, onde ele pudesse se livrar daquela expressão falsa antes que a verdadeira, embaixo da outra, esquentasse a ponto de pegar fogo.

 

Sheemie

Por volta das dez horas, o trio de jovens dos Baronatos Interiores apresentou suas despedidas ao casal de anfitriões e escapou para a perfumada noite de verão. Cordelia Delgado, que por acaso estava ao lado de Henry Wertner, responsável pelos cavalos de corrida do Baronato, comentou que deviam estar cansados. Wertner riu e respondeu com um sotaque tão rural que era quase cômico:

— Naum, dona, guris dessa idade é cumu ratu explorando pilha de lenha dispois duma chuva de canivetes, isso são. Vaum demorá muita hora té as caminha do Barra K sincontrarem cuns treis.

Olive Thorin deixou os salões logo depois dos rapazes, alegando uma dor de cabeça. Sua palidez tornava a alegação quase digna de crédito.

Por volta das 11, o prefeito, o chanceler e o chefe da recém-contratada equipe de segurança conversaram no escritório com os poucos convidados retardatários (todos rancheiros, todos membros da Associação dos Cavaleiros). A conversa foi breve mas cerrada. Vários dos rancheiros presentes manifestaram alívio pelos emissários da Confederação serem tão jovens. Eldred Jonas não reagiu a esse comentário, só baixou os olhos para as mãos esbranquiçadas, de dedos longos, e sorriu aquele sorriso débil.

A meia-noite, Susan já estava em casa, despindo-se para dormir. Pelo menos não precisava mais se preocupar com a safira; era uma jóia do Baronato e fora devolvida à caixa-forte da Prefeitura antes de sua saída, mesmo que o Sr. Will Decoro-mor Dearborn pudesse estar pensando outra coisa. Fora o próprio prefeito Thorin (não conseguia chamá-lo de Hart, embora ele o pedisse — nem para si mesma conseguia chamá-lo assim) quem lhe tirara a jóia. Acontecera num corredor vizinho ao salão de recepções, junto a uma tapeçaria mostrando Arthur Eld resgatando sua espada da pirâmide onde fora enterrada. E ele (Thorin, não Eld) aproveitara a oportunidade para beijá-la na boca e alisar rapidamente seus seios — naquela área revelada discretamente pelo vestido durante toda a interminável noite.

— Estou louco para que chegue logo a Colheita — ele sussurrara melodramático em seu ouvido. Tinha um hálito que cheirava a conhaque. — Cada dia deste verão parece uma eternidade.

Agora, em seu quarto, escovando o cabelo com movimentos bruscos, rápidos, e contemplando a lua que desaparecia, Susan achou que, em toda a sua vida, nunca se sentira tão irritada: irritada com Thorin, irritada com tia Cord, furiosa com aquele puritano convencido do Will Dearborn. Mais que tudo, no entanto, estava irritada consigo mesma.

“Há três coisas que podemos fazer em qualquer situação, garota”, o pai um dia lhe dissera. “Você pode decidir fazer uma coisa, você pode decidir não fazer uma coisa... ou você pode decidir não decidir.” A última alternativa era uma opção que seu papá nunca usara; ele dizia (nem precisava dizer) que era a escolha dos fracos e dos tolos. Susan prometera a si mesma que também jamais enveredaria por ela... e, no entanto, estava se permitindo resvalar justamente para lá. Todas as escolhas lhe pareciam más e indignas, todos os caminhos entulhados de pedras ou cobertos de lama.

Em seu quarto na Casa da Prefeitura (ela não compartilhava o mesmo aposento com Hart há dez anos, nem uma cama, mesmo brevemente, nos últimos cinco), Olive usava uma camisola de algodão branco, sem ornamentos, e também via a lua sumir. Após se trancar naquele lugar seguro e exclusivo, Olive tinha chorado... mas não por muito tempo. Agora seus olhos estavam secos e sentia-se oca como árvore morta.

E o que era o pior de tudo? Que Hart não compreendesse como ela estava se sentindo humilhada, e não só por si própria. Thorin andava ocupado demais com pompas e futilidades (e também ocupado demais tentando espiar pelo decote de sai Delgado a cada oportunidade) para perceber que as pessoas — incluindo seu próprio chanceler — riam-se dele pelas costas. Isso talvez acabasse quando a moça voltasse para a casa da tia com uma bela barriga, mas ainda faltavam meses para acontecer. A feiticeira os alertara a esse respeito. A coisa seria até mais demorada se a moça custasse a engravidar. E qual o ponto mais estúpido, mais humilhante de todos? Que ela, Olive, filha de John Haverty, ainda amasse o marido. Hart era um homem presunçoso, vaidoso, ridiculamente arrogante, mas ela ainda o amava.

Havia mais alguma coisa, algo inteiramente alheio ao problema dos pulinhos de cerca de Hart no final da meia-idade: ela achava que havia algum tipo de intriga palaciana em andamento, intriga perigosa e muito provavelmente bastante vergonhosa. Hart sabia um pouco do que estava se passando, mas Olive achava que só sabia o que Kimba Rimer e aquele odioso coxo queriam que soubesse.

Houve um período, e não há tanto tempo assim, em que Hart não teria se deixado levar daquela forma pelas opiniões de Rimer, uma época em que, depois de olhar para a cara de Eldred Jonas e seus amigos, Hart lhes forraria a barriga com uma refeição quente e os despacharia para oeste. Mas isso fora antes de Hart ter sido subjugado pelos olhos castanhos, os seios empinados e o ventre liso de sai Delgado.

Olive abaixou o lampião, soprou a chama e se arrastou para a cama, onde ficaria acordada até o amanhecer.

Por volta de uma hora, não havia mais ninguém nos salões da Casa da Prefeitura, exceto quatro faxineiras, que cumpriam silenciosas (e nervosas) suas tarefas sob o olho vigilante de Eldred Jonas. Quando uma delas ergueu a cabeça, viu-o deixar o assento junto à janela, onde estivera fumando. Ela deu a notícia num sussurro para as colegas e todas relaxaram um pouco. Mas não haveria cantoria nem risos. O spectro, o homem com o caixão azul na mão, podia apenas ter recuado para as sombras do aposento. Talvez ainda as vigiasse.

Às duas horas, até as mulheres da limpeza tinham ido embora. Era uma hora em que uma recepção em Gilead estaria chegando a seu apogeu de brilho e conversa animada, mas Gilead estava longe, não apenas em outro Baronato, mas quase em outro mundo. Ali era o Arco Exterior e, nos Exteriores, mesmo os fidalgos iam cedo para a cama.

Não havia, porém, fidalgos à vista no Repouso dos Viajantes e, sob o olhar do Brincalhão, que tudo via, a noite ainda era razoavelmente criança.

 

Numa ponta do saloon, pescadores ainda usando as botas com galochas bebiam e jogavam bisca por pequenas somas de dinheiro. A direita deles, havia uma mesa de pôquer; à esquerda, na Passagem de Satã, um grupo de sujeitos barulhentos — quase todos vaqueiros — fazia suas apostas aos berros enquanto os dados rolavam pela superfície de veludo. Na outra ponta da sala, Sheb McCurdy martelava um tosco boogie-woogie, a mão direita voando, a esquerda batendo, o suor lhe escorrendo pelo pescoço e pelo rosto branco. Ao lado e acima dele, de pé e de porre num banco, Pettie, a Trotadora, sacudia o enorme traseiro e berrava as palavras da canção no auge de sua voz: “ Vamos lá, cara, temos galinha no celeiro, que celeiro, celeiro de quem, meu celeiro! Vamos lá, cara, cara pegue o touro pelos chifres...”

Sheemie parou ao lado do piano, com o balde de gelo numa das mãos, sorrindo para ela e tentando cantar junto. Pettie deu-lhe um tapinha sem errar uma palavra, sem perder o ritmo nem o sorriso, e Sheemie continuou com seu risinho peculiar, que era estridente, mas não de todo desagradável.

Havia também um grupo jogando dardos; num compartimento aos fundos, uma prostituta que se autodenominava Condessa Jillian de Grã-Killian (membro da realeza exilada da distante Garlan, ah, caros, como somos especiais) conseguia agarrar dois homens ao mesmo tempo sem parar de fumar um cachimbo. E no balcão, toda uma fileira dos desordeiros mais variados, vagabundos, peões de fazenda, tropeiros, carroceiros, carreteiros, rodeiros, condutores de diligências, carpinteiros, trapaceiros, cavalariços, barqueiros e capangas bebiam sob a dupla cabeça do Brincalhão.

Contudo, os únicos capangas de verdade do lugar estavam na ponta do balcão, dois homens bebendo sozinhos. Ninguém tentava se juntar a eles e não só porque tivessem armas de fogo em coldres que caíam da cintura e eram amarrados nas pernas à maneira dos pistoleiros. Revólveres eram raros, mas não desconhecidos em Mejis nessa época, e nem sempre inspiravam medo, mas aqueles dois tinham o ar sombrio de homens que haviam passado um longo dia fazendo um trabalho que não queriam fazer... o olhar de homens que arranjariam uma briga absolutamente sem qualquer motivo e gostariam de encerrar o dia mandando para casa o marido de alguma nova viúva num carroção de defuntos.

Stanley, o barman, servia-lhes um uísque atrás do outro, sem tentar puxar conversa — no máximo um: “Que calor, caras, né?” Fediam a suor e o negrume da resina de pinheiro que tinham nas mãos não chegava a impedir que Stanley visse o contorno dos caixões azuis tatuados ali. Pelo menos aquele amigo deles, o velho patife com cabelo de moça e perna coxa, não estava lá. Do ponto de vista de Stanley, Jonas era tranqüilamente o pior dos Caçadores do Grande Caixão, mas aqueles dois já eram suficientemente maus, e ele faria o possível para não se indispor com eles. Com sorte não haveria problemas; pareciam cansados demais para esquentar ainda mais a noite.

Reynolds e Depape estavam cansados, sem dúvida — tinham passado o dia na Citgo, arrastando milhões de galhos de pinheiros para cobrir e camuflar um monte de caminhões-tanques vazios com palavras sem sentido (TEXACO, CITGO, SUNOCO, EXXON) gravadas nas carrocerias —, mas apesar de cansados não tinham realmente planos de terminar cedo de beber. Depape poderia ter tido essa idéia se Sua Excelência estivesse disponível, mas aquela beleza jovem (nome verdadeiro: Gert Moggins) trabalhava às vezes num rancho e só estaria de volta daí a duas noites.

— Ou uma semana se estiverem pagando bem — disse Depape mal-humorado, empurrando os óculos nariz acima.

— Quero que ela se foda — disse Reynolds.

— Eu a ajudaria nisso se fosse possível, mas não é.

— Acho que vou pegar um prato daquilo — disse Reynolds, apontando para a outra ponta do balcão, onde uma travessa com frutos do mar, rodeada de vapor, tinha acabado de sair da cozinha. — Não vai querer?

— Parecem bolinhos de meleca e descem como se fossem. Me peça um bom bife.

— Tudo bem, parceiro — disse Reynolds indo para a extremidade do balcão. As pessoas abriam um largo caminho para ele passar; procurando inclusive impedir que sua capa, com forro de seda, esbarrasse em alguma coisa.

Depape, mais chateado que nunca depois de imaginar Sua Excelência devorando os restos das costeletas de porco de algum caubói no Piano Ranch, acabou seu drinque, estremeceu com o fedor da resina de pinheiro na mão e tornou a estender o copo na direção de Stanley Ruiz.

— Encha de novo, seu porra! — ele gritou.

