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Planeta Criança



Poesia & Contos Infantis

 

 

 


MINHAS VIDAS / Shirley MacLaine
MINHAS VIDAS / Shirley MacLaine

                                                                                                                                                   

                                                                                                                                                  

 

 

Biblio "SEBO"

 

 

 

  

"Os sonhos do homem antigo e moderno são escritos na mesma linguagem que os mitos cujos autores viveram no amanhecer da história... Creio que a linguagem simbólica é a única linguagem estrangeira que cada um de nós deve aprender. Sua compreensão nos põe em contato com uma das mais significativas fontes de sa­bedoria... Na verdade, tanto os sonhos como os mitos são impor­tantes comunicações de nós mesmos para nós mesmos."

                 Erich Fromm, A Linguagem Esquecida

 

 

 

 

                         Capítulo 1

A areia estava fria e macia, eu corria pela praia. A maré subia e ao pôr-do-sol alcançaria as estacas que sustentavam as casas ao longo da Malibu Road. Eu adorava correr pouco antes do pôr-do-sol, pois contemplar as nuvens magentas por cima das ondas ajudava a desviar minha atenção da dor intensa nas pernas. Algum instrutor de ginástica me dissera um dia que correr cinco quilôme­tros pela areia macia equivalia a correr 10 quilômetros numa su­perfície dura. E eu queria permanecer forte e saudável, não impor­tava o quanto fosse doloroso. Quando não estava dançando, estava correndo para me manter em forma.

Mas como era mesmo a história que eu ouvira no dia ante­rior... sobre os dois irmãos? Um deles era obcecado por saúde e forma física, corria pela avenida uns 10 quilômetros em todas as manhãs de sua vida, independente de como estivesse se sentindo. O outro jamais fazia qualquer exercício. E uma manhã o obcecado por saúde estava correndo pela avenida, virou-se pára sacudir a mão para o irmão preguiçoso e... pam! Ele não viu o caminhão...

Talvez não importe realmente o que façamos para nos preser­var. Sempre havia caminhões em algum lugar. O importante é não permitir que isso o impeça de fazer as coisas, não deixar que con­trole a sua vida.

Lembrei de uma ocasião à mesa de jantar, com meu pai e minha mãe, na Virgínia, onde fui criada. Tinha 12 anos e acalen­tava o pensamento de que não importava quanta felicidade pudesse ter, num momento determinado, pois estava consciente da luta por baixo. O "problema", como eu chamava então... tudo tinha algum problema inerente. Lembrei que papai dissera que eu evocara inad­vertidamente um antigo princípio grego... pitagórico, se bem me lembro. Papai era uma espécie de filósofo rural e quase tirara o seu diploma de filosofia na Universidade John Hopkins. Adorava especular sobre o sentido filosófico. Creio que herdei a mesma ca­racterística. Lembrei que ele comentara que o meu pensamento pos­suía um significado profundo, que se aplicava a toda a vida. Não importava o quão boa uma coisa pudesse parecer, sempre havia o fator negativo contrário para se considerar. O contrário também era verdade, é claro, dissera papai... mas ele parecia se concentrar no negativo. Para mim, tornou-me consciente da dualidade na vida. E olhando para as ervilhas em meu prato, eu sentira que compreen­dia alguma coisa, mas sem saber direito o que era.

 

O vento começou a soprar, encarneirando as ondas pelo mar. Maçaricos sobrevoavam as ondulações, saboreando o alimento que podiam encontrar na maré, enquanto seus graciosos irmãos pelica­nos sobrevoavam e depois mergulhavam, como loucos pilotos kamikazes, se lançando contra os cardumes que nadavam em águas mais profundas.

Tentei imaginar como seria ser uma ave, sem nada na cabeça além de voar e comer. Lembrei de ter lido que o menor dos pássa­ros podia viajar por milhares de quilômetros através do Pacífico, desembaraçado e sozinho, precisando apenas de uma peça de baga­gem... um graveto. Pedia levar o graveto no bico; quando cansava, simplesmente descia para o mar e flutuava até que estivesse pronto para retomar a jornada. Ele pescava do graveto, comia do graveto, dormia no graveto. Quem precisava do Queen Mary? Batia as asas, pegava a sua balsa no bico e tornava a partir para conhecer mais alguma coisa do mundo.

Uma vida e tanto. Especulei se aquele pássaro alguma vez se sentia solitário. Mas mesmo se estivesse sozinho, parecia perceber o rumo apropriado para a sua vida. Os pássaros aparentemente pos­suíam bússolas inatas que os guiavam para onde desejassem ir. Pareciam saber exatamente o que eram, como viver, por que esta­vam vivos. Mas tinham sentimentos? Será que se apaixonavam? Por acaso se isolavam com apenas um outro pássaro, como se fossem os dois contra tudo? Os pássaros pareciam parte integrante de tudo. Espaço, tempo, ar. Não, não era possível. Como poderiam excluir o mundo, se queriam voar sobre ele?

Lembrei de uma experiência que tivera. Chamo de experiência e não de sonho, embora tenha ocorrido quando eu dormia. Senti que estava suspensa sobre a terra, mergulhava e flutuava com as correntes de ar, exatamente como os pássaros. Enquanto era levada pelo vento, as copas das árvores roçavam gentilmente por meu corpo. Tomava o cuidado de não arrancar uma folha sequer do galho a que pertencia, porque eu também pertencia a tudo o que existia. Queria seguir mais adiante, mais depressa, mais alto, mais largo... e quanto mais alto eu subia, mais me tornava integrada, meu ser se concentrava e expandia ao mesmo tempo. Tinha a sensação de que estava realmente acontecendo, de que meu corpo era irrele­vante e de que isso era parte da experiência. O verdadeiro eu estava flutuando, livre e desimpedido, impregnado da paz da integração com tudo o que existia.

Não era o sonho de vôo de fundo sexual que os psicólogos costumam descrever. Era mais do que isso. Havia outra dimensão. A palavra que estou procurando, pensei enquanto corria, é "extra". Era por isso que eu me lembrava tão nitidamente. Sempre que me sentia insatisfeita, solitária, desnorteada por algum motivo ou ner­vosa, pensava naquela experiência e como me sentira serena, flu­tuando fora do meu corpo físico, sentindo-me integrada com tudo o que havia por cima e por baixo.

Essa sensação de pertencer a "tudo" me proporcionava mais prazer do que qualquer outra coisa. Mais prazer do que trabalhar, do que simplesmente fazer amor, do que ser bem-sucedida em qual­quer das atividades humanas a que as pessoas se devotam a fim de alcançar a felicidade. Eu adorava pensar. Adorava me concentrar. Adorava me integrar com coisas que estavam fora de mim, pois francamente acreditava que esse era o caminho para me compreen­der. Em algum lugar, dentro de mim, estavam as respostas para tudo que causava ansiedade e confusão no mundo. Que pensamento arrogante! Mas se eu pudesse entrar em contato comigo, realmente entrar em contato comigo, poderia entrar em contato com o mundo... talvez mesmo com o universo. É por isso que fui uma ativista política, uma feminista, uma viajante incessante, uma espé­cie de repórter da humanidade movida pela curiosidade. Provavel­mente foi também por isso que me tornei uma atriz. Precisava me virar para dentro e entrar em contato comigo mesma, se queria compreender o mundo e se queria ser boa em meu trabalho. Provavelmente foi esse o motivo pelo qual comecei a vida como dan­çarina. Quando dançava, estava em contato com quem eu era. O que quer que fosse... para mim, a jornada mais importante era por mim mesma.

Um vento frio levantou a areia em torno das minhas pernas enquanto eu corria. Fui diminuindo a velocidade até passar a andar, lembrando que depois de um exercido puxado é sempre bom redu­zir o ritmo gradativamente a fim de que o ácido láctico nos músculos não solidifique.

— É por isso que os músculos ficam doloridos — explicara o instrutor de ginástica. — Jamais pare abruptamente depois de um exercício puxado. Vá diminuindo o esforço lentamente. Doerá menos depois.

Eu dava atenção a tudo o que se relacionava com a cultura física, pois compreendia que me punha mais em contato comigo mesma. Respeitava meu corpo, pois era o único que eu tinha. Queria fazê-lo durar. Mas podia ser extremamente doloroso, espe­cialmente se eu passara 15 anos sem fazer praticamente qualquer exercício. O que foi uma estupidez, pensei, enquanto andava. Du­rante todos aqueles anos de representação eu pensara que meu corpo não era importante. Tivera o bom preparo formal de dançarina quando era jovem; achava que isso seria suficiente. Estava engana­da. As pessoas precisam cuidar de seus corpos todos os dias ou podem acordar uma manhã e descobrir que se recusam a fazer o que lhes mandam. Dirão então que estão velhas. Eu sempre me senti velha quando não estava em contato com o meu corpo. E o processo de integração com o meu corpo me punha mais em con­tato com o verdadeiro eu dentro desse corpo. E qual era o verda­deiro eu? O que me levava a questionar, procurar, pensar, sentir? Seria apenas o cérebro físico, as pequenas células cinzentas, ou seria a mente, que era algo mais do que o cérebro? A "mente" ou talvez a "personalidade" incluiria o que as pessoas chamavam de "alma"? Tudo estaria separado ou o ser humano era a soma de todas essas partes? Se assim era, como as partes se aglutinavam?

É sobre isso que este livro versa... a experiência de entrar em contato comigo mesma quando tinha quarenta e poucos anos, o que essa experiência fez para minha mente, indulgência, espírito, por minha paciência e convicção. É sobre a integração entre mente, corpo e espírito. E o que aprendi em decorrência permitiu-me enfrentar o resto da minha vida como um ser humano quase transformado.

Assim, este livro é sobre uma busca do meu eu... uma busca que me levou por uma longa jornada, que foi gradativamente reve­ladora e em todas as ocasiões simplesmente espantosa. Tentei man­ter a mente aberta enquanto seguia pela jornada, porque me des­cobri gentil mas firmemente exposta a dimensões de tempo e espaço que antes disso, para mim, pertenciam à ficção científica ou ao que eu descreveria como o oculto. Mas aconteceu comigo. Aconteceu lentamente. Aconteceu aparentemente num ritmo que era todo meu, como creio que acontece com todas as pessoas que passam por tais experiências. As pessoas progridem ao ponto para que estão pre­paradas. Eu devia estar pronta para o que aprendi porque era a momento certo.

 

Eu já fizera cerca de 35 filmes, alguns bons, outros ruins. Creio que aprendi com cada um, mais dos ruins do que dos bons, o que não é de surpreender. Viajara pelo mundo inteiro, às vezes em caráter particular, geralmente irreconhecível (porque eu assim o queria), às vezes como artista (e nessas ocasiões eu queria ser reconhecida), a fim de lançar um dos meus filmes, fazer um especial de televisão ou apresentar um espetáculo ao vivo. Adorava me apresentar ao vivo, porque me permitia sentir as audiências; o que pensavam, onde estavam seus interesses, os sensos de humor diferentes. Mas, acima de tudo, eu adorava conhecer novas pessoas e me lançar de frente a culturas estrangeiras, até aprender a me fundir nelas confortavel­mente.

Passei a ter uma espécie de círculo de amigos longe de minha terra e no qual me sentia inteiramente à vontade. Eram pessoas nas artes, gente de cinema de cada país que produzia filmes, escritores (eu já escrevera dois livros sobre minhas viagens e aventuras na vida, haviam sido traduzidos em quase toda parte), chefes de estado, primeiros-ministros, reis e rainhas (meu ativismo político fora devidamente noticiado, pró e contra, no mundo inteiro). Não podia haver a menor dúvida de que eu era uma pessoa privilegiada. Trabalhara arduamente para alcançar o sucesso, mas mesmo assim me sentia afortunada e, como eu disse, privilegiada por poder me encontrar e conversar com qualquer um que quisesse, de Castro ao Papa, à Rainha da Inglaterra e outras altas autoridades, os doentes e agonizantes da Índia, os camponeses revolucionários dos barrios das Filipinas, os sherpas dos Himalaias, para citar apenas alguns.

Quanto mais eu viajava e conhecia pessoas, mais minha cons­ciência social e política se tornava ativada. E quanto mais se torna­va ativada, mais eu me descobria identificada com os underdogs, os oprimidos, como meu pai os chamava. Mas, como eu ressaltara para ele, a maioria das pessoas do mundo poderia ser incluída na categoria de oprimidos. Seja como for, descobri-me a pensar cada vez mais sobre o que estava acontecendo de errado no mundo. Não se pode evitar quando se vê com os próprios olhos a miséria, fome e ódio. Comecei a viajar quando tinha 19 anos; agora, aos quaren­ta e poucos anos, podia dizer com toda objetividade que as coisas haviam piorado inexoravelmente. Para mim, o idealismo democrá­tico parecia não ser mais possível, porque as pessoas que eram parte da vida democrática estavam aparentemente mais preocupadas em servir a seus próprios interesses e, assim, contrariavam a filosofia básica do bem-estar da maioria. Não eram muitas as pessoas que respeitavam uma ética internacional. O "pensamento político" no mundo parecia estar baseado no poder político e economia mate­rial, com soluções que se exprimiam em termos de gráficos, tabelas, pesquisas e programas industriais, ignorando o ser humano indi­vidual.

Em algum lugar do planeta, em todas as ocasiões, havia guerra, violência, crime, opressão, ditadura, fome, genocídio... um espetáculo global de desespero e miséria humana. Enquanto isso, os líderes mundiais continuavam a examinar os problemas exclusiva­mente em termos dos próprios problemas, sem reconhecerem o seu relacionamento profundo com uma necessidade mais ampla e mais universal: a necessidade arraigada de alcançar uma paz de espírito perene, numa base individual, com todas as extensas implicações que isso acarretaria. Eles tinham soluções temporárias para pro­blemas permanentes. Ou, como meu papai diria, "estão pondo Band-Aids em câncer".

De«cobri-me empenhada em discussões intermináveis, no mundo inteiro, sobre se a humanidade era fundamentalmente egoísta, interesseira e preocupada com a consecução dos ganhos pessoais e confortos mais luxuosos. Descobri-me a dizer que a com­petição e o egoísmo pessoal predominavam não apenas em detri­mento da felicidade, mas também do sucesso pessoal. Parecia-me que as potências mundiais podiam reconhecer a necessidade para a unidade dos interesses humanos, mas sempre recomendavam polí­ticas econômicas mais altamente competitivas a fim de alcançar esse objetivo, o que só podia levar ao conflito humano, discórdias, guerras inevitáveis. Com toda certeza, alguma coisa estava faltando.

Depois, enquanto eu continuava a viajar, notei que algo estava mudando. As pessoas com quem eu conversava já começavam a especular sobre o que estava faltando. O tom da conversa des­locou-se da consternação e confusão para a consideração de que as respostas poderiam estar dentro de nós mesmos, como se o im­passe autocriado da humanidade nada tivesse a ver com soluções econômicas. Passamos a especular sobre a busca interior do que nós realmente significávamos, como seres humanos. Para que está­vamos aqui? Tínhamos um propósito ou éramos apenas um aciden­te transitório? O fato de sermos físicos era óbvio. Nossas necessi­dades físicas, pelo menos em teoria, constituíam a preocupação prio­ritária de governos e líderes. O fato de sermos criaturas mentais também era evidente. O mundo da mente, a dimensão mental, era atendido pela educação, artes, ciências, os centros do saber.

Mas não éramos todos também espirituais? Descobri que mais e mais pessoas estavam se concentrando na questão da espirituali­dade interior, que por tanto tempo ficara à míngua de reconheci­mento. A confusão não derivava do fato de a espiritualidade não ser óbvia, mas invisível? As religiões do mundo não pareciam satis­fazer ou explicar nossas necessidades espirituais. Ao contrário, a Igreja parecia mais dividir as pessoas do que uni-las, quer se se­guisse o cristianismo, islamismo, judaísmo ou budismo. O mundo parecia até estar se encaminhando para uma era de Guerra Santa, com a ascensão violenta do orgulho islâmico no mundo árabe, o fundamentalismo cristão entre a chamada maioria moral da Amé­rica, o sionismo militante em Israel.

Descobri-me em contato com uma extensa rede de amigos no mundo inteiro que estavam empenhados em sua própria busca es­piritual. Levantávamos questões sobre o propósito e significado hu­mano em relação não apenas com a nossa perspectiva física de vida na terra, mas também da perspectiva metafísica em relação ao tempo e espaço. Começou a parecer possível que esta vida não fosse tudo o que existia. Talvez o plano físico da existência não fosse o único plano de existência. Havia a possibilidade maravilho­sa de que a verdadeira realidade fosse muito mais.

Em outras palavras, talvez Buckminster Fuller estivesse certo quando dizia que 99 por cento da realidade eram invisíveis; nossa incapacidade de reconhecer essa realidade invisível era uma decorrência do que agora se referia comumente como a nossa consciência perdida.

Quando comecei a me formular essas perguntas e descobri uma afinidade autêntica com outros que estavam também envolvidos na busca interior, minha vida mudou e o mesmo aconteceu com minha perspectiva. Foi emocionante, às vezes assustador, sempre desconcertante, porque me levou a reavaliar o que significava estar viva. Talvez, como seres humanos, fôssemos realmente parte de uma ex­periência em andamento, a continuar por muito tempo depois de julgarmos estar mortos. Talvez não existisse a coisa a que chamávamos de morte.

Mas estou me antecipando.

 

O sol estava se pondo e tremeluzindo além das colinas de Point Dume. Lembrei que já me postara naquelas colinas, a con­templar as ondas se esboroando no Pacífico lá embaixo, indagan­do se a raça humana realmente começara no mar. O Pacífico sempre me lembrava do meu amigo David. Ou talvez ele estivesse muito em meus pensamentos atualmente porque eu parecia estar chegan­do a um momento decisivo na minha vida e David fosse uma pessoa fácil da se conversar. O que ele dissera? Alguma coisa a respeito da necessidade espiritual de respeitar igualmente tanto o positivo como o negativo na vida.

— É impossível ter um sem o outro — afirmara David. — A vida é a combustão dos dois. Tente apenas sobrepujar o negativo com o positivo e será muito mais feliz.

— Não se precisa ser um cientista espacial para saber disso... mas vivenciar é muito diferente — eu respondera.

David era um homem interessante. Com 55 anos, era terno e gentil, os malares salientes, um sorriso suave e triste. Eu o conhece­ra numa galeria de arte no Village, em Nova York. Firmamos uma amizade porque eu me sentia completamente à vontade em sua companhia. David era pintor e poeta, sentia-se à vontade em qual­quer lugar, pois era um observador da vida. Em Manhattan, ficá­vamos andando por horas a fio, observando as pessoas e imaginan­do o que estariam pensando. Quando ele estava na Califórnia, o que acontecia com freqüência, passeávamos pela praia, em Malibu. David também adorava viajar e já fora a muitos lugares, da África e Índia ao Extremo Oriente, Europa e América do Sul. Pintava e escrevia durante as viagens. Não lhe saía muito caro, porque tra­balhava em sua volta pelo mundo, nas mais diversas atividades. Já fora casado. Não costumava falar a respeito, mas comentou um dia que fora "alguém que vive às pressas". Quando perguntei o que isso significava, ele acenou com a mão e disse:

— Está no passado. Não aceito mais os carros velozes, a vida movimentada... esse tipo de coisa. Agora estou sozinho e feliz.

Eu também não falava muito sobre a minha vida pessoal. Não era essa a natureza do nosso relacionamento. Ele se dedicava tam­bém a uma porção de coisas para as quais eu não tinha tempo, como reencarnação, recordação de vidas anteriores, justiça cósmica, freqüências vibracionais, combinação de alimentos, esclarecimento espiritual, meditação, auto-realização e só Deus sabe o que mais. Ele falava a sério a respeito de tudo isso e aparentemente com pro­fundo conhecimento. Mas a maior parte me entrava por um ouvido e saía pelo outro, pois eu estava absorvida nos roteiros para filmes, especiais de televisão, novos números para minhas apresentações ao vivo, emagrecer e Gerry. Queria conversar com David a respeito de Gerry. Mas, por causa das circunstâncias, não podia conversar com ninguém a respeito de Gerry, nem mesmo com David.

 

Agora, enquanto uma brisa mais fria começava a soprar, eu podia sentir o suor escorrendo dos cabelos pela nuca. As pernas doíam, mas era uma sensação agradável. Fizera uma corrida puxa­da. Era como uma dor satisfeita. Talvez, como David dissera, fosse o preço por tudo na vida. E quando se chegava ao lugar apropriado, depois da luta, não mais doeria.

Lancei um último olhar para o sol poente e depois subi a es­cada de madeira que levava à praia. Adorava aquela escada, esca­lavrada e abalada por marés e tempestades. Há 20 anos que a usava, desde que construíra o prédio de apartamentos, com o pagamento recebido por meu primeiro filme, O Terceiro Tiro, de Alfred Hitchcock. A primeira coisa que fiz foi obter um empréstimo, a fim de construir um prédio, onde poderia alugar apartamentos e viver sem pagar aluguel... para o caso de ser atropelada por um cami­nhão e não poder mais trabalhar. Acho que se trata de uma mani­festação da minha criação de classe média. Sempre se precavenha contra o futuro. Nunca se sabe.

Lavei a areia dos pés num chuveiro no alto da escada. Não devia entrar com areia no apartamento. Ficava no carpete, que o decorador me dissera que jamais deveria colocar num apartamento à beira da praia.

Subi os degraus que levavam ao pátio. Parei e contemplei o pátio, que eu mesma arrumara, completo, com uma árvore bonsai de Kioto e um pequeno córrego que fluía constantemente. Os anos que passara no Extremo Oriente, especialmente no Japão, haviam me influenciado profundamente. O senso espartano de respeito pela natureza que lá se encontra era algo que me comovia. Como eram tão castigados pela natureza, os japoneses não tinham outra opção que não a de se harmonizarem com ela. Não acreditavam em con­quistá-la, como fazíamos no Ocidente. Usavam-na e se tornavam parte dela... Isto é, até que trocaram o respeito pela natureza em favor do respeito pelos negócios e lucros. E quando o Japão se tornou poluído, parei de visitá-lo. Especulava sobre quanto tempo se passaria antes que o mundo inteiro industrializasse a natureza, a fim de poder ganhar mais dinheiro. Imagino que se trata de uma posição simplista, mas era assim que me parecia.

Ouvi o telefone tocar em meu apartamento. Quase tropecei ao correr para atender antes que parasse de tocar. Os telefones exer­ciam esse efeito sobre mim. Eu era capaz de atender ao telefone dos outros, se estivesse por perto quando tocava. Alguma coisa a ver com ser eficiente, rápida e caprichosa. Incomodavam-me as pessoas que deixavam um telefone tocar quatro vezes antes de atenderem. Para mim isso era desleixo... pura e simplesmente desleixo e preguiça.

Corri pela porta para a sala de estar, mergulhei para o telefone no chão. Tive de rir de mim mesma. Quem podia ser tão importante assim? E se fosse, ligaria de novo.

— Alô? — balbuciei ofegante, imaginando o que a pessoa no outro lado da linha pensaria que eu estivera fazendo.

— Alô... — Era Gerry. — Como você está?

Eu podia ouvir a telefonista internacional ao fundo. O rosto de Gerry, os cabelos caindo pela testa, olhos pretos suaves, aflorou em minha mente.

— Estou muito bem — respondi, contente porque ele não podia ver como eu estava feliz por ouvir a sua voz. — E como estão as coisas com Sua Majestade?

— Estamos entrando em declínio na Inglaterra com toda classe — gracejou ele, com uma pontada de preocupação que eu já aprendera a perceber.

Limpei a garganta e disse:

— Classe é uma qualidade que todos admiram.

— Tem razão. Estou fazendo o que posso para evitar que o navio afunde completamente.

Pude senti-lo pegar um cigarro e aspirar a fumaça suavemente.

— Gerry...

— O que é?

— Como está a sua campanha? Tem feito algum progresso?

— Está tudo bem. — Mas senti uma ligeira depressão na voz dele. — É um processo longo e lento. As pessoas precisam ser instruídas e ensinadas com golpes firmes e suaves. O equilíbrio entre as duas coisas não é fácil. Mas falaremos sobre isso quando estivermos juntos.

— E isso vai acontecer em breve?

— Espero que sim. Pode se encontrar comigo neste fim de semana em Honolulu? Tenho uma conferência sobre Economia Norte-Sul.

— Claro que posso. Mas não haverá muitos jornalistas presentes?

— É evidente que sim.

— E não há problema?

— Nenhum.

— Está disposto a correr o risco?

— Estou.

— Muito bem. Estarei lá. Quando?

— Na sexta-feira.

— Onde?

— Kahala Hilton. Preciso desligar agora. Tenho uma reunião com meu subsecretário. Ele está esperando.

— Está certo. Até o fim de semana.

— Até lá.

Ele desligou. As despedidas pelo telefone com Gerry nunca eram prolongadas. Seu comportamento e hábito profissionais impe­diam esse tipo de coisa. Sua vida pessoal era outra coisa.

Desliguei também, tomei um banho de chuveiro, peguei o carro e parti, mais devagar do que o habitual, para a minha casa grande em Encino.

Adorava sentar ao volante num carro da Califórnia, andando devagar pelas estradas largas e pensando. Adorava pensar na Califórnia. Nova York era tão movimentada que só havia tempo para agir por instinto e sobrevivência, o que eu achava criativo e emocionante. Na Califórnia, porém, eu podia refletir. É claro que a Califórnia não era chamada de Big Orange de graça. A pessoa podia se tornar uma laranja se não tomasse cuidado. Assim, Big Apple, como Nova York era conhecida, era para mim um lugar em que podia fazer as coisas em que pensara em Big Orange. Gerry não fora ainda capaz de ir à Califórnia desde que eu o conhecera.

Lembrei da primeira noite que passáramos juntos em Nova York. Na verdade, eu já lhe fora apresentada diversas vezes antes, quando estava em Londres e novamente quando ele fora a Nova York para uma grande manifestação contra a guerra do Vietnam. Eu ficara impressionada com a sua fala suave e segura, a mente brilhante e ágil. Ele estava no Parlamento, um socialista, acredita­va que podia fazer a Inglaterra voltar a funcionar.

Não era pomposo como tantos ingleses bem-educados que eu conhecia. Ao contrário, era justamente o oposto, um homem imen­so, passando em muito do l,80m de altura, ombros e braços que me faziam pensar num urso que queria abraçar o mundo. Descon­traído e exuberante. O corpo movia-se de maneira descuidada, a camisa se abria, a gravata pendia torta para um lado. Quando se sentia excitado com alguma coisa, uma mecha de cabelos caía pelos olhos. E quando ficava andando de um lado para outro de uma sala, em passadas largas, procurando pela melhor maneira de apre­sentar um argumento, tinha-se a impressão de que a sala se incli­nava ao seu peso. Parecia inconsciente à própria imponência. Mui­tas vezes tinha um buraco na meia. Os olhos eram úmidos e pretos. Faziam-me pensar em azeitonas pretas.

Quando fôramos apresentados pela primeira vez, em Londres, eu estava me apresentando no Palladium. Ele foi aos bastidores. Simpatizei com ele imediatamente. Não conhecia muito da política inglesa, mas ele me pareceu franco, de inteligência penetrante, invo­luntariamente divertido. Ao deixar meu camarim, andava tão deli­beradamente que tropeçou numa cadeira... mas não antes de ter aberto o armário embutido, pensando que era a porta de saída.

Assim, quando ele foi a Nova York, um ano depois, e me te­lefonou, eu disse que sim, que adoraria jantar em sua companhia.

Fomos a um restaurante indiano na Rua 58. Ele não comeu muito. Mal parecia perceber que a comida estava ali. E demons­trou o hábito de fixar os olhos em minha boca quando precisava pensar num argumento que estava formulando. Pensei que ele gos­tava dos meus lábios, mas no fundo pensava apenas no que ia dizer em seguida.

Depois do jantar, seguimos a pé para o Elaine's, na esquina da Rua 58 com a Segunda Avenida. Gerry queria conhecer o lugar em que o pessoal da minha roda se reunia. Eu usava saltos altos e finos, sentia-me desconfortável, não conseguia acompanhar suas passadas longas. E tinha uma bolha num pé.

As pessoas olharam quando entramos no Elaine's. Mas eu não fui a única que notaram, apesar do terno amarfanhado e dos sapa­tos arranhados de Gerry. Seja como for, ninguém nos incomodou. Pedimos uma salada de lula e tomamos alguns drinques. Conver­samos sobre Nova York e Londres. Quando estávamos prestes a sair, informei-o que iria a Londres dentro de uma semana, a fim de conversar sobre o roteiro de um novo filme, aproveitaria para lhe telefonar.

Uma limusine deveria buscá-lo e levar para alguma conferên­cia política no interior do estado. Mas o carro nunca apareceu. E assim ele foi para o meu apartamento, esquadrinhando as minhas estantes, cheias de livros sobre a China, show business, política ame­ricana, teoria marxista e balé. Ele estava discorrendo sobre a ne­cessidade de liberdade numa sociedade socialista, por cima da mesi­nha de café, quando os cabelos caíram sobre os olhos. Foi assim que tudo começou. Estendi a mão para tocar em seus cabelos. Pre­cisava saber qual era a sensação. E tão simples e facilmente como se nos conhecêssemos por toda a vida, Gerry desviou o rosto da biografia de Marx que estava segurando, fitou-me nos olhos e depois enlaçou-me. Assim ficamos por um momento e senti-me completa­mente perdida. Aquilo jamais me acontecera antes ou pelo menos não assim. Não podia compreender na ocasião, mas era parte do enigma que eu iria montar mais tarde.

 

Quando nos levantamos pela manhã, servi-lhe chá e biscoitos. Es­távamos sentados em minha cozinha ensolarada. Podia-se ver a pon­te da Rua 59 pela janela.

— Você vai a Londres na próxima semana? — perguntou Gerry.

Respondi que sim.

— Poderemos nos encontrar lá?

Respondi que sim.

— E poderá me acompanhar a Paris na semana seguinte?

Respondi que sim mais uma vez. Com uma determinação inabalável, ele levantou-se e encaminhou-se para o que julgava ser a porta da frente do apartamento. Não era. Terminou voltando ao quarto. Mas virou-se na direção correta e foi embora. Não se des­pediu, nem mesmo olhou para trás.

Acertei tudo para ter as reuniões sobre o roteiro em Londres e ao mesmo tempo me encontrar com Gerry. No mundo do cinema, passa-se muito tempo a discutir roteiros que nunca são convertidos em filmes. Era o caso com aquele roteiro. Senti-me contente por ter Gerry, pois assim a viagem a Londres não seria um total desperdício. Pergunto-me às vezes se o roteiro não me pareceria melhor se não tivesse Gerry para distrair-me a atenção. Seja como for, toda Londres parecia estar em greve quando cheguei. Gerry tinha razão. O navio estava afundando, mas eu duvidava que isso acontecesse com alguma classe, apesar do chá das cinco e dos passeios por ma­nhãs de neblina em Hyde Park. Mas tudo o que realmente impor­tava para mim era o cheiro de seu casaco de tweed, os cabelos abun­dantes caindo pelo rosto, a suavidade de seus dedos em meu rosto e a maneira como me envolvia em seus braços imensos, parecendo excluir a realidade de que não apenas a Inglaterra e o meu roteiro estavam em perigo, mas também o mundo inteiro.

Tomamos a precaução de não sermos vistos quando estávamos juntos (fiquei no apartamento de uma amiga). Além do mais, Gerry era conhecido por apreciar a sua privacidade quando andava pelas ruas da cidade em que fora criado.

Fui para Paris depois de alguns dias e Gerry se encontrou comigo lá no dia seguinte. Contemplávamos os telhados de St. Germain pela janela do meu quarto de hotel. Depois que fazíamos amor, jamais conversávamos sobre o nosso relacionamento ou o que significávamos um para o outro. Gerry e eu jamais falávamos sobre a esposa dele ou a minha vida pessoal. Não era necessário, não pre­cisávamos entrar nessas coisas... até a noite em que ele me levou para jantar fora e uma mesa cheia de jornalistas ingleses nos reco­nheceu. Eles sorriram e acenaram. Gerry ficou paralisado, não pôde comer. Ele explicou como isso magoaria sua esposa... como ela seria incapaz de aceitar, como deveríamos avançar mais devagar. Eu disse que estava certo... mas ele não pensara em tudo isso quando começáramos? Gerry estava tão apavorado que me senti en­ternecida. Ele não conseguiu dormir naquela noite. Disse que sua mente era um turbilhão de confusão. Ofereci-me para sair, a fim de que ele pudesse recuperar o equilíbrio. Ficamos separados por um dia inteiro, enquanto ele comparecia a conferências e reuniões. Eu já estava mesmo planejando partir quando Gerry, num desespero solitário, me telefonou.

Ele disse que não podia suportar que eu fosse embora. Sentia uma terrível saudade de mim, precisávamos nos encontrar de novo.

Fomos nos encontrar fora de Paris, em St. Germain en Laye. Ele se lançou sobre mim com beijos e carícias. Abraçou-me tão forte que senti que ele não conseguia respirar. Parecia desamparado e ponderado, suplicante e exigente, tudo ao mesmo tempo. Era algo raro, real, franco, direto, um pouco assustador.

Disse que nunca antes, em toda a sua vida, fizera algo assim. Sentia-se confuso e terrivelmente culpado. Falou sobre a situação do mundo e como queria dar uma contribuição para melhorá-lo. Fa­lou sobre os princípios democrata-socialistas e como era possível ter as duas coisas ao mesmo tempo, se os ricos estivessem dispostos a partilhar mais de suas riquezas.

Foi suave e sussurrante, a voz se alteou em desafio e ímpeto, quase como se estivesse experimentando com as muitas facetas de sua personalidade. Nada indagou a meu respeito ou se havia outros homens que eu pudesse conhecer ou com os quais estivesse envolvida.

Parecia um expurgo emocional para Gerry. E quando chegou o momento de nos separarmos, ele foi comedido, não se mostrou absolutamente sentimental.

Indagou se eu estaria bem voltando à América. Respondi que já encontrara o caminho de volta de lugares mais selvagens que o interior francês. Gerry pediu desculpas por seu comportamento em Paris e disse que me procuraria em breve. Sem movimentos supér­fluos, despediu-se em sua maneira inglesa espartana, abriu a porta e saiu. Só houve um problema: ao invés de sair, ele abriu a porta do armário embutido e entrou. Gerry riu, sem dizer nada, conseguiu sair pela porta certa.

O quarto a que déramos vida por dois dias pareceu ficar su­bitamente inativo e silencioso. As paredes davam a impressão de estar se fechando sobre mim. E nenhum dos dois mencionara a palavra "amor". Senti que de alguma forma fora compelida a me en­volver naquele relacionamento; sabia que não podia oferecer muito mais que obstáculos irreconciliáveis. A questão era só uma: Por quê?

 

                                       Capítulo 2

Passei pelo Malibu Canyon e entrei na Venturs Freeway. Não havia muito tráfego. O Vale de San Fernando estendia-se à minha frente, as luzes das casas começando a piscar, como uma gigantesca caixa de jóias na noite. Lembrei-me de que haviam levado Kruschev ao vale quando ele estivera na Califórnia. Alegaram que era a Amé­rica em progresso. Era mesmo um lugar bonito, quando se olhava da perspectiva correta. Afora isso, porém, todos faziam piadas a respeito do Vale de San Fernando... como dizer que uma pessoa na pior só tinha uma coisa a seu favor, o fato de não viver no vale.

Deixei a auto-estrada e entrei na minha rua. Subindo pelo ca­minho longo, podia sentir os galhos baixos das cerejeiras roçando no teto do carro. Adorava aquelas árvores. Faziam-me lembrar as cerejeiras que meu ex-marido Steve e eu tínhamos na casa dele no Japão, antes do nosso divórcio. Steve as plantara quando morava num bairro residencial de Tóquio chamado Shibuya. Ele queria que eu ficasse, vivesse e trabalhasse na Ásia. Eu queria viver e traba­lhar na América, não porque tivesse nascido lá, mas sim porque era a minha área profissional. Discutimos o dilema e resolvemos tentar converter o globo terrestre numa bola de golfe, fazendo as duas coisas.

Até que deu certo, por algum tempo. Mas, gradativamente, fo­mos desenvolvendo vidas em separado. Permanecemos amigos, en­quanto criávamos nossa filha Sachi, que passou os primeiros sete anos de sua vida comigo na América, os seis anos seguintes numa escola internacional no Japão e os anos escolares restantes na Suíça e Inglaterra. Sachi aprendeu a falar, ler e escrever japonês (o que significava que podia ler a maioria das línguas orientais), começou a pensar e perceber como uma oriental. Isso era às vezes engraçado, pois Sachi é uma loura sardenta, com o mapa da Irlanda estampado no rosto, braços e pernas desengonçados de uma ocidental que ela consegue de alguma forma orquestrar como se estivesse usando um quimono e obi restritivos, quando anda e senta. Ela ainda se ajoelha numa sala de estar e fica olhando com uma expressão de adoração para a pessoa que está falando, qualquer que seja. Seu semblante de Alice-no-País-das-Maravilhas pode ser desconcertante, mesmo quando penso que a compreendo. O que tenho na verdade é uma combinação do pensamento ocidental, franco e direto, temperado com a ambigüidade asiática indireta, geralmente empregada para salvar o que poderia ser um comentário embaraçoso, indelicado ou insen­sível.

Aprendi muita coisa da Ásia por intermédio de Sachi, embora ela não tivesse a menor intenção de me ensinar. Ela pertence a essa nova espécie de pessoas cujo sangue e linhagem são ocidentais, mas cuja psicologia e processos de pensamento são meio asiáticos. No caso de Sachi, isso foi o resultado da convicção da "bola de golfe" que Steve e eu tivéramos no início do casamento. Como acontece com tudo, tem a sua dualidade, as vantagens e desvantagens. A lon­go prazo, porém, eu diria que as vantagens superam as desvantagens, quanto menos não seja pelo fato de que Sachi é uma combinação de dois mundos... e se ela puder se ajustar, será capaz de ajudar um a compreender o outro. Sachi estudou em Paris. Diz que foi muito mais difícil alcançar o ajustamento sociológico e cultural por lá. A propósito da rudeza e cinismo parisienses, ela disse:

— Não é nada fácil, mamãe, fazer uma reverência com a po­lidez japonesa e ao mesmo tempo dizer "vá tomar no rabo!"

Minha casa estava no alto da colina, aprazível e aconchegante. "MacLaine Mountain", como um dos meus amigos a chamara, es­peculando se alguma vez eu cairia de lá. É claro que ninguém podia imaginar que já me fizera muitas vezes a mesma indagação.

Meu amigo David gracejara que a montanha mais alta que es­tava escalando era eu mesma. David não tinha muito tempo para conversa fiada, mas podia fazer com que o momento mais trivial parecesse importante. Como na ocasião em que descascou uma la­ranja como uma flor e o suco da fruta escorreu por seu queixo en­quanto a comia. Disse que não havia acasos na vida, que todos significávamos basicamente algo importante uns para os outros, se abríssemos nossos corações e sentimentos, não tivéssemos medo das conseqüências. Quando ele estava na Califórnia, passeávamos pela praia e almoçávamos num restaurante de comida natural, depois da aula de ioga. David tantas vezes sugeriu que parei de "escalar" a mim mesma, lançando-me em vez disso numa jornada para "dentro" de mim.

— É onde se encontra tudo o que você está procurando — disse ele. — O que há com você? Por que não arruma o tempo necessário para olhar?

David não chegou a falar isso com irritação, mas sim com im­paciência. Deu-me para ler livros de ensinamentos espirituais. Di­zia-me que eu devia entrar mais em contato com a minha verdadeira identidade. Eu não compreendia realmente o que ele estava que­rendo dizer. Sempre pensara que era justamente o que estava fazendo. Mas, aparentemente, David referia-se a um nível diferente. Quando eu lhe perguntava, ele jamais explicava. Dizia que bastava que eu pensasse a respeito e acabaria entendendo. Pensei muito em suas palavras, li apressadamente os livros, mas continuei a encarar tudo de frente, feliz, com a mente aberta. Podia não ser totalmente sa­tisfatório, mas certamente era funcional.

Eu não era uma pessoa infeliz... de jeito nenhum. E sempre pensei que tinha uma boa noção da minha identidade. Era o que todos diziam a meu respeito. "Ela sabe quem é", comentavam. Na verdade, era às vezes difícil me relacionar com as queixas dos movimentos feministas de que haviam sido destituídas de suas identidades de mulher. Eu nunca tivera essa experiência na vida. E às vezes sentia-me justamente o contrário. Parecia tão certa do que sentia e do que queria que havia quem se queixasse de que eu era liberada demais, que não precisava de ninguém.

Mas eu já não tinha mais tanta certeza. Talvez David estivesse certo. Era possível que ele estivesse vendo em mim algo muito mais profundo do que eu podia perceber, porque já estava tão liberada. E talvez por causa disso eu devesse compreender que tinha um longo caminho a percorrer. É difícil saber que algo lá no fundo está fal­tando quando a gente se sente vitoriosa e ocupada, responsável e criativa.

Senti o aroma da excelente comida francesa de Marie flutuando pelo caminho. Tinha o melhor restaurante da cidade, só que docil­mente convidava alguém para comer. Gostava de ficar sozinha e além do mais me sentia contrafeita ao receber, especialmente quan­do podia aproveitar o tempo para ler ou escrever.

Batendo a porta da frente para Marie saber que eu chegara, gritei que ia tomar um banho e descansar um pouco antes do jantar.

Subi a escada de dois em dois degraus, embora não houvesse necessidade de correr, quebrei uma unha ao abrir a porta do quarto. Mas lá estava o quarto que eu amava, amplo, azul, revigorante, à minha espera.

Adorava o meu quarto azul, com a sala de estar-escritório adja­cente, tanto quanto uma pessoa pode amar um cômodo. Passava horas a fio ali, sozinha. Sabia que podia trancar a porta e me isolar do mundo, sem parecer impolida ou anti-social. Poderia viver ali e jamais querer qualquer outra coisa. Nunca me sentia desligada na­quele quarto. Eu o projetara pessoalmente. O azul era bastante cla­ro, mas vibrante o suficiente para dar vida tanto ao amanhecer como ao anoitecer. As cortinas eram finas, estendendo-se por uma parede corrediça de vidro sólido, que proporcionava uma vista espetacular do Vale de San Fernando e das montanhas mais além... monta­nhas que sempre me pegavam de surpresa num fim de tarde claro. Os móveis eram estofados com veludo azul e a cama tinha uma colcha de cetim.

Já ouvira falar de uma artista de cinema que caíra da cama porque dormia em lençóis de cetim. Gostava dos meus lençóis co­muns porque geralmente lia e escrevia na cama, sempre que não queria me sentir uma profissional. Tinha livros e cadernos de ano­tações espalhados ao meu redor. Sempre que embatucava numa tran­sição ou em algum ponto de uma história, ligava o cobertor elétrico, bem quente, tirava um pequeno cochilo, com todos os livros e ano­tações na cama. Ao acordar, geralmente já encontrara a solução para o impasse que me incomodava. Adorava me sentir sozinha em meu lindo quarto, sem mais nada além de mim e qualquer coisa em que quisesse pensar. Era uma sensação de plenitude e realização saber que me concentrara profundamente em alguma coisa e esque­cera inteiramente de tudo a meu próprio respeito. Talvez David es­tivesse certo. Talvez eu devesse mesmo aprender a meditar... a meditar profundamente. Talvez descobrisse a coisa a que ele se re­feria.

Entrei no meu quarto de vestir e tirei a roupa. Era todo espe­lhado. Espelhos nas quatro paredes e no teto... um monumento à vaidade, pensei, uma coisa que me constrangia, porque não me im­portava muito com a minha aparência quando não estava traba­lhando em algum filme.

Abri uma das portas espelhadas do meu armário, a fim de pegar um roupão. Imaginei o que Geny pensaria de meu armário de estrela de cinema, atulhado de roupas dos filmes que eu fizera ou que comprara em quase todas as grandes cidades do mundo. Ima­ginei o que ele pensaria se eu lhe dissesse que adorava a sensação de lindas pérolas em torno do meu pescoço, ao mesmo tempo em que me sentia ostentosa e deslocada quando as usava. Imaginei o que ele pensaria se eu lhe dissesse que adorava me aconchegar num macio casaco de zibelina, mas raramente o usava, embora o tivesse ganhado apenas por posar para um anúncio. Imaginei como ele se sentiria ao saber que eu adorava viajar no Concorde, contra o qual Gerry fizera uma vigorosa campanha.

Eu queria conversar com ele, explicar como ganhara muito di­nheiro, como isso me fazia sentir da elite num mundo na miséria, por saber que podia comprar qualquer coisa que desejasse. Queria perguntar o que ele faria se pudesse exigir muito dinheiro por seus serviços. Eu o vira observar minha bagagem luxuosa no hotel em Paris. Ele pensaria que as manifestações físicas de riqueza adquirida violavam os princípios socialistas? O fato de nascer pobre fazia com que alguém se tornasse automaticamente bom? Eu gostaria de con­versar com ele a respeito de tudo isso, mas não podia fazê-lo. Certa vez lhe perguntara se a esposa tinha lindas roupas e malas que du­rariam uma vida inteira. Ao que Gerry me respondera:

— Não. Minha esposa é uma marxista. Ela nem mesmo gosta que use luvas de couro no inverno.

Peguei um roupão e olhei ao redor. Uma das paredes espelha­das era uma porta corrediça, dando para uma varanda com uma cascata, plantas e flores tropicais. Eram cuidadas por um jardineiro japonês que as amava como crianças e acreditava que Peter Tomkins estava correto, que as plantas realmente tinham emoções. Lem­brei como Gerry me julgara tola quando eu lhe mencionara tal con­ceito pela primeira vez.

— Plantas podem sentir? — Ele rira. — Pois estou contente que elas não possam responder.

Eu sentira vontade de prolongar a conversa, mas a risada sardônica de Gerry cortara tal desejo pela raiz, por assim dizer. Muitas vezes eu ansiara em esmiuçar alguma idéia metafísica estapafúrdia, que poderia se tornar um fato científico incontestável dentro de 20 anos. Mas Gerry era o tipo de homem que lidava apenas com as coisas de que tinha provas, o que podia ver, o que podia assim pa­rodiar ou comentar em termos sociológicos, em seus acessos ocasio­nais de humor negro. O que deixava muitas possibilidades.

O banheiro era o meu cômodo predileto. Ficava ao lado do quarto de vestir, no outro lado do terraço. Uma banheira quadrada de mármore, afundada no chão, dava para a cascata, onde a ilumi­nação indireta fazia agora a água dançar, ao crepúsculo. Havia dois vasos e duas pias de mármore rosa, um chuveiro em latão no alto da banheira. Eu adorava o fato da banheira ser tão funda que não precisava de cortina para proteger o carpete dos respingos do chu­veiro.

Inclinei-me e abri a torneira da banheira. Água quente sempre me fazia sentir melhor. Freqüentemente, não importava em que lugar do mundo estivesse, uma banheira de água quente mudava o meu ânimo para a felicidade.

Agora, bastou estender as mãos para o fluxo de água quente e já comecei a me sentir mais relaxada.

Suspirei de satisfação e entrei na água quente com a espuma de sabonete VitaBath. Pensei em minha mãe. Ela também adorava ba­nho quente. Lembrei como ela se acomodava na banheira e ficava pensando. Sempre me perguntei se ela poderia estar pensando na maneira de sair... sair de sua vida. Parecia que tudo o que mamãe fazia era por papai. E, depois dele, pelos filhos. Creio que o mesmo acontece com a mãe de todo mundo. O trabalho dela na cozinha era entremeado de suspiros profundos. Muitas vezes dava um jeito de queimar alguma coisa e então retorcia as mãos. E suas mãos ado­ráveis eram a sua parte mais expressiva. Eu sabia sempre como ela se sentia pela simples observação dos dedos compridos e esguios, que nunca paravam de se retorcer ou de mexer com alguma coisa no pescoço ou nos pulsos. Ela estava sempre ajeitando uma suéter de gola alta (a lã em contato com a pele a incomodava) ou brincando com as pulseiras de prata. Eu podia compreender que ela apreciava a sensualidade das pulseiras deslizando por seus dedos. Mas havia uma contradição, porque às vezes eu sentia que ela estava sufocando de frustração. Queria compreender essa contradição, clamar que ela esclarecesse o que estava sentindo... mas quando mamãe alcançava um certo grau de desespero, antes que pudesse definir meu próprio pensamento, ela já se lançava a outro projeto, como descascar ba­tatas ou fazer um bolo.

Papai sabia que mamãe sonhara em ser uma atriz e por isso dizia que a maior parte do que ela fazia era uma representação. Os dois, na verdade, eram como uma dupla de vaudeville. Creio que papai comentou uma vez que pensara em fugir com um circo quando tinha 14 anos de idade. Ele adorava os trens e viajar, dizia que nem precisaria de maquilagem para bancar o palhaço. E tinha um jeito de atrair as atenções como nenhuma outra pessoa que já conheci. Geralmente o fazia com o cachimbo. Independente do lu­gar em que estivesse sentado numa sala, tornava-se o centro. Sua cadeira virava um palco e os amigos ou a família tornavam-se a platéia. Ele enganchava uma perna por cima da outra, pegava o cachimbo e batia no calcanhar, como se estivesse impondo ordem a uma reunião. Um pouco de cinza se derramava do fornilho para o tapete.

A esta altura, as pessoas na sala já se mostravam apreensivamente atentas. Papai então deixava escapar um suspiro profundo, descruzava as pernas, grunhia um pouco e se inclinava para resol­ver o que fazer com a cinza. Era o que mais atraía as atenções. Ele recolheria a cinza? Gentilmente pegaria o naco de cinza entre os dedos, tomando cuidado para não desmanchá-la em poeira? Ou pegaria a tampa de uma caixa de fósforos na estante de cachimbos ao lado de sua cadeira, a fim de recolher a cinza? Nunca ocorreu a qualquer espectador se oferecer para ajudá-lo. Era um exercício cientificamente manipulado que exigia uma habilidade tão grande que seria a mesma coisa que entrar correndo no palco para ajudar Laurence Olivier a recuperar um adereço que ele largara proposi-talmente.

Papai geralmente recolhia a cinza com a tampa da caixa de fósforos. Contudo, ainda meio encurvado, ele descobria, pelo canto dos olhos, um fio solto no ombro de seu paletó. Com o cachimbo nas mãos, a tampa da caixa de fósforos na outra, o foco da atenção nas cinzas, ele cuidava de remover, lenta mas firmemente, qualquer fio solto que pudesse discernir, enquanto todos na sala aguarda­vam na maior expectativa o destino da cinza. Consumada a con­quista das atenções totais, ele se sentia um homem realizado, feliz. Mas se ninguém lhe prestava qualquer atenção, papai se embriagava implacavelmente.

Mamãe geralmente se levantava e ia ao banheiro, só voltando depois que sentia que o ato de papai chegara ao final. Sugeria então uma boa torta de maçã que ela própria fizera. Encaminhando-se para a cozinha, ela podia esbarrar em algum móvel, o que produziria um gesto surpreso de compaixão de quem estivesse mais perto. Enquanto isso, papai sugava o cachimbo e bebia lentamente do copo com uísque e leite, que não misturava, sabendo que ma­mãe conseguira roubar a cena, tentando compreender por que uma peça devia ter mais de um personagem central. Não é de admirar que Warren e eu tenhamos nos tornado atores: aprendemos com os melhores.

Mamãe se apresentara certa ocasião numa peça em teatro amador, contando a história de uma mãe que lentamente enlouque­cia. Os ensaios afastavam-na de casa pelo menos quatro noites por semana. Papai começou a se queixar de que não encontrava mais um jantar quente à sua espera quando chegava em casa e de que havia poeira na cornija da lareira. Caçoava de mamãe, dizendo que ela estava se tornando uma réplica da "cadela" que representava "na­quela maldita peça", advertia-a de que a situação em casa estava se deteriorando gradativamente. Pouco a pouco, mamãe começou a sucumbir â pressão. O nariz gracioso tremia quando ela tentava se expressar, a fala se tornou errática. Ela acabou concordando que já se tornara a personagem e por isso não valia a pena continuar. Largou a peça. Aceitara a campanha de propaganda de papai e vol­tou para casa, a fim de cuidar da família.

Enquanto crescia, eu também fazia o que se esperava de mim. Usava blusas brancas padronizadas, sapatos sempre engraxados, so­quetes enroladas por cima das meias de nylon, saias pregueadas que ajeitava meticulosamente por baixo do corpo quando sentava. Dava cem escovadelas nos cabelos todas as noites, sempre fazia os deveres de casa e poderia ter me tornado a Rainha do Futebol Ame­ricano se meu namorado não ficasse doente no dia em que os jo­gadores apresentaram suas candidatas, acabando assim com as mi­nhas chances. Tinha um sorriso jovial para todos e jamais me mos­trava abertamente irritada com quem quer que fosse, pois nunca se podia saber de onde viria o voto crucial de popularidade na próxima eleição para Rainha do Baile da Escola. Dava as minhas voltas, mas jamais ia além de beijar. Era uma boa aluna, mas ape­nas porque aprendera a colar muito bem. Estava imbuída de um autêntico espírito da escola, usava as suas cores em todas as ocasiões. Sentia o coração estufar de orgulho quando ouvia o res­soar dos tambores da escola antes de um jogo importante. Passava muito tempo depois das aulas a fumar e passear de carro com os garotos... sempre provocando, mas nunca indo às últimas conse­qüências, porque mamãe dissera que eu deveria estar virgem quan­do casasse caso contrário meu marido saberia. No final das contas, papai e mamãe estavam mais preocupados com a minha reputação do que com o que eu pudesse estar realmente fazendo.

Eu ria muito, mais por tensão, como uma espécie de vazão para os meus sentimentos reprimidos, freqüentemente chegando à beira da histeria. O riso era como um salva-vidas para mim. Mas, ao que parece, também transtornava as pessoas. Meus amigos pas­saram a me chamar de "Silly Squirrely", a tola esquila, porque eu ria praticamente de tudo. Achavam que eu era uma eterna otimista e minha "despreocupação" era um tema de conversa. Diziam que eu era uma "pirada", algo que aceitei a princípio como um elogio, até que comecei a compreender que havia alguma coisa errada. Um dia, no corredor da escola, eu estava de mãos dadas com Dick McNulty. Ele me contou uma piada e desatei a rir. Não consegui mais parar. Com uma espécie de júbilo teatral, que não queria controlar, comecei a gritar com o riso. Ri e ri, até que o diretor apareceu e ordenou que a enfermeira me levasse para casa. Papai e mamãe só quiseram saber por que eu estava de mãos dadas no corredor com um rapaz. Não pareciam interessados no motivo pelo qual eu rira tanto.

Dick McNulty foi o primeiro rapaz a quem amei. Ele morreu três anos depois, na Coréia.

 

Permaneci na banheira até que a água ficou morna. Que roupas levaria para Honolulu? Já me encontrara com Gerry em muitos lu­gares do mundo... na neve e nos trópicos. Iria a qualquer lugar e a qualquer momento que ele sugerisse... mas as viagens clan­destinas a Londres haviam se tornado sufocantes para mim.

Não era fácil arrumar um apartamento por uma semana. E era ainda mais difícil evitar que a imprensa me reconhecesse. Mas o conflito emocional mais difícil era o de estarmos juntos em seu território doméstico.

Encontrei certa vez um apartamento que ficava a dois ou três pontos do metrô e a 10 minutos a pé do escritório de Gerry.

Quando lá cheguei, iniciamos um idílio de 10 dias, com Gerry fazendo as viagens de metrô e eu esperando no apartamento escuro que ele viesse me visitar, sempre que podia. Por que todos os apar­tamentos eram escuros?

Eu ficava de pé na janela da frente, observando-o a se aproxi­mar do prédio. Volta e meia Gerry era detido por adeptos, que es­peculavam sobre o que ele estaria fazendo naquela parte de Londres.

Ele entrava no apartamento. Eu o abraçava.

— Morei neste bairro assim que me casei — disse ele na primeira vez.

Gerry soltou-me e deu uma volta pelo apartamento, examinan­do as estantes e as peças de cerâmica nas mesas. Não falou muita sobre os livros ou as gravuras nas paredes, mas pegou uma revista que acabara de chegar pelo correio. Era Penthouse.

— Como as pessoas podem fazer assinatura de uma porcaria como esta? — disse ele, enquanto me levava para o quarto.

— Não sei. Mas não acha que pornografia é apenas uma ques­tão de geografia ou criação? Muitas pessoas diriam que somos por­nográficos pelo que fazemos.

Gerry me fitou nos olhos por um momento e depois sorriu. Os óculos pareciam incongruentes, empoleirados no alto de um nariz tão-orgulhoso.

Fizemos amor, mas ele estava preocupado. Passamos algum tempo deitados lado a lado e depois Gerry disse que tinha de voltar ao trabalho. Um calafrio me percorreu o corpo. Mas deixei passar. Depois que ele saiu, liguei para um escritor amigo e me ausentei do apartamento pelo resto do dia, inclusive jantando fora.

Gerry tinha mais tempo e parecia mais desamparado no dia seguinte. Contou-me que a alegria do nosso encontro fora tão intensa que mal conseguira dormir à noite. Disse que era uma maneira re­quintada de sentir-se exausto. E acrescentou que tivera sentimentos que nunca antes experimentara, em toda a sua vida.

Ele apareceu no apartamento no quarto dia e sentou com um sorriso contrafeito. Perguntei no mesmo instante:

— Qual é o problema?

Gerry respirou fundo.

— Minha filha abriu o armário para procurar alguma coisa no meu casaco e perguntou por que minhas roupas cheiravam a per­fume. Fui apanhado de surpresa e reagi como um culpado. Corri para o armário, ao invés de descartar o assunto como se não tivesse qualquer importância. Minha esposa estranhou a reação e pude sen­tir que ela me observava atentamente. Declarei que não sentia o cheiro de qualquer perfume. Ela se aproximou do armário e disse que também podia sentir o perfume. Respondi que não tinha a me­nor idéia do que elas estavam falando e me afastei. Não soube lidar com a situação. Fui tão desastrado quanto em Paris.

Ele entrou na cozinha, tropeçou na lata de lixo, preparou um chá.

— E como ficaram as coisas? — indaguei.

— Acho que está tudo bem agora. O incidente já foi esquecido. Mas detesto a hipocrisia. Não gosto de mentir.

Desse dia em diante, não mais usei perfume. Não usava nem mesmo quando não estava com Gerry. Receava que aderisse a mi­nhas roupas. Mas sempre que nos encontrávamos, ele tomava um banho de chuveiro depois, inclusive lavando os cabelos. E sempre sorria constrangido, dava de ombros pelo absurdo.

 

Pus óculos, um lenço na cabeça, chapéu por cima do lenço, fui ao Parlamento inglês, onde Gerry estava participando de um debate so­bre a economia, junto com o primeiro-ministro e diversos líderes da oposição. Sentei na última fila da galeria. Era a primeira vez que via Gerry em ação.

Ele andava agressivamente pelo plenário, como se já fosse o primeiro-ministro. Estava tão seguro de si que misturava gracejos desafiadores e agressivos em seus discursos e réplicas. Parecia brincar com o que julgava ser a inteligência inferior de seus colegas e supe­riores políticos.

Nem sempre sentava em seu lugar quando era a vez de outro parlamentar falar; e quando o fazia, cruzava as pernas, as meias azuis sempre escorregando pelos tornozelos. Levantava-se impacientemente, clamando vigorosamente por atenção. Tornava a andar pelo plenário como se lhe pertencesse. Abria bem as pernas, as mãos enfiadas nos bolsos, contava a presença na casa, como se o número de pessoas a observá-lo da galeria fosse mais importante do que qualquer um podia imaginar. E quando pediu tempo para falar, chamou um de seus oponentes de meio homem, disse que era um hipócrita, incapaz de apoiar uma posição impopular, quer versasse sobre sindicatos, energia nuclear ou revisão dos impostos. Nunca usava anotações. Parecia esmurrar o ar. Mas, por baixo da tribuna, os pés se viravam para dentro, como os de um colegial nervoso. Sentada lá em cima, perguntei-me se ele conseguiria algum dia levar seu partido à vitória. Era agressivo e brilhante. Mas se os eleitores vissem seus pés, curvando-se para dentro, mexendo-se constantemen­te, passando por cima um do outro, também saberiam por que ele derrubou o conteúdo de sua pasta no chão, com o cotovelo, quando finalmente foi sentar. Ainda bem que ele conhecia perfeitamente as saídas da Câmara dos Comuns.

Naquela noite, ao entrar no apartamento, ele me perguntou ime­diatamente o que eu achara. Com os óculos, chapéu e lenço na cabeça, eu pensava que ele não tivesse me reconhecido naquela tarde.

— Você sabia que eu estava lá desde o início?

— Claro. Para mim, seria muito difícil deixar de reconhecê-la.

Hesitei por um instante. Talvez então ele estivesse se exibindo para mim. Talvez nem sempre ele se desempenhasse daquela maneira.

— E então... o que você achou?

— Estava se exibindo para mim ou sempre se comporta da­quela maneira?

Gerry ficou surpreso.

— Como assim?

— Além de se exibir um pouco como Jacques Tati, você agia como se fosse o primeiro-ministro, como se fosse o dono do lugar.

Ele riu, largou a xícara de café e se inclinou para a frente, com um brilho de interesse nos olhos.

— É mesmo?

— Você me pareceu insensível a seus colegas... chamando-os de meio homens e coisas assim. É assim que se costuma fazer por aqui?

Gerry empurrou os cabelos que haviam caído sobre os olhos.

— É um jogo, entende? E constitui a metade da diversão para mim. Para ser franco, é a metade da política para mim. Adoro fa­zê-los se contorcerem por suas próprias contradições. É parte do jogo. Se não fosse por isso, qual seria o prazer?

Percebi um brilho de dúvida passar por seu rosto, mas desa­pareceu no mesmo instante.

— Você se comportaria da mesma maneira se soubesse que câmaras de televisão o estavam focalizando?

Gerry empalideceu ligeiramente, mas foi logo ao ponto que o interessava.

— Por quê? Acha que sou veemente demais para a televisão? Acha que eu deveria atenuar o meu comportamento?

Eu não podia acreditar que Gerry estivesse mesmo querendo discutir o lado técnico. Pensava que era evidente que eu estava querendo saber por que ele se comportara daquela maneira.

— Por que foi tão combativo com as pessoas que estava ten­tando convencer?

— Já lhe disse. Detesto a hipocrisia daquela gente. Detesto o jeito como tentam evitar se comprometer com qualquer coisa. E são uns mentirosos. Além disso, represento os trabalhadores, que nunca têm a oportunidade de falar com tanta veemência. Esse tipo de atitude sempre os agrada.

Escutei atentamente, tentando compreender. Talvez ele não es­tivesse na verdade interessado em persuadir os parlamentares aos quais falava. Indaguei se ele era tão agressivo para que seus eleito­res das classes trabalhadoras pudessem identificar o que desejavam ser ou porque realmente se sentia assim.

— As duas coisas. Que são absolutamente coerentes, diga-se de passagem.

Enquanto falava, Gerry parecia consciente de que podia estar enganando a si mesmo. Fiquei em dúvida se deveria insistir em mi­nha crítica ou mesmo se meus sentimentos eram acurados. O sorriso de Gerry tinha um jeito de contrafeito. Eu não podia entender por quê. Ele era aberto à crítica, ao mesmo tempo em que defendia o seu comportamento combativo. Mas havia alguma coisa por trás que eu não podia definir. Talvez fosse algo quase como vergonha. Era como se ele se mostrasse agressivo por estar envergonhado.

— Nenhuma outra pessoa me dirá essas coisas — comentou Gerry. — Claro que me pedem para não me mexer tanto. E para não ficar andando sem parar quando outros estão falando. Mas não me falam sobre as coisas a que você está se referindo.

— Para ser franca, não sei muito bem do que estou falando. Sei apenas que o seu sorriso e alguma coisa que está sentindo não combinam muito com a maneira pela qual se defende.

— Estou entendendo.

— Gostaria de saber por quê.

— Não sei.

Gerry estava contrafeito, mas não recuou. Eu também me sen­tia contrafeita por discutir as suas atitudes políticas com tanta fran­queza. Já conhecera muitos políticos e sabia que raramente eram capazes de uma auto-análise. Mas eu introduzira o tema de conversa e senti que deveria seguir adiante.

— Talvez você esteja sendo esperto demais para o seu próprio bem, Gerry. Talvez sinta que é justamente isso o que as pessoas sentem a seu respeito. E quer seja verdade ou possa se traduzir na ausência de votos, não acha que é a mesma coisa?

— Não sei. É possível.

— Talvez você seja agressivo com as contradições das ou­tras pessoas porque também tem as suas.

— Como assim? Sou coerente com as minhas convicções po­líticas. Sempre direi a verdade, mesmo que isso possa me ser pre­judicial.

Pensei por um momento. Acreditava nele, mas não era disso que eu estava falando. Não sabia se devia continuar.

— Sei que você é coerente em termos políticos. Mas estava atacando-os num nível pessoal e aí não sei se é tão puro quanto se apresenta.

Gerry levantou-se e começou a andar de ura lado para outro da sala, passando a mão pelos cabelos.

— Está querendo dizer que eu acuso outros de hipocrisia pes­soal porque reconheço a mesma coisa em mim?

— Não é o que todos fazemos? Na verdade, acusamos os ou­tros das coisas de que estamos mais propensos a ser culpados.

— E de que eu sou culpado?

— Provavelmente de mim.

— Ambos sabemos disso, não é mesmo? Mas o que isso tem a ver com a política?

— O que me diz daqueles telefonemas que você me dá?

Gerry parou de andar.

— O que há com eles?

— Não faz as ligações do seu gabinete?

— Claro.

— Quem paga as ligações?

— É um telefone do governo.

— E quem paga o governo?

Gerry ficou me olhando fixamente.

— Está dando sete telefonemas internacionais por semana com o dinheiro dos contribuintes. Isso deve ser levado em consideração.

— Onde está querendo chegar?

— Estou querendo conhecer a verdade. Você chamou alguém de meio homem hoje e espera escapar impune. E se o homem resol­ver verificar o seu registro telefônico e descobrir que as suas liga­ções para Reno e Las Vegas são para mim?

O rosto de Gerry ficou absolutamente paralisado por um ins­tante. E, depois, ele olhou para o relógio.

— Santo Deus! — exclamou ele. — Já estou atrasado para uma reunião do partido. Falarei com você mais tarde.

Gerry encaminhou-se para a porta, os cabelos caindo sobre os olhos. Pôs a capa que eu esperava que tivesse um forro para o in­verno e, como sempre, saiu sem se despedir. Os óculos ficaram em cima da mesa.

Tomei o resto do café que ele deixara. A autoconfrontação não era um dos pontos fortes de Gerry. E a diplomacia não era um dos meus.

Saí naquela noite com amigos e fiquei me divertindo até cinco horas da madrugada. Gerry me telefonou cedo, pela manhã.

— Pensei que tivesse vindo a Londres para me ver — disse ele.

Fiquei aturdida.

— E foi por isso mesmo.

— Onde esteve ontem à noite?

— Saí.

— O que havia de tão interessante no que fez durante a noite inteira? Não pôde encontrar coisas melhores para fazer com o seu tempo?

— Como assim?

— Onde você foi?

— Saí para jantar no White Elephant com alguns amigos e ficamos conversando por um longo tempo. Passamos depois pelo Annabelle's para dançar.

— E com quem você dançou?

— Espere um pouco, Gerry. Onde você está querendo chegar?

— A lugar nenhum. Aparecerei mais tarde.

— Mal posso esperar.

