Translate to English Translate to Spanish Translate to French Translate to German Translate to Italian Translate to Russian Translate to Chinese Translate to Japanese

  

 

Planeta Criança



Poesia & Contos Infantis

 

 

 


MENFREYA / Victoria Holt
MENFREYA / Victoria Holt

 

 

Biblioteca Virtual do Poeta Sem Limites

 

 

MENFREYA

 

A melhor forma de contemplar Menfreya era olhá-la pela manhã. Descobri isto pela primeira vez, ao amanhecer, na casa situada em No Man's Island', quando, lá ao longe, a oriente, as nuvens carregadas de vermelho reflectiam um esplendor rosado sobre o mar, e a água, que tocava ao de leve a ilha, se assemelhava a seda ondulada cinzento- pérola.

A manhã apresentava-se mais tranquila, devido à noite de medo por que eu passara, e a cena parecia mais encantadora por causa dos meus pesadelos. Enquanto permanecia de pé junto da janela aberta, com o mar e a terra firme à minha frente e Menfreya situada no cimo do penhasco, sentia-me tão radiante por toda esta beleza como pelo facto de ter passado pela noite e me encontrar sã e salva.

A casa assemelhava-se a um castelo, com os seus torreões, contrafortes e torres providas de balestreiros, um ponto de referência para os marinheiros, que poderiam saber onde estavam quando se lhes deparava esse grande edifício de pedras antigas. Estas podiam ser cinzento- prateadas ao meio-dia, quando o sol realçava as pederneiras afiadas das paredes, fazendo-as brilhar como diamantes, mas nunca Menfreya dava a ideia de tanta grandiosidade como quando tocada pelos raios rosados do nascer do Sol.

Menfreya havia sido a residência da família Menfrey durante séculos. Baptizei-os secretamente de "Menfreys Mágicos, por ser este o conceito que eu tinha deles: diferentes das pessoas vulgares, de aspecto admirável, fortes, uma gente

' Ilha de Ninguém. (N. do T)

 

cheia de vigor. Soube que lhes chamavam os "Menfreys Fantásticos", e, segundo A'Lee, o mordomo de Chough Towersz, não eram apenas fantásticos, mas terríveis. Ele tinha muitas histórias para contar sobre o actual Sir Endelion. Os Menfreys tinham nomes que causavam impressão de serem estranhos, mas que o não eram, obviamente, para os habitantes da Cornualha, porque tais nomes faziam parte da velha história do ducado. Sir Endelion raptara Lady Menfrey quando esta era uma rapariga com não mais de quinze anos e trouxera-a para Menfreya, conservando-a ali até que a reputação dela apareceu manchada e a família teve de se contentar em concordar apenas com o casamento. "Sem ser por amor", referiu A'Lee. "Não cometa um erro desses, Miss Harriet. Era o dinheiro que ele procurava. Uma das maiores herdeiras do país, dizem, e os Menfreys precisavam de dinheiro. "

Quando vi Sir Endelion cavalgar por Menfreystow, imaginei-o como um jovem, cujas feições eram tais quais as de seu filho Bevil, raptando a herdeira e levando-a no cavalo para Menfreya: pobre rapariga aterrorizada, pouco maior que uma criança e, no entanto, completamente fascinada pelo fantástico Sir Endelion.

O cabelo dele era acastanhado e lembrava a juba de um leão. Ainda tinha olho para as mulheres, assim afirmava A'Lee. Isso era um fraco dos Menfreys: muitos deles tinham acabado por sofrer, homens e mulheres, devido aos seus romances amorosos.

Lady Menfrey, a herdeira, era, toda ela, diferente do resto da família: era loira e frágil, uma senhora bondosa que se preocupava com os pobres da região. Aceitou com humildade o seu destino quando passou a fortuna para as mãos do marido. E, de posse dela, referiu A'Lee, em breve ele começou a esbanjá-la.

A esposa, porém, revelou-se uma desilusão, à parte o dinheiro, porque os Menfreys sempre tinham sido procriadores invulgares, e ela tinha apenas um filho, Bevil, e seguira- se um intervalo de cinco anos antes de Gwennan ter vindo ao mundo. Não que ela não se tenha esforçado nesse meio tempo. A pobre senhora tivera um aborto quase todos os anos e

' Torre das Gralhas. (N. do T)

continuara a fazê-los durante muito tempo depois do nascimento de Gwennan.

Assim que vi Bevil e ouvi dizer que este era a imagem de seu pai quando jovem, fiquei a saber por que motivo Lady Menfrey se deixara seduzir. Bevil possuía a mesma aparência do pai e os olhos mais atraentes que eu jamais vira. Tinham o cabelo da mesma tonalidade, um castanho-avermelhado. Porém, não era a cor que fazia com que as pessoas reparassem neles. Penso que era a expressão. Olhavam para o mundo e para todos os que o habitam com arrogância, divertimento e indiferença, como se nada lhes merecesse cuidado. Para mim, Bevil era o membro mais fascinante de uma família fascinante.

Gwennan, sua irmã, era a que eu conhecia melhor de todos eles, por ser da minha idade e por nos termos tornado amigas. Possuía essa enorme vitalidade e arrogância que pareciam ser-lhes inatas. Costumávamo-nos deitar nos rochedos por entre os cravos-da-beira-mar e os juncos a conversar, ou antes, ela falava e eu ouvia.

- Na Igreja de St. Neot há uma janela de vidro - contou-me uma vez. - Está lá há centenas de anos e nela existe uma gravura de St. Brychan e dos seus vinte e quatro filhos. São eles St. Ive, Menfre e Endelient... Claro que Menfre somos nós, e o nome do papá vem de Endelient. E Gwennan era filha de Brychan, também já sabes.

 

- Então, e Bevil?

- Bevil! - Pronunciou esta palavra com respeito. - Ele deve o seu nome a Sir Bevil Granville, que foi o soldado mais importante da Cornualha. Lutou contra Oliver Cromwell.

- Bem, então - desapontei-a, por saber um pouco mais de história do que ela -, ele não venceu.

- Claro que venceu - replicou, com desdém.

- Mas Miss James conta que o rei foi decapitado e que Cromwell tomou o poder.

Era uma Menfrey típica: com um ar autoritário, pôs de lado Miss James e os livros de história.

- Bevil venceu sempre - declarou, e estava decidido.

Neste momento, as paredes da casa estavam uma vez mais a mudar de cor: a tonalidade rosada desvanecia-se e o brilho do amanhecer prateava-as. Olhei, por algum tempo, para o

contorno da costa e para os rochedos, terríveis, aguçados como facas e traiçoeiros, porque muitas vezes estavam cobertos pelo mar. Havia uma fila deles perto da ilha, aos quais as pessoas chamavam "espiões". Gwennan referiu que acontecia assim porque eles se encontravam muitas vezes escondidos por completo, a "espiar", à espera de destruir qualquer embarcação que se aproximasse. No Man's Island, parte desta cadeia de rochedos, levantava-se a cerca de novecentos e vinte e seis metros do continente, não sendo mais do que uma protuberância no meio do mar, com cerca de oitocentos e quatro metros de perímetro. Embora houvesse nela apenas uma casa, existia lá uma nascente de água doce, que, uma vez mais afirmou Gwennan, era a razão por que a casa fora lá construída. Pairava um certo mistério sobre a habitação e um motivo por que ninguém lá queria viver, o qual, convenço-me agora, se afigurava uma boa coisa, porque, se houvesse um inquilino, onde teria eu passado a noite anterior?

Não era lugar que eu tivesse escolhido, se tivesse havido opção. Neste momento, a casa, em que ninguém queria viver, achava-se invadida por uma luz confortadora, mas mesmo assim revelava-se sinistra, como se o passado tivesse sido apanhado aqui e, por vingança, quisesse apanhar-nos e armar-nos laços, para lhe ficarmos a pertencer.

Se tivesse contado isso a Gwennan, ter-se-ia rido de mim. Era capaz de imaginar o desdém na sua voz aguda e autoritária. "Tu! Tens muita imaginação. É tudo por causa da tua ansiedade."

Gwennan nunca se arrependia de discutir com abertura os seus assuntos que os outros fingiam não existirem. Talvez fosse por isso que achava a sua companhia irresistível, embora por vezes me magoasse.

Estava com fome, pelo que comi um pedaço de chocolate que Gwennan me trouxera, e olhei à volta do quarto. À noite, os lençóis que protegiam os estofos tinham transformado os móveis em fantasmas e eu perguntara-me se não seria preferível dormir lá fora, mas o chão era duro, o ar estava um tanto frio e o barulho do mar, como vozes a sussurrar, era mais forte e mais insistente lá fora do que cá dentro. Por isso, subira a escada até um dos quartos e deitara-me completamente vestida em cima da cama coberta.

 

Desci até à cozinha, enorme, com o chão revestido de pedra, e o pavimento estava húmido. Tudo estava húmido na ilha. Lavei-me com a água que retirara da nascente no dia anterior. Havia um espelho na parede e, enquanto escovava o cabelo, olhei com atenção para a minha imagem, pensando que ela não se assemelhava à que obtinha no meu quarto, em casa do meu pai. Tinha a impressão de que os olhos eram maiores: era do medo. O cabelo estendia-se em todas as direcções, o que se devia a uma noite agitada. Era um cabelo basto e liso, que gostava de estar desalinhado, o desespero de diversas amas cujo destino recompensador fora orientar a minha infância. Eu não tinha graça, pelo que não sentia prazer algum em contemplar a minha imagem.

Decidi passar o tempo a explorar a casa, para me convencer de que estava de facto sozinha. Os ruídos estranhos que me tinham atormentado de noite eram os estalos das tábuas, o avanço e afastamento rítmico das ondas, que se fazia ouvir como um suspiro ou um sussurro, ou a correria dos ratos, porque havia ratos na ilha, dissera Gwennan, que vinham dos navios naufragados nos rochedos "espiões".

A casa fora mandada construir pelos Menfreys havia cento e cinquenta anos, porque, assim, como a maior parte da região, a ilha pertencia- lhes. Havia oito quartos para além da cozinha e dos anexos, e a mansão fora mobilada recentemente, à espera de inquilino, que não se conseguia encontrar.

Entrei na sala de estar, com a sua janela de batentes que dava para o mar. Não havia jardim, embora existissem indícios de que, em dada altura, alguém tentara construir um. Agora, a relva crescia em canteiros e havia tojos e silvas por toda a parte. Os Menfreys não se preocupavam com isso e também não valia de nada incomodarem-se porque na maré alta o mar cobria tudo.

Sem ter qualquer ideia das horas, saí de casa e desci a correr para a enseada de areia, onde fiquei a contemplar Menfreya e à espera de Gwennan.

O Sol já ia bem alto quando ela chegou. Vi-a na enseada, que pertencia aos Menfreys e que, por concessão especial, estes autorizavam que o público usasse, de modo a que não fosse necessário fechar parte da praia e obrigar as pessoas a fazer um desvio. Três ou quatro barcos estavam lá amarrados e vi-a

entrar num deles e começar a remar. Dentro de pouco tempo, estava a roçar na areia, e, quando saltou para fora, eu corri ao seu encontro.

- Gwennan - gritei.

- Psiu! - berrou. - Alguém pode ouvir-te... ou ver-te. Entra imediatamente em casa. - Em breve estava perto de mim, excitada como nunca a vira. Reparei que usava uma capa, dentro da qual estavam uns bolsos enormes, atulhados com aquilo que julguei ser a comida que me prometera. Agitava um jornal nas mãos. - Olha para isto - bradou. - O jornal da manhã. E tu vens aqui! Tu... na primeira página.

Foi até à mesa e estendeu o jornal sobre o lençol que a cobria.

Olhei, atenta:

Filha de membro do Parlamento desaparecida. A hipótese de crime não pode ser excluida, afirma a policia.

Por baixo do cabeçalho, li:

 

Henrietta (Harriet), de treze anos, filha de Sir Edward Delvaney, deputado eleito pelo círculo de Lansella, Cornualha, desapareceu há dois dias de sua casa, em Londres. Receia-se que possa ter sido raptada e se encontre presa, à espera de resgate.

Gwennan aproximou-se da mesa e apertou os joelhos. Tinha os olhos quase escondidos, como acontecia quando o seu rosto ficava assombrado de espanto. Apontou na minha direcção.

- Bom, Miss Henrietta, ou Harriet, Delvaney, tornaste-te importante, não foi? Eles andam à tua procura. E ninguém sabe onde estás, a não ser tu e eu!

Era o que eu pretendia, suponho. Assim, consegui, de certa forma, o meu objectivo.

Ri-me com Gwennan. As pessoas falavam a meu respeito e a polícia andava à minha procura. Era um momento maravilhoso. Porém, a experiência ensinara-me que os momentos maravilhosos não duram sempre. Haviam de me encontrar, e, nessa altura, que iria acontecer? Não iria estar sempre um dia de sol. Gwennan não ficaria comigo. A noite iria cair e eu tinha de ficar sozinha na ilha.

Decidira fugir na noite do baile que o meu pai estava a dar na sua casa da cidade, situada num quarteirão sossegado de Westminster, a cerca de cinco minutos de distância do Parlamento. Sempre afirmara que fazia parte das suas obrigações como deputado receber convidados com generosidade, e constantemente, quer estivéssemos em Westminster quer na Cornualha, havia sempre visitas: convidados para jantar e bailes em Londres, caçadas e convidados para dormir na Cornualha. Tendo apenas treze anos, eu era dispensada destas obrigações. O meu lugar era no meu quarto, de onde saía, a fim de espreitar da balaustrada para a entrada e contemplar todo aquele esplendor, ou ficava perto da janela a observar os ocupantes das carruagens à medida que desciam e passavam sob o toldo vermelho e branco, colocado para a ocasião.

Durante todo o dia, tinham prosseguido os preparativos: a espessa passadeira vermelha fora colocada nos degraus que conduzem à porta principal e ao longo de todo o pavimento, por onde iriam passar os convidados quando descessem das carruagens; duas raparigas das floristas tinham estado toda a tarde ocupadas a pôr flores em jarras e plantas em todos os nichos, arranjando alguns deles de forma a darem a impressão de brotarem das paredes; folhas e flores foram entrelaçadas no corrimão da escada encantadora, que descrevia uma curva até ao primeiro andar, de onde os convidados não passariam.

- Cheira como num funeral - disse para a minha preceptora, Miss James.

- Harriet - replicou -, está a ser demoníaca. - E olhou para mim com aquela expressão magoada que tão bem lhe conhecia.

- Mas cheira mesmo como num funeral - insisti.

- A menina é uma criança mórbida! - resmungou, afastando-se.

Coitada de Miss James. Tinha trinta anos e era uma senhora sem meios de sobrevivência, pelo que para viver ou tinha de se casar ou de ser preceptora de gente como eu.

A biblioteca iria ser a sala da ceia, e ali os arranjos de flores estavam magníficos. Um lago de mármore fora instalado no meio da sala e nele nadavam peixes dourados e prateados, e à superfície da água flutuavam lírios. Havia cortinados num tom arroxeado-vivo, a cor do Partido Conservador. Na sala de estar da frente, que estava mobilada em tons de branco, ouro e roxo, via-se um piano enorme, porque iria haver música nessa noite, tocada por um pianista famoso.

Eu conseguia olhar para baixo, para os convidados, enquanto estes subiam as escadas, esperando que nenhum deles olhasse para cima e visse a filha do anfitrião, o que não seria muito honroso para ele. Devia estar à espera de um olhar de relance de meu pai, porque era nessas ocasiões que eu descobria um homem diferente daquele que conhecia. Com mais de cinquenta anos, casara-se já tarde, era alto e tinha o cabelo escuro e grisalho nas fontes. Os olhos eram azuis, o que era surpreendente no seu rosto escuro, e, quando olhavam para mim, faziam-me lembrar o gelo. Quando desempenhava o papel de anfitrião, ou falava para os eleitores, ou se divertia com os convidados, aqueles olhos brilhavam. Era notado pela inteligência e a vivacidade dos discursos no Parlamento. As suas intervenções, referiam- nas com frequência nos jornais. Era rico e por este motivo podia dar-se ao luxo de ser membro do Parlamento. A política era a sua vida. Possuía rendimentos particulares de investimentos, mas a sua enorme fortuna provinha do aço, algures dos condados centrais de Inglaterra. Nunca falámos deste facto, com o qual ele tinha pouco a ver, mas era esta a grande fonte dos rendimentos.

Era membro de uma divisão da Cornualha, motivo por que tinha uma casa perto de Lansella; íamos de Londres para a Cornualha, porque, quando o Parlamento não se reunia, havia que "cuidar" do eleitorado. E, por algum motivo estranho, onde se encontrava o meu pai, aí estava eu também, embora nos víssemos muito pouco um ao outro.

A nossa casa da cidade tinha uma grande entrada, e no rés-do-chão situavam-se a biblioteca, a sala de jantar e os alojamentos dos criados; no primeiro andar havia duas salas de estar enormes e os gabinetes de trabalho; por cima, havia três quartos de hóspedes, um deles ocupado por William Lister, o secretário de meu pai, além do meu quarto e do do meu pai. No último andar havia cerca de seis quartos para os criados.

Era uma casa bonita, estilo georgiano, e o seu aspecto mais requintado, em minha opinião, era a escadaria em espiral semelhante a uma serpente que se estendia do fundo até ao cimo da casa, permitindo que do último andar se olhasse para a entrada. Mas, para mim, era uma casa fria. A nossa casa da Cornualha era o mesmo. Qualquer casa em que ele vivesse haveria de ser assim... fria e sem vida. Como era diferente o solar Menfreya. Cheia de vida e quente, era uma casa onde tudo podia acontecer, uma casa com que sempre haveríamos de sonhar quando estivéssemos longe e nunca desejamos deixar... um verdadeiro lar.

A casa de Londres estava decorada com muito requinte, a condizer com a arquitectura, razão por que os móveis eram do século xviii e havia poucas concessões à nossa era vitoriana. Sempre me admirei quando entrava noutras casas e via o seu mobiliário ornamentado e as salas cheias e as comparava com o nosso chippendal.

Esqueci-me dos nomes dos criados: havia tantos. Lembro-me de Miss James, claro, porque era a minha preceptora, da Sr. Trant, a governanta, e de Polden, o mordomo. Estes são todos os nomes de que me consigo lembrar, excepto, claro, de Fanny.

 

Porém, Fanny era diferente. Não a considero como criada. Fanny representava a segurança num mundo assustador. Quando ficava confundida com a frieza de meu pai, voltava-me para ela, a pedir explicações. Não conseguia dar-mas, mas podia oferecer-me o conforto. Era ela quem me fazia beber o leite e comer os pudins de arroz, me repreendia e se afligia comigo, para eu não sentir a falta de uma mãe, como sentiria de outro modo. Possuía um rosto severo com olhos profundos e sonhadores, cabelo de um tom castanho-acinzentado, apanhado num carrapito no alto da cabeça tão apertado que parecia magoar, e uma pele amarelada. Figura magra, tinha cerca de trinta e cinco anos e pouco mais de metro e meio de altura, apenas e sempre me pareceu igual desde que nasci e dei por ela pela primeira vez. Sempre me falou na linguagem das ruas de Londres, e, quando cresci e me apresentou sub-repticiamente a essas ruas, aprendi a gostar delas do mesmo modo que a amava a ela. Viera cá para casa logo que nasci, para exercer as funções de ama de leite. Penso que não pretendiam ficar com ela, mas eu era uma criança manifestamente difícil a partir das primeiras semanas e afeiçoei-me a Fanny. Por esta razão, ficou como minha ama e, embora fosse desconsiderada pela Sr. a Trant, por Polden e pela ama principal, Fanny não se preocupava com isso e eu também não.

Fanny era uma mulher de contrastes. A sua linguagem londrina, muito bem acentuada, não condizia com aqueles olhos sonhadores, e as histórias que me contava do seu passado eram um misto de fantasia e de tudo o que era corrente. Fora deixada num orfanato por pessoas desconhecidas. "Mesmo junto da estátua de São Francisco a dar de comer aos pássaros. Por isso, deram-me o nome de Frances, abreviando, Fanny, Frances Stone. Como vê, era uma estátua de pedra. " Agora, já não era Frances Stone, porque se casara com Billy Carter. Não falávamos muito de Billy Carter. Jazia no fundo do oceano, disse-me ela uma vez, e não o ia ver mais em toda a sua vida. "O que está feito está feito", dizia, animada. "E, melhor, esquecido. " Havia alturas em que se entregava a invenções, e um dos nossos passatempos favoritos, quando eu tinha sete ou oito anos, era estar a contar histórias de Fanny antes de esta ter sido deixada junto à estátua de São Francisco. Contava histórias e eu insistia com ela para que continuasse. Nascera numa casa enorme como a nossa, mas fora raptada por ciganos. Era uma herdeira rica, e um tio cruel abandonara-a junto do orfanato, depois de a substituir em casa de seus pais por uma criança morta. Existiam muitas versões, que era norma acabarem por: "E nunca saberemos, Miss Harriet, logo, beba o leite, que são horas de ir para a cama. "

Falava-me também do orfanato, das campainhas que chamavam as crianças para as refeições impróprias. Eu via-as de forma bem clara, com os seus bibes de riscado e as mãos manchadas pelo frio e cobertas de frieiras. Via-as a inclinarem-se, em jeito de cortesia, perante os seus superiores e a aprenderem a ser humildes.

"Mas aprendemos também a ler e a escrever", adiantou Fanny, "o que é muito mais do que alguns jamais aprenderão. " Todavia, quase nunca falava do seu bebé, e, quando o fazia, apertava-me contra ela e segurava-me a cabeça inclinada para baixo, para que lhe não pudesse ver o rosto. "Era uma menina. Viveu só uma hora. Foi tudo o que sofri por Billy. "

 

Billy estava morto. O bebé estava morto. "E depois", disse Fanny, "vim para o pé de si. "

Costumava levar-me ao Parque de St. James, e aí dávamos de comer aos patos ou sentávamo-nos na relva, enquanto eu a convencia a contar mais versões dos seus primeiros tempos de vida. Deu-me a conhecer uma Londres que eu nunca soubera existir. Era um segredo, dizia, porque nunca deixaria que nenhum deles, das pessoas lá de casa, soubesse aonde me levava nos nossos passeios. Fomos aos mercados onde os vendedores ambulantes tinham as suas barracas. Agarrando-me com firmeza pela mão, puxava-me por ali fora, tão excitada como eu com estas pessoas, que apregoavam a qualidade das suas mercadorias com vozes roucas, que eu não conseguia entender. Lembro-me das lojas com os fatos velhos pendurados cá fora, do cheiro esquisito a bafio, que não consegui esquecer, e das velhas a venderem alfinetes, botões, búzios, biscoitos de gengibre e rebuçados para a tosse. Uma vez, comprou-me uma batata assada, que achei o alimento mais delicioso que sempre comera, até provar castanhas assadas quentes a sair das brasas.

"Não diga a ninguém onde estivemos", avisou-me. E o segredo tornava tudo mais excitante.

Havia cerveja de gengibre, refrescos e limonada à venda, e uma vez atirámos panquecas ao ar com um vendedor. Era um velho costume dos vendedores de empadas, contou-me Fanny. E sentámo-nos a ver um jovem vendedor com a namorada atirar a moeda e perder, pelo que não tiveram direito a empada. Fanny, bastante destemida, atirou a moeda e ganhámos. Levámos a empada para o Parque de St. James e sentámo-nos junto do lago a devorar todos os bocados.

"Mas a menina ainda não viu o mercado ao sábado à noite. É altura", acrescentou Fanny. "Talvez quando for mais velha. "

Era algo a planear.

Adorava o mercado com os seus vendedores ambulantes, cujos rostos retratavam todos os papéis que se podem encontrar num auto de moralidade' . Havia desejo e cobiça,

' Drama alegórico, peça teatral da Idade Média em que as virtudes e osvícios eram personificados pelos actores (N. do T. )

indolência e astúcia nesses rostos e por vezes santidade. Fanny ficava mais excitada com os trapaceiros, mas preferia ficar a ver os malabaristas, os prestidigitadores e os engole-espadas e chamas.

Fanny mostrara-me um mundo novo, que estava mesmo ali ao nosso lado, embora muitas pessoas parecessem desconhecê-lo. A única ocasião em que os dois mundos se encontraram foi num domingo à tarde, quando, sentada à janela, ouvi a sineta do vendedor de muffrnsó e o vi a atravessar a praça com o tabuleiro à cabeça e as criadas de crista branca e avental a correrem atrás dele, para efectuarem compras.

Foi essa a minha vida até à noite do baile.

Nessas ocasiões, todos em casa eram obrigados a ajudar, e Fanny era chamada para a cozinha durante a tarde e a noite, Miss James ajudava a governanta e eu ficava sozinha.

 

A minha tia Clarissa ficava connosco, porque o meu pai precisava de uma anfitriã. Eu detestava a tia Clarissa, que era irmã de meu pai, da mesma forma que ela me detestava. Estava constantemente a comparar-me com as suas três filhas, Sylvia, Phyllis e Clarissa, que eram todas louras, de olhos azuis e, em sua opinião, belas. Iria estar muito ocupada a apresentá-las à sociedade, e eu deveria juntar-me a elas nesta necessidade assustadora para todas as jovens. Sabia que iria odiar tudo isso da mesma forma que a tia Clarissa o temia.

Por isso, o facto de a tia se encontrar em casa era mais um motivo para eu querer sair de lá.

Vagueei bastante pela casa durante todo o dia e nas escadas encontrei-me com a minha tia.

- Meu santo Deus, Harriet - exclamou. - Olha para esse cabelo! Sempre pareceste como se te estivessem a puxar o cabelo para trás. As tuas primas não têm problemas com o cabelo. Nem nunca iriam andar por aí com esse aspecto como tu andas, posso garantir-te.

- Oh, elas são uns encantos.

- Não sejas atrevida, Harriet. Deveria ter-te ensinado a teres especial cuidado com o cabelo, uma vez que.

- Uma vez que sou feia?

' Bolinhos leves, redondos e espalmados, de trigo ou de milho, que se comem quentes, com manteiga. (N. do T. )

Ficou chocada.

- Que disparate. Claro que não és. Mas deveria ter pensado que poderias.

Subi a escada a coxear, direita ao quarto. Ela não devia saber quanto isso me preocupava. Nenhum deles devia, porque, então, isso seria deveras insuportável.

No meu quarto, pus-me diante do espelho, levantei a saia comprida de merino cinzenta e olhei para as minhas pernas e para os pés. Não havia nada que mostrasse que uma perna era mais curta do que a outra. Era só quando andava que parecia arrastar uma atrás da outra. Foi sempre assim desde o desgraçado dia em que nasci. Desgraçado! Esta era uma forma suave de o expressar. Foi um dia detestável, um dia trágico para todos, inclusive para mim. Não sabia nada do assunto até que mais tarde comecei a descobrir que não era bem igual às outras crianças. Como se não bastasse ser a causa da morte de minha mãe, ainda por cima ter de nascer imperfeita. Lembro-me de ouvir falar dele a alguma grande beldade, Lady Hamilton, julgo, que Deus devia estar com excelente disposição quando a fez. "Bem", repliquei, "Ele devia estar muito zangado quando me fez "

Por vezes, desejava ter nascido alguém que não Harriet Delvaney. Quando Fanny me levava ao parque e via as outras crianças, sentia sempre inveja delas. Invejava quase toda a gente, até mesmo os filhos sujos do homem do realejo, que costumavam sentar-se à frente dele com um aspecto miserável, enquanto o macaquinho castanho segurava o boné vermelho a pedir esmola. Toda a gente, pensava eu nessa altura, era mais feliz do que Harriet Delvaney.

As várias amas, sob cujas ordens Fanny servira, sempre me disseram que eu era uma criança má, terrível. Tinha uma boa casa, onde se comia bem, um pai carinhoso, uma boa ama, e não estava satisfeita.

 

Só comecei a andar aos quatro anos. Fui levada aos médicos, que me mexiam nas pernas e tinham grandes discussões sobre o que deveriam fazer e abanavam a cabeça a meu respeito. Davam-me este e aquele tratamento. O meu pai costumava chegar e olhar para mim, e havia algo nos seus olhos que me dizia que preferia olhar para qualquer coisa, e não para mim, mas obrigava-se a fingir que gostava de o fazer.

Lembro-me de um dia em que estava no jardim da casa de

minha tia, perto de Regent's Park. Era a altura dos morangos, e nós estivéramos a comer a fruta com açúcar e natas perto da casa de Verão. Todas as mulheres usavam sombrinhas e chapéus, para protegerem a pele do sol, e, como era a festa do aniversário de Phyllis, havia várias crianças na relva, que andavam a correr por ali e a brincar umas com as outras. Eu estava sentada na minha cadeira, com estas pernas detestáveis estendidas à minha frente, que constituíam o meu grande problema. Viera na carruagem e fora levada para o jardim por um dos criados e colocada na cadeira, de onde podia observar as outras crianças.

Ouvi a voz da tia Clarissa: "Não é uma criança muito encantadora. Penso que devemos desculpar. "

Não compreendi o que queria dizer, embora tivesse guardado a observação, para analisar mais tarde. Quando penso nesse dia, recordo o aroma dos morangos, a mistura deliciosa da fruta, açúcar e natas, e pernas... as pernas fortes das outras crianças.

Ainda me consigo lembrar da determinação que me invadiu quando quase caí da cadeira, me levantei em cima das pernas e andei.

Era um milagre, observaram os mais simpáticos. Outros pensaram que eu o poderia ter feito antes e andara a fingir todo aquele tempo. Os médicos ficaram admirados.

A princípio, só conseguia caminhar a passos pouco seguros, mas, a partir desse dia, comecei a andar. Não sei se poderia ter andado mais cedo ou não. Consigo apenas lembrar-me desse sentimento repentino de determinação e daquela força que me dava prazer à medida que caminhava, vacilando, em direcção às outras crianças.

A pouco e pouco, soube da minha historiazinha patética, em grande parte a partir dos criados que tinham trabalhado na casa antes de eu nascer: "Ela não tinha idade para ter filhos. Podem imaginar... Ter a Harriet matou-a. Operação... Todos aqueles instrumentos... Bom, é perigoso. Perdeu-se ela e salvou-se a criança. Mas ali está ela com aquela perna. Quanto a ele... nunca mais voltou a ser o mesmo. Idolatrava-a... Claro que só estiveram casados um ano ou dois. Se isso tivesse durado, sendo ele o que é... Não admira, todavia, que não consiga tolerar a criança. Ora, se ela fosse como a Phyllis ou uma das primas. O dinheiro não é tudo. "

Aí estava a minha história, em poucas palavras. Por vezes, eu imaginava ser uma santa que deambulava pelo mundo praticando o bem e que todos me amavam. Diziam: Bem, ela não é nenhuma beleza, mas devemos desculpá-la, e é muito boa. "

Mas eu não era boa. Tinha ciúmes das minhas primas, com os seus bonitos rostos cor-de-rosa e os cabelos loiros e sedosos. Estava zangada com o meu pai, que não me conseguia suportar, porque a minha vinda ao mundo mandara a minha mãe embora. Era difícil com os criados, porque tinha pena de mim mesma.

 

As únicas pessoas com quem senti que podia ser humilde e aprender talvez a ser boa eram os Menfreys. Não era que me prestassem muita atenção, mas para mim eram os Menfreys Mágicos, que viviam na casa mais excitante que sempre vira, empoleirada nos penhascos defronte de No Man's Island, que lhes pertencia e sobre a qual havia uma história que eu ainda teria de descobrir. A nossa casa era a mais próxima da deles, muito mais moderna, uma mansão em que o meu pai podia receber convidados e "cuidar" do eleitorado. Os Menfreys eram os seus melhores amigos. "Temos de cultivar a sua amizade", ouvia-o dizer ao seu secretário, William Lister. "Eles têm grande influência no eleitorado. " Por isso, os Menfreys deviam ser tratados como flores de estufa.

E bastava apenas olhar para eles, para todos eles, para acreditar na sua influência. O secretário de meu pai afirmara que eles eram maiores do que a vida. Foi a primeira vez que ouvi a expressão, e ela adaptava- se bem.

A família estava disposta a ser nossa amiga: trabalhavam para o pai durante as eleições, recebiam-no em sua casa e ele recebia-os a eles. Eram os senhores da circunscrição e, quando Sir Endelion dizia aos caseiros para votarem, estes votavam no candidato que ele preferia, caso contrário, não esperassem poder continuar a ser seus caseiros.

Quando íamos para a Cornualha, alguns dos criados acompanhavam-nos, enquanto a Sr. Trant e Polden ficavam em Londres com o pessoal reduzido. Miss James, Nanny e Fanny, entre outros, vinham connosco. E na Cornualha tínhamos um mordomo e uma governanta residentes, os A'Lees, marido e mulher, que ficaram quando arrendámos a casa, que também já se encontrava mobilada, o que era muito cómodo.

Deixavam-me ir a Menfreya tomar chá, e Gwennan vinha tomar chá comigo a Cough Towers. Vinha a cavalo, com um dos moços de estrebaria de Menfreya, e foi durante uma destas visitas que aprendi a montar e descobri que era mais feliz em cima duma cela do que em qualquer outro lugar, porque nessa altura o meu defeito não tinha importância. Sentia-me normal quando montava. A altura em que estive mais perto de atingir o prazer total foi quando andava a cavalo por estes caminhos da Cornualha, para cima e para baixo, e nunca deixei, de modo algum, de apreciar a paisagem. Tomava sempre fôlego, maravilhada, quando, ao chegar ao cimo de um precipício, vislumbrava de repente o mar.

Sentia inveja de Gwennan, por ela viver permanentemente num lugar como aquele. Ela gostava de ouvir falar de Londres, e eu divertia-me a contar-lhe. Em troca, fazia-a falar de Menfreya e dos Menfreys, mas, acima de tudo, de Bevil.

Enquanto estava diante do espelho depois do encontro com a tia Clarissa na escada, comecei a pensar em Menfreya com uma saudade que aumentou tanto que quase me fez sofrer.

Eu estava debruçada sobre o corrimão. Havia música na sala de estar da frente, mas ela quase se afogava no meio do zunido das vozes e do irromper súbito das gargalhadas. Era como se a casa tivesse surgido para a vida. Já não era fria; todas estas vozes, todos estes risos transformavam-na.

Eu vestia uma camisa de dormir de baetilha com um roupão de sarja vermelha por cima. Estava descalça, porque os chinelos de quarto podiam trair-me pelo barulho que faziam ao serem arrastados. Não era que algum dos criados me repreendesse por espreitar por cima do corrimão, mas eu gostava de fimgir que não estava nada interessada nos divertimen tos de meu pai.

 

Algumas vezes sonhava que ele me mandava chamar e que eu entrava na sala, a coxear. O primeiro- ministro estava lá e falava comigo. Tanto ele como todos os outros ficavam admirados com a minha inteligência e compreensão. Os olhos do meu pai eram meigos e brilhavam, porque se sentia muito orgulhoso de mim.

Que sonho tão tolo!

Nessa noite, enquanto me debruçava sobre o corrimão a cheirar a cera e a terebintina com que o poliam, ouvi por acaso a conversa entre a minha tia Clarissa e um homem que me era desconhecido. Estavam a falar de meu pai.

- Verdadeiramente talentoso.

- O primeiro-ministro parece que pensa assim.

- Oh, sim. Sir Edward pretende o Gabinete. Tome nota do que lhe digo.

- Querido Edward - era a voz da tia Clarissa -, ele merece um pouco de sorte.

- Sorte! Eu pensaria que ele já teve a sua parte. Deve ser um homem extremamente rico.

- Nunca mais foi feliz desde que a mulher morreu.

- Ele já é viúvo há muitos anos, não é? Seria muito bom que tivesse uma mulher. Pergunto se... não voltou a casar.

- O casamento foi uma experiência muito trágica, e de certa forma Edward nasceu para ser solteiro.

- Ouvi dizer que existe uma criança.

Senti o meu rosto corar de fúria perante a entoação na voz da tia Clarissa, quando afirmou:

- Oh, sim, existe uma criança. Henrietta. Chamamos-lhe Harriet".

- Existe algum infortúnio?

A tia Clarissa estava a segredar. Depois, começou outra vez a falar mais alto.

- Muitas vezes, penso que foi uma pena que ela não tivesse sido levada e Sylvia não tivesse ficado. Depois de a criança a ter matado, claro. Só estiveram casados alguns anos, mas ela já tinha trinta e muitos anos. Queriam um filho, sem dúvida. E esta rapariga...

- No entanto, ela deve ser uma compensação para ele. Uma gargalhada cruel. Um sussurro. A seguir:

- Vai ser minha obrigação apresentá-la à sociedade quando chegar a altura. A minha Phyllis e a minha Sylvia, que deve o nome à tia, são mais ou menos da mesma idade, mas que diferença! Não sei como vou encontrar um marido para Harriet... apesar do dinheiro.

- É assim tão pouco atraente?

- Não tem nada. mesmo nada.

Fanny ensinara-me que aqueles que escutam nunca ouvem nada de bom a seu respeito. Como estava correcta! Eu ouvira dizer de mim que era terrível, que sofria de acessos de cólera, que devia ir para o Inferno. Isto, das minhas várias amas. Mas nunca ouvira nada que me magoasse tanto como aquela conversa entre a tia Clarissa e o desconhecido. É que, durante muito tempo depois, não conseguia suportar o cheiro da cera e da terebintina, porque o associava a uma angústia humilhante.

Já não conseguia estar mais tempo a observar, pelo que saí do corrimão e fui a correr para o meu quarto.

 

Já aprendera que, quando alguém se sente muito infeliz, é aconselhável desviar-se do sofrimento por si próprio e planear algo... qualquer coisa que a faça esquecer. Que estupidez a minha sonhar como sonhava, porque nesses sonhos nunca me vi como era na realidade. Era sempre uma heroína. Até a cor do meu cabelo mudava. Em vez de ser castanho-escuro, era loiro, os olhos, em vez de serem verdes, eram azuis e o nariz era bem feito e direito, em vez de arrebitado, num jeito que poderia ter acrescentado um certo ar de malícia a alguns rostos e que apenas parecia desproporcionado na minha expressão severa.

"Planeia algo com rapidez", disse para mim própria. E a resposta surgiu de pronto: "Eles não me querem aqui, pelo que vou fugir. "

Para onde? Havia apenas um lugar para onde queria fugir. Era Menfreya.

"Vou para Menfreya", pronunciei em voz alta. Recusei-me a pensar no que faria quando chegasse, porque, se o fizesse, o plano desmoronava-se logo à partida e eu teria de calar o som das vozes cruéis, que pronunciavam palavras cruéis. Impunha-se que fizesse qualquer coisa, desde logo.

Podia apanhar um comboio de Paddington. Tinha dinheiro suficiente na carteira para comprar o bilhete, e isso era o que importava. Tudo o que tinha de pensar agora era chegar a Menfreya. Quando chegasse, faria outros planos. Não podia ficar nesta casa: todas as vezes que descesse as escadas, iria ouvir aquelas vozes. A tia Clarissa estava preocupada em arranjar-me um noivo. Pois bem, iria salvá-la desse aborrecimento.

Quando deveria ir? Como poderia ter a certeza de que não davam pela minha falta o tempo suficiente para eu conseguir apanhar o comboio? Precisava de ser tudo planeado com cuidado.

Assim, enquanto na sala por debaixo de mim ouviam a música que o papá preparara para a ocasião e se deliciavam todos com os acepipes que estavam a servir na sala da ceia, enquanto falavam de política uns com os outros e das hipóteses do meu pai no Gabinete, eu estava deitada na cama a pensar como poderia fugir.

A minha oportunidade surgiu no dia seguinte, quando todos estavam cansados. Havia maus humores na cozinha, Miss James estava irritada. Sempre achei que, desde que lera Jane Eyre, ela pensava que o meu pai iria casar consigo. E, depois de ocasiões como a festa da noite anterior, essa possibilidade parecia mais remota do que o habitual. Retirou-se para o seu quarto às seis horas a queixar-se com dores de cabeça e este facto deu-me a minha oportunidade: vesti calmamente a minha capa com capuz, pus no bolso o dinheiro que tirara da carteira e escapei-me de casa. Ao subir para o autocarro, o que pela primeira vez fiz sozinha, uma ou duas pessoas olharam para mim com curiosidade, mas eu fingi não reparar nelas. Sabia que era o autocarro certo porque dizia "Paddington" de lado. Assim, pedi, tranquila, um bilhete para a estação. Foi mais fácil do que eu imaginava.

 

Conhecia a estação porque já lá tinha estado com o papá, embora tal nunca tivesse acontecido de noite. Comprei o bilhete, mas, quando me informaram de que teria de esperar uma hora e três quartos antes de o comboio chegar, fiquei aterrorizada. Foi a hora e três quartos mais demorada que jamais conheci. Sentei-me num dos bancos perto da cancela e pus-me a observar as pessoas, com medo de que a cada momento surgisse alguém a correr, à minha procura.

Porém, ninguém apareceu, e à hora certa o comboio lá estava. Entrei e descobri que era muito diferente de viajar em primeira classe com o papá. Os assentos eram de madeira e desconfortáveis, mas estava dentro do comboio, a caminho de Menfreya, e isso era tudo o que importava naquele momento.

Sentei-me no meu lugar ao canto e ninguém reparou em mim. Estava grata por ser de noite. Passei pelo sono e, quando acordei, descobri que já havíamos chegado a Exeter. Então, comecei a perguntar a mim mesma o que iria fazer quando chegasse a Menfreya. Iria entrar em casa e dizer ao mordomo que chegara de visita? Imaginei-me a ser levada à presença de Lady Menfrey, que informaria de imediato o meu pai da minha chegada. Seria levada de volta, castigada e proibida para sempre de voltar a fazer uma coisa destas. E que mais teria ganho, para além da excitação preliminar da aventura?

Como era típico de mim apressar-me a fazer qualquer coisa e a seguir perguntar a mim mesma onde ia. Era impulsiva e pateta. Não admirava que me apontassem, por ser difícil.

Tinha fome e estava cansada e deprimida. Desejei estar no meu quarto, embora a tia Clarissa pudesse chegar a cada momento e olhar para mim daquele jeito que me dizia que estava a comparar-me com Phyllis ou uma das outras.

No momento em que chegámos a Liskeard, compreendi que cometera um grande disparate. Mas já não podia voltar atrás. Quando viajava com o papá, A'Lee trazia o coche até à estação e fazíamos o resto da viagem nele. Agora, não havia coche, pelo que comprei um bilhete para o ramal. Havia um comboio que se encontrava com o expresso de Londres. Como já estivesse à espera, apressei-me a entrar nele.

Esperámos na estação durante quase meia hora, o que me deu tempo para planear o que deveria fazer. Enquanto vencíamos a curta distância, ocorreu-me que, como viajavam tão poucas pessoas no comboio, poderia ser reconhecida e detida. Embora não utilizássemos esta linha, o papá era muito conhecido na região e eu poderia chamar a atenção pelo facto de ser sua filha.

Saí do comboio em Menfreystow. Não deveria haver mais do que uma dúzia de pessoas. Misturei-me com elas quando passámos a pequena cancela e baixei a cabeça ao exibir o bilhete. Estava livre. Mas, que fazer agora?

Teria de caminhar para os lados do mar e percorrer cerca de quilómetro e meio pelo caminho dos rochedos. Deveria haver poucas pessoas na rua a essas horas da manhã.

 

A cidadezinha de Menfreystow ainda dormia. A rua principal, bastante sinuosa, que era só quase o que existia dela, estava completamente deserta. As cortinas de quase todas as casas continuavam corridas e as poucas lojas permaneciam aferrolhadas e trancadas. Senti o cheiro do mar e pus-me a caminhar em direcção ao porto, onde estavam ancorados os barcos de pesca. Ao passar pela lota, observei as redes espalhadas e a quantidade enorme de lagostas e, apesar da minha insegurança, saboreei um momento de felicidade. Senti sempre que pertencera aqui, embora assim não fosse, porque o meu pai só arrendou a casa quando se tornou deputado representante de Lansella e da sua circunscrição, o que deveria ter acontecido havia perto de seis anos. Caminhei com cuidado por cima das argolas de ferro, a que estavam presas as cordas grossas cheias de sal, e disse para comigo que era disparate ter vindo até ao porto. Os pescadores andavam muitas vezes por aqui de manhã cedo e, se dessem pela minha presença, contariam logo.

Tomei uma das áleas laterais e voltei à rua principal. Desta vez, precipitei-me para um dos desvios de pedras escarpados, subi-o em cinco minutos e a seguir estava em cima dos penhascos.

A beleza da paisagem fez-me parar durante alguns segundos para a admirar. Aqui estava a costa, com todo o seu esplendor, e por debaixo de mim a praia, com a água azul-verde acariciando suavemente as areias cinzentas. A pouco mais de um quilómetro ao longo desta costa, levantava-se o solar Menfreya e na sua frente No Man's Island, onde não vivia ninguém.

Comecei a andar pensando no solar Menfreya e nos Menfreys. Em breve, iria ver a casa. Sabia o ponto exacto em que esta se tornaria visível por entre as curvas e contracurvas do caminho do penhasco. E ei-la majestosa e imponente, uma espécie de Meca na minha peregrinação, a mansão dos Menfreys, a família que a possuíra através das épocas. Tinham habitado lá Menfreys quando o bispo Trelawny fora enviado para a Torre. Um Menfrey apoiara o bispo e reunira os seus criados, a fim de se unirem aos vinte mil habitantes da Cornualha, a quem iria explicar o motivo. Imaginei os Menfreys com chapéus de plumas e mangas com punhos de renda e em calções, com os cabelos empoados e gravatas de renda. Havia fotografias deles na galeria. Não conseguia achar nada mais excitante do que ser um Menfrey, embora soubesse que seria mais sensato dirigir os meus pensamentos para assuntos mais práticos.

Havia alcançado o lugar de onde podia avistar as ameias. Gwennan levara-me até ao cimo da torre numa dessas ocasiões em que Miss James me levara à casa, para tomar chá. Senti vertigens, por olhar para baixo, pela muralha de pedras cinzentas até à falésia, para baixo, para baixo, até ao mar, e consegui ouvir a voz de Gwennan: "Se quiseres morrer, só precisas de saltar daqui para baixo. " Tivera um pressentimento de que ela me poderia mandar fazer isso naquele jeito imperioso dos Menfreys e que, como estavam tão habituados a ser obedecidos, bem poderia ficar à espera de que eu o fizesse. Já davam ordens havia muitas gerações, enquanto os Delvaneys só o faziam havia uma.

O negócio do aço, que era tão rentável, fora fundado pelo meu avô, que começara como um dos seus empregados mais humildes. É claro que agora Sir Edward Delvaney esquecera tudo acerca dos seus antecedentes. Era delicado, um homem culto com um futuro brilhante, mas, embora fosse muito mais esperto do que os Menfreys, eu conhecia a diferença.

Eu também deveria ser inteligente. Teria de planear o passo a seguir. Gwennan dava muitas vezes um passeio a cavalo de manhã cedo e vinha por este caminho, porque, contara-me, este era um dos seus passeios a cavalo preferidos.

 

Se me escondesse numa gruta por entre os rochedos que descobríramos, poderia enxergá-la. Caso contrário, teria de elaborar outros planos. Talvez fosse preferível ir para os estábulos e esconder-me lá. Porém, poderia encontrar um dos moços de estrebaria. Além disso, havia os cães. Não, tenho de aproveitar a minha oportunidade e esperar na gruta. Se ela hoje fosse andar de cavalo, o mais certo seria vir por este caminho.

Esperei durante algum tempo, que me pareceram horas, mas acabei por ter sorte. Finalmente, Gwennan veio e veio sozinha.

Chamei-a. Puxou as rédeas com força e parou.

Quando lhe contei, ficou divertida. Foi ela quem pensou na ilha. Era uma aventura que a encantava. Tinha-me agora à sua mercê e mostrava-se satisfeita.

- Vem comigo - disse-me. - Sei onde te esconder. Como estava maré-cheia, remou para a ilha, fazendo com que eu me deitasse no fundo do barco, com medo de que alguém me visse. - Vou providenciar para que tenhas alimentosgarantiu-me. -E, já que ninguém quer viver na casa, por que não tu?

Isto acontecera no dia anterior. Agora, cá estava Gwennan com o jornal. Não pensara que a minha fuga pudesse ser tão importante. Gwennan adiantou:

- Estavam todos a falar nisso ao pequeno-almoço. O papá diz que vão pedir um resgate por ti. Milhares de libras. Imagina, valeres isso!

- O meu papá nunca vai pagar isso. Vai ficar contente por se ver livre de mim.

Gwennan fez um sinal afirmativo com a cabeça, admitindo a possibilidade de isso acontecer.

- No entanto - adiantou, com sensatez -, pode não querer que os jornais o saibam e por esse motivo pagar.

- Mas ninguém está a pedir. Eu não fui raptada. Gwennan estava a olhar para mim com um ar de reflexão.

- Nós estamos com necessidade de dinheiro - referiu. Eu ri-me.

- O quê! Os Menfreys prenderem-me, para obterem um resgate. Isso não faz sentido.

- Faria - suspirou Gwennan - se Sir Edward nos pagasse o dinheiro. Sabes que estamos com dificuldades em equilibrar o orçamento. Foi por este motivo que este local foi mobilado. O papá diz que não via por que não se lhe poderia dar uso. Há anos que está desocupado. Assim deram-lhe uma pintadela e trouxeram esta mobília. Isso foi há um ano. Temos estado à espera do primeiro inquilino. E vais ser tu!

- Eu não sou uma verdadeira inquilina. Estou só a esconder-me aqui.

- Além disso, não estás a pagar renda. No entanto, se houver um resgate.

- Não vai haver!

- Não. Mas não me surpreende que tenhas fugido. Essa criatura velha e detestável da Clarissa. Eu teria descido e ter-lhe-ia dado um soco nas orelhas, se estivesse no teu lugar.

- Não poderias estar. Como és bonita, ninguém diria essas coisas a teu respeito.

 

Gwennan afastou-se da mesa onde estivera sentada e, descobrindo um dos espelhos, examinou o seu rosto. Segui-a a coxear e ficámos, lado a lado, a olhar. Ela não poderia deixar de ficar contente com a imagem reflectida: rosto redondo, pele cremosa, um pouco sardenta, cabelo fulvo, olhos castanho-claros e um narizinho encantador, com narinas grandes, que eu dizia fazê-la parecer- se com um tigre.

- Parece sempre que pensas que as pessoas não hão-de gostar de ti, e esse é o teu problema - afirmou Gwennan.

- Então, por que deveria parecer o contrário, se as pessoas não acham assim?

- Isso fá-las lembrar que não acham. Poderiam esquecer-se, se não parecesse que tu sabias isso. Bem, teremos de ficar por aqui. Vou trazer-te comida todos os dias, não morrerás de fome. Tens de ver quanto tempo te podes aguentar. Como te sentiste ao passar uma noite em No Man's Island?

- Oh... muito bem.

- Mentirosa. Estavas assustada.

- Tu não estarias?

- Talvez. Está assombrada.

- Não está - teimei, de forma impetuosa. Não devia estar, e, se estivesse, não queria ouvir falar nisso, mas, por outro lado, não conseguia resistir à ideia de a incitar a prosseguir.

Em qualquer dos casos, Gwennan não iria poupar-me.

- Oh, sim. Está. O papá diz que não deve haver nenhum inquilino por causa dos boatos. As pessoas chegam e vêem a casa, mas depois começam a ouvir.

Passou uma hora comigo e, quando se foi embora, prometeu-me voltar à tarde. Teria de ser muito cuidadosa para não levantar suspeitas, porque alguém poderia perguntar- se por que motivo ela tinha ficado de repente tão interessada na ilha.

Eu teria ficado excitada no seu lugar. Ela gozava o aspecto divertido da situação, e eu suportava todas as dificuldades.

Senti-me inquieta quando o crepúsculo começou a cair. Não queria entrar em casa antes de ser obrigada, razão por que me sentei encostada à parede, olhando através do mar para o solar Menfreya... um panorama reconfortante. Havia luzes em diversas janelas. Bevil possivelmente estava lá. Desejara fazer perguntas a seu respeito a Gwennan, mas tivera de me coibir de o fazer, porque esta tinha o péssimo hábito de me ler os pensamentos e, se descobrisse que eu estava interessada no irmão, iria ficar divertida e não só implicar comigo mas também exagerar o meu interesse.

Em breve viria a maré-cheia, e observei a água a aproximar-se, com lentidão, cada vez mais da casa.

Aproximou-se alguns metros deste lado, e ouvira dizer que em marés muito altas chegava às paredes e inundava a cozinha. Isso acontecia em certas alturas do ano, creio eu, mas não iria ser agora. Porém, o mar invasor provocava-me menos terror do que a casa escura.

Gwennan trouxera-me velas à tarde, e, antes que se fizesse completamente escuro, seria melhor entrar e acender algumas. Talvez deixasse uma acesa no quarto toda a noite. Se acordasse assustada, veria logo onde me encontrava.

 

Não tinha relógio, pelo que não sabia as horas, mas o Sol desaparecera havia muito tempo e as primeiras estrelas começavam a surgir. Pus-me a contemplá-las: num momento não se viam, e no momento seguinte lá estavam. Descobri a Ursa Maior e a seguir olhei para as outras constelações que, como aprendera com Miss James, poderia esperar encontrar no céu, à noite. O medo arrastava-se cada vez mais, como o mar, como a escuridão. Se fosse para a cama e me deitasse, talvez pudesse adormecer, porque havia duas noites que dormia pouco.

Entrei em casa e apressei-me a acender as velas. A seguir, levei uma para cima, para o quarto. Imaginei os móveis a saltar em direcção aos seus lugares, quando entrei. Apressei-me a olhar à minha volta e fechei a porta. Com a vela na mão, dirigi-me com cuidado para cada uma dessas corcundas grotescas e levantei o lençol, tão-só para ter a certeza de que eram apenas móveis o que estava por debaixo deles e que não havia lá nada escondido, a não ser as peças que tinham sido trazidas de Menfreya, a fim de mobilar a casa para o esperado inquilino. Eu era palerma. O medo estava dentro de mim mesma. Se ao menos o conseguisse afastar do meu espírito, isto seria apenas uma casa vazia para mim. Deveria deitar-me na cama e adormecer rapidamente.

Iria tentar, mas deixaria a vela acesa.

Deitei-me na cama como fizera na noite anterior e fechei os olhos, abrindo-os logo depois com rapidez, para ver se conseguia apanhar alguma coisa antes que ela tivesse tempo de se esconder. Que disparate! Algumas pessoas contavam que, na realidade, não se viam os fantasmas, porque a visão era um processo físico e os fantasmas não. Sentem-se. E eu sentia algo nesta casa quando caía a escuridão, tinha a certeza.

Voltei a fechar os olhos, de repente pensei que estava a viajar de comboio e, como estava muito cansada, adormeci.

Acordei aterrorizada. A primeira coisa que vi foi a vela e soube que estivera a dormir algum tempo devido à quantidade de cera queimada. Sentei-me e olhei por todo o quarto. Parecia que as corcundas cobertas de lençóis se tinham colocado de repente nos lugares que ocupavam quando fechei os olhos. Olhei para a janela. Ainda era de noite. Algo me despertara. Um sonho? Um sonho mau, porque estava a tremer e o coração batia como um louco.

"Apenas um sonho", proferi, em voz alta. A seguir, fiquei alerta. Além do murmúrio suave das ondas, ouvi um som em baixo. Vozes... e depois o ranger de uma porta.

Saltei da cama e fiquei a olhar, atenta, para a porta.

Não estava sozinha na ilha. Não estava sozinha na casa. Vozes! Vozes a sussurrar! Uma grave, outra num tom mais elevado. Ouvi um som que poderia ter sido um passo. "Estou a imaginar", murmurei.

Não. Ouviu-se o ranger de um degrau e o som inconfundível de passos furtivos.

O meu coração batia tanto que me fez parar de pensar. Eu estava encostada à porta a ouvir. Eram, sem dúvida, passos na escada. A seguir, ouvi uma voz, uma voz feminina.

- Vamos. Não gosto disto.

Uma gargalhada em voz baixa, uma gargalhada de homem. Uma coisa era certa. Quem quer que fosse não eram fantasmas, e a todo o momento iriam entrar no quarto. Corri para o toucador e escondi-me debaixo do lençol que protegia o móvel do pó. Acabara de esconder-me quando a porta se abriu.

- Ah, cá estamos! - disse uma voz que eu conhecia.

- Uma vela... uma luz, senhor Bevil. - Era a mulher.

 

- Quem quer que esteja na casa está aqui escondido - assegurou Bevil Menfrey.

Estava a puxar as coberturas para o pó, e eu sabia que era apenas uma questão de segundos antes de chegar ao toucador.

Levantei os olhos para ele e mesmo nesse momento reparei como parecia magnífico à luz da vela. Tornara-se mais velho desde a última vez que o vira. Na realidade, estava um homem. Parecia tremendamente alto e a luz da vela projectava uma sombra enorme da sua figura na parede, ao lado da figura mais pequena da mulher, que se agachava atrás dele.

- Deus do Céu! - exclamou. - É Harriet Delvaney. Sai daí, sua marota. O que estás aqui a fazer? - De seguida, inclinando-se, agarrou-me por um braço e puxou-me para cima. - Não posso dizer que não admiro a tua escolha de residência. Há quanto tempo estás aqui?

- Esta é a segunda noite.

Voltou-se para a sua companheira e verifiquei que era uma jovem rapariga bonita que eu não conhecia.

- Bem. O mistério está então resolvido.

- O que vai fazer, senhor Bevil? - perguntou a jovem. E então fiquei a saber que era uma das moças da terra que não eram convidadas a visitar Menfreya, pelo que perguntei a mim mesma o que estaria aqui a fazer, a esta hora da noite, com Bevil.

- Só há uma coisa a fazer. Vou mandá-la regressar já de barco a terra firme. E temos de dar conhecimento a seu pai de que foi encontrada. Oh... que criatura terrível!

- E tu? - volvi.

Isso fez com que Bevil voltasse a rir-se.

- Sim - disse -, e tu e eu? Nada de recriminações de parte a parte, está bem, Harriet?

- Não - concordei, sem compreender, mas de repente quase feliz, primeiro por não ter de passar o resto da noite sozinha na ilha e, em segundo lugar, porque ele estava divertido pelo que eu fizera e porque compreendi que, do mesmo modo que me descobrira onde eu não devia estar, também eu o descobrira a ele.

Baixou os olhos para mim.

- Não devias ter deixado a vela a arder -acrescentou. Muita falta de cuidado. Vimos a luz tremeluzente na janela quase logo que desembarcámos. - O seu rosto ficou de repente severo. - Sabes, Harriet, que está toda a gente preocupada contigo? Fizeram tudo, menos dragar o Tamisa. Ele estava a brincar, mas sentia-se desorientado, e uma vez mais experimentei essa excitação de prazer. Nunca até agora sentira toda a sua atenção concentrada em mim. Verifiquei que quase esquecera por completo a sua companheira. Descemos para o barco e num curto espaço de tempo chegámos a terra firme, tendo ele ordenado à rapariga: - Agora, vá-se embora. - A boca dela abriu-se e ela olhou para ele, surpreendida, mas o mesmo repetiu, com impaciência: - Sim, vá-se embora. - Ela lançou-lhe um olhar tristonho e, levantando as saias até às coxas, passou as pernas por cima do bordo do barco e desceu para a água, pouco profunda. Tinha os pés descalços e ficou por momentos, com a água a rodear-lhe os tornozelos, a olhar para trás, no intuito de se certificar se Bevil estava a observá-la. Mas ele não estava. Olhava para mim, com as mãos sobre os remos. - Porque é que fizeste isto? indagou.

 

- Porque quis.

- Fugiste para passar uma noite na ilha?

- Não foi por isso.

- Como chegaste lá? - Não respondi. Não ia envolver Gwennan. - És uma criança estranha, Harriet - afirmou.

- Suponho que te preocupas demasiado com coisas que não têm metade da importância que tu pensas terem.

- Não podes saber a importância que tem para mim o facto de ser coxa. - De repente, fiquei violentamente irritada.

- Dizes que não é importante. Não é, para ti. Não tens de andar a coxear, pois não? Claro que podes pensar que não é importante. Não é contigo.

Ele olhou, sobressaltado.

- Minha querida Harriet, como estás inflamada. As pessoas não gostam menos de ti por seres coxa. É isso que estou a tentar dizer-te. Mas não é essa a questão neste momento, pois não? Tu fugiste. Existe um grande rebuliço por tua causa. Não estás a planear fugir de mim, pois não? É que eu apanho-te e trago-te de volta. Quero ajudar-te. - Inclinou-se para mim. O seu olhar era trocista, com um pouco de ternura, que me emocionou e me fez sentir feliz. - A vida lá era impossível? - Confirmei, com um gesto de cabeça. - O teu pai, suponho. - Suspirou. - Minha querida Harriet, tenho receio de ter de te levar de volta. Vou ter de dizer que te encontrei. Se o não fizesse, seria cúmplice da situação ou qualquer coisa do género. Quem foi que te trouxe? Gwennan, suponho eu. Tem andado todo o dia exaltada, cheia de autoridade. Por i sso, foi Gwennan! - Não respondi. - Palavra de honra! - exclamou. - És de muita confiança. Bem, não há nada a fazer a não ser enfrentar a situação. Mas diz-me: quais são as tuas intenções?

- Não sei.

- Queres dizer que fugiste sem decidir para onde ias?

- Vim para aqui.

- De comboio, julgo eu. Que atrevimento o teu. Mas deverias ter um plano de campanha, pois claro. E que pensavas tu conseguir?

- Não sei.

Ele abanou a cabeça. De seguida, o rosto tornou-se-lhe outra vez meigo de repente.

- Pobre Harriet, deve ter sido difícil.

- Ouvi a tia Clarissa falar sobre a dificuldade de me arranjar marido - deixei escapar, em segredo. - Porque - acrescentei - era.

- Bem, não deixes que isso te preocupe. Quem sabe, talvez até eu case contigo. - Ri-me. - Estás a ofender-me - comentou, trocista. - Estou aqui a fazer-te uma sugestão perfeitamente razoável, e tratas-me com desdém!

- Bem - expliquei eu -, não era a sério.

- As pessoas nunca me levam a sério. Muitas vezes, sou leviano. - Livrou-se dos remos e, inclinando-se para mim, beijou-me na testa. E fiquei então consciente, por completo, do encanto dos Menfreys. Quando me ajudou a sair do barco, segurou-me por momentos, com o seu rosto perto do meu.

- Não te esqueças - avisou -, vai haver algum barulho. Mas há-de passar. Vem. Agora, vamos e enfrentemos os  factos. - Assim que atravessámos o pátio, os cães começaram a ladrar. A entrada estava pouco iluminada por dois jactos de luz de gás que pareciam duas lanternas, e havia apenas luz suficiente para mostrar o tecto abaulado e as armaduras, aos pés da escada. Bevil gritou de modo a que a voz ressoasse até ao telhado:

- Venham ver o que encontrei. Harriet Delvaney! Tenho-a aqui comigo.

Então, toda a família acordou. O barulho das vozes começou a surgir de todos os lados.

Sir Endelion e Lady Menfrey apareceram primeiro, a seguir, alguns dos criados, e dei com Gwennan ao cimo da escada a olhar para mim com os olhos muito abertos, num ar de censura.

Senti-me aliviada, porque já não era preciso dizer para comigo: "Que fazer a seguir? " Senti-me excitada porque a aventura desta noite me aproximara mais de Bevil.

Sentei-me na biblioteca a beber leite quente.

Lady Menfrey continuou a murmurar:

- Harriet, mas como pudeste? Coitado do teu pai... loucura. completa loucura.

- Tivemos de lhe telegrafar - informou-me Sir Endelion, em tom justificativo e puxando pelo bigode. Então, pensei como os pecadores eram muito mais simpáticos. Sir Endelion estava longe de se mostrar tão chocado como Lady Menfrey; assim como Bevil.

Bevil sentou-se à mesa, sorrindo-me, como se quisesse dar-me coragem. Não era capaz de me sentir infeliz ou assustada enquanto ele ali estivesse.

Gwennan entrara devagarinho de modo a que não dessem pela sua presença e a mandassem voltar para a cama, e estava a observar-me com atenção.

- Não consigo imaginar o que irá ele dizer - suspirou Lady Menfrey. - Pelo menos, fizemos os possí veis.

- Vais ter de enfrentar a situação, minha querida. - Era Sir Endelion, e a sua voz soou como a de Bevil.

- Exactamente aquilo que eu disse - referiu Bevil. - Não nos vamos repetir. Penso que Harriet deve ir para a cama dormir.

Depois, ficará em melhor estado para o interlúdio musical.

- Já disse a Pengelly que preparasse uma cama - participou Lady Menfrey.

- O quarto ao lado do meu - acrescentou Gwennan.

- Gwennan, minha querida, o que estás aqui a fazer? Tu devias estar na cama a dormir. - Lady Menfrey parecia preocupada. A sua família, penso eu, era uma fonte de ansiedade permanente para si.

- Acordou com a chegada de Harriet - explicou Bevil. Deve ter sido um choque enorme para ela.

- E foi - retorquiu Gwennan, em ar de desafio.

- Foi uma surpresa assim tão grande? - perguntou Bevil. Gwennan lançou um olhar mal-humorado ao irmão. - O último lugar onde tu terias esperado encontrá-la.

- E tu também? - insinuou Gwennan. - De outro modo não terias resolvido ir lá de noite.

 

Sir Endelion rebentou às gargalhadas e Lady Menfrey parecia admirada. Imaginei quanto esta família era excitante e desejei com ardor pertencer-lhe. Notei que todos, excepto Lady Menfrey, estavam a adoptar um ponto de vista indulgente em relação ao que eu fizera e que a opinião de Lady Menfrey não contava muito.

- Se eu soubesse que Harriet lá estava, não teria ido lá a noite passada, isso garanto-te - retorquiu Bevil.

Pus o copo em cima da mesa.

- Gwennan - chamou Lady Menfrey -, já que aqui estás, talvez queiras levar a nossa convidada para o quarto.

Dei as boas-noites, a Bevil, a Sir Endelion e a Lady Menfrey e subi as escadas juntamente com Gwennan. Mesmo num momento como este, não poderia deixar de me sentir excitada, por estar em Menfreya.

- O teu quarto é ao lado do meu - afirmou ela. - Disse a Pengelly que queria que fosses para lá. Por isso, não descobriste...

- Eles sabem. Não havia nada a descobrir.