Ura peão com as costas, a bunda e os cotovelos apoiados no balcão foi jogado para a frente pelo susto com o berro de Depape, e isso bastou para o problema começar.

Sheemie se afastava da abertura na parede por onde as travessas de comida tinham acabado de aparecer, agora segurando uma caçamba com as duas mãos. Mais tarde, quando o Repouso começasse a esvaziar, seu trabalho seria limpar tudo. Por enquanto, devia simplesmente circular com a caçamba, despejando ali toda sobra de bebida que encontrasse. O elixir variado acabava num jarro atrás do balcão. O jarro tinha um rótulo bastante razoável — GARRAFA DE MIJO — e uma dose dupla não custava mais de 3 centavos. O drinque era apenas para corajosos ou inadimplentes, mas um razoável número dessas duas espécies passava cada noite sob o olhar severo do Brincalhão; raramente Stanley tinha dificuldade para esvaziar o jarro. E se a coisa não estivesse esgotada no final da noite, ora, havia sempre a noite seguinte. Para não mencionar um suprimento renovado de abrideiras.

Mas daquela vez Sheemie não conseguiu alcançar o jarro chamado Garrafa de Mijo atrás de uma das extremidades do balcão. Tropeçou na bota do caubói que se jogara para a frente e caiu de joelhos com uma exclamação de surpresa. O que havia na caçamba se derramou diante dele e, seguindo a Primeira Lei de Malignidade de Satã — a saber, se existe um pior para acontecer, é melhor que aconteça —, atingiu não o caubói, mas Roy Depape, que acabou mergulhado, dos joelhos para baixo, naquela mistura de cerveja, graf e aguardente barata que dava água nos olhos.

A conversa parou no balcão, o que fez também parar o barulho dos homens reunidos ao redor da mesa de dados. Sheb se virou, viu Sheemie de joelhos diante de um dos homens de Jonas e parou de tocar. Pettie, de olhos bem fechados enquanto toda a sua alma era derramada na canção, continuou a capela por três ou quatro compassos antes de perceber o silêncio que ia se espalhando como crista de onda. Ela parou de cantar e abriu os olhos. Geralmente aquele tipo de silêncio indicava que alguém ia ser morto. Se assim fosse, ela também queria ver.

Depape continuou perfeitamente imóvel, inalando o brutal cheiro de álcool. Não se importava com o cheiro; no final das contas, o fedor da resina de pinheiro batia aquilo de seis a zero. Também não se importava com o fato de a calça estar ficando grudada nos joelhos. Podia ter sentido uma ponta de irritação se um pouco daquele suco de resíduos tivesse escorrido para dentro de suas botas, mas nada escorreu.

Sua mão, no entanto, caiu para a coronha do revólver. Ali, por deus e deusa, estava algo que podia tirar sua mente do mal-estar com as mãos pegajosas e a puta ausente. E um bom divertimento sempre compensava uma pequena molhadela.

Agora o silêncio cobria o lugar. Atrás do balcão, duro como um soldado, Stanley via sua mão puxar nervosamente um pano de limpeza. Na outra ponta do balcão, Reynolds se virava para o parceiro com visível interesse. Tirou um marisco da travessa fumegante e abriu-o no tampo do balcão, como se abrisse um ovo cozido. Aos pés de Depape, Sheemie erguia a cabeça, olhos grandes e assustados sob o emaranhado selvagem do cabelo preto. Estava se esforçando ao máximo para sorrir.

— Pois é, rapaz — disse Depape. — Você me deixou bastante molhado.

— Desculpe, amigo, eu tropecei. — Sheemie levantou a mão apontando para alguém; um pequeno borrifo de mijo de garrafa voou da ponta de seus dedos. Em algum lugar, alguém limpou nervosamente a garganta... Raa-aach! O salão, cheio de olhos, estava tão silencioso que era possível ouvir o vento nos beirais do telhado e as ondas quebrando nas rochas do cabo Hambry, a três quilômetros de lá.

— Vá para o inferno — disse o caubói que havia se jogado para a frente. Aos vinte anos, ficara de repente com medo de não ver nunca mais sua mãe. — Pare de tentar jogar o problema em cima de mim, seu miserável.

— Não estou interessado em como aconteceu — disse Depape, consciente de ter uma platéia para seu desempenho e de que tudo que uma platéia queria era entretenimento. Sai R. B. Depape, sempre um bom ator, não pretendia decepcioná-la.

Apertou o veludo da calça sobre os joelhos e levantou as pernas, revelando o bico das botas. Estavam lustrosos, molhados.

— Olhe pra cá. Veja o que fez com as minhas botas. Sheemie obedeceu, com um sorriso amarelo e um grande pavor. Stanley Ruiz achou que não podia deixar aquilo ir em frente sem pelo menos uma tentativa de ajudar. Conhecera Dolores Sheemer, a mãe do rapaz; havia inclusive a possibilidade de ele próprio ser o pai de Sheemie. De qualquer modo, gostava do garoto. Era um tanto idiota, mas tinha bom coração. Nunca bebia e sempre dava conta de seu trabalho. Além disso, mesmo no mais frio e nublado dia de inverno, encontrava um sorriso para mostrar às pessoas. Era um talento que muita gente de inteligência normal não possuía.

— Sai Depape — disse ele, dando um passo à frente e falando num tom baixo, respeitoso. — Sinto muito o que houve. Terei o prazer de lhe servir gratuitamente os drinques que quiser pelo resto da noite se tiver a bondade de esquecer este lamentável...

O movimento de Depape foi um borrão, quase rápido demais para ser notado, mas não foi isso o que espantou quem estava aquela noite no Repouso; já era de esperar que um homem que andasse com Jonas fosse rápido no gatilho. O que surpreendeu a todos foi o fato de ele nem sequer se virar para ver o alvo. Localizara Stanley só pela voz.

Depape havia puxado o revólver para a direita, executando um arco. Atingira Stanley Ruiz na boca, estraçalhando seus lábios e acabando com três de seus dentes. O sangue borrifou no espelho atrás do balcão; algumas gotas, voando alto, decoraram a ponta do nariz da cara esquerda do Brincalhão. Stanley gritou, jogou as mãos contra o rosto e caiu sobre a prateleira atrás dele. No silêncio, o barulho do estilhaçar das garrafas foi muito alto.

Na ponta do balcão, Reynolds abria outro marisco e contemplava, fascinado. Bom como uma peça de teatro, era mesmo.

Depape tornou a se virar para o rapaz de joelhos.

— Limpe minhas botas — disse ele.

Um ar entorpecido de alívio cobriu o rosto de Sheemie. Limpar as botas! Sim! Nenhum problema! Agora mesmo! Puxou o trapo que sempre levava no bolso de trás. E que ainda nem estava sujo. Pelo menos não sujo demais.

— Não — disse Depape num tom impaciente. Sheemie ergueu a cabeça, arfando, confuso. — Ponha este pano nojento no lugar em que estava... Nem quero olhar pra ele.

Sheemie tornou a enfiá-lo no bolso traseiro.

— Com a língua — disse Depape com a mesma voz paciente. — É isso que eu quero. Vai lamber minhas botas até elas estarem novamente secas e brilharem tanto que você possa ver sua cara cretina de coelho refletida nelas.

Sheemie hesitou, como se não estivesse entendendo bem o que estava sendo exigido dele. Ou como se ainda não tivesse acabado de processar a informação.

— No seu lugar, eu obedeceria, rapaz — disse Barkie Callahan atrás do piano de Sheb, que ele esperava que fosse um lugar seguro. — Se eu quisesse ver o sol nascer, sem dúvida obedeceria.

Depape já decidira que o cérebro de mingau não ia ver outro nascer do sol, não naquele mundo, mas permaneceu calado. Nunca tivera as botas lambidas. Queria saber qual era a sensação. Se fosse legal... algo mais ou menos sexy... poderia pôr Sua Excelência fazendo aquilo.

— Tenho mesmo de lamber? — Os olhos de Sheemie estavam cheios de lágrimas. — Não posso apenas me desculpar e dar um bom polimento normal?

— Com a língua, seu asno de cabeça fraca — disse Depape.

O cabelo de Sheemie lhe caía na testa. A língua passava hesitante entre os lábios, saindo da boca. Quando curvou a cabeça para as botas de Depape, a primeira de suas lágrimas caiu.

— Parem com isso, parem com isso, parem com isso — disse uma voz. Era chocante no silêncio... não porque tivesse surgido de repente e certamente não por causa do tom irritado. Era chocante porque era uma voz de zombaria. — Eu simplesmente não posso suportar isso. Negativo. Seria bom se eu pudesse, mas não posso. Não é higiênico, percebe? Quem sabe que doenças não podem ser espalhadas dessa maneira? A mente se revolta! Ab-so-lutamente repulsivo!

Parado junto às portas de vaivém, o autor daquela ladainha idiota e potencialmente fatal: um jovem de estatura mediana, o chapéu achatado, puxado para trás, deixando ver uma onda revirada de cabelo castanho. Só que jovem não era realmente a expressão correta, Depape percebeu; rapaz era carregar no traço. Ele era apenas um garoto. Ao pescoço, só os deuses saberiam por que, trazia uma caveira de pássaro — como um enorme e cômico pingente. Vinha pendurada numa corrente que corria através de ilhós. E nas mãos dele não havia um revólver (e seria possível que um pirralho daqueles, que ainda nem tinha barba, pudesse carregar um revólver?, Depape se perguntou), mas um maldito estilingue. Depape explodiu numa risada. O garoto também riu, balançando a cabeça como se compreendesse como aquilo tudo parecia ridículo, como aquilo tudo era ridículo. O riso dele foi contagioso; Pettie, ainda em cima do banco, deu algumas risadinhas antes de tapar a boca com as duas mãos.

— Isto não é lugar para um garoto como você — disse Depape. O revólver, uma velha arma de cinco tiros, continuava fora do coldre, no balcão do bar, embaixo de seu pulso. O sangue de Stanley Ruiz pingava da ponta do cano. Depape, sem levantar a arma da superfície de madeira, sacudiu-a levemente. — Garotos que vêm a lugares como este aprendem maus hábitos, guri. E passam por experiências más. Como morrer. Então vou lhe dar uma única chance. Saia agora daqui.

— Obrigado, senhor, agradeço por minha única chance — disse o garoto. Falava com grande e fascinante sinceridade... mas não saía do lugar. Estava simplesmente ali, do lado de dentro das portas de vaivém, com a correia elástica do estilingue repuxada. Depape não conseguia ver muito bem o que estava na correia, mas a coisa brilhava sob as luzes dos lampiões a gás. Parecia um tipo de bola de metal.

— E então? — Depape rosnou. A coisa estava cansando, mas estava chegando ao seu término.

— Sei que estou atrapalhando como um torcicolo... como um chute na bunda ou um pingo leitoso na ponta de uma rola dolorida... mas se não se importa, caro amigo, gostaria de ceder minha chance ao rapaz que está de joelhos diante de você. Deixe que ele se desculpe, deixe-o polir suas botas com aquele pano até você se dar por inteiramente satisfeito e deixe-o livre para viver sua vida.

Um murmúrio generalizado de aprovação veio da área onde os demais jogadores observavam a cena. Depape não gostou nem um pouco do rumor e repentinamente tomou sua decisão. O garoto também ia morrer, executado pelo crime de impertinência. O trapalhão que havia derramado a caçamba de refugos em cima dele era sem dúvida retardado. Mas o pirralho não tinha sequer essa desculpa. Ele estava simplesmente se achando engraçado.