Eu esperava que Gerry percebesse o sarcasmo.

 

Não o abracei quando ele chegou. Gerry percebeu-o. Tirou a capa e seguiu para o quarto. Estendeu-se na cama e ficou olhando para o teto. Preparei-lhe um scotch com soda. Gerry largou-o na mesinha-de-cabeceira. Sentei na cama ao seu lado. Não falei nada.

– Não sou um homem enganador.

— Sei disso.

— Mas estou me comportando como se fosse. Estou bancando o mentiroso.

— E qual é a novidade?

Gerry suspirou.

— Não sei. Mas está me deixando angustiado.

— Conte à sua mulher.

— Não posso.

— Pois então não fale com ela a meu respeito. Deixe-me de fora. Converse apenas sobre o que há de errado entre vocês dois.

Ele me fitou nos olhos.

— Não há nada de errado entre nós dois.

— Não há nada de errado entre vocês? Como pode dizer uma coisa dessas?

— Não há mesmo. Não temos um amor tempestuoso ou arden­te, mas é satisfatório.

Tentei imaginar o que eu sentiria se alguém dissesse a mesma coisa a meu respeito. Tentei imaginar o que a mulher dele diria se alguém lhe fizesse a mesma pergunta.

— Ela nunca reclama de sentir-se solitária?

— Claro. Mas já se acostumou. Afinal, estou sempre viajando. Mas ela já se acostumou com isso há muito tempo.

— Tem certeza de que ela se acostumou mesmo?

— Não sei.

— Tem certeza de que ela não é solitária?

— Ela nunca me disse nada.

Gerry tomou um gole do scotch.

— Mas sabemos que você se sente solitário, não é mesmo, Gerry?

— É, sim. — Ele pôs o braço por baixo da cabeça e acrescentou: — Mas eu tinha me acostumado.

— O que está querendo dizer com tinha?

— Exatamente o que eu disse. Eu tinha me acostumado até que você apareceu. Não me sinto solitário agora.

— Então por que não tenta descobrir se não pode ajudá-la a não se sentir tão solitária... a não se sentir tão infeliz?

— Como assim? Eu estaria mentindo para ela. E como isso poderia fazê-la feliz?

— Está mentindo para ela porque contar a verdade seria pior, não é mesmo?

— É, sim.

— Portanto, estamos de volta à hipocrisia. Talvez seja neces­sária às vezes. Talvez seja esse o preço a pagar.

Ele me fitou de uma maneira estranha e depois concentrou-se no gelo do copo, como se não quisesse mais falar.

— Você me responderia a uma pergunta, Gerry? Com toda sinceridade?

— Claro.

— Você se sente como se estivesse vivendo sozinho? Lá no fundo, onde realmente vive... está vivendo sozinho?

A pergunta parecia ser algo novo para ele. A impressão era de que nunca antes pensara a respeito.

— Estou, sim.

— Então sua mulher também deve se sentir assim.

Ele virou-se de lado.

— Talvez ela precise de outro relacionamento, exatamente como você.

Gerry olhou pela janela.

— Não. Ela se sente feliz em criar nossos filhos. Sabe o que meu trabalho exige.

Ele estendeu um braço por cima do rosto. Estendi uma manta por cima de seu corpo e deitei-me ao lado.

— Estou falando como um desses porcos chauvinistas, não é mesmo?

Não fiz qualquer comentário. Uma pausa e Gerry acrescentou:

— ...e se eu contasse, ela não acreditaria.  

— Oh, Gerry...

E, depois, adormecemos juntos. Gerry acordou algum tempo depois e disse:

— Sei perfeitamente o que você representa para mim.

— E o que é?

Gerry não respondeu.

— Gerry...

— O que é?

— Não fique assim. O que eu represento para você? Diga-me para que eu possa saber.

Ele limpou a garganta.

— Falei a um dos meus assessores que nos conhecemos. E acrescentei que você estava em Londres. Pedi-lhe para falar no meu lugar esta noite, a fim de que pudesse encontrá-la.

— E o que ele disse?

— Perguntou se havia mais alguma coisa que ele deveria saber. Respondi que você estava em Londres, eu queria ficar em sua com­panhia e ponto final.

Sentei na cama.

— Estou entendendo. E é isso o que você quer dizer ao falar que sabe perfeitamente o que represento em sua vida?

— Tenho de ir agora. O discurso já deve estar terminando. Preciso estar presente para as perguntas e respostas.

O calafrio familiar me percorreu o corpo. Gerry tomou um banho de chuveiro, lavando os cabelos. Ves­tiu-se rapidamente.

— Você não precisava do banho de chuveiro. Não esta noite.

— Tem razão. — Ele foi pôr o copo na pia da cozinha. — Não precisava, não é mesmo?

Gerry pôs a capa e saiu pela porta. Para o seu próprio bem, fiquei contente por ser a porta certa.

Voltei para a Califórnia no dia seguinte.

 

                                                   Capítulo 3

Saí da banheira, enxuguei a pele toda enrugada, pus uma calça roxa e uma suéter laranja, desci para falar com Marie e jantar.

Entrei na cozinha. Era moderna, plenamente equipada e no fundo não me pertencia. Marie, sendo francesa e uma cozinheira de refinada competência, reinava em seus domínios com uma auto­ridade possessiva, não me deixando sequer arrumar um copo de Tab. Ela era pequena e frágil, as pernas tendo a circunferência da maioria das pessoas. Os dedos eram retorcidos de artritismo, as mãos e braços tremiam quando ela servia. Usava chinelas com as pontas cortadas, porque os pés eram deformados em decorrência de ferimentos sofridos durante a Segunda Guerra Mundial, contraban­deando armas para os maquis franceses em luta contra os nazistas. Sua irmã Louise, que estava na América há 20 anos e não falava uma só palavra de inglês, era a sombra de Marie, recebendo ordens e se queixando em desespero que nada dava certo.

Cerca de seis anos antes, por volta das três horas da madruga­da, Marie me acordara, muito nervosa, batendo na porta do meu quarto e gritando que havia alguma coisa errada com seu marido John. Eu descera para o quarto deles. John estava estendido na cama, pálido como um prato de aveia. Os olhos estavam fechados e ele tremia todo, como se estivesse sufocado, ansiando por respi­rar. Eu não sabia o que fazer. Estava horrorizada e não queria tocá-lo. Levantara a sua cabeça para aplicar a respiração boca a boca. Um som horrível saíra dele, um estrondo profundo, gutural. Soara como um animal que eu não podia reconhecer. E me deixara profundamente assustada. A princípio, não compreendi que era o estertor da morte. Marie também não compreendera. Insistira que ele apenas desmaiara. Eu o sacudira, com receio de que o som tornasse a sair, ainda mais alto. O que acontecera. E, depois, parara. Ele morrera abruptamente, em meus braços.

Fora a primeira vez que eu vira uma pessoa morta. Ficara pensando em que momento exato ele morrera. Creio que foi nesse instante que comecei a especular a sério se havia uma coisa a que se pudesse chamar de alma. Parecia impossível que eu tivesse am­parado nos braços tudo o que podia restar de um homem. Alguma coisa que era John... a sua "alma"... continuava a viver? A morte era dolorosa? Se a alma sobrevivia ao corpo, para onde ia? E com que propósito?

Eu não conseguira dormir pelo resto da noite ou durante as três noites subseqüentes, apesar de estar trabalhando muito na oca­sião, filmando Charity, Meu Amor. Parecia estar tateando em busca do verdadeiro significado metafísico da morte. E digo metafísico porque não era alguma coisa que eu pudesse ver, tocar, ouvir, chei­rar ou saborear. Tudo o que sabia era que John, como eu o conhe­cera, havia acabado. Ou não? Eu gostava dele. Mas, depois do choque inicial, não senti muita dor ou uma saudade desesperada. Contudo, não parecia capaz de aceitar sua morte simplesmente como o fim de sua vida. Sabia que de alguma forma havia algo mais. Sabia também que não podia parar de pensar a respeito. Pensava a respeito cada vez que entrava na cozinha e ainda agora a situação não era diferente.

Marie, Louise e eu conversamos por algum tempo, em francês e inglês, com alguma dificuldade. Informei que estava de partida para um fim de semana prolongado. Marie me serviu o jantar diante do aparelho de televisão, na sala de estar. Assisti ao jornal. Depois, dominada pelo vinho e por uma exaustão que não podia compreen­der, subi para o meu quarto e me estendi na cama. Estava depri­mida e não sabia por quê.

Mas que mundo... todos parecíamos estar andando como so­nâmbulos, como estranhos cruéis e amigáveis... esbarrando uns nos outros, mas sem jamais chegarmos a fazer um contato real com o que era verdadeiro... falando sem nos dirigirmos expressamente aos outros... com medo de nossas próprias palavras, tanto quanto das palavras que poderíamos ouvir dos outros. Havia um colapso de comunicação tão grande que todos estávamos famintos por con­fiança, tateando em busca de alças e salva-vidas para nos segurar­mos, de contato e compreensão. Tratávamos de nos concentrar nos desesperos profundos e numa paciência disciplinada, a fim de não balançarmos os barcos dos outros... muito menos o nosso. Sempre acalentávamos a esperança de que talvez as coisas melhorassem, sempre imaginávamos o que poderíamos fazer... e assim continuá­vamos, até que nossa inutilidade se tornava institucionalizada, quase como se tivesse se tornado mais seguro não saber o que nossas vidas realmente significavam.

Tentei me sentir sonolenta. O copo na minha mão começou a pingar do calor do meu contato. As pequenas coisas, pensei. Eu deveria me concentrar no prazer das pequenas coisas. O verde suave das folhas da palmeira além da janela, as azeitonas pretas caídas no caminho de cimento da árvore que eu mesma plantara, pensando se poderia me sentir responsável por alguma coisa crescendo... água quente e espuma de sabonete, a corrida amanhã de manhã que me faria sentir bem durante o dia inteiro, porque me empenhara a fundo... era tudo pequeno, mas podia ser juntado para me fazer sentir melhor.

 

Lembrei-me de estar sentada na cama de Clifford Odets pouco antes de ele morrer. Eu amara e respeitara suas peças intensamente. Ele era realmente capaz de escrever sobre a esperança humana e o triunfo contra a adversidade... especialmente de pessoas com vidas insignificantes e não reconhecidas. O câncer transformara sua cabe­ça em algo parecido com a de um pássaro murcho. A cabeleira abundante já caíra, a barriga estava inchada da doença, tubos pen­diam de seu nariz. Ele tomou um pouco de leite de um recipiente de plástico e pediu-me que abrisse as janelas, a fim de que o ar frio pudesse esfriar o leite.

— Quero viver — murmurou ele — a fim de poder escrever para muitas pessoas sobre o prazer que se encontra em coisas que não são maiores que uma pulga.

 

Senti-me sonolenta por volta das duas horas da madrugada. Eram 10 horas da manhã em Londres.

Imagens da minha vida entravam e saíam da mente... uma longa extensão do Deserto do Saara que eu desejara atravessar, só para descobrir se era capaz de fazê-lo... dançar com um lenço e um camponês russo num restaurante de Leningrado, enquanto todos os fregueses batiam palmas... uma mãe masai na África, morrendo de sífilis enquanto dava à luz um filho... um bando de pássaros voando como se fosse apenas um, durante uma filmagem no Méxi­co, enquanto eu especulava como conseguiam se manter em forma­ção... os vastos espaços do interior da China, para onde eu levara a primeira delegação de mulheres americanas, todas vestidas no traje unissex chinês... o rosto de Gerry quando eu lhe dissera que ado­rava viajar sozinha... uma arca grande mas compacta, com gave­tas e compartimentos de armário, que eu desejava que pudesse ser a minha casa móvel, a fim de nunca ter de viver permanentemente em qualquer lugar... bailarinos, coreógrafos, o suor voando, pianos, flashes, ovações de pé, os refletores quentes da televisão, os cená­rios de filmes tranqüilos, entrevistas coletivas, perguntas difíceis, campanhas políticas, candidatos presunçosos mas bem-intenciona­dos... o rosto angustiado de George McGovern na noite em que Richard Nixon venceu por uma maioria esmagadora... os Oscars da Academia e minha ansiedade por ganhar um com Irma la Douce, quando achava que meu desempenho não merecia... meu desa­pontamento quando não ganhei com Se Meu Apartamento Falasse, porque naquele ano Elizabeth Taylor quase morrera com uma tra­queotomia... as quatro outras vezes em que fui indicada para um Oscar e nem me importei... os longos ensaios, discussões profis­sionais, músculos doloridos e o chamado pavor do palco, os estúpi­dos executivos dos estúdios, as horas disciplinadas a escrever sobre o sentimento pessoal e permanente de uma longa busca por quem eu realmente era.

O que estava faltando? Será que eu, como tantas outras mulheres, procurava continuamente pela definição de minha própria identidade através do relacionamento com um homem? Acreditava que a outra metade de mim poderia ser encontrada em amar alguém, independente da frustração e inutilidade inerentes?

Hong Kong e Gerry me invadiram a mente. Eu me encontrara com ele, lá, em outra de suas conferências. Outra esperança que desta vez seria diferente, mais satisfatória.

— É maravilhoso como você adora arrumar as malas e viajar de um momento para outro — comentara Gerry. — Como conse­gue isso? Como pode ser tão flexível? E vê tantas coisas. Eu nunca tenho tempo.

Gerry nunca percebeu que eu não respondia... que não tinha certeza se estava correndo para alguma coisa ou de mim mesma. Tinha dúvidas se Gerry realmente aproveitaria o tempo, se o tives­se. Achava que ele não veria o que olhasse... não veria de verda­de. Ele viajara pela África quando era jovem. Mas quando falava a respeito, percebi subitamente que não mencionava nunca o que comera, o que tocara, o que vira, o que cheirara, como se sentira. Falava sobre a África como uma viagem sociológica, não como uma viagem humana. Falava como as "massas" eram exploradas, pobres e colonizadas, mas não como realmente viviam e como se sentiam.

Gerry nunca estivera antes em Hong Kong. Sentados no quarto dele no hotel, tive de interpretar o ambiente para ele. Gerry não parecia apreender a confusão agitada e paradisíaca que era Hong Kong... os cules de jirinquixá se misturando com os táxis, os milhões (cinco e meio) de habitantes se acumulando e derramando pela baía, o paraíso dos compradores de sedas chinesas, brocados japoneses, algodões indianos e rendas suíças, mercadorias diversas e relógios, alimentos, jóias e tóxicos, perfumes e peças de jade e marfim, coisas do mundo inteiro levadas para aquele porto livre visando ao lucro... nada disso parecia impressionar Gerry, deixá-lo deslumbrado. Em vez disso, ele se limitava a comentar que não con­seguira comer uma só refeição chinesa desde que chegara.

Estava preocupado com a possibilidade dos guardas que pa­trulhavam o seu andar nos reconhecerem e o julgarem mal. Eu lhe dissera que, na Ásia, todos sempre sabem de tudo que os estran­geiros fazem, de qualquer maneira, não se importavam muito com isso. Apenas precisavam saber.

Gerry escutara como se eu estivesse contando um conto de fadas quando lhe descrevi como fora até o fundo de Kowloon, pas­sando pelas lojas de sedas, as fábricas de peças de jade, os relógios da Suíça e o distrito residencial em que viviam os seus conterrâneos, os britânicos. Eu lhe falara sobre a Star Ferry e a própria baía, pela qual deslizavam os juncos chineses de velas vermelhas, proce­dentes do território continental. Falara sobre a Cat's Street, onde os estandes de mercadorias transbordavam com quase tudo que a imaginação podia conceber. Falara como subira ao topo de Victoria Peak e contemplara os barcos lá embaixo, na enseada. Gerry ficara extasiado com a minha descrição fascinante de diamantes, pérolas, objetos antigos, comidas suculentas, materiais feitos à mão, obras de arte feitas por crianças d© menos de 12 anos, que se empenha­vam em negócios de adultos sem sequer o perceberem. Descrevera as multidões de turistas... europeus, africanos, japoneses, malaios, indianos, americanos... e assim por diante, interminavelmente, todos procurando por uma barganha.

Descrevera para Gerry como o cheiro das especiarias pairava no ar, como a música de rock se misturava com a ópera chinesa. Como as mascates a apregoarem colares de plástico se agachavam de vez em quando para encherem a boca com arroz, tirado com pauzinhos de marfim esculpidos de tigelas delicadas de porcelana. Turistas corriam, mercadores corriam, crianças corriam, ônibus corriam, cules corriam... uma corrida para o tumulto, a pressa de comprar e vender no mínimo de tempo.

E, de alguma forma inexplicável, tudo funcionava. Todos ali estavam empenhados em ganhar dinheiro, sem ilusões, sem preten­sões quanto ao motivo da existência de Hong Kong. Era como Las Vegas. Não havia hipocrisia a respeito. Era o que era. Se a pessoa participava, tornava-se parte do esquema. E sempre se esperava por isso, poh tudo o que todos esperavam era fazer um bom negócio. Hong Kong era um lugar em que se ficava liso de tanto poupar dinheiro.

Os olhos de Gerry brilhavam e faiscavam enquanto eu lhe fa­lava, durante a noite inteira, do que fizera durante o dia inteiro, enquanto ele comparecia a suas reuniões. Era verdade que Gerry não podia se ausentar tanto quanto gostaria; mas quando saía, era como se ele nunca tivesse deixado o quarto.

E no último dia eu acertara para que um barco nos levasse aos Novos Territórios, onde conhecia um lugar ideal para um pique­nique. Eu levara limonada, sanduíches e tortas.

Mas, no barco, ele voltara a falar sobre as condições miserá­veis em que vira os chineses vivendo. Discorrera sobre a desigual­dade entre ricos e pobres. Comentara como os. ricos deviam volun­tariamente partilhar seus lucros com os que eram menos afortuna­dos. Nunca lhe ocorrera que os pobres podiam ter uma riqueza de espírito que os ricos invejariam se a conhecessem. Nunca lhe ocor­rera que uma pessoa rica podia ser miserável de outra maneira, mas isolada e alienada. Nunca pensava em "uma pessoa rica". Era apenas "os ricos", "os pobres", um todo amorfo.

Eu lembrara como um amigo querido me surpreendera durante a minha fase de liberalismo total, ao me avisar de não ter a menor compaixão pelos ricos, enquanto esbanjava meu coração piedoso apenas com os pobres. A verdade da acusação me deixara profun­damente chocada.

Gerry... — Ele parara de falar. O que me diz daque­las colinas que parecem ser de jade, tão lindas e podendo ser des­frutadas até pelos pobres?

Ele olhara.

Olhe também para aquelas sampanas de velas vermelhas, deslizando pela água. O que me diz da maneira como aquelas pes­soas estão acenando para nós?

Gerry se levantara.

Acho que estou falando como o Sunday Observer, não é mesmo? Ele sorria timidamente. Desculpe. Eu me torno tedio­so às vezes, não é mesmo?

Entráramos numa das pequenas enseadas nos Novos Territórios e desembarcáramos. Os tripulantes ficaram a bordo. Gerry carregara os cestos do piquenique, enquanto eu levava uma garrafa térmi­ca e uma manta.

Árvores frondosas farfalhavam à brisa marinha, à beira da água, enquanto nos encaminhávamos para as colinas de vegetação exuberante. Respiráramos o ar fragrante. Tiráramos os sapatos, afundando os pés na terra. Gerry suspirara e esticara os braços para o sol quente. Parara em cada árvore e flor silvestre. Pusera uma margarida em sua orelha.

Encontráramos um córrego faiscando ao sol, passarinhos voan­do entre arbustos floridos nos dois lados. Não havia ninguém por perto. Gerry tirara a camisa e a calça, estendera-se de costas na água. E me chamara. Eu também tirara o vestido e entrara na água. Sentíramos a rocha escorregadia por baixo de nós e não nos impor­táramos quando a correnteza começara a nos arrastar lentamente. Os passarinhos cantavam para nós das árvores. Nós nos abraçáramos e levantáramos ao mesmo tempo, as gotas escorrendo faiscantes dos cabelos. Gerry passara o braço por minha cabeça e gentilmente me puxara de encontro ao seu peito. Em silêncio, voltáramos a pôr as roupas.

Eu me postara ao seu lado. Virando-se para mim, pondo os braços em meus ombros, Gerry murmurara:

— Mas que merda! Como posso conciliar você com o resto da minha vida?

— Não sei, Gerry, não sei...

Ele estendera a manta no chão. Deitáramos e ficáramos olhan­do para o céu através da copa da árvore.

Voltáramos ao barco cerca de uma hora depois. Eu me per­guntava como Gerry poderia conciliar a si mesmo com o resto de sua vida.

Marie me serviu o café na manhã seguinte no pátio. Eu não sabia direito o que estava pensando... os pensamentos eram con­fusos demais, tumultuados, esbarrando uns nos outros. Claro que me sentia frustrada com Gerry, mas havia muito mais que apenas isso. Estava num intervalo entre filmes, mas meu trabalho corria muito bem. E tinha outro contrato para me apresentar em Las Vegas e Tahoe, assim que me considerasse pronta para o novo es­petáculo. Assim, eu podia dizer que era uma pessoa relativamente feliz, por todos os padrões comparativos. Mas não me sentia par­ticularmente serena.

David telefonou. Acabara de chegar à cidade e perguntou se £u iria à aula de ioga. Combinei que me encontraria com ele lá.

Eu adorava o hatha ioga porque era físico e não meditativo, embora exigisse concentração e um senso de relaxamento. Mas com o sol entrando pela janela e o som da voz do instrutor funcionan­do como um acompanhamento, eu adorava a aula, sentindo que todos os músculos e tendões do meu corpo eram ativados. O esfor­ço físico servia para me desanuviar o cérebro.

— Não se afobe, respeite o seu corpo e ele reagirá favoravel­mente — dizia o professor (que era hindu). — O ioga exige bom senso. Não pegue o seu corpo de surpresa. Deve se aquecer antes dos exercícios. Não faça uma emboscada contra os seus músculos. Os músculos são como pessoas: precisam dos preparativos adequa­dos, caso contrário se assustam e se contraem. Deve respeitar o ritmo deles. Pense a respeito como um explorador que está pene­trando em território desconhecido. Um explorador sensato vai de­vagar, pois nunca sabe o que pode encontrar além da próxima curva. Somente quando se vai devagar é que dá para se pressentir antes de encontrar de fato. O ioga proporciona amor-próprio porque a põe em contato com você mesma. Oferece uma paz interior. Apren­da a viver dentro de você. Garanto que vai gostar.

Eu escutava as suas palavras nos intervalos entre as posturas.

— A realização do ioga exige quatro atitudes: fé, determinação, paciência e amor. É como a vida. E se você é boa e fiel em sua luta nesta vida, a próxima será mais fácil.

Minha malha estava molhada de suor. "Lute nesta vida e a próxima será mais fácil." Calculei que ele realmente acreditava nisso. Afinal, era hinduísta. Pus a saia e uma blusa de malha, saí com David. Andando sob o sol exuberante da Califórnia, David disse:

— Vou até a livraria Bodhi Tree. Quer me acompanhar?

— A Bodhi Tree? Não é aquela árvore sob a qual Buda me­ditou por 40 dias ou algo assim?

— Exatamente.

— E que tipo de livraria é... indiana?

— Mais ou menos. Eles possuem livros de todo tipo sobre o oculto e metafísica. Nunca ouviu falar?

Senti-me um pouco constrangida, mas confessei que nunca ou­vira falar.

— Acho que você vai gostar — disse David, gentilmente. — Se você se dá tão bem com o ioga, vai adorar algumas das obras dos antigos místicos. Estou surpreso por você ter passado tanto tempo na Índia sem absorver a espiritualização do país. A livraria fica na Melrose, perto de La Cienega. Vamos nos encontrar lá.

— Está certo. Por que não?

Olhando para trás, posso dizer que essa decisão simples, numa tarde ensolarada, de visitar uma livraria diferente, foi uma das mais importantes de minha vida. E, mais uma vez, sou lembrada que efetuamos pequenos movimentos importantes quando estamos preparados para isso. Numa época anterior de minha vida, essa mesma sugestão pareceria um desperdício de uma tarde, quando havia tantos roteiros a ler e tantos telefonemas a responder. Eu estava ocupada demais em ser bem-sucedida para compreender que havia outras dimensões na vida.

David já estava na Bodhi Tree quando cheguei, esperando por mim na calçada, encostado numa árvore. Ele sorriu quando acomo­dei meu Lincoln imenso numa vaga que mal dava para um Volks­wagen.

— Aluguei este carro — expliquei. — Não tenho nenhum. Carros são uma chatice e não consigo compreendê-los. Basta que tenha quatro rodas e um pouco de gasolina para que eu me sinta satisfeita. Pode entender o que estou querendo dizer?

— Claro. E provavelmente melhor do que você imagina.  

Ele me pegou pelo braço e entramos. Enquanto avançávamos, senti o cheiro de incenso de sândalo se espalhando pelos diversos compartimentos da atravancada livraria. Olhei ao redor. Cartazes de Buda e de iogues de que eu nunca ouvira falar sorriam-me das paredes. Fregueses com livros na mão tomavam chás de ervas e falavam em voz baixa. Comecei a examinar as prateleiras. Havia livros e mais livros sobre assuntos que variavam da vida após a morte a como comer na Terra enquanto aqui se vivia. Sorri meio murcha para David. Sentia-me deslocada, um pouco tola.

— É fascinante — murmurei, desejando não ter achado que era necessário dizer alguma coisa.

Uma moça de sandálias e saia de gaze se aproximou para nos servir um chá.

— Posso ajudar em alguma coisa?

A voz era calma, de profunda serenidade. Ela estava em harmonia com o clima na livraria... ou talvez eu estivesse sendo teatral. Quando me virei para fitá-la, ela reconheceu-me e sugeriu uma apresentação ao dono da livraria, que estava em seu escritório, to­mando chá. David sorriu e nós a acompanhamos.

O escritório parecia estar estourando com tantos livros. O pro­prietário era jovem, de trinta e poucos anos, usava barba. Informou que lera os meus livros e estava especialmente interessado no que eu tinha a dizer sobre o período que passara nos Himalaias.

— Até que ponto absorveu a técnica da meditação? — per­guntou ele. — Usa a respiração Kampalbhati? Não acha que é mui­to eficaz, apesar de tão difícil?

Eu não tinha a menor idéia do que ele estava falando. Foi nesse momento que um rapaz de cabelos curtos e blusão de malha entrou na sala. Olhou para mim e para David, depois para o dono da loja (cujo nome era John), com um sorriso pretensioso.

— Ei, cara, para que serve toda essa merda de tentar fazer com que as pessoas pensem que são felizes? Afinal, ninguém pode ser feliz nesta porra deste mundo. Por que vocês ficam passando as pessoas para trás, levando-as a pensar que podem ser felizes?

David pôs a mão em meu braço ao perceber como eu ficara sobressaltada. John indagou se podia ajudar o rapaz em alguma coisa, mas ele continuou a agredir:

— Essas porras de incenso, chá de ervas, cartazes vistosos... vocês são cheios de merda.

John pegou no meu braço e no de David, conduziu-nos gentilmente para fora de seu escritório.

— Desculpem — murmurou ele.

— Não foi nada — disse David. — Ele tem de encontrar o seu próprio caminho, como todos nós fazemos.

Acenei com a cabeça, a indicar também que não me importava. David disse que poderíamos encontrar sozinhos o que desejásse­mos, que ele não precisava se incomodar.

Depois que John se afastou, comentei para David:

— Por que o rapaz acha que este lugar é tão ameaçador?

— Não sei. Talvez ele tenha um grande investimento emocio­nal em hostilidade. É difícil acreditar que a paz é possível.

David levou-me para uma imensa estante em que havia a indi­cação de "Reencarnação e Imortalidade". As obras ali iam do Bhagavad Gita aos Livros dos Mortos dos egípcios antigos, passando por interpretações da Bíblia Sagrada e da Cabala. Eu não tinha a menor idéia do que estava procurando. Fitei David nos olhos e per­guntei:

— Acredita em tudo isso?

— Tudo o quê?

— Não sei... Acredita realmente na reencarnação?

— Quando se estudou o oculto por tanto tempo quanto eu, aprende-se que não é uma questão de ser ou não verdade, mas sim uma questão de como funciona.

— Está querendo dizer que acredita na reencarnação como um fato incontestável?

David deu de ombros.

— Exatamente. É a única coisa que faz sentido. Se cada um de nós não tem uma alma... então por que estamos vivos? Quem sabe o que é verdade? É verdade se você acredita... e isso se aplica a tudo, não é mesmo? Além do mais, deve haver alguma coisa no fato de que a crença na alma é a única coisa que todas as religiões têm em comum.

— Tem razão. Mas talvez todas as religiões sejam falsas também.

David continuou a examinar os livros, mas não como se achas­se a conversa desinteressante e sim como se estivesse pura e simplesmente procurando por um determinado livro.

— Eu não pensara muito em religião desde que tinha 12 anos e ficava brincando de jogo-da-velha na escola dominical.

David pe­gou um livro, enquanto dizia:

— Você devia ler não apenas algumas das obras que estão nes­ta estante, mas também coisas de Pitágoras, Platão, Ralph Waldo Emerson, Walt Whitman, Goethe e Voltaire.

— Todos eles acreditavam na reencarnação?

— Claro. E escreveram amplamente a respeito. Mas tais obras sempre vão parar na seção de ocultismo, como magia negra e coisas assim.

— Voltaire acreditava na reencarnação?

— Acreditava. Disse que não achava mais surpreendente nas­cer uma porção de vezes do que nascer apenas uma vez. Também penso assim.

Fitei-o nos olhos. Os olhos azuis de David estavam firmes e serenos. E ele me perguntou:

— Sabe o que é o ocultismo?

— Não.

— Apenas o que está "escondido". E só porque uma coisa está escondida não significa que não existe.

Contemplei mais atentamente o rosto ossudo e triste de David. Ele falou em tom sereno, sem qualquer hesitação, a não ser quando percebeu que eu estava fazendo um esforço para compreender suas palavras.

— Quer que eu prepare uma lista de livros que você poderia ler? — indagou ele, muito prático.

Hesitei por um instante, lembrando que tinha cinco roteiros para ler e também imaginando o que Gerry pensaria se me visse lendo livros assim.

— Claro que quero. Por que não? As pessoas também pensa­vam que o mundo era plano, até que alguém provou o contrário. Acho que devo ser curiosa sobre todas as possibilidades "escondi­das". Quem podia imaginar que havia bichos rastejando por toda a nossa pele até que alguém inventou o microscópio?

— Meus parabéns — disse David. — Para mim, a verdadeira inteligência é a capacidade de manter a mente aberta. Se você está procurando por alguma coisa, por que não tentar?

— Tem toda razão.

Eu me descobri a sorrir. David acrescentou:

— Pique dando uma olhada por ai enquanto eu procuro os livres que você deve ler.

Ele limpou os cantos da boca e com os olhos meio cerrados começou a verificar as prateleiras. Folheei alguns livros sobre alimentação, exercícios de ioga, meditação e outros assuntos similares que podia compreender.

Depois de meia hora, David reunira um punhado de livros. En­quanto agradecia e saíamos para o sol da Califórnia, eu imaginava se algum dia abriria um daqueles livros.

Eu viajaria para Honolulu no dia seguinte. Despedi-me de Da­vid e fui para casa, a fim de pensar, descansar, arrumar as malas e, se tivesse tempo, ler um pouco.

 

Descobri-me naquela noite a procurar o verbete sobre reencarnação na enciclopédia.

Devo ressaltar que não fui criada para ser uma pessoa religiosa. Meus pais mandavam-me à igreja e à escola dominical, mas apenas porque o lugar era aceito para se ir aos domingos. Eu usava anáguas de crinolina e tentava não olhar demais para as letras no hinário que já deveria ter decorado. Imaginava o que aconteceria com o di­nheiro na bandeja da coleta, mas nunca pensara realmente se existia um Deus ou não.

Jesus Cristo parecia um homem inteligente, sensato e certamen­te muito bom, mas eu encarava o que aprendera a seu respeito na Bíblia como filosófico, mitológico e de certa forma desconexo. O que ele pregava não chegava a me tocar; assim, não acreditava nem desacreditava. Ele apenas acontecera... como todos nós... e fi­zera algumas coisas boas, há muito e muito tempo. Encarava com restrições a afirmativa de que ele era Filho de Deus. Ao final da adolescência, eu chegara à conclusão, sozinha, de que Deus e religião eram coisas incontestavelmente mitológicas. Se as pessoas queriam acreditar, muito bem; mas eu não podia acreditar.

Não podia acreditar em qualquer coisa que não pudesse ser provada. Além do mais, não me sentia absolutamente angustiada pela necessidade de um propósito na vida ou de alguma coisa para acreditar além de mim mesma. Em suma, não pensava muito em coisas como religião, fé em Deus ou a imortalidade da alma. Nin­guém insistia e eu achava o assunto aborrecido... nem de longe tão estimulante como algo real e divertido como as pessoas. De vez em quando, à medida que me tornava mais velha, ainda me empenhava numa discussão confusa sobre os perigos dessas crenças mitológicas e como desviavam a atenção do verdadeiro problema da raça huma­na. Não me agradava o autoritarismo da igreja... qualquer igreja... e considerava-o perigoso, porque fazia com que as pessoas tivessem medo de queimar no inferno se não acreditassem no céu.

Por mais desinteressada que eu estivesse de Deus, religião e vida posterior, no entanto, havia uma coisa pela qual me interessava profundamente. Desde que era muito jovem que eu me interessava pela identidade. Minha identidade e a de todas as pessoas que co­nhecia. A identidade parecia-me algo concreto. Quem era eu? Quem era qualquer pessoa? Por que eu fazia as coisas que fazia? Por que os outros faziam? Por que eu me importava com algumas pessoas e não com outras? A análise de relacionamentos tornou-se um dos meus temas prediletos... o relacionamento que eu tinha comigo mesma e com os outros.

Assim, talvez porque me interessava pela minha própria iden­tidade, intrigava-me a possibilidade de haver algo mais em mim do que a minha mente consciente podia perceber. Talvez houvesse ou­tras identidades enterradas no fundo do meu subconsciente, que eu apenas precisava procurar para encontrar. E muitas vezes, em meu trabalho com a expressão pessoal, dançando, escrevendo ou repre­sentando eu ficava espantada comigo mesma, aturdida com a origem de um sentimento, memória ou inspiração. Atribuía a um conceito nebuloso chamado processo criativo, como fazia a maioria dos ar­tistas. Mas tenho de admitir que, no fundo de quem quer que eu fosse, podia sentir uma chama que não era capaz de compreender, de tocar. Qual era a origem dessa chama? De onde vinha? E o que houvera antes?

Sempre me interessei muito mais pelo que existira antes do que pelo que poderia vir depois. Creio que era por isso que não me in­teressava no que me aconteceria depois que morresse, tanto quanto me interessava pelo que me tornara como eu era. Assim, quando deparei pela primeira vez com a noção de vida antes do nascimento, era impossível não sentir curiosidade em explorá-la.

A enciclopédia dizia que a doutrina da reencarnação remontava aos princípios da história registrada, pelo menos. Consistia na crença da ligação entre todas as coisas vivas e a gradativa purificação da alma ou espírito do homem, até retornar à fonte e origem comum de toda a vida, que era Deus. Era a crença de que a alma era imor­tal, reencarnava vezes sem conta, até que alcançava moralmente a purificação. Dizia que os temas conjugados do carma, que é a libe­ração pelo trabalho dos fardos interiores, e da reencarnação, a opor­tunidade física de viver o carma, eram duas das mais antigas crenças da história da humanidade, mais amplamente aceitos que quase todos os conceitos religiosos do mundo. Era uma novidade para mim... eu sempre relacionara vagamente a reencarnação com espíritos sem corpos, os fantasmas, com o ocultismo e coisas que faziam barulho durante a noite. Nunca relacionara com qualquer religião mais im­portante e mais séria.

Procurei por religião. Embora fosse impossível encontrar uma definição conclusiva, havia diversas características que eram comuns à maioria das religiões. Uma era a crença na existência da alma, outra a aceitação da revelação sobrenatural e finalmente, entre mui­tas a mais, a busca repetida pela salvação da alma. Dos egípcios aos gregos, budistas e hinduístas, a alma era considerada uma entidade pré-existente, que se alojava numa sucessão de corpos, tornando-se encarnada por um período, depois passando algum tempo na forma astral como uma entidade desencarnada, mas sempre voltando a re­encarnar. Cada religião tinha a sua própria crença sobre a origem da alma, mas nenhuma religião estava desprovida da crença de que a alma existia como uma parte do homem e era imortal. Em al­gum momento, entre o judaísmo e o cristianismo, o Ocidente per­dera o antigo conceito de reencarnação.

Fechei a enciclopédia e fiquei pensando por algum tempo.

Centenas de milhões de pessoas acreditavam na teoria da reen­carnação (ou qualquer outro termo possível), mas eu nem mesmo sabia o que isso significava, por ter uma educação cristã.

Preparei-me para ir ao encontro de Gerry imaginando o que mais poderia estar acontecendo no mundo sobre o qual eu nunca pensara antes.

 

                                                     Capítulo 4

O vôo de Los Angeles ao Havaí foi tranqüilo. Dormi e pensei em Gerry durante a maior parte da viagem. Pensei também em mi­nha amizade com David e imaginei com quantas outras pessoas já conversara, passeara e comera, sem nunca chegar a conhecê-las real­mente. Registrei-me no Kahala Hilton com outro nome. Ninguém me reconheceu. Fui para o meu quarto e comecei a esperar.

Lá estava eu... parada na sacada de mais um quarto de hotel, dando para o Pacífico cadenciado e embalador, o sol vermelho se aninhando na água... esperando. Esperando por um homem. Espe­rando por um homem a quem amava ou pensava que amava, o que quer que isso significasse. Sabia que era muito forte o que sentia por ele, sabia que iria a qualquer lugar que fosse necessário para estar em sua companhia. Ambos éramos ocupados e tínhamos um trabalho criativo para preencher nossas vidas, mas acho que preci­sávamos de algo. Sei que eu precisava. Desde que podia me lembrar, eu precisava estar apaixonada. Um homem parecia o alvo mais óbvio para tal sentimento e desejo. Mas talvez não, talvez eu precisasse apenas sentir amor, talvez um objetivo mais profundo fosse o que parecia estar se me esquivando. Não sei.

Honolulu é uma das minhas cidades prediletas, especialmente ao pôr-do-sol, muito embora estivesse agora apinhada de turistas em convenções, usando muumuus, os vestidos soltos e estampados em cores alegres das havaianas, carregando máquinas fotográficas. O Kahala Hilton é um dos hotéis mais lindos do mundo, com sua paisagem interna-externa, o bar por baixo d'água, os golfinhos pu­lando alegremente no tanque de água do mar. Fiquei escutando a toada da água se desmanchando na praia. Podia ouvir os coqueiros sussurrarem. E, de repente, ouvi um baque surdo. Um coco maduro caíra, prestes a rachar. Olhei para o relógio. Gerry dissera que che­garia às seis e meia. Já eram sete e meia. O tempo estava bom e assim não havia atraso de qualquer vôo. E o controle do aeroporto informara que não havia problema de tempo na partida de Londres. Portanto, ele devia ter saído no horário. O mundo era apenas uma bola de golfe. Gerry chegaria em breve. Mas eu me ressentia com o atraso, pois sabia que teríamos apenas 36 horas. Santo Deus, como o tempo parecia ser meu inimigo! Não importava em que estivesse envolvida, parecia que nunca dispunha de tempo suficiente. Eu que­ria tanto aproveitar e desfrutar tudo o que pudesse que me sentia continuamente frustrada pelo tempo de que não dispunha. Além disso, de certa forma, o passado e o futuro estavam sempre se in­terpondo; o passado com suas conseqüências, o futuro com seu mis­tério. Eu queria que o presente fosse tudo o que existisse.

Aspirei o ar suave do crepúsculo, voltei para o quarto e liguei a televisão.

Carter estava aborrecido com Begin. Teddy Kennedy estava aborrecido com Carter. O dólar continuava a cair. Pierre Trudeau xingara alguém no Parlamento canadense. O mundo era engraçado ou estava desmoronando, dependendo do ponto de vista.

Corri os olhos pelo quarto do hotel. Não quisera chamar muita atenção e por isso pedira apenas um quarto, não uma suíte. Mas era o suficiente para o tempo que Gerry e eu teríamos juntos. Eu sabia que Gerry adoraria Honolulu. Nunca estivera lá. Esperava que ele pudesse sentir a cidade. A primeira providência de Gerry seria sair para a sacada e contemplar tudo que o cercava. Precisava fazer isso. Olharia para Diamond Head e falaria sobre as palmeiras. Sentia-se calmo quando estava cercado pela natureza. Sua mente podia relaxar quando estava sob uma árvore a pingar, com um passarinho sacudindo as asas molhadas. Podia até parar de se preocupar com a situação do mundo e as perspectivas de sua reeleição quando o sol se erguia rosado. Seu espírito parecia abrandar com a certeza de que a natureza era bela, mais forte do que qualquer outra coisa. Mas também ele fora criado no interior da Inglaterra, suportando os in­vernos ingleses. Passeara pelas campinas inglesas, nadara nas águas frias do Canal da Mancha. A vida na cidade grande o sufocava. Precisava de espaço e desafio natural. Eu me sentia contente por estarmos nos encontrando em Honolulu. Ele gostaria da paz envol­vente. Lá estava eu a pensar de novo em Gerry como se fosse ele.

Mais 15 minutos passaram. Eram 15 minutos que jamais poderíamos recuperar. O carpete no quarto era marrom, tufado. A colcha era verde-oliva, com flores marrons. Por que as cortinas sempre têm de combinar com a colcha? Especulei se Hilton faria um hotel na encosta de uma montanha na China. Os chineses haviam parecido ridículos, dançando aos acordes de Staying Alive, de Saturday Night Fever, na recepção sino-americana. E como um bi­lhão de chineses poderiam mudar tanto em sua longa luta para al­cançar a modernização? Valeria a pena? Eu já não sabia mais o que valia a pena.

Acendi outro cigarro. Gerry tentara deixar de fumar um ano antes e agora me censurava continuamente por nem sequer tentar. Ele dizia que fumava porque estava sempre entrando em salas onde havia outra pessoa fumando. Eu podia entender. Também podia deixar de fumar. E já o fizera... uma porção de vezes. Mas sempre que tinha de tomar decisões importantes, precisava de um companheiro silencioso, alguma coisa que estivesse presente e ardesse lentamente, mas sem interferir. Eu não tragava e por isso o cigarro não me inco­modava quando cantava e dançava. Mas deixava-me a garganta dolorida e me provocava acessos de tosse. Muito bem, eu deixaria de fumar quando Gerry chegasse e veria se ele era também capaz de fazê-lo.

A lua estava agora se elevando sobre Waikiki. Diamond Head era um casco preto no reflexo do mar. Talvez ele tivesse perdido o avião em Londres. Calculei que a reunião para discutir os problemas Norte-Sul poderia se realizar sem a sua presença. Mas eu não podia ficar sem ele.

O telefone na mesinha-de-cabeceira tocou. Eram quase oito horas.

— Oi! — exclamou Gerry, como se não estivéssemos separa­dos há semanas.

Derreti-me ao ouvir a voz tão serena. Ele falava de maneira diferente quando estava longe de seu escritório.

— Fomos para um salão de recepção assim que desembarca­mos no aeroporto — explicou Gerry. — Ficamos lá por uma hora. Alguém estava supostamente desembarcando nossa bagagem, en­quanto nos dizia para esperar. Mas não havia ninguém. E final­mente cuidei de tudo pessoalmente. Quando você chegou?

— Há algumas horas — respondi, sem querer dizer como con­tara cada minuto desperdiçado.

— Tenho de me livrar de algumas mulheres ilustres que querem tomar um drinque com a nossa delegação.

— Mulheres ilustres?

— Isso mesmo. Elas são ridículas, mas também são bem-inten­cionadas. Cuidarei disso e depois irei para aí, o mais depressa que puder. Estou ansioso em vê-la.

Desliguei, tornei a me olhar no espelho, reprimi a minha irrita­ção pelo comentário chauvinista de Gerry a respeito das mulheres, resolvi vestir a minha suéter verde predileta.

Abri a porta, deixando-a encostada, a fim de que Gerry não ti­vesse de bater e ficar esperando que eu atendesse. O corredor fer­vilhava de agentes do Serviço Secreto e políticos visitantes do mundo inteiro. Não podia imaginar como Gerry chegaria ao meu quarto sem ser reconhecido.

Eu estava pondo a suéter pela cabeça quando ouvi-o abrir a porta e entrar no quarto. Sabia que ele estava ali, mas não podia vê-lo porque a lã prendera no brinco. Senti os seus braços me enlaçarem pela cintura. Meus olhos estavam repletos de lã verde. Ger­ry beijou-me o pescoço. Senti que ofegava, não apenas pelo ardor de sua boca, mas também porque a suéter estava me rasgando a orelha perfurada. Não podia me mexer. Gerry enfiou a mão por baixo da suéter e encontrou meu rosto através da lã:

— Não se mexa — disse ele. — Gosto de você assim. E agora deixe-me ajudá-la.

Gerry soltou o brinco e depois beijou-me a orelha. Recuou um pouco, contemplou-me da cabeça aos pés.

— Gosto dessa cor. Fica muito bem em você.

Depois, ele deu a volta pelo quarto e disse que era igualzinho ao seu. E como eu previra, encaminhou-se para a sacada em seguida e olhou para Diamond Head.

— Olhe só para aquelas palmeiras — murmurou Gerry. — Pa­recem irreais, quase pintadas no céu. Aquilo é Diamond Head?

— É, sim. Parece uma tela de fundo, mas é real.

— Não acha que é um paraíso? — Ele pegou meu braço, pas­sou-o por sua cintura. — Está com fome? Deve estar. Sempre está.

— Estou, sim.

— Eu também. Vamos comer.

Peguei o telefone e pedi dois Mai-Tais, além de alguma coisa para comer. Gerry não sabia o que eram Mai-Tais. Achou graça de eu pedir abacaxi extra e foi ao banheiro para tomar um banho. Aco­modou-se na banheira.

Estava lá quando o garçom chegou. Cobri as travessas com a comida e levei os Mai-Tais para o banheiro. Sentei no vaso, en­quanto ele tomava banho.

Gerry tomou seu Mai-Tai através de uma cereja flutuando no copo. Jogou a água quente cheia de espuma pelas pernas. Eram compridas demais para a banheira.

— Como estão as coisas, Gerry? Você tem passado bem?

— Muito bem.

— E que mais? Isso é o que você sempre diz.

— Estamos tendo problemas em Londres. Mas já leu a respei­to. E não deve se preocupar comigo. Como está sua vida?

Falei sobre a nova coreografia para o meu show, sobre os exer­cícios que fazia todos os dias para me manter em forma, sobre as dietas de alimentos naturais que vinha experimentando, como era difícil encontrar roteiros de filmes com bons papéis para mulheres. Ele perguntou por que e respondi que devia ter alguma relação com uma reação ao feminismo militante. Parecia que ninguém mais sa­bia como escrever papéis femininos, porque ninguém sabia o que as mulheres realmente queriam. Ou pelo menos os escritores do sexo masculino não sabiam. E as mulheres que escreviam só sabiam mos­trar como as mulheres eram infelizes e insatisfeitas. E quem se im­portava com isso? Em termos de diversão, quem pagaria para as­sistir a filmes assim?

— A coisa é muito difícil — comentou Gerry. — Já estou com problemas demais tentando adivinhar o que as pessoas querem... não apenas o que as mulheres querem. Não quero parecer arrogan­te, mas temos uma economia que está desmoronando para todos e não tenho certeza se conseguiremos nos recuperar.

Declarei que podia entender a posição dele. Gerry indagou o que estava acontecendo na América. Hesitei por um instante e de­pois respondi que não sabia direito. Era difícil decifrar o povo ame­ricano. Perguntei a ele o que estava acontecendo no mundo. Ca­çoamos um do outro, adorando nos saborear mutuamente, enquanto conversávamos, sorríamos e escutávamos, apesar de estarmos falando sobre coisas que nada tinham a ver conosco. O importante não era o que dizíamos, mas sim como dizíamos. Era disso que gostávamos. Observávamos um ao outro com uma dupla fascinação. Encontrá­vamos algo especial na maneira como nossas mãos se mexiam, nas expressões, no jeito em que um apoiava a cabeça na mão para tentar se concentrar. Era um artista mesmerizado por outro.

Conversamos sobre Carter, inflação, o dólar, até mesmo sobre Idi Amin e energia solar. Era como se estivéssemos fazendo amor com as nossas mentes num nível duplo, cada palavra desencadeando pequenas centelhas e explosões em nossas cabeças. Não importava se a conversa era sobre uma nova proposta fiscal, a alta dos preços da OPEP ou os papéis femininos nos filmes. Eu dizia alguma coisa sobre os campos petrolíferos do Irã e a necessidade dos trabalhado­res se sindicalizarem, Gerry se derretia por trás dos olhos como man­teiga na frigideira quente. Ele escutava e ouvia as minhas palavras, mas eu podia sentir um vulcão entrando lentamente em erupção dentro dele, derramando-se por seus olhos. Eu não queria me incli­nar e tocá-lo ou beijá-lo, não queria entrar na banheira com ele. Gostava da sensação de contenção e de comunicação no nível du­plo. Gostava da sensação de usar palavras para controlar o que havia por baixo, porque sentia que era quase excessivamente explo­sivo. Não sabia direito por quê.

Contemplei o corpo de Gerry na água quente. A espuma se acumulava nos contornos de sua pele. Observei como seu pênis flu­tuava. Imaginei qual seria a sensação, mas de certa forma sentia que sabia.

Gerry recostou-se na banheira e fechou os olhos. Depois de um momento murmurei:

— Gerry...

Ele abriu os olhos.

— O que é?

— Você acredita na reencarnação?

— Reencarnação? — Ele estava atônito. — Deus do céu, per que pergunta isso? Claro que não.

— Por que você diz "Claro que não"?

— Ora, porque é uma fantasia. — Ele riu. — Pessoas que não podem aceitar a vida como é aqui e agora, em seus próprios termos, sentem a necessidade de acreditar em tais fantasias.

— É possível. — Eu me sentia um tanto magoada por ele ter escarnecido da teoria de maneira tão retumbante. — Talvez você esteja certo, mas mais do que apenas uns poucos milhões de pes­soas acreditam nisso. Talvez eles tenham alguma coisa.

— Claro que têm. Ou melhor, esses pobres-diabos não têm qualquer outra coisa na vida. Não posso culpá-los, é claro. Mas se acreditassem um pouco mais no aqui e agora, o trabalho de pessoas como eu se tornaria muito mais fácil.

— Como assim?

— Eles não cuidam de suas vidas como se pudessem melhorá-las. Apenas existem, como se estivessem convencidos de que será melhor na próxima vez e que esta não é tão importante assim. Mas o que eu quero, Shirl, é fazer alguma coisa pelo desespero das vidas das pessoas agora. É tudo o que temos, é o que eu respeito. Mas por que perguntou? Acredita nessas bobagens?

Fiquei desconcertada com a descortesia. Gostaria que ele ti­vesse a mente bastante aberta para ao menos discutir o assunto.

— Não sei. Não exatamente. Mas Reilly também não acredita.

— Reilly? Como assim?

— É apenas uma piada irlandesa, Gerry. Apenas uma piada irlandesa para um inglês, se pode me entender.

Ele passou uma das mãos pela água e tornou a fechar os olhos.

A metafísica é capaz de deixar as pessoas perturbadas, pensei. Não podia entender por quê. Eu não me sentia absolutamente amea­çada. Parecia uma boa dimensão para explorar. Que mal poderia fazer? Eu entendia a alegação de Gerry sobre as pessoas não assu­mirem a responsabilidade por seus próprios destinos aqui e agora. Mas como se podia conciliar a injustiça do acaso de nascimento na pobreza e privação quando outros nasciam no conforto e luxo? A vida seria realmente tão cruel? A vida era simplesmente um aciden­te? Aceitar isso parecia de repente muito fácil, até mesmo indolente.

— Isto está maravilhoso — disse Gerry, mexendo-se na água cheia de espuma. — O banheiro é ótimo. A banheira é um pouco pequena, mas é confortável. Todo o hotel é maravilhoso, mas especialmente este banheiro. É apenas um banheiro, mas é o melhor do mundo porque você está sentada aqui.

Tratei de afastar a mente dos meus pensamentos.

— Banheiros são lugares íntimos, não é mesmo? Se você se sente à vontade com outra pessoa no banheiro, então é porque há alguma coisa muito importante entre os dois.

Gerry sorriu e acenou com a cabeça.

Um banheiro era um lugar íntimo e primitivo, um lugar para as coisas básicas. Pensei na ocasião, anos antes, em que um amante meu quebrara o banheiro de um quarto de hotel em Washington. Derrubara violentamente os copos na pia, jogara meu secador de cabelos no espelho, os fragmentos caindo na banheira. Discutíramos no quarto por causa do ciúme dele, mas ele fora ao banheiro para se tornar violento.

Pensei depois num incidente da minha infância. Perdera o papel principal num balé na escola que sonhara em fazer por cinco anos. Lembrei de ter me olhado no espelho por cima da pia, imaginando o que havia de errado comigo. E antes de perceber o que estava acontecendo, vomitara na pia.

Pensei no primeiro jantar formal que oferecera na Califórnia. Ficara tão nervosa e incapaz de assumir o papel de anfitriã que sen­tara no banheiro até o jantar acabar.

Pensei no dia de inverno de frio intenso em que Warren e eu brincáramos em poças de lama congelada. Eu tinha seis anos e ele estava com três. Mamãe ficara furiosa. Ela pusera Warren na ba­nheira e eu ficara ouvindo os seus gritos angustiados. Lembrei o dia em que Warren caíra numa garrafa de leite quebrada e papai o levara correndo para o banheiro, estendendo o seu braço a san­grar sobre a banheira. Lembrei o rosto suplicante de Warren a se fixar em papai, enquanto dizia:

— Não deixe doer, papai.

Lembrei de uma empregada minha que se retirava para o ba­nheiro todas as tardes, às seis horas, acendia uma vela na banheira e rezava.

E lembrei como o lugar mais importante, íntimo, confortável, relaxante e necessário que eu podia encontrar, em qualquer parte do mundo onde estivesse, era um banheiro bem iluminado, com uma banheira limpa, cheia de água quente. Ajudava-me a fazer as transições da depressão, confusão e trabalho puxado. Ajudava-me a entrar em contato comigo mesma. Punha-me para dormir. Ali­viava as pernas doloridas. Despertava-me. Coordenava meu corpo e mente, proporcionava-me uma explosão de novas idéias, esperan­ças e espírito. E sempre que eu passava um dia inteiro fora, sentia-me feliz se sabia que havia uma linda banheira, que poderia encher com água quente, num lindo banheiro, à minha espera, quando vol­tasse para casa.

Gerry terminou seu Mai-Tai e entregou-me o copo. Lavou-se e pediu-me que lhe esfregasse as costas. Saindo da banheira e come­çando a se enxugar, ele disse:

— Fico contente por existir essa coisa que se chama telefone, com ou sem contribuintes. Por falar nisso, você estava absolutamen­te certa a esse respeito. Eu estou pagando as contas pessoalmente. Seria muito difícil para mim se não pudesse falar com você durante todas essas semanas.

— Sei disso — murmurei, observando-o enxugar as costas. — Também seria difícil para mim.

— Mas quer saber de uma coisa? Estou obcecado por sua voz e não gosto de me sentir obcecado.

— Como assim? — indaguei, estremecendo ligeiramente.

— Todo o meu dia parece girar em torno do momento em que posso encontrar a privacidade necessária para falar com você. Isso esgota a minha energia e não gosto da sensação.

Fitei-o atentamente. O que ele estava querendo dizer? Deixa­va-me apreensiva.

— Não vai comer sua cereja?

Parado ao lado da banheira, segurando a toalha, ele olhou para o meu copo vazio.

— Não. É doce demais para mim.

— Posso então comê-la?

Dei a ele e depois peguei-lhe a mão, enquanto me levava para o quarto. Sentamos para comer a refeição de frutos do mar que estava agora fria. O garçom trouxera apenas um garfo. Entreguei-o a Gerry. Ele nem percebeu que eu estava comendo com a faca. Ajeitei minha capa sobre os seus ombros, a fim de que ele não sen­tisse frio. Gerry parecia um querubim limpo, crescido demais, um tanto rude, enquanto começava a comer.

— Lembra daqueles sapatos velhos que você adorava me ver usar em todas as ocasiões, Shirl? — Acenei com a cabeça. — Mi­nha filha jogou-os no lixo. Achou que eu deveria ter sapatos no­vos e por isso jogou-os fora.

— Sua filha jogou fora os meus sapatos prediletos?

— Isso mesmo.

Gerry inclinou-se para a frente, na expectativa do que eu di­ria, um sorriso quase perdido no rosto. Não tinha a menor idéia do que ele esperava que eu dissesse. E, por isso, murmurei:

— Talvez eles também recendessem a perfume.

Ele se levantou de um pulo, a capa caindo dos ombros. Er­gueu-me acima dos ombros e apertou-me com força, rindo e depois me jogando na cama. Suas mãos quentes e macias estavam por toda parte de meu corpo. Os cabelos roçavam em meu rosto. O nariz colidiu com o meu e esmagou-o. A pele de Gerry era quente e cremosa, recendia a VitaBath. Ele tremia ligeiramente e me abra­çou firme.

Abri os olhos e contemplei seu rosto. Estava atônito, extasia­do e abandonado, tudo ao mesmo tempo. Sentei na cama, peguei seus cabelos, puxei.

— Como consegue conservar as unhas tão compridas, Shirl?

— Acha que são muito compridas?

— Não. Acho que são lindas. Mas devem ser muito fortes.

Ele levantou a mão esquerda pelo ar, meneando o dedo mí­nimo, do qual faltava quase a metade da articulação superior, per­dida num acidente extravagante quando era pequeno. Curara tão bem que mal se percebia que havia algo errado no dedo, a não ser quando ele próprio chamava atenção para o fato. E Gerry disse agora:

— Tenho artritismo neste dedo e dói bastante. Só recente­mente é que se desenvolveu, não sei por quê.

— Provavelmente não teve vitamina C suficiente. E não teve exercício.

Ficamos deitados juntos, a observar o dedo subir e descer.

— Sabe, Shirl, acho que tenho o artritismo porque estou esgotando a minha energia... por estar obcecado demais por você. É isso mesmo. Sabia que a vida é constituída por insights peque­nos para ofuscantes?

— Claro. Entendo perfeitamente.

— Acho que tenho de esfriar meus sentimentos. Preciso re­cuperar o equilíbrio.

— Faça o que achar melhor para você.

Eu podia sentir que meu coração parava, congelado.

— Nunca antes tive uma experiência assim, Shirl. Nada se­quer parecido. Não sei o que penso a respeito. E não sei por que me sinto tão atraído por você. Mesmo contra a minha vontade, não posso evitar.

Fiquei olhando para as minhas unhas compridas.

— Talvez tenhamos tido outra vida em comum. — Virei a cabeça rapidamente, a fim de verificar a reação de Gerry. — Tal­vez tenhamos deixado coisas para resolver entre nós e precisamos defini-las nesta vida.

Um rubor de confusão espalhou-se pelo rosto de Gerry. Por um breve instante, ele não escarneceu de minha noção. Depois, o rosto se desanuviou e ele sorriu.

— Claro, claro... Mas, falando sério, não sei o que quero fazer em relação a nós. E quero que você saiba disso.

— Entendo perfeitamente o que está dizendo. E também não sei o que fazer. Então por que não fazemos nada e por enquanto nos limitamos a desfrutar o que temos?

— Mas quero ser justo com você. Quero ser justo com todo mundo. Sempre coloquei meu trabalho em primeiro lugar. E se dissipar minhas energias agora, perderei tudo por que sempre tra­balhei. Tenho muita coisa para fazer nos próximos 11 meses e reluto em me dividir.

Virei-me, fitei-o nos olhos, suspirei.

- Já sei de tudo isso, Gerry. Pensou então em acabar tudo entre nós? Em se afastar?

Ele respondeu prontamente, com convicção:

— Não. — E acrescentou, com uma ansiedade genuína es­tampada no rosto: — Você pensou nisso?

— Não — menti. — Nunca pensei. E não vou pensar.

Gerry respirou fundo.

— Mas estou terrivelmente perturbado pela possibilidade de que possa ser um desapontamento para você. Isso é um problema e tanto para mim. Não quero desapontá-la.

— Da mesma maneira como não quer desapontar os eleitores?

— Tenho de lhe perguntar uma coisa, Shirl. O que você quer de mim?

Ele me pegou desprevenida. Pensei por um momento e depois respondi, como se soubesse durante todo o tempo:

— Quero que sejamos felizes quando estivermos juntos. Tam­bém não compreendo por que estamos juntos. Mas não quero que você tenha de optar entre outra pessoa ou coisa e eu. Acho que pode ter tudo o que já possui e a mim também. Pode ter tudo, não é mesmo? Acrescente mais uma dimensão à sua vida. O que há de errado nisso? Talvez a vida devesse incluir todas as dimen­sões que ainda não tivemos a coragem de assumir. Não preciso de qualquer espécie de compromisso de você. Nem mesmo o que­ro. Basta apenas saber que você é feliz quando está comigo e de alguma forma acabaremos definindo tudo.

— Mas quanto mais tenho você, mais eu quero.

— Pois então aproveite mais de mim. O que há de errado nisso?

— Isso significaria renunciar a outra coisa.

— Por quê?

— Porque não tenho tempo para você e também para o resto da minha vida.

— Talvez não custasse tanto se você dedicasse mais tempo a sentir que merece alguma felicidade.

— Não posso. Penso em tudo o mais que deveria estar fazendo.

— Por que não pensa apenas no que está fazendo?

— Porque sempre sinto que deveria estar fazendo outra coisa.

— Mas o que faz consigo mesmo? Por que não se divertir mais quando pode? O que há de errado em se divertir? Por que acha que não merece momentos de prazer?

— Porque tenho coisas melhores a fazer com a minha vida do que desfrutar momentos de prazer. Não posso pensar em mim mes­mo em primeiro lugar.

— Talvez devesse. Talvez pudesse ajudar mais às pessoas se determinasse quem você é.

Lembrei de um repórter que me entrevistara assim que eu vol­tara da China. Ele se mostrara cético em relação ao meu entusias­mo pela maneira como os chineses haviam lutado para conquistar sua nova identidade. Como a maioria das pessoas, ele julgava que eu fora ingênua ao ficar tão impressionada com a revolução chinesa. Eu explicara como os chineses haviam melhorado em comparação com o passado recente, acrescentando que a coisa que mais me co­movera fora o modo como eles pareciam acreditar profundamente em si mesmos. Isso deixara o repórter furioso.

— O que está querendo insinuar com essa história de acreditarem em si mesmos? Não passa de propaganda e você engoliu di­reitinho.

Eu perguntara ao repórter: se era apenas propaganda, por que ele estava tão transtornado pela idéia de que se pode fazer e ter qualquer coisa? E, para meu espanto, a ira se convertera em lágri­mas. Ele dissera que ninguém tinha o direito de acreditar que podia fazer ou ter qualquer coisa... porque ao final acabaria sendo es­magado. Eu compreendera que ele estava falando a respeito de si mesmo. Ele se sentia indigno, não podia confiar em si mesmo. Deixara o meu apartamento em Nova York e cinco horas depois me telefonara:

— Passei a noite inteira guiando. O que você disse é exatamente o motivo pelo qual meu casamento está desmoronando. Minha mu­lher diz a mesma coisa. Fala que jamais poderemos chegar a algum lugar se eu não acreditar mais em mim mesmo, se eu não acreditar que posso ser feliz. Foi por isso que fiquei tão transtornado com você. Tenho medo de não ser capaz, de não ser bastante forte. E armei uma série de posições cínicas e eloqüentes como jornalista, a fim de poder escarnecer de quem quer que espere, sonhe ou se atreva a ser o que quer. Até mesmo eu. E é por isso que não acre­dito em mim mesmo. Assim, como posso levar a sério quem o faz?

Eu respondera que esperava que ele escrevesse uma boa ma­téria e lhe desejara boa sorte.

Naquele momento, julgara ter compreendido por que as pessoas ficavam tão transtornadas com o sucesso da revolução chinesa. Independente do sistema, eles se atreviam a acreditar em si mesmos apenas, sem a ajuda do resto do mundo.

Gerry adormeceu a me abraçar. No sono, ele parecia extrema­mente vulnerável. Meus pensamentos se preocupavam com a incer­teza interior daquele homem tão forte, afora isso. Ele se considerava de alguma forma responsável pela tragédia do seu primeiro e breve casamento, porque a mulher morrera no parto? O segundo casa­mento fora oportuno para ele e pessoalmente conveniente, proporcio­nando uma mãe para o bebê. Mas ele se sentia culpado agora por pensar que estava enganando a si mesmo? Pensei numa conversa que tivera recentemente com meu pai. Com todo o seu domínio vi­goroso, ele também nunca acreditara em si mesmo. E era uma das pessoas mais talentosas que eu já conhecera. Além de ser um ator extraordinário da vida real, era um violinista excepcional, um bom professor e um pensador perceptivo.

Ele estava agora chegando ao fim da vida... ou pelo menos assim pensava. E sempre bebera demais. Ultimamente, minha mãe andava doente, tendo feito uma operação grande de bacia. Papai se confrontara com a perspectiva do que faria sem ela e passara a beber muito, desde o princípio da manhã. Mamãe me chamara, mais preocupada do que jamais ficara antes com a possibilidade de papai estar desta vez realmente se matando. Papai estava ao seu lado en­quanto ela me falava pelo telefone, franca e abertamente. Nenhum dos dois se importava. Há anos que todos tínhamos medo das con­seqüências do muito que papai bebia e o medo culminava naquele telefonema.

— Estou muito preocupada com ele, Shirl — dissera mamãe. — E nada posso fazer para ajudá-lo. Você sabe que ele é um ho­mem de bem e de talento. Mas ele próprio não acredita nisso.

Eu pedira a ela que me deixasse falar com papai.

— Oi, Monkey — dissera ele, me chamando pelo apelido.

Eu o vira sentado em sua poltrona predileta, a estante de ca­chimbo ao lado, o telefone ajeitado no ombro. Pudera senti-lo a pegar o cachimbo e acender, com o isqueiro velho que eu lhe trou­xera da Inglaterra.

— Vamos ser objetivos, está bem, papai?

— Claro.

— Por que está bebendo tanto agora?

Eu nunca lhe fizera essa pergunta. Jamais fora capaz, provavel­mente porque tinha medo de que ele me respondesse.

Papai começara a chorar. Era disso que eu tinha medo. Jamais quisera ver papai desmoronar abertamente. E, depois, ele dissera:

— Porque desperdicei a minha vida. Posso ter me comportado como se fosse forte, mas isso aconteceu porque nunca acreditei que pudesse fazer alguma coisa. Minha mãe ensinou-me bem demais a ter medo. E não consigo agüentar sempre que penso em todo o medo que sinto. E por isso tenho de beber.

Quase que dera para eu ver suas mãos tremendo, como acon­tecia sempre que ele queria se alienar de qualquer emoção que pudesse estar demonstrando.

— Eu o amo, papai. — Eu também começara a chorar. Sentia de alguma forma que nunca antes lhe dissera isso de verdade. — Pense em tudo o que fez. Criou a Warren e a mim. Isso não signi­fica nada?

— Mas sei que vocês dois não queriam ser como eu. É por isso que se tornaram o que são. Não queriam ser como eu.

Estávamos ambos chorando e tentando falar em meio às lá­grimas. E eu ficara imaginando se não caíra alguma cinza no chão.

