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Planeta Criança



Poesia & Contos Infantis

 

 

 


Malícia / Danielle Stel
Malícia / Danielle Stel

 

 

Biblioteca Virtual do Poeta Sem Limites

 

 

Malícia 

 

          

 

            Os sons do órgão pairavam no ar e pareciam erguer‑se para o céu azul de Wedgwood. Pássaros chilreavam por entre as árvores e, ao longe, ouvia‑se a voz cristalina de uma criança a chamar uma amiga. Era uma manhã de Verão, lenta e quente. As vozes no interior da igreja erguiam‑se em perfeito uníssono, ao cantar os hinos religiosos que eram familiares a Grace desde a sua infância. Mas nessa manhã ela não era capaz de cantar. Mal se conseguia mover enquanto olhava fixamente para o caixão onde a mãe jazia.

            Toda a gente sabia que Ellen Adams fora uma boa mãe, uma boa esposa e uma cidadã respeitada até ao dia da sua morte. Ensinara na escola antes de Grace nascer e gostaria de ter tido mais filhos, mas isso não sucedera. A sua saúde fora sempre frágil e aos trinta e oito anos ficara cancerosa. O cancro começara no útero, e, depois de se sujeitar a uma histerectomia, fizera tratamentos com quimioterapia e radiações. A doença disseminara‑se pelos pulmões, sistema linfático e depois pelos ossos. Fora um combate que durara quatro anos e meio. E agora, aos quarenta e dois anos, ela perecera.

            Morrera em casa e Grace tratara dela sozinha até ao mês anterior. Nessa altura, o pai tivera de contratar duas enfermeiras para a ajudar, mas Grace continuara a sentar‑se junto dela durante horas, quando voltava da escola. E à noite, era Grace que acodia à mãe quando ela gritava com dores, que a ajudava a virar‑se, a levava à casa de banho, ou lhe dava o remédio. As enfermeiras só trabalhavam durante o dia. O pai não as queria lá à noite e toda a gente percebia a sua dificuldade em aceitar que a mulher estivesse doente. E agora, sentado no banco ao lado de Grace, chorava como um bebé.

            John Adams era um homem atraente. Tinha quarenta e seis anos, era um dos melhores advogados de Watseka e certamente um dos mais estimados. Estudara na Universidade de Ilinõis depois de ser desmobilizado no fim da Segunda Guerra Mundial. Voltara em seguida para Watseka, sua terra natal, situada a cerca de cento e cinquenta quilómetros a sul de Chicago. Tratava‑se de uma cidade pequena, imaculadamente bem tratada, e os cidadãos eram profundamente decentes. O pai tratava de todos os seus problemas legais e aconselhava‑os em tudo sempre que o consultavam. Era ele quem lhes tratava dos divórcios, que resolvia disputas sobre propriedades, apaziguando os membros das famílias desavindas. Manteve‑se sempre leal e justo e todos gostavam dele por causa disso. Era ele quem escrevia quaisquer reclamações ou pedidos a fazer ao Estado, que tratava de testamentos e que ajudava nas adopções. Juntamente com o médico mais popular da cidade, também seu grande amigo, John Adams era uma das pessoas mais estimadas e respeitadas de Watseka.

            Na sua juventude fora a estrela da equipa de basebol da cidade e quando do ingresso na universidade continuara ajogar. Ainda muito jovem havia despertado as simpatias de toda a gente. Os pais dele tinham morrido num acidente de automóvel e os avós já haviam falecido antes, por isso as famílias da cidade tinham disputado entre si o privilégio de o convidar para suas casas até concluir o curso secundário. Por fim, John Adams acabara por permanecer com duas famílias, em períodos diferentes, e ambas apreciavam a sua companhia.

            Conhecia praticamente toda a gente da cidade e desde que se soubera que Ellen se encontrava gravemente doente, algumas viúvas e divorciadas começaram a ver nele um bom partido. Mas ele nunca lhes dera qualquer atenção, apenas as tratava afavelmente. Dava‑se bem com todas e por vezes interrogava‑as sobre os filhos. Era isso que todos diziam a respeito dele, e muitos homens acrescentavam: "E tinha direito de o fazer. Estando Ellen tão doente, seria de pensar que ele começasse a lançar o olhar à sua volta... mas John não é desses... É um marido decente e leal." E era de facto um homem decente, bom e bem sucedido. Os casos de que tratava não eram importantes, mas tinha uma grande quantidade de clientes. Até mesmo o seu sócio no escritório, Frank Wills, gracejava com ele, dizendo‑lhe que não percebia por que motivo todos perguntavam por John antes de perguntarem por Frank. Era o preferido de todos.

            ‑ Que é que fazes? Ofereces‑lhes produtos durante um ano, sem eu saber? ‑ dizia ele. Frank não era tão bom advogado como John, mas era um bom investigador e excelente para tratar dos contratos, perscrutando os pormenores. Frank passava cada contrato a pente fino. Mas John é que ficava sempre com as honrarias, quem se tornara conhecido a quilómetros de distância, noutras cidades. Frank passava despercebido, não tinha o encanto nem o aspecto atraente de John, mas os dois trabalhavam bem em conjunto e conheciam‑se reciprocamente, pois haviam sido colegas na universidade. Naquele momento, Frank encontrava‑se sentado algumas filas atrás de John e da filha e sentia‑se triste por eles.

Frank sabia que John havia de superar o desgosto e que acabaria por ficar bem e, apesar dele agora dizer que não estava interessado, Frank sabia e estaria até disposto a apostar que o sócio casaria novamente dentro de um ano. Grace é que lhe parecia totalmente destroçada e infeliz ao olhar fixamente para as flores amontoadas em redor do caixão, junto do altar. Era uma rapariga bonita, ou seria, se quisesse sê‑lo. Aos dezassete anos era alta e magra, com ombros graciosos e braços compridos, lindas pernas, cintura fina e um busto cheio. Mas ocultava sempre a figura por baixo de roupas largas e sem graça que comprava no Exército de Salvação. John Adams não era de modo algum um homem rico, mas poderia comprar-lhe roupas bem melhores do que aquelas, se ela quisesse. Mas, ao contrário das outras raparigas da sua idade, Grace não se interessava por roupas, nem por rapazes, parecendo fazer o possível por se desfear e não por se embelezar. Não usava qualquer maquilhagem, e deixava que o longo cabelo de um louro‑escuro lhe caísse pelas costas. A franja quase lhe tapava os grandes olhos azuis. Parecia nunca olhar a direito para ninguém, nem se mostrava interessada em qualquer tipo de conversa. Muitas pessoas ficavam surpreendidas ao aperceberem‑se de como ela era bonita, se conseguiam olhá‑la duas vezes, mas quem não a observasse bem não dava por ela. Nesse dia usava um vestido preto que fora da mãe e que lhe assentava como num cabide. Parecia ter trinta anos, com o cabelo esticado e apertado num carrapito sobre o pescoço, muito pálida, caminhando ao lado do pai.

            "Pobre rapariga", murmurou a secretária de Frank, enquanto Grace se colocava junto do caixão da mãe. "Pobre John... pobre Ellen... que grande desgosto."

            De tempos a tempos, as pessoas faziam comentários sobre a timidez de Grace e a sua insociabilidade. Alguns anos antes correra até o boato de que ela pudesse ser um pouco atrasada, mas os professores e os colegas sabiam que isso era mentira. Grace era mais inteligente que a média, mas falava pouco. Era uma alma solitária e só muito raramente a viam conversar ou rir num corredor, mas logo a seguir apressava‑se a ir para casa outra vez, como se receasse estar ali entre os colegas. Os colegas sabiam que Grace não era doida, mas também não se mostrava amigável. Tratava‑se de uma postura estranha, visto os pais serem pessoas muito sociáveis. Grace sempre fora uma criança solitária e muitas vezes tinha de ir para casa, quando estava na escola, com um forte ataque de asma.

            John e Grace estavam agora parados ao sol, apertando as mãos a amigos e conhecidos, agradecendo‑lhes por se encontrarem ali, mas Grace parecia mais distante e isolada do que nunca. Dava a impressão de que o seu corpo se encontrava ali, mas a alma e o pensamento estavam muito longe. E com o seu vestido preto, demasiado largo, tinha um ar mais patético do que nunca.

            Quando se meteram no carro a caminho do cemitério o pai comentou a aparência dela. Até os sapatos eram velhos. Grace calçara uns sapatos pretos, de salto alto, que tinham sido da mãe, mas estavam usados e fora de moda. Parecia que Grace queria sentir‑se mais perto da mãe usando as roupas que tinham sido dela. Era como se fosse uma camuflagem protectora, mas o vestido e os sapatos não ficavam bem a uma rapariga da sua idade e o pai disse‑lho. Na verdade, Grace parecia‑se muito com a mãe, mas Ellen era mais forte do que a filha, antes de adoecer, e o vestido era demasiado largo para a sua figura esbelta.

            - Não podias ter vestido alguma coisa decente, para valorizar? ‑ perguntou o pai com um olhar de irritação, enquanto se dirigiam para o cemitério de Saint Mary, nos arredores da cidade, seguidos por um cortejo de umas três dúzias de carros. John era um homem respeitado e tinha uma reputação a defender. Não lhe ficava bem ter uma filha única que parecia órfã.

            ‑ A mamã nunca me deixava vestir de preto e eu pensei... pensei que devia... - Olhava‑o como a defender‑se, sentada com ar infeliz a um canto do carro que a agência fornecera para a ocasião. Era um Cadillac e os colegas dela tinham‑no alugado, alguns meses antes, para um passeio. Mas Grace não quisera ir e ninguém a convidara. Com a mãe tão doente, nem sequer tinha vontade de ir à cerimónia da graduação. Mas fora, claro, e ao voltar a casa, mostrara o diploma à mãe. Fora aceite na Universidade de Ilinóis, mas retardara a sua ida para lá por um ano, para continuar a tomar conta da mãe. O pai também preferira que assim fosse, pois sabia que Ellen gostava que a filha a tratasse e não as enfermeiras. Esperava que ficasse junto da mãe e não fosse para a escola em Setembro. Grace não discutira com ele. Sabia que não valia a pena fazê‑lo. Nunca valia. O pai era um homem bem‑parecido e de êxito e esperava continuar a ser. Especialmente com a sua própria familia. Grace compreendia isso e o mesmo sucedera com Ellen.

            ‑ Está tudo pronto lá em casa? ‑ perguntou o pai, olhando‑a de relance. ‑ Grace disse que sim com a cabeça. Apesar de toda a sua timidez e isolamento, Grace sabia governar lindamente a casa. Fazia‑o desde os treze anos. Durante os últimos quatro anos fizera tudo pela mãe.

            ‑ Está - disse calmamente. Deixara tudo pronto antes de ir para a igreja. E o resto encontrava‑se em travessas cobertas, no frigorífico. Há vários dias que as pessoas lhes levavam comida. Grace assara um peru e uma peça de carne na noite anterior. A sra. Johnson levara‑lhes um presunto e havia saladas, empadas, salsichas, dois pratos de aperitivos e muitos vegetais frescos, além de todos os géneros de doces e de bolos imagináveis. A cozinha parecia a de um restaurante de uma feira e havia de tudo para todos os gostos. Certamente que iriam receber mais de cem pessoas, ou talvez o dobro disso, devido à consideração que tinham por John e àquilo que ele representava para o povo de Watseka.

            As pessoas tinham‑se mostrado sumamente generosas e a quantidade de coroas e arranjos florais era esmagadora.

            ‑ Parece o funeral de uma pessoa da realeza ‑ disse o velho Peabody, entregando a John o livro de condolências cheio de assinaturas.

            ‑ Ellen era uma mulher extraordinária! ‑ dissera calmamente John. E agora, pensando nela, olhou de relance para a filha. Era uma rapariga tão bonita e tão decidida a não

o mostrar. Grace era assim mesmo, ele aceitava isso e mais valia não discutir com ela. Era uma rapariga cheia de qualidades e fora uma bênção para ele durante os anos da doença da mãe. Agora a casa ia parecer‑lhes estranha, mas de certo modo, tinha de o confessar a si próprio, ia ser mais fácil. Ellen estivera doente tanto tempo, sofrera tanto, que era desumano querer que ela continuasse a viver.

            Olhou para fora, para a janela, e depois observou novamente a sua filha.

            ‑ Estava a pensar como vai ser estranho vivermos sem a mamã... mas talvez... ‑ Não sabia bem como dizer o que pensava sem a perturbar ainda mais... ‑ talvez seja mais fácil para nós. Ela sofria tanto, coitadinha ‑ suspirou e Grace ficou calada. Sabia melhor que ninguém como a mãe sofrera.

            A cerimónia no cemitério foi breve. O sacerdote disse algumas palavras acerca de Ellen e da sua familia, leu uma passagem dos Salmos e em seguida dirigiram‑se todos para a casa dos Adams. Uma multidão de cento e cinquenta pessoas invadiu a pequena e agradável casa, pintada de branco, com portadas de madeira verdes e uma cerca da mesma cor. No jardim em frente da casa viam‑se canteiros com margaridas e nas traseiras, mesmo junto das janelas da cozinha, havia um roseiral que fora o enlevo de Ellen.

            O ruído das vozes fazia com que aquela reunião de luto se assemelhasse a um cocktail. Frank Wills encontrava‑se na sala, ajudando o dono da casa a receber os amigos, e john estava no jardim, rodeado de muitas pessoas. Grace serviu limonada e chá gelado, o pai ofereceu vinho. A comida que Grace preparara era tanta que mesmo um tão grande número de pessoas não conseguiu fazê‑la desaparecer. Eram quatro da tarde quando os últimos convidados partiram e Grace começou a reunir os copos e os pratos espalhados por todos os cantos.

            ‑ Temos bons amigos ‑ disse o pai com um sorriso afectuoso. Sentia‑se orgulhoso por tanta gente gostar deles. Fizera muito por muita gente durante anos e agora todos tinham estado ali, quando ele precisara de sentir o amparo da amizade na sua hora de sofrimento. Observou a filha movendo‑se em silêncio pela sala, colocando pratos e copos num tabuleiro, e compreendeu como tinham ficado sós. Ellen desaparecera, as enfermeiras tinham‑se ido embora e eles estavam sozinhos. Mas John não era homem para meditar sobre o seu infortúnio.

            ‑ Vou lá fora ver se há mais copos espalhados ‑ declarou. Voltou meia hora mais tarde com um tabuleiro cheio de copos e pratos, o casaco num braço e a gravata desapertada. Se tivesse consciência de tais coisas, Grace teria reparado que o pai parecia mais atraente do que nunca. Outras pessoas tinham notado isso. Perdera algum peso nas últimas semanas e estava tão esbelto como um rapaz. Á luz do Sol era difícil ver se o cabelo dele era grisalho ou louro. Com efeito, tinha os dois tons e os seus olhos tinham o mesmo azul‑brilhante que os da filha.

            ‑ Deves estar cansada ‑ observou o pai. Grace encolheu os ombros e começou a meter a louça na máquina. Sentia um nó na garganta e esforçava‑se por não chorar. Fora um dia terrível... um ano terrível... quatro anos terríveis... às vezes apetecia‑lhe desaparecer. Mas sabia que não podia. Havia sempre outro dia, outro ano, outro dever a cumprir. Desejava ter sido enterrada nesse dia em vez da mãe. E enquanto olhava para os pratos sujos que ia metendo mecanicamente na máquina, sentiu o pai parado junto dela.

            ‑ Queres ajuda?

            ‑ Estou bem ‑ disse calmamente. ‑ Quer jantar, papá?

            ‑ Não sou capaz de comer seja o que for. Porque não deixas isto? Tiveste um dia comprido. Porque não descansas um bocado?

            Ela anuiu com a cabeça e continuou a meter os pratos na máquina. O pai dirigiu‑se para o quarto dele e só uma hora depois é que Grace terminou finalmente o seu trabalho. Guardara toda a comida e a cozinha estava impecável. Os pratos encontravam‑se na máquina e a sala estava limpa e arrumada. Grace era muito organizada e prosseguiu o seu trabalho, arrumando e endireitando tudo o que via fora do lugar. Era uma maneira de não pensar no que sucedera.

            Quando foi para o quarto, viu que a porta do quarto do pai estava fechada, mas ouviu‑o falar ao telefone. Pensou se ele iria sair, enquanto fechava a sua porta e se estendia em cima da cama completamente vestida. O vestido preto sujara‑se de comida e salpicara‑o com água e detergente ao lavar alguma louça. Sentia o cabelo como se fosse de corda, a boca

parecia-lhe algodão e o coração pesado como chumbo. Fechou os olhos e as lágrimas começaram a correr‑lhe lentamente pelas faces, formando dois pequenos rios.

            ‑ Porquê, mamã? Porquê? Porque me deixaste? ‑ Fora a traição final, o derradeiro abandono. Que iria fazer agora? Quem a ajudaria? A única coisa boa era poder ir para a universidade no próximo Outono. Talvez. Se ainda a aceitassem. Ou se o pai a deixasse ir. Mas já não havia qualquer motivo para ali ficar. Havia razão era para partir, e ela desejava fazê‑lo.

            Ouviu o pai abrir a porta do quarto e sair para o corredor, chamando‑a, mas não lhe respondeu. Sentia‑se demasiado cansada para falar fosse com quem fosse, até mesmo com o pai, enquanto ali estava deitada a chorar pela mãe. Então ouviu a porta do quarto do pai fechar‑se de novo e passou‑se muito tempo até ela se levantar e se dirigir para a casa de banho. Era o seu único luxo, ter um quarto com casa de banho. A mãe deixara‑a pintá‑la de cor‑de‑rosa. A casa, de que a mãe tanto se orgulhara, tinha três quartos. O terceiro fora destinado a outro filho que desejavam ter, mas o bebé nunca viera e a mãe usara esse terceiro aposento como sala de costura, desde que Grace se podia recordar.

            Encheu a banheira de água quente e foi fechar a porta do quarto à chave antes de despir o vestido preto e de descalçar os sapatos.

            Entrou lentamente no banho e ficou estendida na água, de olhos fechados. Era totalmente inconsciente da sua beleza, de como as suas pernas eram longas e bem modeladas, as suas formas graciosas, os seus seios belos. Não via nada e não se teria importado mesmo que visse. Deixou‑se ficar deitada na água, de olhos fechados, sentindo‑se à deriva. Era como se tivesse a cabeça cheia de areia. Não havia imagens nem pensamentos na sua cabeça, não queria ver ninguém, nem pensar em coisa alguma. Desejava apenas pairar no espaço e não pensar.

            Percebeu que estava ali há muito tempo quando a água começou a ficar fria e ouviu o pai bater à porta do quarto.

            ‑ Que estás a fazer aí, Gracie? Sentes‑te bem?

            ‑ Estou bem! ‑ gritou da banheira, despertando do seu estado de transe. Lá fora começara a escurecer e ela não se deu ao trabalho de acender as luzes.

            ‑ Vem cá para fora. Não fiques aí sozinha.

            ‑ Estou bem. ‑ A voz dela era monótona, o olhar distante, afastando todos do sítio onde ela realmente vivia, no fundo da sua alma, onde ninguém a poderia encontrar nem magoar.

            Ouvia‑o ainda junto da porta, pedindo-lhe para sair e para lhe falar, e disse‑lhe que iria daí a uns minutos. Enxugou‑se, vestiu umas calças de ganga velhas e uma T‑shirt e enfiou por cima um velho camisolão de malha, apesar do calor. E, depois de estar vestida, abriu a porta e desceu as escadas para ir tirar a louça da máquina. Ele estava lá e olhava para as rosas que cresciam junto da janela da cozinha. Voltou‑se quando Grace entrou e sugeriu‑lhe:

            ‑ Queres ir lá para fora um bocado? Está agradável. Depois tratas disso.

            ‑ Não. É melhor fazer isto já.

John encolheu os ombros e abriu uma lata de cerveja, depois sentou‑se nos degraus e ficou a olhar para os pirilampos que se viam à distância. Grace sabia que a noite estava bonita, mas não queria olhar, não queria ver, nem recordar aquela noite, nem coisa alguma. Como também não queria recordar a noite em que a mãe morrera e o modo lamentável como ela lhe pedira para ser boa para o pai. Era só o que a preocupava... ele... apenas lhe interessava fazê‑lo feliz.

            Depois de guardar a louça, Grace voltou para o seu quarto e estendeu‑se na cama sem acender a luz. Ainda não conseguia habituar‑se ao silêncio. Continuava à espera de ouvir a voz dela, como se estivesse a dormir e pudesse acordar com dores a qualquer momento. Mas Ellen Adams já não sentia dores, nunca mais sentiria. Finalmente estava em paz. E a eles só restava o silêncio.

            às 22 horas Grace vestiu a camisa de noite, deixando as calças, a camisola e o camisolão caídos no chão, em monte. Fechou a porta à chave e meteu‑se na cama. Nada mais tinha a fazer. Não lhe apetecia ler nem ver televisão, o trabalho da casa estava feito e ela não tinha mais ninguém de quem tratar. Queria apenas dormir e esquecer tudo... O funeral... as coisas que as pessoas tinham dito... o cheiro das flores... as palavras do sacerdote no cemitério. Ninguém conhecia a mãe nem os conhecia a eles também, tal como sucedia com ela. Mas isso não lhe interessava. Tudo o que as pessoas queriam e conheciam eram as suas próprias ilusões.

            ‑Gracie... ‑ ouviu o pai bater ao de leve à porta. - Gracie... querida... estás acordada? ‑ Ela ouviu‑o, mas não respondeu. Que havia a dizer? Como sentiam a falta dela?

O que ela significara para eles? De que serviria isso? Não poderiam trazê‑la de novo para junto deles. Nada o poderia fazer. Grace deixou‑se ficar estendida no escuro, envolta na sua velha camisa de noite de nylon cor‑de‑rosa.

            Ouviu‑o então tentar abrir a porta, mas não se mexeu. Fechara‑a à chave. Fazia‑o sempre. Na escola, as outras raparigas troçavam dela por ser tão envergonhada. Fechava sempre as portas à chave, para poder ter a certeza de estar só, de não ser incomodada.

            ‑ Gracie? ‑ Ele continuava ali, decidido a não a deixar chorar sozinha. A voz dele era meiga e suave, mas Grace continuou sem responder. ‑ Vá, deixa‑me entrar... para conversarmos um pouco... estamos os dois tristes... deixa‑me ajudar‑te. ‑ Grace não se mexeu e dessa vez John sacudiu a maçaneta da porta com força. ‑ Querida, não me obrigues a forçar a porta. Sabes que o posso fazer. Deixa‑me entrar.

            ‑ Não posso, estou doente ‑ mentiu. Grace estava bela e pálida, iluminada pela luz do luar que fazia com que os seus braços parecessem de mármore, mas ele não a podia ver.

            ‑ Não estás nada doente. ‑ Sabia bem que não era verdade. Enquanto falava com ela, ia desabotoando a camisa. Também estava cansado, mas não a queria fechada no quarto, sozinha com o seu desgosto. Por isso é que ali estava. - Gracie! ‑ A sua voz subiu de tom e Grace sentou‑se na cama a olhar para a porta com ar assustado.

            ‑ Não entre, papá ‑ pediu com voz trémula. Sabia que ele era todo‑poderoso e tinha medo dele. ‑ Não, papá! - repetiu. Ouvia‑o forçar a porta e sentou‑se na beira da cama com os pés no chão a olhar para a porta. Mas ouviu os passos dele afastarem‑se e ficou imóvel, a tremer. Conhecia‑o demasiado bem: nunca desistia facilmente de coisa alguma e sabia que não o faria.

            Uns momentos depois, ele estava de volta e forçava a fechadura com um instrumento qualquer, entrando no quarto descalço e de peito nu, tendo no rosto uma expressão de aborrecimento.

            ‑ Não precisas de fazer isto agora. Estamos os dois sós. Sabes que não te vou magoar.

            ‑ Eu sei... mas não o pude evitar... desculpe..........

            ‑ Assim é melhor. ‑ Aproximou‑se dela e olhou‑a severamente: ‑ Não há necessidade de ficares aqui sozinha e infeliz. Porque não vens ao meu quarto para conversarmos um bocado? ‑ Falava com ar carinhoso e desapontado com as evasivas dela. Quando o olhou, ele viu que a filha tremia.

            ‑ Não posso... eu... dói‑me a cabeça.

            ‑ Vamos. ‑ Inclinou‑se e agarrou‑a por um braço, obrigando‑a a levantar‑se. ‑ Vem, falaremos no meu quarto.

            ‑ Não quero... eu... não! ‑ gritou ela, conseguindo soltar o braço. ‑ Não posso! ‑ gritou de novo, e dessa vez ele pareceu ficar zangado. Não estava disposto àquelas coisas nessa noite. Não havia razão para isso. Nem necessidade. Sabia o que a mãe lhe dissera. Olhou‑a com ar furioso e agarrou‑a com mais força.

            ‑ Sim, podes. E vais fazê‑lo. Disse‑te para vires ao meu quarto.

            ‑ Papá, por favor... ‑ A voz dela era pouco mais do que um leve gemido enquanto ele a puxava e a obrigava a segui‑lo até ao quarto dele. ‑ Por favor, mamã... ‑ Sentia o peito tenso e um zumbido nos ouvidos enquanto continuava a suplicar.

            ‑ Sabes o que a tua mãe te disse antes de morrer ‑ disse furiosamente. ‑ Sabes o que ela te disse...

            ‑ Não quero saber. ‑ Era a primeira vez em toda a sua vida que se atrevia a desafiar o pai. Costumava suplicar e chorar, mas nunca lutara contra ele como nessa noite. Era algo novo nela e ele não gostou disso. ‑ A mamã já aqui não está ‑ disse ela, tremendo dos pés à cabeça e olhando‑o, à medida que esperava arrancar algo da sua própria alma: a coragem para lutar contra o pai...

            ‑ Pois não, não está ‑ disse ele, sorrindo. ‑ É isso mesmo, Grace. Já não precisamos de nos esconder, podemos fazer o que quisermos. É a nossa vida... e ninguém precisa de saber... ‑ Avançou para ela com os olhos brilhantes, enquanto Grace recuava. Depois ele agarrou‑lhe os dois braços e, com um só gesto, rasgou‑lhe a camisa de noite, nos ombros. ‑ Pronto... assim é melhor... mas não é preciso fazer estas cenas... nada disto... só preciso de ti... minha Gracie... só preciso da minha bebé que me ama e a quem eu amo muito... ‑ Só com uma mão, tirou as calças e as cuecas de um só gesto e ficou nu e erecto diante dela.

            ‑....... por favor... ‑ A voz dela emitiu um longo e triste suspiro de dor e de vergonha, voltando a cabeça para não ver aquela imagem demasiado familiar. ‑....... não posso... ‑ As lágrimas corriam‑lhe pelas faces. John não compreendia. Ela tinha feito aquilo porque a mãe lho pedira. Fazia‑o há anos, desde os treze... pouco depois de a mãe ter adoecido e ter sido operada a primeira vez. Antes disso o pai batia na mãe e Grace costumava ouvi‑los, noite após noite, enquanto chorava sozinha, no seu quarto. De manhã a mãe tentava explicar‑lhe a causa das nódoas negras, dizendo‑lhe que caíra, que batera com a cara na porta, ou que escorregara. Mas não era segredo. Todos o sabiam. Ninguém teria julgado John Adams capaz disso, mas era, disso e de muito mais. Também seria capaz de bater em Grace, mas Ellen nunca lho permitira. Em vez disso, deixara que ele a espancasse e dissera a Grace que fechasse a porta do quarto à chave.

            Por duas vezes, Ellen abortara por causa das tareias brutais. Na última, estava grávida de seis meses e depois disso não engravidara mais. As pancadas brutais e aterradoras, eram dadas de modo a que não se notassem muito e se pudessem explicar, desde que Ellen estivesse disposta a fazê‑lo, e ela estava. Amara‑o desde os seus tempos de escola. Era o rapaz mais bonito da cidade e ela considerara uma sorte casar com ele. Os pais dela eram muito pobres e ela nem sequer terminara o curso secundário. Ellen era uma bonita rapariga, mas sabia que sem John não teria qualquer oportunidade de conseguir uma vida decente. Fora isso que John lhe dissera e ela acreditara. O pai também lhe costumava bater e ao princípio aquilo que John fazia não lhe parecia nada de especial. Mas as coisas foram piorando com o decorrer dos anos e por vezes John ameaçava deixá‑la por ela ser uma inútil. Ellen fazia tudo o que ele queria só para que não a deixasse. E quando Grace cresceu, tornando‑se cada dia mais bonita, foi fácil ver o que ele queria, o que ela teria de fazer para o conservar. E quando Ellen adoeceu e as radiações e a quimioterapia a afectaram tão dramaticamente, ela deixou de poder ter relações sexuais. John disse‑lhe então que se queria continuar casada com ele tinha de fazer alguma coisa para o manter feliz. Era óbvio que ela não o poderia fazer, não podia dar‑lhe o que ele queria. Mas Grace podia. Tinha treze anos e era encantadora.

            A mãe explicara‑lhe tudo, para ela não se assustar. Era uma coisa que a filha podia fazer por eles, para ajudar o pai a ser feliz. Era como se passasse a ser mais uma parte deles e o pai gostaria ainda mais dela do que dantes. Ao princípio, Grace não compreendeu e depois chorou... Que pensariam as amigas se soubessem? Como poderia fazer aquilo com o pai? Mas a mãe dizia‑lhe constantemente que ela tinha de os ajudar, que era sua obrigação, que morreria se ela não o fizesse. Dizia‑lhe que o pai talvez as abandonasse e ficariam sozinhas, sem ninguém que olhasse por elas. Pintou um quadro terrível e pôs nos ombros de Grace uma grande carga. A rapariga soçobrou ao peso da responsabilidade e com o horror daquilo que esperavam dela. Mas eles não queriam uma resposta da sua parte. Nessa noite foram os dois ao seu quarto e a mãe ajudou‑o. Segurou‑a, falou-lhe meigamente, disse‑lhe como ela era uma boa filha e como a amavam. E mais tarde, quando voltaram para o quarto, John abraçou Ellen e agradeceu‑lhe.

            Depois disso a vida começou a ser mais triste e solitária para Grace. Ele não ia ao quarto dela todas as noites mas quase. Por vezes Grace julgava morrer de vergonha e havia ocasiões em que ele a magoava de verdade. A jovem nunca contou a ninguém. Passado certo tempo a mãe deixou de o acompanhar. Grace sabia o que era esperado dela e nada podia fazer a não ser obedecer. Quando discutia com ele, John batia‑lhe com força e ela percebeu que não tinha qualquer alternativa, qualquer saída. Submetia‑se para que ele não batesse na mãe, não as deixasse. Mas sempre que Grace não cooperava com ele, ou não fazia tudo o que ele queria, ele voltava para o quarto e batia em Ellen, por mais doente ou cheia de dores que ela estivesse. Era uma mensagem que Grace compreendia imediatamente e que a fazia correr para o quarto deles, aos gritos, jurando que faria tudo o que ele quisesse. E ele obrigava‑a a provar isso vezes e vezes sem conta. Durante mais de quatro anos, fizera com ela tudo o que lhe viera à cabeça. Ela era a sua escrava de amor, a sua filha. E a única coisa que a mãe fizera para a proteger fora comprar pílulas contraceptivas para ela não engravidar.

            Desde que o pai começara a dormir consigo, Grace deixara de ter quaisquer amigos. Nunca tivera muitos, porque receava que alguém descobrisse que o pai batia na mãe, e Grace sabia que tinha de os proteger. Mas logo que o pai começara a dormir com ela, Grace achara impossível falar com qualquer dos colegas na escola, ou mesmo com os professores. Tinha a certeza de que descobririam o que se passava, que veriam qualquer coisa na cara ou no corpo dela, como um sinal maligno que ela usasse por fora, ao contrário da mãe. A maldade era dele, mas ela nunca o compreendera verdadeiramente. Até então. Percebia agora que, tendo a mãe desaparecido, ela já não era obrigada a continuar. Tinha de parar. Não aguentava mais. Nem sequer pela mãe. Era demasiado... especialmente naquele quarto. Ele sempre fora ao quarto dela, obrigando‑a a abrir a porta. Nunca se atrevera a levá‑la para o quarto dele, mas agora era como se quisesse que ela tomasse o lugar da mãe e o preenchesse de um modo que a mãe nunca o pudera fazer. Era como se passasse a ser a mulher dele. Até a sua maneira de falar era diferente.

            E enquanto ela chorava e suplicava, as súplicas dela só serviam para o excitar mais. Olhou‑a com uma expressão dura e ameaçadora, enquanto com um único gesto a atirava para cima da cama onde até dois dias antes se finava a mulher.

            Contudo, dessa vez Grace lutou. Decidira já que não ia voltar a submeter‑se e lutou para se livrar dele. Compreendia agora que era loucura pensar que podia ficar debaixo do mesmo tecto com ele, sem que o mesmo pesadelo continuasse. Precisava de fugir, mas primeiro tinha de resistir e sobreviver àquilo que ele lhe ia fazer. Sabia que não podia continuar a consentir... não podia. Embora a mãe quisesse que ela fosse boa para ele, não podia. Fora boa e obediente demasiado tempo. Não podia mais... nunca mais... nunca... mas enquanto ela agitava os braços para o afastar, ele caiu com todo o seu peso sobre ela. As pernas foram rapidamente afastadas pelas dele e penetrou‑a com violência, provocando‑lhe mais dor do que ela alguma vez imaginara poder sentir. Por momentos, pensou que ele a mataria. Nunca fora assim. Era como se lhe estivesse a bater com um punho, dessa vez por dentro, e quisesse

provar-lhe que era dono dela e podia fazer tudo o que lhe apetecesse. A dor era quase insuportável e por momentos julgou ir desmaiar. O quarto girava à sua volta, enquanto ele continuava a violentá‑la furiosamente, apertando‑lhe os seios, chupando‑lhe os lábios, até ela ter a sensação de pairar no espaço, quase morta, desejando que por fim, misericordiosamente, ele a matasse.

Mesmo enquanto ele a violava, ela sabia que não podia continuar com aquele sofrimento. Sabia que se encontrava à beira de um precipício perigoso e que estava a lutar pela sua sobrevivência. E então, sem mesmo saber como se lembrara disso, percebeu que estavam perto da mesa‑de‑cabeceira da mãe. Durante anos tinham estado ali inúmeras caixas com comprimidos e um jarro com água. Ela poderia despejar a água por cima dele, ou bater‑lhe com o jarro, mas agora já não havia ali nenhum jarro, nem comprimidos, nem água, nem ninguém que os tomasse. Grace estendeu a mão para a gaveta da mesa‑de‑cabeceira, sem pensar, enquanto ele continuava a violentá‑la, gemendo e gritando. Esbofeteara‑a várias vezes, mas agora apenas queria castigá‑la com o seu orgão sexual e não com as mãos. Apertava‑lhe os seios e comprimia‑a sobre a cama. Grace tinha dificuldade em respirar e a vista enevoada desde que ele lhe batera, mas sentiu a gaveta da mesa‑de‑cabeceira abrir‑se e sentiu a superfície fria e lisa da arma que a mãe comprara para se defender dos ladrões. Ellen nunca se atreveria a usá‑la contra o marido, nem sequer a ameaçá‑lo por pior que ele a tratasse a si ou a Grace. Ellen amara‑o verdadeiramente.

            Grace apertou a arma na mão e ergueu‑a acima da cabeça dele. Queria bater‑lhe com ela, para o deter. Ele estava quase a acabar, mas Grace não podia permitir que ele voltasse a fazê‑lo. Tinha de o deter, fosse como fosse. Não poderia continuar a viver assim. O que se estava a passar nessa noite mostrava‑lhe o que seria a sua vida futura. Ele nunca a deixaria ir para a universidade, nem para parte alguma, e Grace sabia que, custasse o que custasse, tinha de o fazer parar. E enquanto ela empunhava a arma com a mão trémula, ele atingiu o climax com um grito que a fez tremer de dor, de angústia e repulsa. Só de o ouvir, o seu ódio por ele aumentou. E quando lhe apontou a arma, ele ergueu os olhos e viu‑a.

            ‑ Sua cabra! - gritou, ainda abalado pela força do orgasmo. Nunca ninguém o excitara tanto como Grace, como a sua própria carne. Apetecia‑lhe devorá‑la toda, movido por instintos primitivos. E agora sentia‑se furioso por ela se atrever a desafiá‑lo. Estendeu a mão para lhe tirar a arma. Grace percebeu o que ele iria fazer. Ia bater‑lhe e isso excitá‑lo‑ia ainda mais. Não podia deixar que isso sucedesse. Ele não voltaria a possuí‑la, tinha de se salvar, de fugir dele. John estava ainda dentro dela quando estendeu a mão para a arma e, tomada de pânico, apertou o gatilho. Quando a arma disparou, com um som que a aterrorizou, Grace estremeceu e ele pareceu assombrado: os olhos dele abriram‑se desmedidamente e caiu sobre ela, quase a esmagando. Era demasiado pesado e ela mal podia respirar.

O sangue dele caía‑lhe sobre os olhos e a boca. A bala atravessara‑lhe a garganta e ele sangrava profusamente. Grace fez um esforço terrível e conseguiu tirá‑lo de cima dela. John ficou estendido de costas, com os olhos abertos, imóvel. Da boca saía‑lhe um terrível som gorgolejante.

            ‑ Oh meu Deus... oh meu Deus... - murmurou Grace, ofegante, levando a mão à garganta e olhando‑o, Tinha na boca o sabor do sangue dele e não queria olhá‑lo. Ele estava coberto de sangue, assim como a cama, e Grace só conseguia lembrar‑se das palavras da mãe... "Sê boa para o papa, Grace... sê boa para ele..." E fora. Dera‑lhe um tiro. Os olhos dele moviam‑se, mas ele parecia paralisado, continuava imóvel. Grace recuou, aterrorizada e olhou para o pai. Quando o fez, vomitou para o chão. Quando conseguiu controlar um pouco o tremor que a agitava, foi ao telefone e chamou a Polícia.

‑Preciso... de uma ambulância... ambulância... o meu pai foi ferido com um tiro... eu dei‑lhe um tiro... ‑ Ofegava, com falta de ar, mas deu‑lhes a morada e depois ficou a olhar para o pai. Ele não voltara a mexer‑se desde que ficara estendido de costas sobre a cama e o seu órgão estava agora inerte. Aquilo que a aterrorizara, que a torturara durante tanto tempo, parecia‑lhe subitamente pequeno e inofensivo, tal como o pai. O aspecto de John era aterrorizador e patético. O sangue saía‑lhe aos borbotões da garganta e de tempos a tempos gemia. Grace sabia que fizera uma coisa terrível, mas não pudera evitá‑lo. A arma encontrava‑se ainda na sua mão e continuava nua, a um canto, quando a Polícia chegou. E ofegava, com um ataque de asma.

            ‑ Meu Deus! ‑ exclamou o primeiro agente a entrar no quarto. Depois viu‑a, tirou‑lhe a arma da mão e os outros entraram atrás dele. O mais novo dos polícias embrulhou Grace numa manta, mas viu as escoriações no seu corpo, o sangue por toda a parte e reparara na expressão do olhar dela. Parecia louca. Parecia ter estado no inferno e não ter ainda saído de lá.

            John Adams ainda vivia quando a ambulância chegou, mas a sua vida estava por um fio. Os paramédicos suspeitavam de que a bala tivesse atingido a medula espinal e tivesse perfurado um pulmão. Não podia falar e estava completamente paralisado. Nem sequer podia ver Grace. Tinha os olhos fechados e estavam a aplicar‑lhe oxigénio. Mal respirava.

            ‑ Vai salvar‑se? ‑ perguntou o polícia mais graduado aos enfermeiros, enquanto eles metiam o ferido na ambulância.

            ‑ É difícil de dizer ‑ responderam, acrescentando em voz mais baixa: ‑ É pouco provável.

            A ambulância partiu e o polícia abanou a cabeça. Conhecia John Adams desde os seus tempos de escola. Fora ele quem lhe tratara do divórcio. Era uma excelente pessoa. Por que diabo teria a filha disparado sobre ele? Vira a cena que se lhe deparara ao chegar e notara que se encontravam ambos nus, mas isso não era concludente.

            Evidentemente tudo se passara depois de terem ido ambos para os respectivos quartos e provavelmente John dormia sem pijama. Por que motivo estaria a rapariga nua, era outra coisa. Era obviamente desequilibrada e talvez não tivesse suportado o desgosto. Talvez censurasse o pai pela morte da mãe. Fosse o que fosse, havia de ser descoberto na investigação.

            ‑ Como está ela? ‑ perguntou a um dos outros policias. Nessa altura encontravam‑se ali uma dúzia de agentes. Tratava‑se do caso mais importante ocorrido em Watseka

desde que o filho do sacerdote tomara LSD e se suicidara em seguida, dez anos antes. Isso fora uma tragédia, mas o que se passara ali ia ser um escândalo. Um homem como John Adams ser morto pela própria filha, era um verdadeiro crime e uma perda para toda a cidade. Ninguém iria acreditar. Estará drogada? ‑ perguntou a um dos jovens polícias, enquanto o fotógrafo tirava fotografias ao quarto. A arma do crime fora já metida num saco de plástico e encontrava-se no carro.

            ‑ Não me parece. Pelo menos à primeira vista. Está é terrivelmente assustada e com uma crise de asma. Tem muita dificuldade em respirar.

            ‑ Tenho muita pena ‑ disse o polícia mais velho sarcasticamente olhando à sua volta para a sala bem arrumada. Estivera ali poucas horas antes, quando do funeral. Parecia‑lhe impossível estar ali agora por aquele motivo. Talvez a rapariga fosse mesmo louca. E acrescentou: ‑ O pai dela está bem pior.

            ‑ Que dizem eles? ‑ perguntou o agente mais novo. - Vai salvar‑se?

            ‑ Não me parece. A rapariga fez um belo trabalho. Atingiu‑lhe a medula espinal e talvez um pulmão. E Deus sabe que mais, ou porquê?

            ‑           Acha que ele estava a ter relações com ela? ‑ perguntou o policia mais novo, intrigado com a situação. Mas o outro mostrou‑se ofendido.

            ‑ O quê? Um homem como John Adams? Sabe quem ele é? É o mais competente advogado da cidade. É um tipo muito decente. Acha que um homem como ele seria capaz de ter relações sexuais com a própria filha? Você é tão louco como ela, se chegou a tal conclusão.

            ‑           Não sei... deu‑me essa impressão... estavam ambos nus... e ela parece tão assustada... tem marcas e arranhões nos braços... e... ‑ Hesitou, perante a reacção do seu superior, mas não podia ocultar provas. Provas eram provas. Há manchas nos lençóis que parecem... ‑ Apesar do sangue havia outras manchas e o jovem polícia reparara nelas.

‑           Não quero saber do que parece, O'Byrne ‑ insistiu. - Há mais de uma maneira de essas manchas sujarem os lençóis de um homem. O tipo ficou sem a mulher, sentiu‑se só e talvez estivesse a... brincar consigo mesmo quando a filha apareceu com a pistola e... Talvez ela não soubesse o que ele estava a fazer e se tivesse assustado. Mas de modo algum posso acreditar que um tipo como John Adams tenha tido relações com a própria filha. Esqueça isso.

            - Está bem.

            Os outros agentes estavam já a enrolar os lençóis e a metê‑los em sacos de plástico, como provas, enquanto outro polícia interrogava Grace, no quarto dela. Estava sentada na cama, ainda embrulhada na manta que lhe tinham dado ao chegarem. Encontrara o inalador e respirava agora melhor, mas estava mortalmente pálida e o agente que a interrogava duvidava se ela entendia as perguntas dele. Grace disse que não se recordava de encontrar a arma. Só se lembrava de a ter na mão e de ela se ter disparado. Recordava‑se do ruído e do sangue do pai a cair sobre ela. Não recordava mais nada.

            - Como é que ele sangrou sobre si? Onde é que se encontrava? ‑ O agente ficara com a mesma impressão que O'Byrne, embora fosse difícil pensar isso de John Adams.

            - Não me lembro - disse Grace tremulamente. Parecia um autómato e a sua respiração era entrecortada e difícil.

            - Recorda‑se de onde estava quando disparou sobre o seu pai?

            - Não sei. ‑ Olhou‑o como se não o visse e acrescentou, mentindo: ‑ Estava à entrada da porta. ‑ Sabia o que tinha a fazer. Devia isso à mãe. Tinha de proteger o pai.

            ‑           Estava à porta do quarto quando disparou? ‑ Era impossível e assim não chegariam a conclusão nenhuma. - Acha que outra pessoa poderia ter disparado sobre o seu pai? ‑ Imaginava se seria isso que ela pretendia dizer. Um intruso. Mas isso era ainda menos crível do que ela ter disparado da porta.

            ‑           Não. Fui eu quem disparou. Da porta.

            O agente tinha a certeza de que a arma fora disparada à queima‑roupa por uma pessoa que se encontrava em frente dele, obviamente a filha. Mas onde estavam eles?

            ‑           Estava na cama com ele? ‑ perguntou. Grace não respondeu. Olhou fixamente em frente, como se ele não estivesse ali e soltou um leve suspiro ‑ Estava na cama com ele? ‑ repetiu. Grace hesitou um bocado antes de responder:

            ‑ Não sei. Não tenho a certeza.

            ‑ Como estão as coisas por aqui? ‑ perguntou o agente mais graduado, espreitando pela porta. Eram agora três horas e já tinham feito tudo o que era necessário na cena do crime.

            O agente que interrogava Grace encolheu os ombros, desanimado. As coisas não iam bem. A rapariga tremia violentamente e o que ela dizia não fazia muito sentido. Parecia tão atordoada que ele chegava a pensar se ela saberia o que se passara.

            ‑ Vamos levá‑la, Grace. Vai ficar detida uns dias. Precisamos de falar mais consigo sobre o que sucedeu. ‑ Ficou calada, mas disse que sim com a cabeça, continuando sentada, toda suja de sangue e embrulhada na manta. ‑ Talvez seja melhor lavar‑se e vestir‑se. ‑ Grace disse que sim, mas continuou quieta. ‑ Vamos levá‑la, Grace. Para ser interrogada ‑ explicou de novo, pensando se ela seria realmente louca. John nunca dissera isso, mas também não era coisa que o pai dissesse aos seus clientes.

            ‑           Vamos detê‑la durante setenta e duas horas, enquanto se fazem as investigações. ‑ Teria sido premeditado? Teria ela querido matá-lo? Teria sido um acidente? Que se teria passado? Queria saber também se ela estaria drogada e precisava de análises.

            Grace não perguntou coisa alguma. E também não se vestiu. Parecia completamente desorientada, e foi isso que fez com que o agente encarregado do caso pensasse que ela era louca. Acabaram por chamar uma mulher‑polícia para os ajudar, e ela vestiu Grace como se se tratasse de uma criança, reparando entretanto nas diversas escoriações e nódoas negras que ela tinha no corpo. Disse‑lhe para se lavar e Grace obedeceu prontamente. Fazia o que lhe diziam, mas não dava qualquer esclarecimento.

            ‑           Lutou com o seu pai? ‑ perguntou‑lhe a mulher‑policia, enquanto a ajudava a vestir as velhas calças de ganga. Grace tremia tanto como se tivesse estado nua no árctico, mas não respondeu. ‑ Estava zangada com ele? ‑ Silêncio.

Grace não se mostrava hostil nem colaborava. Parecia estar em transe quando passaram com ela pela sala e nunca perguntou pelo pai. Parou apenas um instante, na sala, junto de uma fotografia com uma moldura de prata. Era uma fotografia da mãe e Grace estava junto dela. Devia ter nessa altura uns dois ou três anos e ambas sorriam. Grace ficou a olhá‑la durante muito tempo, lembrando‑se de como a mãe era bonita e como desejava tudo para Grace. Desejara demasiado. Queria dizer‑lhe agora que lamentava o sucedido, mas não podia. Não obedecera à mãe. Não tomara conta do pai. Não podia mais. E agora ele fora‑se embora. Não conseguia lembrar‑se para onde, mas fora‑se embora. E ela já não ia tomar conta dele.

            ‑           Ela não está realmente bem ‑ disse a mulher‑polícia junto dela, enquanto Grace olhava para a fotografia. Queria recordar‑se dela. Tinha a sensação de que não voltaria a vê‑la, mas não sabia porquê. Só sabia que iam sair. ‑ Vai chamar um psiquiatra?

            ‑ Sim, creio que sim ‑ respondeu o agente encarregado do caso. Pensava agora, mais do que nunca, que a rapariga era atrasada mental. Ou talvez fosse apenas fingimento. Era dificil dizer. Só Deus sabia o que realmente se passara ali.

            Quando Grace saiu de casa para o ar frio da noite, o relvado estava cheio de agentes. Havia sete carros da Polícia estacionados junto do portão, mas a maior parte deles tinha ido apenas ver o que se passara. Faiscavam luzes e havia homens uniformizados por todos os lados. O jovem polícia chamado O'Byrne ajudou Grace a entrar num dos carros. A mulher‑polícia sentou‑se ao lado dela. Não se mostrava especialmente simpática com ela. Vira raparigas como ela, drogadas, ou fingindo sê‑lo, que pretendiam mostrar‑se perturbadas para não serem responsabilizadas por aquilo que tinham feito. Vira uma rapariga de quinze anos que matara a familia toda e dissera depois que ouvira vozes na televisão a dizerem‑lhe para o fazer. Na sua opinião, Grace estava a fazer‑se passar por louca. No entanto, sabia que também podia dar‑se o caso de Grace não estar a representar e encontrar‑se verdadeiramente perturbada, embora não estando louca. De qualquer modo, não era à Polícia que competia ajuizar da sanidade mental da rapariga. O psiquiatra encarregar‑se‑ia disso.

            O percurso até à esquadra foi rápido, principalmente àquela hora da noite, mas Grace parecia pior do que nunca quando lá chegou. As luzes fluorescentes faziam com que a cor dela parecesse verde, quando a deixaram numa pequena cela onde pouco depois um corpulento polícia se lhe dirigiu:

            - Chama‑se Grace Adams? - perguntou laconicamente, e ajovem limitou‑se a dizer que sim com a cabeça. Parecia‑lhe que ia desmaiar ou vomitar outra vez. Talvez morresse. E isso seria bom. A vida dela era um pesadelo. - Sim, ou não? - berrou ele.

            ‑           Sou, sim.

            ‑ O seu pai acabou de morrer no hospital. Está presa por homicídio. ‑ Leu‑lhe Os seus direitos, pôs uns papéis nas mãos de uma mulher‑polícia que entrara com ele e saiu sem mais uma palavra, fechando ruidosamente a porta de metal da cela. Houve um momento de silêncio e depois a mulher‑polícia mandou‑a tirar a roupa toda. Grace tinha a sensação de estar a ver um mau filme.

            ‑           Porquê? ‑ perguntou com voz rouca.

            ‑ Vou revistá‑la ‑ disse a outra, enquanto Grace começava a despir-se com mãos trémulas. Todo o processo foi profundamente humilhante. Por fim apareceu outra mulher‑polícia para lhe tirar as impressões digitais.

            ‑           Foi vítima de violência sexual ‑ disse friamente uma das mulheres‑polícias, dando‑lhe um papel para limpar os dedos. ‑ Que idade tem? ‑ perguntou, enquanto Grace a olhava, tentando compreender o que lhe sucedia. Matara‑o. Ele estava morto. Acabara‑se.

‑           Pouca sorte para si. Pode ser julgada por homicídio como adulta. Isso sucede no Ilinóis a quem tem mais de treze anos. Se a considerarem culpada, apanha pelo menos uns catorze ou quinze anos. Também está sujeita à pena de morte.

            Nada parecia real a Grace enquanto as suas mãos eram algemadas atrás das costas e a conduziam para fora da cela. Cinco minutos depois, encontrava-se numa cela maior com quatro outras mulheres. Aí havia uma retrete aberta, que cheirava a urina e a fezes. A cela era suja e todas as mulheres que ali estavam se encontravam deitadas sobre colchões sujos e se tapavam com mantas. Duas das mulheres estavam acordadas mas ninguém falava. Tiraram as algemas a Grace, deram‑lhe uma manta e ela foi sentar‑se no único catre desocupado da pequena cela.

            Grace olhou à sua volta com incredulidade. Tinha chegado àquilo. Mas não tivera outra saída. Não podia suportar mais. Tivera de o fazer... não planeara fazê‑lo, nada premeditara... mas agora que o fizera nem sequer o lamentava. Era a vida dela ou dele. Não se teria importado de ser ela a morrer, mas as coisas haviam sucedido assim, sem qualquer intenção ou plano. Não tivera alternativa. Matara‑o.

 

            Grace ficou estendida sobre o delgado colchão durante o resto da noite, mal sentindo nas costas as molas metálicas da cama. Não sentia coisa alguma. Já não tremia. Estava apenas ali estendida. A pensar. Já não tinha familia. Ninguém. Nem pais nem amigos. Pensava no que lhe iria suceder se fosse considerada culpada de homicídio. Seria condenada à morte? Não podia esquecer o que o polícia lhe dissera. Estava a ser acusada como adulta e a acusação era de homicídio. Talvez a pena de morte fosse o preço que tinha de pagar. E se fosse, pagá‑lo‑ia. Pelo menos ele nunca mais lhe tocaria, nunca mais lhe faria mal. Os quatro anos de inferno às mãos dele tinham acabado.

            ‑           Grace Adams? ‑ Passava pouco das 7 horas quando uma voz chamou por ela. Grace encontrava‑se ali há três horas e não dormira, mas não se sentia tão atordoada como estivera na noite anterior. Sabia o que estava a suceder. Recordava‑se de ter disparado sobre o pai. Sabia que ele tinha morrido e porquê. E não o lamentava.

            Grace foi levada para uma pequena sala com pesadas portas trancadas nas duas extremidades. Mandaram‑na entrar para lá sem qualquer explicação. Havia ali uma mesa, quatro cadeiras e por cima da mesa brilhava uma luz forte. Grace ficou parada, imóvel, e alguns minutos depois a outra porta abriu‑se e entrou uma mulher alta e loura. Olhou friamente para Grace e ficou assim uns momentos. Não sorriu nem disse coisa alguma. Limitou‑se a observar Grace durante longos momentos. E Grace também nada disse. Ficou de pé na outra extremidade da sala, parecendo uma jovem corça assustada e prestes a saltar dali para fora. Mas não o podia fazer. Estava presa. Grace estava calada, mas assustada. E apesar da maneira de vestir, e do seu aspecto desalinhado, havia nela uma calma dignidade. Dava a sensação de ter sofrido muito e de ter percorrido um longo caminho para se libertar, sentindo que valia a pena pagar um alto preço pela sua libertação. Não havia cólera nela, apenas um sofrimento prolongado. Na sua curta vida, Grace vira muita coisa, vida, morte e traição, e isso transparecia nos seus olhos. Molly York percebeu isso no instante em que olhou para Grace, e sentiu‑se comovida pela dor profunda que via estampada no rosto da rapariga.

            ‑           Sou Molly York ‑ apresentou‑se. ‑ Sou psiquiatra. Sabe porque me encontro aqui?

            Grace abanou a cabeça e permaneceu no mesmo sítio. As duas mulheres encontravam‑se de pé nas extremidades opostas da sala.

            ‑           Lembra‑se do que sucedeu a noite passada?

            Grace disse que sim com a cabeça, lentamente.

            ‑ Porque não se senta? ‑ A psiquiatra apontou para uma cadeira e ambas se sentaram, em frente uma da outra. Grace não tinha a certeza se a mulher mostrava simpatia por ela ou não, mas percebia claramente que não era sua amiga e que obviamente estava ali como parte da investigação criminal, o que significava que era potencialmente alguém que poderia fazer‑lhe mal. Mas não lhe iria mentir. Responderia com verdade às perguntas que ela lhe faria, desde que não quisesse saber muita coisa a respeito do pai. Ninguém tinha nada com isso. Era obrigação dela não contar a ninguém o que se passara, não os embaraçar. Que diferença fazia isso agora? Ele desaparecera. Nunca lhe passou pela cabeça, nem por um instante sequer, pedir um advogado para tentar salvar‑se. Isso não lhe importava.

            ‑           De que é que se recorda sobre a noite passada? ‑ perguntou devagar a psiquiatra, observando‑a atentamente.

            ‑           Disparei sobre o meu pai.

            ‑           Lembra‑se porquê?

            Grace hesitou antes de responder e acabou por ficar calada.

            ‑           Estava zangada com ele? Já tinha pensado em matá‑lo?

            Grace abanou rapidamente a cabeça.

            ‑           Nunca pensei em disparar sobre ele. A arma apareceu na minha mão nem sei como. A minha mãe guardava‑a na gaveta da mesa‑de‑cabeceira. Ela estava doente há muito tempo e tinha medo quando estava sozinha em casa. Mas nunca a utilizou. ‑ Explicava essas coisas à psiquiatra, denotando juventude e inocência, mas não lhe parecia nem louca nem atrasada, como a Polícia sugerira. Também não lhe parecia perigosa. A médica achava‑a bem‑educada e delicada, mostrando muito controlo, apesar de ter passado por uma experiência tão traumática e de não ter dormido toda a noite.

            ‑ O seu pai é que segurava a arma? Lutaram por causa dela? Tentou tirar‑lha?

            ‑           Não. Eu é que empunhava a arma. Lembro‑me de a sentir na minha mão. E... ‑ Não queria dizer que o pai lhe tinha batido. ‑ E disparei sobre ele ‑ concluiu, de olhos baixos.

            ‑ Sabe porquê? Estava zangada com ele? Ele fez alguma coisa que a encolerizou? Lutaram?

            ‑           Não... bem... mais ou menos... Era uma luta... era uma luta pela sobrevivência... Eu... Não tem importância.

            ‑           Deve ter sido muito importante ‑ replicou a psiquiatra. ‑ Suficientemente importante para disparar sobre ele. Bastante importante para o matar, Grace. Diga‑me uma coisa: já alguma vez tinha disparado uma arma?

            Grace abanou a cabeça, parecendo triste e cansada. Talvez devesse ter feito aquilo anos antes, mas nessa altura a mãe ficaria com o coração despedaçado. à sua pobre, triste maneira, ela amava‑o muito.

            ‑           Não, nunca tinha disparado uma arma.

            ‑           Então porque o fez a noite passada?

            ‑           A minha mãe morreu há dois dias... há três dias, creio. O funeral foi ontem. ‑ Era óbvio que Grace estava exausta. Que motivo a levara a discutir com o pai? Molly York sentia‑se intrigada com a jovem. Sabia que ela lhe ocultava qualquer coisa, mas não sabia o quê. Não tinha a certeza se era algo prejudicial para ela, ou para o pai. Não lhe incumbia a ela descobrir se a rapariga era culpada ou inocente, mas sim determinar se era mentalmente sã ou não, e se sabia o que fazia. Mas que teria ela feito? E que teria ele feito para a filha disparar?

            ‑           Discutiram por causa da sua mãe? Ela deixou‑lhe algum dinheiro ou qualquer coisa que quisesse?

Grace sorriu da pergunta, parecendo demasiado sensata para a sua pouca idade. Não era de modo algum atrasada.

            ‑           Não creio que ela tivesse fosse o que fosse para deixar a alguém. Nunca trabalhou e nunca teve coisa alguma.

O meu pai é que ganhava todo o nosso dinheiro. Ele é advogado... ou era... ‑ disse calmamente.

            ‑           Vai deixar‑lhe alguma coisa?

            ‑           Não sei... talvez... creio que sim... ‑ Grace não sabia ainda que quando uma pessoa comete um crime não pode herdar da sua vítima. Se fosse considerada culpada, não herdaria coisa alguma do pai. Mas nunca fora esse o seu motivo.

            ‑           Então porque lutaram? ‑ Molly York era persistente e Grace não confiava nela. Percebia que ela não desistia e que havia nela uma expressão de inteligência que a preocupava. Ela via muito, compreendia muito. E não tinha o direito de saber. Ninguém tinha nada a ver com o que o pai lhe fizera durante anos. Grace não queria que ninguém soubesse, mesmo que isso a pudesse salvar. Não queria que a cidade inteira ficasse a saber o que o pai lhe fizera. Que pensariam então deles, da mãe dela? Nem queria pensar nisso.

            ‑           Não discutimos.

            ‑           Discutiram, sim ‑ disse calmamente a psiquiatra. Têm de o ter feito. Não pode ter entrado no quarto e disparado sobre ele... ou fê‑lo? ‑ Grace abanou a cabeça em resposta. ‑ Disparou sobre ele a menos de quatro centímetros de distância. Em que estava a pensar quando disparou?

            ‑           Não sei. Não estava a pensar em nada. Tentava apenas... eu... não interessa.

            ‑           Sim, interessa ‑ Molly York inclinou‑se para ela, sobre a mesa e falou com ar grave: ‑ Grace está a ser acusada de homicídio. Se ele lhe fez alguma coisa, ou a magoou de qualquer maneira, é um caso de autodefesa ou de homicídio involuntário, não assassínio. Embora ache que está a trair alguém ou alguma coisa se mo disser, deve fazê‑lo.

            ‑           Porquê? Porque hei‑de contar seja o que for a alguém? ‑ Parecia uma criança a dizer aquilo, mas era uma criança que matara o pai.

            ‑           Porque se não disser a ninguém, Grace, poderá ficar muitos anos na prisão e isso é errado se quis apenas defender‑se. Que lhe fez ele, Grace, para que tenha disparado sobre ele?

            ‑           Não sei. Talvez eu estivesse perturbada por causa da minha mãe. ‑ Grace disse essas palavras sem a olhar, agitando‑se na cadeira.

            - Ele violou‑a? - Os olhos de Grace abriram‑se muito ao ouvir a pergunta. E a sua respiração estava um pouco ofegante ao responder:

            ‑           Não, nunca.

            ‑           Alguma vez teve relações consigo? Alguma vez teve relações sexuais com o seu pai? ‑ Grace pareceu horrorizada. A psiquiatra estava perto, demasiado perto. Detestava aquela mulher. Que queria ela? Tornar tudo pior? Arranjar mais sarilhos? Desgraçá-los todos? Ninguém tinha nada com isso.

            ‑           Não. Claro que não! ‑ quase gritou, mas mostrou‑se muito nervosa.

            Tem a certeza? ‑ As duas mulheres fitaram‑se. Por fim, Grace abanou a cabeça.

            ‑           Não. Nunca.

            ‑           Estava a ter relações com ele a noite passada, quando disparou sobre ele? ‑ Olhou atentamente para Grace e a rapariga abanou novamente a cabeça, mas parecia agitada e Molly reparou nisso.

            ‑           Porque me faz essas perguntas? ‑ perguntou com ar infeliz. Molly ouvia a sua respiração asmática enquanto ela respondia.

            ‑           Porque quero saber a verdade. Quero saber se ele a magoou, se teve algum motivo para disparar. ‑ Grace apenas abanou a cabeça. ‑ Você e o seu pai eram amantes, Grace? Gostava de dormir com ele? ‑ Mas dessa vez, quando voltou a erguer os olhos para Molly, para responder, esta viu que a jovem estava a ser completamente sincera.

            ‑           Não. ‑ Detestava, mas não podia dizer isso a Molly.

            ‑           Tem namorado? Alguma vez teve relações com um rapaz?

            Grace suspirou, sabendo que nunca o teria. Como poderia?

‑           Não.

            ‑           É virgem? ‑ Silêncio. ‑ Perguntei‑lhe se era virgem. ‑ A médica estava a pressioná‑la outra vez e Grace não gostava disso.

            ‑           Não sei. Acho que sim.

            ‑           Que significa isso? Tem brincado?

            ‑           Talvez. ‑ Parecia outra vez muito nova e Molly sorriu. Ela não podia ter perdido a virgindade acariciando‑se.

            ‑           Alguma vez teve um namorado? Com dezassete anos já deve ter tido. ‑ Sorriu outra vez, mas Grace limitou‑se a abanar a cabeça.

            ‑           Há alguma coisa que me queira dizer acerca da noite passada, Grace? Lembra‑se de como se sentia antes de disparar? Porque o fez?

            ‑           Não sei ‑ repetiu Grace obstinadamente.

            Molly York sabia que Grace não estava a ser sincera com

ela. Por mais abalada que se encontrasse na altura em que

disparara, agora estava bem desperta e decidida a não contar

o que se passara. A médica alta e bonita olhou durante muito tempo para Grace, depois fechou lentamente a sua agenda

e cruzou as pernas.

            ‑           Gostava que fosse sincera comigo, Grace. Eu posso ajudá‑la. É verdade. ‑ Se percebesse que Grace se defendera, ou que tinha havido circunstâncias atenuantes, seria muito mais fácil para a rapariga, mas ela não lhe dava qualquer possibilidade de a poder ajudar. E o que era engraçado é que, apesar das circunstâncias e de Grace não cooperar, Molly simpatizava com ela. Grace era uma bonita rapariga, com grandes olhos de expressão franca. Molly percebia neles uma dor profunda e queria ajudá‑la, mas não sabia como, lá chegaria. Mas de momento a única preocupação de Grace era ocultar o seu segredo e por isso fechava‑se completamente.

            ‑           Contei‑lhe tudo de que me lembro.

            ‑           Não, não contou ‑ disse calmamente Molly. ‑ Mas talvez mais tarde o faça. ‑ Entregou‑lhe o seu cartão. ‑ Se quiser falar comigo telefone‑me. De qualquer modo, voltarei aqui para falar consigo. Vamos ter de passar algum tempo juntas para eu poder fazer o meu relatório.

‑           Acerca de quê? ‑ Grace parecia perplexa. A Dra. York preocupava‑a. Era demasiado esperta e fazia muitas perguntas.

            ‑           A respeito do seu estado de espírito. Acerca das circunstâncias em que disparou, tal como eu as entendo. Não me está a dar muitas possibilidades de trabalho, de momento.

            ‑           Mas já lhe disse tudo. Senti a arma na minha mão e disparei.

            ‑ Assim mesmo? ‑ Molly não acreditava nela nem por um minuto.

            ‑           Assim mesmo. ‑ Grace parecia querer convencer‑se a si própria do que dizia, mas não conseguia enganar Molly.

            ‑           Não acredito, Grace ‑ retorquiu a médica, fitando‑a.

            ‑           Bem, foi o que se passou, quer acredite ou não.

            ‑           E agora? Que sente por ter perdido o seu pai? ‑ Em três dias perdera a mãe e o pai, ficando órfã. Isso era um rude golpe para quem quer que fosse, especialmente tendo morto um deles.

            ‑           Eu... estou triste pelo meu pai... e pela minha mãe. Mas ela estava tão doente, sofria tanto que talvez tenha sido melhor para ela.

            E Grace? Que sofrimento fora o dela? Era essa a questão que roía Molly. Não se tratava de uma garota má que de repente quisera matar o pai. Grace era uma rapariga esperta, inteligente e estava a fazer tudo para fingir que não fazia ideia do motivo que a levara a disparar sobre o pai. Custava‑lhe tanto ouvi‑la repetir as mesmas palavras constantemente que lhe apetecia bater na mesa.

            ‑           E o seu pai? Também é melhor assim para ele?

            ‑           O meu pai? ‑ Grace ficou surpreendida com a pergunta. ‑ Não... ele não sofria... acho que não é melhor para ele ‑ disse a jovem, sem olhar para Molly. Ocultava qualquer coisa e a médica sabia‑o.

            ‑           E quanto a si? Também é melhor para si assim? Prefere estar sozinha?

            ‑           Talvez. ‑ Foi novamente sincera, por momentos.

            ‑           Porquê? Porque acha melhor estar sozinha?

            ‑           É mais simples. ‑ Sentia‑se como se tivesse mil anos, ao dizer isso, e parecia tê‑los.

