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Planeta Criança



Poesia & Contos Infantis

 

 

 


MULHERES DE BRANCO / Frank G. Slaughter
MULHERES DE BRANCO / Frank G. Slaughter

 

 

Biblioteca Virtual do Poeta Sem Limites

 

 

MULHERES DE BRANCO

 

       O mês de Junho, em Miami, é como os meados do Verão mais ao Norte, com a diferença de que a constante brisa marítima, soprando do Ocidente através dos imponentes e famosos hotéis de Golden Strand, em Miami Beach, mais as cintilantes águas azuis de Biscayne Bay, separando as duas cidades, modela o calor e a humidade numa agradável e langorosa quentura. O sussurro das palmeiras constitui fundo inseparável do mais estridente tema dos motores dos automóveis, do rugido compassado dos motores dos barcos, e dos queixumes agudos dos aviões a jacto que iniciam a descida para o aeroporto internacional de Miami, um dos mais concorridos do país.

            Faltava um quarto para as três, de uma tarde de terça-feira, quando Helga Sundberg saiu, pelas traseiras, do Bayside Terrace. O antigo hotel de luxo tinha sido transformado em motel, na altura em que, frente à baía ao norte da baixa de Miami, se construira o majestoso Centro Médico da Universidade de Biscayne, dominado, ao meio pelo hospital, uma torre de vinte andares. Principalmente ocupado pelo pessoal do Centro, o velho hotel ficava num jardim tropical, rodeando a piscina, onde alguns residentes gozando um dia de folga, apanhavam sol ou se banhavam.

            Ao atravessar a relva por trás da piscina, Helga não pensava em como seria agradável nadar ou apanhar banhos de sol; teria muito tempo para o fazer no fim de semana, quando estivesse de licença - de sexta-feira à noite até segunda à tarde. Naquele momento, esperava-a a realidade diária das suas funções: enfermeira-chefe das Unidades de Cuidados Intensivos. Oito horas de trabalho, entre as três e as onze, que sempre traziam uma sucessão de pequenas crises, por vezes grandes crises, quando as decisões e a acção rápida de uma enfermeira competente facilmente significavam a diferença entre a vida e a morte.

            Através do caminho verde que separava Bayside Terrace do hospital, Helga via o turno das três a chegar - um grupo de mulheres vestidas de branco, convergindo para a imponente cidadela. No telheiro betonado do grande hospital num assalto repetido três vezes ao dia. Junto da entrada principal, um autocarro despejou uma barragem de fumos saturados na atmosfera, um pequeno grupo de mulheres de todos os tamanhos, formas, idades e uniformes, conversando em voz alta. A seguir, um táxi parou, para deixar cinco enfermeiras que escarafuncharam nos sacos de mão à procura de troco, para o motorista.

            Na bicha de carros que se encaminhavam para a entrada principal, um marido, ansioso por largar a mulher e gozar oito horas de liberdade, tocava, impaciente a buzina. Do parque de vários pisos, do outro lado da avenida, convergiam filas de enfermeiras, vestidas de branco, de criadas, de uniformes cor-de-rosa ou azuis, pessoal da cantina fardado de verde e um ou outro médico em traje de Verão, para a passadeira, com vista a atravessar a rua.

            Não desejando trocar a luz do Sol pela atmosfera de tensão que invariavelmente a saudava mal abria as portas da UCI, que, com o banco, ocupava a metade traseira do rés-do-chão do hospital, Helga Sundberg afastou-se da entrada principal e seguiu um caminho de saibro, disposta a entrar pelo banco, na parte de trás do edifício.

            Helga, alta, loura e de olhos azuis, cheia de vida, era uma beleza típica do Norte da Europa. Tinha um corpo extremamente bem proporcionado, como se as medidas fossem o produto de um cálculo de computador e não do encontro fortuito de um óvulo com um espermatozóide, trazendo cada um em si a conta de genes ultramicroscópicos que controlam a hereditariedade. Além disso, Helga, como saudável que era, comia o que lhe apetecia, quando lhe apetecia, e nunca tinha estado doente, nos vinte e cinco anos que levava de vida sem inibições e muito activa.

            Detendo-se, por instantes, no anteparo que separava a água do jardim, a enfermeira pôs-se a apreciar as evoluções de um ruivo na baía, quase uma milha de água entre a praia e o continente. Ninguém sabia por que motivo um peixe de tão pouca importância como o ruivo cujo direito à mortalidade só provém de frito com um petisco, aproveitava um dia de Verão para abandonar o seu meio aquático normal em saltos elegantes que atingiam, por vezes, um metro de altura. Talvez o verdadeiro motivo estivesse na alegria de viver; ou talvez o ruivo jogasse às escondidas com algum peixe comilão...

            Num solitário pedestal de concreto, coberto de lapas, resto do cais que, em melhores tempos, servira os hóspedes do hotel em deliciosos passeios, sentava-se, melancólico e sonolento, um pelicano. Carranca quase grotesca em repouso, transmutou-se num exemplar de espantosa graça e beleza quando, batendo as asas, tomou altura e mergulhou em voo picado, na baía. Segundos mais tarde, emergia e regressava ao poleiro, sacudindo-se e trazendo no bico um peixe prateado que capturara para o jantar e que começou a comer com volúpia.

            Perto do anteparo onde a maré vazante deixara a descoberto uma faixa de areia lamacenta, passeavam caranguejos desajeitados, de garras a postos como meninos a caminho da lição de música, relutantes, com o violino debaixo do braço. No baixio, garças espiavam, majestosas, nas suas pernas esguias, com bicos afiados, vairões ou caranguejos imprudentes.

            Onde um caminho entroncava no que seguia ao longo do anteparo, Helga afastou-se, contrariada, da água, resolvida a entrar no hospital por uma porta junto da plataforma das ambulâncias. A buzina de um automóvel e o angustioso chiar de pneus que acompanhou a travagem brusca, fizeram-na parar de repente. Voltando-se, viu uma furgoneta, a tão grande velocidade que mal pôde descrever a curva de acesso à plataforma, e que estacou em nova derrapagem.

            A mulher que conduzia a furgoneta apeou-se, frenética, e tropeçou, só não se estatelando por ter levado a mão ao bordo da rampa. Instintivamente, Helga correu a ajudá-la, mas a mulher recusou.

            - Estou bem, enfermeira - disse reconhecendo o uniforme branco de Helga. - É a minha filha... Está a morrer!

       Aproximando-se com rapidez da porta da furgoneta, Helga abriu-a. A criança jazia no banco da frente e devia ter uns quatro anos. Tinha os lábios e as orelhas negras, a pele também enegrecida, sintoma que Helga logo reconheceu como os da cianose por falta de oxigénio. Respirava com grande dificuldade, não conseguindo introduzir ar bastante nos pulmões, devido, era evidente, a uma obstrução.

            - Estava a comer um “cachorro-quente” - começou a mãe a explicar.

            Helga, porém, não perdeu tempo a ouvi-la. Pegando na menina, subiu, correndo, a rampa e atravessou as portas do banco.

            O banco estava deserto, o que era raro. Helga logo compreendeu o motivo de tão estranha calma, ao olhar pela porta da pequena sala de operações e ao ver a figura robusta e familiar do dr. Michael Rabum. O cirurgião, que era também director do banco, debruçava-se sobre um ferido que cosia; as manchas de sangue na touca do médico disseram a Melga que se tratava de um grave corte numa artéria. O dr. Nolan Gaither, interno de serviço ao banco, segurava na mão um forceps, em frente de Mike Rabum. A enfermeira-chefe do turno das sete estava também presente, pronta a fornecer aos cirurgiões os instrumentos ou pensos de que necessitassem e que guarneciam a mesa esterilizada sempre preparada para uma emergência.

            Reconhecendo que não podia esperar auxílio imediato da equipa do banco, Melga entrou com a menina num dos seis cubículos de exame e tratamento que se estendiam por um dos lados do banco. Pousando a criança numa mesa, aplicou-lhe com força as mãos entre as omoplatas, na esperança de soltar o pão ou a carne que, segundo a lógica e a experiência de problemas semelhantes e vulgares no banco, deviam obstruir a glote, bloqueando a entrada do ar nos pulmões através da traqueia.

            Como uma segunda pressão das mãos, mais forte ainda do que a primeira, não produzisse resultados, Melga concluiu dever tomar medidas drásticas e não perdeu tempo na procura de auxílio. Deitou a criança de costas, com a cabeça pendurada num dos extremos da mesa a fim de facilitar a exposição da glote e, se possível, a remoção do que a obstruía.

       - Posso ajudá-la, Miss Sundberg? - perguntou uma aluna de enfermagem à porta do cubículo.

            - Mantenha-lhe o pescoço esticado - pediu Helga.

            Em seguida, procurou o laringoscópio e os tenáculos que deviam estar na mesinha do canto. Não estavam, mas, em sua substituição, Helga viu outra coisa - uma agulha com sonda, usada para injecções intravenosas, num invólucro de plástico transparente. E, com ela, Helga viu uma possibilidade de salvar a criança, cujas débeis tentativas para respirar tinham já cessado praticamente.

            Mike Rabum havia dado uma breve lição, na semana anterior, sobre um método recente de vencer a obstrução em casos como aquele, utilizando, precisamente, uma agulha com sonda. Ao rasgar o invólucro de plástico, o cérebro de Helga passava em revista o emprego do processo, tal como Mike o havia explicado na conferência mensal para os membros da UCI e do banco às pessoas a quem mais cabia lidar com a vida ou a morte no centro médico.

            Helga, enquanto com a mão esquerda explorava a maçã de Adão da criança - cartilagem que protege a laringe e as cordas vocais - com a mão direita preparava a seringa de plástico, cuja agulha era envolvida pelo cateter até meio centímetro da extremidade. Palpando as cartilagens da traqueia, Helga localizou a membrana cricotiróide abaixo da maçã de Adão; encostando a ponta da agulha à pele azulada do pescoço da criança inconsciente, fê-la penetrar num ângulo de quarenta e cinco graus até à traqueia, através da membrana protectora.

            Um rápido puxão do êmbolo introduziu ar na seringa, confirmando que a agulha penetrara no canal respiratório. Helga empurrou, então, aquela um pouco mais, antes de começar a fixação do cateter através do orifício criado.

            Quando retirou a agulha, ouviu-se, de imediato, a passagem do ar. Sabendo, porém, que para salvar a criança da asfixia, antes que a falta de oxigénio danificasse os tecidos cerebrais, não bastaria a respiração natural, a enfermeira decidiu utilizar o oxigénio de reserva em cada um dos cubículos. Foi sem dificuldade que ligou o tubo do oxigénio ao cateter; depois de bem fixado, Helga começou a rodar lentamente o botão que controlava o débito do gás. Mike Rabum chamara a atenção para o facto de a válvula dever ser aberta com cuidado, a fim de que a pressão do ar - proveniente de uma fonte de abastecimento que servia todo o hospital - não enchesse demais os pulmões, danificando, assim, os delicados alvéolos.

            Mike tinha-se esquecido, porém, de mencionar um pormenor; e enquanto Helga escutava o silvo do oxigénio, este, ao aumentar a pressão nos pulmões acima do nível da pressão atmosférica, empurrou a carne contra a glote e o pedaço de cachorro quente foi disparado como uma bala, salpicando de molho e mostarda o uniforme branco da estudante de enfermagem que segurava a cabeça da pequena. No mesmo instante, a menina soltou um grito, aspirando ar, juntamente com o oxigénio que recebia pelo cateter. Quase ao mesmo tempo, também, a cor dos seus lábios começou a melhorar rapidamente, reflectindo a entrada do gás vital na circulação sanguínea, através da membrana protectora dos pulmões onde era absorvido pela hemoglobina dos famintos glóbulos vermelhos.

            - A sua menina vai ficar boa - veio Helga dizer à mulher que deixara de chorar e observava, fascinada, o drama que ocorria no estreito cubículo.

            - Foi... foi este pedaço de carne? - perguntou a mãe da pequena, apontando para o resto de cachorro quente.

            - É verdade - confirmou Helga, pegando no fragmento. - O oxigénio expulsou-o...

            - Mas é tão pequeno! Como pode alguém morrer por causa de uma coisa tão pequenina?

            - Que aconteceu, Miss Sundberg?

            Mike Rabum fazia esta pergunta do alto do seu metro e oitenta, com ombros largos de quem tinha sido guarda-redes em Harward, à entrada do cubículo. Tinha tirado as luvas, mas usava ainda a bata de cirurgia e a touca manchada de sangue da artéria que cosera.

            - Salvou a vida da minha filha! - explicou a mulher.

       - Onde estava, doutor?

            - O doutor estava a operar - explicou Helga.

            - Uma artéria cortada - acrescentou Mike.

            - A miúda aspirou um pedaço de cachorro quente - esclareceu Helga, sem saber por que motivo sentia um formigueiro nas pontas dos dedos. - Não vi nenhum laringoscópio e, por isso, empreguei a técnica da agulha que nos ensinou na semana passada...

       - Agrada-me saber que resulta tão bem! Vamos deixar ficar o cateter no lugar, por enquanto; O oxigénio é que Convém cortar...

            Mike desligou o aparelho até a passagem do gás pelo cateter ser quase inaudível e acrescentou:

            - Não convém encher-lhe demasiado os pulmões.

            Enfrentando Helga de novo, tirou-lhe repentinamente da mão o tubo de oxigénio e ordenou:

       - Espere no meu gabinete, Miss Sundberg.

            - Estou atrasada... - Helga abanou a cabeça para se ver livre daquela impressão desagradável, mas sem êxito.

            - Muito bem, doutor Rabum...

            - Segure no tubo, Miss Stern.

            Helga ouviu Mike Rabum dizer isto à estudante de enfermagem, mas a voz do médico parecia-lhe extremamente distante. Também não compreendia por que motivo tinha a impressão de que havia perdido os músculos e as paredes de azulejo branco oscilavam, devagar, como um arco abrindo e fechando. Nem sequer se apercebeu de que Mike Rabum estava atrás dela enquanto não lhe sentiu as mãos nos cotovelos, guiando-a através de uma porta e sentando-a numa poltrona confortável.

            - Não se levante. Já volto...

            Quando voltou, Mike Rabum trazia um copo de café a ferver, da máquina que dia e noite permanecia em funcionamento.

            - Beba! Tudo!

            Helga levou o copo aos lábios e, nesse momento, ouviu um grito vindo do exterior, seguido pelo inconfundível som dos vómitos. Mike saiu e quando voltou, cinco minutos mais tarde, Helga acabava o café. Mike Rabum tirou-lhe o copo das mãos e pousou-o em cima da secretária.

            - A pequena está bem? - conseguiu Helga perguntar em voz fraca.

            - Óptima! Limpou o estômago e, como continuasse a gritar, tirei-lhe o cateter. E você?

            - Tenho formigueiro nos dedos e parece que vou morrer...

            - Faz ideia do risco que correu, não faz? - perguntou Mike em voz subitamente dura e acusadora. - O processo é extremamente novo; o jornal da AMA só o divulgou há duas semanas... Para cúmulo, você não Usou luvas nem desinfectou a pele antes de picar!

            - Que queria que fizesse? - A injustiça da acusação provocou em Helga um súbito acesso de cólera. - A menina ia morrer!

            - Bem sei

            A voz de Mike modificara-se outra vez e Helga compreendeu, de súbito, que a sua ira quase eliminara a sensação de fraqueza. Ao olhar Mike, viu-o sorrindo e perguntou a si própria por que motivo o pudera um dia achar feio...

            - Maldito seja, Mike Rabum!

            - Assim é melhor...

            - Que me aconteceu, afinal?

            - Reacção de stress. Para você poder enfrentar uma situação de vida ou de morte com tanta decisão, foi preciso que grande quantidade de adrenalina fosse introduzida na sua corrente sanguínea, a partir das glândulas supra-renais. Passado o momento crítico, já não precisava da adrenalina extra, mas ela existia e o seu corpo reagia a essa presença excessiva.

            - Então irritou-me só para eu a consumir?

            - Exactamente.

            - Que gracioso! Se não fosse tão grande, dava-lhe um murro!

            - Faça favor! - respondeu Mike, oferecendo-lhe a cara.

            - Para ficar com a mão partida? Não, muito obrigada!

            Quando Mike se voltou para a olhar de novo, fê-lo com uma estranha expressão, como se a visse pela primeira vez e gostasse do que via.

            - Há quanto tempo nos conhecemos? - perguntou.

            - Há quase dois anos. Desde que Carolyn e eu viemos do Brasil para aqui.

            - Do Brasil? Que diabo estavam vocês a fazer no Brasil?

            - A trabalhar como enfermeiras, num hospital missionário.

            - É missionária?

            - Eu disse que trabalhava como enfermeira... e nada de gracinhas sobre as minhas aptidões para o papel de Sadie Thompson.

       - Nada de gracinhas. Estava só a pensar que nos últimos dois anos a tenho visto apenas como uma bela rapariga, alta, que é também namorada do meu melhor amigo.

       - Não sou namorada de ninguém, excepto quando decido ser. Além disso, Ed Vogel e eu acabamos com tudo há duas semanas...

            - Ele não me disse nada... E compreende-se... Ser deitado ao lixo por si, não é coisa de que um homem se possa vangloriar... Que aconteceu?... Se quiser responder à minha pergunta, evidentemente...

            - Ed e eu tínhamos chegado àquele ponto em que, ou se casa ou se acaba de vez... Como não estou interessada em casar com ele...

            - Pensei que Ed era o tipo de médico com quem uma enfermeira casaria...

            - E é; mas tenho visto muitos casamentos desses acabarem mal, depois do marido acabar um internato...

            - Talvez eu seja estúpido... O certo é que não estou a perceber muito bem...

       - Ed é para a cardiologia o que você é para a cirurgia. O jovem médico mais prometedor da equipa. Mesmo que aqui fique e vá para a clínica particular de diagnóstico...

            - O que mais se assemelha à clínica particular para um membro da faculdade... - interveio Mike.

            - Exacto. Na realidade, o facto de Ed ir para aqui ou para ali não fazia diferença nenhuma... Um bom médico que faça clínica particular ganha dinheiro como nunca sonhou! Além do que lhe chega por acréscimo...

            - Clube de campo, tarde de golfe...

            - Mais enfermeiras e técnicas, para não falar em divorciadas e principiantes... Claro que se a mulher cuidar de si própria, lhe der filhos e o entusiasmar sexualmente, pode ser capaz de o preservar desse tipo de concorrência... Mas você já vive neste meio há tempo suficiente para saber que, regra geral, não é isso que acontece.

            - Vê-mo-las aqui com dor de cabeça, espasmos do cólon ou uma dose excessiva de morfina roubada ao marido... Rebentam com os nervos ao volante de uma slation conduzindo os miúdos à escola de dicção ou de bailado, ou trabalham como auxiliares médicas, convencidas de que assim ajudarão os maridos...

       - Mas quando o marido chega a casa, à noite, o que encontra? Uma mulher cansada, sem paciência para tomar um banho e se perfumar antes de vestir o pijama sexy que comprou para seduzir o marido, como Cleópatra a Julio César.

            Mike soltou uma gargalhada e respondeu:

            - Shakespeare deve dar saltos no túmulo!

            - O velho Shakey conhecia bem a natureza humana e, por isso, arranjou um Marco António muito sexy para substituir Júlio César em decadência, atraiçoado pela próstata duas ou três vezes por noite... No entanto, em muitos casamentos de médicos, é o contrário que acontece; o marido começa a ver mulheres de branco... e, logo compreende que uma mulher de saia pingona e camisola insonsa, salvo se for uma “brasa”, não pode concorrer com uma enfermeira ou uma técnica de vestido coleante, ou mesmo uma secretária de botas e mini-saia. Sem dar por ela, a mulher acha-se na emergência de ter que enfrentar o divórcio.

            - Será você a mulher fatal que o rouba à esposa? - perguntou Mike.

            - Os homens casados não me interessam - respondeu Helga, indignada. - Tenciono gozar a vida até aos trinta e cinco e, depois, arranjar um médico bem lançado, duns quarenta ou cinquenta anos, viúvo ou divorciado...

            - E então o amor?

            - O amor é para os jovens... Nessa altura, procurarei segurança e afecto. Serei uma bela esposa, também de modo a que, mesmo que lhe saia cara, ele não regateie o dispêndio. Terei o cuidado de seleccionar os nossos amigos ao mais alto nível, e posso até tornar-me presidente da Associação de Auxiliares Médicos, quando ele for eleito para a direcção da Associação Estatal. O mais importante, porém, é conservar-me tão desejável que ele tenha ânsia de voltar para casa à noite. E quando o vigor sexual começar a desvanecer-se, sei bem de que género de aperitivos precisam as suas gónadas...

            - Pare com isso! Estou quase a desejar envelhecer...

            - E eu terei de procurar emprego, se não for já para a UCI render Carolyn!

            - Diga-lhe que fui eu que a retive. Você é a heroína, hoje, e não posso deixar de pedir, para si, a medalha Carnegie...

       - As enfermeiras da UCI não recebem medalhas. Devia saber isso!

            - Nem os cirurgiões do banco... - Um sorriso iluminou-lhe a cara ríspida e os seus olhos negros eram quentes o bastante para a entusiasmar. - Pelos vistos, temos que organizar uma sociedade mútua de admiração... Talvez não fosse má ideia...

            Helga levantou-se, pouco firme. Quando Mike pretendia segurá-la, recusou.

            - Unhas para dentro, doutor... Nunca brinco em serviço...

            - E a miúda que está lá fora, bem grata lhe pode estar por isso! Creio que o facto nos atribui características comuns, Miss Sundberg... e características bastante comuns.

   

       No gabinete do dr. Jeffry Toler, reitor da faculdade de medicina da Universidade de Biscayne e administrador do novo centro médico, a dra. Rebecca Dalton pousou a revista que segurava, mas não lia, quando a porta se abriu. Elegante, de cabelo castanho e estatura média, Rebecca era muito feminina, distinta e franca, como a figura bíblica do mesmo nome. A longa bata branca, engomada, era um emblema da faculdade, e o tubo do estetoscópio que espreitava de um bolso lateral, indicava que o seu campo era a medicina e não a cirurgia. Aos trinta e dois anos, Rebecca desempenhava já funções de assistente e afirmava-se como cardiologista de alto mérito, bem como mulher bela e muito sensível, sempre profundamente preocupada.

            - Desculpe-me, por favor, Rebecca...

            Os dois médicos eram amigos de longa data e Jeffry Toler saudou Rebecca com calor, beijando-a, também, na cara.

            - Encontrei Manning Desmond, no parque, quando regressava de Rotary. O seu chefe de serviço consegue dizer menos coisas em mais palavras do que qualquer outra pessoa que conheço...

       - O dr. Desmond ensinou-me mais acerca do coração humano do que todos os médicos com quem estudei - respondeu Rebecca, sorrindo. - Por isso lhe perdoo a verbosidade...

            - Eu chamar-lhe-ia, antes, verborreia... - replicou Toler com secura, sentando-se à secretária. - Imagino que já viu isto...

            Abriu o jornal da tarde, para que Rebecca pudesse ler o título: O DR. DALTON ABSOLVIDO NO CASO DA TRANSPLANTAÇÃO CARDÍACA.

            - Não ouvi a notícia pela rádio, mas espalhou-se logo pelo hospital...

            - Não me surpreende. A minha secretária sabe sempre o que se passa, muito antes de mim...

            - O dr. Desmond visitou-me antes de ir a Rotary, Jeffry. Creio que falou consigo acerca do pedido de reforma do dr. Barrows...

      

            - O pedido vai ser apresentado hoje às cinco horas, na reunião conjunta dos directores do hospital e do comité executivo. Manning disse-me que Jake Barrows sofre de angina, desde o acidente vascular, há três meses; não deve haver problemas...

            - Sim. Os dados clínicos são perfeitamente claros.

            - Desmond contou-lhe que tenciona recomendar hoje à direcção que você seja elevada à categoria de professora e nomeada chefe do serviço de cardiologia?

            - Será isso justo? Tenho apenas trinta e dois anos e passarei à frente de vários especialistas mais velhos...

            - Nenhum deles tão capaz como você... nem interessado no cargo.

            - Ultimamente, tenho pensado muito... Quais serão as minhas verdadeiras capacidades, Jeffry? Parece...

            - Se está a censurar-se pelo que aconteceu a Ken, não faça isso! Há muitas equipas constituídas por marido e mulher que...

            - Era eu quem escolhia os casos para as transplantações... Portanto, sou tão responsável como Ken pelas mortes...

            Presa pela milésima vez, nos últimos seis meses, na recordação e no horror do que acontecera, Rebecca fixou os olhos na ampla janela por detrás da secretária. Reconhecendo a fonte da sua agonia, Jeffry Toler não quis intrometer-se logo nos seus pensamentos; tirou o cachimbo do bolso do casaco e começou, com todo o vagar, a enchê-lo.

            Ainda não se conseguiu descobrir, embora se proceda a Intensivas investigações em dezenas de escolas médicas de todo o mundo, por que motivo as células linfóides do corpo de uma pessoa, salvas da morte pela transplantação de um coração ou de outro órgão, procuram destruir o que tornou possível a vida. E, assim, ainda ninguém tinha conseguido explicar a razão pela qual os doentes em quem o dr. Kenneth Dalton procedera a tão brilhantes transplantações cardíacas, ao longo de um ano, haviam começado a morrer, um após outro, nos últimos seis meses, vítimas do misterioso processo da rejeição.

            Como cardiologista, Rebecca Dalton Possuía a consciência exacta de que a morte espreita sempre por cima do ombro de um cirurgião no campo cardiovascular onde Kenneth obtivera já brilhantes êxitos, mesmo antes de se dedicar às transplantações, Um deslize, a perda momentânea de confiança do cirurgião no talento das suas próprias mãos, um erro insignificante na complexa gama dos auxiliares técnicos que tornavam a cirurgia possível... e a morte, à espreita, surgia.

            Dois anos antes, Kenneth Dalton tinha espantado o mundo da cirurgia e a imprensa, também, ao executar quinze transplantações cardíacas sucessivas sem uma única morte na mesa de operações nem durante o período pós-operatório. Como director do laboratório de investigação cardíaca e um dos principais especialistas do Biscayne Hospital, Rebecca Dalton escolhia, pessoalmente, Os casos, e avaliava as possibilidades de malogro. Não da operação visto Kenneth Dalton ter já atingido um grau de perfeição que lhe merecia uma fama igual à de DeBakei, Shumway ou Cooley, mas das doenças concomitantes do fígado ou de outros órgãos que comprometiam o êxito do processo.

            O banco do Biscayne Hospital e outros hospitais vizinhos tinham constituído a principal fonte de dadores e o caso sobre o que o tribunal se pronunciara parecia, a princípio, bastante típico. Mantida a respirar, através de ressussitador, por uma equipa de salvamento dos bombeiros, uma jovem, com uma extensa hemorragia cerebral provocada por um acidente de automóvel na estrada de Golden Glades, tinha sido internada no banco do Biscayne Hospital.

            O coração ainda lhe batia, provando que estava viva. Já o mesmo não se passava com o cérebro, pois o electroencefalograma, que sempre se fazia em tais casos desde que os espectaculares êxitos de Kenneth na transplantação haviam criado uma contínua procura de dadores, não mostrava quaisquer ondas, a prova última da morte do cérebro. Enquanto Kevin McCartney, o receptor em perspectiva, esperava com um coração que mal força tinha para lhe manter o cérebro vivo, procedia-se a uma busca frenética de parentes da jovem sinistrada, a quem competia autorizar a transplantação; sem resultados, porém.

            Por três vezes se desligou o ressuscitador durante cinco minutos período fixado, na maioria dos hospitais, como significativo da morte - mas a respiração espontânea não se verificava e as ondas cerebrais continuavam ausentes. No entanto, de cada vez que o ressuscitador era ligado e o oxigénio mais uma vez penetrava nos glóbulos vermelhos através dos pulmões, o coração da jovem batia - prova clara da existência de vida. Por fim, o dr. Adrian Cooper, professor de patologia forense e médico legista do distrito, declarou a acidentada oficialmente morta e autorizou a remoção do coração.

            Foi uma das mais brilhantes operações de Ken. Uma hora depois da primeira incisão, o novo coração de Kevin McCartney batia perfeitamente, num corpo revitalizado pela sua presença. O período pós-operatório decorreu também sem complicações e, no último ano, Kevin tinha sido capaz de trabalhar, em tempo parcial, como barman do Dolphin Lounge, perto do Bayside Terrace.

            O seu testemunho, mais o da equipa e de Rebecca, haviam destruído as alegações do queixoso, irmão da jovem sinistrada, e segundo o qual esta estaria tecnicamente viva quando o coração lhe foi retirado. Perante a barragem dos testemunhos de peritos trazidos a depor pelos advogados que Jeffry Toller constituira para defender Ken e o hospital, o júri recusara-se a acreditar que na jovem vítima do acidente existisse vida, salvo no coração que passou a bater no peito de Kevin McCartney.

            Todavia, muito antes de o caso ser levado a tribunal, o abismo entre Ken e Rebecca alargou-se, quando pacientes mais antigos de transplantações, por cujo salvamento da morte o médico tão elogiado fora na altura, começaram a morrer de rejeição.

            - Ken telefonou-lhe do tribunal? - perguntou Jeffry Toler, interrompendo a dolorosa meditação de Rebecca.

            - Nunca mais soube nada dele desde que fui ao tribunal prestar declarações.

            - Julguei que...

            Toler interrompeu-se, pois a expressão dos olhos de Rebecca constituía uma resposta antecipada.

            - Fiz tudo o que podia fazer... Agora compete a Kem...

            - Se ele não fosse meu amigo, já há muito teria tentado meter um pouco de juízo naquela cabeça. E talvez deva tentar fazê-lo, já que sou amigo de vocês...

            - Não adianta, Jeffry... enquanto Ken estiver convencido de que eu progredi mais no campo médico das doenças cardíacas do que ele progrediu no cirúrgico.

            - Mas que estupidez! Ken fez algumas das primeiras transplantações neste país e houve uma altura em que foi tão famoso como Christian Barnard. Para mim, Ken só poderá censurar o seu próprio ego.

            - O verdadeiro problema entre nós, Jeffry, é a consciência de Ken.

            - Mas como é possível, se ele sempre deu aos seus doentes o melhor que tem?

            - Ken está convencido de que em catorze casos, os pacientes morreram por ter deixado que o entusiasmo se sobrepusesse ao seu critério. Não concordo, mas tenho a certeza de que, inconscientemente, Ken continua a censurar-me por o ter encorajado a operar alguns doentes, a propósito dos quais hesitava...

            - Todos eles viveram durante as primeiras semanas após a operação.

            - Até a rejeição os matar...

            - Então como pode censurá-la?

            - Não sou psiquiatra, mas sei que o inconsciente nem sempre é racional.

            - A história do vosso casamento não deve ser muito diferente da de outros que tenho conhecido nesta profissão. Tanto Ken como você eram médicos de nomeada... até Ken tropeçar e decidir que estava fora da competição. Tentei dizer-lhe que não estava, mas não me quis ouvir. Quando marido e mulher competem pelo êxito nas suas carreiras, geralmente é a mulher quem desiste... para ter filhos...

            - Tentamos, mas não tivemos sorte...

            - De quem foi a culpa? Sua ou dele?

            - De ninguém, segundo Jerry Singleton. Jerry diz que o meu sistema de reprodução é absolutamente normal e que Ken possui espermatozóides suficientemente activos para fecundar qualquer mulher...

            - O que pode começar a acontecer... Você sabe como isto é, aqui... Não faltam mulheres solteiras e bonitas, divorciadas, mulheres casadas, mesmo...

            - Por amor de Deus, Jeffry. - A voz de Rebecca tornou-se quase histérica, quando o controle que se esforçava por manter sobre si própria, cedeu. - Que quer que eu faça?

            - Então... Não é obrigada a ser perfeita em tudo...

            - Imagine que interpreto erradamente um electrocardiograma e um pobre diabo morre de trombose quando podia sobreviver se lhe introduzíssemos heparina no sangue para evitar a formação de um coágulo? Por quanto tempo julga que eu seria capaz de viver?

            - Creio que tem razão... Mas é o diabo ver dois dos melhores médicos que conheço sem poderem desatar uma meada... principalmente quando sei que você se destrói a pouco e pouco, Rebecca...

            - Pelo menos, posso agradecer-lhe o cuidado, Jeffry... - respondeu ela, apertando-lhe a mão, grata.

            - Que quer que faça hoje à tarde, quanto à sua promoção? Se recusar, as pessoas vão começar a tirar conclusões...

            - Que tento salvar a reputação de Ken?

            - Que outra coisa poderia ser? E não vejo em que medida isso poderia melhorar as vossas relações...

            - Muito bem! Faça como entender. Ken está no Comité Executivo e, portanto, terá de o saber... Agora, acho que vou trabalhar...

            - Falo consigo logo que a reunião acabar... Claro que não tenho a menor dúvida sobre a decisão...

       Rebecca levantou-se e Toler acompanhou-a até ao corredor, ficando-se a vê-la afastar-se, elegante, altiva, bela com o Sol da tarde a incendiar-lhe o cabelo castanho com reflexos de ouro. Antes de entrar no elevador, Rebecca acenou-lhe em despedida.

            De novo no gabinete, Toler pegou no jornal e leu preocupado, outro título: O PRESIDENTE DO CONSELHO FINANCEIRO ATACA A DIRECÇÃO DO HOSPITAL.

            Já era bastante mau ter que observar a cara de Ken Dalton naquela tarde, quando Rebecca fosse promovida a uma posição comparável à de Ken em cirurgia, sem ter que escutar os ataques de um político como Ross McKenzie, durante uma hora.

   

       O relógio do posto de observação marcava três e cinco e Carolyn Payson, enfermeira-chefe das Unidades de Cuidados Intensivos, compreendendo as unidades de clínica médica, pediatria e cardiologia por razões de eficiência e tendo em vista um uso mais eficaz do pessoal altamente treinado, continuava de serviço. Estava a pensar em telefonar a Helga Sundberg para o seu apartamento, no Bayside Terrace, não fosse o caso - bastante improvável - de ela ter adormecido, quando soou o alarme.

            Biscayne Hospital - um dos mais modernos e sofisticados do mundo, quer na construção, quer no funcionamento - tinha sido rigorosamente planeado para que os doentes beneficiassem do máximo de cuidados. O banco e a sala de observações, com sala de espera e secção administrativa, ocupavam metade do primeiro piso, sendo o resto dedicado às UCI. Numa secção concentravam-se cuidados de enfermagem especializados, constante supervisão médica e sistemas de controle altamente sofisticados. muito importantes sempre que uma vida corria perigo quer fosse uma criança com dificuldades respiratórias ou um coração ameaçado por trombose coronária.

            Carolyn olhou de relance para a luz vermelha que piscava no mostrador do sistema de controle dos doentes com os seus oito números e botões de controlo e verificou que o alarme provinha do cubículo quatro, ocupado por Carmelita Sanchez. Accionando um interruptor, a enfermeira pode ver imediatamente, no écran de um televisor, o electrocardiograma da doente.

       As enfermeiras da UCI dispunham de tão grande preparação em cardiologia que se achavam habilitadas a interpretar um electrocardiograma mais rápida e correctamente que um médico vulgar. E Carolyn, ao observar o ponto de luz que se deslocava no televisor, viu, que embora o pulso de Carmelita tivesse subido um pouco, a função cardíaca era normal para quem tinha estado em coma durante três semanas em virtude de uma hepatite infecciosa, muitas vezes fatal.

            Do seu posto dominante, Carolyn podia ver os oito cubículos que constituíam a secção 1 da UCI, enfermaria destinada a doentes em estado crítico padecendo de doenças várias, separada da Unidade de Cuidados Intensivos para Doentes Cardíacos, que lhe era contígua, e referida pela abreviatura UCIDC. Pela porta de vidro, aberta, do cubículo quatro, Carolyn via, também, a enfermeira que atendia Carmelita Sanchez e que não mostrava sinais de alarme.

            Ligando o intercomunicador, Carolyn perguntou, ao microfone:

            - A temperatura está a subir, Ella?

            A enfermeira sobressaltou-se e, falando para o intercomunicador instalado na parede, respondeu:

            - Um pouco mais de meio grau.

            - Vou chamar o dr. Vogel. É caso para accionar o alarme.

            Colocando de novo o monitor em condições de cumprir a sua usual função de registo, Carolyn pegou no telefone para chamar o médico encarregado dos doentes da UCI.

            - Peça, por favor, ao dr. Vogel que telefone para a UCI - disse à telefonista.

            O dr. Vogel saiu do hospital por alguns minutos, Miss Payson, mas o dr. Rabum substitui-o. Quer que lhe diga para telefonar?

            - Se fizer o favor.

            Carolyn sabia que, embora Carmelita Sanchez fosse uma doente de clínica médica, Mike Rabum se interessava por ela desde que lhe fizera uma biópsia do fígado, logo após Carmelita ter dado entrada no hospital. O avisador do telefone de Carolyn começou a piscar, momentos mais tarde.

       - Problemas, Miss Payson? - perguntou Mike Rabun.

            - A temperatura de Carmelita está outra vez a subir, doutor.

       - Ela tem cá alguém de família?

       - Só o noivo, Miguel Quintera.

       - Então, diga a Miguel que irei ver Carmelita logo que possa; isto parece um manicómio! É melhor colocar metade do cobertor de arrefecimento sobre Carmelita, mas diga a Miss Sundberg para vigiar a temperatura, porque pode descer demasiado.

       - Muito bem.

            Carolyn desligou e transmitiu a ordem à enfermeira que tratava de Carmelita Sanchez.

            Transferida de outro hospital, em coma, duas semanas atrás, por insistência do noivo após a sua chegada a Miami, vindo de Espanha onde frequentava o primeiro ano médico na Universidade de Madrid, a encantadora cubana aparecera já atacada de hepatite infecciosa bastante adiantada.

            Não obstante a infecção virulenta e muitas vezes fatal do fígado ser quase sempre contraída através de transfusão com sangue contendo o terrível antigene australiano, Carmelita fora inoculada acidentalmente com O vírus. A técnica de laboratório estava a tirar sangue de um doente de hepatite quando a seringa se partiu e um estilhaço de vidro lhe picou a mão, transmitindo-lhe, assim o vírus.

       Carmelita era tratada com todos os meios conhecidos. Ministravam-lhe grandes quantidades de glucose por via intravenosa, a fim de lhe protegerem o fígado e proporcionarem as calorias de que tanto necessitava para combater as que se consumiam devido à temperatura em permanente subida. Com repetidas transfusões de sangue, procurava-se reduzir a presença do vírus, de tal modo que os anti-corpos da jovem pudessem vencer o agente destruidor da vida.

            Todas essas medidas se revelavam, porém, ineficazes e, dia após dia, o jovem cubano, estudante de medicina, se sentava ao lado da noiva ou passeava na sala de espera da UCI, acusando, em silêncio, médicos e enfermeiras de um malogro de que estes já tinham perturbadora consciência, bem como da sua impotência, que a presença de Miguel e do corpo tranquilo da bela rapariga mais faziam sentir.

            - Outra vez o alarme, Miss Payson? - perguntou, em voz baixa, Miguel Quintera que tinha estado a ver televisão.

            - A temperatura de Carmelita subiu um pouco - informou Carolyn. - O dr. Rabum mandou arrefecê-la...

            - Por que não vem cá vê-la?

            - Está ocupado no banco, mas não demorará...