Pelo canto do olho, Depape viu Reynolds se deslocando para perto do garoto, silencioso como seda na manteiga. Depape apreciou a solidariedade, mas não acreditava que fosse precisar de grande ajuda para enfrentar o especialista em atiradeira.

— Acho que cometeu um erro, garoto — disse num tom suave. — Realmente acredito que... — A correia do estilingue foi puxada mais um pouco... ou pelo menos Depape imaginou que sim. Ele tomou a iniciativa.

 

Durante muitos anos conversariam sobre isso em Hambry; três décadas após a queda de Gilead e o fim da Confederação, o assunto ainda seria comentado. Na época em que aconteceu, mais de quinhentos bêbados inveterados (e alguns velhos jogadores) alegaram que, naquela noite, estavam tomando uma cerveja no Repouso e tinham visto tudo.

Depape era jovem e tinha a velocidade de uma cobra. Mesmo assim, nem teve realmente a oportunidade de medir forças com Cuthbert Allgood. Houve um rip-SUAMP!, quando o elástico foi solto, um relâmpago metálico que cortou o ar enfumaçado do saloon como um risco numa pedra de ardósia, e Depape gritou. Seu revólver caiu e um pé chutou-o para longe dele por entre a serragem do chão (ninguém quis assumir responsabilidade por aquele pé enquanto os Caçadores do Grande Caixão continuaram em Hambry; centenas alegaram serem os donos do pé depois que eles se foram). Ainda gritando — ele não podia suportar a dor —, Depape levantou a mão ensangüentada e contemplou-a com olhos angustiados, perplexos. Na realidade, tivera até sorte. A bola de Cuthbert esmagara a ponta do indicador e arrancara a unha. Se acertasse mais embaixo, Depape se tornaria capaz de soprar anéis de fumaça através de sua própria palma.

Enquanto isso, Cuthbert já recarregara o estilingue e outra vez começava a puxar o elástico.

— Agora — disse —, se posso ter sua atenção, caro senhor...

— Não posso falar por ele — disse Reynolds atrás do garoto —, mas estou prestando atenção em você, parceiro. Não sei se é mesmo bom com essa coisa ou se apenas deu uma puta sorte, mas de um modo ou de outro, a brincadeira acabou. Solte o elástico e pouse a atiradeira. E nessa mesa que está na sua frente que quero vê-la pousada.

— Minha mira não foi cem por cento — disse Cuthbert num tom de tristeza. — Fui novamente traído pela inexperiência da minha juventude.

— Pouco me importa a inexperiência da sua juventude, bróder, mas sua mira não foi de todo perfeita, é verdade — Reynolds concordou. Ele se conservava atrás e ligeiramente à esquerda de Cuthbert, e agora fazia o revólver avançar até o garoto sentir o cano encostado na nuca. Reynolds engatilhou. No mar de silêncio em que o Repouso dos Viajantes se transformara, o som foi bastante alto. — Agora largue essa atiradeira.

— Acho, caro senhor, que tenho de me desculpar, mas não vou fazer o que pede.

— Como disse?

— Entenda, tenho minha fiel atiradeira apontada contra a cabeça de seu gentil amigo... — Quando Depape fez um movimento furtivo diante do balcão, a voz de Cuthbert se ergueu e assumiu um tom de tal forma metálico que qualquer idéia de inexperiência caía por terra. — Não se mexa! Faça o menor movimento e será um homem morto!

Depape ficou quieto, segurando a mão ensangüentada contra a camisa pegajosa de resina de pinheiro. Pela primeira vez pareceu assustado e pela primeira vez naquela noite — na realidade pela primeira vez desde que se ligara a Jonas —, Reynolds sentiu-se à beira de perder o domínio de uma situação... Só não entendia como aquilo podia estar acontecendo. Afinal não conseguira cercar aquela coisinha esperta e falante, jogando a rede em cima dele? A coisa já devia ter acabado.

Baixando a voz para o anterior tom de conversa (para não dizer seu alegre tom de conversa), Cuthbert disse:

— Se atirar em mim, a bola voa e seu amigo também morre.

— Não acredito nisso — disse Reynolds, mas não gostou do tom de sua própria voz. Soava como dúvida. — Ninguém poderia fazer um arremesso com essa força.

— Por que não deixamos seu amigo decidir? — E Cuthbert ergueu a voz, prosseguindo em brados bem-humorados: — Ei, ah, você aí, Senhor de Óculos! Gostaria que seu companheiro atirasse em mim?

— Não! — O grito de Depape foi estridente, à beira do pânico. — Não, Clay! Não atire!

— Então é um empate — disse Reynolds com ar confuso. E então o ar confuso transformou-se em horror quando ele sentiu a lâmina de uma faca realmente grande deslizar contra a sua garganta. Pressionando a pele macia logo acima do pomo-de-adão.

— Não, não é — disse Alain em voz baixa. — Largue o revólver, meu amigo, ou corto sua garganta.

 

Parado do lado de fora das portas de vaivém, tendo chegado por mero acaso a tempo de assistir ao show, Jonas via tudo com espanto, desprezo e um sentimento próximo do horror. Primeiro um dos fedelhos da Confederação faz Depape largar sua arma e, quando Reynolds lhe dá cobertura, um garotão de cara redonda e ombros de empurrador de arado põe uma faca na garganta de Reynolds. Nenhum dos pirralhos teria um dia a mais que 15 anos e nenhum deles tinha uma arma. Maravilha. Jonas teria achado a coisa melhor que um espetáculo de circo se não fossem os problemas que se seguiriam se aquilo não tivesse os ponteiros acertados. Afinal, que tipo de trabalho poderiam fazer em Hambry se começasse a se espalhar que os bichos-papões tinham medo de crianças e não vice-versa?

Há tempo, talvez, de acabar com isso antes que morra alguém. Se você quiser. Você quer?

Jonas decidiu que sim; e os garotos poderiam sair do bar como vencedores se continuassem a fazer um bom jogo. Mas ele também decidiu que os pirralhos da Confederação não deveriam, a não ser que dessem realmente muita sorte, sair com vida do Baronato Mejis.

Onde estava o outro? Dearborn?

Uma boa pergunta. Uma pergunta importante. O constrangimento se transformaria em franca humilhação se conseguissem emboscá-lo da mesma forma como Roy e Clay tinham sido emboscados.

Dearborn não estava no bar, sobre isso não havia dúvida. Jonas se virou para trás e esquadrinhou a rua Alta Sul em ambas as direções. Era quase dia claro sob a Lua do Beijo, só duas noites depois da Lua Nova. Ninguém atrás dele, nem na rua nem do outro lado, onde ficava o centro mercantil de Hambry. O mercantil tinha um alpendre, mas nada havia nele salvo uma fileira de totens gravados na parede, ilustrando os Guardiães do Feixe de Luz: Urso, Tartaruga, Peixe, Águia, Leão, Morcego e Lobo. Sete dos 12. Brilhavam com os mármores ao luar e eram, sem dúvida, os grandes favoritos das crianças. Ninguém ali. Bom. Ótimo.

Jonas deu uma boa olhada num trecho de viela entre o mercantil e o açougue, vislumbrou uma sombra atrás de um amontoado de caixas jogadas fora, ficou na expectativa e relaxou quando viu os brilhantes olhos verdes de um gato. Sacudiu a cabeça e voltou a se concentrar no bar, empurrando a parte da esquerda da porta de vaivém e entrando no Repouso dos Viajantes. Alain ouviu o guincho de uma dobradiça, mas o revólver de Jonas estava em sua cabeça antes que ele pudesse sequer começar a se virar.

— A não ser que seja um barbeiro, meu filho, acho que deve arriar agora essa navalha. Não vai ter um segundo aviso.

— Não — disse Alain.

Jonas, que nada esperava além de obediência, que não estava preparado para qualquer outra coisa, ficou realmente atônito.

— O quê?

— Você me ouviu — Alain respondeu. — Eu disse não.

 

Depois das despedidas e dos pedidos de desculpas por não ficarem mais tempo em Seafront, o grupo tinha se separado. Roland deixara seus amigos se divertirem como quisessem... e acabariam no Repouso dos Viajantes, ele supunha, mas não ficariam muito tempo nem se meteriam em grandes problemas pois não tinham dinheiro para jogar e não podiam beber nada mais estimulante que chá gelado. Roland tomara outro caminho na cidade, amarrara o cavalo num poste público na mais baixa das duas praças (Rusher tinha oferecido um relincho de perplexidade ante este tratamento, mas só um) e começara a passear pelas ruas desertas, sonolentas, o chapéu bem arriado sobre os olhos e as mãos agarrando um ponto dolorido nas costas.

Tinha a cabeça cheia de perguntas — havia coisas erradas ali, muito erradas. A princípio achou que fosse apenas sua imaginação, sua parte infantil criando problemas imaginários e intriga de livrinhos de história por ele ter sido removido do centro da verdadeira ação. Mas, após a conversa com “Rennie” Renfrew, começou a ver a coisa de modo diferente. Havia interrogações, mistérios evidentes e o mais diabólico de tudo era que não estava conseguindo se concentrar neles, muito menos se aproximar o suficiente para perceber o sentido que pudessem ter. A cada tentativa, surgia a face de Susan Delgado... o rosto, o cabelo caído ou mesmo o modo elegante e destemido dos pés escorregadios como seda, seguindo as botas dele durante a dança, jamais hesitando ou se atrasando. Ouvia repetidamente a última coisa que dissera a ela, falando na voz afetada, pedante de um pirralho-pastor. Daria qualquer coisa para que aquele tom e aquelas palavras não tivessem existido. Susan estaria no travesseiro de Thorin quando a Colheita viesse e lhe daria um filho antes que a primeira neve caísse, talvez um herdeiro masculino, e daí? Homens ricos, famosos e de boa estirpe vinham pegando concubinas desde o início dos tempos; Arthur Eld tivera mais de quarenta, segundo se contava. Por que, então, ele estava criando problemas?

Acho que fiquei apaixonado. É por isso que estou criando problemas.

Uma idéia complicada, mas longe de absurda; conhecia muito bem o temperamento de seu coração. Ele a amava, isto provavelmente era de todo verdadeiro, mas parte dele também a odiava, um ódio que se manifestara no pensamento chocante que tivera no jantar: o de que daria um tiro no coração de Susan Delgado se estivesse armado. Parte daquilo era ciúmes, mas não tudo; talvez nem mesmo a maior parte. Estabelecera alguma indefinida mas poderosa relação entre Olive Thorin — com seu triste mas valente sorrisinho na ponta da mesa — e sua própria mãe. Não vira algo daquele miserável ar de mágoa nos olhos da mãe ao surpreendê-la com o conselheiro do pai? Marten com a camisa aberta, Gabrielle Deschain com a túnica que escorregara por um dos ombros e o quarto inteiro cheirando ao que acontecera ali, naquela manhã quente?

Sua mente, já um tanto calejada, abandonou a imagem, horrorizada. E se voltou para Susan Delgado — os olhos castanhos, o cabelo brilhante. Viu-a rindo, o queixo arrebitado, as mãos se fechando na safira que Thorin lhe dera.

Roland podia perdoá-la daquele pacto de concubina, achava que sim. O que não poderia suportar, apesar da atração que sentia por Susan, era o terrível sorriso no rosto de Olive Thorin vendo a moça sentada no lugar que deveria ser dela. Sentada no lugar dela e rindo.

Eram essas coisas que lhe enchiam a cabeça durante o longo passeio sob o luar. A princípio nada tinha a ver com as atitudes de Susan Delgado, que não era a razão de sua estada em Mejis, assim como não devia superestimar o ridículo prefeito de mãos estalando ou a pobre coitada da esposa... mas não conseguia tirá-los da cabeça e se concentrar no que era da sua conta. Esquecera a face de seu pai e caminhava ao luar, esperando novamente encontrá-la.