— Não é bem assim, papai. Nós apenas fizemos mais com a ajuda que você nos deu do que você poderia fazer com a ajuda que nunca teve.

— Mas eu me sinto imprestável quando comparo o que não fiz com o que consegui.

— Mas ainda há tempo, papai.

— Como? De que maneira?

Ele tentara limpar a garganta. Eu me perguntara se mamãe estaria observando-o.

— Por que não pega uma caneta e papel e anota os sentimentos cada vez que se sente imprestável? Aposto que poderia oferecer al­gumas idéias extraordinárias sobre o sentimento de se sentir im­prestável.

Ele passara a soluçar.

— Penso às vezes que não conseguirei mais agüentar... e se eu beber bastante, não terei de me incomodar em despertar pela manhã.

Eu engolira em seco, angustiada.

— Nunca lhe pedi para me prometer qualquer coisa, em toda a minha vida, não é mesmo, papai?

— Não, Monkey, nunca me pediu isso.

— E poderia me prometer uma coisa agora?

— Qualquer coisa. O que você quer?

— Vai me prometer que, ao invés de beber, escreverá todos os dias pelo menos uma página sobre o que está sentindo?

— Eu escrever? Ora, ficaria envergonhado demais se alguém lesse.

— Pois então não deixe ninguém ler. Escreva apenas para você mesmo.

— Mas não tenho coisa alguma para dizer!

— Como pode saber se nunca tentou?

Eu pudera vê-lo a tirar um fio do ombro esquerdo. E o ouvira tossir.

— Não posso escrever a meu respeito. Nem mesmo posso pensar em mim mesmo.

— Pois então escreva a meu respeito, de mamãe ou de Warren.

— Sobre você e Warren?

— Isso mesmo.

— Muitas pessoas gostariam de ler o que eu escrevesse, não é mesmo?

O tom fora sarcástico, mas eu sabia que ele estava sorrindo.

— Apenas por ser pelo seu ponto de vista.

— Acha mesmo?

— Claro que sim.

Eu pudera vê-lo começar a se balançar na cadeira.

— A velha Sra. Hannah, minha professora no segundo ano, disse certa ocasião que eu deveria escrever. Mais do que isso, disse que eu deveria falar menos e escrever mais.

— É mesmo?

Jamais esquecera como papai sempre falava da Sra. Hannah quando eu era pequena. Ela tinha um carro velho que papai adora­va consertar.

— A velha Sra. Hannah tinha um carro terrível. Estaria melhor com um cavalo e uma charrete. Mas aquele maldito carro era como uma pessoa para ela. E um dia, num campo de feno...

— Ei, papai, tem uma idéia aí... por que não começa escre­vendo sobre o carro da Sra. Hannah no campo de feno? Não des­perdice a história falando.

— É assim que funciona? — indagara ele, limpando a gar­ganta e parecendo divertido e malicioso. — Está querendo dizer que eu poderia ter feito um livro em todas as ocasiões que contei uma história?

— Exatamente. A Sra. Hannah não lhe dizia sempre que fala­va demais e por muito tempo, sem nada para mostrar depois?

— Tem razão, ela dizia isso. Mas era uma mulher terrível. Queimou o estábulo para receber o dinheiro do seguro e depois fugiu com o cara que lhe vendera a apólice.

— Ela parece uma boa personagem para se escrever a respeito.

— Você leria o que eu escrevesse?

— Claro. E já estou aguardando na maior ansiedade. Mande para Nova York. Chegará às minhas mãos, onde quer que eu esteja.

— Acha mesmo que tenho alguma coisa para dizer?

— Há mais de 40 anos que venho escutando você, acho que é engraçado e comovente. Por que não escreve a respeito de seu cachimbo?

A esta altura, nós dois já paráramos de chorar.

— Vai escrever, papai? Vai tentar?

— Acho que tenho, não é mesmo, Monkey?

— Claro que tem.

— Pois então prometo.

— Eu o amo, papai.

— Eu a amo, Monkey.

Desligáramos. Eu ficara circulando pela casa, chorando, por mais uma hora. Voltara depois ao telefone e ligara para um florista. Encomendara uma rosa por dia, durante um mês, com um bilhe­te anexo: "Uma rosa por uma página. Eu o amo."

Papai tem escrito intermitentemente desde então. Não sei se ele se tornou totalmente abstêmio. Mas também nenhum escritor que eu conheço o é. Mas gostaria que a velha Sra. Hannah tivesse mencionado o talento de papai e a sua convicção nele com mais freqüência.

Os bilhetes que ele me envia são curtos e cada um conta uma história... uma história da vida de um homem que me influenciou profundamente, porque inadvertidamente me ensinou a amar homens brilhantes e complicados, que precisavam de alguém para ajudá-los a se descobrirem.

 

                                               Capítulo 5

Gerry e eu dormimos. Sempre que nos mexíamos, ajustávamo-nos ainda mais um ao outro, não deixando o menor espaço entre os corpos. Em determinado momento, ele murmurou alguma coisa sobre um telefonema para acordá-lo, a fim de que sua delegação não ficasse especulando sobre o seu paradeiro pela manhã. Liguei para a telefonista e depois fiquei esperando acordada pelo amanhe­cer, quando Gerry teria de se retirar. Senti-me desamparada enquan­to o observava dormir. Ele se fora. Os olhos fechados, estava per­dido em seu próprio inconsciente. Observei-o dormir até que final­mente voltei a pegar no sono. Enquanto dormia, imagens de meu pai e Gerry se esbarravam no sonho.

Quando a telefonista ligou, ao amanhecer, Gerry sentou na cama abruptamente, como se uma corneta o chamasse para o cum­primento do dever. Beijou-me rapidamente, vestiu-se e disse que vol­taria assim que se livrasse de seu assessor de imprensa e dos re­pórteres.

— Provavelmente tomarei o café da manhã com eles. Sendo as­sim, Shirl, por que você não come agora? Direi a todos na delegação que estou exausto da viagem e poderemos passar o dia inteiro juntos.

Ele saiu antes que eu percebesse que esquecera uma das meias. Pedi papaia e torradas, comi na sacada. Lá embaixo, um atendente estava alimentando os golfinhos. Lembrei como Sachi costumava montar em golfinhos, quando era pequena e nos encontráramos com Steve no Havaí, no meio do caminho para o Japão. Ela costumava dizer que compreendia os golfinhos e que eram seus companheiros de brincadeiras.

Lá embaixo, em algum lugar, podia ouvir jornalistas falando sobre as boas matérias que se poderia conseguir no Havaí. Em meio aos gracejos profissionais, houve especulações sobre as experiências do Dr. Lilly com golfinhos. Fiquei pensando se os golfinhos seriam realmente tão inteligentes como os cientistas diziam ou se podiam ter desenvolvido a sua própria linguagem. Lembrei de alguém me dizer certa ocasião que nos cérebros grandes dos golfinhos estavam alojados todos os segredos de uma vasta civilização perdida chama­da Lemúria. Eu já ouvira falar sobre Atlântida, mas Lemúria era-me desconhecida.

Observei os agentes do Serviço Secreto e os jornalistas que es­tavam observando os golfinhos. Não podia imaginar como Gerry e eu conseguiríamos chegar ao fim do dia sem sermos reconhecidos. Ele me telefonou cerca de uma hora depois:

— Encontre-se comigo na praia à esquerda do hotel. Quase todos estarão ocupados no local da conferência. Estarei lá dentro de 15 minutos.

Vesti um jeans e uma blusa, por cima de uma roupa de banho. Amarrei um lenço na cabeça e pus óculos escuros, de aros pretos.

Ninguém me notou quando atravessei o saguão e passei pela entrada do hotel. Mas fiquei com receio de parar por um instante e observar os golfinhos, por causa dos jornalistas. Contornei apres­sadamente a piscina e avancei pela areia quente, onde os turistas já se acomodavam, os rádios tocando rock, estrondosamente. O cheiro de óleo de bronzear à base de coco pairava pelo ar.

Fui andando pela beira da praia, onde as ondas de um azul claro se desmanchavam na areia, seguindo para a esquerda. Ainda não havia ninguém nadando. As palmeiras se inclinavam ao vento alísio ameno. Fiz algumas flexões na água rasa, já que não fizera a minha ginástica pela manhã. Meu show parecia estar a meia vida de distância.

Parei algumas centenas de metros adiante, na praia vazia, sentei na areia, levantei a cabeça para o sol e fiquei esperando por Gerry. A sensação era de uma coisa quase normal, quase humana. Mais do que qualquer outra coisa, eu detestava o sigilo. Não gostava de me sentir furtiva, clandestina, desonesta. Doía demais. Esperava que Gerry não encontrasse nisso uma emoção perigosa, como acontecia com algumas pessoas.

Ele usava uma calça caqui e camisa branca solta. Fiquei observando-o se aproximar, pela beira d'água. Os braços balançavam para longe do corpo, uma das mãos segurava um par de sandálias. Ele não acenou quando me viu. Levantei e fui ao seu encontro na água rasa, a fim de continuarmos a andar.

— Então você tem mesmo outro par de sapatos, Gerry.

— Meus sapatos de férias.

Ele riu e me afagou o rosto.

— A sua delegação aceitou a história da exaustão da viagem?

— Claro. Todos estão fazendo a mesma coisa. Uma conferên­cia no Havaí é sempre uma tentação.

Gerry prendeu as sandálias juntas, pendurou-as no ombro e pegou-me a mão, quando já estávamos bem longe do hotel. Encos­tei a cabeça em seu ombro e fomos andando.

Encontramos um recife de coral que se projetava pelo mar. A sensação era de que estávamos andando na água. Gerry gracejou, comentando que todos julgavam que era isso o que ele alegava ser capaz de fazer. O coral era afiado. Paramos e ficamos contemplando as ondas grandes que quebravam mais além.

— Sabe deslizar nas ondas, Shirl?

— Fazia isso quando tinha 20 anos... antes de ficar bastante velha para sentir medo.

Lembrei como era despreocupada com o meu corpo. Nunca me ocorrera que poderia fraturar alguma coisa ou que algo pode­ria sair errado. Agora, tinha de pensar em tudo o que podia acon­tecer, mesmo quando saltava de um táxi. Se torcesse um tornozelo ou desse uma pancada com o joelho, isso poderia interferir com a minha dança. Quando era mais jovem, eu dançava Com mais incon­seqüência. Acho até que fazia tudo sem pensar muito. E também me divertia maravilhosamente. Com o ingresso na vida adulta, fora me tornando cada vez mais consciente das conseqüências de tudo o que fazia, quer fosse mergulhar nas ondas ou ter uma ligação amorosa.

A percepção não diminuía a diversão ou a admiração. Ao con­trário, eu queria agora aprender a viver totalmente no agora... no presente, com uma plenitude confirmada de que era tudo o que realmente existia. Se eu vivera outras vidas no passado e provavel­mente viveria outras vidas no futuro, a crença nisso serviria apenas para intensificar o empenho de coração e alma no presente.

A reencarnação era um conceito novo para mim, é claro, mas eu descobria que, cada vez que pensava a respeito, extraía um gran­de prazer das implicações. O tempo e o espaço eram tão irresistivelmente infinitos que serviam para mostrar à pessoa como eram pre­ciosos todos e cada momento na Terra? Minha mente precisava dar saltos quantitativos de imaginação para outras realidades possíveis, a fim de apreciar a alegria da realidade agora? Ou a verdadeira ale­gria e felicidade estavam na inclusão de todas essas outras realida­des, que na verdade expandiam a consciência da pessoa da realida­de do agora?

Expansão da percepção. Era essa a expressão que tantas pessoas estavam usando cada vez mais. Não se precisava trocar uma percepção antiga por outra nova. Podia-se simplesmente expandir e elevar a percepção que já se possuía. Uma percepção expandida simplesmente reconhecia a existência de dimensões anteriormente não reconhecidas... dimensões de espaço, tempo, cor, som, sabor, alegria e assim por diante. O conflito entre Gerry e eu seria simplesmente uma diferença no movimento para uma percepção expandida? Talvez eu estivesse tentando forçá-lo a um ritmo que era o meu e não o seu. E também não se podia julgar o ritmo dele. Apenas era dife­rente. Eu sabia que podia ser por demais insistente, uma decorrên­cia em parte da curiosidade intensa e em parte da impaciência. Era impaciente com outras pessoas que não se empenhavam na mesma busca. Minha vida parecia devotada a uma sucessão de indagações. A de Gerry parecia devotada às respostas.

Fomos nos afastando de Diamond Head, Waikiki e Kahala, encaminhando-nos para o lado deserto da ilha, ocupado por arbustos densos. Quanto mais nos afastávamos das pessoas, mais Gerry me tocava. Não demorou muito para que estivéssemos andando com os corpos colados. Era maravilhoso demais para se conversar. O sol mergulhou por trás das nuvens e os coqueiros começaram a se inclinar ao vento. A chuva caiu. Corremos da água para o abrigo das árvores. Havia cocos maduros espalhados pelo chão. Ficamos debaixo de uma árvore a contemplar a chuva caindo sobre as azaléias roxas ao nosso redor. Um passarinho azul sacudiu as penas e voou para se abrigar sob uma moita. Gerry me abraçou e olhou para o mar.

— Tudo isto é tão bonito...

Ele me aconchegou ainda mais firme.

A chuva caía mais forte agora... uma dessas violentas tem­pestades tropicais, que parecem um lençol de água faiscante.

— Não quer nadar na chuva, Gerry?

Sem responder, Gerry tirou a camisa e a calça. Estava de calção por baixo. Enrolou as roupas numa bola, colocou por baixo das sandálias, sob a árvore, saiu correndo para o mar.

Tirei o jeans e a blusa, corri atrás dele.

As ondas estavam mais altas agora, as cristas brancas. Mer­gulhávamos por baixo, sentindo os borrifos se misturarem com as gotas da chuva. Limpei o sal dos olhos, contente por não estar com maquilagem. Gerry nadou para longe da praia, acenando-me para que fosse atrás. Fiquei com algum receio e comecei a boiar nas ondas, observando-o. Gerry parou e ficou de costas, no lugar em que as ondas desmanchavam. Virou-se um momento depois e ficou esperando pela onda certa. A onda chegou e ele deslizou na crista, até que se desvaneceu, perto do lugar em que eu esperava. Gerry nadou em minha direção e pegou-me em seus braços. Beijei seu rosto salgado, ele me sufocou em seus ombros enormes. Nadamos de volta à praia e deitamos juntos na água rasa, as ondas suaves deslizando sobre os nossos corpos, levantando os rostos para a chuva.

— Aquilo... foi a coisa mais feliz que já fiz — disse Gerry, a respiração profunda, gritando um pouco, acima do barulho das ondas. — Sabia que eu nunca tinha feito isso antes? Foi a primeira onda em que já deslizei. Tenho perdido muita coisa, não é mesmo?

Não falei nada. Apenas me virei e pensei que era o momento mais feliz que eu tivera em muito tempo... só desejava ter tido o abandono para deslizar na onda com Gerry.

Permanecemos na água até que o sol ressurgiu. Depois, de costas, fomos saindo da água, arrastando-nos para a areia úmida, onde ficamos estendidos, enquanto o sol nos secava os corpos.

— Gerry... quando você pensa em sua vida, qual foi o mo­mento em que se sentiu mais feliz?

Ele pensou por um momento e depois disse, com uma expres­são meio aturdida:

— Agora que você me perguntou, eu teria de dizer que toda a minha felicidade esteve relacionada com a natureza... algumas vezes com as pessoas... mas nunca com o meu trabalho. E isso é surpreendente para mim. Meus momentos mais felizes nunca esti­veram relacionados com o meu trabalho. Deus do céu, por que isso?

— Não sei. Talvez porque achasse que o trabalho era um dever.

— Mas me sinto deprimido mesmo quando venço. Por exem­plo: na última vez em que fui eleito, caí em depressão por vários dias. — Gerry levantou os olhos para o céu. — Devo pensar a respeito, não é mesmo?

Levantei para me vestir.

— Parece uma pena que você se sinta deprimido quando vence. E o que sente quando perde?

Gerry também se levantou, foi até a árvore sob a qual deixá­ramos as roupas.

— Quando perco, sinto-me desafiado. Experimento um senso de luta e isso faz com que tudo valha a pena. Acho que preciso nadar contra a correnteza.

Continuamos a andar em torno da ilha e pouco depois encon­tramos uma pequena barraca, na praia, em que se vendia abacaxi e papaia. Esprememos limões sobre as papaias e comemos sentados na areia. O havaiano que era dono da barraca estava lendo um livro de Raymond Chandler, mas a todo instante levantava os olhos para o mar. Gerry e eu conversamos sobre a Ásia, Oriente Médio, o tempo que eu passara no Japão. Ele não me fez qualquer pergunta pessoal e também não lhe ofereci qualquer informação.

Continuamos a andar, até encontrarmos o caminho para Sea World. Fomos ver os golfinhos e as orcas. Estava na hora da alimentação. Um dos golfinhos teve mais para comer do que os outros. Gerry achou que não era justo. Comentou que a sobrevivência dos mais aptos era cruel e que devia haver um meio do homem refor­mular esse fato básico da natureza. Disse que a civilização existia para isso... para tornar o mundo um lugar mais aprazível. Lamen­tava os que não tinham condições de se defender por si mesmos.

Uma orca estava sendo alimentada no tanque maior. Gaivotas circulavam lá por cima, na esperança de que a orca perdesse um dos peixes que o atendente, vestindo um traje de mergulhador, joga­va na boca imensa. E, de repente, ele errou um lançamento. Uma gaivota mergulhou em vôo, pegou o peixe e foi para o outro lado do tanque. A orca viu-a e deu um salto em sua direção. A gaivota acomodou-se na beira do tanque, onde a orca não podia alcançá-la. A orca interrompeu a refeição, passando três minutos a olhar furio­sa para a gaivota. Gerry riu alto e a orca voltou à refeição.

Deixamos o aquário e nos encaminhamos para as colinas acima do mar. Pássaros de todas as cores voavam e cantavam pelas exuberantes árvores tropicais. Tentamos abrir um coco seco, mas precisávamos de um facão. Contei a Gerry sobre a ocasião em que fora para a ilha maior do Havaí apenas para ficar sozinha. Alugara uma casinha na Kona Coast e passava os dias sentada em rochas vulcânicas, a pensar na competição, entre outras coisas.

Eu estava em Hollywood há cinco anos e a maneira pela qual bons amigos brigavam entre si pelos melhores papéis estava me deixando arrasada. Acabara de ser indicada para outro Oscar e também não gostava da falsa pressão que isso parecia me impor. Não gostava do sentimento de que ganhar uma estatueta de latão deveria ser mais gratificante do que realizar um bom trabalho. Sentia-me con­fusa porque todos pensavam que Hollywood era justamente isso. Mas não entendia por que alguém devia vencer ou perder. Não gostava da maneira como as pessoas se sentiam abatidas quando perdiam. E odiava agora todo o dinheiro que era gasto na tentativa de influenciar votos, com festas e anúncios nos jornais profissionais. Gerry parecia interessado no que eu estava dizendo. Mas ele não podia compreender que eu realmente não me importasse de vencer ou não.

— Por que não se importava, Shirl?

— Não sei... mas o fato é que não me importava. E continuo a não me importar. Acho que não queria me sentir constrangida por vencer uma coisa que não fora uma competição para começar. Não ficaria deprimida como você diz que se sente quando vence... ficaria embaraçada. Você precisa vencer, porque é assim que opera a democracia e o governo da maioria, porque não há outro meio de ser um político bem-sucedido. Mas os artistas não deveriam se envolver nesse tipo de competição. Acho que deveríamos nos preocupar apenas em competir contra o melhor que temos em nós mesmos.

Gerry me perguntou se eu fora para lá realmente sozinha. Res­pondi que sim, que já fizera isso muitas vezes na vida. Precisava ficar sozinha. Precisava de tempo para refletir. Ele disse que ima­ginara isso pelo meu primeiro livro, Don't Fall Of The Mountain (Não Caia da Montanha). E acrescentou que era um dos livros pre­diletos de sua filha.

Gerry perguntou se eu já me sentira alguma vez solitária. Respondi que estar sozinha era diferente de estar solitária, mas acredi­tava que eu era basicamente uma pessoa solitária. Ele nunca me fez qualquer pergunta a respeito do meu divórcio ou de relacionamentos com outros homens. Se era uma coisa que tinha de aflorar, isso ocorreria naquele momento. Presumi que ele não estava preparado para saber.

Paramos, sentamos, ficamos observando os caranguejos esca­varem buracos na areia, enquanto a tarde chegava ao fim. Um dos caranguejos caiu de costas. Gerry pegou um graveto, virou-o, sorriu gentilmente. Contei como observara uma colônia de formigas perto da casinha em Kona. Passaram dias a carregar diligentemente um pão doce dormido, migalha por migalha, de uma pedra para um esconderijo sob outra pedra. Eram organizadas e determinadas. Não eram individuais. Não havia possibilidade. Pareciam altruístas. Eu não sabia se isso era bom, submeter os seus próprios interesses ao bem da espécie. Era o que Gerry pensava estar fazendo? Gerry me interrogou sobre a China. Embora nunca tivesse ido até lá, ele sabia muita coisa sobre a China. Conversamos sobre a revolução chinesa. Ele disse que gostaria de ter arrumado tempo, quando es­tivéssemos em Hong Kong, de atravessar a fronteira, mesmo que fosse por apenas uns poucos dias.

Adormecemos ao sol da tarde. Uma brisa fria soprava quando acordamos. Corremos juntos para a água, rindo e batendo de leve um no outro. Gerry parou para jogar algumas pedrinhas chatas, que quicaram sobre a água. E depois fomos andando, de mãos dadas, até que chegamos a um ponto do qual se podia ver o hotel.

Foi então que nos separamos. Gerry seguiu na frente e desapareceu na multidão em torno da piscina. Fiquei contemplando o sol poen­te por algum tempo. E me ocorreu de repente como Gerry parecera livre durante o dia inteiro, ao ar livre, como se mostrava inepto com quatro paredes ao seu redor. Era realmente uma pessoa dife­rente quando estava descontraído. Eu tinha certeza de que ele seria melhor em seu trabalho se conseguisse se soltar mais, provavelmen­te melhor também no casamento, melhor comigo.

Entrando no hotel, avistei Gerry cercado no saguão por sua delegação.

— Onde esteve?

— Está se sentindo melhor?

Ouvi trechos da conversa enquanto passava, desapercebida. Senti-me como música de fundo. Entrei no elevador, contente por ser a única pessoa lá dentro, além do ascensorista.

Estava tomando um banho de chuveiro quente, tirando o sal dos cabelos, quando o telefone tocou. Era Gerry.

— Por que ficou tanto tempo longe de mim?

Cinco minutos depois ele estava em meu quarto, sentado no chão. Havia um especial de TV transmitido de Las Vegas, apresen­tando Sinatra, Sammy Davis Jr., Paul Anka e Ann-Margret. Gerry estava com as pernas cruzadas, inclinado para a frente, começou a me fazer perguntas sobre musicais. Os cantores realmente cantavam ou simplesmente mexiam a boca para um playback? Decoravam as letras ou liam cartazes com as palavras? Quantos ensaios faziam antes de começarem as apresentações?

Enquanto conversávamos, resolvemos jantar num restaurante japonês que eu conhecia, no outro lado de Waikiki. Se conseguísse­mos pegar um táxi sem que ninguém nos visse, não haveria pro­blemas daí por diante.

Deixei o quarto na frente. O elevador que descia demorou tanto que Gerry teve de subir para não chegar ao saguão ao mesmo tempo que eu.

O saguão estava repleto de jornalistas e agentes do Serviço Secreto. Escondi o rosto por trás de uma revista e assim me manti­ve até sair. Um táxi esperava na fila. Fotógrafos espocavam seus flashes, enquanto delegados famosos entravam e saíam. Embarquei no táxi e pedi ao motorista que esperasse por um instante. Ele disse que não poderia esperar por muito tempo. Olhei nervosamente para o saguão. Gerry estava ali, mas fora detido por uma delegação vi­sitante. Pus-me a contar os segundos.

— Meu amigo já está vindo — falei ao motorista. — Espere só mais um pouco.

O motorista esperou. Gerry conseguiu livrar-se dá delegação poucos minutos depois, sorriu para uma câmara apontada em sua direção, viu-me acenar. Tranqüilamente, encaminhou-se para o táxi e embarcou. Ninguém notara coisa alguma.

Seguimos para o restaurante japonês. Eu conhecia a gerente, mas ela não estava interessada na pessoa que me acompanhava. Pedi-lhe em japonês uma sala de tatami privada. Ela levou-nos até lá, serviu-nos saquê quente, saiu para preparar nosso sushi. Gerry não ficou muito animado com o peixe cru, mas comeu assim mesmo.

A vela na mesa bruxuleava por baixo de seu rosto.

— Como adorei este dia, Shirl...

Eu sorri.

— E como adoro conversar com você.

Tornei a sorrir.

— E como adoro estar com você.

Sorri e revirei os olhos, num arremedo de fastio. Ele compreendeu qual era a minha intenção.

— E como eu amo você.

Comecei a chorar.

Gerry inclinou-se e pegou-me a mão. Eu não podia falar.

— Lamento que isso a faça infeliz, Shirl.

Peguei um lenço de papel e assoei o nariz. E, finalmente, falei:

— Oh, Gerry, por que é tão difícil para você dizer isso?

Ele assumiu uma expressão solene.

— Porque digo de outra maneira que não por palavras. Digo com as mãos, com o corpo.

— Por quê?

— Não sei. Talvez seja porque tenho de manipular as palavras durante o dia inteiro em meu trabalho e não quero sentir que estou manipulando as palavras com você.

— Acha que isso é ser justo comigo?

— Acho.

— Pois eu preciso manipular as palavras para exprimir meus sentimentos. Isso é injusto?

— Não posso saber como é para você.

— De qualquer forma, não estou muito certa se o amor é justo.

— Acho que não sei coisa alguma sobre o amor, Shirl. Tudo isso é novo para mim. Sei apenas que me sinto muito bem ao me expressar fisicamente, porque nunca tinha feito isso antes e porque uso palavras durante todo o tempo.

Tentei absorver o que ele estava dizendo. Significava que não se podia realmente confiar nele? Ou significava que não queria se comprometer com palavras, porque não queria assumir a responsa­bilidade mais tarde?

— Como então você poderá expressar quando estivermos longe um do outro?

Gerry deu de ombros.

— Não sei. É uma contradição, não é mesmo? Terei de pen­sar a respeito.

Jantamos a conversar sobre o Japão, como estava sacrificando a sua cultura em favor do desenvolvimento industrial. Passeamos um pouco depois do jantar e voltamos ao hotel, em táxis separados.

Havia um banquete de convenção no salão do hotel. Fui para o meu quarto e fiquei esperando. Os golfinhos saltavam gentilmen­te no aquário lá embaixo e as palmeiras sussurravam ao vento alísio.

Meia hora depois estávamos na cama. Gerry disse que tinha muito trabalho acumulado para os próximos dois dias e precisava se levantar bem cedo na manhã seguinte. Eu ia partir no final da manhã.

Apagamos a luz e tentamos dormir.

Gerry levantou-se de repente e, com seu andar determinado, foi derrubar uma cadeira. Soltei uma risada. Ele entrou no banheiro, saiu um instante depois, ficou andando de um lado para outro, ao pé da cama.

— Qual é o problema, Gerry?

— Não sei o que estou pensando. Não sei o que fazer. E não estou sequer preparado para pensar no que estou pensando.

Observei-o em silêncio. Ele pegou uma maçã no cesto de frutas. Continuou a andar, com a maçã na mão. Voltou à cama, começou a comê-la. Deliberadamente, com grande concentração, pôs-se a mastigar interminavelmente cada pedaço, sem dizer uma só palavra. Era como se não soubesse que eu estava presente. Não comeu a maçã como a maioria das pessoas, deixando as duas ex­tremidades. Comeu de alto a baixo, finalmente devorou tudo o que restava, inclusive as sementes.

Soltei uma risada e isso provocou-lhe um sobressalto.

— Não como muito... mas depois que começo, como tudo. — Gerry apoiou-se num cotovelo. —- Não se esqueça disso.

 

Tentei dormir. Não sabia quando tornaria a vê-lo. Pensei como seria pela manhã, quando ele saísse pela porta, fechando-a. Não consegui me fazer confortável. Virei-me de um lado para outro. Gerry me tocava a cada vez que eu virava. E assim a noite foi passando, eu me remexia e dormia, remexia e dormia. E Gerry me tocava a cada vez que eu me remexia. O amanhecer logo se infil­trou pelas cortinas. Gerry sentou na cama, puxou as cobertas ao meu redor, levantou-me o rosto.

— Tivemos 36 horas de uma coisa maravilhosa demais para se descrever com palavras, Shirl. A maioria das pessoas nunca têm isso. Pense no lado positivo. Sempre presumo que começo em zero... e qualquer coisa acima disso já é lucro.

Engoli em seco.

– Não é o meu caso. Presumo que começo onde quero e posso ir depois a qualquer lugar que quiser. Sinto que posso fazer qualquer coisa acontecer, se quiser. Não me sinto grata por nossas 36 horas. Quero mais. Quero tudo o que puder obter.

Ele riu e levantou as mãos. Saiu da cama e pude senti-lo a se preparar para um dia de trabalho. Já passara o seu tempo comigo, considerava-se afortunado, agora tinha de atender ao seu senso de obrigação britânico. Era muito simples para ele. Convertera a nega­ção numa carreira.

Ele pensou por um momento, o rosto tornou-se grave.

— A vida seria desolada, triste, vazia. E agora me dê um beijo comprido.

Ele pegou-me o rosto entre as mãos. Soergui-me e passei a mão por seus cabelos. Gerry vestiu-se rapidamente. Antes que eu perce­besse, já estava na porta.

— Telefonarei para você assim que voltar a Londres.

Ele não se despediu. Não se virou. Avançou direto para a porta, abriu-a e saiu.

O quarto mudou. Era o momento que eu tanto temia. O silên­cio fez meus ouvidos zunirem. Senti-me tonta. Sentei, estendi as pernas pelo lado da cama. Olhei ao redor, à procura de alguma coisa que ele pudesse ter esquecido. Não, pensei. Isso é ridículo. Não vou me permitir chafurdar nisso. Levantei-me, tomei uma chuveirada fria, pedi o café da manhã, arrumei as malas. Depois sentei e escrevi-lhe uma carta, dizendo que ele estava certo ao presumir que um copo com água pela metade estava meio cheio e não meio vazio.

Dormi, um tanto irrequieta, no avião que me levou de volta através do Pacífico.

— O que você quer de mim?

Podia ouvi-lo a indagar de novo. Gerry tinha razão. Eu queria que ele destruísse sua vida pessoal, arriscasse o seu trabalho políti­co e renunciasse de um modo geral a tudo a que dedicara sua vida por mim? Mas eu não queria pensar agora sobre isso.

— Tenho de concluir o trabalho que comecei há tanto tempo — dissera Gerry.

Eu queria arriscar isso pelo que tínhamos? E o que tínhamos, afinal? Seria mesmo amor? Seria aquilo pelo qual as pessoas renunciavam a tudo? Ele seria capaz de chegar a esse ponto? E eu seria? Poderia viver em Londres? E o que diriam os eleitores ingleses se soubessem? Iria de fato arruiná-lo? Gerry alegava, com absoluta convicção, que sua mulher não seria capaz de suportar. Mas o que pensariam as outras pessoas? E, por isso, ele dissera:

– Tenho de me acalmar. Preciso me esfriar. Tenho estado obcecado demais por você. Preciso ser objetivo agora. Não quero pensar no que estou pensando.

Ele me dissera todas essas coisas. E quando eu tentara ajudar, assumindo uma atitude também mais fria, Gerry dissera:

— Você não vai se livrar de mim tão facilmente.

Eu também estava confusa... Desolado, triste e vazio, como ele dissera. Haveria também desolação, tristeza e vazio para mim? Eu poderia passar sem ele? Mas o que faria com ele? O que estava fazendo comigo mesma?

 

                               Capítulo 6

Ao chegar em casa, eu estava irritada, frustrada, aborrecida comigo mesma, mais contrafeita do que nunca por alguma coisa que não podia definir muito bem. Estava perturbada por todos os problemas óbvios que se relacionavam com Gerry, é verdade, mas havia mais do que isso.

Liguei para David. Ele ainda estava na Califórnia. E sentiu imediatamente que alguma coisa estava errada. Perguntou como correra o meu fim de semana, sabendo que eu não diria muita coisa, mas querendo ser amigo e proporcionar todo o apoio que pudesse. Pedi-lhe que fosse se encontrar comigo em Malibu.

E ele foi imediatamente, levando um saco com pêssegos fres­cos. Descemos para a praia. Os pêssegos estavam doces, suculentos.

— Qual é o problema? — perguntou David, sabendo que podia ir direto ao ponto porque eu o convidara.

Engoli um pedaço grande de pêssego. Não sabia como come­çar a contar o que estava sentindo.

— Não sei, David. Sinto que estou desligada... não exata­mente desligada. Apenas sinto que há alguma coisa por que estou viva que não consigo perceber. Sou uma pessoa feliz, aproveito a vida ao máximo... e não me sinto angustiada por causa desse negócio de crise da meia-idade. É uma coisa que não posso expli­car. Na verdade, a idade nada tem a ver com isso... a não ser pelo fato de que depois de alguns anos finalmente se começa a for­mular as perguntas certas.

Hesitei por um instante, esperando que David dissesse algo que me lançaria a uma lucidez mais profunda. Mas ele ficou calado, esperando que eu falasse mais. E continuei:

— Talvez eu não esteja sequer falando a meu respeito. Talvez... talvez seja o mundo. Por que o mundo não funciona di­reito? E por que isso deveria me afetar? Por que você nunca pa­rece angustiado? Sabe de alguma coisa que eu ignoro?

— Está se referindo a por que estamos vivos e qual o nosso propósito?

— Isso mesmo... acho que é isso. Quando se tem tanto quan­to eu, quando se viveu tanto quanto eu, ao final se tem de perguntar muito a sério: O que significa tudo isso? E não estou perguntando por infelicidade. Acho que sou bem-sucedida, pessoal e profissional­mente, certamente me sinto feliz. Não sou viciada em tóxicos ou be­bida. Amo meu trabalho e amo meus amigos. Tenho uma vida pes­soal maravilhosa, apesar de alguns problemas complicados. Não... não é sobre isso que estou querendo falar. Acho que deve haver algo mais sobre o nosso verdadeiro propósito na vida que não con­sigo perceber.

David limpou o sumo de pêssego que escorrera para seu queixo. Era fascinante para mim que pudesse me sentir à vontade ao lhe fazer tal pergunta, como se ele fosse capaz de respondê-la. Era uma pergunta que não teria formulado sequer a Einstein, se o conhecesse bastante bem para sentar na praia a seu lado, comendo pêssegos. David limpou a areia dos seus dedos pegajosos.

— Acho que a felicidade está no nosso quintal dos fundos, para citar Al Jolson.

— Que grande ajuda você está me prestando... — Soltei uma risada. — Olhe para o meu quintal dos fundos... é o Oceano Pa­cífico. E daí?

— E daí que estou me referindo a você. Felicidade, propósito, significado... tudo é você.

— Você é muito simpático e polido, David... mas podia sê-lo um pouco menos e se tornar mais específico?

— Está certo — continuou David, sem se deixar afetar por minha irritação. — Você é tudo. Tudo o que quer saber está dentro de você. Você é o universo.

Santo Deus, pensei, esse jargão é demais. Ele vai recorrer a fra­ses que não integram o meu vocabulário realista. E por mais que possa me sentir atraída pelo que ele está dizendo, não vai adiantar nada, porque não é parte do meu léxico filosófico ou intelectual de compreensão. Mas também, pensei, minhas palavras, frases e idéias são limitadas por meus próprios conceitos, por minhas estruturas de referência. Não fique contrariada com as idéias. Mantenha a mente aberta.

— Por favor, David, explique o que está querendo dizer. O que você falou parece pomposo, solene e falso. Já tenho problemas su­ficientes para compreender o que estou fazendo dia a dia. Devo agora compreender que eu sou o universo?

— Está bem. — Ele riu gentilmente da minha sinceridade frus­trada. — Vamos seguir por outro caminho. Quando você esteve na Índia e Butão, pensou muito no aspecto espiritual de sua vida? Ocorreu-lhe que o corpo e a mente podem não ser as únicas dimen­sões em sua vida?

Pensei por um momento. Claro que isso me acontecera. Recor­dei como ficara fascinada ao ver um lama butamês levitar na posi­ção do lótus (os joelhos cruzados), um metro acima do solo. Ou para ser possivelmente mais acurada, eu pensara tê-lo visto levitar. Fora-me explicado que ele conseguira aquilo pela inversão de suas polaridades (o que quer que isso significasse), assim desafiando a gravidade. Para mim, fizera algum sentido em termos científicos, ao mesmo tempo que atraíra o lado metafísico da minha natureza. As­sim, ficara por aí. Por alguma razão, não tivera problema para acei­tar o que acontecera, mas não podia dizer sinceramente que com­preendera. Outro lama me dissera mais tarde:

— Você não teria testemunhado a levitação se não estivesse preparada para isso.

Fora então que eu começara a pensar que talvez tivesse apenas pensado que vira. Lembrei do tempo em que convivera com os masais no Quênia e depois viajara para a Tanzânia. Encontrara outros masais que sabiam meu nome e que eu me tornara uma irmã de sangue masai, sem que ninguém lhes dissesse. Aceitara as explica­ções dos caçadores brancos do safari, que acreditavam que os ma­sais haviam desenvolvido a transmissão de pensamento. Disseram que os masais não possuíam outra forma de comunicação entre si através da África. Assim, por uma questão de necessidade e tam­bém porque eram pensadores comunais, puderam realizar o que o mundo branco e civilizado era competitivo demais para alcançar... a comunicação através da telepatia mental e da transmissão de pen­samentos para seus irmãos.

Aceitara tudo o que os caçadores brancos haviam me dito. Pri­meiro, porque eles tinham muita experiência e anos de observação dos masais, seus hábitos e padrões de comportamento; e segundo, ape­nas porque fazia sentido para mim. Não tinha qualquer dificuldade para compreender que a energia do pensamento humano podia viver e se propagar fora do cérebro humano. Não me parecia algo estra­nho ou absurdo. Também não o era para os caçadores brancos, diga-se de passagem... e eles eram estudiosos práticos e realistas, com grande experiência das tribos primitivas.

Pensei nos muitos momentos da minha vida quando sabia que algo estava para acontecer... e acabava acontecendo. Quando sabia que alguém estava em dificuldades... e estava mesmo. Quando sa­bia que alguém estava tentando me encontrar... e era um fato. Ti­vera freqüentemente essas percepções em relação a pessoas que co­nhecia bem. Sabia, por exemplo, que um amigo chegado acabara de se registrar no Hotel International, em Seul, na Coréia. Telefonava imediatamente e ele atendia, espantado por eu ter descoberto a sua presença ali. Essas percepções me aconteciam com freqüência. E a se julgar pelas histórias populares, tais experiências haviam sido par­tilhadas por muitas e muitas pessoas, quase todos já tinham ouvido falar a respeito.

Mas eu nunca questionara realmente essas coisas. Simplesmen­te aconteciam. E isso era tudo. Nunca me relacionara espiritual­mente com essas coisas. Claro que me interessava pelo controle da mente sobre a matéria, fenômenos psíquicos, isolamento meditacional e certamente a expansão da percepção. Mas como poderia des­cobrir por mim mesma? Ou já estava consciente sem saber?

Conheci, por exemplo, um lama nos Himalaias que vinha meditando em isolamento quase total há 20 anos. Subi mais de quatro mil metros até sua caverna na encosta da montanha. Quando lá cheguei, ele me serviu um chá e me deu um pedaço de pano cor de açafrão que abençoara para me proteger, explicando que seria necessário porque eu estaria em breve envolvida com problemas di­fíceis. Ele estava certo. Na descida da montanha, um leopardo ma­tador de homens atacou-me e ao guia sherpa. E um dia depois des­cobri-me envolvida num bizarro golpe de Estado himalaio; fui presa e passei dois dias sob a vista de baionetas, enquanto meus captores tentavam tirar-me o guia e encarcerá-lo no dzong (uma masmorra himalaia em que os prisioneiros geralmente morriam). A experiência foi como um filme ruim de classe B... inacreditável para quem não estivesse presente. Para mim, foi real... e o lama que medi­tava na caverna da montanha acertara em cheio. Pelo menos em relação ao perigo. E mesmo que o pedaço de pano servisse apenas para me proporcionar apoio moral.

Mas foi premonição dele ou presciência espiritual? Eu nunca pensara nesses termos. Era mais pragmática. Tinha respeito pelas coisas que não compreendia, mas me sentia mais à vontade relacio­nando essas coisas num nível intelectual ou científico, que parecia-me mais real.

— É verdade, David. Estou pensando cada vez mais sobre o aspecto espiritual de mim mesma, do mundo ou como quer que você prefira chamar.

David mudou de posição em torno do saco de pêssegos e dos caroços cobertos de areia que se empilhavam entre nós.

— Está querendo dizer que o aspecto espiritual de sua vida lhe parece real?

— Isso mesmo... acho que se pode dizer isso. Mas não pa­rece ser uma parte real da vida realista que levamos. Talvez porque eu não possa percebê-lo. Acho que, no fundo, estou dizendo que acredito nas coisas de que tenho provas.

— A maioria dos ocidentais se sente assim. Essa é provavel­mente a diferença básica entre Ocidente e Oriente... e nunca os dois haverão de se encontrar.

— O que me diz de você, David? Como pode ter essa com­preensão espiritual num mundo tão pragmático? É um ocidental. Como chegou a suas convicções?

Ele limpou a garganta, quase como se quisesse evitar uma resposta. Mas sabia que não podia fazê-lo.

— Simplesmente viajei e vagueei muito. Nem sempre fui as­sim. Mas algo me aconteceu certa ocasião. Eu lhe contarei a respei­to algum dia. Mas pode estar certa de que eu era o típico ameri­cano, com carros bonitos, mulheres bonitas... vivendo sempre a mil. Não estava me levando a parte alguma, mas não posso deixar de admitir que aproveitei ao máximo, enquanto durou.

Os olhos de David ficaram enevoados enquanto falava, relem­brando. Especulei sobre o que teria acontecido, mas não quis insis­tir, já que ele dissera que me contaria no momento oportuno.

— Então você viajou muito, David?

— Isso mesmo.

— Eu também. E adoro viajar. Adoro voar para novos luga­res, ver novos rostos. Acho que jamais consegui ficar parada no mesmo lugar.

David fitou-me de lado.

— Pedi carona, atravessei os mares trabalhando nos cargueiros mais ordinários — continuou ele. — Creio que não importa como fazemos essas coisas; em vez disso, o que conta é por quê. Provavelmente nós dois estávamos procurando pela mesma coisa, só que por dois ângulos diferentes.

— Tem razão, David. Mas sempre pensei que procurava por mim mesma toda vez que viajava. Como uma jornada por qualquer lugar era na verdade uma jornada através de mim mesma.

— Eu também era assim. E era a isso que eu estava me referindo há poucos minutos quando falei que as respostas estão em você. Você é o universo.

— Poderíamos ambos ter poupado muitas passagens de avião se soubéssemos disso no início, não é mesmo? Poderíamos ficar sen­tados no quintal dos fundos a meditar.

— Você está gracejando, mas acho que é verdade. É por isso que todos são essencialmente iguais. Todos têm a si mesmos, independente da posição na vida em que tenham nascido. Na verdade, uma pessoa considerada estúpida pode ser muito mais espiritual do que alguém que é um gênio em termos da Terra. O idiota da aldeia pode estar mais perto de Deus do que Einstein, embora até Einstein dissesse que acreditava que havia uma força maior em ação do que ele podia provar.

— Mas ser um gênio e ser espiritual... o que quer que isso signifique... não são coisas que se excluem mutuamente?

— Não.

Lembrei de uma história que alguém em Princeton me conta­ra. Einstein vinha tentando provar a teoria do motivo pelo qual os passarinhos mecânicos que se punha na beira de um copo se en­chiam de água e depois, quando ficavam desequilibrados, entorna­vam tudo e recomeçavam. Parecia não conseguir explicar como os passarinhos mecânicos funcionavam em termos matemáticos. Frus­trado, foi um dia à cidade para tomar um sorvete duplo de moran­go. Aparentemente, morango era o sabor predileto de Einstein. Es­tava lambendo o sorvete e passeando pela calçada, junto ao meio-fio, quando tropeçou ligeiramente. A bola superior do sorvete caiu na sarjeta. Einstein ficou tão abalado que chorou... Ali estava um dos grandes gênios do mundo, mas não conseguia controlar a sua ansiedade pelo que não podia compreender, igual a qualquer outro homem.

Lembrei de ter lido em algum lugar que Einstein era um leitor ávido da Bíblia. Nunca soube o que realmente pensava a respeito, a não ser que tinha um profundo respeito. Especulava sobre o que ele teria pensado sobre a suposta imagem de Cristo deixada na Mor­talha de Turim. Alguns cientistas diziam que a imagem era causada por energia radiativa em alto nível, enquanto os espiritualistas ex­plicavam que era uma expressão de energia espiritual de alto nível que Cristo adquirira.

— O que acha de Cristo? — descobri-me a perguntar a David. — Quem você pensa que ele realmente era?

David se empertigou, como se tivesse finalmente encontrado uma meada para desenredar.

— Cristo foi o mais adiantado ser humano que já pisou neste planeta. Foi uma alma espiritual altamente desenvolvida, cujo propósito na Terra foi transmitir os ensinamentos de uma Ordem Su­perior.

— O que está querendo dizer com uma "Ordem Superior"?

— Uma ordem espiritual superior. Obviamente, ele sabia mais que o resto da humanidade sobre a vida e a morte, sobre Deus. Acho que sua ressurreição provou isso.

— Mas como sabemos que realmente aconteceu?

David deu de ombros.

— Antes de mais nada, muitas pessoas testemunharam, relata­ram que ficaram espantadas, até mesmo aterrorizadas. Em segundo lugar, os restos de seu corpo jamais foram encontrados. Em terceiro, seria difícil inventar um mito dessa magnitude. Além do mais, como podemos saber se qualquer coisa na história de fato aconteceu se não a testemunhamos pessoalmente? Em algum ponto, o conheci­mento da história exige um ato de fé, a convicção de que os acontecimentos são verídicos. Caso contrário, não perderíamos tempo a aprender qualquer coisa do passado.

— Em outras palavras, por que não acreditar?

— Exatamente. Mas, primeiro, examine bem, escute, escute de verdade, o que o homem disse. Tudo o que Cristo ensinou estava relacionado com a compreensão do conhecimento da mente, corpo e espírito. O Primeiro Mandamento dado a Moisés, muito antes de Cristo, era o reconhecimento da Unidade Divina: Mente, Corpo e Espírito. Cristo disse que o Primeiro Mandamento era o principal e interpretá-lo erroneamente seria fazer a mesma coisa com todas as outras leis universais subseqüentes. Mas ele disse também que, para compreendê-lo plenamente, tínhamos de compreender que a alma e o espírito do homem possuíam vida eterna e que a busca da alma era se elevar cada vez mais alto na direção da perfeição, até ficarmos livres.

Olhei atentamente para David, tentando absorver o que ele es­tava dizendo. Creio que alguns anos antes eu o teria chamado de obcecado por Jesus, passando a acusá-lo de propagar crenças que desviavam a atenção do que estava realmente errado no mundo.

— Mas como tudo isso se relaciona com o mundo em que estamos vivendo? — perguntei em vez disso. — Como pode a cren­ça na alma, o respeito ao Primeiro Mandamento e todo o resto re­solver a confusão em que lançamos este mundo?

Eu não queria ficar perturbada, mas a esta altura não ser a muito difícil.

— Todos os nossos "ismos", guerras virtuosas, tecnologia in­dustrial, masturbação intelectual e programas sociais compadecidos só têm contribuído para piorá-lo, ao que me parece. E quanto mais ignoramos o lado espiritual da vida, pior vai se tornar...

Ele dobrou as pernas por baixo do corpo e usou as mãos para reforçar seus argumentos.

— Cristo, a Bíblia e os ensinamentos espirituais não se envolvem com as questões sociais ou políticas. Em vez disso, a espiri­tualidade vai direto à raiz do problema... o indivíduo. Se cada um de nós agir da maneira certa, individualmente, estaríamos todos no caminho certo, em termos sociais e políticos. Está me entendendo agora?

— Acho que sim.

— Em outras palavras, se compreendêssemos nosso propósito individual e significado em relação a Deus ou mesmo em relação à humanidade, deixando Deus de fora por enquanto, isso levaria automaticamente à harmonia social e à paz. Não haveria necessidade de guerras, conflitos, pobreza e todas essas coisas, porque todos saberíamos que não havia necessidade de ser ganancioso, competitivo, amedrontado ou violento.

Não era uma idéia nova. A responsabilidade final do indivíduo era básica do pensamento quacre, por um lado; e deixando Deus de lado, como David sugerira, o conceito era também básico na filosofia política do anarquismo de Kropotkin.

— Por que está dizendo que precisamos compreender nosso propósito individual e significado em relação a Deus, David? Por que não podemos apenas nos compreender em relação a nossos semelhantes?

David sorriu, acenando com a cabeça.

— Você poderia. E seria na verdade um bom começo. Afinal, ao se importar com a humanidade você está se relacionando com Deus, com a centelha divina em todos nós. — Ele fez uma pausa. — Mas é mais fácil se aprender primeiro quem é você. Porque é aí que entra a justiça cósmica. Não podemos apenas nos relacionar com nossas vidas aqui e agora como se fossem as únicas que tive­mos. Todas as nossas vidas anteriores são o que nos moldaram. So­mos os produtos de todas as vidas que já levamos.

Pensei em Gerry e sua política. Tais conceitos espirituais, num contexto político, já teriam lhe ocorrido? Ou, de passagem, a algum político? Os eleitores considerariam loucos nossos líderes políticos se expressassem tais idéias. Jimmy Carter chegara mais perto que qualquer outro, mas a maioria das pessoas "inteligentes" que eu co­nhecia preferiam pensar que ele estava fazendo "uma média" com Deus, que tudo não passava de encenação. Não sabiam o que pensar dele se realmente levava a sério todas as coisas que dizia, como nascer de novo. Assim, limitavam-se a rir, toleravam suas idiossin­crasias, mas queriam que ele fosse um administrador melhor e um líder mais forte. Na verdade, todos ficavam furiosos com sua fala de Deus, enquanto a economia desmoronava. Quanto à reencarnação, qualquer cristão nascido de novo escarneceria da idéia. E se Gerry, por exemplo, acreditasse em Deus ou na reencarnação, dava para se imaginar as charges inglesas... As Ilhas Britânicas afundando no mar lentamente, enquanto Deus sorria lá de cima, a legenda dizendo: "Ânimo! Na próxima vez vocês farão tudo certo!" Era a garantia para Gerry perder a eleição... mesmo que a nossa ligação amorosa não o conseguisse.

Minha mente começou a se agitar com as idéias implícitas em nossa conversa. Eu não tinha certeza se me agradavam. Por um lado, a coisa parecia plausível, de uma forma idealista. Por outro, parecia totalmente impossível.

— Justiça cósmica? — questionei, sarcasticamente, sumo de pês­sego pingando do meu queixo, à brisa marinha. — É onde entra a sua reencarnação?

— Claro.

— Acredita mesmo que nossas almas continuam a voltar fisicamente... até que finalmente endireitam?

— Não acha que faz sentido? E certamente faz tanto sentido quanto qualquer outra coisa.

— Não sei, não... É possível.

— As grandes verdades estão escondidas, mas isso não signi­fica que não sejam verdadeiras.

— Mas eu ficaria paralisada se me permitisse acreditar que cada uma das minhas ações tem uma conseqüência.

— Mas isso já está acontecendo, só que você não percebe. É o que Cristo estava tentando nos dizer. Tudo o que fazemos ou di­zemos em nossas vidas, todos os dias, tem uma conseqüência, o ponto em que nos encontramos hoje é o resultado do que fizemos antes. Se todos sentissem isso, se compreendessem em suas entra­nhas, o mundo seria muito melhor. Colheremos o que semearmos, o mal ou o bem... e devemos estar conscientes disso.

— E você acredita que seríamos mais generosos e responsáveis se levássemos nossas ações mais a sério nesse sentido cósmico?

— Claro. É justamente esse o ponto fundamental. Somos todos parte de um plano e verdade universais. Como eu disse antes, é muito simples. E você deveria estar mais consciente disso, pois então reduziria em última análise a extensão em que pode prejudicar a si mesma.

— Acredita então que todos criamos o nosso próprio carma, como dizem os hippies?

— Claro. Não é algo tão difícil de compreender. Os indianos diziam isso há milhares de anos. Sabiam disso muito antes dos seus hippies. O que conta é como levamos as nossas vidas. E quando vivermos assim, seremos todos mais generosos uns com os outros. E se não o fizermos, cada um sofrerá as conseqüências em termos do plano universal. Não vivemos por acaso... você sabe que não há acasos. Há um propósito superior em ação.

— Você pode acreditar nisso, mas eu estou apenas perguntan­do. E me pergunto como seis milhões de judeus mortos se sentem por serem parte de um desígnio de consciência cósmica superior.

— Por que falar em seis milhões de judeus? Por que não acrescentar os 25 milhões de judeus? Ou os garotos da Cruzada das Crian­ças? Ou só Deus sabe quantos hereges queimados nas fogueiras? Se está me pedindo para responder a cada aparente injustiça e horror que o mundo já testemunhou, eu lhe responderei taxativamente: não posso. E duvido muito que você possa algum dia me dar a resposta.

— Mas então, pelo amor de Deus, o que significa tudo isso?

— Shirley, só posso lhe dizer o que acredito. — Ele fez uma pausa. — Causa e efeito...

— Ora, não me venha com essa!

— Ei, espere um pouco! A própria ciência acredita na causa e efeito. A maioria das pessoas racionais acredita na causa e efeito, não é mesmo? Diga à pessoa média "Você colhe o que semear" e ela certamente não vai contestar. Mas pense mais adiante... se você não colher nesta vida, então o fará quando? No céu? No in­ferno? Até a religião acredita na causa e efeito... e por isso, quan­do rejeitou a reencarnação, aventou o céu e o inferno para cuidar de todos os efeitos que não se consumaram. Mas por que um céu ou inferno hipotéticos são mais fáceis de acreditar do que a justiça da reencarnação na Terra? O que lhe parece mais razoável?

— Oh, Deus... — Pensei por um momento. — Talvez eu não acredite em qualquer das opções. Talvez a vida seja apenas um acidente sem sentido.

— Então ninguém é responsável por nada. E até onde me concerne, é um beco sem saída. Não posso viver com um beco sem saída e creio que você também não pode. Mas, ao final, tudo depende de você. Tudo acaba no indivíduo, na pessoa. É isso o que o carma significa, Shirley. Qualquer ação que uma pessoa co­meta acabará voltando a ela própria, quer tenha sido boa ou má, talvez não na encarnação desta vida, mas em algum momento do futuro. E ninguém está isento

Levantei-me e espreguicei-me. Precisava me mexer. Talvez as­sim pensasse melhor. Sentia-me como uma pessoa apanhada numa versão na vida real de The Twilight Zone. Eu fora condicionada a acreditar apenas no que podia ver... não no que podia sentir. O que David estava dizendo talvez fizesse algum sentido, pelo menos em termos de responsabilidade individual. Mas eu sempre precisava de provas... algo que pudesse ver, tocar ou ouvir. Era o sistema ocidental. Éramos condicionados a respeitar as ciências físicas e psi­cológicas. Mas até mesmo as pessoas do mundo ocidental estavam aprendendo que só porque uma coisa não se enquadrava em nossos conceitos isso não significava que não merecia ser respeitada. Suponhamos que a dimensão espiritual da humanidade fosse reconhe­cida como uma possibilidade. Agiria como uma espécie de cola a aglutinar o propósito de todas as outras ciências, da química à medicina, matemática e política? Não eram todas as nossas ciên­cias uma parte da busca por harmonia e compreensão do significa­do e propósito da vida? Talvez o que estivesse faltando fosse a ciência do espírito.

— Além do mais — disse David — até os cientistas ociden­tais reconhecem que a matéria nunca morre. Apenas muda de for­ma. Isso é tudo o que a morte física significa.

— Não estou entendendo. Qual é a relação?

— Quando morremos, apenas nossos corpos morrem. As al­mas simplesmente deixam os corpos e assumem forma astral. Nos­sas almas, independente da forma em que estejam, são permanen­tes. Os corpos são apenas casas temporárias para as nossas almas. Mas o que fazemos conosco, enquanto estamos vivos, é o que conta. E não importa quem somos. Se prejudicamos alguém nesta vida, seremos prejudicados na próxima. Ou no tempo depois. E é como Pitágoras disse: "É tudo necessário para o desenvolvimento da alma." Ele também disse: "Quem compreendeu essa verdade com­preendeu o próprio cerne do Grande Mistério!"

— Está falando de Pitágoras, o grande matemático?

— Exatamente.

— Ele acreditava em tudo isso?

— Claro. E escreveu muita coisa a respeito. O mesmo fez Platão, além de incontáveis outros ocidentais.

David sorriu-me e recolheu os caroços de pêssego. Meteu no saco e depois colocou-o debaixo da casa. Começamos a andar, lentamente.

Como eu gostaria de poder conversar sobre essas coisas com Gerry, pensei Mas a pessoa se acomoda quando está envolvida com outra. Aceita qualquer coisa... porque tem medo de pôr em risco a ilusão cega do amor. E a ilusão cega é tão necessária às vezes que podemos até permitir que ofusque nossas verdadeiras identidades. Firmemente, afastei Gerry da minha mente. Naquele momento, minha busca pessoal era mais importante.

Vamos supor que a humanidade (e este ser humano em par­ticular) possa resolver o enigma de sua identidade, de sua ori­gem... e de seu fim. Tal conhecimento levaria a uma responsa­bilidade moral maior? Vamos supor que eu pudesse chegar a com­preender que não era apenas um corpo com uma mente, mas que esse corpo e mente eram habitados por uma alma; além disso, que minha alma existia antes do meu nascimento nesta vida e conti­nuaria a existir depois da morte deste corpo. Vamos supor por um momento que o comportamento de uma alma determinaria não apenas o que era herdado nesta vida, mas também explicaria nos­sas fortunas ou infortúnios. Nesse caso, eu teria uma atitude de responsabilidade mais profunda e um sentimento de justiça e par­ticipação em tudo o que fizesse? Se compreendesse que minhas "ações" implicariam em dívidas a serem pagas, tanto boas como más, compreenderia que minha vida tinha uma razão além do que podia perceber?

Agiria mais responsavelmente ou mais generosamente em rela­ção a mim mesma, em relação aos outros, reconhecendo que se não fizesse isso prolongaria a luta em busca da perfeição, que aparentemente era compelida a alcançar de um jeito ou de outro, porque esse era o verdadeiro significado e propósito da vida? E tudo isso era verdadeiro, quer se fosse um xeque árabe aumentando os preços do petróleo ou um judeu conduzido à câmara de gás? Quer se fosse um "chefão" da Máfia, um terrorista da OLP ou simplesmente um mendigo nas ruas de Calcutá?

Minha mente girava vertiginosamente, tropeçava, recuava e se atolava nas possibilidades do que eu estava pensando. Mais uma vez, não tinha certeza se gostava ou não. Era novo demais... absurdo demais e, talvez, simples demais.

— A crença na reencarnação faria com que o mundo se tor­nasse um lugar mais moral? — falei finalmente. — Não necessaria­mente. Eu poderia imaginar muitas pessoas que manipulariam essa crença para exaltar as suas próprias vidas, adquirir poder, realçar seu estilo de vida... qualquer coisa enfim.

— Claro. Só que esta vida não é a única que devemos levar em consideração. E é justamente esse o ponto fundamental.

— Muito bem. Vamos supor, por um momento, que toda a coisa é assim, simples e objetiva. Vamos supor que a vida, como a natureza, é simplesmente uma questão de receber de volta o que aplicamos. Vamos supor que em cada instante, em cada segundo de todos os dias, estamos criando e ditando os termos de nossos futu­ros, por nossas próprias ações, positivas e negativas.

Respirei fundo, enquanto começava a perceber as implicações.

— Quanto tempo seria necessário para uma pessoa se tornar "boa" em relação à sua justiça cósmica?

— O tempo não importa, Shirley... Não quando está se fa­lando num sentido global, com o conhecimento de que já se viveu e que se continuará a levar muitas vidas. Lembre-se de que todas as religiões falam da paciência como a grande virtude. Isso significa paciência conosco e também com os nossos semelhantes.

— Significa inclusive que devemos ser igualmente pacientes com os Hitlers do mundo?

— Significa que seis milhões de judeus realmente não morre­ram. Apenas seus corpos morreram.

— Isso é maravilhoso, realmente sensacional. Comunique às famílias daqueles seis milhões de afortunados que somente os corpos deles morreram.

David estremeceu como se eu o tivesse agredido fisicamente. A tristeza invadiu seu rosto, enquanto ele olhava para o mar. E, final­mente, disse, depois de uma longa pausa:

— Sei que é difícil de aceitar. Mas também o é virar a outra face.

— Pois se eu pudesse, David, teria pregado Hitler na cruz!

Percebi o que acabara de dizer e tratei de acrescentar:

— E o que você teria feito com Hitler? — Minha voz estava agora defensiva. — Muita gente acredita que se os britânicos não tivessem se desarmado, se em vez disso desenvolvessem seus armamentos, Hitler poderia ter sido detido antes mesmo de começar. Foi errado se desarmar? As coisas se complicam quando a gente enve­reda por esse caminho.

— Tem razão. É por isso que se deve começar por si mesmo. Pense um pouco... se Hitler sentisse alguma responsabilidade mo­ral como pessoa, teria detido a si mesmo, não acha? Não se pode deixar de fazer a coisa em termos pessoais. Não acredito em matar ninguém. É onde entra a sua pergunta sobre Deus e o supremo de­sígnio, porque somente Deus pode julgar neste contexto. Um indiví­duo só pode julgar o seu próprio comportamento. Em última aná­lise, ninguém pode julgar a outro. Além do mais, como você sabe muito bem, Hitler não é o único monstro que já viveu. O que me diz de Idi Amin, o pessoal do Khmer Vermelho ou Stalin? Genocídio é um antigo problema humano. Ou que dizer dos pilotos que larga­ram bombas em hospitais no Vietnam do Norte, sem terem o me­nor sentimento de que havia seres humanos lá embaixo?

— Onde está querendo chegar? Que os seres humanos são cruéis uns com os outros?

— Exatamente. E se compreendessem as conseqüências de suas ações para si mesmos, passariam a pensar duas vezes.

— Isso faria com que a reencarnação se tornasse uma espécie de impedimento.

— Isso mesmo. Só que individual, um auto-impedimento. E lembre-se de que esse é apenas o aspecto negativo. Há também con­seqüências positivas.

— Como pode ter tanta certeza de que há conseqüências? Que provas tem?

— Nenhuma. Que provas você tem de que não há conseqüên­cias?

— Nenhuma.

— Por que então não admitir a possibilidade do que estou dizendo? Afinal, o que está acontecendo no mundo agora não funcio­na muito bem.

— Como eu poderia fazer?

— Não sei. Acho que basta pensar a respeito. Você está di­zendo que nada tem qualquer propósito significativo, eu estou dizen­do que tudo tem. Você diz que não se sente serena e quer saber por que eu sou. É por isso. Creio naquela expressão que você abomina... Justiça Cósmica. Creio que tudo o que plantamos, bom ou mau, acaba dando frutos, em algum lugar, em algum momento. É por isso que me sinto tão sereno. Mas talvez você tenha uma idéia melhor.

David beijou-me no rosto e disse que telefonaria depois. Fiquei olhando para as ondas. Estava com dor de cabeça. Em tudo e por tudo, pensei, talvez eu preferisse ser um peixe.

 

                                                     Capítulo 7

Quando acordei, na manhã seguinte, descobri-me a pensar se minha filha não seria alguma outra adulta reencarnada. Quem po­deria estar vivendo no corpo de uma pessoa que eu considerava minha filha?

Houvera muitos momentos em nosso relacionamento mãe-filha em que tivera a impressão de que ela me conhecia melhor do que eu a conhecia. E é claro que toda mãe sente que aprende com os filhos. Era esse o milagre da criação dos filhos. Mas se eu deixasse a mente vaguear e depois se focalizar na possibilidade da reencarna­ção, passava a encarar Sachi sob uma perspectiva totalmente dife­rente. Quando o medico a levara para mim, no leito de hospital, naquela tarde de 1956, ela já teria vivido muitas vezes antes, com outras mães? Ela própria já teria sido mãe? Seu rosto de uma hora de idade alojaria uma alma que talvez tivesse milhões de anos de idade? E ao crescer, ela esquecera gradativamente a sua dimensão espiritual, numa tentativa de se ajustar ao mundo físico em que se encontrava vivendo? Era isso o que chamavam de "véu do esqueci­mento"? Era isso o que acontecia a todos nós, quando nos desco­bríamos encerrados em corpos físicos?

Quando ela fora viver com o pai, no Japão, talvez já tivesse planejado antes de nascer; e seu talento para línguas era baseado no fato de as ter falado em vidas anteriores. Talvez ela se tornasse ja­ponesa quando falava japonês porque já fora japonesa, em outra vida. E mais tarde, na vida adulta, quando argumentava conosco para que lhe concedêssemos mais independência e auto-identidade, estaria respondendo a uma voz interior legítima, que murmurava que ela já sabia quem era? Talvez os pais fossem apenas amigos an­tigos, ao invés de figuras de autoridade, que pensavam saber melhor que os filhos. E talvez ainda os conflitos sem solução de vidas an­teriores contribuíssem para os antagonismos freqüentes demais que irrompiam agora entre pais e filhos.

Tomei o café da manhã, peguei o carro e segui para a cidade, vol­tando à livraria Bodhi Tree.

John, o proprietário, estava em seu escritório, tomando um chá de ervas e lendo.

— Olá — disse ele, formal, mas gentilmente. — Arrumou al­guma boa leitura?

Santo Deus, pensei, tantas dessas pessoas enfronhadas em me­tafísica eram formais... formais e um tanto horrivelmente pacien­tes. Quase que irritantemente pacientes.

Respondi que andara lendo, pensando e falando com David, gostaria agora de conversar com ele por alguns minutos.

— Claro. Sobre o quê?

— Sobre reencarnação... sobre reencarnação em relação a nossos filhos. Quem são os nossos filhos, se cada alma já viveu muitas vidas antes?

John sorriu e tirou os óculos. Começou a falar em tom gentil:

— Todos os ensinamentos nos dizem, de qualquer forma, que não devemos tratar os filhos como se fossem nossas posses. Eles são como você disse, apenas pequenos corpos habitados por almas que já tiveram muitas experiências. Assim, os princípios da reencarna­ção ajudam a explicar algumas das contradições absurdas nos relacionamentos pais-filhos.

Pensei no documentário a que eu assistira sobre filhos crescidos que espancavam e maltratavam os pais. Essas crianças estariam agin­do assim porque haviam sido espancadas em vidas anteriores? Ou porque os pais haviam espancado alguém em vidas anteriores? Quem estava exercitando o carma de quem? Mas John já estava continuan­do a falar:

— Posso lhe garantir, por uma recordação da minha vida passada, que meu filho de oito anos já foi meu pai.

Não pude deixar de rir, por causa do que pensara a respeito de Sachi naquela manhã. John levou os dedos aos lábios e sorriu.

