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Planeta Criança



Poesia & Contos Infantis

 

 

 


MISERIA E GRANDEZA DO AMOR DE BENEDITA / J.U.R.
MISERIA E GRANDEZA DO AMOR DE BENEDITA / J.U.R.

                                                                                                                                                   

                                                                                                                                                   

 

 

Biblio VT

 

 

 

 

E que é que se vê nesta ilha, que no mundo não tem comparação? Nem uma vida, nem duas vidas, nem quatro vidas, nem dezoito vidas bastariam para se aprender tudo o que há na ilha. Sabe-se de gente que está nela faz mais de quarenta ou cinquenta encarnações e, a cada reencarnação, por mais bem vividas que tenham sido as anteriores, o encarnado pode até pensar que já compreende muita coisa, mas, quando fica velho, vê que não compreende quase nada, precisa voltar sabe-se lá quantas vezes — Deus não tem pressa nenhuma, para Ele tudo é ontem, hoje e amanhã, só quem vive dentro do tempo somos nós. 
O mundo é perfeito, disse Benebê no  Bar de Espanha, e todos ficaram pensativos.


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Já entrado em anos mas ainda com vigor de mocidade, seria mesmo Deoquinha Jegue Ruço, de pia Deoclécio Pimentel, que, arroxeado e nu por baixo de um lençol amarfanhado, agora jazia defunto, no obscuro leito de uma casinha de porta e janela, na Gameleira? Era por causa disso que Tinoca irrompera pálida e descabelada da dita casinha, na busca escarreirada de seu irmão Lourival Divino Beiço, o qual, depois de ouvi-la cochichar três vezes e só acreditar na terceira, arregalara, revirara e apertara os olhos e, sem falar nada, engolira três copinhos de cachaça um atrás do outro, cometimento inaudito para homem tão disciplinado, que nunca bebia antes das sete da manhã? Seria possível que, em caprichosa pilhéria do Destino, Deoquinha tivesse morrido como sempre dizia que queria morrer, entre os braços e coxas de uma mulher arrebatada? Aquele sol nascente, que começava a cintilar nas marolas da enseada, de fato testemunhara pelas frestas do telhado o momento terrível em que partira para o além a alma de um que nunca envergonhara a ilha, que sempre protegera os mais fracos, dera exemplo aos mais jovens, era fonte de lições de vida e inspirara poetas de todas as partes do Recôncavo? Morrem as lendas, morrem os imortais? 
A verdade, como não ignoram os grandes sábios, é muitas vezes inaceitável. Tanto assim que Lourival, evitando o olhar bisbilhoteiro dos circunstantes e fazendo um sinal enérgico para que a irmã o acompanhasse sem dizer palavra, entrou na casinha com ela, trancou a porta a chave, ferrolho e tramela e foi apurar com os próprios olhos a notícia que tinha acabado de escutar. Meio de bruços, o braço que havia pouco abraçava Tinoca ainda estendido, as pernas em posição de combate, sim, Deus nosso, era Deoquinha Jegue Ruço inquestionavelmente falecido, não havia dúvida possível. Lourival se aproximou, pegou o espelhinho redondo junto à cabeceira da cama, encostou-o no nariz do finado e fez a prova dos nove. O último suspiro já se evolara, nada embaçou o espelho. Morto, morto, morto, nunca mais se ouviria a risada sacudida de Deoquinha Jegue Ruço, nunca mais ele seria visto tirando um bolo de notas do bolso para socorrer necessitados como o próprio Lourival, nunca mais sua figura altaneira se postaria à porta do açougue para comandar a distribuição de carne entre os muitos lares que mantinha, nunca mais se faria silêncio para ouvir a narração despretensiosa e jovial de suas façanhas por todas aquelas terras, nunca mais Deoquinha Jegue Ruço. 
Nunca mais — duras e dolorosas palavras. Lourival sentou-se na beira da cama e dirigiu os olhos para a janela. Não pensou em abri-la porque sabia que lá fora estava gente querendo espiar e ele precisava pensar no que fazer. Mas não ficou nervoso como seria de esperar-se, antes ficou muito calmo e achou natural que, enquanto a cabeça se fazia cada vez mais leve e o quarto em torno se enevoava, a janela se tornasse transparente como aberta para toda a baía e seus contornos arredondados, e as providências a tomar passassem a ser por enquanto secundárias. Sim, havia a santa viúva Benedita, que ainda nem sabia ser viúva, mas se daria um jeito para que soubesse com tão pouca mágoa quanto possível, sempre há um jeito para tudo. Deoquinha estava morto, para a morte não há remédio, e o que não tem remédio remediado está. Mas não, também Deoquinha não estava própriamente morto, viveria tanto quanto a ilha e sua memória. Esta é que é a realidade, pensou Lourival Divino Beiço e a janela se alargou e alteou até tomar toda a parede, e o que se via era tudo. 
 
O que é que se vê nesta ilha, que no mundo não tem comparação? Nem uma vida, nem duas vidas, nem quatro vidas, nem dezoito vidas bastariam para se aprender tudo o que há na ilha. Sabe-se de gente que está nela faz mais de quarenta ou cinquenta encarnações e, a cada reencarnação, por mais bem vividas que tenham sido as anteriores, o encarnado pode até pensar que já compreende muita coisa, mas, quando fica velho, vê que não compreende quase nada, precisa voltar sabe-se lá quantas vezes — Deus não tem pressa nenhuma, para Ele tudo é ontem, hoje e amanhã, só quem vive dentro do tempo somos nós. Para ficar apenas num exemplo, quem compreende os mangues, todas as suas plantas, todos os seus mosquitos, todas as suas mutucas, todas as suas locas, todos os seus siris, sururus, caranguejos e aratus? Ninguém, por mais escolado. E assim tudo mais, das pedras enterradas aos bichos voadores, o que se conta sempre podendo ser verdade ou mentira, nada se logrando provar com prova provada mesmo. 
Mas alguma coisa sempre se sabe, tirado mais daquilo que se sente do que daquilo que se vê. Por exemplo, sinta o ar. O ar da ilha bate e farta o peito, só não faz isso com aqueles que não têm um verdadeiro peito e se fechara para o mundo. Esses vão embora, a ilha cospe. Os outros só saem porque a vida obriga, mas nunca deixam de sonhar que retornaram, e garantem os mais antigos que a fila de almas para reencarnar na ilha já vai de uma ponta do céu à outra, os veteranos por justiça recebendo preferência, mas muita disputa ocorrendo e também muita procura de pistolão de santos. E, depois de fartar o peito, o ar se combina com a água de beber, o de comer, a maresia, a Lua, o Sol e mormente a radioatividade, para fazer a alteração, alteração que todos aqui já nascem por ela alterados, mas os que chegam a gente observa se alterando aos poucos e não raro num piscar de olhos. Casos e mais casos todo dia, se sucedendo um ao outro como formiguinhas pretas enxameando as frinchas das paredes sem jamais cessar. 
A radioatividade possa ser talvez a maior responsável pela justificada fama da ilha de altamente favorecer a propensão para a libidinagem, já de fábrica embutida na maioria das pessoas que não as doentes e incitada logo na primeira respirada que ele ou ela dá na ilha. Se está escondida, presa, amarrada ou amordaçada, pula da toca e escolhe a liberdade, disso não escapando nem mesmo padres e freiras dos mais aferrolhados, como todos aqui lembram, desde padre Amadeu das quatro raparigas à irmã Cecília do juvenil de futebol do São Lourenço, que Deus os tenha em Sua santa paz — gente elevadíssima, padre Amadeu chefe de famílias exemplar e amantíssimo, irmã Cecília responsável pela boa educação de rapazes hoje até altos funcionários da Prefeitura. Se, por outro lado, a propensão é fraca ou acanhada, se avitamina gigantescamente e se desasna mais do que o padre Vieira depois do estalo, em dois ou três dias não mais se reconhecendo a pessoa. Se já é forte e ousada pela própria natureza, aí então se formam os melhores machos e fêmeas do globo terrestre, assim confirmando todo visitante, sem até hoje nenhuma exceção. 
Bem certo que outros fatores não podem ser desprezados, entre os quais a alimentação especialista na produção dos fluidos, hormônios, feromônios e demais humores responsáveis pelos centros mentais e corporais da boa cenosidade. Verdade seja dita, rara é a astenia peniana ou frialdade dos baixios femininos que resistam a uma semana de caldo de sururu três vezes ao dia ou, melhor ainda, caldo de lambreta ou, melhoríssimo ainda, caldo de chumbinho, este último tão plenipotente que seu uso em organismos depauperados ocasiona tonteiras, zumbideiras nos ouvidos, desorientação ou apatetamento, de brando a severíssimo. E não se deixe de dar o seu lugar também à água da fonte da Bica, renomada desde que se tem notícia, por sua força curativa sobre todos os males que afligem a criatura humana, requerendo porém tenaz perseverança no tratamento, razão para que por vezes sobrevenha o desenlace antes de debelar-se o mal, aspecto em que há de reconhecer-se existirem desvantagens do ponto de vista de alguns. Há quem cite também umas catuabas, uns paus-de-resposta, uns chás de caroço de jaca e até de cansanção, mas aí já se passa para o território da Medicina, que extrapola os acontecimentos naturais. 
Tudo isso levado em conta, forçoso é se curvar perante a radioatividade, pois boas águas existem em outras partes, assim como caldos de marisco libertinos, e essas outras partes não se rivalizam com a ilha. A radioatividade, aqui presente desde que Deus fez a ilha brotar do mar, conjumina num só lugar tudo o de relevante para as questões luxuriosas. Não vem ela de uma origem só, como a fonte da Bica, mas se encontra por toda a ilha, de norte a sul e leste a oeste, da beira da maré aos outeirões mais importantes, tanto assim que se diz que, se os americanos largarem a bomba atômica por aqui perto, ninguém na ilha nada sofrerá, por já viver de nascença na mais completa radioatividade, não se consumindo nela da mesma forma que o peixe não se afoga n’água, mas, antes pelo contrário, nela medrando e viçando, a ponto de haver biografias como a de Deoquinha Jegue Ruço, que, se a justiça se fizesse, devia ter merecido a atenção internacional, é que o brasileiro não se dá valor e o nordestino é visto com desdém, embora mal sabendo eles que nós é que desdenhamos deles e, à boca pequena, aqui são tidos quase todos eles ou por pirobos ou por cornos mansos ou por escravos bestas do trabalho, com seus horários até para prevaricar e demais preceitos desnaturais por que se guiam. 
Há os letrados que só se expressam em polissílabos e não podem ver uma proparoxítona que não queiram logo desfrutar, os quais preferem explicações mais rebuscadas, pois a simplicidade lhes traz grande desventura, de maneira que escrevem livros e artigos de jornais para mostrar como tudo se deve à formação histórica do itaparicano. São coisas culturais, dizem eles, mas o que se pergunta a esses sabidórios é por que essas coisas culturais só são assim aqui na ilha e por que não são outras em vez das que são e de que buraco saíram essas coisas culturais. Patati-patatá, retrucam eles com ares de porreta e, se deixarem, como aliás deixam, ficam falando besteira até o fim da existência, sem neres elucidar. 
Além de tudo, embora admitindo que certos animais, como o jegue, o cachorro, o gato, o papagaio, o macaco e alguns outros tenham lá suas coisas culturais e exista até o falado carnaval dos caranguejos, quando eles todos saem do mangue e vão farrear em bando pelo raso das coroas, não se pode afirmar que o animal dê muita importância a essas coisas culturais. E a verdade é que a animalidade da ilha se comporta igual aos homens e mulheres e não se pode olhar para lugar nenhum da ilha, sem que não se dê o flagrante em algum bicho, miúdo ou grande, de asa ou sem asa, passando a vara numa fêmea da mesma espécie, ou mesmo de outra espécie, sendo este, por exemplo, o caso do jegue se imiscuindo na égua, ou — cala-te, boca — dos sem conta que mantêm freguesia com jegas, éguas, bezerras, cabras e ovelhas, para não falar em galinhas — cala-te, boca; emudece, memória. 
E, dando uma trava derradeira nesses homens da cultura, indaga-se a eles se a planta tem coisas culturais. Não consegue a pessoa de bem imaginar que mesmo o mais tanso ou caradura desses culturais venha com a conversa de que a planta tem cultura. Ninguém senão os malucos e os santos homens conversa com as plantas e, portanto, se elas têm coisas culturais, são lá muito fechadinhas entre elas mesmas, até porque não há quem bote fé em depoimento de maluco, nem acredite em santo antes de ele morrer. Porém as plantas da ilha se comportam com o mesmo vigor amoroso do homem e do animal e algumas até envergonham seus donos, a ponto de ter gente que não permite certos pés de pau em seus quintais ou jardins, para não dar mau exemplo às crianças ou não deixar o Coração de Jesus da sala assistir à sem-vergonhice que algumas plantas vivem praticando, recamadas de abelhas, marimbondos, mamangavas, beija-flores, morcegos e outros bichinhos alcoviteiros, todos fazendo a descaração vegetal para lá e para cá. Umas plantas que em terras diferentes esperam ser árvores, para só então darem flores e procurarem chamego com as outras, aqui mal passam dos quatro palmos de altura e já estão se exibindo mais do que as turistas do clube francês e dando cada abelhada nas vizinhas que espanta a mais traquejada das messalinas. Para não falar nas mangueiras, que ninguém aqui pode fazer pomar de manga de raça pura, porque todos os pés fornicam com todos e promovem uma misturação descomedida, resultando em que depois só dá manga vira-latas, para não falar nos mamoeiros machos que provocam escândalo ao botar cada mamão deste tamanho, para não falar nos cajueiros desregrados e por aí vai, assim se demonstrando que somente a radioatividade constitui explicação satisfatória, o resto de lérias não passando. 
 
