Translate to English Translate to Spanish Translate to French Translate to German Translate to Italian Translate to Russian Translate to Chinese Translate to Japanese

  

 

Planeta Criança



Poesia & Contos Infantis

 

 

 


Mergulho no Escuro / Danielle Stel
Mergulho no Escuro / Danielle Stel

 

 

Biblioteca Virtual do Poeta Sem Limites

 

 

Mergulho no Escuro

 

          

 

MARIE-ANGE HAWKINS estendia-se na relva alta, sob uma árvore imensa e antiga, ouvindo os pássaros e observando as nuvens fofas e brancas atravessarem o céu numa manhã ensolarada de agosto. Adorava ficar ali deitada, ouvindo as abelhas, sentindo o perfume das flores e saboreando uma maçã do pomar. Ela vivia em um mundo seguro e protegido, cercada de pessoas que a amavam. Gostava particularmente de correr livre no verão. Vivera no Chateau de Marmouton todos os onze anos de sua vida e vagava por seus bosques e montes como uma jovem corça, vadeando o pequeno córrego que os atravessava, a água na altura dos tornozelos. Havia cavalos e vacas e um curral na parte baixa da propriedade, junto à antiga casa de fazenda. Os trabalhadores da fazenda sempre sorriam e acenavam quando a viam. Era uma criança feliz, sorridente, e um espírito livre. Quase sempre, enquanto perambulava pelos gramados ou pegava maçãs e pêssegos no pomar, estava descalça.

 

Você parece uma ciganinha! sua mãe costumava ralhar com ela, mas sempre dizia isso sorrindo. Françoise Hawkins adorava os dois filhos.

 

Seu filho Robert nascera logo depois da guerra, onze meses após seu casamento com John Hawkins. John iniciara seus negócios, exportação de vinho, na mesma época e, em cinco anos, já fizera uma imensa fortuna. Compraram o Chateau de Marmouton quando Marie-Ange nasceu e ela cresceu ali. Frequentava a escola local na vila, a mesma em que Robert estudara. E agora, dentro de um mês, ele partiria para a Sorbonne, em Paris. Ia estudar economia e, futuramente, trabalhar nos negócios do pai. A empresa crescera a passos largos e o próprio John admirava-se com o sucesso alcançado e com a situação confortável que lhes proporcionava. Françoise tinha muito orgulho dele. Sempre tivera. Os dois tinham uma história extraordinária e romântica.

 

Nos últimos meses da guerra, como soldado americano, John tinha sido lançado de pára-quedas na França e quebrado uma perna ao cair em uma árvore na pequena fazenda dos pais de Françoise. Ela e a mãe estavam sozinhas, seu pai estava na Resistência e se ausentara para participar de uma daquelas reuniões secretas que ele frequentava quase toda noite. Elas esconderam John no sótão. Françoise tinha dezesseis anos na época e ficara mais que empolgada com aquele jovem alto, com a beleza e o charme do Meio-Oeste americano. Ele próprio

era um rapaz do interior e apenas quatro anos mais velho do que ela. Sua mãe manteve uma certa vigilância sobre eles, com receio de que Françoise se apaixonasse e fizesse alguma tolice. Mas John tratava-a com muito respeito e, por fim, estava tão apaixonado quanto Françoise. Ela ensinoulhe francês e ele ensinou-lhe inglês, em suas conversas sussurradas à noite, na absoluta escuridão do sótão. Nunca ousaram acender sequer uma vela, com medo de que os alemães os vissem. Ele ficou ali por quatro meses e, quando foi embora, Françoise ficou desolada com sua partida. Seu pai e alguns de seus amigos o ajudaram a se reunir aos americanos e ele finalmente tomou parte na libertação de Paris. No entanto, prometera a Françoise que voltaria para buscá-la e ela não teve a menor dúvida de que ele o faria.

Os pais dela foram mortos nos últimos dias da guerra, pouco antes da libertação, e ela foi enviada a Paris, para morar com primos. Não tinha nenhum meio de se comunicar com John, o endereço dele se perdera no caos e ela não fazia a menor ideia de que ele estivesse em Paris. Muito tempo depois, descobriram que haviam estado a dois ou três quilómetros de distância um do outro durante a maior parte do tempo, já que ela morava perto do Boulevard Saint-Germain, e ele nunca soube.

 

John foi enviado de volta aos Estados Unidos sem que pudesse revê-la e retornou a Iowa. Tinha suas próprias preocupações familiares. Seu pai fora morto em Guam e ele tinha que tomar conta da fazenda da família com sua mãe, irmãos e irmãs. Ele escreveu para Françoise assim que voltou, mas suas cartas não foram nem devolvidas, nem respondidas. Nunca chegaram a ela. Dois anos inteiros se passaram até ele conseguir juntar dinheiro suficiente para voltar à França, para tentar encontrá-la. Estava obcecado por ela desde que partira. Quando chegou à fazenda onde a conhecera, descobriu que fora vendida e era habitada por estranhos. Tudo que os vizinhos sabiam era que os pais de Françoise estavam mortos e que ela fora para Paris.

 

Ele partiu para lá em seguida e usou todos os meios que pôde imaginar para localizá-la: a polícia, a Cruz Vermelha, o cartório na Sorbonne, tantas escolas locais possíveis. No dia anterior à sua partida, sentado num pequeno café na Rive Gaúche, como por um milagre, ele a viu, caminhando lentamente pela rua sob a chuva, com a cabeça baixa. A princípio, ele achou que fosse uma estranha que simplesmente se parecia com Françoise, mas olhou-a mais atentamente e, depois, correu atrás dela, sentindo-se um tolo, mas sabendo que tinha que tentar uma última vez. Ela desatou a chorar no instante em que o viu e atirou os braços em volta do seu pescoço.

 

Passaram a noite juntos na casa dos primos dela e ele partiu para os Estados Unidos na manhã seguinte. Corresponderam-se durante um ano depois disso e, finalmente, ele voltou a Paris, desta vez para ficar. Ela estava, então, com dezenove anos e ele com vinte e três. Casaram-se duas semanas depois que ele voltou para Paris. Nos anos seguintes, dezenove ao todo, nunca se afastaram um do outro. Deixaram Paris após o nascimento de Robert e John finalmente disse que se sentia mais à vontade na França do que jamais se sentira em Iowa com seus pais. Tinha que ser assim, repetiam, sorrindo um para o outro sempre que contavam sua história. Marie-Ange ouvira a história mil vezes e as pessoas sempre diziam que era muito romântica.

 

Marie-Ange nunca conhecera os parentes de seu pai. Os pais dele já haviam morrido quando ela nasceu, assim como seus dois irmãos. Uma irmã falecera há poucos anos e sua outra irmã morreu num acidente quando Marie-Ange era bebé. Seu único parente vivo era uma tia do lado paterno, mas MarieAnge sabia, pelo modo como seu pai se referia a ela, que não gostava dela. Nenhum dos seus parentes jamais viera à França e ele afirmara mais de uma vez que eles o consideraram louco quando ele se mudou para Paris para ficar com sua mãe. Os primos de Françoise morreram em um acidente quando MarieAnge tinha três anos, ela não tinha avós e sua mãe não tinha irmãos ou irmãs. A única família que Marie-Ange possuía era seu irmão Robert e seus pais, além de uma tia-avó em algum lugar em Iowa, que seu pai detestava. Em certa ocasião, ele explicara a Marie-Ange que ela era ”mesquinha e avarenta”, o que quer que isso quisesse dizer. Nem se correspondiam mais. Mas Marie-Ange não sentia nenhuma falta de família. Sua vida era completa e as pessoas que a povoavam tratavam-na como uma bênção e uma alegria, até mesmo seu nome dizia que ela era um anjo. Todos a consideravam assim, até mesmo seu irmão Robert, que adorava implicar com ela.

 

Ela iria sentir sua falta quando ele partisse, mas Françoise já prometera a Marie-Ange que a levaria frequentemente a Paris para vê-lo. John tinha negócios lá e ele e Françoise adoravam passar uma ou duas noites em Paris. Quando o faziam, geralmente deixavam Marie-Ange com Sophie, a velha governanta que estava com eles desde que Robert era bebé. Viera para o chateau com eles e vivia em uma pequena casa na propriedade. Marie-Ange adorava visitá-la, tomar chá e comer os biscoitos que Sophie fazia para ela.

 

A vida de Marie-Ange era perfeita em todos os aspectos. Possuía a infância com que a maioria das pessoas sonhava liberdade, amor, segurança e morava num belo e antigo chateau, como uma princesinha. Quando sua mãe a vestia com os lindos vestidos que trazia de Paris para ela, ficava realmente parecendo uma princesa. Ou assim dizia-lhe seu pai. Embora, quando corria descalça pelos campos, com os vestidos e macacões que rasgava subindo em árvores, ele adorasse dizer que ela parecia uma órfã.

 

E, então, menina, o que anda aprontando? perguntou seu irmão quando veio buscá-la para o almoço. Sophie estava velha demais para sair correndo atrás dela e sua mãe mandara que ele fosse procurá-la, como sempre fazia. Conhecia todos os seus lugares e esconderijos preferidos.

 

Nada. Tinha o rosto todo lambuzado de pêssego e os bolsos cheios de caroços de pêssegos enquanto lhe sorria. Ele era alto, louro e bonito, como seu pai, assim como MarieAnge. Com seus cachos louros e olhos azuis, tinha o rosto de um anjo. Somente Françoise tinha cabelos escuros e grandes olhos castanhos aveludados. Seu marido sempre lhe dizia que queria que tivessem outro filho, que se parecesse com ela. Mas havia muito do jeito matreiro e divertido de Françoise no espírito de Marie-Ange.

 

Mamãe disse que está na hora de você entrar para almoçar advertiu Robert, conduzindo-a como a um pequeno potro. Não queria admitir isso para ela, mas sabia o quanto sentiria sua falta quando fosse para Paris. Desde que começara a andar, ela passara a ser sua sombra.

 

Não estou com fome disse a criança, sorrindo para ele.

 

Claro que não, você come frutas o dia todo. Não sei como não fica com dor de barriga.

 

Sophie disse que é bom para mim.

 

Almoço também é. Vamos, papai já vai chegar. Você tem que ir lavar o rosto e calçar os sapatos.

 

Tomou-a pela mão e ela o seguiu de volta para casa, caçoando, brincando e pulando à sua volta como um cachorrinho. Quando sua mãe a viu, gemeu diante do estado da menina.

 

Marie-Ange disse-lhe em francês. Somente John falava com Marie-Ange em inglês e ela era extraordinariamente fluente, embora tivesse um sotaque. Esse vestido que você colocou hoje de manhã era novo. Agora está em frangalhos. Françoise revirou os olhos, mas nunca parecia zangada. Quase sempre, divertia-se com as travessuras da filha.

 

Não, maman, é só o avental que está rasgado. O vestido ainda está perfeito garantiu-lhe Marie-Ange com um sorriso encabulado.

Graças à misericórdia divina. Agora vá lavar o rosto e as mãos e calce os sapatos. Sophie vai ajudá-la.

 

A mulher, com seu vestido preto surrado e avental imaculadamente branco, seguiu Marie-Ange para fora da cozinha, até seu quarto no último andar do chateau. Já não era fácil para ela subir e descer escadas, mas iria aos confins da Terra pelo seu ”neném”. Cuidara de Robert quando ele nasceu e se enchera de alegria quando Marie-Ange chegou de surpresa sete anos depois. Adorava toda a família Hawkins como se fossem seus filhos. Ela também tinha uma filha, mas morava na Normandia e raramente se viam. Sophie nunca admitiria, mas dedicava-se muito mais aos filhos dos Hawkins do que jamais se dedicara à sua própria filha. Assim como Marie-Ange, estava triste com a partida de Robert para estudar em Paris, mas sabia que seria bom para ele e que poderia vê-lo quando viesse para casa nos feriados e nas férias.

 

John fizera comentários sobre enviar o filho aos Estados Unidos para estudar por um ano, mas Françoise não gostou da ideia e o próprio Robert finalmente admitiu que não queria ir para tão longe. Formavam uma família muito unida e ele tinha muitos amigos na região. Paris já estava suficientemente longe para ele e, como sua mãe e sua irmã, era profundamente francês, apesar do pai americano.

 

John estava sentado à mesa da cozinha quando Marie-Ange desceu. Françoise acabara de servir-lhe um copo de vinho e um menor para Robert. Tomavam vinho em todas as refeições e às vezes davam um pouco para Marie-Ange em um copo d’água. John adaptara-se bem e facilmente aos costumes franceses. Conduzia seus negócios na França há anos, mas falava com os filhos em inglês, para que aprendessem a língua. E Robert era muito mais fluente do que sua irmã.

 

A conversa durante o almoço estava animada como sempre. John e Robert falavam de negócios, enquanto Françoise comentava as notícias locais e controlava Marie-Ange para que não fizesse muita sujeira enquanto comia. Embora tivesse permissão para vagar pelos campos, sua educação era formal e tinha excelentes modos, quando resolvia usá-los.

 

E você, filha, o que fez hoje? perguntou-lhe seu pai, desgrenhando seus cachos com uma das mãos, enquanto Françoise servia-lhe uma xícara de café forte e fumegante.

 

Ela andou depenando sua horta, papá disse Robert, rindo, enquanto Marie-Ange olhava de um para o outro, divertida.

 

Robert diz que comer muitos pêssegos vai me dar dor de barriga, mas não dá disse ela, orgulhosamente. Vou visitar a fazenda depois afirmou, como uma jovem rainha planejando uma visita aos súditos. Marie-Ange nunca conheceu alguém de quem não gostasse, nem ninguém que não a achasse encantadora. Ela era a proverbial criança de ouro e Robert a amava de modo especial. Por causa da diferença de idade de sete anos, nunca houve nenhum ciúme entre eles.

 

Logo você vai ter que voltar para a escola seu pai lembrou-a. As férias já estão acabando. Mas esse comentário fez Marie-Ange franzir o cenho. Sabia que isso significava que Robert iria partir e, quando chegasse a hora, todos sabiam que seria muito difícil para ela, como também para ele, embora estivesse entusiasmado com a aventura de morar em Paris.

 

Assim que o grande dia da partida de Robert chegou, MarieAnge levantou da cama ao amanhecer e estava escondida no pomar quando Robert veio procurar por ela antes do café da manhã.

 

Não vai tomar café comigo antes de eu ir? perguntou ele. Ela olhou-o solenemente e sacudiu a cabeça. Ele logo percebeu que ela andara chorando.

 

Não quero.

 

Não pode ficar sentada aqui o dia todo, venha tomar um café au lait comigo. Era proibido para ela, mas ele sempre deixava que tomasse longos goles da sua xícara. O que ela mais gostava era dos canards que ele a deixava fazer, mergulhando torrões de açúcar em seu café até ficarem embebidos. Jogava-os na boca com um ar de êxtase, antes que Sophie a visse.

 

Não quero que vá para Paris disse Marie-Ange, com os olhos cheios de lágrimas novamente, enquanto ele a tomava ternamente pela mão e a levava de volta para o chateau, onde seus pais os aguardavam.

 

Não vou ficar muito tempo longe. Virei passar um longo fim de semana em casa no Dia de Todos os Santos. Era o primeiro feriado que ele tinha no calendário escolar que a Sorbonne lhe enviara e seria dali a apenas dois meses, mas parecia

uma eternidade para sua irmãzinha. Você nem vai sentir falta de mim. Vai estar ocupada demais torturando Sophie, papai e mamãe e terá todos os seus amigos da escola para brincar.

 

Por que você tem que ir para essa Sorbonne? queixou-se, limpando os olhos com as mãos ainda sujas de terra do pomar e ele riu quando olhou para ela. Seu rosto estava tão sujo que ela parecia um moleque de rua. Era tão mimada, tão amada e tão protegida... Era realmente o bebé da casa.

 

Tenho que completar meus estudos, para poder ajudar papá nos negócios. E logo você irá também, a menos que pretenda ficar subindo em árvores para sempre. Aposto que você ia gostar disso. Ela sorriu-lhe em meio às lágrimas e sentou ao seu lado na mesa do café.

 

Françoise vestia um elegante conjunto azul-marinho que comprara em Paris no ano anterior, e o pai usava calças cinza, blazer e uma gravata Hermes azul-escuro que Françoise dera-lhe. Formavam um casal extraordinário. Ela estava com trinta e oito anos e parecia ter dez a menos, com uma figura esbelta e jovial, um lindo rosto, sem rugas, e os mesmos traços delicados de que John se lembrava do dia em que a conhecera. E ele era tão bonito e louro como na época em que caíra de pára-quedas na fazenda de seus pais.

 

Tem que prometer, Marie-Ange, que vai obedecer a Sophie enquanto eu estiver fora. advertiu Françoise, enquanto Robert passava-lhe furtivamente, por baixo da mesa, um canard pingando café e a menina o jogava na boca com um olhar agradecido. Não ande para longe, onde ela não consiga  encontrá-la. Ela própria iria recomeçar as aulas dentro de dois dias e sua mãe esperava que isso mantivesse sua mente longe do irmão. Seu pai e eu estaremos de volta no fim de semana. Mas sem Robert. Parecia uma tragédia para sua irmãzinha.

 

Eu telefono de Paris para você prometeu o irmão.

 

Todo dia? perguntou-lhe Marie-Ange com os imensos olhos azuis, tão semelhantes aos seus e aos de seu pai.

 

Sempre que eu puder. Estarei muito ocupado com minhas aulas, mas eu telefono.

 

Deu-lhe um grande abraço, apertou-a contra o peito e beijou-a nas bochechas quando se afastou e entrou no carro com seus pais. Cada um deles tinha uma pequena mala de viagem no porta-malas e, pouco antes de fechar a porta, Robert enfiou um pequeno embrulho na mão dela e disse-lhe para usá-lo. Ela ainda segurava-o quando o carro se afastou deixando-a ao lado de Sophie, chorando e acenando. Assim que retornou à cozinha, Marie-Ange abriu o presente e encontrou um pequeno medalhão de ouro, com uma foto dele sorrindo. Ela lembrou-se da fotografia do Natal anterior. Na outra metade do medalhão, ele colocara uma pequena foto de seus pais, tirada no mesmo dia. Era uma jóia muito bonita e Sophie ajudou-a a fechar o delicado cordão de ouro em que estava pendurada.

 

Que lindo presente Robert lhe deu! exclamou Sophie, enxugando os olhos e tirando a mesa do café, enquanto Marie-Ange ia admirar o medalhão no espelho do corredor. Sorriu para o espelho e sentiu novamente uma pontada de solidão  ao olhar o rosto de seu irmão na fotografia e outra ao ver a foto de seus pais. Sua mãe dera-lhe dois grandes beijos antes de partir e seu pai abraçara-a e desgrenhara seus cachos como sempre fazia, prometendo pegá-la na escola no sábado ao meio-dia, quando voltassem de Paris. Mas agora a casa parecia vazia sem eles. Passou pelo quarto de Robert a caminho do seu próprio quarto, depois sentou-se na sua cama por algum tempo, pensando nele.

 

Ainda estava sentada ali, com o olhar perdido, quando Sophie veio buscá-la meia hora mais tarde.

 

Quer ir à fazenda comigo? Tenho que pegar uns ovos e prometi levar uns pãezinhos para madame Fournier.

 

Marie-Ange, entretanto, apenas sacudiu a cabeça tristemente. Nem mesmo os prazeres da fazenda a atraíam naquela manhã. Já sentia falta de seu irmão. Sem ele, o inverno seria longo e solitário em Marmouton. Sophie resignou-se em ir à fazenda sozinha.

 

Volto na hora do almoço, Marie-Ange. Não saia do jardim, não quero ter que procurá-la por toda parte para encontrála. Promete?

 

Oui, Sophie disse, diligentemente. Não tinha vontade de ir a lugar algum, mas depois que Sophie se foi, ela saiu para o jardim, mas não encontrou nada para fazer ali. Resolveu descer até o pomar e pegar algumas maçãs. Sabia que Sophie faria uma tarte tatin com elas, se trouxesse bastantes maçãs em seu avental. Mas até mesmo Sophie estava deprimida quando voltou ao meio-dia e fez uma sopa e um Croque Madame para Marie-Ange. Normalmente, aquele era seu almoço favorito, mas naquele dia ela apenas beliscou a comida. Nenhuma das duas sentia-se bem-disposta. Depois do almoço, Marie-Ange voltou ao pomar para brincar e, por algum tempo, ficou apenas deitada ali, na relva, fitando o céu, como costumava fazer, e pensando em seu irmão. Permaneceu deitada por um longo tempo e a tarde já findava quando começou a andar em direção a casa, descalça como sempre e tão desalinhada quanto sempre estava àquela hora. E notou que o carro da polícia local estava estacionado no pátio. Nem mesmo isso a animou. A polícia local costumava passar pela casa de vez em quando para cumprimentar, tomar chá com Sophie ou ver como estavam. Imaginou se saberiam que seus pais haviam viajado para Paris. Quando entrou na cozinha, viu um policial sentado com Sophie e notou que Sophie chorava. Presumiu que ela contava ao policial que Robert mudara-se para Paris. Só de pensar nisso MarieAnge levou a mão ao medalhão. Tocara-o inúmeras vezes durante toda a tarde, para senti-lo e certificar-se de que não o perdera no pomar. Quando avançou mais para dentro da cozinha, tanto o policial quanto Sophie pararam de falar. A mulher olhou-a com tal desolação no semblante que Marie-Ange fitou-a, perguntando-se o que teria acontecido. Era algo mais do que apenas Robert, podia perceber. Imaginou repentinamente se alguma coisa havia acontecido à filha de Sophie. Mas nenhum dos dois adultos pronunciou sequer uma palavra, apenas a olhavam fixamente, enquanto Marie-Ange sentia um estranho calafrio de medo percorrer seu corpo.

Houve uma pausa infindável, enquanto Sophie olhou para o policial e em seguida para a criança, depois estendeu os braços para ela.

 

Venha sentar-se aqui, querida. Indicou seu colo, o que não fazia há muito tempo, porque Marie-Ange já estava quase do seu tamanho. Assim que Marie-Ange sentou-se em seu colo, sentiu os braços velhos e frágeis envolverem-na. Sophie não conseguia falar, contar a Marie-Ange o que acabara de ouvir, e o policial pôde ver que seria ele quem teria que lhe dar a notícia.

 

Marie-Ange disse gravemente, enquanto ela sentia Sophie tremendo às suas costas. Repentinamente, tudo que queria fazer era tampar os ouvidos e sair correndo. Não queria ouvir nada do que ele iria lhe dizer. Mas não pôde impedi-lo. Houve um acidente, na estrada para Paris. Ela ouviu a própria respiração suspensa e sentiu o coração acelerar. Que acidente? Não podia ser. Mas alguém deve ter se ferido para ele ter vindo até aqui e só podia rezar para que não tivesse sido Robert. Um terrível acidente continuou deliberadamente, enquanto Marie-Ange sentia o terror avolumar-se como uma onda gigante. Seus pais e seu irmão ele começou, enquanto Marie-Ange dava um salto do colo de Sophie e tentava sair correndo da cozinha, mas ele a agarrou e segurou-a pelo braço com firmeza. Por mais que não quisesse, sabia que precisava contar-lhe. Todos os três morreram há uma hora. O carro bateu em um caminhão que derrapou na estrada e eles morreram instantaneamente. A polícia rodoviária acabou de nos ligar. Suas palavras encerraram-se tão bruscamente quanto haviam começado e Marie-Ange ficou paralisada, sentindo o coração bater com força e ouvindo o tique-taque do relógio no silêncio da cozinha. Olhou-o enfurecida.

 

Não é verdade! gritou em seguida. É mentira! Meus pais e Robert não morreram em um acidente! Eles estão em Paris.

 

Não chegaram lá disse ele, pesarosamente, enquanto Sophie deixava escapar um soluço e, no mesmo instante, Marie-Ange começava a chorar freneticamente e a debater-se com a poderosa mão que a segurava. Sem saber o que fazer, e não querendo machucá-la, soltou-a. Como um torpedo, ela atravessou a porta e correu na direção do pomar. Ele não sabia ao certo o que devia fazer e voltou-se para Sophie em busca de uma orientação. Não tinha filhos e aquela não era uma tarefa agradável. Devo ir atrás dela? mas Sophie apenas sacudiu a cabeça e enxugou os olhos no avental.

 

Deixe-a por enquanto. Vou atrás dela daqui a pouco. Ela precisa de um pouco de tempo para absorver tudo isso. Mas tudo que Sophie conseguia fazer era chorar, lamentar as mortes e imaginar o que aconteceria a ela e a Marie-Ange agora. Era tão impensável, insuportável, aquelas três pessoas adoráveis mortas em um instante. A cena da carnificina que o policial descrevera era tão terrível que Sophie mal pôde ouvi-lo. Tudo que podia desejar é que tivesse sido indolor. Tudo que podia fazer agora era preocupar-se com Marie-Ange e com o que aconteceria a ela sem seus pais. Quando lhe perguntou, o policial disse não fazer a menor ideia e que tinha certeza de que um advogado da família entraria em contato com elas sobre as providências a serem tomadas. Ele não saberia responder as perguntas de Sophie.

 

Já escurecia quando ela saiu para encontrar Marie-Ange depois que o policial foi embora, mas não foi difícil achá-la. Estava sentada junto a uma árvore, com o rosto enterrado nos joelhos, como uma pequena bola angustiada, soluçando. Sophie não disse nada, mas abaixou-se e sentou a seu lado.

 

É a vontade de Deus, Marie-Ange. Ele os levou para o céu disse em meio às próprias lágrimas.

 

Não, não levou, não ela insistia. E se levou, eu O odeio.

 

Não fale assim. Temos que rezar por eles. Enquanto falava, tomou Marie-Ange nos braços e ficaram sentadas ali por muito tempo, chorando juntas, enquanto Sophie balançava-a ternamente para a frente e para trás, abraçando-a. Já era noite quando finalmente voltaram, Sophie amparando-a com o braço ao redor de seus ombros. Marie-Ange parecia atordoada e confusa, enquanto dirigia-se para o chateau. Em seguida, ergueu os olhos aterrorizados para Sophie quando chegaram ao pátio.

 

O que vai acontecer com a gente agora? perguntou com um fio de voz, os olhos fitos nos da velha governanta. Nós vamos continuar aqui?

 

Espero que sim, meu amor. Não sei respondeu honestamente. Não queria lhe fazer promessas que não poderia cumprir e não fazia a menor ideia do que iria acontecer. Sabia que não havia avós, nenhuma família, ninguém que tivesse vindo visitá-los dos Estados Unidos. Até onde sabia, não havia nenhum parente em nenhum dos dois lados e Sophie acreditava, e Marie-Ange sentia, que ela estava sozinha no mundo agora. Ao contemplar o futuro sem seus pais ou Robert, MarieAnge sentiu uma onda de terror dominá-la, como se estivesse se afogando. Pior ainda, nunca mais veria seus pais ou seu irmão novamente e a vida segura, protegida, amorosa que conhecera terminara tão bruscamente como se ela também tivesse morrido com eles.

 

O FUNERAL FOI REALIZADO na capela da propriedade em Marmouton e reuniu uma grande multidão vinda das fazendas vizinhas e da vila. Os amigos de seus pais e de Robert compareceram, toda a sua turma da escola, aqueles que ainda não haviam partido para alguma universidade longe dali, bem como os sócios e empregados de seu pai. Prepararam uma refeição no chateau e todos foram comer, beber e conversar depois da cerimónia, mas não havia ninguém a consolar, exceto a filha que haviam deixado e a governanta que a adorava.

 

No dia seguinte ao funeral, o advogado de seu pai veio explicar-lhes a situação. Marie-Ange tinha um único parente vivo, a tia de seu pai, Carole Collins, em um lugar chamado Iowa. Marie-Ange só se lembrava de ter ouvido alguém mencioná-la uma ou duas vezes e que seu pai não gostava dela. Ela nunca viera à França, nunca se visitaram nem mantiveram correspondência. Marie-Ange não sabia mais nada a seu respeito.

 

O advogado disse-lhes que telefonara para ela e que ela estava disposta a aceitar que Marie-Ange fosse viver com ela. O advogado se encarregaria de ”dispor” do chateau e dos negócios de seu pai, disse, o que nada significava para Marie-Ange, aos onze anos. Disse ainda que havia algumas ”dívidas”, que também era um termo misterioso para ela, e falou sobre os bens de seus pais, enquanto Marie-Ange fitava-o entorpecida.

 

Ela não pode continuar a viver aqui, senhor? perguntou Sophie através das lágrimas e ele sacudiu a cabeça. Não podia deixar uma menina tão pequena sozinha em um chateau, apenas com uma velha e frágil empregada para cuidar dela. Decisões teriam que ser tomadas, sobre sua educação, sua vida, e não se podia esperar que Sophie arcasse com essas responsabilidades. O pessoal do escritório de John já lhe informara que a idosa governanta tinha uma saúde precária e parecia-lhe melhor mandar a criança para ser educada por parentes que cuidariam dela e tomariam as decisões certas, por melhores que fossem as intenções de Sophie. Disse que poderia oferecer uma pensão a Sophie e ficou enternecido ao ver que isso não tinha a menor importância para ela. Só estava preocupada com o que iria acontecer a Marie-Ange, sendo enviada para viver com estranhos. Sophie estava desesperadamente preocupada com ela. A menina mal comia desde o dia em que os pais morreram, estava inconsolável. Tudo que fazia era ficar deitada na relva alta perto do pomar, os olhos fixos no céu.

Tenho certeza de que a sua tia é uma mulher muito boa disse ela diretamente a Marie-Ange, para tranquilizá-la.

 

Marie-Ange apenas continuou a fitar o advogado, incapaz de revelar que seu pai dissera que sua tia era ”mesquinha e avarenta”. Não parecia ”muito boa” para Marie-Ange.

 

Quando vai mandá-la para lá? perguntou Sophie num sussurro, depois que Marie-Ange saiu. Não podia sequer começar a pensar em se separar dela.

 

Depois de amanhã disse, enquanto a mulher soluçava. Eu mesmo a levarei de carro a Paris e a colocarei no avião. Ela voará para Chicago e depois trocará de avião. A tia vai mandar alguém pegá-la no aeroporto e levá-la até a fazenda. Acho que é onde o sr. Hawkins foi criado disse ele com tom tranquilizador, mas sua própria perda era agora grande demais para que pudesse ser confortada. Perdera não só os patrões que admirava e amava, o garoto de quem cuidara desde que nascera, mas estava prestes a perder a criança que adorara desde que pusera os olhos nela. Marie-Ange era um raio de sol para todos que a conheciam. Nenhuma pensão jamais a compensaria pelo que estava prestes a perder agora. Era quase como perder a própria filha e, de certa forma, ainda mais difícil, porque a criança precisava dela, era tão vulnerável e meiga.

 

Como vamos saber se serão bons para ela? perguntou Sophie com um olhar angustiado. E se ela não for feliz?

 

Ela não tem escolha respondeu-lhe sem rodeios, É seu único parente. Ela deve ir morar lá e é uma felicidade que a sra. Collins a queira aceitar.

Ela tem filhos? perguntou Sophie, agarrando-se a alguma esperança de que Marie-Ange encontraria consolo e amor.

 

Acho que ela é bastante idosa, mas parece inteligente e sensata. Ficou surpresa quando liguei, mas desejosa de ficar com a criança. Disse para mandá-la com roupas quentes, faz muito frio lá no inverno.

 

No que dizia respeito a Sophie, Iowa podia até ser na lua. Não suportava a ideia de enviar Marie-Ange para longe e prometeu mandar todas as roupas quentes que pudesse e tudo o mais que Marie-Ange amava no seu quarto, brinquedos e bonecas, bem como fotos de Robert e dos pais, para que ao menos tivesse objetos familiares com ela.

 

Conseguiu arrumar tudo em três malas enormes e o advogado não fez nenhum comentário em relação à quantidade de bagagem quando veio buscar Marie-Ange dois dias depois. Ao observá-la, sentiu o próprio coração doer. Ela parecia ter sofrido um golpe tão letal que mal podia tolerar ou absorver o que acontecera. Havia uma expressão de choque e agonia em seus olhos, que só piorou quando soluçava nos braços de Sophie e a mulher parecia igualmente transtornada enquanto a abraçava. Ele ficou ali por dez minutos, sentindo-se impotente e desconfortável enquanto ambas choravam e, finalmente, tocou delicadamente no ombro da criança.

 

Temos que ir agora, Marie-Ange. Não vamos querer perder o avião em Paris.

 

Sim, eu quero soluçava desesperadamente. Não quero ir para Iowa. Quero ficar aqui. Ele não a lembrou de que o chateau seria vendido, com tudo que havia nele. Não havia razão para mantê-lo, com Marie-Ange sendo tão jovem e indo para tão longe. Sua vida no chateau de Marmouton acabara e, quer ele dissesse isso quer não, ela o sabia. Olhou angustiadamente à sua volta antes de partirem, como se tentasse absorver tudo que havia ao seu redor. Sophie prometeu escrever para ela todos os dias e ainda soluçava inconsolavelmente quando se afastaram. O carro já desaparecera quando a velha mulher caiu de joelhos no pátio, soluçando de angústia. Depois que partiram, entrou na cozinha e, em seguida, foi para sua casinha arrumar seus pertences. Deixou-a impecavelmente arrumada, deu um último olhar à volta, depois saiu para o sol de setembro e trancou a porta atrás de si. Já arranjara para ficar com seus amigos na fazenda por algum tempo e depois teria que ir para a Normandia viver com a filha.

 

Na longa viagem de carro para Paris, Marie-Ange não disse uma única palavra ao advogado de seus pais. No começo, ele fez algumas tentativas de entabular uma conversa, mas finalmente desistiu. Ela nada tinha a dizer e ele sabia que havia pouco, ou nada, que pudesse dizer para consolá-la. Ela teria simplesmente que aprender a conviver com aquilo e começar uma vida nova com a tia-avó em Iowa. Tinha certeza de que, com o tempo, ela seria feliz. Não poderia permanecer inconsolável para sempre.

 

No caminho, pararam para almoçar, mas ela não comeu absolutamente nada e quando lhe ofereceu um sorvete no aeroporto, mais tarde, ela sacudiu a cabeça e recusou. Os olhos azuis pareciam imensos em seu rosto e os cachos ligeiramente desgrenhados. Mas Sophie vestira-a com um lindo vestido azul, com uma pala bordada na frente, que sua mãe comprara para ela em Paris. Usava, também, um casaquinho azul combinando. Calçava seus melhores sapatos de couro legítimo e usava o medalhão de ouro que fora o último presente de seu irmão. Seria impossível imaginar, ao vê-la, que passara todo o verão correndo descalça e desgrenhada pelo pomar. Parecia uma princesinha trágica quando embarcou no avião e ele ficou parado por um longo instante observando-a, mas ela não se virou para acenar um adeus. Não disse nada além de um educado Au revoir, monsieur quando apertou sua mão e a aeromoça conduziu-a para dentro do avião que a levaria a Chicago. Ele explicara-lhes discretamente que ela perdera toda a família e estava sendo enviada para viver com parentes em Iowa. Era fácil constatar que ela estava desesperadamente infeliz.

 

A chefe das comissárias de bordo condoeu-se de MarieAnge e prometeu tomar conta dela durante o voo e colocá-la a salvo no voo de conexão quando chegassem a Chicago. Agradeceu-lhe educadamente, mas seu coração doía ao pensar no que Marie-Ange estava passando. Ficara contente por ela ao menos ter uma tia-avó para ficar com ela e consolá-la.

 

Ficou ali até o avião levantar voo e depois saiu para enfrentar o longo trajeto de volta a Marmouton, pensando não só na criança, mas também no trabalho que ainda tinha por fazer, desfazendo-se de todos os bens, do chateau e dos negócios do pai da menina. Ficava aliviado, pelo bem dela, que seu pai tivesse deixado os negócios em ordem.