— Desculpe — murmurei. — Já disse isso a seu filho?

– Claro. Ele riu e disse que eu deveria tomar cuidado. Está vendo agora como opera a Justiça Cósmica?

Lá vamos nós outra vez, pensei. A única maneira que terei de ouvir a respeito será por intermédio do jargão "astral". Pois está bem. As coisas ocultas têm tanto direito a uma verborragia própria quanto qualquer ciência, religião ou filosofia. Sentei num banco.

– Não tenho certeza se posso perceber como funciona qual­quer coisa. Como uma pessoa descobre quem foi numa vida an­terior?

— Basta ir à pessoa certa.

— Por exemplo?

— Um psíquico. É isso o que ele faz.

— Está falando de cartomantes e essas coisas?

— Há muitos charlatães, mas também já houve alguns psíqui­cos respeitados por todos, como Edgar Cayce. Já leu alguma coisa de Edgar Cayce?

— Já ouvi falar dele, mas nunca li coisa alguma — respondi, sabendo que na verdade também nunca ouvira falar a seu respeito.

— Pois é o que você vai ler em seguida.

John estendeu a mão para uma estante e tirou alguns livros de Edgar Cayce.

— Ele era, essencialmente, um homem inculto. Na verdade, isso acontece com a maioria dos psíquicos. Cayce era um médium de transe. Mas todos estão sintonizados, espiritual e psiquicamente, com as Gravações Akáshicas. Sabe o que são as Gravações Akáshicas?

Recostei-me no banco, murmurando:

— Agora que estou com a cabeça saindo fumacinha...

— Você está o quê?

— Que gravações são essas? — indaguei, nem mesmo conse­guindo lembrar o nome que ele mencionara.

— As Gravações Akáshicas?

— Isso mesmo. O que são?

— É difícil encontrar coisas escritas a respeito das Gravações Akáshicas, mas vou tentar explicar. São conhecidas como "A Me­mória Universal da Natureza" ou "O Livro da Vida". Akasha é uma palavra de sânscrito que significa "substância etérea fundamen­tal do universo". Está entendendo?

— Mais ou menos... mas o que exatamente significa etéreo?

— O universo é supostamente composto de éteres... ou seja, energias gasosas que possuem diferentes propriedades vibratórias ele­tromagnéticas. Como você sabe, tudo o que fazemos, vemos, pensamos, dizemos, reagimos... tudo o que somos... emite ou cria cargas de energia. Essas cargas de energia são chamadas de "vibrações". Assim, cada som, pensamento, luz, movimento ou ação reage em termos de vibrações nesses éteres eletromagnéticos. Constituem uma espécie de placa magnética que atrai todas as vibrações. Na verdade, tudo é vibração eletromagnética. Portanto, as Gravações Akáshicas são uma espécie de gravação panorâmica de tudo o que já se pensou, sentiu ou fez. E se a pessoa está mesmo sensitivamente sintonizada, em termos físicos, pode captar essas vibrações e até "ver" o passado, no senso cósmico. Assim, um bom psíquico pode lhe informar como foram as suas vidas anteriores.

— Santo Deus! — exclamei. — Você acredita em tudo isso?

— Claro que sim. Além disso, acho... e todos os livros dizem isso... que a capacidade inerente de captar essas gravações existe em todos nós. É apenas uma questão de desenvolver a capacidade, o que realmente significa, no começo, entrar mais em contato e sin­tonia com nós próprios. Se nossos poderes espirituais e mentais es­tão bastante desenvolvidos, podemos consegui-lo. Não é nada mais do que desenvolver a nossa ESP (percepção extra-sensorial), algo que até a ciência encara agora como um fato. Está me entendendo?

— Está querendo dizer que é apenas uma questão de expandir a nossa percepção?

Senti-me grata por ser capaz de compreender o que estava dizendo.

— Exatamente.

— E se tivermos uma percepção mais consciente dessas outras dimensões saberemos mais a respeito de quem somos e o que são as nossas vidas?

— Não é mais fantástico que as ondas de som ou as ondas de luz... só que neste caso são ondas de pensamento. A ciência sabe certamente que existem, pois nenhuma energia jamais cessa de existir. Assim, se a pessoa é bastante sensitiva para sintonizar as ondas de pensamento certas, que se ligam nas ondas vibracionais akáshi­cas, pode ver uma porção de coisas que já aconteceram. E se a pes­soa está consciente da dor que sofreu no passado e também da dor que pode ter infligido a outra, tudo funciona como um processo educacional. Está entendendo?

— Claro que estou — menti.

— Já leu os antigos psíquicos, não é mesmo?

— Os antigos psíquicos? Quem foram?

— Foram muitos. Platão, Pitágoras, Buda, Moisés, entre outros.

— Eles também eram psíquicos? — falei, o mais imparcial­mente que podia.

— Claro — respondeu John. — Como acha que eles puderam escrever todas aquelas coisas? Por exemplo, como acha que Moisés pôde escrever sobre a criação do mundo, se não estivesse psiquica­mente sintonizado? E a mesma coisa se aplica a Cristo. Todas essas pessoas possuíam um alto desenvolvimento espiritual, sentiam que sua missão na vida era transmitir o conhecimento que tinham. É por isso que a Bíblia é tão valiosa. É uma fonte de conhecimentos. E quase todos os escritos de tais pessoas estão de acordo. Não há praticamente qualquer discrepância no que disseram.

– E tais pessoas falaram de reencarnação?

– Nem todas usaram essa palavra. Mas todas falaram ampla­mente sobre o relacionamento entre a alma eterna do homem e o Divino. Todas falaram das leis universais da moralidade. Nem sem­pre usaram as palavras carma ou reencarnação, mas o sentido foi o mesmo. Estou falando demais?

Sacudi a cabeça, tossi, som, limpei a garganta.

— O que disseram a respeito de não lembrar as vidas anteriores?

— Falaram sobre uma espécie de "véu do esquecimento" que existe na mente consciente, a fim de não ficarmos continuamente traumatizados pelo que possa ter ocorrido antes. Todas disseram que a vida presente é a importante, apenas entremeada por aqueles sentimentos de déjà-vu, de que já passou por alguma coisa antes ou conhece alguém que jamais encontrara conscientemente nesta vida. Já experimentou esses sentimentos ocasionais de que esteve em algum lugar antes, embora tenha certeza de que lá chegou pela pri­meira vez?

— Já, sim. Entendo perfeitamente o que está dizendo.

Era um grande alívio saber do que ele estava falando. Podia me lembrar como me sentira nos Himalaias... como se lá tivesse vivido sozinha por muito tempo. Lembrava de haver me sentido familiar quando alcançara a caverna no topo da montanha em que vivia o monge que me dera o pano cor de açafrão. O sentimento fa­miliar fora o motivo pelo qual levara a sério sua advertência, a razão para que guardasse o pano até hoje. Sempre sentira que significa­va algo a mais para mim do que apenas o que o monge dissera. Mas jamais entendera direito por que me sentia assim.

John pediu a um dos seus assistentes que trouxesse chá, depois sentou no banco ao meu lado, logo abaixo de uma prateleira cheia de livros.

— Sei que estou falando demais, mas quando entro no assunto não consigo mais parar. É tão importante... Para pessoas como Pitágoras, Platão ou qualquer uma das outras, todos os infortúnios da vida, como doença, deformidades, injustiças e todo o resto, eram explicados pelo fato de que cada encarnação representava uma re­compensa ou punição de uma encarnação anterior. À medida que a alma progredia, a pessoa era recompensada com mais opções de como reencarnar, tudo com o propósito moral, é claro, de consumar o carma individual. Uma alma realmente superior, por exemplo, es­colheria consumar o seu carma através de uma encarnação de auto-sacrifício. Mas cada identidade tem a sua coisa. E aparentemente quanto mais antiga e mais elevada é a alma em realização espiritual, mais pode lembrar encarnações anteriores.

— E se uma alma não quiser progredir? E se uma alma quiser esquecer toda a coisa e dizer que tudo se dane?

— Também já se escreveu muito sobre isso. Uma alma pode optar por avançar ou regredir. Se escolher pela regressão contínua, acabará perdendo a humanidade e se tornará como animal, sem opções para avanço ou compensação moral. É o que se refere como Inferno. Se não optar pela evolução espiritual, a alma perde a opor­tunidade depois de algum tempo e isso é o Inferno.

— Era isso então o que estavam querendo dizer ao falarem que iria para o Inferno quem não acreditasse em Deus... uma es­pécie de terra da inexistência?

— Claro. E há o inverso. .. Deus, significando a eternidade da alma e a consecução da plenitude moral, a reconciliação moral. Sabe o que isso significa?

— Acho que não.

— Significa reconciliação com o criador original ou com a criação original. Somos ao mesmo tempo criadores e, infelizmente, destruidores. Mas quando nos identificamos mais fortemente com a criação, estamos mais perto da reconciliação. Quando se começa a desenredar um pouco, toda a tapeçaria passa a fazer sentido.

— Quer dizer que a reencarnação das almas faz com que até o pior mal e sofrimento tenham sentido?

— Claro. Tudo acontece por uma razão. Todo sofrimento físi­co, toda felicidade, todo desespero e toda alegria acontecem em re­lação às Leis de Justiça Cármicas. É por isso que a vida tem sentido.

John fez uma pausa, começou a levantar o braço, a fim de apresentar outro argumento. Mas suspendeu o movimento no meio, talvez por ver a expressão em meu rosto, baixou o braço e disse simplesmente:

— Vamos tomar o chá.

Entramos no escritório dele e fomos sentar a uma janela, ensombreada por uma árvore grande lá fora.

— Como passou a se interessar por tudo isso depois que esteve na Índia? — perguntou John.

Tomei um gole do chá de gengibre quente.

— Talvez, em outra encarnação, eu tenha sido um monge himalaio que conhecia todos os mistérios da vida. Estou voltando para reapreender o que já sei.

Ele riu.

— Muitas pessoas por aqui acreditam na reencarnação, Justiça Cármica e tudo isso?

— Claro. E você sabe disso. Há muitos malucos por aí. — John piscou e levantou-se. — Muito bem, você já tem os seus livros sobre psiquismo. Vamos ver o que acontece dentro de uma semana ou mais. Estarei aqui, se você quiser conversar mais um pouco.

Terminamos de tomar o chá.

Agradeci, paguei os livros e saí para o tráfego na Melrose Avenue. O que John queria acreditar era problema dele, mas pelo menos eu escutara e agora leria os livros.

Fui para minha casa em Encino. Marie serviu-me um chá, pão francês quente e queijo Brie. Ela sempre guardava o Brie ao bom estilo francês, na temperatura ambiente, até que derretesse para a beirada da travessa de porcelana Limoge em que o colocava. Eu adorava a atenção para os detalhes de Marie. E por isso não im­portava que ela não me quisesse em sua cozinha.

Eu sabia que não deveria estar comendo pão e queijo, mas não me importava. Levei tudo para o meu quarto, sentei com os livros novos e comecei a ler sobre Edgar Cayce.

 

Edgar Cayce nasceu em 1877, perto de Hopkinsville, no Ken-tucky. Era um homem simples, um devoto religioso (cristão), es­sencialmente inculto, não terminara o curso secundário por precisar trabalhar.

Sofria de asma crônica e procurara um hipnotizador experien­te e respeitado, em busca de alívio, depois que os médicos tradicio­nais mostraram não ser capazes de ajudá-lo.

Sob hipnose, uma coisa estranha aconteceu com Cayce. Ele começou a falar na terceira pessoa, com uma voz que não tinha qualquer semelhança com a sua. Usava a palavra "nós" e começou a prescrever um tratamento para si mesmo, em grandes detalhes. Quando a sessão terminou, o hipnotizador informou o que aconte­cera e sugeriu que Cayce seguisse as instruções. Em desespero, Cayce experimentou. A asma logo desapareceu. Mas ficou horrori­zado quando o hipnotizador descreveu a "voz" que aparentemente estivera falando por intermédio dele. Considerou uma blasfêmia. A Bíblia dizia que o homem nunca devia "consentir qualquer entidade espiritual que não fosse Deus". E Cayce era um homem que acre­ditava na Bíblia.

Mas Cayce também sentia uma profunda compaixão pelos outros. Como a Voz parecia servir para ajudar às pessoas, ele re­solveu consenti-la por algum tempo. Cayce não demorou a apren­der a se colocar em transe, a fim de ajudar aos outros. A Voz (que se descrevia como "nós") sempre usava terminologia médica e re­ceitava do que era obviamente um vasto conhecimento de medici­na, um assunto sobre o qual Cayce nada sabia. Se os tratamentos prescritos eram seguidos acuradamente, sempre davam certo. Cayce passou a confiar no processo, tanto quanto as pessoas que iam pro­curá-lo.

A notícia sobre o estranho poder de Cayce se espalhou. Pessoas de toda a sua comunidade começaram a procurá-lo, depois gente do país inteiro. Ele não precisava ver ou se encontrar pessoalmente com os pacientes que procuravam ajuda. O "nós" parecia capaz de penetrar em suas mentes e corpos, explorar o estado em questão, prescrever tratamentos que sempre davam certo, se seguidos fielmente.

The New York Times publicou uma ampla matéria investigativa sobre Cayce, concluiu que não havia explicação. Não havia qualquer indício de que Cayce estivesse falando do próprio subcons­ciente (ele nada sabia da profissão médica); e quanto a entidades "espirituais", o Times não podia fazer comentários.

Cayce tornou-se famoso no mundo inteiro.

Não demorou muito para que pessoas começassem a interrogar a Voz de Cayce sobre questões mais cósmicas.

— Qual é o propósito da vida?

— Existe vida depois da morte?

— A reencarnação da alma acontece?

A Voz respondeu afirmativamente a todas essas perguntas, passando a falar das vidas anteriores das pessoas que a interrogavam. Relacionava experiências de vidas anteriores com determinadas doenças que um indivíduo podia estar sofrendo agora.

Cayce tornou-se outra vez aturdido e confuso. Tais ligações cósmicas nunca haviam lhe ocorrido. O tratamento médico era-lhe aceitável, mas considerava anti-religiosas as informações sobre vidas anteriores. A Bíblia nada dizia a respeito de tais coisas. Por algum tempo, ele se recusou a aceitar as informações. Eram estranhas demais. Mas logo passou a ter dúvida, com exemplos sucessivos de confirmação de identidades de vidas anteriores. Muitas pessoas vol­tavam a procurá-lo com provas de que existira um Fulano de Tal, que vivera nas condições idênticas do passado que ele descrevera. Claro que não tinham provas de que haviam sido tais pessoas. Mas sempre que investigavam em detalhes, sentiam-se estranha e intensa­mente familiares com o que ele escrevera.

A moralidade do carma e reencarnação era intensamente ressal­tada em cada sessão. Por exemplo:

Uma mulher de 38 anos queixara-se de ser incapaz de assumir o casamento, por causa de uma desconfiança dos homens profunda­mente arraigada. Constatou-se que um marido numa reencarnação anterior a abandonara, imediatamente depois do casamento, a fim de se juntar às Cruzadas.

Uma moça de 18 anos tinha um terrível problema de gordura, que não conseguia controlar. Tirando a obesidade, ela era extrema­mente atraente. As sessões revelaram que duas vidas antes ela fora um atleta em Roma, de grande beleza e capaz de proezas atléticas, mas escarnecia freqüentemente de quem era mais corpulento e não podia se movimentar tão bem.

Um rapaz de 21 anos queixava-se de ser um infeliz homosse­xual. As sessões revelaram que na corte real da França ele experi­mentava a maior satisfação em descobrir e denunciar homossexuais. As sessões diziam: "Não condenes. O que condenares nos outros, passarás a ser."

Os arquivos e registros compilados por Cayce estavam entre os mais amplos da história médica. Os 14 mil registros apresentavam exemplos de carma de saúde, carma psicológico, carma retributivo, carma de família, carma de anormalidade mental, carma vocacio­nal... e assim por diante.

Mas o que se destacou, acima de qualquer outra coisa, foi a necessidade de afirmação do livre-arbítrio. A Voz dizia que o erro básico do homem é a convicção de que sua vida é predeterminada e, portanto, é incapaz de mudá-la. Dizia que as vidas que levamos agora encerram a prioridade superior e a afirmação do livro-arbítrio em relação ao carma é a missão mais importante. Cabia-nos entrar em contato com nós mesmos, espiritualmente, a fim de po­dermos alcançar alguma percepção de nossos propósitos na vida. Para cada ato, para cada indiferença, para cada uso errôneo da vida, somos em última análise responsáveis. E nos compete compreender quais podem ser as conseqüências.

Lendo sobre Cayce e as "sessões" de outros psíquicos e mé­diuns de transe, descobri-me fascinada pela idéia de que tudo aquilo podia ser verdade. Não importava de onde vinha a informação, na medida em que fizesse sentido. Talvez fosse a manifestação de um subconsciente psíquico, talvez todos fossem apenas bons atores.

Mas mesmo que isso fosse verdade, a moral da mensagem de todos era inequívoca. E um bom sistema de valores para se viver.

– Todas as respostas estão dentro de você — dizia ele. — Basta procurar.

 

                                           Capítulo 8

Fiquei lendo pela noite afora. Levantei cedo na manhã seguinte e fui às montanhas Calabasas para pensar. As montanhas são es­carpadas e íngremes, com uma vista espetacular do Pacífico. Ani­nhado lá no alto estava "The Ashram", o nome do lugar de retiro religioso na Índia, uma espécie de centro de saúde tosco, com ca­racterísticas espirituais (o "spa" para quem tinha muito dinheiro). Eu adorava as atividades em Ashram e muitas vezes fora até lá a fim de entrar em forma para um especial de televisão ou quando sabia que teria de fazer dois espetáculos por noite em Las Vegas ou Tahoe. Comia alimentos puros e crus, fazia longas caminhadas, até 15 quilômetros subindo pelas montanhas, muitos exercícios ao ar livre, entrando em contato com o que as suecas que dirigiam o lugar chamavam de "prana" no ar. As suecas eram Anne Marie Bennstrom (que fundara The Ashram) e sua assistente, Katerina Hedwig. Elas pareciam saber praticamente tudo que havia para se saber sobre saúde. Eu confiava nelas, porque sempre me sentia muito bem depois do tratamento.

Agora, subindo pela trilha, deparei com Katerina, a quem ado­rava. Chamava-a de Cat. Ela comandava um grupo de "internas" por uma das subidas tortuosas. Bastava eu olhar para Cat e já me sentia melhor. Ela era alegre. Exuberante, divertida, serena, inteli­gente, assim como Anne Marie, as duas estavam empenhadas na exploração espiritual e eram devotas de Sai Baba, um avatar da Índia.

Cat era uma mulher grande e tão forte quanto as montanhas que escalava. Era gentil mas vigorosa; sua personalidade contagian­te conduzira-me através de um período de provação particularmen­te árduo, quando eu voltara primeiro da campanha política por George McGovern e depois da China... com 10 quilos a mais. Ela fazia com que a dor e a disciplina fossem suportáveis. Eu caçoava dela, dizendo que seu apelido era Cat por ser uma "cat"alisadora dos acontecimentos subseqüentes, responsáveis por uma mudança completa em minha vida.

Fomos subindo juntas pela trilha. Não falei nada por algum tempo. Cat também não falou. Eu me sentia contente por isso, pois não se tem mesmo muito fôlego para se falar quando se está subin­do por uma trilha nas montanhas. Chegando lá em cima, nós nos espreguiçamos e contemplamos o Pacífico. Cat pareceu sentir que eu queria falar, mas não sabia como.

— E então, minha dama volúvel da fama, como tem passado?

"Dama volúvel da fama?" Era uma estranha maneira de se re­ferir a mim.

— Está querendo dizer que me considera volúvel?

Eu ri, sem saber direito por que sentia necessidade de fazê-lo.

— Exatamente. Em relação à fama, você é mesmo volúvel. Não sabe realmente o que quer, não é mesmo?

Cat tinha um jeito terrível de focalizar imediatamente o con­flito que uma pessoa podia estar sentindo.

— Fama? Acho que nunca dei muita importância ao reconhecimento. Sempre me preocupei mais com a qualidade do trabalho. E neste momento me importo mais com o que estou procurando.

— Ou seja, a você mesma.

— A mim mesma? Acha que me preocupo mais comigo?

— Estou querendo dizer que parece mais preocupada em des­cobrir quem você é do que com a fama. Não é verdade, Shirley?

— É sim... e é uma luta. Porque me descubro de repente numa dimensão de mim mesma que não sabia que existia, pratica­mente jamais explorada antes.

— Está falando de sua dimensão espiritual?

Soava muito banal ouvir outra pessoa traduzir em palavras. Mas as palavras não eram mais refúgios seguros. Lembrei como passara julgamento muitas vezes sobre as palavras que as pessoas escolhiam usar quando descreviam uma experiência profundamente comovente, relacionada com alguma ocorrência abstrata em suas vidas.

— Isso mesmo. Acho que se pode dizer que estou curiosa sobre essas coisas espirituais. Não sei o que está acontecendo, mas quanto mais ouço a respeito, mais quero ouvir.

Senti que estava apresentando a declaração como se formulas­se uma pergunta.

— Oh, Shirley, isso é maravilhoso! — O riso alegre de Cat envolvia cada palavra. — Não acha que é extremamente satisfató­rio ser atraída para o espírito?

Enfiei as mãos nos bolsos do meu blusão de corrida.

— Atraída para o espírito? É isso o que estou experimentando?

— Claro, Shirley. — Cat sorriu. — Deus e o reconhecimento espiritual são tudo. É por isso que estamos aqui. É toda a explicação e o propósito da vida. É só para isso que eu vivo. Não me importo se nunca mais tiver um homem... e você sabe como eu era vigorosa. Pois esqueci tudo. Sinto a minha própria luz espiri­tual e estou apaixonada por isso, não preciso de qualquer outra coisa.

Se eu pudesse estar apaixonada por minha própria luz espiri­tual, pensei, isso me pouparia muitas viagens de avião e também bastante sofrimento.

— Acho que eu deveria seguir adiante, mas não sei direito como fazê-lo.

— Conheço uma entidade maravilhosa com quem você deve­ria se encontrar, Shirley. Anne Marie está com ele agora na Suécia. Mas está pensando em trazê-lo para cá.

— Espere um pouco, Cat — falei, interrompendo o entusias­mo total dela. — Uma entidade na Suécia? Que tipo de entidade?

— Uma entidade espiritual. O nome dele é Ambres e se ma­nifesta através de um homem chamado Sturé Johanssen.

— Se manifesta através? Está falando de manifestação em transe?

— Mas é claro! — exclamou Cat, surpresa por eu não ter compreendido. — Sturé é um carpinteiro muito simples que vive em Estocolmo. Uma entidade espiritual que se chama Ambres usa-o como instrumento para falar. As coisas que ele diz são de uma be­leza incrível, Shirley. Você tem de ouvi-lo. É claro que ele fala apenas em sueco... e sueco arcaico, diga-se de passagem... mas Anne Marie ou eu traduziremos para você. É uma entidade forte, poderosa, benevolente. Tenho certeza de que você vai amá-lo, Shirley.

— Estocolmo? É um bocado longe para se falar com um es­pírito.

Cat riu.

– Talvez no ano que vem Anne Marie consiga trazer Sturé e a mulher para os Estados Unidos. Você poderá então ter uma sessão.

– Ele funciona da mesma maneira que Edgar Cayce? — in­daguei, lembrando o que acabara de ler a respeito de Cayce.

- Exatamente. Os dois são canais em transe para a manifes­tação de entidades no outro lado.

Andamos por algum tempo. Cat estava bastante animada pela perspectiva de eu me expor a uma dimensão da vida que ela já aceitara há muito tempo. Mas eu queria conferir os sentimentos dela.

– Cat... você acredita sinceramente que ha um   "outro lado" e que entidades espirituais desencarnadas podem nos falar e ensinar, todas essas coisas?

Cat virou-se e fitou-me com uma expressão atônita.

— Está perguntando se eu acredito?

Acenei afirmativamente.

– Não — respondeu ela, chocando-me e fazendo-me estacar abruptamente. — Acreditar, não... absolutamente não. Eu tenho certeza.

Por se tratar de Cat, compreendi que acabara de ouvir uma resoluta declaração de fé. E ela o dissera com profundo amor. Qualquer outra pergunta desconfiada que eu pudesse lhe fazer, dali por diante, seria um reflexo da minha própria incapacidade de aceitar o sistema de valores fundamentais de Cat. Eu estaria julgando ou questionando as próprias profundezas do que constituía seu caráter e personalidade. Podia me fantasiar como uma espécie de repórter aventureira da humanidade, mas de jeito nenhum iria escarnecer das crenças de outro ser humano ou de sua "certeza", como Cat aparentemente a definia.

— Esse Ambres parece ser uma entidade interessante para se conhecer — comentei, sentindo-me como uma impostora ao ouvir a palavra "entidade" sair pela minha boca.

— Nós lhe telefonaremos assim que Anne Marie chegar aos Estados Unidos com Sturé e a mulher, Shirley. É uma pena que você não tenha algum pretexto para ir a Estocolmo. Não está pre­cisando comprar um par de esquis ou algo assim?

Nós duas rimos, enquanto continuávamos a andar. Iniciamos uma conversa sobre alimentos naturais e as últimas informações sobre o que os laticínios podiam fazer com o sistema digestivo. Depois nos despedimos com um abraço, prometendo mutuamente prosseguir por nossa exploração espiritual recentemente desenca­deada.

Voltei imediatamente para casa, sentindo um impulso forte de telefonar para Gerry em Londres. Precisava falar com ele de qual­quer maneira. Mais do que isso, sentia necessidade de vê-lo. Acho que queria ouvi-lo, tocá-lo, experimentá-lo, como o meu outro mun­do real. Não tinha vontade de ver outros amigos e dispunha de algum tempo livre antes de começarem os ensaios para o meu pró­ximo show.

Ao telefonar para ele, lembrei como fora condicionada a con­ferir meus sentimentos com o homem por quem estava apaixonada. De certa forma, os meus sentimentos, indagações, a minha busca, os meus novos interesses pareciam parcialmente inadequados e ape­nas compreendidos pela metade se não incluíssem "o" homem. Não podia conversar com Gerry a respeito das coisas em que estava me lançando, mas a sua simples presença me ajudaria a conferir minhas percepções. Era difícil admitir que eu precisava ratificar minha, pró­pria identidade em relação ao homem na minha vida, mas era o que acontecia.

Encontrei-o em seu escritório em Londres.

— Olá.

Ele não ficou absolutamente surpreso pelo meu telefonema logo depois de nosso encontro em Honolulu. Senti que ele estava com pressa e fui logo dizendo:

— Sei que você anda muito ocupado, Gerry, mas quero ir a Londres para encontrá-lo. Tenho algumas semanas livres e quero passá-las em sua companhia.

Pude sentir a hesitação dele, no outro lado do Atlântico.

Gerry finalmente respondeu:

— O problema é que estou de partida para Estocolmo.

— Na Suécia? — balbuciei, como uma idiota, completamente aturdida.

Afinal, eu concordara pouco antes com Cat que era uma pena não ter algum pretexto para viajar até lá. Como penso a respeito hoje, eu teria de dizer que isso foi o começo de uma sucessão de acontecimentos que me proporcionaram um senso de padrão defi­nido, à medida que foram se desenrolando. É claro que se pode dizer que quase tudo na vida não passa de mera coincidência; mas depois de algum tempo, quando as coincidências se tornam múlti­plas, é necessária uma redefinição do "acidental".

Gerry continuou a falar de sua viagem a Estocolmo:

— Isso mesmo. Tenho uma conferência econômica socialista e passarei uma semana lá.

— E por que eu não vou também para Estocolmo, Gerry? Adoro a neve.

Ele não disse nada. Ouvi-o pedir polidamente a alguém que o deixasse sozinho, mexer em alguns papéis.

— Gerry?

– Pode falar.

– Preciso conversar com você, Gerry. Preciso estar ao seu lado. Sinto muita saudade. Juro que sinto. E acho que preciso saber como você se sente realmente.

Senti que estava me comportando como uma colegial a perse­guir seu herói. Fiquei esperando que ele dissesse alguma coisa. Cada momento de silêncio parecia ter um significado horrivelmente an­gustiante. Gerry finalmente voltou a falar:

– Também sinto muita saudade.

Ele estava contrafeito, mas insisti:

— Então está combinado? Poderei me encontrar com você em Estocolmo? Cuidarei de tudo.

– Que história é essa de querer saber como eu me sinto real­mente?

Ele parecia assustado.

– Qual é o problema, Gerry?

— Estou perturbado.

— Já percebi. Perturbado com o quê?

— Perturbado de prazer.

– Que prazer? O que está querendo dizer?

– Estou transtornado de prazer por saber o que significo para você.

– Mas por que isso o deixa assim perturbado?

– Não posso compreender por que sou tão importante para você. E isso me faz sentir inadequado.

Eu não sabia o que dizer. Não sabia o que ele estava realmen­te dizendo.

— Você quer me ver, Gerry?

— Estou ansioso por me encontrar com você, mas receio desapontá-la. E detesto isso. Detesto esse pressentimento de que vou desapontá-la.

— Talvez o importante seja não desapontar a si mesmo. Poderemos conversar?

— Apareça em Estocolmo dentro de dois dias. Estarei no Grand. Você deve se hospedar em outro hotel. — Ele hesitou por um instante e depois sussurrou, antes de desligar: —- Até lá.

Fiquei sentada a pensar no que deveria ser sentir-se inadequado para outra pessoa. Era um sentimento que eu jamais experimentara, até onde podia me lembrar. Já me sentira dependente da outros, especialmente em relação à síndrome do "homem", mas as inadequações que geralmente sentia eram em relação a mim mesma, o que podia ser igualmente terrível. Os padrões e objetivos que eu me fixava eram às vezes impossíveis de serem alcançados, torna­vam-me exigente demais. Talvez David estivesse certo. Talvez eu não quisesse desapontar a mim mesma. Não queria fazer o que ele fizera.

Mas Gerry não era o único que se queixara de sentir-se inade­quado comigo. Lembrei de diversos relacionamentos importantes que haviam terminado porque os homens simplesmente ficavam com medo de não corresponder às minhas expectativas; por causa disso, passavam a se sentir constrangidos. Eu não sabia a que atribuir a responsabilidade por tais rompimentos. Seria minha, por exigir demais? Ou seria de um baixo nível de amor-próprio dos homens?

Lembrei de ter conversado a respeito com diversos psicólogos amigos e todos ressaltaram que, por trás de cada mulher com quem um homem se envolvia, estava a imagem obsessiva da mãe. E a mãe era a presença a que o homem não podia corresponder. Bem poucos homens percebiam lucidamente as suas próprias mulheres. A maioria só as percebia através do reflexo obsessivo da própria mãe. E pensando em ir à Suécia para me encontrar com Gerry, lembrei de um relatório de pesquisa bem documentado que lera há algum tempo, quando estudava o problema do suicídio sueco. O elevado índice de suicídio não era causado pelo socialismo, o tempo ou qualquer dos mitos populares nas conversas em coquetéis. Em vez disso, a maioria dos suicídios suecos era causada pelos padrões elevados e expectativas que as mães suecas atribuíam aos filhos, os quais simplesmente sentiam que não podiam "corresponder". E por depressão e frustração, sentiam-se tão inadequados que recorriam ao suicídio.

Talvez os homens, por toda parte, estivessem sofrendo um senso não muito intenso, mas ainda assim perturbador, de dupla imagem em relação às mulheres.

E nesta era de liberação feminina, em que as mulheres se quei­xavam do sentimento de serem viciadas na obrigação de ter um homem, os homens podiam estar sofrendo das pressões infantis que expunham uma carência básica de convicção em si mesmos, o que lhes era igualmente devastador. Nos dois casos, o problema estava na identidade. Gerry dizia que não podia compreender por que era importante para mim, como se ele, com toda a sua inteligência, talentos e realizações, não merecesse a minha atenção. Ele era um homem bem-sucedido, óbvia e publicamente. E o simples reconhecimento de que ele era importante para mim, num sentido muito pessoal, estava fazendo aflorar a sua insegurança pessoal.

A liberação feminina era certamente importante, mas pare­cia-me que a liberação masculina era igualmente importante. Se os homens fossem mais livres, em relação a quem realmente eram, não lhes seria tão necessário que colonizassem as mulheres a tal ponto em suas vidas. Talvez, no meu caso, porque eu era pessoal­mente tão incolonizável, eles tivessem de analisar o verdadeiro sig­nificado de igualdade. E se havia resistência à verdadeira igualdade no relacionamento, este inevitavelmente se dissolveria. E como podia um homem sentir-se igual se não acreditasse que era digno de ser amado?

Eu não sabia coisa alguma a respeito da mãe de Gerry, mas isso não tinha a menor importância, a longo prazo. A verdadeira questão era o que ele pensava agora de si mesmo. Esta parecia ser a questão a se levantar para todos.

Comecei a compreender, por uma nova perspectiva, que a compreensão pessoal era a mais árdua e a mais importante de todas as buscas. Ninguém se sentia pleno e com amor por si mesmo sufi­ciente para compreender que a própria identidade era a resposta para uma felicidade consumada. O que mais precisávamos realmen­te era de um completo relacionamento com nós mesmos. Talvez esse problema, cm termos cósmicos ou humanos, fosse o que Moisés, Cristo, Buda, Pitágoras, Platão e todos os sábios religiosos e filo­sóficos, ao. longo dos tempos, haviam tentado nos explicar... co­nheça a si mesmo e essa verdade o libertará.

Vamos supor que um dos caminhos para compreender quem cada um de nós realmente era fosse o de ter conhecimento de quem poderíamos ter sido em vidas anteriores. Havia muitos exemplos em que a psiquiatria parecia ser incapaz de mergulhar bastante fundo para chegar à raiz de um distúrbio individual. Talvez a com­preensão da vida anterior pudesse. Se mães, pais e experiências na infância, em nossas vidas atuais, moldavam e condicionavam como nos relacionávamos com a vida e a realidade hoje, por que expe­riências anteriores não podiam fazer a mesma coisa?

Lembrei de ter conversado com Paddy Chayevsky, antes de sua morte, sobre o livro que ele estava escrevendo, Mergulho no Subconsciente. Ele efetuara uma ampla pesquisa científica a respei­to e dizia no livro que cada ser humano possui, em sua memória celular, toda a experiência da raça humana, desde os primórdios da criação. Creio que minha mente estava seguindo pelo mesmo caminho. Qual era a diferença entre memória celular desde o co­meço dos tempos e recordações de vidas anteriores? Uma forma de memória era pelo menos tão milagrosa quanto a outra.

Especulei se não poderia ter conhecido Gerry em outra vida; e se isso tivesse acontecido, imaginei qual seria o nosso carma que nos levava a enfrentar tantos obstáculos em nosso relacionamento agora. E me perguntei se estaríamos seguindo pelo caminho certo.

Telefonei para Cat e disse que estava de partida para Estocol­mo. Ela não ficou surpresa. Deu-me o endereço e telefone do mé­dium e eu disse que iria procurá-lo.

 

                                         Capítulo 9

Eu já estivera várias vezes em Estocolmo e era um lugar que me intrigava. A cidade estava sob a neve quando cheguei, como um cartão-postal de uma fantasia nórdica.

Fui recebida no aeroporto por um amigo a quem telefonara.

Eram sete horas da noite. Um véu de neve caía e calculei que em breve estaria escuro durante o dia inteiro, como sempre acon­tecia no rigor dos famosos invernos suecos. Já estivera na Suécia uma vez durante o inverno e quando o nariz escorria, o líquido con­gelava no rosto. Durante aqueles dias, ao final dos anos 50, a Suécia era uma espécie de mistério social e físico para aqueles que tinham ouvido falar alguma coisa do pequeno país que optara pelo socia­lismo através do voto. Lembro da emoção que experimentei quando sentei no salão em que eram entregues os Prêmios Nobel da Paz, ao ouvir que não havia lugares preferenciais ou distinção de classe na Suécia. Ouvira dizer que era um país de amor livre e que nin­guém se importava se marido ou mulher resolvia dormir com outra pessoa. Mas descobrira que a imagem não era acurada, que muitos suecos não admitiam viver assim, especialmente as mulheres. Os suecos eram basicamente tão conservadores quanto qualquer outro povo do mundo, embora a política governamental lhes concedesse mais liberdade pessoal legítima que em qualquer outra parte do mundo.

Eu estivera na Suécia durante o Festival das Luzes, chamado Santa Lúcia, que comemorava o final dos dias longos e escuros, o começo da lenta jornada para outro verão. Os suecos viviam para o sol e pareciam hibernar em suas mentes até que voltasse. Uma espécie de depressão institucionalizada se abatia sobre o povo du­rante os meses de inverno... que se prolongavam pela maior parte do ano. "O verão caiu numa terça-feira no ano passado" era uma das piadas suecas prediletas. O inverno na Suécia não poderia ani­mar meu relacionamento com Gerry.

Meu amigo levou-me para jantar e depois para comer ostras e arenque. Fui para o hotel em que ele me fizera uma reserva, instalando-me numa pequena suíte que dava para a enseada. A sala tinha uma janela panorâmica e o quarto oferecia uma cama de casal. Joguei-me na cama e acordei cerca de quatro horas depois, com vontade de vomitar, o que fiz pelo resto da noite. Fora uma das ostras.

O sol apareceu por volta das nove horas da manhã seguinte e depois o dia se tornou inteiramente encoberto, com uma tênue ne­blina. Um lençol de gelo na baía, no outro lado da rua, era rompido a cada hora por um rebocador, que circulava interminavelmente, enquanto filas de caminhões empilhavam a neve, que haviam reco­lhido das ruas durante a manhã, dentro da baía. Os barcos de tu­rismo estavam aprisionados pelas águas congeladas, aguardando a chegada da primavera.

Tomei café e saí para dar uma pequena volta. Queria estar no hotel quando Gerry telefonasse e por isso voltei apressadamente. O gelo escorregadio se espalhava por todas as ruas da cidade, mas os suecos não tinham qualquer dificuldade em transpor esquinas e meios-fios. Eu tinha a sensação de que iria cair a cada passo.

Quando cheguei ao hotel, a gerente me procurou, indagando se eu desejava alguma coisa. Pedi um secador de cabelos com a voltagem sueca e um cobertor extra, garantindo que isso seria suficiente para me deixar muito confortável.

Havia uma entrada particular por onde uma pessoa podia entrar ou sair do hotel sem ser notada. Além disso, a gerente prometeu que as telefonistas protegeriam a minha identidade dos jornalistas.

Fiquei esperando no quarto pelo resto do dia. Gerry telefonou por volta das seis horas.

— Oi.

— Oi.

— Como você está?

— Muito bem.

— Quando você chegou?

— Ontem à noite.

— Ontem à noite? Pensei que só chegaria por volta das cinco horas da tarde de hoje.

— Não. Eu lhe disse que viria no dia 16.

— Ahn... Posso ir até aí?

— Claro. Já comeu?

— Não. Pararei em algum lugar pelo caminho.

— Não precisa. Providenciarei alguma coisa aqui. E assim você poderá chegar mais cedo.

— Está bem. Até já.

A voz de Gerry parecia mais autoritária, como se ele estivesse no comando de si mesmo.

Deixei a porta do quarto destrancada, a fim de que ele não tivesse de esperar depois que batesse. E meia hora depois lá estava Gerry.

Ele entrou no quarto com imensas luvas de couro, as mesmas que eu imaginava que sua esposa desaprovava, parecendo pálido e tenso.

Atravessei o quarto para abraçá-lo, mas ele seguiu direto para a janela e olhou para fora, orientando-se sobre a posição do meu hotel em relação ao seu.

Usava uma capa impermeável sem forro de pele, um terno de tweed que eu já vira no outono e sapatos de couro com grossas solas de borracha.

— Minha avó se tornou famosa por patinar em gelo fino numa baía como esta — disse ele — usando uma saia que caía apenas uns poucos centímetros abaixo dos joelhos.

— Talvez você se torne famoso por patinar em gelo fino usan­do calça.

Gerry sorriu. Foi até a outra janela.

— Está vendo aquela fieira de luzes parecendo um pênis? Meu hotel fica logo depois.

Uma fieira de luzes parecendo um pênis para ele? Interessante...

Postei-me ao seu lado, junto à janela. Gerry virou-se e pôs a mão num dos meus seios.

Convidei-o a sentar ao meu lado. Pedira dois sanduíches decker club, que no final das contas não passavam de salada de alface e tomate entre torradas.

Gerry acomodou-se no sofá e começou a devorar um dos sanduíches. Falou sobre os cortes iminentes no orçamento, os proble­mas de aumentar impostos num ano eleitoral, um jornalista ameri­cano com quem conversara durante o dia inteiro. Perguntou como estavam os meus ensaios. Respondi que começariam em breve. En­quanto eu falava, os olhos de Gerry me absorviam, meus cabelos, movimentos, roupas, corpo... mas não me tocou. Por minha vez, sentia-me intimidada demais para tocá-lo. Continuamos a conver­sar... sobre as pessoas que fugiam em barcos do Vietnam, como seriam muito mais felizes na França, se a Europa fosse o lugar para onde queriam ir, Sihanouk na ONU e o fato de que a esquerda in­glesa estava dividida ao meio por causa da invasão vietnamita do Cambodja. Evitamos o assunto nós, até que ambos nos orientamos.

Ele recostou-se no sofá. Senti que estava exausto e que isso já vinha acontecendo há algum tempo. Senti também que ele sabia que não havia qualquer problema no fato de eu tomar conhecimento disso. Sentei junto e levei a mão aos seus cabelos. Ele não objetou. Recostou a cabeça no encosto do sofá. Os braços repousavam no colo. Não estendeu as mãos para mim. Encostei a cabeça em seu peito e fitei-o, depois beijei-o gentilmente nos lábios. Ainda estavam um pouco frios do tempo lá fora. Levantando a cabeça, ele desviou-se um pouco e estendeu a mão para o outro sanduíche. Esperei que ele acabasse.

Gerry tornou a se recostar e suspirou.

– Por que não me deixa lhe fazer uma massagem, Gerry? Só precisa ficar deitado. Está bem?

Ele se levantou no mesmo instante e se encaminhou para a cama. Virou-se e esperou que eu lhe tirasse o paletó, a camisa e a gravata. Bem que tentei, mas não consegui desfazer o nó da gra­vata. Gerry riu.

– Pensei que você tivesse dito que eu não precisaria fazer coisa alguma.

Ele tirou a gravata e ficou imóvel em seguida, os braços caídos nos lados do corpo. Não fiz qualquer movimento para lhe tirar a calça. Virei-o, empurrando-o gentilmente para a cama, o rosto para baixo. Peguei um pouco de creme Albolene e comecei a lhe massagear as costas. Ele suspirou de prazer e contraiu os braços por baixo do corpo. Tirei minha calça comprida e a suéter, a fim de poder montar nele, na cintura, usando a técnica de massagem que aprendera no Japão.

Minhas unhas representavam um problema e por isso usei a base das mãos. Os ombros e braços de Gerry eram muito musculo­sos, minhas mãos pareciam ineficazes. Mas ele suspirou fundo.

— Sabe, Shirl, esta é a primeira massagem que recebo, em toda a minha vida.

Eu sabia que ele estava dizendo a verdade, por mais incrível que pudesse parecer. Mas também havia muita coisa em matéria de prazer pessoal que Gerry desconhecia. A pele dele estava fria.

Eu sabia como ele devia estar sentindo as minhas mãos quentes. Massageei-lhe o pescoço até que o senti relaxar. Passei mais creme Albolene nas mãos e desci pelas costas, até a cintura. Gerry come­çou a ondular por baixo de mim e jovialmente dei-lhe uma palmada.

Continuei a massagear-lhe as costas e cintura. Gerry se virou e passou um braço por minha cintura. Eu sabia que ele estava cansado, mas não se deteria. Gerry passou também o outro braço ao meu redor.

Toda a cena era irreal. Éramos perfeitamente livres para fazer amor, mas por algum motivo ele queria que fosse como se não estivesse acontecendo.

Tentei me desvencilhar de suas mãos, ainda lhe massageando as costas. Gerry virou-se e puxou-me. Acabei caindo por cima dele, comprimindo-me contra as suas costas, apertando-o com as pernas. Ele virou o corpo.

Antes que eu percebesse o que estava acontecendo, Gerry agar­rou-me e estávamos fazendo amor. Os braços dele me apertavam com tanta força que eu mal conseguia respirar. Sussurrei interminavelmente que o amava. Sua única resposta foi respirar como se tivesse voltado para casa.

E, depois, ele descansou. Nenhum dos dois falou.

Gerry ficou imóvel, como se nunca quisesse se mexer.

Senti medo de repente. Remexi-me por baixo dele.

— Gerry...

— O que é?

— Tenho medo. Preciso conversar.

Balbuciei ao falar, estendi-me ao lado dele. Ele ficou olhando para o teto por algum tempo. Depois, soerguendo-se num dos bra­ços, fitou-me nos olhos.

— Tenho pensado muito todos os dias, Shirl. Vou enunciar o problema. Mas não vou oferecer qualquer solução, pois ainda não encontrei nenhuma.

Senti o estômago se contrair.

— Eu a amo, Shirl. Eu a amo profundamente, mas metade de mim resiste. Eu me contenho subconscientemente, porque sei que não sou bastante forte para suportar as conseqüências do nosso relacionamento, em termos políticos ou pessoais. Sinto que entrei numa espécie de buraco mental e físico com este relacionamento. O que me ficou bem claro é que não sou bastante forte. Tenho me enfrentado até agora, mas posso agora perceber tudo claramente e quero ser justo com você.

Ele me afagou os cabelos e sorriu timidamente, quase como uma criança sorriria, sentindo-se culpado pela verdade do que es­tava dizendo.

— Por favor, Gerry, não me afague os cabelos e não sorria timidamente. Apenas me trate seriamente e me conte a verdade.

O rosto dele ficou solene. Podia compreender, embora não me conhecesse há muito tempo, que eu estava mais séria do que em qualquer outro momento de minha vida. E fitou-me ainda mais fundo nos olhos.

— Sem você, eu posso reprimir meus sentimentos. Mas quando a vejo, amo seu rosto, seus cabelos, amo escutar as coisas que me diz. Amo acariciá-la. Amo você e amo amar você. Todos esses sen­timentos voltam e não posso contê-los.

Eu sentia vontade de chorar. Ele fez uma longa pausa.

— Não compreendo por que você me ama. Subjetivamente, acho que sei; mas objetivamente, não entendo.

Ele ficou esperando que eu dissesse alguma coisa.

— Você não compreende por que o amo ou que eu o amo?

— Não compreendo nenhuma das duas coisas. Aí está, já enun­ciei o problema. Não vamos mais falar a respeito.

Não falei nada. Ele parecia estar com medo de ter me dado a deixa para ir embora.

— Vamos nos meter debaixo das cobertas, Gerry.

Foi o que fizemos. Não fiz qualquer comentário sobre o que ele acabara de dizer. E Gerry resolveu continuar:

— O mundo está louco neste momento. Quero ajudar meu partido e meu país a ingressarem num período melhor. Politicamen­te, nosso relacionamento pode me fazer perder a eleição. Sei que é uma coisa terrível para se dizer, mas é a verdade. E não posso fazer isso com meu partido. Eles contam comigo para vencer outra vez. Também não quero perder meu lugar no Parlamento. Mas, pes­soalmente, reconhecer nosso amor tornaria tudo três vezes mais di­fícil para mim. Minha mulher e meus filhos têm me aturado pa­cientemente. Não existe uma paixão tempestuosa no relacionamento com minha mulher, mas ela tem sido uma força estabilizadora em minha vida, assim como meus filhos. Moralmente, não posso fazer coisa alguma para magoá-los. Tenho trabalhado durante a maior parte da minha vida, às vezes ao ponto da exaustão, mas eles sem­pre me agüentam. Entende agora como isso é moralmente inaceitável para mim? E mesmo que eu ignorasse os sentimentos de todos os outros, sei que não sou bastante forte para tolerar meus próprios sentimentos, se os magoasse ou prejudicasse a meu partido. E agora, ao lhe dizer tudo, sinto que estou falando de um buraco... mas desse buraco vejo as coisas claramente.

Virei-me por baixo das cobertas, soergui-me num braço e fi­tei-o nos olhos.

— Queria que me dissesse uma coisa. Gerry.

— O que é?

— Tenho a impressão de que, juntamente com a sua solidão, você sente que sua família contém. Isso é verdade?

— É, sim... também é verdade. Mas temos um relacionamen­to intrincado e talvez tenha sido bom que eles me contivessem. Caso contrario, eu poderia ter me tornado uma erva daninha.

— Uma erva daninha?

A imagem me parecia completamente imprópria. Ele estava querendo dizer que, livre da família, sufocaria tudo o que crescesse ao seu redor? Pois era isso o que as ervas daninhas faziam. Ou pen­sava que se tornaria descontrolado e desenfreado sem a disciplina de uma família? Fiquei revirando a imagem na mente, interminavel­mente. Lembrei como ficara impressionada ao ler certa ocasião que não existia tal coisa como erva daninha, mas apenas uma planta no lugar errado.

— Minha mulher é muito rigorosa com os outros. Por isso é que sei que ela nunca aceitaria nosso relacionamento. Nunca fui ca­paz de compreender essa característica dela, mas sei que é muito forte. Ela é monopolista. Dirige a família com mão de ferro.

— Mão de ferro?

— Isso mesmo. E acho que isso tem sido bom. Mas ela seria muito rigorosa na compreensão da minha necessidade de você.

As pontadas de consciência que eu vinha sentindo se desvaneceram rapidamente.

— Mas se você não está disposto a ser o que chamaria de imoral para ela, por que aceita que ela seja imoral para você?

— Não acho que ela esteja sendo imoral.

— Mas, afinal, o que é a imoralidade? Não é imoral ter um julgamento rigoroso com alguém a quem ama?

— Mas todos têm sido ternos e pacientes. Não posso magoá-los agora.

Tentei apreender o que estava dizendo, particularmente porque não estava lhe pedindo qualquer compromisso.

— Ninguém está lhe sugerindo que faça alguma coisa, querido. Eu certamente não estou. Compreenda isso, por favor. Estou mais preocupada com o que você pensa que está fazendo.

— Como assim?

— Já lhe ocorreu que está com medo de explodir com uma nova liberdade?

— Como assim?

— Assumir uma nova liberdade implica muita angústia e responsabilidade. Talvez você esteja preparado para fazer isso quan­do se encontra comigo, mas apenas até certo ponto. E talvez esteja legitimamente se retirando para o seu buraco, a fim de poder evi­tá-lo por mais algum tempo. Uma nova liberdade para você pode significar inclusive um melhor relacionamento com a sua família.

Ele empalideceu.

— Não sei...

— Talvez você esteja em seu buraco porque seu próprio potencial o assusta demais. Tenho a sensação de que me apaixonei por seu potencial e você tem medo disso.

Gerry não disse nada. Depois de um momento, acrescentei:

— Acho que tenho de lhe perguntar, não é mesmo?

— Perguntar o quê?

— Você poderia passar sem mim? Quer continuar sem mim?

O rosto dele ficou tenso, angustiado. Esperei por uma resposta, revolvendo-me por dentro porque ele estava demorando tanto e tam­bém porque ele estava fazendo um esforço sobre-humano para ser justo.

— Não sei, Shirl... Acho que eu teria de dizer sim. Poderia renunciar a meus sentimentos e voltar à solidão que você reconhe­ceu. Isso mesmo, acho que poderia.

Eu senti que tremia interiormente. Parecia que me competia agora tornar as coisas mais fáceis para Gerry e deixá-lo, porque ele me amava. Reprimi as lágrimas.

— O que devo fazer, Gerry? Não sei se eu poderia suportar o quanto o faria solitário, se o deixasse, para não falar nada de mim mesma.

— Tem razão, eu ficaria profundamente desolado se você me deixasse.

— E se você não pode compreender que eu o amo tanto, então como pode compreender como me ama? Se amasse mais a si mes­mo, estaria mais livre para amar a mim e aos outros.

O rosto dele assumiu uma expressão irônica.

— Eis uma coisa que não posso mesmo entender.

— O que estou querendo dizer é o seguinte: você tem de amar a si mesmo, antes de poder realmente amar qualquer outra pessoa.

— Ainda não compreendo.

— É como se você tivesse dedicado toda a sua vida a ajudar aos outros, ignorando completamente que não estava fazendo nada para ajudar a si mesmo.

Ele saiu da cama.

— Isso significa que não quer mais discutir o problema, Gerry?

Ele riu e jogou-se por cima de mim, encabulado.

— Mas há um limite para o que posso agüentar, Shirl. Você é muito forte.

— Implacável é o mundo. Mas você está preparado para isso ou não estaria aqui.

Ele sentou ao meu lado e disse:

— Muito bem, há três soluções, pelo que posso ver. Um: con­tinuar essa fraude política e pessoal. Dois: consumar a sua solu­ção... e...

— Espere um instante. Qual é a minha solução?

— A solução que sugeriu há pouco. Você sabe... Ele não podia dizer expressamente "Deixar-me".

— E três... refletir por mais algum tempo.

— Não estamos refletindo neste momento?

Gerry riu.

— Ou pelo menos estamos falando a respeito.

Ele olhou pela janela.

— Sabe de uma coisa, Shirl? Esta é a conversa pessoal mais longa que já tive na vida.

— Acho que está enganado, Gerry. Tenho a impressão de que é a única conversa pessoal que já teve. Isso é verdade?

— É, sim.

Nossos olhos se encontraram.

— Escute, Gerry, não quero arruinar seu casamento e não que­ro arruinar sua carreira política. Mas também não gosto de partici­par de uma fraude, quer seja pessoal ou política, em qualquer nível.

— Sei disso.

— No que diz respeito a uma solução, eu ficaria feliz se você fosse mais livre quando estivesse comigo... e isso é tudo. Por esse lado, podemos ganhar mais tempo.

— Está bem, eu compreendo. Tentarei ser mais livre, se você continuar com a fraude por mais algum tempo.

— Negócio fechado. Só tem mais uma coisa. Você está certo ao dizer que há um limite a quão implacável devo ser. Mas há tam­bém um limite a quão "justo" você deve ser. Por favor, pare de ser tão justo e apenas se divirta comigo... e eu pararei de ser impla­cável.

— Está certo — respondeu Gerry, rindo.

Ele revirou os olhos e sacudiu a cabeça, numa atitude zombetei­ra de desespero. Era uma pessoa maravilhosa para se conversar: não havia hostilidade, não havia renúncia, não havia contestação, mas apenas um desejo profundo e desesperado de compreender o que estava acontecendo entre nós.

Gerry vestiu-se e eu fiz a mesma coisa. Ele disse que tinha um encontro com jovens em outra cidade e só voltaria a Estocolmo depois de amanhã. Mas tornaríamos a nos encontrar assim que ele voltasse.

Eu concordaria em participar da fraude, mas não queria men­cionar a verdadeira imoralidade, que era o empenho dele em ocultar a situação da esposa, pelo que seria um ano inteiro. E também não mencionei que desconfiava que a maior preocupação dele era a possibilidade de a esposa, se tomasse conhecimento de nossa ligação, emitisse um julgamento rigoroso contra ele em público, o que o fa­ria não apenas perder a eleição, mas também destruiria todas as ilu­sões de Gerry sobre o quanto ela era realmente moral... ou não era.

Acompanhei-o até a entrada particular do hotel, mostrei como a chave funcionava, observei-o afastar-se pela neve, murmurando sobre o vigia noturno que podia reconhecê-lo.

E foi então que me lembrei de uma coisa que ele dissera e que era complicada demais para que eu pudesse entender.

— Gosto de ser admirado — dissera Gerry — mas não pelas pessoas que significam alguma coisa para mim.

Pensei nisso a noite inteira, enquanto tentava dormir. Ser admirado pelas pessoas com quem se importa implica a responsabilidade de corresponder a essa admiração. Era mais do que relações públicas; exigia qualidades concretas, que pudessem resistir a um escrutínio meticuloso e uma observação continuada, por um longo período.

A maioria das pessoas parecia não se permitir um contato pes­soal mais profundo. Acarretava ansiedade demais, era muito difícil de manter... talvez desse por alguns dias, mas a longo prazo se tornava algo ameaçador. A ironia era que todos procurávamos por amor. Passávamos a vida a procurar por outra pessoa que a parti­lhasse. E quando descobríamos alguém com potencial para atender a essa necessidade, preferíamos recuar.

 

                                         Capítulo 10

Não tornei a ver Gerry por três dias. Passei esse tempo em meu quarto no hotel, pensando. Dormia cerca de quatro horas por noite. Deixei de dar passeios enregelantes pela neve, mas estava alheia ao frio. Repassei mentalmente toda a minha vida. Li alguns dos livros que comprara na Bodhi Tree, especialmente sobre Edgar Cayce. Finalmente peguei o endereço e telefone do médium sueco que era o canal para a manifestação de Ambres.

Telefonei para o amigo que fora me esperar no aeroporto. Lars e a mulher trabalhavam em propaganda. Eram da classe média superior, embora os suecos não gostassem de pensar que ainda tinham uma sociedade de classes. Eu os conhecera alguns anos antes, quan­do estava me apresentando em Estocolmo.

Eles haviam se mostrado bastante discretos ao me receberem no aeroporto, abstendo-se de perguntar o motivo da minha viagem a Estocolmo. Conversamos um pouco pelo telefone. Comentei que andara lendo alguns livros metafísicos, especialmente sobre as sessões psíquicas de Edgar Cayce.

— Ah, sim... — disse Lars. — Edgar Cayce. Conheço bas­tante sua obra. Ele era muito perspicaz.

Fiquei um pouco aturdida ao descobrir que Edgar Cayce era conhecido na Suécia, quando na América eu só ouvira falar dele recentemente.

— É estranho e uma coincidência que você o tenha mencio­nado — continuou Lars — porque esta noite vamos a uma sessão psíquica com um médium sueco. Gostaria de nos acompanhar e conhecer a entidade espiritual?

— Um médium? — repeti. — Você anda vendo uma entidade espiritual, Lars?

— Isso mesmo.

— E qual é o nome?

— Ambres.

Para não dizer mais, a "coincidência" não me passou despercebida. Eu ficara folheando o livro de Cayce enquanto conversávamos. Fechei-o agora, firmemente, disse que adoraria ir. Estava na Suécia por outros motivos além de Gerry. E as coisas começavam a se tornar interessantes.

Estava pronta quando Lars e Birgitta vieram me buscar, algu­mas horas depois. Eles não me perguntaram o que eu fizera desde que chegara, mas comentei que tinha uma idéia para um novo livro e estava passando algum tempo longe da minha vida agitada na América, precisava da paz e sossego do inverno sueco. Eles pare­ceram aceitar a explicação, mas também os suecos raramente dei­xam transparecer seus sentimentos.

Levaram-me para os arredores de Estocolmo, onde o médium vivia com a mulher. Disseram-me que ele se chamava Sturé Johanssen e que o nome da mulher era Turid. A entidade espiritual que Sturé recebia estava se tornando famosa em toda a Suécia.

— Muitas pessoas estão vindo para as sessões de ensinamen­tos de Ambres, porque ele ajuda a muitos com diagnósticos médicos — disse Lars.

— Como assim? — indaguei, lembrando que Cayce manifes­tara o que parecia ser a mesma coisa.

—- As pessoas vêm de todos os cantos da Suécia com as mais diversas necessidades. Algumas sofrem de problemas crônicos de saúde, algumas têm doenças fatais, algumas estão com confusão psi­cológica, algumas trazem apenas perguntas sobre a origem e o desti­no da humanidade.

— E esse Ambres pode fornecer respostas para todas essas coisas?

— Se as pessoas seguem as suas orientações fielmente, quase sempre encontram algum alívio. A maioria das instruções está relacionada com a compreensão do poder interior em cada um de nós de saber tudo, se reconhecermos e acreditarmos.

— E se alguém está sofrendo de câncer terminal? Amores pode produzir uma remissão?

— Não, Amores não produz nenhuma remissão — explicou Lars. — Ele apenas ajuda cada pessoa a assumir o curso certo, mental e espiritualmente, a fim de que possa tentar fazê-lo pessoal­mente ou pelo menos assumir os problemas emocionais envolvidos. É basicamente um processo holístico e espiritual.

— E funciona?

— A base do ensinamento de Ambres é de que possuímos o poder e o conhecimento para nos tornarmos qualquer coisa que qui­sermos. Que nós temos dimensões e uma compreensão de que não estamos conscientes. Ele ensina que nossa energia positiva é espan­tosa, exatamente como a dele. A diferença é que ele, como um ser espiritual, sem um corpo no momento, sabe disso, enquanto nós ignoramos.

— E o que é um ser espiritual? Não estou entendendo.

— Somos todos seres espirituais — disse Lars. — Apenas não o reconhecemos. Somos seres espirituais de energia que por acaso estão no momento em corpo físico. Claro que Ambres é altamente evoluído, mas nós também somos. A diferença é que não acredita­mos nisso.

Fragmentos das palavras de David passaram-me pela mente. Frases e trechos de livros lidos afloraram. Sai Baba na Índia dissera o que parecia ser a mesma coisa. Da mesma forma que o mestre es­piritual Krishnamurti: "Somos capazes de tudo o que há e o reco­nhecimento de nosso poder espiritual aparentemente invisível apres­saria nosso aperfeiçoamento."

— Quer dizer que você e Birgitta acreditam mesmo que uma entidade espiritual autêntica está falando por intermédio de Sturé Johanssen?

— Claro — respondeu Birgitta. — Antes de mais nada, se ele não é uma entidade espiritual autêntica, de uma natureza altamente evoluída, então Sturé Johanssen é não apenas um magnífico ator, mas também possui informações e remédios que já salvaram muitas vidas, tanto física como mentalmente. E também disse coisas tão pessoais a muita gente que seria difícil compreender como Sturé po­deria ter conhecimento. Mais ainda: ninguém sabe de onde ele pode­ria tirar de si mesmo as informações médicas que usa em seus diag­nósticos. Mas cada pessoa precisa ter fé em si mesma. Ambres tam­bém fornece informações sobre vidas anteriores, tão familiares às pessoas que exercem uma grande influência sobre as suas vidas hoje.

Abri a janela do carro e respirei fundo.

— Quer dizer que é possível conferir informações sobre vidas anteriores no relacionamento com a vida atual?

— Exatamente — respondeu Lars. — Mas Ambres faz ques­tão de ressaltar que esta vida é a mais importante, porque senão ficaremos obcecados com o passado, ao invés de nos concentrarmos no presente.

— Ele sempre responde a indagações sobre vidas anteriores?

Foi a vez de Birgitta responder:

— Nem sempre. Muitas vezes ele avalia quem está perguntan­do e conclui que a análise do presente é muito mais necessária. Já com outros, no entanto, ele fala amplamente de vidas anteriores. Tudo depende do indivíduo.

Fiquei em silêncio por algum tempo, ouvindo Birgitta e Lars relatando como Ambres fora útil na solução de problemas que ator­mentavam algumas das pessoas que o haviam procurado em busca de ajuda. E a outros, que tinham ido apenas pela curiosidade de observar como funcionava o fenômeno da comunicação espiritual.

— Vocês acham que há muita coisa desse tipo acontecendo? —perguntei finalmente.

— Está se referindo a outros lugares do mundo? — indagou Lars. — Ou apenas aqui na Suécia?

— Não sei... Acho que em qualquer lugar.

— Temos muitos amigos na América e Europa que estão interessados na metafísica espiritual. Na verdade, a comunicação de entidades espirituais está se tornando cada vez mais comum. É qua­se como se, ao nos aproximarmos do final do milênio, estivéssemos recebendo mais ajuda espiritual, bastando apenas que saibamos apro­veitar.

— Alguns desses médiuns não são charlatães? Como se pode determinar a diferença entre quem está apenas representando e quem está realmente em transe?

Lars ficou pensando em minha pergunta, como se nunca tives­se cogitado da possibilidade. Olhou para Birgitta. Os dois deram de ombros.

— Não sabemos — disse ele. — Imagino que dá para perce­ber se é fraude no momento em que está acontecendo. O material transmitido é geralmente muito complicado ou muito pessoal para o médium encenar uma representação. Além do mais, a pessoa po­deria distinguir a diferença pelos resultados. Como nunca tivemos qualquer experiência com uma fraude, não sabemos direito.

— Muitos colegas de vocês na agência de propaganda também estão envolvidos nisso?

— Apenas uns poucos — explicou Lars. — Os que estão interessados no crescimento espiritual. Tendemos a nos afastar das pessoas que não estão pelo menos dispostos a manterem a mente aberta. Mas há muitos como nós e temos nos tornado amigos íntimos. Pessoas que estão procurando pela compreensão espiritual de si mesmas são aquelas com quem podemos realmente nos comuni­car. Os outros são apenas conhecidos. Parecem estar vivendo na superfície da vida e não dentro dela.

Tornei a respirar fundo o ar puro do inverno sueco.

— O que podem me dizer de Sturé Johanssen? Como ele é como pessoa, quando não está recebendo?

— Sturé é carpinteiro — informou Lars. — E não está absolutamente interessado no mundo espiritual.

— E ele não se importa de ser um instrumento, quando pode­ria aproveitar o tempo a construir estantes e outras coisas?

Lars riu, enquanto o carro continuava a avançar pelas ruas geladas de Estocolmo.

— Claro que não. Ele diz que está tudo bem, se ajuda as pessoas. No fundo, é um bom homem. Um homem simples, mas bom de verdade.

— E como Ambres fala, em comparação com o jeito de falar de Sturé?

— Às vezes é muito difícil entender a linguagem de Ambres, porque ele fala em sueco arcaico. Imagine como seria para você ouvir inglês bíblico. O fraseado é inteiramente diferente daquele que é usado por Sturé, diferente até mesmo do sueco de hoje. Ambres diz que não há qualquer linguagem para expressar alguns dos co­nhecimentos que ele gostaria de nos transmitir.

— Como assim?

— Quando ele tenta nos ensinar dimensões ou conceitos sobre os quais nunca sequer pensamos, ele diz que qualquer linguagem por si mesma já é uma limitação.

— Desculpe, mas não pode ser mais específico?

Falei com sinceridade, mas devo ter dado a impressão de que estava em dúvida. Lars assentiu.

— Nossas línguas faladas e escritas descrevem apenas as di­mensões que relacionamos com os cinco sentidos. Nosso mundo fí­sico. Mal estamos começando, através do avanço da astrofísica e da psicodinâmica, a perceber que precisamos desenvolver uma lingua­gem que se relacione com os mundos que nos são invisíveis. Pouco a pouco, estamos começando a perceber as dimensões extraordiná­rias do que simplesmente e às vezes sardonicamente chamamos de mundo metafísico. É por isso que Ambres tem às vezes dificuldades para nos ajudar a compreender a vida do ponto de vista de um pla­no não-físico.

Fechei os olhos enquanto seguíamos em frente, imaginando como seria não ser "físico". Descobri que, no instante em que en­trava em discussões sobre o metafísico, ouvindo pessoas usarem pa­lavras como "oculto", "plano astral", "vibrações cósmicas", "memó­ria etérea", "alma", "Deus", o vocabulário comum de um estudo tão antigo quanto o tempo, eu reagia com escárnio nervoso, riso sarcás­tico, desconfiança ou mesmo desprezo franco. Esta vez não era ex­ceção. Contudo, eu queria saber mais. Queria "experimentar" um médium pessoalmente. Lars continuou a falar, enquanto eu manti­nha os olhos fechados:

— Todas as ciências possuem o seu vocabulário próprio, ge­ralmente incompreensível para os leigos, sem falar de seus mistérios, maravilhas e milagres, que aceitamos por fé. E o mesmo se aplica a todas as religiões. Aceitamos as maravilhas científicas sem chegar­mos a compreendê-las. Aceitamos os milagres religiosos pela fé. Não entendo por que nós, no mundo ocidental, temos tanta dificul­dade com todo o conceito de experiência e pensamento que é po­pularmente conhecido como o "ocultismo".