            - Já não interessa... Ela vai morrer... - disse Miguel, abatido.

            - Ainda é possível salvá-la! - animou-o Carolyn - Não desespere...

            Carolyn Payson reconhecia, contudo, que a sua voz era inconvincente. Quem, de facto, sabia melhor do que ela que existiam casos sem esperança, salvo o alívio da morte que teimosamente se recusava a chegar?

   

       - Vou entrar! - anunciou a dra. Valerie LeMoyne ao abrir a porta dos aposentos dos médicos, contíguos à secção cirúrgica do terceiro piso - Veja se se veste...

            - É só um minuto, Val...

            O dr. Jerry Singleton espreitou pela porta da casa de banho. Embrulhava-se numa toalha e escorria-lhe água do cabelo. Acrescentou:

            - Quero falar consigo...

            Valerie LeMoyne aproximou-se da janela e acendeu um cigarro. De estatura média, era morena, esbelta e adepta da moda austera europeia que todos Os anos comprava nas férias. Usava a bata branca de nylon, mas com o habitual chic.

            A carreira de Val tinha sido meteórica, desde que viera para os Estados Unidos, a fim de fazer o internato em Duke, havia dez anos, depois de ter estudado na Sorbonne. Assim, chegara rapidamente a professora e a chefe do serviço de anestesia do hospital.

            Jerry Singleton apareceu minutos passados. De calças azuis, camisa azul, casaco castanho e sapatos brancos, italianos, de couro macio, com sola de crepe, era um belo exemplar de Homo medicus - facto de que Val tinha, fisiologicamente, consciência.

       - Se você deixasse de usar essa bata desinteressante, seria uma bela mulher, Val.

            Aproximando-se da janela, serviu-se de um dos cigarros de Valerie, que observava a rua, e acendeu-o.

            - Desde que o nylon foi inventado - respondeu Valerie - as mulheres de branco têm grande vantagem sobre as outras...

            - Sim... Pode-se fazer uma ideia mais correcta do que está por baixo, sem, contudo, pôr de parte a excitante necessidade de penetrar mais fundo...

            - Foi por isso que você e Kay se zangaram?

            - O divórcio foi ideia de Kay, não minha; não posso, na verdade, dizer que lamento. O dia de trabalho de um cirurgião é um autêntico pesadelo e, se ainda por cima, quando chega tarde para jantar se vê obrigado a ouvir censuras da mulher... Além disso, Kay tinha trabalhado o suficiente num hospital escola, como voluntária, antes de casarmos, para saber o que se passa em ambientes onde homens e mulheres convivem por força das suas ocupações. Neste aspecto, creio que só um bordel suplanta um hospital... Recusou-se a acreditar na minha fidelidade...

            - E enganava-se- perguntou Val, trocista.

            - Enganava-se, de facto. Bem a tentei convencer; propus-lhe, até, abandonar a universidade e dedicar-me à clínica particular...

            - Onde ganharia o dobro do que ganha aqui.

       - Mais do dobro. Mas também gosto de ensinar coisa que Kay era incapaz de compreender. Talvez devido ao pai ser um ginecologista que fez fortuna à custa de pequenos fibromas...

            - Para um cirurgião interessado na histerotomia, valem o seu peso em ouro...

            - Até a doente morrer no dia em que sai do hospital, como me aconteceu na semana passada...

            - Ninguém pode prevenir a embolia pulmonar... Tal como não podemos prevenir a morte ocasional provocada pela anestesia. Ninguém sabe o motivo desses acidentes. São acasos que os cirurgiões e os anestesistas têm que enfrentar. No entanto, se não a tivesse operado, não teria vivido.

            - Espero que não permita que uma morte, impossível de evitar, tenha sobre si o mesmo efeito que as transplantações malogradas tiveram sobre Ken Dalton...

            - Como disse, a embolia pode verificar-se na mais simples das operações - respondeu Jerry após breve hesitação.

            - Ainda bem que concorda comigo! Tem muita vida para viver, meu amigo! Pense no prazer que dá às mulheres com quem sai... E, quando casar...

            - Oh, não! Outra vez acorrentado, não...

            - Isso é o que você diz agora. Pelo que tenho visto, os homens divorciados precisam cerca de um ano para consumir os sonhos que alimentaram durante o matrimónio. Depois, sossegam e casam de novo... geralmente com uma mulher muito parecida com aquela de quem se divorciaram...

            - Deus me livre! Foi Kay quem pediu o divórcio e...

            - Isso não interessa. No entanto, você pode constituir uma excepção. É, sem dúvida, um homem simpático e atraente... Nada que se possa desperdiçar, Jerry... Muitas mulheres estariam dispostas a correr riscos consigo... E o seu talento natural para a sedução tem fama nesta casa...

            - Tenho que ocupar os tempos livres e não gosto de golfe... - respondeu Jerry Singleton, sorrindo. - A propósito... Por que não quer ligar-se a mim? Uma ligação tempestuosa e excitante? Podia mostrar-lhe algumas das coisas que tenho aprendido...

            - Vim fumar um cigarro, Jerry, e não propor-lhe que me seduzisse...

            - Sei que gosta de fazer esqui aquático. Por que não vem comigo este fim de semana até Keys?

            Valerie LeMoyne apagou o cigarro num cinzeiro, antes de responder e desejou que Jerry não tivesse reparado na súbita tremura da sua mão.

            - É muito amável, Jerry, mas... fiquei muito ferida de uma vez... Ainda tenho uma cicatriz...

            - Os corações feridos precisam de exercício moderado, minha querida. Todos os cardiologistas são unânimes em afirmá-lo...

       - Sim... Dá-me tempo para pensar?

       - Claro!

            - Na quinta-feira à noite, já lhe digo... - olhando o relógio, Val acrescentou: - Bem, tenho que ir... Boa caçada, Jerry!

   

       A dra. Karen Fletcher terminou a sua série diária de trinta voltas na piscina do Bayside Terrace, subiu para o bordo, tirou a touca de borracha, soltou o cabelo platinado e começou a limpar o corpo com uma toalha que deixara sobre uma cadeira de repouso. Vestia um fato de banho em nylon, que era quase como se não existisse, e não ignorava a atenção dos estudantes de medicina que tinham estado a dormitar até à sua chegada

            Com trinta anos, Karen Fletcher atingira já muitos dos objectivos que estabelecera para a sua própria vida, muitos anos atrás, ao abandonar a cidadezinha do Midwestern onde nascera, para frequentar um colégio. Nunca mais voltou. Campeã de natação na faculdade, fizera conferências sobre o desporto; e o seu interesse pela bactereologia, pela farmacologia, mais as justas pretensões que tinha às honras olímpicas em natação, haviam-lhe garantido a frequência gratuita da escola médica.

            Karen Fletcher progredira com rapidez principalmente por causa de uma verdadeira intuição e competência nos campos da patologia e da toxicologia, mas também por causa da sua beleza, da sua Plástica correctíssima, que nos laboratórios chamava a atenção. Assistente de patologia quatro anos depois de ter saído da faculdade, chegara à Universidade de Biscayne, como professora contratada, dois anos antes.

            Quando Karen se baixou para apanhar um pente caído na toalha, um dos estudantes Soltou um assobio de admiração.

            - Calma, meninos - disse Karen. - A universidade não aprecia a confraternização entre estudantes e professores...

       - Não há nada de fraternal naquilo que estou a pensar agora, dra. Fletcher - respondeu o mais baixo, um cubano, sorrindo impudentemente. - É verdade que ganhou uma medalha de ouro nos Jogos Olímpicos de 1967?

            - Foi em 68, Mendoza, não me faça mais velha do que sou.

            Karen pegou num vestido de cima da cadeira de praia e enfiou-o. O vestido era curto e deixava à vista as soberbas pernas da médica.

            - Para mim, é o resumo da mulher eterna, dra. Fletcher - tornou Mendoza. - Uma pena que seja patologista e todo o seu encanto se desperdice com mortos.

            Karen riu ao pegar na revista que trouxera para o caso de lhe apetecer ler. “Nunca foi desperdiçado, meu caro - pensou. - E nunca o desperdiçarei. Descobri, um dia, como era valioso!”

       A meio caminho entre a piscina e as traseiras do Terrace onde tinha um apartamento, Karen parou, de repente, junto de um maciço de jacarandá, - massa de flores violeta - para não tropeçar num garoto dos seus cinco anos. O garoto, agachado na álea que começava no jardim do complexo de apartamentos, um quarteirão adiante, e ia ter ao velho hotel e ao hospital, arfava. Mesmo que não tivesse reconhecido a criança, a sua posição, a cor dos lábios, das orelhas e da pele do tronco - o pequeno vestia apenas calções - teriam informado a médica de que a criança sofria de uma doença cardíaca congénita.

            - Olá, dra. Fletcher! - cumprimentou o garoto, sorrindo.

            - Estás bem, Dale? - respondeu Karen ao filho de Peggy Tyndall, técnica chefe do Laboratório de Investigação Cardiológica.

            - Estou bem. Parei somente para tomar fôlego...

            - Precisas de descansar mais, agora?

            A tendência para se agachar e a dificuldade em respirar, mais o aspecto cianótico da pele e das mucosas, eram características de uma malformação cardíaca anterior ao nascimento, incapacitando o órgão de fornecer sangue em quantidade suficiente aos pulmões - e portanto oxigénio.

       - Talvez... quando corro muito. - Dale pós-se de pé,

       - Desculpe-me, doutora... Tenho que ir.

       - Para onde?

            - Vou ver Kevin... Ele dá-me cerveja...

            - A uma criança da tua idade? Não acredito!

            Dale tinha desaparecido em direcção ao Dolphin Lounge, onde Kevin McCartney era barman. Karen seguiu-o, mas parou à porta quando viu Dale subir para um banco no extremo do balcão.

            - Cá está o meu rapaz! - exclamou Kevin McCartney com o seu inconfundível sotaque irlandês. - Que tomas?

            - Cerveja - respondeu Dale. - Bem gelada... E a doutora Fletcher também bebe...

            - A dra. Fletcher? - perguntou Kevin, olhando para a porta. - Olá, doutora! Não a tinha visto...

            - Vim atrás dele, depois de ele me ter dito que o senhor lhe dava cerveja.

            - É cerveja a fingir - esclareceu, soltando uma gargalhada. - Quer tomar alguma coisa?

            - Não, obrigada. Acabo de fazer o meu exercício diário na piscina e...

            - Podia ganhar outra medalha de ouro, se os Jogos Olímpicos se realizassem agora. Vi-a na televisão, quando ganhou em 68.

            - Duvido que esteja em forma agora, mas, de qualquer maneira, obrigada. Vê Dale muitas vezes?

            - Quase todos os dias. Porquê?

            - Parece-lhe que ultimamente Dale tenha mais dificuldade em respirar?

            - Estou óptimo, dra. Fletcher - interveio o pequeno.

       - No próximo ano, vou para a escola. E, quando for mais velho, o dr. Dalton vai operar-me para poder jogar basebol, como os outros rapazes.

       - Creio bem que sim, doutora... - respondeu Kevin. - Mas não quis afligir ninguém.

            - Falarei com ele. Bem... Vou-me embora... Vou tomar um chuveiro antes que este ar condicionado me constipe.

            - Como vai o dr. Cooper? - perguntou Kevin.

            A dois anos da reforma, o dr. Adrian Cooper, professor de patologia e médico legista do distrito, tinha sofrido um acidente vascular que o paralisava havia dois meses. Karen Fletcher que, por assim dizer, o substituia, chefiava o departamento com a sua habitual eficiência, embora a titulo provisório.

            - Nada bem, creio...

            - Que pena! É tão bom homem...

            - E um grande médico - acrescentou Karen. - Adeus, Dale!

            - Adeus, dra. Fletcher - respondeu o garoto, saltando do banco. - Obrigado, Kevin.

            - Sempre que queiras, Dale!

            - Madre de Dios! Que mulher! - exclamou Mendoza, o estudante cubano que entrara no bar por uma porta lateral e se instalara num banco. - Olhou bem para ela, meu amigo?

            - Deixei-me disso quando o dr. Dalton me colocou no peito um coração novo. Que quer beber?

            - Cerveja gelada, para ver se arrefeço. Já viu alguma vez tanta mulher num invólucro tão pequeno?

            - Nós, irlandeses, não perdemos tanto tempo a pensar em mulheres como vocês latinos - respondeu Kevin sorridente e empurrando para junto de Mendoza um copo de cerveja. - Preferimos o “Como é, pequena?”... Nem imagina como resulta...

            - Imagino, imagino! Nós também utilizamos o mesmo processo. - Sabe como os estudantes chamam à dra. Fletcher?

            - Calculo, mas... como é?

            - A Viúva Negra.

            - Porquê? Não é negra...

            - Nem viúva, ao que sei. Mas há nela algo que nos leva a pensar que se acedesse a fazer amor com alguém, o comeria vivo.

            - E você gostava de ser comido, não?

            - Se lhe parece!... Já que acabaremos por o ser... que seja da melhor maneira.

            - Dou-lhe razão... É uma boa médica, não é?

            - A fazer clínica, não sei, mas, como patologista, tem classe. É tão boa como professora que a gente, às vezes, até se esquece da sua beleza. Já vê... Estamos a fazer apostas sobre as suas Possibilidades de tomar o lugar do dr. Cooper...

            - São muitas, não?

            - Se são! A miúda consegue tudo o que quer... Oxalá me queira a mim, também...

            - Mesmo que seja para o comer?

            - Que rica maneira de morrer! - observou Mendoza, bebendo a cerveja e encolhendo os ombros.

            - Espere... - pediu Kevin. Mendoza deteve-se à porta.

       - Você está quase médico, não está?

       - Falta-me apenas um semestre. Porquê?

       - Viu o garoto que esteve aqui?

            - Vi. Examinei-o até, na consulta externa de cardiologia.

            - E então?

            - Com um pouco de sorte, pode aguentar-se. Sofre de tetralogia de Fallot - os canais sanguíneos, no interior do seu coração, são defeituosos. A dra. Helen Taussig e o dr. Alfred Blalock, de Baltimore, operaram-no há anos e corrigiram a maior parte da deficiência. Não é muito perigosa. Quase todos os cirurgiões preferem hoje esperar até a criança ter sete ou oito anos, quando o coração já está suficientemente grande para poder ser aberto sem dificuldade. Os riscos não são muito maiores do que os da operação que já fez. Quando tiver essa idade, portanto...

            - Dale ficará, então, normal?

            - Praticamente. E você, amigo, como vai? - perguntou o cubano, observando-o.

            - Estou óptimo! Amanhã, vou à pesca a Marathon.

            O barco em que a minha família fugiu de Cuba atracou em Marathon. Eu era miúdo ainda, mas pode crer que, após cinco dias de mar numa casca de noz, não existe local mais acolhedor...

   

       - Às vezes, penso que estou a perder qualidades - disse Mike Rabum a Mrs. Faye Connor, enfermeira-chefe do turno das três, no banco, depois de ter falado com Carolyn Payson. As pessoas por quem nada posso fazer, deixam-me um sentimento de culpa.

       - É isso que o distingue da maioria dos médicos como um diamante num anel de fantasia - respondeu a experiente enfermeira. - Outra vez a rapariga cubana?

       - E o noivo. Sempre que a vou ver, o rapaz olha para mim como se esperasse um milagre.

            - A culpa é sua... Se não tivesse a reputação que tem... Que se passa com Carmelita?

            - A temperatura voltou a accionar o alarme. Pela segunda vez, hoje.

            - Nunca vi ninguém num coma hepático tão profundo como ela. Já viu?

            - Nunca. Começo a não ter sequer coragem de me aproximar dela... Tão bonita, apesar da icterícia... E, Miguel, tão novo... Aflige vê-los...

            - Não tem obrigação de a tratar. Ela está em clínica médica.

            - Eu sei, mas... sou um sentimental...

            - Isso é verdade! A propósito... Quando é que se resolve a arranjar uma namorada?

            - Quando descobrir alguém que consiga descortinar o meu belo espírito por detrás da minha carantonha. Não está a pensar em divorciar-se, pois não?

            - Tivesse eu menos vinte anos... Agora, saía daqui, para ver se faço alguma coisa!

            Nesse momento, surgiu um interno alto com ar aborrecido e a bata amarrotada, que se dirigiu a Mike:

            - Está lá fora uma negra com um miúdo que só quer ser atendida por si.

            - Vamos lá, dr. Gaither. Sempre tenho alguém que gosta de mim.

            - Não se lamente. Toda a gente, neste hospital gosta de si, dr. Rabum e está farto de saber isso!

            No cubículo aonde o dr. Nolan Gaither levou Mike, uma mulher negra, alta e bela segurava a mão de um garoto dos seus seis anos, que jazia estendido na mesa. A criança parecia estar inconsciente, mas, de vez em quando, gritava, comprimindo o abdómen.

            - Rachel Gates! - cumprimentou Mike Rabum, com afecto. - Que se passa?

            - Graças a Deus que está cá, dr. Rabum - adiantou a mãe. - Joe disse-me que quando não pudesse encontrar o pediatra, viesse ter consigo.

       - Esta senhora é a mulher de Big Joe Gates, o famoso basquetebolista. O pequeno chama-se Joey. Somos velhos amigos - explicou Mike ao interno. - O dr. Nolan Gaither, Mrs. Rachel Gates.

            - Desculpe, dr. Gaither, a minha indelicadeza, mas estava tão aflita...

            - Ora essa, Mrs. Gates. Se soubesse que o seu marido era o avançado dos Snappers, ter-lhe-ia dado as chaves do hospital!

            - Que aconteceu, Rachel? - perguntou Mike, tomando o pulso da criança.

            - Joey foi para o campo esta manhã, numa actividade organizada pela nossa igreja. O autocarro veio buscá-lo às oito horas. Uma hora mais tarde, a enfermeira da escola telefonou-me a dizer que ele se queixava de dores nas pernas e no estômago. Quando lá cheguei já estava quase inconsciente...

            - E ontem? Esteve bem?

            A mão do médico movia-se com delicadeza sobre o abdómen do menino; deteve-se sob as costelas do lado esquerdo.

            - Joey jogou à bola com outras crianças, depois de vir do campo. Fomos levar Big Joe ao aeroporto, mais tarde; Joe foi a San Francisco participar na negociação do novo contrato para os jogadores profissionais. Quando regressámos a casa, Joey quis comer um sorvete. É perdido pelos sorvetes de peppermint de Hoyard Johnson.

            - Também eu... e mais uns milhões de pessoas.

            Pegando na mão do dr. Nolan Gaither, Mike pousou-a no lado superior esquerdo do abdómen do menino. O súbito alarme nos olhos de Gaither mostraram-lhe que o interno havia detectado a dilatação do baço por baixo das costelas.

            - Veja-lhe, também, as unhas - acrescentou Mike, antes de falar de novo com a mãe da criança. - Pode dizer-me mais alguma coisa, Rachel? - perguntou, pegando num oftalmoscópio, pendurado na parede.

            - Não sei mais nada. Garantem-me que não caiu, que não sofreu qualquer acidente...

            Abrindo os olhos do pequeno, o médico apontou a luz à pupila. Esta contraiu-se imediatamente, como era normal, e Mike Rabum deixou que a pálpebra se fechasse outra vez.

            - Examine-lhe os olhos... - pediu ao interno.

       O dr. Gaither transferiu a sua atenção do abdómen onde, com um lápis de cera, delimitava o baço, para a conjuntiva - a parte branca do olho.

            - Vi outro dia, numa revista, um artigo sobre a obliteração dos capilares na conjuntiva - disse Mike.

            - Também eu, mas...

            - Mandou fazer alguma análise ao sangue?

            - Mandei. Deve estar quase pronta.

            - Mrs. Connor - pediu Mike à enfermeira - quer tomar conta do doente enquanto o dr. Gaither e eu vamos ao laboratório?

            - Com certeza, doutor.

            No laboratório do banco, que servia o banco, a sala de observações e as várias divisões da UCI, uma analista acabava de preparar o sangue para análise. Pegando na lamela, Mike Rabum colocou-a no microscópio e analisou a amostra.

            Já sabia o que esperar do facto de Joey Gates ser negro e da obliteração dos capilares na conjuntiva e o exame confirmou os seus receios. Á luz brilhante que iluminava a lamela vista através das lentes do microscópio, os glóbulos vermelhos que, normalmente, são em forma de bolacha, apresentavam várias configurações. Na maioria, assemelhavam-se a uma cimitarra árabe.

            - Veja... - indicou Mike a Nolan Gaither.

            O interno ajustou o microscópio aos seus olhos e exclamou:

            - Meu Deus! Células em forma de foice...

            - O miúdo está com uma crise - esclareceu Mike, pegando no telefone. - É grave... Chame o dr. Henderson imediatamente! - ordenou à telefonista.

            Menos de um minuto depois de a telefonista ter chamado o pediatra, a voz de Gus Henderson soou aos ouvidos de Mike Rabun.

            - Que há?

            - O filho de Big Joe Gates está no banco com uma crise de anemia. Já tem as unhas roxas... Degenerescência celular.

            - Vou já para lá - respondeu o pediatra, desligando.

           - Avise a UCI de pediatria que dentro de momentos lhe levamos um doente - disse Mike ao interno. - Falarei com Rachel...

       - A crise é muito grave, não é? - perguntou Gaither.

            - Os capilares dos pulmões do miúdo estão tão cheios de glóbulos vermelhos anormais que não consegue obter o oxigénio de que precisa para o funcionamento integral do cérebro. Por enquanto, está apenas em semicoma, mas, a todo o momento, O oxigénio pode descer abaixo do nível crítico e, nesse caso, as células cerebrais, as cardíacas, as renais e as de outros órgãos serão afectadas irreversivelmente. Se não conseguirmos controlar este processo dentro de uma hora, ou morre ou vegetará para o resto da vida.

      

       Richard Payson só ocasionalmente conseguia manter a cabeça quieta e fixar os olhos o tempo bastante para ver as horas no relógio colocado sobre o posto de controle das enfermeiras, na UCI onde ocupava um cubículo envidraçado havia quase um mês. O tempo, para Richard, só tinha agora um significado: os cinco minutos antes das sete da manhã em que Carolyn, sua filha, conversava com ele antes de entrar ao serviço, no turno da manhã, como enfermeira-chefe, e, da parte da tarde, a hora que lhe dedicava antes de sair do hospital. Os momentos de lucidez eram cada vez mais raros em Richard; e, nesses instantes, a tortura que lia no rosto da sua encantadora filha mais a sua própria agonia era cada vez mais angustiantes.

            Richard Payson tinha-se apercebido de que algo no seu organismo funcionava mal, um ano antes, quando pequenas coisas sem importância, como súbitas explosões de cólera, das quais, de imediato, se envergonhava, começaram a persegui-lo como espectros do passado. A princípio, não compreendeu o que acontecia, e só quando o banco começou a criar-lhe dificuldades no pagamento de cheques por causa da sua assinatura quase irreconhecível, teve que admitir que os estranhos movimentos dos seus dedos, em particular se estava a braços com um problema que lhe exigia concentração, eram mais do que o simples resultado do crescente nervosismo, que tantas vezes o assaltava.

            A primeira vez que suspeitou, de facto, da grave natureza das alterações que se produziam no seu corpo, foi quando, ao correr para tomar um avião, caiu na pista, sem motivo aparente. Sentiu, nessa altura, um verdadeiro pânico. No regresso a Atlanta, consultou o dr. Peter Gross, chefe do serviço de neurologia do Biscayne Hospital e professor de medicina na faculdade. O dr. Gross era um velho amigo e identificou uma rápida deterioração de quase todas as funções, acompanhada da perda de relacionação com a realidade, por vezes, como um sinistro presente de um antepassado esquecido, o gene de uma maligna herança transmitida de pessoa a pessoa.

       - Doença de Huntington? - perguntou Richard Payson ao ouvir o diagnóstico do dr. Gross. - Que é isso?

            - Uma deterioração progressiva do tecido nervoso no cérebro que foi primeiramente identificada pelo dr. George Huntington, em 1872, como uma estranha forma de coreia. Já viu alguém com coreia’?

            - Tive um tio que era a diversão da cidade... Todos se riam dele, porque estava sempre a tremer... salvo quando se embebedava e adormecia. Nessas alturas, apenas se contraía de vez em quando.

            - Que idade tinha?

            - Quarenta, quarenta e cinco...

            - Deve ter herdado a doença de Huntington, como você.

            - Mas na minha família, nunca ninguém tinha tido nada disso...

            - A doença de Huntington - HD, como lhe chamamos - surge tarde. Que idade tinha seu pai quando morreu?

            - Pouco mais de trinta e cinco. Foi atropelado por um automóvel... Quer dizer que...? - Richard ficou atónito.

            - A doença raramente aparece antes dos trinta e cinco ou quarenta anos.

            - Portanto, o pai podia tê-la tido... se tivesse vivido mais tempo?

            - É muito provável... Os genes conseguem, às vezes, poupar gerações, mas sempre que um membro da família é plenamente atingido pela doença, um ou mais dos seus filhos tê-la-ão...

            - Sim? Quais as probabilidades disso se verificar?

            - Meio por meio na melhor das hipóteses...

            - Meu Deus! O que eu fiz à minha filha!...

            - Não fez nada à sua filha. Como havia você de adivinhar...

       - E se eu soubesse? Que podia ter feito?

            - Não ter filhos evita que a doença seja transmitida, claro. O problema é que as pessoas que sofrem da doença não têm maneira de saber, enquanto Jovens, se vão ou não contrair a enfermidade. Regra geral, só depois dos filhos nascerem é que os sintomas começam a aparecer... Nessa altura, já não há remédio...

            - Carolyn estará ao corrente dessa... dessa doença de Huntington?

            - É natural que a tenha estudado em Gainesville. Desde 1967 que é muito mencionada... Foi quando Woody Guthrie lhe sucumbiu...

            - Guthrie sabia que a tinha? Quanto tempo antes...

            - Os primeiros sintomas surgiram-lhe treze anos antes da morte...

            - Quer dizer que vou ser um peso para Carolyn durante tanto tempo? - perguntou Richard Payson horrorizado.

            - Não posso fazer um prognóstico desses, mas...

            - Quero a verdade, por favor!

            - Considerando a rapidez com que os seus sintomas se desenvolvem...

            - Não deverei durar muito, quer dizer?

            - É possível..,

            - Portanto, não há esperança...?

            - Os tranquilizantes ajudam, às vezes. Também se têm experimentado muitas outras drogas...

            - Mas não há nenhuma que de facto resulte, pois não?

            - Que saibamos, não...

           - É incrível que um único cromossoma possa determinar o que nos vai acontecer aos trinta e cinco, aos quarenta, aos cinquenta anos... e condenar os nossos filhos à mesma sorte!

            - Nem todos! Na produção de espermatozóides e de óvulos, os cromossomas dividem-se. Por isso há cinquenta por cento de probabilidades...

            - Não sei praticamente nada sobre a hereditariedade. Se me quisesse explicar isso desde o princípio...

            - Cada célula é composta por um núcleo chamado cromatina, substância escura, e por uma zona que o rodeia, chamada fitoplasma, de cor bastante clara que ao microscópio Permite ver bem o núcleo, por contraste - explicou o dr. Gross. - Examinando a célula ao microscópio e bastante ampliada, vê-se que o núcleo contém uma espécie de meada de cromatina, com pontos negros ao longo dos fios que a constituem. Os pontos negros são os genes que encerram todas as características da hereditariedade humana. Uma célula normal - excepto as da reprodução - tem quarenta e seis cromossomas divididos em dois grupos de vinte e três, mais uma quantidade inumerável de genes. Nos filhos, um grupo provém do óvulo da mãe e outro do espermatozóide do pai.

            - Quer dizer que todas as células do corpo de uma pessoa contêm genes da mãe e do pai?

            - Salvo as células da reprodução.

            - Então, como pode alguém fugir a herdar todas as características dos pais?

            - É que a primeira célula - formada pela fusão do espermatozóide e do óvulo - só pode ter quarenta e seis cromossomas. Isto significa que antes das duas células se unirem no momento em que o óvulo é fertilizado, metade dos cromossomas de cada uma delas é posta de parte, sob a forma do que se denomina corpos polares, a fim de evitar que o novo ser tenha noventa e dois em vez de quarenta e seis cromossomas.

            - Reduzindo as probabilidades de herdar a HD a cinquenta por cento?

            - Exactamente... a não ser que tanto o pai como a mãe tenham contraído a doença. Nesse caso, a transmissão da enfermidade ao filho é inelutável...

            - Meu Deus! Que tragédia!

            - A história regista algumas... Através da rainha Vitória, membros de famílias reais de toda a Europa sofreram de hemofilia - incapacidade de coagulação do sangue. É transmitida através da mulher, mas só afecta os homens.

            - Que devo fazer então?

            - Ponha as suas coisas em ordem... e espere...

            - Pela morte?

            - Pode ser que descubramos uma maneira de tratar a doença... Há muitos investigadores que dedicam à doença todo o seu esforço...

            - É como ter câncro e esperar que alguém descubra um remédio antes que a morte chegue... Que razão tão fútil para viver!

       - Era o que nós pensávamos acerca das pessoas propensas a ataques de violência... Mas, há uns anos, descobrimos que muitos desses ataques são causados por epilepsia limitada ao lóbulo temporal do cérebro. Pouco adiantamos com isso, mas logo que alguns cirurgiões se atreveram a remover a parte do lóbulo temporal afectada... E passou a utilizar-se também um tratamento, este muito mais simples, que consiste em espetar uma agulha na área através de um pequeno orifício aberto no crânio para destruir essa parte do cérebro, quer a frio quer por coagulação eléctrica. Há, agora, muitas pessoas nessas condições capazes de viverem uma vida plena!

            - Por quanto tempo poderei esconder a verdade à minha filha?

            - Não faça isso, Richard... Carolyn é uma rapariga inteligente, uma das melhores enfermeiras que aqui temos.

       Por outro lado, está noiva, creio, de um jovem pediatra muito prometedor, chamado Gus Henderson.

            - Eu conheço-o..

            - Não sei que planos têm, mas nenhum deles deve querer correr riscos de pôr no mundo uma criança com um gene de HD...

       - Enfrentaremos a situação quando lá chegarmos - declarou Richard com firmeza. Vou regressar a Atlanta... e esperar. Não lhe diga nada...

            - Como quiser, Richard. Somos amigos há muito... Quero ajudá-lo... mesmo estando convencido de que comete um erro.

            - Para mim há sempre uma saída...

            - Como médico, não posso aceitar o suicídio, embora haja pessoas com HD que o praticam...

            - Mesmo quando constitui a resposta mais Simples?

            O dr. Gross encolheu os ombros, mas não retorquiu. No fim de contas, Richard Payson não tinha tido a coragem de pôr fim à vida, embora se amaldiçoasse muitas vezes, mais tarde, por causa disso - agora que já não estava em condições físicas de o fazer.

   

       Foi breve o exame que Gus Henderson fez a Joey Gates. Os glóbulos vermelhos, com as suas formas bizarras que não deixavam dúvidas quanto à doença mais a rapidez com que o sangue do pequeno escurecia indicando falta de oxigénio, tornavam imperioso um tratamento rápido.

            - O seu filho está muito doente, Mrs. Gates - disse o pediatra à mãe da criança. - Sofre de uma grave crise de anemia provocada por uma degenerescência celular e precisa de ser tratado imediatamente.

            - Não há nenhuma droga nova, dr., que...

            - Nesses casos, costumamos ministrar ureia em injecções intravenosas, de que já deve ter ouvido falar, mesmo não estando já certos quanto à eficácia do tratamento, como a princípio... E utilizamos, também, cianato de potássio, que parece ser mais prometedor... As células estão a formar coágulos que obstruem os vasos capilares dos pulmões e de outros órgãos do menino, impedindo que o oxigénio chegue ao cérebro na quantidade necessária. É por isso que ele está inconsciente..,

            - E não lhe pode dar oxigénio?

            - Com certeza! É o que vamos fazer, logo que seja transferido para a UCI, e...

            - O quê. - interveio Mike Rabun de repente. - Há outra hipótese... A câmara hiperbárica...

            - Nunca foi experimentada - respondeu o pediatra, hesitante. - E precisamos de começar imediatamente a ministrar-lhe ureia e cianato...

            - Isso não impede que ele vá para a câmara...

            - De que estão a falar, Mike? - perguntou Rachel Gates.

            - Temos aqui um grande tanque, chamado câmara hiperbárica - explicou o cirurgião. - Dentro dele, os doentes com falta de oxigénio respiram o gás sob pressão e por isso aproveitam-no em maior quantidade...

            - Se os glóbulos vermelhos puderem circular pelos vasos capilares - acrescentou Gus Henderson.

            - Claro que não podemos melhorar a circulação enquanto as drogas não fizerem os seus efeitos... - respondeu Mike, um tanto impaciente. - Mas, mesmo assim, podemos duplicar ou mesmo triplicar a quantidade de oxigénio transportada pelas células que efectivamente circulem. Acho que vale a pena tentar...

            - Está bem - acedeu o pediatra. - A situação do miúdo justifica medidas desesperadas...

       - Irei para a câmara com ele - disse Mike a Rachel.

       - Tenho bastante experiência do processo, pois tenho estado a investigar no campo da geriatria. Estudo o efeito da falta de oxigénio na deterioração celular que tantas vezes acompanha a velhice

            - Big Joe e eu ficamos-lhe muito gratos, Mike... Joey gosta muito de si.. Se despertar na câmara e o vir, não se assustará...

            - Vou preparar tudo... - tornou Mike, aproximando-se de um telefone de parede.

            Não acrescentou, porém, que se as medidas desesperadas que iam tomar para salvar a vida de Joey não invertessem o processo, o pequeno não chegaria a assustar-se, POIS nunca mais recobraria a consciência...

      

            A câmara hiperbárica estava colocada ao fundo de um longo corredor, no rés-do-chão do hospital, onde havia também uma porta que dava acesso às UCI. Quando Mike passava por essa porta, Helga saiu e quase chocou com ele.

            - Hoje é o meu dia de sorte! - observou o médico.

       - Está bem?

            - Estou. Lá porque as minhas supra-renais ultrapassaram as marcas, não quer dizer que o meu sistema endócrino esteja permanentemente avariado!

            - Deus nos livre! - exclamou Mike, enquanto Helga ria.

            - Hoje aprendi, pelo menos, uma coisa... O supereficiente dr. Rabum é humano... Onde vai com tanta pressa?

            - Vou colocar um paciente na câmara hiperbárica, dentro de minutos.

            - Vai ser muita a pressão?

       - O máximo possível. Porquê?

            - Começo a preocupar-me...

            - Comigo?

            - Claro que não! Você é indestrutível - disse Helga trocista. - Vou é avisar as mulheres... Se o oxigénio que você respirar sob pressão tiver o mesmo efeito que têm em alguns desses velhotes submetidos ao mesmo tratamento, a virtude feminina, nos próximos três ou quatro dias, terá que se acautelar...

   

       Ao lado do pai, após ter sido substituida por Helga Sundberg, um pouco antes das três, Carolyn Payson tentava não chorar e não o conseguia. Mesmo uma pessoa que vive no meio de uma constante batalha contra a morte, como era o seu caso, dificilmente podia deixar de se comover perante a imagem do seu próprio pai, tremendo constantemente, sem esperança, vítima da doença de Huntington.

            Carolyn soubera do que se passava com o pai um mês antes, quando, preocupada por nada saber dele havia já algum tempo, tinha perguntado a um amigo de Atlanta para se informar; descobrira, então, que o pai fora internado numa casa de saúde, por sua própria vontade. Carolyn tinha corrido imediatamente a Atlanta e trazido Richard Payson para o Biscayne Hospital, instalando-o na UCI, onde o podia vigiar de perto.

            A pedido de Carolyn, o dr. Gross revelou-lhe os pormenores do seu primeiro exame e o rápido progresso da doença. Nem os músculos do glóbulo ocular de Richard Payson escapavam já às tremuras, e os seus olhos em permanente contracção quando estava acordado, sofriam igualmente os efeitos da força maligna que destruia um homem forte, de quarenta e cinco anos - um homem forte que a lançava ao ar e a apanhava, ao cair, nuns braços capazes de serem tão ternos como os da mãe que morrera antes de a dar à luz.

            Por vezes, Carolyn pensava que o pai ainda a reconhecia. Cada vez menos, porém, à medida que a destruição do homem pelos seus próprios genes seguia o seu caminho com inexorável determinação. Carolyn convencera-se, nos últimos dias, de que ele deixara já de a reconhecer. Richard também quase já não falava e, mesmo, quando o fazia, as palavras eram ininteligíveis e sem sentido, na maior parte dos casos.

            - Deixem-me morrer! Deixem-me morrer!

            Estas três palavras - a desesperada necessidade que indicavam vencia a força poderosa que o destruia - repetia-as ele como uma oração angustiada. Carolyn, ao lado da cama do pai, pegando-lhe numa das mãos trémulas, escutava-as de novo. Palavras extraordinariamente claras, em comparação com a torrente confusa que lhe brotava dos lábios, salvo quando se encontrava sob efeito de um sedativo forte. Escutando-as de novo, Carolyn sentiu o coração contorcer-se-lhe de dor e desespero, ao verificar a sua impotência.

            - Mandei dar-lhe um sedativo - disse a voz familiar do dr. Peter Gross.

            Encarando o neurologista, com a sua pêra e os olhos meigos, cheios de compaixão, Carolyn não pode reter mais as lágrimas e escondeu a cara na bata do médico.

            - Chore à vontade, minha filha... Ele já não reconhece ninguém...

            - Mas fala...

            - Só porque o seu desejo de morrer é mais poderoso do que tudo, excepto a força da vida...

            - Já estou bem... - Carolyn limpou os olhos com o lenço que o dr. Gross lhe estendeu. - Aconteceu tudo tão depressa...

            - Não tão depressa quanto seu pai desejava, a partir do momento em que soube a verdade. A doença de Huntington não é fácil de encarar...

            - Então para que sofrer mais... se ele quer morrer?

            - Muitas pessoas doentes dizem querer morrer, Carolyn... Você, como enfermeira, sabe-o bem...

            - Não pensa, com certeza, que ele queira viver agora?

            - Não sei se ele sabe realmente o que quer...

            - Deixem-me morrer! Deixem-me morrer!

            Era uma prece a voz vinda da cama - a Deus e àqueles cujas mãos podiam libertar um homem da tortura; um grito de protesto, também, contra a crucificação do espírito a que era submetido.

            - Ouça isto! - exclamou Carolyn, agarrando-se à lapela da bata do dr. Gross. - Ouça isto e diga-me se ele não sabe o que quer!

            - Jurei preservar a vida, Carolyn... e você também. Nenhum de nós tem o direito...

            - Ele era tão forte... Não pode imaginar quanto custa vê-lo assim...

            - Aliviá-lo-emos tanto quanto pudermos... Você é que me preocupa...

            - Sei o que me espera... Tem-se escrito muito sobre a doença de Huntington, ultimamente, e está quase tudo na biblioteca. Já li a obra toda, desde que trouxe o pai para cá...

            - Compreende, então, que papel vai ter a HD no seu futuro?

            - A HD controla o meu futuro, dr. Pete. Começou mesmo, a controlá-lo antes de eu nascer.

   

       Havia muitos anos que se utilizavam tanques para elevar a pressão do ar respirado. A câmara hiperbárica - ou seja, de alta pressão - do Biscayne Hospital, era apenas uma versão sofisticada dos primitivos tanques criados a partir do estudo das complicações surgidas aos mergulhadores.