‑           Não creio. O mundo é complicado. Não é fácil estar só. Especialmente para uma rapariga de dezassete anos. As coisas deviam ser bem difíceis em sua casa, para achar preferível estar só. Como se passavam as coisas?

            ‑ Bem.

            ‑           Os seus pais davam‑se bem? Antes de a sua mãe adoecer, claro.

            ‑           Davam.

            Molly não acreditou nela, mas não lho disse.

            ‑           Eram felizes?

            ‑           Claro. ‑ Desde que ela tratasse do pai da maneira como a mãe queria.

            ‑           E a Grace, era?

            ‑           Com certeza. ‑ Mas contra a sua vontade, as lágrimas vieram‑lhe aos olhos. A psiquiatra estava a fazer‑lhe muitas perguntas dolorosas. ‑ Era feliz. Gostava dos meus pais.

            ‑           O suficiente para mentir por causa deles? Para os proteger? O suficiente para não dizer a ninguém por que motivo matou o seu pai?

            ‑           Não há nada a dizer.

            ‑           Está bem. ‑ Molly levantou‑se e aproximou‑se dela. ‑ A propósito, hoje vão mandá‑la ao hospital.

            ‑           Para quê? ‑ Grace mostrou‑se de repente aterrorizada, o que interessou imediatamente Molly.

            ‑           É só para a examinar, para ver se é saudável. Nada de importante.

            ‑           Não quero fazer isso. ‑ Grace parecia assustada e Molly observava‑a com interesse.

            ‑           Porquê?

            ‑           Sou obrigada a ir?

            ‑           Claro que é. Está metida em sarilhos, Grace. Quem manda são as autoridades. Já pediu um advogado?

            Grace olhou‑a, parecendo não compreender. Alguém lhe dissera que podia solicitar um advogado, mas ela não conhecia nenhum, a não ser Frank Wills, o sócio do pai, mas nem sequer sabia se o quereria fazer. Que havia de lhe dizer? Era preferível não o chamar.

            ‑           Não tenho advogado.

‑           O seu pai não tinha um sócio?

            ‑           Sim, mas... é embaraçoso chamá‑lo... ao sócio dele.

            ‑           Acho que o deve fazer, Grace ‑ disse firmemente a médica. ‑ Precisa de um advogado. Pode ter um defensor oficioso, mas ficará melhor com alguém que a conheça. Era um bom conselho.

            ‑           Está bem. ‑ Disse que sim com a cabeça, sentindo‑se atordoada. Era tudo tão complicado. Porque não se limitavam a dar‑lhe um tiro, ou a enforcá‑la, ou faziam o que tinham a fazer, sem a forçarem a falar, ou a ir ao hospital. Sentia‑se aterrorizada com o que eles poderiam descobrir ali.

            ‑           Até logo, ou até amanhã ‑ disse afectuosamente Molly. Gostava da rapariga e tinha pena dela. Passara por muito e embora o que ela fizera não fosse certo, estava convencida de que algo de terrível a levara a disparar sobre o pai. E tencionava fazer tudo para descobrir o que realmente sucedera.

            Deixou Grace na cela e foi falar com Stan Dooley, o detective encarregado da investigação. Era um veterano e havia muito poucas coisas que o pudessem surpreender, embora aquilo o tivesse feito. Encontrara várias vezes John Adams no decorrer dos anos e não podia imaginar uma pessoa mais simpática. Ao saber que fora morto a tiro pela sua própria filha ficara assombrado.

            ‑           A rapariga é doida ou drogada? ‑ perguntou Dooley a Molly, quando a viu aparecer no seu gabinete às oito dessa manhã. A psiquiatra passara uma hora com Grace e não chegara ainda a nenhuma conclusão. A jovem estava decidida a não se abrir com ela. Mas havia certas coisas que queria saber e que podia descobrir mesmo contra a vontade de Grace.

            ‑           Nem uma coisa nem outra. Está assustada e muito abalada, mas lúcida. Muito, mesmo. Quero que a levem hoje ao hospital para ser examinada. Com efeito, quero que a levem já.

            ‑           Para quê? Para ver se tomou droga?

            ‑           Se quiserem, mas não creio que seja esse o caso. Quero um exame pélvico.

            ‑           Porquê? ‑ Dooley pareceu surpreendido. ‑ Que procura saber? ‑ Conhecia bem a dra. York e sabia que se tratava de uma pessoa sensata, embora algumas vezes fosse obstinada quando se tratava dos seus doentes.

            ‑           Quero saber se ela se estava a defender do pai. Não é normal uma rapariga de dezassete anos dar um tiro no pai. Pelo menos se pertencem a famílias como a dela.

            ‑           Isso é um disparate e você sabe‑o bem, York ‑ respondeu cinicamente o detective. ‑ E a rapariga de catorze anos que matou a familia toda, incluindo a avó e quatro irmãos mais novos? Não me diga que também se estava a defender.

            ‑           Isso foi diferente, Stan. Eu li os relatórios. John Adams estava nu e ela também e havia esperma nos lençóis. Não pode negar que é uma possibilidade.

            ‑           Sim, posso. Com um homem como John Adams, posso. Era a pessoa mais recta que alguma vez conheci. Havia de gostar dele. ‑ Deitou‑lhe um olhar irónico, que ela ignorou. Dooley gostava de gracejar com ela. Era uma mulher bastante bonita, oriunda de uma familia de Chicago. Ele gostava de a acusar de gostar de "namorar", mas a verdade é que a dra. York não era mulher que brincasse quando estava a trabalhar e ele sabia que ela tinha uma relação regular com um médico. Mas não havia mal em gracejar um pouco. Molly York mostrava‑se sempre bem‑humorada e era agradável trabalhar com ela. Dooley respeitava‑a por isso. - Digo-lhe e repito‑lhe, doutora, que John Adams não era pessoa para ter relações com a filha. Talvez no momento em que ela disparou ele tivesse ejaculado. Quem sabe?

            ‑           Não foi por isso que ela o matou ‑ disse friamente Molly.

            ‑           Talvez ele lhe tenha dito que não lhe dava as chaves do carro. Os meus filhos ficam furiosos quando eu lhes digo isso. Talvez ele não gostasse do namorado dela. Confie no que eu lhe digo. Ela não o matou em defesa própria, fê‑lo friamente.

            ‑           Veremos, Stan, veremos. Agora peço‑lhe o favor de a mandar ao hospital para ser observada. Eu vou já passar a ordem necessária.

            ‑           Você é terrível. Nós levamo‑la lá. Está satisfeita?

            ‑           Encantada. Você é óptimo.

‑           Diga isso ao chefe ‑ disse ele, sorrindo. A médica era simpática, esperta, mas ele não acreditava na teoria da autodefesa. Ela tentava salvar a rapariga, mas John Adams não era homem para fazer o que ela achava que fizera. Ninguém em Watseka teria acreditado nisso, pensasse Molly o que pensasse, ou o que quer que fosse que lhe dissessem no hospital.

            Meia hora mais tarde, duas mulheres‑polícias foram buscar Grace à cela, algemaram‑na outra vez e meteram‑na numa carrinha com grades nas janelas para a conduzirem ao hospital. Nem sequer falaram com ela. Limitaram‑se a conversar uma com a outra a respeito das prisioneiras que tinham transferido na véspera e do filme que iam ver nessa noite, e das férias que uma delas se preparava para gozar no Cobrado. E Grace ficou satisfeita com isso. Não lhe agradava ter de responder às perguntas delas. Agora estava preocupada com o que lhe iriam fazer no hospital. Levaram‑na directamente do elevador existente na garagem para uma sala fechada, onde lhe tiraram as algemas e a deixaram com um médico e uma enfermeira. Esta voltou‑se para Grace e disse‑lhe rudemente que à mais pequena coisa seria novamente algemada e chamaria a guarda.

            ‑           Percebeu? ‑ perguntou severamente a enfermeira. E Grace disse que sim com a cabeça.

            Sem nada explicarem a Grace, começaram então a fazer‑lhe os exames e análises que a dra. York pedira. Mediram‑lhe a temperatura, a tensão arterial, examinaram‑lhe os olhos, os ouvidos e a garganta e em seguida auscultaram‑na.

            Seguidamente, fizeram uma análise à urina e várias análises ao sangue, para ver se lhe encontravam qualquer doença ou sinais de drogas. Depois disseram‑lhe que se despisse e quando a jovem ficou nua em frente deles começaram a examinar as nódoas negras e escoriações que ela tinha espalhadas pelo corpo. Isso despertou o interesse deles. Tinha duas nódoas negras nos seios, várias nos braços, uma nas nádegas e outra na parte de dentro da coxa, bastante acima, o que os surpreendeu. Tiraram fotografias de todas, apesar dos protestos dela, e escreveram extensivamente. Grace chorava e protestava contra tudo o que eles faziam.

‑           Porque fazem isto? Se já confessei que o matei, para que fazem isto? ‑ Tinham‑lhe tirado várias fotografias à zona da pubis, onde havia duas lesões escondidas e algumas nódoas negras, e disseram‑lhe que se ela não cooperasse a amarrariam. Era uma situação terrivelmente humilhante, mas Grace nada podia fazer para os deter.

            Depois, quando pousaram a máquina fotográfica, o médico disse‑lhe para se estender na marquesa. Até então ele mal tinha falado. Todas as indicações eram dadas pela enfermeira, uma mulher muito desagradável. Ambos a ignoravam completamente e falavam das várias partes do corpo dela como se se tratasse de um animal a ser esquartejado num talho e não um ser humano.

            O médico estava agora a calçar luvas de borracha e a cobrir os dedos com uma geleia esterilizada. Disse a Grace para se deitar e deu‑lhe uma toalha de papel para se cobrir. Ela aceitou‑a com gratidão mas não se estendeu na marquesa.

            ‑           Que vai fazer? ‑ perguntou, horrorizada.

            ‑           Nunca fez um exame pélvico? ‑ O médico pareceu surpreendido. Afinal ela tinha dezassete anos, era bonita e achava difícil acreditar que fosse virgem. Mas se o era, ele sabê‑lo‑ia daí a um minuto.

            ‑Não... eu... ‑ A mãe comprara‑lhe as pilulas contraceptivas quatro anos antes e ela nunca fora ao médico para um exame. Ninguém sabia se ela era ou não virgem e Grace não compreendia que diferença poderia isso fazer agora. O pai morrera e ela confessara ter disparado sobre ele. Para quê fazê‑la passar por aquilo? Que direito tinham eles de o fazer? Sentia‑se como um animal encurralado e começou a chorar outra vez, agarrada à toalha de papel, até que a enfermeira ameaçou amarrá‑la. Grace não teve outro remédio senão fazer o que lhe diziam. Estendeu‑se na marquesa, meteu Os pés nos estribos metálicos, apertando os joelhos trémulos um contra o outro. A verdade é que das coisas terríveis que lhe tinham sucedido até agora, aquela não era das piores. Reparou que o médico punha qualquer coisa numa lâmina de vidro que em seguida colocou cuidadosamente em cima de uma mesa. Tinha inserido um instrumento de metal dentro dela e examinava‑a por dentro com a ajuda da luz de uma lanterna. Mas nada disse a Grace a respeito do que descobrira.

            ‑           Pronto ‑ disse com indiferença. ‑ Pode vestir‑se.

            ‑           Obrigada. ‑ Respondeu Grace com voz rouca. Não fazia ideia do que eles tinham visto ou escrito, e o médico não fizera qualquer comentário sobre o facto de ela ser ou não virgem, e ela era ainda suficientemente ingénua para não ter a certeza de se ele poderia descobrir isso ou não.

            Cinco minutos depois, Grace estava vestida e dessa vez foi conduzida por dois polícias até à sua cela na esquadra, onde ficou com outras mulheres até depois do jantar. Duas das mulheres tinham pago a fiança e tinham saído. Estavam ali por prostituição e tráfico de drogas e o chulo delas fora buscá‑las. Uma tomara parte no roubo de um carro e a outra por se encontrar de posse de uma grande quantidade de cocaína. Grace era a única acusada de homicídio e as outras não se aproximavam dela, como se percebessem que ela não queria ser incomodada.

            Grace acabara de comer um hambúrguer seco e duro, colocado sobre uma camada de espinafres ensopados, enquanto tentava ignorar o odor fétido a urina, quando apareceu um guarda que abriu a porta, apontou para ela e a conduziu para a mesma sala onde estivera com a dra. York nessa manhã.

            A jovem médica encontrava‑se de novo ali, ainda de calças de ganga, depois de um longo dia de trabalho no hospital. Tinham passado bem doze horas.

            ‑           Olá ‑ disse cautelosamente Grace. Era agradável ver um rosto familiar, mas continuava com a sensação de que a psiquiatra representava um perigo.

            ‑           Como passou o dia? ‑ Grace encolheu os ombros com um leve sorriso. Como havia de ter sido? ‑ Telefonou para o sócio do seu pai?

            ‑           Ainda não. Não sei bem o que lhe hei‑de dizer. Ele e o meu pai eram verdadeiramente bons amigos.

            ‑           Acha que ele não a quererá ajudar?

            ‑           Não sei. ‑ Mas achava que não.

            Molly olhou atentamente para ela ao fazer a segunda pergunta:

‑           Tem alguns amigos, Grace? Alguém para quem se possa voltar? ‑ Mesmo antes de Grace falar, ela suspeitava de que não tinha. Se tivesse, talvez nada daquilo tivesse acontecido. Molly sabia, mesmo sem perguntar, que Grace era uma rapariga isolada. Não havia mais ninguém na sua vida a não ser os pais. E eles tinham feito o bastante para a arruinar, ou pelo menos o pai fizera. Era disso que suspeitava. ‑ Os seus pais tinham alguns amigos com quem se dessem?

            ‑           Não ‑ respondeu pensativamente Grace. Na verdade, eles não tinham amigos íntimos. Não queriam que alguém pudesse descobrir o seu negro segredo. ‑ O meu pai conhecia toda a gente... e a minha mãe era um bocado tímida... ‑ E nunca quisera que soubessem que o marido lhe batia. ‑ Toda a gente gostava do meu pai, mas ele não era muito íntimo de ninguém. ‑ Isso bastava para que Molly suspeitasse dele.

            ‑           E quanto a si? Tinha amigas na escola? ‑ Grace limitou‑se a abanar a cabeça. ‑ Porquê?

            ‑           Não sei. Falta de tempo, talvez. Tinha sempre pressa de ir para casa tratar da minha mãe ‑ respondeu Grace sem a olhar.

            ‑           Era por isso, ou seria por ter um segredo?

            ‑           Claro que não.

            Mas Molly não a deixava.

            ‑           Ele violou‑a, não foi? ‑ Ao ouvir aquelas palavras, os olhos de Grace abriram‑se muito e ela fitou a médica, desejando que ela não reparasse no seu tremor.

            ‑           Não, claro que não... - Mas ficou com a voz presa, assustada e prestes a sofrer um ataque de asma. Aquela mulher sabia já muita coisa sem ela lho dizer. ‑ Como pode dizer tal coisa? ‑ Tentou mostrar‑se chocada, mas estava apenas aterrorizada. E se ela soubesse? Toda a gente ficaria a conhecer o seu horrível segredo. Mesmo depois da morte dos pais, Grace continuava a sentir obrigação de ocultar o que se passara com eles. Ela também era culpada. Que pensariam as pessoas a respeito dela, se soubessem?

            ‑           Tem ferimentos por toda a vagina ‑ disse calmamente Molly. ‑ Isso não acontece com relações sexuais normais. O médico que a examinou disse que você parecia ter sido violada por meia dúzia de homens, ou por um só homem brutal. Ele fez‑lhe muito mal. Foi por isso que disparou sobre ele, não foi? ‑ Grace não respondeu. ‑ Foi a primeira vez depois do funeral da sua mãe? ‑ Olhou atentamente para ela como se esperasse uma resposta, e os olhos da adolescente encheram‑se de lágrimas que começaram a correr‑lhe pelas faces, apesar dos esforços dela para as conter.

            ‑Não... ele não faria uma coisa dessas... toda a gente gostava do meu pai...

            Ela também tinha gostado dele e agora só o que podia fazer era defender a sua memória para que ninguém soubesse quem ele era realmente.

            ‑           O seu pai gostava de si ou apenas se servia de si?

            ‑           Claro que gostava de mim ‑ respondeu secamente, furiosa consigo mesma por chorar.

            ‑           Ele violou‑a nessa noite, não foi? ‑ insistiu Molly. Dessa vez Grace nem respondeu. ‑ Quantas vezes já o tinha feito antes disso? Tem de me dizer. ‑ A vida dela dependia disso, mas Molly não queria repeti‑lo.

            - não lhe direi coisa alguma... e não o poderá provar ‑ respondeu irritadamente Grace.

            ‑           Porque o defende? ‑ indagou Molly, frustrada. - Não percebe o que está a suceder: você é acusada de homicídio em primeiro grau e poderão conseguir que seja condenada por isso, se acharem que teve um motivo. Tem de fazer tudo para se salvar. Não lhe estou a pedir que minta, digo‑lhe para dizer a verdade, Grace. Se ele a violou, a magoou, se abusou de si, então tem atenuantes. A acusação poderá mudar para homicídio involuntário ou até para autodefesa e será muito diferente. Quer realmente passar os próximos vinte anos na prisão só para defender a reputação de um homem que lhe fez isso? Tem de me ouvir, Grace, tem de me ouvir. ‑ Mas Grace sabia que a mãe nunca lhe perdoaria se ela denegrisse a memória do pai. A mãe amara‑o cegamente e nunca teria conseguido viver sem ele. Sempre quisera protegê‑lo, mesmo que para isso tivesse de sacrificar a filha de treze anos. Queria que ele a amasse a qualquer preço, mesmo que o preço fosse a sua própria filha.

‑           Não posso dizer‑lhe coisa alguma ‑ disse obstinadamente Grace.

            ‑           Porquê? Ele está morto. Não pode fazer‑lhe mal revelando a verdade. Só pode fazer mal a si própria. Quero que pense nisto. Não pode ser leal a um morto, a alguém que lhe fez tanto mal, Grace... ‑ Estendeu a mão e tocou na da jovem sentada na sua frente. Tinha de a fazer compreender, de a tirar do sítio onde ela se escondia. ‑ Quero que pense nisto esta noite. Amanhã virei vê-la de novo. Prometo não dizer a ninguém o que me contar. Mas quero que seja franca comigo a respeito do que lhe sucedeu naquela noite. Vai pensar nisso? ‑ Grace ficou imóvel durante muito tempo, mas depois disse que sim com a cabeça. Sim, iria pensar nisso, mas nada diria.

            Molly York deixou a jovem Grace com o coração pesado. Sabia exactamente o que se passava, mas não conseguia passar o abismo que as separava. Há muitos anos que trabalhava com casos de crianças e mulheres vítimas de abuso sexual e quase todas elas queriam proteger os seus algozes. Era muito difícil quebrar esses laços, mas geralmente conseguia‑o. Com Grace, porém, a tarefa afigurava‑se difícil: não cedia um centímetro.

            Molly passou pelo gabinete do detective para ler os relatórioS enviados do hospital e ver as fotografias. Quando as viu sentiu‑se doente. Stan Dooley entrou no gabinete quando ela estava a ler o relatório e ficou surpreendido por a ver ainda a trabalhar, catorze horas depois de ter começado o seu dia.

            ‑           Não tem mais nada para fazer à noite? ‑ disse amigavelmente. ‑ Uma rapariga como você devia estar com um tipo, ou sentada num bar, a tratar do seu futuro.

            ‑           Sim? ‑ respondeu ela rindo, agitando os cabelos louros que lhe caíam pelos ombros. ‑ E você, Stan? Vi‑o aqui quando cheguei.

            ‑           Tem de ser. Eu preciso de fazer isso. Você, não. Quero reformar‑me dentro de dez anos e você pode ser psiquiatra até aos cem.

            ‑           Obrigada pelo voto de confiança. ‑ Molly fechou a pasta e pousou‑a sobre a secretária com um suspiro. Não estava a conseguir chegar a parte alguma. ‑ Viu o relatório do hospital sobre a jovem Adams?

                        ‑           Sim. E então? ‑ Stan não se mostrou impressionado.

                        ‑           O quê?! Não me diga que não compreende! ‑ Sentia‑se irritada pelo encolher de ombros do detective.

                        ‑           O que há para compreender? Ela teve relações sexuais. Ninguém disse que foi violada.

                        ‑           Tretas. E teve relações com quem? Com seis gorilas do zoo? Viu as feridas e leu o que eles descobriram internamente?

                        ‑           Então? Ela gosta de animação. Olhe, ela não se queixa. Não diz que foi violentada. É você quem o diz. Que quer que eu faça?

                        ‑           Que mostre algum senso! ‑ quase gritou a médica. - Grace é uma jovem de dezassete anos e ele era pai dela. Está a querer protegê-lo devido a qualquer noção errada de estar a proteger a reputação dele. Mas posso dizer‑lhe uma coisa: a rapariga estava a defender‑se e você sabe‑o bem.

                        ‑           A protegê‑lo? Ela matou‑o. Que espécie de protecção é essa? Penso que a sua teoria é muito interessante, doutora, mas não leva a parte alguma. Sabemos apenas que ela pode ter tido um pouco de sexo violento. Não há nada que prove que isso tenha sucedido com o pai ou que ele a tenha violentado. Ela nem sequer diz isso. Você é que o diz.

                        ‑           Como diabo é que sabe o que ele fez? ‑ gritou MoIly, mas Dooley manteve‑se imperturbável. Não acreditava numa única palavra do que a médica dizia. ‑ Foi ela quem lhe contou isso, ou está a fazer suposições? Eu procuro explicações e vejo que essa rapariga de dezassete anos está tão isolada que é praticamente como se vivesse num outro planeta.

‑           Deixe‑me dizer‑lhe um segredo, doutora York. Ela não é uma marciana. É uma assassina. Tão simples como isso. E se quer saber o que eu penso de todos os seus exames e das suas teorias fantasistas; penso que provavelmente ela saiu para ir ter com um tipo qualquer, depois do funeral da mãe, e o pai não achou bem. Por isso quando ela chegou a casa o pai ralhou‑lhe e ela não gostou, perdeu a cabeça e matou‑o. O facto de ele estar na cama a ejacular foi pura coimcidência. Não se pode aceitar que um homem que toda a comunidade considera, haja violentado a filha e ela o tenha morto para se defender. Com efeito, falei hoje com o sócio dele e ele disse mais ou menos o mesmo que eu estou a dizer. Eu não lhe contei coisa alguma, mas perguntei‑lhe o que é que ele pensava. A ideia de que John Adams pudesse fazer qualquer mal à filha horrorizou‑o. Disse‑me que o sócio adorava a mulher e a filha, que vivia para elas, que nunca enganara a mulher, passava as noites em casa e que foi dedicado à mulher até ao dia da morte dela. Disse‑me que a filha de John Adams fora sempre um pouco estranha, pouco amigável e introvertida, e tinha poucos amigos. Além disso, nunca se mostrou muito amiga do pai.

            ‑           Lá se vai a sua teoria de que ela saiu com um amigo.

            ‑           Não precisava de ter um namorado certo para sair durante meia hora e ter relações, pois não?

            ‑           Não quer perceber, pois não? ‑ disse Molly, zangada. Como podia ele ser tão teimoso e tão cego? Estava a defender a reputação do homem sem sequer ver o que havia por detrás.

            ‑           Que devo entender, Molly? Temos o caso de uma rapariga de dezassete anos que matou o pai com um tiro. Talvez seja estranha, ou mesmo louca. Talvez estivesse com medo dele, como havemos de o saber? Mas o facto é que ela o matou. E ela nem sequer diz que o pai a violou. Não diz coisa alguma. Quem o diz é você.

            ‑           Grace está demasiadamente assustada e receosa de que alguém venha a conhecer o segredo dela. ‑ Tinha visto isso uma centena de vezes. Sabia que era assim mesmo.

            ‑ Já lhe ocorreu que talvez ela não tenha qualquer segredo? Talvez isso seja só invenção sua por sentir pena dela e querer ajudá‑la. Sei lá.

            ‑           E acha que também fui eu quem inventou o relatório do médico que a observou e as radiografias que mostram as nódoas negras e as escoriações?

            ‑           Talvez ela tenha caído pelas escadas. Sei apenas que é você a única a falar em violação e isso não é o suficiente, pelo menos com um homem como ele era.

            ‑           E o sócio dele? Vai defendê‑la?

‑           Não creio. Falou‑me em fiança e eu disse‑lhe que seria pouco provável, visto tratar‑se de um caso de homicídio. A não ser que a acusação passe para homicídio involuntário, não deve ter fiança. Ele disse‑me que provavelmente seria melhor não lhe darem fiança, porque a rapariga não tinha ninguém, nenhum sítio para onde ir. E ele não quer responsabilizar‑se por ela. É solteiro e não está preparado para a receber. Disse‑me que também não se sentiria bem defendendo‑a. Acha que lhe devemos arranjar um defensor oficioso. Não o posso censurar. O homem ficou obviamente muito perturbado com a perda do sócio.

            ‑           Porque não há‑de ele utilizar o dinheiro que o pai dela deixou para pagar a um outro advogado? ‑ indagou Molly. O que ouvira não lhe agradava, e infelizmente estava convencida de que Frank Wills não iria ajudar Grace.

            ‑           Não sei ‑ disse Stan. ‑ Ele não se ofereceu para o fazer. Também me disse que John Adams era o seu melhor amigo, mas que lhe devia muito dinheiro. A longa doença da mulher fizera com que Adams gastasse praticamente tudo quanto tinha. O que possuía consistia apenas na sua parte na sociedade e a casa, que no entanto estava hipotecada. Wills acha que Adams não deixou grande coisa e não se ofereceu para pagar um advogado do bolso dele. Amanhã vou ligar para o gabinete do procurador.

            Molly disse que sim com a cabeça, mais uma vez chocada com a solidão em que Grace se encontrava. Não se tratava de uma coisa muito invulgar entre os jovens acusados de crimes, mas com uma rapariga como Grace as coisas deviam ser diferentes. Ela pertencia a uma boa família da classe média, o pai fora um cidadão respeitado, tinham uma bonita casa e eram bem conhecidos na comunidade. A jovem médica achava espantoso que Grace se encontrasse completamente abandonada. E embora não fosse esse o procedimento habitual, resolveu falar ela própria com Frank Wills e tomou nota do número dele.

            ‑           Que tem feito o doutor Kildare? ‑ perguntou Dooley, gracejando e referindo‑se ao namorado dela.

            ‑           Anda ocupado em salvar vidas. Trabalha ainda mais do que eu. ‑ Apesar do leve azedume das palavras, sorriu para o detective. às vezes aborrecia‑se com ele, mas era boa pessoa e ela simpatizava com ele.

            ‑           É pena. Livrá‑la‑ia de muitos sarilhos, se tivesse um pouco de tempo livre de vez em quando.

            ‑           Sim, bem sei. ‑ Sorriu e saiu pondo um casaco pelos ombros. Era uma rapariga bonita, e, ainda por cima, uma boa profissional. Mesmo os polícias que a conheciam diziam que se tratava de uma médica competente, embora tivesse por vezes umas teorias estranhas.

            Mais tarde, já em casa, Molly ligou para Frank Wills e ficou chocada ao ouvir a maneira como ele falou de Grace. Pelo que lhe dizia respeito, afirmou ele, Grace devia ser enforcada por ter morto o pai.

            ‑           Tratava‑se da melhor pessoa do mundo ‑ disse Wills, parecendo profundamente comovido. Molly não acreditou na sinceridade dessa comoção. ‑ Pergunte a qualquer pessoa... não havia ninguém nesta cidade que não gostasse dele... a não ser ela... ainda nem posso crer que ela o tenha assassinado.

            Passara a manhã inteira a planear a cerimónia fúnebre para ele. Toda a cidade lá estaria... excepto Grace. Mas dessa vez não haveria reunião em casa, nenhuma família presente. john Adains tinha apenas a mulher e a filha. A voz de Wills tremia ao dizer isso a Molly.

            ‑           Acha que Grace pode ter tido um motivo para disparar sobre o pai, senhor Wills? ‑ perguntou delicadamente Molly quando ele se acalmou. Não queria que ele ficasse ainda mais perturbado, pois poderia dar‑lhe alguma pista.

            ‑           Talvez ela quisesse dinheiro. Provavelmente pensou que ele fizera testamento e lhe ia deixar tudo, mesmo que não tivesse feito testamento, visto ser ela a única pessoa da família. O que ela provavelmente não sabia é que se o matasse não poderia herdar nada dele.

            ‑           E havia muita coisa para deixar? ‑ perguntou inocentemente Molly, sem se referir ao que Wills dissera ao detective Dooley. ‑ Calculo que a parte dele na sociedade seja bastante valiosa. É uma firma de advogados muito conhecida. ‑ Molly sabia que as suas palavras iriam agradar a Wills e foi o que sucedeu. Ele ficou satisfeito e começou a falar mais à vontade, dizendo provavelmente mais do que queria.

‑           Bastante. Mas ele devia‑me muito. Sempre me disse que me deixaria a sua quota quando morresse, mas claro que não pensava morrer tão cedo, coitado.

            ‑           E deixou isso escrito?

            ‑           Não sei. Mas era um acordo entre nós e eu emprestava-lhe algum dinheiro de tempos a tempos, para o ajudar nas despesas com Ellen.

            ‑           E a casa?

            ‑           Está hipotecada. É uma boa casa, mas não suficientemente boa para se ser morto por causa dela.

            ‑           Acredita realmente que uma rapariga da idade de Grace matasse o pai por causa da casa, senhor Wills? Isso parece‑me um pouco exagerado, não acha?

            ‑           Talvez não. Talvez ela pensasse que haveria dinheiro suficiente para ingressar numa universidade da moda.

            ‑           Era isso realmente o que ela queria fazer? ‑ Molly pareceu surpreendida. Grace não lhe parecia ambiciosa; pelo contrário, julgava‑a acanhada e amiga de estar em casa.

            ‑           Não sei o que ela queria fazer, doutora. Sei apenas que matou o pai e deve pagar por isso. E tenho a certeza de que não deve lucrar com isso. A lei é bem clara a esse respeito. Ela não ficará com um tostão do dinheiro dele, nem a quota na sociedade, nem a casa, nada.

            Molly ficou assombrada com o modo como ele falou e pensou se os motivos dele seriam puros, ou se de facto teria as suas razões para lhe agradar que Grace estivesse afastada de tudo.

            ‑           E quem herdará? Há mais familiares?

            ‑           Não. Só a rapariga. Mas ele devia‑me muito. Eu ajudava‑o muitas vezes e trabalhámos juntos durante vinte anos. Não se pode esquecer isso como se nada fosse.

‑           Com certeza. Estou de acordo ‑ disse tranquilamente. Compreendia mais do que ele pensava, ou queria que ela compreendesse, e não gostava disso. Agradeceu‑lhe ter perdido o seu tempo a falar com ela e pensou em Grace. Quando o namorado voltou do hospital, nessa noite, Molly contou‑lhe tudo sobre o caso. Ele vinha exausto depois de passar vinte e quatro horas de serviço nas urgências do hospital, tratando ininterruptamente ferimentos de balas e causados por acidentes de viação, mas mesmo assim ouviu‑a atentamente. Molly estava profundamente preocupada com o assunto.

            Molly e Richard Haverson viviam juntos há dois anos e de tempos a tempos falavam em casar, sem o terem ainda feito. Mas entendiam‑se bem e estavam familiarizados com o trabalho um do outro. Era uma situação perfeita para ambos. E o Dr. Haverson era tão alto, louro e atraente como a própria Molly.

            ‑           Parece que a pequena está metida em maus lençóis. Ninguém quer saber do que lhe possa suceder. E tenho a impressão de que o sócio do pai a quer ver afastada para ficar ele com o dinheiro que eventualmente possa haver. Não é uma situação muito cómoda. E se ela própria não admite que o pai a estava a violar, que se pode fazer?

            Ele parecia cansado e Molly olhou‑o, enquanto bebia café, sentindo‑se frustrada.

            ‑           Ainda não sei o que hei‑de fazer. Estou a tentar descobrir uma maneira de fazer com que ela me conte o que realmente se passou. Não pode ter acordado a meio da noite, descobrir que tinha uma arma na mão e matar o pai. Encontraram a camisa de noite dela, rasgada, caída no chão, mas também não quer explicar isso. As provas estão bem à vista. Apenas ela não nos ajuda a utilizá‑las.

            ‑           Hás‑de vir a conseguir chegar até ela ‑ disse Richard com ar confiante, mas reparou que dessa vez Molly estava preocupada. Nunca tivera tanta dificuldade em fazer com que alguém se abrisse com ela. A rapariga estava completamente fossilizada num estado de autodestruição. Os pais tinham‑na destruído e ela não se mostrara capaz de se afastar deles. Era assombroso. ‑ Nunca te vi desistir de conseguires que comuniquem contigo. ‑ Sorriu‑lhe e tocou no seu comprido cabelo louro ao dirigir-se para a cozinha para ir buscar uma cerveja. Trabalhavam ambos como danados, mas havia um bom relacionamento entre eles e sentiam‑se felizes um com o outro.

            Quando se levantaram, às 6 horas da manhã seguinte, Molly lembrou‑se logo de Grace e quando se dirigia para o trabalho olhou para o relógio e pensou em ir vê‑la, mas dePois decidiu outra coisa: foi para o seu escritório e tomou aí

algumas notas, e eram 8 horas quando entrou no gabinete do defensor oficioso.

            - David Glass já chegou?  - perguntou à recepcionista.

            Glass era o mais novo dos advogados da equipa do gabinete do procurador, mas Molly trabalhara com ele em dois casos e achava‑o fantástico. Os seus métodos não eram ortodoxos, mas era inteligente e duro. Viera das ruas de Nova Iorque e saíra dos guetos de Bronx à custa do seu próprio esforço, mas, embora não fosse subornável, tinha um coração de ouro e lutava pelos seus clientes como um leão. Era exactamente o que Grace Adams precisava.

            - Creio que está lá dentro - respondeu a recepcionista, que já conhecia Molly por a ter visto ali outras vezes.

                        A jovem médica percorreu vários corredores e finalmente foi encontrá-lo na biblioteca do escritório, sentado junto de uma pilha de livros e bebendo um café. Levantou a cabeça quando ouviu os passos dela e sorriu ao vê‑la.

            - Olá, doutora. Como vai?

            - Bem. E por aqui?

            - O costume. Estou ainda a trabalhar no mesmo caso, a tentar libertar os mesmos assassinos do costume.

            - Quer um caso?

            - Agora é você quem faz as nomeações - Ele parecia divertido. Era mais baixo do que ela e tinha cabelo escuro encaracolado e olhos escuros. à sua maneira, era bem‑parecido. Mas o que mais atraía nele era a sua personalidade, que se sobrepunha aos dotes físicos: era na verdade uma pessoa atraente. E pela maneira como OS seus olhos brilhavam quando falava com Molly, era óbvio que gostava dela. Quando é que começaram a deixá‑la escolher os defensores oficiosos?

            - Pronto, pronto. Eu só queria saber se estava disposto. Estou a trabalhar num caso e gostava de o fazer consigo. Sei que vão escolher hoje um defensor e lembrei-me de si

‑           Sinto‑me lisonjeado. É assim tão mau?

            - Bastante. Possivelmente homicídio de primeiro grau. Pode até ser condenada à morte. Uma rapariga de dezassete anos que matou o pai com um tiro.

‑           Simpático. Gosto de casos desses. Que fez ela? Fez‑lhe saltar os miolos com uma caçadeira ou pediu ao namorado para o fazer? ‑ Embora ali não houvesse tanta violência, ele vira muitas coisas desse género em Nova Iorque.

            ‑           Nada de tão pitoresco. ‑ Molly olhou‑o com ar preocupado, pensando em Grace. ‑ É complicado. Podemos ir falar para qualquer sítio?

            ‑           Com certeza. ‑ Parecia ter ficado intrigado. ‑ Bem, vamos para o meu escritório. ‑ O gabinete dele era pouco maior do que a secretária, mas pelo menos tinha uma porta e havia um pouco de privacidade. Molly seguiu‑o, enquanto ele tentava transportar os livros e a chávena com o café. - Então qual é a história? ‑ perguntou, logo que Molly se sentou na única cadeira além da sua. Molly suspirou. Grace não estava a fazer absolutamente nada para se salvar. Precisava realmente de uma pessoa como David.

            ‑           Ela matou o pai a uma distância de pouco mais de quatro centímetros com uma arma que diz "ter encontrado na sua mão" e que ela disparou sem qualquer razão, segundo afirma. Eles formavam uma família feliz, ainda segundo ela, mas o funeral da mãe fora nesse dia. Além disso, não tinham quaisquer problemas.

            ‑           Ela é mentalmente sã? ‑ David parecia apenas medianamente interessado. Apreciava acima de tudo casos difíceis. E gostava de gente nova. Por isso é que Molly queria que ele se encarregasse do caso. David era a única possibilidade que Grace tinha de se salvar. Sem ele estaria perdida, embora parecesse não se importar com isso. Mas Molly importava‑se, apesar de não saber bem porquê, talvez por Grace lhe parecer tão infeliz e indefesa. Tinha já desistido de tudo, até da esperança, e a sua própria vida parecia não lhe importar. E Molly queria mudar isso.

            ‑           É sã. Profundamente deprimida e com neuroses, mas penso que com boas razões para isso. Creio que o pai abusava dela, sexualmente ou de outros modos. ‑ Descreveu os ferimentos internos que tinham descoberto no hospital e falou‑lhe do estado de espírito de Grace. ‑ Ela jura que o pai nunca lhe tocou mas eu não acredito. Creio que a violou nessa noite e que Já o fizera antes, talvez com frequência. É possível que sem a presença da mãe ela tivesse sentido que perdera a sua única protecção e tenha entrado em pânico. Ele tinha de estar mesmo em cima dela para o tiro o atingir como atingiu. Pense nisto. Ele estava em cima dela, violando‑a, ela agarrou na arma e disparou. Só pode ter sido assim que as coisas se passaram.

            ‑           Mais alguém pensou nisso? Que dizem os polícias?

            ‑           O problema é esse. Eles não querem ouvir falar disto. O pai dela era um advogado muito conhecido, de quem toda a gente gostava. Ninguém quer acreditar que ele pudesse dormir com a própria filha, ou, pior, que a violentasse. Talvez ele lhe tivesse apontado a arma e ela lha tivesse tirado. Quem sabe? Algo se passou na vida dessa rapariga que ela não me quer contar. Ninguém sabe nada a seu respeito. Não tinha amigas e não convivia com ninguém fora da escola. Ia de casa para a escola e da escola para casa para tratar da mãe, que estava a morrer. A mãe morreu há dias e agora o pai está morto e ela não tem ninguém. Nem parentes, nem amigos, apenas uma cidade inteira que jura que o pai era o melhor homem do mundo e que nunca podia ter feito mal à filha.

            ‑           E você não acredita neles? Porquê? ‑ Depois de ter trabalhado com ela em dois casos, David aprendera a confiar no instinto de Molly.

            ‑           Porque ela não me diz coisa alguma e eu sei que está a mentir. Está aterrorizada. E está ainda a defendê‑lo, como se receando que ele regresse do mundo dos mortos e a castigue.

            ‑           Ela não diz nada?

            ‑           Não. Está petrificada de dor, vê‑se perfeitamente. Sucedeu algo de terrível àquela rapariga e ela não o quer dizer.

            ‑           Ainda não ‑ David sorriu. ‑ Mas há‑de dizer. Eu conheço‑a bem. É ainda cedo.

            ‑           Agradeço-lhe o voto de confiança, mas não temos muito tempo. É hoje que lhe vão nomear um defensor oficioso.

            ‑           Não tem um advogado da família, nem nenhum sócio do pai que tome conta do caso? Alguém há‑de aparecer. - Ficou surpreendido ao ver a jovem médica abanar a cabeça.

‑           O sócio do pai afirma que era muito amigo dele e que não se sentiria bem a defender a filha que o matou. Afirma também que não há dinheiro porque foi gasto com a doença da mãe. Resta apenas a casa e a sua quota na firma. E provavelmente será ele quem herdará tudo, visto afirmar que John Adams lhe devia muito dinheiro. Não se ofereceu para pagar a defesa dela e eu não confio nele. Pinta o falecido como um santo, e clama que nunca perdoará a Grace ter feito o que fez. Acha que ela devia ser condenada à morte.

            ‑           Com dezassete anos? Que tipo simpático! - David parecia agora profundamente interessado. ‑ E que diz disso a nossa rapariga? Sabe que esse tipo não quer ajudá‑la e que poderá mesmo ficar com tudo o que pertencia ao pai dela, para pagar supostas dívidas?

            ‑           Não sabe, mas parece estar disposta a suportar tudo desde que consiga ficar calada. Creio que ela pensa que é uma obrigação para com os pais.

            ‑           Parece‑me que ela precisa tanto de uma psiquiatra como de um advogado. ‑ Sorriu para Molly. Agradava-lhe a ideia de trabalhar de novo com ela e de vez em quando acarinhava a ideia de que pudesse vir a existir um romance entre os dois, mas isso nunca sucedera e no fundo ele sabia que nunca sucederia. Mas era bom imaginar isso. E as suas esperanças nunca interferiam no modo como trabalhava com ela.

            - Que acha? ‑ perguntou Molly com uma expressão preocupada.

            ‑           Acho que ela está metida em grandes sarilhos. Qual é a acusação contra ela?

            ‑           Ainda não sei bem. Ouvi falar em homicídio em primeiro grau, mas creio que terão dificuldade em provar isso. Não existe uma verdadeira "herança" para dar motivo a acusarem‑na de premeditação. Apenas a casa fortemente hipotecada e a quota na firma de advogados, que o sócio afirma ter‑lhe sido prometida.

            ‑           Sim, mas ela podia não saber isso e podia não saber que não herdaria do pai, matando‑o. Podem de facto tentar a acusação de homicídio em primeiro grau, se de facto quiserem fazê‑lo.

            ‑           Se ela negar qualquer intenção de o matar, podem acusá‑la de homicídio involuntário. Isso poderá dar‑lhe uma pena de quinze anos de prisão, ou mesmo uma pena de prisão perpétua. Se for condenada, poderá fazer quarenta anos antes de ser libertada. Mas pelo menos não será a pena de morte. Já disseram que ela será acusada como adulta e já ouvi falar em pena de morte. Se ela nos disser o que realmente aconteceu, talvez você consiga reduzir a acusação para homicídio involuntário.

            ‑           Bolas! Trouxe‑me uma verdadeira pêra doce, não foi?

            ‑           Conseguirá ser nomeado?

            ‑           Talvez. Provavelmente hão‑de considerar que se trata de um caso perdido. Tendo o pai sido uma pessoa tão proeminente na cidade, ela nunca terá um julgamento justo aqui. Bem, na verdade gostava de tentar defendê‑la.

            ‑           Quer conhecê‑la primeiro?

            ‑           Está a brincar? Já pensou bem no que eu posso defender? Não preciso de uma apresentação, gostava apenas de saber se terei qualquer possibilidade. Será bom que ela fale connosco e nos conte o que realmente se passou. Se não o fizer, poderá ser condenada a prisão perpétua, ou pior. Vai ter de nos dizer o que sucedeu ‑ repetiu com gravidade. Molly concordou.

            ‑           Talvez o faça, se confiar em si ‑ disse esperançadamente Molly. ‑ Quero ir falar de novo com ela esta tarde. Ainda não acabei de escrever a minha avaliação para o departamento, para dizer se ela é, ou não, imputável. Mas não há de facto dúvidas a esse respeito. Tenho andado a demorar um pouco porque queria continuar a falar com ela. Creio que precisa imenso de um verdadeiro contacto humano. Molly mostrava‑se genuinamente preocupada com a rapariga.

            ‑           Se eles me derem o caso, irei consigo vê‑la. Primeiro deixe‑me ver o que posso fazer. Ligue‑me à hora do almoço.

            Tomou nota do nome de Grace e do número do processo e Molly agradeceu‑lhe antes de sair. Sentia‑se imensamente aliviada ao pensar que ele podia ser advogado de Grace. Era a melhor coisa que lhe podia suceder. Se existia alguma maneira de a salvar, David Glass havia de a descobrir.

Molly não teve tempo de lhe telefonar antes das 14 horas e, quando o fez, ele não estava no escritório. E não voltou a poder tentar falar‑lhe antes das 16 horas, mas estava muito preocupada. Passara um dia infernal a fazer avaliações para os tribunais e a trabalhar no caso de um rapaz de quinze anos que quisera suicidar‑se e ficara paraplégico: saltara de uma ponte para a rua, mas a sua juventude atraiçoara-o, salvando‑o da morte. Até mesmo ela pensava se não seria melhor ter morrido do que passar a vida inteira podendo sentir apenas o olfacto e a audição. Até a fala ficara afectada. Telefonou novamente a David ao fim do dia e pediu-lhe desculpa pela demora.

            ‑           Também acabei agora de chegar aqui ‑ explicou David.

            ‑           Que lhe disseram?

            ‑           Desejaram-me boa sorte. Consideram o caso resolvido. Segundo dizem, ela queria o dinheiro do pai, que era pouco, o que ela ignorava, não sabendo também que não poderia ser a herdeira do pai se o matasse. Estão agarrados à teoria de que houve premeditação, ou que pelo menos discutiram e ela perdeu a cabeça e matou‑o. Segundo eles é um caso muito simples. Homicídio de primeiro grau, na pior das hipóteses. De segundo grau, na melhor. Poderá apanhar entre vinte anos e prisão perpétua, ou mesmo pena de morte.

            ‑           É apenas uma garota... uma rapariga... ‑ Molly tinha lágrimas nos olhos ao pensar nisso e depois censurou‑se a si própria por se deixar envolver demasiado no caso, mas não podia evitá‑lo. Havia ali algo de muito errado.

            ‑           E a defesa?

            ‑           Francamente, ainda não sei. Dê‑me algum tempo. Ainda só fui nomeado há duas horas. Nem sequer vi a rapariga. Tenciono ir lá daqui a um bocado. Quer ir comigo? Pode ser que isso acelere as coisas e quebre o gelo, visto ela já a conhecer.

            ‑           Sim, mas não sei se simpatiza comigo. Eu estou sempre a insistir com ela para me contar o que se passou com o pai e ela não gosta disso.

            ‑           Ainda vai gostar menos de ser condenada à morte. Sugiro que nos encontremos na esquadra às cinco e meia. Pode ir?

‑           Sim David.

- Diga?

            ‑           Obrigada por ter aceitado.

‑           Vamos fazer o melhor que pudermos. Até já.

            Ao desligar, Molly sabia que iam precisar não só de fazer o melhor mas também de rezar para que acontecesse um milagre, para conseguirem ajudá‑la.

 

            MolIy York e David Glass encontraram‑se junto da prisão às 17 horas e subiram para irem falar com Grace. Nessa altura David já recebera todos os relatórios da Polícia e Molly levara‑lhe os relatórios feitos no hospital e as fotografias. David viu‑as e o seu rosto exprimiu assombro.

            ‑           Parece que lhe bateram com um taco de basebol! - exclamou, enquanto observava as fotos.

            ‑           Ela diz que não se passou coisa alguma ‑ disse Molly, abanando a cabeça, pensando que seria bom que Grace se abrisse com David. A vida dela dependia disso, mas não tinha a certeza se Grace o compreenderia.

            Foram conduzidos para a sala dos advogados, onde havia duas portas, uma mesa e quatro cadeiras. Fora sempre aí que Molly falara com Grace e pelo menos a sala já lhe seria familiar.

            Sentaram‑se durante alguns minutos e esperaram por ela. David acendeu um cigarro e ofereceu a Molly, mas ela recusou. Decorreram uns bons cinco minutos antes de o guarda aparecer à pequena janela gradeada, abrir a pesada porta e Grace ficar parada à entrada, olhando‑os com hesitação. Vestia ainda as mesmas calças de ganga e T‑shirt. Não havia ninguém que lhe levasse roupa e ela nada mais tinha para vestir. Restava‑lhe apenas a roupa que vestira na noite em que matara o pai e fora presa.

            David Glass observou atentamente Grace quando a viu entrar. Era uma rapariga alta, delgada e graciosa. à primeira vista, parecia muito nova e tímida, mas reparou que a expressão dela era a de uma pessoa mais velha. Havia algo de profundamente triste e desanimado nela, e movia‑se como uma gazela prestes a fugir na clareira de uma floresta. Picou imóvel, a olhá‑los, sem saber bem o que significava a visita deles. Nesse dia passara quatro horas a ser interrogada pela Polícia e sentia‑se exausta. Tinham‑na avisado de que tinha o direito de ter um advogado presente durante os interrogatórios, mas ela já confessara ter disparado sobre o pai e não julgava que houvesse qualquer mal em responder às perguntas deles.

            Fora informada de que David Glass ia ser seu advogado e que iria vê‑la nesse dia. Não tivera notícias de Frank Wills e não lhe telefonara. Não tinha ninguém a quem chamar, ninguém para quem se pudesse voltar. Lera os jornais desse dia. As primeiras páginas estavam cheias de histórias sobre o crime, exaltando a vida exemplar do pai, da sua profissão de advogado e daquilo que ele significara para muita gente. Diziam relativamente pouco a respeito dela. Apenas que tinha dezassete anos, que frequentava a Escola Secundária Jefferson e que matara o pai. Havia várias teorias sobre o que se poderia ter passado, mas nenhuma se aproximava da realidade.

            ‑           Grace, este é David Glass ‑ disse Molly, quebrando o silêncio e apresentando‑os. ‑ Pertence ao gabinete dos defensores oficiosos e vai representá‑la.

            ‑           Olá, Grace ‑ disse calmamente David, observando‑a. Ainda não afastara os olhos dela desde que ela aparecera e era fácil ver que estava terrivelmente assustada. Mas apesar disso apertou‑lhe delicadamente a mão. David sentiu a mão dela tremer enquanto a apertava na sua. Reparou também que ela falava de um modo um pouco ofegante e recordou‑se do que Molly lhe dissera a respeito da asma. ‑ Temos trabalho a fazer ‑ disse Glass. Grace apenas baixou a cabeça em resposta. ‑ Li o seu dossier e as coisas não estão nada boas para si. Preciso sobretudo que me informe sobre o que sucedeu e porquê. Preciso de saber tudo o que puder recordar. Depois arranjaremos um investigador para verificar tudo. Faremos tudo o que for necessário. ‑ Falava de um modo encorajador e esperava que ela não estivesse demasiado assustada para o ouvir.

            ‑           Não há nada a verificar ‑ disse Grace, sentada na cadeira, muito direita e olhando‑o bem de frente. ‑ Matei o meu pai.

            ‑           Bem sei ‑ declarou ele, não se mostrando impressionado com a afirmação dela e olhando‑a atentamente. Percebia o que Molly vira nela. Parecia uma boa rapariga a quem tivessem tirado totalmente a vontade de viver. Mostrava‑se tão distante que parecia quase impossível chegar até ela. Era mais como uma aparição do que uma pessoa verdadeira. Não havia nada de vulgar nela. Nada que sugerisse que se tratava de uma rapariga de dezassete anos, uma adolescente. Não existia nela a vivacidade ou a agressividade de uma rapariga de dezassete anos. ‑ Lembra‑se do que sucedeu? - perguntou calmamente Glass.

            ‑           De quase tudo ‑ respondeu ela. Havia partes que lhe pareciam vagas, como ter tirado a arma da mesa‑de‑cabeceira da mãe. Mas lembrava‑se de a ter na mão e de ter puxado o gatilho. ‑ Matei‑o com um tiro.

            ‑           Onde foi buscar a arma? ‑ A pergunta dele parecia prosaica e nada tinha de ameaçador. Glass falava com naturalidade e Molly regozijou-se mais uma vez por ter conseguido metê‑lo no caso. Só esperava que ele conseguisse ajudar Grace.

            ‑           Estava na mesa‑de‑cabeceira da minha mãe.

            ‑           Como é que a tirou de lá? Foi buscá‑la?

            ‑           Mais ou menos. Acho que a tirei para fora.

            ‑           O seu pai ficou surpreendido quando a viu fazer isso? ‑ Fez a pergunta como se fosse a coisa mais normal deste mundo e ela disse que sim com a cabeça.

            ‑           Ao princípio ele não deu por isso, mas quando viu, ficou surpreendido... tentou tirar‑me a arma e ela disparou‑se. ‑ Os olhos dela abriram‑se muito com a recordação e logo a seguir fechou‑os.

            ‑           Devia estar muito perto dele quando a arma se disparou, não? Talvez assim? ‑ Indicava cerca de um metro de distância entre eles. Sabia que tivera de estar muito mais perto, mas queria ouvir a resposta dela.

            ‑ Não... um pouco mais... perto... ‑ Glass disse que sim com a cabeça, como se a resposta dela nada tivesse de especial, e Molly fingiu também desinteresse, embora se sentisse fascinada com a facilidade com que Grace começara a falar com ele, e como parecia confiar no advogado. Talvez soubesse instintivamente que podia. Mostrava‑se muito menos defensiva do que estivera com Molly.

            ‑           Mais perto? Talvez a trinta centímetros de distância? Ou talvez menos?

‑           Muito perto... mais perto... ‑ murmurou em voz baixa. Depois desviou o olhar, pensando que Molly lhe devia ter falado das suas suspeitas. ‑ Muito perto.

            ‑           Como foi isso? Que estavam a fazer?

            ‑           Estávamos a falar ‑ respondeu Grace com voz rouca e ofegante. David viu que ela estava a mentir.

            ‑           De que é que falavam?

            A pergunta e o modo despreocupado com que foi feita apanharam Grace desprevenida e ela gaguejou ao responder:

            ‑           Eu... bem... sobre a minha mãe... creio.

            David fez um gesto que queria dizer que achava isso a coisa mais natural deste mundo e depois recostou‑se para trás pensativamente e ficou a olhar para o tecto. Falou então sem a olhar, sentindo as batidas do coração no ouvido enquanto falava:

            ‑           A sua mãe sabia o que ele lhe fazia, Grace? ‑ Falou tão meigamente que os olhos de Molly se encheram de lágrimas, e olhou então lentamente para Grace e viu lágrimas também nos olhos dela. ‑ Não faz mal dizer‑me, Grace. Ninguém vai saber além de nós, mas eu preciso de saber para a poder ajudar. Ela sabia?

            Grace olhou‑o fixamente, querendo negar outra vez, mas não pôde aguentar mais, não o conseguiu. Disse que sim com a cabeça e as lágrimas saltaram‑lhe dos olhos, correndo‑lhe lentamente pelas faces. Ele viu‑a, pegou‑lhe numa mão e apertou‑a entre as suas.

            ‑           Pronto, Grace, pronto. Sabemos que nada podia fazer para o deter. ‑ Então ela disse outra vez que sim com a cabeça e escapou‑lhe da garganta um soluço de angústia. Tinha querido ter a coragem de não contar a ninguém, mas todos a interrogavam, a doutora, a Polícia, e agora ele. E por qualquer razão que desconhecia, confiava em David. Também gostava de Molly, mas era para David que se queria voltar.

            ‑           Ela sabia. ‑ Eram as palavras mais tristes que ele alguma vez ouvira e, apesar de não ter conhecido John Adams, apetecia‑lhe matá‑lo.

            ‑           Ela ficou muito zangada com ele? Ou consigo?

            Todavia, Grace assombrou‑os, abanando novamente a cabeça.

‑           Ela queria que eu... disse que eu tinha de o... e... queria que eu o fizesse ‑ disse outra vez, com os olhos cheios de lágrimas, suplicando‑lhes que acreditassem nela. Ambos acreditaram e os seus corações voaram para ela ao ouvi-la.

            ‑           Há quanto tempo sucedia isso? ‑ perguntou suavemente David.

            ‑           Há muito tempo... ‑ murmurou Grace, exausta, olhando‑o. Parecia‑lhe tão frágil e cansada que pensou se ela iria ter forças para sobreviver. ‑ Há quatro anos... que ela me obrigou a fazer aquilo pela primeira vez.

            ‑           O que é que foi diferente nessa noite?

            ‑           Não sei. Mas eu já não aguentava mais... ela tinha morrido. Já não precisava de o fazer por ela... ele queria que eu fosse para a cama dela... nunca o tinha feito... e ele bateu‑me... e... fez outras coisas. ‑ Não queria contar‑lhes tudo o que ele fizera, mas eles sabiam isso pelas fotografias e pelo exame. ‑ Lembrei‑me da arma. Só queria que ele parasse... que me largasse... não queria disparar sobre ele... não sei. Só queria detê‑lo. ‑ E fizera‑o. Para sempre. Não sabia que o matara.

            Finalmente contara‑lhes o que se passara. E de certo modo sentia‑se aliviada. E exausta. Era diferente do que contar à Polícia... Sabia que Molly e David não diriam a ninguém. E acreditavam nela. Sabia que a polícia nunca acreditaria. Achavam que o pai dela era perfeito. Todos o conheciam profissionalmente e alguns até jogavam golfe com ele, no clube. Parecia que toda a gente na cidade o conhecia e gostava dele.

            ‑           É uma rapariga corajosa ‑ disse calmamente David - e estou satisfeito por me ter contado. ‑ Tudo se passara exactamente como Molly dissera, ou pior ainda, visto que a mãe a obrigara a fazê‑lo. Aos treze anos, quando tudo começara. David sentia náuseas só de pensar nisso. O homem era um tarado e um patife e merecia ser morto. Mas seria difícil convencer o júri que Grace se defendera naquela noite, depois de ter passado quatro anos infernais nas mãos do pai. Molly não conseguira convencer a Polícia. Os agentes estavam todos dominados pela imagem pública do pai de Grace. Não podia deixar de pensar se isso teria o mesmo efeito sobre o júri.

            ‑           Será capaz de contar à Polícia o que me disse? ‑ perguntou calmamente David, mas ela respondeu imediatamente que não o faria.

            ‑           Porquê?

            ‑           De qualquer modo, eles não acreditariam em mim... e não posso fazer isso aos meus pais.

            ‑           Os seus pais estão mortos, Grace ‑ disse firmemente, e ela estaria também, se não o ajudasse e não contasse a verdade. A justificação de autodefesa era a sua única possibilidade. Precisava de provar que ela julgara que a vida dela estava em perigo. E mesmo que não acreditassem nisso, só a poderiam julgar por homicídio involuntário, não assassínio. - Vamos ter de falar disto. Vai ter de contar a outra pessoa, sem ser à doutora ou a mim, o que se passou.

            ‑           Não posso. Que pensariam de mim? É tão terrível. Começou a chorar outra vez e Molly levantou‑se e passou‑lhe um braço em volta dos ombros.

            ‑           Eles é que são os terríveis, não é você, Grace. Vai fazer parecer o que foi: uma vítima. Não pode pagar pelos pecados deles, mantendo‑se em silêncio. Precisa de falar. David tem razão.

            Falaram sobre o assunto durante muito tempo e Grace disse que ia pensar, mas não parecia convencida. E quando finalmente se separaram, Molly estava ainda assombrada com a maneira como David fizera com que a jovem falasse tão rapidamente.

            ‑           Talvez devêssemos trocar os nossos empregos, mas o pior é que eu não sei fazer o que você faz. ‑ disse Molly, censurando‑se amargamente por não ter conseguido fazer com que Grace confiasse nela.

            ‑           Não seja tão dura para consigo mesma ‑ retorquiu David. ‑ Se ela falou comigo foi porque você já a tinha preparado para isso antes. Ela precisava de desabafar. Há quatro anos que guardava esse segredo. Deve ser um alívio ter falado. ‑ Molly disse que sim com a cabeça e David continuou: ‑ Claro que o facto de o matar foi também um alívio. Foi uma pena não o ter feito mais cedo. Que patife tarado era esse homem. A fazer uma coisa dessas à filha enquanto toda a cidade o considerava um santo, um marido e pai perfeitos. Dá vómitos, não é? Só me admiro por ela ter conseguido manter‑se lúcida. ‑ Na verdade, Grace sofrera danos tanto físicos como mentais, mas continuava lúcida, não perdera o controlo sobre si mesma. Contudo, nem queria pensar no que lhe sucederia se estivesse presa vinte anos. Mas na manhã seguinte, quando falou com Grace antes de ela ser acusada oficialmente, Grace continuou a recusar‑se a dizer à Polícia o que se passara. O melhor que conseguiu foi que ela se considerasse não culpada. A acusação era de assassínio perpetrado com intenção de matar, o que lhe poderia acarretar a pena máxima, ou até a pena de morte, se o júri o impusesse.

            O juiz recusou‑se a conceder‑lhe fiança, o que de qualquer modo era irrelevante, pois não havia ninguém para a pagar. E David Glass passou a ser oficialmente advogado dela.

            Durante os dias seguintes, David fez tudo o que lhe foi possível para tentar convencer Grace a contar à Polícia que o pai a violara e que há anos o fazia. Mas ela não podia fazê‑lo. Após duas semanas terrivelmente frustrantes, David ameaçou abandonar o caso. Molly continuava a visitá‑la frequentemente, mas agora por sua conta. O seu relatório para

o tribunal estava já completo. Considerara Grace mentalmente sã e imputável para ser julgada.

            David acompanhou‑a durante as audiências preliminares, enquanto um seu investigador falava a toda a gente da cidade, esperando que alguém suspeitasse do que John Adams fizera à filha. As reacções das pessoas ao ouvirem a sugestão iam da surpresa total à cólera. Absolutamente ninguém o considerava capaz de tal coisa, e diziam isso mesmo. Alguns achavam que se tratava de uma louca teoria inventada pela defesa para justificar aquilo a que muitos deles chamavam assassínio a sangue‑frio.

            O próprio David se deslocou à escola para falar com os professores, para ver se suspeitavam de qualquer coisa, mas ninguém vira coisa alguma. Descreviam Grace como desajeitada e tímida, muito introvertida, mesmo quando criança, ao ponto de ser associal. Não tinha virtualmente nenhuma amiga. Desde que o pai começara a ter relações sexuais com ela, Grace receara que alguém pudesse descobrir, por isso afastou‑se de todos. Era óbvio que os professores a achavam estranha, mas delicada e boa aluna. Muitos professores tinham conhecimento da doença da mãe e achavam que isso a afectava. Alguns disseram a David que ela só começara a sofrer de asma quando a mãe adoecera gravemente. E, pensou David, quando o pai começou o seu assédio sexual.

            Estranhamente, nenhum dos professores se admirou muito por ela ter disparado sobre o pai. Consideravam-na "estranha" e, como diziam, algo se "quebrara" dentro dela com a morte da mãe.

            Era fácil imaginar as coisas dessa maneira, ou pensar como a Polícia pensava, que Grace queria herdar o dinheiro do pai, ou que o matara num acesso de cólera no meio de uma discussão. Era difícil alguém acreditar que John Adams levara uma vida de total perversão durante quatro anos e que antes disso espancava brutalmente a mulher. Mas apesar das poucas provas existentes, David Glass não duvidou nem um instante do que Grace lhe contara. As palavras dela tinham o toque da verdade. Trabalhou com ela durante todo o Verão, tentando encontrar algo a que se agarrar para a defender. Grace acabara por concordar em contar a sua história à Polícia, mas eles tinham‑se recusado a acreditar nela. Julgaram tratar‑se de uma defesa inteligente arquitectada pelo advogado dela e as tentativas por ele para renegociar a acusação não resultaram. Tal como a Polícia, o advogado de acusação não acreditou nela. Desesperado, David foi falar com o procurador do distrito, receando que aplicassem uma pena de prisão perpétua, ou pena de morte à jovem. Mas o procurador nada fez. Não havia mais nada a fazer. Iria apresentar o relato de Grace ao júri. O julgamento foi marcado para a primeira semana de Setembro. Grace fez os dezoito anos na prisão.

            Nessa altura estava sozinha numa cela e os jornalistas tinham‑na perseguido todo o Verão. Apareciam na prisão e pediam entrevistas. E de vez em quando os guardas deixavam‑nos entrar para a fotografarem. Eles metiam‑lhes umas notas nas mãos e de repente Grace sentia‑se ofuscada pelo clarão de um flasiz quando menos esperava. Uma das vezes apanharam-na nos lavabos. E aquilo que ela contara à Polícia há muito que aparecera nos jornais. Era tudo o que ela não tinha querido que sucedesse. Sentia que se atraiçoara a si própria e aos pais, mas David convencera-a de que era a sua única esperança de não ficar toda a vida presa, ou, pior ainda, de se livrar da pena de morte. E nem sequer isso resultara. Grace estava resignada à ideia de passar a vida na prisão e não sabia se acabaria por ser condenada à morte. Era possível, até mesmo David admitia isso, embora lhe desagradasse. Caberia ao júri decidir. David estava ainda convencido de que seria capaz de fazer com que o júri acreditasse que ela matara o pai para evitar que ele a violasse, ou mesmo que a matasse. Ela era nova, bonita, vulnerável, e havia um inimitável acento de verdade no que ele dizia. David e Molly acreditavam inteiramente nas palavras dela.

            O primeiro golpe foi quando lhes negaram que o julgamento se realizasse noutro sítio. David fizera essa petição, alegando que Grace nunca poderia ser julgada com isenção em Watseka, pois as pessoas estavam decididamente a favor do pai dela. Os jornais tinham‑se apoderado da narrativa dela, aumentando-a e alterando-a constantemente. Em Setembro, o que se lia dava a ideia de que ela era uma adolescente louca por sexo que durante meses planeara friamente a morte do pai para ficar com o dinheiro dele. O facto de não haver praticamente dinheiro algum parecia ter escapado à atenção da maior parte das pessoas. Havia quem lhe chamasse promíscua e quem dissesse que ela assediava sexualmente o pai e o matara num acesso de ciúmes. David não conseguia imaginar como poderiam obter um veredicto correcto da parte de um júri daquela cidade, ou mesmo de outra qualquer.

            A escolha dos jurados levou uma semana e, devido à gravidade do caso, o juiz concordou, com o pedido de David, que os membros do júri ficassem em isolamento. O juiz era um homem idoso e duro, que gritava com toda a gente e que jogara muitas vezes golfe com o pai de Grace. Recusara‑se a desqualificar-se para o julgamento, declarando que não tinham sido amigos íntimos e que se sentia capaz de ser imparcial. A única coisa que encorajava David era o facto de, se não tivessem um julgamento justo, ou um veredicto favorável, poderiam pedir a anulação, ou interpor recurso. Estava já a fazer planos para o futuro e encontrava‑se seriamente preocupado.

            A acusação apresentou o caso e foi terrivelmente condenatória. Segundo eles, Grace planeara matar o pai no dia do funeral da mãe, para herdar o pouco que tinham antes que o pai voltasse a casar ou o gastasse. Não fazia ideia de que não poderia herdar do pai se o matasse. As fotografias apresentadas como prova mostravam que o pai era um homem atraente e a acusação sugeriu repetidamente que Grace estava apaixonada pelo seu próprio pai. Afirmavam também que ela chegara ao extremo de o querer seduzir no dia do funeral da mãe, rasgando a camisa de noite e aparecendo‑lhe nua, matando‑o depois e indo ao ponto de o acusar de violação depois de ele estar morto. Havia provas de que ela tivera relações sexuais nessa noite, explicaram, mas não se poderia provar que tivessem sido com o pai. Suspeitavam que ela saíra de casa para se encontrar com alguém, que o pai ralhara‑lhe e ela tentara seduzi‑lo. Como ele a repelira, matara‑o.

            A acusação pedia um veredicto de crime premeditado, o que acarretaria uma pena de prisão por tempo indeterminado, ou mesmo a pena de morte. O crime dela fora odioso, disse a acusação ao júri e às pessoas que enchiam a sala, incluindo jornalistas de todos os pontos do país, e merecia ser punida com severidade. Não poderia haver misericórdia para uma rapariga que matara o pai e em seguida quisera manchar a reputação dele para tentar salvar‑se da prisão.