Marie-Ange permaneceu acordada a maior parte da noite e somente depois de terem insistido diversas vezes é que beliscou um pequeno pedaço de frango e deu umas mordidas no pão. Fora isso, não comeu mais nada e não disse nem uma palavra. Ficou olhando fixamente pela janela durante a maior parte da noite, como se pudesse ver algo lá fora, mas nada havia para ver, nada com que sonhar agora, nada para lhe dar esperança. Aos onze anos, sentia como se toda a sua vida tivesse ficado para trás. Quando finalmente fechou os olhos, pôde ver seus rostos com tanta clareza como se estivesse olhando suas fotos no medalhão. Levava uma fotografia de Sophie também e o endereço de sua filha. Marie-Ange prometera escrever para ela assim que chegasse à fazenda de sua tia-avó e Sophie prometera responder.

 

Chegaram a Chicago às nove da noite, hora local, e uma hora depois ela já estava no voo para Iowa, com suas três enormes malas despachadas na bagagem. Às onze e meia, o avião aterrissou em Fort Dodge, com Marie-Ange olhando pela janela. Estava escuro lá fora e quase não podia ver nada, mas a região parecia plana por quilómetros ao redor. O aeroporto pareceu minúsculo quando a aeromoça ajudou Marie-Ange a descer as escadas para a pista e depois andar até o terminal, onde um homem com um chapéu de caubói de abas largas a aguardava. Ele usava bigode e tinha olhos graves e escuros. Marie-Ange pareceu ter medo dele quando se apresentou à aeromoça como o capataz de sua tia-avó. A sra. Collins dera-lhe uma carta que o autorizava a pegar Marie-Ange e a aeromoça responsável por ela entregou-lhe seu passaporte. A aeromoça então se despediu, o capataz segurou a mão de Marie-Ange e foram pegar suas malas. Ficou admirado com o tamanho e a quantidade de malas e sorriu para ela.

 

Ainda bem que eu vim na minha caminhonete, não é? disse, mas ela não respondeu. Ocorreu-lhe, de repente, que talvez ela não falasse inglês, apesar de seu pai ser americano. Tudo que dissera foi good-bye à aeromoça e ele notou um forte sotaque francês. Não era de admirar, ela crescera na França e sua mãe era francesa. Está com fome? perguntou ele, pronunciando as palavras distintamente para que ela o entendesse. Ela sacudiu a cabeça e não disse nada.

 

Chamou um carregador para levar uma das malas até a caminhonete e carregou as outras duas. No caminho, disse-lhe que seu nome era Tom e que trabalhava para sua tia Carole. Marie-Ange ouviu e balançou a cabeça, enquanto ele se perguntava se ela ficara muda com o trauma da morte de sua família ou se era apenas tímida. Havia um olhar de tristeza em seus olhos que partia seu coração.

 

Sua tia é uma boa pessoa disse para tranquilizá-la, quando começou a dirigir, com suas malas na traseira da caminhonete. Marie-Ange não fez nenhum comentário. Já a odiava por tirá-la de sua casa e de Sophie. Marie-Ange queria muito ter permanecido lá. Mais do que qualquer um deles poderia imaginar.

 

Viajaram por uma hora e já era quase uma hora da manhã quando ele saiu da auto-estrada e entrou numa estrada secundária, por onde seguiram aos solavancos por alguns minutos. Então, viu uma enorme casa assomar no meio da noite. Viu dois silos, um celeiro e algumas outras edificações. Pareceu-lhe um lugar enorme, mas tão diferente de Marmouton como se fosse em outro planeta. Para Marie-Ange, bem podia ser. Quando pararam diante da casa, ninguém veio ao seu encontro. Em vez disso, Tom tirou suas malas da caminhonete e entrou na velha e um tanto dilapidada cozinha da fazenda. Marie-Ange ficou parada, hesitante, na soleira da porta atrás dele. Parecia ter medo do que iria encontrar quando entrasse. Ele voltou-se para ela com um sorriso amável, fazendo-lhe sinal para que entrasse.

 

Venha, Marie disse, omitindo metade de seu nome. Vou ver se encontro sua tia Carole. Ela disse que ficaria acordada, esperando você. Marie-Ange já estava viajando há 22 horas e parecia exausta, mas seus olhos se afiguravam enormes enquanto o observavam. Deu um salto quando ouviu um barulho e, em seguida, viu uma mulher idosa em uma cadeira de rodas, observando-os da porta de um aposento fracamente iluminado atrás dela. Era uma visão aterradora para uma criança de onze anos.

 

É uma tolice usar um vestido como esse em uma fazenda a mulher disse à guisa de saudação. Tinha as feições duras e angulares e olhos que apenas vagamente lembravam os do pai de Marie-Ange. Suas mãos eram longas e ossudas, pousadas nas rodas da cadeira. Marie-Ange ficou perplexa ao ver que ela era inválida e um pouco assustada com isso. Parece que vai a uma festa. Não era um elogio, mas uma crítica e Sophie havia colocado em sua mala muitos outros vestidos ”tolos” como aquele.

 

Você fala inglês? perguntou bruscamente a mulher que Marie-Ange presumia que fosse sua tia-avó, e a menina assentiu. Obrigada por pegá-la no aeroporto, Tom disse ao capataz.

 

Ele bateu de leve no ombro de Marie-Ange ao sair, como se quisesse encorajá-la. Tinha seus próprios filhos e netos, e sentia pena da menina que estava tão longe de sua casa, por razões tão trágicas. Era uma linda criança e pareceu aterrorizada durante todo o trajeto do aeroporto, apesar de todos os seus esforços para tranquilizá-la. Sabia que Carole Collins não era uma mulher acalentadora. Não tivera filhos e nunca pareceu interessada em crianças. Os filhos de seus empregados e amigos não significavam nada para ela. Era uma ironia que, tão tarde na vida, seu caminho fosse atravessado por essa menina. O capataz esperava que isso a enternecesse um pouco.

 

Deve estar cansada disse ela, olhando para MarieAnge, quando ficaram sozinhas na cozinha. Marie-Ange teve que reprimir as lágrimas, sentindo falta do abraço reconfortante de Sophie. Poderá ir para a cama em um minuto.

 

Marie-Ange estava cansada, porém, mais do que isso, estava finalmente com fome, mas Carole Collins foi a primeira pessoa naquela noite que não lhe ofereceu nada para comer e Marie-Ange tinha medo de pedir-lhe.

Tem alguma coisa a dizer? perguntou, olhando diretamente para Marie-Ange. A menina achou que fosse uma repreensão por não lhe ter agradecido.

 

Obrigada por me deixar vir disse num inglês correto, mas com sotaque.

 

Acho que nenhuma de nós teve muita escolha disse Carole Collins sem rodeios. Vamos ter que fazer o melhor que pudermos. Há trabalhos que você pode fazer aqui. Queria deixar tudo claro desde o início. Espero que tenha trazido algo mais sensato para vestir disse por cima do ombro, enquanto girava a cadeira de rodas com agilidade.

 

Carole Collins tivera poliomielite quando criança e nunca recuperou o uso das pernas. Embora fosse capaz de se locomover de muletas com presilhas nas pernas, preferira não fazê-lo. A cadeira de rodas era menos humilhante e mais eficiente. Usava-a há mais de cinquenta anos. Fizera setenta anos em abril daquele ano. Ficou viúva quando seu marido morreu na guerra e nunca voltou a se casar. A fazenda fora de seu pai e ela a administrava bem. Quando seu irmão morreu, anexou as terras dele à sua propriedade. Seu irmão era o pai de John, a mulher dele casara-se novamente e se mudara, ficando feliz por sua cunhada comprar as terras que pertenceram a seu marido. Carole Collins era a única sobrevivente da família. Sabia muito sobre fazendas e absolutamente nada sobre crianças.

 

Ela estava cedendo seu quarto extra para Marie-Ange e não estava contente com isso, embora, de qualquer modo, raramente tivesse visitas. Mas, para Carole, parecia o desperdício de um bom quarto e ela conduziu Marie-Ange até lá, pela sala fracamente iluminada e por um longo e escuro corredor. MarieAnge teve que reprimir as lágrimas a cada passo do caminho, de tristeza, terror e cansaço. O quarto que viu quando Carole acendeu a luz era modesto e árido. Havia uma cruz em uma das paredes e uma gravura de Norman Rockwell na outra. A cama era de metal, com um colchão fino, e havia dois lençóis e um cobertor perfeitamente dobrados sobre ela, um único travesseiro e uma toalha. Havia um pequeno closet e, uma cómoda estreita e até Marie-Ange podia ver que não haveria espaço para colocar o que ela trouxera em suas três malas enormes, mas teria que enfrentar esse dilema pela manhã.

 

O banheiro fica no final do corredorexplicou Carole. Você o divide comigo, portanto não passe muito tempo lá dentro. Mas acho que ainda não tem idade suficiente para isso.

 

Marie-Ange aquiesceu. Sua mãe sempre gostara de tomar banhos longos e relaxantes e, quando iam sair, ela passava um longo tempo fazendo a maquilagem. Marie-Ange adorava sentar e observá-la. Mas Carole Collins não usava maquilagem e vestia calças jeans e uma camisa masculina. Seus cabelos grisalhos eram cortados curtos, assim como suas unhas. Não havia nada frívolo ou particularmente feminino a seu respeito. Parecia simplesmente velha e ranzinza para Marie-Ange, enquanto se entreolhavam.

 

Imagino que saiba fazer sua cama. Se não souber, pode descobrir sozinha disse, sem nenhuma cordialidade. MarieAnge assentiu. Sophie ensinara-lhe a fazer a cama há muito tempo, embora nunca tivesse sido muito boa nisso e, quando Sophie a ajudava, Robert sempre se queixava de ter que fazer sua cama sozinho.

 

As duas parentes distantes olharam uma para a outra por um longo instante, enquanto Carole estreitava os olhos, analisando-a.

 

Você se parece muito com seu pai quando criança. Não o via há vinte anos acrescentou, mas sem muito pesar, enquanto a palavra mesquinha vinha à mente de Marie-Ange e ela começava a compreender. Sua tia-avó parecia fria, rude e infeliz, talvez por estar em uma cadeira de rodas, concluiu. Mas teve a consideração de não lhe perguntar a respeito. Sabia que sua mãe não gostaria que ela o fizesse. Não o vejo desde que foi para a França. Sempre me pareceu uma loucura, quando tinha tanta coisa a fazer aqui. Foi difícil para o pai dele quando ele foi embora, tocar a fazenda sozinho, mas ele não pareceu se importar muito. Acho que ele foi para lá atrás de sua mãe. Disse isso como uma acusação e Marie-Ange teve a sensação de que ela esperava que pedisse desculpas por isso, mas não o fez. Podia compreender agora por que ele fora para Paris. A casa em que estava era triste e deprimente e sua tia podia ser qualquer coisa, menos amistosa. Imaginou se o resto da família fora como Carole Collins. Ela era tão diferente de sua mãe, que era carinhosa, amável e alegre, cheia de vida, e muito, muito bonita. Não era de admirar que seu pai tivesse ido ao seu encontro, particularmente se as outras mulheres de Iowa fossem como esta. Se Marie-Ange fosse mais velha, teria compreendido que Carole Collins era, mais do que qualquer outra coisa, amarga. A vida não fora generosa com ela, aleijando-a com tão pouca idade e depois tirando seu marido alguns anos mais tarde. Houve bem pouca alegria em sua vida e ela nada tinha a oferecer.

 

Acordarei você quando eu acordar avisou e MarieAnge imaginou quando seria, mas não ousou perguntar. Pode me ajudar a preparar o café da manhã.

 

Obrigada Marie-Ange murmurou, as lágrimas assomando aos olhos, mas a velha mulher pareceu não notar. Virou-se e se afastou em sua cadeira de rodas, enquanto MarieAnge fechava a porta do quarto, sentava-se na cama e começava a chorar. Recompôs-se finalmente e fez a cama. Depois, revirou as malas, até encontrar suas camisolas, perfeitamente dobradas por Sophie. Tinham pequenos bordados que Sophie havia feito com suas mãos enrijecidas, eram do mais fino algodão e, como tudo o mais que lhe pertencia, foram compradas em Paris. De algum modo, Marie-Ange sabia que Carole Collins jamais vira algo assim e nunca se importaria.

 

Marie-Ange foi para a cama e ficou deitada no escuro por um longo tempo naquela noite, imaginando o que teria feito para que lhe sobreviesse esse terrível destino. Robert e seus pais se foram, Sophie com eles, e agora ficara sozinha com essa mulher velha e assustadora, naquele lugar sombrio. Tudo que desejava, ali deitada em sua cama naquela noite, ouvindo os sons nada familiares do lado de fora, era que seus pais a tivessem levado com eles quando partiram para Paris com Robert.

 

AINDA ESTAVA ESCURO na manhã seguinte quando a tia de Marie-Ange veio acordá-la. Surgiu na porta do quarto, em sua cadeira de rodas, disse-lhe para se levantar e, em seguida, bruscamente, girou a cadeira de rodas e dirigiu-se à cozinha. Cinco minutos depois, com os cabelos desalinhados e olhos sonolentos, Marie-Ange juntou-se a ela. Eram cinco e meia da manhã.

 

Levantamos cedo na fazenda, Marie disse ela, omitindo a segunda parte do seu nome com estudada determinação e, após um minuto, Marie-Ange olhou para ela e falou com clareza.

 

Meu nome é Marie-Ange disse a criança com um olhar suplicante, com um sotaque que outra pessoa qualquer teria achado encantador, mas não Carole Collins. Para ela, era apenas um lembrete do quanto seu sobrinho fora tolo e, além do mais, achava que o nome duplo soava pretensioso.

Marie está bom para você aqui disse à criança, colocando uma garrafa de leite, um pão de forma e um vidro de geléia sobre a mesa. Esse era o café da manhã.

 

Pode fazer torrada, se quiser disse, apontando para uma torradeira cromada, antiga e enferrujada, sobre o balcão da cozinha. Em silêncio, Marie-Ange colocou duas fatias de pão na torradeira, desejando que houvesse ovos e presunto, como Sophie costumava preparar, ou pêssegos do pomar. Quando a torrada ficou pronta, Carole serviu-se de uma fatia e passou uma escassa camada de geléia, deixou a outra torrada para Marie-Ange e guardou o pão. Era óbvio que sua refeição matinal era frugal e Marie-Ange estava faminta.

 

Vou mandar Tom mostrar-lhe tudo por aqui e lhe dizer quais serão suas tarefas. De agora em diante, quando acordar, você faz sua cama, vem aqui e prepara o café da manhã para nós, exatamente como eu lhe mostrei, e faz suas tarefas antes de ir para a escola. Aqui todos nós trabalhamos e você também vai trabalhar. Se não o fizer olhou-a com um ar ameaçador, não haverá nenhuma razão para você continuar aqui e poderá viver no orfanato do governo. Há um em Fort Dodge. Estará bem melhor aqui, portanto não pense que poderá se livrar de seu serviço ou deixar de trabalhar para mim. Não pode, se quiser ficar aqui.

 

Marie-Ange assentiu, entorpecida, sabendo, como nunca antes, o que era ser órfã.

 

Você começa a escola em dois dias, na segunda-feira. Amanhã iremos à igreja juntas. Tom nos levará. Ela nunca comprara um carro especialmente adaptado que pudesse dirigir. Embora pudesse se dar ao luxo, não queria gastar o dinheiro. Vamos à cidade hoje, depois que fizer seu serviço, arranjar umas roupas apropriadas para você trabalhar. Acho que você não trouxe nada útil com você.

 

Não sei... senhora... tia... dona... Marie-Ange buscava as palavras, enquanto sua tia a observava e tudo em que podia pensar era no vazio que roía seu estômago. Mal comera no avião e nada na noite anterior, seu estômago doía, estava com tanta fome. Sophie fez as minhas malas explicou, sem dizer quem era Sophie e Carole não perguntou. Tenho alguns vestidos com que eu brincava. Mas todos os vestidos rasgados que usava para brincar nos campos foram deixados em Marmouton, porque Sophie dissera-lhe que sua tia os acharia deploráveis.

 

Vamos dar uma olhada no que você trouxe depois do café disse sua tia-avó sem sorrir. E é melhor que você esteja preparada para trabalhar aqui. Manter você aqui vai me custar um bom dinheiro. Não pode esperar casa e comida de graça, sem fazer nada para pagar.

 

Sim, senhora Marie-Ange assentiu solenemente e a velha mulher na cadeira de rodas olhou-a fixamente enquanto a criança tentava não tremer.

 

Pode me chamar de tia Carole. Agora lave a louça. Marie-Ange desempenhou a tarefa rapidamente. Haviam usado um único prato cada uma para a torrada e uma xícara para o café de Carole. Em seguida, voltou para seu quarto, sem saber ao certo o que deveria fazer. Ficou sentada na cama olhando as fotografias que colocara sobre a cómoda, de seus pais e de seu irmão. Sua mão segurava o medalhão.

 

Deu um salto quando ouviu a cadeira de rodas de sua tiaavó na soleira da porta.

 

Quero ver o que você trouxe nessas três malas ridículas. Nenhuma criança deveria ter tanta roupa, Marie, é pecado.

 

Marie-Ange saltou da cama e obedientemente abriu o fecho ecler das malas, tirando vestidos com bordados e babados, um atrás do outro, as camisolas bordadas e diversos casaquinhos que sua mãe comprara para ela em Paris e Londres. Usava-os para ir à escola, à igreja aos domingos e a Paris quando seus pais a levavam. Carole fitava-os com sombria desaprovação.

 

Você não precisa de coisas assim aqui. Aproximou a cadeira de Marie-Ange e ela própria começou a remexer nas malas. Em seguida, fez uma pequena pilha na cama, de suéteres e calças, uma ou duas blusas. Marie-Ange sabia que aquelas roupas não eram bonitas, mas Sophie dissera que seriam úteis para a escola e Marie-Ange achava que Carole as separara porque eram feias. Sem dizer uma palavra à criança, ela fechou as malas outra vez e disse-lhe para guardar a roupa que estava sobre a cama no estreito closet. Marie-Ange ficou confusa com o que ela estava fazendo. Em seguida, sua tia Carole disse-lhe para ir lá fora e encontrar Tom, para que ele lhe ensinasse suas tarefas. Depois, desapareceu para seu próprio quarto no final do corredor escuro.

 

O capataz, que a aguardava do lado de fora, levou-a ao celeiro. Mostrou-lhe como ordenhar uma vaca e outras pequenas tarefas que caberiam a ela. Não pareceram muito difíceis a Marie-Ange, embora houvesse muitas coisas que sua tia queria que fizesse e, segundo Tom, se não terminasse pela manhã antes de ir para a escola, poderia fazer parte das tarefas de limpeza no final da tarde, antes do jantar. Passaram-se duas horas até ele devolvê-la à tia Carole.

 

Marie-Ange ficou surpresa de vê-la pronta, sentada na varanda em sua cadeira de rodas, aguardando-os. Dirigiu-se a Tom e não à criança, dizendo-lhe que pegasse as malas de Marie-Ange e as levasse à cidade, enquanto a criança olhava-a aterrorizada. Tudo que podia imaginar era que estava sendo levada afinal para o orfanato. Enquanto os seguia para a caminhonete em que viajara na noite anterior, viu o capataz jogar suas malas na carroceria da caminhonete. Marie-Ange não disse nada nem fez nenhuma pergunta. Sua vida agora era uma longa e interminável sucessão de horrores. Lágrimas assomavam aos seus olhos quando chegaram à cidade e Carole disse ao capataz para parar na loja da instituição beneficente Goodwill. Ele armou sua cadeira de rodas e ajudou-a a sentar-se. Em seguida, ela lhe disse para levar as malas para a loja, enquanto Marie-Ange continuava a imaginar o que iria lhe acontecer. Não fazia a menor ideia de onde estavam, para onde iam ou por que estavam ali com suas malas. Sua tia não lhe dera nenhuma explicação para tranquilizá-la.

 

As mulheres no balcão pareceram reconhecer Carole quando entrou em sua cadeira de rodas. Tom seguiu-a com as malas de Marie-Ange em ambas as mãos e colocou-as junto ao balcão, seguindo as ordens de Carole.

Precisamos de alguns macacões para a minha sobrinha explicou e Marie-Ange deixou escapar um pequeno suspiro de alívio. Talvez não estivessem indo para o orfanato e, ao menos por enquanto, nada terrível demais iria acontecer. Sua tia selecionou três macacões para ela, algumas camisetas manchadas, um blusão de moletom surrado, alguns pares de ténis quase novos. Escolheram um feio casaco marrom forrado que era grande demais para ela, mas disseram que seria bem quente no inverno. Marie-Ange disse-lhes com um fio de voz, enquanto experimentava as roupas, que acabara de chegar da França, e Carole, apontando a bagagem, apressou-se a explicar que ela trouxera três malas de roupas inúteis com ela.

 

Pode descontar o que acabamos de comprar para ela do valor dessa bagagem e me dar um crédito pelo restante. Ela não vai precisar de nada disso aqui e ainda menos se acabar no orfanato. Eles usam uniforme disse a Marie-Ange, acentuando a última frase.

 

As lágrimas começaram a rolar pelo seu rosto e as mulheres atrás do balcão sentiram pena dela.

 

Posso guardar alguma coisa, tia Carole?... Minhas camisolas... e bonecas...

 

Você não tem tempo de brincar com bonecas aqui. Em seguida, hesitou por um instante. Fique com as camisolas.

 

Marie-Ange revirou uma das malas, achou-as e, ao retirálas, agarrou-as junto a si. Tudo o mais iria desaparecer para sempre, tudo que sua mãe comprara para ela com tanto amor e em que seu pai adorava vê-la vestida. Era como se tudo que restava de sua antiga vida lhe fosse arrancado. Não conseguia parar de chorar. Tom teve que desviar os olhos da pequena figura, agarrada às suas camisolas, olhando para sua tia absolutamente devastada. Mas Carole não disse nada, entregou o embrulho de suas compras a Tom e conduziu sua cadeira de rodas para fora da loja, até a calçada, seguida pelo capataz e pela criança. Marie-Ange já nem se importava mais se a levassem para o orfanato, não podia ser pior do que o que estava lhe acontecendo ali. Seus olhos revelavam uma insuportável agonia e nenhum consolo, enquanto voltavam para a fazenda em silêncio. E quando Marie-Ange viu o familiar celeiro outra vez, compreendeu que não iria para o orfanato do governo, pelo menos não naquele dia, e talvez somente se ela realmente contrariasse sua tia Carole.

 

Foi para o quarto e guardou suas camisolas e as novas roupas da loja beneficente. Dez minutos depois, sua tia tinha o almoço pronto para ela. Era um sanduíche fino de pão com presunto, sem maionese ou manteiga, um copo de leite e um único biscoito. Era como se a mulher se ressentisse de cada pedaço de alimento que ela consumia, cada migalha que lhe custava. Nunca ocorreu a Marie-Ange pensar nas centenas de dólares de crédito que Carole acabara de obter na loja Goodwill em troca de suas roupas e pertences. Na realidade, ao menos por enquanto, Marie-Ange era lucrativa, ao invés de dispendiosa.

 

Nas horas seguintes, Marie-Ange dedicou-se às tarefas e só viu sua tia outra vez na hora do jantar. Naquela noite, a refeição foi frugal mais uma vez. Havia um pequeno bolo de carne que Carole preparara e alguns legumes cozidos que tinham um gosto horrível. A guloseima de sobremesa era gelatina verde.

 

Marie-Ange lavou a louça do jantar e ficou deitada em sua cama, acordada, durante muito tempo naquela noite, pensando em seus pais e em tudo que lhe acontecera desde que morreram. Não conseguia imaginar uma outra vida agora, senão de terror, solidão e fome. A dor pela perda de toda a sua família era tão aguda que às vezes achava que não iria aguentar. De repente, ao pensar nisso, compreendeu exatamente o que seu pai queria dizer quando afirmava que sua tia era mesquinha e avarenta. Compreendeu que sua mãe, com toda sua alegria, amor e vivacidade, teria odiado Carole mais ainda do que ele. No entanto, de nada lhe adiantava pensar nisso agora. Ela estava ali e eles haviam partido. Não tinha escolha senão sobreviver a tudo aquilo.

 

Foram juntas à igreja no dia seguinte, novamente levadas por Tom, e o culto pareceu longo e enfadonho para MarieAnge. O pastor falou de inferno, adultério e castigo e de um monte de coisas que a amedrontaram ou entediaram. Quase pegou no sono em determinado momento e sua tia-avó sacudiu-a bruscamente para acordá-la.

 

O jantar foi outra refeição sombria naquela noite e sua tiaavó informou-lhe que ela iria à escola na manhã seguinte. Carole ficara aliviada ao ver que, apesar do pronunciado sotaque quando falava, o inglês de Marie-Ange era sem dúvida suficientemente fluente para ela frequentar a escola e entender o que estava sendo dito, embora Carole não tivesse a menor ideia se ela sabia escrever em inglês, o que ela não sabia.

 

Ande um quilómetro e meio na estrada, até uma placa amarela disse ela antes de irem dormir, depois das suas tarefas no celeiro, é claro, e o ônibus a pegará na placa amarela às sete. São sessenta quilómetros até a escola e eles param muitas vezes ao longo do caminho. Não sei quanto tempo você leva a pé até o ponto do ônibus, mas é melhor sair daqui às seis e ver quanto tempo leva. Pode fazer seu serviço às cinco e é melhor levantar-se às quatro e meia. Deu-lhe um velho e semidestruído despertador para esse fim e Marie-Ange imaginou se teria vindo da loja Goodwill. Estava repleta de coisas feias e quebradas que as pessoas doavam à instituição beneficente. O ônibus a trará de volta mais ou menos às quatro horas, segundo me disseram. E espero você de volta aqui até as cinco. Pode fazer suas obrigações quando chegar em casa e seus deveres de casa depois do jantar.

 

Seria um longo dia, uma rotina exaustiva, uma vida sem atrativos, quase de escravidão. Marie-Ange quis perguntar, mas não ousou, por que Tom não podia levá-la de carro. Ao invés disso, ficou calada e foi para a cama em silêncio naquela noite, depois de ter dado boa-noite à sua tia Carole.

 

Parecia que apenas alguns momentos haviam se passado quando o despertador tocou e ela levantou-se rapidamente. Desta vez, sem ninguém para vigiá-la, serviu-se de três fatias de pão, com geléia, e rezou para que sua tia não tivesse contado o número de fatias quando guardou o pão depois do jantar. Sabia que era demais, mas estava sempre com fome.

Estava escuro quando saiu e dirigiu-se ao celeiro e ainda estava escuro quando começou a descer a estrada, na direção que sua tia lhe indicara. Sabia que Carole já estaria acordada, mas Marie-Ange não passou pela cozinha para despedir-se. Usava calças compridas e o feio blusão de moletom da loja Goodwill. Escovara os cabelos, mas pela primeira vez em sua vida, ao sair para a escola, não havia nenhuma fita neles. Não havia nenhuma Sophie para lhe acenar um adeus, nenhum Robert para fazer canards de café com leite para ela e nenhum beijo ou abraço de sua mãe ou de seu pai. Havia apenas o silêncio das planícies de Iowa e a escuridão enquanto ela descia a estrada longa e deserta em direção ao ponto do ônibus. Não fazia a menor ideia de como seria a escola, ou os alunos, e na verdade não se importava. Não conseguia sequer imaginar ter amigos ali. Sua vida era a de uma presidiária e sua tia era a carcereira.

 

Havia meia dúzia de crianças no ponto de ônibus quando chegou, a maioria mais velha do que Marie-Ange, e uma consideravelmente mais nova. Nenhuma conversou com ela, apenas a fitaram enquanto esperavam. O sol foi surgindo lentamente, fazendo-a relembrar-se das manhãs em Marmouton, quando ficava deitada na relva ou embaixo de uma árvore, vendo o céu tornar-se rosado ao amanhecer. Não disse nada às outras crianças enquanto tomavam seus lugares e o ônibus partia. Uma hora mais tarde, chegaram a um prédio de tijolos, longo e baixo, para onde outros ônibus escolares haviam convergido e dos quais alunos de todas as idades saltavam e se dispersavam. Iam do jardim de infância ao segundo grau e provinham de fazendas num raio de 150 quilómetros da escola. A distância que Marie-Ange percorria não era de forma alguma a maior. Parecendo meio perdida, foi entrando no prédio e logo foi identificada por uma jovem professora.

 

Você é a garota dos Collins? perguntou ela, enquanto Marie-Ange sacudia a cabeça, sem entender.

 

Sou Marie-Ange Hawkins.

 

Esperavam uma Marie Collins e nunca lhe ocorrera que sua tia-avó não fosse registrá-la em seu próprio nome.

 

Não é a garota dos Collins? A professora estava perplexa. Era a única aluna nova matriculada. Todas as outras haviam começado há duas semanas, mas ela reconheceu o sotaque imediatamente e levou Marie-Ange para o escritório do diretor, onde um homem calvo e de barba cumprimentou-a formalmente e lhe disse para que sala deveria ir.

 

Que menina triste ele comentou quando ela saiu e a professora retrucou num sussurro.

 

Ela perdeu toda a família na França e veio viver com a tia-avó aqui.

 

Como é o inglês dela? perguntou ele com um ar de preocupação e a professora disse que o professor responsável pela triagem dos alunos iria fazer uma avaliação.

 

Enquanto falavam a seu respeito, Marie-Ange desceu o corredor na direção que lhe indicaram e encontrou sua sala repleta de alunos. O professor ainda não havia chegado e formavam um grupo animado, assoviando, gritando e atirando bolas de papel uns nos outros. Mas ninguém dirigiu-lhe a palavra quando ela se sentou em uma carteira no fundo da sala, ao lado de um garoto de brilhantes cabelos ruivos, olhos azuis como os seus e sardas. Teria preferido sentar-se ao lado de uma menina, mas não havia lugares vazios ao lado delas e ninguém se ofereceu para ceder-lhe o lugar.

 

Oi disse ele, evitando olhá-la nos olhos, quando ela o fitou e depois virou-se para a frente quando a professora entrou. Ela levou mais de uma hora para notar Marie-Ange e, em seguida, entregou-lhe alguns papéis com questões para avaliar sua leitura, escrita e compreensão em inglês. Era bastante elementar e Marie-Ange compreendia a maior parte, mas suas respostas, ao escrevê-las, eram fonéticas.

 

Não sabe escrever? perguntou-lhe o garoto com ar de surpresa ao lançar um olhar em suas respostas. E que espécie de nome é esse? Mari-Angi?

 

Pronunciou seu nome de maneira estranha e Marie-Ange olhou-o com dignidade ao responder.

 

Sou francesa explicou. Meu pai é americano. Podia ter dito ”era”, mas não podia suportar a ideia.

 

Fala francês? perguntou o garoto, com ar de perplexidade, mas repentinamente intrigado com ela.

 

Claro disse ela, com seu sotaque.

 

Poderia me ensinar?

 

Ela sorriu timidamente diante da pergunta.

 

Você quer aprender a falar francês? Parecia-lhe engraçado e ele exibiu um amplo sorriso, balançando a cabeça afirmativamente.

Quero, sim. Seria como uma língua secreta e ninguém poderia compreender o que estaríamos dizendo.

 

Era uma ideia atraente para ambos e, no intervalo, acompanhou-a quando saíram da sala. Achava seus cachos e olhos azuis muito bonitos, mas não disse nada. Tinha doze anos, um ano a mais do que Marie-Ange, mas atrasara-se quando teve febre reumática. Recuperara-se completamente, mas perdera o ano na escola. Parecia ter uma atitude protetora em relação a Marie-Ange, enquanto a seguia pelo pátio da escola. Já se apresentara, disse que seu nome era Billy Parker e ela o ensinou a pronunciar seu nome corretamente, sua primeira lição de francês, e deu uma risadinha com seu sotaque quando ele o repetiu.

 

Almoçaram juntos naquele dia e alguns dos outros alunos lhe dirigiram a palavra, mas ele foi o único amigo declarado no ônibus, junto com ela. Ele morava a meio caminho entre a escola e a fazenda de sua tia-avó e afirmou que iria visitá-la um dia, talvez durante o fim de semana, quando poderiam fazer os deveres da escola juntos. Estava fascinado por ela e fizeram planos para lhe ensinar francês nos fins de semana. Ele gostou da ideia e ela adorou a perspectiva de ter alguém que pudesse falar francês com ela.

 

Ela falou-lhe de seus pais e de Robert no dia seguinte, contou-lhe a respeito do acidente e ele ficou horrorizado quando falou-lhe de sua tia-avó.

 

Ela parece muito mesquinha disse ele com simpatia. Morava com os pais e tinha sete irmãos e irmãs, tinham uma pequena fazenda onde plantavam milho e criavam um pequeno rebanho de gado. Ele disse que um dia desses iria ajudá-la com suas tarefas na fazenda, mas ela não falou nada sobre ele com tia Carole e sua tia também não lhe fez nenhuma pergunta naquela noite quando Marie-Ange terminou suas tarefas no celeiro. Durante quase todo o jantar, comeram em silêncio.

 

No sábado à tarde, Marie-Ange viu Billy surgir no caminho de entrada da fazenda em sua bicicleta, apear e acenar para ela. Dissera-lhe que deveria ir lá, para sua aula de francês, e ela desejara que ele fosse, mas não acreditava que realmente o faria. Conversavam animadamente parados no caminho quando ouviram um tiro. Deram um salto como coelhos assustados e instintivamente olharam na direção de onde partira o tiro. Sua tia Carole estava sentada na varanda, em sua cadeira de rodas, segurando uma espingarda. Era inconcebível para ambos que ela tivesse atirado neles, e não o fizera, disparara para o alto, mas os olhava ameaçadoramente.

 

Saia da minha propriedade! gritou para ele, enquanto Billy olhava-a perplexo e Marie-Ange começava a tremer.

 

Ele é meu amigo, tia Carole, da escola Marie-Ange apressou-se a explicar, certa de que isso resolveria o problema, mas não foi o que aconteceu.

 

Você está invadindo minha propriedade! disse ela diretamente a Billy.

 

Vim visitar Marie-Ange explicou educadamente, tentando não deixar que nenhuma das duas percebesse o quanto estava assustado. A mulher parecia que ia matá-lo.


Não queremos visitas e não o convidamos. Pegue a sua bicicleta e saia daqui e não volte mais. Você me ouviu?

 

Sim, senhora disse ele, correndo para sua bicicleta e lançando um olhar para Marie-Ange por cima do ombro. Sinto muito... não queria enfurecê-la murmurou. Vejo-a na escola na segunda-feira.

 

Desculpe disse ela no tom mais alto que ousava dizer e ficou vendo-o desaparecer o mais rápido que podia pelo caminho. Marie-Ange caminhou lentamente até a cadeira de rodas de sua tia-avó, odiando-a pela primeira vez desde que chegara. Até então, apenas a temera.

 

Diga a seus amigos para não virem visitá-la aqui, Marie disse severamente. Não temos tempo para pequenos arruaceiros rondando por aqui e você tem serviço a fazer descansou a espingarda no colo e olhou diretamente para MarieAnge. Você não vai ficar andando com amigos por aqui. Ficou claro?

 

Sim, senhora respondeu Marie-Ange em voz baixa, voltando para o celeiro para fazer suas tarefas. Mas o ataque que sofreram e o medo que ela causou serviram apenas para tornar mais forte o laço que unia Marie-Ange e Billy. Ele telefonou para ela naquela noite e sua tia-avó passou-lhe o telefone com um resmungo de desaprovação. Não gostava, mas não se opunha diretamente a telefonemas.

 

Você está bem? Era Billy. Preocupara-se com ela durante todo o trajeto de volta, a velha era louca, e teve pena de Marie-Ange. Sua própria família era numerosa, franca e amável e, depois de cumpridas suas obrigações, ele podia receber amigos a qualquer hora que quisesse.

 

Estou bem disse timidamente.