Já dizia o grande Tulcídio, historiador da Grécia respeitado em toda parte, que, para decifrar o que se passa hoje, tem que se saber do que se passou ontem e anteontem. Se isso asseverava o grande Tulcídio, não será nenhum borra-botas de hoje em dia que vai desmentir. E, como de fato, o fenômeno de Deoquinha Jegue Ruço, que até na ilha é especial, só pode ser compreendido se observado que o poder da radioatividade encontrou nesse indivíduo um terreno assombrosamente bem-preparado, que, como Roma, não foi feito num só dia, foi feito, se se bem pensar, desde até antes de Roma, sabe-se lá. Não se pode deixar, diante daquele homem, de emprestar ouvidos aos que vêem em certos acontecimentos as mãos de algo mais do que o mero acaso, mãos estas se endereçando a fitos adrede traçados pela Providência, que em tudo visa ao esclarecimento da Humanidade, a qual, até os dias que correm, só tem dado desgosto à Santíssima Trindade. Forçoso se faz admitir que somente isso torna acreditável o acerto, como peças de um relógio fino, de tantas coincidências, tantos azares afortunados, tantos encontros e desencontros, tantas minúcias sincronizadas, que viriam a dar no nascimento,  vida  e  obra,  nesta ilha, de Deoclécio Gregório de Souza e Guimarães Pimentel. 
Não é fácil discutir atualmente esse ponto de vista, pois ver um propósito na vinda ao mundo de Deoquinha redunda na conclusão inarredável de que o homem é superior à mulher em muitos e mais importantes campos do que é ela superior a ele. Costurar e lavar roupa, por exemplo, só quem faz bem é mulher ou baitola, isto é de reconhecimento universal. E mais umas tarefas de que ninguém vai negar a relevância, só que são coisas de mulher. Mas de resto é o homem a cabeça, a coluna, o alicerce, a alavanca e o comando. Contudo, mais por culpa de americanas desajustadas, não se pode mais falar nisso sem que umas e outras venham de lá com quatro pedras na mão, gritando, unhando, mordendo e querendo por força contrariar a ordem natural das coisas, quando a Providência está mostrando sempre, para quem quiser enxergar, que o homem é superior. Aqui na ilha, por influências, de vez em quando aparece uma com umas tinturas de igualdade, mas isso, da mesma forma que lavar roupa, só vinga com homens falsos ao corpo, que não se respeitam nem conhecem seu papel, não devendo nem de homens propriamente se chamar. O verdadeiro itaparicano não aceita isso e a mulher itaparicana corresponde, não havendo na ilha nenhum corno homem de verdade, só os cornos mesmo que nasceram para isso, e assim mesmo a maior parte deles é de fora. 
Não é que a mulher da ilha não tenha liberdade, porque a liberdade é o que há de mais caro para o itaparicano e a História do Brasil está aí para confirmar, porque, se alguém lutou pela liberdade, esse alguém fomos nós e mais alguns daqui mesmo do Recôncavo, cabendo porém à ilha a posição de maior destaque. A mulher da ilha faz tudo o que ela quer e ninguém precisa explicar a ela que o que ela quer não pode passar do limite do que o marido quer que ela queira, contanto que ele cumpra a obrigação do homem. A obrigação do homem é sustentar, dar bom serviço de marido e ser respeitado pela coletividade. Cumprindo ele essa dificultosa obrigação, ninguém pode lhe negar o direito de mandar na mulher, cada um no seu estilo, um permitindo isso, outro não, um gostando disso, outro não, mas nunca deixando de ser homem. E então, ela fica em seu lugar com toda a felicidade, rendendo graças ao Pai Celeste pelo bom marido que Ele lhe deu. A verdadeira mulher da ilha, para citar um aspecto que todos os forasteiros admiram e invejam, é incapaz, e considera tal comportamento uma vergonha, de tirar pergunta ao marido, se é informada de que ele está plantando uns aipins fora de casa. Nunca que vai dar a ele esse desgosto e preocupação, se arriscando a prejudicar o sossego necessitado pelo trabalhador e elevar sua pressão arterial. O que ela faz é o certíssimo, é o papel da mulher que se dá valor: procura a deslavada e, tendo condição, desce a porrada nela, para que aprenda a não se enxerir com o homem das outras. Ele não, ele estava no papel do homem quando passou a sem vergonha pelas armas, pois, desde que o mundo é mundo, homem que enjeita mulher sem muito boa razão — e bem poucas delas há — não merece fé de homem. 
A verdadeira mulher da ilha, em mais uma prova de que a Providência nada faz de afogadilho, foi igualmente bem preparada por séculos e mais séculos para vir dar no que deu, em Benedita, a perfeita santa esposa para um homem como Deoclécio Jegue Ruço. Prendas domésticas? Não há uma que lhe falte, cozinha salgada ou doce, bordado a mão ou a máquina, corte e costura perfeito, tricô mais do que perfeito, croché de invejar aranha e até quadros ela pinta, paisagens de lindos bosques e passagens da vida dos santos. Devoção maior não há, missa das cinco todo dia, missa das sete domingo, comunhão todos os dias, apego chegado com Santa Mônica, que consola as casadas sofredoras com as manobras dos maridos. E calada ela padeceu, sabendo muito bem de tudo o que Deoquinha fazia na rua, das raparigas para quem botava casa, até os filhos, dos quais ele está deixando, contam uns mais e outros menos, aí pelos oitenta — só com ela dezessete, sem contar o padre, mas o padre é outra questão, merecedora de análise à parte. Nem sair de casa ela gosta de sair, praticamente só aparecendo na feira, nas procissões e na festa de Sete de Janeiro, pois itaparicana mais patriota do que ela somente Maria Felipa, a combatente da Independência, e mesmo assim olhe lá. E uma vez por semana, ou algumas vezes duas, não deixa de ir à Bahia, sempre para cuidar da caridade e na companhia inatacável da hoje finada Adenailde, esta tão carola que só usava blusa de manga comprida abotoada até o pescoço, carregava um rosário no bolso e um retrato do Papa, nunca quis saber de homem e só faltava morar na igreja. Caridade e visitas com flores a altares de Santa Mônica, Santa Isabel e Santa Catarina, pois, apesar de talvez um pouco menos do que Santa Mônica, essas duas outras santas também amparam as esposas enganadas e lhes conferem toda a resignação apropriada. Mulher exemplar, exemplar entre todas as incontáveis exemplares da ilha, que, embora em melhores condições do que muitos pugilistas, era comedida até para defender a honra, tanto assim que só se tem notícia de haver destroçado fisicamente umas três ou quatro, como uma certa Joventina da Misericórdia, que também foi ter a insolência de aparecer na porta da casa para pedir dinheiro a Deoquinha. Quanto às outras, ela não falava nelas nem com as mais íntimas comadres, quanto mais apostrofá-las, sequer dignar-se a olhálas. A mulher só é grande quando sabe servir a seu homem acima de tudo e não lhe causa desgostos, esta é a mais grandiosa das grandezas da mulher. 
E para garantir que a mulher se lembre sempre disso que, de tempos em tempos, depois de muita preparação, a Natureza chega e obra o que está determinado. Vem mais uma vez mostrar, por meio de um Deoquinha Jegue Ruço, dos quais só aparecem mais ou menos dois em cada século, como é que a vida deve ser vivida e o modelo para se acompanhar. E foi assim que ela finalmente construiu, na barriga da finada Iaiá Naninha, enxertada pelo finado coronel Vitório Honório Veiga Guimarães e Pimentel, todas as partes harmoniosas do corpo e da natureza de Deoquinha, filho caçula entre mais quatorze irmãos, que, na hora do nascimento, recebeu no ouvido o sopro inicial de um destino de glória, a ser celebrado até o dia em que, do jeito com que a fez brotar, Deus der nossa missão por encerrada e levar a ilha de volta para o mar de onde a tirou. 
Iaiá Naninha, por seu turno mulher também de estirpe e tradição, parecia que sabia quem levava na barriga, quando se encontrava em estado interessante de Deoquinha. Cercada de uns três bons pretos de confiança da casa, desses pretos de alta qualidade que hoje em dia já perdemos, que se babavam de raiva quando ouviam falar na princesa Isabel, por ter ela se metido no bem-bom da escravidão deles, forçando tantos a arranjar emprego, porfiar por obter o que comer e entrar na luta da vida sem necessidade, Naninha todo dia, depois da missa, ou senão antes do pôr-do-sol, dependendo da vaza da maré, ia para a parte da coroa que hoje mais ou menos dá para o Boulevard, tomar banho na nossa renomada lama negra monazítico-radioativa. A negrada cavava um buraco de pá e picareta, mexia na lama para ela aguar bem, virava as costas e fica esperando Iaiá Naninha mergulhar no buraco até o pescoço, ali incorporando os reconstituintes e fortificantes dessa lama cuja fórmula já até gringos tentaram reproduzir sem conseguir e que já fez — e sobra quem tenha presenciado para contar — inúmeros paralíticos de cadeira de rodas, bem como pernassecas de muletas, saírem saltitando lépidos e lampeiros e até virarem pés-de-valsa ou praticantes do ludopédio. Quer dizer, ela já compreendia, sem saber, que o menino contido no seu ventre não era igual aos outros e, como se a voz do Paracleto lhe instruísse na concha do ouvido, reforçava de sua parte aquele que a Natureza já traria mais que forte. 
Para tudo escarafunchar, não está mais entre nós Tulcídio, hoje certamente ocupado em escrever a história do Céu, embora não fosse batizado, mas Deus faz algumas exceções, nem contamos com os profetas da Bíblia para enumerar as gerações, de maneira que o jeito é se contar com o que se sabe. O que se sabe é que, chegado aqui à ilha ainda antes do governo de Tomé de Souza, Manuel de Barros Pimentel gerou Vicente, que gerou Gregório, que gerou Estácio, que gerou outro Manuel, que gerou tantos e esses tantos mais tantos outros tantos que já por aí a linhagem de Deoquinha se barafunda um pouco. Mas se sabe que o primeiro Manuel era fidalgo quase príncipe e não escutava ordem de ninguém, sendo aparentado com toda e qualquer família nobre da Europa e por muitos considerado mais de sangue azul do que o próprio rei, o qual por isso mesmo não gostava dele. E era também primo de importantes abades em todo o Portugal, freiráticos largamente admirados, como foram quase todos os seus maiores descendentes. 
Sabe-se também que, entre os índios, esse Manuel Pimentel era endeusado onde estivesse e se amancebou com todas as filhas de cacique da ilha e de toda a orla do Recôncavo, razão para que alguns dos filhos de Deoquinha e Benedita terem nascido acaboclados e até com cara de japonês daquele jeito, porque o sangue, por mais entremeado com os demais, nunca vai embora e, quando menos se espera, pipoca na pele e no cabelo de um, no nariz ou nas orelhas de outro, sem ninguém estar mais esperando. Razão parecida também, por falar nisso, para outros desses irmãos serem um tanto claros e uns até possam ser descritos como louros e ruços, enquanto ainda outros saíram de cabelo ruim e gazos ou sararás. Estes últimos porque, desde que começaram a chegar os negros para os engenhos, os Pimentéis manifestaram o bom gosto de ver na mulher negra suas primorosas qualidades e, portanto, fizeram muitos filhos raceados e nos deixaram a herança de, na ilha, nunca termos tido preconceito, podendo a mulher ser morena, loura, preta, mulata, cafuza, fumbambenta, roxinha, azul, índia, chinesa, japonesa ou alemoa, que toda ela, como reza o bom ensinamento, merecerá pelo menos a atenção de uma conjunção carnal. 
Nas tremendas guerras e bravosas peripécias das quais é tão prodigiosamente abundante a história da ilha, não houve Pimentéis que não se destacassem em cada uma delas, mesmo que, em alguns episódios, se postassem em campos opostos, muitas vezes se matando uns aos outros, como quando uns Pimentéis vendilhões da Pátria, por mistura com famílias de segunda, ficaram contra a Independência, ou ainda quando uns eram abolicionistas e outros eram da realidade, ou quando uns eram monarquistas como a família do barão de Amoreiras, Pimentel por parte de mãe, e outros subversivos, uns ficaram com Getúlio, outros caíram na comunistinidade e por aí vai. Mas sempre em destaque e mostrando, claro que nem tudo num sujeito somente — isso só Deoquinha —, as qualidades da raça Pimentel. Enquanto os holandeses pintaram e bordaram lá em Pernambuco, deixando para mais de cem mil vanderleis e viúvas que até hoje choram sua partida, aqui eles só tiveram vida boa, e assim mesmo mais ou menos, exclusivamente um ano, porque depois saíram debaixo de cacete para nunca mais voltarem, a não ser hoje em dia, com o principal objetivo de dar vazão ao descomunal taradismo dos gringos de climas enregelados, sejam machos, sejam fêmeas, sejam comuns-de-dois. Vários dos invasores, na agonia da fuga, foram deixados para trás e é certo que uns dez ou doze acabaram casando com uma Pimentel, afinal a escassez de solteiros aceitáveis era grande e melhor um holandês novo com medo de ser comido de moqueca do que um português velho, que nem no couro mais daria. Os franceses, esses nem tiveram coragem de aparecer aqui, fizeram a esculhambação deles lá pela Bahia mesmo e pelo Rio de Janeiro, localidades onde o índice de veadagem sempre foi sobremaneira marcante. E é porque os livros não registram, mas contam os antigos que não foi uma nem duas vezes que ingleses, outros franceses, espanhóis e mais diversas nacionalidades quiseram aqui se engraçar e se deram bastante mal, a não ser os que os homens e as vitalinas necessitadas escolhiam para cruza, na igreja verde ou não. Teve muito gringo novo atendendo velha itaparicana, por força dessa tradição. E os portugueses, nesses então nem se fala, porque foi aqui que eles viram a onça beber água, a porca torcer o rabo e a pamonha vir de lá. Caso não fosse por Itaparica, talvez só hoje, seguindo Angola, é que o Brasil estivesse independente. Depois que tudo foi feito, parece fácil, mas, se Itaparica não vencesse a guerra, os portugueses iam ficando, iam ficando e daí para Salazar era um passo, essas coisas acontecem sem que se perceba. E em tudo isso estiveram os Pimentéis, sendo lícito asseverar que a História da ilha se confunde com a deles, o que quer dizer que a História deles se confunde com a História do Brasil. Daí porque, se estudando com cuidado e discernimento a História do Brasil, se compreende Deoquinha Jegue Ruço. 
 
Em meio à bruma e o emaranhado do passado longínquo, dificilmente se vai saber alguma coisa nos detalhes certos, mas novamente se apela aos antigos, que por sua vez ouviram tudo de seus antigos, tendo-se, portanto, que dar descontos generosos, pois que, passando de boca em boca, a verdade vai mudando. Mas é fato por todos conhecido que Deoquinha era o filho caçula do coronel Vitório Honório, o maior dono de votos que a Bahia já teve, não pela quantidade, se bem que ele também metesse a colher até em Maragogipe, Cachoeira, São Félix e Nazaré das Farinhas, para não falar nessas bobagens como Madre de Deus antes do petróleo, além de resistir muitíssimo a que eleitor seu morresse, conservando vivos todos os que podia até quando podia, mesmo eles já estando enterrados, era um homem muito amigo de seus amigos. Se ele dizia que o candidato dele ia receber quatrocentos e vinte e três votos, podia contar na apuração, que dava certinho. Nas pouquíssimas vezes em que não deu, ele ia lá e dava um jeito de anular a urna, não tendo também, apesar das línguas maldosas que dizem o contrário, mandado matar ou surrar fiscal e cabo eleitoral nenhum, somente com a exceção, por todos reconhecida como merecida, dos finados Antônio Cabide, Zé de Lainha, Aloísio Peixe Magro e Eduardinho Gasolina, este tendo sido vítima de despreparo técnico, porque não era para matar, era somente surra mesmo, mas era surra de quatrocentos contos e Bertinho Javali, o surrador, que não estava acostumado com quantias elevadas, quis justificar o preço e exagerou. 
Delegado como ele nunca existiu nem vai existir, sem necessidade de nomeação, pois ele nunca foi nomeado, assim como era juiz também sem nomeação, tudo ele era, e também sempre foi intendente ou prefeito, somente padre era que não era, se bem que murmure a voz do povo que ele, na falta de padre, chegou a dar umas extremasunçõezinhas para não deixar os moribundos desatendidos numa hora como essa, sempre fez tudo pelo seu eleitor, era um pai. E era chamado por todos na ilha de coronel, considerando essa a maior patente do Universo e, por conseguinte, podia vir de lá o marechal que viesse, que ele só acatava se estivesse com disposição. Homem do imperador, homem do presidente da Província, homem do presidente da República, homem do governador, homem do interventor, talvez viesse a ter sido o maior político brasileiro, se não fosse pelo fato de que só saía da ilha em último caso e nunca queria nada para si, só para parentes, afilhados e protegidos, o desprendimento talvez fosse sua maior virtude. Enquanto foi vivo, Itaparica teve importância no cenário político, quem vê hoje o desprestígio da ilha não acredita. 
Ao contrário da maior parte dos filhos, não se sobressaía por voluptuário e os poucos filhos que fez fora de casa foram obra de situações em que se viu mais ou menos constrangido, como na vez em que teve de passar vinte meses escondido no Baiacu, contando só com as comadres mesmo para aliviar os testículos, perseguido tanto por monarquistas quanto republicanos devido a mal-entendidos sobre suas posições. Ou então para receber dívidas de jogo, ou para não decepcionar uma senhora ou outra, porque, apesar de duro como aço, era a delicadeza em pessoa, quem conheceu garante que nunca existiu homem mais educado e fino com as senhoras. Mas não deixou mais de quatro ou cinco na rua, que se saiba. Dentro de casa, sim, teve exatamente uma dúzia, da qual oito se criaram, contando com Olavo, que morreu quando uma bomba de peixe, em que era viciado, explodiu no sovaco dele. Dos sete que sobraram um seguiu o seminário, se formando em importante padre, que mais tarde foi monsenhor e esteve até no Vaticano. Manuel Caetano e Gregório Eusébio foram os dois também ser coronéis e morreram sem se dar, um jurando o outro de morte. Das três mulheres, Zazá, Nadinha e Mocinha, a primeira entrou para um convento, depois saiu e morreu tuberculosa em Minas Gerais, a segunda foi professora muitos anos, ficou caduca e acabou também morrendo, de tanto passar meses e meses sem dormir  porque via a noite toda os holandeses invadindo  o  quarto  dela, e a terceira se casou com um  capitão do Exército, foi morar em Belém do Pará e nunca mais ninguém viu. 
E a carreira de filhos já parecia ter sido encerrada, quando Naninha, no meio de sua dormida sagrada de depois do almoço, acordou de repente com a mesma pontada que sempre sentia antes de qualquer sintoma de estar de barriga. Só que dessa feita, ela costumava lembrar, a pontada veio muito mais forte do que as precedentes e, se ela fosse de acreditar nessas coisas, podia jurar ter ouvido uma risadinha, no quarto onde não havia mais ninguém, uma risadinha debochada e folgazona, mas sem maldade, tanto assim que ela não sentiu medo. Era Deoquinha se anunciando festivamente, ou pode ter sido muito bem que a risada fosse partida de algum anjo enviado especial, satisfeito porque as coisas tinham corrido de acordo com o previsto. 
Não foi Deoquinha, apesar de caçula, logo de primeira o ai-jesus do pai. Foi na mesma hora o da mãe, mas demorou para ser do pai, que, segundo dizem, tinha clara preferência por Olavo, apesar de mentiroso, caloteiro, arruaceiro, pescador de dinamite e cachaceiro, e contam que, quando ele morreu, foi um custo segurar o pai, para ele não querer pegar um barco e ir ao lugar da explosão, para ver se disputava ainda com os siris um pedacinho do filho para enterrar. Depois botou Manuel Caetano para tomar conta da caieira e de duas fazendas, vivia se gabando de como ele cuidava bem de tudo e era seu melhor filho para depois descobrir que era roubado em mais da metade da cal e em quase todo o dendê das fazendas. Tentou Gregório Eusébio para algumas posições, mas este era ainda mais cachaceiro e desordeiro do que Olavo e até as baixelas da família vendia por qualquer derréis para ir se melar com as rampeiras de Agua de Meninos e depois despertar numa sarjeta do Pilar, todo imundo e no meio dos cachorros. E, além do mais, sem respeitar o velho vivo e atilado, os dois passavam o tempo todo falando na herança e brigando por causa da herança. Foi assim pois que, desiludido com a descendência, desencantado com as canalhices da política e descrente da Humanidade, o velho Vitório Honório pouco a pouco foi se pegando com Deoquinha, sendo em tudo correspondido, do trabalho à afeição, da sinceridade à alegria, do sorriso à lágrima, embora esta no sentido figurado, porque um Pimentel não chora. Acabou que, já deitado para nunca mais se levantar, foi o único de quem quis pegar na mão e abençoar. 
 
