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Planeta Criança



Poesia & Contos Infantis

 

 

 


MORGAWR, O BRUXO / Terry Brooks
MORGAWR, O BRUXO / Terry Brooks

                                                                                                                                                   

                                                                                                                                                  

 

 

Biblioteca Virtual do Poeta Sem Limites

 

 

MORGAWR, O BRUXO

 

A figura apareceu por entre as sombras da alcova tão rapidamente que Sen Dunsidan quase esbarrou nela antes de perceber sua presença. O corredor que levava ao seu quarto de dormir estava escuro com as sombras do anoitecer, e a luz dos lampiões de parede lançava apenas halos espalhados de brilho difuso. Os lampiões não ajudaram nesse caso, e o ministro da Defesa não teve a chance nem de fugir nem de se defender.

— Um momento de sua atenção, por favor, ministro.

O intruso estava coberto com capuz e manto e, embora isso tivesse feito Sen Dunsidan se lembrar na hora da bruxa Ilse, ele percebeu que, sem sombra de dúvida, não era ela. Aquele era um homem, não uma mulher: grande e corpulento demais para ser uma mulher, e as palavras eram ásperas e masculinas. A forma pequena e esguia da bruxa, sua voz fria e suave estavam faltando. Ela fora vê-lo há apenas uma semana, antes de partir em sua viagem a bordo da Black Moclips, rastreando o druida Walker e sua companhia até um destino desconhecido. Agora aquele intruso, envolto em manto e capuz da mesma maneira, havia aparecido do mesmo jeito: à noite e sem ser anunciado. No mesmo instante ele se perguntou qual era a ligação entre os dois.

Disfarçando sua surpresa e a pequena sensação de medo que apertava seu peito, Sen Dunsidan assentiu.

— Onde gostaria de conversar?

— Seus aposentos servirão.

Mesmo sendo um homem grande, ainda na flor da idade, o ministro da Defesa se sentiu como um anão ao lado do outro. Era mais do que simplesmente tamanho; era também a presença. O intruso exalava uma força e confiança que não se costumavam encontrar em homens comuns. Sen Dunsidan não perguntou como ele conseguira entrar na fortaleza murada e muito bem protegida. Não perguntou como o outro passara, sem ser detectado, até o andar superior. Essas perguntas não tinham sentido. Ele aceitava que o intruso fosse capaz disso e muito mais. Fez como lhe foi pedido. Passou pelo intruso com uma mesura reverente, abriu a porta de seu quarto e fez um gesto para que entrasse.

Ali as luzes também estavam acesas, embora não fossem mais brilhantes do que as do corredor, e o intruso se dirigiu imediatamente para as sombras.

— Sente-se, ministro, e eu lhe contarei o que desejo.

Sen Dunsidan se sentou em uma cadeira de espaldar alto e cruzou as pernas confortavelmente. Seu medo e surpresa haviam se desvanecido. Se o outro lhe quisesse mal, não teria se dado ao trabalho de se anunciar. Ele queria algo que um ministro da Defesa do conselho da coalizão da federação pudesse oferecer, de modo que não havia motivo especial de preocupação. Pelo menos, não ainda. Isso poderia mudar se ele não conseguisse dar as respostas que o outro procurava. Mas Sen Dunsidan era mestre em dizer aos outros o que eles esperavam ouvir.

— Quer um pouco de cerveja gelada? — ele perguntou.

— Pode servir para si mesmo, ministro.

Sen Dunsidan hesitou, surpreso pela insistência na voz do outro. Então, levantou-se e caminhou até a mesa-de-cabeceira, onde estavam o balde de gelo com a jarra de cerveja e diversos copos ao redor. Manteve os olhos baixos enquanto servia a cerveja, seus longos cabelos prateados estavam soltos à altura dos ombros e trancas pendiam sobre as orelhas, obedecendo à moda atual. Ele não gostava do que estava sentindo naquele momento; a incerteza vinha rápida demais nos calcanhares da confiança recém-conquistada. Era melhor tomar cuidado com aquele homem e dar cada passo com cautela.

Voltou à sua cadeira e tornou a se sentar, bebericando a cerveja. Seu rosto forte virou-se na direção do outro, uma presença que mal se deixava ver por entre as sombras.

— Tenho algo a lhe pedir — disse o intruso suavemente.

Sen Dunsidan assentiu e fez um gesto expansivo com uma das mãos.

O intruso mudou ligeiramente de posição.

— Esteja avisado, ministro. Não pense em me aplacar com promessas que não pretende cumprir. Não estou aqui para perder meu tempo com idiotas que pensam em me dispensar com palavras vazias. Se eu sentir que você está dissimulando, simplesmente o matarei e pronto. Entendeu?

Sen Dunsidan respirou fundo para se conter.

— Entendi.

O outro não disse nada por um momento e, em seguida, saiu das sombras profundas para as margens da luz.

— Chamam-me de Morgawr. Sou mentor da bruxa Ilse.

— Ah. — O ministro da Defesa assentiu. Ele não estava errado quanto às aparências semelhantes.

A forma coberta pelo manto aproximou-se um pouco mais.

— Você e eu estamos prestes a formar uma parceria, ministro. Uma nova parceria, para substituir a que você fez com minha pupila. Ela não precisa mais de você e não voltará a vê-lo. Mas eu voltarei. Muitas vezes.

— Ela sabe disso? — Dunsidan perguntou com cautela.

— Ela sabe muito menos do que pensa. — A voz do outro era baixa e dura. — Ela decidiu me trair e será punida por sua infidelidade. Eu administrarei sua punição quando me encontrar com ela. Isso não lhe diz respeito, a não ser quanto ao fato de que não tornará a vê-la. Por todos esses anos eu fui a força por trás dos esforços dela. Fui eu quem lhe deu o poder de formar alianças como a que fez com você. Mas ela violou minha confiança e, assim, deixou de merecer minha proteção. Ela não tem mais utilidade para mim.

Sen Dunsidan tomou um longo gole de sua cerveja e colocou o copo de lado.

— O senhor irá me perdoar se eu demonstrar um certo ceticismo. Não o conheço, mas a conheço. Eu sei o que ela pode fazer. Eu sei o que acontece àqueles que a traem, e não pretendo me tornar um deles.

— Talvez seja melhor ter medo de mim. Sou eu quem está aqui à sua frente.

— Talvez. Mas a Senhora das Trevas tem um jeito de aparecer quando menos se espera. Mostre-me a cabeça dela e ficarei mais do que contente em discutir um novo acordo.

A figura encapuzada riu baixinho.

— Falou bem, ministro. Você oferece a resposta de um político a uma exigência séria. Mas acho que deveria reconsiderar. Olhe para mim.

Ele puxou o capuz para trás revelando o seu rosto. Era o rosto da bruxa Ilse, jovem, macio e cheio de perigo. Sen Dunsidan não conseguiu evitar o susto. Então, o rosto da garota mudou, quase como se fora uma miragem, e se tornou o rosto de Sen Dunsidan: linhas retas e ângulos, olhos azuis penetrantes, longos cabelos prateados e um meio sorriso que parecia pronto a prometer qualquer coisa.

— Você e eu somos muito parecidos, ministro.

O rosto tornou a mudar. Outro tomou seu lugar, o rosto de um homem mais novo, ninguém que Sen Dunsidan já tivesse visto. Não tinha como ser descrito, era neutro a ponto de ser facilmente esquecido, despido de traços interessantes ou memoráveis.

— É este quem eu realmente sou, ministro? Será que estou me revelando agora? — Fez uma pausa. — Ou eu sou realmente assim?

O rosto tremeluziu e mudou para uma coisa monstruosa, uma imagem reptiliana com um focinho rombudo e olhos como duas fendas. Escamas cinzentas e ásperas recobriam um rosto marcado, e uma enorme boca serrilhada se abriu para revelar fileiras de dentes bem pontiagudos. Olhos minúsculos, repletos de ódio e veneno, brilhavam com um fogo esverdeado.

O intruso recolocou o capuz e seu rosto desapareceu nas sombras que se formaram. Sen Dunsidan ficou imóvel em sua cadeira. Estava consciente demais do que acabara de presenciar. Aquele homem tinha o domínio de uma magia muito poderosa. No mínimo, ele podia mudar de forma, e era muito provável que pudesse fazer muito mais do que isso. Ele era um homem que gostava dos excessos do poder tanto quanto o ministro da Defesa, e usaria esse poder de qualquer maneira que achasse necessária para obter o que queria.

— Eu disse que nós éramos parecidos, ministro — sussurrou o intruso. — Ambos parecemos uma coisa quando na verdade somos outra. Eu conheço você. Conheço você assim como conheço a mim mesmo. Você faria qualquer coisa para ampliar seu poder na hierarquia da federação. Você se permite prazeres que são proibidos aos outros homens. Cobiça o que não pode ter e faz planos para garantir isso. Sorri e finge amizade quando, na verdade, você é a própria serpente que seus inimigos temem.

Sen Dunsidan continuava com seu sorriso de político no rosto. O que aquela criatura queria dele?

— Digo isso tudo não para enfurecê-lo, ministro, mas para me certificar de que não entenda mal minha intenção. Estou aqui para ajudá-lo a levar adiante suas ambições em troca de uma ajuda que você pode, por sua vez, me dar. Desejo perseguir a bruxa na sua viagem. Desejo estar lá quando ela lutar contra o druida, pois estou certo de que ela o fará. Desejo capturá-la com a magia que possui, pois pretendo tirar-lhe essa magia e, em seguida, tirar-lhe a vida. Mas, para conseguir isso, preciso de uma frota de aeronaves e de homens para tripulá-las.

Sen Dunsidan olhava para ele sem acreditar.

— O que está pedindo é impossível!

— Nada é impossível, ministro. — Os mantos negros se mexeram com um roçar suave quando o intruso atravessou a sala. — O que estou pedindo é mais impossível do que o que você procura?

O ministro da Defesa hesitou.

— E o que eu procuro?

— Ser primeiro-ministro. Ter o controle do conselho da coalizão de uma vez por todas. Governar a federação e, ao fazer isso, governar as Quatro Terras.

Uma série de pensamentos passou rapidamente pela cabeça de Sen Dunsidan, mas todos se reduziram a um só. O intruso tinha razão. Sen Dunsidan faria qualquer coisa para se tornar primeiro-ministro e controlar o conselho da coalizão. Até mesmo a bruxa Ilse sabia dessa ambição, embora jamais a tivesse verbalizado daquela maneira; uma maneira que sugeria que essa ambição podia ser alcançada.

— Ambas as coisas me parecem impossíveis — ele respondeu, cautelosamente, ao outro.

— Você não consegue ver o que estou lhe dizendo — disse o intruso. — Estou dizendo a você por que provarei ser melhor aliado do que a bruxinha. Quem está entre você e seu objetivo? O primeiro-ministro, que é valente e está bem de saúde? Ele servirá longos anos antes de deixar o cargo. Seu sucessor escolhido, o ministro do Tesouro, Jaren Arken? Ele é um homem mais novo do que você e igualmente poderoso, igualmente impiedoso. Ele aspira a ser ministro da Defesa, não é? Ele busca a posição que é sua no conselho.

Uma fúria gelada percorreu Sen Dunsidan ao ouvir essas palavras. Tudo isso era verdade, claro. Arken era seu pior inimigo, um homem escorregadio e enganoso como uma cobra, totalmente frio como um réptil. Ele queria o homem morto, mas ainda não havia encontrado uma maneira de realizar isso. Havia pedido ajuda à bruxa Ilse, mas embora ela estivesse disposta a aceitar qualquer outra troca de favores, sempre se recusara a matar por ele.

— Qual é a sua oferta, Morgawr? — ele perguntou ríspido, cansado daquele jogo.

— Apenas isto. Amanhã à noite, os homens que estão em seu caminho não existirão mais. Nenhuma culpa ou suspeita recairá sobre você. A posição que cobiça estará livre para que você a tome. Ninguém se oporá a você. Ninguém irá questionar seu direito de liderar. Isso é o que posso fazer por você. Em troca, você deve fazer o que eu peço: dê-me as naves de que preciso e os homens para navegá-las. Um ministro da Defesa pode fazer isso, especialmente quando está prestes a se tornar primeiro-ministro.

A voz do outro se tornou um sussurro.

— Aceite a parceria que estou oferecendo, para que não só possamos ajudar um ao outro agora, mas também possamos nos ajudar novamente quando se tornar necessário.

Sen Dunsidan levou um longo momento para considerar o que estava sendo pedido. Ele queria muito ser primeiro-ministro. Faria qualquer coisa para garantir o cargo. Mas não confiava naquela criatura, naquele Morgawr, uma coisa que não era inteiramente humana, um possuidor de magia que podia destruir um homem antes que ele tivesse tempo de perceber o que estava acontecendo. Dunsidan ainda não estava convencido de que era aconselhável fazer o que o outro lhe pedia. Tinha medo da bruxa Ilse; não podia admitir isso a mais ninguém, apenas a si mesmo. Se ele cruzasse com ela e ela descobrisse, ele seria um homem morto, ela o caçaria e o destruiria. Por outro lado, se o Morgawr fosse destruí-la, como disse que o faria, então seria bom repensar suas preocupações.

A sabedoria popular dizia que mais vale um pássaro na mão do que dois voando. Se algum caminho para o posto de primeiro-ministro do conselho da coalizão pudesse ser aberto, quase qualquer risco valeria a pena.

— De que tipo de aeronaves você precisa? — ele perguntou baixinho. — Quantas?

— Nossa parceria está acertada, ministro? Sim ou não? Não me engane! Não imponha condições! Sim ou não?

Sen Dunsidan ainda tinha dúvidas, mas não podia deixar passar a chance de forçar sua própria sorte. Mas quando falou a palavra que selou seu destino, sentia como se estivesse respirando fogo.

— Sim.

O Morgawr moveu-se como noite líquida, deslizando ao longo das bordas das sombras ao atravessar o quarto.

— Que assim seja. Estarei de volta amanhã, após o pôr-do-sol, para informá-lo de qual será a sua parte no acordo.

Então, atravessou o umbral e se foi.

 

Sen Dunsidan dormiu mal naquela noite, perturbado por sonhos e por momentos de insônia, sentindo o peso de saber que havia vendido a si mesmo a um preço que ainda tinha de ser determinado e poderia ser caro demais. Mas, durante os períodos de consciência, entre passagens de sono intranqüilo, ponderou sobre a enormidade do que poderia acontecer e não conseguiu evitar a animação. Certamente nenhum preço era grande demais se significasse o cargo de primeiro-ministro. Um punhado de naves e alguns homens, com nenhuma destas coisas se preocupava muito: eram nada para ele. Na verdade, para obter o controle da federação, teria feito muito mais. Na verdade, teria pago qualquer preço.

Mas tudo isso poderia não dar em nada. Poderia acabar se revelando nada mais do que uma fantasia, a fim de testar sua disposição em abandonar a bruxa como aliada.

Mas quando acordou e enquanto se vestia para ir às câmaras do conselho, recebeu a notícia de que o primeiro-ministro estava morto. O homem havia ido dormir e não acordara, seu coração parará durante o sono. Era estranho, considerando sua boa saúde e sua relativamente pouca idade, mas a vida era cheia de surpresas.

Sen Dunsidan sentiu uma onda de prazer e expectativa com a notícia. Permitiu-se acreditar que o impensável podia realmente estar ao alcance de suas mãos, que a palavra do Morgawr podia ser melhor do que ele ousara esperar. Primeiro-ministro Dunsidan, ele murmurou para si mesmo, no fundo, onde seus segredos mais sombrios estavam guardados.

Chegou às câmaras do conselho da coalizão antes de saber que Jaren Arken também estava morto. O ministro do Tesouro, em resposta à notícia da morte súbita do primeiro-ministro, saíra correndo de sua casa, a perspectiva de preencher o vácuo da liderança, sem dúvida, ocupando o primeiro lugar em seus pensamentos, e caíra da escadaria que levava para a rua. Batera com a cabeça em uns entalhes de pedra. Quando seus servos o alcançaram, ele estava morto.

Sen Dunsidan recebeu a notícia no meio do caminho, não mais surpreso, apenas satisfeito e empolgado. Fez cara de quem estava de luto, e ofereceu suas respostas de político a todos aqueles que dele se aproximavam — e agora eram muitos, porque era a ele que os membros do conselho já estavam recorrendo. Passou o dia providenciando funerais e homenagens, falando a todos de sua própria tristeza e decepção e, enquanto isso, consolidava seu poder. Dois tão importantes e eficientes líderes mortos de uma tacada só; para preencher este vácuo, um homem forte devia ser encontrado. Ofereceu-se e prometeu fazer o melhor que pudesse em prol daqueles que o apoiassem.

Ao cair da noite, não se falava mais dos mortos, falava-se somente dele.

Por um longo tempo após o anoitecer, ficou sentado em seus aposentos, especulando sobre o que aconteceria quando o Morgawr retornasse. Que ele o faria, para exigir sua parte do acordo, isso era certo. O que ele pediria, exatamente, era menos certo. Ele não faria ameaças, mas as ameaças estavam lá assim mesmo; se ele podia dispor tão facilmente de um primeiro-ministro e de um ministro do Tesouro, seria mais difícil dispor de um ministro da Defesa teimoso? Sen Dunsidan estava metido naquilo até o pescoço. Não poderia falar em recuar. No máximo, poderia torcer para diminuir o valor do pagamento que o Morgawr buscaria cobrar.

Era quase meia-noite quando o outro apareceu, deslizando, sem fazer barulho, pelo umbral do quarto, todo recoberto por mantos negros e ameaçador. A essa altura, Sen Dunsidan já havia consumido vários copos de cerveja e estava lamentando isso.

— Impaciente, ministro? — perguntou o Morgawr suavemente, passando na mesma hora para as sombras. — Achou que eu não viria?

— Eu sabia que você viria. O que quer?

— Tão brusco? Não tem sequer tempo para um agradecimento? Eu o tornei primeiro-ministro. Basta apenas um voto do conselho da coalizão, uma mera questão de procedimento. Quando isso irá ocorrer?

— Em um ou dois dias. Está bem, você manteve seu lado do acordo. Qual será o meu?

— Naves de linha, ministro. Naves que possam suportar uma longa jornada e uma batalha ao final. Naves que possam transportar homens e equipamentos para garantir o que for necessário. Naves que possam transportar de volta os tesouros que espero encontrar.

Sen Dunsidan balançou a cabeça, cético.

— Vai ser difícil encontrar esse tipo de nave. Todas as que temos estão sendo utilizadas nas Prekkendorran. Se eu tivesse de retirar, digamos, uma dúzia...

— Duas dúzias estariam mais perto do que eu tinha em mente — o outro o interrompeu suavemente.

Duas dúzias? O ministro da Defesa soltou o ar lentamente.

— Duas dúzias, então. Mas tantas naves assim faltando na linha seria algo notado e questionado. Como irei explicar isso?

— Você está para se tornar primeiro-ministro. Não precisa explicar. — Havia um quê de impaciência na voz áspera. — Pegue-as dos rovers se o seu próprio suprimento estiver escasso.

Dunsidan tomou um pequeno gole da cerveja que não deveria estar bebendo.

— Os rovers são neutros nesta batalha. Mercenários, porém neutros. Se eu confiscar as naves deles, eles se recusarão a construir mais.

— Não falei em confisco. Roube-as e ponha a culpa em outra pessoa.

— E os homens para tripulá-las? De que tipo de homem você precisa? Será que devo roubá-los também?

— Tire-os das prisões. Homens que navegaram e lutaram a bordo de aeronaves. Elfos, homens da fronteira, rovers, o que for. Dê-me um número suficiente deles para compor as tripulações. Mas não espere que eu os devolva. Após utilizar estes homens, pretendo eliminá-los. Eles não serão mais úteis para nada.

Os pêlos da nuca de Sen Dunsidan se arrepiaram. Duzentos homens, jogados fora como sapatos velhos. Danificados, arruinados, inadequados para usar. O que isso significava? Teve um ímpeto súbito de fugir do quarto, de correr até estar tão longe que não conseguisse se lembrar de onde havia partido.

— Vou precisar de tempo para arranjar isso, talvez uma semana. — Ele tentou manter a voz firme. — Duas dúzias de naves faltando de qualquer lugar será algo comentado. Sentirão falta dos homens nas prisões. Preciso pensar em como isso poderá ser feito. Você precisa de tanta coisa assim para efetuar sua busca?

O Morgawr estava imóvel.

— Você parece incapaz de fazer qualquer coisa que lhe peço sem questionar. Por que isso? Eu lhe perguntei como remover os homens que o impediam de ser primeiro-ministro?

Sen Dunsidan percebeu subitamente que havia ido longe demais.

— Não, claro que não. É apenas que...

— Dê-me os homens esta noite — interrompeu o outro.

— Mas preciso de tempo!

— Você os tem em suas prisões, aqui na cidade. Arranje a libertação deles agora.

— Existem regras sobre libertação de prisioneiros.

— Quebre-as.

Sen Dunsidan sentia como se estivesse pisando sobre areia movediça e afundando rápido. Mas não conseguia achar um jeito de se salvar.

— Dê-me minhas tripulações esta noite, ministro — o outro sibilou suavemente. — Você, pessoalmente. Uma exibição de confiança para me convencer de que os esforços que tive para remover os homens que estavam em seu caminho foram justificados. Vamos nos certificar de que seu compromisso com nossa nova parceria seja mais do que apenas palavras.

— Mas eu...

O outro homem saiu rapidamente das sombras e agarrou a frente da camisa do ministro.

— Eu acho que você está pedindo uma demonstração. Um exemplo do que acontece com aqueles que me questionam. — Os dedos apertaram o tecido, hastes de ferro que levantaram Sen Dunsidan na ponta de suas botas. — Está tremendo, ministro? Será que agora eu tenho finalmente toda a sua atenção?

Sen Dunsidan assentiu mudo, tão apavorado que não confiava em suas próprias palavras.

— Ótimo. Agora venha comigo.

Sen Dunsidan soltou o ar bruscamente, quando o outro o libertou, e deu um passo para trás.

— Para onde?

O Morgawr passou por ele, abriu a porta do quarto e o encarou por entre as sombras de seu capuz.

— Para as prisões, ministro, pegue meus homens.

 

Juntos, o Morgawr e Sen Dunsidan desceram os salões da casa do ministro, atravessaram os portões da fortificação e saíram noite afora. Nenhum dos guardas ou servos pelos quais passaram falou com eles. Nenhum pareceu vê-los. Magia, Sen Dunsidan pensou indefeso. Sufocou o ímpeto de gritar por socorro, sabendo que não haveria socorro.

Loucura.

Mas ele havia feito sua escolha.

Enquanto desciam as ruas escuras e vazias da cidade, o ministro da Defesa recolhia os fragmentos de sua compostura estilhaçada, um pedaço quebrado de cada vez. Se quisesse sobreviver àquela noite, deveria fazer melhor do que estava fazendo. O Morgawr já estava pensando nele como alguém fraco e tolo; se também o achasse inútil, descartá-lo-ia num instante. Andando firme, dando passos fortes e respirando fundo, Sen Dunsidan dominou sua coragem e determinação. Lembre-se de quem você é, ele disse a si mesmo. Lembre-se do que está em jogo.

Ao seu lado, o Morgawr continuava caminhando, sem jamais olhá-lo ou falar com ele, sem evidenciar nem uma vez que tinha qualquer interesse nele.

As prisões estavam situadas na margem oeste do acampamento do exército da federação, próximas às águas rápidas do Rappahalladran. Elas formavam um formidável conjunto de torres e muralhas de pedra escura esburacada. Fendas estreitas serviam como janelas, e pontões de ferro circundavam os parapeitos. Sen Dunsidan, como ministro da Defesa, visitava as prisões regularmente e ouvira as histórias. Ninguém jamais escapara. De vez em quando, alguns presos conseguiam fugir para o rio, pensando em nadar até a outra margem e desaparecer dentro das florestas, mas ninguém jamais conseguira. As correntes eram fortes e traiçoeiras. Mais cedo ou mais tarde, os corpos eram levados para a margem e pendurados nas muralhas, onde os outros presos pudessem vê-los.

Enquanto se aproximavam, Sen Dunsidan conseguiu reunir coragem suficiente para chegar mais perto do Morgawr.

— O que pretende fazer quando entrarmos? — ele perguntou, mantendo o tom de voz firme e forte. — Preciso saber o que dizer se você não quiser ter de hipnotizar toda a guarnição.

O Morgawr riu baixinho.

— Está voltando ao normal, ministro? Muito bem. Quero um aposento em que eu possa conversar com membros em potencial de minha tripulação. Quero que eles sejam trazidos a mim um por um, começando com um capitão ou alguém em posto de autoridade. Quero que você esteja lá para ver o que acontece.

Dunsidan assentiu, tentando não pensar no que isso significaria.

— Da próxima vez, ministro, pense duas vezes antes de fazer uma promessa que não pretende cumprir — o outro sibilou, sua voz rouca e áspera. — Não tenho paciência com mentirosos e tolos. Você não me parece nenhuma das duas coisas, mas é ótimo em se tornar o que for preciso ao lidar com outros, não é?

Sen Dunsidan não disse nada. Não havia o que dizer. Manteve seus pensamentos concentrados no que faria assim que estivessem dentro das prisões. Lá, controlaria melhor as coisas, estaria em terreno mais familiar. Lá, ele poderia fazer mais para demonstrar seu valor àquela criatura perigosa.

Reconhecendo Sen Dunsidan imediatamente, os guardas do portão os deixaram entrar sem fazer perguntas. Ao bater continência, em seus trajes de couro surrados, soltaram as travas dos portões. Do lado de dentro, os cheiros eram de mofo, podridão e excrementos humanos, acres e rançosos. Sem Dunsidan pediu ao oficial de serviço uma sala especial para interrogatório, uma com a qual ele estava familiarizado, afastada de tudo, localizada ao fundo das entranhas da prisão. Um carcereiro os levou, descendo por um longo corredor, até a sala que ele havia solicitado, uma grande câmara com paredes úmidas e um chão que havia vergado. No centro, uma mesa à qual correntes de ferro e grilhões haviam sido presos. Em uma das paredes laterais, uma estante de madeira com objetos de tortura. Um único lampião a óleo iluminava a penumbra.

— Espere aqui — disse Sen Dunsidan ao Morgawr. — Deixe-me convencer os homens certos a virem até você.

— Comece com um — ordenou o Morgawr, penetrando nas sombras.

Sen Dunsidan hesitou, mas em seguida saiu com o carcereiro. O carcereiro era um homenzarrão desfigurado que havia servido sete vezes na frente de batalha, um soldado no exército da federação por toda a sua vida. Ele tinha cicatrizes por dentro e por fora, pois tinha testemunhado e sobrevivido a atrocidades que teriam destruído as mentes de outros homens. Ele nunca falava, mas sabia bem demais o que estava acontecendo e não parecia preocupado. Sen Dunsidan o havia utilizado em diversas ocasiões para interrogar prisioneiros recalcitrantes. O homem era bom em infligir dor e ignorar pedidos de misericórdia... talvez fosse até melhor nisso do que em manter a boca fechada.

Por mais estranho que parecesse, o ministro jamais soubera seu nome. Ali embaixo o chamavam de Carcereiro, como se esta designação fosse suficiente para nomear aquele homem.

Atravessaram uma dezena de pequenos corredores e passaram por um punhado de portas até chegarem às celas principais. As maiores tinham prisioneiros que foram capturados nas Prekkendorran. Uns seriam trocados por prisioneiros nascidos livres ou em troca de resgate. Outros morreriam ali. Sen Dunsidan indicou ao carcereiro a cela que abrigava aqueles que estavam ali como prisioneiros há mais tempo.

— Destranque-a.

O carcereiro destrancou a porta sem dizer uma palavra.

Sen Dunsidan pegou uma tocha do suporte na parede.

— Feche a porta atrás de mim. Não a abra até que eu diga que estou pronto para sair — ordenou.

Então, corajosamente, entrou.

O aposento era grande, úmido e rançoso com o cheiro de homens enjaulados. À sua entrada, uma dezena de cabeças se viraram ao mesmo tempo. Um número equivalente se levantou das esteiras úmidas no chão. Outros homens se mexeram, como era de esperar. A maioria ainda estava dormindo.

— Acordem! — ele gritou.

Levantou a tocha para mostrar-lhes quem era, e em seguida a enfiou em uma pilastra perto da porta. Os homens começaram a se levantar, sussurros e grunhidos passavam entre eles. Sen Dunsidan esperou até que estivessem todos acordados, um bando mal-ajambrado com olhos mortos e rostos devastados. Alguns deles estavam presos ali há quase três anos. A maioria tinha perdido qualquer esperança de sair. Os sons de seus pés se arrastando ecoavam baixo, no profundo e penetrante silêncio, uma lembrança constante de como estavam desamparados.

— Vocês me conhecem — ele disse para os prisioneiros. — Já falei com muitos de vocês. Vocês estão aqui há muito tempo. Tempo demais. Vou dar a todos vocês a chance de sair. Vocês não irão mais combater na guerra. Não voltarão para casa... pelo menos por enquanto. Mas estarão fora destas paredes e voltarão para uma aeronave. Estão interessados?

O homem de quem Sen Dunsidan dependia para falar aos demais deu um passo à frente.

— O que você procura?

Seu nome era Darish Venn. Era um homem da fronteira que havia captaneado uma das primeiras aeronaves dos nascidos livres, a qual fora trazida para a guerra nas Prekkendorran. Ele se distinguira em batalha muitas vezes, antes de sua nave cair e ele ser capturado. Os outros homens o respeitavam e confiavam nele. Como oficial sênior, ele os havia dividido em grupos e lhes dado posições, pequenas e insignificantes para aqueles que eram homens livres, mas de importância crucial para os que estavam trancafiados ali embaixo.

— Capitão. — Sen Dunsidan o cumprimentou com um aceno de cabeça. — Preciso de homens para seguirem em uma viagem pela Divisa Azul. Uma longa viagem, da qual alguns poderão não retornar. Não vou negar que será perigosa. Não tenho marinheiros disponíveis para isso, nem o dinheiro para contratar mercenários rovers. Mas a federação pode usar vocês. Soldados da federação irão acompanhar aqueles que aceitarem as condições que estou oferecendo, de modo que haverá alguma proteção e ordem imposta. O que importa é que vocês estarão fora daqui e não terão de voltar. A viagem irá levar um ano, talvez dois. Vocês serão sua própria tripulação, sua própria companhia, desde que vão até onde lhes mandarem ir.

— Por que você faria isso agora, depois de tanto tempo? — perguntou Darish Venn.

— Isso eu não posso lhe dizer.

— Por que deveríamos confiar em você? — outro homem perguntou, corajoso.

— E por que não? Que diferença isso faz, desde que eu tire vocês daqui? Se eu quisesse lhes fazer mal, seria muito fácil, não seria? O que eu quero são marinheiros dispostos a fazer uma viagem. O que vocês querem é a liberdade. Uma troca parece um bom compromisso para ambas as partes.

— Poderíamos fazê-lo prisioneiro e trocá-lo por nossa liberdade, e não precisaríamos concordar com nada! — o homem gritou, sombrio.

Sen Dunsidan assentiu.

— Poderiam. Mas quais seriam as conseqüências disso? Além do mais, vocês acham que eu viria aqui embaixo e me exporia a ser atacado sem nenhuma proteção?

Houve uma troca rápida de murmúrios. Sen Dunsidan permaneceu onde estava e manteve o rosto forte composto. Já havia se exposto a riscos maiores do que aquele e não tinha medo destes homens. As conseqüências de não atender ao pedido do Morgawr o amedrontavam bem mais.

— Você quer todos nós? — perguntou Darish Venn.

— Todos os que quiserem ir. Se se recusarem, vão ficar onde estão. A escolha é de vocês. — Fez uma pausa, como se estivesse pensando. Seu perfil leonino recortou-se contra a luz e um olhar de reflexão assumiu suas feições ásperas. — Vou fazer um trato com você, capitão. Se quiser, eu lhe mostrarei um mapa do local aonde estamos indo. Se aprovar o que vir, poderá concordar com a viagem. Caso contrário, poderá retornar e dizer aos outros.

O homem da fronteira aceitou. Talvez, devido ao aprisionamento, estivesse muito cansado e com o pensamento vagaroso, impedido de raciocinar claramente. Talvez estivesse apenas ansioso em sair dali.

— Tudo bem, eu irei.

Sen Dunsidan bateu à porta e o carcereiro a abriu. Fez sinal para que o capitão Venn fosse primeiro, e em seguida deixou o aposento. O carcereiro trancou a porta e Dunsidan escutou o arrastar dos pés dos prisioneiros que se aglomeraram junto à porta para ouvir.

— É só descer o corredor, capitão — disse ele em voz alta para que os demais prisioneiros o ouvissem. — Vou providenciar um copo de cerveja também.

Desceram as passagens até a sala onde o Morgawr aguardava, seus passos ecoando no silêncio. Ninguém falava. Sen Dunsidan olhou de esguelha para o homem da fronteira. Ele era um homem grande, alto e de ombros largos, estava magro e curvado devido ao aprisionamento. Seu rosto estava esquelético, sua pele pálida e cheia de crostas de sujeira e feridas. Os nascidos livres haviam tentado trocá-lo muitas vezes, mas a federação sabia o valor de capitães de aeronaves e preferira mantê-lo trancafiado, longe do campo de batalha.

Quando chegaram à sala onde o Morgawr aguardava, Sen Dunsidan abriu a porta para Venn, fez um sinal para que o carcereiro esperasse do lado de fora e fechou a porta atrás de si. Dentro da sala, Venn olhou para os implementos de tortura e as correntes ao seu redor e, depois, olhou para Dunsidan.

— O que é isto?

O ministro da Defesa deu de ombros e sorriu para desarmar o outro.

— Foi o melhor que pude arrumar. — Indicou um dos bancos de três pernas enfiados embaixo da mesa. — Sente-se e vamos conversar.

Não havia sinal do Morgawr. Será que ele havia ido embora? Será que havia decidido que era tudo perda de tempo e que era melhor cuidar das coisas por conta própria? Por um momento, Sen Dunsidan entrou em pânico. Mas então viu alguma coisa se movendo nas sombras — ou melhor, sentiu.

Foi para o lado oposto da mesa onde estava Darish Venn, atraindo a atenção do capitão para longe da escuridão turbilhonante atrás de si.

— A viagem irá nos levar muito longe das Quatro Terras, capitão — disse ele, o rosto assumindo um aspecto de seriedade. Atrás de Venn, o Morgawr começava a se materializar. — Será necessária muita preparação. Alguém com a sua experiência não teria problemas em prover as naves com o que pretendemos levar. Uma dúzia ou mais serão necessárias, eu acho.

O Morgawr, imenso e negro, deslizou para fora das sombras sem fazer ruído e se posicionou atrás de Venn. O homem da fronteira não o ouviu nem sentiu, apenas olhava fixamente para Sen Dunsidan.

— Naturalmente, você ficará encarregado de seus homens, de escolher quais executarão que tarefas...

Uma mão deslizou para fora dos mantos negros do Morgawr, retorcida e coberta por escamas. Ela prendeu a nuca de Darish Venn e o capitão de aeronave soltou o ar com força. Virando-se e se debatendo, ele tentou se libertar, mas o Morgawr o segurava com firmeza no lugar. Sen Dunsidan recuou um passo, suas palavras morrendo na garganta enquanto observava a peleja. Os olhos de Darish Venn estavam fixos em Dunsidan, enlouquecidos porém indefesos. A outra mão do Morgawr emergiu, reluzente com uma luz verde doentia. Lentamente, a pulsante mão moveu-se para a parte de trás da cabeça do homem da fronteira. Sen Dunsidan prendeu a respiração. As garras nos dedos do Morgawr se estenderam, tocando os cabelos e depois a pele.

Darish Venn gritou.

Os dedos escorregaram para dentro da cabeça de Venn, forçando caminho pelos cabelos, pela pele e ossos como se fossem feitos de argila mole. A garganta de Sen Dunsidan se contraiu e seu estômago revirou. A mão do Morgawr estava agora toda enfiada dentro do crânio, girando lentamente, como se procurasse algo. O capitão havia parado de gritar e de se debater. A luz havia desaparecido de seus olhos e seu rosto havia perdido a expressão. Seu olhar estava embaciado e sem vida.

O Morgawr retirou a mão da cabeça do homem da fronteira, ela estava fumegante e molhada quando tornou a se esconder dentro dos mantos negros. O Morgawr respirava tão alto que Sen Dunsidan podia ouvi-lo, uma espécie de respiração entrecortada de êxtase, repleta de sons de satisfação e prazer.

— Você não sabe, ministro — ele murmurou —, como é bom se alimentar de outra vida! Que êxtase!

Ele recuou, soltando Venn.

— Pronto. Está feito. Ele é nosso agora, para fazer o que desejarmos. É um morto ambulante sem vontade própria. Fará o que dissermos para ele fazer. Ele mantém suas habilidades e sua experiência, mas não se importa mais em pensar por si mesmo. Uma ferramenta útil, ministro. Dê uma olhada nele.

Relutante, Sen Dunsidan assim o fez. Não era um convite, era uma ordem. Ele estudou os olhos vazios e sem vida, a repulsa se transformando em horror, quando eles foram perdendo a cor e a definição, transformando-se em olhos vagos, de um branco leitoso. Deu a volta na mesa com cuidado, procurando a ferida na parte de trás da cabeça do homem da fronteira, por onde a mão do Morgawr entrara. Para seu espanto, não havia nada. O crânio não tinha um ferimento. Era como se nada tivesse acontecido.

— Teste-o, ministro. — O Morgawr estava rindo. — Mande-o fazer algo.

Sen Dunsidan lutou para manter a compostura.

— Levante-se — ordenou a Darish Venn em uma voz que mal reconhecia como sua.

O homem da fronteira se levantou. Em nenhum momento olhou para Sen Dunsidan, nem parecia reconhecer o que estava acontecendo. Seus olhos estava mortos e vazios, e seu rosto perdera toda a expressão.

— Ele é o primeiro, mas apenas o primeiro — o Morgawr sibilou, agora ansioso e impaciente. — Uma longa noite está à nossa frente. Agora vá e me traga outro. Já estou com fome, com vontade de sentir um gosto novo! Vá! Traga-me seis, mas faça com que entrem um de cada vez. Vá depressa!

Sen Dunsidan saiu porta afora sem dizer palavra. A imagem de uma mão com escamas, fumegante e molhada com matéria humana, estava fixa em sua mente e não ia sair dela.

Levou mais homens para a sala naquela noite, tantos que perdeu a conta. Levou-os em pequenos grupos e fez com que entrassem um por vez. Viu seus corpos serem violados e suas mentes destruídas. Ficou lá, sem mover um só dedo para ajudá-los, enquanto eram transformados de homens em cascas. Era estranho, mas depois de Darish Venn, ele não conseguia se lembrar de nenhum de seus rostos. Todos eram um só para ele. Eram todos o mesmo homem.

Quando a sala ficou lotada com eles, Dunsidan recebeu a ordem de levá-los para fora e entregá-los ao carcereiro para serem colocados em uma câmara maior. O carcereiro os levou embora sem comentários, sem sequer olhá-los. Mas uma vez, depois de talvez cinqüenta ou mais, o rosto arruinado e os olhos endurecidos encontraram Sen Dunsidan com um olhar que o deixou em lágrimas. O olhar trazia culpa e acusação, horror e desespero e, acima de tudo, uma fúria sem fim. Aquilo era errado, dizia o olhar. Aquilo ia além de qualquer coisa imaginável. Aquilo era loucura.

E, no entanto, o carcereiro também não fez nada.

Os dois eram cúmplices de um crime indizível.

Os dois eram participantes silenciosos na perpetração de um erro monstruoso.

Tantos homens Sen Dunsidan ajudou a destruir, homens que caminharam para a danação sem que nada ele oferecesse para defendê-los, enganados pelas falsas palavras e olhares de um político. Ele não sabia como havia conseguido. Não sabia como sobrevivia ao sentimento que aquilo lhe dava. A cada vez que a mão do Morgawr emergia molhada, pingando de vida humana em mais um banquete completo, o ministro da Defesa pensava que sairia correndo e gritando noite afora. Mas a presença da Morte era tão poderosa que transcendia tudo o mais naquelas horas terríveis, paralisando-o. Enquanto o Morgawr se banqueteava, Sen Dunsidan olhava e era incapaz até mesmo de desviar o olhar.

Até que, finalmente, o Morgawr estava saciado.

— Por hoje chega — ele sibilou, depois de matar a fome e a sede com vidas roubadas. — Amanhã à noite, ministro, terminaremos isto.

Levantou-se e foi embora, levando seus mortos consigo para a noite, sombras no vento.

A aurora cedeu lugar ao dia, mas Sen Dunsidan não viu nada disto. Trancou-se em seu quarto e não saiu. Ficou deitado lá, tentando banir a imagem da mão do Morgawr. Cochilou e tentou esquecer a maneira como sua pele se arrepiava ao menor som de uma voz humana. Perguntaram sobre sua saúde. Precisavam dele nas câmaras do conselho. Uma votação sobre o cargo de primeiro-ministro era iminente. Procuraram saber se tudo estava bem. Sem Dunsidan não se importava mais. Desejou jamais ter se colocado naquela posição. Desejou ter morrido.

Ao cair da noite, o carcereiro estava morto. Mesmo com todas as dificuldades de sua vida e a dureza de sua cabeça, ele não pôde suportar o que havia testemunhado. Sem ninguém por perto, ele voltou às entranhas da prisão e se enforcou em uma cela vazia.

Ou não? Sen Dunsidan não podia ter certeza. Talvez tivesse sido um assassinato montado para parecer suicídio. Talvez o Morgawr não quisesse o carcereiro vivo.

Talvez Sen Dunsidan fosse o próximo.

Mas o que ele poderia fazer para se salvar?

O Morgawr voltou novamente à meia-noite, e novamente Sem Dunsidan foi com ele até as prisões. Desta vez, Dunsidan dispensou o novo carcereiro e lidou ele próprio com todo o trabalho alheio. A essa altura, ele estava anestesiado, imune aos gritos, à mão molhada e fumegante, aos grunhidos de horror dos homens e aos suspiros de satisfação do Morgawr. Ele não era mais parte daquilo, havia ido para algum outro lugar, um lugar tão distante que o que acontecia ali, naquela noite, nada significava. Tudo estaria acabado ao amanhecer, e quando acabasse, Sen Dunsidan seria outro homem em outra vida. Transcenderia aquela vida e a deixaria para trás. Começaria tudo outra vez. Reconstruiria a si mesmo de maneira a purificar-se dos erros e das atrocidades que cometera. Não era tão difícil. Era o que os soldados faziam quando voltavam para casa depois de uma guerra. Era assim que um homem deixava para trás aquilo que não tinha perdão.

Mais de duzentos e cinqüenta homens passaram por aquela sala e abandonaram a vida que haviam conhecido. Eles desapareceram como se tivessem virado fumaça. O Morgawr os transformara em coisas mortas que ainda caminhavam, em criaturas que haviam perdido todo o senso de identidade e propósito. Fez com que ficassem inferiores a cães, e eles nem sequer souberam. Transformou-os em tripulações de aeronaves e os levou para sempre. Todos eles, até o último. Sen Dunsidan jamais viu algum deles novamente.

Em alguns dias, ele conseguira as aeronaves que o Morgawr havia solicitado e as entregara para cumprir sua parte do acordo. Em uma semana, o Morgawr havia saído de sua vida, partido em busca da bruxa Ilse, em busca de vingança. Ele rezou para que jamais visse nenhum dos dois de novo.

Mas as imagens permaneceram, assombrosas e terríveis. Ele não conseguiabani-las. Não conseguia afastar o horror que lhe causavam. Elas o assombravam em seu sono e quando estava acordado. Elas nunca estavam muito longe, nunca estavam fora de sua visão. Sen Dunsidan não dormiu por semanas depois daquilo. Não teve um momento de paz.

Ele se tornou primeiro-ministro do conselho da coalização da federação, mas perdeu sua alma.

 

Meses depois e a milhares de quilômetros de distância, na costa do continente de Parkasia, a frota de aeronaves reunida por Sen Dunsidan surgiu subitamente, através da neblina, aproximando-se da Jerle Shannara. A frota estava sob o comando do Morgawr, com os seus mwellrets e seus mortos ambulantes. Redden Alt Mer, em pé na amurada da proa, no centro da Jerle Shannara, viu o aglomerado de velas e cascos negros que enchia o horizonte a leste como elos de uma corrente a cercá-los.

— Içar âncora! — o capitão rover gritou para Spanner Frew, erguendo a luneta mais uma vez para se certificar do que estava vendo.

— Ela ainda não está pronta! — gritou em resposta o construtor atarracado.

— Ela não vai ficar mais pronta do que isto. Dê a ordem!

Sua luneta varreu as naves que se aproximavam. Sem insígnias, sem bandeiras. Naves de guerra sem sinalização em uma terra onde, algumas semanas atrás, não havia uma nave sequer. Inimigos, mas de quem? Ele tinha de supor o pior, que aquelas naves estavam atrás deles. Será que a bruxa Ilse havia comprado outras além da Black Moclips, naves que haviam ficado afastadas até agora, aguardando que a bruxa as trouxesse para a confusão?

Spanner Frew estava gritando com a tripulação, colocando-a para trabalhar. Com Furl Hawken morto e Rue Meridian desaparecida em terra, não havia ninguém para preencher a vaga de primeiro imediato. Ninguém parava para questioná-lo. Eles também tinham visto as naves. Mãos pegavam obedientemente os cabos e carretilhas de içamento. O cabo de ancoragem foi solto, dando à Jerle Shannara sua liberdade. Rovers começaram a apertar os atratores radianos e os cordames de amarração, levando as velas até os topos dos mastros, onde poderiam captar o vento e a luz. Sabendo o que iria encontrar, Redden Alt Mer olhou ao redor. Sua tripulação era de oito pessoas, contando com ele mesmo e com Spanner. Nem de perto era o bastante para tripular inteiramente uma nave de guerra como a Jerle Shannara, quanto mais lutar em uma batalha contra inimigos. Eles teriam de fugir, e fugir rápido.

Ele próprio correu, na direção da cabine do piloto e dos controles, as botas pesadas fazendo sons de trovão contra o convés de madeira.

— Retirem os capuzes dos cristais! — ele gritou para Britt Rill e Jethen Amenades, ao passar correndo por ambos. — Os da proa a estibordo não! Deixem-nos cobertos. Só os da popa e os do meio!

Nenhum cristal-diapasão estava funcionando no tubo de fragmentação da proa a bombordo; por isso, para equilibrar a perda de energia da esquerda, ele era obrigado a desligar seu número oposto. Isso reduziria a força deles em um terço, mas a Jerle Shannara era bastante rápida mesmo assim.

Spanner Frew estava ao seu lado, indo na direção do mastro principal e do arsenal.

— Quem são eles?

— Não sei, Barba Negra, mas acho que não são amigos.

Abriu os quatro tubos de fragmentação existentes e atraiu energia dos atratores para os cristais. A Jerle Shannara deu um solavanco forte e começou a subir com a luz ambiente convertida em energia. Mas devagar demais, o capitão rover percebeu, para conseguir uma fuga perfeita. As naves invasoras estavam quase em cima deles, um estranho conjunto, de todas as formas e tamanhos, nenhuma delas reconhecível, a não ser pelo seu design geral. Uma mistura, ele percebeu, de naves em grande parte construídas por rovers, e algumas de elfos. De onde tinham vindo? Podia ver as tripulações se movimentando nos conveses das naves, devagar e sem pressa, sem mostrar nem sequer um pouco da empolgação e da febre com as quais ele estava familiarizado. Calmos em face da batalha.

Po Kelles, montado em Niciannon, passou voando pela cabine do piloto a estibordo. O grande roca passou tão perto de Redden Alt Mer que ele pôde ver o brilho azulado das penas do pássaro.

— Capitão! — gritou o cavaleiro alado, apontando.

Não estava apontando para as naves, mas para um turbilhão de pontinhos que aparecera subitamente no meio delas, cada vez se movimentando mais. Shrikes de guerra, atuando em conjunto com as naves inimigas, protegendo os flancos e liderando o avanço. Já estavam adiante das naves e se aproximando rápido da Jerle Shannara.

— Voe para longe daqui! — gritou o Ruivão para Po Kelles. — Voe para terra firme e ache a Ruivinha! Avise-a do que está acontecendo!

O cavaleiro alado e seu roca deram meia-volta, alçando vôo rapidamente para o céu turbulento. A melhor chance que um roca tinha contra shrikes era ganhar altura e distância. Em uma corrida curta, os shrikes tinham a vantagem. Aqui, eles ainda estavam distantes demais. Niciannon já estava obtendo uma vantagem sobre eles. Com as direções de navegação que Po Kelles já havia recebido, ele não teria problemas em alcançar Hunter Predd e Rue Meridian. O perigo agora era com a Jerle Shannara. As garras de um shrike podiam fazer uma vela em farrapos. Os pássaros tentariam isso muito em breve.

As mãos de Alt Mer voaram para os controles. Shrikes em aliança com naves de guerra inimigas? Como podia ser isso? Quem controlava os pássaros? Mas ele soube a resposta assim que fez a pergunta. Seria preciso magia para controlar shrikes de guerra dessa maneira. Alguém, ou alguma coisa, a bordo daquelas naves possuía essa magia.

A bruxa Ilse?, ele se perguntou. Será que ela havia voltado da terra, onde fora encontrar os outros?

Não havia tempo para ponderar a respeito.

— Barba Negra! — ele gritou para Spanner Frew. — Coloque os homens em ambos os lados, nas estações de combate. Use as flechas e mantenha esses shrikes afastados!

As mãos firmes nos controles, ele ficou observando as naves de guerra e os pássaros se aproximando à sua frente, próximos demais para evitar. Não conseguiria ficar acima deles ou dar meia-volta rápido o bastante para se afastar. Não tinha escolha. Em sua primeira passagem, teria de ir direto para o meio deles.

— Segure firme! — gritou para Spanner Frew.

Um instante depois, a nave de guerra mais próxima já estava sobre eles, saindo ligeira da neblina, seu imenso casco negro contrastando com a penumbra do amanhecer. Redden Alt Mer havia passado por isso antes e sabia o que fazer. Não tentou evitar uma colisão. Em vez disso, iniciou uma, virando a Jerle Shannara na direção da menor nave da linha. Os atratores radianos zumbiam enquanto canalizavam a luz ambiente para os tubos de fragmentação e os cristais-diapasão a transformavam em energia, um som pequeno e peculiar. A nave respondeu com um solavanco quando ele levou as alavancas do controle para a frente, inclinou o casco ligeiramente para bombordo, atravessando o mastro e as velas dianteiras da nave inimiga, levando-a para baixo em uma única passagem que deixou o vaso de guerra a pique.

Shrikes revoavam ao redor da Jerle Shannara, mas, a pouca distância, eles atacavam com uma dupla a cada vez, e os arqueiros disparavam flechas que atingiam os pássaros com precisão mortal, provocando ferimentos e gritos de fúria.

— Clara de leme! — Ruivão gritou em alerta, quando um segundo vaso de guerra tentou se aproximar pela esquerda.

Com a tripulação se segurando em seus postos, ele girou o timão até o final, apontando os aríetes para essa nova ameaça. A Jerle Shannara estremeceu e deu uma guinada quando os tubos de fragmentação emitiram descargas novas de luz convertida. A nave disparou para a frente, passando pela popa inimiga, raspando seu convés e arrancando pedaços da amurada como se fossem lenha para fogueira. Redden Alt Mer teve apenas alguns momentos para olhar de relance a tripulação inimiga. Um mwellret agarrava o timão, agachado na cabine do piloto para suportar o impacto da colisão. Ele fez um gesto e gritou para os homens da nave inimiga, mas a resposta foi estranhamente lenta e mecânica, como se eles estivessem acabado de sair de um sono profundo e precisassem de mais informações antes de efetuarem alguma ação. Redden Alt Mer viu os rostos daqueles homens se voltarem na sua direção, brancos e vazios, despidos de emoção ou reconhecimento. Olhos que o encaravam, duros e de um branco leitoso como pedras do mar.

— Sombras! — sussurrou o capitão rover.

Eram olhos de mortos, mas os homens ainda se moviam. Por um momento ele ficou tão abalado que perdeu completamente a concentração. Embora já tivesse visto outras coisas estranhas, jamais vira mortos andarem. Não acreditava que um dia fosse ver isso. Mas era o que estava vendo agora.

— Spanner! — ele gritou para o construtor.

Spanner Frew também os tinha visto. Olhou para Redden Alt Mer e balançou a cabeça, com os cabelos negros e espessos, como um urso raivoso.

Então a Jerle Shannara passou pela segunda nave, ergueu-se acima das demais e Alt Mer conduziu-a numa meia-volta, rumando para terra firme, longe do tumulto. As naves inimigas começaram a caçada no mesmo instante, buscando em todas as direções, mas estavam enfileiradas ao longo da linha da costa e distantes demais para se aproximarem de modo eficiente. Como a haviam encontrado?, ele se perguntou. Por um segundo, considerou a possibilidade de ter sido traído por algum de seus homens, mas rapidamente dispensou a idéia. Magia, talvez. Se havia sido possível ao comandante daquela frota dominar shrikes e fazer os mortos voltarem à vida, também era possível encontrar, com facilidade, um bando de rovers. Era mais do que provável que ele tivesse utilizado os shrikes para rastreá-los.

Ou ela, se fosse a bruxa Ilse voltando.

Amaldiçoou sua ignorância, a bruxa e uma dezena de outros fatos imponderáveis, enquanto conduzia a aeronave para as montanhas em terra. Logo teria de virar para sul para permanecer no curso. Não podia confiar na rota mais curta para terra. Corria muito risco de se perder e deixar de encontrar a Ruivinha e os outros. Não podia se dar ao luxo de fazer isso, deixá-los abandonados àquelas coisas que os perseguiam.

Um estalido seco cortou o vento forte quando o atrator radiano da amurada de bombordo, no meio da nave, se soltou, serpenteando no convés como uma cobra dando o bote. Os rovers, ainda agachados em suas estações de combate, deitaram-se no chão para se proteger. Spanner Frew pulou para trás do mastro principal, protegendo-se quando o atrator solto passou por ele subitamente. E, então, enrolou-se ao redor do cabo de bombordo da popa e arrancou-o.

Na mesma hora a aeronave começou a perder energia e equilíbrio, ambos já reduzidos pela perda dos atratores dianteiros, agora completamente desativados pela quebra de toda a amurada de bombordo. Se os cabos não fossem amarrados novamente naquele momento, a nave daria meia-volta, iria direto para as naves inimigas e todos estariam nas mãos dos mortos-vivos.

Redden Alt Mer viu aqueles olhos outra vez, de um branco leitoso e vago, despidos de humanidade, sem sentir nada do mundo ao seu redor.

Sem parar para pensar, ele cortou a energia para o tubo de estibordo do meio do navio e empurrou a alavanca de bombordo inteiramente para a frente. Ou a Jerle Shannara agüentaria tempo suficiente para lhes dar uma chance de lutar e escapar ou ela cairia.

— Barba Negra! — ele gritou para Spanner Frew. — Assuma o timão!

O construtor subiu correndo os degraus e entrou na cabine do piloto, estendendo as mãos retorcidas para pegar os controles. Redden Alt Mer não teve tempo para explicar, simplesmente desceu as escadas em disparada para o convés e avançou até o mastro principal. Sentiu-se empolgado e elétrico, como se nada que pudesse fazer fosse louco demais para considerar. Não era uma avaliação de todo ruim, ele decidiu. O vento, selvagem, gritando nos seus ouvidos, chicoteava seus longos cabelos ruivos e cachecóis coloridos. Podia sentir a aeronave balançando sob si, lutando para manter o equilíbrio, para não mergulhar. Três atratores perdidos; ela já deveria estar caindo. Outra nave não teria durado tanto.

À sua esquerda, os atratores emaranhados balançavam e chicoteavam uns aos outros, ameaçando se soltar a qualquer momento. Arriscou um rápido olhar para trás. Seus perseguidores haviam se aproximado mais, tirando vantagem de seus problemas. Os shrikes estavam quase em cima deles.

— Mantenham-nos afastados! — gritou para os rovers agachados nas estações de combate, mas suas palavras se perderam no vento.

Escalou o mastro de proa utilizando os cravos de ferro para subida, enfiados na madeira, pressionando-se contra o tronco grosso para evitar que fosse arrancado e atirado ao espaço vazio. Suas roupas de couro folgadas ajudavam a protegê-lo, mas mesmo assim o vento era feroz, soprando das montanhas na direção da costa em uma rajada fria e dura. Não olhou para trás nem para os atratores. Os perigos eram óbvios e ele não podia fazer nada a respeito. Se os atratores se soltassem antes que chegasse até eles, poderiam facilmente chicoteá-lo e parti-lo ao meio. Se os shrikes chegassem perto o bastante, poderiam arrancá-lo de onde estava e levá-lo para longe. Não valia a pena considerar nenhuma das perspectivas.

Num relance, viu alguma coisa passar num relâmpago escuro. Captou apenas um vislumbre quando essa coisa passou em disparada. Em seguida, mais outra. Flechas. Os vasos de guerra inimigos estavam perto o suficiente para que os arcos pudessem ser colocados em ação. Talvez os mwellrets e os mortos-vivos não fossem hábeis com armas. Talvez uma pequena parte da sorte que o salvara tantas vezes antes o salvasse agora.

Talvez era tudo o que ele tinha.

Quando chegou ao topo do mastro, começou a se arrastar ao longo do lais da verga até onde o atrator renegado estava amarrado, voltado para o topo. Agarrou-se ao lais com dedos feridos e dormentes, suas forças indo embora com o vento frígido. Abaixo, rostos que olhavam para o alto se moviam para um lado e para outro, enquanto os homens disparavam flechas para os shrikes que se aproximavam, e depois olhavam para cima para verificar seu progresso. Ele viu a preocupação naqueles rostos endurecidos. Ótimo, pensou. Detestaria que não sentissem sua falta.

Um shrike passou ligeiro por ele, vindo do alto, gritando. As garras se cravaram nas costas de Alt Mer, rasgando as roupas de couro folgadas. Uma onda de dor percorreu seu corpo quando as garras do pássaro rasgaram-lhe a pele. Livrou-se das garras jogando o corpo para o lado com força e quase caiu, perdendo o contato das pernas com o lais e ficando pendurado pelos dedos. A vela enfunava em cima dele como se fosse um balão e ele ficou ali atravessado, recuperando as forças. Enquanto estava enterrado na vela, outro shrike passou voando, mas não conseguiu chegar perto o bastante. Afastou-se frustrado.

Não pare!, disse ele a si mesmo, através de uma névoa de cansaço e dor. Não desista!

Voltou a subir no lais, e então foi se arrastando sobre ele até o fim. Pendurou-se na ponta e desceu escorregando pela extensão do atrator do meio da nave até o ponto onde ele havia se emaranhado na popa, suas botas limpando as linhas na descida. Machucado e exausto, mas ainda se segurando desesperadamente em ambos os cabos, gritou por socorro à sua tripulação. Dois membros pularam das estações de combate de bombordo e, em instantes, estavam ao seu lado, pegando os atratores e levando-os de volta aos tubos de fragmentação dos quais haviam se soltado, ignorando os shrikes que mergulhavam e a saraivada de flechas das naves inimigas.

Redden Alt Mer desabou no convés, as costas queimando de dor e encharcadas de sangue.

— Já chega de heroísmo para o senhor, capitão — grunhiu Britt Rill, aparecendo do nada para pegá-lo pelo braço e levantá-lo. — O senhor desce.

Alt Mer começou a fazer uma objeção, mas sua garganta estava tão seca que ele não conseguia falar. Pior, sua força o havia abandonado completamente. Precisou de todo o seu esforço para se levantar com a ajuda de Rill. Olhou de esguelha para o outro e assentiu. Havia feito o que podia. O resto era com a nave, e ele apostaria nela em qualquer corrida.

Sob o convés, Britt Rill o ajudou a tirar as roupas de couro e começou a lavar e limpar suas feridas.

— Estão muito ruins? — perguntou Redden Alt Mer, a cabeça curvada para diante, os braços repousando sobre os joelhos, as mãos apertadas uma contra a outra e o corpo inteiro se con torcendo de dor. — Afetou os músculos?

— Não ficou tão ruim, capitão — o outro respondeu baixinho. — Apenas alguns cortes fundos que lhe darão histórias para contar aos seus netos, se o senhor vier a ter algum.

— Não é provável.

— Talvez isso seja uma bênção para o mundo.

Rill aplicou bálsamo nas feridas, colocou bandagens feitas com tiras de tecido, deu-lhe um grande gole de cerveja da bolsa de pele amarrada à sua cintura e deixou que decidisse por conta própria o que faria em seguida.

— Os outros estão precisando de mim! — Rill gritou ao sair pela porta da cabine.

E de mim, pensou Alt Mer. Mas não se moveu de imediato. Em vez disso, ficou sentado ali na sua cama por mais alguns minutos, ouvindo o som do vento fora das janelas fechadas, sentindo o movimento da nave sob ele. Podia dizer, pelo balanço e pelo deslizar, que a nave estava fazendo o que devia, que havia novamente energia em quantidade suficiente para mantê-la flutuando e se movimentando. Mas a batalha ainda não estava terminada. Perseguidores com magia suficiente para invocar shrikes e comandar mortos-vivos não desistiriam tão facilmente.

Voltou ao convés momentos depois, vestindo de novo suas roupas de couro esfarrapadas. Saindo ao vento, olhou ao redor por um instante para medir a posição da nave, e então foi até a cabine do piloto para ficar ao lado de Spanner Frew. Satisfeito em deixar o construtor guiá-los, não pediu o timão. Em vez disso, passou alguns longos momentos olhando o aglomerado de formas negras que ainda os perseguiam, mas começavam a se desvanecer na névoa. Até mesmo os shrikes pareciam ter desistido da caçada.

Spanner Frew olhou-o, avaliou seu estado e não disse nada. O aspecto do capitão rover não incentivava a conversa.

Alt Mer olhou o céu que os cercava. Estava enevoado e cinzento, com uma pincelada mais escura ao norte, que significava a aproximação da chuva. Montanhas assomavam adiante e em ambos os lados enquanto avançavam para a terra, na direção dos bancos de gelo que deveriam atravessar para chegar até Rue e os outros.

Então viu os pontos espalhados adiante, a estibordo, onde a linha da costa se curvava para dentro, em uma série de enseadas fundas.

— Barba Negra! —ele disse na orelha do outro, puxando-o pelo ombro e apontando.

Spanner Frew olhou. Adiante, os pontos começavam a tomar forma, a se transformar em asas e velas.

— Mais deles! — o homenzarrão grunhiu, um quê de descrença em sua voz rouca. — E shrikes também, se estou vendo direito. Como foi que eles se adiantaram a nós?

— Os shrikes conhecem a linha da costa e os penhascos melhor do que nós! — Alt Mer tinha de lutar para ser ouvido em meio ao vento. — Eles encontraram uma maneira de nos cortar. Se permanecermos nessa linha de vôo, eles nos pegarão. Precisamos adentrar mais em terra firme, e precisamos chegar lá rápido!

Seu companheiro olhou para as montanhas cercadas de névoa.

— Se voarmos para lá nesta névoa, vamos acabar em pedaços.

Alt Mer o encarou firme.

— Não temos escolha. Dê-me o timão. Vá para a frente e faça sinais toda vez que achar que preciso. Apenas sinais com as mãos. Sinais falados podem entregar nossa localização. Faça o melhor que puder para nos manter longe das pedras.

Tendo reparado os atratores quebrados e varrido para longe os pedaços de destroços, a tripulação aguardava próximo aos cordames. Spanner Frew gritou para eles enquanto passava, mandando-os aos seus postos, avisando o que estava acontecendo. Ninguém respondeu. Eram escolados na tradição rover de ter fé naqueles que tinham sorte. Ninguém tinha mais sorte do que Redden Alt Mer. Tripulariam uma nave em chamas para dentro de um incêndio se ele os mandasse fazê-lo.

Respirou fundo, olhou uma vez mais para as formas adiante e atrás. Era um número grande demais para que ele conseguisse fugir ou lutar. Girou o timão com força para bombordo, na direção do banco de neblina. Deixou a aeronave manter velocidade até estarem dentro do nevoeiro denso e, então, voltou a uma velocidade quase zero, observando o vapor juntar e se dissipar, lençóis tênues de branco envolvendo as bordas mais escuras das montanhas. Se eles atingissem um pico àquela altura, naquela névoa, com apenas dois terços de sua energia, estariam acabados.

Mas os shrikes não conseguiriam rastreá-los e seus perseguidores enfrentariam os mesmos problemas.

Estava estranhamente silencioso sob a névoa entre os picos. Sem som algum, a Jerle Shannara planava como um pássaro. Ao redor, as montanhas pareciam flutuar, massas escuras aparecendo e desaparecendo como miragens. Alt Mer leu a bússola e colocou-a de lado. Teria de navegar às cegas, utilizando seu instinto, e esperar retornar ao seu curso quando a neblina se dissipasse. Se ela se dissipasse. Poderia continuar assim terra adentro, além dos picos das montanhas. Se isso acontecesse, estariam perdidos como se nunca tivessem tido um curso para começar.

Ele mal conseguia ver Spanner Frew de pé na proa. O grande rover estava curvado para a frente, a concentração fixa nas camadas brancas que se deslocavam. De vez em quando, fazia um sinal com a mão — vá para a esquerda, vá para a direita, vá devagar — e Redden Alt Mer movia os controles de acordo. O vento passava assoviando em rajadas súbitas e, em seguida, morria, abafado pela face de um penhasco ou corrente de ar. A neblina girava por entre os picos, vazia e sem objetivo. Somente a Jerle Shannara perturbava seu tecido etéreo.

A chuva retornou, um aglomerado de nuvens escuras que rapidamente se transformou em uma torrente. Ela engolfou a aeronave e sua tripulação, reclamando-as para si como o mar poderia fazer com um navio que afundasse. Alt Mer, que havia suportado tempos piores, tentou não pensar na maneira como a chuva distorcia formas e espaços, criando a aparência de obstáculos onde não havia nenhum, dando pistas de passagens onde havia muralhas de rocha esperando. Ele confiava nos seus instintos e não em seus sentidos. Havia sido um marinheiro a vida inteira; sabia alguma coisa dos truques que o vento e a água podiam fazer.

Atrás dele, a névoa e a escuridão fechavam o caminho. Não havia sinal de seus perseguidores — não havia sinal de nada além do céu e das montanhas, da chuva que caía e da neblina a cercá-los.

Spanner Frew voltou a ficar ao seu lado na cabine do piloto. Não havia motivo para permanecer na proa. O mundo ao redor deles havia desaparecido no espaço.

O construtor olhou para Redden Alt Mer e lhe deu um sorriso feroz. O capitão rover retribuiu o sorriso. Nenhum dos dois tinha nada a dizer.

A Jerle Shannara prosseguiu navegando na escuridão.

 

Calor e luz deram lugar a uma fria escuridão. A estranha sensação de formigamento deu lugar ao entorpecimento e o presente deu lugar ao passado quando a bruxa Ilse foi tomada pelo poder da espada de Shannara. Num momento, ela estava nas catacumbas subterrâneas de Castledown, sozinha com seu inimigo, o druida Walker, cercada pelos destroços de outra era. No instante seguinte, ela havia partido para tão longe dentro de si mesma que não sabia mais onde estava. Num piscar de olhos, ela fora transformada de uma criatura de carne e osso em algo tão substancial quanto os pensamentos que a invadiam.

Teve apenas um instante para se perguntar o que estava lhe acontecendo, então estava feito.

Ela entrou sozinha na escuridão, mas, mesmo assim, estava consciente de Walker junto a ela, em nenhuma forma reconhecível, nem mesmo inteiramente formado, mais como uma sombra, uma aparição que a acompanhava como o fluxo de seus longos cabelos negros. Ela podia sentir a pulsação dele no talismã que agarrava como um salva-vidas. Walker era apenas uma presença no éter, mas estava com ela e vendo tudo.

Quando ela emergiu das trevas, estava em outra época e lugar, que reconheceu no mesmo instante. Estava em casa, de onde fora levada quando criança. Ela havia pensado que nunca mais veria esse lugar, mas ali estava ele, exatamente como ela se lembrava de sua infância, envolvida nas sombras de uma aurora que se aproximava, coberta de silêncio e perigo. Podia sentir o frio do ar matinal e o cheiro pungente dos arbustos de lilases. Reconheceu aquele momento na hora. Retornara à manhã em que seus pais e irmão haviam morrido e ela fora seqüestrada.

Ela viu os eventos daquela manhã se desenrolarem mais uma vez, mas desta vez de algum lugar fora de si mesma, como se eles estivessem acontecendo a outra pessoa. De novo, o velho Bark foi morto quando saiu para investigar. Novamente, as formas encapuzadas passaram deslizando por sua janela na fraca luz antes do amanhecer, movendo-se em direção à porta da frente. Mais uma vez ela fugiu, e mais uma vez foi em vão. Escondeu seu irmão na adega e tentou fugir do destino de seus pais. Mas as formas encapuzadas estavam lhe esperando. Viu-se sendo levada pelos captores enquanto sua casa queimava e uma fumaça com labaredas vermelhas tomava conta de tudo. Viu as formas levarem-na embora, inconsciente e indefesa, para o leste, que já brilhava com a luz do dia.

Era exatamente como ela se lembrava. Porém, também era diferente. Viu-se cercada por formas escuras agachadas, conferenciando, enquanto ela estava amarrada, vendada e amordaçada. Mas alguma coisa estava errada. Eles não tinham o aspecto dos mutantes que ela sabia que a haviam seqüestrado. E também não havia sinal do druida Walker. Será que ela o tinha visto passar pelas janelas de sua casa desta vez, tal como se lembrava antes? Achava que não. Onde estava ele?

Como se fosse uma resposta à sua pergunta, uma figura apareceu dentre as árvores, alta, escura e encapuzada como seus captores. Tinha o aspecto de um druida, uma parte da noite que se desvanecia, uma promessa da chegada da morte. Ele fez um gesto para os captores, trouxe-os para perto de si por um momento, falou palavras que ela não conseguiu ouvir e então se afastou. Em um súbito acesso de atividade, seus captores se encararam como combatentes e começaram a lutar uns com os outros. Mas a luta deles não era dura e brutal, era meramente um exercício. De vez em quando, um deles parava para olhar de relance para ela, como se estivesse medindo o efeito daquele fingimento. A forma encapuzada deixou isso prosseguir por algum tempo, então subitamente estendeu os braços para ela, agarrou-a e levou-a para longe, por entre as árvores, deixando o cenário estranho para trás.

Enquanto corria, ela vislumbrou um relance de seus antebraços. Eram escamosos e pintalgados. Eram reptilianos.

Ficou tonta quando reconheceu subitamente a figura. Não!

Ela foi levada para um lugar silencioso no interior da floresta e a figura de manto escuro a colocou no chão. Ela o viu se revelar, e não era o druida, como agora sabia que não seria, não poderia ser, mas o Morgawr. Traidor! A palavra saiu dela num grito. Mentiroso! Mas ele era muito pior do que isso, naturalmente. Estava além de qualquer coisa que as palavras pudessem descrever, de qualquer coisa que fosse reconhecivelmente humana. Ele era um monstro.

Ela sabia que o que estava vendo era a verdade. Soube instintivamente. As imagens atraídas pela magia da espada de Shannara não podiam mentir. Podia sentir isso nos ossos, e tudo fazia perfeito sentido. Como não percebera isso antes? Como se deixara ser enganada tão facilmente?

Mas ela tinha apenas seis anos de idade na época, lembrou-se. Era apenas uma criança.

Assolada por emoções que a rasgavam como se fossem lobos famintos, teria gritado de fúria e desespero se tivesse sido capaz disso, mas não podia dar voz ao que estava sentindo. Só podia observar. A magia da espada não permitia nada além.

Ouviu o Morgawr lhe falar, suas palavras suaves, bajuladoras e traiçoeiras. Viu-se lentamente assimilar as mentiras do Morgawr, aceitá-las, acreditar que ele era o que dizia ser e que ela era a vítima das maquinações de um druida. Viu como ele a levara a bordo de seu shrike, para as profundezas de seu antro no Caminho Selvagem. Ela viu a si mesma fechar a porta de sua própria prisão, uma tola complacente, um peão em um esquema que agora começava a compreender pela primeira vez. Viu-se começando outra vida — uma criança pequena e mal orientada, motivada pelo ódio e pela determinação. Viu a si mesma, sabendo que nunca mais seria a mesma, incapaz de impedir isso, de fazer algo mais do que entrar em desespero por seu destino.

Mas mesmo assim as imagens continuavam, desvendando-se, revelando-lhe a verdade que havia sido oculta por todos esses anos. Viu um mutante cavando nas ruínas fumegantes de sua casa para pegar seu irmãozinho ainda vivo. Ela o viu levar seu irmão para longe, para uma fortaleza solitária que rapidamente reconheceu como Paranor. Viu esse mutante entregar seu irmão ao druida Walker, que, por sua vez, o levou para as Highlands de Leah para confiá-lo a um homem de rosto gentil e sua esposa, que tinham seus próprios filhos e uma dívida a retribuir. Ela viu seu irmão crescer naquela família, seu rostinho de bebê mudando com o passar dos anos, suas feições lentamente se deixando reconhecer.

Ela poderia ter perdido o fôlego ou até mesmo soltado um grito ao perceber que estava olhando para o garoto que havia viajado para aquela terra distante com Walker, que a confrontara e lhe dissera que era Bek. Não havia como confundi-lo. Ele era o garoto em quem ela não havia acreditado, o garoto que ela havia caçado com o caull e quase matado. Bek, o irmão que ela tinha tanta certeza de que havia morrido no incêndio...

Não pôde terminar esses pensamentos, nenhum deles. Mal conseguiu se forçar a confrontá-los. Tampouco havia tempo para uma consideração equilibrada, para uma aceitação do que ela estava absorvendo. Outras imagens apareceram rapidamente, uma onda delas, inundando-a tão completamente que seu peito contraiu-se e sua respiração apertou sob esse peso esmagador.

Agora, as imagens eram de seu treinamento com o Morgawr, de seu longo e difícil aprendizado, de seu domínio da autodisciplina e do crescimento de sua determinação, enquanto ela aprendia como destruir Walker. Viu-se crescer e, de garota, transformar-se em uma jovem, mas não com a mesma liberdade de vida e espírito com que Bek havia sido investido. Em vez disso, ela viu a si mesma mudar de algo humano para algo tão parecido com o Morgawr, que, no fim das contas, só se diferenciava dele por fora, onde sua pele a separava das escamas do outro. Ela havia se tornado sombria, cheia de ódio e implacável da mesma maneira que ele. Havia abraçado as possibilidades venenosas de sua magia com sua ansiedade e uma determinação selvagem.