            Consistindo num tanque duplo, com conexão de ar, permitia aos pacientes passar de uma câmara a outra e constituía um dos mais dispendiosos aparelhos do hospital. Só um subsídio do governo, através da armada, permitira a sua construção aos responsáveis pelo gigantesco complexo de Biscayne Bay.

            Ocupando um edifício isolado, por detrás da torre que também albergava o Laboratório de Pesquisa Cardiológica, a câmara hiperbárica tinha paredes de metal espesso, com grossas vigias de vidro. Através destas, os técnicos manejavam os controles do exterior, elevando ou baixando a pressão; podiam, também, observar o que acontecia e tomar imediatamente medidas para, libertando a pressão, poderem entrar na câmara, em caso de emergência.

            O manejo do aparelho estava entregue a uma equipa especial mente treinada, constituída por antigos mergulhadores da marinha. Dois estavam sempre de serviço quando a câmara funcionava. Um controlava a bomba que comprimia o ar no interior e as válvulas pelas quais a pressão era libertada; o outro vigiava o decorrer do processo, através da vigia principal.

            Joey Gates, inconsciente, foi trazido para o Laboratório Hiperbárico numa maca curiosíssima que era, em si própria, uma Unidade de Cuidados Intensivos portátil, concebida para doentes sofrendo de graves afecções cardíacas. Assim, Joey continuou a receber oxigênio no percurso entre a Unidade de Cuidados Intensivos de Pediatria

       - UCIP - e o Laboratório Hiperbárico.

            Logo que o pequeno e Mike Rabum se instalaram na câmara, as portas de metal foram fechadas. O ar começou imediatamente a penetrar no tanque, elevando a pressão com regularidade. Como, porém, o ar é apenas constituído por um quinto de oxigénio e era importantíssimo elevar a concentração do gás nas células cerebrais da criança o mais rapidamente possível, Mike retirou a máscara ligada ao tanque de oxigénio da maca e substituiu-a por um saco e por uma máscara de pressão ligada à fonte de abastecimento de oxigénio do hospital. Assim, à medida que a pressão subia na câmara hiperbárica, também o fluxo de oxigénio que penetrava nos pulmões de Joey Gates era maior, aumentando, portanto, a concentração do gás nos tecidos.

            - Qual é o limite de pressão, dr. Rabum?

            O técnico, cuja voz se ouvia através de um altifalante no tecto da câmara, soava invulgarmente alto, devido à limitação do espaço. Para responder, Mike precisava apenas de pegar num telefone colocado na parede da câmara, ao lado do banco onde se sentava.

           - A princípio, duas atmosferas - ordenou. - Mesmo que respirasse oxigénio puro não seria demais...

            Mike compreendia a observação do técnico: o maior perigo que se corria na utilização de uma câmara hiperbárica era o envenenamento por oxigénio, visto uma dose excessiva de gás poder provocar convulsões tão fatais como a falta do mesmo oxigénio.

            - Uma atmosfera - anunciou o técnico momentos mais tarde.

            - Está bem - respondeu Mike. - Pode continuar a subir...

            Gus Henderson tinha aplicado diversos aparelhos de medida no corpo de Joey e introduzido, também, um fino cateter de nylon numa veia de um braço, que passava através de outros vasos sanguíneos de maior diâmetro, no braço e no peito, detendo-se junto do lado esquerdo do coração.

       A inserção do cateter quase até ao coração destinava-se a evitar que os pequenos vasos sanguíneos que a ele conduziam fossem irritados pela solução de ureia e cianato. Vertendo lentamente do cateter intravenoso na corrente sanguínea que era recebida pela aurícula superior, era menos provável que a solução de ureia e cianato danificasse as delicadas paredes do sistema venoso.

            O monitor ligado à maca especial onde Joey estava estendido ia registando o comportamento do coração num pequeno ecran e, ao mesmo tempo, o electrocardiograma era transmitido por telemetria a um receptor colocado no exterior da câmara onde outros especialistas o estudavam. Enquanto a pressão ia subindo, conforme demonstrava o manómetro no painel de instrumentos, junto da porta, Mike aumentou o débito da solução intravenosa. Outro cateter, de maior diâmetro colocado na bexiga, despejava um fluxo regular, indicando que a função renal de Joey - factor crucial na recuperação - se comportava satisfatoriamente.

       - Duas atmosferas, dr. Rabum - anunciou o técnico.

       - Fica assim... Vamos ver se os glóbulos vermelhos conseguem carregar-se de oxigénio - respondeu Mike. - É difícil de calcular o grau de cianose, por causa da cor da pele, mas creio que não está a piorar...

            A cara de Gus Henderson apareceu, então, na porta envidraçada.

       - Tudo bem, Mike? - perguntou Gus.

       - Parece que sim, mas o miúdo continua inconsciente.

            - O electrocardiograma é perfeito. Tenciona elevar mais a pressão?

            - Estamos com duas atmosferas; não creio, porém, que seja suficiente...

            - Qual é o limite de segurança?

            - Pouco mais de quatro. Uma convulsão provocada por excesso de oxigénio até nos diria se estamos a saturar o cérebro - precisamente o que queríamos saber - e era sempre possível controlá-la deixando o miúdo respirar naturalmente... Mas, prefiro não arriscar...

       - Acabo de falar com Big Joe Gates - disse Gus.

            Ficou muito tranquilo por saber que o filho está nas suas mãos e disse que vinha, logo que pudesse arranjar avião.

            - Vamos para as três atmosferas, agora - ordenou Mike. - Pode ficar por aqui uns minutos, Gus?

       - Com certeza.

            A expressão do pediatra modificou-se, porém, subitamente, ao responder:

            - Já não posso, Mike. O banco está a fazer uma chamada de emergência.

   

       Interrompida pela chegada de Joey Gates, Mrs. Faye Connor acabava mais tarde de ler o seu relatório do banco, referente ao turno da manhã, para o enviar depois aos Serviços de Supervisão de Enfermagem, quando chegou uma ambulância. Segundos mais tarde, uma maca dos bombeiros de Miami era transportada através das portas duplas do banco.

       - Não era preciso entrar com essa violência, Callahan - protestou a enfermeira, com severidade, ao bombeiro que vinha à frente,

            - Temos aqui uma OD quase a morrer, Mrs. Connor. - E um DOA, também, ao que parece... Ou talvez não... Acho que ainda se ouve o coração fetal...

            As estranhas abreviaturas contavam uma história; uma das que a veterana enfermeira muitas vezes tinha visto nos anos que levava de serviço como chefe da enfermagem do banco. OD significava “dose excessiva”, regra geral de heroína, diagnóstico demasiado frequente na época que ficará conhecida como a Idade da Droga, e DOA era a abreviatura universal de “morto à chegada”. Mas ao ouvir-se o coração do feto no ventre da mãe é que constitui o verdadeiro desafio.

            - Por aqui!

            Mrs. Connor dirigiu-se para um cubículo de contraplacado diferente dos outros doze do banco. Equipado com a mesma bateria de dispositivos altamente sofisticados, o pequeno quarto tinha sido construído dois anos antes, com o objectivo de permitir imediata avaliação de casos que pudessem vir a ser dadores de coração, para as transplantações do dr. Kenneth Dalton.

            A enfermeira pegou no terminal do fonocardioscópio, versão ultramoderna do estetoscópio logo que a maca entrou no cubículo e encostou o diafragma ao ventre dilatado da mulher, ligando o aparelho.

       Logo um débil som ritmado se ouviu pelo altifalante o bater inconfundível de um coração de bebé, no útero de sua mãe já morta.

            - Segure aqui, Callahan! Se agirmos depressa, podemos salvar a criança.

            Faye Connor passou o fonocardioscópio ao bombeiro, enquanto o seu cérebro trabalhava como o computador que constituía o coração do complicado sistema electrónico do hospital, considerando as alternativas ao seu alcance e recusando-as uma a uma.

            Mike Rabum estava na câmara hiperbárica, com o pequeno Gates; o dr. Kenneth Dalton encontrava-se no banco, mas levaria minutos a localizá-lo, minutos que, para o bebé, poderiam significar a morte, visto o seu pequeno coração não ter possibilidade de continuar a bater por muito mais tempo, sujeito como estava, ao peso do corpo da mãe; o dr. Nolan Gaither, o interno de serviço, engessava uma fractura perto dali, mas, na circunstância, longe demais. Além disso, a enfermeira não podia saber com que rapidez os reflexos do jovem médico, ainda não completamente treinados, comandariam a acção destinada a salvar a vida do bebé.

            Restava-lhe uma única saída, o único meio seguro de obter auxílio especializado rapidamente: a mais urgente chamada que podia ser feita num hospital. Através dela, compareceria uma equipa de ressuscitação cardiopulmonar - RCP - apta a pôr em funcionamento um coração parado e a enfrentar quaisquer outras emergências.

            Apenas uma fracção de segundo decorreu entre a análise e a acção de Mrs. Connor. Mrs. Connor carregou num botão vermelho e logo um gravador começou a difundir por todos os altifalantes do hospital, com prioridade absoluta sobre qualquer outra mensagem, um grito que raramente se ouvia: “CÓDIGO CINCO BANCO! CÓDIGO CINCO BANCO!”

            Como belas adormecidas depois do beijo do príncipe, todos recomeçaram a movimentar- se após o breve instante de interrupção justificado pelo raro apelo. Cada um Seguiu para o seu posto, conhecedor das suas funções e sem necessidade de ser instruído antes de agir.

      

       Momentos antes de soar o alarme, Rebecca Dalton descera ao rés-do-chão, vinda do Departamento Médico. Ao sair do elevador, admirou-se por Ken surgir de outro. Para não se encontrar com ele, encaminhou-se para o laboratório de Pesquisa Cardiológica, nas traseiras do edifício. No mesmo instante, contudo, Ken encaminhou-se para o vestíbulo e, assim, colidiu com Rebecca, sendo mesmo obrigado a segurá-la, para evitar que caísse. Olhando-se cara a cara Ken rodeando Rebecca pela cintura pareciam duas pessoas congeladas até Ken a libertar e quebrar a tensão do encontro súbito.

            - Ouvi a telefonista chamar-te ao laboratório, há minutos, Reb... Aconteceu alguma coisa?

            Reb era o nome familiar que Ken lhe tinha dado antes de casarem. Ouvindo-o, agora, pela primeira vez desde a separação, seis meses atrás, Rebecca Voltou a cabeça para que Ken não lhe visse as lágrimas nos olhos. Percebendo o que se passava, Ken estendeu a mão para a acariciar, mas não chegou a fazê-lo.

       - Desculpa... - disse baixinho. - Desculpa por tudo... Parabéns pela sentença - respondeu Rebecca que, ao ver a expressão de Ken, subitamente endurecida, se arrependeu de ter mencionado o assunto responsável pela separação.

            - Pelo menos, ilibou o hospital... Nada mudará, todavia, enquanto...

            Ken não teve tempo de acabar o que ia a dizer-lhe, pois foi interrompido pelo alarme. Ao ouvirem-no, tanto Rebecca como Ken se encaminharam instintivamente para a porta do banco que ficava perto, parecendo terem esquecido, num instante, OS seus próprios problemas.

            Ao vê-los, Mrs. Connor, que ligava aparelhos de medida ao peito da mulher, uma operação de rotina, anunciou:

       - Tudo preparado para a operação. Os bombeiros acabam de a trazer; está grávida. Chegou morta. Mas ainda se pode ouvir o coração do bebé através do fonocardioscópio.

            A questão do que se podia fazer em tal emergência tinha sido resolvida pelo imperador Numa Pompilius, de Roma, mais de setecentos anos antes do nascimento de Cristo, por um processo que ficara conhecido por Lex Caesaris - decreto que proibia a sepultação de uma mulher grávida enquanto a criança não fosse removida do seu útero, se possível antes que o coração deixasse de bater.

            A rapariga estendida na maca, à luz impúdica e forte que provinha do tecto, contava uma história trágica: traços que haviam sido belos e que já eram só patéticos; o cabelo louro, o enorme ventre... e, mais esclarecedor do que tudo, as marcas de picadas nas veias, tanto nos braços como nas pernas - prova de que a jovem mãe se drogava, provavelmente com heroína.

            Mrs. Conner ligou os terminais que acabava de aplicar, conforme a rotina estabelecida por Ken e Rebecca Dalton para o cubículo especial, e obteve, assim, um electrocardiograma no monitor: uma linha sem a menor oscilação, indicativa de total paragem cardíaca.

            - O coração não bate.

            Mrs. Connor ligou, em seguida, ao crânio da rapariga os terminais electroencefalográficos destinados a registar ondas eléctricas, próprias da actividade cerebral.

            O processo fazia parte da rotina a que se submetiam todos os pacientes chegados ao hospital in-extremis, como meio de determinar danos no cérebro - último reduto da vida - mesmo quando o coração tenha já deixado de bater. Na fase agitada em que Ken Dalton procedera a quinze transplantações cardíacas num só ano, esta rotina que Mrs. Connor desenvolvia permitira a descoberta de diversos dadores logo após a morte legal, cujos corações possibilitavam a dramática acção de Ken Dalton. Nos últimos seis meses, porém, tinha perdido todo o seu interesse nesse aspecto.

       Dispondo apenas de segundos para salvar a vida da criança através de uma cesariana, duas coisas eram necessárias: determinar, com a maior certeza possível, sem electroencefalograma - já que não havia tempo a perder - a morte, através da prova convencional da paragem do coração e de ausência de respiração; dispor de instrumentos para operar e de um cirurgião especializado.

           Felizmente que tudo se resolvia com a presença de um operador e de uma cardiologista no banco, e com o electrocardiograma revelador de paragem cardíaca. Ken Dalton calçou um par de luvas de borracha, enquanto examinava rapidamente os ferros, que uma enfermeira expusera sobre uma mesa ao lado da maca. Rebecca colocava o fonocardioscópio no peito da mulher, sobre o coração.

            - Não bate - anunciou. - Está clinicamente morta.

            - É preciso chamar Gus Henderson e trazer um berço especial - lembrou Ken, pegando no bisturi. - O bebé vai precisar de toda a ajuda que lhe pudermos prestar...

            Com a mão esquerda, esticou a pele do abdómen e, com a direita, traçou um golpe que partiu de um ponto bastante acima do umbigo e ia até aos pêlos escuros do púbis da mulher. Um segundo golpe penetrou a membrana peritoneal, permitindo a exposição do útero, já enegrecido, devido à falta de oxigénio.

            Rebecca correu ao telefone.

            - CÓDIGO CINCO. Dr. Henderson - disse à telefonista. - Cubículo três!

            Ao desligar, o apelo ecoava já no corredor. A voz calma e clara da telefonista dizia:

            - Código cinco, dr. Henderson! Cubículo três. Código cinco! Equipa pediátrica! Cubículo três!

            - Deve ter morrido há muito pouco tempo - observou Rebecca quando o bisturi de Ken penetrou na espessa parede do útero. - O sangue ainda não começou a coagular....

            Separando com o polegar e o indicador da mão esquerda os lados do golpe, Ken começou a dissecar com o maior cuidado, visto que um excesso de penetração podia ferir o corpo do bebé. Um súbito jorro de líquido amniótico do reservatório no qual a criança jazera enquanto passava da simples união de duas células à estrutura imensamente complicada de um ser autónomo humano, indicava que a cavidade uterina tinha sido atingida. Introduzindo a mão esquerda no interior do útero, Ken alargou a incisão em ambos os sentidos, o suficiente para permitir retirar o bebé, com o cordão umbilical ainda ligado à mãe através da placenta. Largando o bisturi da mão direita, o médico procurou um pézinho no interior da cavidade uterina.

            - O bebé está vivo! Sinto o seu coração bater contra a minha mão!

       - Graças a Deus! - exclamou Rebecca.

            Ken encontrou uma das pernas da criança e, com todo o cuidado, fê-lo passar pela abertura do útero. Continuando, localizou o outro pé e, a seguir, retirou totalmente a criança do ventre - túmulo da mãe.

            Segurando o bebé com a mão esquerda, bateu-lhe nas solas dos pés com a direita. Uma contracção espasmódica do peito produziu um débil grito, que indicava o início da respiração da criança. Pegando num forceps hemostático, Ken aplicou-o no cordão umbilical que tinha, havia ainda pouco, misturado a circulação da mãe e do filho, fornecendo a este o oxigénio e os alimentos necessários até o coração da mulher ter deixado de bater.

            Gus Henderson acabava de chegar e segurava nos braços estendidos um pequeno cobertor. Quando o cirurgião colocou o bebé em cima dele, Gus aproximou-se logo do berço especial que Helga Sundberg trouxera para o banco - procedimento de rotina, em casos destes.

            - Pelo menos, respira e o coração bate - observou Rebecca.

            - Não pesa mais de dois quilos e meio. É prematuro... - disse o pediatra. - A avaliar pelas veias da mãe, o bebé droga-se desde que foi gerado. Cortar os narcóticos a um viciado, já não tem graça nenhuma quando se é adulto; quando se pesa dois quilos e meio, deve ser o diabo!

            Preocupados em salvar o bebé, nenhum deles reparara que enquanto Ken Dalton operava, Mrs. Connor acabava de ligar os terminais electroencefalográficos ao crânio da mulher.

            - Dr. Dalton! Veja!

            Mrs. Connor tinha os olhos fixos no monitor do electroencefalograma onde era visível, sem a menor dúvida, um traçado familiar.

            - Ainda tem ondas cerebrais! - A voz de Rebecca não passava de um sussurro de incredulidade. - Quer dizer que ainda está viva!

   

       Na câmara hiperbárica, as coisas corriam bem para Joey Gates.

            - Três atmosferas, dr. Rabum - anunciou o técnico.

       - O pulso está a baixar, vejo no monitor...

            - Mantenha as três atmosferas, Matt. Parece-me que a cianose é menos acentuada...

            Mais uma vez Mike verificou os cateteres. Estavam ambos abertos. A seguir, substituiu o frasco de solução intravenosa, quase vazio, por outro de reserva e perguntou pelo telefone:

            - Faz ideia do motivo a que se deve o alarme?

           - Uma drogada, que chegou já morta ao banco, com um bebé na barriga. É o que ouço dizer... O dr. Kenneth Dalton está a fazer uma cesariana e deve ser por isso que o dr. Henderson foi chamado...

            - Quer dizer que a rotina é só para mim...

            - Ainda quer mais complicações? De cada vez que pego na minha Honda para ir para casa pela auto-estrada, rezo a todos os santos para não ser atirado ao chão e trazido para o banco num dia em que você não esteja de serviço.

            O braço de Joey Gates, aquele que tinha o cateter na veia, fez um súbito movimento e Mike declarou:

            - Parece que está a recobrar a consciência...

            O electrocardiograma diz-me o mesmo - respondeu o técnico, entusiasmado. Logo, porém, acrescentou, desiludido: - Já voltou ao mesmo...

            - Deve ter sido o cateter que tocou na parede da aurícula. Vou puxá-lo para fora antes que o miúdo recupere a consciência...

            Com o maior cuidado, Mike ajustou o tubo flexível, puxando cerca de uma polegada através do pequeno golpe feito na pele. Aproximando mais o banco da maca, Mike segurou o braço de Joey para que o menino, acidentalmente, não soltasse o tubo tão importante.

       Durante um quarto de hora, nada aconteceu, excepto uma baixa gradual do pulso e da respiração de Joey - sinais de que penetrava oxigénio em maior quantidade nas células do cérebro e de outros importantes tecidos, aliviando, assim, a pressão circulatória. Então, como se acordasse de um profundo sono, Joey abriu os olhos.

            Mike tirou-lhe a máscara de oxigénio por uns momentos e perguntou:

            - Como te sentes?

       - Bem.. creio. Onde estou, dr. Mike?

            - No hospital.

       - E a mamã?

            - Lá fora, à espera. Tive que te fazer um tratamento especial e, por isso, vieste para este quarto.

            - Parece um submarino!

       - É um tanque onde respiras ar sob pressão...

            - Como os mergulhadores ? - perguntou o garoto, entusiasmado.

            - Mais ou menos.

            - O papá vai-me deixar mergulhar, quando eu for maior. Vamos ao Penne...

            - Pennecamp Carol Reef State Park - concluiu Mike perante a dificuldade de Joey em pronunciar o resto das palavras. - Há lá muito peixe e belos corais. Bom! Agora vais pôr outra vez a máscara e respirar mais um pouco de oxigénio para ficares bom depressa! Está bem?

            O menino acenou afirmativamente e Mike voltou a colocar-lhe a máscara.

       - Respira fundo, Joey! Quanto mais, melhor!

            Durante meia hora, Joey respirou o oxigénio enquanto o seu pulso continuava a descer e a sua cor a melhorar. Mike retirou-lhe, então, a máscara e observou-o atentamente durante dez minutos. Não vendo sinais de sonolência e como o monitor não indicasse quaisquer alterações da função cardíaca, Mike fechou a válvula de oxigénio e pegou de novo no telefone.

            - Pode baixar a pressão, Matt. Parece que correu tudo bem.

   

       Como chefe anestesista do Biscayne Hospital, a dra. Valerie LeMoyne tinha a seu cargo todos os processos de ressuscitação no hospital. Não só elaborara os programas de treino e as normas de funcionamento que tornavam possível a presença de uma equipa de ressuscitação cardiopulmonar em qualquer secção do hospital, de um momento para o outro, como também chefiava a mais importante dessas equipas - a que estava de serviço ao banco e às UCI. A dra. LeMoyne tinha chegado ao banco um minuto depois do alarme, juntamente com o dr. Ed Vogel, cardiologista e seu substituto na equipa, que acabava de regressar ao hospital após breve ausência.

            Nos instantes que se seguiram ao dramático anúncio de Rebecca, segundo o qual a mulher não estava morta, pois o seu sistema nervoso ainda funcionava, todos os presentes se imobilizaram, em silêncio. Quando, porém, Ken Dalton ergueu a voz, todos recomeçaram a agir conforme lhes competia.

            - Está cá a dra. LeMoyne? - perguntou Ken Dalton.

            - Estou aqui, dr. - respondeu Val.

            - A ressuscitação é consigo. Faça favor!

            - Muito bem! Pelo traçado do electroencefalograma, parece-me mais conveniente estimular o coração através de massagem directa no diafragma e não eléctrica. Concorda comigo, Rebecca?

            - Absolutamente.

            - Eu abro... - disse Ken, pegando num bisturi.

            - Calce as luvas, dr. Vogel - ordenou Val. - Fará a massagem enquanto a dra. Rebecca Dalton procura uma veia para injectar uma solução intravenosa.

            Ed Vogel começou a calçar as luvas. O bisturi de Ken movia-se rapidamente no extremo superior da incisão, prolongando-a para cima, a fim de permitir ao cardiologista massajar o coração através da frouxa camada muscular do diafragma, separando a cavidade do peito do abdómen.

            Enquanto Ed introduzia a mão direita na parte superior da incisão, Ken começou a remover a placenta do útero. de onde pendia ainda o cordão umbilical, lançando a substância numa bacia vazia que Mrs. connor lhe estendia; em seguida, pegou num alicate com linha de sutura enfiada numa agulha curva.

            Ao mesmo tempo, Ed Vogel palpava já a base do coração através do diafragma. Envolvendo-a com os dedos, começou a massajar ritmadamente o órgão, numa tentativa de o incitar a contracções espontâneas, duplicando, assim, artificialmente os processos vitais pela acção de bombagem de sangue através do corpo, para conservar a vida.

       Valerie LeMoyne abrira a boca da mulher onde inserira um tubo plástico destinado a manter a língua recolhida e a permitir a passagem fácil do ar até aos pulmões. Quando colocou uma máscara sobre a cara da rapariga e ligou o oxigénio, o saco ligado ao aparelho começou a encher-se e a esvaziar-se a ritmo certo. Deste modo, com o sangue em circulação e o ar percorrendo os pulmões, os processos vitais eram accionados por via artificial em apoio da frágil prova de vida indicada pelo electroencefalograma.

            - Os pulmões contraem-se - informou Ed Vogel - mas o coração não...

            - E o bebé, dr. Henderson? - perguntou Val LeMoyne.

            - Está vivo - respondeu Gus do cubículo contíguo, onde, juntamente com Helga, colocava a criança na câmara especial de ressuscitação para recém-nascidos, que haviam transportado para o banco. - Mas não gosto da sua respiração...

            - Leve-o para a UCIRN e diga-nos, depois, se precisa de ajuda.

            UCIRN era a abreviatura de Unidade de Cuidados Intensivos para Recém-Nascidos.

            - Vamos sair agora - informou Gus.

            Rebecca, entretanto, procurava uma veia no braço da mulher, para nela introduzir uma agulha com cateter.

            - O sangue circula... - anunciou, quando um líquido escuro penetrou subitamente na seringa. - Injecto?

            - Por favor, dez centímetros cúbicos de cloreto de cálcio e meio centímetro cúbico de Isuprel - pediu Val.

            Rebecca injectou as substâncias antes de remover a agulha e de ligar o adaptador de vidro de um tubo intravenoso à extremidade do cateter que permanecia na veia. As drogas, poderosos estimulantes, entravam directamente no coração.

            - Nada... - anunciou Ed Vogel, enquanto Ken continuava a coser o útero flácido, servindo-se da mão direita e massajando o órgão com a esquerda. Brotava sangue dos lábios da incisão ao ritmo da massagem de Ed Vogel, e Ken procurava, massajando o útero, obrigar este a contrair-se, unindo bem os bordos do golpe.

       - As ondas do electroencefalograma são muito fracas - disse Val LeMoyne que, com o respirador duplicando automaticamente a função, podia observar o écran do monitor, bem como tudo o que se passava em redor. - Aparentemente, ainda há vida no cérebro, mas as pupilas estão muito dilatadas, o que quer dizer provavelmente que, mesmo que o coração volte a funcionar, as células cerebrais São irrecuperáveis.

            Ninguém precisava de mais explicações, entre um doente morto e outro que não passava de um ser reduzido à vida vegetativa, devido a danificação cerebral, não havia muito por onde escolher.

            - Acabo de sentir uma ligeira contracção cardíaca! - exclamou Ed Vogel. - E outra!

            - O electrocardiograma, por favor - pediu Val LeMoyne.

            Mrs. connor ligou rapidamente os terminais que colocara no peito da mulher.

            Produto da sofisticada investigação espacial, que permitia aos observadores, em Huston, controlar o ritmo cardíaco e outras funções vitais dos astronautas a muitos milhões de quilómetros de distância, os pequenos terminais detectavam os mínimos movimentos do coração e apresentavam-nos em forma de traçado electrocardiográfico, visível no écran.

            Por momentos, ninguém falou. Todos os olhos se fixavam no monitor. As ondas exibidas no écran eram prova indesmentível de que o coração começara, de facto, a bater, mas descreviam também o seu carácter - e as contracções periódicas e desgarradas do músculo não indicavam, de modo algum, ordem ou continuidade funcional. O diagnóstico não oferecia dúvidas: fibrilhação ventricular, uma perigosa complicação que podia destruir o mais forte dos corações.

            - Agora é a sua vez... - disse Valerie LeMoyne a Rebecca que acenou afirmativamente e se aproximou do monitor para estudar o traçado do electrocardiograma

            - É fibrilhação, não há dúvida - confirmou Rebecca.

       - Por favor, injecte cinquenta miligramas de Xilocaína,

       Mrs. connor. Não temos muito por onde escolher, salvo o choque... Concorda, Ed?

            - Absolutamente.

       O interno que fazia parte da equipa instalou o desfibrilhador que trouxera consigo e colocara ao lado da mulher. Ao mesmo tempo, Val desapertou com rapidez a máscara do ressuscitador, cortando o oxigénio. O processo mais rápido de devolver a um coração fibrilhante o seu ritmo normal consistia na aplicação de um poderoso choque eléctrico recebido pelo paciente, no peito, através de eléctrodos. Quem quer que tocasse inadvertidamente o corpo, nesse momento, podia até receber violenta descarga, por isso, Ken Dalton e Ed Vogel afastaram-se da mesa.

            - Quatrocentos miliwatts por segundo - ordenou Rebecca sem hesitar, absolutamente segura de si.

            O interno executou a ordem e colocou os eléctrodos sobre a área do coração, a fim de que a corrente passasse através do músculo cardíaco, por um, e regressasse por outro, fechando o circuito. Concebida para parar o coração através de um poderoso choque, na esperança de que aquele recomeçasse a funcionar por si num ritmo normal, a máquina era um instrumento insubstituível no controle de uma situação que. antes da existência do aparelho, causava muitas mortes.

            A um gesto de Rebeca, outro membro da equipa accionou o interruptor e os músculos do peito da mulher reagiram com violência à corrente. Quando os terminais do electrocardiograma, desligados durante esta operação, foram de novo postos no seu lugar, o funcionamento desconexo do coração, que transformara a superfície do écran numa selva desordenada de linhas, desaparecera - mas, com ele, todo o sinal de funcionamento do órgão por si próprio.

            - Prepare-se para recomeçar as massagens, Ed - ordenou Rebecca, tranquila. - Estamos na mesma.

            Ed Vogel tinha retirado a mão antes que o desfibrilhador fosse ligado e encontrava-se junto de Ken Dalton. Ambos se aproximaram outra vez da mesa, reatando o trabalho que haviam começado.

            Por três vezes, durante os quinze minutos seguintes, débeis contracções do músculo cardíaco resultaram da massagem de Ed Vogel mas, de cada vez, o efeito resumia-se à selva familiar de linhas, indicando fibrilhação. Por duas vezes foi ligado o desfibrilhador, que enviou ao coração choques rítmicos, menos intensos do que os produzidos anteriormente, numa tentativa para iniciar contracções regulares. Mas apenas se obtinha fibrilhação e, após o quarto choque, cessaram, também, as ondas cerebrais - prova final da morte.

            - Na minha opinião, não adianta prosseguir - disse Rebecca.

            - Também me parece - respondeu Val LeMoyne.

       - Pelo menos, o bebé salvou-se...

            - Para quê? - O tom de voz de Ken fez Rebecca desejar poder confortá-lo. - Antes tivesse morrido com a mãe! É um drogado... Este local deprime-me. É capaz de fazer um resumo do caso, Reb, para os arquivos? Hoje já fiz asneiras que chegassem...

      

   

       Quando Carolyn Payson saiu do elevador, no átrio do hospital, após ter passado, como de costume, uma hora à cabeceira do pai, viu a figura alta de Gus Henderson junto de uma vitrina com informações. Gus lia ostensivamente os papéis afixados, mas Carolyn sabia que, na realidade, o médico a esperava. Quando este a viu, sorriu e atravessou o vestíbulo na sua direcção.

            - Estava a ver que já te tinhas ido embora... - disse.

       - O dr. Dalton fez uma cesariana a uma drogada com heroína...

            - Foi por causa disso o alarme?

            - Foi.

            Gus abriu a porta do restaurante que ocupava uma área à saída do vestíbulo e ao lado de uma passagem coberta que levava ao Bayside Terrace, a partir da porta que ligava o banco ao vestíbulo. O popular restaurante abarrotava de uma multidão tagarela de estudantes e enfermeiras que haviam terminado o turno da manhã, mas conseguiram, mesmo assim, descobrir um lugar.

            - Café e que mais? - perguntou Gus.

            - Mais nada. Estou a engordar...

            - Fica-te muito bem a gordura! Dois cafés - pediu Gus a Maggie McCloud, a empregada gorducha de meia idade que servia ao balcão. - Eu vou buscá-los...

       - É para já, dr. Henderson - respondeu Maggie, bem disposta. - Como vai o seu pai, Misy Payson?

            - Na mesma, muito obrigada.

            Carolyn observava Gus encaminhando-se para o balcão. Como muitos pediatras, era tão gentil quanto uma mulher, não obstante a sua alta estatura e compleição robusta.

            - Só tenho um minuto, enquanto Peggy Tyndall prepara as coisas para eu aplicar uns catéteres umbilicais e uma sonda electrónica no miúdo que o doutor Dalton fez nascer - informou Gus, voltando com os cafés a ferver e instalando-se confortavelmente - Já te disse hoje que te amava?

            - Não. A última vez foi ontem à noite...

            - Que me dizes a casarmos na semana que vem? Podia ser este fim de semana, mas tenho que fazer.

            Carolyn desviou o olhar, mas não sem que Gus detectasse nos seus olhos uma expressão de dor.

            - Que se passa, querida? Teu pai está pior?

            Carolyn acenou com a cabeça.

            - Posso fazer alguma coisa?

            - Não - Carolyn bebeu o café, que não tinha gosto, como todas as coisas, ultimamente. Esforçando-se por distrai-la das suas preocupações, Gus disse:

       - A acreditar em Mike Rabum, a tua companheira de quarto cobriu-se de glória esta tarde...

            - Helga chegou atrasada... Não sei porquê... Nunca se atrasa...

            - Mike disse-me que Helga deparou com uma criança a morrer asfixiada, no banco, e lhe perfurou a garganta com uma agulha até à traqueia... Aquela técnica de que ele falou na semana passada. Ficou impressionadíssimo!

            - Toda a gente sabe que Helga é formidável! Mike não devia ter ficado surpreendido.

           - Cá para mim, ele tem visto Helga apenas como uma óptima enfermeira durante todo esse tempo, mas, por qualquer motivo, esta tarde viu-a, pela primeira vez, como mulher.

            - Lembra-me do dia em que me viste pela primeira vez como mulher... - disse Carolyn sorrindo. - Mas já eu andava a olhar para ti há um mês!

            - Imagina o que eu teria perdido se não o tivesses feito!

       - Não sei... - respondeu Carolyn, de novo em tom sério, - A doença de Huntington é hereditária.

            - Mas a genética é uma ciência que tem dado grandes passos, ultimamente.

            - Com a HD, não. Tenho lido tudo que há sobre o assunto, desde que trouxe o pai de Atlanta...

            - Seja como for, trata-se de uma doença raríssima. É o primeiro caso que vejo!

            - Talvez existam uns mil, nos Estados Unidos, e todos eles podem ser relacionados com um pequeno número de emigrantes vindos da Europa, há trezentos anos...

            - Mas o teu pai...

            - O gene da HD pode não se manifestar durante uma ou mesmo duas gerações...

            - Então estás preocupada...

            - O irmão de meu pai morreu, provavelmente, com a HD, o que pode querer dizer que o gene está a tornar-se mais forte na minha família; portanto, os nossos filhos teriam cinquenta por cento de probabilidades de o desenvolver. Gostarias de deixar tal herança aos teus filhos e filhas?

            - Há uma maneira de resolver o problema: não os ter!

            - E se contra a nossa vontade...

            - Se eu for esterilizado não há problema! É simplicíssimo neutralizar as cordas espermáticas.

            - Um homem tem direito a deixar descendência, querido. Com o gene da HD provavelmente já em todas as células do meu corpo, posso muito bem morrer pelos trinta e cinco anos... Estavas, então, muito a tempo de voltar a casar e de ter filhos... filhos saudáveis...

            - Amo-te, Carolyn, e quero-te comigo para toda a vida. Para obter isso, estou disposto a abandonar tudo, a desistir de tudo, incluindo os filhos...

            Através de altifalantes, chegou-lhes a voz calma da telefonista:

            - Dr. Henderson -115. Dr. Augustus Henderson - 115. Dr.Henderson-115...

            - É a UCIRN. Helga já deve ter tudo pronto - disse Gus. - Queres jantar comigo no hospital? Não posso sair.

            - Pode ser às seis? - perguntou Carolyn. - Gostava de estar com o pai algum tempo...

       - Está bem. - Gus levantou-se e pousou algumas moedas em cima da mesa. - E não fiques triste por não poder ter filhos, querida. Depois de ver os trabalhos porque está a passar o bebé Hornsby no primeiro dia de vida fora da barriga da mãe, não sei se este será o mundo onde devamos lançar uma criança...

            Carolyn ficou mais algum tempo depois de Gus ter saído. Quando se levantou, os passos levaram-na à pequena capela do hospital, ao fundo do corredor que ligava o vestíbulo principal aos elevadores.

            A preocupação pelo pai, bem como pelo seu próprio futuro, fizera-a regressar, instintivamente, à crença religiosa da infância. Ajoelhou num banco e procurou palavras para expressar o seu pedido de assistência divina no que parecia ser um problema insolúvel - pelo menos, para os meios de que dispunha.

            - Posso ajudá-la, Miss Payson?

            A voz, suave, sobressaltou-a. Carolyn voltou-se rapidamente e viu o capelão do hospital, de pé no extremo do banco.

            - Padre Hagan!

            Carolyn lembrava-se do sacerdote. Tinha passado uma semana na sua enfermaria, quando um electrocardiograma de rotina mostrara a necessidade de tratamento. Graças a Rebecca Dalton e aos cuidados de Carolyn e de outras enfermeiras dedicadas da Unidade de Cuidados Intensivos de Cardiologia, o ataque tinha sido evitado.

            - Agrada-me ver que sabe onde procurar ajuda. - O velho padre sentou-se ao lado de Carolyn, que também se sentava. - E, de joelhos, pede-se melhor...

            - Não tenho sido o que se possa chamar uma frequentadora da igreja, padre...

            - Cada um de nós serve Deus à sua maneira, Miss Payson. Suspeito de que está muito mais de acordo com a vontade do Senhor do que muitas pessoas...

            - Pelo menos, sei do meu ofício...

            - Isso posso eu testemunhar! - respondeu o capelão, sorrindo.

            - Quem me dera que o problema que me aflige tivesse uma resposta tão fácil...

            - Trata-se de seu pai?

       Carolyn não ficou surpreendida ao verificar que o padre Hagan estava ao corrente da situação de Richard Payson. Mesmo um hospital do tamanho do Biscayne era uma pequena comunidade.

            - Não vi o nome dele na lista dos doentes em estado crítico, esta manhã...

            - Não está em estado crítico... no sentido clínico do termo. Mas, se o tivesse conhecido antes, compreenderia o que significa ver uma pessoa com um cérebro como o dele impedido de comunicar com o resto do mundo... Reduzido à vida vegetativa...

            - Está consciente?

            - Momentaneamente... o bastante para nos suplicar que o deixemos morrer...

            - É isso que a preocupa? Saber se deviam deixar morrer o seu pai?

            - Em parte... a mais importante...

            Carolyn suspirou, não sabendo exactamente como exprimir, em palavras, a convicção que, a pouco e pouco, se instalava no seu cérebro, desde que trouxera Richard Payson para o hospital e que o dr. Gross lhe tinha transmitido o diagnóstico.

            - Não sei qual é o estado de seu pai - disse o capelão. - Se não se importasse de me dizer...

            - Creio que necessito de partilhar as minhas angústias com alguém... Tenho tentado guardar tudo comigo, mas...

            - Estou aqui para escutar, para ajudar... ou para rezar...

            à medida que descrevia a condição do pai, a desintegração gradual do seu cérebro e da sua personalidade, até se tornar pouco mais do que um corpo destroçado pelo gene da doença de Huntington presente em todas as células do corpo, Carolyn sentiu-se abandonada de parte da carga que lhe pesava sobre os ombros.

            - E não se pode fazer nada? - perguntou o capelão.

            - Por meu pai, não. Mas eu sou a última da família e, se nunca terei filhos, pelo menos posso evitar que o gene seja transmitido a outros...

            - Tem possibilidade de adoptar uma criança...

            - Impossível, também...

            - Porquê?