Quem viu Deoquinha no seu belo dia-a-dia para todo o sempre o guardará na lembrança. Terno de diagonal branco, chapéu de palhinha inglês, correntão de ouro trespassado por cima do colete cor de pérola, brilhante maior que um feijão-manteiga espetado na gravata, bigodinho delgado e lustroso, sapato marrom e branco de furinhos coberto por polainas alvas, suspensório africano de couro de crocodilo, anelão de topázio coruscando ao sol, bengala de ébano com cabo de marfim encastoado de platina, costeletas bastas descendo até o meio das bochechas, a cabeça erguida com altivez mas sem soberba, o riso pronto para os passantes, a voz sonorosa num bom-dia aqui, um como-passou acolá, largas passadas desapressadas, ei-lo caminhando Campo Formoso abaixo, em direção ao largo da Quitanda. Se magnas transações e ardilosas estratégias sedutoras ocupam seu espírito, nada disso é denunciado pelo afável semblante sereno que exibe, enquanto alcança a igreja de São Lourenço e se detém na esquina com os polegares enfiados por baixo dos suspensórios, certamente avaliando como seria seu dia e tomando as anotações mentais que fazia sua memória tão admirada. 
Dia de maior liberdade, como acontecia sempre que Benedita estava na Bahia. Não que ela o perseguisse ou espionasse de alguma forma, mas sua presença na ilha o obrigava a manter uma compostura que desde cedo se impusera, questão de respeito com a mulher. Certas conversas com mulheres livres, certas visitas às claras, certa convivência com alguns dos filhos bastardos mais velhos ou apegados, nada disso lhe traria más consequências concretas, mas a boa educação lhe ensinara a respeitar a esposa, não tomando atitudes públicas que dessem munição às muitas invejosas inimigas dela. Em mulher não pega chifre, sendo apenas uma falsificação moderna a invenção da corna, mas, de qualquer maneira, para que expor-se a aborrecimentos inúteis? 
Ajeitou o paletó, tirou do bolso o cebolão, levantou-lhe a tampa monogramada e olhou as horas pensativo. Já dera mais de oito e um quarto, os meninos com certeza estavam passando, um atrás do outro, no açougue Orgulhoso Talho São Roque, o principal dos muitos que tinha pela ilha e redondezas e à cuja porta costumava ficar de pé, fumando um cigarro em sua piteira de prata e supervisionando a entrega de carne para o abastecimento das famílias que mantinha. Lourenço Bode Novo, empregado de confiança havia mais de vinte anos, já de muito sabia de cor a quem entregar carne, de que corte e em que quantidades, mas ele gostava de comandar pessoalmente esse importante aspecto de sua vida, lhe dava um prazer caloroso, que não sabia explicar direito. Nas raras vezes que permitia alguma preocupação maior lhe afetar a disposição, o remédio infalível era assumir aquele posto honroso e prazenteiro. Não deixava de desfrutar, era inegável, ser o maior centro de atenção do largo, seu cidadão mais influente, importante e elegante, mas o que lhe dava a melhor satisfação era mesmo ver a romaria incessante dos seus filhos, meninas e meninos, a mandado das mães, não só para pegar a carne como frequentemente para trazer bilhetes e recados com outros pedidos. Como era bom jamais falhar àquela prole incontável, poder botar a mão na consciência e saber que era fonte de fartura e felicidade para tanta gente, sentir-se um chafariz de bonomia e generosidade, quase um deus da abundância e da tranquilidade. Melhor, às vezes bastante melhor, do que o gozo da cama, embora este nunca possa ser substituído, porque o corpo sofre congoxosas consequências, que conduzem à caduquice prematura ou mesmo a caquexias irreversíveis, principalmente entre os homens, mas, em índice menor, também nas mulheres, haja vista o vasto acervo de viúvas levadas ao desequilíbrio dos nervos pela privação libidinal. 
Sim, ia assumir seu posto preferido, depois pensaria. Atravessou o largo, saudando a todos sem distinção, nisso se diferençando de seu saudoso pai, que só falava com quem pedia permissão antecipada ou então com figuras de projeção. Entrou rapidamente, como de hábito, na quitanda de Juvenal de Jaguaripe, somente para não deixar de cumprir o ritual que mantinham sabia-se lá desde quando. 
— Juvenal, meu maioral! — disse ao velho amigo, levantando o chapéu com um floreio exagerado. 
— Deoclécio, meu grande sécio! — retrucou Juvenal, repetindo a rima aprendida com o falecido mestre de Gramática Lupercíhio Borba, que a usava amistosamente em relação a Deoquinha, para mexer com o apuro no trajar que era apanágio deste desde a adolescência. 
— E continuas rei da ladroagem? 
— Tanto quanto és rei da sacanagem. 
— Que novidade me traz lá de Jaguaripe? 
— Tem tanta puta quanto tem Maragogipe. 
— Um dia destes trazes uma de lembrança? 
— Só se for juntos que fizermos a chibança. 
Riram como sempre, todos em torno também riram como sempre, grande Juvenal de Jaguaripe, senhor das frutas e legumes por toda a ilha, imenso Deoclécio Jegue Ruço, varão para cujo perfeito currículo só faltava tirar a sorte grande, apesar de falta não lhe fazer. Detiveram-se ainda em perguntas sobre as famílias e os afilhados que ambos tinham em cada lado, comentaram que o nordestezinho continuava firme e, portanto, firme também o tempo, mares mansos para os saveiros deles, se abraçaram, se apertaram as mãos e Deoquinha saiu para o açougue, aonde acabavam de chegar, cada um vindo de um lado, dois meninos e uma menina, os dois nos seus oito anos, ela com mais ou menos cinco. Deoquinha sorriu, aligeirou os passos e chegou antes deles à porta do açougue. Os meninos eram a cara dele, nem que fosse para escapar do inferno conseguiria provar que não eram seus. Mas nunca sabia de quem eram, sempre se perguntava se eram o de Darlene ou o de Mariélia, os dois sacanetas tinham a mesma idade e pareciam gêmeos. E podia também ser o de Shirley Maria, a quem nunca daria carne. Não por ruindade, mas por saber que Menezinho, o pai oficial, era aposentado da Leste Brasileiro, ganhando o mesmo que os maiores mangangões e, portanto, só queria se aproveitar da bondade alheia, quando se sabe que o castigo do corno convencido é sustentar os filhos que lhe fizeram na mulher. E, além de tudo, não ficava bem para nenhum dos dois, não era uma prática decente. Se ele viesse confessar premência, aí não custava fazer a caridade. Mas desonestamente, querendo ser muito sabido às custas dos outros, aí não. Deoquinha deu um pequeno suspiro e agiu como sempre agia, nessas cada vez mais repetidas ocasiões. 
— Minha mãe mandou buscar os dois quilos de carne dela — disse o primeiro menino. 
— Sua mãe é quem? 
— Dona Mariélia. 
— Ah, então é meu filho mesmo. Dois quilos. Boré, dois quilos de carne para esse menino daí. 
— Bença, pai! 
— Tu és filho de quem? 
— De Dona Darlene. 
 — Deus te abençoe. Quantos quilos são? 
— É três. 
— São três. Tu não estudas? 
— Estudo, sim senhor. 
— Não parece. Quem é tua professora? 
— Professora Zenaide. 
— Vou conversar com ela. Vou conversar com ela e com a senhora sua mãe. Não pense o senhor que é um menino sem pai, que eu vou deixar o senhor virar um vagabundo sem instrução. 
— Sim, senhor. 
— Muito bem, o senhor está advertido. Boré, três quilos de carne para este analfabeto daqui. 
Sobre a menina não tinha dúvidas, era sua mesmo, com Margarida de Lalau, lourinha como a mãe e como ele gostava, pois só gostava mesmo ou de brancas brancas ou de pretas pretas, o resto era quase sempre por honra da firma ou resultado de algum capricho, dele ou do Destino. Lourinha como cinco das suas oito filhas com Benedita — e não que ele fizesse distinção entre seus filhos, mas a verdade era que tinha mais orgulho da maioria lourinha, embora nem aos matos confessasse. Benedita era mais raceada do que ele e nos lourinhos se via a força de seu sangue aristocrático, dominando o dela e perdurando através de gerações. E, por pensar em Benedita, relembrou-se alegremente de que ela não estava na ilha, não havia como ela passar por ali e, por conseguinte, ele podia pegar sua filha no colo e dar-lhe uns vinte cheiros, desses de esfregar o nariz até quase ralar. Molecota semvergonha, hem, hem? Lindeza lindura do pai, mas está com os cachos cada vez mais lindos, mas não é uma pintura, mas não é um anjo do céu? Lourenço, você já viu moça mais bonita? Ninguém nunca viu, ninguém nunca, nunca que viu! Quantos quilos de carne são? 
— São tês tomem. 
São tês tomem? São tês tomem, minha princesinha? São tês tomem, Loulenço, veja como ela fala engraçadinho, dizem que eu também falei assim até grande. Pussou a papai, não foi, bonequinha? E pilulito, não quer pilulito? Não quer pilulito e quebaquesso e queimadinho de mel e maliola? Gosta mais de maliola, hem? Doce de leite? Dosta mais de doce de leite! Ela dosta mais de doce de leite, Lourenço. Ah, molequinha, que carinha semvergonhinha, olhe o narizinho arrebitado dela, olhe os olhinhos azuizinhos, papai dá dinheiro pra pilulito, queba-quesso, papai dá dinheiro pra tudo, papai tá cheio de dinheiro aqui pra maliola e pilulito. Lourenço, mande Boré ir com ela levar a carne, é muito peso para uma menininha carregar, vou reclamar com a mãe dela, mandasse o irmão mais velho — e Deoquinha repôs a filha no chão com delicadeza, para depois ficar seguindo seu retorno com os olhos úmidos, esquecendo tudo neste mundo, até mesmo o espinhosíssimo transe que logo teria de arrostar. 
Sim, sim, estava envolvido num embate laboriosíssimo, capaz de desalentar o mais intimorato dos homens. E, por ironia, também por cansa de um filho, César Augusto, um dos dois meninos que tinha com Coralina Amália, companheira solteira de Rosalvo Bico, mas comborça sua de confiança fazia quase quinze anos, como o próprio Rosalvo sabia e se aproveitava, umas duas vezes por ano, para lhe tomar dinheiro emprestado e nunca nem mencionar pagamento, Rosalvo jamais teve caráter. Agora o menino queria porque queria entrar para o seminário, que não aceitava bastardos, nem com os maiores pistolões. Deoquinha apertou a testa e franziu a boca. Se fosse somente uma questão de cartório, não encontraria nenhuma dificuldade, primo e amigo do juiz e usufrutuário das graças de Dilzonete, a escrivã que mandava em todas essas matérias de cartórios e certidões. Mas o seminário desprezava o registro civil e só levava em conta a certidão de batismo do menino e a de casamento dos pais. Oh Deus, será que daria certo o que tão cuidosamente engenhara, em raras noites de insónia? Padre Noronha podia tentar criar dificuldades, fazer ares de austeridade inquebrantável, mas era óbvio cabra safado e Deoquinha tinha armas, boas armas. Não, padre Noronha renderia somente uma certa perda de tempo, uma certa impaciência com sua vaidade e esperteza, mas dificilmente seria um empecilho definitivo, nunca seria. Mas Benedita, Deus do céu, não estava esperando demais, não estava ficando maluco? Não, não estava, já tinha passado por batalhas ainda mais esforçadas. Não, não, não valia a pena preocupar-se, a preocupação é um dos maiores atrasos da vida humana e Deus estava com ele, sempre tinha estado — e apalpou o escapulário abaixo do pescoço. 
Claro, deixaria aquilo tudo para seu tempo devido. Com Coralina Amália já falara e a Rosalvo nem dera ousadia de conversar, porque ele faria tudo o que os dois lhe mandassem, aquilo não valia nada. Com o padre, estava marcado para as dez horas, na casa dele mesmo. Então, nada de preocupação, ainda mais que os céus protegem aquele que luta por um filho. A vida podia ter seus momentos de provação, mas ele era pai, acima de tudo pai, crescido e multiplicado e agora contemplando, de coração enternecido, sua filhinha caminhar tão faceirinha, na direção do largo da Glória. Pai, pai, como é bom ser pai, que bênção de Deus ser pai, nada neste mundo contém valor igual. 
 
São sublimes as alegrias da paternidade e aprende mais o pai com os filhos do que estes com aquele e mais se aproxima da santidade, mas a felicidade de ter e criar filhos se vê amiúde ensombreada por nuvens gravosas, não escolhendo o Destino a quem aquinhoar com boa fortuna ou desdita. Tratando- se de prole copiosa, será quase inevitável que tanto boa fortuna quanto desdita se abatam sobre o mesmo telhado. Assim, portanto, foi com a filharada de Deoquinha e Benedita, na qual se encontra quase tudo, por enquanto só não assassino, porque ladrões há mais de um, bem como vagabundos e safadas sonsas e até um avariado do juízo, este por nome Diogo Álvaro, porém conhecido como Alvito Filósofo, que já esteve internado várias vezes e hoje voltou a morar na ilha, onde só anda de preto fechado e gravata até na praia, cabelo engomado para trás e o livro Palavras cínicas debaixo do braço. Não come na frente de ninguém, só fala difícil, nunca dá risada, não responde a cumprimentos e dá aulas da filosofia do Sorriso de Desdém, que consiste em compreender e praticar a máxima de acordo com a qual a maior arma do homem é o sorriso de desdém e ninguém, nem nada, merece mais que um sorriso de desdém, até porque a mão que afaga é a mesma que apedreja e esta vida é um pau-de-sebo com uma nota falsa na ponta. 
Mas não é Alvito o que traz mais preocupação. Pelo contrário, quando não está passeando pausadamente pela beira d’água ou num dos quartos do quintal ensinando filosofia, está trancado no sótão, lendo as palavras cínicas, ou senão um livrinho do italiano Nicolau Maquiavel, que, segundo os mais instruídos, só traz como conteúdo a perversidade e a felonia. Mas ele não pratica esses preceitos maquiavelísticos, não dá cuidado a ninguém e, se já cuidado deu, foi apenas quando resolveu passar um ano comendo exclusivamente mamão e melancia, não havendo contudo isto durado por mais de uns quatro meses. Da maior parte dos outros é que não se pode dizer a mesma coisa. Pelo contrário, livros e mais livros mereciam ser escritos sobre cada um deles e o infortúnio que eles rendem a Benedita, porque é desses dramas que são compostas as grandes poesias trágicas e se desprendem os grandes romances e novelas da miséria humana. E tudo Benedita enfrenta, só Deus e ela sabendo o que lhe vai no apertado coração, pois, independentemente do sustento financeiro, quem leva tudo nas costas é ela. 
Afirmar que Deoquinha era mau pai seria a mais vil difamação, até porque, se pecado nesse terreno ele tinha, era pelo lado oposto, o da bondade mal compreendida. Nunca levantou nem mão nem voz para filho nenhum e, sempre que um deles era pegado numa malfeitoria, saía de casa para não ver o castigo. É voz corrente, por exemplo, que, se ele tivesse dado uns corretivos, nem que fosse uma ajoelhada de três ou quatro horas no milho e até uma boa surra de cansanção, Vitório Neto não haveria seguido o mesmo caminho que Honório Neto, este, sim, ordinário de nascença, já indo do berço com destino certo para o inferno. Honório Neto, mais velho cinco anos que Vitório, começou roubando dinheiro da bolsa da mãe e hoje vive com o irmão metido em todas as modalidades de trapaçaria, sempre corridos da polícia e volta e meia com retratos nos jornais. Casos perdidos, o pai não fala no nome deles, nem ninguém fala neles na presença do pai, mas sabe-se que Deoquinha invariavelmente lhes dava dinheiro, quando eles, sempre meio disfarçados, bastante apressados e sem querer conversa com ninguém, vinham procurá-lo. 
Até os mais certos, como Felisberto Mateus, que era um dos melhores alunos internos dos Salesianos, tirava as melhores notas, ajudava missa e para os professores eram os anjos no Céu e ele na Terra, acabou de repente sendo expulso, por ter bebido duas garrafas de vinho de missa e tocado fogo na batina de um padre. Terminou funcionário da Navegação Baiana, encostado no Instituto por causa da cachaça. Os mais novos continuam internos, mas sempre causando dores de cabeça, uns porque não querem estudar, outros porque fazem dívidas com os colegas, outros porque brigam com todo mundo.
Os mais novos que ainda estão na ilha também dão trabalho, que, embora nada demais para gente nessa idade, não deixa de inquietar. E tem o caso das duas meninas mais crescidas, Rosa Magnólia e Sônia Regina, das quais dizem que uma já tirou um filho de Noélio Gumex e a outra todos vêem se esfregando com os veranistas por tudo quanto é canto escuro da ilha. 
Tudo isso tem sido o pesado fardo de Benedita, que o carrega sem queixume, até mesmo quando o marido, na sua diligência em atender a tantas raparigas, chega a passar dias em viagem, ou contubernado em algum sítio nos lados de Cachaprego. Outra, menos forte, teria sucumbido, mas ela nunca perdeu a esperança de dias melhores e tampouco nunca perdeu a fé nos santos de sua devoção em que sua vida de agruras ou um dia seria aliviada pela intercessão divina, ou seria vez por todas confirmada, para sua glória na vida eterna dos sofredores deste vale de lágrimas, muito pior havendo sido o padecimento dos mártires da fé. Promessas fez e faz a Santa Mônica e Santa Isabel, Santo Antônio e Nossa Senhora do Amparo e se dedica a ajudar a obra da paróquia, mas sua vida não muda. Também já usou sua força femeal, negando entregar-se a um Deoquinha encegueirado de desejo e ferido em seus brios de marido durante meses seguidos, mesmo quando ele, quase aos prantos, prometia emendar-se, pois para ele melhor mulher que ela no mundo não existia nem de perto, que ela lembrasse como a fazia gemer e até verter lágrimas de prazer, que lembrasse como, em todos esse anos, ele continuava a sentir o coração bater, a boca secar e o corpo se retesar, só de saber que ela ia abrir as pernas para ele, como quase morria ao derramar-se nela, laurel supremo, gozo dos deuses, viagem ao paraíso. 
Numa dessas ocasiões, ela chegou a passar mais de dois anos sem estar com ele, que fez tudo para descontar com as outras, mas sem conseguir dissolver sua obsessão pelos quartos opulentos, os peitos pequenos e ainda firmes, a bunda redonda e os cabelos longos e cheios, soltos só na alcova, que desde o primeiro dia o fizeram decidir que ela seria para sempre sua, exclusivamente sua, a melhor mulher entre todas, que os outros jamais conheceriam. Mas ela permaneceu firme e parecia que continuaria firme até o fim de vida, quando, numa das voltas da cidade, resolveu de repente revogar a decisão, certamente por conselho de seu padre diretor na Bahia, ou por haver Santa Mônica algo sussurrado em seu ouvido. E, assim como não adiantou o castigo, não teve efeito o perdão, porque, depois de duas semanas parecendo que ia finalmente tomar casa, indo com ela aos dares e tomares com tamanha assiduidade que lhe fez logo mais um filho, por sinal um dos lourinhos, ele tornou à vida de sempre e tornou ela ao suplício dignificante de sua existência. E o milagre obrado pelo amor no coração de uma perfeita esposa e mãe, que agora, enquanto certamente se ajoelhava com seu rosário diante do altar-mor de uma igreja na Bahia, mal podia imaginar que sua fortaleza seria ainda mais asperamente posta à prova, pelo que sucederia depois de sua volta à ilha. 
Ias criar também? Criar também? Vossa Reverendíssima aquilatou bem o que está dizendo? 
— Não é necessário aquilatar muita coisa. Basta ver a realidade. Eu compreendo sua situação, mas não posso tapar o sol com uma peneira. Não é o que eu quero, é o que é. Se estivesse a meu alcance... 
Bom filho-da-puta, mal podia disfarçar o risinho perverso de canto de boca, que denunciava sua satisfação em ver Deoquinha naquele apuro. Se estivesse ao alcance dele, as coisas seriam até piores, se bem que fosse difícil imaginar esta hipótese. Já tinha levado dinheiro vivo para fornecer uma certidão falsa, já tinha obtido promessas de obras na Matriz, já tinha deitado e rolado e agora vinha com essa. Embora, forçoso reconhecer, tivesse uma certa razão, talvez toda a razão. Mas como, Nossa Senhora, conseguir aquilo que ele queria? A paciência e compostura de Benedita deviam ter limites, como tudo neste mundo. E com que cara faria esse pedido a ela, se mal tinha coragem de fazer o primeiro, assim mesmo com a ajuda, arduamente conquistada, de Cadinha, a horrenda, verruguenta, rabugenta, sebenta e banguela Leocádia, irmã mais velha de Benedita? 
Passou-lhe pela cabeça, rápida mas vívida, a cena em que finalmente Cadinha aquiescera em fazer o pedido a Benedita. Primeiro, claro, levou horas falando sobre suas próprias virtudes, sua biografia injustiçada e o amor e lealdade que tinha para com sua irmã ingrata, de quem nem por isso guardava mágoa, não era do feitio dela. Depois, num enervantíssimo labirinto de idas e vindas, perguntas retóricas e idas intermináveis ao banheiro, as condições, a pior das quais, por extrema crueldade dos fados, ainda por cima ele tinha de fingir que era iniciativa dele. Da mesma forma que padre Noronha, pediu-lhe dinheiro e obras na casa. Mas em seguida agiu como se isso não fosse mais do que obrigação de parente e deixou claro qual seria a última condição. Sim, horror dos horrores, a última condição era aquilo mesmo que agora, num relance, lhe trouxe um engulho, graças a Deus fugaz. Ele, que já fora, por uma razão ou por outra, às vezes até por precisar de um favor de um marido aqui e outro acolá, a muitas mulheres que atemorizariam um espírito menos forte e que nunca tinha falhado em toda a sua vida, chegara a temer uma catástrofe, mas, fechando os olhos e suplicando o amparo de São Gonçalo, conseguiu refrear o impulso de dar-lhe uns tabefes para que parasse de negaças falsas e fosse finalmente para a cama com ele, e consumou o ato heróico. E ainda teve de suportar conversar depois, ouvi-la novamente fazer sermões e hesitar em cumprir o prometido, somente por pirraça mesquinha. 
Mas, pronto, tinha terminado por dar sua palavra e, justiça fosse feita, ela podia não possuir boa qualidade alguma, mas em sua palavra se podia confiar. Até pensara num argumento que não tinha ocorrido a ele com tanta clareza e lógica. Cadinha apelaria para a religiosidade da mãe. Se o seminário só aceitava filhos legítimos de casamentos cristãos, Benedita estaria se recusando a dar a Deus mais um sacerdote, se não concordasse em que seu nome constasse na falsa certidão de batismo de César Augusto, filho de Deoquinha com Coralina Amália. Era uma questão de altruísmo, piedade e renúncia, um ato digno de uma santa como ela vivia provando ser. Lá do alto, Deus a veria esquecendo o orgulho, somente para permitir que mais um padre se juntasse ao Seu exército. Não era favor a Deoquinha, muito menos a Coralina Amália, era um sacrifício a Deus. Abraão não chegara a levantar uma faca para matar seu próprio filho, por vontade do Senhor, que deteve sua mão no último instante? E Cadinha — inteligente também ela sempre fora, inteligente até demais — já ensaiava junto a ele o discurso que faria à irmã. Benedita com certeza cederia aos argumentos, pois, afinal, não precisava fazer mais nada, a não ser dar seu consentimento ou talvez apor a assinatura em algum livro ou papel, nada de muito doloroso, a não ser, claro, moralmente, mas a mulher sempre teve a moral mais resistente que a do homem. 
Quando saíra de seu açougue, Deoquinha vinha até assoviando baixinho, de tão confiante que estava. Passara algum tempo na salinha dos fundos do açougue, fazendo anotações contábeis e contando dinheiro e, ao sair, ainda parara na rampa, para comprar os caçonetes trazidos por Niquim em seu bote e mandá-los para casa, antecipando uma esplêndida moqueca depois da conversa com o padre, seguida de uma ainda mais esplêndida dormida até o meio da tarde, cheio de forças para o encontro galante que teria às quatro com Hermínia do Alto, conquista nova e muito promissora, mulher cujo valor já percebera no primeiro embate. Quando chegasse à noitinha, Benedita receberia a embaixada de Cadinha e ele voltaria para casa com tudo acertado com o padre. Mas agora essa, agora essa. 
— Eu tenho a solução — disse finalmente, tentando afetar segurança, mas já prevendo um malogro. 
— Então o senhor é um grande estrategista — respondeu o padre com visível ironia. — Pode dizer. 
— Bem, já que vamos ter uma certidão completamente nova, pode constar nela que o padrinho é Rosalvo e depois explicar no seminário que o menino foi dado ao padrinho para criar. Isso se faz muito aqui na ilha, se faz em toda parte, é até um gesto de caridade de quem tem muitos filhos, para com quem não tem nenhum. 
O padre levantou-se e riu, quase gargalhou. Como? Acaso julgava ele que os padres eram pacóvios, não conheciam a vida? Grave equívoco esse, muito lhe admirava que Deoquinha o cometesse, pois os padres conhecem a vida como mais ninguém, não esquecesse de que os padres ouviam confissões. Não lhes revelavam o conteúdo, naturalmente, mas ouviam a descrição dos atos mais impensáveis e insólitos, conheciam muito mais a vida do que o leigo mais vivido. Como esperar que eles engolissem essa história? Um homem como Deoquinha, de família ilustre e renomada, iria dar seu precioso filho para viver sob a tutela de um desqualificado como Rosalvo? 
— Mas ele não é um desqualificado, tem sua boa aposentadoria da Circular, é um homem de respeito. 
Padre Noronha estacou e fixou um olhar entre severo e incrédulo em Deoquinha. 
— O senhor sabe perfeitamente quem é esse homem. Deus me perdoe, mas não estou fazendo julgamento, não estou condenando, isto cabe tão-só e exclusivamente a Nosso Pai. Mas o senhor sabe que se trata de um ébrio, um jogador e um mentiroso, que ainda em vida colhe os frutos de sua dissipação e, Deus novamente me perdoe, certamente os colherá no Inferno pela eternidade. 
— Não, ele não bebe mais, me garantiu, faz dois meses que não toca em bebida. 
— E já fez três meses uma vez, fez até cinco outra vez, para sempre voltar ao vício! Raciocine, por favor, senhor Deoclécio, o senhor é um homem de discernimento, um grande comerciante, um homem de tirocínio. O senhor está tentando enganar a si mesmo, reconheça a verdade. 
Fez uma pausa dramática, andou repetidamente de uma ponta do salão à outra. Fora de cogitação, não esperasse dele a mínima assistência, se persistisse naquela ideia desmiolada, com perdão da aplicação da palavra a pessoa tão acatada quanto Deoquinha. Não, não, mil vezes não. Se o senhor Deoclécio queria que seu filho natural fosse encaminhado ao seminário, haveria que curvar-se às exigências cabíveis. Antes de qualquer providência, antes mesmo da obtenção da certidão de batismo, César Augusto, reconhecido como legítimo filho da união entre Deoclécio e Benedita Pimentel, teria que imediatamente ir morar com seus pais, no lar que passaria a lhe caber por direito. Deoquinha, desalentado e desarvorado, chegou a levantar as mãos e abrir a boca para falar, mas compreendeu que era inútil, e nova e tremebunda peleja convocaria todas as suas forças, Deus que se apiedasse de sua condição. E o encontro com Hermínia do Alto ficava para talvez nunca mais, um castigo em cima do outro. 
 