Viu-se aprendendo a utilizar sua magia como uma arma. Toda a sua longa e sombria experiência foi reprisada com detalhes entorpecedores e repugnantes. Viu-se a mutilar e matar aqueles que ficavam em seu caminho. Viu-se a destruir aqueles que ousavam confrontá-la ou questioná-la, despindo-os de esperança e coragem, reduzindo-os a escravos. Viu-se a arruinar pessoas simplesmente porque era conveniente ou se adequava aos seus propósitos. A Addershag morrera para que ela pudesse ganhar poder sobre Ryer Ord Star. Seu espião na casa do curandeiro de Bracken Clell morrera para que jamais pudesse revelar sua ligação com ela. Allardon Elessedil morrera para que a viagem que o druida Walker procurava fazer não tivesse apoio dos elfos.

Houve outros, tantos que ela rapidamente perdeu a conta. Sequer se lembrava da maioria. Ela os viu aparecerem como fantasmas do passado e os viu morrerem novamente. Por suas mãos ou por suas ordens, todos morreram mesmo assim. Ou, se não haviam morrido, freqüentemente tinham o aspecto de homens e mulheres que desejavam ter morrido. Ela podia sentir-lhes o medo, a impotência, a frustração, o terror e a dor. Ela podia sentir o sofrimento deles.

Ela, que era a bruxa Ilse, que nunca sentira nada, que havia feito questão de se endurecer contra qualquer emoção, começava a se desmanchar como uma roupa velha que fora usada vezes demais.

Chega!, ela ouviu a si mesma implorar. Por favor! Por favor!

As imagens tornaram a se deslocar e agora ela via não os atos imediatos que havia perpetrado, mas as suas conseqüências. Onde um pai morrera para atender a suas necessidades, uma mãe e filhos foram deixados para morrer de fome nas ruas. Onde uma filha fora subvertida para seu uso, um irmão fora inadvertidamente colocado em perigo e destruído. Onde uma vida fora sacrificada, outras duas foram arrasadas.

Não acabava ali. Um comandante nascido livre, com a mente e o espírito quebrados pelo seu capricho, custou à sua nação o benefício de sua coragem e a deixou sem liderança por anos. A filha de um político apanhado no meio de uma luta entre duas facções fora aprisionada quando sua sabedoria poderia ter resolvido a disputa. Crianças desapareciam em outras terras, seqüestradas para que aqueles que lhe obedeciam pudessem ganhar o controle dos pais devastados pela tristeza. Tribos de gnomos, privados da terra sagrada que ela havia reclamado para o Morgawr, culparam os anões, que então se tornaram seus inimigos. Como o efeito ondulatório de uma pedra jogada nas águas paradas de um lago, os resultados de seus atos egoístas e predatórios se espalhavam para muito além do impacto inicial.

Durante todo esse tempo ela podia sentir o Morgawr observando a distância, uma presença silenciosa saboreando os resultados de seus atos dúplices, de suas mentiras e enganações. Ele a controlava como se fosse seu títere, puxada e empurrada pelos fios que ele segurava. Canalizava a fúria e a frustração dela, e jamais a deixava esquecer contra quem deveria direcioná-las. Tudo o que ela fazia era na expectativa de destruir o druida Walker. Mas, vendo seu passado agora, despido de fingimentos e revelado por completo na mais brilhante luz do dia, não conseguia compreender como fora tão mal orientada. Nada do que havia feito atingira seus supostos objetivos. Nada daquilo se justificava. Tudo fora uma mentira.

A concha de auto-engano na qual estava encapsulada se quebrou sob o dilúvio de imagens e, pela primeira vez, ela se viu como era. Era repulsiva. Era pior do que poderia imaginar, uma criatura cuja humanidade fora sacrificada na falsa crença de que não fazia sentido. Em sacrifício ao monstro no qual ela havia se tornado, abrira mão de tudo o que fazia parte da garotinha que fora um dia.

O pior de tudo era perceber o que fizera a Bek. Fizera mais do que o trair, supondo que ele estava morto nas cinzas de sua casa. Fizera pior do que não descobrir se ele poderia ser quem afirmava quando a confrontara. Ela havia tentado dar um fim a ele. Ela o havia caçado e quase o matara. Fizera dele um prisioneiro, levara-o consigo para a Black Moclips e o entregara a Cree Bega.

Ela o havia abandonado.

Mais uma vez.

Na magia silenciosa e tranqüilizadora da espada de Shannara, as imagens desapareceram por um momento e ela ficou só com sua verdade, com a dureza dela, cortante como uma navalha. Walker ainda estava ali, ainda por perto, sua presença pálida vendo-a conhecer- se a si própria. Ela o sentia pesado como um manto e não conseguia retirá-lo. Lutou para se libertar da rede de engodos, traições e malefícios que a cobriam como mil teias de aranha. Lutou para respirar na escuridão sufocante de sua vida. Não conseguiu fazer nenhuma dessas coisas. Estava tão aprisionada quanto suas vítimas.

As imagens recomeçaram, mas ela não conseguia suportar mais vê-las. Avançando trôpega pelo caleidoscópio de seus terríveis atos, ela não podia imaginar como conseguiria ser perdoada algum dia. Ela se sentia desprovida de esperança ou graça. Finalmente encontrando sua voz, ela gritou, num misto de desespero e ódio de si mesma. O som e a fúria do grito acionaram sua própria magia, escura, rápida e certeira. A magia veio em seu socorro rapidamente, colidiu com a magia da espada de Shannara e entrou em erupção dentro dela em uma feroz conflagração. Sentiu-se explodir em um turbilhão de imagens e emoções. Então, tudo começou a cair em espiral para dentro de um vácuo imenso e interminável e ela foi varrida para nuvens de sombras sem fim.

 

Bek Ohmsford ficou rígido quando ouviu o som.

— Ouviu isso? — perguntou a Truls Rohk.

Era uma pergunta desnecessária. Ninguém teria deixado de ouvir aquilo. Estavam nas profundezas agora, de volta às catacumbas de Castledown, procurando Walker. Haviam descido por entre as ruínas, encontrando portas antes ocultas que agora estavam abertas, esperando. Os fios de fogo e os rastejadores não protegiam mais aquele domínio. Não havia mais nenhum sinal de vida. O mundo de Antrax era um cemitério de esqueletos de metal e máquinas mortas.

Truls Rohk, coberto com manto e capuz, olhou devagar ao redor, enquanto o eco do grito morria.

— Alguém ainda está vivo aqui embaixo.

— Uma mulher — arriscou Bek.

— Não tenha tanta certeza — o mutante grunhiu.

Bek testou o ar com sua magia, zumbindo suavemente, lendo as linhas de energia. Grianne havia passado por ali há pouco tempo. Sua presença era inconfundível. Eles a estavam seguindo na crença de que ela estaria seguindo Walker. Um levaria ao outro. Se fossem rápidos o bastante, poderiam alcançar ambos a tempo. Mas até agora eles ainda não estavam certos de que havia restado alguém vivo. Certamente não haviam encontrado nenhuma evidência disso.

Bek voltou a avançar, passando nervoso a mão pelos cabelos.

— Ela foi por aqui.

Truls Rohk o acompanhou.

— Você disse que tinha um plano. Para quando a encontrarmos.

— Capturá-la — declarou Bek. — Levá-la viva.

— Quanta ambição, garoto. Você pretende me contar os detalhes?

Bek continuava em frente, aproveitando bem o tempo para pensar com calma na explicação. Com Truls, era melhor não complicar demais as coisas. O mutante já estava preparado para duvidar da possibilidade de qualquer plano funcionar com sucesso. Ele já estava pensando em maneiras de matar Grianne antes que ela tivesse chance de matá-lo. Tudo o que o impedia era a exigência intensa de Bek para que Truls desse uma chance a ele.

— Ela não pode nos ferir, a menos que use sua magia — ele disse baixinho, sem olhar para o outro enquanto andavam. Seguiu seu caminho com cuidado, por entre cabos derrubados e blocos de concreto que haviam se soltado do teto devido a uma grande explosão e um terremoto que, mesmo na superfície, puderam sentir. — Ela não pode usar sua magia se não puder usar a voz. Se nós a impedirmos de falar, cantar ou fazer qualquer som, poderemos fazê-la prisioneira.

Truls Rohk deslizava por entre as sombras e luzes que piscavam como um gigantesco gato.

— Podemos conseguir o que precisamos simplesmente matando-a. Desista disso, garoto. Ela não vai se tornar sua irmã novamente. Ela não vai aceitar o que é.

— Se eu puder distraí-la, então você pode chegar por trás dela — Bek continuou, ignorando-o. — Cubra sua boca e não a deixe emitir som algum. Você poderá fazer isso se ela não descobrir que você está aí. Acho que isto é possível. Ela estará concentrada em descobrir o druida e cuidar de mim. Não estará procurando você.

— Você sonha muito alto. — Truls Rohk não parecia convencido. — Se isto falhar, não teremos uma segunda chance. Nenhum de nós.

Algo pesado desabou no chão do corredor adiante, acrescentando destroços aos montes já reunidos. Canos quebrados chiavam soltando vapor, e cheiros estranhos se acumulavam em nichos, passando por entre rachaduras nas paredes. Dentro das catacumbas, toda passagem parecia exatamente a mesma. Era um labirinto, e se eles não tivessem a aura distintiva de Grianne para rastrear, teriam se perdido há muito tempo.

Bek manteve sua voz calma.

— Walker iria querer que fizéssemos isso — ele arriscou. Olhou para a forma sombria do mutante. — Você sabe que isso é verdade.

— Ninguém sabe o que o druida quer. Tampouco se é necessariamente a coisa certa. Isso não nos levou muito longe até agora.

— E foi por isso que você decidiu vir com ele nesta peregrinação — Bek disse baixinho. — Foi por isso que o acompanhou tantas vezes antes. Não é verdade?

Truls Rohk nada disse; desapareceu dentro de si mesmo e tudo o que restou foi sua sombra encapuzada passando pela quase escuridão, mais presença do que ausência, tão tênue que quase poderia desaparecer num piscar de olhos.

Adiante, o túnel se ampliava. O dano ali era mais grave do que qualquer coisa que já tinham encontrado. Blocos inteiros de teto e parede haviam desabado. Vidros estilhaçados e metais retorcidos jaziam em pilhas. Embora lâmpadas sem chamas iluminassem a passagem, com uma luminescência pálida, a luz delas mal penetrava nas sombras densas.

Uma vasta e cavernosa câmara no fim do corredor se abria para um par de cilindros maciços cuja pele de metal estava aberta como a casca de uma fruta podre. As pontas de diversos fios piscavam e estalavam em pequenas explosões. Escoras e vigas se soltavam de sua fixação com gemidos longos e lentos.

— Ali — disse Bek suavemente, estendendo a mão para tocar o manto do outro. — Ela está ali.

Nenhum movimento ou som chegava até eles, nenhuma indicação de que qualquer coisa viva aguardava ao final da passagem, no meio de tanta destruição. Truls Rohk ficou paralisado por um momento, apurando o ouvido. Então começou a avançar, desta vez liderando, não mais confiando em Bek, assumindo o controle do que poderia se tornar uma situação mortal. O garoto o acompanhou sem dizer palavra, sabendo que não estava mais no controle, que o melhor a esperar era uma chance para que as coisas funcionassem da maneira que ele achava ser a melhor.

Um sibilar repentino quebrou o silêncio, pontuado por estalidos e pequenos estouros. Os sons lembravam a Bek animais se alimentando de ossos de uma carcaça.

Ao chegar à abertura, Truls Rohk foi rapidamente até as sombras de uma das paredes, fazendo sinal para que Bek permanecesse recuado. Bek não estava disposto a perder contato com ele; recuou talvez um passo, não mais. Comprimindo-se contra a parede lisa, ele lutou para ouvir alguma coisa acima dos ruídos mecânicos.

Então, o mutante se desvaneceu em um trecho de sombra e simplesmente desapareceu. Bek percebeu na hora que ele estava tentando chegar a Grianne primeiro. Bek disparou atrás dele, apavorado pela possibilidade de perder todas as chances de salvar sua irmã. Atravessou correndo os escombros na entrada da câmara, e parou.

A câmara estava em ruínas, uma pilha de metais e vidros destroçados, de rastejadores estraçalhados e máquinas quebradas. No centro, Grianne estava ajoelhada ao lado de Walker, caído. A cabeça de Grianne erguia-se da sombra de seus cabelos negros, o rosto pálido apanhado em um tênue piscar de luzes que vinham de um maço de cabos rompidos soltando faíscas e zumbidos. Seus olhos estavam abertos; ela olhava para o teto, mas não via nada. Suas mãos seguravam com força o cabo da espada de Shannara, que repousava com a lâmina para baixo, contra o piso de metal liso.

Havia sangue naquelas mãos, no cabo e na lâmina. Havia sangue por todas as roupas dela e também nas de Walker. Havia sangue no chão, empoçado em um lago rubro que desembocava em finos rios a serpentear para dentro dos destroços.

Bek olhou a cena horrorizado. Ele não conseguia evitar o que estava pensando. Walker estava morto e Grianne o matara.

Ao seu lado, a ponta afiada de uma lâmina relampejou por um momento nas sombras, e da penumbra uma escuridão mais profunda avançou silenciosa.

Truls Rohk havia chegado à mesma conclusão.

 

Abraçando um ao outro como crianças apavoradas, Ahren Elessedil e Ryer Ord Star seguiram seu caminho pelas passagens silenciosas e empoeiradas de Castledown, na direção das ruínas da cidade na superfície. A vidente soluçava incontrolavelmente, a cabeça no ombro do príncipe dos elfos, seus braços pendendo como se ela tivesse medo de perdê-lo. Deixar Walker a havia arrasado completamente e, embora Ahren murmurasse palavras para consolá-la enquanto andavam, ela parecia não ouvi-lo. Era como se, deixando o druida, ela tivesse deixado a maior parte de si mesma. A única indicação que ela dava de que ainda estava presente era a maneira como se retraía quando novos pedaços de parede ou do teto desabavam ou alguma coisa explodia nos recessos escuros através dos quais eles haviam fugido.

— Vai ficar tudo bem, Ryer — Ahren não parava de repetir, mesmo muito depois de perceber que as palavras não faziam sentido para ela.

Atiçados pelos eventos das últimas horas, seus pensamentos eram confusos e incertos. Os efeitos da magia das pedras élficas o haviam esgotado, deixando-o quieto e em paz novamente, não mais repleto de fogo e de fúria. Ele havia guardado bem as pedras dentro do bolso de sua túnica para quando voltassem a ser necessárias. Uma parte dele estava em expectativa para usá-las novamente, mas outra parte esperava que isso nunca mais acontecesse. Ele se sentia vingado e satisfeito por tê-las recuperado, tendo invocado sua magia com sucesso e usado o fogo azul contra as odiosas máquinas que haviam destruído tantos de seus amigos e companheiros da Jerle Shannara. Sentia-se renovado por dentro, como se tivesse se submetido a um rito de passagem e sobrevivido. Começara essa jornada como pouco mais do que um garoto, e agora ele era um homem. Fora sua odisséia para obter a posse das pedras élficas que lhe emprestara essa sensação de uma identidade renovada, de uma nova confiança. A experiência havia sido horrenda, mas poderosa.

Nada disso pôde fazê-lo sentir-se melhor em relação a Walker ou ao que poderia lhes acontecer naquele momento. O fato de que Walker estava morrendo quando o deixaram era indiscutível. Nem mesmo um druida poderia sobreviver ao tipo de ferimentos que ele havia recebido. Poderia durar mais alguns minutos, mas não havia chance para ele. Agora a companhia, ou o que restara dela, deveria continuar sem ele. Mas continuar para onde? Continuar por que razão? O próprio Walker dissera que com a morte de Antrax o conhecimento dos livros de magia estava perdido para eles. Ele fizera a escolha de destruir a máquina, e, assim, não havia chance de recuperar o que, ao longo de toda a viagem, procuravam. Era uma admissão de fracasso. Era um reconhecimento de que sua jornada havia sido em vão.

Mas, ao mesmo tempo, ele sentia que isso não era tudo, que havia algo mais do que aquilo que transparecia, algo que não era imediatamente óbvio.

Perguntou-se sobre os outros da companhia. Sabia que Bek estava vivo quando Ryer fugira da bruxa Ilse e voltara às ruínas para encontrar Walker. A rastreadora elfa Tamis também havia escapado. Haveria outros, em algum lugar. O que deveria fazer para encontrá-los? Sabia que deveria encontrá-los, pois sem uma aeronave e uma tripulação estariam perdidos indefinidamente. Com a bruxa Ilse e seus mwellrets caçando-os.

Mas sabia o que poderia fazer para conseguir ajuda. Poderia utilizar as pedras élficas, as lendárias pedras buscadoras, para achar um caminho até os outros. O problema era que o uso da magia alertaria a bruxa Ilse para a presença deles. Isso diria a ela exatamente onde estavam, e ela iria atrás deles na hora. Não podia deixar isso acontecer. Nem por um instante Ahren achou que era páreo para a bruxa, mesmo com a magia das pedras élficas para ajudá-lo. Discrição e segredo eram as melhores armas a usar naquele momento. Mas ele não tinha certeza se discrição e segredo seriam suficientes.

Já estava percorrendo as passagens por várias horas quando se deu conta do fato de que Ryer havia parado de chorar. Olhou para ela surpreso, mas ela continuava com o rosto enterrado no ombro dele, apertado contra seu peito, oculto na cortina de seus longos cabelos prateados. Ele achou que ela poderia estar lutando contra a sua tristeza e não deveria ser perturbada. Deixou-a em paz. Em vez disso, concentrou-se novamente em como chegar à superfície. Os destroços que coalhavam os corredores inferiores não estavam tão evidentes ali, como se as explosões tivessem se concentrado mais ao fundo. O ar parecia mais fresco e ele achou que deveriam estar perto da liberdade.

Descobriu que estava certo. Em poucos minutos, passaram por um par de portas de metal arrancadas das dobradiças e entreabertas, enfiadas sob a estrutura desabada, e saíram a céu aberto. Emergiram da torre dentro da qual Walker desaparecera dias antes, bem no centro do labirinto mortal que devastara o restante da companhia. Ainda era noite, mas a aproximação da aurora era assinalada por uma leve iluminação a leste no horizonte. No alto, o luar cascateava de um céu sem nuvens, iluminado por estrelas.

Ahren parou na entrada da torre e olhou ao redor com cautela. Podia vislumbrar o traçado das paredes do labirinto e discernir as pilhas de armas e rastejadores quebrados. Mais além, as ruínas da cidade se espalhavam em um monte de edifícios destroçados. Nenhum som vinha daquela desolação. Era como se eles fossem as únicas criaturas vivas do mundo.

Mas ele sabia que isso era um engano. Os mwellrets ainda estavam ali fora, procurando por eles. Ele tinha de tomar muito cuidado.

Com Ryer ainda se agarrando a ele, ajoelhou-se e falou-lhe ao ouvido:

— Ouça-me — ele murmurou.

Ela ficou quieta, e então assentiu lentamente.

— Precisamos encontrar os outros, Bek, Tamis e Quentin. Mas precisamos ficar muito quietos. Os mwellrets e a bruxa Ilse estarão nos caçando. Pelo menos é o que temos de supor. Precisamos sair destas ruínas e ir para a cobertura das árvores. Rápido. Pode me ajudar?

— Não devíamos tê-lo abandonado — ela respondeu tão suavemente que ele quase não entendeu as palavras. Os dedos dela apertaram seu braço. — Devíamos ter ficado.

— Não, Ryer — ele disse. — Ele nos mandou ir. Ele nos disse que não havia nada que pudéssemos fazer. Pediu que encontrássemos os outros. Lembra?

Ela balançou a cabeça.

— Não importa. Devíamos ter ficado. Ele estava morrendo.

— Se não conseguirmos fazer o que ele nos pediu, se nos permitirmos ser capturados ou mortos, teremos falhado para com ele. Isso fará da morte dele um desperdício ainda maior. — Ele falava baixinho, mas com firmeza. — Não é isso o que ele espera de nós. Não foi por isso que ele nos mandou embora.

— Eu o traí. — Ela soluçava.

— Nós todos traímos uns aos outros em algum momento desta viagem. — Ele forçou a cabeça dela para fora de seu ombro e levantou seu queixo para que ela pudesse olhá-lo. — Walker não está morrendo por causa de algo que fizemos ou que deixamos de fazer. Ele está morrendo porque escolheu dar sua vida para destruir Antrax. Foi ele quem fez essa escolha.

Respirou fundo para se acalmar.

— Me escute. Nós o serviremos melhor agora honrando seus últimos desejos. Não sei o que ele pretendia para nós, o que achava que aconteceria agora que se foi. Não sei o que realizamos. Mas não há mais nada que possamos fazer por ele além de sairmos daqui e voltarmos para as Quatro Terras.

O rosto pálido e magro dela se endureceu com a firmeza das palavras de Ahren, e então se contorceu como um pedaço de pergaminho velho amassado.

— Não posso sobreviver sem ele, Ahren. Não quero.

O príncipe dos elfos estendeu a mão impulsivamente e acariciou os cabelos finos dela.

— Ele disse que veria você novamente. Ele prometeu. Talvez você deva lhe dar a chance de manter essa promessa. — Fez uma pausa, e então se curvou e beijou-a na testa. — Você diz que não consegue sobreviver sem ele. Se isso faz alguma diferença, acho que não posso sobreviver sem você. Eu não teria chegado até aqui se não fosse por você. Não me abandone agora.

Ele repousou o rosto contra a têmpora dela e a abraçou, esperando uma resposta. Demorou a chegar, mas finalmente ela levantou a cabeça e pôs suas mãos pequenas sobre o rosto de Ahren.

— Está certo — disse baixinho. Deu-lhe um pequeno sorriso triste. — Não o abandonarei.

Levantaram-se, saíram da sombra da torre negra, entraram no labirinto e então voltaram ruínas adentro. Ficaram nas sombras e não se apressaram, parando com freqüência para tentar ouvir algum som que os alertasse para perigos. Ahren ia na frente, segurando a mão de Ryer Ord Star, o elo entre os dois estranhamente poderoso. Ele não havia mentido ao lhe dizer que ainda precisava dela. Apesar de ter recuperado as pedras élficas e de sua bem-sucedida batalha contra os rastejadores, ainda não sentia muita confiança em si mesmo. Já havia saído da meninice, mas ainda era cru e inexperiente. Havia lições por aprender e algumas delas seriam duras. Ele não queria enfrentá-las sozinho. Ter Ryer junto a ele ao enfrentá-las lhe daria uma confiança que não conseguia explicar inteiramente, mas sabia que era melhor não ignorar.

Mas achava que entendia pelo menos parte disso. O que sentia pela garota era algo próximo do amor. O sentimento havia crescido devagar e ele estava apenas começando a reconhecer o que era. Não tinha certeza de como isso se resolveria ou sequer se iria sobreviver por mais um dia. Mas em um mundo de turbilhões e incertezas, de monstros e terríveis perigos, era reconfortante tê-la por perto, ser capaz de pedir-lhe conselhos, simplesmente poder tocar sua mão. Ele extraía forças de Ryer que eram, ao mesmo tempo, poderosas e misteriosas — não de maneira mágica, mas de maneira espiritual. Talvez fosse tão simples quanto não estar inteiramente só, ter outra pessoa com a qual compartilhar o que acontecesse. Mas talvez também isso fosse tão místico quanto vida e morte.

Caminharam por um longo tempo por entre as ruínas sem ouvirem nem verem nada e ninguém. Foram na direção sul, voltando por onde vieram, para a baía onde a Jerle Shannara havia ancorado um dia. Agora ela estava nas mãos da bruxa Ilse, é claro — a menos que as coisas tivessem mudado, o que era possível. As coisas mudavam rapidamente naquela terra. As coisas mudavam sem aviso. Talvez dessa vez elas mudassem de maneira a favorecer a companhia de Walker e não a da bruxa.

Subitamente, Ryer Ord Star parou, seu corpo magro, rígido e trêmulo. Ahren voltou-se para ela na hora. Ela encarava fixamente o espaço, algum lugar que ele não conseguia ver, e seu rosto refletia tamanha aflição que rapidamente ele se viu procurando pelas cercanias o que provocava isso.

— Ele está morto, Ahren — ela disse num murmúrio minúsculo e devastado pela tristeza.

Ela afundou no chão, chorando. Ainda segurava a mão de Ahren, como se fosse tudo o que a mantivesse inteira. Ele se ajoelhou ao seu lado, abraçando-a, segurando-a perto de si.

— Talvez ele esteja em paz — ele disse, imaginando se isso seria possível para Walker Boh.

— Eu o vi — disse ela. — Em minha visão, neste instante. Eu o vi sendo carregado por uma sombra, em direção a uma luz verde sobre um lago subterrâneo. Ele não estava só. Na margem havia três pessoas. Uma era Bek, a segunda, uma forma encapuzada que não reconheci. A terceira era a bruxa Ilse.

— A bruxa Ilse estava com Bek?

A mão da vidente apertou a de Ahren.

— Mas ela não estava fazendo nada ameaçador. Não estava sequer olhando para ele. Estava simplesmente ali, fisicamente presente, mas ao mesmo tempo não estava. Parecia perdida. Espere! Não, não é isso. Ela não parecia perdida, parecia atordoada. Mas não é só isso, Ahren. A visão mudou e ela estava abraçando Bek e ele a abraçava. Estavam em algum outro lugar, algum lugar no futuro, eu acho. Não sei como explicar isso, mas eles eram a mesma pessoa. Estavam unidos.

Ahren tentou entender isso.

— Um corpo e uma face? Iguais, de algum modo?

Ela balançou a cabeça.

— Não pareciam assim, mas era como se fossem. Alguma coisa aconteceu para uni-los. Mas era mais uma união espiritual do que física. Havia tanta dor! Eu podia senti-la. Não sei de quem ela vinha, quem a havia gerado. Talvez os dois. Mas ela foi liberada através da conexão que eles formavam, e era um gatilho para alguma outra coisa, alguma coisa que iria acontecer depois. Mas isso eu não vi, não me foi permitido.

Ahren parou para pensar.

— Bem, talvez tenha algo a ver com eles serem irmãos. Talvez fosse essa a conexão que você sentiu. Talvez a bruxa Ilse tenha descoberto que isso é verdade, e foi isso o que liberou toda essa dor que você sentiu.

Os olhos dela eram imensos e líquidos na luz do luar.

— Talvez.

— Você acha que Bek e a bruxa Ilse estão lá embaixo em Castledown, com Walker?

Ela balançou a cabeça.

— Não sei.

— Devemos voltar e procurar por eles?

Ela simplesmente o olhou, os olhos arregalados, apavorada. Não havia como saber, claro. Era uma visão, e visões eram sujeitas a enganos e falsas interpretações. Elas revelavam verdades, mas não em termos imediatamente aparentes. Essa era a sua natureza. Ryer Ord Star via o futuro melhor do que a maioria dos videntes. Mas mesmo ela não tinha permissão de captar mais do que um vislumbre dele, e esse vislumbre poderia significar alguma coisa além do que sugeria.

Voltar por qualquer motivo, subitamente, pareceu algo impensável para Ahren, que abandonou a idéia. Em vez disso, levantaram-se e continuaram caminhando. Frustrado e perturbado pelas palavras da vidente, Ahren descobriu-se esperando que, quando ela tivesse mais uma visão, deveria ser uma visão sobre a qual pudessem fazer alguma coisa. Como descobrir uma maneira para saírem de seu dilema atual, por exemplo. Visões de outras pessoas, em outros lugares, não eram de muita utilidade naquele momento. Isso era uma atitude egoísta e ele ficou com vergonha na hora. Mas não pôde evitar pensar nisso mesmo assim.

Continuaram. Em breve amanheceria. Se eles não tivessem atingido o abrigo das árvores, estariam em apuros. Tinham os restos dos edifícios para se esconder, mas se fossem detectados, seriam apanhados facilmente. Se prosseguissem depois que a luminosidade aumentasse, ficariam expostos nas estradas abertas. Ahren não sabia se o que ele fizesse àquela altura faria alguma diferença, pois não tinham destino final nem plano de resgate. Tudo o que ele sabia que tinha de fazer era encontrar uma maneira de escapar das mãos da bruxa Ilse e dos mwellrets. Ou talvez apenas dos últimos, se a visão de Ryer provasse ser profética. Seria possível que Bek tivesse tornado a bruxa uma prisioneira, tivesse achado alguma maneira de subjugá-la? Afinal, ele tinha magia forte o suficiente para estilhaçar rastejadores. Seria ela suficiente para vencer a bruxa também?

Ahren desejava saber mais sobre o que estava acontecendo. Mas isso ele desejara desde o começo.

Estavam próximos à margem da floresta quando ele ouviu movimento à frente. Era um movimento suave e furtivo, de alguém que tenta não ser descoberto. Ahren agachou-se, puxando Ryer junto. Estavam sob as sombras de uma parede; portanto, não seriam vistos com facilidade. Por outro lado, aos poucos estava ficando mais claro e eles não conseguiriam ficar onde estavam indefinidamente.

Ele fez um gesto para que ela ficasse quieta e o seguisse. Então, ele se levantou e começou a avançar, mas com lentidão. Momentos depois, ele tornou a ouvir o ruído, um arrastar de botas sobre pedra, muito perto agora, e ele voltou a penetrar nas sombras mais uma vez.

Quase no mesmo instante, um mwellret saiu deslizando das trevas e percorreu o terreno aberto em frente a eles. Não havia engano sobre o que aquilo era ou sobre sua intenção. Ele carregava um machado de batalha em uma das mãos e uma espada curta amarrada na cintura. Estava procurando alguém. Poderia não os estar procurando, aceitou Ahren, mas também não ajudaria se eles fossem descobertos.

Aguardou até que o ret estivesse fora do alcance da visão e continuou a avançar. Talvez pudessem passar por ele. Talvez o mwellret estivesse só.

Mas, quando viraram à esquerda, distanciando-se do primeiro, encontraram um segundo indo em direção a eles. Ahren mergulhou de volta à cobertura da ruína sem teto de um edifício e em seguida levou Ryer para outra saída, atravessando o piso. Seguiu cuidadosamente por cima de pilhas de escombros, mas suas botas fizeram pequenos ruídos que ele não estava conseguindo evitar. Novamente do lado de fora, ele caminhou agachado até outro prédio, Ryer nos seus calcanhares, e seguiu em frente. Se ele tomasse desvios suficientes, esperou, perderia de vista qualquer perseguidor.

Do lado de fora, Ahren parou e olhou ao redor. Nada era familiar. Podia ver o contorno das copas das árvores a alguma distância, mas não tinha idéia da direção que o mwellret havia tomado ou onde os outros estavam. Apurou o ouvido em busca deles, mas não ouviu nada.

— Tem alguém atrás de nós — Ryer sussurrou em seu ouvido.

Ele puxou-a para a frente novamente, indo em busca da cobertura das árvores, esperando poder alcançá-las a tempo. Estava ficando cada vez mais claro, o sol mal começando a cobrir o horizonte, deixando as ruínas banhadas em uma perigosa combinação de luz e sombras que poderiam facilmente enganar os olhos. Ahren pensou ter ouvido um grunhido súbito, vindo de algum lugar por perto e perguntou-se se haviam sido descobertos.

Talvez ele devesse utilizar as pedras élficas, mesmo que elas o entregassem. Mas a magia não era boa contra rets ou quaisquer outras criaturas não motivadas pela magia. Tampouco responderia se ele não fosse fisicamente ameaçado.

Ele colocou sua mão livre no cabo da faca longa, sua única outra arma, hesitando. Estava deliberando sobre o que fazer quando um movimento à sua direita o deteve. Ele se desvaneceu contra uma parede, com Ryer, prendendo a respiração quando uma forma envolta em um manto apareceu por entre os prédios. Ele não conseguiu ver quem era. Ou nem sequer o quê, se humano ou mwellret. Ryer estava tão apertada contra ele que podia sentir-lhe a respiração. Ele apertou mais ainda o cabo da faca, e não sentia nada da confiança que estava tentando transmitir a Ryer.

Então a forma encapuzada desapareceu. Ahren soltou lentamente o ar e começou a avançar novamente. Dali até as árvores a distância não era longa. Além das ruínas, a apenas uns cem metros, ele já podia ver galhos e aglomerados de folhas ao brilho da nova luz.

Ao fazer a curva de uma parede parcialmente desabada, olhou para trás por um instante para se certificar de que Ryer estava bem. A expressão nos olhos da vidente mudou nesse exato instante, sua cautela dando lugar ao mais puro medo.

Voltou depressa a olhar para diante, mas foi lento demais. Um movimento súbito o confrontou.

E, então, ficou tudo escuro.

 

Quando viu Truls Rohk se mover na direção de Grianne, Bek Ohmsford não teve tempo de considerar as conseqüências do que fizera em seguida. Tudo o que sabia era que se não conseguisse agir, o mutante a mataria. Não importava o que o outro havia prometido antes, em um momento de pensamento racional, distante da carnificina na qual se encontravam agora. Assim que Truls a vira ajoelhada ao lado de Walker, a espada de Shannara na mão e sangue por toda parte, foi como se a promessa tivesse sido escrita na água.

Se Bek tivesse permitido que suas emoções o dominassem, talvez tivesse reagido da mesma maneira que Truls Rohk. Mas Bek podia ver algo muito estranho na expressão no rosto de sua irmã. Ela estava olhando para cima, mas não enxergava nada. Segurava a espada de Shannara, mas não como se fosse uma arma que havia acabado de ser usada. Tampouco pensava que ela confiaria no talismã para tirar a vida do druida. Ela confiaria em sua própria magia, a magia da canção do desejo e, se tivesse agido daquele modo, não haveria tanto sangue espalhado.

Assim que superou o choque inicial, Bek percebeu que havia algo mais do que as aparências mostravam. Mas Truls Rohk estava atrás de Grianne e não podia ver seu rosto. Porém, mesmo que visse não teria se importado, já que ele não estava inclinado a sentir o mesmo que Bek. Para o mutante, a bruxa Ilse era nada menos que um inimigo perigoso, e se houvesse alguma razão para suspeitar que ela pudesse machucá-lo não pensaria duas vezes antes de detê-la.

Então Bek o atacou. Fez isso em uma reação nascida do desespero, com a intenção de deter o outro sem realmente machucá-lo. Mas Truls Rohk era tão enormemente forte que Bek não podia se dar ao luxo de empregar meias medidas ao invocar o poder da canção do desejo. Ele ainda não a havia dominado, não como Grianne, pois só poucos meses atrás havia descoberto que a podia usar. O melhor que podia fazer era torcer para que ela surtisse o efeito desejado.

Ele a enviou rodopiando, envolta em uma teia de magia que agarrou Truls e o derrubou de ponta-cabeça nos escombros da câmara. O mutante caiu, mas tornou a se levantar quase imediatamente, abandonando seu ocultamente, revelando-se na hora, grande, negro e perigoso. Segurando a faca longa à sua frente, correu uma segunda vez para Grianne. Mas Bek agora já sabia como calcular a força de Truls, e que sua primeira tentativa de deter o mutante iria falhar. Ele enviou uma segunda onda de magia, uma muralha de som que agarrou o outro e o enviou voando para trás. Bek gritou, mas não achava que Truls o tivesse ouvido, tão envolvido como estava em sua determinação de chegar até Grianne.

Mas Bek a alcançou primeiro, caiu de joelhos e abraçou-a protetoramente. Ela não se moveu quando ele fez isso. Não reagiu de forma alguma.

— Não a machuque — ele começou a dizer, virando-se para encontrar Truls Rohk.

Nesse instante, alguma coisa o atingiu com tanta força que o derrubou e o afastou completamente de Grianne, fazendo com que ele caísse em cima dos restos de um rastejador estraçalhado. Atordoado, foi se arrastando até conseguir ficar de joelhos.

— Truls... — disse sem fôlego, olhando indefeso para Grianne.

O mutante estava curvado sobre ela, uma sombra ameaçadora, sua lâmina na garganta exposta dela.

— Você não tem experiência para isso, garoto — ele sibilou para Bek. — Ainda não. Mas isso não o torna menos irritante, isso eu admito. Não, não tente se levantar. Fique onde está.

Ficou em silêncio por um momento, tenso e pronto ao se inclinar mais para perto da irmã de Bek. Então abaixou a faca.

— O que há de errado com ela? Ela está em alguma espécie de transe.

Bek tornou a se levantar, apesar do aviso, e foi caminhando cambaleante, sacudindo os efeitos desorientadores da pancada.

— Precisava me atingir com tanta força?

— Precisava se quisesse ter certeza de que você se lembraria do que significava utilizar sua magia contra mim. — O outro virou-se para encará-lo. — O que você estava pensando?

Bek balançou a cabeça.

— Apenas que eu não queria que você a machucasse. Pensei que você a mataria quando viu Walker. Achei que você não estava vendo-lhe o rosto, e por isso não saberia que ela não pode nos machucar. Eu apenas reagi.

Truls Rohk grunhiu.

— Da próxima vez, pense duas vezes antes disso. — A lâmina desapareceu dentro do manto. — Tire a espada das mãos de sua irmã e veja o que ela faz.

Já estava curvado sobre o druida, vasculhando os mantos encharcados de sangue, procurando sinais de vida. Bek se ajoelhou na frente da desorientada Grianne e soltou-lhe com cuidado os dedos, postos sobre a espada de Shannara. Eles se soltaram moles, com facilidade, e ele pegou o talismã em sua mão quando este se desprendeu. Não havia sinal de reconhecimento nos olhos dela. Ela nem sequer piscou.

Bek pôs a espada no chão e colocou os braços de Grianne paralelos ao corpo. Ela permitia que ele fizesse isso sem reagir de modo algum. Era como se fosse feita de argila mole.

— Ela não sabe nada do que está lhe acontecendo — disse baixinho.

— O druida vive — respondeu Truls Rohk. — Mal e mal.

Truls endireitou a forma esfarrapada e arrancou tiras de tecido de suas próprias roupas para estancar o fluxo de sangue das feridas visíveis. Bek ficou olhando impotente, espantado com a extensão dos ferimentos. Estes pareciam mais internos do que externos. Havia feridas serrilhadas em seu peito e estômago, mas ele sangrava pela boca e até mesmo pelos olhos. Parecia ter sofrido uma grande ruptura de órgãos.

Então, de forma súbita e inesperada, os olhos penetrantes se abriram e se fixaram em Bek. O garoto ficou tão assustado que, por um momento, parou de respirar e ficou simplesmente olhando para Walker.

— Onde está ela? — Walker murmurou com uma voz espessa de sangue e dor.

Bek não precisou perguntar sobre quem ele estava falando.

— Ela está bem ao nosso lado. Mas não parece saber quem somos ou o que está acontecendo.

— Ela está paralisada pela magia da espada. Entrou em pânico e utilizou sua própria magia para impedi-la. Inútil. Foi demais. Até mesmo para ela.

— Walker — Truls Rohk disse baixinho, curvando-se para chegar perto. — Diga-nos o que fazer.

O rosto pálido se movimentou levemente e os olhos negros se fixaram em Truls.

— Leve-me para fora daqui. Vá para onde eu lhe mandar ir. Não pare até chegar lá.

— Mas suas feridas...

— Minhas feridas estão além de qualquer ajuda. — A voz do druida subitamente ficou dura e firme. — Não resta muito tempo, mutante. Para mim não. Faça como eu digo. Antrax foi destruído. Castledown está morta. O que havia do tesouro que viemos buscar, dos livros e de seus conteúdos, está perdido. — Virou os olhos. — Bek, traga sua irmã conosco. Leve-a pela mão. Ela seguirá.

Bek olhou de relance para Grianne e depois voltou a encarar Walker.

— Se nós movermos você...

— Druida, tirar você daqui irá matá-lo! — Truls Rohk respondeu com raiva. — Eu não vim até aqui só para enterrar você!

Os estranhos olhos do druida se fixaram nele.

— As escolhas de vida e de morte nem sempre estão em nossas mãos, Truls. Faça o que eu digo.

Truls Rohk aninhou o druida em seus braços, lenta e gentilmente, tentando não machucá-lo ainda mais. Walker não fez som algum ao ser levantado, a cabeça escura afundando no peito, o braço dobrado sobre a barriga. Bek amarrou a espada de Shannara nas costas e depois pegou Grianne pela mão, puxando-a para que se levantasse. Ela veio de boa vontade, facilmente, e não reagiu ao ser levada.

Saíram da câmara em ruínas e desceram pela passagem que haviam anteriormente utilizado. No primeiro entroncamento, Walker os levou por uma direção diferente da que tinham percorrido. Bek viu a cabeça escura se mover levemente e ouviu a voz cansada sussurrar instruções. As pontas dos mantos esfarrapados do druida pendiam de sua forma inerte, deixando rastros de sangue no chão.

Enquanto avançavam pelas catacumbas, Bek olhava para Grianne de tempos em tempos, mas em nenhum momento ela retribuiu o olhar. Seu olhar permanecia fixo diretamente à sua frente e ela se movia como se fosse sonâmbula. Vê-la assim deixava o garoto apavorado, mais do que quando ela o caçara. Parecia que ela não era nada além de uma concha; a pessoa viva que ele conhecera havia partido completamente.

De vez em quando o progresso deles era tornado mais lento por pilhas de pedras e metais retorcidos que barravam sua passagem. Uma vez, Truls foi obrigado a colocar o druida no chão e forçar para trás uma placa de metal retorcido atravessada no corredor. Bek viu os olhos do druida se fecharem por causa da dor e do cansaço, viu-o contrair o rosto quando Truls o apanhou novamente, a mão agarrando a barriga como se quisesse evitar que o corpo se desmanchasse. Como Walker ainda estava vivo depois de perder tanto sangue era algo que estava além de sua compreensão. Ele já vira homens feridos antes, mas nenhum que tivesse vivido após ser machucado tão gravemente.

Truls Rohk estava desesperado.

— Druida, isto não faz sentido! — ele gritou em um momento, parando por raiva e frustração. — Deixe-me tentar ajudá-lo.

— Você me ajuda melhor seguindo em frente, Truls — foi a resposta fraca do outro. — Agora vá. Ainda em frente.

Caminharam por muito tempo antes de finalmente saírem em uma vasta caverna subterrânea que não parecia parte de Castledown, mas da própria terra. A caverna era natural, as paredes de rocha inalteradas por metal ou máquinas, o teto repleto de estalactites que pingavam água e minerais numa cadência firme, ecoando através do silêncio. A pouca luz que havia ali emanava de lâmpadas sem chama que estavam colocadas em suportes na entrada da caverna e uma suave fosforescência que a rocha da caverna emitia. Era impossível ver o outro lado da câmara, embora fosse claro o bastante para discernir que ficava a grande distância.

No centro da câmara havia uma grande massa de água, negra como tinta e lisa como vidro.

— Leve-me até a margem — Walker ordenou a Truls Rohk.

Avançaram ao longo do chão irregular da caverna, que estava repleto de pedras soltas e escorregadio pela umidade. O musgo crescia em pedaços escuros e pequenas samambaias abriam caminho serpenteando por entre rachaduras na pedra. O fato de que alguma coisa pudesse crescer ali, sem luz do sol, surpreendeu Bek.

Apertou a mão de Grianne de modo tranqüilizador, uma reação automática à volta da escuridão e da solidão. Olhou imediatamente para ela, para ver se ela havia notado, mas seu olhar ainda estava direcionado para a frente.

Na beira da água, pararam. Seguindo as instruções de Walker, Truls Rohk ajoelhou-se para colocá-lo no chão, aninhando-o de modo que sua cabeça e seus ombros repousassem nos braços do mutante. Bek descobriu-se pensando em como isso parecia estranho, que uma criatura que não era inteira, mas composta de pedaços que uma névoa enfumaçada mantinha unidos, acabasse sendo a guardiã do druida. Lembrou-se de quando conhecera Walker nas Highlands de Leah. O druida parecera tão forte, tão invencível, como se nada jamais pudesse mudá-lo. Agora ele estava quebrado e em pedaços, o sangue e a vida lhe escapando em uma terra distante.

Os olhos de Bek se encheram de lágrimas devido àquele pensamento, sua reação à dura descoberta de que a morte estava se aproximando. Ele não sabia o que fazer. Queria ajudar Walker, torná-lo inteiro novamente, restaurá-lo ao que ele era quando se conheceram há tantos meses. Queria dizer algo sobre o quanto o druida fizera por ele. Mas tudo o que conseguia fazer era segurar a mão de sua irmã e esperar para ver o que aconteceria.

— É aqui que eu fico — Walker disse baixinho, tossindo sangue e estremecendo com a dor que o movimento provocava.

Truls Rohk limpou o sangue com sua manga.

— Você não pode morrer e me deixar, druida. Não vou permitir. Temos muito mais a fazer, você e eu.

— Fizemos tudo o que nos era permitido fazer, mutante — retrucou Walker. Seu sorriso era surpreendentemente caloroso. — Agora precisamos nos separar. Você terá de encontrar suas próprias aventuras, criar seus próprios problemas.

O outro grunhiu.

— Não é provável que eu consiga fazer o trabalho tão bem quanto você. Jogos sempre foram sua especialidade, não minha.

Bek ajoelhou-se ao lado deles, puxando Grianne consigo. Ela deixou que ele a colocasse onde quisesse e parecia não reconhecer que Bek estava ali. Truls Rohk afastou-se dela.

— Minha vida chegou ao fim — disse Walker. — Fiz o que pude com ela e tenho de me conformar com isso. Certifique-se, ao retornar, de que Kylen Elessedil honre a promessa do pai. O irmão dele ficará ao seu lado; Ahren é mais forte do que você pensa. Ele tem as pedras élficas agora, mas elas não farão a diferença. Ele fará. Lembre-se disso. Lembre-se também do motivo pelo qual fizemos esta jornada. O que encontramos aqui, o que recuperamos, pertence a nós.

Truls Rohk fungou.

— O que você diz não está fazendo sentido algum, druida. Do que está falando? Não temos nada a mostrar do que fizemos! Não conseguimos nada! As pedras élficas? Para começar, elas nem eram nossas! E a magia que procuramos? E os livros que a continham?

Walker fez um gesto de repúdio.

— A magia contida nos livros, a magia da qual eu falei tanto para Allardon Elessedil quanto para seu filho, nunca foi o motivo para esta viagem.

— Então qual foi o motivo? — Truls Rohk estava irritado. — Vamos ficar jogando jogos de adivinhação a noite toda, druida? O que estamos fazendo aqui? Diga-nos! Será que tudo isto foi em vão? Dê-nos algum motivo de esperança! Agora, enquanto ainda temos tempo! Porque acho que você não tem muito tempo! Olhe para você! Você está...

Não conseguiu terminar a frase, cortando o resto do que ia dizer com amargura.

— Morrendo? — Walker falou a palavra por ele. — Não há problema em dizer isso, Truls. Morrer me libertará de promessas e responsabilidades que me mantiveram preso por mais tempo do que consigo me lembrar. De qualquer maneira, é apenas uma palavra.

— Então diga você. Não quero mais falar com você.

Walker estendeu o braço e pegou o manto do outro. Para a surpresa de Bek, Truls Rohk não se esquivou.

— Ouça-me. Antes de eu vir para esta terra, antes de decidir fazer esta viagem, eu fui até o vale de Shale, para o Hadeshorn, e invoquei a sombra de Allanon. Falei com ele, perguntando o que poderia esperar se escolhesse seguir o Mapa do Náufrago. Ele me disse que, de todos os objetivos que eu procurava realizar, só seria bem-sucedido em um deles. Por muito tempo, Truls, pensei que ele queria dizer que eu iria recuperar a magia dos livros do Antigo Mundo. Pensei que era isso o que eu deveria fazer. Pensei que esse era o propósito desta viagem. Não era.

Seus dedos apertaram o manto do mutante.

— Cometi o erro de pensar que poderia moldar o futuro da maneira que queria. Eu estava errado. A vida não permite isso, nem mesmo a um druida. A nós são dados vislumbres de possibilidades, nada mais. O futuro é um mapa desenhado na areia e a maré pode lavá-lo em um segundo. Aqui acontece o mesmo. Todos os nossos esforços para vir a esta terra, Truls, todos os nossos sacrifícios, foram por algo que nunca sequer levamos em conta.

Fez uma pausa, a respiração fraca e difícil; o esforço de falar era demais para ele.

— Então nós viemos por quê? — Truls Rohk perguntou impaciente, ainda com raiva do que estava ouvindo. — Por quê, druida?

— Por ela — murmurou Walker, e apontou para Grianne.

O mutante ficou tão perplexo que, por um momento, não conseguiu encontrar nada a dizer em resposta. Era como se o fogo tivesse se extinguido dele por completo.

— Nós viemos por causa de Grianne7 — Bek perguntou surpreso, sem saber se havia ouvido corretamente.

— Tudo ficará claro para vocês quando estiverem em casa de novo — sussurrou Walker, suas palavras quase inaudíveis, mesmo no silêncio profundo da caverna. — Ela é sua responsabilidade, Bek. Ela é sua responsabilidade agora, sua irmã recuperada como você desejava que pudesse ser. Leve-a de volta às Quatro Terras. Faça o que for preciso, mas leve-a para casa novamente.

— Isto não faz nenhum sentido! — Truls Rohk gritou furioso. — Ela é nossa inimiga!

— Dê-me a sua palavra, Bek — disse Walker, sem tirar os olhos do garoto.

Bek assentiu.

— Você tem a minha palavra.

Walker encarou-o por mais um momento, e então olhou para o mutante.

— E você também, Truls. Sua palavra.

Por um momento, Bek achou que Truls Rohk não iria dá-la. O mutante não disse nada, encarando o druida em silêncio. Sua forma escura irradiava tensão, mas ele se recusava a revelar o que estava pensando.

Os dedos de Walker continuavam fechados sobre o manto do mutante com a tensão que antecedia a morte.

— Sua palavra — ele tornou a murmurar. — Confie em mim o bastante para dá-la.

Truls Rohk soltou um sibilar de frustração e decepção.

— Está certo. Eu lhe dou a minha palavra.

— Cuidem dela como cuidariam um do outro — o druida continuou, seus olhos novamente sobre Bek. Ela não vai ficar assim para sempre. Um dia ela irá se recuperar. Mas, até lá, precisará de cuidados. Precisa que você a proteja de perigos.

— O que podemos fazer para ajudá-la a acordar? — pressionou Bek.

O druida respirou fundo, o fôlego entrecortado.

— Ela precisa ajudar a si mesma, Bek. A espada de Shannara revelou a ela a verdade sobre sua vida, sobre as mentiras que lhe contaram e os caminhos errados que ela tomou. Forçou-a a confrontar quem ela se tornou e o que fez. Mal se tornou adulta e já cometeu mais atos destrutivos e malefícios terríveis do que outros cometerão em uma vida inteira. Ela tem muito que se perdoar, mesmo assumindo o fato de que foi tão mal orientada pelo Morgawr. A responsabilidade por encontrar o perdão é dela. Quando encontrar uma maneira de aceitar isso, irá se recuperar.

— E se isso não acontecer? — perguntou Truls Rohk.—Pode ser, druida, que ela esteja além de perdão, não apenas dos outros, mas até de si mesma. Ela é um monstro, mesmo neste mundo.

Bek lançou um olhar zangado para o mutante, pensando que Truls jamais mudaria sua opinião sobre Grianne; para ele, ela seria sempre a bruxa Ilse e sua inimiga.

O druida teve um acesso de tosse e depois parou.

— Ela é humana, Truls... Assim como você — ele respondeu baixinho. — Outros o rotularam como um monstro. Estavam errados em fazer isso. O mesmo ocorre com ela. Não está além da redenção. Mas esse é o caminho dela, não o seu. O seu é cuidar para que ela tenha uma chance de caminhar.

Tornou a tossir, com mais força. Sua respiração estava tão espessa e molhada que cada fôlego dava a impressão de que ele iria sufocar no próprio sangue. Esse som emanava fundo de seu peito, onde seus pulmões estavam ficando cheios. Mesmo assim, ele conseguiu se sentar, libertando-se dos braços de Truls Rohk, e fez um gesto para que o mutante se afastasse.

— Deixem-me. Levem Grianne e voltem para a entrada da caverna. Quando eu tiver partido, sigam o corredor que leva para a esquerda até a superfície. Procurem os outros que ainda estão vivos: os rovers, Ahren Elessedil, Ryer Ord Star. Quentin Leah, talvez. Mais um ou dois, se eles tiveram sorte. Voltem para casa. Não fiquem por aqui. Antrax está acabado. O Antigo Mundo voltou para o passado de uma vez por todas. O Novo Mundo, as Quatro Terras, é o que importa.

Truls Rohk ficou onde estava.

— Não vou deixar você sozinho. Não me peça isso.

A cabeça de Walker pendeu para a frente, os cabelos negros caindo e encobrindo seu rosto magro.

— Não estarei sozinho, Truls. Agora vá.

Truls Rohk hesitou e então se levantou lentamente. Bek também se levantou, pegando a mão de Grianne e puxando-a para cima consigo. Por um momento ninguém se moveu, e então o mutante virou-se sem dizer palavra e começou a voltar por entre as rochas soltas até a entrada da caverna. Bek seguiu em silêncio, levando Grianne, olhando para trás para ver Walker. O druida estava caído à margem do lago subterrâneo, os mantos negros cobertos com seu sangue, o movimento lento e suave de seus ombros eram a única indicação de que ele ainda vivia. Bek teve uma necessidade quase incontrolável de dar meia-volta para buscá-lo, mas sabia que isso não faria sentido. O druida havia feito sua escolha.

Na entrada da caverna, Truls Rohk olhou para Bek e então parou abruptamente, apontando para o lago.

— Jogos de druidas, garoto — ele sibilou. — Olhe! Veja o que acontece agora!

Bek se virou. O centro do lago fervia, turbilhonava e uma luz verde brilhava em suas profundezas. Uma escura figura espectral elevou-se do centro do lago e ficou suspensa no ar. Um rosto despontou do capuz, de pele escura e barba negra, um rosto que Bek, mesmo sem nunca ter visto antes, reconheceu de imediato.

— Allanon — ele murmurou.

 

Walker Boh sonhava com o passado. Não sentia mais dor, mas seu cansaço era tão devastador que ele mal sabia onde estava. Seu senso de tempo havia evaporado e lhe parecia agora que o ontem era tão real e presente quanto o hoje. Por isso ele se descobriu lembrando de como havia se tornado um druida, há tanto tempo que os que estavam lá na época estavam mortos agora. Ele nunca quis ser um deles, nunca confiara nos druidas como uma ordem. Vivera sozinho por muitos anos, evitando sua herança Ohmsford e qualquer contato com seus outros descendentes. Fora necessário perder seu braço para aceitar seu destino, convencer-se de que a marca de sangue colocada trezentos anos antes por Allanon na testa de seu ancestral, Brin Ohmsford, fora feita para ele.

Isso fora há muito tempo.

Tudo fora há muito tempo.

Ele viu a luz esverdeada elevar-se das profundezas do lago subterrâneo, rompendo a superfície das águas em fragmentos brilhantes. Ele a viu se alargar e se espalhar e, então, crescer de intensidade enquanto um caminho para o mundo inferior se abria logo abaixo. Era uma experiência lânguida, surreal, e se tornou parte de seus sonhos.

Quando a figura encapuzada apareceu na onda esmeralda de luz, ele soube na hora quem era. Soube instintivamente, do mesmo modo que sabia que estava morrendo. Ficou observando com expectativa e cansaço, pronto para aceitar o que esperava, para jogar fora as correntes de sua vida. Ele havia suportado o peso de seu ofício pelo máximo de tempo que fora capaz. Fizera o melhor que podia. Lamentava algumas coisas, mas nenhuma que lhe provocasse mais do que uma pausa para pensar. O que ele havia realizado podia não ser aparente agora para aqueles que importavam, mas ficaria claro com o tempo. Alguns aceitariam, outros não. Em qualquer dos casos, não estava mais em suas mãos.

A figura escura cruzou a superfície do lago até onde Walker jazia e estendeu os braços para ele. A mão de Walker ergueu-se automaticamente em resposta. As feições sombrias de Allanon olhavam para baixo, olhos penetrantes fixos nele. Havia aprovação naqueles olhos. Havia uma promessa de paz.

Walker sorriu.

 

Sob os olhares de Bek e Truls Rohk, a sombra alcançou Walker. Luzes verdes brincavam sobre suas formas escuras, cortando-os como navalhas, fatiando-os como lâminas esmeralda. Ouviram um sibiliar, mas era suave e distante, o murmúrio da respiração de um homem morrendo.

A sombra curvou-se para Walker, o esforço forte e intencional. A mão de Walker subiu, talvez para afastá-la, talvez para recebê-la, era difícil dizer. Não fazia diferença. A sombra o levantou em seus braços e o acolheu como uma criança.

Então, juntos, eles recuaram lago adentro, flutuando sobre o ar, suas formas escuras iluminadas por fragmentos de luz que os cercavam como vaga-lumes. Quando ambos estavam encapsulados no brilho, ele se fechou completamente ao redor deles e lentamente desapareceram em seu centro brilhante até que nada restasse a não ser um tênue ondular das águas escuras do lago. Em segundos, até mesmo isso havia desaparecido e a caverna estava silenciosa e vazia mais uma vez.

Bek percebeu subitamente que estava chorando. Quanto do que Walker esperou ver realizado nesta vida ele vivera para testemunhar? Nada do que o havia levado até ali. Nada do que ele havia visualizado do futuro. Ele morrera como o último de sua ordem, um pária e talvez um fracasso. O pensamento entristeceu o garoto mais do que ele havia acreditado ser possível.

— Está acabado — disse baixinho.

A resposta de Truls Rohk foi surpreendente.

— Não, garoto. Apenas começou. Espere para ver.

Bek olhou para ele, mas o mutante se recusou a dizer mais alguma coisa. Ficaram onde estavam por alguns segundos, incapazes de se afastar dali. Era como se estivessem esperando que algo mais acontecesse. Era como se algo tivesse de acontecer. Mas nada aconteceu, e, por fim, eles desistiram de ficar olhando e começaram a retornar, através dos corredores de Castledown para o mundo da superfície.

 

Rue Meridian pilotou a Black Moclips durante as últimas horas da noite, até as primeiras luzes da manhã, antes de iniciar a busca pelas ruínas de Castledown. Ela teria começado mais cedo, mas ficou com medo de tentar alguma coisa complicada antes de haver luz suficiente para ver o que estava fazendo. Aeronaves eram mecanismos complexos e pilotar uma delas sozinha, mesmo utilizando os controles situados na cabine do piloto, não era um feito desprezível. Simplesmente manter o veículo no ar já exigia toda a sua concentração. Para distinguir qualquer coisa na escuridão, ela teria de se posicionar na amurada, fora da cabine e longe dos controles. Não teria durado muito tempo dessa maneira.

Ela ainda tinha Hunter Predd para ajudá-la, mas o cavaleiro alado não era marinheiro e não entendia quase nada de como funcionava uma aeronave. Ele podia executar pequenas tarefas, mas nada da ordem do que seria necessário se algo saísse errado. Além do mais, ele era necessário com Obsidian se quisessem ter alguma chance concreta de encontrar os integrantes desaparecidos da companhia. Os olhos do roca eram melhores do que os de Hunter Predd por terem sido treinados para procurar o que estava perdido e precisava ser encontrado. Por ora, o pássaro gigante estava acompanhando a aeronave na mesma velocidade, a pouca distância de suas velas, voando em círculos de um lado para outro nos céus, esperando que seu senhor voltasse a se juntar a ele.

— Suponho que não exista nenhuma chance de convencer aquele comandante da federação ou qualquer membro de sua tripulação a nos ajudar — Hunter Predd arriscou a certa altura, com ar de dúvida mesmo ao mencionar essa possibilidade.

Ela balançou a cabeça.

— Ele diz que não fará nada que contradiga suas ordens, e isso inclui nos ajudar. — Ela afastou com a mão alguns fios rebeldes de seus longos cabelos ruivos. — Você precisa compreender. Aden Kett é um soldado de carreira, treinado para seguir ordens, aceitar a hierarquia de comando. Ele não é um homem mau, está apenas desorientado.

Não tinham ouvido nada da tripulação da federação aprisionada desde que ela os trancara no depósito embaixo. Por duas vezes, ela mandara o cavaleiro alado verificar como estavam, e em ambas as vezes ele relatara que, além de conversas abafadas, não ouvira nada. Aparentemente, a tripulação havia decidido que, por ora, era melhor esperar até que a situação se resolvesse. Ela estava mais do que contente em deixá-los assim.

Entretanto, um pouco de ajuda teria sido bem-vinda. Assim que ficasse mais claro, ela planejaria enviar Hunter e Obsidian em busca de Walker, Bek e os outros. Em uma busca sem restrições, ele teria mais chances do que ela em avistar alguma coisa. Se ele tivesse sucesso, ela poderia levar a Black Moclips o mais perto possível para resgatá-los. O risco para a aeronave era mínimo. À luz do dia, na segurança dos céus, ela poderia enxergar por quilômetros. Não era provável que alguma coisa fosse capaz de se aproximar o bastante para ameaçá-la, especialmente agora que ela tinha o controle da nave da bruxa Ilse.

Naturalmente, ela não podia descontar a possibilidade de que a bruxa tivesse outras armas à sua disposição, armas que pudessem afetar até mesmo uma aeronave em pleno vôo. A bruxa estava lá embaixo, em algum lugar nas ruínas, caçando Walker, e eles poderiam ter o azar de encontrar com ela em sua busca. Rue Meridian tinha de torcer para que Obsidian avistasse algum sinal da bruxa, antes que ela pudesse alcançá-los e fazer-lhes algum mal. Rue Meridian também precisava torcer para que encontrassem Bek, Walker ou qualquer um dos outros que ainda estavam vivos, antes da bruxa.

Bocejou e flexionou os dedos enluvados onde eles agarravam as alavancas de vôo. Estava acordada há vinte e quatro horas e começava a sentir a tensão. Seus ferimentos, mesmo cobertos e fechados dentro de suas roupas de couro, latejavam dolorosamente e seus olhos estavam pesados com a necessidade de sono. Mas não havia ninguém para substituí-la nos controles, por isso não havia por que ficar sofrendo em demasia por causa de suas privações. Talvez ela desse sorte e encontrasse Bek ao amanhecer. Bek sabia pilotar a Black Moclips. O Ruivão havia lhe ensinado isso muito bem. Com Bek nos controles, ela poderia dormir um pouco.

Seus pensamentos se voltaram por um momento para o garoto. Não, ele não era um garoto, ela se corrigiu rapidamente. Bek não era um garoto — não em nenhum aspecto que importasse. Era jovem em termos de idade, mas já era velho em experiência de vida. Certamente era mais maduro do que aqueles tolos da federação que ela fora forçada a agüentar nas Prekkendorran. Ele era inteligente, engraçado e transmitia uma confiança verdadeira. Pensou nas conversas que tiveram na viagem, das Quatro Terras até ali, lembrando-se de como haviam contado piadas e dado risadas, como haviam compartilhado histórias e confidencias. Hawk e Alt Mer ficaram surpresos com isso. Não entendiam essa atração. Mas a amizade dela com Bek era diferente daquelas com as quais estava acostumada; estava enraizada em suas personalidades semelhantes. Era como se Bek fosse seu melhor amigo. Sentia que podia confiar nele. Sentia que podia lhe dizer tudo.

Balançou a cabeça e sorriu. Bek a deixava à vontade, e essa era uma coisa que a maioria dos homens não conseguia. Ele não a convidava a ser diferente do que ela realmente era. Não esperava nada dela. Não queria competir, não estava tentando impressioná-la. Ele lhe tinha um pouco de medo, mas ela estava acostumada com isso. O importante era que ele não deixava isso interferir ou se intrometer na amizade que tinham.

Rue ficou imaginando onde ele estava. Perguntou-se o que lhe havia acontecido. De algum modo, ele caíra nas mãos dos mwellrets e da bruxa Ilse, tinha sido levado a bordo da Black Moclips e aprisionado. Então alguém o resgatara. Quem? Será que ele tinha realmente perdido a voz, como dissera Aden Kett, ou estava apenas fingindo? Ela se sentia frustrada por não saber. Tinha tantas perguntas e nenhuma maneira de determinar as respostas sem, primeiro, encontrar Bek. Não gostava de pensar nele sendo caçado lá embaixo. Mas Bek era cheio de recursos, capaz de achar seu caminho por entre perigos que derrotariam outros homens. Ele ficaria bem até que ela o encontrasse.

Hawk riria dela se estivesse ali. Ele é só um garoto, ele diria, sem fazer a distinção que ela fizera. Não é sequer um de nós, não é sequer um rover.

Mas isso não importava, claro que não. Pelo menos não para ela. O que importava era que Bek era seu amigo, e ela podia admitir para si mesma, ainda que para mais ninguém, que não tinha muitos amigos.

Deixou a questão de lado e voltou a atenção para a tarefa do momento. Os primeiros e tênues raios de luz apareciam a leste, deslizando por entre fendas nas montanhas. Em uma hora, começaria sua busca. Ao cair da noite, talvez já pudessem ter partido daquele lugar.

Hunter Predd, que estivera ausente por um tempo, reapareceu ao seu lado.

— Dei uma olhada rápida lá embaixo. Não está acontecendo nada. Alguns deles estão dormindo. Não há sinal de nenhuma tentativa de fuga. Mas, mesmo assim, não estou gostando da situação.

— Nem eu. — Ela mudou de posição para aliviar seus músculos doloridos e com câimbras. — Talvez o Ruivão nos alcance antes do fim do dia.

— Talvez. — O cavaleiro alado olhou para leste. — Está ficando mais claro. Acho que vou iniciar a busca. Você vai ficar bem sozinha?

Ela sinalizou que sim.

— Vamos encontrá-los, cavaleiro alado. Todos os que deixamos para trás. Bek, por exemplo, ainda está vivo, juntamente com quem quer que o tenha salvado dos mwellrets. Pelo menos isso nós sabemos. Talvez alguns dos demais também estejam lá. Não podemos abandoná-los, aconteça o que acontecer.

Hunter Predd assentiu.

— Não vamos abandoná-los.

Ele saiu da cabine do piloto e atravessou o convés até a amurada de popa. Ela o viu fazendo um sinal para a noite e depois descer da nave usando uma corda. Instantes depois, ele estava voando a bordo de Obsidian, dando a ela um aceno de confirmação antes de desaparecer na penumbra. Ela mal conseguia vê-lo por entre as trevas que se dissipavam. Virando a Black Moclips para a direção que ele estava tomando, ela se afastou da região de colinas e florestas, passando sobre a paisagem devastada das ruínas com a aeronave balançando suavemente ao vento.

Olhou para baixo mecanicamente. Tudo parecia plano e cinzento. A luminosidade teria de aumentar muito mais para que ela pudesse ter a esperança de ver alguém. Mesmo assim, duvidava que tivesse muita sorte. Para resgatar os membros desaparecidos da Jerle Shannara teria de confiar quase exclusivamente nos esforços do cavaleiro alado e seu roca.

Não deixe que fracassemos com eles, ela pensou. Não novamente.

Respirou fundo e deu as costas ao vento.

 

Hunter Predd desceu pela corda na amurada da aeronave, os olhos aguçados captando a forma esguia de Obsidian subindo obedientemente através da escuridão. O roca posicionou-se abaixo dele, e então subiu para que seu cavaleiro pudesse se acomodar. Assim que Hunter Predd sentiu a sela entre as pernas, esticou as mãos para pegar as rédeas, soltou a corda e, com uma ligeira pressão dos joelhos, mandou seu transporte voar para longe dali.

A aurora era uma tênue mancha cinzenta a leste, mas sua luz começava a se infiltrar por sobre a paisagem. Voando sobre as ruínas, ele já conseguia visualizar os prédios destruídos e as estradas cobertas por destroços, vazias e silenciosas. Obsidian estaria vendo muito mais do que isso. Mesmo assim, essa busca não seria fácil. Ele tinha a sensação de que Rue Meridian acreditava que precisavam apenas completar uma varredura da cidade e encontrariam alguém que ainda estivesse vivo lá embaixo. Mas Castledown era imensa, quilômetros e quilômetros de destroços, e as chances de que eles fracassassem, em seus esforços de desmascarar os segredos daquela cidade, eram avassaladoras. Aqueles que eram procurados deveriam, de algum modo, fazer-se vistos. Do contrário, encontrá-los seria obra de puro acaso. Para fazer isso, eles deveriam olhar para o céu para ver o roca. Há quase duas semanas a Jerle Shannara deixara a companhia perdida nas margens daquela baía para fazer a jornada ao interior. A essa altura, eles bem poderiam ter perdido as esperanças de serem encontrados. Poderiam não estar procurando nenhuma ajuda. Poderiam não estar vivos.

Naturalmente, não era boa coisa fazer especulações. Ele viera com a garota rover para encontrar quem quer que ainda estivesse vivo, por isso não fazia sentido começar a colocar obstáculos à busca antes mesmo de iniciá-la. Afinal, Obsidian havia encontrado fragmentos menores em vastidões mais ampla s e com menos possibilidades. As chances estavam lá; ele simplesmente tinha de aproveitá-las o melhor possível.

Voou em círculos cada vez mais amplos durante o nascer do sol, o tempo todo procurando movimento no chão, algo que parecesse um pouco fora de lugar, qualquer coisa que indicasse uma presença estranha. Enquanto fazia isso, percebeu que estava pensando na decisão que tomara em fazer essa viagem e se perguntando se não seria melhor ter ficado em casa. Não era só pelo fato de que as coisas haviam acabado tão mal; mas parecia que nada de grande importância fora conseguido com esse esforço. Se descobrissem que Walker estava morto, então ter seguido o mapa de Kael Elessedil teria sido em vão. Pior, isso teria custado vidas que podiam ter sido poupadas. Os cavaleiros alados acreditavam fortemente em deixar tudo em paz, em viver suas próprias vidas e não mexer com a vida dos outros. Ele precisara se comprometer consideravelmente para ir nessa viagem, e estava precisando se comprometer consideravelmente agora para resolver as coisas. O bom senso dizia que ele deveria dar meia-volta e voar para casa, que, quanto mais tempo ficasse, menores as chances de que conseguisse sair dali. Certamente os rovers deveriam estar sentindo a mesma coisa. Rovers e cavaleiros alados eram semelhantes, nômades por opção, mercenários por profissão. Sua lealdade e senso de obrigação podiam ser comprados e pagos, mas eles jamais deixavam isso se intrometer em seu bom senso.

Mas, naturalmente, ele não iria embora. Não abandonaria aqueles que estavam em terra, não importava se as chances fossem poucas, desde que houvesse alguma possibilidade de que estivessem vivos. Mas ele não conseguia deixar de imaginar algumas coisas, mesmo que isso não alterasse o que ele via como seu compromisso com os camaradas desaparecidos. E se alguma coisa acontecesse? E se ocorresse outra coisa mais? Era o tipo de jogo que você jogava se passasse tempo suficiente sozinho e em circunstâncias perigosas. Mas era apenas um jogo.

O sol cobria o horizonte, a luz do dia irrompendo por sobre a terra. As ruínas se estendiam tão silenciosas e vazias quanto antes. Ele olhou para trás, para Rue Meridian, pilotando a Black Moclips, uma figura solitária na cabine do piloto. Estava perigosamente cansada e ele não tinha certeza de por quanto tempo ela ainda poderia continuar a pilotar sozinha. Fora uma idéia inspirada roubar a nave da bruxa Ilse, mas isso iria acabar virando um revés se não conseguisse ajuda rápido. Ele não tinha certeza, no momento, de onde viria essa ajuda. Ele a daria se pudesse, mas não entendia praticamente nada de aeronaves. O melhor que poderia fazer era arrancá-la do convés se as coisas fugissem ao controle.

Avistou alguma coisa estranha às margens das ruínas, ao norte, e desceu um pouco para olhar mais de perto. Descobriu uma série de corpos espalhados, mas não eram os corpos de seus companheiros da Jerle Shannara, ou sequer os corpos de qualquer pessoa que ele já tivesse encontrado. Essas pessoas tinham pele lustrosa, cabelos vermelhos e estavam vestidas como gnomos. Ele nunca vira coisa parecida, suas vestimentas tinham um aspecto tribal e ele supôs que fossem um povo indígena. Como haviam chegado a esse triste fim era um mistério, mas era como se tivessem sido esquartejados por algo extraordinariamente poderoso. Rastejadores, talvez.

Voou por sobre as formas paradas por mais alguns momentos, esperando ver algo que o ajudasse a descobrir o que havia acontecido. Achou que poderia valer a pena descer para ver se havia alguma indicação de que membros da Jerle Shannara estavam envolvidos nisso, mas acabou decidindo não fazê-lo. A informação não lhe traria bem algum, a menos que ele tentasse segui-los a pé, e isso era perigoso demais. Olhou para trás, para onde a Black Moclips flutuava, a algumas centenas de metros de distância, ondulando ao vento. Fez um sinal a Rue Meridian, para que fosse até ali dar uma olhada, e em seguida iniciou uma longa varredura sobre as ruínas. A garota rover podia tomar suas próprias decisões a respeito do que fazer. Ele prosseguiria. Se nada mais aparecesse, ele voltaria depois.

Mal havia iniciado um novo vôo sobre a vastidão arruinada da cidade quando avistou alguma coisa que voava na direção deles, a noroeste. Obsidian também viu e deu um grito agudo de reconhecimento.

Era Po Kelles, a bordo de Niciannon.

 

Rue Meridian havia acabado de manobrar a Black Moclips sobre a coleção de homens mortos, às margens das ruínas, e estava imaginando o que pensar disso quando olhou de novo para Hunter Predd e viu o segundo cavaleiro alado. Ela sabia que tinha de ser Po Kelles e sentiu um sopro renovado de esperança de que a chegada dele assinalasse a aproximação de seu irmão a bordo da Jerle Shannara. Com duas aeronaves vasculhando, ela teria uma chance muito maior de encontrar Bek e os outros. Talvez pudesse pegar uns dois rovers para ajudá-la a pilotar a Black Moclips e, então, ter algumas horas de sono.

Ela viu os dois cavaleiros fazendo círculos juntos, conversando e gesticulando nas costas de seus rocas. Mantendo o curso, ela deu uma olhada na direção da costa, procurando algum sinal da outra nave. Mas ainda não havia nada a ser visto, por isso voltou a atenção para os cavaleiros alados. Agora a conversa estava animada e os primeiros sentimentos vagos de desconforto começaram a tomar-lhe conta. Alguma coisa na maneira como eles se comunicavam, mesmo a distância, não parecia correta.

Você está imaginando coisas, ela pensou.