Abri os olhos e disse:

— Porque ao se pensar em "ocultismo" o que aflora em nos­sas mentes são forças sinistras, O Bebê de Rosemary e coisas assim. É apavorante. Espíritos dos mortos e todo o resto não têm nada de divertido, não é mesmo?

Lars riu.

— Muitas pessoas exploraram o ocultismo para se focalizarem no lado escuro do mundo metafísico. Mas o lado claro é inevitavelmente lindo. Pode-se pegar qualquer coisa na natureza e se con­centrar no negativo, mas a beleza positiva pode mudar sua vida.

Revirei os olhos mentalmente. Estava sendo num carro em Es­tocolmo com um homem e sua mulher que falavam igualzinho a David em Manhattan e Cat em Calabasas, Califórnia. Será que aque­la coisa estava acontecendo no mundo inteiro? Como se tivesse ou­vido meus pensamentos, Lars disse nesse momento:

— Milhões de pessoas no mundo inteiro estão tão interessadas nessas coisas que sustentam toda uma indústria de livros, ensinamentos, escolas, indivíduos, tudo devotado à dimensão metafísica da vida. Eu não chamaria de ocultismo. Diria que se trata de um interesse pela dimensão espiritual da vida.

Lars e Birgitta começaram a falar ao mesmo tempo. Tornaram a ressaltar como seus interesses espirituais haviam se tornado "glo­riosamente envolventes". Disseram que isso os tornava mais felizes, passavam a amar mais as pessoas. Através de suas muitas sessões com Ambres, haviam feito inúmeras amizades novas, com pessoas que acreditavam nas mesmas coisas. E parecia não haver a menor dúvida em alguém de que Ambres era mesmo uma entidade espiri­tual genuína, falando do plano astral.

Eu não queria ser desrespeitosa, mas perguntei mais uma vez.

— E vocês acreditam sinceramente que Ambres é uma enti­dade espiritual autêntica?

Birgitta virou-se para mim e disse, enquanto Lars sorria pa­cientemente:

— É quase impossível explicar a alguém que não tem a mente aberta para considerar pelo menos possível.

Olhei pela janela para os campos nos arredores de Estocolmo. Perguntei-me quantos outros suecos, em suas casas perfeitas de car­tão-postal, estariam naquele momento empenhados em exploração espiritual. Cada esquina, cada casa, cada árvore era um cartão-pos­tal coberto de neve. O estofamento de couro do Volvo de Lars des­prendia um cheiro tênue de novo. Era um luxo confortável, moder­no, austero. As casas suecas eram modernas e limpas, sem nada de opulentas, mas individualistas em suas personalidades. A Suécia ti­nha os seus problemas, mas parecia estar se encaminhando para o século XXI com um equilíbrio meticuloso de socialismo e democra­cia. Eu me perguntava se continuariam assim. Eu me perguntava até que ponto eram prevalecentes ou profundos seus interesses espirituais. Era admirável para mim que um publicitário vitorioso e di­nâmico estivesse me levando para uma sessão espiritual com um mé­dium.

Cerca de 15 quilômetros além de Estocolmo entramos no que parecia ser uma sossegada comunidade residencial. Havia exóticos lampiões em cada esquina. Caixas de areia e balanços enfeitavam casas, construídas exatamente iguais, mas de alguma forma individualizadas, com jardineiras, homens de neve e decorações imaginadas pela família. Lars parou o carro e eu saltei. Olhei ao redor, para o condomínio quase igual, depois comentei:

— Eu provavelmente entraria na casa errada pelo menos uma vez por semana se morasse aqui. Obriga a pessoa a examinar mais atentamente a individualidade de cada casa, a fim de não cometer um erro.

Lars sorriu. Ele e Birgitta me conduziram para uma das casas e tocaram a campainha. Uma voz de mulher jovial soou lá dentro. Um momento depois, uma mulher rechonchuda, de faces rosadas, abriu a porta e cumprimentou-nos com uma efusão de sueco.

— Esta é Turid — informou Lars. — Ela diz que lamenta não falar inglês. Conhece seus filmes e está muito feliz por você querer conhecer Ambres.

Turid levou-nos à sua sala de estar, que parecia uma versão sueca de uma pequena casa no Vale de San Fernando: um sofá bai­xo e moderno, prateleiras com livros, um abajur ao estilo Tiffany numa mesinha moderna. Havia pessoas sentadas em torno da mesa. Hera verde derramava-se de vasos nas mesas.

— Sturé fez pessoalmente todos os seus móveis — informou Lars.

Com Lars servindo como intérprete, Turid apresentou-me a seus outros amigos como Shirley. Não mencionou meu sobrenome. Depois das amenidades iniciais na porta da frente, isso parecia não ter a menor importância para ela.

— Sturé está descansando — explicou ela. — Vai sair do quar­to daqui a pouco.

Ela nos convidou a sentar, tomar cerveja e comer queijo, tudo servido na mesinha baixa. Nós três nos acomodamos, comemos um pouco de queijo e bolachas suecas.

— Sturé e Turid estão agora devotando suas vidas a promover a comunicação espiritual — disse Lars. — Mas Turid está preocupa­da com a possibilidade de Sturé estar esvaindo suas energias nos transes. Mesmo assim, eles querem ser úteis a tantas pessoas quanto for possível.

— Por quê? — perguntei. — Isso significa que Sturé renun­ciou completamente a seu trabalho regular como carpinteiro?

— Quase isso.

— E como eles ganham dinheiro suficiente para viver?

— As pessoas contribuem com o que consideram condizente com o que aprendem nas sessões.

Portanto, aquele carpinteiro sueco que subitamente descobrira uma voz espiritual a falar por seu intermédio renunciara à sua vida e trabalho normal para ajudar às pessoas, oferecendo-se como ins­trumento para comunicação de uma entidade espiritual, muito pare­cido com Edgar Cayce. Seria similar ao que acontecera com Moisés, Abraão e alguns dos outros profetas antigos referidos na Bíblia? Os padrões que ocorriam hoje seriam os mesmos daquela época... só que em termos modernos?

— Por que eles fazem isso, Lars? — perguntei.

— Eles não sabem. Apenas sentem que têm de fazer. Estão conscientes de que o mundo está se deteriorando e sentem que é um meio de proporcionar conhecimento espiritual para impedir que esse curso humano continue. Sinto a mesma coisa, diga-se de pas­sagem. Escutamos o que Ambres diz e isso tem mudado a maneira como nos relacionamos com nossas vidas. Posso tomar decisões mais positivas e compassivas quando sei mais do meu propósito como ser humano.

As outras pessoas conversavam entre si, em voz baixa, toman­do cerveja e comendo queijo. Algumas falavam de ocorrências em suas vidas. Outras discutiam verdades espirituais que diziam não compreenderem direito.

Levantei os olhos. Sturé entrou na sala. Devia ter em torno de l,75m de altura, corpulento, andar firme, uma voz bem modulada. Parecia muito tímido, mas seu aperto de mão foi forte quando Lars nos apresentou. Cumprimentou-me em sueco. O rosto era extrema­mente gentil, tinha cerca de 35 anos. Circulou por um momento, cumprimentando timidamente seus outros amigos, até que Turid ges­ticulou para que os dois sentassem. E foi o que fizeram, lado a lado, em cadeiras de encosto reto, um copo de água numa mesa junto a Turid.

— Devemos começar imediatamente — disse ela, como se pe­disse desculpas — porque temos outros para ver depois.

Ela apagou as luzes e acendeu uma vela na mesinha baixa no centro da sala. Sturé permaneceu sentado em silêncio, aparentemen­te preparando-se para relaxar.

— Podemos fazer um momento de meditação silenciosa — disse Turid.

Todos inclinamos a cabeça e esperamos até que Sturé ficasse no estado de transe apropriado para receber Ambres.

Sentada ali, na escuridão iluminada por vela, imaginei o que Gerry pensaria se me visse. Ele era uma presença instrusiva e con­centrei-me deliberadamente na vela. Eu nunca fora muito de fazer as coisas comunalmente, preferindo geralmente fazer tudo em parti­cular, à minha maneira, em meu ritmo. Mas em todos os livros que eu andara lendo dizia-se que a energia comunal beneficiava a todos mais do que a energia individual. Qualquer artista ou orador tem conhecimento da energia da audiência. E quem já se apresentou para uma audiência ao vivo, sentiu e partilhou essa comunidade de sen­timento. Na verdade, os livros diziam que uma energia positiva co­letiva aparentemente era muito mais forte, mais intensa e mais be­néfica e curativa em qualquer empreendimento humano, de acordo com o ponto de vista espiritual. E não demorou muito para que eu começasse a experimentar um senso de união com os outros na sala.

Cerca de 10 minutos de silêncio transcorreram. Meu gravador zumbia baixinho ao meu lado. Lars estava sentado diretamente por cima do gravador. Ele me lembrou mais uma vez que o sueco arcaico seria difícil de traduzir rapidamente, mas disse que tentaria acompa­nhar o ritmo.

Olhei para Sturé. Ele permanecia sentado bem quieto, respirando fundo, mas calmamente. Os olhos estavam fechados. As mãos repousavam imóveis sobre as coxas grossas. Os cabelos castanhos crespos estavam cortados logo acima das orelhas. Compreendi que estava focalizando pequenos detalhes. Depois de uns 15 minu­tos, ele começou a tremer ligeiramente... tremer como se uma carga elétrica estivesse percorrendo seu corpo. Turid pegou-lhe a mão, quase como se estivesse proporcionando um terra pelo contato físico. Ela sorriu. Lars sussurrou em meu ouvido:

— Por causa da energia eletromagnética da entidade espiritual de Ambres, Sturé precisa da energia terra de Turid para neutralizar seu corpo. É por isso que eles necessitam trabalhar juntos.

O corpo de Sturé ficou subitamente rígido, empertigou-se total­mente na cadeira. Os olhos se abriram. A cabeça inclinou-se para a frente e pendeu para o lado. Todo o corpo tremia; quando parou, ele abriu a boca e disse alguma coisa em sueco, numa voz gutural. A voz não tinha qualquer relação com o homem a quem eu acabara de ser apresentada. Lars inclinou-se para mim e sussurrou:

— Ambres está dizendo "Saudações" e que se sente feliz por estarmos reunidos. Está se identificando e nos fazendo uma preleção sobre o nível de energia espiritual na sala.

Não sei o que pensei. Tinha vontade de perguntar a Lars como tais níveis de energia podiam ser obtidos por aquele Ambres. Mas antes que pudesse formular as perguntas, a sessão já progredira para uma conversa entre Ambres e as pessoas que tinham ido até ali para aprenderem com ele.

Lars traduzia o mais depressa que podia. Compreendi então que a maioria dos presentes não estava interessada em como fun­cionava. Já haviam aceito o processo. Estavam interessados apenas nos "ensinamentos" que Ambres transmitia. E a julgar pelas per­guntas, também não pareciam interessadas em informações sobre vi­das anteriores ou níveis de energia. Apresentavam a Ambres per­guntas sobre o início da Criação!

Lars tentou acompanhar o ritmo com a tradução. Eu tentei acompanhar o que estava acontecendo. Ambres falava depressa, mas com todo cuidado. Falo Ambres porque "sentia" como Ambres. Ti­nha certeza de que Sturé nada tinha a ver com aquilo. Era apenas uma espécie de telefone, através do qual uma entidade espiritual falava. Eu podia "sentir" a personalidade, o humor, o ritmo antigo dos pensamentos daquela entidade chamada Ambres. Gesticulava e ria, formulava seus pontos de maneira sucinta e objetiva, com sua própria energia, não com a energia de Sturé. Pelo menos era isso o que eu "sentia". As costas estavam rígidas, a postura era formal, muito diferente dos movimentos descontraídos do homem que eu observara meia hora antes.

Lars traduzia em frases curtas. Ambres descreveu Deus como Inteligência. Descreveu os primeiros movimentos do pensamento de Deus e a criação da matéria. Descreveu o nascimento de mundos e mundos dentro de mundos; e universos e universos dentro de uni­versos. Descreveu o amor de Deus por suas criações e sua necessi­dade de receber amor refletido em "sentimento". E descreveu a ne­cessidade de Deus de criar Vida.

Eu podia entender agora o que Lars falara sobre as limitações da linguagem. Descobri-me a imaginar como Ambres devia estar se sentindo, arcando com a limitação da linguagem terrena!

Cerca de duas horas transcorreram. Lars continuou a traduzir, em termos gerais. Ambres passou da ascensão e queda de civilizações para a criação da Grande Pirâmide, que parecia ter uma im­portância considerável e que ele descreveu como uma "biblioteca em pedra". Senti que podia visualizar o que ele estava dizendo. Os outros na sala faziam perguntas em sueco. Ambres reconheceu a presença na sala de outras "entidades", que falavam apenas "outra língua"; mas disse que era um sueco antigo e, mesmo que pudesse falar "outras línguas", o "instrumento" não seria tão adequado para fazê-lo. Consumiria muito de sua energia, por causa do esforço para formar as palavras numa língua que ignorava por completo.

Mesmo com o relato monumental do começo da Criação, a en­tidade Ambres parecia ter uma compreensão do humor em nível hu­mano. Especulei sobre quanto tempo ele fora humano ou se algum dia o fora. Mas a sessão estava muito além das minhas indagações mundanas. Podia apenas sentir que todos os presentes estavam mais avançados do que eu. Permaneci em silêncio, tentando absorver o que estava acontecendo.

Ambres-Sturé levantava de vez em quando, andava pela sala, meio encurvado. Não parecia absolutamente com o Sturé que eu conhecera. Às vezes ria profundamente, gracejava para enfatizar um ponto. Foi a um bloco de desenho pendurado na parede, fez diagramas, figuras geométricas cósmicas e espirais para ilustrar suas descrições. Fez perguntas ao grupo, como se fosse um professor conduzindo uma aula. O grupo estava envolvido e excitado, confuso às vezes com uma questão crucial, que ele tornava a explicar, pacientemente. Censurava de vez em quando alguém que obviamente não fizera o seu dever de casa. Depois, voltou a sentar ao lado de Turid.

— O instrumento está perdendo sua energia — disse Ambres. —Deve agora revitalizar.

Ele acrescentou que esperava encontrar-se de novo com todos. Disse que deveríamos cuidar uns dos outros. E depois fez uma prece, em sua língua antiga, agradecendo a Deus pela oportunidade de servir.

Sturé tremeu. A carga elétrica conhecida como Ambres pare­ceu deixar seu corpo. Prontamente, Turid pôs um copo com água nas mãos do marido. Sturé tomou tudo. Recuperou lentamente a sua própria consciência e levantou-se.

Olhei ao redor, sem saber o que pensar. As pessoas conversa­vam em voz baixa. Perguntaram-me se eu compreendia sueco o bas­tante para acompanhar tudo. Respondi que sim, não querendo admi­tir que levaria algum tempo para compreender o próprio processo, muito menos as informações. Mas elas pareceram compreender tudo mesmo sem eu dizer expressamente e comentaram que seria bené­fico para mim, depois que considerasse aceitável.

Benéfico? Era o suficiente para revolver-me o cérebro. Eu podia apenas me sentir contente por ter lido Cayce antes de comparecer à sessão.

Aproximei-me de Sturé.

— Obrigada — falei. — Espero que você esteja bem. Eu nunca tinha visto nada parecido.

Sturé apertou-me a mão, enquanto Lars traduzia. Ele parecia cansado, mas sereno. Os olhos exibiam uma expressão gentil. Disse que esperava que eu tivesse aprendido alguma coisa com Ambres, que ele próprio gostaria um dia de conversar com Ambres, deu de ombros como se também não compreendesse o que estava aconte­cendo. Fiquei impressionada com a sua simplicidade. Turid passou o braço em torno de mim.

— Ambres é um grande mestre — disse ela. — Estou contente que você tenha podido ouvi-lo. E, agora, Sturé precisa descansar.

Ela acompanhou Lars, Birgitta e eu até a porta, disse que po­deríamos voltar a conversar no dia seguinte, se quiséssemos.

Despedimo-nos de todos e partimos. A neve caía. O homem de neve na caixa de areia era agora uma massa quadrada, alterado pela neve recente, enquanto as crianças da vizinhança dormiam.

Seguimos para o carro, sob o céu branco.

— O que você achou? — perguntou Lars. Eu queria dizer alguma coisa profunda.

— Acho que preciso de tempo para pensar. Uma pausa prolongada e depois acrescentei:

— Estou começando a sentir que fui de alguma forma guiada até aqui. Muita coisa está me acontecendo ultimamente para conti­nuar a acreditar em coincidências. Acho que eu estava fadada a vir para Estocolmo.

Lars e Birgitta sorriram, enquanto nos aproximávamos do carro sob a neve a cair. Não falamos mais nada.

Voltando para Estocolmo, cada um imerso nos próprios pen­samentos, comecei a pensar na sucessão de "coincidências" na minha vida. Podia sentir algum plano predeterminado, desdobrando-se de acordo com a minha própria percepção e disposição para aceitar as coisas para as quais estava preparado. Como se os eventos e inci­dentes estivessem destinados a acontecer, se eu deixasse. O momen­to dependia de mim, mas a inevitabilidade parecia fixa e predesti­nada. Fiquei surpresa pelo que estava pensando. Jamais acreditara nessas coisas. Contudo, lá estavam as coincidências sucessivas do meu relacionamento com Gerry, sua própria natureza, baseada em frustrações materiais, realidades políticas e obstáculos negativos, coincidindo (de novo!) com a minha gradativa amizade e compreen­são de David, com seu ponto de vista espiritual... tudo isso esta­va me forçando gentilmente a uma percepção de outras dimensões.

Eu parecia ser uma observadora intermediária das realidades duplas. E sentia que estava pouco a pouco desenvolvendo uma compreensão dos dois pontos de vista que, pensando bem, pareciam representar as dualidades na vida (algo similar ao que meu pai ressaltava)... a realidade fundada na Terra e a realidade Espiritual Cósmica. Talvez as duas fossem necessárias para a felicidade huma­na. Estava ficando cada vez mais evidente para mim que classificar um dos pontos de vista de única realidade absoluta era limitado, pre­conceituoso e provavelmente incorreto. Talvez todos os seres huma­nos fossem Mente, Corpo e Espírito, como os grandes antigos haviam tentado nos dizer. Era o legado deles. Talvez eu devesse reapren­dê-lo.

Despedi-me de Lars e Birgitta, disse que me manteria em con­tato com eles.

 

                                                    Capítulo 11

O telefone estava tocando quando entrei em meu quarto no hotel. Atendi prontamente. Era Gerry.

— Oi. Como você está?

— Muito bem.

— Desculpe ter me atrasado alguns dias.

— Não foi nada. Sei que você estava ocupado.

— É verdade.

— Como está se sentindo?

— A neve nas ruas é o paraíso.

— Os campos devem estar lindos.

— Minha mulher veio de Londres.

Senti que todo o ar me escapava dos pulmões. Não sabia o que dizer. Sentia-me paralisada. Gerry sabia que ela estava vindo? Pedira a ela para vir?

— Alô? Alô?

— Ainda estou aqui, Gerry.

— Bom... Aparecerei aí mais tarde.

— Está bem. Ficarei esperando.

Entrei em parafuso. Sentia-me angustiada e furiosa. O estôma­go dava a impressão de que tinha um imenso buraco. Perguntei-me o que Edgar Cayce ou Ambres receitariam para aquilo, tentei forçar a mente a um espaço sereno e espiritual. Não consegui. Concluí que eles eram cheios de merda quando se tratava de viver uma rea­lidade na Terra. Dei um jeito de rir da vulgaridade do meu pen­samento.

Estava retraída quando Gerry chegou. Não podia me comuni­car. Fizemos amor, mas eu estava com medo. Ele não disse nada... nem sobre a presença da mulher nem sobre a minha reação. Tam­bém não fiz qualquer comentário.

Gerry perguntou-me se eu achava que seus cabelos recendiam a perfume. Respondi que não estava usando perfume, há meses que não usava.

Quando abri a porta do banheiro, a fim de indagar se ele pre­cisava de alguma coisa, deparei com seu corpo enorme encolhido na banheira, numa posição embriônica, lavando-se e dando a im­pressão de que ainda não nascera.

Ele sumiu pelos dois dias e noites seguintes.

Escrevi. Escrevi tudo o que estava sentindo.

Escrevi até a cabeça girar. Revivi tudo o que estava aconte­cendo. Escrevi para compreender. Escrevi para decidir o que fazer. Tentei me ater a quem era, o que queria, o que iria fazer com ou sem Gerry. Escrevi para tentar me compreender. Escrevi sobre a minha vida, pensamentos e indagações. Escrevi por dias a fio.

Sempre que Gerry telefonava, eu lhe dizia que estava escre­vendo. Ele comentou que estava contente por saber que eu fazia alguma coisa. Isso fazia com que ele se sentisse menos culpado por não poder me ver. Disse-lhe que não precisava se preocupar. Eu era uma pessoa que sempre encontraria alguma coisa para fazer. Senti-me depois culpada por estar escrevendo em parte a respeito dele e não informá-lo disso.

Na sexta noite, Gerry terminou seu trabalho por volta das seis e meia, telefonou e disse que queria se encontrar comigo, mas acha­va que tinha a obrigação de ir para a esposa. Respondi que não havia problema.

Escrevi até tarde da noite, levantei às seis horas da manhã e continuei a escrever. Não deixei o quarto do hotel. Escrevi o que estava vivendo e sentindo, como um diário dilatado, um meio de conversar comigo.

Gerry apareceu na noite seguinte. Jantamos e conversamos. Ele comeu melão. Usava uma gravata turquesa fina, um presente da cidadezinha que visitara no dia anterior. Os cabelos caíam pela testa, enquanto gesticulava com as mãos em concha, dando a impressão de que recolhia punhados de ar. Não fiz qualquer menção de me aproximar dele.

Atravessei o quarto para buscar-lhe mais chá. Gerry se inclinou, deteve-me, puxou-me. Fiquei imóvel. Lentamente, gentilmente, ele beijou-me os olhos, queixo, cabelos e depois os lábios. Envolveu-me com os braços. Deixei os meus caídos junto ao corpo. Ele se com­primiu contra mim. Continuei imóvel.

Com uma certeza irônica, ele levou-me para a cama. Eu não queria ir. Gerry estava tomando a iniciativa e eu não tinha certeza se queria aquilo. Ele baixou-me para a cama, beijou-me longa e profundamente, como se estivesse experimentando o seu direito de tomar o que quisesse. Reagi, mas sem agressividade. Ele tirou-me a suéter de lã grossa, sentiu meu corpo por baixo. As mãos se des­locaram por toda parte.

Ele abriu minha calça, tirou-a. Pegou-me a cabeça, alisou os cabelos.

— Eu a amo...

Não falei nada.

— Eu disse que a amo.

Continuei calada. E no instante seguinte, como uma represa que se rompe, ele gritou:

— Eu a amo, eu a amo, eu a amo...

Ficamos deitados juntos, até que alguma realidade entrou em foco.

Gerry sentou na cama, fitou-me, olhou pela janela. O rosto parecia ter um século de idade, como se a mente tivesse vazado e escorrido pelas faces. Tornou a olhar para mim.

— Em que está pensando, Shirl?

Era a primeira vez que ele perguntava o que eu estava pensando.

— Estou pensando como tudo isto é normal. Fiquei neste quar­to observando um rebocador a navegar em círculos, rompendo o gelo. Observei seis camadas de neve caírem na calçada lá embaixo. Tenho comido bolachas suecas com manteiga e nada mais. Tenho escrito, escrito e escrito, até minhas mãos doerem. Tornei-me o móvel, o tapete e o ar gelado. E agora você está aqui. Está aqui e é completamente irreal para mim.

— Talvez o que estamos fazendo seja o que é mais real.

— É possível. — Sacudi a cabeça para voltar ao normal. — E agora você tem de voltar à sua irrealidade.

Gerry levantou-se e foi para o banheiro. Continuei deitada na cama. Ele virou-se e correu de volta ao quarto.

— Eu a amo, Shirl.

Ele me pegou nos braços.

— Obrigada... obrigada...

Gerry ficou radiante. Seus olhos escuros brilharam. Tornou a se encaminhar para o chuveiro. Mas voltou outra vez.

— Eu a amo.

— Eu também o amo.

— Mas ainda não consigo entender por quê. Ainda não sei por que você me quer.

— Também não consigo. Para dizer a verdade, não entendo a maior parte.

Gerry sacudiu a cabeça.

— Mais do que qualquer outra coisa, Shirl, quero tornar a passar uma noite inteira com você.

— Acho que isso acontece porque é algo que não pode ter agora.

— Sei que não é por isso.

Gerry balançou a cabeça com uma expressão muito séria. Levantou-se mais uma vez. E foi direto para o chuveiro. Voltou mo­lhado e frio. Enxuguei-o. Ele me abraçou firme.

Enxuguei seus cabelos com o secador, enquanto ele punha os sapatos e meias.

Depois que Gerry estava vestido, discutimos o seu programa nos dois dias seguintes. Ele tinha reuniões e entrevistas com a im­prensa.

Eu disse que tinha de voltar à América em breve. Gerry informou que não poderia me ver no dia seguinte, que estava todo ocupado. Respondi que não tinha importância.

Ele pôs o casaco e as luvas, encaminhou-se para a porta. Ao invés de sair direto, como sempre fazia, virou-se e disse:

— Como estão as coisas que você vem escrevendo?

— Muito bem. Mas ainda não sei o que vou fazer com tudo o que escrevi.

Ele me fitou nos olhos.

— Talvez devesse simplesmente desaparecer.

As palavras ressoaram pelo ar. Eu não sabia o que ele estava querendo dizer. Ou talvez soubesse. Ele me piscou e disse, antes de sair e fechar a porta:

— Ciao.

Uma confusão profunda me invadiu. Seguida por sentimento de culpa... e depois uma espécie de visão dupla. Eu voltava a não saber o que era o real. Detestava esse sentimento. Ser incerta sobre o horizonte emocional era a pior coisa que podia me acontecer.

Recomecei a escrever... não tinha ninguém para falar além de mim mesma. Apenas eu.

Tudo parecia uma ilusão. Seria de fato uma ilusão? A reali­dade física seria apenas o que eu pensava? Um dia comum na vida de alguém era somente uma sucessão de representações; representar o que pensávamos que sentíamos. Shakespeare o dissera. Talvez toda a vida fosse um palco e nós não passássemos de atores representando nossos papéis. Shakespeare estaria escrevendo sobre reencarnação ao dizer isso? Mas se o hoje era uma representação, o ontem era uma ilusão? E o amanhã?

Talvez Gerry e nossos encontros, meu trabalho e o nosso mundo nem sequer existissem amanhã. Ou talvez o que estivesse me le­vando à loucura fosse a pressão para definir a realidade em termos físicos. Talvez a verdade fosse a de que tudo era real em cada nível, porque tudo era relativo e precisava ser levado em consideração. Talvez amássemos, ríssemos, trabalhássemos e representássemos num esforço consciente para lembrar a nos próprios que devíamos ter um propósito além desta realidade. Se esse propósito fosse real, cada um de nós estaria usando outra pessoa como um ricochete, a fim de definir nosso propósito mais claramente? Simplesmente usávamos aqueles a quem amávamos para fazer aflorar nossos po­tenciais ocultos, nossas capacidades invisíveis, a fim de alcançarmos alguma definição pessoal? Estaríamos procurando pela fonte de outro tempo para nosso próprio significado? Ou já nos conhecêra­mos antes? Gerry e eu estaríamos consumando algum relaciona­mento que ficara por resolver em outra vida? Se assim fosse, se chegássemos a compreender isso de alguma forma, talvez não pre­cisássemos mais um do outro. Seria essa a piada final? Talvez fosse essa a razão profunda para o humor. Talvez toda a vida fosse uma colossal piada cósmica, porque continuaria o seu curso independen­te do que fizéssemos ou deixássemos de fazer. Talvez devêssemos apenas sorrir a caminho do fim, porque talvez o fim fosse simples­mente o começo. Podia ser verdade que o ciclo recomeçasse, até que atingíssemos o ponto certo. Não era tão ruim assim. Certa­mente não precisávamos temer a morte. Se a morte jamais aconte­cesse, então, a vida era uma piada em cima de nós. Portanto, po­díamos sorrir ao longo da vida, enquanto nos encaminhávamos para o nosso propósito.

Gerry tornou-se mais definido em minha mente. Enquanto es­crevia a seu respeito, compreendi as coisas mais objetivamente. E comecei a perceber o papel dele na minha vida com mais lucidez. Não me sentia tão compulsivamente veemente em relação à confu­são de Gerry ou à minha. Comecei a pensar que havia uma razão, um propósito definido por trás do que significássemos na vida um do outro, o que quer que fosse. No plano da vida de Gerry ou no plano da minha vida o propósito podia não estar muito bem defi­nido agora, mas provavelmente ficaria patente em breve.

Eu escrevia como se estivesse conversando comigo mesma. As horas se fundiam umas nas outras. Não deixava o quarto do hotel. Conheci de cor e salteado cada ciclo do rebocador a romper o gelo na baía lá embaixo. Observava os dias se tornarem mais compridos a cada nevasca sucessiva. E agora, ao final de outra semana, a cidade lá embaixo estava atapetada em branco, enquanto um véu de neve caía.

Saí andando pela neve. Devo ter percorrido uns oito quilômetros... através da cidade e pelo jardim zoológico, outeiros ondulantes de creme de neve branca, espalhando-se ao meu redor. O sol estava firme. Tinha a impressão de que podia ouvir a própria respiração, o silêncio se estendendo por quilômetros à minha volta. Três veados me observaram enquanto eu passava, os tornoze­los afundando na neve. Levantei a cabeça para o sol. Cinco cisnes voaram lá por cima. Um homem passou à distância, fumando um cachimbo.

Gerry pairava silenciosamente no ar comigo, enquanto eu an­dava. Era como aquele ar, aquele campo, aquele ambiente. Era como um ambiente em tom pastel, meio neutro, sem cores firmes ou características definidas. Era um ambiente que parecia encobrir suas intenções, como se o significado real estivesse oculto. Não se projetava... ao contrário, ficava recolhido, esperando para ser des­coberto, ser tocado, ser percorrido e compreendido. Não tinha exa­tamente medo de si mesmo, como se podia pensar a princípio. Não era isso, apenas aguardava em si mesmo, com sua paciência longa e silenciosa, que fazia com que aqueles que lhe eram novos pudes­sem se sentir rejeitados e excluídos de uma integração. Mas isso não seria uma reação legítima. Não seria oferecer à serenidade im­parcial uma oportunidade de aflorar.

E talvez a mesma coisa acontecesse com as pessoas.

Sentir-se emocionalmente à míngua, por causa da carência de clareza expressa e comunicação discernível era negar a riqueza in­terior de se comunicar com o silêncio. Na verdade, o silêncio podia ser ainda mais pleno; se eu me sentia uma vítima da ausência de comunicação, isso era problema meu, porque provavelmente não era verdadeiro. Eu me acostumara à comunicação explosiva na vida. O que estava experimentando agora era a comunicação implosiva. Tinha de descobrir o que estava dentro de mim e o mesmo acon­tecia com Gerry.

Andei durante o dia inteiro e voltei ao hotel a tempo de ver Gerry na televisão sueca, discutindo os problemas econômicos do Terceiro Mundo.

Eu já ouvira tudo aquilo antes, mas mesmo assim prestei toda atenção. Ele se mostrou firme e confiante na apresentação das soluções que propunha. Eu estava lendo o Herald Tribune, esperando pelo telefonema de Gerry, quando ouvi a porta do quarto se abrir.

Gerry dava a impressão de que correra por todo o caminho. Estava totalmente sem fôlego, o rosto congelado, sobrancelhas e pestanas falseando com neve derretida. Beijei-o rapidamente. Ele ainda estava "ligado", animado e querendo saber o que achara de sua presença na televisão. Conversamos sobre a maneira como ele estava aprendendo a explorar sua personalidade na televisão. Ele comeu dois biscoitos com recheio de chocolate e tomou o chá mor­no. Conversamos sobre Jimmy Carter e a China, sobre o espetáculo de variedades que eu esperava apresentar em Pequim. Conversamos sobre tudo sob o sol, menos o que mais estava me preocupando. Decidi que estava na hora de comunicar a Gerry as coisas que es­tavam acontecendo a mim... a nós... as coisas sobre as quais estivera escrevendo (ele não perguntara).

— Gerry...

— O que é?

— Não está curioso sobre o que tenho escrito?

Ele ficou surpreso.

— Claro que estou.

— É sobre nós.... — Percebendo a expressão de alarme cui­dadosamente reprimido em seu rosto, apressei-me em acrescentar: — ...isto é, de certa forma.

— De que forma?

— Uma porção de coisas estranhas me tem acontecido ultimamente, pelo menos desde que nos conhecemos. Há uma coinci­dência depois da outra a nos aproximar. Há a força da atração entre nós, que é ilógica nas circunstâncias. Sabemos que é muito mais do que apenas uma coisa física. Mas por quê? Durante todo esse tempo com você tenho experimentado sentimentos precognitivos e de reconhecimento. Responda sinceramente, Gerry: você tem a im­pressão de que já me conhecera antes, em algum outro lugar?

— Não estou entendendo, Shirl. E, além do mais, que dife­rença isso faria?

— Se pudéssemos definir o que fomos antes, talvez pudéssemos determinar o que devemos ser agora.

Ele respirou fundo.

— Querida, você passou tempo demais sozinha neste quarto...

— Não, porra! — Minha paciência subitamente se esgotara. — Não seja condescendente comigo! Quero apenas conversar a respeito. Não estou com um esgotamento nervoso, não sou doida, não sou estúpida. E parece haver muito mais neste mundo do que você está disposto a conhecer.

Ele exibiu um sorriso irônico.

— Isso é provavelmente verdade. Mas em que você está pen­sando, especificamente?

— Reencarnação, para começar.

— Não tenho qualquer objeção à reencarnação... é uma coisa boa, para aqueles que precisam.

— Não estou falando de camponeses famintos, Gerry. Há uma porção de pessoas, de alto a baixo de toda a escala social e intelec­tual, ao longo dos tempos, que acreditam na reencarnação. Mas, especificamente, estou falando sobre nós.

— Pelo amor de Deus! Se está sugerindo que já tivemos algu­ma vida comum anterior, Shirley... e daí? Que diferença isso po­deria fazer, já que não podemos nos lembrar?

— Poderia fazer uma grande diferença, se descobríssemos através de uma mediação.

Eu sabia que estava fazendo tudo errado.

— E o que é mediação?

Engoli em seco.

- Estou me referindo a falar com espíritos desencarnados através de um médium... há pessoas fazendo isso durante todo o tempo, para descobrir todos os tipos de coisas.

Gerry ficou consternado e depois muito preocupado.

— Você tem ido a médiuns, Shirley?

— Não precisa falar como se fosse uma coisa obscena.

— Não é essa absolutamente a minha intenção. — Ele respi­rou fundo. — Tem razão, devemos mesmo conversar a respeito. O que exatamente você vem fazendo?

Sentindo-me culpada e defensiva, ressentida por causa disso, falei de Cat e Ambres, de Edgar Cayce, das leituras que vinha fa­zendo. Ele escutou em silêncio, enquanto eu ia contando tudo, len­tamente. Depois, ele fitou-me com constrangimento, o que foi uma surpresa para mim.

— Em que está pensando, Gerry?

Ele sacudiu a cabeça.

— Não sei o que dizer. Mas tenho certeza que você não pode estar falando sério.

— Por que não?

- Mas não é óbvio? Esses médiuns são psicóticos, malucos, gente que tira as coisas do próprio inconsciente. Ou então a estão enganando. Não pode acreditar que eles estejam realmente se co­municando com espíritos.

— Eles não estão se comunicando. Estão apenas servindo como meios de comunicação... nem mesmo se lembram do que foi dito.

— O que quer que façam, não passa de asneira. Fazem apenas por dinheiro, explorando pessoas crédulas, que querem ouvir coisas agradáveis absurdas a respeito de parentes mortos ou algo parecido.

— Edgar Cayce não aceitava dinheiro, os conselhos que dava eram procedentes e não vinham do inconsciente, porque ele não tinha o menor conhecimento de medicina.

Gerry fitou-me com uma expressão desolada.

— Mas por que você tem de se meter com essas coisas? — perguntou ele, desesperado.

— Estou apenas tentando encontrar uma explicação para nós... ou talvez só para mim. Começo a pensar que não pode ser para nós...

— Espero mesmo que não! Escute, querida (raramente Gerry usava palavras carinhosas e o fato de já tê-lo feito duas vezes na­quela conversa indicava como estava transtornado), você não pode continuar com essa coisa. Não vai ganhar nada com isso. Noventa por cento dessa gente são charlatães e todo mundo sabe disso... todos os seus amigos vão pensar que você enlouqueceu. E só Deus sabe o que o público pensaria se isso transpirasse.

Era muito interessante o fato de ele estar preocupado com a minha imagem pública. Creio que era lógico que assim fosse, já que ele estava sempre consciente da importância da sua. Mas ainda não considerara de forma alguma as possibilidades do mundo que eu estava explorando; era algo completamente além do seu alcan­ce, ele não podia ver, não podia sequer começar a admitir a possí­vel validade de sua existência.

— O que está querendo dizer com transpirar, Gerry? É justamente sobre isso que tenho escrito.

— Não pode fazer isso — disse ele, taxativamente. — Não para ser publicado.

— Por que não?

A inflexibilidade dele estava me levando a uma falsa posição, porque naquela altura eu não tinha a menor intenção de publicar.

— Porque cada intelectual que você já conheceu, qualquer pes­soa que tenha meio cérebro para usar, vai despedaçá-la por com­pleto...

Ele parou de falar, atordoado e infeliz. Achei graça de sua pressuposição de que todas as pessoas inteligentes partilhariam suas opiniões, ao mesmo tempo em que me senti comovida por sua afli­ção evidente. Mas a rejeição sumária de tudo o que eu dissera pa­recia impossibilitar qualquer discussão adicional... se é que che­gara a haver alguma! Inclinando-me para a frente, murmurei:

— Ora, que se dane tudo isso! — Beijei-lhe o nariz. — Está quente.

— O que está quente?

— Seu nariz. Estava frio quando você chegou.

Ele mexeu nos meus brincos, empurrou-me os cabelos para trás. Ajoelhei-me ao seu lado. Ele levantou meu rosto e, no meio de uma palavra, beijou-me, afagou-me os olhos.

Ele me levantou para si, abri o négligé e deixei cair em torno dos nossos corpos. Gerry observou o movimento, deixando escapar um pequeno suspiro. Nunca nos despíamos. Fazíamos amor como estávamos levando nossas vidas, o prazer oculto das vistas.

Caí contra ele. Gerry beijou-me os olhos e o pescoço.

— Vai partir amanhã, Shirl?

— Vou, sim. Tenho de ir.

— Eu a amo mais do que posso dizer.

Tive a sensação de que estava entrando num limbo triste.

— Quando acha que poderemos tornar a passar toda uma noite juntos? — acrescentou Gerry.

— Estamos em janeiro. Não poderia ser em setembro, depois de sua eleição?

Ele levantou o braço, escondeu o rosto por trás, reprimiu um soluço.

— Vamos esperar para ver o que acontece, Gerry.

— Tenho de me levantar agora — disse ele. — Caso contrá­rio, ficarei melancólico demais para conseguir suportar. Onde você estará?

Respondi que não sabia. Estaria viajando. Ele fez menção de levantar, mas conteve-se. Olhou para os nossos corpos e murmurou:

— O seu próximo movimento pode ser impossível. Somos uma só pessoa e você sabe disso.

Sorri. Gerry me ergueu e me colocou ao lado, depois se levantou.

— Não acha que foi uma manobra extremamente complicada?

— Não tão complicada quanto nós.

Quando ele se encaminhou para o banheiro, a calça empilhada nos tornozelos, não pude acreditar que ali estava o homem que queria ser primeiro-ministro da Inglaterra.

Eu ainda estava no sofá quando ele voltou. Contemplando-me por um momento, ele murmurou:

— Você é linda. Realmente adorável.

— Quando é seu aniversário, Gerry?

— Na terça-feira. Como soube?

Respondi que tivera um pressentimento.

Ele explicou que o aniversário do seu vice-líder era no mesmo dia; o homem ficaria muito desapontado se Gerry não voltasse à Inglaterra para ajudá-lo a comemorar.

— E a comemoração do seu aniversário?

— Não tem importância.

Agarrei-o pelos braços, sacudindo-o.

— Não tem importância? Gerry... e o seu aniversário!!!

Parei de falar abruptamente. Parei de falar no meio de um pensamento.

— O que tem meu aniversário, Shirley?

— Nada.

Tirei algumas fotografias dele com a minha Polaroid, usando o flash. Gerry posou de boa vontade, ficou curioso em verificar como saíra. Lentamente, a imagem foi adquirindo cores.

— Estou horrível.

Tornei a sacudir-lhe o braço, gentilmente. Ele foi quase correndo ao vestíbulo, pegou o casaco e as luvas. Pôs as chaves do quarto na mesinha baixa, pegou sua pasta e depois, com uma velocidade ainda mais agressiva, encaminhou-se para a porta. Fiquei parada onde estava, sem fazer a menor menção de segui-lo. Ele abriu a porta e virou-se para me fitar, como se estivesse gravando em sua memória como eu parecia naquele momento.

— Está realmente linda, Shirley.

E, com isso, ele se foi. Corri para a porta e tranquei-a. Ao voltar, descobri que Gerry esquecera os óculos. Retornei ao vestíbulo, assoviando. Ouvi os passos dele voltando. Ao pegar os óculos, Gerry me perguntou:

— Quando é o seu aniversário?

— No dia 24 de abril.

Ele acenou com a cabeça, como a dizer que era outra data no futuro pela qual podia esperar. E, depois, ele disse:

— O que acha que temos em comum?

Suspirei e passei os dedos pelos cabelos que lhe caíam nos olhos. Gerry acrescentou:

— Sei que, para se tirar a fruta de uma árvore, é preciso subir no galho.

Ele me fitou nos olhos e depois se afastou. Não olhou para trás. Entrei e fechei a porta.

Acendi um cigarro e fui até a janela. Abrindo-a, soprei a fu­maça para o ar, observando-a misturar-se com o vapor da minha respiração. A neve caía agora intensamente.

Olhei para a rua lá embaixo. Gerry apareceu no pátio. Assoviei baixinho. Ele levantou o rosto e acenou. As luvas de couro e o casaco preto se delineavam nitidamente contra um fundo branco total. A neve turbilhonava ao seu redor quando ele saiu para a rua, procurando por um táxi. A rua estava vazia. Senti que ele tomava a decisão de seguir a pé. Ele tornou a levantar o rosto em minha direção e acenou. Retribuí ao aceno, joguei-lhe um beijo. Mas Gerry já desaparecera, determinado, na noite sueca, fria, silenciosa, branca.

 

                                             Capítulo 12

O vôo de volta à América foi bastante estranho. Eu não sabia quem ou o que acabara de deixar, para quem ou o que estava voltando. Alguma coisa extraordinária estava ocorrendo em minha vida. Mas não tinha nome, esquivava-se a qualquer descrição. Fa­lava a alguma coisa muito antiga, mas apesar disso eu tinha a im­pressão de que era precursora de uma nova era de pensamento para mim. A experiência com Ambres fora fascinante, mas as indaga­ções que eu apresentara a Lars e Birgitta ainda me atormentavam. Uma filha pragmática do meu tempo, resolvi investigar o processo de mediação.

Nas semanas e meses que se seguiram, li, estudei, investiguei. Fiz indagações e, sempre que possível, escutei gravações. Descobri que havia uma quantidade impressionante de médiuns. Com a ex­ceção de Edgar Cayce, quase nenhum dos médiuns era conhecido por seu nome. A personalidade recebida era dominante. Havia al­gumas entidades que se sobressaíam, principalmente em termos de clareza e coerência das mensagens transmitidas. Como especialistas ou talentos em qualquer setor, alguns médiuns eram melhores do que outros. (Verifiquei também que, como acontece com quaisquer profissionais, havia dias em que absolutamente nada saía direito; nesses casos, alguns confiavam na experiência passada, outros simu­lavam e vários diziam que nada estava dando certo, era melhor que todos voltassem para suas casas.)

Mas fiquei também impressionada pela variedade e força de personalidade demonstrada pelas diferentes entidades que eram recebidas. O clima nebuloso de gravidade que envolve o fenômeno da mediunidade nas mentes da maioria das pessoas (talvez porque fosse um tanto sombrio o ânimo de cada um diante da perspectiva de uma conversa com um espírito desencarnado?) parecia estar era contradição com a realidade. Havia, por exemplo, um humor pro­fundo e uma irreverência ocasional em algumas das personalidades recebidas. Quem quer ou o que quer que fossem essas entidades, transmitiam uma enorme individualidade de caráter e aura, não tanto em termos de gracilidade, mas sim de experiência.

Além disso, a mediunidade era algo que vinha ocorrendo há bastante tempo e diversas pessoas famosas não apenas haviam "acreditado", mas também praticado, inclusive Abraham Lincoln, que usava Carpenter (o médium vivia na Casa Branca com o pre­sidente) para consultas regulares, J. P. Morgan (que usava Evangeline Adams), William Randolph Hearst... e muitos e muitos outros, dos campos mais variados. O trabalho de Sir Oliver Lodge e da Sra. Piper era bastante conhecido. Esse tipo de coisa parecia ter estado quase em voga na virada do século, não apenas a me­diunidade, mas também as batidas na mesa, a prancheta em forma­to de coração e a tábua ouija. Não restava a menor dúvida de que era interessante, um bom divertimento, mas também ficava igual­mente evidente que muitas pessoas respeitáveis e sérias levavam a sério a mediunidade... e tudo o que isso implicava.

Era também evidente que algumas pessoas não podiam mani­pular o volume de informações transmitidas, muito menos a quali­dade de sua natureza. O cosmos é um conceito atordoante: rela­cionar cada ser humano individual a tal vastidão era muitas vezes mais do que os ouvintes podiam suportar. E quando se entrava em detalhes sobre a vida extraterrena, a estrutura do átomo, a coesão de toda matéria, todo pensamento... eram questões a que a maio­ria das pessoas não dava muita atenção. As entidades que comu­nicavam tais informações freqüentemente pareciam não ter a menor idéia do quanto a parte no outro lado da linha telefônica, por assim dizer, seria capaz de absorver.

Em suma, parecia haver um ritmo individual, que cada pessoa desenvolvia gradativamente, assimilando os fluxos desconcertantes que recebia. Em se lidando com a mente e emoções, a força concentrada das informações não funcionava. Ao contrário, parecia alienar muitas pessoas.

Concentrei minha atenção nos médiuns mais modernos e nas entidades que se comunicavam por seu intermédio.

A mais conhecida das entidades espirituais que se comunica­vam atualmente parecia ser um mestre espiritual referido como D.K., recebido por Alice Bailey e depois por Benjamin Creme. Seth, recebido por Jane Roberts, era um caso particularmente inte­ressante, oferecendo mais de uma faceta do fenômeno da mediunidade.

Desde 1963, quando a Sra. Roberts foi abordada pela primeira vez por Seth, ela e o marido (que desde o início tomara anotações de tudo o que Seth dizia) acumularam quase uma biblioteca sobre as sessões. Uma parte desse material aparecera em diversas obras publicadas, uma delas ditada pelo próprio Seth. O que achei mais interessante foi a dúvida intensa demonstrada pela Sra. Roberts nos primeiros contatos com Seth (O Material Seth).

Não tendo qualquer contato anterior, interesse ou crença nos fe­nômenos psíquicos, a Sra. Roberts fora invadida uma noite, quando escrevia poesia, por uma torrente de palavras que exigia ser passada para o papel. Escrevendo sem parar por horas a fio, ela acabara dando um título ao que descreve como "aquela estranha batelada de anotações, O Universo Físico como Elaboração de Idéia". (Ve­rificou-se posteriormente que as anotações constituíam uma síntese do material que Seth desenvolveria.) Mas, na ocasião, nada saben­do de Seth, a Sra. Roberts ficara apreensiva, atônita e transtorna­da, tanto pelo próprio evento como pelo conteúdo do que escrevera.

Nas semanas e meses subseqüentes, depois que Seth virtual­mente insistiu em "se manifestar", ela e o marido conduziram mui­tos testes para provar ou negar a existência dele como uma perso­nalidade separada ou a entidade desencarnada que alegava ser. Na verdade, Seth levou muito tempo e precisou recorrer a algumas de­monstrações espetaculares de faculdades especiais para provar à Sra. Roberts que não era uma parte do subconsciente dela!

Apesar de tudo, era difícil estabelecer, em termos científicos, uma "prova" concreta de mediunidade, uma presença física na Terra atuando como um canal de comunicação para outro tipo de presença, num plano diferente. Em última análise, a prova do pro­cesso era o próprio conteúdo: se um médium falava em língua es­trangeira, demonstrava um talento (como tocar piano), praticava uma profissão específica (como a medicina) ou transmitia informa­ções sobre um lugar distante ou alguma pessoa ou ocorrência par­ticular de que não podia ter conhecimento, então parecia que a língua estrangeira, o talento, a habilidade profissional ou o conhe­cimento provinham de outra fonte.

(Durante um período subseqüente, eu haveria de deparar com muitos exemplos de tais "provas", mas a esta altura o processo já se tornara corriqueiro para mim; não chegava a ser desimportante, mas era como o preparo de uma boa refeição: a pessoa sentia-se grata por uma boa cozinheira, mas o que contava era a refeição.) Mais do que isso, ao final de dois ou três meses de leituras e in­vestigações intensas, eu chegara à conclusão de que o processo era de relevância menor. Pelo menos um aspecto das informações trans­mitidas sobre as quais eu lia aflorava repetidamente: era o que se relacionava com a recordação de vidas anteriores. Provavelmente eu me sentia mais curiosa a esse respeito porque parecia que pode­ria aprender alguma coisa útil a meu relacionamento com Gerry. Mas o que realmente me atraiu a atenção, no vasto volume de material disponível para estudo, foi o fato de que tanto da men­sagem parecia ser universal: ou seja, entidades se manifestando atra­vés de uma variedade de pessoas, em muitos países, em línguas diferentes, estavam dizendo basicamente a mesma coisa. Olhem para si mesmos, explorem a si mesmos, vocês são o Universo...

Mais e mais, enquanto eu lia e pensava, a mensagem me for­çava a reexaminar motivos, a repensar, talvez a pensar pela pri­meira vez sobre valores e aspectos da existência que até aquele momento aceitava simplesmente.

Estava acostumada a viver num mundo em que, pela própria natureza da vida que levávamos, era quase impossível encontrar tempo para se olhar para dentro. Onde apenas para se manter com vida, para não falar nada de ficar por cima, parecia necessário assumir atitudes que eram justamente o oposto... se a pessoa não tivesse o cuidado de acompanhar o progresso do próximo, tinha a impressão de que não passaria muito tempo e ficaria para trás. Uma pessoa bem-sucedida tinha de se manter em movimento na corrida desabalada só para conservar a posição. Se a pessoa era pobre, tinha de se manter em movimento só para sobreviver. Nunca havia qualquer tempo só para a pessoa, não havia tempo para nada, para desfrutar um pôr-do-sol, escutar um passarinho cantar, obser­var uma abelha a zumbir, ouvir o que se estava pensando, muito menos o que outra pessoa estivesse pensando.

O contato humano parecia superficial, lutando por objetivos significativos, querendo-se um sentido mais profundo, mas apenas se dando voltas no pensamento, sem chegar a parte alguma. A exis­tência competitiva não deixava tempo para o que éramos, quem podíamos ser, o que podíamos significar uns para os outros. Eu conhecera bem poucos relacionamentos que possuíam um sentido real e duradouro... incluindo os meus. A impressão era de que não podiam sobreviver ao escrutínio que lhes impúnhamos.

E ao invés de nos aprofundarmos, preferíamos reagir a impul­sos para nos mantermos confortáveis, para aceitarmos apenas os limites e restrições impostos pela superficialidade segura, a sermos criaturas vitoriosas e bem tratadas, de conforto com proteção e aconchego, sem desafios do que podia ser assustadoramente novo e desconhecido... sem desafios do que a mais poderíamos ser ou éramos, sem desafio do que a mais poderíamos compreender, sem desafio de como isso podia nos ameaçar, sem reconhecimento do que significaria acabarmos sozinhos.

Sozinho... essa era a palavra terrível. Todos tinham medo de ficar sozinhos. Contudo, não importava realmente com quem vi­víamos ou dormíamos, a quem amávamos ou casávamos. Em última análise, estávamos todos sozinhos... sozinhos com nós mesmos... e era aí que o conflito começava. Vários relacionamentos estavam desmoronando porque as pessoas envolvidas não sabiam quem eram, muito menos quem era a pessoa ou pessoas com quem estavam envolvidas.

Mas isso poderia agora estar mudando? As pessoas estariam agora começando a esquadrinhar as suas próprias profundezas, como uma espécie de mecanismo de sobrevivência instintivo para com­pensar a polaridade de violência e distúrbio que estava obviamente dominando o mundo? Estariam descobrindo o potencial para uma alegria incontida em si mesmas... como Lars e Birgitta haviam descrito? Era possível que milhares de pessoas, no mundo inteiro, estivessem se enfronhando no mistério de uma vida além da física e em decorrência, necessariamente, da coisa que chamávamos de "alma". Descobri-me a conceder um crédito cada vez maior aos ensinamentos espirituais, a importância da meditação, a decência essencial e a integridade da mensagem emocional, as possibilidades ilimitadas da realidade metafísica. Se toda a energia era eterna e infinita, então a nossa energia invisível — pensamento, alma, mente, personalidade, como quer que se quisesse chamar — tinha de ir para algum lugar. Eu estava achando cada vez mais difícil acreditar que essa energia meramente se dissipava quando o invólucro físico se deteriorava. E aparentemente muitas outras pessoas pensavam da mesma forma. Eu estaria sendo rapidamente atraída para um vaga­lhão de compreensão humana? Se Gerry representava o antigo, inte­lectual e um tanto ceticamente pragmático enfoque ao significado da vida, talvez fosse por isso que ambos descobríamos que o rela­cionamento era em última análise insatisfatório. Eu queria "ser". Ele queria "fazer". Eu começava a pensar que cada um de nós dispunha apenas da metade da equação.

Imaginava o que outros amigos meus pensariam do que eu vinha lendo e meditando. Qualquer coisa de uma natureza espiritual haveria certamente de constrangê-los ou faria com que rissem, tendo em vista o mundo em que vivíamos. Mas os psíquicos que eu lia sempre diziam a mesma coisa. Rudolf Steiner, Leadbetter, Cayce e incontáveis outros, todos afirmavam a existência fundamental de uma Vontade Divina... uma força de energia da qual tudo o mais derivava. Éramos parte disso, era parte de nós. A tarefa era des­cobrir essa divindade em nós mesmos e viver de acordo.

Se encontrássemos vida em outros planetas, "eles" também sa­beriam a mesma coisa que nós ou teriam uma compreensão mais profunda? A ciência parecia virtualmente certa de que tinha de haver vida em outros planetas. As possibilidades contra o seu não desen­volvimento pareciam remotas. E se houvesse, essa vida teria uma Vontade Divina diferente da nossa ou seria a mesma? A energia no centro do cosmos estava atendendo à vida em outros planetas, assim como acontecia no nosso?

Os antigos diziam: "Estude a si mesmo, pois em si pode en­contrar as respostas a todos os problemas que venham a confrontá-lo. O espírito do homem, com todos os seus atributos, físicos e mentais, é uma parcela do grande espírito global. É por isso que todas as respostas estão dentro de si mesmo. Seu destino e seu carma dependem do que sua alma tem feito com as coisas de que tomou conhecimento. E saiba que cada alma acabará encontrando a si mesma. Não se pode escapar de nenhum problema. Encontre a si mesmo agora."

Concluí que os videntes antigos não dizem nada diferente do que era apregoado pelos psicólogos modernos, religiões ou ciên­cia... e até mesmo Shakespeare, diga-se de passagem. Era tudo a mesma coisa: "Conheça a si mesmo, tenha coragem de olhar para dentro e isso haverá de libertá-lo."

Conhecer a si mesmo talvez fosse necessário para simplesmente ter percepção, reconhecer a própria alma. Conhecer a soma das vidas que a alma experimentara parecia totalmente impossível, talvez mes­mo irrelevante. Mas muitas pessoas que eu conhecia queriam esse conhecimento e ainda aceitavam a teoria da reencarnação tão facil­mente quando aceitavam o fato de que o sol se levantava todas as manhãs.

Acabei sabendo que um ator extraordinário, com quem tivera uma experiência profissional maravilhosa e um relacionamento pes­soal afetuoso, era uma dessas pessoas: Peter Sellers. E ele me confidenciou que passara por uma experiência que ajudara a con­firmar a convicção de que sua alma era de fato separada do corpo.

Eu fizera dois filmes com Peter. Um se chamava 7 Vezes Mu­lher, em que ele tivera o papel de coadjuvante de um dos meus sete maridos. O outro foi Muito Além do Jardim, em que eu tinha um papel secundário, enquanto Peter tinha o trabalho mais extraordiná­rio de sua carreira. Ele sempre se tornava os personagens que representava, tanto na tela como fora. Na minha opinião, Peter era um gênio, mas sofria pessoalmente do que ele chamava de uma carência de conhecimento da própria identidade. Dizia que conhecia os personagens que representava melhor do que a si mesmo, que sentia que fora aqueles personagens, em alguma ocasião, de uma maneira que só podia ser descrita como "tendo vivido a todos no passado".

Um dia, quase ao final das filmagens de Muito Além do Jar­dim, conversamos a respeito. Voltáramos da locação em Asheville, na Carolina do Norte, estávamos filmando interiores no estúdio da Goldwyn em Hollywood. Quando cheguei ao estúdio, naquela manhã, estava dominada pela sensação de que havia alguma coisa errada. Não sabia se era porque recordações dos filmes que fizera ali estavam me voltando, as lembranças de Irma La Douce, Dois na Gangorra, Infâmia e Se Meu Apartamento Falasse, ou se estava acontecendo alguma coisa de que eu tomaria conhecimento mais tarde.

Peter não parecia em boa forma naquela manhã. Provavelmente porque estava cansado, pensei. Ele trabalhava 10 horas por dia com um marca-passo no coração e nunca fora um candidato à maratona. Sentamos juntos na traseira de uma limusine falsa, esperando que a iluminação fosse acertada.

Subitamente, Peter levou uma das mãos ao peito, enquanto a outra me apertava o braço. Não era uma atitude que chamasse muito a atenção, podia até parecer insignificante aos outros. Mas compreen­di que alguma coisa estava muito errada. Chamei o gerente de pro­dução e sussurrei-lhe que providenciasse um médico. Ele assentiu e se afastou. Peter continuou a falar sobre representação e papéis, como sentia que conhecia todos os personagens que representava. Foi bastante específico ao dizer que sentia que "fora cada um daqueles personagens, em um momento ou outro".

A princípio, não entendi o que ele estava dizendo. Mas enquanto Peter continuava, compreendi que ele estava falando em ter vivido aqueles personagens em algumas de suas encarnações anteriores.

— Está querendo dizer que sente que aproveita as experiências e sentimentos que se lembra realmente de ter tido em outras vidas? — Falei de uma maneira quase indiferente. — Provavelmente é por isso que você é um ator tão bom. Apenas possui uma melhor recordação de vidas anteriores, num nível criativo, mais do que a maioria das pessoas.

Os olhos dele se iluminaram como se tivesse finalmente encon­trado alguém com quem podia conversar, partilhar a sua crença.

— Não costumo conversar com muita gente sobre isso, Shirley. Pensariam que estou maluco.

— Eu também não. Mas provavelmente há mais pessoas que acreditam nas coisas cósmicas em segredo do que podemos ima­ginar.

Ele pareceu relaxar um pouco.

— O que foi a dor que acabou de sentir, Peter?

— Provavelmente apenas uma pontada de indigestão.

— É possível. .. mas talvez fosse bom conversarmos a respeito.

Ele deu a impressão de que não queria conversar sobre isso imediatamente. Falou sobre comida, o que era certo e errado para ele comer, o que era viver com "esta maldita geringonça que tenho no coração".

Escutei em silêncio. Sabia que ele ainda não chegara ao que queria dizer.

— Este estúdio de som me dá arrepios, Shirley.

— Por quê?

— Porque sim.

— Mas qual é o motivo?

Ele limpou o suor da testa, respirou fundo.

— Porque foi aqui que morri.

Fiz um esforço para não reagir de maneira exagerada. Lem­brava de ter lido nos jornais a história do seu terrível encontro com a morte.

— Rex Kennamer salvou-me a vida e o vi fazer isso.

— Fale sério. Como foi?

Como uma pessoa relatando uma cena que acontecera com outra, ele disse:

— Senti que deixava meu corpo. Flutuei para fora da minha forma física e vi levarem meu corpo para o hospital. Acompanhei-o. Estava curioso. Perguntava-me o que havia de errado comigo. Não estava assustado ou qualquer outra coisa assim, porque eu me sentia muito bem, era só meu corpo que estava em dificuldade. Vi quando o Dr. Kennamer chegou. Ele sentiu meu pulso, constatou que eu estava morto. Junto com outros, pôs-se a fazer pressão em meu peito. Tiraram toda merda que havia dentro de mim... creio que literalmente. Só faltaram ficar pulando com os pés no meu peito para fazer meu coração bater de novo. Ouvi Rex gritar com alguém, dizendo que não havia tempo de preparar-me para cirurgia cardíaca. Ele ordenou que alguém me abrisse o peito ali mesmo. Rex tirou-me o coração do peito, massageou-o diretamente. Fez tudo o que era possível, menos jogá-lo pelo ar. Eu observava toda a cena, curioso. Rex se recusava a aceitar que eu estava morto. Depois olhei ao redor e vi uma claridade branca, intensa, de incrível beleza, por cima de mim. Queria ir ao encontro daquela luz branca mais do que qualquer outra coisa. Jamais quisera outra coisa com tanta inten­sidade. Sabia que havia amor, amor de verdade, no outro lado da luz que tanto me atraía. Era suave e aconchegante, lembro de ter pensado: "Isso é Deus." Tentei me elevar em sua direção, enquanto Rex continuava a trabalhar em meu coração. Mas, por algum mo­tivo, não conseguia me elevar. E, de repente, vi uma mão se estender através da luz. Tentei tocá-la, agarrá-la, segurá-la, a fim de poder me elevar pela luz. E então ouvi Rex gritar lá embaixo: "Está ba­tendo de novo. Estou conseguindo um batimento." No mesmo mo­mento, uma voz ligada à mão que eu queria segurar com tanto empenho disse: "Não é o momento. Volte e termine. Não é o momento." A mão desapareceu no outro lado e me senti flutuar de volta ao corpo. Estava amargamente desapontado. Depois disso, não me lembro de mais nada, até que recuperei a consciência, já dentro de meu corpo.

Quando Peter terminou, tentei continuar a parecer tranqüila:

— Já li o que Elizabeth Kubler-Ross escreveu. Ela tem muitos relatos documentados de pessoas que descreveram o mesmo fenô­meno quando foram declaradas clinicamente mortas. Mas, aparente­mente, também não era o momento para essas pessoas e voltaram para contar.

Peter me fitou atentamente, da maneira que costumava usar para indagar abertamente se devia continuar a se aprofundar. Fiz um esforço para não pressioná-lo, mas também não queria que ele parasse de falar.

— Não acha que estou doido, Shirley?

— Claro que não. Já ouvi muitas pessoas descrevendo o mesmo fenômeno. Não se pode dizer que todas estão doidas. E acho que o importante é determinar para que se volta.

Não falei em "você" porque se corria o risco de perder Peter quando se insistia demais nas questões pessoais. Como já falei antes, a identidade de "Peter Sellers" se lhe esquivava por completo. Já dissera várias vezes aos repórteres que compreendia os seus perso­nagens a fundo, assim como muitos outros mistérios... mas Sellers? Nada... não tinha a menor idéia.

Peter se contorceu no banco.

— Você está bem? — perguntei.

— Estou, sim... mas tudo isso... este cenário... a câma­ra... as luzes... este carro... tudo me lembra que ainda não compreendi o que você acaba de dizer. Não sei por que estou aqui! Não sei para que voltei! É por isso que represento como faço. Não sei. Não consigo imaginar qual é o meu propósito. O que eu deveria estar fazendo?

Os olhos dele se encheram de lágrimas. E passou a sussurrar:

— Mas sei o que é. Sou um chato para muitas pessoas. E sei que pensam que estou doido. Mas estou doido pelas coisas certas. E não sei se elas estão.

Peter enxugou os olhos com a manga do traje imaculado do personagem de Chauncey Gardiner. Piscou os olhos e fungou, como Chauncey o teria feito.

— Sei que vivi muitas vezes antes, Shirley. A experiência confirmou isso, porque nesta vida senti o que era a alma deixar o corpo. Mas desde que voltei que não sei o que deveria estar fazendo, para que voltei.

Ele tornou a respirar fundo, um suspiro longo e agoniado... ainda mantendo a personalidade de Chauncey Gardiner.

Tudo ficou pronto poucos minutos depois. Al Ashby, o dire­tor, entrou no cenário e filmamos a cena, como se nada tivesse acontecido. Estávamos filmando a primeira cena do filme no último dia das filmagens. A vida era uma ilusão... exatamente como os filmes.

Cerca de um ano e meio depois, eu estava com alguns amigos em meu apartamento em Malibu. Estivera viajando e não sabia que Peter sofrera outro enfarte.

Conversávamos jovialmente quando de repente me levantei da cadeira de um pulo.

— Peter! — exclamei. — Alguma coisa aconteceu com Peter Sellers!

Quando falei isso, pude sentir a sua presença. Era como se ele estivesse ali, na minha sala de estar, observando-me dizer aquilo. Senti-me ridícula. Claro que toda a conversa cessou. E nesse instante o telefone tocou. Controlei a voz e atendi. Era um repórter de jornal

— Eu gostaria de falar com Miss MacLaine. Queria saber a reação dela.

— Reação a quê?

— Lamento muito se ainda não sabe... mas o amigo dela Peter Sellers acaba de morrer.

Virei-me e corri os olhos pela sala. Podia sentir Peter a me observar. Senti vontade de dizer ao repórter que ele estava enganado. Senti vontade de dizer: "Você provavelmente pensa que ele está morto, mas na verdade Peter apenas deixou seu último corpo." Senti vontade de dizer: "Ele fez o melhor trabalho de sua vida em nosso filme, representando uma das almas mais gentis e ternas que já passaram por este mundo. Não restava mais nada a realizar, ele não podia provavelmente imaginar o que mais estava esperando, por isso deve ter se encaminhado para a luz branca... e, além disso, ele sentia saudade da mãe."

Mas é claro que não falei nada disso. Embora saiba que Peter teria adorado...

Limitei-me a dizer:

— Shirley não está. Mas eu lhe darei o recado.

Desliguei e virei-me.

— O que aconteceu? — perguntaram meus amigos. Pude sentir Peter sorrir.

— Nada. Um repórter estava tentando me dizer que Peter Sellers acabou de morrer.

 

                                         Capítulo 13

Liguei para Cat, em The Ashram, assim que cheguei à Califórnia, vinda da Suécia. Contei que estivera com Ambres em Estocolmo e queria conversar com ela. Pedi-lhe que se encontrasse comigo para uma caminhada pelas montanhas. Nas colinas ondulantes de Cala-basas talvez eu pudesse definir as minhas intenções. E durante a caminhada falei da minha experiência com Ambres, comentei que tudo era tão desconcertante que vinha escrevendo a respeito para tentar chegar a alguma conclusão. Os olhos azuis de Cat se ilumina­ram como pires de neón e ela bateu palmas.