 

Ela fez alguma coisa a você depois que fui embora?

 

Não, mas disse que não posso receber amigos aqui explicou num fio de voz depois que sua tia saiu da cozinha. Vejo-o na escola na segunda-feira. Posso lhe ensinar francês na hora do almoço.

 

Cuidado para ela não atirar em você disse ele, com a gravidade de um garoto de doze anos. Vejo você na segunda... Tchau, Marie-Ange.

 

Até segunda ela despediu-se formalmente e desligou, lamentando não ter agradecido pelo telefonema, mas contente pelo contato com o mundo lá fora. Na vida estéril que levava, a amizade dele era tudo que lhe restava.

A AMIZADE ENTRE Billy e Marie-Ange cresceu ao longo dos anos, transformando-se numa relação sólida em que ambos confiavam. Nos primeiros anos, pareciam irmãos. Quando ele completou quatorze anos e ela treze, seus amigos começaram a caçoar deles a respeito dessa amizade, perguntando-lhes se eram namorados. Marie-Ange sempre insistia que não eram. Agarrava-se a ele como a uma rocha numa tempestade e ele ligava para ela dedicadamente toda noite na casa de sua tia Carole. A vida de Marie-Ange com ela continuou tão vazia e insípida como fora desde o primeiro instante em que a vira. Mas ver Billy na escola todo dia e voltar para casa no ônibus com ele era o suficiente para ela continuar vivendo. Visitava a família dele sempre que podia. Estar com eles era como refugiar-se num lugar seguro e aconchegante. Visitava-os nos feriados, depois de fazer seu serviço na fazenda de sua tia-avó. Para Marie-Ange, a família de Billy era seu céu. Era tudo que ela possuía agora. Não tinha nem mesmo Sophie. Escrevera-lhe durante dois anos e ainda estava intrigada pelo fato de nunca ter recebido uma única resposta. Temia que algo horrível tivesse lhe acontecido. Caso contrário, Sophie teria respondido suas cartas.

 

De certa forma, Billy substituíra Robert para ela, se não seus pais. Como prometera, ela lhe ensinou a falar francês durante a hora do almoço e do recreio. Quando completou quatorze anos, ele já estava quase fluente e frequentemente conversavam entre si em francês no pátio da escola. Billy chamava-a sua língua secreta. O inglês de Marie-Ange melhorou ao ponto de seu sotaque tornar-se quase imperceptível. Mas, considerando seus sentimentos fraternos em relação a ele, foi uma total surpresa para ela quando ele disse que a amava, numa tarde quando caminhavam para o ônibus escolar. Ele falou quase num sussurro, os olhos abaixados, e ela parou para olhá-lo com uma expressão assombrada.

 

Essa é a coisa mais tola que já ouvi disse ela em resposta ao que ouvira. Como pode dizer isso? Ele ficou atónito com sua reação, não era o que esperava ou desejava.

 

Porque eu realmente a amo. Falou-lhe em francês, para que os outros não entendessem e, para eles, pareceu uma discussão acalorada, quando Marie-Ange disse:

 

Oh, alors, t’es vraiment con

 

Disse-lhe que ele era um tolo, depois olhou para ele e desatou a rir.

 

Eu também o amo. OK. Mas como sua irmã. Como é que você complica tudo entre a gente? Estava determinada a não deixá-lo colocar em risco a amizade entre eles.

 

Não foi isso que tentei fazer disse ele, franzindo o cenho, imaginando se teria dito aquilo de maneira errada, ou talvez numa hora pouco apropriada, mas não tinham nenhum outro tempo juntos. Ele ainda não podia ir à fazenda de sua tia-avó e o único tempo que passavam juntos era na escola ou no ônibus escolar, exceto pelas raras visitas que ela fazia à fazenda de seus pais. Era ainda mais difícil para eles durante o verão, quando não se encontravam na escola. Em vez disso, iam de bicicleta a um local de encontro que haviam descoberto no ano anterior e às vezes passavam horas junto a um riacho, sentados, apenas conversando, sobre a vida, suas famílias, suas esperanças e sonhos e sobre seus futuros. Ela sempre dizia que queria voltar para a França quando fizesse dezoito anos e planejava obter um emprego assim que tivesse idade suficiente para poder economizar dinheiro para a viagem. Uma vez, ele disse que queria ir com ela, embora para ele o sonho fosse ainda mais improvável e mais distante.

 

Continuaram se encontrando da mesma forma depois disso, como sempre fizeram, amigos e companheiros dedicados, até o ano seguinte no verão, quando se encontraram em seu esconderijo secreto. Ela levara uma garrafa térmica de limonada e conversaram durante horas, quando ele repentinamente inclinou-se e beijou-a. Estava com quinze anos, Marie-Ange acabara de fazer quatorze e já eram amigos há quase três anos.

 

Mais uma vez, ela ficou atónita, quando ele a beijou, mas não opôs-se tão bruscamente como no ano anterior. Nenhum dos dois disse nenhuma palavra, mas Marie-Ange ficou preocupada e, da próxima vez em que se encontraram, disse-lhe que não achava uma boa ideia fazerem qualquer coisa que mudasse sua amizade. Disse-lhe à sua maneira inocente que tinha medo de namoro.

 

Por quê? perguntou ele delicadamente, tocando seu rosto com a mão. Estava se tornando um rapaz alto e bonito e, às vezes, ela achava que ele se parecia um pouco com seu pai e seu irmão. Adorava caçoar dele por causa das sardas. Por que tem medo de namorar, Marie-Ange? Falavam em inglês, porque o francês dela ainda era muito superior ao dele, apesar de ela ter lhe ensinado bem. Ele até sabia todas as importantes expressões e gírias, que sabia que iriam impressionar seu professor de francês no segundo grau. Ambos começariam o segundo grau na mesma escola que frequentavam, em setembro.

 

Não quero que nada mude entre nós disse ela sensatamente. Se você se apaixonar por mim, um dia nos cansaremos um do outro e perderemos tudo. Se continuarmos apenas amigos, jamais perderemos um ao outro.

 

Fazia sentido e ela se manteve inflexível a respeito do assunto, embora ninguém que os conhecesse pudesse acreditar. Todos sempre acreditaram que eram namorados desde a infância, até mesmo tia Carole, que continuava a fazer comentários depreciativos a seu respeito, o que sempre enfurecia MarieAnge, embora ela nada dissesse.

 

Seu relacionamento continuou a florescer durante todo o segundo grau. Ela ia vê-lo jogar no time de basquete, ele ia vêla na peça de teatro da escola e foram juntos ao baile de formatura. À exceção de alguns encontros esparsos, ele nunca tivera uma namorada e Marie-Ange continuava a dizer que não tinha o menor interesse em namoro, com Billy ou qualquer outro rapaz, tudo que queria era terminar a escola e voltar para a França um dia. De qualquer maneira, sua tia-avó não a deixaria sair com rapazes. Tinha opiniões rígidas a respeito e estava preparada para impingi-las. Continuara a ameaçar Marie-Ange com o orfanato estadual durante todos aqueles anos. Mas, na noite do baile de formatura, tia Carole finalmente concordou em deixar Marie-Ange ir dançar com Billy.

 

Ele foi à fazenda na noite do baile, no caminhão de seu pai, para apanhá-la. Sua tia deixara-a comprar um vestido de cetim azul que era quase da cor de seus olhos e fazia seus cabelos brilharem. Estava linda e Billy, como era de se esperar, ficou fascinado.

 

Divertiram-se imensamente naquela noite e ele e MarieAnge conversaram durante muito tempo sobre a bolsa de estudos para a faculdade que Marie-Ange conseguira e que não poderia usar. A universidade ficava a 75 quilómetros de distância, em Ames, e tia Carole deixara claro que não iria fazer nada para ajudá-la, não iria emprestar-lhe uma caminhonete ou um carro, e que precisava dela na fazenda. Não lhe ofereceu nem transporte nem dinheiro para a faculdade e Billy ficou revoltado.

 

Você tem que ir, Marie-Ange! Não pode ficar simplesmente trabalhando para ela como uma escrava pelo resto da vida.

 

Seu sonho era voltar para a França aos dezoito anos, mas era óbvio que, quando completasse dezoito naquele verão, não poderia fazê-lo. Não tinha dinheiro e nunca tivera tempo para trabalhar, porque Carole sempre precisava dela para fazer alguma coisa e Marie-Ange sentia-se em dívida com ela. Vivia com ela há sete anos e, para Marie-Ange, pareceram infindáveis. Mas a faculdade era agora um sonho inatingível para ela, a bolsa de estudos cobria a anuidade, mas não os livros, o dormitório ou a alimentação e, ainda que conseguisse um emprego, não ganharia o suficiente para cobrir suas despesas na universidade. A única maneira seria continuar morando na fazenda com a tia e ir e vir todo dia. Mas tia Carole fizera questão de deixar claro que isso não seria possível.

 

Tudo de que você precisa é um carro, pelo amor de Deus exclamou Billy com raiva no caminho de volta. Conversaram sobre isso toda a noite.

 

Bem, eu não tenho um carro. Vou abrir mão da bolsa de estudos na semana que vem disse Marie-Ange, resignada.

 

Sabia que mais cedo ou mais tarde teria que arranjar um emprego, perto de casa, para poder juntar dinheiro para ir para a França, mas não tinha a menor ideia do que faria ao chegar lá, provavelmente apenas visitaria e voltaria. Também não tinha como permanecer na França, nenhum lugar para viver, ninguém com quem viver, nenhum modo de ganhar a vida. Não tinha nenhum conhecimento ou experiência profissional. Tudo que aprendera fora serviços na fazenda, da mesma forma que Billy, que iria fazer um curso técnico em agricultura. Ele sonhava em ajudar seu pai na fazenda, até mesmo modernizá-la, apesar da resistência de seu pai. Queria ser um fazendeiro moderno e achava que Marie-Ange merecia uma boa educação. Ambos achavam. O fato de não deixá-la ir para a faculdade o fazia odiar ainda mais a tia-avó de Marie-Ange. Até seu pai compreendia a importância de estudar, embora ele não pudesse frequentar uma escola em tempo integral. Seu pai precisava demais dele na fazenda para permitir-lhe estudar o dia inteiro. Ele insistiu para que Marie-Ange procurasse convencer sua tia e só declinar da bolsa de estudos no fim do verão. Quando voltaram para casa naquela noite, estavam felizes. Ambos estavam entusiasmados com a formatura do segundo grau.

 

Você se deu conta de que somos amigos há quase sete anos? disse Marie-Ange orgulhosamente. Neste verão, faria sete anos que seus pais faleceram e, de certa forma, ainda parecia que tinha sido há apenas alguns instantes, em outra eternidade. Mas ela ainda sonhava com eles e com Robert à noite e ainda podia ver Marmouton com os olhos da mente, como se tivesse acabado de estar lá. Você é a única família que eu tenho disse-lhe Marie-Ange e ele sorriu. Ambos desconsideravam inteiramente tia Carole, embora Marie-Ange sempre dissesse que se sentia em dívida com ela, por razões que Billy não compreendia. Marie-Ange vivera com ela, mas Carole usara-a implacavelmente nos últimos sete anos, como empregada, enfermeira e peão da fazenda. Não havia nada que Marie-Ange  não fizesse por ela. Nos últimos dois anos, a saúde de sua tia-avó se debilitara. Marie-Ange tinha que fazer ainda mais para cuidar dela.

 

Você sabe, nós poderíamos ser uma família permanentemente disse Billy com cautela no trajeto para casa, depois do baile de formatura, e lançou-lhe um olhar com um sorriso brando, mas Marie-Ange franzira a testa. Ela não gostava quando ele falava assim e teimosamente insistia em pensar neles como irmão e irmã. Podíamos nos casar disse ele corajosamente.

 

Isso é tolice, Billy, e você sabe disso retrucou francamente. Nunca o encorajava nessa direção, pelo próprio bem dele e seu também. Onde iríamos morar se nos casássemos? Nenhum de nós dois tem um emprego ou dinheiro.

 

Poderíamos viver com meus pais disse com cuidado, tentando convencê-la. Ele acabara de fazer dezenove anos e ela logo faria dezoito, idade suficiente para se casar, se ela quisesse, sem a permissão de sua tia.

 

Ou poderíamos viver com tia Carole. Tenho certeza de que ela adoraria. Poderíamos trabalhar para ela na fazenda, como eu faço Marie-Ange disse e desatou a rir. Não, não podemos nos casar disse sem rodeios. Ela não queria. E eu vou arranjar um emprego, para poder voltar à França no ano que vem. O sonho nunca se desvanecera para ela e ele ainda desejava poder ir com ela. Em Iowa, trabalhando na fazenda do seu pai, seu francês era praticamente inútil, mas estava feliz por ela ter lhe ensinado.

 

Ainda quero que você vá para a universidade no outono. Vamos ver o que acontece - disse com um olhar de determinação.

 

Ah, sim, um anjo vai cair do céu sobre mim disse, rindo de bom humor, já conformada e jogará dinheiro aos meus pés, para que eu possa ir para a faculdade, e tia Carole fará minhas malas e me cobrirá de beijos quando eu partir. Certo, Billy? Resignara-se com seu destino desde que viera para Iowa.

 

Talvez disse ele, pensativo.

 

No dia seguinte, começou a trabalhar em um projeto especial. Levou todo o verão para concretizá-lo e seu irmão Jack, que trabalhava em uma garagem na cidade em suas horas livres, ajudou Billy a achar exatamente aquilo de que precisava. No dia primeiro de agosto, ele finalmente levou-o a Marie-Ange, entrando no caminho da casa ao som do escape do motor de um velho Chevy. Fazia um barulho horrível, mas andava bem e ele mesmo o pintara. Era de um vermelho vivo e o interior era forrado de couro preto.

 

Parou diante da casa e olhou cautelosamente para Carole quando saiu do carro, era apenas a terceira vez em sete anos que ele pisava ali e nunca se esquecera da recepção que tivera da primeira vez.

 

Uau! Onde conseguiu esse carrão? perguntou MarieAnge sorridente, limpando as mãos em uma toalha ao sair da cozinha. De quem é?

 

Eu mesmo o montei. Comecei logo depois da formatura. Quer dirigi-lo?

 

Há anos, ela aprendera a dirigir tratores e os veículos da fazenda e frequentemente dirigia a caminhonete de sua tia-avó até a cidade para alguma pequena incumbência que ela lhe dava ou para levá-la até lá. Sentou-se atrás do volante com um amplo sorriso. Era um carro divertido, embora fosse velho, e Billy o montara com cuspe e barbante, como disse orgulhosamente. Ela saiu da fazenda e por algum tempo percorreu a auto-estrada, com Billy a seu lado. Em seguida, relutantemente, começou a retornar. Tinha que preparar o jantar de sua tia.

 

O que vai fazer com isso? Dirigir para a igreja nos domingos? perguntou ela com um sorriso. Ela não sabia, mas apesar do tom da pele e dos cabelos, começara a se parecer com sua mãe.

 

Não. Tenho usos melhores disse ele, misteriosamente, orgulhoso, transbordando de um amor que ela se recusava a aceitar, a não ser como seu irmão adotivo.

 

Como o quê? perguntou ela, curiosa, divertindo-se, enquanto entravam no caminho da casa.

 

É um ônibus escolar.

 

Um ônibus escolar? O que isso significa?

 

Significa que você pode ficar com sua bolsa de estudos. Tudo de que precisa agora é de dinheiro para os livros. Você pode ir com ele todo dia para a escola, Marie-Ange.

 

Montara o carro inteiramente para ela e os olhos da jovem encheram-se de lágrimas enquanto o fitava, surpresa. Ele teve vontade de beijá-la, mas sabia que ela jamais o permitiria.

 

Vai emprestá-lo a mim? perguntou ela, inconscientemente falando em francês. Mal podia acreditar, mas ele sacudiu a cabeça.

 

Não estou lhe emprestando nada, Marie-Ange. É um presente. É todo seu. Seu ônibus escolar.

 

Ah, meu Deus! Você não pode fazer isso! Atirou os braços ao redor de seu pescoço e abraçou-o com força. Está falando sério? perguntou, afastando-se para olhar para ele. Era a coisa mais extraordinária que já haviam feito para ela e nem sabia o que lhe dizer. Ele tornara seus sonhos realidade e estava literalmente lhe concedendo a dádiva da universidade, ao lhe proporcionar um modo de chegar lá.

 

Posso e fiz. É todo seu, menina. Seu sorriso ia de orelha a orelha e ela limpava as lágrimas do rosto enquanto o observava. Agora, que tal me dar uma carona até em casa, antes que sua tia apareça com a espingarda de novo e me dê um tiro? Riram à desagradável lembrança e ela entrou para contar à sua tia que estaria de volta dentro de alguns minutos. Não explicou sobre o carro, faria isso mais tarde.

 

Billy dirigiu de volta para a fazenda e Marie-Ange sentou-se a seu lado, exclamando como o carro era bonito, que presente incrível e como não deveria aceitá-lo.

 

Você não pode ficar sem uma educação universitária para sempre. Tem que ir para a universidade para poder sair daqui um dia. Sabia que ele próprio nunca sairia dali, precisava ajudar sua família a manter a fazenda e isso representava um grande esforço para eles. Mas ele sabia que seu maior presente para Marie-Ange era sua liberdade da tia Carole.

 

Não posso acreditar que tenha feito isso por mim disse Marie-Ange solenemente. Tinha um grande respeito por ele, como pessoa. Nunca se sentira tão agradecida por alguma coisa em sua vida como se sentia naquele momento. E ele estava feliz de vê-la tão empolgada. Estava tão entusiasmada quanto ele esperava que ficasse. Adorava tudo que dizia respeito a Marie-Ange.

 

Ela deixou-o em casa e apressou-se a voltar. Durante o jantar, quando contou a tia Carole o que ele fizera, ela a proibiu de aceitar o presente.

 

É errado aceitar um presente como esse dele, ainda que esteja planejando casar-se com ele disse severamente.

 

O que não estou, somos apenas amigos respondeu Marie-Ange calmamente.

 

Então, não pode ficar com o carro retrucou tia Carole com uma expressão de granito sulcado de linhas.

 

Mas, pela primeira vez em sete anos vivendo com ela, MarieAnge estava disposta a enfrentá-la. Não iria abrir mão da universidade pelo capricho daquela velha mesquinha. Durante sete anos, ela privou Marie-Ange de tudo que lhe foi possível, de emoções, de alimento, de amor e de dinheiro. A vida delas era de privação em todos os sentidos da palavra. E agora queria privá-la de uma educação superior. Marie-Ange não iria permitir que ela fizesse isso.

 

Então, eu aceitarei como empréstimo. Mas vou usá-lo para ir para a faculdade disse com firmeza.

 

Para que precisa de faculdade? O que acha que vai ser? Médica? Seu tom de voz era de desprezo.

 

Não sei o que vou ser respondeu tranquilamente. Mas sabia que seria mais do que tia Carole. Queria ser como sua mãe. Ela não foi para a universidade, mas casara-se com o pai de Marie-Ange. Marie-Ange queria mais do que uma vida naquela fazenda melancólica em Iowa, sem nada a desfrutar, nada a comemorar e nada pelo qual viver. Sabia que um dia, quando finalmente pudesse ir embora, iria para outro lugar, preferencialmente para a França, ao menos para visitar. Primeiro, tinha que obter uma educação universitária, para poder escapar dali, exatamente como Billy lhe sugerira.

 

Vai parecer uma tola, andando por aí naquele calhambeque, especialmente quando as pessoas souberem quem o deu a você.

 

Não tem importância disse audaciosamente, para variar. Tenho orgulho dele.

 

Então, por que não se casa com ele? Carole pressionou-a, mais por curiosidade do que por verdadeiro interesse. Nunca compreendera o estreito relacionamento entre eles e não se importava.

 

Porque ele é meu irmão. E não quero me casar. Quero voltar para casa um dia disse, em voz baixa.

 

Esta casa é tudo que lhe resta agora disse Carole, incisivamente, olhando Marie-Ange nos olhos. Sua sobrinha apenas devolveu o olhar, sem nada dizer. Carole Collins lhe dera um lugar para viver, um teto sobre sua cabeça, um endereço e uma lista infindável de serviços a fazer, mas nunca lhe dera bondade, compaixão, amor ou um sentimento de família. Mal comemoravam o Natal e o Dia de Ação de Graças. Durante todos os anos que Marie-Ange passara ali, sua tia a tratara como uma empregada. Billy e sua família tinham sido muito mais amáveis com ela do que Carole jamais o fora. Agora, Billy lhe dera a única coisa de que precisava para um dia poder fugir dali e nada no mundo a faria abrir mão disso, certamente não sua tia Carole.

 

Marie-Ange tirou a mesa sem pronunciar mais nenhuma palavra e, quando sua tia-avó se retirou para seu quarto, MarieAnge telefonou para Billy.

 

Só quero que saiba o quanto o amo e o quanto você significa para mim disse em francês, com a voz tomada pela emoção, enquanto ele desejava que ela o dissesse com um sentido diferente, mas sabia que não o faria. Há muito aceitara a decisão dela e sabia que ela o amava. Você é a pessoa mais maravilhosa que eu conheço.

 

Não, você é que é disse ele lisonjeiramente, mas de coração. Fico feliz por ter gostado, Marie-Ange. Só quero que você possa ir embora daqui um dia. Você merece.

 

Talvez possamos ir juntos disse ela esperançosamente, mas nenhum dos dois acreditava nessa possibilidade. Ambos sabiam que Billy estava fadado a permanecer ali, mas ela não. Ainda tinha um longo caminho a percorrer até poder ir embora, mas, graças a ele, estava começando a acreditar que talvez um dia conseguisse.

 

 

MARIE-ANGE COMEÇOU a faculdade no dia seguinte ao Dia do Trabalho. Saiu da fazenda às seis horas, dirigindo o Chevy que Billy reformara para ela. Tia Carole não fez absolutamente nenhum comentário na noite anterior, mas, como sempre, Billy telefonou e desejou-lhe boa sorte. Prometeu parar na casa dele no caminho de volta, se tivesse tempo, para contar-lhe tudo sobre o seu dia. Mas deixou a faculdade tão tarde, após comprar seus livros com o dinheiro que pedira emprestado a Tom, que teve que correr para casa para preparar o jantar de tia Carole.

 

No entanto, deu um jeito de parar para ver Billy no dia seguinte, a caminho da faculdade. Só precisaria estar na escola às dez horas e ela parou na fazenda de Billy por volta das sete e meia, depois de cumprir suas tarefas. Passou algum tempo com ele na cozinha grande e agradável dos Parker. Todos os utensílios  eram velhos e os balcões de formica estavam lascados. O assoalho de linóleo estava irremediavelmente manchado, mas sua mãe mantinha-o imaculadamente limpo e havia sempre uma atmosfera aconchegante em sua casa. Marie-Ange sentia-se em casa ali, como se sentia na cozinha de Marmouton e, ao contrário de sua tia-avó, os pais de Billy a adoravam. A mãe de Billy acreditava, porque uma de suas filhas assim lhe dissera, que um dia ela e Billy se casariam. Mas, ainda que nunca o fizessem, sempre a tratavam como uma de suas filhas.

 

Então, como foi a faculdade ontem? perguntou Billy, quando entrou na cozinha com ela, de macacão, e serviu café para ambos.

 

Foi fantástico disse ela, exultante, eu adorei. Queria que você estivesse lá comigo.

 

O curso que ele fazia era em Fort Dodge e a maior parte dos trabalhos era por conta própria e por correspondência.

 

Eu também respondeu, devolvendo-lhe o sorriso. Sentia falta da escola, quando podia vê-la todos os dias e ter conversas longas e sérias com ela, em francês, na hora do almoço. Agora, tudo era diferente. Ele tinha que trabalhar na fazenda e sabia que ela teria uma vida nova, novos amigos, novas ideias, novos professores e estudantes com metas muito diferentes das suas. Sabia que iria ficar na fazenda para sempre. Ficava um pouco triste quando pensava nisso, mas estava feliz por ela. Depois da vida difícil que ela levara na fazenda da tiaavó nos últimos sete anos, ele sabia melhor do que ninguém o quanto isso significava para ela.

 

Finalmente, uma hora depois de chegar, ela levantou-se e teve que ir para a faculdade, mas prometeu passar por ali de novo no dia seguinte.

 

Viram-se muitas vezes durante seus dias de faculdade, bem mais do que qualquer um dos dois esperava. A viagem consumia seu tempo e ela por fim arranjou um emprego na cidade como garçonete em um restaurante local nos fins de semana, o que a ajudava nas despesas e lhe permitiu pagar o dinheiro dos livros que pedira emprestado ao capataz. Sua tia Carole sempre se recusara a lhe dar qualquer quantia de dinheiro e lhe dissera que, se ela queria muito ir para a faculdade, teria que trabalhar para isso. Apesar disso, e dos serviços que ainda tinha na fazenda, conseguia passar para ver Billy todos os dias. Às vezes, ele vinha jantar e de vez em quando iam ao cinema.

 

Durante seu segundo ano na faculdade, Billy arranjou uma namorada, mas sempre deixava claro para Marie-Ange que ela era muito mais importante para ele do que qualquer outra garota e sempre seria. Sua amizade de infância florescera para uma ligação sem par e ela até gostava de sua namorada, mas até o Natal daquele ano, Billy já se cansara dela. Ela não tinha o entusiasmo e a paixão de Marie-Ange, a energia, a inteligência, o estilo e, ao compará-la, ele se entediava. MarieAnge o estragara. Ele fez vinte e um anos quando Marie-Ange começou seu penúltimo ano de estudos e foi um ano difícil para ela. Tia Carole estava doente a maior parte do tempo, ela parecia estar decaindo aos poucos, cada vez mais frágil. Estava com setenta e nove anos e, em muitos aspectos, parecia  tão dura quanto sempre fora, mas ultimamente isso não passava de bravata e de vez em quando Marie-Ange sentia pena dela, embora Billy dissesse que ele não sentia. Sempre detestara a maneira como ela tratava Marie-Ange, seu coração insensível, seu espírito mesquinho. Marie-Ange agora sabia que seu pai não errara no julgamento que fazia dela. Mas estava acostumada com ela e sentia-se grata por tê-la acolhido. Fazia o máximo que podia para ajudá-la quando estava doente. Preparava a comida para ela tarde da noite para que no dia seguinte ela tivesse o que comer durante todo o dia e era bem mais generosa em suas porções do que Carole fora com ela durante toda a sua infância.

 

Naquele ano, Carole acabou tendo que ser internada no hospital na época do Natal, com uma fratura na bacia. Caíra da cadeira de rodas quando bateu em um pedaço de gelo a caminho do celeiro e, pela primeira vez, Marie-Ange passou todo o dia de Natal com Billy. Foi o Natal mais feliz que teve em todos aqueles anos. Ela e as irmãs dele divertiram-se decorando a árvore, fazendo presentes umas para as outras e cantando. Ela levou um jantar com peito de peru para sua tia-avó no hospital e entristeceu-se ao ver que ela estava debilitada demais para comer. A poliomielite não ajudava a recuperação e ela parecia ainda mais frágil.

 

Marie-Ange também passou a noite de Ano-Novo com Billy e ele e os irmãos e irmãs riram, dançaram, cantaram e brincaram até muito depois da meia-noite. Uma das irmãs dele ficou um pouco bêbada com vinho branco e perguntou a Marie-Ange  quando ela iria finalmente casar-se com Billy. Disse que Marie-Ange de qualquer modo já o estragara para todas as outras e o que ele iria fazer com todo o francês que aprendera? A menos que se casasse com ela, seria inútil. Alguma coisa no modo como falou, embora em meio a brincadeiras e com boas intenções, fez Marie-Ange sentir-se culpada.

 

Não seja tola disse Billy, mais tarde naquela noite, quando ela mencionou o assunto. Ambos estavam sóbrios, sentados na varanda, conversando, depois que todos já tinham ido dormir. Estava muito frio, mas ambos estavam enrolados em mantas e aquecidos, enquanto olhavam o céu estrelado e conversavam. Minha irmã não sabe o que está dizendo. Você não me ”estragou”, Marie-Ange, você me ajudou. Além do mais, nossas vacas adoram quando falo francês com elas. Eu ia escrever um artigo sobre isso para a escola, juro que produzem mais leite se falo em francês com elas quando as estou ordenhando.

 

Sorria, zombando dela, de mãos dadas com ela, como às vezes faziam. Sempre houve algo terno e reconfortante nesse gesto, embora ambos insistissem que não significava nada.

 

Mais cedo ou mais tarde, você vai ter que se casar com alguém disse Marie-Ange de modo prático, mas havia uma ponta de tristeza em sua voz. Ambos sabiam que um dia teriam que seguir com suas vidas, mas nenhum dos dois estava pronto para isso ainda.

 

Talvez eu nunca me case disse Billy simplesmente.

 

Não sei se quero. Ela sabia que ele queria casar-se com ela, ambos sabiam, mas se não era possível, não estava disposto a se contentar com menos do que compartilhava com ela. A amizade que tinham era honesta e profunda demais para que se contentassem com menos de outros parceiros. Além disso, Marie-Ange não queria ninguém no momento. Gostava da vida que levava, frequentando a faculdade e compartilhando todos os seus pensamentos, sonhos e segredos com Billy. Ainda assim, estava determinada a nunca confundir ou estragar a amizade deles com romance.

 

Não quer ter filhos? perguntou Marie-Ange, surpresa com o que ele disse, embora compreendesse a razão.

 

Talvez. Talvez não. Não sei. Vou ter muitos sobrinhos e sobrinhas. Vão me deixar bastante louco, talvez eu não precise de meus próprios filhos. Olhou-a serenamente ao dizer isso. Tudo que realmente queria era estar com ela e não gostava da ideia de alguém interferindo nisso. Você vai ter filhos um dia. Tenho certeza. Será uma mãe maravilhosa.

 

Não posso sequer imaginar isso disse ela honestamente. Mal podia lembrar-se do que era viver numa família de verdade, como vivera com seus pais e seu irmão quando estavam vivos. Só sentia esse gosto quando visitava Billy. Adorava ficar lá com ele, compartilhar o amor e a alegria de sua família, mas agora isso já não fazia parte de sua vida. Em muitos aspectos, sentia-se muito solitária.

 

Conversaram até de madrugada e ela passou a noite em sua casa, compartilhando um quarto com duas de suas irmãs. No dia seguinte, voltou ao hospital para visitar sua tia-avó. Sua recuperação foi longa e lenta. Quase um mês se passou até ela poder deixar o hospital e mais dois meses até poder sair da cama. Já não parecia tão intimidante. Sua fragilidade era cada vez mais visível e até sua mesquinhez parecia ter perdido a força. De certo modo, parecia estar definhando. Marie-Ange fez o que tinha que fazer por ela, mas as duas mal se falavam e o que Marie-Ange fazia era mais mecânico do que por qualquer sentimento que nutrisse por ela.

 

Carole completou oitenta anos no começo do verão, pouco antes de Marie-Ange fazer vinte e um anos. Foi um grande golpe para ela quando o capataz Tom anunciou que iria se aposentar e se mudar para o Arizona, para ficar perto dos pais de sua mulher, que passara o ano todo viajando para vê-los e cuidar deles e isso estava sendo demais para ela.

 

Velhos assim deveriam ser colocados em um asilo resmungou Carole para Marie-Ange depois que Tom lhe deu a notícia. Estava obviamente transtornada, embora não tivesse dito praticamente nada para ele, e disse a Marie-Ange que havia capatazes aos montes por aí. Ele recomendara seu sobrinho para a vaga, mas Marie-Ange sabia que Carole não gostava dele. Marie-Ange lastimava ver Tom partir. Sempre fora amável com ela e gostava dele.

 

Naquele verão, Marie-Ange trabalhou em tempo integral outra vez, para pagar suas despesas com a faculdade e ainda assim conseguia passar bastante tempo com Billy, que agora tinha outra namorada. Desta vez, Marie-Ange achou que podia se tornar sério, se ele permitisse. Ela era meiga e dedicada a ele, e muito bonita. Estudara na mesma escola que eles, uma série abaixo, e suas famílias se conheciam há anos. Poderiam ter uma vida muito boa juntos. Aos vinte e dois anos, Marie-Ange achava que ele estava preparado. Saíra do colégio há três anos, terminara o curso de extensão no ano anterior e trabalhava com afinco na fazenda do seu pai. Como muitos outros rapazes que haviam trabalhado em fazendas desde o começo da adolescência, com todas as suas responsabilidades e dificuldades, ele amadurecera cedo.

 

Era um dia quente e sufocante, Marie-Ange estava saindo de casa em seu amado Chevy para visitar Billy, quando viu um carro desconhecido chegar, dirigido por um homem mais velho, com um chapéu de caubói e de terno. Imaginou se ele seria um candidato ao emprego de capataz. Não deu muita importância e ficou surpresa de ainda encontrá-lo ali quando voltou da fazenda de Billy três horas mais tarde. Nunca lhe ocorreu que o homem viera vê-la, mas ele estava acabando de sair da cozinha com sua tia-avó, quando ela saiu do carro, com algumas compras que fizera no mercado para preparar o jantar. Olhou-a com expectativa, enquanto tia Carole indicava-a com um movimento da cabeça.

 

Carole apresentou-lhe o homem, mas seu nome não significava nada para Marie-Ange. Era Andrew McDermott e ele viera dirigindo desde Dês Moines para vê-las. Sorriu quando Marie-Ange perguntou-lhe inocentemente se ele viera conversar com Carole sobre a vaga de administrador da fazenda.

 

Não, eu vim vê-la disse ele em tom amável. Tinha alguns assuntos para tratar com sua tia. Talvez possamos nos sentar um pouco.

 

Mas Marie-Ange sabia que precisava colocar o jantar na mesa e perguntou-se por que ele queria sentar-se com ela.

 

Alguma coisa errada? perguntou Marie-Ange à sua tia, que franziu o cenho e sacudiu a cabeça. Desaprovava quase tudo que o homem dissera, mas não ficara surpresa. Sabia da maior parte desde o começo.

 

Não, não há nada de errado explicou o visitante gentilmente. Vim vê-la a respeito do trust, um depósito em confiança, que seu pai lhe deixou. Sua tia e eu conversamos sobre isso há algum tempo e os investimentos feitos ao longo dos anos deram ótimos rendimentos. Mas, agora que você atingiu a maioridade, tenho que informá-la a respeito.

 

Ela não fazia a menor ideia do que ele estava falando e podia ver que tia Carole não parecia nada satisfeita. Imaginou se seu pai havia feito alguma coisa errada ou de alguma forma lhe custara algum dinheiro. Não compreendia nada do que ele estava dizendo. Achava que confiança era algo que existia entre duas pessoas, como entre ela e Billy.

 

Podemos nos sentar enquanto eu lhe explico? Ainda estavam de pé na soleira da porta e Marie-Ange deixou-os por um instante para colocar as compras em cima da mesa da cozinha.

 

Não demoro prometeu a tia Carole, conforme a cadeira de rodas desaparecia para dentro de casa. Já ouvira tudo a respeito e não tinha nenhum interesse em permanecer com eles.

 

Srta. Hawkins começou Andy McDermott, sua tia lhe explicou tudo sobre a herança que seu pai lhe deixou?

 

Marie-Ange sacudiu a cabeça, estarrecida.

 

Não, não sabia que ele havia deixado alguma coisa. Sempre achei que ele deixara dívidas disse ela simplesmente, sem artifícios ou pretensão.

 

Ao contrário exclamou, parecendo surpreso por ela não saber nada sobre o assunto, ele deixou negócios extremamente bem-sucedidos que foram vendidos alguns meses depois de sua morte. Um de seus sócios comprou a parte dele, a um preço justo, e todos os bens imóveis que ele possuía estavam desimpedidos. Tinha alguma poupança e, é claro, algumas dívidas, mas nada de grande importância. Ele deixou um testamento em seu nome e do seu irmão, mas com a morte de seu irmão, a parte dele passou para você.