       - Que direito tenho eu de acorrentar um marido ou as crianças que pudéssemos adoptar a uma mãe que corre o risco de se transformar num simulacro de ser humano, precisamente na altura em que talvez mais precisem dela?

            - Mas não é fatal que isso aconteça...

            - Mesmo assim... Continua a ser um grande risco... Impossível fazê-lo correr a quem se ama...

            - É uma opção difícil...

            - Não há opção nenhuma, padre. Resolvi tudo quando soube a verdadeira causa da doença do papá.

       O velho capelão estudou-a, pensativo, antes de falar.

            - Ama outra pessoa além de seu pai?

            - Sim. E muito...

            - Contou-lhe tudo isso?

            - O meu propósito de nunca casar, não...

            - Porquê?

            Carolyn ergueu a cabeça e o sacerdote viu-lhe os olhos húmidos. Quando falou, porém, fê-lo com autodomínio.

            - Não quero ferir, Por cobardia, creio...

            - O dr. Henderson?

            - Sim... Vai dizer-me que é pecado agarrar-me à parcela de felicidade que me é permitida antes que ela me fuja do alcance?

            - Como poderei julgar pessoas que talvez sirvam Deus muito melhor do que eu? Todavia, não invejo o momento em que terá de dizer a verdade ao dr. Henderson...

            - Já concordámos em não ter filhos. Felizmente, o resto pode esperar... enquanto o homem que amo não se ligar a mim pelo casamento...

            - E que acontecerá se ficar grávida?

            - Os cinquenta por cento de probabilidades existentes de transmitir uma horrível doença como a de Huntington a uma criança, constituem base mais do que suficiente para o aborto legal, desde que os tribunais considerem ilegal, sob qualquer ponto de vista, o aborto nos primeiros três meses.

       Mas também, nesse aspecto, não corro riscos.

            - Parece ter pensado em tudo...

            - E não acha bem?

       O padre sorriu e abanou a cabeça.

       - Há muito tempo, uma mulher foi levada à presença de Jesus. Queriam que Ele a condenasse. Lembra-se da resposta de Jesus?

            - Não. Já lhe disse que frequento pouco a igreja...

            - Jesus respondeu: “Aquele que estiver sem pecado, que atire a primeira pedra”.

            - Obrigada, padre.

            Carolyn fez menção de se levantar, mas o capelão reteve-a.

            - Suspeito de que não me disse o verdadeiro motivo por que cá veio... Não gostaria de...?

            Carolyn hesitou por momentos e perguntou:

            - Lembra-se de eu lhe ter contado que o pai só fala para nos suplicar que o deixemos morrer?

            - Lembro.

            - Tenho a certeza de que uma parte do seu cérebro ainda tem a noção do que se passa e do que se passará... Ele não quer torturar-me....... Por isso, se os médicos não o podem deixar morrer, não tenho outro remédio senão...

            - Talvez haja outra maneira...

            - Qual é? - perguntou Carolyn, ansiosa.

            - Leu alguma coisa sobre a controvérsia “Direito a morrer”?

            - Um pouco... em jornais e revistas.

            - Houve hospitais que nomearam comités para decidir...

            - Quando o prognóstico de um doente não deixa a mínima esperança?

            - Sim. Aqui, no Biscayne Hospital, está ainda tudo em segredo... e por bons motivos...

            - Conte-me, capelão... Conte-me, por favor!

      

            Helga Sundberg debruçava-se sobre o berço onde jazia o bebé Hornsby recebendo oxigénio através de uma pequena máscara que lhe cobria o nariz e a boca, quando Peggy Tyndall introduziu na sala de tratamentos da UCIRN o carro de cateterização cardíaca. Na enfermaria de oito camas onde os recém-nascidos, com dificuldade respiratória ou outras, recebiam cuidados especiais vinte e quatro horas por dia, estava sempre presente, pelo menos, uma enfermeira das UCI, especialmente treinada, para cada dois doentinhos.

            Peggy era de baixa estatura, de cabelo louro, em rabo de cavalo, que lhe dava o aspecto de uma colegial, e um quente sorriso aberto, a despeito de ter ficado viúva aos vinte anos e grávida de uma criança que nascera seis meses mais tarde com uma doença cardíaca congénita. Como técnica-chefe e assistente clínica do Laboratório de Investigação Cardiológica, era o braço direito de Rebecca Dahon e de Ed Vogel, além de, em todo o hospital, ser a menina bonita.

            - Olá Peggy! - cumprimentou Helga. - O dr. Henderson está a chegar.

            Peggy pôs a touca e a máscara exigidas a quem trabalhasse na UCIRN e, quando acabou, aproximou-se do berço, pondo-se a olhar o bebé.

            - Foi o que nasceu por cesariana, não foi?

            - Foi. Duas ou três semanas antes do tempo, e, ainda por cima, drogado. Que triste ponto de partida...

            - Mas vai ficar bom, não vai? Quando desaparecerem os efeitos do tratamento...

       O tom de voz de Peggy mostrava ressentimento e Helga compreendia o motivo.

            - Não lhe vai ser fácil, contudo... Começar a vida sem mãe.

            - Compreendo... Compreendo o que queres dizer, mas... quando se tem um filho que não é normal...

            - Dale será normal... quando o dr. Dalton o operar ao coração!

            - Se o dr. Dalton o operar. Neste momento, não me parece muito interessado...

            - Há outros cirurgiões... Mike Rabum, por exemplo.

            - Bem sei... Quando o pai de Dale foi morto no Vietname, foi como se o meu próprio mundo tivesse também acabado... Mas tinha de continuar! Quando Dale nasceu e a dra. Rebecca me disse que ele sofria da doença de Fallot, até rezei para que morresse...

            - Hoje, terias pena, se isso tivesse acontecido, não terias?

            - Sim... Mas sinto-me cansada e deprimida... Durante os dois anos em que estudei para obter o meu diploma de assistente, andava entretida... Depois, no laboratório, a trabalhar no coração artificial na esperança de chegarmos ainda a salvar alguns casos de transplantação, não me sobrava tempo nem sequer para ter pena de mim própria... Quando, porém, o dr. Ken e a dra. Rebecca se separaram e o projecto do coração artificial foi posto de parte...

            - Dale está bem, não está?

            - Tão bem quanto se pode estar com três quartos do sangue em circulação sem passar pelos pulmões, deixando-lhe apenas o oxigénio bastante para sobreviver... Sempre que o vejo a ofegar, rezo para que viva até aos oito anos, altura em que poderá, então, ser operado...

            A porta abriu-se e Gus Henderson entrou.

            - Olá Peggy! - cumprimentou, pegando na máscara e na touca antes de começar a lavar as mãos. - Preparou o eléctrodo de ponta de ouro?

            - Está na bandeja, dr. Henderson - respondeu Peggy, destapando o carro. - Creio que está aqui tudo aquilo de que vai precisar.

            - Como sempre! Se pudesse confiar em toda a gente como posso confiar em si e em Miss Sundberg, nunca haveria problemas...

       - Mas que ternos estamos hoje! - observou Helga. - O amor é uma coisa maravilhosa!

            - Se é! Devia experimentar um dia...

       - Não digo que não lhe siga o conselho...

            Erguendo o bebé do berço e transportando o tubo de borracha que ligava a máscara à fonte de oxigénio, Helga colocou-o na pequena mesa ao centro do quarto, por baixo de uma luz poderosa. Com movimentos rápidos e precisos, fixou a máscara no seu lugar com uma ligadura em volta da cabeça, e embrulhou, depois, as pernas do bebé até ao umbigo, coberto com um penso e onde Ken colocava um forceps. Sentou-se num banco à sua cabeceira e imobilizou o corpo do bebé, segurando-lhe as mãozinhas e fixando-lhe à mesa o tronco.

            Gus Henderson acabara de lavar as mãos e calçava as luvas, depois de ter colocado a touca. Aproximando-se da mesa, esperou que Peggy Tyndall removesse o penso que cobria o umbigo e os forceps destinados a evitar qualquer perda de sangue. Depois de ter desinfectado o instrumento e a pele em volta do umbigo com um antisséptico, cobriu a zona com um pano onde havia sido talhada uma abertura. Entretanto, Peggy tinha pegado num par de forceps esterilizados de um recipiente quase cheio de antisséptico na mesa de reserva e preparou-se para assistir o cirurgião.

            Trabalhando com o maior cuidado, Gus removeu o forceps hemostático do cordão umbilical. O cordão gelatinoso de uns seis centímetros contendo a artéria e a veia umbilicais, funcionara como o canal da vida durante os meses em que o bebé estivera no interior do corpo da mãe, recebendo oxigénio e alimentação através da placenta, mais a sinistra heroína, e libertando-se dos detritos da vida pelo mesmo processo. O constante tremor dos músculos do bebé, indicativo da presença de heroína no sangue, dificultava a intervenção de Gus Henderson, que tinha, não obstante, mãos de notável destreza.

            - Vamos introduzir um cateter 5 F na artéria umbilical, primeiro...

            - Costuma sempre utilizar a veia...

            Helga observava-o de perto e tentava, ao mesmo tempo, manter o corpo do bebé o mais imóvel possível.

       - Sim, mas, por este processo, posso introduzir directamente o eléctrodo de ouro na aorta, a fim de medir a tensão do oxigénio na principal corrente circulatória - explicou Gus.

            Enquanto falava, introduzia o cateter de polietileno na artéria, de diâmetro pouco maior que o de um fósforo.

            - Ora pronto... - observou, satisfeito, quando cerca de quinze centímetros do pequeno tubo já haviam desaparecido no corpo do bebé.

            Pegando numa seringa, com ponta aparada de metal, injectou uma solução salina através do cateter e foi recompensado por algumas gotas de sangue bastante escuro que brotaram daquele, depois de remover a seringa. Peggy, utilizando o forceps, passou-lhe o eléctrodo. Era, também, embainhado em polietileno, menor que o 5 F e a extremidade, de ouro, reluzia através do plástico.

            - Medir a tensão do oxigénio é simples, se este instrumento funcionar como se descreve no artigo que eu li.

            Gus começou a introduzir o eléctrodo no cateter.

            - Uma vez no interior da aorta, isto vai dar-nos uma leitura imediata da pressão do oxigénio no sangue. Poderemos, assim, saber se o bebé está a receber oxigénio de mais ou de menos.

       - De mais? - repetiu Peggy, franzindo o sobrolho. - Será possível?

            - Por que não? Costumávamos dar aos bebés todo o oxigénio que o seu sangue é capaz de absorver, mas sabemos, agora, que muitos deles ficam cegos, mais tarde, por causa disso.

            O eléctrodo tinha desaparecido na artéria umbilical, enquanto falavam. Feitas as necessárias ligações, logo o aparelho de medida começou a registar na fita a tensão do oxigénio no bebé Hornsby, em milímetros de mercúrio.

            - Cinquenta! leu Gus Henderson, alarmado. - Mais um minuto e...

            Sem tirar as luvas, o pediatra accionou a válvula do controle do gás, fixando-a no máximo. Imediatamente, a tensão do oxigénio registada pelo eléctrodo começou a subir. Nessa altura, porém, o bebé choramingou como se tivesse dificuldade em receber o gás nos pulmões e o nível de tensão desceu na vertical, para logo estabilizar, quando a criança se calou.

       - Tão cedo não saímos....... - observou Gus.

            - Talvez fosse melhor eu ligar os outros terminais... - opinou Helga.

       - Pedi ao dr. McHale para vir aqui, logo que pudesse. Entretanto, vamos aplicar-lhe uma solução intravenosa...

            Terminado o seu trabalho, Peggy Tyndall deixou a sala de tratamento, com o carro. E quando o dr. Angus McHale, professor de pediatria, entrou na enfermaria com as suas duas filas de quatro berços de cada lado das paredes, podia ler-se um constante fluxo de informações nos monitores, sobre o berço do bebé Hornsby bem como no écran principal das enfermeiras, fora, através das paredes envidraçadas. Além da tensão do oxigénio dada pelo eléctrodo, outros aparelhos mediam a concentração de hidrogénio, o pulso, a respiração, a pressão arterial e venosa, a função cardíaca.

            - Acabo de introduzir um dos novos eléctrodos electrónicos na artéria umbilical - explicou Gus. - Parece funcionar bem.

            O velho professor aproximou-se do berço e estudou os elementos registados na fita.

            - Como vai longe o tempo em que, sem dispormos destas maravilhas, apenas nos podíamos servir dos nossos cinco sentidos...

            - Mais o sexto, que todo o bom médico tem que possuir - acrescentou Gus.

            - Claro!

            As relações entre Gus e o professor processavam-se sem a tensão que muitos médicos mais velhos desenvolvem na presença de mais novos, obviamente destinados a grandes carreiras, em virtude de capacidades invulgares. Como autor de um dos mais famosos tratados de pediatria, a posição do dr. McHale era segura.

            - Nascer prematuramente é já, de si, um grave problema - disse o professor. - Se lhe juntarmos a droga...

            - E talvez DMH, a julgar pelo ruído da respiração e o baixo nível de oxigénio - acrescentou Gus.

       A doença da membrana hialina, referida pelas iniciais DMH, matava anualmente cerca de vinte e cinco mil recém-nascidos, só nos Estados Unidos. Uma das suas vítimas tinha sido o filho de um antigo Presidente, anos atrás. A incapacidade dos pulmões para se expandirem por completo após terem sido lançados prematuramente num mundo estranho, mais a formação, no seu interior, de uma concentração de proteínas que parece funcionar como barreira física, impedindo o oxigénio de atingir a corrente sanguínea e, por consequência, os tecidos - precisamente o que caracteriza a DMH - constituíam a mais séria ameaça à vida dos bebés.

            - Quanto pesa ele? - perguntou o dr. McHale.

            - Três quilos, Sir - respondeu Helga.

            - Deve ter nascido com quatro semanas de antecedência - adiantou Gus.

            - Pode ser que se aguente, mas... Acabo de ver uns números muito interessantes sobre a taxa de nascimento destes bebés filhos de drogadas... Quinhentos, no ano passado, só em New York!

            - Muitos morrem, é verdade -respondeu Gus. - Mesmo assim, a mortalidade desceu bastante... Desceu mais de trinta e cinco por cento, nos últimos anos... Felizmente que este não tem convulsões, como a maior parte...

            - A mãe não sobreviveu, praticamente, à chegada ao banco, pois não?

            - Talvez até já tenha chegado morta - esclareceu Helga. - Se o dr. Dalton não tivesse podido acorrer imediatamente ao alarme, este rapazinho estaria agora também na morgue...

            - Se calhar o bebé Hornsby nunca se lembrará de agradecer isso ao dr. Dalton... - observou McHale, pensativo.

            O bebé espirrou e a pequena luz que piscava no monitor, marcando o ritmo da respiração, acusou imediatamente uma subida do pulso; o nível do oxigénio desceu na vertical, antes de estabilizar. Quase ao mesmo tempo, o traçado da função cardíaca aumentou de velocidade, parecendo querer sair do monitor.

            - Injecte mais uma dose de cloropromazina, Miss Sundberg - ordenou Gus Henderson. - Pode ser o princípio de um estado convulsivo.

            Enquanto a enfermeira ia buscar uma seringa ao armário, o jovem pediatra voltou-se para o professor.

            - Creio que devíamos intubar o bebé e colocá-lo sob PPC, antes que seja tarde demais...

       - É, de facto, o meio mais rápido de introduzir oxigénio no corpo - concordou o professor. - E também diminuirá os efeitos da falta da droga...

            Para os não iniciados, o calão hospitalar das iniciais, significando doenças, métodos e processos, apresenta-se tão intraduzível como os hieroglifos dos tempos egípcios se apresentavam aos arqueólogos antes da descoberta da Pedra de Roseta. Mas, para os presentes no quarto, PPC, significava Pressão Positiva Contínua, método de respiração artificial recentíssimo, quase tão novo como o último número do Journal da AMA.

            Inventado pelo director de uma Unidade de Cuidados Intensivos Pediátricos, em San Francisco, poucos anos antes, o PPC era um método pelo qual se mantinham os pulmões cheios de ar entre a inspiração e a expiração, nos bebés cujo mecanismo respiratório era prejudicado pela doença da membrana hialina. Mantendo os pulmões cheios de oxigénio e removendo, ao mesmo tempo, a maior parte do dióxido de carbono, conseguia-se que o máximo da superfície pulmonar fosse exposta à máxima concentração de oxigénio respirável - factor vital para a sobrevivência desses recém-nascidos.

            A primeira medida de Gus Henderson, ao iniciar o processo de certo modo difícil, foi mandar chamar a anestesista-chefe, dra. Valerie LeMoyne. A dra. LeMoyne chegou minutos mais tarde, transportando uma pasta que continha os instrumentos necessários para proceder à delicada inserção de um tubo na traqueia.

            - Mais drogados não, Gus! Introduzir um tubo numa traqueia com o diâmetro de um lápis, já é bastante difícil, mesmo sem convulsões!

            - Se eu consegui inserir um eléctrodo de ouro na artéria umbilical, você também pode fazer isso - garantiu-lhe Gus. - E o bebé Hornsby necessita, em extremo, da sua perícia...

            - Vamos tentar - respondeu a anestesista. - Pode puxar o bebé mais para o extremo da mesa, Miss Sundberg?

            - Com certeza, doutora.

            Helga desapertou a máscara de oxigénio, que retirou. Depois, pondo-se de lado, empurrou o corpo embrulhado do menino até este ficar com a cabeça fora da mesa na melhor posição para a delicada intervenção. Abrindo a pasta, Valerie Le Moyne tirou dela o mais pequeno laringoscópio que continha e verificou a pilha de alimentação da pequena lâmpada que produzia a luz necessária para a visualização da laringe.

            - Atenção às funções, Gus - aconselhou a anestesista.

       - As coisas podem complicar-se quando eu introduzir o tubo na laringe... E faça por manter o bebé quieto, Miss Sundberg.

            Evidenciando notável destreza, Val introduziu o laringoscópio na laringe do bebé Hornsby. Quando acendeu a luz, toda a área pôde ser vista através do tubo do aparelho. Brilhantemente iluminada, a pequenina laringe deixava ver as cordas vocais separadas, indicando que o bebé tentava chorar.

            - Venham agora dizer-me que um camelo não passa pelo fundo de uma agulha - observou Gus, quando Val pegou no pequeno tubo de borracha que ia introduzir na traqueia. - Depois de ver isto, não me custa nada a acreditar!

            - Como se comporta ele, Gus? - perguntou Val.

            - Um certo descontrole, mas já o esperávamos.

            Num movimento rápido e preciso, a anastesista introduziu o tubo de borracha, através do laringoscópio, na abertura entre as cordas vocais, empurrando-o, depois, até à traqueia e removendo em seguida o tubo de metal do aparelho.

            - Perfeito! Como sempre! - elogiou Gus.

            - Foi a mais brilhante intubação que já vi, dra. Le Moyne - elogiou Helga.

            Quinze minutos mais tarde, o bebé Hornsby estava de novo na enfermaria da UCIRN, ligado aos terminais que forneciam continuamente informações de importância vital aos monitores e aparelhos de medida no posto principal de controle. Gus Henderson, quando acabou de ajustar o complicado aparelho que controlava a PPC, entrou no pequeno gabinete dos médicos, junto ao controle de enfermagem, para ditar um resumo do que se fizera, a fim de ser, mais tarde, inserido no processo do bebé Hornsby.

            - Sabe que Mike Rabum anda por ai a dizer as mais lindas coisas a seu respeito? - perguntou, quando acabou de ditar.

       Helga tirou os olhos do gráfico onde anotava as prescrições do médico.

            - A que propósito?

            - Acha que você salvou a vida de uma criança no banco, esta tarde.

            - Sim, também me parece... Estava a asfixiar...

            - Mike não é homem para fazer elogios imerecidos...

            - Pelo menos, reparou em mim!

            - Só um cego não repararia! E Mike não é cego...

            - Ele contou-lhe que eu quase desmaiei?

            - Não, e não acredito! Você é invencível!

            - A invencível Helga Sundberg! Não... É título que não vai comigo...

            - Com Mike é que não vai, pelos vistos... É a primeira vez que o vejo perder a cabeça com uma mulher...

            Gus saiu da enfermaria, mas Helga ficou onde estava, olhando o monitor na sua frente e vendo a cara de Mike Rabum quando disse “Parece que temos de organizar uma sociedade de admiração mútua... é uma boa ideia...”

            Quanto mais pensava nisso, mais Helga se sentia entusiasmada.

   

       Mike Rabum empurrou a maca especial onde jazia Joey Gates, consciente e interessadíssimo no complicado painel de controle. Joey Gates saía da câmara hiperbárica... para enfrentar uma floresta de câmaras de TV e de flashs.

            - Que diabo se passa? - perguntou Mike, cego pelas luzes.

            - Você é um herói! - explicou Gus Henderson. - Encarreguei-me de informar a imprensa sobre como salvou a vida de Joey na câmara hiperbárica.

            - E ter ido lá para dentro com ele... Foi preciso ter coragem, dr. Rabum!

            Mike reconheceu a jornalista da CBS local, Marcia Weston, quando esta lhe estendeu um microfone.

            - É como mergulhar em Keys, Miss Weston. Não percebo por que vieram...

            - O senhor salvou Joey, - interveio Rachel Gates, fugindo da multidão para se colocar ao lado dele. - Big Joe e eu nunca o esqueceremos!

            - Importa-se de nos dizer em que consiste este novo tratamento, dr. Rabum? - perguntou Marcia Weston.

            - Joey sofria de uma crise de anemia caracterizada pela alteração celular. Quer dizer que os seus glóbulos vermelhos tinham passado a apresentar a forma de crescente, em vez da habitual forma arredondada. Pensamos que esta alteração está relacionada com a configuração de uma molécula de hemoglobina nas próprias células. Uma vez alteradas, tendem a ligar-se umas às outras. Eventualmente, as células anormais bloqueiam os vasos sanguíneos e interferem na absorção do oxigénio.

            - Pondo em perigo a vida das pessoas? - quis saber Marcia Weston.

            - Sim. As células de Joey não transportavam oxigénio em quantidade suficiente e, por isso, fizemos com que respirasse sob pressão, na câmara hiperbárica, com vista ao aumento de saturação de oxigénio no sangue. Trata-se, porém, de uma medida de emergência; o verdadeiro tratamento é feito através da medicação intravenosa, que está neste frasco pendurado na maca.

            - Algum novo remédio?

            - O novo uso de algo que o corpo fabrica: ureia. Ainda não compreendemos, na totalidade, o processo, mas sabemos que a injccção de grandes quantidades de uma solução de ureia parece alterar a forma das células doentes, evitando, assim, que se liguem umas às outras. A combinação com um composto de cianato parece ser ainda mais eficaz.

            - Cianato? Isso não é veneno?

            - Está, com certeza, a confundir com cianeto. O cianato é diferente. O importante é que cianato mais ureia - ou talvez só o cianato, não sabemos ainda - parece contrariar a degenerescência das células; quando ministrado em pequenas doses continuamente, pode evitar que as crises surjam.

            - Trata-se, então de uma cura?

            - Curar significa eliminar a doença, Miss Weston. Esta medicação apenas evita crises como a que Joey teve esta tarde.

            - Outra pergunta, dr. - disse um repórter. - Este tipo de anemia não é hereditário?

       - Assim parece - respondeu Mike. - Tal como os olhos azuis, a membrana interdigital, o nariz arqueado... e a mancha mongol.

       - Que é isso? - perguntou a repórter da TV.

            - Nós, americanos, temos antepassados diversos. E, por vezes, aparece um gene desgarrado... Quando os mongóis invadiram a Hungria e a Áustria, no século XIII, exerceram o direito de conquista, pelo menos sobre as mulheres, com ou sem a cooperação destas. Em resultado, deixaram alguns genes mongóis e um deles aparece, de vez em quando, na forma de uma zona pigmentada no extremo inferior da espinha...

            - Está a brincar comigo! - exclamou Marcia Weston.

            - Não seria desinteressante, Miss Weston - volveu Mike sorrindo. - A mancha mongol é uma verdadeira curiosidade genética. Poderá estudá-la em qualquer bom texto sobre a hereditariedade.

            - Com certeza! Nunca pensaria em duvidar de um médico formado em Harvard, dr. Rabum...

   

            Quando os jornalistas abandonaram o Laboratório Hiperbárico, Marcia Weston ficou para trás e dirigiu-se a Mike:

            - Não sei se sabe que também escrevo peças de teatro... Pequenas coisas...

            - Tenho lido algumas e são muito boas.

            - Muito obrigada. Ando a pensar em escrever uma sobre o papel das mulheres num centro médico...

            - Uma espécie de Mulheres de Branco, como a peça do velho Sidney Kingsley?

            - Sim... Mas agora estou mais interessada em si... Como personagem, evidentemente!

            - Quem manda aqui são as mulheres... Nós, homens, não passamos de bonecos...

            - Não sei se será esse o tom da minha peça depois de o ter conhecido... Seja como for... que me diz a encontrarmo-nos um dia?

            - Pela minha parte, concordo. Terá é que tratar disso com a administração.

       - Telefonaram-nos do gabinete do dr. Toler, dizendo que estava a ensaiar medidas de emergencia para salvar o filho de Big Joe Gates.

            - Sim?

            - É verdade! Disseram-nos, até, para virmos depressa, se queríamos fotografar a saída do pequeno da câmara hiperbárica.

            Gus Henderson, que passara por eles, retrocedeu para dizer:

            - O pessoal recebeu, também, ordens superiores para cooperar com a imprensa, Mik....

            - Porquê?

           - Depois da intervenção de Ross McKenzie, hoje, no Clube Rotário, sobre o orçamento do hospital, talvez o dr. Toler tenha decidido contra-atacar - sugeriu Marcia Weston. - Big Joey Gates é um nome em Miami, e o voto negro aumenta cada vez mais..

            - Toler é mais inteligente do que eu pensava, quando se trata de publicidade... - observou Mike.

            - Quer dizer que posso aparecer por cá mais vezes? - perguntou Marcia Weston.

            - Devia ter cá estado uma hora mais cedo - replicou Gus Henderson. - O dr. Kenneth Dalton fez uma cesariana de emergência numa mulher que estava praticamente morta, devido a uma dose excessiva de heroína, para lhe salvar o filho.

            - E... salvou-o?

            - Salvou. Levei agora o bebé para o PPC.

            A jornalista franziu o sobrolho e o médico acrescentou esclarecendo:

            - Pressão Positiva Contínua. Um novo processo para tratar a doença da membrana hialina.

            - Não foi isso que matou um dos Kennedy?

            - Sim, há anos. Agora sabemos muito mais acerca dela...

            - Posso ver o bebé? - perguntou Marcia Weston, ansiosa.

            - Por que não? O dr. Toler parece ter dado carta branca à imprensa. A UCI fica ao fundo do corredor.

            - Também eu gostaria de ver o bebé, já que nasceu no meu serviço... - pediu Mike.

       Helga Sundberg juntou-se-lhes quando entraram na UCI e Gus apresentou as duas mulheres.

            - Miss Weston poderá ver o bebé Hornsby? - perguntou.

            - Com certeza! - respondeu Helga. - Mrs. Alvarez está a tratar dele.

            - Miss Sundberg é a encarregada da UCI, não é verdade? - perguntou Marcia Weston.

            - Sou a enfermeira-chefe do turno das três.

            - É uma autêntica heroína! - acrescentou Mike.

            - Sim? - exclamou Marcia Weston interessadissima.

            - Salvou uma garota de asfixia, esta tarde - explicou o médico - empregando um método que nunca antes utilizámos.

            Mas que o dr. Rabum descreveu tão bem nas aulas, que dificilmente poderia ter falhado. É um magnífico professor!

            Havia na voz de Helga um leve tom trocista que a experimentada repórter de TV reconheceu.

            - Terá que me falar disso em pormenor quando me der a sua entrevista, dr. Rabum. Parece-me interessante...

            - Com muito prazer - respondeu Mike. - Tenho a certeza que, depois disso, nunca mais descansará enquanto não escrever a sua peça sobre as mulheres de branco...

            - Se forem todas como Miss Sundberg, não duvide! Não sabia que os médicos trabalhavam em ambientes tão agradáveis... salvo nas séries de televisão...

            Estavam à porta da UCIRN e Helga abriu-a. Entraram na pequena divisão onde se arrumavam as batas, as máscaras e as toucas. Miss Sundberg ajudou Marcia Weston a proteger-se devidamente e esperou que o grupo atravessasse a enfermaria de oito berços em direcção ao ressuscitador de recém-nascidos onde uma enfermeira negra e gorducha observava o benjamim do serviço.

            - Não é agradável assistir ao tratamento anti-droga... e o PPC ainda é pior - preveniu Mike. - Se se sentir a desmaiar, agarre-se a mim, Miss Weston...

       -    Têm todos este aspecto? - perguntou a jornalista. - Parece mais um rato que um ser humano...

       - Sim. A maioria dos drogados tem este aspecto - explicou Gus. - Os atingidos pela doença da membrana hiauna respiram, geralmente, de uma maneira peculiar, bastante audível. Com um tubo na traqueia, porém, o miúdo quase não se ouve...

            - Não respira! Não se mexe...

            - O PPC mantém-lhe os pulmões cheios e é por isso que dá essa ilusão... O nível de oxigénio é registado naquele aparelho junto ao berço.

            Mike aproximou-se do dispositivo que registava os dados num cilindro de papel e disse:

            - Perto dos oitenta milímetros de mercúrio... Com quantos começou, Gus?

            - Com cinquenta.

            - Belo trabalho!

            - Os elogios são para Val LeMoyne.

            - Importa-se de explicar o que se passa? - perguntou a jornalista.

            - Mantendo os pulmões do bebé permanentemente cheios de ar, elevamos o nível de oxigénio no sangue e melhoramos as condições gerais da criança até que ela possa respirar por si própria - explicou o pediatra.

            - Que lhe acontecerá, quando sair do hospital?

            - A crer nas estatísticas, tornar-se-á, provavelmente, um drogado.

            - Isso não é hereditário...

            - Não, mas a secretaria do Bem-Estar é obrigada, por lei, a entregar a criança à mãe, ou à família da mãe. Na maior parte dos casos, os miúdos teriam muita sorte se assim não fosse...

            - Por que diz isso?

            - Uma criança cresce melhor num orfanato do que numa família de drogados. Muitas vezes a mãe não quer o filho; outras, porém, Uma avó ou uma tia resolvem adoptá-lo. E, nesse caso, os bebés desenvolvem-se com a mesma herança que levou a mãe à droga, vindo eles próprios a ser autênticos viciados, poucos anos depois.

            - É terrível! - exclamou Marcia Weston.

            - Há pior... - emendou Mike. - Morrer!

      

            Mike ia atrás de Gus Henderson, que indicava a saída a Marcia Weston.

            - Pedi a Miss Payson para dizer a Miguel Quintera que iria ver Carmelita dentro em pouco, mas já foi há uma hora, pelo menos.. - disse Mike a Helga. - A temperatura baixou alguma coisa com o arrefecimento?

       - Um grau...

            - Enfim... Miguel vai ficar mais satisfeito...

       Quando Mike e a enfermeira loura entraram no cubículo onde Carmelita Sanchez jazia, com o cabelo negro espalhado pela almofada, Mike pousou a mão no ombro do cubano, que começava a levantar-se da cadeira junto da cama.

            - Deixe-se estar, Miguel... Vim apenas verificar se a temperatura baixava, o cobertor de refrigeração...

       - Baixou um grau, dr. Rabum! É bom sintoma, não é?

            - Enquanto o corpo de Carmelita for capaz de reagir fisiologicamente, há sempre esperança - garantiu Mike.

            - O senhor é um cirurgião e Carmelita é doente do dr. Vogel - lembrou Helga quando saíam. - No entanto, tem passado mais tempo com ela do que o dr. Vogel...

            - Ed é um médico consciente e...

            - Não é isso o que quero dizer. Bem sabemos que é um bom médico. Mas também sabemos que há médicos que não gostam de perder muito tempo com doentes perdidos...

            - Ninguém gosta que lhe lembrem as suas falhas...

            - Mas você continua a aparecer e não consigo deixar de perguntar a mim própria porquê...

            - Tenho reparado que é muito amável com Miguel, por muita vontade que tenha de o ver fora daqui...

            - A resposta é simples: se alguém me amasse como Miguel ama Carmelita, gostaria de o ter comigo quando estivesse a morrer.

            - Mesmo que não desse pela sua presença?

            - Este tipo de amor põe em funcionamento um sexto sentido...

            - Isso não concorda muito com aquilo que me disse há pouco mais de uma hora sobre a sua filosofia do amor e do casamento...

            - Estava a falar do futuro... não do passado.

            - Já experimentou esse sexto sentido?

            - Há dois anos... no Brasil... Carolyn e eu fomos para o hospital missionário, como lhe disse, logo após termos obtido o diploma na Universidade de Florida. Fazíamos parte de uma equipa universitária, mas ficamos, enquanto os outros regressaram. O chefe do laboratório era um homem muito atraente e creio que entre nós se desenvolveu um processo químico, logo desde o princípio...

       - Também era de Gainesvule o chefe do laboratório? Não. Tinha chegado ao Brasil, seis meses antes de nós, como chefe do departamento de bioquímica de uma firma do Midwest. Soube, mais tarde, que se tinha locupletado com muito dinheiro da empresa... Como o Brasil não tem tratado de extradição com os Estados Unidos... - Helga sorriu e continuou: - Nessa altura, já eu me tinha rendido... Taquicardia paroxística, ao ouvir-lhe a voz, síncope quando me beijava... Enfim...

            - Por que não casou com ele?

            - Acabou por me dizer que tinha mulher e três filhos. Ora como não gosto de destruir lares... Carolyn e eu tomamos o primeiro avião da Varig para Miami... e aterramos aqui, no Biscayne Hospital.

            - Não tem pena?

            - Não. Não costumo perder tempo com lamentações. E agora, que já ouviu a história da minha vida amorosa, já pode responder à minha pergunta... Por que não larga Carmelita?

            - Creio que por odiar a derrota, por um lado; por outro, não consigo afastar a ideia de que podia fazer por ela mais alguma coisa...

            - Cada vez tem menos tempo...

            - Pois é... Se ela morrer amanhã ou na próxima semana, se calhar lembro-me do que devia ter feito... E, se assim for, sentir-me-ei responsável pela sua morte...

            - Quer dizer, portanto, que se tortura de cada vez que aqui vem?

            - Mais ou menos... Bem sei que é uma parvoíce...

            - Não é parvoíce nenhuma. Eu sentiria exactamente o mesmo, em circunstâncias idênticas.

            - Obrigado pela sua compreensão. Creio que estamos a desenvolver entre nós um processo químico semelhante àquele de que me falava...

            - E Joey Gates, como vai? - perguntou Helga, mudando de assunto. - Acha que se teria salvo, se não tivesse ido para a câmara hiperbárica?

            - Sei lá...

       - Não há dúvida que agora as suas possibilidades de sobrevivência são muito maiores... Por que não se agarra a esse êxito e põe de parte os fracassos?

            - Sabe muito bem que os médicos não fazem contas dessas... nem as enfermeiras da UCI. Além disso, Gus prescreveu ureia e cianato e...

            - Não há uma dúvida qualquer... acerca da ureia?

            - Por que pergunta isso?

            - Leio o American Journal of Nursing, como os senhores lêem o JAMA.

            - Sim, há uma dúvida acerca da ureia, mas o cianato parece muito prometedor. E se entrar de novo em coma, é sempre possível ir voltar a levá-lo para a câmara...

            - Nunca desiste, pois não?

            - Não. Pelo menos, enquanto não me expulsarem... É verdade! Deixe ordens ao laboratório para fazerem uma análise ao sangue de Joey, por volta das sete da tarde. Pesquisa de células anormais.

            Olhou o relógio enquanto Helga pegava no quadro portátil de chaves de que se servia para comunicar com o banco de dados do computador.

            - Quatro e um quarto, já? Daqui a pouco é uma confusão no banco, com os feridos dos engarrafamentos de trânsito... Até logo, Helga. Vemo-nos mais tarde!

            - Posso acreditar nisso? - perguntou ela, trocista enquanto accionava as chaves.

            - A não ser que o computador decida pregar-lhe um choque eléctrico e abraçá-la... - respondeu Mike, sorrindo.

            - Nesse caso, venha depressa salvar-me... para que eu possa agarrar-me a si ao desmaiar...

      

       - Aqui, no Biscayne Hospital, chamamos-lhe o Comité dos Moribundos por razões evidentes - disse o padre Hagan a Carolyn Payson. - Mas o humor dos médicos é muito cáustico e, por isso, os estudantes já arranjaram outro nome... O Comité de Deus. Mais apropriado, tenho a certeza...

            - Por que diz isso?

            - De acordo com a nossa crença, só Deus pode dar a vida; portanto, logicamente, só Ele pode decidir da morte.

            - Mas as circunstâncias alteram as situações, padre...

            - E são consideravelmente diferentes, no campo médico, do que eram há cinco anos. Todos os dias você e o pessoal das UCI mantêm pessoas vivas que, de outro modo, já estariam mortas. Essa situação tem dado origem a grandes controvérsias sobre a questão técnica de se saber se uma pessoa sem esperanças de sobreviver deve ser mantida viva contra sua vontade.

            - Não posso compreender que haja mais do que uma resposta...

            - Imagine que é velha e, no entanto, ainda agarrada à vida, e que os seus parentes resolvem não estar mais dispostos a suportar a carga que você constitui...?

            - Nunca vi o problema por esse lado...

            - Há pessoas que o fazem... - insistiu o capelão.

       - Nenhum de nós gosta que nos lembrem como somos             mortais e a ideia do golpe de misericórdia, mesmo às mãos de outros, parece-se muito com o suicídio.

            - E deixar que alguém decida de quando o senhor vai morrer - e como - será realmente diferente do suicídio?

       - Se é um moribundo que toma a decisão final, não é legal... Os tribunais decidiram, aqui na Florida, que uma pessoa pode recusar tratamento médico e escolher a morte quando a vida apenas significa dor e sofrimento.

            - É exactamente isso o que meu pai quer quando suplica que o deixem morrer!

            - É evidente que a vida para seu pai já não encerra qualquer esperança ou prazer... Mas a doença de Huntington é muitas vezes caracterizada por graves sintomas mentais, por psicose mesmo, de tal modo que um tribunal poderia alegar que ele não está em condições de tomar uma decisão...

            - Seria cruel!

            - A controvérsia sobre o direito à morte surge precisamente nesse ponto! O comité toma a decisão por doentes incapazes de a tomarem por si próprios.

            - A pedido dos parentes?

            - Regra geral. Primeiro, todavia, o comité procura uma opinião médica competente sobre se o moribundo não tem, de facto, cura. Você trabalha todos os dias entre a vida e a morte, Carolyn, e tenho a certeza de que compreende como é difícil tomar, por vezes, uma decisão dessas...

            - Quando se fizeram as primeiras transplantações cardíacas, as pessoas que sofriam de doenças crónicas do coração, algumas incapazes de respirar sem que o esforço lhes provocasse uma crise de angina de peito, como que ressuscitaram... Mas tudo voltou, depois, ao princípio, quando os corpos começaram a rejeitar os corações transplantados...

            - E a carreira de um excelente cirurgião talvez tenha ficado arruinada por se ver tido como um carrasco, quando, meses antes, todos o apontavam como um salvador! Se os jornais sabem da existência de um Comité dos Moribundos no Biscayne Hospital, em breve não haverá quem dele queira fazer parte.