Então Hunter Predd se separou de Po Kelles e voou até onde ela aguardava, fazendo uma curva para emparelhar com a nave antes de se posicionar abaixo da amurada de popa. Pegando a corda que havia deixado pendurada ali antes, o cavaleiro alado desceu do pássaro e subiu pela corda, uma mão depois da outra, até voltar a bordo. Um gesto para Obsidian fez com que o roca saísse dali e assumisse uma posição ao lado deles, voando na mesma velocidade.

Rue Meridian aguardou enquanto o elfo correu até a cabine do piloto e entrou. Mesmo na luz fraca do amanhecer, ela podia ver o aborrecimento de Hunter Predd.

— Escute, Ruivinha. — Seu rosto marcado estava calmo, porém tenso. — Seu irmão e os outros estão voando nesta direção, mas estão sendo caçados. Uma frota de aeronaves inimigas apareceu na costa ontem pela manhã. A Jerle Shannara mal conseguiu escapar. Desde então ela está vindo para cá, tentando despistá-los. Mas, por mais rápida que ela seja, não está conseguindo perdê-los de vista. Eles a rastrearam por entre as montanhas, por todo o caminho em terra, mesmo depois de ela ter mudado para um curso completamente diferente, e agora estão quase aqui.

Aeronaves inimigas? Vindas das Quatro Terras, de toda aquela distância até ali? Ela levou um momento para assimilar essa informação.

— Quem são eles?

Ele deu de ombros.

— Não sei. Ninguém sabe. Voam sem bandeira, e suas tripulações agem como se estivessem mortas. Andam, mas não parecem ver nada. Po Kelles deu uma olhada bem de perto ontem, no fim da tarde, quando os rovers foram descansar, achando que os haviam perdido. Nem uma hora se passou e lá estavam eles novamente. Os que ele conseguiu ver eram homens, mas não agiam como homens. Agiam como máquinas. Não pareciam vivos. Estavam rígidos e seus olhos eram vazios, não viam nada. Uma coisa é certa. Eles sabem para onde estamos indo e não parecem precisar de mapas para nos encontrar.

Ela olhou ao redor, para a claridade que aumentava e para as ruínas abaixo, sentindo se dissiparem as esperanças para continuar a busca.

— A que distância eles estão?

— Menos de meia hora. Precisamos sair daqui. Se eles apanharem você na Black Moclips, não terá uma chance sequer.

Ela o encarou em silêncio por um momento, explodindo, no seu íntimo, de raiva e frustração. Compreendia a necessidade da fuga, mas jamais fora boa em fazer qualquer coisa de modo forçado. Seus instintos lhe diziam para ficar e lutar, não para fugir. Ela detestava abandonar mais uma vez aqueles que estava procurando, deixando-os a um destino incerto nas mãos não só dos mwellrets e da bruxa Ilse, mas também desta nova ameaça. Por quanto tempo resistiriam sozinhos? Por quanto tempo, até que ela pudesse voltar e lhes dar alguma ajuda?

— Quantos são lá? — ela perguntou.

O cavaleiro alado balançou a cabeça.

— Mais de vinte. Gente demais, Ruivinha, para nós enfrentarmos.

Ele tinha razão, claro. Em tudo. Eles deviam interromper a busca e fugir antes que os intrusos os avistassem. Mas não conseguia deixar de sentir que Bek e os outros estavam lá embaixo, pelo menos alguns deles, esperando ajuda. Ela não conseguia se livrar da suspeita de que tudo do que precisavam era um pouco mais de tempo. Até mesmo alguns minutos poderiam ser o suficiente.

— Diga a Po Kelles para montar guarda por nós — ela ordenou. — Podemos procurar só mais um pouco antes de desistir.

Hunter Predd olhou-a. Ela sabia que não tinha o direito de lhe dar ordens, e ele estava discutindo consigo mesmo se devia ressaltar isso ou não. Também sabia que ele entendia o que ela estava sentindo.

— O tempo também está virando, Ruivinha — ele disse baixinho, apontando para o céu.

Era verdade. Nuvens escuras se aproximavam a leste, trazidas por ventos costeiros, e pareciam ameaçadoras mesmo a distância. Ela ficou surpresa por não tê-las notado. O ar também tinha ficado mais frio. Uma frente fria estava chegando e trazia consigo uma tempestade.

Ela olhou novamente para ele.

— Vamos tentar, cavaleiro alado. Pelo máximo de tempo que pudermos. Devemos isso a eles.

Hunter Predd não precisou perguntar de quem ela estava falando. Assentiu.

— Certo, garota rover. Mas tome cuidado.

Ele pulou fora da cabine do piloto e correu pelo convés até a amurada de popa, desaparecendo pela lateral. Obsidian já estava em seu lugar, e, em segundos, estavam voando para avisar Po Kelles. Rue Meridian girou a aeronave na direção das ruínas, avançando. Já estava vasculhando os escombros.

Então lhe ocorreu, uma revelação súbita e um tanto surpreendente, que ela estava pilotando uma aeronave inimiga, e aqueles que estavam no solo não saberiam quem era ela. Em vez de saírem de seus esconderijos para se revelarem, eles simplesmente iriam se esconder ainda mais. Por que não percebera isso antes? Se tivesse percebido, poderia ter desenvolvido uma maneira de tornar suas intenções conhecidas. Mas era tarde demais agora. Talvez a presença do cavaleiro alado assegurasse a qualquer pessoa que olhasse para cima que ela não era a bruxa Ilse. Talvez eles entendessem o que ela estava tentando fazer.

Só mais alguns minutos, ela não parava de dizer a si mesma. Só mais alguns minutos...

Ela conseguiu esses minutos e mais alguns, mas não viu sinal nenhum lá embaixo. As nuvens chegaram e bloquearam o sol; o ar ficou tão frio que Rue continuou tremendo, mesmo puxando o manto para se aquecer melhor. A paisagem estava pintalgada de sombras e todas as coisas pareciam iguais. Ela ainda estava procurando, ainda insistindo em não desistir, quando Hunter Predd girou em frente a ela e começou a fazer gestos.

Ela virou-se e olhou. Duas dúzias de aeronaves haviam se materializado por entre a penumbra, pontos pretos no horizonte. Um deles liderava todos os outros, o que estava sendo caçado, e ela percebeu, por sua forma, que era a Jerle Shannara. Po Kelles já estava montando Niciannon na direção da Jerle Shannara e Hunter Predd gritou para Rue que virasse para leste e se dirigisse para as montanhas. Com uma última olhada para baixo, ela fez isso. A Black Moclips sacudiu em resposta ao seu puxão forte nas alavancas de navegação e a energia total dos atratores radianos que ela enviou para os tubos de fragmentação e seus cristais-diapasão. A aeronave estremeceu, enrijeceu e começou a ganhar velocidade. Rue Meridian podia ouvir os gritos dos tripulantes aprisionados da federação, mas não tinha tempo para eles agora. Eles haviam feito sua escolha nessa questão e estavam presos com as coisas do jeito que estavam, gostassem ou não.

— Calem a boca! — ela gritou, não tanto para os homens, mas para o vento que passava chicoteando por seus ouvidos, duro e provocador.

A toda velocidade, sua fúria, um catalisador que a tornava tão preparada para lutar quanto para fugir, ela voou para as montanhas.

 

Nas lentas e frias horas antes do amanhecer, Quentin Leah enterrou Ard Patrinell e Tamis. Não tinha ferramentas de escavação para fazer um túmulo, então desceu os dois dentro do poço do wronk e encheu-o de pedras. Levou muito tempo para encontrar as rochas na escuridão e carregá-las, às vezes por longas distâncias, para jogá-las lá. O poço era grande e não era fácil de cobrir, mas ele continuou tentando, mesmo depois de estar tão cansado que seu corpo doía.

Ao terminar, ajoelhou-se ao lado do monturo malfeito e se despediu deles, falando com eles como se ainda estivessem lá, desejando-lhes paz, esperando que estivessem juntos, dizendo a eles que sua falta seria sentida. Uma elfa rastreadora e um capitão da Guarda da Casa, seus destinos unidos em todos os sentidos — talvez eles ficassem unidos, onde quer que estivessem agora. Tentou pensar em Patrinell como o capitão era antes de sua alteração, um guerreiro de habilidades de combate sem paralelo, um homem de coragem e honra. Quentin não sabia o que havia além da morte, mas achava que podia ser algo melhor do que a vida, e, quem sabe, isso permitisse que você compensasse as chances e os sonhos perdidos.

Ele não chorou, já havia chorado demais. Mas estava vazio por dentro, arrasado, e sentia uma desolação tão penetrante que ameaçava destruí-lo completamente.

A aurora rompia quando ele se levantou, tendo enfim terminado. Estendeu a mão em direção à espada de Leah, onde a havia jogado ao final da batalha, e tornou a pegá-la. A superfície escura brilhante não tinha marcas, só riscos de sangue e sujeira. Limpou-a com cuidado, olhando-a com atenção. Para ele, a espada havia fracassado completamente. Apesar de todas as suas propriedades mágicas, de tudo o que ela devia ter realizado em sua longa e célebre história, provara não ser de muita utilidade para ele naquela terra estranha. Ela não fora o suficiente para salvar Tamis e Ard Patrinell. Não fora o bastante para permitir que ele protegesse Bek, a quem havia jurado proteger de tudo que acontecesse. O fato de que Quentin estava vivo porque estava de posse dela não lhe servia como consolo. Sua própria vida parecia ter sido comprada à custa de outras. Ele não se achava merecedor dela. Sentia-se morto por dentro e não sabia como poderia voltar a se sentir diferente algum dia.

Colocou a espada de volta em sua bainha e amarrou-a às costas mais uma vez. O sol estava raiando no horizonte e ele precisava decidir o que faria em seguida. Encontrar Bek era uma prioridade, mas para fazer isso ele precisava deixar a proteção da floresta e voltar às ruínas de Castledown. Isso significava arriscar outro confronto com rastejadores e wronks, e ele não sabia se conseguiria enfrentar isso. O que sabia era que precisava estar longe daquele lugar de morte e decepção.

Começou a caminhar, observando as sombras ao seu redor se desvanecerem nas árvores, à medida que a luz do sol se filtrava por entre as copas e pintalgava o chão da floresta. Ele desceu das colinas que cercavam Castledown até a planície que abandonara em sua fuga do wronk de Patrinell, dois dias antes. Caminhar fez com que se sentisse um pouco melhor. O vazio em seu coração prosseguia, mas algo em sua perda de direção e objetivo desapareceu enquanto ele pensava em suas perspectivas. Não havia nada a ganhar ficando parado ali. O que deveria fazer, não importava o que fosse preciso, era encontrar Bek. Foi a insistência de Quentin em fazer a jornada que havia convencido seu primo a ir com ele. Se não realizasse mais nada, pelo menos deveria levar Bek de volta ao seu lar em segurança.

Ele acreditava que Bek ainda estava vivo, embora soubesse que muitos outros da companhia haviam morrido. Acreditava nisso porque Tamis estivera com seu primo antes de encontrar Quentin, e porque em seu coração, onde os instintos às vezes davam insights invisíveis aos olhos, ele sentia que nada havia mudado. Mas isso não queria dizer que Bek não estivesse em apuros e não precisasse de ajuda, e Quentin estava determinado a não abandoná-lo.

Uma parte dele compreendia que essa intensidade fora deflagrada por uma necessidade de se agarrar a algo que o salvasse. Ele tinha consciência de que, se hesitasse, seu desespero poderia ser avassalador, o vazio no seu coração poderia ser tão completo que ele seria incapaz de se mover. Se cedesse, estaria perdido. Mover-se em qualquer direção, agarrar-se a qualquer objetivo, evitaria que caísse no abismo. Ele não sabia o quanto estava sendo realista em tentar encontrar Bek, sozinho e sem a ajuda de qualquer magia útil, mas as chances não importavam se ele conseguisse permanecer são.

Não estava longe das ruínas quando avistou uma aeronave voando no alto à sua frente, distante e pequena contra o horizonte. Ficou tão surpreso que por um momento parou onde estava e ficou olhando para ela sem acreditar. A nave estava longe demais para que ele a identificasse, mas deduziu na hora que deveria ser a Jerle Shannara buscando os membros de sua equipe. Sentiu uma esperança renovada com isso e, no mesmo instante, começou a andar em direção a ela.

Mas, em segundos, a aeronave havia se desviado para a neblina de um banco de nuvens maciço que despontava a leste, e desapareceu de sua vista.

Ele ficou parado em uma clareira, tentando encontrá-la novamente, quando ouviu alguém gritar:

— Montanhês! Espere!

Virou-se surpreso, tentando identificar a voz, determinar de onde a pessoa o chamava. Ele ainda estava vasculhando as colinas sem sucesso quando Panax saiu dentre as árvores atrás dele.

— Por onde você andava, Quentin Leah? — O anão quis saber, sem fôlego e o rosto corado pelo esforço. — Estivemos procurando você o dia inteiro ontem e à noite também! Só o avistei agora por pura sorte!

Aproximou-se de Quentin e apertou sua mão calorosamente.

— Bom te ver, montanhês. Você parece um trapo, se não se importa que eu diga. Está tudo bem com você?

— Estou bem — respondeu Quentin, muito embora não estivesse. — Quem estava procurando por mim, Panax?

— Kian, eu, Obat e um punhado de seus rindges. O wronk arrasou com eles quase completamente. A aldeia, as pessoas, tudo. Espalhou a tribo por toda a região, os que não matou. Obat reuniu os sobreviventes no alto das colinas. Em certo momento, chegaram a planejar a reconstrução da aldeia e tocar a vida como antes, mas agora não mais. Não vão voltar. As coisas mudaram.

Parou subitamente, olhando com atenção o rosto de Quentin, encontrando algo nele que não havia visto antes.

— Onde está Tamis? — perguntou.

Quentin balançou a cabeça.

— Morta. E Ard Patrinell também. Mataram-se um ao outro. Não consegui salvar nenhum dos dois. — Suas mãos estavam tremendo. Não conseguia fazê-las parar. Olhou para baixo, confuso. — Eu e Tamis montamos uma armadilha. Nos escondemos na floresta, ao lado de um poço, e deixamos o wronk nos encontrar, achando que podíamos jogá-lo lá dentro. Usamos um chamariz, um truque, para atraí-lo. Funcionou, mas então ele saiu lá de dentro, e Tamis...

A voz sumiu, incapaz de continuar, e as lágrimas brotavam de seus olhos mais uma vez, como se ele fosse uma criança revivendo um pesadelo.

Panax pegou as mãos de Quentin, firmando-as, segurando-as até a tremedeira passar.

— Você parece ter escapado por pouco — ele disse baixinho. — Acredito que não havia muito que você pudesse fazer para salvá-los e que não tivesse tentado. Não espere muito de si mesmo, montanhês. Nem mesmo a magia fornece sempre as respostas que procuramos. O druida pode ter descoberto isso por si mesmo, onde quer que esteja. Às vezes é preciso aceitar que temos limitações. Não podemos impedir algumas coisas. A morte é uma delas.

Soltou as mãos de Quentin e segurou-o pelos ombros.

— Lamento quanto a Tamis e Ard Patrinell, lamento mesmo. Acredito que eles devem ter lutado muito para permanecerem vivos, montanhês. Mas você também. Acho que você deve, a eles e a si mesmo, fazer com que isso valha de alguma coisa.

Quentin olhou para os olhos castanhos do anão, voltando lentamente a si, capaz de encontrar aos poucos uma nova determinação. Ele se lembrava do rosto de Tamis no final, a maneira feroz com que ela enfrentara a própria morte. Panax tinha razão. Sucumbir agora, ceder à sua tristeza, seria trair tudo o que ela havia lutado para realizar. Ele respirou fundo.

— Está certo.

Panax assentiu e deu uns passos para trás.

— Ótimo. Precisamos que você seja forte, Quentin Leah. Os rindges estão por aí explorando desde o começo da manhã, antes do amanhecer. Eles entraram nas ruínas. Castledown está atulhada de rastejadores, nenhum deles funcionando. Os fios de fogo sumiram. Antrax, ao que parece, está morto.

Quentin olhava para ele sem compreender.

— Até aí tudo bem, poderíamos dizer, mas olhe aquilo lá. — O anão apontou para um banco de nuvens que avançava constantemente, uma imensa parede de escuridão que se estendia por todo o horizonte. — O que está chegando é uma mudança no mundo, segundo os rindges. Eles têm uma lenda a respeito. Se Antrax for destruído, o mundo voltará ao que já foi um dia. Lembra-se de como os rindges insistiam em dizer que Antrax controlava a temperatura? Bem antes desse tempo, esta terra era toda coberta de gelo e de neve, extremamente fria e quase inabitável. Ela só se transformou em algo quente e verde depois que Antrax a alterou, eras atrás. Agora está mudando novamente. Está sentindo o frio cortante no ar?

Quentin não havia notado antes, mas Panax tinha razão. O ar estava ficando cada vez mais frio, mesmo com o nascer do sol. Havia uma instabilidade nele que indicava o inverno.

— Obat e seu povo estão passando pelas montanhas, indo para o interior de Parkasia — continuou o anão. — O tempo lá é melhor. É um lugar mais seguro. Se não acharmos outra maneira de sairmos daqui rápido, acho que será melhor irmos com eles.

Subitamente Quentin se lembrou da aeronave.

— Acabei de ver a Jerle Shannara, Panax — disse ele rapidamente, direcionando a atenção do outro para a frente. — Ela ficou visível por um momento, bem ali. Eu a vi enquanto estava em pé onde você me encontrou e, em seguida, a perdi naquelas nuvens.

Ficaram olhando juntos para a escuridão sem nada enxergar. Então Panax pigarreou e disse:

— Não que eu duvide de você, mas tem certeza de que não era a Black Moclips?

A possibilidade não havia ocorrido a Quentin. Ele estava tão ansioso para que fosse a Jerle Shannara, que não havia parado para pensar que pudesse ser a aeronave inimiga. Havia esquecido da nêmese deles.

Balançou a cabeça devagar.

— Não, acho que não tenho certeza.

O anão assentiu.

— Não tem problema. Mas precisamos tomar cuidado. A bruxa e seus mwellrets ainda estão lá fora.

— E quanto a Bek e os outros?

Panax não parecia à vontade.

— Ainda não há sinal deles. Não sei se poderemos encontrá-los, montanhês. O povo de Obat ainda não quer entrar nas ruínas. Eles dizem que é um lugar de morte, mesmo com Antrax destruído e os rastejadores e fios de fogo sem funcionar. Dizem que são amaldiçoadas. Nada mudou. Tentei convencê-los a virem comigo esta manhã, mas depois que eles viram o que aconteceu, voltaram direto para as colinas, para aguardar. — Balançou a cabeça. — Acho que não posso culpá-los, mas isso não nos ajuda muito.

Quentin encarou-o.

— Não vou abandonar Bek, Panax. Cansei de fugir, ver pessoas morrerem e não fazer nada.

O anão assentiu.

— Vamos continuar procurando, montanhês. Pelo máximo de tempo que pudermos, vamos continuar procurando. Mas não tenha muitas esperanças.

— Ele está vivo — insistiu Quentin.

O anão não respondeu, o rosto curtido e franco mascarando seus pensamentos. Seu olhar voltou-se para o céu ao norte e Quentin também se virou para olhar. Uma fileira de pontos pretos havia aparecido no horizonte, descendo paralela à linha de frente da tempestade, pendendo no céu da manhã.

— Aeronaves — Panax anunciou baixinho, a voz rouca novamente animada.

Eles viram os pontos ficarem cada vez maiores e começando a assumir formas. Quentin não conseguia compreender de onde vinham tantas aeronaves, aparentemente do nada, todas de uma só vez. Onde estavam elas? Ele olhou para Panax, mas o anão parecia tão confuso quanto ele.

— Veja — disse Panax, apontando.

A aeronave que Quentin havia visto antes havia reaparecido da escuridão, movendo-se rápido através do céu a leste na direção das montanhas. Não havia como confundi-la desta vez, era a Black Moclips. Um grito de ajuda morreu nos lábios do montanhês e ele ficou paralisado onde estava enquanto ela passava por sobre sua cabeça e desaparecia na distância. Agora eles podiam ver que ela estava tentando cortar outro navio, mais adiante. O talhe distintivo dos três mastros a marcava instantaneamente como a Jerle Shannara. A bruxa e seus mwellrets estavam perseguindo os rovers e aquelas novas aeronaves perseguiam ambas.

— O que está acontecendo? — perguntou Quentin, tanto para si mesmo quanto para Panax.

Um instante depois, a frota caçadora se dividiu em dois grupos, um indo atrás da Black Moclips e da Jerle Shannara, o outro partindo na direção das ruínas de Castledown. Este segundo grupo era o menor dos dois, mas era comandado pela aeronave maior. Em uma fileira, os veículos fizeram uma curva sobre as ruínas, onde se prepararam para pousar.

— Acho que não devemos ficar aqui a céu aberto — Panax sugeriu depois de um instante.

Correram rapidamente para o abrigo das árvores, e em seguida, recuaram colinas acima até acharem um ponto de onde podiam ver o que estava se passando lá embaixo. Não levaram muito tempo para deduzirem que haviam tomado a decisão certa. Escadas de corda foram baixadas das aeronaves, que flutuavam a cerca de quatro metros do solo, e bandos de mwellrets desciam e se espalhavam pelo local. A bordo das aeronaves, as tripulações continuavam a seus postos. Mas havia algo de estranho no posicionamento delas. Estavam congeladas nos seus lugares como estátuas, sem se moverem, sem sequer falarem uns com os outros. Quentin ficou olhando para eles por um longo tempo, esperando algum tipo de reação. Não houve nenhuma.

— Acho que eles não são amigos — Panax declarou baixinho. Fez uma pausa. — Olhe só aquilo.

Algo novo havia sido acrescentado à mistura: um punhado de criaturas que não tinham qualquer identidade reconhecível. Elas estavam sendo colocadas em balanços e sendo abaixadas por roldanas na aeronave maior, uma atrás da outra. Pareciam um pouco com humanos desproporcionais, com ombros e braços enormes, pernas grossas e torsos cabeludos. Andavam curvadas para a frente, usando os quatro membros como os macacos do Antigo Mundo. Mas suas cabeças tinham um aspecto lupino, com focinhos estreitos e pronunciados, orelhas pontudas e olhinhos minúsculos. Mesmo a distância, seus traços eram inconfundíveis.

— O que são essas coisas? — perguntou Quentin baixinho.

As equipes de busca se espalharam pelas ruínas, dezenas de mwellrets em cada uma, armados e com armaduras, invasores decididamente hostis. Presas por extensas correntes e instigadas para rastrear, as estranhas criaturas curvadas estavam sendo usadas como cães. Narizes ao chão, elas começaram a abrir caminho por entre os escombros em diferentes direções, os mwellrets logo atrás. Dentro das ruínas, não havia resposta de Antrax. Nenhum rastejador apareceu e nenhum fio de fogo foi disparado. Aparentemente os rindges tinham razão quanto ao que havia acontecido. Mas isso só fez com que Quentin ficasse ainda mais inquieto a respeito de Bek.

O troncudo e escuro Kian apareceu subitamente dentre as árvores, indo se juntar a eles. Assentiu em saudação a Quentin, ao se aproximar, mas não disse nada.

— Temos um problema, montanhês — disse Panax sem olhá-lo.

Quentin assentiu.

— Estão procurando por nós. Vão acabar nos encontrando.

— Rápido demais, acredito. — O anão se levantou. — Não podemos ficar. Precisamos ir embora.

Quentin Leah olhou para os caçadores lá embaixo enquanto penetravam na cidade, ainda pequenas figuras, como brinquedos. Quentin compreendia o que Panax estava dizendo, mas não queria pronunciar as palavras em voz alta. Panax estava dizendo que tinham de desistir da busca por Bek. Tinham de se distanciar o máximo possível do que quer que estivesse lá embaixo procurando por eles.

Sentiu alguma coisa murchar e morrer no seu íntimo, com a perspectiva de abandonar Bek mais uma vez, mas sabia que se ficasse seria encontrado. Isso não traria nada de útil e poderia resultar em sua morte. Tentou pensar. Talvez Bek tivesse mais chances do que Quentin pensava. Bek tinha o uso da magia, Tamis havia dito isso a eles. Ela o vira utilizá-la, um poder que podia destroçar rastejadores. Seu primo não estava inteiramente indefeso. Na verdade, ele poderia estar melhor do que eles. Talvez tivesse até mesmo encontrado Walker e os dois estivessem juntos. Talvez eles já tivessem fugido das ruínas e partido para as montanhas.

Interrompeu-se, zangado. Estava racionalizando. Estava tentando se sentir melhor sobre a possibilidade de abandonar Bek, sobre quebrar sua promessa mais uma vez. Mas ele não acreditava realmente no que estava dizendo a si mesmo. Seu coração não deixava isso acontecer.

— O que vamos fazer? — perguntou por fim, resignado a fazer a única coisa que jurara que não faria.

Panax esfregou o queixo barbado.

— Vamos para a Arca de Aleuthra, aquelas montanhas atrás de nós, com Obat e seu povo. Penetraremos mais fundo em Parkasia. As aeronaves estavam voando naquela direção. Talvez possamos alcançar uma delas. Talvez possamos fazer um sinal. — Ele deu de ombros, cansado. — Talvez consigamos permanecer vivos.

Para seu crédito, ele nada disse a respeito de voltar para pegar Bek e os outros, ou de retomar a busca mais adiante. Ele compreendia que uma coisa dessas poderia não acontecer, que eles poderiam jamais voltar às ruínas. Ele não ia fazer uma promessa que sabia que poderia não ser capaz de manter.

Nada disso ajudou Quentin com sua sensação de traição, mas era melhor ser honesto quanto às possibilidades do que se apegar a falsas esperanças.

Desculpe, Bek, ele disse a si mesmo.

— Eles estão vindo nesta direção — disse Kian subitamente.

Uma das equipes de busca havia emergido às margens das ruínas abaixo e encontrado os corpos dos rindges que o wronk de Patrinell havia matado dois dias antes. As criaturas curvadas já estavam farejando o chão em busca de rastros. Uma cabeça lupina ergueu-se e olhou para onde eles estavam agachados nas árvores, como se soubesse da presença deles, como se fosse capaz de espioná-los.

Sem dizer mais nada, o anão, o elfo e o montanhês penetraram por entre as árvores e desapareceram.

 

Levaram quase uma hora para alcançar a clareira onde Obat e seus rindges estavam reunidos. Eles estavam no alto das encostas das colinas em frente à Arca de Aleuthra, que descia pelo interior de Parkasia, de noroeste a sudeste, como uma espinha torta. Os rindges eram um grupo esfarrapado e de aspecto desanimado, embora não fossem desorganizados nem despreparados. Sentinelas haviam sido postadas e encontraram os três forasteiros bem antes que eles chegassem ao grupo maior de rindges. Algumas armas haviam sido recuperadas e todos os homens estavam armados. Mas a maior parte dos sobreviventes era composta de mulheres e de crianças, algumas destas apenas bebês. Havia pelo menos cem rindges e provavelmente o número era próximo de duzentos. Cada um tinha seus pertences empilhados ao lado, amarrados em pilhas ou enfiados em sacos de tecido. A maioria estava sentada em silêncio nas sombras, outros conversavam entre si, esperando. Na luz rajada da floresta, eles pareciam fantasmas tênues e com buracos no lugar dos olhos.

Obat se aproximou de Panax e começou imediatamente a lhe falar. Panax escutou e em seguida respondeu, utilizando a antiga língua anã que empregara com sucesso quando se encontraram pela primeira vez. Obat ouviu e balançou a cabeça negativamente. Panax voltou a tentar, apontando na direção da qual haviam vindo. Para Quentin, estava claro que ele estava falando para Obat sobre os intrusos das aeronaves. Mas Obat não estava gostando do que ouvia.

Visivelmente exasperado, Panax virou-se para o montanhês:

— Eu disse a ele que precisamos sair daqui rápido, que os pertences devem ser deixados para trás. Do jeito que as coisas estão, precisaremos usar tudo que temos para mover este bando para um lugar seguro sem ter de lidar com toda essa tralha. Mas Obat diz que isso é tudo o que restou para seu povo. Eles não vão deixar nada.

Virou-se para Kian.

— Volte trilha acima com dois rindges e mantenha vigilância.

O caçador elfo virou-se sem dizer palavra, fez um gesto para dois dos rindges para que fossem com ele e desapareceu por entre as árvores com passos rápidos.

Panax voltou-se para Obat e tentou mais uma vez. Desta vez ele fez gestos inconfundíveis, indicando o que aconteceria se os rindges fossem lentos demais para escapar. Seu rosto largo estava vermelho e irritado e ele aumentou o tom de voz. Obat olhava impassível para ele.

Estamos perdendo tempo, Quentin pensou subitamente. Tempo que não temos.

— Panax — ele disse. O anão virou-se para ele. — Diga a ele para pegarem as coisas e começarem a andar. Não temos mais tempo para discutir isso. Deixe que eles descubram por si mesmos se vale ou não a pena levar suas posses. Defina um ritmo de caminhada que as mulheres e as crianças possam acompanhar e vá. Deixe uma dúzia de rindges comigo. Vou ver o que posso fazer para reduzir a velocidade de nossos perseguidores.

O anão lançou-lhe um olhar severo e em seguida assentiu.

— Está certo, montanhês. Mas eu também vou ficar. Não discuta. Como você mesmo disse, não temos tempo para isso.

Falou rapidamente com Obat, que se virou para seu povo e começou a gritar ordens. Os rindges se reuniram imediatamente, pertences nos seus lugares. Liderados por um punhado de homens armados, partiram ao longo de um caminho estreito na floresta, movendo-se silenciosa e resolutamente. Quentin ficou surpreso ao perceber como eles iam rápido. Não havia hesitação nem confusão. Todo mundo parecia saber o que fazer. Talvez já tivessem feito isso antes. Talvez estivessem mais bem preparados para a mudança do que Panax achava.

Em segundos, a clareira estava vazia, a não ser por Quentin, Panax e cerca de uma dúzia de guerreiros rindges. Obat também havia optado por ficar. Quentin não sabia se era uma boa idéia, pois Obat era claramente o líder da tribo e perdê-lo poderia vir a ser um desastre. Mas a decisão não era dele, por isso, ficou quieto.

Virou-se para olhar na direção das ruínas, perguntando-se quanto tempo tinham antes que os mwellrets e aquelas criaturas curvadas os descobrissem. Talvez isso não acontecesse tão rápido quanto ele temia. Havia outros rastros para distraí-los, outras trilhas a seguir. Eles poderiam escolher uma que os levasse para outra direção completamente diferente. Mas ele não acreditava nem um pouco nisso.

Pensou nos fracassos de sua jornada desde as Highlands de Leah, nas suas oportunidades perdidas e escolhas questionáveis. Ele havia partido com esperanças tão grandes! Achara que era capaz de ditar a direção de sua vida. Estava errado. No fim, mal conseguia se manter flutuando no mar de confusão que o cercava. Não podia sequer determinar a quem protegeria utilizando a magia de sua espada pomposa. Podia utilizá-la somente para ajudar aqueles a quem o destino colocava ao seu alcance, e talvez nem esses.

Os rindges estavam junto a eles. Poderia deixá-los e seguir em frente, pois, no fim, eles realmente não tinham nada a fazer junto dele, com suas razões para vir a Parkasia ou sua promessa a Bek. Na melhor das hipóteses, eles eram um estorvo. Se ele queria ter alguma chance de pegar uma das aeronaves e encontrar um caminho para fora dessa terra, a velocidade poderia fazer a diferença. Mas, depois de seu fracasso em salvar Tamis ou Ard Patrinell, ou em encontrar Bek, ele sentia uma grande necessidade de conseguir ajudar alguém. Os rindges estavam lhe dando essa oportunidade. Ele não podia fugir dela. Não deixaria mais ninguém ser ferido por sua causa.

Faria o que pudesse para ajudá-los. Se ajudar os rindges era a chance que o destino lhe reservara, isso teria de ser o suficiente.

Panax alcançou-o e se colocou ao seu lado.

— O que acontece agora, Quentin Leah? Como é que vamos impedir que aquelas coisas lá cheguem até o povo de Obat?

Bem que o montanhês queria ter essa resposta.

 

Quando Ahren Elessedil recuperou a consciência, descobriu que estava deitado ao lado dos escombros de Castledown, olhando para as botinas de seus captores. Suas mãos estavam atadas às costas e a cabeça doía por causa do golpe que havia recebido. Mesmo sem ter visto muita coisa, percebeu na hora o que havia acontecido, e foi tomado pelo desespero e pela frustração. Ele havia caído em uma armadilha dos mwellrets, uma armadilha montada para ele enquanto tentava atravessar as ruínas com Ryer Ord Star. Como pôde ter sido tão burro? Depois do que havia passado para recuperar as pedras élficas e fugir de Castledown, como pôde ter-se deixado apanhar tão desprevenido?

Não havia respostas para essas perguntas, claro. Fazê-las só levava à auto-recriminação e ele não ganharia nada com isso.

Piscou várias vezes por causa da secura nos olhos e tentou se sentar, mas uma botina pesada o empurrou de volta ao chão e se apoiou sobre seu peito.

— Pequeno elfo, fique onde esstá — sibilou uma voz.

Olhou para o grande mwellret em pé sobre ele e assentiu. A botina e o mwellret se moveram alguns passos, mas os olhos vigilantes permaneceram fixos sobre ele. Podia ver rets posicionados ao seu redor, talvez uma dúzia ou mais, pesados corpos reptilianos cobertos por mantos na luz do amanhecer, cabeças abaixadas entre ombros pesados, vozes baixas e sibilantes ao conversarem entre si. Nenhum deles parecia ter pressa de ir a qualquer lugar ou de fazer alguma coisa. Pareciam estar esperando por algo. Ele tentou imaginar o que poderia ser. Talvez a bruxa Ilse. Ela devia ter avançado mais para dentro das ruínas. Talvez tivesse descido para o subterrâneo, à procura de Walker.

Pensou subitamente em Ryer Ord Star e, mesmo deitado de encontro ao solo, vasculhou o quanto pôde a área, esforçando-se para encontrá-la. Finalmente ele a avistou, sentada em um espaço aberto, sozinha e ignorada. Ficou um longo tempo olhando-a, esperando ser notado, mas ela não olhou em sua direção. Mantinha o olhar baixo, o rosto coberto por seus longos cabelos prateados. Podia estar de olhos fechados, ele não conseguia ver. Não estava amarrada e não havia nenhum mwellret montando guarda sobre ela como faziam com ele. Não pareciam preocupados com a possibilidade de fuga da vidente.

Alguma coisa na situação dela o incomodava. Ela não parecia ser prisioneira.

Ele olhou novamente ao redor, procurando algum outro membro da companhia que pudesse ter encontrado o mesmo infortúnio. Mas não havia ninguém em evidência, apenas eles dois. Mudou sub-repticiamente de posição, esforçando-se para saber se algo poderia ter lhe escapado à vista, mas viu apenas mwellrets na área.

Então olhou para o céu e viu as aeronaves.

Sentiu um bolo na garganta. Eram seis delas — não, espere, eram oito — flutuando no ar, não muito distantes do chão às margens das ruínas, imagens que se destacavam no céu da manhã. Estavam perto o bastante para que ele pudesse ver membros da tripulação, mwellrets descendo escadas de corda e roldanas descendo animais que se contorciam, girando e grunhindo alto. Ele os viu de relance na luz brilhante do amanhecer, enquanto deslizavam pelas laterais das aeronaves e desapareciam nas ruínas, e não conseguiu entender o que eram.

Mwellrets e aeronaves. Não conseguia entender isso. De onde eles haviam vindo, todos de uma vez? Será que a bruxa Ilse os havia trazido, mantendo-os afastados da Black Moclips, escondendo-os até que fossem necessários? Ele tentou entender o que estava acontecendo e não conseguiu.

Olhou mais uma vez para Ryer Ord Star. A vidente ainda não havia olhado para cima, não havia mudado de posição, não havia feito nada para evidenciar que estivesse sequer consciente. Ficou imaginando subitamente se talvez ela estivesse em um transe, tentando se conectar com Walker. Mas o druida tinha de estar morto àquela altura. Ele estava morrendo lá na câmara de extração, seu sangue estava espalhado por toda parte. Walker havia se sacrificado para destruir Antrax. Até mesmo Ryer deveria perceber que não tinha mais como alcançá-lo.

Então, o que ela estava fazendo?

Por que não estava amarrada, assim como ele?

Esperou que as respostas viessem, que ela respondesse ao seu chamado mental, esperou que algo acontecesse para que ela revelasse sua condição — sem sucesso.

De repente, ele se lembrou das pedras élficas. Ficou surpreso por tê-las esquecido, por ter, de algum modo, deixado de lembrar da única arma que ainda tinha à sua disposição. Talvez. Ele as havia enfiado em sua túnica na fuga das ruínas, em um bolso próximo à cintura. Será que elas ainda estavam ali? Ele achava que não conseguiria alcançá-las com as mãos atadas, mas poderia pelo menos determinar se as tinha consigo. Os mwellrets o teriam revistado em busca de armas, não pelas pedras. Eles nem sequer saberiam o que elas eram.

Olhou rapidamente ao seu redor, mas ninguém o olhava. Rolou para o outro lado, movendo-se devagar, tentando não atrair atenção. Contorceu-se contra a terra dura, tentando sentir as pedras élficas contra seu corpo. Não conseguiu encontrá-las. Suas esperanças murcharam. Ele mudou de posição, tentando ver se estavam em algum outro lugar, mas não conseguia senti-las em lugar algum.

Ainda estava procurando quando ouviu uma mistura de passos pesados, vozes grossas e grunhidos profundos. O mwellret que o havia empurrado apareceu na hora e o levantou com um safanão, colocando-o em pé e empurrando-o contra um pedaço de parede.

— Veja agora o que vai acontecer com você, pequeno elfo — ele murmurou antes de lhe dar as costas.

Ahren olhou para Ryer Ord Star. Ela também estava em pé, ainda sozinha e ainda sem olhá-lo. Estava em pé, com os braços cruzados sobre seu corpo magro, parecendo frágil e pequena. Alguma coisa estava se passando dentro dela e ele não compreendia, tampouco ela fazia algo para que Ahren pudesse compreender o que acontecia.

Um bando de mwellrets entrou a passos largos na clareira. Dois dos mais atarracados seguravam as pontas de correntes, que estavam presas a uma coleira, envolvendo o pescoço de uma das criaturas mais aterradoras que Ahren já tinha visto. A criatura se contorcia e dava trancos nas correntes como um cão enorme, grunhidos e roncos emanando do fundo de sua garganta. Seu corpo estava curvado e era bastante musculoso. Quatro membros humanos que terminavam em dedos com garras e ombros maciços estavam cobertos de pêlos negros grossos. Seu torso era tão longo e sinuoso que permitia à criatura quase poder dobrar-se ao meio, enquanto se contorcia raivosa, tentando morder as correntes. Sua cabeça era de lobo, suas mandíbulas imensas e seus dentes compridos e negros. Tinha o aspecto de algo criado, não apenas para caçar, mas para destruir.

Quando viu Ahren, deu um bote em sua direção e o elfo colou o corpo à parede do prédio, apavorado.

Uma figura alta e coberta por um manto negro deu um passo adiante, bloqueando o caminho da criatura. A fera rangeu os dentes e recuou. A figura do manto virou-se e olhou para ele. Ahren mal conseguiu vislumbrar o rosto do outro. Poderia ter sido humano um dia, mas agora estava coberto por escamas cinzentas como os rets, achatado e sem expressão, seus olhos verdes comprimidos em fendas estreitas que o olhavam com tamanha frieza que ele esqueceu a criatura-lobo.

— Cree Bega — a figura do manto chamou, ainda observando Ahren.

O mwellret que estivera montando guarda ao seu lado foi na hora. Ele era grande, mas parecia pequeno ao lado do recém-chegado. Mesmo assim, ele não fez nada para reconhecer a autoridade do outro; não se curvou nem assentiu. Simplesmente ficou ali parado, o olhar fixo ao mesmo nível do outro.

— Cree Bega — o outro repetiu, e desta vez havia um quê de ameaça em sua voz. — Por que este elfo ainda está vivo?

— Ele é um Elesssedil. Ele tem o poder de invocar a magia dass pedrass élficass.

— Você viu isto pessoalmente?

Cree Bega balançou a cabeça.

— Mass a vidente me dissse issso.

Ahren sentiu o chão se abrir sob seus pés. Olhou rápido para Ryer, mas ela ainda estava olhando a esmo.

— Ela é a ferramenta da bruxa — a figura do manto declarou baixinho, olhando para a vidente.

— Sseuss olhoss e ouvidoss a bordo da nave doss pequenoss elfoss — Cree Bega olhou para Ahren. — Não maiss. Agora noss pertence. Sserve a nóss.

Ahren se recusava a crer no que estava ouvindo. Ryer Ord Star jamais voltaria a servir seus inimigos, não depois do que passara, não depois de se libertar da bruxa Ilse. Ela havia dito que isso estava acabado. Ela havia jurado.

Atordoado, ele viu seus captores lhe darem as costas e caminharem até onde a vidente estava. As palavras eram fracas demais para Ahren ouvir, mas Ryer Ord Star assentiu e em seguida respondeu. A conversa durou apenas alguns minutos, mas estava claro que algum tipo de acordo havia sido feito.

Ele moveu os cotovelos mais para perto do corpo, pressionando-os contra as costelas, deslocando-se primeiro para um lado e em seguida para outro, tensionando as cordas que prendiam seus pulsos enquanto tentava determinar se as pedras élficas haviam de fato desaparecido. Parecia que sim, ele não conseguia encontrar nenhum sinal da presença delas.

Ali perto, a fera acorrentada grunhia e gania para ele novamente, tentando se libertar, toda imensa, cheia de dentes e garras, como se lutasse contra o que a prendia. Ahren desistiu de se mover e ficou o mais quieto possível, olhando nos olhos da criatura. Ficou surpreso ao descobrir que eles eram quase humanos.

A figura no manto atravessou novamente a clareira e se aproximou dele, olhando-o de cima.

— Eu sou o Morgawr — ele disse, a voz suave e estranhamente calorosa, como se procurasse firmar sua amizade a Ahren. — Já ouviu falar de mim?

Ahren assentiu.

— Qual é o seu nome?

— Ahren Elessedil — ele respondeu, decidindo que não havia motivo para esconder isso.

— O filho mais novo de Allardon Elessedil? Por que seu irmão não está aqui?

— Meu irmão queria que eu viesse em vez dele. Ele queria uma presença dos Elessedil, mas não a dele própria.

O rosto achatado assentiu.

— Disseram-me que você pode invocar o poder das pedras élficas, aquelas que Kael Elessedil levava em sua viagem trinta anos atrás. Isso é verdade?

Ahren concordou, a decepção brotando de dentro de si. Ryer Ord Star o traíra. Desejou jamais ter confiado nela. Desejou tê-la deixado para trás nas catacumbas de Castledown.

— Onde estão as pedras agora? — perguntou o Morgawr.

Ahren ficou tão surpreso com a pergunta que, por um momento, simplesmente olhou para Morgawr. Supusera que os mwellrets as haviam tirado quando ele fora capturado. Será que eles não haviam feito isso? Será que ele se enganara e ainda as carregava?

Precisava dizer alguma coisa imediatamente, por isso disse:

— Não sei onde elas estão.

Era verdade, e, além do mais, era o melhor a fazer, já que o Morgawr estava lendo seus olhos. O Morgawr sabia sobre as pedras élficas, mas não sabia onde estavam. Como podia ser isso? Ahren as havia levado para fora de Castledown. Elas estavam ocultas dentro de sua túnica quando ele foi derrubado. Será que Cree Bega poderia ter ficado com elas? Ou algum dos outros rets? Será que algum deles ousaria fazer isso?

O Morgawr tocou seu rosto com um dedo escamoso.

— Estou mantendo você vivo porque a vidente me assegurou que irá usar as pedras élficas assim que eu encontrá-las. Ela não mente, não é?

Ahren respirou fundo, lutando contra o medo e a raiva.

— Não.

— Eu sou o mentor da bruxa Ilse. Eu a treinei e ensinei, dei minha proteção a ela. Mas ela me traiu. Procura a magia de Castledown para si mesma. Por isso vim para eliminá-la. Você e a vidente irão me ajudar a encontrá-la. Ela é talentosa, mas não pode escapar da luz de busca das pedras élficas. E também não pode evitar sua conexão com a vidente. Ela a estabeleceu com o objetivo de rastrear o druida e sua aeronave; agora nós iremos utilizá-la para rastreá-la. Um ou outro de vocês revelará a bruxa para mim. Se você ajudar, eu o libertarei quando acabar com ela.

Ahren não acreditou nisso nem por um minuto, mas segurou a língua.

Os olhinhos minúsculos se fixaram nele.

— Você deveria aceitar esta oferta.

Ahren assentiu. Por mais confuso que estivesse com o desaparecimento das pedras élficas, ele sabia o que dizer.

— Farei o que puder.

O dedo do Morgawr deslizou e se afastou.

— Ótimo. A bruxa Ilse penetrou no subterrâneo para encontrar o druida. A vidente diz que você o deixou lá, morrendo. O que protege este refúgio também está morrendo; portanto, não temos nada a temer. Você irá nos levar até lá embaixo.

Um calafrio percorreu o corpo de Ahren. Ele não queria voltar a Castledown por nenhum motivo, muito menos para ajudar o Morgawr. Mas sabia que, se recusasse, seria obrigado a ir de qualquer maneira, e seria vigiado, depois, ainda mais de perto. Isso se eles simplesmente não o matassem e acabassem logo com aquilo. Era melhor fazer o que lhe pediam por ora, obedecer aos desejos do Morgawr. Antrax estava morrendo quando Ryer e ele subiram pelos corredores e já deveria estar tão morto quanto Walker, a essa altura. Que mal poderia fazer entrar nas catacumbas uma última vez?

Mesmo assim, ele não estava confortável com essa idéia. Olhou de esguelha para Ryer Ord Star, mas ela ainda estava olhando para baixo, o rosto perdido nas sombras de seus cabelos compridos. Ela já deveria ter concordado, é claro. Tornando-se aliada do Morgawr e dos mwellrets, ela teria prometido ajudá-los a rastrear a bruxa Ilse. Ela tinha uma boa razão para odiar a bruxa, mas não era razão suficiente para fazer mal a Ahren e aos outros da companhia da Jerle Shannara. Será que ela não percebia que o Morgawr e Cree Bega não eram mais dignos de confiança do que a bruxa? Ele não podia acreditar que ela tivesse se comprometido tão completamente.

— Solte-o — o Morgawr ordenou a Cree Bega, sua voz sedosa, um sussurro de conforto e segurança.

O mwellret cortou as cordas que prendiam os pulsos de Ahren, e o príncipe elfo esfregou-os para fazer a circulação voltar. Alisando suas roupas, ele procurou uma última vez localizar as pedras élficas. Talvez elas estivessem bem enfiadas dentro de sua túnica. Correu os dedos rapidamente pelos flancos. Nada. As pedras élficas haviam desaparecido.

O Morgawr se afastou, fez um gesto para que Ahren o seguisse, outro para que Cree Bega se aproximasse de Ryer e gritou instruções para os outros mwellrets. Ahren seguiu sem hesitar, ainda esfregando os pulsos, já pensando em maneiras de escapar. Ele encontraria um jeito, prometeu a si mesmo. Não faria parte desse negócio um instante a mais do que fosse preciso. Fugiria do Morgawr e dos rets na primeira oportunidade e continuaria sua busca por seus amigos desaparecidos.

Olhou melancólico para Ryer Ord Star, que caminhava logo à sua frente e ainda não o olhara. Tentou se aproximar dela, mas, quase no mesmo instante, o Morgawr bloqueou sua passagem.

— Não pense que porque eu o libertei não o estou vigiando — ele disse calmamente, inclinando-se para perto. — Se tentar escapar, se tentar fugir, se não fizer o que eu mandar, soltarei o caull em você.

Fez um gesto na direção do animal em forma de lobo que havia avançado para a vanguarda do grupo, puxando suas correntes com tanta força que arrastava seus tratadores como pesos mortos.

— Nada de segredos, nada de truques, nada de atos tolos, príncipe elfo — o Morgawr alertou em sua voz suave e baixa. — Entendeu?

Ahren assentiu, os olhos pregados no caull.

O Morgawr tocou a face de Ahren com aquele estranho movimento de carícia.

— Você não entendeu completamente. Ainda não. Mas entenderá. Vou providenciar para que entenda.

Tornou a se afastar e Ahren esfregou o rosto para apagar a desagradável sensação do toque das escamas. Ele não tinha idéia do que ia fazer para escapar. Qualquer que fosse o plano, era melhor funcionar, pois ele só teria uma chance. Mas não conseguia imaginar de onde essa chance viria, se ele não recuperasse a posse das pedras élficas. Sua lembrança da sensação que tivera ao possuir a magia ainda era forte. Encontrá-las e invocar seu poder o havia transformado. Ele havia se redimido aos seus próprios olhos, pelo menos, de sua covardia nas ruínas, e ao fazer isso, havia descoberto algo do homem que esperava se tornar. Ele havia comprovado coragem e força de vontade, e não queria perdê-las. Mas, sem as pedras élficas, ele temia que isso pudesse acontecer.

Ele olhou o céu, aonde as aeronaves ainda flutuavam no horizonte. A oeste, o céu estava negro e espesso com nuvens que rolavam. A temperatura também estava caindo. Uma tempestade se aproximava e parecia ser violenta.

Eles estavam adentrando cada vez mais nas ruínas, passando pelo caminho que Ahren e a vidente tinham percorrido. O caull e seus tratadores lideravam o caminho, mas Ryer Ord Star e o Morgawr estavam logo atrás, sussurrando um para o outro como se fossem irmãos com um objetivo comum. Cree Bega empurrava Ahren, ordenando que ele os alcançasse, para facilitar qualquer impulso que pudesse ter de dar. O príncipe elfo colocou de lado seu pensamento e apertou o passo até estar bem atrás da vidente, seguindo suas pegadas, perto o bastante para tocá-la.

Olhe para mim, ele pensou. Diga alguma coisa!

Ela não fez nada. Era como se ele nem estivesse ali, pois sua presença não fazia diferença alguma. Ele não podia deixar de sentir que ela o estava ignorando deliberadamente. Será que a culpa que ela sentia por traí-lo era tão forte assim? Parecia que ela rejeitara tudo o que havia se tornado desde que o conhecera e voltara a ser a criatura de antes, que trabalhava para a bruxa. Era como se o senso de lealdade dela tivesse morrido com Walker. Ele não conseguia entender isso.

Então, ela estava apontando algo nas ruínas para o Morgawr e, quando o bruxo voltou-se para olhar, ela perdeu o equilíbrio e caiu, tropeçando em Ahren, que a seguia de perto. Ele a pegou sem pensar, segurando-a firme. Sem olhá-lo, ela se endireitou e empurrou-o para longe.

Tudo se passou em segundos e eles estavam avançando mais uma vez, Ryer Ord Star novamente ao lado do Morgawr, Cree Bega e seus mwellrets espalhados ao redor. Mas, naqueles segundos, quando ela estava encostada nele, murmurou algo que ele entendeu claramente. Ryer disse três palavras:

Confie em mim.

 

A menos de trezentos metros das ruínas de Castledown, Bek esperava pelo retorno de Truls Rohk. Ele estava agachado à sombra que se formava pela junção de duas paredes quebradas. Ele ouvira a aproximação dos mwellrets e daqueles que os acompanhavam. O som das vozes e o barulho das botas ecoavam nitidamente no silêncio do amanhecer. Ele já avistara as aeronaves flutuando a distância, sobre as ruínas, cascos escuros e mastros sem insígnias nem bandeiras. Ele as vira vomitar seus passageiros mwellrets e criaturas semelhantes ao caull que a bruxa Ilse utilizara ao rastrear Truls Rohk e o próprio Bek. Sabia que estavam em apuros.

Truls Rohk saíra para investigar. Não havia retornado.

A mão de Bek apertou a de Grianne e ele a olhou para se certificar de que ela estava bem. Ou, pelo menos, para se certificar de que nada havia mudado. Ela estava agachada ao lado dele na escuridão, olhando para o nada. Ele havia puxado o capuz da irmã para trás para que a luz encontrasse seu rosto. Sua pele clara parecia fantasmagórica nas sombras e seus estranhos olhos azuis estavam vazios e fixos. Ela obedecia às orientações de Bek, mas não respondia a nada ao seu redor. Não falava, não olhava para ele e não reagia ao que estava acontecendo. Bek não sabia muito sobre o estado catatônico, sobre o que seria necessário para libertá-la, mas supunha que Grianne estava sofrendo muita dor emocional ou psicológica e que esse era o motivo de sua condição. Ela iria recuperar a consciência quando estivesse pronta, dissera Walker. Mas, depois de várias horas de viagem, observando-a, ele não sabia direito s e acreditava nisso.

— Grianne — ele disse baixinho.

Estendeu a mão livre e tocou-lhe a face, passando o dedo sobre a pele macia. Não houve reação. Ele queria poder fazer algo. Só podia imaginar como teria sido para ela confrontar a verdade a seu próprio respeito. A magia da espada de Shannara havia removido o véu de mentiras e enganos, deixando entrar a luz que ela mantivera afastada por tantos anos. Ser forçado a ver a si mesmo como se é realmente, quando se cometeram tantas atrocidades, tantos atos feios e terríveis, seria insuportável. Não era de espantar que recuasse tão longe para dentro de si mesma. Mas como eles iriam ajudá-la se ela permanecesse ali?

Não que Truls Rohk acreditasse que deveriam. O mutante achava que Grianne não havia mudado, a não ser pelo fato de que estava indefesa e não lhe oferecia perigo naquele momento. Mas ele também a via como uma fera adormecida. Quando acordasse, poderia facilmente explodir em um frenesi de fúria assassina. Não havia nada que garantisse que a magia do talismã fosse prevenir isso, nada para dizer que ela estivesse diferente agora do que fora antes. Não havia garantia de que não voltaria à forma original. Na verdade, havia todas as razões para pensar que voltaria a ser como antes.

Bek decidira não discutir a questão. Em sua jornada, serpenteando pelas passagens de Castledown até a superfície das ruínas, ele havia ficado em silêncio quanto a esse assunto. Walker lhes dera uma tarefa: cuidar de Grianne a qualquer preço, fazer com que ela voltasse para casa em segurança, aceitar que ela era importante de um modo que ainda era impossível saber. Não importava o que Truls Rohk achava dela; não importava o que ele realmente acreditava. O druida fizera com que eles prometessem protegê-la e o mutante havia dado sua palavra a esta promessa ao lado de Bek. Gostasse ou não, Truls Rohk estava preso à sua palavra.

De qualquer maneira, Bek achava melhor deixar a questão de lado. Se o druida, mesmo moribundo, não fora capaz de convencer o mutante do valor de Grianne, havia poucas chances de que Bek pudesse fazê-lo agora.

Pelo menos, não naquele momento. Talvez o tempo lhe desse uma maneira de fazer isso. Talvez. Enquanto isso, ele teria de encontrar um jeito de permanecer vivo.

Respirou fundo, para se equilibrar, e tentou combater o pânico que sentia ao perceber as perspectivas, cada vez menores, que tinha de que isso acontecesse. Haviam lutado para fugir de uma armadilha e, agora, se encontravam enfrentando outra. Antrax, os rastejadores e os fios de fogo podiam ter desaparecido, mas agora um conjunto de aeronaves inimigas e mwellrets os confrontava. O fato de que estavam de alguma maneira aliados à sua irmã era uma conclusão inevitável. Seria muita coincidência se os mwellrets tivessem percorrido toda aquela distância por qualquer outra razão. Cree Bega teria entrado em contato com os recém-chegados e os alertado de sua presença. Estariam procurando por Bek e por quem o ajudara a escapar da Black Moclips. Se ele ficasse onde estava por muito tempo, eles o encontrariam. Era melhor Truls se apressar.

Como se lesse sua mente, o mutante se materializou no meio do caminho, deslizando para a luz como um fantasma, mais escuro do que as sombras das quais viera. Com o manto balançando suavemente pelos movimentos de seu corpo, ele se agachou ao lado do garoto.

— Temos mais problemas — ele anunciou. — As aeronaves são comandadas pelo Morgawr. Ele trouxe mwellrets, caulls e alguns homens que parecem ter sido transformados em bonecos de madeira. Além das aeronaves que vimos, pelo menos mais uma dúzia partiu em perseguição à Jerle Shannara e à Black Moclips.

— A Black Moclips! — Bek balançou a cabeça, confuso.

— Não me pergunte, garoto. Não sei o que aconteceu a bordo da nave depois que escapamos, mas parece que os rets perderam o controle dela. Alguém entrou a bordo e a capturou, enviou-a para o céu e saiu navegando bem debaixo dos narizes deles. Boa notícia para nós, talvez. Mas não vai fazer diferença agora.

Os sons dos perseguidores irromperam nos pensamentos de Bek, mas ele se forçou a ficar calmo.

— Então, agora estão nos caçando, seguindo nossos rastros ou nosso cheiro, usando esses caulls recém-criados?

Truls Rohk deu uma gargalhada.

— Você não poderia estar mais errado. Eles não estão preocupados conosco! É a bruxa que estão procurando! Ela fez alguma coisa para convencer o Morgawr de que deseja a magia para si mesma, ou pelo menos o convenceu de que é perigosa demais para confiar. Ele veio tomar posse da magia e se livrar dela. Ele não percebe que não existe magia alguma para tomar posse e que a bruxa já se destruiu! É uma boa piada para ele. Está perdendo seu tempo e nem sequer desconfia.

Truls, com a cabeça encapuçada, virou-se na direção de Grianne.

— Olhe só para ela. Está tão morta quanto se tivesse deixado de respirar. O druida acha que ela tem um objetivo nisso tudo, mas eu acho que a morte iminente o cegou. Ele queria que algo de útil surgisse disso tudo, algo que desse sentido às vidas desperdiçadas e às chances perdidas. Mas desejar não torna as coisas verdadeiras. Quando ele destruiu Antrax, destruiu o que viera encontrar. Os livros do Antigo Mundo estão perdidos. Não há mais nada. Nada!

— Talvez nós simplesmente não estejamos vendo — Bek sugeriu baixinho. Ouviu grunhidos e rosnados do caull que se aproximava. — Escute, precisamos sair daqui.

— Sim, garoto, precisamos. — E seus olhos, dois pontos fixos entre aquele mar de moventes névoas e pedaços de matéria, concentraram-se no esforço de fitar para além das sombras. — Mas não precisamos levá-la. — Fez um gesto na direção de Grianne. — Deixe-a para o Morgawr. Deixe-os fazerem com ela o que quiserem. Eles não irão nos incomodar se fizermos isso. É ela que eles querem.

— Não — Bek respondeu na hora.

— Se a levarmos, eles continuarão atrás de nós por todo o caminho terra adentro, para onde quer que fujamos, onde quer que nos escondamos. Se ela pôde nos encontrar antes, eles podem nos encontrar agora. Mais cedo ou mais tarde. Ela é um peso nas nossas costas que não precisamos carregar.

— Nós prometemos a Walker que a protegeríamos!

— Nós prometemos isso para que o druida pudesse morrer em paz. — Truls Rohk disse depressa. — Mas foi uma promessa tola e dada sem nenhum motivo além desse. Nós não precisamos dela. Nós não a queremos. Ela não serve a nenhum propósito agora e jamais servirá. Aquilo que ela é a destruiu. Ela não vai voltar, renascida, sua irmã devolvida; vocês não vão ser uma família feliz reunida. Pensar outra coisa é tolice.

Bek balançou a cabeça.

— Eu não vou deixá-la. Faça o que quiser.

Por um instante apenas, Bek achou que Truls Rohk iria fazer exatamente isso. O mutante ficou parado como as sombras em uma noite sem vento, todo ele uma presença escura e perigos ocultos. Bek podia sentir-lhe a tensão, uma espécie de tinido que era mais vibração do que ruído, uma corda tensionada em um arco.

— Você insiste em provocar problemas — murmurou Truls Rohk. — Você não é capaz de um comportamento racional?

Bek quase riu com essas palavras, ditas com tamanha seriedade, mas cheias de ironia. Ele balançou a cabeça devagar.

— Ela é minha irmã, Truls. Não há mais ninguém para ajudá-la.

— Ela vai decepcioná-lo. Isto não vai acabar como você está pensando.

Bek assentiu.

— Acho que não vai mesmo. Até agora não foi o que aconteceu. — Mantinha os olhos fixos no mutante enquanto os sons de aproximação aumentavam. — Podemos ir agora?

Truls Rohk ficou olhando para ele por mais um momento, como se tentando decidir. Então avançou, todo escuridão, mesmo na luz do amanhecer, apanhou Grianne como se fosse uma boneca de trapo e enfiou-a debaixo do braço.

— Tente me acompanhar, garoto — ele disse. — Carregar um de vocês já é muito pesado.

Pulou para o topo de um pedaço de parede, que estava próximo, e começou a navegar sua extensão como um equilibrista de corda bamba em uma feira de rua, agachado e movendo-se com rapidez. O calor do toque da mão de sua irmã ainda perdurara, e Bek ficou parado algum tempo a observar o mutante. Em seguida, correu para segui-lo.

 

Ahren Elessedil escutava, com uma preocupação cada vez maior, quando os grunhidos do caull, que liderava o grupo do Morgawr, ficaram mais ansiosos. Ele havia claramente encontrado algo, rastros ou cheiros que reconhecia e queria perseguir. Mas seus tratadores não o soltaram. Tampouco o Morgawr estava lhe dando muita atenção; seu foco estava em Ryer Ord Star enquanto caminhavam um ao lado do outro, engajados mais uma vez em conversação íntima. O que ela estava lhe dizendo? O garoto ficara incentivado pelas palavras que ela lhe sussurrara, mas suspeitava de suas ações. Pedia para que confiasse nela, mas não fazia nada para garantir essa confiança. Ele pensara que podia pelo menos tentar levar seus captores na direção errada; mas ela os estava conduzindo pelo caminho correto, diretamente à entrada que levava ao subterrâneo onde deixaram Walker.

Parecia que ela havia se tornado parceira na empreitada do Morgawr; assim, o elfo estava tendo dificuldades em se convencer de que deveria confiar nela.

Agora estavam andando mais rápido, passando através dos entulhos até onde a abertura levava para o subterrâneo, para Castledown. A julgar pelos sons emanando do caull, seu focinho abaixado até o chão enquanto puxava seus tratadores para a frente, quem quer que eles rastreassem havia passado por ali recentemente. Perguntou-se, por um momento, se o caull havia se deparado com o próprio cheiro, que deixara ao passar por ali anteriormente, mas isso significaria que a fera era muito mais burra do que o elfo poderia acreditar. Como era a bruxa Ilse que o Morgawr estava procurando, Ahren tinha de supor que o caull recebera algo com seu cheiro. Ela poderia facilmente ter passado pelo mesmo caminho e ainda tê-los despistado nas catacumbas.

Eles passaram pela entrada cautelosamente. Rastejadores jaziam em pilhas do lado de dentro, sem se moverem. Lâmpadas com poucas chamas ainda queimavam, lançando um fraco brilho amarelo nas paredes da passagem, mas os mwellrets acenderam tochas mesmo assim. A luz esfumaçada emprestava aos corredores vazios um aspecto sombrio e assustador, enquanto o grupo descia ao subterrâneo.

Por diversas vezes, Ahren pensou em tentar uma fuga para a liberdade, mas o medo e o bom senso o impediram de agir movido por impulsos. Precisava de uma oportunidade melhor, e precisava saber mais sobre o que Ryer Ord Star estava fazendo. Também precisava saber quem tinha as pedras élficas para tentar pegá-las de volta. Não havia tomado uma decisão consciente a respeito antes, mas agora ele sabia, pensando nisso, que não voltaria às Quatro Terras sem elas. Pensar em voltar para casa era algo ambicioso, mas, àquela altura, não conseguia evitar. Pensar nisso era tudo o que ele tinha para manter a mente afastada de seu problema atual, e se ele não se concentrasse em alguma coisa teria medo de que sua coragem, cada vez menor, desabasse completamente.

Andaram por um longo tempo, de volta ao caminho que Ryer e Ahren tinham percorrido, seguindo exatamente os mesmos corredores que desciam para as entranhas de Castledown. Sons esporádicos faziam-se ouvir a distância, mas nada concreto apareceu para bloquear- lhes o caminho. Antrax e Castledown haviam voltado no tempo para se juntar ao resto do Antigo Mundo, morto e perdido.

Quando chegaram à câmara cavernosa onde Antrax havia abrigado seu poder, descobriram que ela estava vazia. Walker havia desaparecido, embora poças de seu sangue, escuras e gosmentas, tivessem secado no chão de metal. Pedaços retorcidos de metal e cabos cortados atulhavam a paisagem, e fluidos haviam começado a vazar de tanques e fios enfumaçados e espessos. Excitado pelo sangue e pelos cheiros ao redor, o caull pulava de um lado para outro, mas não havia ninguém ali. O Morgawr andou pelo espaço, olhando tudo com cuidado, distanciando-se do resto do grupo. Cutucou os rastejadores, aproximou-se dos gigantescos cilindros gêmeos e penetrou na câmara de extração, onde ficou sozinho por muito tempo. Ahren ficou vigiando todos, mas Ryer Ord Star, em particular. Ela estava a poucos metros dele, olhando para o espaço vazio. Ela nunca olhou em sua direção. Se estava sentindo o olhar dele, guardava isso para si.

Quando o Morgawr acabou seu exame, emergiu da câmara de extração, despachando Cree Bega com um sibilar de impaciência. O caull liderando o caminho, seu corpo maciço puxando correntes de frustração, eles partiram em uma nova direção. A bruxa Ilse havia estado ali, Ahren sabia. Ninguém dissera isso, mas o comportamento do Morgawr, quando penetrou em uma nova passagem em frente, tornou a conclusão inevitável. Talvez tivessem acabado de passar por ela. Ele se pegou pensando no que havia acontecido a Walker. Mesmo que a bruxa o tivesse encontrado, não era forte o bastante para movê-lo sozinha.

Ele teve sua resposta pouco depois. Navegaram pelo labirinto de corredores vazios e arruinados até chegarem a uma vasta caverna abrigando um lago subterrâneo. Iluminada pela tênue fosforescência que riscava as paredes da caverna, uma trilha de sangue levava até a beira da água, formando uma nova poça na margem rochosa, e desaparecia. A superfície do lago estava quieta e perfeitamente lisa. Não havia sinal de Walker.

O Morgawr ficou parado, por um momento, olhando para o outro lado do lago, envolto no manto negro. Ninguém tentou se aproximar dele nem ousou falar.

— Afastem-se de mim — ele lhes disse finalmente.

Foi o que fizeram, e Ahren viu os braços escamados emergirem do manto do Morgawr e começarem a tecer movimentos rápidos, desenhando imagens ou símbolos no ar. Uma luz esverdeada emanava das pontas dos dedos, deixando trilhas de fogo esmeralda em seu rastro. O silêncio da caverna vazia era preenchido por um murmúrio de vento fantasma, e das profundezas do lago elevou-se um sibilar profundo e feio que parecia tanto um aviso quanto uma resposta à conjuração do Morgawr. Mesmo assim, o bruxo continuou seus esforços, o manto revoando ao redor de seu corpo escuro, borrifos de água saindo do lago em súbitas explosões. Imagens fracas começaram a aparecer, espectros lançados sobre a escuridão pela luz de sua magia, aparecendo num momento e sumindo no momento seguinte. Ahren não sabia dizer o que elas significavam, não podia sequer estar certo do que seus sentidos lhe diziam. Outra vez pensou ouvir vozes, murmúrios roucos que aumentavam e abaixavam de volume como as ondas escuras do lago. Uma vez, ele teve certeza de que ouviu gritos.

Então, o vento aumentou e as tochas se apagaram. Os mwellrets recuaram alguns passos, aproximando-se mais da entrada da caverna. Ahren foi com eles. Apenas Ryer Ord Star ficou onde estava, cabeça erguida, um olhar feroz em seu rosto infantil, olhando para a escuridão do outro lado do lago. Ela também estava vendo alguma coisa, pensou Ahren — talvez as estranhas imagens, talvez outra coisa completamente diferente.

Finalmente, as mãos do Morgawr pararam de se mover, o vento e o ruído morreram e o lago ficou parado. O Morgawr recuou da beira da água e foi até onde seus rets estavam agachados, vigilantes na entrada da caverna, fazendo um gesto para que a vidente viesse com eles quando passou por ela. Obediente, ela virou-se e o seguiu.

— O druida está morto — ele declarou ao se aproximar deles.

Ouvir alguém dizer essas palavras deu à verdade delas um novo impacto. Ahren prendeu a respiração contra a vontade e, subitamente, lhe pareceu que as poucas esperanças que ele havia alimentado de sair daquele terrível lugar, daquela terra selvagem, haviam acabado de ser roubadas.

O Morgawr estava olhando para ele, avaliando sua reação.

— Mas nossa pequena bruxa Ilse está viva. — Ele mantinha seus olhos perigosos fixos em Ahren. — Ela veio e foi embora e não está sozinha. Está com aquele garoto que você deixou fugir da Black Moclips, Cree Bega, e mais alguém, alguém cujo nome eu não sei. — Fez uma pausa. — Você sabe, príncipe dos elfos?

Ahren balançou a cabeça. Não fazia idéia de com quem Bek poderia estar, além de Tamis ou algum dos outros elfos.

O Morgawr se aproximou e estendeu a mão para tocar-lhe o rosto. O ar da caverna ficou mais frio com esse toque e seu silêncio ficou mais profundo. Ahren se forçou a ficar onde estava, a reprimir a repulsa e o medo que o toque lhe provocava. A mão permaneceu por um momento e, em seguida, afastou-se deslizando, como uma gota de suor.

— Eles trouxeram o druida para cá, até a beira da água, e o deixaram para que os espectros de seus ancestrais o carregassem. — A satisfação do Morgawr era visível. — E foi o que fizeram, ao que parece. Levaram seu corpo com eles, para as águas daquele lago. Walker está morto. Todos os druidas estão mortos. Depois de todos esses anos. Todos eles.

Voltou seu olhar para Ahren.

— O que nos deixa com a bruxa — ele sussurrou quase para si mesmo. — Mas ela pode não ser tão formidável quanto era. Há algo de errado com ela. Sinto isso na maneira como ela se move, na maneira como deixa os outros dois a conduzirem. Ela não é o que era antes. Senti, estudando os traços de sua passagem, como se ela estivesse adormecida.

— Ela esstá fingindo — Cree Bega sugeriu baixinho. — Ela quer noss confundir.

O Morgawr assentiu.

— Talvez. Ela é inteligente. Mas que motivo teria para fazer isso? Ela ainda não sabe de minha presença. Não sabe que eu vim por ela. Não tem motivo para fingir nada. Nem tem razão para fugir. Mas ela se foi mesmo assim. Para onde?

Todos ficaram em silêncio por um momento. Até mesmo o caull havia ficado quieto, agachado no chão da caverna, a cabeça grande abaixada, os olhos selvagens reduzidos a fendas estreitas, aguardando que lhe dissessem o que fazer.

— Talvez ela essteja a bordo da aeronave — sugeriu Cree Bega.

— Nossos inimigos controlam a Black Moclips — replicou o Morgawr. — Eles procurariam evitá-la, Cree Bega. Além do mais, não havia tempo para que a alcançassem antes de fugirem de nós. Não, ela está a pé com o garoto e quem quer que esteja com eles, seu salvador da nave. Ela está a pé e não muito adiante de nós.

Subitamente ele se virou para Ahren e, desta vez, o tom de ameaça em sua voz foi tão poderoso que paralisou o garoto onde ele estava.

— Onde estão as pedras élficas, príncipe dos elfos? — murmurou o bruxo.

A pergunta pegou Ahren completamente de surpresa. Ele ficou olhando para o outro sem dizer nada.

— Você as pegou antes, não pegou? — As palavras pressionavam o garoto como rochas. — Você as utilizou bem ali naquela câmara onde o druida foi ferido mortalmente. Você estava lá, tentando salvá-lo. Achou que eu não descobriria? Senti a magia das pedras élficas imediatamente, encontrei traços de seus resíduos nos cheiros e gostos do ar. O que aconteceu com elas, garotinho?

— Não sei — respondeu Ahren, incapaz de dizer algo melhor.

O Morgawr sorriu para Cree Bega.

— Você o revistou?

— Ssim, é claro — o mwellret respondeu dando de ombros. — O pequeno elfo não esstava com elass.

— Talvez ele as tenha escondido de você.

— Não havia tempo para que ele ass esscondessse. Hssst. Acho que ele ass perdeu.

O Morgawr parou um momento para pensar.

— Não. Outra pessoa está com elas. — Seu olhar se desviou rapidamente para Ryer Ord Star. — Nossa silenciosa pequena vidente, talvez?

Cree Bega grunhiu.

— Eu também a revisstei. Nenhuma pedra.

— Então nossa bruxinha está com elas. Ou aquele garoto com quem ela está. — Fez uma pausa. — Ou o druida as levou consigo para o mundo inferior e ninguém jamais as verá novamente.

Ele não parecia incomodado com isso. Não parecia nem um pouco preocupado. Ahren ficou observando seu rosto achatado e vazio olhar uma última vez na direção do lago subterrâneo. Então, os olhos aguçados voltaram rapidamente a se fixar nos seus.

— Garoto, não preciso mais de você.

A câmara ficou tão silenciosa que era como se não houvesse mais ninguém vivo ali, mesmo aqueles que estavam esperando para ver o que aconteceria a seguir pareciam ter sido transformados em pedra. Ahren podia sentir as batidas do seu coração e o pulsar do sangue em suas veias; podia ouvir a respiração raspando em sua garganta.

— Talvez precise — Ryer Ord Star disse subitamente. Todos se voltaram para olhá-la, mas seus olhos estavam fixos no Morgawr. — O druida trouxe o príncipe na jornada porque seu irmão, o rei, insistiu, mas também porque o druida sabia que o príncipe tinha mais valor do que isso. Eu soube disso em uma visão. Um dia, Ahren Elessedil será o rei dos elfos.

Ela fez uma pausa.

— Talvez, com treinamento, ele pudesse aprender a se tornar o seu rei.

Ahren jamais ouviria alguma especulação desse tipo, e certamente não gostava de ouvi-la agora, particularmente devido à maldade que a vidente estava colocando nela. Ficou tão chocado que simplesmente a encarou, sem tentar esconder nada do que estava sentindo, uma mistura tão poderosa de emoções que ele mal conseguia contê-las. Confie em mim, ela pedira. Mas que razão ele tinha para fazer isso agora?

O Morgawr pareceu levar isso em conta, e então concordou.

— Talvez. — Fez um gesto vago na direção da garota. — Você procura demonstrar o seu valor compartilhando o que sabe, pequena vidente. Eu aprovo isso.

Voltou seu olhar para Ahren.