            Era angustiante ouvir o que diziam sobre ela. Grace tinha a sensação de que falavam de outra pessoa enquanto as testemunhas se seguiam umas às outras sempre prontas a elogiar o pai dela. A maior parte das pessoas declarava achá‑la tímida ou estranha. O sócio do pai foi o pior de todos. Declarou que ela perguntara repetidamente quanto tinham gasto com a doença da mãe, e quanto deviam.

            ‑ Limitei‑me a dizer‑lhe que o pai tinha bastante dinheiro. ‑ Olhou para o júri com ar infeliz e acrescentou: ‑ Acho que não o devia ter dito. Talvez ele ainda hoje estivesse vivo ‑ concluiu olhando para Grace com ar reprovador, perceptível para todos os que ali se encontravam, enquanto ela, horrorizada, o olhava.

            ‑           Eu nunca lhe perguntei coisa alguma ‑ disse em voz baixa para David, que se encontrava a seu lado. Custava‑lhe a acreditar que Frank tivesse dito aquilo. Nunca lhe falara do pai nem de dinheiro.

            ‑ Tenho a certeza que não ‑ disse David preocupado. O tipo era um malandro e estava a tentar ver‑se livre de Grace. David sabia agora que John Adams fizera um testamento dizendo que no caso da morte de Grace deixava tudo a Frank Wills. Não era muito, mas David desconfiava de que seria mais do que Frank queria que se soubesse. Agora estava a fazer tudo para se certificar de que Grace nunca poderia vir a herdar coisa alguma. Se fosse ilibada, poderia ainda vir a herdar uma parte da herança. Frank Wills precisava de ter a certeza de que isso não sucederia.

            ‑ Acredito em si ‑ murmurou David em voz baixa. Mas o problema é que mais ninguém iria acreditar. Porque o fariam? Ela própria confessara ter morto o pai. E Frank Wills era uma testemunha convincente.

            A acusação acabou finalmente de apresentar as suas testemunhas e foi a vez de David apresentar testemunhas para falarem da personalidade e do carácter de Grace. Mas poucas pessoas a conheciam, apenas alguns professores e antigas colegas. Quase toda a gente dizia que a achava tímida e introvertida e David explicou que ela era assim exactamente por ter um segredo negro e viver uma vida de terror em casa. E quando chamou a depor o médico que a examinara no hospital, ele descreveu minuciosamente a extensão dos danos que verificara.

            ‑ Pode afirmar com segurança que Miss Adams foi violada? ‑ perguntou a acusação.

            ‑ Com certeza absoluta não. Isso é impossível. Temos de nos basear até certo ponto nos relatos das vítimas. Mas posso afirmar que houve relações sexuais violentas durante um longo período de tempo. Encontrei cicatrizes antigas e lesões, juntamente com outras provas.

‑           Esse género de lesões poderiam dar‑se com relações sexuais normais, ou com alguém violento ou mesmo degenerado? Por Outras palavras, se Miss Adams fosse masoquista ao ponto de gostar de ser punida pelos seus supostos namorados, isso daria os mesmos resultados? - perguntou o advogado de acusação, sem levar em conta o facto de nunca ninguém lhe ter conhecido um único namorado.

            ‑ Sim, suponho que se ela gostasse de sexo violento, poderiam ocorrer os mesmos resultados. Mas tinha de ser muito violento mesmo ‑ disse lentamente o médico, e o advogado sorriu maldosamente para o júri. ‑ Calculo que algumas pessoas gostam disso.

            David levantava constantemente objecções e teve um trabalho heróico para combater a ideia da premeditação. Chamou Molly a depor e por fim a própria Grace, que foi profundamente comovedora. Noutra cidade qualquer teria convencido até quem tivesse um coração de pedra, mas não ali. As pessoas de Watseka gostavam de John Adams e não queriam acreditar nela. As pessoas falavam do caso em toda a parte. Nas lojas, nos restaurantes. O assunto aparecia constantemente nos jornais. Até a rede de televisão local dava informações sobre o julgamento durante o noticiário e mostrava insistentemente o rosto de Grace. Era uma coisa que parecia não ter fim.

            O júri esteve reunido para deliberar durante três dias e David, Molly e Grace esperaram, sentados na sala do tribunal. E quando se cansavam de esperar percorriam os corredores durante horas, com um guarda a caminhar calmamente atrás deles. Grace estava agora tão habituada às algemas que mal dava por elas quando lhas punham, excepto quando lhas apertavam demasiado, de propósito. Isso sucedia geralmente com polícias que tinham sido amigos do pai. Grace sentia que seria uma sensação estranha se fosse ilibada e ficasse livre. Mas à medida que os dias passavam parecia‑lhe cada vez menos provável que isso viesse a suceder. Se ficasse livre partiria para muito longe dali, para esquecer, para viver como se nada tivesse sucedido. Mas David mostrava‑se muito preocupado devido aos obstáculos que não conseguira ultrapassar. Molly ficava sentada junto de Grace, tentava animá‑la. Durante os últimos dois meses, tinham‑se tornado os três verdadeiramente amigos. Eram os únicos amigos que Grace alguma vez tivera e aprendera a confiar neles e a apreciá‑los.

            O juiz informara o júri que podiam escolher um de quatro veredictos. Homicídio premeditado com intenção de matar, o que poderia acarretar pena de morte. Isto se eles achassem que ela planeara antecipadamente matar o pai, e sabia que os seus actos lhe provocariam a morte. Homicídio voluntário, se ela tivesse de facto querido matá‑lo, mas não premeditasse fazê‑lo, acreditando erradamente que tinha justificação para o matar por achar que ele lhe estava a fazer mal na altura. Esse veredicto poderia dar a Grace uma sentença até vinte anos de prisão. Homicídio involuntário seria se ele lhe estivesse a fazer mal e ela quisesse resistir‑lhe ou causar‑lhe danos físicos, mas sem intenção de matar, embora depois lhe causasse a morte. O homicídio involuntário acarretar‑lhe‑ia uma pena que poderia ir de um a dez anos de prisão. E poderia ainda haver o veredicto de força justificável se acreditassem na história dela de que ele a violara nessa noite e que o fizera nos quatro anos anteriores, e que ela se defendera dos ataques potencialmente para a sua vida inteira feitos à sua pessoa. David dirigira‑se ao júri de um modo impressionante, pedindo justiça na forma de um veredicto de "força justificável" para aquela jovem inocente que tanto sofrera e tivera uma vida de tortura nas mãos dos pais. Fizera com que Grace contasse tudo ao júri. Era a sua única esperança de salvação.

            Foi numa tarde de fins de Setembro que o júri chegou finalmente a uma decisão e Grace quase desmaiou ao ouvir o veredicto.

            O representante do júri ergueu‑se solenemente e anunciou que haviam chegado a um veredicto: tinham‑na considerado culpada de homicídio voluntário. Achavam que John Adams lhe fizera qualquer coisa, embora não soubessem bem o quê e não acreditavam que a tivesse violado, nessa ocasião ou noutra qualquer. Mas provavelmente magoara‑a e as duas mulheres do júri haviam insistido que os homens bons também tem por vezes segredos escuros. As dúvidas que elas tinham chegaram para que não aceitassem o homicídio premeditado e a pena de morte. Mas o passo seguinte era o homicídio voluntário e foi disso que acusaram Grace. Acreditavam, como o juiz lhe explicara, que Grace julgara falsamente e aí residia a chave de ela ter morto o pai. Devido à reputação irrepreensível que o pai adquirira naquela comunidade, ninguém foi capaz de aceitar que o pai lhe tivesse feito realmente mal, mas pensavam que Grace julgava isso, embora incorrectamente. Homicídio voluntário incorria numa sentença que podia atingir os vinte anos de prisão, segundo o critério do juiz.

            Por fim, devido à extrema juventude de Grace e ao facto de ela ter acreditado que o seu crime fora justificável para sua defesa, o juiz condenou‑a a dois anos de prisão e dois anos de liberdade condicional. Considerando as possibilidades foi quase uma dádiva, mas ao ouvir as palavras do juiz e ao tentar compreendê‑las, Grace teve a sensação de ir ficar presa toda a vida. De certo modo, pensava que seria mais fácil se a condenassem à morte. O juiz concordara também em selar os registos do caso, devido à idade dela e na esperança de que isso não viesse a prejudicar a sua vida quando saísse da prisão.

            Grace não podia deixar de pensar no que lhe iria suceder agora. Que lhe iriam fazer? Enquanto ali estivera presa, na esquadra, apanhara ocasionalmente sustos com mulheres que a ameaçavam, ou lhe tiravam as revistas ou a pasta dentífrica que Molly lhe levava e Frank Wills concordara relutantemente em dar‑lhe algumas centenas de dólares do dinheiro que o pai deixara, a pedido de David.

No entanto, ali as mulheres entravam e saíam e ela nunca se sentira verdadeiramente em perigo. Era ela que se encontrava ali com mais demora e sob as piores acusações. Mas a penitenciária iria estar cheia de mulheres verdadeiramente criminosas. Fitou o juiz de olhos secos e uma expressão de desgosto. Sentia que a vida dela de há muito se perdera. Nunca tivera uma oportunidade. Para Grace estava tudo acabado. Molly viu também esse olhar e apertou‑lhe a mão. Grace saiu da sala do tribunal algemada e com ferros a prenderem‑lhe os pés. Agora já não era apenas uma acusada. Era uma condenada.

            Nessa noite, Molly foi visitá‑la à prisão antes de a transferirem para o Dwight Correctional Center na manhã seguinte. Pouco lhe podia dizer, mas não queria que Grace desanimasse, que perdesse a esperança. Um dia haveria uma nova vida para ela: devia aguentar‑se até lá. David foi também visitá‑la e encontrava‑se fora de si com a sentença. Censurava‑se por não ter conseguido salvá‑la, mas ela não o fazia. A vida dela era mesmo assim. Prometera apelar e estava já a tratar disso. Telefonara a Frank Wills e fizera com ele um acordo inusitado: pressionado por David, Wills concordara em dar a Grace cinquenta mil dólares do dinheiro deixado pelo pai, em troca de ela concordar em nunca mais voltar a Watseka, nem interferir com ele fosse como fosse, nem com aquilo que ele herdara do pai dela. Estava já a fazer planos para se mudar para a casa deles nas semanas seguintes e disse a David que não queria que ela soubesse disso.       Achava que era uma coisa que não lhe dizia respeito a ela. Não queria sarilhos e tencionava ficar com todo o recheio da casa, incluindo as mobílias. Tinha já deitado fora quase todas as coisas de Grace e só lhe oferecia os cinquenta mil dólares se ela se mantivesse afastada para sempre. Não queria aborrecimentos nem querelas com ela, mais tarde. David concordara em nome dela, sabendo que mais tarde, quando estivesse livre, Grace iria precisar do dinheiro. Era agora a única coisa que ela possuía.

            Molly tentou desesperadamente encorajá-la quando se foi despedir de Grace.

            ‑ Não pode desistir. Não pode. Já chegou até aqui e há‑de fazer o resto do caminho. Dois anos não são uma vida inteira. Terá vinte anos quando a libertarem. Será a altura certa para começar uma vida nova e deitar tudo isto para trás das costas. ‑ David disse‑lhe a mesma coisa. Ela devia aguentar‑se e manter‑se o mais segura possível na prisão. Mas todos eles sabiam que não seria fácil.

            Grace tinha de ser forte; não havia outra alternativa. Mas fora forte durante muito tempo e por vezes desejara não ter sobrevivido. Estar morta devia ser mais fácil do que passar por tudo quanto ela passara e passaria na prisão. Disse isso mesmo a Molly, acrescentando que desejava ter disparado sobre si própria e não sobre o pai. Teria sido muito mais simples.

            ‑ Que disparate! ‑ exclamou a jovem psiquiatra, começando a andar de um lado para o outro, nervosamente. - Não diga uma coisa dessas! Com certeza que não se vai deixar desanimar agora. Tem dois anos disto na sua frente. Mas dois anos não são uma vida inteira. E podia ser pior. Assim sabe exactamente quando tudo acabará. Com o seu pai nunca podia ter a certeza.

            ‑ Mas como irá ser? ‑ perguntou Grace com uma expressão de terror nos olhos e as lágrimas a correrem‑lhe pelas faces. Molly daria tudo para poder alterar as coisas para Grace, mas naquele momento nada mais era possível fazer. Apenas lhe podia oferecer o seu apoio e a sua amizade. Ela e David tinham‑se tornado extremamente amigos de Grace. Falavam a respeito dela durante horas, revoltados contra todas as injustiças de que fora vítima. E agora teria de suportar mais provações. Tinha de ser muito forte. Molly apertou‑a nos braços enquanto ela chorava, rezando ao mesmo tempo para que Grace tivesse forças para resistir. Tremia só de pensar o que ela poderia ter de suportar.

            ‑ Irá visitar‑me? ‑ perguntou Grace com uma voz mal audível, enquanto Molly tentava incutir‑lhe coragem, passando‑lhe um braço em volta dos ombros. Ultimamente falava constantemente dela. Até Richard estava cansado de a ouvir falar da jovem, e o mesmo se passava com os colegas e amigas de Molly. Como David, a psiquiatra estava obcecada por Grace e só ele parecia compreender o que ela sentia.

            As injustiças que ela sofrera durante tanto tempo, o desgosto e agora o perigo que a rodeava eram uma preocupação constante para David e Molly. Sentiam‑se como se fossem os pais dela.

            Molly também chorou quando a deixou e prometeu ir visitá‑la no fim‑de‑semana. David planeava já reservar um dia para a ir ver, para falar sobre a apelação e certificar‑se de que ela se encontrava o melhor possível. Não lhe parecia que a prisão para onde ela ia fosse um sítio agradável e, como Molly, seria capaz de fazer tudo para alterar isso. Mas os seus esforços não tinham sido suficientes para a libertar. Por mais que eles tivessem porfiado, não haviam conseguido que ela fosse ilibada. A verdade é que tudo se conjugara contra a jovem.

            ‑ Obrigada por tudo ‑ disse Grace calmamente a David, na manhã seguinte, quando ele se despediu dela, às sete horas. ‑ Fez tudo quanto podia. Obrigada ‑ disse ela com um sorriso pálido, beijando‑o na face, quando ele a abraçou,

desejando-lhe que se mantivesse calma e conseguisse ultrapassar sem grandes problemas Os seus dois anos de prisão. Sabia que se ela quisesse conseguiria. Havia na jovem uma grande força interior. Isso mantivera‑a sã durante os anos de pesadelo que vivera com os pais.

            ‑ Queria ter feito mais ‑ disse tristemente David. Mas pelo menos não fora acusada de homicídio em primeiro grau. Não suportaria que ela tivesse sido condenada à morte. E, ao olhá‑la, apercebeu‑se de uma coisa que nunca se atrevera a pensar antes: se ela tivesse mais de dezoito anos ter‑se‑ia apaixonado por ela. Grace era uma pessoa que tinha algo de belo e de forte oculto dentro de si, e isso atraía‑o como um íman. Mas sabendo o que ela passara e como era jovem, não podia deixar que os seus sentimentos se desencadeassem e forçava‑se a pensar nela como numa irmã mais nova.

            ‑           Não se preocupe comigo, David. Ficarei bem ‑ disse com um calmo sorriso, desejando que ele se sentisse melhor. Sabia que uma parte dela há muito que morrera e que o que restava teria de se aguentar até que uma força mais alta decidisse que a sua vida estava acabada. Morrer seria muito fácil para Grace porque tinha muito pouco a perder, muito pouco por que viver. Mas, bem no fundo de si própria, sentia que tinha obrigação de sobreviver por causa de Molly e de David. Eles tinham feito muito por ela. Pela primeira vez na vida, sentira a presença de pessoas amigas, de pessoas que tudo queriam fazer para a ajudar. Não os podia deixar ficar mal. Não podia desistir de viver, pelo menos por causa deles.

Antes de a levarem, Grace tocou ao de leve num braço de David e por breves instantes ele olhou‑a como se visse nela um halo de santidade. Aceitara o seu destino com uma dignidade muito para além da sua pouca idade. Achou‑a estranhamente bela quando a viu afastar‑se, algemada. Grace voltou‑se uma vez para dizer adeus e ele ficou a vê‑la com os olhos enevoados pelas lágrimas que lhe corriam lentamente pelas faces à medida que ela se distanciava.

 

            As 8 horas meteram‑na na carrinha da prisão, algemada e com ferros nas pernas. Tratava‑se de mera rotina transferir os detidos daquela maneira, não era nada de especial em relação a ela. E, estranhamente, Grace percebera que logo que os guardas tinham um preso acorrentado, deixava de ser para eles uma verdadeira pessoa. Era o que se passava com ela. Não havia ali ninguém para lhe dizer adeus, para lhe desejar boa sorte. Claro que Molly fora despedir‑se dela na véspera à noite, e David estivera ali nessa manhã. Agora os guardas deixavam‑na partir sem uma palavra. Ela não lhes dera trabalho, mas não passava de uma condenada como outra qualquer, um rosto que em breve esqueceriam, no meio da série contínua de criminosos que por ali passavam.

            O único facto notável nela, no que dizia respeito aos guardas, era que a sua história fora relatada nos jornais. Mas, essencialmente, nada havia de especial: matara o pai, é certo, mas muitos outros o tinham feito. Achavam que ela tivera sorte em não ter sido condenada por homicídio em primeiro grau. Mas sorte era uma coisa que Grace tivera pouco.

            O percurso de Watseka a Dwight demorou hora e meia. Os solavancos faziam agitar as algemas e os ferros que lhe prendiam os pés e isso magoava os tornozelos e os pulsos da jovem. Foi uma viagem desconfortável para um destino assustador. Grace foi sozinha durante a maior parte do caminho, até que uma hora antes de chegarem a Dwight receberam mais quatro mulheres de uma prisão local e uma delas foi acorrentada ao lugar ao lado de Grace. Era uma rapariga de ar rude, uns cinco anos mais velha que Grace, e olhou‑a com interesse.

            ‑ Já alguma vez estiveste em Dwight? ‑ Grace abanou a cabeça, não se sentindo nada disposta a iniciar uma conversa. Sempre pensara que quanto mais isolada ficasse melhor seria. ‑ Por que motivo aqui estás? ‑ A outra ia direito ao assunto e, enquanto lhe fazia as perguntas, ia avaliando Grace. Logo que a viu percebeu que ela nunca estivera presa e que era pouco provável que sobrevivesse à prisão. ‑ Que idade tens, garota?

            ‑ Dezanove ‑ mentiu Grace, aumentando um ano, esperando convencer a inquisidora de que era uma adulta.

            ‑           Andas a brincar às raparigas crescidas, não? Que roubaste? Alguns rebuçados?

            Grace limitou‑se a encolher os ombros e durante um bom bocado ficaram silenciosas. Mas não havia nada para ver, ou para fazer. As janelas estavam tapadas para não poderem ver para fora e ninguém as ver a elas.

            ‑ Leste alguma coisa sobre a grande apreensão de droga em Kankakee? ‑ perguntou a rapariga observando Grace. Esta não representava nenhum mistério, era mais ou menos aquilo que aparentava ser: uma rapariga muito nova e deslocada ali. Mas o que a outra não podia saber era o que Grace sofrera para estar ali. O rosto de Grace não deixava transparecer coisa alguma, o que restava da sua alma ficara fechado quando deixara David e Molly. E agora ninguém podia ver para dentro dela. Pretendia manter‑se assim e, com sorte, deixá‑la‑iam em paz na prisão.

            Ouvira contar relatos horrorosos a respeito de violações e esfaqueamentos, enquanto se encontrava na prisão, mas forçou‑se a não pensar nisso nesse momento. Se conseguira conservar‑se viva durante os quatro últimos anos, também poderia sobreviver mais dois anos. Algo daquilo que Molly e David lhe tinham dito dera‑lhe esperança e apesar de todas as misérias da sua vida queria continuar a viver, pelo menos por causa deles. Agora era diferente. Alguém se importava com ela. Tinha dois amigos, os primeiros da sua vida. Eram seus aliados.

            ‑           Não, não li nada acerca disso ‑ disse calmamente Grace. A outra encolheu os ombros, aborrecida. Tinha o cabelo pintado de louro muito claro que parecia ter sido cortado por um serrote junto dos ombros e que há décadas não vira um pente. Os seus olhos eram frios e duros, como Grace reparou quando ela a fitou, e tinha braços fortes e musculosos.

            ‑           Eles quiseram obrigar‑me a contar o que sabia sobre os "grandes", mas eu não sou nenhuma delatora. Tenho integridade, sabes? Além disso, não quero que eles me apanhem em Dwight e me dêem cabo do canastro. Percebes o que quero dizer? ‑ A pronúncia dela era de Nova Iorque e mostrava ser aquilo que Grace esperava encontrar na prisão. Mostrava‑se zangada e dura, mas apesar de parecer saber bem tomar conta de si própria, estava ansiosa por falar e começou a contar a Grace que ajudara a construir um ginásio e que trabalhara na lavandaria a última vez que estivera presa. Contou que assistira a duas fugas durante a sua permanência na prisão, mas que todas as mulheres tinham sido apanhadas um dia depois de terem fugido. ‑ Não merece a pena, obrigam‑nos a ficar presas mais cinco anos, de cada vez que tentamos fugir. Quanto tempo apanhaste? Desta vez deram‑me pouco tempo. Daqui a nada estou lá fora. ‑ Cinco anos... dez... pareciam toda uma vida para Grace, que a ouvia.

            ‑           Dois anos ‑ disse Grace sem acrescentar qualquer outra informação. Parecia‑lhe muito tempo, embora fosse realmente menos que dez, ou que tivesse apanhado com outro veredicto.

            ‑           Isso não é nada, pequena. Sais num abrir e fechar de olhos. Então... ‑ sorriu e Grace reparou que lhe faltavam dentes dos lados da boca. ‑ Então és uma virgem, não?

            Grace olhou‑a nervosamente ao ouvir a pergunta.

            ‑ Esta é a tua primeira vez, não é? ‑ Ela era realmente uma novata e a ideia divertiu‑a. Era a terceira vez que estava em Dwight e tinha apenas vinte e três anos. A sua vida fora sempre muito atarefada. ‑ Que tens feito? Roubos? Roubo de carros? Tráfico de drogas? É o que eu tenho feito. Tomo cocaína desde os nove anos. Comecei em Nova Iorque, quando tinha onze anos. Passei algum tempo numa casa de correcção para menores. Era um sítio terrível. Estive lá quatro vezes. Depois vim para aqui. ‑ Passara quase toda a vida presa. ‑ Dwight não é mau. ‑ Falava da prisão como se fosse um hotel para onde ia voltar. ‑ Há lá algumas boas raparigas, e alguns bandos também, essa merda da Irmandade Ariana. É preciso cuidado com elas e também com algumas negras, que as odeiam. Não te metas com elas e não terás problemas.

‑           E você? ‑ Grace olhou‑a com interesse. A outra era um fenómeno que há três meses ela não fazia ideia de que pudesse existir. ‑ Que faz quando lá está? ‑ Cinco anos na prisão devia ser uma eternidade. Devia haver alguma coisa para fazer além de aprender a fazer vassouras e chapas de identificação, o que era menos útil. Se houvesse alguma possibilidade disso, Grace gostaria de tirar um curso por correspondência de alguma universidade local.

            ‑ Não sei o que farei ‑ disse a outra. ‑ Não tenho nada de especial a fazer. Tenho uma amiga que está lá desde Junho. Éramos muito íntimas até eu ser apanhada.

            ‑           Isso deve ser bom para si. ‑ Devia ser bom ter ali uma amiga.

            ‑           Sim, é isso mesmo. ‑ A outra riu e finalmente apresentou‑se dizendo que se chamava Angela Fontino. As apresentações eram raras na prisão. ‑ É verdade que o tempo passa mais depressa quando se tem uma coisinha fofa à nossa espera na cela, quando voltamos de trabalhar na lavandaria. ‑ Eram histórias daquelas que Grace ouvira contar e que a apavoravam. Disse que sim com a cabeça e não prosseguiu a conversa, mas Angela estava claramente divertida com a timidez de Grace. Gostava de arreliar as novatas. Estivera tantas vezes em casas de correcção no decorrer dos anos, que se tornara muito versátil sobre a sua vida sexual. Havia até alturas em que preferia que fosse dessa maneira.

            ‑           Isto parece‑te muito ordinário, não é, pequena? Angela, sorriu mostrando os dentes que faltavam em toda a sua glória. ‑ Uma pessoa habitua‑se a tudo. Espera um pouco e ao fim dos dois anos até podes achar que gostas mais de mulheres. ‑ Grace não podia dizer coisa alguma. Não a queria encorajar nem insultar. E então Angela soltou uma gargalhada, ao mesmo tempo que tentava esfregar os pulsos magoados pelas algemas. ‑ Oh, meu Deus, talvez tu sejas mesmo virgem, não é? Se nunca tiveste um tipo, talvez nunca precises de abanar o rabinho para arranjares um e te fiques por aqui. Não é nada mau.

            Sorriu e Grace sentiu o estômago revoltado. Recordou‑se das tardes em que tinha de voltar para casa sabendo o que lhe estava reservado para a noite. Seria capaz de tudo para não ter de ir para casa, mas sabia que precisava de tratar da mãe, e sabia o que sucederia. Agora sentia o mesmo. Não podia escapar. Seria violada por elas? Ou apenas usada, como fora pelo pai? E como poderia lutar contra elas? Se fossem dez ou doze, ou mesmo duas, que probabilidades teria? O seu coração apertou‑se ao pensar nisso e na promessa que fizera a Molly e a David de ser forte e de sobreviver. Faria o que pudesse, mas se as coisas se tornassem demasiado insuportáveis... e se... olhou desanimadamente para o chão enquanto iam saindo da estrada e passavam pelos portões do Dwight Correctional Center. As detidas gritavam e batiam com os pés e Grace permanecia imóvel, olhando em frente e pensando naquilo que Angela lhe dissera.

            ‑           Pronto, menina, estamos em casa! ‑ Angela

Sorriu-lhe. ‑ Não sei onde te vão pôr, mas havemos de nos encontrar dentro de pouco tempo. Hei‑de apresentar-te às pequenas. Elas vão adorar‑te. ‑ Piscou um olho a Grace e ela sentiu‑se arrepiar.

            Dois minutos depois, eram conduzidas para fora do carro e Grace, quando se pôs de pé, mal podia andar.

            O que estava na sua frente era um edifício sombrio, com uma torre de vigia e uma aparentemente infindável sebe de arame farpado, por detrás da qual se encontrava um mar de mulheres sem rosto, vestindo o que lhe pareceu serem pijamas de algodão azul. Sabia que se tratava de um uniforme, mas não teve tempo de ver mais coisa alguma, pois foram imediatamente empurradas para dentro, percorreram um longo corredor, passaram por vários portões e pesadas portas, arrastando as correntes, com os pulsos ainda a arder dos ferros das algemas.

            ‑           Bem‑vindas ao paraíso ‑ disse sarcasticamente uma das mulheres, enquanto três corpulentas guardas negras as empurravam para o portão seguinte sem uma palavra.

            ‑           Obrigada, estou encantada por estar de volta. Muito prazer em conhecê‑la... ‑ continuou, enquanto as outras riam.

            ‑           É sempre assim quando aqui chegamos ‑ disse uma prisioneira negra a Grace, em voz baixa. ‑ Tratam‑nos como bosta nos primeiros dois ou três dias e depois deixam‑nos em paz. Só querem que a gente perceba quem é que manda.

            ‑           Sou eu! ‑ disse uma corpulenta negra. - Se tocarem no meu grande traseiro negro, eu chamo o NAACP, a Guarda Nacional, o presidente. Conheço os meus direitos. Não quero saber se sou prisioneira ou não, não me põem as mãos em cima. ‑ Devia ter mais de um metro e oitenta e pesar uns oitenta quilos. Grace não conseguia imaginar alguém a forçá-la a fazer fosse o que fosse, mas sorriu da expressão da rapariga ao dizer aquilo.

            ‑           Não ligues ao que ela diz ‑ disse outra negra. Grace sentia‑se surpreendida por tantas prisioneiras se mostrarem amigáveis. No entanto pairava ali um ar de ameaça. As guardas estavam armadas, e havia letreiros por toda a parte avisando de perigos, castigos e punições por tentativas de fuga, ataques aos guardas, ou infracções às regras. E as detidas que chegavam tinham mau aspecto, principalmente envergando o que restava das suas roupas. Grace vestia umas calças de ganga novas e uma camisola azul‑clara que Molly lhe oferecera. Só esperava que as autoridades lhe deixassem conservar essa roupa.

            ‑           Pronto, meninas! ‑ Ouviu‑se um apito estridente e as guardas uniformizadas, empunhando armas, alinharam‑nas à entrada da sala, parecendo treinadoras de uma equipa feminina. ‑ Dispam‑se. Ponham tudo quanto trazem no chão aos vossos pés. Dispam‑se completamente. ‑ O apito soou outra vez para as mandar calar e a guarda que apitara apresentou‑se como sendo a sargento Freeman. Havia guardas negras e guardas brancas, o que era bem representativo da mistura da população prisional.

            Grace tirou cuidadosamente a camisola e dobrou‑a, colocando‑a no chão. Uma das guardas tinha‑lhes tirado as algemas e o círculo de ferro em volta da cintura onde estavam presos os ferros que lhes prendiam os pés, para que elas pudessem despir as calças. Era um grande alívio tirar os ferros das pernas e Grace descalçou os sapatos. Ficou surpreendida quando o apito soou outra vez e uma das guardas disse‑lhes para tirarem tudo o que tinham no cabelo, quer fossem ganchos ou elásticos. Deviam ficar com o cabelo solto e, quando Grace tirou o elástico que lhe prendia o longo rabo-de-cavalo, o cabelo louro caiu‑lhe pelas costas.

            ‑           Bonito cabelo ‑ disse uma mulher atrás dela, e Grace não se voltou para ver quem falara. Sentia‑se mal ao saber que a outra a observava enquanto ela se despia. Poucos minutos depois as roupas de todas encontravam-se em pequenos montículos no chão, juntamente com algumas jóias, óculos e acessórios. As mulheres ficaram completamente nuas, enquanto seis guardas caminhavam entre elas, examinando‑as e

dizendo-lhes que afastassem as pernas, erguessem os braços e abrissem a boca. As mãos de uma das guardas revistaram-lhe o cabelo para ver se tinha alguma coisa ali escondida. Em seguida meteu-lhe um pau na boca e obrigaram‑na a saltar para ver se caía alguma coisa que ela tivesse ocultado em qualquer sítio. Depois as mulheres formaram uma fila e, uma a uma, tiveram de se deitar numa marquesa, onde as vaginas foram observadas para verem se tinham algo escondido ali. Grace não podia crer que fosse obrigada a fazer aquilo, mas não podia senão obedecer. Uma das raparigas, assustada, quis recusar-se a ser examinada, mas disseram‑lhe que se não obedecesse seria amarrada para fazer o exame e que depois iria para o segredo, uma cela escura, onde ficaria sozinha e nua.

            ‑           Bem‑vindas ao país das fadas - disse uma voz familiar. ‑ Isto é agradável, não acham?

            ‑           Cala‑te, Valentine. Há‑de chegar a tua vez.

            ‑           Vai dar uma curva, Hartman. ‑ As duas eram amigas.

            ‑           Quem me dera. Queres espreitar quando for a minha vez?

            O coração de Grace batia desordenadamente quando se estendeu na marquesa, mas tratava-se apenas de um exame, que não era pior do que aquilo por que ela já passara. Era apenas humilhante por ser feito diante de tanta gente e meia dúzia das outras mulheres pareciam observá‑la com interesse.

            ‑           É muito gira, queridinha.. queres brincar aos médicos?... também posso espreitar? ‑ Ela fingiu não ouvir e seguiu as outras que se dirigiam em fila para o outro lado da sala, onde ficaram à espera de instruções.

            Foram conduzidas então para a sala do duche, onde as regaram com mangueira com água quase a ferver. Usaram imsecticidas em todas as areas pilosas do corpo e pulverizaram‑nas com champô para piolhos, apontando de novo as mangueiras para cima delas. No fim ficaram a cheirar a produtos químicos e Grace tinha a sensação de ter sido fervida em desinfectante.

            Os haveres delas foram colocados em sacos de plástico com os seus nomes e guardados. Alguma coisa proibida tinha de ser enviada para fora a expensas delas ou destruída ali mesmo, como as calças de Grace, mas ficou satisfeita por lhe ser permitido guardar a camisola. Deram‑lhes então uniformes, um par de lençóis ásperos, muitos deles com manchas de sangue e de urina. Entregaram-lhes também um pedaço de papel com o número da cela e os números delas. Seguidamente, foram levadas para outra sala, onde uma guarda lhes deu as indicações necessárias. Na manhã seguinte deviam apresentar‑se no trabalho que lhes fosse distribuído. Conforme fosse esse trabalho, receberiam entre dois e quatro dólares por mês. A falta de comparência no trabalho acarretaria uma visita imediata à solitária durante uma semana. Uma segunda falta e a estada na solitária seria de um mês. A falta de cooperação geral resultaria na permanência de seis meses na solitária, sem ter nada que fazer nem ninguém com quem falar.

            ‑           Tornem as coisas fáceis para vocês ‑ disse a guarda encarregada da orientação. - Façam o nosso jogo. É a única maneira de proceder em Dwight.

            ‑           Tretas! ‑ murmurou alguém do lado direito de Grace. Mas era impossível dizer quem falara. Era uma voz incorpórea.

            De certo modo, faziam com que as coisas parecessem simples. Tudo quanto precisavam de fazer era obedecer:

comparecer no trabalho e nas refeições, não se meterem em sarilhos, voltarem para as celas a tempo e tudo correria bem. Mas lutarem umas com as outras, pertencerem a bandos, ameaçarem uma guarda, infringir as regras, significaria aumentar as penas. Se tentassem escapar, não seriam mais que "carne morta sobre a sebe", como disse explicitamente a guarda. Falavam com bastante clareza, era certo, mas não era tão fácil como elas faziam parecer. Era preciso conviver com as outras detidas e elas pareciam tão duras como as guardas ou ainda mais, e tinham uma agenda totalmente diferente.

            ‑           E que há sobre estudar? ‑ perguntou uma voz lá atrás, enquanto as outras troçavam.

            ‑           Que idade tens? ‑ perguntou a detida que se encontrava junto dela com ar desdenhoso.

            ‑           Quinze anos. ‑ Era outra menor, como Grace, que fora julgada como uma adulta, mas eram raras ali. Dwight era uma prisão de mulheres adultas e os crimes de que elas eram acusadas eram certamente de adultas. Como Grace, essa rapariga fora acusada de homicídio e só não fora condenada à morte por ter declarado tratar‑se de legítima defesa. Matara um irmão depois de ele a ter violado. Mas agora queria estudar e sair do gueto.

            ‑Já estudaste bastante ‑ disse a mulher que se encontrava ao lado dela. ‑ Para que queres mais estudos?

            ‑           Podes pedir para estudar depois de fazer aqui noventa dias ‑ explicou a guarda, prosseguindo logo a seguir com as explicações do que lhes sucederia se alguma vez tomassem parte numa sublevação. Só de pensar nisso sentia o coração apertado. A guarda explicou que durante a última sublevação tinham sido mortas quarenta e cinco detidas. E se ela fosse apanhada no meio da desordem, sem se ter metido em coisa alguma? E se fosse morta por outra prisioneira ou por uma guarda? Como poderia sobreviver a uma coisa dessas?

            Quando finalmente conduziram as detidas para as celas, Grace sentia a cabeça à roda. Seguiam em fila indiana, vigiadas por meia dúzia de guardas e apupadas pelas detidas que se amontoavam junto às grades para as ver passar e as olhavam rindo e gritando.

            ‑           Eh, olha para as novatas... yani, yam! ‑ Atiravam beijos, gritavam, e a rapariga que ia à frente de Grace apanhou até com um Tampax, o que fez com que Grace quase vomitasse. Era um lugar como Grace nunca sonhara que pudesse existir. Era o pior pesadelo tornado realidade. Uma viagem ao inferno de onde Grace não imaginava poder regressar. Tinha ainda o cheiro do insecticida na cara e nos cabelos e quando parou junto da cela que lhe fora destinada começou a sentir os sintomas de uma crise de asma.

‑           Adams, Grace, B duzentos e catorze. ‑ A guarda abriu a porta, fez‑lhe sinal para entrar e logo que o fez Grace ouviu a chave girar na fechadura. Encontrava‑se encerrada num espaço que devia ter apenas uns três metros quadrados, com um beliche, e as paredes estavam cobertas com fotografias de mulheres nuas. Havia recortes da Playboy e da Hustier e de revistas que Grace não fazia ideia que mulheres pudessem ler, mas que ali liam. Ou que pelo menos a sua companheira de cela lia. O beliche de baixo estava muito bem feito e com mãos trémulas Grace começou a fazer a cama de cima. Colocou a sua escova de dentes numa prateleira existente junto da cama, juntamente com o copo de papel que lhe fora dado, e a pasta dentífrica. Fora‑lhe dito que tinha de comprar os cigarros e a pasta, mas Grace não fumava. Não o podia fazer por causa da asma.

            Quando a cama ficou feita, Grace subiu para lá e sentou‑se, olhando para a porta, pensando no que se iria passar a seguir e como iriam ser as coisas quando chegasse a sua companheira de cela. Era óbvio que as suas preferências iam para as mulheres das fotografias e Grace preparou‑se para o pior. Ficou por isso surpreendida ao ver entrar, duas horas mais tarde, uma mulher de expressão azeda, que devia ter perto de cinquenta anos. A recém‑chegada olhou de relance para Grace e não pareceu impressionada com a beleza dela. Só passada uma boa meia hora é que lhe disse olá e acrescentou que se chamava Sally.

            ‑           Não quero porcarias aqui ‑ declarou peremptoriamente. ‑ Nem drogas nem visitas de bandos nem pornografia nem nada. Estou aqui há sete anos, tenho as minhas amigas e mantenho a cara lavada. Faça o mesmo e tudo correrá bem, mas se me causar problemas dou‑lhe um pontapé que a faço ir parar ao bloco D. Está a entender?

            Grace disse que sim, ofegante. Começara a sentir o peito cada vez mais oprimido desde essa manhã e por volta da hora do jantar mal podia respirar. Tinham‑lhe tirado o inalador, juntamente com as outras coisas, e a respiração tornara‑se cada vez mais ofegante.

            ‑           Se precisa de ajuda, chame uma guarda ‑ disse Sally. Mas Grace não queria chamar as atenções sobre si, a não ser que se visse mesmo forçada a isso. Preferia morrer do que fazê‑lo. Mas quando o apito chamou para o jantar e Grace saiu do seu beliche, Sally viu que ela estava realmente aflita.

            ‑ Oh, céus... parece que me trouxeram um bebé para aqui. Olhe, eu não gosto de crianças, nunca gostei, nunca quis ter nenhuma. E agora também não quero. Tem de tomar conta de si própria.

            Enquanto Sally vestia uma blusa limpa, Grace reparou que as costas e os braços dela estavam cobertos com tatuagens, mas de certo modo isso era um alívio para a jovem.

            ‑           Estou bem... na verdade... ‑ murmurou, mal conseguindo falar. Lutava desesperadamente com falta de ar. Precisava do inalador e não o tinha.

            ‑           Claro que está. Mas sente‑se. Eu vou tratar disso... por esta vez... ‑ Mostrou‑se muito aborrecida enquanto abotoava a camisa, mas continuou a observar Grace, que estava cada vez mais pálida, enquanto a guarda abria a porta para o jantar. Sally fez‑lhe sinal antes de ela se poder afastar e apontou para Grace, que se encontrava de pé a um canto. - A pequena está a ter um pequeno problema ‑ disse calmamente. ‑ Creio que é asma ou coisa parecida. Posso levá‑la à enfermaria?

            ‑           Claro, se quiseres, Sally. Pensas que ela está a fingir? - Mas quando olharam para ela outra vez, viram que Grace estava cinzenta e era óbvio que o seu problema era real. Até os lábios estavam ligeiramente azulados. ‑ É muito simpático da tua parte fazeres de enfermeira, Sally ‑ gracejou a guarda. Sally era conhecida por ser uma das mulheres mais duras da prisão. Ninguém se metia com ela. Fora condenada por dois assassínios. Matara a namorada e a mulher com quem ela a enganara. "Isso faz com que as pessoas fiquem a saber como eu penso", costumava ela dizer às mulheres com quem se envolvia. Mas tinha a mesma amante no bloco C há três anos e toda a gente sabia que era como se fossem casadas e ninguém se atrevia a arreliar Sally.

            ‑           Vamos ‑ disse para Grace, falando‑lhe por cima do ombro e empurrando‑a depois para fora da cela com ar aborrecido. ‑ Vou levá‑la à enfermaria, mas não volte a fazer‑me isto. Se tiver um problema, resolva‑o. Não lhe vou limpar o rabinho só por ser minha companheira de cela.

‑           Lamento ‑ disse Grace, com os olhos cheios de lágrimas. Não tinha sido um bom começo e a mulher estava visivelmente zangada com ela. Pelo menos era o que Grace pensava. Não sabia que a mulher estava com pena dela. Era óbvio, mesmo para ela, que Grace estava deslocada naquele ambiente.

            Cinco minutos depois, deixava Grace com a enfermeira. Esta deu-lhe oxigénio e por fim resolveu devolver‑lhe o inalador. A rapariga ia causar muitos problemas se não o tivesse. Mas dessa vez teve de lhe dar outros medicamentos, porque a crise avançara muito na última meia hora. Grace sabia muito bem que sem o medicamento morreria com falta de ar. Mas naquela altura não estava completamente convencida de que isso não fosse uma bênção.

            Chegou ao jantar com meia hora de atraso, abalada e pálida, quando a maior parte da comida havia desaparecido. Só restava gordura, ossos e molho, aquilo que ninguém quisera. De qualquer modo, Grace não tinha fome. As crises de asma deixavam‑na ficar sempre trémula e agoniada. Sentia‑se demasiado perturbada para ter vontade de comer. Queria agradecer a Sally tê‑la levado à enfermaria, mas não se atreveu afalar com ela quando a viu com um grupo de mulheres mais velhas, de aspecto duro e cobertas de tatuagens. Sally também não deu sinais de a reconhecer.

            ‑ Que vai comer? Filet mignon ou pato assado? ‑ perguntou uma bonita rapariga negra que se encontrava atrás do balcão, mas depois sorriu para Grace. ‑ Tenho ali duas fatias de pizza guardadas. Está interessada?

            ‑ Sim, obrigada ‑ Grace sorriu, parecendo exausta. - Muito obrigada. ‑ A rapariga entregou‑lhe um prato com a pizza.

            Grace sentou‑se num lugar vazio a uma mesa onde estavam outras três raparigas. Ninguém a cumprimentou ou pareceu dar por ela. Reparou que Angela se encontrava do outro lado da sala, conversando animadamente com um grupo de mulheres. Grace sentiu‑se satisfeita por ninguém falar com ela e poder comer a sua pizza descansada. Ainda estava a sentir dificuldade em respirar.

‑           Oh, oh, que bela peixinha tens à tua mesa hoje! - disse uma voz atrás dela, enquanto Grace bebia o café. A jovem não se mexeu quando ouviu as palavras, mas sentiu‑se agarrada por trás. Tentou fingir que não sabia o que se estava a passar e continuou a olhar em frente, mas percebeu que as outras raparigas que estavam à mesa se sentiam nervosas. ‑ Então ninguém fala aqui? Mas que grupo de cabras malcriadas!

            ‑           Com licença ‑ murmurou uma das outras, levantando‑se e afastando‑se rapidamente. De repente, Grace sentiu um corpo quente comprimir‑se contra as suas costas. Agora não podia fingir que não sentia. Inclinou‑se para a frente e depois voltou‑se e viu uma mulher muito alta e loura com uma figura espectacular. Parecia uma versão hollywoodesca de uma prostituta. Estava muito maquilhada e usava uma camisola de homem, muito justa e transparente. Parecia uma das mulheres das revistas de Sally. Era quase uma caricatura de estrela pornográfica.

            ‑           Que bonita rapariga ‑ disse a loura olhando para Grace. ‑ Estás muito só, querida? ‑ A voz dela era um sussurro sensual e ela comprimia a pélvis contra as costas de Grace. Esta pôde ver que a camisola da loura estava molhada, o que fazia com que se vissem claramente os seios e os mamilos. Era como se não tivesse nada vestido. ‑ Porque não vais visitar‑me um dia? Toda a gente sabe onde eu vivo - disse, com um sorriso.

            ‑           Obrigada ‑ Grace falou com uma voz ainda um pouco ofegante, devido à crise de asma, e a loura sorriu‑lhe outra vez.

            ‑           Como te chamas? Marilyn Monroe? ‑ Troçava do modo como Grace tinha falado.

            ‑           Lamento. A asma...

            ‑           Oh, pobrezinha... tomas alguma coisa para isso? Mostrava‑se preocupada e Grace não queria parecer mal‑educada e fazê‑la zangar. A loura parecia ser dura e segura de si mesma. Devia ter uns trinta anos.

            - tenho um inalador. ‑ Tirou‑o do bolso e mostrou-lho.

            ‑           Tem cuidado com ele. ‑ Riu e roçou os dedos pelos seios de Grace antes de ir ter com as amigas.

Grace tremia quando ela se afastou e procurou controlar‑se acabando de beber o café, pensando em tudo o que ali vira. Era verdadeiramente uma selva.

            ‑           Tenha cuidado com ela ‑ disse uma das raparigas num sussurro, antes de se levantar. ‑ Brenda é muito dura.

            Depois disso, Grace voltou imediatamente para a sua cela. Passavam um filme nessa noite, mas ela não tinha interesse em ir. Só queria ir para a sua cela e permanecer lá até de manhã. Estendeu‑se no catre e soltou um suspiro de alívio. Teve de utilizar o inalador mais duas vezes nessa noite antes de se descontrair e conseguir respirar normalmente outra vez. E estava ainda acordada às dez horas, quando Sally voltou do cinema.

            A outra não proferiu palavra, mas Grace voltou‑se no seu beliche e agradeceu‑lhe tê‑la levado à enfermaria por causa da asma.

            ‑           Ela devolveu‑me o inalador ‑ disse.

            ‑           Não o mostre a ninguém ‑ disse sensatamente. - Aqui divertem‑se com as pessoas por causa de coisas desse género. Guarde‑o e use‑o quando estiver sozinha. ‑ Isso nem sempre era possível, mas Grace achou que se tratava de um bom conselho e disse que sim com a cabeça. Então, quando as luzes se apagaram e Sally se deitou no beliche inferior, falou outra vez com Grace, no escuro. ‑ Vi Brenda Evans a falar consigo. Tenha cuidado com ela. É perigosa. Vai precisar de aprender a nadar bem depressa. E até lá tenha cuidado consigo. Isto não é nenhum jardim‑infantil.

            ‑           Obrigada ‑ murmurou Grace, assustada. E ficou acordada durante muito tempo, enquanto as lágrimas lhe caíam silenciosamente pelas faces, indo molhar o lençol, ouvindo os ruídos lá fora, berros e um grito ocasional e através de tudo o som confortável do calmo ressonar de Sally.

 

            Passadas duas semanas, Grace já conhecia os corredores e salas de Dwight e arranjara trabalho na sala de abastecimento, entregando toalhas e pentes, e contando escovas de dentes para as recém‑chegadas. Fora Sally quem lhe arranjara a ocupação. Embora fingisse não ter qualquer interesse em ajudá‑la, parecia tomar conta dela de longe.

            Molly fora vê‑la uma vez e ficara horrorizada com o que ouvira contar de Dwight. Mas Grace insistia que estava bem. E a verdade é que, com grande surpresa sua, ninguém a incomodara. Chamavam‑lhe "peixe" sempre que tinham oportunidade de o fazer e Brenda parara para falar com ela duas vezes, durante as refeições, mas nunca fora além disso. Nem sequer passara outra vez os dedos pelos seus seios. Até àquela altura sentia‑se com sorte. Estava bem e tinha um trabalho decente. A sua companheira de quarto era taciturna, mas de uma maneira geral bondosa. Ninguém a ameaçara, nem a convidara para fazer parte de um bando. Parecia‑lhe que daquela maneira não seria difícil aguentar os dois anos. Quando David a visitou, Grace estava bem‑disposta, o que o tranquilizou. Detestava vê‑la ali e cada vez sentia mais que ela não devia estar ali, mas pelo menos não lhe sucedera nada de grave, e ela insistia em que não corria qualquer perigo. Pelo menos isso era uma satisfação. E passaram o tempo da visita a falar acerca do futuro.

            Grace já decidira ir para Chicago quando dali saísse. Devia permanecer naquele estado durante mais dois anos, mas Chicago serviria perfeitamente. E os cinquenta mil dólares que Frank Wills lhe cedera do património do pai seria um ponto de partida. Grace desejava arranjar um emprego, mas antes disso devia aprender a dactilografar e seguiria cursos por correspondência logo que lhe fosse possível.

            David contou‑lhe que apelara e mostrou‑se encorajador, mas era difícil dizer o que iria suceder.

            ‑           Não se preocupe com isso. Estou bem aqui.

            David ficou a vê‑la sair da sala das visitas e admirou‑se com o seu porte e dignidade: andava de cabeça erguida e estava mais delgada do que nunca. Ao vê‑la, ninguém diria que era uma prisioneira. Parecia uma estudante universitária. Era impossível relacioná‑la com o que se passara com ela. Só olhando‑lhe nos olhos é que se podia ver a dor ali estampada. E tudo o que David sabia a respeito dela lhe causava um grande desgosto. Não lhe era fácil esquecê‑la.

            David acenou tristemente ao afastar‑se e ela ficou a ver o carro dele desaparecer ao longe. Era ainda mais difícil para ela do que para ele. Sentia‑se como se fosse abandonada na selva.

            ‑           Quem era? ‑ perguntou uma voz atrás dela. Grace voltou‑se e viu Brenda. ‑ É o teu namorado?

            ‑           Não ‑ respondeu Grace com calma dignidade. - É o meu advogado.

            Brenda riu abertamente.

            ‑           Não percas o teu tempo. Eles são todos uns chulos. Dizem o que vão fazer e como nos vão salvar e não fazem nada a não ser foder‑nos literalmente se os deixarmos e de todos os outros modos também. Nunca encontrei um que valesse um chavo. E a verdade é que ‑ continuou, rindo outra vez ‑ nunca encontrei um tipo que valesse fosse o que fosse. E tu? ‑ Olhou atentamente para Grace. Esta reparou que ela trazia uma das suas camisolas molhadas e que tinha uma tatuagem num dos braços: uma rosa vermelha com uma cobra por baixo. Junto dos olhos também tinha tatuagens que representavam pequenas lágrimas. ‑ Tens um namorado? - Grace sabia que se tratava de uma pergunta perigosa e que dissesse o que dissesse ficaria numa situação precária. Encolheu os ombros indefinidamente. Estava a aprender. Começou a encaminhar‑se para dentro. ‑ Estás com pressa para ires fazer alguma coisa?

            ‑           Não... eu... pensava em ir escrever umas cartas.

            ‑           Que engraçada! Parece que estás num acampamento de férias. Vais escrever ao papá e à mamã? Mas ainda não me respondeste acerca do teu namorado.

            ‑           Apenas um amigo. ‑ Grace pensava escrever a Molly, contando-lhe da visita de David.

            ‑           Aparece. Isto aqui pode ser divertido. Se quiseres que seja. Ou pode ser uma grande maçada. É contigo, menina.

‑           Eu estou bem ‑ respondeu Grace, procurando uma maneira de se escapar sem enraivecer Brenda. Já tinha percebido por conversas de outras que Brenda era receada. Estava metida com um bando e não só consumia drogas como as vendia. Ainda acabaria por se ver metida em grandes sarilhos.

            Mas Brenda não estava a facilitar as coisas.

            ‑           A tua companheira de cela é de vómitos e a namorada dela também. Já a viste? ‑ Grace abanou a cabeça. Sally era muito discreta sobre a sua vida pessoal. Nunca dissera uma palavra a Grace sobre isso e fora da cela nunca procurava falar‑lhe. ‑ É uma mulheraça negra. Horrorosa. E tu? Gostas de festas? Gostas de pó mágico, de raízes? ‑ Os olhos de Brenda cintilaram ao pensar nisso, mas Grace abanou a cabeça.

            ‑           Não posso. A asma... ‑ E não tinha interesse por drogas. Mas não disse isso.

            ‑           O que tem a asma a ver com o caso? Tive uma companheira de cela em Chicago que só tinha um pulmão e consumia largamente.

            ‑           Não sei ‑ murmurou vagamente Grace. ‑ Nunca me meti nisso.

            ‑           Aposto que há uma porção de coisas que ainda não experimentaste, menina. ‑ Brenda riu outra vez e Grace afastou‑se com um aceno amigável, apressando‑se em seguida a ir para a sua cela, onde chegou ofegante. Tocou no inalador que tinha no bolso e tranquilizou‑se por o sentir. às vezes, só por o tactear, parecia‑lhe que respirava mais facilmente.

            Nessa noite havia outra vez cinema e Sally foi de novo. A sua única fraqueza na vida, além dos retratos de mulheres nuas, parecia ser os filmes. Quanto mais violentos, melhor. Grace ainda não fora ver nenhum e gostava de ficar sozinha na cela depois do jantar. Ela era pequena e acanhada, mas Grace chegava a sentir‑se confortável ali, longe de toda a gente.

            Depois do jantar, as celas eram deixadas abertas, a não ser que alguém pedisse para ser fechada. Isso permitia que as detidas se visitassem, que jogassem às cartas ou conversassem. Algumas jogavam xadrez ou Scrabble. As celas permaneciam abertas das seis às nove e as reclusas podiam passear pelos sítios autorizados.

            Grace estava estendida na cama a escrever a Molly quando ouviu a porta abrir‑se, mas não se incomodou a ver quem era. Calculou que fosse Sally de regresso do cinema, e ela não costumava dizer coisa alguma ao chegar. Raramente o fazia, por isso Grace não estranhou o silêncio até sentir uma presença junto dela. Levantou os olhos e deparou com a cara de Brenda. Esta destapara um seio e pousara‑o sobre a cama de Grace. Ao lado de Brenda encontrava‑se outra mulher.

            ‑           Olá, bebé ‑ disse Brenda acariciando o mamilo, enquanto Grace se sentava na cama. A outra mulher não era tão alta como Brenda, mas tinha um aspecto mais duro. - Esta é Jane. Quis vir conhecer‑te. ‑ Mas Jane nada disse. Limitou‑se a olhar para Grace, enquanto Brenda estendia uma mão e acariciava os seios a Grace. Esta quis fugir, mas Brenda segurou‑a firmemente por um braço. Isso fê‑la lembrar, por instantes, do pai e sentiu o peito oprimido. ‑ Queres vir brincar? ‑ Não se tratava de um convite, mas de uma ordem, e ela parecia uma amazona no seu louro esplendor.

            ‑           Não, estou realmente... um pouco cansada. ‑ Grace não sabia o que lhe havia de dizer e não tinha idade suficiente, nem experiência bastante para saber o que poderia fazer para se livrar de Brenda.

            ‑           Porque não vens até à minha cela durante um bocado? Ainda temos uma hora até fecharem as celas.

            ‑           Não creio... que possa ir ‑ disse nervosamente Grace. ‑ Prefiro não ir.

            ‑           Que delicada. ‑ Brenda soltou uma gargalhada de troça e apertou um seio de Grace com força e em seguida beliscou‑lhe o mamilo. ‑ Queres saber uma coisa, queridinha? Não me interessa o que possas querer ou não. Vens mesmo connosco.

- eu não... por favor... ‑ Não queria gemer, mas as suas palavras soavam aos seus próprios ouvidos dessa maneira. De repente, ouviu um estalido e Jane aproximou‑se mais delas. Grace viu imediatamente que ela tinha uma navalha na mão, e mostrou‑lha com um gesto ameaçador.

            ‑           Não é simpático? ‑ disse Brenda, sorrindo. ‑ Um convite gravado da parte de Jane. Com efeito Jane é perita em fazer gravações. ‑ Dessa vez riram ambas e Brenda abriu a blusa de Grace e lambeu-lhe o mamilo. ‑ É bom, não é? Não gostaria que Jane se entusiasmasse e começasse a fazer entalhes aqui... ela às vezes comete uns pequenos erros e isto podia ficar feio. Está bem? Então porque não saltas do teu beliche e vens connosco? Penso que vais gostar. ‑ Aquilo era o que Grace mais receava. Um rapto dentro da prisão feito por um bando utilizando sabe Deus o quê e retalhando‑lhe a cara com a navalha. Nada do que se passara na sua vida a preparara para aquilo, nem mesmo o pai.

            Grace saltou do beliche, ofegante, ainda com a caneta e o papel de carta na mão. Então, com um só gesto voltou‑se como se fosse pousar o papel e deixou‑o sobre o beliche de Sally. Nele escrevera apenas Brenda. Talvez fosse demasiado tarde. Ou talvez Sally não pudesse ou não quisesse ajudá‑la. Mas foi a única coisa que pôde fazer antes de sair da cela ladeada por Jane e Brenda. Grace era quase tão alta como qualquer delas, mas parecia uma criança no meio das duas e de certo modo era‑o. Nada sabia de mulheres como elas.

            Ficou surpreendida quando não a levaram para a cela delas. Passaram pelo ginásio e depois saíram para o exterior, como se quisessem ir apanhar ar. As guardas observavam‑nas mas não viram nada de estranho quando elas passaram. Muitas mulheres iam fumar um cigarro ou dar um passeio antes de fecharem as celas. Brenda gracejou com a guarda enquanto Jane avançava com Grace. A navalha não se encontrava à vista, mas Grace sentia‑a bem junto do seu pescoço. Pareciam três amigas que iam dar um passeio e ninguém parecia aperceber‑se do terror de Grace.

            Uma vez lá fora, Brenda encaminhou‑as para um pequeno barracão no qual Grace nunca reparara. As guardas que se encontravam na torre não as viam ali. Tratava‑se apenas de um velho barracão onde guardavam equipamento de manutenção. Brenda tinha uma chave e logo que abriu a porta desapareceram as três no seu interior. Estavam ali mais três mulheres, encostadas à maquinaria ali guardada, fumando. Uma delas empunhava uma lanterna eléctrica. Era o sítio perfeito para tudo quanto lhe queriam fazer, inclusivamente matá‑la.

            ‑ Bem‑vinda ao nosso pequeno clube ‑ disse Brenda, com uma gargalhada. ‑ Ela quis vir brincar um bocado - acrescentou, voltando‑se para as outras. ‑ Não querias vir, Gracie... oh, menina bonita... menina bonita... ‑ murmurou enquanto desabotoava a blusa de Grace e esta tentava impedi-la de o fazer. Se fosse possível, elas não queriam deixar marcas, nem roupas rasgadas, a não ser que tivessem realmente de o fazer. Se Grace as forçasse a isso, elas podiam ser muito cruéis e mais tarde, se ela fosse esperta, não contaria nada a ninguém.

            Grace sentiu a navalha de Jane encostada ao seu corpo e não fez nenhum gesto para abotoar a blusa. Brenda puxou-lhe então o soutien para baixo.

            ‑ Uma bela carne jovem, não é, meninas? ‑ Todas riram e uma das que já ali se encontravam disse a Brenda para se apressar. As celas seriam fechadas daí a menos de uma hora. Não tinham a noite toda.

            ‑ Não gosto nada de comer à pressa ‑ disse Brenda, e todas riram de novo. Então Grace viu duas mulheres aproximarem‑se com um pedaço de corda e uma rodilha. Iam amarrá‑la e amordaçá‑la.

            ‑           Vamos a isto ‑ disse uma das mulheres mais velhas. Agarrou Grace por um braço, enquanto uma companheira lhe agarrava o outro, e Grace foi atirada para o chão tão violentamente que ficou sem respirar. Daí em diante começaram a movimentar‑se como uma equipa. Duas mulheres amarraram os braços de Grace às pesadas máquinas e tiraram‑lhe as calças e a roupa interior, enquanto Jane comprimia a navalha contra o estômago de Grace. Não valia a pena gritar ou agitar‑se e ela sabia‑o. Elas matá‑la‑iam. Mal podia respirar e olhou ansiosamente para o bolso onde deixara o inalador. Mas Brenda também se lembrou disso. Tirou‑o do bolso, segurou‑o perto da cara de Grace e deixou‑o cair no chão ao seu lado. Logo a seguir Jane pisou-o com as suas grandes botas, reduzindo‑o a estilhaços.

‑           Lamento, pequena ‑ disse Brenda com um sorriso trocista. ‑ Estás pronta? Conheces as regras do jogo? - perguntou, atirando os cabelos louros para trás dos ombros e levantando‑se em seguida para tirar as calças dela. ‑ Primeiro fazemos‑te a ti e depois fazes‑nos a nós... uma a uma... vamos dizer‑te como... e quando e onde, tal como nós gostamos. E daqui em diante... ‑ continuou Brenda, mordendo um mamilo de Grace e acariciando‑se a si mesma ‑ pertences‑nos. Compreendes? Vens aqui sempre que te dissermos, tantas vezes quantas nós quisermos, e fazes exactamente aquilo que desejarmos que faças. Entendes? E se gritas, minha cabra, cortamos‑te a língua e cortamos‑te as mamas. Compreendes? Uma espécie de mastectomia? Todas riram, excepto Grace, que tremia e respirava de uma maneira ofegante, estendida no solo frio e aterrorizada com o que lhe queriam fazer.

            ‑ Porquê? Porque têm de fazer isto?... não precisam de mim... por favor... ‑ Ela suplicava e as outras achavam graça. Ela era tão jovem, tão fresca, tão inocente, e sabiam que se não a apanhassem, outras o fariam. Na prisão quem primeiro chegava primeiro se aviava.

            ‑ Vais ser a nossa queridinha, não vais, Grace? ‑ disse Brenda ajoelhando‑se no chão em frente das pernas abertas de Grace. Esta estava agora completamente nua e Brenda começou a lambê‑la. Gostava dessa parte, de as quebrar, de fazer aquilo a uma pessoa a quem ainda ninguém o fizera, mostrando-lhe como se encontrava indefesa, como podia fazer dela tudo o que lhe apetecesse. Parou por um minuto e tirou do bolso um pequeno tubo com um pó branco, que aspirou. Depois passou um pouco pelas gengivas e com um dedo pôs um bocadinho em Grace, lambendo‑a com vigor. - É bom... ‑ gemeu ela, gostando do que estava a fazer, apalpando Grace com os dedos, enquanto as outras lhe diziam que se apressasse. Começou então a enfiar toda a mão dentro de Grace e esta gemeu de dor. Mas as outras queixavam‑se. Queriam que chegasse a vez delas. Não tinham a noite toda. Não era a lua‑de‑mel de Brenda. ‑ Talvez seja, sua cabra ‑ respondeu Brenda à mulher que se queixava. Talvez eu a guarde só para mim, se for boa. ‑ Mas Grace contorcia‑se e tentava escapar às mãos dela, à insistência dos seus dedos, embora pouco pudesse fazer com as pernas amarradas. Queria gritar, mas não se atrevia, com medo da navalha de Jane. Elas não a tinham amordaçado. Precisavam da boca dela para as satisfazer quando acabassem o que queriam fazer com ela.

            Grace fechou então os olhos, tentando fingir que não se encontrava ali, que aquilo não lhe estava a suceder. Então, de repente, ouviu o som como de uma porta a bater. Ouviu também Brenda soltar uma exclamação abafada e largá‑la, afastando‑se para um lado. Quando abriu os olhos, viu uma rapariga negra, alta e esbelta, parada à porta. Não sabia se seria do bando, mas as outras não pareciam muito felizes por a ver.

            ‑           Pronto, suas idiotas, desamarrem‑na. ‑ A rapariga negra era muito alta e estranhamente bela. O branco dos seus olhos parecia enorme à luz da lanterna. ‑ Têm cinco segundos para a tirar daí, ou Sally irá denunciar‑vos. Se eu não sair daqui dentro de três minutos, ela vai. E calculo que vocês vão para o buraco até ao Natal.

            ‑ Tretas, Luana. Tira o teu cu negro daqui antes que te mate. ‑ Jane estava furiosa e dirigia o facho da lanterna sobre Luana ao mesmo tempo que acenava com a navalha, ameaçadoramente. Brenda mostrava‑se também furiosa, mas ao mesmo tempo parecia aborrecida. A cocaína fizera efeito e ela só queria continuar a fazer o que desejava, com Grace, sem as malditas interrupções.

            ‑ Porque é que não vão lutar para outro sítio qualquer? - disse Brenda, afastando‑se por momentos.

            ‑ Têm dois minutos ‑ disse friamente Luana. ‑Já disse para a desamarrarem. ‑ Luana parecia aterrorizadora, parada à luz da lanterna. Tinha músculos quase como um homem e pernas compridas e fortes como as de um corredor olímpico. Era a campeã de boxe e de karaté da prisão e ninguém queria meter‑se com ela. Jane dizia sempre que não a receava. Mas as outras sabiam que era mais conversa do que outra coisa. Luana tinha conhecimentos muito importantes.

            Houve um longo momento de hesitação, mas depois uma das outras mulheres desatou os braços e as pernas de Grace, enquanto Brenda gemia de paixão não satisfeita.

‑           Grande cabra! Deseja‑la para ti, não é?

            ‑           Já tenho o que desejo ‑ respondeu Luana. ‑ Desde quando precisam de foder crianças?

            ‑           Ela tem idade suficiente ‑ gritou Brenda, cheia de fúria e frustração. ‑ Quem julgas que és? O Lone Ranger? Vai‑te foder, Luana.

            ‑           Obrigada.

            Grace levantara‑se e vestia‑se agora apressadamente, tentando abotoar a blusa com as mãos trémulas. Não se atrevia a olhar para as outras mulheres com receio de que a matassem.

            ‑           A festa está acabada, meninas ‑ anunciou Luana com um sorriso. ‑ Se voltam a tocar‑lhe, mato‑as.

            ‑           Que raio queres dizer com isso? ‑ perguntou Brenda, aborrecida.

            ‑           Ela é minha. Ouviram?

            ‑           Tua? ‑ Brenda mostrou‑se espantada. Ninguém lho dissera. Isso podia tornar as coisas um pouco diferentes.

            ‑           E Sally? ‑ perguntou Brenda com desconfiança.

            ‑           Não temos de te dar explicações ‑ respondeu com frieza Luana, enquanto ia empurrando Grace para a porta. A rapariga respirava com dificuldade e tremia dos pés à cabeça. Luana empurrou‑a com violência e ela quase caiu. A recém‑chegada não era mulher com quem se pudesse brincar. Nenhuma delas o era. Grace estava longe de se poder medir com elas e percebia agora como fora louca em pensar que poderia estar em segurança ali. As histórias que contavam eram todas verdadeiras. Elas apenas tinham estado à espera.

            ‑           Vocês agora são três? ‑ lamentou‑se Brenda.

            ‑Já me ouviste? Ela é minha. Mantenham‑se afastadas dela ou vai haver sarilho. Entendem? ‑ Ninguém lhe respondeu, mas a mensagem era clara e Luana era demasiado importante para valer a pena aborrecê‑la. Dois dos irmãos dela eram os mais importantes "Muçulmanos Negros do Estado" e os outros dois tinham começado os maiores distúrbios da história de Attica e de San Quentin.