            - Não se opõe, portanto, a que se deixe morrer uma pessoa sofrendo de doença incurável e quando já nada...?

            - Quem disse que é incurável? A dra. Rebecca Dalton contou-me, uma vez, que o marido estava prestes a conceber uma versão prática do coração artificial... Depois, com a morte dos doentes de transplantação, interrompeu as investigações, desiludido... Mesmo assim, não sei se recomendaria que se deixasse morrer um doente vítima de grave doença cardíaca, quando, amanhã, uma bomba mecânica pode ser inventada para substituir o coração. Como sabe, fizeram-se experiências com bombas dessas em animais...

            - Se não puder tomar uma decisão, para que serve o comité?

            - Tenho feito a mim próprio a mesma pergunta e ainda não consegui uma resposta adequada... Mas, em certas doenças degenerativas e em muitos casos de grave dano cerebral, o doente é, na prática, um morto vivo...

            - Descreveu com exactidão o meu pai... - Carolyn pousou a mão no braço do velho sacerdote, num gesto suplicante. - Quer apresentar o seu caso ao comité, padre Hagan?

            - Se está absolutamente certa de que é isso que pretende...

            - Estou!

            - Muito bem! Transmitirei o seu pedido de uma audiência ao presidente e, mais tarde, será convocada...

            - Devo preparar uma alegação?

            - Nós temos aquilo a que pode chamar um “advogado do diabo” - um advogado ou um médico, para tratar disso.

            - Que me diz à dra. Rebecca Dalton, se a convencer a apresentar o caso por mim?

            - Não poderia fazer melhor escolha! Mas deixe o presidente pedir-lhe... Será o melhor...

   

       As morgues dos hospitais são geralmente sítios lúgubres, localizados no rés-do-chão do mais antigo edifício que faz parte do centro médico. Como, porém, o Biscayne Hospital era novo, o seu rés-do-chão estava brilhantemente iluminado, bem ventilado com ar condicionado, pouco se assemelhava às morgues comuns. Quando Ken Dalton entrou no gabinete de Karen Fletcher, no Serviço de Patologia, encontrou-a debruçada sobre um microscópio.

            - Posso entrar? - perguntou.

            - Claro! - respondeu Karen, sorrindo. - Deram-lhe o recado?

       - A minha secretária disse-me que tinha informações que me poderiam interessar sobre o caso Hornsby.

            - Creio que tenho, de facto, alguma coisa... - Karen de cabelo platinado preso na nuca e usando calças, uma aparência frágil, e a bata imaculada acentuava-lhe curiosamente a baixa estatura. - Estive a fazer uns testes preliminares com o sangue da mulher que morreu, no meu laboratório particular - acrescentou, enquanto se encaminhavam para a pequena sala contígua, onde um líquido escuro borbulhava numa retorta. - Em busca de heroína. Ou de morfina, já que a heroína se transforma em morfina, no corpo...

            - Já a autopsiou?

            - Sam Toyota acaba de o fazer. Anthony Broadhurst telefonou logo que o hospital o preveniu de que a mãe tinha morrido.

            - Por que está o procurador interessado num caso de rotina? Mike Rabum tem drogados quase todos os dias, no banco.

            - A polícia prendeu o homem com quem ela vivia. Confessou que a maltratava e, se Mr. Broadhurst puder provar que a rapariga morreu, de facto, de ferimentos e não de uma dose excessiva de heroína, tratar-se-á de homicídio e não de um simples caso de droga...

            Karen trabalhava enquanto falava, decantando uma pequena porção de líquido para um tubo de ensaio.

            - Que descobriu Sam? - perguntou Ken.

            - Duas costelas partidas sem, contudo, perfurarem o pulmão; não havia vestígios de ar no peito. Havia muitas escoriações, também, mas nenhuma nos órgãos abdominais. Grávida como estava, seria difícil que um atacante lhe rompesse o fígado, os rins ou o baço, como fazem, no

       Extremo-Oriente, os assassinos, ao rasgar o baço dos doentes crónicos de malária... Não; só se soubesse onde desferir o golpe...

            Vertendo igual quantidade de álcool amilico no tubo, Karen agitou-o vigorosamente e colocou-o, em seguida, num suporte; depois, adaptou papel de filtro a um pequeno funil.

            - Estou a extrair parte dos alcalóides, com álcool amilico, para poder fazer o teste definitivo.

            - O tal sobre que escreveu?

       - Não sabia que os cirurgiões liam publicações sobre química...

            Ken Dalton compreendeu ao seu quente tom de voz, que por detrás da bata branca, agora manchada, e dos óculos de aros grossos, havia uma bela e desejável mulher. O conhecimento fê-lo sentir-se um pouco culpado e por isso se afastou. Karen reparou e sorriu ao pegar de novo no tubo de ensaio com a mistura de alcalóides e álcool e ao verter o seu conteúdo no funil, por baixo do qual colocou outro tubo vazio.

            - Descobri acidentalmente o teste rápido da morfina, era ainda estudante... - explicou, enquanto despejava algumas gotas de uma solução no tubo com o líquido filtrado. - A solução Fletcher é a minha única via para a imortalidade - acrescentou, sorrindo, quando a mistura no tubo adquiriu um forte tom violeta. - Voilà como diria Val LeMoyne. Claro que não se trata de um teste quantitativo, mas, se não me enganei nas quantidades, tenho a certeza de que, num clorímetro, a solução registaria heroína suficiente para a matar.

            Ken estudava-a atentamente.

            - Karen... Por que está a ter todo esse trabalho, quando poderia enviar-me amanhã ou depois de amanhã um relatório? Além disso... não é hoje a sua tarde de folga?

            - Troquei-a... O dr. Toler pediu-me para substituir o dr. Cooper no comité executivo. E precisava de fazer os testes o mais rapidamente possível, para o gabinete do procurador saber se deve prender o homem que vivia com a Hornsby...

            - Mas, só por minha causa, não precisava de se matar tanto...

            - Mrs. Connor trouxe o corpo para baixo e explicou-me o que acontecera. Sabia que você estava preocupado... e, por isso, achei que devia, pelo menos, garantir-lhe que era impossível ter salvo a mulher...

            - O electroencefalograma era positivo. Se tivéssemos insistido na ressuscitação...

            - Acha que teria feito alguma diferença?

            - Rebecca podia ter facilmente introduzido um eléctrodo através da veia jugular externa, na aurícula direita, enquanto eu fazia a cesariana... O coração seria, assim, estimulado directamente...

            - Rebecca sugeriu isso?

            - Não. Nem eu...

            - A rapariga morreu de paralisia respiratória devida a uma dose excessiva de heroína, Ken. Acabo de lho provar. Por isso mesmo, nem que você tivesse conseguido manter-lhe o coração a bater artificialmente durante tempo bastante para expelir alguma heroína e permitir a ressuscitação, o dano nas células cerebrais já era irreversível. Ficaria com um ser humano reduzido às funções vegetativas - mais um para o governo distrital cuidar, numa altura em que Ross McKenzie e muitas outras pessoas já estão alarmadas com as despesas deste hospital.

            - Podíamos ter salvo duas vidas, em vez de salvarmos só uma.

            - Leu o relatório dos bombeiros?

            - Não...

            - Antes de chegarem ao banco, não conseguiram tomar o pulso à mulher, pelo menos, durante cinco ou seis minutos; ora, após quatro minutos de anoxemia, as células cerebrais ficam, regra geral, irrecuperáveis. Você não é Deus para decidir quem vai viver e quem vai morrer, Ken. Fez o que parecia indicado e salvou uma vida. Que mais quer?

            - Talvez tenha razão.. Houve um tempo em que me convenci de que era Deus... e vejo, agora, quantas pessoas matei!

            - Aqui, enfrentamos a morte todos os dias. Como patologista, estudei todos os corações que extraiu quando fazia transplantações. Nenhum deles tinha mais de que um ano de vida e alguns meses, no máximo. Você e Rebecca pensavam que faziam o melhor por eles e a taxa de mortalidade das vossas intervenções foi a mais baixa do país. Em parte alguma teriam sobrevivido tanto tempo...

            - Excepto em Houston... ou em San Francisco...

            - Nem aí. A vossa taxa de mortalidade era menor.

            - Mas morreram...

            - Porque os seus corpos lutaram contra os corações saudáveis. Não foi você quem matou esses doentes, Ken; suicidaram-se...

       - Bem tento dizer isso a mim próprio, Karen... Não resulta...

       - Por que não, se é verdade?

            - Não é a verdade toda. Quando os meus primeiros pacientes começaram a morrer, Rebecca suspeitou do que acontecia e avisou-me; eu tinha, porém, que desempenhar o meu papel de ressuscitador e continuei... Depois de se ter sido Deus por algum tempo, é difícil descer e voltar a ser um homem vulgar...

            - Foi desse aviso de Rebecca que partiram os vossos problemas conjugais?

            - Creio que sim. É muito duro ser-se desenganado pela própria esposa, especialmente quando temos que ver pessoas morrer, uma a uma, depois de nos terem avisado de que isso ia acontecer, se persistíssemos...

            - Rebecca atirou-lhe isso em cara?

            - Reb não é dessas, mas antes fosse... Tínhamos uma briga e talvez salvássemos o casamento...

            - São quase cinco horas! - observou Karen, olhando o relógio. - Importa-se de ir comigo à reunião do comité executivo?

            - De modo nenhum!

            - Sei bem que serão amáveis... mas, pelo que ouvi acerca das queixas de Mr. McKenzie... Mr. McKenzie vai, com certeza, comer-me viva!

            - Jeffry Toler protegê-la-á - garantiu-lhe Ken. Obedecendo, então, a um impulso que não podia explicar, mas que Karen compreendeu, acrescentou: - E eu também!

            No elevador, Karen disse casualmente:

            - Tem visto Dale Tyndall, ultimamente?

            - Não. Porquê?

            - Ia ao Dolphin Lounge há cerca de meia hora, eu saía da piscina. Kevin dá-lhe cerveja a fingir... Tanto ele como eu lhe notamos uma maior dificuldade em respirar. Está mais cianótico... Se quisesse dizer a Rebecca para o ver...

            - Falarei com ela - prometeu Ken. - Obrigada pela lembrança, Karen... Gostamos muito de Dale.

            - Também eu. Seria terrível vê-lo piorar por negligência nossa.

 

       Na sala de reuniões, localizada no vigésimo andar do hospital, os outros membros do comité executivo a quem cabia a administração do centro médico sentavam-se já em redor de uma longa mesa de mogno quando Ken Dalton e Karen Fletcher entraram. Sobre uma pequena mesa, a um canto, um recipiente com café e grande quantidade de copos de papel, que se podiam ver também, mas ou menos vazios, diante dos directores.

            Através de uma ampla janela, podia assistir-se a uma bela cena no exterior. Barcos de recreio cruzavam a baía na direcção do Sul vindos de Haulover Island, o pequeno canal de acesso ao mar, a caminho dos seus ancoradouros, frente à baixa da cidade, enquanto esquiadores aquáticos cavalgavam as ondas que faziam. Uma grande embarcação largava do novo porto de Miami preparado para que a procissão de barcos que regularmente partiam para as Caraíbas e outros portos pudesse ancorar no coração da cidade, em vez de utilizarem Port Evergiades, algumas milhas a Norte, entre Miami e Fort Lauderdale. O novo porto de Miami registava importante movimento, que fazia dele um dos mais concorridos do mundo.

            A presidência da mesa era ocupada por Andrew Graves, banqueiro local e presidente da direcção do centro médico, que funcionava essencialmente como comissão hospital para o distrito. à esquerda de Graves, sentava-se Ross McKenzie, o veterano chefe político local. Um dos mais ricos cidadãos de Miami, McKenzie possuía vastas extensões de terra, bem como uma importante fábrica de conservas. Fazia parte, havia muito, do governo distrital, e era presidente da comissão financeira.

            A cadeira à direita de Andrew Graves pertencia a Jeffry Toler, director administrativo do centro, com os francos olhos azuis por detrás de óculos com aros finos a mascararem um cérebro que funcionava como o computador do hospital. A seu lado, a secretária da direcção, Helen Gaynor, com a máquina de estenografar, pronta a transcrever o relato da reunião, convocada para apreciar o orçamento do hospital.

            A classe médica do hospital e da Universidade estava bem representada. O dr. Manning Desmond era professor de clínica médica e um cientista afamado. Ken Dalton representava cirurgia, o dr. Adrian Cooper, cujo lugar Karen Fletcher ocupava naquela tarde, servia, como médico legista do distrito, de ligação entre o hospital, o governo regional e a conglomeração de municipalidades que constituíam a metrópole chamada Miami.

            Karen parecia pequenina e indefesa quando ocupou a cadeira do dr. Cooper como membro do pequeno grupo que constituía o comité executivo da direcção, em férias de Estio. Jeffry apresentou-a a Ross McKenzie, que respondeu com um resmungo. Quando Andrew Graves bateu com o martelo no calço de madeira polida à sua frente, fez-se silêncio na sala.

            - Está aberta a reunião de Junho do comité executivo. Todos receberam uma fotocópia da acta da reunião do mês passado. Se não tiverem correcções a propor, declaro a acta aprovada. Mr. McKenzie pediu para usar da palavra em primeiro lugar... Quando quiser, Ross...

            Ross McKenzie era um homem encorpado, de sessenta e cinco anos, com a expressão dura dos seus antepassados escoceses, também evidente no sotaque, mesmo apesar de viver nos Estados Unidos desde os dez anos. Olhou em volta da mesa, como se desafiasse os outros a disputar o seu direito de ser o primeiro a falar.

            - Meus senhores - disse, ignorando a presença de Karen - sabem, com certeza, que, a avaliar pelo orçamento que submeteram à comissão para o ano fiscal que se inicia em 1 de Julho, este hospital encaminha-se para uma grave crise financeira.

            - Cite-me um que não esteja nas mesmas condições - interveio Manning Desmond. - Com o custo da mão-de-obra a subir em espiral, desde que os empregados dos hospitais foram autorizados a filiar-se em sindicatos e o Congresso elevou o salário mínimo, em que outra situação poderíamos estar?

            - Não é isso. Todos sabem que me opus à construção deste centro médico. Agora que se transformou no sorvedouro que eu previ, não esperem que o governo distrital os apoie.

            - Preferia ter uma choça infestada de ratos, Mr. McKen - perguntou Jeffry Toler sem rodeios.

       - Minha filha nasceu num velho hospital e nem ela nem minha mulher tiveram problemas.

            - Há vinte anos, um serviço de obstetrícia exigia apenas uma sala de partos, uma dúzia de berços e camas para as mães - prosseguiu Toler. - Tudo isso custava talvez uns vinte dólares por paciente por dia; hoje, custa mais de cem manter vivo um prematuro na Unidade de Cuidados Intensivos de Pediatria, depois de o dr. Dalton ter conseguido tirá-lo do corpo da mãe antes desta morrer.

            - Talvez não tenha valido a pena... - resmungou McKenzie.

            - Que escolhe você, Ross? - perguntou Andrew Graves. - A economia de alguns dólares, ou bebés mortos que podiam ser salvos? Aposto que não falaria assim, se a sua filha e o seu neto estivessem em causa...

            - De que morreu a mãe? - perguntou McKenzie.

            - De uma dose excessiva de heroína - respondeu Ken.

            - O que eu pensava! Salvar pessoas que custam ao distrito milhares de dólares em subsídios de assistência, é uma perda de tempo e de dinheiro!

            - Os médicos não medem vidas humanas por dólares - interrompeu Karen, em voz tranquila.

            Ross McKenzie olhou-a, admirado, e abanou a cabeça, presunçoso, continuando a sua diatribe:

            - Pelo que vejo, nenhum dos senhores faz ideia do valor de um dólar. Gastar cem mil dólares para os médicos apreciarem a baía da janela? E essa Unidade de Cuidados Intensivos que instalaram no rés-do-chão... Só o equipamento custa quase um milhão de dólares!

            - Concentrar todas as funções de emergência e de cuidados intensivos numa só área, não só se impõe por razões de eficiência como também faz do Biscayne o mais moderno hospital do mundo - respondeu Ken. - A maioria dos hospitais têm pequenas unidades de cuidados intensivos espalhados pelo edifício, todas exigindo pessoal especializado e material muito caro. Concentrando as unidades de cuidados intensivos, podemos empregar o pessoal por turnos e evitar duplicação de monitores e de outro equipamento electrónico. Dispondo de pessoal altamente treinado no banco, apenas a alguns metros de distância, perde-se menos tempo quando há que enfrentar situações graves.

       - Por que razão o Biscayne Hospital trata de tantos casos de emergência, dr.? Os casos de emergência nunca são compensadores!

            - Construímos este centro aqui por ter acessos extremamente rápidos - respondeu Andrew Graves. - Uma das atracções que esta zona tem para pessoas idosas é a possibilidade de dispor de cuidados médicos especializados a todo o momento. Muitos dos antigos hotéis da baía estão cheios de velhos sentados ao Sol, à espera de morrer...

       - Mas que diabo tem isso a ver com o facto deste hospital ser um sorvedouro de dinheiro? - perguntou McKen irritado.

            - Se deixássemos que as pessoas que se encontram nesses lares morressem simplesmente quando chega a sua hora, não precisaríamos de ter um hospital para as tratar... e os nossos estudantes perderiam uma das melhores fontes de aprendizagem que possuímos - objectou Ken.

            - Mas os velhos, Mr. McKenzie, não se limitam a morrer. Têm ataques de coração, doenças de fígado, afecções da próstata. A maior parte deles não possui recursos financeiros que lhe permita estar doente durante muito tempo         cabe, por isso, ao governo local fornecer-lhos, tal como suportamos todas as despesas feitas pelos dados à assistência e pomos esta ao alcance de todos.

            - Dê-me um bom motivo para que o cidadão que paga pontualmente os seus impostos e que não pratica a caridade, tenha que pagar a caridade dos outros - rosnou Ross McKenzie.

            - Posso dar-lhe mais de que um motivo, Ross - respondeu Andrew Graves. - Quando a taxa de ocupação dos hotéis da área de Miami começou a cair, pelo facto de os turistas preferirem ir jogar para os casinos das Bahamas ou das Caraíbas - isto para não falar já da Disneylândia e de todos esses complexos de entretenimento que se constroem na Florida Central - as municipalidades do distrito decidiram todas transformar estes hotéis em lares para pessoas idosas.

            - E que mais lhes pode dar, além do clima, que não pudessem ter nos seus estados natais... sem sobrecarregar a gente da Florida?

       - Em primeiro lugar, temos um dos melhores programas de investigação geriátrica do país, financiado pelo governo federal - respondeu Ken. - Um dos nossos cirurgiões, o dr. Mike Rabum, tem tratado de um grupo de velhos sofrendo de um declínio geral de todas as funções do corpo, em virtude da idade, e da arteriosclorose, na câmara hiper bárica, com oxigénio sob pressão...

            - Outro milhão de dólares desperdiçados! - observou McKenzie.

           - A marinha ofereceu-nos a câmara e também subsidia o seu funcionamento - explicou Jeffry Toler. - Não são os habitantes do distrito que a pagam!

            - Acaba por sair tudo do mesmo bolso! - contestou McKenzie. - Continue...

            - Como dizia, o dr. Rabum expõe os pacientes à mais elevada pressão de oxigénio que podem suportar sem convulsões...

            - Experiências, doutor?

            - Sim, mas para bem deles. Homens e mulheres que entram na câmara praticamente reduzidos às funções vegetativas, raramente falando, não mostrando interesse seja no que for, exigindo que os alimentem como a bebés, saem de lá rejuvenescidos, capazes de comunicar, mesmo de olhar por si próprios. E, o que é mais, os efeitos duram, por vezes, semanas. Quando começam a esbater-se, outro tratamento hiperbárico reata o processo.

            - É melhor não nos obrigar a pôr de parte este programa, Ross - lembrou Andrew Graves secamente. - Ambos podemos ter necessidade dele, dentro em breve...

            - Você lá sabe! - exclamou McKenzie. - Devo dizer que me agrada verificar que pelo menos um serviço faz qualquer coisa para manter os velhos e os que sofrem de arterosclorose vivos, dr. Dalton. O senhor já deu o seu contributo pessoal, reduzindo o número de pessoas idosas que atravancavam este centro...

            O sarcástico comentário do político foi como um estilete cravado no corpo; Ken Dalton retesou os músculos e empalideceu, enquanto Karen Fletcher abria a boca de espanto. Ninguém falou, porém, quando Ken se levantou, derrubando a cadeira. Nem ninguém tentou detê-lo, quando abandonou a sala.

            - Bem... - Andrew Graves quebrou o silêncio quando a porta se fechou. - Peço desculpa à dra. Fletcher pela linguagem, mas devo dizer que acaba de se qualificar para o título de filho da mãe americano. Parabéns!

            - Digo sempre a verdade e toda a gente sabe isso - respondeu McKenzie sem o menor sinal de arrependimento. - Dalton matou tantas pessoas que, se fossem todas mulheres, bem lhe podíamos chamar um moderno Barba Azul!

            - O dr. Kenneth Dalton é um dos maiores cirurgiões que este país produziu nos últimos tempos! - bradou Jeffry Toler. - Faço questão de lhe apresentar desculpas, logo que este encontro termine.

            - Não o fará por mim! Se tivesse a consciência tranquila, não teria fugido!

           - Fê-lo, talvez, para não o matar - observou o dr. Desmond. - Felizmente que o caso não é comigo... Tenho quase a sua idade, McKenzie, e não desdenharia o prazer de o estrangular!

            - Muito bem, meus senhores! - rematou o político.

       - Vim aqui para ouvir propostas concretas sobre a melhor maneira de assegurar a gestão deste hospital... e ainda não ouvi nenhuma!

            - Já lhe entregamos o nosso orçamento para o ano fiscal que começa em Julho - lembrou Graves. - Quais são as suas sugestões?

            - Reduzir os custos para metade, não admitindo pacientes que não paguem, excepto casos de vida ou de morte. E deixem de transformar garotos em especialistas, para enriquecerem, em vez de se instalarem em pequenas cidades e praticarem a medicina que lá faz falta.

            - Isso faz tanto sentido, como você cortar a cabeça para poder cuspir na sua própria cara - gritou Andrew Graves. - Se vocês, os políticos, não têm melhor solução do que essa para enfrentar o custo dos cuidados médicos, então a direcção deste hospital terá que pedir um referendo sobre o caso, para este Outono. Deixaremos as pessoas decidirem se querem que o Biscayne permaneça aberto, e se dispõem a cobrir os nossos déficits, ou fechado - condenando pessoas à morte!

            - Creio que não desconhece a resposta que os votantes darão a essa questão. Mr. McKenzie - disse Manning Desmond. - As pessoas têm orgulho neste centro médico e no que significa para a comunidade. Mais de metade dos nossos doentes já têm idade para votar e, os restantes, têm pais..

       - Doutor? - É ameaça, - perguntou McKenzie como mesmo desprezo com que olhasse um cão. - Ou um bluff?

            - Interprete como quiser. Mas se formos obrigados a reduzir os nossos programas de ensino, por falta de doentes ou de fundos, perderemos milhares de dólares de subsídios governamentais.

            - Talvez o público seja melhor servido sem isso a que chama investigação. Sei que o dr. Dalton aprendeu a transplantar corações, fazendo experiências com cães. E não preciso de lhe lembrar que, pelo menos, catorze pessoas estariam hoje vivas se ele não tivesse aprendido tanto!

            - Os doentes que o dr. Dalton operou tinham apenas alguns meses, no máximo um ano, de vida - interveio Karen Fletcher. - Parte deles constituía um encargo para esta cidade, havia anos, devido a graves doenças cardíacas.

            - E através das transplantações - acrescentou Toler - o dr. Dalton e a dra. LeMoyne fizeram importantes progressos no campo da anestesia que ajudarão a salvar muitas crianças antes condenadas a morrer, vítimas de doenças cardíacas congénitas, e velhos que necessitam de válvulas artificiais.

            - O dr. Kenneth Dalton e dra. Rebecca Dalton aprenderam muito ao estudar o problema da rejeição dos órgãos e esses conhecimentos abriram novas possibilidades às transplantações de rins e de outros órgãos - lembrou Karen.

            - Não estou aqui para discutir medicina com médicos; de medicina sabem vocês... ou têm, pelo menos, obrigação de saber - resmungou McKenzie. - Estou apenas a avisá-los de que o comité financeiro não vos concederá bem mais um cêntimo, além do orçamento deste ano.

            - Mas o senhor sabe que o funcionamento deste hospital fica muito mais caro do que do antigo! - protestou Jeffry Toler.

            - Vocês é que quiseram este palácio, não foi, dr. Toler? Têm-no! Não lhes daremos mais dinheiro para o administrar do que aquele de que dispunham para o velho hospital; se estiverem em dificuldades antes do fim do ano, o melhor que têm a fazer é dar a volta às chaves!

            - Mas...

       - Que temos a seguir, Andrew? - perguntou McKenzie. - Não posso passar aqui toda a noite!

            Andrew Graves olhou a agenda e respondeu:

            - Aprovar a reforma do dr. Jake Barrows, por incapacidade..

       - Que tem ele?

            - O dr. Barrows teve recentemente uma trombose - explicou Manning Desmond. - Sofre de angina de peito e, na nossa opinião, já não pode desempenhar cabalmente as funções de chefe do serviço de cardiologia. Recomendei que a dra. Rebecca Dalton o substituísse e fosse elevada à categoria de professora.

            - A mulher de Kenneth Dalton? - perguntou McKenzie, num tom de voz que denotava incredulidade.

            - Sim.

            - Que idade tem ela?

            - Trinta e dois anos, creio.

            - Quer dizer que tenciona pôr uma mulher dessa idade à frente do mais importante serviço do hospital?

       - A faculdade concorda - esclareceu Manning - Que tem o senhor a objectar, Mr. McKenzie? - perguntou Karen Fletcher em tom desdenhoso. - É por causa da idade... ou pelo facto de ser mulher?

            - Pelas duas coisas! Mais o facto de ser esposa do dr. Kenneth Dalton. - Voltando-se para Manning Desmond, acrescentou: - Não foi ela que ajudou a escolher os casos susceptíveis de transplantação?

            - Foi.

            - Que estão os senhores a tentar fazer? Primeiro, querem promover uma mulher a uma função de homem e, depois, admitem que é uma incompetente!

            - Eu própria examinei os corações substituídos, Mr. McKenzie - disse Karen. - Nenhum dos doentes podia ter vivido com eles mais de seis meses, se tanto.

            - Mas agora estão todos mortos!

            - Todos, menos um.

            - Conhecemos bem as suas ideias preconcebidas, Ross - interveio Andrew Graves severamente. - Se passasse uns dias a observar de perto o trabalho deste hospital em vez de nos criticar por não querer que o construíssemos, não ignoraria que a dra. Rebecca é uma das mais notáveis cardiologistas do país!

            - Já agora que nos dá a conhecer os seus preconceitos, Mr. McKenzie - cortou Karen - acho que lhe devo dizer que o meu assistente, o dr. Sam Toyota, é japonês

            - E o técnico chefe do Laboratório de Investigação Nefrológica é um negro, Ross - acrescentou Andrew Graves. - Conheço-o, porque faz análises no meu neto.

            - Pode meter na sua escola uma salada de raças e o movimento de libertação das mulheres, se lhe apetecer - disse McKenzie, fechando a pasta. - Mas não me peça para tentar sacar mais dólares do que aqueles que já lhe disse que teria. Discordo da promoção da dra. Dalton, Andrew. Voto não! E agora... Tenho outra reunião esta tarde e não estou disposto a perder mais tempo discutindo consigo.

            Antes que alguém pudesse protestar - e ninguém o tentou - McKenzie saiu da sala.

       - Só temos uma opção... - alvitrou Andrew Graves. - Amanhã vou solicitar que o financiamento do centro médico passe a dispor de um estatuto especial para que Ross McKenzie não nos possa dar mais ordens!

            - Não sei se eles concordarão... - opinou Manning Desmond. - Têm uma máquina de fazer votos...

       - Ainda temos outro trunfo - lembrou o dr. Toler.

            - Qual, Jeffry?

            - Mike Rabum salvou a vida do pequeno de Big Joe Gates, esta tarde. Logo à tarde, no noticiário das seis, a televisão vai dar uma grande reportagem. E os jornais de amanhã virão, também, cheios de notícias sobre o caso.

            - E Big Joe é a estrela do Miami Snappers! - Andrew Graves assobiou baixinho. - Já se têm ganho eleições com menos trunfos...

      

            - Pareces cansado, querido...

       Carolyn Payson e Gus Henderson tinham acabado de entrar e sentavam-se a uma pequena mesa do restaurante.

            - Tive um dia terrível! - respondeu o pediatra. - Viste Mike Rabum, no noticiário das seis, com o filho de Joe Gates?

            - Vinha a entrar na sala de visitas quando passavam o filme. Mas, porquê Mike, em vez de ti? Aquele tipo de doença cabe melhor na especialidade de pediatria...

            - Mike tem mais experiência do que ninguém com a câmara hiperbárica. Além disso, foi ele quem teve a ideia, e eu já tenho tudo o que quero, excepto tu...

            - Pensava que já me tinhas toda... Ou aprendeste alguma nova técnica com Ed Vogel?

            - Falo de casamento, querida. No dia 1 de Julho, tornar-me-ei assistente de pediatria com possibilidade de entrar para a Clínica Privada de Diagnóstico. Em poucos meses, poderemos começar vida nova, sem dificuldades. Pagarei as dívidas que contraí com os estudos. Nem sequer precisarás de trabalhar...

            - Mas eu quero...

            - Então, por que não nos casamos já amanhã?

            - Meu pai é uma carga que não poderia impor a ninguém.Já gastou quase todo o dinheiro que tinha com o internamento e eu ando a fazer economias. Alguém tem que pagar...

            - Estou a dizer-te que dentro em breve não teremos dificuldades financeiras. E, mesmo agora, tenho crédito...

            - Não te poderia deixar fazer isso. Não seria decente...

       - Nem se eu quiser?

       - Mesmo assim, continuaria a sentir-me mal... Por que não continuamos como até aqui?

            - Não te deve agradar...

            - Já me queixei?

            - Não, mas...

            - Então não se fala mais nisso!

            - Gostava que tu soubesses que, a partir de 1 de Julho, terei quase todas as noites livres...

            - E eu saio de serviço às três da tarde - recordou Carolyn, sorrindo. - Terei muito tempo para te fazer o jantar!

            Gus olhou o relógio e pegou nas bandejas que haviam empurrado para um extremo da mesa, depois de terem comido.

            - Bem, tenho que ir fazer rondas...

            - Espera um minuto, querido... Gostava de te perguntar uma coisa...

            - Diz lá...

            - Que sabes acerca do Comité dos Moribundos?

            - Do comité de quê? Ah... Referes-te ao Comité de Deus...

            - Sim, creio que também lhe dão esse nome...

            - Não faças isso, Carolyn - respondeu Gus, pegando-lhe nas mãos.

            - Como sabes...?

            - Só podias ter um motivo para recorrer a esse comité: teu pai...

            - Então, estás a par...?

            - É tudo super-secreto, como muitas coisas, neste hospital...

            - Não fazes parte do comité, pois não?

            - Não. Quem te falou nele?

           - O padre Hagan. Pedi-lhe para convocar uma reunião, a fim de tratarem do problema de meu pai...

            - Preferia que não o tivesses feito, Carolyn...

            - Porquê? Meu pai quer morrer!

            - Não lhe recuso o direito de querer morrer... nem mesmo o de se suicidar. Mas...

            - Ninguém pode tomar decisões por ele. Ele próprio não o pode fazer e as únicas palavras que pronuncia são “deixem-me morrer”.

       - É em ti que penso, querida.. - Apresentei dois casos ao comité, ambos recém-nascidos mongolóides, com meningocele e deformação espinal - ambos sem possibilidade de cura. Sabes que muitas destas crianças nascem com estenose do piloro, não podendo, assim, os alimentos sair-lhes dos estômagos...

            - Tenho visto diversos mongolóides nas Unidades de Cuidados Intensivos, depois de operados ao estômago para eliminar a obstrução.

            - Estes tinham a coluna vertebral tapada. Não são casos difíceis de salvar. As famílias destas duas crianças achavam que seria conveniente que crescessem junto dos irmãos e, por outro lado, não tinham possibilidade de os internar numa instituição apropriada. O Comité de Deus decidiu que não fossem operados...

            - Deve ter sido por isso que não os vimos na enfermaria.

            - Havia outra razão: o pessoal do teu serviço está treinado para preservar a vida; ser obrigado a assistir à morte lenta de um ser humano que não pode tomar qualquer alimento, nem sólido nem líquido, constitui uma experiência traumatizante. Por isso, os colocámos num quarto isolado e tentamos vê-los o menos possível; passou muito tempo, contudo, antes que morressem de fome e mais de uma vez me senti tentado a pôr fim àquela tragédia, dando-lhes uma injecção de ar. É uma situação dramática, podes crer... No caso do teu pai seria ainda mais duro para ti...

            - Não posso vê-lo a morrer devagarinho. Destruido por algo que ninguém pode dominar...

            - Disseste que o padre Hagan pediu uma reunião do comité?

            - Já está marcada...

            - Só posso desejar que depois não te sintas culpada e não te censures...

            - Censurar-me-ia mais se o deixasse viver...

            - Sim, talvez... É uma escolha difícil... Quem me dera poder ajudar-te...

            - Podes. Continuando a amar-me...

            Gus beijou-lhe a mão, que segurava, e acrescentou:

            - Existem tantas possibilidades de isso não acontecer, como de o inferno gelar!

   

       Jeffry Toler telefonou a Rebecca Dalton, no restaurante.

            - Que está a fazer, Reb? - perguntou.

            - A acabar de comer uma torta de galinha a que não posso resistir nem que amanhã tenha que morrer de fome! - respondeu Rebecca do restaurante.

            - Pode esperar por mim? Vou já sair... Encontramo-nos no vestíbulo. Tenho que ir ao Terrace, mas volto num minuto.

            - Tem visto Ken ultimamente? - perguntou-lhe Toler quando, minutos mais tarde, se encontrou com Rebecca Dalton, no vestíbulo do primeiro andar.

            - Vi-o há horas, quando fez a cesariana no banco e salvou o bebé.

            - Ouvi dizer... Teve que raciocinar depressa...

            - E que operar depressa, também. Parece-me que só Ken ou Mike Rabum podiam ter actuado com tanta rapidez e eficiência. Mas Ken não esteve na reunião do Comité Executivo?

            - Esteve durante algum tempo. As coisas começaram a correr mal e foi-se embora...

            Quer dizer que discutiu por causa da minha nomeação?

            - Não. Saiu antes.

            - Então, ainda não sabe?

            - É capaz de já saber... Foi tudo por causa de Ross McKenzie... Começou com uma das suas tiradas... E tentou também torpedear a sua nomeação... Acha que o lugar das mulheres é em casa!

            - Quem sabe se não terá razão, Jeff... Pelo menos, no que respeita ao amor do meu marido...

            - Não creio que Ken seja da mesma opinião, Reb. Ando à procura dele para lhe pedir desculpa... em nome da direcção...

            - Quer-me contar o que Mr. McKenzie disse?

       Jeffry Toler fez a Rebecca um resumo do que se passara na reunião. Ao acabar, a médica olhou-o com ar preocupado.

            - Ken já anda deprimido com os doentes que morreram... Acaba de perder a mulher que aqui apareceu grávida... Esse ultraje pode ser o bastante para...

       - Não está a pensar em...?

            - Há muitas maneiras de cometer suicídio, quer profissional quer fisicamente, sem se encostar uma pistola à cabeça. Vou ver se descubro onde está...

            - Não está no hospital. Já o chamaram e não apareceu...

            - Creio que sei onde está... Deixe-me tratar disto, por favor, Jeff. No fim de contas, sou eu quem tenho mais a perder.

   

       O Dolphin Louge estava quase deserto quando Ken Dalton entrou, pouco antes das sete. Era ainda cedo demais para as bebidas do serão e a hora dos aperitivos já passara. Ken olhou furtivamente o bar e descontraiu-se ao ver o corpo robusto e cara familiar de Kevin Mccartney, o irlandês, ao balcão de mogno.

            - Cá estou, dr.! - cumprimentou Kevin, com o habitual sotaque de Country Cork. - Cá estou cheio de saúde para dar e vender!

            - Assim seja... - respondeu Ken, sentando-se num banco.

            Kevin era o terceiro dos seus doentes a quem transplantara o coração e o único que se mantinha vivo. E fora também o mais difícil, visto o único coração disponível ser bastante mais pequeno do que o removido do peito de Kevin. Mas a delicada sutura exigida pela adaptação do coração mais pequeno aos vasos sanguíneos que haviam estado ligados a um coração maior, tinha dado a Ken confiança no seu talento - a confiança que lhe permitira executar, em seguida, doze operações do género, sem mortes na mesa, nem no pós-operatório.

            Kevin estava de visita a Miami, quando o terceiro ataque cardíaco lhe danificou irremediavelmente o órgão já enfraquecido; só podia escolher entre a transplantação e a morte. A seguir à intervenção cirúrgica, tinha decidido desempenhar as funções de barman, no Dolphin Lounge, para estar perto dos médicos do hospital que lhe haviam salvo a vida. De certo modo, o irlandês perseguia Ken, pois recordava o facto - obcecante, desde que, juntamente com Rebecca, ajudara Kevin a vencer quatro crises de rejeição, cada uma delas mais grave que a anterior - de que Kevin começava já a dever ao mundo o tempo de vida...

            - Toda a gente que aqui veio tomar uma bebida antes de jantar falava no bebé que salvou esta tarde, dr. - disse Kevin, enchendo um copo de cerveja gelada para o cirurgião. - Deve ter sido uma operação contra-relógio..

            - Disseram-lhe que eu podia ter salvo a mãe, se não me tivesse preocupado exclusivamente com o bebé?

            - Não. E não me parece que as pessoas pensem isso... Como está o garoto?

            - Sujeito ao tratamento dos drogados, sem nenhuma razão para viver.

            - Salvo uma... Está efectivamente vivo!

            - Sim... Mas considerando o futuro que lhe está reservado...

            - Ora! Entre viver e morrer, vale sempre mais a pena viver, dr.!

            - Não sabia que era filósofo... - observou Ken bebendo um golo.

            - A minha filosofia resume-se a estar vivo. Segundo penso, não só me esforço por viver, como também por que o coração da rapariga que cá tenho, viva... Isto torna-o responsável por nós ambos. Digam, portanto, o que disserem, o senhor não se pode enganar!

            - Não enganar e não fazer mal - é o primeiro princípio que um médico aprende. Mas você é o único de quinze, Kevin... O último... Não sei se os outros estariam de acordo com a sua filosofia...

            - É preciso ver a morte diante dos olhos como nós a vimos... Todos os que o senhor operou a tinham à frente e pode crer que nos metia muito medo... Era mesmo um problema de vida ou de morte... Por isso, o senhor não recuou... Mike Rabum disse-me que o senhor e a senhora...

            - Ex-senhora...

       - Também não aceito isso! Conheço muito bem o dr. e a dra. Reb para saber que constituem uma verdadeira equipa. Gelei muitas garrafinhas de Cold Duck para ambos! Quanto mais cedo fizerem as pazes e recomeçarem a trabalhar, melhor será para nós e para muitas outras pessoas cujos corações começam a falhar.