 

Era a primeira vez que ouvia falar de tudo aquilo e estava admirada com o que ele lhe dizia.

 

Você deverá herdar um terço do que seu pai lhe deixou quando fizer vinte e um anos, o que acabou de ocorrer, e é por isso que estou aqui. O trust manterá o resto e desembolsará a terça parte seguinte quando você completar vinte e cinco e o saldo quando fizer trinta anos. Ele lhe deixou uma quantia muito boa disse ele solenemente, olhando para Marie-Ange. Percebeu que ela era uma pessoa absolutamente simples e que não esperava nada. Talvez sua tia tivesse tido razão ao não lhe revelar nada, imaginou.

 

Quanto ele deixou? perguntou Marie-Ange, sentindo-se envergonhada. Muito? Achava que não.

 

Eu diria que sim ele sorriu-lhe. Foi bem investido ao longo dos anos e, atualmente, antes de qualquer desembolso para você, o trust totaliza pouco mais de dez milhões de dólares.

 

Fez-se um silêncio muito longo, enquanto ela o fitava, sem conseguir absorver o que ele acabara de dizer e sem poder acreditar. Era uma brincadeira, tinha que ser, e não tinha graça nenhuma.

 

O quê? Foi a única palavra que conseguiu emitir.

 

O trust controla pouco mais de dez milhões de dólares para você ele repetiu. Um terço dessa quantia será depositado em uma conta para você na semana que vem e eu sugiro que reinvista a maior parte assim que puder. Na verdade, podemos tratar disso para você. Ele era advogado do banco que administrava a conta do trust, explicou. Inicialmente, os bens ficavam na França, mas finalmente foram transferidos para Iowa por sugestão de Carole. Achava que Marie-Ange jamais voltaria lá. Provavelmente, eu também deveria lhe dizer revelou confidencialmente que oferecemos à sua tia uma quantia em dinheiro para seu sustento, periodicamente, e ela muito gentilmente disse que não havia necessidade. Ela mesma a sustentou nos últimos dez anos, sem jamais tirar proveito da herança que seu pai lhe deixou. Achei que gostaria de saber disso. Mas até mesmo essa informação era confusa. Tia Carole quase a deixou morrer à míngua, comprara-lhe roupas da loja beneficente Goodwill, forçara-a a pagar com serviços cada centavo que gastara com ela e recusara-se a ajudá-la a frequentar a universidade.

 

Era difícil decidir agora se tia Carole fora um monstro ou uma heroína, mas talvez tivesse feito apenas o que achou melhor. Mas de forma alguma avisara Marie-Ange do que a aguardava. Foi uma surpresa absoluta e um grande choque, na medida em que Andrew McDermott entregava-lhe um envelope de papel pardo cheio de documentos e sugeria-lhe que os examinasse. Precisava de uma única assinatura para abrir uma conta bancária em seu nome e, ao deixá-la, parabenizou-a por sua boa sorte. Ainda assim, Marie-Ange não estava certa se via a questão dessa forma. Preferia ter tido seus pais e seu irmão vivos e ter crescido com eles em Marmouton a ter passado os últimos dez anos em Iowa com tia Carole, tendo que suportar dificuldades e uma solidão sem fim. Por mais rica que fosse agora, Marie-Ange ainda não conseguia compreender o que acabara de acontecer a ela ou o que iria significar, enquanto continuava agarrando o envelope que ele lhe deixara.

 

Quando vamos jantar? tia Carole gritou-lhe através da porta de tela e ela correu para dentro, colocou o envelope sobre o balcão da cozinha e apressou-se a preparar o jantar.

 

Durante toda a refeição, tia Carole não disse nada, até que Marie-Ange quebrou o silêncio.

 

Você sabia? Seus olhos examinaram o rosto de sua tia-avó e não viram nada, nem afeição, carinho, arrependimento, ternura ou alegria por ela. Tinha a mesma aparência de sempre, amarga, cansada, velha e fria como o gelo do inverno.

 

Nem tudo. Ainda não sei. Não é da minha conta. Sei que seu pai lhe deixou muito dinheiro. Fico feliz por você.

 

Tornarão as coisas mais fáceis para você quando eu partir. Então, ela deixou Marie-Ange ainda mais perplexa. Vou vender a fazenda no mês que vem. Tive uma boa oferta e você já está bem agora. Estou cansada. Vou me mudar para a casa de repouso em Boone. Falou sem desculpas ou arrependimento e sem nenhuma preocupação sobre o que aconteceria a Marie-Ange, mas reconhecidamente não tinha nenhuma razão para se preocupar com ela, exceto que era uma jovem de vinte e um anos e, pela segunda vez na vida, estava prestes a não ter um teto.

 

Até quando vai ficar aqui? perguntou Marie-Ange, preocupada com ela e buscando algum vestígio de emoção que nunca transparecera.

 

Se eu vender no mês que vem, terei um prazo de trinta dias. Devo estar em Boone até o final de outubro. Tom disse que esperará até lá.

 

Mas eram apenas seis semanas e Marie-Ange compreendeu que teria que tomar algumas decisões. Estava prestes a começar o último ano da faculdade e imaginou se deveria se mudar para mais perto da escola ou tirar o ano para voltar à sua casa na França, ao menos para vê-la. Por um instante, teve o sonho de comprar Marmouton de volta. Não sabia quem era o atual proprietário ou o que acontecera ao lugar e imaginava se essa informação estaria incluída nos papéis que o advogado do banco lhe entregara.

 

Vou ter que me mudar quando você sair disse MarieAnge pensativamente, imaginando se algum dia conhecera aquela mulher. Mas já conhecia a resposta a essa pergunta. Você ficará bem na casa de repouso, tia Carole? Sentia que lhe devia algo, por mais desagradável ou fria que ela tivesse sido. Afinal, tomara conta dela por dez anos e Marie-Ange era grata por isso.

 

Não estou bem aqui. Que diferença faz? De qualquer modo, já estou muito velha para dirigir uma fazenda. Você voltará para a França, eu imagino, ou arranjará um emprego em algum lugar, quando terminar a faculdade. Não tem nenhum motivo para continuar aqui, a menos que se case com aquele rapaz com quem você diz que não quer se casar. E agora provavelmente não deva. Você pode arranjar um ótimo partido agora com todo esse dinheiro. Era um modo desagradável de ver a questão e a maneira como falou fez Marie-Ange estremecer. Em nenhum momento ela aventou a ideia de amar alguém e Marie-Ange não pôde deixar de imaginar, como já fizera, como teria sido sua vida com o marido, se ela algum dia o amara, se era até mesmo capaz de amar. Era impossível imaginá-la jovem, apaixonada ou feliz.

 

Marie-Ange limpou a cozinha depois do jantar e sua tia disse que iria para a cama cedo. Afastou-se silenciosamente em sua cadeira de rodas pelo corredor escuro. Mas quando Billy telefonou pouco depois, Marie-Ange disse que precisava vê-lo.

 

Aconteceu alguma coisa? ele pareceu preocupado.

 

Não... sim... não... Não sei. Estou confusa. Aconteceu algo hoje que eu preciso lhe contar. Precisava urgentemente  falar com ele. Não havia mais ninguém com quem pudesse conversar, embora ela soubesse que ele era tão ignorante em questões financeiras quanto ela. Mas ele era sensível e inteligente e só desejava o melhor para ela. Nunca lhe ocorreu, nem por um instante, que ele pudesse sentir inveja dela.

 

Você está bem? perguntou ele e ela hesitou.

 

Acho que sim. Sim. Não queria preocupá-lo. É uma coisa boa. Apenas eu não compreendo.

 

Venha aqui quando quiserdisse ele, tentando acalmála. Sua nova namorada estava lá, mas ela morava em uma fazenda próxima, ele se ofereceu para levá-la para casa antes que Marie-Ange chegasse e ela não pareceu se importar.

 

Vinte minutos depois, Marie-Ange surgiu na varanda da frente, trazendo com ela o envelope de papel pardo.

 

O que é isso? Viu-o no mesmo instante e imaginou se seria um documento da faculdade. Imaginou, de repente, se ela teria conseguido outra bolsa de estudos, mas a expressão do seu rosto disse-lhe que se tratava de algo mais importante.

 

Um advogado veio me ver hoje disse ela num sussurro, para que o resto da família não pudesse ouvir. Confiava nele inteiramente. Sua fé nele nunca fora abalada e sabia que não seria também desta vez.

 

Sobre o quê?

 

Um dinheiro que meu pai me deixou quando morreu disse ela simplesmente e ele imediatamente pensou, como Marie-Ange, numa quantia na casa dos milhares, se ela tivesse sorte. Ao menos, iria ajudá-la a terminar os estudos e ficou feliz por ela. Muito dinheiro ela tentou prepará-lo. Mas o que acontecera a ela era inconcebível e sabia que Billy iria ficar tão confuso quanto ela.

 

Quanto? Em seguida, corrigiu-se rapidamente. Ou você preferiria não me contar? Você não tem que me contar, você sabe. Não é da minha conta disse ele discretamente.

 

Acho que eu não deveria dizer nada disse ela, olhando para ele, aterrorizada de que aquilo pudesse mudar alguma coisa entre eles. Não quero que me odeie por isso.

 

Não seja tola. Ele matou alguém ou roubou esse dinheiro? provocou-a.

 

Claro que não sorriu-lhe, nervosamente, é da casa, dos negócios e de alguns investimentos. O que ele deixou cresceu muito nos últimos dez anos. Billy hesitou por um longo instante, é muito dinheiro. Teve vontade de desculpar-se por isso. Parecia pecado alguém possuir tanto dinheiro. Mas ela possuía. E agora tinha que lidar com isso.

 

Você está me deixando maluco, Marie-Ange. Vai me contar ou não? E, aliás, a sua tia Carole sabia disso?

 

Parece que sabia, mais ou menos. E ela nunca aceitou nada para me sustentar. Acho que isso de certa forma foi bondade dela, mas certamente teria facilitado a minha vida se ela tivesse aceitado. De qualquer forma, é tudo meu agora. Seus olhos encontraram-se e não se desviaram, enquanto ele aguardava. Ela respirou fundo e murmurou as palavras cujo alcance nem ela entendia e se perguntava se algum dia entenderia.

 

Dez milhões de dólares disse, tão baixo que ele mal pôde ouvi-la.

 

Ah, claro disse ele, rindo, recostando-se na sua cadeira na varanda, divertindo-se com a piada. Estivera inclinado para a frente, na expectativa de ouvi-la, e agora simplesmente dava uma gargalhada. E eu sou Mickey Mantle.

 

Não, falo a sério. É isso mesmo. Ela parecia estar compartilhando algo terrível com ele e, de repente, ele parou de rir e olhou-a fixamente.

 

Não está brincando? Ela sacudiu a cabeça em resposta e ele cerrou os olhos como se ela tivesse lhe dado um tapa, depois abriu-os para fitá-la, incrédulo. Ah, meu Deus, Marie-Ange... o que vai fazer com isso? O que vai fazer agora? De certo modo, teve medo por ela. Era uma quantia de dinheiro assustadora. Além de tudo que pudessem imaginar.

 

Não sei. Tia Carole disse-me hoje à noite que está vendendo a fazenda no mês que vem e indo para a casa de repouso em Boone. Não vou ter onde morar daqui a seis semanas. Ela já tem alguém que quer comprar a fazenda e decidiu vendê-la.

 

Você pode morar aqui disse ele generosamente, mas ela sabia que não havia espaço para ela e que isso também não seria correto.

 

Acho que poderia conseguir um apartamento na faculdade ou morar no dormitório. Não sei o que se deve fazer quando algo assim acontece.

 

Nem eu sorriu-lhe timidamente. Seu pai deve ter sido muito rico quando você era pequena. Acho que nunca entendi isso. Aquele chateau de que você falava devia ser do tamanho do Palácio de Buckingham.

 

Não, não era. Era lindo e eu o amava, acho que tinha muitas terras e seus negócios deviam estar indo muito bem. Ele também tinha economias e... Meu Deus, Billy, eu não sei... o que vou fazer agora? Queria que ele a aconselhasse, mas ambos eram jovens e aquela conversa era inconcebível para eles, particularmente considerando-se a vida que levavam. Suas vidas em Iowa eram muito simples.

 

O que quer fazer? ele perguntou-lhe ponderadamente. Quer ir para casa e começar nova vida lá ou terminar a faculdade aqui? Pode fazer o que quiser agora. Puxa, Marie-Ange, você pode ir para Harvard se quiser. Para ele, ao menos, representava uma liberdade ilimitada e estava feliz por ela.

 

Acho que gostaria de ir para casa por algum tempo e ao menos ver Marmouton outra vez. Talvez até possa comprá-lo.

 

E nunca mais voltar aqui, ele podia ouvir a realidade ecoar em sua cabeça enquanto a ouvia, mas não expressou seus temores para ela. Repentinamente, teve medo de nunca mais voltar a vê-la depois que fosse embora. Mas ela sabia o que ele estava pensando.

 

Eu vou voltar. Só quero ver como é lá. Talvez eu tranque a matrícula por um semestre e volte para o Natal.

 

Seria ótimo. Resolveu colocar seus próprios sentimentos de lado e pensar nela. Amava-a o suficiente para isso.

 

Mas talvez você seja feliz lá. Afinal, ela era francesa e não tinha nenhum parente nos Estados Unidos, a não ser tia Carole. Embora tivesse passado quase metade de sua vida aqui, no íntimo ela ainda era francesa e sempre seria.

 

Talvez. Eu só não sei o que fazer agora. Nenhum dos dois lugares parecia mais o seu lar. E com as opções que se abriam para ela agora, tudo parecia ainda mais confuso. Se eu ficasse lá, você iria me visitar? Iria poder usar seu francês finalmente. Eu lhe mandaria a passagem. Conhecia-o muito bem para saber que ele jamais aceitaria e seria difícil para ele arranjar tempo para visitá-la, ainda que tivesse dinheiro para comprar a passagem. Tem que me prometer que iria me visitar se eu ficasse lá.

 

Acha que vai terminar a faculdade? perguntou ele, preocupado com ela novamente, e ela assentiu.

 

Eu quero terminar. Acho que provavelmente voltarei para cá. Talvez eu só tire este semestre e espere para ver o que acontece.

 

Seria uma pena não terminar a faculdade disse ele, parecendo um irmão mais velho, enquanto ela assentia.

 

Em seguida, ela retirou os papéis do envelope e começaram a examiná-los juntos. Mas nenhum dos dois os entendia. Era um portfolio dos investimentos do trust.

 

Eu simplesmente não posso acreditar disse ele, fitando-a novamente antes que ela partisse. Marie-Ange, isso é incrível. Em seguida, exibiu um amplo sorriso e deu-lhe um abraço. Meu Deus, quem diria que você iria se tornar uma garota rica.

 

Sinto-me como uma Cinderela murmurou.

 

Só não vá fugir com um belo príncipe nos próximos dez minutos. Sabia que isso significava que não haveria nenhuma esperança para eles, mas, de acordo com Marie-Ange, nunca houvera. Agora não havia mais nenhuma possibilidade de se declarar novamente a ela. Era uma herdeira, mas era também sua melhor amiga e ela o fez jurar que aquilo jamais faria nenhuma diferença entre eles.

 

Voltarei para o Natal ela prometeu com verdadeira intenção. Mas ele perguntou a si mesmo se seria realmente assim, se ela realmente voltaria, ou mesmo se iria querer voltar, depois dos anos de sofrimento que passara ali. Parecia-lhe que o certo a fazer agora era voltar para casa.

 

Acompanhou-a até o carro quando ela saiu e deu-lhe outro abraço. O carro que lhe dera agora lhe parecia tolo, diante de tudo que acabara de acontecer.

 

Dirija com cuidado. Sorriu-lhe, ainda impressionado com o que ouvira. Ambos precisavam de tempo para assimilar a notícia.

 

Eu o amo, Billy disse ela, sinceramente, e ele sabia disso.

 

Eu também a amo. Você sabe. Assim, ela acenou e afastou-se. Teve muito o que pensar no trajeto para casa e, na manhã seguinte, foi a Dês Moines. Havia algo que sabia que tinha que fazer. Pensara nisso na noite anterior e não queria esperar nem mais um dia. Ligou para Andy McDermott e explicou-lhe o que queria. A princípio, ele pareceu um pouco surpreso, mas afinal a jovem tinha apenas vinte e um anos. Era um primeiro passo interessante, mas ela estava resolvida quando ele interrogou-a a respeito.

 

Ela fechou a transação em menos de uma hora e combinaram de entregá-lo na fazenda naquela manhã. Estavam perplexos com a rapidez com que ela fizera a compra. Quando foi entregue, causou infindáveis comentários entre os peões da fazenda e tia Carole ficou lívida ao vê-lo.

 

É exatamente o tipo de coisa estúpida que eu achava que você faria. O que vai fazer com isso? perguntou em tom de reprovação, mas não havia nada que pudesse fazer para impedi-la.

 

Vou dá-lo a Billy disse Marie-Ange calmamente, enquanto deslizava para trás do volante do Porsche zero quilómetro, vermelho vivo, que comprara para ele naquela manhã. Há três anos, ele tornara possível para ela continuar sua educação e frequentar a universidade. Agora, faria alguma coisa por ele, algo que jamais poderia fazer para si mesmo em toda a sua vida. Ela pagou o seguro do carro por dois anos e sabia que ele iria adorá-lo.

 

Dirigiu-o até a frente da casa dele, exatamente no momento em que ele chegava de trator com um dos seus irmãos. Fitou-a admirado.

 

Trocou o Chevy por esse carro? Espero que tenham lhe dado algum dinheiro de volta! riu e saltou do trator para olhar mais de perto aquele veículo extraordinário que ela estava dirigindo. Como vai dizer às pessoas que o comprou? perguntou, com ar preocupado. Sabia que ela não iria querer ser alvo de comentários ou que todos ficassem sabendo que recebera uma herança de seu pai.

 

Ainda não pensei nisso disse-lhe com um amplo sorriso, talvez tenha que lhes dizer que o roubei. Mas ao menos não o estarei dirigindo.

 

Por que não? Ele ficou confuso quando ela silenciosamente entregou-lhe as chaves e beijou-o na face, à maneira francesa.

 

Porque é seu, Billy! disse ela ternamente. Porque você é o melhor amigo que tenho no mundo e é meu irmão.

 

Os olhos dele encheram-se de lágrimas e não sabia o que dizer a ela. Quando finalmente conseguiu falar de novo, insistiu que não podia aceitá-lo, não importava quanto dinheiro seu pai havia lhe deixado. Entretanto, ela recusou-se a discutir a questão ou se deixar convencer. Os documentos do carro já estavam em seu nome e ela sentou-se no lado do passageiro, esperando que ele dirigisse o carro.

 

Não sei o que lhe dizer falou, a voz embargada, enquanto sentava no banco do motorista. Era difícil resistir e todos na fazenda do seu pai os olhavam. Sabiam que algo inacreditável acontecera.

 

Isso significa que você vai se casar com ele? sua mãe gritou da janela da cozinha, imaginando que ela o tivesse ganho num concurso. Talvez tivesse ganho na loteria ou algo assim.

 

Não, significa que ele tem um carro novo respondeu Marie-Ange com um largo sorriso, enquanto Billy girava a chave na ignição e o motor do pequeno carro esporte entrava em ação. Partiram a toda velocidade, enquanto Billy gritava, exultante, e os longos cabelos louros de Marie-Ange voavam ao vento.

 

 

TIA CAROLE VENDEU a fazenda, como disse que faria, e duas semanas depois mudou-se para a casa de repouso em Boone. Marie-Ange ajudou-a a fazer as malas e não pôde deixar de pensar na crueldade de Carole quando levou as malas de Marie-Ange para a loja Goodwill e as deixou lá com quase tudo que ela trouxera consigo. Desta vez, no entanto, Marie-Ange colocou nas malas todas as suas pequenas lembranças e objetos favoritos. Quando chegaram a Boone, a velha senhora voltou-se para ela, olhou-a longa e duramente e disse:

 

Não faça nenhuma tolice.

 

Vou tentar respondeu Marie-Ange com um sorriso, desejando sentir mais por ela do que realmente sentia. Na realidade, não sentia nada, tia Carole jamais o permitira. MarieAnge não podia nem sequer dizer-lhe que iria sentir sua falta.

 

Ambas sabiam que não sentiria. Eu lhe escreverei e direi onde estou disse educadamente.

 

Não precisa. Não gosto de escrever. Posso ligar para o banco, se precisar encontrá-la.

 

Após dez anos de convivência, era uma despedida seca, sem emoções. Carole simplesmente não era capaz de mais do que isso e nunca fora. Depois que a deixou, Marie-Ange sentiu-se triste, por tudo que nunca houve entre ambas. Emocionalmente ao menos, exceto por Billy, foram dez anos desperdiçados.

 

Voltou para casa e arrumou seus pertences. Tom e sua esposa já haviam partido e a casa parecia estranha e vazia. MarieAnge tinha sua passagem e seu passaporte e as malas estavam prontas. Partiria pela manhã, fazendo o caminho de volta por onde viera, primeiro para Chicago e depois para Paris. Ficaria em Paris por alguns dias e talvez desse uma olhada nos cursos da Sorbonne, depois alugaria um carro e iria até Marmouton, apenas para vê-lo. E iria procurar saber o que acontecera a Sophie. Presumia que tivesse morrido, mas talvez alguém pudesse lhe dizer como ou quando isso acontecera. Marie-Ange suspeitava de que ela tivesse morrido de tristeza, mas o que quer que tivesse lhe acontecido, ela queria saber. Sabia que, se Sophie estivesse viva, teria escrito para ela e não o fizera. Nem uma única carta em resposta às suas ou desde então.

 

Jantou com Billy e sua família naquela noite. Todos na região ainda comentavam a respeito do seu Porsche novo e ele aproveitava cada chance que tinha para dirigi-lo. Seu pai implicara com ele, dizendo que passava mais tempo no carro do que no trator. Sua namorada, Debbi, ficara apaixonada pelo carro. Mas para Billy ele significava ainda mais porque fora um presente de Marie-Ange para ele. Finalmente, parara de discutir com ela por causa do carro e concordou em aceitá-lo, embora continuasse a dizer que não devia fazê-lo, mas não conseguia se separar dele. Era o carro dos seus sonhos e a maneira dela de agradecer-lhe por ajudá-la a ir para a faculdade com o Chevy.

 

Telefonarei para você de Paris assim que puder prometeu-lhe naquela noite quando ele a levou para casa. Ela deixou o Chevy com ele e pediu-lhe para guardá-lo para ela, caso ela voltasse para terminar a faculdade. Não queria vendê-lo, significava muito para ela. Era a única coisa que queria guardar de todos os anos que passara com tia Carole. Não havia outras lembranças felizes para ela, somente lembranças tristes, exceto as que envolviam Billy.

 

Billy prometeu pegá-la pela manhã e levá-la ao aeroporto. Enquanto vagava pela casa sozinha, pensando nos dez anos que passara ali, achou-a estranha e terrivelmente solitária. Perguntou-se como tia Carole estaria na casa de repouso, mas Carole dissera-lhe para não se dar ao trabalho de ligar e ela não o fez.

 

Dormiu um sono agitado naquela noite e não fez nenhuma de suas tarefas quando se levantou, pela primeira vez em mais de dez anos. O mais estranho de tudo era pensar que logo estaria em Paris e depois de volta a Marmouton. Não conseguia sequer imaginar o que encontraria.

 

Billy apanhou-a exatamente às nove horas e colocou sua pequena e única mala no carro. Não tinha quase nada para levar com ela. Nenhum suvenir, nenhuma fotografia, exceto dele, nenhum momento, exceto as coisas que ele fizera para ela ao longo dos anos, nos aniversários e no Natal. Os únicos outros objetos que tinham significado para ela eram as fotografias de seus pais e de Robert no medalhão que ainda usava com carinho.

 

Ambos ficaram em silêncio no carro, a caminho do aeroporto. Havia tanto a ser dito, mas nenhum modo adequado de dizer. Haviam dito tudo ao longo dos anos, haviam se apoiado mutuamente e ainda o faziam. Mas ambos sabiam que, com a distância entre eles, tudo teria que ser diferente.

 

Telefone-me se precisar de mim disse ele, enquanto esperavam o embarque do avião para Chicago. Ela não viajava de avião desde que chegara e lembrou-se do quanto estava aterrorizada, triste e solitária. Ele fora seu único amigo durante todos aqueles anos, sua única fonte de força e consolo. Sua tiaavó dera-lhe casa e comida, mas nunca houve amor entre elas. Billy era muito mais a sua família do que tia Carole algum dia chegara a ser e, quando finalmente chegou a hora de embarcar no avião, ela abraçou-o com força por um longo instante, enquanto as lágrimas rolavam pelo rosto de ambos.

 

Vou sentir tanto a sua falta disse ela, chorando. Era como deixar Robert outra vez e receava agora nunca mais ver Billy novamente, assim como perdera seu irmão. Mas ele pressentiu seus pensamentos sem que ela precisasse colocá-los em palavras e serenamente tranqiiilizou-a.

 

Tudo vai dar certo. Você provavelmente vai detestar a França e voltar logo para cá. Mas não acreditava nisso.

 

Cuide-se bem disse-lhe ela ternamente e eles abraçaram-se e beijaram-se pela última vez. Ela ergueu o rosto para ele, querendo gravar seu rosto sardento na mente para sempre. Eu o amo, Billy.

 

Eu também a amo, Marie-Ange ele disse, querendo que ela ficasse em Iowa para sempre. Mas não seria justo com ela e ele sabia disso. Havia uma oportunidade sem igual para ela agora.

 

Ficou ali, acenando, até o avião transformar-se num pontinho no céu e, então, ela se fora. Voltou lentamente para a fazenda em seu carro vermelho novo, chorando por tudo que ela significara para ele e que nunca se tornaria realidade.

 

 

O AVIÃO ATERRISSOU no aeroporto Charles de Gaulle às quatro horas da manhã e, com sua única mala, MarieAnge não precisou de mais do que alguns minutos para passar pela alfândega. Repentinamente, soava-lhe estranho ouvir as pessoas falarem francês por toda parte e sorriu ao pensar em Billy e em como ele aprendera bem o francês.

 

Tomou um táxi para um pequeno hotel que uma das aeromoças lhe recomendara. Ficava na Rive Gauche, era seguro e limpo, e depois de lavar o rosto e desfazer a mala, era hora do café da manhã. Resolveu dar uma volta e encontrou um pequeno café onde pediu croissants e uma xícara de café. Apenas pelo prazer, fez um canard para. si mesma na xícara de café com leite fervente e pensou em Robert. Tantas lembranças foram trazidas de volta que ela quase não suportou. Depois, andou durante horas, vendo as pessoas, desfrutando o cenário, aproveitando  a sensação de estar na França outra vez. Não voltou ao hotel senão depois de muitas horas e, quando o fez, estava exausta.

 

Jantou em um pequeno bistrô e chorou na sua cama de hotel naquela noite, por seu irmão e seus pais, pelos anos desperdiçados e depois chorou pelo amigo que deixara em Iowa. Mas, apesar da tristeza, adorava estar em Paris. No dia seguinte, foi à Sorbonne e pegou alguns folhetos sobre os cursos oferecidos. Na manhã seguinte, alugou um carro e partiu para Marmouton. Levou o dia inteiro para chegar. Podia sentir o coração pulsando enquanto atravessava a vila devagar. Resolveu parar na confeitaria que adorava quando era criança e ficou olhando, sem poder acreditar, quando viu a mesma senhora atrás do balcão. Ela fora uma boa amiga de Sophie.

 

Marie-Ange falou-lhe com cuidado, explicou quem era e a velha senhora começou a chorar no instante em que a reconheceu.

 

Meu Deus, você está tão linda, tão crescida! Sophie teria ficado tão orgulhosa de você disse, abraçando-a.

 

O que aconteceu a ela? perguntou Marie-Ange quando a mulher entregou-lhe um brioche por cima do balcão.

 

Morreu no ano passado disse a mulher com tristeza.

 

Escrevi para ela tantas vezes e ela nunca me respondeu. Ela ficou doente muito tempo? Talvez tivesse tido um infarto, Marie-Ange pensou, assim que a deixou. Era a única explicação possível para o seu silêncio.

 

Não, ela foi morar com a filha quando você foi embora e vinha me visitar a cada dois anos mais ou menos. Sempre falávamos a seu respeito. Disse que escreveu-lhe umas cem vezes no primeiro ano e todas as suas cartas voltavam sem serem abertas. Depois disso, ela desistiu, achou que talvez tivesse o endereço errado, mas o advogado de seu pai falou que estava correto. Talvez alguém não quisesse que você lesse as cartas. As palavras da velha senhora atingiram como um golpe o coração de MarieAnge, ao perceber que tia Carole devia ter devolvido as cartas de Sophie e jogado fora as cartas de Marie-Ange, para cortar seus laços com o passado. Era exatamente o tipo de coisa que Carole faria. Era mais um ato de crueldade, mas tão desnecessário e tão mesquinho. E agora Sophie se fora para sempre.

 

Sinto muito acrescentou a mulher, vendo o rosto da jovem e a dor gravada em sua expressão.

 

Quem mora no chateau agora? perguntou MarieAnge em voz baixa. Não era fácil retornar àquele lugar, estava cheio de lembranças doces e amargas para ela e sabia que partiria seu coração ver o chateau novamente, mas sentia que precisava fazê-lo, prestar uma homenagem ao passado, tocar uma parte de sua família outra vez, como se, ao retornar, ela os fosse reencontrar, mas é claro sabia que não seria assim.

 

Pertence a um conde. Conde de Beauchamp. Ele vive em Paris e ninguém nunca o vê. Raramente vem aqui. Mas você pode entrar e visitar, se quiser. Os portões estão sempre abertos. Ele tem um caseiro, talvez você se lembre dele. O neto de madame Fournier.

 

Marie-Ange lembrava-se bem dele da fazenda, em Marmouton, era apenas alguns anos mais velho do que ela e de vez em quando brincavam juntos quando eram crianças. Uma vez, ele a ajudara a subir em uma árvore e Sophie ralhara com os dois e obrigara-os a descer. Imaginou se ele se lembrava disso com tanta clareza quanto ela.

 

Agradeceu à mulher da confeitaria e despediu-se, prometendo retornar. Em seguida, foi dirigindo lentamente até o chateau. Quando chegou, encontrou os portões abertos, como a mulher lhe dissera, o que a surpreendeu, especialmente se o proprietário estava quase sempre ausente.

 

Marie-Ange estacionou seu carro alugado do lado de fora e atravessou lentamente os portões, como se estivesse entrando de volta no Paraíso e receasse que alguém a impedisse. Mas ninguém apareceu, não se ouvia nenhum barulho, nenhum sinal de vida. Não se via Alain Fournier em nenhum lugar. O chateau parecia abandonado. As persianas estavam cerradas, o mato estava crescido, o lugar tinha uma aparência triste agora e podia ver que uma parte do telhado estava em ruínas. Mais além, viu os campos e as árvores, os bosques e o pomar que lhe eram tão familiares. Tudo era exatamente como se lembrava. Era como se, só de vê-los, ela se tornasse uma criança outra vez e Sophie surgiria a qualquer momento procurando por ela. Seu irmão ainda estaria lá e seus pais voltariam de suas atividades para o jantar. Ali parada, imóvel, podia ouvir os pássaros e teve vontade de trepar em uma árvore outra vez. Fazia frio e o lugar, mesmo parecendo abandonado, estava mais lindo do que nunca. Por um instante, desejou que Billy pudesse vê-lo. Era exatamente como o descrevera para ele.

 

Caminhou em direção aos campos, a cabeça baixa, pensando na família que perdera, os anos que passara longe dali, a vida que tanto amara e que terminara tão abruptamente. Agora, estava de volta e o lugar pertencia a outra pessoa. O pensamento fez seu coração doer. Sentou-se em uma pedra, revivendo mil lembranças que lhe eram caras e, quando a noite começou a cair no ar frio de outubro, ela começou a voltar lentamente para o pátio. Acabava de passar pela porta da cozinha, quando um carro esporte entrou a toda velocidade e parou perto dela. O homem por trás do volante lançou-lhe um olhar intrigado, em seguida sorriu-lhe e saiu do carro. Era alto e magro, de cabelos escuros e olhos verdes, com um ar muito aristocrático. Imaginou imediatamente que ele deveria ser o conde de Beauchamp.

 

Está perdida? Precisa de ajuda? perguntou ele amavelmente e ela notou o anel de ouro com um timbre em seu dedo, indicando que ele era um nobre.

 

Não, desculpe-me. Estou invadindo disse ela, pensando em como sua tia-avó havia disparado a espingarda na primeira vez em que Billy fora visitá-la. No entanto, os modos desse homem eram infinitamente melhores do que os de sua tia Carole.

 

É um belo lugar, não? disse ele com um sorriso. Gostaria de poder passar mais tempo aqui.

 

É lindo disse ela com um sorriso triste, quando um outro carro atravessou o portão e parou junto a eles. Um jovem saiu do carro e ela viu que era o caseiro, Alain Fournier. Alain? disse ela, sem se conter. Ele era baixo e forte, e tinha o mesmo rosto alegre de quando eram crianças e brincavam juntos. Ele a reconheceu imediatamente, embora seus cabelos estivessem compridos e já não possuíssem cachos, mas continuavam da mesma cor dourada. Embora ela tivesse crescido, não havia mudado muito.

 

Marie-Ange? exclamou, surpreso.

 

Vocês são amigos? perguntou o conde com uma expressão divertida.

 

Costumávamos ser o caseiro respondeu enquanto estendia a mão e cumprimentava Marie-Ange. Brincávamos juntos quando éramos crianças. Quando voltou? perguntou, admirado.

 

Agora mesmo... hoje... Olhou com um ar de desculpas para o novo proprietário do chateau. Desculpe-me. Eu só queria rever o lugar.

 

Você morava aqui? perguntou ele, intrigado com aquela conversa.

 

Sim. Quando criança. Meus pais... eu... eles morreram há muito tempo e eu fui para os Estados Unidos morar com uma tia-avó. Acabo de chegar de carro de Paris.

 

Eu também ele sorriu-lhe, parecendo bem-educado e gentil, enquanto Alain acenava-lhe e se afastava. O conde usava um blazer azul e calças cinza de flanela, suas roupas tinham um corte impecável e uma aparência cara. Gostaria de entrar e dar uma olhada? Ela hesitou por um longo instante, sem querer intrometer-se ainda mais, porém o convite era irresistível. Ele podia ver em seus olhos que ela adoraria. Insisto que entre. Está ficando frio aqui. Farei um bule de chá e você pode dar uma volta pela casa.

 

Sem dizer nenhuma palavra, ela o seguiu, agradecida, para dentro da cozinha familiar. Ao entrar, sentiu seu mundo perdido envolvê-la outra vez e as lágrimas assomaram-lhe aos olhos ao olhar à sua volta.

 

Mudou muito? perguntou ele amavelmente, sem saber das circunstâncias do acidente de seus pais, mas era fácil ver que aquele era um momento sentimental para ela. Por que não dá uma volta por aí e, quando voltar, o chá estará pronto. Era embaraçoso ter imposto a sua presença assim, mas ele parecia não se importar.

 

Quase não mudou nada disse ela, com uma expressão de terna surpresa. De fato, lá estavam a mesma mesa e cadeiras, onde ela tomava o café da manhã e almoçava todos os dias com seus pais e Robert. Era a mesma mesa por baixo da qual Robert passava seus canards de açúcar, que iam pingando café sobre o carpete. Você comprou o chateau do espólio do meu pai? perguntou ela, enquanto ele tirava do armário o bule de chá e o antigo coador de chá de prata.