- Sobre mim, quero dizer. - Abanei a cabeça. O quarto que me deram era grande (todos os quartos eram grandes, em Menfreya), com um assento na janela em volta do vão que dava para a ilha. Na cama dupla estava uma camisa de noite de flanela cor-de-rosa. - Uma das minhas - indicou Gwennan. - Tens de te despir já. - Eu hesitei. - Despacha-te

- insistiu ela. - Não sejas tão pudica. - Retorci-me para fora das roupas, enquanto ela me observava, e, quando me enfiei na cama, sentou-se aos pés, apertando os joelhos e com os olhos ainda em mim. - Não tenho a certeza de que não vais para a prisão - adiantou. - Apesar de tudo, trouxeram a polícia, e, quando isso acontece, nunca se sabe. - Podia verificar que, enquanto ela me censurava, o seu espírito estava ocupado com planos para me salvar. - Mas penso que isso não irá acontecer. O teu pai vai suborná-los para não o fazerem. Eu também estou metida nisto. Eles vão querer saber quem te levou para lá e quem roubou a despensa. A senhora Pengelly deu por falta daquela perna de frango que ontem te trouxe. E de outras coisas. As suspeitas recaem sobre mim... e vou estar no banco dos acusados contigo. Isso deve ser reconfortante. A mamã e o papá serão chamados a depor muitas vezes e ter-se-á de tomar uma decisão. E, a propósito, Bevil vai ficar furioso contigo.

- Furioso comigo, porquê?

- Porque estragaste a sua aventurazinha. Desde que o papá mobilou a casa, ele utiliza-a nas suas seduções. É romântica e o medo que as mulheres têm dos fantasmas acrescenta um pouco de picante à situação. Ele pode ser corajoso e protector, conseguindo o seu objectivo em metade do tempo.

- Estás a inventar. Como podes tu saber?

- Minha querida Harriet, todos os Menfreys sabem uns dos outros. É um dom que nós temos. Todas as mulheres acham os homens da família Menfrey assoladoramente atraentes e o mesmo se passa com os homens em relação às mulheres da família Menfrey. Não o podemos evitar. Temos de aceitar este facto.

Olhei para ela e acreditei que assim fosse, o que me entristeceu.

- Estou cansada - anunciei- lhe eu. Queria estar só, a fim de examinar esses momentos em que estive com Bevil no barco, para me lembrar de cada palavra que ele me dissera.

- Cansada! - gritou Gwennan. - Como podes estar cansada quando pensas no amanhã? Que bela coisa eu não ter mandado a carta a pedir resgate.

- Estava fora de questão uma carta a pedir resgate.

- Estava fora de questão? Estive de volta do rascunho. Não penses que deixaria passar uma oportunidade dessas! Os Menfreys nunca perdem as suas oportunidades.

- Não acredito nisso - fechei os olhos.

- Está bem - exclamou, irritada, saltando da cama. Vai dormir e sonhar com o dia de amanhã. Não gostaria de estar no teu lugar, Harriet Delvaney. Espera até que chegue o teu pai.

Gwennan e eu estámos à espera do coche dele, pelo que vimo-lo chegar. Muito pouco tempo depois, fui chamada à biblioteca.

Nunca vira os seus olhos tão frios, nunca olhara para mim com tanta aversão, e nunca me senti tão feia como quando entrei a coxear na biblioteca. Por estranho que pareça, quando me sentia consciente da minha deformidade, gostava que esta se tornasse mais evidente e na presença dele sentia-me sempre consciente dela.

- Chega aqui - ordenou. Como sempre, o tom da sua voz, quando se me dirigiu, fez-me sentir como se estivessem a deitar-me água fria nas costas. - Estou mais chocado do que aquilo que possas crer. Nunca seria capaz de contar com tanta ingratidão, tanto egoísmo, tanta maldade. Como pudeste. até mesmo tu. e aprendi que és capaz de tomar muitas atitudes indignas. mas como foste tu capaz de semelhante conduta! - Não respondi. A última coisa de que seria capaz seria de lhe explicar as minhas razões. Nem eu mesma me sentia bem segura delas. As causas tinham-se enraizado profundamente, e eu sabia, nesta altura, que aquelas palavras

mal escolhidas da tia Clarissa não foram o único motivo por que fugira de casa. - Fala quando te fizer uma pergunta. Não me faltes ao respeito nem sejas. ingrata.

Deu um passo em direcção a mim e pensei que me ia bater. Quase desejei que o fizesse. Penso que teria suportado melhor um ódio quente do que uma aversão fria.

- Papá, eu. queria vir-me embora. Eu.

- Tu querias fugir? Querias causar problemas. Porque vieste para aqui?

- Eu. eu queria vir para Menfreya.

- Uma fantasia de momento. Deverias ser castigada... insensível. - A sua boca contraiu-se, numa expressão de repugnância. Eu sabia que a violência física o repugnava. Um cão que lhe desobedecesse não era castigado, era destruído. Então, pensei que ele havia de gostar de me destruir. Mas nunca me havia de castigar. Afastou-se, como se não fosse capaz de suportar olhar para mim. - Tens tudo o que queres. Tens todo o conforto. No entanto, não demonstras qualquer gratidão. Divertes-te a causar-nos uma ansiedade enorme e a levantar-nos problemas. Quando penso que foi ao dar-te à luz que a tua mãe morreu.

Queria gritar-lhe que parasse. Não podia suportar ouvi-lo dizer isto. Sabia que ele o pensava muitas vezes, mas ouvir as palavras transmitiu a esta horrível situação um significado mais profundo. Quis arrastar-me para um canto e chorar.

 

No entanto, apesar da dor que sentia, o meu rosto começou a formar esses traços feios e obstinados e não fui capaz de o impedir. Ele viu isto e a aversão que nele era profunda para com este monstro que lhe roubara um ente querido soltou-se por momentos. Sentiu um breve conforto em dar liberdade ao ressentimento amargo, que se mantivera latente durante anos.

- Quando te vi. quando me disseram que a tua mãe estava morta, tive vontade de te expulsar de casa.

As palavras tinham saído. Feriram-me com mais crueldade do que qualquer chicote o poderia ter feito. Ele materializara a cena. Vi o bebé feio nos braços da ama, vi a mulher morta na cama e o rosto dele. Até consegui ouvir a sua voz: "Expulse-o de casa. "

Ficava para sempre no meu espírito. Anteriormente, eu imaginara a sua aversão, conseguira iludir- me, acreditando que a imaginara, que ele era um homem que não exprimia com facilidade os seus sentimentos, que muito, no fundo, me amava. Mas estava tudo acabado.

Talvez se sentisse envergonhado. A sua voz tornara-se mais branda.

- Perdi as esperanças de alguma vez te incutir um sentimento de decência - afirmou. - Não só causas problemas a ti própria como também aos outros. Todo o ambiente lá de casa se desfez. Fomos invadidos pelos repórteres. – Estava a falar para esconder a confusão, e eu só ouvia metade do que ele dizia, porque estava a pensar na sua raiva enquanto olhava para o bebé nos braços da ama. - Pelo menos - adiantou -, não precisas de abusar da hospitalidade de Menfreya mais tempo do que o necessário. Vamos partir de imediato para Chough Towers.

Chough Towers era uma mansão do princípio da época vitoriana que ficava a cerca de um quilómetro e meio de Menfreya. O meu pai arrendara-a já mobilada a uma família de nome Leveret que fizera fortuna com argila para porcelana, que extraíam perto de St. Austell. A casa era quase tão grande como Menfreya, mas faltava-lhe a personalidade desta última. Era uma casa feia e, como referi, parecia sempre fria e pouco pessoal, mas talvez isso fosse porque o meu pai a arrendara e era a sua personalidade que se infiltrara nela. Se fosse habitada por uma família feliz, poderia ter sido uma casa feliz. Os quartos eram enormes e apainelados, com grandes janelas, que davam para relvados bem cuidados, e havia uma enorme sala de baile no rés-do-chão, com óptimas dimensões, ao fundo da qual se via uma escada larga, de carvalho. Tudo o que se tinha podido fazer para dar um ar de antiguidade ao local fora feito. Existia mesmo uma galeria de menestréis, que sempre considerei imprópria numa casa como esta; a estufa era agradável, porque estava cheia de plantas coloridas, mas tudo o mais era demasiado ornamentado e pesado; as torres barrocas e as ameias eram falsas, e era absurdo chamar-lhe Chough Towers, porque nunca vi gralha nenhuma perto do local. Tratava-se apenas de uma imitação exibicionista, fingindo ser o que não era.

Cercava-a um parque, mas tornava-se evidente que as árvores dos caminhos não tinham sido plantadas havia mais de trinta anos. Não havia nenhum desses teixos antigos agitados que se encontravam em Menfreya. Eu andava apaixonada por Menfreya e talvez sentisse a diferença de uma forma mais subtil do que a maioria das pessoas. Chough Towers era, suponho, uma bela mansão inserida numa bela paisagem, mas não possuía eco algum do passado, segredo algum. Era apenas o sinal exterior do desejo de um homem que se elevou pelo seu próprio esforço, de construir uma moradia tão grande como aquelas que eram desfrutadas por pessoas perante quem, uma geração antes, teria esperado inclinar-se como o povo. Mas uma casa é mais do que paredes e janelas... ou mesmo requintadas salas de baile e estufas, um parque e relvados.

Servia para o meu pai, porque ele passava apenas uma certa época do ano nas proximidades e não tinha a certeza se queria comprar ali uma casa. Se, eventualmente, perdesse o lugar no Parlamento, por certo não pretenderia conservar Chough Towers.

Quando entrámos na casa, tive consciência da atmosfera de silêncio. Suspeitava que os criados falavam de mim, talvez algum deles estivesse a espreitar-me. Tornara-me um objecto de interesse porque o meu nome aparecera nos jornais. Iria voltar a aparecer, porque a descoberta do meu paradeiro teria de se conhecer, dado que houvera tanta preocupação pelo meu desaparecimento.

- Vai direita ao teu quarto e fica lá até que te dêem autorização para sair - ordenou o meu pai.

E como me senti contente por escapar.

Estava prisioneira. Só iria ter pão e leite até que meu pai desse novas ordens. Nenhum dos criados ia falar comigo. Caíra em desgraça.

Sentia-me provocadora e fingia não me importar, mas os meus sentimentos dividiam-se entre a angústia e o júbilo.

Por vezes, conseguia pôr termo a todas as recordações, excepto à de Bevil, além, sentado no barco. Conseguia ver os seus olhos estranhos a brilharem de ternura... não, na realidade era de troça. "Eu mesmo poderia casár contigo... " Estava a brincar, e, no entanto, talvez não o estivesse totalmente. De qualquer modo, na minha situação actual, era agradável iludir-me e acreditar que ele pudesse estar a querer dizer isso. Era um sonho alegre e feliz.

A seguir, havia o outro, triste e cruel: o quarto da morta, o bebé com o rosto engelhado. Vira bebés recém-nascidos e achava-os feios e de certeza que eu em particular deveria ter sido assim. Podia imaginar o impulso louco de um homem normalmente comedido. Podia sentir a reacção súbita, o desejo de se ver livre da criatura não desejada cuja vinda lhe custara um preço tão elevado.

No segundo dia do meu cativeiro, meu pai veio ao meu quarto. A minha disposição melhorou porque verifiquei que estava vestido para partir.

 

- Vais ficar dentro do quarto durante uma semana - declarou -, e espero que no fim desse tempo estejas bastante castigada. Ocorreu-te que a tua vida poderia ser interrompida a qualquer momento? Gostaria que tivesses em consideração durante os próximos dias que caminhas para a condenação eterna. Em atenção a ti... sei que és demasiado egoísta para fazeres isso por mim... modifica os teus hábitos. Vais ficar aqui até ser altura de ires para o colégio. - Estava demasiado admirada para falar. De repente, era arrancada da contemplação dos tormentos do Inferno para considerar uma vida totalmente nova. O colégio! - Sim - prosseguiu -, tens uma necessidade enorme de disciplina. Se fores desobediente no colégio, serás castigada com severidade. Miss James era demasiado branda contigo, receio. Claro que agora vai deixar-nos. - Pensei em Miss James a fazer as malas e a chorar discretamente, porque estava assustada com o futuro. Pobre Miss James! Iria assombrar o meu espírito durante as próximas semanas, apesar das perspectivas alarmantes que se apresen tavam. - Por isso, vai ser despedida... Vê como os teus actos irreflectidos afectam os outros. - Um pensamento assustador ocorreu-me. Fanny! Então, e Fanny? Murmurei o seu nome baixinho, mas ele ouviu-me. - Ela fica. Vai ser empregada noutro serviço. E, quando estiveres de férias, vais precisar de uma criada. - Gestos de gratidão! Fanny estava salva. Porque não pensei no que lhe poderia ter acontecido antes de fugir? O meu pai tinha razão. Devo pensar antes de agir. Ele prosseguiu: - É meu desejo sincero que aprendas um pouco de generosidade. Esta tua atitude irreflectida sem motivo causou-me enormes problemas. Lembra-te disso, e, se alguma vez te sentires tentada a voltar a ser tão má, peço- te que consideres, porque não me vais achar tão indulgente da próxima vez.

- Vais-te embora, papá - disse eu.

- Vou continuar o trabalho que tu interrompeste. Olhou para mim por momentos e pensei que ia tomar-me nos braços e beijar-me. Para meu espanto, compreendi que queria que ele o fizesse.

Se tal tivesse acontecido, eu teria chorado, ter-lhe-ia dito como me sentia infeliz, como tinha pena de ter nascido, como regressaria de boa vontade àquele limbo onde se encontram os bebés que não nascem e ficaria lá, se ao fazê-lo pudesse trazer a minha mãe de volta para ele.

Essa era uma parte de mim, a outra parte odiava-o. Esta predominava, o que se revelava na minha expressão carrancuda.

Ele voltou-se e deixou-me.

A atmosfera da casa ficou consideravelmente aliviada quando ele partiu.

Passada uma hora, A'Lee começou a abrir a minha porta. Trazia um tabuleiro coberto por um pano e, quando entrou, declarou:

- Bem, Miss Harriet, o senhor regressou a Londres e voltamos a estar sós. - Pousou o tabuleiro, fez-me um sinal com a mão e retirou de súbito o pano, para fazer aparecer um pastel de carne de caça da Cornualha, castanho-dourado, quente e apetitoso, acabado de sair do forno, e um copo de sidra. Juntamente com tudo isso vinha uma fatia enorme de bolo de passas de uva. - Foi tudo aquilo a que a senhora A'Lee conseguiu deitar a mão num minuto.

- Parece delicioso.

- E também sabe bem, se é que eu conheço a senhora A'Lee.

- Mas penso que tenho de estar a pão e leite.

- Tanto eu como a senhora A'Lee nunca gostámos disso. - Sentei-me à mesa e cortei o pastel. O vapor delicioso fez-me crescer água na boca e A'Lee olhava com satisfação. Bem, agora acabou-se esse pão e leite sem sentido.

- Isso é que o meu pai havia de ficar furioso se soubesse. Seriam despedidos... tanto o senhor como a senhora A'Lee.

- Nós os dois, não. Fazemos parte da casa, nunca se esqueça. Ele nunca gostou de nós. Nós não somos como o seu mordomo de Londres, suponho. - A'Lee pegou no pano que cobria o tabuleiro, dobrou-o por cima do braço e começou a andar pelo quarto com um ar afectado e pretensioso. As suas tentativas de imitar o sotaque mais que requintado de Polden, que vira uma vez ou duas, quando este viera a Chough Towers, para dirigir alguma ocasião especial, eram tão exageradas que me fizeram rir, tal como A'Lee pretendia. - Não

- acentuou -, se somos muito bons para o senhor Leveret, também somos muito bons para vocês.

- Não gostavam que o senhor Leveret tivesse continuado a viver aqui?

- Oh, isso é que eram tempos. O senhor Harry pode voltar. Mas está tão ocupado em St. Austell e noutras zonas, dizem eles. Creio que é próprio de nós trabalhar para os Leverets, e não para aqueles senhores elegantes e extravagantes de Londres como.

- Como o meu pai? Tu não queres trabalhar para ele, pois não, A'Lee?

- Bom, ele tem uma donzela simpática como filha.

- E ela pelo menos gosta mais de ti do que desse estúpido do Polden.

- Bom, ela é uma verdadeira senhora, é sim senhor. Rimo-nos os dois. - Essa sidra é do meu próprio fabrico. Fi-la para o senhor Leveret. O senhor Harry embriagou-se com ela um dia. Com pouco mais de oito copos, já estava. Andava a fungar à volta do barril, e eu não sabia que se estivera a servir a si próprio. Aquilo é que eram tempos, oh, se eram. Não beba mais do que para lhe sentir o gosto, Miss Harriet. Olhe que é uma droga que lhe sobe à cabeça.

- Não tenho muitas hipóteses. Vou-me embora para o colégio.

- Sim, estivemos a ouvir isso. Bom, há-de voltar, suponho. E ela também vai consigo, logo, vai haver fogo-de-artifício como nunca.

- Quem?

- Miss Gwennan de Menfreya.

- Oh... A'Lee! É verdade?

- Ficou muito contente, na verdade.

- Isso vai transformar tudo.

Ele abanou a cabeça.

- Não sei. Esses Menfreys...

- Tu não gostas muito deles, pois não, A'Lee?

- Oh, não é propriamente uma questão de gostar ou não gostar. São estouvados. E andam à procura de sarilhos. É por causa dos sarilhos dos Menfreys que está aqui. sentada nessa cadeira a saborear o pastel da senhora A'Lee como se fosse um manjar dos deuses, porque ele não lhe podia ter sabido muito melhor, isso salta à vista.

- Por causa dos sarilhos dos Menfreys? Mas porquê?

- Bom, porque é que está aqui? Porque o seu pai, Sir Edward Delvaney, é o deputado. Durante perto de sete anos, vai ser o deputado. Mas antes foi sempre um Menfrey que esteve no Parlamento, em Londres, em nossa representação. Nunca cá houve estranho algum até estes últimos sete anos.

- Então, Sir Endelion era o deputado por Lansella?

- Claro que era. E, antes, era o pai dele. Desde que houve deputados, foram os Menfreys que representaram Lansella.

- E por que motivo Sir Endelion desistiu?

 

- Ora, valha-me Deus, minha querida, não foi ele que quis desistir, obrigaram-no. A rainha, que dizem ser bastante rígida, não iria ter nenhum dos seus ministros com má reputação, não é? E Sir Endelion era uma pessoa muito importante lá em Londres. Poderia ter sido um dos mais importantes, se não fosse isto. Primeiro-ministro, digamos... ou coisa parecida.

- Qual foi o escândalo?

- O costume. Nunca deve perguntar qual, quando se trata dos Menfreys, minha querida, mas quem.

- Alguma mulher?

A'Lee confirmou com a cabeça.

- O escândalo vulgar. Lá em Londres, também. Aqui, já estamos habituados a isso. A família Menfrey sempre foi boa para as raparigas que arranjavam sarilhos à sua custa. Acham-lhes os maridos mais indicados ou os lares para os filhos. Mas isto foi em Londres. Alguma senhora de elevada condição social, e o marido divorciou-se dela durante o mandato de Sir Endelion.

- Coitada da senhora Menfrey!

- Oh, é uma senhora dócil, é sim, até o desculpou. E pela primeira vez, que cada um de nós se lembre, não temos um Menfrey no Parlamento em nossa representação. Foi assim que veio o seu pai.

- Eles parecem não se importar.

- Há pessoas que dizem que ele está a cuidar do lugar para o senhor Bevil.

- Então... este vai enveredar pela carreira política.

- Bem, os Menfreys sempre o fizeram. Devem ter uma intervenção no Governo, diz-se. São pessoas que normalmente têm a sua intervenção. O senhor Bevil vai voltar, suponho. Quando chegar a altura. E então haverá um Menfrey em Londres a representar Lansella.

Terminei a sidra e engoli o último pedaço de bolo de passas.

- Estava muito bom, A'Lee - lisonjeei-o. E pensava na pobre da Lady Menfrey: como se deveria ter zangado. ou sofrido. Infeliz, em qualquer dos casos. Podia imaginar Sir Endelion de regresso a Menfreya, expulso do Parlamento devido ao escândalo.

Não admira que lhes chamassem os Menfreys Fantásticos. Nesse dia, mais tarde, Gwennan veio ver-me.

- Assim que ouvi contar que o teu pai partira, vim logo - anunciou. - Vamos para o colégio... juntas. Somos indisciplinadas, e eles não nos conseguem controlar. Que divertido! Nunca teriam pensado em mandar-nos embora, se não tivesses fugido. Isto é o fim de tudo.

- Não é o fim - objectei. - Como pode ser o fim de tudo irmo-nos embora e começar uma nova vida?

Tinham-se passado três anos desde que fugira, e foram os anos mais felizes que conhecera até essa altura, embora não fosse tão popular no colégio como era Gwennan. Eu era mais estudiosa, e, embora não possuísse uma inteligência brilhante, o meu desejo de sobressair de algum modo ajudou-me de forma considerável. A minha diligência agradava aos professores e por causa disso era razoavelmente feliz.

A amizade entre a minha família e os Menfreys aumentara. O meu pai estava mesmo muito interessado em Bevil, porque A'Lee tinha razão ao afirmar que os Menfreys sempre fizeram carreira política. Bevil decidira justamente fazê-lo, e creio que um dia ele esperava trazer de volta a tradição da família de representar Lansella. Entretanto, regressara da Universidade viajara pela Europa numa espécie de Grande Excursão e estava a ajudar o meu pai no seu trabalho, na perspectiva de ganhar a oportunidade de se candidatar a deputado quando esta surgisse.

Quando os vi juntos, fiquei admirada, porque o meu pai era, de verdade, encantador com Bevil, que, tenho a certeza, não fazia ideia nenhuma de como ele era capaz de ser diferente com a sua própria filha.

As férias de Verão eram passadas em Chough Towers, o que era tão bom como viver em Menfreya. O meu pai decidira que o ar de Londres não era tão bom para mim; portanto, lá não era um estorvo, não obstante ser posta aos cuidados dos A'Lees, facto que me agradava, sobretudo porque passava a maior parte do tempo em Menfreya, onde era considerada como fazendo parte da família.

Tornara-me mais comedida. Ainda me sentia revoltada contra o mundo, mas era capaz de controlar os sentimentos com mais facilidade. Por vezes, sonhava que o meu pai tentava expulsar-me de casa ou me perseguia com um chicote. Lembro-me com nitidez do terror gelado com que acordava sempre destes pesadelos.

Não falava destes sonhos a ninguém. claro que nem a Gwennan. Mas Fanny sabia. Muitas vezes acordava e encontrava-a ao lado da cama, porque eu gritava durante o sono. Algumas vezes deitava-se apenas comigo na cama e abraçava-me até eu cair num sono tranquilo; outras, falava comigo sobre o orfanato. Era raro ter estes sonhos quando estava no colégio.

Durante algum tempo tive receio de poder perder Fanny e compreendi como ela era importante para mim. Era ela quem me cosia os monogramas nos uniformes do colégio e insistia comigo para que mudasse de roupa quando apanhava chuva.

Gwennan sentia inveja de mim, por eu ter a Fanny.

- Tens muita sorte em ter uma criada só para ticonfessou-me. - Vai ficar perto de ti até morrer.

Divertia-me ser invejada por Gwennan; por isso, era mais uma coisa por que tinha de estar grata a Fanny.

Gwennan era a rapariga mais atraente do colégio e a mais franca, de uma forma escandalosa. Encantava a seu modo, sem quaisquer problemas, e creio que, se não tivesse sido capaz de o fazer, poderia até ter sido expulsa. Tivera razão quando afirmou que os Menfreys eram fatalmente atraentes para o sexo oposto. Houve um ou dois romances, quando estávamos no colégio, que passaram despercebidos, mas dos quais ela gostava de se vangloriar. Até que ponto chegaram, não tive a certeza: nem sempre poderia acreditar no que ela me dizia. Estava sempre com medo do que ela fizesse a seguir, mas o meu maior receio era ser excluída das suas confidências.

Foi ela quem me anunciou que Bevil se iria candidatar ao Parlamento e que meu pai estava a ajudá-lo. Estava à espera de que houvesse um círculo eleitoral para si, que depois iria "cuidar" e esperar por um lugar numa eleição parcial ou nas próximas eleições gerais.

- O teu pai pode fazer muito por ele; por isso, o papá e a mamã estão muito ansiosos por que sejamos todos amigos. Eis a razão por que, minha querida Harriet, fomos juntas para o colégio e tu és tão bem recebida em Menfreya.

- Parece um motivo horrível.

- Os motivos muitas vezes são-no.

- Então, é por isso que és minha amiga?

- Não. Eu não poderia ser subornada.

- Não vejo como te pudesse subornar.

- Tu, não. Mas todo esse dinheiro poderia. A mamã e o papá querem que sejamos amigos, mas é por causa do Bev. Eu, porém, tenho as minhas próprias razões.

- O quê?

- Tu serves para realçar a minha beleza. - Riu-se. - Ah! Agora, pareces aborrecida. Palerma. Como se a minha beleza precisasse de ser realçada. Aliás, nunca acreditei nisso. Não, gosto de ti porque te zangas com tudo e foges, e tudo isso. Ficaste também naquela noite em No Man's e não me fizeste entrar. Estou contente por ires casar-te com Bevil.

- Casar-me com Bevil!

- Bom, estás apaixonada por ele, não estás? Minha rica vida! como diria a senhora Pengelly. Estás a corar. Ficas melhor vermelha do que pálida. Por isso, não é má ideia. Vou dedicar-me a isso, Harriet.

- Não sei o que queres dizer com... casar.

- Então, és mais cega do que uma dúzia de morcegos. Sabes como se arranjam as coisas nas familias como a nossa. Escolhem-nos os nossos maridos... como nas famílias reais. Bevil é para ti e Harry Leveret para mim. Pobre Harry, tem o cabelo ruivo e não se lhe conseguem ver as pestanas. Nem creio que tenha muitas, mas digo-te o que ele tem em grande quantidade: são libras, xelins e dinheiros. E acontece que a minha família pensa que isso é muito mais importante do que as pestanas. E tu tens o mesmo. É por esse motivo que temos tanto gosto em convidar os Leverets e os Delvaneys para Menfreya. É lógico, não é?

- Eles são muito... interesseiros.

- Tem compaixão, Harriet. Eles são pobres. Possuem a maior mansão do Sul da Cornualha, que é um velho monstro que come todas as libras, xelins e dinheiros. Não fazes ideia. Estamos fracos. Sempre estivemos. Os monstros exigem o sangue de virgens jovens e ricos como tu e o Harry. Tu é-lo, eu sei-o e tenho a certeza de que Harry também o é. Por isso, precisamos de vós.

- Bevil sabe disso?

- Claro que sabe.

- E não se importa?

- Importar-se? Porquê? Ele está encantado.

- Queres dizer que ele gosta um pouco de mim?

- Não sejas pateta, Harriet. Tu és uma herdeira. O teu pai arranjou todo aquele dinheiro. E quem mais tem ele a quem o deixar?

- Penso que ele não me vai deixar nada a mim.

- Claro que vai. As pessoas deixam sempre o seu dinheiro aos seus herdeiros... por muito que os odeiem. É orgulho, ou qualquer coisa.

- Mas é brutal... para ti e para Bevil, quero dizer.

- Valha-te Deus. Nós não nos importamos. - Levantou-se e juntou as mãos entrelaçadas a tentar parecer-se com uma santa. - É por causa de Menfreya - acrescentou. Foi logo a seguir a isso que me mostrou uma mesa na entrada. - Antigamente - declarou -, estava embutida de pedras preciosas. Rubis, creio. Vê, foram todos tirados. Foram utilizados um a um pelos nossos antepassados... para salvar Menfreya.

Bom, agora já não há rubis, pelo que tem que haver mulheres e maridos.

- Hei-de ser uma mulher mais preciosa do que os rubisprometi.

Rimo-nos as duas despropositadamente. Era assim que acontecia com Gwennan: por mais que me magoasse, havíamos sempre de rir as duas, e, por mais que troçasse de mim ou me criticasse, era sempre a sua melhor amiga.

Quando o meu pai decidiu dar um baile de máscaras em Chough Towers, Gwennan resolveu ir. Tínhamos dezasseis anos, e nenhuma de nós fora ainda "apresentada à sociedade" oficialmente, mas Gwennan atormentou Lady Menfrey até que ela concordou em que poderíamos observar da galeria, se o meu pai nos desse permissão para o fazermos. Como Lady Menfrey lhe pediu, ele concedeu-lha por amabilidade.

- Precisamos de roupas - explicou Gwennan, mas mesmo Lady Menfrey, que se deixava, por norma, convencer pela família, não levou isso a sério.

Gwennan mostrou-se zangada, ficou furiosa, vociferou e durante dias não falou noutra coisa senão em vestidos e em como os poderíamos arranjar. Então, um dia, quando fui a Menfreya, encontrei-a num estado de excitação.

Cumprimentou-me com estas palavras:

- Tenho uma coisa para te mostrar. Vem. É num sítio onde nunca estivemos. - Menfreya sempre me parecera misteriosa, porque havia muitos sítios que nunca explorara, e a ideia de ver uma parte nova excitava-me, razão por que segui Gwennan com ansiedade, a qual me levou através da casa até à ala este, que nunca era usada e que consistia na parte mais antiga. - Esta ala necessita de tantas reparações que até serem feitas não podemos habitá-la. Aliás, quem havia de querer? Vim ontem aqui, mas não gostei de cá estar, porque estava á ficar escuro. - Subimos uma pequena escada e chegámos a uma porta, que ela empurrou mas não foi capaz de abrir.

- Foi difícil abri-la ontem, mas consegui. Não se abria há anos, suponho que desde que eu e Bevil aqui viemos, há séculos. Não fiques aí parada. Dá-me uma ajuda.

Encostei o ombro à porta e empurrei tudo o que podia. Moveu-se com lentidão a princípio e a seguir abriu-se, mostrando uma passagem escura, que cheirava a velho e a humidade. Caminhámos por ela.

- Devemos estar perto do torreão oriental - murmurei.

- Não há necessidade nenhuma de murmurarmos - gritou Gwennan. - Ninguém nos consegue ouvir. Estamos completamente presas. O torreão, é certo. É para onde te vou levar.

Os meus dentes rangiam de excitação, não de frio, embora houvesse uma sensação de frio no ar.

- Imagina teres tudo isto e nunca cá vires - exclamei.

- Houve alguém que veio cá uma vez e deu um orçamento de tal ordem para o que se devia fazer que esquecemos tudo. Foi nessa altura que vim cá com Bevil fazer uma exploração.

- Quando eram crianças?

Não respondeu.

- Cuidado com estas escadas. Segura-te à corda. - Chegáramos a uma pequena escada em espiral: cada um dos degraus era íngreme e estava gasto no meio, e a corda funcionava como corrimão e como meio de nos puxarmos para cima. Gwennan parou ao cimo e esboçou um sorriso de desdém para mim. Mostrou as mãos. - Olha para o pó.

- O que é que te fez vir cá?

- Vais ver. Olha para esta porta. Foi colocada muito tempo depois de esta casa ter sido construída. Antigamente existia apenas um lambrim, que podíamos fazer deslizar, para entrarmos no quarto.

- Que quarto?

- Isto conduz a uma espécie de passagem e depois. entra-se no quarto assombrado. Esta porta também é difícil de abrir. - Era. Deu um gemido de protesto que parecia uma voz humana a avisar-nos de que não entrássemos. pelo menos foi o que eu sugeri, o que fez com que Gwennan risse às gargalhadas. - Seres capaz de pensar nisso! Agora... por aqui. Isto conduz ao torreão.

O ar estava, na realidade, muito frio neste momento. A passagem era estreita e as paredes de pedra. Como estávamos quase às escuras, aproximei-me de Gwennan e agarrei-me à sua saia.

A passagem abria-se para o que mal parecia um quarto: parecia mais uma abertura circular. Não havia janela alguma.

Existia, tão-só, uma fresta na muralha profunda, que deixava passar o ar e um pouco de luz.

- Que lugar tão estranho - exclamei.

- Claro que é. Costumavam guardar aqui os prisioneiros nos tempos antigos. Depois, claro, ele escondeu-a aqui... e acabou por se tornar assombrado.

- Não te estás a exprimir com clareza, Gwennan. Ela observava o meu espanto com prazer, enquanto eu olhava o local em redor. Caso curioso, havia um espelho apoiado contra a parede, com o vidro sarapintado e a moldura manchada. E havia um baú, verde do bolor. Reparei numa outra passagem como aquela por onde viéramos e indiquei-a a Gwennan.

- Vem, então. Vou mostrar-te. - Caminhou à frente, entrando na passagem, onde, em frente de nós, estava uma outra escada em espiral igual àquela que acabáramos de subir. Ela começou a subi-la, contando os degraus, íngremes, à medida que os pisava. Eram quarenta, e no cimo estávamos ao ar livre sobre um estreito caminho circular que nos levava à volta do torreão. - Era aqui que ela costumava vir apanhar ar - anunciou Gwennan.

- Quem?

- Ela, claro. Se ela anda, na verdade, penso que vem até aqui. - Os lados do torreão tinham ameias. Ajoelhámo-nos num rebordo e apoiámo-nos numa esquina, para olharmos da parte mais alta da casa para o mar, lá em baixo. Gwennan apontou as mísulas sobre as quais, afirmou, costumavam colocar os potes de azeite a ferver que atiravam para cima de quem quer que viesse atacá-los. - Imagina-os - referiu - a subir os rochedos e a sair dos seus aríetes. Isso foi há muitos e muitos anos... muito antes de ela estar aqui. - Enchi os pulmões de ar fresco e subi à pedra colocada logo a seguir às ameias. Então, pensei: "Como adoro esta casa, onde aconteceram tantas coisas excitantes e onde viveu e morreu tanta gente. " Desejei com todo o coração pertencer-lhe, ser um deles. Gwennan começara a contar-me a história. - Ela trabalhava aqui como preceptora das crianças, e este Menfrey, meu antepassado, apaixonou-se por ela. Quando Lady Menfrey descobriu, despediu-a, ordenando-lhe que saísse de casa. Pensou que ela se tinha ido embora, mas tal não acontecera. Compreende-se: ele não poderia suportar que ela se fosse embora. Então, trouxe-a para este local, porque ninguém sabia que ele existia, na altura. Costumava visitá-la naquele quarto ali em baixo. Consegues imaginá-lo, Harriet, movendo-se em silêncio em direcção à ala desabitada e fazendo deslizar o lambrim? Aposto que era um lambrim, nessa altura, e que ele tinha uma vela ou talvez uma lanterna... e estavam juntos. Ele teve de se afastar por uns tempos. Para Londres, penso... para o Parlamento... E o relógio da torre parou. Conheces o relógio da torre, do qual se diz que pára quando um Menfrey vai morrer.

- Não sabia.

- Tu não sabes nada. Bom, conta-se que o relógio da torre pára quando um de nós vai morrer de morte antinatural. É por isso que Dawney tem de ter cuidado em mantê-lo a trabalhar. Nós não acreditamos nestas histórias antigas, ou dizemos que não acreditamos, mas as outras pessoas acreditam. É o que o papá diz, e temos de nos lembrar. Deus lá sabe porquê.

- Bem, e que é que aconteceu? Porque parou o relógio?

- Porque ela morreu. Ela morreu ali... naquele quarto, lá em baixo... e o bebé também.

- Qual bebé?

- O dela, claro. Está bem de ver: ele veio antes do tempo... e ninguém sabia. Morreram os dois. Foi por isso que o relógio parou.

- Ela não era uma Menfrey.

- Não, mas o bebé era. Parou pelo bebé. Depois, Sir Bevil voltou.

- Quem?

- Penso que ele era Sir Bevil... ou Endelion, ou qualquer coisa... Voltou e encontrou-a morta. Selaram o quarto e nunca mais se pensou nisso durante muitos e muitos anos. até que alguém descobriu isto outra vez e colocou a porta em vez do lambrim. Mas ninguém vem aqui. Os criados não vêm. Dizem que está assombrado. Achas que está?

- Dá a impressão de ser frio e melancólico - comentei eu. Pendurou-se nas ameias com os pés levantados, para que eu ficasse horrorizada, com receio de que ela fosse cair. Fez isso de propósito, eu sabia, para mostrar como era ousada. - Vamos para baixo - pedi.

- Sim, claro. Há aquele baú. Estive uma vez lá dentro. Foi por isso que te trouxe. Mas queria mostrar-te isto primeiro. Voltámos ao quarto circular e Gwennan levantou a tampa do baú. O bolor verde caiu-lhe para as mãos, o que lhe provocou caretas, mas o conteúdo do baú fê-la sorrir. Puxava por aquilo que parecia um pedaço de veludo cor de topázio, mas eu não estava interessada, pensava na mulher que se apaixonara por um Menfrey. - Pensei que pudesse usar esta coisa castanha - explicou ela. Atirou-o ao chão e tirou para fora um rolo de veludo azul, que começou a ajeitar em pregas à sua volta. Apanhei o veludo cor de topázio. Era um vestido cujo corpo, fechado, tinha um decote perfeito e cujas mangas, largas, tinham sido talhadas de forma a deixarem ver o cetim dourado por baixo. A saia devia levar metros e metros de veludo. Pu-lo à minha frente e, quando olhei para a minha imagem reflectida naquele espelho sarapintado, não era capaz de acreditar que estava a olhar para mim. - Serve-te - exclamou Gwennan, desviando a atenção por momentos de si pró pria. - Veste-o. Sim, veste-o.

- Aqui?

- Sim. Por cima da tua roupa.

- Está tão frio que tenho a certeza de que está húmido.

- Não te vai fazer mal por uns minutos. É só o modelo para o baile.

Percebi a sua excitação enquanto fazia deslizar o vestido por cima da cabeça. Ela estava atrás de mim, a puxá-lo, a apertá-lo, e em poucos segundos ali estava eu... transformada.

Era decotado e o meu vestido de merino cinzento aparecia no pescoço e nas mangas, mas isso parecia não ter importância. Assentava-me melhor do que qualquer peça de roupa antes. Quando levantei a saia, caiu alguma coisa de dentro, que apanhei e descobri tratar-se de uma fita do cabelo feita de cordão e renda e decorada com pedras, que deveriam ser topázios.

 Fica bem com o teu cabelo - notou Gwennan. - Continua. Põe-na.

Agora, a transformação era total. Não era a pobre coxa da Harriet Delvaney que olhava para mim desse espelho sarapintado. Os seus olhos estavam mais verdes e maiores, o rosto insuflara-se de vida.

- É um milagre - exclamou Gwennan. Indicou a imagem reflectida no espelho. - Não é nada como tu. Transformaste-te noutra pessoa. - Ria-se. - Bem, vou dizer-te uma coisa, Harriet Delvaney. Já arranjaste um vestido para o baile.

Aproximou-se e pôs-se a meu lado a enrolar o veludo azul à sua volta, e eu sentia-me contente por ela estar comigo.

Se não estivesse, eu teria sentido que algo de estranho me estava a acontecer. Mas, nessa altura, claro, era eu a extravagante.

Pegou-me na mão.

- Venha, queira ser o meu par nesta dança, querida senhora.

Pulou à volta do quarto, com a mão na minha. Acompanhei-a volteando pelo quarto até compreender que estava a dançar... eu, que dissera a mim mesma que nunca havia de dançar.

Também ela reparou nisso.

- Tu és uma impostora, Harriet Delvaney - gritou, e a sua voz fez um eco estranho neste local estranho. - Não acredito que haja alguma coisa de mal nesse teu pé.

Parei, olhei para ele e, a seguir, compreendi a imagem reflectida da rapariga no espelho. Foi um momento extraordinário, como aquele no jardim, quando eu era criança, me levantei de repente e comecei a andar.

Sentia-me alegre, e não podia entender porquê. Pareceu-me que tinha algo a ver com o vestido que usava.

- Bem, está decidido - afirmou Gwennan. - Vamos ao baile. E agora tira isso, vamos levar estas coisas e veremos o que poderemos fazer com elas.

Voltámos as duas para o quarto de Gwennan. Sentia-me então como se tivesse começado a viver um sonho.

 

O meu pai veio para Chough Towers na véspera do baile e a tristeza caiu sobre a casa. As refeições constituíam sempre uma provação quando ele estava presente. Felizmente para mim, mas não para ele, William Lister acompanhava-os e sentávamo- nos na mesa grande da sala de jantar, que dava para um dos relvados, durante o que pareciam períodos de tempo intermináveis. O meu pai orientava a conversa, que, por hábito, tratava de política, e William dava respostas  discretas. Se eu falava, o meu pai ouvia com uma paciência evidente, ignorando normalmente o que eu dizia. Se William tentava responder-me, aquele muitas vezes mudava de assunto. Por isso, resolvi que era melhor não dizer nada e esperar que a refeição acabasse depressa. A'Lee ficava junto do aparador a orientar as copeiras, que eram duas, e parecia sempre absurdo que nós os três precisássemos de tantas pessoas para nos servirem, sobretudo porque eu sabia a azáfama que devia ir na cozinha. Levantava-me quando chegava a altura do vinho do Porto e deixava-os a conversar. Como ficava contente quando chegava esse momento!

Uma vez, o meu pai disse-me:

- Não tens nada para conversar? - Eu corei tão-só e não disse nada, quando me apetecia gritar: "Quando falo, ignoras-me. "

Pelo menos o meu espírito entretinha-se tão ocupado a pensar no vestido (que estava agora pendurado no roupeiro, lado a lado com o que Gwennan iria usar) e a perguntar-me se Bevil, ao ver-me com ele, iria ficar encantado com o que visse que deixei de pensar muito no meu pai. Gwennan dissera que não devíamos falar a ninguém da nossa descoberta, porque poderiam tentar impedir-nos de usar os vestidos. No entanto, não fui capaz de manter Fanny fora do segredo e ela ajudou-me a arranjar o azul para Gwennan e alterou o de veludo cor de topázio para mim. Não viu nenhum mal nisso, disse. E depois podíamos voltar a pô-los onde os encontráramos. Pendurou-os lá fora da varanda, para apanharem ar, justificou ela, e perderem o cheiro a mofo. Por isso, depois de os levarmos às escondidas para Chough Towers, houve longas sessões no meu quarto, em que Fanny parecia divertir-se tanto como nós.

Na noite do baile, Fanny escovou-me tanto o cabelo despenteado que ele ficou-me estendido sobre os ombros e a seguir ajudou-me a pôr o vestido, fazendo-me depois sentar em frente do espelho, para que eu pudesse olhar enquanto ela acabava de me arranjar o cabelo e me punha a fita enfeitada com jóias. O meu rosto olhava para mim: os meus olhos verdes pareciam mais verdes, uma vez que brilhavam muito, uma cor pálida debaixo da pele. Quase podia acreditar que estava atraente com o vestido.

- Bom, aí está, minha senhora - declarou Fanny -, tudo pronto para ir para o baile.

A casa parecia ter-se tornado viva. Por toda a parte se ouviam vozes. Os músicos tinham chegado e os convidados que ficavam em casa já se encontravam com o meu pai na sala de baile. A tia Clarissa não estava cá nesta ocasião (estava muito longe de Londres), e o meu pai iria receber os convidados sozinho.

Sentei-me com Fanny no assento da janela do meu quarto enquanto víamos as carruagens chegar.

 

Era fascinante observar os convidados, com os seus fatos de máscaras, apearem-se e caminharem pela vereda até ao pórtico. A chegada dos Leverets provocou uma certa excitação, porque vieram de automóvel. Eram a única familia da região que possuía um e quando saíam nele, as pessoas corriam para fora de casa, a fim de o verem passar. E, quando avariava e os cavalos tinham de o rebocar, havia um grande falatório sobre a loucura das invenções modernas. Mas, no ano anterior, em Londres, a engenhoca tinha sido tratada com mais respeito, dado que fora abolida a lei que obrigava um homem a caminhar à frente dele com uma bandeira vermelha e o limite de velocidade aumentara para vinte e dois quilómetros por hora. No entanto, aqui, na remota Cornualha, o automóvel ainda era olhado com uma desconfiança desdenhosa, e eu tinha de concordar que era absurdo ver os Leverets, em traje de fantasia, andar naquela coisa.

Ri-me e Fanny declarou:

- Bom, isto parece um espectáculo de circo completo!

- Estava a pensar que era como estar no passado. até chegar isto.

- Está a ficar demasiado excitada, menina.

- Estou?

- Claro que está. Nunca a vi assim antes. Não se esqueça de que só vai olhar de cima da galeria.

- Quem me dera que Gwennan aqui estivesse.

- A menina traquinas vai estar aqui em breve, não se atormente.

Ela tinha razão. A carruagem de Menfreya chegou mal ela acabara de falar. O primeiroa sair foi o cavalheiro do século xviii, que era Bevil. Ajudou a mãe e Gwennan a descer, e a seguir saiu Sir Endelion. Não reparei no que Sir Endelion e Lady Menfrey usavam, porque só tinha olhos para Bevil.

Gwennan, com a sua capa de todos os dias por cima de um vestido de festa simples, parecia completamente insignificante no meio daqueles trajes magníficos, e eu podia imaginar como se sentia impaciente por pôr o seu vestido de veludo azul.

Um dos criados trouxe Gwennan para o meu quarto. Escondi-me, para não ser vista com o meu vestido cor de topázio, e Fanny falou com o criado enquanto Gwennan entrou no quarto. Quando os criados partiram, Fanny disse:

- Pode sair agora, menina. - A seguir, ajudou Gwennan a vestir-se e deixou-nos juntas.

- O teu não é castanho - afirmou Gwennan. - É uma espécie de dourado. - Alisou com prazer as pregas do seu vestido de veludo azul. Depois franziu o sobrolho. - O teu é mais fora do vulgar - continuou. - Na realidade, Harriet, nunca te viste assim. Eu sei o que é. Não estás a pensar que as pessoas te odeiam, é isso. Mas porque estamos à espera? Eu quero ir para o baile, se tu não quiseres. - Disseram-me para onde devia levá-la. Era para a galeria, a galeria a imitar menestréis, que dava para a sala de baile. Decidimos que iríamos ficar ali à espera até que a sala de baile estivesse cheia, antes de nos escaparmos com as nossas máscaras e descermos.

- Nessa altura - tranquilizara-me Gwennan -, ninguém vai dar por nós.

Chegámos à galeria. Cortinas pesadas de veludo cor de púrpura estavam fixas de um lado ao outro e puxadas para trás por fitas douradas, de modo a darem-nos espaço para espreitar, e haviam sido colocadas duas cadeiras um pouco para trás do parapeito, de modo a que, embora não precisássemos de ficar totalmente invisíveis, não fôssemos por certo intrometidas.

 

Gwennan foi de imediato à balaustrada e olhou para baixo. Fiquei um pouco mais atrás: mas que vista maravilhosa aquela! Estávamos quase ao nível dos lustres a gás e o cenário lá em baixo tornara-se fantástico, devido à cor dos fatos e dos séculos diferentes que representavam.

Estávamos a observar havia cinco ou seis minutos, quando ouvimos vozes à porta da galeria, uma das quais era a de Fanny.

- Bem, senhor - dizia ela -, na realidade, não sei se deva, mas, se o senhor insiste...

- Claro que insisto. Agora, seja camarada.

Gwennan olhou para mim.

- É Harry - afirmou. - Harry Leveret.

A porta abriu-se e Fanny, corada e ansiosa, afirmou:

- Na realidade, não sei...

- O que é? - perguntei.

- O senhor disse.

E ali estava Harry. Vinha vestido de cisne, e a sua barba postiça não condizia com o cabelo ruivo que aparecia debaixo do boné de penas. Afastou Fanny para o lado, e esta desapareceu, após o que ele entrou na galeria.

- Harry, o que estás a fazer? - perguntou Gwennan, com a voz a elevar-se, num tom agudo de excitação.

- Não estavas à espera de que ficasse lá em baixo, enquanto tu estavas aqui, pois não?

Não parecia nada surpreendido por nos ver com as nossas roupas, pelo que pensei que ela lhe devia ter dito que as encontrámos. Os olhos dele brilhavam ao olhar para ela.

- Também temos máscaras, não temos, Harriet? - declarou Gwennan. - Anda. Vamos pô-las e descer.

Pude verificar que Harry não se sentia muito satisfeito perante a hipótese de me terem com eles.

- Não se preocupem - sosseguei-os. - Não serei maçadora.

- Hás-de arranjar um par - declarou Gwennan, com aquele ar de convicção que dava sempre às coisas em que queria acreditar.

- Claro - correspondi, com orgulho, embora não acreditasse nisso nem por um momento, e agora, que chegara a altura de nos irmos juntar aos bailarinos, sentia-me alarmada. O que iria acontecer se o meu pai me descobrisse? Deixara que Gwennan me empurrasse para esta aventura sem considerar por completo as consequências. Ela iria estar muito bem: teria Harry Leveret a olhar por si; além disso, a sua família não era como o meu pai.

- Claro que há-de - concordou Harry.

Abandonámos a galeria e descemos à sala de baile. Prometi a mim mesma que poderia regressar logo à galeria, se me  sentisse muito só no meio de toda aquela gente, e esse pensamento deu-me coragem. E que alívio era esconder-me por detrás da máscara. Dei com os olhos em mim, quando passámos por um espelho. Não me reconheci. Então, se eu não me reconhecia, porque iria alguém mais ser capaz de o fazer? E de repente fiquei excitada... pela cor, pela música, pelo esplendor de tudo e pelo sentimento estranho de que com o vestido adquirira uma personalidade diferente.

 

Harry mal conseguia esperar por se agarrar a Gwennan e, logo que entrámos na sala de baile, colocou o braço em volta dela e começaram a dançar a valsa. Fiquei a olhar. O belo Danúbio Azul! Que sonhador, que romântico! Como adoraria ser uma daquelas dançarinas.

Escondi-me por detrás dos fetos colocados nos vasos, a observar, atraída pela música, imaginando-me ali a dançar. com Bevil, claro.

E então vi-o. Dançava com uma bela rapariga vestida de Cleópatra, a rir- se, a olhar para ela, a dizer coisas divertidas. com afecto, tenho a certeza. Pensei na forma como me falara quando me trouxera da ilha: tinha-me beijado, nessa altura. Claro que fora uma brincadeira.

Passou de novo a dançar pelo vão da sala onde eu me encontrava e, ao fazê-lo, olhou directamente para mim, tenho a certeza, embora não fosse fácil verificar, devido à máscara que usava. Chegara muito perto dos fetos. Era quase como se quisesse lançar um olhar mais de perto à figura ali encolhida. A seguir, foi-se embora e eu disse para comigo que ima ginara a situação. Reconhecera-o porque o tinha visto chegar com a família, mas nessa altura tê-lo-ia identificado em qualquer parte. Ele não me reconheceria da mesma forma. Além disso, o vestido, a fita e a máscara transformavam-me numa pessoa completamente diferente.

A valsa terminara, e seguiu-se um intervalo em que os perigos de exposição triplicavam. Imaginem se me vissem a esconder-me no vão? O que estaria a fazer uma jovem, num baile, sem uma mãezinha alerta ou um acompanhante de qualquer género a tomar conta dela?

A música recomeçou. Era agora altura de me esquivar para a galeria, sentar-me lá a observar os dançarinos, como me tinham dito que fizesse. Porém, a tentação de ficar era  demasiado forte. Não podia suportar a ideia de não estar ali. Gwennan desprezar-me-ia por fugir, disse para comigo. Mas era mais do que isso. Sentia-me diferente com este vestido. Não era capaz de me esquecer de que no quarto, esse vestibulo circular esquisito no torreão, eu havia dançado.

- Está sozinha?

O meu coração começou a bater descompassadamente. Balbuciei:

- Neste momento, não.

Bevil riu-se. Estava a sonhar tudo isso. Não poderia ser Bevil.

- Reparei em si - declarou. - Voltei, quase sem esperar encontrá-la aqui. Deve ter acabado de chegar ou tê-la-ia visto antes.

- No meio de tanta gente?

- Teria dado por si. - Era este o seu modo de falar às mulheres. Isto era namoro, e achei extremamente agradável estar a fazê-lo com Bevil. A orquestra começou a tocar. Um cotilhão - disse ele, fazendo caretas. - Vamos ficar aqui a conversar, a menos que prefira dançar.

- Prefiro não dançar.

Ele sentou-se perto de mim, conservando o olhar no meu rosto.

- Já nos encontrámos antes - declarou.

- Acha que sim? - repliquei, tentando disfarçar a voz. Pousou a mão dele na minha.

- Tenho a certeza que sim.

Retirei a mão e deixei-a cair sobre as pregas do veludo cor de topázio.

 

- Posso saber onde? - indaguei.

- Podemos descobrir com facilidade.

- Penso que devemos manter as nossas identidades secretas. Não é mais divertido dessa forma?

- Tanto quanto sabemos, a curiosidade acabará talvez por ser satisfeita. Mas eu sou muito impaciente. - Inclinara-se para mim e tocara na minha máscara. Recuei, com indignação. - Desculpe - disse. - Mas estava tão seguro de que a conhecia e parece incrível que não possa ter a certeza de quem é.

- Então, eu sou uma mulher misteriosa.

- Mas eu tenho a certeza de que a conheço.

- Sim... conhece-me. - Recostou-se na cadeira. Desiste? - perguntei.

- Não me deve conhecer muito bem, ou saberia que eu nunca desisto. Mas, de qualquer maneira, temos toda a noite à nossa frente. Primeiro, deixe-me dizer-lhe que é encantadora. O seu vestido é uma maravilha.

- Gosta dele? - sorri, ao pensar nas sacudidelas e nas vezes que estivera pendurado ao sol, para fazer desaparecer o cheiro a mofo, assim como nos saquinhos de alfazema que Gwennan preparara para pôr nas pregas.

- Já o vi antes.

- Onde? - inquiri.

- Estou a tentar lembrar-me.

Sentia-me deliciada. Ouvia-me a rir com esta conversa, despreocupada, banal, fútil, e, no entanto, parecia haver nela certa profundidade. Ele estava interessado em mim: vira-me

no vão e assim que pôde abandonara o par com quem estivera a dançar e viera ter comigo. Quem teria acreditado que

isso seria possível?

Ali estava eu sentada, alegre como ninguém, no baile, dando troco aos seus gracejos, descobrindo que também eu tinha o dom da resposta pronta que se poderia confundir

com inteligência. Sem dúvida que ele não estava aborrecido, mas sentia-se confundido. Não fazia ideia de quem eu era. Se se encontrasse prevenido de que eu iria estar no baile, talvez pudesse saber, mas, como me achara sempre uma criança, opinião que ainda conservava, não lhe iria ocorrer

que possivelmente eu pudesse encontrar-me ali. Tinha estado com Gwennan, que usava um vestido simples de festa,

quando chegaram, e soubera que eu e ela iríamos sentar-nos na galeria, a ver, mas não sabia nada sobre a descoberta dos vestidos. Não, não lhe viria à cabeça que poderia ser com a jovem Harriet que estava a desfrutar de uma

pausa tão fascinante.

O cotilhão terminara e estavam a tocar uma valsa.

- Vamos dançar? - convidou-a.

Sentia-me surpreendida comigo. Se não estivesse inebriada pela noite, pela presença de Bevil, pela minha nova personalidade, apesar de ter dançado com Gwennan, ter-me-ia lastimado que não sabia dançar. Mas, sentindo-me confundida, deixei-me levar até à pista de dança: devo ter coxeado, mas não dei por isso. As minhas saias volumosas talvez escondessem o meu defeito: pelo menos, assim me pareceu. E ali estava, a dançar com Bevil. Não quero dizer que dançasse bem ou com agilidade. De qualquer modo, Bevil não era dançarino nato, mas dancei, e a pista estava tão apinhada de gente que os passos de cada um não tinham importância. Sentia-me tão feliz que achava que a vida era maravilhosa e que tudo mudara para mim.

Antes de a dança acabar, Bevil propôs-se que fôssemos à sala da ceia, deixando-me lá, sentada a uma mesa, enquanto foi à procura de comida. Voltou com uma bandeja e copos de champanhe. Foi a primeira vez que bebi champanhe, o que me fez ficar mais estonteantemente feliz do que nunca. Avistei Gwennan com Harry Leveret, mas estavam tão embevecidos um com o outro que penso que nem repararam em mim.

Depois da ceia fomos para o jardim. Bevil pegou-me na mão e caminhámos pela relva enluarada até um lugar por debaixo de uma das árvores, do qual observámos os dançarinos a insinuarem-se no relvado, e através das janelas os acordes de música.

- Já sei - gritou Bevil, de repente. - O vestido! Já sei onde o vi.

- Diga-me por favor.

- Em Menfreya.

- Oh - exclamei, confusa, ao lembrar-me que Gwennan contara que os dois tinham descoberto o baú há uns anos. Mas era surpreendente que Bevil se conseguisse lembrar de um vestido.

- Ora, sim - exclamou -, é exactamente assim. A renda do cabelo... a fita. Podia ser você, mas ela não está mascarada, claro.

- Quem?

- É um retrato de Menfreya. Hei-de mostrar-lho... em breve. Quando será? Tem de vir a Menfreya e deixar-me mostrar-lho. Vem?

- Sim - concordei.

- Sinto-me aliviado. Tive um receio enorme de que fosse desaparecer depois desta noite e que não a voltasse a ver. Está prometido, está bem.

- Sim, prometido.

- Quando?

- Amanhã - disse. - Amanhã, vou visitá-lo e peço-lhe para me mostrar o retrato.

Apertou-me a mão.

- Sei que é do género de pessoas que cumprem o prometido.

- Fale-me do retrato.

- É uma antepassada minha. Uma Lady Menfrey de há muitos anos. A minha tetravó. ou talvez alguma sua ascendente. Mas o seu vestido é uma réplica genuína de um que ela usava. É como se tivesse descido da tela.

- Se é assim, hei-de gostar de o ver.

- Amanhã - repetiu. - Está prometido.

Eu queria agarrar o tempo e impedir que ele passasse, mas as pessoas estavam nesta altura a regressar à sala de baile, para a dança que ia anteceder o momento de tirar as máscaras, à meia-noite. Tinha de desaparecer antes disso. Não queria ficar ao lado de Bevil, tirar a máscara e ver-lhe a surpresa estampada no rosto, ouvi-lo pronunciar "Harriet" chocado de espanto. Além disso, e se o meu pai me visse?

Nesta noite, eu queria ser o enigma atraente por detrás da máscara.

 

Fomos apanhados pela multidão, que se dirigia para a sala de baile. Lady Menfrey aproximou-se de nós, tendo dirigido a palavra a Bevil, e, quando se voltou para ela, aproveitei a minha oportunidade. Conhecendo a casa como poucos, esgueirei-me por uma passagem e, ao chegar à escada principal, apressei-me a subir para a galeria. Nesse momento, faltavam vinte minutos para a meia-noite.

Mais tarde, da galeria, vi-o entrar na sala de baile. Olhava em redor, à procura, com impaciência: à minha procura!

Gwennan chegou a correr à sala cinco minutos antes da meia-noite. Pensei que iria ser apanhada ali, mas era próprio dela deixar tudo até ao último momento.

Vinha corada e radiante.

- Que maravilha de baile! - exclamou. - É o melhor baile a que alguma vez assisti.

Ri-me para ela e lembrei-me de que era o único, pelo que teria de ser o melhor.

A seguir, estivemos juntas a rir. Sentia-me diferente nessa noite. Tivera a minha aventura, e não era menos maravilhosa do que a de Gwennan.

Dormi muito pouco nessa noite, fiquei acordada a examinar tudo o que me acontecera no baile. Levantei- me uma vez durante a noite, acendi o candeeiro e tirei o vestido do rou peiro, pu-lo à minha frente e olhei para a minha imagem reflectida no espelho. O vestido representava algo para mim. Mesmo no meio da noite, eu parecia diferente... extremamente alegre... até mesmo atraente. Sim, tinha a certeza disso, o tipo de pessoa para quem se olha duas vezes. Não era bonita, nem mesmo a luz do candeeiro me conseguia enganar até esse ponto, mas havia um certo encanto medieval no meu rosto que necessitava da cor do meu vestido, o estilo de época dele, para o exibir.

Já era de madrugada quando adormeci por completo, e mesmo assim só por uma hora ou pouco mais. Na manhã seguinte, a casa estava nesse caos pós-baile que eu conhecia tão bem: todos se sentiam cansados e irritáveis, menos eu. Sentia-me apaixonada.

À tarde, fui até Menfreya, onde sabia que Bevil estaria à minha espera, só que, claro, não saberia que estava à minha espera. Que dissabor, pensei eu, em vez da mulher misteriosa, descobrir esta, pouco maior do que uma colegial, com um vestido de lã cinzento, capa séria, cabelo desgrenhado sem estar protegido por uma renda brilhante. Se ao menos tivesse podido trazer o vestido, como me teria sentido diferente.

A casa estava sossegada, mas Bevil encontrava-se lá, e eu fui direita à biblioteca, sem me fazer anunciar.

- Quê... é Harriet - afirmou. A educação de Bevil era perfeita. Se estava desapontado, não o mostrou.

- Vejo que estavas à espera de alguém - exclamei. Bem, tenho pena, mas é só a Harriet.

- Acontece que fico encantado. - O seu rosto abriu-se num sorriso que eu conhecia e amava.

- Mas estavas à espera de alguma mulher encantadora e a imaginar como ela seria com roupas modernas. Talvez estivesses a imaginá-la com um fato de montar de veludo cor de amora, um chapéu de montar preto e o rosto delicadamente coberto por um véu, para proteger a pele deslumbrante.

- Quem é este fantasma de prazer e como podes saber tanto sobre aquilo de que estou à espera?

 

- Porque estiveste ontem à noite com ela no baile. Prepara-te para uma surpresa, Bevil. O teu par de ontem à noite não era tudo o que pensavas que fosse. Vou confessar-te já. Eu estava mascarada ontem à noite... de forma irreconhecível.

- Isso é o que tu dizes! Pensas que não te reconheceria em qualquer parte?

- Tu sabias!

Pegou-me pelos ombros e riu-se para mim. Depois, inclinou-se e beijou-me como fizera no barco.

- Então, sempre o soubeste!

- Minha querida Harriet, por que motivo me havias de reconhecer, e eu a ti não? Os meus poderes de percepção estão tão desenvolvidos como os teus.

- Mas eu vi-te chegar e. reconhecer-te-ia em qualquer parte.

- E eu a ti. Agora, ouve, qual era o jogo de ontem à noite? Gwennan também lá estava. Era uma conspiração entre as duas. Onde descobriram os vestidos?

- Aqui em Menfreya.

- Calculava isso.

- Promete que não vais dizer nada. Gwennan ficaria furiosa.

 E é claro que estou cheio de medo da fúria dela.

- Bom, queríamos ir ao baile, descobrimos estes vestidos num baú e por isso.

- Duas Cinderelazinhas vão ao baile, sem se esquecerem de desaparecer antes da meia-noite, deixando dois Príncipes Encantados desolados a imaginar o que lhes tinha acontecido. Bom, Harriet, devo agradecer-te por uma noite divertida. O teu segredo está bem guardado comigo. Prometi-te que te mostraria uma coisa se viesses cá esta tarde, não foi? Bom, anda. Vamos. - Segui-o até à entrada principal e subimos a escada em direcção à ala protegida pelo torreão onde encontráramos os vestidos. - Não tens medo de fantasmas, Harriet? - perguntou, por cima do ombro. - A ala não é muito utilizada. Diz-se que é a ala assombrada. Tem de haver um fantasma em todas as casas como esta. Sabias isso, não sabias? Bom, esta é. Se estiveres assustada, dá- me a tua mão.

- Não estou - assegurei.

- Sempre soube que não seria fácil assustar-te. - Exclamou, enojado: - Tudo isto está cheio de bolor. Sempre tivemos a intenção de abrir esta parte, mas, por qualquer motivo, nunca chegámos a fazê-lo. Os criados não iriam gostar. Não viriam cá, mesmo durante o dia.

- Foi aqui que eu e Gwennan encontrámos o baú - referi.

- Pois foi. Portanto, já cá estiveste. Ela contou-te a história dos fantasmas? Uma mulher com uma criança nos braços, Harriet, que percorre estas passagens bolorentas... e um homem que também caminha, mas não o fazem juntos, porque estão à procura um do outro. - Estremeci, e ele deu por isso. - Estou a assustar-te - exclamou. - Não dês importância àquilo que eu digo, Harriet. É um disparate. É só uma das lendas antigas.

 

- Está frio - expliquei eu. - Não estou assustada. Então, rodeou-me com o braço e estreitou-me contra si, por momentos. Não era nada, unicamente o gesto que teria para confortar uma criança. Estava diferente do homem que fora na noite anterior, e tive uma suspeita de que ele não me reconhecera e que hoje eu deixara de ser a mulher mascarada atraente e voltara à situação normal da Harriet familiar e simples. - Gwennan contou-me uma história - revelei com rapidez, para esconder a minha emoção - sobre uma governanta que estava fechada num quarto sem ninguém da casa saber, excepto Sir qualquer coisa Menfrey.

- Sir Bevil, se fazes favor. Um dos muitos Bevils da família.

- Ela morreu ao ter um filho, e ninguém o soube, a não ser depois de ela estar morta.

- Foi assim, foi. - Abriu uma porta, cujas dobradiças deram o gemido de protesto em que eu reparara antes. - Esta parte da casa terá de ser retocada em breve - comentou. Nós, Menfreys, somos bastante preguiçosos. Não somos enérgicos como vós, Delvaneys. Deixamos arrastar as coisas.

Quantos anos pensas que se passaram desde que estes quartos deixaram de ser habitados? - Dei um salto para trás, porque qualquer coisa me tocou no rosto. Era um emaranhado de teias de aranha, pegajosas e frias. Senti como se todo o local me gritasse: "Afasta-te. " Mas Bevil não sentia nada disto. Não havia nada de fantasista com Bevil. Um quarto desabitado não era nada para si, a não ser um quarto desabitado. Os fantasmas não existiam, eram apenas lendas. - Ei-la - anunciou Bevil.

E ali estava o retrato, uma mulher com um vestido que devia ser seguramente aquele que eu usara no baile na noite anterior.

Estava muito bem pintado: as pregas do veludo eram tão reais que senti que, se lhes passasse a mão por cima, se teriam mostrado tão macias como material verdadeiro. O seu cabelo preto achava-se preso atrás com a fita de renda dourada enfeitada com topázios.

- É a mesma! - exclamei. - Então, usei o vestido dela?

- Deve ter sido.

Aproximei-me do retrato. Ela tinha uma expressão triste, quase secreta.

- Não parece muito feliz - afirmei.

- Bom, ela era casada com o Bevil que se envolveu com a preceptora.

- Oh - disse eu. - Compreendo.

Veio pôr-se atrás de mim, colocando-me as mãos nos ombros.

- O que é que compreendes, Harriet?

- A razão por que parece tão infeliz. Mas o vestido é encantador. Que artista maravilhoso terá sido aquele que o pintou?

- Vejo que estás fascinada com esse vestido. Onde está ele agora?

- No meu roupeiro em Chough Towers.

- Nunca vais ser capaz de te desfazeres dele, pois não?

- Vou embrulhá-lo e trazê-lo a Gwennan.

- Não o faças - pediu. - Guarda-o. Podes querer mascarar-te de novo um destes dias.

- Guardá-lo?

- Um presente meu - referiu.

- Oh, Bevil!

- Vamos. Está frio aqui. Vamos regressar às regiões habitadas.