— Você virá comigo. Fará o que puder para me ajudar em minha busca. Juntos, rastrearemos nossa bruxinha. Aonde quer que ela vá, nós a encontraremos. Isto acabará muito em breve e, então, decidirei o que fazer com você.

Olhou para Cree Bega.

— Traga-o.

Fez um gesto para que o caull ficasse em pé, deu ordens aos seus tratadores e enviou-os para os túneis mais uma vez. Pegou Ryer Ord Star pelo braço e seguiu, ignorando Ahren. Vendo-o paralisado onde estava, Cree Bega deu uma pancada na cabeça do garoto e mandou-o cambaleante atrás do bruxo.

— Pequeno elfo deve fazer o que nóss mandamoss!—ele sibilou irritado.

Sem dizer nada, Ahren Elessedil avançou aos trancos e barrancos, cheio de raiva.

 

A bordo da Jerle Shannara, Redden Alt Mer fez uma pausa na amurada de popa da aeronave e olhou para a Black Moclips. Ela estava trabalhando duramente para tentar escapar da tempestade que se aproximava, seu casco armado jogando e virando como um galho pesado de árvore apanhado numa corredeira. A tempestade era uma muralha negra que vinha da costa leste se aproximando da terra firme, uma massa gigantesca de nuvens entremeadas por relâmpagos que cavalgava os ventos, soprando a mais de cinqüenta nós. A Ruivinha estava fazendo o melhor que podia para navegar a aeronave sozinha, mas isso teria sido uma tarefa difícil sob circunstâncias comuns. Ali, era impossível. Mesmo que ela alcançasse a segurança relativa das montanhas adiante, não havia garantia de que conseguisse encontrar abrigo até que a tempestade passasse. Pousar uma aeronave no meio de uma cadeia de montanhas, com encostas e correntes descendentes com as quais lutar, era um negócio arriscado de qualquer maneira. No centro de uma tempestade como essa, seria extremamente perigoso.

Atrás da Black Moclips, pelo menos umas dez aeronaves inimigas continuavam sua perseguição. Ele havia pensado que poderia perdê-las de vista com a aproximação da tempestade, mas estava errado. Desde a manhã do dia anterior ele havia tentado tudo para livrar-se delas, mas nada dera certo. Toda vez que havia tentado despistá-las, elas haviam reaparecido do nada. Não deviam ter sido capazes de fazer isso. Ninguém deveria ser capaz de encontrá-lo tão facilmente, não aquelas naves, com suas tripulações de mortos-vivos e seus mwellrets.

Eles o estavam rastreando de algum modo, rastreando-o de algum jeito que não fora capaz de identificar. Era melhor ele fazer isso logo. Os reparos na Jerle Shannara não haviam terminado quando eles se viram forçados a fugir da costa. A tensão de ter de confiar em quatro de seus seis tubos de fragmentação e cristais-diapasão, com os atratores radianos reconfigurados para permitir a transferência de energia, estava ficando visível. Os atratores estavam ameaçando se romper com a tensão adicional e a capacidade de manobra da aeronave era menor do que ele precisava. Muito embora a Jerk Shannara fosse a aeronave mais rápida, se algo saísse errado seus perseguidores estariam em cima deles antes que pudessem fazer os ajustes necessários.

O fato de que ninguém havia dormido por mais de duas horas desde o dia anterior não estava ajudando e todos estavam exaustos. Homens cansados cometiam erros, e se eles cometessem um ali, isso provavelmente lhes custaria suas vidas.

Alt Mer testou o atrator dianteiro de estibordo, ajustou a tensão e tornou a olhar para a Black Moclips. Ela estava lutando para manter o ritmo, perdendo terreno a um ritmo constante. Os cavaleiros alados voavam cada um em um flanco da nave, oferecendo sua presença como conforto, mas os elfos não eram de ajuda na condução da nave. Po Kelles havia retornando para lhe dizer o que a Ruivinha havia feito e, no começo, Alt Mer ficara animado. Eles tinham a aeronave da bruxa além da própria nave deles, duas chances de achar uma saída daquela terra miserável. Mas a convergência de seus perseguidores e a aproximação da tempestade fizeram com que ele rapidamente percebesse que sua irmã podia ter agarrado um prêmio grande demais. Sem uma tripulação para auxiliá-la, ela estava seriamente prejudicada em seus esforços para conduzir a nave capturada. Ele teria colocado uns dois membros de sua própria tripulação para ajudá-la, mas não havia como fazer isso sem atracar as aeronaves; rovers eram desconfiados quando se tratava de rocas.

Uma rajada de vento uivou no mastreamento acima dele, produzindo um gemido agudo e assustador, o grito de um animal ferido. A temperatura também estava caindo. Se isso continuasse, haveria neve nas montanhas e as condições de vôo seriam impossíveis.

Alt Mer deixou a amurada e correu pelo convés de popa, descendo até o convés principal e a cabine do piloto, onde Spanner Frew ocupava o timão como uma rocha, guiando a aeronave para a frente com mão firme.

— Os cabos ainda agüentam? — Spanner Frew gritou quando o Ruivão pulou para o seu lado dentro da cabine.

— Por enquanto... Não sei por quanto tempo mais. Precisamos pousar antes que essa tempestade nos apanhe! — Precisavam gritar para se fazer ouvir em meio ao vento. Ele olhou para trás, para a Black Moclips. — Precisamos fazer alguma coisa para ajudar a Ruivinha. Ela é competente, mas, por melhor que seja, não vai conseguir sozinha.

Spanner Frew virou o rosto de barba escura para Alt Mer por um momento e, então, tornou a voltá-lo para diante.

— Se pudermos jogar um cabo para ela, poderíamos rebocá-la.

— Não com um tempo destes. Não com todas aquelas aeronaves nos caçando. Estaríamos reduzidos, mesmo utilizando os tubos de fragmentação dela para ajudar.

O homenzarrão assentiu.

— Então é melhor trazê-la para cá! Quando essa tempestade a alcançar, há chances muito grandes de que ela não seja capaz de permanecer no ar. Se ela começar a descer então, não conseguiremos ajudá-la.

Redden Alt Mer já havia chegado a essa conclusão. Não estava sequer certo de que conseguiria manter a Jerle Shannara voando. Brincou rapidamente com a perspectiva de passar para a Black Moclips e navegá-la, pois ela estava em melhores condições. Mas a Jerle Shannara era a nave mais rápida, com mais poder de manobra e ele não queria abrir mão dela quando eram a velocidade e o poder de manobra que provavelmente fariam a diferença em um confronto com seus perseguidores. A questão era abstrata, de qualquer maneira, pois não havia nenhuma chance real de que ele pudesse tirar todos desta nave e colocá-los na da Ruivinha com o tempo daquele jeito.

Apertou os lábios. Rue ia ficar furiosa se ele lhe dissesse para desistir de seu prêmio. Ela poderia não fazer isso, mesmo sabendo em que tipo de problema estava se metendo.

Ele tornou a olhar para a Black Moclips e além, para as aeronaves inimigas, pontos pretos contra a escuridão da tempestade que se aproximava.

— Como é que eles estão sempre nos achando? — ele gritou para Spanner Frew, subitamente zangado com o quanto a situação havia se tornado impossível.

O construtor naval balançou a cabeça e não respondeu. Um novo nível de frustração tomou conta do Ruivão. Já era ruim o suficiente que eles tivessem perdido Walker e todos aqueles que haviam penetrado nas ruínas. Já era ruim também que não tivessem nada a mostrar por terem viajado toda aquela distância, e bem poderiam voltar para casa de mãos abanando — se conseguissem chegar em casa. Mas era intolerável que aquelas aeronaves fantasmas continuassem a persegui-los, como cães de caça perseguiriam um animal ferido, encontrando seus rastros ou seu cheiro onde não deveria haver nenhum vestígio de sua passagem.

Não havia nada que ele pudesse fazer naquele momento. Mas podia fazer algo a respeito da Ruivinha. Ela ainda não havia se recuperado de suas feridas e não devia ter dormido mais do que eles. Devia estar à beira da exaustão só de pilotar a Black Moclips, tentando cuidar de tudo a partir da cabine do piloto, o vento uivando, ao passar por ela, como um demônio à solta para arrancá-la dos céus. Ela era um bom piloto, quase tanto quanto ele — e uma navegadora melhor. Mas isso não seria o bastante para salvá-la.

— Vou pegá-la, Barba Negra! — ele gritou para o construtor. — Reduza um quarto da velocidade e se mantenha na direção daquela brecha nos picos em frente.

— Você quer pegá-la com um gancho? — Spanner Frew gritou em resposta.

Redden Alt Mer balançou a cabeça.

— Isso levaria muito tempo. Ela precisa vir a nós. Vou mandar um dos cavaleiros alados.

Ele pulou para o convés principal, gritando ordens para a tripulação, dizendo-lhes que achassem seus lugares próximos aos tubos de fragmentação que ainda funcionavam, precisavam monitorar os atratores enquanto ele corria para a popa. Na amurada, ele vasculhou o interior de uma caixa de madeira e encontrou a flâmula esmeralda que assinalava a necessidade de que um deles voasse até ali.

Claro que o sinal não funcionaria se ninguém estivesse olhando. E, numa tempestade ruim daquelas, eles poderiam, de fato, não estar olhando.

Prendeu os grampos da flâmula e levantou o pedaço de tecido ao vento, onde sacudiu e estalou como gelo se soltando no Squirm. Olhando para trás, viu a Black Moclips sacudir e adernar. Vários de seus atratores haviam se quebrado e uma de suas velas estava em farrapos. Rue voava puramente com sua habilidade de piloto e sorte.

Diante de seus olhos, a nave se desvaneceu mais na neblina de nuvens e névoa. Mal conseguia ver os cavaleiros alados ainda voando nas laterais. Seus perseguidores haviam desaparecido por completo.

Redden Alt Mer deu um soco na amurada. Nem Hunter Predd nem Po Kelles haviam visto a flâmula.

— Olhem para mim! — ele gritou frustrado.

Perdidas no uivo do vento, as palavras foram para longe.

 

Mil metros atrás, tão fatigada que estava quase desmaiando, Rue Meridian lutava para não perder a Jerle Shannara de vista. Seu mundo havia se afunilado até compreender apenas aquele único propósito. Havia esquecido seus planos de penetrar na direção das ruínas para encontrar e resgatar Bek e os outros da companhia, para tentar recuperar algo do desastre que aquela viagem havia se tornado. Embora seus pensamentos estivessem obscurecidos e sua mente entorpecida por se concentrar em cuidar dos controles, ela sabia que estava em apuros. A Jerle Shannara estava se afastando cada vez mais e as aeronaves que a perseguiam estavam chegando cada vez mais perto. Logo, qualquer chance de fuga estaria perdida.

A Black Moclips tornou a estremecer quando os ventos que antecediam a tempestade a atingiram. A aeronave sacudiu para os lados e para baixo. As velas de luz ambiente haviam sido mantidas enroladas nos últimos dias e não fora recolhida mais energia para os cristais-diapasão. Não fora recolhida mais energia porque ela não conseguia içar as velas nessa tempestade — não conseguia içá-las de maneira alguma, com ou sem tempestade, por conta própria. A energia limitada que restava estava sendo exaurida. Era necessário prestar uma atenção especial a cada um dos diversos tubos de fragmentação para distribuir a energia de modo mais eficiente, mas ela não conseguia deixar os controles por tempo bastante para tentar isso. O melhor que poderia fazer seria tentar manipular as coisas de dentro da cabine do piloto, e embora isso fosse possível, uma aeronave não fora feita para ser navegada por uma única pessoa.

Ela tinha uma tripulação, que estava trancada nos conveses inferiores, e libertar seus membros seria o mesmo que trancar a si mesma no lugar deles.

Os primeiros flocos de neve passaram soprando por seu rosto e ela foi lembrada mais uma vez de como a temperatura havia caído. O inverno parecia estar descendo sobre uma terra que não tinha visto um tempo desses há mais de mil anos.

Ela tentou obter mais velocidade com os cristais, forçando-se a experimentar uma combinação diferente de distribuições de energia, sentindo a Black Moclips deslizar e inclinar-se no vento com seus esforços, combatendo sua certeza cada vez maior de que nada que ela fizesse traria qualquer diferença.

Estava tão absorta em seus esforços que não viu Hunter Predd voar à sua frente na névoa cinzenta, na direção da Jerle Shannara. Po Kelles mantinha o ritmo com ela a bombordo, mas ela nem sequer olhou para ele de relance. Em sua luta para pilotar a Black Moclips, havia se esquecido dos cavaleiros alados. Então, Hunter Predd cavalgou Obsidian bem até a proa para chamar-lhe a atenção. Ela se inclinou em resposta ao movimento inesperado e então se virou quando o roca girou e se posicionou ao lado de sua amurada de estibordo, quase perto o bastante para tocá-la, balançando para a frente e para trás com a força do vento.

— Ruivinha! — Hunter Predd gritou em meio ao vento, suas palavras quase inaudíveis.

Ela olhou de relance e acenou para que ele percebesse que ela ouvira.

— Vou levar você para fora da nave! — Ele esperou um momento para deixar que ela assimilasse o impacto das palavras. — Seu irmão disse que você tem de vir comigo. É uma ordem!

Zangada porque o Ruivão não havia sequer sugerido uma coisa dessas, na hora ela balançou a cabeça negativamente.

— Você não pode ficar! — Hunter Predd gritou, levando Obsidian mais para perto. — Olhe para trás! Eles estão bem em cima de você!

Ela nem precisava olhar; sabia que elas estavam ali, as aeronaves que a caçavam. Sabia que estavam tão perto que, se ela se virasse, poderia distinguir os rostos sem expressão dos homens mortos que as tripulavam. Sabia que eles a pegariam em menos de uma hora se alguma coisa não acontecesse para mudar sua situação. Sabia que se eles não a apanhassem a essa altura, era apenas porque ela havia caído.

Resumindo, ela sabia que sua situação era desesperadora.

Só não queria admitir. Na verdade, ela não conseguia suportar isso.

— Ruivinha! — o cavaleiro alado tornou a gritar. — Você me ouviu?

Ela olhou-o. Ele estava curvado, encostado ao pescoço escuro de Obsidian, braços e pernas agarrando a sela, as linhas de segurança prendendo cavaleiro e pássaro. Ele parecia um carrapato preso nas penas do grande roca.

— Eu ouvi! — ela gritou para ele.

— Então saia dessa nave! Agora!

Ele disse isso com uma insistência que não pedia discussão, uma insistência apoiada pelo conhecimento de que ela deveria perceber a precariedade de sua situação com tanta certeza quanto o irmão e ele. Ele ficou olhando para ela de onde estava com o pássaro, as feições curtidas tensas e zangadas, provocando-a para que o contradissesse. Ela entendia o que ele estava pensando: se não a convencesse ali e agora, seria tarde demais, a Jerle Shannara já estava quase fora de vista novamente e a tempestade já estava em cima dela. Ela ainda podia fazer o que quisesse, mas não por muito tempo.

Por entre os fios embaraçados dos seus cabelos, ela olhou para os controles da aeronave. A água descia pelo metal liso e pela madeira reluzente em pequenos riachos ondulantes. Ela estudou a maneira pela qual suas mãos se encaixavam nas alavancas e no timão. Agora ela possuía a Black Moclips, a nave pertencia a ela. Ela a havia arrancado dos ladrões que roubaram sua própria nave. Ela a havia apanhado com muito risco e estava no direito de mantê-la consigo. Ninguém tinha o direito de lhe tirar a nave.

Mas isto não significava que ela estivesse casada com a nave. Isto não significava que não pudesse abrir mão dela, se assim o escolhesse. Se a idéia partisse dela. Afinal, era apenas uma coisa feita de madeira e metal, não de carne e osso. Não tinha um coração, nem mente ou alma. Era apenas uma ferramenta.

Ela olhou de volta para Hunter Predd. O cavaleiro alado estava esperando. Ela apontou para a popa e para baixo, e em seguida, para si mesma. Ele assentiu e girou, afastando-se da nave.

Ela agarrou as faixas de navegação, amarrou as rodas e as alavancas no lugar, e então desceu correndo os degraus e atravessou a superfície escorregadia do convés até a escotilha principal. Desceu rápido, antes de ter tempo para pensar melhor. Estava curiosamente em paz. A raiva que sentira momentos antes havia passado. A Black Moclips era uma boa aeronave, mas apenas isso e nada mais.

Ela chegou à porta do depósito onde Aden Kett e sua tripulação da federação estavam trancados e bateu na porta.

— Aden, pode me ouvir?

— Estou ouvindo, Ruivinha — respondeu o comandante.

— Vou deixar vocês e lhe devolver a sua nave. Ela está lutando nesta tempestade e precisa de uma tripulação inteira para mantê-la voando. Não consigo dar conta dela sozinha. Estou no controle, mas não vou deixá-la morrer sem necessidade. Então é isso. Faça o que puder por ela. Tudo bem?

— Tudo bem. — Ela podia dizer, pelo som da voz dele, que ele estava colado contra a porta do outro lado.

— Você vai entender se eu não ficar por aqui para ver o que vai acontecer. — Ela enxugou as gotas que molhavam sua testa e caíam sobre os olhos. — Você poderá ter dificuldades em fazer a coisa certa por mim depois. Eu detestaria vê-lo fazer papel de palhaço. Então, depois que eu abrir esta porta, vou embora. Acha que você e os outros podem evitar ceder aos seus piores impulsos e me perseguirem?

Ela o ouviu dar uma gargalhada.

— Ir atrás de você? Já estamos fartos de você, Ruivinha. Vamos todos nos sentir melhor sabendo que está fora da nave. É só nos deixar sair daqui.

Então ela fez uma pausa, inclinando-se na porta, o rosto perto das rachaduras nas tábuas que a formavam.

— Ouça-me, Aden. Não fique por aí depois. Não tente fazer a coisa certa. Esqueça suas ordens, seu senso de dever e seu treinamento da federação. Pegue a Black Moclips e leve-a para casa o mais rápido que puder. Leve suas chances para lá.

Ela ouviu as botas dele arrastarem no chão.

— Quem está lá fora? Nós vimos as outras naves.

— Não sei. Ninguém sabe, mas não é ninguém que você queira conhecer. Mais de uma dezena de aeronaves, Aden, mas sem bandeiras, sem insígnia, nada humano a bordo. Apenas rets e homens que parecem mortos. Não sei quem os enviou. Não me importa. Lembre-se do que eu disse. Vá para longe daqui. Deixe tudo isso. É um bom conselho. Você está ouvindo?

— Sim, estou ouvindo — ele respondeu.

Ela não sabia o que mais dizer.

— Diga a Donell que lamento ter batido nele com tanta força.

— Ele sabe.

Ela se afastou da porta e ficou encarando-a mais uma vez.

— Vejo você mais adiante, Aden.

— Mais adiante, Ruivinha.

Ela esticou a mão para pegar a trava e abriu-a, e então virou-se e disparou escadas acima sem olhar para trás. Em segundos estava no convés novamente, surpresa ao descobrir neve tornando o mundo branco. Ela abaixou a cabeça para evitar as picadas dolorosas do vento e da neve que começava a derreter e foi até a amurada de popa. A corda que Hunter Predd havia utilizado antes para descer até Obsidian ainda estava amarrada no mesmo lugar e enrolada no convés. Ela jogou a ponta solta por sobre a amurada e viu-a despencar na neblina. Mal conseguia ver os contornos escuros das asas do roca que assumia sua posição logo abaixo.

Ela olhou uma vez para trás, para a Black Moclips.

— Boa menina — ela disse para a nave. — Fique em segurança.

E desapareceu na penumbra.

 

Minutos depois, Redden Alt Mer estava em pé na amurada de bombordo da Jerle Shannara, e via sua irmã fazer uma pausa em sua subida pela escada de corda. Ela havia desembarcado do roca sem problemas, agarrado a escada com firmeza e começado a subir. Mas agora estava pendurada ali com a cabeça abaixada e os longos cabelos ruivos caindo sobre o rosto, balançando ao vento.

Ele pensou que talvez precisasse descer pela escada e pegá-la.

Ao pensar nisso, lembrou-se subitamente de um tempo em que eram crianças e ele havia subido nos galhos mais altos de uma velha árvore. Rue, que tinha apenas cinco anos de idade, havia tentado segui-lo, subindo com esforço pelo tronco, usando os galhos da árvore como degraus. Mas ela ainda não era forte e se cansava rapidamente. A meio caminho, ela perdeu completamente o impulso e parou de avançar, pendendo dos galhos daquela árvore do jeito que estava pendurada na escada de corda agora. Naquela época ela era um incômodo, sempre colada nele, tentando fazer tudo o que ele fazia. Ele era quatro anos mais velho e ficava irritado com ela a maior parte do tempo. Podia tê-la deixado onde estava na árvore — na verdade, ele achava que poderia ter feito isso. Mas em vez disso, ele voltara e gritara para ela: “Vamos lá, Rue! Continue! Não desista! Você consegue!”

Ele poderia gritar essas mesmas palavras para ela agora, para a irmãzinha que ainda estava tentando fazer tudo o que ele fazia. Mas enquanto pensava nisso, ela levantou a cabeça, viu que ele a olhava e começou a escalar novamente na hora. Ele sorriu para si mesmo. Agora ela vinha sem diminuir o ritmo e ele estendeu a mão para pegar-lhe o braço, ajudando-a a pular a amurada para dentro da nave.

Num impulso, ele a abraçou e ficou surpreso quando ela retribuiu.

Ele balançou a cabeça para ela, em reprovação:

— Às vezes você me assusta. — Olhou para o rosto molhado de Rue, lendo a exaustão em seus olhos. — Na verdade, a maior parte do tempo.

Ela riu.

— Vindo de você é um elogio e tanto.

— Pilotar a Black Moclips sozinha como você fez, em um tempo ruim desses, assustaria qualquer um. Devia ter assustado você, mas acho que isso não aconteceu.

— Não muito. — Ela riu mais um pouco, como a garotinha que era por dentro. — Eu a tirei da bruxa, meu grande irmão. Com tripulação e tudo. Foi difícil desistir dela de novo. Mas eu não queria perdê-la.

— Antes ela que você. De qualquer maneira, não precisamos dela mesmo. Se a bruxa não puder tê-la já está de bom tamanho. — Deu um empurrãozinho na irmã. — Desça e coloque uma roupa seca.

Ela balançou a cabeça, teimosa.

— Ainda não preciso trocar de roupa.

— Rue — ele disse, um traço de irritação começando a aparecer em sua voz. — Não discuta comigo. Você discute tudo comigo. Vá e faça isso. Você está encharcada, precisa de roupas secas. Vá se trocar.

Ela hesitou por um momento, e ele ficou com medo de que ela forçasse a barra. Mas então ela lhe deu as costas e desceu pela escotilha para as cabines inferiores, pingando água por todo o convés.

Ele a viu sumir de vista, pensando, assim como ela, que não importava o quanto envelhecessem ou o que acontecesse com eles no futuro, nunca sentiriam nada diferente um pelo outro. Ele ainda seria o grande irmão dela; ela ainda seria sua irmãzinha. Em grande parte, eles ainda seriam os melhores amigos um do outro.

Ele não podia querer coisa melhor.

 

Quando ela voltou, o vento soprava com tanta força que a derrubou de lado. A chuva e a neve haviam parado, mas o ar estava frio o suficiente para congelar as penugens de suas narinas. Novamente aquecida com roupas e botas secas, enrolou seu grande manto mais apertado e forçou seu caminho pelo convés, sem firmeza, até onde seu irmão e Spanner Frew estavam na cabine do piloto. Em frente, as montanhas erguiam-se imensas e escarpadas contra a linha do horizonte, uma massa de picos afiados e escarpas rugosas empilhadas uma em cima da outra até se desvanecerem na distância coberta de brumas.

Ela subiu na cabine do piloto e seu irmão disse na hora:

— Coloque a linha de segurança.

Ela assim o fez, observando que todos os membros da tripulação rover nos conveses abaixo estavam amarrados, curvados para se protegerem do tempo, posicionados nos tubos de fragmentação e encaixando atratores.

Quando olhou para trás, percebeu que o mundo mais além havia desaparecido em uma neblina espessa e escura, levando consigo qualquer sinal das aeronaves que os perseguiam.

Ruivão olhou também.

— Eles desapareceram faz algum tempo. Não sei se desistiram por causa do tempo ou para ir atrás da Black Moclips. Não importa. Eles se foram e isso é o bastante. Temos problemas maiores com os quais lidar.

Spanner Frew gritou alguma coisa para um dos rovers no meio da nave e o tripulante acenou de volta, correndo para apertar um atrator radiano. O Ruivão havia recolhido todas as velas e a Jerle Shannara estava navegando com os mastros nus nas garras dos ventos que a fustigavam de lado com a mesma ferocidade com que haviam castigado a Black Moclips. Rue viu que os atratores radianos haviam sido reconfigurados, amarrados distantes de dois dos seis tubos de fragmentação para alimentar de energia os quatro restantes. Até mesmo aqueles estavam cantando com a vibração do vento, lutando para se livrarem de suas amarras.

— Eu acabei de deixar uma nave em melhor estado do que esta aqui — ela declarou meio que para si mesma.

— Ela estaria em melhor estado se não tivéssemos ido embora tão subitamente para encontrar você! — grunhiu o Ruivão.

Claro que isso não era verdade. Eles teriam ido de qualquer maneira para fugir das aeronaves inimigas, não importando se estivessem procurando por ela ou não. Consertos do tipo que a Jerle Shannara precisava exigiam que a aeronave estivesse parada, e isso não iria acontecer até que pudessem pousar em algum lugar.

— Há algum lugar onde possamos pousar? — ela perguntou, com esperanças.

Spanner Frew deu uma gargalhada.

— Você quer dizer em posição normal? Inclinada em um ângulo bem agudo serve? — Suas mãos trabalhavam as alavancas de pilotagem com movimentos rápidos e ansiosos. — Uma coisa de cada vez. Está vendo aquelas montanhas à nossa frente, Ruivinha? Que parecem com uma muralha enorme? Aquelas contra as quais estamos correndo risco de sermos esmagados?

Ela as viu. Estavam logo adiante, erguendo-se contra a linha do horizonte, barrando-lhes o caminho. Ela olhou de lado e para baixo, e viu, pela primeira vez, como estavam voando alto. No mínimo vários milhares de metros — provavelmente uns dois mil. Mesmo assim não estavam alto o bastante para passarem por cima daqueles picos.

— Virando dez graus a estibordo, Barba Negra — ela ouviu seu irmão ordenar. — Isso. Aí, na direção daquela fenda.

Ela acompanhou o olhar dele e viu uma rachadura nos picos. Era estreita e desapareceu de vista na hora. Poderia levar a um beco sem saída na lateral de uma montanha mais adiante, e, nesse caso, seria o fim deles. Mas Redden Alt Mer podia ler uma passagem melhor do que qualquer um com quem ela já tinha navegado. Além do mais, ele tinha sorte.

— Segurem-se! — ele gritou para a tripulação.

Entraram em disparada entre os penhascos, no desfiladeiro estreito, deslizando nas costas de um vento de proa vicioso que quase os jogou de lado na tentativa. Mais adiante, viram a abertura na inclinação certa. Spanner Frew girou o timão e alimentou toda a energia que pôde para mantê-los firmes. A passagem se estreitou ainda mais e cortou para a esquerda. Rue sentiu os cabelos da nuca se arrepiarem quando as paredes maciças do penhasco se apertaram sobre eles como as mandíbulas de uma armadilha para animais. Estavam tão perto que ela conseguia ver as depressões e riscas na face da pedra. Ela podia ver ninhos de roedores e plantinhas. Não havia espaço para dar meia-volta. Se a passagem não levasse até alguma saída, estariam acabados.

— Firme — seu irmão disse para Spanner Frew. — Devagar agora.

Os ventos haviam mudado de direção e eles não estavam mais sendo atingidos tão violentamente. A Jerle Shannara inclinou-se para a esquerda em resposta ao manejo dos controles por Spanner Frew, deslizando devagar através da fenda. Eles fizeram uma curva bastante fechada, ainda perto demais para que Rue pudesse estender a mão e tocar a rocha. Adiante, o desfiladeiro começava a se alargar e as montanhas se abriram para um vale profundo de floresta.

— Passamos — ela disse, sorrindo aliviada para o irmão.

— Mas ainda não estamos a salvo. — O rosto dele estava sério e tenso. — Olhe adiante. Ali, onde o vale sobe até aquele segundo conjunto de picos.

Ela obedeceu, afastando do rosto mechas soltas de seus longos cabelos ruivos. Havia brechas por toda aquela cordilheira, mas o movimento das nuvens acima sugeria que os ventos eram muito mais turbulentos do que qualquer coisa que já tivessem encontrado antes. Mesmo assim, não havia outro lugar para ir, exceto para trás, e isso era impensável.

Spanner Frew olhou de soslaio para o Ruivão.

— Para onde vamos? Aquela brecha à direita, mais para baixo?

O irmão dela assentiu.

— Onde talvez não seja tão turbulento. Você tem um bom olho. Mas fique bem colado à esquerda para nos dar espaço de manobra quando o vento cruzado nos apanhar.

Navegaram pelo vale através de uma cortina de névoa, cavalgando correntes de ar que corcoveavam e davam trancos como cavalos selvagens. A Jerle Shannara estremecia com os golpes, mas se manteve no curso sob a mão firme de Spanner Frew. Abaixo, as florestas estavam escuras, fundas e silenciosas. Uma vez, Rue avistou uma fina faixa de água onde um riacho serpenteava ao longo do chão do vale, mas não viu sinal de animais nem de pessoas. Gaviões alçavam vôo das encostas, faces ferozes marcadas contra a luz. Além, o céu inteiro estava escuro com a tempestade que haviam deixado do outro lado das montanhas. No resto da paisagem, o horizonte estava cinzento e coberto de nuvens.

Rue escutou o vento cantando pelos cabos tensos da nave. Ela sempre achou que a nave a chamava quando ela ouvia esse som, que estava tentando lhe dizer alguma coisa. Ela sentia isso agora e ficava cada vez mais desconfortável.

Quando chegaram ao outro lado do vale, viraram para a direita, na direção da fenda que seu irmão havia vislumbrado antes, uma rachadura profunda nos picos da segunda cordilheira que oferecia uma passagem tranqüila para o que quer que houvesse além. Mais montanhas, certamente, mas talvez outra coisa também. Ela olhou para o céu, para onde as nuvens deslizavam sobre os picos em explosões de energia assustadoras, sopradas por ventos que desciam canalizados desde o norte. Como o tempo ruim estava todo atrás deles, ela percebeu que aqueles ventos cruzados deviam soprar desse jeito o tempo todo. Eles seriam perigosos, em todo o caso.

A Jerle Shannara subiu e atravessou a fenda, pegando a primeira rajada de vento cruzado e inclinando-se de lado no mesmo instante. Spanner Frew tornou a colocá-la no curso, mantendo-a baixa e à esquerda. Adiante, mais picos e encostas apareciam, placas de pedra despontando da terra como mãos gigantescas erguidas em sinal de alerta. Mas o desfiladeiro serpentava por entre eles oferecendo passagem, e por isso seguiram em frente. Abaixo, o chão do cânion subia cada vez mais à medida que as montanhas se fechavam ao redor e eles eram forçados a voar mais alto.

Rue Meridian respirou fundo e prendeu a respiração, sentindo a tensão irradiar pelo corpo.

— Firme, Barba Negra — ela ouviu seu irmão dizer baixinho. Então uma rajada violenta de vento bateu na aeronave e mandou-a girando de lado, por segundos infinitos e aterradores, até que Spanner Frew conseguisse endireitá-la novamente.

Rue expirou. O Ruivão olhou para ela de relance e abriu um daqueles sorrisos familiares que lhe diziam o quanto ele adorava isso.

— Segurem firme! — ele gritou.

Eles se agarraram pelas viradas e curvas da fenda como uma rolha navegando por uma corredeira, batendo de um lado e de outro, lutando para ficarem firmes a cada volta. Os ventos os fustigavam, em seguida, paravam e logo depois voltavam a atingi-los. Numa das vezes, ele soprou com tanta força a estibordo que eles quase bateram na parede da encosta, por muito pouco não se chocando com um afloramento de rocha que teria rasgado o casco. Rue se agarrava à amurada da cabine do piloto, os nós dos dedos brancos de determinação, pensando que isso era muito pior do que o que haviam encontrado na passagem pelo Squirm, sem contar os pilares de gelo. A qualquer momento poderiam perder o controle completamente e ser esmagados em pedacinhos contra as pedras.

Eles subiram a trezentos metros quando o chão da passagem se elevou mais adiante, forçando-os a ganharem altitude além do que Rue sabia que seu irmão havia esperado ser necessário; os ventos naquela elevação eram fortes e imprevisíveis demais.

Então as montanhas se abriram e bem abaixo eles viram uma vasta floresta coberta por picos espalhados, profundos, impenetráveis a perderem-se de vista na neblina. Haveria um local de pouso lá, um local onde eles pudessem pousar e fazer reparos.

Assim que ela terminou de pensar nisso, o eixo radiano traseiro de bombordo soltou-se do mastro com um estalo e caiu.

No mesmo instante a Jerle Shannara começou a perder energia e deslizar para o lado. Spanner Frew lutou para levantar o nariz dela, mas, sem ambos os tubos de fragmentação de popa em operação, ele não tinha os meios para fazer isso.

— Não consigo endireitá-la! — ele grunhiu frustrado.

— Vela principal! — o Ruivão gritou para a tripulação no mesmo instante.

Kelson Riat e outros dos rovers pularam na hora de onde estavam agachados no meio do navio e começaram a desamarrar os cabos e içar a vela. Sem o uso dos tubos de fragmentação de popa o Ruivão ia ter de confiar nas velas para captar energia. Mas os ventos cruzados eram viciosos, havia uma grande chance de que enchessem a vela grande e levassem a aeronave direto para as encostas como um pedaço de papel.

— Firme, firme, firme... — o Ruivão cantava para Spanner Frew, enquanto este lutava para manter a Jerle Shannara no curso.

Balançando e estalando, a vela principal subiu. Então o vento a atingiu e direcionou a aeronave para a frente com um tranco. Ela estremeceu nas garras fortes do vento e outro dos eixos arrebentou e caiu.

— Sombras! — Redden Alt Mer sibilou. Ele agarrou o timão quando Spanner Frew perdeu o equilíbrio, bateu a cabeça na amurada da cabine de piloto, e desmaiou.

Ainda estavam caindo, mas também aceleravam na direção da fenda, as montanhas se abrindo em ambos os lados. Se conseguissem permanecer elevados o bastante para não baterem nos pedregulhos aglomerados na boca da passagem, poderiam sobreviver. Ia ser por pouco. Rue desejou que a Jerle Shannara se levantasse, implorou silenciosamente que ela se nivelasse. Mas a nave ainda estava caindo, a superfície rochosa da passagem subindo rapidamente a seu encontro.

Seu irmão empurrou as alavancas, que alimentavam de energia os cristais-diapasão, para a frente até o fim e puxou no sentido contrário as alavancas de direção. A aeronave estremeceu novamente, sacudiu e subiu uma última vez. Atravessaram a fenda, irrompendo para o céu claro acima da floresta. Mas, enquanto fazia isso, a parte inferior do casco raspou nos pedregulhos abaixo, fazendo um terrível ruído de raspagem e de algo se rasgando. A Jerle Shannara estremeceu e em seguida mergulhou, a proa descendo íngreme, apontando para a esquerda e na direção da floresta trezentos metros abaixo. O vento cruzado voltou, súbito e perverso, agarrando com força a nave aleijada. A vela principal inflou quando vários de seus cabos arrebentaram e a Jerle Shannara despencou.

Agarrando-se ao seu colete de segurança e à amurada da cabine do piloto, Rue Meridian pensou que estavam todos mortos. Caíram em espiral, fora de controle, as copas das árvores se aproximando ao seu encontro com uma velocidade estonteante. Seu irmão, ainda lutando para levantar a proa, soltou um palavrão. Os membros da tripulação deslizavam pelo convés. A linha de segurança de um deles se rompeu e ela conseguiu apenas vê-lo de relance quando ele caiu pela lateral da nave e desapareceu.

Então o vento cruzado mudou de direção, ondulando pela face da encosta e carregando a Jerle Shannara de lado para as rochas. Rue teve apenas um instante para ver a parede da encosta voar na direção deles antes que se chocassem, estilhaçando madeira e metal. Ela perdeu seu contato tanto na linha de segurança quanto na amurada e voou direto para o painel de controle da cabine do piloto. A dor percorreu seu braço esquerdo e ela sentiu os pontos em seu flanco e perna feridos cederem. Sua linha de segurança arrebentou e então ela caiu em cima de seu irmão, que estava se agarrando desesperadamente às inúteis alavancas de pilotagem.

Um instante depois, tudo ficou escuro.

 

Quando terminou de enrolar as bandagens ao redor do torso ferido da Ruivinha, Redden Alt Mer estava pensando que piores as coisas não poderiam ficar. Então, Spanner Frew subiu correndo os degraus da cabine do piloto e se ajoelhou ao lado dele.

— Perdemos todos os cristais-diapasão pelo rasgo no casco — ele anunciou mal-humorado. — Caíram em algum lugar lá embaixo.

Ele fez um gesto que deixava claro que algum lugar lá embaixo era a selva sob o precipício de madeira no qual a Jerle Shannara havia finalmente encontrado descanso, uma impenetrável cobertura verde de topos de árvores e lianas que se estendiam por quilômetros desde a face da encosta.

Alt Mer equilibrou-se sobre os calcanhares e ficou olhando o construtor naval como se ele estivesse falando em um idioma estrangeiro.

— Todos?

— Estavam todos em um só caixote. O caixote caiu através de um buraco aberto no casco. — Spanner Frew estendeu a mão para tocar o corte em sua testa, fazendo uma careta. — Como se eu precisasse de mais uma dor de cabeça!

— Podemos voar com os que temos?

O construtor naval balançou a cabeça.

— Estamos reduzidos a três. Perdemos o tubo dianteiro de bombordo e tudo o mais com ele no pouso. O que sobrou poderia permitir que voássemos num tempo tranqüilo, mas não vamos conseguir decolar. Se tentarmos, simplesmente tombaremos de lado e cairemos em cima das árvores com os cristais.

Ele suspirou.

— O negócio é que, tirando isso, até que passamos por tudo muito bem. Temos madeira para consertar o buraco no casco. Temos atratores e presilhas extras. Temos muitas velas. Até mesmo as traves e o mastro podem ser consertados, com um pouco de tempo e de esforço. Mas não podemos ir a parte alguma sem aqueles cristais. — Ele esfregou a barba. — Como está a Ruivinha?

Redden Alt Mer olhou para a irmã. Ela ainda estava inconsciente. Ele a havia deixado dormir enquanto cuidava dos ferimentos dela, mas achou que a acordaria dali a pouco, só para ver se ela não havia sofrido nenhuma concussão. Também precisava saber se havia algum dano interno que não conseguia ver.

— Ela vai ficar bem — disse com um sorriso reconfortante. Não tinha a menor certeza disso, mas não havia por que preocupar o Barba Negra desnecessariamente. Ele já tinha o bastante para atormentá-lo. — Quem foi que caiu pela amurada?

— Jahnon Pakabbon.

O Ruivão fez uma careta. Era um bom homem. Mas todos eram bons homens, e por isso haviam sido escolhidos para a viagem. Não havia ninguém ali que ele suportasse perder, quanto mais se dar ao luxo disso. Conhecia Jahnon Pakabbon desde que eram crianças. O rover silencioso e de temperamento tranqüilo tinha o dom da inovação, além de suas habilidades de navegação.

— Está certo. — Ele se forçou a parar de pensar nisso, a se concentrar no problema em questão. — Precisamos descer lá e trazê-lo. Vamos procurar os cristais quando pudermos. Escolha dois homens para irem comigo e certifique-se de que você não seja um deles. Preciso de você para trabalhar nos reparos. Não queremos ficar presos aqui mais do que o necessário. Aquelas aeronaves com seus mwellrets e seus mortos-vivos virão nos procurar muito em breve. Não quero estar por perto quando isso acontecer.

Spanner Frew grunhiu, levantou-se e desceu os degraus da cabine do piloto. A Jerle Shannara estava inclinada a bombordo em um ângulo de vinte graus, talvez a cem metros do precipício, o chifre curvo de seu pontão de estibordo enfiado em um aglomerado de pedregulhos. Não havia muito perigo de que ela deslizasse pelo abismo, mas estava completamente exposta a qualquer coisa que voasse sobre ela. Atrás, retrocedendo por talvez cem metros, uma plataforma de floresta despontava da face da encosta da montanha sobre a qual eles haviam se acomodado. Tiveram sorte de estarem vivos depois de uma batida daquelas, sorte de não terem caído na selva abaixo, da qual a retirada teria sido impossível. O fato de que a Jerle Shannara não havia se quebrado em um milhão de pedaços era um testemunho de sua construção e design. Podiam dizer o que quisessem de Spanner Frew, mas ele sabia construir uma aeronave.

Mesmo assim, eles estavam aprisionados, sem um número suficiente de cristais-diapasão para alçar vôo, um membro da tripulação a menos e completamente perdidos numa terra estranha. O Ruivão era normalmente otimista em relação a situações difíceis, mas naquele caso particular, ele não achava que suas chances fossem lá muito grandes.

Olhou para o céu, onde nuvens e neblina pendiam como uma cortina ao longo do horizonte, ocultando o que havia mais adiante em todas as direções. Nada era visível, a não ser o teto esmeralda da selva e as pontas de alguns picos próximos, deixando-o com a sensação desagradável de estar preso em uma ilha rochosa, suspenso entre a névoa cinzenta e o mar verde.

— Spanner! — Alt Mer gritou subitamente. O construtor naval atarracado voltou até embaixo da cabine e olhou-o. — Corte alguns troncos, amarre um bloco e uma cordualha e vamos tentar levar a nave até aquelas árvores. Não gosto de ficar exposto deste jeito.

O homenzarrão virou-se sem dizer palavra e desapareceu na lateral da nave. O Ruivão podia ouvi-lo gritando novamente com os tripulantes, espicaçando-os com seu vocabulário de estaleiro. Ele escutou por um momento e balançou a cabeça. Sentia saudades de Hawk, que estava sempre um passo adiante em saber o que precisava ser feito. Mas o Barba Negra era também capaz, ainda que um pouco irritante. Mas era só lhe dar alguma orientação e ele fazia o serviço.

Redden Alt Mer voltou a atenção para a sua irmã. Curvou-se e sacudiu-a de leve. Ela gemeu e virou a cabeça para o outro lado, e então tornou a dormir. Ele voltou a sacudi-la, desta vez com um pouco mais de firmeza.

— Rue, acorde.

Os olhos dela piscaram, se abriram e ela ficou olhando para ele. Por um momento não disse nada. Então suspirou, cansada.

— Eu já passei por isso antes: voltar da beira do abismo e encontrar você esperando. Como um sonho. Ainda estamos vivos, não estamos?

Ele assentiu.

— Embora um de nós esteja bem ruinzinho.

Ela olhou para baixo e viu as bandagens enroladas ao redor do seu torso e de sua perna, onde as roupas foram cortadas, e a tala no braço.

— Estou muito mal?

— Você não vai poder voar para resgatar ninguém por algum tempo. Quebrou o braço e várias costelas. As feridas de faca na sua coxa e no seu flanco se abriram. Você apanhou bastante, tudo sem a ajuda de um mwellret sequer.

Ela começou a rir baixinho, depois fez uma careta.

— Não me faça rir. Dói muito. — Levantou a cabeça e olhou ao redor, abarcando o máximo possível, e então tornou a se deitar. — Parece que não estamos voando, então acho que não sonhei que havíamos batido. Estamos todos inteiros?

— Mais ou menos. Houve danos, mas podem ser reparados. O problema agora é que não podemos voar. Perdemos todos os nossos cristais-diapasão através de uma brecha no casco. Tenho de levar uma equipe de busca para o vale lá embaixo e encontrá-los para podermos sair daqui. — Ele deu de ombros. — Graças às suas estrelas da sorte, não foi pior.

— Estou ocupada agradecendo a elas por ainda estar viva. Que qualquer um de nós esteja vivo. — Ela umedeceu os lábios então ressequidos. — Tem alguma coisa para beber que não venha de uma fonte?

Ele passou para ela uma bolsa com cerveja, ajudando-a a segurá-la enquanto bebia em grandes goles.

— Está machucada em algum lugar que não posso ver? — perguntou quando ela acabou. — Um pouco de honestidade não faria mal, a propósito.

Ela balançou a cabeça.

— Nada que você já não tenha tratado. — Ela limpou a boca e suspirou profundamente. — Ótimo. Mas estou realmente cansada.

— Então é melhor você dormir. — Ele ajeitou o pedaço de vela rasgada, que havia dobrado debaixo da cabeça de Rue como travesseiro, e acomodou as dobras esfarrapadas do grande manto da irmã ao redor de seus braços e pernas. — Aviso você quando acontecer alguma coisa.

Os olhos de Rue se fecharam na hora, e era isso o que ele esperava, dada a força da poção sonífera que havia derramado na bebida dela. Pegou a bolsa de cerveja e enfiou-a em um compartimento numa das laterais do painel de controle, fora de vista, mas pronta para ser usada se ele precisasse novamente. Mas ela não acordaria por doze horas ou mais, se ele havia medido direito a dosagem. Olhou-a, sua irmãzinha, dura como pedra e tão ansiosa para demonstrar isso que teria insistido em se levantar se ele não a tivesse drogado. Ela o confundia às vezes, de modo que estava sempre tentando provar que tinha valor, como se já não tivesse feito isso uma dezena de vezes. Mas era melhor ser assim, ele supunha, do que ser conformada com o andamento das coisas. Sua irmã definia o padrão e estava sempre procurando aprimorá-lo. Ele até podia desejar mais pessoas como ela, mas não as encontraria, por mais que procurasse. Ruivinha só existia uma.

Bocejou, achou que um pouco de sono também não lhe faria mal, e, então, foi até a amurada da nave e olhou para Spanner Frew e os outros, enquanto colocavam os troncos sob os pontões. O bloco e a cordualha já estavam em seus lugares, amarrados a um imenso carvalho velho, com as pontas da corda presas a anilhas de ferro que haviam sido aparafusadas nos aríetes de proa, logo acima da linha-d’água.

— Nós bem que precisamos de mais um par de mãos! — o construtor gritou para o Ruivão ao pegar as cordas frouxas com um grunhido bem alto.

Redden Alt Mer desceu a escada da nave e se juntou aos outros que pegavam a corda principal, se posicionaram e começaram a fazer força contra o peso da aeronave. Mesmo depois que ela havia sido puxada para fora das pedras e endireitada para que os pontões repousassem sobre os troncos, a Jerle Shannara era difícil de movimentar. No fim das contas, o Ruivão foi com três homens para a proa e começou a balançá-la. Depois de um esforço considerável e uma torrente de palavrões, ela começou a se mover. Assim que começou a rolar, eles trabalharam com rapidez. Puxando as cordas com firmeza, rotacionaram os troncos sob os flutuadores enquanto a nave caía para trás, até que a colocaram a cerca de uns trinta metros na planura exposta e em uma mistura de árvores e arbustos.

Depois de retirar o bloco e a cordualha e de soltar as cordas, Redden Alt Mer ordenou a Kelson Riat e ao grande rover, que chamava a si mesmo de Rucker Bont, que cortassem alguns dos arbustos e os espalhassem pelos conveses da aeronave como camuflagem. Eles levaram apenas um pouco de tempo para mudar a aparência dela suficientemente e satisfazer o capitão rover. Com todas as velas abaixadas e o convés parcialmente tapado, a Jerle Shannara poderia fazer parte da paisagem, um montículo de pedras e arbustos ou uma pilha de lenha.

— Bom trabalho, Barba Negra — ele disse a Spanner Frew. — Agora veja o que pode fazer com esse buraco na lateral enquanto dou uma olhada lá embaixo em busca daqueles cristais.

O homenzarrão assentiu.

— Escalei Bont e Tian Cross para lhe fazerem companhia. — Pegou o braço do capitão e o apertou. — A Ruivinha e eu não estaremos lá para tomar conta de você. Cuide-se.

Redden Alt Mer lhe deu um sorriso de garoto e umas palmadinhas na mão grande e retorcida do outro.

— Sempre.

 

Desceram a face da encosta em fila indiana, o Ruivão na frente, marcando o passo, e encontrando a rota mais favorável para seguirem. Não era uma descida particularmente íngreme ou longa, mas um passo em falso poderia resultar em uma queda feia; portanto, os três homens tomaram cuidado e avançaram sem pressa. Eles usaram cordas como linhas de segurança onde a descida era mais íngreme; as outras seções, onde a encosta ficava mais larga e havia apoios para os pés na rocha escarpada, navegaram por conta própria. Agora a tarde já ia pelo meio e a luz enevoada estava começando a desaparecer quando o sol deslizou por trás do teto das nuvens e da neblina. O Ruivão lhes deu mais três horas no máximo antes que ficasse escuro demais para continuar a busca. Não havia tanto tempo quanto ele teria gostado, mas, às vezes, era assim mesmo. Era preciso tirar o melhor possível de algumas situações. Se lhes faltasse tempo naquele dia, simplesmente teriam de tentar novamente no dia seguinte.

A descida levou quase uma hora, e quando penetraram por entre as árvores, tudo estava muito mais escuro. O teto de galhos e lianas era tão espesso que quase nenhuma luz penetrava no chão da floresta. Como resultado, o mato rasteiro do chão não era tão espesso quanto Ruivão havia esperado, e por isso, conseguiram avançar de modo relativamente fácil. Descobriram rapidamente que estavam em uma floresta tropical, a temperatura no chão do vale muito mais elevada do que nas montanhas. O ar era abafado, úmido e tinha cheiro de terra e de plantas. A vida era abundante. Samambaias cresciam em toda parte, algumas delas muito altas e largas, outras pequenas e frágeis. Embora a maioria fosse verde, outras eram de um branco leitoso e outras ainda de um vermelho ferrugem. Seus pequenos brotos se desenrolavam como dedinhos de bebês, esticando-se em busca da luz. Lesmas se arrastavam gosmentas pela terra, deixando trilhas de umidade, pegajosas e brilhantes. Borboletas adejavam de um lugar para outro em manchas brilhantes de cor e pássaros disparavam pelo teto de mata tão rápido que o olho mal conseguia acompanhá-los. De vez em quando eles os ouviam cantar, uma mistura de canções que pareciam vir de todos os lugares ao mesmo tempo.

A atmosfera era estranha, vagamente perturbadora, e todos sentiram a mudança imediatamente. O som do vento havia desaparecido. Sobre tudo jazia um silêncio quebrado apenas pelo cantar dos pássaros e zumbidos dos insetos. Nos silêncios intermediários, havia uma sensação de expectativa, como se tudo estivesse esperando pelo próximo som ou movimento. Eles tinham a sensação inconfundível de estarem sendo observados por coisas que não podiam ver, de olhos os seguindo por toda parte.

Algum tempo depois, fizeram uma parada enquanto Ruivão fazia uma leitura de sua bússola. Seria fácil demais se perderem ali, e ele não ia deixar isso acontecer. Tinha apenas uma vaga idéia de onde procurar o corpo de Jahnon e os cristais-diapasão perdidos; por isso, o melhor que poderiam fazer seria navegar com essa intuição e torcer para terem sorte.

Ele olhou ao longe, no meio da névoa, pensando por um momento na direção que sua vida havia tomado. Até que poderia também efetuar uma leitura de bússola dela. Na melhor das hipóteses, ele estava vagando sem rumo, indo por um caminho e depois por outro, uma nave sem destino particular em mente. Estava tão perdido de modo geral, que não devia desperdiçar um minuto sequer se preocupando em se perder ali. Ele até poderia argumentar o contrário — como fazia com freqüência —, mas não mudaria a verdade das coisas. Sua vida, por tanto tempo quanto ele podia se lembrar, havia consistido em uma fuga atrás da outra. Rue tinha razão quanto às suas vidas como mercenários. Na maioria das vezes, ficavam concentrados no tamanho da bolsa de dinheiro oferecida. Esta era a primeira vez que haviam aceitado um trabalho por acreditarem que havia algo mais em jogo além de dinheiro.

Mesmo assim, que diferença isso fazia? Eles ainda estavam lutando por suas vidas, ainda vagando como naves sem rumo, ainda perdidos no mundo mais amplo.

Será que a Ruivinha agora sentia que ter vindo nesta viagem valera a pena?

Ele supunha que estava repensando sua própria vida por causa da dela. Ela havia se ferido duas vezes nas últimas duas semanas, e em ambas as vezes quase morrera. Já era ruim o bastante ele arriscar sua própria vida assim tão livremente; deveria tomar cuidado para não arriscar a dela. Sim, ela era uma mulher adulta e capaz de decidir por conta própria se queria ou não aceitar aquele risco. Mas ele também sabia que ela cuidava dele, seguia-o e acreditava nele sem pestanejar. Ela sempre fizera isso. Gostasse ou não, isso lhe dava certa responsabilidade pela segurança da irmã. Talvez estivesse na hora de dar alguma atenção a essa responsabilidade.

Diziam que ele tinha sorte. Mas a sorte podia acabar, mais cedo ou mais tarde. No caso dele, as chances estavam ficando cada vez menores. Se ele não encontrasse um jeito de mudar isso, ia pagar caro. Ou pior, Rue pagaria.

Retomaram a caminhada, abrindo caminho através da selva, e não haviam avançado duzentos metros quando Tian Cross avistou o caixote de madeira que continha os cristais caído em uma depressão funda que o próprio caixote havia criado. Incrivelmente, ele ainda estava intacto, se bem que um tanto deformado; os pregos e os arames grossos que o seguravam o haviam mantido inteiro, apesar da queda do precipício.

Ruivão se agachou para examiná-lo. O caixote tinha talvez um metro de largura e pesava cerca de cem quilos. Um homem forte podia carregá-lo, mas não iria muito longe. Pensou em retirar vários dos cristais e enfiá-los em suas roupas. Mas eram pesados e desajeitados demais para isso. Além do mais, ele queria recuperar todos, não apenas alguns. Levariam mais tempo para retirar todo o caixote, mas não havia motivo para pensar que na longa jornada para casa eles pudessem não precisar novamente de cristais sobressalentes.

Levantou-se, pegou a bússola e efetuou outra leitura.

— Capitão — Rucker Bont chamou-o.

Ele levantou a cabeça. O rover grandalhão estava apontando para adiante. Havia uma fenda distinta na parede da selva, onde não havia árvores e arbustos e uma luz enevoada descia inundando o teto da mata. Era uma clareira, a primeira que encontravam.

Alt Mer fechou a tampa da bússola e enfiou o instrumento no bolso novamente. Alguma coisa na quebra da parte mais alta da floresta não parecia certa. Ele avançou por entre árvores e lianas para olhar mais de perto, deixando os cristais onde estavam. Os outros dois rovers foram atrás. Ali, a vegetação era mais espessa e eles levaram vários minutos para chegar à margem da clareira, onde reduziram o passo até pararem de repente e, ainda dentro da borda das árvores, olharam surpresos.

Uma parte da floresta havia sido arrasada em ambos os lados de um riacho preguiçoso que serpenteava por entre a densa vegetação rasteira, suas águas tão paradas que mal se moviam. Árvores haviam sido derrubadas, arbustos e relva haviam sido amassados e a terra tão revolvida que mais parecia um campo arado. Um buraco havia sido aberto nas árvores e fazia um túnel que descia pela extensão do riacho e desaparecia na neblina.

Rucker Bont assoviou baixinho.

— O que você acha que fez isso?

Ruivão deu de ombros.

— Uma tempestade, talvez.

Bont grunhiu.

— Talvez. Mas também pode ter sido o vento. — Fez uma pausa. — Também pode ter sido algo maior do que nós que viva lá embaixo.

Com seus olhos dardejando vigilantes para a esquerda e para a direita, Ruivão saiu dentre as árvores e entrou na clareira, caminhando cuidadosamente pela terra devastada e revolvida. Os outros dois aguardaram um instante, e então seguiram. No centro da clareira, ele se ajoelhou para procurar rastros, esperando não encontrar nenhum. Não encontrou, mas o terreno estava tão revolvido que ele não podia ter certeza do que estava vendo.

Olhou para cima.

— Não estou vendo nada.

Rucker Bont chutou a terra com a bota, olhou para Tian Cross e depois de novo para Alt Mer.

— Quer que eu dê uma olhada por aí?

Ruivão olhou a extensão coberta de destroços do riacho, descendo o túnel que se enfiava dentro das árvores. Em alguns pontos a destruição era tão grande que os barrancos nas margens do riacho haviam desabado completamente. Galhos de árvores e troncos atravessavam o leito do riacho, barreiras de madeira que se projetavam em todas as direções, e tinham cheiro de folhas rasgadas e madeira recém-arrancada. Tudo o que ele estava vendo parecia errado para uma tempestade ou uma enchente. O dano era contido demais, geométrico demais, não era aleatório. Talvez Bont não estivesse tão errado quanto ele havia pensado. Aquilo tinha jeito de coisa feita por um animal muito grande e muito poderoso.

Subitamente consciente de uma mudança na floresta, ele se levantou devagar. Os pássaros e as borboletas que viram, em tamanha profusão, há apenas alguns minutos desapareceram completamente e a selva estava muito silenciosa. Por instinto, levou a mão ao cabo da espada.

Foi então que ele viu Jahnon Pakabbon, os olhos atraídos para o cadáver como se alguém o tivesse apontado para ele. Do outro lado da clareira, a menos de quinze metros. Pakabbon estava estirado sobre uma pilha de rochas e lenha. Só que ele não se parecia com o que era quando estava vivo, e só a queda não seria responsável por essa mudança. Seu corpo havia sido despido de sua carne, e seus órgãos, chupados. Suas roupas pendiam sobre ossos luzidios. Os olhos estavam faltando. A boca estava aberta em um grito sem som e parecia estar tentando morder alguma coisa.

Quase nesse mesmo instante, Redden Alt Mer avistou a criatura. Ela estava agachada exatamente em cima de Jahnon, tão verde e marrom quanto a selva que a ocultava. Ele poderia nem tê-la visto se a luz não tivesse mudado só um pouquinho enquanto olhava o cadáver de Pakabbon. Pensando em recuperar os restos de seu amigo, ele poderia ter caminhado direto para lá sem perceber que aquilo estava ali. Estava tão bem escondido que mesmo com seu tamanho enorme — e tinha de ser imenso, a julgar pela sua enorme cabeça — era praticamente invisível. Tudo o que Redden Alt Mer podia ver dela agora era um focinho adunco de réptil com olhos tapados e pele sarapintada que pendia sobre o cadáver de Jahnon como um martelo prestes a cair.

Ele não teve chance de alertar Rucker Bont e Tian Cross. Não teve chance de fazer nada. Redden Alt Mer só havia percebido para o que estava olhando quando a criatura atacou. Ela se catapultou para fora da selva, saindo de seu esconderijo num borrão de movimento de pernas atarracadas e poderosas, e agarrou Tian Cross em suas mandíbulas antes que o rover percebesse o que estava acontecendo. Tian deu um único grito, e então as mandíbulas se apertaram, os dentes afiados como agulhas penetraram na carne, e havia sangue por toda parte.

Há muito tempo Redden Alt Mer não entrava em pânico, mas naquele momento, ele entrou. Talvez fosse por causa da rapidez do ataque da criatura. Talvez fosse pelo seu aspecto, uma espécie de lagarto, todo cheio de placas e chifres, ou pelo seu imenso tamanho, recuando com o corpo esmagado de Tian Cross pendendo entre as mandíbulas. Ele jamais vira uma criatura tão grande se mover tão rápido. Saíra das árvores, de seu esconderijo, com a rapidez de uma cobra dando o bote. Ele ainda podia ver aquele movimento em sua mente, podia sentir o terror que ela induzia percorrendo seu corpo como o toque de metal quente.

Gotas de sangue choveram sobre ele quando o lagarto balançou o cadáver de seu amigo como se fosse um brinquedo.

Redden Alt Mer disparou floresta adentro. Nem parou para pensar no que estava fazendo. Jamais sequer pensou na possibilidade de tentar ajudar Tian. Tian estava morto, não havia nada que ele pudesse fazer para ajudá-lo, mas não era por isso que ele estava fugindo. Ele fugia porque estava aterrorizado. Ele fugia porque sabia que se não fizesse isso iria morrer.

Fugir era tudo em que ele conseguir pensar.

No começo, pensou que a criatura não iria atrás, que estava ocupada demais com sua caça para se incomodar. Mas em poucos segundos, ele a ouviu se aproximando, quebrando galhos e arbustos, arrancando folhas e talos, a terra sacudindo com o peso e a força de seu corpo maciço. Ela explodiu pela floresta como uma máquina de guerra desgovernada. Ruivão acelerou o passo, muito embora achasse que já estava dando o máximo de si. Disparou e driblou a folhagem mais densa até voltar onde as árvores se abriam, e então deu um novo impulso de velocidade. Jogou de lado suas armas desajeitadas, inúteis de qualquer maneira contra tamanho leviatã. Ficou mais leve para poder voar, e ainda assim se sentia como se estivesse acorrentado.

Alt Mer só olhou para trás uma vez. Rucker Bont estava correndo tão rápido quanto ele, apenas alguns passos atrás, o rosto lívido e cheio de terror, um espelho do seu próprio rosto. O lagarto, correndo atrás dos dois em uma mancha de verde e marrom, mandíbulas abertas, estava logo atrás.

— Capitão! — Bont gritou frenético.

Alt Mer o ouviu berrar. O lagarto o estava rasgando, e os sons da morte de seu amigo acompanharam o capitão rover em sua fuga.

Sombras! Sombras!

Não olhou mais para trás. Não conseguiria suportar. Só podia correr e continuar correndo, fechando tudo dentro de si, menos o medo. Era o medo que o impulsionava. O medo o dominava.

Ele chegou à parede da encosta e subiu-a correndo desajeitadamente, mal sentindo as pedras afiadas e a corda áspera. Havia esquecido os cristais e o corpo de Jahnon. Havia esquecido suas esperanças de uma saída rápida daquele lugar. Seus companheiros jaziam mortos no vale abaixo. Suas armas, jogadas fora. Não pensou em nada disso. Não tinha cabeça para pensar. Não lhe havia sobrado nada, a não ser uma necessidade frenética e desesperada de fugir — não tanto do que o perseguia quanto o que ele estava sentindo. Seu medo. Seu terror. Se ele não fugisse disso, sabia, se não fugisse rápido o bastante, aquilo o consumiria.

Ganhou as alturas depois de incontáveis minutos de escalada, através da luz esmaecida da tarde e da neblina profunda de um crepúsculo que se aproximava. Nunca parou para ver se estava sendo perseguido, e foi só quando as mãos grandes de Spanner Frew se estenderam para puxá-lo sobre a beira do precipício que ele percebeu como estava tudo em silêncio.

Olhou para trás, surpreso. Não havia nada atrás dele, nenhum sinal do lagarto, nenhum movimento, nenhum som, nada. A selva o havia engolido e tudo estava tão tranqüilo e silencioso quanto a superfície do mar depois de unia tempestade.

Spanner Frew viu-lhe o rosto, e a luz em seus próprios olhos escureceu.

— O que houve? Onde estão os outros?

Redden Alt Mer olhou para ele, incapaz de responder.

— Mortos — ele disse finalmente.

Olhou para suas mãos e percebeu que elas estavam tremendo.

 

Mais tarde, naquela noite, quando os outros estavam dormindo e ele estava sozinho, resolveu acordar sua irmã e contar a ela o que havia feito. Contaria a ela não só que não conseguira recuperar os cristais nem Jahnon Pakabbon, e que os homens que haviam ido para o vale com ele estavam mortos, mas que ele havia entrado em pânico e fugido. Seria seu primeiro passo para a recuperação, para encontrar um caminho de volta daquele lugar escuro no qual havia caído. Sabia que não conseguiria viver consigo mesmo se não achasse um jeito de encarar o que havia acontecido. Isso começaria quando ele contasse para Rue, de quem não guardava segredos, a quem ele tudo confessava. Ele não vacilaria em sua história agora, lançando sobre si mesmo a luz mais desfavorável que pudesse imaginar. O que ele havia feito era impensável. Ele deveria se confessar com ela e procurar absolvição.

Mas quando se levantou, foi até ela e ficou olhando para baixo, imaginou como sentiria sua confissão. Podia ver-lhe o rosto enquanto escutava suas palavras, mudando pouco a pouco, refletindo sua perda de orgulho e confiança nele, revelando seu desgosto pelas ações de seu irmão. Podia ver a maneira como os olhos de Rue ficariam escuros e velados, ocultando sentimentos que ela jamais havia experimentado, mudando tudo entre os dois. Rue, a irmãzinha que sempre cuidara dele.

Ele não poderia suportar isso. Ficou ali nas sombras, sem se mover, estudando o rosto dela, deixando o momento passar, e então saiu.

De volta ao convés, bem distante de onde o vigia montava guarda na proa da aeronave, olhando para a cavidade escura do vale, recostou-se no mastro principal e ficou olhando o céu noturno. Reflexos de uma meia-lua e aglomerados de estrelas eram visíveis por entre frestas nas nuvens. Ficou olhando o jeito como elas iam e vinham, pensando em sua pouca coragem e grande hesitação.

Depois de algum tempo, deslizou até ficar sentado, encostado na madeira áspera, e reclinou a cabeça. Tão imóvel quanto o próprio mastro, ele se perdeu na fúria de sua amarga autocondenação, e com a manhã ainda a horas de distância e a redenção ainda mais distante, fechou os olhos e adormeceu.

 

A prisionado nas entranhas da nau capitania do Morgawr, Ahren Elessedil cavalgava a tempestade que havia derrubado a Jerle Shannara. Ele não estava acorrentado à parede como Bek ficara quando fora prisioneiro na Black Moclips um dia antes, mas fora deixado livre para vagar dentro do aposento trancado. A tempestade os havia apanhado quando voavam para o norte, para o interior da península, agarrando a aeronave como a mão de um gigante, jogando-a de um lado para outro e finalmente se cansando do jogo, pondo-a de lado. Com a única janela do aposento travada e a porta trancada, ele não conseguia ver nada além das paredes de sua prisão, mas podia sentir a fúria da tempestade. Podia sentir como ela atacava a aeronave e brincava com ela, como ameaçava reduzi-la a uma pilha estilhaçada de lascas de madeira e fragmentos de ferro. Se fizesse isso, os problemas dele chegariam ao fim.

Em seus momentos mais torturantes, ele pensou que talvez fosse melhor assim.

Cúmplice contra a vontade na busca do bruxo pela bruxa Ilse, ele fora levado a bordo pelo Morgawr e seus mwellrets, depois de deixar as ruínas de Castledown, diretamente ao seu confinamento atual. Um guarda havia sido colocado do lado de fora, mas desaparecera pouco depois que a tempestade havia começado e não voltara. Logo antes disso, eles haviam lhe trazido um pouco de comida e água, uma pequena medida de ambos e apenas o bastante para evitar que ele perdesse as forças inteiramente. Nenhum esforço de comunicação com ele foi feito. Da maneira como o Morgawr havia deixado as coisas, ficava claro que ele só seria levado quando sentissem que ele poderia ser útil de alguma forma.

Ou quando finalmente chegasse a hora de descartá-lo. Ele não tinha ilusões a esse respeito. Mais cedo ou mais tarde, sem contar com as promessas, esse tempo chegaria.

Ryer Ord Star havia desaparecido com o bruxo, e o príncipe elfo ainda não tinha uma idéia clara de por que ela se voltara contra ele. Não parou de ponderar a questão, nem mesmo durante a tempestade, sentado e se segurando em um canto do depósito, pressionado contra uma parede, entre dois fardos de palha pesados, para evitar ser derrubado. Ela fora usada pela bruxa Ilse por vontade própria e não era preciso um grande salto de fé para aceitar que ela tomaria o mesmo caminho com o Morgawr se achasse que isso significava a diferença entre viver e morrer. Walker estava morto, e dera a ela tanto forças quanto um objetivo. Sem ele, ela parecia mais frágil, menor, mais vulnerável — um fio de vida que um vento forte podia soprar para longe.

Mesmo assim, Ahren havia pensado que ela era sua amiga, que ela havia aceitado o que tinha feito e fechado essa porta atrás de si. Que o traísse agora, revelasse sua identidade e sugerisse ao seu inimigo uma utilidade para ele era demais para suportar. Gostasse ou não, ele tinha a impressão desagradável de que ela estivera mentindo o tempo todo.

Mas ela havia claramente pronunciado as palavras confie em mim depois de terem se tornado prisioneiros. Por que ela faria isso se não tentasse fazê-lo saber que ainda era sua amiga?

Que tipo de engodo ela estaria preparando?

Ele voltou a pensar nas pedras élficas. Simplesmente não conseguia entender o que havia acontecido a elas. Certamente estiveram com ele em Castledown. Ele se lembrava com muita clareza de tê-las enfiado em sua túnica. Não achava que pudesse tê-las perdido desde então, não via como isso era possível, portanto, alguém devia tê-las pegado depois que ele fora nocauteado. Mas quem? Ryer Ord Star era a suspeita lógica, mas Cree Bega a tinha revistado. Além disso, como ela poderia tê-las apanhado depois que os mwellrets os fizeram prisioneiros? Isso deixava Cree Bega ou outro dos mwellrets como suspeitos, mas seria preciso um ato de suprema coragem ou imbecilidade tentar ocultar as pedras do Morgawr. Ahren não achava que os mwellrets fossem arriscar.

Ainda pelejava com sua confusão quando a tempestade amainou e a nave voltou a um deslizar suave e fácil pelos céus que clareavam. Ele podia ver que o sol havia reaparecido pelo súbito brilho entre as frestas dos postigos da janela, e podia sentir o ar limpo e cortante que sempre se seguia a uma tempestade pesada. Ele estava em pé, com o rosto encostado contra os postigos ásperos, tentando ver alguma coisa além do brilho, quando a trava em sua porta se soltou com um estalo. Virou-se. Um mwellret entrou, mudo e sem expressão, trazendo uma bandeja com comida e água. O mwellret olhou ao redor para se certificar de que nada estava fora do lugar, e então colocou a bandeja no chão, perto da entrada, recuou, fechou a porta e trancou-a.

Ahren comeu e bebeu, mais faminto e sedento do que havia imaginado, e ouviu a atividade renovada nos conveses acima, o súbito movimento de botas entre um rumor de gritos e exclamações abafadas. A aeronave balançou várias vezes, rodopiando, manobrando em uma série de arranques e paradas bruscas. Os que a navegavam não tinham experiência ou eram ruins de manobra. Além de notar que eram sulistas — trabalhadores contratados e marinheiros da federação, assim como aqueles que ele combateu nas Prekkendorran — não prestou atenção nos marinheiros quando fora levado a bordo antes. Passara a maior parte do tempo estudando os conveses e corredores pelos quais foi conduzido, pensando que em algum momento ele poderia ter uma chance de fugir e precisaria saber o caminho.

Fechou os olhos e respirou fundo para se firmar. Essa esperança parecia impossivelmente ingênua agora.

Uma sacudidela súbita o jogou para trás e derrubou a bandeja de lado, esparramando seu conteúdo. Um roçar lento de troncos de madeira e um ranger de metal sugeriam que eles estavam se esfregando em alguma coisa grande. Ele se esparramou no chão quando a nave parou com um tranco. Ouviu mais atividade acima. Por um instante, achou que estavam engajados em combate, mas então os sons morreram. Mesmo assim, o movimento da nave havia mudado, o planar suave e fácil de antes substituído agora por um balançar mais rígido, como se a nave estivesse repousando contra algo sólido.

Então a porta de sua prisão voltou a se abrir e Cree Bega entrou, acompanhado por mais dois mwellrets. O último foi até onde ele estava sentado, levantou-o bruscamente e o impeliu na direção da porta aberta.

— Venha conossco, pequeno elfo — ordenou Cree Bega.

Eles o levaram de volta ao convés. A luz do sol era tão brilhante que no começo ele ficou cego. Estava em pé, agarrado pelos mwellrets, apertando os olhos contra o brilho para ver um aglomerado de figuras reunidas adiante. A maioria delas era de mwellrets, mas havia marinheiros da federação também. Os marinheiros estavam de queixo caído, os rostos sem expressão. Estavam como que num transe, olhando para o nada. Ahren percebeu que ainda estavam no ar, cavalgando a centenas de metros acima de um teto verde brilhante de floresta, com os picos de uma cadeia de montanhas visível à frente, um espinhaço ondulante de pedra que desaparecia à distância.

Então, ele viu que estavam presos a uma segunda aeronave, que reconheceu imediatamente. Era a Black Moclips.

— É melhor presstar muita atenção — Cree Bega murmurou no ouvido dele.

Então Ahren viu Ryer Ord Star. Ela estava em pé ao lado do Morgawr, quase na proa, sua figura pequena perdida à sombra dele. O Morgawr a protegia e ela parecia receber bem essa atenção, olhando para ele regularmente, recostando-se nele como se sua presença, de algum modo, lhe desse forças. Havia expectativa em seu rosto, embora as feições abatidas ainda tivessem aquela palidez de fantasma, aquele olhar de outro mundo que sugeria que ela estava num lugar completamente diferente. Ahren a encarou, esperando que ela o notasse. Não olhou sequer uma vez na direção dele.

A bordo da Black Moclips, marinheiros da federação ocupavam maciçamente a amurada, fixando as presilhas que mantinham as duas naves juntas. Os seus olhares inseguros eram inconfundíveis. De vez em quando, esses olhares vagavam até suas contrapartes na nave do Morgawr, e então se afastavam rapidamente. Eles viam o que Ahren vira nos rostos daqueles que tripulavam a nave mwellret — vazio e desinteresse.

Uma dupla de homens havia descido da cabine do piloto da Black Moclips e avançado. O comandante, reconhecível pela insígnia em sua túnica, era um homem alto e bem-proporcionado com cabelos pretos curtos. O outro, talvez seu imediato, também era alto, mas magro como um varapau, e tinha o rosto marcado e queimado de um homem que passara toda a vida como marinheiro. A tripulação da Black Moclips olhou uma vez para eles em busca de orientação, cercando-os em uma demonstração de apoio quando se aproximaram da amurada. O Morgawr avançou e conversou com eles por um momento, as palavras baixas demais para Ahren conseguir entendê-las. Então o comandante de ombros largos subiu na amurada e foi para a nave do Morgawr.

— Aproxime-sse, pequeno elfo — ordenou Cree Bega. — Veja o que acontece.

Os mwellrets que seguravam Ahren o arrastaram para a frente, até onde ele poderia ouvir com clareza. Tornou a olhar para Ryer Ord Star, que havia recuado e se afastara de todos na proa, olhos fechados e rosto levantado, como se tivesse entrado em transe. Ela estava sonhando, ele percebeu. Estava tendo uma visão, mas ninguém havia notado.