 

Não. Comprei-o de um homem que o possuía há vários anos, mas nunca morara aqui. Acho que sua mulher era doente ou não gostava daqui. Ele o vendeu para mim e eu tenho pensado em passar algum tempo aqui e restaurá-lo. Faz pouco tempo que o comprei e tenho andado muito ocupado para dar atenção a ele. Mas espero começar a trabalhar nele neste inverno ou, pelo menos, na próxima primavera. Merece ser tão belo quanto foi um dia. Parecia inegável que tinha um aspecto desolado e abandonado.

 

Não parece que seria necessária uma grande reforma para restaurá-lo disse Marie-Ange a seu anfitrião enquanto ele coava o chá. As paredes precisavam de pintura e os assoalhos precisavam ser encerados, mas para ela ainda era lindo e exatamente como se recordava dele. Mas ele sorriu de sua avaliação.

 

Receio que os encanamentos estejam em péssimo estado e a fiação elétrica também. Precisa de grandes reformas onde não se pode nem ver. Acredite-me, é uma grande empreitada. Tanto os vinhedos quanto os pomares precisam ser replantados... precisa de um telhado novo. Receio, senhorita, que eu tenha deixado a casa de sua família ficar em ruínas disse ele, desculpando-se com um sorriso charmoso, espirituoso e sagaz. A propósito, sou Bernard de Beauchamp. Estendeu-lhe a mão e cumprimentaram-se educadamente.

 

Marie-Ange Hawkins.

 

O nome dela despertou uma lembrança em sua mente, a história de um terrível acidente que reclamara três vidas e deixara uma garotinha órfã. O homem de quem comprara o chateau, que por sua vez o comprara do espólio do pai dela, havia lhe contado a história.

 

Em seguida, ele a conduziu à sala de estar e ouviu quando ela subia as escadas para visitar seu antigo quarto de dormir.

 

Quando ela voltou ao térreo, pôde ver que andara chorando e sentiu pena da jovem.

 

Deve ser difícil para você voltar aqui disse, entregando-lhe a xícara de chá que preparara para ela. Era forte, escuro e estimulante, e ajudou-a a se recompor, enquanto ele a convidava a sentar-se à mesa familiar da cozinha.

 

É mais difícil do que eu pensava ela admitiu, sentando-se, parecendo muito jovem e bonita. Ele tinha quase exatamente o dobro de sua idade. Acabara de fazer quarenta anos.

 

É de se esperar disse ele gravemente. Lembro-me de ter ouvido a respeito de seus pais e a seu respeito sorriulhe e não havia nada de mal-intencionado ou libidinoso em seu procedimento. Parecia simplesmente um bom homem e uma pessoa compreensiva. Eu sei o que é isso. Perdi minha esposa e meu filho há dez anos em um incêndio, numa casa como esta. Vendi o chateau e levei muito tempo para me recuperar, como se fosse possível. Por isso que quis comprar este lugar, porque queria ter uma casa como essa outra vez, mas tem sido difícil para mim. Talvez seja por isso que estou levando tanto tempo para me mudar. Mas vai ser ótimo quando eu começar a reformá-lo.

 

Era maravilhoso quando eu morava aqui Marie-Ange sorriu, agradecida pela gentileza. Minha mãe sempre o mantinha cheio de flores.

 

E como você era na época? perguntou-lhe com um sorriso amável.

 

Eu passava todo o tempo subindo em árvores e apanhando frutas nos pomares. Ambos riram à imagem que ela descreveu.

 

Bem, você certamente cresceu desde então disse ele, parecendo satisfeito em estar tomando chá com ela. O lugar era solitário para ele, pelas razões que acabara de lhe explicar e gostava da companhia dela. Ela fora uma surpresa agradável quando chegara ali. Vou ficar aqui um mês desta vez. Quero trabalhar nos planos de reforma com o construtor local. Você vai ter que vir me visitar outra vez, se tiver tempo. Vai ficar bastante tempo? perguntou ele com curiosidade e ela pareceu hesitar.

 

Ainda não tenho certeza. Acabo de chegar dos Estados Unidos, há dois dias, e tudo que eu sabia era que queria vir aqui. Quero ir a Paris e ver alguns cursos na Sorbonne.

 

Você já se mudou para a França?

 

Não sei disse ela francamente, ainda não me decidi. Meu pai deixou... conteve-se e não terminou a frase. Seria indelicado mencionar a herança que seu pai lhe deixara. Tenho a chance de fazer o que quiser agora e tenho que tomar algumas decisões a respeito.

 

É bom estar nessa posição disse ele, servindo chá em sua xícara novamente e continuando a falar. Onde está hospedada, srta. Hawkins?

 

Também ainda não sei disse ela, rindo e percebendo que devia parecer muito jovem e tola para ele. Parecia tão maduro e bem-educado. E por favor chame-me de Marie-Ange.

 

Adoraria. Suas maneiras eram impecáveis, seu encanto impossível de ignorar, sua aparência notável. Acabo de ter uma estranha ideia e talvez me ache louco por sugeri-la, mas talvez você goste dela. Se ainda não tem acomodações, estava pensando se gostaria de ficar aqui, Marie-Ange. Você não me conhece, mas pode trancar todas as portas em sua ala, se quiser. Na verdade, eu durmo no quarto de hóspedes porque eu gosto mais dele. É mais ensolarado e mais alegre. Mas toda a suite principal pode ser perfeitamente lacrada e você estaria a salvo de mim, se estiver preocupada com isso. Mas deve significar muito para você ficar aqui.

 

Ficou sentada, fitando-o, impressionada com a oferta, sem conseguir acreditar que coisas assim acontecessem. Não tinha o menor receio dele. Era tão educado, tão gentil, que estava certa de que nada tinha a temer. Tudo que queria era ficar aqui e mergulhar no passado e nas lembranças que acalentara durante toda a sua vida.

 

Seria muita indelicadeza de minha parte ficar aqui, não? perguntou-lhe cautelosamente, com receio de estar se aproveitando da gentileza dele, mas morrendo de vontade de aceitar.

 

Não se eu a convidar e eu o fiz. Estou sendo sincero. Eu não teria oferecido se não quisesse que ficasse aqui. Não acho que você daria muito trabalho. Sorriu-lhe de um modo paternal e, sem querer pensar muito a respeito, ela aceitou e prometeu voltar para Paris no dia seguinte. Fique quanto tempo quiser ele lhe assegurou. Eu lhe disse, ficarei aqui um mês, de férias, e o lugar fica um pouco sombrio quando estou sozinho. Ela queria oferecer-se para pagar a hospedagem, mas achou que seria uma ofensa. Ele obviamente era rico e, mais ainda, era um conde. Não queria insultá-lo tratando o chateau como um hotel. Aliás, o que faremos para o jantar? Tem planos ou devo arranjar alguma coisa? Não sou um grande cozinheiro, mas posso preparar alguma coisa. Tenho alguns mantimentos no carro.

 

Não espero que você me alimente também. Estava constrangida por incomodá-lo tanto. Não tinha a menor ideia do quanto ele estava satisfeito com a sua companhia. Posso cozinhar para você, se quiser ofereceu-se timidamente. Cozinhara para sua tia Carole todas as noites. As refeições eram simples, mas sua tia nunca se queixara.

 

Sabe cozinhar? Pareceu surpreso com a ideia.

 

Nos Estados Unidos, eu cozinhava para minha tia-avó.

 

Mais ou menos como Cinderela? provocou-a, os olhos verdes brilhando, divertidos.

 

Mais ou menos assim respondeu Marie-Ange, levando a xícara vazia para a pia que conhecia tão bem. Apenas o fato de ficar ali parada trouxe incontáveis lembranças de Sophie. Mais uma vez pensou nas cartas de Sophie e do que ficara sabendo naquele dia.

 

Vou cozinhar para você ele lhe prometeu. Mas, por fim, optaram pelo patê, a baguete fresca que ele comprara e queijo bríe. Ele abriu uma garrafa de um excelente vinho tinto, que ela recusou.

 

Ela arrumou a mesa e ficaram conversando por muito tempo.

 

Ele era de Paris e vivera durante um curto período na Inglaterra quando era criança, depois retornou à França. Depois de conversarem por algum tempo, ele contou que seu filho tinha quatro anos de idade quando morreu no incêndio. Disse que pensou que jamais se recuperaria e, de certa forma, realmente não se recuperara. Nunca se casara outra vez e admitiu que levava uma vida solitária. Mas não parecia um tipo de homem rabugento e fez Marie-Ange rir o tempo todo.

 

Separaram-se às dez horas, depois que ele se certificou de que havia lençóis limpos na suite principal. Ele não tentou lhe fazer nenhuma insinuação, não fez nada inadequado, desejoulhe boa-noite e desapareceu para a suite de hóspedes do outro lado da casa.

 

Entretanto, foi mais difícil do que ela pensava dormir na cama de seus pais e pensar neles. Para chegar ali, passara pelo seu próprio quarto e pelo quarto de Robert. Sua mente e seu coração ficaram repletos de lembranças durante toda a noite.

 

 

QUANDO MARIE-ANGE desceu para o café da manhã no dia seguinte, depois de fazer sua cama, tinha um ar cansado.

 

Como dormiu? perguntou ele com uma expressão preocupada. Bebia café com leite e lia o jornal que Alain comprara para ele na vila.

 

Ah... tenho muitas lembranças aqui, eu acho disse ela educadamente, achando que não deveria perturbá-lo mais do que já o fizera e que deveria tomar o café da manhã na vila.

 

Tinha receio de que isso acontecesse. Pensei nisso noite passada disse ele, enquanto lhe servia uma enorme xícara de café com leite. Essas coisas precisam de tempo.

 

Faz dez anos continuou, tomando um gole do café com leite e pensando nos canards clandestinos de Robert.

 

Mas você nunca voltou aqui disse ele sensatamente. É de se esperar que seja difícil. Gostaria de dar uma volta nos bosques hoje ou visitar a fazenda?

 

Não, é muita gentileza sua ela sorriu. Devo voltar a Paris hoje. Não fazia sentido continuar ali. Tivera uma noite para as suas recordações, mas aquela era a casa dele agora e já era hora de seguir em frente.

 

Tem compromissos em Paris? perguntou tranquilamente. Ou simplesmente acha que deve ir?

 

Ela sorriu ao assentir, enquanto ele silenciosamente admirava seus longos cabelos louros, mas ela não via nada assustador em seus olhos. A ideia de que passara uma noite sozinha na casa com ele teria chocado muita gente, ela sabia, mas fora completamente inocente, inofensivo e educado.

 

Acho que devia ter tempo para desfrutar sua casa, sem que uma estranha acampe em sua suite principal disse ela com o olhar sério enquanto o fitava. Foi muito gentil, Monsieur le Comte, mas não tenho o direito de continuar aqui.

 

Tem todo o direito de continuar aqui, como minha convidada. Na realidade, se tiver tempo, eu adoraria sua opinião e o benefício de sua memória, para me dizer exatamente como a casa era antes. Tem tempo para isso? Na verdade, tinha todo o tempo do mundo nas mãos e mal podia acreditar na enorme generosidade dele, convidando-a para ficar.

 

Tem certeza? perguntou-lhe francamente.

 

Absoluta. E ficaria muito satisfeito se me chamasse de Bernard.

 

Antes do almoço, fizeram um passeio pelos campos e ela lhe disse com precisão como tudo costumava ser, enquanto caminhavam até a fazenda. Depois, ele telefonou para Alain para que os pegasse de carro, para que ela não se cansasse andando todo o caminho de volta.

 

Ela foi à vila comprar mantimentos e comprou várias garrafas de excelente vinho para ele, para agradecer por sua incrível hospitalidade. Desta vez, quando sugeriu preparar o jantar para eles, ele convidou-a para sair. Naquela noite, levou-a a um bistrô aconchegante nos arredores, que não existia há dez anos, e passaram horas agradáveis. Ele tinha mil histórias para contar e facilidade em conversar com ela, como se fossem velhos amigos. Era um homem muito encantador, divertido e inteligente.

 

Separaram-se na entrada do quarto de seus pais novamente e, desta vez, quando ela deitou na cama, adormeceu imediatamente. No dia seguinte, quando acordou, disse-lhe um pouco mais enfaticamente que achava que deveria prosseguir viagem.

 

Então, devo ter feito algo para ofendê-la disse ele, fingindo-se magoado e, depois, sorriu. Eu já lhe disse, ficaria muito grato por sua ajuda se você ficasse, Marie-Ange. Era loucura. Ela simplesmente se mudara para a mesma casa que ele, uma completa estranha que surgira de repente. Apesar do seu constrangimento, que ele facilmente dissipou, ele não parecia se importar.

 

Mas não poderia ficar até o próximo fim de semana? perguntou ele amavelmente. Vou dar um jantar e adoraria apresentá-la a alguns amigos. Ficariam fascinados com o que você sabe sobre Marmouton. Um deles é o arquiteto que vai fazer o projeto da reforma. Eu ficaria muito grato se você ficasse. Na realidade, não sei por que você iria embora. Não há nenhuma necessidade de correr de volta a Paris. Você mesma disse que tem tempo.

 

Não está cansado de mim? ela pareceu preocupada por um instante e depois sorriu. Ele era tão convincente em seu desejo de que ela permanecesse ali, quase como se estivesse à sua espera. Não parecia se importar em absoluto por ela ter tomado a suite principal e invadido sua casa. Tratava-a como uma hóspede esperada e uma amiga, ao invés da intrusa que ela era.

 

Por que estaria cansado de você? Que bobagem. Você é uma companhia encantadora e me ajudou imensamente, explicando-me tudo sobre a casa. Ela até lhe revelara uma passagem secreta que ela e Robert adoravam e ele ficou fascinado. Nem Alain sabia daquela passagem secreta e ele crescera na fazenda. E então, você vai ficar? Se tiver que ir, ao menos adie para depois do fim de semana.

 

Tem certeza de que não quer que eu vá?

 

Pelo contrário, quero que fique, Marie-Ange.

 

Ela continuou a comprar os mantimentos para ele e ele cozinhava para ela. Voltaram ao mesmo bistrô e na noite seguinte ela cozinhou para ele. Quando o fim de semana chegou, haviam se tornado grandes amigos. Conversavam animadamente pela manhã, durante o café com leite, ele discutia política com ela e lhe explicava o que andara acontecendo na França. Falou-lhe sobre as pessoas que conhecia, seus melhores amigos, perguntou-lhe extensamente sobre sua família e de vez em quando relembrava sua mulher e seu filho falecidos. Disse lhe que trabalhara para um banco e agora fazia consultoria, o que lhe dava bastante tempo livre. Trabalhara tão duramente por tantos anos e ficara tão devastado com a perda da mulher e do filho, que estava finalmente desfrutando uma trégua da corrida do dia-a-dia por algum tempo. Tudo parecia muito sensato a Marie-Ange.

 

Quando fez uma semana que ela estava lá, resolveu telefonar para Billy da loja dos correios, apenas para dizer-lhe onde estava. Ligou da cabine telefónica, porque não queria fazer uma chamada de longa distância no telefone de Bernard.

 

Imagine onde estou! exclamou com uma risada entusiasmada assim que Billy atendeu.

 

Deixe-me adivinhar. Paris. Na Sorbonne. Ele ainda tinha esperanças de que ela voltasse para terminar a faculdade em Iowa e sentiu uma pontada de decepção ao pensar que ela pudesse ter se matriculado na Sorbonne.

 

Melhor do que isso. Tente outra vez. Adorava provocá-lo e desde que partira sentia falta de conversar com ele.

 

Desisto disse ele, sem opor resistência.

 

Estou em Marmouton. Hospedada no chateau.

 

Foi transformado em hotel? pareceu feliz por ela e há muito não a ouvia tão alegre e entusiasmada. Parecia descansada e satisfeita, em paz com suas lembranças. Estava contente por ela ter finalmente ido a Marmouton.

 

Não, ainda é uma propriedade particular. Há um sujeito incrivelmente gentil morando lá e ele me deixou ficar.

 

Ele tem família? Billy pareceu preocupado e ela riu do tom de sua voz.

 

Tinha. Perdeu a mulher e o filho em um incêndio.

 

Há pouco tempo?

 

Há dez anos ela confidenciou. Sabia que nada tinha a temer de Bernard. Ele demonstrara ser digno de confiança desde que ela chegara e confiava nele como um amigo. Mas era difícil explicar isso para Billy pelo telefone. Era simplesmente algo que sentia e confiava em seus instintos a respeito daquele homem.

 

Que idade ele tem?

 

Quarenta disse ela, como se ele tivesse cem anos. Na verdade, comparado a ela, realmente tinha.

 

Marie-Ange, isso é perigoso Billy advertiu-a sensatamente. Está vivendo sozinha no chateau com um viúvo de quarenta anos? O que realmente está acontecendo?

 

Somos amigos. Estou ajudando-o a reformar a casa, da maneira como eu a conhecia.

 

Por que não pode ficar hospedada em um hotel?

 

Porque eu prefiro ficar no chateau e ele quer que eu fique. Diz que vai lhe economizar muito tempo.

 

Acho que você está se arriscando muito disse Billy, parecendo preocupado. E se ele a atacar ou tentar se aproveitar de você? Está sozinha com ele no chateau.

 

Ele não vai fazer isso. E vai receber amigos no fim de semana. Por um lado, ele estava contente por ela, mas por outro, Billy achava que ela estava sendo muito tola em confiar num estranho. No entanto, quanto mais falava, mais ela ria e, de repente, estava soando muito francesa.

 

Tenha cuidado, pelo amor de Deus. Você nem o conhece, sabe apenas que está morando na sua antiga casa. Não é suficiente.

 

É um homem muito respeitável. Não hesitou em defender Bernard.

 

Não existe isso disse Billy desconfiado, mas ela parecia feliz e independente e muito satisfeita por estar de volta à sua antiga casa. Ficava evidente para ambos, pelo que ela dizia e tão obviamente sentia, que ainda era a sua casa. Em seguida, contou-lhe a respeito das cartas de Sophie e ele disse que não estava surpreso. Era exatamente o tipo de atitude que se podia esperar de sua tia Carole. De qualquer modo, tenha cuidado e me dê notícias suas.

 

Darei. Mas não se preocupe comigo, Billy. Estou bem. E ele podia perceber que realmente estava. Sinto sua falta. Era verdade e ele também sentia a falta dela. E agora, mais do que nunca, estava preocupado com ela.

 

Marie-Ange voltou ao chateau e naquela noite ela e Bernard saíram outra vez. Na manhã seguinte, seus amigos chegaram. Formavam um grupo animado, as mulheres eram elegantes e bem-educadas, todos vestiam-se muito bem e foram extremamente gentis com Marie-Ange. Bernard explicou quem ela era e que ela e sua família viveram no chateau quando ela era criança. Um deles reconheceu seu nome e já ouvira falar da empresa de seu pai. Comentou que John Hawkins fora um homem extremamente respeitado e bem-sucedido. Ela contara a Bernard como seus pais se conheceram e ele ficara comovido, mas ainda mais impressionado com o que seu amigo disse a respeito do sucesso de seu pai na exportação de vinhos. Ela percebeu que os homens estavam mais interessados em negócio do que em romance.

 

Foi um fim de semana idílico para todos eles e, quando arrumou suas malas, Bernard suplicou-lhe que não fosse embora. Mas ela sabia que já ficara tempo demais e já lhe dissera tudo que sabia sobre o chateau. Certamente, estava na hora de partir e queria visitar a Sorbonne, mas guardaria com carinho a lembrança daqueles dez dias que passara em Marmouton com ele. Agradeceu-lhe profusamente antes de ir embora e se enterneceu quando ele a beijou na face e lhe disse como estava triste por vê-la partir.

 

Voltou a Paris naquele dia e jantou sozinha no hotel, pensando nele e nos dias que passara naquele que um dia fora o chateau de sua família. Fora um presente de valor inestimável que Bernard lhe dera e sentia-se profundamente grata. No dia seguinte, escreveu-lhe um longo bilhete de agradecimento, sentada no Deux Magots. À noite, colocou-o no correio. Pela manhã, foi à Sorbonne para informar-se sobre os cursos. Ainda não se decidira se iria se matricular ou voltar para Iowa para terminar o último ano da faculdade lá. Pensava seriamente nisso enquanto caminhava pelo Boulevard Saint-Germain naquela tarde para decidir o que fazer quando, a caminho de volta ao hotel, deu de frente com Bernard de Beauchamp.

 

O que está fazendo aqui? perguntou, surpresa. Pensei que iria ficar em Marmouton.

 

É verdade disse timidamente. Vim a Paris para vê-la. O lugar parecia um túmulo depois que você foi embora. Ela ficou comovida e lisonjeada pelo que ele disse e presumiu que ele tivesse outras coisas a fazer na cidade, mas estava tão feliz em vê-lo quanto ele em vê-la.

 

Ele levou-a ao Louis Carton para jantar naquela noite e ao Chez Laurent no dia seguinte para almoçar. Ela contou-lhe tudo sobre sua visita à Sorbonne. Ele suplicou-lhe que voltasse a Marmouton com ele, ao menos por alguns dias, e depois de resistir o quanto achou razoável, ela finalmente fez as malas e voltou. Já havia devolvido o carro alugado e voltou a Marmouton com Bernard. Estava admirada do quanto apreciava a companhia dele e o quanto sempre havia para conversar. Nunca se entediavam quando estavam juntos e, quando chegaram a Marmouton, ela sentiu como se tivesse voltado para casa.

 

Da segunda vez, ficou uma semana e, a cada dia, sentiam-se mais à vontade na presença um do outro, enquanto passeavam nos bosques e passavam horas andando pela propriedade.

 

Já estava quase no fim do mês quando ela finalmente voltou para seu hotel em Paris. Ele voltou para sua casa na cidade após alguns dias e foi vê-la no hotel. Estavam sempre juntos, nas refeições e para longos passeios no Bois de Boulogne. Sentia-se mais à vontade com ele do que há muito tempo se sentia com qualquer outra pessoa. Fora Billy, em Iowa, Bernard tornara-se seu único amigo. Seu único problema no momento era resolver o que faria em relação à Sorbonne. Não conseguia se decidir. Não sabia se devia retornar a Iowa ou permanecer na França.

 

Estavam sentados nas Tulherias, quando ela tocou no assunto.

 

Eu tenho uma ideia melhor do que você deveria fazer antes de se decidir disse ele enigmaticamente. Ela não tinha a menor ideia do que ele iria sugerir e ficou admirada quando ele sugeriu que ela fosse a Londres com ele. Tinha negócios a tratar naquela cidade. Podemos ir ao teatro, jantar no Harry’s Bar, dançar no Annabel’s. Marie-Ange, vai ser bom para você. Depois, podemos ir passar o fim de semana em Marmouton e então você decidirá o que fazer.

 

Era como se repentinamente tivesse sido arrebatada para a vida dele. Mas não havia nenhum romance entre eles, eram apenas amigos.

 

Finalmente, sentindo-se perfeitamente à vontade na companhia dele, ela foi para Londres. Hospedaram-se em quartos separados no Claridges e saíam todas as noites. Ela adorou as pessoas que conheceram, as peças de teatro às quais ele a levou. Procuraram antiguidades para Marmouton e foram a um leilão da Sotheby’s. Divertiu-se imensamente com Bernard e desta vez não telefonou para Billy para dizer onde estava. Tinha certeza de que ele não entenderia. Até ela sabia que era um estilo de vida um pouco jet-set e provavelmente uma loucura, mas ela não tinha nenhum outro compromisso e o comportamento de Bernard era irrepreensível. Ele nunca fizera nenhuma investida e obviamente a respeitava. Não passavam de amigos até a noite em que dançaram no Annabel’s. Depois de dançar com ela naquela noite, ele inclinou-se delicadamente e beijou-a nos lábios, enquanto ela erguia os olhos para ele, imaginando o que aquilo significaria. Gostaria de poder discutir o que acontecera com alguém, mas não havia ninguém com quem pudesse falar a respeito de Bernard. Não poderia telefonar para Billy e consultá-lo.

 

Entretanto, o próprio Bernard explicou-lhe quando retornaram a Marmouton para o fim de semana. Ela pôde sentir algo diferente desta vez, enquanto caminhavam de mãos dadas pelos bosques.

 

Marie-Ange, estou me apaixonando por você disse ele serenamente, com um ar de preocupação. Isso nunca me aconteceu desde que perdi minha mulher e não quero que ninguém saia ferido. Enquanto olhava para ele, seu coração enterneceu-se e compreendeu que estavam se tornando mais do que simplesmente ”amigos”. Parece uma loucura para você? Que pudesse acontecer tão depressa? perguntou-lhe com um olhar aflito. Sou tão mais velho do que você. Não tenho nenhum direito de atraí-la para a minha vida, particularmente se você desejar retornar aos Estados Unidos. Mas tudo que quero agora é estar com você. Como se sente a esse respeito?

 

Muito comovida respondeu cautelosamente. Nunca imaginei que fosse se sentir assim, Bernard. Ele era tão sofisticado, tão atraente, ficou lisonjeada de pensar que estivesse se apaixonando por ela e percebeu que estava começando a sentir muito mais por ele também. Nunca pensara nisso antes porque estava convencida de que eram apenas bons amigos. Entretanto, ele não só abrira seu coração para ela, como abrira sua casa também. Ela impusera a sua presença, permanecendo no chateau com ele e agora tudo que queria era estar lá ao seu lado. Não podia deixar de pensar se aquela seria a vida, e o homem, à qual estava destinada.

 

O que vamos fazer a esse respeito, meu amor? ele perguntou-lhe, com tanta ternura nos olhos que desta vez, quando ele a beijou sob a árvore onde ela brincara quando criança, não ficou surpresa.

 

Não sei. Nunca estive apaixonada antes admitiu. Era virgem não só tecnicamente, como emocionalmente também. Nunca houvera um amor sério em sua vida até então e repentinamente tudo era novo e fascinante para ela, como o próprio Bernard.

 

Talvez devêssemos nos conceder um pouco mais de tempo disse ele sensatamente. Entretanto, daquele momento em diante, a sensatez parecia-lhes impossível.

 

Permaneceram em Marmouton por mais tempo do que haviam planejado, ele levava-lhe flores, pequenos presentes atenciosos, beijavam-se com frequência e Bernard estava tão apaixonado que Marie-Ange também foi arrebatada na onda de seus sentimentos por ele. Finalmente, fizeram amor pela primeira vez, em novembro, pouco mais de um mês depois que se conheceram. Depois, enquanto aninhavam-se nos braços um do outro, ele disse todas as coisas que ela nunca ousara sonhar que ouviria de um homem.

 

Quero me casar com você ele murmurou, quero ter filhos com você. Quero estar com você todo o tempo que tivermos. Disse-lhe que, tendo perdido a mulher e o filho, sabia o quanto a vida podia ser efémera e, desta vez, não queria perder um único instante. Marie-Ange nunca se sentira tão feliz em toda a sua vida. Isso não fica bem, Marie-Ange ele queixou-se, finalmente. Estava preocupado com ela. Sou um homem de quarenta anos, você ainda é muito jovem. Não gosto do tipo de coisas que as pessoas vão começar a falar de você, se descobrirem que estamos tendo um caso. Não é justo com você. Parecia perturbado e ela parecia entrar em pânico, achando que ele estava terminando o namoro. Mas ele esclareceu a situação imediatamente, para seu alívio. Você não tem uma família que lhe dê respeitabilidade. Está completamente em minhas mãos e sozinha no mundo.

 

Acho que estar ”em suas mãos” é muito bom ela provocou.

 

Bem, eu não acho. Se tivesse uma família para protegêla, seria diferente. Mas não tem.

 

Então, o que sugere? Quer me adotar? Ela sorria, tendo compreendido que ele não estava terminando o romance. Adorava o modo como ele se preocupava com ela e queria protegê-la. Nunca alguém fizera isso antes, exceto Billy, que era apenas um garoto. Bernard era um homem de verdade. Tinha idade para ser seu pai e às vezes agia como se fosse. Mas, tendo perdido seu próprio pai com tão pouca idade, ela adorava a proteção que ele oferecia e sua evidente preocupação. Estava totalmente apaixonada por ele.

 

Não quero adotá-la, Marie-Ange disse ele solenemente, quase com reverência, enquanto ela tomava a mão dele nas suas. Quero me casar com você. Acho que não deveríamos esperar muito mais. Não nos conhecemos há muito tempo, mas nos conhecemos melhor do que a maioria das pessoas que se casam após cinco anos. Não temos segredos entre nós, estamos juntos praticamente desde o instante em que nos conhecemos. Marie-Ange olhou-a com ternura, eu a amo mais do que já amei qualquer outra pessoa na vida.

 

Eu também o amo, Bernard disse ela suavemente, admirada com o que ele estava propondo. Tudo acontecera tão rapidamente, mas parecia tão perfeito para ela também. Já não conseguia mais pensar em escola. Apenas em Bernard e em retornar ao chateau, e em ter uma família. Ele estava lhe oferecendo uma vida que mais parecia um sonho.

 

Vamos nos casar esta semana. Aqui, em Marmouton. Podemos nos casar na capela e começar nossa vida juntos. Será um recomeço para nós dois. Um recomeço que ambos desejavam mais do que qualquer outra coisa ou pessoa. Você aceita?

 

Eu... sim... aceito. Abraçou-a por um longo tempo e voltaram para casa de mãos dadas. Fizeram amor durante horas naquela tarde. Ele chamou o padre e fez os preparativos para o dia seguinte. Em seguida, ela ligou para Billy, desta vez do chateau. A princípio, não tinha a menor ideia do que lhe dizer e, por fim, falou de uma vez, abruptamente. Estava preocupada em não magoá-lo, embora sempre o tivesse desencorajado de alimentar pensamentos românticos a seu respeito. No entanto, sabia o quanto ele gostava dela.

 

Você vai fazer o quê?. exclamou Billy, incrédulo. Pensei que fossem apenas amigos. Parecia horrorizado com o que ela lhe contara e acusou-a de ter perdido o juízo desde que chegara à França. Nunca agira impulsivamente, mas estava loucamente apaixonada por Bernard e agora ele representava uma força poderosa em sua vida, um homem com paixão e determinação, além de um jeito convincente. Arrebatara MarieAnge completamente em um curto espaço de tempo.

 

Éramos apenas amigos, mas as coisas mudam disse ela, num fio de voz. Não esperava que ele ficasse tão transtornado.

 

Mudam mesmo. Escute, Marie-Ange, espere algum tempo para ver se isso é para valer. Você acabou de chegar, foi uma grande emoção para você voltar ao chateau. Tudo isso pode influenciar você. Falava em tom de súplica.

 

Não, não influencia insistiu ela. É ele. Não quis perguntar-lhe se estava dormindo com ele, já imaginara que estava. Ela recusava-se completamente a dar-lhe ouvidos. Estava aflito de preocupação com ela quando desligou o telefone, mas sabia que não havia nada que pudesse fazer. Ela estava se casando com alguém totalmente estranho, Billy pensou, em grande parte porque ele morava no chateau de seu pai. E mais, era um conde. Sentiu-se totalmente impotente para mudar sua decisão.

 

Quem era? perguntou-lhe Bernard quando saiu do telefone.

 

Meu melhor amigo, em Iowa. Sorriu-lhe. Acha que fiquei maluca. Lamentava ter perturbado Billy, mas tinha absoluta certeza quanto a Bernard, seu amor por ela e dela por ele.

 

Eu também acho. Bernard sorriu. Deve ser contagioso.

 

O que o padre disse? perguntou ela calmamente. Não estava preocupada com nada do que Billy dissera. Ele não confiava em Bernard, compreensivelmente, e só o tempo provaria que ele estava errado. Porém, quis que ele soubesse que ela e Bernard iam se casar. Ele era, afinal de contas, seu melhor amigo, como um irmão. No final, disse-lhe para ligar se recobrasse o juízo, ou mesmo se não o fizesse. Prometeu que seria sempre seu amigo e que ela sempre poderia contar com ele. No entanto, por mais que o amasse, precisava menos dele agora. Fora completamente absorvida pelo mundo inebriante de Bernard e não podia deixar de imaginar o que seus amigos iriam pensar, mas ele não parecia se importar. Ambos tinham absoluta certeza de que estavam fazendo o que devia ser feito.

 

O padre disse que a cerimónia civil será na mairie dentro de dois dias, na sexta-feira, e ele nos casará na capela aqui no dia seguinte. Ele vai publicar os proclamas hoje e reduzir um pouco o tempo de espera. O que lhe parece, Madame la Comtesse?

 

Ela nem havia pensado nisso. Agora, seria uma condessa. Era realmente como um conto de fadas. Há quatro meses, era a escrava de tia Carole, um mês depois tornara-se a herdeira de uma enorme fortuna e agora estava se casando com um conde que a adorava e que ela adorava, além de estar retornando para a casa de sua família em Marmouton. Sua cabeça girava ao pensar nisso e ainda estava girando quando foram juntos à mairie dois dias mais tarde para o casamento no civil. No dia seguinte, na capela de sua propriedade, casaram-se aos olhos de Deus. Madame Fournier e Alain foram suas testemunhas e a velha senhora chorou durante toda a cerimónia, agradecendo a Deus por MarieAnge ter retornado para casa.

 

Eu a amo, querida Bernard disse, ao se beijarem depois da cerimónia, e o padre sorriu. Formavam um belo casal, o conde e a condessa de Beauchamp.

 

Quando o padre e os Fournier os deixaram, depois de brindarem com champanhe, Bernard carregou-a nos braços e levou-a para cima, para a suite de hóspedes que ele usava como quarto no chateau. Colocou-a gentilmente na cama com o lindo vestido de seda branca que ela estava usando. Passou a mão pelos seus longos cabelos louros e beijou-a novamente.

 

Eu a adoro murmurou. Marie-Ange beijou-o, mal podendo acreditar em tudo que lhe acontecera ou no quanto estava feliz. Delicadamente, ele tirou seu vestido, enquanto tirava suas próprias roupas, e quando fizeram amor naquela noite, tudo que ele esperava é que a fizesse feliz e que ela concebesse um filho seu.

 

 

O PRIMEIRO NATAL juntos no chateau foi abençoado. Bernard estava tão obviamente apaixonado por ela que as pessoas sorriam quando os viam juntos. Estar de volta no chateau durante o Natal mais uma vez trouxe de volta inúmeras lembranças para ela, algumas belas e algumas finalmente menos dolorosas, porque ele estava com ela. Telefonou para Billy em Iowa na véspera do Natal e ele ficou feliz por ela, mas ainda preocupado porque ela não conhecia o marido suficientemente bem e agira muito impulsivamente em relação ao casamento. Ela procurou tranquilizá-lo da melhor maneira que pôde. Nunca fora tão feliz em toda a sua vida.

 

Quem teria imaginado, há um ano, que eu estaria vivendo em Marmouton novamente neste Natal disse ela sonhadoramente para Billy ao telefone e ele sorriu melancolicamente, lembrando-se da época que passaram juntos. Ele ainda estava recuperando-se do choque de saber que ela agora estava casada, que não voltaria para Iowa, exceto talvez para uma visita algum dia. Ele estava saindo sempre com sua namorada Debbi, mas sentia falta de Marie-Ange. Nada era mais como antes.

 

Quem teria imaginado há um ano que você se tornaria uma herdeira e eu estaria dirigindo um Porsche novo. De certa forma, parecia apropriado, até mesmo para ele, que ela fosse uma condessa. Esperava, pelo bem dela, que Bernard mostrasse ser tudo que ela acreditava que ele era. Mas Billy ainda se mostrava cauteloso a respeito dele. Tudo acontecera rapidamente demais.

 

A vida continuou no mesmo ritmo acelerado para Bernard e Marie-Ange depois dos feriados. Viajavam sempre para Paris e ficavam no apartamento dele. Era pequeno, mas lindo e repleto de belas antiguidades. Em janeiro, ela descobriu que estava grávida e Bernard ficou exultante. Sempre falava de sua idade, do quanto queria ter um filho com ela e que ele esperava que fosse um herdeiro do seu título. Queria um filho homem desesperadamente.