Aquela noite de baile transformou tanto Gwennan como a mim. Ela sentia- se mais inquieta, mais descontente com a sua vida. Estava num desses momentos de má disposição quando fomos juntas andar a cavalo.

 

- A vida - confidenciou-me, enquanto cavalgámos em direcção ao interior da floresta, inclinando a cabeça quando passávamos por debaixo das árvores, carregadas de folhagem nesta altura do ano - não é nada agradável para nós. - Sempre ansiosa por saber dos Menfreys, perguntei por que não o era particularmente nesta altura. - Dinheiro! É sempre o dinheiro. É uma sorte o papá não ser deputado neste momento, porque ser-se deputado é uma actividade dispendiosa. Estou tão aborrecida por não ter dinheiro que estou quase decidida a remediar a situação.

- Como?

- Casando com Harry, claro.

- Gwennan, achas que ele quer?

- Se eu acho que ele quer! És maluca? Claro que quer. Está loucamente apaixonado por mim. Esse é um dos motivos por que é tão detestável ter dezasseis anos. Por isso vou ter de esperar pelo menos um ano para casar. - Chegámos a uma clareira e ela chicoteou Sugar Loafe que partiu a galope. Avancei cavalgando atrás dela. Ria-se e penso que naquela manhã tinha algum diabo perverso dentro do corpo. - Não quero voltar àquele nosso colégio ridículo - anunciou, com desprezo.

- Bom, não vamos ainda. Falta ainda uma semana, mais ou menos.

- Quero dizer... nunca mais. Academia para Jovens! Se existe alguma coisa que mais odeie do que ter dezasseis anos é ser jovem.

- Não estou tão certa disso, embora a primeira hipótese seja incontestável.

- Harriet Delvaney, não tentes falar com tanta erudição como um político... horroroso.

- Estava a tentar? Não sabia.

- Algumas pessoas dizem que se quisermos que uma coisa aconteça ou não. tremendamente. se te concentrares, talvez resulte.

- Como, por exemplo, não voltar à escola? Como, por exemplo, passar dos dezasseis para os dezoito anos num dia em vez de em dois anos?

- Estás a desenvolver esse azedume amargo na tua natureza, Harriet. Vais ser uma dessas mulheres sabichonas com língua de serpente, se não tiveres cuidado.

- E por que motivo não o posso ser?

- Porque elas, de certeza, não atraem os homens.

- Não preciso de criar tendências novas para ser atraente. Já o sou.

- Pára com isso, Harriet. É por tua culpa.

- O quê?

- Esta manhã não tenho tempo para resolver os teus problemas. Já tenho os meus, que são muitos. Estou decidida a não voltar para o colégio no próximo período.

Fiquei em silêncio, a pensar no que seria voltar sem ela. Mas claro que ela iria voltar.

Galopámos com ousadia através da charneca. Ela estava de mau humor, isso era certo.

- Assim - anunciou -, sinto-me livre. É isso o que eu quero, Harriet, ser livre. Livre de fazer exactamente aquilo que quero. Não quando for crescida, mas agora! Eu sou crescida, asseguro-te. Sou tão crescida como hei-de ser sempre.

 

Galopei com ela, gritando-lhe que tivesse cuidado: havia algumas pedras com mau aspecto na charneca, e, se não se preocupava com ela, devia ao menos fazê-lo com Sugar Loaf.

- Sabemos para onde vamos - replicou.

Dei graças a Deus quando deixámos para trás a charneca. Gwennan era a pessoa mais irresponsável que eu jamais conhecera em toda a minha vida.

Chegámos a uma aldeia que eu nunca visitara antes. Era encantadora, com uma igreja de torres cinzentas rodeada pelo cemitério e as casas de campo limitando os prados.

- É Grendengarth - participou Gwennan. - Estamos a dez quilómetros de casa.

Foi perto da aldeia que aconteceu. Desviáramo-nos da estrada e entrámos numa clareira. Havia uma barreira à nossa frente que não deveria ter sido difícil de transpor, mas, como referi, Gwennan estava, nessa manhã, com inclinação para atitudes imprudentes. Não sei com exactidão o que aconteceu. Ninguém sabe, nestas ocasiões. Ela ia um pouco à minha frente quando transpôs a barreira. Ouvi-a gritar ao ser projectada por cima da cabeça de Sugar Loaf. Parecia que o tempo abrandara o seu curso. Tive a impressão de ter ficado suspensa no ar, sobre a barreira, durante uns minutos, antes de aparecer do outro lado. Vi Sugar Loafcontinuar a correr, espantado, e a seguir a minha atenção concentrou-se em Gwennan, que jazia deitada na relva, sem se mexer.

- Gwennan - gritei, de forma algo estúpida. - Gwennan, o que aconteceu?

Saltei do cavalo e ajoelhei- me a seu lado. Estava branca e imóvel, mas respirava. Durante uns segundos, fiquei ali, após o que montei e cavalguei até à aldeia, à procura de ajuda.

Tive sorte porque, assim que cheguei à estrada, ia a passar um rapaz montado num pónei. Balbuciei que tinha havido um acidente.

- Vou de imediato chamar o doutor Trelarkendeclarou.

Voltei para perto de Gwennan e, quando me ajoelhei a seu lado, à espera durante o que me pareceram horas, senti-me aterrorizada, com receio de que ela pudesse estar morta. Lembrei-me daquelas suas palavras, pouco tempo antes, com as quais demonstrara encontrar-se decidida a não voltar à escola e perguntei-me se algum anjo terrível que faz registos anotara as palavras e se este era o castigo. "Se morreres, Gwennan", murmurei, "não voltas à escola e o teu desejo será satisfeito."

Tremi. De seguida, notei que a sua perna esquerda estava numa posição estranha e compreendi o que acontecera.

O Dr. Trelarken chegou ao local com dois homens que transportavam uma maca. O médico ligou a perna antes de mudarem Gwennan de posição, após o que os homens transportaram- na para casa dele, em Grendengarth. O médico acompanhou-a a pé e fez-me algumas perguntas.

Sabia quem érámos porque toda a gente da região conhecia os Menfreys e Sir Edward Delvaney. Indicou a casa, que era uma casa branca no prado enorme, e em que reparara quando passáramos por lá. Um moço de estrebaria guardou o meu cavalo, e, quando íamos para casa, o doutor chamou:

- Jess! Jessie. Onde estás?

- Já vou, pai - respondeu uma voz, tendo aparecido uma jovem à entrada. Foi esta a primeira vez que dei com Jessica Trelarken, que sempre me pareceu uma das mulheres mais bonitas que alguma vez conheci.

Era alta e esguia. Tinha o cabelo escuro, quase preto, e os olhos de um azul espantoso, acentuado pelo vestido da mesma cor que usava. Deveria ter uns dezanove anos nessa altura.

A maca foi transportada para um quarto do primeiro andar e o médico assistiu Gwennan. Jess ajudou-o. A mim, pediram-me que ficasse no andar de baixo. Uma criada levou-me para uma sala arejada, cheia de luz e mobilada de forma agradável e convencional, com excepção do quadro sobre a lareira representando uma mulher muito bonita, que era parecida com Jess, mas não possuía a mesma beleza saliente. O ambiente achava-se perfumado pelas flores que se encontravam num vaso enorme de cerâmica colocado sobre a mesa polida que havia perto da janela: budeleia purpúrea, alfazema e rosas de toucar cor-de-rosa.

Sentei-me a ouvir o tiquetaque do relógio de pêndulo, imaginando o tempo que demoraria a saber da gravidade do estado de Gwennan, e olhando, distraída, para a minha imagem, distorcida e reflectida no metal brilhante do candeeiro a petróleo que estava em cima da mesa, ao lado do pote com as flores.

Passaram cerca de vinte minutos até o médico aparecer. Jessica acompanhava-o.

- Calculo que Miss Delvaney queira tomar alguma coisa - sugeriu ele.

- Tenho a certeza que sim - acrescentou Jessica, presenteando-me com aquele sorriso tranquilo que eu iria conhecer tão bem.

- Gwennan? - perguntei.

- Partiu uma perna. Não quero que se mexa por agora. Nada de cuidado. Transpôs a barreira muito depressa, suponho. Já vi isso acontecer naquele local mais do que uma vez.

- Devo ir para Menfreya sem demora - afirmei. - Sugar Loaf deve ter voltado para lá. Devem estar assustados.

- Já mandámos informar - referiu Jessica. - Não ficaria surpreendida se aparecesse alguém muito em breve.

- E quanto a si, jovem - continuou o médico -, teve um ligeiro choque. Jess, manda pedir vinho e alguns dos teus biscoitos para acompanhar. Tomamos todos qualquer coisa.

Jessica dirigiu-se ao cordão da campainha. Movimentava-se com o encanto de uma criatura selvagem, o que condizia de forma estranha com o seu ar de candura.

- E depois disso - acrescentou o médico - acho que podemos ter uma conversa com Miss Menfrey.

Assim, sentei-me ali, naquela sala perfumada, a beber vinho com os Trelarkens e pensando durante todo o tempo: "É um castigo. Decidiu que não iria voltar comigo para o colégio. E não iria. "

Senti muito a sua falta, mas a vida decorreu de forma mais tranquila sem ela. Trabalhei com mais empenho do que nunca e os meus professores mostravam-se satisfeitos comigo. Não estabeleci amizades com outras raparigas: nunca achei que isso fosse fácil. E, como não servia para os jogos, passava a vida a estudar. Este facto começou a dar resultados.

 

Porém, quando recebi uma carta de Gwennan, senti que estava ansiosa por estar com ela. Era uma carta exuberante. Sentia-se satisfeita com a vida. Estava a levar a sua própria vida, que foi o que ela sempre deve ter feito.

Minha pobre Harriet, pensar em ti nessa distinta e terrivel Academia para Jovens! Que achas? Estou noiva do Harry. É claro que há oposição. "Nova de mais! Nova de mais", continuam a vociferar contra mim. Contudo, a família quer, aliás, as duas, e o Harry também. desesperadamente. Por isso, não faz muito sentido ficar à espera, pois não?

Sorri quando li a carta e pensei: "Mas, se tu não quiseres esperar, Gwennan, então, ninguém vai esperar. " Continuei a ler:

A té pensei numa fuga. Isso iria ter graça, com o Harry a trepar as muralhas de Menfreya. a parte mais escarpada, onde elas se encontram com o limite do penhasco. Um deslize e a queda para a morte certa. Uma mulher jovem, não uma senhora jovem, toma nota, que acabei com essas coisas repulsivas, tem de dispor de algum tempo para estudar a situação. Bom, avançaram com esta sugestão um ano para terminar o colégio durante o noivado e depois os sinos a anunciar o casamento a tocar em Menfreya. Agrada- me. Penso que serei uma das poucas pessoas que alguma vez foram para o colégio já noivas. Assim será. Vou partir para França, para o Centro, algures. Para perto de Tours, onde se fala o francês mais correcto, segundo me dizem, porque tenho de regressar a falar como um natural. Parte dos predicados de uma mulher educada, tu compreendes.

Os meus ossos curaram-se com perfeição, segundo sustenta o Dr. Trelarken. Ficou muito satisfeito com os meus progressos, e Bevil está muito contente com Jessica, suafilha. É uma pena que escolha sempre as pessoas menos indicadas. O Dr. Trelarken não parece ser um desses médicos inteligentes que escolhem os doentes com cuidado. O trabalho duro e a gratidão parecem ser a recompensa deste homem. Muito nobre, mas parece que o único dote que a pobre Jessica trará ao marido é a sua beleza.

Depois, claro, a guerra. Bevil estava decidido a ir lutar contra os terriveis Bóeres, pela rainha e pela nação. Compreendes que, quando se candidatar ao Parlamento, fá-lo-á muito

melhor como herói regressado da guerra. Além disso, Menfreya luta sempre a favor da causa. Estava decidido a ir, mas

agora penso que não se sente tão ansioso. Épor causa da Jess. Talvez case com ela antes de partir com Kitchener. Não há nada como uma guerra para fazer casamentos à pressa.

O Harry não vai. Faz falta em casa, afirma ele e o pai também. O negócio tem de continuar.

Mas que carta tão longa, esta. E eu que quase nunca escrevo cartas. Éporque o meu coração sangrapela minhapobre Har, riet, que não está noiva para se casar, que não vai terminar

a sua educação em França, que não está na querida Menfreya, mas sentada àjanela a estudar, iajurar, a olhar cá parafora, para os relvados bem arranjados, com os livros à frente, comportando-se como uma menina muito boazinha, agora que não é distraida pela sua Gwennan terrível.

Como sempre, perturbara-me. Não era capaz de recuperar a paz de que desfrutava. Imaginei tudo isso. Qualquer coisa excitante parecia estar a acontecer em Menfreya. Via Bevil a cavalo em direcção à casa dos Trelarkens e Jessica a vir à entrada. Deveria usar o vestido azul que lhe vi pela primeira vez com a gola de renda branca. Estava encantadora nessa altura. Agora, apaixonada, deveria estar bela de cortar a respiração.

Bevil estava apaixonado por ela e iria deixá-la dentro de pouco tempo, a fim de partir para a África do Sul. Sim, haveria de querer casar com ela antes de se separarem.

Pensei em Bevil e na rapariga que trouxera para a ilha. Deve ter havido outras entre ela e Jessica. Muitas outras. Porém, Jessica era diferente. Jovem e inexperiente como eu, percebera isso e sentia-me deprimida.

Houve mais uma carta de Gwennan antes de partir, a fim de terminar o colégio.

O pessoal de Harry está a cuidar de Chough Towers. Ele sabe que eu nunca serei verdadeiramente feliz longe de Menfreya; por isso, diz que Chough será a nossa casa. Devo dizer que me agrada a ideia. Estou já a planear os bailes que vou ter nessa sala de baileperfeitamente magnifica. O contrato de arrendamento do teu pai estava a expirar, pelo que Chough não vai ser a tua residência da Cornualha muito mais tempo. será minha. Claro que te hei-de convidar aficar lá. Dar-te-ei o quarto que tens agora. Vai ser divertido, não vai? Mas aposto que estás a imaginar o que o teu pai vai fazer. Terá de ter uma casa perto de Lansella, não é? Estamos muito con tentes com o teu pai insensível, Harriet. Sabes o que ele fez? Não és capaz de adivinhar. Ocupou a casa em No Man's Island. Mais do que isso, comprou a ilha ao papá. É um golpe de sorte maravilhoso para nós. Sabes como é incómoda a posse daquela ilha.

Está apenas para ali, e para que serve ela, a não ser para esconder herdeiras em fuga e para os jovens dissolutos levarem a efeito as suas seduções? Que companhia terrivel continuo a ser! A questão é que eu tinha de ser a primeira a dizer-te. No Man Island irá ser tua em breve. Podes calcular os melhoramentos que o teu pai fará. Vai ser um palácio numa ilha, penso eu, antes de se contentar com ela. O papá está absolutamente encantado. Dá voltas pela casa esfregando as mãos de prazer. Pelo menos, temos alguma coisa para vencer as dificuldades!

Como vês, Harriet, nada fica na mesma. Vou-me embora no fim da semana para o meu colégio. Gostava que viesses. Épossivel que venhas. Aqui está outro segredo. O teupaifala nisso e a mamã deu-lhe toda a espécie de pormenores sobre o local. Bem, parece que os nossos destinos não vão estar separados durante muito tempo. Espero que também tu em breve vás adquirir uma pronúncia francesa impecável. Mas não fiques noiva, sim? Quero a distinção de ser não só a primeira mas a única mulher comprometida a chegar ao colégio.

P. S. Bevil já não está connosco. Tornou-se soldado. Não irá partir para a África do Sul por enquanto, mas, quando for, a guerra acaba logo, podes ter a certeza. Coitada da Jess, está triste, mas não estão noivos. Para grande alivio dos pais. Ficaram absolutamente aterrorizados, embora, claro, não tivesse sido uma calamidade tão grande, visto eu estar comprometida com Harry. Até à vista, Harriet, no nosso colégio de preparação para a vida social.

G.

 

As transformações pairavam no ar, mas, quando cheguei a casa, de férias, fui confrontada com a maior de todas até essa altura.

Era o fim do período da Primavera e, para meu desgosto, recebi uma carta de meu pai a comunicar-me que, em vez de passar as férias, como era habitual, em Chough Towers, teria de ir para Londres. Estariam à minha espera em Paddington.

Fiquei desapontada, mas, embora nem Gwennan nem Bevil fossem lá estar, mesmo assim estava a contar ir para a Cornualha, no intuito de saber por A'Lee essa fonte de informação infalível, o que estava, na realidade, a acontecer a Chough Towers, que o meu pai iria abandonar dentro de pouco tempo, e que melhoramentos haviam sido feitos na casa da ilha. Mas, acima de tudo, queria saber mais coisas sobre Bevil e Jessica Trelarken, porque não conseguia acreditar que Jessica tolerasse ser a companheira de um dos romances fortuitos de Bevil.

Nem tão-pouco conseguia entender o motivo por que o meu pai queria que eu fosse para Londres. Certamente porque, dado que não gostava de me ver, sem sombra de dúvida quereria que as minhas férias fossem passadas onde ele não estivesse.

Assim que desci do comboio, vi Fanny, que viera ao meu encontro. Parecia a mesma de sempre, com a sua capa simples de sarja e o vestido de algodão a aparecer por baixo. A sua touca preta, atada sob o queixo com uma fita cinzenta, fazia-lhe pouco pelo rosto, a não ser acentuar a sua palidez e esconder o cabelo castanho-grisalho, que andava sempre puxado para trás, de uma forma que não lhe ficava nada bem. Tinha uma expressão ansiosa. Senti-me emocionada ao olhar para ela. Parecia tão insignificante, mas para mim tentara ser a mãe que eu nunca conhecera.

O seu rosto descontraiu-se quando me viu.

- Miss Harriet. Meu Deus! Como cresceu!

- Pareces a mesma de sempre, Fanny.

- Os meus dias criadores terminaram. Isto mudou... vir para Londres nestas férias. - Olhou para mim com ansiedade. - O que pensa que isso significa?

- Aconteceu alguma coisa? - perguntei.

Confirmou com a cabeça, com um ar assustador.

- Oh! Fanny... o quê?

- O seu pai voltou a casar. Fiquei muito surpreendida.

- Mas, Fanny, com quem casou ele?

- Espere, minha senhora, vai ver com os seus próprios olhos.

- Ela está agora. em casa?

- Oh, sim. O seu pai está impaciente por lhe apresentar a sua madrasta. Pensa que todas as pessoas devem ficar tão encantadas com ela como ele.

- Ele. encantado.

- Diria isso.

- Mas. ele não é capaz de ficar encantado com nada.

- Bom, anda ocupado com esta grande tolice, posso dizer-lhe.

- Fanny, nunca pensei em nada disto.

- Isso era o que eu supunha. Por isso estou a avisá-la. Tinha de estar preparada. para a minha forma de pensar.

Ela pegara-me na mala e caminhámos para o local onde a carruagem esperava. Depois de nos instalarmos e ao atravessarmos as ruas, perguntei:

 

- Fanny, quando é que isso aconteceu?

- Há três semanas.

- Ele não falou no assunto.

- Não era seu hábito dar-lhe grandes explicações sobre o que fazia, querida, pois não?

- Mas fazê-lo de repente. Assim?

- Bem, levou um certo tempo a fazer a corte, penso eu. Ele mudou muito. Uma das criadas ouviu-o cantar uma manhã. Pensámos que estava a exagerar quando nos contou. Mas era verdade. O amor é uma coisa divertida, Miss Harriet.

- Deve ser, se lhe aconteceu a ele. Colocou a sua mão sobre a minha.

- Vai achá-lo mudado - avisou.

- Então deve ser para melhor - repliquei -, porque para pior não podia ser, pois não?

Achei-o mudado. Mas, quando conheci a minha madrasta, fiquei tão espantada que só consegui ficar boquiaberta perante a incompatibilidade deste casal.

Assim que cheguei a casa, a Sr. Trant veio à entrada dizer-me que fosse de imediato à biblioteca, onde o meu pai e Lady Delvaney estavam à minha espera.

Quando parei no limiar dessa sala, pude sentir a mudança a insinuar-se na casa. Nada, pensei, vai voltar a ser como dantes. Atingimos o fun de uma época. Lady Delvaney estava sentada numa poltrona perto da lareira. Era uma mulher jovem, delicada, com cabelo louro macio, uma pele admiravelmente fresca, rosto redondo de criança e olhos azuis-claros tão grandes que parecia estar admirada. Talvez ficasse, ao ver-me. Vestia rosa e branco, e a minha primeira impressão foi que parecia uma figura de confeitaria que o cozinheiro fizera para uma das festas do papá. Tinha uma fita cor-de-rosa no cabelo, o vestido estava enfeitado a cor- de-rosa e branco e o rosto fora suavemente empoado. A cintura era a mais fina que jamais vi, e nunca o termo "ampulheta" foi melhor aplicado do que a ela.

Porém, a visão mais espantosa nessa sala não era esta mulher. Era o meu pai. Nunca teria acreditado que ele alguma vez pudesse ter aquele aspecto. Os olhos haviam-se tornado mais azuis e estavam brilhantes como ficavam quando dizia gracejos aos seus amigos políticos.

- Harriet - disse, levantando-se, e avançando na minha direcção, pegou-me na mão com uma das suas e colocou-me a outra no ombro, um gesto de ternura que nunca tivera antes para comigo. - Quero que conheças a tua... madrasta.

A bela criatura cobriu o rosto com as mãos e murmurou:

- Oh, mas isso soa tão mal.

- Que disparate, meu amor - replicou o pai. - Tu e a Harriet hão-de ser amigas.

Levantou-se e ergueu aqueles olhos azuis enormes para o meu rosto: era muito mais baixa do que eu.

- Acha que sim? - perguntou, em tom tímido. Compreendi que a criatura estava, ou fingia estar, com medo de mim!

- Estou certa de que podemos. - Nunca achei tão fácil agradar a meu pai, que estava neste momento a sorrir para mim com ar bondoso.

- Fico muito contente.

 

- Ah! - exclamou o meu pai. - Eu disse-te que não terias nada a recear, não disse?

- Disseste sim, Teddy.

"Teddy"! Esta era nova para mim. "Teddy"! Que coisa tão absurda! Mas, mais do que isso, ele estava, na verdade, a gostar! Que milagre fora esta mulher capaz de fazer?

- E eu não tinha razão?

- Teddy, querido, tu sabes que tens sempre razão. Ela fazia covinhas na cara e ele sorria-lhe como se ela fosse uma das maravilhas do mundo. Senti que caminhava para um dos meus sonhos. Pareciam sentir-se tão felizes um com o outro que permitiam que um pouco dessa felicidade se estendesse também a mim.

- Parece confusa... Harriet. - Ela pronunciou o meu nome com timidez.

- Não fazia nenhuma ideia... Foi uma surpresa.

- Não a avisaste! Oh, Teddy, mas que maldade! E eu sou mesmo uma madrasta. Imaginem só. As madrastas são consideradas criaturas tão terríveis.

- Tenho a certeza de que vai ser uma madrasta simpática - predisse.

O meu pai parecia emocionado. "Será possível", perguntei-me, "que nunca o tenha conhecido antes? "

- Obrigada... Harriet. - Sempre a tal pequena pausa antes de ela pronunciar o meu nome, como se tivesse medo de o fazer.

- Madrasta, é mesmo! Não tens mais de seis anos do que Harriet.

Compôs uma daquelas suas expressões de enfado e prometeu:

- Bem, vou fazer todos os possíveis para ser uma madrasta

boa.

- Na verdade - propus -, já sou muito crescida para precisar de uma madrasta, logo, em vez disso, talvez possamos ser amigas.

Bateu as palmas com entusiasmo e o meu pai parecia encantado.

- Vão ter tempo de se conhecerem uma à outra durante as férias de Harriet - declarou o meu pai.

- Isso - anunciou ela - será o maior prazer.

Quando cheguei ao meu quarto, fechei a porta e olhei em redor, à espera de que estivesse mudado. Aqui estavam as mesmas quatro paredes que haviam presenciado imenso as desditas da minha infância; para aqui viera, depois de ouvir as palavras cruéis da tia Clarissa, e organizara os meus planos de fuga; aqui chorara muitas vezes até adormecer, por achar que era feia e indesejada. Ali estava a gravura da mártir cristã, que por algum motivo me assustara sempre, quando eu era pequena. Representava uma jovem, com água até à cintura, presa a um poste; as mãos estavam ligadas, com as palmas juntas, para que pudesse rezar, e os olhos erguiam-se para o céu. Costumava provocar-me pesadelos até que Fanny me explicou que ela se sentia feliz por morrer, porque morria pela sua fé e dentro de pouco tempo o seu sofrimento iria acabar, quando a maré subisse, porque nessa altura ficaria completamente submersa. Havia a pequena estante com os meus velhos livros, que haviam deliciado a minha infância. Ali estava o mealheiro donde tirara as moedas para pagar a minha passagem para a Cornualha. O mesmo quarto onde ficara fechada a pão e água como castigo por alguma atitude condenável, onde me esforçara por aprender a oração do dia ou versos de Shakespeare como punição.

 

O mesmo quarto, mas a casa estava diferente. O rancor do meu pai, a infelicidade de anos, abandonara-o, ou antes, haviam-lhe sido retirados como uma capa pelos dedos delicados desta figura de confeitaria, de aspecto fútil, que era a minha madrasta.

Examinei a minha imagem reflectida no espelho do toucador. Sim, eu mudara. Esse pouco de ternura que o meu pai me mostrara tinha feito dissipar o meu aspecto carrancudo. Prometera a mim mesma que iria crescer com um ar mais agradável. Gwennan tinha razão quando me advertiu quanto ao facto de eu fazer lembrar às pessoas que não era atraente devido à minha própria atitude.

Sentia-me excitada porque esforçarmo-nos por nos conhecermos a nós mesmos era excitante. Começava a acreditar que possuía o poder de influenciar a minha própria personalidade. Verifiquei como a felicidade com a sua Jenny o estava a transformar. Era uma descoberta maravilhosa.

O meu espanto aumentava à medida que os dias passavam. O meu pai não permitia rigorosamente que eu penetrasse no seu círculo mágico, mas ao mesmo tempo não me excluía de todo. Parecia que o facto de eu aceitar Jenny e vice-versa era necessário para tornar a sua felicidade completa. Suponho que a criança que eu fora, amarga e rancorosa, teria recusado dar-lhe aquilo que ele queria neste momento. Porém, eu mudara quando pusera o vestido cor de topázio, quando Bevil me mostrara com clareza que se havia sentido atraído por mim. De certa maneira tornara-me mais terna, e a nova Harriet perdera o seu carácter vingativo... queria agradar.

Por isso, tornei-me amiga de Jenny.

Agora, as refeições eram diferentes, com William Lister e eu, o papá e a sua mulher jovem. As conversas surgiam mais facilmente, pelo que nem William nem eu nos preocupávamos agora em fazer observações a despropósito. Jenny fazia-o com perfeição, e todas as suas futilidades eram recebidas com sorrisos do marido.

Iam muitas vezes ao teatro, o que era uma coisa nova para o meu pai, que antes nunca tivera tempo para isso. Porém, o teatro fizera parte da vida de Jenny e ela adorava. Jenny era capaz de tagarelar durante todo o jantar sobre o espectáculo que tinham visto ou que iam ver e sobre as personalidades do teatro que ela, evidentemente, admirava. O papá ouvia e aprendia com rapidez o que ela tinha para lhe ensinar sobre os diversos actores e actrizes de modo a poder aspirar ao seu género de conversa.

Um dia, o meu pai chamou-me:

- Quero falar contigo, Harriet. Por favor, vem até à biblioteca. - Segui-o até lá. Sentou-se e fez-me sinal para que me sentasse, olhando para mim com aquela aversão fria que me magoara tanto antes da vinda de Jenny. Por isso, era só quando estava com ela que se sentia mais humano para comigo! A autoconfiança que se criara à minha volta como uma concha era apenas uma cobertura frágil, pronta a estalar à mínima crueldade, e a expressão severa, eu sabia-o, começava a tomar lugar no meu rosto. Sentia-me feia, porque tinha a certeza de que me estava a comparar com a sua Jennyzinha delicada. - Tenho estado a pensar na tua educação adiantou.

 

Acenei com a cabeça, em sinal de assentimento, e ele olhou para mim com desespero. - Por amor de Deus, mostra algum entusiasmo.

- Estou. interessada.

- Espero bem que sim. Tenho estado a pensar que já vai sendo tempo de abandonares esse colégio. Certamente que precisas de uma certa preparação para poderes entrar na sociedade. A tia Clarissa tratará, por fim, de te iniciar, mas tu não estás de maneira nenhuma preparada para isso. Que idade tens agora?

Bem, não se lembrava. Lembrava-se de que a Jenny gostava de bombons atados com fita cor-de-rosa, mas não era capaz de se lembrar dos anos da filha. Mas talvez estivesse a fingir que se esquecera porque com certeza devia lembrar-se do dia que fora o mais trágico da sua vida, até conhecer a sua Jenny, que o transformara num homem novo.

- Dezasseis anos e meio.

- É um bocado cedo. Tinha pensado que devias esperar até teres pelo menos dezassete e então ias passar um ano ou dois no estrangeiro. Porém, não vejo razão alguma para que não possas ir agora. As tuas informações do colégio não são más. Claro que podiam ser melhores, mas são satisfatórias. O lugar para onde mandaram Gwennan Menfrey parece agradar aos pais dela. Não vejo porque não possa igualmente ser bom para ti. Portanto, não vais voltar para Cheltenham. Fiquei excitada. Voltar a estar com Gwennan dentro em breve! Era a melhor coisa a seguir a viver em Menfreya. - O colégio é perto de Tours - precisou. Como se eu não soubesse! Veremos o que fará por ti em, digamos... seis meses, e, se os resultados forem satisfatórios, ficarás durante um ano, talvez dois.

- Sim, papá - concordei.

Fez um gesto de rejeição e fui para a porta consciente de que estava a coxear.

Em ocasiões como essa, podia ver como precisávamos de Jenny. Se ela se fosse embora, a antiga relação entre mim e o meu pai voltaria logo. Essa percepção pôs-me muito triste, mas sentia-me excitada perante a perspectiva de me juntar a Gwennan.

Iam ao teatro nessa noite. William Lister contou-me que tivera dificuldade em arranjar os bilhetes, mas tinha de os comprar de qualquer forma, porque Lady Delvaney estava deveras ansiosa por ir. Era um novo desvio dos seus deveres do passado esta obtenção de bilhetes de teatro.

Nessa noite, ao jantar, que foi servido meia hora mais cedo por causa da ida ao teatro, Jenny parecia mais bonita do que nunca. Estava vestida de gaze cor de malva por cima de cetim verde, e tive de admitir que o efeito era deslumbrante. Usava o cabelo louro apanhado no alto da cabeça, o que a fazia parecer mais criança do que nunca. Penso que o meu pai andava a beber mais do que o habitual, e Jenny simulava uma grande preocupação.

- Mas, Teddy, estou a falar mesmo a sério. Se a tua pobre cabeça não estiver melhor, insisto em não irmos.

- Não é nada, meu amor, absolutamente nada - garantiu-lhe.

Ela voltou-se para mim.

- Mas, Harriet, a sua pobre cabeça estava tão mal esta tarde. Fi-lo descansar e pus-lhe um pouco de água-de-colónia na testa. É uma maravilha. Faz-me sempre sentir melhor quando estou cansada. Se alguma vez precisares, Harriet...

- Não tenho dores de cabeça, obrigada.

- Ah, não, és tão novinha... Mas, Teddy, tens de ter mais cuidado. E se a tua dor de cabeça não estiver completamente curada não irás assistir a peça alguma.

O meu pai sorriu para ela com ternura e declarou que o seu encanto afastara a dor de cabeça.

Olhei de soslaio para William, imaginando o que ele pensava de toda esta conversa de amor, e verifiquei que estava embaraçado, tal como eu.

Pouco antes da meia-noite, fui à janela e vi o meu pai, de cartola e paletó preto, e a minha madrasta, resplandecente, que regressavam do teatro.

Ela tagarelava. Conseguia ouvir a sua voz aguda, excitada, quando subiam para o quarto. Sentei-me à janela durante algum tempo a pensar se teria sido assim com a minha mãe e se teriam ficado encantados quando souberam que iriam ser pais. Tentei convencer-me a mim mesma de que ele ficara tão emocionado nessa altura perante a perspectiva de vir a ser pai como estava agora por ser marido de uma rapariguinha bonita.

Talvez sob a influência de Jenny se viesse a tornar cada vez mais meigo e me contasse.

Despi-me, fui para a cama e adormeci logo até ser despertada de súbito pelo som de pancadas na porta, que, tal como os meus olhos, se abriu com violência.

A minha madrasta, em roupão cheio de enfeites supérfluos feitos de renda e cetim, com o cabelo louro em confusão a cair-lhe pelos ombros, os olhos azuis arregalados como nunca os vira e o medo estampado em todo o seu rosto lívido, gritava para mim de forma descabida.

- Harriet. por amor de Deus. vem. O teu pai. Teddy. aconteceu alguma coisa. Oh, Harriet. Vem depressa.

O meu pai morreu ao romper da manhã seguinte. Nunca me tinha sentido tão vazia, nem com tamanho sentimento de irrealidade. Só conseguia pensar: agora, nunca mais serei capaz de conquistar a sua afeição. nunca. nunca. nunca!

A noite estranha terminara. O médico dissera-nos que o meu pai tivera um ataque cardíaco e que havia apenas uma possibilidade de poder recuperar, mas, antes de amanhecer, essa possibilidade desapareceu. Jenny não fazia mais que tremer e murmurar:

- Não pode ser verdade. Não pode ser verdade. O médico falou comigo, em vez de falar com ela.

- Se recuperasse - informou ele -, teria ficado inválido. Penso que não havia de gostar de viver nessas condições.

Ficámos todos agradecidos a William Lister, que se encarregou das actividades domésticas, no seu jeito calmo e eficiente.

O médico receitou-me calmantes, a mim e a Jenny, porque achou que precisávamos de dormir. Ela manteve-se perto de mim.

- Posso ficar contigo, Harriet? Não sou capaz de voltar para o nosso quarto.

Naquele momento, senti que gostava dela.

- Claro - acedi.

 

Assim, dormiu na minha cama até de manhã. Acordei com a sensação de que tivera um pesadelo. Nada voltaria a ser o mesmo. O meu pai, de quem eu entendia tão pouco, fora, apesar disso, o verdadeiro centro da minha existência. Tirara-se-me um fardo de cima, mas algo que me era vital fora-me retirado. Não era capaz de explicar o que sentia.

Os sentimentos de Jenny eram menos complicados. Tinha perdido o grande provedor, o padrinho mágico que a descobrira em farrapos e a levara ao baile. Sentia-se muito angus tiada, e, embora a ansiedade em relação ao futuro pudesse ter sido a causa desta situação, penso que ela tinha gostado dele.

Na devida altura, a tia Clarissa chegou, manifestando de imediato a sua antipatia por Jenny. Dei comigo a desejar que esta não notasse.

Veio ao meu quarto e olhou para mim com um ar de tal forma crítico que até mesmo numa altura como aquela me fez pensar se estaria a imaginar a dificuldade em encontrar um marido para mim.

- Que acontecimento tão chocante! - Fechou a porta. Eu nunca dei a minha aprovação a este casamento. Nunca tinha conhecido o Edward a actuar de uma forma tão disparatada antes. Porém, essa... criatura! O mais indesejável! O que é que o dominou?

- O amor - respondi.

- Harriet, estás a tentar fazer-te esperta? Não é muito conveniente, sobretudo numa altura destas.

- Não é de modo algum querer fazer-me de esperta ver o que é evidente. O papá estava muito apaixonado por ela; por isso casou-se e deu-lhe todas as coisas que ela nunca tivera antes.

- Hum! E ela aceitou com a maior avidez.

- A sua avidez de receber não podia comparar-se à dele de dar.

- Que disparate é este? Estou profundamente chocada e cheia de dor, mas isso não vai impedir de ter a certeza de que chegámos na verdade ao fundo deste mistério.

- Mistério? O papá morreu com um ataque de coração. O médico assim o disse.

- Bom, veremos na autópsia, não é?

- Uma autópsia!

- Minha querida filha, faz-se sempre uma autópsia depois de uma morte repentina, e a morte de teu pai foi muito repentina.

- Tia Clarissa, o que está a insinuar?

- Simplesmente que um homem de meia-idade, um homem muito rico, decide casar-se com uma jovem aventureira. Faz isso e, logo a seguir, morre.

- Mas o que tem ela a ganhar?

- Sem dúvida que iremos saber quando o testamento for lido depois do funeral. Mas a autópsia, agrada-me dizê-lo, vem primeiro.

- Tenho a certeza de que está completamente enganada.

- E tu, Harriet, estás demasiado obstinada. Posso verificar que os teus modos continuam tão detestáveis como sempre. - Voltou-se e estava quase a deixar-me, quando parou à porta. - Nem uma palavra sobre este assunto - preveniu - a ela. Se está a pensar que nos enganou a todos, deixa-a continuar a pensar nisso por mais algum tempo.

Deixou-me sozinha e pensativa.

Coitada da Jenny, pensei. Vai sentir a falta do carinho e da protecção do meu pai.

Mais tarde, quando desci às instalações dos criados, não pude deixar de ouvir os seus comentários:

- É o que acontece a um homem velho quando tenta ser jovem.

- Não está a pensar que ela...

 

- Não vai sem resposta! Mas... não sei. Suponho que a deixou numa situação confortável. Bem, se ela queria ver-se livre dele. e ir-se embora com algum homem novo.

Não quis ouvir mais nada. Era tão cruel, tão injusto. O meu pai fora acometido por um ataque de coração, sem dúvida por ter tentado acompanhar o ritmo da juventude de Jenny, mas a culpa era dele, e não dela.

A suspeita invadiu a casa como o nevoeiro de Novembro. No dia seguinte, vi os jornais.

Sir Edward Delvaney morreu de ataque cardíaco. Dois meses após o seu casamento com uma corista, Miss Jenny Jay, Sir Edward Delvaney sucumbiu na sua residência, em Londres. Isto significa uma eleição intercalar no distrito de Lansella, na Cornualha, pelo qual Sir Edwardfora deputado nos últimos dez anos.

Bevil, que ainda não partira para a África do Sul, veio a Londres, para o funeral, em representação da sua família, segundo explicou. Quando a Sr. a Trant me avisou de que o Sr. Menfrey pedira para me ver, corri ansiosa à biblioteca. O seu rosto iluminou-se quando me viu. Fiquei de pé à sua frente e ele colocou-me as mãos nos ombros, olhando para mim com tristeza.

- Pobre Harriet - consolou-me -, foi tão repentino. Olhava para o meu rosto com um ar perscrutador: sabia como fora a minha relação com o meu pai.

- É... desconcertante - desabafei.

- Claro. Ficámos chocados quando soubemos, e todos te mandam lembranças. Querem que vás para Menfreya, se tiveres gosto nisso.

Sorri com languidez.

- É muito simpático da parte deles - correspondi.

- Claro que Gwennan está ausente no tal colégio francês.

- Ainda no outro dia. ele me estava a dizer que eu iria juntar-me a ela.

- É uma boa ideia. Uma mudança completa. Depois voltar e começar de novo. É o melhor plano possível.

A porta abriu-se e Jenny entrou na sala. Ficou admirada por ver que eu não estava só.

- Oh, Harriet... - começou, após o que ficou quieta, a olhar para Bevil.

- A minha... madrasta - apresentei-lha.

Bevil avançou e pegou-lhe nas mãos.

- Lamento que tenhamos de nos encontrar pela primeira vez em circunstâncias tão tristes.

Os olhos dele brilhavam. Eu já vira aquele olhar antes e fiquei cheia de medo.

O funeral foi quase uma cerimónia pública. O meu pai tinha sido um político bastante conhecido e aparecera recentemente nos jornais, ao casar com uma rapariga com idade de ser sua filha e corista, ainda por cima, e agora tinha morrido de repente, poucas semanas depois desse casamento.

 

Sempre que sinto o perfume dos lírios, lembro-me desse dia. O cheiro do caixão de carvalho, o perfume das flores e um ambiente de mau presságio pairava na casa. Todos os compartimentos estavam escuros, porque as persianas achavam-se corridas, e andavam por ali todos a falar em segredo e com ar solene e, quando se mencionava o nome de meu pai, falavam dele como se fosse um santo.

Lembro-me do cortejo, lento e solene, no qual eu me integrava, e do rosto das pessoas, curiosas, a espreitarem, para nos verem. especialmente a Jenny. "É aquela. Algumas pessoas conhecem uma coisa boa quando a vêem. Corista de segundo plano e a seguir minha senhora. e ainda minha senhora e uma fortuna que suponho sem ónus. Ah, sim, algumas pessoas têm sorte. "

Pobre Jenny! Parecia desatenta aos mexericos. Quem me dera ficá-lo também. A tia Clarissa endireitou-se na cadeira toda empertigada, com um ar hediondo, pareceu-me, e a sua touca preta, onde brilhavam as contas e oscilavam os pingentes de âmbar negro. Encontrava-se desiludida porque a autópsia provara que o meu pai tinha morrido apenas com um ataque de coração.

Na igreja, o calor parecia sufocar. Sentia-me contente com Bevil, que se sentou entre mim e Jenny, como se estivesse decidido a proteger-nos.

O sol escaldava enquanto permanecíamos à volta da sepultura. Continuava a imaginar cenas do passado entre mim e o meu pai e procurei em vão uma que tivesse sido feliz. Foi unicamente quando Jenny esteve presente que ele me demonstrou um pouco de amizade. E, enquanto prestava atenção ao som da terra sobre o caixão, senti uma enorme desolação no meu coração, por nunca mais poder voltar a vê-lo. Surpreendi as lágrimas no rosto de Jenny e peguei- lhe na mão, e ela apertou a minha, com gratidão.

De regresso a casa, bebemos vinho e comemos a refeição que nos tinham preparado, e o Sr. Greville, da Greville, Baker e Greville, veio ler o testamento.

Na biblioteca, onde a cena iria passar-se, sentia-se uma atmosfera de tensão. O Sr. Greville sentou-se à mesa, com os óculos na ponta do nariz e um ar solene e compassado, como se fosse provocar aquelas pessoas ansiosas, fazendo-as esperar o maior tempo possível.

Senti-me saturada com a linguagem jurídica e havia um assunto que me interessava mais do que qualquer outra coisa, que era o interesse de Bevil pela jovem viúva, e eu ainda não tinha a certeza se o dela por ele não iria aumentar.

Cheguei à conclusão de que havia legados para os criados que estavam ao serviço do meu pai quando morreu, que William Lister também tinha recebido um, pequeno, e que a tia Clarissa fora contemplada. Não consegui entender o que me ficara reservado, mas fiquei convencida de que iria ficar bem prevenida e pareceu-me que Jenny tinha herdado o grosso da enorme fortuna do meu pai.

Olhei para o seu rosto, mas ela parecia não estar a entender o que se estava a passar. Dava nós no lenço com um ar muito atento e a seguir desfazia-os. Chorava calmamente.

Coitadinha da Jenny. Recusava-me a acreditar que fosse uma caçadora de fortunas.

Fizeram-se e desfizeram-se imensos planos, mas foi decidido que, como era desejo de meu pai, eu seria enviada para fora, para o colégio de aperfeiçoamento, logo que possível.

No que me diz respeito, isso era a melhor coisa que me poderia acontecer. Deixei de chorar pela morte de meu pai e em vez disso passei a imaginar o que o futuro me iria reservar.

 

Bevil iria partir quase de imediato para a África do Sul. Um dia, fui com ele andar a cavalo no Row, e foi um momento feliz. Jenny não sabia andar a cavalo, razão por que não nos acompanhou. Fiquei contente com o facto, porque, quando Bevil ia lá a casa, tanto ela como a tia Clarissa estavam presentes e nunca tive uma oportunidade de estar com ele a sós.

Enquanto levávamos os cavalos pelo parque, ele disse:

- Vais-te sentir melhor quando estiveres com a Gwennan. Ela está radiante por ires para o pé dela. Harriet, tudo isto foi um choque para ti. Sempre esperaste torná-lo mais paternal para contigo, não foi?

- Como soubeste?

- Sei muita coisa a teu respeito, Harriet. - Riu-se. Pareces alarmada. Estás com medo de que eu esteja na posse dos teus segredos mais ocultos?

- Não tenho segredos ocultos.

- Espero bem que não, na tua idade. Harriet, muito possivelmente vou tomar conta do eleitorado do teu pai.

- Fico satisfeita. Era aquilo que querias.

- Estranho. Acontece isto, e depois...

- Consegues o que sempre quiseste.

- Tenho de ser eleito primeiro, como sabes.

- Se fores, vais precisar de um secretário.

- E então?

- O William Lister é muito bom.

- E recomendas-mo?

- Qualquer pessoa que fosse capaz de satisfazer o meu pai deve ser boa.

- Vou lembrar-me disso.

Sorriu-me, chicoteámos os cavalos ao de leve e partimos a meio galope.

Pouco tempo depois, juntei- me a Gwennan, em França.

 

A vida no colégio era agradável: não havia toda aquela disciplina de Cheltenham. O facto de ser amiga de Gwennan deu-me desde logo uma certa importância e fiz novas amizades, mas claro que nenhuma tão íntima como a de Gwennan, que ficou radiante ao ver-me. Compartilhei um quarto com ela, o que era cómodo, porque, como tínhamos de falar francês todo o dia, parecia um privilégio enorme poder conversar em inglês no nosso quarto.

Gwennan tornara-se mais alta e mais voluptuosa. Era uma beldade. Eu também era alta, mas magra, e de qualquer modo havia o maldito defeito de coxear. No entanto, as professoras sentiam-se satisfeitas comigo, pois tinham a certeza de que eu seria mais fácil de tratar do que as raparigas alegres e atraentes que permaneciam a seu cargo.

Muito pouco tempo depois de Bevil chegar à África do Sul, foi ferido, não antes, no entanto, de se ter distinguido por actos de coragem. Regressou a casa a tempo de participar nas eleições gerais desse mês de Setembro, em que foi eleito como representante de Lansella por grande maioria, e, como o seu partido conservara o poder, o futuro apresentava-se-lhe brilhante.

 

Gwennan vangloriava-se dele com frequência, e as outras pediam a minha opinião, para confirmarem as suas presunções a favor dele. Eu dava-a de boa vontade.

Gwennan era a aluna mais brilhante do colégio, e eu nunca tive tanta certeza do encanto dos Menfreys! Antes, poderia ter imaginado que pensara assim por ser uma criança que tinha vivido num ambiente familiar particularmente frio. Porém, agora, via Gwennan com raparigas de famílias semelhantes à sua, e ela sobressaía de uma forma tão visível como uma chama num lugar escuro.

Eu desempenhava um papel secundário nas suas aventuras e era convocada para a ajudar a sair de muitas situações difíceis. Possuía admiradores nas redondezas e muitas vezes saía à socapa, quando todo o colégio se recolhia, para dormir. Estas aventuras nocturnas representavam o sal da vida, confessou-me. E era eu que tinha de verificar se as janelas envidraçadas que davam para a nossa varanda estavam abertas e preparadas para o seu regresso. Era eu que tinha de vigiar e avisá-la quando era seguro subir pela trepadeira e fazê-la saltar para dentro da varanda. Era eu que tinha de fazer o trabalho que lhe estava reservado, para que ela pudesse sair para qualquer lado. Eu amava Gwennan como amava tudo o que estava relacionado com Menfreya, e ela também gostava de mim. Sabia que, se estivesse em dificuldades, poderia confiar nela.

Dava festas à meia-noite no nosso quarto, o que, claro, era proibido, mas tratava-se de uma prática frequente, e creio que os responsáveis sabiam disso e fechavam os olhos. Desde que não houvesse convidados de fora, estas festas entre nós eram consideradas uma tradição na nossa vida, uma vida meio secreta.

Divertiam-me. Gostava de ficar estendida na cama e observar Gwennan a falar continuamente de si própria ou de Menfreya, do seu noivado com Harry Leveret e da vida na Cornualha. Uma vez, contou como eu fugira e viera para a ilha, ali permanecendo até ser descoberta. Isso chamou durante algum tempo a atenção sobre mim e Gwennan mandou-me chamar, para fazer o relato dessa aventura. Fi-lo no meu jeito seco, a que chamavam "cínico", e fiquei encantada ao vê-las todas sentadas na cama e no chão a escutar-me, enquanto eu contava a história em francês, porque estavam apenas algumas raparigas inglesas na festa.

Foram dias felizes e penso que estava decidida a desfrutá-los à medida que passavam, sem pensar no futuro ou no passado. Não haveria nunca uma época como esta na minha vida.

De vez em quando, ficava preocupada, a pensar no que estaria a acontecer não só em Menfreya como em Londres. Jenny escrevia, porém, não era nenhuma escritora e as suas cartas eram breves. Continuava na casa, porque não sabia muito bem o que fazer, e esperava que, quando eu regressasse, ficasse lá.

Havia várias cartas deste género que me eram dirigidas. Ela era uma pessoa muito pouco esperta, que nunca seria capaz de esconder os seus sentimentos, e em breve comecei a descobrir um novo tom nas suas cartas. Disse para comigo que ela se estava a restabelecer da perda e tive o pressentimento desagradável de que esse facto tivesse alguma coisa a ver com Bevil.

 

Referi isto a Gwennan. Lembro- me de que ela se encontrava estendida na cama como gostava de estar, porque desse ângulo conseguia ver a sua imagem reflectida no espelho do roupeiro.

- Bevil? - exclamou Gwennan, erguendo os olhos e observando ainda a sua imagem. - Seria difícil que fosse pensar nisso. Bom, não será mais do que um romance passageiro da parte dele. A sua escolha é Jess Trelarken. - Voltei um pouco o rosto, de modo a que ela não conseguisse ver-me a fazer beicinho. Não precisava de ficar preocupada: ela estava concentrada no rosto vivo de Gwennan Menfrey reflectido no espelho. - Oh, sim, Bevil tem tido romances sem conta. E vai ter sempre, suponho. É igual ao papá. Mas existe sempre uma pessoa para quem voltam sempre, e no caso dele é Jess.

- E quanto a Jess? Será que ela vai ficar pacientemente à espera de que ele volte?

- Claro. Tu conheces Bevil, não conheces? Ele possui o fascínio dos Menfreys.

- Mas não tem a vaidade dos Menfreys, espero - ri-me.

- Vaidade! Minha querida Harriet, é vaidade enfrentar a verdade? Querias que eu fingisse que era simples e insignificante? De que serviria isso?

- De nada, absolutamente, porque nunca serias capaz de convencer as pessoas de que pensavas isso. A tua arrogância é o teu encanto mais convincente.

- Ora! - exclamou. - E insisto numa coisa que já te disse antes, Harriet Delvaney: se te preocupasses menos em mostrar às pessoas que não és atraente, talvez elas nem dessem por isso.

- Pelo menos - repliquei -, não me coloco na situação indelicada de estar noiva de um homem e divertir-me com outros.

- Minha querida Harriet, dentro de pouco tempo eu vou assentar, ainda muito jovem. Não achas que tenho o direito de dar algumas cabeçadas?

- Quando se semeia muitas vezes, é-se obrigado a colher.

- Muito perspicaz e também muito banal. Parece-me que ouvi expressar esses sentimentos umas três mil vezes durante toda a vida, que, tens de admitir, não se pode considerar muito longa.

- Gwennan, estás apaixonada pelo Harry Leveret?

- Não sejas ridícula - respondeu, mudando de conversa.

Gwennan terminou o seu ano no estrangeiro antes de mim. Quando foi para casa, senti muito a sua falta. E, três meses depois, voltei.

A minha madrasta ficou contente por me ver. Desabafou que se sentia só, na casa, sem o meu pai.

- Talvez - afirmou, tristonha - eu não seja a dona indicada para uma casa como esta. Tenho pensado muitas vezes que me agradaria uma pequena casa de campo.

- Então, porque não desiste dela? - perguntei. - Porque não procura uma casa de campo?

Olhou para mim com um ar incrédulo.

- Não te importavas, Harriet?

Ri-me para ela. Na realidade, era bastante insinuante.

 

Andei pela casa. Parecia diferente, agora que o meu pai já não se encontrava ali. Parei em frente do seu retrato, na biblioteca, a contemplá-lo. Estava natural, mas não era o pai que eu conhecera. Os olhos eram quase benévolos. Eles nunca olharam para mim dessa forma. O sorriso era divertido, os olhos atentos. Um homem que tinha encanto para todos, menos para a filha.

Subi ao andar de cima e debrucei-me sobre o corrimão, a fim de sentir o cheiro da cera e da terebintina e de me lembrar do que ouvira naquela noite em que fugi. Percorrera um longo caminho desde a rapariguinha que se tinha convencido de que era feia e indesejada porque alguém com certa imprudência o afirmara. Gwennan fez-me notar que eu me estava sempre a defender e tinha razão. Bevil só precisou de me dar um pouco de atenção e despontei numa nova personalidade. Só precisei de usar um vestido que pertencera a uma mulher de Menfreya para me tornar atraente.

Os Menfreys transformavam-me. Gwennan com a sua fraqueza, muitas vezes brutal, Bevil com a sua admiração.

Embora muitas vezes me tivesse perguntado se a ternura de Bevil para comigo era parecida com a que dava a todas as mulheres. As mulheres achavam- no muito atraente. Ele mostrava quanto as admirava, como elas eram importantes para si. E, ao mesmo tempo que estava apaixonado pela bela Jessica Trelarken, conseguia arranjar tempo para se mostrar simpático para com a sem-graça da Harriet Delvaney.

Outrora pensava-se que eu iria casar com Bevil, mas essa ideia não teria sido alterada agora? Porque parecia que o meu pai deixara o dinheiro a Jenny e que eu, embora em boa situação económica, não era a herdeira que antes se pensava que viria a ser.

Recebi uma carta de Gwennan.

Minha querida Harriet, a data do casamento está marcada. Já lhes comuniquei que não vou querer mais ninguém senão tu para minha dama de honra, pelo menos uma delas. E tu vais ser a principal. Dama de honor, creio, é o termo correcto. Vais ter de vir para aqui, imediatamente, ou logo que possas. Não te demores. Há muito que fazer e tenho imensas coisas para te contar. A mamã queria levar-me a Londres, para um desperdicio de gastos, mas isso está completamente fora de questão. O dinheiro, minha querida! É mau costume a fami lia da noiva ter de arcar com todas as despesas do casamento. Eu ainda não sou esposa de um homem rico. Depois da lua-de- mel, vai ser em Itália, meu amor, e a seguir na Grécia, serás a nossa primeira convidada em Chough Towers. Contei ao Harry e ele está preparado para transigir em todas as coisas. Tenciono que seja assim toda a vida. Vem o mais depressa que possas, porque há ainda que tratar do assunto das tuas roupas para o casamento, minha querida. Elas terão de ser feitas em Plymouth, mas tenho a certeza de que podemos inventar as duas qualquer coisa de verdadeiramente espectacular.

Menfreystow anda numa confusão, excitada com tudo isto, e creio que o assunto principal de conversa é o casamento.

 

Faltam sete semanas, mas há muitos assuntos a tratar, e, se não vieres depressa, nunca vamos conseguir que te assente bem esse vestido de casamento magnífico. Bevil está entusiasmado ao máximo com o casamento. Tem estado tremendamente ocupado nestes dias, agora que se tornou deputado por Lansella. Penso que no intimo se sente satisfeito, porque, quando eu casar com o meu querido e rico Harry, sentirá menos a obrigação defazer um c. p. c. (casamento por conveniência). Conheço-o bem. Se ao menos Jess fosse tão rica como o meu Harry, haveria um casamento em duplicado em Menfreya.

Agora, estou a ser indiscreta. Mas, quando o não fui? Tens de queimar esta carta, mal a leias: pode dar-se o caso de ir para às mãos de Bevil, de Jess Trelarken ou de qualquer outra pessoa que não tu. Vem depressa. Tenho saudades tuas.

Gwennan

Queria lá estar. Queria sentir a brisa do mar no meu rosto. Queria dormir em Menfreya e acordar de manhã, com o fito de olhar lá para fora, em direcção ao mar e à casa da ilha, que era nossa, ou antes, de Jenny, porque parecia que agora era tudo seu.

Estava sentada à janela, a olhar para a praça, quando vi chegar a carruagem e Jenny descer, parecendo perturbada.

Vinha a subir as escadas em direcção ao meu quarto.

- Harriet - chamou. - Estás aí, Harriet?

- Entra - correspondi e aproximei-me, para a cumprimentar. Parecia desnorteada, um pouco como uma criança que estivesse à espera de um presente que lhe foi arrancado.

- A casa de campo... - balbuciou.

- Sim? - Sabia que ela, nas últimas semanas, tinha andado, excitada, à procura duma.

- Não a posso comprar.

- Porquê?

- Afinal de contas, o dinheiro não é meu.

- Explica-te.

- Tu estavas lá quando leram o testamento. Não deves ter entendido, também.

- Não estava a prestar atenção, suponho. Pensava no meu pai e no passado e no seu casamento consigo e tudo isso.

- Eu também não estava a prestar atenção. Não entendo isso agora, embora ele tivesse explicado e voltado a explicar e eu tivesse respondido que entendia. Continuava a pronunciar "bens à guarda de Miss Delvaney". És tu, querida. Estão à tua guarda, o que parece significar que eu tenho o rendimento ou qualquer benefício desse género enquanto for viva, mas, quando morrer, será tudo teu. Ninguém mais pode ser dono, a não ser nós, já vês. Tu, neste momento, tens a tua renda, o dinheiro posto de parte para a tua educação, mais uma parte para o teu casamento, e o resto é meu, mas só em relação ao rendimento e não estou autorizada a tocar no capital. Não posso comprar uma casa, porque o dinheiro é todo para ti. De certa forma, ele é-me emprestado gratuitamente até eu morrer, ao ter o rendimento dele. Depois disso, será para ti, e para mais ninguém.

- Começo a entender.

Bem, ele tinha-se lembrado de mim. Preocupara-se com o meu futuro mais do que eu pensava e sem dúvida que lhe ocorrera que a minha madrastazinha leviana seria uma presa fácil para caçadores de fortunas.

Qualquer pretendente que não se desse ao trabalho de examinar os termos do testamento antes de se casar com ela teria un choque um tanto desagradável quando descobrisse.

Eu ainda era uma herdeira importante, ou pelo menos seria, se Jenny morresse.

O meu pai era o género de homem para combinar tudo com muita segurança.

- Tenho pena em relação à casa, Jenny.

Sorriu.

- Não se pode fazer nada, pois não? Não me importo tanto, agora que estás em casa.

Tencionava ir para Menfreya, para o casamento de Gwennan, mas, uns dias antes de partir para a Cornualha, recebi uma carta da tia Clarissa, que me pedia que fosse visitá-la à sua casa de St. John's Wood.

Fanny acompanhou-me, porque, quando se visita a tia Clarissa, devem observar-se todas as convenções sociais, e ela haveria de considerar impróprio eu viajar sozinha. A minha madrasta poderia ter-me acompanhado, mas não foi convidada e, na realidade, contou-me que a tia Clarissa, desde o casamento, tornara bem claro que não tinha nenhuma intenção de a visitar ou de a convidar para a sua casa.

Fanny ficou a tomar chá com a criada enquanto eu me encontrava com a minha tia e as minhas primas.

Fui conduzida à sala de estar, onde se encontrava sentada a minha tia com duas das minhas primas, Sylvia e Phyllis. Clarissa, a mais nova, encontrava-se ainda na sala de estudo. Phyllis era mais ou menos da minha idade e Sylvia, dois anos mais velha.

Quando entrámos, dei-me conta do defeito de coxear e do cabelo que não encaracolava.

- Ah, Harriet. - A minha tia ergueu o rosto devagarinho, para que pudesse beijá-la na face. Não se levantou, e o cumprimento foi frio. não um beijo de verdade, só o contacto das nossas peles, foi só isso. - Por favor, senta-te. Aí no sofá, com a Sylvia. Phyllis, minha querida, podes mandar servir o chá. - Phyllis atirou para trás os seus caracóis dourados e foi até junto da fita da campainha. Senti três pares de olhos em cima de mim... olhos altivos, críticos, complacentes. "Graças a Deus, as minhas filhas não são como esta", dizia o olhar da tia Clarissa. - E como te estás a dar. nessa casa?

- Muito bem, obrigada, tia.

- Espero que ela tenha estranhado eu não a convidar.

- Ela não referiu que sentia a falta da sua companhia. A tia Clarissa corou e disse apressadamente:

- Penso que não devias voltar para o colégio. O teu pai pediu-me, antes de morrer de repente, que te apresentasse à sociedade com as minhas filhas e eu prometi-lhe fazê-lo. Foi por este motivo que te pedi que viesses cá esta tarde.

- Isso faz-me sentir um navio de guerra - afirmei. - Será necessário apresentar-me à sociedade?

- Minha querida filha, não poderias ser recebida nas casas mais convenientes se não tivesses uma apresentação à sociedade adequada. É o meu dever, agora que já não tens pai e a tua madrasta é. - teve um calafrio -. completamente inconveniente... é meu dever tomar-te sob a minha protecção. Tenciono tomar conta de ti ao mesmo tempo que das minhas duas filhas. Será muito mais económico.

- Três pelo preço de uma - aleguei.

- Minha querida, criaste o hábito de tecer comentários inoportunos e que não te ficam bem. Estou a organizar festas e bailes para as tuas primas, e tu vais juntar-te a nós.

- Não tenho grande desejo de me preparar para a temporada londrina.

 

- Não é uma questão de desejo, Harriet, trata-se de uma necessidade para uma rapariga da tua classe e posição.

- Sempre achei que a temporada é um pouco semelhante a um mercado de casamentos. As cabeças a prémio são exibidas e inspeccionadas.

- Oh - exclamou a tia Clarissa, e as minhas primas olharam, horrorizadas. - Não sei - continuou a minha tiaonde aprendeste essas ideias estranhas. Não no teu colégio, espero. Deve ser essa tua madrasta.

O mordomo chegou, acompanhando a copeira, que colocou o chá em cima da mesa, perto da minha tia. Enquanto os criados estiveram presentes, a conversa limitou- se ao tempo.

- A senhora serve?

- Sim - respondeu, e havia no seu tom de voz uma ordem para se retirarem.

Comemos sanduíches de pepino e tostas e Sylvia trouxe-nos as chávenas. Informei-a de que ia partir para Menfreya, para servir de dama de honor no casamento de Gwennan.

- Gwennan vai casar! Meu Deus, ela acabou de sair da escola.

- Ela não precisa de uma temporada - insinuei, olhando, com malícia, para as minhas primas. - E vai casar-se com Harry Leveret, que é, creio, quase milionário.

- Não tem passado - declarou a minha tia, com ar triunfante. Porém, acrescentou, com relutância: - Embora a fortuna seja enorme. E casar... logo ao sair do colégio.

- Quase um feito - murmurei, sorrindo para as minhas primas -, com o qual não podemos esperar competir.

- Que idade tem ela?

- Deve ser dois anos mais nova do que tu, prima Sylvia. Sylvia corou.

- Suponho que eram amigos de infância - resmungou entre dentes.

Achavam-me maliciosa. As minhas primas iriam a seguir comentar uma com a outra que, como eu sabia que teria dificuldade em encontrar um marido, tinha esperanças que para elas também não fosse fácil.

- Quando regressares, tomarei conta de ti - participou a minha tia.

- Lady Masterson, que vai apresentar a filha, deu-me uma lista de jovens encantadores que vai convidar para as suas festas. Assim, não ficaremos desprevenidas. - Senti-me sinceramente aborrecida com a perspectiva e perguntei-me a mim mesma se seria possível evitar isso. Não queria ser exibida como uma vitela. "Ela coxeia um pouco, mas está ali uma fortuna... pequena neste momento, mas, se a madrasta morrer, uma grande fortuna. Alguém pronto para arriscar? " - Tens de cultivar um pouco de encanto, minha querida Harriet - prosseguiu a minha tia. - Não podes esperar conseguir alguma coisa sem encanto.

- Não estou demasiado ansiosa em relação ao meu estado, porque tudo o que esperariam que eu conseguisse era arranjar um marido, sem o qual posso muito bem passar. Esqueceu-se, tia, de que o meu pai me deixou numa boa situação económica?

Houve um silêncio profundo, após o qual a minha tia argumentou, com firmeza:

- Tenho receio, Harriet, de que tenhas criado algumas ideias muito interesseiras. E deixa-me avisar-te: o teu hábito de as expressares dessa forma, inconveniente ao máximo, não te vai.

- Comprar um marido? - acrescentei.

- Na realidade, Harriet. Pergunto-me a mim mesma porque me dou ao trabalho ingrato de te apresentar à sociedade com as minhas filhas. É um dever que antevejo com bastante apreensão.

Quando terminou o chá, a tia Clarissa ordenou às minhas primas que me levassem à sala de estudo e me mostrassem alguns dos vestidos que iriam usar nas suas festas de apresentação à sociedade.

A pequena Clarissa veio juntar-se a nós. Era muito parecida com as irmãs, bonita de uma forma superficial e estouvada, que era o que se poderia esperar de raparigas cuja educação fosse orientada pela tia Clarissa. Foram ensinadas a acreditar que o objectivo máximo era o casamento bem sucedido. Imaginava, enquanto ouvia a sua conversa, como viveriam, mesmo que conseguissem esse objectivo. Devia ser impossível fazê-las entender agora que o que acontecia nos anos a seguir à cerimónia era mais importante do que o que se passava durante os poucos meses que a precediam.

Eu era uma estranha no meio delas, um cuco no ninho. Elas tinham medo da minha língua, mas não do meu rosto e da minha figura. Aí estavam em vantagem e mostravam-se deci didas a explorá-la.

Fiquei contente quando chegou a altura de me ir embora e, ao regressar para casa, na carruagem, pude expressar a minha irritação a Fanny.

- Quem me dera não precisar de voltar lá. A minha tia está disposta a fazer o máximo para me arranjar um marido!

Vai exibir-me nos seus bailes mesquinhos, que eu vou detestar, de qualquer maneira. Será quase como ter um cartaz à volta do pescoço: "Excelente pechincha. Levemente deteriorada, mas inúmeras vantagens. Por favor, dirijam-se à senhora Clarissa Carew, tia do objecto, para mais pormenores. "

- Oh, menina Harriet, a menina é única. Não sei como pensa nessas coisas. Seja como for, acho que não é do género de casar contra a sua vontade. Se bem a conheço, não.

- Tens razão, Fanny. Quanto eu detesto este comércio. Estava agradecida porque, antes de começar esta temporada indesejável, eu devia estar em Menfreya.

 

Quando cheguei com Fanny a Liskeard fiquei surpreendida por encontrar A'Lee à minha espera. Eu soubera que viriam ao meu encontro, mas estava à espera da carruagem de Menfreya.