— Grande, Shirley! Isso é maravilhoso! Você vai escrever sobre a sua atração para a dimensão espiritual? Há muitas pessoas que adorariam ler sobre o que você está fazendo. E você sabe que estão prontas para ler a respeito dessas coisas. E como estão!

A conversa estava indo mais longe do que eu tencionara, mas mesmo assim perguntei por que ela achava que alguém estaria inte­ressado.

— Porque não há mais nada funcionando para as pessoas, Shirley. Muitas sentem que tem de haver outro meio para levar suas vidas... e o caminho espiritual é praticamente o único que ainda não experimentaram.

Andamos em silêncio por algum tempo e depois Cat acres­centou:

— Você gostaria de ter uma experiência com uma entidade espiritual que fala inglês? Conheço um médium muito respeitado aqui na Califórnia. Ele está ocupado em receber durante todo o tem­po, mas virá de Santa Barbara para uma sessão em The Ashram. Talvez possa fazer uma sessão com você.

— É mesmo? — Eu estava espantada outra vez por descobrir como Cat era uma catalisadora em minha vida. — Você já teve uma sessão com ele?

— Oh, Shirley! — Cat pareceu abrir os braços e irradiar sua energia por todas as montanhas ao redor. — Claro que sim! E você vai adorar a luz dele! Vai adorar as entidades espirituais que falam por seu intermédio!

Cat sempre falava em pontos de exclamação. Possuía uma na­tureza tão radiosa que era difícil imaginá-la a não amar alguém, desencarnado ou não.

— Seria divertido — comentei, entrando no espírito da coisa.

— O que acha que aconteceria?

— Diversas entidades se manifestam, de um modo geral, como se estivessem no quarto com você.

— E o que eu devo fazer?

— Basta perguntar qualquer coisa que quiser. As entidades podem lhe falar de suas vidas anteriores, ajudá-la com diagnósticos físicos ou receitar dietas que são boas para as suas vibrações... qualquer coisa que você quiser...

— Depois de ouvir o relato da criação do mundo que Ambres fez, eu gostaria de escutar algo mais pessoal.

— Além do mais, você precisa de um bom descanso espiritual — disse Cat, andando alegremente.

Imaginei como Cat podia comparar a mediunidade com re­pouso espiritual. Mas talvez fosse assim para ela...

Três meses e uma minibiblioteca de livros lidos depois, senti que chegara o momento para que eu fizesse alguma investigação mediúnica pessoal. Por intermédio de Cat, marquei um encontro com Kevin Ryerson, decidindo ao mesmo tempo que tentaria ser neutra, branda e diversas outras coisas que não sou...

A campainha do meu apartamento em Malibu tocou às 6:45 da tarde seguinte. Abri a porta, sem saber o que esperar. Fitando-me sob um chapéu bege de aba caída estava um jovem em torno dos 29 anos, olhos azuis diretos e gentis. O terno era bege, combinando com o chapéu, colete bege, sapatos beges e meias beges. Tinha um sobretudo (também bege) pendurado num dos ombros; sorriu-me prontamente. O sorriso era inocente e gentil. Ironicamente, não parecia estar cônscio da sua aparência cômica. Só de contemplá-lo me dava vontade de comer uma imensa fatia de torta de coco bege.

– Olá? Sou Kevin. — O tom dele dava a impressão de que sempre fazia uma pergunta. — Sou Kevin Ryerson.

Ele dava a impressão de estar um pouco indeciso, embora lá no fundo relaxado.

– Pois não, Kevin. — Abri a porta para deixá-lo entrar. — Entre e sente, por favor.

Observei-o atentamente, enquanto ele passava pela porta, sem perceber que o sobretudo bege estava quase caindo do ombro. Os movimentos eram suaves, embora os calcanhares pisassem primeiro no chão quando andava.

— Posso deixar meu veículo onde está, lá fora?

— Seu veículo? Ah, sim... está se referindo a seu carro. Claro que pode. Não tem importância.

— Obrigado. Minha dama pode aparecer à minha procura. E eu gostaria que ela pudesse perceber o veículo imediatamente.

— Sua dama?

— Isso mesmo. Casamos recentemente e planejávamos um jan­tar de comemoração para esta noite, dependendo dos períodos de tempo que estaríamos ocupando.

Hesitei por um instante, sem saber como reagir a esse uso da língua inglesa. Parecia afetado demais. Combinando com a maneira como ele andava e o jeito de se vestir, fazia-me duvidar que pudesse ser levado a sério.

— Claro, claro... Não sei quanto tempo uma sessão assim pode durar. Você provavelmente sabe melhor do que eu.

Kevin atravessou minha sala de estar e sentou um tanto formal­mente numa das cadeiras.

— Você apresenta suas perguntas aos guias espirituais e eles determinarão o tempo necessário.

Kevin parecia estranhamente fora do tempo, um anacronismo. Ou talvez eu apenas estivesse interpretando tal impressão em seu estranho formalismo. Talvez fosse isso o que acontecia quando se estava com um médium.

Perguntei-lhe se gostaria de tomar um drinque, um café ou qualquer outra coisa.

— Não. O álcool inibe a minha acurácia. Mas chá seria ótimo.

Preparei o chá, dizendo a mim mesma, firmemente, para não confundir a mensagem com o mensageiro.

— Quer dizer que casou recentemente? — perguntei, querendo puxar conversa e querendo saber como seria viver com um médium.

— Isso mesmo. Eu me saía muito bem na brigada do chicletes de bola antes de decidir assentar.

Soltei uma risada. Ele parecia oscilar entre os Cavaleiros da Távola Redonda e a geração do rock.

— E vão ter filhos imediatamente?

— Não. Minha dama e eu temos vontade de sair por aí para mudar o mundo, mas não temos condições de sustentar uma babá.

Servi o chá a Kevin.

— Está familiarizada com as sessões espíritas?

— Um pouco.

Falei sobre Ambres na Suécia e de outras pessoas que me haviam descrito suas experiências. Acrescentei que conhecia todo o material de Edgar Cayce. Kevin disse modestamente que era um estudioso de Cayce e o admirava muito.

— Uma grande alma — disse ele. — Tenho diversos livros de Cayce que são impossíveis de se encontrar. Terei o maior prazer em emprestá-los a você.

Conversamos sobre Cayce, orientação espiritual e diagnóstico médico através do fenômeno da mediunidade. Discutimos as pes­quisas de Sir Oliver Lodge com a Sociedade Britânica de Pesquisa Psíquica, em Londres, suas experiências de entrar em contato com a alma do filho morto. Conversamos sobre o caso da Sra. Piper, em Boston, como suas informações sempre conferiam, eram infa­líveis.

Kevin falava de uma maneira descontraída, dava a impressão de estar bem enfronhado nas questões metafísicas, era objetivo e surpreendentemente divertido, com suas avaliações inteligentes das circunstâncias que descobria em si mesmo, em decorrência de seus talentos metafísicos e psíquicos.

— Também não sabia o que estava acontecendo comigo quando tudo isso começou — comentou ele. — O espírito se manifestou durante uma das minhas meditações. Eu nem mesmo soube que o estava recebendo. Mas alguém foi buscar um gravador e registrou tudo. Depois, quando tocaram, eu me senti uma aberração. Nada sabia das informações médicas que haviam sido transmitidas por meu intermédio. Também não conhecia as vozes que saíam por minha boca... E certamente não havia inventado as informações sobre vidas anteriores, ao mesmo tempo em que simulava uma voz diferente.

Era difícil aceitar o que ele estava dizendo. Por que eu deveria acreditar que ele não podia ou não queria simular vozes estranhas e inventar histórias intrincadas sobre vidas anteriores? Pensei em Ambres na Suécia. Se compreendesse ou falasse sueco, eu também poderia ter formulado perguntas. Ficarei apenas escutando, pensei. Cruzei os braços e me mantive em silêncio.

— Eu não poderia explicar de qualquer forma racional — continuou Kevin. — Sabia apenas que devia estar canalizando guias espirituais. Minha irmã também é capaz de receber. E isso sempre deixou nossos pais muito nervosos, pois eles nunca foram capazes de compreender. Comecei a ler sobre outras pessoas que também eram capazes da mesma coisa... até mesmo crianças de oito anos de idade, manifestando-se através de línguas que não falavam e coisas assim. Ao final, aprendi a relaxar e deixar que acontecesse. E tem ajudado muitas pessoas.

Olhei para Kevin, analisando mentalmente tudo o que ele dissera, recordando os outros casos que já lera. Ele tomava o chá em pequenos goles. Parecia extremamente modesto e despretensioso, ape­sar de estar vestido como se tivesse saído de uma loja de costumes exóticos. Eu sempre confiara no que um amigo meu descrevia como "detector de merda" embutido... o senso inato de ceticismo. Mas resolvi não interrogá-lo sobre o traje, com receio de intimidá-lo.

Imaginei qual seria a minha impressão ideal de um médium digno de confiança. Cada indivíduo era justamente isso... um indi­víduo. Como falaria ou pareceria um médium "típico"? Como seria um psiquiatra ou médico "típico"? Havia médiuns que simulavam 90 por cento do que faziam, assim como havia praticantes de outras profissões que cometiam erros ou eram descuidados nos dias "desli­gados" ou não se importavam com coisa alguma em qualquer dos dias da semana? Mas será que se podia julgar pelos resultados? A realidade invisível era algo que se podia provar?

E, por falar nisso, o que era a realidade invisível? Era, nos termos mais simples possíveis, alguma coisa em que se tinha de acreditar para que fosse verdadeira. Rezar a uma divindade cha­mada Deus era investir fé numa realidade invisível: quando um jogador de beisebol fazia o sinal-da-cruz antes de pisar na base, estava invocando uma realidade invisível superior; quando um jo­gador de basquete fazia o sinal-da-cruz antes de arremessar um lance livre que podia desempatar uma partida, ninguém nas arqui­bancadas ria dele; o espetáculo comovente de famílias rezando a um Deus invisível num pronto-socorro de hospital era bastante familiar a todos.

Milhões de pessoas passavam todos os domingos a participar da realidade invisível de orar por algo que não podiam provar. Nada disso parecia exigir ceticismo para se tornar crível. A realidade invisível era aceita há séculos. Ninguém a contestava. Na verdade, a fé numa realidade invisível constituía o que se costumava chamar de reverência.

— O que quer que se pense de receber guias espirituais invi­síveis é uma decisão individual — disse Kevin. — As pessoas geralmente "sabem" se faz sentido ou não. Não tento convencer ninguém. Apenas tento compreender e aprender, enquanto continuo a receber. Sinto-me perfeitamente orientado por meus amigos espirituais e con­tinuo a desenvolver meus talentos metafísicos. Você terá de tomar a sua própria decisão.

Pensei no que ele acabara de dizer. O fato de promover uma sessão com ele implicava acreditar no que estava dizendo? Seria um meio de pedir para ser convencida? Descobri-me a analisar minha "mente aberta" sob uma nova luz. Uma mente aberta seria um ato de credulidade? Tomei um gole do chá.

— Você é religioso, Kevin?

Ele quase engasgou com o chá.

— Está brincando? Que igreja me aceitaria? Estou invadindo o território delas. Digo que as pessoas têm Deus dentro de si. A Igreja diz que Deus só está dentro dela. Há uma frase na Bíblia que diz que nunca se deve receber outras entidades espirituais além de Deus. A maioria dos cristãos aceita isso. Mas também a Bíblia nada diz a respeito da reencarnação e é um fato bem conhecido que o Concílio de Nicéia resolveu suprimir o ensinamento de reen­carnação da Bíblia.

— Como sabe disso?

— A maioria dos estudiosos metafísicos sérios da Bíblia sabe disso. O Concílio de Nicéia alterou muitas interpretações da Bíblia. O homem Jesus estudou por 18 anos na Índia antes de voltar a Jerusalém. Estudou os ensinamentos de Buda e também se tornou um iogue. Obviamente, tinha um controle total sobre o corpo e compreendia que o corpo era a única habitação para uma alma. Cada alma tem muitas mansões. Cristo ensinou que o comporta­mento de uma pessoa determinaria os acontecimentos futuros... o carma, conforme dizem os indianos. O que alguém semeia, há de colher.

Não o interroguei a respeito dessas pressuposições um tanto pretensiosas. Kevin comeu um bolinho. Parecia gostar de açúcar. Comeu o bolinho em duas mordidas.

Pensei na semelhança entre as sessões Cayce, Ambres, Buda e as incontáveis pessoas que haviam professado o mesmo tipo de crença.

—- E o que vai acontecer aqui? —- perguntei.

Kevin comeu outro bolinho.

– Está bem, vou dizer. Bom... duas, três ou talvez quatro entidades espirituais me usam para transmitir informações. O pri­meiro, que geralmente se apresenta para cumprimentar as pessoas, intitula-se John. Há quem ache que ele é o mais evoluído de todas as entidades desencarnadas. Fala numa linguagem bíblica, que às vezes é difícil de entender. Se você preferir ou se John sentir alguma dificuldade na comunicação, outra entidade se apresenta. Intitula-se Tom McPherson, pois sua encarnação predileta foi a de um pun­guista irlandês há algumas centenas de anos. Ele pode ser muito en­graçado. Muitas pessoas gostam de trabalhar com ele. Outros acham que ele é humorístico demais para ser levado a sério. Há gente que prefere que seus guias espirituais sejam solenes. E há também o Dr. Shangru, um paquistanês que viveu há algumas centenas de anos, bem versado em assuntos médicos. Há ainda Obidaya, cuja encarnação predileta foi a de um jamaicano que compreende os problemas raciais dos tempos modernos.

Senti que minha mente tentava protestar. Parecia uma história em quadrinhos, com uma coleção de personagens excêntricos. Mas espere um pouco, pensei. Está de acordo com tudo o que li. Se as entidades são mesmo do "plano astral", então teriam personalidades individuais, assim como tínhamos no corpo.

— Espere um momento — pedi. — Deixe que eu me ajuste. Disse que esse Tom McPherson foi um punguista irlandês? Isso signi­fica que ele não foi mais nada?

— Claro que não. Acontece apenas que a personalidade de punguista foi a sua encarnação predileta. Ele ensina do ponto de vista dessa vida.

— Ahn... Por que ele gostou de ser um punguista?

— Pergunte a ele. Mas acho que é por causa de seu senso de humor.

— Você ouve essas entidades quando estão falando por seu intermédio?

— Não. Não estou cônscio da minha mente consciente. Mas posso falar com as entidades no plano astral, quando estou dor­mindo, se quiser. E posso senti-los a me guiarem quando estou desperto, em estado consciente.

— Acredita que todos possuem guias espirituais?

Kevin ficou surpreso.

— Mas claro! É o que a alma faz, depois que deixa o corpo. As almas que morreram, por assim dizer, ajudam as que ainda estão no corpo. A compreensão espiritual é justamente isso.

— O que é justamente a compreensão espiritual?

Kevin empertigou-se na cadeira, inclinou-se em minha direção.

— Nunca teve a sensação de que estava sendo guiada a fazer alguma coisa, por uma força que não podia compreender?

Pensei em todas as ocasiões na minha vida em que julgara estar escutando a minha intuição, que parecia quase me compelir a tomar uma decisão determinada, conhecer uma pessoa ou ir a algum lugar. Pensei em minhas experiências na África com uma força que parecia me proteger quando viajava sozinha. Ou no período que passara em Butão, nos Himalaias, quando me senti impelida a indagar e inves­tigar o que os lamas estavam fazendo, sentados a meditar, em seus mosteiros a mais de cinco mil metros de altura, acima das nuvens. Tinha a impressão de ter reconhecido uma força similar então, há quase 25 anos. Essa força motivara a minha curiosidade e o meu impulso de questionar o que não podia ver.

— Já, sim — respondi a Kevin agora. — Devo admitir que me senti guiada por alguma força, ao longo de minha vida. Mas o que isso significa?

— Significa que, juntamente com seu conhecimento intuitivo, estava sendo guiada por seus amigos espirituais, por guias e mestres. Pode ter definido apenas como uma força, mas estou sugerindo agora que se torne mais perceptiva na compreensão do que estava realmente acontecendo.

Levantei-me e indaguei:

— Qual é a sensação de saber que essas entidades espirituais falam por seu intermédio?

Kevin hesitou por um instante.

— Eu gostaria às vezes de ser apenas um jardineiro, ao invés do guardião do jardim. Mas talvez seja esse o meu carma. Todos temos os nossos papéis na vida, não é mesmo? Talvez o meu seja o de um telefone humano.

Kevin parecia subitamente muito vulnerável, sentado ali, emper­tigado, com a xícara de chá equilibrada nos joelhos beges. Imaginei como seria a sua vida, o que fazia nas noites de sábado, como pensava em relação à política. Outros que haviam passado por uma especulação espiritual teriam efetuado a mesma personalização do que aprenderam?

Eu não sabia na ocasião, mas Kevin Ryerson viria a se tornar um dos telefones na minha vida. E naquela noite de sexta-feira, em Malibu, eu estava prestes a conversar com alguns amigos novos... Reais ou não, eu estava sendo lembrada mais uma vez que cada pessoa experimenta a sua própria realidade, ninguém pode ser o juiz do que é de fato essa realidade. Mas não era simplesmente uma questão de se acreditar no que se queria acreditar. Era mais uma questão de tomar cuidado para se abster de ser tão cética que se excluía automaticamente idéias desafiadoras e novas percepções.

 

                                               Capítulo 14

Reduzi a iluminação na minha sala de estar. O mar sussurrava gentilmente lá fora. Liguei o gravador e perguntei a Kevin se pre­cisava de alguma coisa.

– Não — respondeu ele. — Acho que vou sair agora.

— Está certo. Ficarei aqui.

— Muito bem. Eu a verei daqui a pouco.

Ele recostou-se, pôs as mãos sobre o peito, cruzou-as. Fechou os olhos. Aproximei o gravador dele mais um pouco. Lentamente, a sua respiração foi se tornando mais profunda. Esperei. Ele ficou imóvel por cerca de três minutos, a respiração cada vez mais pro­funda, Depois, gentilmente, a cabeça descaiu para o peito, um suspiro escapou da garganta. Tornou a levantar a cabeça, inclinou-a para um lado, Cerca de 30 segundos mais se passaram. Depois, ele abriu a boca, o corpo estremeceu. A respiração mudou de ritmo. Lenta­mente, a boca assumiu um sorriso. As sobrancelhas se altearam, fazendo com que sua expressão se tornasse de surpresa momentânea. As mãos subiram para os braços da cadeira. E ouvi-o falar num sussurro gutural, que não parecia condizer com o alcance vocal de Kevin:

— Salve. Sou John. Meus cumprimentos. Identifique-se, por favor, enuncie o propósito do encontro.

Limpei a garganta e mudei de posição no chão, junto à cadeira de Kevin.

— Está bem. Meu nome é Shirley MacLaine. Sou de Richmond, Virgínia, nos Estados Unidos, mas estou lhe falando de Malibu, Ca­lifórnia. Sou uma atriz que também escreve, não sei explicar por que realmente estou aqui.

— Como tal — disse a Voz.

Como tal... Calculei que isso significava que estava bem. Lem­brei que Kevin dissera que uma das entidades espirituais falava numa linguagem bíblica.

— Nós somos levados a concluir que você tem indagações. Sentimos o seu estado vibracional como tal e com ele estamos familiarizados.

Houve uma pausa, como se ele esperasse que eu fizesse uma pergunta ou dissesse alguma coisa. Eu não sabia por onde começar.

— Poderia, por favor, me dizer a quem se refere como "nós"?

— Como tal, nós somos aqueles que a conheceram em vidas anteriores.

Fiquei aturdida.

— Vocês já me conheceram em vidas anteriores?

— Como tal.

— São então meus guias espirituais? É por isso que estou aqui?

— Como tal.

— Ahn...

— Para compreender a si mesma agora, deve compreender que é mais do que parece agora. A soma de seus talentos, a soma de seus sentimentos são o que já experimentou antes... e tudo o que você é parte da unidade do todo. Isso está de acordo com a sua compreensão?

Contorci-me no tapete. Não tinham todos determinados talen­tos, sentimentos e pensamentos que não correspondiam à experiência da vida presente?

— Desculpe, mas em que baseia suas informações sobre mim ou sobre algo cósmico?

Praticamente sem qualquer pausa, ele respondeu:

— Naquilo que você chamaria de Gravações Akáshicas.

Ele parou de falar, como se eu devesse ter um conhecimento total de suas referências. Parecia distante, pseudobíblico. Eu me sentia neutra..

— Você é levada a considerar que Akasha é o que poderia classificar de inconsciente coletivo da humanidade, acumulado em energia etérea. Essa energia pode ser classificada como a mente de Deus. Você é levada a considerar que a comunicação das referidas idéias é difícil, tendo em vista a dimensão limitada da linguagem.

— Posso entender o que está querendo dizer. E já que estamos tratando disso, por que você fala desse jeito?

Houve uma pausa, antes que ele dissesse:

— Vou me empenhar em usar uma linguagem mais atualizada, como você consideraria. — Ele continuou imediatamente. — Essa energia acumulada chamada de Gravações Akáshicas é como vastos pergaminhos alojados em vastas bibliotecas. Você, como indivíduo, seria considerada como um pergaminho singular dentro das biblio­tecas ou como uma alma única dentro da mente de Deus.

— Desculpe, mas não é um tanto simples demais o que está dizendo?

— Toda verdade não é tão simples como é destinada a ser facilmente revelada.

— Se é tão facilmente revelada, por que não a conhecemos?

— O homem se recusa a aceitar que está de posse de toda a verdade e assim acontece desde o início do tempo e espaço. O ho­mem se recusa a aceitar a responsabilidade por si mesmo. O homem é o cocriador com Deus do cosmos.

Não, pensei, na igreja somos ensinados que Deus criou tudo. Mas "John" já estava continuando:

— Somente quando o homem aceita que é parte da verdade que está procurando é que as verdades se tornam patentes.

— Está querendo dizer que compreenderei tudo se compreen­der a mim mesma e de onde venho?

— Correto.

— Nunca tive certeza de que existisse uma coisa como Deus até recentemente. E com o que está acontecendo no mundo, por que alguém acreditaria em Deus?

— Você está dizendo que precisa de prova de sua própria existência?

— Não entendo onde está querendo chegar. Mas é claro que tenho certeza de que eu existo.

— Você tem uma mente?

— Claro.

— A mente é um reflexo da alma. A alma é um reflexo de Deus. A alma e Deus são eternos e unos.

— Então devo conhecer a mim mesma para saber o que é Deus?

— Correto. Sua alma é uma metáfora de Deus.

— Como? Espere um pouco. Não posso provar qualquer das coisas... alma ou Deus. Não tenciono ser desrespeitosa, mas essa é uma maneira insidiosa de confirmar que há uma alma.

— Isso é um jogo da humanidade e não de Deus. Eu me sentia estranhamente embaraçada.

— Poderia me tornar muito arrogante se realmente acreditasse que eu era uma metáfora de Deus.

— Jamais confunda o caminho que você segue com a própria verdade.

Fiquei um pouco envergonhada e esperei que ele dissesse mais alguma coisa. E foi o que aconteceu:

— Pausa. Outra entidade está desejando falar.

— Como?

Kevin mudou de posição na cadeira. Os braços se acomodaram de outra forma. A cabeça virou para o outro lado. Ele cobriu o rosto por um momento, depois cruzou as pernas.

Fiquei de joelhos, tentando compreender o que estava aconte­cendo.

— Tiro o meu chapéu para você — disse uma voz completa­mente nova. — McPherson falando. Tom McPherson. Como você está passando por aí?

O sotaque era cômico. Não pude conter uma risada. Kevin inclinou a cabeça, como se ele não estivesse realmente fazendo isso. A expressão em seu rosto me fazia especular sobre o motivo pelo qual o achava tão engraçado.

— Essa não! — disse a voz de McPherson. — Eu não espe­rava uma reação assim tão cedo. Geralmente demora um pouco para se chegar a esse ponto.

Kevin dissera que aquele McPherson era engraçado. Tive a impressão de que podia sentir a sua personalidade aflorando. Não era apenas o som da voz, era quase a presença de uma energia nova e distinta na sala. Era extraordinário como ele parecia tão apartado de Kevin. Sendo uma atriz, eu não podia deixar de ficar impressio­nada com Kevin. Se ele estava representando, era uma transição espetacular.

— Sua caixa de zumbido está funcionando? — perguntou McPherson.

— Minha o quê?

— Sua caixa de zumbido.

Olhei para o gravador.

— Ah, isso... Está, sim. Tem problema?

— De jeito nenhum. Eu queria apenas ter certeza de que você está captando os detalhes.

— Os detalhes?

— Absolutamente correto.

Kevin tossiu. Limpou a garganta e tornou a tossir.

— Desculpe, mas poderia me dizer o que há de errado com a garganta de Kevin?

— Não há nada — respondeu McPherson. — Estou apenas tendo um pouco de dificuldade para me ajustar às vibrações do instrumento.

– Ahn... Está querendo dizer que tenta ajustar suas vibra­ções de energia com as vibrações de energia de Kevin?

— Absolutamente correto. Operamos aqui com freqüências vibracionais. Tem por aí um pouco da sua infusão?

— Minha infusão?

— Isso mesmo. Não tem por uma aí uma infusão de ervas?

— Está se referindo ao chá?

— Absolutamente correto.

— Tenho, sim. Gostaria de tomar um pouco?

— Claro.

— A xícara é muito pequena. Devo pôr na mão de Kevin? Poderá segurá-la?

— Claro.

Enchi a xícara e estendi para a frente de Kevin. Ele não fez menção de levantar a mão. Os olhos permaneceram fechados.

— Basta pôr na mão do jovem. Obrigado.

Levantei a mão direita de Kevin e ajeitei a xícara na palma.

— A xícara não é apenas pequena, é minúscula.

Soltei uma risada. Também não gostava daquelas xícaras pe­quenas demais.

— Não tem uma caneca? — perguntou McPherson. — Por acaso não há canecas de vidro no seu armário?

Olhei para a minha cozinha. Ele estava certo. Eu tinha canecas de vidro. Só que nunca servia chá nelas.

— Sou parcial com canecas — comentou McPherson. — Um pouco do velho sentimento de pub. Ajuda-me a pensar com clareza.

Levantei-me, fui até a cozinha e peguei a caneca. Continuei a falar com McPherson enquanto fazia isso:

— Então você é mesmo irlandês? Todos os irlandeses pensam melhor com canecas?

— Absolutamente correto — disse McPherson para as minhas costas.

Voltei e servi mais chá na caneca, trocando-a pela xícara.

— De qualquer forma, não é como o pub — disse McPherson.

Kevin levou a caneca aos lábios e tomou um gole. Os olhos continuavam fechados. Ele engoliu o chá. Não pude deixar de perguntar:

— Pode sentir o sabor do chá?

— Sinto mais do que saboreio. Uso as faculdades orais do instrumento para adquirir um senso.

Ele tomou outro gole.

— Se estivesse quente demais, você sentiria ou seria Kevin que sentiria?

— Eu reagiria para proteger o instrumento. Não sentiria a dor, mas haveria empatia da minha parte.

— E se estivesse realmente quente, o que você faria?

— Provavelmente usaria um comando melhor do organismo do instrumento para atenuar a dor?

Houve um silêncio. Pude sentir que McPherson esperava que eu falasse.

— Posso chamá-lo de Tom?

— Muito bom.

— Soube que você foi um punguista.

— Absolutamente correto. Embora a punga fosse mais o que você classificaria como "ofício de cobertura".

— Ofício de cobertura?

— Absolutamente correto. Na verdade, eu era o que você consideraria como um espião diplomático.

— Um espião diplomático? Para quem?

— Para a Coroa Inglesa, lamento dizer.

— Era um espião para a Inglaterra e é irlandês?

— Absolutamente correto. Eu era irlandês, embora o nome McPherson seja escocês. Assumi o nome de McPherson para dis­farçar minha identidade irlandesa, já que naquele tempo havia um preconceito maior contra os irlandeses do que contra os escoceses. A situação não mudou muito desde então.

- Mas por que você espionava para os ingleses, se eles tinham tanto preconceito contra o seu povo?

— Gosto de pensar em mim mesmo como um espião indepen­dente. A Coroa simplesmente me contratava para surripiar documen­tos importantes dos diplomatas espanhóis. Eu era muito bom nessas coisas. Portanto, intitulo-me um punguista. É mais divertido para mim.

Tomei um gole de chá tentando entender as coisas, mas não conseguindo ir muito longe.

— E agora você aplica o seu ofício mais positivamente, a fim de ajudar os outros por aqui?

— Absolutamente correto. Equilíbrio, carma e tudo isso.

— Não tem uma posição desfavorável por ter sido um punguis­ta... diplomático ou não?

— Absolutamente correto. Estou liberando um pouco do meu carma agora ao lhe prestar um serviço.

— Entendo...

Eu me sentia alternadamente divertida e cética.

— Tem mais um pouco dessa sua infusão?

— Tenho, sim.

Despejei mais chá quente na caneca.

– Gostaria de fazer outras indagações? — perguntou Tom.

Servi-me de mais chá, pensando no que poderia ser uma linha produtiva.

– Conversei outra noite com uma pessoa sobre a existência da alma, usando o déjà vu como um exemplo de existência anterior. Quando a pessoa sente que está num lugar que já visitou antes, mas sabe que isso seria impossível. Ou quando sente no fundo da mente que uma experiência já aconteceu antes.

— Absolutamente correto.

– Algumas pessoas diziam que a memória celular ou memó­ria ancestral (como alguns cientistas também estão dizendo) era a verdadeira explicação. Acreditavam que apenas herdamos genetica­mente a memória das coisas que nossos ancestrais poderiam ter experimentado. Mas como você abordaria a questão da existência da alma?

Houve um momento de silêncio.

— Como você trataria o problema, agora que já teve tempo de refletir a respeito? — perguntou Tom.

— Acho que eu deveria ter dito que há casos de pessoas... como nas sociedades tribais da África... cujos ancestrais jamais deixaram o ambiente em que viviam. Contudo, tais pessoas têm me­mórias da América do Norte, Índia etc.

— Eis aí um bom argumento — disse Tom. — Mas você tam­bém tem conhecimento de sua telepatia e experiências de saída do corpo. Muitas pessoas do seu tempo já falaram publicamente de experiências de saída do corpo. Estavam na verdade experimentando suas almas como algo apartado do invólucro físico.

Lembrei quantas pessoas já haviam de fato descrito essa experiência, depois de passarem pelas portas da morte. A maioria descrevia a mesma luz branca a que Peter Sellers se referira, atraindo com um senso compulsivo de amor e paz, enquanto se olhava para o próprio corpo agonizante. Algumas não queriam voltar ao corpo. Muitas experiências assim estavam registradas em Life After Life (Vida Após Vida), do Dr. Raymond Moody. Em termos de meu conhecimento pessoal, havia uma quantidade espantosa de pessoas que informavam terem passado pela experiência. Tom continuava a falar.

— Quanto ao fato do déjà vu ser simplesmente uma forma de memória celular, há muitos indivíduos que possuíam padrões de me­mória de lugares em que seus ancestrais nunca estiveram.

— Foi o que falei, Mas talvez alguns dos ancestrais dele tivessem estado na Africa... como os romanos, por exemplo... a memória celular registrasse as reações e a prole herdasse essas me­mórias celulares.

— Possivelmente, se não fosse por uma coisa — disse Tom. — O déjà vu também ocorre no contexto moderno. Por exemplo: você pode ter um déjà vu quando entra numa casa que tem apenas uns poucos anos de construção. Isso dificilmente seria memória ce­lular herdada.

— O que é então?

— É o resultado da alma se projetando astralmente para a casa nova. Alguma coisa como a sua experiência no que chama de sonho flutuante, que tanto amava. Lembra dessa experiência?

Ele me fez parar abruptamente. Nunca antes eu mencionara aquilo a ninguém.

— Como soube disso?

— Ora, um pouco do velho vodu espiritual, por assim dizer.

Eu precisava de um momento para me ajustar ao que acabara de acontecer. Poderia ter sido uma adivinhação previsível? Ele dizia a mesma coisa a todos a que se dirigia? Reprimi uma tosse.

— Dê-me um momento, por favor.

— Está certo. Uma coisa que temos é tempo de sobra.

Eu me sentia totalmente aturdida. Seria possível que determina­dos sonhos fossem projeções astrais da alma?

— Tem mais indagações? —- perguntou McPherson.

Tratei de me controlar.

— Por que há tanta resistência ao estudo da alma como um fato realista? Por que não se investe tanto tempo e dinheiro em pesquisar a existência da alma como se aplica na fissão do átomo e na energia nuclear?

— Por um lado, o material não está disponível. A alma não é uma coisa material. Além disso, o campo de estudo da alma tende a atrair desdém e escárnio, é muito fácil as reputações profissionais entrarem pelo cano, por assim dizer.

— Mas por que é uma coisa tão desprezada?

— Porque é considerado um desperdício de tempo absurdo. Superstição e tudo o mais. Pessoas sérias que admitem tais investigações são levadas às vezes a se sentirem ridículas. Mas é o que um amigo seu disse recentemente: "Para se colher a fruta, é preciso subir no galho."

Fiquei em silêncio... atordoada. Ele usara a mesma analogia que Gerry. Eu tomara todo cuidado para jamais mencionar Gerry a ninguém, muito menos o que ele dizia. McPherson continuou:

— Você deve ser muito paciente com o seu Gerrv. Nós esta­mos sendo pacientes com você.

Eu estava espantada. Como aquele sujeito podia saber de nós? E não apenas sabia de Gerry, mas também o que Gerry dissera.

– Temos uma revelação aqui? — perguntou Tom.

– Santo Deus!

– Absolutamente correto — acrescentou ele, jovialmente.

Tomei mais um gole de chá e tentei me controlar. Um momen­to se passou.

– Gostaria de continuar? — perguntou Tom.

Deus do céu, pensei, essa coisa poderia ser real. Havia tantas perguntas que eu tinha de formular. E murmurei;

– Muito bem... Diga-me uma coisa: por que há uma lacuna tão grande entre a ciência e a Igreja?

– Porque a ciência só recentemente (em termos cósmicos, é claro) sente que se livrou dos grilhões da superstição religiosa e está agora desfrutando sua liberdade e era áurea. A atitude é compreen­sível. Pesquisar esses domínios da Igreja, a antiga carcereira da ciên­cia, seria reconstituir a base de poder da algoz antiga e tradicional.

— A alma está sob o domínio apenas da Igreja?

— Absolutamente correto. Isto é, assim se considera, no sentido ortodoxo. Na verdade, a alma é.., ahn... uma questão alta­mente pessoal, por assim dizer.

— Mas a prova da existência da alma não alteraria radical­mente a atitude da ciência?

— Claro que sim. Mas, sinceramente, a ciência acha que não há base para se investigar a existência da alma. Além disso, não há muito dinheiro nesse tipo de pesquisa.

— O que está querendo dizer é que ao se pesquisar a eletricidade pode-se chegar à luz elétrica? Ou se chegar a uma bomba quando se pesquisa o átomo?

— Absolutamente correto.

— Mas não há proveito material quando se pesquisa a alma?

— Absolutamente correto. Pode me dar mais um pouco da sua infusão?

Servi mais chá. Estava quase no fim.

— E qual é a posição desses grupos de pesquisa que se dedi­cam exclusivamente à alma?

— Fez uma bonita aí.

— Como assim?

— Exclusivamente à alma[1]. Muito boa.

Perguntei muito séria:

— Sabia que está representando para mim neste momento?

— Para ser absolutamente franco, devo dizer que sou sensacionalmente divertido em todas as ocasiões. Esta é a minha natureza natural. Eis outra muito boa: "natureza natural".

— Você gosta de um jogo de palavras, não é mesmo?

— Não, acho que não estou sendo tão banal, por assim dizer. É apenas uma extensão natural da minha personalidade.

Fiquei em silêncio por um momento, pensando naquele chá absurdo. Perguntei-me se era tão crédula a ponto de engolir até uma baleia. O gravador girava em silêncio.

— Bom...

— Absolutamente correto — disse Tom.

— Eu gostaria de saber alguma coisa a respeito das minhas vidas anteriores. Haveria problema?

— Muito bom. O instrumento tem algum álcool em seu orga­nismo?

— Não. Ele disse que inibia a recepção. Acho por isso que não bebeu nada.

— Muito bom então. Só um momento, por favor. Poderia pe­gar a caneca, por favor?

Levantei-me, tirei a caneca da mão de Kevin, verifiquei o gravador e tornei a me acomodar.

 

                                           Capítulo 15

Um tremor percorreu o corpo de Kevin. Ele sacudiu a cabeça, até que reassumiu a personalidade de John.

— Saudações — disse a voz de John. — Tem indagações a fazer sobre suas vidas anteriores?

— Tenho.

O telefone tocou.

John reagiu, inclinando a cabeça. Esperei.

Podia sentir John "ajustar suas vibrações", como McPherson dissera. O telefone tornou a tocar. Não atendi. John disse:

— Vai descobrir que, para compreender a alma dentro de você hoje, deve também compreender alguma coisa das civilizações anteriores que conheceu.

— É mesmo? — murmurei, sentindo-me meio ridícula e ator­doada.

— Você esteve encarnada várias vezes durante o período de 500 mil anos da civilização mais desenvolvida que o homem já conheceu. Foi o que a Bíblia simbolizou como Jardim do Éden. Eu gostaria que compreendesse agora um conceito da maior importân­cia. O nível de realização em qualquer civilização é julgado pela evolução espiritual. O progresso tecnológico é importante e atraente, mas se detém, subtrai ou desvia da compreensão espiritual, tem as sementes de sua própria destruição. Você está sendo testemunha desta verdade simples na civilização atual da Terra. A compreensão espiritual tem as sementes de sua própria destruição. Você está sen­do testemunha desta verdade simples na civilização atual da Terra. A compreensão espiritual está muito aquém do conhecimento tecno­lógico; em conseqüência, há uma progressiva insanidade, depressão, confusão de propósito e total desigualdade e desespero humano.

— Então onde está a esperança para nós? Se estamos indo para trás e não para a frente, então para que estamos vivendo?

— Uma pergunta boa e importante, que nos leva de volta ao assunto do carma, tornando necessário que você tome conhecimento de sua identidade básica e tenha compreensão do poder de seu livre-arbítrio, a fim de compreender sua divindade e sua associação com Deus.

— Desculpe, mas posso perguntar onde a religião se enquadra em tudo isso?

— Há muito do que estou dizendo que seria contestado por suas religiões terrenas. As religiões ensinam religião... não espiri­tualidade. A religião tem explorado o homem, de um modo geral. As religiões do seu mundo estão basicamente no caminho certo, mas não ensinam que cada indivíduo é fundamentalmente o criador e controlador de seu próprio destino. Ensinam que Deus assume esse papel. O que estou me empenhando em explicar é que cada indiví­duo é um co-criador, junto com Deus. Isso não é aceito por suas igrejas e religiões, que preferem ter o controle sobre a humanidade, ao invés de ajudar a ensinar que a humanidade só pode se controlar através do autoconhecimento e do conhecimento de seu passado, assim como do seu propósito no presente e futuro

Eu sabia perfeitamente como tal conceito seria explosivo. Mas não havia muitas pessoas dentro da Igreja que buscavam o auto­conhecimento? Não havia muitas pessoas que, mesmo seguindo os preceitos da Igreja, ainda procuravam incessantemente pela verdade além desses preceitos?

Olhei pela janela para o mar escuro. As luzes de um barco de pesca piscavam na escuridão. Perguntei-me quantas das grandes ver­dades da vida nunca poderiam ser vistas, provadas ou confirmadas. Era algo inquietante, despertava a ansiedade. A verdade só seria verdade quando pudéssemos "prová-la"? Eu não podia enfrentar o que estava pensando. Tornei a olhar para Kevin e a "entidade espiritual desencarnada" que ele estava recebendo.

– Quer dizer que eu já vivi numa civilização antiga? — inda­guei, ansiosa, descobrindo-me um pouco ofegante.

– Já, sim... e várias vezes. Duas vezes como homem e uma como mulher.

Recebi calmamente, mais uma vez, a informação sobre uma das questões mais importantes da reencarnação.

– Todos experimentamos a vida como sexos diferentes, a fim de podermos ter uma empatia com o sexo oposto?

– Correto. É exatamente isso. Como a humanidade poderia alcançar a compreensão de si mesma e de suas identidades sem as experiências físicas diversificadas?

Tornei a me inclinar para a frente, indagando:

— Isso poderia ser uma explicação metafísica para o homos­sexualismo? Talvez uma alma efetue uma transição hesitante de um corpo feminino para um masculino, por exemplo, ficando um re­síduo emocional e uma atração da encarnação anterior?

— Assim é — disse John. — A preferência sexual de tal indivíduo desempenha um papel importante na necessidade de com­preensão de que todos somos basicamente os mesmos, porque todos experimentamos ambos os sexos. Nossas almas, digamos assim, são basicamente andróginas.

— Andróginas?

— Isso mesmo. A elevada compreensão espiritual não co­nhece diferenças de sexualidade, porque os elementos de ambos os sexos estão simultaneamente presentes. As polaridades são igualmen­te opostas. Seus profetas antigos e figuras de Cristo, como Jesus, Buda e tantos outros, não eram tanto celibatários, pois vibravam numa freqüência regular e perfeitamente equilibrada. O yin e yang estavam tão bem distribuídos que a sexualidade não lhes interessava; não havia conflito e assim não havia tensão. Não era uma coisa que precisasse sublimar ou reprimir. Simplesmente não lhes interessava, por causa de seu sereno nível espiritual de realização.

— Não sei se estou pronta para isso.

John fez uma pausa.

— Não recomendamos a abstenção de sexo. De jeito nenhum. O sexo em termos humanos é também um caminho para Deus, se é desfrutado espiritualmente, além de fisicamente.

Olhei para o gravador.

— Desculpe, mas não estamos nos afastando do assunto?

— Estamos, sim — admitiu John. — Mas o sexo é um as­sunto fascinante, até mesmo para mim.

Soltei uma risada.

— E quem é você? Isto é... já esteve alguma vez num corpo físico?

— Claro que sim. Já encarnei muitas vezes, tanto em corpo feminino como no masculino. Mas ultimamente tenho permanecido em forma astral.

— Ann...

Eu estava curiosa, mas o que queria mesmo era saber de tudo o que fosse possível a meu respeito.

— Mas quem eu fui em minhas vidas anteriores?

— De acordo com as Gravações Akáshicas, você esteve encar­nada com uma alma gêmea.

— E o que é exatamente uma alma gêmea?

— Tal pergunta exige muita explicação, que me empenharei em fornecer mais tarde. Por enquanto, deixe-me começar por expli­car o que são almas consortes.

— Almas consortes?

Eu já ouvira a expressão algumas vezes, geralmente em referência a pessoas que diziam ter encontrado sua outra metade.

— As almas consortes foram na verdade criadas uma para a outra, no começo dos tempos ou o que vocês chamam no momento da Grande Explosão. Vibram exatamente na mesma freqüência eletromagnética, porque são equivalentes idênticas uma da outra. Almas gêmeas são mais comuns de se encontrar porque já experimentaram muitas vidas juntas, de uma forma ou de outra. Mas as almas con­sortes foram na verdade criadas no começo dos tempos como pares que se pertenciam... Como pode ver, há mais na teoria da Grande Explosão do que vocês imaginam... é muito romântico, não acha?

Emiti um ruído neutro e John continuou:

— Portanto, deixe-me começar pelo ponto em que nos conhe­cemos.

— Ahn?

— Isso mesmo. Fomos mestres e discípulo. Você foi um dos mais, o que se chamaria hoje de "discípulo dileto".

Corri os olhos pela sala, desejando ter alguém com quem partilhar tudo aquilo.

— Então já nos conhecemos?

— Correto. Não é por acaso que você está aqui hoje. Nós achamos que amadureceu para a compreensão de que não existe tal coisa como o acaso.

— Quem são "nós"?

— Seus guias espirituais, entre os quais estou incluído.

— Está querendo dizer que fui atraída para este momento de alguma forma por você e esses guias?

— Correto.

— Como?

– Por sua própria necessidade de explicar seu comportamen­to indagações e busca da verdade, pela orientação psíquica daque­les entre nos que consideram que você está preparada para mais da sua própria verdade.

– É isso o que significa Orientação Espiritual?

— Correto.

Houve uma pausa, enquanto John, a Voz, parecia estar ordenan­do seus pensamentos, talvez procurando definir uma informação. Ou as duas coisas. A Voz voltou a se manifestar um instante depois:

— Isolamos sua vibração durante uma das vidas que passou com uma entidade com quem está também envolvida agora. Cremos que esta entidade está vivendo nas duas Ilhas Britânicas. Isso seria correto?

— Gerry — murmurei, em tom um tanto estridente. — Está falando de Gerry?

— Assim é. Também isolamos a vibração dele e constatamos que vocês foram marido e mulher numa vida anterior.

— Oh, Deus! — exclamei, entre divertida e espantada. — E nós nos demos bem nessa outra vida? A comunicação entre nós foi melhor do que é agora?

Houve outra pausa.

— O seu Gerry era então igualmente devotado ao trabalho. E devemos admitir que isso acontecia em detrimento da união de vo­cês. Contudo, ele estava realizando um trabalho importante, envol­vendo o intercâmbio cultural com os extraterrenos que se empenha­vam em prestar uma ajuda tecnológica e espiritual.

— Extraterrenos?

John pareceu sentir o meu espanto, pois respondeu mais firmemente do que antes:

— Assim é. Havia extraterrenos visitando este planeta naquela ocasião, como há agora.

— Deus do céu! — Respirei fundo. — Pode me falar mais sobre isso? O que está realmente querendo dizer? Recebemos visi­tantes do espaço exterior desde o começo dos tempos?

John respondeu imediatamente:

— O único conhecimento importante é o conhecimento espiri­tual de Deus dentro do homem. Todos os outros conhecimentos fluem disso.

— Todos os outros conhecimentos?

— Correto. O conhecimento científico de vocês, por exemplo, depende da compreensão de freqüências vibracionais e como pertencem ao universo. Deus é amor... que é a mais alta de todas as freqüências vibracionais. Em seu mundo físico, a luz é a mais alta e a mais rápida freqüência. Mas para os seres que possuem mais conhecimento, mais controle, o pensamento tem uma freqüência muito superior à da luz. O pensamento é parte de Deus, assim como o pensamento é parte do homem. Portanto, quando o pensamento é amor suas freqüências estão vibrando no alto nível de energia. É isso o que os extraterrenos estavam ensinando, assim como vocês do plano da Terra ensinarão um dia a outros. Isso está dentro de sua compreensão?

Eu não sabia como responder.

Limpei a garganta e tentei dilatar a mente para compreender. Não podia me relacionar pessoalmente com o que John estava dizen­do, em qualquer maneira compreensível, detalhada ou específica. As implicações do que ele dizia eram tão assombrosas que eu não con­seguia pensar numa boa pergunta. Queria voltar a mim. Era algo que podia absorver.

— Desculpe, por favor, mas será que eu poderia perguntar ape­nas sobre mim? Já estou encontrando bastante dificuldade para me relacionar com isso.

— Claro. Você deve seguir em seu próprio ritmo.

— Ótimo — murmurei, aliviada. — E obrigada. Então Gerry e eu fomos marido e mulher. Isso significa que éramos almas gêmeas?

— Não. Mas você era e é uma alma gêmea da entidade a que chama David.

— Também sabe de David?

— Correto. Você teve diversas vidas com a entidade David du­rante aquele período antigo, além de muitas outras ao longo da mar­cha do tempo.

Talvez fosse por isso que eu me sentia agora tão à vontade na companhia de David. Mas John já continuava a falar:

— O seu David é um bom mestre e você pode confiar nele. Mas sentimos que você já sente isso. Deve aprender a confiar mais em seus sentimentos e se abster de encarar tantas questões na vida de uma perspectiva rigorosamente intelectual. O intelecto como uma maravilha é limitado. Os sentimentos são ilimitados. Confie em seu coração... ou em sua intuição, como a chama.

Confiar na minha intuição? Era algo que eu podia compreen­der. Repassando a minha vida, verificava que sempre tivera proble­mas toda vez que fora contra a minha intuição.

— Está dizendo que todos estaremos bem se seguirmos o que está em nossos corações?

— Não. Não necessariamente. Há os sentimentos errados ou prejudiciais a superar. Mas a humanidade, toda a vida, é basica­mente boa. Você deve aprender a dar-lhe uma chance. A vida re­presenta o pensamento de Deus e Deus é amor.

Para ser franca, toda aquela conversa sobre "Deus" estava me deixando constrangida.

– Mas o que você chama de Deus?

– Deus ou a força-Deus, de que todas as coisas são partes, é a Energia Divina que criou o Universo e o mantém unido harmoniosamente.

— Descreveria o que está acontecendo por aqui como harmo­nioso?

— No plano supremo da vida é harmonioso, no sentido em que há um equilíbrio. Mas deve-se compreender o processo de pro­gresso de cada alma, a reencarnação e purificação, a fim de se com­preender a harmonia.

— Espere um pouco. A Bíblia não é a Palavra de Deus?

— É, sim, de um modo geral. Mas muita coisa que está em sua Bíblia hoje foi reinterpretada.

— Reinterpretada por quem?

— Por várias pessoas, através dos tempos e de diversas línguas. Ultimamente, pela Igreja. Era do interesse da Igreja "proteger as pessoas" da verdade real.

— E qual era a verdade real?

— A verdade real é o processo do progresso de cada alma ao longo dos tempos. A verdade real é a responsabilidade de cada alma por seu próprio comportamento, na consecução de sua própria divindade.

— Está se referindo à reencarnação?

—- Correto. É essa a palavra que vocês usam. Essa é a realização da Justiça Cósmica para a suprema harmonia.

— E a Igreja nos negaria essa verdade?

— Claro que sim, porque tal verdade tornaria o poder e a autoridade da Igreja desnecessários. Cada pessoa, isto é, cada entidade, torna-se responsável por sua conduta. Não precisa de uma igreja. Não precisa de rituais, estratificações e cubículos onde se arrojar para obter a absolvição concedida pela Igreja. Digamos sim­plesmente que as autoridades da Igreja desejam "resguardar" a hu­manidade de uma verdade para a qual acham que as pessoas não estão preparadas.

— Está querendo dizer que é algo parecido com o espírito que os governos adotam hoje?

— Assim é.

Estendi-me no tapete. Não sabia o que pensar, também não podia imaginar mais perguntas. Kevin continuava sentado na ca­deira, impassível. O chá na mesa estava frio.

— Haverá mais perguntas? — indagou John.

Olhei para as luzes a piscarem do barco pesqueiro.

Pensei em algumas das pessoas com quem conversara e que me achavam ingênua e crédula por sequer admitir a possibilidade de mestres espirituais desencarnados falarem por intermédio de um médium. Era inadmissível que eu caísse em tais esparrelas, diziam essas pessoas. Eu sempre respondera que estava apenas aprendendo. Não sabia direito o que realmente significava, mas de alguma forma me confirmava que havia mais dimensões na vida do que se podia compreender... da mesma forma como as dimensões de nossas personalidades eram um mistério até começarmos a explorar aqueles aspectos com os quais não estávamos familiarizados e não tínhamos percepção, porque não podíamos "ver".

Mas por que eu me sentia mais à vontade do que outros ao me permitir explorar dimensões de possibilidades incomprováveis? Eu não sabia. Apenas sentia que era certo. Era tudo o que podia dizer. Não me ameaçava. Não transtornava a minha aplicação emocional ao que já tinha certeza de que era real; não parecia destruir a imagem que tinha de mim mesma. Toda aquela exploração, ao contrário, parecia estar expandindo o que já eram as minhas percepções da realidade. Mas então por que alguns dos meus amigos, Gerry em particular, achavam que aquela busca de um novo conhecimento, por caminhos espirituais, através de médiuns e reencarnação, era tão ameaçadora em termos da minha credibilidade? Por que estavam tão preocupados comigo? Certamente por amor e um desejo de pro­teção. Não queriam que eu caísse no ridículo... assim como eu também não queria. Mas era mais do que isso. Também se sentiam ameaçados. Por quê? Por que não formular indagações a sério e investigar em áreas e possibilidades que não eram necessariamente "comprováveis"? Que mal "real" isso podia causar? Destruiria as imagens condicionais que tinham de si mesmos? Confundiria as suas próprias percepções da "realidade"? Fiquei de joelhos.

— John, por que tantas pessoas consideram inaceitável esse fenômeno de um mestre desencarnado como você se manifestar por intermédio de um instrumento humano?

Houve uma pequena pausa antes que ele respondesse:

— Porque não se lembram da experiência de terem sido desencarnados. As pessoas pensam que a vida é a totalidade de tudo o que vêem. Estão convencidas de que o homem é apenas um corpo e um cérebro. Mas a personalidade é mais do que isso.

— Como assim?

— A personalidade é o aspecto intangível da percepção que só está alojado no corpo por um breve período de tempo cósmico.

— Mas as pessoas não acreditam que esse conceito seja real.

— Real? Um pensamento não é real? Mas como se pode pro­vá-lo cientificamente? Pensamento é energia. Aqueles que contestam a existência física de um pensamento ou de energia-pensamento es­tão contestando com profundo ceticismo as suas próprias identidades.

– Mas não é bom questionar as coisas? A certeza absoluta em alguma coisa cria a egomania e o poder corruptor.

– Isso é correto. Mas é lamentável quando o ceticismo se torna tão profundo e desmoralizante que restringe o potencial de aprender verdades gloriosas que seriam altamente favoráveis.

– Mas como eu posso transmitir às pessoas que manter a mente aberta é a atitude mais sensata?

– Você não tem de fazer isso. Você, que tem a mente aberta, deve dizer simplesmente que é do seu ponto de vista. Conceda aos céticos a liberdade de serem céticos. Se não o fizesse, eu a acusaria de ser uma escravizadora. Conceda-lhes o privilégio de continuarem em dúvida. Chegará um tempo em que também vão querer saber e serão atraídos a dimensões que são mais verdadeiras. Procurarão um plano superior quando estiverem prontos para isso. Se as pessoas insistem em permanecer em seus sistemas de convicção "lógica", ficam seguras em sua. própria realidade percebida. Com isso, estão seguras na posição de poder que ocupam, qualquer que seja esse poder. Não mudarão as suas percepções, pois isso implicaria mudarem a si mesmas ou crescerem para uma percepção expandida de si mesmas.

— Mas onde está a segurança do próprio ego, John?

— A maioria das pessoas está sofrendo de ego alterado... alterado pela sociedade, a Igreja e a educação. O verdadeiro ego conhece a verdade. Sou tão acreditável quanto qualquer um. Você não pode me ver, mas há muitos aspectos de si mesma que também não pode ver. As pessoas estão procurando por esses aspectos em si mesmas todos os dias. Mas enquanto buscam, exigem que seus mundos permaneçam seguros. Acreditar que sou tão real quanto elas seria afastá-las de suas zonas de segurança... as zonas que compreendem e podem controlar. E quando se começa a compre­ender mais, sempre se chega à compreensão essencial de que há muito mais para se compreender além do nosso alcance.

— Mas não é isso o que as pessoas me dizem. Alegam que toda a teoria da reencarnação é certinha demais. Falam que é sim­plista demais para ser real.

— Como eu já lhe disse antes: a verdade é simples. É o ho­mem que insiste em torná-la complicada. E o homem não pode simplesmente aprender a verdade, como se aprendesse uma lição. Ele deve experimentar aspectos da verdade em si mesma, a fim de se­guir adiante. Aprender e experimentar a verdade por si mesma é uma luta. Uma luta para a percepção mais simples. Lembre-se de que o habitat natural dos humanos não é a Terra; o habitat natural dos seres humanos é o éter. Cada indivíduo já conhece a verdade Divina. Mas o homem tem de complicá-la e esquecer que a conhece.

— Mas meus amigos intelectuais dizem que acreditar que se conhece a verdade é o supremo ato de arrogância.

— Cada pessoa conhece a sua própria verdade. Isso é correto. Mas a única verdade que importa é a verdade do relacionamento que se tem com a fonte ou força chamada Deus. E essa verdade se torna limitada quando se aplica o ceticismo intelectual. Porque nin­guém precisa do intelecto para conhecer Deus. Sob esse aspecto, todos os indivíduos são iguais. Os seus intelectuais procuram se apartar das massas, a fim de se sentirem uma elite. Confiam mais em seu intelecto do que na força-Deus dentro de si mesmos. Muitas pessoas, não apenas intelectuais, sentem-se embaraçadas em reco­nhecer a centelha de Divindade dentro de si mesmas. Mas os céticos intelectuais são mais propensos a serem conflituados, confusos e infelizes. Todas as pessoas procuram a paz. O caminho para a paz interior não é através do intelecto, mas pelo coração. É dentro do coração que se encontra Deus, paz, a si mesmo. Os céticos intelec­tuais evitam a si próprios. O ego, no entanto, conhece a verdade Divina, porque é Divino. Isso está dentro de sua compreensão?

Pensei por um momento, senti que compreendia tudo. Nada daquilo parecia religioso. Apenas fazia sentido. E eu não podia compreender por que tantas pessoas tinham de se manter intransigentemente contra... ou não podiam ou não queriam entender.

— Por que há guerras, John? O que leva pessoas a quererem dominar outras?

— Porque os que sentem a necessidade de dominar e conquis­tar não compreendem a verdade de si mesmos. Mas se um tirano de mente fechada fica exposto ao conhecimento interior, à percepção interior, logo perde a intenção de conquista. Compreende como ele é realmente vasto, não precisa garantir a sua própria imortalidade pela conquista dos outros. A mente humana se torna mais serena, mais satisfeita, quando experimenta uma expansão de dimensões em muitos níveis. A posição de conhecimento superior do ego assumida pelo cético é altamente restritiva. Suas religiões dogmáticas, por exemplo, são extremamente restritivas para a humanidade, porque exigem uma reverência incontestada pela autoridade... uma autoridade exterior. Você é Deus. Você sabe que é Divino. Mas deve continuamente lembrar sua Divindade e, mais importante ainda, agir de acordo.

— John, você mencionou extraterrenos. Não sei muito bem o que pensar a respeito... mas eles estão empenhados na mesma luta de conhecimento interior?

— Isso é correto. Talvez estejam operando, pelo menos alguns, num nível superior de percepção, assim como num nível superior de tecnologia. Mas não podem ser reverenciados como deuses. São apenas mestres. Visitaram a sua Terra ao longo dos tempos para trazer conhecimento e verdade espiritual, porque descobriram, através da evolução, que a compreensão espiritual do indivíduo é a única compreensão exigida para a paz. Todos os outros conhecimentos deri­vam disso.

— E as referências a possíveis extraterrenos na Bíblia eram reais? Pode-se acreditar no que se lê em Ezequiel e todo o resto?

— Isso é correto. Eles apareceram naquele tempo em sua Ter­ra, a fim de trazer um conhecimento superior de Deus e amor es­piritual. Sempre aparecem quando são mais necessários. Servem como um símbolo de esperança e compreensão superior.

— Chegarei a conhecer algum?

Houve uma pausa.

— Voltaremos a falar dessas questões em outra ocasião. Pense no que eu falei e no que você está disposta a aprender. Isso será tudo por enquanto?

Eu sentia a mente tão abarrotada que tive de dizer que sim.

— Obrigada, John, quem quer que você seja. Não me ocorre mais nada no momento. Tenho de absorver o que você disse.

— Está bem. Procure se manter em paz com você mesma, com Deus e seu trabalho, pois é parte desse trabalho. Deus a abençoe.

 

"Algo desconhecido para a nossa compreensão está visitando a terra."

— Dr. Mitrov Zverev, cientista soviético

 

Kevin estremeceu, tomo se a vibração do espírito de John pas­sasse através de seu corpo e depois se fosse. Levou as mãos aos olhos, cobriu-os. Esfregou-os, como se estivesse despertando de um sono profundo.

— Alô? — disse ele, sonolento, tentando pôr em foco a sala ao seu redor. — Alô?

Levantei-me, espreguicei-me, andei em círculo diante dele.

— Alô — falei. — Estou aqui.

— Como foi?

— Foi uma coisa incrível. Não sei direito o que pensar.

Kevin empertigou-se na cadeira e depois levantou-se.

— Faça apenas o que julgar certo. Sentiu que era certo o que se manifestou? Eles me disseram para simplesmente confiar em meus sentimentos. Não há mais nada que se possa fazer, a partir do mo­mento em que se começa a formular tais questões.

— Mas eles disseram coisas incríveis!

— Por exemplo?

— Sobre vidas anteriores. Uma porção de coisas sobre pes­soas que conheço agora e que teria conhecido também em outras vidas. E o mesmo acontece com John e McPherson.

— E que mais?

— Você acredita em tudo isso?

— Acredito no que sinto ser certo.

— E sente que a reencarnação é uma coisa certa?

— Não poderia deixar de ser, não é mesmo? Afinal, não sou um instrumento através do qual tantas entidades espirituais falam? Portanto, a existência da alma em muitas dimensões faz sentido para mim. Se não for assim, sou um ator ou um doido. E até onde posso saber, não sou nenhuma das duas coisas.

Olhei atentamente para Kevin.

— Tem razão — murmurei, hesitante. — Mas John também disse uma porção de coisas sobre extraterrenos que proporcionaram todos os tipos de informações espiritualmente avançadas à raça hu­mana. Você acredita nisso?

Kevin sentou.

— Claro que acredito. Por que não? Não apenas são mencio­nados na Bíblia, mas aparecem de uma forma ou outra em quase todas as culturas da Terra. Por que então não existiriam? Além do mais, conheço uma porção de pessoas que dizem já tê-los visto.

— Você já viu um disco voador?

— Não... ainda não tive esse prazer.

— Mas acredita assim mesmo?

— Claro. Sinto que é o mais certo. E quem sou eu para contestar todas as autoridades que dizem haver uma boa possibilidade de que existam realmente? Conheço muitas pessoas que negam a existência dos discos voadores, mas a prova contrária também não existe.

Distraidamente, Kevin tomou o que restava do chá frio. Olhou para a caneca.

— De onde isto saiu?

— McPherson. Ele disse que precisava de uma caneca irlan­desa para poder pensar melhor.

— Eu estava segurando esta caneca?

— Estava.

— Interessante...

– Também acho.

– Que horas seriam agora?

– Boa pergunta. Um pouco antes de 10 horas.

– Então vou pegar a minha dama.

Ele encaminhou-se para a porta.

– Poderemos voltar a nos encontrar em breve, Kevin? Sei que anda muito ocupado, mas não poderia arruinar um horário para mim?

– Deixe-me verificar com a minha dama e depois lhe falarei.

Abri a porta e agradeci-lhe.

Numa pose relaxada, ele ajeitou o sobretudo bege nos ombros. Saiu e desceu a escada como um personagem de The Lodger (um filme antigo a que eu assistira na infância).

Observei-o encaminhar-se para seu "veículo" na rua. E perguntei-me se os médiuns não precisariam ser involuntariamente teatrais, a fim de manter a própria identidade.

Fui para a cama. Não conseguia dormir. As pernas vibravam com uma energia interior estranha, quase magnética. Mudei de po­sição. Não adiantou. A energia continuava a vibrar... Eu estava quase com medo, por ser algo tão desconhecido. Sentia a mesma vibração nas pontas dos dedos, em torno dos lábios. A sensação era física, mas ao mesmo tempo eu podia sentir a energia emanando de alguma forma da minha mente.

Tentei me concentrar em coisas pequenas, familiares... a brisa que soprava do Pacífico e entrava pela janela, o marulhar das ondas, o passeio que eu faria pela manhã, entre as flores silvestres das montanhas. Reconstituí uma coreografia que já fizera muitas vezes a fim de pegar no sono. Contei cada passo e movimento da música. Senti o significado da música na mente. Estendi os músculos das pernas, tentando neutralizar o fluxo magnético de energia. Era uma energia muito estranha, mas também positiva. Imaginei o prazer de um sundae, a calda de chocolate escorrendo sobre o sorvete de baunilha.

Sentia que precisava de alguma forma me fixar no aqui e agora na Terra. Ri de mim mesmo. O que estava acontecendo? O que era real? Eu teria mesmo vivido em algum lugar com Gerry e com David, há 500 mil anos? Se eu realmente acreditasse em tudo isso, não havia a menor possibilidade de poder continuar a andar por este mundo como sempre fizera até agora. Estava fadada a mudar minhas percepções. Fora isso o que acontecera a Walt Whitman, Pitágoras, Aristóteles e Thoreau, ao chegarem à conclusão de que a reencarnação não apenas era possível, mas também provável? Não era de admirar que os asiáticos tivessem um conceito de tempo diferente do que predominava no Ocidente. Eles eram criados na convicção da reencarnação da alma de uma vida para outra. Talvez o tempo e o espaço sejam tão relativos que não são mensuráveis, pensei. Talvez ambos existam ao mesmo tempo. Talvez a alma den­tro do meu corpo esteja me dizendo que tudo é real. E se isso fosse verdade, então a realidade tinha mais dimensões do que eu jamais considerara. Talvez, como os filósofos e até mesmo alguns cientis­tas alegavam, a realidade fosse apenas o que a pessoa podia perceber.

Se fosse esse o caso, eu podia compreender, numa escala colossal, o que uma dimensão espiritual adicional representava para o planeta e todos os seres humanos que nele viviam. Que coisa espantosa e maravilhosa seria!

A percepção da realidade de todos seria válida. Se a experiência da alma era tudo o que importava e a existência física fosse literalmente irrelevante, por não existir uma coisa como a morte de uma perspectiva cósmica, então cada segundo a viver na Terra era precioso justamente por se relacionar com um desígnio mais amplo, um desígnio global, que nós ajudávamos a criar, e precisamente porque cada átomo tinha um propósito, talvez o propósito daquele conjunto particular de átomos, remexendo-se na cama, fosse o de transmitir a mensagem de que somos parte da força-Deus que criou todas as coisas... e que é tanto uma parte de nós como também somos dela.

Numa bola de confusão a vibrar, fiquei me revirando na cama, até que finalmente peguei no sono.

 

                                             Capítulo 16

Dormi até tarde no dia seguinte. Não conseguia me levantar. E quando finalmente o fiz, fui direto ao Colony Market e comprei iogurte de pêssego. Qualquer coisa com pêssego sempre ajudava.

Voltando para casa, comecei a imaginar como meus amigos reagiram ao que acontecera. Meus pensamentos se concentraram na minha amiga Bella Azbug. Eu a conhecera e trabalhara com ela na campanha presidencial de McGovern. Havíamos nos tornado ínti­mas. Imaginei o que ela pensaria. Imaginei se chegaria um tempo em que os políticos poderiam se empenhar em sua busca espiritual sem parecerem desequilibrados aos eleitores.

O telefone estava tocando quando abri a porta. Era Bella.

Contei-lhe o que acontecera em minha sessão com Kevin. Levei muito tempo e ela não me interrompeu uma só vez. Finalmente pa­rei e Bella disse:

— Vamos ver se entendi direito. Esse tal de Kevin disse que você já tivera uma vida anterior, numa civilização antiga, com al­guém por quem está apaixonada agora?

— Não foi Kevin. Ele era apenas o canal. Falei com duas entidades, uma chamada McPherson e outra John.

— Não importa qual era o nome. Esse tal de Kevin devia es­tar simplesmente inventando e representando.