            - Tem aí qualquer coisa para acompanhar a cerveja? - perguntou Ken.

            Kevin percebeu que o médico queria desviar a conversa, que fora atingido no local sensível.

            - Com certeza, doutor. E o jornal da tarde, também. Por que não se senta ali ao canto? Já lhe trago os aperitivos com mais cerveja...

   

       Eram quase oito e meia quando Rebecca entrou no DolEphrin Lounge e se sentou no bar. Esperou que Kevin McCartney acabasse de servir um homem no extremo do balcão e uma dúzia de estudantes e outro pessoal do centro que ocupava várias mesas perto da máquina de discos e dançava rock.

            - Tem um som horrível! - exclamou Kevin, aproximando-se de Rebecca. - Saí eu da Irlanda para fugir a esta barulheira e afinal... Que toma, dra. Reb?

       - Um Angel Tip.

            - Seu marido esteve aqui há coisa de uma hora - informou o barman, vertendo creme de cacau num copo, juntando-lhe uma colher de chá de natas e enfeitando tudo com uma cereja. - Tomou duas cervejas e uns aperitivos...

            Sabendo o verdadeiro motivo por que Rebecca viera ao bar, Kevin dava à médica a informação que esta pretendia sem a obrigar a perguntar-lhe se Ken bebera muito, como acontecera ultimamente numa ou duas ocasiões.

            - Creio que o dr. vem cá para me ver, para saber como me aguento...

            - E então?

            - Estou óptimo!

            Conhecendo bem Kevin, Rebecca estranhou o tom de voz do barman que insinuava à dúvida.

            - Não me lembro de o ter visto no Laboratório de Pesquisa Cardiológica, no mês passado...

            - Sabe como é, dra. - Quando uma pessoa se sente bem... A gente até se esquece...

       - Esquece? Esquece... ou não quer contar o que se passa. Podemos pensar que se não aparece aos exames é...

            - Por que havia eu de fazer isso, dra.?... porque receia que nos preocupemos!

            - Acha que sou capaz de a enganar?

            - Não... Não acho, de facto... Depois de tudo o que passamos...

            - Como poderia eu esquecer que foi a senhora que me convenceu a fazer a operação... e o dr. Ken a fazê-la..., quando já tinha perdido todas as esperanças?

            - Quero vê-lo amanhã no laboratório, às nove! Peggy Tyndall faz-lhe um electrocardiograma e mais uns testes... Quando tivermos as informações de que precisamos, aí por volta das onze horas, examino-o eu...

            - Não pode ser depois de amanhã? Estava a pensar em sair de manhã cedo para pescar. Conheço lá um tipo com um barco e tínhamos planeado ir à pesca, ao largo de Marathon.

            - Está bem. Mas, depois de amanhã...

            - Lá estarei, dra.!

            Rebecca acabou a bebida e pagou com um dólar.

            - Se não aparecer no laboratório depois de amanhã, virei à sua procura - disse ao sair.

            - Quem era? - perguntou o homem no extremo do balcão, quando Kevin lhe colocou na frente outro copo de cerveja.

            - A dra. Rebecca Dalton. É a melhor cardiologista do centro médico, casada com o melhor cirurgião do mundo!

            - Sempre há gente com uma sorte... Se a minha mulher tivesse uma cara assim, não era eu quem a deixava andar pelos bares a beber sozinha...

   

       Com o anoitecer, a brisa da baía deixara de soprar e sobre Evergiades, a vasta margem verde,. crescia uma nuvem negra que prenunciava tempestade. Fazia calor quando Rebecca saiu do Dolphin Lounge, um calor particularmente opressivo e húmido, em contraste com o ar condicionado do bar.

       A piscina entre o hotel e a baía estava bem iluminada e nela nadavam um estudante e a namorada. Rebecca decidiu dar um mergulho para se refrescar antes de dedicar umas horas à leitura no apartamento onde vivia sozinha desde que Ken se mudara, seis meses atrás, para um andar inferior.

            No quarto, despiu-se rapidamente e, reparando num fato de banho azul metido num saco de plástico que o protegia da humidade da Florida do Sul, resolveu vesti-lo. Há quanto tempo não o usaria? Era forte o cheiro da naftalina.

            Seria o mesmo que tinha comprado dez anos antes, ao preparar-se para a semana de felicidade que haviam passado num barco que Ken alugara para a lua-de-mel, ao largo de Florida Bay? Tinham-se casado no dia seguinte àquele em que receberam os seus diplomas e, na altura, como ainda nem haviam começado o internato, um barco ancorado era o máximo que se podiam permitir - e tudo aquilo de que necessitavam.

            Recordando o passado, Rebecca tinha a certeza de que se apaixonara por Ken no dia em que pusera o pé na escola médica, mais propriamente no Laboratório de Anatomia, quando ele se havia oferecido para a ajudar a fazer a dissecação. Rebecca, por orgulho, tinha recusado - e continuava a orgulhar-se de ter conseguido manter, durante dez anos de casamento, a sua independência pessoal e profissional.

            Ken chamara-lhe “Rebelde”, nessa manhã, mas o sorriso que lhe oferecera roubara todo o significado de tal palavra. Embora durante os quatro anos de escola médica tivesse tido terríveis concorrentes, alternando, no primeiro lugar das classificações, Ken acabara por vencê-la nos exames finais apenas por meio ponto.

            No tempo livre que os estudos lhes consentiam, viviam inseparavelmente. As classificações que tinham obtido no curso davam a ambos a possibilidade de escolher o hospital onde pretendessem fazer o internato; como ambos adoravam a Florida do Sul, optaram pelo Biscayne, onde começaram a trabalhar como marido e mulher.

            Nenhum deles tinha mudado muito, fisicamente. Ken todos os dias fazia ginástica no Serviço de Reabilitação e continuava a ser o homem esbelto que Rebecca tinha conhecido. Sem dúvida que os seus olhos azuis denotavam agora uma preocupação constante e, às vezes, ao vê-lo atravessar a relva entre o hospital e Bayside Terrace, notava-lhe os ombros caídos ao peso da culpa que tomara sobre si próprio quando os doentes em quem procedera a transplantações haviam começado a morrer, semana a semana. Todavia, quando se encontravam no decurso das tarefas diárias, Ken continuava a sorrir - um sorriso muito doloroso para Rebecca que, através dele, mais sentia a solidão da vida e a perda do que ambos tinham sido.

            Também ela não mudara fisicamente. Vendo-se ao espelho, em fato de banho, Rebecca disse a si própria que o seu peito continuava rijo e belo - já esquecido, porém, das carícias do amor ao longo daqueles meses solitários iniciados com a separação. A cintura era, na mesma, fina, as ancas elegantes, as pernas bem torneadas. Usava agora o cabelo mais curto - mas era o mesmo cabelo louro encaracolado e brilhante, indiferente à passagem dos anos, que dantes soltava pelos ombros ao deitar. E, não obstante já usar óculos para ler, os seus olhos cinzentos nada haviam perdido do seu calor e do seu fascínio.

            Rebecca, senhora de si, vestiu o fato de banho e dispôs-se a puxar o fecho éclair. O fecho resistiu, não - disse a médica a si própria - por ter engordado, mas por causa da ferrugem. Insistiu e puxou-o finalmente. Olhando-se de novo ao espelho, convenceu-se de que, com facilidade, passaria por uma jovem de vinte e dois anos - a mesma que durante uma semana, nas águas de Florida Bay, entregara o seu corpo ao Sol.

            Rebecca quase esquecia o presente, nesta meditação. Atentando mais uma vez no espelho, concluiu que, salvo no aspecto físico, a imagem reflectida era outra. A infelicidade do presente ameaçava cada vez mais destruir recordações que, sendo evidente que o que a princípio considerara um perfeito casamento, se encaminhava agora, sem remédio, para um fim inevitável, parecia disparatado acalentar. De nada lhe serviria continuar a viver de recordações agradáveis durante outros dez anos, como fizera com o fato de banho... Enfiando um vestido curto e pegando numa toalha, Rebecca tomou o elevador para o rés-do-chão.

            Ao chegar à piscina, viu que o grupo que estivera a beber no Dolphin Lounge iniciara um jogo de water-polo, ocupando toda a piscina. Regressando ao elevador, carregou no botão para o apartamento, mas quando o elevador parou, decidiu subir até ao terraço, na esperança de aí encontrar um ar mais fresco.

            No terraço haviam sido instaladas cadeiras de repouso, as quais juntamente com vasos de palmeiras, pretendiam dar a ilusão de um jardim para quem pretendesse tomar banhos de Sol, de dia, ou fazer amor, à noite. Soprava uma leve brisa marítima e ouvia-se o bater das ondas contra o molhe.

            Ao longo da praia, do outro lado da baía, os hotéis constituíam rectângulos iluminados e os faróis dos automóveis pelas estradas e pontes recordavam a Rebecca as correntes de glóbulos vermelhos através dos capilares, na pata de uma rã, durante uma experiência que, juntamente com Ken, tinha efectuado, havia muitos anos, no Laboratório de Fisiologia.

            Pensava estar sozinha, até ver a ponta de um cigarro descrever um arco de círculo, como se fosse uma estrela. Alguém procurava a solidão para pensar, tal como ela. Não querendo perturbar quem quer que fosse, Rebecca dispôs-se a descer, mas parou quando uma voz familiar disse DO escuro, de trás de uma palmeira:

            - És tu, Reb?

       Era Ken.

            - Sou... Não sabia...

            - Foi bom teres vindo aqui... Precisamos de falar...

            Rebecca aproximou-se do parapeito onde uma sombra alta se recortava contra o fundo da cidade. Ken vestia calções de banho e um roupão.

            - Ia nadar um pouco - explicou o médico. - Mas aquela rapaziada tomou conta da piscina...

            - Aconteceu-me o mesmo... Pelo menos, aqui está fresco... Emagreceste... Onde tens comido?

            - Hoje jantei duas cervejas e aperitivos no Dolphin Lounge... - respondeu Ken, rindo embaraçado.

            - Eu sei... Kevin está preocupado contigo... e eu também...

            Ken voltou-se e enfrentou-a, sem contudo se aproximar.

            - Estás com medo que me embriague?

       - Entre outras coisas... Jeffry Toler andou à tua procura... Queria pedir-te desculpa pelo que Ross McKenzie disse...

            - McKenzie tinha razão, bem sabes...

            - Não tinha, não senhor! Todos os cirurgiões perdem doentes... quando se atrevem a operar e a salvar vidas!

            - Sim, mas quando perdem os doentes todos... Sabes que Kevin está outra vez a ter problemas, não sabes?

            Rebecca não ficou surpreendida com aquela demonstração de instinto clínico. O talento de Ken para prever anomalias, mesmo antes que estas pudessem ser detectadas por máquinas, era uma das características que faziam dele o grande cirurgião que era.

            - Não sei bem... Depois de amanhã, vai ao laboratório...

            - Vais encontrar sinais de outra crise de rejeição... Kevin tem tentado escondê-los, não comparecendo aos exames... Não tive coragem de insistir com ele para que se deixasse examinar... Tenho medo dos seus testes...

            - Ainda não deve estar muito desenvolvida...

            - Sim... Desta vez, és ainda capaz de o salvar... Mas as crises vão-se sucessivamente agravando, até que...

            - Na Califórnia, ainda se fazem transplantações cardíacas, e nem toda a gente morre! Não estou a criticar-te, mas...

            - Tens direito de o fazer. Creio que na Califórnia se faz uma selecção mais cuidadosa dos pacientes... Se eu tivesse agido com mais calma, se tivesse tentado descobrir um processo de ultrapassar a rejeição, tudo teria sido diferente... O certo é que sentia uma ânsia de operar mais do que DeBakei, do que Cooley ou até do que Shumway... Costuma dizer-se que os cirurgiões sofrem do furor operatório... É verdade... Só que nunca pensei que esse furor me atacasse também a mim...

            - Por que te comprazes nessas permanentes auto-acusações? - perguntou Rebecca, quase a chorar. - Gostava que o meu marido tivesse coragem para vencer a adversidade... Costumava ver-te a operar... E quando via como as tuas mãos deslizavam, sentia-as sobre o meu corpo...- Rebecca estremeceu e acrescentou: - Que nos aconteceu, Ken? Por que nos separamos? Ken deu um passo para a mulher. Rebecca sentiu-lhe a respiração e esperou que ele desse um segundo passo, sabendo que ia lançar-se nos seus braços, suplicar-lhe que a apertasse contra o peito... Ken, porém, não se acercou mais.

            - A tua carreira profissional é um êxito, Reb. A minha um fracasso. Esta é a verdade!

            Rebecca sentiu de novo a necessidade de o abraçar, de o confortar, como os amantes se confortam nos momentos difíceis. O tom de voz de Ken destroçava-lhe o coração. Todavia, Rebecca sabia, da ciência que o amor lhe dera que discutir com ele seria perdê-lo, que só dispunha de um meio para o salvar, para o recuperar - envergonhá-lo.

        - Perguntaste a ti próprio em que campo falhaste, como cirurgião ou como marido?

       - Ah, maldita!

           Foi para Rebecca uma esperança, a fúria que escutou na voz de Ken; e o coração pulou-lhe, salvo, no peito, quando sentiu as mãos do marido a percorrerem-lhe o corpo, a rasgarem-lhe o fato de banho, a descobrirem-lhe os seios, numa urgência desesperada de paixão.

      

            Às dez horas, Mike Rabum saía de serviço ao banco e passava pelo controle de enfermagem.

            Helga, entretanto, registava as prescrições para o período entre as onze e as sete horas no quadro electrónico, através do qual era possível comunicar com o computador principal, bem como com os mini-computadores utilizados na Unidade de Cuidados Intensivos para operações menos complicadas.

            Uma vez programado o plano de medicação, as doses prescritas eram fornecidas à hora exacta, durante o turno seguinte, pela farmácia central, através do sistema de transporte pneumático. Luzes no painel de controle avisavam as enfermeiras de serviço do momento em que o remédio era ministrado; ao mesmo tempo, na ficha do doente introduzida no computador, imprimia-se a informação.

            Helga ergueu a cabeça quando Mike Rabum surgiu.

            - É só um minuto para acabar isto e irei consigo ver os doentes.

            - Como está Carmelita esta noite?

            - A temperatura voltou a subir, a despeito do cobertor.

            - Não quer ver, primeiro, Joey Gates? O electrocardiograma mostra, de vez em quando, pequenas alterações. Talvez o cateter esteja a tocar na aurícula...

            - Provavelmente... Tive que a ajustar quando estávamos na câmara. Chegaram a fazer a radiografia que pedi?

            - Chegaram. O relatório já deve estar no banco de dados...

            Helga compôs o número de código da ficha de Joey Gates e, imediatamente, quatro linhas surgiram no écran controlado pelo computador e destinado a fornecer dados Clínicos.

      

       Radiografias do peito, frente e lado, mostram extremo cateter junto sombra aurícula, tocando-a possivelmente. Pulmões normais. Sombra coração normal.

      

            - Adivinhou outra.... - observou Mike.

            Saíram ambos do serviço de controle, logo que Helga terminou o seu trabalho. O relatório da radiografia desaparecera já do écran, regressando à memória do computador, donde poderia voltar a sair num milionésimo de segundo.

            - Também terá que adivinhar se quiser ultrapassar esta maquineta... - retorquiu Helga.

            Joey Gates dormia e não acordou quando Mike puxou O cateter para fora cerca de dois centímetros.

            - Teremos boas notícias para Big Joe, de manhã... Agora, vamos ver o bebé que o dr. Dalton ajudou a nascer esta tarde...

            Na UCIRN, Helga encheu uma seringa com leite, concentrado de proteínas e vitaminas, mistura usada para alimentar bebés prematuros e injectou-a no estômago da criança através de um pequeno tubo introduzido numa narina. Ao fazer isso, o seu corpo tocou no de Mike, mas nenhum deles fez qualquer esforço para anular o contacto, até Helga se acercar da cabeceira do berço para, accionando um interruptor, poder ler a tensão de oxigénio no sangue, medida pelo eléctrodo dentro do cateter que penetrava na aorta do pequeno, através do umbigo.

            - Noventa milímetros.. - Parece que o miúdo está com vontade de se aguentar...

            - Marcia Weston quer escrever um artigo sobre o bebé Hornsby - disse Mike. - Sabe se os serviços sociais já descobriram alguma coisa acerca da mãe?

            - Era estudante universitária. Desistiu no segundo ano. Viciou-se na heroína... O namorado está preso. E garante que pelo menos doze homens podem ser pais do garoto...

       - Entretanto, temos uma rapariga morta e um bebé prematuro que começa a viver com a doença da membrana hialina... Encharcado em droga... Que mundo cruel!

            - Não mais do que as pessoas que o habitam. De cada vez que se me deparam casos semelhantes, as tripas dão-me uma volta...

            - Não admira que o pessoal do banco e da UCI registe a mais alta taxa de úlceras do hospital... - observou Mike ao saírem da UCIRN em direcção ao cubículo quatro.

       - Ainda acabamos por explodir se não descontraimos um pouco...

            - E como nos libertarmos da tensão? Não me parece que a igreja seja o mais aconselhável...

            - Bayside Terrace é um óptimo local para se fazer terapia de grupo. Não que a terapia de grupo me interesse particularmente, mas...

            - Muitas vezes tenho perguntado a mim própria porquê... Só trabalhar, só trabalhar... Que vida a sua!

            - Bem sei... Nem só trabalhar nem só descansar. O certo é que nas minhas horas livres não tenho vontade de me divertir... Sinto necessidade de aprender... Há sempre coisas...

            - Como a técnica da agulha - cateter?

            - Foi você que a utilizou...

            - Mas não saberia como fazer, se você não se tivesse dado ao trabalho de estudar... em vez de estar entretido com uma enfermeira...

            - Salvamos ambos uma vida; e, segundo uma tradição oriental, tornámo-nos responsáveis por ela.

            - Se tiver que ser responsável por todas as pessoas que salva - respondeu Helga numa gargalhada - pouco tempo lhe sobrará para fazer outras coisas!

            - Consigo passa-se o mesmo.

            Mike olhava-a com a mesma expressão que ela lhe detectara ao princípio da tarde - como se a visse pela primeira vez - quando quase tivera que a transportar para o seu consultório no banco. E pasmava com o súbito calor que lhe crescia no peito.

            - Quando estudei matemática, ensinaram-me que duas coisas iguais a uma terceira eram iguais entre si - disse Mike.

            - E acho que a regra ainda não mudou...

       - Então, parece que devemos ser responsáveis um Pelo outro e resolver o problema assim. a despeito de...

            - A partir de agora, claro... O passado não conta...

            - E o futuro?

            - Enfrentá-lo-emos... Com decisão! Certo?

            Helga acenou afirmativamente com a cabeça e debruçou-se, depois, sobre a jovem cubana.

            - Metade do hospital está convencido de que você está apaixonado por ela. Que vai fazer, se a pequena acorda e decide que você é o príncipe encantado?

            - Com uma cara destas? Seria um milagre!

            - As mulheres doentes apaixonam-se sempre pelos médicos...

            - O noivo de Carmelita é quase médico... E um bom rapaz... Sempre tive um fraco por gatinhas doentes e esta está muito mal... Não sei porquê, recorda-me Julieta... Conhece com certeza os versos...

      

            A morte que sorveu a doçura da tua respiração

            Não teve poder sobre a tua beleza

            Não foste conquistada. A bandeira da beleza

            É ainda carmezim nos teus lábios e nas tuas faces

            E o pendão frio da morte não a arriou.

      

            - Páre com isso! - pediu Helga. - Acho que vou chorar e fico com a reputação arruinada...

            - Eu não digo nada a ninguém... - prometeu Mike.

            - Se houvesse uma maneira de extrairmos os venenos da icterícia do sangue... E, com eles, o vírus...

            Mike voltou-se, de repente, para ela.

            - Que foi que disse?

            - Quando?

            - Agora!

            - Que foi que eu disse? Se houvesse uma maneira de extrairmos os venenos da icterícia do sangue e, com eles, o vírus...

            - É isso! É precisamente disso que tenho tentado lembrar-me! Vi, não há muito tempo, uma referência ao método de transfusão que permite a substituição, pode dizer-se, de todo o sangue.

            Correu para a porta e, antes de sair, preveniu:

       - Se alguém me procurar, estou na biblioteca... Talvez passe lá a noite...

   

       A chuva despertou Rebecca Dalton no terraço. Trémula vestiu rapidamente o vestido-roupão com que se sentara no sofá de rodas depois da explosão de amor. Os farrapos do fato de banho azul jaziam, com a toalha, ao lado. Rebecca pegou neles e correu para a escada que levava aos apartamentos.

            No seu apartamento, entrou na casa de banho e abriu o chuveiro. O corpo que viu no espelho, ao limpar-se, destilava vida e Rebecca sentiu um frémito de delícia ao recordar-se das mãos de Ken. Enquanto vestia uma camisa de noite, o telefone tocou à cabeceira da cama.

            - Reb?

            - Sim, Ken...

            - Estás bem? Telefonei há dez minutos...

            - Adormeci lá em cima... Sabes o que me acontece sempre que...

            - Sei...

            - Amanhã estou cheia de nódoas negras... Felizmente não se veem...

            - Pregaste-me uma grande partida, Reb...

            - Também sei... - respondeu Rebecca felicíssima.-. Mas resultou!

            - Não mudou nada...

            - Pelo menos, agora sei que continuas a amar-me!

            Fez-se silêncio do outro lado do fio; Ken acabou por dizer:

            - Foi como dantes... Mas a verdade é que a minha carreira é um fracasso e a tua um êxito...

           - Não, querido! Não és nenhum fracasso! Nem como cirurgião nem como amante! O que interessa, agora, é que ainda me amas...

            - Então... boa-noite!

            - Boa-noite, meu amor.

            Rebecca ia desligar, quando ouviu de novo a voz de Ken e levou o aparelho ao ouvido.

            - Que dizes?

       - Já me esquecia... Karen Fletcher está convencida que Dale Tyndal está outra vez a sofrer de dispneia e cianose. Talvez...

            - Quando foi que Karen o viu?

            - Hoje à tarde depois do banho. Pediu-me para passar pelo laboratório. Mostrou-me uns testes toxicológicos, segundo os quais aquela rapariga a quem fiz a cesariana morreu, efectivamente, envenenada com heroína. Fomos os dois à reunião do comité executivo...

            - Karen é muito amável... - observou Rebecca, fria.

            - É, não é? - Ken pareceu não reparar no tom de voz da mulher. - Examinas Dale, não é verdade?

            - Sim, amanhã. Deve estar a fazer seis meses que o tivemos no laboratório... Boa-noite!

            Rebecca desligou. Teve, porém, grande dificuldade em adormecer; as palavras de Jeffry Toler circulavam ininterruptamente no seu cérebro:

            “Você sabe como isto é aqui... Não faltam mulheres solteiras e bonitas, divorciadas, mulheres casadas, mesmo...”

            E, no Biscayne, Karen Fletcher era, sem dúvida, uma das mais atraentes.

   

       Carolyn Payson estava sentada na cama, a ler, cerca das onze e trinta, quando Helga Sundberg entrou no apartamento que partilhavam em Bayside Terrace.

            - Um encontro? - perguntou Carolyn, vendo Helga despir a bata.

            - Oh, não! O tipo com quem me iria encontrar, se fosse esse o caso, acaba de me dizer que vai passar a noite na biblioteca.

            - Quem é?

            - Mike Rabum.

            - Mike? - repetiu Carolyn, pousando a revista. - Há quanto tempo dura isso?

            - Desde as três menos cinco desta tarde!

            Carolyn começou a rir, até compreender que Helga falava a sério.

            - Foi assim de repente, então?

            - Nem eu própria sei como aconteceu...

       - Talvez que se me contasses...

            - Há pouco a contar. Foi tudo tão depressa, que ainda não sei se se tratou apenas de um sonho... De qualquer maneira...

            Quando Helga acabou o relato, Carolyn abanou a cabeça.

            - Não compreendo...

            - O verdadeiro amor será para compreender? - perguntou Helga. - Como se passaram as coisas contigo e com Gus?

            - Isso é diferente... - respondeu Carolyn entristecida.

       - Sei bem que a felicidade de que agora gozo não pode durar... Quando o pai morrer, terei que cortar com tudo.

       Não é justo impor a um homem com uma carreira como a que Gus tem à sua frente, uma mulher impossibilitada de lhe dar filhos e que, ainda por cima... aos trinta e cinco anos poder ser um estorvo permanente...

            - Não é fatal que isso aconteça... Sabes bem que há possibilidades... Meio por meio...

       - Amo demasiado Gus para correr esse risco.

       - E, então, que vais fazer?

            - Regressarei ao Brasil... Gostei de trabalhar no Hospital Missionário...

            - Também eu... Sentia-me lá bem, até ter cometido o erro de me apaixonar... por um homem casado!

            - Não sabias... E logo que descobriste fizeste o que devias ter feito...

            - Com o orgulho intacto e a decisão de não repetir o mesmo erro... Agora... cometo-o de novo! Volto a apaixonar-me! E, desta vez, é muito pior...

            - Pior... ou melhor?

            - Melhor! Tão bom, que até me assusta! Como foi possível que contactássemos durante dois anos sem ter sentido por ele a menor atracção? Um médico em mil...

            - Só vias nele o médico, com certeza...

            - É possível... Então, um dia... Mike olha para uma jovem moribunda, cita uns versos de Romeu e Julieta e... compreendo que tem algo de especial...

            - Mike é assim! Mas disseste-me que a tua paixão tinha começado oito horas antes...

            - E que são oito horas? Sabes o que é uma pessoa sentir que vai morrer, se não puder passar o resto da vida adorando determinado homem?

            - Sei... E então? Que vais fazer?

            - Ainda não sei... Se uma manhã acordar com Mike a meu lado, na cama, se o ouvir ressonar, se o vir com a barba por fazer, se compreender que precisa de desodorizante... e se, mesmo assim, quiser que ele me ame, então, é porque acertei!

            - Mike tem fama de homem sossegado... É um tipo à parte... Não sei como o irás convencer a fazer esse teste...

            - Hei-de persuadi-lo a levar-me a um sítio qualquer onde póssamos estar a sós... mesmo que seja no meio de muita gente! - disse Helga, abotoando o pijama de seda.

            - Uma espécie de paraíso...

            - Talvez... Só saberei quando lhe der a maçã a provar... E, o pior, é que, neste momento, o que mais desejava era ser eu própria a macieira!

   

       No apartamento 5A, Valerie LeMoyne desligou o televisor - mas não poderia dizer que programa tinha visto durante mais de uma hora - e apagou o cigarro no cinzeiro. Nunca esperara, de facto, que a breve conversa tida com Jerry Singleton naquela tarde, na sala dos médicos, e o seu convite para um fim de semana a perturbassem tanto, a fizessem, de novo, desejar tão intensamente as carícias de um homem - de qualquer homem...

            Val sabia muito bem o que podia significar ceder ao fogo que constantemente ardia no seu corpo - e que raramente era apagado a seu contento. Esse mesmo fogo obrigara-a a fugir, em pânico, da França, para não ficar à mercê de Marcel Thibat, que insistia em partilhá-la com outros, em proveito da sua carreira no Ministério dos Negócios Estrangeiros...

            Tivera sorte em descobrir um lugar prometedor nos Estados Unidos e, mais tarde, em Miami, constantemente inundada por hordas sucessivas de maridos ansiosos por uma escapadela antes de regressarem a casa e às esposas que lutavam - mas sem o talento de mulheres como Valerie LeMoyne - para os manter felizes e contentes - e, regra geral, falhavam, como se via em Miami pela frequência dos hotéis e apartamentos. Mas também isso se tornara muito arriscado, com o perigo constante da publicidade criada pelas rusgas da polícia destinadas a garantir que a lei, na sua majestade, guardasse zelosamente a moral da comunidade.

            Val tentava convencer-se, desde o divórcio, que Jerry Singleton era a resposta para o seu problema, mas coibira-se de tomar uma decisão até àquele dia. O desejo, mais forte do que nunca na Primavera, quando toda a sua natureza era assaltada pelo instinto da reprodução, impelira-a para a sala dos médicos, aparentemente em busca de um cigarro, mas, na realidade, por saber que Jerry lá estaria. Val sabia, também, que Jerry a ia convidar para passar o fim de semana com ele, tal como sabia já que ia aceitar e que tudo acabaria, quase de certeza, como situações semelhantes tinham acabado quando as aptidões amorosas do médico se demonstrassem inadequadas às exigências do corpo de Val.

            Val resistia, geralmente, até ao fim. Como agora. Mas a simples ideia de ceder e do que se seguiria, bastava para que Valerie leMoyne começasse a tremer. Dirigiu-se ao armário dos remédios, donde tirou duas cápsulas de Nembutal. Engoliu-as com água e despiu-se, para se deitar numa cama cuja solidão o potente barbitúrico depressa preencheria, com um sono artificialmente produzido.

   

       Ed Vogel estava de serviço à UCI e à Cardologia, quando o telefone tocou pouco depois da meia-noite, no seu pequeno quarto junto da Secção de Cuidados Intensivos. Ed acabava de fazer uma ronda pela enfermaria e usava ainda o casaco branco que distinguia os professores da faculdade.

            - Dr. Vogel - atendeu.

            - Tenho aqui uma chamada de fora para o dr. Desmond, mas ele não está na cidade - disse a telefonista.

       - É uma mulher... Parece histérica e pediu para falar com a dra. Rebecca Dalton, quando lhe disse que o dr. Desmond não estava.

       - Eu atendo-a.

            - Dra. Dalton? - perguntou uma voz perturbada.

       - Fala o dr. Vogel, assistente da dra. Rebecca Dalton. Faça favor...

            - Só um momento...

            Ed Ouviu a voz de um homem numa breve consulta e depois novamente a mulher.

            - Sou a governanta de Mr. Ross McKenzie. Mr. McKenzie pensa que teve um ataque de coração e quer saber se pode vir vê-lo.

            - O ataque foi causado por algum esforço?

            - Não. - respondeu a governanta, após breve hesitação.

       - Mandarei uma ambulância buscá-lo.

       - Mas...

            - Se se trata mesmo de um ataque de coração, não podemos perder tempo. A ambulância estará aí dentro de cinco minutos. Não o deixe mexer-se, entretanto.

            - Muito bem, dr.

            Era patente o alívio na voz da mulher. Logo que Ed Vogel ligou para os bombeiros e mandou uma ambulância preparada para doentes cardíacos, com uma equipa treinada em ressuscitação, buscar Ross McKenzie a Coral Gables, telefonou para o apartamento de Rebecca Dalton. Esta atendeu, sonolenta.

            - Mr. Ross McKenzie vem para o hospital, talvez com um ataque de coração. Mande uma ambulância buscá-lo.

            - Mr. McKenzie chamou por mim? - perguntou Rebecca, momentos depois.

            - Chamou pelo dr. Desmond. Foi a governanta quem telefonou. Quando a telefonista lhe disse que o dr. Desmond tinha saído da cidade, depois da reunião do comité executivo para outra reunião, quis falar consigo.

            - Vou imediatamente - respondeu Rebecca. - Mas, Mr. McKenzie votou contra a minha promoção e talvez não queira que trate dele...

            - O que é o destino!... Parece que nem de propósito...

       - Não tenho tempo para ponderar os aspectos filosóficos do caso. Quando ele chegar aí, interne-o imediatamente na UCI de Cardiologia e faça-lhe um electrocardiograma. Não levarei mais de dez minutos a vestir-me. É melhor dar-lhe heparina para o caso de se tratar de uma trombose.

            Ross McKenzie acabava de ser deitado numa cama da UCIDC quando Rebecca entrou. Ross McKenzie estava pálido e tinha dificuldade em respirar. Um técnico de serviço ligava-o a uma máquina electrocardiográfica. Como tinha mais possibilidades que os aparelhos que conduziam informações até ao pequeno monitor ao lado da cama e também no écran maior no controle de enfermagem, o electrocardiograma convencional relatava mais fielmente o que se passava no coração.

            Ed Vogel ministrava-lhe uma solução de heparina, fluidificante do sangue, com vista a evitar que o coágulo alastrasse, no caso de Ross McKenzie ter sofrido uma trombose nas coronárias. A luz do indicador de pulso, por cima do pequeno écran, ao lado da cama - mas atrás da cabeceira, para que o doente não a pudesse ver, no caso de estar consciente - piscava com extrema rapidez, mal se distinguindo os impulsos uns dos outros. McKenzie parecia estar semiconsciente.

            - Como vai ele, Ed? - perguntou Rebecca, aproximando-se da cama especial.

            - O pulso não me parece mal, a despeito do ritmo. Dei-lhe Demerol, mas ainda não tive tempo para lhe medir a tensão. Pelo electrocardiograma, parece um paroxismo auricular.

            Rebeca pegou num estetoscópio e auscultou o peito de McKenzie sobre o coração. Não precisava de explicar nem a Ed Vogel nem a Mary Pearson, a enfermeira-chefe de serviço, qual o perigo representado por um ataque paroxismal. As enfermeiras da UCIDC sabiam reconhecer o significado de tais complicações e agir com a rapidez necessária.

            Pessoas normais podem, ocasionalmente, acelerar o ritmo do coração sem que isso constitua um perigo para o órgão, se essa alteração for controlada a tempo; no caso, porém, de um coração já danificado, tal facto podia pressagiar uma rápida baixa no ritmo cardíaco, a ponto de o coração descoordenar os seus movimentos, lutando para acompanhar o estímulo de contracção, proveniente das aurículas.

            Os ventrículos - principais câmaras de bombagem, muscolosas - não seriam, então, capazes de corresponder, seguindo-se rapidamente um desajuste entre as aurículas, que recebem o sangue das artérias, e os ventrículos, que o impelem para os pulmões e a aorta. Nestas condições sem capacidade de o coração acompanhar o débito de sangue vertido no lado direito, vindo do resto do corpo, e no esquerdo, vindo dos pulmões, podiam rapidamente surgir pressões negativas. As válvulas não Poderiam funcionar devidamente e, no momento da contracção, parte do sangue seria forçado a regressar, criando uma pressão negativa, em Particular nos pulmões, com graves consequências.

            Ed Vogel estudava o electrocardiógrafo convencional, produzido por um estilete metálico que registava, numa fita de papel rolante, os impulsos eléctricos do coração de Ross McKenzie, conduzidos por vários terminais Colocados no peito, nos braços e nas pernas do doente.

            - O electrocardiógrafo é típico de um paroxismo auricular - disse Ed Vogel quando, com Rebecca, se retirou do cubículo, a fim de discutir o caso, para Ross não ouvir.

            - No entanto, a função continua a realizar-se bastante bem - observou Rebecca.

            - Por quanto tempo? - perguntou Ed, exprimindo a mesma incerteza que preocupava Rebecca.

            Regressando junto do doente, Rebecca disse-lhe ao ouvido:

            - Sou a dra. Rebecca Dalton, Mr. McKenzie. Tem dores?

            - Poucas - respondeu McKenzie, abrindo os olhos sonolentos. - Mas parece que o coração me quer sair pela garganta...

            - Já vai ficar melhor... O problema está em saber o que lhe provocou o ataque... Importa-se que seja eu a tratá-lo?

            - Há mais alguém disponível?

            - Só o dr. Vogel e eu própria.

            - Parece que estou nas suas mãos...

            McKenzie voltou a fechar os olhos, suspirando.

            - O melhor que temos a fazer é massajar as carótidas - disse Rebecca. - Ele parece já ter entrado em coma. Não há tempo a perder!

            - É duvidoso... - arriscou Vogel.

            - Também aquilo... - ripostou a médica, apontando a luz do indicador de pulso. - Se este coração não recebe oxigénio suficiente através das coronárias, não pode continuar a bater por muito mais tempo a este ritmo.

            - Eu não estava a objectar... Sinto é um grande alívio por você estar aqui...

            Não precisava de se explicar mais. As glândulas carótidas, pequenos órgãos de tecido altamente complexo, estavam localizadas de cada lado do pescoço nas bifurcações formadas pela divisão das duas artérias carótidas que transportavam sangue para a cabeça, incluindo o cérebro. Abaixo do ângulo do maxilar, cada carótida dividia-se em dois canais, um externo, que irrigava a face, o couro cabeludo e a maior parte de um dos lados da cabeça, e um interno, que, penetrando no crânio fornecia sangue ao cérebro.

            Conhecidas desde a antiguidade, não tanto pela sua presença como pelo seu efeito, as glândulas carótidas - ou seios - eram muito sensíveis ao contacto externo. A pressão que sobre elas se exercesse reflectia-se no resto do corpo tão profundamente que os assassinos havia muito tinham descoberto como, carregando com insistência e rapidez em ambos os lados do pescoço da vitima, produziam a inconsciência e a morte em segundos.

            - Precisamos de seguir a função cardíaca enquanto faço a massagem, por isso fá-la-emos aqui no cubículo - disse Rebecca à enfermeira-chefe. - Podemos afastar um pouco a cama da parede, Mrs. Pearson? Só o suficiente para eu passar por detrás...

            - Com certeza, dra.

            A cama era estreita e montada sobre rodas; assim, a enfermeira e Ed Vogel deslocaram-na sem dificuldade. Segurando a cabeça de Ross McKenzie com a mão esquerda, Rebecca procurou, com a direita, abaixo do ângulo do maxilar, a fim de localizar a pulsação da principal artéria carótida.

            - Cá está! Veja o écran, Ed, e diga-me imediatamente se ocorre alguma alteração...

            - Está bem.

            - Dê-me quatro segundos contados a partir de quando eu disser “agora”, Mrs. Pearson.

            A enfermeira colocou o relógio no pulso esquerdo para, facilmente, seguir o ponteiro dos segundos.

            - Agora! - disse Rebeca, pressionando a artéria com o polegar contra as vértebras do pescoço. Nessa posição, começou a massajá-lo massajando, ao mesmo tempo, a glândula carótida, em movimentos rotativos.

            - Quatro segundos - declarou Mrs. Pearson.

            Rebecca aliviou a pressão e Ed Vogel anunciou:

            - Tudo na mesma...

            - Vou tentar mais uma deste lado e depois passo para o outro - anunciou Rebecca. - Prontos?

            Rebecca procurou de novo a artéria e disse:

            - Agora!

            Rebecca repetiu a massagem, mas quando a enfermeira contou Os quatro segundos continuava a não se registar qualquer modificação no écran.

            Ed Vogel e Mrs. Pearson olharam Rebecca hesitantes, mas já a médica procurava a artéria carótida do lado esquerdo.

            - E se expermentasse massajar de ambos Os lados ao mesmo tempo, dra. Dalton? - sugeriu a enfermeira-chefe.

       - Não quero matar ninguém. Em vez de se preocuparem, podiam era rezar para que a outra artéria não esteja obstruída por uma placa ateromatosa. Se assim for, ainda nos arriscamos a produzir o efeito de um derrame, interrompendo a maior parte da circulação cerebral.

            - Volto a repetir que é um alívio tê-la aqui - murmurou Ed Vogel.

            - Prontos? - perguntou Rebecca, tranquila - preparada para a massagem Agora!

            - Asistolia! - exclamou Ed Vogel, em voz tensa.

       De facto, a linha oscilante no écran, que assinalava as correntes cardíacas, deixara de registar ondas, indicando a paragem do coração. A gravidade da ocorrência, não obstante preocupar os médicos e a enfermeira, não criou Pânico. Estavam todos preparados para enfrentar emergências com eficácia. Ed Vogel e Mary Pearson concentraram-se no écran. Rebecca, continuando a palpar a artéria e não podendo ver o monitor falou em voz alta, no quarto silencioso.