            Depois de as ter avisado que se afastassem de Grace, Luana abriu a porta e empurrou ajovem para fora. Agarrou‑a por um braço e disse‑lhe para avançar, falando com ela como se nada se tivesse passado. Cinco minutos depois, estavam no ginásio. O rosto de Grace tinha uma palidez extrema e a respiração dela era ofegante, mas ficara sem o inalador. Sally esperava‑as aí com uma expressão preocupada.

            ‑           Que diabo estavas a fazer com Brenda? ‑ perguntou Sally, irada, enquanto Luana as olhava.

            ‑           Ela entrou na nossa cela. Julguei que era a Sally e nem sequer olhei. Quando levantei os olhos elas estavam mesmo junto de mim e Jane empunhava uma navalha.

            ‑           Ainda tens muito que aprender. ‑ Mas ficara impressionada por Grace ter tido a presença de espírito suficiente para lhe deixar a mensagem. ‑ Estás bem? ‑ perguntou, sem saber até onde elas tinham chegado e olhou de relance para Luana para saber a resposta.

            ‑           Ela está bem. É estúpida, mas está bem. Não foram muito longe. Brenda estava demasiado ocupada a drogar‑se para ter ido muito longe. ‑ Ao longo dos anos tinham visto muitas raparigas serem violadas e inutilizadas para toda a vida por causa de paus de vassoura e de tacos de basebol. Mas Luana estava ainda aborrecida por aquela garota quase ter arrastado Sally para o caso. Fora Luana quem insistira em ir ela própria e deixar Sally com a incumbência de chamar as guardas, se fosse necessário. Luana cuidava bem de Sally. Estavam juntas há anos e ninguém se atrevia a incomodar qualquer delas, sobretudo por causa dos irmãos de Luana, que iam vê-la quando podiam. Estavam os quatro em liberdade condicional, mas todos sabiam o que poderiam fazer, se se zangassem. Dois viviam no Ilinóis, um em Nova Iorque e o outro na Califórnia. Nem mesmo Brenda e as suas amigas se atreviam a meter‑se com eles, ou com Luana e Sally. Grace ia agora ficar sob sua protecção.

            ‑           Que lhes disseste? ‑ perguntou Sally, quando se dirigiam para a cela que ela ocupava com Grace.

            ‑           Que ela agora é nossa ‑ respondeu calmamente Luana, olhando para Grace com aborrecimento. Tinha dito a

Sally que tivesse cuidado com ela. A miúda era tão verde

que seria capaz de deitar a casa abaixo. Quando chegaram à

cela, Grace começou a chorar. Respirava com dificuldade e

sabia que só no dia seguinte poderia pedir outro inalador.

‑ Não quero saber se estás assustada ou doente disse‑lhe Luana com um tom assustador. ‑ Se voltas a meter Sally em sarilhos, mato‑te. Não lhe deixas bilhetes nem lhe dizes quem te raptou. Também não te queixas a ela se te tirarem o remédio ou se te beliscarem o traseiro na bicha para o refeitório. Se tiveres algum problema, vais ter comigo. Não sei o que fizeste para te mandarem para aqui, nem quero saber. Mas uma coisa te posso dizer: não foi por teres miolos e se não os arranjas rapidamente ainda acabas por morrer. É tão simples quanto isso. Por isso trata de te tornares esperta. Estás a ouvir? E entretanto fazes tudo quanto Sally te disser para fazer. Se ela te disser para lamberes o chão ou limpares a latrina com as sobrancelhas, é isso mesmo que tu fazes. Percebes isso, pequena?

            ‑ Sim, sim, percebo... e muito obrigada... ‑ Sabia que com elas estaria em segurança. Sally já lhe provara isso. E daí em diante, se ela lhes fosse dedicada, protegê-la‑iam. Não queriam nada dela... nem sexo... nem dinheiro; tinham pena dela e ambas sabiam que ela estava deslocada ali.

            Mas a partir desse dia as coisas mudaram. As outras mantinham‑se à distância e mostravam respeito por Grace. Ninguém a incomodava, nem se metiam com ela, nem assobiavam sequer. Era como se não existisse. Grace levava uma espécie de vida encantada, fazendo o seu caminho por entre os leões e as cobras daquela selva, sem nada lhe suceder. As suas únicas amigas eram Sally e Luana.

            Grace foi‑se tornando religiosa na prisão. A asma incomodava‑a agora menos do que lhe sucedia desde há muitos anos. Iniciara o seu curso da universidade local por correspondência e dentro de dois anos poderia acabá‑lo. Em seguida, poderia estudar à noite até se formar. Tirava também um curso de secretária por correspondência para ter mais facilidade em arranjar emprego quando saísse dali e fosse para Chicago.

            Até David reparou na mudança que se operou nela. Quando a visitou, viu que se sentia mais confiante e que havia nela uma estranha paz. Isso permitiu‑lhe aceitar filosoficamente a notícia de que o apelo fora rejeitado e que ela teria de cumprir a pena de dois anos. Passara exactamente um ano desde que fora condenada e David tinha dificuldade em aceitar que tivessem perdido outra vez, mas ela pareceu aceitar o malogro com grande resignação. Foi Grace quem o consolou quando ele lhe disse que sentia muito ter falhado de novo, mas ela recordou‑lhe que a culpa não era dele: fizera o melhor que pudera e ela precisava apenas de conseguir sobreviver ali mais um ano. Não era fácil, mas Grace olhava agora para o futuro. David sentiu‑se comovido ao ouvi‑la, mas também desgostoso. Sabia que a visitava agora menos vezes por ela lhe recordar que não conseguira fazer mais. Tinha ainda uma estranha obsessão por ela. Grace era tão bonita, tão jovem, tão pura e tivera tão pouca sorte na sua curta vida. E ele, apesar do que sentia por ela, nada pudera fazer para alterar a situação. Isso fazia‑o sentir‑se mal, impotente e zangado consigo mesmo. Por vezes pensava que se tivesse conseguido ganhar a apelação, as coisas teriam sido diferentes. Talvez ele tivesse então coragem para lhe dizer que a amava. Mas tal como as coisas estavam, ele nada lhe dissera e Grace nem suspeitava dos sentimentos de David por ela.

            Molly já se apercebera desses sentimentos há um certo tempo, mas nunca lhe disse coisa alguma a esse respeito, mas o comportamento dele revelara‑lhe tudo. David falava constantemente de Grace. Molly dissera‑lhe que isso não era saudável e que ele tinha o "complexo do herói". Queria a todo o custo salvá‑la. Dissera‑lhe isso e muitas outras coisas verdadeiramente dolorosas. Mas a verdade é que, segundo ele, falhara em ajudar Grace. Por isso se sentia pior cada vez que a via. E durante o segundo ano que Grace passou em Dwight, David visitou‑a cada vez com menos frequência, pois não tinha agora motivos para o fazer. Já não podia apelar nem fazer nada por ela. Arranjara entretanto uma namorada, que lhe dizia constantemente que ele tinha de prosseguir a sua vida e deixar de estar obcecado com Grace.

            Grace sentiu a falta das visitas dele, mas compreendeu que ele nada mais podia fazer. E soube que o jovem tinha uma namorada que significava muito para ele. Falara disso a Grace da última vez que a vira e ela tivera a sensação de que ele se sentia culpado. Pensou que talvez a namorada de David tivesse ciúmes dela.

Molly continuava a visitá‑la e a presença dela era sempre uma alegria para Grace. Mas fora disso, Grace sentia‑se bem com as outras duas amigas, Luana e Sally. Passou o seu segundo Natal em Dwight com elas, comendo os bolos e os chocolates que Molly lhe enviara.

            ‑Já estiveste em França? ‑ perguntou Luana. Grace abanou a cabeça e sorriu. às vezes faziam‑lhe perguntas estranhas, como se ela viesse de outro planeta. E de certo modo viera. Luana saíra dos guetos de Detroit e Sally era do Arkansas. Luana gostava de a arreliar, chamando‑lhe a "Okie".

            ‑ Não, nunca estive em França ‑ respondeu Grace, sorrindo-lhes. Formavam um estranho trio, mas eram boas amigas. De uma certa e estranha maneira, eram para ela os pais que nunca tivera. Protegiam-na, vigiavam‑na, ralhavam com ela e ensinavam‑lhe as coisas que ela precisava de saber para sobreviver ali. E de uma maneira esquisita gostavam dela. Para elas, Grace era apenas uma garota, mas para ela havia esperança. Podia ter uma vida decente, um dia. Ficavam orgulhosas dela quando tinha boas notas. E Luana dizia‑lhe muitas vezes que ela viria a ser uma pessoa importante.

            ‑ Não creio ‑ dizia ela, sorrindo‑lhes.

            ‑ Que vais fazer quando saíres daqui? ‑ costumava perguntar Luana. E Grace respondia sempre a mesma coisa:

            ‑ Vou para Chicago arranjar emprego.

            ‑ Para fazer o quê? ‑ Luana gostava muito de ouvir falar daquilo. Estava ali por toda a vida e Sally tinha de cumprir mais três anos. Grace poderia sair daí a um ano e tinha uma vida inteira, um futuro, na sua frente. ‑ Devias ser modelo, como os que aparecem na televisão. Ou talvez entrares num desses programas de jogos.

            Grace ria sempre das ideias delas, mas a verdade é que havia coisas que gostaria de fazer. Gostava de psicologia e às vezes pensava em poder ajudar raparigas que estivessem a passar pelo que ela passava, ou mulheres que fossem como a sua mãe. Era difícil de dizer. Tinha apenas dezanove anos e faltava‑lhe ainda um ano de prisão.

            Logo a seguir ao Ano Novo, David foi visitar Grace.

Não ia vê‑la há três meses e mostrou‑se embaraçado desde o princípio. Começou por lhe pedir desculpa por não lhe ter mandado nada no Natal. Ao princípio Grace pensou se alguma coisa estaria a correr mal, se algo mudara para pior quanto à data da sua saída da prisão.

            ‑ Isso já não vai mudar ‑ respondeu ele afectuosamente. ‑ A não ser que chefie um motim ou agrida uma guarda. Mas não é provável que isso aconteça. Não, não é nada disso. ‑ Hesitou em lhe dizer, começando a fantasiar outra vez, mas de súbito, ao olhar para Grace, percebeu que a namorada tinha razão e que a sua obsessão por Grace era uma loucura. Ela era apenas uma criança, fora sua cliente e estava na prisão. ‑ Vou‑me casar ‑ disse, quase como se lhe estivesse a pedir desculpa.

            Grace ficou satisfeita por ele. Desconfiara, por pequenas coisas que ele dissera, que os sentimentos dele para com a sua nova namorada eram sérios.

            ‑           Quando? ‑ perguntou.

            ‑           Não antes de Junho. ‑ Mas havia mais. Grace olhou‑o, porque se apercebeu disso. ‑ O pai dela convidou‑nos a ambos para fazermos parte da sua firma de advogados, na Califórnia. Partirei no próximo mês. Quero instalar‑me em Los Angeles. Tenho de passar para o foro da Califórnia... queremos comprar uma casa... enfim... tenho muito que fazer antes de me casar.

            ‑           Oh! ‑ foi apenas uma breve exclamação que Grace deixou escapar, quando se apercebeu de que provavelmente jamais o veria, ou que pelo menos tão cedo não o faria. Mesmo depois dos dois anos de liberdade condicional, em que não poderia sair daquele estado, Grace não podia imaginar‑se a ir para a Califórnia. ‑ Espero que tudo lhe corra bem. ‑ Ficou subitamente entristecida com a ideia de perder um bom amigo. Tinha tão poucos, e aquele fora muito importante para si.

            David olhou‑a e segurou‑lhe numa das mãos.

            ‑           Se precisar de mim, virei, Grace. Dar‑lhe‑ei o meu número antes de partir. Vai correr tudo bem. ‑ Ela disse que sim com a cabeça, mas ficaram longo tempo de mãos dadas, calados, pensando no passado dela e no futuro dele e, subitamente, por breves instantes, a rapariga da Califórnia pareceu menos importante para David.

            ‑           Vou sentir a sua falta ‑ disse Grace, com tanta franqueza que lhe dilacerou o coração. Queria dizer‑lhe que a recordaria sempre como ela estava agora, jovem e bela, com os seus olhos enormes e a pele tão perfeita que parecia quase transparente.

            ‑ Também vou sentir a sua falta. Nem sequer consigo imaginar como será a vida na Califórnia. Tracv pensa que vou gostar... ‑ Mas agora parecia não estar bem certo disso.

            ‑ Ela deve ser fabulosa, para o fazer querer mudar‑se. Grace olhou‑o e ele teve de se controlar.

            David riu, pensando que deixar o Ilinóis não era caso para lhe dilacerar o coração, mas deixar Grace sim. Por pouco que a visse agora, gostava de saber que se encontrava suficientemente perto para a ajudar se fosse preciso.

            ‑ Se precisar da minha ajuda, telefone‑me. E Molly continuará a vir vê‑la. ‑ Ainda nessa manhã falara com ela.

            ‑ Bem sei. Ela também está a pensar em casar. ‑ David também ouvira dizer isso. Era chegada a altura de assentarem. E dentro de oito meses seria altura de Grace começar uma nova vida. Eles estavam já encaminhados. Tinham as suas carreiras, tinham histórias para contar, tinham os seus cônjuges. Grace teria de começar do zero quando saísse da prisão.

            Nessa tarde David Glass prolongou a sua visita mais do que o habitual e prometeu‑lhe que voltaria ali antes de partir para a Califórnia. Teve notícias dele mais duas vezes e dois meses depois recebeu uma carta dele, de L. A., pedindo‑lhe imensa desculpa por não ter tido tempo de a ir visitar antes de partir. Mas ambos sabiam que ele não tivera coragem para a voltar a ver. Teria sido demasiado doloroso e era altura de a deixar. Grace escreveu‑lhe algumas cartas nessa Primavera e depois deixou de lhe escrever. Sentiu instintivamente que o seu relacionamento com David Glass terminara.

            Grace falou disso a Molly uma ou duas vezes, disse‑lhe como se sentia triste quando pensava nele. Tinha tão poucos amigos que lhe custava na verdade perder um deles. E David fora muito importante para ela. Mas agora tinha outra vida.

‑ Ás vezes é preciso deixar as pessoas afastarem‑se - disse calmamente Molly. ‑ Sei como ele gostava de si, Grace, e sei como foi terrível para ele não conseguir livrá‑la da prisão nem ganhar a apelação.

            ‑ Ele fez um bom trabalho ‑ disse lealmente Grace. Ao contrário de quase todas as reclusas em Dwight, Grace não culpava o seu advogado por ter ido parar à prisão. - Sinto saudades dele, mais nada. Alguma vez viu a namorada dele?

            ‑ Uma vez ou duas ‑ respondeu Molly, sorrindo. Sabia que Grace não fazia ideia dos sentimentos de David por ela depois do julgamento. Umas vezes ela fora para ele como uma irmã mais nova, outras fora um sonho que ele sabia que nunca se realizaria, mas que desejava. Mas a namorada dele fora esperta. Molly achava que não fora por acaso que ela lhe pedira para ir para a Califórnia. ‑ É uma mulher muito esperta ‑ disse diplomaticamente. Não queria dizer abertamente a Grace que não gostava dela. Mas provavelmente seria boa para ele. Era esperta, enérgica e ambiciosa. E, segundo diziam as pessoas que a conheciam, uma excelente advogada.

            ‑ E quanto a si? Quando é que casa com Richard? - quis saber Grace.

            ‑ Em breve.

            Finalmente, em Abril, Molly e Richard marcaram a data. Casariam no dia 1 de Julho e iam passar a lua‑de‑mel ao Havai. Ela e Richard tinham passado seis meses a tentar coordenar as suas férias. Partiriam às 16 horas de Chicago para Honolulu, e chegariam lá às 22, hora local. E dois meses e meio depois disso Grace estaria livre. Era difícil pensar que tinham passado quase dois anos. De certo modo, parecia‑lhe que só tinham passado uns momentos, noutras alturas era uma vida inteira.

            Na véspera do casamento, Molly foi visitar Grace. Ela prometera passar o Dia de Acção de Graças com eles e talvez o Natal. E no dia do casamento, Grace sentou‑se na sua cela quase todo o dia, pensando neles, desejando‑lhes felicidades e conhecendo todos os seus planos, todos os pormenores.

Vira fotografias do vestido, sabia quais seriam os convidados. Sabia até o número do voo. Quando chegassem a nolulu ficariam instalados no Outrigger Waikiki. Grace po dia imaginar tudo isso. Era como se estivesse a assistir ao casamento até à hora em que se sentou a ver o noticiário com as suas companheiras, antes de serem fechadas as celas.

            Falava com Luana a respeito de trabalhar com ela no dia seguinte, quando ouviu qualquer coisa a respeito da queda de um avião da TWA que explodira no ar uma hora antes, sobre as montanhas Rochosas. Desconheciam-se os pormenores, mas a companhia aérea receava que se tratasse de uma bomba e não havia sobreviventes.

            ‑           O que disseram? ‑ perguntou Grace, voltando‑se para a mulher que se encontrava ao seu lado. ‑ Onde estavam eles?

            ‑           Foi sobre Denver, parece. Pensam que foram terroristas. Era um voo de Chicago para Honolulu, via São Francisco. Grace ficou fria e sentiu uma dor no coração. Mas não eram eles. Não podiam ser. Não podia ser... depois de tantos anos... na lua‑de‑mel... a sua única amiga... a única pessoa em quem podia confiar e que a receberia... Fez‑se terrivelmente pálida e começou a respirar com dificuldade. Sally viu isso e deu-lhe o inalador, pois compreendeu imediatamente o que Grace receava.

            ‑           Provavelmente não era o avião deles, sabem. Há uma dúzia de voos para Honolulu todos os dias. ‑ Sally sabia da lua‑de‑mel de Molly. Aborrecera‑se mortalmente a ouvir Grace a falar do casamento durante dias e agora estava preocupada com eles e queria tranquilizar a jovem. Realmente era pouco provável que fosse o avião deles. Mas uma semana depois, após sete noites sem dormir, Grace soube. Escrevera para o hospital, a perguntar pela Dra. Molly, e recebera uma carta triste explicando que a Dra. York e o Dr. Haverson tinham morrido no desastre de avião de que ela tivera conhecimento, quando partiam para a sua lua‑de‑mel. A carta acrescentava que todo o hospital os chorava.

            Grace deitou‑se nessa noite e três dias depois ainda não se levantara. Sally encobrira‑a o melhor que pudera e Luana igualmente. Diziam que ocorrera de novo uma crise de asma muito forte e que nem os comprimidos nem o inalador a aliviavam. O inalador era agora familiar a toda a gente e ela já não se preocupava. Sob a vigilância de Lu, ninguém se atrevia a tirar‑lho. Mas Grace nem sequer falava com elas. A enfermeira foi à cela e disse‑lhe que não estava a sofrer uma crise asmática. Grace não lhe respondeu. Limitou‑se a ficar deitada a olhar para o tecto, recusando‑se a levantar‑se ou até a responder.

            A enfermeira disse‑lhe então que ela teria de voltar para o trabalho no dia seguinte e que tinha sorte em não a terem ainda mandado para a solitária por não se apresentar ao trabalho durante dois dias. Mas ela estava a abusar da sua sorte. No dia seguinte não fez qualquer esforço para se levantar, apesar das súplicas e das ameaças de Luana. Só queria estar ali deitada, morta, como Molly.

            Levaram‑na para a solitária nesse dia, sem roupa e só com uma refeição por dia. Quando voltou, vinha mais magra e pálida, mas Sally pôde ver pelos olhos dela que Grace estava viva outra vez, profundamente ferida, é certo, mas de novo com vontade de viver.

            Depois desse dia, Grace nunca mais voltou a falar em Molly. Não falava nunca das pessoas do passado; nem de David, nem dos pais, nem de Molly. Vivia apenas no dia‑a‑dia, e de vez em quando falava em ir para Chicago.

            Chegou finalmente o dia e Grace não sabia se estava preparada para isso. Não tinha planos nem roupas nem amigos. Apenas um pouco de dinheiro que lhe devia durar uma vida inteira. Tinha também o diploma do curso que tirara por correspondência e na prisão tornara‑se forte e paciente. Era alta, magra e forte. Luana fizera‑a levantar pequenos pesos e correr e isso realmente tonificara o seu corpo. Era muito bonita com o seu cabelo de um louro‑escuro preso num rabo‑de‑cavalo na nuca. Quando a libertaram vestia umas calças de ganga e uma camisola branca e parecia uma estudante universitária como outra qualquer, fresca e jovem, com os seus vinte anos, mas havia nela uma vida inteira de experiência e uma mão‑cheia de pessoas no seu coração que nunca iria esquecer, como Molly, Luana e Sally.

‑           Tem cuidado contigo ‑ disse esta última com voz rouca, quando ela se despedira. Grace abraçara ambas, apertando‑as contra o coração. E Luana beijara‑a na face, como uma criancinha a quem mandassem brincar.

            ‑ Tem cuidado, Grace. Abre bem os olhos, confia em ti, nos teus instintos... hás‑de ser alguém.. podes vir a ser alguém.

            ‑ Gosto muito de vocês ‑ murmurou Grace. ‑ Gosto muito das duas. Sem vocês nunca teria conseguido sobreviver aqui. ‑ E era verdade. Elas tinham‑na salvo.

            Grace beijou Sally na face e ela mostrou‑se embaraçada com isso.

            ‑ Não faças nada estúpido.

            ‑ Hei‑de escrever‑lhes ‑ prometeu Grace, mas Sally abanou a cabeça. Sabia que não seria assim. Vira muitas amigas chegarem e partirem. Quando se partia acabava‑se... até à próxima vez.

            ‑ Não escrevas ‑ disse Luana brutalmente. ‑ Não queremos ter notícias tuas. E tu não nos queres conhecer. Esquece‑nos. Vai viver a tua vida, Grace. Esquece‑nos, põe isto tudo para trás das costas. Não precisas de levar nada disto contigo.

            ‑           Vocês são minhas amigas ‑ repetiu Grace com lágrimas nos olhos, mas Luana abanou novamente a cabeça.

            ‑           Não, não somos, rapariga. Não passamos de fantasmas. Somos apenas recordações. Lembra‑te de nós de vez em quando e fica satisfeita por não estares aqui. E não voltes mais, nunca mais, ouviste? ‑ Agitou um dedo para Grace e ela riu por entre as lágrimas. O que Luana dissera eram bons conselhos, mas ela não podia deixá‑las ali e esquecê‑las. Ou teria de ser assim? Teria de as deixar todas para trás para seguir em frente? Desejava ter perguntado isso a Molly. - Agora, desaparece! ‑ Luana dera-lhe um pequeno empurrão para ela avançar e alguns minutos mais tarde passava pelos portões da cadeia a caminho da estação de autocarros na cidade. Elas ficaram junto do muro, acenando‑lhe, e ela voltou‑se e acenou‑lhes também, da janela, até deixar de as ver.

 

A viagem de autocarro desde Dwight a Chicago demorou menos de duas horas. Tinham-lhe dado cem dólares em dinheiro ao sair da prisão e David abrira‑lhe uma pequena conta à ordem antes de ir para oeste. Tinha ali depositados cinco mil dólares e o restante encontrava‑se numa conta‑poupança na qual ela não queria mexer. Tinha de dizer às autoridades para onde ia e onde ficaria e devia apresentar‑se a essa entidade dentro de dois dias. Em Dwight deram‑lhe o nome da pessoa a quem se devia dirigir, assim como o endereço e o telefone: Louis Marquez. E uma das raparigas de Dwight indicara-lhe onde poderia encontrar um hotel barato.

A estação de autocarros em Chicago ficava na Randolphe

            e Dearborne. Os hotéis de que lhe haviam falado ficavam apenas a alguns quarteirões de distância. Mas quando Grace viu o género de pessoas que se encontravam nas proximidades do hotel, repugnou‑lhe lá entrar. Havia prostitutas a entrar e a sair, pessoas que alugavam quartos por uma hora, e em cima da secretária da recepção daquele em que por fim

            entrou viu duas baratas. Nem mesmo em Dwight vira tal coisa. Havia muito mais asseio.

‑           Têm preços semanais?

‑           Certamente. Sessenta e cinco dólares por semana ‑ disse o homem sem pestanejar. Grace achou caro, mas não sabia onde procurar Outro hotel. Alugou um quarto para pessoa só com casa de banho privativa no quarto andar, por sete dias e depois saiu para ir procurar um sítio onde comer. Dois vagabundos pediram-lhe uns trocos e uma rapariga da rua olhou‑a de lado como se estivesse intrigada com a presença de uma pessoa como Grace ali. Mal sabiam que uma rapariga "como ela" acabara de sair da prisão de Dwight. E embora a vizinhança lhe parecesse desagradável, Grace sentia‑se bem por estar livre. Era formidável poder andar outra vez nas ruas, olhar o céu, entrar num restaurante, numa loja, comprar um jornal, uma revista, andar de autocarro. Deu uma volta por Chicago nessa noite, admirada com a beleza da cidade. E, sentindo‑se esbanjadora, meteu‑se num táxi para regressar ao hotel.

            As prostitutas ainda lá estavam, e os chulos, mas ela não lhes prestou atenção. Limitou‑se a pedir a chave do quarto e foi para cima. Fechou a porta à chave e leu os jornais que comprara. E no dia seguinte, com o jornal na mão, começou a procurar emprego.

            Foi a três agências e em todas queriam saber que experiência ela tinha, onde trabalhara anteriormente, onde vivera. Ela respondeu que viera de Watseka, que fizera aí o curso secundário e que depois tirara um curso de secretariado. Sabia estenografia e dactilografia. Confessou que não tinha experiência e portanto não podia dar referências. Disseram‑lhe que não a podiam ajudar a arranjar um lugar de secretária sem ter referências. Talvez como recepcionista, empregada de mesa ou vendedora. Com vinte anos, sem experiência e sem referências, não tinha grandes oportunidades, e nas agências não se coibiram de lho dizer.

            ‑ Já pensou em ser modelo? ‑ perguntou‑lhe uma funcionária na segunda agência. E para se mostrar simpática, escreveu os nomes de duas agências de modelos. ‑ Pode ser que lhe dêem trabalho. A sua aparência deve agradar‑lhes. - Sorriu para Grace e prometeu telefonar‑lhe para o hotel se aparecesse alguma oferta de emprego em que não exigissem experiência, mas não lhe deu grandes esperanças.

            Depois disso, Grace dirigiu‑se para o endereço onde tinha de se apresentar por causa da liberdade condicional, e, ao

vê-lo, foi como se tivesse voltado de novo para Dwight, ou pior. Era incrivelmente deprimente e dessa vez Grace não tinha Sally e Luana para a protegerem.

            Louis Marquez era um homenzinho baixo, untuoso, com uns olhinhos pequenos que pareciam contas, uma calvície avançada e bigode. Quando viu Grace entrar no seu escritório, parou com o que estava a fazer e olhou‑a com assombro. A maior parte do seu tempo era passada com drogados e prostitutas e com algum traficante ocasional. Era raro ver ali delinquentes juvenis e mais raro ainda ver pessoas com acusações tão sérias como as dela, e ainda por cima com aquele aspecto e idade.

Grace comprara duas saias, um vestido azul‑escuro para ir procurar emprego e um fato de saia e casaco com uma gola de cetim cor‑de‑rosa. Nesse dia vestia o vestido azul-escuro, pois tinha andado à procura de trabalho todo o dia e estava cheia de dores nos pés por causa dos sapatos de salto alto.

            ‑ Em que posso ajudá‑la? ‑ perguntou, parecendo assombrado. Tinha a certeza de que ela entrara ali por engano, mas estava satisfeito com isso.

            ‑ Senhor Marquez?

            ‑ Sim? ‑ Olhou‑a avidamente, mal podendo crer na sua boa sorte. E os seus olhos abriram‑se ainda mais ao vê‑la tirar da carteira o impresso, que lhe era tão familiar, da liberdade condicional. Olhou‑a de relance e depois fitou‑a, sem poder crer naquilo que lera. ‑ Esteve em Dwight? - Ela disse que sim com a cabeça, mostrando‑se calma. - É um sítio bastante mau. Como conseguiu suportar aquilo durante dois anos?

            ‑ Muito tranquilamente ‑ respondeu Grace, com um sorriso. Marquez reparou então que ela se mostrava muito senhora de si embora tivesse pouca idade. Olhando‑a melhor, com o seu vestido azul‑escuro, era difícil acreditar que ela tivesse apenas vinte anos. Aparentava uns vinte e cinco. O homem ficou ainda mais surpreendido quando leu o resto do impresso.

            ‑ Homicídio voluntário? Teve uma zanga com o seu namorado?

            Grace não gostou da maneira como ele disse aquilo e respondeu muito friamente:

            ‑ Não, com o meu pai.

            ‑ Estou a ver que não é pessoa para graças. ‑ O homem observava‑a com os seus olhinhos escuros. Estava a ver exactamente até onde poderia chegar. ‑ Tem namorado?

            Grace não sabia bem que dizer, nem por que motivo ele lhe fazia a pergunta.

            ‑ Tenho amigos. ‑ Pensava em Luana e Sally, que eram as suas únicas amigas. E também em David, claro, mas ele estava muito longe. Mas não queria que Marquez soubesse que ela não tinha ninguém.

‑           Tem aqui família?

            Dessa vez Grace abanou a cabeça.

            ‑ Não, não tenho.

            ‑ Onde é que vive? ‑ Ele tinha o direito de lhe fazer aquelas perguntas e ela sabia isso. Disse‑lhe o nome do hotel e ele tomou nota da morada. ‑ Não é grande vizinhança para uma rapariga como você. Muitos proxenetas. Talvez já tenha reparado. ‑ Depois, com um brilho maldoso nos olhos: ‑ Se se meter em sarilhos, volta para Dwight por mais dois anos. Se fosse a si não pensava em ganhar qualquer dinheiro extra. ‑ Grace teve vontade de o esbofetear, mas a prisão ensinara‑a a ser paciente. Não lhe respondeu.

- Anda à procura de trabalho?

            ‑ Estive em três agências e estou à procura de anúncios nos jornais. Tenciono lá ir amanhã, mas quis vir aqui primeiro. ‑ Não queria atrasar‑se em apresentar‑se ali, com medo que ele lhe causasse sarilhos. E não tinha intenção de voltar para Dwight. Nem por dois anos, nem sequer por dois minutos.

            ‑ Posso dar‑lhe algum trabalho aqui ‑ disse pensativamente Marquez. Gostaria muito de ter ali alguém como ela e estava na situação ideal. Ela teria um medo terrível dele e faria tudo o que ele quisesse. Quanto mais pensava nisso, mais a ideia lhe agradava. Mas Grace aprendera muito e já não se deixaria apanhar pelos Louis Marquez deste mundo. Esses tempos tinham acabado.

            ‑ Muito obrigada, senhor Marquez ‑ disse calmamente. ‑ Se as minhas oportunidades falharem, falarei consigo.

            ‑ Se não arranjar trabalho posso mandá-la de novo para Dwight ‑ disse maldosamente. Grace forçou‑se a não lhe responder. ‑ Posso reenviá‑la sempre que queira ‑ insistiu ele. ‑ Não se esqueça disso. Se não conseguir encontrar emprego, se não conseguir manter‑se a si própria, se infringir as condições da liberdade condicional. Há imensas situações em que poderei mandá‑la de novo para lá. ‑ Havia sempre alguém a ameaçá‑la, a tentar arruinar‑lhe a vida, a tentar fazer chantagem com ela. E quando Grace o olhou com ar infeliz, pensando no porco que ele era, o homenzinho abriu uma gaveta, retirou de lá uma espécie de chávena com tampa e entregou‑lha. ‑ Urine para aí ‑ disse. ‑ Há uma casa de banho de senhoras do outro lado do corredor.

            ‑ Agora?

            ‑ Com certeza. Porque não? Está drogada? ‑ Marquez parecia ter esperanças de que estivesse.

            ‑ Não ‑ respondeu Grace, irritada. ‑ Mas porquê a análise? Nunca tive nada a ver com drogas.

            ‑ Esteve presa por homicídio. E agora está em liberdade condicional. Tenho o direito de lhe pedir tudo o que ache necessário. Agora peço uma análise de urina. Vai urinar para aí ou recusa‑se a fazê‑lo? Posso mandá‑la de novo para a prisão por causa disso, sabe?

            ‑           Está bem. Está bem. ‑ Grace levantou‑se e dirigiu‑se para a porta, pensando que ele era um malandro. ‑ Normalmente a minha secretária teria de a vigiar, mas hoje ela saiu mais cedo. Para a próxima será vigiada, mas desta vez passa assim.

            ‑ Obrigada ‑ Grace olhou‑o com mal disfarçada ira. Mas ele tinha‑a pela garganta, tal como toda a gente a tivera durante anos: os pais, Frank Wills, a Polícia de Watseka, as guardas de Dwight e até Brenda e as amigas dela, até que Luana e Sally a haviam salvo. Mas ali não tinha quem a salvasse. Tinha de se salvar a si própria e enfrentar vermes como Louis Marquez.

            Grace voltou cinco minutos depois com a chávena cheia e colocou‑a num equilíbrio precário em cima da secretária, com a tampa mal fechada. Tinha esperanças de que ele a entornasse por cima dos papéis.

            ‑ Volte daqui a uma semana ‑ disse Marquez com ar casual, olhando‑a de novo com um interesse óbvio. ‑ Informe‑me quando se mudar, ou quando arranjar emprego. Não saia do estado. E não vá a parte nenhuma sem me dizer.

            ‑ Muito bem. Obrigada. ‑ Levantou‑se para sair e ele ficou a ver as suas ancas esbeltas e as longas pernas desaparecerem. Um minuto depois levantou‑se e despejou a urina no lavatório. Não estava interessado na análise de urina. Quisera apenas humilhá‑la e fazê‑la compreender que a podia obrigar a fazer o que ele quisesse.

            Grace ia furibunda quando se meteu no autocarro para regressar ao hotel. Louis Marquez representava tudo contra o que ela sempre lutara, e agora não ia desistir de lutar contra ele. Não permitiria que ele a enviasse fosse para onde fosse. Preferia morrer.

            Nessa noite percorreu as Páginas Amarelas à procura de agências de modelos. Pensou que talvez pudesse trabalhar como recepcionista ou em qualquer outro trabalho de escritório. Fez uma longa lista de locais onde poderia ir e gostava de saber qual seria o melhor. Mas não tinha maneira de o fazer. Apenas poderia ir experimentar.

            No dia seguinte levantou‑se às sete e estava ainda de camisa de noite, a lavar os dentes, quando ouviu alguém bater

à porta. Devia ser um proxeneta ou um prostituto. Alguém

que se enganara no quarto. Pôs uma toalha por cima da camisa de noite e ainda com a escova de dentes na mão, abriu

a porta. Era Louis Marquez.

            ‑           Que deseja? ‑ Por um instante quase não o reconheceu, mas logo a seguir lembrou‑se.

            ‑           Vim ver onde vive. Na minha posição tenho o direito de o fazer.

            ‑           Que simpático ‑ disse Grace, zangada. ‑ Vejo que começa a trabalhar cedo! ‑ Que julgaria ele que estava a fazer? Aquela situação fez‑lhe recordar o pai e Grace sentiu‑se estremecer.

            ‑           Não se importa que eu entre? ‑ perguntou com voz suave. ‑ Quis certificar‑me se vivia aqui.

            ‑           Vivo ‑ disse ela friamente, abrindo mais a porta. Não o convidaria a entrar, nem ia fechar‑lhe a porta na cara. ‑ Se me importo ou não, depende do que o senhor tem em mente vindo aqui. ‑ Grace olhou‑o sem pestanejar.

            ‑ Que quer dizer com isso?

            ‑ Sabe muito bem o que quero dizer. Porque veio aqui? Para ver onde eu vivo? Óptimo. Já viu. E agora que espera? Não tenciono servir o pequeno‑almoço.

            ‑ Não se arme em esperta comigo, sua cabra. Posso fazer tudo quanto quiser consigo. Não se esqueça.

            A maneira como ele falou fez com que qualquer coisa explodisse dentro dela e Grace deu um passo em frente, pôs a cara junto da dele e fitou‑o com uma expressão furiosa.

‑ Matei o último homem que me disse isso e quis agir de acordo com o que dizia. Não se esqueça, senhor Marquez. Estamos entendidos agora?

            Marquez estava furioso, mas fora apanhado em falso e sabia‑o. Fora ali para ver onde poderia chegar, para saber se ela tinha muito medo dele. Mas Luana ensinara‑a bem e ela não se deixara amedrontar.

            ‑           É melhor ter cuidado com o que me diz ‑ respondeu ele num tom malévolo, hesitando à entrada da porta. Não vou admitir que uma cabra como você, que matou o seu próprio pai, me fale desse modo. Pode pensar que agora está livre, mas lembre‑se de que eu a posso mandar para Dwight mais dois anos e que não hesitarei em fazê‑lo.

            ‑ É bom que tenha uma razão bem forte para isso, Marquez, ou eu não irei a parte alguma só por você aparecer no meu hotel às sete da manhã. ‑ Grace sabia exactamente o que ele queria dali. Na verdade, ela surpreendera‑o. Sempre pensara que se mostrasse mais amedrontada. Ficara desapontado, mas merecera a pena e, se ela alguma vez mostrasse sinais de fraqueza, esmagá‑la‑ia como uma barata. ‑ Que mais deseja? Quer que eu urine para dentro de um copo? Terei muito prazer em o fazer. ‑ Olhou‑o friamente e sem dizer mais uma palavra, Marquez voltou‑se e começou a descer as escadas do hotel. Ainda não terminara. Estava sujeita a ele durante mais dois anos e tinha muito tempo para a atormentar.

            Depois de ele sair, Grace vestiu o fato de saia e casaco preto com a gola cor‑de‑rosa e penteou‑se com todo o cuidado. Queria ter um aspecto que pudesse agradar às agências de modelos. Queria mostrar‑se calma, segura de si e bem vestida, mas não tão vistosa que pudesse competir com os modelos. Nas primeiras duas agências disseram‑lhe que não tinham vagas e mal pareceram reparar nela. A terceira foi a Swanson's, em Lake Shore Drive. Tinham uma sala de espera luxuosa com grandes fotografias dos seus modelos. A casa fora decorada por um decorador conhecido e Grace sentia‑se um pouco nervosa quando a chamaram para um dos gabinetes, para ser entrevistada por Cheryl Swanson. Ela contratava pessoalmente todos os empregados da casa, e o mesmo fazia o marido, Bob. Os empregados da Swanson's tinham todos uma certa classe. Os seus modelos eram os melhores da cidade, disputados pelos fotógrafos profissionais e pelos publicitários. Tudo na agência sugeria estilo, êxito e beleza. Enquanto observava o que a rodeava, na salinha onde esperava por Cheryl, Grace sentia‑se especialmente satisfeita por ter vestido o fato de saia e casaco estilo Chanel.

            Momentos depois entrou na sala uma mulher alta, de cabelos escuros, elegantemente vestida com um sóbrio vestido preto. Usava uns grandes óculos e tinha o cabelo preso num carrapito, na nuca. Não era bonita, mas muito atraente.

            ‑ Miss Adams? ‑ sorriu para Grace e avaliou‑a com um olhar: era muito nova e algo assustada, mas parecia inteligente e tinha bom aspecto. ‑ Sou Cheryl Swanson.

            ‑ Como está? Obrigada por me receber. ‑ Grace apertou‑lhe a mão por cima da secretária e sentou‑se outra vez, sentindo a asma começar a encher‑lhe o peito, e rezou para não ter agora uma crise. Era terrível ter de andar de um lado para o outro a responder a anúncios e a tentar convencer as pessoas a contratá‑la. Há perto de uma semana que andava naquilo e ainda não tivera qualquer esperança de arranjar um emprego. Sabia que se no fim da semana seguinte nada tivesse conseguido, o Sr. Marquez lhe arranjaria sarilhos.

            ‑           Informaram‑me que está interessada em trabalhar como recepcionista ‑ disse Cheryl, olhando de relance para o bilhete que a sua secretária lhe entregara. ‑ Aqui é um lugar importante. É o primeiro rosto que quem cá vem vê, a primeira voz. É o primeiro contacto com a Swanson. É importante que tudo o que possa fazer represente quem somos e o que somos. Conhece a agência? ‑ perguntou Cheryl Swanson, tirando os óculos e observando Grace mais de perto. Ela tinha boa pele, uns olhos grandes e um belo cabelo. Talvez ela estivesse interessada em ser modelo e quisesse tentar entrar pela porta das traseiras. Mas provavelmente isso não seria necessário. ‑ Estaria interessada em ser modelo, Miss Adams? ‑ quis saber, pensando que adivinhara as intenções daquela jovem. Mas Grace apressou‑se a abanar a cabeça em resposta à pergunta dela. Era a última coisa que desejava, homens à volta dela, a apalparem‑na, julgando que ela seria uma presa fácil por ser modelo, ou fotógrafos a fotografá‑la em fato de banho ou menos. Não, obrigada.

            ‑           Não, não gostava. Eu queria um trabalho de escritório.

            ‑           Talvez devesse ir além disso. ‑ Olhou de novo para a nota que tinha na sua frente. ‑ Grace... talvez devesse pensar em trabalhar como modelo. Levante‑se, por favor. - A jovem obedeceu, relutantemente, e Cheryl ficou satisfeita ao ver como ela era alta. Mas Grace parecia prestes a chorar ou a fugir dali aos gritos.

            ‑ Não quero ser modelo, senhora Swanson. Gostava apenas de atender o telefone, escrever à máquina, fazer recados... o que for preciso... tudo menos ser modelo.

            ‑           Porquê? A maior parte das raparigas sonha com a carreira de modelo. ‑ Mas não Grace. Ela queria uma vida diferente, uma verdadeira família, um emprego real. Não desejava iniciar a sua nova vida a perseguir o arco‑iris.

            ‑           Não é isso que eu quero. Ambiciono uma coisa... mais... mais sólida.

            ‑           Bem ‑ lamentou Cheryl, - temos aqui uma vaga para um trabalho desse género. Mas acho que é uma pena, pois você tem qualidades para ser modelo. A propósito, que idade tem?

            Grace pensou em lhe mentir, e decidiu não o fazer.

            ‑           Tenho vinte anos. Tenho o curso secundário, sei dactilografar, mas não muito depressa. E esforçar‑me‑ei por trabalhar bem, juro. ‑ Estava a pedir que lhe dessem o emprego e Cheryl sorriu‑lhe. Era uma rapariga sensacional e mal empregada a atender telefones atrás de uma secretária. Mas por outro lado tinha o aspecto certo para aquilo que a Swanson se propunha oferecer aos seus clientes. Parecia uma das suas modelos.

            ‑           Quando pode começar? ‑ perguntou Cheryl com um sorriso maternal. Simpatizava com ela.

            ‑ Hoje. Agora. Quando desejar que eu comece. Cheguei há pouco a Chicago.

‑ De onde veio? ‑ perguntou com interesse, mas Grace não lhe queria dizer que era de Watseka. Ela podia ter sabido do caso da morte do pai dela, dois anos antes. E também não queria dizer que viera de Dwight, para o caso de ela conhecer essa prisão.

            ‑ De Taylorville ‑ mentiu. Era uma cidadezinha que ficava a cerca de trezentos quilómetros de Chicago.

            ‑ Os seus pais vivem lá?

            ‑ Os meus pais morreram ambos quando eu estava na escola secundária. ‑ Era muito perto da verdade e suficientemente vago para não lhe causar problemas.

            ‑ Não tem aqui família? ‑ perguntou Cheryl Swanson, parecendo preocupada com ela. Mas Grace limitou‑se a abanar a cabeça.

‑ Ninguém.

            ‑ Normalmente pedir‑lhe‑ia referências, mas visto ser o seu primeiro emprego não faz muito sentido pedi‑las, não é? Receberia apenas uma carta de um dos seus professores da escola secundária dizendo quais as suas qualidades. Isso poderei eu avaliar aqui. Bem‑vinda à familia, Grace. ‑ A sua nova patroa deu‑lhe uma palmadinha amigável num braço. - Espero que se sinta feliz aqui durante muito tempo, pelo menos até se decidir a iniciar uma carreira de modelo - acrescentou, rindo. Oferecera‑lhe o lugar de recepcionista a ganhar cem dólares semanais e isso era tudo quanto Grace desejava.

            Cheryl levou‑a até uma sala grande e apresentou‑a a toda a gente. Havia seis agentes e três secretárias, bem como contabilistas e umas pessoas que Grace não percebeu o que faziam. Depois conduziu‑a por um corredor, ao fundo do qual havia uma porta. Cheryl introduziu Grace num sumptuoso escritório todo decorado com cabedal cinzento e camurça. Aí apresentou‑a ao marido, Bob Swanson. Pareciam ambos ter uns quarenta e cinco anos e Cheryl já lhe dissera que eram casados há vinte, mas não tinham filhos. "Os modelos são os nossos filhos", explicara.

            Bob Swanson avaliou Grace com um olhar e fitou‑a com um sorriso afectuoso que de facto a fez sentir‑se parte da família. Depois levantou‑se, contornou a secretária e apertou a mão a Grace. Era muito alto, tinha cabelo escuro e olhos azuis. Parecia um actor de cinema. Com efeito, fora‑o em criança e a seguir modelo, tal como Cheryl, em Nova Iorque. Mais tarde mudaram‑se para Chicago e estabeleceram‑se.

            ‑ Disseste "recepcionista" ou uma nova modelo? - Sorriu abertamente e Grace sentiu‑se finalmente em casa. Eram de facto pessoas simpáticas.

            ‑ Foi isso que eu lhe disse ‑ respondeu Cheryl, sorrindo. Tornava‑se imediatamente óbvio que gostavam um do outro e que trabalhavam bem em conjunto. ‑ Mas Grace é uma rapariga obstinada. Diz que quer um lugar de secretária.

            ‑ O que é que a tornou tão esperta? ‑ Swanson riu ao olhar Grace. Ela era realmente uma rapariga bonita e a mulher tinha razão: podia ser modelo. ‑ Nós levámos anos a descobrir isso. Aprendemos à nossa custa.

            ‑ Sei que nunca seria boa nesse trabalho. Sinto‑me feliz nos bastidores, pondo as coisas a funcionar. ‑ Sempre soubera governar a casa da mãe e em Dwight organizara na perfeição a sala de abastecimento. Tinha jeito para organizar as coisas e estava preparada para trabalhar longas horas para que o trabalho fosse feito.

            ‑ Bem‑vinda a bordo, Grace. Vamos ao trabalho! Recostou‑se na sua cadeira outra vez e acenou‑lhes quando elas saíram, ficando a vê‑las afastarem‑se pelo corredor. Havia qualquer coisa de interessante naquela rapariga, mas ainda não sabia bem o quê. Gabava‑se de possuir um sexto sentido para conhecer as pessoas.

            Cheryl pediu a duas das secretárias para mostrarem a Grace como funcionava o sistema telefónico e as máquinas do escritório. Ao meio‑dia parecia que ela estivera ali toda a vida. A última recepcionista deixara‑as na semana anterior e desde então tinham‑se remediado com temporárias. Mas era um alívio para toda a gente ter ali uma pessoa eficiente, para fazer telefonemas, marcar entrevistas e fazer os registos nas agendas. Era um trabalho complicado que por vezes requeria um certo malabarismo, mas no fim da primeira semana Grace sabia que gostava de ali estar. Era um emprego perfeito.

            Quando Grace se apresentou a Louis Marquez, no fim da semana, ele não teve nada que lhe censurar. Grace levava uma vida respeitável e andava à procura de um pequeno apartamento para se mudar. Gostaria de viver próximo do local de trabalho, mas os apartamentos nas proximidades de Lake Shore Drive eram terrivelmente caros. Procurava nos jornais, na esperança de descobrir um, quando uma tarde quatro raparigas modelos conversavam na sala à espera da confirmação de uma passagem. Grace estava sempre pronta a admirar a beleza delas e gostava de apreciar o modo como se arranjavam. Todas tinham cabelos fabulosos, unhas impecáveis, a maquilhagem parecia sempre feita por profissionais e as roupas delas faziam com que as olhassem com inveja. Mas continuava a não ter vontade de fazer o género de trabalho que elas faziam. Não queria fazer comércio com o seu aspecto, nem queria atrair sobre si todas as atenções. Emocionalmente, não se sentia preparada para isso. Não poderia suportar tal coisa e sabia‑o. Nada lhe agradava mais do que não ser o centro das atenções. Mas as modelos incluíam‑na sempre nas suas conversas. Dessa vez falavam em alugar uma casa que tinham visto. Grace achava que devia ser fabulosa, mas claro que estava fora do seu alcance, pois elas falavam em mil dólares. Tinha cinco quartos e elas só precisavam de quatro. Ou talvez de menos um, porque uma delas estava a pensar em casar.

            ‑           Precisamos de outra pessoa para partilhar a casa connosco ‑ disse uma rapariga chamada Divina, mostrando‑se desapontada. Era uma brasileira espectacular. ‑ Está interessada? ‑ perguntou casualmente a Grace, mas esta não podia imaginar‑se a viver com elas, nem a pagar uma renda que seria acessível para as modelos.

            ‑           Estou à procura de uma casa ‑ disse com franqueza Grace ‑, mas não creio que possa pagar uma renda como a que querem pagar ‑ respondeu.

            ‑           Se dividirmos por cinco, são apenas duzentos dólares para cada uma ‑ disse uma modelo alemã, chamada Brigitte, que tinha apenas vinte e dois anos. ‑ Poderia pagar isso, Grace? ‑ Grace gostava do sotaque dela.

            ‑           Sim, se deixar de comer. ‑ Ficaria sem metade do seu salário, o que não lhe deixaria muito para comida e outras despesas. E detestava gastar as suas economias, mas sabia que poderia fazê‑lo, se precisasse. E talvez merecesse a pena para viver num local agradável, numa bela casa e com pessoas decentes. ‑ Deixem‑me pensar um pouco.

            Uma das raparigas americanas riu e olhou para o relógio.

            ‑           Óptimo. Tem até às quatro horas para se decidir. às quatro e meia vamos ver outra vez a casa e dizer se a queremos. Quer vir?

            ‑           Gostava muito, se puder sair a essa hora. Terei de pedir a Cheryl.

            Mas quando Grace se lhe dirigiu, Cheryl ficou encantada. Horrorizara‑a saber que Grace vivia num hotel manhoso enquanto procurava um apartamento. Chegara mesmo a convidá‑la para o seu apartamento enquanto procurava um, mas Grace não aceitou.

            ‑           Graças a Deus! ‑ exclamou Cheryl e praticamente empurrou Grace para fora da porta com as outras. Eram boas raparigas e talvez se vivesse como elas Grace se decidisse pela carreira de modelo. Cheryl ainda não desistira dessa ideia, mas por outro lado descobrira que a capacidade de organização de Grace era uma bênção.

            A casa revelou‑se espectacular. Tinha cinco quartos bastante grandes, três casas de banho, uma cozinha razoável e uma sala cheia de sol, com vista para o lago. Tinha tudo o que elas desejavam e nessa mesma tarde assinaram o contrato de arrendamento. A casa estava parcialmente mobilada com um sofá e algumas cadeiras e um conjunto de casa de jantar. As outras raparigas disseram que tinham mobílias suficientes para o resto e Grace teria apenas de comprar uma cama e alguns móveis para o seu próprio quarto. Era incrível. Tinha um emprego, uma casa para viver e amigas. Voltou‑se para ver o lago e os olhos encheram‑se‑lhe de lágrimas. Depois fingiu ir ver o terraço para as outras não repararem que chorava.

            Marjorie, uma das modelos, seguiu‑a. Vira a expressão comovida do rosto de Grace e ficara preocupada. Marjorie era a mãe‑galinha do grupo e as outras gracejavam com ela por causa disso. Tinha apenas vinte e um anos, mas era a mais velha de sete irmãos.

            ‑           Sente‑se bem? ‑ perguntou. Grace voltou‑se para a olhar e sorriu‑lhe através das lágrimas. Era impossível ocultá‑las.

            ‑           Sinto. É que isto... parece‑me um sonho... isto é tudo o que eu sempre desejei. É muito mais. ‑ Só desejava poder mostrar aquela casa a Molly. Ela nunca teria acreditado. A pobre rapariga, espancada, assustada, que ela fora, florescera, apesar do terreno estéril do Dwight Correctional Center, nos últimos dois anos. E agora ali estava ela, com uma nova vida, num mundo novo, era como um sonho. David e Molly tinham razão. Se ela se aguentasse o tempo suficiente, a fealdade do passado ficaria para trás para sempre. E agora, finalmente, o passado era o passado.

            Ainda na semana anterior enviara postais a Luana e a Sally, dizendo‑lhes que estava bem e que Chicago era uma cidade fantástica. Mas conhecia‑as suficientemente bem para saber que elas nunca lhe escreveriam. No entanto queria que soubessem que ela estava bem e que chegara a porto seguro. E que as não esquecera.

            ‑           Parecia tão comovida há momentos ‑ murmurou Marjorie, mas Grace sorria.

            ‑           Estou apenas feliz. Para mim é como se um sonho se tornasse realidade. ‑ Marjorie nunca poderia saber de que maneira. A única coisa que Grace não queria era que soubessem que ela matara o pai e que passara dois anos na prisão por causa disso. Queria deixar isso para trás.

            ‑           Para mim também é como um sonho ‑ confessou Marjorie. ‑ Os meus pais eram tão pobres que eu tinha de partilhar um único par de sapatos bons com duas das minhas irmãs. E elas tinham os pés mais pequenos e a minha mãe comprava‑os sempre à medida delas. Nunca vivi numa casa assim, antes de vir para aqui. E agora posso viver, graças aos Swansons. ‑ Era graças à sua beleza e ela sabia‑o. Quando acabasse o seu contrato ali, tencionava ir para Nova Iorque, ou talvez mesmo para Paris, para trabalhar como modelo.

            ‑           É divertido, não é?

            ‑           É fantástico.

            As duas raparigas ficaram a conversar durante um bocado e mais tarde Grace foi para o seu hotel e fez as malas. Não se importava de dormir no chão até chegar a sua mobília, mas não ia passar nem mais uma noite naquele hotel barato, a matar baratas e a ouvir velhotes tossirem e puxarem o autoclismo. Mudou‑se no dia seguinte e foi deixar as suas coisas na casa nova antes de ir para o trabalho. à hora do almoço foi comprar uma cama e algumas peças de mobiliário à casa John M. Smythe, na Michigan Avenue. Comprou até dois pequenos quadros. Prometeram enviar-lhe tudo no sábado seguinte e até lá Grace estava disposta a dormir na carpeta.

            Nunca se sentira tão feliz na sua vida e o emprego ia esplendidamente. Mas na sexta‑feira, quando se apresentou a Marquez, descobriu que tinha problemas e ele ficou satisfeito com isso.

            ‑           Você mudou‑se ‑ disse ele acusadoramente mal ela entrou no seu escritório. Há dias que a esperava. E tomara conhecimento por ter passado novamente pelo hotel, e lhe terem dito que ela deixara o quarto na terça‑feira.

            ‑           E então? Qual é o problema?

            ‑           Não me avisou.

            ‑           Os meus papéis dizem que não preciso de o avisar durante cinco dias. Mudei‑me há três dias e estou a avisá‑lo agora. Que tem a dizer agora, senhor Marquez? ‑ Ele queria fazer chantagem com ela a todo o custo. Mas Grace tinha razão e ele nada podia dizer. Tinha de facto cinco dias para o avisar e só haviam decorrido três.

            ‑           Então qual é o endereço? ‑ perguntou de mau modo, preparando‑se para escrever. Ao olhar para ele, Grace percebeu o que iria suceder.

            ‑           Isso significa que me irá visitar de tempos a tempos? - perguntou, parecendo preocupada, o que lhe agradou imenso. Gostava de a fazer sentir‑se desconfortável, de a assustar, se fosse possível. Ela despertava os seus mais primitivos instintos sexuais.

            Pode ser que o faça. Tenho esse direito. Tem alguma coisa a esconder?

            ‑           Sim. A si. ‑ Grace olhou‑o de frente e ele corou até à raiz dos cabelos ralos.

‑           Que quer dizer com isso? ‑ perguntou Marquez, pousando a caneta com irritação.

            ‑           Quer dizer que tenho quatro companheiras que não precisam de saber onde eu estive nos últimos dois anos. É isso.

            ‑           Não quer que saibam que esteve presa por homicídio, não é? ‑ Marquez estava encantado. Agora tinha algo com que a ameaçar. Poderia dizer que a denunciaria às suas companheiras de casa.

            ‑           Sim, é isso.

            ‑           Tenho a certeza de que elas ficariam encantadas com a sua história. E a propósito, que quer dizer com quatro companheiras? Parece‑me um bando de prostitutas.

            ‑           São modelos. Estão inscritas na agência onde eu trabalho.

            ‑           Isso é o que todas dizem. Mas de qualquer modo preciso da morada... a não ser que queira que eu a viole, claro. Olhou‑a com ar esperançoso.

            ‑           Por amor de Deus, Marquez! ‑ Grace deu-lhe a morada e ele olhou‑a de novo com ar desconfiado.

            ‑           Como é que vai pagar isso?

            ‑           A renda dividida por cinco vai‑me custar exactamente duzentos dólares. ‑ Não tinha intenção de lhe dizer que possuía o dinheiro proveniente do seu acordo com Frank Wills. Louis Marquez não precisava de saber isso. E a verdade é que, com o que ela ganhava, se quisesse economizar um bocado podia muito bem pagar a sua parte da renda da casa.

            ‑           De qualquer modo vou ter de ver essa casa ‑ resmungou ele. Grace encolheu os ombros.

            ‑           Calculava que fosse dizer isso. Quer marcar o dia? - perguntou, na esperança de que ele o fizesse. Mas Marquez não estava disposto a ser acomodatício.

            ‑           Hei‑de passar por lá.

            ‑           Óptimo. Mas faça‑me um favor. Não diga quem é - pediu, olhando‑o com ar preocupado.

            ‑           E que devo dizer então?

            ‑           Qualquer coisa. Diga‑lhes que me quer vender um carro. Diga‑lhes o que quiser, mas não lhes conte que estou em liberdade condicional.

‑           É bom que se porte bem, Grace ‑ disse Marquez, olhando‑a atentamente, e a expressão dele não passou despercebida a Grace. ‑ Caso contrário, terei de o fazer. - E ao olhá‑lo, por razões que ela não conseguia discernir, aquele homenzinho feio fez‑lhe recordar Brenda na prisão. Tinha as pernas dela amarradas. E agora não tinha Luana para a salvar.

 

            O grupo do apartamento entendia‑se às mil maravilhas:

nunca discutiam por causa das contas, pois cada uma pagava a sua parte, e todas se mostravam simpáticas umas para as outras. Era de facto uma combinação perfeita. Compravam pequenos presentes umas às outras e eram generosas com as mercearias. Grace nunca se sentira tão feliz na sua vida. Todos os dias pensava se seria realidade ou se estaria a sonhar.

            As raparigas tentaram até arranjar-lhe encontros com amigos, mas Grace não consentia nisso. As mercearias eram uma coisa, mas presentes oferecidos por homens não lhe interessavam. Não desejava sair com ninguém nem complicar a vida dela. Aos vinte anos sentia‑se perfeitamente contente por ficar em casa a ler, ou a ver televisão. A liberdade de que gozava era um bem inestimável e ela nada mais queria da vida. Só de pensar em sair com um homem se sentia aterrorizada. Não tinha desejo de conhecer ninguém, e talvez nunca tivesse.

            As suas companheiras gracejavam com ela por causa disso, mas depois acabaram por achar que Grace tinha uma vida secreta. Duas delas estavam certas de que ela se encontrava em segredo com um homem casado, especialmente quando ela começou a sair regularmente três noites por semana, nas noites de segunda-feira e quinta‑feira e aos domingos. Nos dias de semana ia directamente ao sair do trabalho e frequentemente chegava a casa depois da meia‑noite.

            Grace pensara em contar‑lhes a verdade, mas eventualmente a ideia delas de que ela se encontrava com alguém resultava melhor para si. Assim deixavam-na em paz e não tentavam arranjar‑lhe namorado. Com efeito, relativamente ao modo como ela desejava viver, era perfeito.

            E a verdade é que as suas saídas, três vezes por semana, eram o coração e alma da sua existência. Logo que se Instalara no apartamento que alugara com as amigas, começara a procurar um sítio onde trabalhar três vezes por semana. Não para lhe pagarem, mas para poder retribuir algo do que a vida lhe dera. Sentia‑se demasiado afortunada para deixar de fazer alguma coisa para ajudar os outros. Era uma coisa que sempre prometera a si mesma, quando se encontrava deitada no seu beliche, à noite, conversando com Sally, ou no exterior, a trabalhar ao lado de Luana.

            Levara um mês a encontrar um sítio onde trabalhar como voluntária. Não tivera ninguém a quem perguntar, mas lera uma porção de artigos e vira um programa na TV a respeito de St. Mary. Era um centro de ajuda a mulheres e crianças, instalado num velho prédio em muito mau estado. Quando lá fora a primeira vez, Grace ficara chocada com a situação em que o centro se encontrava: as paredes estavam sem tinta, as lâmpadas pendiam dos tectos lançando uma luz crua sobre toda aquela pobreza, havia crianças a correr e a gritar por todos os lados e dúzias de mulheres. A maior parte delas tinha um ar miserável, muitas estavam grávidas e todas elas se mostravam desesperadas. O que todas tinham em comum era terem sido vítimas de abusos mais ou menos danificadores. Algumas mostravam cicatrizes, outras não funcionavam normalmente e outras ainda tinham estado em instituições.

            St. Mary era dirigido pelo Dr. Paul Weinberg, um jovem psicólogo que lhe fazia lembrar David Glass, e, depois de ter estado ali pela primeira vez, Grace desejou desesperadamente poder falar com Molly. Teria gostado de falar com ela e de lhe contar tudo aquilo. Só estar ali fora uma experiência profundamente comovedora. O centro era praticamente gerido por voluntários que ali trabalhavam. Havia poucos empregados pagos, muitos deles fazendo estágios depois da formatura em psicologia. Também tinham algumas enfermeiras diplomadas. As mulheres e as crianças que ali viviam necessitavam de cuidados médicos, ajuda psicológica e um sítio para viver. Precisavam de roupas, de carinho e de uma mão que as ajudasse a sair do abismo em que se encontravam. Até para Grace, o facto de ir todas as semanas a St. Mary era como uma luz a brilhar na escuridão. Oferecera‑se para três turnos semanais de sete horas cada um, o que era um compromisso enorme, mas era um sítio onde Grace se sentia em paz e onde podia dar paz aos outros. As mulheres que ali se encontravam tinham passado por experiências semelhantes às dela, e as crianças também. Estavam ali raparigas de catorze anos que os pais ou irmãos, ou tios tinham engravidado, crianças de sete anos com os olhos vítreos e mulheres que não acreditavam que pudessem voltar a ser livres. Eram vítimas da violência e na maior parte das vezes de maridos abusivos. Muitas delas tinham sido vítimas de abusos também em crianças e continuavam a perpetuar o ciclo com os seus próprios filhos, não fazendo ideia de como o poderiam quebrar. Era isso o que o pessoal de St. Mary tentava ensinar‑lhes.

            Quando estava em St. Mary, Grace era incansável. Trabalhava com as mulheres, mas gostava sobretudo das crianças. Reunia‑as à sua volta, sentava‑as no colo e contava-lhes histórias que inventava, ou lia‑lhas de algum livro. Levava‑as à clínica para o médico lhes tratar ferimentos, ou para serem examinadas ou levarem injecções. Isso dava à vida dela muito mais significado. Mas ao mesmo tempo tudo aquilo a magoava. Magoava-a terrivelmente por lhe ser demasiado familiar.

            ‑           Faz doer o coração, não faz? ‑ disse‑lhe certa vez uma enfermeira, perto do Natal. Grace estava a deitar uma menina de dois anos. Ficara com problemas cerebrais por causa do pai que estava agora na cadeia. Era estranho pensar que esse pai estava preso, enquanto que o dela morrera como um herói.

            ‑           Sim, faz. Todos eles fazem. Mas têm sorte. ‑ Grace sorriu para a enfermeira. Ela conhecia essa história muito bem. Demasiado bem. ‑ Estão aqui. Podiam estar ainda lá fora a serem espancados. Por agora, pelo menos, estão livres disso. ‑ O pior era que algumas voltavam. Havia mulheres que não eram capazes de estar longe dos maridos que as espancavam, e quando voltavam, levavam os filhos com elas. Algumas dessas crianças eram mortas, outras ficavam magoadas e irrecuperáveis de uma maneira que não podia ver‑se. Mas algumas libertavam-se, aprendiam, compreendiam e voltavam a viver. Grace passava horas a falar‑lhes das opções que podiam fazer, da liberdade que lhes pertencia e que só tinham de agarrar. Todas estavam assustadas, desorientadas, cegas pela sua própria dor, por tudo quanto tinham sofrido. Isso fazia‑a pensar na sua própria situação três anos antes, quando estivera na prisão e Molly tentara chegar até ela. Em parte, Grace fazia aquilo por Molly, para retribuir o amor que ela lhe dera.

            ‑           Como vão as coisas? ‑ perguntou Paul Weinberg, o psicólogo e director do programa, parando para dois dedos de conversa. Ele tinha estado a trabalhar toda a noite ao lado dos voluntários e dos empregados, recebendo as pessoas que chegavam. A maior parte delas vinha à noite. Vinham assustadas, magoadas, feridas de corpo e alma e precisavam de tudo o que a equipa tinha para lhes oferecer.

            ‑           Muito trabalho. ‑ Grace não o conhecia bem, mas o que via agradava‑lhe. E respeitava o facto de ele trabalhar arduamente. Tinham enviado duas mulheres para o hospital nessa noite e fora ele próprio quem as levara lá, enquanto ela tratava das crianças. Cada uma delas tinha quatro filhos e estavam todos na cama agora. ‑ Tem sido uma noite atarefada. nesta época do ano. É sempre assim antes do Natal. Ficam todos loucos. Se querem bater nos filhos e nas mulheres, esta é a época apropriada para o fazerem.

            ‑           Como é? Põem anúncios? Bata na sua mulher agora, só faltam seis dias para o Natal. ‑ Grace sentia‑se cansada mas estava de bom humor. Gostava do seu trabalho.

            ‑           Deve ser mais ou menos isso. ‑ Sorriu e serviu‑lhe uma chávena de café. ‑ Já pensou em trabalhar sempre aqui? Isto é, a tempo inteiro, sendo paga para isso?

            - Realmente não ‑ respondeu honestamente Grace. Mas ficara lisonjeada com a pergunta e sorria enquanto bebia o café fumegante. Paul tinha o cabelo encaracolado como David Glass, e os mesmos olhos bondosos, mas era mais alto e mais bem‑parecido. ‑ Cheguei a pensar em fazer psicologia, mas não tenho a certeza se seria boa nisso. Mas gosto daquilo que faço aqui. Gosto das pessoas e da ideia de que poderemos tornar as coisas diferentes para elas. Creio que fazer isto como voluntária é suficientemente bom para mim agora. Não preciso de ser paga para isto. Gosto do meu trabalho aqui.

            ‑           Você é boa naquilo que faz, Grace. Por isso é que lhe fiz a pergunta. Acho que deve pensar nessa formatura em psicologia, quando tiver tempo. ‑ Estava impressionado e gostava dela.

            Grace trabalhou até às duas nessa noite: tinham chegado meia dúzia de mulheres com demasiados problemas para ela as poder deixar. Depois de estar tudo sossegado, Paul Weinberg ofereceu‑se para a levar a casa e ela aceitou. Estava exausta.