 

Poucos dias depois de ter anunciado para ele que o primeiro filho estava a caminho, a reforma de Marmouton começou e em poucas semanas o chateau virou um canteiro de obras. De repente, estavam reformando tudo, o telhado, as paredes, as longas janelas francesas estavam sendo ampliadas, a altura das portas. Ele mandou fazer o projeto de uma cozinha espetacular, uma suite principal inteiramente nova para eles, um quarto de bebé que ele prometeu-lhe que iria parecer um conto de fadas e um cinema no subsolo. Todo o sistema elétrico foi trocado, juntamente com os encanamentos. Foi uma empreitada maciça, que ultrapassou em muito o que Marie-Ange entendera do que ele havia planejado e era fácil de ver que iria ficar incrivelmente caro. Ele estava até mesmo plantando incontáveis acres de novos vinhedos e pomares. Mas Bernard dizia a MarieAnge que ele queria que a casa ficasse perfeita para ela. A obra fora projetada pelo seu amigo arquiteto de Paris. Havia dezenas de operários por toda parte.

 

Bernard também prometeu-lhe que a maior parte do trabalho interno estaria pronto antes que o bebé nascesse em setembro. Quando ligou para Billy outra vez, contou-lhe que estava grávida.

 

Você não perdeu tempo mesmo, não é? comentou, ainda preocupado com ela. Tudo parecia estar acontecendo à velocidade do som e ela disse-lhe que Bernard estava ansioso para iniciar uma família com ela, já que era bem mais velho do que ela e perdera seu único filho.

 

Ela também escreveu para sua tia Carole para contar-lhe as mudanças em sua vida, mas não recebeu resposta. Era como se sua tia-avó tivesse fechado uma porta para ela e continuado a sua vida.

 

Em março, o chateau estava coberto de andaimes, havia operários por toda parte e eles passavam mais tempo em Paris. Embora o apartamento de Bernard fosse pequeno para ambos, era um esplêndido pied-à-terre, com grandiosos salões de recepção, pé-direito alto e belos e antigos boiseries e painéis de madeira. Era repleto de antiguidades valiosas, pinturas que herdara da família e carpetes Aubusson. Era realmente um apartamento digno de uma condessa. Entretanto, ambos preferiam Marmouton.

 

No verão, ele disse-lhe que precisavam afastar-se da construção do chateau e a ausência deles permitiria que os operários andassem mais depressa. Ele alugou um palacete em Saint-JeanCap-Ferrat e um iate de duzentos pés que vinha com a mansão. Convidou inúmeros amigos para visitá-los lá.

 

Meu Deus, Bernard, como você me mima! Ela riu quando viu a casa e o iate em Saint-Jean-Cap-Ferrat. Usaram-nos durante o mês de julho e, em agosto, pretendiam estar em Marmouton novamente, porque ela já estaria com oito meses de gravidez e queria diminuir o ritmo. Iria ter o bebé no hospital de Poitiers.

 

O tempo que passaram no sul da França pareceu-lhe mágico. Saíam, encontravam-se com amigos e o palacete estava sempre cheio de hóspedes de Roma, Munique, Londres e Paris. Todos que os visitavam viam o quanto eram felizes e ficavam encantados com eles.

 

O tempo que passara com Bernard foram os nove meses mais felizes de sua vida e ambos estavam empolgados com a chegada do bebé. O quarto do bebé estava pronto quando voltaram a Marmouton e Bernard contratara uma jovem do local como babá. A suntuosa suite do casal ficou pronta no final de agosto, mas o resto do chateau ainda era uma obra em andamento.

 

Até então, apesar de todo o trabalho que já haviam feito, não houve nenhum problema. Tudo estava de acordo com o projeto.

 

Foi na manhã do dia primeiro de setembro, quando dobrava minúsculas camisas no quarto do bebé, que o empreiteiro local foi procurá-la. Disse que tinha algumas perguntas a lhe fazer sobre o trabalho no encanamento. Bernard mandara instalar fabulosas banheiras de mármore, com Jacuzzis, pias enormes e até diversas saunas.

 

No entanto, ficou surpresa quando, no final da conversa com ela, o empreiteiro pareceu relutante em deixar o aposento e parecia constrangido. Ele obviamente tinha algo em mente e quando ela lhe perguntou explicitamente o que era, ele contou-lhe.

 

As contas não haviam sido pagas desde que a obra começara, embora o conde lhe tivesse prometido um pagamento em março e outra parcela maior em agosto. Todos os outros fornecedores que estavam trabalhando para eles estavam tendo o mesmo problema. Ela imaginou se Bernard simplesmente não tivera tempo ou havia esquecido, enquanto estavam na Riviera. Mas o que descobriu, quando perguntou ao homem, era que ninguém havia sido pago desde o começo do projeto. Quando ela lhe perguntou se ele tinha uma ideia do valor total que estavam lhes devendo atualmente, ele disse-lhe que não tinha certeza, mas era bem mais de um milhão de dólares. Ela fitou-o perplexa quando ele lhe relatou os números. Nunca pensara em perguntar a Bernard o que ele estava pagando para reformar o chateau, ou mesmo fazer melhorias. Quando estivesse terminado, estaria impecável por fora e totalmente modernizado por dentro. Mas nunca lhe ocorrera o quanto custaria a ele reformar o chateau para ela.

 

Tem certeza? perguntou Marie-Ange ao empreiteiro, incrédula. Não pode ser tanto assim. Como poderia? Como poderia custar tanto assim para reformar o chateau? Ficou envergonhada por Bernard estar planejando gastar tanto com a reforma e sentiu-se culpada por todas as mudanças que aprovara. Prometeu ao empreiteiro discutir o assunto com seu marido naquela noite, quando ele voltasse de uma viagem de negócios a Paris. Não havia realmente trabalhado no ano que passara, embora fosse a Paris para reuniões diversas vezes por mês, mas ela sabia que era para se reunir com seus assessores sobre seus próprios investimentos. Ele dissera-lhe que não desejava voltar a trabalhar no banco, queria passar todo o tempo com ela e concentrar-se na obra. No outono, ele queria passar mais tempo com ela e o bebé e ela sentia-se lisonjeada e satisfeita por ele querer assim.

 

Naquela noite, quando ele chegou em casa, ela mencionou o encontro com o empreiteiro, sentindo-se constrangida de incomodá-lo com o assunto. Disse simplesmente que alguns dos fornecedores não haviam sido pagos e ela imaginava se a secretária dele em Paris teria esquecido de fazer os pagamentos. Para grande alívio seu, Bernard não pareceu preocupado. Ela disse-lhe ainda o quanto lamentava que a reforma estivesse lhe custando tão caro.

 

Vale cada centavo, meu amor disse ele com uma ternura e uma tranquilidade que a comoveu profundamente. Ele não lhe negava nada. Na realidade, constantemente a mimava com pequenos e grandes presentes. Comprara um belo Jaguar para ela em junho e para ele mesmo um Bentley zero quilómetro. Disse-lhe agora que estava à espera de que alguns investimentos fossem liberados para pagar uma grande quantia ao empreiteiro. Contara-lhe que investira pesadamente em petróleo no Oriente Médio e que tinha outras ações em diversos países e não queria perder dinheiro vendendo-as enquanto os diferentes mercados internacionais flutuavam. Pareceu perfeitamente sensato a Marie-Ange, como pareceria a qualquer outra pessoa, presumiu. De fato, disse ele, com um olhar de leve constrangimento, andara pensando em pedir-lhe para usar alguns dos seus fundos temporariamente, já que tudo que ela possuía era praticamente líquido e ele a reembolsaria quando alguns dos investimentos dele vencessem, no começo de outubro. Era questão de um mês ou seis semanas, mas satisfaria seus credores e MarieAnge não viu nenhum problema nisso. Disse-lhe para fazer o que quisesse para resolver a questão, confiava inteiramente nele. Ele disse que trataria do assunto com o banco dela e levaria para ela assinar os papéis para a transferência. Mas ela continuou sentindo-se culpada pelo que a reforma iria custar a ele no final das contas e ofereceu-se para modificar algumas partes do projeto, a fim de torná-lo menos dispendioso.

 

Não preocupe sua linda cabecinha com isso, meu amor. Quero que tudo seja perfeito para você. Tudo em que você precisa pensar é no bebé. Foi o que ela fez nas duas semanas seguintes. Afastou completamente de sua mente a questão das contas a pagar da construção, especialmente depois que ele a fez assinar os documentos para a transferência de sua conta para a dele. O empreiteiro afirmou-lhe na semana seguinte que todos agora estavam satisfeitos. Nem sequer se preocupou com o fato de ele ter adiantado um milhão e meio de dólares para cobrir as despesas, porque Bernard logo iria reembolsá-la. Ainda se admirava de estar falando de quantias tão elevadas e ela garantiu ao diretor do departamento de trusts do banco, quando ele a questionou, que se tratava apenas de uma transferência temporária.

 

Passou as duas semanas seguintes dando longos passeios com Bernard nos bosques familiares que tanto amava e saindo para jantar com ele. Tudo no chateau estava pronto para o bebé, embora o resto do trabalho ainda continuasse.

 

O bebé chegou na data prevista, tarde da noite, e Bernard levou-a a Poitiers quando as dores aumentaram. Ele a levou para o hospital em grande estilo, como uma rainha, em seu novo Bentley. Ficou contente quando o parto foi rápido e fácil e o bebé, uma menina, era linda e saudável. Ela era o retrato da mãe. Deram-lhe o nome de Heloise, Heloise Françoise Hawkins de Beauchamp, e levaram-na para casa dois dias depois.

 

Marie-Ange apaixonou-se por ela instantaneamente e Bernard fez um grande alvoroço em torno da mãe e da filha. Havia champanhe e caviar quando chegaram em casa e um espetacular bracelete de diamantes para Marie-Ange por ter sido tão corajosa, ele disse, e porque estava muito orgulhoso dela. Mas não deixou de dizer-lhe que esperava que Heloise logo tivesse um irmãozinho. Ele ainda queria um filho desesperadamente, um herdeiro do seu título de nobreza, e embora nunca realmente lhe tivesse dito isso, Marie-Ange tinha a persistente sensação de ter fracassado.

 

Quando Heloise completou um mês, o empreiteiro veio ver Marie-Ange e disse-lhe que as contas não haviam sido pagas nas últimas seis semanas e haviam se acumulado outra vez. Desta vez, acumularam-se em aproximadamente 250 mil dólares.

 

Sua solicitação fez Marie-Ange lembrar-se de que os investimentos de Bernard estavam prestes a vencer e mencionoulhe isso, de forma hesitante, mas sem nenhuma dúvida de que ele iria pagar a continuação da obra em Marmouton, cujo término estava previsto para antes do Natal. Bernard asseguroulhe de que não havia nenhum problema, embora o vencimento de seus investimentos tivesse sido estendido novamente e ele precisava que ela cobrisse as contas apenas mais desta vez, mas lhe pagaria tudo em novembro. Ela explicou a situação para o banco, como fizera antes, e no dia seguinte fez a transferência. Até então, ela já havia pago quase dois milhões de dólares, mas o Chateau de Marmouton nunca estivera melhor.

 

Quando Heloise completou seis semanas, Marie-Ange quis surpreender Bernard visitando-o em Paris. Mas, quando chegou ao apartamento, ele não estava lá e a mulher que fazia a limpeza explicou que ele estava na rue de Varenne, fiscalizando os operários lá.

 

Que operários? O que há na rue de Varenne? Marie-Ange ficou sobressaltada e a mulher pareceu preocupada. Disse que talvez fosse uma surpresa para Marie-Ange e haviam começado a construção há apenas uma semana. Sugeriu que Marie-Ange não dissesse nada ao marido sobre o assunto, mas Marie-Ange não pôde resistir a passar pelo endereço e ver o que havia lá. O que ela viu quando passou pelo endereço, com o bebé no carro com ela, foi um enorme hotel particulier do século XVIII, com estábulos, um enorme jardim e um pátio. Bernard estava parado na frente do prédio com o arquiteto e um monte de rolos de projetos. Antes que pudesse se afastar, eles a viram.

 

Então você descobriu disse ele com um largo sorriso. Eu ia fazer-lhe uma surpresa com os projetos no Natal. Ele parecia orgulhoso e não decepcionado por ela ter descoberto. Marie-Ange estava perplexa.

 

O que é isto? perguntou, confusa, enquanto o bebé começava a chorar no banco de trás. Era hora de amamentá-lo.

 

Sua casa em Paris, meu amor disse ele ternamente, beijando-a. Entre e dê uma olhada, já que está aqui. Era a casa mais linda que ela já vira, e muito grande, mas também era óbvio que há anos não era habitada e a manutenção fora muito precária. Comprei-a por uma ninharia.

 

Bernard ela murmurou, espantada, podemos arcar com essa despesa?

 

Acho que sim disse ele, confiante. Não acha? Eu diria que é a residência urbana adequada para o conde e a condessa de Beauchamp. Para Marie-Ange, parecia que Maria Antonieta vivera ali. Enquanto Bernard a guiava pelos aposentos, disse que havia até a possibilidade de ter pertencido a um dos primeiros condes de Beauchamp. Era puro destino que a tivessem encontrado.

 

Quando a comprou?

 

Pouco antes do nascimento do bebé admitiu com um sorriso infantil. Queria lhe fazer uma surpresa. Entretanto, o que a preocupava é que a obra em Marmouton não estava terminada, nem paga. Mas Bernard não parecia temer os gastos. Presumiu que ele tivesse mais do que suficiente para aquelas despesas, embora nenhum dos seus bens fossem líquidos.

 

Passaram a noite no apartamento em Paris, ele mostrou-se atencioso e sedutor e, no final da noite, já quase a convencera de que seria um bom lugar para ele trabalhar quando viesse à cidade e para receber amigos que não quisessem viajar a Marmouton para vê-los.

 

E agora podemos dividir nosso tempo nos dois lugares disse ele com orgulho. A casa na rue de Varenne era tão elegante, ressaltou, que possuía até um salão de baile. Mas Marie-Ange ainda estava apreensiva quando viajaram de volta ao chateau na manhã seguinte.

 

Podemos realmente arcar com tudo isso? perguntou Marie-Ange, preocupada. Pela primeira vez, tinha a sensação de que estavam gastando demais.

 

Acho que sim. E nosso pequeno sistema parece funcionar perfeitamente, com você me adiantando pequenas quantias para driblar as contas menores e eu tendo tempo para cuidar de nossos investimentos corretamente. O único problema era que os investimentos eram dele e as ”pequenas quantias” que lhe adiantara totalizavam quase dois milhões de dólares. Entretanto, só podia imaginar que ele soubesse o que estava fazendo e confiava inteiramente nele.

 

No Natal, o chateau estava quase terminado. O melhor presente que lhe deu naquele ano foi contar-lhe na noite de Natal que estava grávida novamente e que esperava que fosse um menino desta vez, para que ele não ficasse decepcionado.

 

Nada que você faça pode me decepcionar disse ele generosamente. Mas ambos sabiam que ele queria um menino desesperadamente. Heloise estava com três meses e meio e o novo bebé nasceria em agosto, haveria uma diferença de onze meses entre os dois. Como sempre, tudo estava acontecendo à velocidade da luz entre eles. Desta vez, não ligou para Billy para contar-lhe a novidade, enviou-lhe uma carta com seu cartão de Natal. Agora, só lhe telefonava a cada um ou dois meses. Estava tão absorvida em sua vida com Bernard que mal tinha tempo para pensar em qualquer outra coisa, exceto no bebé.

 

No entanto, em janeiro, quando Marie-Ange fez uma grande transferência de seu banco para o de Bernard outra vez, o diretor do departamento de trusts do banco telefonou-lhe.

 

Está tudo bem, Marie-Ange? Você está usando seu dinheiro como água. Sem dúvida, havia o suficiente para não se preocupar excessivamente, mas com a última transferência, para pagar a obra em Paris, ela já havia gasto mais de dois milhões de dólares. Ainda tinha quase um milhão e meio disponível para ela, até fazer 25 anos e herdar a parcela seguinte, mas o diretor estava preocupado com ela. Ela explicou-lhe o sistema que ela e Bernard tinham, em que ela adiantava o dinheiro para as despesas e ele a reembolsava no momento certo para seus investimentos.

 

E quando será isso? o diretor quis saber exatamente.

 

Logo ela assegurou-lhe. Ele pagará as obras nas duas casas. Ele nunca lhe dissera exatamente isso, mas certamente deixara implícito e ela sentiu-se segura em tranquilizar o administrador de seus bens no banco.

 

No entanto, na semana seguinte, Bernard explicou-lhe que havia uma crise de petróleo no Oriente Médio e que ele perderia enormes somas de dinheiro se tentasse transformar suas aplicações em dinheiro vivo. Seria muito mais prudente manter os investimentos e, por fim, isso lhes renderia um grande lucro. Mas isso também significava que ela precisava fazer um depósito de um milhão de dólares imediatamente, para o que deviam da casa em Paris. Assegurou-lhe que haviam arrematado a casa por um preço ínfimo e tinham três anos para pagar ao antigo proprietário os restantes dois milhões de dólares. Até lá, acrescentou, ela já teria recebido a nova parcela de sua herança.

 

Só recebo a nova parcela quando completar vinte e cinco anos disse a Bernard com um ar de preocupação. Era um pouco assustador para ela ser a financiadora, de antemão, para ele, especialmente na escala em que ele estava acostumado. Entretanto, ele beijou-a, sorriu para ela e disse que uma das coisas que amava nela era sua inocência.

 

As regras de fundos como o seu, meu amor, podem ser facilmente modificadas. Você é uma mulher casada responsável, com um filho e outro a caminho. O que estamos fazendo é um investimento sensato, não estamos jogando em Monte Carlo. Os curadores serão razoáveis. Eles podem sacar do fundo para você ou adiantar-lhe dinheiro por conta da próxima parcela. Na verdade, diretamente ou não, o valor total do legado está disponível para você. Aliás, de quanto é mesmo? Ele perguntou despreocupadamente e Marie-Ange não hesitou em contar-lhe.

 

Um pouco mais de dez milhões de dólares no total.

 

É uma bela quantia disse ele, sem parecer impressionado, e era fácil deduzir de sua atitude que seus próprios investimentos eram muito maiores, mas ele também era vinte anos mais velho do que ela, tivera uma carreira bem-sucedida e vinha de uma família ilustre. Não estava impressionado com o que ela possuía, mas estava contente por ela, por seu pai ter lhe deixado uma quantia sem dúvida respeitável. Conversaremos com seus banqueiros sobre o seu acesso ao depósito quando você quiser. Ele parecia conhecer muito a respeito desses assuntos e Marie-Ange ficou intrigada com o que ele lhe disse, e menos preocupada.

 

No final da primavera, ele ainda não a reembolsara e ela teve vergonha de perguntar-lhe, mas ao menos ela havia liquidado todas as dívidas em Marmouton e tudo com que tinha de se preocupar agora era com a obra da casa em Paris. Embora o que Bernard planejara fosse sem dúvida grandioso, ele assegurou-lhe que, no final das contas, a casa seria um monumento histórico e um legado permanente para os filhos deles. Nesses termos, era difícil negar-lhe alguma coisa e ela não o fez.

 

Passaram o mês de julho no sul da França outra vez, com um iate ainda maior e o habitual exército de amigos visitando-os, mas desta vez Marie-Ange não se sentia tão bem quanto da primeira gravidez. Viajavam com frequência, entre Paris e o chateau, supervisionando a obra de proporções hercúleas que estavam fazendo em Paris e Bernard a levara a uma festa em Veneza na semana anterior à partida para o sul da França. Sentia-se cansada quando finalmente chegaram de volta a Marmouton. Fazia calor e ela mal podia esperar que o bebé nascesse. Este era bem maior do que o primeiro.

 

Finalmente, nasceu, uma semana depois do esperado, quando ela e Bernard passavam um final de semana tranquilo no chateau. Desta vez, ela conseguiu realizar o sonho dele. O bebé era um menino e, embora não tivesse lhe dito isso, esperava que o compensasse da perda de seu filho. Bernard estava maravilhado com o bebé e ainda mais com ela. Deram-lhe o nome de seu irmão, Robert.

 

Marie-Ange recuperou-se mais devagar desta vez, o parto fora difícil, porque o bebé era maior do que Heloise havia sido ao nascer, mas em meados de setembro ela estava de volta a Paris com Bernard, supervisionando a obra da casa na rue de Varenne. Não falara nada sobre o assunto com Bernard, mas ele nunca reembolsara nem um centavo das quantias que ela lhe adiantara. Dera a ele todo o dinheiro que estava disponível para ela no fundo e as contas continuavam a chegar implacavelmente. Presumiu que por fim Bernard cuidaria delas, juntamente com o dinheiro do fundo que lhe devia.

 

Estava em Paris, na casa nova, com os dois filhos, quando o arquiteto surpreendeu-a com o que disse. Bernard dissera-lhe categoricamente que não estava comprando nada para a casa, só o faria quando pagassem as contas atuais. No entanto, o arquiteto mencionou-lhe que havia um depósito alugado perto de Lês Halles que Bernard estava enchendo com as coisas que não parava de comprar para eles, na maioria quadros e antiguidades de valor incalculável. Questionou Bernard sobre isso à noite e ele negou, dizendo que não podia imaginar por que o arquiteto afirmara uma coisa como essa. No entanto, quando ela verificou os arquivos no dia seguinte, depois que Bernard saiu, descobriu uma pasta repleta de contas de galerias de arte e antiquários. Continha outro milhão de dólares de contas a pagar. Ainda tinha a pasta nas mãos quando o telefone tocou. Billy estava lhe telefonando para dar-lhe os parabéns pelo nascimento de Robert.

 

Como vão as coisas por aí? perguntou ele, parecendo feliz. Ele ainda é o Príncipe Encantado? ironizou. Ela insistiu que sim, mas estava perturbada com a pasta de contas que tinha nas mãos. O que mais a perturbava era o fato de que ele mentira para ela e, bem no topo do arquivo, estava o endereço do depósito que ele disse que não tinham. Foi a primeira vez que o pegara em uma mentira. Não disse nada a Billy a respeito. Não queria ser desleal com Bernard.

 

Billy disse que soubera que sua tia Carole estava doente e, mais importante, contou a Marie-Ange que ia se casar. Sua noiva era a mesma garota que namorava quando Marie-Ange partiu e ela ficou feliz por ele. Planejavam se casar no próximo verão.

 

Bem, já que você não quis se casar comigo, Marie-Ange provocou-a, não tive escolha a não ser me defender sozinho. Sua noiva estava terminando a faculdade naquele ano e esperavam se casar logo após a formatura. Disse a MarieAnge que esperava que ela viesse e ela respondeu que faria o possível. Mas estava tão nervosa com a pilha de contas que descobrira que pela primeira vez não sentiu prazer de conversar com Billy. Ainda pensava em Billy quando desligou e em como seria maravilhoso vê-lo novamente. Entretanto, por mais que o amasse, agora tinha sua própria vida, marido e filhos. Tinha muitos afazeres e estava preocupada com a montanha de contas a pagar. Não sabia ao certo como abordar a questão com Bernard e precisava de algum tempo para pensar no assunto. Tinha certeza de que deveria haver alguma explicação para o fato de ter sido desonesto com ela sobre o que mantinha em depósito. Talvez quisesse lhe fazer uma surpresa. Queria acreditar que o motivo tivesse sido bom e não desejava um confronto com ele.

 

Ainda não mencionara o assunto com ele quando voltaram a Marmouton na semana seguinte, quando fez uma descoberta que realmente a chocou. Chegara para ele uma nota de compra de um valioso anel de rubis que fora entregue a alguém em um endereço de Paris. E a mulher que o comprara estava usando o sobrenome de Bernard. Era a segunda vez em uma semana que Marie-Ange começava a duvidar dele e estava obcecada com seus próprios medos. Tinha tanto pavor do que aquilo poderia significar, de pensar que ele pudesse estar sendo infiel a ela, que resolveu ir para Paris com seus filhos. Bernard estava em Londres visitando amigos e cuidando de alguns dos seus investimentos e ela ficou no apartamento de Paris, enquanto refletia sobre o problema.

 

Marie-Ange sentiu-se terrivelmente culpada, mas telefonou para o seu banco e pediu-lhes para indicar um detetive particular. Sentiu-se uma traidora quando telefonou, mas precisava saber o que Bernard estava fazendo e se a estava traindo. Sem dúvida, tinha ampla oportunidade de o fazer, quando estava em Paris ou em qualquer outro lugar, mas sempre tivera certeza de que ele a amava. Imaginou se aquela mulher seria uma namorada e fora descarada o suficiente para usar seu nome e fingir ser casada com ele. Ou, muito melhor, talvez fosse apenas uma coincidência de sobrenomes, talvez ela fosse um parente distante e sua compra acabara sendo atribuída a Bernard inteiramente por engano. Não sabia em que acreditar ou como acontecera e não queria se expor pedindo informações à loja. Cortava-lhe o coração duvidar dele agora, mas considerando a soma de dinheiro que ele vinha gastando, e o anel de rubis que ela não conseguia explicar, compreendeu que precisava de algumas respostas.

 

Marie-Ange ainda queria acreditar que houvesse uma explicação aceitável para tudo aquilo. Talvez a mulher que comprara o anel fosse psicótica. Entretanto, qualquer que fosse a explicação para o anel, ainda estava preocupada com o fato de ele ter mentido para ela sobre as peças no depósito. E nada disso resolvia o problema das contas a pagar que se acumulavam. Ao menos, elas podiam ser quitadas, mas o que ela queria saber é se podia confiar nele. Não queria discutir nada disso com ele enquanto não tivesse mais informações. Se a questão do anel não passasse de um erro inocente e os objetos no depósito fossem uma surpresa para ela, presentes que ele pretendia pagar do próprio bolso, ela não iria querer acusá-lo. Entretanto, se algo diferente viesse à tona nas investigações, ela teria que confrontar Bernard com isso e ouvir sua versão da história.

 

Enquanto isso, ela queria ter a melhor opinião possível a respeito dele, mas sentia um aperto no coração. Sempre confiara nele e se atirara de corpo e alma na sua vida em comum. Tiveram dois filhos em menos de dois anos. Mas o fato é que ela acabara pagando sozinha a reforma do chateau e agora a da casa na rue de Varenne. No total, haviam gasto três milhões de dólares do dinheiro dela, deviam mais dois na casa em Paris e atualmente havia mais de um milhão de dólares em contas a serem saldadas. Era uma soma de dinheiro assombrosa para ser gasta em menos de dois anos. E Bernard ainda não havia colocado um freio em seus gastos.

 

Quando Marie-Ange entrava no escritório do detetive particular, sentiu o coração esmorecer. Era pequeno, velho e sujo e o investigador que o banco lhe indicara parecia desalinhado e pouco amistoso, enquanto lançava algumas anotações no caderno e lhe fazia algumas perguntas muito pessoais. Enquanto ouvia a si mesma desenrolando fatos, casas e somas de dinheiro, era fácil perceber por que ela estava preocupada. No entanto, o fato de gastar dinheiro demais não tornava Bernard um mentiroso. Era a nota de compra do anel de rubis que mais a transtornava e que ela queria averiguar. Por que a mulher que o recebera usava o sobrenome de Bernard? Ele havia dito a MarieAnge que não tinha parentes vivos. Entretanto, por mais preocupada que estivesse, ainda acreditava que havia a possibilidade de uma explicação simples e inocente. Não era impossível que houvesse outra pessoa na França, sem relação com ele, que tivesse o mesmo sobrenome.

 

Quer que eu verifique se há outras dívidas? perguntou o detetive, imaginando que ela queria, e ela assentiu. Já havia manifestado suas preocupações com a mulher e o anel. Não podia imaginar que Bernard a traísse, comprasse um presente caro para sua amante e depois esperasse que Marie-Ange pagasse a conta. Ninguém poderia ser tão insolente ou tão grosseiro. Certamente, não Bernard. Era sensível, elegante e honesto, Marie-Ange acreditava.

 

Acho que na verdade não há nenhum problema falou Marie-Ange em tom de desculpas por suas suspeitas. Só fiquei preocupada quando encontrei a pilha de contas a pagar e o depósito sobre o qual ele não me falou... e agora o anel... não sei quem poderia ser a mulher ou por que a conta veio para o meu marido. Provavelmente foi um engano.

 

Compreendo disse o detetive, sem emitir opinião. Em seguida, ergueu a cabeça e sorriu. No seu lugar, eu também estaria preocupado. Trata-se de muito dinheiro para ser esbanjado em dois anos. Era assombroso e estava admirado por ela ter permitido. Ela era jovem e ingénua e ele imaginou corretamente que o marido dela era um mestre em falcatruas.

 

Bem, claro, tudo isso é investimento explicou MarieAnge. Nossas casas são maravilhosas e ambas são históricas. Dizia a ele exatamente o que seu marido lhe dissera para justificar as despesas e o custo das reformas. Mas agora temia que houvesse outros fatos que ignorava. Ele somente lhe falara da casa em Paris depois de tê-la comprado e iniciado as obras e ela não podia deixar de se perguntar agora o que mais ele havia escondido dela.

 

Marie-Ange não estava de modo algum preparada para o que o detetive lhe disse quando lhe telefonou em Marmouton. Perguntou-lhe se queria encontrar-se com ele em Paris ou se preferia que ele fosse ao chateau. Bernard estava em Paris e Robert tinha apenas seis semanas de idade, mas estava com um forte resfriado e ela sugeriu que o detetive fosse ao seu encontro.

 

Ele chegou na manhã seguinte e ela o recebeu no escritório que Bernard usava quando estava no chateau. Não podia adivinhar nada na expressão do investigador. Ofereceu-lhe uma xícara de café, mas ele recusou. Queria ir direto ao assunto. Tirou uma pasta de arquivo da maleta e olhou para Marie-Ange do outro lado da escrivaninha. De repente, ela teve a estranha sensação de que deveria preparar-se para o que iria ouvir.

 

Tínhamos razão em nos preocupar com as faturas disse-lhe, sem preâmbulos. Há mais seiscentos mil dólares em dívidas, a maioria das quais em quadros e roupas.

 

Roupas para quem? perguntou ela, surpresa e preocupada ao pensar novamente no anel de rubis, mas o detetive rapidamente a tranquilizou.

 

Para ele mesmo. Ele tem um alfaiate muito caro em Londres e contas a pagar no valor de cem mil dólares na Hermes. O resto refere-se a objetos de arte, antiguidades, presumo que para as suas casas. O anel de rubis foi adquirido por uma mulher chamada Louise de Beauchamp. Na realidade, a conta foi para o seu marido por engano disse ele simplesmente, enquanto o rosto de Marie-Ange se iluminava do outro lado da mesa. As faturas poderiam ser quitadas mais cedo ou mais tarde ou, se necessário, os objetos de arte poderiam ser vendidos. No entanto, uma amante teria sido um problema diferente e Marie-Ange ficaria inconsolável. Nem se preocupou mais com as outras informações que o detetive lhe dera. Já absolvera Bernard e sentia-se envergonhada das suspeitas que tivera sobre ele.

 

O interessante sobre Louise Beauchamp, quando a encontrei continuou o investigador, apesar do amplo sorriso de Marie-Ange e da repentina falta de interesse, é que seu marido casou-se com ela há sete anos. Presumo que não soubesse disso ou teria me contado.

 

Isso é impossível disse Marie-Ange, olhando-o estranhamente. Sua mulher e o filho morreram em um incêndio há doze anos e seu filho tinha quatro anos. Essa mulher deve estar mentindo a menos que ele tenha tido um rápido casamento depois de perdê-los e nunca tivesse contado a MarieAnge, mas era improvável que Bernard lhe mentisse, ou assim ela imaginava.

 

Não é exatamente assim continuou o detetive, quase sentindo pena dela. O filho de Louise de Beauchamp morreu naquele incêndio, mas foi há cinco anos. O garoto não era filho de seu marido, era filho dela, de um casamento anterior. E ela sobreviveu. Foi apenas obra do acaso que ela tenha comprado aquele anel e que ele tenha sido erroneamente colocado na conta de seu marido. Ela me mostrou os documentos para provar seu casamento com ela e recortes de jornal sobre o incêndio. Ele recebeu o seguro do chateau que foi destruído no incêndio. Foi comprado com economias dela, mas estava em nome dele. Acho que ele usou o dinheiro do seguro para comprar esta propriedade, mas não tinha dinheiro para reformá-lo até você aparecer disse sem rodeios a Marie-Ange. E nunca mais teve um emprego desde que ele e Louise se casaram.

 

Ele sabe que ela está viva? perguntou ela, totalmente perplexa. Nem lhe ocorreu que Bernard mentira para ela e que vinha mentindo há dois anos. Em algum lugar, de algum modo, tinha que haver um grande mal-entendido. Bernard jamais mentiria para ela.

 

Presumo que ele realmente saiba que ela está viva. Eles se divorciaram.

 

Não pode ser. Nós nos casamos na igreja católica.

 

Talvez ele tenha subornado o padre o detetive disse sem subterfúgios. Tinha bem menos ilusões do que Marie-Ange.

 

Fui falar pessoalmente com madame de Beauchamp e ela gostaria de encontrar-se com você, se você quiser. Pediu-me para avisá-la para não contar a seu marido, caso queira vê-la.

 

Entregou a Marie-Ange o telefone dela em Paris e ela viu que o endereço era na avenue Foch, um local excelente. Ela sofreu graves queimaduras no incêndio e tem muitas cicatrizes. Disseram-me que vive mais ou menos como uma reclusa.

 

O estranho é que nenhum dos amigos de Bernard jamais mencionou nada sobre isso, nem sobre o filho que ele perdera.

 

Tenho a impressão de que ela nunca se recuperou da perda do filho.

 

Nem ele disse Marie-Ange com os olhos cheios de lágrimas. Agora que tinha filhos, a ideia de perder uma criança parecia-lhe o maior dos pesadelos e teve compaixão da mulher, quem quer que fosse e qualquer que tivesse sido sua ligação com Bernard. Ainda não acreditava em sua história e queria ir até o fundo da questão. Alguém estava mentindo, mas certamente não era Bernard.

 

Acho que devia vê-la, condessa. Ela tem muito a dizer a respeito de seu marido e talvez sejam fatos que deva conhecer.

 

Como o quê, por exemplo? perguntou Marie-Ange, parecendo cada vez mais transtornada.

 

Ela acha que foi ele quem provocou o incêndio que matou seu filho. Não disse a Marie-Ange que Louise de Beauchamp achava que Bernard tentara matá-la também. Ela mesma poderia dizer isso a Marie-Ange, o que quer que isso valesse. No entanto, o investigador ficara impressionado com ela.

 

É uma coisa terrível de se dizer Marie-Ange parecia indignada. Talvez ela ache que tem que culpar alguém. Talvez não possa aceitar o fato de que tenha sido um acidente e que seu filho tenha morrido. Entretanto, isso ainda não explicava o fato de que ela estava viva, de que Bernard nunca lhe dissera que o garoto não era realmente seu filho e de que era divorciado dessa mulher. Sua mente girava num turbilhão, repleta de dúvidas e perguntas. Não sabia se devia se sentir grata ou lamentar que o detetive tivesse descoberto Louise de Beauchamp. Por mais estranho que possa parecer, estava aliviada ao menos por ela não ser sua amante. Mas não era nada reconfortante pensar que ela acreditava que ele havia assassinado seu filho. Por que sua história era tão diferente da versão de Bernard? Não tinha nem certeza se queria encontrá-la e abrir a caixa de Pandora, mas depois que o investigador partiu, Marie-Ange saiu para uma longa caminhada nos pomares, pensando em Louise de Beauchamp e seu filho.

 

Era difícil raciocinar com clareza. Também estava preocupada em como pagariam as contas e, apesar do conselho de Bernard, ela não queria tentar alterar as condições de seu fundo de investimento e acessar o resto em depósito. Parecia-lhe arriscado demais, especialmente se gastassem todo o seu dinheiro. Deixar seu legado intacto era ao menos uma proteção contra esse risco.