Foi nesse estado de espírito que alcançou a sonolenta rua Alta, banhada de luar. Indo para a área sul, pensou vagamente que talvez pagasse alguma coisa refrescante para Cuthbert e Alain ou talvez atirasse os dados uma ou duas vezes na Passagem de Satã antes de voltar para pegar Rusher e dar a noite por encerrada. E foi assim que, por acaso, flagrou Jonas (era impossível confundir sua figura tão magra e o cabelo branco caindo sobre os ombros) parado na frente das portas de vaivém do Repouso dos Viajantes, espreitando o interior. Jonas tinha uma das mãos na coronha do revólver e uma tensão no corpo que tirou de imediato qualquer outra coisa da mente de Roland. Algo estava acontecendo, e Bert e Alain, se estivessem lá dentro, poderiam estar envolvidos. Afinal, eram estranhos na cidade e era possível — até mesmo provável — que nem todos em Hambry gostassem da Confederação com o fervor que fora exibido no jantar daquela noite. Ou talvez fossem os amigos de Jonas que estivessem encrencados. Seja como for, havia algo no ar.

Sem saber muito bem por que estava fazendo isso, Roland subiu devagar os degraus do alpendre do mercantil, onde havia aquela fileira de animais esculpidos (e provavelmente presos com firmeza nos suportes para que nenhum traste embriagado do saloon do outro lado da rua começasse a cantar as cantigas de ninar da infância e acabasse levando um deles para casa). Roland se colocou atrás do primeiro da fila — era o Urso — e curvou os joelhos para que a ponta do chapéu não ficasse aparecendo. Então ficou quieto como a estátua. Viu Jonas se virar, dar uma olhada na rua, depois se voltar para a esquerda, espreitando alguma coisa...

Muito distante, um rumor: Iauu! Iauu!

Era um gato. Na viela.

Jonas encarou o gato por um instante e entrou no Repouso. Num piscar de olhos, Roland saía de trás do urso esculpido, descia a escada do alpendre e pisava na rua. Não tinha o dom telepático de Alain, mas tinha intuições que eram às vezes bastante fortes. Aquela lhe dizia que precisava correr.

No céu, a Lua do Beijo deslizou para trás de uma nuvem.

 

Pettie, a Trotadora, permaneceu em cima do banco, mas não sentia mais o efeito da bebida e cantar era a última coisa que lhe passava pela cabeça. Mal podia acreditar no que estava vendo: Jonas pegara de surpresa um garoto que tinha pegado de surpresa Reynolds, que por sua vez tinha pegado de surpresa outro garoto (este usando uma caveira de pássaro numa corrente em volta do pescoço), que por sua vez tinha pegado de surpresa Roy Depape. Que tinha, na realidade, tirado algum sangue de Roy Depape. E quando Jonas mandara o garotão pousar a faca que ele segurava contra a garganta de Reynolds, o garotão não obedecera.

Agora podem me apagar de vez e me mandar para a clareira no fim do caminho, pensou Pettie. Já vi tudo que podia ver, já vi. Ela desconfiou que talvez fosse melhor descer do banco (a qualquer segundo podia começar um tiroteio, e sem dúvida um dos bons), mas às vezes a pessoa tem de correr certos riscos.

Porque certas coisas são simplesmente imperdíveis.

 

— Viemos para esta cidade designados pela Confederação — disse Alain. Uma de suas mãos estava profundamente enterrada no cabelo suado de

Reynolds; a outra mantinha sob firme pressão a faca encostada em sua garganta. Mas não uma pressão suficiente para romper a pele. — Se nos ferirem, a Confederação ficará sabendo. E também nossos pais. Serão caçados como cachorros e pendurados de cabeça para baixo quando forem apanhados.

— Meu filho, não há qualquer patrulha da Confederação num raio de 200 rodas daqui, provavelmente 300 — disse Jonas —, e mesmo que houvesse uma no alto da nossa colina, ela teria a importância de um peido num vendaval. E seus pais também não significam porra nenhuma para mim. Abaixe essa faca ou vou estourar agora a porra da sua cabeça.

— Não.

— A cadeia de acontecimentos que temos pela frente pode ser incrível — disse Cuthbert num tom jovial... embora houvesse uma onda de tensão sob sua fala. Não medo, talvez nem sequer algum nervosismo, só tensão. Muito provavelmente, tensão ligada a coragem, Jonas pensou amargamente. Sem dúvida subestimara aqueles garotos; se nada mais estivesse claro, aquilo estava. — Você atira em Richard, e Richard corta a garganta do Homem da Capa no momento em que o Homem da Capa atira em mim; meus pobres dedos perdem a força, soltam o elástico do meu estilingue e provocam o disparo de uma bola de aço que passa para o cérebro do Homem dos Óculos. Pelo menos você consegue ir embora, o que talvez seja um grande conforto para a memória de seus amigos mortos.

— Chame isto de empate — disse Alain ao homem com o revólver na sua testa. — Nós todos recuamos e vamos embora.

— Não, meu filho — disse Jonas. A voz era paciente e ele não achava que a raiva transparecesse, mas ela estava se erguendo. Deuses, ser desafiado daquela maneira, mesmo que por um período efêmero! — Ninguém age assim com os Caçadores do Grande Caixão. Esta é a sua última chance de...

Algo duro, frio e muito pontiagudo fez pressão contra as costas da camisa de Jonas, bem no centro das omoplatas. Ele soube de imediato o que era e quem segurava a coisa, compreendeu que o jogo estava perdido, mas não pôde compreender como uma cadeia de eventos tão ridícula e louca podia ter sido desencadeada.

— Coloque o revólver no coldre — disse a voz atrás da ponta afiada de metal. Era uma espécie de voz vazia... não apenas calma, mas sem emoções. — Obedeça ou o que estou segurando vai entrar até o seu coração. Não diga mais nada. A conversa acabou. Obedeça se não quiser morrer.

Jonas ouviu duas coisas naquela voz: juventude e verdade. E pôs o revólver no coldre.

— Você de cabelo preto. Tire a arma do ouvido de meu amigo e coloque-a no coldre. Agora.

Clay Reynolds não teve de ser convidado duas vezes e deixou escapar um suspiro fundo, trêmulo, quando Alain tirou a lâmina de sua garganta e recuou. Sem olhar para o lado, Cuthbert permanecia com o elástico do estilingue puxado e o cotovelo em prumo.

— Você no balcão — disse Roland. — Guarde a arma.

Depape obedeceu, fazendo uma careta por causa da dor quando o dedo ferido atingiu o cinturão. Só quando o revólver foi guardado é que Cuthbert afrouxou o elástico, deixando a bola cair na palma de sua mão.

A causa de tudo aquilo fora sendo esquecida à medida que os efeitos se tornavam muito mais importantes. Agora Sheemie ficava de pé e saía correndo pela sala. Tinha o rosto ensopado de lágrimas. Pegou uma das mãos de Cuthbert, beijou-a várias vezes (beijos estalando alto que, em outras circunstâncias, teriam sido cômicos) e, por um instante, puxou a mão até seu rosto. Depois escapuliu de perto de Reynolds, empurrou o lado direito da porta de vaivém e caiu direto nos braços de um xerife sonolento e ainda meio embriagado. Sheb trouxera Avery do prédio da cadeia, onde o xerife do Baronato estivera se refazendo do cerimonioso jantar do prefeito numa de suas próprias celas.

 

— Uma bela encrenca, não foi?

Avery falando. Ninguém respondendo. Avery não achava que fossem responder, pelo menos se soubessem o que era bom para eles.

A área de expediente da cadeia era pequena demais para comportar, com o mínimo de conforto, três homens, três garotos fortões, ainda que não inteiramente adultos, e um xerife tamanho extralargo. Então Avery resolveu encaminhá-los para a vizinha Assembléia da Cidade, que ecoava com o suave esvoaçar dos pombos nos caibros do telhado e o sólido tiquetaque de um relógio do tempo dos seus avós, que ficava atrás da tribuna.

A sala toda ficava no mesmo nível, mas era sem dúvida uma construção inspirada. Era lá que, há centenas de anos, o povo e os proprietários de terras do Baronato se reuniam para tomar suas decisões, propor suas leis e, vez por outra, mandar para oeste algum grave criador-de-caso. Havia uma atmosfera de seriedade naquela escuridão iluminada pela lua e Roland achou que, mesmo o homem mais velho, Jonas, sentia um pouco da coisa. Certamente, ela investia o xerife Herk Avery de uma autoridade que, de outra forma, ele talvez não fosse capaz de projetar.

A sala estava cheia com o que, naquele tempo e lugar, eram chamados de “bancos nus” — bancos de carvalho sem qualquer almofada para as nádegas ou para as costas. Havia sessenta ao todo, trinta de cada lado de um amplo corredor central. Jonas, Depape e Reynolds sentaram-se no primeiro banco à esquerda do corredor. Roland, Cuthbert e Alain sentaram-se no banco da direita, ao lado deles. Reynolds e Depape pareciam sombrios e constrangidos; Jonas remota e aparentemente calmo. O pequeno grupo de Will Dearborn estava tranqüilo. Roland dera a Cuthbert um olhar que esperava que o rapaz pudesse entender: Uma única tirada espertinha e arranco sua língua da cabeça. Achou que a mensagem fora recebida. Bert tinha dado um sumiço naquela idiota caveira “vigia”, o que era um bom sinal.

— Uma bela encrenca — Avery repetiu e logo, num suspiro profundo, atirou sobre eles o bafo cheirando a aguardente. Estava sentado na ponta da plataforma da tribuna com as pernas curtas balançando sem apoio. Olhava-os com uma espécie de irritado assombro.

A porta lateral se abriu dando passagem ao agente Dave, já sem o paletó branco com que fora ao jantar e com o monóculo enfiado no bolso da camisa cáqui, que lhe era bem mais habitual. Numa das mãos trazia uma caneca; na outra um pedaço dobrado do que pareceu a Roland casca fina de árvore.

— Cozinhou a outra metade, David? — Avery perguntou. Sua voz tinha um tom de determinação.

— Ié.

— Cozinhou duas vezes?

— Ié, duas vezes.

— Pois eram essas as instruções.

— Ié — Dave repetiu num tom resignado. Entregou a Avery a caneca, onde jogou o pedaço de casca crua quando o xerife suspendeu a caneca.

Avery fez o líquido girar, contemplou-o com um resignado ar de dúvida e bebeu. Fez uma careta.

— Ah, loucura! — gritou. — Não há nada mais nojento que isto.

— O que é? — Jonas perguntou.

— Remédio para dor de cabeça. Remédio para ressaca, talvez seja melhor dizer. Da velha feiticeira. A que mora no alto do Cöos. Conhece o lugar? — Avery estendeu a Jonas um olhar de cumplicidade. O velho atirador fingiu que não o vira, mas Roland achou que tinha visto muito bem. E o que aquilo significava? Outro mistério.

Depape levantara a cabeça ao ouvir a palavra Cöos, mas logo voltara a chupar o dedo ferido. Sentado ao lado de Depape, estava Reynolds, enrolado em sua capa, com o olhar sombriamente posto no chão.

— O remédio funciona? — Roland perguntou.