            ‑           Foi fantástica esta noite ‑ disse ele e Grace agradeceu. Paul ficou surpreendido ao ver onde ela vivia. A maior parte dos habitantes de Lake Shore não se preocupavam com o que se passava em St. Mary. ‑ O que é isto? ‑ perguntou ele quando pararam perto da casa. ‑ Mora num sítio muito luxuoso, Grace. É alguma herdeira?

            Grace riu. Sabia que ele estava a brincar, mas a verdade é que Paul se sentia curioso. Grace era uma jovem muito interessante.

            ‑           Partilho um apartamento com quatro outras raparigas. ‑ Tê‑lo‑ia convidado a entrar se não fosse tão tarde. - Já passava das duas e meia. ‑ Tem de vir aqui um dia se conseguir sair de Saint Mary. ‑ Grace mostrava‑se amigável, mas ele sentia que não era mais do que isso. Ela tratava‑o como a um irmão, mas o interesse dele por ela nada tinha de platónico.

            ‑           Consigo fugir de vez em quando ‑ respondeu, sorrindo. ‑ E você? Que faz quando não está a ajudar mulheres e crianças em crise? ‑ Paul queria saber mais acerca dela, embora fosse tarde e estivessem ambos muito cansados.

            ‑           Trabalho numa agência de modelos ‑ disse calmamente Grace. Gostava do seu trabalho e orgulhava‑se dele, mas Paul ergueu as sobrancelhas.

            ‑           É modelo? ‑ Não ficaria surpreendido se ela o fosse, mas não era habitual pessoas que gastavam tanto tempo consigo próprias disporem‑se a ajudar os outros. Grace dava muito de si própria às mulheres e às crianças de St. Mary. Paul reparara nisso.

            ‑           Trabalho no escritório ‑ disse Grace com um sorriso. ‑ Mas as minhas amigas são todas modelos. Pode vir aqui quando quiser para as conhecer. ‑ Estava a tentar dizer‑lhe que não se interessava por ele. Não como homem, pelo menos. Isso fê‑lo pensar se ela teria namorado. Mas não quis fazer a pergunta.

            ‑           Gostava de voltar aqui para a ver a si ‑ disse Paul tranquilamente. Mas não precisava de o fazer: ela ia a St. Mary três vezes por semana. E ele estava lá sempre.

            Grace ofereceu‑se para trabalhar na véspera de Natal e nem podia acreditar na quantidade de mulheres que chegaram nessa noite. Trabalhou incansavelmente e só chegou a casa às quatro da manhã. Mas no dia seguinte conseguiu ir à festa de Natal que os Swansons ofereceram aos seus empregados, fotógrafos e modelos. Grace ficou surpreendida por se divertir. A única coisa que a preocupou foi Bob Swanson ter dançado várias vezes com ela e ela julgar que ele a apertara demasiado. Uma vez até lhe parecera, embora não o pudesse jurar, que os dedos dele haviam roçado pelos seios dela, quando estendera o braço para tirar um canapé. Estava certa de que fora acidental e ele nem sequer dera por isso. Mas uma das suas companheiras fez um comentário que a preocupou. Fora Marjorie, sempre a mãe‑galinha das amigas, que reparara. Estava sempre a vigiar as outras e já conhecia os truques dele por experiência própria.

            ‑           O tio Bobby estava a aquecer muito esta noite? - perguntou ela a Grace, que pareceu espantada.

            ‑           Que quer isso dizer? Ele apenas se mostrou amigável. ‑ Estamos no Natal.

            ‑           Oh, santa inocência ‑ disse Marjorie com um suspiro. ‑ Com certeza que não acreditas no que estás a dizer.

            ‑           Não sejas tola. ‑ Grace defendeu‑o. Não podia crer que Bob enganasse Cheryl. Mas a verdade é que ele estava constantemente cercado de tentações.

            ‑           Não sejas ingénua ‑ interrompeu Divina. ‑ Não pensas que ele seja fiel à mulher, pois não? O ano passado perseguiu‑me pelo escritório todo durante uma hora. Quase parti um joelho quando bati na maldita mesa de café do gabinete dele. Oh, sim, o tio Bobby é um rapaz muito ocupado e parece que tu és o próximo alvo.

            ‑           Que maçada ‑ disse Grace, olhando‑as com ar desanimado. ‑ Também notei qualquer coisa mas receei ter interpretado mal, e talvez tenha.

‑           Nesse caso passou‑se o mesmo comigo ‑ retorquiu Marjorie com uma gargalhada. ‑Julguei que ele te ia rasgar a roupa.

            ‑           Cheryl sabe que ele faz isso? ‑ perguntou Grace com pena. A última coisa que desejava era ser apanhada em confusões e não tencionava de modo algum permitir que ele avançasse. Não queria um romance com Bob Swanson. Nem com ele nem com ninguém. Pelo menos por agora e talvez nunca. Simplesmente não era isso que ela queria.

            Paul Weinberg telefonara‑lhe várias vezes para a convidar para jantar, mas ela recusara sempre. Mas na véspera de Ano Novo, quando Grace estava de novo a trabalhar em St. Mary, ele insistiu para que pelo menos se sentasse junto dele dez minutos, para comer uma sanduíche de peru.

            ‑           Porque me evita? ‑ acusou ele, quando Grace tinha a boca cheia de peru. Levou um minuto até poder responder.

            ‑           Não o evito ‑ disse com sinceridade. Apenas não retribuia os telefonemas dele. No entanto sentia‑se perfeitamente satisfeita por estar ali a comer uma sanduíche com ele.

            ‑           Claro que evita ‑ insistiu Paul. ‑ Está envolvida com alguém?

            ‑           Sim ‑ respondeu Grace com ar feliz, e a expressão

dele anuviou‑se. ‑ Com Saint Mary, com o meu emprego

e as minhas companheiras. Creio que é tudo, mas chega.

É mais que suficiente. Mal tenho tempo para ler um jornal,

ou um livro, ou ir a um cinema. Mas gosto disso.

            ‑           Talvez precise de vir menos tempo aqui. ‑ Paul sorriu, aliviado por ela não ter falado em namorados. Era uma rapariga fantástica e ele queria conhecê‑la melhor. Tinha trinta e dois anos e nunca conhecera ninguém como ela. Era inteligente, divertida, carinhosa, e ao mesmo tempo tímida e distante. De certo modo, parecia antiquada e isso agradava‑lhe. ‑ Pelo menos devia ir uma vez a um cinema. ‑ Mas ele também não ia a nenhum há meses. Saíra com uma das enfermeiras durante uns tempos, mas isso acabara. E desde que Grace começara a ir a St. Mary que se interessava por ela.

            ‑           Não quero ter tempo livre. Gosto de estar aqui - respondeu Grace, com um sorriso, enquanto acabava de mastigar o peru.

            ‑           Que está a fazer aqui na véspera de Ano Novo? - perguntou Paul. Grace sorriu.

            ‑           Podia fazer a mesma pergunta, não podia?

            ‑           Eu trabalho aqui ‑ respondeu ele.

            ‑           E eu também. Apenas não me paga.

            ‑           Continuo a pensar que devia tornar‑se profissional. Mas antes de ele poder continuar a conversa, foram ambos chamados para direcções opostas. Foi mais uma noite atarefada e Grace não voltou a ver Paul até à quinta‑feira seguinte. Nessa noite ele ofereceu‑se para a levar a casa de carro, mas ela meteu‑se num táxi. Não queria encorajá‑lo. Finalmente, a um domingo, ele apanhou‑a em St. Mary.

            ‑           Quer almoçar comigo?

            ‑           Agora? ‑ perguntou ela, espantada. Tinham de falar com quatro famílias recém‑chegadas.

            ‑           Agora não. Para a semana. Quando quiser. Gostava de a ver. ‑ Paul parecia um rapazinho embaraçado ao dizer aquelas palavras.

            ‑           Porquê? ‑ A pergunta saltou‑lhe da boca e ele soltou uma gargalhada.

            ‑           Porquê? Já se viu ao espelho? Além disso é inteligente e divertida e eu gostaria de a conhecer melhor.

            ‑           Não há muito para conhecer. Na verdade eu sou bastante aborrecida ‑ insistiu Grace e ele riu de novo.

            ‑           Está a querer afastar‑me?

            ‑           Talvez ‑ disse ela com sinceridade. ‑ Na verdade eu não saio com ninguém.

            ‑           Só trabalha? ‑ Paul parecia divertido e Grace limitou‑se a dizer que sim com a cabeça. ‑ Perfeito. Eu também não faço outra coisa senão trabalhar. Devíamos dar‑nos bem. Mas um de nós pode quebrar o ciclo.

            ‑           Porquê? Estamos bem assim. ‑ Subitamente, Grace mostrou‑se distante e pareceu assustada. Isso deu que pensar a Paul.

            ‑           Mas pode almoçar uma vez comigo, não pode? Experimente. Tem de comer. Irei ter consigo onde quiser durante a semana. Como preferir. ‑ Mas Grace não ficou satisfeita. Gostava dele mas não queria sair com ninguém, não queria conhecer homem nenhum e não sabia como dizer-lho.

            Acabou por concordar em almoçar com ele no sábado seguinte. Estava um dia gelado e foram ao La Scala comer massa.

            ‑           Agora diga‑me a verdade. O que a levou a Saint Mary?

            ‑           O autocarro. ‑ Sorriu‑lhe e ele achou‑a muito jovem e brincalhona.

            ‑           Que engraçada. Que idade tem, afinal? ‑ perguntou subitamente Paul. Calculara que ela tivesse uns vinte e cinco ou vinte e seis, pela maneira como sabia lidar com as mulheres e as crianças espancadas.

            ‑           Tenho vinte anos ‑ disse Grace orgulhosamente, como se fosse um grande feito. Paul quase gemeu quando a ouviu. Isso explicava muita coisa, ou pelo menos ele assim julgou. ‑ Faço vinte e um no próximo Verão.

            ‑           Formidável. Faz‑me sentir como se estivesse a roubar um bebé no berço. Eu farei trinta e três em Agosto.

            ‑           Você faz‑me lembrar alguém que conheci, um amigo meu. É advogado na Califórnia.

            ‑           E está apaixonada por ele? ‑ perguntou Paul Weinberg com ar infeliz. Sabia que havia de existir alguma explicação para ela ser tão distante. A sua extrema juventude talvez tivesse importância, mas tinha de haver algo mais.

            Mas Grace riu e explicou quem era David.

            ‑           Não, ele é casado e esperam um filho.

            ‑           Então quem é o felizardo?

            ‑           Que felizardo? Já lhe disse que não há ninguém.

            ‑           Gosta de homens? ‑ perguntou ele. Era uma pergunta estranha, ele sabia, mas nos tempos que corriam valia a pena perguntar.

            ‑           Não sei ‑ respondeu Grace honestamente. ‑ Já lhe disse que nunca tive um namorado!

            ‑           Nunca? ‑ Paul não podia acreditar.

            ‑           Nunca.

            ‑           Isso é um recorde, aos vinte anos. ‑ Era também um desafio. ‑ Teve alguma razão particular para isso? ‑ Tinham pedido o almoço e comiam com apetite enquanto ele lhe ia fazendo perguntas.

‑           Sim, algumas, creio. Mas a principal é eu não querer.

            ‑           Isso é loucura, Grace.

            ‑           É.  ‑ murmurou cautelosamente. ‑ Talvez não. Talvez seja assim que eu precise de viver a minha vida. Ninguém pode avaliar o que é bom para mim.

            Então, ao olhá‑la, Paul percebeu e compreendeu como fora idiota. Por isso é que ela fora para St. Mary. Para ajudar outras como ela.

            ‑           Passou por uma má experiência? ‑ perguntou gentilmente e ela confiou nele, mas só até certo ponto. Não ia contar‑lhe todos os seus segredos.

            ‑           Pode dizê‑lo. Bastante má. Mas não pior do que aquilo que vemos todos os dias em Saint Mary. Isso deixa marcas, creio.

            ‑           Não tem de deixar. Pode superar isso. Tem consultado algum psicanalista?

            - Sim, já consultei. Éramos boas amigas. Ela morreu num acidente o Verão passado. ‑ Grace disse essas palavras com uma expressão tão triste que Paul teve pena dela.

            ‑           E a sua família? Tem‑na ajudado?

            Grace sorriu. Sabia que ele a queria ajudar, mas só o tempo o poderia fazer. E sabia que tinha de se ajudar a si própria.

            ‑           Não tenho qualquer família. Mas as coisas não são tão más como parecem. Tenho amigas e um bom emprego. E todas as pessoas simpáticas de Saint Mary.

            ‑           Gostaria de ajudar, se pensa que o posso fazer. ‑ Mas o género de terapia em que ele pensava assustava‑a terrivelmente. Sabia que ele também seria capaz de a tratar como terapeuta, mas o que ele realmente queria era andar com ela. E Grace não se sentia preparada para isso, nem sabia se alguma vez estaria.

            ‑           Se precisar, procuro‑o. ‑ Sorriu e ambos pediram café. Passaram uma tarde muito agradável, passeando à volta do lago e falando a respeito de muitas coisas. Mas Paul sabia agora que não poderia persegui‑la. Seria demasiado perigoso para ela. Só por perceber o que ele sentia, fizera‑a recuar e afastar‑se dele.

            ‑           Grace ‑ disse ele quando a deixou à porta de casa - não a quero magoar. Nunca. Quero apenas estar disponível se você precisar de um amigo. ‑ Depois sorriu de um modo agarotado que o tornou quase bonito. ‑ E também não me importaria de mais alguma coisa, mas não quero pressioná‑la. ‑ Ela era tão nova. Em parte era também isso. Mas não se atrevia a pressioná‑la, sabendo que ela não estava preparada.

            ‑           Obrigada. Passei uma tarde encantadora. - Era verdade e almoçaram outras vezes juntos depois disso. Paul não queria desistir completamente de Grace e ela gostava da companhia dele, mas as relações entre os dois nunca foram além de uma afectuosa amizade. De certo modo, Paul tomara o lugar de David na vida dela, e talvez mesmo o de Molly.

            Entre o trabalho no escritório, o tempo que passava em casa com as amigas e o trabalho em St. Mary, as coisas foram decorrendo com tranquilidade até à Primavera. Então Louis Marquez começou a causar novamente problemas a Grace. Ela não o sabia, mas ele rompera com a namorada e queria arranjar sarilhos a Grace. Começou a aparecer no apartamento dela. Nunca explicou quem era e Grace também não, dizendo apenas vagamente que se tratava de um amigo do pai. Mas sempre que aparecia fazia muitas perguntas. Se consumiam drogas, se gostavam de ser modelos, se conheciam muitos homens por causa da profissão. Chegou a convidar Brigitte para sair com ele e Grace estava furiosa quando se apresentou no escritório.

            ‑           Não tem o direito de me fazer isso. Não tem o direito de ir a minha casa e incomodar as minhas amigas.

            ‑           Posso incomodar quem eu quiser. E além disso há meia hora que ela me estava a fazer olhinhos. Não tenha ilusões, querida. Ela não é virgem.

            ‑           Pois não, mas também não é cega ‑ retorquiu Grace. Isso enfureceu‑o mais do que nunca. Grace mostrava‑se cada vez menos assustada com ele.

            ‑           Só tem de ficar agradecida por eu não lhes contar que está em liberdade condicional e que tem de se apresentar a mim todas as semanas. E não lhes dizer também que esteve na prisão.

‑           Se fizer isso, queixo‑me de si. Processo‑o por me embaraçar e envergonhar na minha própria casa e com as minhas colegas de trabalho.

            ‑           Tretas. Não processa coisa alguma.

            Grace sabia que não o faria, mas precisava de lhe fazer frente. Como a maior parte dos atrevidos, ele recuaria se ela não mostrasse ter medo dele. A partir dessa altura, Marquez deixou de lhe aparecer tantas vezes e Grace continuou a apresentar‑se semanalmente no escritório dele.

            Quando, em Maio, Brigitte aceitou um contrato de três meses para trabalhar em Tóquio, arranjaram outra modelo para a substituir. Era francesa, do Sul de França, mais precisamente de Nice, e chamava‑se Mireille. Tinha dezanove anos. Toda a gente gostava dela, e ela tinha uma paixão por tudo quanto fosse americano, especialmente pelas pipocas e cachorros‑quentes. Também gostava dos rapazes americanos, mas não tanto como eles gostavam dela. Saía todas as noites. Isso fazia com que Divina, Marjorie, Allyson e Grace ficassem a conversar umas com as outras sempre que não estavam ocupadas.

            Os Swansons deram uma festa na sua casa de campo, para festejar o 4 de Julho e todas as modelos foram lá passar o dia e o serão. Grace convidou Paul e ele teve um dia em cheio rodeado de todas aquelas lindas raparigas. Elas acharam‑no muito simpático e quiseram saber se era com ele que Grace passava todo o seu tempo livre.

            ‑           Mais ou menos ‑ respondeu cautelosamente. E elas ficaram contentes.

            Depois disso, as amigas prepararam uma festa no dia do aniversário de Grace. Foi uma grande surpresa. Elas convidaram toda a gente da agência e Paul também, claro. Era o vigésimo primeiro aniversário de Grace. Mais tarde estavam todos sentados no terraço e Grace pensava na volta que a sua vida dera no último ano. Nem Paul nem ninguém sabia que ela passara os últimos dois aniversários na prisão. E agora estava ali, ao lado de Paul, a viver com aquelas raparigas encantadoras e a trabalhar numa agência de modelos. às vezes, quando pensava nisso, ainda estremecia. Aquela festa fê‑la pensar em Luana e Sally, em David e Molly. E ficou triste ao aperceber‑se que fazia exactamente aquilo que Luana dissera que ela faria. Estava a tirá‑las para fora, como recordações, tocando‑lhes com o seu coração de tempos a tempos, mas apenas por momentos fugidios. Depois voltava à sua vida actual, satisfeita por isso. Lembrava‑se delas, mas tinham desaparecido para sempre. Não voltara a ter notícias de David desde que o filho dele nascera, em Março, e deixara finalmente de escrever a Sally e a Luana. Elas nunca tinham respondido às suas cartas.

            Ergueu os olhos e viu uma estrela‑cadente. Sem esperar, fechou os olhos e pensou nelas, fazendo um voto para que um dia pudesse ficar tudo verdadeiramente para trás. De momento Louis Marquez continuava a ameaçar revelar os segredos dela às amigas. Havia ainda alguém com poder sobre ela. E só esperava vir um dia a ficar completamente livre, e pela primeira vez na vida não ter ninguém a quem recear.

            ‑           O que é que desejou? ‑ perguntou Paul, observando-a.

            Nunca a forçara a avançar para um relacionamento que ela não desejava. Mas ainda tinha esperanças de que um dia estivesse preparada para ele. Sabia o que teria desejado se visse uma estrela‑cadente. Desejaria que ela o quisesse.

            ‑           Estava a pensar em velhos amigos ‑ respondeu Grace, sorrindo tristemente ‑ a desejar que um dia todos os tempos difíceis sejam uma recordação longínqua. ‑ Todo o seu coração fugiu para ela ao ouvi‑la dizer aquelas palavras.

            ‑           Ainda o não são? ‑ Não sabia a que distância no tempo se encontravam os tempos difíceis de Grace, nem se ainda estavam próximos. Ela nunca lho dissera e ele não a pressionara. ‑ Ainda não desapareceram? ‑ perguntou afectuosamente.

            ‑           Quase ‑ sorriu‑lhe, satisfeita por o ter como amigo ‑ quase... Talvez para o próximo ano.

 

                        Os Swansons continuavam a tentar aliciar Grace a trabalhar como modelo, mas ela recusou sempre e acabou por se tornar secretária de Cheryl, com um aumento substancial de salário. Tanto Cheryl como o marido diziam que quem dirigia verdadeiramente a agência era Grace. Era eficiente, rápida e organizada, além de ser inteligente e discreta. Conhecia todas as raparigas que trabalhavam para a agência, bem como os homens, e todos gostavam dela. No apartamento as coisas também corriam bem. Brigitte regressara de Tóquio, mas vivia agora com um fotógrafo; Allyson fora para Los Angeles a fim de tomar parte num filme e Divina estava a trabalhar como modelo em Paris. Tinham ficado apenas Marjorie, Mireille e Grace. A francesa desejava ir viver com o seu último namorado. Quando as duas primeiras saíram, entraram logo outras duas para tomarem o lugar delas. E Marjorie anunciou que ia casar. Mas não representava qualquer problema para Grace arranjar novas companheiras para a casa. Chegavam constantemente a Chicago raparigas que queriam trabalhar como modelos, e todas elas precisavam de um apartamento.

                        Louis Marquez continuava a vigiá‑la regularmente. Pelo menos uma vez por mês forçava Grace a fazer um teste para ver se consumia drogas. Mas as análises eram sempre negativas, o que constituía um desapontamento para ele. Apenas por pura maldade, ele gostaria de a apanhar em falta.

                        ‑           É mesmo um homenzinho nojento ‑ observou Marjorie, quando o viu aparecer nesse Natal para ver quem eram as novas companheiras de Grace. ‑ O teu pai tinha uns amigos muito pouco recomendáveis ‑ acrescentou, aborrecida por ele lhe ter tocado nas nádegas quando fingia estender a mão para um cinzeiro. Cheirava a cigarro e a suor e toda a roupa dele era de poliéster. ‑ Porque é que não o mandas passear? ‑ perguntou, com uma careta de repugnância. ‑ De cada vez que o vejo apetece‑me tomar um banho.

Grace gostaria mais do que ninguém de lhe poder dizer que nunca mais aparecesse ali. Mas não o podia fazer. Faltavam‑lhe ainda nove meses de liberdade condicional e depois o pesadelo acabaria.

            Em Março, os Swansons convidaram‑na a ir a Nova Iorque com eles, mas ela teve de dizer que não podia por já ter outro compromisso. Pedira autorização a Louis Marquez para sair e ele recusara‑lha peremptoriamente. Grace ficou desapontada por não ir, mas conseguiu manter‑se ocupada. Continuava a passar duas noites por semana e parte do domingo em St. Mary. Quando lá ia, encontrava Paul Weinberg. Gostava muito dele, mas sabia que ele desistira de esperar por ela e que estava seriamente envolvido com uma das enfermeiras.

            Cheryl Swanson tentava fazer com que ela saísse com rapazes, de tempos a tempos, mas Grace mantinha a sua indiferença nessa direcção. Sentia‑se com medo e ainda demasiado magoada por tudo quanto lhe acontecera. Sair com uma pessoa fazia‑lhe lembrar os horrores que experimentara com o pai.

            Até Junho, quando Marcus Anders entrou na agência para falar com Cheryl. Era um dos homens mais bonitos que Grace alguma vez vira, com o cabelo louro, muito espesso e um sorriso agarotado e sardas. Parecia meio homem, meio rapaz, e Grace pensou que se tratasse de um modelo.

            Acabara de chegar de Detroit, e sua carteira era impressionante. Fizera grandes negócios e estava a pensar em ir para Los Angeles e Nova Iorque, mas queria chegar ao topo por fases, o que era inteligente da parte dele. Era muito calmo, muito seguro de si e tinha um grande sentido de humor. Gracejou um pouco com Grace, depois da entrevista, e falou com ela acerca de alugar um apartamento. Ela recomendou‑lhe algumas agências e apresentou‑o a vários modelos. Mas ele não se mostrou especialmente interessado por elas. Grace é que despertara as suas atenções e antes de sair pediu‑lhe para a fotografar, só para ele, mas ela riu e abanou a cabeça. Tivera várias propostas semelhantes anteriormente e recusara‑as sempre.

            ‑           Não, obrigada. Gosto de ficar longe das câmaras.

- Porquê? É procurada pela Polícia? Está a esconder alguma coisa?

            ‑           Sou procurada pelo FBI ‑ respondeu imediatamente Grace. Era divertido falar com ele, mas não se queria deixar envolver. Muitos fotógrafos serviam‑se das suas máquinas fotográficas para atrair as mulheres. ‑ Não gosto que me tirem fotografias, nada mais.

            ‑           É esperta ‑ admirava‑a. Era espantosamente bonita, jovem e saudável. ‑ Mas daria uma fotografia incrível. Tem uma estatura fabulosa e uns olhos maravilhosos. ‑ Quando a observou bem viu que havia mais do que isso. Nos olhos dela havia uma tristeza profunda, uma dor antiga que ela escondia do mundo, mas não dele. Marcus apercebeu‑se disso. Ela voltou‑lhe as costas, com uma gargalhada e um encolher de ombros, sentindo que ele se estava a aproximar demasiado e ela não queria isso. ‑ Porque não havemos de experimentar para ver o que sai? Punha estas raparigas todas sem trabalho. ‑ Era a única coisa que ele conhecia bem, que ele amava. Tinha uma longa história de amor com a sua máquina fotográfica.

            ‑           Eu não gostaria de lhes fazer isso. ‑ Vestia na altura uma saia justa de cabedal preto e uma camisola da mesma cor. Aprendera a vestir‑se com uma certa sofisticação citadina durante os quase dois anos que estava com os Swansons.

            ‑           Pense nisso ‑ disse Marcus, erguendo‑se da cadeira de cabedal preto do escritório. ‑ Voltarei na segunda‑feira.

            Mas no dia seguinte voltou a aparecer só para falar com ela e lhe dizer dos estúdios que vira. Segundo dizia, eram todos horrorosos e ele sentia‑se muito só. Depois convidou‑a para jantar. Grace rira com ele e fingira mostrar simpatia, mas recusou.

            ‑           Lamento, mas não posso ‑ disse laconicamente. Estava habituada a livrar‑se de convites desse género. Nunca fora problema para ela. ‑ Tenho que fazer esta noite. Dava sempre a impressão de que se tratava de outro homem, mas é claro que ia para junto das mulheres e das crianças de St. Mary.

            ‑           Então amanhã.

            ‑           Tenho de trabalhar até tarde. Vamos fazer um filme comercial com nove raparigas e Cheryl quer que eu esteja presente.

            ‑           Não há problema. Eu virei também. Lembre‑se de que acabei de chegar à cidade, não conheço ninguém e sinto-me muito só.

            ‑Então... Marcus... não seja um garoto mimado.

            ‑           Mas sou mesmo ‑ disse orgulhosamente e riram ambos. Por fim, embora contra a sua vontade, Grace deixou‑o ir ver o filme comercial com ela e ele acabou por ajudar. Havia ali tanta gente que ninguém estranhou mais uma pessoa no estúdio. Todas as modelos pareciam gostar dele. Era inteligente, divertido e não tinha os ares arrogantes de muitos fotógrafos. Parecia uma pessoa fantástica e depois de ele ter aparecido na agência todos os dias durante uma semana, Grace finalmente acedeu a ir jantar com ele uma noite. Era a primeira vez que saía com um homem desde que Paul Weinberg tentara conquistá-la.

            Quando ela lho disse, Marcus não queria acreditar que ela tivesse apenas vinte e um anos. Tinha uma grande maturidade para a idade e um ar sofisticado que a fazia parecer mais velha. Continuava a usar o seu belo cabelo de um louro‑escuro puxado para trás, mas agora penteava‑o muitas vezes num espesso carrapito na nuca. Além disso usava o mesmo género de roupas que as modelos compravam, quando tinha dinheiro para isso. Mas Marcus estava habituado a raparigas novas que pareciam mais velhas. Uma ou duas vezes fora suficientemente louco para sair com modelos de quinze anos, julgando que eram mais velhas.

            ‑           Então que faz quando não está a trabalhar? ‑ perguntou com interesse, enquanto jantavam no Gordon. Marcus acabara de encontrar um estúdio sensacional num sótão, com casa de habitação e tudo quanto ele precisava.

            ‑           Mantenho‑me bastante ocupada. ‑ Tinha começado a andar de bicicleta e uma das suas companheiras da casa andava a ensiná‑la a jogar ténis. Os únicos desportos que até então praticara haviam sido o levantamento de pesos e um pouco de jogging na prisão, mas Grace não pensava em contar‑lhe que estivera dois anos em Dwight. Não tencionava contar isso a ninguém, durante o resto da vida. Levara o conselho de Luana a sério e deixara firmemente esses dois anos para trás.

            ‑           Tem muitas amigas? ‑ perguntou Marcus, intrigado com ela. Via que era muito introvertida, muito ciosa da sua privacidade, e no entanto havia nela uma grande riqueza interior.

            ‑           Bastantes. ‑ Grace sorriu, mas a verdade é que não tinha e ele já ouvira dizer isso. Fizera muitas perguntas a respeito dela às outras pessoas. Sabia que ela nunca saía com homens, que guardava tudo para si mesma e que era muito tímida. Sabia também que fazia qualquer trabalho voluntário. Falou-lhe disso enquanto tomavam café e ela contou‑lhe um pouco a respeito de St. Mary.

            ‑           Porque faz isso? Porque se interessa tanto por mulheres maltratadas?

            ‑           Porque elas precisam desesperadamente de ajuda explicou com gravidade. ‑ As mulheres nessa situação pensam que não há saída para elas, que não têm opções. Ficam à beira de um edifício em chamas e temos de as fazer saltar, pois não são capazes de dar um salto para se libertarem. Grace sabia isso melhor que ninguém. Nunca julgara que houvesse saída para a sua situação. Tivera de matar para se salvar, e pagara muito caro por isso. Queria que as outras não tivessem de recorrer a medidas extremas, como lhe sucedera a ela.

            ‑           O que a faz preocupar‑se tanto com essas mulheres, Grace? ‑ Sentia‑se curioso e ela revelava tão pouco. Durante todo o jantar tivera consciência de como ela era cautelosa, de como se mostrava exteriormente amigável e interiormente recatada.

            ‑           Trata‑se de uma coisa que eu quero fazer. Significa muito para mim, especialmente o trabalho com as crianças. São tão indefesas e tão magoadas por aquilo que passam. Fora o que sucedera consigo mesma e Grace não o esquecia. Sabia bem como ficara marcada e não queria que lhes sucedesse isso a elas. Era uma dádiva que fazia a essas crianças e isso dava valor à sua vida. Queria que o seu sofrimento servisse para ajudar os outros, e impedi‑los de percorrerem o mesmo caminho angustiante que ela percorrera. ‑ Talvez tenha um certo jeito para lidar com elas. Tenho pensado em voltar a estudar e tirar um curso de psicologia, mas nunca tenho tempo, com o trabalho e tudo... mas um dia...

            ‑           Não precisa de se formar em psicologia ‑ disse Marcus sorrindo. E Grace sentiu algo por ele que nunca sentira, o que de certo modo a assustou. Ele era muito atraente. - Precisa de um homem ‑ concluiu.

            ‑           O que o faz ter tanta certeza disso? ‑ perguntou Grace, sorrindo também. Marcus era como um bonito garoto crescido quando estendeu a mão para a dela e a prendeu na sua.

            ‑           Porque está terrivelmente só, apesar de tudo quanto diz e das bravatas a respeito da óptima vida que leva. Aposto que nunca teve um verdadeiro homem. ‑ Olhou‑a atentamente e riu. ‑ Apostava todo o meu dinheiro em como você é virgem. ‑ Grace não fez qualquer comentário e retirou gentilmente a mão. ‑ Tenho razão, não tenho, Grace? - Ela encolheu os ombros, sem nada dizer. ‑ Eu sou ‑ disse Marcus com ar confiante, certo de saber exactamente aquilo de que ela precisava. Ensinada pelo homem certo, ela poderia ser uma mulher extraordinária.

            ‑           As soluções não podem ser as mesmas para toda a gente, Marcus ‑ respondeu ela, parecendo novamente mais velha. ‑ Há pessoas um pouco mais complicadas do que isso.

            Mas Marcus julgava conhecê‑la bem e julgava que ela estava apenas assustada, era tímida e muito nova. E provavelmente viera de uma família muito severa.

            ‑           Fale‑me da sua família. Como são os seus pais?

            ‑           Morreram ‑ disse Grace friamente. ‑ Morreram quando eu ainda frequentava a escola secundária. ‑ Marcus julgou residir aí a explicação para muita coisa. Ela sofrera a perda dos pais e ficara muitos anos só. Isso explicava a solidão em que ela vivia, embora rodeada de muita gente.

            ‑           Tem irmãos ou irmãs?

            ‑           Não. Era só eu. De facto, não tenho quaisquer parentes. ‑ Não admirava que ela tivesse tanta maturidade. Há anos que vivia entregue a si própria e por isso se tornara tão independente. Enfim, ele estava a desenhar um retrato de Grace inteiramente inventado por si.

‑           Fico surpreendido por não ter ido a correr casar com

o seu namorado dos tempos da escola ‑ disse Marcus com voz

respeitosa. ‑ A maior parte das raparigas teria feito isso

mesmo se ficassem sozinhas com a sua idade. ‑ Grace era

uma rapariga forte, ou, melhor, era uma mulher forte. E isso agradava‑lhe.

            ‑           Não tinha um namorado para casar comigo ‑ respondeu ela calmamente.

            ‑           Que fez? Foi viver com pessoas amigas?

            ‑           Mais ou menos. Vivi com muita gente. ‑ Primeiro na prisão de Watseka e depois em Dwight. Grace imaginou como é que ele ficaria se lhe contasse a verdade. Imaginou mesmo qual seria a reacção dele. Certamente ficaria horrorizado se ela lhe contasse que matara o pai. E a ironia dessa ideia fê‑la soltar uma gargalhada. Marcus não fazia realmente ideia nenhuma de quem ela fosse, ou o que fizera. Ninguém fazia. As pessoas que a conheciam tinham desaparecido todas: Molly e David, Luana e Sally. Deixara de lhes escrever postais e nunca mais tivera notícias de David. Não valia a pena escrever‑lhe. Agora só tinha de pensar na sua própria vida. Tudo quanto podia fazer pelas pessoas de quem gostara, e por todas as outras, era o que fazia em St. Mary. Sentia que só assim poderia retribuir a bondade que tinham tido para com ela no decorrer da sua vida. Eram muito poucas, e viviam apenas na sua memória, mas queria ajudar outras.

            ‑           Deve custar‑lhe mais nos períodos festivos, como no Natal.

            ‑           Agora já não ‑ disse Grace, com um sorriso. Não depois de ter estado em Dwight. O Natal nunca mais poderia ser tão mau como lá, estivesse onde estivesse.

            ‑           Você é uma rapariga corajosa, Grace. ‑ Mal sabia ele que ela era mais corajosa do que ele imaginava. Muito, muito mais corajosa.

            Depois do jantar foram tomar um copo a um sítio que ele descobrira que tinha uma velha jukebox com música dos anos 50. E no domingo seguinte andaram de bicicleta em volta do lago. Estava uma bela tarde de Junho e os arbustos cobertos de flores. Apesar dos avisos que fazia a si mesma, Grace gostava de estar com ele. Marcus mostrava‑se muito paciente com ela e não tentava apressar coisa alguma. Parecia compreender que ela precisava de tempo e de muita ternura antes de poder avançar. Mas Marcus estava disposto a passar o tempo com ela sem fazer mais nada para além de a beijar. Era o primeiro homem que a beijara, além do pai. E mesmo isso lhe pareceu assustador, mas depois teve de confessar a si própria que gostou.

            Como era seu costume, Marjorie começou a dar-lhe conselhos quando ela chegou a casa, nesse sábado, depois de passar a tarde com Marcus. Ele encontrava‑se então há três semanas na cidade. Tinham andado a comprar equipamento em segunda mão para o estúdio dele. A agência começara já a dar trabalho a Marcus e os Swansons estavam muito satisfeitos. Ele tinha muito talento.

            ‑           Aproveita‑o enquanto podes ‑ dissera‑lhe Cheryl com um sorriso. ‑ Ele não vai estar aqui muito tempo. Aposto que dentro de um ano estará em Nova Iorque, ou mesmo em Paris. É demasiado bom para ficar muito tempo por cá.

            Marjorie tinha outras coisas para dizer a respeito dele. Ela contava com amigas praticamente em todo o mundo, todas elas modelos. E uma rapariga de Detroit contara‑lhe coisas assustadoras acerca de Marcus.

            ‑           Ela contou‑me que ele violou uma rapariga, há anos. Não confies nele.

            ‑           Isso é um disparate. Ele contou‑me. Ela tinha dezasseis anos e parecia ter vinte e cinco. E segundo me contou Marcus foi praticamente ela quem o violou. ‑ Marcus dissera‑lhe que a rapariga quase lhe rasgara a roupa. O caso passara‑se quatro anos antes e nessa altura ele era ingénuo e tolo. E parecera‑lhe genuinamente embaraçado ao contar‑lhe aquilo.

            ‑           Ela tinha treze anos e o pai dela tentou metê‑lo na cadeia ‑ replicou gravemente Marjorie. ‑ E houve também outra história do género, essa com uma rapariga de dezasseis anos. Mas Marcus conseguiu livrar‑se das acusações, pagando. Eloise disse também que ele faz trabalhos pornográficos para ganhar dinheiro. Não me parece um tipo muito decente.

‑           Isso são mentiras ‑ disse Grace, defendendo‑o. Ele não era esse género de pessoa. Ela sabia isso. Se havia algo que ela aprendera com o seu trabalho ali na agência, fora a conhecer as pessoas. ‑ As mulheres dizem sempre coisas desse género quando ficam com ciúmes. Se calhar ela gostava dele e como ele não lhe ligou ficou despeitada ‑ replicou Grace, aborrecida por Marjorie estar a ser tão injusta para Marcus. Ele não merecia isso. Marjorie às vezes era muito dura com as pessoas. Parecia uma mãe‑galinha. E Grace sabia que não precisava disso.

            ‑           Eloise não é dessas ‑ afirmou Marjorie, defendendo a sua amiga de Detroit. ‑ E é bom que tenhas cuidado. Não és tão esperta como julgas. Não tens saído com homens suficientes para saberes distinguir os bons dos maus.

            ‑           Não sabes o que estás a dizer. ‑ Era a primeira vez que Grace se aborrecia com Marjorie. Os seus olhos brilhavam de cólera. ‑ Marcus é um homem muito decente e nunca fez mais do que beijar‑me.

            ‑           Óptimo. Ainda bem para ti. Estou apenas a avisar‑te. O homem tem má reputação. Presta atenção a isso, Grace. Não sejas estúpida.

            ‑           Agradecida pelo aviso ‑ disse Grace com irritação. E cinco minutos depois foi para o quarto e bateu com a porta. Que coisas horríveis tinham dito do pobre Marcus. Mas o trabalho delas era assim mesmo. As modelos que não arranjavam trabalho deitavam as culpas para os fotógrafos e estes, se não conseguiam boas fotos, diziam as piores coisas acerca dos modelos, acusando‑as de consumir drogas ou de se atirarem a eles. As modelos afirmavam terem sido violadas. Contavam‑se muitas histórias dessas naquela profissão e Grace sabia isso. Mas Marjorie também e não devia prestar atenção a conversas dessas. E dizer que Marcus fora fotógrafo de pornografia era de facto um disparate. Ele dissera‑lhe que em Detroit até chegara a ser criado de mesa para poder pagar a renda do seu estúdio, mas nunca lhe falara em pornografia, e Grace sabia que ele lhe teria dito, se fosse verdade. Era uma pessoa muito franca, muito aberta, e confessara‑lhe os seus pecados passados sem ela lho pedir. Nos últimos anos nunca confiara tanto em ninguém como confiava em Marcus.

Foram juntos à festa do 4 de Julho oferecida pelos Swansons na sua casa de Barrington Hilís e Cheryl pedira‑lhe abertamente para fazer com que Grace o deixasse tirar‑lhe algumas fotografias. Ela estava cada vez mais bonita e Cheryl pensou que Marcus era a pessoa indicada para quebrar o gelo e levá‑la a deixar‑se fotografar. Mas Grace riu e abanou a cabeça. Não tinha realmente interesse em ser modelo.

            Nessa tarde, durante a festa, Marcus falou com muitas modelos, parecendo dar‑se bem com toda a gente, mas nessa noite Marjorie disse‑lhe que ele tinha combinado encontros com duas das raparigas.

            ‑           Ele não é casado comigo ‑ respondeu Grace, defendendo‑o outra vez. Não dormiam um com o outro, afinal. Ele pedira‑lhe que o fizesse, mas ela respondera‑lhe que não estava pronta para tomar esse compromisso. Precisava de mais tempo com ele, embora já tivesse confiança nele. De certo modo, o facto de Marjorie lhe ter dito aquilo a respeito das outras raparigas empurrava‑a um pouco mais nessa direcção. Mas não ousou fazer‑lhe qualquer pergunta quando se encontrou com ele, no dia seguinte, e ele lhe pediu para lhe tirar fotografias.

            - Então, Grace... és tão bonita... é uma coisa que não faz mal nenhum... só para nós... para mim... deixa‑me tirar‑te algumas fotos. Se não gostares, não as mostrarei a ninguém... prometo. Cheryl tem razão. Serias um modelo fabuloso.

            ‑           Mas eu não quero ser modelo ‑ respondeu ela com sinceridade.

            ‑           Mas porquê? Tens tudo o que é preciso: altura, aspecto, estilo. És suficientemente esbelta e jovem... a maior parte das raparigas daria tudo para ser como tu e ter uma tão grande oportunidade. Grace, sê sensata... pelo menos deixa‑me tentar. Que poderia ser mais fácil do que trabalhares comigo? Além disso, quero ter algumas fotografias tuas. Há um mês que saio contigo e sinto a tua falta quando não estamos juntos. ‑ Marcus insistiu, suplicou, falou‑lhe ao ouvido, e ao fim da tarde, com grande assombro dela própria, cedeu. Mas fê‑lo prometer que não mostraria as fotografias a ninguém. Combinaram que a sessão de fotografias seria no sábado seguinte. E ele avisou‑a de que não se atrevesse a desmarcá‑la.

            ‑           Não sei porque és tão envergonhada! ‑ exclamou Marcus rindo, enquanto faziam espaguete na pequena cozinha do estúdio. E nessa noite estiveram mais perto de fazer amor do que nunca, mas por fim ela disse que ainda não estava preparada. Não era a altura do mês propícia para isso e ela não queria iniciar o seu relacionamento dessa maneira. Além disso, assim teria mais tempo e uma semana não faria qualquer diferença. Da maneira como ela gostava dele, só seria melhor.

            Grace andou toda a semana preocupada com a sessão de fotografias. Detestava ser o centro das atenções e um objecto de sexo. Detestava tudo o que aquilo representava. Gostava de trabalhar com os modelos, na agência, mas nunca quisera ser por sua vez modelo. Era realmente apenas por Marcus que ela o fazia, e por graça. Ele tornava tudo divertido. E no sábado seguinte, ela estava no estúdio às dez horas, como lhe havia prometido. Estivera em St. Mary na noite anterior, deitara‑se tarde e agora sentia‑se cansada.

            Marcus fez‑lhe café. Já preparara o cenário. No estúdio encontrava‑se uma grande cadeira de braços de cabedal branco, parcialmente coberta por uma manta de pele de raposa branca. Marcus disse‑lhe que queria apenas que ela se sentasse ali, vestida tal qual se encontrava, com umas calças de ganga e uma T‑shirt branca. Fê‑la soltar o cabelo e ele caiu‑lhe sobre os ombros como uma cascata dourada. Depois pediu‑lhe que trocasse a camisola pela camisa branca que ele vestia e pouco a pouco fez com que ela a desabotoasse, mas as fotografias eram todas muito castas e modestas. Grace sentia‑se surpreendida por se estar a divertir. Marcus fotografou‑a nas mais variadas poses, enquanto a música tocava e ele a espiava constantemente por detrás da máquina.

            Ao meio‑dia estavam ainda a tirar fotografias e ele entregou-lhe um copo de vinho, prometendo‑lhe um grande almoço de massa feita em casa, quando terminassem.

            ‑           Pelo menos sabes encontrar o caminho para o coração de uma rapariga ‑ disse Grace, rindo.

            Marcus olhou‑a junto da máquina a pequena distância dela.

‑           Quem me dera que assim fosse... tenho estado a esforçar‑me por isso ‑ confessou, enquanto lhe tirava uma foto que o encantou. Cheryl iria ficar encantada com elas. - Estou a aproximar‑me, Grace?... Refiro‑me ao teu coração

‑ murmurou com uma voz sensual, e Grace sentiu uma onda de calor invadi-la. O vinho fizera‑a ficar um pouco tonta e ela lembrou‑se de que não se preocupara em tomar o pequeno‑almoço. Fora estúpido da sua parte beber vinho com o estômago vazio. Além disso ele enchera‑lhe de novo o copo e ela já bebera metade. Habitualmente não bebia vinho durante o dia e ficou surpreendida por aquele ser tão forte, quando ele lhe pediu timidamente que tirasse as calças, fazendo notar que a camisa era suficientemente comprida para a cobrir inteiramente. Com efeito, chegava‑lhe quase aos joelhos, mas ela hesitou em despir as calças. Por fim, quando ele prometeu que nem sequer mostraria as fotos a Cheryl, Grace tirou as calças e recostou‑se na cadeira, com as pernas e os pés nus, coberta apenas com a camisa dele, desabotoada até à cintura, mas sem revelar coisa alguma. Os seios estavam cobertos. Grace sentiu‑se resvalar lentamente para o sono e ficou estendida na cadeira. Quando acordou ele beijava‑a, enquanto as mãos lhe acariciavam todo o corpo. Grace sentia os lábios e as mãos dele e ouvia diques e via clarões, mas não sabia o que se estava a passar. Via tudo a girar à sua volta e tão depressa mergulhava no sono como acordava. Sentia‑se agoniada, mas não conseguia mexer‑se, nem parar, nem levantar‑se, nem abrir os olhos. Ele continuava a beijá-la e de súbito sentiu que ele lhe tocava e teve uma antiga e familiar sensação de terror, mas quando abriu os olhos outra vez percebeu que estivera a sonhar. Marcus encontrava‑se em pé junto dela e sorria. Grace sentia a boca seca e umas náuseas estranhas.

            ‑           Que se está a passar? ‑ Grace sentia‑se assustada e doente, via manchas em frente dos olhos e ele continuava parado, rindo.

            ‑           Acho que o vinho te fez mal.

            ‑           Lamento que isto tenha sucedido. ‑ Sentia‑se mortificada, mas ele ajoelhou‑se ao lado dela e beijou‑a com tal força que ela ficou tonta outra vez. Mas gostou. Desejava‑o, mas ao mesmo tempo queria que ele parasse.

‑           Eu não lamento coisa alguma ‑ murmurou ele com a cabeça entre os seios dela. ‑ Ficas deslumbrante quando estás embriagada. ‑ Grace deixou‑se cair para trás e fechou os olhos enquanto a língua dele descia pelo estômago, entrava por baixo da roupa interior, lambendo, lambendo, cada vez mais abaixo, até que subitamente os olhos dela se abriram e ela saltou. Não podia. ‑ Então, querida... por favor... preciso de ti... ‑ Quanto tempo julgaria ela que ele ia esperar? - Por favor... Grace... preciso de ti...

            ‑           Não posso... ‑ murmurou com voz rouca, desejando‑o, mas receando que ele a possuísse. Só conseguia lembrar‑se do que se passara na noite em que o pai morrera, como o quarto girara à sua volta, e então sentiu‑se outra vez agoniada. O vinho fizera‑lhe realmente mal e de súbito teve vontade de vomitar, mas receou dizer‑lho. Marcus tocava‑lhe em sítios onde ninguém lhe tocara, a não ser o pai. - Não posso... ‑ murmurou. Mas não conseguia arranjar forças para o deter.

            ‑           Mas porquê? ‑ Pela primeira vez desde que o conhecia, Marcus perdeu a paciência, mas quando o fez Grace sentiu‑se de novo agoniada e, sem qualquer aviso, perdeu os sentidos. Quando acordou, ele estava deitado ao lado dela completamente nu. Ela tinha ainda a camisa dele, a roupa interior e Marcus sorria‑lhe. Grace teve então uma súbita sensação de terror. Não conseguia recordar coisa alguma, a não ser ter desmaiado. Não sabia quanto tempo estivera sem sentidos, nem o que tinham feito, mas era óbvio que algo se passara.

            ‑           Marcus, que sucedeu? ‑ perguntou aterrorizada, sentindo‑se muito agoniada, e apertando a camisa em volta do corpo.

            ‑           Gostavas de saber? ‑ Marcus estava divertido, ria‑se dela. Ela estivera completamente inconsciente. ‑ Foste formidável, Grace. Inesquecível.

            ‑           Como podes fazer isso? ‑ Começou a chorar. ‑ Como pudeste fazer isso comigo desmaiada? ‑ Sentiu vómitos e o peito ofegante da asma, mas sentia‑se demasiado agoniada para procurar o inalador. Nem sequer se sentia capaz de se sentar e de olhar o que a rodeava.

‑           Como é que sabes o que eu fiz? ‑ disse Marcus maldosamente, andando de um lado para o outro, com o seu esplêndido corpo nu. ‑ Talvez eu goste de trabalhar assim. É muito mais fresco. ‑ Voltou‑se para ela a fim de que o pudesse ver todo e ela voltou a cara para não ver. Não era assim que ela desejava que tivesse sido a primeira vez entre eles e não sabia se estava zangada com ele ou apenas magoada. Sucedera com ele o mesmo de sempre. Fora violada.

            ‑           Na verdade, Grace ‑ continuou ele dando uns passos vagarosos para ela ‑ não se passou coisa alguma. Não sou um necrófago. Não gosto de foder cadáveres. E é isso o que tu és, não é verdade? Estás morta. Andas por aí a fingir que estás viva, a excitar os homens, mas quando chega a altura arranjas uma porção de desculpas e finges‑te morta.

            ‑           Não são desculpas ‑ retorquiu Grace, sentando‑se com dificuldade e descobrindo as calças caídas no soalho. Puxou‑as para si e começou a vesti‑las. Levantou‑se cambaleando. Continuava com náuseas. Depois tirou a camisa dele e vestiu a camisola dela de costas voltadas para ele. Nem sequer perdeu tempo a vestir o soutien. Sentia‑se demasiado doente para se preocupar com isso. Doía‑lhe a cabeça e ao mesmo tempo sentia tudo a andar à roda. ‑ Não sou capaz de explicar o que se passou ‑ disse, respondendo às acusações dele. Estava demasiado maldisposta para discutir, mas tinha a sensação de que algo de terrível se passara. Lembrava‑se de o beijar e de ele lhe dizer coisas, e recordava‑se também de estar deitada com ele, mas não conseguia lembrar‑se de mais nada. Tinha esperança de que se tratasse de um pesadelo provocado por ter bebido vinho com o estômago vazio. Continuava a ter a noção de que ele a atormentara com o seu corpo, mas não lhe parecia que a tivesse violado. Tinha quase a certeza de que o não fizera.

            ‑           Até as virgens acabam eventualmente por fazer sexo.

O que é que te faz julgares-te tão especial? ‑ Marcus estava furioso. Ela não passava de uma maçadora e só servira para o aborrecer. Havia muitas outras raparigas que podia ter tido e que tencionava ter. Não queria mais nada com Grace Adams.

‑           Estou apenas assustada, nada mais. É difícil de explicar ‑ Porque estaria ele tão furioso com ela? E porque é que se recordava dele nu em cima de si?

            ‑           Não estás nada assustada ‑ retorquiu Marcus pegando na sua máquina e não fazendo qualquer esforço para se vestir. ‑ És doida. Parecia que me ias matar quando te toquei. Que se passa, afinal? És gay?

            ‑           Não, não sou. ‑ Mas ele não andava longe da verdade ao dizer que ela parecia que o queria matar, Grace sabia-o. Talvez fosse sempre assim. Talvez ela nunca fosse capaz de fazer amor com ninguém. Mas agora queria sobretudo saber se se passara alguma coisa enquanto ela estivera inconsciente. E não gostava da sensação que experimentava.

            ‑           Diz‑me a verdade. Que me fizeste? Fizeste amor comigo? ‑ perguntou com lágrimas nos olhos.

            ‑           Que diferença faz? Já te disse que não fiz coisa alguma. Não confias em mim?

            Depois do que sucedera, era realmente difícil. Ele abusara dela enquanto estava inconsciente. Fizera com que se despisse, embora não completamente, e despira‑se ele. Ao acordar não gostara da situação em que se encontrara, mas também não sentia que tivesse sido violada. Sabia que seria uma sensação diferente. Era reconfortante pensar isso. Talvez ele não tivesse feito mais do que ela conseguia recordar. Só beijos e carícias. E ela gostara, mas sentira‑se também assustada. Tinha a sensação de que ele estivera prestes a fazer amor com ela mas que não conseguira. Era a frustração que o fazia estar zangado.

            ‑           Como hei‑de confiar em ti depois do que se passou?

‑           disse Grace em voz baixa, lutando contra a náusea.

            ‑           O que é que se passou? Tentei fazer amor contigo? Não é contra a lei, sabias? As pessoas fazem isso todos os dias... algumas até gostam... e tu tens vinte e um anos, não tens? Que vais então fazer? Chamar a Polícia por eu te ter beijado e tirado as calças? ‑ Mas Grace sentia‑se violada. Ele tirara‑lhe fotografias que não o autorizara e tentara aproveitar‑se sexualmente dela estando embriagada. Era estranho nunca ter ficado embriagada por beber um copo e meio de vinho. E continuava a sentir‑se terrivelmente mal. ‑ Estou farto dos teus jogos, Grace. Investi em ti muito tempo, paciência, tardes de sábado e jantares em restaurantes italianos. Já devíamos ter ido para a cama há semanas. Não tenho catorze anos. Estou farto disso. O que não falta são raparigas normais. ‑ Era terrível o que ele lhe estava a dizer, mas ao vê‑lo assim, tão cheio da sua pessoa, no seu habitat natural, Grace compreendeu por fim que ele não era o homem que ela julgara que fosse. Era obviamente mau e não a amava. Só se mostrara simpático para ela para conseguir o que queria.

            ‑           Lamento ter‑te feito perder tempo ‑ disse friamente.

            ‑           Também eu ‑ respondeu Marcus com ar despreocupado. ‑ Vou mandar as folhas para a agência. Poderás escolher as fotos que quiseres.

            ‑           Não as quero ver. Podes queimá-las.

            ‑           Acredita que o farei ‑ replicou ele num tom gélido. - E a propósito, tens razão: serias uma péssima modelo.

            ‑           Obrigada ‑ replicou Grace, vestindo a camisola. Num só instante ele tornara‑se um estranho para ela. Pegou então na mala e dirigiu‑se para a porta. Antes de sair olhou para trás e viu que ele tirava um filme da máquina com um ar totalmente indiferente. Grace admirou‑se de se poder ter enganado de tal maneira a respeito dele. Mas nessa altura o quarto começou novamente a girar à sua volta e ela quase desmaiou. Pensou se estaria com gripe ou se se sentia apenas perturbada com tudo o que se passara. ‑ Lamento, Marcus - murmurou tristemente. Ele limitou‑se a encolher os ombros e a virar‑lhe as costas, como se fosse ele o ofendido. Tinha‑se divertido com ela durante uns tempos, mas chegara a altura de mudar. Raparigas bonitas eram às dúzias na vida dele.

            Marcus não disse uma única palavra a Grace ao vê‑la sair. Desceu as escadas quase de rastos, chamou um táxi e deu‑lhe a morada do apartamento. E quando chegaram, o motorista teve de a sacudir e de lhe dizer qual o preço a pagar.

            ‑           Desculpe ‑ murmurou Grace, sentindo‑se agoniada outra vez, estava realmente mal.

‑           Sente‑se bem, miss? ‑ O motorista parecia preocupado quando ela lhe pagou o que ele pedira mais uma boa gorjeta, e ficou a vê‑la cambalear até à entrada do prédio.

            Logo que Grace entrou e fechou a porta, Marjorie levantou a cabeça para a observar. Estivera ali sentada a arranjar as unhas e ficou horrorizada ao ver Grace. Estava tão pálida que mais parecia verde e deu‑lhe a impressão de que ela ia desmaiar antes de chegar ao quarto.

            ‑Ei!... estás bem? ‑ perguntou Marjorie, erguendo‑se de um salto. Chegou junto de Grace a tempo de ela lhe cair nos braços. Marjorie ajudou‑a a estender‑se na cama e Grace ficou deitada, sentindo‑se como se estivesse a morrer.

            ‑           Creio que estou com gripe ‑ murmurou, arrastando as palavras. ‑ Talvez tenha sido envenenada.

            ‑           Pensei que estavas com Marcus. Não ias tirar fotografias com ele hoje? ‑ perguntou Marjorie.

            Grace disse que sim com a cabeça. Sentia‑se demasiado mal para falar e de resto não sabia se o queria fazer. Mas de repente começou a sentir que ia desmaiar outra vez, como sucedera quando estava estendida no sofá branco e ao acordar vira Marcus nu a seu lado. Talvez quando abrisse agora os olhos Marjorie também estivesse despida. Riu alto, com os olhos fechados, e Marjorie olhou‑a pensativamente e em seguida foi buscar uma lanterna eléctrica e um pano húmido. Voltou daí a dois minutos e pôs o pano molhado na testa de Grace. Esta abriu os olhos por breves instantes.

            ‑           Que sucedeu? ‑ perguntou com firmeza.

            ‑           Não sei ‑ disse Grace com os olhos ainda fechados começando a chorar em silêncio. ‑ Foi horrível.

            ‑           Aposto que sim ‑ exclamou Marjorie, zangada. Era capaz de imaginar o que se passara, embora Grace não fosse. Acendeu a lanterna e disse‑lhe que abrisse os olhos.

            ‑           Não posso. Parece‑me que a cabeça me vai rebentar. Estou a morrer.

            ‑           Mesmo assim abre‑os. Quero ver uma coisa.

            ‑           Não tenho nada nos olhos. Dói‑me a cabeça... o estômago... os meus olhos...

            ‑           Vamos, abre‑os... só um segundo.

Grace esforçou‑se por abrir os olhos e Marjorie fez incidir sobre eles o feixe luminoso que causou a Grace a sensação de lhe estarem a espetar punhais na cabeça. Mas Marjorie vira o que queria.

            ‑           Onde estiveste?

            ‑           Já te disse... com Marcus... ‑ Grace fechou outra vez os olhos e o quarto começou a girar.

            ‑           Comeste ou bebeste alguma coisa? Grace, diz‑me a verdade. Tomaste alguma droga?

            ‑           Nunca tomei drogas na minha vida.

            ‑           Fizeste‑o agora ‑ disse Marjorie, zangada. ‑ Estás completamente drogada.

            ‑           Com o quê? ‑ perguntou Grace, assustada.

            ‑           Não sei... LSD... coca... heroína...

            ‑           Bebi apenas dois copos de vinho. Nem sequer acabei o segundo. ‑ Encostou de novo a cabeça na almofada. Sentia‑se demasiado doente para se sentar. Estava ainda pior do que estivera no estúdio de Marcus. Parecia que o efeito do que quer que ele lhe dera se fazia sentir ainda mais penoso.

            ‑           Ele deve ter‑te dado uma coisa forte. Sentiste‑te esquisita quando lá estavas?

            ‑           Oh, sim... ‑ gemeu Grace. ‑ Foi tão estranho... Olhou para amiga e começou a chorar. ‑ Não sabia o que era sonho... e o que era real... ele estava a beijar‑me e a fazer coisas... e depois adormeci e quando acordei ele estava nu... mas disse que nada sucedeu.

            ‑Filho‑da‑mãe... violou‑te! ‑ Marjorie tinha vontade de o matar por causa da amiga e de todas as mulheres. Nunca gostara dele. Detestava os malandros como ele, especialmente os que se aproveitavam de garotas inexperientes. Era um desporto fácil e maldoso. Grace continuou a falar de um modo confuso.

            ‑           Nem sequer sei se ele... não o creio... não me lembro...

            ‑           Então para que foi que ele se despiu? ‑ disse Marjorie, desconfiada. ‑ Tiveste sexo com ele antes de perderes os sentidos?

            ‑           Não, apenas o beijei... não queria... estava com medo... mas queria... mas depois tentei detê‑lo. E ele ficou realmente furioso comigo. Disse que eu era louca... e maçadora... disse que não fazia amor comigo porque seria o mesmo que... fazê‑lo com um cadáver...

            ‑           Mas deixou‑te crer que tinha feito, não foi? Que simpático! ‑ Marjorie estava realmente indignada com Marcus. Ele tirou‑te fotografias sem roupa?

            ‑           Quando perdi os sentidos tinha as cuequinhas e a camisa dele... ‑ Pelo menos era do que se lembrava. Não se lembrava de se ter despido, nem mesmo quando ele a estivera a acariciar.

            ‑           É melhor dizeres‑lhe para te dar os negativos. Diz‑lhe que chamas a Polícia, se ele recusar. Se quiseres, eu telefono-lhe e digo‑lhe.

            ‑           Não, eu telefono. ‑ Sentia‑se demasiadamente mortificada para querer outra pessoa envolvida no assunto. Já era bastante mau ter contado a Marjorie o que se passara. Mas também era reconfortante tê‑la ali. A amiga levou‑lhe uma chávena de chá quente e outra toalha húmida para pôr na testa. Meia hora depois Grace sentiu‑se um pouco melhor e Marjorie sentou‑se no chão ao lado da cama, a olhá‑la.

            - Houve um tipo que me fez isso uma vez, quando comecei a trabalhar. Deitou‑me droga na bebida e quando dei por mim percebi que ele queria tirar‑me fotografias pornográficas com outra rapariga tão drogada como eu.

            ‑           E que fizeste?

            ‑           O meu pai chamou a Polícia e ameaçou‑o de lhe dar uma tareia. Nós não chegámos a tirar essas fotografias, mas muitas raparigas fazem‑no. Algumas delas nem sequer precisam de estar drogadas. Estão demasiado assustadas para não o fazerem. Os tipos dizem‑lhes que elas nunca mais arranjarão trabalho, ou outras coisas e elas fazem o que eles querem.

            Ao ouvir Marjorie, Grace sentiu o sangue gelar-lhe nas veias. E ela que estava a apaixonar‑se por ele, que confiava nele. E se ele a fotografara nua enquanto ela estava desmaiada?

            ‑           Achas que ele fez alguma coisa desse género? ‑ perguntou aterrorizada, lembrando‑se do que a amiga de Marjorie dissera a respeito de Marcus ter feito fotografias pornográficas em Detroit.

            ‑           Estava mais alguém convosco, no estúdio? ‑ perguntou Marjorie preocupada.

‑           Não, estávamos só os dois. Disso tenho eu a certeza. E devem ter sido apenas alguns minutos.

            ‑           De qualquer modo foi o tempo suficiente para ele tirar as calças ‑ retorquiu Marjorie, novamente zangada. Não, creio que o não fez. Quando muito deve ter‑te tirado algumas fotografias nua. E não poderá fazer grande coisa com elas sem tua autorização, isto é, se estiveres reconhecível. Não poderá mostrar o teu rosto sem ter lá a tua assinatura a autorizar a publicação. A única vantagem que teriam para ele fotografias desse género seria fazer chantagem sobre ti e isso não lhe daria grande coisa. O que é que ele conseguiria que lhe desses? Uns duzentos dólares. Além disso é preciso tempo e alguma colaboração para vender fotos desse género. Eles costumam utilizar duas raparigas, ou pelo menos um homem. Mas mesmo drogada, tinhas de ter vivacidade suficiente para fazer o que ele queria. Parece que não foste muito cooperante depois de ele te ter dado a poção mágica ‑ disse Marjorie, rindo. E Grace sorriu pela primeira vez desde há muitas horas. ‑ Parece que ele sobrestimou a sua vítima. Deves ter caído fulminada como uma árvore abatida na floresta.

            Riram ambas e sentiram que era um alívio poderem rir. Fora uma cena terrível e um desapontamento brutal, mas Grace não podia deixar de pensar se teria sido capaz de fazer amor com ele se não a tivesse drogado. Talvez nunca conseguisse. Mas naquele momento não tinha qualquer desejo disso e com certeza nunca mais teria, pelo menos com Marcus.

            ‑           Não bebo muito e nunca consumi qualquer droga, por isso senti‑me verdadeiramente doente.

            ‑           Também reparei nisso. Quando entraste estavas verde. ‑ Depois decidiu fazer uma sugestão. ‑ Creio que a questão das fotografias está mais ou menos controlada desde que ele te dê os negativos. Mas talvez queiras verificar outra coisa. Queres ir rapidamente à minha médica? Acho que devias saber se ele te fez alguma coisa. A minha médica é muito simpática e atendia‑te. Claro que é um pouco embaraçoso, mas ficavas a saber. Elas podem ver. Ele poderia ter‑te feito muitas coisas enquanto estavas inconsciente.

            ‑           Creio que havia de me lembrar... recordo‑me de estar assustada e de lhe dizer que não.

            ‑           É o que se passa com todas as vítimas de violação do mundo. Nenhum violador pára por a vítima lho pedir. Não te sentirias melhor se soubesses? E se ele te violou, podes queixar‑te.

            "Para quê?", perguntou Grace a si mesma. "Para continuar o pesadelo?" Grace temia isso, temia atrair as atenções, as histórias nos jornais. Secretária acusa fotógrafo de violação... ele diz que ela queria... posou nua para ele... só pensar nisso fazia Grace sentir‑se arrepiada. Mas Marjorie tinha razão. Era melhor saber... e se ficasse grávida... não era impossível e a ideia horrorizava‑a. Inicialmente resistiu à ideia de falar à médica, mas Marjorie insistiu e finalmente Grace permitiu que ela lhe telefonasse. às cinco dirigiram‑se para o consultório da médica. Grace sentia a cabeça mais desanuviada, mas a médica confirmou que ela fora drogada com qualquer coisa...

            ‑           Que tipo simpático ‑ comentou a médica, começando a examinar Grace. Esta recordou imediatamente os exames mandados fazer pela Polícia no hospital. Mas a médica ficou surpreendida com o que viu. Não havia sinais de relações recentes, mas encontrou imensas cicatrizes antigas. Desconfiava do que isso poderia significar e mostrou‑se muito gentil quando fez algumas perguntas a Grace. Tranquilizou‑a logo, dizendo-lhe que embora o homem a tivesse drogado, não havia sinais de penetração nem de ejaculação.

            "Pelo menos isso já é alguma coisa", pensou Grace. Agora só tinha de se preocupar com as fotografias. E o que Marjorie lhe dissera era tranquilizador. Mesmo que ele lhe tivesse tirado fotografias comprometedoras, onde ela fosse reconhecível, não poderia usá‑las sem autorização dela. E se não estivesse reconhecível, que lhe importava? E com um pouco de sorte ele devolver‑lhe‑ia as fotos. Continuava a achar repugnante que ele o tivesse feito, mas inclinava‑se agora a pensar que Marcus apenas encenara tudo aquilo para a castigar por ter desmaiado para não dormir com ele. As drogas não tinham ajudado, apenas a tinham feito ficar mais assustada.

            ‑           Grace, alguma vez foi violada? ‑ perguntou a médica, embora já conhecesse a resposta quando Grace disse que sim com a cabeça. ‑ Que idade tinha?

‑ Treze..., catorze..., quinze..., dezasseis..., dezassete...

            Ao princípio a médica não percebeu o que ela queria dizer.

            ‑           Foi violada quatro vezes? ‑ Era um facto pouco habitual. Talvez ela tivesse problemas psicológicos e por essa razão corresse repetidamente riscos, mas Grace abanou a cabeça com uma expressão dolorosa.

            ‑           Não, fui violada praticamente todos os dias durante quatro anos... pelo meu pai...

            Houve um longo momento de silêncio, até que a médica disse suavemente:

            ‑           Lamento. ‑ De vez em quando, tinha conhecimento de casos desses e isso dilacerava‑lhe o coração, especialmente se se tratava de raparigas muito novinhas, como fora o caso de Grace. ‑ Ele tratou‑se? Alguém interveio? - "Sim", disse Grace para consigo. "Eu." Fora ela quem interviera e se salvara. Mais ninguém a teria ajudado.