 

Sua mente ainda girava quando voltou do pomar para amamentar o bebé. Depois de recolocá-lo no berço, saciado e feliz, ficou parada por um longo tempo, fitando o telefone. Colocara no bolso o número de telefone que o detetive lhe dera, de modo que Bernard não o encontrasse, e retirou-o lentamente. Pensou em ligar para Billy e conversar com ele sobre o assunto, mas até esse era um pensamento perturbador. Ainda não sabia realmente a verdade e não queria acusar Bernard injustamente. Talvez ele simplesmente não quisesse admitir que fosse divorciado e tivesse amado o garoto como seu próprio filho. No entanto, qualquer que fosse a verdade, sabia agora que precisava conhecê-la e, com mãos trémulas, pegou o telefone para ligar para Louise de Beauchamp.

 

Uma voz clara e profunda de mulher atendeu ao segundo toque e Marie-Ange perguntou por madame de Beauchamp.

 

Sou eu respondeu ela calmamente, sem reconhecer a voz do outro lado da linha, e Marie-Ange hesitou por uma fração de segundo. Era como olhar no espelho e ter medo do que iria ver.

 

Aqui é Marie-Ange de Beauchamp disse quase num sussurro e ouviu-se um pequeno som do outro lado, como um suspiro de reconhecimento e alívio.

 

Perguntava-me se você iria telefonar. Achei que não fosse disse ela sinceramente. Não tenho certeza se o faria, em seu lugar. Mas fico feliz por tê-lo feito. Há algumas coisas que acho que deveria saber. Ela já sabia pelo detetive que Bernard nunca falara sobre ela à sua jovem mulher e isso, por si só, era mais um fator a comprometê-lo, na opinião de Louise. Gostaria de vir me visitar? Eu não saio disse ela em voz baixa. O investigador contara a Marie-Ange a respeito das cicatrizes em seu rosto. Ela fizera cirurgia plástica, mas sofrera queimaduras graves e não havia muito que os cirurgiões pudessem fazer. As queimaduras ocorreram, o investigador dissera a Marie-Ange, quando ela tentava salvar o filho.

 

Irei a Paris vê-la disse Marie-Ange, com uma sensação de náusea na boca do estômago, com um medo aterrador do que iria ouvir. Seus instintos diziam-lhe que sua confiança no marido estava em perigo e parte dela queria fugir e se esconder, fazer qualquer coisa, menos se encontrar com Louise de Beauchamp. Mas sabia que precisava. Não tinha escolha. Se não o fizesse, iria alimentar dúvidas para sempre e achava que devia livrar-se delas, por Bernard. Quando gostaria que eu fosse?

 

Amanhã é muito cedo para você? perguntou Louise, amavelmente. Não lhe queria mal. Tudo que queria fazer por ela era salvar sua vida. Por tudo que o investigador lhe dissera, ela acreditava que Marie-Ange estava correndo perigo e talvez seus filhos também. Ou depois de amanhã? a mulher sugeriu.

 

Marie-Ange respondeu com um suspiro.

 

Posso viajar amanhã e encontrá-la ao final da tarde.

 

Cinco horas é muito cedo?

 

Não, posso chegar a essa hora. Posso levar o bebé? Estou amamentando e o levarei comigo de Marmouton. Deixaria Louise com a babá no chateau.

 

Adoraria vê-lo disse Louise gentilmente e MarieAnge pensou ouvir um embargo em sua voz.

 

Então, até amanhã às cinco Marie-Ange prometeu, desejando que não sentisse que precisava ir. Mas não havia escolha. Havia iniciado a jornada por essa estrada longa e solitária e só esperava voltar a salvo, com sua confiança em Bernard restaurada.

 

Quando desligou o telefone em Paris, Louise olhou tristemente para a fotografia de seu filho, sorrindo-lhe. Tantas coisas haviam acontecido desde então.

 

 

DESTA VEZ, A VIAGEM de Marmouton a Paris pareceu levar uma eternidade, enquanto Marie-Ange dirigia com o bebé no carrinho e teve que parar uma vez para amamentá-lo. Do lado de fora, estava tempestuoso e frio. Passava das quatro e meia quando entrou em Paris, o trânsito estava pesado e ela chegou ao endereço na avenue Foch cinco minutos antes da hora marcada com Louise de Beauchamp. Marie-Ange nada sabia sobre a ex-mulher de Bernard, nunca vira uma fotografia sua ou do garoto, o que agora lhe parecia estranho, mas talvez Bernard tivesse simplesmente desejado afastar as lembranças de sua vida anterior quando se casou com Marie-Ange. O que era muito mais difícil de compreender era por que ela não estava morta, como ele havia dito, mas viva.

 

Não sabia o que esperar quando a porta se abriu e ficou surpresa ao vê-la. Era uma mulher alta, jovem e elegante, de quase quarenta anos, os cabelos louros, soltos, até os ombros. Quando se movia, os cabelos pareciam ocultar parte do seu rosto. Entretanto, quando abriu a porta, Marie-Ange viu claramente o que lhe acontecera. Em um dos lados de seu rosto, as feições eram delicadas e perfeitas, no outro pareciam ter se dissolvido e as cirurgias e enxertos haviam deixado feias cicatrizes. As tentativas de consertar as queimaduras haviam fracassado.

 

Obrigada por ter vindo, condessa disse ela, com um ar aristocrático mas vulnerável, enquanto desviava o lado marcado de seu rosto. Conduziu Marie-Ange para uma sala de estar repleta de antiguidades valiosas. Sentaram-se silenciosamente em duas cadeiras Luís XV, Marie-Ange segurando o bebé, que dormia pacificamente em seus braços.

 

Louise de Beauchamp sorriu ao vê-lo, mas era óbvio para Marie-Ange que seus olhos estavam cheios de tristeza.

 

Não vejo bebés com frequência disse ela sem artifícios a Marie-Ange. Na verdade, não vejo ninguém. Em seguida, ofereceu-lhe algo para beber, mas Marie-Ange não aceitou. Tudo que queria dela era ouvir o que tinha a dizer. Sei que isto deve ser difícil para você disse-lhe Louise com clareza, parecendo recuperar a serenidade e o domínio de si própria ao olhar nos olhos da jovem. Você não me conhece. Não tem nenhuma razão para acreditar em mim, mas espero, pelo seu bem e pelo bem de seus filhos, que me ouça e fique alerta daqui para a frente. Respirou fundo e continuou, desviando novamente o lado destruído de seu rosto, enquanto Marie-Ange observava-a preocupada. Não parecia uma louca e, embora tivesse um ar de tristeza, não parecia amarga ou desequilibrada. Permaneceu assustadoramente calma enquanto contava sua história.

 

Nós nos conhecemos em uma festa em Saint-Tropez e hoje eu acredito que Bernard sabia muito bem quem eu era. Meu pai era um homem muito conhecido, possuía enormes propriedades de terra em toda a Europa e estava envolvido no comércio de petróleo em Bahrain. Bernard sabia tudo isso a meu respeito e também que meu pai acabara de morrer quando nos conhecemos. Minha mãe morreu quando eu era criança. Eu não tinha parentes, estava sozinha e era jovem, embora não tanto quanto você hoje. Ele me cortejou intensa e rapidamente. Disse que tudo que queria era casar-se comigo e ter um filho. Eu já tinha um filho de um casamento anterior. Ele tinha dois anos quando conheci Bernard. Charles adorava-o. Bernard era maravilhoso com ele e eu achei que ele seria um pai e um marido perfeito. Meu casamento anterior terminara mal e meu ex-marido já não via a criança. Achei que Charles precisava de um pai e eu estava muito apaixonada por Bernard. Tanto que o incluí em meu testamento, depois que nos casamos, em partes iguais com Charles. Achei que era o mínimo que eu podia fazer por Bernard e eu não tinha intenção de morrer por muito tempo ainda. Mas fui tola o suficiente para lhe dizer o que fizera.

 

”Tínhamos uma casa no campo, um chateau em Dordogne que meu pai me deixara e passávamos bastante tempo lá. Bernard acumulou uma quantidade fantástica de dívidas, mas essa é outra história. Ele teria me arruinado, se eu tivesse permitido, mas felizmente os advogados de meu pai exerciam um certo controle. Sob pressão deles eu disse-lhe por fim que não iria mais pagar suas contas. Ele próprio teria que se responsabilizar por elas. Ele ficou furioso. Descobri depois que ele tinha uma dívida de vários milhões de dólares e, para poupar a nós dois o escândalo, paguei-as silenciosamente para ele.

 

”Estávamos em Dordogne naquele verão. Parou por um instante, procurando se dominar, enquanto Marie-Ange preparava-se para o que viria em seguida. Charles estava conosco... sua voz definhou até se tornar quase inaudível e em seguida ela continuou. Ele tinha quatro anos. Era lindo e louro. Ainda adorava Bernard, embora eu estivesse um pouco menos encantada a essa altura e apavorada com suas dívidas. Suas palavras fizeram Marie-Ange imediatamente se lembrar de sua própria situação e teve compaixão da mulher quando falava de seu filho. Houve um incêndio uma noite, um terrível incêndio. Devorou metade da casa antes que o descobríssemos e eu corri para encontrar meu filho. Ele estava no quarto dele, acima do nosso, e a governanta estava de folga. Quando cheguei lá, encontrei Bernard... sua voz não passava de um grasnido trancando a porta de Charles pelo lado de fora. Lutei com ele e tentei destrancar a porta, ele tinha a chave na mão. Atingi-o com um golpe, agarrei a chave e fui pegar Charles. Quando tirei Charles da cama, não pude passar pela porta de novo. Ele a havia bloqueado com alguma coisa, um móvel, uma cadeira, alguma coisa. Eu não podia sair.

 

Ah, meu Deus... Marie-Ange exclamou, as lágrimas escorrendo lentamente pelo seu rosto, enquanto apertava Robert mais junto ao peito. Como conseguiu sair?

 

Os bombeiros chegaram e seguraram uma rede sob a janela. Tive medo de lançar Charles na rede e continuei segurando-o nos braços. Fiquei lá por um longo tempo, com medo de saltar. Ela chorava mais intensamente conforme as lembranças assolavam-na, mas estava resolvida a contar a MarieAnge, por mais doloroso que fosse. Esperei demais ela disse, engasgando com as palavras, meu filho foi sufocado pela fumaça e morreu nos meus braços. Eu ainda o segurava quando saltei. Tentaram ressuscitá-lo, mas era tarde demais. Bernard foi retirado do andar térreo, completamente histérico, alegando que esteve tentando nos resgatar todo o tempo, o que era uma mentira. Contei à polícia o que ele fizera e é claro que eles verificaram e não havia nada bloqueando a porta do quarto do meu filho. O que quer que ele tenha colocado lá, ele retirou depois que eu pulei e antes de sair. Ele disse à polícia que eu não podia aceitar a mão do destino na morte do meu filho e que tinha que culpar alguém para exonerar a mim mesma. Soluçava incessantemente durante o inquérito e acreditaram nele. Ele disse que eu era desequilibrada e que tinha uma ligação estranha e anormal com meu filho. Acreditaram em tudo que ele disse. Não havia provas para sustentar minha história, mas se ele tivesse nos matado, teria herdado tudo que meu pai deixara e teria se tornado um homem muito, muito rico. Os bombeiros descobriram mais tarde que o incêndio começara no sótão, disseram que fora uma falha elétrica e que um dos fios que passavam por lá estava muito corroído. Acredito que Bernard tenha feito isso, mas não tenho como provar. Tudo que sei é o que eu o vi fazer naquela noite, ele estava trancando a porta de Charles quando eu cheguei e bloqueou o quarto para que não pudéssemos sair. Tudo que sei, condessa, é o que aconteceu, o que eu vi e que meu filho está morto. Seus olhos fitavam Marie-Ange intensamente e teria sido mais fácil e menos doloroso acreditar que ela era louca, que quis culpar alguém, como Bernard disse no inquérito. Mas algo a respeito de sua história e da maneira como a contou fez Marie-Ange estremecer de terror. Embora não quisesse acreditar em tudo aquilo a respeito dele, se fosse verdade, Bernard era um monstro e um assassino, como se ele tivesse matado a criança com suas próprias mãos.

 

Não conheço a sua situação continuou Louise, olhando a jovem segurando seu bebé, tão obviamente transtornada com o que acabara de ouvir, mas soube que você tem muito dinheiro e ninguém para protegê-la. Você é muito jovem, talvez tenha bons advogados e talvez tenha sido mais sábia do que eu em se proteger. Mas se deixou-lhe dinheiro em seu testamento ou, mesmo se não tiver testamento e ele herdar automaticamente se você morrer sem deixar testamento, você e seus filhos correm grande perigo. E se ele estiver perigosamente endividado outra vez, o perigo é maior ainda. Se você fosse minha filha ou minha irmã seus olhos encheram-se de lágrimas, eu lhe imploraria para pegar seus filhos e fugir.

 

Não posso fazer isso disse Marie-Ange num sussurro entrecortado, olhando-a, querendo acreditar que ela era louca, mas sem conseguir. Estava transtornada por tudo que acabara de ouvir. Eu o amo e ele é o pai de meus filhos. Ele está endividado, sem dúvida, mas eu posso pagar. Ele não tem nenhuma razão para nos matar ou nos causar algum mal. Ele pode ter o que quiser. Queria acreditar que a história que acabara de ouvir era uma mentira, mas não era fácil.

 

Todo poço tem um fundo disse Louise francamente e se o seu secar, ele a abandonará. Antes que ele faça isso, tomará tudo que puder. E se houver mais, em que ele só poderá botar as mãos se você morrer, ele encontrará um modo de conseguir isso também. É um homem muito voraz e cruel. Ele era pior do que isso. Era um assassino aos seus olhos. Ele foi ao enterro de Charles e chorou mais do que qualquer outra pessoa lá, mas não me enganou. Ele o matou como se o tivesse feito com as próprias mãos. Nunca conseguirei provar. Mas você deve fazer tudo que puder para se proteger e a seus filhos. Bernard de Beauchamp é um homem muito perigoso.

 

Houve um silêncio longo e angustiante na sala, conforme as duas mulheres fitavam-se demoradamente. Era difícil para Marie-Ange acreditar que ele fosse tão perverso quanto Louise dissera e, no entanto, acreditava em sua história. Talvez tivesse apenas imaginado que a porta estava bloqueada, mas não havia como explicar que ele tenha tentado trancar a porta da criança pelo lado de fora. Talvez tenha pensado em protegê-lo do fogo e da fumaça, mas até nisso parecia difícil acreditar agora. Talvez ele tivesse entrado em pânico. Ou talvez fosse realmente tão diabólico quanto ela dizia. Marie-Ange não sabia o que pensar ou dizer. Não conseguia respirar, abalada e em choque.

 

Lamento muito o que houve. Não havia como consolá-la por tudo que havia perdido. Marie-Ange olhou-a com tristeza e em seguida disse-lhe o que Bernard havia lhe contado. Ele me disse que você havia morrido com seu filho. Há dez anos, na verdade. Na realidade, havia sido há apenas cinco anos, três desde o divórcio. E disse que Charles era filho dele.

 

Louise sorriu.

 

Ele queria que eu tivesse morrido. Ele tem muita sorte. Eu não saio e vejo apenas alguns amigos. Depois do inquérito, não vi ninguém durante muito tempo. Para todos os fins, neste mundo, é como se eu estivesse morta. E não adianta tentar convencer as pessoas da minha história. Eu sei o que aconteceu. E Bernard também, não importa o que ele diga. Tenha cuidado ela avisou a Marie-Ange novamente enquanto se levantava. Parecia exausta e ainda havia lágrimas em seus olhos depois de tudo que disse. Se alguma coisa acontecer a você ou a seus filhos, eu testemunharei contra ele. Isso pode não significar nada para você agora, mas talvez signifique algum dia. Espero que nunca precise de mim para isso.

 

Eu também disse Marie-Ange, quando caminhavam para a porta do apartamento e o bebé se remexeu.

 

Tome cuidado com ele Louise disse sinistramente quando apertaram-se as mãos.

 

Obrigada por me receber disse Marie-Ange educadamente. Pouco depois, estava descendo as escadas e percebeu que suas pernas tremiam e que ela chorava por Louise, por seu filho e por ela própria. Queria ligar para Billy e lhe contar o que Louise lhe contara, mas não havia nada que ele pudesse fazer. Tudo que queria agora era fugir e pensar.

 

Eram quase sete horas quando deixou o apartamento e já era tarde demais para voltar dirigindo a Marmouton. Decidiu, em vez disso, passar a noite no apartamento em Paris, embora soubesse que Bernard estava lá. Quase tinha medo de vê-lo e tudo que podia esperar era que ele não pressentisse alguma coisa diferente nela. Sabia que precisaria ter cuidado com o que dissesse. Quando entrou no apartamento, ele tinha acabado de voltar de uma reunião com o arquiteto na rue de Varenne.

 

A casa estava quase pronta e diziam que estaria terminada no primeiro dia do ano. Ele pareceu feliz e surpreso de vê-la, beijou o bebé e tudo em que ela conseguia pensar enquanto o observava era no menino que morrera no incêndio e na mulher com o rosto destruído.

 

O que está fazendo em Paris, meu amor? Que surpresa maravilhosa! Ele parecia genuinamente feliz de vê-la e ela sentiu-se repentinamente culpada por acreditar em tudo que Louise dissera. E se ela fosse louca? E se nada daquilo fosse verdade e ela tivesse ficado demente de dor e realmente precisasse de alguém para culpar? E se ela própria tivesse matado o filho? Só esse pensamento fez Marie-Ange estremecer e quando Bernard passou os braços ao seu redor, sentiu a compaixão e o amor por ele crescerem outra vez. Não queria acreditar, não queria que ele fosse tão cruel quanto Louise dissera. Talvez ele tivesse lhe dito que Louise estava morta porque não queria lhe contar os horrores do inquérito ou as acusações de Louise contra ele. Talvez houvesse uma razão para ele ter mentido, talvez até mesmo medo de perder ou magoar Marie-Ange, embora estivesse errado. Afinal, ele era humano.

 

Por que não saímos para jantar? Podemos levar o bebé conosco se comermos em um bistrô. Aliás, você ainda não me disse por que está aqui disse ele, olhando-a inocentemente, enquanto ela sentia-se dividida. Metade dela adorava-o e a outra metade estava tomada pelo medo.

 

Senti sua falta disse ela sem artifícios e ele sorriu e beijou-a novamente. Era tão amoroso, tão terno e tão meigo, segurando o bebé, que de repente ela começou a duvidar de tudo que Louise de Beauchamp dissera. A única parte que parecia verdadeira era sua inclinação para fazer dívidas. No entanto, sem dúvida isso não era fatal e, se ela tivesse cuidado, talvez com o tempo ele aprendesse a se controlar. Talvez ele tivesse mentido para ela por medo. Teve certeza disso quando saíram para jantar e ele a fez rir, enquanto segurava o bebé, contando-lhe uma fofoca que ouvira sobre um dos amigos deles.

 

Ele era tão carinhoso e tão amoroso com ela que, quando foram para a cama naquela noite, com Robert no berço ao lado deles, ela teve a certeza de que Louise de Beauchamp havia mentido para ela, talvez para se vingar dele por abandonála. Talvez estivesse apenas com inveja dela, Marie-Ange disse a si mesma. Marie-Ange não contou nada a Bernard sobre o encontro e teve pena da mulher que conhecera, mas não mais o suficiente para acreditar nela. Marie-Ange vivia com Bernard há dois anos e tinha dois filhos com ele. Ele não era um homem que pudesse assassinar mulheres e crianças. Não seria capaz de ferir ninguém. Seu único pecado, se houvesse algum, Marie-Ange concluiu enquanto adormecia em seus braços naquela noite, era acumular dívidas. A mentira sobre ele ser um viúvo ela podia perdoar. Talvez, como um católico e nobre, simplesmente lhe parecera um pecado muito grande admitir que era divorciado. Quaisquer que tivessem sido seus motivos, Marie-Ange amava-o apesar deles e não acreditava nem por um instante que ele tivesse assassinado o filho de Louise.

 

 

MARIE-ANGE SENTIU-SE tão culpada quando retornou a Marmouton, após seu encontro com Louise de Beauchamp, que mostrou-se duplamente generosa com Bernard quando descobriu que ele estava com mais dívidas. Ele não lhe dissera nada, mas ela constatou que ele havia se esquecido de pagar o aluguel da casa de verão e do iate que vinha incluído e ela mesma teve que pagar a conta. Mas, a essa altura, aquilo pareceu-lhe um pecado menor.

 

A casa na rue de Varenne estava quase terminada e, embora houvesse uma pilha de contas ainda aguardando pagamento, ela finalmente decidira retirar algum dinheiro de seu depósito para saldá-las. Os investimentos de Bernard que há dois anos deveriam ”vencer” para que ele pudesse resgatá-los nunca se materializaram e há muito tempo ela deixara de perguntar-lhe a respeito. Não adiantava. Ela já nem tinha certeza se eles realmente existiam. Talvez tivesse perdido o dinheiro ou tivesse menos do que dissera. Já não importava mais para ela. Não queria deixá-lo constrangido. Tinham sua herança para viver. Tinham duas lindas casas e duas crianças saudáveis. Embora lembrasse de seu encontro com Louise de Beauchamp de vez em quando, afastava-o da mente e não dissera nada a ele sobre ter se encontrado com Louise. Tinha certeza de que a mulher o injuriara e o acusara injustamente. Era terrível demais acreditar que ela realmente pensasse que Bernard assassinara seu filho. No entanto, Marie-Ange perdoava-a pelo que dissera sobre seu marido, porque tinha certeza de que, se tivesse perdido um de seus filhos, também teria enlouquecido. Bernard e seus filhos eram tudo pelo que vivia agora. Era óbvio para ela que Louise de Beauchamp enlouquecera de pesar.

 

Quando Bernard falava em comprar um palácio em Veneza ou uma casa em Londres, ela repreendia-o agora como a um garotinho que quisesse mais doce e dizia-lhe que já tinham casas suficientes. Ele chegara até a falar em irem à Itália para ver um iate. Possuía um apetite insaciável por objetos e casas de luxo, mas Marie-Ange estava decidida a vigiá-lo e conter suas extravagâncias. Quando Robert estava com três meses, Bernard já falava em terem outro filho. A ideia também atraía Marie-Ange, mas desta vez queria esperar mais alguns meses, embora já tivesse recuperado sua silhueta e estivesse mais bonita do que nunca, mas queria ter alguns meses para passar mais tempo com Bernard. Estavam falando em fazer uma viagem para a África naquele inverno e Marie-Ange achou que seria divertido. Quando o Natal se aproximava, eles planejavam uma grande festa em Marmouton e uma maior ainda após o primeiro dia do ano, quando ocupariam a casa na rue de Varenne. Marie-Ange estava ocupada com seus filhos e ligou para Billy algumas semanas antes do Natal para perguntar-lhe sobre seus planos de casamento. Queria voltar a Iowa para visitá-lo, mas Iowa parecia tão distante e nunca havia tempo. Ele brincou com ela perguntando-lhe se já estava grávida novamente. No entanto, em uma pausa no fim da conversa, ele perguntoulhe se ela estava bem.

 

Estou bem. Por que pergunta? Ele sempre tinha um sexto sentido a respeito dela, mas ela insistiu que estava bem. Não disse nada a respeito de seu encontro com Louise de Beauchamp, por lealdade a Bernard. Além do mais, sabia que seria difícil explicar, especialmente a Billy, que sempre suspeitara um pouco de Bernard.

 

Apenas me preocupo com você, é só. Não se esqueça de que eu não conheço seu marido. Como vou saber se ele é realmente esse grande sujeito que você diz?

 

Confie em mim Marie-Ange sorriu à lembrança do amigo sardento, de cabelos ruivos, ele é realmente um grande sujeito. Ficou triste ao pensar que não via Billy há tanto tempo. No entanto, ele estava feliz por ela estar em Marmouton com sua própria família. Parecia-lhe uma questão de justiça.

 

Você tem alguma notícia de sua tia? Carole estava com mais de oitenta anos e Marie-Ange sabia que há muito tempo ela estava doente. Apenas lhe enviara um cartão de Natal com uma fotografia de Heloise e Robert, mas não achava que significaria muito para ela. Sempre escrevia para MarieAnge na época do Natal, um bilhete conciso, uma vez por ano. Tudo que dissera é que esperava que ela e seu marido estivessem bem. Nunca dissera muito mais do que isso. Você vem mesmo para o meu casamento em junho? perguntou Billy.

 

Vou tentar.

 

Mamãe disse que você deveria trazer seus filhos. Mas era uma viagem muito longa para levá-los e, se dependesse de Bernard, ela estaria grávida outra vez a essa altura, embora pudesse viajar mesmo assim. No entanto, Iowa parecia fazer parte de um outro mundo.

 

Conversaram por algum tempo, até que Bernard chegou em casa. Ela saiu do telefone e foi lhe dar um beijo de boasvindas.

 

Com quem estava falando? Estava sempre curioso sobre o que ela fazia, com quem se encontrava, com quem falava, gostava de fazer parte de sua vida, embora às vezes fosse mais reservado em relação à sua própria.

 

Billy, em Iowa. Ele ainda quer que a gente vá ao seu casamento em junho.

 

É muito longe disse Bernard com um sorriso. Para ele, Estados Unidos significavam Los Angeles ou Nova York. Já estivera duas vezes em Palm Beach, mas uma fazenda em Iowa definitivamente não fazia parte de seu estilo. Ele acabara de comprar um conjunto de malas de couro de crocodilo marrom e Marie-Ange podia imaginá-lo chegando à fazenda dos Parker com suas malas de crocodilo na carroceria de uma caminhonete. Entretanto, ela teria gostado de voltar e ainda prometia a si mesma que voltaria um dia. Tentara convencer Billy a vir para Marmouton para sua lua-de-mel e depois ir para Paris. Até lhe oferecera para que ficassem em sua nova casa, mas ele apenas rira da sugestão. Ele e Debbi haviam concluído que uma semana no Grand Canyon era caro demais e até mesmo um fim de semana em Chicago seria bem apertado para eles. A França era uma outra vida inteiramente diferente e apenas um sonho para eles. Cada centavo ganho era aplicado na própria fazenda.

 

O que você fez hoje, meu amor? perguntou-lhe Bernard naquela noite durante o jantar. Acabavam de contratar uma cozinheira da cidade e era bom ter um tempo extra com seus filhos, mas sentia falta de preparar a janta para ele.

 

Nada de especial. Estava preparando nossa festa de Natal e fiz algumas compras. Brinquei com as crianças. Heloise estava gripada outra vez. E você?

 

Ele sorriu-lhe misteriosamente.

 

Na verdade disse, como se esperasse um rufar de tambores para acompanhar o anúncio que ia fazer, comprei um poço de petróleo disse ele, satisfeito, enquanto MarieAnge franzia as sobrancelhas.

 

Fez o quê? Esperava que ele estivesse caçoando dela, mas ele parecia ameaçadoramente verdadeiro.

 

Comprei um poço de petróleo. Na verdade, no Texas. Há muito tempo venho conversando com as pessoas que estão vendendo ações nesse negócio. Vai render uma fortuna quando começar a funcionar. Eles já tiveram um lucro enorme em Oklahoma. Exibiu-lhe um amplo sorriso.

 

Como o comprou? Ela sentiu o pânico subir à sua garganta quando perguntou.

 

Com uma nota promissória. Conheço essas pessoas muito bem.

 

Quanto foi? Ela parecia nervosa e ele parecia divertir-se. De quanto foi a sua participação?

 

Foi uma pechincha. Eles me permitiram pagar metade da minha participação agora, com a nota, é claro, no valor de oitocentos mil dólares. Só tenho que pagar a outra metade no ano que vem. Ela já sabia que ele nunca pagaria. Ela seria responsável por isso e teriam que lançar mão novamente do dinheiro do fundo que lhe pertencia. Há dois anos, dez milhões de dólares pareceram-lhe uma imensa fortuna, e agora vivia aterrorizada de que pudessem ir à falência. Nas mãos de Bernard, dez milhões de dólares desapareceriam como pó.

 

Bernard, não podemos arcar com essa despesa. Acabamos de pagar a casa.

 

Querida ele riu diante de sua ingenuidade, inclinando-se para beijá-la, você é uma mulher muito, muito rica. Você tem dinheiro para durar para sempre e nós vamos fazer uma fortuna com isso. Confie em mim. Conheço esses homens. Já fizeram isso antes.

 

Quando teremos que cobrir a nota?

 

Até o final do ano disse ele alegremente.

 

Isso é em duas semanas. Quase engasgou com o que ele disse.

 

Acredite-me, se eu pudesse, eu mesmo pagaria. Seus assessores no banco vão me agradecer por lhe fazer esse favor disse ele, sem pestanejar, e Marie-Ange ficou deitada sem conseguir dormir, pensando no que acontecera, a noite toda.

 

Pela manhã, quando telefonou para o banco e disse-lhes o que pretendia, seus assessores não estavam dispostos a agradecer a Bernard e, pelo bem dela, recusaram-se a permitir que ela lançasse mão do dinheiro do fundo para cobrir a nota promissória. Simplesmente não iriam permitir e durante o almoço no dia seguinte ela não teve escolha senão contar a Bernard, que ficou indignado.

 

Meu Deus, como podem ser tão estúpidos! E agora o que você espera que eu faça? Eu dei minha palavra. Vão pensar que sou algum tipo de mentiroso, podem até me processar. Assinei os documentos há dois dias. Você sabia disso, MarieAnge. Tem que dizer ao banco que eles têm que pagar.

 

Eu fiz isso disse ela duramente. Talvez você devesse ter consultado o banco antes de assinar.

 

Você não é uma mendiga, pelo amor de Deus. Eu mesmo ligarei para eles amanhã retrucou ele, deixando implícito que ela não soubera lidar com a questão. No entanto, quando ele ligou para o banco, foram ainda mais diretos com ele e disseram-lhe sem rodeios que os administradores do trust não iriam permitir que ela fizesse outro saque. ”As portas estão fechadas”, disseram. Quando Bernard voltou a falar do assunto com Marie-Ange, estava furioso com ela.

 

Você disse a eles para fazerem isso? perguntou desconfiado, acusando-a de agir traiçoeiramente.

 

Claro que não. Mas gastamos uma fortuna nas duas casas e ele havia gasto outro milhão de dólares ou mais em arte ou em outras dívidas de maus negócios. Seus curadores disseram-lhe que a estavam protegendo e ao que restara de sua fortuna, por seu próprio bem. Tinha que pensar no seu futuro e no das crianças. Se ela não conseguia conter seu marido, eles estavam mais do que dispostos a fazer isso por ela. No entanto, nos dias seguintes, Bernard parecia uma fera enjaulada por causa disso. Esbravejava e berrava com ela, agia como uma criança mimada e colérica, mas não havia nada que ela pudesse fazer. Faziam as refeições num silêncio sepulcral e, no fim de semana, quando Bernard voltou de uma breve viagem a Paris, ele finalmente sentou-se com Marie-Ange no escritório e disse-lhe que, diante de sua óbvia desconfiança em relação a ele e o tratamento que o banco dela estava lhe dispensando, como se ele fosse um gigolô, obviamente de acordo com as ordens dela, ele estava pensando em deixá-la. Ele não iria tolerar ser tratado dessa forma ou viver em um casamento onde não havia confiança e onde ele era tratado como uma criança.

 

Tenho sempre agido nos seus melhores interesses, desde que nos conhecemos, Marie-Ange disse ele, parecendo magoado. Meu Deus, eu a deixei ficar aqui quando nem sequer a conhecia, porque eu sabia o quanto isso significava para você. Gastei uma fortuna reformando o chateau porque é uma relíquia da sua infância perdida. Comprei a casa em Paris porque achei que você merecia uma vida mais empolgante do que ficar escondida aqui. Não fiz outra coisa senão trabalhar por você e pelos nossos filhos, desde o dia em que nos conhecemos. E agora descubro que você não confia em mim. Não posso mais viver assim.

 

Marie-Ange estava horrorizada com o que estava ouvindo e mais ainda com a ideia de perdê-lo. Tinha dois filhos pequenos e talvez estivesse grávida de novo. A ideia de ele a deixar, abandoná-la sozinha no mundo outra vez, com seus filhos, encheu-a de terror e a fez querer dar-lhe tudo que tinha. Também em nenhum momento lhe ocorreu que a cara reforma que ele alegava fora custeada por ela mesma ou que a ”fortuna que ele havia gasto” era dela. Ela pagara pela casa em Paris, depois que ele a comprou sem nem sequer consultá-la antes de assumir o compromisso, exatamente como se comprometera com a nota promissória no valor de um milhão e seiscentos mil dólares agora, sem nunca ter lhe perguntado.

 

Sinto muito, Bernard... Sinto muito... disse ela, arrasada. Não é culpa minha. O banco não quer me emprestar o dinheiro.

 

Acho que você nem tentou. E com certeza a culpa é sua acusou-a duramente. Essas pessoas trabalham para você, Marie-Ange. Diga-lhes o que quer. A menos, é claro, que você queira me humilhar publicamente e recusar-se a cobrir uma dívida que assumi por você. É você quem iria se beneficiar desse investimento, como Robert e Heloise. Era a imagem do abnegado e altruísta enquanto a acusava e ela sentiu-se como se tivesse lhe dado um tiro no coração. Em troca, ele estava partindo o dela.

 

Eles não são meus empregados, Bernard. São meus curadores, você sabe disso. São eles que tomam as decisões. Não eu. Seus olhos imploravam-lhe que a perdoasse pelo que ela não podia lhe dar.

 

Também sei que, se você quiser, pode processá-los para conseguir o que deseja. Enquanto lhe explicava, fazia-se de bom moço ofendido.

 

É isso que quer que eu faça? Ela ficou abalada.

 

Se me amasse, você o faria. Ele fora até o fim, mas no dia seguinte, depois que Marie-Ange falou com eles outra vez, eles continuaram irredutíveis e quando ameaçou processá-los, disseram-lhe francamente que ela perderia. Podiam mostrar facilmente como seu dinheiro fora gasto de modo rápido e imprudente e disseram-lhe que nenhum juiz responsável no mundo iria adiantar o trust em tais circunstâncias, para uma jovem da idade dela. Tinha apenas vinte e três anos e eles sabiam o quanto Bernard pareceria ávido e ganancioso naquelas circunstâncias, o quanto ele pareceria suspeito para o tribunal, mas não lhe disseram isso.

 

Quando relatou a conversa a Bernard, ele disse friamente que iria comunicar a ela quando tomasse uma decisão. Mas ela já estava avisada. Ele já havia ameaçado abandoná-la se ela não saldasse sua dívida. Faltavam apenas duas semanas para a data de pagamento.

 

Ela continuava angustiada com a situação na noite de sua festa de Natal e Bernard há dias não lhe dirigia a palavra. Sentia-se humilhado, desacreditado e destratado e ia fazê-la pagar por isso de forma extrema. Ela parecia muito nervosa ao cumprimentar seus convidados. Ele parecia, como sempre, elegante, digno e calmo. Usava um smoking novo que mandara confeccionar em Londres e um par de sapatos de couro legítimo, feito sob medida. Ele sempre andava extremamente bem-vestido e ela usava um vestido longo de cetim vermelho que ele comprara para ela na Dior. Entretanto, ela não se sentia nem um pouco festiva e estava doente de preocupação de que ele fosse abandoná-la no final do ano, quando ela não poderia cobrir sua dívida. Ele agia como se estivesse magoado por ela não perceber que tudo que ele fazia era por ela.

 

Ele não lhe dirigiu nenhuma palavra enquanto conduziam seus convidados à sala de jantar para a ceia e, mais tarde, quando a música foi iniciada, ele dançou com todas as mulheres no salão, exceto sua esposa. Foi uma noite dolorosa para MarieAnge, sob todos os aspectos.