— Ié, rapaz, mas é preciso pagar um preço pelos medicamentos da bruxa. Lembre-se disso: você sempre acaba pagando. Isto leva a dor de cabeça quando se exagera no maldito ponche do prefeito Thorin, mas deixa o intestino febril e com muitas cólicas, assim é. E os peidos...! — Sacudiu a mão na frente do rosto para dar uma idéia, tomou outro gole da caneca e, finalmente, colocou-a de lado. Voltou à sua anterior gravidade, embora a atmosfera da sala estivesse um pouco mais descontraída; todos sentiam isso. — Agora, o que vamos fazer com relação a esta encrenca?

Herk Avery passou devagar os olhos por eles, de Reynolds na ponta direita a Alain (“Richard Stockworth”) na ponta esquerda.

— E aí, rapazes? Temos os homens do prefeito num lado e os... homens... da Confederação do outro, seis sujeitos quase se matando e por causa de quê? Um imbecil e um balde de restos derramado. — Apontou primeiro para os Caçadores do Grande Caixão, depois para os contadores da Confederação. — Dois grupos agindo como barris de pólvora e um xerife gordão no meio. Digam de fato o que podem estar achando disto! Falem abertamente, não sejam tímidos, não foram tímidos no puteiro de Coral ali embaixo, portanto não sejam tímidos aqui!

Ninguém disse nada. Avery tomou mais um pouco de seu drinque maluco, depois se sentou e encarou-os com firmeza. O que disse em seguida não deixou Roland muito espantado; era exatamente o que teria esperado de um homem como Avery, e num tom que deixava implícito que ele se considerava alguém que podia tomar as decisões difíceis que, pelos deuses, às vezes era preciso tomar.

— Vou lhes dizer o que vamos fazer: vamos esquecer este caso. Então assumiu o ar de quem esperava uma gritaria de desaprovação e estava preparado para manejá-la. Quando ninguém falou ou sequer arrastou um pé, Avery pareceu desapontado. Contudo, tinha um trabalho a fazer e já eram altas horas da madrugada. Ele aprumou os ombros e continuou:

— Não vou passar os próximos três ou quatro meses esperando para ver quem dentre vocês matou quem. Naum! Nem vou me deixar colocar numa situação onde seja obrigado a puni-los pela estúpida briga por causa daquele imbecil do Sheemie.

“Apelo ao sentido prático que devem ter da vida, garotos, porque garanto que posso ser amigo ou inimigo de vocês durante o tempo que passarem aqui... mas seria errado não apelar também ao lado mais nobre de seus temperamentos, que certamente é de muito peso e de grande sensibilidade.”

O xerife tentava agora um discurso enfático, embora, na avaliação de Roland, não estivesse sendo lá muito bem-sucedido. Avery voltava sua atenção para Jonas.

— Sai, não posso crer que esteja disposto a causar problemas a três jovens da Confederação... a Confederação que tem sido como leite materno e mão protetora de um pai desde... ié, digamos, as últimas cinqüenta gerações; certamente não faltariam com o devido respeito a tudo isso, não é?

Jonas balançou negativamente a cabeça, mostrando aquele sorriso imperceptível.

Avery inclinou a cabeça concordando. Um gesto que confirmava como as coisas estavam indo bem.

— Vocês têm seus próprios bolos para bater e outros divertimentos e ninguém vai querer que uma coisa dessas interfira no modo como cumprem suas tarefas, certo?

Desta vez todos balançaram as cabeças.

— Então, o que eu quero que façam é que se levantem, se olhem nos olhos, apertem as mãos e peçam perdão uns aos outros. Se não fizerem isso, poderão ter de deixar nossa cidade e tomar o caminho do oeste ao nascer do sol, isso eu lhes garanto.

Avery pegou a caneca e, desta vez, tomou um gole maior. Roland reparou que a mão do homem tremia ligeiramente e aquilo não o surpreendeu. Tudo que ele estava dizendo, é claro, não passava de manobra e blefe. O xerife sabia muito bem que Jonas, Reynolds e Depape estavam além de sua autoridade. Percebera isto quando vira os pequenos caixões azuis em suas mãos. E depois daquela noite passaria a ter a mesma sensação com relação a Dearborn, Stockworth e Heath. Ele só podia torcer para que todos percebessem onde estavam seus verdadeiros interesses. Roland entendera. E aparentemente Jonas também, pois no instante em que Roland se levantou, Jonas fez o mesmo.

Avery ainda se encolheu um pouco, como se esperasse que Jonas estendesse a mão para seu revólver e Dearborn para a faca que trazia no cinto, a mesma que estava encostando nas costas de Jonas quando Avery irrompeu no saloon.

Ninguém, contudo, puxou revólver ou faca. Jonas se virou para Roland e estendeu a mão.

— Ele tem razão, rapaz — disse Jonas com sua voz fina e tremida.

— Tem.

— Troca um aperto de mão com um homem velho e promete começar de novo?

— Sim. — Roland estendeu a mão. Jonas pegou-a.

— Peço que me desculpe — disse ele.

— Eu lhe peço o mesmo, Sr. Jonas. — Roland bateu com a mão esquerda na garganta, como era correto fazer quando a pessoa se dirigia a alguém mais velho.

Quando os dois se sentaram, Alain e Reynolds ficaram de pé, como se estivessem participando de uma cerimônia ensaiada. Por fim, Cuthbert e Depape se levantaram. Roland tinha um certo medo que as loucuras de Cuthbert pipocassem como um boneco de molas (temia que o idiota não fosse capaz de se segurar, embora certamente já tivesse percebido que Depape não era homem de quem alguém devesse rir naquela noite).

— Peço que me desculpe — disse Bert, com uma admirável ausência de qualquer tom de riso na voz.

— Eu também peço desculpas — Depape murmurou e estendeu a mão manchada de sangue. Roland teve uma visão de pesadelo com Bert apertando a mão com toda a sua força, fazendo o cabeça ruiva berrar como coruja num forno quente, mas o aperto de Bert foi tão contido quanto a sua voz.

Avery estava sentado na beira da plataforma da tribuna com as pernas gorduchas pendendo no ar, contemplando a cena com bom humor de tio. Até o agente Dave sorria.

— Agora sou eu quem quer apertar as mãos de todos vocês — disse Avery — e depois pô-los a caminho, pois já é bem tarde, bem tarde, e preciso dar uma relaxada para manter o físico. — Ele riu e de novo pareceu meio constrangido quando não foi acompanhado por ninguém. Mas desceu do estrado e começou a apertar as mãos com o entusiasmo de um padre vendo um casal voluntarioso chegar ao casamento após longo e tempestuoso namoro.

 

Quando chegaram à rua, a lua sumira e a primeira claridade começara a despontar no céu nas lonjuras do mar Claro.

— Talvez nos encontremos de novo, sai — disse Jonas.

— Talvez sim — disse Roland, saltando para a sua sela.

 

Os Caçadores do Grande Caixão estavam hospedados na casa da guarda, cerca de um quilômetro e meio ao sul de Seafront — e a 8 da cidade.

Na metade do caminho, Jonas parou num desvio ao lado da estrada. De lá o terreno fazia uma descida íngreme e rochosa para o mar brilhante.

— O senhor desce — disse, e era para Depape que estava olhando.

— Jonas... Jonas, eu...

— Desça.

Mordendo nervosamente o lábio, Depape desceu.

— Tire os óculos.

— Jonas, por que isso? Eu não...

— Ou se quer que eles quebrem, não precisa tirar. Para mim, tanto faz.

Mordendo o lábio com mais força ainda, Depape tirou os óculos de aro dourado. E mal acabara de abaixar a armação quando Jonas aplicou-lhe um terrível murro no lado da cabeça. Depape gritou e cambaleou para a beirada da encosta. Reagindo com a mesma velocidade do soco, Jonas se atirou para a frente e agarrou-o pela camisa antes que ele caísse no precipício. A mão de Jonas torceu a fazenda da camisa e puxou Depape de volta. Jonas respirou fundo, inalando o cheiro da resina de pinheiro e do suor de Depape.

— Devia atirá-lo por esse barranco — murmurou. — Faz idéia do dano que nos causou?

— Eu... Jonas, eu jamais pretendi... era só um pouco de diversão que... como íamos supostamente saber que eles...

Aos poucos, a mão de Jonas foi relaxando. E o último pedaço do balbucio acabou engolido. Como iam supostamente saber, isso não era muito gramatical, mas estava certo. Se não fosse aquela noite, talvez não fizessem qualquer suposição sobre o que podia acontecer. E olhada a coisa por este ângulo, Depape acabara lhes fazendo um favor. O diabo que se conhece é sempre preferível ao que não se conhece. Claro, a notícia ia se espalhar e as pessoas ririam deles. Mas até com isso não havia problema. O riso ia parar no devido tempo.

— Jonas, peço que me desculpe.

— Cale a boca — disse Jonas. No leste, o sol estava quase despontando no horizonte para atirar os primeiros raios de um novo dia naquele mundo de dor e tribulação. — Não vou atirá-lo daqui porque depois teria de atirar o Clay e por fim eu mesmo teria de me atirar. Levaram a melhor sobre nós do mesmo modo como levaram a melhor sobre você, certo?

Depape teve vontade de concordar, mas achou que talvez fosse perigoso fazer isso. Manteve um silêncio prudente.

— Desça aqui, Clay.

Clay saltou de sua montaria.

— Agora se agachem.

Os três se agacharam na ponta de suas botas, calcanhares levantados. Jonas arrancou um broto de grama e colocou-o na boca.

— Ingênuos pirralhos da Confederação, foi o que nos disseram, e não tínhamos razão para não acreditar nisso — disse ele. — Garotos desordeiros mandados para Mejis, um sonolento Baronato às margens do mar Claro, encarregados de uma missão que era dois quintos inspeção e três quintos castigo. Não foi o que nos disseram?

Os outros dois assentiram.

— Algum de vocês ainda acredita nisso depois da noite de hoje? Depape balançou a cabeça numa negativa. Clay fez o mesmo.

— Podem ser filhinhos de papai, mas são mais que isso — disse Depape. — O modo como se comportaram hoje... eles pareciam... — A fala se extinguiu, não de todo disposta a concluir o pensamento. Era absurdo demais.

Jonas se decidiu.

— Agiram como pistoleiros.

Depape e Reynolds ficaram um instante sem responder. Então Clay Reynolds disse:

— São novos demais, Eldred. Estão anos antes de poderem ser pistoleiros.

— Talvez não novos demais para serem aprendizes. De qualquer modo, vamos descobrir. — Virou-se para Depape. — Tem uma pequena expedição pela frente, garoto.

— Arre, Jonas...!

— Nenhum de nós saiu dessa exatamente coberto de glória, mas você foi o tolo que pôs o pote para ferver. — Olhava para Depape, mas Depape tinha os olhos fixos no chão. — Vai seguir a trilha deles, Roy, e fazer perguntas até ter as respostas que satisfaçam minha curiosidade. Eu e Clay vamos basicamente ficar à espera. E de vigia. Brinque de esconder com eles, se quiser. Quando eu achar que chegou novamente a hora de podermos fazer uma pequena manobra sem sermos flagrados, talvez a façamos.

A ponta do broto de grama em sua boca. O resto do broto cortado, caído entre suas botas.

— Sabem por que apertei a mão dele? A mão desse maldito Dearborn? Porque não podemos deixar o barco virar, caras. Principalmente no momento em que já estamos rumando para o porto. Latigo e o pessoal que esperamos muito em breve estarão vindo em nossa direção. Até entrarem nessa área, é de nosso interesse manter a paz. Mas uma coisa garanto a vocês: ninguém põe uma faca nas costas de Eldred Jonas e sobrevive. E agora atenção, Roy. Não me faça repetir nada do que vou falar.