- Ordens de Miss Gwennan - explicou A'Lee, cumprimentando-me como se eu nunca tivesse estado fora.

- Mas esta carruagem não é a dos Leverets?

- Ela é quase uma Leveret, Miss Harriet. Já está a dar ordens. - Moveu o queixo com uma gargalhada malcontida. Tive a certeza de que Gwennan já estava a dar que falar nas redondezas. A caminho de Menfreya, revelou-me que Gwennan tencionara vir encontrar-se comigo, mas tivera de ir a Plymouth tratar de alguns preparativos para o casamento. Com a maioria das jovens, são as suas mães que fazem os preparativos. Não com Miss Gwennan. Lady Menfrey aprendeu a fazer como lhe ensinaram há muito, suponho.

- E estão todos à espera, ansiando pelo dia em que ela se torne dona de Chough Towers, segundo vejo - acrescentei.

 

- Nessa altura, haverá extravagâncias em abundância, penso eu, Miss Harriet.

- É bom estar de volta - declarei. - Sinto-me como se não tivesse estado fora. No entanto, já passou muito tempo, A'Lee.

- Sim, tem razão. Era mesmo uma rapariguinha quando a vimos pela última vez. Agora, é uma mulherzinha. Para a próxima, vai ser a sua vez, suponho.

- Bem, ninguém me pediu - redargui eu -, até agora. Voltou a mexer o queixo.

- A menina foi sempre uma rapariga cautelosa, foi sim, Miss Harriet. Considero que aquele que tiver o bom senso de a pedir em casamento estará a fazer bem a ele mesmo.

- Esperamos que eu tenha o bom senso de o aceitar quando ele o fizer. Acabei de me lembrar que este é um assunto que ocorre com bastante frequência na minha vida. É normal ou deve-se ao facto de eu ter chegado àquele estado aborrecido conhecido por casadoura?

- Oh, a menina é uma pessoa extraordinária, Miss Harriet.

- Diga-me, há algumas novidades por cá?

- O doutor morreu há seis meses.

- O doutor Trelarken!

- Sim. Ele aceitou um assistente em casa, o doutor Syms. Está lá agora sozinho.

- E Miss Trelarken?

- Oh, Miss Jessie, foi-se embora... para Londres, penso. Está lá com uma tia e falava-se que iria ser preceptora ou dama de companhia. Não tinham dinheiro, como sabe, e ela teve de ir ganhar a vida dessa forma, pobre senhora.

- Penso que ela deve ser... competente.

- Oh, sim, muito competente. Não me surpreenderia que se casasse dentro em breve. Era uma senhora muito bonita.

- Muito bela.

- Oh, sim. Eu sempre disse à senhora A'Lee que lhe fazia bem olhar por ela. Houve uma altura em que costumávamos

pensar...

- Sim, o que pensavam?

- Bem, o senhor Bevil, ele gostava dela. Imagine, ele gostou de muitas raparigas boas no seu tempo, diria, porém, com

Jessie Trelarken, parecia... Oh, bem, parece que se frustrou.

Ele agora é um político importante. Conseguiu, com uma

grande maioria, posso dizer-lhe. As pessoas aqui são fiéis,

como sabe. Mantêm-se firmes nos seus princípios. Considero

que elas acham correcto e apropriado voltarem a ser representadas por um Menfrey.

- Oh, sim, o meu pai foi sempre até certo ponto um

intruso, não foi?

- Bem, isto aqui é assim. Sir Edward nunca pertenceu

cá, pois não? Agora, a menina tem ar de pertencer. Suponho que foi por vir para aqui quando era pequena. E não

nos esquecemos de que fugiu de Londres para vir para o

pé de nós.

- Oh... isso foi há tanto tempo.

- Mas não nos esquecemos. Faz-nos pensar que podia

pertencer-nos mais do que a maioria dos estrangeiros. Era

muito pequena quando veio para cá e sabemos que é aqui que

gosta mais de estar. Foi sempre assim.

- Tem razão. Sinto-me feliz aqui.

- Então, Miss Harriet, é aqui que lhe pertence estar.

- Veja - gritei -, consigo ver o solar Menfreya.

- Sim, estaremos lá dentro de pouco tempo.

- É sempre excitante lançar o primeiro olhar depois de termos estado fora.

- Posso ver que tem um grande amor pela casa velha.

Conta-se que o senhor Harry prometeu fazer todo o género

de coisas pela casa depois do casamento, e pode apostar pela

sua rica vida que Miss Gwennan o há-de lembrar disso.

- Quer dizer restauros?

A'Lee indicou com o chicote.

- Lugares como aquele precisam de restauros constantes, Miss Harriet. Com efeito, do que aquilo precisa, na realidade, é de homens a trabalhar lá continuamente, uma vez que, pelo facto de ser daquele tamanho. e de se ter aguentado de pé todas estas centenas de anos, resistindo a ventos e marés, bom, é lógico, deseja continuar edificado assim.

- E Harry Leveret vai dar uma ajuda. Fico muito contente.

- É por isso que estão muito satisfeitos com o casamento. Suponho que não demonstrariam tanto contentamento por receberem o Sr. Harry se não fosse o dinheiro. Se me perguntasse, suponho que a pessoa com sorte no meio deste casamento à moda antiga é Miss Gwennan. Os Menfreys! Porquê sermos tão orgulhosos só por podermos fazer remontar a nossa origem a umas centenas de anos atrás? Suponho que todos temos antepassados, hem?

- Suponho que sim - confirmei.

- Bom, se todas as histórias que ouvi contar dos efeitos dos Menfreys forem verdadeiras, muitas delas não seriam para se sentirem orgulhosos.

- Tem razão - respondi. - No entanto, se os Leverets se sentirem satisfeitos e os Menfreys também, é um "negócio" feliz. Oh... olhe... ali está a ilha.

- Palavra, é mesmo. Tinha-me esquecido. Agora pertence-lhe.

- A mim, não, na realidade. O meu pai casou-se e tenho uma madrasta.

- Oh, então é dela?

- Também não é bem dela. Não tenho a certeza absoluta. Seja como for, agora está na família.

- Nós não gostamos muito. que o antigo ducado passe para as mãos de forasteiros, mas, como disse, pertencerá justamente à pequena donzela, a Miss Harriet, agora, o que não parece já muito mau.

- É muito simpático da sua parte.

- Não é simpatia. É a verdade.

- Espero vir a visitar a ilha.

- Não está a planear passar mais noites lá, suponho.

- Penso que todos aqui se lembrarão disso para sempre.

- Oh, foi mesmo uma boa história. Veio nos jornais. Filha

de um deputado, e todos... todos em Londres à procura dela, quando se encontrava aqui escondida, no ducado. mesmo aqui, pode dizer-se, mesmo no meio de nós.

- Foi um disparate ter feito aquilo. Mas lembre-se de que era muito nova.

- Nós não pensamos que fosse um disparate assim tão grande. - O queixo dele começou outra vez a tremer, e eu fiquei em silêncio, porque agora chegáramos aos portões de Menfreya que davam para a estrada e que contornavam a arcada onde se achava localizado o relógio antigo que nunca deixaram parar. Olhei para cima. Mantinha a hora exacta, como era habitual, e eu reparei nisso. - Claro que está em ordem - afirmou A'Lee. - Suponho que nunca será de forma diferente. É tarefa de Thomas Dawney verificar se ele funcionava bem. Foi para isso que os Dawneys foram alimentados, vestidos e abrigados, nestas últimas centenas de anos... Desde que o relógio parou e Sir Redvers Menfrey foi derrubado do cavalo, os Menfreys têm de ter a certeza de que não acontece nada ao relógio.

Passámos por debaixo dele através da arcada, próxima da casa pequena e das instalações que tinham sido o lar dos Dawneys durante centenas de anos, e lá estavam os relvados com as hortênsias, as azáleas em flor e plantas do género cotoneáster, encantadoras, cobertas de bagas vermelhas durante todo o Inverno.

Na entrada enorme, com os seus retratos nas paredes, o tecto abobadado e a escadaria, de cada lado da qual se postavam as usadas durante a guerra civil pelos Menfreys da época, lembrei-me dessa noite em que Bevil me trouxe da ilha e da forma como Gwennan ficara na escada a censurar-me.

Neste momento, A'Lee puxou o cordão da campainha e Pengelly, o mordomo dos Menfreys, chegou à entrada e levou-me para a sala de estar vermelha, onde Lady Menfrey se encontrava à espera de me receber.

Foi maravilhoso voltar a estar com Gwennan. Ela assemelhava-se a uma chama: parecia ter nascido com um esplendor fascinante. Eu sentia-me viva só de olhar para ela.

Chegou enquanto eu tomava chá com Lady Menfrey, agarrou-me no seu jeito exuberante e levou-me para o seu quarto. Mudara, claro, Na realidade, estava uma mulher, voluptuosa e bela, ansiosa e excitada.

Esta, pensei, é a Gwennan apaixonada. Falou-se dos planos para o casamento.

- Toda a vizinhança espera um grande acontecimento. Será antes como um cortejo medieval, penso eu. O meu vestido de casamento será uma cópia do que usou a minha tetravó. Tenho de continuar com as provas. Que aborrecimento ter de levar comigo a Dinah. Pau-de-cabeleira! As jovens solteiras não são autorizadas a ir à cidade sozinhas. Uma das melhores coisas do casamento é a liberdade, garanto-te, Harriet. Tu ainda ficarás acorrentada, enquanto eu vou ser livre.

- Alguns maridos, segundo ouvi contar, podem ser carcereiros.

- O meu, não. Pensas que eu iria de uma prisão para outra?

- Na realidade, penso que a tua família é mais tolerante do que a maioria.

- De que estás a falar, quando há tanto para dizer? Agora és dama de honor. Faz-me parecer uma rainha, não faz? Tu vais vestida de gaze lilás e vais parecer.

- Horrível - acrescentei.

- É essa a ideia. Em contraste com a noiva, deslumbrante. Ficámos as duas a rir. Era bom estar com Gwennan. O pensamento veio-lhe à ideia, porque o disse.

- Estou muito contente por teres vindo, Harriet. Quando estiver casada, tens de ser a primeira convidada em Chough.

- É estranho imaginar-te lá.

- É, não é? Imagina, estamos a fazer enormes alterações. Harry está a transformá-la num palácio a condizer com a sua rainha.

- Creio que estás loucamente apaixonada por ele.

- E não devia estar? Só que convém escondê-lo até ao dia do casamento. Ele tem de continuar a ajoelhar-se a meus pés antes desse dia, mas depois obrigar-me a mim, quando eu tiver de o honrar e de lhe obedecer.

- Ele não se atreveria!

- Espero bem que não. Adora-me. Agora, ouve. Amanhã, vamos a Plymouth. É muito divertido. Dinah tem lá uma irmã, e mandei-a visitá-la. Isso deixa-nos livres.

- Livres para quê?

- Verás. Mas primeiro temos de ir à modista combinar tudo sobre esse teu vestido lilás. - Sorria, olhando, pensei eu, para o futuro. Compreendi que gostava dela porque sentia nela uma ternura nova e pensei que isso se devia ao facto de se sentir apaixonada. Gwennan amaria com mais intensidade do que a maioria das pessoas, porque tudo o que ela fazia era feito com grande vivacidade. Se Harry Leveret a amasse e ela o amasse a ele, seriam muito felizes. De seguida, referiu-me uma coisa estranha: - Harriet, às vezes, penso que devia ter muito jeito para representar.

Ergui as sobrancelhas e esperei que adiantasse mais sobre este assunto, mas ela não disse nada e continuou a sorrir para o futuro.

No dia seguinte, levaram-nos à estação e aí apanhámos o comboio para Plymouth. Dinah, a criada pessoal de Gwennan, acompanhou-nos e deixou-nos na modista, combinando vir buscar-nos ao fim da tarde.

Eu disse:

- Vamos passar muito tempo na modista. - Mas Gwennan sorriu apenas e retorquiu que eu deveria deixar tudo consigo.

Tiraram-me as medidas. Olhei para o tecido lilás, e Gwennan disse que voltaríamos dentro de três dias, para a minha primeira prova. Estivemos na loja apenas meia hora.

- Tenho um convite reservado para ti, Harriet. Vamos ao teatro. Vais gostar. A peça é uma maravilha. Romeu e Julieta. Lembras-te de como lias bem poesia, mas não tinhas muito jeito para o teatro, não era? Nunca te conseguias libertar. É esse o teu problema.

- Porque não me revelaste que íamos ao teatro?

- Porque havia de o fazer?

- Por uma questão pessoal.

Ficou em silêncio e o sorriso ainda pairava nos seus lábios.

- Poderia mesmo levar-te aos bastidores, depois do espectáculo.

- Queres dizer. que tens um amigo na produção?

- Sempre disseste que eu te surpreendia e que nunca sabias o que eu iria fazer a seguir. Estás surpreendida agora? - Concordei que estava. - Vais divertir-te com isto, Harriet.

Comprou os bilhetes e entrámos no teatro. Vi no programa que se tratava de uma companhia de repertório que estava a passar uma pequena temporada em Plymouth e representava Henry Arthur Jones e Pinero, para além da produção de Shakespeare do momento.

Porém, eu estava mais interessada na atitude de Gwennan do que em tudo o que pudesse ver no palco. Alguma aventura estava a decorrer. Conhecia os indícios e comecei a ficar desconfiada. Porque estaria tão interessada no teatro nas vésperas do casamento?

Indicou um nome na lista dos actores.

- Eve Ellington - li. - O que se passa com ela? - perguntei.

- És capaz de adivinhar quem ela é? - Abanei a cabeça. Lembras-te de Jane Ellington?

Lembrava-me. Conseguia imaginar Jane no meio do nosso quarto, em França, a recitar cenas de Hamlet.

- Meu Deus - exclamei. - Não!

- Sim - respondeu. - Escreveu-me a anunciar que iria estar aqui e eu vim vê-la. A seguir, entrei nos bastidores, quando me convidou, conheci alguns elementos da companhia. Desde então, tenho cá vindo várias vezes.

- É por isso que achas que gostarias de representar! Muito tarde para pensar nisso, agora que estás quase a tornar-te na senhora Leveret, não é?

- Sim - confirmou -, é muito tarde. O que se poderia chamar a décima primeira hora.

- Não - objectei -, está a bater a meia-noite.

- Isso não será até à verdadeira cerimónia - respondeu, com firmeza.

- Não serias nada boa. Nunca aprenderás um papel.

A cortina subiu e a peça começou. Era vulgar e de mau gosto, achei, e a representação, medíocre, mas por estranho que parecesse, Gwennan mostrava-se fascinada. Como o Romeu fosse bastante bonito, procurei o seu nome no programa: Benedict Bellairs, e reparei que Eve Ellington desempenhava o papel de Lady Capulet. Reconheci-a de imediato e preparei-me para a observar. Pobre Jane, que tinha tantas ilusões!

Quando desceu a cortina, depois do primeiro acto, disse mais ou menos isto a Gwennan:

- Que disparate - retorquiu. - Ela tem de começar, não tem? Penso que é mesmo um... feito.

- Pensas que ela será outra Ellen Terry, e suponho que Romeu é Irving na fase inicial.

- Porque não?

- Devia imaginar que mesmo no princípio das suas carreiras eles representavam de forma bastante diferente.

- Tu és bastante cínica, Harriet. Sempre o foste. Lá porque não tentas nada, não há nenhuma necessidade de zombar das pessoas que o fazem.

- Ora... estás extasiada!

- Eu aprecio o esforço, é só isso.

Fiquei silenciosa. Começava a sentir-me deveras perturbada. Achei que a peça nunca mais ia chegar ao fim. Continuei a olhar de soslaio para Gwennan, mas ela não dava por mim: tinha os olhos concentrados no palco. Isto era de todo inesperado, mas era de facto o inesperado que se devia esperar de Gwennan.

 

Ansiosamente, levou-me aos bastidores depois da representação. Como nunca estivera por detrás do palco de um teatro, achei-o excitante, embora um tanto miserável. Era agradável voltar a ver Jane, que me recebeu de forma calorosa. Sentámo- nos em cima de um caixote de embalagem e conversámos. Amava a vida, confidenciou-me. Não a trocaria pelo marido mais rico do mundo. Calculei que se estava a referir ao futuro casamento de Gwennan. A sua família opusera-se à sua ida para o teatro, pelo que fugira, simplesmente. Estava convencida de que iria ser afastada no testamento do pai. Quem se importava? O cheiro da maquilhagem do teatro vale todas as fortunas do mundo quando se tem dezoito anos e se está apaixonado pela profissão escolhida.

Gwennan falava com Romeu. Ele ainda vestia a roupa de cena e o seu rosto brilhava com a maquilhagem, mas consegui ver que era muito bonito.

- Quero apresentar-te a Benedict Bellairs - anunciou-me. Ele pegou-me na mão e fez uma vénia.

- Bem-vinda aos bastidores - disse.

Senti um arrepio de medo na espinha. Não gostei dele.

Gwennan estava misteriosa, o que era estranho, uma vez que raramente guardava alguma coisa só para si e dizia logo a primeira coisa que lhe vinha à cabeça, sem pensar. Era por isso que a mudança se afigurava alarmante.

Não pude falar com ela na viagem de regresso, por causa da presença de Dinah, mas conclui que as visitas a Plymouth, que eram muito frequentes, incluíam, por norma, uma visita ao teatro.

Por que motivo se tornara de repente tão interessada?

Depois de nos retirarmos para dormir, fui ao seu quarto, decidida a descobrir até que ponto estava seriamente envolvida. Quando bati à porta, ouvi-a falar, mas gritou "entra", e encontrei-a de pé, no meio do quarto, em camisa de dormir. Era evidente que estivera a declamar em frente do espelho. Vi um livro aberto, em cima da mesa, e conhecia-o, por ser o livro de Shakespeare que usámos no colégio.

- Juliet, presumo - considerei.

- O que queres dizer?

Olhei de soslaio para o livro, aberto.

- A cena da varanda. Deixa-me ouvir-te. "Romeu, Romeu! Porque estás, Romeu... " Começava a partir daí. Eu Desempenharei o papel do senhor Benedict Bellairs.

Corou.

- Confiar em ti! - censurou-me, irritada, e fechou o livro com força.

- Pareces mesmo impressionada pelo palco. Gwennan, o que andas a planear?

- Nada.

- Sempre soube quando estavas a tramar alguma coisa. Lembra-te de como eu costumo adivinhar.

- Senti-me inspirada pela representação desta tarde, é só isso.

- É mais do que eu senti.

- Serias alguma vez capaz de te sentires inspirada por alguma coisa.

- Talvez não. A não ser pelo teu desempenho. Deixa-me ver a tua Julieta.

- Pára com isso.

- Paro quando me confessares até que ponto isto chegou.

- E pára com isso. Pareces a dona de casa que descobre o patrão a beijar a copeira.

- Bem, estiveste a beijar alguém?

 

- Com franqueza, Harriet.

- E que me dizes deste Benedict Bellairs? Será que não estás a fazer com ele o que costumas descrever como dar as tuas cabeçadas?

- Acho-o interessante, mais nada.

- E Harry sabe até que ponto o achas interessante?

- Pára com isso! Quem me dera que não tivesses vindo.

- Talvez fosse melhor voltar.

- Não sejas tonta. Como podias voltar agora?

- Mas Gwennan, estou deveras preocupada. Agora, já não és uma menina de colégio, és uma mulher nas vésperas do casamento. Pensaste no Harry?

- Irei pensar no Harry o resto da minha vida. Quero ter uma oportunidade de pensar em mais alguém. pela última vez.

- Falas como uma noiva! - adverti. - Gwennan, é altura de cresceres.

- E és tu quem me dizes isso. Tu... uma criança! Que sabes tu da vida? Só aquilo que leste.

- É possível que se possa descobrir mais da vida através dos livros do que nos bastidores com uma companhia de teatro de terceira classe.

- Pára com isso!

- Estás a repetir-te.

- E tu estás a ser insolente. - Levantei-me, para sair, mas ela pegou-me na mão. - Escuta, Harriet. A companhia vai-se embora na semana antes do casamento. Nessa altura, isto acaba.

- Não gosto disso.

- Tu não eras capaz, senhora pureza.

- Só espero.

- Mentirosa. A única coisa que tu esperas é que Bevil se apaixone por ti e case contigo. - Voltei- me, mas ela não me deixou ir. - Sabemos muito uma da outra, Harriet. E há mais uma coisa que sabemos: sempre estivemos juntas, qualquer que fosse o género de problemas em que uma de nós estivesse metida.

Era verdade.

No dia seguinte, fui com Gwennan, de barco, até à ilha. Lá estava a casa com as suas quatro muralhas, cada uma delas deitando para o mar. Havia sido um pouco renovada e imaginei que o meu pai tivesse mandado fazer isso antes de morrer, mas os móveis antigos de Menfreya encontram-se ainda lá.

- O que é que isto te faz lembrar? - perguntou Gwennan. Não havia nenhuma necessidade de perguntar. Nunca veria a ilha, depois de algum tempo ausente, sem me lembrar da noite que lá passei e acima de tudo daquele momento de receio, quando ouvira a voz de Bevil lá em baixo e ele aparecera com a rapariga da aldeia. Nessa altura eu era demasiado inocente para compreender por que motivo ele a trouxera para ali, mas claro que sabia que aquilo fora um incidente de uma longa cadeia de incidentes semelhantes na vida de Bevil.

Sentia-me um tanto deprimida ao pensar em Harry, que amava Gwennan; em Gwennan, que nas vésperas do casamento com ele se deixara arrastar em devaneios com Benedict, e em Bevil, que, como o seu pai e a maioria dos homens da família Menfrey, parecia achar que era a ordem natural

das coisas voar dos braços de uma mulher para os de outra, como uma abelha, cuja função na vida era a po linização.

 

O barco encalhara e nós trepámos para fora.

- Imagina - disse ela. - Agora é tudo teu. Este pequeno pedaço de terra foi perdido pelos Menfreys para sempre. É como o mar avançando pela terra dentro, a pouco e pouco. E aqui levanta-se do oceano. Uma acusação que nos faz todas

as vezes que olhamos cá para fora, para o mar. Um dia, os futuros Menfreys abanarão a cabeça e dirão: "Sir Endelion i perdeu a ilha. Foram horas difíceis para Menfreya. " A não ser, claro, que volte para a família através dum casamento. - Talvez - sugeri - o casamento de uma filha com um

homem rico pudesse tornar possível voltar a comprar a ilha.

- Não é fácil arrancar o solo de Menfreya àqueles que o adquiriram. O dinheiro nem sempre é suficiente. - Vamos dar uma vista de olhos pela casa. Abri a porta com a chave.

- Típico - afirmou Gwennan. - No nosso tempo, as portas nunca se fechavam. Mudança e decadência por toda a parte, estou a ver...

- Tem um aspecto menos decadente do que quando era tua.

- Parece quase cerimonioso. Pergunto a mim mesma o que pensarão agora os fantasmas.

- Há mais do que um?

- Penso que sim. Esta é uma casa muito assombrada. Mas talvez os fantasmas não apareçam estranhos. São muito exigentes os fantasmas da Cornualha, lá isso são.

Estava irreverente de um modo pouco natural. Pensei se não estaria um pouco envergonhada.

Andámos pela casa, passando por entre os móveis protegidos do pó. Afastei-me dela e fui sozinha até ao quarto onde Bevil me descobrira. Conseguia concebê-lo agora a afastar o lençol que protegia os móveis do pó e imaginar-me a mim a erguer os olhos para ele. Bevil, de quem eu sentia uma necessidade especial... neste momento!

- Nunca hei-de querer viver aqui - afirmei. - A melhor coisa que tem é a vista.

- Só mar até ao fundo do horizonte.

- Não, refiro-me ao outro lado. À costa e a Menfreya. Gwennan sorriu para mim com ternura.

- Creio que gostas tanto da velha casa como nós. Não ficámos muito tempo na ilha e regressámos a Menfreya.

Como subimos pelo jardim sobre o penhasco, atravessámos a entrada que dava para o mar e passámos pelos estábulos e seus anexos, dos quais surgiu um dos moços.

- O senhor Bevil acabou de chegar a casa - informou.

- Então, chegou, sempre chegou - Gwennan sorriu e olhou para mim, de forma dissimulada.

Tentei que o meu rosto ficasse inexpressivo, mas penso que não fui muito bem sucedida.

Seguiram-se alguns dos dias mais felizes da minha vida. Bevil trouxe uma atmosfera de alegria a Menfreya. Talvez essa alegria tivesse aumentado por eu ter deixado de pensar em Gwennan. Bevil estava constantemente na nossa companhia.

Harry Leveret vinha todos os dias a cavalo de Chough Towers e dávamos um passeio a cavalo pela manhã. Lady Menfrey, que tinha receio de que a sua familia voluntariosa pudesse cometer algum acto menos dignificante, consolava-se por fazermos companhia uns aos outros.

 

Tornei-me quase alegre. Sentia-me mais feliz a andar a cavalo do que a pé. Sobre o cavalo, considerava-me em pé de igualdade e, provavelmente por causa disso, era uma boa amazona. Tudo parecia estar a meu favor. Jessica Trelarken encontrava-se a quilómetros de distância. Não fazia ideia onde nem perguntava. Harry estava completamente absorvido por Gwennan, e ela pelos seus assuntos complicados. Tudo isso deixava-me a sós com Bevil.

Podíamos cavalgar à frente dos outros e por vezes perdíamo-nos deles.

- Acho que não vão sentir a nossa falta - gracejava Bevil. - Nunca hei- de esquecer quando andávamos com os cavalos pelos bosques manchados de sombras reflectidas pela folhagem: sentir um cavalo debaixo de mim provoca-me sempre uma satisfação desenfreada. Descobri então que para mim nunca haveria ninguém na minha vida que se pudesse comparar a Bevil. Parecia ser tudo aquilo com que eu sonhara que ele era na minha infância, quando o transformei num cavaleiro... o meu cavaleiro. O chilrear das aves; a brisa suave que vinha do mar. esse vento moderado de sudoeste, típico da Cornualha, semelhante a uma carícia, suave e húmida, e embelezadora porque aviva a cor da pele; os reflexos inesperados do mar, azul muito escuro, azul-celeste, azul-pavão... azul- claro quase esverdeado, verde-azulado, todos os azuis da paleta celestial de um artista e cinzentos e verdes e madrepérolas. Mas nunca, como confidenciei a Bevil, tão belo como quando tocado pelos raios avermelhados do nascer do Sol. - Não me digas que te levantas cedo para ver?

- Levanto. Mas a vista mais bonita é a da casa da ilha: então, podemos olhar para terra, para Menfreya... Menfreya pela manhã é o espectáculo mais bonito do mundo. Vi-a uma vez.

Riu-se e os seus olhos trigueiros fixaram-se em mim: no meu pescoço, no meu corpo e, a seguir, nos meus olhos.

- Lembro-me bem desse momento. Encontrei-te agachada, debaixo de um lençol que estava a proteger os móveis do pó, e pensei que eras um mendigo.

- Pois, eu pensei que eras um fantasma até ouvir vozes. Não estavas sozinho, lembras-te?

- Claro que não. Não fui ver a vista. Mas um dia hei-de ir. Terás de me convidar, porque a casa já não é nossa, e prometo-te que chegarei cedo e havemos de olhar para Men freya pela manhã... juntos.

- Gostaria que isso acontecesse.

Olhou por cima do ombro.

- Parece que voltámos a perdê- los - noticiou, com um sorriso forçado.

- Penso que Harry fez para se perder.

- E eu confesso que não fiz nada para o deter.

- Achas que é prudente?

- Quando me conheceres melhor, Harriet, o que espero que aconteça, descobrirás que muitas vezes não sou prudente.

- Estão todos muito contentes com o casamento de Gwennan.

- É ideal. Harry é um óptimo companheiro, e irão viver para Chough Towers. Não poderia ser melhor.

- E ele é muito rico.

 

- Existe dinheiro no ducado, se o soubermos procurar. Estanho, caulino, a pedra com que construímos as casas e os nossos mares a abarrotar de peixe. Existem fortunas à espera de quem tenha energia.

- E os Menfreys não têm energia?

- Nunca tivemos de a ter, mas acredita-me que ser deputado por Lansella não é nenhuma benesse. Sabes isso da época do teu pai.

- Gostas da vida?

Voltou-se para mim.

- Sempre a desejei. Não parece correcto que Lansella não fosse representada por um Menfrey. Sempre foi e eu pensei quando era que me iria dedicar à política. Tinha todo o género de planos para reformas. Era jovem e idealista. Era capaz de te contar todos os acontecimentos importantes desde o Gabinete de Peel, Russel, Derby, Aberdee e Palmerston. Segui as carreiras de Disraeli, Gladstone... e, claro, as de Rosebery e Salisbury.

- Sim, eu também acompanhei.

- Tu. Mas tu, porquê, Harriet?

- Porque algumas vezes sentia que, se fosse capaz de falar com o meu pai sobre política, ele poderia interessar-se por mim. Na realidade, convenci-me de que isso era possível, a dada altura.

Olhava para mim muito atento.

- Diz-me, Harriet, não achas que o mundo da política é um mundo fascinante?

- As pessoas são fascinantes. Gostaria de ter conhecido o senhor Disraeli. O seu casamento deve ter sido absolutamente perfeito. Ele, com os seus caracóis, a sua garra e inteligência brilhante, ela, com as suas penas e diamantes. Sempre ouvi dizer que eram dedicados um ao outro. Acho que isso é maravilhoso.

- Como és romântica. Não fazia ideia.

- Era natural que ela lhe fosse dedicada por ele ser primeiro-ministro, favorito da rainha e por todos estarem à espera do que ele diria a seguir. Mas ela era, segundo ouvi contar, uma mulher bastante ridícula, uns anos mais velha do que ele e muito pouco intelectual. E ele casou com ela por dinheiro. Imagina! No entanto, ele explicou mais tarde, ou talvez alguém o tenha dito que, embora tenha casado com ela por dinheiro, depois de anos de vida em comum teria casado com ela por amor.

- Os casamentos por conveniência muitas vezes, no fim, revelam-se os melhores. O deles era um exemplo brilhante. Tinham tudo ao seu lado.

- Excepto amor.

- O amor é algo que leva tempo a crescer... talvez.

- Que achas do amor à primeira vista?

- Isso é paixão, minha querida Harriet, uma planta menos resistente.

- Acreditas nisso de verdade?

- Só acredito no que se pode provar. Sou um homem, de pouca fé, como vês.

- Bem, ficamos à espera de que um dia possas ser capaz de provar as tuas teorias.

- Hei-de provar, Harriet, não tenho quaisquer dúvidas. É interessante que sejas filha do último deputado.

- Achas que sim?

 

Observou-me com atenção, com os olhos franzidos voltados para o Sol.

- Terás de me ajudar durante a próxima eleição.

- Gostaria de o fazer.

- Uma mulher pode ser uma ajuda muito valiosa, em particular a filha do último deputado.

- Mas tu aqui não precisas de ajuda. Eles estão cheios de vontade que tu os representes.

Inclinou-se na minha direcção e agarrou-me o pulso.

- Hei-de precisar da tua ajuda - insistiu, e eu corei de prazer. Sentia-me tão feliz. Teria de ter sempre presente que era assim que ele era para as mulheres. Sabia sempre com exactidão falar no que mais lhes agradava. Sorriu para mim. Estou contente - prosseguiu - por agora estares mais adulta, Harriet. Temos de nos encontrar com mais frequência. A minha câmara não é muito longe da tua casa. Tens de pedir à tua madrasta que me convide a ir lá.

- Vou fazê-lo.

Tocámos ao de leve os costados dos nossos cavalos e partimos a galope pela extensão de terreno aberto à nossa frente.

Chegámos à charneca e amarrámos os cavalos por um tempo, sentando-nos num muro de pedra. Estava uma manhã excelente, com o sol a brilhar sobre a relva espessa descobrindo as gotículas de humidade agarradas às folhas (porque havia um pouco de neblina aqui em cima) e fazendo-as brilhar como cristais. A brisa suave tocava-me a pele e eu sentia-me feliz.

A seguir ele voltou à Jenny.

- Gostas de fazer parte daquele ambiente familiar, Harriet?

- É o meu lar, creio.

- Pergunto-me a mim mesmo se ela se interessa por ficar a viver naquela casa.

- Tencionava comprar uma casa no campo, mas não pode mexer no capital que o meu pai lhe deixou. É de presumir que o mantenha depositado para mim.

- Então, é assim que está.

- Não entendo muito bem. Só sei que a firma Greville, Baker e Greville lhe declarou que não podia usar o dinheiro para comprar a casa.

- Então, tu, minha querida Harriet, serás uma herdeira importante, em certas circunstâncias.

- Espero nunca vir a herdar, porque isso significa que ela terá de morrer primeiro. Não gostaria que isso acontecesse. É que comecei a gostar dela cada vez mais.

- Esses sentimentos honram-te muito, Harriet.

- Honram o meu bom senso. Se eu tivesse herdado toda a fortuna do meu pai, seria uma presa fácil para esses cavalheiros que andam à procura de um casamento por conveniência. Prefiro a minha fortuna modesta e a segurança relativa de não ser atacada.

- Querida Harriet, a tua fortuna, modesta ou não, não é a tua única vantagem.

- Surpreendes-me.

- Sim? Então tu pagas-me da mesma moeda: surpreendes-me com a tua conversa.

- Suponho que dantes pensavas que não sabia dizer nada.

- Só há pouco tempo me deste oportunidade de desfrutar esse prazer.

 

- Só há pouco a procuraste.

Riu-se e, pegando na minha mão, apertou-a.

- Harriet - pediu -, promete-me que me vais dar mais oportunidades destas aqui e em Londres.

Inclinou-se para mim e beijou-me no rosto. Não com paixão, como eu imaginava que ele beijava as outras, mas com saudade, com admiração. Pensei: "Olha para mim com outros olhos. Está a querer conhecer-me, gostar de mim. " Ou estava a tentar conhecer a minha fortuna e gostar dela?

Porém, não era uma fortuna importante, uma vez que Jenny era apenas uns anos mais velha do que eu, logo, seria muito provável que não viesse a herdar durante muitos anos, se alguma vez herdasse.

O pensamento fez-me feliz. Não era a fortuna. Era eu própria.

Tal felicidade, para quem não está habituado a ela, era quase demasiado inebriante.

Quando montámos os cavalos, interrogou:

- Então, a tua madrasta não sabia em que situação ficava?

- Ela ouviu ler o testamento e visitou o solicitador, mas não entendeu os aspectos legais.

- Eu teria pensado que um assunto tão importante para ela teria provocado algum efeito.

- Eu estava presente quando foi lido o testamento, mas não o entendi. Na realidade, o meu espírito vagueava e estava a pensar.

- O quê?

- Ora, a perda que era que eu e o meu pai nunca tivéssemos sido amigos e nunca mais o pudéssemos vir a ser.

- Qualquer dia, Harriet, alguém te deverá compensar por tudo o que perdeste.

- Isso seria fazer justiça, mas a vida nem sempre é justa, não é?

- Talvez possamos ver que se resolve dessa forma. O que é que ele queria dizer? Era o equivalente a uma declaração?

- Queres saber de uma coisa? - indagou, depois de termos deixado a charneca. - Sentes-te bastante confusa em relação à herança, não sentes? Poderias descobrir.

- Poderia ir à Greville, Baker e Greville.

- Não precisas de fazer isso. Poderias ver uma cópia do testamento em Somerset House. Gostarias que eu o visse por ti, quando fosse à cidade?

Senti um arrepio de alarme súbito, mas consenti:

- Sim, por favor, Bevil, faz- me isso.

- Farei - prometeu. - Deixa isso comigo. Mas que vento tão frio está a soprar.

Era aquele vento frio, pensei, que me fazia sentir um pouco gelada?

Ao olhar para trás depois de uma tragédia, os dias que a antecederam pareceram ter tomado um aspecto irreal. Viveu-se com o que é óbvio, e, no entanto, não se consegue ver o que está mesmo nas nossas barbas.

Esses dias resumiram-se a apanhar sol e a fazer preparativos, e o casamento estava a aproximar-se. Nove dias... oito dias... Quando uns dias antes estive em Plymouth, fora com Gwennan ao teatro e vira os cartazes da companhia colocados fora do edifício com a inscrição "Última Semana".

 

Graças a Deus, pensei. Quando se tiverem ido embora, Gwennan vai acalmar e esquecer-se de tudo. Dentro de pouco tempo, quando voltasse da lua-de-mel e me pedisse que ficasse com ela, como prometera, havíamo-nos de rir a baptizar esse período de "Maquilhagem de Teatro".

Surpreendeu-me por, no último dia de estada da companhia em Plymouth, não ter ido despedir-se deles. Pensei com alívio: "Já acabou com eles. "

O meu vestido estava pronto e encontrava-se pendurado no roupeiro. Era muito bonito e justo, de gaze lilás, e eu levaria ainda um toucado de folhas verdes. As damas de honor iriam

vestidas de verde com laivos cor de malva. A cor iria certamente ter efeito.

- O verde dá azar - advertiu Fanny, com ar sinistro. Surpreendeu-me que Miss Gwennan tenha escolhido o verde.

- A mim, não - repliquei.

Esse dia foi semelhante a muitos outros. Andei a cavalo pela manhã, com Bevil, Harry e Gwennan. Gwennan estava um tanto distraída e imaginei que os seus pensamentos tivessem

a ver com a partida da companhia. Não tive nenhuma oportunidade de estar a sós com Bevil, porque estivemos os quatro juntos toda a manhã.

Durante o resto do dia, Gwennan parecia evitar-me e supus que quisesse ficar sozinha, para pensar a sério no seu futuro. Nessa noite houve uma reunião em casa dos Leverets em

que se jogava às cartas. Jogámos whist, num ambiente solene, e saímos às dez horas. Achei que Gwennan estava com um ar distante. Falei-lhe uma ou duas vezes, mas não me respondeu. Supus que estivesse a imaginar a companhia a empacotar os seus pertences e a partir para a cidade seguinte. Um outro episodiozinho que chegava ao fim. Graças a Deus, pensei, que já não havia tempo para mais antes do casamento.

Dormi bem e de manhã Fanny veio, como era hábito, afastar os reposteiros e trazer-me água quente.

- Mais um dia maravilhoso - disse -, embora um pouco enevoado. Pengelly diz que é uma neblina de calor. Na realidade, estava muito cerrado esta manhã!

Fui até à janela e olhei lá para fora, para o mar. Mais uma semana, ou pouco mais, e estaria de regresso a

Londres e a tia Clarissa cairia sobre mim, para me apresentar à sociedade.

Não queria que o tempo passasse. Queria segurar cada momento e prendê-lo.

Nessa manhã, iríamos cavalgar - Bevil, Gwennan e eu -, partindo juntos dos estábulos até Chough Towers, onde Harry estaria à nossa espera, impaciente.

Desci, para tomar o pequeno- almoço. Sir Endelion e Lady Menfrey estavam sentados à mesa e saudaram- me com carinho.

Lady Menfrey disse que Bevil já havia tomado o pequeno- almoço, mas Gwennan ainda não tinha descido. Falámos do tempo e do casamento, após o que dei uma volta até aos estábulos.

Cerca de uma hora mais tarde, encontrei Bevil. Ele perguntou:

- Vamos andar de cavalo esta manhã?

- Espero que sim.

- Bom, onde está Gwennan?

- Não a vi.

- Penso que não se levantou ainda. Sobe ao quarto dela e diz-lhe que se despache.

Entrei em casa e, ao ver Dinah, afirmei:

- Miss Gwennan está atrasada, esta manhã.

- Ela participou-me que me chamava quando precisasse de mim.

- Quando foi isso?

- Ontem à noite.

- Então, ainda não foi lá acima? - A minha voz elevara- se num tom agudo, como acontecia sempre que estava apreensiva.

- Não, menina, ela ainda não me chamou.

Enquanto subia os degraus dois a dois, continuava a ver o seu rosto como estava no dia anterior... resignado. Ela tinha fugido. Sabia isso antes de abrir a porta e ver a cama em que ninguém dormira, os sobrescritos apoiados no toucador. Era de crer que Gwennan fizera aquilo de uma forma melodramática.

Fui até ao toucador. Havia três cartas. Uma para os pais, uma para Harry e uma para mim.

Os meus dedos tremiam quando rasguei o sobrescrito que me era dirigido.

Querida Harriet, li.

Já o fiz. Era a únicaforma. Já não era capaz de ficar. Parti com Benedict. Vamos casar e posso vir a representar com ele. Tentafazê-los entender. Principalmente a Harry. Não o consegui evitar. Era uma daquelas coisas que têm de acontecer.

Isto é diferente de tudo o mais que alguma vez me aconteceu. Harriet, seremos sempre amigas, aconteça o que acontecer.

Não te esqueças e tenta fazê-los entender.

Gwennan

Senti-me muito entorpecida para me mexer. Ouvi o som de gargalhadas na cozinha. Ouvi Bevil a gritar para um dos moços. À minha volta, durante mais alguns minutos, a vida decorria como era habitual, mas em breve isso iria alterar-se.

Peguei nas outras duas cartas e desatei a correr do quarto.

- Bevil - chamei, enquanto saía de casa a correr para o brilho do Sol. - Depressa. Chega aqui.

Ele veio a correr.

- Mas, que diabo... Mostrei-lhe as cartas.

- Ela fugiu, Bevil. Havia uma para mim. Ela fugiu com Benedict Bellairs.

- O quê? Quem?

Esqueci-me, claro. Não havia ninguém nesta casa, a não ser eu, e possivelmente Dinah, que soubesse da existência deste homem.

- Gwennan fugiu com um actor.

Arrancou-me a minha carta das mãos e leu-a. - Vai casar-se. mas, então, e Harry? O que significa

isto? - Fixei-o apenas nos olhos e vi a compreensão espalhar-se-lhe no rosto e o espanto dar lugar à raiva. - Sabias disto?

- acusou-me. Acenei com a cabeça, em sinal de assentimento. - Então, porque não disseste? Deixaste-a fazer isto. Temos de a trazer de volta. - Caminhou a grandes passadas para

dentro de casa, e, quando, magoada e com sentimentos de culpa, o segui, ouvi-o gritar pelo pai. Sir Endelion apareceu, seguido de Lady Menfrey, aos pés da escada. - Gwennan fugiu com um actor - gritou Bevil.

- O quê!

Bevil voltou-se para mim.

- Harriet, conta-lhes. Ela sabe tudo sobre isto.

- Harriet. - Era um grito triste de Lady Menfrey.

- Eu não sabia que ela ia fugir - declarei.

- Mas o casamento. - começou Lady Menfrey, com tristeza.

- Hei-de trazê-la de volta - declarou Bevil. - Era melhor ir já. Qual é o nome deste homem? Aqui... abra a sua carta.

- Carta? - exclamou Sir Endelion.

- Oh, sim - proferiu Bevil, furioso. - Ela fez isto com estilo. deixando sobrescritos para a familia. e Harriet.

Sentia-me magoada porque ele estava a virar a raiva que sentia contra Gwennan para cima de mim.

Sir Endelion falou com voz trémula, e compreendi como estava aborrecido e espantado:

- Receio não ter trazido os óculos.

Bevil tirou-lhe o sobrescrito e leu a nota em voz alta.

O conteúdo era mais ou menos o mesmo da minha. Amava Benedict Bellairs. Ia fugir com ele porque não era capaz de avançar com o casamento com Harry. Esperava que lhe viessem a perdoar e a compreender.

- A compreender! - gritou Bevil. - Sim, nós compreendemos que ela é uma palerminha egoísta. Perdoar-lhe. Esperem até a termos de volta.

Eu aleguei:

- Claro que é uma coisa terrível casar por amor, em vez de casar por interesse.

Bevil fixou-me com um ar quase insolente, enquanto Lady Menfrey se lastimava:

- Oiçam - interrompeu Bevil, de repente. - Vou a Plymouth sozinho. Até eu voltar, mantenham a situação em segredo. Vou trazê-la de volta e o assunto não precisa de ir mais longe. Escondam-no dos criados.

- Não vais encontrar a companhia em Plymouth - esclareci. - Partiram ontem.

- Qual é o nome da companhia? - Informei-o. Hei-de descobrir para onde foram e trazê-la comigo de volta - declarou, em tom severo.

- Ela não virá.

- Isso é o que vamos ver.

Ele partiu para Plymouth e eu fui com Sir Endelion e Lady Menfrey para a biblioteca. Continuavam a fazer-me perguntas. O que sabia eu? Como era este homem? Falavam-me em tom de acusação. Eu ajudara Gwennan a enganá- los.

Sentia-me infeliz pela desilusão que lhes causara, mas acima de tudo pelo desprezo de Bevil. Nunca o tinha visto zangado antes, mas compreendi que na realidade tinha bons motivos para isso.

Falei-lhes das visitas dela ao teatro. Não existia motivo nenhum para ocultar o que quer que fosse, nesse momento.

- Então, foste com ela quando se pensava que estavam em casa da modista?

Perguntei, irritada, como puderam ter pensado que precisávamos de passar tanto tempo na modista.

- Dinah devia ter-nos avisado - censurou Lady Menfrey.

- Conhecem Gwennan. Ela proibiu-a de o fazer.

- Sim - suspirou Lady Menfrey. - Conhecemos Gwennan.

 

Sir Endelion estava surpreendentemente rendido e imaginei que pensava no escândalo em que fora envolvido e que teve como consequência ter de desistir do seu lugar no Parlamento.

- E tu, Harriet?

- Como poderia eu fazer mexericos com a vida de Gwennan? - protestei.

- Mas vês o que aconteceu. Quando Bevil a trouxer de volta.

- Ela não vem.

- Ele fará com que venha. Bevil arranjará maneira.

- E Gwennan também.

Lady Menfrey suspirou e imaginei que muitas vezes na sua vida se vira confrontada com as naturezas rebeldes e intratáveis da sua família.

Harry Leveret apareceu, porque estranhou que Gwennan, Bevil e eu não tivéssemos ido a cavalo até Towers.

Tivemos de lhe dar a carta que Gwennan lhe escrevera. Ainda hoje não gosto de pensar na expressão do seu rosto quando leu as palavras dela.

Ficou ferido. Pobre Harry! Amara Gwennan de todo o coração.

123

Esse dia foi como um sonho mau. Bevil regressou a casa sozinho, lívido e furioso. Descobrira que a companhia partira para Paignton, aonde foi, e, quando os descobriu, soube que Benedict Bellairs abandonara a companhia, com morada desconhecida.

Não havia mais nada a fazer... por ora.

Os Leverets apareceram e a Sr. a Leveret começou a chorar. Eu não era capaz de olhar para Harry e de vez em quando um deles bombardeava-me com perguntas. Não podia dizer-lhes mais nada além de que tinha estado no teatro e que Gwennan tinha uma relação de amizade com um actor chamado Benedict Bellairs. Tive de voltar a repetir isto vezes sem conta até me apetecer gritar-lhes que me deixassem em paz.

 

Senti-me infeliz, de regresso à casa de Londres. Tinha perdido Gwennan, Bevil estava furioso comigo e à minha frente estendia-se a temporada monótona, através da qual a tia Clarissa me iria encaminhar.

Ela estava sentada na sala de estar em frente de Jenny, vestida de preto, numa censura para esta, pelo facto de a irmã não ter ainda tirado o luto pelo irmão e de a mulher ter achado por bem fazê-lo. Parecia um corvo a intimidar um periquito.

A sua voz era aguda e esganiçada.

- Claro que esta casa teria sido ideal. Lembro-me das festas que o meu irmão costumava dar. Vi estas salas decoradas com flores exóticas e até mesmo um lago com peixes na biblioteca. - A minha madrasta agitava as mãos, mas estes gestos inúteis que tanto encantavam o meu pai deixavam a tia Clarissa impávida. - Claro que não me passaria pela cabeça usar esta casa agora... uma casa que não há muito tempo sofreu uma perda

- Todas as casas devem ter tido as suas perdas de vez em quando - interpus, porque teria de ir em ajuda de Jenny. Se nunca dessem festas nas casas em que tivessem morrido pessoas, haveria muito poucas.

- Estava a falar com a tua madrasta, Harriet.

- Oh, tia, não sou nenhuma criança, que deva falar só quando alguém me dirija a palavra.

- Até seres apresentada oficialmente, considero-te uma criança.

- Então, ficarei muito contente, quando tiver passado essa barreira mágica.

- Existe uma coisa sobre a qual tenho de conversar contigo, Harriet. A tua língua é muito azeda.

- Só poderia vencer isso se a adoçasse artificialmente. - Isso são divagações absurdas. Eu sustentava que não é

possível usar esta casa e sugiro que Harriet viva comigo até terminar a temporada.

Jenny olhou para mim, impotente. Compreendi que teria de ser como sugeriu a tia Clarissa.

A casa da tia Clarissa situava-se longe da estrada. Havia  dois portões em cada extremo de um caminho semicircular que

conduzia à porta principal. Era maior do que a nossa casa na Praça Londres, mas muito menos elegante. O marido da tia Clarissa não era tão rico como o meu pai, um facto que sempre a indignara e que, creio, nunca deixara de apontar ao meu pobre tio. Ele morrera havia uns cinco anos, após uma doença prolongada, e ouvi chamar à sua morte "uma libertação feliz". Bem podia acreditar que o fora.

Sylvia e Phyllis receberam-me em sua casa com uma tolerância insolente. Eu não era nenhuma rival: de facto, poderia ser um contraste que aumentaria a sua beleza, cor-de-rosa e branca.

A casa agitava-se numa roda-viva. Coitada de Miss Glenister, a costureira, que trabalhava num dos sótãos, a que se chamava "sala de costura", de manhã cedo até altas horas da noite, sentia pena dela: era atormentada não só pela minha tia mas também pelas minhas primas, e o desastre seria ainda maior se a Sylvia não gostasse da roda das mangas e se a Phyllis, depois de decidir que adorava a renda cor de café por cima do veludo azul, de repente decidisse que, afinal de con tas, a detestava. Miss Glenister era o bode expiatório, a culpada de tudo. Às vezes, admirava-me de ela não atirar os alfinetes e os algodões para cima delas e de não se ir embora da casa. Mas, para onde? Ser empregada de uma outra família, que exigia as mesmas obrigações e lhe atirava com as mesmas culpas?

Quando fazia alguma coisa para mim, declarava-me sempre encantada com ela, o que nem era verdade, mas não podia suportar aumentar os seus problemas.

As minhas primas punham as mãos nos lábios, para esconderem os sorrisos.

- Bem, eu não queria isso, prima. Mas suponho que tu achas que não é muito importante.

Miss Glenister apresentava desculpas por elas. Dizia-me:

- Bem, minha menina, elas são tão bonitas. É compreensível que queiram o melhor.

Os vestidos enchiam os roupeiros. Vestidos de baile em grande quantidade, porque, como explicava a tia Clarissa, seria um desastre usar um vestido tantas vezes que fosse reconhecido.

- Isso significa que devemos usá-los só uma vez? - perguntei.

- Que extravagância ridícula! - retorquiu logo a tia Clarissa.

- Mas será que é seguro usá-lo duas vezes? Pode haver pessoas que estejam de tal forma atentas que os reconheçam, mesmo depois de eles arejarem só uma vez. Os detectives de vestidos.

- Suplico-te, Harriet, não penses que estás a ser esperta. De facto, estás a ser muito estúpida.

Mas perturbara-a, e esse facto deu-me uma satisfação maldosa. Aproveitava todas as oportunidades para destruir aos poucos a sua confiança nas filhas e no seu sucesso naquilo que eu chamava o "comércio de casamentos". Sentia-me envergonhada comigo: dizia para mim mesma que desprezava todo aquele negócio, mas, em segredo, no fundo do coração, sabia que, se fosse bonita e atraente, provavelmente ficaria tão interessada pelos vestidos e tão ansiosa pelo sucesso como as minhas primas. A confiança que adquirira abandonou-me e senti-me mais perto da criança taciturna que tinha sido quando o meu pai era vivo do que estivera durante muito tempo. Tinha duas personalidades: a que era capaz de ser alegre, cheia de esperança, divertida e mesmo atraente, e a taciturna e

126

cáustica, que estava constantemente na defensiva, à espera do ataque. Lembrei-me das figuras de madeira da casinha que estava no quarto das minhas primas: a mulher, vestida de forma alegre, com o chapéu-de-sol a indicar o tempo bom, e o homem, de forma triste, quando o tempo estava carregado ou tempestuoso. O brilho do Sol fazia sobressair uma Harriet (que eram Bevil e Menfreya), e a escuridão, a outra (que eram a minha tia e as minhas primas).

Quanto menos gostava de mim, mais infeliz ficava. A diferença agora era que esta disposição não se manifestava em silêncio carregado: fazia apenas uso da minha língua afiada, para as ferir e lhes estragar os prazeres.

Penso que me sentia mais ferida pela pobre costureirinha, a quem as minhas primas tratavam tão mal e com quem eu tentava ser simpática, porque, apesar disso, ela preferia fazer vestidos para elas e, embora a fizessem derramar muitas lágrimas sobre as bainhas e os franzidos, admirava-as e respeitava-as.

 "O que é que estou a fazer aqui? ", costumava perguntar-me a mim mesma durante esses dias.

Fomos convenientemente apresentadas e o círculo de actividades iniciou- se.

Eu tinha de fugir das conversas tolas, do estudo minucioso de listas de nomes.

- Temos de tentar convidá-lo a ele. Agradaria em qualquer festa.

"Ele" era o melhor candidato solteiro da cidade, possuidor do título de barão e de uma fortuna.

- É mesmo melhor que o conde, porque, minha querida, é-lhe difícil manter aquelas vastas propriedades, e podes ter a certeza de que andará à procura de uma fortuna. Algo para além dos nossos dotes. Se o teu pai tivesse ao menos... mas temos de tirar o melhor partido daquilo que temos. Lorde Bars é um homem encantador. e rico. rico! Claro que sei que George Crellan é filho de um conde. mas o quarto filho, minhas queridas! Se fosse o segundo, poderia haver uma oportunidade. mas o quarto! A ilustre senhora Crellan Sim, muito bonito. Mas preferiria um título mais sólido... algo que seja hereditário. Continuo a pensar que os ilustres são muito duvidosos. Há alturas em que não é de bom gosto usar tais títulos. Por isso, temos de tentar Lorde Bars...

 

Viu os meus lábios crisparem-se com desprezo.

- Se pensas que podes ter uma oportunidade com o conde, estás enganada. Se o teu pai não tivesse feito a palermice de casar com aquela mulher. e deixar o dinheiro confiado à guarda de alguém... Oh, meu Deus. Que confusão. Pensei que quando te apresentasse deveria pelo menos ter a tua fortuna. E agora, a não ser que ela morra. e ela é tão nova. - Ri-me alto. - Harriet.

- Todo este barulho e esta raiva não servirão decerto para nada - preveni-a. - Não quero o conde, nem Lorde Bars, nem o ilustre George Crellan, garanto-lhe, e com muita sinceridade.

- Não te preocupes - retorquiu a minha tia, furiosa -, tu nunca terás essa sorte.

- E, se esses cavalheiros tiverem bom senso, as minhas primas também a não terão - repliquei.

Em seguida, não havia mais nada a fazer a não ser deixá-las. Queria fugir da banalidade de tudo aquilo e fiz uma visita à minha madrasta.

Jenny ficou contente por me ver e eu achei que ela parecia mais bonita e animada do que era habitual.

- Bevil Menfrey visitou-me ontem - revelou-me. - Que homem tão encantador. Estava muito divertido. - Imaginei a cena: Bevil a ser tão sedutor como havia de ser sempre para uma mulher bonita. - Perguntou por ti, claro.

- Penso que não está muito satisfeito comigo - contei- lhe. - Acha que tenho parte das culpas do que se passou com Gwennan.

- Tenho a certeza de que não iria pensar nisso. Seria deveras injusto e ele nunca procederia assim.

- Ele foi injusto. Censurou- me. Foi muitíssimo claro.

- Isso foi na fúria do momento. Nessa altura estava transtornado. Naturalmente não iria esperar que tu entrasses em mexericos. Perguntei-lhe se sabia alguma coisa acerca de Gwennan, e ele disse-me que não. Tinha feito investigações que não deram resultado e supunha que nessa altura ela já deveria estar casada, não havendo razão nenhuma para a trazer de volta, no caso de estar.

- E ele... referiu-se a mim.

- Sim. Disse: "A Harriet estava dentro do plano... jurou guardar segredo. Se ao menos nos tivesse dado uma pista. mas claro que não iria fazer isso "

- Então, acha que ele compreendeu mesmo?

- Claro. Ele teria feito o mesmo. E participou que irá a alguma das vossas festas. A tua tia mandou-lhe convites.

Senti que estava radiante; porém, uma inquietação invadiu-me o espírito quando olhei para a minha bonita madrasta: os seus olhos brilhavam de prazer, ao recordar a visita de Bevil, e a pele ruborescia, com aquela brancura fresca, tão invulgar e atraente, ainda transparente.

Alguns dias mais tarde fomos ao baile que Lady Mellingfort dava para a sua filha Grace. Os preparativos decorreram durante todo o dia, e eu sentia-me desapontada e triste porque Bevil não visitara a minha tia como eu esperava que fizesse.

Na privacidade do meu quarto, praticava passos de dança. Era capaz de dançar. Provara que era no quarto assombrado em Menfreya e no baile em Chough Towers, mas imaginava que me faltava elegância.

 

Havia uma única razão para eu ir a um baile: que Bevil lá aparecesse.

O meu vestido era verde, o que, segundo as minhas primas me informaram, era sinal de azar. Senti um certo receio ao vesti-lo, pois escolhera-o mais por fanfarronice do que por outra coisa. Seda verde transformada num vestido de baile pelos dedos picados de Miss Glenister e pelos seus olhos esgotados! Achei que tinha pouca graça, o que pude confirmar pelas expressões satisfeitas das minhas primas, que também achavam o mesmo.

Sylvia vestia de cor-de-rosa e prateado e Phylis, de azul e prateado. A mesma fita prateada para as duas, uma vez que saía mais barato comprar em quantidade. Tive de admitir que estavam muito bonitas à sua maneira e que eu me iludia se pensasse que era um tanto insípida. A sua criada, que todas repartíamos, penteara-lhes o cabelo de forma muito atraente, e cada uma delas usava um caracol a cair-lhe sobre o ombro. Ninguém iria imaginar que os caracóis tinham sido feitos com trapos colocados na noite anterior: bastante desconfortável e grotesco, mas a tia Clarissa era contra os ferros de frisar. Eu escovara o meu cabelo liso e enrolara-o num puxo, que usava no alto da cabeça.

- Faz-te mais velha! - comentou Phyllis, satisfeita.

- Pelo menos - contrapus -, não serão três fadas saídas da árvore de Natal.

- Estás com ciúmes! - murmurou Sylvia.

- Não - retorqui. - É um comentário justo. Certamente que não tirara o melhor partido de mim. Olhei com desdém para o rouge com que as minhas primas retocaram as faces. Iria para o baile com um aspecto simples e pouco embelezado, só para mostrar que não me importava.

- Parece a preceptora de alguém - comentou Sylvia para Phyllis.

- Só que, claro, as preceptoras não vão aos bailes.

- Phyllis! Sylvia! - repreendi-as, com severidade. - Os vossos modos não têm nem metade da beleza dos vossos vestidos.

- O que queres dizer?

- Estou a proceder como preceptora, já que me pareço com elas.

Teriam ficado surpreendidas se pudessem saber que havia uma sensação de aperto na minha garganta e uma outra de ardor nos olhos. Era capaz de me atirar para cima da cama e chorar. Sentia-me muito infeliz, e essa infelicidade era como que um eco do passado, quando o meu pai me mostrara com muita clareza que não se importava comigo e a tia Clarissa pensava na maneira de me descobrir marido.

A carruagem encontrava-se à porta e partimos. Prestei atenção à tia Clarissa. Os seus olhos, complacentes, pousavam nas filhas. Pensava que estavam encantadoras.

Perto da casa de Lady Mellingfort, em Park Lane, fomos detidas pela fila de carruagens que levavam os convidados para o baile. Este era um dos bailes mais importantes da temporada e as emoções da tia Clarissa estavam divididas: sentia-se encantada por ser convidada e ao mesmo tempo imaginava como iria competir com tamanho esplendor quando chegasse a sua altura de ser anfitriã.

 

As pessoas olhavam para nós, algumas esfarrapadas e com rostos magros. Tremi. Sempre detestei os contrastes. Imaginava se nos detestavam ali sentados, não só bem alimentados mas ainda com roupas resplandecentes: o custo dos nossos vestidos teria alimentado uma família durante uma semana.

Fiquei contente quando começámos a andar e chegámos à casa.

Tive uma visão da carpeta vermelha, lacaios empoados e ramos de palmeiras em vasos brancos, o burburinho de vozes excitadas, os olhares ansiosos das mamãs com aspirações.

De seguida, subimos a escada larga e fomos recebidas por Lady Mellingfort, que, vestida de cetim branco e adornada com diamantes e penas, se encontrava à nossa espera.

Era o pesadelo que eu imaginara. As mães a cumprimentarem-se umas às outras, tecendo elogios às filhas encantadoras de umas e outras, com olhos de lince preparados para um sinal de beleza superior e para chamar a atenção da presa mais tentadora.

Eu não provocava quaisquer receios. Conseguia ler-lhes os pensamentos ao ser apresentada: "A filha de Sir Edward Delvaney! Não é propriamente uma beleza! E como o pai casou com uma mulher jovem... não tem fortuna. Na realidade, não tem possibilidades. "

Eu não pertencia a este meio. Como desejei o momento de fazer as despedidas e agradecer a hospitalidade. Como o meu quarto parecia muito mais tentador.

Passou-se como eu receava. Apresentaram-me a um ou dois homens, os mais velhos e menos atraentes, que me olharam com um ar investigador. Presumi que a minha reduzida fortuna tinha um certo interesse para eles. Dancei desajeitadamente e conversei por algum tempo, mas como não fazia esforço nenhum para manter uma conversa banal, acabaram por se afastar.

Vi Phyllis e Sylvia a dançar e fiquei com pena de que elas também me tivessem visto. Lançavam-me sorrisos piedosos, que não escondiam por completo a sua satisfação.

Não me importo com o que digam, prometi a mim mesma, nunca mais voltarei a outro dos seus bailes ridículos.

Nesse momento, ele veio em direcção a mim. Eu sabia que alguma das mamãs vorazes o observavam, mas ele não dava importância a isso. Se não era o mais bonito, era, sem dúvida, o homem mais distinto do baile.

- Harriet! - proferiu, numa voz que foi ouvida pelos que se encontravam por perto e fez voltar cabeças e erguer sobrancelhas. - Tenho estado à tua procura há perto de meia hora!

- Bevil - gritei, com toda a minha alegria e prazer na voz, para que os observadores pudessem detectá-los.

Sentou-se ao meu lado.

- Poderia ter chegado cá há mais tempo, mas fui retido na Câmara.

- Não fazia ideia alguma de que tu viesses.

- Não tinha a certeza se conseguia. Mas soube pelo Tony Mellingfort que a tua tia e as suas protegidas eram convidadas, logo, decidi-me a vir cá algum tempo. Estás contente por me ver? Que barulho!

Sentia-me demasiado feliz para falar nesses primeiros momentos. A seguir, disse muito tranquila:

- Suponho que é o que se deve esperar. a música e a conversa.

- Na verdade, evito festas destas sempre que posso.

- Eu também evitava, mas é mais fácil para ti do que para mim. Há notícias de Gwennan?

 

- Nenhumas - respondeu. - Tenho de te pedir desculpa, não tenho? Estava irritado e pensei que tudo se poderia ter evitado se nos tivesses falado do assunto, mas claro que compreendo que ela te tomou para confidente e tu eras a última a trair tal confiança.

- Fico contente por entenderes.

- Conheceste esse indivíduo, não foi? Oh, meu Deus, que barulho! Vamos tentar encontrar um lugar mais calmo? - Pegou-me na mão e deu-me o braço. Vários olhares seguiram-nos até chegarmos a um recanto um pouco escondido por ramos de palmeiras. - Assím é melhor.

- Longe da multidão delirante - murmurei, com a minha disposição a começar a melhorar.

- Mas não o bastante. Esse tal actor, como era ele?

- Só o vi no palco e por breves momentos nos bastidores.

- Mas que impressão te provocou, Harriet?

- É difícil de dizer. Era de tal modo actor que parecia estar sempre a representar um papel, no palco e fora dele.

- Não sei o que vai ser dela.

- Ela é muito desembaraçada.

- Não te escreveu a pedir que não nos contasses? - Sorriu. - Mas, mesmo que o tivesse feito, tu não irias dizer, pois não?

- Não. Mas posso assegurar-te uma coisa: ela não me escreveu.

- Pergunto-me se será bom ou mau sinal.

- Pode ser as duas coisas.

- Tu não me enganas, Harriet. Se Gwennan tivesse algo de que se vangloriar, ter-te-ia escrito. Não o fazia sempre?

- Sim. Mas pode estar com medo de que vocês vão no seu encalço, para tentarem trazê-la de volta.

- Não poderíamos... se estivesse casada. Se souberes, avisas-me... a não ser, claro, que estejas presa a algum segredo?

- Claro que o farei, Bevil.

- Agora, fala-me de ti. Estás a viver em casa da tua tia. Deduzi-o quando visitei a tua madrasta no outro dia.

- Sim, e ficarei contente quando tudo isto acabar! Detesto estas festas.

- E eu também.

- Tu não foste obrigado a vir.

- Enganas-te outra vez, Harriet. Fui obrigado a vir porque te queria ver. Sabes que és a mulherzinha mais inteligente e divertida que eu conheço, não sabes?

- Sei que tens o dom de tecer elogios!

Inclinou-se para mim e beijou-me o nariz. Pensei: "Nunca houve felicidade como esta. Como pude ter pensado em não querer vir ao baile de Lady Mellingfort? "

Falámos de Menfreya e, enquanto estava sentada com Bevil naquele recanto, conseguia ouvir o sussurro das ondas e ver as muralhas com ameias e o antigo relógio da torre. Imaginava que andava a cavalo com Bevil pelos bosques e veredas. Sentia-me excitada pela felicidade.

Mais tarde, quando fomos os dois cear, para minha aflição, juntaram-se- nos a tia Clarissa e Sylvia, que, notei com malícia, não se encontrava acompanhada.

- Senhor Menfrey! Como estou encantada. A minha filha Sylvia.

 

Senti uma pontada de receio quando olhou para ela naquele jeito quente e terno com que ele e o pai olhavam para todas as mulheres.

Sylvia disse:

- Também estou encantada, senhor Menfrey. Ouvi falar muito de si.

- Então, estamos todos encantados. Harriet não conseguiu falar mais nada durante toda a noite, a não ser nas suas encantadoras primas.

Fiquei sem respiração, mas ele estava a sorrir para mim. Percebera a situação.

Lady Mellingfort achou que seria divertido os convidados ajudarem-se uns aos outros na altura da ceia, e Bevil ofereceu-se para nos ir buscar a nossa para a mesa.