O viver da mulher celibatária, mais honestamente falando solteirona, aqui também com maior rudeza denominada de vitalina, ainda mais quando cabalmente falto de vocação, é revoltado, sombrio, recalcado e eivado de padecimentos de que ninguém suspeita, bem menos observa e muito menos tem pena. Se essa infeliz, por sobre tudo isso, é desnoivada, então se agrega pecha adicional à desprezada e aviltosa condição. Tamanhamente avultam seus tormentos de alma e corpo, que tudo a elas se havia de perdoar, mesmo os atos mais ignóbeis. Mas, não. Sua conduta é vigiada, seus passos são medidos, suas palavras esquadrinhadas, seus gestos comentados, seu próprio pensamento é policiado, tudo nelas se presume pela via da má vontade e se pesa com a balança da impiedade. E quase nenhuma delas faz coisa alguma que não se espere dela e não se aprove, sendo somente por isso cada uma merecedora, sem maiores restrições, de um lugar no Céu, dispensada a estada no Purgatório. Se faz algo fora das normas, faz por onde ninguém descubra, nisto tendo mais arte que um tecelão levantino. E, praticamente sem exceção, o que fazem é inteiramente compreensível, justificável e humano — nada do que outros e outras por aí, em situação muito menos aflitiva, não façam, e bastante pior. Aliás, se bem pensado, fazem o bem, o que os demais não percebem porque não sofrem o que elas sofrem e, por conseguinte, não depuraram o mundo nem adquiriram sapiência, que só a tribulação permanente confere, para discernir com precisão o que de fato é importante na vida — e o importante não é nada disso que o comum das pessoas pensa, elas atribuem excessiva importância a ninharias e fardos inúteis, desperdiçando seu tempo extraordinariamente. 
Por conseguinte, Cadinha pode olhar-se no espelho de consciência limpa, como agora faz, com a faceirice secreta que gosta de deixar aflorar em certos momentos. Não está mal, a verdade é que nunca está mal, com toda a isenção, ainda mais para quem nunca esfrega Antisardina ou qualquer outra dessas porcarias na cara, a cara dela era aquela mesma e não estava mal. Os cabelos, lustrosos de óleo de coco e muito bem espichados até um coque volumoso no cocuruto, estavam pintados e muito bem pintados até as raízes. Um pouco de pó-de-arroz para tirar o brilho, só um toque de ruge muito leve, não estava mal, não era nada má. Sim, naturalmente que os peitos, já muito grandes desde ela mocinha, lhe caíam desconfortavelmente, mas ela já havido lido em algum lugar que muitos homens apreciavam peitos grandes, achavam que faziam parte indispensável de uma ampla e acolhedora mulher. Sim, estava muito bem e, apenas porque a felicidade não pode ser completa, havia os dentes. Ou, por outra, não havia os dentes, quase todos dizimados pelas cáries e quedas espontâneas. Jamais gargalhava e, quando ria, procurava manter os lábios cerrados, mas sabia que não podia ocultar ser desdentada, teria mesmo que um dia perder aquele terror bobo e ir ao dentista, extrair o resto dos cacos e pôr uma dentadura moderna. E com isso ficaria tudo completo, ela estava bem. 
Por ironia, cruciante ironia, não era somente ela quem dizia. Era o próprio Danilo, o belo e galante Danilo Pinto Borba, com seu perfil de Rodolfo Valentino, que, após vinte e dois anos de noivado, a abandonara por uma mulher que conhecera numa viagem a Jequié, casando-se com ela em questão de meses e aparecendo já com o fato consumado. Lembrava a punhalada insuportável no peito que lhe tirara o fôlego décadas a fio, mesmo depois de ele morto de colapso cardíaco, menos de quatro anos após o abandono. Agora ele baixava — e ela estremeceu com um arrepio — no centro Irmão Florindo, refúgio de amor, paz, solidariedade e conhecimento, por ela furtivamente frequentado na Bahia. Baixava na própria Mãe Dilzete, em ninguém menos, e todos os que conheceram Danilo e o viram incorporado nela eram unânimes em asseverar que tudo dele se reproduzia nos gestos e na conversa da grande mãe-de-santo de caboclo. Era Danilo escrito, cagado e cuspido, do jeito de passar a mão pelo cabelo até a nuca até a mania de repetir "tá me compreendendo?" ao fim de cada frase. Sim, era Danilo, choroso e arrependido, implorando perdão cada vez que a via. Já o tinha concedido, porque assim mandava a caridade do centro para com os espíritos desencarnados, mas quiçá no fundo soubesse que o perdão era, Deus haveria de compreendê-la, da boca para fora. 
Como poderia de fato perdoá-lo, depois de tudo o que passara, durante e depois do malogrado noivado? Quantas vezes não o fora buscar em bailes e até em cabarés, para arrancá-lo aos tapas dos braços impudentes das mulheres, da vida ou não, que adejavam sobre ele como moscas sobre camarões frescos? Quantas vezes não passara semanas sem dormir, desconhecendo o paradeiro dele, para saber depois de histórias vergonhosas, entre rameiras de Nazaré das Farinhas, baixas meretrizes de Cachoeira e bailarinas barregãs do Rumba Dancing? Quantas vezes não marcara o casamento, reformara o vestido já idoso, fizera vestido novo e rebatera as maledicentes que prediziam um noivado eterno e sem desfecho? Quantas vezes se privara das alegrias de sua esperdiçada juventude, ficando trancada em casa como ele ordenava, só podendo passear com a mãe, a madrinha ou as tias, sem ir à praia, sem ver carnaval, sem se pintar, sem fazer permanente, sem usar decote nem bolero, sem falar com gente que ele desaprovava e, a fim de conservar a virgindade que ele mesmo exigia para a noite de núpcias, entregando-se a ele por onde não queria, entre dores e agonias que ele nem agradecia, limpando-se rudemente na anágua dela? Perdoar, não; não desejar mal a seu espírito agora atormentado, talvez sim. Mas, perdoar, como? 
E Gumercindo, cujo espírito também se manifestava e, ao contrário do que se propala sobre as almas dos suicidas, se apresentava sempre calmo e equilibrado, com um sorriso que não podia ser descrito como alegre, mas estava longe de ser triste? Gumercindo, Gumercindo, por que o tempo não volta, por que não temos juízo quando precisamos dele e, quando temos, já não precisamos? Pobre Gumercindo, que agora, nas sessões em que baixava, falava com ela com uma atenção quase formal, as boas maneiras com que sempre tratara todos. Pobre Gumercindo, não, pobre ela, pobre ela, que nem ao enterro dele foi. Até quis ir, justiça seja feita, mas temeu que seus parentes a agredissem, pois, afinal, ele tinha bebido veneno de rato por causa dela, deixando uma carta de amor em que isso ficava muito claro. Não sabia mais da carta, mas se lembrava de trechos inteiros. Esse amor de perdição, esse amor desesperado, esse amor que mendiga a migalha de um olhar e só alberga indiferença e desprezo, esse amor que se contorce em medonha masmorra, enquanto, nos braços de outro alguém que não a quer e nem sabe da jóia preciosa que a fortuna lhe dadivou, ela pensa que é feliz... Esse amor me faz deixar o mundo, pois que é o mundo sem esse amor? Adeus, não te culpes por mim, não anelo por lágrimas de esmola, nada podes contra a força do teu coração e a ele deves obedecer, cabendo a mira render-me e entregar-me ao abraço gélido da Morte... 
Agora compreendia o amor de Gumercindo, agora que era tarde e, se penava Danilo entre os mortos, penava ela entre os vivos. Penava, penava, penava! Entre todas as irmãs, a que ficara no barricão, a que mais apanhara dos pais e a que agora levava essa vida. Essa vida tão escura quanto um entardecer de temporal, como tantas vezes contemplara na saída para o quintal, desejando que o céu desabasse e nada mais restasse. A vida, as galinhas, os porcos, Dainha, Marildete e Vicente, que vida. O rádio ajudava, ajudava muito. O cachorro Toddy ajudava. Mas parcos consolos, porque nada disso era suficiente para encher o oco enorme e latejante que tinha no corpo e na mente e sobre o qual escrevia, em seus cadernos secretos, às vezes longos poemas que raramente relia e pensava em incinerar, mas aos quais voltava a intervalos prolongados, passando então os dias em silêncio, sentada na cadeira de balanço da sala com o rosto enrijecido. 
Poucas, muito poucas, as compensações que conseguia — e todas elas conquistadas, nada caído do Céu. Como acabara de acontecer com Deoquinha, que, depois de assediá-la com êxito, aproveitando- se da fraqueza nervosa posterior ao fim do noivado, a abandonara à medida que ela murchava — e da pior forma, aos bocadinhos, sem nunca explicar nada e a evitando como tainha evita xaréu. Justiça para com ele, justiça para com ela, e ainda era pouca, pois não havia no mundo o que lhe pagasse o sofrimento. Se queria favores dela, que também lhe fizesse favores. Já deixara passar oportunidades em demasia, havia muito que decidira ser e fazer exclusivamente o que lhe interessava e beneficiava. Mais uma mulher para Deoquinha não queria dizer nada, com ela não tinha querido dizer nada da primeira vez. E que fosse irmã, e daí? Mais razão ainda, porque Benedita nunca lhe dera nada e sempre tivera tudo, continuava a ter tudo e se queixava de barriga cheia. Cadinha se olhou mais fundo no espelho, ergueu o queixo com decisão. Pensando bem, estava era prestando um grande serviço à irmã, convencendo-a a deixar César Augusto tirar documentos como seu filho. Ela não era tão agarrada à igreja e aos padres, não era tão católica apostólica romana? Então era um serviço mesmo, que devia até ser pago por ela, como pagou Deoquinha. 
E pagará mais, pensou Cadinha. Porque, fazia cerca de uma hora, chegara recado dele. Que ela o esperasse às três em ponto, porque tinha um assunto importantíssimo a tratar. Ora, com certeza era mais outro favor, ou um favor em cima do primeiro. De qualquer forma, nada de graça. Nada de graça para ela, nada de graça para ninguém. Para começar, tinha gostado de voltar a estar na cama com Deoquinha, pois não só era cama, que até era o de menos, mas principalmente demonstração e desfrute de seu poder, e ia querer estar de novo e estar sempre que quisesse. E as reformas na casa eram pouco. Por que não um dos terrenos grandes da Ponta do Trilho? Por que não uma certa quantia todo mês? Nada estava fora de consideração, tudo dependia do que ele pedisse. E conseguir o que ele pedisse dependia dela e o que dependia dela havia que ser em proveito dela. O relógio da sala bateu as três, Deoquinha ia chegar, Cadinha deu uma última olhada no espelho e pensou num verso que começaria mais ou menos dizendo que a infelicidade é a felicidade dos infelizes. 
Que, para homem ser, o homem confronta, oh Senhor Deus! Desnorteado como quem se debate entre as ondas que o afogam, mais tonto que uma mariposa à volta de uma lamparina, Deoquinha encarou o sol do largo com a cara franzida e, sem nem pensar, ignorou novos cumprimentos e marchou para a quitanda de Juvenal. — Deoclécio, meu grande sécio! — disse Juvenal, surpreendido em vê-lo naquela hora inusitada, mas sem negar ao grande amigo a saudação ritual. Deoquinha, contudo, respondeu apenas com um gesto descorçoado e, tirando o chapéu, sentou- se junto à mesinha onde se empilhavam papéis, livros, abacates, ferramentas, uma garrafa de cachaça e vários copinhos. Pegou a garrafa, torceu-lhe a rolha e olhou indignado para Juvenal, quando este lhe segurou o braço. 
— Que foi? É para pagar, eu pago! 
Juvenal alarmou-se. Algo de muito grave com toda a certeza havia acontecido ou estava prestes a acontecer. Nunca tinha visto Deoquinha assim, nem no dia memorável em que escapara por milagre das balas do revólver que um trêmulo Osvaldo Corno descarregara nele, em vã tentativa de lavar com sangue a honra enodoada por Deoquinha e sua dele esposa Maria do Carmo, pelas costas alcunhada de Carminha Periquitão. Nem quando tivera de passar o dia inteiro escondido na cisterna do comandante Merivaldo, por ocasião da inesperada volta deste aos braços de sua infiel cônjuge Marieta por conta de uma navegação cancelada, e fora forçado a aproveitar a primeira oportunidade de fuga, correndo altas horas, de ceroulas e debaixo de chuva, para pedir assistência na casa do próprio Juvenal e quase pegando pneumonia. Enfim, nunca se vira Deoquinha naquele estado, nem mesmo um dos mais chegados entre seus numerosíssimos amigos, como Juvenal. 
— Está me estranhando, compadre? E porque essa é a das visitas. A de Santo Amaro está lá dentro, espere aí que eu pego, não se vexe, o que quer que for se dá um jeito. 
Não era hábito dele, nem gostava mesmo de beber, no máximo um vermute ou uma cerveja de caju em caju, mas Deoquinha entornou dois copos daquele assobio-de-cobra como quem toma dois goles d'água e ia atacar um terceiro, mas a meio caminho desistiu, arregalou os olhos e levantou o rosto na direção de Juvenal, que ainda estava em pé, de boca aberta diante do que via. 
— Sente aí, Juvenal, você não vai acreditar. Mande Jugurta fechar essas portas e ir embora, que a conversa é comprida e particular. 
Não era justo que, por causa de uma aventura, uma coisa que está no papel do homem e não era culpa dele ser o homem que era, eis que ninguém se faz, tanta desgraça se apresentasse de repente. Me compreenda uma coisa, Juvenal, pela primeira vez está me dando vontade de correr da presa, esta é que é a verdade. Sim, podia crer, podia crer, era aquilo que estava lhe dizendo, sem uma vírgula a mais ou a menos. O safado do padre Noronha, papabeata descarado, se duvidasse papava até Joel Sacristã, já tinha tripudiado o que pudera e ainda lhe arrancara o couro por causa de uma merda de uma certidão, que nem tinta de escrever lhe custava, pois que pegava tudo de graça no armazém de Garrido. Mas, até aí, menos mal, fazia parte da vida, padre, tabelião e fiscal nasceram para tomar dinheiro, era isso mesmo. Já a exigência de que Benedita concordasse em perfilhar o menino como legítimo não constituía tarefa para um caráter fraco, requeria coragem, decisão e argúcia fora do comum. E o preço? Esse mesmo que Juvenal escutara: comprar a cumplicidade daquela moura torta fedegosa, à custa não só de dinheiro como — horror dos horrores, pavor dos pavores, terror dos terrores! — de ter que ir-lhe à tabaca, e com capricho. Isso mesmo, fora o que ela exigira, com aquela cara de urubua troncha. E ele — olhasse nos olhos dele, batesse no ombro dele para ver se ele estava ali mesmo ou tendo um pesadelo —, ele pagara o preço! Como? Ah, só Deus sabe, só seu santo valentíssimo é que lhe valera, só seu anjo da guarda incansável é que o amparara, naquela hora indescritível. Lembrava-se o compadre do tempo em que só faltavam botar funis em suas bocas, para que bebessem um colherão de óleo de rícino? Pois seiscentos colherões de óleo de rícino, novecentos colherões, uma barrica de óleo de rícino não seriam provação tão esforçada! Mas ele estivera à altura, o Senhor seja louvado. E, cumprida tamanha penitência, que com certeza lhe descontara alguns séculos de Purgatório, já punha as mãos para o Céu aliviado, tudo resolvido e decentemente encaminhado, quando o xibungo do padre, esfregando as mãos de contente naquela batina encardida e com aquele jeito de santa puta arrependida que só enganava as negras dele, veio com a conversa de que o menino tinha também de se mudar para a casa dele e Benedita. Santa, Benedita era, mas aí também já era querer que fosse mais do que santa. Não, não, compadre, ele hoje morria e, antes de Benedita voltar da Bahia de noitinha, já estaria pronto para ser enterrado, o compadre por acaso não tinha ali um veneninho de que pudesse dispor por caridade? 