            ‑           Ele morreu. Foi isso que o deteve. ‑ A médica fez sinal de compreender.

            ‑           Alguma vez teve relações... bem... normalmente, com um homem?

            Grace abanou a cabeça em resposta.

            ‑           Penso que foi o que sucedeu hoje. Creio que ele ficou ansioso e quis ter a certeza de que eu colaboraria, e por isso deitou qualquer coisa na minha bebida... saíamos juntos há um mês e nada sucedera... eu... eu queria ter a certeza... ele disse que eu me mostrei verdadeiramente assustada quando... quando ele tentou...

            ‑           Estou certa disso. Drogá‑la não foi a melhor coisa a fazer. Precisa de tempo, de tratamento e do homem certo. Não me parece que esse o seja ‑ acrescentou calmamente.

            ‑           Já percebi isso ‑ murmurou Grace com um suspiro, mas contudo sentia‑se aliviada por saber que ele não a violara. Isso seria juntar o insulto à injúria.

            A médica indicou‑lhe o nome de uma terapeuta e Grace aceitou‑o, mas não tencionando lá ir. Não queria voltar a falar do passado, do pai, dos quatro anos de inferno que ele a fizera passar nem dos dois anos em Dwight. Falara a Molly de tudo isso e Molly morrera. Não queria relembrar essas coisas fosse com quem fosse. Só desejava aquilo que já tinha. O seu trabalho na agência, a casa partilhada com as amigas, e o trabalho voluntário com as mulheres e as crianças em St. Mary. Era o suficiente para ela, embora os outros não o pudessem entender.

            Grace agradeceu à médica e regressou a casa com Marjorie. Deitou‑se e dormiu até lhe passar o efeito das drogas. Foi para a cama às oito e acordou às quatro da tarde seguinte, com grande espanto de Marjorie.

            ‑           Que é que ele te deu? Um calmante para elefante?

            ‑           Talvez. ‑ Grace sorriu. Sentia‑se melhor. Fora uma experiência horrível, mas ela passara por outras piores. E felizmente era resistente. Nessa tarde foi trabalhar para a agência e à noite telefonou a Marcus. Grace esperava ir falar para o gravador e ficou surpreendida quando o ouviu. Ele também denotou um certo espanto ao ouvir a voz dela.

            ‑           Sentes‑te melhor? ‑ perguntou sarcasticamente.

            ‑           Foi uma coisa indecente o que fizeste. Fiquei doente com o que me deste a beber.

- Desculpa. Foram apenas alguns Vallíums e um pouco de pó mágico. Pensei que precisavas de algo para ficares mais relaxada.

            Grace tinha vontade de lhe perguntar até que ponto ficara relaxada, mas disse apenas:

            ‑           Não precisavas de fazer isso.

            - Já percebi. Foi um esforço perdido. Obrigado por me teres feito andar atrás de ti durante as últimas cinco semanas. Gostei muito.

            ‑           Eu não te fiz andar atrás de mim ‑ disse Grace, magoada. ‑ Para mim é difícil. Custa‑me explicar, mas...

            ‑           Não te incomodes, Grace. Seja qual for a tua história, com certeza que não inclui homens, pelo menos homens como eu. Percebo.

            ‑           Não, não percebes ‑ replicou Grace, zangada. Como é que ele podia perceber?

            ‑           Bem, talvez eu não queira compreender. Ninguém gosta destas coisas. Julguei que me querias matar quando te acariciei.

            Grace não se lembrava de nada disso, mas era possível. Compreendia que entrara em pânico.

‑           Precisas é de um psiquiatra. Não de um namorado.

            ‑           Obrigada pelo conselho. E a outra coisa de que preciso é dos negativos das fotografias que me tiraste. Quero‑os nas minhas mãos na segunda‑feira.

            ‑           Sim? E quem disse que tirei fotografias?

            ‑           Não joguemos esse jogo ‑ retorquiu calmamente Grace. ‑ Tiraste‑me muitas fotos enquanto eu estive acordada e eu ouvi os estalidos da máquina e oflash quando estava meia tonta. Quero os negativos, Marcus.

            ‑           Terei de ver se os encontro ‑ disse Marcus com frieza. ‑ Tenho para aqui uma enorme quantidade de coisas.

            ‑           Ouve, posso dizer à Polícia que me violaste.

            ‑           O diabo é que violei. Creio que há anos que ninguém entra nessa tua caixa de cimento, se é que alguém já entrou, por isso ias ter muita dificuldade em fazer crer nisso. Eu não fiz mais do que dar‑te alguns beijos e despir‑me. Grande coisa, "Miss Virginal Não‑Me‑Toques". Ninguém pode ser preso por se despir na sua própria casa. ‑ Sem saber bem porquê, Grace ficou aliviada de o ouvir dizer isso.

            ‑           E quanto às fotografias?

            ‑           Que têm as fotografias? São fotos de uma rapariga com uma camisa de homem vestida e os olhos fechados. Nem sequer abriste a camisa. E a maior parte do tempo estiveste a ressonar.

            ‑           Tenho asma ‑ replicou Grace, irritada. ‑ E não quero saber se as fotos são recatadas ou não. Quero‑as. Não podes fazer nada com elas sem a minha assinatura, por isso de nada te servem. ‑ A jovem sentia‑se grata por Marjorie lhe ter dado essas informações.

            ‑           Que te faz pensar que não assinaste uma autorização? Além disso, posso querer ficar com elas para o meu álbum.

            ‑           Não tens esse direito. E estás a dizer‑me que assinei uma autorização enquanto estava drogada? ‑ Grace sentiu‑se tomada de pânico.

            ‑           Não te estou a dizer coisa alguma. E por causa de todas as maçadas que me deste, creio ter direito àquilo que eu quiser. És uma empertigada e uma convencida, minha cabra. Desaparece e não queiras deitar as mãos às minhas fotografias. Não te devo coisa alguma. Entendes bem?

Na segunda‑feira de manhã soube que Marcus saíra nessa noite com uma das modelos da agência. Cheryl perguntou a Grace como tinha corrido a sessão de fotografias com Marcus, e ela respondeu que tivera gripe e que não pudera ir.

            Mas daí a umas semanas, no dia dos seus vinte e dois anos, Bob Swanson convidou‑a para almoçar. Cheryl encontrava‑se em Nova Iorque a tratar de negócios da agência e Bob levou Grace ao Nick's Fishmarket. Acabou de lhe encher a taça de champanhe e voltou‑se para ela, sorrindo de um modo apreciativo. Grace sempre lhe agradara e ele estava totalmente de acordo com a mulher quando ela dizia que fora uma sorte Grace ter‑lhes aparecido.

            ‑           A propósito, Outro dia encontrei Marcus Anders. Grace tentou não se mostrar preocupada e continuou a beber o champanhe enquanto ele falava. Era Dom Pérignon e tratava‑se da primeira bebida alcoólica que ela ingeria desde que Marcus a drogara. E até mesmo aquele excelente champanhe francês a fazia sentir‑se ligeiramente tonta.

            ‑           Marcus mostrou‑me umas fotografias suas, Grace... São fabulosas... Tem‑se andado a esconder de nós. Vai ter um grande futuro. São as fotografias mais excitantes que eu vi desde há muitos anos. Poucas modelos conseguem tal coisa. Vai deixar os homens loucos de desejo... ‑ Grace sentia‑se agoniada ao ouvi-lo e tentou fingir que não o entendia. Mas era inútil. Que patife era aquele Marcus! Nunca lhe enviara nem as fotografias nem os negativos e não atendia os telefonemas dela. Em vez disso fora mostrar as fotos a Bob. Também não lhe mostrara qualquer autorização assinada por ela e de resto Grace tinha a certeza de não ter assinado nenhuma. Ele estava apenas a querer assustá‑la.

            ‑           Não sei o que quer dizer, Bob ‑ disse Grace, tentando não se mostrar embaraçada ou preocupada. ‑ Tirámos apenas algumas fotos. Depois fiquei doente. Tive gripe.

            ‑           Se é assim que fica com gripe, então devia tê‑la mais vezes.

            Então Grace não pôde aguentar mais e olhou o patrão de frente. Foi como enfrentar um leão esfomeado. Bob era um homem grande e tinha um grande apetite, segundo Grace soubera pelas suas amigas.

‑           O que é que ele lhe mostrou exactamente?

            ‑           Tenho a certeza de que se lembra das fotos. Tinha uma camisa de homem vestida, aberta até abaixo e a cabeça inclinada para trás. Pareceu‑me muito apaixonada, como se tivesse acabado de fazer amor com ele... ou fosse fazer.

            ‑           Estava vestida, não estava?

            ‑           Sim, tinha a camisa. Não se vê nada que não se deva, mas a expressão do seu rosto é inequívoca. ‑ Pelo menos Marcus não lhe despira a camisa. Grace sentia‑se grata por esse pequeno favor.

            ‑           Provavelmente estava a dormir. Ele drogou‑me.

            ‑           Não me pareceu drogada. Achei‑a terrivelmente sensual. Falo a sério, Grace. Devia ser modelo ou mesmo entrar em filmes.

            ‑           Talvez pornográficos? ‑ exclamou ela zangada.

            ‑           Com certeza ‑ disse ele, satisfeito. ‑ Gosta de filmes porno? ‑ perguntou com interesse. ‑ Sabe uma coisa, Grace, tive uma ideia. ‑ Com efeito, tivera essa ideia muito antes do almoço. Telefonara para marcar uma suite no hotel, antes de se dirigirem para ali, e estava tudo preparado à espera deles, com mais champanhe. Marcus dissera‑lhe que ela parecia muito fria mas que era fácil. Bob baixou a voz ao falar com ela e apertou‑lhe a mão outra vez. ‑ Tenho uma suite à nossa espera lá em cima, a maior do hotel. Pedi mesmo lençóis de cetim... e têm um canal de vídeo que passa todos os filmes pornográficos que se possam imaginar. Talvez queira ver alguns antes de irmos...

            Grace tinha vontade de vomitar ao ouvi‑lo e teve de se conter para não o esbofetear.

            ‑           Não vou consigo lá para cima, Bob. Nem agora nem nunca. E se isso significa que vou ser despedida, despeço‑me eu. Mas não sou nenhuma prostituta, nem uma estrela porno, nem uma peça de carne para você saciar o seu apetite.

            ‑           Que quer isso dizer? Marcus disse‑me que a Grace era a mulher mais ardente da cidade e eu pensei que talvez gostasse de se divertir um pouco... eu vi as fotografias... você parecia que ia saltar sobre as lentes da máquina. Então que era aquilo? Tem medo de Cheryl? Ela nunca saberá. Nunca sabe. ‑ Não, mas toda a gente sabia, menos ela. Grace tinha vontade de gritar com ele, mas sabia que Marcus lhe contara coisas repugnantes.

            ‑           Gosto de Cheryl. Gosto de si. Não irei dormir consigo e nunca dormi com Marcus. E já lhe disse que ele me drogou. Eu estava a dormir quando ele me tirou essas fotografias.

            ‑           Aparentemente na cama dele ‑ disse Bob com ar aborrecido. Não pensara ter qualquer dificuldade com ela, depois do que Marcus lhe dissera. Sempre a considerara muito distante e correcta e deixara‑a em paz, mas Marcus dissera-lhe que ela consumia drogas e gostava de sexo e Bob acreditara.

            ‑           Era um cadeirão no estúdio dele.

            ‑           E você tinha as pernas abertas de uma maneira que... ficou excitado só por pensar nisso.

            ‑           Sem roupa? ‑ perguntou Grace horrorizada com o que ele acabara de dizer, e ele riu.

            ‑           Não lhe posso dizer. A fralda da camisa pendia-lhe entre as pernas, mas a mensagem era bem clara. Então? Que diz a um presente de aniversário entre nós dois, lá em cima, na suite? Não quer ir com o tio Bob? Será o nosso segredinho.

            ‑           Lamento. ‑ Os olhos dela encheram‑se de lágrimas que começaram a correr‑lhe pelas faces. Aos vinte e dois anos ainda se sentia muitas vezes como uma criança e não sabia por que motivo aquilo lhe estava sempre a suceder. Por que motivo os homens a detestariam tanto que estavam sempre a querer abusar dela? ‑ Não posso fazer isso ‑ disse Grace, continuando a chorar para cima da mesa, o que pareceu aborrecê‑lo ainda mais porque atraía as atenções.

            ‑           Pare com isso ‑ disse bruscamente Bob Swanson, franzindo o sobrolho e aproximando‑se mais dela. ‑ Deixe‑me pôr as coisas desta maneira: ou vamos lá acima durante uma ou duas horas e festejamos o seu aniversário, ou está imediatamente despedida. Ou é "Feliz Aniversário", ou "Boa Viagem". Qual escolhe? ‑ Se não fosse tão terrível o que Bob lhe estava a dizer, Grace teria rido na cara dele. Mas ela não ria, chorava cada vez mais enquanto o olhava de frente, dizendo-lhe:

‑           Então, estou despedida. Amanhã irei buscar o cheque do meu salário e as minhas coisas. ‑ Saiu da mesa sem dizer mais uma palavra e voltou para casa, lavada em lágrimas. No dia seguinte dirigiu‑se para a agência para ir buscar as coisas que lá tinha e o cheque do vencimento.

            Cheryl regressara na véspera de Nova Iorque e sorriu alegremente ao ver aparecer Grace. Esta não pôde deixar de imaginar o que lhe teria dito Bob. Mas isso não interessava. Tomara já uma decisão. Faltavam‑lhe pouco mais de dois meses para acabar a sua liberdade condicional e depois poderia fazer o que quisesse.

            ‑           Sente‑se melhor? ‑ perguntou Cheryl. Tivera uma permanência muito animada em Nova Iorque. Era sempre assim. às vezes tinha pena de não viver em Nova Iorque.

            ‑           Sim, estou bem ‑ respondeu calmamente Grace. Depois de ter trabalhado com eles durante vinte e um meses, tinha realmente pena de os deixar, mas sabia que não podia fazer outra coisa.

            ‑           Bob contou‑me que teve uma grave intoxicação alimentar com o almoço de ontem, e que precisou de ir para casa. Pobrezinha. ‑ Cheryl deu-lhe uma palmadinha no braço e apressou‑se a ir para o seu escritório. Parecia não fazer ideia de Grace ter sido despedida. Nesse momento Bob saiu do escritório dele e olhou‑a, parecendo não compreender.

            ‑           Sente‑se melhor, Grace? ‑ perguntou como se nada se tivesse passado entre os dois na véspera. E ela falou em voz baixa, para ninguém ouvir.

            ‑           Vim buscar o meu cheque e levar as minhas coisas.

            ‑           Não precisa de fazer isso ‑ disse Bob com ar inexpressivo. ‑ Creio que podemos esquecer o assunto, não? - acrescentou, olhando‑a fixamente. Grace hesitou durante um bocado e depois baixou a cabeça num gesto de assentimento. Não merecia a pena fazer escândalo. Aquilo sucedera e ela sabia agora o que fazer. Era chegada a altura.

            Esperou mais seis semanas até ao Dia do Trabalho, e avisou‑os de que os deixaria no prazo de um mês. Cheryl ficou muito triste e Bob fingiu sentir o mesmo. Marjorie chorou quando Grace lhe disse, mas dentro de três semanas ficaria livre da liberdade condicional e era altura de deixar Chicago. Tinha quase a certeza de que as fotos que Marcus lhe tirara não eram obscenas. Até Bob Swanson dissera que o corpo dela se encontrava tapado pela camisa de homem, mas de qualquer modo eram desagradáveis e ele ficara com elas. Grace sabia que, se se queixasse de Marcus, ele diria que ela era uma mulher fácil e sabe Deus o que Bob diria para se proteger. Talvez dissesse mesmo que fora ela quem o provocara, se isso servisse os seus fins. Grace estava farta de pessoas como eles, de fotógrafos que se julgavam donos do mundo e de modelos sempre dispostas a serem exploradas. Além disso tinha a sensação de ter feito tudo o que podia em St. Mary. Chegara a altura de sair dali.

            Na agência fizeram‑lhe uma festa de despedida e convidaram um grande número de fotógrafos e de modelos. Uma das modelos concordara já em tomar o lugar dela no apartamento. No dia seguinte ao do seu último dia de trabalho, Grace apresentou‑se no escritório de Louis Marquez. Atrasara‑se dois dias porque estivera muito ocupada a fazer as malas e a concluir o seu trabalho na agência. Legalmente encontrava‑se já fora da jurisdição dele quando se foi despedir.

            ‑           Para onde vai agora? ‑ perguntou de modo casual. Ia realmente sentir a falta das visitas dela, embora ocasionais.

            ‑           Para Nova Iorque.

            Ele ergueu um sobrolho.

            ‑Já arranjou emprego? ‑ Grace riu da pergunta. Já não era obrigada a dar‑lhe qualquer explicação. Não devia nada a ninguém. Cumprira todas as suas obrigações e Cheryl dera-lhe uma carta com referências fantásticas, que Bob assinara igualmente.

            ‑           Ainda não, senhor Marquez. Procurarei um depois de lá chegar. Não creio que seja muito difícil. ‑ Agora tinha experiência e referências. Tudo quanto precisava.

            ‑           Não era melhor ficar aqui e ser modelo? É tão bonita como elas e muito mais esperta. ‑ Marquez falou quase afectuosamente.

            ‑           Obrigada. ‑ Grace gostaria de se mostrar pelo menos delicada, mas não podia. Ele atormentara‑a durante os últimos dois anos e não queria voltar a vê‑lo nunca mais.

Assinou todos os papéis necessários e quando lhe ia entregar a caneta ele agarrou‑lhe na mão e apertou‑lha.

            ‑           Não quererá... como recordação dos velhos tempos

bem, sabe o que quero dizer, não, Grace? ‑ O homem transpirava visivelmente e a sua mão estava húmida e escorregadia.

            ‑           Sei e não quero ‑ respondeu calmamente. Ele já não

a assustava. Acabara de assinar os papéis que a libertavam,

tendo‑os bem presos na mão. Agora era apenas uma cidadã

como qualquer outra. O passado ficara finalmente para trás

e aquele homenzinho repugnante não lho ia fazer recordar.

            ‑           Vá, Grace, seja boazinha. ‑ Marquez deu a volta à secretária e, antes que ela pudesse afastar‑se, agarrou‑a e tentou beijá‑la, mas ela empurrou-o com tanta força que ele bateu com uma perna na esquina da secretária e gritou‑lhe: - Continua com medo dos homens, não é, Grace? Que vai fazer? Matar todos os tipos que quiserem fazer amor consigo?

            Ao ouvir aquelas palavras, em vez de fugir, Grace avançou para ele e agarrou‑o pelo colarinho. Ele era provavelmente mais forte do que ela, mas Grace era bastante mais alta e Marquez ficou surpreendido por ela o agarrar.

            ‑           Ouça, seu porco, se alguma vez me volta a tocar, chamo a Polícia e deixo que eles o matem. Isso não me incomodava nada. Se me toca, vai para a prisão por violação. Não pense que estou a brincar. Não volte a aproximar‑se de mim.

            Largou-o e foi calmamente buscar a mala, enquanto ele

a olhava sem dizer uma palavra. Grace saiu e bateu com a

porta atrás de si. Estava acabado. Agora era tudo história.

O momento que há anos Molly lhe prometera, chegara.

A vida agora pertencia-lhe.

 

            Grace teve muita pena de deixar Marjorie, a sua maior amiga. E deixar as pessoas de St. Mary foi triste também. Paul Weinberg desejou-lhe sorte e disse‑lhe que ia casar no Natal. Grace sentiu‑se feliz por ele, mas por variadas razões sentia‑se também feliz por sair de Chicago. Estava satisfeita por sair de Ilinóis, e das horríveis recordações que tinha dali. Estava sempre com receio de que aparecesse alguém de Watseka que a reconhecesse.

            Sabia que em Nova Iorque isso não sucederia.

            Meteu‑se num avião para a grande cidade. Era muito diferente de ter vindo de autocarro de Dwight para Chicago. A maior parte das suas economias estava intacta. Nunca gastara muito dinheiro e os Swansons pagavam bem. Conseguira poupar mais algum dinheiro e tinha agora na sua conta mais de cinquenta mil dólares, que já transferira para um banco de Nova Iorque. Uma das modelos falara-lhe do hotel, onde reservara alojamento, dizendo que era muito aborrecido porque não era permitido levar visitantes para os quartos, mas era exactamente isso que Grace queria.

            Meteu‑se num táxi no aeroporto e dirigiu‑se directamente para um hotel residencial só para mulheres, o Barbizon, em Lexington Avenue, junto da Rua Sessenta e Três. Gostou imediatamente do local: havia lojas e prédios de apartamentos. Era uma zona residencial, cheia de vida e atarefada. Ficava apenas a três quarteirões dos Bloomingdale, de que ela ouvira falar durante anos. Algumas das raparigas tinham trabalhado para eles como modelos. Ficava também apenas a três quarteirões de Park Avenue e a três de Central Park. Grace estava encantada.

            Passou o domingo a passear preguiçosamente por Madison Avenue, vendo as montras das lojas. Depois foi ao zoo e comprou um balão. Estava um lindo dia de Outubro e ela tinha a estranha sensação de ter chegado finalmente a casa. Nunca se sentira tão feliz. Na segunda‑feira de manhã foi a três agências de emprego para arranjar trabalho. No dia seguinte telefonaram‑lhe para lhe proporem meia dúzia de entrevistas. Duas eram de agências de modelos, que ela recusou. Ficara farta dessa vida e das pessoas ligadas a ela. As agências ficaram desapontadas, visto ela ter uma excelente carta de recomendação e estar dentro do assunto. A terceira entrevista era com uma firma de plásticos. O trabalho pareceu‑lhe maçador e também não o aceitou, e a última entrevista marcada era numa firma de advogados muito importante, a Mackenzie, Broad Steinway. Grace nunca ouvira falar dela, mas aparentemente toda a gente ligada ao mundo dos negócios de Nova Iorque a conhecia.

            Nessa manhã, a jovem vestira um vestido preto, muito simples, que comprara no ano anterior, em Chicago, na Carson Pirie Scott, e um casaco vermelho que comprara nesse mesmo dia, na Lord & Taylor. Estava muito bonita. Foi entrevistada pelo chefe do pessoal e em seguida conduziram‑na para o gabinete do chefe da secretaria para conhecer dois dos sócios da firma. Os seus talentos como secretária tinham‑se desenvolvido no decorrer dos anos, mas ela ainda não estava habituada a escrever cartas ditadas em estenografia. No entanto, eles pareceram dispostos a dispensar isso, visto ela ser capaz de tomar rapidamente notas e de dactilografar. Simpatizou com toda a gente, incluindo os dois advogados mais novos com os quais iria trabalhar directamente, Tom Short e Bul Martin. Eram ambos muito sérios e secos. Um deles estudara em Princeton e depois acabara o curso de direito em Harvard. O outro estivera sempre em Harvard. Parecia tudo previsível e respeitável e até o local lhe agradava. A firma estava situada na Rua Cinquenta e Seis, a oito quarteirões apenas do seu hotel. Mas Grace sabia que teria de arranjar um apartamento.

            A firma ocupava dez andares e tinha mais de seiscentos empregados. Grace desejava apenas ser um rosto na multidão, e ali era isso mesmo. Tratava‑se do sítio mais impessoal que ela alguma vez conhecera e agradava‑lhe completamente. Grace usava o cabelo preso na nuca, pouca maquilhagem e as mesmas roupas que usara em Chicago. Tinha um pouco mais de estilo do que seria necessário ali, mas o chefe da secretaria achava que isso não era importante, pois Grace era uma rapariga calada e eficiente e o trabalho dela agradava‑lhe.

            Grace fora contratada como secretária adjunta de outra que já lá trabalhava. A outra era uma mulher com três vezes a idade dela e duas vezes o seu peso, mas pareceu ficar satisfeita por ter alguém com quem dividir o trabalho. Logo no primeiro dia disse a Grace que Tom e BilI eram pessoas simpáticas com as quais se tornava agradável trabalhar. Ambos eram casados e tinham esposas louras. Um deles vivia em Stamford, o outro em Darien, e cada um deles tinha três filhos. De certo modo pareciam gémeos, mas o mesmo se podia dizer de quase todos os outros ali. Com efeito, praticamente todos os empregados tinham uma aparência semelhante. E todos eles falavam apenas dos casos com que se encontravam ocupados. Quase todos jogavam squash, alguns pertenciam a clubes, e todas as secretárias tinham um aspecto igualmente anónimo. E era precisamente esse anonimato que agradava a Grace. Ninguém pareceu reparar nela e adaptou‑se imediatamente ao trabalho sem qualquer problema. Ninguém lhe perguntou quem era, nem de onde vinha, ou onde trabalhara. Nova iorque era assim e isso agradava a Grace.

            No fim‑de‑semana arranjou um apartamento. Ficava na Rua Oitenta e Quatro, perto da Primeira Avenida. Grace poderia ir para o trabalho de metro ou de autocarro e não teria dificuldade em pagar a renda com o seu ordenado. Vendera a mobília do quarto que tinha em Chicago à rapariga que fora ocupar o seu lugar, por isso foi ao Macy e comprou algumas coisas para mobilar o apartamento, mas achou‑as muito caras. Uma das suas colegas de trabalho indicou‑lhe então uma loja de mobiliário em Brooklyn, onde poderia arranjar coisas mais baratas. Nessa tarde, ao sair do emprego, Grace meteu‑se no metro para lá ir. Durante o trajecto, sentada na carruagem do comboio, sorria. Nunca se sentira tão adulta nem tão livre, tão senhora do seu destino. Pela primeira vez na sua vida, ninguém a controlava, nem ameaçava, ou tentava fazer‑lhe mal. Ninguém queria nada dela. Podia fazer tudo o que quisesse.

Nas tardes de sábado fazia as suas compras, comprava os artigos alimentares perto de casa, e ia a galerias de arte em Madison Avenue e em West Side, chegando a fazer algumas incursões ao SoHo. Gostava de Nova iorque e de tudo o que lá havia. Comeu dim sum em Mott Street, passeou pelos bairros italianos e ficou fascinada quando assistiu a dois leilões. Um mês após ter chegado a Nova iorque, tinha emprego e apartamento. Comprara quase todo o mobiliário, e a casa, embora não fosse elegante nem requintada, era contudo confortável. O apartamento fora alugado com cortinados e alcatifa bege‑clara que ficava bem com tudo o que ela comprara. Tinha um quarto, casa de banho, sala e uma pequena cozinha com uma área para as refeições. Grace não precisava de mais coisa alguma e aquilo tudo lhe pertencia. Ninguém lho poderia tirar ou estragar.

            ‑           Como se tem dado em Nova iorque? ‑ perguntou-lhe uma vez o chefe do pessoal quando a encontrou na cafetaria da firma, à hora do almoço. Grace só ali comia quando estava mau tempo, ou tinha pouco dinheiro, perto do fim do mês. Noutras alturas gostava mais de ir comer a qualquer sítio e passear um pouco.

            ‑           Muito bem ‑ respondeu Grace com um sorriso. O chefe do pessoal era um homem de certa idade, baixo e calvo, que lhe dissera ter cinco filhos.

            ‑           Ainda bem. Tenho tido boas informações acerca do seu trabalho, Grace.

            ‑           Obrigada ‑ respondeu, sorrindo.

            A coisa mais agradável nele era amar a mulher e não mostrar qualquer interesse por Grace. Ali ninguém mostrava qualquer interesse por ela e nunca se sentira tão bem em toda a sua vida. As pessoas ocupavam‑se com o seu trabalho e o sexo parecia estar longe dos pensamentos de todos. A verdade é que ninguém parecia dar por ela, especialmente Tom e Bill, os dois advogados para os quais Grace trabalhava. Se ela tivesse cinco vezes a idade que tinha, eles não teriam reparado. Mostravam‑se simpáticos, mas obviamente só pensavam no trabalho. às vezes trabalhavam até às oito ou mesmo nove da noite e Grace pensava se eles chegariam a ver os filhos. Chegavam a ir trabalhar aos fins‑de‑semana quando tinham dossiers a apresentar aos sócios proprietários da firma. - Tem alguns planos para o dia de Acção de Graças? - perguntou‑lhe a meio de Novembro a secretária que trabalhava com ela. Era uma mulher simpática, com mais de cinquenta anos, com uma cintura larga e pernas pesadas, mas tinha um rosto agradável, emoldurado por cabelo grisalho. Nunca casara. Chamava‑se Winifred Apgard, mas todos lhe chamavam Winnie.

            ‑           Não, mas fico bem ‑ disse Grace, tranquilamente. Os feriados nunca tinham sido o seu forte.

            ‑           Não vai a casa? ‑ Grace abanou a cabeça e não explicou que não tinha casa. O apartamento onde vivia era a sua casa e ela era muito auto‑suficiente.

            ‑           Vou a Filadélfia visitar a minha mãe. Se não fosse convidava‑a ‑ disse Winnie, como a desculpar‑se. Parecia uma tia solteirona e gostava do trabalho que fazia e das pessoas para quem trabalhava. Tomava conta dos dois jovens advogados como uma mãe‑galinha, dizendo‑lhes que calçassem as galochas se estava a nevar, ou avisando‑os de que ia haver temporal quando iam tarde para casa.

            Tom e BilI tinham um relacionamento muito diferente com Grace. Pareciam quase fingir não a ver. Grace chegava a pensar se a sua juventude seria considerada uma ameaça para eles, ou se as mulheres não gostariam que eles tivessem uma secretária tão nova, ou se se sentiriam mais descansadas com Winnie. Mas isso não importava. Eles nunca lhe diziam nada de carácter pessoal e enquanto com Winnie costumavam gracejar, com ela mantinham‑se sempre sisudos, como se tivessem todo o cuidado em não a conhecer. Eram muito diferentes de Bob Swanson, mas essa era uma das coisas que mais agradava a Grace.

            Na semana anterior ao Dia de Acção de Graças, Grace passou parte da sua hora do almoço a fazer alguns telefonemas pessoais. Há muito que pensava fazê‑los mas estivera muito ocupada com a sua instalação, mas agora era chegada a altura de o fazer. Tratava‑se de uma coisa que tencionava fazer durante todo o resto da sua vida, algo que ela achava que devia às pessoas que a tinham ajudado. E queria começar.

Encontrou finalmente aquilo que procurava.

            O local chama‑se St. Andrew's Shelter e ficava em Lower East Side, em Delancey. Grace falou para lá e foi atendida por um jovem sacerdote que dirigia o abrigo, que a convidou a ir visitá-lo no domingo seguinte, pela manhã.

            Grace meteu‑se no metro em Lexington, mudou de comboio e saiu em Delancey, continuando a pé o resto do caminho. Este não era nada fácil, como Grace viu, ao chegar. Havia vagabundos passeando pelas ruas, sem destino aparente, bêbedos encostados às portas, ou estendidos nos passeios, dormitando. A jovem viu carros abandonados aqui e ali, prédios velhos, armazéns e alguns rapazes de aspecto agressivo, que pareciam procurar sarilhos. Todos olharam para Grace ao vê-la passar, mas ninguém a incomodou. Finalmente chegou a St. Andrew's. Era um velho edifício de pedra que parecia em muito mau estado. As portas quase não tinham tinta e havia um letreiro que parecia preso por um fio. Viam‑se pessoas a sair e a entrar, sobretudo mulheres e crianças e também algumas raparigas. Uma delas parecia ter uns catorze anos e Grace reparou que estava grávida.

            Quando entrou, Grace deparou com três raparigas sentadas atrás do balcão da recepção. Conversavam animadamente e uma delas arranjava as unhas. Havia mais barulho ali do que em qualquer outro sítio onde Grace tivesse estado. Todo o edifício ressoava com vozes de crianças, ouvia‑se discutir algures, passavam por ela negros e brancos, chineses e porto‑riquenhos. Parecia um microcosmo de Nova Iorque, ou então que alguém tivesse desviado um comboio do metropolitano.

            Grace mencionou o nome do padre que falara com ela e enquanto esperou que ele aparecesse foi observando o que se passava à sua volta. Quando finalmente ele surgiu trazia umas calças de ganga velhas e um camisolão de malha cor de aveia.

            ‑           Padre Finnegan? ‑ perguntou Grace cheia de curiosidade. Ele tinha cabelo ruivo, um ar agarotado e não parecia nada um padre. Mas as rugas em redor dos olhos e as sardas nas faces um pouco marcadas mostravam que ele devia ser bastante mais velho do que parecia.

- Padre Tim ‑ corrigiu ele com um sorriso. ‑ Miss Adams?

            ‑           Grace. ‑ Sorriu também. Não se podia deixar de sorrir para ele. Havia naquele padre uma alegria contagiante.

            ‑           Vamos conversar para outro sítio ‑ disse o padre calmamente, caminhando por entre meia dúzia de garotos que corriam atrás uns dos outros pelo vestíbulo. O edifício devia ter sido um prédio de apartamentos, aberto depois para dar abrigo aos que dele necessitavam. Ele dissera‑lhe ao telefone que tinham começado apenas há cinco anos e que precisavam muito de ajuda, sobretudo de voluntários. Ficara contentíssimo por Grace ter telefonado. Disse‑lhe que ela era um dos muitos milagres de que precisavam.

            O padre Tim levou Grace para uma cozinha onde havia três velhas máquinas de lavar louça que lhes haviam sido oferecidas e um enorme lava‑louça. Grace reparou nos posters nas paredes. Havia também ali uma grande mesa redonda e várias cadeiras. Sobre a mesa estavam duas grandes cafeteiras com café. Ele encheu uma chávena para cada um deles e conduziu‑a em seguida para uma salinha que devia ter sido antes uma despensa e era agora o seu gabinete. A sala estava a precisar urgentemente de ser pintada e de ter algum mobiliário decente, mas depois de estar sentada e de começar a conversar com ele, Grace compreendeu que era fácil esquecer tudo isso. O padre Tim tinha uma personalidade tão forte que ofuscava tudo, mas não fazia a mais pequena ideia disso, e por esse motivo é que toda a gente gostava dele.

            ‑           Então que a traz por cá, Grace? Isto é, além de um coração bondoso e de uma natureza louca? ‑ Sorriu novamente, enquanto bebia um gole de café escaldante e os seus olhos brilhavam alegremente.

            ‑           Já fiz este género de trabalho voluntário anteriormente, em Chicago. Num sítio chamado Saint Mary. ‑ Deu o nome de Paul Weinberg como referência.

            ‑           Conheço‑o bem. Eu próprio sou de Chicago. Estou aqui há vinte anos. E também conheço Saint Mary. De certo modo tomámo‑lo como modelo. Eles fazem um excelente trabalho.

Grace contou‑lhe o número de pessoas que ali iam por ano, e que chegavam a residir ali uma dúzia de familias em certas ocasiões. Para não falar nas pessoas que entravam e saíam constantemente durante o dia e ali voltavam muitas vezes para receberem o conforto que ali lhes era proporcionado.

            ‑           Nós oferecemos mais ou menos o mesmo aqui ‑ disse ele pensativamente, olhando‑a. Pensava que motivo levaria uma rapariga como ela a fazer aquele género de trabalho. Mas há muito que aprendera a não questionar as dádivas de Deus, mas sim a utilizá‑las bem. Tencionava dar trabalho a Grace em St. Andrew's. ‑ Aqui temos mais gente. Umas oitenta, ou mesmo perto de cem, mais ou menos. Mais mais, do que menos ‑ acrescentou sorrindo outra vez. Temos tido aqui mais de cem mulheres e por vezes o dobro das crianças. Procuramos que a confusão seja a menor possivel, mas de um modo geral temos aqui aproximadamente sessenta mulheres e umas cento e cinquenta crianças na maior parte do tempo. Não mandamos ninguém embora. É a única regra que temos. Chegam à nossa porta, ficam ou vão‑se embora, conforme querem. Geralmente não permanecem aqui durante muito tempo. Ou voltam para os Sítios de onde vieram ou partem para iniciar nova vida. Eu diria que a média da permanência aqui é de uma semana a dois meses, no máximo. A maior parte delas sai duas semanas depois de chegar.

            Em St. Mary era mais ou menos o mesmo.

            ‑           Podem alojar tanta gente aqui? ‑ perguntou Grace, surpreendida. O edifício não parecia tão grande como isso, e não era.

            ‑           O prédio tinha vinte apartamentos. Nós amontoamos o maior número de pessoas, Grace. As nossas portas estão abertas para toda a gente. Não é só para os católicos ‑ explicou. ‑ Nem sequer fazemos essa pergunta.

            ‑           Na realidade... ‑ Grace sorriu‑lhe. Irradiava dele uma tal afectividade que lhe ia direita ao coração. Havia no padre Tim uma inocência e pureza que o tornava verdadeiramente sagrado, no sentido real. Ele era de facto um homem de Deus e Grace sentiu‑se logo à vontade junto dele. ‑ Na realidade, o médico que dirige Saint Mary é judeu ‑ disse ela com naturalidade.

            ‑           Para mim isso não tem qualquer importância.

            ‑           Também têm aqui médico? ‑ perguntou Grace.

            ‑Bem... de certo modo sou eu. Sou jesuíta e doutorei‑me em psicologia. Mas "doutor Tim" parecia estranho, não acha? Gosto mais de "padre Tim" ‑ Desta vez riram ambos e ele foi novamente encher as chávenas com café.

            ‑           Temos aqui meia dúzia de freiras sem hábito e cerca de quarenta voluntárias e voluntários que trabalham por turnos. Precisamos de todos para manter a casa em funcionamento. Temos também algumas enfermeiras especializadas em psiquiatria, que nos ajudam, e uma porção de rapazes internos de psiquiatria, quase todos da Universidade de Colúmbia. É um excelente grupo e todos trabalham como demónios... desculpe, como anjos. ‑ Grace simpatizava realmente com ele, com as suas sardas e os seus olhos risonhos.

            ‑           E você, Grace? Que a traz aqui?

            ‑           Gosto deste género de trabalho. Significa muito para mim.

            ‑           Suponho que o conheça bem, depois de passar dois anos em Saint Mary.

            ‑           Creio que sei o suficiente para poder ser útil. ‑ Tudo aquilo lhe era muito familiar, mas ela não sabia se o devia dizer, ou não. Quase lhe apetecia fazê‑lo. Confiava mais nele do que alguma vez confiara em alguém desde há muito tempo.

            ‑           Quantas vezes por semana ou por mês ia a Saint Mary?

            ‑           Duas noites por semana e todos os domingos. E quase todos os feriados.

            ‑           Oh! ‑ Ele mostrou‑se encantado e surpreendido. Padre ou não, via bem que Grace era uma rapariga nova e bonita, nova de mais para dar tanto tempo da sua vida a um trabalho daqueles. Olhou‑a atentamente. ‑ Trata‑se de uma missão especial para si, Grace? ‑ Era como se ele soubesse. Sentia‑o. E ela disse que sim com a cabeça.

            ‑           Creio que sim. Eu... eu compreendo essas coisas. - Não sabia que mais lhe dizer, mas ele baixou a cabeça e tocou-lhe numa mão.

‑           Está bem. A cura tem muitas facetas; ajudar os outros é a melhor. ‑ Ela fez um gesto de concordância e sentiu os olhos enevoados. Ele sabia. Ele compreendia. Grace sentia que tinha chegado a casa, só por estar ali e se encontrar perto dele. ‑ Nós precisamos de si, Grace. Há um lugar para si aqui. Pode trazer cura e alegria a muita gente, assim como a si mesma.

            ‑           Obrigada, padre ‑ murmurou Grace, limpando as lágrimas enquanto ele lhe sorria. O padre Tim não fez mais perguntas. Sabia o que precisava de saber. Ninguém sabia melhor o que aquelas mulheres e crianças maltratadas por pais, mães, irmãos ou maridos passavam que uma pessoa que já tivesse passado por isso.

            ‑           Bem, falemos agora do nosso assunto. ‑ Os olhos dele riram outra vez. ‑ Quando é que pode começar? Não a vamos deixar sair daqui com facilidade. Pode recuperar o seu perfeito juízo.

            ‑           Agora? ‑ Grace fora preparada para trabalhar, se ele quisesse, e ele queria. Passaram outra vez pela cozinha, onde ele deixou as duas chávenas sujas numa das máquinas e em seguida levou‑a até ao vestíbulo, apresentando‑a às pessoas. As três raparigas da recepção tinham sido substituidas por um rapaz com vinte e poucos anos, estudante de medicina na Universidade de Colúmbia, e duas mulheres que falavam com um grupo de meninas e que o padre Tim apresentou como irmã Theresa e irmã Eugene, mas nenhuma delas parecia freira. Eram mulheres que deviam ter pouco mais de trinta anos, de aparência amistosa. Uma delas vestia um fato de treino e a outra trazia calças de ganga e um camisolão bastante usado. A irmã Eugene ofereceu‑se para mostrar a Grace os quartos onde se encontravam as mulheres e a sala onde às vezes tinham as crianças, se as mulheres não se encontravam em estado de poder tomar conta delas.

            Havia uma enfermaria onde trabalhava uma enfermeira que era freira e que envergava uma bata branca por cima das calças de ganga. As luzes eram fracas e a irmã Eugene começou a avançar silenciosamente, depois de fazer sinal à enfermeira de serviço. E, enquanto olhava para as mulheres que se encontravam nas camas, Grace sentia o coração oprimido, pois por toda a parte via os sinais que observara durante toda a sua vida. Espancamentos brutais e ferimentos terríveis. Duas mulheres tinham os braços engessados, outra mostrava queimaduras de cigarro por toda a cara e outra ainda gemia, enquanto a irmã lhe ligava as costelas partidas e lhe punha bolsas com gelo nos olhos inchados. O marido fora preso.

            ‑           Enviamos os casos piores para o hospital ‑ explicou calmamente a irmã Eugene, ao sairem da sala. Sem pensar, Grace parara para tocar numa mão e a mulher olhara‑a com desconfiança. Era outra coisa com a qual Grace estava também familiarizada. As mulheres maltratadas chegavam ao ponto de não acreditar que houvesse alguém que não quisesse fazer‑lhes mal. - Mas ficamos aqui com as que podemos tratar. Custa‑lhes menos e às vezes são coisas ligeiras. Mas os casos realmente graves vão para as urgências dos hospitais. ‑ Duas noites antes tinham‑lhes levado uma mulher a quem o marido queimara a cara com um ferro em brasa, depois de lhe ter atirado a jante de um pneu à cabeça. Ia‑a matando, mas ela tinha tanto medo dele que não quisera apresentar queixa. As autoridades haviam‑lhes tirado os filhos, que se encontravam agora em lares de apoio. Mas era preciso que as mulheres tivessem vontade de se salvar e muitas delas não tinham coragem para isso. Ser espancada era a coisa que mais isolamento causava a qualquer pessoa. Uma mulher espancada escondia‑se de toda a gente, mesmo daqueles que a poderiam ajudar. Grace sabia isso demasiado bem.

            A irmã Eugene levou‑a então a ver as crianças, e daí a minutos Grace estava rodeada de meninas e rapazinhos, contando‑lhes histórias, fazendo‑lhes tranças, atando os sapatos, enquanto as crianças lhe iam dizendo quem eram, o que lhes sucedera e por que motivo ali estavam. Algumas não sabiam. Outras tinham irmãos que haviam sido mortos pelos pais. Havia crianças cujas mães estavam lá em cima, demasiado maltratadas para se poderem mexer e demasiado envergonhadas para verem sequer os filhos. Era uma doença que destruia as famílias e as pessoas que passavam por isso. Grace sabia bem que poucas daquelas crianças cresceriam segundo um padrão normal ou seriam capazes de voltar a confiar em alguém.

Nessa noite, já passava das oito quando as deixou. O padre Tim encontrava‑se à porta, a falar com um polícia. Este acabara de lhe levar uma menina de dois anos que fora violada pelo pai. Grace detestava casos desses. Ela, pelo menos, tinha treze... mas vira em St. Mary bebés como aquela, violadas e sodomizadas pelos pais.

            ‑           Um dia difícil? ‑ perguntou com simpatia o padre Tim, quando o polícia se afastou.

            ‑           Foi um dia bom ‑ respondeu Grace, sorrindo. Passara‑o quase todo com as crianças e nas últimas horas falara com algumas mulheres, ouvindo‑as, tentando dar‑lhes coragem para concretizar o que tinham a fazer. Ninguém poderia fazê‑lo por elas. A Polícia podia ajudar, mas cabia‑lhes a elas salvarem‑se. Talvez se falasse com aquelas mulheres, elas não fossem obrigadas a chegar ao extremo a que ela chegara. Não teriam de ir parar à prisão para se libertarem. Era a sua maneira de pagar a sua dívida, de pagar um pecado que sabia que a mãe nunca lhe perdoaria. Mas não tivera alternativa e não lamentava o que fizera. Só não queria que elas tivessem de pagar o preço que ela pagara.

            ‑           Dirige uma grande casa ‑ disse Grace, como um cumprimento de despedida. Era ainda melhor do que em St. Mary. Havia mais animação e talvez ainda mais carinho.

            ‑           É aquilo que as pessoas que aqui trabalham fazem dela ‑ respondeu o padre. ‑ Está interessada em voltar? A irmã Eugene disse‑me que a achava fantástica.

            ‑ É como ela me parece. ‑ A irmã trabalhara incansavelmente durante todo o dia. Grace reparara nisso. E gostara de toda a gente. - Não creio que consiga manter‑me afastada. ‑ Inscrevera‑se já para duas noites nessa semana e para o domingo seguinte. ‑ Também posso vir no Dia de Acção de Graças ‑ acrescentou, despreocupadamente.

            ‑           Não vai a casa? ‑ perguntou, admirado. Ela era muito nova para não ter família.

            ‑           Não tenho casa para ir ‑ respondeu Grace, encolhendo os ombros. ‑ Não tem importância. Estou habituada.

            ‑           Gostávamos muito que viesse. ‑ Os feriados eram sempre dias difíceis para as pessoas que tinham problemas em casa e o número de pessoas que ali iam duplicava. - Aqui é sempre um corropio.

‑           É isso mesmo que eu quero. Até para a semana, padre ‑ disse Grace, assinando o livro de presenças. Devia apresentar‑se à irmã Eugene e sentia‑se satisfeita por ter ido ali. Era exactamente o que ela queria.

            ‑           Que Deus a abençoe, Grace.

            ‑           E a si também, padre ‑ respondeu ela, fechando suavemente a porta.

            O caminho até ao metro foi longo e assustador, pois Grace voltou a encontrar os bêbedos, os vagabundos e os rapazes que a olhavam com ar agressivo. Mas mais uma vez ninguém a incomodou e meia hora depois encontrava‑se outra vez em casa, a caminhar ao longo da Primeira Avenida em direcção ao seu apartamento. Grace sentia‑se cansada do longo dia, mas ao mesmo tempo revivida e julgava que os horrores por que passara tinham sido úteis, pelo menos para algumas pessoas. Grace sentia que a dor que trazia em si poderia ter valido a pena. Pelo menos não fora desperdiçada.

 

            Grace passou o Dia de Acção de Graças em St. Andrew's Shelter, como prometera. Ajudou mesmo a cozinhar o peru. Depois disso começou a rotina familiar de lá ir todas as terças e sextas‑feiras e aos domingos todo o dia. As sextas-feiras eram sempre noites muito agitadas para eles, porque começava o fim‑de‑semana e os homens recebiam geralmente nesses dias. Os maridos com tendências violentas embebedavam‑se e batiam nas mulheres. Grace nunca saía do abrigo antes das duas e meia da manhã e às vezes mais tarde. E aos domingos tentavam tratar dos casos de todas as mulheres e crianças que os tinham ido procurar. Só nas noites de terça‑feira é que ela e a irmã Eugene tinham oportunidade de conversar um pouco. No Natal, as duas mulheres tinham‑se tornado boas amigas. A irmã Eugene chegou mesmo a perguntar‑lhe se ela não teria vocação religiosa.

            ‑           Oh, meu Deus, não! Nem sequer sou capaz de imaginar isso! ‑ exclamou Grace, admirada com a ideia.

            ‑           Não é muito diferente do que faz agora, sabe ‑ replicou a irmã Eugene, sorrindo. ‑ Dá muito de si mesma aos outros... e a Deus... seja qual for a maneira de ver as coisas.

            ‑           Não creio que o faça por santidade ‑ Grace sorriu, embaraçada com o que a freira estava a dizer. ‑ Estou apenas a pagar algumas dívidas antigas. Houve pessoas que foram boas para mim. Agrada‑me pensar que estou agora a transmitir isso a outros. ‑ Não tinham sido muitas as pessoas boas para Grace, mas houvera algumas. Agora Grace queria ser uma dessas pessoas boas para aquela gente angustiada. E era‑o. Mas não chegava ao ponto de dar a sua vida a Deus, mas apenas às mulheres e crianças maltratadas.

            ‑           Tem namorado? ‑ perguntou uma noite a irmã Eugene com uma pequena gargalhada juvenil. Grace riu da pergunta. A irmã Eugene sentia curiosidade acerca da vida dela e Grace raramente lhe dava qualquer informação. Era muito fechada acerca de si própria. Sentia‑se mais segura assim.

‑           Não tenho muito jeito para falar com homens ‑ disse Grace com sinceridade. ‑ Prefiro vir para aqui e sentir‑me útil.

            E era útil. Passou o Natal e o Ano Novo com eles e por vezes o seu rosto tinha uma expressão de calma alegria depois de ter vindo de lá. Winnie reparara nisso e pensava que devia haver um homem na vida dela. Parecia‑lhe tão calma e tão contente com a sua vida. Mas essa paz interior vinha de ter estado toda a noite com uma criança maltratada nos braços, embalando‑a e acarinhando‑a como nunca ninguém lhe fizera a ela. Desejava mais do que nunca ser algo de diferente na vida daquelas crianças e conseguia‑o.

            Finalmente, depois de trabalharem juntas durante cinco meses, Winnie convidou‑a para almoçar a um domingo. Grace ficou-lhe muito grata, mas explicou‑lhe que aos domingos tinha um compromisso inadiável que não poderia cancelar. Combinaram então o almoço para um sábado. Encontraram‑se no Schrafft's em Madison Avenue e seguiram a pé até ao Rockefeller Center para verem os patinadores.

            ‑           Que faz aos domingos? ‑ perguntou Winnie com curiosidade, ainda convencida de que Grace tinha um namorado. Era uma rapariga muito nova e bonita. Tinha de haver alguém.

            ‑           Trabalho em Delancey Street, um lar para crianças e mulheres maltratadas ‑ respondeu, enquanto via raparigas de saias curtas evoluirem graciosamente sobre o gelo, e crianças caírem, rindo, enquanto perseguiam os pais e os irmãos. Pareciam crianças muito felizes.

            ‑           Sim? ‑ perguntou Winnie, surpreendida pelas palavras de Grace. ‑ Porquê? ‑ Não podia compreender que uma rapariga tão nova e tão bonita fizesse algo tão difícil e tão triste.

            ‑           Faço‑o porque acho que é importante. Trabalho lá três vezes por semana. É um sítio fantástico. Gosto de lá ir ‑ explicou Grace, com um sorriso.

            ‑           Sempre fez isso? ‑ quis saber Winnie.

            ‑           Há muito tempo que o faço. Também o fiz em Chicago, mas gosto mais desta casa. Chama‑se Saint Andrew's Shelter. ‑ Depois riu e contou‑lhe o que a irmã lhe dissera a respeito dela vir a ser freira.

‑           Oh, meu Deus! ‑ Winnie pareceu ficar horrorizada. ‑ Mas não vai fazer isso, pois não?

            ‑           Não, mas elas parecem bastante felizes. Mas não é para mim. Prefiro fazer o que posso desta maneira.

            ‑           Três dias por semana é muito. Não deve ter tempo para fazer outras coisas.

            ‑           Não tenho. E não quero ter. Gosto do meu trabalho na empresa e gosto de trabalhar em Saint Andrew's. Tenho os sábados livres e duas noites por semana. Não preciso mais do que isso.

            ‑           Isso não é saudável ‑ ralhou Winnie. ‑ Uma rapariga da sua idade devia distrair‑se, sair com rapazes... ‑ Falava com Grace de um modo maternal e ela sorriu. Gostava de Winnie. Era eficiente e responsável. Grace sabia que ela gostava "realmente" dos dois advogados para os quais trabalhavam. E também gostava dela. Tratava‑a quase como se fosse sua mãe.

            ‑           Estou bem assim. Verdade. Terei muito tempo para sair com rapazes quando crescer ‑ gracejou Grace, mas Winnie abanou a cabeça e agitou um dedo na direcção dela, em ar de censura.

            ‑           O tempo passa mais depressa do que julgamos. Cuidei dos meus pais toda a minha vida e agora a minha mãe está num lar em Filadélfia, para poder estar junto da minha tia, e eu estou aqui sozinha. O meu pai morreu e eu nunca casei. Quando ele faleceu e a minha mãe foi para Filadélfia para estar com a tia Tina, já eu era demasiado velha. ‑ Parecia tão triste com isso que Grace teve pena dela. Grace desconfiava que ela se sentia muito só e que por isso é que tinha querido convidá‑la para almoçar. ‑ Um dia há‑de lamentar, se não se casar e não tiver antes disso uma vida própria.

            ‑           Não sei se me casarei. ‑ Ultimamente pensava que não queria de facto casar. Sofrera muito e até mesmo os seus breves encontros com homens como Marcus, Bob Swanson e mesmo Marquez, só a tinham decepcionado. E os bons, como David e Paul, também não a faziam pensar de modo diferente. Eram realmente bons, mas ela não queria nenhum deles. Sentia‑se satisfeita por estar só. Não fazia qualquer esforço por conhecer homens, nem para ter uma vida diferente da que levava com o trabalho no escritório e em St. Andrew's

            Por isso ficara completamente surpreendida quando um dos outros advogados jovens que trabalhavam na firma, que ocupava um gabinete perto do dela, a convidara para jantar um dia. Sabia que ele era amigo dos advogados para quem ela trabalhava, e que se divorciara recentemente, e além disso era um homem muito atraente. Mas não tinha interesse em sair com ele, ou com qualquer outra pessoa do escritório.

            Parara junto da secretária dela, à hora do almoço e em voz baixa e um tanto embaraçada dissera‑lhe se ela quereria jantar com ele na sexta‑feira seguinte. Ela explicou‑lhe que fazia trabalho voluntário todas as noites de sexta‑feira e não podia, mas não se mostrou especialmente satisfeita por ele a ter convidado, mostrando‑se até embaraçada.

            Grace ficou mais surpreendida ainda quando um dos advogados para quem ela trabalhava lhe perguntou, no dia seguinte, por que motivo recusara o convite de Halíam Baíl.

            ‑           Baíl é realmente uma boa pessoa e gosta de si. ‑ Disse isso como se isso fosse a única qualidade necessária para ela sair com ele. Ninguém podia compreender a recusa dela.

            - eu... foi muito simpático da parte dele, e estou certa de que é uma excelente pessoa... ‑ murmurou Grace, embaraçada por ter de estar a explicar os motivos da sua recusa. ‑ Não saio com pessoas da empresa. Nunca é boa ideia ‑ disse com firmeza. E o seu interlocutor concordou.

            ‑           Foi o que eu lhe disse. Só podia ser isso. Tem razão, mas é pena, porque creio que iria gostar dele e ele ficou muito abatido desde o divórcio, no Verão passado.

            ‑           Lamento ‑ respondeu friamente Grace. Depois Winnie ralhou com ela e disse que Halíam Baíl era um dos melhores partidos dentro da empresa e que ela era uma tola. Avisou‑a de que se não tivesse cuidado, acabaria por ficar solteira.

            ‑           óptimo! ‑ Grace sorriu. ‑ Estou ansiosa por isso. Nessa altura ninguém me convidará para sair e eu não terei de arranjar desculpas.

‑           É tola! Completamente louca! ‑ ralhou Winnie, resmungando, e quando um assistente a convidou também, um mês depois, e ela voltou a recusar, dando as mesmas razões, Winnie ficou completamente doida. ‑ É a rapariga mais tola que eu conheço. Não posso permitir que faça isto. É um rapaz adorável e até é da sua altura! ‑ Mas Grace limitou‑se a rir e recusou‑se a reconsiderar e daí a pouco tempo toda a gente sabia que Grace Adams não saía com homens que trabalhassem na firma. A maior parte deles achou que ela devia ter namorado e já estava comprometida, mas alguns decidiram tentar a sua sorte. Mas Grace nunca mudou de ideias, nem deu a nenhum uma resposta diferente. Por mais atraentes que eles fossem, ou por mais interessados que parecessem, Grace nunca aceitou os convites deles. Com efeito, parecia totalmente indiferente aos homens. E várias pessoas começaram a falar dela.

            ‑           E como é que tenciona casar? ‑ quase gritou Winnie uma tarde em que se preparavam para sair depois do trabalho.

            ‑           Não tenciono casar, Win. Tão simples quanto isso. Grace mostrava‑se agradecida pela preocupação de Winnie, mas não mudava de ideias.

            ‑           Então devia fazer‑se freira. Praticamente já o é! ‑ gritou Winnie.

            ‑           Sim, minha senhora ‑ disse Grace de bom humor.

E Bill, um dos "patrões" delas, que vinha nesse momento a sair do seu gabinete e as ouviu, concordou com Winnie e achou que Grace estava a perder oportunidades. A beleza e a juventude não duravam sempre.

            ‑           Estão a discutir, minhas senhoras ‑ disse, vestindo a gabardina e pegando no chapéu‑de‑chuva. Estava‑se em Março e há semanas que não parava de chover. Mas felizmente não nevava.

            ‑           Ela é completamente doida! ‑ exclamou Winnie pegando no casaco e tentando vesti‑lo, enquanto Grace a ajudava e Bill ria.

            ‑           Meu Deus! Que fez a Winnie, Grace?

            ‑           Ela não quer sair com ninguém, é o que é! ‑ Arrancou o casaco das mãos de Grace, abotoou‑o incorrectamente, enquanto os dois que a observavam tentavam não rir. - Ela ainda vai acabar por ser uma solteirona como eu, e é demasiado nova e bonita para isso. ‑ Grace viu então que Winnie estava quase a chorar; inclinou‑se e beijou‑a na face com sincera afeição. Por vezes era quase uma mãe para ela, e mostrava‑se sempre uma boa amiga.

            ‑           Provavelmente ela tem um namorado ‑ disse o jovem advogado para a mais velha das suas duas secretárias. Com efeito, ultimamente começara a convencer‑se de que Grace andava metida com um homem casado. As suas constantes recusas aos rapazes mais novos da firma, tinham feito com que se pensasse isso. Muitos outros concordavam com ele.

            Winnie olhou para Grace e esta sorriu e ficou calada, o que imediatamente convenceu Winnie de que ele tinha razão, e que talvez houvesse um homem casado na vida de Grace.

            As duas mulheres despediram‑se à saída e cada uma foi para seu lado. Grace dirigiu‑se para Delancey Street e passou a noite a tratar dos necessitados.

            Na manhã seguinte, Grace parecia cansada quando chegou ao trabalho, o que convenceu Winnie de que o seu "patrão" tinha razão e olhou‑a com um ar malicioso. Grace, por seu lado, pensou que estava a ficar com gripe, por ter caminhado ao longo de Delancey Street debaixo de uma chuva torrencial. Por isso não estava nada preparada nem bem‑disposta para o favor que o director do pessoal lhe pediu à hora do almoço. Recebeu um telefonema às onze horas pedindo-lhe para ir ao gabinete dele. Ficou preocupada e Winnie ainda mais. Não podia imaginar que queixas ele teria dela, a não ser que um dos advogados com quem ela recusara sair tivesse resolvido arranjar‑lhe sarilhos. Já lhe sucedera isso e não ficaria surpreendida se fosse esse o caso.

            ‑           Não lhe diga nada que não seja preciso ‑ avisou Winnie, antes de ela se dirigir para o gabinete do director do pessoal. Mas ele não a chamara para se queixar, mas sim para a elogiar.

            Disse‑lhe que estava a fazer um excelente trabalho e que todos a apreciavam, assim como os dois advogados para os quais trabalhava.

‑           Com efeito ‑ disse hesitantemente ‑, tenho um pequeno favor a pedir‑lhe, Grace. Sei que é aborrecido ter de deixar um trabalho a que já se habituou e sei que Tom e BilI também não ficarão satisfeitos. Mas Miss Waterman teve um acidente a noite passada, no metro. Escorregou nas escadas e fracturou uma anca. Vai estar inactiva dois, talvez três meses. Encontra‑se em Lenox Hili e a irmã dela telefonou‑nos. Conhece‑a, não conhece? ‑ Grace bem procurava na memória, mas não conseguia saber de quem se tratava. Era obviamente uma das secretárias da firma. Pensou se seria um passo para cima, ou para baixo, e tentou imaginar para quem ela trabalharia. Só esperava que não fosse para um dos homens que a tinham convidado para sair. Isso seria muito embaraçoso.

            ‑           Não creio que a conheça ‑ disse Grace, olhando‑o inexpressivamente.

            ‑           Ela trabalhava para o senhor Mackenzie ‑ disse o director do pessoal, como se não fosse preciso dizer mais nada.

            ‑           Qual senhor Mackenzie? ‑ perguntou Grace confusa.

            ‑           O senhor Charles Mackenzie ‑ respondeu ele, como se a achasse estúpida. Charles Mackenzie era um dos três advogados principais da firma.

            ‑           Está a brincar? ‑ quase gritou. ‑ Porquê eu? Nem sequer apanho ditado em estenografia. ‑ A voz dela tornou‑se subitamente aguda. Sentia‑se bem onde estava e não queria estar sujeita àquele género de pressão.

            ‑           Você é rápida a tomar notas e os seus actuais "patrões" dizem que o seu trabalho é excelente. E o senhor Mackenzie é bem claro a respeito daquilo que quer. ‑ Parecia sentir‑se desconfortável ao dizer aquelas palavras, porque não podia dizer a ninguém que Charles Mackenzie não gostava de secretárias velhas e resmungonas que se queixavam de sair mais tarde. Queria alguém rápido e eficiente que não o atrapalhasse. De um modo geral, o Sr. Mackenzie preferia que as suas secretárias tivessem menos de trinta anos. Até mesmo Grace ouvira dizer isso. ‑ Ele quer uma pessoa eficiente e rápida que trabalhe com ele enquanto Miss Waterman estiver incapacitada. Logo que ela regresse, poderá voltar para o seu actual lugar, claro. São apenas uns dois meses. ‑ "Provavelmente ele queria mais alguma coisa", pensou Grace, e ela não estava disposta a alinhar nesse jogo. Gostava de trabalhar com Winnie e os seus "patrões" mal davam por ela, o que lhe agradava inteiramente.

            ‑           Tenho alternativa? ‑ perguntou com ar infeliz.

            - Infelizmente, não ‑ respondeu o director do pessoal com sinceridade. ‑ Apresentámos‑lhe três propostas esta manhã e ele escolheu‑a a si. Será muito difícil explicar‑lhe que não quer ir trabalhar com ele. ‑ Olhou‑a com ar desanimado. Não esperara que ela não quisesse. Seria mau para ele se tivesse de lhe dizer que ela não queria, pois Charles Mackenzie não estava habituado a que lhe dissessem que não podia ter o que desejava.

            ‑           Bonito! ‑ exclamou Grace, inclinando‑se para trás na cadeira, desconsolada.

            ‑           Poderá ter um aumento, claro, de acordo com o lugar que vai agora ocupar. ‑ Mas não era isso que Grace queria. O que ela desejava era não ir trabalhar para algum velho que perseguisse a sua secretária de vinte e dois anos em volta da mesa. Não queria nada disso. E se ele fizesse tal coisa despedir‑se‑ia imediatamente. Teria de começar a procurar outro emprego. Experimentaria durante uns dias e, se o velho fosse desse género, sairia imediatamente. Mas não disse isso ao director do pessoal. Tomou a sua decisão em silêncio.

            ‑           Bom ‑ disse friamente. ‑ Quando começo?

            ‑           Depois de almoço. O senhor Mackenzie teve uma manhã terrível, sem ninguém para o ajudar.

            ‑           Que idade tem Miss Waterman? ‑ perguntou Grace. Tinha compreendido a mensagem.

            ‑           Vinte e cinco anos, creio. Talvez vinte e seis. Trabalha para ele há três anos. ‑ "Talvez tivessem um caso", pensou Grace, "e se tivessem zangado e ela fosse procurar novo emprego." Tudo era possível. Iria ver por si própria dentro de uma hora. O director do pessoal disse‑lhe para se apresentar no escritório do Sr. Mackenzie às treze horas. Quando foi buscar as suas coisas, Grace contou a Winnie.

- Isso é maravilhoso! ‑ exclamou generosamente Winnie. ‑ Vou sentir a sua falta, mas é uma grande oportunidade! ‑ Grace não via as coisas dessa maneira e quase chorou quando uma das dactilógrafas veio ocupar o seu lugar junto de Winnie. Despediu‑se dos dois advogados e reuniu as suas coisas num saco para as levar para o escritório do Sr. Mackenzie, que ficava no vigésimo nono andar. Winnie prometera telefonar‑lhe nessa tarde para saber como corriam as coisas.

            ‑           Deve ser horroroso ‑ disse Grace em voz baixa, mas Winnie apressou‑se a tranquilizá‑la.

            ‑           Não, não é. Toda a gente que trabalha com ele o aprecia.

            ‑           Vamos ver ‑ respondeu friamente Grace. Deu um beijo a Winnie e dirigiu‑se para o elevador. Estava maldisposta com tudo aquilo. Não tivera tempo para almoçar e tinha uma dor de cabeça terrível. Além disso, sentia a impressão de que estava de facto a ficar com gripe, devido à sua longa caminhada à chuva. E mesmo depois de ser conduzida ao seu novo escritório, com uma vista espectacular sobre Park Avenue, não se sentiu mais animada. Ficava realmente bem instalada. Três secretárias que trabalhavam ali perto foram ter com ela para lhe darem as boas‑vindas. Aquilo era como um pequeno clube e, se estivesse mais bem‑disposta, Grace teria de confessar que todos se mostravam muito simpáticos.

            Grace começou então a examinar os papéis que o director do pessoal deixara para ela, e uma lista de instruções do seu novo patrão, sobre coisas que precisava que fossem feitas nessa tarde. Eram sobretudo telefonemas de pesquisas e também alguns particulares, uma marcação para o alfaiate, Outra para ir cortar o cabelo e uma reserva para o "21" para duas pessoas, na noite seguinte. "Que sexy...", disse Grace para consigo, começando a fazer os telefonemas.

            Quando Mackenzie voltou, às duas e meia, já Grace fizera todos os telefonemas, acabara metade das pesquisas e tomara nota de todas as chamadas feitas para ele, de modo que ele não precisava de voltar a telefonar, mas apenas de resolver os assuntos. Charles Mackenzie ficou surpreendido ao ver o que ela fizera, mas não tanto como ela ficou quando o viu. O "velho" que ela esperava encontrar era um homem de quarenta e dois anos, alto, de ombros largos, grandes olhos verdes e um cabelo muito escuro salpicado com uns fios prateados. Tinha um queixo voluntarioso que o fazia parecer um actor de cinema e o aspecto totalmente despretensioso. Era como se nem sequer fizesse a menor ideia de ser bem‑parecido. Entrara no escritório silenciosamente, e cumprimentara Grace sem qualquer formalidade e com modos amigáveis.