- Leve a Sylvia consigo. Ela vai ajudá-lo. Vai, Sylvia, minha querida. - Vi-os ir juntos e odiei a minha tia. Também ela me odiava. - Realmente - observou a meia voz. As pessoas andam a falar!

- Nem outra coisa seria de esperar. Isto não é uma ordem monástica, onde se exige silêncio.

- Harriet! Presta atenção.

- Estou a prestar, tia.

- O teu comportamento tem sido vergonhoso.

- De que forma?

- Indo-te esconder com aquele homem.

- Escondermo-nos? Oh, tia, não havia nenhum esconderijo. Éramos bem visíveis através dos ramos das palmeiras.

- É como estou a dizer. Isso, simplesmente, não se faz. Estás sob o meu cuidado e sinto-me muito descontente. Monopolizaste o senhor Menfrey. Não te ocorreu que outras pessoas pudessem ter querido falar com ele?

- Ele tem uma fortuna muito pequena, tia. Claro que existe o título, que terá um dia, suponho. mas uma propriedade no campo. e relativamente pequena. Não se pode comparar aos condes e barões ou mesmo ao ilustre senhor Crellan.

- Fazes o favor de te calares! Bem, pelo menos ele e Sylvia parecem estar a dar-se bem juntos. - Pareciam. Os meus olhos tristes haviam-nos visto a rir, enquanto escolhiam as iguarias da mesa do bufete ajudados pelos lacaios empoados de Lady Mallingfort. - Oh, aqui vêm eles. Senhor Menfrey, que coisas deliciosas nos trouxe! Faça o favor de se sentar aqui. E Sylvia, minha querida, senta-te ali.

Bevil aproximou a cadeira um pouco mais da minha.

- Creio - declarou, sorrindo para mim - que isto será do teu agrado.

Foi simpático para a minha tia e, em relação a Sylvia, dispensou-lhe aquela atitude um tanto galanteadora que parecia incapaz de evitar. A noite não chegou a ficar estragada, mas eu desci muito do cimo dos Montes Elísios.

Nem sequer tive oportunidade de voltar a recuperar o tempo perdido, pois logo a seguir fizemos as nossas despedidas. Bevil aceitou um convite para ir visitar a casa da minha tia e a nossa carruagem conduziu-nos ao longo de Park Lane.

Estávamos todos em silêncio.

 

No meu quarto, atirei o vestido para cima de uma cadeira e meti-me na cama. Até conseguir adormecer, imaginei que me encontrava em Menfreya, a olhar cá para fora, para o mar, e depois a remar em direcção à ilha, onde Bevil me esperava, ou a andar a cavalo pelos bosques, rindo e conversando, e, de seguida, a desatar a galope, para fugir da tia Clarissa e de Sylvia, que nos perseguiam. Era agradável sonhar apenas com a mais leve sombra de dúvida e desconfiança, um reflexo real do que me acontecera no baile de Lady Mellingfort.

No dia seguinte, a minha tia sugeriu que seria conveniente eu visitar a minha madrasta, ao que logo obedeci de boa vontade. Fiquei surpreendida com este pequeno gesto de amabilidade até saber que Bevil lhes fizera uma visita enquanto estive fora, como possivelmente tinham combinado, sem o meu conhecimento, e tomara vinho e biscoitos na sala de estar.

Quando regressei e descobri o que se passara, senti-me traída.

- Prestou bastante atenção a Sylvia! - gritou Phyllis.

- Pensei que tu estavas a tentar namorar com ele - adiantou Sylvia.

- Bem, ele é bastante divertido e, em qualquer dos casos, continuaria a falar. comigo. - Não era capaz de suportar ouvir a conversa delas; porém, o triunfo foi meu quando, no dia seguinte, mesmo antes de sairmos para outra das festas da temporada, uma das criadas trouxe flores. Vinham dentro duma caixa muito bonita: duas orquídeas colocadas com muito bom gosto. - Dá-me a mim - reclamou Phyllis. Oh, faço ideia de quem a mandou.

A minha tia chegou alvoroçada.

- Flores! Não é nada fora do habitual. Não fiquem tão excitadas. Irão ver que isto é mesmo um hábito quando um homem quer mostrar que está interessado.

Sylvia lançava olhares carrancudos à irmã e tentava tirar-lhe a caixa das mãos.

- Como é que sabes que são para ti?

- O senhor Sorrell foi muito atencioso em casa de Lady Mellingfort e insinuou que esperava que nos voltássemos a encontrar, pelo que não me surpreendo...

- Oh, então, não são para ti?

Sylvia ria-se do cartão, que arrancou da caixa.

- São para ti? - perguntou a mãe. Porém, Phyllis tentou tirar o cartão das mãos de Sylvia, o qual caiu ao chão perto de mim, e, ao olhar para ele, vi lá escrito? "Vou estar à tua espera esta noite, Harriet. B. M. " - Não pode ser verdade - exclamou a minha tia. Apanhei a caixa. O meu nome estava lá escrito, bem legível. Tirei as orquídeas e segurei-as contra o vestido. A minha tia agarrara no cartão e estava a lê-lo. - B. M. - exclamou.

- Espécimes do Museu Britânico, não é o que está a pensar? Tenho a certeza de que foi Bevil Menfrey quem mas enviou.

Levei as orquídeas para o meu quarto. Iria esmerar-me a vestir-me e escolher o vestido que ficasse melhor com as orquídeas.

Este era verde-pálido, e, ao experimentar as orquídeas sobre ele, achei que ficava com um aspecto encantador.

Não era fácil esconder o meu entusiasmo, e as minhas primas e a minha tia deram bem por isso.

- Não é muito conveniente, Harriet - aconselhou-me a minha tia, com amabilidade -, dar muita importância a um presente de flores.

- Tenho a certeza que não é, tia - respondi, com reserva.

 

- Essa tua amiga, a Gwennan, era uma criatura insensata. Foi bastante chocante a forma como fugiu nas vésperas do casamento. Eles devem ter ficado envergonhados com ela.

- Talvez todos eles tenham por hábito fugir depois de fazerem promessas de casamento - sugeriu Sylvia.

- São uma familia extravagante, sempre o ouvi dizer, e as suas perspectivas de futuro não são muito encantadoras.

Soube de fonte segura que têm dívidas. Arranjaram uma propriedade velha, a cair aos pedaços, nos confins da Cornualha, e duvido de que os tivéssemos conhecido se não se desse

o facto de o teu pai, Harriet, ter sido o deputado eleito por

aquela região. E ele conseguiu o lugar porque o deputado anterior se demitira, devido a um escândalo. Esse era o pai do teu

amigo. Penso que se deve ter muito cuidado com uma família como essa.

- Oh, deviam ter - retorqui, com malícia. - Não deviam

pedir a nenhum membro dessa família que as visitasse pela

manhã, a fim de beber vinho e comer biscoitos, quando eu

saio.

O perfume exótico das orquídeas enchia-me as narinas,

intoxicando-me. Não me importava com o que dissessem, com

o que pensassem.

Acreditava que a noite iria ser maravilhosa, porque iria

ver Bevil. Tinha razão. Foi. Ele passou a noite comigo como

fizera antes. Não dançámos quase nada. Sabendo como eu

me sentia inibida com o meu defeito físico, sugeriu que, em

vez disso, conversássemos. Fizemos assim, embora não

muito a sério, mas senti-me animada ou imaginei que estava.

Talvez a felicidade, como o vinho forte, nos faça pensar

isso de nós mesmos. Mas Bevil ria-se bastante e deu-me a

impressão, pelo menos, de se estar a divertir com a minha

companhia, porque não se desviou do meu lado toda a noite

e confiou-me que se sentia feliz por me ver usar as orquídeas.

O melhor de tudo é que eu sabia que estávamos a ser observados, que se estavam a tecer especulações a nosso respeito.

Será possível que, mesmo no início da temporada, Harriet

Delvaney, que não tem nada, mas absolutamente nada, que

a recomende desde que o pai casou com essa actriz, vá ser a

primeira das meninas a alcançar um lugar vencedor?

Era um triunfo.

Éramos notáveis, Bevil e eu. Como estávamos sempre juntos, era natural que as colunas sociais publicassem notícias a

nosso respeito.

A tia Clarissa fez-me essa observação: sentia-se meio

impressionada, meio invejosa. Parecia-lhe inacreditável que eu, actualmente sem melhor fortuna do que as suas filhas, e nem um quarto da sua beleza, fosse a primeira a ser referida.

Desci para tomar o pequeno- almoço e encontrei a minha tia com as minhas primas já à mesa.

- Olha para isso - sugeriu a tia Clarissa.

- Oh, uma notícia sobre o baile de terça-feira.

- Lê o que diz.

 

O Sr. Bevil Menfrey, membro do Parlamento por uma secção da Cornualha, é visto constantemente na companhia de Miss Harriet Delvaney. Miss Delvaney é a filha do falecido Sir Edward Delvaney, quefoi deputado eleito pela secção que o Sr. Menfrey agora representa. Recorde-se que Sir Edward morreu há cerca de dezoito meses, logo a seguir ao seu casamento. O prazer que estes dois jovens encantadores encontram na companhia um do outro deve-se à politica. ou.

Ri-me alto.

- Então, fomos notícia.

- Só espero - afirmou Sylvia - que ele não se ande a divertir.

- Tenho a certeza que anda. Não é homem para suportar o aborrecimento.

- Finges ser muito ingénua.

- Eu, minha querida priminha?

- Na realidade, Harriet, és muito irreverente - repreendeu-me a minha tia. - Isto pode ser um assunto muito grave.

Não respondi. Era um assunto grave. O mais grave do mundo.

Alguns dias mais tarde, Bevil efectuou uma visita a casa da minha tia. Por sorte ou de propósito, escolheu uma altura em que a minha tia e as minhas primas se encontravam a retribuir visitas. Achava-me no meu quarto e fiquei admirada e encantada quando apareceu a criada, para me dizer que ele me esperava na sala de estar.

- Pergunta por si, Miss Harriet - elucidou ela, fazendo um trejeito. Os modos da minha tia e das minhas primas não lhes granjeavam a afeição daqueles que trabalhavam para elas, e, por consequência, os criados aqui sentiam-se satisfeitos com o meu sucesso social, do qual, claro, ouviram falar, uma vez que deixaram de andar aborrecidos. Aliás, eu não tinha qualquer dúvida de que este assunto era discutido à boca cheia no andar de baixo.

Quem me dera não estar com o meu vestido simples riscado cor de alfazema e pensei se teria tempo para mudar de roupa. Olhei para o espelho e reparei que o meu cabelo estava desalinhado, como era habitual. Parecia muito diferente da jovem que se esforçara por tirar o melhor partido de si nas diversões sociais.

Ordenei:

- Diga ao senhor Menfrey que irei ter com ele dentro de poucos minutos.

Assim que a porta se fechou, tirei o meu vestido de riscado e coloquei o de fazenda de seda cinzenta, com o corpete separado da saia. Enquanto lutava com os ganchos sentia os segundos passarem, mas, quando pus o último, voltei a reparar no cabelo desgrenhado e detive-me para o pentear. Levara pouco mais de cinco minutos a operar a transformação. Muitas vezes pensei nesses cinco minutos como os mais significativos da minha vida.

Apressei-me a descer à biblioteca, onde encontrei Bevil de pé, de costas para a lareira. Colocou as minhas mãos nas suas e ficou ali durante alguns segundos a sorrir para mim.

- Mas que grande sorte encontrar-te em casa. sozinha.

- A minha tia e as minhas primas não se devem demorar - respondi, com reserva. - A não ser que se atrasem bastante.

- As mulheres - referiu - têm o hábito de se atrasarem em excesso. - Os seus olhos riam-se para mim, e senti que ele sabia que me atrasara para mudar de vestido.

- Fica-te muito bem - continuou -, mas, com estes ganchos complicados, quatro mãos são melhores que duas. Permite-me.

 

Voltou-se e comecei a sentir os seus dedos a apertarem-me o vestido e depois os seus lábios no pescoço.

- Bevil! - exclamei.

- A minha recompensa - justificou-se. - Devemos sempre esperar ser pagos pelos serviços prestados. - Não me voltei para o encarar, porque sabia que o meu rosto iria denunciar o meu prazer. E acrescentou de repente: - Estou contente por te encontrar sozinha. Há uma coisa que te quero dizer.

- Sim, Bevil?

- Chega aqui e senta-te.

Pegou-me no braço e sentámo-nos no sofá, ao lado um do outro.

- Vou-me embora hoje para a Cornualha - fez-me saber. Não falei. O meu coração batia muito depressa e eu sentia um aperto na garganta. Era-me negado o prazer da sua companhia nas festas seguintes, mas ele tinha algo a comunicar-me e viera para o fazer. Creio que sabia do que se tratava e, se estivesse certa, ficaria completamente feliz. Queria levar-me para a Cornualha, para longe da casa de Londres, à qual teria de certeza de voltar muito em breve. - Vou ter de ir lá a uma reunião - prosseguiu Bevil. - É absolutamente essencial. De outro modo, não iria.

- Claro.

- A filha do político iria compreender. E Harriet... A carruagem parara à porta e a minha tia e primas desciam. Ouvi a voz esganiçada da minha tia: "Vem, Sylvia. "

Bevil olhou para mim e fez uma careta. A minha tia estava na entrada. Ouvi a sua voz penetrante: "Na biblioteca. " A seguir, estava à porta, precipitando-se para a sala.

- Meu caro senhor Menfrey, como é deveras encantador da sua parte vir visitar-nos.

Senti-me diminuída. O momento estivera perto e passara. Bevil também parecia pesaroso, imaginei.

E, quando Sylvia e Phyllis apareceram e a nossa conversa a sós se estragou, convenci-me a mim mesma de que, se ele estivera prestes a pedir-me em casamento, seria apenas um adiamento e não devia ficar tão desanimada.

Foi só mais tarde que compreendi o papel importante que a sorte desempenha nas nossas vidas e que, ao deter-me, para trocar riscado por fazenda de seda, colocara um ponto de interrogação alarmante na minha vida, que me iria perseguir durante os tempos que estavam para vir.

Senti-me desolada depois de Bevil partir. Fui visitar Jenny e, enquanto permaneci em casa, subi para o meu antigo quarto, onde encontrei Fanny.

Como parecia infeliz, perguntei-lhe se estava alguma coisa a correr mal.

- Ouvi falar da menina nos jornais - referiu. - Aludem a um casamento. Não gostei muito disso.

- De que é que não gostaste?

- A menina agora já é crescida e suponho que acha que eu não deveria estar a falar para si como dantes. Mas tomo essa liberdade, porque para mim será sempre a minha menina... bem, tomo conta de si desde bebé.

- Sim, Fanny, eu sei, mas já não sou um bebé, como vês, e imagina que eu ia casar. Tenho dezoito anos, sabes disso.

 

- Não é isso, Miss Harriet, é... é a forma como eles ligam o seu nome ao... Bem, gosto de pensar na menina casada tendo-me a mim a seu lado, e mais tarde as criancinhas que vierem serão minhas também.

- Não há motivo nenhum para que isso não venha a acontecer, Fanny.

Parecia furiosa.

- Não, não há motivo nenhum, e é assim que deve ser. Mas gostava de a ver feliz e... casada com o homem certo.

- Decerto que não quererias escolhê-lo por mim, pois não?

- Não me passaria pela cabeça chegar tão longe. Mas existe um que você sabe que não é bom.

- Não sei o que estás a insinuar.

- Há mexericos e boatos que circulam e que nem sempre chegam aos ouvidos daqueles a quem mais poderiam ser úteis. Mas não vou continuar a medir as palavras, Miss Harriet. Estou a falar do senhor Bevil Menfrey, do próprio. Agora, já não serve de nada estar a olhar para mim com esse ar frio e arrogante. Sei que não quer ouvir nem uma palavra contra ele. Nem eu quero voltar a dizer isto, para não a ferir. Mas, uma bofetada na cara, neste momento, é preferível a uma vida infeliz. Agora, repare, menina, não se torne irlandesa. Estou preocupada. Estou, e o tempo todo, com aquilo em que poderia cair com tanta facilidade.

- O que é que sabes a respeito do senhor Menfrey?

- Que ele é um desses Menfreys, só isso. Eles são maus. Está neles, e eu não hesito em afirmá-lo. Oh, sei que são muito bonitos de aspecto e que sabem ser simpáticos. Mas, no íntimo, são maus. Veja essa Miss Gwennan... deixar o pobre do senhor Harry no último momento, por capricho... Ela é uma desses Menfreys. Por isso, não se pode confiar neles.

- Sabes alguma coisa a respeito do senhor Menfrey? Fanny franziu os lábios e baixou os olhos. - Fanny! - Peguei-lhe nos ombros e abanei-a. - Conta-me, insisto.

- Não havia de gostar, menina.

- Gostaria ainda menos se tentasses esconder alguma coisa de mim.

- Mulheres. É o que é. Ouvi dizer que tem uma amante por conta dele numa pequena casa em St. John's Wood. E lembra-se de Miss Jessie, a filha do médico? Bom, ela é preceptora em casa de uma família em Park Lane, e ouvi dizer que o senhor Menfrey é um visitante habitual. do andar de cima e do de baixo.

- São tudo boatos - exclamei.

- Talvez sejam, menina, mas, quando vejo que está envolvida nisso, então levanto as orelhas... alerta.

- Porque me participas tudo isto, Fanny?

 

- Vou responder-lhe contando-lhe uma coisa, Miss Harriet. Nunca lhe falei da minha pequena... da minha filhinha. Por alguma razão não fui capaz de me resolver a fazê-lo. Conseguia falar sobre o orfanato e toda aquela infelicidade. mas não era capaz de me resolver a falar a respeito da minha pequenina. Tive um bebé, uma menina. Veja, quando deixei o orfanato, entrei ao serviço de uma casa onde a empregada doméstica tinha um irmão. Billy... Billy Carter. Ele era marinheiro e casámos. Ainda não estávamos casados havia um ano quando o mar o levou. Ir para aquela casa da Cornualha fez-me voltar a recordar tudo. Ficava acordada durante a noite, ouvia o mar, barulhento e enfurecido, e pensava: "Foi o mar que levou o meu Billy. " O bebé estava um pouco atrasado e eu costumava dizer para comigo, a respeito das noites, que seria melhor quando ele nascesse. Falava-se que fora tudo o que eu tinha passado. o choque, etc. Ela só viveu um dia. a minha pequenina. Pensei que morria. A seguir, vim para o pé de si. Existia um bebezinho da mesma idade do meu que perdera a mãe. Existia um bebé sem mãe e uma mãe sem bebé. Era lógico. Eu fui a ama de leite e assim, de certa forma, tive o meu bebé.

- Oh, Fanny - exclamei, atirando-me para os seus braços.

- Minha querida! - cantarolou, acariciando-me o cabelo. - Como vê... a minha pequenina não teria tido um pai e era como se a menina também o não tivesse. Mas então era diferente. Não chorava para adormecer. Tinha o meu bebé em quem pensar. Fora a Providência. Apesar de tudo, tinha um bebé. E é por isso que penso que tenho o direito de a avisar, meu amor. Estamos juntas, minha querida Harriet, a menina e eu... e, se eu tivesse de assistir e visse que não era feliz, suponho que seria o mesmo que sentir o coração despedaçado.

- Querida Fanny - proferi -, não penses que não compreendo... Não penses que não agradeço. Havemos de ficar sempre juntas... e os meus filhos serão também os teus. Mas estás enganada a respeito de Bevil e dos Menfreys.

Abanou a cabeça, com tristeza.

- E a menina, meu amor, está enfeitiçada por eles. Pensa que não a conheço? Pensa que não vejo o que está a acontecer. Sabe que tenho razão, não sabe? Acredita naquilo que lhe disse?

Sentia-me como se quisesse desfazer-me em lágrimas. Era injusto da parte dela abrir caminho através dos sentimentos em direcção a mim e a seguir falar de maneira escandalosa do homem que eu amava. Afastei-me dela.

- Não gosto de mexericos, Fanny - declarei. - Oh, não penses que não sei que te preocupas bastante comigo. Sempre soube que poderia confiar em ti e tu sabes que podes confiar em mim. Mas nunca virás a conhecer os Menfreys melhor do que eu.

- Estou preocupada - insistiu ela.

E eu abracei-a.

- Fanny, ainda não entendeste que sou capaz de tomar conta de mim?

Porém, ela apenas abanou a cabeça.

Quando Fanny me deixou, sentei-me na beira da cama. Sentia-me infeliz porque, embora fingisse não acreditar nas acusações de Fanny, o meu bom senso avisava-me de que havia muitas hipóteses de as mesmas serem verdade. Era a forma de vida dos Menfreys. A infidelidade era tão natural para eles como o respirar. Eu seria totalmente romântica se pensasse que Bevil alteraria os hábitos de toda uma vida só porque me conhecera. Será que eu não soube sempre disto? Sim. Porém, tivera a ideia disparatada de que, quando ele fosse meu marido, se transformaria como que por milagre naquilo que eu desejasse. E aquilo que eu pedia a Bevil era que fosse exactamente como era e como sempre fora, excepto num ponto: deveria ser fiel a uma mulher, e eu era essa mulher.

 

Mesmo neste momento estava a enganar-me a mim mesma. Não poderia confiar em Bevil, se, enquanto me fazia a corte, e decerto que andava a fazê-la, tinha uma amante em St. John's Wood e ao mesmo tempo estava apaixonado por Jessica Trelarken. Só um homem com uma moral elástica poderia comportar-se deste modo. Mas não era esta a moral dos Menfreys?

Poderia alguém que fosse capaz de enganar dessa forma constituir o rochedo em que nos apoiamos para construir a nossa vida futura? Como poderia confiar num homem desses? Como poderia sentir-me segura?

Era disso que eu precisava, foi isso que sempre me faltou. Segurança. O desejo desesperado das pessoas jovens e vulneráveis. O meu pai recusara- ma, e eu encontrara-a em Fanny. Agora, Fanny estava a avisar-me, tentando proteger-me, para que não me perdesse no charco do casamento com o que ela considerava um marido indesejável, da mesma forma que me agarrou uma vez, lembro-me, quando estava prestes a lançar-me a um sítio cheio de urtigas.

Regressei, pensativa, a casa da minha tia.

Encontrávamo-nos na sala de costura com a Miss Glenister e havia metros de cetim branco, decorado com flores douradas minúsculas, espalhados em cima da mesa.

A tia Clarissa comprara o tecido por bom preço e exultava defronte da sua pechincha. Miss Glenister media o tecido, nervosa, calculando o género de vestido que daria, enquanto Sylvia e Phyllis discutiam a qual delas ficaria melhor.

Eu ouvia-as como o fazia nesses dias, divertida e interessada. Queria pensar em coisas banais como essa, pois era uma forma de impedir que os meus pensamentos se dispersassem em direcções inquietantes.

- Mangas de renda! - exclamou Sylvia, impressionada.

- Não te ficam bem. És muito gorda - replicou Phyllis.

- Talvez a menina gostasse de uma saia aos folhos. com a qual, posso desiludi-la, fica muito gorda.

- Então - gritou a tia Clarissa -, se vão portar-se mal, preferiria não ter descoberto esta pechincha. Miss Glenister vai dizer o que se pode fazer e depois decidiremos para quem se fará o vestido.

- Deve estar pronto a tempo para o baile de Lady Carront - declarou Sylvia.

- E que é dentro de dois dias - salientei.

- Oh, fico a pé toda a noite, se for preciso, para acabar o vestido - declarou Miss Glenister, em tom humilde.

Toquei no tecido com os dedos e, segurando-o junto ao rosto, olhei para a minha imagem ao espelho.

Sylvia riu-se.

- A mamã comprou-o para uma de nós, prima - lembrou-me.

- Bem o sei, mas pensei que não houvesse impedimento algum em examiná- lo.

- É muito delicado para ti.

- Talvez para todas nós - redargui. - É demasiado elegante.

- E porque não podemos ser elegantes?

- Podemos, se o conseguirmos, claro.

- Inteligente, como sempre. Bem, a tua esperteza não impediu que uma certa pessoa se pusesse em fuga, pois não?

- Quem é que se pôs em fuga?

- Sabes muito bem. Depois de te ter feito dar nas vistas, fugiu, suponho, no caso de acalentares algumas ilusões.

 

Fiquei corada de raiva e voltei-me, furiosa, para a minha prima. Mas, precisamente nesse momento, bateram à porta e entrou uma das criadas.

- Está aqui uma das criadas de Westminster Square, minha senhora. Pergunta por Miss Harriet.

Saí a correr da sala e desci até à entrada, onde Fanny se encontrava à espera. Soube logo que se passara alguma coisa má... alguma coisa muitíssimo má. Durante alguns segundos olhou para mim, como se procurasse em vão as palavras certas e convenientes para a dimensão desta calamidade.

- Miss Harriet... é a sua madrasta.

- Está doente?

Fanny abanou a cabeça.

- Morreu - emendou ela.

 

Os dias tornaram-se irreais. Não conseguia acreditar que isto estivesse a acontecer na realidade. Certas imagens continuavam-me a vir ao espírito como quadros horríveis pintados por um louco. Via os rostos de Polden, da Sr. a Trant e dos criados assustados, mas, apesar disso, encantados. Isto era uma tragédia e estavam no meio dela!

Diziam que a minha madrasta havia sido envenenada. Iria haver um inquérito e então saberiam de certeza e descobririam o motivo por que ela morrera, quem tinha sido responsável pela sua morte.

A tia Clarissa chamou-me à biblioteca. Parecia cinco anos mais velha do que naquela manhã em que estivera a discutir o cetim bordado a ouro.

- Harriet, isto é chocante.

- Sim, tia.

- Alguma dose excessiva, comentam eles. É terrível. Vai ser um escândalo. E no meio da temporada. Isto poderia ser desastroso... completamente desastroso.

- Oh - exclamei, ouvindo a minha voz rebentar numa gargalhada, que me assustou. - A temporada!

- Não é assunto para rir, posso afiançar-te. - Pobre tia Clarissa, não tinha ponta de sensibilidade e não era capaz de a reconhecer nos outros. - Quem pensas que havia de querer ligar-se a uma família em que sucedem escândalos como estes? Isto vai ser fatal para todas as nossas esperanças. Não poderia ter acontecido em pior altura.

- Não poderia ter sido pior, em qualquer altura que acontecesse - corrigi. - Tia Clarissa, ela morreu. morreu!

- Não grites. Os criados vão ouvir. Sem dúvida que estão a discutir o assunto neste momento. Na realidade, penso, Harriet, que não deverias ficar aqui. Afinal de contas, se tu não estiveres cá, não irão envolver- nos de uma forma espalhafatosa, pois não? Claro que se vai saber que ela era mulher do Edward. Oh, como foi capaz de ser tão cego? Foi sempre tão sensato. excepto desta única vez. Enfeitiçado por esta mulher terrível. e, embora esteja morta, ainda o digo. enfeitiçado por uma mulher que, assim que ele morre, se suicida. ou pior, deixa que alguém a mate.

Ao ouvir a tia Clarissa, senti a histeria a invadir-me. E interroguei-a:

 

- Então, está a expulsar-me, tia? - Como não respondesse, prossegui: - A primeira coisa que farei amanhã, será ir-me embora.

Sentia-me exausta nessa noite, mas mal fui capaz de dormir. E, quando o consegui, continuei sobressaltada de horror, atormentada pelos pesadelos: Pelo que me senti contente ao ver que amanhecera.

A criada que me trouxe a água quente olhou para mim com curiosidade. Eu estava ligada a uma tragédia: morte súbita, suicídio... ou assassínio.

Tomei banho e vesti-me muito devagar, demorando o momento de partir. Era estranho que me quisesse demorar em casa da minha tia! Sempre achara que teria desejado ir-me embora, e agora o facto de isto estar a acontecer enchia-me de desolação ainda maior. Nunca na minha vida me sentira tão só, tão insegura, com tantas incertezas em relação ao futuro.

Bateram à porta e entrou uma criada.

- Desejam a sua presença, menina. Na biblioteca. Acedi com a cabeça e fingi olhar para a minha imagem reflectida no espelho e acariciar o cabelo, temendo que ela me visse a infelicidade estampada no rosto.

Não me poderia demorar mais tempo. Tinha feito a mala. Estava pronta para partir. Esperava encontrar a tia Clarissa na biblioteca, onde me iria explicar que, para interesse de todos, seria melhor eu ir-me embora e que dera ordens para que a carruagem viesse dentro de dez minutos.

Desci a passo até à biblioteca. A tia Clarissa encontrava-se ali, mas não estava sozinha.

Lady Menfrey aproximou-se e, pegando as minhas mãos nas suas, beijou-me.

- Minha querida Harriet - murmurou. - Minha pobre e querida Harriet.

E depois vi Bevil a levantar-se da poltrona. Tomou-me nos seus braços e apertou-me contra ele. Sentia-me fraca. A transição foi muito repentina. Do desespero, da dor da solidão para o conforto da única pessoa do mundo com quem eu queria estar mais do que com qualquer outra. Não conseguia falar: tinha medo de me desfazer em lágrimas, se o tentasse.

- Minha querida Harriet - sussurrou, numa voz tão maravilhosamente terna que me deu vontade de chorar -, isto foi deveras terrível para ti. Não te deves preocupar mais. Nós estamos aqui... estamos aqui para cuidar de ti.

Ainda não era capaz de falar.

- Harriet! - era a tia Clarissa. - O senhor Menfrey e a mãe vieram da Cornualha com o objectivo de cuidar de ti até este assunto terrível acabar. Lady Menfrey sugeriu- me que te vai levar para casa do senhor Menfrey, onde ficarás com ela até que se possam estabelecer planos. Penso que é uma ideia excelente.

Senti o alívio modificar de repente o meu rosto. Dei comigo a gritar:

- Oh, sim, oh, sim... porfavor.

Levaram-me para a pequena casa da cidade de Bevil, num pequeno beco sem saída, sossegado, do lado norte do Parque. Lady Menfrey ficou aqui comigo. Havia apenas uma criada e uma governanta, que cozinhava o mínimo que Bevil precisava até essa altura. A casa era tão-somente um pied-à-terre que ele adquirira desde que se tornara membro do Parlamento.

 

Lady Menfrey insistiu para que eu fosse logo para a cama, porque, declarou, eu estava exausta, embora não desse por isso. Sentia-me submissa, pois achei que era luxo de mais entregar-me nas mãos desta mulher simpática e meiga, sobretudo quando Bevil envidava todos os esforços para me mostrar como se sentia ansioso por me ajudar.

Falámos pouco da tragédia, mas sim de Menfreya, e Lady Menfrey anunciou- me que era desejo de Bevil, e dela, que, logo que o inquérito terminasse, eu regressasse com eles a Menfreya, a fim de recuperar deste choque terrível.

Respondi-lhes com entusiasmo que não havia nada de que mais gostasse, nada de que mais necessitasse, pelo que ficou assim combinado.

Assim vivi estes dias que se seguiram à tragédia: foram dias longos, dias de sonho, mas como via Bevil com frequência e estava sem cessar na companhia de Lady Menfrey, cujo maior desejo consistia em fazer-me perceber que se sentia preocupada comigo como teria estado com uma filha, compreendi que tinha algo a que me prender, e ela era a melhor companhia que poderia ter encontrado. Era, todavia, uma mulher serena, ela, a herdeira, que havia sido raptada por Endelion e se apaixonara de forma tão romântica e a seguir fora forçada a adaptar as suas ideias românticas e aprender a viver com um homem que nunca era capaz de lhe ser fiel e cuja paixão irresistível fora não por ela, e sim pela sua fortuna! Mas aqui estava, ainda bela, com uma beleza diferente da dos Menfreys, calma, de feições clássicas, meiga, carinhosa e, podia dizer- se, resignada. O resultado indiscutível de uma vida de compromisso e adaptação às maneiras extravagantes dos Menfreys, que, embora fossem mundanos e talvez egoístas e interesseiros (para Menfreya), eram as pessoas mais encantadoras do mundo.

E ali estava Bevil, tão preocupado comigo, tão ansioso por que tudo se fizesse para o meu bem-estar, terno, de uma forma que me transmitia uma paixão contida. As suas mãos devoravam-se no meu braço, os seus olhos eram ternos e à volta dele adivinhava-se um ambiente de espera que me parecia significativo. Era como se eu já me tivesse comprometido a casar com ele. Tinha a certeza de que dentro em breve o iria fazer. Lady Menfrey transmitia-o a seu modo e, quando me falava de Menfreya, fazia-o como se a mansão já fosse o meu lar.

Foi assim que vivi esses dias de tensão, quando os Menfreys procuraram sobrepor a uma imagem de tragédia uma outra de felicidade eterna a partir daí.

Conseguiram e amei-os por isso: Lady Menfrey, como a mãe que nunca tive, e Bevil mais do que alguma vez pensara que fosse possível amar alguém.

Não havia necessidade alguma, assegurou Bevil, de que eu fosse assistir ao inquérito. Poderia ser desagradável e eu não estava em casa quando ocorrera a tragédia.

Sentia-me ansiosa por que ele tomasse as providências que considerasse necessárias.

 

- E, logo que tudo esteja acabado - declarou -, partirão para Menfreya. Podes viajar com a minha mãe e eu irei ter convosco dentro de alguns dias. - Repliquei que não sabia como lhes agradecer e que não imaginava como poderia ter regressado àquela casa... e ficado lá estes dias. Bevil pegou-me na mão e apertou-a de forma tranquilizadora. - Bem, agora sabes que podes colocar-te em segurança nas mãos dos Menfreys - afirmou. Pensei que estivesse prestes a proferir uma declaração dos seus sentimentos por mim, mas não o fez, pelo menos por palavras, embora os seus olhares se mostrassem repletos de ternura e, imaginava eu, do desejo de me protegerem para sempre.

No dia do inquérito até mesmo Bevil e Lady Menfrey se mostravam apreensivos, embora tentassem escondê- lo de mim.

Lady Menfrey permaneceu no quarto a maior parte da manhã, a ultimar os preparativos para partir para a Cornualha, explicou, o que pensava podermos fazer no dia seguinte.

- Vou precisar de algumas das minhas coisas - declarei -, vou ter de ir...

Ela abanou a cabeça.

- Não há necessidade. Escreves da Cornualha e mandas ir lá a tua criada. Ela levará aquilo de que precisares.

- Vou proceder dessa forma - anuí. - Mas, a casa... o que vai ser dela agora? Sinto que nunca mais quero voltar a entrar lá. Nunca seria capaz de esquecer.

- Não há necessidade de te preocupares com isso, de momento. Deixa tudo como está. Há que ter em conta os criados. Precisas de ajuda nestes assuntos. O meu marido e Bevil dar-te-ão essa ajuda. Deixa ficar tudo como está, neste momento. O que tens a fazer é partir... assim que este assunto lamentável acabe.

- Às vezes penso que nunca vai acabar.

- Minha querida filha, que queres dizer?

- Suponho que nunca esquecerei. que estará sempre presente no meu espírito.

- Oh, mas as tragédias parecem ficar, quando estão muito próximas.

- Sinto um grande alívio em deixá-la tomar as minhas decisões.

- Espero que vás concordar sempre em deixar-nos ajudar-te a este respeito.

Tinha a certeza de que, dentro de pouco tempo, seria mulher de Bevil.

Era o dia do inquérito, a que Bevil assistiu. Eu encontrava-me no quarto de hóspedes pequeno, a olhar para o jardinzinho murado, quando ele chegou. Lady Menfrey encontrava-se na sala de estar, mas eu não desci, porque senti necessidade

de me acalmar.

Tinha-me sentido inquieta durante todo o dia. Imaginara

a sala de audiências com tanta clareza que sentia encontrar-me lá. Tanta coisa dependia do veredicto do médico legista.

Por fim, Lady Menfrey subiu ao meu quarto e contou-me

que Bevil voltara e queria ver-me. O veredicto era morte por

acidente.

- Mas como?

- Vem ver Bevil. Ele fala contigo. Depois, vamo-nos logo

embora, amanhã.

 Quando entrei na sala, Bevil veio ter comigo e tomou-me

nos seus braços.

- Acabou - anunciou. - Meu Deus, como me sinto aliviado! Nem sei o que esperava. Acabou tudo. Vem, senta-te.

Sentámo-nos no sofá e ele beijou-me.

- Mas, Bevil - exclamei -, o que é que aconteceu?

 

Como foi possível?

- Chegou-se à conclusão de que ela andava a tomar arsénico... para a cor da pele. Aparentemente, não é tão pouco

vulgar como isso. As mulheres tomam-no, para se tornarem

mais belas, e infelizmente a droga tem esse efeito... pelo menos

durante algum tempo.

- Arsénico! - exclamei. - Para a pele! Claro que se passava algo com a sua pele! Era muito bonita, mas...

- É evidente que eram os efeitos da droga. O médico

legista explicou isso. Algumas pessoas usam-no como loção,

mas outras são bastante imprudentes e ingerem-no. Onde o arranjou, não conseguiram descobrir. É natural que a pessoa que lho fornecia deva pertencer a uma classe inferior. Alguma das suas amigas do teatro, suspeito. Mas Fanny via-a tomá-lo em refrigerantes... limonada e bebidas do género.

- Mas a ideia de tomar arsénico! Que horror!

- É evidente que os médicos o usam bastante na preparação de medicamentos, mas eles, claro, sabem o que estão a fazer. O médico legista referiu-se ao caso Maybrick. Esta prática provocou grande sensação há uns anos durante o julgamento do caso Maybrick. O marido morreu envenenado por arsénico e a mulher foi acusada de o ter assassinado. Foi condenada à morte, mas comutaram-lhe a pena no último momento, julgo que por existirem dúvidas, uma vez que ele poderia ter tomado a droga da mesma forma que Jenny. Como vês, de facto, não é assim tão pouco vulgar, mas extremamente perigoso, como nos casos de James Maybrick e da tua madrasta. Descobriram uma quantidade de arsénico no quarto dela. O médico legista dirigiu uma censura sobre a estupidez das pessoas ignorantes que usam drogas, cujo poder des conhecem, e chegou-se ao veredicto de morte por acidente. Não conseguia impedir a visão da Jennyzinha bonita e alegre. morta. Bevil percebeu e tentou confortar-me. - Agora já acabou tudo - referiu. - Amanhã, vais partir com a minha mãe. Vou ter convosco dentro de poucos dias. Vais começar de imediato a fazer os preparativos, porque não queremos demoras.

- Preparativos?

Riu-se. Sentia-se muito confiante, o que, de resto, se justificava, porque eu nunca seria capaz de lhe resistir, mesmo que tentasse.

- Para o casamento, claro. Vai ser muito pouco conven cional, mas nós também o somos. Casados na casa do noivo. Isso vai provocar confusão.

- Há a casa da ilha - sugeri.

- Imagina a cena - disse ele. - A noiva a entrar para o barco com os adornos do casamento e o vento sudoeste, se se fizesse sentir, e podes ter quase a certeza de que tal aconteceria, a levar o véu e as flores de laranjeira...

- E o barco a virar-se e a noiva a ser arrastada pelas vagas gigantescas, atrasada para o casamento...

- Lembrei-me mesmo agora - adiantou Bevil. - Ainda não disseste "sim".

- "Sim". o quê?

Olhou para mim, descrente, pôs-se de joelhos e, pegando-me na mão, prometeu:

 

- Minha senhora, se casar comigo, dar-lhe-ei as chaves do céu.

- As chaves de Menfreya chegam, para começar - respondi, com solenidade.

Postava-se ao meu lado, a rir-se e a beijar-me.

- Harriet, sabes porque te amo? Tu divertes-me. É por isso. É que gosto que me divirtam mais, ou quase mais, do que qualquer outra coisa. Agora, quero que me digas que me amas, que me adoras de verdade e que queres ser minha mulher tanto ou quase tanto, porque penso que mais ninguém além de mim pode sentir tão louca ansiedade, como eu quero ser teu marido.

- Proferes uma declaração maravilhosa, Bevil - referi -, embora um tanto eloquente.

- Minha querida, é por sentir as minhas emoções de forma tão profunda que sou eloquente. De facto, devia estar de joelhos a dizer-te quanto desejo isto. quanto sempre desejei. e nunca houve ninguém mais que te pudesse amar como eu te amo. Minha querida Harriet, tu pertences- nos... a Menfreya. Sempre se pretendeu que ficássemos lá juntos. Aceitas, não aceitas?

- Amo-te, Bevil. Não seria capaz de o negar, mesmo que quisesse, porque sempre o manifestei no passado, tal como agora. Tu, porém...

- Sim, eu o quê? Não o estou a manifestar neste momento?

- Estás a dizer que me amas, mas nem sempre amaste, claro. Como poderias amar uma rapariga simples, coxa, com modos bastante bruscos e quase sempre infeliz?

Aproximou os lábios dos meus. Tinha todos os gestos encantadores e irresistíveis que uma rapariga apaixonada a sério procura e recusa admitir que possam ter sido adquiridos através de uma longa prática.

- Uma criança interessante, uma criança divertida, que tinha a ideia maluca de que não era tão bonita como as outras crianças só porque não parecia uma boneca sem cabeça. Eu não gosto de bonecas, Harriet, mas adoro uma mulherzinha viva e enérgica, com quem vou casar, quer ela me aceite quer não.

- Queres dizer que me raptavas?

- Com certeza. É tradição na família.

- E por isso um bom alicerce para construir um casamento.

- Tens um exemplo à nossa frente.

Tinha? Lady Menfrey era serenamente feliz, sim. Mas, como resistira a anos de humilhação, quando os romances de Sir Endelion com outras mulheres eram motivo de conversa nas redondezas? Era essa a ideia de Bevil de um bom casamento? Um marido infiel era talvez uma regra de vida e a condescendência da mulher, outra.

Não, pensei, não iria ser assim comigo. Não era outra Lady Menfrey. Porém, sentia-me demasiado feliz com o projecto

imediato de me preocupar com o futuro.

- O rapto não vai ser necessário - afirmei. - Logo, não precisas de avançar com os planos. Em vez disso, desfia mais motivos por que queres casar comigo.

Pôs a cabeça de lado e olhou para mim com uma seriedade fingida. Pensei: seremos sempre capazes de nos rirmos juntos. Essa foi sempre a essência da minha relação com Gwen nan: os nossos espíritos mantinham-se sintonizados. De repente, pensei em Gwennan, que fugira na véspera do casamento. Ouvi a voz de Fanny a pronunciar a profecia cruel: "Não se pode confiar nesses Menfreys. "

 

- Como filha de deputado, darás uma boa esposa de depu tado.

- Um motivo muito prático.

- Por que não sermos práticos? Escolher uma mulher é um assunto digno da maior consideração. Muito mais do que eleger um deputado, como sabes. Estes podem sair depois de cinco anos. Uma mulher tem de durar para toda a vida. Por isso, a filha de um deputado é a esposa perfeita para um deputado em ascensão, principalmente quando foi escolhido pelo mesmo eleitorado.

- Logo, esperas que te ajude nas eleições e no processo de campanha eleitoral que as antecede.

- É claro que espero. Vais ser excelente.

Senti as lágrimas nos olhos nesse momento e não consegui evitá-las. Sentia-me deveras envergonhada, uma vez que ele nunca me vira chorar antes. De facto, não me conseguia lembrar de tal ter acontecido.

Afastou-se de mim e eu nunca senti um carinho como o seu ao tirar um lenço e limpar-me as lágrimas.

- Numa altura destas - repreendeu-me. - Lágrimas... e Harriet

- Não ficam bem juntas, pois não? Não imagines que vou ser uma mulher choramingas. É por me sentir feliz.

Também ele estava comovido e procurava escondê-lo.

- Ainda não sabes nada - afirmou. - Isto é só o princípio. Vamos ser conhecidos em todo o ducado pelos Menfreys felizes.

Antes de partir para a Cornualha, fui falar com o Sr. Greville, da Greville, Baker e Greville, para que me pudesse explicar a minha situação financeira. Esclareceu-me de que a morte da minha madrasta me transformara em herdeira de uma fortuna enorme. Agora, tudo seria meu quando atingisse os vinte e um anos de idade, ou na altura do meu casamento, que deveria ter o consentimento dele próprio e do outro testamenteiro.

- Já soube pelo senhor Menfrey que prometeu casar com ele e posso tranquilizá-la sem demora. Não haverá objecções e a fortuna passará para as suas mãos quase a seguir à celebração do casamento.

- E quanto ao segundo testamenteiro?

- Sir Endelion Menfrey. - As feições enrugadas do Sr. Greville estavam tão perto dum sorriso quanto era possível. - Penso que o seu pai ficaria muito satisfeito com o seu compromisso. Este casamento foi falado por ele e por Sir Endelion quando você era criança.

- Então - concluí, inexpressiva -, estamos a fazer aquilo que esperavam de nós.

As mãos brancas e gordas estenderam-se em cima da secretária e o seu dono olhou-as com satisfação.

- Tenho a certeza - assegurou, no seu jeito formal e seco - que esta é uma união altamente desejável e posso garantir-lhe, Miss Delvaney, que isso simplifica muito os assuntos. - Pegou nalguns documentos que estavam sobre a secretária como se os estivesse a pesar e olhou para mim por cima das lunetas de aros dourados. - Neste momento, o seu rendimento continuará a ser o mesmo até termos todas as formalidades arrumadas. Soube que dentro de pouco tempo vai viajar para a Cornualha, na companhia de Lady Menfrey. Excelente! Excelente! E o casamento realizar-se-á nesse local. Parabéns. Penso que não teria havido um final mais desejável para estes acontecimentos infelizes.

Senti-me como se estivesse a ser arquivada num armário com a etiqueta "Herdeira arrumada em segurança, conforme combinado previamente. Assuntos desagradáveis resolvidos de forma satisfatória".

Quando saí em direcção à carruagem, desejei que o meu pai e os Menfreys não tivessem discutido o meu futuro com tanto cuidado. Desejei que eu e Bevil nos tivéssemos conhecido uns meses antes e tivéssemos sido arrebatados por uma paixão irresistível.

Começava a suspeitar de que, apesar de toda a minha ostentação de cinismo, era, no fundo, uma romântica.

- Não existe motivo algum para adiarmos a nossa partida para a Cornualha - declarou Lady Menfrey. - Lá, poderás planear o que pretendes fazer com a casa... com tudo. Bevil, naturalmente, providenciará por que se faça aquilo que quiseres, quando tomares a tua decisão.

Pensei na casa, onde a vida iria continuar como antes do acidente. Seria uma casa silenciosa. Imaginava os criados a falarem em surdina, entrando em bicos de pés no quarto onde fora encontrado o corpo de Jenny. Estariam a imaginar o que o futuro lhes reservava, e era injusto mantê-los em suspenso.

Fanny, claro, iria comigo, mas os outros teriam de arranjar outras colocações e sentiam-se, sem dúvida, ansiosos em relação ao futuro. Discuti este assunto com Bevil e, como resultado, voltei a ir consultar Greville, Baker e Greville, tendo sido decidido que se arranjariam pensões para a Sr. a Trant, para Polden e para os criados mais velhos e gratificações para os mais novos e que, embora devessem permanecer nos seus lugares durante os dois ou três meses seguintes, deveriam começar a procurar outros empregos, sendo que, se algum conseguisse arranjar nova colocação, ficaria liberto.

Senti-me aliviada depois de ter arrumado este assunto e fui até à casa na véspera de dever partir para a Cornualha.

Pedi à Sr. a Trant que mandasse chamar todos os criados à biblioteca e, aí, contei-lhes a minha situação e o que se resolvera. Senti-me profundamente comovida ao verificar o seu alívio, e, em representação de todos eles, Polden exprimiu a sua gratidão e os seus desejos de felicidades para a minha vida.

- Suponho que vai vender a casa, Miss Harriet - disse a Sr. a Trant.

- Certamente.

- Bem, menina, se alguma vez precisar, ou o senhor Menfrey, dos serviços de qualquer um de nós. só terá que o dizer e, falando em nome de todos, teremos muito prazer em deixar os lugares que tivermos e voltar para si.

Agradeci a todos eles e a seguir subi ao meu antigo quarto com a Fanny, para resolver o que queria que ela me levasse para a Cornualha, quando para lá fosse, uns dias depois de mim.

Tentei ser prática quando chegámos ao quarto.

- Vou desfazer-me da maior parte destas coisas -afirmei. - Passaremos por Paris na nossa lua-de-mel e tenciono comprar lá algumas roupas. Assim, vou precisar apenas de poucas coisas, Fanny.

 

- Há ainda os livros e algumas daquelas pequenas coisas que guardou com carinho.

Pensei nelas. O meu álbum de postais; cartas, que guardei sempre; pequenas coisas que me deram prazer: uma caixa coberta de conchas, onde guardava botões e agulhas, e uma caixa de música que tocava Widdicombe Fair e que William Lister me comprara quando passara umas curtas férias na aldeia de Devon; uma fiada de pérolas que me dera o meu pai, o seu presente de Natal (preferia esquecer o meu aniversário) durante anos, uma pérola somada todos os anos. Não gostara deste presente, embora, neste momento, ao olhar para as contas de forma perfeita nesse tom creme carregado, e para o brilho dos diamantes do fecho, me desse conta de que era um ornamento maravilhoso e provavelmente de grande valor. Porém, para mim, representara o símbolo da sua falta de interesse. A tradição exigia que me presenteasse com alguma coisa, razão por que havia a pérola, que custava muito mais que as bugigangas que Fanny me dava, mas que, no entanto, era muito menos preciosa.

Voltei a pensar no muito que devia a Fanny, que compreendera como se sentiria uma criança ao acordar na manhã de Natal e ao olhar em vão para a meia volumosa. Fora ela quem me contara a história do Natal, fora ela quem me comprara aquelas laranjas, nozes, sacos de rebuçados, aquelas maravilhas fascinantes das figuras de cartão para recortar, moedas de uma libra e de dois dinheiros coloridas, aquelas bonecas de seis dinheiros. Fora Fanny quem trouxera a felicidade aos meus Natais.

Vagueando pelas bancas do mercado à procura de objectos brilhantes e vistosos, que iriam deliciar uma criança, e não o meu pai a escolher, no salão coberto de alcatifa espessa do ourives, a pérola para juntar ao meu colar, e que se revelaria um investimento.

Pus algumas coisas em cima da cama, a caixa de música do William Lister, os meus livros. Sim, eles tinham de ir, todos eles, porque haviam proporcionado uma fuga à realidade: Elsie Dinsmore, Misunderstood, The Wide Wide World, Peep Behind the Scenes, A Basket ofFlowers... histórias de crianças que, na sua maioria, tinham sido tão infelizes como a minha; Mulherezinhas (como me entregara a essa família maravilhosa, assumindo sucessivamente os papéis de Meg, Jo, Beth e Amy); A Paixão de Jane Eyre e O Monte dos Vendavais. Histórias de resignação e triunfo. Nunca seria capaz de me separar deles. Fanny observava-me.

- Não quer aquilo? - perguntou.

Era o palco de cartão com figuras para recortar, que custara uma das antigas moedas coloridas de dois dinheiros.

- Fanny - respondi -, lembro-me da primeira vez que o vi. Foi... maravilhoso. Às seis horas da manhã do dia de Natal.

- Acordava muito cedo. Eu costumava ficar ali deitada, à espera de a ouvir. Naquelas manhãs, acordava às cinco horas. A menina costumava sair da cama às escuras.

- Sim, e apalpar o presente, e depois levá-lo para a cama, e segurá-lo... a adivinhar. Fizera um pacto comigo própria, segundo o qual não deveria abrir os presentes antes de o  primeiro raio de luz surgir no céu, porque, se o fizesse, desapareceriam e tudo não passaria de um sonho.

- A menina e as suas fantasias!

- Se não fosses tu, Fanny, não haveria presente.

- Oh, um dos outros ter-se-ia encarregado disso.

- Penso que não. Eram as melhores manhãs do ano. Lembro-me de acordar uma semana depois e de sentir uma desilusão terrível por não ser Natal e por ter de esperar cinquenta e uma semanas para o seguinte.

- Crianças! - exclamou Fanny sorrindo, com ternura. Levantei-me de repente e lancei-me nos seus braços.

- Oh, Fanny, querida Fanny, havemos de ficar sempre juntas.

Era militante na sua ferocidade.

- Sem dúvida que vamos, menina. Gostaria de ver aquele que fosse capaz de me separar de si.

Soltei-a e sentei-me na cama.

- Ficarei contente por acabar com esta casa. Não me lembro de alguma vez cá ter sido feliz, excepto naquelas manhãs de Natal e nos momentos passados contigo. Lembras-te quando costumávamos sair, para irmos ao mercado, de como nos habituáramos a atirar a moeda ao ar no vendedor de empadas e comprar castanhas assadas?

- A menina sempre gostou de ir ao mercado.

- Achava-o tão excitante e colorido assim como aquelas pessoas ansiosas por venderem as suas mercadorias. Eles eram pobres, e eu, rica... mas costumava sentir inveja deles, Fanny.

- A menina não sabia como eram as vidas deles. Pensava apenas que vender lá, no mercado, era uma espécie de jogo muito agradável, mas nunca sentiu frieiras que a pusessem maluca com a comichão e o sofrimento, nem o reumático a dobrá-la ao meio. Supunha, tão-só, que se divertiam bastante. Nem sempre se pode saber o que não se vê, não é?

- Eu sentia muita pena de mim mesma naquela altura, Fanny. Agora, já acabou tudo. Vou esperar por ti na Cornualha no fim da semana.

- Pode ter a certeza, menina, que, assim que tiver arrumado tudo aqui, partirei nesse comboio. E quanto aos móveis e a tudo o resto?

- Suponho que as peças de valor irão para Menfreya. O resto vende-se. O senhor Bevil tomará providências.

- Estou convencida de que tomará todas as providências daqui para a frente, menina.

Sorri e suponho que a minha felicidade brilhou através desse sorriso, porque ela ficou em silêncio durante uns momentos. A seguir, reparei na sua expressão endurecida e compreendi, porque Fanny não era pessoa para habitualmente esconder os seus verdadeiros sentimentos, que desaprovava o meu noivado.

- Espero que sim, Fanny. Na qualidade de meu marido, é natural que o faça!

- Oh, sim, fará tudo muito bem.

- Fanny, por amor de Deus, pára com isso. Este é um momento para felicitações, não para profecias sombrias.

- A altura para as profecias é quando elas surgem de forma espontânea.

- Que diabo queres dizer com isso?

- Não estou em paz com o meu espírito, menina. Não poderia esperar um pouco?

- Esperar, Fanny? Para quê?

- Precipitou-se com esta situação.

- Precipitei-me. Há anos que estou à espera que Bevil me peça para casar com ele.

- Tenho medo.

- Não tenhas. Agora, não vou discutir mais este assunto contigo. Vai correr tudo bem.

- Há uma coisa que gostaria de saber.

- Está bem. O que é?

- Ele pediu-a em casamento antes de a sua madrasta morrer. ou depois?

- Que significa isso?

- Significa muito para mim, menina. Antes, só tinha o seu rendimento, não era? Não entendo muito bem estas coisas, mas suponho que, quando a sua madrasta morreu, todo o dinheiro ficou para si. sem impedimentos como. como havia com ela. Bem, pois é, se esperou até depois de ela morrer.

Poderia ter altercado com ela, porque estava muito zangada, e conhecia-me bastante bem para perceber que estava a estimular a raiva, a fim de esconder o medo. Porque traduzira ela em palavras aquele pensamento vago e desagradável, de modo a que eu agora já não fosse capaz de o ignorar? Tive de o revelar e examinar à luz do dia.

- Que disparate - protestei. - Ele ia pedir-me antes de ela morrer... só que fomos interrompidos.

Se ao menos a tia Clarissa não tivesse chegado no momento em que ele me viera visitar! Nesse momento, tive a certeza de que esteve prestes a pedir-me para casar consigo. Mas será que esteve? Se tivesse querido pedir-mo, não teria arranjado uma oportunidade?

Fanny fitava-me, com o olhar cheio de medo e desconfiança. Estava firmemente convencida de que Bevil iria casar comigo pelo meu dinheiro e, mais do que isso, lançara as sementes da dúvida no meu próprio espírito de tal forma que já estavam a germinar.

Torcia as mãos, embaraçada.

- Compreenda, Miss Harriet, eu quero que seja feliz. Só Lhe desejo o melhor de tudo. E, quando as coisas começam a correr mal, têm por hábito continuar nesse andamento.

- Que diabo queres dizer?

- Não sou capaz de deixar de pensar nessa pobre senhora. Está dentro do meu espírito. Vejo-a a olhar ao espelho a sua pele maravilhosa e a seguir a pôr aquela droga na bebida. e depois partir daquela maneira.

- É horrível. Estou a tentar não pensar nisso, Fanny, mas não consigo tirá-la do meu espírito. Morrer daquela maneira. sem estar preparada.

- Sem estar preparada - murmurou Fanny. - Sim, foi mesmo assim. Não teve um aviso. Estava ali um dia e foi-se embora no outro. Espero que o meu Billy tenha sido avisado. Deve ter ouvido a tempestade a levantar-se, não deve? Deviam estar a lutar contra ela, pelo que deviam saber que estavam rodeados pelo perigo. mas ela, pobre senhora, não sabia.

- Temos de deixar de pensar nisso, Fanny.

- Já não adianta nada pensar - concordou.

- Agora, deixa de te preocupares comigo. Vai correr tudo bem.

- Tinha a boca rígida e o olhar duro. Parecia um general a partir para a batalha.

 

E, embora tivesse feito nascer essas dúvidas no meu espírito, eu sabia que, enquanto Fanny vivesse, teria sempre alguém que me amava.

Encontrei-me com Lady Menfrey em Liskeard e nunca esquecerei a viagem para Menfreya. Os caminhos, que a folhagem de Verão na beira da estrada tornara mais estreitos, nunca me pareceram tão verdes e coloridos. Aspirei a brisa quente quando nos aproximámos do mar e, ao avistar as torres de Menfreya, terei chorado de emoção. Agora, era mais do que uma casa que encantara a minha fantasia, mais do que uma casa antiga fascinante: era o meu lar.

Além, via-se a casa da ilha e ali estava o penhasco, com as muralhas de Menfreya elevando-se acima dele, austeras, do lado da costa, como se o solar fizesse parte da sua própria frente. Depois de passarmos o pórtico sob a torre com o relógio antigo, que eles nunca deixavam parar, em direcção ao pátio, descemos. Sir Endelion esperava-nos à entrada principal, para nos receber.

- Bem-vinda, bem-vinda, minha querida filha. Recebeu-me com um abraço e um beijo.

Nunca uma noiva foi recebida com maior calor pela sua nova família.

Esses dias em Menfreya estão bem vivos na minha memória. Eu queria, participei-lhes, explorar a casa: todos os quartos e passagens, todos os recantos, todos os esconderijos.

- Penso que é a casa mais maravilhosa do mundo - confiei a Sir Endelion e a Lady Menfrey logo no primeiro dia.

- É uma felicidade, visto que vai ser a tua casa, minha querida - correspondeu Sir Endelion.

- Quero ver tudo.

- Vais achar que a ala leste está a precisar de reparações. Sorri, ao lembrar-me da mesa com os rubis que já lá não estavam. Menfreya precisava de dinheiro que ali fosse gasto com generosidade por aqueles que tinham a sorte de ser recolhidos sob o seu tecto. Mas eu nunca sentiria má vontade em gastar o meu dinheiro na conservação da casa.

No dia seguinte à minha chegada, o próprio Sir Endelion levou-me a um passeio de inspecção. Sentia-se encantado por me mostrar tudo e revelou-me, quando examinávamos o brasão por cima da lareira do salão grande, que nada no mundo o teria tornado mais feliz do que este noivado.

- Era o que o teu pai desejava e foi o que eu sempre quis. A união das nossas famílias. O teu nome, minha querida, será inscrito no brasão, onde estão os nomes de todas as famílias

que se ligaram aos Menfreys pelo casamento.

Examinei esses nomes e imaginei o que os seus donos sentiram quando chegaram a esta casa enorme como noivos. Dentro em breve, Delvaney ser- lhes-ia acrescentado e pensei nos nomes que haviam de vir a seguir quando os meus filhos trouxessem para casa as suas mulheres.

Era um sentimento feliz de pertença, e fora isso que eu sempre desejara.

Havia tanto que ver e admirar, tanto que nunca vira antes e que agora tinha um interesse especial, porque iria ser a minha casa. Havia o chão de mosaico maravilhoso no salão grande, as escadas, as armaduras e os inevitáveis retratos na galeria.

 

Em muitos deles descobri as feições dos Menfreys. Poderiam ter sido Bevil ou Sir Endelion vestidos com outras roupas.

Entrei na capela, que nunca era utilizada, mas em cujo altar havia velas novas, e no quarto secreto do torreão, tendo-me

Sir Endelion contado a história do Menfrey que guardara lá a mulher que amava, sem conhecimento da família.

- A história consiste no facto de o relógio da torre ter parado e de ninguém ter conseguido pô-lo a trabalhar. Então, o dono da casa regressou e foi até ao quarto secreto, descobrindo a sua amante e o filho mortos. Mas não acredites em

tudo o que ouves dizer dos Menfreys, minha querida. Existem histórias sobre as nossas más acções que dão para uma história d'As Mil e Uma Noites. Penso que não vais achar-nos tão maus como nos pintam. Diz-me, Harriet, não achas que somos assim tão maus, pois não?

- Conheço-vos há muito tempo para ter medo do que possa vir a descobrir.

- E em breve serás uma das nossas. Bevil é um homem com sorte. Já lho disse e penso que tu também não vais ser tratada com dureza.

Gostei muito de ver a casa e de ouvir as suas histórias.  Porém, Lady Menfrey estava ansiosa por que os preparativos para o casamento começassem a andar sem demora, pelo que fomos a Plymouth escolher o tecido para o meu vestido de casamento. Uma vez lá, passámos pelo teatro em que Gwennan conheceu Benedict Bellairs e eu senti-me triste ao pensar em Gwennan e ao imaginar porque nunca escreveu, para que pudéssemos saber o que lhe estava a acontecer. Que divertido teria sido se ela estivesse comigo neste momento! Irmãs de verdade! Se ao menos se tivesse casado com Harry Leveret e estivesse agora a viver com ele, feliz, em Chough Towers, como teria sido tão bom!

Escolhemos cetim branco para o meu vestido de casamento e eu levaria o véu que a própria Lady Menfrey usara e que fora usado pela sua antecessora.

Não mencionou o nome de Gwennan, o que me deixou admirada, porque pensei que o facto de vir a Plymouth deveria fazê-la lembrar-se da filha.

Bevil veio para a Cornualha e o casamento foi anunciado. Quando fui viajar com ele pelo campo, visitámos vários proprietários das redondezas e fomos felicitados com provas de grande amizade.

- Conheci o seu pai. Um homem encantador. Como se sentiria feliz se pudesse ver este dia.

- Tão bem escolhida. Tenho a certeza de que será uma grande ajuda cá, no círculo eleitoral.

- Que par tão bem talhado um para o outro. Estamos muito satisfeitos.

Bevil fazia imitações dos nossos anfitriões enquanto viajávamos. Era um tanto malicioso, mas muito divertido, e descobri que me estava sempre a rir na sua companhia. Era o riso da felicidade, mas, claro, esse é o melhor de todos.

 

Começava a conhecer Bevil. Era muito inteligente; era colérico; era meigo, mas, quando estava enraivecido, parecia ser capaz de cometer uma injustiça; o arrependimento surgia logo a seguir, e, embora o orgulho natural fizesse com que lhe fosse difícil admitir que se enganara, o seu sentimento de justiça revelava-se ainda maior do que o seu orgulho. Nunca me senti completamente segura se ele estava tão apaixonado por mim como dava a entender. Gostava de mim, sempre gostara, mas estaria mais entusiasmado pela conveniência do par do que pela minha pessoa? Sentia-me receosa e perguntava-me se poderia ter gostado da mesma forma de qualquer rapariga que, claro, gostasse dele e tivesse bastante dinheiro para a tornar um bom partido para Menfreya. Algumas vezes no meu quarto, olhava para mim com ar crítico. O meu aspecto melhorara desde o meu noivado, porque a felicidade pode dar alguma beleza a qualquer rosto, mas não podia deixar de ter consciência do modo como os seus olhos brilhavam quando olhavam para uma rapariga bonita; tinha um sorriso especial para todas elas, mesmo para uma leiteira por quem passássemos nos caminhos.

Quando visitámos o Dr. Syms, imaginei o que Bevil estaria a pensar. Gwennan fora trazida para ali quando tivera o acidente e ele vira Jessica pela primeira vez, mas, se se estava a recordar desses dias, não deu mostras disso.

- Doutor Syms - indagou, jovial -, vem ao casamento?

- Lá estarei, se o dever me deixar. - O Dr. Syms, com o rosto gorducho, de meia-idade e cheio de energia, resplandecia de alegria ao felicitar-nos. - Porém, se o bebé de alguém escolher essa altura para aparecer. bem, saberei de tudo o que se passar, porque parece que não há mais nada em que as pessoas possam falar a não ser no casamento de Menfreya.

A Sr. Syms levou-nos para a sala e bebemos vinho enquanto falávamos do casamento, do eleitorado e do que iria acontecer nas eleições seguintes. Ela era, descobri, uma ardente trabalhadora do partido.

- Tenho a certeza de que você será um grande trunfoopinou. - Um deputado precisa de uma mulher, e o facto de ser filha do anterior vai atrair votos. Sei que o seu pai foi um óptimo deputado, e agora, que morreu e que voltámos à tradição antiga de ter um Menfrey a representar Lansella, é encantador que o nosso deputado actual seja marido da filha do antigo deputado. Será como se o cargo nunca tivesse de facto saído da família. Isso terá um grande significado por aqui. - Comecei a vislumbrar o que seria a minha vida no futuro. Deveria trabalhar para o partido, teria de abrir bazares e ter talvez de falar de cima de plataformas. Era excitante, embora um tanto assustador, mas Bevil iria estar lá. Imaginei-me a pronunciar brilhantes discursos, a Sr. a Menfrey, mulher do deputado, e começou a criar-se-me uma imagem agradável do futuro. - Sinto-me muito contente por termos vindo para cá - confiou-me a Sr. a Syms. - É mais interessante do que viver na cidade. Sim, estivemos em Plymouth, mas parece haver uma vida social muito mais activa num lugar como este. Não fazem ideia, é extenuante. Coitado do doutor Trelarken, matou-se a trabalhar. Um homem tão encantador... e a sua filha, também. Conheciam-na, claro.

- Muito vagamente.

- Bastante triste. A pobre rapariga ficou quase sem dinheiro. Soube que foi para Londres, ou para outro lugar, trabalhar como preceptora. Não é vida para uma rapariga. e uma rapariga tão bonita. Era uma verdadeira beldade. Poderia casar, mas é difícil para uma rapariga na sua posição. A vida pode ser muito difícil naquelas circunstâncias. muito difícil, de verdade.

Quando partimos, afirmei:

- É uma mulher muito faladora.

- Fala o suficiente para ser política. Na realidade, devia estar no Parlamento. É uma pena que não deixem as mulheres candidatar-se. Talvez consigam, um dia.