Mas Juvenal, se bem reconhecesse a grande delicadeza da questão e a urgência em tomar a atitude mais sensata, não se deixou abalar. Com a mão no braço do amigo, disse-lhe que, nesta vida, os bons pagam por serem bons, é conforme está escrita a História da Humanidade e corroborado à fartura nas vidas dos grandes homens, de Napoleão a Pastéul, um pagando por ser o maior dos generais, outro pagando por ter desmascarado o micróbio e agora Deoquinha pagando por ser maior do que o famoso Casa Nova, que ao chulé nem lhe chegava, e mais poderoso do que muitos altos nomes da República, que não mandavam em nada. Não havia de ser nada, o indispensável era conservar a calma, pois na afobação só se faz piorar tudo. Existiam soluções que com certeza ajudariam muito, mas todas elas demandavam tempo, tais como um trabalho no candomblé de Roxo Lírio, que, com ele, Juvenal, nunca falharam, contanto que não fosse para o Mal, porque para o Mal Roxo Lírio não trabalhava. O compadre, porém, não ia poder mais suportar aquela situação sem incorrer sérios perigos para a saúde, devendo lembrar- se do grande número de casos de apoplexia e congestão entre os Pimentéis. Não esquentar a ideia, primeira providência. Respirar fundo, se equilibrar, ver que estava ali com um amigo de confiança, saber que tudo neste mundo tem o seu remédio e pensar no pior que podia acontecer. O pior que pode acontecer costuma ser bem menos pior do que se pensa com o juízo abalado. E a verdade é que ele já sabia qual era o pior que podia acontecer e não era esses balaios todos. Quer dizer, era, mas dava para segurar. Bom, certo, era um trabalho de Hércules, mas Deoquinha era um Hércules, pensasse nisso. 
Deoquinha, era um Hércules, Deoquinha era um Hércules, meu compadre? Deoquinha era um São Sebastião, mais furado que um piruliteiro, pelas flechas inclementes da adversidade. Um São Lourenço, assado na grelha da desdita, isso era o que Deoquinha era. Já fora um Hércules, já fora, já corria longe o tempo em que deixava a mulherada mole, despencada para o lado e pedindo misericórdia, isso era o passado. Não envergonhava, nunca envergonhara, mas tudo tem seu limite. Já fora aos quartos de Cadinha no dia anterior, sabia-se lá com que forças sobre- humanas, não era mais menino e mesmo que menino fosse. Muito menino por aí não ia conseguir, só mesmo desses que pegam até jega carrapatosa, mas um menino normal ia ter dificuldade. Imaginasse agora ele, assim uma vez atrás da outra, não podia ser, era pedir demais. Não, não, ia morrer, isso era o que ia acontecer, as famílias — logo as famílias! — faziam tudo para matá-lo e agora conseguiriam. 
Ao que lhe retrucou Juvenal que, se havia certa razão para receio, motivo não existia para pânico. Com cautela, prudência e sabedoria de vida, atributos que graças a Deus lhes sobejavam, venceriam juntos aquela cruenta batalha. Se pudesse, Juvenal se ofereceria para tomar o lugar do amigo. Não era por nada, não, mas quem, como ele, era casado com Joventina e a ela comparecia com regularidade qualificava como café pequeno todo e qualquer desafio, podia ser da própria mula-semcabeça, podia ser uma jacaroa, ele fechava os olhos e ia, nunca teve gueguê nem gagá, parecia que era um músculo, subia na hora em que ele queria. Isso, contudo, estava fora de cogitação. Ou não estava? Se... E... Claro, estava, estava. Portanto, era o compadre que tinha de fazer o serviço. O tratamento estava ali mesmo, a dois passos! Um pau-de-resposta que levou anos depurando na garrafa, preparado por um especialista da Encarnação, desses que não existem mais e que ele nunca tinha aberto, parecia coisa do destino, estava ali na hora certa. Mais que catuaba, mais que caldo de fuminho, muito mais que todas as cascas de pau e folhas conhecidas, um levanta-defunto que cariocas e mais cariocas e paulistas e mais paulistas se despencavam de lá para ir à Encarnação querendo comprar tudo, só ele, ninguém mais do que ele, tinha uma garrafa daquelas. E estava à disposição do compadre, agora mesmo, agora mesmo, o exemplo do óleo de rícino tinha sido bem lembrado, era situação quase idêntica, quanto mais rapidamente resolvida, melhor. 
Deoquinha não manifestou grande júbilo diante da proposta do compadre, até porque já sabia que se ia chegar àquilo mesmo. Tinha até pensado em pedir a colaboração do cunhado Teolino, irmão querido de Benedita, mas não só ele lhe devia dinheiro e, portanto, deixara de se dar com ele, como era completamente avariado do juízo, pior ainda do que o sobrinho Alvito Filosófio, porque este pelo menos não fazia mal a ninguém, mas Teolino, se não fosse parente de quem era, já tinha pegado pelo menos uns dez anos de cadeia, de tantas as cabeças que quebrou e as casas e bares que escangalhou. Não, não, o único caminho era aquele mesmo, Juvenal tinha toda a razão. E o pau-de-resposta, se bem não fizesse, mal também não faria. Aliás, faria bem, faria, aquela marafona miserável jamais o dobraria, confiança, confiança — e Deoquinha retesou o tronco e quase pula da cadeira, como se entrando em combate nesse justo instante. 
Combate este de que nem a inderrotável pena de Carneiro Ribeiro, itaparicano que mostrou a Ruy Barbosa o seu lugar e lhe deu bailes do correto português, acharia como fazer a narração, porque não há verbo que descreva, substantivo que nomeie, adjetivo que faça justiça, advérbio que socorra ou interjeição que esteja à altura, nem na nossa língua, que é a mais rica, nem nas outras, que já são amarradinhas pela própria natureza do gringo, que entende de petróleo, de viagem à Lua e de cérebros eletrônicos, mas não sabe conversar tão bem quanto o brasileiro, não havendo um só exemplo aqui na ilha, morando ou de passagem. E combate disputado polegada a polegada, em todos os campos do barganhar e do levar a cabo. 
Primeiramente Cadinha, exalando vinte e cinco mil penicos de perfume do tipo aqui propriamente cognominado de mijo de gringo, embora o dela nem de gringo fosse, mas de produção da baixa dos Sapateiros, fez com que o coração de Deoquinha lhe despencasse até o estômago, com uma conversa de olho enviesado, na qual dizia que estava em dúvida sobre se sua consciência permitia que fizesse o combinado. Havia pensado, havia mesmo rezado, e será que não estaria cometendo pecado abominável, traindo sua irmã daquela forma odiosa e velhaca? Somente depois que Deoquinha, suando e imaginando o que ainda teria pela frente, lhe fez um discurso candente e apaixonado, não só sobre como Deus com certeza aprovava o que se fizesse para pôr no mundo mais um sacerdote, como sobre a coragem com que ela sempre honrara a palavra empenhada, é que, finalmente, com a aparência não muito convicta, ela assentiu. 
Mas estava claro que ele não a procurara por aquela razão, aquilo já estava acertado e ela não lhe havia participado suas dúvidas. Ele queria mais alguma coisa, naturalmente, mais um sacrifício. Era sempre assim, sempre queriam dela tudo, sem nada dar em troca. Mas ela estava acostumada, era a sina dela, Deus havia de levar tudo isso em conta no Juízo Final, o que a consolava e mantinha seu equilíbrio era a certeza da vinda do Juízo Final. E já vivera tanto que nada mais a surpreenderia, ainda mais, desculpasse sua franqueza, mas a hipocrisia era estranha a seu caráter, quando vinha dele, modelo acabado do sotrancão que disfarçava sua baixeza por trás de generosidade forçada e fingida, explorador de sentimentos e não mais que refinado canalha. Não precisava remanchar, relambórios dispensados, nada, absolutamente nada, alteraria sua calma de pedra, ele podia falar à vontade. 
Mas o quê? Com que então — por todos os santos, pelas três pessoas da Santíssima Trindade,  por Jesus Santíssimo que sempre nos vê — ele queria que ela o ajudasse a praticar aquela barbaridade? Com quem pensava que estava falando, com Satanás? Além de convencer Benedita, mulher pura e sem pecado, a declarar perante a Igreja ser mãe do fruto de um amor ilegítimo, pecaminoso e amaldiçoado, devia ela agora servir de instrumento para que a irmã pusesse em casa esse menino tão  malnascido? E o criasse junto com seus irmãos legítimos, dandolhe tudo  o  que  a  estes  dava?  Não,  não,  dizia  isso com preocupação e até pena, mas Deoquinha tinha perdido o senso, tinha ficado maluco de uma vez, estava delirando, precisava ser internado. E, como afirmam unanimemente os alienistas, não se discute com louco. Por conseguinte, ela não discutiria, ele podia argumentar o que quisesse e ela permaneceria muda, pronunciando apenas uma última palavra a respeito daquela proposição hedionda, e essa palavra ele tratasse de ouvir bem, porque ela a proferiria somente uma vez: nê-u-nê-cêa! Nunca! 
Que forças, que esforços, que reforços arrancados do fundo d'alma foram necessários para suportar a expressão de esfinge malevolente com que ela, sentada na cadeira de balanço e fingindo ler com atenção um livro, ignorava as palavras suplicantes com que Deoquinha abria seu coração esmagado! Por acaso o menino tinha culpa de alguma coisa? Por acaso faltavam criadas e aderentes na casa, para livrar Benedita de qualquer trabalho que não a apetecesse? O menino não ia ficar no seminário praticamente o ano todo, só voltando para curtas férias? Além dos filhos, Benedita não criara por tempos variados, e ainda criava, afilhados e afilhadas pobres, de todos os cantos e extrações? A mesa da casa dele, onde comiam mais de vinte, mais de trinta, não podia comer mais um? E, enfim, não estaria a boa ação de Benedita ainda mais realçada aos olhos de Deus com aquele acréscimo, aquele pequeníssimo acréscimo que, bem olhado, até parecia obra da Providência, com o fito de mais elevar a santidade de Benedita? 
Mas o penedo em que se transmutara Cadinha só se mexia para virar as páginas do livro e ele, desesperançado e fora de si, já crispava os dedos para, já sem nada mais a perder neste mundo, esganá-la e livrar a Humanidade daquela excrescência inexcedível, quando um sopro cálido e abundante pareceu tomar-lhe todo o corpo e a mente, um arroubo não se sabe se vindo do Céu ou do Inferno o abalou e ele, como possuído, desmoronou de joelhos em frente à cunhada. Como se uma voz etérea lhe sussurrasse as palavras certas e um espírito lhe moldasse gestos, inflexões e feição, disse a ela que era chegada a hora em que lhe revelaria o que sopitara tanto tempo no peito agrilhoado, a dor que ainda hoje lhe trazia falta de ar, pontadas e rios de lágrimas solitárias, a dor de um homem que amara e ainda amava em silêncio, conformado por fora, mas por dentro um vulcão irresignado e tormentoso. 
Pois sempre tivera perdida paixão por Cadinha, desde que a vira pela primeira vez. Lembrava-se como se fosse hoje, seus cachos castanhos emoldurando-lhe graciosamente a cabeça, seus lábios carnudos, seus olhos de corça selvagem, seu porte leve e gracioso, ah, só Deus sabia o que sofrera de inveja, despeito e ciúmes de Danilo Pinto Borba. Sabia lá ela o que era sepultar no mais fundo do ser aquele amor sublime, suportar tudo em silêncio, buscar consolar-se tragicamente na companhia de Benedita — boa mulher, sem dúvida boa mulher, mas jamais comparável a sua irmã, que, mesmo agora, resplandecia diante dele como a estátua de uma deusa romana. O Criador escreve certo por linhas tortas e agora, por via de circunstâncias tão ingratas, lhe proporcionava a oportunidade que a covardia — sim, por que não dizer a covardia, agora que desnudava os sentimentos tão por inteiro, como só se faz com a pessoa mais amada? — não lhe tinha até então permitido criar ou aproveitar. 
Paixão, paixão, paixão, exclamava entre soluços pungentes, a voz roufenha e estrangulada, os olhos rolando nas órbitas, o cabelo cascateando sobre a testa, o retrato lancinante de um homem finalmente defrontado com seu mais fundo e amargurado sentimento. Ousava agora pegar nas mãos de Cadinha como jamais pegara antes, porque agora tinha a ousadia e vinha-lhe a coragem de confessar de vez o amor que tanto sufocara. Compreendia ela agora por que, mesmo depois de tê-la seduzido depois de tantos anos, já casado com Benedita e já morto Danilo, ele a abandonara? Era porque não podia mostrar a todos esse amor, era porque não podia ficar todo o tempo na companhia dela, era porque não suportava ter dela somente um pouco e não tudo, pois com ela queria, mais que juntar-se, misturar-se como num só ser. 
Não se pode ter certeza, mas Cadinha, depois de largar no colo o livro, talvez tenha esboçado um sorriso leve e seus olhos brilharam sem que ela soubesse. Não podia esconder que lhe agradava ouvir aquilo e tomar parte naquela cena, agradavalhe muito, deu-lhe até medo de perder o controle. Sabia que Deoquinha estava mentindo, mas o que lhe importava não era a veracidade do que ele tão pateticamente arengava, mas o fato de estar ali ajoelhado e falando tudo o que ela queria que falasse, disposto a fazer tudo o que ela queria que fizesse, ajoelhado, ajoelhadinho! Como, quer dizer que de fato ele a amara desde sempre? Repetisse aquilo, repetisse, repetisse com a mesma entonação, ela precisava ouvir de novo, precisava ouvir muitas vezes, era difícil acreditar. Quer dizer que era desde aquela época? E havia chorado muito, havia molhado o travesseiro em tanto pranto quanto o que agora lhe inundava as bochechas? Contasse mais, descrevesse em mais minúcias seus pensamentos sobre ela, não só daquela época como de agora. 
Muito tempo levaram assim, até que ela levantou- se e lhe retrucou que, da parte dela, não esperasse retorno dessa paixão tão tardiamente desvelada. Indubitavelmente, saber que despertava tão intenso sentimento a deixava contente, mas de parco consolo lhe servia, a essa altura da vida. No ponto a que já chegara, cabia mais era cuidar-se e, portanto, mesmo assim em deferência especial ao amor confessado, devia acertar mais algumas questões materiais, antes de dar sua anuência, questões essas que discutiu em intrincadas minúcias, desde o terreno da Ponta do Trilho ao estipêndio mensal, levando Deoquinha a estertores doridos, por fundos ferimentos patrimoniais e morais. Mas acabou por concordar em tudo, até mesmo em assinar papéis que ela já lhes trouxe redigidos em caligrafia ornamentada e firme, para posterior registro em cartório. 
Pronto, acertadas todas as exigências, então era tudo? Deoquinha chegou a alimentar a frágil esperança de que ela, já que se dizia indiferente a seu amor, se contentasse com as novas vantagens colhidas e esquecesse o consórcio carnal que tanto o intimidava. Mas ela afirmou que, tocada pela declaração tão comoventemente sincera que ouvira, consentia novamente em deitar com ele, o que, preferivelmente, fariam naquele exato instante. Impunha apenas duas condições, uma ditada pela dignidade, outra comandada pela caridade. A primeira era a de que ele doravante a procurasse com regularidade, pois não era uma qualquer, para ser usada e abandonada como um traste, não se podia admitir situação tão desdourante. A segunda era de que, ao possuí-la, não contivesse mais o seu ardor como por constrangimento o compelira antes, e desse vazão a tudo o que sentia, principalmente exclamando a intervalos amiudados "Leocadia Maria, meu grande amor, Leocadia, minha vida!" 
No que ele, já desbaratado também concordou. Mas teve dificuldade em cumprir a missão até o fim, pois, apesar do pau-de-resposta, sua ferramenta principal parecia não responder à presença desnuda e insinuante de Cadinha, que, em bem-intencionado quão danoso esforço para estimulá-lo, repetia "não se vexe, eu sei que vim para a cama com um homem, não se vexe, venha de lá, eu sei que você é homem". Felizmente a fé tudo pode e uma oração fervorosa ao bom santo São Gonçalo, que sempre estendeu uma mão a quem fornica por justo motivo, o auxiliou no último momento e ele, os olhos fechados e sem cessar de gemer "Leocadia Maria, meu grande amor", consumou operosamente a conjunção. 
E, pois até as mais imitigáveis torturas têm um fim, acabou ele se vendo de volta à companhia de Juvenal, que o cumprimentou e encomiou com eloquência e afeto. Mas, na hora em que foi instado, não desfez a dúvida aventada por Cadinha, na saída da casa dela. A cooperação prometida estava assegurada, ela falaria com a irmã naquela mesma noite, mas, com sinceridade — e Deoquinha sabia que, neste caso, ela estava sendo sincera mesmo — duvidava de que Benedita aceitasse criar César Augusto, talvez fosse demais, mesmo para alma tão abnegada. E Juvenal, com jeito de quem gostaria de trocar de assunto, achou a dúvida procedente. Deoquinha suspirou, tirou o relógio do bolso e viu que daí a pouco o navio apitaria, por fora da quina da coroa, para atracar, trazendo Benedita e sua amiga Adenailde. Nada restava dizer ou fazer, desempenhara sua parte mais do que prometia a força humana, fosse o que Deus quisesse. 
 