— Ela fez você prisioneiro, comandou sua nave e fugiu, tudo isso sem a ajuda de ninguém, a não ser um cavaleiro alado? — o Morgawr estava perguntando. Sua voz áspera era calma, mas havia uma tensão inconfundível em suas palavras.

— Ela é uma mulher formidável — respondeu o oficial da federação, zangado, os lábios apertados.

— Não mais do que sua patroa, comandante Aden Kett, e você foi muito rápido em abandoná-la. Eu teria pensado duas vezes antes de fazer isso se fosse você.

Kett ficou paralisado. Estava encarando o buraco negro do capuz do outro, claramente intimidado pela presença escura e invisível ali dentro, pelo seu tamanho e mistério. Estava sendo confrontado por uma criatura que, agora sabia, tinha uma espécie de relacionamento com a bruxa Ilse, o que a tornava muito perigosa.

— Pensei mais de duas vezes, eu lhe asseguro — ele disse.

— Mas deixou-a escapar e não foi atrás dela?

— A tempestade nos atingiu. Eu estava mais preocupado com a segurança da minha nave e da minha tripulação do que com uma garota rover.

Rue Meridian, Ahren pensou na hora. De algum modo, depois que a bruxa Ilse havia ido para a terra, Rue abordara a nave e assumira o controle da Black Moclips. Mas onde ela estava agora? Todos haviam desaparecido, ao que parecia, sumido no éter, como Walker.

— Então você recuperou sua nave, mas a garota rover se foi? — O Morgawr parecia deixar a questão de lado. — Mas onde está nossa bruxinha Ilse, comandante?

Aden Kett parecia surpreso.

— Eu já lhe disse. Ela foi para a terra. E não retornou.

— Esse garoto que escapou, aquele no qual ela parecia tão interessada quando o trouxe para a nave, o que acha que aconteceu com ele?

— Não sei nada a respeito daquele garoto. Não sei o que aconteceu com nenhum dos dois. O que eu sei é que já cansei de ser interrogado. Minha nave e minha tripulação estão sob o comando da federação. Não respondemos a ninguém, especialmente agora.

Uma declaração corajosa, pensou Ahren. E uma declaração idiota, se o que ele suspeitava a respeito do Morgawr era verdade. Se a bruxa Ilse era perigosa, aquela criatura, seu mentor, era duplamente perigosa. Ele havia assumido o controle de toda uma frota da federação para cuidar da tarefa. Mwellrets que estavam claramente enfeitiçados por ele o cercavam. Aden Kett estava sendo descuidado.

— Você voltaria para casa, comandante? — o Morgawr perguntou-lhe baixinho. — Para lutar nas Prekkendorran?

Desta vez Aden Kett hesitou antes de falar, talvez já pressentindo que havia atravessado uma linha proibida. Os mwellrets, reparou Ahren, haviam ficado muito quietos. Ahren podia ver a expectativa nos seus rostos reptilianos achatados.

— Eu iria para casa, para fazer o que a federação mandasse — respondeu Kett. — Sou um soldado.

— Um soldado obedece a seu oficial de comando no campo, e você está no campo, comandante — o Morgawr disse calmamente. — Se eu o mandar me ajudar a encontrar a bruxa Ilse, é o seu dever fazer isso.

Houve um longo silêncio, e então Aden Kett disse:

— Você não é meu oficial de comando. Não tem autoridade sobre mim. Nem sobre minha nave ou minha tripulação. Não tenho idéia de quem você seja nem de como chegou até aqui utilizando naves e homens da federação. Mas não tem ordens por escrito, e, portanto, não sou obrigado a seguir suas ordens. Vim a bordo falar com você por cortesia. Essa cortesia foi exercida e não tenho mais nenhuma responsabilidade aqui. Boa sorte, senhor.

Virou de costas, com a intenção de voltar à Black Moclips. No mesmo instante, o Morgawr deu um passo à frente, sua enorme garra se projetando de seus mantos negros para agarrar o infeliz oficial da federação pela nuca. Dedos poderosos se fecharam na garganta de Aden Kett, cortando no meio seu grito inútil. A outra mão do Morgawr apareceu mais lentamente, emergindo em uma bola de luz verde enquanto sua vítima se debatia indefesa. Então, enquanto Ahren Elessedil observava horrorizado, o Morgawr estendeu a mão brilhante até a parte de trás da cabeça de seu prisioneiro e enfiou-a através da pele, cabelos e osso, girando e se retorcendo por dentro como uma colher. Kett jogou a cabeça para trás e gritou, apesar da mão na garganta, e então estremeceu uma só vez e ficou quieto.

O Morgawr retirou a mão devagar e com cuidado. A parte de trás do crânio de Aden Kett tornou a se fechar em seguida, como se não tivesse havido nenhuma intrusão. A mão do Morgawr não estava mais brilhando. Estava molhada, pingando com miolos e fluidos.

Tudo acabou em segundos. A bordo da Black Moclips, a tripulação atordoada da federação correu até a amurada, mas os mwellrets bloquearam o caminho com estacas e machados. Empurrando os sulistas aterrorizados, os rets subiram a bordo num enxame, cercando e rendendo todos como prisioneiros. A única exceção era o imediato magro como um varapau, que hesitou apenas por tempo suficiente para ver o olhar terrível e devastado do rosto vazio de seu comandante, despido de vida e emoções, despido de humanidade, antes de ir diretamente para a abertura mais próxima na amurada, se jogando dela.

O Morgawr apertou o que havia sobrado do cérebro de Aden Kett na mão, pedaços pingando no convés, a umidade escorrendo por seu braço escamado.

— Traga os outros agora — ele disse com calma. — Um por um, para que eu possa saboreá-los.

Incapaz de se controlar, os olhos cheios de lágrimas, Ahren Elessedil vomitou.

— Issto é o que poderia acontecer a pequenoss elfoss que dessobedecem — Cree Bega sibilou no ouvido de Ahren. — Pensse ssó na ssenssação!

Então ele arrastou o garoto para baixo mais uma vez, para a sua prisão.

 

Na proa, na sombra dos aríetes curvados, e esquecida enquanto a subjugação de Aden Kett acontecia, Ryer Ord Star estava em pé, os olhos fechados e a mente em repouso.

Walker.

Não houve resposta. Trazido pelo vento, o cheiro da floresta enchia suas narinas. Ela podia vislumbrar as árvores, galhos espalhados, folhas tocando como dedos, um abrigo e uma casa.

Walker.

— Estou aqui.

Ao som da voz dele, sua tensão diminuiu e a paz que sempre vinha quando ele estava por perto começou a preenchê-la. Mesmo na morte, ele estava com ela, seu protetor e guia. Conforme havia prometido quando a enviara para longe dele em Castledown, voltara para ela novamente. Não em vida, mas em seus sonhos e visões, uma presença forte e certa que emprestaria a ela a força de que ela precisava tão desesperadamente.

Por quanto tempo mais preciso ficar aqui?

Em sua mente, a voz do druida assumia forma e intensidade. Ela se lembrava de como o druida fora em vida, olhando para ela com gentileza e compreensão.

— Ainda não é hora de partir.

Estou apavorada!

— Não tenha medo. Estou com você e vou protegê-la do mal.

Ela manteve os olhos fechados e o rosto erguido, sentindo o calor do sol e o frio do vento na pele, mas vendo apenas ele. A qualquer um que olhasse para ela, para Ahren em particular, que estava observando, parecia uma criatura pequena e frágil entregue a um destino que somente ela reconheceria quando viesse buscá-la. Estava preparada para esse destino, aceitando-o, e suas feições irradiavam um conforto que estava pronta para abraçar.

As palavras dela, quando as pronunciou no silêncio de sua mente, eram de profunda necessidade.

Estou tão sozinha... Liberte-me!

— Sua tarefa ainda não está terminada. Grianne ainda não despertou. Você deve dar-lhe tempo de fazer isso. Ela deve permanecer livre. Ela deve fugir do Morgawr por tempo suficiente para se lembrar.

Como ela fará isso? Como ela irá encontrar seu caminho de volta a partir de onde ela foi se esconder da verdade?

Ela sabia de Grianne Ohmsford e da espada de Shannara. Sabia o que havia acontecido com a bruxa Ilse nas catacumbas de Castledown. Walker lhe havia dito isso no momento de sua primeira aparição, quando ela fora feita prisioneira dos mwellrets com Ahren. Ele lhe dissera o que havia acontecido e o que ele precisava que ela fizesse. Estava tão grata por tornar a vê-lo, mesmo que sob outra forma, em outro lugar, que teria concordado com tudo o que ele lhe pedisse.

A voz suave e familiar falava com ela em sussurros:

— Ela voltará quando encontrar um meio de se perdoar. Ela voltará quando renascer.

A vidente não entendia o que ele queria dizer com isso. Como alguém poderia se perdoar por coisas tais como as que a bruxa Ilse fizera? Como alguém que havia vivido a vida dela poderia algum dia voltar a ser pleno?

Walker tornou a falar:

— Você precisa enganar o Morgawr. Precisa atrasar sua busca. Precisa fazer com que ele se perca. Ninguém mais possui as habilidades ou a magia para encontrá-la. Se ele capturá-la, tudo estará perdido.

Ela se sentia esfriar com aquelas palavras. O que elas queriam dizer? Tudo? O mundo inteiro e todos os que nele viviam? Isso poderia ser possível? Será que o Morgawr possuía poder suficiente para realizar uma coisa dessas? Por que a sobrevivência de Grianne Ohmsford era tão importante, acontecesse isso ou não? O que ela poderia fazer para mudar as coisas, mesmo que achasse um jeito de sair de sua loucura e desespero?

— Você irá tentar.

Vou. Mas preciso ajudar Ahren.

Por um momento, era como se Walker estivesse tocando-lhe a carne. Ela viu a mão dele se estender para tocar-lhe o ombro. Sentiu os dedos dele se fechando, quentes, sólidos e vivos. Perdeu o fôlego de tanta surpresa e maravilhamento.

Oh, Walker!

— Deixe o príncipe elfo. Faça o que lhe foi dito. Não fale com ele. Não olhe para ele. Não se aproxime dele. Siga em frente com seu engodo ou tudo pelo qual trabalhei estará arruinado.

Ela assentiu e suspirou, ainda perdida pelo toque das mãos e da carne do druida. Ela sabia o que era esperado dela. Sabia que precisava agir sozinha e da melhor maneira que pudesse. Ficou se perguntando mais uma vez quanto à escolha de palavras dele. Siga em frente com seu engodo ou tudo pelo qual trabalhei estará arruinado. O que isso queria dizer? Pelo que ele havia trabalhado e que poderia estar em risco? Por que lhe importava tanto que ela tivesse sucesso em enganar o Morgawr? Por que era tão importante que ela tornasse possível a fuga de Grianne Ohmsford?

Então ela percebeu. A coisa veio-lhe num clarão de reconhecimento, uma verdade tão óbvia que não entendia como podia ter deixado de perceber antes. É claro, pensou. O que mais poderia ser? A enormidade da revelação deixou-a tão aturdida que, por um momento, perdeu completamente a concentração e abriu os olhos sem pensar. O clarão feroz do sol do meio-dia era forte e cegava e seus olhos se fecharam no mesmo instante.

Luz demais. Verdade demais.

A voz dele cortava a confusão e a agitação de Ryer como uma brisa suave.

— Faça o que lhe peço. Uma última vez.

Eu farei. Prometo. Acharei um jeito.

Então, Walker desapareceu e ela ficou sozinha na escuridão de sua mente, as palavras dele ainda flutuando em pequenos ecos, sua presença ainda quente no seu peito.

Quando voltou a si novamente, saindo do seu transe e liberta de sua visão — abrindo os olhos novamente, tomando cuidado para protegê-los da luz —, pôde ouvir os gritos dos marinheiros da federação que vinham da Black Moclips enquanto o Morgawr se alimentava de suas almas.

 

Bek Ohmsford, Truls Rohk e a catatônica Grianne escaparam das ruínas de Castledown e fugiram para a floresta que as circundava. Atrás deles, os mwellrets os caçavam com seus caulls; estavam tão próximos que podiam ser ouvidos se movendo por entre as árvores, espalhando-se como batedores com a intenção de agarrar sua presa. A proximidade deles infundiu em Bek uma sensação de insegurança que nem mesmo a presença reconfortante do mutante conseguia dispersar inteiramente. Ele tinha uma percepção de como deveria ser um animal rastreado por humanos e seus cães por esporte, embora não houvesse nada de esporte naquilo. Somente o movimento gerado pela fuga mantinha seu pânico a distância.

Eles não teriam escapado se Truls não tivesse assumido a responsabilidade de carregar Grianne. Sem qualquer vontade própria, ela não poderia ter se movido a nenhuma velocidade que tivesse lhes permitido ficarem à frente de seus inimigos, e foi somente a decisão inesperada do mutante de carregá-la que lhes deu alguma chance. Mesmo assim, com Truls suportando o peso da irmã de Bek, e este correndo livre sozinho, eles foram cercados por todos os lados nas primeiras duas horas de sua fuga.

O que lhes deu uma chance de lutar no fim foi a chegada da mesma tempestade que derrubara a Jerle Shannara. Ela varreu a costa em uma muralha negra, e quando chegou, perseguidos e perseguidores estavam no fundo da floresta, nos contrafortes da Arca de Aleuthra, e não havia como se esconder dela. A tempestade os cobriu com uma torrente de chuva e uma onda atrás da outra de trovões. Raios atingiram as árvores ao redor deles, em explosões cegantes de fagulhas e fogo. Bek gritou para Truls que deveriam se abrigar, mas o mutante o ignorou e seguiu em frente, sem sequer se importar em olhar para trás. Bek o seguiu porque não tinha escolha. Disparando e se esquivando pela paisagem arrasada com a fúria da tempestade que desabara sobre eles como um maremoto, eles correram.

Quando finalmente pararam, depois que a tempestade passou, estavam ensopados e congelados até os ossos. A temperatura havia caído consideravelmente, e o verde da floresta havia assumido um tom invernal. Os céus ainda estavam nublados e escuros, mas começando a clarear onde a noite, prestes a desaparecer, tornava visível o amanhecer prateado do novo dia. O sol ainda estava oculto atrás da muralha da tempestade, mas logo subiria o bastante no céu para iluminar a terra.

Bek, a respiração funda e entrecortada, olhava para Truls.

— Não vamos conseguir manter este ritmo. Eu não consigo.

— Está amolecendo, garoto? — A gargalhada do outro era um clamor de desprezo. — Tente carregar sua irmã e veja como se sai.

— Você acha que os despistamos? — ele perguntou, tendo imaginado a essa altura por que haviam continuado.

— Por enquanto. Mas eles logo acharão a trilha novamente. — O mutante colocou Grianne sentada sobre um tronco, onde ela ficou parada, alienada, olhos desfocados, cabeça baixa. — Pelo menos conseguimos um pouco de tempo.

Bek olhou por um momento para Grianne, procurando algum sinal de reconhecimento e não encontrando nenhum. Ele sentiu o peso da incapacidade dela em agir normalmente, de reagir a qualquer coisa, fazendo pressão sobre ele. Não podiam se dar ao luxo de ficar com ela daquele jeito se quisessem ter alguma chance de escapar.

— O que vamos fazer? — ele perguntou.

— Correr e continuar correndo. — Bek podia sentir Truls Rohk olhando para ele de dentro do capuz negro oval. — O que você queria que fizéssemos?

Bek balançou a cabeça e não disse nada. Sentia-se desconectado do mundo. Sentia-se abandonado, um órfão deixado para lutar por si mesmo sem chance de ser capaz de fazê-lo. Com Walker morto e a companhia da Jerle Shannara morta ou dispersa, não havia objetivo em sua vida além de tentar salvar sua irmã. Se ele pensasse a respeito, o que se recusava a fazer, poderia ter chegado à conclusão de que nunca mais veria sua casa.

— Hora de ir — disse Truls Rohk, levantando-se.

Bek também se levantou.

— Estou pronto — declarou, sentindo exatamente o oposto.

O mutante grunhiu, levantou Grianne com seus braços poderosos e tornou a seguir.

Caminharam pelo resto do dia, viajando na maioria das vezes por terreno úmido o bastante para seus rastros afundarem e desaparecerem e seu cheiro rapidamente se dispersar. Foi o dia mais difícil que Bek se lembrava de já ter suportado. Pararam por tempo suficiente apenas para tomar fôlego, beber um pouco de água e comer um pouco do pequeno suprimento que Truls levava. Não reduziram o passo, que era brutal. Mas eram as circunstâncias de sua fuga que mais cansavam Bek — a sensação constante de estar sendo caçado, de fugir sem destino particular em mente, de saber que quase tudo o que era familiar e reconfortante havia desaparecido. Bek conseguia prosseguir movido à força de suas lembranças de casa, da família e da vida antes daquela viagem, lembranças de Quentin e seus pais, do mundo das Highlands de Leah, de dias tão longínquos no tempo e no espaço que pareciam um sonho.

Ao cair da noite, eles não eram mais capazes de ouvir seus perseguidores. A floresta estava silenciosa após a passagem da tempestade e o pôr-do-sol. Havia uma paz renovada na terra. Bek e Truls se sentaram em silêncio e comeram seu jantar de carne seca salgada, pão dormido e queijo. Grianne não comeu nada, embora Bek tivesse tentado repetidamente fazer com que ela comesse. Não foi possível ajudá-la. Se ela não queria comer, ele não podia forçá-la. Ele conseguiu fazer com que ela engolisse um pouco de água, mais uma ação reflexa da parte dela do que uma reação aos esforços dele; estava preocupado que ela pudesse perder forças e morrer se não ingerisse alguma coisa, mas não sabia o que fazer.

— Deixe-a em paz — foi a resposta do mutante quando pediu a opinião dele. — Ela vai comer quando estiver pronta para isso.

Bek deixou o assunto de lado. Comeu sua comida, olhando para a escuridão, envolto em seus pensamentos.

Quando terminaram, o mutante se levantou e se espreguiçou.

— Cubra sua irmã e vá dormir. Vou voltar pela nossa trilha e ver se os rets e seus cães estão se aproximando. — Fez uma pausa. — Estou falando sério, garoto. Vá dormir. Montar guarda ou pensar na sua irmã ou coisa parecida? Esqueça. Você precisa descansar se quiser manter meu ritmo.

— Eu posso manter o seu ritmo — Bek retrucou.

Truls Rohk riu baixinho e desapareceu por entre as árvores. Ele se fundiu tão rápido que parecia um fantasma. Bek ficou olhando em sua direção por um momento, ainda zangado, e então foi até sua irmã. Ficou olhando seu rosto frio e pálido — o rosto da bruxa Ilse. Ela parecia tão jovem, suas feições irradiando a inocência de uma criança. Ela não dava sinal do monstro que ocultava em seu íntimo.

Foi tomado por uma sensação de desesperança. Sentiu desespero ao pensar no que ela havia feito com sua vida, ou nos atos terríveis que havia cometido, nas vidas que havia arruinado. Ela soubera o que estava fazendo, por mais mal orientada na sua compreensão das coisas que estivesse. Havia abraçado seu comportamento e encontrado uma maneira de justificá-lo. Esperar que ela se livrasse do passado como uma cobra se livra da própria pele parecia ridículo. Provavelmente Truls tinha razão. Ela jamais voltaria a ser a criança que um dia fora. Jamais sequer chegaria perto de ser humana novamente.

Num impulso, tocou-lhe o rosto, deixando os dedos vagarem pela pele macia. Ele não conseguia sequer se lembrar dela como criança. A imagem que tinha era formada unicamente em sua imaginação. Ela se lembrava dele, mas a memória dele próprio fora construída sobre uma base de desejos e esperanças imperfeitas. Ela se parecia demais com ele para que a imagem que ele fazia dela fosse baseada na imagem que fazia de si próprio. Era uma concepção errônea. Pensar nela como pensava em si mesmo era uma brincadeira boba.

Estendeu a mão e puxou-a suavemente para junto de si. Ela veio obediente, mole, deixando que ele a abraçasse. Imaginou o que ela deveria sentir, aprisionada dentro da própria mente, incapaz de se libertar. Ou será que ela sentia mesmo alguma coisa? Será que estava consciente de tudo o que estava acontecendo? Colou o seu rosto no dela, sentindo seu calor compartilhado com o dele. Não conseguia entender por que ela lhe invocava sentimentos tão fortes. Mal a conhecia. Era uma estranha e, até recentemente, uma inimiga. Mas o que ele sentia era real e verdadeiro, e tinha de reconhecer isso. Não a abandonaria, nem mesmo se isso lhe custasse a própria vida. Não conseguiria. Sabia disso tão certamente quanto sabia que nada em sua vida voltaria a ser como era antes.

Uma parte de seu senso de responsabilidade para com ela, ele admitiu, era resultado de sua necessidade de se sentir útil. Sua vida estava saindo de controle. Com ela, e com mais ninguém, ele próprio incluído, ele estava em uma posição de poder. Era o seu guardião e protetor. Ela tinha inimigos por toda parte. Estava mais sozinha do que ele. Aceitar a responsabilidade por ela lhe dava um foco que de outro modo seria reduzido a pouco mais do que autopreservação.

Deitou-a aos pés de uma árvore, protegendo-a da chuva, e cobriu-a cuidadosamente com seu manto. Ficou a olhar para ela por um longo tempo, as feições claras e os olhos fechados, o pulsar em sua garganta, seu peito subindo e descendo a cada respiração. Sua irmã.

Então se levantou e ficou olhando para as trevas, cansado, mas sem sono, sua mente tentando sair do atoleiro de seus problemas, tentando decidir o que poderia fazer para ajudar a si mesmo e a Grianne. Certamente Truls faria o que pudesse, mas Bek sabia que era um erro confiar tanto em seu protetor enigmático. Ele fizera isso antes e não fora o bastante para mantê-lo a salvo. No fim, como os mutantes na montanha lhe haviam aconselhado, ele tinha de confiar em si mesmo. Havia aguardado por Grianne, confrontara-a e alterara o curso de suas vidas.

O que ele ainda não sabia era se a mudança havia sido para melhor ou não. Ele supunha que sim. Pelo menos Grianne não era mais a bruxa Ilse, sua inimiga e antagonista. Pelo menos estavam juntos e longe das ruínas, da Black Moclips e dos mwellrets. Pelo menos estavam livres.

Sentou-se, fechou os olhos para repousar e em instantes adormeceu. Seu sono foi profundo e sem sobressaltos, apaziguado por sua exaustão e sua disposição de abrir mão de sua vida desperta por um pouco de tempo. No frio e silencioso cobertor da escuridão, ele foi capaz de acreditar que estava a salvo.

Não sabia por quanto tempo havia dormido quando acordou, mas tinha certeza do que o fizera despertar. Era uma voz que o chamava de fora de seus sonhos:

— Bek...

A voz era clara e certa, dirigida para ele. Abriu os olhos.

— Bek...

Era Walker. Bek se levantou e ficou parado, olhando a clareira vazia, o céu claro e brilhante, cheio de milhares de estrelas, que derramavam uma luz prateada sobre o escuro da floresta. Olhou ao seu redor. Sua irmã dormia. Truls Rohk não havia retornado. Ele estava sozinho em um lugar onde os fantasmas podiam falar e a verdade podia ser revelada.

— Bek...

A voz não o chamava da clareira, mas de algum lugar próximo, e ele seguiu seu som, avançando para as árvores. Não tinha medo por sua irmã, embora não conseguisse explicar por quê. Talvez fosse a certeza de que Walker não o invocaria se isso a colocasse em perigo. Só o som da voz do druida trazia uma sensação de paz a Bek que desafiava qualquer explicação. A voz de um morto trazendo paz. Que estranho...

Caminhou apenas um trecho curto e se viu numa clareira com um lago negro e profundo no centro, aglomerados de touceiras nas margens e vários nenúfares noturnos flutuando suas bandeiras cor de lavanda na escuridão. Os cheiros da água e da floresta se misturavam em um caldo pesado, carregado de umidade e de terra seca, lenta decomposição e vida que florescia. Vaga-lumes piscavam por toda a extensão do lago como pequenos faróis.

O druida estava do outro lado do lago, nem sobre a água nem sobre a margem, mas suspenso no ar da noite, um espectro transparente definido por linhas e sombras. Seu rosto estava oculto no manto, mas Bek sabia quem ele era mesmo assim. Ninguém mais tinha aquela postura e compleição; Walker na morte, assim como na vida, se distinguia.

O druida falou com ele como se viesse de um poço fundo e vazio.

— Bek, tenho pouco tempo para caminhar livre sobre esta terra antes que o Hadeshorn me chame. O tempo se vai. Ouça com cuidado. Não voltarei a vê-lo.

A voz saía suave e provocante de seu antro cavernoso. Tinha a sensação e a ressonância de um eco, mas com um tom mais forte. Bek assentiu, compreendendo, e depois acrescentou:

— Estou ouvindo.

— Sua irmã é minha esperança, Bek. Ela é a minha confiança. Dei toda essa confiança a vocês, os vivos, desde que parti. Ela deve ser mantida a salvo e bem. Ela deve poder voltar a ser inteira.

Bek quis dizer que não era ele quem deveria carregar o peso daquela responsabilidade, que ele não tinha a experiência e a força necessárias. Quis dizer que era Truls quem faria a diferença; Bek só estava agindo como a consciência do mutante com relação a isso, para que Grianne não fosse abandonada. Mas não disse nada, escolhendo ouvir, em vez disso.

Mas Walker pareceu adivinhar sua relutância.

— Força física não é do que sua irmã precisa, Bek. Ela precisa de força da mente e do coração. Ela precisa de sua determinação e compromisso de cuidar para que ela volte em segurança de onde está se ocultando.

— Se ocultando? — ele perguntou.

— Bem no fundo de uma muralha de negação, de trevas da mente, de silêncio do pensamento. Ela procura uma maneira de aceitar o que fez. A aceitação vem com o perdão. O perdão começa quando ela puder confrontar o seu ato mais negro, aquele que a atormenta incessantemente. Quando ela puder enfrentar o mais negro dos atos e se perdoar, voltará para você.

Bek balançou a cabeça, pensando em como conhecia tão pouco a vida dela, especificamente. Como um ato poderia ser mais negro do que qualquer outro? Qual seria esse ato?

— Esse ato... — ele começou.

— Só ela conhece, pois é aquele sobre o qual ela se fixou. Só ela sabe qual é.

Bek parou para pensar.

— Mas quanto tempo levará para que isso aconteça? Quanto tempo até que isso aconteça?

— Tempo.

Não temos tempo, pensou Bek. O tempo que nos foge como a noite na direção do dia, uma certeza da perda que não pode ser revertida.

— Deve haver alguma coisa que possamos fazer para ajudar! — ele exclamou.

— Nada.

O desespero tomou conta dele, aniquilando as esperanças e roubando as possibilidades. Tudo o que ele podia fazer, tudo o que qualquer um poderia fazer, era manter Grianne longe das mãos do Morgawr e de seus mwellrets. Continuar correndo. Aguardar com paciência. Esperar que ela encontrasse uma saída de sua prisão. Não era muito. Não era nada.

— Truls quer deixá-la — ele disse baixinho, procurando algo mais em que confiar. — E se ele fizer isso?

— O destino dele não é o seu. Mesmo que ele vá, você precisa ficar.

Bek bufou.

— Lembre-se de sua promessa.

— Eu jamais a esqueceria. Ela é minha irmã. — Ele fez uma pausa, esfregando os olhos. — Tem uma coisa que eu não entendo. Por que ela é tão importante para você, Walker? Ela era sua inimiga. Por que está tentando com tanta força salvá-la agora? Por que está dizendo que ela é sua esperança e confiança?

O luar atravessou a forma transparente, fazendo com que ela se deslocasse e mudasse. Abaixo, as águas do lago ondularam suavemente.

— Quando ela despertar, saberá.

— Mas e se ela não despertar? — Bek quis saber. — E se ela não voltar lá de dentro, de onde se escondeu?

— Ela saberá.

Ele começou a desaparecer na escuridão.

— Walker, espere! — Bek subitamente ficou desesperado. — Não posso fazer isso! Não tenho a habilidade, a experiência ou qualquer coisa do gênero! Como é que vou conseguir alcançá-la? Ela nem sequer irá me escutar quando estiver desperta! Ela não me dirá nada!

— Ela saberá.

— Como ela poderá saber qualquer coisa se eu não conseguir explicar para ela? — Bek avançou alguns passos, parando na beira do lago. O druida estava se desvanecendo. — Alguém precisa contar a ela, Walker!

Mas o espectro desapareceu e Bek ficou sozinho com sua confusão, permaneceu ali em pé, sem se mover, por um longo tempo, olhando para o espaço que Walker havia ocupado, repetindo suas palavras, tentando compreendê-las.

Ela saberá.

Grianne Ohmsford, sua irmã, a bruxa Ilse, inimiga mortal dos druidas e de Walker, em particular.

Ela saberá.

Não fazia sentido.

Mas, mesmo assim, no fundo de seu coração, onde essas coisas se revelavam como arco-íris depois de tempestades, ele sabia que era verdade.

 

Bek voltou ao acampamento para encontrar Grianne ainda dormindo e ver que Truls Rohk ainda não havia voltado. A posição das estrelas lhe disse que passava da meia-noite, por isso voltou a dormir e não tornou a despertar até sentir a mão do mutante pousada em seu ombro.

— Hora de ir — o outro disse baixinho, com os olhos na floresta atrás deles.

— Eles estão a que distância? — Bek perguntou na hora. Amanhecia, e o nascer do sol era apenas um brilho prateado a leste.

— Um pouco distantes, mas estão se aproximando. Ainda não acharam nossa trilha, mas vão achar logo.

— Os caulls?

— Os caulls. Transformação de humanos capturados e alterados pela magia. — Desviou seu olhar para Bek novamente. — Obra de sua irmã, eu diria, se ela não estivesse aqui conosco. Então deve ser o Morgawr. Onde será que ele encontrou suas vítimas?

Bek se sentou rapidamente.

— Não foi Quentin nem os outros? Não foram os rovers?

Truls Rohk pegou-o pelo braço e levantou-o.

— Não pense nisso. Pense em ficar um passo à frente deles. Isto já é muito com que se preocupar agora.

Foi até a bolsa de suprimentos que carregava e tirou um pedaço de pão. Partiu-o e entregou-o a Bek.

— Se você fosse parecido comigo, não precisaria disto — riu baixinho. — Claro que, se você fosse parecido comigo, não estaria metido nesta encrenca.

Bek pegou o pão e o comeu.

— Obrigado por ficar conosco — ele disse, apontando com a cabeça a ainda adormecida Grianne.

O mutante soltou um grunhido.

— Matilhas de caulls e mwellrets estão por toda parte nesta floresta, dezenas deles. Não estão apenas nos caçando. Ouvi os sons de mais alguém os combatendo quando voltei para rastrear, um grupo maior, em algum lugar à nossa direita, indo em direção às montanhas. Não tive tempo de ver quem era. Provavelmente, nem vale a pena pensar nisso, só que talvez afaste alguns dos rets.

Fez um gesto de impaciência, uma escuridão sem rosto dentro do capuz.

— Chega. Vamos embora.

Pegou Grianne e tornaram a partir. Seguiram rápida e silenciosamente por entre as árvores, e então Truls os levou até um riacho raso, que seguiram por vários quilômetros. Era como se estivessem repetindo os eventos de menos de uma semana atrás. Estavam tomando um caminho diferente, mas atravessando a mesma floresta. Mais uma vez, estavam fugindo de um caçador que possuía magia e uma criatura criada para rastreá-los. Mais uma vez, estavam fugindo das ruínas de Castledown, na direção do interior. Mais uma vez, estavam fugindo de alguma coisa e indo em direção ao nada.

Era irônico e sombriamente cômico, mas também patético, pensou Bek.

Quando a manhã nasceu, apesar dos avisos de seu companheiro para não fazer isso, ele se pegou especulando sobre o destino de seus amigos desaparecidos. Não podia suportar pensar neles transformados em caulls, não depois do que já haviam suportado. Uma imagem de Quentin se transformando em um animal resfolegante disparou em sua mente. Ele não saberia se isso tivesse acontecido? Ele não sentiria? Mas ele não era Ryer Ord Star, por isso não podia ter certeza. Aquela altura, não podia sequer ter certeza de que seu primo ainda estava vivo. A canção do desejo era uma magia poderosa, mas não o fazia prever o futuro. Não havia nada que ele pudesse saber do que acontecera a qualquer um, a não ser a Walker.

Refletiu mais uma vez sobre a última visita do espectro de Walker. Ele não contou nada disso a Truls. Não tinha certeza do porquê, só que não parecia haver nenhuma razão para isso. Se Walker quisesse que Truls tivesse ouvido o que ele tinha a dizer, não teria aparecido para ambos? Já era muito difícil lidar com Truls sem ter de argumentar sobre os pronunciamentos enigmáticos de Walker. O druida fora rápido o bastante para dizer a Bek que seu destino não estava ligado ao do mutante. Embora viajassem juntos e por enquanto, pelo menos, tivessem uma causa em comum, isso não significava que as coisas não fossem mudar. Elas haviam mudado com tanta freqüência naquela jornada que Bek sabia que mal podia se dar ao luxo de ter qualquer coisa como garantida. Não havia nada na mensagem de Walker que tivesse a ver com Truls, nada que o ajudasse ou lhe desse alguma informação, nada que mudasse o que estavam fazendo agora.

Bek não gostava de ser dissimulado, e embora pudesse argumentar que não era isso o que estava fazendo, era bem próximo para ser parecido.

Seus pensamentos viajaram até sua situação atual. Ficou imaginando se haveria alguma chance de que um dos cavaleiros alados os avistasse do céu. Ele sabia como isso era improvável, devido ao tamanho e à profundidade daquela floresta. Ali embaixo eles eram como formigas, praticamente invisíveis do alto. Apenas uma criatura em terra como um caull poderia rastreá-los, e isso era exatamente o que eles não precisavam.

Caminharam todo o dia até o seguinte, subindo sem parar até os contrafortes das montanhas. Os mwellrets e seus caulls ainda os rastreavam, mas aparentemente não estavam mais se aproximando. De vez em quando, as aeronaves do Morgawr cruzavam os céus acima deles. Não encontraram nem animais nem pessoas, nenhuma indicação de que alguma coisa vivia naquela floresta a não ser pássaros e insetos. Era uma ilusão, claro, mas dava a Bek uma sensação de tamanha solidão que às vezes ele ficava se perguntando se haveria alguma esperança para eles. O ar estava ficando cada vez mais frio e nuvens de neve cercavam os picos das montanhas. O calor de verão havia desaparecido com a destruição de Antrax, e o clima estava em processo de mudança.

Na segunda noite, depois de tentar mais de uma vez, e fracassar, em convencer Grianne a comer alguma coisa, Bek confrontou Truls Rohk.

— Estou achando que fugir não vai nos adiantar de nada — ele disse. — Além de nos manter vivos por mais um dia.

A cabeça do outro estava curvada, a abertura negra do capuz abaixada.

— Não é o bastante, garoto?

— Não me chame mais de “garoto”, Truls. Não gosto do jeito como você fala.

Truls levantou o capuz.

— O que você disse?

Bek não titubeou.

— Não sou um garoto, já sou grande. Você me faz parecer jovem e tolo. Não sou.

O mutante ficou completamente parado e Bek esperou que uma daquelas poderosas mãos disparasse, agarrasse a frente da sua túnica e o sacudisse até seus ossos chocalharem.

— Mais cedo ou mais tarde vamos ter de parar de correr — disse Bek, forçando-se a continuar. — Tentamos correr da última vez e não funcionou. Acho que precisamos de um plano melhor. Precisamos de algum lugar para onde ir.

Não houve resposta. A abertura vazia do capuz o encarava como um buraco na terra que o engoliria se ele se aproximasse demais.

— Acho que devíamos voltar para as montanhas e encontrar os mutantes que vivem lá.

O outro suspirou bruscamente.

— Por quê?

— Porque eles podem nos dizer para onde devemos ir. Podem nos ajudar de algum jeito. Pareciam interessados em mim quando apareceram lá da última vez, como se vissem em mim alguma coisa que eu não via. Foram eles quem insistiram que eu tinha de defender Grianne. Acho que eles poderiam nos ajudar agora.

— Eles não lhe disseram para não voltar?

— Eles salvaram a sua vida. Talvez seja diferente se voltarmos juntos.

— Talvez não.

Bek ficou paralisado.

— Você tem alguma idéia melhor? Vamos subir aquelas montanhas e tentar atravessá-las sem saber o que há do outro lado? Ou vamos simplesmente ficar aqui embaixo nesta floresta até não restarem mais árvores para nos escondermos? O que vamos fazer, Truls?

— Baixe sua voz quando falar comigo ou não terá chance de fazer esse tipo de pergunta novamente! — O mutante se levantou e se afastou Vou pensar nisso — murmurou olhando para trás. — Mais tarde.

Talvez sim, talvez não. Ficou fora a noite toda, rastreando, Bek supôs. Mas, partindo para dentro de si mesmo, inatingível, Truls Rohk se recusou a falar com Bek ao voltar na manhã seguinte. Partiram novamente ao romper da aurora, o céu claro, o ar frio e límpido, a luz do sol fraca e fina. Bek dissera a Truls que não o chamasse mais de garoto, mas na verdade ele ainda se sentia um garoto. Havia suportado tremendos obstáculos e confrontado terríveis revelações sobre si mesmo, e embora as experiências o tivessem mudado de muitas maneiras, não haviam feito com que se sentisse mais capaz de lidar com a vida. Ainda era hesitante e inseguro. Podia ter o poder da canção do desejo e a herança da espada de Shannara para se apoiar, mas nada disso lhe dava a sensação de ser mais maduro. Ainda era um garoto fugindo das coisas que o apavoravam, e se não fosse pelo fato de que ele sabia que sua irmã precisava dele, poderia já ter desabado.

A recusa de Truls Rohk em conversar com ele, até mesmo de reconhecer sua presença, fazia-o se sentir mais inseguro do que antes. Ele meio que acreditava — sempre fora assim — que o compromisso do mutante em cuidar dele estava escrito no vento. Nada que o outro fizesse ou dissesse sugeria que ele se sentisse particularmente obrigado a honrar esse compromisso, especialmente agora que Walker estava morto. Com uma caçada atrás da outra, com o esforço de correr dando nos nervos do mutante e nada de bom vindo disso, Bek sentia que a distância entre ele e Truls estava ficando maior.

Certa vez, o mutante havia lhe dito como ambos eram parecidos. Fazia muito tempo desde que ele falara nesses termos e Bek não tinha mais certeza se Truls quisera realmente dizer aquilo. Ele havia usado Bek para alfinetar Walker, para jogar os jogos que eles haviam jogado por tantos anos. Nada sugeria a Bek que havia algo mais no seu relacionamento com o mutante do que isso.

Era um pensamento mesquinho, mas Bek estava tão triste e deprimido àquela altura que esse tipo de pensamento vinha fácil. Ele se ressentia disso, se arrependeu no instante em que acabou, mas não conseguia evitar. Queria mais de Truls do que estava obtendo. Ele queria o tipo de conforto que vinha do companheirismo, o tipo que sempre costumava obter de Quentin. Mas Truls Rohk não conseguia lhe dar isso. A parte humana dele não era suficiente para permitir isso.

Caminharam pela manhã sem falar ou parar. Já era quase meio-dia quando o mutante fez com que parassem inesperadamente. Ele ficou paralisado onde estava, Grianne aninhada em seus braços enquanto ele erguia a cabeça para farejar o ar.

— Tem alguma coisa se aproximando — ele disse.

Apontou para a frente, por entre as árvores. Estavam em uma clareira cercada por velhos cedros e abetos, agora altos o bastante no sopé das colinas para que os cumes dos picos adiante estivessem claramente visíveis. Não estavam longe do hábitat de mutantes para onde Bek havia sugerido que fossem, e o garoto pensou no começo que talvez as criaturas da montanha fossem encontrá-los.

Mas Truls parecia não pensar assim.

— A coisa está nos rastreando — disse baixinho, como se tentasse entender a idéia.

Porque realmente não fazia sentido. Fosse o que fosse, estava adiante deles e não atrás. Também estava contra o vento. Não podia estar seguindo as pegadas ou o cheiro deles.

— Como pode ser isso? — perguntou Bek.

Mas o mutante já estava em movimento, levando-os através das árvores, perpendicularmente à rota que estavam seguindo e distante do que quer que houvesse adiante. Passaram pelo fundo da floresta e em seguida atravessaram um riacho estreito, recuando quase meio quilômetro antes de voltar à margem.

O tempo todo Truls Rohk permaneceu em silêncio, se concentrando no que seus sentidos podiam lhe dizer. Quando Bek tentou falar, o mutante fez um gesto para que ele se calasse.

Finalmente, pararam em uma encosta de floresta, onde o mutante colocou Grianne no chão, rosto voltado para a direção em que iam, e então girou lentamente para a sua direita, em uma linha paralela à qual estavam percorrendo.

Sua voz rouca estava sombria e dura.

— A coisa está se movendo conosco, ficando logo adiante. Está esperando. Está esperando nós irmos até ele.

Bek não deixara de perceber a expressão a Coisa, em referência ao que os estava seguindo.

— O que é, Truls? — perguntou.

O mutante olhou ao longe por um momento sem responder, e então disse:

— Vamos descobrir.

Apanhou Grianne e começou a seguir na direção do perseguidor deles. Bek queria lhe dizer que era má idéia e que deveriam continuar se afastando. Mas tentar dizer ao mutante o que fazer numa situação daquelas só iria enfurecê-lo. Além do mais, se o que quer que estivesse atrás deles podia fazê-lo sem seguir seu cheiro ou pegadas, não era provável que a coisa fosse despistada com uma simples mudança de direção.

Avançaram por algum tempo, ouvindo os sons da floresta. Lentamente esses sons morreram. Em minutos, a floresta havia ficado em silêncio. Truls Rohk diminuiu o ritmo, deslizando sem fazer barulho por entre as árvores, parando de vez em quando para ouvir antes de prosseguir. Bek permaneceu perto dele, tentando se mover tão silenciosamente quanto o mutante, tentando ser tão invisível quanto ele.

Num vale raso atravessado por um riacho, o mutante fez com que parassem.

— Ali — ele disse, apontando para as árvores.

No começo, Bek viu apenas uma parede de troncos entremeados com arbustos e gramíneas altas. Estava escuro onde eles estavam, a luz bloqueada por um teto espesso de galhos. O chão do vale descia inclinado até o riacho, onde uma colcha de retalhos de sombras e luz difusa acarpetava o chão da floresta. O ar estava frio e parado, sem o aquecimento do sol, sem o soprar do vento.

Então ele viu uma sombra que não se encaixava muito bem com nada mais ali, atarracada e maciça, agachada perto da linha das árvores onde os troncos escuros mascaravam seus traços. Ele ficou olhando um longo tempo para aquilo, e então aquilo se moveu ligeiramente, mudando de posição, e ele viu o brilho amarelo de seus olhos.

Um instante depois, ela se destacou de seu esconderijo e apareceu. Era uma criatura maciça, corcunda e de peito largo, coberta por pêlos cinzentos duros que despontavam em chumaços. Tinha uma cabeça de lobo, mas essa cabeça havia se transformado em algo aterrador. O focinho era comprido e as orelhas pontudas como as de um lobo, mas as mandíbulas eram grandes e maciças, e quando elas se separaram em uma espécie de sorriso ofegante, revelaram fileiras duplas de dentes serrilhados do tamanho de dedos. De quatro, ela se movia com um ritmo desajeitado, suas pernas compridas dianteiras desproporcionais em relação às traseiras, que eram pequenas e poderosas, e despontavam de quadris tão abaixados que ela parecia estar agachada.

Ela se deslocou devagar vale abaixo até estar quase no riacho. Ali parou, levantou a cabeça e emitiu o uivo mais terrível que Bek já tinha ouvido, uma combinação de gemido e grunhido que paralisou a floresta num profundo silêncio.

— O que é isso? — Bek sussurrou.

Truls Rohk deu uma gargalhada cruel.

— O destino de sua irmã que voltou para pegá-la. Esta é a coisa que ela criou para nos rastrear quando fugimos dela antes, a coisa da qual os mutantes me salvaram. Eu achava que ela tinha morrido, mas eles devem tê-la soltado fora de suas fronteiras. É um caull, mas olhe só para ele! Sofreu uma transformação para além do que ela própria havia tencionado. Tornou-se uma coisa ainda mais monstruosa. Maior e mais forte.

— O que isso quer conosco? — Bek olhou para ele. — Essa coisa nos rastreia, você disse. O que ela quer?

— Quer sua irmã — o mutante respondeu suavemente. — Ela veio buscá-la. Vê como olha para ela?

Era verdade. Os olhos amarelos e duros não estavam fixos nos homens, mas na garota adormecida, travados nela enquanto dormia nos braços do mutante — concentrados nela com tamanha intensidade que seu objetivo era inconfundível.

— Ali está a loucura verdadeira — murmurou Truls, um quê de maravilhamento em sua voz. — Capturada, transformada, afastada, perdida. Ela busca apenas uma coisa. Vingança. Pelo que lhe foi feito. Pelo que lhe foi roubado. Uma vida. Uma identidade. Quem sabe o que aquilo pensa e sente agora? Deve tê-la rastreado através da conexão da magia deles, um encontro de familiares. Ela o criou e ele permanece ligado a ela. Deve ser capaz de ler a pulsação ou os batimentos cardíacos dela. Ou o som de sua respiração. Quem sabe? Ele a sentiu e veio.

O caull tornou a gritar, o mesmo uivo agudo. A pele da nuca de Bek se arrepiou e seu estômago deu um nó. Ele havia sentido medo antes nesta jornada, mas nunca do jeito que sentia agora. Não sabia dizer se era a aparência do caull, todo deformado, ou o som de seu grito, ou simplesmente a sua existência, mas estava apavorado.

— O que vamos fazer? — ele perguntou. Mal conseguia falar.

Truls Rohk fungou de desprezo.

— Vamos deixá-lo ficar com ela. Ela o fez, que lide então com as conseqüências.

— Não podemos fazer isso, Truls! Ela está indefesa!

O outro se virou para ele.

— Este pode ser um bom momento para algum pensamento racional de sua parte, garoto. — Ele enfatizou a última palavra. — Há tantas coisas esperando para matar sua irmã que não podemos sequer começar a contá-las! Mais cedo ou mais tarde uma delas irá terminar o trabalho. Tudo o que fazemos ao interferir agora é prolongar o processo. Você pensa que pode salvá-la, mas não pode. E hora de deixá-la ir. Já chega!

Bek balançou a cabeça.

— Não quero saber do que você está dizendo.

— Ela é a bruxa Ilse! Sua irmã está morta! Por que você é tão teimoso com isso? Droga, para mim já chega! Faça o que quiser, mas eu vou embora!

Bek respirou fundo para se acalmar.

— Tudo bem. Pode ir. Você não me deve nada. Não é justo lhe pedir que faça mais do que já fez. Você já fez o suficiente. — Olhou para o caull, agachado à margem do riacho. — Eu posso cuidar disso.

Truls Rohk resfolegou.

— Pode?

— A canção do desejo foi poderosa para deter os rastejadores de Antrax. Pode deter essa coisa também. — Deu um passo para perto do mutante. — passe-a para mim.

Sem esperar que o outro respondesse, estendeu as mãos e tirou-lhe Grianne dos braços. Aninhando-a nos seus, deu um passo para trás.

— Ela é minha irmã, Truls. Não importa o que você diga.

Truls Rohk se endireitou e olhou direto para Bek.

— A canção do desejo é uma magia poderosa, Bek Ohmsford. Mas aqui não é o bastante. Você ainda não a dominou. Sua irmã já provou isso para você. Aquela coisa ali estará na sua garganta antes que você consiga descobrir o que deve fazer.

Bek olhou para o caull e ficou gelado até os ossos, pensando em como seria se aqueles dentes e garras o rasgassem. Tudo acabaria num instante, ele achou. A dor seria momentânea. E depois seria a vez de Grianne.

— Você podia fazer uma coisa para mim — ele disse ao mutante. — Se pudesse atrair a atenção dele, só por um momento, eu poderia pegá-lo desprevenido.

Truls Rohk o encarou. Bek não conseguia ver os olhos do mutante dentro dos confins escuros de seu capuz, mas podia sentir o peso do seu olhar, duro e certeiro. Por um longo momento Truls não disse nada. Mas não parava de olhar para Bek.

— Não faça isso — ele disse por fim.

Bek balançou a cabeça.

— Eu preciso. Você sabe disso.

— Você não irá sobreviver.

— Então você poderá fazer o que desejar com minha irmã, Truls. — Lançou um olhar desafiador ao mutante. — Não estarei mais aqui para impedi-lo.

Houve outro longo silêncio. Bek afastou do rosto uma mecha de cabelos e sentiu uma gota de suor descendo pela testa. Apesar da friagem do ar, ele sentia calor. Parecia que nunca mais sentiria frio na vida.

O mutante ficou onde estava mais um instante, ainda encarando Bek.

— Está certo — disse por fim, a voz dura e zangada. — Eu já disse o que precisava dizer. Ficar com ela é problema seu. — Virou-se. — Vou tentar atrair a atenção dele. Talvez isso ajude, mas duvido. Boa sorte, garoto.

Bek viu Truls Rohk descer a encosta suave, movendo-se com a graça e a precisão de um gato do pântano. Deformado e malfeito, uma aberração da natureza, ele era, mesmo assim, bonito de se ver. Bek não conseguia acreditar que ele estava mesmo indo embora. Estavam juntos desde o início da jornada, a oeste das montanhas Wolfsktaag. Truls o havia salvado tantas vezes que Bek perdera a conta, lhe dera os insights de que precisava para aceitar sua herança e seu destino. Nem sempre concordavam em tudo, e havia uma certa desconfiança e insegurança entre os dois, mas a aliança havia funcionado. Vê-la terminar agora o arrasava. Mesmo enquanto olhava o outro partir, Bek não podia acreditar que aquilo estivesse acontecendo. Era como se o mutante estivesse levando uma parte de Bek consigo. Sua confiança. Seu coração.

Truls, ele queria gritar. Não vá.

O caull virou-se para observar o mutante; seu corpo poderoso se abaixou e ficou mais tenso. Bek deitou Grianne no chão, colocando-a cuidadosamente atrás dele antes de se virar para defendê-los. Quando o caull atacasse, atacaria rapidamente. Ele só teria uma chance de detê-lo.

Não chegou a ter nem isso. Antes que pudesse se preparar, o caull atacou, pulando para o lado com uma velocidade estonteante, atravessando o riacho e subindo a encosta em um borrão de pernas e mandíbulas escancaradas. Bek teria morrido um instante depois se não fosse por Truls Rohk, que se moveu ainda mais rápido. Tão rápido que parecia simplesmente ter deixado um lugar e reaparecido no outro; interceptou o caull pela lateral, deu um encontrão nele e o derrubou.

Em seguida ele já estava em cima da fera, rasgando-a como se ele próprio fosse um animal, resfolegando com tamanha ferocidade que, por um instante, Bek não tinha certeza de que era realmente Truls. O mutante atacou o caull usando armas que Bek não conseguia ver — armas que ele ocultava sob o manto ou que talvez tivesse simplesmente improvisado a partir da massa de ossos retorcidos e expostos que compunham seu corpo arruinado. Fosse o que fosse, elas provaram ser eficientes. Pedaços do corpo do caull saíram voando, espirrando sangue em jatos verde-escuros espessos como tinta. Os lutadores rolaram pelo chão do vale, corpos atracados com um objetivo, perdidos em sua desesperada para matar um ao outro.

Bek se recuperou o suficiente para lembrar de usar a canção do desejo, não conseguia imaginar uma maneira eficiente de usá-la. O mutante e o caull estavam tão grudados que não havia como invocar a magia sem atingir ambos. Bek corria para um lado e para outro da batalha, envolto em todo aquele som e fúria, procurando desesperadamente um jeito de interferir, mas incapaz de fazê-lo.

— Truls! — ele gritou desesperado.

Fontes brilhantes de vermelho jorraram do emaranhado, o sangue humano do mutante liberado de uma ferida em algum lugar embaixo do manto que o escondia, uma ferida que Bek não conseguia ver. Ele ouviu Truls resfolegar de ódio e de dor e em seguida atacar o caull com fúria renovada, jogando-o ao chão. O caull gritava com um som que parecia metal sendo cortado, contorcendo-se e mordendo o ar em um redemoinho de garras e dentes, mas nãoconseguia se libertar.

Então Truls Rohk prendeu a cabeça do caull com os braços e puxou o longo e grosso pescoço dele para trás, torcendo-o violentamente. Bek ouviu a cartilagem estalar e os ligamentos se romperem. O caull gritou com tamanha fúria que o som era igual ao da pior tempestade que Bek já havia testemunhado, ventos de furacão arrancando janelas e portas, funis de nuvens rasgando a terra. O caull levantou o corpo num último e inútil esforço de deslocar o mutante, e então sua cabeça se separou do corpo e explodiu em uma ruína irreconhecível.

No silêncio que se seguiu, ao mesmo tempo vazio e cheio de cacofonia, Truls Rohk jogou longe os restos do corpo. Ainda se contorcendo, ele caiu no chão da floresta, espalhando sangue escuro por toda parte. O mutante ficou sobre ele por um momento, curvou-se no riacho para beber e se lavar, e então voltou subindo a colina até onde Bek aguardava.

Sem parar por um segundo sequer, ele esticou os braços e apanhou Grianne, levantando-a e aninhando-a entre os braços.

— Mudei de idéia — ele disse, a voz rouca e cansada, a respiração ofegante.

Então tomou a caminhar, deixando para trás, atônito, Bek, que logo o seguiu.

 

Com o passar do dia, depois que o trio deixou o sopé das montanhas e alcançou as encostas inferiores das montanhas, duas coisas foram ficando cada vez mais claras para Bek Ohmsford.

Primeiro, eles haviam entrado em território de mutantes. Ele sabia disso, não porque houvesse algum demarcador de fronteira, postes sinalizadores ou qualquer coisa que designasse aquele território como tal. Como o caminho que haviam tomado era outro, ele não podia sequer ter certeza de que reconhecia da visita anterior as coisas que estava olhando agora. Sabia onde estava porque podia sentir os mutantes o olhando. Podia sentir os olhos deles. Era plena a luz do dia e as encostas de florestas esparsas ofereciam poucos esconderijos e, por isso, parecia que ninguém estava ali. Mas estava, ele sabia, e não muito longe. Poderia ter questionado esse sentimento um dia, mas depois de tê-lo vivenciado há pouco mais de uma semana — depois de ter sentido aquilo tão fortemente que mal conseguia respirar porque os mutantes tinham ficado em cima dele —, ele não estava questionando agora.

Em segundo lugar, Truls Rohk estava enfraquecido. Ele havia saído da batalha com o caull sem fôlego e obviamente ferido, mas aparentemente não estava correndo risco algum. Caminhara sem cessar por várias horas, carregando Grianne e definindo um ritmo rápido para Bek acompanhar. Mas nas duas últimas horas, com o fim da tarde e a chegada da noite, ele havia começado a reduzir o ritmo e depois a cambalear. Seu passo ligeiro se transformou em um arrastar de pés irregular.

— Preciso descansar — Bek disse finalmente, em um esforço para descobrir o que estava acontecendo.

O mutante continuou avançando por mais cinqüenta metros e depois praticamente desabou ao lado de um tronco de árvore caído; mal conseguiu colocar Grianne no chão antes de cair pesadamente ao lado dela. Ele não teria pensado em se sentar perto dela antes disso; agora, era como se ele não tivesse forças nem sequer para se afastar.

Bek caminhou até ficar ao lado dele e estendeu a mão para pegar a bolsa de água. Truls entregou-a a ele sem olhar para cima. Uma tosse seca saiu de dentro do capuz e Bek viu os ombros do mutante se levantarem e abaixarem enquanto ele lutava para respirar. Sentando-se, bebeu da bolsa e viu Truls estremecer, um tremor fundo e involuntário.

Ficaram sentados lado a lado sem falar por um longo tempo, olhando o vale abaixo, ouvindo o silêncio.

— Nós podemos acampar aqui — Bek disse finalmente.

— Precisamos continuar nos movendo — disse Truls, sua voz rouca e fraca. Não parecia sequer a voz de Truls. — Precisamos subir mais as encostas enquanto ainda resta luz.

Ele levantou o capuz, o vazio de sombras encarando o garoto como um buraco aberto na terra.

— Você sabe onde estamos?

Bek assentiu.

— Na terra dos mutantes.

Uma tosse sacudiu o corpo do outro e ele se curvou momentaneamente antes de se endireitar.

— Precisamos ir fundo para que eles não tenham escolha, para que tenham de vir atrás de nós.

— Você decidiu pedir a ajuda deles?

Ele não respondeu. Outro espasmo sacudiu seu corpo.

— Truls, o que houve? — Bek perguntou, aproximando-se.

— Afaste-se de mim! — o mutante gritou zangado.

Bek se afastou.

— O que houve?

Por um momento não houve resposta.

— Não sei. Não estou me sentindo bem. O caull fez alguma coisa comigo, mas não sei o que foi. Não achei que aqueles cortes e mordidas fossem grande coisa, mas estou me sentindo arrasado. — Deu uma gargalhada rápida e seca. — Não seria uma piada se eu morresse por causa de sua irmã? Protegê-la quando eu nem sequer gosto dela? O druida ia adorar isso se estivesse aqui!

Tornou a gargalhar, o som fraco e quebrado. Então lutou para voltar a ficar em pé, apanhou Grianne e seguiu em frente.

Caminharam por mais uma hora, a tarde lentamente se transformando em crepúsculo, o ar esfriando rapidamente para se tornar um calafrio que mordiscava o rosto de Bek. As sombras se alongavam no lado da montanha, dedos escuros se estendendo, e a lua apareceu no céu, elevando-se da distância nebulosa, semiformada e minguante. Bek olhou para trás, por onde haviam vindo, para ver se alguém os seguia, uma tentativa impossível com aquela luz, e logo desistiu. Olhou para as vizinhanças, procurando os vigias, mas o esforço não deu em nada. Ficou escutando o silêncio, mas isso não o acalmou.

Chegaram a uma extensão de terreno que fazia um ângulo agudo na direção de um bosque de coníferas, e Truls voltou a desabar. Desta vez ele caiu sem aviso, largando Grianne de qualquer maneira, rolando para se afastar dela e deitando de costas, tentando respirar. Bek correu na hora, ajoelhando-se ao lado dele, mas o mutante o afastou com um empurrão.

— Deixe-me em paz! — ele gritou. — Cuide de sua irmã!

Grianne jazia jogada ao lado, os olhos abertos sem enxergar, o corpo flácido. Parecia intacta quando Bek a ajudou a voltar a se sentar, arrumando-lhe as roupas e retirando folhas e gravetos de seus cabelos antes de voltar a Truls.

— Estou exausto — disse o mutante com uma voz seca. — Acabado. Faça uma fogueira nas árvores para se aquecer. Aguarde a chegada deles.

Uma fogueira poderia atrair a atenção daqueles que os caçavam, mas Bek sabia que o que quer que acontecesse agora estava nas mãos dos mutantes. Nenhum mal lhes recairia se as criaturas espirituais não quisessem — não no hábitat deles, e não de caulls, mwellrets ou de qualquer outra coisa. Truls Rohk também sabia disso. Era com isso que estava contando.

Bek começou a catar lenha para fazer uma fogueira. Só quando colocou a madeira no lugar percebeu que não tinha pederneira. Quando voltou para ver se Truls tinha, o mutante estava inconsciente. Bek levou Grianne para onde ele havia empilhado a lenha, e em seguida voltou para Truls, mas ele era muito pesado para carregar. Todas aquelas partes do corpo que estavam quebradas ou que faltavam, e ele ainda pesava demais. Bek o deixou e se sentou com Grianne perto da madeira inútil. Pensou em utilizar a canção do desejo para acender o fogo, mas não sabia como fazer isso. Ficou ali sentado, olhando para a noite, sentindo-se indefeso e sozinho.

Onde estavam os mutantes?

A noite caiu e a escuridão se fechou sobre eles. As estrelas apareceram acima e o silêncio ficou mais fundo. Em pouco tempo estava tão frio que Bek começou a tremer. Puxou Grianne para perto de si, tentando aquecer a ambos, imaginando se poderiam congelar até a morte antes do amanhecer. Estavam bem no alto da montanha; já estava frio demais e ia ficar mais frio ainda.

Num momento, ele se levantou e foi até onde Truls Rohk estava e tentou acordá-lo. O mutante estava acordado e respirando, mas não parecia lúcido. Um calor terrível irradiava do seu corpo, como se ele estivesse queimando de febre. Bek ficou sentado com ele por algum tempo, tentando pensar em algo que pudesse fazer. Mas a fisiologia de Truls Rohk era tão diferente que Bek não sabia por onde começar. No fim, ele simplesmente ficou falando baixinho para o outro, tentando reconfortá-lo, dar-lhe algum pequeno consolo.

Então voltou para Grianne e para a espera.

Depois de algum tempo, ele devia ter finalmente caído no sono, porque a próxima coisa que viu ao acordar foi a fogueira queimando brilhante à sua frente e o ar da noite ficando quente e aconchegante. Olhou de relance para Grianne, sentada ao seu lado, acordada e olhando para a frente, mas quando chamou seu nome não obteve resposta. Olhou ao redor e não viu nada, levantou-se e olhou mais um pouco, e mesmo assim não viu nada.

Começou a caminhar até a margem da clareira onde Truls estava e parou. Cerca de dez formas escuras bloqueavam seu caminho, formas maciças enormes à sua frente como grandes rochedos. Quando ele começou a recuar, mais formas surgiram de ambos os lados, enormes e ameaçadoras, suas feições ocultas pela escuridão e uma névoa que aparecera subitamente.

Bek parou onde estava e ficou firme. Ele sabia o que eram eles; estava esperando que aparecessem. O que não sabia era por que eles haviam esperado tanto tempo.

Por que você voltou?

A voz era fina e oca, quase um uivo, e vinha de todas as partes ao redor, de nenhuma fonte específica.

— Meu amigo está doente.

Seu amigo está morrendo.

As palavras foram inesperadas, ditas sem um vestígio de emoção ou interesse. Por um momento, Bek não conseguiu responder. Não, ele disse a si mesmo. Não, isto está errado. Não pode ser.

— Ele está ferido — disse. — Vocês podem ajudá-lo?

As sombras se desvaneciam e reapareciam na névoa densa como criaturas conjuradas da imaginação. Os mutantes tinham essa qualidade etérea, essa estranheza que desafiava explicações. Pareciam tão impermanentes que nada neles era real. Mas Bek se lembrava de como podiam mudar rapidamente para algo concreto e mortal.

O caull o envenenou. Dentes e garras excretaram veneno, e esse veneno penetrou em sua metade humana, infectando-a. O veneno está sugando suas forças. Quando sua metade humana morrer, a metade mutante também morrera.

— Existe algum antídoto? — Bek quis saber, ainda envolto em uma teia de surpresa e choque. — Vocês conhecem algum?

Não há cura.

Bek olhou ao redor, desesperado.

— Deve haver alguma coisa que eu possa fazer — ele disse por fim. — Não vou deixá-lo morrer.

Assim que disse essas palavras, percebeu que era o que os mutantes estavam esperando ouvir. Ele podia vê-los se moverem em resposta a isso, ouvir seus murmúrios de expectativa. Podia sentir uma mudança no ar. Na hora pensou em retirar essas palavras, mas, de qualquer maneira, não sabia como fazer isso e não teria conseguido.

Nós dissemos a você que os híbridos não têm lugar no mundo. Você disse que criaria um lugar para este. Você faria isso agora?

Bek respirou fundo.

— O que vocês estão pedindo?

Você criaria um lugar para seu amigo? Você lhe daria uma chance de viver?

A voz era friamente insistente. Não estava interessada em argumentos ou na razão, em nada a não ser uma resposta direta à sua pergunta. Os mutantes haviam se aquietado novamente, aglomerados uns contra os outros como se fossem rochas. Bek não conseguia mais ver ou sentir a fogueira. Não conseguia mais se lembrar em que direção ela ficava. Estava envolto em trevas, cercado pelas criaturas espirituais, e tudo o que podia ver do mundo era o brilho das estrelas no céu.

— Eu quero salvá-lo — ele disse finalmente.

Sentiu um murmúrio de aprovação e, uma vez mais, de expectativa. Era a resposta pela qual estavam esperando, mas também era uma resposta que prometia resultados que ele não compreendia totalmente.

Ele precisa abandonar sua pele humana. Precisa deixá-la de lado para sempre. Ele precisa se tornar um de nós, uma coisa só, não duas coisas separadas. Se fizer isso, o veneno não poderá feri-lo. Ele viverá.

Abandonar sua pele humana? Bek não tinha certeza do que haviam acabado de lhe dizer, mas não importava. Não podia deixar de lado qualquer oferta que pudesse salvar Truls.

— O que você quer que eu faça? — ele perguntou.

Dê-nos permissão para torná-lo um de nós.

Bek balançou a cabeça rapidamente.

— Não posso fazer isso. Preciso perguntar a ele se é isso o que ele quer. Não tenho o direito...

Ele não pode ouvi-lo. Está perdido em sua doença. Morrerá antes de poder lhe dar uma resposta. Não há tempo. Você precisa decidir por ele.

— Por que vocês precisam de minha permissão? — Bek ficou histérico subitamente. — Que diferença faz o que eu disser?

Os sussurros e movimentos pararam e a noite ficou completamente quieta. Bek ficou paralisado e segurou a respiração como um homem prestes a pular de um lugar muito alto.

Um humano precisa fazer esta escolha. É o lado humano dele que nós iremos destruir. Não há mais ninguém a não ser você. Você disse que era seu amigo. Disse que daria a vida por ele e ele daria a vida por você. Devemos criar um lugar no mundo para ele? Você deve decidir.

Bek suspirou.

— Vocês precisam me dizer o que acontecerá com ele. Se eu lhes disser para fazerem isso, seja o que for, se eu der minha permissão, o que será de Truls?

Houve uma longa pausa.

Ele se tomará um de nós, parte de nós.

Bek encarou-os.

— O que isso quer dizer?

Nós somos um. Somos uma comunidade. Nenhum de nós vive distante dos outros. Ele se juntaria a nós.

Naquele instante, Bek se sentiu mais do que nunca um garoto, um garoto que havia se aventurado no mundo e se metido em tantos problemas que nunca mais voltaria a ver sua casa. Fechou os olhos e balançou a cabeça. Não podia fazer isso. Estavam lhe pedindo que salvasse Truls, mas também estavam lhe pedindo para mudá-lo de forma irrevogável. Salvando Truls, ele o transformaria em uma coisa completamente diferente — uma criatura comunitária, não mais separada e distante, mas parte de um todo. Como seria isso? Será que Truls iria querer isso, mesmo que fosse para salvar sua vida? Como Bek poderia saber?

Ele ficou ali, flutuando num mar de profundas incertezas, sabendo que estavam lhe oferecendo a única opção disponível e odiando o fato de que quem tinha de fazer a escolha era ele. Truls Rohk nunca estivera em paz no mundo. Ele fora um pária por toda a vida, com poucos amigos, nenhuma família nem lar. Era uma aberração criada através de um cruzamento proibido, uma aberração da natureza que nunca pertencera a lugar algum. Ele criara seu próprio lugar. Talvez ficasse melhor se fosse transformado em uma das criaturas espirituais, e finalmente se tornasse parte de uma família e uma comunidade. Talvez ele ficasse mais feliz.

Ou talvez não.

Bek queria que Truls vivesse — queria desesperadamente —, mas não se o preço fosse alto demais. Como ele poderia medir isso?

Diga-nos sua decisão.

Bek fechou os olhos. Uma chance de viver valia qualquer preço, era preciosa demais para desistir por qualquer motivo. Ele não podia saber como isso tudo acabaria, não podia determinar o que Truls Rohk faria se fosse capaz. Só podia fazer para Truls o que Bek gostaria que fizessem para ele na mesma situação. Só podia fazer o que acreditava que era certo.

— Salvem-no — pediu baixinho.

Ouviu um movimento súbito dos mutantes, um sibilar estranho que se transformou em um suspiro. A muralha de corpos que o havia cercado se abriu e a escuridão clareou para revelar a fogueira ainda ardendo na frente de sua irmã.

Volte para ela. Sente-se com ela e aguarde. Quando a manhã chegar, pegue-a e leve-a para as montanhas. Lá você encontrará o que está procurando. Não tema por sua segurança. Não se preocupe com aqueles que seguem. Eles não passarão.

Formas escuras mudaram para os monstros peludos que ele havia visto uma vez antes, aparições terríveis que podiam esmagar uma vida num piscar de olhos, coisas que existiam em pesadelos. Flutuaram perto dele por um instante, o cheiro penetrando nas suas narinas, a presença poderosa reforçando a promessa que haviam feito.

Vá.

Ele fez como lhe foi dito. Ainda não estava em paz consigo mesmo e não era capaz de sentir o consolo que procurava. Não conseguia suportar pensar muito no que fizera. Não queria ponderar o resultado porque tinha medo de que pudesse reconhecer algo em que não havia pensado e que não queria encarar. Voltou ao calor e ao conforto de sua fogueira, sentando-se ao lado de Grianne, pegando as mãos dela e segurando-as enquanto olhava para as chamas. Não olhou mais para os mutantes, não tentou ver para onde haviam ido ou o que estavam fazendo. De qualquer maneira ele não teria sido capaz de fazer isso, porque seus olhos não conseguiriam penetrar na escuridão além da luz da fogueira.

Em vez disso, olhou para Grianne e tentou acreditar que ela valera tudo o que havia acontecido — que salvá-la não fora um capricho do druida nem a falsa esperança de um irmão, mas um ato necessário que resultaria em algo mais importante e de conseqüências maiores do que as perdas que havia provocado.

Depois de algum tempo, ele adormeceu. Seus sonhos foram vividos, cheios de emoção, e abarcaram toda a sua vida. Neles, Quentin reaparecia, construindo um arco, os cabelos ruivos soltos, o rosto arrogante e forte, sorridente, dando gostosas gargalhadas. Coran e Liria olhavam para ele enquanto dormia e Bek podia ouvi-los falar dele com ambição e orgulho. Os integrantes da companhia da Jerle Shannara passaram por ele, um por um, enquanto ele ficava na margem da floresta, e então Rue Meridian se afastou por tempo suficiente para se aproximar dele e tocar-lhe o rosto com dedos frios que afastaram sua mente de qualquer pensamento a não ser dela.

Por último, Walker olhava para ele do alto da torre de um castelo, de um lugar que parecia vagamente familiar. Truls Rohk estava ao seu lado e em seguida se desvaneceu em uma voz desencarnada que sussurrava para ele ser forte, para ser firme, para se lembrar sempre de como eram parecidos. Ele estava diferente do que Bek lembrava, e depois de um momento, Bek sabia que era porque Truls não era mais um híbrido, mas um verdadeiro mutante. Ele era um só com sua nova família, com sua comunidade, com o mundo que lhe dera uma segunda chance na vida. Havia um senso de completude nele, de ter encontrado uma paz que ele jamais havia conhecido antes.

Bek apurou o ouvido e escutou uma caixa de espaço vazio, uma muralha de trevas, pendendo nas palavras do outro como se fosse a linha da vida, e a paz que Truls havia encontrado também tomou conta dele.

Quando tornou a despertar, já era de manhã. Uma luz cinzenta enevoada se elevava dos picos das montanhas, a leste, onde a aurora rompia. A fogueira havia se apagado e as brasas fumegantes se transformaram em cinzas mortas e tocos calcinados. Estendeu sua mão. As cinzas ainda estavam quentes. Ao lado dele Grianne dormia, estendida sobre o chão, os olhos fechados e a respiração lenta e regular.

Ficou olhando para ela por um momento, e então se levantou e foi procurar Truls Rohk.

Parou na beira da clareira onde havia deixado seu amigo na noite anterior. Tudo o que restava era um manto com capuz e alguns ossos malformados. Bek se ajoelhou e os tocou, levantando as dobras do manto, esperando encontrar algo mais. Truls Rohk havia parecido tão indestrutível que era impossível que aquilo fosse tudo o que havia restado. Mas não havia mais nada. Nem sequer manchas de sangue no chão duro e coberto de geada.

Bek se levantou e ficou olhando mais um pouco para os ossos e o manto. Talvez a maior parte do que Truls Rohk havia sido, o que importava e o que tinha valor, havia partido para se tornar parte do que ele era agora.

Ele ficou se perguntando se os mutantes, Truls entre eles, o estavam observando. Ficou imaginando se algum dia saberia se fizera a coisa certa.

Voltou até o acampamento, acordou Grianne, pegou-a pelas mãos e levantou-a. Ela foi de boa vontade, a expressão calma e vazia despida de emoções, sua obediência triste e infantil. Ele era tudo o que lhe restara, tudo o que ficara entre ela própria e o destino aleatório. Ele havia se tornado para ela o protetor que prometera que seria.

Ele não tinha certeza se estava à altura disso, apenas que devia tentar, que devia fazer o que pudesse para salvar os dois.

Segurando as mãos como crianças, começaram a subir.

 

Na montanha adiante daquela que Bek e Grianne lutavam para subir, Quentin Leah, preocupado, levantou os olhos de seu desjejum de pão e queijo quando Kian apareceu por entre as árvores abaixo da trilha e começou a subir na sua direção. Mais adiante, agrupados na clareira de pinheiros onde passaram a noite, os remanescentes dos rindges de Obat aguardavam instruções de para onde ir em seguida — todos menos o próprio Obat e Panax, que havia seguido adiante como batedor para perscrutar o caminho pelas passagens da Arca de Aleuthra. Eles já estavam fugindo dos mwellrets e de suas feras rastreadoras há dois dias, e Quentin havia esperado que não precisassem fugir um terceiro.

— Eles descobriram nossa trilha — Kian grunhiu. Seu rosto escuro e quadrado se franziu quando ele afundou ao lado do montanhês e enxugou a testa. — Estão chegando.

Não olhava para Quentin. Aliás, nesses dias, ninguém olhava. Ninguém queria ver o que havia em seus olhos. Não desde que o encontraram nas ruínas de Castledown. Não desde que souberam o que acontecera com Ard Patrinell.

Quentin entendia. Ele também não se sentia mais à vontade consigo mesmo. Tudo parecia fora do lugar.

Deu ao elfo caçador o que restou de seu pão e queijo e ficou olhando para baixo, frustrado. Estavam sentados em uma encosta rugosa que tinha o jeito de um Koden encurvado, as costas todas marcadas com coníferas e pedras lascadas. Quarenta e oito horas de corrida os haviam levado para lá — horas frenéticas gastas tentando afastar seus perseguidores. Nada havia funcionado, e agora, finalmente, estavam cercados.