            ‑           Vejo que é tão eficiente como me disseram, Grace. - disse, sorrindo‑lhe afectuosamente. E ela decidiu logo resistir‑lhe. Não ia deixar‑se apaixonar por ele, embora tal pudesse ter sucedido a Miss Waterman. Tanto quanto Grace sabia, isso não fazia parte do serviço. Mostrou‑se portanto extremamente reservada com ele e nada amigável.

            Durante as duas semanas seguintes, Grace tratou‑lhe de todos os telefonemas pessoais e de negócios, assistiu a reuniões como secretária dele, tomou notas e provou ser uma secretária quase perfeita.

            ‑           Ela é boa, não é? ‑ perguntou Tom Short com ar possessivo quando encontrou Mackenzie sozinho antes de uma reunião.

            ‑           Sim... ‑ disse Mackenzie hesitantemente e sem grande entusiasmo, e Tom reparou nisso.

            ‑           Não gosta dela? ‑ Tom apercebera‑se de imediato da hesitação.

            ‑           Com franqueza? Não. É terrivelmente desagradável e anda de um lado para o outro todo o dia como se tivesse engolido um pau de vassoura. É o ser humano mais frio que eu já conheci. às vezes apetece‑me atirar‑lhe um balde de água para cima.

            ‑           Grace? ‑ Short ficou assombrado. ‑ Ela é a pessoa mais simpática e mais agradável que se possa imaginar.

            ‑           Então talvez seja por não gostar de mim. Estou desejoso de que a Waterman volte. ‑ Mas quatro semanas mais tarde, Elizabeth Waterman deu novamente notícias que perturbaram profundamente tanto Mackenzie como Grace. Dizia ela que tinha pensado muito no assunto e que ficara muito perturbada com o acidente. Dado o modo como as pessoas a tinham tratado quando ficara caída nas escadas do metro com a anca partida, decidira deixar Nova iorque para sempre, quando recuperasse, e regressar à Florida, de onde viera.

            ‑           Desconfio que não sejam boas notícias para nenhum de nós ‑ disse Charles Mackenzie a Grace depois de ter sabido. Durante seis semanas, Grace fizera um trabalho impecável, mas podia dizer‑se que nunca lhe dissera uma palavra delicada. Ele mostrara‑se sempre amigável e acomodatício com ela, mas de cada vez que Grace o via e constatava como ele era bem‑parecido e como se mostrava tão à vontade com ela e com toda a gente, detestava‑o ainda mais. Convencera‑se de que conhecia aquele tipo e que ele estava apenas à espera de uma oportunidade para a atacar sexualmente, como Bob Swanson fizera, e não estava disposta a permitir isso. Nunca mais. E certamente não da parte dele. Semana após semana, ela via as mulheres chegarem a St. Andrew's e isso fazia‑lhe lembrar como os homens eram perversos e perigosos e como podiam fazer mal quando se confiava neles.

            ‑           Não se sente feliz aqui, pois não, Grace? ‑ perguntara por fim Charles Mackenzie num tom afectuoso. Grace reparou mais uma vez como os olhos dele eram verdes e pensou quantas mulheres teriam existido na vida dele, incluindo Elizabeth Waterman e muitas mais.

            ‑           Provavelmente não sou a secretária adequada para si - respondeu tranquilamente Grace. ‑ Não tenho a experiência necessária. Nunca tinha trabalhado numa firma como esta, nem para uma pessoa tão importante.

            Charles Mackenzie sorriu quando Grace disse isso, mas ela continuou tensa.

            ‑           O que é que fez antes de vir para aqui? ‑ Tinha‑se esquecido.

            ‑           Trabalhei dois anos numa agência de modelos.

            ‑           Como modelo? ‑ perguntou ele, nada surpreendido, mas Grace abanou a cabeça imediatamente.

            ‑           Não, como secretária.

            ‑           Devia ser bem mais interessante que o trabalho aqui. O meu trabalho não é exactamente excitante. ‑ Charles Mackenzie sorriu, parecendo surpreendentemente mais novo. Grace sabia que ele fora casado com uma actriz bem conhecida e que não haviam tido filhos. Divorciara‑se há dois anos e, segundo toda a gente dizia, saía com muitas mulheres. Grace costumava fazer reservas em restaurantes em nome dele. Mas nem sempre saía com mulheres. Muitas vezes jantava com sócios, ou com clientes.

            ‑           A maior parte dos empregos não é interessante ‑ disse Grace sensatamente, surpreendida por ele estar disposto a passar tanto tempo com ela. ‑ O meu, na agência, também nada tinha de especial. Gosto mais de estar aqui. As pessoas são mais simpáticas.

            ‑           Então é só por minha causa ‑ disse ele quase tristemente, como se ela tivesse ferido os seus sentimentos.

            ‑           Que quer dizer? ‑ Grace não compreendeu.

            ‑           Bem, é óbvio que não gosta do seu trabalho, e, se lhe agrada estar aqui, então é porque não gosta de trabalhar comigo. Tenho a sensação de que você se sente infeliz de cada vez que eu aqui entro.

            Grace corou, embaraçada, ao ouvir as palavras dele.

            - tenho imensa pena... não quis dar‑lhe essa impressão...

            ‑           Então o que é? ‑ Queria esclarecer as coisas com ela. Grace era a melhor secretária que alguma vez tivera. ‑ Posso fazer alguma coisa para melhorar o nosso relacionamento? Visto que Elizabeth não volta, ou temos de fazer com que mereça a pena trabalharmos juntos ou temos de desistir, não é? ‑ Grace disse que sim com a cabeça, embaraçada por ele ter notado que não gostava dele. Não se tratava de algo que ele tivesse feito. Era apenas aquilo que ela pensava que ele representava. A verdade é que ele era muito menos mulherengo do que ela julgara. Apenas a publicidade feita à volta do seu divórcio com a actriz lhe dera essa reputação.

            ‑           Lamento profundamente, senhor Mackenzie ‑ disse Grace. ‑ Daqui em diante procurarei tornar as coisas mais fáceis para si.

            ‑           Também eu ‑ respondeu ele afectuosamente, e fazendo com que Grace se sentisse de certo modo culpada para com ele. E ficou ainda pior, quando nessa tarde Miss Waterman apareceu de muletas para se despedir dele. Disse que lhe custava muito ir‑se embora, que era como se saísse de casa outra vez e que ele era o homem mais bondoso que conhecera. Chorou quando se despediu dele e de toda a gente. Grace não teve a sensação de que aquilo era o fim de um caso amoroso, mas que a antiga secretária tinha realmente pena de deixar um patrão de quem muito gostava.

            ‑           Como vão as coisas por aí? ‑ perguntou uma tarde Winnie.

            ‑           Vão bem ‑ Grace não quis confessar como fora desagradável, mas a verdade é que não tinha feito amizades no vigésimo nono andar e várias pessoas haviam dito aos seus antigos patrões que ela era antipática. Grace sabia que tinha essa fama e que a merecia. E ficou ainda mais embaraçada quando Winnie lhe disse que várias pessoas achavam que ela era muito dura para o Sr. Mackenzie.

            Depois de ele ter falado com ela, Grace esforçou‑se por ser um pouco mais agradável e pouco a pouco começou a gostar do seu trabalho. Já se resignara a pensar que provavelmente não voltaria a trabalhar com Winnie e os seus

patrões". Deixou de pensar nisso e acabou por reconhecer que o seu trabalho era agora mais interessante, quando subitamente, em Maio, Charles Mackenzie lhe disse que tinha de ir a Los Angeles e precisava que ela também fosse. Quase teve uma apoplexia por causa disso e ainda tremia ao dizer a Winnie que ia recusar‑se a acompanhá‑lo.

            ‑           Mas porquê, Grace? Não vê que é uma oportunidade? ‑ "Oportunidade de quê?", pensou Grace. "De dormir com o patrão?" Não, não ia fazer isso. Sabia que se tratava de uma armadilha que ele lhe preparara. Mas quando no dia seguinte se preparava para lhe dizer que não podia ir, ele agradeceu‑lhe de uma maneira tão simpática ela estar disposta a acompanhá‑lo que Grace não teve coragem para lhe dizer nada. Pensou até em se despedir por causa disso, mas surpreendeu‑se a si própria ao falar do assunto ao padre Tim em St. Andrew's.

            ‑           Que receia, Grace? ‑ perguntou com afecto. Mas Grace estava completamente aterrorizada e ele compreendeu.

            ‑           Tenho receio... oh, não sei... ‑ Grace sentia‑se embaraçada e não sabia como dizer o que receava, mas tinha de o fazer, para seu próprio bem. ‑ Receio que ele seja como toda a gente que me tem aparecido, que queira aproveitar‑se de mim, ou pior. Consegui finalmente afastar‑me de tudo isso ao vir para aqui, mas agora, com esta estúpida viagem, receio que vá recomeçar.

            ‑           Ele alguma vez mostrou querer aproveitar‑se de si?

- perguntou calmamente o padre Tim ‑, ou revelou interesse sexual por si? ‑ Sabia exactamente de que estavam a falar e aquilo que ela receava.

            ‑           Na verdade, não ‑ respondeu Grace, ainda com ar infeliz.

            ‑           Nem um pouco? Seja sincera para consigo mesma. Você sabe‑o.

            ‑           Está bem. Nem um pouco.

            ‑           Então o que é que a leva a pensar que ele vá mudar agora?

            ‑           Não sei. As pessoas não levam as suas secretárias a viajar a não ser que... sabe. ‑ O padre sorriu da maneira discreta como ela falava. Ouvira coisas muito piores e histórias verdadeiramente chocantes. Nem mesmo a história da vida dela o teria chocado.

            ‑           Há muitas pessoas que levam as suas secretárias quando viajam, sem... bem, você sabe. Talvez ele precise realmente de ajuda. E se ele proceder mal, você é uma rapariga crescida, mete‑se num avião e volta para casa. Fim da história.

            ‑           Sim, posso fazer isso ‑ murmurou pensativamente Grace.

            ‑           Você tem o controlo da sua vida. É isso que nós aqui ensinamos às pessoas e você sabe‑o melhor do que ninguém. Pode voltar quando quiser.

            ‑           Bem, talvez eu vá com ele. ‑ Suspirou e olhou‑o com gratidão, embora não totalmente convencida.

            ‑           Faça o que achar bem, Grace, mas não tome decisões por medo. O medo não é bom conselheiro. Deve fazer o que considera correcto.

            ‑           Obrigada, padre.

            Na manhã seguinte, Grace disse a Charles Mackenzie que já tinha a certeza de poder acompanhá-lo. Continuava a ter dúvidas e receios a respeito da viagem, mas dizia a si própria que se visse alguma coisa que não lhe agradasse, poderia comprar um bilhete de avião e regressar a Nova iorque. Tinha um cartão de crédito que lhe permitia isso. Era simples.

            Charles Mackenzie foi buscá‑la de carro a caminho do aeroporto. Grace trazia uma pequena mala e mostrava‑se muito nervosa. Ele levava uma pasta consigo, fez alguns telefonemas do carro e tomou notas numa agenda que lhe entregou. Depois conversou um pouco com ela e dispôs‑se a ler o jornal. Não parecia particularmente interessado nela e Grace percebera que um dos telefonemas fora para uma mulher. Sabia que havia uma mulher que lhe ligava frequentemente para o escritório e ele parecia gostar dela. Mas Grace tinha a impressão de que ele não estava loucamente apaixonado por ninguém.

            Os bilhetes de avião eram da primeira classe e Grace passou quase todo o tempo a ver cinema, enquanto ele trabalhava. Mackenzie ia ajudar a tratar das questões financeiras de um grande projecto cinematográfico para um dos seus clientes. Esse cliente tinha um advogado na costa ocidental, mas Mackenzie ia ali representar a grande finança e Grace achava interessante ver como ele tratava o assunto.

            Quando chegaram a Los Angeles, foi ainda mais interessante. Chegaram ao meio‑dia, hora local, e dirigiram‑se imediatamente para o escritório do advogado local e Grace ficou fascinada pela reunião, que durou todo o dia. Estiveram ali até às dezoito horas, que para Charles e Grace eram vinte e uma. Depois disso ele tinha um jantar. Deixou Grace no hotel e disse‑lhe que pedisse para lhe levarem ao quarto tudo o que quisesse. Estavam hospedados no Beverly Hilís Hotel e ela teve de admitir que ficara excitada ao ver quatro estrelas de cinema que passaram no vestíbulo.

            Nessa noite tentou descobrir o número de telefone de David Glass, mas o nome dele não vinha na lista nem de Beverly Hilis, nem de Los Angeles. Grace ficou desapontada. Há anos que não recebia notícias dele e gostaria de o ver. No entanto, tinha a impressão de que a mulher dele quisera cortar qualquer ligação com ela. Não voltara a ter notícias desde o nascimento do primeiro filho deles. Seria agradável dizer-lhe que estava bem, com um bom emprego, e se sentia feliz na sua nova vida. Esperava que tudo estivesse bem com ele e lamentava não conseguir encontrá‑lo. às vezes ainda pensava nele e tinha saudades.

            Ligou para o serviço de quartos e encomendou o jantar. Pediu também um filme que há muito desejava ver sem nunca ter tempo para o fazer. Era uma comédia e ela rira com gosto sozinha no quarto. Depois fechara todas as portas e janelas e colocara a corrente na porta. Quase esperava que ele lhe fosse bater à porta, quando regressasse ao hotel, para tentar entrar ali, mas a verdade é que dormiu profundamente até às sete da manhã seguinte.

            Mackenzie telefonou‑lhe e pediu‑lhe que se encontrasse com ele na sala de jantar e durante o pequeno-almoço falou‑lhe das reuniões que iriam ter nesse dia, e daquilo que esperava que ela fizesse. Tal como Grace, Mackenzie era uma pessoa extremamente organizada e gostava do seu trabalho. Além disso, facilitava o trabalho de Grace, explicando‑lhe exactamente o que esperava que ela fizesse.

            ‑           Ontem fez um excelente trabalho ‑ elogiou ele, muito sóbrio com o seu fato cinzento e camisa branca. Parecia mais estar em Nova iorque do que em Los Angeles. Grace trazia um vestido de seda cor‑de‑rosa e um casaquinho de malha a condizer. Era uma roupa um pouco menos formal do que a que ela costumava usar para ir para o trabalho, em Nova iorque.

            ‑           Está hoje muito bonita ‑ disse ele de modo casual e ela ficou imperceptivelmente tensa. ‑ Viu algumas estrelas de cinema ontem à noite? ‑ Então, esquecendo a observação dele, Grace contou‑lhe quem vira no vestíbulo do hotel, na véspera, e falou‑lhe do filme que tanto a fizera rir. Por breves instantes ficaram quase amigos e ele deu por isso. Grace relaxara um pouco, o que tornava mais fácil falar com ela. A jovem estava quase sempre extremamente tensa. Ele não percebia porquê e gostaria de saber, mas não se atrevia a

perguntar-lho.

‑           Também gosto desse filme ‑ disse Mackenzie, rindo. ‑ Vi‑o três vezes quando foi lançado. Detesto filmes deprimentes.

            ‑           Também eu ‑ confessou ela, quando chegou o pequeno‑almoço para eles. Ele pedira ovos com presunto e ela cereais.

            ‑           Não come o suficiente ‑ disse ele com ar paternal, observando‑a.

            ‑           Devia vigiar o seu colesterol ‑ gracejou Grace, embora ele fosse magro. Mas ovos com presunto eram um prato demasiado substancial.

            - Oh, Deus me livre! A minha mulher era vegetariana e budista. Em Hollywood todos o são. Mereceu a pena divorciar‑me só para poder comer um cheeseburger descansado. - Sorriu para Grace e ela teve de rir, mesmo sem querer.

            ‑           Foi casado durante muito tempo?

            ‑           Bastante. Sete anos. ‑ Estava divorciado há dois e desde então parecia que ninguém prendera seriamente o seu coração. A única coisa que ele lamentava era nunca ter tido filhos. ‑ Quando casei com ela tinha trinta e três anos e nessa altura estava certo de que estar casado com Michelle Andrews era a resposta a todas as minhas preces. Mas descobri que estar casado com a estrela mais escaldante da América não era tão fácil como eu julgava. Essas pessoas pagam caro pela celebridade. Mais caro do que todos os outros. A imprensa não larga as celebridades e nunca é simpá tica para com elas. O público quer possuir a alma dessas pessoas... Não há maneira de sobreviver a isso a não ser procurando refúgio na religião ou nas drogas e nem uma coisa nem outra representa a solução ideal, na minha opinião. Sempre que uma celebridade dá um passo, aparece logo nos jornais e nas revistas para causar escândalo. É difícil viver com isso e eventualmente causa desgaste. Nós agora somos bons amigos, mas há três anos não éramos. ‑ Grace sabia pela revista People que ela voltara a casar duas vezes desde então, uma delas com um jovem cantor de rock, seu agente. ‑ Além disso, eu era demasiado chato para ela, demasiado rígido, maçador. ‑ Grace desconfiava de que Mackenzie oferecera à sua ex‑mulher a única estabilidade que ela já tivera, ou teria. ‑ E você? É casada? Está noiva? Sete vezes divorciada? Que idade tem, afinal? Eu esqueço‑o. Vinte e três.

‑           Quase. Em Julho. E não, não sou casada, nem estou noiva, nem divorciada. Sou demasiado esperta para qualquer dessas coisas, obrigada.

            ‑           Está bem, avó. Pregue‑me um sermão. ‑ Ele riu e Grace tentou não pensar em como ele era atraente quando ria. ‑ Com vinte e dois anos, acho que é demasiado nova até mesmo para sair. Espero que o não faça. ‑ Estava a gracejar, mas de certo modo sentia que o que dizia era verdade.

            ‑           E não saio.

            ‑           Não sai? Não está a falar a sério?

            ‑           Talvez esteja.

            - Tenciona vir a ser freira quando crescer, depois da sua carreira na nossa firma? ‑ Agora que ela se mostrava um pouco mais descontraída, achava‑a divertida. Era uma rapariga intrigante. Esperta, inteligente e até engraçada, quando resolvia mostrá‑lo, o que era raro.

            ‑           Tenho uma amiga que está a tentar convencer‑me a sê‑lo.

            - Quem é ela? Preciso de ter uma conversa com essa amiga. As freiras estão completamente fora de moda hoje em dia. Sabia isso?

            ‑           Creio que não. Ela é freira. A irmã Eugene.

            ‑           Oh! É uma religiosa fanática. Eu sabia. Será uma perseguição? A minha mulher queria que fôssemos ao Tibete buscar o Dalai Lama para viver connosco... São todos loucos! ‑ Fingiu afastá‑la, enquanto o criado lhes servia o café, e Grace riu.

            ‑           Não sou uma fanática religiosa, juro. No entanto, a vida religiosa atrai‑me. É tão simples.

            ‑           E tão irreal. Podemos ajudar o mundo sem desistir dele ‑ disse solenemente. Era uma coisa sobre a qual ele tinha ideias bem claras. Gostava de ajudar as pessoas sem tomar posições extremas. ‑ De onde conhece essa freira? - Sentia‑se curioso e ainda tinham dez minutos antes de saírem do hotel.

            ‑           Trabalhamos em conjunto num sítio onde vou ajudar como voluntária.

            ‑           Onde fica isso? ‑ Enquanto falava com ele, Grace reparava que ele se encontrava perfeitamente bem barbeado e tudo nele era impecável. Tentou não notar isso. Estava ali para trabalhar.

            ‑           É um sítio que se chama Saint Andrew's Shelter e fica em Lower East Side. É um lar para mulheres e crianças maltratadas.

            ‑           Trabalha aí? ‑ Charles Mackenzie pareceu ficar surpreendido. Havia nela mais coisas do que ele julgava, apesar de ser muito nova e às vezes muito aborrecida. Começava a gostar mais dela.

            ‑           Sim. Vou para lá três vezes por semana. É um sítio espantoso. Recebem centenas de pessoas.

            ‑           Nunca pensei que você fizesse um trabalho desses - disse Charles com sinceridade.

            ‑           Porquê?

            ‑           Porque isso implica um grande empenhamento, muito trabalho. A maior parte das raparigas da sua idade preferem ir a discotecas.

‑           Nunca entrei em nenhuma em toda a minha vida.

            ‑           Eu levo‑a. Mas sou demasiado velho para si e a sua

mãe provavelmente não gostaria que você saísse comigo. Disse‑o com tal naturalidade que Grace nem reagiu. Mas também não lhe disse que não tinha mãe.

            A limusina foi buscá-los poucos minutos depois das dez.     E no dia seguinte concluíram o acordo a tempo de apanhar o voo das nove para Nova iorque, onde chegaram às seis da manhã. Prestes a aterrar, ele disse‑lhe que ficasse com o dia livre. Tinham sido dois longos dias de trabalho e não haviam dormido no avião. Ele trabalhara e ela ajudara‑o.

            ‑           Também não vai trabalhar? ‑ perguntou ela.

            ‑           Não posso. Tenho uma reunião às dez com a Arco e há muita coisa a fazer. Além disso está marcado um almoço com os sócios e quero apresentar algumas queixas.

            ‑           Então também vou trabalhar.

            ‑           Não seja tola. Posso pedir que me enviem a senhora Macpherson ou qualquer outra pessoa para me ajudar.

            ‑           Se vai trabalhar, eu também vou. Não preciso do dia livre. Posso dormir logo à noite ‑ acrescentou decididamente.

            ‑           As alegrias da juventude. Tem a certeza que é assim que quer? ‑ Olhou‑a pensativamente. Ela estava a mostrar‑se tal como os outros tinham dito que era: leal, trabalhadora e simpática. Levara muito tempo a revelar‑se.

            Charles Mackenzie deixou Grace no apartamento antes de seguir para casa e disse‑lhe que fosse para o escritório à hora que quisesse e, se mudasse de ideias, ele compreenderia. Mas Grace chegou lá antes dele. Todas as notas que ele escrevera no avião se encontravam dactilografadas, o memorando para a reunião das dez sobre a secretária dele e uma série de dossiers que Grace sabia que ele iria precisar, preparados. E o café esperava‑o, exactamente como ele gostava.

            ‑           Oh! ‑ exclamou ele, encantado. ‑ Que fiz eu para merecer tudo isto?

            ‑           É para compensar o que fui nos últimos três meses. Fui horrível e peço desculpa. ‑ Ele mostrara‑se um perfeito cavalheiro na Califórnia e Grace estava preparada para ser agora amiga dele.

            - Não, não foi. Também creio que a quis pôr à prova. Ambos o fizemos. ‑ Charles Mackenzie compreendia perfeitamente e estava‑lhe grato pela eficiência do trabalho dela e a atenção minuciosa que ela dava aos mais infimos pormenores.

            às três e meia da tarde, Mackenzie obrigou‑a a ir para casa, e disse que a despediria se ela não o fizesse. Mas algo mudara entre eles e ambos o sabiam. Agora eram aliados e não inimigos, e ela estava ali para o ajudar.

 

            O mês de Junho foi fantástico nesse ano, em Nova iorque. Os dias estavam quentes, com uma brisa agradável, e as noites amenas. O género de noites em que as pessoas gostam de se sentar ao ar livre, de passear, ou de estar à janela. O género de noites que fazem com que as pessoas se apaixonem ou desejem ter alguém por quem se apaixonar.

            Nesse mês houve duas novas mulheres na vida de Charles Mackenzie e Grace soube disso, embora não tivesse a certeza de gostar de qualquer delas.

            Uma delas era alguém que ele dizia conhecer desde a infância, divorciada, e tinha dois filhos na universidade. A outra era produtora de um espectáculo de êxito na Broadway. Ele parecia ter uma decidida atracção pelo teatro. Dera mesmo dois bilhetes a Grace e esta fora com Winnie ver a peça e tinham gostado muito.

            ‑           Como é ele realmente? ‑ perguntou Winnie mais tarde, quando foram ao Sardi comer bolo de queijo.

            ‑           Simpático... muito simpático... ‑ confessou Grace.

- Levei muito tempo para reconhecer isso. Estava sempre a pensar que ele me ia rasgar a roupa e detestava‑o antes de ele fazer coisa alguma.

            ‑           E ele alguma vez o fez? ‑ perguntou ela esperançadamente. Estava ansiosa para que Grace se apaixonasse por alguém.

            ‑           Claro que não. É um perfeito cavalheiro. ‑ Em seguida contou‑lhe o que se passara na Califórnia.

            ‑           Que pena! ‑ exclamou Winnie, desconsolada. Grace dava emoção à sua vida monótona, era o seu único contacto com a juventude, e tornara‑se para ela como a filha que nunca tivera. Desejava grandes coisas para ela. E especialmente um marido simpático.

            ‑           As mulheres andam sempre atrás dele. Mas não creio que ele esteja verdadeiramente entusiasmado com nenhuma. Creio que a ex‑mulher o privou de uma parte de si mesmo. Não apenas financeira mas também emocionalmente. Ele é bastante decente para com ela.

‑           Uma das dactilógrafas disse‑me que o divórcio lhe custou quase um milhão ‑ disse Winnie num murmúrio.

            ‑           Eu referia‑me ao aspecto emocional ‑ disse Grace secamente. ‑ De qualquer modo é uma pessoa agradável. E trabalha como um cão. Fica a trabalhar até muito tarde. - Quando Grace ficava a trabalhar até tarde com ele, Mackenzie chamava sempre um táxi ou um carro para ela ir para casa e tinha o cuidado de nunca lhe pedir para ficar nas noites. -  tem consideração pelos outros. ‑ E desde que lhe contara que ia a St. Andrew's à noite, ele mostrava‑se preocupado com ela. Dizia que o local era demasiado perigoso para ela ir até lá de metropolitano, à noite. Nem mesmo aos domingos ele achava isso bem.

            ‑           Pelo menos meta‑se num táxi ‑ costumava ele dizer. Mas isso custaria uma fortuna a Grace. E ela há meses que lá ia sem nunca ter havido problemas.

            Depois de saírem do restaurante, chamaram um táxi e Grace deixou Winnie em casa e seguiu para o seu apartamento, pensando como o seu emprego agora lhe agradava.

            Em Junho, Charles deslocou‑se de novo à Califórnia, mas dessa vez não a levou. Ficou lá apenas um dia e disse que não valia a pena. Na semana em que regressou, Grace trabalhou com ele no escritório durante a tarde de sábado. Trabalharam até às seis da tarde e ele pediu desculpa por não a convidar para jantar a seguir. Tinha um encontro, mas sentia‑se mal por ela estar a trabalhar até tão tarde e impotente para a compensar.

            ‑           Para a semana deve convidar alguém para ir jantar consigo ao "Vinte e Um" e manda pôr na minha conta - sugeriu, parecendo satisfeito com a ideia. ‑ Ou esta noite, se quiser. ‑ Grace pensou imediatamente em convidar Winnie, pois sabia que ela ficaria encantada com isso.

            - Não precisa de fazer isso ‑ opôs‑se timidamente Grace.

            ‑           Mas quero fazê‑lo. Tem de receber alguma compensação por este trabalho. É suposto haver certas compensações por se trabalhar horas extraordinárias para os patrões. Não sei bem quais devam ser, mas suponho que um jantar no Vinte e Um poderá ser uma delas, por isso faça a sua reserva.

            Charles nunca tentava levá‑la a sair e ela gostava disso. Agora sentia‑se completamente descontraída com ele. Antes de saírem, agradeceu‑lhe de novo. Grace achava que ele devia ter um encontro com outra mulher nova e tinha a impressão de que se tratava de uma advogada de uma firma rival. Ultimamente recebera uma quantidade de mensagens de Spielberg & Stein.

            Nessa noite ficou em casa a ver televisão, mas telefonou a Winnie e falou‑lhe do jantar no 21. Winnie ficou tão excitada que disse que não iria dormir até esse dia.

            E no dia seguinte, Grace dirigiu‑se mais uma vez para St. Andrew's. O tempo continuava bom e havia agora muita gente nas ruas, o que de certo modo era mais seguro para Grace.

            Foi um longo dia de trabalho com as mulheres e crianças que ali apareciam constantemente. O bom tempo parecia causar ainda maiores distúrbios. Havia sempre alguma desculpa para novos espancamentos.

            Grace jantou na cozinha com a irmã Eugene e o padre Tim e falou‑lhes das estrelas de cinema que vira no vestíbulo do hotel, na Califórnia.

            ‑ Correu tudo bem? ‑ perguntou o padre. Ainda não tinham tido tempo de falar do assunto desde que ela regressara, há um mês, mas ele calculara que a resposta seria afirmativa, caso contrário ela ter‑lhe‑ia dito.

            ‑ Foi óptimo ‑ disse Grace, sorrindo.

            Eram onze horas quando ela saiu, mais tarde do que era habitual aos domingos. Grace pensou em chamar um táxi, mas a noite estava tão boa que acabou por decidir ir de metro. Ainda não percorrera um quarteirão, quando foi agarrada por um braço e puxada para o vão de uma porta. Viu imediatamente que se tratava de um homem negro, magro e alto, e desconfiou que fosse um ladrão ou um drogado. Ficou assustada, mas procurou não o mostrar quando ele a atirou com força contra uma porta.

            ‑ Pensas que és muito esperta, não pensas, minha cabra? Julgas que sabes tudo... ‑ Pôs‑lhe as mãos em volta do pescoço, mas os olhos de Grace nunca o desfitaram. Ele não parecia querer o dinheiro dela. Só queria fazer‑lhe mal.

            ‑ Não sei coisa alguma ‑ disse calmamente Grace, sem querer assustá‑lo para que ele não a estrangulasse com um ataque de raiva. ‑ Deixe‑me, homem. Com certeza não quer fazer isto.

            ‑           Sim, quero. ‑ Então, com um gesto súbito, puxou de uma comprida navalha e apoiou a extremidade no pescoço de Grace, como quem tinha prática de o fazer. Sem se mexer, Grace lembrou‑se imediatamente do tempo em que estivera na prisão. Mas ali não havia ninguém que a salvasse... nem Sally... nem Luana...

            ‑           Não faça isso... leve a minha carteira. Tenho lá cinquenta dólares. É tudo quanto tenho... e o meu relógio. Estendeu o braço. Fora o último presente de Cheryl, em Chicago. Um pequeno preço para pagar a sua vida.

            ‑           Não quero o teu maldito relógio, cabra... quero Isella.

            ‑           Isella? ‑ Grace não fazia ideia do que ele estaria a falar. O homem cheirava a uísque barato e a suor e continuava encostado ao peito dela, com a ponta da navalha comprimida contra o seu pescoço.

            ‑           A minha mulher... quero a minha mulher... tiraste‑me a minha mulher e agora ela não volta... ela diz que vai voltar para Cleveland...

            Era então por causa de St. Andrew's e alguma das mulheres a quem ela ajudara ali.

            ‑           Eu não a levei... não fiz coisa alguma... talvez seja melhor falar com ela... talvez se se tratar, ela volte...

            ‑ Tirou‑me os meus filhos... ‑ o homem começou a chorar e todo o seu corpo era agitado pelos soluços, enquanto Grace procurava desesperadamente lembrar‑se de uma mulher chamada Isella. Mas não conseguia lembrar‑se. Via tantas mulheres ali. Se calhar nunca a vira. Habitualmente lembrava‑se. Mas do nome de Isella não.

            ‑ Ninguém lhe pode tirar os seus filhos... nem a sua mulher... tem de falar com eles... precisa de ajuda... como se chama? ‑ Se ela o tratasse pelo nome, talvez ele não a matasse.

- que lhe importa?

            ‑           Importo‑me, sim. ‑ Depois lembrou‑se do que poderia ser a sua única salvação. - Sou freira... dei a minha vida a Deus por causa de pessoas como você, Sam... estive na prisão... estive em muitos sítios... não será bom para ninguém fazer‑me mal.

‑           É freira? ‑ quase gritou ele. ‑ Merda! Ninguém me disse isso... merda... ‑ Deu um pontapé com toda a força na porta, por detrás dela, mas ninguém apareceu. Em Delancey ninguém queria saber. Ninguém se importava com o que se passava. ‑ Porque está a meter‑se na minha vida? Porque lhe disse para ir para casa?

            ‑ Para você não lhe poder fazer mal. Não quer fazer‑lhe mal, Sam... Não quer fazer mal a ninguém...

            ‑ Merda!... ‑ O homem chorava cada vez mais.

- Maldita freira ‑ gritou ‑, julga que pode fazer tudo o que quer, por Deus? Ele que se lixe... e lixe‑se você também... lixem‑se todas... suas cabras... Agarrou‑a então pela garganta e bateu‑lhe com a cabeça na porta. Grace teve a sensação de ter a cabeça cheia de areia e de repente viu tudo cinzento e enevoado. Depois, quando ia a cair, sentiu que ele lhe dava um pontapé no estômago, batendo-lhe repetidamente na cara, sem que ela o pudesse deter. Não podia gritar. Não conseguia dizer o nome dele. Era uma saraivada de socos que se abatia sobre ela, no rosto, na cabeça, no estômago, nas costas. Depois parou. Grace ouviu‑o correr e gritar‑lhe novamente. Depois ele desapareceu e Grace ficou estendida no chão, à entrada da porta, sentindo na boca o gosto do seu próprio sangue.

            A polícia encontrou‑a nessa noite, numa das últimas rondas, ainda caída no mesmo sítio. Tocaram‑lhe com os seus bastões, como faziam com os bêbedos, e então um deles viu sangue à luz do candeeiro da rua.

            ‑           Merda! ‑ disse, gritando logo a seguir para o seu

companheiro: ‑ Chama uma ambulância. Depressa! ‑

O polícia ajoelhou‑se então junto de Grace e apalpou‑lhe o

pulso. Mal se sentia. Quando a voltou, viu como ela havia

sido brutalmente espancada. Tinha a cara coberta de sangue

e o cabelo empapado. Não sabia se ela teria ossos partidos ou ferimentos internos, mas mesmo naquele estado de inconsciência, via‑se que tinha dificuldade em respirar. O colega dele apareceu daí a um minuto.

                        ‑           Que se passa?

                        ‑           É um caso grave... ela não pertence a esta zona. Repara na maneira como está vestida... Sabe Deus de onde terá vindo. ‑ Enquanto esperavam que a ambulância de Beilevue chegasse, um dos polícias abriu‑lhe a carteira e procurou uma identificação. ‑ Vive na Rua Oitenta e Quatro, muito longe daqui. Devia saber que não podia andar a passear por esta zona.

                        ‑           Há aqui perto um centro de apoio aos habitantes da área ‑ disse o polícia que fora chamar a ambulância. ‑ Pode ser que ela trabalhe lá. Posso lá ir depois da ambulância a levar. ‑ Um deles tinha de ir na ambulância para depois fazer o seu relatório, se ela não morresse entretanto. O pulso dela estava cada vez mais fraco e a respiração mais difícil.

             A ambulância chegou menos de cinco minutos depois, com as sirenas a uivar, e os enfermeiros colocaram rapidamente Grace na maca e logo lhe aplicaram oxigénio quando

a meteram na ambulância.

                        ‑           Tem ideia da gravidade do caso? ‑ perguntou um dos polícias ao paramédico‑chefe. Grace estava completamente inconsciente e sempre estivera desde que eles a tinham encontrado. Apenas abria a boca ofegantemente e eles tinham-lhe posto a máscara de oxigénio.

                        ‑           O aspecto não é nada bom ‑ respondeu com sinceridade o paramédico. ‑ Tem um ferimento na cabeça. Isso pode significar muita coisa. Pode entrar em coma permanente. ‑ Mas ali nada mais podiam saber. O aspecto dela, debaixo da luz forte do interior da ambulância, era terrível.

                        A cara fora maltratada de tal maneira que ela estava quase irreconhecível, os olhos fechados e inchados, tinha uma navalhada no pescoço e quando lhe abriram a blusa e desabotoaram as calças viram o estado em que o corpo dela ficara. O atacante por pouco não a matara.

                        ‑           Isto está mau ‑ disse o paramédico ao polícia em voz baixa. ‑ Não resta muito dela. Não faço ideia se o atacante a conhecia. Como se chama ela?

O polícia abriu novamente a carteira e leu em voz alta, enquanto ele se debruçava sobre Grace. Tinham de fazer algo para a manter viva enquanto a ambulância seguia velozmente em direcção a Beilevue.

            ‑           Vamos, Grace... abra os olhos... já passou... ninguém lhe vai fazer mal... vamos levá‑la para o hospital, Grace... Grace... merda... ‑ Meteram‑lhe soro na veia e o aparelho para medir a tensão arterial apertava‑lhe o braço. A tensão baixava pouco a pouco... e depois desapareceu. ‑ Estamos a perdê‑la... ‑ disse um dos paramédicos, agindo rapidamente. Um deles pegou no desfibrilador, arrancou-lhe literalmente o soutien e colocou‑lho sobre o peito.

            ‑           Afaste‑se ‑ disse o enfermeiro para o polícia. ‑ Está a voltar... ‑ O corpo de Grace foi sacudido pelo choque e o coração recomeçou a trabalhar, no momento em que pararam à porta das urgências e a porta da ambulância se abria.

            ‑           Ela teve uma paragem cardíaca há um segundo ‑ disse um dos paramédicos aos maqueiros que acorreram para levar Grace para dentro, cobrindo o peito nu de Grace com o seu casaco. ‑ Creio que houve hemorragia interna... e há também um ferimento na cabeça... ‑ Disse‑lhes tudo quanto sabia e viu cinco pessoas correrem ao lado da maca e entraram na sala das urgências. Apareceu logo a seguir um médico e três enfermeiras que começaram a distribuir ordens, enquanto o polícia se dirigia à recepção para preencher a ficha de Grace.

            ‑           Céus!, ela está num estado horroroso ‑ disse um dos paramédicos, dirigindo‑se ao polícia. ‑ Sabe o que lhe sucedeu?

            ‑           O habitual em Nova iorque ‑ respondeu o polícia com ar desanimado. Podia ver pela carta de condução que ela tinha vinte e dois anos. Era nova de mais para ficar sem a vida às mãos de um assaltante. Claro que isso era válido para qualquer idade, mas principalmente para uma rapariga nova como ela. Não havia maneira de se saber se ela tinha sido bonita, ou se viria a ficar, se vivesse, o que era duvidoso.

            ‑           Parece ter sido mais do que um assalto para roubar - considerou o paramédico. ‑ Ninguém pode espancar uma pessoa dessa maneira só para a roubar, a não ser que tenha qualquer coisa contra ela. Talvez tenha sido o namorado.

            ‑           No limiar de uma porta, em Delancey? Não é provável. Ela vestia calças de marca e o endereço dela é de Upper East Side. Ela foi assaltada.

            Mas quando o seu companheiro se dirigiu a St. Andrew's, o padre Tim suspeitou de que fora mais que pouca sorte o que sucedera a Grace Adams. Ele recebera a visita de um polícia, no dia anterior, que lhe dissera que uma mulher chamada Isella Jones fora assassinada pelo marido nesse dia. O homem matara também os dois filhos e desaparecera. E o polícia sugerira‑lhe que avisasse as enfermeiras e as assistentes sociais de que o homem era violento e andava fugido. Era possível que nunca se aproximasse de St. Andrew's, mas podia fazê‑lo, pois atribuía às pessoas que ali trabalhavam a culpa de a mulher o querer deixar. Mas não lhe ocorrera avisar Grace. Ela estava na Califórnia quando Isella ali aparecera, espancada e aterrorizada, acompanhada pelos filhos. O padre Tim avisara toda a gente para ter cuidado com um homem chamado Sam Jones, mas tinham tido tanto que fazer nos últimos dias que nunca mais se lembraram.

            Quando soube o que sucedera a Grace, o sacerdote teve a certeza de que o incidente estava relacionado com Sam Jones e a Polícia espalhou cartazes com a fotografia e a descrição dele. Ele já estivera preso várias vezes e tinha uma longa história de violência. Se o encontrassem, ficaria preso por toda a vida por ter morto a mulher e os filhos, mesmo sem se contar com o que fizera a Grace Adams em Delancey.

            O padre Tim parecia doente ao perguntar ao polícia:

            ‑           O estado dela é grave?

            ‑           Quando a meteram na ambulância pareceu‑me bastante mal. Tenho muita pena.

            ‑           Também eu. ‑ Tinha lágrimas nos olhos ao tirar a camisola preta que trazia vestida, substituindo‑a por uma camisa preta com colarinho branco de sacerdote católico. - Pode levar‑me ao hospital?

‑           Com certeza. ‑ O padre Tim contou rapidamente à irmã Eugene o ocorrido e dirigiu‑se imediatamente para o carro‑patrulha com o polícia. Quatro minutos depois, estavam em Bellevue. Grace encontrava‑se ainda na sala de urgências com toda uma equipa de médicos e enfermeiras em volta dela. Mas até agora ninguém estava encorajado com os resultados. Grace tinha a vida por um fio.

            ‑           Como está ela? ‑ perguntou o padre Tim na recepção.

            ‑           O estado dela é crítico. É tudo quanto sei. ‑ Depois olhou, e pensou que como era padre lhe poderia dizer, e acrescentou: ‑ Provavelmente não se salva. ‑ Fora o que lhe dissera um dos internos. Tinha tantas lesões internas que era quase impossível. ‑ Quer vê‑la? ‑ Ele disse que sim com a cabeça. Sentia‑se responsável pelo que lhe sucedera. Sam Jones quase matara Grace.

            O padre Tim seguiu a enfermeira até à sala de urgências e ficou chocado com o que ali viu. Três enfermeiras, dois internos e um médico residente rodeavam Grace. Ela estava nua, envolta em lençóis. Todo o seu corpo estava negro e inchado. O rosto dela parecia um melão de um tom purpúreo‑escuro. Por todo o lado havia sacos de gelo, ligaduras, e aparelhos de todos os géneros. Era a pior coisa que ele alguma vez vira e, a um sinal afirmativo por parte do médico interno, deu‑lhe a extrema‑unção. Nem sequer sabia qual era a religião de Grace, mas isso não tinha importância. Ela era uma filha de Deus, e Ele sabia quanto ela lhe oferecera. O padre Tim ficou a um canto a rezar por ela e a chorar. Passadas horas, quando acabaram de a operar, é que ele ergueu os olhos. Tinha a cabeça toda ligada e tinham-lhe suturado a cara e o pescoço. O homem só recorrera à navalha no pescoço dela, o rosto fora lacerado com os punhos. Partira‑lhe um braço e cinco costelas. Iriam operá‑la aos ossos logo que o estado dela o permitisse. Pelos exames feitos, sabiam que ficara com o baço rebentado e com lesões nos rins. A pelve também estava quebrada.

            ‑           Houve algum órgão que ele não tivesse atingido? - perguntou o padre Tim, angustiado.

            ‑           Pouca coisa. ‑ O médico estava habituado a casos daqueles, mas desta vez até ele achava um caso muito grave. Ela quase morrera. ‑ Parece que não tem nada nos pés - disse o médico, sorrindo.

            Grace foi levada para o bloco operatório às seis da manhã e só saiu de lá ao meio‑dia. A irmã Eugene fora ter com o padre Tim ao hospital e estavam ambos sentados, rezando em silêncio por Grace, quando o médico interno foi ter com ele.

            ‑           É parente dela? ‑ perguntou, confuso por ver que se tratava de um padre. De início julgara que fosse o capelão do hospital, mas depois reparara que ele se encontrava ali especificamente por causa de Grace, assim como a mulher que o acompanhava.

            ‑           Sou, sim - respondeu sem hesitar o padre Tim. - Como está ela?

            ‑           Creio que vai sobreviver. Tirámos‑lhe o baço, remendámos‑lhe os rins, pusemos um gancho na pelve. Ela é uma rapariga com sorte. Conseguimos remendar tudo o que era importante. O nosso cirurgião plástico coseu‑lhe a cara e jura que não se dará por nada. O que é agora preocupante é a cabeça. Tudo parece estar bem no electroencefalograma, mas às vezes não se pode ver. Pode parecer tudo bem e ela ficar em coma e não mais deixar de estar. Ainda não sabemos. Daqui a poucos dias poderemos dizer‑lhe mais. Lamento muito. ‑ Deu-lhe uma leve palmada num braço e baixou a cabeça para a jovem freira. Tratava‑se de um caso muito grave, mas pelo menos estava viva e tinha algumas possibilidades de se salvar.

            Antes de o médico se afastar, o padre Tim agradecera‑lhe e perguntara se a poderiam ver. O médico disse que, logo que ela saísse da sala de observação, daí a algumas horas, poderiam vê‑la. Em seguida foi com a irmã Eugene à cafetaria para comerem qualquer coisa e ela disse‑lhe para ele ir para casa descansar um pouco. Mas o padre Tim não queria sair dali por enquanto.

            ‑           Estava a pensar que talvez devêssemos falar para o escritório dela. Ninguém sabe o que lhe sucedeu, além de nós. Devem estar admirados por ela não aparecer. ‑ E era exactamente esse o caso. Charles Mackenzie pedira a uma das secretárias que telefonasse para casa de Grace e ela já o fizera uma dúzia de vezes, sem obter resposta. Ela poderia ter prolongado um fim‑de‑semana com alguém, mas Charles achava que Grace não era pessoa para fazer isso. Não sabia para onde telefonar, mas pensava que ela poderia ter escorregado na banheira e batido com a cabeça. Decidira até falar com o porteiro do prédio, mas decidira esperar até depois do almoço. Logo que voltou do seu almoço, receberam um telefonema de um padre Finnigan e a secretária que o atendeu disse que era a respeito de Grace.

            ‑           Eu atendo ‑ disse Charles, pegando no telefone com uma sensação estranha. ‑ Está?

            ‑           Senhor Mackenzie?

            ‑           Sim, sou eu. Em que lhe posso ser útil?

            ‑           Em muito pouco, receio. É acerca de Grace. ‑ Charles sentiu o sangue gelar‑lhe nas veias. Sem ouvir mais nada, percebeu que lhe sucedera algo de terrível.

            ‑           Ela está bem?

            O silêncio pareceu‑lhe infindável.

            ‑           Receio que não. Teve um acidente terrível a noite passada. Foi assaltada e brutalmente espancada depois de sair de Saint Andrew's, o centro onde ela presta trabalho voluntário. Era tarde e... ainda não conhecemos os pormenores, mas receio que possa ter sido o marido de uma das mulheres que nos foi pedir ajuda. Matou a mulher e os filhos no sábado. Não sabemos ainda se foi ele quem atacou Grace, mas, fosse quem fosse, quase a matou.

            ‑           Onde está ela? ‑ A mão de Charles Mackenzie tremia ao pegar na caneta para tomar nota.

            ‑           Encontra‑se em Bellevue. Acabou de sair da sala de operações.

            ‑           É grave? ‑ Era uma coisa tão injusta. Grace era uma rapariga tão bonita, tão nova e cheia de vida...

            ‑           Bastante grave. Ficou sem o baço, embora o doutor diga que pode viver sem ele. Os rins ficaram com lesões, tem uma lesão na pelve e meia dúzia de costelas partidas. O rosto ficou cortado e o pescoço também, mas foi um corte superficial. O pior de tudo é a cabeça. É essa a maior preocupação agora. Dizem que teremos de esperar. Lamento telefonar para dar tão más notícias, mas achei que lhe devia dizer. ‑ Depois, sem saber porque dissera aquilo, mas sentindo que o devia fazer, o padre acrescentou: ‑ Ela pensa muito bem de si, senhor Mackenzie. Considera‑o uma pessoa fantástica.

‑           Eu também penso o melhor possível dela. Há alguma coisa que eu possa fazer agora?

            ‑           Reze.

            ‑           Rezarei, padre, rezarei. E obrigado. Diga‑me quando houver alguma mudança, sim?

            ‑           Com certeza.

            Logo que desligou, Charles Mackenzie ligou para o director de Beilevue e para um neurocirurgião que conhecia bem, e pediu‑lhe para ir ver Grace imediatamente. O director do hospital prometeu‑lhe pôr Grace num quarto particular e dar ordens para que tivesse enfermeiras constantemente junto dela. Mas primeiro teria de ficar nos cuidados intensivos, onde eram peritos em casos de traumatismos.

            Charles nem podia acreditar no que lhe estavam a dizer quando ligou para o hospital. Recordava‑se de ter dito a Grace que aquele bairro era perigoso e que devia ir de táxi. E agora sucedera‑lhe aquilo. Ficou abalado durante o resto da tarde e telefonou às cinco para saber se teria havido melhoras. Soube apenas que Grace continuava nos cuidados intensivos e que o seu estado era crítico. Uma hora mais tarde Charles encontrava‑se ainda no escritório quando o neurocirurgião seu amigo lhe telefonou.

            ‑           Não podes acreditar naquilo que ele lhe fez, Charles. É desumano.

            ‑           Vai ficar boa? ‑ perguntou Charles tristemente. Detestava que uma coisa daquelas tivesse sucedido a Grace. Ou a qualquer outra pessoa. Ele próprio se sentia surpreendido ao perceber como gostava dela. Era muito nova e poderia ser sua filha, pensou, perplexo.

            ‑           Poderá ficar bem ‑ respondeu o médico. ‑ É difícil saber, por enquanto. Os outros ferimentos não devem causar problemas. A cabeça é outra história. Pode ficar boa, ou não. Tudo depende do que se passar nos próximos dias. Felizmente, não precisou de ser operada ao cérebro, mas vai ficar bastante inchada por um certo tempo. Teremos de ser pacientes. É uma amiga tua?

            ‑           É minha secretária.

            ‑           Tenho muita pena. É apenas uma rapariga, pelo que vi no boletim. E não tem família, pois não?

‑           Não sei. Ela não fala muito nisso. Ela nunca me disse. Charles pensou então que não sabia nada sobre a sua situação. Ela nunca lhe falara sobre a família nem sobre a sua vida pessoal. Não sabia praticamente nada a respeito dela.

- Falei com uma freira que estava sentada junto dela.

O padre que aqui esteve anteriormente parece que foi para casa descansar. Mas a freira disse‑me que ela não tem ninguém no mundo. É muito duro para uma rapariga tão nova. A freira diz que ela é bonita, mas agora é difícil perceber isso. O cirurgião plástico coseu‑a e diz que vai ficar tudo bem. Só temos de nos preocupar com a cabeça. ‑ Quando desligou, Charles sentia‑se doente. Era demasiado. E como é que ela não tinha ninguém? Aos vinte e dois anos era demasiado nova para não ter família. Tinha apenas um padre e uma freira com ela. Era difícil acreditar que ela não tivesse ninguém, mas provavelmente não tinha.

            Ficou sentado à secretária durante mais uma hora, tentando trabalhar mas sem o conseguir, e finalmente não pôde aguentar mais.

            às sete meteu‑se num carro para Bellevue e subiu à sala dos cuidados intensivos. A irmã Eugenejá partira nessa altura, e agora telefonavam regularmente de St. Andrew's. O padre Tim dissera que voltaria mais tarde, depois de estar tudo calmo no abrigo. Naquele momento estavam ali apenas as enfermeiras e nada mudara desde essa manhã.

            Charles sentou‑se junto dela, incapaz de acreditar no que via. Ela estava completamente irreconhecível, exceptuando os compridos dedos finos. Segurou‑lhe numa mão e começou a acariciá‑la meigamente.

            ‑           Olá, Grace, vim vê‑la. - Falou em voz baixa, para não incomodar ninguém, mas queria dizer‑lhe qualquer coisa na esperança de que ela o ouvisse, embora isso parecesse de facto pouco provável no estado em que ela se encontrava. - Vai ficar boa, verá... e não se esqueça do jantar no Vinte e Um. Eu próprio a levarei se se puser boa depressa... seria bom que abrisse os olhos para nós... assim não é tão bom, Grace... abra os olhos... abra os olhos. ‑ Continuou a falar em voz baixa e meiga e, quando estava a pensar em se ir embora, reparou que as palpebras dela estremeciam e fez sinal a uma enfermeira para se aproximar. Sentia o coração bater desordenadamente com o que acabava de ver. A sobrevivência de Grace era vital para ele. Queria que ela vivesse. Mal a conhecia, mas não queria perdê‑la. ‑ Creio que mexeu as pálpebras ‑ explicou.

            ‑           Provavelmente é apenas um reflexo - disse a enfermeira, com um olhar de simpatia. Mas depois ela voltou a fazer o mesmo e a enfermeira ficou parada a olhá‑la.

            ‑           Mexa os olhos outra vez, Grace - disse Charles, calmamente. ‑ Vamos, sei que o pode fazer. Sim, pode. - E ela fê‑lo. Abriu os olhos por breves momentos, gemeu e fechou‑os de novo. Charles teve vontade de gritar de excitação. ‑ Que quer isto dizer? ‑ perguntou à enfermeira.

            ‑           Que está a recuperar a consciência ‑ respondeu a enfermeira. ‑ Vou chamar o doutor.

            ‑           Foi formidável, Grace ‑ murmurou Charles, acariciando-lhe os dedos outra vez, querendo transmitir-lhe o desejo de viver, para provar que o podia fazer, para que mais um atacante não conseguisse roubar uma vida que não merecia tirar. ‑ Vamos, Grace... não pode ficar aqui... a dormir... temos trabalho a fazer... ‑ Charles ia dizendo coisas ao acaso, e quase chorou quando a viu franzir a testa, abrir lentamente os olhos e fitá‑lo sem compreender.

            ‑           ... Que... carta?... ‑ murmurou através dos lábios inchados e feridos. Os olhos fecharam‑se outra vez e ele começou a chorar. As lágrimas caíam‑lhe pelas faces enquanto a olhava. Ela ouvira‑o. O médico chegou e Charles explicou-lhe o que se passara. Fizeram‑lhe outro electroencefalograma e as ondas do cérebro estavam ainda normais. As reacções voltavam lentamente. Grace voltou a cara quando lhe apontaram uma luz para os olhos, gemeu e depois chorou quando lhe tocaram. Tinha dores, o que foi considerado muito bom. Agora teria de passar por várias fases de dor para melhorar.

            E à meia‑noite Charles ainda ali se encontrava. Não conseguia afastar‑se dela. Parecia agora que o cérebro não fora danificado. Teriam de fazer mais testes e de se certificar de que não tinha mais traumatismos ainda ocultos, mas parecia que ela iria de facto recuperar e ficar bem.

O padre Tim voltara nessa altura e encontrava‑se na sala de observação quando o médico dizia a Charles que o diagnóstico era bastante bom. Então os dois homens saíram para o corredor para falar, enquanto uma enfermeira dava uma injecção a Grace por causa das dores.

            ‑           Meu Deus, ela vai conseguir! ‑ exclamou o padre Tim com uma expressão de alegria e excitação. Rezara por ela durante todo o dia, e dissera duas missas por ela. E todas as freiras continuavam a rezar. ‑ Que grande rapariga ela é! Sam Jones fora apanhado no começo da noite e acusado de ter morto a mulher e os filhos e de ter tentado assassinar Grace Adams. Confessara tê‑la atacado porque fora a primeira pessoa que vira sair de St. Andrew's e achara que fora ela a causadora dos seus problemas. ‑ Não faz ideia do que ela tem feito por nós, senhor Mackenzie. Aquela rapariga é uma santa! ‑ disse o padre Tim para Charles.

            ‑           Porque fará ela isso? ‑ Charles pareceu perplexo. Estavam os dois a beber café e subitamente sentiram‑se como dois irmãos, e ambos se sentiam felizes por Grace ir recuperar.

            ‑           Penso que há muita coisa na vida de Grace que nenhum de nós conhece ‑ disse tranquilamente o padre Tim. - Não creio que a vida das mulheres e das crianças maltratadas seja nova para ela. Penso que Grace sofreu muito e sobreviveu a tudo isso, e agora quer ajudar outras pessoas que se encontrem em situações semelhantes. Daria uma grande freira ‑ concluiu, sorrindo. Mas Charles apontou um dedo para ele.

            ‑           Não se atreva! Ela deve casar e ter filhos.

            ‑           Não sei se isso virá a suceder ‑ disse o padre Tim com sinceridade. ‑ Não creio que seja isso que ela queira. Muitas curam‑se como ela se curou, mas a maior parte das crianças que sofrem como as que nós conhecemos, nunca conseguem ultrapassar a barreira que as separa de uma vida em que possam confiar nos outros e serem pessoas completas. Penso que é um verdadeiro milagre chegarem ao ponto onde Grace chegou. Talvez que pedir mais do que isso, seja demasiado.

            ‑           Se ela é capaz de se dar a tanta gente, porque não dedicar‑se a um marido?

‑           Isso é muito mais difícil! ‑ O padre Tim sorriu‑lhe filosoficamente e depois decidiu dizer‑lhe uma coisa. Isso poderia dar‑lhe uma ideia. ‑ Ela tinha um medo terrível de ir à Califórnia consigo. E ficou‑lhe eternamente grata por o senhor não a ter magoado, nem a ter usado.

            ‑           Usado? Que quer dizer com isso?

            ‑           Creio que ela passou por muitos sofrimentos. Há muitos homens que fazem coisas inauditas. Vemos isso todos os dias. Penso que ela estava à espera que o senhor procedesse com ela de um modo impróprio. ‑ Charles Mackenzie ficou embaraçado só com a ideia e horrorizado por ela poder pensar isso dele, e dizê‑lo a outra pessoa.

            ‑           Por isso é que ela estava tão perturbada quando foi trabalhar comigo.

            ‑           Possivelmente. Ela não confia muito seja em quem for. E creio que o que agora lhe sucedeu não irá melhorar as coisas. Mas pelo menos não foi uma coisa pessoal. É muito diferente. Quando uma pessoa a quem amamos nos magoa e que nos pode destruir a alma... como uma mãe para com um filho, ou um marido para com a mulher. ‑ O padre era um homem sensato e Charles ouviu‑o atentamente, pensando até que ponto aquilo se aplicaria a Grace. Mas ele parecia conhecer Grace bastante melhor que Charles, e no entanto não se mostrava muito seguro da história dela. As coisas que o padre Tim dissera a respeito de Grace dilaceravam o coração de Charles. Pensava que coisas terríveis lhe teriam acontecido para ela ficar tão profundamente ferida como mulher. Nem podia sequer imaginar o que estaria por detrás da sua calma aparência e modos delicados.

            ‑           Sabe alguma coisa acerca dos pais dela? ‑ perguntou Charles, agora cheio de curiosidade.

            ‑           Ela nunca fala deles. Apenas me disse que tinham morrido. Não tem família absolutamente nenhuma, mas não creio que isso a incomode. Veio de Chicago para aqui. Nunca fala de parentes ou amigos. É uma rapariga muito solitária, mas aceita isso. A única coisa que lhe interessa é trabalhar consigo e ir a Saint Andrew's. Trabalha lá entre vinte e cinco e trinta horas por semana.

            ‑           Então tem apenas tempo para dormir. Para mim trabalha quarenta e cinco ou cinquenta horas.

‑           É inteiramente assim, senhor Mackenzie.

            Charles sentia‑se ansioso por falar com Grace, por lhe fazer perguntas sobre a vida dela e saber qual o motivo que a levava a ir trabalhar em St. Andrew's.

            A enfermeira disse‑lhes que podiam entrar novamente e o padre Tim manteve‑se um pouco afastado para Charles poder falar com Grace. Sentia que havia ali mais interesse do que o homem pensava, ou do que Grace suspeitava.

            Grace estava um pouco tonta quando Charles se aproximou. A injecção provocara‑lhe esse efeito, mas pelo menos tirara‑lhe as dores.

            ‑           Lamento que isto lhe tenha sucedido, Grace. ‑ Ia ter uma conversa com ela a respeito de trabalhar em St. Andrew's, mas isso teria de ficar para mais tarde. ‑ Apanharam o homem que a atacou.

            ‑           Ele estava zangado, por causa... da mulher... Isella. Iria recordar o nome da mulher durante toda a vida.

            ‑           Espero que o enforquem ‑ disse Charles, furioso, e Grace olhou‑o outra vez. E conseguiu esboçar um sorriso, parecendo sonolenta. - Porque não dorme? Voltarei amanhã.

            Grace disse que sim com a cabeça e o padre Tim passou também alguns minutos junto dela, antes de os dois saírem para a deixarem dormir. Charles chamou um táxi, foi deixar o padre no abrigo e seguiu para sua casa, depois de prometer manter‑se em contacto com o jovem padre. Gostava dele. Prometera‑lhe também ir visitar o centro. E tencionava ir. Queria conhecer Grace e essa era uma maneira de o fazer.

            Charles voltou a ir visitar Grace nos três dias seguintes, cancelando vários almoços, até mesmo um com um produtor seu amigo, mas não a queria deixar só. Quando a mudaram para um quarto particular, levou Winnie para a visitar. Ela chorou quando viu Grace, ficou a torcer as mãos uma na outra e beijou‑a na face, no único bocadinho que não estava ligado. Nessa altura já Grace estava um pouco melhor. O inchaço começava a desaparecer, mas doía‑lhe tudo, desde a pelve à cabeça. Os rins estavam a cicatrizar bem, o médico disse‑lhe que o baço não lhe faria falta, mas Grace tinha dores no corpo todo e parecia‑lhe ter sido dilacerada.

No sábado, quase uma semana depois do acidente, a enfermeira que Charles insistira em contratar para Grace fê‑la sair da cama e andar até à casa de banho. Doeu‑lhe tanto que ela quase desmaiou, mas conseguiu e quando voltou para a cama celebrou a sua vitória, bebendo um grande copo de sumo de fruta. Estava tão branca como o lençol mas sorridente quando Charles entrou com um grande ramo de flores. Todos os dias lhe levava flores, e doces, revistas e livros. Queria animá‑la, mas não sabia bem como fazê‑lo.

            ‑           Que faz aqui? ‑ Grace ficou embaraçada quando o viu e a cor subiu‑lhe ao rosto. ‑ Hoje é sábado, não tem nada melhor para fazer? ‑ ralhou ela, parecendo muito melhor. A cara parecia um arco‑íris de azuis, verdes e purpúreos, mas o inchaço já quase desaparecera por completo e os pontos estavam a cicatrizar tão bem que quase não se viam.

O que mais preocupava agora Charles era o espírito dela. Depois da conversa que tivera com o padre Tim, não podia deixar de pensar no que a teria levado a St. Andrew's para trabalhar. Mas era demasiado cedo para lhe fazer perguntas a esse respeito.

            ‑           Não devia ir passar o fim‑de‑semana fora? ‑ Lembrava‑se de ter tratado de tudo para ele ir assistir a uma regata em Long Island. Alugara‑lhe uma pequena casa em Quogue e era uma pena que ficasse em Nova iorque.

            ‑           Cancelei tudo isso ‑ declarou decididamente Charles, olhando‑a com atenção. ‑ Está com bom aspecto. ‑ Sorriu e entregou‑lhe as revistas que lhe trouxera. Levara‑lhe pequenos presentes durante toda a semana, um casaco para vestir na cama, uns chinelos, uma almofada para o pescoço, água‑de‑colónia.

            Era embaraçoso, mas Grace tinha de admitir que gostava. Falara disso a Winnie, ao telefone, e a boa senhora ficara encantada como uma velha mãe‑galinha. Grace rira e dissera‑lhe que ela era impossível, que não pensava noutra coisa senão em romance.

            ‑           Claro que não ‑ confessou orgulhosamente Winnie. Prometera ir visitar Grace no domingo.

            ‑           Quero ir para casa ‑ disse Grace para Charles, olhando‑o com ar triste.

‑           Não creio que isso possa suceder tão cedo ‑ contrapôs Charles com um sorriso. Na véspera tinham‑lhe falado em três semanas, o que não agradava a Grace, e que significava que ela ainda estaria no hospital no dia do seu aniversário.

            ‑           Quero voltar ao trabalho. ‑ Tinham‑lhe dito que teria de andar com muletas durante um ou dois meses. Nada mais tinha para fazer. E queria voltar a St. Andrew's logo que a deixassem.

            ‑           Não se esforce, Grace. Porque não vai descansar para qualquer sítio quando sair daqui?

            Mas Grace apenas riu da ideia.

            ‑           Para onde? Para a Riviera? ‑ Não podia ir para parte alguma durante muito tempo. Talvez pudesse ir passar um fim‑de‑semana a Atlantic City. Não ia ter férias em breve. Ainda não trabalhava na firma há tempo suficiente para ter uma semana de férias. Sabia que teria de trabalhar lá um ano, para ter duas semanas de férias. Já era de mais Charles ter‑lhe dito que a firma pagaria tudo quanto o seguro não pagasse. As três semanas em Bellevue e tudo o que tinham feito devia custar perto de cinquenta mil dólares.

            ‑           Sim. Porque não a Riviera? Alugue um iate ‑ gracejou Charles. ‑ Divirta‑se um pouco, para variar. ‑ Grace riu e ficaram a conversar um bocado. Grace sentia‑se surpreendida por ser tão fácil conversar com ele e Charles parecia não querer ir para parte alguma. Ainda ali estava quando a enfermeira foi almoçar e ajudou‑a a andar até à cadeira, apoiada no seu braço. Em seguida colocou‑lhe uma almofada atrás das costas quando Grace se sentou, pálida e exausta mas vitoriosa.

            ‑           Como é que não teve filhos? ‑ perguntou Grace de repente, enquanto ele lhe servia um copo de ginger ale. Ele teria sido um óptimo pai, pensava Grace, mas sem nada lhe dizer.

            ‑           A minha mulher detestava crianças ‑ disse ele. ‑ Ela própria queria ser uma criança. As actrizes são assim. E eu deixava‑a fazer o que queria ‑ disse ele, parecendo um pouco embaraçado.

            ‑           Teve pena de não ter filhos? ‑ Grace falava como se ele fosse muito velho e já tivesse deixado passar essa oportunidade. Charles teve vontade de rir ao pensar nisso.

            -           às vezes. Costumava pensar que voltaria a casar e que teria muitos filhos, depois de Michelie me deixar. Mas talvez já não pense nisso. Tenho uma vida demasiado confortável para tentar qualquer coisa tão importante agora. ‑ Nos últimos anos tornara‑se preguiçoso para arranjar um envolvimento sério. Gostava das aventuras temporárias, da liberdade e da independência. Era tentador permanecer assim para sempre. Mas a pergunta que ela lhe fez abriu‑lhe uma porta. ‑ E você? Porque não quer também um marido e filhos? ‑ Charles sabia agora muito mais a respeito dela, mas Grace ficou surpreendida. A pergunta fora feita sem mais nem menos.

            ‑           Que o faz dizer isso? ‑ Olhou para outro lado, receosa das perguntas dele. Mas quando voltou a olhá‑lo, viu que estava ali alguém em quem podia confiar. ‑Como é que sabe que é isso que eu sinto?

            ‑           Uma rapariga da sua idade não passa todo o seu tempo a fazer trabalho voluntário, nem a passear com uma solteirona de sessenta anos, como Winnie, a não ser que tenha muito pouco interesse em arranjar marido. Tenho razão? - perguntou, olhando‑a atentamente com um sorriso.

            ‑           Tem.

            ‑           Porquê?

            Grace esperou um longo momento antes de lhe responder. Não lhe queria mentir, mas também não estava preparada para lhe contar a verdade.

            ‑           É uma história comprida ‑ disse.

            ‑           Tem alguma coisa a ver com os seus pais? ‑ Os olhos dele observavam‑na, mas não sem um certo afecto. Ele provara já que se preocupava com o bem‑estar dela e que podia confiar nele.

            ‑           Sim.

            ‑           Foi muito mau? ‑ Grace disse que sim com um gesto e Charles sentiu uma pena profunda dela. Não podia pensar que alguém a pudesse magoar. ‑ Alguém a ajudou?

            ‑           Durante muito tempo, não. E depois já era demasiado tarde. Já tinha acabado tudo.

‑           Nunca é demasiado tarde. Não tem de viver com esse desgosto durante o resto da sua vida. Tem o direito de se

livrar disso e de ter um bom futuro com um homem decente

            ‑           Tenho um presente, o que significa mais para mim do que um futuro. Durante muito tempo nem isso tive. Não peço muito do futuro ‑ disse calmamente Grace, com uma expressão de tristeza.