O que Deus quer Ele não costuma revelar, nem se adivinha olhando para o céu estrelado de uma remansosa noite de lua nova, como faz agora Deoquinha, à frente da quitanda de Juvenal e esperando ver a passagem de Cadinha. Tudo tem seu lado bom; tudo, aliás, tem seus diversos lados bons, a depender de quem olha, quando olha e como olha. Se estivesse olhando como estava olhando quando ainda conversava com Juvenal lá dentro, certamente nem veria esse lado bom que acabara de achar. Lá dentro permanecera sorumbático e inquieto, resistindo à cachaça com dificuldade, mexendo e contorcendo as mãos sem parar, mordendo as pontas do bigode e andando aos arranques para cima e para baixo. E, ainda por cima, o aguilhoavam, entre arrepios e tremores, as terríficas lembranças do que passara na cama em companhia de Cadinha. Maria Leocádia, amor de minha vida, repetia rancorosamente ao compadre, a cada dois minutos. Tomara um banho logo depois, para espanto de todos na casa, acostumados a seus banhos solenes e espaçados, que ocorriam com pouca frequência, mas cada um deles durando quase duas horas, entre rituais mantidos desde a juventude, quando, já grande o suficiente para sentir-se endurecer por baixo, era banhado numa bacia esmaltada, pela zelosa prima mais velha Cesarina.
Não quisera ouvir conversa, mandara pegar três latas de água, tomara um banho em que até pedra-pomes esfregara na pele, mandara socar a roupa usada, da ceroula ao paletó, no fundo do cesto e saíra, mesmo assim ainda portando nas narinas os odores horroríficos com que Cadinha o empesteara. E não estava de maus bofes, estava de péssimos bofes, os piores bofes que alguém já vira em toda a História da ilha, inclusive na guerra da Independência. 
Mas agora não. Agora, sozinho de pé em meio aos oitizeiros, mirara as estrelas e respirara fundo e subitamente o sossego da noite o acobertou e o deixou leve como havia muito não experimentava. Podia não ser importante naquela hora, mas um dia seria, pois o lado bom que lhe veio à cabeça foi que devia ter um coração muito resistente. Sempre tivera medo de morrer do coração como tantos de seus parentes, mas agora não precisava temer mais nada. Quem passara por aquilo tudo, e continuava passando, tinha um coração acima de qualquer reparo, capaz de suportar com galhardia toda espécie de tribulação e sobressalto. E então, e então ele estava ali, sadio e inopinadamente confiante, naquela noite de aspecto propiciatório, que podia recear? Nada, em última análise, nada do que pudesse acontecer, confirmando- se a mais pessimista das previsões, lhe causaria maiores problemas entre os quais já se debatia. Aliás, má palavra. Se debatia, não, se conduzia como um grande estrategista e um verdadeiro artista teatral. 
Estivera na ponte para receber Benedita. Empertigado junto ao balaústre, as abas do chapéu meneando ao vento, aguardara-a com um sorriso que ela não conseguiu desfazer, mesmo depois que relutou em aceitar a mão dele para ajudá-la a descer da prancha. Meio passo à frente dela, abriu caminho entre os outros quase com rispidez, parando somente para pegar os jornais, logo prosseguir e, ao chegar à saída da ponte, dar a ela o braço depois de uma elegantíssima mesura de cabeça e marcharem para casa. Haveria algo diferente na cara dela, em que sempre se notava o esforço para afetar felicidade onde só podia se espelhar o sofrimento de uma esposa e mãe devotada quão desditosa? Teria ela por acaso percebido o odor da revoltante morrinha de sua irmã? Estaria ele mostrando nervosismo, mesmo depois das duas colheres de xarope de maracujá que tomara? Equilíbrio, equilíbrio, necessário manter delicadíssimo equilíbrio, ou tudo poderia baldar-se, um passo em falso e os burros dariam à água. 
Em casa, já esperava o recado. Dona Cadinha mandara avisar que viria conversar com a irmã sobre um assunto muito sério. Ele franziu a testa com gravidade, ao ouvir a mensagem. Que novidade era aquela, visita de Cadinha, que nunca saía de casa à noite e só visitava a irmã em dias próprios para ir ter com a família, como a sexta-feira santa? E que assunto sério seria aquele? Porque havia sido combinado que Cadinha fingiria falar por iniciativa própria, ele tinha de simular surpresa, mas logo ficou com medo de exagerar. Afinal, a visita de Cadinha, por mais inesperada e curiosa, era apenas a visita de uma irmã a outra, encontro no qual, ele, como mandava a boa educação, preferia não estar presente. Até gostava muito de Leocádia e respeitava suas esquisitices, mas ela lá e ele cá. E, assim, ele agora espera, confiante mas impaciente, controlado mas nervoso, a passagem da cunhada, de volta da ponderosa visita. 
Quase oito, quase completo silêncio e quase ninguém passando. A distância, encostado no sobrado, Murilo Gargalo se entregava ao aplicado exercício de toda noite: depois de sair da botica de Palmiro, tentar andar de volta para casa, não conseguir, recusar qualquer ajuda e passar um par de horas sem sair do lugar, como quem tenta dar corda nas pernas para poder caminhar e segurar-se no ar para não cair — mas, antes de as luzes se apagarem ao desligarem o gerador, as pernas lhe obedeceriam e ele chegaria de volta a sua casa, para ouvir, cochilando, o mesmo discurso de Cassilandra, sua dele santa esposa. A roda de dominó de Nildinho quase não fazia barulho, uma pedra ou outra sendo batida com força na mesa, uma bomba de sena ou outra causando exclamações. Juvenal, cabeceando de vez em quando, se entretinha em acender a todo instante um cigarro de palha que se apagava mal se formava a brasa. Estava ali pelo amigo, já passara sua hora de dormir, mas a amizade tem seus deveres e preceitos sagrados. E o mar indiferente, sempre ali, por pouco não se ouvia, sobre as ondinhas minúsculas da água da contracosta. 
De repente, pela rua Direita acima, na direção do largo, passos mal escutados ao longe, talvez ilusão de ouvidos ansiosos. Não, não eram ilusão, eram passadas rápidas, passadas curtas e ligeiras, passadas de mulher, passadas de Cadinha e, com certeza, de Marildete, que sempre a acompanhava quando ela saía à noite. Agora com o coração lhe vindo à boca do estômago, Deoquinha correu para a esquina, para olhar a rua Direita. Não dava ainda para se ver nada, com certeza estavam na curva antes da Matriz. Mas logo surgiram os vultos, Marildete meio corcunda andando como se quisesse raspar o chão com as solas dos tamancos, a moura torta com seu porte de jaburu endefluxado, eram elas! Alguém repararia que ele detivesse a cunhada para uma conversa relâmpago, ainda que cifrada por causa de Marildete, só para saber do resultado da expedição. Afinal, assim àquela hora, sem quê nem para quê, ainda mais que todo mundo sabia que Leocádia dizia o diabo dele. 
Ah, quem quiser que fosse limpar o rabo nas ostras, ele ia falar, não ia poder voltar para casa sem saber do resultado, era até uma questão de prudência elementar. O pessoal do jogo de Nildinho nem era da ilha, era tudo visita de Santo Antônio de Jesus, não conhecia ninguém na ilha, Nildinho não cumprimentava nem tolerava Cadinha, desde o dia em que, numa dessas eleições que de vez em quando inventavam, e Murilo Gargalo não só nunca se lembrava de nada como estava ocupado demais com as pernas para prestar atenção em qualquer coisa. E mesmo que estivesse ali todo mundo na ilha, não ia deixar de querer conhecer logo o desfecho de tão sofrida maquinação. Inicialmente cruzando os braços, mas logo se arrependendo para afetar calma, com as mãos cruzadas nas costas e o rosto levemente voltado para o alto, como quem pensa coisas sem muita importância, esperou junto à igreja de São Lourenço, santo bom, talvez não tão bom quanto São Gonçalo, mas padroeiro da ilha e sempre ao lado de seu pessoal. 
Cadinha chegou perto, seguida a dois passos por Marildete, arrepanhou o xale de renda preta em torno dos ombros e fez menção de evitá-lo, mas ele a segurou pelo braço. 
— Só uma palavra, somente uma palavra, você sabe qual. Depois nos falamos, mas agora basta uma palavra. 
Ela franziu os lábios com grande desagrado, indicou Marildete com a cabeça, fez menção de partir novamente. 
— Depois eu lhe falo. Isso tem que ser falado com calma, não pode ser uma coisa assim. 
— Mas somente uma palavra. Sim ou não? 
— Sim o quê? 
— Sim, sim! 
Cadinha indicou outra vez Marildete com a cabeça e assumiu uma expressão que ele conhecia, a de que ia começar a vociferar. Não, isso também não. Acordar gente, fazer escândalo, isso também não, e ele soltou o braço da cunhada, que deu dois passos e parou só um instante, com seu risinho de tatu. 
— Trabalho e sofrimento, isso é o que posso lhe dizer que passei — falou e deu as costas, para prosseguir em seu destino. 
Deoquinha voltou à porta da quitanda e não soube nem conversar com Juvenal. A infeliz, a desgraçada, a empesteada da moléstia se recusara a lhe dizer uma palavra de consolo, ou mesmo de desconsolo, qualquer coisa. Que pretendia ela com aquilo? Provavelmente nada, era só pirraça mesmo, perraria sórdida, tinha que existir Inferno, não podia deixar de existir Inferno, já que existiam criaturas assim! Depois de rezar mais um pouco, em silêncio à porta da igreja de São Lourenço, Deoquinha resolveu voltar para casa. Rezara para encontrar Benedita dormindo, mas nem os santos obtêm certas coisas — e apertou novamente o escapulário. 
Só quem viu, só quem viveu aqueles dias é quem pode saber. Garrida manhãzinha de março, das que florejam somente aqui na ilha, um nordeste amável anunciando amores, tarde de brisa, paz na vida, reconciliações e confiança no futuro, solos e improvisos de bem-te-vis, sanhaços, cardeais e sabiás pelas copas das castanheiras, velas brancas de saveiros ataviando o mar, cardumes de tainhas encrespando as águas lustrosas, a alvura das praias bordejando o verde azulado dos morrotes suaves, nuvenzinhas travessas se exibindo às crianças e aos velhos, maior beleza não podendo jamais se apresentar a humanos olhos. E que jovial grupo é aquele na ponte, pouco antes de o navio dar seus três apitos finais para zarpar, a figura alta de um sorridentíssimo Deoquinha dominando a cena, Benedita, já então grávida de outro branquicelinho, César Augusto muito sério em sua batina de seda, meninos e meninas reunidos para dizer "até breve" ao seminarista que agora partia para o sublime serviço de Deus? Sim, era a família de Deoquinha e Benedita, unida, coesa e ditosa, em uma de suas mais memoráveis e enternecedoras ocasiões, sob os olhares orgulhosos dos circunstantes. Orgulhosos de Deoquinha, sim, patrimônio da ilha, cidadão nunca suficientemente aclamado, exemplo para todo e qualquer um. Mas, principalmente, orgulhosos de Benedita, que entre todos se mostrava a mais feliz e briosa, que mulher, que esposa, que bênção! 
Que mulher, que mulher, que exemplo de abnegação, virtude, devoção, renúncia e bom coração! Chegara Deoquinha em casa, naquela noite da visita de Cadinha, sem conseguir abrandar a ânsia que novamente o tomava por inteiro, e que encontrara? Encontrara quiçá uma mulher arrasada diante da notícia dada pela irmã, chorando de desespero e humilhação? Encontrara porventura uma megera disposta a dizer-lhe as poucas e boas que a conduta dele fazia por merecer, talvez até lhe pedindo que não mais lhe dirigisse a palavra, saísse da vida dela e se homiziasse para sempre no poço de iniquidade que cavara para si mesmo, ao longo de uma vida dissoluta? Não, não encontrara, nem mesmo ele avaliava a jóia esplendorosa que os fados lhe haviam dadivado. Encontrara, sim, uma Benedita de quem se irradiava placidez celestial, ajoelhada diante do nicho da sala de visitas, desfiando o seu rosário e agradecendo com fervor quase febril ao Menino Jesus de Praga, patrono das vocações religiosas, a graça ora derramada sobre sua cabeça. Bem verdade que não saíra de seu ventre o filho padre que sempre desejara, mas acorrera, como por milagre, a seu regaço, agora regaço de mãe, de mãe de um futuro sacerdote, quem sabe um monsenhor, quem sabe um bispo, quem sabe um cardeal,  quem sabe um Papa? Não, não queria ser soberba, mas era impossível conter a alegria que a intervenção divina, de forma tão inesperada, lhe dava de presente, a presente mais excelso não podendo aspirar mulher alguma. 
Levantou-se de onde estava genuflexa e em contemplação dos santos, olhou para Deoquinha e, sem de início dizer uma palavra, o abraçou. Sim, sabia de tudo o que ele fazia, conhecia suas aventuras e malfeitorias, mas era obrigada a admitir que Deus, em Sua infinita misericórdia, também o abençoava. Um filho padre, um filho padre, um santo homem de Deus, agora naquela casa! E filho dele, afinal, o mesmo sangue que com ela partilhara tantas vezes. Não era mais a mesma casa, a luz divina a iluminava, uma aura inefável para sempre a envolveria, era a casa de um menino que seria padre. Não podia pedir mais nada aos céus. E tinha que ser sincera, pois, mais do que nunca, lhe era vedado abrigar no peito hipocrisia: se lhe pedissem somente para apor seu nome à certidão de batismo falsa, talvez não encontrasse forças, em seu tão malferido coração de mulher traída e pisoteada, para concordar. Mas para que o menino fosse padre? Era como perguntar a um pássaro se queria singrar os ares, a um peixe se queria viver na água, a uma borboleta se queria pousar em flores. Não, não, obrigado a Deoquinha, obrigado àquele bendito escrever por linhas tortas de que fora involuntário mas escolhido lápis. E tinha mais: o menino já era seu, seria a primeira coisa de que cuidaria pela manhã, era seu filho, seu filho, tão seu filho, ou mais ainda, do que se por ela fosse gestado. E tanta ternura se espelhava em seu olhar que Deoquinha, sentindo lágrimas correrem pelo rosto abaixo a abraçou e, logo em seguida, a teve outra vez como mulher e, se ela não demonstrou entusiasmo, pelo menos o recebeu dignamente, sem que o contentamento lhe fugisse do rosto todo esse tempo. 
Como não lhe fugiu no dia seguinte, pois, mal raiava o sol, já apressava Deoquinha a terminar seu cuscuz, mingau e café, ela mesma sem fome para nada, a fim de que fossem logo procurar padre Noronha. Então alguém pensava que era somente a certidão, por si só de inestimável importância, eis que tudo neste mundo é possível e Coralina Amália, a ex-mãe — ex-mãe sim, pois a mãe agora, de pleno e inalienável direito e pela vontade invencível de Deus, era dela —, podia repentinamente compreender do que estava abdicando e arrependerse? Não, não era só a certidão, isso era somente o começo, haveria outros papéis, outras formalidades, havia o enxoval a fazer, o menino a buscar, tratar e instalar, tanta, tanta coisa, Deus do céu, que até tomar a frente de tudo ela ia tomar, pois Deoquinha era muito descansado e todo aquele acontecimento formidável demandava a mais obstinada das urgências. 
Não é que a ilha não se envergonhe de abrigar alguns maledicentes, pois essa escumalha se cria em  toda parte, a diferença tão-somente sendo que, talvez por causa da radioatividade, são poucos aqui os seus representantes, a maior parte dos quais de origem forasteira, tais como Nezinho Olho Morto, que seca pimenteiras, comigo-ninguém-podes e até pinhões roxos, ou as irmãs Nenete, Claudete e Dete, espíritos movidos pela inveja e pela falta de ter em que se ocupar. Mas nem mesmo dessas bocas detratoras não se ouviram senão louvores a Benedita, alguns mesmo argumentando que o assento dela no Paraíso já estava garantido, junto a santas da mais elevada santidade, como a própria Santa Mônica, pois muitos sabiam até de casos em que, pela interferência de Benedita junto a seus colegas de beatitude, conseguiram-se graças para gente sem conta em toda a ilha. O próprio padre Noronha, flor que ninguém cheira, cheirou ou cheirará, se rendeu a Benedita e nem teve coragem de comentar nada, foi dando os papéis quietinho e quase sem levantar os olhos. E não se sabem ao certo os pormenores, mas o que se sabe é que Deoquinha esteve de novo com o padre e, numa transação obscura, envolvendo letras bancárias e um terreno na ilha dos Porcos, acabou sucedendo que o padre entornou o candeeiro aceso em cima justamente do livro de registro de batismo mais novo, nem mais nem menos, por notável coincidência, aquele que continha a anotação de que César Augusto era filho de Rosalvo e Corina Amália e do qual mal sobraram as cinzas. 
As providências tanto se avolumaram que os serviços de Adenailde se tornaram indispensáveis, até porque nem Marildete nem Dainha sabiam andar na Bahia. Cadinha, após solicitar um pequeno estipêndio porque, como a irmã sabia, vivia, apertada, das quatro casinhas de aluguel no Alto de Santo Antônio, chegou a ir também à cidade, uma vez para levar o menino ao alfaiate da batina e outra vez para entregar um envelope com dinheiro para as despesas dele a padre Nicola, conselheiro espiritual de Benedita, amigo de todas as horas e agora também tutor apalavrado de César Augusto, no seminário. E nisso, menina, a trabalhama e o esforço de Benedita, só Benedita mesmo. E só também ela para ir pessoalmente a Corina Amália, ex-mãe de César Augusto. Municiou-se da companhia de Dainha e da prima Idália, botou o vestido cinzento de mulher séria, foi lá, chamou a desavergonhada, deu um dinheiro ao marido dela para ele ir beber cachaça sem nem perguntar nada, e disse à descarada que de agora em diante, no papel passado e sacramentado, ela não era mais mãe de menino nenhum e que não queria ouvir mais ninguém falando no assunto. 
Só mesmo ela para, imitando o Cristo, porque Ele era aquela candura de pessoa que dava a outra face, mas, quando se impunha a ocasião, xingava os fariseus de tudo quanto era nome feio e baixava a porrada nos usurários do templo, só mesmo ela para depois passar o aviso a todos, das autoridades ao zé povinho. Filho dela, dela, dela, ainda mais que, não havendo sido registrado no civil pelo vagabundo do Rosalvo, agora o seria por Deoquinha, que, aliás, todo mundo conhecia como homem de vergonha na cara e decisão, sendo capaz de mandar dar uma surra de vergalho de boi no primeiro que se fizesse de besta, ou senão pior. Filho no religioso e no civil, para todos e todos os efeitos, seu filho seminarista, feito por ela mais Deoquinha e por ela parido. Só mesmo ela para ir buscar César Augusto em casa, mandar duas velhas lhe darem um banho de bucha, botar um torso encharcado de vinagre na cabeça dele para tirar os piolhos, mandar vir Celso Alfaiate para lhe fazer roupas que dessem para a semana toda, cada dia uma diferente, mandar Aloísio fazer uma cama de gonçalo-alves somente para ele, chamar os irmãos e dizer que ele agora era também irmão, igual aos outros e com a qualidade superior de ser futuro padre, proibir que o chamassem de Cesinha, dar gemada de ovo de quintal e mingau de aveia para fortalecimento, ensinar a usar sapato e, enfim, em uma semana já ser a mãe perfeita do menino. 