Jonas começou a falar, inclinando-se sobre os joelhos para Depape. Pouco depois, Depape começou a abanar a cabeça. No fundo, talvez até gostasse de fazer uma pequena viagem. Depois da recente comédia no Repouso dos Viajantes, podia estar realmente precisando de uma mudança de ares.

 

Os rapazes estavam quase de volta à Barra K e o sol já aparecia no horizonte quando Cuthbert rompeu o silêncio.

— Bem! Foi uma noite instrutiva e divertida, não foi? — Como nem Roland nem Alain responderam, Cuthbert se debruçou sobre a caveira de corvo, que voltara a seu posto antigo, na frente da sela. — O que você acha, meu velho? Gostou da noite que tivemos? Jantar, ouvir música e quase ser morto por tentar acertar algumas coisas. Gostou?

O vigia se limitava a olhar para a frente do cavalo de Cuthbert com seus grandes olhos negros.

— Diz que está cansado demais para falar — disse Cuthbert, bocejando. — Na realidade, eu também. — Virou-se para Roland. — Dei uma boa espiada nos olhos do Sr. Jonas depois que ele apertou sua mão, Will. Ele quer matá-lo.

Roland assentiu.

— Quer matar a nós todos — disse Alain. Roland tornou a assentir.

— Vamos mostrar a eles como é difícil — disse —, mas agora sabem mais a nosso respeito do que sabiam no jantar. Nunca mais vamos poder dar as costas para eles.

Roland parou, exatamente como Jonas havia parado a menos de 5 quilômetros do ponto onde se achavam agora. Só que em vez de estarem de frente para a encosta de onde se via o mar Claro, Roland e seus amigos estavam de frente para o comprido declive da Baixa. Um bando de cavalos se deslocava do oeste para leste, pouco mais que sombras naquela luz.

— O que está vendo, Roland? — Alain perguntou quase timidamente.

— Problema — disse Roland —, e no nosso caminho. — Depois ele atiçou o cavalo e seguiu em frente. Antes de chegarem ao barracão do Barra K, já voltara a pensar em Susan. Cinco minutos depois de arriar a cabeça no travesseiro chato, forrado de estopa, estava sonhando com ela.

 

Na Baixa

Tinham se passado três semanas desde o jantar de boas-vindas na Casa da Prefeitura e o incidente no Repouso dos Viajantes. Não tinha havido mais problemas entre o ka-tet de Roland e o de Jonas. A noite, no céu, a Lua do Beijo se fora e a Lua do Mascate fizera sua primeira e discreta aparição. Os dias eram quentes e luminosos; mesmo os saudosistas admitiam que aquele era um dos verões mais bonitos de que tinham notícia.

No meio de uma manhã bonita como qualquer outra daquele verão, Susan Delgado galopava, ao norte da Baixa, um rosillo de dois anos chamado Pilão. O vento secava as lágrimas em seu rosto e fazia esvoaçar para trás o cabelo solto. Ela atiçava Pilão a ir ainda mais depressa, batendo levemente em seu lombo com botas sem esporas. Pilão subia um ponto a cada toque, achatando as orelhas, agitando a cauda. Susan, vestindo uma calça jeans e a camisa cáqui desbotada e muito larga (fora do seu papá) que causara todo o problema, inclinava-se sobre a sela pequena e leve, segurando o apoio com uma das mãos e esfregando a outra no pescoço forte e sedoso do animal.

— Vamos! — sussurrava. — Vamos mais rápido! Em frente, garoto!

Pilão ultrapassou outra marca em sua carreira. Susan sabia que ele tinha pelo menos a possibilidade de aumentar em mais um ponto a velocidade; e Susan desconfiava da existência de um segundo ponto além desse.

Corriam pela crista mais alta da Baixa, mas Susan mal via o declive da magnífica encosta de terra, toda verde e dourada, e o modo como ela sumia na bruma azul do mar Claro. Em qualquer outra ocasião, a vista e a brisa fria, com cheiro de sal, teriam um efeito estimulante sobre ela. Naquele dia, porém, Susan só queria ouvir o impacto surdo e contínuo dos cascos do Pilão e sentir a flexão de seus músculos sob a sela; naquele dia Susan queria correr mais que seus próprios pensamentos.

E tudo porque, naquela manhã, descera para cavalgar com uma das velhas camisas do pai.

 

Tia Cord estava na cozinha, enrolada no penhoar, com o cabelo ainda preso na rede de dormir. Servira-se de um prato de mingau e o levara para a mesa. Susan percebeu que as coisas não iam bem assim que a tia se virou para ela, ainda pousando o prato; pôde ver o traço de irritação nos lábios da tia Cord e o olhar de desaprovação que atirou na laranja que Susan descascava. A tia continuava amargurada por causa do ouro e da prata que contara ter em mãos mais ou menos naquela época, mas que agora teriam a entrega retardada, pois pela estranha determinação da feiticeira, Susan devia permanecer virgem até o outono.

Mas isto não era o principal, Susan percebeu. Pondo a coisa com toda a simplicidade, as duas estavam fartas uma da outra. O dinheiro era apenas uma das expectativas frustradas de tia Cord; ela esperara poder passar sozinha aquele verão na casa da orla da Baixa... exceto, talvez, por alguma visita ocasional do Sr. Eldred Jonas, com quem Cordelia parecia estar se dando muito bem. Em vez disso, as duas continuavam ali, uma mulher se tornando cada dia mais velha, magra, com lábios ressentidos num rosto também ressentido e magro, com os minúsculos contornos dos seios sob vestidos sem decote, de colarinho apertado (O Pescoço, ela dizia freqüentemente a Susan, é a Primeira Coisa a Ceder), o cabelo perdendo o antigo brilho castanho e começando a revelar fios duros e grisalhos; a outra mulher jovem, inteligente, ativa e se aproximando do apogeu da beleza física. Elas se irritavam, uma a outra, cada palavra parecendo capaz de produzir uma centelha. Isso não era surpreendente, pois o homem que gostara tanto das duas a ponto de fazer uma gostar da outra já se fora.

— Vai sair naquele cavalo? — perguntou tia Cord, pousando finalmente o prato e sentando num feixe do sol da manhã. Era um mau lugar, um daqueles onde jamais se permitiria ficar se o Sr. Jonas estivesse presente. O sol forte deixava seu rosto parecido com uma máscara talhada em pedra. Havia um esfolado de herpes crescendo num canto de sua boca; ela sempre os pegava quando não estava dormindo bem.

— Ié — disse Susan.

— Então não devia comer só uma laranja. Não vai se agüentar com isso nem até as nove, menina.

— Vou estar bem — Susan respondeu, agora comendo mais depressa a laranja. Sabia onde aquela conversa podia dar, percebia o olhar de desgosto e reprovação nos olhos da tia e queria sair da mesa antes que o problema começasse.

— Por que não me deixa lhe dar um prato disto? — tia Cord perguntou, batendo com a colher no mingau. Para Susan aquilo soou como um casco de cavalo chapinhando no lodo, ou na merda, e ela sentiu um aperto no estômago. — O mingau pode sustentá-la até a hora do almoço, pois acho que pretende cavalgar muito tempo. Sem dúvida uma jovem e fina senhora como você não vai se preocupar com tarefas domésticas e...

— Já foram feitas. — E você sabe que já foram feitas, ela acabou não acrescentando. Dei conta delas enquanto você estava parada na frente do espelho, cutucando aquela ferida que tem na boca.

Tia Cord deixou cair um pouco de manteiga no estrume do mingau — Susan não sabia como a mulher podia continuar tão magra, realmente não sabia — e viu-a começar a derreter. Por um instante, pareceu que o desjejum poderia, afinal, terminar num tom razoavelmente civilizado.

Então o assunto da camisa começou.

— Antes de sair, Susan, quero que tire o trapo que está usando e ponha uma das novas blusas de equitação que Thorin lhe mandou na semana passada. É o mínimo que pode fazer para demonstrar seu...

Qualquer coisa que a tia pudesse dizer além daquele ponto teria ficado sufocada pela raiva, por isso a interrupção de Susan não fez diferença.

Passou a mão pela manga da camisa, desfrutando a textura... quase aveludada após tantas lavadas. — Este trapo pertenceu a meu pai!

— Ié, foi de Pat. — Tia Cord fungou. — É grande demais para você, está surrada demais, seja como for, não é adequada. Quando você era jovem talvez fosse bonito vestir uma camisa de homem abotoada na frente, mas agora que já tem busto de mulher...

As blusas de equitação estavam em cabides num canto da sala; haviam chegado há quatro dias e Susan não se dignara sequer a levá-las para seu quarto. Eram três: uma vermelha, uma verde, uma azul, todas de seda, todas sem dúvida custando uma pequena fortuna. Ela detestava a pretensão daquelas roupas, coisas infladas, cheias de babados e pregas: mangas imensas para flutuarem artisticamente no vento, grandes golas ridiculamente caídas... e, é claro, o decote muito cavado que provavelmente era tudo que Thorin gostaria de ver se ela aparecesse diante dele vestida daquela maneira. Coisa que não ia acontecer ou que, pelo menos, ela faria todo o possível para evitar.

— Meu “busto de mulher”, como você disse, não me interessa e certamente não vai interessar a ninguém mais enquanto eu estiver em cima do cavalo — disse Susan.

— Talvez sim, talvez não. Se um dos tropeiros do Baronato a vir... por exemplo Rennie, que tem passado os dias rodando por essas estradas, como você bem sabe... é possível que mencione a Hart que a viu usando uma das camisas que tão gentilmente ele deu a você. Mas afinal por que isso? Por que temos de cair neste bate-boca, menina? Por que está sempre tão pouco cooperativa, tão emburrada?

— E o que importa a você que eu esteja de uma maneira ou outra? — Susan perguntou. — Já recebeu dinheiro, não foi? E ainda receberá mais. Depois que ele me foder.

Com o rosto branco, chocado e furioso, tia Cord se inclinou sobre a mesa e a esbofeteou.

— Como se atreve a usar esta palavra em minha casa, sua malhablada? Como se atreve?

Foi quando as lágrimas começaram a correr... ao ouvi-la dizer que a casa era dela.

— Esta casa era de meu pai! Dele e minha! Você andava perdida no mundo, sem ter para onde ir, exceto talvez para os Abrigos, e ele a deixou morar aqui! Ele a deixou morar aqui, tia!

Os dois últimos gomos da laranja continuavam em sua mão. Ela os atirou na cara da tia, depois recuou tão bruscamente da mesa que a cadeira oscilou, perdeu o equilíbrio e projetou-a no chão. A sombra da tia caiu sobre ela. Susan rastejou febrilmente para o lado, o cabelo desgrenhado, a face esbofeteada latejando, os olhos ardendo de lágrimas, a garganta inchada e quente. Por fim conseguiu ficar de pé.

— Sua mal-agradecida — disse a tia. Uma voz baixa e tão cheia de veneno que parecia quase acariciante. — Após tudo que tenho feito por você e tudo que Hart Thorin tem feito por você. Até o cavalo em que vai passear esta manhã foi presente de Hart por respeito a...

— O PILÃO ERA NOSSO! — ela gritou, quase enlouquecida de raiva com aquela deformação proposital da verdade. — TUDO AQUILO ERA NOSSO! OS CAVALOS, A TERRA... ERAM NOSSOS!

— Baixe essa voz — disse tia Cord.

Susan respirou fundo e tentou recuperar um pouco de controle. Jogou para trás o cabelo que estava caindo no rosto, deixando à mostra a marca vermelha da mão de tia Cord em seu rosto. Cordelia se encolheu um pouco ao ver aquilo.