— Ora, Bella, essa foi a primeira coisa que me ocorreu. E é claro que pode ser verdade... mas se era, ele deveria receber um Oscar que ainda não inventaram. Tenho lido muita coisa sobre essa história de mediunidade e não acredito que esteja sendo enganada. Trata-se de uma coisa que uma porção de pessoas experimentam todos os dias.

— Sem intenção de ser irônica, Shirley... mas você diria que teve uma experiência religiosa?

— Mas claro que não!

— Então o que é? Está querendo me dizer que acredita na reencarnação?

— Não sei, Bella, simplesmente não sei... A coisa toda pa­rece se basear em "sentir", não em pensar. E eu sinto que as coisas ditas pelas entidades espirituais podem ter realmente me acontecido. De certa forma, é a mim mesma que estou escutando, não a qual­quer outra pessoa. — Enquanto falava, compreendi uma coisa e acrescentei: — Não posso parar agora e esquecer tudo. Tenho de saber mais.

Houve um silêncio prolongado.

— Minha querida — disse ela finalmente — não quero que você saia magoada dessa história. Só lhe peço para não fazer nada dramático ou público, está bem?

Respondi que estava e Bella arrematou:

— E não deixe de me ligar. Respondi que certamente o faria.

 

Começou então um período interessante e multidimensional da minha vida. Só posso descrevê-lo como um tempo de viver em vá­rios níveis. Eu comparecia aos ensaios para uma tournée internacio­nal com meu espetáculo ao vivo. Dançava, cantava, representava, fazia piadas com o pessoal da companhia durante o dia, enquanto à noite estudava cada livro que podia encontrar para me ajudar a definir meus sentimentos e pensamentos decorrentes das questões que vinha formulando sobre vida e propósito.

Minhas estantes começaram a ficar repletas com material me­tafísico esotérico. Estava contente por ter um escritório na minha casa em Malibu que era particular o bastante para fechar e trancar a porta. Não me sentia preparada para responder a perguntas sobre os livros que vinha lendo.

Havia resmas de material sobre reencarnação somente. Eu lia do a respeito, já que era um assunto que me interessava parti­cularmente. Fiquei espantada ao descobrir que a reencarnação não apenas era uma parte integrante da maioria das crenças do Oriente (o que eu já sabia), mas também que notáveis pensadores do Oci­dente partilhavam essa visão do propósito cósmico da alma; é verdade que as convicções orientais estavam enraizadas na religião, en­quanto os conceitos ocidentais pareciam derivar mais de raízes filo­sóficas. De Pitágoras a Platão, Sócrates e Aristóteles (que posterior­mente contestou a reencarnação, afastando-se de seu mestre pla­tônico), continuando por Plutarco e chegando ao século XVII, quan­do surgira toda uma escola de pensadores conhecida como os Platonistas de Cambridge, seguindo-se muitos outros, como John Mil­ton, o poeta Dryden e o estadista-intelectual Joseph Addison.

Cheguei ao século XVIII, a Idade da Razão, como se intitu­lava, pensando que ali encontraria refutação e ceticismo. O ceticis­mo havia de fato... mas não da convicção na alma e uma divin­dade e sim uma rejeição da religião formalizada e pensamen­to autoritário. Houvera uma explosão de novo pensamento e uma ratificação do direito de pensar. Fora uma época que tes­temunhara Isaac Newton, Benjamin Franklin, Voltaire, o gran­de filósofo alemão Immanuel Kant, o brilhante orientalista Sir William Jones, o historiador e economista escocês David Hume (este último dedicou-se à razão, mas reconhecendo que se existia uma alma imortal, então certamente, pela lógica, tinha de existir antes e depois da morte). Foi uma época do desabrochar do inte­lecto... e a maioria dessas mentes extraordinárias acreditara no renascimento da alma.

Se me sentia atordoada, estava descobrindo rapidamente que tinha boa companhia...

Muitos escritores e poetas, como William Blake e Goethe, expressaram suas convicções no que escreveram. Goethe manifestou suas convicções em cartas. Heinrich Heine, o poeta lírico e crítico alemão, apresentara uma "imagem" extraordinariamente consciente: Quem pode dizer qual o alfaiate que agora herda a alma de um Platão, qual o mestre-escola que é herdeiro do espírito de César?... Por acaso a alma de Gengis Khan anima agora um crítico que, sem o saber, diariamente açoita a alma de seus fiéis Bashirs e Kalmucks nas páginas de algum jornal... (O Mar do Norte)

Li também o material dos transcendentalistas americanos, encabeçados por Emerson e Thoreau. Eram homens em revolta contra a religião ocidental, convencional e autoritária, como haviam sido os seus precursores, entre os quais Kant, Schopenhauer, Carlyle e Wordsworth. Leaves of Grass de Walt Whitman é um hino à reencarnação. Malcolm Cowley disse de Whitman: "O universo era uma transformação contínua para Whitman, um processo e não uma es­trutura, tinha de ser julgado do ponto de vista da eternidade."

Ao longo dos séculos XVIII e XIX houve grandes homens das letras, filósofos e cientistas, assim como músicos, pintores, poetas, historiadores, ensaístas — e políticos — todos manifestando a con­vicção na reencarnação, a que haviam chegado através de uma aná­lise pragmática da maravilha da vida neste mundo, muitas vezes em combinação com o estudo dos orientalistas. Entre eles estavam ho­mens com Thomas Edison, Camille Flammarion (o astrônomo fran­cês) e Gustaf Stomberg (o astrônomo e físico sueco-americano), para citar apenas uns poucos.

O que o século XX tinha a dizer? Descobri imediatamente, mais uma vez, que havia uma massa enorme de material escrito sobre o assunto. Eu mal podia começar a arranhar a superfície. Entre os muitos escritores estavam Henry Miller, Pearl Buck, Tho­mas Wolfe, Jack London, Mark Twain, Louisa May Alcott... a litania de nomes era interminável. Fiquei deliciada ao encontrar per­sonagens tão diferentes como Lorde Hugh Dowding (comandante aéreo britânico durante a Segunda Guerra Mundial), Sir Arthur Conan Doyle, Ernest Seton Thompson (fundador dos Escoteiros da América!), Lloyd George (político britânico) e até mesmo Henry Ford, todos no mesmo barco da reencarnação. Havia também inú­meros cientistas, toda uma escola de arte moderna, encabeçada por Mondrian, Kandinsky, Klee, Malevich (teosofistas, todos eles), assim como Hermann Hesse, Rainer Maria Rilke, Robert Frost, John Masefield... para outra vez indicar apenas uns poucos da lista extensa e eminente de pessoas que acreditavam na teoria da reencarnação.

Se o trabalho de alguém sobressaía do resto era o de John Ellis McTaggart. Aos 25 anos, McTaggart fora reconhecido como o mais eminente dialético e metafísico desde Hegel. C. D. Broad, que sucedera McTaggart como professor de Ciências Morais no Trinity College, em Cambridge, dissera que McTaggart figurava "na pri­meira fila dos grandes filósofos históricos, (que podia) ser compa­rado com justiça a Novenas de Plotino, Ética de Spinoza e Enci­clopédia de Hegel".

É desnecessário dizer que eu não conhecia nenhuma dessas obras extraordinárias. Mas descobri que as palavras do próprio Mr. McTaggart, em Imortalidade Humana e Pré-Existência, faziam muito sentido:

 

Até mesmo os melhores homens não estão, quando morrem, num estado de perfeição intelectual e moral que lhes permiti­ria entrar no paraíso imediatamente.... Isso é geralmente reconhecido e de um modo geral se adota uma de duas alter­nativas em conseqüência. A primeira é de que alguma tremen­da melhoria — uma melhoria em total desproporção com qual­quer coisa que se pode alcançar na vida — ocorre no momento, da morte... A outra e mais provável alternativa é a de que o processo de melhoria gradativa pode continuar em cada um de nós depois da morte dos nossos corpos atuais... A ausência de memória não precisa destruir a possibili­dade de uma melhoria se estendendo por diversas vidas. .. um homem que morre depois de adquirir conhecimento – e todos os homens adquirem algum — pode entrar em sua nova vida privado de tal conhecimento, mas não privado da crescente força e refinamento da mente que ganhara atra­vés da aquisição de conhecimento. E se assim é, ele estará mais sábio na segunda vida por causa do que aconteceu na primeira... não podemos esquecer que o caráter pode per­manecer determinado por algum evento que foi esquecido. Já esqueci a maior parte dos atos de bem e mal que cometi na minha vida atual. E, no entanto, cada um deve ter deixado uma marca no meu caráter. Assim, um homem pode levar para a próxima vida as disposições e tendências que adquiriu nas lutas morais desta vida...

E permanece o amor. O problema aqui é mais impor­tante, se é no amor e em nada mais, como acredito, que en­contramos não apenas o supremo valor da vida, mas também a suprema realidade da vida e até mesmo do universo.... Muito se esquece em qualquer amizade que durou por vários anos dentro dos limites de uma única vida — muitas confidências, muitos serviços, muitas horas de felicidade e pesar. Mas tais coisas não passaram sem deixar sua marca no presente. Sempre contribuem, embora estejam esquecidas, para o amor presente, que não está esquecido. Da mesma forma, se toda a memória do amor de uma vida é arrebatada na morte, seu valor não se perde se o mesmo amor é mais forte numa vida nova por causa de tudo que aconteceu antes.

 

Se a filosofia de McTaggart fazia sentido para mim, descobri que havia também os que estavam interessados, como acontecia comigo, num uso para a recordação da vida passada; não apenas acreditavam, mas também encontravam um propósito para isso. Em particular, o's psicólogos vinham usando a hipnose regressiva para descobrir traumas de vida anterior que estavam aflorando nesta vida. Uma certa Dra. Helen Wambach realizara uma série de experiências, não visando originalmente a ajudar pacientes (embora em vários casos esse fosse um dos resultados), mas sim a estabelecer a validade de vidas anteriores. Em seu livro, Reliving Past Lives (Revivendo Vidas Anteriores), ela descreve detalhadamente a gêne­se de suas experiências, como foi conduzida cada uma e os resul­tados extraordinários de suas investigações sobre recordação de vidas anteriores, em mais de mil pacientes, cada um dos quais fez pelo menos três "viagens", cada um recebendo as mesmas perguntas em cada viagem. Os resultados, anotados antes de se discutir qualquer viagem com quem quer que fosse, eram então correlacionados pelo período de tempo, situação social, raça, tipo de alimento ingerido, vestuário, arquitetura e outros pontos de referência.

Este livro, talvez mais do que qualquer outro, não deixava qualquer dúvida em minha mente de que vivêramos realmente vidas anteriores. Para mim, tudo se tornava agora uma questão de aprofundar a investigação especial... assim que encontrasse tempo para isso. Pois eu ainda estava no meio de minha excursão, acompanhada por malas de livros...

Apresentei-me na Europa, Austrália, Canadá, Escandinávia e América. Apresentava-me em teatros à noite, lia e especulava, estudava e lia, durante o dia. Descobri que estava conhecendo pessoas que, em drinques e jantares depois cios espetáculos, revelavam interesses ocultos pela reencarnação e sentimentos de memória que não podiam definir ou explicar. Algumas tiveram experiências fora do corpo, outras haviam recebido entidades espirituais, muitas tinham recordações de vidas anteriores que tinham certeza de serem reais, mas relutavam em discutir com receio de parecerem excêntricas.

Conversei com Gerry dos lugares mais exóticos do mundo, mas era difícil discutir meu crescente interesse pela metafísica espiritual em telefonemas internacionais... ou de qualquer outra forma. Eu ansiava para que pudéssemos nos encontrar pessoalmente, mas minha programação nunca se ajustava à disponibilidade dele e vice-versa. A cada conversa artificial, eu compreendia como Gerry estava pro­fundamente absorvido na política e também que era de crescente impaciência a minha atitude em relação à sua relutância em mani­festar qualquer interesse por minha preocupação com a expansão da percepção. Descobri-me a lembrar que "John" dissera que eu deveria permitir que as pessoas na minha vida conduzissem a sua capacidade de percepção em seu próprio ritmo; ou seja, devia conceder o ceticismo aos céticos. Na verdade, eu não acreditava necessariamente em tudo o que estava lendo e aprendendo... mas an­siava por encontrar alguém que estivesse realmente envolvido para se interessar pelas possibilidades de outras dimensões. A realidade era uma verdade subjetiva e eu sabia que a minha realidade estava se expandindo. Sentia-me mais perceptiva e mais capaz de absorver idéias da minha própria realidade interior; e é claro que eu queria conversar com alguém sobre tudo isso.

A excursão foi uma alegria. O trabalho era árduo, mas gratificante; conheci pelo caminho algumas pessoas que pareciam discretamente empenhadas em sua busca por uma identidade mais pro­funda. Muitas me disseram que a ajuda psiquiátrica não era bastan­te profunda, que havia eventos e traumas que eram anteriores à vida atual. Muitos disseram que sentiam que o condicionamento e experiência da infância não explicavam alguns dos seus temores e ansiedades mais arraigados. Experimentei um espanto velado por desco­brir que havia tantas pessoas pensando assim.

Um episódio em particular me impressionou, pois foi ao mesmo tempo coerente e totalmente inesperado. Um velho amigo da Irlan­da, a quem eu não via há anos, descreveu-me uma viagem recente que fizera ao Japão. Estava passeando calmamente por uma rua de Kioto quando avistou um traje de samurai na vitrine de uma loja de antigüidades. Parou abruptamente, fascinado, olhando para o traje, que "sabia" que lhe pertencera. Disse como se lembrava da espada, a sensação do material junto de sua pele, a sua arrogância quando a usava. Parado ali, olhando para o traje antigo, cenas de batalha fluíram por sua memória, até que se recordou de ter morrido com aquele uniforme. Entrou na loja para comprar o traje, mas não esta­va à venda. Ao me relatar a história, ele disse que ficou surpreso ao sentir-se bastante livre por ter manifestado que acreditava haver vivido uma vida no Japão. Limitei-me a assentir e escutar, imagi­nando quando que eu própria começaria a recordar vidas anteriores que poderia ter levado.

Excursionei por cerca de três meses, conversando com muitas pessoas e lendo. Experimentava novos pensamentos e novas pres­suposições a cada país que visitava. Passei a me sentir mais livre ao aplicar as minhas novas idéias à vida e ao trabalho. Era seletiva com as pessoas com quem discutia o que sentia, mas quase sempre descobria que isso não era necessário...

Voltei a Malibu para um descanso e para reexaminar minhas anotações, procurando definir meu pensamento. Não sabia muito bem como analisar o que havia em minha mente. Uma nova percep­ção pode ser bastante desconcertante assim que é descoberta. Anda­va muito pela praia. Às vezes sentava com um livro sob uma árvo­re, no pequeno parque perto do restaurante de alimentos naturais em Malibu.

Uma tarde, depois de tomar um suco de cenoura e comer um hamburger de tofu, fui encontrada sob a árvore por um amigo com quem eu tivera uma ligação amorosa profunda e que por ali passava por acaso. Ele era escritor e diretor de TV, em Nova York, podia ser extremamente cáustico e cinicamente espirituoso. Eu o conhecia muito bem... e seu brilho irônico fora um dos principais motivos que me haviam feito ficar interessada por ele durante alguns anos.

A primeira coisa que senti foi uma pancadinha na cabeça, que era geralmente a maneira como ele dizia alô. Compreendi no mesmo instante que era Mike. Ele fumava um cachimbo, vestia jeans, camisa de malha e blusão de couro. Podia-se perceber que ele era inteligente pelo traje... a aparência meticulosa do sou-apenas-um-vagabundo-que-não-se-importa-com-nada. E sem qualquer preâmbu­lo, ele perguntou:

— O que está acontecendo? Por onde você andou durante o último ano?

— Estive por aí... Fiz uma tournée por diversos países. Voltei há poucos dias.

— Ainda está dominada por aquela ansiedade mística de viajar, hem? — Fiquei surpresa com a percepção de Mike, mas ele não me deu muito tempo para pensar a respeito, pois logo acrescentou: — Tem sabido combinar o seu trabalho com essa ansiedade de viajar, não é mesmo? Isso é ótimo. Eu sempre podia dizer quando você estava querendo sair pelo mundo.

Fiquei de joelhos, enquanto Mike se acomodava ao meu lado.

— Sempre sabia mesmo quando isso estava acontecendo?

Era um aspecto dele que não me fora evidente quando estáva­mos juntos.

— Claro que sim. Mas não queria que você partisse e por isso jamais o mencionei. Muita honestidade da minha parte, hem?

Ficamos em silêncio por um momento, sorrindo um para o outro.

— É bom ver você, Shirley. — Ele falava com sinceridade e imediatamente continuou: — Tem alguma coisa na sua mente. Soube que vem se mantendo praticamente isolada, exceto por um namorado secreto que vai encontrar na Europa em constantes viagens.

Então é assim, pensei. Às vezes o mundo era exageradamente uma bola de golfe, em que todos sabiam de tudo.

Mas apenas ri. E Mike também riu... pois não esperava real­mente que eu falasse de minha vida amorosa.

— Gostaria que me dissesse uma coisa, amigo velho: acha que eu sou ingênua? Acha que sou o tipo de pessoa que acredita em tudo que lhe contam?

Mike soprou uma baforada do cachimbo, subitamente sério, como se compreendesse (o que ele sempre fazia) que eu estava preocupada com traços do meu caráter que até então desconhecia.

– Não, Shirley, eu não diria que você é ingênua. Tem uma mente implacável e inquisitiva. Mas acho que às vezes encontra algo bom onde realmente não existe nada.

– Como assim?

— Quando você foi à China, por exemplo, queria que a revo­lução ali fosse bem-sucedida. Assim, acho que tendeu a ignorar as áreas em que havia problemas. É claro que sei que você viu apenas o que eles queriam que visse. Assim, posso compreender a sua ava­liação positiva do que estava acontecendo por lá. Mas é isso aí o que estou querendo dizer.

— E o que queria me dizer pouco antes quando me chamou de mística?

— Shirley, você sempre teve uma compreensão das coisas que me parecia de certa forma com a filosofia oriental. Não sei direito. Classifiquei de abstrata por algum tempo. Você parecia atraída por idéias que não eram exatamente objetivas. Eu sempre quis saber quem recolhia o lixo, enquanto você queria saber o que havia no fundo da mente do lixeiro.

— Tem razão. — Repassei os relacionamentos em que ouvira a mesma reclamação. — Isso é uma queixa, Mike?

— Não, claro que não. É apenas a maneira como você é. Sem­pre quis saber o que havia por trás de tudo, procurando um signi­ficado mais profundo. Admiro isso. Pode levar um cara à loucura, mas me fez procurar também pelas coisas mais profundas.

Eu sorri. Ele sorriu. Uma dupla de ex-amantes sorrindo satisfeita um para o outro. Mike inclinou-se para a frente e pegou o meu livro.

— O que é isto?

— Apenas um livro.

— Sobre reencarnação?

— Isso mesmo.

— Ahn...

— É isso aí.

— Por quê?

— Não sei. — Engoli em seco, tentando decidir se devia ou não me lançar à discussão. — Acho que pode ser verdade. E tenho lido muita coisa a respeito.

Mike fitou-me nos olhos.

— Então virou Califórnia, hem?

— Califórnia?

– Isso mesmo. Todo mundo por aqui está metido nessas coisas. Somente a Califórnia poderia eleger um governador pirado, não é mesmo?

— Acho que sim... Mas encontrei o mesmo interesse em uma porção de outros lugares.

— É mesmo? Quais?

— Ora, Mike... no mundo inteiro.

— Por exemplo?

Quando Mike resolvia fazer um interrogatório, a impressão era de que se estava num julgamento.

— Conversei a respeito com muitas pessoas na Europa, Austrá­lia, Canadá. Em todos os lugares a que fui.

— E o que essas pessoas disseram?

— Contaram histórias. Algumas se lembravam de experiências reais de vidas anteriores. Às vezes era apenas um sentimento que tinham... ou às vezes aquela coisa do déjà vu.

— Estou entendendo. Eu tenho provas de que existe vida depois da morte.

— Como assim? — Eu estava agradavelmente surpresa pela perspectiva de uma possibilidade de diálogo com Mike. — Que prova?

— O Congresso dos Estados Unidos.

Soltei uma risada, mas senti o estômago se contrair. Vou agora receber o tratamento completo, pensei.

— Muito engraçado, Mike.

— Acho que já temos problemas demais no mundo, aqui e agora. Não estou interessado se já fui um escravo egípcio há cinco mil anos.

Claro que me descobri a especular por que ele apresentara aquela imagem em particular, mas não me aprofundei.

— Já ouviu falar da canalização em transe?

— Está se referindo àquelas coisas sobre as quais Oliver Lodge escreveu na Inglaterra, na virada do século? Ele entrou em contato com seu filho morto ou algo parecido, não é mesmo?

— Exatamente. Lodge realizou uma porção de pesquisa psíqui­Ca que nunca foi explicada... além do fato de que deve mesmo ter acontecido.

— E o que você tem a ver com isso? Está mantendo contato com Chu En-lai por intermédio de um médium?

Mike sabia que eu achava Chu En-lai atraente e que prova­velmente teria feito qualquer coisa para conhecê-lo.

— Não, não com Chu. Mas talvez seja possível entrar em contato com guias espirituais desencarnados, que já estiveram num corpo físico e não estão mais.

Mike inclinou o corpo para trás, apoiado no cotovelo, tirou uma baforada do cachimbo.

— Quer me falar a respeito de tudo isso?

Peguei um cigarro e acendi-o. Cuidadosamente, descrevi o que estava acontecendo. Falei de Ambres na Suécia, de John, McPherson e Kevin na Califórnia. Contei que muitas pessoas estavam apren­dendo tudo sobre o mundo através da mediunidade. E que eu estava convencida de que alguns médiuns podiam ser embusteiros, mas isso não se aplicava a todos. Falei das informações sobre vida ante­rior que ouvira a respeito de mim mesma, além dos ensinamentos de amor espiritual, Deus e extraterrenos que teriam supostamente trazido a mesma mensagem. Contei que lera muito sobre outras pessoas do mundo, no passado e no presente, que também sentiram a afinidade de terem vivido antes. Mencionei todas as pessoas fa­mosas e inteligentes, artistas, filósofos, cientistas, até mesmo líderes religiosos, para os quais a reencarnação era um fato aceito de suas vidas... e fui bastante defensiva para concluir o relato ressaltando para Mike que eu estava em excelente companhia.

Ele tirou o cachimbo dos dentes e ficou em silêncio por um momento.

— Shirl, sou Mike, está lembrada? E estou do seu lado, en­tende?

Não falei nada. Apenas continuei a fitá-lo.

— Uma pessoa entra em transe, outra voz sai de sua boca e você acredita no que está ouvindo?

Mantive o silêncio.

— As pessoas teriam de dizer o que aconteceu com a nossa Shirley, não é mesmo? Mas lhe falam sobre vidas anteriores e extraterrenos. Isso é um absurdo. Você parece crédula e ridícula. E não gosto de vê-la nessa posição.

Suguei o canudo, sentindo o ruído do borbulhar no fundo do copo vazio.

— Foi por isso que perguntei se me julgava ingênua, Mike. A verdade é que não me sinto ingênua ou crédula. Estou investi­gando. Quero saber. Sinto que qualquer coisa é possível... e por que não?

— Mas você acredita mesmo?

— Não sei. Estou praticamente convencida da existência de vidas anteriores... e, portanto, da reencarnação, apenas com base em evidências empíricas. Estou no processo de descoberta de uma porção de coisas novas. É um processo de admitir novas dimensões. É todo um mundo fascinante que não estou disposta a ignorar... e não vejo qualquer ingenuidade nisso. Sempre fui uma pessoa de mente aberta, não é mesmo?

— É, sim.

— Pois acho que é justamente isso o que continuo a ser. A única coisa é que neste momento estou um pouco confusa sobre a existência de uma coisa a que se poderia chamar de "realidade" verdadeira. A realidade está me parecendo muito relativa.

— Espere um momento! — protestou Mike. — Quando um produtor de Hollywood tira o sangue de um roteirista... isso é real.

— Claro. É real para ele. E talvez se torne real também para os filhos dele, por experimentarem pela primeira vez na vida carên­cia ou privação. Mas ser privado de uma casa, carro, aparelho de TV, as melhores roupas, boa comida... tudo isso é absolutamente sem sentido, não é real, para milhões de pessoas que nunca tiveram essas coisas. E é igualmente irreal para um punhado de pessoas na outra extremidade, que sempre tiveram tudo. Portanto, talvez não seja a parte do dinheiro que é importante. Talvez haja uma lição nisso. Talvez a vida seja constituída por lições e isso seja a realidade.

— Qual é a lição que se pode encontrar num homem que não é capaz de dar de comer aos filhos?

— Não sei, Mike. Não aconteceu comigo. Mas se acontecesse, eu tentaria compreender, ao invés de apenas ficar ressentida. Procuraria descobrir por que e não atribuiria toda a culpa a quem me sacaneou.

— Mas que merda, Shirl! Está querendo dizer que ficaria de braços cruzados, pensando em todas essas besteiras de Deus e amor, deixando-se ser oprimida?

A eloqüência de Mike era às vezes comovente.

— Não, Mike, não é isso o que estou dizendo, mas apenas que talvez eu não fosse realmente oprimida. Talvez o que pareça com opressão seja algo que eu precisava experimentar, a fim de me compreender melhor. Além do mais, essa coisa está acontecendo duran­te todo o tempo, quer se permita ou não. Portanto, acho que estou dizendo que terei de ir à guerra se não quiser permitir que me explorem, não é mesmo?

— Guerra?

— Exatamente. Pode estender o exemplo a um cenário mun­dial de ricos e pobres. É o mesmo dilema. Mas se nunca morre­mos realmente, então a vida se torna uma questão de como assumir uma situação de injustiça, ao invés de não permitir que aconteça por meios violentos.

Mike recostou-se na árvore. Uma nuvem passou diante do sol, as gaivotas gritaram, como se tivessem tomado a decisão coletiva de partir.

— Pode compreender, Shirl, que todos os déspotas do mundo se aproveitaram desse tipo de pensamento e causaram um sofrimen­to incompreensível? Apoiar essa filosofia é desprezivelmente fari­saico. Ensinar às pessoas que devem virar a outra face é um convite aberto à tirania. Creio na autodeterminação e na revolução se algum filho da puta está me oprimindo.

– Concorda então em matar se é você quem sente isso ser necessário?

– Se algum cara está tentando me matar primeiro, claro que sim.

– Posso compreender sua atitude. É certamente a solução habitual. Mas eu me pergunto se realmente matamos nossos inimigos. Independente do motivo para matar outra pessoa, se é pessoal ou porque algum governo, talvez mesmo uma autoridade religiosa, diz para fazê-lo, se a lei de causa e efeito está em operação... e essa é justamente a raiz da reencarnação... então o que você realizou, além de acumular muito carma desfavorável? Se a morte é final, não é uma realidade, então de que adianta matar? Se pudéssemos "provar", como se diz, que matar não é uma solução, mas sim uma atitude que se vira contra a própria pessoa, no sentido literal, talvez mais do que umas poucas boas mentes passassem a procurar por outras soluções.

– Isso é um tanto esotérico, Shirl. Posso entender por que você se preocupa com isso, pois sua mente é desse tipo. E acho que é determinada o bastante para chegar a conclusões que a satis­façam. Mas o que isso poderá fazer a você?

— Como assim?

— As pessoas vão começar a imaginar o que lhe aconteceu. Não a conhecem como eu e pensarão que ficou pirada de vez.

Mike estava genuinamente preocupado comigo, tal como acontecera com Bella... e até mesmo com Gerry. Mas era outro pro­blema por que tais conceitos pareciam tão pessoalmente ameaçado­res para Mike. Eu não me preocupava apenas com Mike, mas sim como motivo pelo qual ele não podia enfrentar a coisa com a mente aberta, ao invés da ansiedade que estava demonstrando.

— Mas não acha que todos especulam sobre essas coisas, Mike... de um jeito ou de outro? Não acha que todos já tiveram alguma experiência que não podem explicar?

— Claro que sim. Mas as pessoas simplesmente deixam a coisa sem explicação. Por que você acha que precisa desenvolver todo um conjunto elaborado de crenças para explicar coisas que prova­velmente estariam melhor se deixadas em paz?

Eu estava bastante defensiva para me sentir um tanto exasperada.

— Quem diz que estariam melhor se deixadas em paz? O que há de tão bom no status quo que o mundo quer preservar como está? Estou procurando por respostas melhores, Mike. Acho que uma parte é apenas a maldita curiosidade... eu sempre quis saber por que uma rosa era vermelha ou um pensamento era forte. As explicações superficiais nunca foram suficientes para mim. Portan­to, imagino que é inevitável que eu leve minha investigação até o fundo... não importa onde isso possa me levar.

Mike pegou minha mão e afagou-a.

— Houve muitas pessoas que não puderam deixar as coisas como estavam, a exemplo de Louis Pasteur e Madame Curie. E veja o que eles fizeram. Sendo assim... quem sabe? Mas o que me perturba é que as coisas que eles faziam eram tudo o que faziam. Não precisavam depender de audiências nem serem alienados para ganhar a vida. Não quero que isso aconteça com você.

— Não creio que vá acontecer, Mike. E, seja como for, é a coisa mais significativa em minha vida neste momento... para dizer o mínimo. Não posso deixar como está. E quando eu chegar ao limite de minha identidade ou da identidade de qualquer outro, encontrarei a identidade mais plena do que pode ter acontecido antes desta vida. Poderei descobrir se você e eu tivemos um relaciona­mento cármico numa vida antes desta. Estivemos juntos desta vez provavelmente porque restou alguma coisa para ser trabalhada de uma vida anterior.

— Está querendo dizer que esta conversa é parte dessa defi­nição de problemas anteriores?

— É possível.

— Mas eu só posso cuidar desta vida. Já me oferece o bas­tante em que pensar. E não sei compreender como essas coisas que você está me falando, poderiam me ajudar a levantar a fiança necessária para um amigo que foi preso por causa de cocaína.

Mike levantou-se e espreguiçou-se.

— Tome cuidado, Shirl. Isso é tudo o que lhe peço, está bem?

— Está, sim.

— Não quer dar uma volta?

— Quero.

De braços dados, fomos andando na direção das montanhas. Mike inclinou-se e sussurrou em meu ouvido:

— Diga-me uma coisa: em nossa última vida juntos, você fez viagens secretas à Europa para me ver?

 

Eu me sentia extremamente cansada naquela noite. Resolvi descansar, talvez não escrever nada. Ao final da tarde, sentei na varan­da e fiquei observando o vento a soprar rajadas de areia, enquanto o sol se punha. A maré baixa espelhada refletia o clarão entre rosa e laranja. Perguntei-me como o peixe-rei sabia que tinha de se afastar da Praia e em que momento. Perguntei-me se os peixes tinham almas.

Um vulto solitário caminhava pela beira d'água, a cerca de um quilômetro e meio de distância. Fiquei observando-o. Sempre tenta-imaginar o que outras pessoas estavam pensando, ao caminharem pela praia ao pôr-do-sol. Algumas andavam com determinação, outras pareciam vaguear a esmo, muitas davam a impressão de que nem estavam andando... talvez estivessem em algum outro lugar. O vulto solitário andava como se estivesse procurando por alguém. Não olhava muito para o mar, preferindo concentrar sua atenção nos prédios. Comia alguma coisa... uma maçã. Carregava um par de sandálias na outra mão e tinha o ombro esquerdo descaído. Olhei mais atentamente quando ele se aproximou. Ele me viu a fitá-lo lá de cima e acenou. Era David.

Essa não, pensei. O que vai ser agora? Chegando à frente do meu prédio, ele parou, sorriu, tornou a acenar e gritou para mim.

 

                                                     Capítulo 17

— Oi! — gritou David. — Está lindo aqui embaixo! Levantei e debrucei-me na grade da varanda. David usava um suéter por cima da camisa, um par de meias brancas de ginástica pendia do bolso traseiro da calça.

— Como vai, David?

Ele jogou o resto da maçã nas ondas.

— Desça e vamos dar uma volta. Iremos até o rochedo. E depois, se você estiver com vontade, poderemos jantar na Holliday House.

Empertiguei-me lá em cima, enquanto David acrescentava:

— Mas traga um suéter. Vai esfriar bastante.

Peguei o suéter de lã que já percorrera uma boa parte do mundo em minha companhia, o verde, que Gerry adorava, desci a escada de madeira para a areia, sentindo que via David pela pri­meira vez... e, sob certos aspectos, desejando nunca tê-lo conhe­cido. Ainda me sentia magoada do encontro com Mike, que estava longe de haver superado. David observou-me atentamente quando cheguei perto, indagando:

— Você está bem?

— Estou, sim.

— Hum, hum... — Começamos a andar, ao sol poente. — Tem pensado muito, não é mesmo?

– Não tenho tido muito tempo — murmurei, não querendo me comprometer.

Ele acendeu um cigarro.

– Você está fumando demais, David. Por que fuma tanto, se está empenhado no desenvolvimento espiritual e também todo cer­tinho consigo mesmo?

– Não sei. Acho que me ajuda a manter os pés no chão. Caso contrário estaria lá nas nuvens durante o tempo todo. Você não fumaria se estivesse com toda a coisa dentro de você?

– Fumar? — Minha voz estava um pouco estridente. — Eu estaria fumando charutos do tamanho de sequóias se realmente acre­ditasse em tudo o que estou aprendendo.

— Tem razão, é assustador a princípio, como tudo o que é novo. Mas, depois de algum tempo, aprende-se a dessensibilizar. Fumar é um jeito de se conseguir isso. Além do mais, sou viciado.

Continuamos a andar pela areia fria. Os maçaricos executavam o seu minueto ao sol poente. Eu sentia que estava fazendo o meu próprio minueto, com David. Mantive-me em silêncio por algum tempo. Pensei depois que era melhor falar logo de uma vez.

— Você já sabia que somos velhos amigos e já estivemos casa­dos antes?

David riu.

— Sabia, sim.

— Como soube?

— Por aí... Somos parceiros na vida ou algo assim, não é mesmo?

— Hum, hum...

Ele deu uma tragada no cigarro e olhou para o sol poente. Tinha um jeito de se mostrar tão seguro das coisas que era quase pomposo.

— Estive pensando numa porção de coisas, David. Quando os astronautas viajam pelo espaço, há espíritos em torno de suas cápsulas?

David tornou a rir e tossiu.

— Pode-se dizer que sim, porque o mundo espiritual está por toda parte, até mesmo em torno de nós neste momento. O plano espiritual é invisível para nós durante a maior parte do tempo, porque nossa percepção é obtusa demais para percebê-lo. Mas nós não somos invisíveis aos espíritos. E você pode sentir isso de vez em quando, não é mesmo? Não se espanta às vezes de onde vieram determinadas idéias e inspirações? Não sente às vezes que está sendo claramente guiada por alguma força invisível? Tem alguma idéia de quantos grandes gênios declararam expressamente que sentiam uma espécie de força inspiradora invisível? Pois estou convencido de que são na verdade os guias espirituais, além da recordação de um talento que tiveram numa vida anterior. Pode-se perceber isso em crianças-prodígio. Mozart provavelmente tocava piano aos quatro anos de idade porque se lembrava como.

Interrompi a dissertação:

— Que prova existe de que tudo isso é verdadeiro, David? Realmente verdadeiro. Pode-se parecer um idiota ao se apresentar essas teorias como se fossem genuínas... da mesma forma que se dissesse que Papai Noel existe.

— Não há qualquer dúvida para mim. Apenas sinto e é suficiente. Acredito. Tenho certeza. Isso é tudo. Claro que não há qualquer prova. E daí? O que falta no mundo hoje é a ligação entre os planos físico e espiritual. Para mim, a alma é o elo que está faltando à vida. Se todos compreendessem que suas almas jamais morrem, não ficariam tão assustados e ainda entenderiam por que estão vivos.

David fazia um sermão espiritual cada vez que abria a boca.

— No fundo, o que você está dizendo é que a reencarnação é como o show business. Continua-se trabalhando, até que tudo saia certo.

— Exatamente. — Ele teve o bom humor de rir. — Ou algo parecido. Quer saber de uma coisa? Estou convencido de que Cristo pregava a teoria da reencarnação.

Ajeitei o suéter de gola rulê em torno do pescoço. Tudo me provocava calafrios atualmente. Quando formulava uma de suas declarações, David jamais elaborava a respeito.

— Por que pensa assim? — perguntei, lembrando o que John me dissera a respeito da Bíblia.

David mergulhou os pés na água, rompendo o reflexo espelha­do por baixo de nós.

— Tenho lido muito sobre as interpretações dos ensinamentos de Cristo além do que aparece na Bíblia. — Ele me fitou nos olhos, hesitou por um instante. — Claro que você sabe que não há nada registrado na Bíblia sobre Cristo desde o momento em que tinha 12 anos e até que começou a sua pregação, por volta dos 30 anos. Certo?

— Certo. Eu já tinha ouvido falar sobre isso e calculei que ele não tinha muito o que dizer até ficar mais velho.

— Muita gente pensa que esses 18 anos que estão faltando foram passados a viajar pela Índia, Tibet, Pérsia e Oriente Próximo. Há uma porção de legendas e histórias sobre um homem que parece com Cristo. A descrição é similar por toda parte. Ele dizia que era Filho de Deus e confirmou as crenças dos hinduístas de que a reencarnação era uma coisa genuína. Dizem que ele se tornou um iogue perfeito e possuía um controle absoluto sobre o próprio corpo e o mundo físico ao seu redor. Evidentemente, realizou todos os milagres que foram posteriormente registrados na Bíblia e tentou ensinar às pessoas que podiam fazer a mesma coisa, se estivessem mais em contato com seus eus espirituais e com seu poder potencial.

David não tinha conhecimento de minha sessão com Kevin e John também ignorava que eu conhecera uma mulher em The Ashram, uma espécie de protegida de Sai Baba (um avatar da Índia). Ela e o marido haviam escrito um livro e produzido um filme documentário sobre os anos em branco na vida de Cristo. Seus nomes eram Janet e Richard Bock, haviam realizado amplas pes­quisas sobre aquele período da vida de Cristo na Terra. Compila­ram pilhas de evidências pesquisadas por respeitáveis arqueólogos, teólogos, estudiosos de manuscritos sânscritos e hebraicos e assim por diante. Tudo parecia confirmar que Cristo realmente percorrera a Índia.

Enquanto andávamos, falei a David sobre Janet e Richard. Ele disse que não os conhecia, mas adoraria comparar anotações, pois passara dois anos na índia pesquisando o mesmo assunto. E acrescentou que Cristo, ao voltar a Israel, ensinara o que aprendera com os mestres indianos, ou seja, a teoria da reencarnação.

— Mas por que esses ensinamentos não estão registrados na Bíblia, David?

— Acontece que estão, Shirley. A teoria da reencarnação está devidamente registrada na Bíblia. Mas as interpretações adequadas foram suprimidas durante as reuniões de um concílio ecumênico da Igreja Católica, em Constantinopla, por volta do ano 553 da nossa era. Foi o Concílio de Nicéia. Os membros do concílio votaram pela supressão desses ensinamentos da Bíblia a fim de consolidar o controle da Igreja.

David fez uma pausa breve, antes de continuar:

— A Igreja precisava ser a única autoridade no tocante ao destino do homem. Mas Cristo ensinava que cada ser humano era responsável por seu próprio destino... agora e no futuro. Cristo disse que havia apenas um juiz, que era Deus, opunha-se à formação de uma igreja de qualquer espécie, a qualquer tipo de igreja formal que pudesse escravizar o livre-arbítrio do homem ou reprimir sua luta para encontrar a verdade.

Isso confirmava o que Kevin dissera. Mas parecia lógico que qualquer pessoa enfronhada na reencarnação já tivesse lido a res­peito daquele concílio famoso.

O sol estava agora se pondo por trás das ondas, projetando uma claridade rosa-púrpura sobre as nuvens por cima do Pacífico.

— Creio que era exatamente isso o que Cristo estava fazen­do — acrescentou David. — E quando a Igreja destruiu esses ensi­namentos, prejudicou toda a humanidade daí por diante.

Não falei nada. Pensei que se a Igreja ensinasse que nossas almas estavam empenhadas numa encarnação física contínua a fim de se elevarem pela Justiça Cármica, então eu teria me interessado desde que era bem pequena. Isso faria sentido para mim. Teria me dado uma razão para acreditar na dimensão espiritual do homem, porque eu seria responsável por meu próprio destino (e o mesmo aconteceria com todas as pessoas). Competiria à consciência de cada um julgar o seu próprio comportamento, não à Igreja. E tam­bém explicaria todo o sofrimento e horror no mundo, o que por toda a minha vida me tornara desamparadamente incapaz de com­preender ou alterar. "O que um homem semeia é o que irá colher" passaria a ter um significado completamente diferente. E teria me proporcionado um conforto profundo por saber que vivíamos para sempre, eternamente, de acordo com nossas ações e reações nas passagens pela Terra. "Vire a outra face" também passaria a ter um novo significado. Seria até mais possível fazer isso, porque man­teríamos as nossas prioridades eternas em posição superior aos nossos problemas terrenos.

A lei da causa e efeito era aceita na ciência como fundamental. Por que a mesma lei não podia ser aplicada em relação à vida humana? Nem sempre as leis eram baseadas no que podíamos ver e, portanto, provar. Moral, ética, amor... tais coisas não eram visíveis, não eram tangíveis. Mas isso não significava que não existissem.

Eu não era uma conhecedora profunda da ciência ou de qual­quer dos campos em que havia fatos comprováveis. Mas, gradati­vamente, começava a me perguntar por que esses campos adquiriam tanta importância. Não via muito valor nas provas físicas quando se tratava do esforço para compreender por que estávamos vivos. Esse empenho pertencia a cada indivíduo, pessoalmente, no sentido mais profundo. Não pertencia necessariamente ao domínio das "au­toridades" de qualquer tipo. Talvez fosse esse o significado de "os humildes herdarão a terra". Talvez os humildes que não sentiam qualquer necessidade de agir como "fortes" fossem os que se rela­cionavam com Deus e com a virtude da vida e da humanidade; e talvez o preceito áureo da Bíblia fosse o primeiro e último axioma pelo qual se devia viver. Talvez todos os que tendiam a complicar a vida, levados pelo medo, estivessem aumentando não apenas as complexidades cármicas da própria terra, mas também as comple­xidades cármicas de suas próprias vidas.

David e eu continuamos a andar em silêncio. Fomos até a praia pública, a cerca de cinco quilômetros de distância, onde ele deixara o seu carro. Era um Dodge velho, verde, no banco traseiro estava uma pilha de livros, amarrados com um barbante.

– Eu lhe trouxe mais alguns livros, além de uma Bíblia. Leia e pense. Vai querer comer alguma coisa?

Livros? Eu precisava de mais livros?

Fomos sentar no restaurante por cima do mar. Sempre que conversávamos, nunca era sobre amenidades... mas nunca mesmo. Não havia coisas como "Você gosta de Brahms?", ou "Como foi seu dia?" Era sempre uma conversa profunda, como se qualquer outra coisa fosse um desperdício de tempo. Era excepcional para mim não ser pessoal em relação a um homem, porque a "conversa pessoal" era geralmente um caminho para o que ambos queríamos um do outro... ou deixas para o caráter ou indicações de objetivos na vida.

Mas aquilo era diferente. Eu não estava interessada em David por esse aspecto. Estava interessada apenas no que ele tinha a dizer. Creio que todas as pessoas estabelecem um conjunto de regras de comunicação, tácitas, não formuladas expressamente, quando estão reunidas, duas a duas. Não é uma coisa em que se pense, mas exis­te e funciona, até que um dos dois rompe o que estava acertado e tenta levar a conversa para outro nível.

David também não parecia interessado em romper o que esta­va estabelecido. Isso me deixava inteiramente à vontade. Sabia ins­tintivamente que seríamos sempre o que éramos agora. Paradoxalmente, isso criava um clima em que cada encontro com aquele homem, que era parcialmente responsável por meu questionamento profundo de nossas percepções da realidade, fosse uma experiência nova para mim.

Assim, embora estivéssemos tomando um delicioso vinho Bordeaux e comendo um filé Wellington de primeira, embora houvesse velas na mesa e estivéssemos profundamente absorvidos no que o outro dizia, embora outros fregueses especulassem com quem eu estava, nunca me sentia propensa a me relacionar com David num nível homem-mulher, assim como também não me interessava es­pecificamente pela maneira como ele viera a acreditar em tudo o que acreditava. Afinal, esse processo era geralmente uma evolução abstrata do pensamento. Ou pelo menos fora no meu caso, estimu­lado por uns poucos momentos específicos, que me motivaram ainda mais. Em vez disso, conversamos sobre a necessidade ds fé e de um sentimento de propósito, sobre se a raça humana progredira por si mesma ou com a ajuda de alguma espécie de "orientação" espi­ritual e, finalmente, sobre a sabedoria de manter a mente aberta a todos os conceitos novos.

David comentou que essa abertura era, em sua opinião, a ver­dadeira característica da inteligência, porque "somente uma pessoa de mente aberta pode adotar novas idéias e crescer".

— Passei por muita confusão quando comecei a estabelecer minhas conexões espirituais, Shirley. Mas sempre que me sentia meio "absurdo" no mundo "real" ao redor, eu parava e escutava o que minha intuição dizia que era real. Fora condicionado a acreditar no que pudesse provar e não no que pudesse sentir. Quanto mais escuta­va minha voz interior, no entanto, mais entrava em contato comigo mesmo. Ao final, tudo se tornou muito simples. Agora, há tantas pessoas fazendo a mesma coisa que é isso o que se tornou real.

David não parecia estar revisando as suas lutas pela convicção como uma espécie de roteiro com o qual eu pudesse me identificar. Era mais simplesmente um mero relato do que ele passara. E quando ele falava, era sempre com uma dignidade serena. E de repente, quase ao final do jantar, ele perguntou:

— Você já viu um disco voador?

Fiquei um tanto surpresa com a pergunta, partindo de David. Uma coisa era ouvir "John" falar sobre Deus, verdade espiritual e extraterrenos no mesmo fôlego, outra muito diferente era ter um amigo pessoal aparentemente prestes a estabelecer a mesma conexão.

— Não, mas conheço algumas pessoas que já viram, inclusive Jimmy Carter, quando era governador da Geórgia. Carter nunca me falou nada a respeito, mas vi o relatório que ele encaminhou ao jornal. Pareceu-me profissional e desprovido de emoção, como a maioria dos relatórios de Jimmy Carter.

— Mas o que você acha que são os discos?

— Não tenho a menor idéia. Talvez sejam armas militares secretas sobre as quais ninguém fala, talvez sejam balões meteoroló­gicos, talvez sejam embustes, talvez sejam do espaço exterior. Sim­plesmente não sei. O que você acha?

David tomou um gole do café e outro do conhaque, limpou os cantos da boca com o guardanapo.

— Acho que são do espaço exterior. E acho que os extrater­renos que os tripulam possuem um elevado desenvolvimento espi­ritual. E acho ainda que nos visitam há muito tempo.

— O que o faz pensar assim?

Observei-o tomar outro gole do café. Observei como seus olhos piscavam calmamente à luz das velas. Observei atentamente à procura de qualquer expressão que indicasse onde ele estava querendo chegar... por que mencionara os discos voadores em relação ao que estávamos conversando.

– Muitas pessoas já escreveram a respeito deles.

– E muitos malucos.

– Há referências por todo o Antigo Testamento. Há descrições de todos os tipos que me parecem de espaçonaves... e muitos outros também pensam assim, é claro.

Lembrei-me outra vez de "John" e de muitas leituras que eu própria fizera. Mas David já estava acrescentando: ]

– Acho que Von Daniken é um pouco maluco, mas creio que ele está no caminho certo.

– Está se referindo ao Von Daniken de Eram os Deuses Astronautas?

— Exatamente.

Senti que a minha "mente aberta" estava ameaçando se fechar.

– Ele não passou algum tempo numa prisão suíça por emitir cheques sem fundos?

– Passou, sim. Mas o que isso tem a ver com o que ele des­cobriu? As pessoas estão cheias de contradições e foi errado o que ele fez. Deveria ter encontrado outro meio de resolver seus proble­mas, porque no final acabou se desacreditando. Mas isso também não aconteceu necessariamente com a sua obra.

Depois da sessão com "John", eu lera toda a obra de Von Daniken... o material que descrevia a sua alegação de que muitas ruí­nas antigas haviam sido construídas na verdade por civilizações al­tamente desenvolvidas, com ajuda extraterrena: a Grande Pirâmide, Stonehenge, Machu Picchu no Peru, as pistas de pouso na Planície de Nazca, também no Peru, e assim por diante.

Ele também alegava, por exemplo, que as descrições de Eze­quiel das carruagens de fogo eram na verdade espaçonaves, assim como a coluna de fogo que guiara Moisés e os israelitas no deserto por 40 anos, culminando com a separação das águas do Mar Ver­melho.

Eu assistira ao filme Chariots of the Gods (Carruagens dos Deuses), que versava sobre a presença de extraterrenos ao longo de toda a história humana, apresentando desenhos nas cavernas e monumentos como provas de tal alegação. O que mais me impressio­nara, ao assistir ao filme, fora a reação da audiência. Estavam to­dos como que hipnotizados pela tela. Ao terminar o filme, ninguém se levantara para ir embora. Pareciam genuinamente fascinados pe­las especulações, mas sem saberem muito bem como deveriam rea­gir. Eu escutara atentamente os comentários, enquanto as pessoas deixavam o cinema. Ninguém fizera comentários sarcásticos ou es­carnecera das informações. Não se sentiam ameaçadas ou intimidadas por qualquer forma. Apenas saíram sem muito falar, pensativas. Al­guém mencionara um hamburger. Lembrei que ficara mais interes­sada nas reações dos outros ao filme do que em minha própria rea­ção.

E agora, exatamente como John fizera, David relacionava os discos voadores com a inteligência espiritual. Resolvi interrogá-lo mais a fundo:

— Está querendo dizer que anjos e carruagens que cuspiam fogo, todas essas coisas que se encontram na Bíblia, eram na verda­de pessoas de outro mundo?

— Isso mesmo. Por que seres alienígenas avançados não pode­riam tentar nos ensinar a verdade espiritual superior? Talvez a força-Deus seja na verdade científica. Cristo e Moisés, assim como outros, eram capazes de realizar milagres físicos, como nós os chamamos, que nossa ciência não pode explicar. E pessoas demais testemunha­ram esses "milagres" para se admitir que não passaram de mitos inventados. Só há uma explicação possível: essas pessoas tão dotadas conheciam alguma coisa que nós ignoramos.

— Como chegou ao ponto de estabelecer uma ligação entre as possibilidades espirituais do homem e o espaço exterior?

— Porque faz sentido, não é mesmo? Afinal, há muita coisa de inteligência superior inexplicável na história antiga, tanto se re­lacionando com religião e espiritualidade... ou pelo menos com a questão de Deus.

— Mas essa inteligência poderia ser a manifestação de civilizações humanas extremamente adiantadas aqui mesmo da Terra, que desapareceram ou sumiram de alguma forma. Por que a inteligên­cia superior tem de provir necessariamente de outro mundo?

— Também me perguntei isso. Mas o problema é que não hou­ve apenas um exemplo de inteligência superior. Segundo Platão e Aristóteles, assim como muitas outras grandes mentes, Atlântida real­mente existiu, como uma civilização extremamente adiantada. Os incas e os maias possuíam tanto conhecimento astronômico e astro­lógico como o que temos hoje. Talvez até mais. Os sumérios, que viveram dois mil anos antes de Cristo, tinham a matemática e a astro­nomia altamente desenvolvidas... Posso lhe dar muito material a respeito para ler, mas tudo indica que a nossa Terra tem sido obser­vada, ajudada e instruída, ao longo da história humana, por seres que sabiam mais do que nós, seres que conheciam as verdades es­pirituais, assim como as verdades científicas, astronômicas, matemá­ticas e físicas que só agora estamos começando a sondar.

O conhaque acabara. Eu podia sentir que minha mente estava resistindo.

— Mas por que os próprios seres humanos não poderiam ter aprendido tudo isso?

David seguiu em frente, depois de tomar o resto da água gelada.

– Porque há indícios demais de que os seres humanos rece­beram ajuda de "deuses"... de pessoas que eram adiantadas num sentido cósmico. Muitos textos das culturas antigas falam sobre "deuses" que circulavam entre as estrelas, em máquinas voadoras incandescentes, trazendo "ajuda e conhecimento e promessas de imortalidade". Eu disse então a mim mesmo... por que não? Ne­nhum cientista moderno de mentalidade saudável acredita que so­mos a única vida no universo... certo?

— Certo.

– E não acha que vale a pena pensar sobre isso? Por que não levar a sério a possibilidade? Faz sentido. Pode parecer meio descabido nos termos de alguns pontos de vista comumente aceitos, mas faz sentido. Como você começou a se enfronhar nessas coisas, bem que pode ir mais ao fundo. Mas desculpe por estar sendo tão inflexível.

Pagamos a conta (meio a meio) e levantamos. Eu estava exaus­ta. A esta altura, minha frustração terrena com Gerry parecia uma boa coisa. David se classificara de inflexível? Era o termo que ele geralmente aplicava a mim. Eu é que costumava ser a inflexível, o que quer que estivesse pensando. Agora, alguém se mostrava mais inflexível do que eu.

David entregou-me a pilha de livros e largou-me em meu apartamento na praia.

Conversáramos em vida depois da morte, vida antes do nascimento e agora estávamos entrando em vida acima da vida!

Agradeci-lhe e nos despedimos.

 

Capítulo 18

Eu lera sistematicamente sobre a mediunidade e depois sobre reencarnação, sempre para a minha própria orientação espiritual. Concentrei-me agora num novo ponto de vista: a possibilidade de vida extraterrena e sua relação com a vida humana. Li por dias a fio, até sentir os olhos doerem. Segue-se uma sinopse muito sucinta de tudo o que li. Uma par­cela considerável dessa pesquisa foi importante para mim em rela­ção ao que me aconteceu posteriormente. Na parte da Bíblia, uso a sua própria terminologia, como anjos, colunas de fogo e assim por diante, porque são palavras usadas pelos antigos para descre­ver fenômenos nos termos compreensíveis em seu tempo.

No Antigo Testamento, Ezequiel descreveu como a Terra pa­recia de uma grande altitude. Falou sobre o que era ser elevado num navio voador, quase como se levado por um ímã. Descreveu o mo­vimento de ida e volta do veículo como algo tão rápido quanto o relâmpago. Referiu-se ao comandante da nave como "O Senhor".

Ezequiel deparou com pessoas e naves assim em quatro oca­siões diferentes, ao longo de um período de 19 anos. Falou como eram serenas as pessoas das naves ao jazerem contato com os hu­manos, esforçando-se ao máximo para evitar que sentissem qual­quer medo. Não havia sinal algum de "hostilidade ou atitudes in­conseqüentes". Ezequiel declarou que "O Senhor" demonstrou cuida­do e respeito por ele.

No livro do Êxodo, um veículo que orientou os hebreus na fuga do Egito até o Mar Vermelho, foi descrito como "uma coluna de nuvem durante o dia e uma coluna de fogo à noite". A coluna pairou sobre as águas e dividiu-as ao meio, permitindo que os israe­litas escapassem para o deserto. A "coluna" que guiou os israelitas por 40 anos, enquanto vagueavam pelo deserto, proporcionou-lhes orientação religiosa durante todo esse período. Um "anjo interior" transmitiu a Moisés os Dez Mandamentos. Há "anjos" por toda a Bíblia... na verdade, a Bíblia mais do que sugere que os "anjos" eram missionários de outro mundo.

Durante esse período de 40 anos, os israelitas ficaram sem qualquer fonte de alimentação e sustento. Mas a "coluna de fogo" cuidava de tudo. O Senhor disse a Moisés: "Eis que vos farei cho­ver pão do céu" (Êxodo, 16:4).

A "coluna de nuvem" servia como um farol para as jornadas pelo deserto. "De dia a nuvem do Senhor repousava sobre o taber­náculo e de noite havia fogo nele, à vista de toda a casa de Israel, em todas as suas jornadas" (Êxodo, 40:38).

O livro de Números é mais específico. A coluna de nuvem orientava todos os movimentos dos israelitas; quando a nuvem se deslocava, o povo se deslocava, quando a nuvem parava, o povo des­cansava e montava outro acampamento (Números, 9:15-23).

Moisés mantinha um contato diário com um ser na "coluna de nuvem". O Senhor falou a seu povo um dia, dizendo: "Ouvi agora as minhas palavras; se entre vós há profetas, eu, o Senhor, em visão a ele me faço conhecer ou falo com ele em sonhos. Não é assim com o meu servo Moisés, que é fiel em toda a minha casa. Boca a boca falo com ele, claramente, e não em enigmas, pois ele vê a forma do Senhor" (Números, 12:6-8).

Até o Êxodo, os israelitas não chegavam a ter uma religião. Apenas acreditavam numa espécie de promessa. Mas durante um período de 40 anos, vagueando pelo deserto, os anjos implantaram o evangelho e a religião de outro mundo... o Reino dos Céus.

Um grupo selecionado de pessoas foi devidamente instruído em questões de comportamento, ética e culto... Moisés, Abraão, Pe­dro, São Tiago, Jacó e assim por diante. Jacó encontrou anjos em muitas ocasiões. Eram tantos uma vez que ele disse: "Este é o exér­cito de Deus" (Gênese, 32:2). Os ensinamentos visavam a que as pessoas na Terra aprendessem os valores do amor, a Regra Áurea e a crença na vida eterna.

No livro de Atos, Cristo instruiu os discípulos a levarem a mensagem de seu mundo para todo o mundo deles.

E Cristo disse ainda, no Novo Testamento: "Vós sois cá de bai­xo, eu sou lá de cima; vós sois deste mundo, eu não sou deste mundo" (João, 8:23). Ele disse que estava em contato constante com seres de seu mundo e que os chamava de "anjos". Disse que os an­jos estavam muito preocupados com o sucesso da mensagem que traziam para a Terra.

Depois que terminei de ler as anotações da Bíblia, passei para os outros livros que David me dera.

Nas Planícies de Nazca, no Peru, encontra-se o que parecem ser pistas de aterrissagem com milhares de anos de idade. No mesmo local, há desenhos de animais, pássaros e um vulto com um capacete similar em formato aos que são usados pelos astronautas modernos. As pistas de aterrissagem e os desenhos só podem ser vistos de avião, a uma altitude considerável.

O calendário astrológico de Tiahuanaco, na cidade de Tiahuanaco, quatro mil metros acima do nível do mar, registrava simboli­camente um conhecimento astrológico baseado na premissa de uma Terra redonda, há 27 mil anos. As revoluções da Terra, em harmo­nia com o sol, lua e outros planetas, estavam corretas.

A Lenda de Tiahuanaco falava de uma espaçonave dourada que viera das estrelas.

Há em Sacsahuaman um monumento de rocha de 20 mil to­neladas, que foi extraída e transportada por uma boa distância, de­pois virada ao contrário.

Foram encontradas vitrificações de areia no Deserto de Gobi e em antigos locais arqueológicos iraquianos, similares às vitrificações de areia produzidas pelas explosões atômicas no deserto americano de Nevada, em nosso tempo.

Textos cuneiformes e tábuas de Ur, um dos mais antigos escritos da humanidade, falavam em deuses que percorriam os céus em "naves" ou deuses que vinham das estrelas com armas terríveis e poderosas.

Os esquimós falavam das primeiras tribos levadas para o norte por deuses com asas de metal.

Os sábios dos mais antigos índios americanos mencionavam um pássaro do trovão que lhes trouxe fogo e frutos.

As lendas maias contavam como os "deuses" eram capazes de conhecer tudo: o universo, os quatro pontos cardeais da bússola, o formato redondo da Terra. O calendário maia era tão desenvolvido que seus cálculos se projetavam por 64 milhões de anos.

As lendas religiosas do povo pré-incaico diziam que as estrelas eram habitadas e que os "deuses" vinham da constelação das Plêia­des. Inscrições cuneiformes sumérias, assírias, babilônias e egípcias apresentavam o mesmo quadro: "deuses" vindo das estrelas e de­pois voltando; viajando em naves de fogo; possuindo armas terríveis e prometendo imortalidade às pessoas.

A mais antiga epopéia indiana, Mahabarata, que tem cerca de cinco mil anos, falava de máquinas voadoras, navegadas em grandes alti­tudes, por longas distâncias, que podiam viajar para frente, para trás, para cima, para baixo, em velocidades incríveis.

Nos livros tibetanos, Tantyua e Kantyua, havia constantes referências a máquinas voadoras na pré-história. Eram chamadas de "pérolas no céu". Os dois livros ressaltavam que tais informações eram secretas, não estavam destinadas às massas. Capítulos inteiros do Samaranguva Sutradhara foram devotados a descrever aeronaves cujas caudas cuspiam "fogo" e "mercúrio".

Povos antigos levaram milhares de toneladas de pedra de um lugar para outro. Os egípcios trouxeram seu obelisco de Asuan, os construtores de Stonehenge trouxeram seus blocos de pedra do su­doeste de Gales e de Marlborough, os escultores da Ilha da Páscoa (conhecida pelos nativos como Ilha do Homem-Pássaro) trouxeram as suas estátuas de pedreiras a quilômetros de distância. E a Grande Pirâmide de Giza continua inexplicável. As anotações de David diziam que, de acordo com as moder­nas pesquisas científicas e geológicas, a Grande Pirâmide está cons­truída no exato centro geofísico da Terra. Em outras palavras, se alguém juntasse as massas de terra do planeta, a Grande Pirâmide estaria no epicentro exato. Suas medidas correspondem ao diâmetro polar e ao raio da Terra. Também correspondem acuradamente às medidas de tempo e movimento dos equinócios e ao ano solar. E isso é apenas o começo das maravilhas matemáticas incluídas na Pirâmide de Quéops. Nos corredores, câmaras e passagens da Gran­de Pirâmide, as medidas correspondem em tempo a acontecimentos históricos de extrema importância das civilizações da Terra, só que foram profetizados, ao invés de simplesmente registrados. A época da grande inundação foi profetizada com toda precisão, assim como a ascensão e queda dos movimentos espirituais e seculares do ho­mem. Lá estão o nascimento e crucificação de Cristo, os grandes reinos, as guerras mais importantes entre nações, o desenvolvimento de movimentos religiosos e morais entre os povos. As duas guerras mundiais estavam acuradamente profetizadas no tempo, assim como os respectivos acordos posteriores a cada uma. Tornei a ler que os ensinamentos de Cristo sobre a reencarnação haviam sido suprimi­dos da Bíblia durante o V Concílio Ecumênico, em Constantinopla, no ano 553. A própria Enciclopédia Católica declara, em relação ao V Concílio Ecumênico, que seria excomungado "qualquer um que defendesse a crença na pré-existência das almas".

Eu estava exausta quando terminei de ler o que David me dera. Era verdade que já tomara conhecimento, aos fragmentos, ao longo de minha vida, de muita coisa que lera, mas de certa forma era di­ferente encontrar tudo compilado e organizado, em forma escrita, por respeitáveis pesquisadores, com o apoio de cientistas, arqueólo­gos e teólogos. O acúmulo de indícios era grande demais para não se levar a sério, muito menos para se ignorar. Eu não podia certamente ignorar.

Não sei o que eu realmente pensava. Só sei que não conseguia parar de pensar a respeito.

Não entendia por que tudo aquilo me parecia uma novidade tão grande. Vira ocasionalmente pela televisão um cientista ou alguém como Carl Sagan aludir à "inevitabilidade da vida extraterrena no cosmos". Mas nunca vira ninguém apresentar a um só tempo todo aquele material impressionante, que parecia apontar para a necessidade de se levar mais a sério nosso passado extraterreno... particularmente em relação à compreensão espiritual e ao nascimen­to do monoteísmo.

Eu sabia que qualquer argumento científico que um cientista pudesse apresentar era geralmente rejeitado por outro. Nenhuma das chamadas "autoridades no assunto" parecia concordar com ou­tra sobre qualquer coisa. Talvez fosse por isso que nunca houvera uma apresentação unificada, muito menos um tratamento unificado de todas as ciências para esclarecer o problema.

E o mesmo se aplicava à Igreja. Dava para imaginar um pregador fundamentalista dizendo de seu púlpito eletrônico, na manhã de domingo, que Moisés fora guiado através do deserto por uma espaçonave.

Comecei a rir. Sentada em minha varanda, olhando para o minueto dos maçaricos, desatei em gargalhadas. Era absurdo. Tudo estava pelo avesso.

Uma coisa, porém, era certa. Como criança e como adolescente, agora como uma adulta, vivendo na terra livre da democracia americana, eu não fora educada a pensar além dos perímetros do que meus professores tradicionais queriam que eu soubesse. Tinha agora de aprender a pensar por conta própria. Talvez tudo aquilo não passasse de uma loucura, mas Colombo não fora a primeira pessoa a dizer que o mundo não era plano. E quando se pensava nisso, des­cobria-se que era muita arrogância de nossa parte presumir que éramos a única raça racional no universo.

David me telefonou.

— Como está, Shirl?

— Sentada a pensar, com a cabeça pegando fogo.

— Gostaria de fazer uma viagem?

Respondi sem pensar:

— Claro. Para onde?

— Peru.

– Aos Andes?

— Por que não?

– Isso mesmo... por que não? Ainda tenho duas semanas de folga. Não me importo para onde vou. Quero apenas ir a algum lugar.

– Encontre-se comigo no aeroporto de Lima dentro de dois dias.

– Está combinado.

 

                                           Capítulo 19

No vôo noturno para o Peru, eu me sentia como nos velhos tempos, quando partia para qualquer lugar sempre que me dava vontade, livre e desimpedida. Aventura num súbito impulso... so­zinha, viajando rapidamente. Satisfeita, relaxei e dormi.

Estava sobrevoando Lima quando acordei. Em algum lugar, sob a massa de nevoeiro, havia uma cidade costeira. Era pior do que Los Angeles. Preenchi meu cartão de entrada no país, declarando o dinheiro que levava. E fiquei imaginando como seria uma ditadura militar sul-americana.

Desembarquei no Aeroporto Jorge Chavez numa manhã fria, pisando na pista de cimento. Não dissera a ninguém para onde es­tava indo. Não quisera dizer. Apenas informara que estava deixando a cidade numa viagem. A maioria dos meus amigos e meu agente estavam acostumados a isso. Havia muitos viajantes internacionais no avião, não apenas peruanos de volta ao país. Obviamente, Lima era um centro de negócios internacionais... quase sempre escusos, ilegais, nada tendo a ver com uma ajuda altruísta aos pobres. Lá estava eu começando outra vez: uma liberal rica transbordando de compaixão. Ninguém me reconheceu e não causei qualquer impres­são quando apresentei meus documentos e passaporte. Os inspetores alfandegários, policiais, carregadores, autoridades do aeroporto... todos enfim... usavam uniformes que pareciam sobras dos Keystone Cops, os guardas famosos do tempo do cinema mudo. E as pessoas agiam como tal. Eu esperava um comportamento militar rígido, ao melhor estilo da Gestapo, embora o governo fosse supostamente controlado por um grupo militar de esquerda. Eu nada sabia a res­peito do Peru. Conhecia apenas a civilização inca, as Planícies de Nazca e que a maior parte do Peru era constituída por montanhas.

Arrumara uma mala de bom tamanho com roupas para o frio... um par de botas de campanha, muitas fitas e um gravador, blocos para anotações. O que quer que fosse me acontecer, eu que­ria que tudo ficasse registrado por escrito.