A felicidade, contudo, não pode ser completa, nem há bem que nunca se acabe. Essa situação de Deoquinha, por exemplo, não podia, nem mesmo para um homem que como ele nasceu para ser feliz, perdurar mais tempo do que perdurou, pois o Cão nunca cessa de querer fazer o homem blasfemar e logo alguma vicissitude tem de se apresentar. Que queria ele mais da vida àquela altura? Só pensar em jamais, jamais, jamais ter de deitar com Cadinha novamente, jamais, jamais, o deixava flutuando e o fazia sair pela rua dando dinheiro a qualquer menino que passasse. Certo, era um homem de palavra e continuaria a pagar a ela o combinado, cumpriria todos os acordos comerciais, até porque não queria dar-lhe motivo para sair tagarelando sobre a certidão falsa, apesar de o livro de registro já ter subido na fumaça, mas é sempre bom não facilitar com jararacas da marca de Cadinha. De resto, tudo certo como um pateque felipe. As famílias assentadas, o fogo aquietando um pouco, os negócios indo bem, o filho grande aluno do seminário, a mulher parecendo uma anja sem asa, problemas poucos, todos comezinhos, sossego nesta vida, como merecem os justos. Porém, mesmo merecendo, é da natureza deste vale de lágrimas desfrutarem só o gostinho, pois se, com Jó, o melhor dos homens do Senhor, Satanás fez aquela desgraceira toda, que até com caco de telha o desafortunado se coçava e vivia num monturo, depois de ter tido mais dinheiro do que seiscentos Deoquinhas, imagine o que não pode fazer com um muito inferior, de quem na Bíblia não consta o nome? E, como de fato, inesperadamente, o sossego de Deoquinha sofreu enorme comoção. E não só o sossego dele, como o de Benedita, o de Adenailde, que disso veio a falecer, e — por que não dizer? — o sossego de todos, pois ninguém ficou imune aos deploráveis eventos que estariam por convulsionar a ilha. 
O marinheiro alemão foi preso porque parou bêbedo no largo da Quitanda, bem na hora do maior movimento do domingo de manhã, no desembarque do navio de passeio, tirou da barguilha aquela rola branca parecendo uma torebinha de queijo de coalho e deu uma mijadona no oitizeiro maior, sem nem se virar de costas para a maior parte dos presentes. Pode ser até que, na Alemanha, o indivíduo usufrutue do direito de urinar na frente das senhoras e senhoritas, até porque se sabe que o gringo muito branco, de modo geral, tem por costume, toda vez que pode, ficar nu no meio dos outros, inclusive mulheres e crianças, deles ou dos outros. Mas isso é lá na terra deles, onde quem já foi diz que só faz sol um domingo por ano e o resto é gelo de quebrar as orelhas, porque aqui temos abastança de sol até demais e não somos adeptos desse negócio de ir sacando a estrovenga em logradouro público de respeito. Podia ser o que fosse, podia ser até americano dos mais importantíssimos, que não ia ficar por isso mesmo, como, aliás, não ficou. 
Parecendo um busca-pé azuretado, sai de lá da quitanda de Juvenal, me compreenda uma coisa, Lourenço Potó, já com umas oito no juízo, chega junto do alemão, não espera nem que o desgraçado bote a piroqueta lá dele para dentro das calças e lhe dá um sopapo no pé do ouvido que o alemão atravessou a banca de Almério com laranja e tudo, a banca de Vivinha com manga e tudo e o caminho até o sobrado, até se estatelar junto de uma porta, visto Lourenço, além de ignorante pela própria natureza, ter sido criado no sururu e leite de cabra desde pequenininho e ter a mão mais ou menos do tamanho de uma jaca das médias. E, se não é a autoridade que Juvenal, padrinho dele, tem sobre ele, esse alemão podia ter encomendado a alma a Deus, porque Lourenço não ficou satisfeito com o primeiro tabefe e partiu para torcer o alemão como quem espreme uma toalha molhada, mas aí Juvenal chegou lá, patati-patatá, porque tal porque vira, ouça a voz de seu padrinho, e Lourenço desistiu na horinha em que já estava pegando os dois braços e uma perna do alemão para começar a torcer. 
Aí foi aquele negócio, juntou gente, o alemão acordou ainda mais bêbedo do que já estava antes, ficou de olho arregalado, dizendo "eu bom pessoa, eu bom pessoa!", mas, em suma, prenderam logo o bicho. Mocorota, aliás Sua Excelência, o delegado Dr. Marcos Massaranduba, apareceu em pessoa, disse que o alemão acabara de ser surpreendido vertendo água em praça pública, em flagrante ultraje ao pudor, e que podia ser alemão, mas era um bom filho-da-puta e ia cair na chave tão certo como o porco ronca e a galinha cisca. O soldado Rominivaldo e o cabo Lincoln seguraram o homem, segurou um cada braço e foram levando o elemento para a cadeia bem justamente no exato instante em que — quando tem de acontecer, acontece; olhem que ela nunca passava por ali naquela hora, mas quis o Inimigo que, nesse dia, tivesse se atrasado por causa de uma amiga veranista que chegara da cidade —, desencalmada e desinformada, Adenailde dobra a esquina e quase se bate com ele, que arregalou ainda mais os olhos. 
— Dorrothy! Dorrothy! — gritou ele, com vários etcéteras que ninguém entendeu, porque eram na língua dele. — É eu, Hans Peter! Ser eu, Hans Peter! 
Erinstidu, ichibiníchi, dassísti, chaisse, entichuldingungue, achitungue, isso e aquilo, vários gritos, quase que ele se soltando da mão da autoridade — e só "Dorrothy, Dorrothy!" — e Adenailde, coitada, sobremaneira pálida e perdendo o fôlego, com aquele gringo maluco berrando esse nome "Dorothy" na frente dela. Que infelicidade, foi a última vez em que foi vista viva em público, porque só conseguiu falar "eu não me chamo Dorothy, eu não me chamo Dorothy", começar a amolecer as pernas, revirar os olhos e se desmanchar no chão. E o gringo só "Dorrothy, Dorrothy!", a ponto de Mocorota, que, justiça seja feita, só batia em preso em caso de verdadeira necessidade ou merecimento, ter tido que lhe dar umas quatro bordoadas, com a finalidade de que ele parasse a matraca. 
Conduzido o alucinado teutão para a cadeia pública, Mocorota fez vir o escrivão Zenobio Merdinha — assim chamado somente à boca pequena, pela frente sendo respeitado como Zenobio Puro, que ele pensava que era porque ele era considerado uma pessoa pura, mas era só para ninguém esquecer o apelido verdadeiro —, a fim de tomar o depoimento do indigitado. Mas este não entendia nada do que lhe falavam, nem ninguém entendia nada do que ele falava, a não ser essa tal de Dorothy que ele confundira com a pobre da Adenailde, a essa altura passando mal em casa e com certeza achando que tinha visto o Cão. Sugeriu então Zenobio Merdinha que se convocasse René de Dida, suíço arquibiliardário que veio passar um dia na ilha e hoje tem pavor de botar os pés fora daqui, o qual fala todas as línguas e é esperto em todas elas e está cada vez mais rico em todas elas. Sempre muito prestativo, René pegou uma de suas motocicletas último tipo e foi lá, fazer a tradução do alemão mijão, que agora parara de uma vez por todas de berrar "Dorrothy, Dorrothy!", porque Mocorota ficou um pouco impaciente e lhe enfiou uns quatro chumaços de estopa na boca, Mocorota é uma flor de pessoa, mas ninguém lhe pise nos calos. 
Aí é que muitos hoje acham, depois de bastante matutar e remoer o espinhoso tema, que tudo começou. E a tal coisa, não se vai acusar René de nada, porque, apesar de suíço, nunca quis tomar o dinheiro de ninguém e nunca se achou mais porreta do que ninguém aqui, só causando um certo ressentimento quando casou com Dida, a melhor, mais admirada, mais gostosona, mais elegante, mais chique, mais inteligente, mais bela e mais cobiçada mulher de todo o Recôncavo e, se fosse divulgada, de todo o Brasil, negra lindíssima, a rainha de Sabá encarnada. Mas também aqui na ilha, doloroso é reconhecer, não tinha talher para Dida, só mesmo um suíço arquibiliardário e cheio de charmosidades como René, em certos pontos temos que ceder, ninguém pode ser perfeito. Enfim, ninguém vai dizer isso aqui de René, mas errar é humano e o suíço também humano é. E não se vai declarar que ele errou de propósito, foi um problema da psicologia dele, a psicologia nem sempre é levada em consideração, mas influencia muito no desempenho do indivíduo. 
Em primeiro lugar, René, apesar de se dar bem com todo mundo, pagar mesas e receber em belas festas, fazia que tinha, mas não tinha, essas boas relações todas com Deoquinha, nem este com ele, apesar de se comportar mais ou menos da mesma forma. Os negócios afastam os homens e o pecado da inveja atinge os corações dos oficiais do mesmo ofício. Se é cantor e diz que é amigo do cantor, é mentira. Se é pintor, a mesma coisa, carpina idem, pescador tal e qual, rico igualmente. Então era um comprando coisa nova, era outro rebatendo no seu terreno. Era um abrindo loja, outro abrindo armazém. Era um arrendando hotel, era outro comprando pensão. De maneira que, por mais que René não quisesse, os olhos com que via Deoquinha não eram desinteressados, nem benquerentes, nem compreensivos. É da natureza humana, não se pode fazer nada. 
Em segundo lugar, René fala português muito bem, mas não deixa de ser suíço, de forma que certas palavras lhe trazem dificuldade, como quando quiseram que ele entendesse língua de médico ou de advogado, com as quais quem nasce aqui enfrenta renhidas porfias que quase sempre perde, quanto mais um suíço. Também não se vai falar mal do delegado Mocorota, pessoa muito benquista e de ótima família, incapaz de um ato de baixeza, mas não se pode esquecer do episódio de Marivalda, que abandonou Mocorota por Deoquinha num corso de Carnaval, na frente de todo mundo. Não se trata de pensar mal, trata-se de conhecer as fraquezas do homem e talvez assista razão a quem diz que, no depoimento, que hoje está desaparecido, mas há dois ou três que o viram, Mocorota traduzia para delegadês e advogadês o que René falava, e René não entendia, mas confiava e acabou assinando tudo sem nada maldar. 
Em terceiro lugar e, sob certos aspectos, não menos importantemente, vinha René a ser protestante. Ninguém na ilha nunca teve nada contra os protestantes, que são hereges, mas também são filhos de Deus, nada desse negócio de dar pedrada em igreja de protestante, como antigamente. Pelo contrário, quem tem birra com os católicos são os crentes, achando sempre que estamos palestrando com o Demônio e pecando por todos os buracos do corpo. René não é desse tipo de crente, é até um tipo de crente que, olhando assim, ninguém repara. Mas a verdade é que é crente, nasceu crente, foi criado como crente e, para ele, desmoralizar a devoção de uma beata como Adenailde e a santidade de Benedita não ia ser ordinarice, mas afirmação do que ele achava certo. Isso também tem de ser compreendido, para o esclarecimento do hoje mais que provado como falso e falsificado depoimento vergonhoso do alemão safado e seu desintencional inocente útil. Mas o trabalho maldito de Belzebu não deixou de ser feito em parte, até com a visita da Morte, e por pouco não correndo um rio de sangue pelas ruas da ilha. 
Ninguém, nem mesmo Zenobio Merdinha, que, aliás, não toca no assunto, como na verdade ninguém toca, sabe ao certo o teor do depoimento do alemão. Sabe-se que ele primeiro disse conhecer Adenailde de longa data. Conhecia-a tanto, aliás, que soubera logo tratar-se dela, mesmo nunca a tendo visto antes naquele traje quase monjal, logo ela, notável por usar as roupas mais berrantes e ousadas, além de pintar-se e perfumar-se das unhas dos pés à raiz dos cabelos, que tampouco ele jamais vira presos, só os vira sedosos e fluindo sedutoramente sobre os ombros. Só que a conhecia pelo nome de Dorothy, numa certa casa de alto meretrício, especializada em marinheiros estrangeiros e renomada nos quatro cantos da Terra, com a fama levada pelos seus frequentadores. Casa de respeito, onde ele fizera freguesia e amizade com Dorothy, ali estranhamente chamada por aquele apelido impronunciável. Com ela e com uma companheira íntima dela, que atendia pelo nome de Manon e que devia morar ali mesmo, podendo até ser chamada para testemunhar em seu favor, já que Dorothy estava agindo de forma tão estranha. Elas nunca lhe tinham contado que moravam na ilha, mas tinham dito, ao longo dos anos em que se encontraram, às vezes até três temporadas em um só ano, que não residiam no bordel e, sim, na mesma cidadezinha do interior, de onde sempre saíam juntas quando chegavam navios estrangeiros, porque a brasileiros elas não gostavam de atender e chegavam a esconder-se deles, nos raros casos em que alguns apareciam. Então, se Dorothy morava ali, também devia morar Manon, ninguém conhecia Manon? 
O espírito maldoso natural do homem a essa altura despertou nos presentes, não por ruindade, mas por uma questão de naturalidade mesmo. René de Dida primeiro ficou vermelho e depois começou a pigarrear, Mocorota deu para andar de um lado para o outro parecendo uma lançadeira de máquina de costura, instalou-se grande nervosismo. Seria... Poderia... Absurdo! Infâmia, só dando mais umas porradas nesse alemão para ele deixar de caluniar as mais incaluniáveis das mulheres. Pois, pois o gringo podia ser maluco mesmo, piorado pela cachaça, mas, com aquela conversa, levantava indiretamente o nome de Benedita. Claro que era mentira dele, mentiroso safado. Levou mais uns dois cachações de Mocorota e foi aí que a investigação policial começou a dar resultados, pois apareceram logo as falhas no depoimento do marujo exótico. 
Perguntado onde se localizava a citada casa de tolerância e qual o seu nome, não soube responder. Disse que a casa havia mudado de endereço sem que o avisassem e, por isso mesmo, havia se desencontrado dos amigos e tomara o vapor para a ilha, sem nem saber direito aonde estava indo. Muito mal contada, essa história, muito mal contada. Onde já se viu marinheiro não saber o nome do puteiro obrigatório, se perder assim dos outros, o bordel mudando de endereço porque não devia existir — tudo invenção daquele branco safado, piorada porque René não entendia direito o que Mocorota lhe pedia para confirmar, antes de ditar a Zenobio Merdinha. 
— Ele disse que comia as duas, mas era mais chegado a Manon. 
— O depoente declarou que mantinha concúbito com ambas as supostas indigitadas, mais amiudemente com aquela apodada de Manon, não é isso mesmo? 
— Hum, isso mesmo — respondia René, que não queria se aborrecer muito e já estava na hora das cervejas dele. 
Mais razão, por conseguinte, para levantar a certeza de que o desaparecido documento era uma infundada versão falsa de desacontecimentos inverídicos, ou melhor, a completa invenção de uma mente doentia e lunatificada pelo etilismo, além de, mesmo que aparecesse, não ter valor legal nenhum, pois, como observou depois o juiz Martiniano Conceição, amigo de infância de Deoquinha e homem que sustentava opinião sobre tudo e nunca mudava nenhuma, se tratava de uma prisão por mijada em público e não para lançar a infâmia sobre a virtude conhecida de uma santa e uma beata. Infelizmente, na ocasião, Mocorota encarou aquilo como um atentado à honra de Adenailde, aliás prima por parte de Maricota, sua dele mãe, e, mais do que isso, o insulto de um indivíduo desqualificado e imoral contra toda a honra da cidade, que sempre se orgulhara de não contar entre seus quadros femininos nem uma só prostituta, não há caso registrado de puta itaparicana, a itaparicana pode até, em alguns casos, não se pautar pela alta castidade, mas nunca na condição de putarreles. 
E toda essa conspiração se comprovou ainda mais ser obra do Demônio, para tentar manchar a santa e impor os caminhos do Pecado, em vista do acontecido nesse mesmo dia. Depois de ter ainda dado umas vinte ou trinta bolachadas no alemão por tentar difamar sua prima e a mulher mais devota da ilha ao mesmo tempo, Mocorota anunciou a René, que só ficava olhando para o relógio, porque o suíço é o homem do relógio e tudo na vida dele é pelo relógio, inclusive a cerveja, que iria buscar Adenailde para uma acareação. Aí mesmo é que o gringo descarado ia ter de reconhecer que estava bêbedo e era maluco e aquela história toda ia acabar. Sim, a prima tinha desmaiado e passado mal, mas agora já havia descansado, era uma mulher forte, que nem gripe pegava. Mocorota vestiu o paletó, botou o chapéu, ordenou que não tirassem o olho do alemão, pediu a René, que a essa altura já tinha mandado trazerem a cerveja para a delegacia mesmo, que esperasse, e foi buscar a prima. 
Triste momento, cena cruel, desenlace fatal, traspasso inesquecível para Mocorota, que morreu se culpando pela morte de Adenailde. Mas como poderia ele esperar o que iria acontecer? Encontrou-a sentada na poltrona estofada, cercada de almofadas e com uma rodela de batata colada em cada têmpora. Estava com uma dor de cabeça lancinante, felizmente agora melhorando aos poucos, com a Guaraína e as rodelas de batata. Que homem louco era aquele que tanto a assustara, já estava mesmo preso e enjaulado? Sim, estava, não ofereceria mais perigo, tomaria mais umas traulitadas, talvez umas palmatoriadas, para aprender a deixar de ser descarado, ir mijar na porta da igreja de herege lá da terra dele da mãe dele e difamar as mulheres da raça dele, todas, por sinal, tidas e havidas com inteira justiça como doidas por um fumo de corda, não podendo ver um negrão dobrado na frente de que não queiram logo dele fazer uso. E agora seria plena e esmagadoramente desmoralizado e desmentido, quando a queridíssima prima se levantasse dali, o acompanhasse no curto percurso à delegacia e fosse lá olhar bem nos olhos do vilipendiador e forçá-lo, na presença de testemunhas, a confessar a verdade. Ela não ia perder a oportunidade de arrasar o canalha que lhe atribuíra pecha tão medonha, ia? 
Só quem assistiu mesmo foi Mocorota, mas o que se diz é que Adenailde ficou roxa e depois alvaiade puro, deu uma espécie de gaitada troncha, se levantou, botou a mão no pescoço, disse "mas naturalmente, o que é que você está me dizendo, o galo cantou agora, a mangueira já florou, dois e dois sempre dá quatro, crem-dôs-padre-tod-poderoso, quanto é que está o quilo da farinha" e mais uma sucessão de ditos sem colar coisa com coisa, que se via que tinha fulminantemente endoidado. Mas nunca de fato se saberá ao certo, porque, em seguida, ela fechou as mãos, abriu os braços para os lados, dizem que botou mais de palmo de língua de fora e quase que os olhos se lhe pulam das cavidades oftálmicas e então caiu dura no ladrilho, totalmente morta para sempre. 
Imediatamente Mocorota, um homem daquele tamanho mas com um coração de manteiga, começou a gritar, a chorar e arrancar os cabelos e logo veio a casa toda gritar, chorar e arrancar os cabelos e, em coisa de dois minutos, toda a ilha já estava na porta da casa de Maricota, mãe enlutada de Adenailde, onde se dera o trágico trespasse. O itaparicano, é voz de todo o universo, mesmo a do invasor holandês ou do opressor português, trata bem todo mundo, não se aborrece com qualquer besteira, está disposto sempre a perdoar ou deixar para lá, não gosta de briga e ama o semelhante, mas ai de quem fira o orgulho do itaparicano, ai de quem atinja a honra de uma filha ou filho da terra! E, mesmo diante dos pedidos de calma de Mocorota, que cumpria seu dever de autoridade, a coletividade revoltada tomou a direção da delegacia. Aquele gringo nefando, que mandara prematuramente para o céu donzela tão recatada, verdadeiro assassino, aquele desbotado amaldiçoado morreria debaixo de porrada, seria enforcado em praça pública, esquartejado por corcéis negros, jogado ao pasto dos siris na vazante — que se abrissem todos os caminhos, que desmoronassem as muralhas de Jericó, a ilha era mais uma vez a Vingadora! 
 