- São muito diferentes dos Trelarkens. - Notei o tom agudo da minha voz e perguntei-me se Bevil teria reparado. Era um sinal de emoção. Ficou em silêncio e, ao olhar para ele de relance, vi que sorria. - Pobre Jessica - continuei.

- Pouca sorte a dela - concordou.

- Lembro-me sempre da minha preceptora, Miss James. Era uma mulher tímida, que parecia estar com medo de perder o lugar, tímida, isto é, menos comigo, com quem tinha tendência para implicar.

- Não é vida para uma mulher, se não acertar com a família.

- Interrogo-me se Jessica gostará?

Não respondeu e tive medo de que, se eu continuasse com este assunto, fosse incapaz de controlar os meus sentimentos e desencadeasse as minhas suspeitas de ciúmes.

Não havia tempo para tristezas. Só faltavam três semanas para o casamento! Lady Menfrey decidira encher a casa de convidados, que seriam sobretudo amigos de Londres, amigos do Parlamento, que Bevil esperava se tornassem meus amigos, visto que eu iria ajudá-lo no seu trabalho. Estariam também presentes amigos da região.

William Lister, o antigo secretário do meu pai, que trabalhava agora nas mesmas funções com Bevil, ocupava-se com

a maior parte dos preparativos. Foi agradável voltar a vê-lo

e senti-me encantada por perceber que era mais feliz a trabalhar com Bevil do que fora com o meu pai.

Fanny chegara, para cuidar de mim. Irritava-me com a sua opinião obviamente resignada: era como se se encontrasse perante um desastre inevitável e resolvera pôr uma cara tão satisfeita quanto possível. Porém, isso era apenas uma irritação insignificante numa existência maravilhosa. Sentia-me feliz. Bevil estava sempre na minha companhia. Tinha até querido ir comigo à modista, para ver como me ficava o vestido, até a mãe lho proibir, indignada, por dar azar. Discutimos a nossa vida futura, que parecia estar iluminada por uma luz rosada semelhante ao amanhecer, lembrando-me do tempo em que fugi e acordei após uma noite terrível e vi Menfreya pela manhã.

Estava caprichosa. Sentia-me feliz. Iria surpreendê-lo pela forma como iria ajudá-lo. Li sobre política e Bevil ficou, primeiro, admirado e, depois, impressionado quando consegui conversar com ele sobre comércio livre e proteccionismo.

Sentia-me bastante contente por lhe deixar a tarefa da venda da casa de Londres. Disse que William Lister trataria de tudo enquanto estivéssemos em lua-de-mel. O meu pai coleccionara algumas peças de mobiliário valiosas, e Lister, que era um especialista nessa matéria, providenciaria para que tudo o que tivesse valor fosse trazido para Menfreya, onde havia muito espaço para se guardar. O resto poderia ser vendido.

Íamos até ao Sul de França, para uma cidadezinha nas montanhas, donde poderíamos olhar para a Riviera. Ele estivera lá antes e era ideal para uma lua-de-mel. Além disso, o tempo nessa altura do ano estaria óptimo.

Estávamos quase em cima do casamento e, quando consegui libertar-me de uma leve inquietação, senti-me completamente feliz. Continuava a pensar em Gwennan, que fugira, e sentia-me apavorada, com receio de que acontecesse alguma coisa que impedisse o meu casamento. A seguir, pensava em todas as mulheres que Bevil amara e duvidava de que os seus sentimentos por mim fossem diferentes dos que sentira pelas outras. Garantia-me que eram, e com tanta sinceridade que acreditava nele, mas, na verdade, estava a começar a conhecê-lo muito bem. Quando ele desejava alguma coisa, actuava com tanto entusiasmo que se convencia de que a desejava mais do que a qualquer outra no mundo. Mas, satisfeito um desejo, havia logo outro para o substituir. No fundo do meu coração, eu sabia que a felicidade não era um prémio no alto de uma montanha que, quando se alcançasse, fosse nosso para sempre. A felicidade era um prémio, mas só era nosso por breves momentos, e conservá-lo era tão difícil como consegui-lo. A felicidade surgia por momentos. Ilusória. Imprevisível. Surgia quando os olhos de Bevil se abriam de admiração, devido a alguma observação inteligente, quando se voltava para mim, num gesto súbito que exprimia o elo que nos ligava, quando dizia do coração: "Amo-te, Harriet Delvaney. Não existe ninguém como tu. " Usava o meu apelido muitas vezes nos momentos de emoção, e eu suspeitava de que era por não querer demonstrar a profundidade dos seus sentimentos. Ele, que se acostumara a desejos rápidos, violentos e irresistíveis enquanto duravam, ficava um tanto surpreendido que o amor pudesse existir em simultâneo com a paixão. Pelo menos, era nisso que eu gostava de acreditar.

Chegou o dia do nosso casamento. Acordei cedo e olhei através do mar para a casa da ilha. O mar estava tingido de cor-de-rosa como estivera naqueloutra manhã e o brilho avermelhado reflectia-se sobre a casa.

Como Sir Endelion era uma espécie de tutor, visto que o meu pai o fizera executor do seu testamento, seria ele quem me iria conduzir ao altar. A noiva levada ao altar pelo pai do noivo! Decerto que isso acontecera raras vezes, e o padrinho era Harry Leveret, que esteve prestes a casar com Gwennan. Uma escolha estranha, mas fora o próprio Harry quem o sugerira. Poderia ser que quisesse que o mundo soubesse que já não se importava com a rapariga que o tratara tão mal.

Ali estava eu, com o vestido de cetim branco, o véu de Menfreya a esvoaçar e as minhas flores de laranjeira. Todos declararam que estava encantadora, e pela primeira vez quase acreditei nisso.

Olhei para a minha imagem reflectida no espelho.

- Não te preocupes, Fanny. Vou ser feliz. Decidi-me a sê-lo.

- Está a tentar a Providência.

- Não sejas uma velha tão macabra, Fanny. Não querias que eu viesse a ser uma Menfrey, pois não? Bem, vou ser uma deles e não podes fazer nada contra isso.

- Não - afirmou -, não vejo que possa fazer coisa alguma.

- Agora, sei o que querem dizer com desmancha-prazeres. Lady Menfrey vinha a entrar no quarto.

- Como te estás a dar com tudo isso, querida? Oh, mas estás encantadora! Não está, Fanny? - Os seus olhos encheram-se de lágrimas. Estava a pensar no rapto, na sedução e no casamento apressado. Como eu, também ela fora uma herdeira. Se o não fosse, não teria havido rapto nem sedução, mas talvez houvesse. A única certeza era que não teria havido casamento algum. - Querida, penso que agora devíamos ir-nos embora.

A caminho da igreja da aldeia, acompanhada por Sir Endelion:

- Estás encantadora, minha querida. Estou orgulhoso por te conduzir ao altar... Este é um dia feliz para todos nós.

Bevil já lá se encontrava e tinha os olhos postos em mim. Eram relances de olhos especiais só para mim. Era uma pena termos de passar por toda aquela confusão, queria ele dizer. "Uma cerimónia simples teria sido muito melhor. e depois partir para essa cidadezinha sobranceando a costa, onde podemos estar sós e te posso mostrar que te amo como nunca amei ninguém antes e que, se a tua madrasta não tivesse morrido e libertado dessa forma a fortuna do teu pai, teria casado contigo, Harriet Delvaney... não, Harriet Menfrey, agora. "

Assim, descemos a nave ao som da Marcha Nupcial de Mendelsohn. Via os rostos nos bancos da igreja que nos observavam... indistintos e atentos. Não estava presente ninguém da minha família. A tia Clarissa alegara a incapacidade de abandonar a casa numa altura daquelas, mas eu sabia que a verdade era que ela não conseguia suportar a ideia de me ver casada enquanto Sylvia e Phyllis não conseguiam arranjar marido.

Lá fora, em direcção à carruagem, e de regresso a Menfreya, Bevil a meu lado, segurando-me a mão com firmeza e rindo-se de vez em quando, um Bevil novo, pensei, sério, com os olhos postos no futuro. Estava tão feliz que sentia, se pudesse ter formulado um desejo, teria ele consistido em prolongar aquela viagem para o resto da minha vida, sentada lá, na carruagem, com Bevil ao meu lado, sério e terno, prometendo a si mesmo, como eu tinha a certeza que ele fazia, que aquilo era para ele o começo de uma vida nova. Ia amar-me e acarinhar-me, para o melhor e para o pior, como jurara fazer; ia ser o fim de uma vida de aventuras inconstantes. Ia ser o libertino regenerado, que daria o melhor dos maridos.

Passámos por debaixo do relógio que só parava quando um Menfrey ia morrer de morte violenta, em direcção ao pátio em que as pedras tinham sido gastas pelo rodado das carruagens e pelas ferraduras dos cavalos através dos séculos.

Eu regressara a casa uma Menfrey.

Bevil devia ter estado a pensar no mesmo, porque disse:

- Bem, Harriet Menfrey, estamos em casa.

As mulheres felizes, como os países felizes, diz-se, não têm história; por isso, há muito pouco que contar das primeiras semanas da minha lua- de-mel.

Fomos primeiro a Paris, onde comprei as roupas que prometera a mim própria. Uma tarefa exaustiva ficar ali de pé, diante dos espelhos, a escutar a apresentação de cumprimentos num inglês afrancesado. Mas adquiri algumas roupas encantadoras, e Paris, quando se ama e se é amado, é uma das cidades mais maravilhosas do mundo.

 

A Torre Eiffel, o Bois de Boulogne, o Sacré-Coeur e o Quartier Latin são ainda para mim recordações sagradas. Bevil a meu lado, a rir-se, fazendo-me falar, porque eu dominava melhor a língua do que ele e porque se recusava a tentar libertar-se da pronúncia inglesa. Lembro-me das luzes suaves dos restaurantes e dos olhares daqueles que nos serviam, que, com uma intuição verdadeiramente gaulesa nesses assuntos, sabiam que estávamos apaixonados. Deixávamo-lo transparecer. nós os dois. Era esse o motivo de alegria - tanto dele como minha.

Porém, o nosso destino final era a cidadezinha nas montanhas, pelo que deixámos Paris e partimos para o Sul.

A estação das flores provençal acabara, mas, como eu gostava da região, com a sua paisagem de montanha magnífica e a sua costa maravilhosa! Fiquei desde logo encantada com o hotel e, quando assomei à varanda e olhei para o mar, pensei que nunca vira nada tão bonito.

Foram dias felizes:

A proprietária conhecia Bevil. Ele já lá havia estado antes.

- E desta vez vem com a senhora Menfrey. Isso é muito bonito.

No entanto, os seus olhos escuros tinham uma expressão investigadora, e imaginei com quem Bevil estivera neste hotel antes. Talvez sozinho, mas podia ter acontecido que tivesse arranjado amigos na cidade. Durante os dez dias que passámos em Paris, nunca tivera pensamentos deste género. Começara a acreditar que os tinha vencido, mas eles ali estavam, ao primeiro sinal de desconfiança.

Porém, esqueci-os quando fomos para a sala de jantar, que dava para o terraço, com as suas vistas sobre as montanhas. Ali, jantámos à luz das velas e toda a minha felicidade voltou.

- Vamos ficar aqui quatro ou cinco semanas - declarou Bevil, porque queria que eu gostasse da Provença tanto como ele. Ali, a vida era vivida de uma forma simples, e era assim que se tirava melhor partido de uma lua-de-mel. - Sem distracções - afirmou. - Não é que coisa alguma fosse capaz de me distrair de Harriet Menfrey, mas é simples a vida para mim.

Sentia-me bastante contente. De manhã, explorávamos a cidade antiga, com as suas ruas sinuosas, degraus gastos e becos. As crianças, de olhos escuros, observavam-nos quase furtivamente. Era bem evidente que éramos estrangeiros, e os donos das bancas ficavam encantados quando parávamos, para somprar fruta e flores na praça do mercado. Sentávamo-nos cá fora, nos cafés, e observávamos as pessoas que passavam. À tarde, sentávamo-nos debaixo das palmeiras no jardim e debruçávamo-nos na balaustrada de pedra, a olhar as montanhas até ao mar. Alugávamos cavalos e andávamos pelas montanhas, através de aldeias solitárias e ao longo de

caminhos perigosos, porque estreitos. Bevil insistia em ir à frente do meu cavalo ao longo de caminhos como aqueles, e, embora eu fosse uma boa amazona e capaz de controlar a minha montada, gostava deste sentimento de protecção. Por vezes, parávamos em estalagens, para almoçar; experimentávamos todos os pratos tradicionais e o vinho da região e ficávamos sentados meio adormecidos e satisfeitos até meio da tarde, antes de continuarmos o passeio.

 

Raramente fazíamos planos. Deixávamos que cada dia precioso tomasse conta de si próprio. Como eu gostava dos dias de sol quente e dos fims de tarde quando o astro-rei desaparecia, levando consigo o calor! A seguir, punha um agasalho quente e saíamos por vezes, para passear ao ar fresco da montanha.

Um fim de tarde, dirigimo- nos para as montanhas. Íamos para uma das aldeias, a fim de jantar, e em que a proprietária nos informara que encontraríamos uma sala de dança provençal.

Partimos prometendo a nós próprios regressar a casa assim que a Lua surgisse. Sentíamo-nos muito contentes e felizes enquanto seguíamos pelo caminho, cantando juntos uma canção que o marido da proprietária nos ensinara. A letra foi adaptada à música de Maid ofArles e versava sobre a história de três homens sábios que se dirigiam para Belém. Sempre que ouço essa melodia, volto a sentir-me nesse caminho acidentado da montanha, a cantar, com Bevil a meu lado... um momento feliz que pôs, de certa forma, ponto final na plenitude daquela felicidade.

Porém, felizmente talvez, não o soube nesse momento.

Trois grands rois,

Modestes tous les trois,

Brillaient chacun comme un soleil splendide; Trois grands rois,

Modestes tous les trois,

Etincelaient sur leurs blancs palefrois. Le plus savant

Chevauchait devant,

Mais, chaque nuit, une étoile d'or les guide; Le plus savant

Chevauchait devant,

J'ai vu flotter sa longue barbe au vent.

Bevil a cantar, desafinado, com a sua pronúncia inglesa detestável, pôs- me a rir de forma exagerada, o que o levou a exclamar:

- Bem, tu cantas melhor, Harriet Menfrey.

- Não vai ser difícil - retorqui. - A concorrência é tão fraca.

E, enquanto eu cantava, ele lisonjeava-me:

- A tua voz não é muito má, querida. E falas a língua como um natural da região.

Assim continuámos a cantar até chegarmos a uma aldeiazinha, onde fomos recebidos com calor pelo senhor e a senhora. Estavam à nossa espera, disseram-nos. Teriam ficado desiludidos se o senhor inglês e a noiva não fossem a sua casa. A dona do nosso hotel providenciou por que fôssemos bem recebidos, mas era evidente que cochichara a nosso respeito. Seja como for, deram-nos um lugar de honra, naquela sala de jantar pequena, perto da orquestra, que iria tocar para os dançarinos.

A comida foi servida com a cerimónia a que já nos acostumáramos, o vinho foi trazido e servido como se fosse o néctar dos deuses e a senhora e o criado observaram-nos como se nos estivessem a receber no Paraíso, enquanto saboreávamos a comida bem condimentada e declarávamos que estava deliciosa.

Prometia ser uma das muitas noites até o casal inglês entrar na sala. Imediatamente reparei no ar espantado de Bevil, e, quando o olhar da mulher caiu sobre ele, esta conteve-se, tão surpreendida como ele. Parecia encantada também.

 

Quando se aproximou da nossa mesa, reparei que o seu cabelo era brilhante como o mel e os olhos cinzentos e enormes, que os seus lábios sorriam, o corpo era voluptuoso e que, apesar disso, caminhava com um encanto selvagem, que se tornava mais evidente devido ao facto de o seu companheiro a seguir de forma desajeitada e ter tendência para ser gordo.

Bevil levantou-se.

- Estou a sonhar? - perguntou ela. - Belisca-me, Bobby. para eu acordar.

- Espero que não seja um pesadelo - volveu Bevil.

- É o género de sonho mais agradável. O que estás aqui a fazer, Bevil?

Bevil sorriu para mim.

- É uma velha amiga - começou.

Ela fez uma careta.

- Ouviste aquilo, Bobby. Uma velha amiga. Não gosto da descrição. Poderia ser ambígua.

- Só para os cegos - replicou Bevil.

- Devias apresentar-nos, minha querida - manifestou-se Bobby.

- Claro - interpôs Bevil. - Apresento-te a minha mulher. Os olhos cinzentos da mulher examinaram-me de alto a baixo e creio que não deixaram passar nada.

- Apresento-te o meu marido. - Depois riu-se, como se fosse uma bela piada o facto de Bevil ter uma mulher e ela um marido. - Não me digas - continuou - que estão também em lua-de-mel.

- Isto merece ser festejado de alguma maneira, tenho a certeza - propôs Bevil. Voltou-se para mim. - Eu e Lisa conhecemo-nos... há muito tempo.

A senhora aproximara-se da nossa mesa.

- São amigos? Gostariam de jantar juntos?

- Que engraçado! - exclamou Lisa. - Agora, Bevil, podes contar-me tudo. - A senhora fez sinal ao empregado para que trouxesse cadeiras, e num instante estávamos todos sentados à volta da mesa, tendo começado a confusão do serviço. Ela era Lisa Dunfrey, explicou-me Bevil. - Agora não - lembrou-lhe ela. Existia o Bobby. Lisa Manton. - Ou melhor - acrescentou -, Bolachas Manton. Bobby fá-las, não é, querido? Não pessoalmente, claro. Tem apenas os lucros. Mas, Bevil, isto é tão divertido. Os dois em lua-de-mel no mesmo sítio!

Quem me dera que Bobby e eu achássemos esse facto tão divertido.

Detestou tanto como eu, porque ela concentrou a sua atenção em Bevil e deixou o marido comigo.

O tempo estava magnífico, notou Bobby. O que achava eu da paisagem da montanha? Como apreciava a comida francesa?

Nem ele estava interessado nas minhas respostas nem eu nas suas perguntas: ambos prestávamos atenção à conversa da sua mulher com o meu marido e nenhum de nós se deixava, na realidade, prender pelos dançarinos provençais, que actuavam

com muito encanto, para nosso prazer.

Conhecia a expressão que surgia nos olhos de Bevil quand se sentia atraído por outra mulher, vira essa expressão dirigida para mim, e agora surgia por causa de Lisa. Se eu  Bobby ali não estivéssemos, teriam reatado uma relação que os dois pareciam recordar com nostalgia, imaginei.

A dada altura ela voltou-se para mim e disse:

- Então, é filha de Sir Edward Delvaney. Li a notícia no jornais e lembro-me de pensar que seria um par muito indicado para o Bevil.

- Obrigada - correspondi. - Espero que o seu seja igualmente indicado.

Ela riu-se e olhou para dentro do copo.

- Oh, sim. Não é isto agradável? Todos tão bem casados todos juntos na fase da lua-de-mel. E Bevil tem a sua política...

- E a senhora, as suas bolachas - volvi.

Olhou-me com frieza e voltou-se para Bevil. Olhei para o bailarinos, sem os ver, imaginando, em vez deles, Bevil e est mulher a fazerem amor um com o outro. Seria isto uma prelibação do futuro? Seria que de vez em quando iria encontrar amigas de Bevil e sofrer o ciúme intenso que me atormentava nesse momento?

Pensei que a noite nunca mais acabava, mas por fim já não havia desculpas para ficar e deixámo-los lá, regressando ao nosso hotel. Fiquei aliviada ao sentir o ar da noite, mas perdera a minha paz de espírito.

- Até que ponto a conheceste? - perguntei.

- Conhecer quem? - retorquiu, sem necessidade.

- A bela Lisa.

- Oh, sóa conheci.

A resposta não me adiantou nada e, no entanto, imaginei que me revelou imenso.

Quando chegámos ao hotel, a proprietária quis saber se tínhamos gostado das danças. Bevil conservava uma calma invulgar, mas eu consegui responder em tom vivo que fora uma noite muito esclarecedora.

Nessa noite, Bevil fez amor comigo com paixão, pelo que me perguntei a mim mesma, quando estávamos deitados no escuro: "É com Lisa que está a fazer amor? E eu? Sou a substituta? "

Não voltámos a encontrá-los. Dentro de alguns dias, Bevil recuperou a sua boa disposição e eu consegui esconder as minhas dúvidas. A lua-de-mel continuou, mas já nada era como dantes.

 

Estivemos seis semanas na Provença. Foi uma lua-de-mel prolongada. Novembro chegara e instalara-se o tempo chuvoso. A chuva caía torrencialmente, ricocheteando em várias direcções sobre a varanda e inundando o quarto, as nuvens manchavam por completo as montanhas e o mar, e, com a ausência do sol, sentia-se um ar frio acentuado.

Era altura de regressar a casa.

Era bom estar de volta a Menfreya. A minha disposição melhorou ao primeiro olhar para a casa, e, quando passávamos debaixo do velho relógio da torre, disse para comigo que iria ser feliz na minha nova casa. Estava decidida a ser tudo o que Bevil desejava de uma mulher.

 

Dentro de pouco tempo, tornou- se claro que se estava a preparar uma crise ministerial. Balfour substituíra Salisbury no cargo de primeiro-ministro não muito depois da coroação do novo rei e Chamberlain e os seus adeptos ameaçavam demitir- se, sob proposta dos proteccionistas. Eu tinha de me inteirar destes problemas a fundo, se queria realmente dar uma ajuda. O dever de um político consistia em fazer leis que melhorassem o bem-estar dos cida dãos, o que me parecia ser uma missão nobre. Sentia-me cheia de entusiasmo. Quando lhe manifestei este sentimento, ele beijou-me e declarou que eu iria ser a mulher ideal para um político. Iria entusiasmar-se com algo errado, que, segundo o seu ponto de vista, era um mal particular. Iria discutir esses problemas comigo e vi-me envolvida pelo seu ardor.

Bevil levava os seus deveres muito a sério. Possuía escritório na cidade de Lansella e, quando se encontrava na Cornualha, passava aí duas manhãs por semana, de modo a que aqueles que representava no Parlamento pudessem vir vê-lo, trazendo alguns problemas que desejassem discutir. Algumas vezes fui até lá com ele e, para minha satisfação, verifiquei que poderia ser útil e que ele o entendia. Assim, esqueci aquele incidente da lua-de-mel, que tanto me perturbara, conseguindo mesmo dizer para comigo que fora tudo fruto da minha imaginação.

A carreira de Bevil começou a obcecar-me, tal como a ele. Sentia-me encantada por descobrir que, embora fosse ambicioso (sonhava com um lugar no Gabinete e o prémio máximo do cargo de primeiro-ministro), na verdade tinha como objectivo o bem-estar dos seus eleitores e estava decidido a tornar-se o mais aberto possível. Isto significava muito trabalho árduo: havia a todo o momento muita gente a querer vê-lo e uma quantidade enorme de correspondência. Embora William Lister se revelasse muito eficiente, havia muitas formas de eu lhe poder ser útil.

Sentia-me mais feliz que nunca.

Sempre me admirou a forma como as mudanças surgem na vida das pessoas. As mudanças graduais tornam-se aceitáveis, mas os choques repentinos, surgindo sem avisar e desfazendo a existência de uma forma tão radical que nada volta a ser o mesmo, tornam as pessoas inquietas perante as incertezas eternas da vida.

Foi o que me aconteceu numa manhã de Abril. Cresciam violetas- silvestres debaixo das sebes e primaveras nos prados e acordava todas as manhãs com o quarto inundado de sol e ao som das vagas avançando e recuando com lentidão, num ritmo suave e constante.

Era dia de Bevil receber as pessoas no seu escritório em Lansella e eu estava sozinha nessa manhã, porque ele tinha trabalho a despachar com William Lister. Desci para comer os rins e o bacon apimentados que se encontravam numa placa de aquecimento em cima do aparador. Em Menfreya, o pequeno-almoço era servido entre as sete e meia e as nove, e nessa manhã, como nenhum dos meus sogros descera e Bevil já saíra, encontrava- me sozinha. Examinava os jornais com cuidado, quando um dos criados trouxe as cartas e as pôs em cima da mesa.

Olhei para elas e a letra de uma, em particular, deixou-me sem respiração. "É de Gwennan! "

Rasguei o sobrescrito. Havia uma morada de Plymouth no cabeçalho da carta. Li:

 

Querida Harriet. É como nos tempos antigos, não é Espero que tenhas imaginado o que me aconteceu durante todo este tempo. Estou prestes a aceder à tua curiosidade, se é que ainda a tens e a queres satisfazer. Istofica entre nós as duas. Quero ver-te primeiro e em segredo. Espero que venhas a esta morada, hoje ou amanhã. Estarei aqui. Há uma condição. Deves vir sozinha e não dizer a ninguém. Espero que venhas. Confio em ti.

Gwennan

P. S. Éfácil de encontrar. Quando saíres da estação, viras à direita e depois à esquerda até onde puderes ir. Viras novamente à direita e encontrarás a morada. Número 20. Estarei à espera.

Então, sempre sabia que eu me encontrava em Menfreya e que estava casada com Bevil, porque a carta estava dirigida à Sr. a Menfrey. Fiquei agradecida por me encontrar sozinha.

Ao caminhar por aquelas ruas, que se tornavam a cada passo mais miseráveis, ia-me preparando para o que ia encontrar. O número 20 era uma casa de três andares no último estado de decadência. A porta principal encontrava-se aberta, e, quando entrei num vestíbulo, uma velha chamou-me. Estava sentada numa cadeira de balouço numa sala à direita, que tinha a porta toda aberta. Vi uma corda com roupa pendurada na sala e várias crianças com roupas esfarrapadas.

- Procuro a senhora Bellairs - disse-lhe.

- Mesmo lá no alto - informou.

Senti-me enjoada enquanto subia aqueles degraus ruidosos. Não era o cheiro nem eram a pobreza e a sujidade evidentes: era o medo pelo que iria encontrar quando abrisse aquela porta atrás da qual Gwennan me esperava.

Bati à porta. Ouvi a voz dela com aquele ritmo que era tão parecido com o de Bevil.

- Harriet. Então, vieste... és um anjo!

- Gwennan.

Fiquei ali parada a olhar para ela. Que era feito da minha bela Gwennan dos olhos brilhantes e trocistas, cabelo dourado revolto e olhar dos Menfreys? No seu lugar estava uma mulher macilenta e tão desolada que levei alguns segundos para ter a certeza de que era ela. O seu corpo estava embrulhado num vestido que outrora poderia ter sido vistoso. Reparei que estava roto nalguns sítios.

Estive quase a chorar ao constatar a mudança que se dera nela desde que a vira pela última vez. Como queria esconder dela o horror estampado no meu rosto, puxei-a para mim e apertei-a com força.

- Oh, Harriet... és uma sentimental. Sempre o foste, eu sabia.

- Era melhor contares-me tudo - pedi. - Onde está o Benedict Bellairs?

- Não sei.

- Então, deixaste-o?

Confirmou com um gesto de cabeça.

- Foi o maior erro que alguma vez cometi, Harriet, quando fugi com ele.

- Então, correu mal?

- Quase desde o princípio. Ele pensava que eu tinha dinheiro meu. Ouvira falar dos Menfreys. família antiga. tradições, e tudo o resto. E depois... eu não trouxe nada.

- Então, achaste que o teu casamento foi um erro e...

- Não foi, em rigor, um casamento. Pensei que era, mas ele já era casado. Fui uma pateta, Harriet. Não foi preciso muita subtileza para me enganar. Passei por uma espécie de casamento... mas ele nem sequer cometeu bigamia por mim. Foi um amigo dele que fez o papel de padre. Um outro actor, que representou bastante bem.

- Gwennan!

- Pareces chocada. Soube de ti pelos jornais. "Filha do último deputado eleito por Lansella casa com o actual deputado. Miss Harriet Delvaney, filha do falecido Sir Edward, casou com o senhor Bevil Menfrey, deputado eleito por  Lansella e pelo círculo. " Por isso, Harriet, conseguiste o que querias. Sempre quiseste o Bevil, não foi? - Confirmei com um gesto de cabeça. Sorriu com bastante tristeza. - Conta-me o que aconteceu quando parti.

Era a Gwennan de sempre. Os seus assuntos eram sempre mais interessantes do que os dos outros e não fazia nenhuma tentativa para o esconder.

- Consternação.

- Aposto que houve. E o Harry?

- Ficou com o coração destroçado.

- Coitado do Harry! Teria sido um bom marido para mim.

- O que é que aconteceu depois deste. casamento fingido?

- Fiquei com um filho, como se diz.

- Tens um filho?

- Foi por essa razão que de facto te pedi para vires cá.

Estou a enterrar o meu orgulho por ele.

- Onde está ele?

Dirigiu-se a uma porta e abriu-a. Num quarto pequeno,

encontrava-se um cesto de vime velho, onde estava uma criança deitada a dormir. Tinha o rosto pálido e não estava muito limpa, mas possuía o cabelo dourado dos Menfreys e reconheci-o como sendo um deles.

- Benedict - pronunciou ela, com meiguice.

- Benedict Bellairs - acrescentei.

- Benedict Menfrey - corrigiu-me.

- Claro.

- É uma situação difícil, Harriet.

Concordei.

- Porque me chamaste? Conta-me tudo, Gwennan.

- Chamei-te porque agora pertences à família e espero uma

ajuda maior de ti do que dos outros. Quero voltar para Menfreya, Harriet. Já não suporto mais esta vida. E quero que ele seja educado em Menfreya.

- Bom, claro que vão voltar.

- E como explicar...

- Pode explicar-se. Perdeste o teu marido, logo, voltaste para casa. É uma situação delicada, mas pode resolver-se.

- Não voltaria a não ser que eles me quisessem.

- Mas, Gwennan, claro que te vão querer de volta. Tu pertences-lhes.

- Minha querida Harriet, tu tens pensamentos tão bonitos. Harriet, nós os verdadeiros Menfreys, não os que o são pelo casamento, poderemos não ser tão bons. Eu quero voltar. Quero que o meu filho volte. Mas não quero ouvir recriminações. Não quero ser recebida de má vontade.

- Queres que matem o vitelo gordo para o regresso da filha pródiga?

- Não. Quero voltar... e que prepares isso. Quero ainda que o Benedict seja reconhecido como um Menfrey: desejo esquecer que alguma vez existiu uma pessoa como Benedict Bellairs.

 

- Mas o menino tem o nome dele!

- Bem, estávamos juntos quando ele nasceu. Foi só depois. quando voltei a não ficar bem. que as coisas, na realidade, começaram a correr mal entre nós.

- Quando voltaste a não ficar bem? Estás doente, Gwennan. Não pareces.

- Não sou nenhuma beleza, agora, queres dizer. Passei tempos difíceis, Harriet.

- Isso nota-se. Diz-me qual é o problema, Gwennan.

- Ora. nada que os ares do mar não possam curar.

- O que é que fazes agora? Como vivem?

Encolheu os ombros.

- Oh, Gwennan, tens de voltar comigo - exclamei, com horror.

- Devíamos ficar bem as duas juntas, não devíamos? A mulher do deputado, a imagem da elegância, e aquilo em que eu me tornei.

- Não te posso deixar aqui.

- Quero que voltes e lhes digas que me viste. Pretendo que me convidem a regressar a Menfreya. Esperei nunca ter de fazer isto, mas agora tem de ser.

- Vou voltar de imediato. Mas devias vir comigo, Gwennan. Detesto deixar-te aqui. - Abanou a cabeça. - Vais regressar comigo - insisti.

- Quando Bevil ou o meu pai me vierem buscar, Harriet.

- Vou voltar já e eles virão cá hoje.

- Será que vêm? Achas que sim?

- Claro que acho. Hei-de insistir.

- Tu, Harriet? - riu-se.

Despejei a carteira, deixando apenas alguns xelins de que pudesse necessitar para a viagem de regresso e fiquei irritada comigo por não ter trazido mais.

Beijei-a e fui-me embora.

- Ver-te-ei em breve - prometi.

Dirigi-me para a estação e, enquanto esperava pelo comboio, comecei a pensar nela em centenas de situações diferentes: a andar a cavalo pelos caminhos de Menfreya, no baile em Chough Towers, a caminho de Plymouth para provar o vestido de casamento. Não conseguia suportar lembrar-me dela como fora e pensar como estava agora.

Como pareceu comprida essa viagem, e, quando cheguei a Liskeard, como não sabia a que horas deveria voltar, tive de apanhar o comboio local para Menfreystow e depois ir a pé até Menfreya.

Quando estava quase a entrar em casa, Bevil chegou a cavalo, entrando no pátio.

- Bevil - gritei. - Tenho de falar contigo já. Tenho uma coisa para te dizer. - Estava excitado, mas os meus pensamentos estavam tão preenchidos por Gwennan que não con seguia pensar em mais nada. Chamou um dos moços, para lhe tomar conta do cavalo, e seguiu-me até dentro de casa. Bevil... sobe ao nosso quarto. Tenho que falar contigo.

Pegou-me no braço.

- Não vais acreditar. É incrível. Que achas, Harriet?

- Bevil, tenho de te dizer. Estive em Plymouth...

- Harry Leveret. Candidatou- se, pela oposição, contra mim. Que achas disto? Já alguma vez soubeste de uma coisa como esta?

- Bevil eu.

 

- Claro, penso que não tem muitas hipóteses. Mas vai ser uma luta muito maior do que eu previa. Um homem da região como ele.

Nem reparou como eu estava nervosa. Não conseguia pensar em mais nada senão na situação criada pela candidatura de Harry Leveret contra ele.

Chegámos ao quarto. Fechei a porta e falei sem pensar:

- Vi a Gwennan.

Isso perturbou-o. Olhou para mim, confuso, durante uns

segundos e depois indagou, de forma brusca:

- Onde?

- Num quarto miserável, em Plymouth.

- Santo Deus!

- Teve um filho.

- E esse... actor?

- Deixou-o. Na realidade, nunca se casou com ele. - Ficou

aturdido. Bem o vi a tentar imaginar esta situação terrível que

acontecera à orgulhosa da Gwennan, e ao mesmo tempo um

pensamento continuava a introduzir-se no meio da sua preocupação pela irmã. Imaginava a vinda dela para Menfreya com

a criança. Haveria comentários escandalizados e as indiscrições

de seu pai seriam recordadas. "Estes Menfreys extravagantes",

ir-se-ia comentar, "serão as pessoas que queremos que nos

representem em Londres? " E existia Harry Leveret, à espera,

para ocupar o lugar de Bevil. - Ela está doente. Quer que o

filho seja educado aqui... como um Menfrey.

- Não pode ser, Harriet! - murmurou, e a sua voz era

quase um sussurro.

- Quando a vires, Bevil, compreenderás que tem de ser.

- Deve haver algum modo que não esse. Cuidaremos dela,

mas se vier para aqui... com um filho e sem marido... e uma

eleição possível à vista...

- Sei que vai ser difícil - concordei. - Mas trata-se de

Gwennan.

- Deves deixar o assunto comigo - replicou, com firmeza. Olhei para ele com atenção, imaginando até que ponto

conhecia o meu marido. Sentia-me desapontada. Pensara que

ele sentiria o mesmo que eu, e que correspondia a contar imediatamente à família a situação difícil de Gwennan, e que a

devíamos trazer para Menfreya sem demora. - Irei vê-la

amanhã - decidiu. - Entretanto, não digas nada aos outros.

Tive de me contentar com isso. Tinha a certeza de que

quando visse Gwennan ficaria tão horrorizado e comovido

como eu e estava certa de que Gwennan voltaria logo a seguir

para casa.

Era já tarde quando Bevil regressou de Plymouth, no dia seguinte. Fiquei alarmada quando chegou sozinho.

Estava à espera dele quando entrou em casa.

- Gwennan... - comecei.

- Está muito bem - disse. - Não precisas de te preocupar.

- Muito bem, mas.

- Resolveu que, afinal de contas, não vai voltar.

- Não vai voltar! Mas...

- Percebeu o que aconteceria se viesse. Não quer causar problemas. Diz que já causou bastantes. Será bem tratada.

De repente, fiquei irritada. Ele estivera lá, a falar com ela, fazendo-a ver como a presença dela poderia influenciar a sua carreira. Tornara o regresso dela impossível.

- Vou vê-la - declarei. - Vou falar com ela. Encolheu os ombros.

- Não acreditas em mim, Harriet? - inquiriu, com frieza. Sentia-se cansado, poderia ver-se física e também emocionalmente. Compreendi que o regresso de Gwennan não faria subir os créditos da família nas redondezas, mas parecia-me que a única coisa que importava era que devíamos tomar conta dela.

- Não sei no que acreditar - volvi.

- Nesse caso, fica com a certeza de que fiz tudo o que podia por ela.

- Tudo o que podias? - interroguei-o. - Por quem? Por Gwennan ou pelo bom nome da familia, que é tão importante neste momento, com eleições à porta?

- Por amor de Deus, Harriet, não sejas pateta. Não foi muito agradável, garanto-te. Gwennan não vai voltar para casa. Mas ficará muito bem. Terá uma pensão e cuidar-se-á da criança. Não contaste isto à minha mãe? Iria ficar muito abalada.

Abanei a cabeça.

Subi ao meu quarto e, sentada à janela, a olhar para o mar, pensei: "Ele estava decidido a que ela não viesse. Pensa que é suficiente ver que ela tem dinheiro. Mas, não é. Tem grande necessidade de vir para Menfreya. " Pensei na mãe dela, bondosa, sem vontade própria. Aceitara a autoridade dos homens da família Menfrey, como eu nunca faria. Agora, era uma deles, mas estava decidida a ser eu mesma, fosse como fosse.

Aquela acolá era a minha casa da ilha. Se Gwennan não pudesse vir para Menfreya, poderia vir para a casa da ilha. De lá, veria Menfreya e sentir-se-ia mais feliz por isso.

Decidira-me. No dia seguinte, iria a Plymouth ver Gwennan.

De manhã, Bevil estava de novo igual a si mesmo. Pareceu-me que no seu espírito o assunto de Gwennan se encontrava

claramente dado como encerrado. Seria provável que fosse

falar com o solicitador e arranjar forma de lhe ser paga uma

pensão e mais tarde cuidaria da educação do filho. Poderia

até ir visitá-la de tempos a tempos. Porém, na minha opinião,

não era este o género de atenção de que Gwennan necessitava.

Não disse nada sobre o assunto e isso deve tê-lo decepcionado. Falou normalmente quando tomávamos juntos o

pequeno-almoço.

- Vai ser uma campanha muito difícil, e quero que apareças a meu lado. Devemos fazer uma visita às aldeias e divisões limítrofes. Penso que deverias tomar o gosto por esse

género de coisas, Harriet.

Fiquei satisfeita por ser incluída. Estar com ele, partilhar

a sua vida, era o que eu pretendia acima de tudo. Interessava-me pela vida das pessoas que ele representava. Gostava do trabalho que fazia quando ia a Lansella. Muitas vezes conseguimos ajudar alguns dos trabalhadores agrícolas mais idosos, que tinham receio de se verem despojados das suas casas de campo. Bevil sentia um desejo muito forte de cuidar das pessoas de idade. Dizia que era inerente à natureza das classes dos proprietários e que se desenvolvera através das gerações. Queria modernizar algumas das casas dos pescadores ao longo da costa, que estavam de pé havia várias centenas de anos e, embora fossem bastante pitorescas, tinham más condições sanitárias. Havia todos estes assuntos a tratar, e Bevil trabalhava sem descanso para o povo. Era capaz de trabalhar

para estas pessoas, dizia para comigo. No entanto, eu suspeitava de que não deixava que a própria irmã voltasse para casa, e tudo por recear o escândalo. Até certo ponto, compreendia os seus medos. A luta pelo seu lugar no Parlamento iria ser renhida e o perigo poderia surgir de onde menos se esperasse.

Sabia muito bem o que os nossos opositores poderiam dizer.

O pai envolvera-se num escândalo e, como resultado, não houvera nenhum Menfrey no Parlamento durante vários anos. Agora, surge Gwennan Menfrey, que fugira para Plymouth e regressa com um filho e sem pai para ele! São estes os Menfreys que vos dão. Serão o género de pessoas que querem que os representem no Parlamento?

As forças radicais aumentavam no país. A influência de William Ewart Gladstone, embora tivesse morrido havia alguns anos, estava a tornar-se uma lenda, mesmo nos círculos eleitorais que tinham sido manifestamente conservadores durante gerações.

Harry Leveret tinha umas contas a acertar com os Menfreys e possuía recursos de milionário para organizar a sua campanha.

- Temos uma luta a travar, Harriet - anunciou Bevil -, e tu vais ajudar-me a vencê-la. Esta tarde, vou levar-te a Lansella, para nos encontrarmos com alguns militantes e alguns dos trabalhadores. Informei-os de que a minha mulher queria participar na campanha.

Mal prestava atenção. Pensei: "Vou a Plymouth logo que ele parta e voltarei a tempo de o acompanhar a Lansella. Mas tenho de ver Gwennan. Tenho de entender o motivo por que mudou de ideias. "

Amava Bevil, mas tinha de conservar a minha própria personalidade. Nunca me iria tornar no género de mulher que era Lady Menfrey, sem ter vontade própria, uma escrava dos seus homens. Se eu e Bevil íamos construir uma relação valiosa, ele devia entender que eu não era nenhuma sombra de outra pessoa, nem mesmo dele. Tinha de ser eu mesma.

Assim que Bevil partiu, mandei vir a carruagem e fui até Liskeard, onde apanhei o comboio para Plymouth. Regressaria no comboio do meio-dia e a carruagem estaria à minha espera.

Pela segunda vez, calcorreei a rua estreita e abri a porta da casa miserável onde se alugavam quartos.

Subi as escadas até ao quarto de Gwennan e bati. Ninguém respondeu. Abri a porta.

- Gwennan - chamei. - É Harriet.

Não se encontrava lá. Ninguém lá estava. Desci as escadas. A porta que estava aberta na minha visita anterior encontrava-se ainda aberta. A mulher ainda estava sentada na cadeira de balouço. Penso que era a dona da casa, uma espécie de porteira.

- Vim ver a senhora Bellairs - disse.

- Ela foi-se embora. Partiu com um cavalheiro que veio à procura dela.

- Para onde foi?

- Não deixou morada.

- Levou o bebé?

- O bebé e o cavalheiro. Devia-me três semanas. Ele pagou-me até ao fim da semana... e muito bem, digo, depois de esperar daquela forma.

Mas ela deve ter deixado a morada.

- Não deixou. Apressada como estava, foi-se logo embora com ele.

Então, era assim que Bevil era complacente. Levara Gwennan para algum lugar e não iria deixar que ninguém em Menfreya soubesse onde ela estava.

Senti-me muito chocada e muito infeliz. Fui até ao Hoe e fiquei ali sentada durante muito tempo a pensar em Gwen nan e em Bevil e sentia-me muito infeliz.

Não dei por quanto tempo ali estive até olhar para o reló gio e reparar que tinha perdido o comboio.

Só cheguei a Menfreya ao fim da tarde.

Quando Bevil chegou a casa nessa noite, encontrava-me no meu quarto.

Estava zangado "com certa razão", disse para comigo.

- Fizeste-me fazer figura de parvo - explodiu.

- Desculpa.

- Então, foste a Plymouth. Não acreditaste no que te disse. Foste ver com os teus olhos. Numa missão idiota.

- Pretendia ser uma missão de caridade.

- Tive de apresentar desculpas em teu nome, em Lansella. Declarei que não te sentias bem. Fiz os preparativos para proferires algumas palavras num comício na próxima semana.

- O que é que esperam que eu diga? A espécie de marido que o meu é e que tenho a certeza de que podem confiar nele porque a sua conduta para com a irmã?.

Bevil estava mesmo zangado. Podia notá-lo pelo brilho dos seus olhos.

- Participei-te que Gwennan não iria voltar e que estava a preparar tudo para que fosse bem tratada. Estás a dizer-me que não acreditaste em mim. Quiseste verificar por ti própria. Foi isso, não foi?

- Como podes comportar-te assim com a tua irmã?

- Foi o desejo dela.

- Foi o teu desejo, Bevil. Pensas que não entendo tudo? Pegou-me no braço e abanou- me.

- Estou farto disto e não gosto de passar por parvo.

- Tenho a certeza de que preferes parecer cruel aos olhos da tua mulher em vez de parvo aos dos teus amigos.

O apertão que me deu no braço magoou-me, e, quando recuei, declarou:

- Tenho de viver com a opinião que tens a meu respeito.

- Penso que temos de chegar a um acordo - propus, libertando-me à força. Ele encontrava-se a meu lado.

- Um acordo, com certeza.

- Por ter casado contigo não significa que tenha de partilhar dos teus pontos de vista. Não hei-de ser cruel pelo facto de tu o seres. Gwennan quer voltar para Menfreya.

- Não quer.

- Queria até tu a visitares.

- Asseverei-te que prefere que as coisas continuem como estão. És capaz de acreditar em mim? - Não respondi, mas afastei-me dele. - Aonde vais? - perguntou.

- Penso que um de nós deve ficar no quarto de vestir.

- Mas eu não fico.

- Se tu não quiseres ficar... então, fico eu.

- Não quero que nenhum de nós fique.

Claro que ele era mais forte do que eu. Nunca pensei que tivesse de lutar fisicamente, para lhe resistir. Mas fi-lo, e, quanto mais lutava, com maior vontade ele ficava de me dominar.

Era cruel, era desumano.

Atirei-lhe, com a respiração cortada:

- És louco? Não sou nenhuma rapariga da aldeia para ser violada quando te desperta o desejo.

Não conseguia nada contra ele. Estava sob o meu poder. Foi a experiência mais lancinante da minha vida.

Fanny trouxe o tabuleiro com o pequeno-almoço à cabeceira.

- Parece cansada - afirmou.

- Não passei muito bem a noite.

- O senhor Menfrey saiu muito cedo. Aqui está, deixe-me pôr-lhe alguma coisa à volta dos ombros. - Pegou num casaco de cama, e, quando enfiei o braço, a manga da camisa de dormir ficou arregaçada até ao cotovelo. No antebraço,

estava uma nódoa negra enorme. - Mas que paciência a minha! - exclamou Fanny. - Onde arranjou isso?

Olhei para o braço, aflita.

- Não... não sei.

- Tenho uma loção que faz bem às nódoas negras. Fá-las desaparecer num instante. - Foi ao pôr a loção que descobriu a marca nos ombros. - Também não se lembra como arranjou esta, calculo - disse.

Lampejos de irritação brilharam nos seus olhos. Sabia no que estava a pensar. Nunca gostara de Bevil e lembrei-me de

que me avisara contra ele.

Agora, gostaria dele menos do que nunca. Reparara que ele me maltratava fisicamente.

Sentei-me no palco ao lado de Bevil e olhei para o mar de gente. Ele parecia descontraído, pois acabara de proferir um discurso excelente e fora muito atencioso comigo, mas estava com medo.

A relação entre nós passara por uma mudança, pelo que éramos delicados um para com o outro. Pensava que ele se sentia um tanto envergonhado pela força que usara, mas não se havia referido a esse facto, e eu sabia que tinha um significado simbólico na nossa relação. Ele era o senhor, estava a dizer-me. Esperava de mim obediência, e, desde que lha prestasse, seria tratada com respeito, mas, se tivesse de me dar uma lição, estava preparado para o fazer, por mais desagradável que fosse.

O meu amor por ele mantinha-se inalterável. Fazia parte de mim, desde que eu era criança, e não acreditava que alguma vez pudesse diminuir. Não importava o que ele fosse. Queria-o. Sabia que a única coisa que não seria capaz de suportar seria a sua indiferença. Ele sabia-o porque, embora me sentisse profundamente ofendida com a sua afronta à minha dignidade pela forma como usou de força contra mim, a necessidade apaixonada que sentia dele tinha-me traído.

"O que queria eu? ", perguntava-me a mim mesma. "Queria um herói que não existia? " Bevil era o meu homem, o Menfrey extravagante que sabia o que queria e como obtê- lo.

Mas eu detestava o que tinha a certeza que ele fizera a Gwennan e, se pudesse, tinha-a trazido de volta para Menfreya. Tê-lo-ia feito para cumprir o meu dever, embora Bevil me odiasse por isso.

Ele vencera esta batalha, porque fora mais esperto do que eu. A seguir, comportava-se como o conquistador para com o vencido. Agora, mostrava-me que estava preparado para esquecer a minha palermice e receber-me de volta. Portanto, aqui estava eu, sentada no palco com ele, e a qualquer momento seria chamada para pronunciar algumas palavras que mostrassem à audiência que eu adorava o meu marido, que o apoiava em tudo o que ele fazia, que éramos muito dedicados um ao outro e que nunca haveria um escândalo a envolver- nos como aquele que obrigara o seu pai a retirar-se da política.

E Bevil sentia-se inseguro. Apercebia-me disso. Sabia que eu tinha vontade própria e que Gwennan estava no meio de nós. Chegou o momento e levantei-me. Dei-me conta do pássaro no chapéu de uma mulher na fila da frente, de todos os olhares curiosos sobre mim, as filas de rostos. Na minha mão estava o pequeno discurso que o agente me preparara e que eu decorara.

Era típico de milhares de discursos desse género. Comecei a falar, e o que disse não era o que estava escrito no papel. Vi Bevil a inclinar-se para a frente. Estava alarmado. A seguir... sorria. Vi os rostos a mudarem, a ficarem atentos e interessados.

Não me consigo lembrar do assunto que abordei, mas estava a ser natural, estava a explicar-lhes por que deviam apoiar o meu marido.

Terminou em três minutos, mas houve aplausos calorosos e sentei-me a tremer levemente. Fora um sucesso.

Foi uma noite maravilhosa. Bevil exclamou:

- És um achado, Harriet Menfrey. - Foi terno e amoroso e eu quase me sentia feliz ao voltar com ele para casa. Ter-me-ia sentido de todo feliz se conseguisse ter esquecido Gwennan.

Não me referi a ela, e Bevil não era um homem que sentisse a disposição dos outros. Para ele, estava tudo como devia ser. Casara com uma mulher que seria a indicada para um político e que trouxera dinheiro para apoiar a fortuna da familia. Tinha demasiado alento em determinadas alturas para se acomodar, mas ele sabia como dominá-la, porque era o macho poderoso, e ela, apesar da sua língua afiada, apenas uma mulher. Nem sequer era uma mulher bonita, logo, não se estragava.

Naquela noite, Bevil sentia-se muito satisfeito com o seu casamento.

 

Durante as semanas que se seguiram, eu andava constantemente na companhia de Bevil: levava-me para todo o lado, e a pouco e pouco a nossa relação voltou ao que fora nos tempos da nossa lua-de-mel. Como me sentia satisfeita por durante algum tempo me ter embrenhado na política de forma a poder falar sobre os acontecimentos com certa inteligência! Nunca experimentei maior felicidade do que quando via Bevil, sentado para trás, com os braços cruzados, uma expressão grave no rosto e os olhos baixos, para esconder a satisfação, quando eu tecia algum comentário bem a propósito ou durante os meus discursos ocasionais no palco.

Pela primeira vez na minha vida estava totalmente inconsciente do meu defeito de coxear. Sabia que nenhuma mulher perfeita, sob o ponto de vista físico, poderia ter agradado mais a Bevil do que eu... nesse momento.

Mas a vida não permanece estática.

Foi cerca de dois meses depois de receber aquela carta de Gwennan que chegou a seguinte. Esta era breve.

Querida Harriet. Isto é muito urgente. Tenho de te ver. Vem cá ter comigo, por favor, logo que recebas esta carta. Por favor, Harriet.

Gwennan

No cabeçalho da carta estava uma morada de Plymouth. Bevil encontrava-se no quarto de vestir quando abri a carta. Atrevi-me a não lha mostrar, porque pensei que iria pôr todos os entraves possíveis à minha ida e eu estava decidida a não decepcionar Gwennan desta vez.

Tinha escondido a carta quando ele chegou e se sentou na cama a falar do seu programa para aquele dia. Iria estar com ele toda a manhã nos escritórios de Lansella, porque uma das tarefas que eu desenvolvia particularmente bem consistia em dar atençã aos problemas das mulheres, registá-los e aconselhá-las sobre eles.

Não poderia dizer que ia a Plymouth. Imaginava-o a lutar comigo, a descobrir a carta e a ir talvez no meu lugar.

Regressaríamos a Menfreya, para almoçar, e à tarde eu ficaria livre, porque ele tinha um compromisso que não me incluía.

Nunca uma manhã me pareceu tão longa: sentia-me aterrorizada, com medo de que acontecesse alguma coisa que me impedisse de ir, mas acabei por ficar livre.

Eram quase quatro horas quando cheguei à estação e apanhei um táxi até à morada que Gwennan me dera.

Detivemo-nos em frente de um pequeno hotel com ar respeitável, onde imaginei que Bevil a tinha instalado.

Quando perguntei pela Sr. a Bellairs, a recepcionista esbugalhou os olhos e pediu-me que fizesse o favor de esperar um minuto. Saiu e dentro de minutos apareceu a proprietária do hotel bastante apressada.

- Sinto-me tão aliviada - declarou. - Entre para aqui, por favor. - Levou-me para uma sala de recepção agradável, mas modesta. - Pertence à família? - perguntou.

- Sou a cunhada.

O alívio era evidente.

- Ela morreu de manhã cedo.

- Morreu... - repeti, de forma algo estúpida.

- Era inevitável. Estava bastante fraca e negligenciava manifestamente a sua saúde havia muito tempo. Já era tarde de mais quando veio para aqui, e sabíamos que o fim devia estar próximo. Notifiquei o irmão dela.

- Quando?

- A carta foi posta no correio esta manhã.

- E o filho?

- Está a ser tratado por uma das minhas criadas. Estou-lhe grata por ter vindo. Apenas queremos instruções. Deve ser a senhora Harriet Menfrey, não é verdade?

- Sou, sim.

- Tenho uma carta para si. Ela pediu-me que fosse entregue pessoalmente, se possível. Vou buscá-la.

Durante alguns segundos, consegui tão-só fixar a letra conhecida e pensar em Gwennan. morta.

Minha querida Harriet,

Estou a escrever-te para o caso de não ter tempo para falar. Estou a morrer. Há meses que o sei. Passei uns tempos terríveis depois de Benedict partir. Estava preocupada e não tinha dinheiro. A dada altura, quis regressar a Menfreya, para morrer, mas conclui que não era possível. Quando Bevil veio ver-me, compreendi isso. Ele não mo disse. Defacto, a sua opinião foi que eu deveria voltar, para ser tratada, mas pude verificar que não iria ser nada bom. Não se pode voltar atrás e querer de novo as coisas como elas eram. Faz-se um gesto com o dedo e altera-se tudo. Sabia que não seria capaz de enfrentar as explicações, com um filho e a confusão que fiz

com tudo. Teria sido demasiado humilhante e sou muito orgulhosa. Assim, apesar de Bevil me ter tentado convencer, não fui. Decidi-me e ele viu- o, porque nos entendemos um ao outro. Bem, agora existe o Benny, e escrevo-te isto, Harriet, porque és a única pessoa do mundo que quero que cuide dele. Quero que ele volte para Menfreya, mas desejo que sejas uma mãe para ele. O meu filho está numa situação tão dificil como tu estiveste quando eras pequena, pelo que vais compreendê-lo melhor do que ninguém.

Posso estar morta quando leres isto. Estou a morrer agora, Harriet. Foi uma vida muito diferente depois de sair de Menfreya. Noitadas, quartos cheios de gente, alojamentos baratos no teatro e depois, claro, a terrivelpobreza. Suponho que não consegui aguentar. Bevilfoi bom para mim. Trouxe-me para aqui e desde então consegui que Bennyfosse bem alimentado e vestido. Desejei muito voltar, mas não fui capaz de suportar isso, Harriet. Mas, quando já cá não estiver, Benny deve ir para Menfreya.

Agora, Harriet, este é o meu último desejo. como se diz. Leva o meufilho e educa-o como sefosse teu. Não deixes que mais ninguém fique com ele e pensa em mim quando ele precisar de ti. Lembra-te que é a Gwennan que precisa de ti, Harriet. nessa altura como agora. Ele chama-se Benedict Menfrey. Lembra-te disso. Faz com que seja conhecido pelo seu verdadeiro nome, e, se tu e Bevil não tiverem um filho, então Menfreya será dele por direito próprio.

Tinha esperado ver-te antes de morrer, mas acho que não posso ter a certeza de quando chega a minha hora. Poderia acontecer de repente e, tal como a virgem néscia (porque o adjectivo com certeza se me aplica, embora o substantivo, não), seria apanhada sem azeite na lâmpada, de modo a deixar o meu filho a tactear sozinho na escuridão.

Harriet, éramos muito amigas, não éramos? Sei quefoste sempre melhor amiga para mim do que eu para ti. É por isso que te estou a pedir que faças isto por mim. E sinto-me feliz por morrer agora, que já escrevi esta carta, porque confio em ti.

Recebe o meu amor, minha querida amiga.

Gwennan

 

Por alguns momentos não consegui falar. A dona do hotel saiu em bicos dos pés, deixando-me sozinha. Gwennan estava morta. Sentia-me muitíssimo infeliz e irritada. Não havia necessidade de isto ter acontecido, continuava a dizer para comigo. Se tivesse casado com Harry, poderia agora estar viva. Não era como se houvesse uma paixão enorme entre ela e Benedict Bellairs. Agira demasiadas vezes de forma irresponsável e agora esta rapariga bonita e cheia de vida estava morta.

E Bevil? Tinha julgado mal Bevil e sentia-me doente de vergonha. Como fora estúpida! Impetuosa, disparatada, desconfiada. Como ele me devia ter desprezado por isso! E, no entanto, estava contente porque ele não tinha sido cruel. Tentara trazê-la de volta e fora ela quem se recusara a vir.

Dobrei a carta, pu-la no bolso do casaco e saí para a entrada. A proprietária, que estivera à porta lá fora, alegrou-se quando viu que eu me recompusera.

- E a criança - inquiri -, onde está?

- Vou levá-la até ela. - Inclinei a cabeça, em sinal de aprovação. - Gostaria de a ver a ela primeiro? - perguntou. Hesitei. Qual seria o seu aspecto morta, a minha Gwennan orgulhosa e encantadora? Pensei no choque que senti da última vez que a vi. Não queria lembrar-me dela assim. Parece estar em paz - murmurou.

Assim, segui-a até ao quarto onde Gwennan vivera desde que Bevil a tirara do seu alojamento miserável. Era pequeno, bastante escuro, mas animado e limpo. Estava deitada na cama, com um aspecto diferente, e o seu cabelo dourado tinha reflexos luminosos, em contraste com a palidez da pele. Mas o que mais me impressionou foi a expressão serena do rosto. Nunca a tinha visto assim antes. Os meus olhos dirigiram-se para o mata- borrão que se encontrava em cima da mesinha. A tampa do tinteiro dentro do suporte estava aberta, a caneta achava-se em cima do mata-borrão e eu imaginei-a ali sentada a escrever-me a carta.

Gwennan, pensei, podes confiar em mim, aconteça o que acontecer.

Voltei-me e saí do quarto.

- Mandei vesti-la - declarou a dona do hotel. - Suponho que a família há-de aceitar que se tratou de tudo.

- Sim - afirmei. - O irmão dela, o meu marido, virá logo que receba a carta. Eu vim em resposta a uma carta que ela me escreveu. Ele ainda não sabe, mas, logo que eu volte, ficará a saber. Além disso, vai receber em breve a sua carta.

Confirmou com um gesto de cabeça.

- Este género de coisas é muito incómodo para os outros hóspedes. Sei que compreenderá.

- Sim, compreendo.

- E a criança? - desejou saber, com ansiedade.

- Vou levá-la comigo.

- Tenho a certeza de que é a melhor solução possível. Agora, vou levá-la até ela.

Encontrava-se sentada num tapete vermelho perto da lareira, examinando com ar pensativo as biqueiras das botinhas, quando abri a porta. Uma rapariga estava sentada numa cadeira a tomar conta dela.

Sorriu para mim.

- Tem-se portado muito bem - afirmou.

 

Atravessei o quarto e ajoelhei-me em cima do tapete. Não existiam quaisquer dúvidas de que era um Menfrey. Tinha os mesmos cabelos e olhos dourados, e o brilho lá estava nos seus olhos.

- Olá, Benny - disse.

- Olá.

- Sou a tia Harriet.

Acenou com a cabeça.

- Tia Harriet. - Não teve nenhuma dificuldade em repetir o nome, o que me fez supor que já o ouvira antes.

Agarrou-se ao meu braço, para se levantar, após o que se aproximou mais de mim, e examinou-me com atenção. Olhei para a pele macia, para o narizito, uma réplica do de Gwennan, com as suas narinas salientes. Nunca iria esquecer Gwennan enquanto existisse o seu filho para a fazer lembrar.

- Queres vir comigo? - perguntei. Confirmou com a cabeça e os olhos brilharam-lhe de repente com aquele espírito de aventura que fora a característica e talvez a ruína da mãe. - Vamos para Menfreya - disse. Os seus lábios formaram o nome com facilidade e percebi que também já o ouvira antes. - Está na hora de irmos embora - insisti.

O meu regresso não poderia ter sido mais dramático. Arranjei uma carruagem na estação de Menfreystow, mas eram quase oito horas da noite quando cheguei a Menfreya e começava a haver grande preocupação em relação à minha ausên cia. Podia ter saído durante a tarde sem dizer para onde, mas com certeza de que estaria de volta a horas do jantar.

Bevil trouxera convidados e o jantar estava prestes a ser servido. Lady Menfrey felizmente encontrava-se lá para desempenhar o papel de anfitriã, mas claro que estavam à espera de me encontrar.

Dei-me conta da tensão que reinava quando entrei em casa, aos tropeções, com a criança a dormir nos meus braços.

Ouvi a exclamação espantada de Pengelly, e de repente pareceu-me que Bevil, os meus sogros e os convidados apareceram todos ao cimo da escada.

Recordo muitas vezes essa cena com um sorriso. Deve ter parecido um pesadelo. A tunante regressara, não vinha só, trazia uma criança nos braços.

Ouvi a voz de Bevil.

- Harriet! Por amor de Deus, o que...

Eu disse:

- Gwennan morreu. Trouxe o bebé dela para casa.

Lady Menfrey desceu as escadas a correr.

- Harriet... Harriet... o que queres dizer?

 Bevil estava ao meu lado. Reparei em rostos estranhos, mas sentia-me tão exausta pela viagem, pelas minhas emoções, pelo meu medo com a chegada da criança que senti que não seria capaz de suportar mais nada.

- Amanhã ficarás a saber - esclareci Bevil. - Vais receber uma carta do hotel onde ela está. Morreu esta manhã. Ele tem de chamar-se "Benedict Menfrey". É a vontade dela.

Lady Menfrey tirou-me a criança dos braços. As lágrimas corriam-lhe pelo rosto, mas percebi que iria amá-la: já tinha alguém que preenchesse o lugar de Gwennan no seu coração.

Devia ter sido o que Gwennan esperava.

 

- Estás exausta - afirmou Bevil, com brusquidão.

- Foi um dia exaustivo...

- Temos convidados - proferiu, não de forma brusca, mas desconcertante.

- Desculpa - solicitei.

Uma mulher que eu sabia ser casada com um dos trabalhadores do partido pegou-me na mão e apertou-a.

- Não se preocupe connosco, senhora Menfrey. Precisa de descansar... agora.

Sorri-lhe, com gratidão, e Bevil aconselhou:

- Deverias ir já para a cama, Harriet. - Voltou-se para os convidados. - Por favor, desculpem-me por uns momentos.

Acompanhou-me até ao quarto. Fechou a porta e fiquei à espera de que a tempestade rebentasse. Que tinha feito eu?

Arriscara as suas hipóteses. O escândalo que Gwennan trouxera à família seria agora conhecido publicamente, e tudo por minha culpa.

Senti as rugas teimosas formarem-se à volta da minha boca.

Levantei a cabeça e coxeei com dores até à cama. Sentei-me ali a olhar para ele.

- Não havia mais nada a fazer - argumentei, numa voz fria e irritada. - Nunca pensaria em proceder doutro modo.

E a seguir pensei em Gwennan, deitada na cama, branca e calma na morte como nunca estivera em vida, e cobri o meu rosto com as mãos.

Senti-o segurá-las com muita ternura nas suas.

- Harriet - disse, e a sua voz era meiga.

- Morta! - exclamei. - Gwennan! Estava sempre tão cheia de vida. - Não falou, mas olhou para mim com comiseração. - A criança vai ficar aqui - prossegui, forçando a raiva na minha voz, para esconder a minha dor. - Cuidarei dela. E, se a não quiseres cá, então... levá-la-ei comigo.

- Harriet, que estás a dizer? - Tentei afastar as minhas mãos do seu aperto, porque tinha receio das minhas emoções. Era demasiado para aguentar. Gwennan morta. não a voltar a ver mais. e Bevil a odiar-me por ter ido contra os seus desejos e trazido a criança para Menfreya. Colocou o braço em volta de mim e apertou-me contra ele. - Claro que a criança vai cá ficar. E tu também. Presta atenção, Harriet Menfrey, pensas que casaste com um homem cruel. Talvez sim. E digo-te mais: existe uma coisa que ele não pode suportar. Que é viver sem ti... portanto, põe isso na tua cabeça.

- Oh, Bevil, Bevil - disse, com voz débil. Abraçou-me apenas e senti-me confortada.

De repente, tornou-se prático.

- Vou mandar-te a Fanny - prometeu. - A minha mãe está a cuidar do menino. Não há motivo para preocupações. - Beijou-me. - Deves saber isso.

Deixou-me e voltou para junto dos nossos convidados, que, tinha a certeza, deveriam estar ansiosos de curiosidade. Imaginei a história que lhes iria contar, mas sentia-me demasiado cansada para me preocupar.

 

Fanny veio para junto de mim e deixei-a ajudar-me a deitar. Quando já estava na cama, deitei-me encostada às almofadas calmamente e, embora me sentisse aliviada por ter trazido a criança para Menfreya, pensar em Gwennan provocou-me uma tristeza semelhante a uma dor física.

Foi fácil explicar a presença de Benedict em Menfreya. Gwennan havia fugido com um actor, com quem casara contra a vontade da familia. Como tinha morrido, o filho estava agora em Menfreya, o que era um facto bem natural.

O menino, conhecido por "Benedict Menfrey", era mesmo parecido com os Menfreys. Não era a primeira vez que o nome da família era mantido. Houve uma filha que herdou a propriedade, e, quando se casou, o marido teve de mudar de nome.

Vivia-se um ambiente de luto em casa, e, quando eu com humildade confessei a Bevil que estava arrependida por ter feito um mau juízo a seu respeito, ele afirmou:

- Tinhas razão em certa medida, Harriet. Deveria ter insistido com ela para que voltasse para casa.