            ‑           Mas devia esperar ‑ disse ele, tentando animá-la. - Você é tão nova. Tem metade da minha idade. A sua vida está agora a começar.

            Mas ela abanou a cabeça, com um sorriso cheio de tristeza e de sabedoria.

            ‑           Acredite, Charles ‑ ele insistira para que ela o tratasse assim desde que estava no hospital. ‑ Acredite que a minha vida não está no começo... Está meio acabada.

            ‑           Isso é o que você sente agora. Não estará acabada por muito tempo ainda, e por isso é que precisa de algo mais do que trabalhar para mim e em Saint Andrew's.

            ‑           Está a tentar arranjar‑me alguém? ‑ Grace riu, estendendo as compridas pernas para a frente. Ele era um homem bondoso e Grace sabia que ele procedia com bons intuitos, mas não sabia o que estava a fazer. Ela não era uma qualquer rapariga de vinte e dois anos, com recordações amenas e um futuro risonho. Sentia‑se mais como sobrevivente de um campo de morte e de certo modo era‑o. Charles Mackenzie nunca encontrara ninguém assim e não sabia o que havia de fazer por ela.

            ‑           Quem me dera conhecer alguém digno de si ‑ respondeu com um sorriso. Todos os homens que conhecia ou eram demasiado velhos ou demasiado estúpidos. Não a mereciam.

            Falaram então de outras coisas, de velejar, do que ele gostava, dos Verões que ele passava em Martha's Vineyard quando era rapaz, e em vários locais onde ele estivera. Charles ainda tinha uma casa em Martha's Vineyard, embora raramente lá fosse agora. Não voltaram a falar de coisas dolorosas e Charles só a deixou ao fim da tarde, dizendo‑lhe que descansasse. Disse‑lhe que no dia seguinte iria visitar uns amigos em Connecticut. Grace sentia‑se comovida por ele passar tanto tempo junto dela.

 

Winnie foi visitar Grace no domingo à tarde e o padre Tim apareceu também. Grace estava deitada a ver televisão, antes de adormecer, quando Charles entrou no quarto. Trazia calças de ganga e uma camisa azul, fazendo lembrar um anúncio de GQ e cheirando a campo.

            ‑           Lembrei‑me de passar por aqui antes de ir para casa - explicou ele. ‑ Queria saber como estava ‑ acrescentou, parecendo feliz por a ver. Na verdade Grace sentira a sua falta nessa tarde e isso preocupara‑a um pouco. Afinal ele era apenas seu patrão, e não um amigo de longa data. Não tinha o direito de esperar que ele a fosse ver constantemente. Não tinha esse direito, mas gostava da presença dele; com efeito, gostava muito mais do que alguma vez pudesse pensar.

            ‑           Gostou de estar com os seus amigos? ‑ perguntou Grace, sentindo‑se aliviada por ele ali estar.

            ‑           Não ‑ respondeu ele com franqueza. ‑ Pensei em si toda a tarde. É muito mais divertido estar consigo do que com eles.

            ‑           Agora é que estou a ver que enlouqueceu ‑ disse Grace, rindo.

            Charles sentou‑se aos pés da cama e começou a contar‑lhe histórias engraçadas passadas nesse dia. Quando saiu já passava das dez horas e Grace sentiu‑se desapontada por ele se ter ido embora. Charles resolvera deixá‑la, embora não lhe apetecesse fazê‑lo, porque achava que ela devia dormir.

            Mas nessa noite, estendida na cama a pensar nele, Grace começou a ficar assustada. Que estava ela a fazer com ele? Que quereria ele? Se continuasse a abrir‑se com ele como até agora, poderia ficar magoada. Forçou‑se a recordar a angústia que sentira com Marcus, que ao princípio se mostrara tão meigo e tão afectuoso para ela e que por fim a atraiçoara. Sentia‑se aterrorizada ao pensar que Charles Mackenzie pudesse fazer‑lhe o mesmo. Provavelmente ela não representava para Charles Mackenzie mais do que uma conquista. Grace sentia o peito apertado ao pensar nisso e, como se Charles estivesse a ler‑lhe os pensamentos, o telefone tocou a seu lado. Era Charles e parecia preocupado.

            ‑           Quero dizer‑lhe uma coisa... pode pensar que sou doido, mas de qualquer modo vou dizer‑lhe. Quero ser seu amigo, Grace... Não a magoarei, mas fiquei preocupado ao tentar imaginar o que você pensaria. Não sei o que está a suceder. Sei apenas que penso constantemente em si e me preocupo com o que lhe aconteceu no passado, embora nem sequer o possa imaginar... mas não a quero perder... não a quero assustar, nem fazê‑la preocupar‑se com o seu emprego. Sejamos por enquanto apenas duas pessoas que gostam uma da outra. Se formos... e avançarmos muito lentamente a partir daí...

            Grace nem podia acreditar no que estava a ouvir, mas de certo modo era um alívio ouvi‑lo.

            ‑           Que estamos a fazer, Charles? ‑ disse nervosamente. ‑ E o meu emprego? Não podemos fingir que não trabalho para si. Que irá suceder quando eu voltar?

            ‑           Não vai voltar durante uns tempos, Grace. Nessa altura saberemos muito mais. Talvez o que eu digo não possa acontecer nunca. Talvez sejamos apenas amigos e o seu acidente nos tenha assustado a ambos. Talvez seja mais do que isso. Mas a Grace precisa de saber quem eu sou, e eu quero saber quem a Grace é... quero conhecer o seu sofrimento... e aquilo que a faz rir. Quero estar a seu lado... ajudá‑la...

            ‑           E depois? Afasta‑se de mim? Arranja outra secretária que o divirta durante semanas e que lhe conte todos os seus segredos? ‑ Grace sentia‑se aliviada por ele ter telefonado, mas receava confiar nele.

            Charles lembrou‑se de o padre Tim ter dito que muitos dos sobreviventes como ela não conseguiam superar os traumas sofridos. Mas ele queria que Grace conseguisse, custasse o que custasse.

            ‑           Isso não é justo ‑ disse Charles com ar de censura. - Nunca me encontrei numa situação destas. Nunca saí com quem quer que fosse que trabalhasse na firma, nem com alguém que trabalhasse para mim. ‑ Depois sorriu, apesar da seriedade do assunto. ‑ E você não pode dizer que o que eu quero é sair consigo. A Grace mal pode dar uns passos da cama para a cadeira e nem mesmo eu teria o mau gosto de a atacar.

            Grace riu do que ele disse, ainda nervosa. Queria confiar nele, mas sabia que não podia... ou poderia? Quando lhe respondeu, a voz dela era sexy e profunda.

            ‑           Não sei... não sei...

            ‑           Não precisa de saber coisa alguma agora... a não ser se acha bem que eu continue a visitá‑la. É apenas o que precisa de decidir. Só tive receio que começasse a pensar, aí sozinha, e entrasse em pânico.

            ‑           E estava... comecei a entrar em pânico ao pensar no que andávamos a fazer... ‑ murmurou Grace timidamente.

            ‑           Não andamos a fazer coisa alguma, por isso cale‑se e ponha‑se melhor. E um dia... ‑ a voz dele era tão meiga que quase parecia uma carícia ‑ quando se sentir mais forte, quero que me diga o que lhe sucedeu no passado. Não pode querer que eu a compreenda inteiramente sem o saber. Alguma vez contou a alguém? ‑ Charles preocupava‑se com isso. Como podia ela viver com todos aqueles segredos tenebrosos?

            - A duas pessoas ‑ respondeu Grace. ‑ Uma mulher maravilhosa que conheci, uma psiquiatra... que morreu num desastre de avião na viagem de lua‑de‑mel, há quase três anos. E a um homem que foi meu advogado, e ao qual nunca mais falei.

            ‑           Não tem tido muita sorte, pois não, Grace?

            Ela abanou tristemente a cabeça e depois encolheu os ombros.

            ‑           Não sei... ultimamente tenho. Não me posso queixar. ‑ Decidiu então dar um grande salto. ‑ Tive sorte em o ter encontrado. ‑ Dizer‑lhe aquelas palavras a ele quase a sufocou e Charles percebeu isso.

            ‑           Não tanta como eu. Agora durma, querida... ‑ murmurou meigamente ao telefone. ‑ Irei aí à hora do almoço. E talvez volte à hora do jantar. Talvez lhe possa levar qualquer coisa do Vinte e Um.

            ‑           Ia levar lá a Winnie na próxima semana ‑ disse ela, com pena.

            ‑           Vai ter muito tempo para isso, quando estiver boa. Agora durma ‑ sussurrou, desejando poder rodeá‑la com os seus braços e protegê‑la. Ela fazia‑o sentir‑se diferente do que alguma vez se sentira com alguma mulher. Só queria cuidar dela e protegê-la de todo o mal. Tinham-lhe sucedido muitas coisas terríveis. A última fora na semana anterior Mas ele queria alterar tudo isso. Grace sentia‑se assustada com as atenções persistentes dele, mas, estranhamente, por mais aterrorizada que se sentisse, gostava disso. Sentia uma estranha sensação nas entranhas que nunca sentira por nenhum homem até conhecer Charles Mackenzie.

 

            Charles foi vê‑la duas vezes, no dia seguinte, e duas ou três vezes nas três semanas seguintes, até ela poder finalmente sair de Bellevue. Grace já podia movimentar‑se com uma certa facilidade apoiada nas muletas, mas ainda não sentia a energia que gostaria de sentir. O médico disse‑lhe para esperar mais duas semanas antes de voltar ao trabalho.

            Charles passava agora muito menos tempo no escritório e Grace sentia‑se terrivelmente culpada disso, mas ele era o primeiro a não querer que ela fosse trabalhar, dizia‑lhe mesmo para não voltar a trabalhar. Grace sabia que ele tinha cancelado todos os seus planos para estar com ela, mas ele fingia nem sequer dar por isso. Charles fazia‑lhe companhia, jogavam às cartas, riam. Ele ajudava‑a em tudo e dizia‑lhe que não se via nem uma única cicatriz. Quando, no hospital, ela se queixara de serem horríveis as camisas de noite do hospital, ele levara‑lhe lindas camisas de noite do Pratesi. De certo modo, todas essas atenções eram embaraçosas para Grace e ela ainda se sentia assustada por não saber onde tudo isso a iria levar, mas era incapaz de o deter. Se ele não ia almoçar com ela, não comia, e se ele precisava de passar um serão fora, Grace sentia‑se tão só que mal o podia suportar. De cada vez que via a cara dele aparecer à porta, parecia uma criança que via aparecer o seu único amigo, ou até mesmo a mãe. Charles tratava de tudo o que era preciso: dos papéis, do seguro, falava com os médicos, tudo. No escritório ninguém sabia como Charles se encontrava tão profundamente envolvido com ela, e nem sequer Winnie fazia ideia do tempo que ele passava com Grace. Esta tinha prática de uma vida inteira para guardar segredos.

            Mas quando foi para casa, Grace teve medo que tudo mudasse. Durante cerca de duas horas, até ele aparecer no apartamento dela com champanhe, balões e um verdadeiro cesto de piquenique, ela sentiu‑se como uma criança abandonada. Foram só duas horas depois de ela ter saído do hospital e de ele a ter ido pôr em casa para fazer umas coisas que precisavam de ser terminadas.

‑           O que é que as pessoas vão pensar? ‑ disse Grace, quando ele a levou para casa numa limusina alugada. Imaginava que toda a gente sabia que o patrão passava os dias e as noites com ela, e que iriam proclamar isso por toda a parte

            ‑           Não creio que alguém esteja interessado no que nós fazemos ‑ disse Charles. ‑ Estão todos ocupados em dar cabo das suas próprias vidas. E eu acho que nós não estamos a estragar a nossa, Grace. Acho que a Grace foi a melhor coisa que já me sucedeu.

            Charles tirou do bolso uma pequena caixa azul que entregou a Grace, pedindo‑lhe para a abrir.

            ‑           O que é isto? ‑ perguntou Grace, assombrada com tanta generosidade. Era uma fina pulseira de ouro da Tiffany e servia‑lhe perfeitamente, mas Grace não sabia se a devia aceitar.

            Mas Charles ria.

            ‑           Sabe que dia é hoje? ‑ Ela abanou a cabeça. Perdera a noção do tempo no hospital. Passara lá o 4 de Julho e depois disso não prestara muita atenção às datas. ‑ É o seu aniversário, tolinha. Por isso é que eu fiz com que saísse hoje em vez de segunda‑feira. Não podia passar o dia dos seus anos no hospital! ‑ Os olhos de Grace encheram‑se de lágrimas ao perceber o que ele fizera. Charles comprara mesmo um pequeno bolo de aniversário da Greenberg. Era todo de chocolate, incrivelmente macio e delicioso.

            ‑           Como pode fazer isto tudo por mim? ‑ Grace sentiu‑se subitamente tímida, mas satisfeita. Desde que ela fora para o hospital, ele não fizera outra coisa senão estragá‑la com mimos, animá‑la e passar o seu tempo com ela. Nunca ninguém fora tão bom para ela.

            ‑           É fácil, parece‑me. Não tenho filhos, talvez a possa adoptar. Isso tornaria as coisas mais fáceis, não? ‑ Grace riu da sugestão. Certamente que seria mais fácil do que lidar com os seus próprios sentimentos e receios de se ver envolvida com ele.

            O relacionamento entre eles mudou subtilmente depois de ela ir para o apartamento. Tornou‑se imediatamente mais íntimo, mais difícil fingirem que eram apenas amigos. Ficaram de súbito sozinhos, sem enfermeiras, sem médicos para os interromper. Isso fez com que Grace se mostrasse tímida e ele fingiu não dar por isso. No dia em que ela voltara para casa, Charles levara com ele, além do bolo, da pulseira e das outras coisas, um engraçado chapéu de enfermeira. Colocou‑o depois na cabeça e disse‑lhe para ela ir para a cama descansar. Ficou a ver televisão junto dela e preparou o jantar na minúscula cozinha. Grace quis ajudá‑lo, apoiada nas muletas, mas ele obrigou‑a a sentar‑se e a ficar a olhá‑lo, enquanto ela protestava.

            ‑           Já posso mexer‑me ‑ objectou ela.

            ‑           Não, não pode. Não se esqueça de que o patrão sou eu ‑ disse ele, e Grace riu. Era fácil e tranquilizador estar com ele. Ficavam estendidos na cama dela, depois do jantar, a conversar. Charles deu‑lhe a mão, receando dar um passo em frente e do que poderia acontecer se isso sucedesse. Finalmente, incapaz de se conter por mais tempo, ele voltou‑se para ela e fez‑lhe a pergunta que há muito desejava fazer‑lhe.

            - Tem medo de mim, Grace? Isto é, fisicamente... não quero fazer coisa alguma que a assuste ou magoe. ‑ Grace sentiu‑se comovida por ele ter perguntado. Estava estendido na cama, de mão dada com ela, há duas horas. Eram como dois velhos amigos, mas havia também uma inegável electricidade entre eles. E agora era Charles quem se sentia assustado. Não queria fazer coisa alguma que pusesse em perigo o relacionamento deles, nem que fizesse com que ele a perdesse.

            ‑           às vezes tenho receio dos homens ‑ disse ela com sinceridade.

            ‑           Houve alguém que lhe fez mal, não foi? ‑ Grace disse que sim com a cabeça, em silêncio.

            ‑           Um estranho? ‑ Ela abanou a cabeça e daí a um bocado respondeu:

            ‑           O meu pai. ‑ Mas havia outras coisas e ela sabia que também precisava de as explicar. Suspirou, pegou na mão dele e beijou-lhe os dedos. ‑ Durante toda a minha vida as pessoas têm tentado magoar‑me, abusar de mim. Mais tarde... o meu patrão tentou seduzir‑me... era casado... creio que achava ter o direito de me usar. E outro homem com quem tratei fez a mesma coisa. ‑ Referia‑se a Louis Marquez, mas ainda não queria contar‑lhe tudo, embora soubesse que eventualmente viria a ter de lhe contar. ‑ Esse outro homem ameaçou‑me. Ameaçava‑me constantemente... costumava aparecer no meu apartamento... era repugnante... depois houve alguém com quem saí umas vezes e que fez o mesmo... enganou‑me, mentiu‑me... usou‑me... sem se importar comigo. Esse drogou‑me, deitou qualquer coisa na minha bebida e eu fiquei terrivelmente doente. Mas pelo menos não me violou. Ao princípio receei que ele o tivesse feito, mas não. Apenas me drogou e me fez fazer figura de parva. Era um verdadeiro patife.

            Charles mostrou‑se horrorizado. Não podia imaginar pessoas a fazerem coisas daquelas. Especialmente a uma pessoa que ele conhecia. Era espantoso.

            ‑           Como soube que ele não a violou? ‑ perguntou, horrorizado, pensando no que ela devia ter passado.

            ‑           Uma amiga minha levou‑me a uma médica conhecida dela. Nada sucedera. Mas ele fingiu que sim e disse a toda a gente. Disse‑o ao meu patrão e por isso é que ele esperava dormir comigo. Foi por essa razão que deixei o meu emprego e abandonei Chicago.

            ‑           Uma sorte para mim ‑ disse Charles, sorrindo e pondo-lhe um braço por cima dos ombros.

            ‑           Foram esses os únicos homens com os quais tive alguma coisa a ver. Só saí algumas vezes com esse homem em Chicago. Na escola nunca saí com ninguém, por causa do meu pai.

            ‑           Qual foi a universidade que frequentou?

            ‑           Foi em Dwight, Ilinóis ‑ respondeu Grace com sinceridade.

            ‑           E com quem saía, lá? ‑ Dessa vez Grace riu, lembrando‑se de qual poderia ter sido a sua companhia.

            ‑           Absolutamente ninguém. Só lá havia raparigas. Mas sabia que teria de lhe explicar também isso em breve. Apenas não lhe queria dizer tudo no dia do seu aniversário. Era um assunto difícil e tinham passado um dia tão bom. Era o melhor dia de anos que ela alguma vez tivera, apesar dos ossos partidos, das muletas e dos pontos. Charles compensara‑a de muita coisa, durante muitos anos, com a sua bondade, os seus presentes e a sua companhia.

Charles não queria forçá‑la a ir mais além, mas queria compreender mais claramente.

            ‑ Penso correctamente quando pressuponho que não é virgem?

            ‑           Pensa ‑ respondeu ela, olhando‑o com os seus olhos azuis, espantosamente bonita com o roupão de cetim azul que ele lhe comprara uns dias antes.

            ‑Pensei... mas não houve ninguém desde há muito tempo, pois não?

            Grace disse que sim com a cabeça.

            ‑           Prometo que falaremos disso em breve... mas não hoje... ‑ Ele também não queria falar mais disso nessa noite. Era difícil para ela e não queria estragar‑lhe o dia dos anos.

            ‑           Quando estiver preparada para isso... só queria saber... Não queria fazer nada que a assustasse. ‑ Mas, ao dizer a frase, ela tinha o rosto voltado para ele, ouvindo‑o. Charles não conseguiu conter‑se mais. Prendeu‑lhe meigamente a cara entre as mãos e beijou‑a cuidadosamente. Ela pareceu cautelosa ao princípio e depois correspondeu. Ele estendeu‑se ao lado dela, apertou‑a contra si e beijou‑a outra vez, desejando‑a desesperadamente, mas não deixou que as suas mãos se estendessem para o corpo dela.

            ‑           Obrigada ‑ murmurou ela, beijando‑o de novo. - Obrigada por ser tão bom para mim, tão paciente.

            ‑           Não force a sua sorte ‑ quase gemeu depois de voltar a beijá‑la. Não ia ser fácil. Mas estava decidido a fazê‑la ultrapassar os seus terrores. Sabia que faria o que fosse preciso, O tempo necessário para a salvar.

            Nessa noite Charles saiu tarde do apartamento dela, depois de a deixar já na cama, preparada para dormir. Charles beijou‑a e saiu. Pedira‑lhe uma chave, para que ela não precisasse de se levantar para ir fechar a porta. E na manhã seguinte, pouco depois de ela se ter levantado para ir à casa de banho, quando estava a escovar o cabelo, ouviu‑o meter a chave à porta e entrar no apartamento. Trouxera sumo de laranja e bageJs com creme, além do New York Times, e estava agora a preparar ovos mexidos com bacon.

            ‑           O colesterol faz‑lhe bem, acredite. ‑ E ela riu. - Coma.

Grace obedeceu e ele levou‑a depois a dar um passeio pela Primeira Avenida e voltaram para casa quando ela começou a ficar cansada. Nessa tarde, Charles viu o jogo de basebol enquanto Grace dormia pacificamente nos seus braços e ele pensava na sorte que tivera. E quando acordou, Grace olhou‑o e admirou‑se da sorte que tivera.

            ‑           Que está a fazer aqui, senhor Mackenzie? ‑ Sorriu sonolentamente e ele inclinou‑se para a beijar.

            ‑           Vim para a fazer praticar no ditado.

            ‑           Não brinque.

            Nessa noite encomendaram pizza. Charles levara algum trabalho para fazer, mas recusava‑se terminantemente a deixar que ela o ajudasse. E depois de ele ter terminado, olhou‑o, sentindo‑se culpada. Parecia‑lhe que era chegada a altura de deixar de ter segredos para ele, embora soubesse que Charles nunca a pressionaria.

            ‑           Creio que lhe devo dizer algumas coisas, Charles - disse calmamente alguns minutos depois. ‑ Tem o direito de as saber e pode ficar a sentir de modo diferente em relação a mim, depois de as saber. ‑ Chegara a altura, antes de o relacionamento deles se poder tornar mais profundo. Nem toda a gente queria uma mulher que tivesse cometido um crime. Com efeito, suspeitava de que a maioria não quereria. E talvez Charles fosse um deles...

            Ele prendeu as mãos dela nas suas e fitou‑a nos olhos antes de ela começar.

            ‑           Quero que saibas que seja o que for que tenha acontecido, que tenhas feito, ou que te tenham feito a ti, eu te amo. Quero que saibas isso agora. E mais tarde... ‑ Era a primeira vez que ele lhe falava assim e lhe dizia que a amava, e isso fê‑la chorar ainda antes de começar. Mas agora queria que ele a ouvisse e ver como ele se sentiria depois de lhe ter contado tudo. Talvez tudo mudasse.

            ‑           Eu também te amo, Charles ‑ murmurou, abraçando-o e fechando os olhos, de onde corriam lágrimas em fio. - Mas há muita coisa que não sabes a meu respeito. ‑ Respirou fundo, procurou o inalador no bolso e começou desde o início. ‑ Quando eu era criança o meu pai batia constantemente na minha mãe... digo constantemente... todas as noites... com toda a força... eu ouvia os gritos dela e as pancadas... e de manhã via as marcas... Ela mentia sempre e fingia que não era nada. Mas todas as noites se passava o mesmo. Ele chegava a casa, gritava, ela chorava e ele batia-lhe. Quando essas coisas sucedem, passado algum tempo as pessoas deixam de ter uma vida normal. Não se pode ter amigos, porque eles podem descobrir. Também não podia dizer a ninguém, porque podiam fazer alguma coisa ao meu pai ‑ acrescentou com tristeza: ‑ A minha mãe pedia‑me sempre que nada dissesse, para mentir, para fingir que nada se passava. É isso que eu recordo da minha infância. ‑ Grace suspirou de novo. Era custoso dizer‑lhe, mas era preciso. Charles apertou‑lhe as mãos com mais força.

‑           Depois a minha mãe adoeceu com um cancro ‑ continuou Grace. ‑ Eu tinha então treze anos. Ela tinha cancro no útero e teve de fazer radiações, e... ‑ Hesitou, procurando as palavras certas, mas continuando sem saber o que dizer. ‑ Calculo que isso a tenha mudado... ‑ Os olhos dela encheram‑se de lágrimas e sentiu a garganta apertada pela asma, mas não podia deixar que isso lhe sucedesse. Tinha de lhe dizer. A sobrevivência dela dependia tanto disso agora como de ter aberto os olhos em Bellevue. ‑ A minha mãe foi então ter comigo e disse‑me que eu devia "cuidar" do meu pai, ser "boa para ele", ser a sua "menina especial", para ele gostar mais de mim do que nunca. - Charles tinha um ar seriamente preocupado ao ouvir a história. ‑ Ao princípio, não percebi o que ela me queria dizer mas ela foi com o meu pai ao meu quarto, uma noite e segurou‑me para ele.

            Charles tinha os olhos cheios de lágrimas ao ouvi‑la, e murmurou:

‑           Oh, meu Deus!

‑           Ela segurava‑me todas as noites até eu compreender que não tinha outra alternativa. Era obrigada a fazê‑lo. Se não o fazia, por mais doente que ela estivesse, ele batia‑lhe. Eu não tinha amigas, não falava com ninguém, detestava o meu corpo, usava roupas velhas e largas, porque não queria que ninguém me visse. Sentia‑me suja e envergonhada, sabia que o que estava a fazer era errado, mas se o não fizesse ele batia‑lhe a ela e a mim. às vezes batia‑me do mesmo modo. E depois violava‑me. Violava‑me sempre. Gostava da violência. Gostava de fazer mal à minha mãe e a mim. Uma vez em que eu não o fiz porque... ‑ corou, sentindo‑se outra vez com catorze anos... ‑ o período... ele bateu‑lhe tanto que ela chorou durante uma semana. Nessa altura já o cancro se espalhara aos ossos e ela quase morreu com as dores. Depois disso eu fiz aquilo sempre que ele quis, por mais que ele me magoasse. ‑ Grace respirou fundo. Estava quase a acabar agora. O pior já ele ouvira, ou quase, e não conseguia parar de chorar. Grace limpou meigamente as lágrimas do rosto de Charles e beijou‑o.

            ‑           Oh, Grace, tenho tanta pena. ‑ Queria tirar‑lhe o desgosto, apagar o passado e mudar o futuro.

            ‑           Está tudo bem... agora está tudo bem... ‑ E continuou: ‑ a minha mãe morreu quatro anos depois. Fomos ao funeral, assim como uma imensidade de pessoas. Centenas delas. Toda a gente gostava do meu pai. Era advogado e amigo de toda a gente. Jogava golfe com eles, ia aos jantares do Rotary Club e do Kiwanis. Era a pessoa mais simpática da cidade, todos gostavam dele e confiavam nele. E ninguém sabia o que ele realmente era. Era um homem muito doente e um verdadeiro patife.

            "No dia do funeral toda a gente passou a tarde a comer e a beber, a conversar e a tentar que ele se sentisse melhor. Mas ele não se importava. Continuava a ter‑me a mim. Não sei porquê, mas tinha formado a ideia de que, depois de a minha mãe morrer, eu já não precisaria de o fazer. Eu fazia aquilo por ela, e depois dela morta o meu pai já não a podia magoar, não lhe podia bater. Pensei que arranjasse outra pessoa qualquer. Mas para que havia ele de querer isso? Pelo menos de imediato. Tinha‑me a mim. Para que precisaria de outra pessoa? Por isso, quando todos se foram embora, arrumei tudo, lavei a louça e fui fechar‑me no meu quarto. Ele foi atrás de mim, começou a bater na porta e a dizer‑me para eu sair. Como não o fiz, foi buscar uma faca e fez saltar a fechadura. Depois arrastou‑me para o quarto deles. Ele nunca tinha feito isso antes. Ia sempre ao meu quarto. Mas ir para o quarto dela era como transformar-me nela, como saber que aquilo seria para sempre, que nunca acabaria, nunca, até ele morrer, ou eu. E subitamente não pude mais. ‑ Grace estava sufocada outra vez e Charles deixara de chorar, horrorizado com tudo o que ela lhe contava. ‑ Depois disso não sei o que se passou. Ele magoou‑me muito nessa noite. Bateu‑me, violou‑me. Ele vencia e eu sabia que ficaria sempre ali para ele me espancar e torturar. Então lembrei‑me da arma que a minha mãe tinha na gaveta da mesa‑de‑cabeceira. Não sabia o que ia fazer com ela, se ia bater‑lhe, assustá-lo ou disparar sobre ele. Não sei realmente nada, a não ser que ele me magoava tanto e eu estava tão assustada que quase enlouquecia de medo e de dor. Ele viu a arma e tentou tirar‑ma, mas logo a seguir ela disparou‑se e ele começou a sangrar para cima de mim. O projéctil entrou‑lhe na garganta, atravessou a medula e perfurou‑lhe um pulmão. Ele ficou caído sobre mim a sangrar horrivelmente e depois disso não me recordo de mais nada até a polícia chegar. Não sei o que fiz, mas chamei a polícia, pois ela chegou e eu lembro‑me de estar embrulhada numa manta a falar com eles.

            ‑           Disseste‑lhe o que ele te fez? ‑ perguntou Charles ansiosamente, querendo mudar o curso da história, angus tiado por não o poder fazer.

            - Claro que não. Não podia fazer isso à minha mãe. Nem a ele. Achei que devia ficar calada. Creio que à minha maneira era tão louca como eles. É o que sucede às mulheres e às crianças nessas situações. Não contam nada. Preferem morrer do que fazê‑lo. Falaram a uma psiquiatra para me consultar, quando me prenderam nessa noite. Ela mandou‑me para o hospital e lá viram que eu tinha sido violada ou que "alguém tivera relações comigo", conforme disse o advogado de acusação no tribunal.

            ‑           Alguma vez lhes contaste a verdade?

            ‑           Durante um certo tempo, não. Molly, a psiquiatra, fez tudo o que lhe foi possível para me convencer a contar. Ela sabia. Mas eu menti‑lhe. Ele era meu pai. Mas finalmente o meu advogado convenceu-me e eu contei-lhes.

            ‑           E depois? Calculo que depois disso te tenham deixado em paz.

‑           Não. A acusação fantasiou a teoria de que eu queria era herdar o dinheiro do meu pai, que pensava que se o matasse ficaria com tudo. E esse tudo era uma pequena casa grandemente hipotecada, e metade da sua firma de advogados, muito mais pequena do que a tua. De qualquer modo, não podia herdar coisa alguma porque o matei. Não tinha amigos. Ninguém. Nunca contei a pessoa alguma. Os meus professores disseram que eu era distante e estranha, os colegas declararam que mal me conheciam. Era fácil acreditar que eu enlouquecera e matara o meu pai. O sócio do meu pai mentiu no tribunal e declarou que eu lhe fizera perguntas acerca do dinheiro do meu pai, mas que ele lhe devia uma grande quantia. Por fim, acabou por ficar ele com tudo e deu‑me cinquenta mil dólares para eu me manter afastada e o deixar receber tudo. Fiz isso mesmo e ainda tenho esse dinheiro. Não sei porquê, mas não sou capaz de o gastar.

            "No entanto, o tribunal achou que eu matara o meu pai por causa do dinheiro dele, e que provavelmente andara metida com alguém e, ao chegar a casa, o meu pai me ralhara e que por isso eu o matara. ‑ Grace sorriu amargamente, recordando cada pormenor. ‑ Chegaram a dizer que eu provavelmente tentara seduzir o meu pai. Encontraram a minha camisa de noite caída no chão, no sítio para onde ele a atirou depois de a ter rasgado, e acharam que talvez me tivesse posto nua à frente dele e que, quando vi que ele não me queria, lhe dera um tiro. Acusaram‑me de homicídio voluntário, o que me poderia ter levado à pena de morte. Eu tinha dezassete anos, mas fui julgada como adulta. E, além de Molly e de David, o meu advogado, nunca ninguém acreditou em mim. O meu pai era considerado demasiado perfeito, era querido de mais pela comunidade, e toda a gente ficou a odiar‑me por o ter morto. Mesmo depois de contar a verdade, ninguém me acreditou. Era demasiado tarde. Todos gostavam dele.

            "Fui condenada a dois anos de prisão e dois anos de liberdade condicional. Passei dois anos no Dwight Correctinal Center, onde ‑ sorriu tristemente para Charles ‑ tirei o curso por correspondência de uma universidade local. Foi a minha educação. E, se não fossem duas mulheres que lá se encontravam presas, Sally e Luana, que eram amantes, provavelmente teria morrido ali. Uma noite fui raptada por um bando e iam violar‑me e fazer‑me escrava delas quando Sally, a minha companheira de cela, e Luana, as impediram. Depois disso nunca mais ninguém me tocou, nem elas. Luana provavelmente ainda lá está, mas Sally já deve ter saído, a não ser que tenha feito algum disparate para ficar junto de Luana. Quando saí elas disseram‑me para as esquecer e para deixar tudo aquilo para trás.

"Nunca mais voltei à minha terra. Fui para Chicago, e o oficial encarregado de vigiar a minha liberdade condicional passou a vida a ameaçar‑me de me fazer voltar para a prisão se eu não dormisse com ele. Ali nunca ninguém soube quem eu era, nem de onde viera. Não souberam que tinha estado presa, ou que matara o meu pai. Não sabiam coisa alguma. És a primeira pessoa a quem conto tudo, desde que contei a David e a Molly. ‑ Grace sentia‑se esgotada mas muito mais leve. Fora um alívio contar‑lhe.

            ‑           E o padre Tim? Sabe?

            ‑           Ele talvez tenha adivinhado, mas eu nunca lhe disse nada. Não me pareceu que devesse fazê‑lo. Mas trabalhei em Saint Mary em Chicago, e aqui em Saint Andrew's, porque é a minha maneira de pagar por aquilo que fiz. E talvez possa impedir que alguma pobre criança passe pelo que eu passei.

            ‑           Meu Deus... meu Deus... Grace... como sobreviveste a tudo isso? ‑ Apertou‑a mais contra si, incapaz de imaginar sequer as dores e os tormentos que ela sofrera. Queria apenas apertá‑la nos seus braços para sempre.

            ‑           Sobrevivi... é tudo... Mas de certas maneiras não o fiz. Só uma vez saí com um homem. Nunca tive sexo com mais ninguém a não ser o meu pai. E não tinha a certeza de poder ter. O homem que me drogou disse que eu quase o matei quando tentou tocar‑me, e talvez o tivesse feito. Não creio que isso possa alguma vez fazer parte da minha vida. Contudo... - beijara Charles e ele não a assustara nada. Pensava se poderia vir a aprender a confiar nele. Procurou nos olhos de Charles algum sinal de condenação, mas viu apenas pena e compaixão.

‑           Gostava de o ter morto por ti. Como puderam mandar‑te para a prisão por causa disso? Como puderam ser tão cegos e tão maus?

            ‑           As coisas por vezes acontecem assim. ‑ Grace não mostrava amargura. Há muito que aceitara o que lhe sucedera. Mas sabia que se Charles a traisse, se fosse contar às pessoas o passado dela, a sua vida em Nova iorque estaria arruinada. Teria de sair dali e não queria fazê‑lo. Para lhe contar, ela precisara de muita confiança nele, mas merecera a pena.

            ‑           O que te faz pensar que nunca poderás voltar a ter uma vida íntima? Alguma vez tentaste?

            ‑           Não. Mas não me posso imaginar a fazê‑lo sem ressuscitar o pesadelo.

            ‑           Deixaste o resto para trás e avançaste. Porque não fazes o mesmo com isso? Deve‑lo a ti mesma, Grace, e à pessoa que te amar, no caso eu ‑ acrescentou com um sorriso. Depois fez‑lhe outra pergunta. ‑ Serias capaz de ir a um terapeuta, se precisasses?

            Grace não tinha a certeza, mas de um modo estranho sentia que isso seria uma traição a Molly.

            ‑Talvez... ‑ disse hesitantemente. Talvez que até a terapia fosse demasiado para ela.

            ‑           Tenho a impressão de que és mais saudável do que pareces. Não sei, mas tenho a impressão de que não serias capaz de aguentar tudo isso se o não fosses. Creio que estás apenas assustada, mas quem não estaria? E não tens exactamente cem anos.

            ‑           Tenho vinte e três ‑ disse Grace como se fosse uma grande coisa. Ele riu e beijou‑a.

            ‑           Não estou impressionado, garota. Sou quase vinte anos mais velho do que tu. ‑ Faria quarenta e três anos no Outono e ela sabia‑o.

            Mas Grace olhou‑o com um ar muito sério.

            ‑           Diz‑me sinceramente: esta história não é mais do que tu possas suportar?

            ‑           Não sei porquê. Não tiveste mais culpa de tudo o que te sucedeu do que de seres assaltada em Delancey Street. Foste uma vítima, Grace, uma vítima de duas pessoas muito doentes que se serviram de ti. Tu não podias fazer outra coisa, Grace. Mesmo quando tinhas sexo com o teu pai não tinhas alternativa. Qualquer outra criança julgaria estar a ajudar a mãe moribunda. Como poderias resistir‑lhes? Foste sempre uma vítima. Parece teres sido sempre uma vítima até vires para Nova iorque em Outubro passado. Não achas que é altura de mudar isso? Passaram‑se dez anos desde que começou o teu pesadelo. Quase metade da tua vida. Não achas que tens agora direito a uma vida melhor? Não achas que a mereces? ‑ Beijou‑a apaixonadamente, deixando transparecer todo o amor que sentia por ela. Não tinha dúvidas. Estava profundamente apaixonado por ela, disposto a aceitar o passado, em troca pelo futuro. ‑ Amo‑te. Estou apaixonado por ti. Não me importo com o que fizeste, nem com o que te aconteceu. Só sinto pena que tenhas sofrido tanto e sido tão infeliz. Gostava de poder apagar tudo isso, mudar as tuas recordações, mas não posso. Aceito‑te exactamente como és. Amo‑te tal qual és e tudo quanto desejo é aquilo que podemos dar um ao outro. Quero agradecer à minha boa estrela o dia em que entraste no meu escritório. Nem posso crer na sorte que tive em te encontrar.

            ‑           Eu é que tive sorte ‑ disse ela, admirada com a reacção de Charles. Mal podia acreditar no que ele dizia. ‑ Porque me dizes essas coisas? ‑ perguntou quase a chorar. Era impossível, não podia ser.

            ‑           Digo‑as porque as penso e sinto. Porque não te descontrais e deixas de te preocupar durante uns tempos? Agora é a minha vez. Permite que eu me preocupe pelos dois. Está bem? ‑ Aproximou‑se dela, sorrindo, e limpou‑lhe as lágrimas com os dedos. ‑ Está bem?

            ‑           Está bem, Charles... amo‑te.

            ‑           Não tanto como eu te amo a ti ‑ disse ele, tomando‑a nos seus braços e beijando‑a. Depois soltou uma pequena gargalhada.

            ‑           O que é que tem graça? ‑ perguntou Grace,

tocando-lhe nos lábios com as pontas dos dedos, o que o excitou ainda mais. Morria de desejos por ela, mas sabia que durante algum tempo ainda nada se passaria entre eles.

            ‑           Estava a pensar que, apesar da tua delicada psicologia, a única coisa que te tem salvo de seres violada por mim é o gancho que te puseram na pelve. Francamente, acho que é a única coisa que me detém.

            ‑           Que vergonha ‑ disse Grace, pensando de súbito se queria ser salva dele. Era uma questão interessante.

            Charles tratou dela durante as duas semanas seguintes, indo constantemente ao apartamento, dormindo ao lado dela na cama, aos fins‑de‑semana. Grace tinha uma sensação de conforto junto dele e gostava de acordar de manhã nos seus braços. Charles contou‑lhe histórias da sua infância, falou‑lhe dos pais, que já não eram vivos, mas que tinham sido muito bons para ele e aos quais amara muito.

            Charles era filho único, tivera uma boa vida e sabia isso. E Grace contou‑lhe histórias a respeito de Luana e de Sally. Foi uma estranha troca de recordações das mais variadas. Passada a primeira semana, Charles alugou uma limusina e levou‑a a dar um passeio por Connecticut. Pararam para almoçar em Weston, na Cobb's Mill Inn, o que foi maravilhoso, e regressaram a Nova iorque exaustos e relaxados.

            Os médicos disseram então a Grace que ela tinha recuperado muito bem e que dentro de uma semana poderia voltar a trabalhar, mas Charles convenceu‑a a esperar outra semana mais. Grace fez uma pergunta muito importante e ficou satisfeita com a resposta. Foi visitar os seus amigos de St. Andrew's durante o dia, de táxi, e ficaram todos encantados quando a viram. Grace prometeu-lhes que em breve voltaria a trabalhar ali, mas provavelmente só em Setembro, quando deixasse as muletas.

            E no fim‑de‑semana seguinte, Charles levou‑a aos Hamptons para passar o fim‑de‑semana. Ficaram numa pequena estalagem muito confortável e o cheiro do mar que chegava até eles era delicioso. Chegaram ao fim da tarde de sexta‑feira e ele fê‑la ir dar um passeio pela praia, mesmo com as muletas. Depois Grace estendeu‑se na areia, ouvindo o ruído do oceano, e Charles sentou‑se ao lado dela.

            ‑           Isto é maravilhoso ‑ disse Grace. ‑ Antes de vir para Nova iorque nunca tinha visto o mar.

            ‑           Espera até conheceres Martha's Vineyard. ‑ Charles prometeu levá‑la lá no Dia do Trabalho, mas Grace continuava preocupada com o futuro deles. Que iriam fazer dentro de uma semana, quando ela voltasse para o escritório? Teriam de manter a sua relação em segredo. Era estranho pensar nisso. Não se tratava ainda de uma ligação amorosa, mas era mais, muito mais que amizade.

            ‑           Em que é que estavas a pensar? ‑ perguntou ele. Escurecera e eles continuavam sentados na areia.

            ‑           Em ti... ‑ murmurou ela em voz baixa, o que o encantou.

            ‑           E o que é que pensavas de mim?

            ‑           Estava a pensar quando iríamos dormir juntos ‑ respondeu ela com ar casual, o que fez com que Charles a olhasse, confuso.

            ‑           Que quer isso dizer? ‑ perguntou ele. ‑ De resto já temos dormido. Tu até ressonas, às vezes.

            ‑           Sabes o que quero dizer ‑ empurrou‑o meigamente e ele riu. Grace era encantadora...

            ‑           Queres dizer?... ‑ Charles ergueu uma sobrancelha, fingindo‑se surpreendido. ‑ Estás a sugerir que...

            ‑           Acho que sim. ‑ Corou. ‑ Falei com o cirurgião ortopédico ontem e ele diz que estou bem. Agora só preciso de me preocupar com a cabeça e não com a pelve. ‑ Charles riu ao ouvi‑la dizer essas palavras. Sentia‑se satisfeito por terem tido aquelas semanas para se conhecerem antes de ela lhe contar a história dela e pensarem em sexo. Decorrera mais de um mês desde então e eles sentiam‑se completamente à vontade um com o outro.

            ‑           É um convite? ‑ perguntou ele com um sorriso que teria derretido o coração de qualquer mulher, mas o dela já se derretera há muito, embora isso sucedesse cada vez que o olhava. ‑ Ou estás a brincar comigo?

            ‑           Possivelmente as duas coisas. ‑ Grace andava a pensar nisso há dias e agora queria experimentar. Queria saber o que sucederia e se havia alguma possibilidade de terem um futuro.

            ‑           É a minha deixa para me levantar da areia morna e te arrastar pelos cabelos até ao quarto, deixando as muletas para trás?

            ‑           Isso parece‑me bastante bom. ‑ Ela fazia‑o sentir‑se mais novo e, apesar da sua triste história, os dois riam bastante. Era tudo tão diferente do que vivera com a sua primeira mulher. Michelle era demasiado intensa, egocêntrica e nervosa. Grace era inteligente, bem‑disposta, preocupada com os outros. Apesar de ter sofrido muito, mostrava‑se bondosa e meiga. E, além disso, tinha um forte sentido de humor.

            ‑           Vá, vamos regressar ao hotel. ‑ Ajudou‑a a levantar‑se da areia e caminharam lentamente em direcção ao hotel, não sem fazerem uma paragem para comer um gelado.

            ‑           Gostas de banana split? ‑ perguntou Grace, enquanto lambia o cone com o gelado. Charles sorriu. às vezes ela parecia uma criança, embora tivesse vivido e sofrido muito na sua curta vida. Charles gostava desse misto de mulher e de criança. Era a vantagem de ser tão nova. Isso dava-lhe possibilidades infindáveis e a perspectiva de um futuro risonho.

            ‑           Sim, gosto. Porquê?

            ‑           Eu também. Amanhã podemos comer um.

            ‑           Está bem. Podemos ir para o hotel, agora? ‑ Tinham levado quatro horas de Nova iorque até ali, por causa do tráfego, e era quase meia‑noite.

            ‑           Sim, agora podemos voltar para o hotel. ‑ Grace sorriu misteriosa e adulta de novo. Era como estar a ver duas criaturas diferentes aparecerem por detrás das nuvens. Charles amava o seu ar brincalhão e o facto de ainda se mostrar infantil.

            O quarto deles, na estalagem, estava decorado com chintz estampado com rosas a completar uma mobilia vitoriana. Havia um lavatório de mármore rosado e a cama tinha dossel e era muito bonita. Charles mandara colocar no quarto um balde com gelo e champanhe e sobre a cómoda via‑se um grande ramo de lilases e rosas, as suas flores preferidas.

            ‑           Pensas em tudo ‑ disse Grace, beijando‑o, enquanto fechavam a porta do quarto.

            ‑           Sim ‑ respondeu Charles, orgulhoso. ‑ E nem sequer posso pedir à minha secretária que me ajude.

            ‑           É bom que não o faças ‑ declarou Grace com ar feliz, enquanto ele enchia as taças. Grace bebeu apenas um golinho e pousou a taça. Sentia‑se demasiado excitada para beber Aquilo era como uma lua‑de‑mel e as expectativas eram terríveis para os dois, visto não saberem que fantasmas se juntariam a eles.

            ‑           Assustada? ‑ perguntou Charles quando se deitaram ele com as cuecas e ela com a camisa de noite. Ela disse que sim com a cabeça. ‑ Eu também - confessou Charles, enquanto ela escondia o rosto no pescoço dele e o abraçava. Ele tinha apagado as luzes. Havia apenas uma vela acesa na extremidade do quarto. O ambiente era inesquecivelmente romântico.

            ‑           Que fazemos agora? ‑ sussurrou ela ao ouvido dele.

            ‑           Vamos dormir ‑ disse Charles num murmúrio.

            ‑           A sério? ‑ exclamou ela, surpreendida, e ele riu.

            ‑           Não... acho que não... ‑ Beijou‑a então, desejando quase que já tivesse acabado, mas não ousando ainda, sem saber bem como proceder, não querendo magoá‑la de maneira nenhuma. Era tudo muito mais difícil do que ele esperara. Mas quando a beijou, Charles esqueceu‑se dos ossos partidos e da fealdade do passado dela. Não havia recordações, nem tempo, nem outra pessoa, mas apenas Charles e a sua incrível meiguice, a sua infindável paixão e amor por ela, enquanto ele avançava pouco a pouco para mais perto dela e ela fazia o mesmo. E subitamente eles tornaram‑se apenas um e ela pôde sentir a fundir‑se nele até não poder aguentar mais. Era maravilhoso e subitamente ambos explodiram em uníssono. Grace ficou presa nos braços dele com uma sensação de assombro total. Nunca conhecera nada que se parecesse com aquilo, mesmo remotamente. Não havia qualquer semelhança com o que lhe sucedera anteriormente, nem recordações, nem dor, nada, a não ser Charles e o amor que eles partilhavam. Pouco depois foi Grace quem o quis de novo, que o arreliou e que brincou com ele, até Charles não poder aguentar mais.

            ‑           Oh, Deus... ‑ murmurou ele mais tarde ‑ és demasiado nova para mim, vais‑me matar... mas que maneira de morrer. ‑ E então, de repente, pensou se não se teria precipitado e olhou‑a, receoso. Mas Grace riu. Estava tudo bem agora, para grande assombro e alegria de ambos.

No dia seguinte, Grace não se esqueceu do gelado prometido. Comeram banana split e passaram um fim‑de‑semana delicioso. Passaram muito tempo no quarto, descobrindo‑se um ao outro, e o resto na praia, ao sol. Quando voltaram para Nova iorque, domingo à noite, fizeram amor outra vez, na cama dela, só para terem a certeza de que tinha a mesma magia, ali no apartamento. E Charles achou que era ainda melhor.

            ‑           A propósito ‑ disse Charles depois, com ar sonolento, voltando‑se para ela ‑ estás despedida, Grace. ‑ Ele estava meio a dormir, mas Grace sentou‑se na cama, muito direita. Que lhe estava ele a dizer? O que era aquilo? Parecia assustada.

            ‑           O quê? ‑ quase gritou no escuro e ele abriu os olhos, surpreendido. ‑ Que queres dizer? ‑ repetiu.

            ‑           Ouviste o que eu disse. Estás despedida ‑ repetiu, sorrindo com ar satisfeito.

            ‑           Porquê? ‑ Ela estava agora quase a chorar. Gostava de trabalhar com ele, sobretudo agora, e devia voltar ao trabalho nessa semana. Não era justo. Que estava ele a fazer?

            ‑           Não durmo com as minhas secretárias ‑ explicou ele, sempre com um sorriso. ‑ Não fiques tão preocupada. Estou a pensar noutro trabalho para ti. É um aumento, ou poderá ser, conforme o teu ponto de vista. Gostarias de ser minha mulher? ‑ Ele estava agora bem acordado e Grace parecia atordoada. Tremia ao perguntar:

            ‑           Falas a sério?

            ‑           Não. Estou só a brincar. O que é que pensas? Claro que falo a sério.

            ‑           De verdade? ‑ Ela ainda não podia acreditar no que ouvia e continuava sentada a olhá‑lo com incredulidade, o que o fez rir. ‑ Claro que é verdade!

            ‑           Oh!

            ‑           Então?

            ‑           Gostava muito. ‑ Grace inclinou‑se para o beijar e ele prendeu‑a nos braços.

 

            Grace não voltou ao escritório e seis semanas depois casaram pelo registo, em Setembro. Foram a Saint Bart's passar quinze dias de lua‑de‑mel e ela mudou as suas poucas coisas para o pequeno, mas elegante, apartamento de Charles, situado na Rua Sessenta e Nove Este. Tinham regressado exactamente há uma semana quando tiveram a sua primeira zanga. Grace queria voltar a trabalhar em St. Andrew's e ficou horrorizada quando verificou que ele a queria impedir.

            ‑           És doida? Lembras‑te do que te aconteceu a última vez que lá foste? Não concordo de maneira nenhuma! - arles era peremptório. Grace podia fazer tudo o que quisesse, mas isso não. E não ia ceder.

            ‑           Aquilo foi um mero acidente ‑ insistia ela, mas Charles era ainda mais obstinado.

            ‑           Não foi nada disso. Todas essas mulheres têm maridos violentos. E tu vais lá dizer‑lhes que os deixem. Pode haver outro, ou outros homens que se queiram vingar em ti, por causa desses conselhos, tal como fez Sam Jones. ‑ Este conseguira não ser condenado à morte pelo assassínio da mulher e dos filhos, e pelo ataque a Grace e sabiam que já se encontrava em Sing‑Sing a cumprir pena. ‑ Não vais! Nem que eu tenha de falar com o padre Tim. Proibo‑te terminantemente.

            ‑           Então que devo fazer? ‑ disse Grace, quase a chorar. Tinha vinte e três anos e absolutamente nada para fazer até ele chegar a casa, às seis. Também não queria que ela fosse trabalhar para a firma. Podia ir almoçar com Winnie, de tempos a tempos, mas isso era muito pouco para a manter ocupada... E Winnie falava em mudar‑se para Filadélfia para estar mais perto da mãe.

            ‑           Vai às compras. Estuda. Vai ao cinema. Faz parte de

uma comissão para obras de caridade. Come bananas split - disse firmemente Charles. Tentava ir almoçar a casa todos os

dias, mas por vezes não conseguia. Grace voltou‑se para o padre Tim para ele a apoiar, mas ele também não o fez. Apesar de Grace ser uma pessoa extraordinária no trabalho que faziam e dele gostar de a ter ali, o padre Tim concordava com Charles. Grace já pagara um preço demasiado alto por trabalhar ali e era altura de deixar de pagar pelos pecados dos outros. Agora tinha a sua própria vida para viver.

            - Viva bem com o seu marido, viva a sua vida, Grace. Merece bem ser feliz ‑ disse‑lhe com toda a sensatez o padre, mas Grace continuava irritada e à procura de um projecto. Estava a pensar em inscrever‑se numa universidade, mas em Novembro, seis semanas depois de terem casado, alterou a sua decisão.

            ‑           Que ar é esse? ‑ perguntou Charles, ao chegar a casa para almoçar. ‑ Pareces o gato que engoliu o canário.

            Charles estava a ficar famoso no escritório devido aos seus demorados almoços e os seus sócios gracejavam com ele a respeito do trabalho que dava ter uma esposa jovem. Mas ele sabia que todos o invejavam e que gostariam de estar no seu lugar.

            ‑           Que andaste a fazer? ‑ quis saber, pensando que ela teria descoberto algo em que se ocupar. Sentia‑se infeliz por não ir a St. Andrew's. ‑ Onde foste hoje?

            ‑           Ao médico.

            ‑           Como está a pelve?

            ‑           óptima. Cicatrizou lindamente. ‑ Nessa altura ela sorria de orelha a orelha e Charles riu. Grace ficava tão engraçada quando tinha um segredo. ‑ Mas há outra coisa. Charles ficou imediatamente sério.

            ‑           Está alguma coisa mal?

            ‑           Não. ‑ Grace sorriu outra vez e beijou‑o nos lábios, ao mesmo tempo que lhe abria o fecho das calças. Tendo em conta os cuidados com que tinham começado, tinham verdadeiramente recuperado o tempo perdido desde que ele a pedira em casamento. ‑ Vamos ter um bebé ‑ murmurou ela, quando Charles se preparava para a levar para a cama e a beijava apaixonadamente.

            ‑           Vamos? ‑ olhou‑a com um assombro total. ‑ Agora?

            ‑ Não, tolinho. Em Junho. Julgo que engravidei em Saint Bart's.

‑           Oh! ‑ Charles ficou sem fala. Ia ser pai pela primeira vez aos quarenta e três anos e sentiu‑se completamente entontecido. Nunca se sentira tão feliz na sua vida e mal podia esperar para dizê‑lo a toda a gente. ‑ Não faz mal fazermos amor?

            ‑           Estás a brincar? ‑ Grace riu da expressão dele. ‑ Podemos fazer amor até Junho.

            ‑           Tens a certeza de que não faz mal a coisa alguma?

            ‑ Tenho. ‑ Fizeram amor, como sempre faziam, em vez de almoçarem, e ele comia depois um cachorro‑quente na rua, enquanto corria a caminho do escritório. Nunca tivera uma vida tão boa. Era muito melhor do que fora com a sua ex‑mulher, actriz, ou com qualquer outra pessoa com quem tivesse vivido na sua juventude. Grace era perfeita e ele adorava‑a.

            Passaram o Natal em St. Moritz e na Páscoa quis levá‑la ao Havai, mas, em vez disso, foram a Paím Beach, porque ela estava grávida de sete meses.

            Grace tivera uma gravidez sem problemas e tudo correra bem. O médico estava um pouco preocupado apenas com o que iria suceder à sua pelve na altura do nascimento. Se houvesse algum problema, faria uma cesariana. Se não fosse assim, Charles prometera estar junto dela e em Maio começaram a ir às aulas Lamaze em Lenox Hill. Nessa altura já Grace decorara o quarto do bebé e à noite davam longos passeios subindo a Madison Avenue ou descendo a Park Avenue. Falavam da vida deles, da sorte que tinham tido e do seu bebé. Ainda se sentiam surpreendidos e maravilhados por o passado nunca se ter interposto entre eles.

            Certa vez, Charles perguntara‑lhe como se sentiria ela se a história de ter morto o pai e ter estado na prisão fosse conhecida, e ela respondera‑lhe que detestaria.

            ‑ Porquê? ‑ Grace admirava‑se de ele lhe ter feito a pergunta.

            ‑ Porque por vezes essas coisas podem vir à superfície - respondeu Charles filosoficamente. Aprendera isso com a sua última mulher e com o divórcio. A vida deles aparecia constantemente exposta nos jornais. A história de Grace provocaria sem dúvida um grande escândalo, mas graças a Deus não eram personalidades públicas e não havia motivo para se preocuparem. Ele agora era um vulgar cidadão, desde que deixara de ser casado com uma estrela. E Grace era apenas sua mulher. Era perfeito.

            Uma noite, quando se dirigiam para casa, Grace entrou em trabalho de parto. Tinham andado a ver montras em Madison Avenue e ela mal deu pelas primeiras dores. Só passado um bocado é que percebeu o que se estava a passar. Telefonaram ao médico e ele disse‑lhes para terem calma, pois os primeiros filhos não eram geralmente apressados.

            ‑           Sentes‑te bem? ‑ perguntou Charles um milhar de vezes, enquanto ela continuava estendida na cama a ver televisão e a comer gelado. ‑ Tens a certeza de que é isto que devemos fazer? ‑ perguntou nervosamente. Sentia‑se como se tivesse mil anos, ao vê‑la, receoso de que ela tivesse de passar um mau bocado, ou que o bebé nascesse ali em casa. Ultimamente ela tinha uma barriga enorme. Mas Grace parecia despreocupada, vendo o seu programa favorito, ao mesmo tempo que bebia ginger ale e comia gelado. Era quase meia‑noite quando ela deu sinais de se sentir verdadeiramente incomodada e deixou de poder falar enquanto sentia as dores. Charles sabia que era altura de a levar para o hospital e chamar o médico.

            Telefonou‑lhe outra vez e o médico disse‑lhes para irem. Enquanto a ajudava a descer as escadas, Grace refilou várias vezes com Charles, mas ele sorriu. Agora era mesmo a sério. Em breve teriam um filho e era a coisa mais excitante que já lhes sucedera. Depois de a instalarem na sala de partos, ela acalmou, mas sentia‑se surpreendida pelas fortes dores que as contracções provocavam. Finalmente, por volta das duas da manhã, Grace estava ofegante e dizia que não podia aguentar mais.

            Charles fazia tudo o que lhe fora ensinado, mas não servia de nada, e ele começava a recear que tivessem de lhe fazer uma cesariana. Mas quando as dores se tornaram mais fortes, Grace começou a gritar e a agarrar‑se a ele e Charles seria capaz de tudo para ela não sofrer mais. Pedia às enfermeiras que lhe dessem qualquer coisa para as dores.

            ‑           Está tudo bem, senhor Mackenzie. A sua mulher está óptima! ‑ Mas Grace parecia prestes a morrer e começara a gritar. Levaram‑na então para outra sala, onde o bebé iria nascer, e ela começou a fazer força. Charles achou que nunca vira nada tão doloroso, e lamentava terem feito aquilo. Só queria tomá‑la nos braços e fazer a dor desaparecer. Mas nada a podia ajudar agora. O médico não lhe queria dar medicação para a dor. Dizia que o parto natural era melhor para a mãe e para a criança. Charles, ao presenciar o sofrimento da mulher, tinha vontade de o matar.

            Grace fez força durante uma hora e às cinco da manhã estava louca com dores e incoerente com a agonia de cada contracção. E ao vê‑la, Charles jurava a si próprio que não voltaria a fazer tal coisa, que nunca mais tal se passaria. E quando ia prometer que nunca mais lhe tocava, Grace soltou um grito terrível e uma espécie de uivo prolongado e, subitamente, ele viu‑se a olhar para o rosto do filho, ao qual tinham decidido dar o nome de Andrew Charles Mackenzie. Tinha grandes olhos azuis como Grace, cabelo de um ruivoescuro, mas em tudo o resto era parecido com Charles, até à ponta dos dedinhos minúsculos. Era como se se estivesse a ver ao espelho. Charles ria e chorava ao mesmo tempo ao olhá‑lo.

            ‑           Oh, meu Deus... é tão bonito! ‑ murmurou Charles, maravilhado perante o bebé, inclinando‑se para beijar a mulher. Ela estava deitada, exausta de tão prolongado esforço, mas, extasiada, olhava para o marido.

            ‑           O bebé está bem? ‑ perguntou várias vezes, enquanto o limpavam e examinavam os pulmões. Depois puseram‑no sobre os seios da mãe e ele ficou aconchegado entre eles, enquanto Charles os olhava.

            ‑           Grace... como poderei alguma vez agradecer‑te? - murmurou Charles, pensando como pudera viver tanto tempo sem aquele bebé. E como ela fora corajosa ao passar por tudo aquilo por causa dele. Nunca se sentira tão comovido, e nunca amara tanto ninguém como amava Grace nesse momento.

Depois foram para o quarto dela e o bebé ficou deitado junto de Grace. Com grande assombro de Charles, foram todos para casa na manhã seguinte. A mãe era nova e saudável e o bebé estava óptimo. Pesava perto de três quilos e meio. O parto fora natural e não havia razão para não irem para casa, segundo explicou o obstetra. Charles compreendeu então que tinha todo um novo mundo a descobrir. Sentia‑se aterrorizado por levar o bebé para casa tão cedo, mas Grace agia como se aquilo fosse completamente natural e mostrava‑se muito à vontade com o filho desde o momento em que ele nascera. Charles teve mais dificuldades, mas daí a uma semana era um auxiliar competente e falava constantemente do bebé. A única coisa que os amigos não lhe invejavam era as noites sem dormir. Charles ia todos os dias para o trabalho a sentir‑se como se tivesse passado a noite ao volante de uma gaiola de hamster. Andrew acordava de duas em duas horas para mamar e em seguida levava mais ou menos uma hora para voltar a adormecer. Charles gastava apenas um pouco mais. Parecia‑lhe que dormia uns quinze minutos de cada vez e ao todo devia ter umas duas horas e meia de sono, o que era menos umas cinco horas e meia do que precisava. Mas de qualquer modo era divertido e adorava a mulher e o filho.

            Alugaram uma casa em East Hampton no mês de Julho e passaram aí o aniversário de Grace. Charles ia lá duas ou três vezes por semana e Grace andava para trás e para diante com o bebé para estar com ele. Em Agosto, ele tirou duas semanas de férias e foram para Martha's Vineyard, para a antiga casa dos pais dele. Grace nunca se sentira tão feliz na sua vida. Em Outubro descobriu que estava outra vez grávida e ficou tão encantada como ele.

            ‑           Porque não havemos de ter gémeos desta vez para ficarmos despachados? ‑ dissera Charles, bem‑humorado. Estava realmente encantado com o filho e dormia agora quatro ou cinco horas por noite, o que lhe parecia muito. Achava graça à maneira como a sua vida se alterara tão radicalmente.

            O segundo bebé foi mais lento e mais uma vez Charles se viu pronto a jurar que nunca mais voltaria a tocar na mulher, mas dessa vez o médico acabou por ceder e deu‑lhe qualquer coisa para as dores. Não ajudou muito, mas sempre foi melhor. Dezanove horas depois de ter iniciado o trabalho de parto, Abigail Mackenzie fez a sua entrada no mundo e olhou para o pai com uma expressão de espanto. Charles ficou derretido ao vê‑la. A filha era uma versão miniatural da mãe, apenas com o cabelo escuro do pai. Era uma verdadeira beldade. E conseguiu tornar‑se bem notada por aparecer no dia do vigésimo quinto aniversário da mãe. Charles tinha quase quarenta e cinco. Foram anos de grande felicidade.

            Grace estava constantemente ocupada com os filhos. Passeava com eles, levava‑os ao jardim‑de‑infância, mais tarde às aulas de ginástica, às aulas de música. A sua vida era totalmente ocupada por eles. Preocupava‑se muito por isso ser aborrecido para Charles, mas ele parecia gostar da vida que tinham. Era tudo muito novo para ele, e fazia inveja a todos quantos o conheciam, com a sua jovem mulher e os filhos pequenos.

            Grace nunca mais voltara ao seu trabalho de caridade, embora ainda falasse nele. Mas depois do nascimento de Andrew, ela ofereceu um presente, em nome dele, ao St. Andrew's Shelter. Deu‑lhe todo o dinheiro que lhe fora entregue por Frank Wills. Parecia‑lhe a melhor maneira de o empregar. De certo modo, aquele dinheiro queimar‑lhe‑ia as mãos, era uma recordação de outros tempos que ela não queria recordar, e o padre Tim havia de arranjar maneira de o gastar para fazer bem aos outros. Quando Abigail nasceu, ofereceram outro donativo, embora mais pequeno. Mas há muito tempo que não os visitava. Estava demasiado ocupada com o marido e os filhos.

            Durante três anos, depois de Abigail nascer, Grace passou todos os momentos dos seus dias com eles, e todas as noites com Charles, acompanhando‑o a jantares, a festas. Iam ao teatro e ele levou‑a pela primeira vez à ópera. Grace descobriu que gostava. Toda a sua vida desabrochava e às vezes sentia‑se culpada, por saber que noutros sítios outras pessoas eram menos afortunadas, e sofriam como ela em tempos sofrera. Ela, que agora era tão livre e tinha tanta sorte.

            Pensava no que teria sucedido a Luana e a Sally e às mulheres que ela tentara ajudar em St. Andrew's. Mas agora parecia já não ser altura para essas coisas. Por vezes também pensava em como seria a vida de David na Califórnia e onde estaria ele agora. Mas a sua vida actual parecia tão distante desses tempos conturbados que ela até tinha dificuldade em recordar como vivera antes de casar com Charles. Era como se tivesse nascido outra vez no dia em que o conhecera.

            Quando Abigail entrou para o jardim‑escola, Grace quis ter outro bebé, mas dessa vez não conseguiu engravidar. Ela tinha então vinte e oito anos e o médico apenas lhe disse que umas vezes era mais fácil engravidar do que outras. Mas ela também sabia que com tudo o que lhe sucedera antes, tivera muita sorte em engravidar aquelas duas vezes e sentia‑se grata pelos dois filhos que tinha. às vezes ficava parada a olhá‑los e a sorrir. Depois ela e Andrew iam para a cozinha e faziam doces de que ele gostava, ou sentava‑se junto de Abigail e recortava bonecos de papel com ela, ou fazia pulseiras com contas ou retratos com espaguete. Gostava de estar com eles e nunca se aborrecia nem se cansava de estar na sua presença.

            Então, uma manhã em que esperava que fossem horas de os ir buscar à escola, para almoçarem, sentou‑se na cozinha a beber uma chávena de café e a ler o jornal. E, ao ler o título do New York Times, sentiu o estômago revoltado. Um psiquiatra de Nova iorque matara a sua filha adoptiva, uma criança de seis anos, e a mulher, espancada também por ele, assistira a tudo, impotente para o fazer parar. Grace leu a notícia com lágrimas nos olhos. Era inconcebível. Era um homem educado, com um consultório e um lugar de docente numa universidade. A criança estava com eles desde o seu nascimento e o casal tivera depois uma filha que morrera dois anos antes, num acidente, que agora se tornava suspeito. Grace começou a chorar ao ler o artigo, desejando poder consolar a criança, imaginando os seus gritos enquanto o pai lhe batia. O choque que aquilo lhe causou foi tão forte que quando saiu para ir buscar os filhos ainda chorava. E ia muito calada enquanto caminhava com os filhos em direcção a casa. Andrew perguntou-lhe o que tinha.

            "Nada", pensou dizer, mas não lhes quis mentir e explicou:

‑           Estou triste.

            ‑           Porquê, mamã? ‑ Ele tinha quatro anos e era o rapazinho mais esperto que alguma vez vira. Parecia‑se extremamente com Charles, com excepção dos olhos azuis e do cabelo de um ruivo‑escuro, mas as feições e expressões eram do pai. Grace sorria sempre, só de olhar para ele, mas nesse dia, ao ver os seus filhos, sentia‑se triste pela pequenita que morrera. ‑ Porque está triste? ‑ insistia Andrew, e os olhos dela encheram‑se de lágrimas ao tent