Qual vagalhão proceloso que em alto- mar avassala os mais invulneráveis vasos de guerra e leva de roldão ilhas inteiras, segue a turba colérica e cada vez mais adensada, rumo à delegacia. Os minutos do alemão estavam contados, logo seu sangue e vísceras tombados sobre aquele solo sagrado seriam a hecatombe com que a ilha faria pagar aos deuses da Justiça a afronta recebida. A História, contudo, nem sempre se passa da forma esperada e, nesta matéria, é possível que novamente a radioatividade constitua fator de relevância. Sabe-se que a radioatividade itaparicana, aliada ao constante apuramento das nossas estirpes, tem influência marcante no dom do verbo e da oratória, que todo itaparicano possui, cultiva e aprecia. Não se vai negar que o Estado da Bahia é todo ele celeiro de excelentíssimos poetas, prosadores e oradores, mas, em Itaparica, o que em outras partes configura fenômeno faz parte do trivial. Quem a fortuna tiver de comparecer a Itaparica por ocasião dos festejos da verdadeira data magna da nacionalidade, o Sete de Janeiro, ouvirá discursos só comparáveis, em muitos casos favoravelmente, aos que fazia o padre Vieira na Sé e, se a sorte o agraciar, poderá até mesmo escutar a palavra sem rival de Ary de Maninha, no palanque do Campo Formoso. 
Isto posto, não se coadunaria com as melhores tradições da ilha proceder-se ao linchamento do alemão antes que fossem ouvidos alguns pronunciamentos de capital importância. Ainda no batente mais alto do sobrado da finada Miloca, bem antes de se chegar à delegacia, Balduíno Jacaré fez um gesto para a multidão e deu sinal de discurso mediante o já consagrado pigarro rouco seguido de uma assoada de nariz, com o vasto lenço que agora permaneceria alternadamente desfraldado e amarrotado, como componente essencial de sua magistral quironomia. Começou também no estilo que já o individualizara na plêiade dos grandes oradores da ilha — pausado, grave, quase meditabundo, para, em seguida, numa gradação de suserano do ritmo e da melodia, chegar à indignação vulcânica com que lançava a platéia a transportes de ânimo inexcedivelmente arrebatadores. E, com muitos em lágrimas e outros entoando hinos guerreiros, prosseguiu um tanto a marcha e se manifestou outro tribuno, quiçá ainda mais alcandorado que Balduíno Jacaré, o major reformado Nabucodonozor Ozório, que, com a presteza conferida pelas lides militares, já aparecera de farda, espada e condecorações. Em brevíssima alocução, aludiria à vocação militar de ilha aparentemente tão amante da paz. Amante da paz, sim, mas sempre pronta a agigantar- se no campo de batalha, qual David entre dúzias de Golias. Pela paz, com a paz, da paz, em paz, à paz, de paz sempre fora, mas ninguém mais do que ela sabia que a guerra era muitas vezes o alicerce da paz. Si vis pacem, para bellum! Para a guerra se aprestassem todos, que viessem todas as Alemanhas, que viesse a Europa em peso! O pó da derrota que inalara tão esmagadamente nos campos de antanho seria outra vez o escarmento de sua insolência! 
E medida justa da fúria da turba que apenas dois outros oradores ainda se tenham feito ouvir, o primeiro dos quais com respeitosa relutância, dado tratar- se do idoso coronel Vicente Mendes Patracanho, da Guarda Nacional e homem cujos muitos haveres lhe conferiam natural dignidade, mas cuja mente, sob o perverso assédio de seus bem mais de noventa verões, já às vezes lhe faltava ao corpo, de maneira que, desempenado e rijo como um dendezeiro novo, a voz ainda capaz de comandar batalhões, costumava narrar histórias sem começo, meio ou fim, embora, para contentamento de todos, nunca objetasse a ser sustado, quando então batia palmas para si mesmo e abraçava os circunstantes com efusão, agradecendo a elogios que ninguém lhe tinha feito. E o segundo, aliás segunda, também mereceu atenção, porque a mulher itaparicana de cultura sempre se sobressaiu em todos os ramos do saber e do fazer adequados à natureza feminina, encontrando-se entre estes a oratória cívica e poética, bem como a declamação, já o teatro sendo coisa mais de livres-pensadoras de comportamento licencioso, que aqui não temos nem queremos ter e, quando queremos, mandamos buscar fora. E discorreu então, depois de algumas estrofes de Castro Alves, Fagundes Varella, Gonçalves Dias, Basílio da Gama, Casimiro de Abreu e o moderno Olegário Mariano, sobre as heroínas da portentosa história da ilha e seus feitos formidolosos. Secundou, sob o ponto de vista da fragilidade feminina, que, se bem usada, se transfigurava em força irresistível, os pontos de vista do major Nabucodonozor e ainda se preparava para pouco mais de meia hora de discurso, esta parte em memória da infaustamente desaparecida Adenailde, quando um desgrenhado e salivante Mocorota, sem que ninguém tivesse visto como ele lá chegara, apareceu na janela gradeada da delegacia, segurando à sua frente, pela nuca, o criminoso germânico. A comoção se espraiou pela horda como o sulco de uma grande embarcação se espraia em ondinhas sobre a areia. 
— É ele! 
— Forca! 
— Primeiro chibata, primeiro chibata! 
— Degola logo! 
E já se selaria o sanguinoso fim do alemão, quando novo tumulto se declara, desta vez pela orla da multidão, à distância da delegacia. Cabeça atrás de cabeça se virando, bocas se falando, ouvidos se espichando, olhos se apurando, logo um nome paralisava a multidão como se houvera toda ela se convertido numa escultura de rocha. 
— Benedita! 
Sim, não havia dúvida, a mínima dúvida. De xale na cabeça, vestido lilás abotoado até o pescoço, cercada por alguns de seus negros e amas, ar severo e decidido no rosto empinado, Benedita abria caminho em meio à aglomeração como Moisés fendendo o Mar Vermelho. Que mulher, que coragem, era ela vindo para encarar o ofensor! Que desejaria ela? Até mesmo ela, que tudo perdoava e compreendia, agora tencionava vingar pessoalmente a morte de sua melhor, talvez sua única amiga verdadeira? Momento assim tão grávido de iminência pouca gente ali havia testemunhado, nem jamais testemunharia. Até o mar e o vento fizeram silêncio, enquanto Benedita chegava a uns dez passos da janela da delegacia, onde o rosto do alemão se iluminou. 
— Manon! — gritou ele. — Focê Manon! Manon! Rilfe! 
E desatou no palavreado dele — porque Manon rilfe, porque Manon zaguidu, porque Manon unterralte viruns, porque der, porque di, porque das, porque alzô e diversos novos etcéteras em língua tedesca, que ninguém entendeu, mas Mocorota se retou, deu dois taponas na cabeça dele e já se preparava para levá-lo para a execução pública do lado de fora, quando Benedita levantou a mão, num verdadeiro gesto da santa que sempre foi e será por toda a Eternidade, falou para que todos ouvissem e todos a ouviram. Não estava vindo ali para a vingança, mas para o perdão. Nada do que fizessem restauraria a vida de sua amadíssima Adenailde. Deus a quisera assim levar e cumpria respeitar Sua vontade, pois amar a Deus sobre todas as coisas é o primeiro dos Mandamentos. Ali estava um pobre louco, a padecer entre delírios e alucinações, punição mais do que suficiente para os pecados que insanamente cometera. Que o soltassem e o deixassem em paz para voltar para sua terra e, pelo menos, já que tinha que ser infeliz, ser infeliz entre os seus. Que importava o que tinha dito o pobre louco? Acaso alguém ali acreditava em uma só palavra do que dissera por meio de René e que toda a ilha já ouvira, quiçá de forma até deturpada pelo passar de boca em boca? Que razão havia para prestar atenção aos desvarios de um demente, um pobre coitado que só merecia indulgência e preces por sua alma já quase danada? Não, não, fossem para suas casas, acendessem uma vela a seus santos, fizessem orações e dormissem com Deus, já lhes tinha sobrevindo mal em demasia. 
Assim falou Benedita, santa mulher, e um manto de paz pareceu descer dos céus sobre toda a ilha. Como alguém pudera chegar a passar nem perto de suspeitar dela? Aliás, ninguém havia suspeitado nada, Deus era testemunha, fora só o nervosismo do momento. Ela viera até a delegacia por livre e espontânea vontade, fora até chamada por nome de mulher- dama, mas pairara acima de tudo e mostrara o valor da verdadeira cristandade e o exemplo divinal que a mulher deve imitar em toda parte. Benedita, Benedita, que homem feliz era Deoquinha, que estrela tinha na testa, que bela sina lhe coubera, que destino iluminado! 
Em tudo isso acabava de pensar agora Lourival Divino Beiço, que fizera parte da multidão naquele dia inolvidável, até carregando umas pedras nas mãos para jogar no alemão, pedras estas que deixara escorregar para o chão sem sentir, após ouvir Benedita. De repente saiu da memória e retornou ao quarto em que estava diante do cadáver de Deoquinha. Sim, andara não sabia quanto tempo ali devaneando, tantas lembranças, tanta vida vivida, tudo parecendo não ter levado mais que um minutinho, tudo tão ligeiro quanto um mergulho de gavião. Mas não podia pensar mais nisso, havia o que fazer, a morte chegava, mas a vida não parava. Olhou em redor, sua irmã Tinoca não estava mais ali, devia ter tentado falar com ele sem conseguir chamar sua atenção e certamente, desmiolada e falastrona como era, já estava contando o sucedido a todo mundo. 
Aliás, pensando bem, o que o tinha tirado daquelas lembranças, tão longínquas e tão próximas, haviam sido as batidas na porta. Estavam batendo na porta, sim, isso era o que o tinha despertado. Batiam cada vez mais forte, certamente acabariam por arrebentar a porta, e Lourival foi abri-la sem perguntar quem era. E nem precisava, porque era a Gameleira completa, homens, mulheres e meninos, todos gritando e querendo entrar ao mesmo tempo, a ponto de Lourival, que não era homem dessas coisas mas há certas horas em que a necessidade impera, se coçar, sacar o revólver de investigador que nunca largava e dar um tiro para cima que abriu um rombo nas telhas, encheu de poeira o quarto e fez a maioria correr e os outros se aquietarem. 
Não foram fáceis as manobras, deliberações, discursos, apartes e até questões de ordem, estas apresentadas proliferamente por Libório Duas Cobras, que agora era vereador e achava que tudo o que ele queria dizer e os outros não escutavam era questão de ordem. Mais de quatro horas decorreram entre o início dos debates, ocorrido no próprio quarto, e o encerramento, realizado na pensão de Augusto Bode, sob os protestos de alguns que ainda queriam falar, acusações de totalitarismo e algumas inimizades incipientes. O problema principal era, naturalmente, como fazer chegar à viúva Benedita uma notícia que trazia uma desgraça embrulhada em outra. Não só lhe morrera o marido, como morrera empernado com uma rapariga. Como desferir mais esse rude golpe em dama tão castigada pela vida e tão temente a Deus? Quem tinha coragem? Todas as soluções imagináveis foram propostas, até mesmo transportar o corpo a Salvador e de lá trazê-lo de volta, contando que o passamento se dera durante um encontro de negócios. Mas acabou-se por decidir em favor da verdade, sempre o melhor dos caminhos, por mais áspero que se afigure ser. Afinal, Benedita já sabia mesmo que Deoquinha tinha uma rapariga em cada esquina. Diriam apenas que ele morrera de repente em visita à Gameleira, ela que adivinhasse, como sem dúvida adivinharia, o resto. E assim formou-se uma comissão de amigos do pranteado, que se incumbiu de dirigir-se à viúva, para cumprir o doloroso e impostergável dever. 
Durante a jornada, os cinco membros da comissão, da qual Lourival, embora grande amigo da família, muito compreensivelmente se escusara, dada sua melindrosa condição de irmão da comborça em pauta, partilhavam dúvidas sombrias sobre como reagiria Benedita. Possivelmente até o padre a considerasse no pleno direito de sequer ir ao enterro, quanto mais velar o defunto e mandar rezar missa. Essa era a realidade inescapável, pois nem Deoquinha estava acima de certos limites. Rapariga, sim, mas morrer no ato, principalmente numa terra e numa família que sempre se orgulhou de belas mortes, não era coisa que se fizesse. Deoquinha dera azar pela primeira vez em sua vida e ainda assim dera sorte, porque não viveu para ver o seu azar, que agora caía nas costas dos outros, pelo menos respingando. Escolheriam um orador oficial, ou falaria aquele que na hora se inspirasse? Levariam logo o Dr. Marinho, para o caso de ela sofrer uma síncope? 
E ainda discutiam sem em nada concordar, quando chegaram à casa de Deoquinha e viram logo que não tinham mais o que fazer. No salão do sobrado, com as janelas todas abertas, já estava, esperando o caixão, um estrado de sucupira rodeado de flores, uma mesa com café, bolos e vermute, velas acesas em cada cantoneira e sobre as cômodas, tudo preparado para a sentinela de Deoquinha. Só não estava lá Benedita, ainda recolhida em seus aposentos na companhia das filhas, mas, antes, com os olhos vermelhos e a voz trêmula porém decidida, tinha tomado todas as decisões, desde despachar o saveiro João das Botas para buscar o corpo na Gameleira até mandar diversos positivos dizer a quem interessar pudesse que todo e qualquer filho de Deoquinha, com toda e qualquer mulher, tinha direito e obrigação de ir ao velório do pai, que sempre fora bom pai para todos, como também essas mulheres e seus filhos meios-irmãos do filho de Deoquinha. Que sabia perfeitamente da vida de Deoquinha e não seria ela quem iria querer negar esse direito cristão e católico apostólico romano a quem quer que fosse, sangue era sangue e tinha de ser respeitado. 
Mesmo se conhecendo a grandeza e a santidade de Benedita, como a ilha já estava cansada de conhecer, caíram os queixos de quase todos. Então, pela primeira vez na História da ilha, talvez pela primeira vez na História da Humanidade, se viu aquele indizível espetáculo, dezenas de famílias se benzendo, chorando e rezando em torno do mesmo pai, para não falar nos doze ou treze netinhos. E Benedita, se é claro que não sorria, também não exibia carranca, antes o semblante resignado que já se tornara parte dela e que agora parecia mais fortalecido. Atrás dela, algumas parentas próximas, as agregadas mais chegadas. Ao lado dela, os filhos. Em frente a ela, segurando um terço e levantando os olhos agudos em sua direção, por baixo do véu negro, sua irmã Leocádia. 
Que via Leocádia em frente a ela? Via, com raiva e despeito que dissimulava mas a agradavam, a irmã, feliz até no dia da morte do marido, feliz como tinha sido a vida toda, muito mais feliz do que qualquer um pudesse conceber, feliz, feliz, astronomicamente feliz, imensuravelmente feliz, tão feliz quanto o máximo que se pode ser neste mundo. E ninguém daquele povo besta jamais saberia, nem quereria saber da verdade, nem adiantava nada que soubesse a verdade. Era forçada a reconhecer, que grande mulher era Benedita, que mulher esperta, que mulher que sabia viver! Porque Leocadia tinha certeza de que a história do alemão era verdadeira; não podia provar, mas tinha certeza. Tanto tinha que seu olhar se moveu e ela confirmou, num dos filhos lourinhos do casal, as feições exatas de padre Nicola, o conselheiro de Benedita na Bahia. E todos os outros, tão diferentinhos entre si, só um ou outro se parecendo e assim mesmo não com Deoquinha, mas com a mãe. Pensando bem, podia até ser mais fácil achar filhos verdadeiros de Deoquinha na rua do que em casa, pois era até bem possível que nenhum dos filhos de Benedita, talvez com a exceção dos mais velhos, fosse dele, quem iria saber? 
Ninguém iria saber, pensou Cadinha, contemplando invejosamente Benedita e, num impulso que não conseguiu conter mesmo passados tantos anos, fixou o rosto da irmã, assegurou-se de lhe ter capturado a atenção e então formou pausadamente com os lábios a palavra "Manon". Manon, repetiu Cadinha e poderia jurar pelo resto da vida que, antes de baixar de vez o rosto, Benedita mostrou a sombra de um sorriso, deu um sim de cabeça quase imperceptível e seus olhos brilharam de maneira insuportavelmente feliz. 

 

 

                                                                  João Ubaldo Ribeiro

 

 

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