William Lister, esse jovem eficiente e discreto que possuía a grande qualidade de passar despercebido, excepto quando era solicitado, foi a Plymouth com Bevil. Os dois trataram dos preparativos para o funeral e Gwennan foi enterrada na cripta dos Menfreys na igreja do monte, mesmo à saída de Menfreystow.

A criança veio alterar o ambiente familiar e dentro de pouco tempo era o ai-jesus dos avós e da maior parte dos criados. Lady Menfrey sentia-se feliz como já não a via há muito e compreendi como sentira profundamente a perda da filha.

De vez em quando, Benny perguntava pela mãe, mas dizíamos-lhe que ela tinha partido e que era por isso que ele se encontrava connosco. Por vezes, chorava por ela. Então, imaginávamos divertimentos para o distrair e a pouco e pouco começou a desviar os seus pensamentos do passado. Menfreya estava cheia de atractivos que ele nunca vira antes. A casa era uma fonte constante de surpresas: as armaduras, os retratos antigos e as tapeçarias. Benny nunca vira nada daquilo. Parecia ser o menino bonito de todos. Iniciou uma amizade imediata com o avô e com Bevil. Era manifestamente um deles.

Houve um grande alvoroço com a morte de Lorde Salisbury, surgindo uma crise com as propostas dos proteccionistas. Bevil chegou a casa e quis saber onde eu me encontrava.

Estava mesmo a vestir-me para o jantar quando ele entrou com brusquidão no quarto.

Contou-me o que tinha acontecido.

- Isto pode significar uma eleição num futuro próximo. Logo, teremos de entrar na luta a sério.

- Claro que venceremos.

Sentou-se na cama e, pegando-me nas mãos, puxou-me para o seu lado.

- Gostas de lutar, não gostas? - perguntou.

- Não, acho que não.

- Ah, mas, quando uma batalha tem de ser ganha, entras nela em perseguição cerrada.

- Não é assim que se deve fazer?

- Claro. Tu lutas nas grandes batalhas com todo o teu poder. Aquele que luta por uma causa justa está duas vezes armado. Não é verdade? Devias saber. Harriet, estás na expec tativa da tua luta?

- Estou decidida a ver-te sair dela vitorioso.

 

- Falas como uma esposa boa e virtuosa. Sabes, Harriet, minha querida, uma boa esposa é mais valiosa do que os rubis. Diz-se isso na Biblia.

- Os Menfreys tiveram oportunidade de pôr isso à prova.

- O que queres dizer?

- Estou a pensar na mesa em que faltam os rubis do tampo. Revelaram-me que foram usados um a um e que, quando se acabaram, os Menfreys foram obrigados a procurar mulheres ricas.

- Quem te contou essa história?

- Gwennan, penso eu.

- Coitada da Gwennan! Porém, está cá o menino.

- Sinto-me tão envergonhada quando penso nas conclusões precipitadas que tirei.

Ele riu-se para mim.

- Bem, eu também não me portei lá muito bem. E digo- te uma coisa boa que resultou disso, Harriet. Embora tenha sido rude e tu tenhas pensado que eu era um bruto ainda mais repugnante, ainda me amas.

- Bem, fui idiota.

- Tens razão - concordou. - Ainda te amo. Beijou-me nos lábios, com paixão, e adverti-o:

- Por favor, nada de nódoas negras. Fanny deu por isso. Franziu o sobrolho.

- Essa mulher não gosta de mim, Harriet.

- Ora, só que não és muito do seu agrado. Lembra-te de que sou a sua menina. Ela acha que ninguém é bastante bom para mim.

- Pode ter razão. Mas, desde que eu seja do teu agrado, que importam os outros? Preciso disso, querida. Agora vamos

ter de lutar juntos numa eleição. Minha Harriet maravilhosa, vais estar muito ocupada nos próximos meses, anos, talvez. Demasiado ocupada para passares os teus dias inteiros a cuidar do pequeno Benny.

- A avó estará pronta a ajudar em qualquer emergência.

- Ela nem sempre se sente bem, pelo que estive a dizer-lhe que pensei que era altura de arranjarmos uma preceptora.

- Claro que ela concordou contigo.

Sorriu-me com satisfação.

- É evidente, claro. Preciso mais de ti do que o Benny. Senti-me tão feliz por ser desejada que não fui capaz de ocultar o facto.

Depois disso, falámos sobre a preceptora que iríamos arranjar. Tanto Sir Endelion como Lady Menfrey acharam que era uma ideia excelente. Tinham um fraco pela criança e sentiam-se muito ansiosos por lhe proporcionar o que houvesse de melhor para ela, mas não se fez nada por isso e imaginei que Lady Menfrey não tinha grande vontade de que se arranjasse alguém assim tão depressa.

- Ainda é muito novo - afirmava, porque gostava muito

de tratar dele.

Sir Endelion foi a Londres visitar uns amigos, e deve ter sido duas ou três semanas após o seu regresso que recebemos uma carta. Não disse nada sobre o assunto na altura, mas era evidente que acontecera algo que o divertira.

Continuou a rir-se sozinho, e uma noite, ao jantar, proferiu uma declaração.

- Enquanto estavam a falar no que fariam, entrei em campo - afirmou. - Descobri a vossa preceptora.

 

Olhámos todos para ele, mas estava atento a observar Pengelly a deitar o clarete no copo.

Bevil sorria. Supus que se sentisse satisfeito por ter sido ideia sua, em primeiro lugar, que Benedict tivesse uma preceptora, a fim de me deixar liberta para o ajudar.

Sir Endelion acenou com a mão.

- Vão ficar surpreendidos - declarou.

- Queres dizer, Endelion, que tu arranjaste uma preceptora?

- Foi o que eu disse, minha querida.

- Mas como podias saber que habilitações e a...

- Não tenho dúvida nenhuma de que esta vai constituir uma satisfação enorme.

- Mas, na verdade...

- Espera. Ela chega no fim da semana.

- Mas não compreendo.

- Vais compreender, minha querida.

Lady Menfrey parecia inquieta. Bevil e eu olhámo-nos e ele sorriu com satisfação.

- É o que pretendemos - declarou.

- Mas que forma tão estranha. - começou Lady Menfrey.

- Ela queria o emprego, nós tínhamo-lo. Tão simples como isso - manifestou-se Sir Endelion. - Continuava a rir-se sozinho. - Esperem e vejam - propôs.

Bevil e eu fomos a cavalo até Lansella. Era uma forma de exercitar os cavalos, de desfrutar de um passeio e de combinar isso com assuntos a tratar.

Havia sido uma manhã atarefada e, enquanto regressávamos a casa, discutíamos as perguntas, que pareciam bem divertidas ao serem relembradas.

Lady Menfrey chamou-nos assim que entrámos em casa.

- Ela veio. Já cá está. Não vão ser capazes de adivinhar. Nunca fiquei tão surpreendida.

- Uma convidada para o almoço? - perguntei.

- Oh... não. A preceptora.

Apressámo-nos a entrar, e, quando íamos quase a subir as escadas, ela apareceu lá no alto. Lá estava ela, acima de nós, com o seu belo rosto oval arranjado, vestida de cor de chumbo, simples a tocar o severo, o que servia apenas para mostrar a sua perfeição. As suas feições eram modeladas de forma perfeita, gregas e clássicas; o cabelo, escuro, ondulava livremente em redor da cabeça, bem feita, e os olhos azuis eram enormes, com pálpebras profundas e pestanas pretas. Sorriu e foi o seu sorriso que me deixou alarmada. Era tão meigo e ao mesmo tempo tão cheio de sabedoria... que mais tarde achei que se tratava de astúcia.

Ela disse:

- Parecem surpreendidos. Sir Endelion foi à casa onde eu trabalhava e tive oportunidade de falar com ele. Tinha ouvido falar do menino. Estas coisas sabem-se. E, quando tive conhecimento de que andavam à procura de uma preceptora, participei-lhe que me agradaria o lugar.

 

Senti-me entorpecida pela apreensão e, enquanto Jessica Trelarken descia a escada com lentidão, senti a minha satisfação começar a esmorecer. Não me atrevi a olhar para Bevil, com receio de compreender de mais. Lembrei-me de que fora ele o primeiro a sugerir que procurássemos uma preceptora. Será que planeara, nessa altura, trazer Jessica para casa? Lembro-me da sua atitude quando Sir Endelion deu a notícia. Será que já o sabia nessa altura? Será que pedira ao pai para convidar Jessica a vir cá para casa?

O futuro parecia muito inquietante. Sabia que a minha vida mudaria quando Jessica Trelarken entrasse nela.

 

A primeira indicação da influência que Jessica teria surgiu quase logo a seguir à sua chegada. Eram horas de jantar da primeira noite que passava em casa. Eu trazia um vestido de veludo verde-escuro, que sempre achei que me ficava bem, e pusera os brincos, o broche e a bracelete que Lady Menfrey me oferecera. Tinham sido dela, disse-me, e da Lady Menfrey que a precedera. Logo, conservava-os na família.

Enquanto me olhava ao espelho, sentindo prazer com o efeito, Bevil chegou e, pegando-me nos ombros, ficou atrás de mim a olhar para a nossa imagem.

- Belo efeito - comentou. - Parece que saíste de um dos quadros da galeria. Mas isso acontece muitas vezes.

Esperei que comentasse alguma coisa a respeito da preceptora, mas não o fez, e isso, mesmo nessa altura, pareceu-me suspeito. Seria com certeza a coisa mais natural do mundo falar sobre a sua chegada recente, sobretudo por a termos conhecido no passado.

Assim, descemos para jantar. Foi Sir Endelion, com o seu novo ar endiabrado, quem chamou a atenção para o facto de não se ter posto um lugar a mais na mesa.

Lady Menfrey replicou:

- Mas não estamos à espera de ninguém.

- Então, e Miss Trelarken?

Lady Menfrey parecia inquieta.

- Mas, Endelion, ela agora é a preceptora.

- Agora! Mas o seu pai costumava vir cá a casa jantar. Não podes expulsar as pessoas para o andar de baixo quando dantes comiam à nossa mesa.

- Ela não é expulsa para o andar de baixo - salientou Lady Menfrey. - Vão levar-lhe o jantar ao quarto num tabu leiro. Foi sempre esse o hábito com as preceptoras. Sempre lhes levaram as refeições ao quarto num tabuleiro, porque, bem entendido, não se esperava que comessem na copa com os criados.

Bevil não disse nada, mas pude verificar que o tom bronze da sua pele se acentuara. Estava preocupado com o resultado da discussão, e tive a certeza de que, se eu ali não estivesse, teria apoiado o pai. A chegada de Jessica já o transformara: tornara-se menos franco, como se fosse um homem com alguma coisa a esconder.

- Minha querida, não podes pôr a Jessica Trelarken na sala dos criados. Ela é uma senhora.

- Agora é preceptora, Endelion. Ai de mim, tantas senhoras têm de se tornar preceptoras... ou damas de companhia. É a única saída que se lhes depara quando ficam sem dinheiro e tão pobres como Jessica ficou.

Eu olhava para Bevil. Pensei: "Ela vai estar aqui todas as noites. É impossível. Deve ficar no quarto... pelo menos isso.

Disse:

 

- As minhas preceptoras nunca jantaram com o meu pai. Sempre pareceu que preferiam que lhes levassem as refeições, num tabuleiro, ao quarto.

- Minha querida Harriet - objectou Sir Endelion, a rir -, esta não é a tua preceptora. É Jessica Trelarken. Uma velha amiga da familia. É isso, não é, Bevil?

Bevil hesitou, por momentos. A seguir declarou:

- Os Trelarkens costumavam vir cá jantar de vez em quando. Suponho que temos de mostrar a Jessica que não a consideramos uma criada.

- As preceptoras não são criadas - aleguei. - Tomam algumas refeições com os seus pupilos.

- Ela não pode jantar com o dela neste momento - retorquiu Bevil. - A não ser que coma à sua cabeceira enquanto ele dorme.

Pengelly andava por ali. O meu sexto sentido agora mais perspicaz, que já estava a começar a assustar-me, garantia-me que, na sala dos criados, estariam a falar do assunto. Claro que ela não a queria. Nem a sua senhora. Eram os homens que estavam decididos a tê-la com eles. Risos abafados! As suspeitas de invadirem toda a casa, penetrando em cada canto.

- O tabuleiro de Miss Trelarken já foi para cima? perguntou Lady Menfrey.

- Não minha senhora. Só vai para cima depois de todos da família terem terminado a refeição - afirmou Pengelly, com ar grave.

- Então - interpôs Sir Endelion -, ponha outro lugar à mesa. A seguir, vá ter com ela e diga-lhe que estamos à sua espera, para jantar aqui connosco.

Pengelly inclinou a cabeça, fez sinal a uma das raparigas para pôr mais um lugar e desapareceu.

Dentro de cinco minutos, apareceu Jessica. Trazia um vestido simples, de seda preta, que deve ter enfiado à pressa assim que recebeu as ordens, mas não havia nela quaisquer sinais de pressa.

Hesitou à porta, mas achei que era uma hesitação estudada. Sir Endelion afirmou:

- Sente-se, minha querida. Claro que vai jantar connosco. Tabuleiros nos quartos! Quem é que já ouviu alguma vez tal disparate. Foram muitas as vezes que o seu pai se sentou a esta mesa.

- Muito obrigada - agradeceu Jessica, com voz tranquila. Pengelly afastou a cadeira enquanto ela se sentava.

Sorriu, com um ar reservado e sereno, mas sem surpresa. Era evidente que não achava estranho que a preceptora jantasse com a família. Não devia ter acontecido isso nos outros sítios onde tinha trabalhado. Mas aqui era diferente. Aqui era Menfreya.

Era bastante estranha a transformação que todos sofreram. Jessica Trelarken parecia iluminar a casa de uma forma estranha e sinistra, fazendo-me ver tudo e todos de maneira diferente, de modo a sentir-me insegura de mim mesma e a imaginar se afinal de contas era ingénua e não conhecia o mundo.

 

Era tão serena que dentro em pouco eu me perguntava a mim mesma se não seria uma serenidade exagerada. Tudo à sua volta estava calmo. Andava sem ruído; muitas vezes descobri que tinha entrado numa sala sem se ouvir um som; ninguém dava por ela, até olharmos e sermos apanhados pelo esplendor da sua beleza.

A sua beleza! Ninguém era capaz de não reparar nela. Era uma beleza rara, e ninguém o podia negar. Era a perfeição das feições: não havia uma falha naquele rosto perfeito. A pele era macia e parecia brilhar. Tinha visto uma pele como aquela apenas uma ou duas vezes antes. O cabelo era macio e ao mesmo tempo cheio de vida. Possuía tudo esta mulher, menos fortuna.

E era inevitável que a presença de uma pessoa como esta dentro de casa tivesse efeito em todos nós. Parecia fazer ressaltar características que haviam estado escondidas dentro de nós. O meu sogro fora sempre encantador para comigo. Não o conhecia muito a fundo, mas, quando nos encontrávamos, os nossos encontros eram agradáveis. Creio que me recebeu bem na família, talvez por ser herdeira, mas, apesar disso, tinha sido muito amigável... paternal, poder-se-ia dizer. Agora, notava um traço endiabrado no seu carácter. Tivera conhecimento de que Bevil, em dada altura, se sentira atraído por Jessica Trelarken. Então, porque a trouxera aqui para casa? Havia alturas em que eu pensava que ele era malicioso, como um rapazinho que põe duas aranhas numa bacia para ter o prazer de as ver lutar. Talvez, pensei, nunca se esqueça de que outrora perdeu o seu cargo, que pertencia aos Menfreys, e que só há muito pouco tempo o havia recuperado.

Sempre que me ocorriam tais pensamentos, tentava esquecê-los o mais depressa que podia. Tinha a certeza de que, se não fosse a Jessica Trelarken, nunca me teriam vindo

à cabeça.

Depois, havia Lady Menfrey. Nunca achei que tivesse uma personalidade muito forte. Sabia que condescendia com a família constantemente, mas agora parecia amedrontada, e

reparei que aceitava de modo dócil a autoridade de Jessica.

Fanny? Tornara-se desconfiada, quase secreta. Antigamente, fora sempre franca comigo; agora, tinha a sensação de que estava a ocultar alguma coisa.

Bevil? Era natural que ele, que sempre admirara as mulheres atraentes, não poderia deixar de ser influenciado pela presença dela: admirara Jessica em particular e era evidente para mim que tal ainda acontecia.

E eu, mais do que todos. Parecia perder essa atracção que o facto de ser mulher de Bevil me havia dado. Tentara seguir, e com algum sucesso, esse estilo um tanto estranho de outro século que o vestido cor de topázio e a fita haviam feito realçar em mim. As pessoas comentavam a meu respeito: "Não tem uma beleza convencional, mas esse ar de pertencer a outro mundo que se nota nela é atraente. " Sabia que ele me fazia sobressair, mesmo no meio de mulheres mais bonitas, e eu queria sobressair... por Bevil.

Com a chegada de Jessica, isso parecia ter desaparecido de mim. Sentia-me tão simples como fora na minha infância, e esse sentimento produzia efeito na minha aparência. O meu defeito de coxear notava-se mais, mas talvez isso acontecesse

porque, quando me sentia feliz, conseguia esquecê-lo. E de certeza que agora não me sentia feliz.

Pior que tudo, estava a tornar-me desconfiada. As dúvidas invadiam-me o espírito e isso não passava despercebido.

 

Estava a tornar-me observadora e atenta, e todos os dias estes sentimentos aumentavam cada vez mais.

Tentava libertar-me dos meus medos e ciúmes, mas eles persistiam.

Desde que Benedict chegara a Menfreya que eu havia sido a sua amiga especial, porque ele parecia ter-me posto no lugar da mãe que perdera. De facto, eu passara sempre parte dos dias com ele, o qual parecia ansioso pelas minhas visitas. Muitas vezes levava-o a dar um passeio ou de vez em quando ia

 com ele de barco à casa da ilha, que ele adorava. Estava sempre a pedir para o levar e a viagem de barco encantava-o.

Uma manhã, cerca de uma semana após a chegada de Jessica, enquanto Bevil tinha ido sozinho a Lansella, fui até ao quarto de Benedict, para o ver.

Jessica recebeu-me com um sorriso frio, que eu começara a comparar com o da Gioconda. Tinha um aspecto impecável e claro que estava bela com um vestido lilás, com gola e punhos debruados a renda. Possuía poucos vestidos, mas os que tinha eram de um perfeito bom gosto. Havia algo que ela possuía: um sentido de como tirar o melhor partido da maior parte dos vestidos, mas poderia ser que uma beleza como a dela fizesse com que qualquer vestido parecesse maravilhoso. Senti-me desde logo embaraçada na sua presença e nesse momento perguntei-me se ela me fazia sentir assim de forma deliberada com aqueles seus olhares frios. Movimentava-se com uma graça que eu nunca seria capaz de imitar e havia um encanto natural em todos os seus gestos.

- Vim ver o Benedict - disse.

- Está a brincar com as construções.

- Pensei em sair com ele. Talvez até à ilha, quando o vento amainar. Ele gosta.

- Ele já saiu esta manhã. Tenho receio de que se canse demasiado e que isso o faça ficar contrariado. Claro que depois não vai querer comer ao jantar. Sabe como são as crianças.

Sorria com um ar apaziguador.

- Oh, mas... - comecei.

- Se eu soubesse que vinha, tê-lo-ia feito esperar pelo passeio. Mas penso que as regras são importantes.

- Compreendo.

Caminhei para a porta da sala de brincar e ela encontrava-se ao meu lado.

- Por favor, não lhe diga que ia levá-lo à ilha.

- Tem medo de que ele queira vir?

Outra vez aquele sorriso.

- Claro que havia de querer ir. Só que eu sei que iria ficar demasiado cansado.

Entrei no quarto.

- Olá, Benny.

- Olá! - Não levantou os olhos. Mas era natural. Estava

absorvido na construção de uma casa.

- Está aqui a tua tia - repreendeu-o Jessica.

- Eu sei. - Continuava ainda sem olhar.

Ela sorriu para mim. Ajoelhei-me e olhei para a casa.

- Está quase a cair - disse-lhe.

Acenou com a cabeça, continuando a não olhar para mim, e nesse momento os blocos caíram com estrondo no chão.

Benedict deixou sair um grito de prazer.

A seguir, apanhou um deles do chão e o seu prazer desapareceu quando reparou que a figura colorida estava um pouco rasgada. Disse, com tristeza:

- Quer a Jessie.

Peguei no tijolo e afirmei:

- Oh, mas pode colar-se com facilidade.

Tirou-mo, com ar solene, e entregou-o a Jessica.

- Coitado do tijolo, quer a Jessie - insistiu.

Ela pegou nele.

- Colei alguns dos outros - explicou. - Vou tratar dele,

Benny.

Levantou as sobrancelhas, como se estivesse a dizer: "Sab como são as crianças.

Mas também isso me pareceu um sinal.

Agora, Jessica juntava-se a nós todos os dias ao jantar. Tinha três vestidos para jantar, um preto, um cinzento e um de veludo azul. Eram todos simples e nada caros, mas ela parecia maravilhosa com eles. E eu, com os meus, alguns dos quais comprara em Paris durante a lua-de-mel, sentia-me desajeitada e muitas vezes vestida com exagero. Era esse o efeito que ela exercia sobre mim, e acima de tudo eu sentia uma impressão esquisita que era o que ela queria provocar.

Não havia nada de que nos pudéssemos queixar. Um espectador diria que apenas com a sua presença Jessica punha os outros na sombra. Mas eu pressentia que ela dava por isso e que acalentava um triunfo secreto.

Era como que um íman à mesa atraindo para ela a atenção de todos os homens. Sir Endelion era galanteador; Bevil confrontava-se continuamente ali com a minha presença. Sempre "desejoso" de me fazer entrar na conversa, mas eu "sabia" que era um desejo forçado, calculado, para esconder os seus verdadeiros sentimentos, e mesmo William Lister, que também tomava as refeições connosco, se lhe dirigia com franca admiração.

Se ela fosse uma patetinha bonita e frívola como a coitada da Jenny, teria sido suportável, mas não era. Era esperta e bem-educada. O que era mais desconcertante era a minha descoberta de que ela estava decidida a exibir os seus conhecimentos de política, uma vez que este tema era de facto um dos mais discutidos à mesa, ao jantar.

A sua voz era terna e suave e, como falava com lentidão e uma dicção perfeita, escutava-se com prazer.

Eu prestava atenção ao que ela dizia e reparava nos homens a observarem-na. Lady Menfrey, à cabeceira da mesa, tentava parecer atenta, tal como fazia quando a conversa era sobre a política, mas eu sabia que na realidade estava a pensar se deveria mandar vir mais lã azul para o tapete ou se Benedict iria ficar constipado por ter espirrado duas vezes durante o dia.

- Tive muitas discussões com o meu pai sobre esse assunto - afirmava Jessica. - Ele tinha pontos de vista muito firmes. Claro que nem sempre estávamos de acordo.

- O doutor era um homem que tinha pontos de vista muito firmes sobre a introdução de barreiras alfandegárias, lembro-me bem - interpôs Sir Endelion.

 

- A minha mãe costumava dizer que, quando o meu pai tomava uma decisão sobre um assunto, decidia-se ao mesmo tempo a não mudar de ideias.

Todos se riram.

- Foram muitas as vezes que aqui veio e tivemos discussões bastante acesas - referiu Sir Endelion. - Um bom companheiro, o doutor. Não gosto nem metade do seu novo subs tituto.

- A mulher dele é uma militante importante do partido - interpus.

- É verdade. - Bevil sorriu- me. Poderia ter sido fruto da minha imaginação, mas tinha a certeza de que fizera um esforço para desviar a atenção de Jessica para mim.

Começava a temer as refeições, que antes tanto me divertiam. Gostava de conversar sobre política: William Lister tratou-me sempre com deferência e tanto Bevil como Sir Endelion tinham o gesto simpático de me escutar com ar grave.

Agora, parecia que também ali Jessica estava a usurpar o meu lugar.

- Encontrei ontem à tarde Harry Leveret. Passeava a cavalo não muito longe de Chough Towers. É lá que ele mora agora - disse ela.

Isso era outra coisa. Jessica sempre gostara de andar a cavalo e Sir Endelion sugerira que, se ela gostasse de dar um pouco de exercício a um dos cavalos, poderia fazê-lo. Jessica reagiu com entusiasmo.

Agora, estavam todos atentos. Lady Menfrey parecia assustada e começou a tocar, nervosa, com os talheres. Conseguia ver-lhe o sofrimento estampado no rosto. Estava a pensar nesse dia terrível quando descobriu que Gwennan tinha fugido.

Jessica concedeu-nos o seu sorriso meigo, que sempre percebi ser semelhante a uma máscara a espalhar-se-lhe pelo rosto.

- Foi muito simpático - prosseguiu.

- E porque não? - retorqui, e a minha voz soou um tanto severa. - Não tem razões de queixa suas.

- Sabe que estou cá, claro. Falou... em relação ao futuro. - Fez uma pausa e desviou o olhar de Sir Endelion para Bevil, incluindo William Lister no percurso. - Confiou-me que foi aceite como candidato pelo seu partido.

- Então, está resolvido - observou Bevil.

- Sim. Referiu mais uma coisa. Talvez seja impertinência da minha parte, mas... ele sondou-me a respeito dos seus sentimentos. Acha que é possível que o senhor esteja melindrado

com ele, por se ter candidatado contra si.

- Devo confessar que foi uma surpresa - concordou

Bevil. - Porque não tornou pública a candidatura? Pareceu-me tudo um tanto secreto.

- Foi o que ele pensou, mas explicou que os Leverets e os Menfreys sempre tinham sido amigos e não vê motivo algum para que não devam continuar a sê-lo. Perguntou-me se eu achava que, se ele o convidasse para jantar em Chough Towers, o senhor iria recusar.

Sir Endelion explodiu:

- Não gosto das ideias políticas dele. Estou surpreendido com ele! Pensava que era um homem de negócios.

O que é que pretende, ao entrar de repente na política desta forma?

- Se ele o convidar e o senhor recusar aconselhou Jessica, hesitante -, pode tornar as coisas difíceis. O que quero dizer é que pode fazer com que se saiba. Compreende o que quero dizer?

- Exactamente - replicou Bevil, inclinando-se para a frente e olhando para ela com ar aprovador.

- Poderia argumentar que em tempos fora maltratado pelos Menfreys... - Sorriu, com ar suplicante, e pensei como Harry ficara profundamente ferido na altura do desapareci mento de Gwennan.

- E que agora. só porque não concorda com as suas opiniões políticas, a amizade dele foi rejeitada. Posso estar enganada, mas penso que isso não seria olhado de forma favorável.

Voltou a hesitar. Depois, a conversa recomeçou, e o resultado foi ter ficado decidido que, quando Harry nos convidasse a ir a Chough Towers, aceitaríamos o convite.

Bevil e eu jantámos em Chough Towers. Parecia estranho voltar a estar naquela casa, em particular porque ela se achava mobilada quase como quando o meu pai a arrendara. Havia mais alguns móveis, com certeza, e era evidente que Harry iria dar muitas festas.

Estava diferente do jovem que entrara na galeria à procura de Gwennan, e imaginei que a perda da namorada tivera grande influência na sua vida. Fizera-o crescer de repente e deixara de ser um rapaz despreocupado. Tinha a certeza de que amara Gwennan com sinceridade e queria ligar-se à antiga família dos Menfreys. Embora parecesse insignificante, senti nele um desejo ardente de vencer, que deve ter herdado do pai, o qual, de ascendência humilde, arranjara uma fortuna que o transformara em milionário.

Convidámo-lo a voltar a Menfreya, restabelecendo-se a relação entre as duas famílias. Parecia que Jessica tivera razão, porque o gesto foi acolhido com aprovação. Quando chegassem as eleições, embora por enquanto parecessem não estar iminentes, iria ser uma luta leal perante o eleitorado, e a maioria das pessoas (excepto Harry e alguns dos seus apoiantes) acreditava que Bevil iria decerto conservar o lugar.

Alguns dias após a visita de Harry a Menfreya, entrei na

biblioteca e vi Fanny à janela muito quieta, curvada por detrás

das cortinas, para não ser vista.

- Para onde estás a olhar, Fanny? - perguntei, dirigindo-me rapidamente para a janela.

- Nada... oh, nada - replicou, voltando-se logo.

Porém, eu vi-os: Bevil e Jessica. Benedict estava a brincar

um pouco afastado, mas era em Jessica e no meu marido que

a atenção de Fanny estava concentrada.

- Passa-se alguma coisa? - insisti.

- Espero que não, Miss Harriet - respondeu, com azedume.

Sabia com exactidão o que lhe ia no espírito e ela sabia o

que se passava no meu. Quis repreendê-la, demonstrar-lhe que

estava a ser palerma, mas, quando olhei para o seu rosto cheio

de amor, soube que, se eu sofresse, ela havia de sofrer comigo.

Encolhi os ombros e afastei-me.

 

Cerca de uma semana depois, ao descer para a sala de jantar, descobri com consternação que tanto Bevil como Jessica não se encontravam presentes.

Ocupámos os nossos lugares à mesa: Sir Endelion e Lady Menfrey, William Lister e eu, à espera, a todo o momento que o par desaparecido chegasse. O facto de permanecerem ambos ausentes provocou-me de imediato uma certa inquietação.

- O que é que os retém? - murmurou Lady Menfrey. Senhor Lister, faz alguma ideia?

- Absolutamente nenhuma - negou William. - Não vejo o senhor Menfrey desde as quatro horas da tarde.

- Espero que Benedict não esteja indisposto e que Jessica não ache que deve estar com ele.

- Vou lá acima ao quarto - anunciei, escapando-me sem mais delongas.

Percorri todo o caminho a correr e, quando abri a porta do quarto de Benedict, vi que estava na cama a dormir, num sono profundo.

Entrei na sala de estudo, atravessei-a até ao quarto de Jessica e bati à porta. Como ninguém respondesse, entrei. O quarto estava tão arrumado como sempre. Um medo súbito fez-me abrir as gavetas da cómoda. Com grande alívio, verifiquei que as suas coisas lá estavam, arrumadas. Abri a porta do roupeiro. Lá estavam os vestidos pendurados.

Nesse momento, enfrentei o facto de na realidade ter acreditado que ela e Bevil pudessem ter fugido juntos.

Voltei à sala de jantar.

- Benedict está a dormir, mas Jessica não está no quarto dele nem no dela.

Jantávamos às oito horas da noite, e já passavam dez minutos da hora. Pengelly andava por ali com as criadas, querendo saber se devia servir a refeição.

Lady Menfrey olhou várias vezes para Sir Endelion antes de dar uma ordem. Era um hábito que me irritava um tanto, porque achava que pelo menos ela poderia ter sido dona da sua própria casa, se se assumisse como tal.

Declarei, com certa severidade:

- Eles sabem que o jantar é às oito horas. Não vão pensar que vamos esperar. Vamos começar.

Pelo tom, pareceu que me preocupava mais com a comida do que com qualquer outra coisa, quando de facto pensava como iria conseguir comer.

Pengelly disse:

- Obrigada, minha senhora. - E trouxeram a sopa.

- É tão pouco habitual em Jessica - murmurou Lady Menfrey. - Por norma, é uma pessoa muito pontual. O pai sempre foi, lembro-me.

- E Bevil? - notou Sir Endelion. Havia especulação no seu olhar e parecia mais endiabrado que nunca. - Fazes alguma ideia, Harriet, minha querida, onde possa estar?

- Nenhuma. - repliquei. - A não ser que tenha sido chamado de repente a Lansella, mas, nesse caso, decerto que teria deixado recado.

- Para Lansella com Jessica Trelarken? Isso é muito pouco provável, penso eu. Porque, se ele tivesse levado alguém para Lansella, terias sido tu, minha querida.

- Devia ter pensado nisso.

 

- É com Jessica que estou admirada - declarou Lady Menfrey. - Espero bem que não tenha acontecido nenhum acidente. Oh, Pengelly, mande alguém aos estábulos e veja se falta algum dos cavalos. Lembro-me do acidente da pobre Gwennan. e de como o moço do doutor Trelarken nos veio avisar. Sim, vá já, Pengelly. Estou demasiado ansiosa.

Ainda estávamos a comer a sopa quando Pengelly voltou.

- Não falta nenhum dos cavalos, minha senhora. Sir Endelion recostou- se na cadeira a olhar para mim.

- É estranho - disse. - Os dois.

A refeição parecia interminável. Brinquei com o peixe no prato, ansiosa por que nenhum deles soubesse como me sentia preocupada. Notei o olhar de William Lister sobre mim. Ele sabia e era simpático e compreensivo. Acreditei que se sentia tão preocupado como eu.

- A menina Trelarken conhece muitas pessoas nas redondezas - sugeriu. - Pode ser que tenha ido visitar alguém e se tenha esquecido das horas.

- É isso mesmo! - exclamou Lady Menfrey, com ar triunfante, e começou a comer, tranquila. Agora, tinha algo a que se agarrar. Jessica fora visitar pessoas amigas e esquecera-se das horas e Bevil encontrava-se em Lansella a tratar de assuntos do Parlamento. Logo regressariam e tudo ficaria explicado. Queria paz em casa de uma forma tão desesperada que era capaz de fingir que ela existia quando tal não era verdade.

William Lister, ao ver que a acalmara, continuou:

- Tenho a certeza de que aconteceu alguma coisa nos escritórios de Lansella que exigiu a sua presença imediata.

- Não teria dito a alguém que se ia embora?

- Pode não ter tido tempo - opinou, pouco convincente.

- Claro - exclamou Lady Menfrey. - Foi isso mesmo. Não houve tempo.

O marido sorria para ela, zombeteiro. Supus que estivesse convencido de que se encontravam os dois juntos. E, se estivessem, perguntei-me a mim mesma, se tinham desaparecido de forma tão espalhafatosa, o que é que poderia significar?

Mas Bevil nunca deixaria Menfreya. Como poderia desistir de tudo? Não era um rapazinho romântico que fugisse por impulso, abandonando a mulher e a carreira. Havia outra explicação. Porém, estava a ficar com uma certeza cada vez maior de que se encontravam juntos em qualquer parte.

A refeição tivera um fim triste.

- Tenho receio - afirmou William Lister, olhando para mim quase com piedade - de que possa ter havido algum acidente.

- Oh não, não! - insistiu Lady Menfrey. - Jessica esqueceu-se das horas e Bevil foi chamado a Lansella.

Troquei um olhar com William. Não acreditávamos nisso. Fomos para a sala de estar, onde foi servido o café. Sentíamo-nos todos tensos e nervosos. Falávamos sem nexo, mas sempre com o ouvido à escuta dos ruídos da chegada de alguém e nenhum de nós prestava atenção ao que se dizia.

 

Era impossível manter o desaparecimento em segredo. Percebi que a notícia se espalhava com a velocidade e a eficácia do som dos tambores na selva. Os criados deviam estar a discutir as hipóteses do que teria acontecido para manter Bevil e Jessica fora logo ao mesmo tempo e a história espalhar-se-ia... até Menfreystow, continuando até Lansella, o que com certeza não seria bom para a reputação de Bevil. Era isso que eu não conseguia entender: como é que ele, que se preocupava tanto com a sua carreira, se tinha deixado apanhar em tal situação? Poderia acontecer que tivesse sido apanhado contra sua vontade? Ou ter-se-ia esquecido das horas?

De qualquer modo, se eles não voltassem dentro de pouco tempo, teríamos de fazer qualquer coisa.

Foi uma noite muito inquietante, e de repente ocorreu-me que estava só. Não podia confiar totalmente em Sir Endelion, pois, desde que trouxera Jessica cá para casa, estava a conhecer algo sobre o seu carácter. Tinha sido leviano durante a juventude e eu imaginava a sua passagem pela vida a tentar o destino. Ele queria que acontecesse alguma coisa... e preferia arriscar um desastre do que sofrer com o tédio. Compreendia este sentimento, mas sabia que não podia confiar nele. E Lady Menfrey? Pensei na sua ternura para comigo na altura da morte de Jenny. Mas, nessa altura, actuara de acordo com o consentimento da família. Era pessoa demasiado preocupada em procurar a paz, para servir de apoio em caso de problemas.

William Lister encontrava-se a meu lado: o seu rosto estava franzido com ansiedade.

- Sei o que está a sentir - murmurou.

- Deve ter havido um acidente - declarei. - Temos de

fazer alguma coisa.

- Sim - concordou. - E depressa.

- O quê? - perguntei.

- Vou até Lansella ver se ele lá está. Pode muito bem ter-se atrasado a tratar de algum assunto e poderia ter-se extraviado a mensagem que nos mandou.

- Devem estar os dois juntos - salientei.

Concordou, de semblante triste, com um sinal de cabeça.

- Um acidente que envolvesse os dois - prossegui. Poderia ter sido se tivessem ido os dois andar a cavalo. mas

os cavalos estão todos nos estábulos. O que poderá ser?

- Seria melhor tomar algumas medidas. O motivo por que eu quis esperar foi...

- Eu sei. Estava à espera de que aparecessem e não queria que um assunto como este fosse comentado.

- Tenho a certeza de que seria esse o desejo do senhor Menfrey. Mas penso que agora chegou a altura de tomar medidas. Vou para Lansella desde já. Penso que será mais rápido e dará menos nas vistas se for a cavalo. Posso saber se esteve

nos escritórios e inteirar-me se o agente sabe alguma coisa.

Se não conseguir resultados satisfatórios lá, então teremos de comunicar à polícia. - Comecei a tremer. Ele inclinou-se para mim e, com suavidade e timidez, pegou-me na mão. – Sabe que farei tudo o que for possível... por si.

- Obrigada, William - murmurei, ficando convencida de que havia alguém em quem podia confiar. Assim, William partiu para Lansella e eu fiquei à espera, tensa e ansiosa, do que iria acontecer a seguir. Sentámo-nos na sala de estar vermelha (uma reunião desanimada) e passara quase uma hora desde que William partira quando ouvi a voz de Bevil. Corremos todos para a janela, mas vimos muito pouco, porque não havia luar, embora o céu estivesse limpo e coberto de estrelas. - Voltou! - exclamei e saí da sala a correr, ao longo do corredor até ao cimo das escadas. Vi-o de pé, à entrada, e Jessica a seu lado. - Bevil! - exclamei. Descobri que fiquei tão contente por o ver que não consegui ocultar a alegria da

minha voz.

- Harriet! - respondeu-me. - Aconteceu a coisa mais disparatada.

Enquanto descia a escada, coxeava muito. Jessica observava-me. Vinha pálida, com o cabelo solto e desalinhado, e ligeiramente húmido também, mas isso não diminuía a sua beleza. Os olhos pareciam maiores e mais brilhantes, e eu lembrei-me de que ela, pelo menos, se tinha divertido com a aventura.

- O que é que aconteceu? - perguntei.

- Jessica segurava qualquer coisa. Não descobri do que se tratava. - Ela explicou:

- Fomos buscar isto e depois. descobrimos que ficámos lá presos.

- Presos?

- É tudo muito simples - declarou Bevil. - Oh, olá, mãe. Olá, pai. - Sir Endelion e Lady Menfrey tinham aparecido ao cimo das escadas. - Fomos buscar aquilo e a seguir o malvado do barco desapareceu.

- Desapareceu! - Eu repetia as palavras significativas num tom inquiridor, um hábito sempre irritante, achava, nas outras pessoas. Não o consegui evitar. Estava assustada.

- É muitíssimo simples - explicou Bevil. - Benedict e Jessica estiveram esta manhã na ilha e deixaram lá o ursinho de estimação de Benedict. Ele não queria ir dormir até Jessica lhe prometer que lho iria buscar. Pediu-me que a levasse de barco.

Eu queria saber: "Porque te pediu a ti? Porque não foi sozinha? " Mas não o fiz. Não era capaz de trair os meus sentimentos em frente de todos eles.

- Logo - prosseguiu Jessica -, fê-lo por simpatia, e, quando encontrámos o urso e viemos para a praia, o barco desaparecera.

- Para onde? - perguntou Sir Endelion, com um tom de voz alegre, como se se estivesse a divertir com a aventura, ouvindo-a contar.

- Era isso que eu gostaria de saber - interpôs Bevil, numa tentativa de se mostrar furioso.

- Não o devem ter amarrado com muita segurança - troçou Sir Endelion.

- Tenho a certeza que sim.

- Então, o barco perdeu-se, hem?

- Não. A'Lee trouxe-o. Viu-o ser arrastado pela corrente em direcção ao mar - precisou - e trazia-o para a costa de Menfreya quando passou pela ilha e lhe gritámos. Acabou por nos trazer de volta.

- Oh, meu Deus - suspirou Lady Menfrey. – Perderam o jantar e devem estar esfomeados. Vou ordenar-lhes que vos arranjem alguma coisa já.

Eu sentia dúvidas, a tempestade a aproximar-se e queria estar longe.

Sir Endelion comentou:

- Bem, não são os primeiros a serem abandonados numa ilha. Foi sempre um dos teus lugares preferidos.

Nesse momento, lembrei-me de mim agachada debaixo de um lençol e Bevil chegar lá com uma das raparigas da aldeia.

Desta vez, eu não estava lá para evitar o auge da aventura.

"O que é que", perguntei-me a mim mesma, "aconteceu desta vez na casa da ilha? "

Bevil olhava para mim e eu estava decidida a não me trair.

- Bem - disse eu, em tom frio -, regressaram.

Lancei um olhar de relance para o rosto de Jessica enquanto

caminhava para as escadas. Sorria ao de leve. Arrependida?

Em tom de desafio? Não podia dizer.

Eram onze e trinta da noite quando Bevil subiu. Estivera fechado com William, que regressara de Lansella e, tinha a certeza, se sentia profundamente arrependido de lá ter ido, porque a sua viagem só espalhara a história.

Olhou para mim com frieza, e eu sabia bem que era um hábito seu quando estava perturbado, para fingir indiferença.

- Ainda estás a pé? - inquiriu, sem necessidade.

- Mas pronta para ir para a cama - desforrei-me. Envolta pela camisa de dormir e em pensamentos.

- O que é que se passa?

Senti aquela mordacidade na fala, que criara como uma arma nos meus tempos antigos, começando a tomar o comando.

- Não tenho a certeza.

- Que queres dizer?

- Isso quero eu que me digas. Aquilo que aconteceu exactamente.

Parecia impaciente. "Outro sinal de culpa? ", perguntei-me a mim mesma.

- Ouviste o que aconteceu. Fomos procurar o brinquedo, e o barco desapareceu.

- Então prendeste-o mal?

- Suponho que sim.

- De propósito?

- Agora escuta, Harriet...

- Penso que tenho o direito de saber a verdade.

- Tu sabes a verdade.

- Tens a certeza?

- Não estou a ser julgado. Se resolveres não acreditar em mim, não posso fazer nada contra isso.

- Teremos de fazer algo contra isso. Vai haver mexericos. Talvez já haja.

- Bisbilhotices. Deverias ter pensado que tinhas mais que fazer do que te preocupares com isso.

- Isso mostra como nos conhecemos pouco um ao outro, porque eu deveria ter pensado que tu terias mais que fazer do que seres assunto de bisbilhotice.

- Não pude evitar o que aconteceu esta noite.

- Bevil, é disso que eu quero ter a certeza.

- Claro que podes tê-la. Meu Deus, o que é que estás a insinuar?

- Ela é uma mulher muito bonita.

- E tu és uma mulher extremamente ciumenta.

- E vai haver muita gente curiosa quando isto for comentado no eleitorado.

- Gostava que não tentasses ser esperta, Harriet.

- Não estou a tentar.

- Bem, vamos partir do princípio que o és, sem esforço. Que estupidez a atitude de Lister.

- Tínhamos de fazer alguma coisa. Concordei com ele que deveria ir a Lansella. A culpa foi minha. Não fazíamos ideia alguma do que te pudesse ter acontecido, Bevil. - A minha voz tornara-se apaixonada, quase suplicante. Estava perfeitamente consciente, enquanto discutia com ele, de quanto o amava, de quanto precisava dele e tinha receio, porque precisava muito mais dele do que ele de mim. - Vais ter de ter muito cuidado com a tua relação com Jessica.

- A minha relação? Que queres dizer? Ela é preceptora do Benedict.

- As preceptoras figuraram com tanta frequência como heroínas de romances que se estão a torná-lo na vida normal, e, quando são, além de preceptoras, muito bonitas e o dono da casa não consegue esconder o seu interesse. quando desaparece horas com elas, embora de forma inocente, e se lança um grito de protesto, aí tens uma situação explosiva. Se o dono da casa é um proprietário, um rei dentro do seu reino, pode proceder como for seu desejo, mas se é membro do Parlamento, defensor da moral pública, uma figura irrepreensível, está a sentar-se num barril de pólvora.

- Mas que discurso! - comentou e começou a rir-se. Tens jeito para isso, Harriet. Porém, muitas vezes imagino que deixas o teu amor pelas palavras afastar o teu bom senso. Deixemos que isso seja um discurso?

- Se é esse o teu desejo.

- Mais uma coisa. O que te contei sobre o incidente de hoje à noite é verdade. Acreditas em mim?

Olhei-o nos olhos.

- Agora acredito, Bevil.

Puxou-me para ele e beijou-me, mas sem a paixão que eu desejava. Era mais um beijo para selar um acordo do que para manifestar afecto.

Queria dizer: "Quando estou contigo, acredito. Talvez eu seja como a tua mãe. Acredito no que quero acreditar. Mas quando o ciúme voltar a surgir, trará de novo as dúvidas. "

Na manhã seguinte, dormi até tarde e quando acordei Bevil tinha saído. Fanny trouxe-me o pequeno-almoço num tabuleiro. Pousou-o e ficou aos pés da cama a olhar para mim. Claro que devia saber de tudo sobre a aventura da noite anterior.

- Parece exausta - disse, como se estivesse irritada comigo, como costumava ficar quando eu apanhava uma constipação em criança. - Suponho que ficou preocupada com as ausências da noite passada.

- Agora, já passou tudo, Fanny.

Torceu o nariz, desconfiada.

- Aqui tem! - Trouxera um casaco de dormir e colocou-mo à volta dos ombros. Vi o seu olhar perspicaz examinando-me à procura de nódoas negras. Fanny nunca esqueceria nada que não quisesse esquecer. Deitou o café na chávena e afirmou: - Já está! -, como costumava fazer quando eu era criança. Bebi o café, mas não fui capaz de comer com satisfação. Continuava a lembrar-me daquele momento em que parara ao cimo das escadas e vira Bevil e Jessica juntos, e as palavras que Bevil e eu trocáramos um com o outro mais tarde, neste quarto, ainda soavam nos meus ouvidos. Fanny palrou por momentos e avisou-me: - Não sei, tenho a certeza. Tudo o que posso dizer é que não podemos confiar neles. Estamos muito melhor sem eles.

- Quem, Fanny?

- Os homens.

- Não estás a falar a sério.

- Oh sim, estou.

- Se Billy estivesse vivo. - Eu não falava muitas vezes de Billy. Por norma, esperava que ela mencionasse o assunto.

- Billy - atalhou - era como os outros, suponho. Billy não era para mim como eu era para ele.

- Mas ele amava-te, Fanny. Sempre mo disseste.

- Tinha uma amante. Trocou-me por ela. É assim que os homens são. Não amam como nós amamos.

- Fanny!

- Nunca lho revelei, pois não? Não, eu não era o único amor verdadeiro de Billy. Ele tinha estoutro amor. e pode-se dizer que me abandonou por ela. - Fiquei admirada. Nunca a ouvira falar assim antes. O seu olhar era estranho e parecia examinar o passado para além deste quarto. Falava sozinha. - Havia a menina... e ele deu-me isso. mas perdi o meu bebé. esse bebé. e depois encontrei o meu outro bebé. - Tirei a mão para fora e ela pegou-lhe. O contacto pareceu tirá-la do transe. - Não se atormente - sossegou-me. - Não deixarei que lhe acon teça nada de mal. Nunca irei deixá-la, menina. Logo, não pense nisso.

Sorri para ela.

- Não pensarei nisso, Fanny - prometi.

- Então, tudo bem. Coma esse ovo e acabaram-se os disparates.

Obedeci, sorrindo. Pensava que estava sozinha, mas estava lá sempre a Fanny.

Sentia-me muito ansiosa por esconder o medo, pelo que pedi a Jessica que no dia seguinte fosse andar comigo a cavalo,

e fomos juntas para Lansella. As pessoas lançavam-nos olhares curiosos, mas eu tinha a certeza de que o facto de sermos vistas juntas seria a melhor forma de afastar as suspeitas. Jessica comportava-se como se nada tivesse acontecido, mas eu permanecia muito insegura em relação a ela. Havia momentos em que pensava que ela se divertia em segredo com a minha ansiedade em fazer com que as pessoas acreditassem que éramos as melhores amigas.

Prometi-lhe que no dia seguinte iria tomar chá com ela e com Benedict e quando cheguei encontrei Benedict sozinho de

pé em cima de uma cadeira.

- Sou um macaco - afirmou-me. - Os macacos trepam, sabias? - Eu disse- lhe que sim. - Serei um elefante, se quiseres. Eles têm trombas e andam assim. - Desceu, pôs as mãos no chão e começou a arrastar-se. - Gostavas que fosse

um leão? - perguntou.

Respondi que preferia que fosse ele próprio por uns tempos, o que o divertiu.

Jessica chegou e de imediato me apercebi do seu afecto por ela e fiquei envergonhada com os ciúmes que surgiam dentro de mim. Deveria ter ficado contente por termos uma boa preceptora para ele. Jessica mostrara-se certamente competente nas suas funções e o facto de ter conquistado o seu afecto era um crédito a seu favor. Pensei: "Mas ela está a usurpar o meu lugar. em toda a parte. por toda a casa. "

A seguir senti-me envergonhada e assegurei desde logo que Benedict estava com muito bom aspecto e que lhe estávamos todos muito gratos por cuidar dele.

- É a minha profissão - replicou. - Mas nunca pensei que viesse a ser preceptora do filho de Gwennan naquele dia em que a levaram lá a casa.

- Coitada da Gwennan. O Benedict é tão parecido com ela. Vejo-a nele todas as vezes que olho para ele.

Tinha-me sentado e Benedict veio pôr as mãos nos meus joelhos e olhou para o meu rosto.

- Com quem é que ele é parecido? - perguntou.

- Era parecido com um elefante ainda agora e neste momento é parecido com ele.

Isso fê-lo rir.

Jessica fez o chá numa chaleira castanha de cerâmica.

- Sabe sempre muito melhor nestas chaleiras castanhas antigas - esclarecia, em tom suave, enquanto servia. - É por nos lembrarmos sempre delas desde a nossa infância?

Falou sobre os tempos de criança em sua casa, quando a mãe era viva. Era filha única e deve ter sido bonita desde o dia em que nasceu. Eram loucos por ela. Como fora diferente a sua infância da minha!

- Costumava sentar-me num banco alto no dispensário contou-me - a ver o pai a preparar os medicamentos, o qual tinha por hábito dizer: "Este é para a gripe", ou "A úlcera veio hoje ver- me. " Pensava em todos os seus doentes conforme a doença que tinham. A mãe costumava afirmar que não seria bom para mim ouvir falar tanto de doenças, mas o pai replicava que era bom para a filha de um médico.

Estava a ser amável. Talvez, pensei, se sentisse tão ansiosa por me sossegar como eu por tranquilizar a sociedade.

- Põe açúcar? - indagou.

Concordei com um sinal de cabeça.

- Sim, por favor. Tenho uma boca bastante doce. Benedict olhava com atenção para mim.

- Mostra-me! - exclamou. - Mostra-me a boca doce. Elucidei-o que isso significava que gostava de bastante açúcar no chá, e ele ficou pensativo.

- Se tivesse sido possível - continuou Jessica -, teria gostado de ser médica.

- Uma profissão nobre - concordei.

- Ter o poder. até certo ponto. sobre a vida e a morte. Os seus olhos brilhavam. Fiquei chocada pela forma como o exprimiu. Poder?

Os meus pensamentos desviaram-se de imediato, porque Benedict pegara numa colher e, antes de repararmos no que estava a fazer, pôs uma colher cheia de açúcar no meu chá.

- Isso é para a tua boca doce - gritou.

Rimo-nos todos. Foi um chá bastante agradável.

Estávamos ao jantar a discutir o baile que iríamos dar em Menfreya. Um baile de máscaras, participámos a Harry Leveret quando viera com a mãe jogar whist na noite anterior. Os Leverets vinham visitar-nos com frequência desde a reconciliação, e com William e Jessica conseguíamos formar duas mesas.

- Lembro-me sempre - comunicara Harry - do baile de máscaras que o seu pai deu em Chough Towers.

Lembrava-me com todos os pormenores. Tinha usado o vestido que de certa forma fora muito importante na minha vida, porque marcara um ponto de viragem. Nessa noite compreendi que poderia ser atraente, dado que o vestido fizera realçar o meu estilo um tanto medieval e desde então acentuava esses traços.

O vestido ainda estava pendurado no meu quarto. Olhava para ele muitas vezes e ansiava por uma oportunidade de o vestir, embora pusesse a fita de vez em quando.

Portanto, sentia-me encantada perante a perspectiva de ter oportunidade de o voltar a usar, mas sabia que não o faria sem fazer surgir recordações dolorosas de Gwennan comigo na galeria, da nossa descida furtiva, duas rapariguinhas à beira

da aventura. Imaginei que Harry também se lembraria.

- Recordo-me das festas de meu pai. - Sorri ao pensar na casa de Londres e no aparato cuidado. Imaginava uma criança debruçada no corrimão, escutando e ouvindo coisas nada agradáveis a seu respeito.

- Recordações? - perguntou Bevil, com ternura.

Esforçava-se bastante, desde a aventura da ilha, para mostrar que me tratava com carinho, e eu começava a sentir-me mais feliz. Se ao menos Jessica não estivesse cá, pensava, creio que poderia sentir-me completamente feliz.

Mas ali estava ela sentada, a sorrir com serenidade, a ouvir com muita atenção, e a forma aberta e natural como a conversa se desenrolava mostrava de forma clara que ela fora aceite como um membro da familia.

- As roupas são sempre um problema nestas ocasiõesfez notar William. - Mas conheço uma firma excelente que as fornece. - Sorriu-me. - Usava-as no tempo de

seu pai.

- Tenho o meu fato - repliquei, de pronto. - Usei-o numa das festas do meu pai.

Jessica inclinou-se um pouco para a frente.

- Fale-me a respeito dele. O que representa?

- É apenas um vestido que representa uma época. Na realidade, deve ter pertencido a alguém da família Menfrey, porque existe um retrato dela com ele vestido... bem, se não é o vestido autêntico, é um tão parecido que não consigo estabelecer a diferença.

- Que excitante! Espero que mo mostre.

- Com certeza.

- Suponho - prosseguiu William - que seria melhor pensar em alugar alguns fatos. Tem de me dizer do que gostaria.

- Penso que vou tentar eu mesma fazer o meu - afirmou Jessica. Depois, olhou, um tanto admirada, mas, mesmo nesse momento, senti que não estava de todo segura de si mesma. - Isto é... se for convidada.

- Mas com certeza que será - exclamou Sir Endelion. Sorriu, com um ar de quem pede desculpa.

- Afinal de contas, sou só a preceptora.

- Ora, vá lá, vá lá, minha querida. - Sir Endelion lançava-lhe um olhar lascivo. - Deve pensar apenas que é uma amiga da família.

- Muito bem, então - prosseguiu Jessica -, como a senhora Menfrey está a tratar do seu fato, farei o mesmo.

Tirei o vestido para fora e pu-lo à minha frente. Tinha a certeza de que os meus olhos pareciam mais brilhantes e que a minha pele adquiria uma outra frescura. Deixei cair o vestido no chão ao pôr a fita com as jóias. A seguir, voltei a pegar no vestido.

Mesmo ao sorrir para mim, sentia a dor da memória. Nunca poderia esquecer Gwennan.

"Gwennan", murmurei para a minha imagem reflectida no espelho, "se ao menos não tivesses fugido, se tivesses vivido, casado com Harry, ido para Chough Towers e vivesses lá com os teus filhos, teria sido maravilhoso. Terias sido minha irmã e Jessica Trelarken não estaria aqui a cuidar do teu filho. "

Porém, a vida tinha de ser aceite como era.

Nesse momento senti um desejo enorme de voltar a ver o quarto circular que se dizia estar assombrado pela preceptora infeliz e de olhar uma vez mais para a mulher que usara um vestido tão parecido com o meu que poderia ter sido o mesmo.

Andava com vontade de falar com Bevil sobre a casa, porque achava mal ter tanto espaço que nunca era utilizado. Deveríamos acabar com aqueles quartos antigos e renová-los, para que pudéssemos dar festas, encher a casa de alegria, como Harry estava a fazer em Chough Towers.

Uns dias mais tarde, arranjei tempo para ir ver o retrato da mulher com o meu vestido. Enquanto me dirigia para a ala desabitada, convencia- me a mim mesma de que não era uma pessoa nervosa e que até tinha tendência para ser céptica em relação ao sobrenatural, mas, quando abri a porta e entrei na ala, não me sentia tão segura. Talvez fosse o ranger de protesto feito pela porta que me pôs os nervos em franja. Esquecera- me desse pormenor e assustou-me quando o silêncio se quebrou. Ri-me de mim mesma e avancei pelo corredor por onde, em tempos, Gwennan me levara. Estava escuro porque só havia uma janela muito em cima na parede, e que estava a precisar de ser limpa. Era ridículo. Esta zona da casa deveria ser cuidada. Podia imaginar Sir Endelion a encolher os ombros e sem querer entrar em despesas para abrir a ala e Lady Menfrey, claro, a concordar com ele.

Dei um salto para trás. Era como se uma mão pegajosa me tivesse tocado no rosto. Gritei contra minha vontade e a minha voz ecoou atrás de mim. Nesse instante, senti um arrepio gelado percorrer-me o corpo.

A seguir, pus a mão no rosto e compreendi que tinha, como numa outra ocasião, tocado numa teia de aranha.

Esfreguei a cara, para a limpar o melhor que pude, e tentei rir-me da minha parvoíce, mas sabia que os meus nervos estavam tensos e não fui capaz de evitar olhar por cima do ombro.

Quis voltar para trás, mas sabia que, se o fizesse, acabaria por me desprezar; por isso, avancei e cheguei à porta que substituíra o painel deslizante. Uma vez mais se ouviu o ranger de protesto quando entrei na cavidade circular do torreão.

 

Um fraco veio de luz rompia pela abertura naquelas muralhas maciças. Lá estava o espelho comprido, manchado, o baú, e era tudo.

Suspendi a respiração num pequeno soluço, porque a porta girara nas dobradiças e voltei a ouvir aquele ruído que parecia um gemido.

Poderia ser verdade, perguntei a mim mesma, que uma mulher tivesse vivido aqui, e o resto da casa não desse por isso? Imaginei o amante dela parecido com Sir Endelion. Não, deveria ter sido jovem e parecer-se mais com Bevil. Imaginei-o a entrar aqui, em silêncio, para a ver.

Toquei nas paredes, eram muito frias. Tinha tido pouco conforto aqui. Mas o que lhe teria acontecido se tivesse sido expulsa da casa pela dona, a mulher com o meu vestido, e não tivesse para onde ir? Qualquer abrigo era melhor do que nada e além disso tinha o apoio do amante.

Atravessei o quarto circular, passei pela abertura estreita e subi o lanço de escadas estreito, em caracol, até ao parapeito que circundava o torreão. O ar parecia tão forte depois da prisão do quarto circular que me senti intoxicada. Fiquei ali a respirar profundamente. Lá longe, muito abaixo do sítio onde me encontrava, o mar movia-se alegremente em turbilhão de encontro aos rochedos, lançando para o ar pequenos salpicos de espuma branca. Conseguia ver apenas as pontas dos rochedos "espiões" e traiçoeiros e... a ilha.

Depois, fiquei atenta. Era o som de passos nas escadas de pedra. Estava enganada. Naturalmente as pessoas tornam-se um tanto fantasiosas num lugar com uma lenda como esta. Não. Lá estava outra vez. Então, será verdade, perguntei-me a mim mesma, que a preceptora que aqui morreu não consegue descansar em paz e regressou ao cenário dos seus últimos dias sobre a Terra?

Tentei rir-me de mim mesma, mas senti-me presa numa armadilha, confinada entre a escada de pedra que dava para o quarto assombrado, por um lado, e, por outro, o declive a pique, em direcção ao mar.

Os segundos pareceram minutos. Voltei-me e, agarrando-me ao parapeito, conservei o olhar na abertura estreita. Ouvi o som de uma respiração profunda, havia uma sombra na abertura... e a preceptora olhava para mim. Por momentos, convenci-me de que estava a ver um fantasma e depois suspendi a respiração, porque não era a preceptora de há muitos anos que viera perseguir-me, mas a dos dias de hoje, que me seguira até aqui.

- Jessica! - exclamei.

Riu-se.

- Creio que a assustei. Desculpe. Na realidade, vi a porta para a ala aberta e não fui capaz de resistir a fazer uma exploração. Nunca tinha estado nesta parte da casa antes.

Tinha deixado a porta aberta? Creio que não.

- Precisa de obras e muitos cuidados - disse, tentando fazer com que a minha voz parecesse banal.

Chegou e ficou ali a meu lado, no parapeito, com os seus olhos ao nível dos meus.

- É verdade - perguntou - que esta parte da casa é assombrada?

- Tenho a certeza de que não acredita nesse género de disparates.

- Sou natural da Cornualha e sabe como nós somos. Isso é bom para os prosaicos como os Ingleses...

 

- Sim - falei em tom frio -, sei que são uma raça supersticiosa, mas teria pensado que você possuía demasiado bom senso para acreditar nestas histórias.

- À luz do dia sou céptica, mas nem sempre quando surge a escuridão... ou quando me encontro num lugar como este. Essa história era sobre uma preceptora, não era?

- Assim conta a lenda.

Riu-se.

- Naturalmente que me interesso por uma preceptora de Menfreya. Conte-me o resto.

- Ela ficou grávida, escondeu-se aqui, teve a criança e morreu. Ninguém sabia que ela estava aqui, a não ser o amante, e ele tinha ido para fora. Quando voltou, descobriu-a a ela e à criança mortas.

- Mas que proeza, manter alguém escondido aqui em casa onde a familia vivia.

- Parece que o quarto foi selado nessa altura.

- Quase que está. agora.

Ficámos em silêncio, tive consciência do nosso isolamento. Pude bem imaginar a solidão da preceptora de outros tempos e o terror que sentiu quando soube que a criança estava prestes a nascer. Tremi.

- Imagino o que aconteceu na realidade - afirmou Jessica, tranquila. - Acha que a mulher a assassinou?

- Assassinou-a! Mas a história não é assim.

- Poderia não ser. Mas acha que ela sabia? Deve ter visto o que se passava entre o marido e a preceptora. Quero dizer... uma mulher não saberia?

Repeti com alguma estupidez:

- Mas a história não é assim.

Deu uma risada. De repente uma gaivota desceu, veloz, em direcção ao mar e o seu grito melancólico parecia um riso escarninho.

Jessica colocou a mão no meu braço.

- Sei que a mulher sabia. Penso que veio até aqui e assassinou-a depois de a criança nascer. Assassinou os dois. Não teria sido difícil nessa época fazer com que parecesse que morrera de parto. Imagine os sentimentos da mulher! O marido apaixonado por outra mulher! Ter-se-ia sentido assassina, não teria?

Seria imaginação minha ou estava mais perto de mim do que era necessário? Seria um objectivo sinistro o que li naqueles olhos insondáveis?

À medida que me agarrava com maior firmeza e se inclinava para mim, um medo desvairado apoderou-se de mim, e libertei-me à força de uma forma tão violenta que ela bateu contra a muralha da torre. Vi-a tentar manter-se firme, o rosto perdendo todas as cores. Segurei-a enquanto deslizava pelo chão, impedindo a sua queda.

- Jessica! - exclamei. - O que se passa? - Os olhos estavam fechados, as pestanas longas e escuras fazendo contraste com a pele descorada. Tinha desmaiado. Amparei-a contra a muralha e obriguei-a a baixar a cabeça. Pensei se deveria deixá-la e ir a correr pedir ajuda, quando abriu os olhos. Parecia aturdida. - Desmaiou - anunciei-lhe.

- Desmaiei? - repetiu. - Oh... eu... já estou bem. Está a passar.

 

Ajoelhei-me a seu lado.

- O que é que aconteceu? - perguntei.

- Não foi nada. só um desmaio. É da altura. nunca fui capaz de suportar alturas. Transtornam-me de repente.

- Devo chamar alguém?

- Oh, por favor, não. Estou bem. Estou a melhorar a cada minuto. Não foi nada. Só uma indisposição momentânea. Na verdade, quase recuperei.

- Desmaia muitas vezes?

- Oh... as pessoas desmaiam de vez em quando. Desculpe ter acontecido.

- Deixe-me levá-la para o seu quarto.

- Obrigada. - Estava um tanto insegura, mas agora já se parecia mais consigo própria. Voltou-se e riu-se para mim. Por favor, não faça barulho sobre isto. Não foi nada. Só uma pequena tontura. Vai esquecer o que aconteceu e não se referir a isso?

- Se é isso que quer.

- Obrigada. - Voltámos ao quarto circular. Quando saímos, solicitou: - Gostava de ver o retrato dessa Lady Menfrey de quem falou.

- Agora? Não seria melhor ir para o seu quarto descansar?

- A tontura passou. Na realidade, era o retrato que eu queria ver.

- É por aqui.

Levei-a à sala onde estava pendurado o retrato. Olhou para ele e depois para mim.

- As feições não são bem como as suas - referiu -, mas posso imaginar que, com um vestido como aquele, poderia pertencer a essa época.

- Não o poderíamos todos nós, com roupas dessa época?

- Será isso, sem dúvida, que iremos descobrir no baile quando virmos os convidados com os seus fatos. Então, ela era a Lady Menfrey na altura em que a preceptora morreu. Continuo a insinuar que a assassinou.

- Acha que ela parece uma assassina?

- Será que os assassinos têm aspecto de o ser? Penso que não. As pessoas mais inesperadas cometem assassínio. É por este motivo que se cometem assassínios. Se as pessoas o parecessem, as vítimas estariam vigilantes e o assassínio seria evitado. Não. Ela sabia que a preceptora ia ter um filho do marido. Imagine os seus sentimentos. Como se sentiria você? Deviam odiar-se uma à outra, a mulher e a preceptora. É legítimo supor que uma pudesse tentar assassinar a outra.

- Não acredito nisso - contrariei-a.

Sorriu, muito tranquila, uma vez mais, como se aquele incidente na torre não se tivesse passado.

- Resulta uma história melhor - murmurou.