Desde o começo, quando Quentin, Panax, Kian, Obat e uma dezena de rindges haviam permanecido para trás para reduzir a caçada à tribo, as coisas deram errado. Como grupo, eles possuíam uma vida inteira de conhecimento de caça e rastreio em terreno selvagem, e cada um deles conhecia uma dezena de truques que reduziriam a velocidade ou deteriam qualquer um que tentasse segui-los. Empregaram todos. Haviam começado com dispositivos simples feitos para criar dezenas de trilhas falsas que um cão de caça levaria horas para desemaranhar. Mas as feras que os rets estavam usando para rastreá-los eram superiores a cães, e separavam a trilha verdadeira da falsa com uma rapidez nunca antes vista, indo atrás do grupo de Quentin sem quase deixar tempo para que pudessem fugir. Então os rindges usaram extratos de plantas para criar cheiros fortes que afastariam as criaturas. Isso também não funcionou. Kian e Panax os levaram até mesmo para um rio, utilizando a água corrente para ocultar sua passagem, mas as feras rastreadoras acabaram os encontrando novamente.

Em desespero, Obat os atraiu até uma ravina estreita e ateou fogo a toda a floresta que subia, um vento forte soprando o fogo até os rostos dos rets abaixo. O fogo fora criado não só para afastar seus perseguidores, mas para destruir seus vestígios e seu cheiro também. Isso lhes renderia várias horas, mas, no fim, os rets e suas feras os encontraram.

Por fim, desesperados, Quentin e seus companheiros montaram uma emboscada, pensando em matar ou incapacitar as feras rastreadoras. A emboscada apanhou os rets de surpresa e um punhado foi morto por flechas e zarabatanas antes que o restante tivesse chance de buscar cobertura. As feras rastreadoras também foram atingidas, mas os projéteis pareciam praticamente não ter nenhum efeito sobre elas. Elas arrancavam as pontas farpadas como se não fossem nada além de picadas de abelhas e iam atrás de seus atacantes com uma fúria surpreendente. Soltas de suas correntes, se transformaram em uma matilha de assassinas selvagens. Quentin havia se envolvido em muitas caçadas ao longo dos anos, mas jamais vira nada parecido. As feras rastreadoras, pelo menos oito delas, haviam corrido por entre os arbustos e por sobre as rochas como lobos enlouquecidos, monstros sem voz que lembravam vagamente humanos evoluídos para alguma coisa maior e mais terrível do que os lobos cinzentos que caçavam nos Carvalhos Negros a leste de Leah.

Sem outra opção, Quentin e seus companheiros ficaram onde estavam e resistiram. Mas antes que alguém conseguisse impedir, três rindges estavam mortos, as feras cobertas com o sangue deles. Eles poderiam ter sido todos mortos se não fosse pela espada de Leah, que se acendia como uma tocha, a magia percorrendo sua extensão em um rastro de fogo azul. Foi aí que Quentin percebeu que as feras haviam sido criadas com magia e que seria necessário magia para detê-las. Matou duas em um borrão de gritos e membros decepados, antes que o resto caísse, não derrotadas ou com medo, mas desconfiadas agora do poder da espada e sem saber ao certo se deveriam ou não continuar.

A hesitação delas permitiu que Quentin e seus companheiros escapassem, mas o uso da espada também os marcou; alertou aos seus caçadores que pelo menos um dentre os perseguidos possuía magia, e isso lhes aumentou a determinação em continuar a perseguição. Aeronaves apareceram nos céus e novas unidades de mwellrets e rastreadores foram baixadas ao chão para se juntar às que já estavam lá. Quentin não sabia dizer quantos havia, mas eram mais do que o bastante para sobrepujá-lo, caso ele escolhesse ficar e lutar novamente. Não podia ter certeza se os rets sabiam quem estavam rastreando, mas era claro que eles estavam levando aquilo a sério.

A caçada continuou ao longo daquele primeiro dia e durante todo o segundo, com os rindges prosseguindo mais para o interior da Arca de Aleuthra, mais alto na direção dos picos escarpados, seguindo uma trilha que sabiam que acabaria levando-os por sobre as montanhas e para as planícies mais amplas adiante. Quentin estava começando a se perguntar se isso adiantaria de alguma coisa. Se seus perseguidores estavam tão determinados assim, eles seriam apanhados mais cedo ou mais tarde, fugissem para as montanhas ou não. Se quisessem fugir, uma solução mais permanente tinha de ser encontrada, e rápido, porque as mulheres e as crianças, que formavam a maior parte dos fugitivos, estavam se cansando.

Quentin também estava cansando-se, não tanto física, mas emocionalmente. Ele havia perdido algo em sua batalha com o wronk de Ard Patrinell — um pouco do fervor que o motivara antes, um pouco do coração e do objetivo —, de modo que, agora, se sentia mais uma casca vazia do que uma pessoa inteira. Com tantos membros da equipe mortos e todo o resto espalhado e perdido, seu foco se perdeu. Estava ajudando os rindges porque precisavam disso e porque não sabia mais o que fazer. Isso lhe dava direção, mas não paixão. Ele havia perdido demais e, para reencontrar o que perdera, seria necessária uma mudança dramática em seus destinos.

Não achava que Panax e Kian estivessem em situação muito melhor, embora parecessem mais endurecidos do que ele, mais acostumados à idéia de seguirem sozinhos. Quentin ainda era jovem demais, despreparado para ter vivido o tipo de perdas que havia acabado de sofrer, e as perdas o estavam afetando de modo cada vez mais dramático. Ele viu Tamis novamente, coberta de sangue e morrendo. Viu a cabeça de Ard Patrinell, fechada em metal e vidro, um instante antes de ser esmagada. Viu Bek, da maneira como se lembrava dele nas Highlands, há muito tempo.

Estava se sentindo assombrado, desgastado e desiludido, e podia se sentir afundando pouco a pouco. Chorava porque não conseguia ajudar a si mesmo, tentando mascarar suas lágrimas, ocultar sua fraqueza. Estava tendo calafrios em plena luz do sol. Sonhos sombrios assombravam seu sono — sonhos com aquilo que o caçava, que esperava por ele, com destino e profecia. Acordou tremendo e com medo, e voltou a dormir com frio, sentindo-se vazio.

Mas Quentin também era a melhor chance que os outros tinham de permanecer vivos, e ele estava dolorosamente consciente do fato. Sem a magia da espada de Leah eles não tinham resposta para a magia das coisas que os perseguiam. Quentin podia estar à beira do abismo, mas não se permitiria cair.

— Quanto tempo ainda temos? — perguntou a Kian depois de um momento.

O elfo deu de ombros.

— Os rindges tentarão reduzir a velocidade dos perseguidores, mas não vão conseguir. Então, talvez uma hora, um pouco mais.

Quentin fechou os olhos. Eles precisavam de ajuda. Precisavam de um milagre. Não achava que fosse capaz de dar-lhes isso. Não sabia quem poderia.

Kian terminou o pão com queijo, tomou um gole de sua bolsa de água e se levantou. Estava coberto de pó e destroços, e suas roupas estavam rasgadas e cobertas de sangue. Era um reflexo de Quentin. Ambos eram refugiados que precisavam de um banho e de sono de verdade, coisas que provavelmente não conseguiriam tão cedo.

— É melhor levantarmos e irmos em frente — disse Kian.

Voltaram pela trilha até onde os rindges esperavam. Usando gestos e poucas palavras que conheciam dos rindges, reuniram a tribo e a colocaram uma vez mais em movimento. Os rindges eram um grupo desanimado, não tanto por causa do cansaço, mas porque nada que os homens haviam tentado tinha funcionado e o tempo estava acabando. Mesmo assim, prosseguiam sem reclamar, os muito jovens e os muito velhos, as mulheres e crianças, todos ajudando uns aos outros onde a ajuda era necessária, um povo afastado do lugar que fora seu lar por séculos, afastado por forças das quais não tinham controle. Eles estavam demonstrando uma determinação que Quentin achava surpreendente e enternecedora, e pegou deles toda a força que pôde.

Mesmo assim, não era muito.

Eles haviam caminhado por talvez uma hora quando a retaguarda dos rindges apareceu correndo. Seus gestos eram inconfundíveis. Os mwellrets e as feras rastreadoras estavam na direção deles.

Ao mesmo tempo, Panax e Obat apareceram do outro lado. O anão estava empolgado quando correu para alcançar Kian e o montanhês.

— Acho que encontramos uma coisa que vai ajudar — ele disse, os olhos brilhando ansiosos, vasculhando os rostos. Esfregou vigorosamente a barba espessa. — O passo se divide acima. Uma das bifurcações leva até uma queda de trezentos metros, não há como contorná-la. A outra leva a uma plataforma estreita com espaço para talvez, no máximo, duas pessoas passarem.

Esta segunda trilha dá a volta pela montanha e depois sobe por uma passagem alta que vai até o outro lado. O importante é o seguinte: você pode ficar acima da segunda trilha subindo pela montanha mais além e voltando por uma curva. Existe um ponto, perfeito para o que precisamos, para provocar uma avalanche que varrerá a passagem e qualquer coisa nela. Se conseguirmos fazer com que os rindges passem antes de serem apanhados pelos rets, podemos ser capazes de iniciar um deslizamento de rocha que derrubará aqueles rets e suas feras para fora da trilha, ou pelo menos, aprisioná-los do outro lado de onde estamos.

— A que distância fica esse lugar? — Kian perguntou na hora.

— Uma hora, talvez duas.

O elfo caçador balançou a cabeça.

— Não temos todo esse tempo.

— Teremos, se eu ficar para trás — Quentin disse na hora.

Ele falou sem pensar. Era uma oferta ousada e perigosa, mas sabia mesmo sem pensar que era a coisa certa.

Ficaram olhando para ele.

— Montanhês, o que você está dizendo? — Panax perguntou irritado. — Você não pode...

— Panax, me escute. Sejamos francos: é a magia que os está atraindo. Não, não me diga que eu não sei do que estou falando. Nós dois sabemos que é verdade. Todos nós sabemos. Eles querem a magia, assim como Antrax e seus rastejadores queriam. Se eu ficar para trás, posso atrasá-los por tempo suficiente para que vocês passem pelo lugar na montanha onde querem começar o deslizamento. Isso renderá o tempo de que vocês precisam.

— Mas também vai lhe matar! — retrucou o outro.

Quentin sorriu. Agora que havia tantas feras rastreadoras, ele praticamente não tinha chance de suportar um ataque continuado. Se não pudesse correr mais do que eles — e sabia que não podia —, eles cairiam em cima dele, com ou sem espada. Ele estava propondo abrir mão de sua vida pela vida dos outros, uma barganha na qual ele não podia pensar muito se quisesse mantê-la.

— Vou ficar com você — ofereceu Kian, sem se importar em questionar a lógica do montanhês, sabendo que não adiantava tentar.

— Não, Kian. Um de nós é suficiente. Além do mais, posso fazer isso melhor sozinho. Posso me mover mais rápido se estiver sozinho. Você e Panax levam os rindges. Isso é mais importante. Eu alcanço vocês.

— Você não vai viver tanto tempo — Panax disse sem conseguir conter a fúria. — Isto não faz sentido!

Quentin deu uma gargalhada.

— Você devia ver seu rosto, Panax! Vão, agora! Movimentem o pessoal! Quanto mais rápido fizerem isso, menos tempo vou precisar passar aqui atrás.

Kian deu-lhe as costas, as feições escuras endurecidas.

— Vamos, anão — ele disse, puxando a manga da camisa de Panax.

Panax se permitiu ser arrastado, mas continuou olhando para Quentin.

— Você não precisa fazer isso! — ele gritou. — Venha conosco. Nós podemos resolver tudo!

— Me aguardem! — Quentin gritou para eles.

Então os rindges tornaram a caminhar adiante, serpenteando por entre as árvores e subindo a trilha. Passaram por pedregulhos, fizeram a curva e, em minutos, haviam desaparecido.

Tudo ficou quieto. O montanhês estava sozinho, em pé no centro da trilha vazia, e esperou até não conseguir mais ouvi-los. Então começou a descer o caminho pelo qual já havia passado.

 

Quentin não levou muito tempo para encontrar o que estava procurando. Lembrava-se do desfiladeiro de antes, uma rachadura estreita que passava por um trecho maciço de rocha e serpenteava para cima em uma inclinação aguda, mal permitindo passagem para uma pessoa. Quentin sabia que se tentasse resistir em terreno aberto as feras rastreadoras o derrotariam em segundos. Mas se bloqueasse o caminho delas através da fenda, só poderiam ir até ele uma de cada vez. Mais cedo ou mais tarde, elas conseguiriam irromper pela pura força dos números ou encontrariam outro caminho. Mas ele não precisava detê-los indefinidamente, apenas ganhar um pouco de tempo para seus companheiros.

A fenda no pedregulho corria por talvez quinze metros e, no meio dela, havia um trecho mais largo. Ele escolheu esse ponto para fazer sua primeira defesa. Quando fosse forçado a ceder ali, poderia recuar para a abertura superior e tentar novamente.

Olhou para trás. Mais além, outros duzentos ou trezentos metros, havia um grande aglomerado de pedregulhos onde ele havia enfiado seu arco e suas flechas. Faria sua última defesa ali.

— Queria que você pudesse ver isso, Bek — ele disse em voz alta. — Deverá ser interessante.

Os minutos passavam rapidamente, mas em pouco tempo ele ouviu a aproximação das feras rastreadoras. Elas não faziam nada para ocultar sua chegada, não fingiam esconder suas intenções. Rosnados agudos e grunhidos pontuaram o som das respirações pesadas deles e o cheiro dos animais era levado pelo vento. Mais adiante, mas chegando perto, estavam os mwellrets.

Quentin desembainhou a espada de Leah e esperou.

Quando a primeira fera, com sua cabeça pontuda, despontou na curva mais próxima da fenda e o viu, atacou-o sem hesitar. Quentin se agachou e a apanhou no meio do salto com a ponta de sua arma, varando-a no peito e prendendo-a à terra, onde ela ficou se debatendo e gritando, até que finalmente morreu, quando a magia da espada percorreu seu corpo. Mais duas feras apareceram quase imediatamente, lutando para passar por cima uma da outra. Ele golpeou seus rostos e olhos enquanto se apertavam na abertura estreita e as forçou a recuar. De trás delas, ouviu os gritos dos rets e os resfolegares de outras feras rastreadoras enquanto tentavam em vão abrir caminho.

Lutou no desfiladeiro pelo máximo de tempo possível, matando duas das criaturas e ferindo outra antes de bater em retirada. Poderia ter ficado mais tempo lá, mas teve medo de que os rets achassem um meio de dar a volta. Se o aprisionassem no desfiladeiro, seria o seu fim. Ele havia conseguido o máximo de tempo que podia em sua primeira linha de defesa. Estava na hora de recuar.

Com as feras rastreadoras nos seus calcanhares, recuou pela rachadura e então fez sua segunda defesa na extremidade superior. Passando por cima da abertura, bloqueou as criaturas frenéticas, recusando-se a deixá-las passar, matando uma e utilizando o cadáver como modo de bloquear o caminho das outras. Estas, a menos que passassem por sobre o cadáver da outra criatura, não poderiam alcançar Quentin. As criaturas rasgaram a companheira morta até ela ficar em trapos, toda ensangüentada, e mesmo assim não conseguiram se libertar. Quentin lutou com uma determinação selvagem e inconseqüente, a magia percorrendo seu corpo como ferro derretido, varrendo seu cansaço e sua dor, sua razão e sua dúvida, tudo menos a sensação do momento e sua estonteante sensação de poder. Nada podia detê-lo. Ele era invencível. A magia da espada zumbia e estalava pelo seu corpo e ele se entregou a ela.

Até mesmo quando os mwellrets deram a volta por trás dele, ele permaneceu onde estava, tão envolvido na euforia gerada pela magia que teria feito qualquer coisa para que ela continuasse fluindo. Rechaçou o novo ataque e depois retornou para lutar contra as feras rastreadoras que tentavam emergir da fenda, louco para dar combate a qualquer coisa que o desafiasse.

Foi preciso um corte fundo em sua coxa para deixá-lo sóbrio o bastante para que finalmente pudesse perceber o perigo. Virou-se e correu sem diminuir o passo nem olhar para trás, ganhando terreno suficiente para lhe permitir que subisse nas rochas e achasse o arco e as flechas um pouco antes que seus perseguidores o alcançassem. Ele era um bom arqueiro, mas seus perseguidores estavam tão perto que a pontaria não queria dizer quase nada. Enterrou quatro flechas na cabeça peluda da criatura mais próxima antes que ela finalmente recuasse, cega nos dois olhos e enlouquecida de dor. Feriu mais duas, reduzindo-lhe a velocidade o suficiente para que as outras não pudessem passar. Disparou todas as flechas que possuía, matando dois rets também, e depois jogou fora o arco e começou a correr mais uma vez.

Não havia possibilidade razoável de ficar e lutar, por isso ele correu até a plataforma onde esperava que Panax, Kian e os rindges estivessem esperando por ele. Foi uma longa corrida, talvez três quilômetros, e ele logo perdeu a noção do tempo e do lugar, de tudo a não ser o movimento. Ainda pleno da magia da espada e do poder que cantava em seu sangue, encontrou forças que não sabia que possuía. Corria tão rápido que ganhou mais distância de seus perseguidores corpulentos, deixando que tropeçassem sobre pedregulhos e trilhas cobertas de pedras que ele escalava com facilidade.

Talvez, quem sabe, eles achassem um meio de sair disso.

— Leah, Leah! — gritou, eufórico e meio enlouquecido, sem se importar com quem pudesse ouvi-lo. — Leah! — ele uivou.

Eles o alcançaram finalmente na extremidade da plataforma, forçando-o a se virar e lutar. Ele ficou onde estava por tempo suficiente apenas para rechaçá-los mais uma vez, e depois correu para a plataforma. A encosta da Arca de Aleuthra, com seu perfil maciço de picos e vales, se estendia como uma pintura por sobre o horizonte, parecia de algum modo não ser real o suficiente.

As feras rastreadoras o alcançaram mais uma vez, mas não tinham espaço suficiente. Duas tombaram, gritando e tentando se agarrar com suas garras ao caírem. Ele olhou para a encosta que havia acabado de escalar; ela estava fervilhando de feras rastreadoras e mwellrets. Quantas mais poderia haver? Pressionado contra a face da encosta, recuou o mais rápido que pôde, atacando seu perseguidor mais próximo quando eles chegaram ao seu alcance. Ele havia sido arranhado e mordido em uma dúzia de lugares e a canção da magia se transformara em um gemido alto e frenético. Sua disposição e força estavam quase exauridas; quando acabassem, a magia da espada de Leah também falharia.

— Panax! — ele gritou frenético, lutando para manter seu medo recém-encontrado a distância, sentindo a euforia abandoná-lo à medida que o brilho de sua lâmina começava a ficar opaco.

Estava talvez a trinta metros de onde havia começado, a parede da encosta à sua esquerda era quase uma subida vertical, à sua direita, uma queda profunda e um precipício, quando ouviu Panax chamá-lo de volta. Ele não desviou o olhar de seus perseguidores. Estavam aglomerados na plataforma atrás de Quentin, vindo em sua direção, raiva e fome refletidas em seus olhos, esperando para que ele baixasse a guarda.

Então ouviu um rumor de pedras vindo do alto, virou-se e correu. Foi lento demais. Num segundo, a mais próxima das feras estava sobre ele, atacando-o com as garras. Ele girou e chutou-a para trás, batendo com o punho fechado na muralha de rocha com tamanha força que a espada caiu da sua mão, saltando sobre o caminho e desaparecendo no abismo.

Quentin, então, hesitou, sem acreditar direito no que acabara de acontecer, e sua hesitação lhe custou qualquer chance de fuga. Pedras e terra caíram do alto, se derramando sobre tudo em uma avalanche trovejante que varreu a face da encosta. Quentin tentou atravessá-la, mas era tarde demais. A avalanche estava toda ao seu redor, rasgando a lateral da montanha, quebrando fragmentos da plataforma. As feras rastreadoras e seus guardiães desapareceram em um rugido de pedras e depois uma enorme seção da trilha adiante se liberou e desapareceu.

Quentin se encostou na parede da encosta e cobriu a cabeça. Era como se toda a montanha estivesse desabando sobre sua cabeça. Por um momento, ele se segurou, apertado contra a rocha. Mas a avalanche o arrancou de seu poleiro como uma folha e ele desapareceu.

 

Em meio a um mar de escuridão entorpecedora e um peso de esmagar os ossos, o montanhês recuperou a consciência. Sentia cheiro de pó e cascalho, e o odor cru de folhas rasgadas e terra. No começo, não conseguiu se lembrar do que havia acontecido ou de onde estava e as garras afiadas do pânico o feriram. Mas ele se segurou, forçando-se a ser paciente, a esperar que sua mente clareasse.

Quando clareou, ele se lembrou da avalanche. Lembrou-se de ser varrido sobre a borda estreita e de ter caído no vazio, por entre uma chuva de rochas e destroços, agarrando-se, momentaneamente, antes de ser arrancado dali, enrolando-se em arbustos e lianas, o tempo todo sendo engolfado em um rugido que tornava minúscula a fúria da pior tempestade que ele já suportara. Então a escuridão se fechou sobre ele em uma onda e tudo o mais desapareceu.

Sua visão ficou mais aguçada e ele percebeu que a avalanche o havia enterrado em um aglomerado de galhos e raízes. Através de pequenas aberturas em sua tumba improvisada, viu pesadas nuvens cinzentas rolando sobre o céu cada vez mais escuro. Não tinha idéia de quanto tempo havia se passado. Ficou deitado ali sem se mover, olhando para as nuvens distantes e pensando com calma. Ele deveria estar morto. Mas as raízes e os galhos que o aprisionaram em uma gaiola de madeira quebrada também o haviam salvo, desviando pedregulhos que, de outra forma, o esmagariam.

Mesmo assim ele não estava livre de perigos. Suas orelhas estavam zumbindo e a boca e as narinas estavam ressecadas de poeira. Cada osso e músculo do seu corpo doía com a surra que ele havia levado, e ainda não sabia dizer se havia quebrado algo na queda.

Quando tentou se mover, descobriu que estava preso ao chão.

Ficou ouvindo o silêncio, um cobertor que abarcava a sua prisão incrustada na pedra e o mundo fora dali. Não havia o menor ruído que denotasse vida, o menor murmúrio, nada a não ser o som entrecortado de sua respiração. Ficou imaginando se alguém iria procurá-lo — se alguém sequer conseguiria. Talvez não tivesse restado ninguém para procurar. Metade da montanha desabara, e não havia como dizer quem ela levara consigo. Ele esperava que Panax e os rindges tivessem escapado e os mwellrets e suas feras rastreadoras não. Mas não podia ter certeza.

Tentou não pensar demais nisso, concentrando-se no problema em questão.Forçou-se a relaxar, a respirar fundo, a recuperar as energias. Com cuidado e habilidade, testou os dedos das mãos e dos pés para se certificar de que estavam todos funcionando — e que ainda estavam no lugar —, e em seguida, testou os braços e as pernas também. Por incrível que parecesse, nada parecia fraturado, muito embora tudo doesse.

Incentivado por sua sensação de inteireza, Quentin começou a procurar uma maneira de se libertar. Havia apenas um pequeno espaço para se mover naquela prisão apertada, mas ele tirou vantagem disso. Conseguiu libertar a perna esquerda e os dois braços depois de algum tempo, paciência e perseverança, mas a perna direita estava bem presa debaixo de um pedregulho maciço. Não estava esmagada, mas estava firmemente presa. Por mais que tentasse, não conseguia soltá-la.

Tornou a se deitar, encharcado de suor. Subitamente se deu conta de quanto calor estava sentindo, enterrado como um cadáver, oculto por camadas de pedras e destroços. Estava coberto de pó e detritos. Sentia como se soubesse exatamente como seria estar morto, e não estava se importando com isso.

Esgueirou-se para uma posição um pouco diferente, mas a exigüidade do espaço e a imobilidade de sua perna aprisionada o impediam de fazer muita coisa. Respire fundo, ele disse a si mesmo. Fique calmo. Sentiu gotas de chuva caindo-lhe no rosto por entre as frestas de sua prisão e viu que o céu havia escurecido. A chuva era lenta e constante, um tamborilar suave no silêncio. Ele lambeu as gotas desgarradas que caíam nos seus lábios, agradecido pela umidade.

Passou muito tempo, depois disso, trabalhando com um pedaço rígido de galho de árvore que arrastou até seu alcance, posicionando-o como alavanca. Se conseguisse deslocar o pedregulho apenas alguns centímetros, poderia ser capaz de se libertar. Mas, por causa de sua posição, deitado de costas, não conseguia o equilíbrio necessário, e o galho era comprido demais para que ele pudesse encaixar como desejava. Mesmo assim, continuou trabalhando nisso até que ficou tão escuro que lhe era impossível ver o que estava fazendo.

Então adormeceu e, quando acordou, ainda estava escuro, mas a chuva tinha parado e o silêncio retornara. Voltou ao trabalho com o galho, e amanheceu antes que ele pudesse considerar a tarefa como impossível. O desespero começou a tomar conta, e se percebeu imaginando como sua situação era realmente desesperadora. Ninguém viria procurá-lo; ele os teria ouvido a essa altura. Se ele quisesse sobreviver, teria de fazer isso por conta própria. O que isso lhe custaria? Teria de cortar a perna se não houvesse alternativa? Será que abriria mão de parte de si mesmo se isso significasse salvar sua vida?

O sono o chamou uma segunda vez, e ele despertou com a luz do dia e o brilho do sol se derramando em um céu azul límpido. Quentin não empregou seu tempo com especulações mais sombrias a respeito de sua situação e simplesmente voltou a tentar se libertar. Dessa vez usou uma varinha de ponta afiada para escavar a rocha e a terra socadas embaixo de sua perna. Se pudesse cavar um túnel sob a perna, raciocinou, poderia criar espaço suficiente para se soltar. A coisa estava indo devagar, a escavação freqüentemente reduzida a uma pedra, um pequeno fragmento de terra endurecida de cada vez. Tinha de começar na altura do joelho e trabalhar dali para baixo, centímetro a centímetro, dolorosamente. Tinha de tomar cuidado para não deslocar nada que apoiasse o pedregulho. Pois, se isso acontecesse, esmagaria sua perna e o prenderia de uma vez por todas.

Trabalhou o dia todo, ignorando a fome e a sede cada vez maiores, as dores no corpo e o calor de sua jaula. Ele havia ido longe demais e suportado muita coisa para morrer assim. Não iria desistir. Não abriria mão disso. Repetia as palavras sem parar. Transformou-as em uma canção. Cantou-as como se fossem um mantra.

Já estava quase escuro novamente quando ele finalmente soltou a perna, perdendo parte da calça e muito de sua pele. Imediatamente começou a cavar seu caminho de saída, escavando para cima através dos destroços, na direção da luz que desaparecia, de ar fresco e da liberdade. Não podia se dar ao luxo de parar para descansar. Sentiu o pânico começando a tomar conta do seu ser.

A noite havia caído, uma escuridão suave de veludo sob um céu cheio de estrelas, quando conseguiu sair debaixo das rochas e ficar em pé ao ar livre. Queria chorar de alegria, mas não se permitiria isso, com medo de que, se desabasse, poderia não se recuperar. Suas emoções estavam feridas e abaladas por causa de sua provação, e sua mente não estava inteiramente lúcida. Olhou para os montes de pedregulhos e árvores que estavam ao seu redor, e depois, para as encostas escuras acima. Com aquela luz ele não conseguia determinar o lugar de onde havia caído. Só sabia dizer onde estava, em pé numa das extremidades de um vale à sombra de duas montanhas maciças no meio da Arca de Aleuthra.

Estava frio, e ele se forçou a descer ainda mais a encosta, na direção das árvores que ficavam além da linha da avalanche, para poder encontrar abrigo. Encontrou-o em um bosque de coníferas, deitou-se e adormeceu na hora.

Naquela noite, sonhou com a espada de Leah desaparecida, e acordou determinado a encontrá-la.

À luz do dia, ele pôde ver com mais clareza onde estivera e o que havia acontecido. O deslizamento que o havia carregado encosta abaixo arrancara grande parte da montanha, despindo-a de árvores e arbustos, nivelando afloramentos e plataformas, soltando enormes seções de encosta que haviam tombado, formando uma pilha maciça de entulho. Olhando para o alto, só conseguia distinguir onde estivera quando caíra. Não restava nenhum vestígio daqueles com quem havia caído ou dos quais fugira.

Saiu à procura de comida e água, encontrando esta última num pequeno riacho próximo de onde ele havia dormido, mas nada da primeira. Mesmo sua experiência em florestas não lhe permitiu encontrar nada de comestível no alto nas montanhas. Desistiu e voltou à encosta para procurar a espada de Leah. Não tinha idéia de por onde procurar, então, por toda a manhã ficou vagando meio perdido. A encosta se espalhava por quase um quilômetro, e em alguns lugares tinha centenas de metros de profundidade. Não parava de pensar que era impossível ainda estar vivo, impossível ter caído sem ser esmagado. Não parava de dizer a si mesmo que sua sobrevivência significava alguma coisa, que ele não ia morrer naquela terra estranha, que ele iria voltar para casa, nas Highlands.

Por volta do meio-dia, o sol estava alto no céu e o vale fumegava. Ele estava começando a ter alucinações, vendo movimento onde não havia nenhum, ouvindo o murmúrio de vozes, sentindo a presença de fantasmas. Voltou para as árvores, para beber do riacho, e depois se deitou para descansar. Acordou horas depois, sentindo dores e febre, e voltou a procurar.

Desta vez os fantasmas assumiram formas que ele reconheceu. Enquanto abria caminho por entre as rochas, achou-os a lhe esperar em cada curva. Tamis foi a primeira a aparecer, erguendo-se da paisagem, curada e renovada, os cabelos bem curtos afastados de seu rosto muito sério, os olhos questionando-lhe o objetivo. Ele disse o nome dela, mas não houve resposta. Ela o olhou por apenas um momento, como se medisse a profundidade do seu compromisso e a força com a qual ele pretendia persegui-lo. Então ela se desvaneceu na miragem do calor do meio-dia, na confusão do passado.

O próximo a aparecer foi Ard Patrinell, deslizando para fora da névoa como um wronk envolto em metal, transformado em algo parcialmente humano. Ele ficou encarando Quentin, seus olhos condenados e aprisionados implorando pela libertação ainda que erguesse suas armas para matar o montanhês. Mesmo sabendo que a imagem não era real, Quentin se esquivou dela. Palavras passaram pelos lábios do capitão da Guarda da Casa, mas eram inaudíveis por trás de seu escudo de vidro, vazio de som e sentido, tão insubstancial quanto seu espectro.

A imagem tremeluziu, perdeu o foco e Quentin caiu agachado, em posição de defesa, fechando os olhos para limpar a visão, a cabeça e a mente. Quando tornou a olhar, Ard Patrinell havia desaparecido.

Ambos mortos, lembrou a si mesmo. Tamis e seu amado, fantasmas perdidos na passagem do tempo, para nunca mais voltar em nenhuma outra forma, somente memórias. Sentiu-se atraído a eles, mais etéreo e menos parte daquilo que o rodeava. Estava se perdendo no calor, desvanecendo-se em suas imaginações, precisando de descanso, comida e alguma coisa sólida à qual pudesse se agarrar. Uma chance. Uma promessa.

Nenhuma das duas coisas apareceu e sua caçada desajeitada por sobre a paisagem coberta de destroços da avalanche não revelou nada do talismã desaparecido. A tarde avançou e ele foi ficando cada vez mais exausto. Não iria encontrar a espada, ele sabia disso. Estava perdendo seu tempo. Deveria deixar aquele lugar e seguir em frente. Mas seguir em frente para que e para onde? Ele tinha algum outro objetivo, agora que estava sozinho e perdido? Havia mais alguma coisa que devesse fazer?

Sua mente vagou até o passado, até as Highlands, onde ele havia passado a juventude de modo tão despreocupado, aos tempos que havia passado caçando, pescando e fazendo explorações com Bek. Podia ver o rosto do primo no ar à sua frente, incorpóreo, mas, ainda assim, Bek. Onde estaria ele agora? O que havia acontecido com ele desde a emboscada nas ruínas de Castledown? Ele estava vivo da última vez que Tamis o vira, mas havia desaparecido desde então. Bek era um fantasma tanto quanto a rastreadora e Patrinell.

Mas vivo, Quentin disse baixinho. Mesmo faltando, mesmo desaparecido, Bek estava vivo!

Quentin se descobriu ajoelhado sobre as rochas, o rosto enterrado nas mãos, os ombros subindo e descendo. Quando ele havia parado de chorar? Por quanto tempo estava curvado daquele jeito sobre os escombros?

Enxugou os olhos, zangado e envergonhado. Chega. Não mais.

Quando pôs a mão direita sobre as pedras para se levantar, os dedos se fecharam sobre o cabo de sua espada.

Por um segundo ficou tão atordoado que achou que estava imaginando coisas. Mas era tão real quanto a pedra na qual estava ajoelhado. Forçou-se a olhar para baixo, para ver a lâmina deitada ao seu lado, coberta de poeira e terra, o cabo arranhado e marcado, mas a incomparável lâmina estava lisa e sem marcas como no dia em que fora forjada. Seus dedos apertaram o cabo e ele levou a arma para perto do rosto para poder vê-la com mais clareza e ter certeza. Não havia como se enganar. Era sua espada, seu talismã e sua esperança renascida.

Era impossível, claro, que ele a tivesse encontrado. Essa chance era remotíssima. Quentin não era muito de acreditar na Providência, na mão do destino o alcançando, mas não havia outra explicação para aquele milagre.

— Sombras — ele murmurou, a palavra, um som fraco no profundo silêncio do calor da tarde.

Pegou o presente oferecido como um sinal e voltou a se levantar, agora incentivado por um novo objetivo. Um espírito errante ainda não pronto para atravessar para a terra dos mortos, começou a andar.

 

A luz do dia rapidamente se desvaneceu dando lugar ao crepúsculo, o sol deslizando para trás da margem ocidental da Arca de Aleuthra, transformando o horizonte em púrpura e rubro brilhantes, envolvendo o vale em longas e profundas sombras. O calor cedeu e o ar ficou mais límpido e frio. A variação inesperada de temperatura marcou a chegada de outra tempestade. Quentin se curvou, abaixou a cabeça e avançou pelo vale, começando a escalar as montanhas que, ao se encontrarem, formavam uma passagem elevada. Nuvens que antes estavam invisíveis apareceram deslizando em nós apertados e se juntaram no céu. O vento aumentou de intensidade, lento e normal no começo, para, em seguida, mudar para rajadas que eram ao mesmo tempo geladas e afiadas.

Adiante, onde o desfiladeiro se estreitava e desaparecia numa curva, a escuridão aumentou.

Quentin estugou o passo. Não havia onde parar nem por que fazê-lo. Ele estava exposto demais nas encostas para arriscar um repouso; o abrigo que poderia encontrar ficava do outro lado da passagem. Precisava de comida e água, mas dificilmente iria encontrar qualquer das duas coisas antes do amanhecer. A escuridão caiu sobre a terra; nuvens de tempestade cobriram o céu, que começou a cuspir granizo sobre ele, partículas congeladas picando seu rosto; abaixou a cabeça para se proteger. O vento uivava montanha abaixo, rolando por encostas nuas, reunindo forças à medida que chicoteava pelo vale, passando por passagens e desfiladeiros. Tentando não pensar em quanto ainda tinha de percorrer para chegar a um lugar seguro, Quentin se curvou e oscilou perante a tremenda força do vento.

Quando ele alcançou o topo da passagem principal, o granizo havia se tornado neve e um tapete de seis centímetros de profundidade cobria o terreno por onde ele passava. Havia amarrado a espada de Leah nas costas, usando um pedaço de corda que havia encontrado num dos bolsos, uma maneira improvisada que permitia às mãos ficarem livres. Caminhava, na maior parte do tempo, por terreno irregular, o vento açoitando-o de todos os lados e se deslocando rapidamente. A luz pregava peças na cortina de neve que caía e Quentin mal conseguia manter o equilíbrio. Ainda estava zonzo e febril, sofrendo alucinações devido à desidratação e à falta de comida, mas não podia fazer nada a respeito.

Os fantasmas de seu passado iam e vinham, sussurrando palavras que não faziam sentido, gesticulando de maneiras que ele não conseguia entender. Pareciam querer alguma coisa dele, mas ele não compreendia o que era. Talvez quisessem apenas sua companhia. Talvez estivessem esperando que ele deixasse o mundo dos vivos. A idéia parecia perfeitamente possível. Se as coisas não mudassem, eles não iriam precisar esperar muito tempo.

Ele havia perdido seu manto e, por isso, não tinha nada com que se proteger do frio. Tremia muito e tinha medo de perder todo o calor do corpo antes de chegar a algum abrigo. Os anos nas Highlands fizeram dele um rapaz forte e duro, mas sua resistência tinha limite. Abraçou a si mesmo enquanto avançava arrastando os pés na neve, no gelo e no frio, tentando se conservar inteiro em corpo e espírito, sabendo que tinha de seguir em frente.

No topo da passagem, achou mais alguém esperando.

No começo, não soube dizer se o que estava vendo era real. Era grande e ameaçador, elevando-se das rochas adiante, vago e indistinto no turbilhão da tempestade. Tinha a forma de um homem, mas também de alguma outra coisa, membros e corpo meio irregulares para um homem, não muito proporcionais. Apareceu- lhe subitamente enquanto atravessava o desfiladeiro e entrou em um uivo de vento com tamanha fúria que ameaçava rasgar as roupas de seu corpo. Ele o viu deslizar por entre véus de neve branca e então se desvanecer inteiramente. Foi na direção dele, atraído por instinto, com medo e intrigado ao mesmo tempo. Tinha a espada, disse a si mesmo. Não estava despreparado.

A forma tornou a aparecer, mais adiante, aguardou um momento a sua aproximação e em seguida, desapareceu mais uma vez.

Esse jogo de esconde-esconde continuou através do caminho e descendo pelo outro lado, onde as paredes da montanha estavam escondidas por coníferas que serviam de quebra-vento e amainavam a força da tempestade. Ele havia deixado a montanha da qual caíra e estava agora começando a subir a do lado. A trilha era estreita e difícil de seguir, mas a aparição do fantasma adiante o mantinha focado. Agora estava convencido de que estava sendo guiado, mas não parecia haver razão para se preocupar; ele não parecia lhe querer mal.

Subiu por um longo tempo, contornando a montanha pela direção oeste, seu caminho dando voltas por entre aglomerados de árvores velhas, bosques profundos de pinheiros salpicados de neve e morrinhos rochosos escorregadios cobertos de musgo úmido. A fúria da tempestade havia diminuído. A neve ainda caía, mas o vento não mais soprava os flocos em seu rosto como agulhas, e o frio parecia menos penetrante. Adiante, a forma assumia uma definição mais clara, se tornando quase reconhecível. Quentin havia visto aquela forma antes em algum lugar, movendo-se da mesma maneira, um espectro da floresta em outro tempo e lugar. Mas sua mente estava cantando de tanta fadiga e ele não conseguia lembrar.

Falta pouco, disse a si mesmo. Não está longe.

Colocando um pé na frente do outro, o olhar indo do solo à neve que caía em redemoinhos, entre seus próprios movimentos e os do fantasma, ele seguiu em frente.

— Me ajude! — gritou em um momento, mas não houve resposta.

Não está longe, ele repetiu para si mesmo. Continue, continue.

Mas sua força estava falhando.

Ele caiu diversas vezes, as pernas simplesmente cedendo sob ele. A cada vez, lutou para se levantar sem fazer pausa para descanso, sabendo que se parasse estaria acabado. A luminosidade do dia traria luz e calor e uma chance melhor de sobrevivência ao sono. Mas isso ele não poderia arriscar ali.

Em uma clareira que levava até um bosque denso de cedros, ele reduziu o passo e parou. Podia sentir a si mesmo deixando seu corpo, elevando-se pela noite como um espectro. Estava acabado. Morto.

Então a forma negra adiante pareceu se transformar em outra coisa, não em uma, mas duas formas, menores e menos ameaçadoras. Elas saíram juntas da noite, caminhando de mãos dadas, indo em sua direção pela esquerda — como elas haviam chegado até ali? Ele ficou olhando para as novas figuras sem acreditar, novamente inseguro quanto ao que estava vendo, que não era um tipo de fantasma.

As figuras também hesitaram quando o viram. Ele foi em direção a elas, aguçando a vista para enxergar por entre as cortinas de neve, por entre espaço, tempo e alucinação, por entre a fadiga e uma sensação cada vez maior de reconhecimento, até estar perto o bastante para ter certeza de quem estava vendo.

Sua garganta estava ressecada e a sua voz rouca quando gritou para aquele que estava mais próximo e que olhava para ele com olhos arregalados, sem acreditar.

— Bek!

 

A jornada de Bek Ohmsford nos dois últimos dias não fora tão movimentada quanto a de Quentin, mas fora igualmente estranha.

Após deixar os mutantes, e com Grianne a tiracolo, ele havia continuado, penetrando na Arca de Aleuthra, o fantasma de Truls Rohk um convidado indesejado pairando junto a ele. Uma imagem do manto com capuz e dos ossos espalhados descuidadamente pelo chão congelado pairou nos seus pensamentos por todo aquele primeiro dia, um pesadelo que se recusava a ser banido. Quando deu por si, estava se lembrando de seu protetor em vida, aparentemente indestrutível, oferecendo sua força incomparável e sua segurança inabalável. Embora em grande parte do tempo Truls Rohk tivesse sido uma presença invisível, ele sempre vigiara Bek de perto, cumprindo a promessa feita ao druida.

Parecia impossível que ele realmente tivesse morrido. Bek podia dizer a si mesmo que era verdade, que não havia como se enganar, mas, de algum modo, ele continuava pensando que Truls reapareceria, como sempre fizera. Continuava esperando que Truls fizesse isso. Não conseguia evitar. A cada curva, a cada sombra, Bek achava que iria encontrá-lo esperando.

Então aquele primeiro dia passou, um sonho no qual Bek caminhou com sua irmã catatônica e o fantasma de seu amigo perdido.

Ao cair da noite, ele estava exausto, pois havia viajado muito e descansado pouco. Não pensara muito em Grianne, aceitando como certa sua obediência ao ritmo acelerado que ele havia imposto, esquecendo-se completamente de que ela não podia falar e, portanto, não reclamaria. Subitamente consciente de seu fracasso, ele a sentou e examinou-lhe os pés. Não tinham bolhas, então se concentrou em alimentá-la. Tinha de dar comida na sua boca, e mesmo assim, ela ainda não era muito capaz de tomar nada. Na maior parte das vezes, ela bebia água, mas ele também conseguia fazer descer pela sua garganta um pouco de queijo e pão amassados. Ela não parecia diferente, mas ele não sabia dizer o que acontecia dentro da cabeça de sua irmã. Passou as pontas dos dedos pelas faces e pela testa de Grianne e a beijou. Seus olhos estranhos o atravessaram, na direção de lugares que ele não podia ver.

Então ele se alimentou, comendo faminto e bebendo um pouco da cerveja que havia salvo dos suprimentos de Truls. A noite caiu em uma escuridão suave e profunda e o céu ficou lavado de estrelas. Ele envolveu Grianne no manto e ficou sentado quieto ao lado dela, enlaçando-a, protetor, com um dos braços, os pensamentos voltando-se ao passado que haviam perdido e ao futuro que poderiam jamais compartilhar. Ele não sabia o que fazer por ela. Não parava de pensar que devia haver algo que não tentara, que a catatonia de sua irmã era uma condição que ele podia mudar se simplesmente descobrisse o que era necessário fazer. Sabia que havia uma resposta para o enigma. Mas a resposta que ele procurava não vinha.

Depois de algum tempo, ele cantou para Grianne, sua voz um pouco mais do que um sussurro, como se mais do que isso pudesse perturbar a noite. Cantou canções das quais se lembrava da infância, canções que havia cantado com Coran e Liria nas Highlands quando criança. Tudo isso parecia ter acontecido há tanto tempo e tão longe dali! Há muito tempo ele não era criança. Não era mais um garoto desde que seguira naquela jornada com Quentin.

Num impulso, ele tentou usar a canção do desejo. Talvez a magia pudesse afetar Grianne. Era a conexão mais forte entre os dois, a herança compartilhada de sua linhagem sangüínea. Se ele não conseguisse alcançá-la de nenhuma outra maneira, talvez conseguisse alcançá-la assim. Ele ainda não havia usado a canção dessa maneira, mas sabia pelo histórico da família Ohmsford que outros antes dele tinham conseguido. O truque estava em encontrar uma brecha na armadura da catatonia de Grianne, em se esgueirar abrindo caminho por suas defesas naturais e chegar aonde quer que ela estivesse se escondendo. Se conseguisse ir bem ao fundo do ser de sua irmã, poderia fazer com que ela soubesse que ele estava ali.

Começou a cantar para ela novamente, no começo, nada mais do que um murmúrio, uma melodia gentil e suave para apaziguar e confortar. Ele se fundiu com a noite, outro de seus sons, uma presença natural. Lentamente trabalhou o cantar para algo mais pessoal, utilizando palavras — o nome dela, o nome dele próprio, a família perdida de ambos revisitada. Atinha-se a lembranças que achava que a fariam sorrir ou pelo menos desejar o que havia perdido. Não a chamou de bruxa Ilse. Chamou-a de Grianne, e chamou a si mesmo de Bek, e os vinculou de um modo inconfundível. Irmão e irmã, sempre família.

Por um tempo muito longo, lenta e pacientemente, ele lutou para atraí-la para si, para achar um caminho dentro de sua mente, sabendo que não seria fácil, que ela iria resistir. Repetiu as mesmas frases sem parar, aquelas que ele achava que poderiam acionar uma resposta, dando a ela um novo olhar a cada vez, outro motivo para estender a mão e tocá-lo. Ele brincou com cores e luzes, cheiros e gostos, inserindo em sua música as sensações do mundo, a vida e suas recompensas. Volte para mim, cantou para ela sem parar. Saia das sombras e eu ajudarei você.

Mas nada aconteceu. Ela encarava o fogo, a ele, a noite, e não piscava. Olhava através do mundo para um lugar vazio que a protegia da vida real, e não saía dali.

Frustrado, cansado, ele desistiu. Voltaria a tentar no dia seguinte, prometeu a si mesmo. Estava convencido de que podia fazer isso.

Deitou-se e em segundos estava adormecido.

Subiram ainda mais as montanhas no dia seguinte, encontrando o caminho serpenteante feito de curvas coleantes e passagens cheias de pedregulhos. Grianne o seguia obediente, mas tinha de ser conduzida nos pontos mais difíceis. Era uma jornada difícil e o céu a oeste estava ficando escuro com a chegada de uma nova tempestade.

A certa altura ele ouviu o rugido de uma avalanche gigantesca, em algum lugar ao longe nas montanhas, e depois o horizonte oriental ficou cheio de poeira e detritos.

Ao cair da noite, começou a chover. Abrigaram-se debaixo dos galhos de um grande abeto, deitados em um leito de folhas caídas que continuavam quentes e secas. Com a chuva, a temperatura diminuiu, descendo em espiral com a mudança no tempo. Bek envolveu Grianne em seu manto e cantou para ela mais uma vez. Novamente ela o olhava fixamente, mas via outros lugares.

Ele ficou acordado por muito mais tempo naquela noite, escutando o patinhar suave da chuva e se perguntando o que iria fazer. Não tinha idéia de onde estava ou aonde iria. Estava prosseguindo pela fé, sob a promessa dos mutantes de que ele estava indo em direção a algo e que não estava fugindo. Estava à deriva no mundo, com sua irmã atordoada e indefesa e com seus amigos e aliados espalhados ou mortos. Ele tinha uma arma, um talismã, uma muleta sobre a qual podia se apoiar, mas não tinha uma idéia clara de como utilizá-la. Estava tão só que sentia que jamais encontraria conforto ou paz novamente.

Bek dormiu devido à exaustão.

O dia chegou triste e cinzento, um reflexo do temperamento de Bek, quanto este se levantava lento e deprimido para iniciar mais uma vez o seu caminho. A tempestade os apanhou ao meio-dia, passando pelos picos altos ao norte e se enrolando ao longo das encostas sobre as quais ele subiu. Ele descera quase trezentos metros, enquanto a trilha caía e se curvava através de um desfiladeiro que levava para o fundo da montanha. Agora, com o vento aumentando e o frio penetrando-lhe os ossos, ele estava no alto das encostas mais uma vez, e sem um abrigo adequado. Acelerou o passo, puxando Grianne com urgência renovada. Não queria ser apanhado ao ar livre se começasse a nevar.

E nevou logo em seguida, mas os flocos eram grandes e preguiçosos e o caminho adiante continuava limpo. Bek seguiu em frente, descendo em uma fenda na trilha, com a intenção de chegar aos trechos de floresta mais abaixo. Fez isso no instante em que a tempestade soprou das regiões altas em um cobertor cegante de neve e chuva. Tudo além de dez metros havia desaparecido. As árvores se transformaram em fantasmas que iam e vinham a cada lado, como soldados em marcha. Ele segurava a mão de Grianne com o máximo de força possível, sem querer arriscar uma separação que poderia se tornar permanente.

A tempestade piorou, uma coisa que ele não achara que fosse possível neve e chuva se transformaram em profundas cortinas brancas. A neve começou a se acumular a seus pés, e em pouco tempo chegou a nove centímetros de altura, mesmo nas clareiras batidas pelo vento. A visibilidade diminuiu ainda mais, a ponto de, em pouco tempo, ele ficar tateando de uma árvore a outra. Teria se abrigado se pudesse encontrar um lugar, mas no redemoinho cegante da neve que soprava tudo parecia igual.

Então ele tropeçou e soltou Grianne. Em um instante, ela havia desaparecido. Ela sumiu na brancura, roubada do mesmo modo que a fé de Bek em seu objetivo de partir naquela jornada. Estendeu a mão, tentando agarrá-la, virando primeiro para um lado e depois para outro, tudo branco e vazio ao redor dele, tudo idêntico. Não conseguia encontrá-la. O pânico o invadiu, enquanto tentava agarrar flocos de neve que rodopiavam no ar, as chances desperdiçadas, e ele gritou. Gritou não só por sua irmã perdida ou por estar indefeso, mas por toda a raiva e frustração acumuladas que carregara consigo por semanas. Gritou porque chegara ao ponto de ruptura e não se importava mais com o que pudesse acontecer em seguida.

Naquele momento, uma forma apareceu diante dele, imensa e escura, erguendo-se como um leviatã desperto do sono para pôr um fim à sua intrusão. Tropeçou para trás, surpreso e aterrorizado. Ao fazer isso, as mãos esbarraram em sua irmã. Ele aproximou seu rosto do de Grianne para se certificar de que não estava enganado, chamando-a pelo nome. O rosto vazio de Grianne estava voltado para Bek. Ela estava ajoelhada na neve, dócil e tranqüila.

Lágrimas de alívio o cegaram quando a levantou, segurando-a com ambas as mãos, depois decidindo que isso não era o bastante, envolvendo-a com seus braços. Enxugou as lágrimas com a manga e procurou o fantasma que fizera com que ele a encontrasse. Ele estava lá, logo à sua frente, mas ficando cada vez menor, afastando-se. Bek ficou olhando, sentindo algo familiar, algo reconhecível. Ele se desvaneceu e depois reapareceu, rondando os limites de sua visão, esperando, com um objetivo.

Então, subitamente, ele se virou e o chamou.

Quase sem perceber o que estava fazendo, ele obedeceu. Com ambas as mãos segurando fortemente o pulso magro de Grianne, ele começou a avançar mais uma vez na névoa.

 

— E foi assim que encontrei você — ele terminou, passando a bolsa de cerveja de volta para Quentin, o líquido pungente aquecendo sua garganta e estômago enquanto ele engolia. — Não sei por quanto tempo fiquei lá fora, mas meu guia ficou logo adiante o caminho todo, obviamente me levando na direção de algum lugar, me mantendo no caminho. Eu não sabia aonde ele estava me levando, mas, depois de um tempo, isso não importava. Eu sabia quem era ele.

— Truls Rohk — disse seu primo.

— Foi o que eu achei na hora, mas agora não tenho tanta certeza. Truls se foi. Ele se tornou parte da comunidade dos mutantes e não possui mais uma identidade separada. Talvez eu apenas quisesse acreditar que fosse ele. — Bek balançou a cabeça. — Não acho que isso importe.

Estavam abrigados em uma pequena caverna escavada na lateral da montanha. Bek havia feito uma fogueira que queimava com pouco calor, mas com uma chama firme e insistente que iluminava seus rostos. Grianne estava sentada a um lado, olhando para a noite, sem nada enxergar. A toda hora, Quentin olhava em direção a ela, ainda sem ter muita certeza do que pensava sobre o fato de alguém que havia tentado matá-los estar ali tão perto.

Bek viu Quentin tomar outro bom gole de cerveja da bolsa. As cores estavam finalmente voltando-lhe ao corpo congelado. Quentin estava quase morto quando tropeçara em Bek e Grianne. Bek não perdera tempo, enrolou-o logo em seu manto e encontrou abrigo para todos. O fogo e a cerveja haviam reanimado Quentin e eles passaram a última hora trocando histórias sobre o que havia acontecido desde a emboscada nas ruínas de Castledown. Não se apressaram, aproveitando o tempo, dando a si mesmos uma chance de se ajustarem à idéia de que o impossível acontecera e eles haviam encontrado um ao outro novamente.

— Nunca achei que você estivesse morto — Bek disse ao seu primo, quebrando o silêncio momentâneo. — Nunca acreditei nisso.

Quentin sorriu, um traço daquele sorriso matreiro familiar que o marcava de modo tão distintivo.

— Pensei o mesmo de você. Eu soube, quando Tamis me contou que deixara você fora das ruínas, que estaria bem. Mas essa história de você possuir magia, aí é outra coisa. Ainda não consigo acreditar. Tem certeza de que você é um Ohmsford?

— Tanta certeza quanto posso ter depois de ouvir o que Walker disse — Bek voltou a se recostar sobre os cotovelos e suspirou. — Acho que eu mesmo não acreditei nisso, no começo. Mas, depois daquele primeiro confronto com Grianne, sentindo a magia adquirir vida dentro de mim e irromper como irrompeu, não tive mais as mesmas dúvidas.

— Então ela é sua irmã.

Bek assentiu.

— Ela é, Quentin.

O montanhês balançou a cabeça lentamente.

— Bem, está aí uma coisa que jamais teríamos adivinhado quando iniciamos esta jornada. Mas o que é que você vai fazer com ela, agora que sabe disso?

— Levá-la para casa — respondeu Bek. — Mantê-la em segurança. — Olhou por um instante para Grianne. — Ela é importante, Quentin. Além do fato de ser minha irmã. Não sei como, mas é. Walker insistiu nisso quando estava morrendo, e depois, quando retornou como um espectro. Ele sabe de algo sobre ela que não quer me dizer.

— Grande surpresa.

Bek sorriu.

— Acho que Walker guardar segredos não é incomum, é? Talvez não haja nenhuma surpresa para você ou para mim. Nenhuma surpresa de verdade, quero dizer.

Quentin exalou uma coluna de fumaça branca que se ergueu no ar frio da noite.

— Eu não teria tanta certeza. Achava isso antes, e aí o encontrei. Nunca se sabe. — Ele fez uma pausa. — Quais você acha que são as chances de que todos os outros estejam vivos? Será que estão mortos, como Walker e Patrinell?

Bek ficou quieto por um momento. Todos os elfos estavam mortos, com exceção de Kian e talvez Ahren Elessedil. Ryer Ord Star ainda podia estar viva. Os cavaleiros alados podiam estar lá fora em algum lugar. E, claro, havia os rovers.

— Nós vimos a Jerle Shannara voar para estas montanhas — Bek arriscou. — Talvez os rovers ainda estejam procurando por nós.

Quentin lançou um olhar duro para ele.

— Talvez. Mas se você fosse Redden Alt Mer nesta situação, o que faria? Iria procurar por nós ou voltar para o lugar de onde veio?

Bek pensou nisso por um instante.

— Não acho que Rue Meridian fosse nos deixar. Acho que ela faria seu irmão procurar.

Seu primo resfolegou.

— Por quanto tempo? Caçado por aquelas naves de mwellrets? Com uma desvantagem de vinte para um? — Balançou a cabeça. — É melhor sermos realistas. Eles não têm nenhum motivo para achar que ainda estejamos vivos. Eles próprios foram prisioneiros; não vão querer se arriscar a ser aprisionados novamente. Seriam tolos se não fugissem. Eu não os culparia. Faria a mesma coisa.

— Eles vão procurar por nós — insistiu Bek.

Quentin deu uma gargalhada.

— Eu te conheço demais para não tentar fazer com que você mude de idéia, primo Bek. Mas é engraçado. Eu é que deveria ser o otimista.

— As coisas mudam.

— Com isso é difícil discutir. — O montanhês olhou para a neve que caía lá fora e fez um gesto vago. — Eu é que deveria procurar você, lembra? Não fiz um trabalho muito bom. Deixei que nos separássemos até ser tarde demais. Quero que você saiba o quanto lamento não ter feito um trabalho melhor para manter minha palavra.

— Do que está falando? — Bek disparou, a voz irritada. — O que mais você deveria fazer? Você ficou vivo, e isso já foi bastante difícil. Além do mais, eu deveria cuidar de você também. O trato não foi esse?

Olharam desafiadores um para o outro. Então a tensão se escoou, e como amigos que compartilharam uma vida inteira de experiências e conheciam um ao outro melhor do que qualquer outra pessoa, começaram a sorrir.

Bek riu.

— Covarde.

— Fracote — Quentin respondeu.

Bek estendeu a mão.

— Da próxima, faremos melhor.

Quentin a aceitou.

— Muito melhor.

O vento mudou de direção momentaneamente, soprando flocos de neve em seus rostos. Abaixaram a cabeça contra o impacto das chicotadas e o fogo quase morreu com a rajada. Então tudo ficou mais uma vez em silêncio e eles olharam para a escuridão lá fora, sentindo que seus esforços ao longo do dia finalmente estavam cobrando seus resultados, esgotando seu estado desperto, chamando-os para o sono.

— Quero ir para casa — Quentin disse baixinho. Olhou para Bek com uma tristeza fraca e cansada nos olhos. — Aposto que você nunca pensou que eu fosse dizer isso, não é?

Bek deu de ombros.

— Estou exausto. Vi coisas demais. Vi Tamis e Patrinell morrerem bem na minha frente. Alguns dos outros elfos também. Lutei tanto para sobreviver que não consigo me lembrar do tempo em que alguma outra coisa era mais importante. Estou cansado disso. Não quero mais nem sentir a magia da espada. Eu estava tão faminto por ela! A sensação que me dava, como um fogo me percorrendo, queimando tudo, me alimentando.

— Eu sei — disse Bek.

Quentin olhou para ele.

— Acho que sabe mesmo. Isso é demais depois de algum tempo. E não é o bastante. — Olhou ao redor. — Pensei que esta fosse ser nossa grande aventura, nosso rito de passagem para a masculinidade, uma história que iríamos nos lembrar por toda a vida, que contaríamos aos nossos amigos e à família. Agora eu nunca mais quero falar sobre isso novamente. Quero esquecer. Quero que as coisas voltem a ser como antes. Quero ir para casa e ficar lá.

— Eu também — concordou Bek.

Quentin assentiu, tornando a olhar para fora, sem dizer nada.

— Não sei como fazer isso acontecer — ele continuou, depois de um momento. — Receio agora que talvez isso não possa acontecer.

— Pode sim — disse Bek. — Não sei como, mas pode sim. Estive pensando em voltar para casa, em como levar Grianne para lá, como Walker disse que eu deveria. Parece impossível, loucura. Walker morreu, então ele não pode ajudar. Truls Rohk não irá mais longe. Metade de todos com os quais vim para cá está morta e a outra está dispersa. Até achar você, eu estava inteiramente sozinho. Que chances eu tinha? Mas sabe do que mais? Eu simplesmente digo a mim mesmo que vou encontrar um jeito. Não sei qual é esse jeito, mas eu vou encontrá-lo. Vou andando de volta para casa se for preciso. Passando por cima da Divisa Azul. Ou voando. Ou nadando. Não importa. Vou achar um jeito.

Ele olhou para Quentin e sorriu.

— Já chegamos até aqui. Vamos passar pelo resto do caminho também.

Eram palavras desafiadoras, mas pareciam corretas, necessárias, talismãs contra o medo e a dúvida. Bek e Quentin ainda estavam lutando para conseguir pequenas garantias, pedacinhos de esperança, pequenos fios de coragem. As palavras lhes davam um pouco disso. Nenhum dos dois queria desafiá-las agora. Olhe perto demais as paredes do castelo e as rachaduras aparecem. Não precisavam disso. Deixaram as palavras onde estavam, imperturbadas, um eco em seus pensamentos, uma promessa do que acreditavam que ainda podia ser.

Obtendo conforto no abrigo um do outro, já que isso era a melhor espécie de consolo que encontravam, adormeceram.

 

A aurora era cinzenta e nublada, uma promessa de mais neve refletida na tela sem cores do céu que aos poucos clareava. A temperatura estava congelante e o ar estava quebradiço de tão frio. Tomaram o desjejum com poucas palavras, reforçando suas energias. A confiança que os impulsionara na noite anterior havia se dissipado como neblina à luz do sol. Ao redor, as montanhas se estendiam em uma alternância sem fim de picos e vales. A não ser pela intensidade da luz do amanhecer a leste, os horizontes pareciam todos iguais.

— Acho que podemos ir — Quentin resmungou, levantando-se e pendurando a espada no ombro.

Bek também se levantou e fez o mesmo com a espada de Shannara. Mal conseguia pensar no talismã agora; ele parecia ter servido a seu objetivo naquela jornada e havia se tornado meio que um fardo. Ele olhou, quase instintivamente, para Grianne, percebendo que podia dizer a mesma coisa a respeito dela e com certeza havia pensado isso mais de uma vez.

Pensando em cobrir o máximo de território possível antes da próxima tempestade e com o desejo de não serem apanhados em campo aberto novamente, definiram um passo apertado. O chão congelado fazia barulho como se ossos velhos estivessem sendo esmagados sob suas botas, grama e terra formando crateras com marcas de suas pegadas. Se seus perseguidores ainda os estivessem rastreando, não teriam problemas para fazê-lo. Bek levou em conta a possibilidade, mas colocou-a de lado. Os mutantes lhe haviam prometido que seus perseguidores não teriam permissão para seguir. Não havia motivo para pensar que a proteção se estenderia até tão longe, mas ele estava cansado e deprimido, e precisava acreditar pelo menos naquilo se quisesse ter alguma paz de espírito. Então se permitiu isso.

Continuaram andando até o meio-dia, seguindo trilhas que coleavam o vale em frente. Os horizontes nunca mudavam. No vasto frio das montanhas, a terra parecia vazia de vida. Uma vez, eles viram um pássaro voando muito distante. Outra vez, ao fundo dos bosques em sombras, ouviram uma criatura gritar. Tirando isso, só havia silêncio, profundo, invasivo e constante.

O tempo arrastou-se, uma vela moribunda, e o ânimo de Bek feneceu. Quando deu por si, estava se perguntando se havia algum sentido no que estavam fazendo, se havia um propósito para seguirem em frente. Ele compreendia que isso lhes dava um objetivo e que o movimento os mantinha vivos. Mas a vastidão da cordilheira e a terrível solidão que ela lhes impunha deu margem a uma certeza cada vez maior de que estavam simplesmente prolongando o inevitável. Jamais iriam sair das montanhas. Jamais seriam capazes de encontrar mais alguém da amaldiçoada companhia da Jerle Shannara. Estavam aprisionados em um mundo de pesadelo que os enganaria, os quebraria e, no fim, os destruiria.

Ele estava marcando o tempo que lhe restava quando uma partícula escura apareceu no céu ao norte, leve e distante. Foi rapidamente ficando maior, movendo-se rápido em direção a eles, assumindo um aspecto familiar. Bek a reconheceu inteiramente então, e a sensação de desesperança que lhe havia tomado conta, apenas momentos antes, desapareceu como cinzas velhas em uma fogueira nova.

Quando Hunter Predd conduziu Obsidian até uma planície logo em frente a eles, um braço magro e musculoso erguido em saudação, Bek estava pronto para acreditar que, apesar do que dissera a Quentin antes, ainda poderia haver algumas surpresas.

 

Por quase uma semana depois assumirem o controle da Black Moclips, cruzando os céus como aves de rapina, o Morgawr e seus mwellrets assolaram as regiões costeiras e as montanhas de Parkasia. Procuravam a Jerle Shannara e os remanescentes de sua equipe. Os esforços da busca promovida pelo Morgawr foram dificultados pelo tempo, que provou ser excessivamente arbitrário, mudando sem aviso de sol para chuva. Em cada um destes estados climáticos havia tanto fortes correntes de vento quanto calmarias. Durante a pior das tempestades, eles foram forçados a pousar; permaneceram ancorados por quase vinte e quatro horas, abrigados em uma enseada fora da costa onde penhascos e florestas ofereciam proteção a uma possível nevasca ou tempestade de granizo que poderiam arrasar a aeronave.

Durante a maior parte do tempo, Ahren Elessedil ficou abaixo do convés, em um depósito que fora transformado em cela. Era o mesmo aposento que havia abrigado Bek Ohmsford quando ele fora prisioneiro da bruxa Use, embora Ahren não soubesse disso. O príncipe dos elfos era mantido sozinho e afastado de todos, com exceção dos rets que lhe traziam comida ou o levavam ao convés para breves períodos de exercício. O Morgawr havia movido seu contingente pessoal de mwellrets para a Black Moclips, preferindo seu design mais esguio e maior poder de manobra do que o vaso de guerra maior e mais desajeitado que ele ocupara anteriormente. Reduzidos a conchas sem mente, tristes remanescentes de tempos melhores, o condenado Aden Kett e seus homens ficaram para tripulá-la. Cree Bega recebeu o comando. O Morgawr ocupava os aposentos do comandante, e enquanto eles navegavam à procura da Jerle Shannara, o príncipe dos elfos pouco o via.

E via Ryer Ord Star menos ainda. A ausência da vidente alimentava ainda mais a profunda desconfiança de Ahren, e quando deu por si estava reexaminando seus sentimentos. Não conseguia decidir se ela havia esquecido sua promessa a ele e havia se aliado realmente ao Morgawr ou se estava jogando de um modo que Ahren não entendia. Queria acreditar que era a última opção, mas por mais que se esforçasse não conseguia aceitar a aparente traição quando ele fora capturado ou o claro distanciamento de Ryer desde então. Ela lhe dissera nas catacumbas de Castledown que não estava mais sob o poder da bruxa Ilse, mas parecia ter se tornado a criatura do Morgawr. Guiou o bruxo em busca da Jerle Shannara e o levou até a Black Moclips. Ficara ao lado dele enquanto a tripulação da federação havia sido sistematicamente reduzida a mortos-vivos. Ela observara isso tudo como se estivesse em transe, sem demonstrar nenhum de seus sentimentos, como se removida do horror e da degradação, totalmente ausente.

Nem uma vez sequer ela tentara fazer contato com Ahren depois de serem levados a bordo da Black Moclips. Nada havia acontecido depois das palavras que ela murmurara dias antes. Confie em mim. Mas por que ele deveria confiar? O que ela havia feito, uma vez sequer, para merecer aquela confiança? Pensando bem, as palavras agora pareciam ter sido murmuradas para ganhar-lhe a confiança, para assegurar-lhe a obediência no momento em que ele ainda tinha possibilidades de escapar. Agora não havia mais chances. A bordo de uma aeronave, a centenas de metros do chão, não havia nenhum lugar aonde ir.

Não que ele tivesse qualquer chance de passar além da porta de sua cela, em primeiro lugar, lembrou-se amargamente, mesmo que estivessem no chão. Sem as pedras élficas ou sem armas de qualquer espécie para ajudá-lo, não tinha esperança de vencer seus captores.

Trancado como estava, ele não havia testemunhado a maioria das coisas que haviam acontecido nos últimos dias. Mas podia dizer, pelo ritmo lento e constante da aeronave, que ainda estavam procurando. E ainda mais, ele podia dizer, pela rotina imutável de seus captores, que eles não haviam encontrado nada.

Pensava em fuga sem cessar. Imaginava isso vezes sem conta, como poderia acontecer, os eventos que a precipitariam, como ele reagiria e os resultados que ocorreriam. Visualizou a si mesmo em movimento — esgueirando-se porta afora e descendo o corredor adiante, subindo as escadas até o convés, agachado contra o mastro, esperando por uma chance de chegar até a amurada e pular. Mas, no fim, o mecanismo sempre lhe falhava e suas chances nunca se materializavam.

Um dia, pouco depois da tempestade que os deixara no chão por quase vinte e quatro horas, ele estava no convés com Cree Bega quando avistou Ryer Ord Star em pé na proa. Ficou surpreso ao vê-la novamente, e por um momento esqueceu-se de si mesmo e ficou a olhá-la sem disfarçar a saudade e a esperança.

Cree Bega viu e reconheceu isso. Tocando Ahren de leve no ombro, ele disse:

— Fale com ela, pequeno elfo. Conte a ela o que você sente.

As palavras eram um convite declarado para que ele fizesse alguma bobagem. O mwellret suspeitava da vidente tanto quanto Ahren. Cree Bega jamais se convencera de que a aliança dela com o Morgawr era genuína. Ele demonstrava isso em sua atitude para com ela, ignorando-a na maior parte do tempo, sem se esforçar para consultá-la, mesmo enquanto o Morgawr o fazia. Ele estava esperando, Ahren julgou, que ela revelasse sua traição.

— Nada a dizer, príncipe dos elfoss? — Cree Bega brincou, o rosto quase encostado no dele, o forte cheiro rançoso nas narinas de Ahren. — Ela não era ssua amiga?

Ahren compreendia a natureza das questões. Ele se odiava por sua incerteza, mas ficou quieto, suportando o peso das tentações do mwellret e de suas próprias dúvidas. Qualquer coisa que ele fizesse revelaria verdades que machucariam Ryer ou a si próprio. Se ela respondesse a ele, isso sugeriria uma aliança oculta. Se não o fizesse, ele ficaria ainda mais dolorosamente consciente de como as coisas entre os dois haviam mudado. Ele estava vulnerável demais para uma coisa assim tão crua naquele instante. Seria mais inteligente esperar.

Deu-lhe as costas.

— Fale com ela — ele resmungou.

Outra oportunidade apareceu no dia seguinte, quando ele foi chamado para os aposentos do Morgawr e, ao entrar, viu a vidente em pé ao lado do bruxo. Ela tinha aquele olhar distante novamente, o rosto vazio de expressão, como se em espírito estivesse em um lugar inteiramente diferente e apenas seu corpo estivesse presente. O Morgawr lhe perguntou mais uma vez sobre os membros da companhia da Jerle Shannara — quantos haviam partido, quem eram, onde os havia visto pela última vez, qual o seu relacionamento com o druida. Pediu uma contagem de pessoas mais uma vez — quantos ainda estavam vivos. Ele havia feito aquelas perguntas antes e Ahren lhe dera as mesmas respostas. Não era difícil fazer isso. Mentir não era necessário. Na maioria das coisas ele sabia menos do que o Morgawr. Mesmo quanto a Bek, o Morgawr parecia saber tanto quanto Ahren. Ele havia lido os vestígios de magia que ficaram flutuando no ar nas catacumbas de Castledown e soube que Bek passara por ali e fora embora. Ele sabia que o amigo de Ahren ainda estava lá fora, fugindo do bruxo, escondendo sua irmã.

O pouco que o Morgawr não tinha adivinhado, Ryer Ord Star lhe dissera. Ela lhe contara tudo.

Em momentos em que o Morgawr interrogava Ahren, ela parecia voltar de seu transe. Seus olhos mudavam de foco e suas mãos tinham espasmos ao lado do corpo. Ela ficava consciente do que a cercava, mas apenas por um momento, e depois tornava a desaparecer. O Morgawr não parecia incomodado com isso, embora isso provocasse muito desconforto em Ahren. Por que o bruxo não estava irritado pela falta de atenção de Ryer ao que ele dizia? Por que ele não suspeitava de que ela estava deliberadamente se isolando?

Ahren levou muito tempo para perceber o que estava realmente acontecendo. Ela não estava se distanciando nem um pouco. Ela era parte da conversa, mas de um jeito que o príncipe dos elfos não havia reconhecido. Ela ouvia as palavras de Ahren e as utilizava para alimentar seu talento. Ela estava transformando aquelas palavras em imagens de seus amigos, tentando projetar-lhes visões. Ela o utilizava como uma tentativa de rastreá-los.

Ele ficou tão atordoado com a revelação que, por um momento, simplesmente parou de falar no meio de uma frase e ficou a olhá-la. O silêncio a desconcentrou. Por um momento, ela voltou de onde suas visões a haviam levado e olhou para Ahren.

— Não faça isso — ele lhe disse baixinho, incapaz de ocultar sua decepção.

Ela não respondeu, mas ele podia ler a angústia em seus olhos. O Morgawr imediatamente ordenou que ele fosse levado de volta à cela, uma dispensa zangada e impaciente. Então ele viu sua verdadeira utilidade: não como um refém para negociação ou como um rei-fantoche. Aqueles eram usos que podiam esperar. As necessidades do bruxo eram mais imediatas. Ahren lhe serviria melhor como catalisador das visões de Ryer Ord Star, como um gatilho que permitiria encontrar a bruxa Ilse e os outros que se escondiam do Morgawr. Sem suspeitar, ingênuo, o garoto ajudaria sem sequer perceber o que estava fazendo.

Só que ele descobriu.

Ahren ficou trancado mais uma vez, fechado no depósito e deixado para comemorar em solidão forçada sua pequena vitória. Ele havia malbaratado a tentativa do Morgawr de utilizá-lo. Sentou-se recostado à parede da aeronave e sorriu dentro de sua prisão.

Mas seu ânimo rapidamente se desvaneceu. Sua vitória era vazia. A realidade emergiu e obnubilou seus desejos. Ele ainda era um prisioneiro sem esperança. Seus amigos continuavam dispersos ou mortos. Ele continuava preso em uma terra perigosa e distante.

E o pior de tudo: Ryer Ord Star se revelara sua inimiga.

 

Nos aposentos do comandante, o Morgawr andava de um lado para outro com a intensidade inquieta de um animal enjaulado. Ryer Ord Star sentia a tensão que irradiava dele em ondas negras de desprazer. Não lhe era comum exibir tanta emoção abertamente, mas sua paciência com a situação estava diminuindo perigosamente.

— Ele sabe o que estamos tentando fazer. Garoto inteligente...