            - Prepare-se para a massagem de ressuscitação, Ed - ordenou a médica.

       Ed Vogel assentou a mão esquerda no externo de Ross Mckenzie, mas, antes que começasse a proceder à massagem de ressuscitação cardiopulmonar - comprimindo o coração entre o externo e a espinha - Mrs. Pearson anunciou, excitada:

       - Há uma contracção! E outra!

            Ed Vogel procurou com os olhos o écran e disse, ao ver o traçado electrocardiográfico:

            - Ectopia ventricular...

            Enquanto falava, porém, a linha irregular no écran adquiriu forma, assumindo, como que por magia, um traçado normal.

            - Conseguiu! - exclamou Vogel.

            - Registe-me o electrocardiograma no monitor central, Mrs. Pearson - pediu Rebecca. - Quero estudá-lo mais atentamente, antes de decidir o que vou fazer...

            Enquanto a enfermeira saía do cubículo, Ed Vogel limpava o suor da testa com um lenço. Ao mesmo tempo, Ross McKenzie abriu os olhos e uma expressão de surpresa iluminou-lhe a face.

            - Já não sinto o coração a bater-me na garganta - revelou, surpreendido. - Que me fizeram?

            - A dra. Dalton parou o seu coração - explicou Ed Vogel.

            - E pô-lo de novo a funcionar?

            - Foi o senhor quem fez isso, Mr. McKenzie - interveio Rebecca. - Estávamos, no entanto, preparados para o substituir, em caso de necessidade. Como vê, as médicas também servem para alguma coisa, a despeito das opiniões em contrário.

            - Chamem-me um táxi! - pediu McKenzie, querendo sentar-se na cama. - Vou para casa!

            - Não vai nada - contrariou Rebecca severamente.

       - O ataque de arritmia que acaba de ter, é um aviso. Da próxima vez, pode ser muito grave; vai cá ficar uns dias, para descobrirmos o que se passa com o seu coração. Precisa também de tomar digitalina.

            - Mas o meu estado é assim...?

            - Na sua idade, muita coisa pode acontecer... Uma redução do fluxo sanguíneo, reumatismo cardíaco, hipertensão, cansaço anormal... Quase tudo! - informou Rebecca, pegando na ficha e saindo do cubículo.

   

       Ed Vogel dirigia-se para os aposentos dos médicos de serviço ao banco, cerca das três da manhã, após ter examinado um doente idoso do quarto andar a quem haviam ministrado fenobarbital para dormir e começara a ver animais a trepar pelas paredes. Convencido de que ia ser comido vivo, o homem saltara da cama e arrastara-se em direcção à secretária do vestíbulo, levando consigo um saco de urina, um frasco de solução intravenosa com o respectivo suporte, e um tubo de sucção de bilis, antes de desmaiar aos pés de uma enfermeira atónita.

            Como os doentes que abandonavam a cama sem autorização em tais circunstâncias tinham que ser examinados por um médico, a fim de se verificar em que estado se encontravam - no caso, nada de mal acontecera, felizmente - Ed Vogel fora chamado. Ao passar pela porta da biblioteca, viu a luz acesa e entrou, descobrindo Mike Rabum, que adormecera sobre uma revista.

            - Acorde! - disse Ed, abanando o cirurgião.

            Mike levantou a cabeça e pestanejou, perguntando:

            - Que horas são?

            - Três horas! Há quanto tempo está aqui?

            - Desde as dez e meia. Ainda ouvi dar a uma hora... E encontrei o que procurava!

            - O quê?

            - Que sabe você de transfusão total em casos de hepatite com coma hepático, Ed?

            - Refere-se ao uso de um fígado de babuíno para extrair toxinas do sangue? Creio que nunca resultou...

            - Pois não... Os obstáculos eram muitos... Mas há agora um novo método, posto à prova num hospital da Força Aérea, no Middle West. O corpo do paciente é arrefecido, ficando quase em estado de morte aparente, e o seu sangue extraído na totalidade, depois do que se lava o sistema circulatório com a solução de Ringer. A seguir, faz-se uma transfusão...

            - Pensa fazer isso à cubana?

            - Vou fazer isso... se conseguir convencer a família de que não tem outra hipótese...

            - O arrefecimento é que me parece bastante perigoso...

       - Claro que é. Mas, na minha opinião, o risco justifica-se... - Mike pegou na revista e dirigiu-se, com Ed Vogel, para a porta. - O tipo que imaginou isto concluiu que só se pode dispor de nove minutos para toda a intervenção antes que o frio e a falta de oxigénio ocasionem danos irreversíveis no cérebro.

            - Nove minutos antes da morte? Além de ser um bom título para um romance policial, é muito apertado, meu caro...

            - Não pode haver falhas, de facto... A dra. Dalton tem muita experiência em cirurgia do coração aberto em doentes com hipotermia e no oxigenador. Não deve ser assim tão difícil como parece, verá...

            - Li, uma vez, um livro chamado Sete Minutos, mas tratava de amor... Boa sorte, Mike. Se falhar, não deixe que a morte da rapariga o abata como a esses casos de transplantação que destruiram Ken Dalton...

      

            Carolyn Payson não dormiu bem e foi com alívio que viu nascer o dia. Levantou-se, fazendo o menor barulho possível para não perturbar Helga, que dormia profundamente, mulher saudável e desinibida que era. Saiu do velho hotel e dirigiu-se à baía. Faltava-lhe ainda meia hora para entrar no hospital. Era uma linda manhã, principalmente para quem estivesse apaixonado; e Carolyn estava. Sabia ser amada. No entanto, essa certeza, ironicamente, tornava-se-lhe muito dolorosa.

            Chegou ao restaurante do hospital às seis e meia e tomou um pequeno almoço leve, antes de entrar de serviço e de receber o relatório de Mary Pearson.

            - A temperatura da jovem cubana continua a subir - informou Mary. - Mike Rabum já cá esteve... - Falou de um novo tratamento... Mas, se quer saber a minha opinião, não conseguirá salvá-la...

            - E o bebé que o dr. Dalton ajudou a nascer?

            - Desde que o dr. Henderson o colocou no PPC, ontem à tarde, o bebé Hornsby está a portar-se muito bem. Tenho tanta pena dele! Drogado! Mr. Ross McKenzie foi internado cerca da meia-noite... Um problema cardíaco... A dra. Rebecca Dalton fez uma massagem às carótidas e resolveu o problema.

            - Teve uma noite agitada!

            - O costume na UCI. Bem, vou-me embora! Até amanhã.

            - Amanhã, não... Estou de folga às quintas.

            - Então, divirta-se!

            Mary já ia à porta, quando se voltou para dizer:

       - Posso perguntar-lhe uma coisa, Carolyn?

            - Com certeza!

            - É verdade que pediu ao Comité de Deus para estudar o caso de seu pai? Disse-me uma colega ontem à noite...

            - Sim, pedi ao capelão Hagan que tratasse disso...

            - Não é nada que me diga respeito, mas gostava que soubesse que a considero muito corajosa.

            - Corajosa? Porquê?

            - Sabe como as pessoas falam... Eu é que não quero saber do que dizem! Acho que fez o que devia ter feito!

            Carolyn deixou-se ficar sentada por um longo momento, olhando a porta através da qual a outra enfermeira desaparecera. A preocupação e a aprovação de Mary apenas podiam significar que o pessoal hospitalar já tomava partido. Tal facto dificultava a tomada de uma posição imparcial por parte do Comité dos Moribundos e em nada contribuía também, para que Carolyn vivesse em paz com a sua consciência - consciência que a perturbava desde que suplicara ao padre que pedisse uma reunião do Comité de Deus.

            Momentos mais tarde, Carolyn pediu a outra enfermeira que tomasse o seu lugar no serviço de controle que podia ser abandonado e dirigiu-se ao cubículo onde seu pai jazia. Richard Payson estava deitado numa cama com grade, visto as convulsões que o atacavam o poderem lançar ao chão.

            Ao vê-lo de olhos abertos, como em outras ocasiões, Carolyn quase acreditava que o pai a reconhecia. Os músculos dos lábios e dos maxilares moviam-se, mas sem objectivo, como todas as contracções do seu corpo. Ou seria uma tentativa para falar? Subjugada pela dor que a assaltava sempre que via o pai, e o recordava forte e feliz meses atrás. Carolyn afastava-se já da cama quando, da boca de Richard Payson brotou um gemido. Aproximou-se mais. Richard repetiu as palavras e, desta vez, Carolyn entendeu-as

            - Deixem-me morrer!

            Não havia dúvida sobre o seu significado; era a mesma súplica que tantas vezes escutara, o grito de uma alma atormentada pedindo que lhe pusessem termo a um suplício que já não tinha forças para suportar, a paz.

            - Prometo - murmurou Carolyn, pegando-lhe na mão.

       - Só mais um pouco...

            Não poderia dizer se a maneira como os dedos de Richard Payson apertaram os seus, num movimento que durou apenas uma fracção de segundo, significava ou não alguma coisa mais que os espasmos do resto do corpo, sem sentido; isso, porém, já não interessava, pois todas as dúvidas que Carolyn pudesse ter acerca do que devia ser feito, tinham desaparecido.

            Gus Henderson estava à entrada do cubículo quando Carolyn saiu. Carolyn, absolutamente concentrada no pai. preocupada em entender as palavras que, estava convencida, ele dissera, não dera pela presença do médico. Ao ver, porém, o seu cabelo ruivo e os seus olhos azuis sempre calorosos, acolheu-se, de imediato, à sua protecção.

            Pegando-lhe nas mãos, Gus, terno como uma mãe segurando um bebé - ou como um homem apaixonado aperta uma mulher - apesar de parecer tão desajeitado, disse:

            - Bom dia! Estás bem?

       - Estou... Já estou... Quando o vejo, fico sempre tão...

       - Eu sei... Também me vêm as lágrimas aos olhos, sempre que vejo o bebé que salvamos... sempre em convulsões...

       - Mas o bebé ficará bom, enquanto o meu pai...

            - Continuas decidida a apresentar o seu caso ao Comité de Deus?

            - Sim!

            - Precisarás de muita coragem...

            - Compaixão, Gus. A mesma compaixão que sentes pelo bebé Hornsby. E, no fim de contas, estou apenas a executar a vontade de meu pai. Se o tivesses ouvido há pouco...

            - Ouvi. Achas que ajudaria, se eu testemunhasse?

            - Farias isso, mesmo se não estivesses convencido de o ter escutado?

            O amor que os unia era tão forte, que Carolyn conseguia ler os pensamentos de Gus.

            - Ouvi sons que podiam muito bem ser “deixem-me morrer”... Se me garantes que foi isso que ouviste, então, foi também o que eu ouvi...

            - Não admira que te ame tanto! Mas podes acreditar que ele falou mesmo. Dou-te a minha palavra!

       - Não é preciso. Já sabes quando o comité reúne?

            - Não. Mas... oxalá seja hoje!

            Atravessavam a enfermaria em direcção ao serviço de controle enquanto falavam. Gus deteve-se diante da bateria de écrans, mostradores e luzes intermitentes - máquina surrealista de vida e de morte.

            - Não esperes muito do Comité de Deus, Carolyn. É novo e não sei se os membros que dele fazem parte compreendem o que significa, para um médico, deixar morrer uma vida que foi colocada nas suas mãos.

            - É o que o pai quer, Gus. Mesmo que não tivesse a certeza do que será melhor para ele, tenho que respeitar a sua vontade.

            - Então, promete-me que não te deixarás vencer, se as coisas não correrem como pretendes. São pessoas de carne e osso...

            Gus abanou a cabeça, frustrado, incapaz de exprimir exactamente os seus pensamentos.

            - Chamamos-lhe o Comité de Deus...- acrescentou.

       - Mas são homens que o constituem... Vejo-te esta noite?

       - Não sei. Enquanto não descobrir se o comité reúne, não... Amanhã, estou de folga...

            - Está bem. De qualquer modo, falo contigo... - prometeu Gus, apertando-lhe a mão apaixonado.

            - Dr. Henderson, 131 - chamou a telefonista. - Dr. Augustus Henderson, 131.

            - Deve ser o professor McHale que quer começar as visitas - disse Gus. - Até logo.

   

       Mike Rabum teve a sorte de encontrar Rebecca e Ken Dalton pouco depois de ter acabado de tomar o pequeno almoço, para uma conferência sobre Carmelita Sanchez. Reuniram-se no gabinete dos médicos da UCI, que estava também equipado com um écran e uma unidade de múltiplos terminais. Assim, os dados essenciais sobre qualquer doente podiam ser instantaneamente estudados sem ser preciso abandonar o gabinete bem como os dados na memória do computador. Quando Mike ligou o circuito de televisão, surgiu no écran o cubículo de Carmelita, vigiada por uma enfermeira.

       - Claro que não foi por se impor cirurgia que me pediu para a ver, Mike. - disse Ken Dalton. - Qual é a sua ideia?

            - Tenciono fazer uma transfusão total hipotémica, ou seja, LTC - lavagem total do corpo.

            - É uma novidade, não é?

            - Tanto quanto sei, só resultou em cinco casos. A LTC implica o arrefecimento do corpo até aos vinte e cinco graus centígrados e o desaparecimento de todos os dados funcionais.

            - Isso é a morte clínica...

            - Bem sei. Mas tem-se conseguido manter o paciente vivo durante nove minutos. No fim desse período, tudo regressa à normalidade.

            - Suponha que precisa de mais de nove minutos para completar a intervenção - perguntou Rebecca.

            - Não sabemos o que pode acontecer, claro, mas creio que não precisarei de mais tempo. Houve um caso, se não me engano, em Connecticut, que exigiu apenas sete minutos...

            - E teve êxito?

            - Teve. A LTC procura remover todo o sangue do corpo, expulsando as toxinas da hepatite com uma solução especial de Ringer, mais albumina, a uma temperatura entre cinco e dez graus centígrados.

            - Não espanta que consiga obter um arrefecimento tão rápido do corpo e uma supressão total de todos os sinais clínicos de vida... - observou Ken Dalton, assobiando.

            - Terminada a lavagem - continuou Mike - os únicos antigenes deixados no corpo serão os existentes nos espaços intercelulares e nas próprias células. Neste ponto, o coração artificial é cheio com sangue e plasma, a que se acrescentaram glóbulos vermelhos. A mistura é aquecida e introduzida na circulação até a temperatura do doente atingir os trinta e cinco graus centígrados. Nos casos relatados, o coração começa a funcionar espontaneamente, logo que a temperatura atinge este ponto, e a recuperação da consciência é rápida.

            - Quando a estudei pela primeira vez, a técnica pareceu-me bastante fantástica - disse Rebecca. - Já não sou, agora, da mesma opinião, principalmente quando vai ser você a aplicá-la.

       - Sim... E acho-o capaz de tratar de tudo sem a nossa ajuda. Qual será o nosso papel?

            - Você tem muito mais experiência com o coração artificial e a hipotermia do que qualquer outra pessoa aqui, dr. Dalton. Espero que me ajude.

            - Ultimamente, as minhas ajudas...

            - Fez quinze transplantações sem uma morte cirúrgica. e inúmeras operações de coração aberto. Ficar-lhe-ia muito grato se me auxiliasse.

            - Já falou com a família da rapariga?

            - Deve cá estar às dez horas. Sabe que esgotamos todos os outros meios de tratamento; por isso creio que não objectarão.

            - Aprovas, Reb? - perguntou Ken.

            - Aprovo. Nas tuas mãos e nas de Mik.... Tenho confiança em vocês!

            - Quando tenciona começar, Mike? - perguntou Ken.

            - Amanhã de manhã, se os parentes concordarem.

            - Sirva-se da sala número um de cirurgia vascular, e da primeira equipa - aconselhou Ken. - Precisará de todos os recursos técnicos existentes.

   

       Pouco antes das dez horas, Mike Rabum foi chamado pelo altifalante e dirigiu-se ao telefone.

            - Mr. Joe Gates espera-o na UCI, dr. Rabum - disse a telefonista.

            Na pequena sala de espera, Mike encontrou a estrela dos Snappers Miami, a passear de um lado para o outro. O atleta negro mostrava-se consideravelmente perturbado.

            - O seu filho está livre de perigo, Joe - tranquilizou-o Mike.

            - Gostava de falar consigo a sós, Mike.

            Os dois homens eram velhos amigos desde os tempos do liceu’ e, além disso, Mike trabalhara diversas vezes como médico da equipa dos Snappers.

            - Vamos para o meu gabinete, no banco - propôs o médico. - Mesmo grandes como somos, devemos lá caber...

            - Diga-me o que aconteceu a Joey - pediu Gates, depois de se sentarem no gabinete que ficava entre o banco e a sala de observações, onde os doentes podiam ser examinados sem ficarem internados.

            - Teve, ontem à tarde, uma grave crise de anemia. De um tipo especial. Células em forma de cimitarra...

            - Rachel disse-me isso e que Joey estava a recuperar muito bem. Mas quanto ao futuro?

            - Estamos convencidos de que poderemos evitar mais crises com pequenas doses diárias de uma nova droga. Não tem, de facto, que se preocupar...

            - E não me preocupei, logo que o dr. Henderson me disse que era você que tratava dele.

            - Então, que se passa agora?

            - Sou eu... Oh, não... Não tenho medo da tal anemia das células em forma de foice, mesmo sabendo que, praticamente, se confina à raça negra...

            - Uns noventa e nove por cento... Podemos é fazer uma análise ao seu sangue... Ficamos logo a saber se transmitiu essa tendência.

       - Talvez seja melhor explicar-me... Sabe que o meu contrato com os Snappers termina dentro de dois anos e não pode ser denunciado nem por mim nem por eles... a não ser que se descubra que tenho uma doença crónica que me impeça de jogar.

            - Isso já é diferente... Mas a direcção dos Snappers, naturalmente, não o quer dispensar, a não ser que você esteja mesmo numas condições físicas...

            - Se se descobrisse que sofro dessa doença, dir-me-ia que continuasse a jogar?

            - Talvez não. Mas só podemos ter a certeza, depois de um complexo exame médico. Aliás, nem toda a gente com esse tipo de doença mostra sintomas; é, portanto, muito possível que, mesmo que a tenha, possa continuar a jogar basquetebol. Temos aqui especialistas que facilmente lhe darão uma opinião.

            - Sim, pensaremos nisso... Mas, neste momento, há uma coisa que me preocupa mais do que saber se estou ou não em condições físicas para continuar a jogar... Tenho apoiado, em São Francisco, um grupo de atletas que tenta constituir uma associação de jogadores profissionais para poder lidar com os clubes numa posição mais forte...

            - Sim, mas você não precisa...

       - Pois não. Mas há muitos jogadores, não tão cobiçados, que precisam, de facto, de quem os represente na negociação dos contratos. Ora, já não é segredo que eu auxilio, nesse sentido, um grupo de West Coast, e a direcção dos Snappers pôs-me... Na lista negra?

            - Mais ou menos... - respondeu Joe, sorrindo amargamente.

            - Não me diga que receia...?

            - Sou o primeiro da lista. Neste momento, não me podem fazer nada. Tenho um contrato e são obrigados a pagar-me enquanto eu jogar. Mas, se conseguissem descobrir qualquer incapacidade física como, por exemplo, essa anemia, e arranjar uma junta médica... Podiam denunciar o contrato. E lá se ia a melhor oportunidade de jogadores profissionais formarem uma união...

            - É um dilema, sem dúvida...

            Está a compreender como é absolutamente indispensável que não me diagnostiquem a tal anemia... Pelo menos, antes do jogo de amanhã à noite, o último extra-temporada.

            - Esteja tranquilo que não darei qualquer informação a seu respeito - prometeu Mike. - Mas gostaria de examinar Rachel. Pode ser que seja ela a responsável pela doença de Joey e não eu.

            - Isso é infalível?

            - Infalível não será, mas... Se as características proviessem de vocês ambos, Joey teria apresentado OS sintomas muito mais cedo...

            Gates levantou-se.

            - Nem sei Como exprimir-lhe a gratidão de Rachel e a minha,....... Ela agora anda muito nervosa... Se você pudesse esperar mais uns dias, antes do exame...

            - Com certeza. Joey ainda não vai ter alta já.

       - Vou mandar-lhe bilhetes para o jogo de amanhã - prometeu Gates. Dois. Para si e para a sua garota...

       Dos bons.

   

       O Senhor e a Senhora Rodrigo Sanchez eram bem conhecidos de Mike Rabum; via-os muitas vezes a visitar a filha. E, como sempre acontecia com um doente grave com poucas esperanças de recuperação, Mike alimentava uma genuína simpatia por eles. Em tempos, haviam feito parte da Sociedade Intelectual de Havana. Como muitos cubanos importantes, que haviam preferido fugir a submeter-se ao regime de Castro, Rodrigo Sanebez tornara-se um responsável, homem de negócios, em Miami, na activa zona conhecida por Pequena Havana.

            Rodrigo Sanchez e a mulher olharam esperançados Mike, quando este surgiu no vestíbulo do hospital para os cumprimentar.

            - Desculpem o atraso... Mas... descobri um novo tratamento que pode ajudar Carmelita e quis discuti-lo com dois outros médicos antes de falar convosco.

            A súbita luz de esperança nos olhos dos pais de Carmelita comoveu profundamente Mike.

            - Esse tratamento, dr.... - perguntou a senhora Sanchez. - É novo, não foi o que disse?

            - Sim - respondeu Mike. E a sua honestidade obrigou-o a acrescentar: - E muito perigoso. Vou tentar explicar porquê...

            O mais simplesmente que pôde, descreveu o processo pelo qual se propunha extrair as toxinas da hepatite do corpo de Carmelita. Quando acabou, a senhora Sanchez olhou-o muito preocupada.

            - Se bem entendi, durante nove minutos Carmelita estará morta? - perguntou.

            - Morta, não... Mas é verdade que nenhum dos instrumentos pelos quais medimos a vida funcionará.

            - Se o coração de Carmelita não bate, se ela não respira, como pode dizer que não está morta?

            Mike procurou uma maneira de explicar o que era, de facto, inexplicável, e acabou por optar por uma das histórias clássicas da Biblia.

            - Lembram-se no Velho Testamento de quando Josué ao conduzir os israelitas para Caná fez parar o Sol?

            - Com Carmelita, vai passar-se uma coisa semelhante...

            - Quer dizer que durante nove minutos os seus processos vitais pararão’? - perguntou o senhor Sanchez.

            - Exactamente. Depois, Carmelita recuperará a consciência e ficará bem.

            - Para sempre?

       - Pensamos que, uma vez extraído o veneno que lhe ameaça a vida, Carmelita poderá vencer a infecção.

            - Seria um milagre. -. - observou a senhora Sanches

            - Um verdadeiro milagre - corroborou o marido.

       - Vamos já iniciar uma novena por Carmelita...

            Interrompeu-se, de súbito, e quando de novo falou, a sua voz estava perturbada.

            - Como a nossa filha vai estar tão perto da morte, dr. Rabum, importava-se que pedíssemos a um padre para lhe ministrar os últimos sacramentos?

            - Claro que não!

            - Não se trata de falta de confiança em si, dr... - acrescentou a senhora Sanchez.

            - Compreendo perfeitamente. Começamos amanhã, às nove horas.

   

       Exactamente às onze e quinze da manhã de quarta-feira, uma luz vermelha de aviso piscou no painel de controle da UCIDC, diante do qual Carolyn Payson se sentava. A campainha atraiu imediatamente a sua atenção e, com a mão esquerda, accionou o interruptor que ligava o quarto de Ross McKenzie ao painel e ao écran principais.

            Logo, neste surgiu uma imagem do cubículo. A enfermeira que tratava McKenzie auscultava-lhe o coração com um estetoscópio e olhava o relógio, sem saber que a observavam.

            - Que se passa, June? - perguntou Carolyn através do microfone.

            A enfermeira, sobressaltada, fixou os olhos na câmara, atónita.

            - Como soube que se passava qualquer coisa? - perguntou pelo intercomunicador ao lado da cama.

            - O computador antecipou-se-lhe outra vez.

            Um dos terminais ligados ao corpo de Ross McKenzie destinado a medir a tensão, estava igualmente adaptado a um aviso que era accionado quando aquela descia abaixo dos cem milímetros de mercúrio, na fase sistólica, medindo a força máxima aplicada ao sangue que saía do coração pelo ventrículo esquerdo. A leitura sistólica era um precioso indicador da função cardíaca, a seguir à da pressão nas veias que também era fornecida pelo sistema altamente sofisticado da UCIDC.

            Accionando o interruptor apropriado, Carolyn concentrou-se na leitura dos dados, aparentemente confusos, provenientes do corpo de Ross McKenzie. O indicador de tempo começou logo a registar o número de segundos passados desde que o aviso soara; enquanto isso, uma fita magnética registava a pressão sanguínea, dez segundos antes do alarme e durante quarenta segundos. Deste modo, o cardiologista podia saber se a alteração era súbita ou gradual, quando chegasse à UCIDC.

            Simultaneamente, o electrocardiógrafo apresentou o traçado da função cardíaca, logo que Carolyn accionou o respectivo interruptor, numa fita que lentamente ia surgindo, impressa por estilete. As enfermeiras da UCIDC estavam preparadas para interpretar electrocardiogramas; assim, Carolyn estudou a tira de papel, depois do que pegou no telefone directo para a central e chamou:

            - Dra. Rebecca Dalton, código quatro, UCIDC... Dr. Ed Vogel, código quatro, UCIDC..

            O código quatro indicava a necessidade de determinado médico, mas implicava menos urgência do que o código cinco, que punha em acção a equipa de RCP.

            Pousando o telefone, Carolyn voltou-se de novo para os monitores e começou a estudar as informações sobre Ross McKenzie - pressão sanguínea sistólica e diastólica; pressão venosa; electrocardiograma; pulso, respiração e outros dados. O rápido exame do traçado do electrocardiograma tinha-lhe já dito que, a despeito da queda da tensão, o coração de McKenzie parecia comportar-se normalmente. E - importantíssimo - não havia irregularidade no ritmo; caso contrário, poderia tratar-se de um rápido agravamento da sua condição cardíaca.

            Em passo rápido, Carolyn dirigiu-se para junto de McKenzie a uns 50 metros. Este respirava com regularidade, o que era bom sinal. Os doentes da UCIDC mostravam-se geralmente apreensivos quando viam chegar vários médicos e se achavam envolvidos na inevitável agitação que se seguia a uma crise grave - agitação que, por vezes, os assustava bastante, na área limitada dos cubículos.

       - Tome conta do serviço de controle - ordenou Carolyn à enfermeira que tratava de McKenzie. - Reparou nalguma coisa, antes que a tensão começasse a descer?

            - Não, Miss Payson. Foi de repente.. Pode ver aqui o gráfico...

            Carolyn estudava já o gráfico inscrito na tira de papel. Este, poucas informações lhe deu além do que já sabia: súbita baixa de tensão sem razão aparente.

            - Faz ideia do que aconteceu?

            A estudante de enfermagem estava aos pés da cama, receando ter deixado passar qualquer sintoma que a tivesse avisado da iminência da alteração.

            Parece um choque cardiogénico... - disse Carolyn, aumentando o fluxo do fluído intravenoso que era ministrado a McKenzie. - Começa a ficar pálido, o que significa que os vasos periféricos estão a contrair-se a fim de enviarem sangue ao coração e ao cérebro. Pergunte à telefonista se já localizou o dr. Vogel ou a dra. Dalton, Se ela ainda não os tiver encontrado, diga-lhe para chamar o dr. Rabum.

            Pegando numa ampôla de Isoprotenerol, um miligrama de uma mesa ao lado da cama e numa seringa cuja agulha, protegida para evitar a contaminação, destapou, Carolyn injectou o seu conteúdo na garrafa de dextrose e água que, lentamente, penetrava na circulação de McKenzie, através de uma veia da mão, acrescentando assim, àquela solução, um poderoso constritor dos vasos sanguíneos.

            - Que diabo se passa? - murmurou Ross McKenzie abrindo os olhos.

            - Estou apenas a dar-lhe um medicamento - explicou Carolyn com naturalidade, uma das principais características das enfermeiras da UCIDC.

            McKenzie voltou a fechar os olhos. No gráfico que o estilete ia traçando, a pressão sanguínea sistólica começara a subir, acusando o efeito da poderosa droga. Uma vasta rede de canais circulatórios, de maior ou menor diâmetro, a sua abertura ou oclusão, podiam afectar com intensidade a tensão, permitindo que um doente sangrasse até à morte, devido à perda do plasma, espalhado por milhões de vasos capilares entre o sistema arterial que leva o sangue do coração aos tecidos e o sistema venoso que o devolve ao órgão central.

       Vogel surgiu, entretanto, junto da cama, com o estetoscópio na mão.

            - Então? - perguntou em voz baixa, olhando para o écran e para o gráfico que registava a tensão.

            - Parece um choque cardiogénico - disse Carolyn.

       - Dei-lhe um miligrama de Isoprotenerol e a tensão começou a subir.

            O cardiologista colocou o estetoscópio no peito de McKenzie e escutou cuidadosamente, colocando o aparelho em diversas posições, voltando ao princípio, à esquerda e abaixo do mamilo, ouvindo com atenção. Depois, passou-o a Carolyn e perguntou:

            - Que ouve?

            - Um murmúrio sistólico... Bastante alto e rouco...

            - Venha...

            - Qual será a causa? - perguntou Carolyn, enquanto saíam do cubículo.

            - Este tipo de murmúrio significa que a válvula mitral não se fecha completamente e que algum sangue volta à aurícula esquerda a cada batida do coração. Quer-me parecer que uma ou duas das chordas tendineae... Ainda se lembra do que são as chordas tendineae?

            - São cordas fibrosas ligadas às válvulas cardíacas nas paredes internas, não são?

            - São. Se essas cordas - ou as válvulas - estiverem danificadas, a mitral não pode fechar-se completamente na contracção ventricular e daí o murmúrio do sangue a regressar.

            - E é por isso que a pressão baixa quando o coração tenta adaptar-se...?

            - Exacto.

            O telefone tocou no serviço de controle e a enfermeira de serviço, depois de atender, chamou o cardiologista.

            - Dr. Vogel... É a dra. Dalton...

            Ed Vogel falou brevemente com Rebecca Dalton e regressou ao cubículo onde Carolyn observava o doente e os vários instrumentos que registavam a condição geral de McKenzie, especialmente a função cardíaca.

            - A dra. Dalton está ocupada na preparação de uma reunião de um comité especial para esta tarde - disse Vogel.

            - O Comité de Deus? - perguntou Carolyn, ansiosa.

       - Não disse. Mas deve ser importante, senão, vinha logo para aqui...

            - Tem a certeza de que a dra. Dalton não disse mais nada acerca da reunião do comité? - perguntou Carolyn.

            - Tenho... Seu pai...?

            - Sim...

            - Sabe que algumas pessoas a vão condenar por isso, não sabe?

            - Helga diz que faço bem. De qualquer modo, o processo já se iniciou...

            - A nossa Helga é uma pragmática... em quase tudo.

       E uma rapariga muito inteligente, também... Já agora a dra. Dalton disse-me que gostava de a ver no seu gabinete antes de sair daqui, às três horas. Se não puder telefone-lhe...

            - Com certeza... Que fazemos a Mr. McKenzie?

            - A dra. Dalton pediu-me que discutisse o caso com o dr. Kenneth Dalton...

            - Quer, então, dizer que Mr. McKenzie poderá ser operado?

            - O que acontecer à válvula mitral e ao lado esquerdo do coração nas próximas vinte e quatro horas responderá à sua pergunta... Se conseguirmos eliminar o murmúrio que acaba de ouvir pelo estetoscópio, teremos o problema resolvido... Caso contrário, alguém terá que substituir a válvula...

            - Acha que Mr. McKenzie aguenta a operação? Foi uma alteração tão súbita...

            - E bastante grave... Se McKenzie precisar de ser operado, é melhor não esperarmos muito... Se não precisar, quem quer que o opere sujeitá-lo-á a um risco desnecessário... Felizmente que não sou eu que tenho de tomar essa decisão...

      

            Como chefe da equipa responsável pelo funcionamento do coração-pulmão artificial ou bomba oxigenadora que substituia, tanto o coração como os pulmões, durante as operações de coração aberto, Peggy Tyndall era um elemento vital no grupo altamente especializado que tanto contribuira para a reputação de Ken Dalton no campo da cirurgia cardiovascular. Quando Mike Rabum entrou no Laboratório de Investigação Cardiológica, cerca das dez e meia de quarta-feira, Peggy tirou os olhos do colorímetro    analisava sangue para um teste da função pulmonar.

            - A dra. Rebecca Dalton telefonou há pouco e disse-me para interromper tudo e me pôr à sua disposição, dr. Rabum. Que se passa?

            - Isto...

            Mike abriu sobre a mesa a revista que trazia consigo e mostrou a Peggy os diagramas do aparelho exigido para a LTC. A técnica estudou-os por um momento e olhou o médico, interessadíssima.

            - Parece a bomba oxigenadora de Rube Goldberg... Já consta por aí que a ciência médica vai amanhã progredir por seu intermédio... Esse diagrama tem alguma coisa a ver com isso?

            - Constitui o fundamental. É capaz de me fazer uma maquineta destas para mim?

            Peggy observou de novo os desenhos e respondeu:

            - Trata-se de um saco oxigenador, tipo Travenol, com uma bomba e orifícios em sítios bastante esquisitos...

            - Não se esqueça do aquecedor... Na altura própria, vamos precisar dele imediatamente...

       - Se chegar a altura própria... - disse Peggy, que lia rapidamente o artigo. - Isto é assustador!

            - Também acho... Mas tem que resultar!

            - Vou começar já... - anunciou Peggy. Onde posso trabalhar?

            - A dra. LeMoyne cede-nos uma sala de trabalho, no piso operatório. Ajudá-la-á e eu também.

            - Vou já reunir aquilo de que posso precisar e subo imediatamente... Os oxigenadores já lá estão em cima...

            - Dr. Rabum, 175 - disse a telefonista. - Dr. Mike Rabum, 175. Dr. Rabum, 175.

            - É a extensão do dr. Toler... - disse Mike, franzindo o sobrolho. - Que quererá ele?

            - Seja o que for, o melhor é responder - aconselhou Peggy. - Já nos encontramos...

   

       - Mike - disse Jeffry Toler. - Pode cá vir?

            - Com certeza. É só um minuto.

            Subindo no elevador, Mike não imaginava por que motivo o administrador do centro médico queria falar com ele e temia aquilo de que em parte suspeitava. Com o hospital já servindo de tema de conversa por causa do problema financeiro, era possível que Toler quisesse evitar mais críticas públicas suscitadas pelo emprego de técnica tão arriscada como a LTC. No entanto, Mike estava decidido a não ceder, se o pressionassem.

            - Quero falar consigo acerca de Carmelita Sanchez, Mike - começou Toler, indo direito ao assunto, como era seu Costume. - Quais são as possibilidades?

            - Sem a LTC... nenhumas.

            - E com a LTC?

            - Conheço cinco casos relatados; dois morreram e os outros três ficaram bem. Carmelita Sanchez está em condições desesperadas. Isso leva-me a não hesitar. Preocupa-o o facto de a sua morte atingir a reputação do hospital?

            - Não, Mike, que ideia! Nunca pensaria em impor a minha opinião aos outros médicos quando já não pratico medicina há quinze anos. Recebi esta manhã um telefonema de Marcia Weston, jornalista da TV.

       - Conheço-a. Esteve cá ontem por causa do filho de Joe Gates e do bebé Hornsby.

            - E fez-nos um grande favor. Miss Weston anda a perseguir-me há várias semanas... Quer que a autorize a fazer na TV um perfil de Rebecca Dalton... Não sei se está a ver... A libertação da mulher e não sei que mais...

            - Duvido que a dra. Dalton queira ser identificada com esse movimento, mas o seu trabalho merece, sem dúvida, elogios...

            - Especialmente, desde ontem, quando passou a ser professora de medicina e chefe do serviço de cardiologia... Ora esta manhã Miss Weston voltou a telefonar, como lhe....... Atendendo às actuais circunstâncias entre os Dalton, dei voltas à cabeça tentando encontrar maneira de a obrigar a desistir do programa sobre Rebecca...

            - Sim, não podia ter escolhido pior altura...

            - Pois... Mas, desta vez, temos sorte.. Marcia Weston quer é fazer um programa sobre o dr. Mike Rabum... Um dia na vida de um dedicado médico!

            - Mas é Gus Henderson quem se encarrega dos casos que ela viu ontem...

            - Atravessamos tempos difíceis, Mike... Temos que aproveitar todos os trunfos... Agora com a controvérsia sobre o orçamento.

            - Pelo menos, Mr. McKenzie está fora do jogo, por algum tempo... Ed Vogel disse-me que talvez tenha de ser operado...

            - Oxalá que não! Ross McKenzie não se deixará influenciar pelo modo como o tratam... Seja como for, temos que travar a nossa batalha perante a Comissão do Distrito...

            - Qual é a sua ideia?

            - Se não se importasse, gostaria que Miss Weston filmasse a... como lhe chamam vocês?

            - A lavagem total do corpo?

            - Isso... O pai da rapariga é um dos homens mais importantes da Pequena Havana. Se tivermos que pedir financiamento especial para o centro médico, o voto dos cubanos poderá ser-nos muito útil nas eleições do Outono.

            - E se eu falho, amanhã?

       - Toda a gente sabe que se trata de um momento difícil... Aliás, pode pôr a repórter ao corrente do que se vai passar... Miss Weston, nos seus comentários, chamará, com certeza, a atenção dos espectadores para a delicadeza do processo... Você já é um herói, por ter salvo Joey Gates... E, se tiver êxito, amanhã de manhã será o médico do ano!

            - Diga, por favor, a Miss Weston que esteja aqui, com a sua equipa, às oito e trinta. Começamos às nove, mas não os quero a deambular pela sala de operações durante os nove minutos mais importantes da vida de Carmelita Sanchez.

   

       Rebecca Dalton entrou no cubículo de Ross McKenzie quando Ken acabava de o examinar. O cirurgião guardou no bolso o estetoscópio e saiu com expressão grave. Rebecca e Ed Vogel seguram-no.

            - Já apresentava este murmúrio sistólico quando foi internado? - perguntou Ken.

            - Ed ouviu-o, pela primeira vez, esta manhã quando a tensão desceu subitamente - explicou Rebecca. - Que te parece?

            - É a válvula mitral... Talvez as chordas tendineae...

            - Concordo - afirmou Rebecca. - O ecocardiograma podia ajudar-nos a determinar exactamente o que se passa, mas a máquina está avariada...

            A ecocardiografia mais recente ainda que as maravilhas da era espacial, era uma técnica que permitia medir ondas ultra-sónicas do coração e de outros órgãos, e fotografar essas ondas com uma câmara polaroid. O grau de rigor que atingia permitia medir a espessura da parede cardíaca.

            - Entrou em choque subitamente há cerca de uma hora - disse Vogel. - E se Miss Payson não lhe tivesse dado o Isoprotenerol, ainda estaria em piores condições...

            - O choque reflecte, com certeza, uma alteração na função da válvula mitral - sugeriu Rebecca.

            - Creio que sim - concordou Ken.

            Rebecca hesitou por momentos e fez depois a pergunta que mais a perturbava:

            - Achas que está indicada a intervenção cirúrgica, Ken?