 

A entrada de Menfreya é a parte mais magnífica da casa. O tecto abobadado com os barrotes de madeira talhada; a escada antiga, muito bonita, com a armadura, que se diz ter sido usada por um Menfrey que percorreu a França com Henrique VIII; a galeria com os retratos; as armas nas paredes; o estrado, onde se sentavam agora os músicos. Era bonito de se ver, principalmente porque as estufas tinham sido desnudadas, para se encherem vasos com as flores mais exóticas, enquanto as nossas hidrângeas naturais cor-de- rosa, azul, cor de malva, branco, de muitas outras cores, em baldes enormes forrados de veludo cor de púrpura, haviam sido colocadas aqui e acolá pela sala. As escadarias estavam decoradas com folhas, que me fizeram lembrar as festas que o meu pai costumava dar.

Fanny ajudou-me a vestir. Como se conservava em silêncio, pensei se não saberia alguma coisa que me estivesse a esconder, com receio de me magoar.

No entanto, quando olhei para a minha imagem reflectida no espelho, com a cor de topázio do vestido a fazer realçar algo nos meus olhos e a fita com as jóias a- fazer o mesmo ao meu cabelo, senti-me invulnerável.

- Vou escovar-lhe o cabelo, para o fazer brilhar - disse Fanny. - Temos muito tempo. - Por isso, tirou a fita, arrumou-a no toucador e, colocando-me um pano branco à volta dos ombros, escovou-me o cabelo. - Está feliz esta noite - referiu. Os olhos dela encontraram-se com os meus ao espelho. Parecia uma profetisa ali parada, com a escova levantada na mão, os olhos intensos. - Rezo para que se mantenha assim - acrescentou.

- Não te demores, Fanny - pedi. - Não te esqueças de que esta noite sou a anfitriã. Tenho de verificar se está tudo em ordem.

Os convidados não seriam anunciados como num baile normal. Seriam acompanhados por Pengelly e pelos outros criados, todos magnificamente vestidos com casacos de cetim azul, com alamares prateados, calções brancos pelo joelho e cabeleiras empoadas, e depois, mascarados, misturavam-se, reunindo-se para a ceia e tirando a máscara a seguir. Tínhamo-nos decidido por um baile de máscaras, por serem sempre muito mais excitantes, pensávamos. O ar de mistério que davam aos preparativos aliava-se à alegria e estávamos convencidos de que as pessoas se divertiam por detrás da anonimidade e aumentava o gosto de tentar adivinhar quem era o par de cada um.

Os Menfreys circulariam por entre as pessoas de modo a que ninguém soubesse que nós próprios não éramos convidados até ao momento de tirar a máscara, em que receberíamos os seus agradecimentos e felicitações.

Deveria estar atenta a um homem com uma toga romana. Porém, eu reconheceria Bevil em qualquer parte. Tinham sido entregues duas togas romanas, havia-me dito William, com espanto e pensara em devolver uma delas. Encomendara um traje persa para ele e um romano para Bevil.

- Já não há tempo para fazer o que quer que seja em relação a isso - disse-lhe. - Não hão-de estar só dois romanos em Menfreya. Pode ter a certeza de que estarão outros.

Concordou.

Sir Endelion era um cardeal, se Wolsey, Mazarino ou Richelieu, não tinha a certeza, mas poderia ter passado por qualquer deles. Lady Menfrey, por ironia, era Catarina de Aragão.

Pensei na transformação de Sir Endelion. Mas seria uma transformação? O espírito travesso não estivera sempre presente, à espera de aparecer em cena? Talvez eu tivesse muito que aprender com aqueles que me rodeavam.

Tremi.

- Teve um arrepio?

- É mais provável que seja uma corrente de ar daquela janela.

Fanny atravessou o quarto e fechou-a.

- O seu cabelo está a brilhar. Costumava gostar de o ver com esse aspecto... Agora, onde está essa coisa?

- Coisa é falta de respeito, Fanny. É uma fita ou uma renda.

- Bem, Deus me valha, de qualquer modo, é uma coisa bonita. Não sei. Fica-lhe bem. Seja como for, parece diferente... quando ponho isto.

- Como. diferente, Fanny?

- Não sei. como se não pertencesse aqui. mas a outro sítio qualquer.

- Que queres dizer?

- Não me pergunte. Veio-me apenas à cabeça. - O seu rosto enrugou-se de repente e pensei que ia chorar.

- Fanny - exclamei. - Que se passa?

De repente tirou o avental por cima da cabeça e sentou-se. Aproximei-me dela e pus-lhe o braço à volta dos ombros.

- Sou uma estúpida, sou. É que só queria vê-la feliz...

- E sou, Fanny, sou, asseguro-te.

Olhou para mim com tristeza e lembrei-me de como costumava olhar para mim no passado e resmungar:

- Não consegue enganar a Fanny.

Reconheci logo Jessica. Era a única naquela assembleia de gente que estava vestida de forma simples e fora esperta, porque era a única que, por consequência, atraía todas as atenções. Ela mesma fizera o vestido. Quase puritano na sua sim plicidade, era de seda cor de alfazema. A saia caía-lhe até aos pés e o corpete pretendia transmitir afectação, mas nela teve o efeito contrário, acentuando a sua figura perfeita. O cabelo preto fora puxado de cada lado do rosto e preso simplesmente na nuca. Viera como preceptora de outra época. Fiquei com a respiração suspensa quando a vi.

- Vejo que me reconheceu, apesar da máscara - declarou. - O que acha do meu fato?

- É tão...

- Simples? Pretende ser o de uma preceptora, como vê.

- É encantador. O que é que a fez decidir-se por ele?

- Você veio vestida como uma senhora da casa de antigamente, que é aquilo que é. Porque não haveria eu de vir como aquilo que sou? Foi fácil de fazer e pensei que mais ninguém viria assim. A ideia surgiu-me quando estivemos a conversar no outro dia naquela zona estranha da casa.

- Compreendo.

- Acha que aquela preceptora tinha este aspecto? - perguntou. - Penso que devia ter. Procurei os fatos. E este pertence mais ou menos ao período dela. Pergunto-me se alguém vai reparar nele.

- Dificilmente eu pensaria nisso.

- Será bastante divertido se eles pensarem.

Afastei-me dela e, ao atravessar a entrada, juntei-me a uma toga romana e por momentos pensei que se tratava de Bevil.

- Tem um aspecto espantoso com esse seu traje. - A voz era de William Lister.

- Obrigada. Já vi duas outras togas. Disse-lhe que haveria muitas. Poderíamos ter-nos perdido na Via Ápia.

 

- Praticamente, estão representados todos os países e todas as épocas.

- Vou até à sala onde vai ser servida a ceia, para me certificar de que está tudo em ordem.

- Vou consigo.

- Não, vá procurar, por favor, a rainha Mary dos Escoceses. Parece que está em Fotheringhay em vez de em Menfreya.

Vi passar um traje de cardeal acompanhado da Maria Antonieta. O meu sogro conquistador estava a recuperar a juventude.

Tínhamo-nos decidido por música de todos os países e estavam a tocar o Danúbio Azul quando me dirigi às salas da ceia. Havia três salas, todas magnificamente decoradas com flores e folhas, e em cada uma delas haviam sido colocadas mesinhas com toalhas deslumbrantes. Falei com Pengelly, que me garantiu que se encontrava tudo em ordem, pelo que regressei à sala de baile.

- Acompanha-me nesta dança? - Um outro romano. Por momentos, o meu coração deu um salto. Pensei que fosse Bevil, com voz disfarçada, para me divertir, mas essa ilusão passou rapidamente.

A pista estava demasiado apinhada de gente para se conseguir dançar muito bem, mas esse facto não preocupou o meu par, que não era, de facto, um bom dançarino e queria conversar.

- Tenho de confessar-lhe que sei quem é - descobriu.

- É assim tão evidente?

- Absolutamente nada. Mas já a vi antes com esse vestido. Surpreendi a voz, nesse momento. Conhecia aquela boca. Tornara-se lacónica desde o desaparecimento de Gwennan.

- Então, és tu, Harry.

- Fui descoberto.

- Denunciaste-te ao mencionar o vestido.

- Parece que foi há anos.

- Harry.

- Sim, continua. Estás a pensar se me importo de falar no assunto. Bem, pertence ao passado e ela agora já morreu.

- Oh, Harry - admiti eu -, foi um disparate tão grande da parte dela. Era como se não...

- Como se na realidade gostasse dele? Não, talvez não. Mas também não gostava de mim. Penso que não gostava de ninguém, a não ser dela. Era uma Menfrey.

Notei o tom amargo na sua voz e senti uma pena enorme dele. Não esquecera e talvez nem tivesse perdoado.

- Ela sofreu muito, Harry.

Ficou em silêncio e vi os seus lábios endurecerem, quase como se ficasse contente por ela ter sofrido. Pobre Harry, amara-a. Parecia existir um certo poder nos Menfreys que prendia as pessoas a eles. Pensei nos meus sentimentos por Bevil: nada que me fizesse conseguia alterá-los. E isso devia passar-se com Harry, que continuava a cismar com Gwennan.

Nesse momento, pensei se não se decidira a entrar para a política para desviar os seus pensamentos da tragédia e quisera candidatar-se pela oposição contra Bevil numa espécie de vingança.

- Tens pena de mim, Harriet - falou de repente, ao ler os meus pensamentos. - Estás a pensar que Gwennan rompeu o noivado comigo e que agora vou voltar a ser humilhado quando as pessoas daqui me mostrarem que não querem que as represente no Parlamento.

- Aqui, porquê, Harry? - inquiri. - Porque não noutro lugar qualquer?

- Não te agrada a ideia de me apresentar como candidato contra o teu marido?

- Não, afinal de contas, és um velho amigo da familia. Sei que fingimos que isso não é importante, mas é. de certa forma. Gostava de te ver apresentares-te como candidato por outro sítio qualquer.

- Achas que não tenho hipóteses aqui?

- Os Menfreys conservam o lugar há muito tempo.

- Houve um período em que o teu pai representou Lansella. Isso poderia voltar a acontecer.

- Mas. ele era do mesmo partido.

- A adesão a um determinado partido não tem de ser para sempre.

Pude ver a forma severa dos seus lábios e convenci-me de que ele tinha a ideia de que, se conquistasse o lugar dos Menfreys, a vida tê-lo-ia, em certa medida, compensado da humilhação que sofrera com Gwennan.

Parecia uma ideia louca e não gostei dela.

- Vais ficar desapontado, Harry - preveni-o.

- Falas como a mulher do deputado reinante. Não esperaria outra coisa de ti, Harriet.

- Porque não pensas na hipótese de tentar uma oportunidade noutro sítio qualquer?

- Este sítio é tanto meu - objectou - como dos Menfreys. Deverei ser afastado por eles? Vai ser uma luta.

Sentámo-nos por momentos e ele puxou a conversa outra vez para Gwennan. Pude verificar que continuava a pensar no passado, que não era capaz de a tirar do espírito. Era natural, pensei, porque este baile deve tê-lo feito lembrar-se daqueloutro em que estiveram juntos, ela muito alegre, no seu vestido de veludo azul feito em casa, vivendo a aventura do baile, a que não devia assistir. Harry ficaria entusiasmado por todo aquele encanto, divertido como nunca. Não admirava que estivesse cheio de pesar.

Desculpei-me, a fim de ir verificar se tudo estava bem, porque, afinal de contas, eu era a anfitriã, mesmo que disfarçada.

Senti-me aliviada por me ver livre dele, porque a sua presença me deprimia. Dancei de vez em quando, sentei-me cá fora e conversei. Era evidente que várias pessoas sabiam quem eu era. Talvez o meu pequeno defeito de coxear me denunciasse. Falei bastante de política, misturei- me com os convidados e dancei com o meu sogro e com Bevil, que estava alegre e muito carinhoso.

- Tu és um trunfo para o partido, Harriet Menfrey - lisonjeou-me com uma gargalhada. - Não consigo imaginar como o Harry Leveret nos pode vencer, quando tu estás presente. - Contei-lhe que dançara com o Harry, que parecia estar a cismar no que se passara com Gwennan. Bevil não estava interessado em Harry. Assegurou-me que estava maravilhosa, o fantasma mais excitante do passado. - Temos de trazer esse retrato cá para fora e mandar limpá-lo. Devia estar pendurado na galeria. Talvez te mandemos pintar com esse vestido, para pendurar ao lado dele. Seria engraçado.

 

Era maravilhoso estar na companhia de Bevil, pelo que conseguia entender a amargura de Harry.

Mas claro que eu e Bevil não podíamos estar juntos toda a noite. Era nosso dever, alegou ele, dar atenção às flores murchas que não arranjavam par no baile. Afastou-se, para falar com uma Helena de Tróia gorducha, e eu dirigi-me a um Sir Galahad de meia-idade.

De vez em quando, vislumbrava a preceptora do século xviii. Sabia que estava sempre acompanhada: a sua beleza resplandecia através de qualquer disfarce e fora bem esperta em vir vestida de forma tão simples! Admirava-me que fosse sempre tão esperta.

Foi depois de sair das salas em que iria ser servida a ceia que a vi a dançar com Bevil. Afastei-me. Não queria vê-los.

Durante todo o tempo em que eu dançava ia imaginando o que estavam a dizer um ao outro. Como ficaram juntos? O baile estragara-se para mim e desejei que terminasse. Harry Leveret havia-me perturbado, e nesse momento senti que, depois de se ter amado um Menfrey, não havia nenhuma alternativa. Era o que aconteceria comigo. Tinha medo de Jessica Trelarken e de Bevil. Não a compreendia a ela, e a ele entendia-o bem de mais. Porque tinha aparecido aqui como preceptora? Estava a tentar estabelecer algum paralelo? Estava a dizer que está a acontecer agora o que aconteceu nessa altura?

De repente, vi tudo com clareza, como deve ter sido há todos esses anos atrás. A preceptora que viveu naqueles quartos tinha a mesma atracção irresistível de Jessica? Podia imaginar o marido que não conseguia deixá-la partir, que a manteve ali, perto de si...

Eu era palerma. Não estava a ser razoável. O passado não poderia introduzir-se dessa forma no presente. Eu tinha um marido que gostava da companhia das mulheres, havia homens que não conseguiam satisfazer-se com uma só e por mero acaso tínhamos uma preceptora que acontecia ser possuidora de rara beleza.

Imaginei o resto.

Senti o desejo de sair da sala de baile e escapei-me para o jardim. O vento brincava com o meu cabelo, fazendo-o esvoaçar, mas este estava bem preso com a fita. Um impulso estranho invadiu-me e tomei o caminho que levava ao jardim, do lado dos rochedos, e a seguir entrei no próprio jardim. Parei por momentos, a fim de olhar para trás, para a casa. Era linda à luz da Lua, as janelas iluminadas, o som da música à minha frente e por detrás o som das ondas a rebentarem na areia e nas rochas.

Estava maré alta, a ilha parecia mais distante do que o habitual e as pontas dos meus sapatos ficaram molhadas quando uma onda mais rebelde do que as outras me salpicou de espuma. Dirigi o olhar para a ilha e vi luz na janela. Suspendi a respiração e fiquei impávida, a olhar.

Não me dei conta de quanto tempo ali estive, porque, nesse entretanto, regressara ao passado, àquela noite em que me escondera debaixo do lençol de proteger os móveis do pó e Bevil se aproximara, numa posição superior, com a rapariga

da aldeia ao lado.

Quem estava lá nesse momento? "Bevil usa sempre a casa como cenário das suas seduções", podia ouvir a voz de Gwennan nos meus ouvidos a rir-se. E parecia que a noite estava repleta de fantasmas não de uma preceptora que deve ter morrido de parto, não de uma mulher que a deve ter assassinado, não tão distantes como essa... Gwennan... a fazer troça de mim, contudo minha amiga. Pressenti que Gwennan me estava a avisar sobre essa noite.

E, enquanto ali estive, vi uma figura surgir de dentro da casa. Não era fácil identificá-la àquela distância, mas distinguia-se com facilidade uma toga branca. Estava acompanhado de uma mulher e, como esta usava um vestido de fantasia mais simples do que os de outra pessoa qualquer, foi fácil reconhecê-la.

Estavam juntos na ilha. Vieram para a praia e o homem de toga estava a fazer alguma coisa ao barco. Iam regressar no barco a remos.

A raiva apertava-me a garganta. Ia esperar por eles. Estaria lá quando o barco tocasse a areia.

Mas não... eles não vinham. Estiveram a certificar-se de que o barco estava bem preso. Da outra vez não o tinham prendido com a segurança suficiente.

Pensei: "Vou até lá. Hei-de enfrentá-los. Desta vez, não me vai descobrir agachada debaixo de um lençol. "

Estava a desamarrar o barco quando ouvi um grito atrás de mim.

- Pare, menina. - Fanny descia o caminho dos rochedos a correr e chegou ofegante, ficando ali ao meu lado. - O que está aqui a fazer? Vai entrar nesse barco?

- Tive o desejo de ir até à ilha.

- Está louca? Numa noite como esta, com o mar agitado? Se esse barco se voltasse, seria arrastada com essas saias enquanto o diabo esfrega um olho. - Tinha razão - Oh, eu sei - prosseguiu, de modo severo. - Eu vi. Mas não deve ir até lá. Agora, faria melhor voltar para o baile e esquecer tudo.

- Não, ainda não, Fanny. Quero ficar cá fora mais um pouco.

- Está muito frio. Vamos.

Subimos até um dos caramanchões e sentámo-nos lá juntas durante algum tempo.

Fanny parecia furiosa. Queria falar com ela, mas não me atrevia. Tentava fingir que imaginara que os tinha visto na ilha.

Finalmente, regressámos. Não voltei a ver Bevil e Jessica até ao momento de tirar as máscaras. Nessa altura, não se encontravam juntos.

Já eram altas horas da manhã quando saíram os últimos convidados e fiquei sozinha com Bevil. Conservei o vestido, para me dar confiança. Ia falar com ele porque não era capaz de permanecer em suspenso.

Apertei as mãos atrás das costas, para ganhar coragem. Ele entoava a melodia de uma das valsas e, aproximando-se de mim, colocou os braços à minha volta e tentou dançar comigo à volta do quarto.

- Acho que o nosso baile foi um sucesso - afirmou. Temos de arranjar mais divertimentos.

- Há uma coisa que tenho para te dizer, Bevil. - Parou e olhou para mim, atento, ao notar a gravidade da minha voz. - A dada altura, saí do baile - expus -, desci até à praia e vi duas pessoas na ilha.

Levantou as sobrancelhas.

- Queres dizer... convidados nossos?

- Um deles era Jessica Trelarken. O outro vestia uma toga romana.

- Os romanos, hoje, tinham o dom da ubiquidade. Falava em tom alegre.

- Bevil - murmurei -, eras tu?

Pareceu ficar espantado, hesitou e o meu coração deu um salto, com medo.

- Na ilha? Decerto que não!

Pensei se faria parte do seu código mentir, defender a sua amante de todas as formas necessárias?

- Pensei.

- Sei o que pensaste. Por causa daquele incidente infeliz do ursinho de estimação.

- Não estavas lá, de verdade, Bevil?

- Não estava lá, de verdade - asseverou, imitando o meu tom de voz sério. - A seguir, tirou-me a fita do cabelo, atirou-a para cima do toucador e as suas mãos detiveram-se sobre o meu vestido. - Como se desaperta esta coisa? - perguntou.

Voltei-me de costas, para lhe mostrar. Acreditava nele... porque lhe queria muito.

Algumas semanas mais tarde, Bevil teve de ir a Londres e eu acompanhei- o. Embora gostasse muito de Menfreya, ficava encantada por me afastar de Jessica.

Vivia muito feliz na casinha de Bevil da cidade. Conheci muitos dos seus amigos políticos e, como era capaz de falar com eles sobre política e o partido, tive bastante sucesso e Bevil sentia-se orgulhoso de mim.

- Claro - consideravam -, como filha de Sir Edward, sabia tudo isso antes de se casar. - Pensavam que Bevil tinha feito um casamento muito acertado. Invejavam-no, diziam, e ele gostava que assim acontecesse.

Gostei de visitar a tia Clarissa. Phyllis estava comprometida, mas o noivo não era à altura das suas expectativas. Fiquei com pena de Sylvia, que continuava ainda solteira. Mas não pude deixar de me divertir com o tratamento diferente de acordo com a minha nova posição social. A tia Clarissa insinuou bastante que eu devia a minha sorte às suas diligências. Eu e Bevil rimo-nos muito com isso quando ficámos a sós.

Sim, foram dias felizes.

Foi quando estávamos em Londres que me ocorreu a ideia de transformar a casa da ilha numa colónia de férias para crianças pobres que não tivessem oportunidade de passar algumas semanas de Verão junto ao mar. Esta ideia surgira-me ao dar um passeio sentimental aos mercados que visitara, havia muito tempo, com Fanny. Via-os agora com olhos diferentes e desejava dar àquelas criancinhas vendedoras de fruta e cereais uma amostra do ar do mar.

Fiquei excitada com o projecto e encantada quando Bevil concordou comigo que seria um meio óptimo de usar a casa, que era tão inútil. Decidi que logo que voltasse faria os preparativos e poderia ser que conseguíssemos começar o nosso esquema de férias no início do Verão seguinte.

 

Na altura em que regressámos a Menfreya, o Outono ia bem avançado. Benedict ficou encantado por nos ver. Descobriu primaveras no caminho e trouxe-as para mim. Eram uma raridade nesta altura do ano, mas tinha-as visto de vez em quando em Novembro, como se o tempo ameno as tivesse enganado e feito pensar que chegara a Primavera.

- Para ti - disse. Fiquei encantada até compreender que Jessica o instigara a fazer a oferta. Por vezes, tinha a ideia de que ela estava a tentar acalmar-me.

Foi logo a seguir ao nosso regresso que os boatos sobre a ilha se tornaram tema dominante durante vários dias.

Duas raparigas da região, que saíram depois de escurecer, ao percorrerem o caminho dos rochedos, tiveram a certeza de ver um fantasma na ilha. De acordo com o seu relato, ambas tinham visto a aparição, olharam uma para a outra e começaram a correr para casa o mais depressa que podiam.

Os pais fizeram-lhes perguntas.

- Um fantasma? Qual era o aspecto?

- Parecia um homem.

- Então, talvez fosse um homem.

- Não era homem nenhum, de certeza.

- Então, como souberam que era um fantasma?

- Soubemos, não soubemos Jen?

- Sim, soubemos.

- Mas como?

- Pela forma como ele lá estava.

- Qual é a posição dos fantasmas?

- Não sei. Mas não são como as pessoas vulgares. Ao olhar para Menfreya, ele estava...

- Como?

- Como fazem os fantasmas.

- Como é que fazem?

- Não sei. Só sabemos como ele estava quando o vimos, não foi Jen?

- Sim, só sabemos isso.

- Não viveria naquela casa nem que me dessem uma quinta.

Assim começou a história a circular. Tinha aparecido um homem na ilha, e, embora não fosse possível vê-lo com clareza, sabiam que não era ninguém das redondezas. Não era ninguém que tivessem visto antes.

Bevil riu-se da história.

- Significa que estão à procura de escândalo. Têm de ter alguma coisa de que falar.

Mas pensei na noite em que me escondera debaixo dos lençóis do pó e na do baile. Nessa altura, tinha visto dois dos nossos convidados lá. Será que tinham achado que a casa da ilha era um ponto de encontro agradável? Será que o homem que lá estivera nessa noite era o "fantasma" que as duas raparigas viram?

Fiquei a cismar.

O povo da Cornualha adora fantasmas. Existem mais fantasmas na Cornualha do que em todo o resto da Inglaterra. E, quando o povo da Cornualha descobre um, não o deixa fugir por nada.

 

O caminho dos rochedos estava muitas vezes deserto depois de escurecer, mas várias pessoas afirmavam terem visto o espírito da ilha. Variava entre um koacker' e um homem com um chapéu de pão de açúcar pequeno, mas iluminado por uma luz fosforescente, para que pudesse ser visto com clareza; era mais alto do que o comum das pessoas, diziam alguns, e viam-se-lhe cornos a sair da cabeça. Para outros, era um homem vulgar do Sudoeste, um homem que havia sido "devolvido pelo mar".

Costumava sentar-me à janela a olhar para a ilha e era capaz de entender como se criavam estas fantasias. As luzes poderiam pregar partidas, e com a ajuda da imaginação e uma fé absoluta poderiam criar-se todas as imagens que se desejasse.

Um velhote, Jemmie Tomrit, que vivia numa casa de campo com dois quartos em Menfreystow, foi profundamente afectado pela história. Era um pescador de noventa anos, um homem respeitado pela sua longevidade; era o orgulho da familia, que se resolveu a fazer com que vivesse pelo menos até aos cem anos. Era uma mascote, um talismã. Havia um ditado na cidade: "Viver tanto quanto os Trekellers. " Jim Trekeller tinha vivido até aos noventa e dois, e o irmão até aos oitenta e nove. Assim, os Tomrits esperavam que o apelido Trekeller mudasse para Tomrit, se fossem capazes disso.

Por esta razão, o velhote nunca podia sair quando fazia vento frio. Era amimado e cuidado, e, quando desaparecia de casa, havia alarme geral.

Encontraram-no sentado no rochedo perto de Menfreya "à procura do fantasmazinho", justificou-se.

E os Tomrits ficaram zangados com a Jen e a Mabel, que tinham voltado para casa com histórias de fantasmas na ilha, porque o velho estava sempre a tentar sair de casa, no intuito de ir até aos rochedos olhar para ela. Resmungava e desde então não era o mesmo. Uma vez, ao tentar sair da cama à noite, caíra e magoara-se. Os Tomrits tinham chamado o Dr. Syms, que sustentou ter sido uma sorte ter ele escapado, porque, se tivesse partido uma perna, poderia ter sido perigoso, na sua idade. E, se estava a ficar obcecado pela ilha, bem, deveriam lembrar-se de que ele era um homem de muita idade e que se teria de contar com o facto de os velhos divagarem um pouco: chamava-se a isso senilidade.

- O avô senil! - exclamavam os Tomrits. - São aquelas raparigas parvas as responsáveis por isto. É tudo uma série de disparates. Não há fantasma algum em No Man's Island.

A seguir, o assunto mais importante em Menfreystow era se, afinal de contas, os Tomrits seriam capazes de arrebatar o título aos Trekellers. O fantasma da ilha passou para segundo plano e após algum tempo era referido apenas de vez em quando, embora se lembrassem dele ao anoitecer, quando as pessoas se encontravam no caminho do rochedo solitário.

Apanhei uma constipação forte durante o mês de Novembro e Fanny insistiu em que passasse alguns dias na cama. Fez-me a sua infusão especial de limão e água de cevada, que colocou perto da minha cama num jarro de vidro, por cima do qual colocava um pedaço de musselina com contas presas por quatro pontas a fazer peso, para a proteger do pó.

Tinha de confessar que era um calmante.

Bevil teve de regressar a Londres e fiquei com pena de o não poder acompanhar; Tàmbém ele ficou com pena, segundo disse, mas pensava que não iria estar fora mais de uma semana ou pouco mais.

 

O tempo tornara-se tempestuoso e a minha constipação deixara-me com uma tosse a respeito da qual Fanny abanava a cabeça e resmungava comigo.

- É prudente ficar em casa, querida - recomendou Lady Menfrey -, até que a ventania desapareça. Sair à rua com este tempo não faz bem a ninguém.

Desta forma, fiquei no meu quarto a ler, a passar os olhos por cartas que tinham vindo para os escritórios de Lansella e a responder a algumas delas. William informou-me que tomava conta dos escritórios de lansella enquanto Bevil estivesse fora e que Jessica estava a ajudá-lo.

Fiquei admirada.

- Mas, então, e o Benedict?

- A avó toma conta dele quando ela está fora. Está contente por isso, e eu preciso de ajuda nos escritórios. A menina revela capacidade para o trabalho e eu preciso

dela.

De vez em quando, durante esses dias, tinha a sensação de me invadir um sentimento de pavor. Sentia-me ameaçada, mas não era capaz de ter a certeza da origem do perigo.

Fanny percebia-o. Por vezes, via-a sentada à janela a olhar, pensativa, para a ilha, como se esperasse encontrar lá a resposta.

Queria falar com ela, mas não me atrevia. Aliás, ela detestava Bevil. Não podia contar-lhe os meus receios vagos, mas a sua atitude não me ajudava.

Uma noite, acordei sobressaltada e com o rosto coberto de suor. Dei comigo a chamar, embora não soubesse quem.

Alguma coisa estava a correr mal... muito mal. Depois, soube.

Estava com dores e sentia-me doente.

- Bevil - chamei e a seguir lembrei-me de que ele se encontrava em Londres. Levantei-me e entrei, aturdida, pelo quarto da Fanny, que era mesmo do outro lado do corredor. - Fanny! - gritei. - Fanny!

Levantou-se da cama de um salto.

- O quê? Deus nos acuda. O que é que se passa?

- Sinto-me doente - comuniquei-lhe.

- Venha! - Estava a meu lado. Colocou-me alguma coisa à volta do corpo, que tremia. Deixou-me na cama e sentou-se a meu lado.

Passado algum tempo, parecia melhor. Fiquei no quarto de Fanny e, embora na manhã seguinte já não me sentisse doente, estava fraca e exausta.

Fanny quis mandar chamar o médico, mas eu disse que não. Neste momento, já me sentia bem.

Era apenas fraqueza subsequente à constipação, considerou Fanny, mas, se me voltasse a sentir assim, não iria admitir mais disparates.

Foi apenas uns dias mais tarde que esse incidente, juntamente com o que aconteceu à Fanny, tomou um significado alarmante.

Era hábito da Fanny acordar- me de manhã afastando os cortinados e trazendo-me a água quente. Por isso, fiquei surpreendida ao acordar, olhar para o relógio e reparar que já passava meia hora da hora normal de me levantar.

 

Nesse momento, senti um medo terrível. Só haveria um motivo que impediria a Fanny de vir, e que seria o facto de estar doente. Depois de enfiar os pés nos chinelos e de pôr o robe à minha volta, atravessei o corredor à pressa e entrei no seu quarto.

Ao vê-la, fiquei horrorizada. Encontrava-se deitada na cama, o cabelo com duas tranças fininhas a saltarem-lhe dos lados da cabeça e o rosto acinzentado.

- Fanny! - gritei.

- Agora, estou bem - garantiu-me. - Pensei que iria morrer.

- O quê?

Fez um sinal afirmativo com a cabeça.

- O mesmo - precisou. - Senti aquela fraqueza e não fui capaz de me levantar, para salvar a minha vida.

- Não deves levantar-te, Fanny - declarei. - Vou mandar chamar o médico.

Segurou-me pelo pulso.

- Amorzinho - murmurou, séria, recorrendo ao tratamento carinhoso da minha infância -, estou assustada.

- Porquê, Fanny?

- Foi a cevada de limão - afirmou. - Não a tem estado a tomar nos últimos dias?

- Não. Não tive vontade, depois da noite que passei mal.

- Vi o jarro ali. Tinha lá estado todo o dia. Pensei que não devia estragar-se e bebi-o todo.

- Fanny, o que estás a dizer?

- Foi a cevada de limão. Eu estava com a sua madrasta quando uma vez se sentira mal. Ela disse-me: "Já passou tudo, Fanny. Tomei uma dose exagerada de medicamento. " Sabe o que era aquele medicamento. Explicaram-nos no inquérito. Acabou por matá-la.

- Fanny!

- Destinava-se a si. Passa-se alguma coisa nesta casa.

- Queres dizer que alguém está a tentar envenenar-nos?

- Eles não sabiam que eu o iria beber. Não se destinava a mim.

- Oh. Fanny!

- Sim - reiterou. - Estou assustada, estou. Fiquei em silêncio. Os pensamentos povoavam o meu espírito, demasiado confusos, demasiado terríveis para os conseguir expressar. Continuava a ver o rosto de Jessica com o sorriso insondável. E pensei: "Não. É impossível. "

- Fanny - perguntei-lhe -, que vamos fazer?

- Temos de os apanhar, é isso. Temos de ficar vigilantes.

- Há que chamar o médico.

Fanny abanou a cabeça.

- Não - aconselhou. - Então, saberiam que andávamos no seu rasto. Iriam tentar mais alguma coisa, e não estaríamos preparadas para isso. Não devem. Pensarão que não bebemos e que se deitou fora. Deixemo-los pensar isso. Os olhos de Fanny estavam arregalados e espantados. Não gostei nada do seu aspecto e hesitei em chamar o médico. Disse-lho e ela abanou a cabeça. - Não deve tomar nada no seu quarto. É a única forma de estar em segurança.

- Podias fazer mais cevada de limão. Podíamos mandá-la analisar. É o que devemos fazer - alvitrei.

- Não - discordou. - Eles são espertos. Enquanto fizéssemos isso, haveriam de tentar mais alguma coisa.

- Fanny, isto é uma loucura.

- Quem é que veio hoje ao quarto, lembra-se?

- Todos. William, com alguns documentos do escritório. Lady Menfrey trouxe flores. Sir Endelion veio ver como eu estava. Miss Trelarken veio e trouxe o Benny, para me fazer uma visita. E, depois, há as criadas.

- Como vê é difícil, não sabemos e poderiam voltar a tentar. Agora, já me sinto melhor, embora tenha pensado que iria morrer durante a noite. Oh, minha menina, não sei o que quer isto dizer, mas não me agrada. Nunca gostei disto. Sinto que anda alguma coisa a aconselhar-me a fugir... é o que sinto.

- Tenho a certeza de que devíamos fazer alguma coisa, Fanny.

- Temos de ter algum tempo, todavia... um certo tempo para pensar.

Estava tão furiosa que lhe prometi que não fazia nada. por enquanto.

Depois do primeiro choque, dei comigo a não acreditar na teoria de Fanny de que a água de cevada fora envenenada. Eu contraíra uma constipação, talvez um resfriado, que fizera com que me sentisse agoniada. A Fanny apanhara-a. Com certeza que parecia doente depois daquela crise durante a noite. Disse para comigo: "Estamos a maquinar isto entre nós. São suspeitas e ciúmes que não têm qualquer fundamento real. Bevil assegurou que não esteve na ilha, e, mesmo que me fosse infiel, nunca permitiria que alguém me fizesse mal. Veneno! Era impossível. "

Fanny mudara. Estava cada vez mais magra e os olhos pareciam encovados e com uma expressão severa que me alarmava. Estava mais possessiva do que nunca e mal me deixava sair do pé de si.

Cerca de uma semana depois da doença da Fanny fui até aos escritórios de Lansella e aí tive outra surpresa, ao perceber a forma insidiosa como Jessica procurava destruir a minha posição.

Uma das visitantes, quando a recebi, declarou, ao sentar-se:

- Da última vez, falei com a senhora Menfrey. Uma senhora muito encantadora! Muito simpática e meiga. Não me surpreende que o nosso deputado tenha tanto orgulho nela, como ouvi contar que tem.

- Eu sou a senhora Menfrey, a mulher do deputado declarei.

- Oh! - exclamou, corando um pouco. - Bem, devo pedir que me desculpe... pensei, é claro, da forma como ela estava... bem... não esclareceu que não o era quando

a tratei por "Senhora Menfrey... ", o que tenho a certeza que fiz.

Quando encontrei Jessica a seguir, censurei-a:

- Soube que se fez passar por mim nos escritórios. Ergueu as sobrancelhas de forma a manifestar surpresa com perfeição. - Sim - prossegui -, uma das visitantes afirmou que falara com a mulher do deputado da última vez que lá fora. Era você.

Jessica encolheu os ombros.

- Elas tiram as suas conclusões.

- Estava assim tão segura porque se dirigiu a si tratando-a por "Senhora Menfrey", e você não a corrigiu.

- Oh, elas imaginam estas coisas.

Olhei-a no rosto e reparei-lhe na boca calma, a sorrir, nos olhos magníficos, que não traíam nada, na perfeição da sua pele, macia e fresca. Nesse momento, pensei: "Se quisesse o meu lugar, teria de ser bastante cruel para fazer tudo para

o conseguir. "

 

Bevil regressara e o Natal aproximava-se. Acordei cedo com o barulho de toda aquela azáfama, porque os criados levantaram-se todos de madrugada, para preparar os empadões, a caça e a criação. Andavam tão excitados que não conseguiam estar quietos, e no dia de Natal ninguém o esperava deles.

Bevil ofereceu-me uma pulseira de diamantes e Benedict entrou a correr no nosso quarto, a fim de mostrar o que encontrara no sapatinho que Jessica lhe dera para pendurar aos pés da cama.

- Veja, tio Bevil. Veja, tia Harriet.

Vimos e admirámos e nesse momento pensei como Gwennan teria ficado satisfeita se o pudesse ter visto. Teria sorrido com tristeza, todavia, porque, ao satisfazer o seu desejo em relação ao filho, eu trouxera Jessica para casa.

Quando ouvi Jessica chamá-lo, peguei-lhe na mão e levei-o. Ela encontrava-se no corredor vestindo um robe de sarja azul, elegante, apenas por ser ela a usá-lo, e o cabelo caía-lhe pelas costas, numa trança grossa. Cada dia parecia mais bonita.

Ao fim da manhã, Bevil e Sir Endelion foram caçar. O som das trombetas soava por toda a casa, e, quando regressaram, de acordo com a tradição, os troncos de madeira ardiam, olmeiros e carvalhos, entre os quais havia sido espalhada erva aromática dos pântanos.

Pessoas a entoar os cânticos de Natal visitaram-nos, com vozes inexperientes, mas cheias de entusiasmo.

A luz do Sol invadia a casa, e através da janela aberta entrava o vento agradável de sudoeste. Seria muito provável que houvesse chuva antes do anoitecer. Era muito característico o clima de Natal na Cornualha: não havia neve para nós. Poderíamos ver alguns flocos de neve pelo Ano Novo, mas raramente eram suficientes para assentarem. Os nossos Natais eram quentes e húmidos.

Juntámo-nos todos na sala, decorada com azevinho e heras, para a festa, quando a caneca de cerveja aromática foi posta em cima da mesa e Sir Endelion bebeu um pouco dela à saúde de todos os que viviam na casa, passando-a depois por todos, para que também pudéssemos beber.

Bevil segurou-a, para eu beber, e os seus olhos estavam abertos e cheios de afecto.

- Feliz Natal, Harriet - murmurou, e pensei se não estaria a passar por uma fase de loucura ao duvidar dele.

Nessa noite, usava o meu vestido cor de topázio, e, como era dia de Natal, jantámos no salão principal, como se fazia em todos os Natais desde que Bevil e Sir Endelion se lembravam.

Quando chegaram os dançarinos mascarados, dançámos com eles, depois sentámo-nos e ficámos a olhar, enquanto os aldeões invadiam a sala, para apreciarem os actores a representar a sua peça. Nós, os da casa, fizemos passar por todos a cerveja aromática e ponche, o bolo de açafrão, o bolo de batata, pastelões e pão-de-mel, como os Menfreys vinham fazendo havia gerações.

Foi um dia feliz.

 

Uns dias mais tarde houve consternação em Menfreya.

Fanny contou-me, quando me trouxe o tabuleiro com o pequeno-almoço. Como o seu rosto se contraía de forma estranha, percebi que estava preocupada.

- O que é Fanny?

- O tal relógio parou - anunciou, de forma concisa. O relógio da torre.

- É impossível.

- Não. Aconteceu. Parou às três menos vinte. Há discussão no andar de baixo, garanto-lhe. Dawney acabou de chegar, para ver Sir Endelion e a ele. Devo esclarecê-la de que estão bastante irritados. Isto não acontece há cem anos ou mais... pelo que dizem.

- Uma confusão tão grande por causa de um relógio! repliquei.

Lançou-me um olhar estranho e colocou o tabuleiro em cima da cama. Olhei para ele com fastio. Um ovo cozido, fatias de pão com manteiga, café e marmelada. Era o que costumava tomar, visto que, depois da minha constipação, fazia-o na cama, mas nessa manhã estava com muito pouco apetite.

Ficou ali, aos pés da minha cama.

- Sabe o que eles dizem. Significa uma morte na família.

- Superstições - volvi eu.

- Todavia - acrescentou -, estão furiosos.

Quando me deixou, tentei comer um pouco, porque não queria que ninguém soubesse que me sentia preocupada. Como parara o relógio? Era o dever principal de Dawney providenciar para que ele nunca parasse. Levava óleo na altura indicada, era inspeccionado e tratado com cuidado, só para se ter a certeza de que continuava a trabalhar.

Pode ter parecido disparate dar ouvidos à superstição, mas estávamos na Cornualha e os Menfreys eram uma familia da região.

Imaginei que a notícia já se espalhara pela vizinhança. O relógio parara! Significa que um dos Menfreys está ameaçado.

Iriam ficar de olhos postos em nós; haviam de imaginar a morte a pairar sobre nós. Era evidente que algum acontecimento portentoso estava prestes a acontecer. Tivéramos o fantasma na ilha e agora o relógio parara. Nestes factos veriam maus presságios.

Era desanimador saber que as pessoas nos estavam a observar com expectativa. Quando eu ou Bevil chegávamos a casa e entrávamos no pátio, os moços vinham cá fora, para se certificarem de que estávamos realmente em casa. Tinha a certeza de que esperavam que fôssemos trazidos para casa de padiola. Tinha a sensação estranha de que me haviam escolhido para vítima. Depois, surgiu-me o sentimento inquietante de que sabiam alguma coisa que eu suspeitava apenas. Saberiam mais alguma coisa sobre a relação entre o Bevil e á Jessica? Seria verdade que, quando um homem preferia uma outra mulher à sua, todos sabiam o que se passava menos a própria?

 

Era tudo muito bonito rirmo-nos das superstições, mas, no fundo, a maioria de nós é susceptível a elas. Eu estava a ficar nervosa. Lembrava-me dos dois incidentes da água de cevada, que só eu e Fanny conhecíamos. Mas talvez outros soubessem. Os que nos tentaram envenenar? Mas isso era absurdo. Ninguém tentara. Eram as suspeitas ridículas de Fanny. Que eu partilhava. Ou não? Não tinha a certeza.

Fanny não ajudava. Olhava para mim com persistência, e, se chegasse a casa mais tarde do que ela esperava, encontrava-a num estado de ansiedade terrível. Uma vez, ouvi-a suplicar...

a Billy. Nos momentos de crise actuais, voltava-se sempre para Billy.

Algumas vezes, eu queria desaparecer de casa e gostava de vaguear, afastando-me de Menfreya pelo caminho de rochedos até Menfreystow. Sentava-me aí, a olhar para o mar e a pensar no passado, no meu passado com Bevil, ao ser descoberta por ele, na ilha, quando tinha fugido, a alegria de o encontrar no baile de Lady Mellingfort. Mas sobretudo pen sava naquela ocasião em que ele viera ver-me a casa da tia Clarissa e em que eu me demorara a mudar de vestido. Isso fora antes da morte de Jenny, antes de eu ter herdado tanto dinheiro. Se ao menos ele me tivesse pedido para casar consigo nessa altura! Queria tanto acreditar que era o que pretendia dizer-me.

As suspeitas ensombraram todos os meus pensamentos, todas as minhas recordações do passado.

E, enquanto me encontrava sentada no banco de madeira que fora colocado nos rochedos, para uso dos caminhantes cansados, o velho A'Lee apareceu no caminho e viu-me.

Cumprimentou-me e eu notei que o seu queixo tremia involuntariamente, o que era um sinal de que estava divertido.

- Vejam só se não é á senhora Menfrey.

- Como está? - perguntei.

- Oh, estamos a jogar ao ataque em Chough Towers, senhora Menfrey. - Jogar ao ataque! Estava a lembrar-me a rivalidade entre nós e o lado em que ele se encontrava. Importa-se que descanse um pouco, senhora Menfrey? - solicitou.

- Já há muito tempo, tivemos uma conversa parecida. Éramos bons amigos, nessa altura.

- E porque não agora? - indaguei.

O queixo começou a tremer-lhe.

- Agora, é uma deles, e eu estou do outro lado, como...

- O senhor Harry e o meu marido são bons amigos - objectei eu.

Isso fez com que o queixo lhe tremesse com uma fúria maior do que nunca. Mudou de assunto e indicou o ponto onde a ilha ressaltava do mar.

- Dizem que é assombrada por espíritos de homens que ali sofreram mortes violentas.

- Muitos homens?

- Ouvi contar que era prática comum os homens irem para aquela ilha e nunca mais se ouvir falar deles, mas talvez se soubesse quando os corpos eram lançados à praia.

- Como poderia ser isso?

- É voz pública que a casa era usada como armazém pelos contrabandistas e que se trata dos fiscais que iam à procura de contrabando na Pequena Menfreya e que nunca de lá regressavam com vida.

- Uma das vossas lendas da Cornualha?

- É provável. Existem muitas. E agora o relógio parou. Não estou a gostar nada disto, senhora Menfrey.

- Bom, como vê ainda cá estamos todos.

- Não se ria. Dá azar rir- se. Aquele relógio não parava há anos e anos. Os Menfreys não deixavam, segundo se dizia.

- Bem, não parou desde que se lembra!

- Existem muitas histórias. Não saia quando o tempo estiver mau, Miss Harriet. - Voltara a usar o meu nome antigo e imaginei que a sua atitude em relação a mim mudara, quando o fez. Tornara-me na criança de quem tivera pena, e já não era uma das inimigas. - Lembro-me duma história que o meu avô me contou sobre um dos Menfreys. Houve um acidente. Um cavalheiro que lá estava foi levado a dar um passeio de barco por Sir Bevil, mas esse cavalheiro distinto não sabia nadar. Sir Bevil era um nadador exímio, como a maioria dos Menfreys. Eu costumava ver Sir Bevil quando era novo. o nosso, claro, minha querida. a lançar-se pelo mar fora. Parecia um peixe.

- Sim, e o que é que aconteceu a essoutro Bevil?

- Levou o cavalheiro distinto a dar um passeio de barco, e o barco voltou-se. O cavalheiro afogou-se e Sir Bevil nadou para a praia.

- Não tentou salvar o amigo?

- O mar estava encapelado e não foi possível. segundo se desculpou. Embora tenha feito crer que tentara. Mas não foi assim. Os anos passaram e ele dedicou-se à religião. Era de rebentar a rir. Pegava em todos os rapazes e raparigas apanhados a fornicar, como ele se exprimia, e mandava-os castigar. Os rapazes eram chicoteados e as raparigas, envergonhadas na igreja. Foi dessa forma que a religião o aceitou, embora alguns rapazes e raparigas pudessem ter sido carne e sangue dele próprio, porque possuía o gosto dos Menfreys de fazer amor... nos seus tempos de pecador. Bom, aconteceu que, ao ver a morte aproximar-se, e com medo de que os seus últimos tempos de bondade não suprissem este pecado tão grande, confessou no seu leito de morte. Estivera a jogar com o tal cavalheiro distinto, que lhe ganhara as propriedades ao jogo, incluindo Menfreya. Ele queria a formosa mulher do cavalheiro. Logo, só havia uma coisa que pensou poder fazer, e que era afastar o cavalheiro. Assim, abriu um buraco no barco, tapando-o com alguma coisa... não disse o quê. Não podia entrar em pormenores, porque a respiração estava a tornar-se cada vez mais fraca e não lhe restava muito tempo. Levou o cavalheiro a dar o passeio e em breve o barco começou a encher-se de água. O senhor entrou em pânico e o barco voltou-se. Sir Bevil só precisou de nadar para terra e esperar que o senhor não se salvasse. E, se tal acontecesse, fora um acidente. era tudo.

- É possível abrir um buraco num barco e conseguir que navegue por algum tempo?

- Com certeza que é. Se o buraco fosse tapado, bem, seria o mesmo que o buraco da rolha num barril, não era?

- Sim, mas seria evidente que o buraco fora feito... Ele encolheu os ombros.

- Sir Bevil, segundo se narrou, tapou o buraco com alguma coisa que se dissolvia lentamente.

- E isso existe?

- Sa! bem compacto, talvez. Açúcar. Até seria melhor. O açúcar bem compacto demoraria algum tempo a dissolver-se na água fria do mar.

- Mas que ideia!

- Sim.

- Bem - comentei eu -, isso aconteceu há muito tempo. Ou talvez não acontecesse nada.

- Sempre tive de inventar histórias para si, Miss Harriet, não foi? Quando era pequenina e veio para Towers. uma pequenina triste porque o seu pai não tinha tempo para ser carinhoso consigo... costumava dizer para comigo: "Bem, como posso distrair Miss Harriet? "

- Foste bom para mim, A'Lee.

- Sim. Fui.

- E foi uma boa história. Isso aconteceu de verdade?

- Qual delas, Miss Harriet? Os fantasmas na ilha ou Si Bevil e o barco?

- As duas.

- Bem, é uma coisa estranha que nos temos, os da Cornualha, minha querida. Adoramos uma história e, quanto mais fantasmas tiver, mais gostamos dela. Muitas vezes, pensei nos tempos em que éramos amigos assim. É uma pena...

- Ainda somos amigos, A'Lee.

- Sim - aceitou. - Nada pode mudar isso. - Havia algo de verdade nas suas palavras, porque estava preocupado, eu sabia que pensava no facto de o relógio ter parado.

Bateram à minha porta. Eram onze horas da manhã. Bevil partira para Plymouth o dia inteiro, a fim de tratar dum assunto especial.

- Entre - autorizei, e Jessica entrou, parecendo suav a sua beleza, dado que envergava um vestido de algodão cor de alfazema, com gola e punhos de renda branca. Nunca conseguia olhar para ela sem a imaginar ao pé de Bevil como dois amantes, e era difícil controlar-me nestas circuns tâncias.

- Está ali alguém a perguntar pelo senhor Menfrey. Neste momento, notei qe estava mais pálida do que o habi tual e que se sentia deveras perturbada. - Que coisa tão extraordinária!

Apresentou-me um cartão e eu li.

J. HAMFORTH AND SONS, Agentes funerários

Fore Street,

Lansella

- Não entendo nada disso - prosseguiu. - Pensei que talvez a senhora.

Declarei:

- Vou descer para ver o que quer. - Estava à espera na biblioteca, vestido de preto e com ar solene. Quando entrei, olhou admirado e empalideceu. Conhecíamo-nos por alto, porque o prédio deles era em Fore Street, perto dos escritórios de Bevil, e naturalmente eu e Bevil éramos muito conhecidos na região. - Senhor Hamforth... o que é?

- Desculpe-me, minha senhora. eu. Isto foi um choque e não consegui acreditar quando recebi a carta.

- Carta - repeti eu. - Que carta?

- A carta a chamar-me para. tratar dos. preparativos.

- Que preparativos? - Mordeu o lábio e baixou os olhos porque não era, de modo algum, capaz de olhar para mim. Tive a sensação de que, quando entrei na sala, ele me olhou como se tivesse visto um fantasma. Um fantasma! Havia algo de muito estranho a passar-se aqui. - Veio tratar dos preparativos para algum funeral? - perguntei, com severidade.

- Sim, minha senhora, senhora Menfrey.

- O funeral... de quem? - Não respondeu, mas eu sabia. Pensou que fosse o meu?

- Bem, minha senhora, era isso o que...

- O que é que lhe disseram?

- Que deveria vir de imediato a Menfreya, para tratar dos preparativos.

- Para mim?

Ficou embaraçado, pobre homem. Nunca tivera antes de enfrentar a tarefa de preparar uma mulher para o funeral antes de ela morrer.

- Fiquei perturbado - declarou. - Assim como a minha mulher e os empregados. Haviam estado nalgumas reuniões e tinham-na visto lá.

Por isso, todos sabiam. Em Lansella deveriam estar a falar na minha "morte". Assim como por toda a cidade. Notícias como esta correm rapidamente. Tinha a certeza de que a carruagem do Sr. Hamforth deveria ter sido vista a chegar a Menfreya. Morte em Menfreya! O relógio, que não parava havia

centenas de anos, acabara de o fazer. E agora o cangalheiro ia a caminho de Menfreya.

- Isto é extraordinário - afirmei.

- Nunca passei por nada disto antes, minha senhora, em toda a minha vida.

- Não, acho que não. Mas quero saber como se passou.

- Houve uma carta que chegou esta manhã. Era uma carta muito esquisita. Mas nesse momento não pensei nisso.

- Uma carta muito esquisita? Onde está?

- Trouxe-a e mostrei-a à mocinha.

- A Miss Trelarken?

- Sim. Ela ficou admirada e pediu-me para a ver. Compreende, eu expliquei-lhe que viera tratar dos preparativos, e ela não percebeu para quê, razão por que lhe mostrei a carta, tendo-me ela anunciado que iria levar-me até junto da senhora, uma vez que o senhor Menfrey não se encontrava em casa.

Senti-me aliviada. Havia uma carta. Tratava-se de alguma brincadeira e poderíamos chegar ao fundo da questão se houvesse prova documental, como, por exemplo, uma carta.

- Dê-me a carta, por favor, senhor Hamforth. Tirou a carteira dos documentos e remexeu nos papéis de forma desajeitada. Parecia baralhado. Depois, essa expressão desapareceu e ele esclareceu:

- Claro, a moça pegou-lhe, e não ma devolveu. Dirigi- me à campainha e, quando chegou a criada, ordenei:

- Diga à Miss Trelarken que chegue aqui de imediato. Não deveria estar muito longe, porque veio logo a seguir. Declarei: - Queremos a carta.

- A carta? - repetiu.

- Aquela que o senhor Hamforth lhe entregou. Aquela que lhe foi enviada a ele a pedir-lhe que viesse cá.

- Oh, sim. Mas... eu devolvi-lha, senhor Hamforth.

- Não, menina, não devolveu.

- Mas, de certeza...

Olharam um para o outro, admirados, e senti um medo doentio a invadir-me.

- Deve estar em qualquer parte - dirigi-me, com aspereza, a Jessica. - Procure no seu bolso. - Experimentou nos dois bolsos do vestido, e abanou a cabeça. Parecia muito aflita ou estava a representar muito bem? Foi o pensamento que me ocorreu na altura: estava a representar. Que significava isto? Tê-lo- iam, ela e Bevil, preparado? Estavam juntos nalgum plano diabólico contra mim? Se eu já cá não estivesse, não haveria obstáculo algum no caminho dela. ou talvez no dele. - Deve estar em qualquer sítio - continuei eu. - Estou muito ansiosa por ver essa carta e por saber quem escreveu ao senhor Hamforth a mandá-lo vir tratar do meu funeral.

Procurámos na biblioteca e a seguir Jessica declarou:

- Mas foi à entrada. Eu ia a sair para o jardim quando o senhor chegou, senhor Hamforth, e ficámos algum tempo à entrada. Foi depois de me ter dado a carta que viemos para a biblioteca.

Conduzi-os à entrada e procurámos por toda a parte, mas não conseguimos encontrar a carta.

- É muito estranho - fiz notar, e o terror ia crescendo dentro de mim. - Pelo menos, os dois viram a carta. Como é que vinha redigida?

Olharam um para o outro.

- Estava escrita à mão, e não reconheci a letra - afirmou Jessica. - Pedia ao senhor Hamforth que viesse cá tratar dos preparativos para o funeral da senhora Menfrey.

- Devia haver uma assinatura - insisti.

- Penso que foi escrita pelo secretário do senhor Menfrey - declarou o senhor Hamforth.

- Pelo senhor Lister?

- Não foi escrita pelo senhor Lister - interpôs Jessica. Conheço muito bem a letra dele. Estava assinada em nome de B. Menfrey e havia uma inicial que não fui capaz de ler.

Olhei para o Sr. Hamforth e para Jessica.

Quem é que fez isto e porquê? Seria que alguém tivesse escolhido esta forma macabra de me avisar?

Bevil regressou de Londres nessa noite. Eu encontrava-me na cama, mas não conseguia dormir. Tinha estado deitada, acordada, a meditar nos acontecimentos desse dia. Continuava a ver o rosto horrorizado e admirado do Sr. Hamforth e o de Jessica, sem sorrir nesse momento, mas tão insondável como sempre.

Bevil entrou no quarto.

- Acorda, Harriet. Tenho uma novidade inesperada. Balfour convidou-me para uma festa no fim-de-semana. Vão lá estar muitos outros.

- Que maravilha. Mas. soubeste de Hamforth?

- Hamforth? Que tem o Hamforth a ver com o convite do primeiro- ministro?

- Nada. Veio cá hoje, a fim de tirar as medidas para o meu caixão.

- O quê! Expliquei.

- Meu Deus! Quem faria uma coisa dessas?

- Gostava de o saber. Havia uma carta, mas Jessica Trelarken pô-la nalgum sítio... e perdeu-se.

- Mas qual era a ideia?

- Primeiro, o relógio parou... e agora, isto. É evidente que sou eu a vítima.

- Harriet, por amor de Deus, não penses numa coisa dessas.

- É como se alguém me estivesse a avisar.

- Temos de chegar ao fundo deste disparate. Amanhã, vou falar com o Hamforth.

- Não te pode dizer mais nada. Se encontrássemos a carta... Mas compreendes, Jessica tinha-a... e perdeu-a. Parece bem estranho.

- Deve ter ficado tão enervada como tu.

- Pelo menos, não vinham tirar-lhe as medidas a ela, para o caixão dela.

- Que ideia tão macabra para uma brincadeira! Minha pobre Harriet. - Pôs os braços à minha volta, com carinho. Queria ficar encostada a ele, para soluçar e deitar o meu medo cá para fora.

Apagou a luz e veio para a cama, e conversámos durante muito tempo sobre o caso do Hamforth e o que poderia significar o convite do primeiro-ministro.

Bevil foi a Lansella no dia seguinte. Eu, não. Não era capaz de enfrentar todas as pessoas que eu sabia que deveriam estar a falar da minha "morte". Esperaria um certo tempo, prometi a mim mesma, até a conversa ter morrido.

Fanny entrou com o tabuleiro do pequeno-almoço. Informou-me de que não precisava de me apressar a levantar.

Parecia extremamente contraída. Tinha a certeza de que o choque do Hamforth a assustara tanto como a mim.

- Fanny - sosseguei-a -, não deves ficar preocupada.

- Preocupada! - exclamou. - Estou quase fora de mim, a pensar no melhor que há a fazer.

- Achas que devemos falar na cevada de limão? Tudo parece diferente neste momento.

- Não precisa de se preocupar com isso - esclareceu Fanny, indicando o tabuleiro. - Fui lá abaixo, à cozinha, e preparei tudo.

- Oh, Fanny, sinto-me segura enquanto aqui estiveres.

- Não deixaria que lhe fizessem nada de mal.

- Está bem de ver, Fanny. Estou a ser avisada. Quem iria fazê-lo? - O seu rosto contraiu-se como se fosse chorar. Alguém parou o relógio para me avisar? Mandaram aquela carta ao Hamforth para me avisarem? Então, parece que quem quer que tenha feito estas coisas deseja que eu me prepare. Não seria a mesma pessoa, se quisesse que eu morresse, pois não?

Estendeu as mãos e olhou muito séria para mim, abanando a cabeça. De repente, parou e olhou para mim, com ar severo.

- Há uma coisa que tenho para lhe dizer. É essa Miss Trelarken. Pode- se sempre dizer. Posso ver no rosto dela. Provoca algo numa mulher. Eu sei, garanto-lho.

- Sabes o quê?

- Fui esta manhã ao quarto dela. O menino foi lá abaixo, à cozinha, antes de ela se levantar. Levei-o para o quarto e ela estava lá sem o vestido. Estava em roupa interior. Usa sempre aquelas saias de roda, mas em roupa interior pode ver-se.

- Fixei Fanny nos olhos. - Juro que é verdade - afirmou - que Miss Trelarken vai ter um filho.

- Fanny, não é possível.

- Diria que era.

- Não! - exclamei. - Não. - Senti-me doente, horrorizada com esta hipótese. Não consegui suportar ler a suspeita e as conclusões nos olhos de Fanny.

Estava a desenrolar-se da mesma forma que aqueloutra história, que se estava a tornar um pesadelo. A preceptora grávida. A mulher no caminho. O facto de ela ter dito que deveriam odiar-se uma à outra, que deveriam querer assassinar-se uma à outra.

Não podia ser assim. Tornara-me obcecada pela história da preceptora. E a seguir lembrei-me, de repente, de como ela estivera perto de mim no parapeito da muralha antes de desmaiar.

Era verdade, claro. Jessica Trelarken, como a preceptora da história, iria ter um filho.

Invadiam-me o espírito pensamentos terríveis. Será que o fantasma da ilha visto pelas raparigas era Bevil mantendo um encontro secreto com a sua amante? Não tinha ele usado sempre a ilha nas suas aventuras da juventude? Imaginei o desespero dos amantes, as conversas em segredo, as esperanças, o medo. E depois... a cevada de limão envenenada. Jenny havia morrido ao tomar arsénico, que provavelmente arranjara através das amigas do teatro. E Jessica? Reconhecia agora que a pele dela, tão macia e perfeita, tão fresca e um tanto translúcida, era como fora a de Jenny. Tinha Jessica arsénico em seu poder como Jenny tivera? Como conseguiu arranjá-lo? Facilmente. O pai deveria usá-lo para preparar os medicamentos e poderia haver alguma quantidade de tal produto no dispensário, na altura da sua morte. Jessica teria sabido o que era. Deveria ter sabido das experiências de Jenny e poderia muito bem ela própria ter tentado algumas. Não seria natural que uma mulher que notasse o efeito da sua beleza à sua volta tentasse aumentá-la?

Se Jessica tivesse arsénico em seu poder, seria razoável supor que alguém da sua confiança o tivesse deitado na minha cevada de limão.

Ela ansiava pela minha posição quando veio para Menfreya e agora, se Fanny talvez tivesse razão, precisava dele com desespero. E como poderia obtê-lo, enquanto eu ali estivesse a impedi-la?

Jessica estava a tentar matar-me?

Então quem me avisou? Seguramente alguém que sabia o que ela andava a tentar fazer. Mas, então, porque não dizer-mo com clareza? Porquê chegar ao ponto de fazer parar o relógio e mandar o cangalheiro tirar-me as medidas para o caixão?

Havia apenas uma única resposta. Quem quer que estivesse a tentar avisar-me não queria divulgar a sua identidade.

O rosto malicioso de A'Lee surgiu no meu espírito. Poderia ser? Sempre fora meu amigo. Talvez os tivesse visto na ilha. Não fora ele que os trouxera na noite em que lá ficaram presos?

Os pensamentos giravam em turbilhão, e Fanny sentou-se junto da minha cama, carrancuda, puxando as pontas do avental.

O almoço foi uma refeição calma nesse dia. Desfrutei-o na companhia de Sir Endelion e Lady Menfrey. Eles sentiam-se subjugados, como todos nós, desde o caso de Hamforth. Jessica almoçara no quarto com Benedict, com o que fiquei contente: tinha a certeza de que, se a visse, o meu olhar poderia trair as suspeitas que Fanny levantara no meu espírito. William Lister não nos acompanhou, por se encontrar ocupado no gabinete, e Bevil não regressara de Lansella. Eu calculava que a nova marcha dos acontecimentos insinuada pelo convite do primeiro-ministro estava a ser discutida.

Regressei ao meu quarto depois do almoço. Menfreya estava calma a esta hora. Todos os criados permaneciam nas suas instalações, os meus sogros tinham ido descansar. Jessica continuava no quarto, com Benedict, e William estava a trabalhar.

Bateram à minha porta e Fanny entrou, participando:

- Vou até à ilha. Quer vir comigo? Queria falar consigo

sobre alguns dos trabalhos a executar lá. Além disso...

Falara bastante com Fanny sobre os meus projectos em relação à casa da ilha e ela concordara de todo o coração. Imaginei que seria uma grande ajuda para mim quando iniciasse o meu esquema de férias. Talvez, pensei, quisesse discutir alguma coisa comigo, mas era mais provável que pretendesse que eu a acompanhasse.

- Vista um casaco quente - aconselhou-me. – Está aquele vento frio. Aqui tem. Agasalhe-se bem. Vá à frente que eu já a apanho.

Antes de chegar à praia, já ela estava comigo. Lançámos o barco à água e remámos para a ilha. Sorri com tristeza para ela e perguntei-lhe:

- Fanny, não me queres perder de vista, não é?

- É por isso - concordou. - Mas há lá coisas que queria que visse.

Tentei afastar os meus pensamentos de receios e pensar no Verão, quando a casa estivesse cheia de crianças. Parecia um longo caminho até lá.

- Poderia colocar seis no quarto grande da frente - conjecturei -, e depois há os outros quartos. A ilha vai parecer-lhes um paraíso, embora tenhamos de estabelecer uma regra, para que tentem remar para terra sozinhos, sem um adulto.

Fanny concordava, encantada por verificar que os meus pensamentos se dirigiam para uma nova direcção.

Encaminhámo-nos para a casa e ela contou:

- Quando estava na cozinha, no outro dia, reparei no depósito subterrâneo que lá existe. Pode-se levantar uma das lajes. Mal se nota que é diferente das outras... a não ser que se saiba. Mas claro que era essa a ideia. Venha comigo e mostro- lhe. - Fanny ficou à porta de casa, a olhar para o mar e para Menfreya, como se se sentisse por momentos relutante em sair dali. - É uma vista bela - admitiu, com má vontade. Era de facto bela, mesmo neste dia de Janeiro, com o mar de um verde-escuro encrespado pelas ondas cheias de espuma. Fiquei a olhar para Menfreya, cinzenta, quase ameaçadora, à luz da tarde. Os olhos de Fanny brilhavam, com uma expressão que eu não entendia. - Entre. Quero que veja este subterrâneo. - Segui-a até à cozinha, onde, com algum esforço, levantou a laje. - Tem de aprender como é - declarou. - Não é fácil de abrir. - Depois de ter posto à mostra uma cavidade no chão, dirigiu-se a um armário, do qual retirou um castiçal de ferro, em que colocou uma vela, que acendeu. - Há alguns degraus de pedra que levam ao subterrâneo - aclarou. - Vou dar uma olhadela.

- Deves ter cuidado, Fanny.

- Terei muito cuidado. Era onde costumavam esconder os barris de uísque, contou-me o Jem Tomrit.

- Contou?

- Sim. Lembra-se de como ele ficou perturbado quando pensou que havia um fantasma na ilha? Viu lá um homem. Claro que, quando me viu, contou-me. Alvitrou que fosse o fantasma de um dos que se haviam afogado no mar. Aqui tem, segure a vela, por um minuto. Dê-ma quando eu descer. Desceu e estendeu a mão para fora, a pedir a vela. Ouvi a sua exclamação, quando lha dei. - Oh, escute!

- Vou descer, a fim de verificar.

- Tenha cuidado. Estes degraus são íngremes. Dê-me a mão.

Avancei mais quatro ou cinco degraus e confirmei que Fanny tinha razão. Encontrávamo-nos numa espécie de subterrâneo. Reparei que havia mais alguns degraus para descer quando espreitei.

Passei mais alguns degraus, com o objectivo de olhar para a escuridão abaixo de mim, quando de repente se ouviu um ruído e o feixe de luz que vinha da cozinha, através do alçapão, desapareceu. Olhei para trás.

- O alçapão caiu, fechando-nos aqui dentro! - exclamei.

- Sim, Miss Harriet - A sua voz era suave. - Não se preocupe. Está tudo bem.

- Está muito escuro.

- Os seus olhos habituam-se à escuridão num instante. Desci mais alguns degraus e era como se o meu pé fosse agarrado por uma te