 

Restavam apenas alguns convidados, quando alguém na cozinha comentou que sentia cheiro de fumaça na casa. Alain Fournier, o caseiro, lavava louças na cozinha e ajudava os empregados do serviço de bufé a fazer a limpeza e disse que ia dar uma olhada para ver o que era. A princípio, os empregados do serviço de bufé insistiram que se tratava do forno que estavam limpando e alguém sugeriu que poderiam ser as velas acesas por toda a casa ou os charutos que os convidados fumaram. Entretanto, só por segurança, Alain dirigiu-se ao andar de cima para dar uma olhada. No segundo andar, ele encontrou uma vela que tombara para o lado das novas e pesadas cortinas de damasco. As franjas das cortinas pegaram fogo rapidamente e todo um lado das cortinas estava em chamas quando ele chegou no andar.

 

Alain arrancou-a dos trilhos, jogou-a no chão e começou a pisoteá-la para apagar o fogo. Somente então percebeu que as franjas do bandó na parte de cima das cortinas carregara as chamas para o outro lado, que agora também ardia em labaredas. Começou a gritar, mas ninguém o ouvia. Tentou desesperadamente apagar o fogo antes que se espalhasse ainda mais, mas seus pedidos de ajuda eram abafados pela música no térreo. Como em um pesadelo, as chamas dançavam de uma cortina para outra e, no que lhe pareceu uma questão de segundos, o incêndio se espalhou por todo o corredor do segundo andar e as labaredas avançavam em direção às escadas.

 

Sem saber o que mais podia fazer, desceu correndo as escadas em direção à cozinha, dizendo a todos que levassem baldes de água para cima. Um dos empregados do bufé correu para chamar os bombeiros e em seguida entrou esbaforido na sala de estar para avisar os convidados que restavam. No instante em que Marie-Ange ouviu, correu para cima, para o corredor do segundo andar, onde Alain atirava baldes de água nas chamas. Quando chegaram, o tecido nas paredes que levavam do segundo ao terceiro andar haviam criado um túnel de labaredas, mas ela sabia que tinha que atravessá-lo, já que seus dois filhos estavam dormindo no terceiro andar. No entanto, quando tentou atravessar as chamas, braços poderosos retiveram-na.

 

Os homens que subiram da cozinha para combater o fogo sabiam que ela se transformaria numa tocha humana em seu vestido vermelho drapeado.

 

Soltem-me! Gritava, tentando abrir caminho e livrar-se deles. No entanto, antes que conseguisse desvencilharse, viu Bernard passar correndo por ela e já estava no topo das escadas quando ela conseguiu livrar-se dos homens. Subiu correndo o mais rápido que pôde atrás dele. Pôde ver a porta para os aposentos das crianças logo à frente deles e o corredor já estava tomado pela fumaça. Viu quando ele tomou o bebé nos braços e correu para o quarto onde Heloise dormia em seu próprio berço. Heloise acordou no mesmo instante em que ouviu seus pais e Marie-Ange agachou-se e agarrou-a no colo. Já podiam ouvir o rugido das chamas e os gritos das pessoas no andar inferior. Quando Marie-Ange olhou para trás, viu as escadas para o terceiro andar tomadas pelas chamas e ela sabia que as janelas do terceiro andar eram minúsculas. A menos que pudessem voltar ao segundo andar através das chamas, não haveria como escapar e ela olhou para Bernard em desespero.

 

Vou buscar ajuda disse ele, parecendo em pânico. Fique aqui com as crianças. Os bombeiros estão a caminho, Marie-Ange. Se for preciso, vá para o telhado e espere lá! Em seguida, colocou Robert no berço de Heloise e partiu em direção às escadas, enquanto Marie-Ange observava-o apavorada. Ele parou apenas um instante quando descia, na porta que dava para o telhado e, enquanto o observava, ela viu-o enfiar a chave da porta no bolso. Ela gritou para ele jogar a chave para ela mas ele voltou-se apenas um instante na base das escadas e desapareceu. Fora buscar ajuda, tinha certeza, mas a deixara sozinha no terceiro andar com os bebés, num mar de chamas.

 

Bernard dissera-lhe que não queria que ela tentasse atravessar o fogo nas escadas, estaria mais segura ali em cima, ele disse. Entretanto, olhando as chamas aproximando-se cada vez mais, viu que ele estava errado e não se sentiu reconfortada com o barulho das sirenes do corpo de bombeiros a distância. Agora, as duas crianças choravam e o bebé arfava na fumaça espessa que começava a sufocá-los. Esperava ver os bombeiros, ou Bernard com uma brigada de baldes, subindo as escadas para salvá-los a qualquer instante. Já não conseguia ouvir as vozes no andar de baixo, o rugido das labaredas era alto demais e, um instante depois, ouviu um enorme estrondo. Quando olhou, viu que uma viga caíra e bloqueava a escada. Ainda não havia sinal de Bernard voltando para resgatá-los, enquanto ela soluçava, agarrada aos dois filhos.

 

Colocou-os no berço de Heloise por um instante e correu para verificar a porta para o telhado, mas ela estava trancada e Bernard levara a chave com ele. Repentinamente, lembrou-se de uma voz em sua mente, de um rosto desfigurado e de tudo que Louise Beauchamp havia lhe dito. Era tudo verdade, percebeu imediatamente. Ele tentara trancá-los no quarto do filho dela. E agora ele a deixara ali, sem acesso ao telhado, sem nenhuma forma de escapar do incêndio e salvar seus filhos.

 

Vai ficar tudo bem, filhinhos. Vai ficar tudo bem repetia-lhes num murmúrio histérico, correndo de uma pequena janela para outra. Então, quando olhou por uma delas, viu-o parado lá embaixo, no pátio, soluçando histericamente e agitando os braços na direção dela. Descrevia alguma coisa para as pessoas lá embaixo, sacudindo a cabeça, e ela agora podia imaginar o que ele estava dizendo, talvez que os tivesse visto mortos ou que não havia nenhum modo de chegar até eles, o que agora era verdade, mas não fora assim quando ele os deixara e enfiara no bolso a chave da porta que levava ao telhado.

 

Abriu todas as janelas que pôde, para terem ar fresco, depois correu de um aposento para o outro enquanto as brasas caíam e pedaços de madeira em chamas voavam para todos os lados ao redor deles. De repente, lembrou-se de um minúsculo banheiro que nunca usavam. Era o único aposento no terceiro andar com uma janela ligeiramente maior e, quando chegou ali, viu que era possível abri-la. Correu de volta ao quarto de Heloise, agarrou as crianças, correu de volta ao banheiro e começou a gritar da janela aberta.

 

Aqui em cima! Estou aqui em cima!... Estou com as crianças! Gritava acima do barulho, agitando um dos braços para fora da janela. No começo, ninguém a viu, em seguida, repentinamente, um bombeiro olhou para cima, localizou-a e saiu correndo para trazer a escada. Enquanto observava os homens lá embaixo, viu Bernard olhar para cima e fitá-la com uma expressão que nunca vira em seu rosto antes. Era um olhar de pura inveja e ódio e não teve dúvidas naquele instante de que ele provocara o incêndio. Provavelmente, iniciara o fogo no segundo andar, onde ninguém notaria, suficientemente perto das escadas que levavam ao terceiro andar, de modo que o fogo devorasse as crianças. Sabia o que Marie-Ange faria, ela correria para os filhos e ficaria presa na armadilha com eles. Não era nenhum acidente de histeria que a porta para o telhado estivesse trancada, ele levara a chave. Ele tivera a intenção de assassiná-los e, pelo que podia ver, havia uma boa possibilidade de que o conseguiria. Os bombeiros haviam encostado as escadas nas paredes do chateau e verificaram que não tinham altura para alcançar a janela do banheiro. Enquanto Bernard observava, começou a soluçar histericamente, exatamente como Louise descrevera a noite em que seu filho morreu. Marie-Ange sentiu um calafrio de terror percorrê-la, não conseguia ver como iria salvar seus filhos. Se todos eles morressem, Bernard herdaria tudo. Se vivessem e Marie-Ange morresse, ele teria que dividir o espólio com os filhos. Sua motivação para matar todos eles era uma ideia tão horrível e insuportável que Marie-Ange tinha a sensação de que seu peito era rasgado e seu coração arrancado. Ele tentara assassinar não só a ela, como seus filhos também.

 

Enquanto olhava para baixo e o via chorar, segurava as crianças o mais para fora da janela que ousava fazer, para mantê-las respirando. A porta do minúsculo banheiro estava fechada atrás deles e o rugido que vinha do outro lado da porta era ensurdecedor. Não conseguia ouvir o que as pessoas gritavam-lhe lá de baixo, mas três bombeiros seguravam uma rede para ela e, a princípio, não conseguiu entender o que diziam. Observou suas bocas o mais intensamente possível, para ler seus lábios, e finalmente um dos homens levantou um único dedo. Um, ele lhe dizia. Um. Um de cada vez. Colocou Heloise no chão a seu lado, enquanto a criança agarrava-se ao seu vestido, e chorando histericamente, beijou o rostinho de Robert e segurou-o para fora da janela o mais afastado da parede que podia, enquanto os bombeiros corriam lá embaixo e seguravam a rede com firmeza. Foi um momento insuportável quando o largou e ficou observando-o cair, ricochetear na rede como uma pequena bola de borracha e finalmente viu um dos bombeiros erguê-lo no colo. Ele ainda se movia. Agitava os braços e as pernas quando Bernard correu para ele e o segurou nos braços, enquanto Marie-Ange olhava-o com ódio.

 

Em seguida, fez o mesmo com Heloise, enquanto a criança esperneava, gritava e debatia-se com ela. Marie-Ange gritoulhe que parasse, em seguida beijou-a e lançou-a no vazio. Como seu irmão, ela caiu na rede como uma boneca e foi agarrada pelos bombeiros e, em seguida, beijada pelo pai. Agora, entretanto, todos erguiam os olhos para cima, para Marie-Ange, que olhava fixamente para fora. Uma coisa fora lançar as crianças, outra era saltar, ela própria, da janela. Parecia uma queda angustiante e longa, a janela era tão pequena, sabia que não seria fácil para ela erguer-se até a abertura. Entretanto, ao ver Bernard no pátio lá embaixo, sabia que, se não o fizesse, ele ficaria com seus filhos e só Deus sabia o que ele poderia fazer para roubar sua parte na herança. Sabia que daquele dia em diante eles nunca estariam a salvo com ele. Subiu no parapeito e ficou equilibrando-se, quando ouviu uma explosão e todas as janelas do segundo andar foram lançadas na noite. Compreendeu que era uma questão de tempo antes que o chão cedesse e desmoronasse, levando-a com ele.

 

Salte! Os bombeiros gritavam-lhe. Salte!

 

Mas Marie-Ange sentia-se paralisada, ali sentada, e eles sentiam-se impotentes para ajudá-la. Não havia nada que pudessem fazer por ela, a não ser encorajá-la a fazer o que fizera pelos filhos. Ali sentada, agarrada ao batente da janela, podia ver o rosto de Louise de Beauchamp com os olhos da mente e compreendeu o que ela sentira naquela noite, quando perdeu o filho e soube que Bernard o matara, como se tivesse empunhado uma arma e atirado nele. Se por nenhum outro motivo, Marie-Ange tinha que saltar para salvar os próprios filhos dele, para impedi-lo. No entanto, era tão aterrador que não conseguia se mover. Estava paralisada de terror enquanto lá embaixo todos a observavam.

 

Podia ver Bernard gritando para ela, agora as crianças já estavam em outros braços e todos os olhos voltavam-se para ela. Sabendo que ninguém o estava observando naquele momento, Bernard olhou para ela do meio da multidão e sorriulhe. Sabia que ela estava apavorada demais para saltar. Ele ficaria com a parte do leão de seu espólio quando ela morresse e poderia fazer qualquer coisa que quisesse com a fortuna quando ela lhe pertencesse. Fracassara em sua missão de matar sua última mulher e matara apenas seu filho, mas desta vez teria mais sucesso. Da próxima vez, Marie-Ange perguntava-se enquanto o observava, quem ele mataria? Heloise? Ou Robert?

 

Ou ambos? Quantas pessoas ele destruiria antes que alguém o impedisse? Então, como se ela estivesse ao seu lado, MarieAnge pôde ouvir Louise falando de Charles na noite em que ele morreu em seus braços na casa de campo. Foi como se Louise falasse com ela agora, em alto e bom som.

 

”Salte, Marie-Ange! Agora.” Ao ouvir as palavras em sua cabeça, finalmente saltou da janela e voou para baixo, sua ampla saia vermelha inflando como um pára-quedas. Perdeu completamente a respiração quando aterrissou na rede que seguravam para ela. O primeiro rosto que viu olhando para baixo para ela foi o de Bernard, chorando e estendendo os braços para ela, que se encolheu. Ela vira tudo em seus olhos antes desta cena, compreendera tudo. Ele era realmente o monstro que Louise dissera. Era um homem que tivera a intenção de matar o filho dela, seus próprios filhos e duas mulheres. Quando Marie-Ange olhou para ele, falou com toda clareza.

 

Ele tentou nos matar disse serenamente, perplexa com o som de sua própria voz e com as palavras que emitia. Ele trouxe com ele a chave da porta que dava para o telhado, depois de trancá-la, de modo que não tivéssemos como escapar. Ele nos deixou lá para que morrêssemos disse, enquanto ele dava um passo para trás como se ela o tivesse atingido com um golpe. Ele já fez isso antes Marie-Ange disse para que todos ouvissem, mas ele tentara destruir tudo que ela mais amava e nunca poderia perdoá-lo por isso. Ele provocou o incêndio que matou o filho da ex-mulher disse, enquanto um ódio avassalador saltava dos olhos dele em direção a ela. Ele também as  trancou em um quarto e quase a matou, mas não conseguiu. Você tentou nos matar disse, diretamente para ele, enquanto ele saltava para a frente como se fosse esbofeteá-la, mas se conteve, num esforço para manter a compostura.

 

Ela está mentindo. Está louca. Sempre foi desequilibrada. Tentava parecer calmo, falando para o chefe dos bombeiros que estava ao seu lado, ouvindo e observando o rosto de Marie-Ange. Ela não lhe parecia desequilibrada. Ficou perturbada com o choque de ver seus filhos em perigo.

 

Você provocou o incêndio, Bernard disse-lhe num tom glacial. Você nos deixou lá. Levou a chave. Queria que morrêssemos, para poder ficar com todo o dinheiro, não apenas o meu, mas o deles também. Você deveria ter morrido no incêndio, talvez da próxima vez você morra disse, conforme a raiva que sentia se avolumava. O policial da vila aproximou-se discretamente de Bernard. Um dos bombeiros sussurrara-lhe alguma coisa e ele estava sugerindo a Bernard que os acompanhasse para responder algumas perguntas. Bernard recusou-se a ir com eles e expressou sua indignação.

 

Que desaforo! Como ousa dar ouvidos a ela? É uma louca! Não sabe o que está dizendo.

 

E Louise? Ela também era louca? E Charles? Era uma criança de quatro anos quando você o matou. Marie-Ange agora chorava, parada no ar gelado da noite. Um dos bombeiros colocou um cobertor ao redor de seus ombros. Já haviam praticamente dominado o fogo, mas a destruição no interior da casa fora quase total.

 

Monsieur le Comte disse-lhe o policial claramente,

 

se não vier conosco por bem, senhor, o que esperamos que faça, seremos obrigados a algemá-lo.

 

Farei com que seja despedido por isso. Que absurdo! esbravejou, mas acompanhou-os mesmo a contragosto. Seus amigos há muito haviam partido e Marie-Ange ficou com o caseiro, os homens que vieram da fazenda, os bombeiros e seus filhos.

 

Haviam dado oxigénio a Robert e ele tremia, mas agora havia se acalmado e Heloise dormia profundamente nos braços de um bombeiro, como se nada tivesse acontecido. Alain ofereceu para que dormissem em sua casa naquela noite e, vendo as últimas chamas arderem, percebeu que mais uma vez estava começando do nada. Mas estava viva, ela e seus filhos. Isso era tudo que lhe importava agora.

 

Ficou ali fora por um longo tempo, enquanto os bombeiros continuavam a apagar o que restava do incêndio. Eles permaneceram de vigília toda a noite observando os escombros incandescentes. Ela levou as crianças para a casa de Alain e, pela manhã, dois policiais bateram na porta querendo falar com ela. A mãe de Alain chegara da fazenda pouco antes para ajudála com as crianças.

 

Podemos falar-lhe, condessa? perguntaram respeitosamente e ela saiu de casa para atendê-los. Não queria que Alain ouvisse o que tinha a dizer sobre seu marido. Interrogaram-na exaustivamente e disseram-lhe que os bombeiros haviam encontrado vestígios de querosene no corredor do segundo andar e nas escadas que levavam ao quarto das crianças. Haveria uma investigação completa e, com os indícios que tinham, estavam preparados para apresentar acusações contra Bernard. Ela então contou-lhe a respeito de Louise de Beauchamp e eles agradeceram.

 

Hospedou-se no hotel da cidade naquela noite, eles colocaram dois berços para as crianças e madame Fournier acompanhou-as. Ficou ali uma semana para responder às perguntas dos policiais e do corpo de bombeiros. Depois que os escombros esfriaram, ela entrou na casa para ver o que poderia ser salvo. Algumas peças de prata, algumas esculturas, alguns utensílios. Tudo o mais fora destruído ou inutilizado, mas o pessoal do seguro já estivera lá para uma avaliação e havia dúvidas sobre quanto ou se lhe pagariam algum valor, se viesse a ser provado que o próprio Bernard provocara o incêndio.

 

Ela ligou para Louise de Beauchamp após os primeiros dias. Foi do que Marie-Ange precisou para acalmar-se. As consequências do choque foram piores do que o que sentiu na noite da tragédia. Perdera não só sua casa, e quase seus filhos, como também perdera suas esperanças, seus sonhos, seu marido e sua fé nele. Ele estava sendo mantido na cadeia local para novos interrogatórios e Marie-Ange não fora vê-lo. Tudo que queria era perguntar-lhe por que fizera aquilo, como pôde odiá-la tanto e querer destruir seus filhos. Era algo que sabia que jamais entenderia, mas suas razões eram claras. Fizera tudo aquilo por dinheiro.

 

Quando conversaram por telefone, Marie-Ange agradeceu a Louise pelo seu aviso. Se não soubesse o que acontecera, talvez tivesse sido tola o suficiente para acreditar que ele voltaria para salvá-los e nunca teria tentado encontrar uma saída pela janela do banheiro. E, sem dúvida, teria acreditado em sua representação teatral. Entretanto, jamais se esqueceria do que o viu fazer naquela noite, da expressão de ódio em seus olhos, ao observá-la parada no peitoril da janela, torcendo para que ela não tivesse coragem de pular para a segurança.

 

Pareceu-me ouvir a sua voz naquela noite, dizendo-me para saltar Marie-Ange disse com tristeza. Eu tinha tanto medo, quase não consegui. Mas eu só pensava no que ele faria com as crianças se eu morresse... Foi então que eu ouvi sua voz em minha mente, dizendo ”salte”, e eu saltei.

 

Fico feliz Louise disse serenamente e reafirmou a Marie-Ange que teria prazer em testemunhar relatando o que lhe acontecera. Marie-Ange disse-lhe que a polícia iria convocá-la. Você ficará bem agora Louise assegurou-lhe, melhor do que eu. Charles foi sacrificado pela ganância daquele desgraçado. Que razão terrível para morrer.

 

Lamento muito disse Marie-Ange novamente. Conversaram por um longo tempo, confortando uma à outra. De certa forma, Marie-Ange tinha certeza, fora o aviso de Louise que a salvara, tanto quanto os bombeiros e a rede que seguraram, e o mergulho que ela dera.

 

Passaram o Natal no hotel e, no dia seguinte, Marie-Ange levou as crianças de carro para Paris. Já decidira vender a casa na rue de Varenne, com tudo que havia nela. Detestava ficar no apartamento, mas todos os seus pertences estavam lá, tudo que lhes restavam, e Bernard já não podia feri-la. Ele tentara telefonar para ela uma vez no hotel e ela se recusara a atender. Não queria vê-lo nunca mais, exceto no tribunal, e esperava que ele tivesse prisão perpétua pelo que fizera a Charles e tentara fazer aos seus filhos. Entretanto, a verdadeira tragédia para Marie-Ange era que ela não só havia confiado e acreditado nele, como também o amara.

 

Era véspera de Ano-Novo quando finalmente resolveu telefonar para Billy. Estava em casa com os filhos, pensando nele. Tinha tanto a pensar, valores e ideais, sonhos desfeitos, integridade que nunca existira. Como Louise, compreendia agora de que não passara de um alvo para ele desde o começo, uma fonte de recursos financeiros que ele sangraria até secar. Era agradecida aos seus curadores por terem sido mais cautelosos do que ela. Ao menos a venda da casa em Paris restauraria uma parte de seu saldo financeiro.

 

O que está fazendo em casa esta noite? perguntou Billy quando ela ligou. Por que não saiu para comemorar? Deve ser meia-noite em Paris.

 

Quase. Seria dali a instantes e eram cinco horas da tarde para ele. Planejava passar uma noite tranquila em casa com sua família e sua noiva.

 

Você não deveria estar numa festa grandiosa em algum lugar, condessa? ele provocou-a, mas ela não riu. Não sorria há quase duas semanas.

 

Ela contou-lhe sobre o incêndio e sobre o que Bernard fizera, ou tentara fazer. Contou-lhe a respeito de Louise, Charles e de como Bernard a ludibriara em sua fortuna. Porém, acima de tudo, contou-lhe o que sentira, no banheiro durante o incêndio, atirando seus filhos pela janela. Enquanto a ouvia, podia ouvi-lo chorar.

 

Meu Deus, Marie-Ange, espero que enviem o filho da mãe para a prisão perpétua. Nunca confiara nele. Tudo acontecera tão rápido. Rápido demais. Marie-Ange sempre insistira em que tudo era tão perfeito e, durante algum tempo, ela achara que realmente era. Agora, olhando para trás, percebia que não fora. Até se perguntava se os filhos que ele desejara tão desesperadamente não haviam sido apenas uma maneira de distraíla e de prendê-la a ele. Agradecia a Deus agora por não ter ficado grávida outra vez, mas desde o incêndio verificara que não estava.

 

O que vai fazer agora? perguntou-lhe Billy, parecendo mais preocupado com ela do que nunca.

 

Não sei. A audiência é daqui a um mês e eu e Louise estaremos lá. Descreveu o seu rosto para ele e a tragédia que ela vivera. Marie-Ange tivera muito mais sorte em salvar seus filhos. Ficarei em Paris até decidir o que fazer. Não restou nada em Marmouton. Acho que deveria vendê-lo disse com tristeza.

 

Pode reconstruí-lo, se quiser. Ele encorajou-a, ainda tentando absorver o horror que ela atravessara e desejando poder envolvê-la em seus braços. Sua mãe o vira chorando ao telefone e tirara todos da cozinha, inclusive sua noiva.

 

Nem sei se quero disse Marie-Ange sinceramente sobre a casa que amara quando criança. No entanto, tantas tragédias haviam acontecido ali que já não sabia ao certo se queria continuar com ela. Tantas coisas horríveis aconteceram lá, Billy.

 

Coisas boas também. Talvez precise de um tempo para pensar no assunto. Que tal vir para cá para recuperar o fôlego por algum tempo? A ideia a atraía imensamente, embora não quisesse ficar em um hotel e não podia impor duas crianças pequenas à sua mãe. Todos na fazenda trabalhavam duramente e estavam sempre ocupados.

 

Talvez. Posso ir em junho para seu casamento. Tenho que ficar aqui por enquanto por causa dos advogados e eles disseram que ele deverá ir a julgamento nessa época. Só saberei mais tarde.

 

Eu também disse ele, sorrindo, com um ar mais infantil do que nunca, embora ela não pudesse vê-lo. MarieAnge estava com vinte e três anos e Billy com vinte e quatro.

 

O que quer dizer? Marie-Ange perguntou em função do seu comentário.

 

Não sei. Temos falado em adiar o casamento por mais um ano. Gostamos muito um do outro, mas às vezes fico em dúvida. Para sempre é tempo demais. Minha mãe disse para não me apressar. Acho que Debbi está um pouco nervosa. Vive dizendo que quer morar em Chicago. Você sabe como é aqui. Não tem a agitação da cidade grande.

 

Deveria trazê-la a Paris disse Marie-Ange, ainda esperançosa de que tudo desse certo para eles. Ele merecia a felicidade. Ela tivera a sua chance, que havia literalmente se transformado em cinzas. Agora, tudo que queria era paz e uns tempos tranquilos com seus filhos. Era difícil pensar em confiar em alguém de novo, depois de Bernard. Mas ao menos conhecia Billy e amava-o como a um irmão. Precisava de um amigo agora. Então, teve uma ideia e fez-lhe a proposta. Por que você não vem a Paris? Pode ficar no meu apartamento. Eu adoraria vê-lo disse ela, a saudade transparecendo em sua voz. Ele era a única pessoa no mundo em quem podia confiar agora.

 

Adoraria conhecer seus filhos respondeu ele, pensando no assunto.

 

Como vai o seu francês ultimamente?

 

Estou esquecendo. Não tenho ninguém com quem conversar.

 

Eu devia ligar com mais frequência. Não queria perguntar-lhe se ele podia pagar a viagem ou insultá-lo oferecendo-se para pagar, mas adoraria revê-lo.

 

As coisas estão bem tranquilas por aqui agora. Vou falar com meu pai. Provavelmente vai poder ficar sem mim por uma ou duas semanas. Veremos. Vou pensar e ver o que posso fazer.

 

Obrigada por me apoiar nessa hora disse Marie-Ange com o sorriso de que ele se lembrava tão bem de sua adolescência.

 

É para isso que servem os amigos, Marie-Ange. Você sempre poderá contar comigo, espero que saiba disso. Quisera que não tivesse mentido para mim a respeito dele. Às vezes eu achava que havia alguma coisa errada e outras vezes você me convencia de que era feliz.

 

Eu era, na maior parte do tempo, durante muito tempo, é verdade. Meus filhos são adoráveis. Mas ele me deixava apavorada com a maneira como gastava dinheiro.

 

Você vai ficar bem agora tranqiiilizou-a. O importante é que você e seus filhos estão bem.

 

Eu sei. E se eu lhe emprestar o dinheiro para a passagem? perguntou ela, preocupada que ele não tivesse o dinheiro e com receio de envergonhá-lo, mas estava morrendo de vontade de vê-lo. De repente, sentia-se tão assustada e sozinha, tão solitária, e parecia que não o via há cem anos. Haviam se passado apenas um pouco mais de dois anos, mas pareciam décadas. Tantas coisas aconteceram. Ela se casara, tivera dois filhos e quase fora destruída pelo homem com quem se casara.

 

Se eu deixá-la me emprestar o dinheiro para a passagem, como você vai me diferenciar de seu marido? Falava a sério. Não queria agir do mesmo modo que Bernard, mas não conseguia nem imaginar a escala em que ele o fizera.

 

Fácil ela riu em resposta à sua pergunta, simplesmente não compre um poço de petróleo com o dinheiro.

 

Essa é uma boa ideia disse ele, rindo. Achou que ela estava brincando. Verei o que vou fazer e ligarei para você.

 

Estarei esperando disse ela com um sorriso e depois lembrou-se. Ah, antes que eu me esqueça, feliz Ano-Novo.

 

- Para você também e faça-me um favor, está bem, menina?

 

- O que é? Parecia que voltava aos velhos dias de escola apenas de falar com ele.

 

Procure se manter longe de encrenca até eu chegar aí, está bem?

 

Isso quer dizer que você virá?

 

Quer dizer que vou ver. Apenas cuide de você e das crianças neste meio-tempo. E se o soltarem da prisão, quero que você pegue um avião e venha para cá.

 

Não acredito que isso venha a acontecer. Não durante um bom tempo mas era uma sugestão sensata e ficou agradecida pela sua preocupação.

 

Depois que desligaram, Marie-Ange deitou-se. Heloise dormia ao seu lado na cama e Robert estava no berço no quarto ao lado. Sorriu consigo mesma ao pensar em Billy.

 

Naquele exato instante, ele estava falando com o pai. Tom Parker ficara mais do que um pouco assombrado com a pergunta, mas disse que achava que poderia adiantar-lhe o dinheiro, desde que Billy o reembolsasse mais tarde e Billy prometeu fazê-lo. Andara economizando para a lua-de-mel e já tinha quatrocentos dólares.

 

No entanto, quando ele voltou à sala, suas irmãs acharam-no distraído. Uma delas dirigiu-lhe a palavra e a princípio ele nem sequer ouviu.

 

O que há com você? perguntou sua irmã mais velha, enquanto entregava o bebé nos braços de seu marido.

 

Nada demais. Então, contou-lhes tudo que acontecera a Marie-Ange e todos ficaram horrorizados. Sua noiva, Debbi, ouvia com interesse, mas não disse nada. Vou a Paris disse ele, finalmente. Ela tem passado por um inferno e é o mínimo que posso fazer, pelos velhos tempos. Era impossível para qualquer um deles esquecer que ela lhe dera o Porsche.

 

Vou me mudar para Chicago falou Debbi de repente e a sala ficou em silêncio, enquanto todos a fitavam estarrecidos.

 

Por que isso agora? perguntou-lhe Billy e ela pareceu envergonhada.

 

Esperei a semana inteira para lhe contar. Arranjei um emprego e vou me mudar.

 

E então? perguntou ele, sentindo um estremecimento no estômago. Ainda não sabia ao certo se estava triste ou feliz, mas estava confuso, como já se sentia há algum tempo, quando pensava no casamento.

 

Não sei ainda respondeu Debbi sinceramente, enquanto toda a família ouvia com atenção. Acho que não devíamos nos casar. Em seguida, acrescentou num sussurro: Não quero viver numa fazenda pelo resto da vida. Eu odeio a vida na fazenda.

 

Isso é o que eu faço para viver disse ele serenamente, é quem eu sou.

 

Poderia fazer outra coisa, se quisesse ela queixou-se e ele pareceu aborrecido.

 

Vamos conversar lá fora disse ele, calmamente, entregando-lhe o casaco. Saíram juntos para a varanda, enquanto o resto da família começava a falar. Ainda não podiam acreditar no que ele contara a respeito de Marie-Ange e sua mãe preocupava-se com ela.

 

- Acha que eles vão se casar um dia? - Sua irmã mais velha perguntou-lhe a respeito de Debbi.

 

- Só Deus sabe - respondeu sua mãe encolhendo os ombros. - Eu é que não sei o que as pessoas fazem ou por que o fazem. Os que deviam se casar, não se casam. Os que não deviam mal podem esperar para fugirem juntos. A maioria das pessoas estraga tudo, se têm uma chance. A maioria, pelo menos. Alguns não, como seu pai e eu - disse ela, sorrindo para seu marido, que continuava intrigado com o que estava acontecendo ao seu redor.

 

Depois que Debbi foi embora, Billy foi direto para seu quarto, sem explicar nada a seus pais, irmãos ou irmãs, nem a seus respectivos cônjuges. Não disse absolutamente nada e fechou a porta devagar.

 

 

QUANDO O AVIÃO de Chicago aterrissou no Charles de Gaulle, Marie-Ange o aguardava, com Robert nos braços e Heloise no carrinho. Usava calças pretas, um casaco pesado e uma suéter grossa. As crianças estavam enroladas em casaquinhos vermelhos iguais que a faziam lembrar de sua infância. Segurava uma rosa solitária para Billy.

 

Viu-o assim que ele desceu do avião, com a mesma aparência de sempre quando iam de ônibus para o colégio. A única diferença é que ele não estava usando macacão, usava, jeans, camisa branca, um casaco pesado e sapatos novos que sua mãe lhe dera de presente. Aproximou-se dela caminhando descontraidamente como sempre fizera quando ela o esperava em sua bicicleta, nos locais onde costumavam se encontrar e conversar durante o verão. Sorriu assim que a viu.

 

Sem dizer nenhuma palavra, ela entregou-lhe a flor, ele segurou-a e olhou-a por um longo instante. Em seguida, abraçou-a bem junto ao peito e sentiu a seda dos seus cabelos em seu rosto, como sempre fizera. Era como uma volta ao lar para ambos, cada um era o melhor amigo que o outro já tivera e, mesmo após dois anos, havia o sentimento agradável, reconfortante e seguro de que se amavam. Era como deveria ser e quase nunca era. Era a mesma sensação que Françoise tivera na primeira vez em que vira John Hawkins de novo, em Paris, mas nenhum dos dois sabia disso. Depois que Billy a abraçou, parou para olhar seus filhos. Eram lindos e ele disse que se pareciam com ela.

 

Enquanto caminhavam em direção ao setor de bagagens, ela contou-lhe como a primeira audiência transcorrera. Estavam acusando Bernard de três tentativas de assassinato e estavam reabrindo as investigações sobre a morte de Charles, o filho de Louise. O promotor disse que, em face das novas evidências contra ele, era bem provável que ele fosse acusado de assassinato.

 

Espero que o enforquem disse Billy com uma veemência que não se lembrava de ter visto nele, mas não podia suportar a ideia do que ela passara. Tivera bastante tempo para repensar os acontecimentos no avião e, antes disso, quando Debbi mudou-se para Chicago. Haviam concordado finalmente em romper o noivado, mas ele ainda não contara a Marie-Ange. Não queria assustá-la. Ela podia ficar preocupada se soubesse que seu noivado estava desfeito.

 

Billy viera passar duas semanas e ela queria levá-lo a todas as atrações de Paris. Planejara toda a viagem para ele, o Louvre, a Torre Eiffel, o Bois de Boulogne, asTulherias, havia mil lugares que queria lhe mostrar. Depois, iriam de carro a Marmouton, apenas para que ele o visse, mas não podiam ficar lá. Teriam que pernoitar no hotel da vila e voltar para Paris no dia seguinte. Entretanto, queria ao menos andar pelos campos com ele, mostrar-lhe os pomares e pedir sua opinião se deveria ou não reconstruí-lo. Se o fizesse, não planejava repetir nenhum dos luxos excessivos de Bernard. Queria-o exatamente como nos velhos tempos, quando seus pais moravam lá. Talvez, por fim, se tornasse um bom lugar para ela e seus filhos. Ainda não decidira o que iria fazer.

 

Quando Billy pegou sua pequena mala da esteira rolante, ela olhou para ele e viu que ele estava diferente. Mais maduro, mais confiante, mais à vontade consigo mesmo. Era um homem agora. Ela também havia mudado. Passara por muita coisa e tinha dois filhos. Atravessara guerras com Bernard e finalmente saíra delas. Agora Billy estava ali e, de certa forma, nada havia mudado. Ele fitou-a e sorriu, enquanto tomava-lhe o bebé com um dos braços e ela empurrava o carrinho.

 

É como voltar para casa, não é? Ergueu os olhos para ele com um sorriso, quando ele falou, sorrindo para ela. Viu uma centelha reluzir em seus olhos e perguntou-lhe o que estava pensando. Sempre puderam ler o que ia na mente do outro.

 

Só estava pensando que estou muito feliz por você ter pulado daquela janela do banheiro. Eu ia ter que matá-lo se você não tivesse saltado.

 

Sim, eu também, quer dizer, estou feliz por ter saltado. Sorriu, enquanto continuavam andando, parecendo uma família. Não havia nenhuma razão para alguém achar que não fossem. Os quatro pareciam se pertencer. Tudo que Marie-Ange queria agora era ficar com ele pelos próximos quinze dias e conversar sobre tudo que sempre conversavam e que era importante para eles. Tinham vidas, sonhos e segredos a compartilhar, muito para conversar e explorar. E Paris para descobrir. Era como se uma porta se fechasse atrás deles e outra se abrisse bem à frente para um mundo inteiramente novo.

 

                                                                                            Danielle Stel

 

 

                      

O melhor da literatura para todos os gostos e idades