— Meu pai jamais teria permitido isto — disse Susan. — Jamais teria permitido que eu me transformasse na concubina de Hart Thorin. Não importa quais fossem seus sentimentos acerca de Hart como prefeito... ou como seu patrono... ele jamais teria permitido. E você sabe disso. Tu sabes disso.

Os olhos de tia Cord rolaram nas órbitas. Depois ela fez um dedo girar ao redor da orelha, como se Susan tivesse enlouquecido, e respondeu:

— Tu mesma concordaste com isso, ah Dona-Tão-Jovem-e-Bela. Ié, você concordou. E se sua depressão juvenil agora a deixa com vontade de não cumprir o que foi combinado...

— Ié — Susan admitiu. — Concordei com o negócio, fiz isso. Após você me encher os ouvidos dia e noite, após ter me pedido em lágrimas...

— Nunca fiz isso! — Cordelia gritou, injuriada.

— Esqueceu tão depressa, tia? Ié, acho possível. Como hoje à noite já terá esquecido do tapa neste desjejum. Bem, eu não esqueci. Tu gritaste, é fato, gritaste e me disseste que estavas com medo de sermos expulsas da terra, porque não tínhamos mais direito legal a ela, que podíamos acabar na rua, tu choraste e disseste...

— Pare de me chamar assim! — tia Cord gritou. Nada no mundo a deixava mais furiosa que ter sua própria mania dos tus voltada contra si. — Tu tens tanto direito a usar a velha língua quanto tens direito a insistir nas tuas estúpidas recriminações de boa menina! Vai cavalgar! Sai daqui!

Mas Susan continuou. Sua raiva estava no nível máximo e não podia mais ser contida.

— Tu choraste e disseste que seríamos despejadas, mandadas para oeste, que jamais voltaríamos a ver a casa de meu papá ou Hambry... e então, quando fiquei devidamente assustada, tu me falaste da gracinha de bebê que eu ia ter. A terra que era nossa nos sendo devolvida. Os cavalos que eram nossos igualmente devolvidos. Como prova da sinceridade do prefeito, recebi um cavalo que eu mesma tinha ajudado a parir. E o que tenho feito para merecer essas coisas que, de qualquer forma, teriam sido minhas se não estivesse nos faltando um reles papel? O que tenho feito para que ele já tenha lhe dado dinheiro? O que tenho feito salvo prometer foder com ele enquanto a esposa de 40 anos dorme na ponta do corredor?

— É o dinheiro, então, que estás querendo? — tia Cord perguntou, sorrindo furiosa. — E o que queres? Ié, ié? Então o terás. Podes pegar o dinheiro, guardá-lo, perdê-lo, dá-lo aos porcos, pouco me importa!

Virou-se para a bolsa, pendurada num suporte perto do fogão. Começou a remexer lá dentro, mas logo seus movimentos perderam vigor e convicção. Havia um espelho oval à esquerda da porta da cozinha e foi nele que Susan viu o reflexo do rosto da tia. O que viu ali — uma mistura de ódio, constrangimento e ambição — deu um aperto em seu coração.

— Esquece isso, tia. Vejo como relutas a entregá-lo e, seja como for. não gostaria de ficar com ele. É dinheiro de puta.

Tia Cord virou-se com o choque estampado no rosto e a bolsa convenientemente esquecida.

— Isto não é putaria, guria estúpida! Incrível, algumas das maiores mulheres da história foram concubinas e alguns dos maiores homens foram filhos de concubinas. Isto não é putaria!

Susan arrancou a blusa de seda vermelha do cabide e encostou-a no corpo. A camisa agarrou-se a seus seios como se há muito estivesse ansiando para tocá-los.

— Então por que ele me manda essas roupas de puta?

— Susan! — Havia lágrimas nos olhos de tia Cord.

Susan atirou-lhe a camisa como havia atirado os gomos da laranja. A camisa caiu aos pés da tia.

— Pega e veste tu mesma, se te agrada. E abre tu as pernas pra ele, se também te agrada.

Susan se virou e se atirou pela porta. O grito semi-histérico da tia foi atrás dela:

— Não saias com essas idéias loucas, Susan! Idéias loucas levam a gestos loucos e é tarde demais para umas e outros! Tu concordaste!

Ela sabia disso. E por mais rápido que impelisse o Pilão pela Baixa, não conseguiria deixar para trás o que sabia. Concordara, e por mais horrorizado que o pai pudesse ter ficado ante o arranjo em que se metera, Pat Delgado veria uma coisa com absoluta clareza: ela fizera uma promessa e promessas tinham de ser mantidas. O inferno esperava quem não as cumprisse.

 

Susan fez o rosillo diminuir a marcha muito antes que ele começasse a perder o fôlego. Depois de olhar para trás e ver que já estava a pelo menos um quilômetro e meio de casa, levou o cavalo para um meio galope, um trote, um passo rápido. Inspirou profundamente e deixou o ar sair devagar. Pela primeira vez naquela manhã se deu conta da bela luminosidade do dia... com gaivotas viajando para oeste na bruma rala, relva alta por todo lado e flores em cada fenda de terreno protegida: centáureas, camélias, flox e suas favoritas, as flores de seda de delicado azul. De toda parte vinha o sonolento zumbido das abelhas. O som a tranqüilizava e, com a onda de suas emoções diminuindo um pouco, foi capaz de admitir para si mesma o que a estava perturbando... admitir e falar seu nome em voz alta.

— Will Dearborn — disse, tremendo com o som do nome em seus lábios, embora não houvesse ninguém para ouvi-lo além de Pilão e das abelhas. Por isso ela o repetiu e, quando as duas palavras saíram, ela puxou bruscamente o pulso para a boca e beijou-o onde o palpitar do sangue estava mais próximo da superfície. A ação deixou-a chocada porque não fizera a menor idéia de que poderia fazer aquilo, e chocou-a ainda mais porque o gosto de sua própria pele e de seu próprio suor conseguiu excitá-la de imediato. Sentiu uma urgência de relaxar um pouco como conseguira relaxar na cama após o encontro com ele. Do modo como se sentia, não seria um trabalho difícil.

Em vez disso, ela resmungou a praga favorita do pai (“Ah, morda isso!”) e encostou ainda mais as botas no lombo do cavalo. Will Dearborn estava sendo responsável por todo aquele transtorno em sua vida nas últimas três semanas; Will Dearborn com seus inquietos olhos azuis, seus cabelos pretos despenteados e aquela pedante disposição de julgar os outros. Posso ser discreto, senhora. Mas quanto ao decoro... Achei que nem conhecesse essa palavra.

Cada vez que pensava nisso, o sangue bombeava com raiva e vergonha. Principalmente raiva. Como se arrogava o direito de julgar os outros? Ele, que crescera possuindo tudo, sem dúvida com servos para atender cada capricho seu e com uma quantidade de ouro muito superior à que conseguiria gastar (ganharia gratuitamente as coisas que queria, pois todos iam querer bajulá-lo). O que um garoto desses (pois de fato não passava disso, era apenas um garoto) sabia das difíceis opções que ela tivera de fazer? Sem dúvida alguém como o Sr. Will Dearborn, de Hemphill, não seria capaz de compreender que ela, na realidade, não havia absolutamente feito aquelas escolhas. Que fora levada a fazê-las tão automaticamente quanto uma gata mãe carrega um gatinho teimoso de volta ao cesto da ninhada, pelo cachaço.

Contudo, Will não queria deixar sua mente; mesmo que tia Cord não tivesse percebido, havia na briga daquela manhã uma terceira pessoa presente, Susan tinha certeza disso.

Também sabia de outra coisa, algo que teria deixado a tia incrivelmente transtornada.

Will Dearborn também não a esquecera.

 

Cerca de uma semana após o jantar de boas-vindas e o desastroso, danoso comentário de Dearborn, o rapaz retardado e desastrado do Repouso dos Viajantes — Sheemie era o seu nome — apareceu na casa que Susan compartilhava com a tia. Trazia nas mãos um grande buquê, quase todo com flores silvestres que cresciam na Baixa, mas também com alguns botões de rosas espalhados aqui e ali, como sinais de pontuação. Um sorriso largo e ensolarado brotou no rosto do rapaz quando ele escancarou o portão, sem esperar por nenhum convite.

Naquele momento, Susan varria a pequena trilha de acesso à casa; tia Cord estava no jardim, que ficava nos fundos. Tudo parecia tranqüilo, nada parecia fugir da rotina; as duas estavam se dando melhor ao se manterem separadas o maior tempo possível.

Num misto de fascinação e horror, Susan tinha visto Sheemie entrar na trilha, seu sorriso brilhando atrás do buquês de flores que levava na mão.

— Bom-dia, Susan Delgado, filha de Pat — disse Sheemie num tom animado. — Vim até aqui em missão e lhe peço desculpas se a incomodo, ah ié, pois sou um problema para as pessoas, e sei disso tão bem quanto elas. Estas flores são para você. Estas.

Quando ele estendeu o buquê, Susan viu um pequeno envelope dobrado no meio delas.

— Susan? — A voz de tia Cord vinha do lado da casa... e se aproximava. — Susan, tem alguém no portão?

— Sim, tia! — ela gritou, amaldiçoando os ouvidos afiados da mulher! Entorpecida, Susan tirou o envelope do meio de flox e margaridas. E colocou-o no bolso do vestido.

— Vieram do meu melhor amigo número três — disse Sheemie. — Agora tenho três amigos. Tudo isso. — Ergueu dois dedos, franziu a testa, ergueu mais um e sorriu magnificamente. — Arthur Heath é meu melhor amigo número um, Dick Stockworth é meu melhor amigo número dois. Meu melhor amigo número três é...

— Cale! — disse Susan num tom baixo, nervoso, que fez o sorriso desaparecer da cara de Sheemie. — Nem uma palavra sobre seus três amigos.

Um engraçado e leve ardor, quase como uma ponta de febre, correu pela pele de Susan. Pareceu deslizar das faces para o pescoço e depois ir resvalando até os pés. Durante a semana anterior, muito se falara em Hambry sobre os novos amigos de Sheemie (e pouco se falara sobre qualquer outra coisa). As histórias que Susan ouvira eram bizarras, mas se não fossem verdadeiras, por que as versões contadas pelas mais diferentes testemunhas soavam tão parecidas?

Susan ainda tentava recuperar o autocontrole quando tia Cord surgiu na quina da casa. Ao vê-la, Sheemie recuou um passo, a confusão transformada em evidente abatimento. A tia era alérgica a picadas de abelhas e vinha, do alto do sombrero de palha à bainha do desbotado vestido de jardinagem, enfaixada numa espécie de gaze que a fazia parecer intrigante sob o sol forte e completamente sobrenatural na sombra. Adicionando um toque final à indumentária, sua mão enluvada segurava uma tesoura de jardim suja de terra.

Viu o buquê e se demorou a apreciá-lo, a tesoura erguida. Quando alcançou a sobrinha, deixou a tesoura escorregar para uma alça no cinto (um movimento que a sobrinha achou quase relutante) e entreabriu o véu que lhe cobria o rosto.

— Quem lhe mandou isso?

— Não sei, tia — disse Susan, aparentando estar muito mais calma do que de fato estava. — Este é o rapaz da pousada...

— Pousada! — tia Cord bufou.

— Ele não parece saber quem o mandou trazer o buquê — Susan continuou. Se ao menos conseguisse tirá-lo de lá! — Ele é, bem, acho que você diria que ele é...

— Um idiota, sim, eu sei disso. — Depois de cravar um olhar breve e irritado em Susan, tia Cord voltou sua atenção para Sheemie. Falando com as mãos enluvadas sobre os joelhos, gritando diretamente no rosto dele, ela perguntou:

— QUEM... MANDOU... ESTAS... FLORES... MEU... RAPAZ? As abas de sua face-véu, que tinham sido empurradas para o lado, agora voltavam ao lugar. Sheemie deu outro passo para trás. Parecia assustado.