Exceto pelo fato de não ter preenchido um documento em triplicata, nada de inconveniente aconteceu, enquanto passei pela bar­reira da alfândega e fiquei esperando pela mala no outro lado. O sol acabara de subir para acabar com o frio da manhã quando olhei além do muro para o local em que as pessoas esperavam pelos re­cém-chegados. Não reconheci ninguém. O aeroporto não poda ser mais depressivo. O carrossel deu a volta e minha mala apareceu. Peguei-a, juntamente com a valise, encaminhei-me para a rua, onde olharia ao redor mais um pouco, antes de me decidir a pegar um táxi e seguir para o centro da cidade. Não me sentia assustada.

Saí pela entrada principal do terminal. No instante em que olhei para um táxi velho e todo amassado, mas que dava a impres­são de que poderia me levar ao Sheraton local, senti alguém me ti­rar a mala da mão. Virei-me no mesmo instante e deparei com David.

— Oi, Shirley!

Ele tinha um cachecol de lã enrolado no pescoço e usava um blusão com zíper na frente. Estava bronzeado e sorridente.

— Oi. Mister Livingstone, eu presumo?

— Qualquer coisa que quiser, madame. Fez uma boa viagem?

— Foi tranqüila.

— Seja bem-vinda às montanhas que eu tanto amo. Salva­ram-me a vida muitas vezes. São pacíficas.

Fitei-o nos olhos, não precisando saber mais do que isso.

— Vamos embora. E não se impressione com o meu calham­beque. Não consegui arrumar um Land Rover. Mas essa é a melhor maneira de se viajar nas montanhas.

— As montanhas? Vamos direto para os Andes?

— Claro. Seria muito difícil evitar. O Peru é os Andes. Mas espere só até vê-los. São diferentes dos Himalaias, mas igualmente deslumbrantes.

Ele pegou também a valise e me conduziu a um Plymouth ver­melho muito velho, de aluguel, estacionado numa rua de terra, ao lado do aeroporto.

— Comeu alguma coisa no avião?

— Comi.

— Ótimo. Então só vamos parar para comprar provisões, an­tes de seguirmos diretamente para Llocllapampa.

A poluição, misturada com o nevoeiro, me fez tossir. Pensara em Lima como uma cidade de recreio à beira do mar, inundada de sol, com um clima perfeito, as pessoas circulando em sarongues sul-americanos. Mas ali estava uma cidade úmida, desolada, deprimente.

David contou que havia uma lenda sobre Lima baseada em fatos. Quando Pizarro invadira a civilização inca, através de uma oferta de paz, os incas haviam orientado o exército invasor para o local em que estava agora a cidade de Lima. Orgulhosamente, eles mostraram a região aos conquistadores nos meses de janeiro e fe­vereiro, que eram os melhores localmente em termos de tempo, equiparando-se aos mais amenos do mundo. O resto do ano, no entanto, era sombrio. E o tempo mudara assim que os conquista­dores se instalaram. Os incas afirmaram que era apenas um acaso. Mas é claro que o tempo jamais melhorara e que não demorara muito para que a maioria dos soldados de Pizarro estivesse com pneumonia.

— O que pode me dizer a respeito desses incas, David? Por que eles eram tão inteligentes?

— Acho que eles eram simplesmente fáceis de ajudar. Os po­vos primitivos não combatem os milagres, apenas relaxam e presu­mem que alguém sabe mais do que eles.

— Alguém?

David limitou-se a me piscar.

—- Ah, sim... eu tinha esquecido.

Apontei para cima, afagando meu joelho. David acendeu um dos seus Camels e perguntou-me se havia alguma coisa especial que eu precisaria, porque teríamos sorte se encontrássemos um lampião de querosene no lugar para onde íamos.

— Sei que está acostumada a regiões rudes, Shirley, mas desta vez não haverá sherpas, carregadores ou quem quer que seja para fazer qualquer coisa para você. Terá de se virar sozinha.

Ele sugeriu papel higiênico, alimentos enlatados, uma garrafa térmica e qualquer coisa a mais que pudesse me manter aquecida. Ele avisou que também não havia aquecimento no lugar para onde estávamos indo.

Pensei no tempo em que ficara numa cabana nos Himalaias, quando tivera a certeza de que morreria congelada. Meu único re­curso fora o de utilizar uma técnica de controle da mente sobre a matéria, concentrando-me na coisa mais quente em que podia pen­sar... o sol. O corpo todo tremendo, os dentes chocalhando, eu deitara num catre improvisado, fechara os olhos e encontrara em algum lugar do centro da mente o meu próprio sol laranja. Concen­trara-me ao máximo que podia e não demorara muito para que sentisse o suor me escorrer pelo corpo, até finalmente ter a impres­são de que a luz do dia me inundava a cabeça. Recorrera a essa técnica todas as noites, durante as duas semanas que passara na neve himalaia. Parecia agora que eu poderia ter de fazer a mesma coisa outra vez e receava estar fora de forma.

A estrada que levava ao centro de Lima era pavimentada, mas estava apinhada de caminhões que cuspiam uma fumaça negra e carros imundos. As pessoas andavam calmamente em ternos velhos e me perguntei a que escritórios estariam indo tão cedo.

- Lima está à beira da revolução — comentou David. — A taxa de inflação está subindo tão depressa que as pessoas estão descobrindo ser impossível continuar a viver assim. É terrível. E, como sempre acontece, são os pobres que mais sofrem. Seus salários não mudam, mas os preços sobem sem parar. Mas não estou muito in­teressado nos descalabros do governo por aqui. Afinal, é apenas uma questão de tempo. E é sintomático do que está acontecendo com os governos do mundo inteiro. Concorda?

Limitei-me a assentir e David acrescentou:

— E agora vamos a um supermercado peruano para comprar­mos o que for necessário... certo?

Era uma sensação estranha estar num novo lugar e ao mesmo tempo saber que não era o fato de ser novo que me trouxera até ali.

O suposto supermercado era um pouco parecido com um pe­queno armazém de propriedade individual de Nova York. Podia não chegar a ser como uma loja de delicatessen da Primeira Avenida, mas tive a impressão de que o proprietário podia aumentar os pre­ços sempre que tivesse vontade. As carnes, queijos, pães e massas estavam em balcões fechados por vidro. Havia um refrigerante cha­mado Inca Cola, que parecia ser a marca predileta de David. Ele comprou uma caixa e um abridor de garrafas. Abriu uma garrafa ali mesmo, sacudiu um pouco para tirar o gás e bebeu.

— Entre os cigarros e esta deliciosa porcaria, Shirley, acho que se pode dizer que não sou exatamente um obcecado pela saúde.

Lembrando a minha taxa baixa de açúcar no sangue, comprei amendoim em lata, atum em lata, queijo e uma dúzia de ovos, que esperava poder cozinhar de alguma forma. Havia muitos doces tí­picos peruanos, mas eu não podia comê-los. Descobri-me a imaginar o que aconteceria se tivesse algum problema nas montanhas.

David falava espanhol fluentemente. Fiquei surpresa, mas não disse nada. Falando com o caixa, o formato do rosto de David parecia quase se moldar às palavras peruanas. Ele parecia ter a facilidade de assumir a nacionalidade do lugar em que estava. Ao sair­mos da loja, David comentou:

— No fundo, o mundo não passa de um palco e somos todos atores nos apresentando diante do cenário.

— Mas você tem uma vantagem, David: parece saber como será o roteiro.

— Mais ou menos isso. — David pôs a caixa de Inca Cola no banco traseiro. — Só que nunca se pode prever o que farão os atores que não leram o roteiro.

Ele piscou-me e depois abriu a porta do velho Plymouth. Não chegamos a atravessar Lima e assim não posso dizer como era exata­mente a cidade. Sabia que havia um Sheraton em algum lugar e também o Museu de História Natural, reconstituindo a civilização dos incas e até mesmo a pré-incaica.

Seguimos para nordeste, deixando a cidade e nos encaminhan­do para os contrafortes dos Andes. David disse que já estivera mui­tas vezes no Peru. Informou que o país tinha três vezes o tamanho da Califórnia. Por causa do terreno variado, havia três climas diferentes. Em nosso caminho, havia uma cidade de cerca de 100 mil habitantes, chamada Huancayo, localizada no alto dos Andes. Mas não ficaríamos em Huancayo, pois era muito poeirenta e por de­mais apinhada. Pararíamos no caminho, num lugar pequeno, que mal existia, sobressaindo apenas por sua água mineral, alguma co­mida, um pouso para se dormir e a vista mais espetacular do firma­mento que se podia ter na terra. Ele tornou a me piscar ao descrever o lugar. Embora o tempo nos arredores de Lima continuasse nubla­do e sombrio, comecei a me sentir feliz. Huancayo ficava a 360 qui­lômetros de Lima... e tudo montanha acima...

Paramos num bazar fora da cidade, onde David sugeriu que eu comprasse um poncho de alpaca. Disse que o próprio estilo do pon­cho seria extremamente apropriado, servindo de agasalho e de co­bertor ao mesmo tempo. Era lindo e macio, de uma cor de aveia que eu adorava. David não fez qualquer comentário sobre o meu casaco de couro de Ralph Lauren, que tive a maior satisfação em cobrir. Além do poncho, comprei também uma echarpe que combi­nava. O preço dos dois artigos foi de 18 dólares. No momento, eu estava sentindo calor no meu jeans, mas já viajara bastante para saber que nada era suficientemente quente nas montanhas de­pois que o sol desaparecia.

Começou a ventar na estrada, por onde se via índios metidos em seus ponchos. Passamos por uma comunidade Chosica a 43 qui­lômetros de Lima.

— As pessoas vêm para as terras baixas à procura de uma vida melhor e terminam num lugar como este — comentou David, sacudindo a cabeça.

Não havia relva, não havia árvores, a terra era árida, à exceção de uns poucos cactos. As colinas ao redor eram de rocha e areia.

Cartazes coloridos anunciavam a Inca Cola. Passou por nós um caminhão com colchões de molas usados, ostentando uma foto­grafia de Che Guevara no pára-brisa.

— Eles admiram Guevara por aqui — disse David. — Por­que ele morreu por suas idéias.

As pessoas ao longo da estrada pareciam tibetanas.

Fios de telefone, seguindo para o topo dos Andes, se cruzavam por cima de nós.

Pequenas barracas vendiam frutas, sorvete e mais Inca Cola.

Um trem transportando carvão passou por nós, seguindo em direção contrária, por trilhos que se estendiam ao lado da estrada.

Cerca de 45 minutos depois que saímos de Lima, o sol rompeu a camada de nuvens e o céu tornou-se azul-turquesa. O ar ficou mais fresco, as árvores eram agora verdes. Lembrei-me mais uma vez como nossas vidas haviam se tornado terrivelmente contamina­das nas grandes cidades, independente do lugar do mundo em que se vivesse. Até mesmo os sorrisos nos rostos das pessoas eram mais acentuados ali. Senti-me feliz, sem qualquer preocupação pelo que devia esperar, ou pelo que poderia me acontecer.

Pequenas comunidades afloravam por toda parte, com índios trabalhando nos campos ao redor. Quanto mais subíamos, mais a paisagem se tornava verde. Passamos por Cocachacra. Começamos a seguir o começo de um rio.

— É o Mantaro — informou David. — Espere só até vê-lo mais no alto.

Um túnel ferroviário atravessava os penhascos, que eram agora mais íngremes. Burros apareciam ao longo da estrada. Passamos por uma fundição.

— É aqui que aprontam o carvão extraído das montanhas — disse David. — São comunidades que se dedicam exclusivamente a isso. Vivem e morrem fazendo apenas isso.

A comunidade se chamava Rio Seco e por trás o solo era mais rico e mais preto. O leito do rio foi se tornando ainda mais verde. Pequenas plantações eram agora visíveis, por baixo das colinas vul­cânicas.

O rio começou a se agitar sobre rochas.

Havia pequenas pedras quadradas destacando-se no solo, com flores colocadas na frente.

— São túmulos — explicou David. — Sempre que uma pes­soa morre num acidente de carro aqui nos Andes é enterrada no próprio lugar em que ocorreu a tragédia.

Santuários de um azul-turquesa estavam postados em posições estratégicas.

Estávamos agora a 1.500 metros de altura. Comecei a me sen­tir um pouco sonolenta. Uma mulher num poncho rosa listrado car­regava água para o seu destino, que David disse que devia ser Rio Seco, agora três quilômetros atrás de nós.

Continuamos a subir, cada vez mais.

Havia pequenos vales entre os contrafortes, o gado pastando no fundo. Assim que acabou a pavimentação da estrada, que passou a ser de terra, esburacada, com muitas costelas, David sugeriu que parássemos num restaurante à beira da estrada e comêssemos arroz e feijão. Estávamos viajando há mais de uma hora sem parar; ele informou que ainda teríamos cinco ou seis horas de estrada pela frente.

O restaurante parecia uma lanchonete mexicana, mas no que me interessava a comida podia ser digna de um gourmet peruano. David pediu água mineral e nos acomodamos para comer arroz e feijão, omelete com um molho quente, batatas cozidas frias com uma espécie de maionese de amendoim. Estava tudo delicioso. Co­mecei a respirar um pouco mais depressa. David percebeu e me levou para os fundos do restaurante, onde uma máquina de oxigê­nio aguardava, plenamente equipada, para socorrer qualquer turista que sofresse enjôo da altura. Estávamos agora a cerca de três mil metros de altura. Como eu já dançara a uma altura de 2.400 me­tros sem qualquer problema, imaginava que não teria qualquer di­ficuldade. Mas aspirei assim mesmo um pouco do oxigênio e dei­xei a máquina, sentindo que estava prestes a levantar vôo.

Durante o almoço, conversamos principalmente sobre os cos­tumes peruanos, como David achava que o governo militar de es­querda não agüentaria por muito mais tempo, como o Peru impor­tava quase todo o seu petróleo do Oriente Médio, quando dispunha de um amplo suprimento sob as montanhas. David estava relaxado, feliz por eu estar também, parecia menos veemente que em Los Angeles. Recusou um drinque oferecido pelo proprietário, pretex­tando a altitude e a necessidade de se manter plenamente desperto para o longo e sinuoso caminho que teríamos pela frente. Não fa­lamos sobre qualquer coisa pessoal e deixamos o restaurante assim que acabamos de comer. Havia dois jarros no balcão perto da porta.

Um deles tinha a inscrição "Para Llorar" e o outro "Para Reir". por baixo, em inglês, estava escrito: "Sua mulher o ama?"

Voltamos ao Plymouth e seguimos viagem. Passamos por uma pequena aldeia mineira. Vi um cartaz que informava que estávamos mos 3.746 metros acima da superfície do mar. Até aquele momento, eu nada sentira de mais sério. David disse que, se eu sentisse a náu­sea da altitude, poderia encontrar mais oxigênio num centro mineiro próximo, chamado Casapalca. Mas não era necessário. A folhagem desapareceu das montanhas e restou apenas uma argila vermelho-laranja. Pessoas socavam pedras ao longo da estrada, lembrando-me do que eu vira nos Himalais. Muitas fumavam. David comentou que 70 por cento dos peruanos eram índios, mas a meus olhos as feições podiam ser orientais ou mongóis. Os cabelos eram de um preto azulado, os olhos pareciam passas, flutuando em rostos bron­zeados, curtidos. As mulheres usavam tranças pretas compridas e grossas, chapéus brancos engomados, abas com fitas pretas. Os ves­tidos eram de algodão, de cores fortes.

A extração de minério de ferro e outros minerais parecia ser o trabalho em torno do qual giravam as vidas de todos. Pirâmides de terra mineral se destacavam nos vales em que os índios trabalhavam, usando pás manuais para encher os vagões.

— Há uma vasta riqueza em minérios nestas montanhas — comentou David. — E são minérios que não se encontram em qual­quer outro lugar da terra.

Ele discorreu por algum tempo sobre os deslocamentos geológicos sob os Andes, dizendo que por todo o Peru havia civilizações soterradas há milhares de anos, esperando para serem reveladas em escavações, se o governo peruano pudesse dispor de dinheiro suficiente para isso.

— Mas isso nunca vai acontecer, Shirley. Eles não têm o respeito devido pelo passado. É por isso que estarão sempre condenados a cometer os mesmos erros no futuro.

Passamos agora por uma comunidade mineira chamada Chicla. Havia uma igreja branca, mas todos os outros prédios eram pinta­dos de turquesa. Até mesmo os ônibus que passavam por nós eram turquesa. Talvez as pessoas estivessem querendo pintar a cor do céu.

Mais índios peruanos trabalhavam ao longo da estrada. O car­ro rateou e morreu pouco antes de entrarmos num túnel.

— É a falta de oxigênio — explicou David. — Não há com­bustão suficiente. Mas não se preocupe que já vai pegar outra vez.

E foi o que aconteceu, no momento em que ouvíamos uma ma­nada de lhamas conduzida pelo túnel, parecendo a imagem de car­tão-postal em que se escrevia "Gostaria que você estivesse aqui agora".

A fumaça do cano de descarga do Plymouth era agora azulada. Os contornos das montanhas mudaram. Eram mais horizontais, me­nos verticais. Havia neve nos cumes. Flores silvestres cresciam por toda parte, as cores se tornando mais brilhantes à medida que su­bíamos.

Passamos por sepulturas à beira da estrada, adornadas com flores silvestres roxas.

Passando por San Mateo, comecei a avistar eucaliptos e pinhei­ros. Os camponeses peruanos vestiam-se como tibetanos a levarem rebanhos de cabras. As mulheres usavam um vermelho iridescente, misturado com laranja.

Havia uma igreja católica em cada comunidade.

O solo da montanha era agora de um vermelho profundo. Mi­nério de ferro, explicou David. Roupas pendiam de varais ao sol, que se tornava mais e mais quente, à medida que subíamos. Duas mulheres, usando chapéus brancos de palha, estavam sentadas a tricotar com lã de lhama.

A estrada era agora rochosa, não pavimentada. Um porco sel­vagem peludo passou entre duas construções, com um cartaz da Mobil Oil num lado e um da Coca Cola no outro.

A estrada era perigosamente estreita. David comentou que não raro um ônibus rolava pelo precipício.

Embora o sol fosse bastante quente, os homens usavam suéte­res e gorros de lã, como se a associação básica deles com as monta­nhas fosse fria. Durante o dia inteiro contemplavam os cumes ne­vados lá em cima.

Podíamos ver a estrada sinuosa lá embaixo. E lá no alto, no cume de uma montanha, a seis mil metros de altitude, tremulava uma bandeira peruana.

A temperatura estava mais fria agora. O sol era brilhante, o ar puro e rarefeito. E a cerca de 4.600 metros de altitude deparamos com um cartaz.

Estava ao lado de uma ferrovia que cruzava a chamada Abra Anticona e dizia: "PUNTO FERROVIARIO MAS ALTO DEL MUNDO". Ali perto, havia outro cartaz: "EXISTEN LOS PLA­TILLOS VOLADORES CONTACTO CON OVNIS".

Olhei para David, franzindo as sobrancelhas. Ele sorriu e disse:

— Não sou o único maluco, não é mesmo?

— O que significa isso?

— Significa que as pessoas vêem muitos discos voadores por aqui e é do conhecimento comum, mas ninguém se perturba com isso.

Respirei fundo.

— Viemos ver discos voadores? É por isso que estou aqui?

— Talvez.

— Deus do céu!

– É, sim... é exatamente por isso.

Seguimos em frente. A estrada era mais suave agora, estávamos descendo. As montanhas voltaram a exibir manchas verdes, um rio magnífico, cor de cobre, corria paralelo à estrada.

– Aí está o Rio Mantaro, exatamente como eu queria que você o visse — disse David. — Já contemplou alguma coisa mais bonita? A planície mais à frente é o que chamamos de Vale do Rio Mantaro.

As montanhas eram como colinas ondulantes. As cores eram uma mistura de amarelo e laranja, sombras púrpuras caindo, en­quanto o sol da tarde descia para o que chamávamos nos filmes de Hora Mágica.

Nuvens intumescidas pairavam imóveis no céu claro quando tive a minha primeira visão de um Shangri-La andino.

David parou o Plymouth à beira da estrada, onde dois homens ao lado de uma construção de adobe estavam juntando com as mãos barras quadradas de argila.

— É aqui — disse David. — Isto é Llocllapampa. É onde va­mos ficar.

— Em que lugar?

— Ali.

Ele apontou para uma construção de adobe no outro lado da estrada. Exceto por outra estrutura, a cerca de 20 metros de distância, não havia quaisquer outras construções ao redor.

— É o nosso hotel, Shirley. Vamos até lá.

Eu não podia acreditar no que David estava dizendo. Não ha­via hotel nenhum. Três mulheres socavam uma pilha de grãos à beira da estrada, enquanto um galo corria de um lado para outro, entre as suas saias.

Elas sorriram para nós e acenaram para David. Ele falou-lhes em espanhol e gesticulou para mim, como se estivesse nos apresentando. Acenei com a cabeça. Ele pegou nossas malas no carro e me disse para segui-lo.

Através de uma porta de madeira separada no meio, permi­tindo que se abrisse independentemente a parte de cima ou a de baixo, entramos num pátio de terra, dentro do prédio de adobe. Havia uma passagem pavimentada que levava ao que descobri serem dois quartos. Eram contíguos, mas não havia porta de ligação. Abri a porta de um dos quartos. No outro lado da porta havia uma peça qualquer de algodão, pendurada de um barbante. O chão do quarto era de terra batida, tinha um catre baixo. Ao lado do catre havia um caixote que servia como mesinha-de-cabeceira. Não havia eletricidade e não havia banheiro. Havia uma manta na cama e um travesseiro encardido... cinzento... sem lençóis... sem fronhas... Virei-me para David.

— Você tem uma grande imaginação.

Ele sorriu.

— É verdade.

— Isto é para valer?

— É, sim. Não é grande coisa, mas é o Lar. Estou no quarto ao lado.

Havia alguns pregos cravados na parede de adobe.

— Seu armário, Shirley. Se vai desfazer as malas, é melhor fazê-lo agora, porque não conseguirá ver coisa alguma depois que o sol se puser.

— Ahn... — murmurei, relutante.

— Estarei de volta num instante.

David desapareceu em seu quarto, que era exatamente igual ao meu. Bateu na parede fina e disse que o Rio Mantaro seria o nosso banheiro e me levaria até lá dentro de um momento. Mas eu de­veria pôr alguma roupa mais quente, antes de sairmos para o nosso primeiro banho de água mineral.

Aquilo não era ficção científica. Era indiscutivelmente algo saí­do de uma das minhas vidas antigas.

 

                                           Capítulo 20

Abri a mala que percorrera o mundo inteiro em minha com­panhia, pendurei um suéter, o poncho novo e um chapéu de sol. Jamais esquecia de levar um chapéu de sol onde quer que fosse, porque meu rosto se convertia num tomate depois de duas horas ao sol em grande altitude. Deixei as roupas de baixo na mala imagi­nando se teria a possibilidade de levá-las. Agradeci a Deus (ou a alguém) por minha menstruação ter acabado recentemente. Não teria de me preocupar com isso. Olhei para o relógio, que por al­gum motivo sempre me fazia sentir segura. Tirei as fitas, o gravador e blocos de anotações. Anotei rapidamente como o lugar parecia e sentia. A cada momento do sol poente que passava eu compreendia como a noite seria fria.

David bateu na minha porta, entregou-me uma toalha e orien­tou-me a levar meu poncho e pôr as botas, para a nossa primeira visita aos banhos minerais.

Banhos minerais com aquele frio?

— Exatamente — confirmou David. — A princípio, parece a morte, mas espere só para ver o que acontece depois...

Atravessamos o pátio e voltamos à estrada. As montanhas ao redor estavam envoltas por sombras púrpura. Animais de terreiro, que eu não podia ver, gorgolejavam e cacarejavam. Uma cadela sarnenta aproximou-se de nós, abanando o rabo, acompanhada por três filhotes. Os homens que trabalhavam nas barras de argila ha­viam desaparecido. No outro lado da estrada, em frente ao nosso "hotel", havia uma construção de adobe em que se lia a palavra COMIDA. Isso significava que as pessoas lá dentro cozinhariam para nós. Através da porta, bem alto, pude ouvir um rádio cheio de es­tática a transmitir uma partida de futebol. Lá dentro, índios perua­nos riam e aclamavam jovialmente, circulando entre as mesas, ar­madas para a noite. A sopa fumegava num fogão a gás. Uma índia velha, sem qualquer dente, perguntou se não gostaríamos de tomar a sopa.

— Não — disse-me David — Vamos comer depois. Ficare­mos com azia das águas minerais se comermos agora.

Eu não estava mesmo com fome, mas perguntei se alguém poderia cozinhar alguns ovos para mim, a fim de ter algum alimento disponível, em caso de necessidade. David pediu à índia que pegas­se os ovos no Plymouth. Ela sorriu e assentiu.

David levou-me para os fundos do prédio. Tirou uma lanterna do bolso e acendeu-a. Descemos alguns degraus. Eram íngremes e, na semi-escuridão, fiquei com receio de tropeçar. Podia estar em Shangri-La agora, mas algum dia teria de voltar a dançar. Podia ouvir a água correndo lá embaixo. E um momento depois, ao pôr-do-sol, abriu-se diante de mim o glorioso Rio Mantaro. Corria pelos rochedos da montanha, respingava os galhos pendentes das árvores enraizadas nas margens altas. Havia alguns pequenos outeiros cobertos de vegetação na descida até as águas. Uns poucos índios estavam acocorados na margem, envoltos por seus ponchos, contemplando o sol a se pôr atrás das montanhas. Mesmo com a pouca claridade, pude perceber que o rio era laranja.

— Vamos logo — disse David, levando-me para o que parecia ser um cercado de adobe, coberto por folhas de zinco. Não é grande coisa ao se olhar, mas espere só até sentir como é lá dentro.

Ele abriu uma tosca porta de madeira e entrou. Tirou de outro bolso uma vela, acendeu-a e colocou-a num banco de madeira dentro do galpão. Ao lado do banco havia um buraco fundo, um poço borbulhante de água efervescente.

— Este é um dos famosos banhos minerais dos Andes — comentou David.

Olhei para o poço. Estava faiscando e parecia que não era apenas pela luz de vela. A impressão era de ser da própria água. Uma camada ligeira de vapor pairava por cima. Ajoelhei-me no chão de terra e passei a mão pela água. Para minha surpresa, sen­ti-a quente e borbulhante... efervescente... como champanha.

– Os minerais fazem a água borbulhar — explicou David. — E é uma coisa maravilhosa para ossos e músculos doloridos. Vai ver só.

A mão estava congelando quando a retirei da água.

– Devo entrar de corpo inteiro nesta água e não congelar até a morte quando sair? — perguntei, rindo.

– Por alguns minutos, vai sentir um frio terrível. Mas, depois, estará mais quente do que se não tivesse entrado.

Fiquei de pé, meio constrangida. Gostaria de poder entrar na água completamente vestida. Como se costumava fazer ali? Eu de­veria tirar todas as roupas com David parado ao meu lado?

– Pode se preparar — disse David. — Ficarei esperando lá fora. Chame-me quando estiver pronta.

Bem devagar, tirei o poncho e pendurei-o num dos cinco pregos na parede. Perguntei-me quantas pessoas fariam aquilo à luz de vela. Tirei depois o suéter e o jeans. Tentei imaginar o que as pessoas faziam depois que saíam da água. Estudei o melhor lugar para pen­durar cada peça, a fim de poder me vestir depressa quando saísse. Ao final, tirei rapidamente a calcinha e as meias, porque a esta altura estava tremendo de frio. Ora, que tudo se danasse! Deixei as roupas numa pequena pilha no banco de madeira, imaginando como pareceria a David quando ele voltasse.

A chama da vela bruxuleava, projetando sombras volúveis nas paredes frias. Fui até o poço de água borbulhante e lentamente afundei a perna direita. Esperava encontrar um fundo e foi o que aconteceu. Era um pouco escorregadio. Borbulhas picantes aderiam à minha pele. Afundei na água até o pescoço. Era como se tivesse acabado de mergulhar numa taça gigantesca de soda quente e bor­bulhante. A sensação era maravilhosa.

Tive a impressão de que flutuava. Era difícil me firmar no fundo. Parecia que estava andando na água. Havia um buraco quadrado no outro lado, por onde a água escorria para o outro lado. Ao que parecia, o poço era constantemente alimentado de algum lugar abaixo da superfície.

— Pode entrar! — gritei para David. — Já estou na água e é sensacional!

Ele passou pela porta.

— Espere só até sentir a água penetrar por sua pele.

David virou-se, tirou o blusão, o suéter, camisa, calça, cuecas, botas e meias em cerca de cinco segundos, dizendo:

— Você vai se virar agora. Obedeci.

— Pronto, Shirley.

Tornei a me virar. Ele estava na água, no outro lado do pequeno poço. Respirei fundo, tentei relaxar.

— Terá de me aturar um pouco, David. Tudo isso é muito sú­bito. Sei que já fiz uma porção de coisas na vida, mas tenho a sen­sação de que nada foi igual a isto.

Eu me sentia completamente ridícula.

— Tem toda razão, Shirley.

— Sei disso.

Respirei fundo outra vez. Nem mesmo tinha vontade de inda­gar o que ele estava querendo dizer.

— Balance os braços para cima e para baixo deste jeito, Shir­ley. Vai sentir as borbulhas aderirem à sua pele.

Balancei os braços e a impressão era de duas varetas de coquetel remexendo em champanha que acabara de ser derramado. Parecia que o movimento gerava o seu próprio calor. Era diferente dos banhos sulfurosos no Japão. Este parecia mais brando e sereno. Aquelas águas possuíam o seu próprio vigor, energia e vivacidade.

David manteve-se imóvel, a luz da vela bruxuleando na parede oposta. Seus olhos azuis estavam iluminados, pequenas gotas pingavam do queixo. Imaginei como eu estaria parecendo aos olhos dele. Não podia pensar em qualquer comentário a fazer e, assim, perguntei:

— Vem aqui com freqüência?

David riu.

— Claro. — Ele olhou para a vela. — Quer experimentar uma coisa?

Pensei: Oh, merda, vai começar!

— Em que está pensando? — indaguei, correndo os olhos ao redor, simulando indiferença.

— Está vendo a chama da vela?

— Claro.

— Pois focalize a chama fixamente e respire fundo.

— Respirar fundo?

— Isso mesmo.

Respirei fundo, quase engasgando com alguma saliva. Passara o dia inteiro a respirar fundo.

— Posso largar os braços? — perguntei, querendo dar a impressão de que estava disposta a experimentar qualquer coisa.

— Claro. Vão flutuar nesta água. Na verdade, seria muito difícil afundar nesta água.

Pensei: Isto é um alívio. Pelo menos não me afogarei se aconte­cer o pior. Larguei os braços, como se não estivessem presos ao corpo, sorri à luz da vela. Senti que se elevavam ligeiramente.

Essa não!, pensei. Agora ele vai pular através do poço e me pegar por baixo dos braços, que nunca poderei abaixá-los, por causa dessa maldita flutuação.

– Concentre-se agora na vela, até sentir que é a própria chama.

Santo Deus!, pensei. Ele deve estar brincando. Até eu ser a chama da vela? Nem mesmo posso neste momento ser eu, quem quer que isso fosse.

Olhei fixamente para a chama a oscilar. Tentei não piscar. Respirei fundo outra vez. O coração batia forte. Tinha certeza de que David poderia ouvi-lo reverberar através da água. Permaneci imóvel, olhando para a chama, conforme ele sugerira. David perguntou suavemente:

— De que está com medo, Shirl?

— Eu, com medo?

– Não — murmurou ele, zombeteiramente. — A mulher que está parada atrás de você.

Eu me sentia ridícula agora. Pensei em todos os homens que haviam dito: Ei, quero apenas deitar com você e relaxar. Não quero fazer mais nada.

David interrompeu-me o devaneio:

— Se eu estivesse pensando nisso, Shirl, tudo o que teria de fazer seria sugerir, não é mesmo?

Ele era mesmo direto. Não pude conter uma tosse.

- É que... é que... estou hesitante...

— Pois não precisa hesitar. Quero apenas que experimente uma coisa, não é o que você está pensando. Além do mais, nem mesmo quero.

Senti-me indignada. Ele nem mesmo queria?

— Por que, David? Por que não?

— O que está querendo dizer com "por que não"? Não foi para isso que viemos até aqui. Se pensou que fosse, terá de ser paciente e me dar tempo.

Ri alto, produzindo um eco nas paredes.

— Vamos, Shirl, concentre-se na chama da vela e respire fundo.

— Está bem, acho que não tem mal algum. Afinal, já tivemos duas vidas juntos, não é mesmo?

Ele riu também.

— É, sim.

Era evidente que David pensava que eu era uma idiota. Tentei outra vez me concentrar na chama da vela e David me orientou, gentilmente:

— Respire fundo outra vez.

— E agora concentre-se na chama da vela, como se fosse o centro do seu próprio ser. Faça com que a vela seja você. Pense apenas na vela... em mais nada.

Concentrei-me e respirei ainda mais fundo. Acho que terei mesmo de fazer isso, pensei. Além do mais, David está certo. Sou uma idiota e ele é de fato maravilhoso. Senti que a mente começa­va a relaxar. Concentrei-me com mais relaxamento. Senti as pálpe­bras um pouco pesadas, até que podia dizer que os olhos estavam parcialmente fechados, mas ainda assim a vela era visível.

Ouvia a voz de David no fundo da minha mente, suavemente:

— Assim está ótimo. Você está indo muito bem.

Eu gostava do som da voz de David por cima da água. Parecia saltar junto com as borbulhas. Senti que minha respiração se torna­va cada vez mais lenta. Gradativamente, percebi que o coração pulsava no mesmo ritmo da respiração. De alguma forma, os dois ritmos pareciam sincronizados. O tempo foi se arrastando lentamente, até que eu não tinha mais consciência dele. A vela continuava a bruxulear, mas agora começava a ser o centro da minha mente. Todo o meu corpo parecia também flutuar, não apenas os meus braços, mas toda eu. Devagar, bem devagar, tornei-me a água e cada borbulha que era uma parte componente da água. Era um sentimento duplo maravilhoso. Eu estava totalmente consciente, sen­tindo plenamente o meu ser, mas ao mesmo tempo era parte de tudo ao redor. Lembro da percepção de que cada borbulha era parte de toda a água que me cercava, quase como se a água não pudesse ser o que era sem que cada borbulha cumprisse a sua parte para manter o todo. Sentia as paredes frias que alojavam o poço de água quente, muito embora estivesse perdida em algum lugar no meio. Sentia sombras, clarões, uma brisa amena. Mas, acima de tudo, sentia o interior de mim mesma. Sentia o reflexo involuntário da minha própria respiração. Parecia ser uma entidade em movimento que escapava ao meu controle. E depois senti a interligação da minha respiração com a vibração de energia ao meu redor. O próprio ar parecia vibrar. Na verdade, eu era o ar. Eu era o ar, a água, a escuridão, as paredes, as borbulhas, a vela, as rochas por baixo da água, até mesmo o som do rio correndo lá fora. E depois senti minha energia vibrar para David. Como eu era parte de tudo ao redor, isso incluía David também. Parei nesse ponto. Pude sentir que tomava a decisão consciente de não seguir adiante. Outra vez a hesitação, medo ou qualquer outra coisa que se queira chamar levou-me a deter o fluxo de relaxamento e a tentativa de me tornar "uma" com tudo.

— Assim está bom — ouvi David dizer. — Foi ótimo. O que achou de sua primeira tentativa de meditação respiratória?

Estendi os braços para fora da água e perguntei que horas eram.

— O tempo não tem importância. O que importa é que você o esqueceu por algum tempo. Você respirou. Respirou de verdade. Respiração é vida. Não sente que descansou profundamente?

Era mesmo o que eu sentia. Não restava a menor dúvida. Perguntei-lhe se eu fora hipnotizada.

— Não, Shirl. Foi apenas uma expansão de percepção auto-rela-xante. Você pode aprender a rejuvenescer assim instantanea­mente. Respirar é um ato involuntário. Se puder aprender a regu­lá-lo, permanecerá jovem por mais tempo.

Mas que merda, pensei, numa espécie de sonho, Elizabeth Arden deveria ensinar isso em seus cursos de beleza. Podia ouvir David me falando, mas ainda distanciada da minha própria respi­ração. Ele falava sobre os animais, explicando que os que viviam mais tempo eram os que respiravam menos. Alguma coisa sobre tartarugas gigantes respirando apenas quatro vezes por minuto e vivendo por 300 anos. Lembro de ter pensado que eu também poderia respirar apenas quatro vezes por minuto se tivesse sangue frio. Mas tinha sangue quente e estava começando a me sentir trê­mula.

— Está interessada em viver muito tempo, Shirl?

Sacudi a cabeça. Sentia as borbulhas de champanha em meu cérebro.

— Viver por muito tempo? Não sei.. E você?

— Eu?

— Não. O homem que está parado atrás de você.

David sorriu.

— Se estou interessado em viver por um longo tempo?

— Isso mesmo.

— Estou, sim... mas acho que isso não vai acontecer.

Havia alguma coisa na maneira como ele falou que me provo­cou um calafrio. E o calafrio me surpreendeu.

— Ninguém poderia viver neste frio por muito tempo. E estou gelada agora. O que você me diz?

— Eu digo que está na hora de sairmos.

Ele virou o rosto para a parede. Saí da água devagar. Meus dentes chocalhavam como se fossem postiços, as mãos tremiam tanto que mal consegui pegar a toalha pendurada no prego da pare­de. Depois, com toda força que podia, esfreguei os braços, pernas, pés e tronco, até sentir o sangue aflorar de novo à superfície e co­meçar a formigar com um calor agradável. Minhas roupas estavam frias em contato com a pele, mas logo o calor do corpo refletiu-se por dentro da lã do suéter e meias.

— Estou me sentindo maravilhosa agora, David. Essa água é de fato uma coisa sensacional.

— Pegue a lanterna no meu bolso e fique me esperando lá fora. Sairei assim que acabar de me enxugar.

O ar frio da montanha devia estar em torno dos 15° C, mas eu me sentia muito bem. Dei a volta para o lado do galpão, contem­plei o rio e as montanhas escuras. A vida era um romance, pensei. Dois meses antes jamais poderia prever, mesmo nos delírios de imaginação, que poderia estar ali, fazendo aquilo. E estava adorando. E também aprendia que confiar nos melhores instintos dentro de mim tinha as suas virtudes. Podia-se contar com eles.

Senti-me subitamente faminta; e quando aquelas pontadas surgiam, eu sabia que tinha de comer imediatamente ou a taxa de açúcar no sangue cairia abruptamente.

— Muito bem — disse David, já inteiramente vestido, esfre­gando as mãos e sorrindo. — Vamos subir e comer alguma coisa. Eles terão leite quente à nossa espera e um guisado índio, feito de carne, legumes e ervas das montanhas.

Ele apagou a vela e guardou-a no bolso, comentando que precisaríamos dela mais tarde, em nossos quartos. Sugeriu também que eu usasse o rio como banheiro agora, porque mais tarde estaria frio demais para realizar a jornada.

Agachei-me por trás de um rochedo e usei o lenço de papel que metera no bolso. Tornando a subir os frios degraus de pedra, especulei se não estaria muito frio quando quisesse dormir.

— Não se preocupe com o momento de dormir — disse David, parecendo outra vez ler os meus pensamentos. — Tudo acontecerá no devido momento.

Se ele tivesse falado isso uma hora antes, eu presumiria que suas intenções eram outras.

A partida de futebol transmitida pelo rádio ainda continuava quando entramos no prédio de COMIDA na estrada lá em cima. Crianças com o nariz escorrendo brincavam entre as mesas, que esta­vam armadas para os turistas que poderiam estar explorando a região e sentissem vontade de comer. Uma jovem cozinheira tinha um filho agarrado nas saias e outro pendurado nas costas. Usava o chapéu branco engomado costumeiro e a aba com a fita preta, em­bora fosse de noite.

David pediu leite quente e guisado. Conversamos sobre a comida. Comentei que adorava a "comida porcaria" e ele disse que era extremamente prejudicial comê-la. Respondi que sabia disso, mas adorava assim mesmo. Ele comentou que era muito importan­te cuidar do corpo, porque ao mesmo tempo se estaria cuidando do espírito. Disse que era apenas uma questão de química. Eu falei que não era muito boa em qualquer das duas coisas. David deu-me uma aula sobre alimentação natural. Informei-o que já ouvira a maior parte antes. Enquanto ele falava, refleti sobre o seu compor­tamento durante toda a noite. David parecia compelido a me ensinar tudo o que podia, o mais depressa possível. Estava dizendo que eu deveria relaxar, mas ele próprio parecia tenso. Estava criticando os meus hábitos alimentares prejudiciais, mas ele também os tinha. David parecia às vezes quase pomposo e presunçoso. Parecia às vezes não estar realmente desfrutando a vida que dizia que eu deve­ria relaxar e aproveitar.

Era muito engraçado: eu estava pressionando Gerry a se soltar e assim saber mais quem era, enquanto David fazia a mesma coisa comigo. Imaginei o que Gerry pensaria se pudesse me ver naquele momento. Pensei em minha canção-tema, If They Could See Me Now (Se Eles Pudessem Me Ver Agora). Imaginei o que um público de Las Vegas pensaria se eu surgisse no palco e contasse algumas piadas sobre descoberta espiritual nos Andes. Eu parecia mesmo ser duas pessoas... ou 10 pessoas, não sabia muito bem. Seria uma atriz porque estava em contato mais profundo com alguns dos papéis que desempenhara em outras vidas?

A mulher com a criança nas costas veio até nossa mesa. Trazia leite quente e guisado. Servi-me como se comer pudesse sair de moda a qualquer momento.

A comida estava deliciosa, temperada com ervas das monta­nhas de que eu nunca ouvira falar. Passei pedaços do pão de fabri­cação doméstica no molho grosso. E lembrei-me da época mais feliz da minha vida, acampando na Virgínia, quando o mundo e a vida pareciam muito simples.

— Vamos fazer uma longa caminhada amanhã — disse David. — Eu lhe mostrarei uma parte da região e poderá compreender porque amo tanto este lugar.

Ele me levou através da estrada de volta ao hotel. As estrelas estavam tão perto que eu tinha a impressão de que poderia esten­der a mão e arrancá-las do céu como se fossem ameixas. Quase que podia ouvir as montanhas ao redor oscilarem sob as estrelas. Os Andes não eram como os Himalaias butaneses. Pareciam mais baixos e mais espalhados. O ambiente não era tão isolado. E por causa da cultura difusa dos índios peruanos, eu não me sentia tão insignificante como acontecera no teto do mundo, com os lamas butaneses.

Nossos quartos eram úmidos e bolorentos. Imaginei quem já teria dormida ali. A temperatura estava bem mais baixa quando entrei. David entregou-me a vela, informou que tinha outra, dese­jou-me boa noite.

— Antes, Shirl, um pequeno aviso sobre dormir num clima frio: se deitar sem roupas, por baixo do poncho, vai descobrir que é muito mais quente.

Não pude entender. Estava com a intenção de vestir tudo o que tinha ali.

— Não faça isso. O corpo gera a sua própria aura de calor. Experimente e compreenderá.

Despedi-me de David. Não queria ouvir mais nada dele. Tirei as roupas debaixo do poncho. Meti-me sob o cobertor de lã na cama e rezei (por assim dizer) para me manter aquecida. Os pés esta­vam como gelo. Esperei. Como a lã de alpaca era macia, a sensação era agradável. Esperei mais um pouco. Senti que contemplava minha própria caldeira. Acalmei a mente e os dentes chocalhando da melhor forma possível. Pensei no cobertor elétrico à beira do mar e como adorava dormir em meio a uma chuva fria com as janelas abertas e o cobertor ligado no máximo. Naquele momento, no alto dos Andes, o cobertor elétrico era o meu item predileto da civilização moderna. Pensei novamente em Gerry. Era bom estar sem ele. Pensei como seria impossível para mim descrever a Gerry em que estava empenhada. Imaginei onde ele estaria agora. Imaginei se es­taria de fato vendo onde se encontrava. Pensei em meu show. Onde estariam meus ciganos naquela noite? Meus dançarinos... no Joe Allen's, comendo cheeseburgers e comentando que os grandes astros não tinham tanto talento como eles. Pensei no que era ser uma grande estrela quando realmente não se merecia.

Não demorei muito a perceber que os músculos estavam rela­xando no espaço aquecido entre meu corpo e as cobertas. Era o espaço que estava quente, não as cobertas. Compreendi de repente que a maior parte das coisas que não entendíamos em nossas vidas era o que não podíamos ver. A verdade invisível era a verdade que exigia mais empenho para se descobrir. Ver não era acreditar... de jeito nenhum. Contemplar era mais importante.

Com uma espécie de tremor relaxado, peguei no sono, com apenas o som do silêncio ao redor. E depois, em algum lugar por trás do prédio, ouvi porcos grunhindo.

 

                                     Capítulo 21

O sol elevou-se acima das montanhas por volta das cinco e meia da manhã. Não entrou no meu quarto porque não havia jane­las, mas o contraste com o frio da noite era tão acentuado que pude sentir o calor dos primeiros raios mesmo através das paredes. O poncho me envolvia confortavelmente. Passara a noite inteira bem aquecida.

Levantei-me, os pés descalços no chão de terra fria, pensando na lógica contraditória que era me vestir agora, quando o sol estava de fora, e despir na noite fria. Sabia que o ar da montanha estaria fresco e que o sol queimaria por causa da altitude. Pus o chapéu de sol da Califórnia e saí. Podia sentir o cheiro de fumaça matutina saindo do outro lado da estrada. Contornando o Piymouth, deparei com David sentado num muro de argila, observando os mesmos homens do dia anterior a aprontarem tijolos que seriam usados numa casa que estavam construindo.

— Bom dia, Shirl. Como passou a noite?

— Exatamente como você disse. A nudez representou calor. Eu não teria acreditado, mas foi o que aconteceu.

– É o começo de um hábito para você, não é mesmo?

— Como assim?

— Está finalmente acreditando porque é.

— Tem razão. O que temos para comer?

— Seus ovos estão cozidos. Assim, você só precisa, agora de uma bolsa e um pouco de sal. Vamos pedir leite quente e pão

Entramos na casa onde se comia. A mulher com o filho nas costas sorriu jovialmente, com uma compreensão implícita de que a ligação amorosa de dois quartos que David e eu estávamos tendo era simplesmente outro estranho costume norte-americano.

— Eles não fazem perguntas pessoais por aqui — explicou David. — Qualquer coisa que fizermos é só da nossa conta e de mais ninguém.

Sentamos junto a uma janela e avistei as mulheres da tarde anterior continuando a socar os grãos.

— Estão separando o joio do trigo —- disse David, piscando-me um olho... o que era um hábito constante. — Comeremos o pão daquelas espigas dentro de um ou dois dias.

À claridade da manhã, reparei que as telhas do nosso hotel de adobe eram vermelhas. Os galos em torno das mulheres tinham penas da mesma cor.

David recostou-se na cadeira e ficou me observando. Acho que ele resolvera deixar crescer a barba, pois não se barbeara naquela manhã... e provavelmente não poderia tê-lo feito, mesmo que quisesse. Ele tinha um rosto realmente bonito.

— Dormiu bem, Shirl? Teve algum sonho?

— Não me lembro. Mas sei que me senti bastante satisfeita por estar aquecida.

Eu não tinha a sensação de estar sendo analisada. Comemos o pão e tomamos o leite quente. Descasquei um ovo cozido e comi-o. Num lugar como aquele, uma pessoa não precisava de muita coisa... exceto talvez mais de si mesma.

— Podemos sair para uma volta, David?

— Grande idéia.

Saímos para o sol. O ar era revigorante em meu rosto. Meu coração estava um pouco disparado por causa da altitude. Estiquei os braços e respirei fundo, levantei o rosto para o sol.

Adorava as montanhas mais do que qualquer outra parte da Terra. Para mim, as montanhas pareciam ter passado por muitas coisas, mas se mostravam pacientes e resignadas, sabiamente silen­ciosas. Representavam todos os extremos em que eu podia pensar, como altura, profundidade, topo, fundo, grandeza, insignificância, luta, realização... tudo, enfim. E independente da adversidade que pudesse se abater sobre uma montanha, esta parecia pairar por cima com sua resiliência insuperável, recuperando-se depois que tudo aca­bava, mesmo quando havia uma erupção dentro de si.

— Vamos dar uma volta pela beira do rio — disse David. — Não quer escovar os dentes?

Eu estava com a escova no bolso de trás da calça. Ao descer­mos os degraus de pedra e passar pelo galpão em que se tomava banho de água mineral, David saiu correndo na minha frente, sal­tando, com os braços estendidos, quase como um garoto de jardim de infância na hora do recreio. Correu pela margem do rio, balan­çando a cabeça de um lado para outro, numa demonstração de pura alegria infantil.

— Adoro este lugar — ouvi-o gritar para o rio. — Você, rio... está correndo tão depressa... por quê? Onde vai que tem de chegar no horário?

Soltei uma risada, meio espantada, corri para ele.

— Adoro a água, Shirl. Ali tem outra fonte mineral para beber, escovar os dentes ou se lavar.

Ele correu em grandes saltos para a água, ajoelhou-se. Mergulhou a cabeça na água e levantou-a um instante depois, rindo e cuspindo ao sol. Os cabelos grisalhos escorriam em torno do rosto, ele sorria com um abandono tão alegre que também me senti como uma criança.

Ajoelhei-me ao lado do poço e olhei. Manchas brancas sulfu­rosas flutuavam na superfície. Uma correnteza lenta, vinda do fundo, produzia novas borbulhas no centro. David baixou as mãos em concha para a água, recolheu alguma e bebeu.

— Você tem de se acostumar ao gosto, mas é sensacional para o organismo. Limpa as impurezas e acerta a digestão.

Peguei a escova, mergulhei na água e depois provei com a lín­gua. Era como sal medicinal.

— Não está triste hoje, não é mesmo, David?

— Claro que não. Nunca fico triste quando estou ao ar livre. Este lugar é real demais para se sentir triste. As grandes cidades me deixam triste porque as pessoas se importam demais com as coisas erradas. Quando se está em contato com isto, também se está em contato com as pessoas.

Ele sacudiu os cabelos molhados e depois se estendeu de costas, as mãos cruzadas atrás da cabeça, olhando para o céu. Terminei de escovar os dentes, levantei-me, espreguicei-me ao sol. David também se levantou e começamos a andar.

Eu abria e fechava os olhos, piscando para o céu de um azul brilhante, com algumas nuvens brancas. Era mesmo lindo. E ficou ainda mais quando pensei que a beleza simplesmente existia por si mesma. A beleza não precisava de uma razão, não podia ser explicada. Apenas era. Não tinha nada a ver com ninguém. Não preci­sava ser partilhada para ser apreciada. A beleza era a beleza. E era tão necessária como comida e água.

Senti que David ao meu lado estava relaxado e modesto.

— Sente-se melhor, Shirl?

— Claro. Estou me sentindo maravilhosa.

Ao mesmo tempo em que falava, imaginei como seria sentir-me totalmente bem, sentir-me totalmente eu mesma... sentir que me conhecia completamente. E me senti como um clichê ambulante. O que havia de novidade nisso? Não estavam todos procurando pela mesma coisa... conhecerem a si mesmos? Três passarinhos azuis estavam pousados no galho de uma árvore, contemplando-me en­quanto passava. Nem sequer piscaram. A audácia deles me fez soltar uma risada alta.

O Rio Mantaro borbulhava e corria ao nosso lado. Peguei um galho e comecei a arrastá-lo por trás de nós. Gostava da sensação de não ter nada para fazer além de arrastar um galho.

— David? — Rompi o que sentia ser um devaneio dele. — Acha que existe uma coisa a que se poderia chamar de natureza humana?

Ele levantou os olhos, respirou fundo.

— Acho que não. Creio que nos ensinam quase tudo o que sentimos. Creio que as pessoas podem fazer, ser e pensar qualquer coisa... depende do que aprendemos.

Continuei a arrastar o galho, pensando em minha passagem pela China. Fora essa viagem que me levara a chegar à mesma con­clusão. Os chineses haviam agido de forma brutal e cruel entre si, no seu passado amargo, porque era esse o comportamento da época, o ânimo do dia, a atitude a ser adotada para se manter a hierarquia social do sistema de classes.

Mas Mao dissera que o povo chinês era um papel em branco no qual se poderia escrever alguma coisa bonita. Ele acreditava que a natureza humana era basicamente uma questão de educação... podia-se educar o povo a adotar padrões de comportamento que fossem mais democráticos, mais justos, mais generosos. Usara uma espécie de tática militante da marreta na educação da justiça. O povo era forçado a ser justo através da educação e reeducação. Todos tinham de participar das sessões de autocrítica, em todos os níveis. Ninguém podia se esquivar à participação. Fora um esforço gigantesco e monumental de terapia de grupo, no empenho de mudar os padrões do passado. E parecera dar certo. A privacidade e o direito de não participar não eram respeitados, mas também o país estava tão conturbado que todos compreendiam que tinham de se unir. Assim, para mim, a característica principal da Nova China fora a das pessoas trabalhando juntas para mudar o que acredita­vam ser as suas naturezas básicas.

A China moderna dizia agora que um punhado de pauzinhos de comer, mantidos juntos firmemente, era algo mais inquebrável que um par. E ao se manterem juntos, eles estavam se permitindo uma reavaliação total do sistema de valores que fora sagrado por séculos. Pareciam compreender que estavam revolucionando as prioridades que sempre haviam julgado imutáveis. E a grande lição para eles parecia ser o que estavam aprendendo sobre si mesmos.

Pensei muitas vezes que devia se descobrir que não se é necessariamente competitivo, territorial, invejoso ou materialista. Talvez o verdadeiro conflito humano não fosse pelo que realmente acreditávamos que éramos ou não éramos, mas sim o que podería­mos ser, se nos permitíssemos a opção de confiar nas possibilidades de nosso potencial espiritual. E se o nosso potencial fosse o de ser mais espiritual, então onde entravam os novos chineses? Eu nada podia descobrir de espiritual na Nova China. Na verdade, eles pa­reciam escarnecer dos conceitos espirituais, quase com medo de que as noções espirituais pudessem frustrar sua revolução.

Podia perceber a revolução chinesa seguindo o caminho de todas as revoluções modernas, se contestassem a necessidade do reconhecimento espiritual do homem. Eu começava a acreditar que a coisa que estava errada em nós era a recusa em viver com o co­nhecimento de que Deus, a palavra que usamos para um conceito de energias espirituais incrivelmente complexas, era o elo que falta­va e que deveria ser parte de nossas vidas cotidianas.

Começava agora a fazer sentido a teoria de Buckminster Fuller de que a maior parte do que transpira dentro da atividade humana da realidade é totalmente invisível, inodora e intangível. Ele dizia que 99 por cento da realidade só podiam ser compreendi­dos pela mente metafísica do homem, guiada por alguma coisa que apenas se podia sentir como verdade.- Dizia que o homem era mente metafísica. E o cérebro era apenas um lugar para se acumular in­formações. Dizia que somente a mente metafísica do homem pode se comunicar. O cérebro não podia. Que o homem era um sistema auto-suficiente de microcomunicação e a humanidade era um siste­ma de macrocomunicação. E que todas as informações sobre tudo, inclusive Deus, estavam sendo continuamente transmitidas e recebi­das através das ondas eletromagnéticas, só que não percebíamos isso, porque usávamos apenas um por cento de nossa capacidade de perceber a verdade.

Mas o que ajudaria o homem a compreender não apenas de onde vinha, mas também para onde estava indo? Como podia o Estado responder às indagações profundas, angustiadas e ansiosas sobre nossas origens e nosso propósito? Como podia o Estado ser útil em nos pôr em contato maior com o motivo pelo qual estáva­mos vivos, quando tinha medo de que seu poder pudesse se dissipar se assim agisse?

Eu podia compreender por que os comunistas nunca haviam conseguido dominar a Índia. Seria impossível suprimir a espiritua­lidade profunda do povo indiano. Jamais permitiriam que o Estado substituísse sua filosofia espiritual, mesmo que isso implicasse co­mer melhor. Suas convicções espirituais eram as mais antigas do mundo. Os indianos haviam sido ensinados e condicionados a se manterem em contato com suas naturezas espirituais desde que Krishna andara sobre a terra, a tal ponto que isso era parte de tudo o que faziam ou deixavam de fazer. Um regime comunista teria a maior dificuldade para levar o povo indiano a aceitar o materialis­mo revolucionário de Marx. Até mesmo o Mahatma Gandhi não conseguira tirar as vacas das casas ou das ruas, porque os indianos ainda acreditavam na transmigração das almas (que era a precurso­ra animal da reencarnação em formas humanas). Talvez eles este­jam certos a respeito de tudo isso, pelo que podemos saber.

Era espantoso para mim como se processava o desenrolar do mistério. Desde que houvesse um fio solto, era possível desenredar toda a meada. Enquanto a raça humana continuasse a ser basica­mente infeliz em seu empenho para compreender o Grande Misté­rio, haveria o impulso de frustrar toda e qualquer autoridade que se interpusesse no caminho... quer fosse a Igreja, o Estado ou a própria sociedade revolucionária. Não importava para onde olhás­semos, a resposta parecia estar numa força que era mais inteligente, mais sábia, mais compreensiva e mais benevolente do que nós. E antes de podermos compreender essa força, teríamos de compreen­der a nós mesmos. Nós passávamos assim a ser o Grande Mistério. Não era... quem é Deus? Era... quem somos nós?

 

David e eu fomos subindo pela correnteza acima, ao longo da margem rochosa do rio laranja. O sol da manhã estava quente e tremeluzente. Eu suava por baixo do poncho. Tirei-o e David car­regou-o para mim. O chapéu de sol da Califórnia parecia de repente o bem mais precioso. As botas de solas de borracha eram sólidas e resistentes ao encontro das rochas pontudas. Os pés estavam confortáveis. E quando sentia os pés confortáveis, eu me sentia confortável.

Sentei numa pedra e escrevi algumas anotações. David entrou no rio.

Montanheses peruanos se espalhavam pelas margens do rio, lavando roupas ou simplesmente deitados, quase sempre ao sol. O senso de tempo deles parecia lento, sem qualquer pressa, quase indiferente ... e os movimentos do corpo correspondiam a essa impressão. Sorriam às vezes quando passávamos, mas geralmente se limitavam a reconhecer nossa presença com um aceno de cabeça. David cumprimentava-os com seu espanhol afável. Ele não parecia ser um estrangeiro em parte alguma.

— Há um outro poço sulfuroso não muito longe daqui, rio acima, Shirl. Não quer lavar os cabelos ou qualquer outra coisa? É sensacional tomar banho ao sol.

A perspectiva era atraente. Levantei-me, imaginando se poderia mais tarde reconstituir a despreocupação emocional que experimen­tara ali nos Andes. Não sabia se seria capaz de lembrar como aquilo estava próximo da paz suprema na próxima vez em que vi­vesse detida num engarrafamento no centro de Nova York ou quan­do a iluminação não funcionasse direito durante um número dramá­tico do meu show, ou quando meu último filme fosse um fracasso de bilheteria. Ou Gerry... permitiria que a amargura e a frustração me dominassem por causa do curso de obstáculos humanos em que se convertera nosso relacionamento? Poderia compreender os obstáculos dele e também os meus com mais perspectiva, se evocas­se a imagem de um momento à margem do Rio Mantaro, quando o sol estava quente e meus pensamentos se elevam às alturas?

Continuei a arrastar o galho, enquanto subíamos para o poço sulfuroso. Ouvia o canto de passarinhos se espalhando pelo ar rare­feito. Imaginei se algum dia seria possível ver música e ouvir as cores do arco-íris.

— Em que está pensando, Shirl?

— Não sei... Estava apenas imaginando se não haveria algu­ma espécie de técnica que uma pessoa pudesse usar para sentir paz interior e felicidade profunda quando ao redor estiver desmoronar do o seu pequeno mundo.

David deu de ombros.

— Não sei se daria certo para você, mas alguém já descreveu uma técnica antiga a que chamavam de "O Sonho Dourado". Se você está, por exemplo, tentando pegar no sono, mas não consegue porque a mente se agita com supostos problemas de que não conse­gue se livrar.. . Vou contar o que eu faço. Penso no que me tor­naria naquele momento a pessoa mais feliz do mundo. Imagino tudo em detalhes... o que estaria vestindo, com quem estaria, a impres­são que teria, o tempo que estaria fazendo, a comida que estaria em meu prato, no que estaria tocando... todas essas coisas que me fariam feliz, nos mínimos detalhes. E, depois, fico esperando. Tenho toda a cena na mente... criada por minha vontade e fanta­sia. Acaba se tornando tão real que me sinto feliz. Começo a rela­xar e a vibrar numa freqüência regular, não demora muito e estou dormindo... ou "no plano astral", como gosto de chamar.

Escutei atentamente, imaginando-me a fazer o que ele descre­via. Parecia perfeitamente possível.

— Então esse é o Sonho Dourado?

— Exatamente. Um bom título para uma canção.

— Tem razão. Muito melhor do que "O Sonho Impossível".

— Quando a pessoa se concentra no que a faria feliz, produz uma freqüência eletromagnética que opera interiormente e a aquieta literalmente para um sentimento de paz interior.

— Portanto, é simplesmente o predomínio da mente sobre a matéria?

— Claro. Mas creio que há muito mais envolvido. Para mim, creio que há uma demonstração de fé para mim mesmo e de fé em mim mesmo. Em outras palavras, se eu tenho fé suficiente em alguma coisa, particularmente através da concentração ou medita­ção, qualquer outro nome que você prefira chamar, então estou inconscientemente irradiando energia positiva que pode em última análise resultar na consecução.

— Mesmo que seja irrealista o que você quer?

— Quem pode saber o que é irrealista?

— Está querendo dizer que a fé move montanhas?

— Provavelmente. Acho que a mente positiva é ilimitada. Portanto, incluiria até as montanhas. Aparentemente, é algo parecido com o que Cristo fazia. Só que é mais do que apenas fé, concentração ou meditação. Ele tinha o conhecimento de como fazê-lo.

— E onde o desgraçado obteve esse conhecimento?

— Ele disse que era de Deus. Mas também disse que Ele era o Filho de Deus. Assim, creio que estava nos dizendo que Ele aprendera através de Deus. É o que também dizem todos os avata­res indianos. Não dizem que eles são as razões que podem materia­lizar pão de pedra ou curar doenças. Dizem que Deus lhes con­cede o poder e o conhecimento de realizar suas obras.

— Você é realmente um crente, não é mesmo, David?

— Creio que a maioria das pessoas não se conhece bastante bem para saber o que quer. E que se nos conhecêssemos melhor estaríamos em melhor contato com Deus ou a Fonte Criativa.

Eu estava agora resfolegando, enquanto subíamos ao calor do sol a pino. A altitude estava me dominando.

David adiantou-se um pouco, procurando pela trilha que levava ao poço sulfuroso. Eu estava preparada para a água flutuante. Queria sentar, imergir, pensar no meu sonho, pois descobria subitamente que não era capaz de defini-lo. Não tinha sonho. Não podia imaginar o que me faria especificamente feliz. Não podia meditar sobre os detalhes de cheiros, contatos ou sons de um sonho assim, porque não sabia qual era o meu sonho.

Ele conduziu-me por uma trilha que subia paralela ao rio. Menos de um quilômetro adiante chegamos a uma cabana de ma­deira, onde estava o começo de uma escada escavada na rocha que conduzia a um nicho dentro da montanha. Paredões rochosos se elevavam ao nosso redor, enquanto descíamos pela escadaria es­treita. Lá no fundo estava um poço borbulhante. Três velhas esta­vam na água, com seus chapéus engomados e os pitorescos vestidos nativos. Ao nos verem, cobriram os rostos e se viraram.

— As anciãs da montanha são muito retraídas — explicou David. — Possuem um certo recato em relação à nudez e precisam de sua privacidade. Por isso, vamos virar as costas quando chegar­mos ao fundo. Creio que será o suficiente para que nos deixem em paz.

Um rapaz estava estendido no outro lado do poço, as pernas por cima das pedras. Estava completamente vestido, de jeans e camisa.

— É uma concessão dele às velhas, David?

— Claro. Se não fosse assim, ele também teria de esperar que elas se retirassem. Além disso, as roupas não constituem um proble­ma para ele. Uma curta caminhada até sua casa e estarão secas.

David pegou um ovo cozido, descascou-o e entregou-me.

— Não é bom comer antes de um banho sulfuroso, mas não tem importância.

As velhas saíram da água e subiram os degraus, acenando-nos com a cabeça, estoicamente, ao se retirarem. O rapaz permaneceu onde estava. Fomos até a beira d'água. Manchas brancas sulfurosas faiscavam ao sol, o vapor pairava por cima da água, o calor se pondo em contato com o ar da montanha. David largou no chão o meu poncho e o saco com os ovos.

Estendi-me ao sol e fiquei observando o rapaz. Ele não fez qualquer menção de se retirar, ficou simplesmente olhando para a água.

— O que devemos fazer, David? Despir-nos ou o quê?

- Hum... Vamos ficar com as roupas de baixo. Isso tornará as coisas mais fáceis para todos.

Tirei o jeans, as botas e as meias, ficando com a blusa até o último momento, porque não estava usando soutien. Depois, numa pressa de constrangimento, tirei-a abruptamente e entrei na água. O rapaz continuava a olhar pára a água e David estava ocupado a se despir. Ninguém se importava realmente se eu estava ou não semi­nua.

A água estava quente e formigante, exatamente como na noite anterior. Mas a experiência agora de senti-la ao sol era incandes­cente. Em primeiro lugar, a superfície da água parecia prata dançando. Havia alguma coisa na maneira como o sol incidia sobre as manchas brancas de enxofre que fazia com que a água parecesse prata líquida por baixo. A rocha no fundo era escorregadia, com musgo e algas, mas a densidade me proporcionava o equilíbrio. Perto do centro, encontrei uma rocha confortável em que podia ficar sentada. Afundei até o pescoço. Agora, ao nível dos olhos, o reflexo de prata líquida quase me ofuscava. Senti-me feliz por estar com os óculos escuros e o chapéu. Mas isso é ridículo, pensei. Aqui estou, envolta por tanta beleza natural deslumbrante, mas sinto que tenho de me proteger dos efeitos prejudiciais. Balancei os braços para cima e para baixo, dentro da água, até que todo meu corpo estava coberto pelas borbulhas minerais. Aderiam à pele, provocan­do uma comichão, ardendo ligeiramente, mas por isso mesmo dando a impressão de que meu sangue corria mais depressa. Eu podia sentir o poço ser alimentado de uma fonte subterrânea. A água aflo­rava gentilmente à superfície numa correnteza quente. A superfície do poço estava quente do sol da montanha. E a temperatura do meu corpo estava em algum ponto intermediário. David entrou na água. Estava de sunga. As pernas retas eram musculosas, a esquerda dava a impressão de que quebrara e fora encanada. Era algo que não se podia perceber quando ele estava de calça. O tronco era es­guio, não muito musculoso, os ombros eram mais estreitos do que largos. Não parecia um homem que se exercitava com levantamento de peso, mas a impressão nítida era de que estava em boa forma.

Ele sorriu ligeiramente, como se soubesse que eu o estava examinando, mas não disse nada, enquanto se adiantava e se ajoelhava, imergindo até o pescoço. Respirou fundo e fechou os olhos de prazer pelo calor da água no ar da montanha.

O rapaz não se mexeu. Parecia em transe. A prata líquida pro­vavelmente era capaz de fazer isso a uma pessoa. Perguntei a David.

— Pode, sim, Shirl. É por isso que é tão relaxante. Os montanheses usam as águas tanto para os seus espíritos como para os corpos. Só é uma pena que não tirem as roupas.

Enquanto a água começava a fazer efeito, lentamente, compreendi que estava ficando com azia. Começou com uma pequena contração na parte superior do meu peito e foi se espalhando.