Ela não respondeu. Seus pensamentos eram sobre as palavras de Ahren e a maneira como ele a havia olhado. Ela ainda ouvia a angústia na voz e via a decepção em seus olhos. Compreensivelmente confuso e desorientado, ele a havia julgado erradamente e ela não podia fazer nada para se explicar. Se a situação já estava ruim antes, agora estava fugindo cada vez mais ao controle.

O Morgawr parou na frente da porta, de costas para Ryer.

— Ele se tornou inútil para mim.

Ela ficou paralisada, a mente disparando.

— Não preciso da cooperação dele. Ele mentirá. Ele decepcionará. Ele jogará lixo suficiente para encobrir qualquer coisa boa. Não posso mais confiar nele. — Virou-se lentamente. — Também não tenho certeza quanto a você, pequena vidente.

Ela o encarou e sustentou o olhar, deixando que ele também olhasse seus olhos. Se ele acreditava que ela ocultava alguma coisa, o jogo acabaria e ele a mataria no mesmo instante.

— Não lhe dei nada senão a verdade — ela disse.

O rosto escuro e reptiliano não mostrava nada do que ele estava pensando, mas seus olhos eram perigosos.

— Então me diga o que você acabou de aprender.

Ela sabia que ele a estava testando, oferecendo-lhe uma chance de demonstrar que ainda era útil. Ahren estava certo quanto ao jogo que eles estavam fazendo. Ela estava se alimentando de suas palavras e de suas emoções em resposta às perguntas do Morgawr, em um esforço para deflagrar uma visão que revelasse algo sobre os membros desaparecidos da Jerle Shannara. Ele estava errado quanto às intenções dela, mas não havia como ela pudesse lhe dizer isso. O Morgawr devia acreditar que ela poderia ajudá-lo a achar a bruxa Ilse. Ele não devia começar a duvidar de que ela fosse, voluntariamente, sua aliada nesta busca, ou todos os seus planos para ajudar Walker iriam por água abaixo.

Ela deu um pequeno passo na direção do bruxo, um ato consciente de desafio, um gesto que quase lhe tirou o fôlego com o esforço que lhe custou.

— Eu vi a bruxa Ilse e seu irmão cercados por montanhas. Eles não estavam sozinhos. Havia outros com eles, mas seus rostos estavam ocultos em sombras. Estavam caminhando. Não vi, mas senti uma aeronave em algum lugar ali perto. Havia encostas cheias de ninhos de shrikes. Uma dessas encostas parecia uma lança com sua ponta quebrada, afiada e apontando para o céu. Havia o cheiro do oceano e o som de ondas quebrando na margem.

Ela parou de falar e ficou aguardando, os olhos presos nos dele. Estava lhe contando uma visão que as palavras de Ahren haviam deflagrado, mas torcendo os detalhes apenas o bastante para impedir que ele encontrasse o que procurava.

Ela prendeu a respiração. Se ele conseguisse ler o engodo em seus olhos e encontrasse em suas sombras a verdade das coisas, ela estaria morta.

Ele a estudou por um longo tempo, sem se mover ou falar, um rosto de pedra envolto em manto e sombras.

— Eles estão na costa? — ele finalmente perguntou, sua voz vazia de expressão.

Ela assentiu.

— A visão assim o sugere. Mas a visão não é sempre o que penso que é.

O sorriso dele a gelou.

— As coisas quase nunca são, pequena vidente.

— O que importa é que as palavras de Ahren Elessedil geraram essas imagens — ela insistiu. — Sem elas eu não teria nada.

— E nesse caso eu não teria mais necessidade de nenhum de vocês, teria? — ele perguntou. Ergueu uma das mãos e fez um gesto quase lânguido para ela. — Nem precisaria de nenhum de vocês caso ele não pudesse mais ser de confiança para falar a verdade, não é?

O eco de suas palavras ficou suspenso no ar, um indício de que ela sabia que precisava refutar.

— Não preciso que ele fale a verdade para interpretar minha visão — ela disse.

Era mentira, mas era tudo o que ela tinha. Ela o disse com convicção e sustentou o olhar sombrio do bruxo mesmo quando podia sentir o mal que tencionava penetrando-lhe o fundo de sua alma.

Depois de um longo momento, o Morgawr deu de ombros.

— Então precisamos deixá-lo viver um pouco mais. Devemos lhe dar mais uma chance.

Ele disse isso com convicção, mas ela sabia que ele estava mentindo. Ele havia se decidido sobre Ahren com tanta certeza quanto Ahren havia tomado sua decisão a respeito dela. O Morgawr não acreditava mais em nenhum dos dois, ela suspeitava, mas particularmente no príncipe dos elfos. Ele poderia tentar usar Ahren mais uma vez, mas depois certamente se livraria dele. Não tinha tempo nem paciência para prisioneiros recalcitrantes. O que exigia daquela terra, de seus segredos e magia, estava em outro lugar. Seu desencanto com Ahren cresceria, e no fim das contas devoraria a ambos.

Dispensada de sua presença sem necessidade de palavras, ela o deixou e voltou ao convés. Subiu as escadas no fim do corredor e seguiu até a proa. Com as mãos segurando a amurada para se firmar, ficou olhando fixo para o horizonte, para a vasta extensão de montanhas e florestas, bancos de nuvens quebradas e faixas de luz do sol. O dia estava cedendo lugar para a noite, a luz começando a se desvanecer para oeste, a escuridão se levantando a leste.

Ela fechou os olhos quando sua visão do mundo estava suficientemente clara em sua mente e deixou os pensamentos vagarem. Ela devia fazer alguma coisa para salvar o príncipe dos elfos. Não tinha acreditado que seria necessário agir tão rápido, mas agora parecia inevitável. Que ela estivesse comprometida com o plano de Walker para o Morgawr não implicava comprometer Ahren também. O destino dele estava em outro lugar, além daquele país e suas traições, em casa, nas Quatro Terras, onde sua herança de sangue serviria a um propósito diferente. Ela havia captado um vislumbre disso nas visões que havia compartilhado com Walker. Sabia disso pelo que o druida lhe dissera ao morrer. Ela podia sentir isso em seu coração.

Assim como podia sentir com certeza inconfundível o destino que a aguardava.

Ela respirou lenta e profundamente para se acalmar, para conseguir aceitar o que sabia que devia fazer. Walker precisava dela para desorientar o Morgawr, torná-lo mais lento em sua caçada, para ganhar tempo para Grianne Ohmsford. Não era algo que o druida havia pedido levianamente; era algo que ele havia pedido em desespero e com fé nas habilidades dela. Ela se sentia pequena e frágil em face dessas expectativas, uma criança em corpo de garota, sua feminilidade ainda tão distante que ela não conseguia imaginá-la. Sua mente de vidente não permitia que crescesse como as outras mulheres; apenas sua mente era velha. Mas ainda assim ela era capaz e determinada. Era a mão direita do druida, e ele estava sempre com ela, dando-lhe sua força.

Ela detinha esse conhecimento dentro de si como um talismã enquanto fazia seus planos.

Quando a noite caiu, ela agiu.

Esperou até que todos os mwellrets estivessem dormindo, a não ser o vigia e o timoneiro. A Black Moclips navegava pelos céus da noite, lenta e langorosamente, rastreando o limite da costa norte e do leste enquanto Ryer Ord Star deslizava de sua cama improvisada a sotavento do convés de popa e se dirigia para a frente. Aden Kett e sua tripulação estavam em seus postos, olhos mortos mirando adiante. Ela os olhou de relance ao passar, mas seu olhar não se manteve muito tempo sobre eles. Era perigoso olhar de muito perto para seu próprio destino.

A aeronave balançava suavemente no berço dos ventos da noite soprando para oeste. O frio trazido pelas tempestades não havia se dissipado e a respiração de Ryer formava nuvens tênues. Abaixo de onde eles voavam, a neve recobria as encostas desnudas. O calor que os havia saudado em sua chegada àquela terra havia desaparecido, caçado para o interior por alguma aberração ligada à morte de Antrax. O fato de que a ciência tivesse encontrado uma maneira de controlar o tempo lhe parecia incrível, mas ela sabia que na era anterior às Grandes Guerras aconteceram muitas realizações maravilhosas que desde então desapareceram do mundo. Mas a magia havia substituído a ciência nas Quatro Terras. Isso às vezes a fazia imaginar se a morte da ciência era para melhor ou para pior. Ela se perguntava se o lugar dos videntes no mundo tinha algum valor real.

Ela chegou à escotilha aberta que levava para os depósitos e desceu em silêncio trevoso, procurando ouvir os sons do guarda que estaria de vigia. Walker não aprovaria o que ela estava fazendo. Tentaria detê-la se pudesse. Ele a teria aconselhado a permanecer a salvo e se concentrar na tarefa que lhe dera. Mas Walker via as coisas através dos olhos de um homem que procurava atingir na morte o que não conseguira realizar em vida. Ele era um espectro e seu alcance além do véu era limitado. Ele podia saber da bruxa Ilse e de seu papel no destino das Quatro Terras, das razões pelas quais ela devia fugir do Morgawr e do caminho a percorrer para livrar-se da perturbação de sua mente. Mas Ryer Ord Star só sabia que o tempo estava se esgotando.

O corredor sob o convés estava envolto em sombras, mas ela passou com facilidade pela penumbra. Ouviu roncos adiante e sabia que o vigia mwellret estava dormindo. A poção que ela colocara em sua ração noturna de cerveja o havia entorpecido tão completamente quanto qualquer coisa deste lado da morte. Não fora assim tão difícil de conseguir. O perigo estava em outro ret descobrir o guarda dormindo antes que ela pudesse chegar até Ahren.

Na porta da prisão de Ahren, no depósito, ela se apoderou das chaves do ret adormecido e abriu a fechadura, o tempo todo apurando o ouvido para os sons daqueles que colocariam um fim à sua tarefa. Ela não disse nada ao abrir a porta e entrar de mansinho, uma presença semelhante à de um espectro. Ahren se levantou para encará-la, hesitando quando percebeu quem era, sem ter certeza do que fazer diante da presença de Ryer. Mas ficou em silêncio — vendo-a tocar-lhe os lábios com o dedo e, com movimentos furtivos, soltá-lo das correntes. Mesmo na luz suave da cabine ela podia ver a incerteza e a suspeita nos olhos dele, mas não havia como entender errado suas ações. Sem tentar interferir, ele a deixou libertá-lo e a seguiu sem discutir. Ao saírem, passaram sobre o guarda que dormia esparramado, bloqueando o corredor. Ahren seguiu atrás de Ryer, que se movia em direção às escadas que levavam para o convés. A Black Moclips balançou suavemente, um berço para homens que dormiam e um vigia sonolento. Os únicos sons eram os da nave, os pequenos e familiares ruídos de estiramento e contração de velames e da calafetagem.

Subiram as escadas e emergiram atrás do timoneiro, achatando-se contra o convés, rastejando pela sombra do mastro de popa, atravessando até a amurada. Sem dizer palavra, ela deslizou sobre a amurada e desceu o corredor estreito até o pontão de estibordo, se deslocando rapidamente para o posto de combate de popa mais distante, um compartimento de dois metros atulhado com pedaços de velame e seções de travas.

Envolta por sombras profundas, ela foi até onde o pontão se curvava para cima formando o aríete de estibordo de popa. Passou a mão pela parte de dentro da estrutura e soltou uma trava de madeira oculta na superfície do casco.

No mesmo instante, um painel caiu sobre dobradiças escondidas. Ela enfiou a mão por dentro e retirou uma armação de ripas flexíveis às quais haviam sido presas partes de lona leve.

Ela passou a estrutura e a lona para Ahren, que estava agachado à frente do posto de combate, e depois foi para o lado dele.

— Isto aqui é o que se chama de asa simples — ela sussurrou, a cabeça curvada bem perto de Ahren, seus cabelos prateados compridos encostando-lhe no rosto. — É uma espécie de pipa, construída para que um homem possa sair voando de uma aeronave em queda. Redden Alt Mer a mantinha escondida no casco para emergências. — Ela estendeu a mão num impulso e tocou seu rosto.

— Você nunca teve a intenção de ajudá-lo, teve? — o príncipe dos elfos murmurou, alívio e felicidade refletidos em sua voz.

— Eu precisava salvar sua vida e a minha também. Isso significava entregar sua identidade. Caso contrário, ele o teria matado. — Ela respirou fundo. — Ele pretende matá-lo agora. Ele acha que você não tem mais utilidade. Não posso protegê-lo mais. Você precisa sair da nave esta noite.

Ele balançou a cabeça imediatamente, agarrando-lhe o braço.

— Não sem você. Não irei sem você!

Ele disse isso com tanta veemência, com uma insistência tão desesperada, que fez com que ela tivesse vontade de chorar. Ele duvidara dela e estava tentando compensar isso da única maneira que sabia. Se fosse necessário, ele daria a vida por ela.

— Ainda não está na hora de eu ir — ela disse. — Fiz uma promessa a Walker para desorientar o Morgawr em sua caçada. Ele acha que eu pretendo ajudar, mas só lhe dei o suficiente para que continue acreditando nisso. Eu irei depois.

Ela viu a incerteza nos olhos dele e fez um gesto brusco na direção da asa simples.

— Pare de discutir comigo! Pegue isto e vá. Agora! Desdobre-o, amarre o suporte e pule da amurada com as asas estendidas. Use a barra e as tiras nas pontas para navegar. Não é difícil. Aqui... eu o ajudo.

Ele balançou a cabeça, os olhos inquiridores.

— Como você sabia disso?

— Walker me contou. — Ela começou a desamarrar as tiras que seguravam a estrutura, soltando-a. — Ele aprendeu a respeito com o Ruivão. Os rets não sabem da existência disto. Pronto, está feito. Suba na borda do pontão e se amarre!

Ele fez conforme ela o instruiu, ainda claramente aturdido pelo que estava acontecendo, mas incapaz de pensar com suficiente clareza para ver as falhas do raciocínio. Ela simplesmente tinha de tirá-lo da nave e colocá-lo no ar ou então seria tarde demais. As coisas seriam decididas, até onde ela fosse capaz de fazer isso. Era o máximo que ela poderia conseguir.

— Você devia vir agora — ele argumentou, ainda tentando achar uma maneira de levá-la consigo.

Ela balançou a cabeça.

— Não. Depois. Voe para o interior, longe da costa, mais para o norte. Procure uma floresta tropical no coração das montanhas. É lá que os outros estão, em um penhasco. Minhas visões me revelaram isso.

Ele colocou com esforço o suporte de ombro e ela o apertou firme nas costas. Ela abriu a estrutura da asa para que capturasse o vento e lhe mostrasse a barra de navegação e as faixas de controle. Ela olhava para trás a todo instante para ver o convés, mas os mwellrets ainda não estavam olhando em sua direção.

— Ryer — ele começou, virando-se mais uma vez para ela.

— Aqui — disse ela, enfiando a mão dentro de suas roupas finas e retirando uma bolsa. Enfiou-a na túnica de Ahren, bem no fundo para que ela não caísse. — As pedras élficas — ela sussurrou.

Ele a olhou sem acreditar.

— Mas como você...

— Vá! — ela sussurrou, empurrando-o para a lateral do pontão e pelo espaço.

Ela viu o vento apanhar a lona e esticar toda a armação. Viu a asa simples se elevar através da escuridão. Captou um rápido relance do rosto intrigado do príncipe dos elfos, viu o homem que ele havia se tornado eclipsar o garoto com o qual ela havia começado sua jornada, e então ele foi embora.

— Adeus, Ahren Elessedil — ela murmurou para a noite.

As palavras flutuaram no ar leve como plumas e se desvaneceram enquanto ela se virava, agora definitivamente só.

 

Uma mão sacudiu-lhe o ombro suavemente e Bek Ohmsford acordou com um pequeno sobressalto.

— Se continuar dormindo, as pessoas vão achar que você está morto — disse uma voz familiar.

Ele abriu os olhos e piscou na luz do sol que se derramava do céu do meio-dia. Rue Meridian se moveu na direção da luz, bloqueando-a, e ficou olhando para ele, um quê de ironia no leve retorcer de seus lábios. O simples fato de vê-la o aqueceu de um jeito que o sol jamais faria e Bek sorriu.

— Eu me sinto mesmo morto — disse ele, estendido sobre o convés da Jerle Shannara, todo enrolado em cobertores. Olhou para a amurada da aeronave e o mastro que apontava para o céu enquanto pensava com calma. — Por quanto tempo dormi?

— Desde esta mesma hora de ontem. Como está se sentindo?

Suas lembranças do passado o inundaram novamente enquanto ele parava para pensar na pergunta. Sua fuga de Castledown com Grianne e Truls Rohk. A luta que tiveram para escapar da perseguição do Morgawr e de suas criaturas. A batalha com o caull. Truls morrendo. O encontro com os mutantes e a transformação de seu amigo, que salvara sua vida. Escalando as montanhas com Grianne, confiando que de algum modo fossem encontrar o caminho de volta. Encontrando Quentin depois de tanto tempo, um milagre tornado possível por causa de uma promessa feita a um morto.

E então, quando parecia que as montanhas os engoliriam inteiros, outro milagre, quando Hunter Predd, procurando os filhos perdidos da Jerle Shannara, os tirou do precipício e os levou para longe dali.

— Eu me sinto melhor do que quando fui trazido para cá — disse Bek. — Ele respirou fundo, com satisfação. — Eu me sinto melhor do que nunca nos últimos tempos. — Deu uma boa olhada nela, notando as marcas de ferimentos em seu rosto e a tala no seu braço esquerdo. — O que aconteceu com você? Andou lutando novamente com gatos do pântano?

Ela inclinou a cabeça.

— Talvez.

— Você está ferida.

— Cortes e escoriações. Um braço e algumas costelas quebradas. Nada que não tenha cura. — Ela lhe deu um soquinho de leve. — Eu bem que precisei de sua ajuda.

— Eu certamente precisei da sua.

— Sentiu falta de mim?

Ela fez a pergunta casualmente, como se a resposta dele não significasse nada. Mas ele sabia que sim. Por apenas um instante ficou convencido de que isso significava tudo, que ela queria que ele lhe dissesse que ela era importante para ele, de um jeito além da amizade. Era uma idéia improvável e tola, mas ele não conseguia deixar de pensar nisso. De qualquer maneira, gostou da idéia e não a questionou.

— Ok, eu senti a sua falta — disse.

— Ótimo. — Ela subitamente se curvou e beijou seus lábios. Foi apenas muito de leve, seguido de um toque em sua face com os dedos, e então ela tornou a se levantar. — Também senti sua falta. Sabe por quê?

Ele ficou olhando para ela.

— Não.

— Eu achava que não. Eu mesma acabei de descobrir. Talvez com o tempo você descubra. Você é muito bom em descobrir coisas, mesmo para um garoto.

— Ela lhe deu um sorriso irônico e zombeteiro, mas não teve a intenção de magoá-lo, e não o magoou. — Ouvi dizer que você pode fazer magia. Ouvi dizer que você não é quem achava que fosse. A vida é cheia de surpresas.

— Quer que eu explique?

— Se você quiser.

— Quero. Mas, antes, gostaria que você me contasse como ficou toda machucada assim. Quero saber o que aconteceu.

— Isto — ela disse sardônica, e fez um gesto para a aeronave. — Isto e muitas outras catástrofes.

Ele se levantou sobre um ombro e olhou ao redor. Os conveses da Jerle Shannara se estendiam em um monte de remendos improvisados e reparos inacabados.

Um novo mastro havia sido cortado, moldado e colocado no lugar; ele podia dizer isso pela nova madeira e pela cinta de metal nova. Amuradas haviam sido cortadas e tábuas danificadas no casco e nos conveses, substituídas.Atratores radianos pendiam inertes de eixos transversais e velas estavam pela metade de sua costura. Não havia ninguém à vista.

— Eles nos desertaram — ela disse, como se lesse seus pensamentos.

Podia ouvir vozes por perto, leves e indistinguíveis.

— Há quanto tempo vocês estão aqui?

— Quase uma semana.

Ele piscou, sem acreditar.

— Não conseguem voar?

— Não conseguimos sair do chão de forma alguma.

— Então estamos presos. Quantos de nós restaram?

Ela deu de ombros.

— Um punhado. O Ruivão, o Barba Negra, o montanhês, você e eu. Três da tripulação. Os dois cavaleiros alados. Panax e um elfo cavaleiro. Os cavaleiros alados os encontraram ontem, não muito longe daqui, com uma tribo de nativos chamados rindges. Eles acamparam no alto da encosta.

— Ahren? — ele perguntou.

Ela balançou a cabeça.

— Nem a vidente. Nem ninguém que foi para a margem. Estão todos mortos ou perdidos. — Ela desviou o olhar. — Os cavaleiros alados ainda estão procurando, mas as aeronaves com seus rets e mortos-vivos também. É perigoso voar em qualquer parte dessas montanhas agora. Não que pudéssemos, mesmo que quiséssemos.

Ele olhou para a aeronave, e depois de volta para ela.

— Onde está Grianne? Ela está bem?

O sorriso desapareceu do rosto de Rue Meridian.

— Grianne? Ah, sim, sua irmã desaparecida. Ela está lá embaixo, na cabine de Ruivão, olhando para o nada. Ela é boa nisso.

Ele sustentou o olhar dela.

— Eu sei que...

— Você não sabe de nada — ela o interrompeu, a voz estranhamente calma. — Nadinha. — Ela afastou fios soltos de seus cabelos ruivos compridos e ele pôde ver o olhar perigoso em seus olhos verdes. — Nunca pensei que me encontraria em uma posição onde teria de manter aquela criatura viva, quanto mais cuidar dela. Eu teria lhe colocado uma faca na garganta e acabado logo com isso, mas você estava gritando tão alto, pedindo para mantê-la a salvo, que não tive muita escolha.

— Eu agradeço o que você fez.

Ela apertou os lábios.

— É só me dizer que tem um bom motivo para tudo isso. Só me diga isso.

— Eu tenho um motivo — ele disse. — Mas não sei ainda se ele é tão bom assim.

Então Bek lhe contou tudo, tudo o que havia acontecido desde que ele havia deixado a Jerle Shannara semanas antes e entrado em terra com Walker e a equipe de apoio. Uma parte disso ela já sabia, pois Quentin havia lhe contado.Um pouco, ela já suspeitava. Ela havia adivinhado com a prisão dele a bordo da Black Moclips e sua fuga subseqüente, mas não tinha percebido a verdadeira razão de nenhuma das duas coisas. Estava cética e zangada com ele, no começo se recusando a ouvir os motivos que ele tinha para salvar sua irmã, gritando com ele que isso não interessava, que salvá-la era errado, que ela era responsável por todas as mortes sofridas pela companhia, especialmente a de Hawk.

Então Rue contou a Bek sua história, relatando os detalhes de seu aprisionamento junto com os outros rovers pela bruxa e seus seguidores, e de sua fuga e batalha a bordo da Jerle Shannara, onde Hawk dera sua vida para salvar a dela. Ela lhe contou de sua luta para recuperar o controle da nave e libertar seu irmão. Contou-lhe de sua busca por Walker e a companhia desaparecida, o que por sua vez levou a que ela recuperasse a posse da Black Moclips e voasse para terra, na direção da segurança das montanhas enquanto a frota de aeronaves inimigas a perseguia. Ela contou sua história de forma simples e direta, sem fazer esforço para embelezar sua parte nas coisas, até mesmo diminuindo-a.

Ele escutou com paciência, tentando com pequenos gestos incentivá-la e lhe dar apoio, mas ela nem prestava atenção. Odiava Grianne a tal ponto que não conseguia encontrar no coração uma maneira de perdoá-la. O fato de ter mantido a irmã dele viva dizia muito de seu afeto por ele. Perder Furl Hawken havia sido um golpe terrível e ela considerava Grianne a responsável direta. Rue Meridian se recusava a deixar Bek ficar sentado passivamente, insistindo em que ele reagisse. Ele o fez da melhor maneira possível, muito embora não ficasse à vontade fazendo isso. Tanta coisa havia acontecido em tão pouco tempo que não havia como resolver tudo, não havia como dar sentido a isso de um jeito que desse a qualquer um dos dois um mínimo de paz. Ambos haviam sofrido muitas perdas e procuravam um consolo que exigia respostas diferentes do que cada um estava disposto a dar. Em relação à bruxa Ilse, não podia haver acordo.

Por fim, Bek levantou as mãos.

— Não posso mais discutir isso, não agora. Me dói demais discutir com você.

Ela resfolegou, debochada.

— Talvez doa a você. A mim não. Não me machuco assim tão fácil. De qualquer maneira, você me deve um pouco de consideração. Você me deve uma chance de dizer a você o que penso de sua irmã! Você me deve a chance de compartilhar um pouco do que sinto!

— Estou fazendo o melhor que posso.

Subitamente ela esticou a mão, tirou-o dos cobertores e o sacudiu com força.

— Não está não! Não quero que você simplesmente fique sentado aí! Não quero que simplesmente escute! Quero que faça alguma coisa! Não percebe?

Os cabelos ruivos dela haviam se desprendido de sua bandana e alguns fios se enrolaram em seu rosto como fios finos de sangue.

— Você não sabe nada?

O olhar dela agora estava louco e insensato e ela parecia estar à beira de fazer alguma coisa desesperada. Parou de sacudi-lo, mas segurou-lhes os ombros com tanta força que ele sentiu as unhas atravessando suas roupas. Ela estava tentando falar, dizer mais alguma coisa, mas não estava conseguindo.

— Lamento quanto a Hawk — ele sussurrou. — Lamento que tenha sido Grianne. Mas ela não sabia. Ela não sabe nada. É como uma criança, trancada em sua mente, com pavor de sair novamente. Você não está vendo, Rue? Ela precisou encarar o que é de uma vez. É isso o que a magia da espada de Shannara faz com você. Ela precisou aceitar que era essa criatura terrível, esse monstro, e nem sequer sabia disso. Toda a sua vida foi repleta de mentiras, engodos e traições. Eu não sei... talvez ela nunca possa voltar a ser completa.

Rue Meridian olhava para ele como se ele fosse alguém que ela nunca tivesse sequer visto. Havia lágrimas em seus olhos e um olhar de tanta angústia em seu rosto que ele ficou atordoado.

— Estou cansada, Bek — ela murmurou em resposta. — Nem sequer pensei a respeito até agora. Não tive tempo para isso. Não descansei. — Ela enxugou os olhos com a manga da camisa. — Olhe para mim.

Ele o fez, pois na verdade nunca tinha desviado o olhar dela, mas lhe dando o que precisava, tentando achar um meio de ajudá-la a se recobrar. Ele disse:

— Eu só quero que você tente...

— Me abrace, Bek — ela disse.

Isso ele fez sem hesitar, segurando-a contra seu corpo, sentindo a pressão do corpo dela. Ela começou a chorar, sem fazer um ruído, os ombros sacudindo e forçando o rosto molhado contra o pescoço de Bek. Chorou por muito tempo, e ele a segurou enquanto isso, passando a mão pelas costas fortes dela em pequenos movimentos circulares, tentando dar algum conforto e segurança.Rue nunca se comportara daquela forma; Bek nunca a vira daquele jeito e demorou para que ele aceitasse que aquilo estava realmente acontecendo.

Ela enxugou do rosto o que restava das lágrimas e se recompôs com um pequeno dar de ombros.

— Eu não sabia que tinha isso em mim. — Olhou para ele. — Não conte a ninguém.

Ele assentiu.

— Eu não faria isso. Você sabe que não.

— Eu sei. Mas precisava dizer isso. — Ela ficou olhando para ele por um momento, mais uma vez com aquela sensação de não saber exatamente quem ele era, de talvez encontrá-lo pela primeira vez. — Meu irmão e os outros estão na beira da encosta, conversando. Podemos nos juntar a eles quando você estiver pronto.

Ele se levantou, pegando as botas.

— Conversando sobre o quê?

— Sobre o que vai ser necessário para nos tirar daqui.

— E o que vai ser necessário?

— Um milagre — disse ela.

 

Redden Alt Mer estava em pé na beirada da face da encosta e olhava para baixo, para o teto da floresta tropical de Crake, de maneira bastante parecida com a que tinha olhado nos últimos cinco dias. Nada havia mudado durante esse tempo, a não ser o nível de sua frustração, que estava rapidamente se tornando impossível de gerenciar. Ele havia considerado e reconsiderado cada opção que podia pensar para que pudessem contornar o Graak e recuperar os cristais-diapasão de que precisavam para voar novamente. Mas cada opção envolvia riscos inaceitáveis e pouca chance de sucesso, então ele a jogava de lado em desespero, só para pegá-la de novo e reexaminá-la quando decidia que todas as outras opções eram ainda piores.

Enquanto isso, o tempo estava passando. Eles ainda não haviam sido descobertos pelas aeronaves do Morgawr, mas mais cedo ou mais tarde o seriam. Um deles havia passado perto o bastante na véspera para que eles identificassem sua silhueta escura do chão, e muito embora não tivessem sido avistados naquela passagem, provavelmente o seriam da próxima. Se Hunter Predd e Po Kelles estivessem certos, só haveria um ou dois naquela profundidade da Arca de Aleuthra; o grosso da frota ainda estava procurando por eles na costa. Quando esse esforço fracassasse, a frota navegaria para o interior. Se isso acontecesse e eles ainda estivessem no chão, seria o fim.

Mesmo assim, pela primeira vez desde que a Jerle Shannara havia caído, ele tinha motivos para sentir esperança.

Deu uma olhada em Quentin Leah. O montanhês estava olhando intrigado para o Crake lá embaixo, seu rosto magro e machucado por batalhas. O olhar era um reflexo de sua incapacidade de imaginar o que aguardava lá embaixo; ele ainda não tinha visto o Graak. Ninguém tinha visto, somente Alt Mer. Isso, claro, era parte do problema. Ele sabia o que teriam de enfrentar, e embora os demais — rovers e recém-chegados — pudessem estar dispostos a entrar na floresta tropical e enfrentar aquilo, ele não estava. O que havia acontecido a Tian Cross e Rucker Bont ainda estava fresco em sua mente. Ele não queria arriscar perder mais vidas. Não queria mais mortes na consciência.

Mas era mais do que isso. Ele podia admitir para si mesmo, ainda que para mais ninguém. Ele tinha medo. Já fazia muito tempo — tanto tempo que ele não conseguia se lembrar da última ocasião — desde que ficara apavorado com alguma coisa. Mas estava apavorado com o Graak. Sentia isso no sangue. Sentia o cheiro do pavor em sua própria pele. Esse medo o visitava em seus sonhos e o fazia acordar de olhos arregalados e tremendo. Ele não conseguia se libertar disso. Ver seus homens morrerem, vê-los cair sob os dentes e garras daquele monstro, sentindo sua própria morte tão perto que podia imaginar seus ossos e sangue espalhados por todo o chão do vale, o havia enfraquecido. Embora tentasse dizer a si mesmo que seu medo era apenas temporário e que acabaria cedendo à sua experiência e determinação, ele não tinha certeza disso.

Sabia que a única maneira de se livrar dessa sensação era descer até o Crake e enfrentar o Graak.

E era o que ele ia fazer.

— Não vou pedir que venha comigo — ele disse a Quentin Leah sem olhá-lo.

— Ele não vai pedir, mas vai deixar bem claro que é isso o que ele espera — resfolegou Spanner Frew. — E então ele vai achar um jeito de fazer você acabar pensando que foi idéia sua!

Alt Mer lançou ao construtor naval um olhar sombrio, e então deu um sorriso de escárnio sem querer. Alguma coisa no outro o divertia, mesmo naquele momento — o aspecto perpetuamente amargo, a testa franzida, a atitude teimosa, alguma coisa. Spanner Frew sempre via o copo meio vazio, e estava pronto e mais do que disposto a compartilhar sua visão de mundo com quem estivesse perto para ouvir.

— Guarde suas opiniões para si mesmo, Barba Negra — ele disse, espantando uma mosca do rosto. — Os outros não as acham tão divertidas. O montanhês é livre para fazer o que decidir, assim como todos nós neste negócio.

Quentin Leah estava com um aspecto melhor naquela manhã, menos fantasmagórico e rígido do que na véspera, quando fora levado para a nave com Bek e a bruxa. Alt Mer ainda estava se acostumando à idéia de tê-la por perto, mas não estava tendo tanto problema com isso quanto sua irmã. A Ruivinha detestava a bruxa, e provavelmente não iria perdoá-la tão cedo pela morte de Hawk. Mas talvez ter Bek de volta ajudasse. Ela estava aborrecida com o pensamento de perdê-lo, mais do que qualquer outra coisa por um longo tempo. Não entendia o afeto que ela sentia por Bek, mas rapidamente reconheceu o que era.

Deu um suspiro. De qualquer maneira, agora havia mais pessoas do que há três dias, depois que Rucker e Tian morreram. Reduzidos a apenas seis, os rovers haviam visto seus números se reforçarem desde então. Primeiro reapareceram os cavaleiros alados, voando das nuvens em um dia nublado onde a chuva havia encharcado tudo por quase doze horas. Depois disso Po Kelles havia encontrado Panax, o elfo caçador Kian e aquelas pessoas avermelhadas de aspecto estranho que chamavam de rindges. Os rindges haviam levado mais dois dias de viagem para alcançá-los, mas agora estavam acampados vários quilômetros a leste em uma clareira de floresta elevada nas montanhas, escondidos de batedores enquanto aguardavam para ver o que aconteceria lá embaixo.

O líder deles, o homem que Panax chamava de Obat, foi quem lhes disse que o vale era chamado de Crake. Ele também conhecia a coisa que vivia lá. Obat não a tinha visto, mas quando Panax o trouxe para baixo para conversar, e Alt Mer o descreveu, ele o identificou na hora. Ficou tão empolgado que parecia que ia explodir. Gestos de mão e um fluxo de palavras que até mesmo Panax teve dificuldade de traduzir testemunhavam a extensão do medo de Obat. Estava claro que, seja lá o que se queria fazer, nem Obat nem nenhum outro rindge chegariam perto do que estava lá embaixo — “Um Graak”, Obat disse a Panax repetidas vezes. O resto do que ele disse tinha algo a ver com a natureza da fera, de sua invencibilidade e dominação de vales de montanha como o Crake, onde caçava criaturas que eram tolas ou distraídas o bastante para se aventurarem perto demais.

Saber o que era não ajudava a solucionar o problema, pois Obat não fazia idéia do que poderiam fazer quanto à coisa. Graaks deveriam ser evitados, jamais confrontados. As informações dele não ajudavam Alt Mer de nenhuma forma mensurável. Ainda o convenceram mais de sua situação indefesa. O necessário era magia do tipo que Walker possuía.

Ou Quentin Leah, talvez, na forma de sua espada, uma arma que fora eficiente contra os rastejadores de Antrax.

Mas ele não podia dizer mais nada para convencer o montanhês a ajudar. Na verdade, ele deveria era aconselhá-lo a não fazer isso. Mas aí teria de entrar no Crake sozinho, e não achava que conseguiria fazer isso. Embora fosse um homem corajoso, sua coragem havia desabado tão completamente que ele sentia enjôo até mesmo de chegar perto o suficiente para olhar a floresta tropical lá embaixo. Escondera seu medo de todos, mas esse medo estava ali assim mesmo — penetrante, inescapável e debilitante. Não conseguia confessá-lo, especialmente para a Ruivinha. Não que ela não fosse entender ou tentar ajudar. Era o olhar que ele sabia que veria nos olhos dela. Ele era o irmão no qual ela sempre confiara e de quem ela tinha tanto orgulho. Ele não suportaria se ela descobrisse que ele havia fugido enquanto seus homens estavam morrendo.

O montanhês olhou para ele.

— Tudo bem, eu vou.

O Ruivão suspirou, mantendo o rosto sem expressão.

— Eu vou — continuou Quentin Leah —, mas Bek fica. A magia que ele possui é nova e ele não tem com ela a experiência que eu tenho. Não vou arriscar a vida dele.

Fosse qual fosse a magia que o montanhês possuía, ela também era bastante nova para ele, pelo que o druida havia contado a Alt Mer. Mesmo assim ele não ia discutir a questão. Aceitaria qualquer ajuda que lhe oferecessem se isso significasse que ele iria colocar as mãos nos cristais-diapasão. Não sabia o que haviam conseguido indo ali em primeiro lugar, mas não achava que fosse grande coisa. Na maior parte das vezes ele havia conseguido era fazer com que muitos de seus amigos morressem, o que não era propriamente um motivo para ir a parte alguma. Você não precisava ter ido tão longe para ser morto. Sua frustração com essas questões veio à tona mais uma vez. Ele faria qualquer coisa para sair daquele lugar.

Antes que pudesse responder ao montanhês, Rue e Bek Ohmsford saíram das árvores de um lado e Panax, que antes havia se afastado para tentar encontrar um caminho mais fácil para descer a face da encosta, apareceu do outro.

— Bom-dia, jovem Bek! — o anão gritou animado ao avistá-lo. Um sorriso se espalhou por seu rosto quadrado e franco e ele acenou com uma das mãos. — Estou vendo que voltou ao mundo dos vivos! Você parece muito melhor hoje!

Bek acenou de volta.

— Você parece a mesma coisa, não há nada que o sono não cure!

Encontraram-se na beirada da encosta com Spanner Frew, Quentin e Alt Mer e apertaram as mãos. O rosto do montanhês ficara sombrio quando ele percebeu o que estava para acontecer, e sabia que não podia impedir. Alt Mer deu de ombros mentalmente. Algumas coisas não podiam ser evitadas. Pelo menos sua irmã parecia recomposta novamente. Quase radiante. Encarou-a surpreso, mas ela não o olhou.

— Patrulhei a beirada da encosta até o final e voltei — Panax informou-lhes, sem se dar conta do olhar de aviso do montanhês. — Há uma trilha mais adiante, não é grande coisa, mas é o suficiente para nos dar um caminho de descida que não envolva cordas. Ele se abre para uma planície, então seremos capazes de ver o que está esperando muito melhor do que o Ruivão poderia quando caiu nas árvores.

Ele olhou para Bek.

— Eu esqueci. Você acabou de acordar. Não sabe o que aconteceu.

— Sobre o Graak e os cristais? — perguntou Bek. — Já sei. Ouvi tudo a respeito no caminho de descida. Quando partimos?

— Não! — Rue Meridian se virou para ele furiosa. — Você não vai! Você ainda não está curado!

— Ela tem razão — disse Quentin Leah, olhando com firmeza para seu primo. — O que há de errado com você? Acabei de passar semanas me preocupando que você estivesse morto! Não vou passar por tudo isso novamente! Você fica aqui em cima. Ruivão e eu podemos lidar com isso.

— Espere um minuto. — Panax grunhiu. — E eu?

— Você também não vai! — Quentin disparou. — Dois de nós já é o bastante para arriscar.

O anão ergueu uma sobrancelha.

— E você de repente ficou tão melhor assim em sobreviver do que o resto de nós?

Bek olhou fuzilando para Quentin.

— O que faz você pensar que tem o direito de decidir se eu vou ou não? Eu decido o que é certo para mim, não você! Por que eu concordaria em ficar aqui em cima? E nossa promessa de cuidarmos um do outro?

— Bem, se vocês forem, eu vou! — Rue Meridian cuspiu as palavras desafiadoramente. — Até agora quem fez o melhor papel de vigia fui eu! Vocês não vão me deixar para trás! Ninguém vai me deixar! — Ela desviou seu olhar zangado de um para outro. — Qual de vocês quer tentar me deter?

Estavam face a face agora, todos eles, tão zangados que não conseguiam parar de gritar por tempo suficiente para ouvir o que os outros estavam dizendo.

Spanner Frew estava calado, seu rosto escuro abaixado para esconder o sorriso nos lábios, a cabeça balançando lentamente de um lado para outro. Alt Mer ouvia triste, perguntando-se quando entrar na discussão e se isso faria alguma diferença.

Por fim, ele já havia ouvido o bastante.

— Parem de gritar! — ele urrou.

Todos pararam de discutir e olharam para ele, os rostos vermelhos e suando no calor do meio-dia.

Ele balançou devagar a cabeça.

— O druida está morto, por isso eu comando esta expedição. Tanto a bordo da nave quanto fora dela. Isso significa que eu decido quem vai.

Seus olhos pousaram por um momento em Bek — Bek, que parecia mais alto e forte do que ele se lembrava, mais maduro. Surpreso, o capitão rover percebeu que ele não era mais um garoto. Quando isso havia acontecido? Ele olhou rapidamente para sua irmã, vendo de repente as coisas sob uma nova luz. Ela olhava para ele como se quisesse pular em seu pescoço.

Desviou rapidamente o olhar, na direção do vale, para onde seus medos estavam centrados. Tornou a se perguntar por que havia ido tão longe. Dinheiro? Sim, era parte do acordo. Mas havia necessidade de escapar das Prekkendorran e da federação também. Tinha havido uma necessidade de ver um novo país, de viajar para algum lugar onde ele não havia estado. Tinha havido necessidade de renovação.

— Não sobraram muitos de nós — ele disse, agora num tom mais baixo. — Apenas um punhado, e precisamos cuidar uns dos outros. Discutir é desperdício de tempo e energia. Apenas uma coisa é importante, e é voltar para os céus e ir embora daqui.

Não esperou a resposta deles.

— Ruivinha, você fica aqui. Se alguma coisa acontecer comigo, você é a única que pode navegar a Jerle Shannara de volta para casa. Bek poderia tentar, mas ele não sabe navegar. Além disso, você está toda moída. Costelas quebradas, braço quebrado, se tiver de se defender lá embaixo, estará em apuros. Não quero me preocupar em ter de salvá-la. Por isso, você fica.

Ela ficou furiosa.

— Você está preocupado em me salvar? Quem foi que tirou você da prisão da federação? Quem foi que...

— Rue.

— ...tomou a Black Moclips de volta dos rets e a teria conservado também, com uma ajudinha? E quanto ao Barba Negra? Ali em pé, de cabeça baixa e boca fechada, torcendo para que ninguém se lembre de que ele sabe navegar uma aeronave tão bem quanto eu! Não diga uma palavra, Spanner! Não diga nada que possa me ajudar!

— Rue.

— Não! Não é justo! Ele sabe navegar tão bem quanto eu! Você não pode me dizer para não ir só porque eu...

— Rue! — A voz dele teria derretido ferro. — Quatro de nós já é risco suficiente. Você fica!

— Então Bek fica comigo! Ele também está ferido!

Alt Mer olhou firme para ela. Do que ela estava falando? Bek não era problema dela.

— Como você, não. Além do mais, podemos precisar da magia dele.

Ela o fuzilou com o olhar por um momento e ele pôde ver que ela estava à beira de um ataque. Ele nunca a vira fazer isso, nem sequer chegar perto disso. Por um momento, reconsiderou sua decisão, percebendo que algo nisso era mais importante do que as palavras dele lhe diziam.

Mas, antes que ele pudesse dizer alguma coisa, ela se virou e saiu na direção da aeronave, rígida de raiva e frustração.

— Ótimo! — ela gritou pelas costas. — Façam o que quiserem! Vocês são todos uns idiotas!

Ele a observou desaparecer por entre as árvores, pensando que era isso mesmo, que não havia nada que pudesse fazer a respeito. De qualquer maneira, seu próximo confronto já estava ali. Se Rue Meridian estava zangada, Quentin Leah estava lívido.

— Eu disse a você que não iria se Bek viesse! Você achou que eu estava brincando? — Ele mal conseguia falar. — Diga a ele que não pode ir, Ruivão. Diga a ele, ou eu não vou.

Bek começou a falar, mas Alt Mer levantou a mão para silenciá-lo.

— Não posso fazer isso, montanhês. Lamento porque as coisas não saíram do jeito que você queria, mas não posso mudar isso, por isso as ameaças não têm valor. Bek tem o direito de decidir por si mesmo o que quer fazer. Você também. Se não quiser ir, não precisa.

Fez-se um longo silêncio enquanto o rover e o montanhês encaravam um ao outro. Havia um limite perigoso em Quentin Leah, como se nada importasse muito mais para ele. Alt Mer não tinha como saber o que Quentin havia passado para sair de Castledown e encontrá-los, mas devia ter sido algo horrível e deixara marcas nele.

— Desculpe, montanhês — ele disse, sem saber pelo que lamentava, a não ser pelo olhar que viu nos olhos do outro.

— Quentin — Bek disse baixinho, colocando uma das mãos em seu ombro. — Não vamos discutir assim.

— Você não pode ir, Bek.

— Claro que posso. Eu preciso. Nós prometemos cuidar um do outro daqui em diante, lembra? Fizemos essa promessa apenas um dia atrás. Isso significou muito para mim. Também deveria significar algo para você. É agora que temos de fazer isso valer. Por favor!

Quentin ficou em silêncio por um momento, com um ar tão desesperado que Alt Mer não teria se surpreendido com nada do que ele fizesse. Então Quentin balançou a cabeça e colocou a mão sobre a de Bek.

— Está certo. Não gosto disso, mas está certo. Vamos os dois.

Ficaram por um momento olhando um para o outro, cientes de que as palavras de Quentin haviam tornado definitivo o compromisso deles de realizar uma tarefa perigosa demais até de se pensar. Mas era apenas a mais recente em uma longa fileira, e a decisão dos dois de assumir aquela, também, não tinha mais o limite que poderia ter tido um dia. Jogar com suas vidas havia se tornado algo comum.

— Vamos precisar de um plano — disse Panax.

O Ruivão olhou para trás, à procura de sua irmã. Ela havia sumido de vista e subitamente ele desejou que não tivessem deixado as coisas daquele jeito entre eles.

— Eu tenho um plano — disse.

O anão olhou para as profundezas verdes do Crake.

— Quando vamos fazer isso?

Alt Mer parou para pensar. O sol havia se posto a oeste, mas a maior parte da luz da tarde ainda permanecia e o céu estava claro. Levaria horas para escurecer.

— Agora — ele disse.

 

Quentin Leah não ficou nem um pouco comovido pelas tentativas do Ruivão e de Bek em justificar a decisão temerária deste em se arriscar com o Graak. Não importava que raciocínio eles utilizassem, o montanhês não conseguia deixar de sentir que aquilo tudo terminaria mal. Ele sabia que não lhe cabia dizer a Bek que não fosse com eles. Sabia que nenhum deles o achava mais bem qualificado do que eles para julgar a natureza do perigo que enfrentariam. Se alguém tinha o direito de fazer isso, na verdade, era Redden Alt Mer, que já havia lutado com a criatura e vivera para contar.

Mesmo assim Quentin se via como uma pessoa à qual eles deveriam escutar. Panax e Alt Mer eram ambos testados em batalha e experientes nas Quatro Terras, mas nenhum dos dois havia sobrevivido aos desafios que ele sobrevivera em Parkasia. Ele conhecia mais daquele mundo do que eles. Ele o sentia melhor. Mais do que isso, ele tinha o uso da magia que eles não tinham, o que com toda a probabilidade ia fazer a diferença entre a vida ou a morte deles.

Bek também tinha magia, mas ele a havia usado pouco e apenas sobre rastejadores — coisas metálicas e impessoais — e ele não fizera tanto assim. Na maioria das vezes havia escapado porque tivera Truls Rohk para protegê-lo e Walker para aconselhá-lo. Ele não lutara contra algo como o Graak. Não ia ser a mesma experiência para ele, e Quentin não estava assim tão certo de que seu primo estava pronto para isso.

Enquanto desciam ao longo da encosta na direção do caminho que levava ao vale, ele guiava os outros, preocupando-se em silêncio e pensando no que iriam fazer e qual a melhor maneira de protegê-los. Se o Ruivão e dois de seus mais experientes rovers haviam sido despachados tão facilmente, não havia muita esperança de que as coisas mudariam sem a ajuda da espada de Leah. Claro que ele a utilizaria. Ele a empregaria como o fizera contra o wronk de Ard Patrinell. Talvez isso até fosse o bastante. Mas ele não tinha certeza. Não fazia idéia da força do Graak. Sabia que era maior do que qualquer coisa que já havia encontrado nas Highlands, e isso era motivo suficiente de preocupação. Ele não podia ter certeza de como seu talismã os protegeria até ver por si mesmo contra o que estaria lutando. Assim como acontecia com toda a magia, a eficácia da espada dependia da força do usuário — não só a força física, mas a emocional também. Um dia ele havia se achado digno de qualquer coisa. Havia sentido o poder da magia correr através dele como fogo, e pensara que não havia nada que não pudesse superar.

Hoje ele sabia que não era assim. Sabia que havia limites para tudo, até mesmo para o fluxo eufórico da invocação da magia e da infusão de seu poder. Eventos e perdas o haviam esvaziado de sua confiança. Ele lutara demais e com muita freqüência para ficar ansioso com aquilo. Estava cansado até os ossos e muito triste. Havia visto aqueles ao seu redor morrerem rápido demais, e na maioria das vezes não fora capaz de impedi-lo. Ainda chorava a perda deles — Tamis e Ard Patrinell em particular. Seus rostos o assombravam com uma persistência que o tempo e a aceitação não haviam conseguido diminuir.

Talvez esse fosse o problema ali, ele pensou. Tinha medo de perder mais alguém de quem gostasse. Bek, certamente, mas Redden Alt Mer e Panax também. Não achava que poderia suportar isso. Não depois do que passara naquelas últimas semanas. Bek e ele haviam concordado apenas um dia atrás que deveriam cuidar um do outro conforme haviam prometido, que precisavam fazer isso se quisessem chegar em casa novamente sãos e salvos. Mas a verdade da questão era que ele deveria estar carregando sobre os ombros a parte maior do fardo. Era o mais velho e o mais experiente. Era física e emocionalmente mais duro do que Bek. Podia ser verdade que a magia de Bek era a mais forte; Tamis dissera de um jeito que parecia ser isso mesmo. Mas era a força do usuário que importava. Embora Bek tivesse feito a Jerle Shannara passar pelo Squirm e conseguido controlar sua irmã, nenhuma dessas realizações iria ajudá-lo em um confronto com o Graak.

Quentin não se iludia pensando que sua própria força provaria ser o suficiente para o que estava por vir. Apenas pensava que, dos dois, ele tinha mais chances de fazer o trabalho.

Mas não havia jeito de convencer seus três companheiros disso, especialmente Bek, então ele teria de fazer o que pudesse apesar deles. Isso significava se colocar na vanguarda de qualquer perigo que encontrassem e dar aos outros uma chance de fugir quando a fuga fosse a única opção razoável.

Dada a natureza do plano que o Ruivão havia bolado, Quentin não achava que fosse tão difícil para ele arranjar isso. Só precisavam chegar perto o bastante do caixote de cristais-diapasão para pegar três ou quatro. Seria melhor se pudessem pegar mais, mas se isso fosse tudo o que pudessem recuperar, seria o bastante. Três fariam a Jerle Shannara alçar vôo. A falta de cristais de reserva poderia ser um problema depois, mas permanecer vivo ali e naquele momento era uma preocupação muito maior e mais importante.

Então os quatro partiriam para a clareira onde estava o caixote, procurando ao longo do caminho qualquer sinal do Graak. Com sorte ele estaria em outro lugar, atraído para longe por sua necessidade de comida ou alguma outra coisa. Se ele tivesse ido embora, isso seria fácil. Se estivesse à espreita, então era tarefa de Quentin e Bek detê-lo por tempo suficiente para que o Ruivão e Panax pegassem os cristais e retomassem a trilha de subida. Bek só tinha a magia da canção do desejo em que confiar, e ele era honesto o bastante para admitir que não estava certo de saber comandá-la, ou de sua eficiência. Isso queria dizer que Quentin, que tinha certeza com relação à espada de Leah, era a vanguarda de defesa para todos eles.

Com isso em mente, e incapaz de forçar mais a exigência de que seu primo ficasse na nave, ele tinha pelo menos conseguido convencê-lo a ficar alguns passos para trás quando avançaram ao interior da floresta tropical, dando a Quentin espaço para intervir se fossem atacados.

Nada disso mudava o fato de que ele estava se sentindo praticamente da mesma maneira que se sentiu quando entrara nas ruínas de Castledown. Havia mais naquela história do Graak do que ele estava vendo. Ele estava deixando de ver alguma coisa. Não sabia o que era, mas sabia que estava lá. Suas habilidades e instintos de caça estavam gritando que ele estava deixando de ver alguma coisa óbvia.

Atingiram a trilha e começaram a descer. O vale tornou-se visível, um vasto tapete de folhas e vinhas, tudo embaraçado em uma profusão de tons verdes e marrons. Do alto, a selva tinha o aspecto de um pântano sem fundo onde os incautos podiam afundar e se perder com um único passo em falso. Enquanto desciam a trilha em ziguezague, Quentin experimentou a sensação de estar sendo engolido.

A meio caminho da descida, Redden Alt Mer parou e se virou em direção ao grupo.

— Estamos a uma grande distância de onde temos de ir — ele avisou baixinho. — Esta trilha nos leva mais para longe dos cristais do que a outra. Quando chegarmos ao interior do vale, teremos de recuar. Vamos permanecer próximos à base da encosta antes de começarmos a entrar através das árvores.— Ele apontou. — Lá adiante, é ali onde os cristais estavam quando vim aqui embaixo. Então vamos virar onde aquela árvore grande está encostada contra a face da encosta.

Ninguém disse nada em resposta. Não havia nada a dizer.

Tornaram a avançar, descendo cuidadosamente o caminho estreito, pressionando-se contra a rocha para manter o equilíbrio, agarrando arbustos e mato. Era difícil para Quentin, porque ele estava usando sua espada amarrada às costas e a ponta ficava prendendo a todo instante em raízes e galhos. Alt Merearregava uma espada curta e Bek não levava nada. Somente Panax levava um peso mais desajeitado na forma de sua imensa maça, mas sua forma densa e atarracada lhe permitia melhor gerenciar a tarefa. Quentin subitamente desejou ter pensado em trazer um arco e flechas, algo com que pudesse atacar à distância. Mas era tarde demais para fazer qualquer coisa a respeito.

No chão do vale, eles desceram ao longo da base da encosta, movendo-se rápida e silenciosamente através do mato alto e rodeando árvores que cresciam perto das rochas. O terreno ainda estava aberto, ainda não tomado pela floresta tropical, e Quentin, mesmo através das árvores, via quilômetros do vale à sua frente. Ficou observando de perto em busca de qualquer coisa que parecesse fora de lugar. Mas nada se movia e tudo parecia estar no seu lugar. O Crake era uma muralha de folhagem que ocultava tudo em seu padrão sarapintado. A luz do sol se derramava em finas correntes por suas vinhas e galhos, mas não conseguia penetrar com nenhum sucesso. Sombras cobriam tudo, dispostas em camadas de tons escuros, movendo-se e se deslocando com a passagem de nuvens no alto. Era impossível ter certeza do que eles estavam vendo. Estariam em cima de qualquer coisa que se escondesse ali antes de perceberem o que era.

Já haviam percorrido uma boa distância quando o Ruivão ergueu uma das mãos e apontou para as árvores. Era ali onde eles deixariam o abrigo da muralha da encosta. Adiante, as árvores cresciam em aglomerados densos e as vinhas se retorciam sobre elas como cordas. Clareiras se abriam em intervalos esporádicos, grandes o bastante para permitir a passagem de qualquer coisa com um tamanho razoável. Olhando de perto, Quentin podia ver que algumas das árvores haviam sido empurradas para dar passagem.

Alt Mer liderou, com Quentin seguindo logo atrás, Bek em terceiro lugar e Panax por último. Abriram caminho passando por um atoleiro, a terra empapada, a umidade no ar se elevando com o calor, o silêncio profundo e opressivo. Ali nenhum pássaro voava. Nenhum animal se esgueirava por entre as sombras. Havia insetos que zumbiam e cricrilavam, e nada mais. Sombras cobriam o caminho em frente e atrás com o toque suave da língua de uma cobra. O desconforto de Quentin crescia. Nada no Crake parecia certo. Eles estavam fora de seu elemento, intrusos que não pertenciam àquele lugar, presas fáceis para quem quer que vivesse ali.

Menos de dez minutos depois, encontraram os restos de um dos rovers que havia descido com Alt Mer seis dias antes. Seu corpo jazia espalhado entre árvores estraçalhadas e mato arrasado. Pouco restava além da cabeça, ossos e um pouco de pele; a carne havia sido em grande parte comida. A maior parte de suas roupas havia desaparecido. Seu rosto estava contorcido em uma careta de horror e dor indizíveis, uma máscara despida de humanidade. Passaram depressa pelo morto, desviando os olhos.

Então o Ruivão os fez parar, levantando rapidamente a mão em aviso. Adiante, havia um caixote quebrado e aberto, as ripas de madeira saltando para fora como ossos. Quentin não conseguia ver o conteúdo, mas supunha que fossem os cristais-diapasão. Ele olhou ao redor com cautela, testando o ar e a sensação da selva, à procura de qualquer predador que pudesse estar à espreita. Ele aprendera a ser cauteloso ainda quando criança nas Highlands, uma leitura sensorial do mundo que transcendia o que a maioria dos homens e mulheres podia conseguir. Observou tudo bem devagar, perscrutando todas as direções, tentando detectar o que poderia estar oculto.

Nada.

Mas seus instintos o avisavam para tomar cuidado; ele sabia que não devia dispensá-los. Tamis era melhor nisso do que eu, ele pensou. Se ela estivesse aqui, veria o que estou perdendo.

Redden Alt Mer fez um sinal para que ficassem onde estavam e saiu da floresta, entrando na clareira, avançando na direção dos cristais. Andou com firmeza, mas cautelosamente, e Quentin viu seus olhos se desviarem de um lugar para outro. O montanhês vasculhou a muralha de selva.

Nada ainda.

Quando chegou aos restos do caixote, o capitão rover fez um sinal por cima do ombro para que os outros se juntassem a ele. Espalhando-se, eles entraram agachados na clareira. Quentin e Panax estavam com suas armas na mão, prontas para uso. Quando alcançaram Alt Mer, Panax se ajoelhou para ajudar o rover a retirar os cristais enquanto Quentin e Bek montavam guarda.

A selva era uma muralha verde silenciosa, mas Quentin sentia olhos ocultos observando. Olhou de relance para Bek. Seu primo parecia estranhamente calmo, quase em paz. O suor brilhava em sua testa, mas era por causa do calor. Ele se mantinha ereto, cabeça erguida, olhos saindo do ocultamento das árvores em uma varredura constante.

Alt Mer havia retirado dois cristais e estava trabalhando em um terceiro quando um sibilar baixo soou de algum lugar atrás nas árvores. Os quatro homens ficaram paralisados, olhando na direção do som. O sibilar veio novamente, mais próximo, mais profundo, e com ele o som de alguma coisa se movendo.

— Rápido — disse Alt Mer, passando dois cristais para Panax. Os cristais tinham menos de sessenta centímetros de comprimento, mas eram pesados.Panax grunhiu com o peso de sua carga ao partir. O Ruivão retirou o quarto cristal do caixote, fazendo mais barulho do que pretendia, mas não tinha a intenção de trabalhar mais devagar. O sibilar soou novamente, ainda mais perto. Alguma coisa estava se aproximando.

Com dois cristais aninhados nos braços, o Ruivão recuou clareira adentro, os olhos na muralha de selva. Quentin Leah e Bek cobriam-lhe os flancos, o montanhês fazendo para o primo um gesto para que recuasse, seu primo o ignorando. Os topos das árvores agora estavam balançando, como se um vento tivesse se erguido para mexê-los. Quentin não tinha ilusões. O Graak estava chegando.

Eles haviam chegado ao abrigo de um bosque de cedros cercado por arbustos, talvez a uns seis metros da borda da clareira, quando o monstro emergiu. Ele veio empurrando as árvores e as vinhas de supetão, um dragão imenso pesando milhares de quilos e medindo mais de quinze metros de comprimento. Seu corpo tinha a cor da selva e brilhava fosco onde a luz do sol se refletia em sua pele gosmenta. Chifres e pontas se aglomeravam em sua cabeça e uma pele grossa pendia de seu pescoço. Garras do tamanho de braços afundavam na terra úmida e fileiras de dentes brilharam quando a língua saiu serpenteante do maxilar.

Agachado sob quatro patas curtas e poderosas, o Graak balançava a cabeça pontuda para um lado e para outro à procura do que havia atraído sua atenção. Alt Mer ficou paralisado onde estava e Quentin e Bek fizeram a mesma coisa. Talvez a criatura não os visse.

O Graak ficou andando por ali sem rumo, e então começou a farejar o chão, a cauda longa se debatendo contra a folhagem. Quentin prendeu a respiração. Aquela coisa era imensa. Ele havia sentido como o chão tremia quando ela saiu dentre as árvores. Ele havia visto como ela derrubara com os ombros aquelas árvores maciças como se elas fossem lenha morta. Se tivessem de lutar com ela, estariam em sérios apuros.

O Graak subiu até os cristais e os cheirou, e então colocou um pé maciço em cima do caixote e o esmagou. Sibilando novamente, se afastou deles, procurando as árvores na direção oposta.

Alt Mer chamou a atenção de Quentin. Agora, ele moveu os lábios sem fazer barulho.

Lenta e cuidadosamente, eles começaram a recuar. Bek, vendo o que estavam tentando, fez o mesmo. Virado de costas, farejando o vento, o Graak continuava sem prestar-lhes atenção. Não tropece, Quentin pensou consigo mesmo. Não caia. A selva estava tão silenciosa que ele podia ouvir o som de sua própria respiração.

O Graak tornou a se virar, seu focinho rombudo balançando lentamente de um lado para outro. Como se fossem um só, todos ficaram paralisados.Estavam longe o bastante entre as árvores para mal conseguirem ver a cabeça da criatura sobre o mato alto. Talvez ela também não conseguisse vê-los.

Os olhos reptilianos piscaram e a língua comprida sibilou. Ela estudou a selva por mais um instante, e em seguida se virou e voltou pelo caminho pelo qual viera. Em segundos, havia desaparecido.

Quando ficou claro para todos que ela não voltaria imediatamente, começaram a avançar depressa floresta adentro. Quentin estava atônito. Pensara que não tinham chance de escapar sem serem detectados. Todos os seus instintos o avisaram contra isso. Mas, de algum modo, a criatura não havia conseguido vê-los e agora eles estavam a poucos minutos de chegarem à parede da encosta e iniciarem a subida de volta.

Alcançaram Panax, que não estava tão distante ainda. O anão assentiu sem dizer uma palavra.

— Essa foi por pouco! — Bek sussurrou fazendo uma careta.

— Nem fale! — disse Quentin.

— Você pensou que ele já tivesse nos apanhado — persistiu o outro.

Quentin o fuzilou com o olhar, irritado. Não gostava de falar em sorte. Ela costumava desaparecer quando se falava nela.

— Lá em casa — Bek disse, respirando pesado devido ao esforço —, se fosse um javali, digamos, nós também teríamos procurado a fêmea.

Quentin quase tropeçou quando se virou rapidamente para olhar para ele. A fêmea!

— Não — ele murmurou, percebendo o que havia deixado de ver, o medo percorrendo-lhe a espinha. Empurrou Bek para o lado e passou correndo para alcançar Redden Alt Mer e Panax. — Ruivão! — ele sibilou com força. — Espere!

Ao som de seu nome, o rover se virou, fazendo com que o anão reduzisse a velocidade e também se virasse, o que provavelmente salvou a vida dos dois. No instante seguinte, outro Graak atacou por entre as árvores em frente e caiu sobre eles.

Não houve tempo para parar e pensar no que fazer. Só havia tempo para reagir, e Quentin Leah já estava em movimento quando o ataque aconteceu. Sem reduzir o passo, ele praticamente voou por cima do Ruivão e de Panax, a espada de Leah erguida por ambas as mãos. A magia já estava percorrendo a espada até o cabo e penetrando nas suas mãos e braços. Ele foi direto até o Graak, jogando-se e passando pelas mandíbulas que tentavam mordê-lo, rolando por baixo de sua barriga e voltando a ficar em pé para enfiar a espada fundo em seu flanco. A magia brilhou em uma explosão de luz e penetrou no Graak. O monstro sibilou de dor e fúria e se virou para meter os dentes em seu atacante. Mas Quentin, que havia aprendido alguma coisa sobre como lutar com criaturas maiores em suas batalhas com os rastejadores e o wronk de Patrinell, se desviou do ataque, saiu cambaleante da linha de visão do Graak e tornou a atacá-lo, desta vez dilacerando um tendão da perna traseira da criatura. Mais uma vez o Graak se virou, rasgando a terra com as garras, arrastando a perna traseira ferida como se fosse um tacape, a cauda chicoteando selvagemente.

— Corram! — Bek gritou para Panax e o Ruivão.

Os dois correram imediatamente, levando os cristais para longe da batalha e voltando para subir a encosta. Mas Bek se virou para lutar.

Não havia qualquer chance para Quentin evitar isso. Estava ocupado demais tentando permanecer vivo, e o movimento do corpo do Graak enquanto tentava manter Quentin junto ao chão bloqueava sua visão do primo. Mas ele ouviu o chamado que Bek emitiu, uma coisa aguda e meio rouca, predatória e escura, nascida de pesadelos que só ele e aqueles que trabalhavam com aquele tipo de magia conheciam. O Graak virou a cabeça em resposta, claramente incomodado com o som, e se virou em busca de quem havia gritado, dando a Quentin uma chance de atingi-lo novamente. O montanhês rolou debaixo da criatura uma segunda vez e enfiou a lâmina de seu talismã no fundo do peito, em algum lugar perto de onde achava que devia estar o coração, a magia fluindo em seu íntimo como um rio.

O Graak tossiu sangue escuro e engasgou. Um órgão vital havia sido atingido. Coberto de lama e suor e cheirando a terra úmida e fétida, Quentin rolou e se libertou mais uma vez. Seu rosto e mãos estavam cobertos de sangue, e ele viu que um braço havia sido ferido e seu lado direito lacerado. De algum modo, sem perceber, havia sido ferido. Tentando ficar fora do campo de visão do Graak, correu na direção da cauda, procurando uma nova abertura. O Graak estava atacando selvagemente, contorcendo-se em fúria enquanto sentia os efeitos assassinos da magia que começavam a funcionar. Mais um golpe certeiro, Quentin julgou, deverá acabar com ele.

Mas então a criatura fez o inesperado. Deu um salto sobre Bek, subitamente e sem sequer olhar. Bek ficou onde estava, utilizando o poder da canção do desejo para atacar de volta, mas o Graak nem sequer pareceu ouvi-lo. Ele avançou sem reduzir a velocidade, arrastando sua perna traseira ferida, sibilando de fúria e loucura no ar quente da selva.

— Bek! — Quentin gritou desesperado.

Voou atrás do Graak com um completo desrespeito por sua própria segurança e alcançou a criatura quando ela estava a apenas metros de distância de seu primo. Balançou a espada de Leah, com o pouco de força que ainda possuía, a magia explodindo para a frente enquanto ele cortava os tendões da perna traseira da criatura. O Graak tombou no mesmo instante, ambas as pernas traseiras imobilizadas, sua parte posterior inútil sendo arrastada até parar de vez. Mas enquanto ele lutava para continuar seguindo, para chegar até Bek, rolou direto para o montanhês, que, ao contrário de Bek, não teve tempo de sair do caminho. Embora Quentin tivesse se jogado de lado quando o corpo se contorcia e desabava, não conseguiu sair completamente do caminho, e a cauda pesada do Graak o atingiu com a força de uma marreta.

Foi como se uma montanha tivesse caído sobre ele. Ossos estalaram e quebraram e ele foi pressionado com tanta força sobre a terra que não conseguia respirar. Teria gritado se houvesse um jeito de fazê-lo, mas seu rosto estava enterrado em quinze centímetros de lama. O Graak levantou de cima dele, depois caiu, depois levantou de novo. Ele conseguiu tirar a cabeça do atoleiro, para respirar, mas em seguida se achatou novamente quando o monstro tornou a rolar sobre ele, desta vez deixando de atingi-lo quando girou sobre si mesmo em um esforço para se erguer.

— Quentin, não se mexa! — ele ouviu Bek gritar.

Como se eu pudesse fazer isso!, pensou, zonzo. A dor estava começando a atingi-lo em ondas. Ele era um homem morto, agora sabia. Ninguém poderia sobreviver ao tipo de ferimentos que ele havia acabado de sofrer. Estava morto, mas seu corpo ainda não havia recebido a mensagem.

Sentiu mãos o pegarem e o rolarem. A dor era excruciante.

— Sombras! — ele conseguiu dizer quando os ossos rasparam uns nos outros e a boca expeliu uma golfada de sangue.

— Agüente firme! — Bek implorou. — Por favor, Quentin!

Seu primo o levantou e o levou para longe dali. Em algum lugar ali perto o Graak estava dando seus estertores de morte. Em algum lugar não tão perto dali, seu parceiro estava chegando. Quentin não podia ver nada disso, mas tinha certeza de que estava acontecendo. Tropeçou sobre uma cortina de angústia vermelha e consciência nebulosa. A qualquer momento ele desabaria. Lutava contra isso com uma determinação frenética. Se ele caísse, Bek não conseguiria levá-lo dali. Se caísse, estava acabado.

Puxa vida, ele pensou, zonzo e meio desinteressado. Era mesmo o fim.

— Desculpe, Bek — ele disse, ou talvez tivesse apenas tentado dizer isso, não tinha certeza. — Desculpe.

Então uma onda de escuridão o engolfou e tudo escureceu.

 

Estava escuro quando Bek finalmente emergiu no convés da Jerle Shannara, caminhou até a proa e olhou para o céu noturno. A lua era um pequeno crescente sobre a montanha na qual estavam apoiados, recém-formada e mal aparecendo na imensidão do vasto céu. Estrelas salpicavam o firmamento índigo como grãos de areia branca brilhante espalhados sobre veludo negro. Um dia lhe disseram que no Antigo Mundo os homens haviam viajado até aquelas estrelas, que eles haviam construído e tripulado naves que podiam navegar pelo céu como ele navegara pelas águas da Divisa Azul. Parecia impossível. Mas as coisas mais maravilhosas pareciam impossíveis até que alguém as realizasse.

Estava apenas a alguns minutos no convés quando Rue Meridian apareceu ao seu lado, aproximando-se tão silenciosamente que ele não a ouviu chegar e só percebeu que ela estava lá quando colocou a mão sobre a dele.

— Você dormiu? — ela perguntou.

Ele balançou a cabeça. Sono estava fora de questão.

— Como está ele?

Pensou nisso por um momento, olhando para o céu.

— Se segurando pelas unhas e caindo.

Haviam conseguido tirar Quentin Leah do Crake com vida, mas por pouco. Com a ajuda de Bek, ele havia caminhado trôpego por cem metros da trilha antes de desabar. A essa altura ele havia perdido tanto sangue que, quando o levaram para a nave, quase não conseguiam carregá-lo, porque a roupa escorregava. Rue Meridian sabia alguma coisa sobre tratamento de ferimentos pelo tempo que passara nas Prekkendorran, então, depois de fazer torniquetes para estancar as artérias estouradas, costurou-o e colocou bandagens da melhor forma que pôde. O tratamento das feridas superficiais não foi difícil, e colocar os ossos quebrados no lugar também não. Mas havia ferimentos internos com os quais ela não tinha habilidade para lidar, e então muito do cuidado de que Quentin necessitava não podia ser dado. A cura teria de vir de dentro e todos sabiam que a chance de isso acontecer ali era pequena.

A melhor aposta deles era levá-lo a um centro de cura nas Quatro Terras ou encontrar um curandeiro local. A primeira opção estava fora de questão. Simplesmente não havia tempo. Quanto à última, os rindges ofereciam a única possibilidade de ajuda. Panax tinha ido ver o que eles poderiam fazer, mas retornara de mãos abanando. Quando um rindge estava na condição de Quentin, seu povo não podia fazer por ele mais do que a equipe da Jerle Shannara.

— Ele está sozinho? — Rue perguntou a Bek.

Ele balançou a cabeça.

— Panax está tomando conta dele.

— Por que você não tenta dormir por algumas horas? Não há mais nada que possa fazer.

— Eu posso ficar com ele. Posso estar ali por ele. Vou descer daqui a pouco.

— Panax cuidará dele.

— Panax não é o único com quem ele pode contar.

A isso ela não respondeu. Simplesmente ficou ao lado de Bek, fazendo-lhe companhia, olhando para as estrelas. O Crake era um mar de negror impenetrável dentro da cúpula das montanhas, silencioso e sem definição. Bek olhou para baixo por algum tempo e ficou arrepiado ao fazê-lo, as memórias da tarde ainda cruas e terríveis, repetindo-se sem cessar em sua cabeça. Ele não conseguia superá-las, nem mesmo agora, quando estava a salvo.

— Você está exausto — ela disse por fim.

Ele balançou a cabeça concordando.

— Precisa dormir, Bek.

— Eu deixei a espada dele lá embaixo. — Ele apontou para o vale.

— O quê?

— A espada dele. Eu estava tão ocupado tentando tirá-lo de lá que me esqueci inteiramente. Simplesmente deixei-a para trás.

Ela assentiu.

— Ela não irá a parte alguma. Nós podemos recuperá-la amanhã, quando houver luz.

— Eu a pegarei de volta — ele insistiu. — Fui eu quem a deixou lá. É minha responsabilidade.

Ele a viu caída na terra ao lado do Graak morto, sua superfície lisa recoberta de sangue e terra. Será que ela fora quebrada pelo peso do monstro que rolara sobre ela, quebrada como Quentin? Ele não havia notado, não havia sequer olhado de relance para ela. Um talismã de tamanho poder e ele nem pensara naquilo. Só pensara em Quentin, e fizera isso tarde demais para fazer diferença.

— Por que você não pára de ser tão duro consigo mesmo? — ela perguntou baixinho. — Por que não relaxa um pouco?

— Porque ele está morrendo — ele disse ferozmente, com raiva. — Quentin está morrendo, e a culpa é minha!

Ela o olhou.

— A culpa é sua?

— Se eu não tivesse insistido em descer lá com ele, se eu não tivesse sido tão teimoso nessa história toda, então talvez...

— Bek, pare! — ela gritou. Ele a olhou, surpreso pela atitude. A mão de Rue apertou a dele com força. — Não vai ajudar nem um pouco você falar assim. Aconteceu, e ninguém tem culpa. Todos fizeram o melhor que podiam numa situação perigosa. É tudo o que qualquer pessoa pode pedir. É tudo o que qualquer pessoa pode esperar. Pare com isso.

As palavras doeram, mas não doeram mais do que a expressão que ele viu nos olhos de Rue, que o olhou firme, recusando-se a deixá-lo virar o rosto.

— Perder pessoas que amamos, amigos e até mesmo membros da família, é uma conseqüência de partir em jornadas como esta. Não entende? Você não entendeu isso quando concordou em vir? Será que isto está sendo uma surpresa para você? Achou que nada poderia acontecer a Quentin? Ou a você?

Ele balançou a cabeça, confuso, envergonhado.

— Não sei. Acho que não.

Ela suspirou e o tom de sua voz suavizou.