— FOI... TALVEZ... ALGUÉM DE... SEAFRONT?... DA PARTE... DO PREFEITO... THORIN?... ME... DIGA... E... EU... LHE DOU... UMA MOEDA.

O coração de Susan se contraiu, pois certamente ele ia dizer... não teria o discernimento para entender que estaria lhe criando um grande problema. Para ela e provavelmente também para Will.

Mas Sheemie se limitou a sacudir a cabeça.

— Não me lembro. Tenho uma cabeça oca, sai, tenho mesmo. Stanley diz que sou um tapado.

O sorriso dele voltou a brilhar, uma coisa esplêndida cheia de dentes uniformes e brancos. Tia Cord reagiu com uma careta.

— Ah, maluco! Vá embora, então. E volte direto para a cidade... Não fique rondando por aqui à espera de alguma prenda. Pois um rapaz que não consegue se lembrar de nada não merece sequer um centavo! E não me volte aqui de novo, mesmo que alguém o mande trazer flores para a jovem sai. Está ouvindo o que eu digo?

Sheemie assentira balançando energicamente a cabeça. E depois:

— Sai?

Tia Cord atirou-lhe um olhar ameaçador. Naquele dia, a ruga vertical de sua testa parecia muito nítida.

— Por que está toda enrolada em teias de aranha, sai?

— Saia já daqui, seu guri atrevido! — tia Cord gritou. Possuía uma voz alta e potente quando queria usá-la e Sheemie saiu alarmado de perto dela. Quando teve certeza de que Sheemie já estava pegando a rua Alta rumo à cidade e não pretendia retornar àquele portão para ficar andando de um lado para o outro à espera de alguma gorjeta, tia Cord se voltou para Susan.

— Ponha as flores num pouco d’água antes que murchem, Senhora Ah-Tão-Jovem-e-Bela, e não fique no mundo da lua, imaginando quem possa ser esse seu admirador secreto.

Então tia Cord sorriu. Um sorriso de verdade. O que mais doía a Susan, o que mais a confundia era sua tia não ser o bicho-papão daquela historinha de crianças, nem uma bruxa como Rhea da colina Cöos. Não havia um monstro ali, só uma solteirona com algumas pretensões sociais, um amor pelo ouro e pela prata, e o medo de ser despejada no mundo sem um vintém.

— Gente como nós, Susie-meu doce — disse ela, falando com uma benevolência terrivelmente solene —, o melhor que tem a fazer é se agarrar ao dever de casa e deixar os sonhos para quem pode se dar ao luxo de tê-los.

 

Susan tinha certeza que as flores eram de Will e de fato eram. O bilhete vinha escrito com uma letra clara e não de todo feia.

 

Cara Susan Delqado,

Falei sem pensar na outra noite e peço que me perdoe. Posso vê-la e conversar com você? Tem de ser uma conversa particular. É um assunto importante. Se quiser me ver, deixe uma mensagem com o rapaz que está levando esta. Ele é de confiança.

Will Dearborn

 

Um assunto importante. Sublinhado. Sentiu muita vontade de saber o que podia ser tão importante, mas lembrou a si mesma o perigo de fazer alguma tolice. Talvez Will estivesse enamorado dela... e se assim fosse, de quem era a culpa? Quem conversara com ele, montara seu cavalo, mostrara as pernas numa espalhafatosa descida do animal? Quem pusera as mãos em seus ombros e lhe dera um beijo?

As faces e a testa arderam com esse pensamento e outro toque quente pareceu resvalar pelo seu corpo. Não tinha certeza de estar mesmo arrependida do beijo, mas, arrependida ou não, fora um erro. Encontrar-se de novo com ele seria um erro ainda pior.

Mas queria vê-lo e sabia que, no fundo, estava pronta para pôr de lado a raiva que tinha sentido dele. Havia, no entanto, a promessa feita.

A infeliz promessa.

Naquela noite, perdeu o sono, ficou se revirando na cama, primeiro achando que seria melhor, mais digno, se manter em silêncio, depois compondo mentalmente um bilhete... alguma coisa altiva, fria, com uma muito discreta sugestão de flerte.

Quando ouviu o sino da meia-noite tocar, completando o dia velho e chamando o novo, achou que precisava acabar com aquilo. Atirou-se para fora da cama, foi até a porta, abriu-a e enfiou a cabeça na sala. Quando ouviu o tom de flauta dos roncos de tia Cord, tornou a fechar a porta, foi até sua pequena escrivaninha junto à janela e acendeu o lampião. Tirou uma das folhas de papel pergaminho da gaveta de cima, rasgou-a pela metade (em Hambry, o único crime maior que desperdiçar papel era deixar morrer animais de linhagem pura) e escreveu depressa, sentindo que a menor hesitação talvez a condenasse a muitas horas de confusão. Sem o cumprimento inicial e sem assinatura, sua resposta foi escrita de um fôlego só:

 

Não posso me encontrar com você. Não seria adequado.

 

Dobrou o papel, deixando-o pequeno, soprou o lampião e voltou para a cama com o bilhete cuidadosamente escondido debaixo do travesseiro. Em dois minutos estava dormindo. No dia seguinte, quando as compras a levaram até a cidade, Susan passou defronte ao Repouso dos Viajantes que, às 11 da manhã, tinha o charme de algo estraçalhado na margem da estrada.

O acesso ao saloon era um quadrado de terra batida onde havia um poste comprido para amarrar os animais com um bebedouro embaixo. Sheemie estava na frente do poste, empurrando um carrinho de mão e pegando com uma pá os dejetos que os cavalos tinham deixado na noite anterior. Usava um cômico sombrero cor-de-rosa e cantava “Chinelos Dourados”. Susan se perguntava quantos fregueses do Repouso teriam acordado naquela manhã se sentindo tão bem quanto Sheemie... Quem, afinal, indo direto ao ponto, vivia com a cabeça melhor?

Depois de olhar em volta para se certificar de que ninguém estava prestando atenção a ela, aproximou-se de Sheemie e deu-lhe um tapinha no ombro. A princípio o rapaz pareceu assustado, o que Susan achou normal... De acordo com as histórias que vinha ouvindo, Depape, um dos amigos de Jonas, quase matara o pobre garoto por ele ter derramado uma bebida em suas botas.

Então Sheemie a reconheceu.

— Alô, Susan Delgado de lá de baixo, na beira da cidade — disse ele num tom cordial. — É um bom dia o que lhe desejo, sai.

Curvou a cabeça numa divertida imitação do gesto de cortesia dos Baronatos Interiores que aprendera de seus três novos amigos. Sorrindo, ela retribuiu com uma precária mesura (como estava de calça comprida, teve de simular o gesto de segurar a saia, o que já tinha se tornado comum entre as mulheres de Mejis).

— Está vendo minhas flores, sai? — ele perguntou, apontando para a parede sem inscrições do Repouso. O que Susan viu tocou-a profundamente: uma fileira de flores silvestres azuis e brancas crescendo ao longo da base do prédio. Pareciam ao mesmo tempo patéticas e valentes, agitadas pela brisa ligeira da manhã num pátio desolado, com pequenos montes de um mato espinhoso e a casa de diversões ao fundo, cheia de arranhões e lascas.

— Foi você que plantou, Sheemie?

— Ié, fui eu. E o Sr. Arthur Heath, de Gilead, prometeu me trazer algumas amarelas.

— Nunca vi flores silvestres amarelas por aqui.

— Nem eu, mas o Sr. Arthur Heath diz que elas existem em Gilead. — Olhava solenemente para Susan, segurando a pá como um soldado seguraria um revólver ou uma lança na porta de um quartel. — O Sr. Arthur Heath salvou minha vida. Eu faria qualquer coisa por ele.

— Faria mesmo, Sheemie? — ela perguntou impressionada.

— Sabe, ele tem um vigia! É uma caveira de pássaro! E não imagina como é engraçado quando ele finge estar conversando com o pássaro. Ié. É de morrer de rir!

Susan tornou a olhar em volta, de novo para ter certeza de que só era observada pelos totens esculpidos do outro lado da rua, e tirou o bilhete, bastante dobrado, do bolso da calça jeans.

— Entregaria isto ao Sr. Dearborn? Ele também é seu amigo, não é?

— Will? Ié! — Ele pegou o bilhete e colocou-o com cuidado em seu próprio bolso.

— E não conte a ninguém.

— Shhhhh! — ele concordou, pondo um dedo na boca. Seus olhos tinham ficado divertidamente arregalados sob o ridículo chapéu de mulher, um chapéu de palha rosa, que tinha na cabeça. — Como quando levei o buquê de flores. Caluda!

— É isso, caluda. Foi um prazer ver você, Sheemie.

— O prazer foi meu, Susan Delgado.

Ele voltou a suas tarefas de limpeza. Susan ficou um instante a observá-lo, sentindo-se irritada, aborrecida consigo mesma. Agora que conseguira entregar o bilhete, sentia um ímpeto de pedir que Sheemie o devolvesse, uma vontade de riscar o que havia escrito e prometer a Will encontrá-lo de novo. Nem que fosse para tornar a ver aqueles olhos azuis e firmes olhando-a de frente.

Então o outro amigo de Jonas, aquele da capa, saiu com passo lento e relaxado do mercantil. Susan tinha certeza de que não a vira (o homem vinha de cabeça baixa, enrolando um cigarro), mas não pretendia testar sua sorte. Reynolds estava sempre conversando com Jonas, e Jonas conversava — e também muito! — com tia Cord. Se tia Cord soubesse que estivera falando com o rapaz que lhe trouxera as flores, certamente haveria perguntas. Perguntas que Susan não queria responder.

 

Agora tudo isso é história, Susan... águas passadas sob a ponte. Melhor tirar seus pensamentos do passado.

Fez o Pilão parar e contemplou uma extensão da Baixa, onde havia um movimento de cavalos pastando. E naquela manhã, era surpreendente a quantidade deles.

Não estava funcionando. Sua mente continuava voltando a Will Dearborn.

Que falta de sorte o encontro com ele! Sem aquele encontro casual na volta da colina Cöos, a essa altura ela já estaria em paz com sua situação — afinal, era uma moça prática, e promessa era promessa. Certamente jamais imaginara que a perda da virgindade pudesse envolvê-la em grande comoção e a perspectiva de gerar e criar uma criança sem dúvida a entusiasmava.

Mas Will Dearborn tinha alterado tudo; penetrara na cabeça dela e agora estava morando lá, um inquilino que desafiava o despejo. O comentário que ele fizera enquanto dançavam, por mais odioso que fosse, continuava nítido como uma canção que a pessoa não consegue parar de murmurar. Fora um comentário cruel e estupidamente intolerante... mas não conteria também um grão de verdade? Rhea tinha razão sobre Hart Thorin; Susan tinha certeza de que era um homem a quem só interessava a luxúria. Achava que as bruxas estavam certas quando avaliavam negativamente os desejos dos homens, mesmo que estivessem erradas sobre qualquer outra coisa. Não era um pensamento agradável, mas provavelmente era verdadeiro.

Era Will-Maldito-Seja-Você-Dearborn que tornava difícil para ela aceitar o que precisava ser aceito, que a fizera entrar em discussões onde mal podia reconhecer o tom estridente e desesperado da própria voz, Will que lhe aparecia em sonhos — sonhos onde ele punha os braços em volta de sua cintura e a beijava, beijava, beijava.

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