— Não foi culpa sua. Não mais do que de meu irmão, de Panax, de Walker ou de seja lá quem for. Foi apenas algo que aconteceu, um preço a pagar em conseqüência de um risco assumido.

A conseqüência de um risco. Simples assim. Você assumia um risco e a pessoa de quem você era mais próximo pagava o preço. Ele começou a chorar, e toda a frustração, culpa e tristeza acumuladas irromperam de uma só vez. Ele não conseguiu evitar. Não queria se desmanchar na frente de Rue — não queria que ela visse isso —, mas tudo aconteceu antes que ele conseguisse impedir.

Ela o puxou de encontro a si, abraçando-o como se fosse uma criança ferida. Seus braços o envolveram e ela o ninou gentilmente, murmurando palavras suaves, acariciando-lhe as costas. As pontas de madeira dura da tala no braço esquerdo de Rue se enterravam nas costas de Bek.

— Ah, Bek. Está tudo bem. Pode chorar comigo. Ninguém vai ver. Deixe-me abraçá-lo até você acabar. — Ela o apertou de encontro à maciez de seu corpo. — Pobre Bek! Tanta responsabilidade de uma só vez. Tanta dor. Não é justo, é?

Ele ouviu parte do que ela disse, mas o consolo não veio das palavras propriamente ditas, mas do som de sua voz e da sensação de seus braços o envolvendo. Tudo se soltou e ela estava ali para absorver isso, para levar para dentro de si e para longe.

— É só me abraçar, Bek. É só me deixar tomar conta de você. Tudo vai ficar bem.

Ela havia dito que ele lhe devia isso, compartilhar as perdas que ela sofrerá. Perdas tão grandes quanto as de Bek. Furl Hawken. Seus companheiros rovers. Ele subitamente se lembrou disso e desejou retribuir um pouco do consolo que ela estava lhe dando.

Recuperou a compostura e envolveu-a em seus braços.

— Rue, eu lamento...

— Não — ela disse, colocando os dedos sobre a boca de Bek, impedindo que ele dissesse mais alguma coisa. — Não quero ouvir. Não quero que você fale.

Substituiu os dedos pela boca e o beijou. Não o beijou com carinho ou suavidade, mas com urgência e paixão. Ele não teve dúvidas do que estava acontecendo ou do que significava, nem queria. Ele só levou um momento, e logo em seguida retribuiu o beijo. Quando o fez, esqueceu-se de tudo, a não ser do calor que ela lhe despertava. Beijá-la era algo selvagem e impossível. Isso fez com que ele ficasse preocupado, achando que alguma coisa estava errada, mas não conseguia saber o que era, porque tudo parecia correto. Ela passou as mãos por todo o corpo dele, empurrando-o contra a amurada do navio até ele ficar preso ali, prendendo sua boca na dele com tamanha fome que ele mal conseguia respirar.

Quando ela finalmente quebrou o contato, ele não sabia dizer quem estava mais surpreso. Pelo olhar no rosto dela, era ela, mas ele sabia bem o que estava sentindo por dentro. Ficaram encarando um ao outro em uma espécie de silêncio assustado, e então ela riu — um grunhido baixo e súbito que trouxe tanto brilho ao seu rosto que ele ficou surpreso novamente.

— Isso foi inesperado — ela disse.

Ele não conseguiu dizer nada.

— Quero fazer mais um pouco disso. Quero fazer muito disso.

Ele sorriu sem conseguir se conter, apesar de tudo.

— Eu também.

— Em breve, Bek.

— Tudo bem.

— Acho que te amo — ela disse. Gargalhou mais uma vez. — Pronto, eu disse. O que acha disso?

Esticou o braço bom e tocou os lábios dele com os dedos, e depois lhe deu as costas e se afastou.

 

Quando ele voltou para dentro da nave, para os aposentos do capitão, para ver Quentin, ainda estava em estado de choque pelo encontro com Rue. Panax deve ter visto algo no rosto de Bek quando ele adentrou o aposento, pois imediatamente perguntou:

— Você está bem?

Bek fez que sim com a cabeça. Não estava tão bem assim, mas não tinha intenção de falar a respeito naquele momento. Era algo recente demais para compartilhar, ainda tão estranho em sua própria cabeça que ele precisava de tempo para se acostumar. Precisava de tempo só para aceitar que isso era verdade. Rue Meridian estava apaixonada por ele. Foi o que ela disse. Acho que te amo. Ele experimentou as palavras em sua mente e elas soaram tão ridículas que ele quase deu uma gargalhada.

Por outro lado, o beijo que ela lhe dera era bastante real e ele não ia esquecer aquilo tão cedo.

Será que ele a amava também? Não havia parado para perguntar isso a si mesmo. Não havia sequer considerado a hipótese antes, porque a idéia de que ela pudesse corresponder parecia impossível. Serem amigos já era o bastante. Mas ele a amava. Sempre a amara em algum sentido, desde o primeiro momento em que a vira. Agora, beijado, abraçado e ciente dos sentimentos dela, ele a amava de modo tão desesperado que mal conseguia suportar.

Forçou-se a parar de pensar nela.

— Como ele está indo? — perguntou, acenando com a cabeça para Quentin.

Panax deu de ombros.

— A mesma coisa. Só dorme. Mas não estou gostando do jeito dele.

Nem Bek. A pele de Quentin tinha uma cor pálida, doentia. Sua pulsação era fraca e a respiração forçada e superficial. Estava morrendo aos poucos e não havia nada que qualquer um deles pudesse fazer a não ser esperar o inevitável. Já arrasado emocionalmente, Bek percebeu que estava chorando e virou as costas, envergonhado.

Panax se levantou e foi até onde ele estava. Colocou uma mão calosa no ombro de Bek e apertou-o com suavidade.

— Primeiro Truls Rohk e agora o montanhês. Não tem sido fácil — ele disse.

— Não.

Ele soltou o ombro de Bek e foi até onde Grianne estava, ajoelhada sobre um catre no canto, os olhos abertos encarando o espaço logo à sua frente. O anão balançou a cabeça, intrigado.

— O que acha que ela está pensando?

Bek enxugou a última lágrima.

— Nada que queiramos saber, eu acho.

— Provavelmente não. Que confusão! Toda esta jornada, do começo ao fim. Uma confusão! — Ele não parecia saber para onde mais ir com seus pensamentos, então ficou em silêncio por um momento. — Eu gostaria de nunca ter vindo. E não teria mesmo, se soubesse o que iria acontecer.

— Acho que nenhum de nós sabia. — Bek foi até sua irmã e se ajoelhou em frente a ela. Tocou-lhe a face com os dedos, como sempre fazia, para que ela soubesse que ele estava ali. — Você pode me ouvir, Grianne? — ele perguntou baixinho.

— Não sei mais o que estou fazendo aqui — continuou Panax. — Não sei se existe algum motivo para qualquer um de nós estar aqui. Não fizemos nada a não ser nos deixarmos matar e ferir. Até o druida. Eu achava que nada disso aconteceria com ele. Mas eu também não achava que algo pudesse acontecer a Truls. Agora ambos se foram. — Balançou a cabeça.

— Quando eu chegar em casa — disse Bek, ainda olhando o rosto pálido e vazio de Grianne —, vou ficar lá. Não vou partir novamente. Não assim.

Voltou a pensar em Rue Meridian. O que aconteceria a ela quando voltassem às Quatro Terras? Ela era uma rover, nascida na vida dos rovers, uma viajante e aventureira. Não se parecia em nada com ele. Não ia querer voltar para as Highlands e ficar em casa pelo resto da vida. Não ia querer nada com ele então.

— Andei pensando em casa — Panax disse baixinho. Ajoelhou-se ao lado de Bek, seu rosto barbado com um ar de preocupação. — Nunca me importei muito com os meus. Depo Bent era apenas a aldeia onde acabei parando. Não tenho família, só alguns amigos, e nenhum deles íntimo. Viajei por toda a minha vida, mas não sei se alguma coisa sobrou nas Quatro Terras que eu deseje ver. Sem Truls e Walker para me manterem ocupado, não sei se existe alguma coisa lá para mim. — Fez uma pausa. — Acho que vou ficar por aqui.

Bek olhou para ele.

— Ficar aqui, em Parkasia?

O anão deu de ombros.

— Eu gosto dos rindges. É um povo bom, e não são assim tão diferentes de mim. A língua deles é semelhante à minha. Eu também gosto um pouco desta terra, a não ser por coisas como o Graak e Antrax. Mas o resto parece interessante. Quero explorar. Há muita coisa que nenhum de nós viu, todo o interior além das montanhas, aonde Obat e seu povo estão indo.

— Você ficaria aprisionado ali se mudasse de idéia. Não teria como voltar. — Bek testou o efeito das palavras no anão e fez uma careta quando percebeu como elas soavam.

Panax riu baixinho.

— Não vejo as coisas desse jeito, Bek. Quando você faz uma escolha, aceita as conseqüências. Assim como partir nesta jornada. Só que talvez dessa vez as coisas aconteçam um pouco melhor para mim. Não sou assim tão jovem. Não me resta muita vida pela frente. Acho que eu não me importaria de terminá-la em Parkasia, em vez de nas Quatro Terras.

Como o anão era diferente dele!, Bek pensou espantado. Não querer voltar para casa, mas ficar em uma terra estranha porque talvez ela pudesse ser interessante! Isso ele não poderia fazer. Mas entendia o raciocínio do anão. Se você tivesse passado a maior parte da vida como explorador e guia, vivendo fora de cidades e aldeias, vivendo por conta própria, ficar ali não pareceria tão estranho. Afinal, o quão diferentes das Wolfsktaag eram as montanhas da Arca de Aleuthra?

— Você acha que consegue sem mim? — Panax perguntou, o rosto estranhamente sério.

Bek sabia o que Panax queria ouvir.

— Acho que você só me atrapalharia — ele respondeu. — De qualquer maneira, você ganhou o direito de fazer o que quiser. Se quiser ficar, deve ficar.

Eles não eram nada sem sua liberdade, nada sem seu direito de escolha. Eles se deram a uma causa comum ao partirem com Walker à procura dos livros de magia do Antigo Mundo, mas isso havia acabado. O que precisavam agora era ajudar um ao outro a encontrar um caminho de volta para casa, fosse essa casa nas Quatro Terras ou em outro lugar.

— Por que você não dorme um pouco? — ele sugeriu ao anão. — Vou ficar sentado com Quentin agora. Eu quero. Preciso ficar com ele.

Panax se levantou e pôs a mão no ombro de Bek pela segunda vez, um ato que tinha a intenção de transmitir seu apoio e sua gratidão. Então, atravessou as sombras e saiu do aposento. Bek ficou olhando em sua direção por um instante, imaginando como Panax viveria essa nova vida, se ela lhe traria a paz e o contentamento que a antiga aparentemente não trouxera. Ficou imaginando como seria estar tão dissociado de tudo e de todos a ponto de o pensamento de deixar tudo para trás não ser perturbador. Ele não tinha como saber disso, e na verdade, esperava que jamais descobrisse.

Voltou-se para Quentin, olhando para ele, que jazia com o rosto pálido e morrendo. Sombras, sombras, ele se sentia tão indefeso! Respirou bem fundo para se segurar e suspirou devagar. Não podia mais suportar isso. Não podia suportar vê-lo morrendo assim. Precisava fazer alguma coisa, mesmo que fosse a coisa errada, de modo que ele pudesse saber que pelo menos havia tentado. Todas as possibilidades usuais para cura estavam fora de questão. Tinha de tentar outra coisa.

Lembrou-se das histórias de druidas que falavam a respeito da habilidade de curar que a canção do desejo possuía. Ela não era usada dessa maneira com freqüência porque exigia grande perícia. Ele não tinha essa perícia nem a experiência que ela poderia lhe emprestar, mas não podia se preocupar com isso naquele momento. Brin Ohmsford havia utilizado a magia para curar Rone Leah. Se um Ohmsford havia utilizado a magia para salvar a vida de um Leah uma vez, não havia motivo para que um Ohmsford não pudesse fazê-lo novamente.

Era uma empreitada arriscada. Talvez até tola. Mas Quentin não iria viver se algo não fosse feito para ajudá-lo, e não havia mais muita coisa que pudesse ser feita.

Bek foi até a cama, sentando-se ao lado do primo. Ficou observando-o por um momento, e então pegou a mão de Quentin e segurou-a com força. Desejou ter algo mais para trabalhar do que uma experimentação. Desejou ter orientações de algum tipo, um lugar para começar, uma idéia de como a magia funcionava, qualquer coisa. Mas não havia nada do tipo à mão e nenhuma ajuda para isso.

— Vou fazer o melhor que puder, Quentin — ele disse baixinho. — Vou fazer tudo o que puder. Por favor, volte para mim!

Então Bek invocou a magia em um lento desenrolar de palavras e música e começou a cantar.

 

Como jamais havia feito isso e não tinha idéia real de como fazê-lo naquele momento, Bek Ohmsford não teve pressa. Procedeu com cautela, dando um pequeno passo de cada vez, vigiando Quentin com cuidado para se certificar de que a magia da canção do desejo não estava provocando um efeito adverso. Invocou a magia em um zumbido lento que subia no seu peito, onde aquecia e latejava suavemente. Ele continuava segurando as mãos de Quentin, desejando manter contato físico para dar a si mesmo a chance de julgar se as coisas estavam correndo conforme o esperado.

Quando o nível de magia foi suficiente, enviou uma pequena sonda ao interior do corpo devastado de Quentin para avaliar os estragos. Lascas vermelhas de dor ricochetearam-lhe de volta e ele retirou a sonda rapidamente. Muito justo. Investigar um corpo danificado sem autoproteção adequada não era uma boa idéia. Protegendo-se com um escudo, tentou novamente e deu de cara com uma parede de resistência. Ainda cantarolando, tentou penetrar na mente de Quentin, para fazer uma leitura do que seu primo estava pensando. Deu com outra parede vazia. A mente de Quentin parecia ter se fechado, ou pelo menos não estava emitindo nada que Bek pudesse decifrar.

Por um instante, ficou paralisado. Ambas as tentativas de chegar a um ponto onde pudesse fazer algo de bom haviam falhado e ele não sabia ao certo o que deveria tentar em seguida. O que ele queria fazer era se aproximar o suficiente de um ferimento específico para ver o que a magia poderia fazer para curá-lo. Mas se ele não conseguisse quebrar as barreiras que Quentin havia erguido para se proteger, não seria capaz de fazer nada.

Tentou uma abordagem mais geral então, amarrando Quentin ao véu da magia, cobrindo seu corpo e sua mente ao mesmo tempo. Isso surtiu o efeito desejado; Quentin imediatamente se acalmou e sua respiração se tornou mais firme e suave. Bek foi trabalhando sobre a forma inerte de seu primo, em busca de uma entrada, pensando que, à medida que seu corpo relaxasse, Quentin poderia baixar suas barreiras protetoras. Lentamente Bek o tocou e acariciou com a magia, sua canção afastando rugas de dor e desconforto, trabalhando na direção das feridas mais profundas e sérias.

Não deu certo. Ele não conseguia passar da superfície do corpo de Quentin, mesmo quando roçava contra as feridas abertas por baixo das bandagens, o que deveria ter-lhe oferecido um acesso fácil.

Ficou tão frustrado que interrompeu completamente suas tentativas. Sentado em silêncio, sem fazer movimentos ao lado de Quentin, continuou a segurar a mão do primo, sem vontade de quebrar também esse contato. Tentou pensar no que mais poderia fazer. Alguma coisa na maneira como ele estava abordando o problema estava levantando barreiras. Ele sabia que poderia forçar a magia para dentro do corpo de Quentin, poderia quebrar as muralhas protetoras que barravam seu caminho. Mas também pensou que a conseqüência de uma intrusão tão dura poderia ser fatal para um sistema já tão perto do colapso. O que ele necessitava era de tato e carinho, uma oferta suave para curar que pudesse ser abraçada e não oferecesse resistência.

O que seria necessário para fazer isso acontecer?

Tentou novamente, desta vez voltando ao que lhe era familiar com relação à magia. Cantou para Quentin como havia cantado para Grianne — e suas vidas juntos quando garotos, das Highlands de Leah, da família e dos amigos e de aventuras compartilhadas. Cantou histórias para seu primo, pensando em utilizá-las como um meio de reduzir a resistência às suas aplicações. De vez em quando ele tentava um avanço no corpo e na mente de seu primo, levando uma história em uma direção que pudesse se prestar a uma recepção, os dois amigos ainda e sempre.

Nada.

Mudou a natureza de sua canção para que ela se tornasse uma canção de revelação e aviso. Esta é a situação, Quentin, ele cantou. Você está muito doente e precisa de cura. Mas está lutando contra mim. Preciso que me ajude. Preciso que você se abra para mim e me deixe usar a canção do desejo para recuperá-lo. Por favor, Quentin, ouça-me. Ouça-me.

Se seu primo ouviu, não fez nada para indicar isso, e não fez nada para dar mais acesso a Bek. Ele simplesmente ficava deitado em sua cama, sob um lençol, e lutava para sobreviver à sua própria maneira. Permanecia inconsciente, sem reagir e, assim como Grianne, trancado onde Bek não conseguia alcançá-lo.

Bek continuou tentando. Lutou para usar a magia durante quase toda a hora seguinte, mantendo contato através do toque de suas mãos enquanto tentava curá-lo com sua canção. Abordava o problema por todos os lados que podia imaginar, mesmo quando suspeitava que o que estava tentando fazer era inútil. Atacou com tanta determinação que perdeu completamente o rastro de tudo, a não ser do que estava fazendo.

Tudo isso por nada.

Finalmente, exausto e frustrado, ele desistiu. Balançou para trás, levou as mãos ao rosto e começou a chorar, soluçando. Todo esse choro parecia tolice e fraqueza, mas estava tão cansado com seus esforços que a reação foi impulsiva e inevitável. Aconteceu apesar de seus esforços em contrário, borbulhando num surto que o deixou trêmulo e em convulsões. Ele havia fracassado. Não restara nada para tentar, nenhum lugar aonde ir.

— Coitadinho do meu bebê — uma voz disse calma em seu ouvido, e braços esbeltos envolveram seu pescoço e o puxaram para perto de si.

No começo ele achou que fosse Rue Meridian, que descera até a cabine quando ele não estava olhando. Mas percebeu quase antes de completar esse pensamento que a voz não era dela. Mantos cinzentos caíram por sobre seu rosto quando ele virou a cabeça rapidamente para olhar.

Era Grianne.

Ele ficou tão chocado que, por um instante, ficou simplesmente sentado ali e deixou-a abraçá-lo.

— Garotinho, garotinho, não fique triste. — Ela falava não com sua voz adulta, mas com a voz de uma criança. — Está tudo bem, bebê Bek. Sua irmã mais velha está aqui. Não vou te deixar de novo, prometo. Não vou embora de novo. Desculpe, desculpe.

As mãos dela acariciavam-lhe o rosto, gentis e calmantes. Ela beijou sua testa e continuou falando baixinho com ele, tocando-o como se ele fosse um bebê.

Ele tornou a olhar para cima, olhando-a nos olhos. Ela olhava de volta para ele, vendo-o pela primeira vez desde que ele a encontrara em Castledown. O olhar vago e a expressão vazia haviam desaparecido. Ela havia voltado de onde quer que tivesse se escondido. Ela estava acordada.

— Grianne! — ele gritou aliviado.

— Não, não, bebê, não chore — ela respondeu na hora, tocando os lábios dele com os dedos. — Pronto, pronto, sua Grianne vai fazer tudo ficar bem. Conte-me o que há de errado, pequenino.

Bek prendeu a respiração. Ela o estava vendo, mas não como ele realmente era, apenas como ela se lembrava dele.

O olhar dela mudou subitamente de direção.

— Ah, o que é isto? Seu cachorrinho está doente, Bek? Ele comeu alguma coisa estragada? Ele se machucou? Pobre cachorrinho!

Ela estava olhando para Quentin. Bek ficou tão chocado com isso que permaneceu simplesmente a encarando. Ele se lembrava vagamente de um cachorrinho, quando ele era muito pequeno, um vira-lata preto que trotava ao redor da casa e dormia ao sol. Não se lembrava de mais nada a respeito dele, nem sequer seu nome.

— Agora entendi por que você está chorando. — Ela acariciou-lhe suavemente os cabelos. — Seu cachorrinho está doente e você não consegue fazer com que ele fique bom. Está tudo bem, Bek. Vamos usar meu remédio especial para tirar a dor dele.

Ela o soltou e foi até a cabeceira da cama, onde ficou em pé, olhando Quentin.

— Tanta dor — ela sussurrou. — Não sei se vou conseguir fazer você ficar bom de novo. As vezes nem mesmo o remédio especial pode ajudar. Às vezes nada pode.

Um calafrio percorreu a espinha de Bek quando ele percebeu que podia estar enganado sobre ela. Talvez ela não fosse sua irmã, afinal, mas a bruxa Ilse. Se ela estivesse pensando como a bruxa e não como Grianne, se ela não tivesse percorrido todo o caminho para voltar a ser sua irmã, ela poderia curar Quentin da maneira pela qual havia curado tantos de seus problemas. Ela poderia matá-lo.

— Não, Grianne! — ele gritou, estendendo os braços para ela.

— Nananão, bebê — ela avisou, segurando-o pelos pulsos. Ela era muito mais forte do que ele teria imaginado, e ele não conseguiu se libertar. — Deixe Grianne fazer o que ela precisa fazer para ajudar.

E ela já estava usando a magia. Bek sentiu-a percorrer seu corpo, sentiu-a prendê-lo em algemas de veludo e segurá-lo com firmeza. Em segundos ele estava paralisado. Ela o colocou de volta no seu lugar, zumbindo suavemente enquanto tornava a ir até a cabeceira da cama de Quentin Leah.

— Coitado do cachorrinho — ela repetiu, estendendo a mão para acariciar o rosto do montanhês. — Você está tão doentinho, com tanta dor! O que aconteceu com você? Você está todo quebrado por dentro! Alguém te machucou?

Bek estava louco. Não conseguia se mover nem falar. Ficou observando tudo com impotência, incapaz de intervir e apavorado com o que iria acontecer se ele não o fizesse.

Ela estava falando com ele de novo, sua voz subitamente mais velha, mais madura.

— Ah, Bek, eu decepcionei tanto você! Eu te deixei e não voltei- Deveria ter voltado e não voltei. O que eu fiz foi tão errado, Bek!

Ela estava chorando. Sua irmã estava chorando. Era surpreendente, e Bek teria tido uma sensação de alegria se não estivesse tão apavorado com o fato de que não era sua irmã falando. Lutou para dizer alguma coisa, para detê-la, mas nenhuma palavra saiu de sua boca.

— Cachorrinho — ela sussurrou triste e estendeu as mãos para segurar o rosto de Quentin. — Deixe-me fazer você ficar melhor.

Então ela se curvou e beijou-o suavemente nos lábios, sugando a respiração dele para dentro de seu corpo.

 

Rue Meridian estava dormindo em uma rede improvisada de lona que havia pendurado entre o mastro de proa e a amurada de popa, perdida em um sonho sobre corvos-marinhos e papagaios-do-mar, quando sentiu a mão de Bek no ombro e despertou. Ela viu a expressão em seu rosto e imediatamente perguntou:

— O que aconteceu?

Era um olhar difícil de decifrar. O rosto dele estava perturbado e surpreso, ambas as coisas ao mesmo tempo; refletia incerteza misturada com espanto. Ele parecia estranhamente à deriva, como se estivesse lá quase por acidente. Seu primeiro pensamento foi de que a chegada dele era uma reação atrasada ao que ela lhe dissera horas antes. Sentou-se rapidamente, jogou as pernas para fora da rede e se levantou.

— Bek, o que aconteceu?

— Grianne acordou. Não sei por quê. Talvez tenha sido a magia. Eu a estava usando para tentar ajudar Quentin, para curá-lo da maneira que Brin Ohmsford fez com Rone Leah um dia. Ou talvez foi quando chorei. Eu estava tão frustrado e cansado que simplesmente desabei.

Ele suspirou.

— Ela falou comigo. Chamou-me pelo nome. Mas não era ela própria, não estava crescida, mas era como uma criança, falando com voz de criança, me chamando de “coitadinho, bebê, pequeno Bek” e me dizendo para não chorar.

— Espere um minuto, fale mais devagar — ela disse, segurando-o pelos ombros. — Venha cá.

Ela o levou até a proa e o sentou à sombra do aríete de estibordo onde a curva do chifre formava um abrigo ao se juntar ao convés. Ela se sentou de frente para ele, puxando os joelhos até o peito e abraçando as pernas.

— Tudo bem, agora me conte o resto. Ela despertou e falou com você. E depois?

— Você não vai acreditar — ele sussurrou; obviamente ele próprio não acreditava. — Ela o curou. Ela usou sua magia e o curou. Achei que fosse matá-lo. Ela o chamou de cachorrinho, acho que ela pensava que ele era isso mesmo. Tentei impedi-la, mas ela fez alguma coisa comigo com magia e não consegui me mover nem falar. Então ela começou a trabalhar nele e eu tive certeza de que ela queria ajudá-lo matando-o, tirar sua dor e sofrimento tirando-lhe a vida. Era isso o que a bruxa Ilse teria feito, e tive medo de que ela ainda fosse a bruxa.

Rue inclinou-se para a frente, abraçando a si mesma.

— Como ela conseguiu curá-lo, Bek? Ele estava todo quebrado por dentro! Perdeu metade do sangue!

— A magia pode fazer isso. Ela pode gerar a cura. Eu vi acontecer a Quentin. Ele ainda não está completamente bom. Não está sequer acordado. Mas vi sua cor mudar bem na minha frente. Ouvi a respiração dele firmar e, depois, quando consegui me mover novamente, senti sua pulsação mais forte também. Algumas de suas feridas, aquelas que você cobriu com bandagens, se fecharam completamente.

— Sombras — ela sussurrou, tentando visualizar a situação.

Ele se recostou na curva do chifre e olhou para o céu noturno.

— Quando ela acabou, voltou para perto de mim, fez carinho no meu rosto e me abraçou. Eu podia me mover novamente, mas não queria interromper o que ela estava fazendo, porque achei que isso poderia estar ajudando. Falei o nome dela, mas ela não respondeu. Simplesmente me balançou e começou a chorar. — Olhou para Rue. — Ela não parava de me pedir desculpas, o tempo todo. Disse que isso nunca mais ia acontecer. Me deixar, ela disse. Ela nunca mais me deixaria como antes, nunca mais. Tudo isso com aquela vozinha de criança, a voz que ela tinha quando criança.

Fechou os olhos.

— Eu só queria ajudá-la, fazer com que ela soubesse que eu entendia. Tentei segurá-la. Quando fiz isso, ela voltou para dentro de si mesma. Parou de falar ou de se mover. Parou de me ver. Voltou a como estava antes. Não consegui fazer nada para trazê-la de volta. Tentei, mas ela não reagiu. — Ele balançou a cabeça. — Então eu a deixei e vim encontrar você. Eu tinha de falar com alguém. Desculpe ter acordado você.

Ela estendeu os braços para ele, puxou-o para perto e o beijou nos lábios.

— Gostei por você ter feito isso. — Ela se levantou e o levou consigo. — Venha deitar-se comigo, Bek.

Ela o levou de volta à rede de lona e o acomodou ao seu lado. Pressionou o corpo contra o dele e o envolveu com seus braços. Ela ainda estava se acostumando à idéia de que ele significava muito para ela. O fato de ela ter admitido isso o havia surpreendido, mas ela não tivera queixas a respeito depois. Bek Ohmsford a fazia se sentir completa; era como se, ao tê-lo encontrado, ela tivesse encontrado uma parte perdida de si própria. Ele fazia com que ela se sentisse bem, e já fazia algum tempo desde a última vez que alguém a havia feito se sentir assim.

Ficaram deitados sem se mover por um tempo, sem falar, simplesmente abraçando um ao outro e ouvindo o silêncio. Mas ela queria mais, queria lhe dar mais, e começou a beijá-lo. Beijou-o por um longo tempo, a boca, os olhos e o nariz, descendo o pescoço e beijando-lhe o peito. Ele também tentou beijá-la, mas ela não o deixou, queria que tudo viesse dela. Quando ele parecia ter ficado em paz, ela tornou a se deitar, colocando a cabeça dele embaixo de seu ombro. Ele adormeceu por um momento e ela o abraçou enquanto ele sonhava.

Eu te amo, Bek Ohmsford. Pronunciou as palavras baixinho. Ela achava incrivelmente estranho se apaixonar por alguém em circunstâncias tão singulares. Parecia inconveniente e ligeiramente ridículo. Hawk teria ficado chocado. Ele achava que ela jamais se apaixonaria por alguém. Independente demais, cabeça-dura demais. Ela jamais precisara de alguém, jamais quisera alguém. Estava completa por si mesma. Ela compreendia seu pensamento. Era o que ela também havia acreditado, até agora.

Colocou as mãos dentro das roupas de Bek e tocou-lhe a pele. Colocou os dedos sobre seu coração. Contando as batidas em sua mente, ela fechou os olhos e cochilou.

Quando tornou a acordar, ele ainda dormia. O céu se iluminava com a chegada da aurora.

— É quase dia — ela sussurrou em seu ouvido, acordando-o.

Ele fez que sim no ombro dela. Ficou em silêncio por um momento, sacudindo o resto do sono. Ela pôde sentir a respiração dele em seu pescoço e a força nos braços dele.

— Quando voltarmos às Quatro Terras — ele começou, e parou. — Quando tudo isso acabar, e tivermos de decidir onde nós...

— Bek, não — ela disse gentilmente, mas com firmeza. — Não fale no que ainda está para acontecer. Não se preocupe com isso. Ainda estamos longe demais para isso importar. Deixe pra lá.

Ele tornou a ficar em silêncio, apertado contra ela. Ela jogou para trás os cabelos que haviam caído no rosto. Os olhos dele acompanharam o movimento com interesse e ele esticou a mão para ajudá-la.

— Preciso descer até o Crake — ele disse. — Tenho de pegar a espada de Quentin de volta. Quero que ela esteja ao lado dele quando acordar.

Ela assentiu.

— Tudo bem.

— Você toma conta de Grianne enquanto eu estiver fora?

Ela sorriu e o beijou nos lábios.

— Não posso, Bek — ela tocou a ponta de seu nariz. — Eu vou com você.

 

Quando ela disse isso, Bek entrou em pânico. Ele manteve o pânico sob controle, aparentemente, pois por dentro, onde suas emoções podiam muito bem fazer o que quisessem, ele estava um farrapo. Só conseguia pensar no medo que sentia por ela, em como tinha pavor de que algo de ruim acontecesse. Isso já havia acontecido com Quentin, e seu primo pelo menos tivera a proteção da espada de Leah. Rue usava uma tala num braço e não tinha poder mágico algum. Se concordasse em deixar que ela fosse, estaria assumindo a responsabilidade por ambos. Não tinha certeza de que queria fazer isso logo depois de falhar tão miseravelmente com Quentin.

— Acho que não é uma boa idéia — ele disse a ela, sem saber ao certo o que mais dizer que não a deixasse furiosa e ainda mais determinada.

Ela pareceu levar em conta os méritos de sua objeção e sorriu.

— Sabe o que eu gosto mais em você, Bek? Não é sua aparência nem seu jeito de pensar, nem sua risada ou a maneira como vê o mundo, embora eu também goste destas coisas. O que eu gosto mesmo em você é que nunca age como se eu não fosse tão boa quanto qualquer outra pessoa. Você parte do princípio de que eu sou, e me trata com respeito. Não preciso brigar com você por isso. Posso esperar essa atitude como uma coisa natural. Eu sou igual a você, posso até mesmo ser um pouquinho melhor em algumas coisas. — Ela fez uma pausa. — Eu não iria querer perder isso.

Não havia muito a ser dito depois disso. Então ele simplesmente assentiu, retribuiu o sorriso e ela o beijou com força, para mostrar que ela apreciava sua compreensão. Ele gostava que ela o beijasse, mas isso não fazia com que se sentisse melhor por levá-la junto.

Mas a questão estava decidida, por isso eles deslizaram para fora do navio pela amurada lateral e caminharam até a beira da encosta, seguindo o precipício até o começo da trilha e então começaram a descer. Agora já havia luz suficiente para que pudessem distinguir as formas das árvores e o movimento suave de folhas e galhos na brisa da manhã. Bek sondou a região com sua magia enquanto desciam; não iria se arriscar em ser apanhado de guarda baixa, mesmo que o que ele estivesse fazendo alertasse o parceiro do Graak morto. Se o parceiro estivesse ali perto, Bek já tinha decidido que dariam meia-volta. Nem mesmo a Ruivinha discordaria disso.

Mas a sorte sorriu para eles e entraram no Crake invisíveis como espectros. Bek usou a magia da canção do desejo para ocultá-los no aspecto da floresta tropical, escolhendo imagens e cheiros que não atrairiam um carnívoro. Envoltos em vestígios de neblina, esfriados pelo vento da manhã, deslizaram por entre as árvores com a facilidade e a liberdade de sombras, sem serem perturbados pelos perigos que, naquela ocasião, estavam por toda parte. Encontraram a espada de Quentin enlameada, mas ainda inteira, ao lado do corpo do Graak morto, pegaram-na e voltaram. O sol estava subindo pela linha em ziguezague das montanhas a leste quando iniciaram a escalada trilha acima.

Isso foi muito fácil, Bek pensou surpreso quando chegaram à encosta. Por que não podia ter sido assim para Quentin? Mas aí, claro, não teria havido motivo para Grianne despertar, e ele não teria visto por si mesmo que as reações dela à dor e ao sofrimento não eram mais as da bruxa Ilse, mas as de sua irmã. Ele não teria descoberto que talvez ela pudesse finalmente voltar para ele, quando estivesse pronta.

Rue Meridian virou-se para Bek, um misto de malícia e satisfação espelhado em seus olhos verdes.

— Confesse... Não foi tão ruim...

Ele balançou a cabeça e suspirou.

— Não, não foi.

— Lembre-se disso da próxima vez que pensar em fazer algo perigoso sem mim. — Ela estendeu os braços e o puxou pelo pescoço. — Se você me ama, se eu te amo, não deveria haver a menor dúvida de que isso algum dia aconteceria. Caso contrário, o que sentimos um pelo outro não seria real. Não significaria nada.

Ele balançou a cabeça.

— Sim, é real. Significa tudo.

Ela sorriu, afastando do rosto os fios soltos dos cabelos compridos.

— Eu sei. Então, não esqueça.

Ela acelerou o passo e seguiu adiante dele. Ele ficou olhando para ela, mal conseguindo se conter. Nas palavras e no sorriso dela, em tudo o que ela dizia e fazia ele via um futuro que transcenderia todas as suas expectativas do que já havia imaginado possível. Era apenas um sonho, mas a realidade não se ocultava nos sonhos?

Sua euforia subiu e desceu em um laivo de dúvida. Era tolice, ele ponderou, pensar desse modo, permitir que suas emoções toldassem sua razão. Olhe só onde ele está. Olhe só o que havia acontecido com ele. Onde, em tudo aquilo, se encaixavam sonhos como o dele? Ele viu o passo de Rue Meridian se apressar e, ao ver isso, sentiu esses sonhos escaparem, frágeis demais para segurar, muito insubstanciais para agarrar. Ele estava fazendo desenhos na areia e a maré estava chegando.

Quando alcançaram o começo da trilha e caminharam em direção à Jerle Shannara, encontraram Redden Alt Mer e seus rovers reunidos na beira da encosta, olhando para o leste. Os cavaleiros alados estavam voando, vindos da costa, e traziam alguém com eles.

 

Quando o Morgawr descobriu que Ahren Elessedil havia sumido, mandou trazerem Ryer Ord Star à sua presença. Ela negou saber qualquer coisa a respeito, mas sabia que ele podia ler a mentira em seus olhos e cheirá-la em seu hálito. Já suspeitando por causa do fracasso em acharem qualquer vestígio da Jerle Shannara e de sua tripulação, ou da bruxa Ilse e seu irmão, ele não perdeu tempo em deduzir que a vidente havia ajudado o príncipe dos elfos a escapar. Qualquer que fosse a sua utilidade, ela já não existia mais.

Entregou-a a Cree Bega e seus mwellrets, que a despiram e a surraram de forma selvagem. Quebraram todos os seus dedos e esfolaram as solas de seus pés. Desonraram-na até que ela desmaiou. Quando tornou a acordar, penduraram-na pelos pulsos em um dos mastros, deram-lhe chibatadas com um chicote de couro e a deixaram cozinhando no sol do meio-dia. Não lhe deram nem água nem roupas e não trataram de suas feridas. Ela ficou ali, pendurada, ignorada em uma névoa de dor e sede que a deixou devastada e delirante.

Apenas mais uma vez o Morgawr falou com ela:

— Use seu dom, pequena vidente — ele aconselhou, em pé logo abaixo dela, tocando as feridas em seu corpo com interesse. — Encontre aqueles que pedi que encontrasse e deixarei você ter uma morte rápida. Caso contrário, vou me certificar de que sua agonia dure até eu mesmo encontrá-los. Há outras coisas que posso fazer com você, coisas que irão machucá-la muito mais do que as que já experimentou.

Ela estava quase inconsciente quando ele pronunciou essas palavras, mas sua razão ainda não a havia abandonado. Sabia que, se lhe desse o que ele queria, se lhe dissesse onde encontrar seus amigos, ele não a mataria rapidamente como dissera, mas faria com ela o que fizera com Aden Kett. Ele iria querer essa experiência, alimentar-se da mente dela, a mente de uma vidente, para ver como seria. A única razão pela qual ainda não fizera isso era porque ele esperava que ela o levasse àqueles que estava caçando. Danificá-la de modo tão significativo impediria que ela o ajudasse mais. A fome que ele tinha dela podia esperar alguns dias. Para isso ele era paciente.

O dia avançou em direção à noite. As cordas que a seguravam suspensa haviam cortado seus pulsos quase até os ossos. Seus braços e ombros estavam cobertos de sangue. Ela não conseguia mais sentir as mãos. Seu corpo desprotegido estava queimado e em carne viva pela exposição ao vento e ao sol e latejava com uma dor insuportável.

Seu sofrimento deflagrou visões, umas reconhecíveis, outras não. Viu seus companheiros, tanto os vivos quanto os mortos, mas não conseguia diferenciá-los. Eles flutuavam para dentro e para fora de sua consciência, ficando ali por tempo suficiente para que ela os identificasse, quando então iam embora.

Às vezes falavam, mas ela raramente compreendia as palavras. Ela sentia sua mente partindo com a vida que escoava para fora de seu corpo, deslizando firmemente para dentro de um abismo de trevas, de um esquecimento misericordioso.

Walker, ela chamava em sua mente, implorando que ele aparecesse para ela.

A noite caiu e os mwellrets foram dormir, todos menos o vigia e o timoneiro. Ninguém apareceu para vê-la. Ninguém falou com ela. Ficou pendurada no mastro como ficara o dia inteiro, quebrada e moribunda. Ela não sentia mais dor, apesar de estar muito machucada. Lambia os lábios rachados para evitar que a boca se fechasse e respirava o ar frio da noite com alívio. A manhã traria a volta do sol escorchante e das ventanias, mas ela achava que talvez àquela altura já estivesse morta.

Esperava que Ahren estivesse distante. O Morgawr e suas aeronaves procuraram por ele o dia inteiro, sem sucesso, então havia razão para achar que o príncipe dos elfos havia escapado. Ele ficaria se perguntando quando ela se juntaria a ele, se ela iria em breve. Mas ela jamais tencionara deixar a Black Moclips. Suas visões haviam lhe contado seu destino, sua morte a bordo daquela nave, e ela não era tola para crer que poderia evitá-la. Assim como Walker vira seu destino nas visões dela há muito tempo, ela vira o seu próprio também. Assim como aqueles a quem aconselhava, Ryer Ord Star só podia aceitar o que era revelado sem poder mudar nada.

Mas o que ela havia dito ao príncipe dos elfos sobre ele mesmo e seu próprio futuro também era verdade, um destino mais promissor do que o dela. O futuro dele o aguardava nas Quatro Terras, muito depois que ela morresse, muito depois que esta viagem fosse uma memória distante.

Ele se perguntaria o que acontecera com ela, claro. Ou talvez soubesse quando tempo suficiente tivesse passado e ela não aparecesse. Ele jamais saberia como ela havia ocultado as pedras élficas do Morgawr e dos mwellrets. Esse segredo ficaria com ela. E com Walker. Ela fora rápida em tirá-las de Ahren quando ele se machucou no ataque, fingindo preocupação com seu ferimento, curvando-se para ocultar os próprios movimentos. Ela sabia que seria revistada, e enfiara as pedras em uma fenda na parede enquanto os mwellrets ainda estavam concentrados em Ahren. Um esquema simples, mas eficiente. Revistaram-na uma vez e a questão estava resolvida. Depois, ela só havia precisado entrar a bordo da Black Moclips antes de encontrar um novo local de ocultamento. Havia deixado as pedras escondidas até chegar a hora de Ahren partir.

Ela estaria mentindo para si mesma se não admitisse que havia pensado em dar as pedras a ele mais cedo, para que ele pudesse usá-la em seus captores. Mas Ahren era novo para a magia, e o Morgawr era velho, poderoso demais para ser derrotado por qualquer pessoa sem experiência. Apenas Walker teria tido uma chance, e embora ela quisesse viver, não estava preparada para arriscar a vida e o destino de Ahren em uma aposta que quase certamente fracassaria. Jurara protegê-lo, fazer o que pudesse para se redimir pelo mal que provocara enquanto estivera a serviço da bruxa Ilse. Para cumprir esse juramento, não poderia haver meias medidas. Ela tinha muito por que se redimir e sua morte era um pequeno pagamento por seus pecados.

Levantou a cabeça dentre o emaranhado de seus cabelos e provou nos lábios o ar da noite. Ela queria morrer, mas não conseguia. Queria se libertar da dor, de sua condição de indefesa, mas não conseguia fazer isso sozinha. Precisava de Walker para ajudá-la. Precisava que ele viesse.

Ela cochilava e despertava, sempre consciente de que o sono verdadeiro não viria, que somente a morte lhe daria descanso. Chorou por si mesma e seus fracassos e desejou que pudesse ter crescido para se tornar uma mulher de algum valor. Em outra época e lugar, em outra vida, talvez isso acontecesse.

Foi durante as horas de sono profundo da madrugada, o céu de um índigo claro e as estrelas uma pincelada de brilho cruzando o firmamento, que ele apareceu pela última vez, elevando-se do éter em uma luz radiante e suave que a banhou de esperança.

Walker, ela murmurou.

— Eu estou aqui.

 

Ahren Elessedil voou para o norte ao longo da noite após escapar da Black Moclips. Seu único plano era se afastar o máximo que pudesse do Morgawr. Não tinha uma idéia clara de onde estava ou para onde deveria ir. Sabia que deveria procurar uma floresta tropical em algum lugar nas montanhas, mas não havia esperança de fazer isso até que ficasse claro. Tinha as estrelas para orientá-lo, embora elas estivessem num alinhamento diferente naquela parte do mundo e parcialmente bloqueadas pela abertura daquela asa simples; portanto, era difícil usar aquele conhecimento de navegação.

Não que isso o detivesse. Estava tão grato por estar livre que sua euforia fazia cada problema potencial (exceto a possibilidade de ser capturado novamente) parecer solucionável. A asa simples voava sem dificuldade nas costas de brisas constantes vindas da Divisa Azul. No começo, sua preocupação era com a possibilidade de ter problemas para manter seu veículo no ar, mas ele provou ser relativamente fácil de pilotar. As tiras da asa permitiam que ele se inclinasse para ambos os lados e mudasse de direção, e a barra que percorria toda a extensão da estrutura abria e fechava buracos de ventilação na lona de forma a lhe permitir ganhar altitude ou descer. Enquanto os ventos soprassem e ele ficasse longe de correntes descendentes e tempestades, achava que estaria bem.

Em sua jornada ele teve tempo para pensar, e seus pensamentos eram, em sua maior parte, sobre Ryer Ord Star. Quanto mais ele pensava na situação dela, menos feliz ficava. Ela estava jogando um jogo perigoso e não teria como se proteger se fosse descoberta. Assim que os mwellrets descobrissem que ele estava sumido, ela seria a primeira pessoa de quem iriam suspeitar. Também não estava convencido de que ela tinha como sair da nave se isso acontecesse. Haveria uma segunda asa simples oculta em algum lugar a bordo da aeronave? Ela havia lhe dito que iria mais tarde, mas ele não sabia ao certo se isso era verdade.

Agora ele desejava não ter sido tão rápido em concordar com ela. Desejava tê-la forçado a ir com ele, não importava o que ela achasse que Walker queria dela. Ele ficara tão ansioso para sair que não havia forçado a barra. Não gostava de se lembrar da maneira como ela o olhara no final. Parecia uma despedida — como se já soubesse que não voltaria a vê-lo.

Afinal, era uma vidente, e era possível que em uma de suas visões tivesse visto seu próprio destino. Mas, se ela sabia o que ia acontecer, não poderia agir para impedir? Ele não sabia, e depois de um tempo parou de pensar a respeito. Era impossível para ele fazer qualquer coisa para ajudar até achar os outros, e então, quem sabe, poderiam voltar para resgatá-la.

Mas, em seu coração, onde essas verdades têm um jeito de transparecer, ele sabia que já era tarde demais.

O sol nasceu e ele continuou voando. Uma nova luz recortava os detalhes da terra abaixo e Ahren começou a procurar por algo que reconhecesse. Tudo parecia igual visto dali de cima e ele não se lembrava o bastante da geografia de seu vôo ao longo da costa a bordo da Jerle Shannara para saber o que procurar. Sabia que devia virar para o interior, na direção das montanhas, mas até que ponto ao norte deveria voar antes disso? Ryer Ord Star lhe dissera que estava dando uma direção errada ao Morgawr a pedido de Walker, portanto, a costa era o lugar errado para estar. Ele deveria estar procurando uma floresta tropical. Mas onde? Não conseguia ver nem o começo nem o fim das montanhas que desciam o espinhaço da península. Nuvens recobriam os picos e bloqueavam o horizonte, dando a impressão de que o mundo havia se afastado uns oito quilômetros para dentro. Ele não sabia dizer a distância de nada. Não conseguia sequer ter certeza da direção que seguia sem uma bússola.

Podia tentar usar as pedras élficas. Elas eram pedras de busca e podiam encontrar qualquer coisa que estivesse oculta dos olhos nus. Mas usá-las alertaria o Morgawr, e ele já havia visto o suficiente das habilidades do bruxo para saber que ele podia seguir a magia como um caçador seguia rastros. Usar as pedras élficas poderia levar o bruxo até seus amigos também, caso ele conseguisse encontrá-los. Não queria ter a responsabilidade por isso, não importava o quanto estivesse desesperado.

O sol ficou mais forte e a última das sombras da noite começou a desaparecer da paisagem. O ar ficou mais quente, mas ainda estava bastante frio para que ele desejasse estar vestindo algo mais quente. Curvou os ombros e virou a asa simples na direção do interior, para longe das brisas costeiras geladas. Talvez ele avistasse a floresta tropical e seus amigos, se ele se desse um pouco mais de tempo.

Deu a si mesmo o dia inteiro, descendo em espiral para o interior em arcos cada vez mais amplos, vasculhando o céu e a terra até a cabeça doer. Não encontrou nada: nem sinal da Jerle Shannara ou de seus amigos, ou de uma floresta tropical. Mal via algo se movendo, e mesmo assim, só alguns poucos gaviões e gaivotas, e uma vez uma manada de cervos. Com o passar do dia e o sol começando a deslizar para oeste, sua confiança começou a desmoronar. Ele foi ainda mais longe nas montanhas, mas quanto mais fundo ia, mais confusas ficavam as coisas. Estava voando há dezoito horas, sem nada para comer ou beber, e começava a sentir a cabeça mais leve. Não se lembrava da última vez que havia dormido. Se não achasse alguma coisa logo, teria de pousar. E assim que fizesse isso, não tinha certeza se conseguiria alçar vôo novamente.

Continuou no ar, voando para as trevas que se aproximavam, recusando-se teimosamente a desistir. Em pouco tempo, não conseguiria ver mais nada. Se não pousasse, teria de voar a noite toda, porque estava muito nublado para que a lua e as estrelas pudessem fornecer luz suficiente para ele tentar pousar. Em breve ele teria de usar as pedras élficas. Não teria escolha.

Curvou os ombros e arqueou as costas para aliviar a tensão de se manter na mesma posição por tanto tempo. O crepúsculo caía sobre a terra em camadas profundas e ele continuava voando.

Ahren havia quase desistido quando os shrikes o encontraram. Ele não estava esperando por eles; achava que estava bastante seguro do perigo dos pássaros costeiros. Mas não havia como deixar de ver o que eles eram ou o fato de que estavam indo em sua direção, para caçá-lo, pensou com um arrepio. Enviados pelo Morgawr para rastreá-lo e destruí-lo. Ele soube disso instintivamente. Eles navegavam em sua direção no brilho prateado do pôr-do-sol que falhava, sete deles, asas compridas e pescoços estendidos, bicos pontudos em forma de gancho, erguidos como lâminas.

Fez uma curva na mesma hora e começou a descer planando lentamente incapaz de fazer a asa simples reagir com mais agilidade ou velocidade. Era como fazer canoagem em uma corredeira: você precisava dominar a corrente. Abrir os buracos de ventilação até o fim faria com que ele caísse dos céus como uma pedra. A asa simples não havia sido projetada para manobras rápidas. Não fora construída para fugir de shrikes.

Ele fez uma espiral em direção ao solo, na direção de picos e encostas, desfiladeiros e ravinas; já era capaz de dizer que não havia nenhum lugar seguro para pousar. Mas não havia tempo para se preocupar com isso e nada que pudesse fazer para mudar as coisas. O melhor que poderia esperar seria descer antes que os shrikes o alcançassem. Seu vôo havia chegado ao fim. Faltava apenas saber como terminaria.

Ainda estava a quase trezentos metros de altitude quando o primeiro shrike passou voando por ele, as garras raspando na lona e na estrutura de madeira, dando-lhe um tranco de revirar o estômago e fazendo-o girar de lado. Ele se endireitou e saiu pela tangente num ângulo agudo, procurando os outros. Se algum dia na vida ele sentiu terror, esse dia era hoje. Ali em cima estava indefeso, amarrado àquele seu dispositivo voador frágil, suspenso no meio do ar, incapaz de ultrapassar seus perseguidores ou de se esconder deles.

Um segundo shrike o atacou, batendo na asa simples com tanta força que sacudiu Ahren até os ossos. Ele caiu dezenas de metros antes de voltar a se endireitar, e, quando o fez, o vôo da asa agora era trêmulo e irregular e ele podia ouvir o adejar de lona rasgada.

Ao seu redor, os shrikes voavam em círculos, bicos erguidos, garras estendidas, olhos faiscando como focos de luz intensa nas trevas de seus rostos predadores.

Use as pedras élficas!

Mas ele não poderia alcançá-las sem soltar a barra de controle, e se fizesse isso poderia cair. Também corria o risco de deixar as pedras caírem na hora de tirá-las do bolso. Mesmo assim ele arriscou, certo de que se não fizesse isso estaria condenado do mesmo jeito. Soltou a barra e enfiou a mão direita na túnica, abrindo os cordéis da bolsa para pegar as pedras lá dentro.

No mesmo instante a asa simples entrou em queda. Os shrikes começaram a atacar por todos os lados, mas a asa estava caindo tanto para o lado que não conseguiam agarrá-la. Soltando gritos, eles passavam mergulhando por Ahren com tanta velocidade que seus movimentos se transformaram em borrões, asas chicoteando o ar, garras estendidas, imensas sombras negras descendo e subindo. Ele fechou os olhos para aguçar a concentração, forçando seus dedos a encontrarem as pedras élficas e se fecharem ao redor delas, retirando-as do saco.

Esticou a mão à sua frente, invocou o poder da magia e enviou-a para as trevas lá fora em uma muralha de fogo azul.

O resultado foi inesperado. A magia inundou o ar com seu brilho súbito, assustando os shrikes, mas não os machucando. Ahren, entretanto, foi lançado numa espiral descendente para o vazio; o rebote da magia quase destruiu a asa simples ao redor do seu corpo. Atrasado, ele se lembrou de que a magia das pedras élficas era inútil contra criaturas que não usassem magia também. Os shrikes eram imunes ao poder da única arma que ele possuía.

Ainda agarrando as pedras élficas, ele tentou fazer uma manobra para baixo, mergulhando entre faces de encostas tão afiadas que se batesse em uma deslizaria direto até a base, sem obstáculos. Os shrikes foram atrás, gritando de frustração e raiva, açoitando em uma série de ataques quase certeiros, um atrás do outro, a onda de sua passagem fazendo-o girar e girar até que ele não conseguia mais determinar onde estava.

Ele estava acabado, tinha certeza disso. Era um homem morto. O redemoinho de terra e céu formava um caleidoscópio de índigo e mercúrio, estrelas e trevas se fundindo enquanto ele lutava para reduzir a velocidade da descida. Um eixo estalou com o ruído seco de madeira quebrada. O lado esquerdo da asa estremeceu e caiu.

Então algo maior do que os shrikes apareceu no canto de sua visão, ficando ali por apenas um momento antes que a asa simples o girasse para outro lado. Os shrikes voltaram a gritar, mas o som desta vez era diferente e o príncipe dos elfos detectou medo. Logo em seguida eles estavam se afastando, suas sombras negras se desvanecendo tão rápido quanto seus gritos.

Alguma coisa imensa flutuava sobre ele; sua sombra escurecia o céu. Ele tentou olhar para cima para ver o que era aquela coisa, mas ela colidiu com sua asa simples, tornando a incliná-la, e em seguida se prendeu à estrutura. Lutou bravamente para libertá-la, para recuperar algum controle, mas as tiras de controle se recusavam a reagir à soltura das alças.

O Morgawr!, ele pensou aterrorizado. O Morgawr me achou de novo!

Então uma segunda sombra apareceu, elevando-se do poço de encostas e vales em uma abertura de asas maciças e um brilho de grandes olhos que pareciam jóias.

— Solte, príncipe dos elfos — gritou Hunter Predd por entre a névoa de sombras, esticando sua mão das costas de Obsidian para segurar as pernas balouçantes de Ahren.

Ahren desistiu de lutar e fez o que o outro lhe disse, primeiro soltando as tiras de controle, em seguida as fivelas e laços que o seguravam à estrutura. Em uma rajada de vento e escuridão, deslizou para os braços do cavaleiro alado; mal conseguia acreditar que o outro estivesse realmente ali. Ainda zonzo, ele viu a asa simples e sua estrutura desabarem, um emaranhado de destroços quebrados.

— Segure firme — Hunter Predd murmurou no seu ouvido, a barba cerrada raspando em seu rosto, os braços fortes amarrando nele uma linha de segurança. — Ainda temos um longo caminho pela frente, mas agora você está seguro.

Seguro, Ahren repetiu em silêncio, grato, e começou a tremer.

Os braços fortes de Hunter Predd o envolveram e o reconfortaram, e com Po Kelles e Niciannon à frente, voaram para dentro da noite.

 

A quilômetros de distância na mesma escuridão que ocultava os cavaleiros alados e o príncipe dos elfos em fuga, Ryer Ord Star pendia do braço de proa da Black Moclips, balançando suavemente nas pontas das cordas amarradas em seus pulsos. Seus braços estavam cobertos de sangue, pelos sulcos fundos que as cordas haviam feito em sua carne, e o suor corria por seu rosto e seu corpo apesar do ar frio da noite. A dor dela era total, rasgando seu corpo esguio da cabeça aos pés, levantando-se e caindo em ondas constantes, enquanto ela aguardava a morte.

— Walker — ela implorou suavemente —, por favor, me ajude!

Ela o chamara a noite toda, mas desta vez ele respondeu. Apareceu do nada, suspenso no ar em frente a ela, seu rosto escuro agora pálido e assombrado, mas tão reconfortante que ela o teria acolhido mesmo que não fosse nada além de uma miragem. Envolto em suas roupas de druida, ele era um espectro que tinha vindo dos portais da morte, uma presença que era menos deste mundo do que do mundo do Além, mas nos olhos de Walker ela encontrou o que procurava.

— Deixe-me ir — ela sussurrou, as palavras espessas e coaguladas em sua garganta. — Liberte-me!

Ele estendeu seu braço para ela, a mão forte roçando-lhe as faces devastadas, e sua voz totalmente curada.

— Venha comigo.

Ela balançou a cabeça, indefesa.

— Não consigo. As cordas estão me segurando.

— Só porque você se apega a elas. Solte-se.

E assim ela o fez, sem saber exatamente como, apenas sabendo que, como ele havia dito isso, ela poderia. Ela deslizou de seus laços como se eles fossem cordas soltas e saiu andando pelo ar como se não pesasse nada. Sua dor e seu medo caíram como roupas velhas que ela tivesse jogado de lado. A dor em seu coração passou. Ela ficou ao lado dele, e quando ele estendeu a mão pela segunda vez, ela a segurou.

Então o druida sorriu e puxou-a para junto de si.

— Vamos embora.

Ela assim o fez, descansando em paz, redimida e perdoada, tornada completa por seu sacrifício, e não olhou para trás.

 

Quando foi procurar Ahren Elessedil, pouco depois do amanhecer, Bek Ohmsford o encontrou sentado na proa da Jerle Shannara. A esta altura já estavam voando há três horas, seguindo a direção sul, atravessando nuvens pesadas e céus cinzentos, com o objetivo de atingir a costa antes do cair da noite.

O príncipe dos elfos olhou para Bek com olhos cansados. Havia dormido por quase doze horas, mas ainda parecia arrasado.

— Olá, Bek — disse.

— Olá. — Desabou ao lado de Ahren, descansando as costas na amurada da aeronave. — É bom ter você de volta. Achei que poderíamos tê-lo perdido também.

— Eu também achei. Mais de uma vez.

— Você teve sorte por Hunter Predd tê-lo encontrado. Eu soube da história. Não sei como conseguiu. Acho que eu não teria conseguido. Voar todo aquele caminho sem comida ou descanso...

O sorriso de Ahren Elessedil era cansado e triste.

— Você pode fazer qualquer coisa se estiver apavorado o bastante.

Então ficaram em silêncio, sentados ali ombro a ombro, olhando a extensão da aeronave que avançava por entre fiapos esfarrapados de nuvem e neblina. O ar tinha um aspecto úmido e cheiro de mar. Redden Alt Mer e seus rovers haviam interrompido os consertos na Jerle Shannara na noite anterior, instalado os cristais-diapasão recuperados no começo daquela manhã e alçado vôo com os primeiros raios de sol. O capitão rover sabia que o Morgawr tinha algum controle sobre os shrikes que habitavam as regiões costeiras de Parkasia, e tinha medo de que os pássaros que haviam atacado Ahren alertassem o bruxo e o levassem até eles. Bem que ele queria ter tido mais um dia de trabalho em sua nave, mas o risco de permanecer no chão por mais tempo era grande demais. Ninguém ficou triste com sua decisão. As lembranças da floresta tropical de Crake estavam vividas nas mentes de todos.

Na cabine do piloto, Spanner Frew estava no timão, seu corpanzil bloqueando os movimentos de suas mãos aos controles. De vez em quando ele gritava ordens para um dos rovers que atravessavam o convés, a voz ríspida trovejando por entre o ranger do mastreamento, o rosto barbado virando-se para revelar suas feições ferozes. Não restavam tantos assim para chamar, pensou Bek. Contou-os de cabeça. Dez, contando consigo mesmo. Doze, se acrescentasse os cavaleiros alados. Dos mais de trinta que haviam iniciado a jornada na Jerle Shannara, isso era tudo. Apenas doze.

Não, treze, ele se corrigiu, acrescentando Grianne. Treze da sorte.

— Como está sua irmã? — Ahren lhe perguntou, como se lesse sua mente.

— Ainda na mesma. Não fala, não me vê, não reage a nada, não come nem bebe. Só fica sentada ali, olhando para o nada. — Olhou para o elfo. — A não ser duas noites atrás. Na noite em que você foi resgatado, ela salvou Quentin.

Contou a Ahren os detalhes como havia contado aos outros, consciente de que, ao fazer isso, ele estava dando-lhes esperanças de que Grianne pudesse se recuperar, e que quando ela o fizesse, poderia não ser mais a bruxa Ilse. Isso permanecia uma esperança tênue, mas ele precisava acreditar que as perdas sofridas e a dor suportada poderiam contar para alguma coisa no fim. Ahren ouviu com atenção, seu rosto jovem sem expressão, mas os olhos distantes e reflexivos.

Quando Bek acabou, ele disse baixinho:

— Pelo menos você foi capaz de salvar mais alguém além de si mesmo. Eu nem sequer consegui fazer isso.

Bek havia ouvido a história da fuga dele da Black Moclips através de Hunter Predd. Ele sabia do que o elfo estava falando.

— Não vejo o que mais você poderia ter feito — disse Bek, buscando palavras que aliviassem o senso de culpa do outro. — Ela não queria ir com você. Já havia decidido ficar. Você não poderia ter mudado isso.

— Talvez. Queria ter certeza disso. Eu estava tão ansioso em escapar, em sair daquela nave, que nem sequer tentei. Simplesmente deixei que ela me dissesse o que fazer.

Bek raspou a bota no convés.

— Bem, você não sabe. Ela pode ter escapado. Pode ter feito o que disse que ia fazer. Os cavaleiros alados estão lá fora, procurando por ela. Não desista ainda.

Ahren ficou olhando para o vazio do espaço, os olhos apavorados.

— Eles não vão encontrá-la, Bek. Ela está morta. Soube disso ontem à noite. Acordei sem motivo, e eu soube. Acho que ela percebeu o que iria acontecer quando me mandou fugir, mas não me disse porque sabia que se fizesse isso eu não iria. Ela prometeu a Walker que ficaria e se recusou a quebrar a palavra empenhada, mesmo que isso lhe custasse a própria vida.

Ele parecia amargo e confuso, como se a sua descoberta daquela premonição desafiasse qualquer explicação lógica.

— Espero que você esteja errado — Bek disse, sem saber mais o que dizer.

Ahren manteve o olhar direcionado para o horizonte nebuloso, sobre a curva dos aríetes da aeronave, e não respondeu.

 

Redden Alt Mer desceu o corredor principal sob o convés até os aposentos do capitão — que já tinham sido seus um dia — em busca da irmã. A essa altura ele tinha certeza, depois de ter percorrido os conveses superiores sem sucesso, que ela havia se recolhido mais uma vez para o abrigo temporário designado para o ferido Quentin Leah e a inanimada Grianne Ohmsford. Era a bruxa que a Ruivinha tinha ido ver, olhar e estudar, contemplar de uma maneira que o incomodava mais do que ele queria admitir. Ele estava se sentindo melhor consigo mesmo desde que enfrentara os horrores do Crake para recuperar os cristais-diapasão perdidos, especialmente depois de ouvir de Bek como a bruxa havia despertado de seu sono de olhos mortos por tempo suficiente para fazer o inesperado e usar sua magia para ajudar a curar o montanhês. O Ruivão estava se sentindo melhor, mas não inteiramente bem. Seu encontro rápido com a morte na floresta tropical o deixara esvaziado por dentro e ele ainda não sabia ao certo o que seria necessário para preenchê-lo novamente. Recuperar os cristais era um começo, mas ele ainda estava consciente demais de sua própria mortalidade e, dada a natureza de sua vida, isso não era saudável.

Mas, por ora, sua preocupação era com sua irmã. Rue sempre fora mais ofensiva do que ele, o cauteloso, a capitã de sua própria vida, determinada a decidir o que era melhor para aqueles pelos quais ela se sentia responsável, não importando os obstáculos que enfrentasse. Mas, ultimamente, ela havia começado a demonstrar sinais de hesitação que nunca foram aparentes antes. Não que ela parecesse menos determinada, mas parecia não saber muito bem o que, afinal, deveria fazer.

A atitude dela para com a bruxa Ilse era um exemplo disso. No começo não havia dúvidas na mente dele de que, assim que Rue conseguisse achar um jeito, se livraria dela. Faria isso de uma forma que removeria todas as suspeitas de si, especialmente por causa do que ela sentia por Bek, mas ela o faria mesmo assim. A morte de Hawk exigia isso. Mas algo havia acontecido para fazer com que ela mudasse de idéia, alguma coisa que havia escapado inteiramente à compreensão dele, e isso a estava impactando de um jeito que sugeria uma grande mudança em seu pensamento.

Ele balançou a cabeça, desejando compreender o que acontecia. Desde o dia anterior, quando ela voltou do Crake com Bek após completar uma missão que ele teria detido num instante caso soubesse, ela havia descido ali em todas as oportunidades. Montara guarda sobre a bruxa, como se para ver o que aconteceria quando ela acordasse, como se tentasse verificar que tipo de criatura ela era realmente. No começo ele pensou que a irmã estava esperando uma oportunidade de acabar com a outra. Mas, com o passar do tempo e das oportunidades, ele começou a pensar diferente. Não era uma questão de vingança por Hawk e os outros, era outra coisa. Mas não sabia dizer o que era, e isso o deixava confuso.

Abriu a porta de sua cabine com um empurrão, e lá estava ela, sentada ao lado da irmã de Bek, segurando-lhe a mão e olhando em seus olhos vazios. Era uma cena tão estranha que, por um momento, ele simplesmente ficou parado ali em pé, sem dizer palavra.

— Feche a porta — ela disse baixinho, sem se importar em olhar ao redor.

Ele a fechou e, em seguida, foi até onde ela podia vê-lo, ajoelhando-se à cabeceira de Quentin Leah por um momento, colocando os dedos no pulso do montanhês para tomar sua pulsação.

— Firme e forte — disse a Ruivinha. — Bek tinha razão. Ela salvou a vida de Quentin, pretendesse isso ou não.

— É isso o que você está fazendo? — ele perguntou, tornando a se levantar, dando uma última olhada no montanhês. — Tentando decidir se foi um acidente ou não?

— Não — ela respondeu.

— Então o que é?

— Estou tentando descobrir onde ela está. Estou tentando saber como alcançá-la.

Ele ficou olhando para ela, sem acreditar muito no que estava ouvindo. Ela estava sentada em frente à bruxa e curvada para a frente, o rosto a apenas centímetros dela. Não havia medo em seus olhos verdes, nenhuma sugestão de que ela estivesse se sentindo em perigo. Segurava as mãos de Grianne frouxamente e movia os dedos sobre as costas das mãos brancas e lisas dela em círculos pequenos.

— Bek disse que ela estava se escondendo da verdade sobre si mesma, que quando a magia da espada de Shannara lhe mostrou essa verdade, foi demais, então ela fugiu disso. Walker lhe disse que ela voltaria quando encontrasse uma maneira de se perdoar pelo pior de seus pecados. Uma ordem estranha, até mesmo para classificá-los todos, eu acharia. — Fez uma pausa. — Estou tentando ver se uma mulher pode alcançá-la, já que um homem não consegue.

Ele assentiu.

— Talvez seja possível que isso aconteça.

— Mas você não sabe por que eu tenho de ser a que vai descobrir isso.

— Acho que não.

Ela ficou quieta por um bom tempo, sentada em silêncio e sem se mover perante Grianne Ohmsford, encarando seus estranhos olhos azuis. A bruxa Ilse era pouco mais do que uma criança, percebeu Alt Mer. Ela era tão jovem que qualquer tentativa de defini-la em termos dos atos que se dizia que ela cometera era impossível. Em seu estado comatoso, de rosto vazio e sem nada ver, ela tinha um ar de completa inocência, como se fosse incapaz de maldades ou erros ou qualquer forma de loucura. De algum modo eles haviam entendido tudo errado, e só era preciso que ela despertasse para que tudo fosse resolvido da maneira certa.

Era algo perigoso de sentir, ele pensou.

Ela olhou para ele.

— Estou fazendo isso por Bek — ela disse, como se quisesse explicar, então rapidamente voltou a atenção a Grianne. — Talvez por causa de Bek.

Alt Mer foi até onde ela não podia vê-lo mais, as feições queimadas de sol toldadas pela dúvida.

— Bek não espera isso de você. A irmã dele não é responsabilidade sua. Por que está fazendo isso?

— Você não entende... — ela disse.

Ele esperou que ela dissesse mais alguma coisa, mas não disse. Ele pigarreou.

— O que é que eu não entendo, Rue?

Ela o deixou esperando um bom tempo antes de responder, e ele percebeu depois que ela tentava decidir se deveria lhe dizer a verdade, que a escolha era mais difícil do que ela havia antecipado.

— Estou apaixonada por ele — ela disse por fim.

Ele não estava esperando isso, nem por um momento considerara a possibilidade, embora ao ouvir isso as coisas fizessem um perfeito sentido. Lembrou-se da reação dela à sua decisão de levar Bek consigo para o Crake e ao mesmo tempo deixá-la para trás. Lembrou-se de como ela havia cuidado do garoto quando Hunter Predd o trouxera das montanhas, como se ela sozinha pudesse curá-lo.

Só que Bek não era um garoto, como ele já havia notado dias antes. Ele era um homem que crescera naquela jornada, mudara tanto que bem poderia ser outra pessoa completamente diferente.

Mesmo assim, ele não conseguia acreditar no que estava ouvindo.

— Quando foi que isso aconteceu? — ele perguntou.

— Não sei.

— Mas você tem certeza?

Ela não se deu ao trabalho de responder, mas ele viu os ombros dela se levantarem ligeiramente como se jogando a questão de lado.

— Vocês não parecem adequados um para o outro — ele continuou, e percebeu na hora que havia cometido um erro. O olhar dela mudou instantaneamente de direção, fuzilando-o com um antagonismo inconfundível. — Não fique zangada comigo — ele disse rápido. — Só estou lhe dizendo o que vejo.

— Você não sabe quem é adequado para mim, meu grande irmão — ela disse baixinho, voltando o olhar para a bruxa. — Nunca soube.

Ele assentiu, aceitando a resposta retrucada. Sentou-se; precisava falar a respeito, achando que poderia levar algum tempo, e sem ter a menor idéia do que iria dizer. Ou do que deveria dizer.

— Eu pensava o que Hawk pensava: que você nunca iria se fixar em ninguém, que não conseguiria suportar isso.

— Bem, você estava errado.

— É que parece que as vidas de vocês são tão diferentes! Se não tivessem sido jogados juntos nesta viagem, seus caminhos jamais teriam se cruzado. Já pensou no que vai acontecer quando chegar em casa?

— Se eu chegar em casa.

— Você chegará. Então Bek voltará para as Highlands e você voltará a ser uma rover.

Ela suspirou, largou as mãos de Grianne Ohmsford e voltou-se para encará-lo.

— É melhor tratarmos disso logo de uma vez. Eu lhe disse o que sinto em relação a Bek. Isto para mim é algo novo, por isso ainda estou descobrindo o que significa. Estou tentando não pensar muito adiante. Mas de uma coisa eu sei. Estou cansada da minha vida. Estou cansada dela há muito tempo. Eu não gostava dela nas Prekkendorran, e não tenho me importado muito com ela desde então. Achei que, vindo nesta viagem, me afastando de tudo o que conhecia, as coisas mudariam. Não mudaram. Sinto como se estivesse vagando por todos esses anos e não chegasse a lugar algum. Quero algo diferente. Estou disposta a fazer uma tentativa com Bek para ver se dá certo.

Redden Alt Mer sustentou o olhar dela.

— Você está exigindo muito dele, não está?

— Não estou exigindo nada dele. Estou carregando esse fardo todo sozinha. Ele também me ama, Redden. Ele me ama de um jeito que ninguém nunca amou. Não pela minha aparência, pelo que eu posso fazer ou o que ele imagina que eu seja. A coisa é mais profunda. Toca em conexões que as palavras não conseguem e não precisam expressar. Faz muita diferença quando alguém ama você assim. Gosto tanto disso que não quero jogar fora sem me dar um tempo para ver aonde vai me levar.

Ela se acomodou em uma posição diferente, seu desconforto físico aparente, ainda sentindo as feridas, ainda tratando dos machucados.

— Eu queria matar a bruxa Ilse — ela disse. — Tinha toda a intenção de fazer isso no momento em que tivesse chance. Eu achava que devia isso a Hawk. Mas não posso fazer isso agora. Não enquanto Bek acreditar que ela possa acordar e voltar a ser sua irmã. Não depois de tudo o que ele fez para protegê-la, cuidar dela e lhe dar uma chance de ficar melhor. Não tenho esse direito, nem mesmo para me sentir melhor por ter perdido Hawk.

“Então decidi tentar fazer o que Bek não está conseguindo. Decidi tentar alcançá-la, ver onde ela está e do que ela está se escondendo, ou tentar compreender o que está sentindo. Decidi fazer com que ela saiba que mais alguém se importa com o que lhe acontece. Talvez eu consiga. Mas, mesmo se não conseguir, preciso tentar. Porque é isso o que amar alguém exige de você — dar-se a algo em que o outro acredita, mesmo quando você não acredita. É isso o que eu quero fazer por Bek. É o que sinto por ele.”

Voltou-se para Grianne Ohmsford, levantou as mãos da garota e voltou a segurá-las.

— Não paro de pensar que, se conseguir ajudá-la, talvez eu consiga ajudar a mim mesma. Estou tão perdida quanto ela. Se puder encontrá-la, talvez possa me encontrar. Através de Bek. Através do que sinto por ele. — Tornou a se inclinar, seu rosto tão perto do de Grianne que era como se ela pensasse em beijá-la. — Não paro de pensar que isso é possível.

Ele ficou olhando em silêncio para ela, pensando que não estava tão seguro assim, que também se sentia perdido. Todo esse vagar pelo mundo fazia alguém se sentir desconectado de tudo, como se a vida fosse algo tão fugidio que se passasse todo o tempo correndo atrás dela sem nunca alcançá-la de verdade.

— Saia e me deixe sozinha — ela disse. — Pilote esta aeronave até o lugar de onde viemos. Talvez quando chegarmos lá entendamos um ao outro melhor do que agora.

Ele se levantou e ficou olhando para ela por mais um momento, achando que deveria dizer alguma coisa. Mas nada em que pensava lhe parecia adequado.

Resignado em deixar as coisas como estavam, em deixá-la fazer o que ela desejava, ele saiu da sala sem dizer uma palavra.

 

Ainda sentado com Ahren na amurada de popa, Bek Ohmsford olhou de relance quando Redden Alt Mer emergiu da comporta principal e se virou para olhá-lo. O que ele viu no rosto do capitão rover foi uma estranha mistura de frustração e maravilhamento, um reflexo de pensamentos que Bek só poderia adivinhar. O olhar durou apenas um segundo, e então Alt Mer se virou, caminhando até a cabine do piloto e subindo para ficar ao lado de Spanner Frew, a atenção voltada para as nuvens cambiantes em frente.