       - Para já não, mas o que aconteceu é um aviso.. Gostaria de ver um registo das três principais funções fisiológicas, nas próximas seis ou oito horas: a função muscular cardíaca, o tónus dos vasos sanguíneos e o índice do fluxo sanguíneo relacionado com o efeito do choque na rede arterovenosa dos pulmões.

            - A equação de Berggren ajudar-nos-á a obter esse índice - disse Rebecca. - Ed pode ligar os catéteres e dar-nos o registo do computador.

            - Está bem - respondeu Vogel. - Mais alguma coisa?

            - Gostaria de ver como está a válvula mitral - disse Ken. - Mas não vamos introduzir-lhe catéteres no coração, a não ser que tenhamos mais dados do que os que temos agora...

            - Achas que será prudente esperar seis horas? - perguntou Rebecca, inquieta.

            - Sim... - retorquiu Ken. - Tentar consertar chordas tendineae é um trabalho ingrato; os tecidos mal aguentam a sutura... Claro que se tivermos de adaptar a McKenzie uma válvula artificial, será preferível fazê-lo antes que o ventrículo esquerdo e a válvula sofram danos, devido à dilatação, que os tornará mais finos e, portanto, mais vulneráveis. Mas ainda não estou convencido da inevitabilidade da intervenção...

            - Alguma coisa te impede de operar McKenzie? - perguntou Rebecca, quando Ed Vogel já não os podia ouvir.

            - Eu? Porquê?

            - Depois do que ele disse a teu respeito, ontem...

            - Pensas que isso pode afectar a minha decisão, Reb? Ou a minha técnica operatória?

            - Não. Queria apenas ter a certeza.

            - O modo como as mulheres manipulam os homens espanta-me cada vez mais... Na maior parte dos casos, nem sequer damos por isso... Só depois, quando fazemos o que querem que façamos... como ontem à noite...

            - Talvez eu tivesse começado como dizes, com essa intenção... O certo é que perdi o domínio de mim própria...

            - Também eu... feri-te?

            - Sim. Mas como as mulheres gostam de ser feridas pelo homem que amam... - respondeu ela, abanando a cabeça.

            Ken mudou abruptamente de assunto:

       - Parabéns pela tua promoção. É bem merecida!

            - Não a pedi.

            - Pois não, e sabemos o motivo... Não querias sobrepor-te a mim. No entanto, esse teu sacrifício nada alteraria, Reb... Somos médicos e a nossa vida profissional é parte importante da nossa existência. Juntos ou separados...

            - Sou da mesma opinião... Tens tido êxito com as outras transplantações que não as cardíacas e, pelo facto de não termos Conseguido resolver o problema da rejeição, isso não significa que não possas continuar com o teu trabalho noutros órgãos, Ken. De facto, o que aprendes ao transplantar rins, pâncreas, pulmões, mesmo, pode um dia ajudar-te a resolver o problema do coração...

            - Tens razão, como de costume... Estava no terraço há quase uma hora, ontem à noite, antes de tu chegares... A pensar... A morte da Hornsby, ontem à tarde, quase me destruiu por completo... Depois, Karen demonstrou-me que a rapariga não podia sobreviver...

            - É uma sorte Karen fazer as análises logo que os pacientes morrem... - respondeu Rebecca de mau modo.

            - Sim... - confirmou Ken, parecendo não ter reparado na alteração da voz de Reb. - O procurador pediu a Karen que fizesse um relatório muito rapidamente, para saberem se deviam prender o homem com quem a rapariga vivia. Cometi um erro táctico ao deixar-me irritar pelas palavras de Ross McKenzie, na reunião do comité... Percebi isso logo que saí. Compreendi, também, que as acusações de McKenzie constituiam precisamente aquilo de que eu necessitava para encarar a verdade... Seja como for, no terraço, acabei por admitir que visto me teres ultrapassado profissionalmente, terei que te alcançar... É o único processo de resolvermos os nossos problemas. Se Karen não tivesse...

            - Percebo-te perfeitamente, Ken! - exclamou Rebecca, subitamente descontrolada. - Afinal tudo isso da igualdade é uma conversa...

            - Que tens? Que disse eu que...? - retorquiu Ken surpreendido.

            - A verdade, a fonte do problema que nos separa é o teu egoísmo masculino! - tornou Rebecca, furiosa - Só ficarás satisfeito quando me reduzires à mesma posição profissional que eu ocupava quando tu eras aqui o deus da cirurgia! Uma posição inferior, a mesma que muitos homens pretendem para as suas mulheres!

            - Isso é absurdo, Reb, e...

            - É? Já não posso mais, Ken! - afirmou Rebecca, de olhos brilhantes e corada.

            Sabia que as suas palavras eram precipitadas, mas não se importava, embora dificilmente pudesse admitir que o verdadeiro motivo para a sua explosão de cólera era o facto de parecer responsabilizar Karen Fletcher mais do que ela pela decisão de Ken lutar enfim.

            - Continua, se te apetece, e destrói a tua reputação como cirurgião e como homem - acrescentou Rebecca, afastando-se. - Já não posso aguentar mais! Já não posso esperar mais que me apanhes!

            Desapareceu, de cabeça erguida, indignada - e, na opinião de Ken, mais encantadora e desejável do que nunca.

       Mas Rebecca pusera o dedo na ferida. O simples facto de até Ken conseguir de novo pôr-se à prova, fazendo conquista, por pequena que fosse, no mundo profissional onde ambos se moviam e ocupavam posições responsáveis, não poderia competir com a mulher. O que significava que Rebecca tinha avaliado correctamente o teor das suas relações. E provara mais uma vez - se provas eram necessárias - que as mulheres compreendiam melhor os homens que amavam do que os homens se compreendiam a si próprios.

            Quando Ken entrou, Ed Vogel tomava notas numa ficha, no gabinete dos médicos da UCI. O jovem médico tinha visto Rebecca sair, adivinhando-lhe o estado de espírito, mas não fez comentários.

            - Peggy Tyndall está a montar um oxigenador especial para Mike Rabum - disse. - Mas Miss Sundberg já está a preparar os catéteres e levaremos Mr. McKenzie para a sala de tratamentos da UCI, logo que tudo esteja pronto. Quer catéteres na veia subclavicular e na artéria femural, como do costume, para determinarmos o índice de fluxo sanguíneo, não é verdade?

            - Parece-me que Mr. McKenzie é o caso ideal para o cateter fibro-óptico que trouxe de Boston há uns meses... - respondeu Ken. - O mesmo que utilizam no Peter Bent

       Brigham Hospital, na Escola Médica de Harvard.

       - Não está esterilizado... Se me não engano, esses catéteres fibro-ópticos precisam de ser esterilizados a sessenta graus centígrados, em etileno, o que leva, pelo menos, duas horas...

            - Mesmo assim, tenciono usá-lo. Em Boston, dizem que a informação que esses catéteres fornecem habilita um médico a prever o que se vai passar com um coração, com doze horas de antecedência.

            - É isso o que precisamos... Vou esterilizar o cateter imediatamente.

   

       Mike Rabum trabalhava com Val LeMoine e Peggy Tyndall no aparelho especial para a LTC, na sala integrada no Complexo operatório, quando a voz da telefonista se fez ouvir pelo altifalante do corredor.

            - Dr. Rabum, 161. Dr. Michael Rabum, 161. Dr. Rabum, 161.

            - É das Informações - disse Mike. - Que será?

            - Provavelmente, é Marcia Weston que quer preparar consigo a intervenção de amanhã. No apartamento dela, claro... - sugeriu Val. - O preço da fama...

            - Não se vá embora - pediu Mike ao sair para o corredor, a fim de atender o telefone. - Ainda temos que fazer.

            - Mr. Sanchez quer falar-lhe acerca da filha, dr. Rabum - informaram Mike do vestíbulo.

            - Peça-lhe para esperar dez minutos. Agora, estou ocupado.

            - O pai de Carmelita está lá em baixo - explicou Mike a Val e a Peggy. - Quer falar comigo.

            - Ter-se-á arrependido? - perguntou Val. - As edições do meio-dia dos jornais, revelaram o que vai fazer amanhã... salientando o perigo.

            - Há dias que não tenho tempo de ler um jornal. O dr. Toler tem-se encarregado da publicidade do caso, tentando jogar contra o Comité Financeiro. Acho que vou descer e falar com Sanchez...

            - Peggy e eu vamos verificar o aquecedor, entretanto - disse Val. - Se não trabalhar na perfeição, nunca conseguirá introduzir sangue novo em Carmelita a tempo de evitar a morte das células cerebrais por anoxemia.

       - Que encorajadora!... - observou Mike. - Já venho!

            Na sala de espera encontrou o Senhor Sanchez e a mulher. Com eles estava um sacerdote católico.

            - Este é o padre Junípero Cortez, dr. Rabum - apresentou a Senhora Sanchez. - Quer falar consigo...

            - Importa-se de vir ao meu gabinete, padre? É neste piso...

            - Creio que os pais de Carmelita devem ouvir a nossa conversa, dr.

            Mike ficou um pouco confuso pelo tom agreste da voz do padre, mas não pôde imaginar o motivo.

            - Então, vamos todos ao meu gabinete. Estaremos mais à-vontade...

      

            O gabinete era pequeno, mas com mais duas cadeiras acomodaram-se todos.

            O padre Junípero preferiu ficar de pé; os outros sentaram-se.

       - O Senhor Sanchez pediu-me para dar os últimos sacramentos à filha, dr. Rabum. Quererá isto dizer que não espera que Carmelita recupere da operação que lhe vai fazer amanhã?

            - Claro que não! - respondeu Mike. - Já tentei explicar o que se passa...

            - Senhora Sanchez diz-me que durante nove minutos Carmelita estará morta. Os jornais da tarde afirmam o mesmo...

            - Não li os jornais, padre, mas garanto-lhe que Carmelita estará viva e que tenho grandes esperanças na sua recuperação. Noutras circunstâncias, não me decidiria por uma transfusão total.

            - Sei que se fazem transfusões a recém-nascidos com icterícia. Propõe-se fazer a mesma coisa?

            - Não exactamente, mas a diferença ê apenas no grau. A lavagem total do corpo implica a remoção, pode dizer-se, de todo o sangue, com extracção dos antigenes e toxinas resultantes de hepatite. Depois, fornece-se sangue novo.

            - Na totalidade? - perguntou o padre.

            - O mais possível.

            - E uma intervenção dessas é compatível com a vida?

       - Para reduzir as necessidades em oxigênio dos tecidos, de molde a poderem sobreviver durante os nove minutos precisos para a operação, temos que os arrefecer, principalmente o cérebro, a um ponto em que deixa de existir qualquer sinal de vida, já que todas as funções ficarão reduzidas ao grau mínimo absoluto de metabolismo compatível com a vida.

            - Estará, então, clinicamente morta?

            - Creio que sim, segundo o critério geralmente aceite. Não havendo provas fisiológicas de actividade cerebral... Mas não considero esse período de suspensão como morte clínica.

            - Tem a certeza de que o não será? - insistiu o padre.

            - Não, não tenho.

            Mike começava a compreender o que preocupava o sacerdote e, de um ponto de vista teológico, admitia o seu dilema.

            - Falando claramente, dr. Rabum, se Carmelita vai estar fisiologicamente morta durante nove minutos, amanhã de manhã, o que acontecerá à sua alma durante esse período?

            - Creio que esse problema não é da minha especialidade, padre...

            - Infelizmente a teologia não tem precedentes que permitam tomar uma decisão... tal como o que vai fazer amanhã, também me parece não ter precedentes...

            - A intervenção já foi praticada com êxito várias vezes.

            - Com total recuperação?

            - Tanto quanto se sabe, houve recuperação total em dois de cinco casos. Mas, já agora que levantou o problema, padre, há uma questão que talvez esteja na base da sua dificuldade em Compreender o que se vai passar e que posso esclarecer... Antes de decidir sujeitar Carmelita a uma intervenção potencialmente perigosa, perguntei a mim próprio se um médico tinha o direito de reduzir um doente a uma condição tão próxima da morte real que não pode mesmo distinguir-se dela...

            - Creio que nos ajudaria a todos, se nos explicasse o que o leva a assumir tal responsabilidade.

            - Nunca me ocorreu, devo confessar, que existisse um aspecto metafísico no que proponho - admitiu Mike.

       - Mas suponho ter uma resposta...

            - Diga-nos qual é, por favor...

       - Ninguém pode dizer, em rigor, de que modo o corpo de determinada pessoa vai reagir a um medicamento ou a uma intervenção cirúrgica, padre. A morte instantânea sob anestesia é rara, mas acontece; por vezes, a vida cessa antes de se iniciar a operação e não possuímos qualquer meio para prever essa ocorrência. Assim, sempre que mando anestesiar um paciente, estou a responsabilizar-me pela sua vida. O mesmo se passa com intervenções cirúrgicas nas quais, a despeito de todas as precauções que tomo, a minha técnica pode ser incapaz de controlar uma hemorragia ou de manter a vida.

            - Compreendo... - admitiu o padre Junípero.

            - O que proponho fazer amanhã é, sem dúvida, uma intervenção arriscada, mas pertence à mesma categoria, padre. A diferença está apenas no grau.

            - Vistas as coisas assim, o seu raciocínio parece-me lógico.

            - E aceita a necessidade da intervenção no caso de Carmelita?

            - Aceito.

            - Então, de certo modo, constituímos uma sociedade. Ministrando-lhe os últimos sacramentos, o senhor prepara-a para a morte, segundo os preceitos da vossa fé, garantindo-lhe a continuação da vida no céu. Com o mesmo objectivo e, embora de maneira diferente, eu procuro conservar-lhe a vida na terra.

            - É muito persuasivo, dr. Rabum... e muito eloquente - respondeu o padre, sorrindo. - Perdoe as minhas palavras, mas... a sua profissão dá muito poucos filósofos autênticos e o ter conhecido um alegra-me bastante.

      

            - Concorda, então, que no caso de Carmelita os possíveis benefícios físicos justificam os riscos teológicos?

            - Creio que sim, dr. No entanto, antes de falar consigo, tinha dúvidas. Rezarei por si, amanhã. Como dizemos na nossa língua, Vaya con Dios.

      

            - O aparelho funciona na perfeição. Peggy é fantástica! - disse Val LeMoyne quando Mike voltou à sala onde trabalhavam. - A família concorda?

            - Quer acreditem quer não, estive a discutir teologia com um inteligente padre católico.

            - Quem ganhou? - perguntou Peggy.

       - Empatamos, parece-me. Ele estava preocupado pelo facto de Carmelita ficar fisiologicamente morta durante nove minutos, mas todos acabamos por concordar que a intervenção se impunha. Considerei o problema a outra luz e foi uma experiência interessante.

            - Criou-lhe dúvidas, o padre? - perguntou Val.

            - Não. Todo o bom cirurgião aprende que tem que ser duas pessoas: uma, o tipo que maneja o bisturi no mundo estéril da sala de operações; outra, a que deve resistir à deformação profissional.

            Peggy Tyndall levantou-se e disse:

            - Miss Sundberg telefonou há pouco por causa da esterilização de um cateter fibro-óptico que o dr. Ken Dalton quer aplicar a Mr. McKenzie. Se me desculpam por uns minutos, vou à UCIDC verificar...

            - Com certeza, Peggy - concordou Mike. - Você e a dra. LeMoyne fizeram um óptimo trabalho.

            Saindo com Val LeMoyne, das observações, Mike acrescentou:

            - Poucas mulheres se especializam em anestesia para operações de coração aberto. Ver um doente durante uma hora ou mais ligado a um oxigenador com o coração e os pulmões parados, sabendo que a sua vida - e a reputação do anestesista - depende de algo tão vulnerável como um motor eléctrico ou uma válvula da máquina, deve ser uma tortura... Como consegue manter o sangue frio?

            - Dividi, há muito, a minha vida em dois compartimentos separados... Quando entro no hospital, entro no mundo da medicina como médica. Quando saio, abandono a minha profissão ao mesmo tempo que tiro a bata e, até à manhã seguinte, sou apenas responsável por mim própria. Creio ser por isso que sou boa anestesista.

            - Se é! Pelo menos, nunca conheci outra melhor.

            - Vindas de si, Mike, um homem tão exigente, essas palavras constituem um elogio perturbador...

            - Talvez se eu pudesse separar as minhas duas vidas, trabalhasse melhor... Mas não me parece possível...

            - Seja como é, Mike. Todos nós precisamos de alguém que nos sirva de apoio, quando um dos nossos dois mundos subitamente se desmorona... e é consolador saber que existe, pelo menos, um rochedo chamado Mike Rabum.

   

       - Espero que ainda não tenha almoçado - disse Jeffry Toler, quando Rebecca entrou no seu gabinete, pouco depois do meio-dia.

            - Preparava-me para isso, quando recebi uma chamada; Ken, Ed Vogel e eu, estivemos a examinar Ross McKenzie.

            - Como vai esse velho rezingão?

            - Quase sempre a dormir. Ed Vogel está a aplicar-lhe uns catéteres para medir a função cardíaca.

            - McKenzie aceitou-a bem?

            - Acho que sim. Não tem muito por onde escolher...

            - A trombose é grave?

            - Tanto quanto sabemos, não se trata de trombose. Talvez haja um pequeno enfarte na zona que rodeia a válvula mitral... Mas parece mais um processo degenerativo das chordas tendineae que controlam a válvula. Algumas delas devem ter cedido, afectando o funcionamento da válvula e causando insuficiência mitral bastante para produzir um murmúrio sistólico. Se o nosso ecocardiógrafo estivesse a funcionar, poderíamos saber, em rigor, o que se passa através das ondas ultrasónicas... Mas está avariado...

            - Qual é o prognóstico?

            - Por enquanto, é impossível fazer um prognóstico. Se a válvula não puder fechar-se, todo o sangue do lado esquerdo do coração será devolvido à aurícula e às veias pulmonares, a cada contracção do ventrículo; nesse caso, o efeito sobre a hemodinâmica da circulação pode ser gravíssimo. Felizmente que Carolyn Payson agiu com rapidez, esta manhã. Conseguimos resolver o estado de choque, mas, a todo o momento...

            - Por que não operá-lo agora?

            - Se Mr. McKenzie, tem, de facto, um enfarte, a cirurgia significa um considerável esforço imposto ao coração; por outro lado, há possibilidades de que ele estacione com a função cardíaca parcial, pelo menos, até conseguirmos que o seu estado melhore um pouco. Ken conta com isso.

            - E não concorda? - perguntou Toler, notando a alteração na voz de Rebecca.

       - Desejo que tenha razão... por Mr. McKenzie e por ele próprio...

            - Estou a ver que se trata de uma decisão difícil de tomar...

            - Sem dúvida. Não invejo a responsabilidade de Ken, mas só ele a pode assumir. Ed Vogel e eu podemos fornecer-lhe todos os elementos necessários, mas só ele tem que tomar uma decisão...

            - Acha que o seu estado emocional lhe permite tomar uma decisão dessas?

            Toler viu-a hesitar e ficou imediatamente preocupado.

            - Não sei, Jeffry...

            - Ontem, parecia mais optimista... Que aconteceu?

            - Penso que Ken devia operar. Mas ele não quer... E receio que eu própria aceite a situação, o que não ajuda nada...

            Não aludiu a Karen, cujo nome a desorientara então.

            Nesse momento, uma empregada do restaurante entrou com duas bandejas.

            - Ponha-as ali em cima da mesa - ordenou Toler.

            Voltando-se de novo para Rebecca, continuou:

            - Espero que goste de sanduíches de presunto, e de café. Pense’ que podíamos poupar tempo se conversássemos enquanto comêssemos...

            - Gosto, gosto...

            Toler serviu-lhe duas sanduíches num prato de papel, enquanto Rebecca servia o café de um termo.

            - Então, qual é o prognóstico? - insistiu Toler, deitando uma colher de creme no café, e adoçando-o com sacarina.

            - Já lhe disse...

            - Refiro-me a si e a Ken.

            - Não sei... Ontem à noite, envergonhei-o, e ele quase perdeu a cabeça... O primeiro indício do nosso desajuste surgiu quando a nossa vida sexual desapareceu, praticamente... Mas, ontem à noite, Ken voltou a ser o meu marido em lua-de-mel...

            - Logo, não é impotente... Mas não pensa, com certeza, que o facto de se deitar com ele o curará do sentimento de inferioridade que tem em relação a si...

            - Claro que não. Tinha esperança de que Ross McKenzie o conseguisse...

       - Sim? - perguntou Toler, surpreso.

            - Logo que estudou os dados que Ed Vogel e eu lhe fornecemos, sobre o coração de McKenzie, Ken fez um diagnóstico.

            - Correcto?

            - Estou convencida que sim. Utilizamos todos os meios de que dispomos para impedir que o estado de McKenzie se agrave, mas parece-me que não vamos ter êxito... Se Ken tiver que o operar, isso significa que falhei como cardiologista; e se McKenzie sobreviver, talvez o nosso casamento se salve.

            - E se ele opera e McKenzie morre?

            - Acredito no êxito de Ken... Deposito nele a minha única esperança de felicidade. Receio, porém, ter insistido demasiado com Ken, esta manhã... Mostrei-me convencida de que Mr. McKenzie precisava de ser operado e que ele apenas procurava ganhar tempo, por não ser capaz de assumir a responsabilidade de outra difícil intervenção. Ken não concordou... e devo ter perdido a cabeça...

            - As ruivas não são famosas pelo bom génio... - observou Toler, sorrindo... - Correu um risco, Reb, mas uma situação desesperada exige medidas desesperadas. Boa sorte!

            - Obrigada, Jeffry. Era por isso que queria falar-me?

            - Meu Deus! Estava tão preocupado por causa de vocês, que quase me esquecia... O padre Hagan disse-me que você será a advogada do diabo quando o Comité dos Moribundos se reunir esta tarde, e pensei que devia avisá-la de que o juiz Robie tem que sair da cidade. Pediu a Anthony Broadhurst para o substituir.

            Rebecca não precisava que Jeffry Toler lhe explicasse o motivo da sua preocupação. Um dos mais perigosos aspectos das actividades do Comité de Deus era o facto de não possuir estatuto legal. Na verdade, de acordo com a lei da maioria dos Estados aceder ao pedido de parentes para que um doente pudesse escolher a morte, transformava os membros do comité, tecnicamente, em cúmplices de um crime.

            Anthony Broadhurst era um procurador brilhante e ambicioso, reputado pelo estrito respeito da lei. A presença do juiz Robie, no comité, dera a este um estatuto quase legal, mas ninguém podia prever de que modo actuaria Broadhurst; a única certeza era a de que Broadhurst não demonstraria a mesma compreensão e a mesma humanidade que caracterizavam o juiz Robie.

            - Quer que adie a reunião? - perguntou Toler.

            - Não lhe posso responder enquanto não falar com Carolyn Payson. Pedi-lhe para vir ao meu gabinete, logo que saia de serviço, às três horas.

            - Agradeço-lhe que me diga, de pronto, o que Carolyn decidir. A reunião está marcada para as seis horas e, por isso, já não temos muito tempo.

            - Combinado, Jeffry. E obrigado pelo almoço.

      

            À uma e meia da tarde, de quarta-feira, a campainha de aviso, no teletipo da Rede do Programa Médico Regional no Laboratório de Investigação Cardiológica começou a tocar. Peggy Tyndall leu a mensagem que ia sendo impressa:

      

            “Dr. Harvey Boldt do Veterans’ Memorial Hospital, em Marathon, Florida, pretende conferência com a dra. Rebecca Dalton sobre um electrocardiograma e o estado de um doente, Mr. Kevin Mccartney. Começaremos a transmitir às 13 e 45”.

      

            Pegou imediatamente no telefone. O facto de ter piorado, só podia significar uma crise de rejeição -talvez a última. E nada de pior poderia sobrevir para contrariar a reconciliação nascente entre os Dalton, por quem Peggy tinha grande simpatia.

            - Chame a Dra. Rebecca Dalton, por favor - disse Peggy à telefonista.

            - Que há? - perguntou Rebecca Dalton, minutos mais tarde.

            - Um telex, dra. O dr. Boldt, de Marathon, quer transmitir um electrocardiograma, às treze e quarenta e cinco.

            - Conheço o dr. Boldt. É um médico competente.

            - O doente é Kevin McCartney. Que foi ele fazer à pesca. Disse-me ontem à noite no Dolphin

       - Disse-me que queria ir e autorizei-o, depois de me ter prometido que amanhã vinha ter consigo para fazer um electrocardiograma e uma análise ao sangue.

            - Já tenho a requisição. Pode estar aqui às 13 e 45, ou quer que peça ao dr. Boldt para ligar mais tarde?

       - Posso, posso. Peça ao dr. Vogel que venha juntar-se-nos.

            - Mais alguém?

            Rebecca sabia perfeitamente o que Peggy queria dizer.

            - Para já, não. A situação de Kevin pode não ser assim tão má... Verifique se o impressor de electrocardiogramas está em ordem.

            O Serviço de Cardiologia do Programa Médico Regional da Florida tinha sido organizado por Rebecca, dois anos antes. Reunindo oito hospitais mais pequenos numa rede que cobria a maior parte da Florida do Sul, o programa permitia aos médicos fora do Biscayne Hospital, obter auxílio especializado para o diagnóstico de doenças cardíacas e para tratar os doentes.

      

            Dos hospitais da rede, um amplificador electrocardiográfico e um osciloscópio registavam a imagem da função cardíaca, sob forma de electrocardiograma. Este era transmitido por telefone para a Escola Médica onde era registado num monitor - chamado monitor “escravo” - equipado também com um registador gráfico. Deste modo, o traçado electrocardiográfico era reproduzido no Biscayne e podia ser visto, bem como gravado em papel rolante. Simultaneamente, outro dispositivo assegurava a transmissão da voz. O processo ficava muito mais barato e era muito mais rápido do que o envio de um cardiologista ao hospital da rede.

      

            Às 13 e 45, Rebecca sentou-se diante do écran, com Ed Vogel. Ao lado, um amplificador convencional telefónico. Quando uma pequena luz no amplificador começou a piscar, Rebecca carregou no botão.

            - Dra. Rebecca Dalton, em Miami.

            - Dr. Boldt, em Marathon. Um doente seu, dra. Dalton, chamado Kevin McCartney, foi trazido para aqui há cerca de uma hora, depois de se ter sentido mal enquanto pescava. O seu electrocardiograma preocupa-nos.

            - Estou à sua disposição, dr. Boldt. Qual é o estado de Mr. McCartney?

            - Diz que sofre de crise de rejeição.

            - Não deve enganar-se. Já sofreu quatro.

            - Diz, também, que esta será a última. A minha técnica já está preparada para transmitir...

       Uma floresta de linhas apareceu no écran e Peggy Tyndall manobrou o osciloscópio até obter uma imagem clara. Em seguida, Rebecca iniciou o estudo das ondas do coração de Mccartney, a cerca de cento e sessenta quilómetros de distância, para lá de Florida Keys e parte de Everglades.

            Embora o traçado de ondas pouco acentuadas indicasse uma baixa na voltagem da corrente produzida pelo coração, o ritmo era ainda razoavelmente forte, apesar de rápido - cerca de cento e vinte pancadas por minuto, quando o normal deveriam ser setenta ou oitenta. Entretanto, Rebecca e Ed Vogel começavam a discernir alterações subtis, que só olhos experimentados eram capazes de detectar.

            - Tire-me uma fita de dez segundos, Peggy - pediu a cardiologista, quando surgiu a primeira pancada anormal.

            A técnica carregou num botão do impressor e o estilete começou a traçar no papel rolante a imagem que aparecia no écran. Rebecca estudou rapidamente a fita.

            - Dr. Boldt? - chamou pelo telefone.

            - Sim?

            - Em que altura começou a fazer o electrocardiograma depois de ter internado Mr. McCartney?

            - Logo que ele me disse que tinha um coração transplantado. Estas ondas T terão algum significado?

            - Creio que sim... Aparecem, geralmente, nos processos de rejeição...

            - Fizemos-lhe uma radiografia também... A sombra cardíaca parece bastante dilatada...

            - Pode ser uma acumulação de líquido em volta do coração, dentro do pericárdio; também é comum na rejeição...

            Rebecca tremia já à ideia de informar Ken de que o seu último operado estava, talvez, a morrer.

            - Repare! - exclamou Ed Vogel.

            Rebecca olhou imediatamente para o écran e perguntou, não vendo qualquer alteração:

            - Que foi?

            Parecia fibrilhação auricular... Como se a aurícula esquerda se tivesse descontrolado por um momento...

            - Dr. Boldt - disse Rebecca ao telefone - notou alguma desordem de ritmo?

       - Também a consulto por causa disso... Têm surgido sintomas de fibrilhação auricular...

            - Cá está outra vez! - informou Ed Vogel. Rebecca carregou logo no botão que accionava o impressor do registo gráfico. Um coração irritável era, pelo menos, potencialmente um coração doente, vulnerável a qualquer esforço ou circunstância. A expressão de Rebecca denotava bem a sua preocupação ao estudar o electrocardiograma. Todavia, a fase de descontrole durara apenas vinte segundos.

            - Não gosto destas alterações, dr. Boldt... - disse Rebecca.

            - Que sugere?

            - Injectou Lidocaína?

            - Não.

            - Então, talvez fosse conveniente dar-lhe cinquenta miligramas, por via intravenosa, e cento e cinquenta miligramas por via intramuscular.

            - Muito bem. Estamos a ministrar-lhe uma solução intravenosa...

            - Podemos seguir a evolução de Mr. McCartney, aqui, através da rede, se quiser... - propôs Rebecca.

            - Ficaria muito mais tranquilo se ele pudesse estar aí convosco, no Biscayne... - respondeu o dr. Boldt.

            - Sim, de facto também gostaríamos de o ter aqui... Se vir que o seu estado permite a deslocação...

            - Só de helicóptero. Acha que convencerá a Secretaria de Saúde a vir buscá-lo?

            - Deixe-me falar com eles. Não desligue, por favor...

            - Dentro de uma hora, estará aí um helicóptero especialmente equipado - anunciou Rebecca, depois de ter falado com a equipa de salvamento. - Poderemos seguir a função cardíaca de Mr. McCartney durante a viagem e estaremos em contacto permanente com os bombeiros que o acompanham. Diga-lhe, por isso, que não se preocupe... E obrigada por ter contactado comigo tão depressa, dr. Boldt. Mantê-lo-ei informado.

            Voltando-se para o seu assistente logo que a comunicação terminou, Rebecca disse:

            - Prepare tudo para que Kevin vá directamente do terraço para os raios X. Parece-me que, desta vez, temos um combate de vida ou de morte...

       - E Kevin, também...

            Nenhum deles acrescentou o que lhes pairava no espírito: que a carreira cirúrgica do homem brilhante que dera a Kevin McCartney um coração novo, havia cerca de dois anos, podia também terminar se esse coração deixasse de bater para sempre.

   

       - Por que não vais para casa dormir um pouco?

            Eram três e dez e Helga Sundberg acabava de receber o relatório de Carolyn Payson sobre o último turno da UCI.

            - Não poderia dormir... - respondeu Carolyn.

            - Toma um Valium...

            - Podia não acordar e falhar a reunião do Comité de Deus...

            - Chamo-te às cinco, descansa! Claro que mesmo com a dra. Dalton a defender-te, convém que estejas presente. Devem querer-te fazer perguntas...

            - O que mais me perturba é não saber se serei capaz de lhes explicar que não quero ver-me livre do meu pai ou que me preocupa a despesa...

            - Toda a gente que te conhece sabe que serias incapaz de semelhante coisa!

            - Mas estarão presentes homens de leis, Helga... Além disso, não consegui convencer Gus. Como convencerei um estranho?

            - Gus apenas tem lidado com bebés, na sua maior parte, mongolóides. Até a mim se me corta o coração ao vê-los...

            - Deseja-me sorte, Helga... Vou ver a dra. Dalton... Quer conversar comigo acerca da estratégia que deve ser adoptada...

            - Boa sorte!

            - Está tudo pronto para a cateterização de Mr McKenzie - disse Carolyn antes de sair. - Atrasámo-nos um pouco por causa da esterilização do novo cateter.

            Carolyn teve que esperar cerca de quinze minutos no gabinete de Rebecca Dalton, antes que a cardiologista aparecesse. A enfermeira viu, de imediato, que algo a perturbava.

       - Desculpe tê-la feito esperar. Carolyn - disse Rebecca. - Está a chegar um helicóptero de Marathon, com Kevin McCartney...

            - Outra crise de rejeição?

            - E grave, ao que parece... Só quando ele chegar poderemos saber...

            - É terrível...

            - Em mais do que um aspecto... Falemos agora do Comité dos Moribundos... A reunião está marcada para as seis horas, mas o dr. Toler pediu-me que a avisasse de que o juiz Robie foi substituido por Mr. Anthony Broadhurst...

            - O procurador?

            - Sim. E devo também dizer-lhe que nem o dr. Toler nem eu pensamos que isso favoreça a aprovação do seu pedido para que se interrompam todos os tratamentos ministrados a seu pai...

            - Não é isso... Eu peço é que lhe ponham termo à vida...

            - Bem sei, mas não me parece que Mr. Broadhurst e os outros membros do comitê a apoiem. O dr. Toler achou que devíamos avisá-la, para o caso de querer retirar o pedido...

            - Para o apresentar mais tarde?

            - Possivelmente...

            - Isso não significará que as minhas convicções sobre a justeza do que peço são pouco fortes?

            - Sim, de certo modo... Está mesmo convencida, Carolyn?

            - Absolutamente! É esse o seu conselho, dra. Dalton? No fim de contas, é a minha representante...

            - Se está absolutamente convencida de que o que pede é aquilo que seu pai quer ou quereria se fosse capaz de analisar a situação, não desistiria, no seu lugar. Caso contrário, esperaria para repensar toda a questão...

            - Não tenho qualquer dúvida sobre aquilo que o pai quer. E sinto-me obrigada a executar os seus desejos por todos os meios ao meu alcance!

            - Então, prossiga! Elaborei um simples plano para apresentar o seu caso, mas é melhor que o estudemos em conjunto, antes que a audiência comece...

            - Farei tudo o que quiser, excepto retirar o pedido!

   

       Na sala de tratamento da UCIDC, onde Ross McKenzie fora instalado, Vogel começava a cateterização do coração, quando Helga entrou. Peggy Tyndall, que deveria ajudá-lo, procedia a alterações de última hora no oxigenador para a LTC, antes de o esterilizar para a intervenção do dia seguinte, na qual se depositavam esperanças de salvar Carmelita Sanchez. Ross McKenzie dormia tranquilo, depois de ter tomado uma injecção de Demerol, meia hora antes.

            - Eu fico aqui, Miss Smith - disse Helga à enfermeira que assistia McKenzie. - Pode ir para o serviço de controle...

       - Benvinda! - cumprimentou Ed Vogel.

            Ed Vogel havia acabado de injectar Novocaína no antebraço. Pegando num bisturi, fez uma pequena incisão e com um forceps dissecou uns dois centímetros de veia e alteou-a com uma sonda.

            Helga estava a postos com um par de forceps, pronta a fornecer ao cardiologista tudo o que este precisasse e que se encontrava numa mesa de reserva, encostada à parede. Sobre ela jazia um instrumento que costumava ser utilizado em cateterizações do coração, processo já corrente para avaliar o estado da função cardíaca.

            - Que complicado... - observou Helga, olhando para o cateter.

       - Acredita que dentro do invólucro existem umas cem fibras de vidro?

            - O rótulo da embalagem dizia tratar-se de um sistema fibro-óptico, mas nunca me conseguirá convencer que essa coisinha lhe permitirá ver o coração...

       - Não exageremos! - respondeu Ed Vogel, rindo.

       - O cateter contém três sistemas individuais, cada um deles com um objectivo diferente. Um é um eléctrodo para registar impulsos electrocardiográficos do coração ou para estimular este com um pacemaker.

       - Podemos fazer isso de outra maneira...

            - Outro é um simples cateter para medir a pressão venosa, para injectar medicamentos, para tirar amostras de sangue... O terceiro, que é o mais complicado, consiste em duas séries de fibras, uma destinada a enviar pulsações de luz ao coração e à principal artéria pulmonar, a outra a devolver essas pulsações reflectidas nos glóbulos vermelhos, depois de injectarmos um corante verde e as transmitir, através das fibras de vidro, ao detector.

            - Que complicação!

            - Nem por isso... Utilizando este cateter juntamente com outro dos vulgares, podemos medir a pressão do lado direito do coração, registar a diluição do corante para o estudo da função cardíaca, determinar a saturação de oxigénio, o fluxo sanguíneo...

            Ed Vogel trabalhava enquanto falava. Introduzindo o cateter fibro-óptico na veia, empurrou-o pelo braço em direcção ao coração, através da subclavicular e da veia cava superior até à aurícula direita Quando, pela leitura do electrocardiograma, fornecido pelos impulsos que o terminal do catéter transmitia, verificou que este estava devidamente colocado, Cobriu a pequena incisão na pele com uma toalha esterilizada.

            - Agora vamos verificar pelos raios X...

            A máquina portátil de raios X foi introduzida no quarto e o seu tubo colocado sobre o peito de Ross McKenzie. Passados apenas alguns segundos, o filme estava impresso e a máquina era retirada. Enquanto esperavam pelos resultados, Ed introduziu um pequeno cateter convencional na veia cava superior. servindo-se da veia que antes expusera.

            - Quando foi que a dra. Rebecca se lembrou de utilizar este cateter fibro-óptico? - perguntou Helga.

            - Não foi ela... - respondeu Ed Vogel. - Foi o dr.Ken... O dr. Ken trouxe dois destes cateteres de Boston, há três meses; utilizam-nos no Peter Bent, no Birgham Hospital, na Escola Médica de Harvard. Mas, ultimamente, tem feito pouca cirurgia cardíaca e, como a dra. Rebecca é um pouco mais conservadora, nunca utilizou os catéteres...

            - Se forem assim tão eficientes como diz, tornarão o diagnóstico muito mais simples - retorquiu Helga.

       - Acha que o dr. Ken está outra vez a ganhar confiança em si próprio?

            - Creio bem que sim... Mas a dra. Rebecca anda convencida de que o marido faz tudo para não operar... Aposto que até discutiram por causa disso...

            - Quer dizer que ela favorece a cirurgia?

       - Sim... É uma decisão difícil, seja para quem for...

            - Porquê?

            - Se a dra. Rebecca tem que dar a sua opinião como chefe de serviço de cardiologia e se o marido recusar...

            - Mas o dr. Ken deixou sempre à escolha dos que receberiam órgãos transplantados à mulher...

            - E agora responsabiliza-a, talvez inconscientemente, pelo caminho que as coisas tomaram...

            - Quando Eva deu a Adão a maçã, Adão não precisou de ser convencido a comê-la. Quando, porém, o Senhor apareceu e o apanhou, a primeira coisa que Adão disse, foi: “A mulher que me deste ofereceu-me uma maçã e eu comi-a”...

            - Você está sempre a surpreender-me, Helga... Onde estudou a Bíblia?

            - Quando era miúda, íamos à igreja aos domingos e às quartas-feiras à noite. Uma vez por ano íamos todos aquilo a que chamávamos a associação. Era quando uma série de igrejas se juntavam e pregavam ao ar livre.

            - E isso entusiasmava-a assim tanto?

            - Se entusiasmava! Não faz ideia... Toda a gente achava... e enquanto os adultos ouviam as prédicas, os jovens faziam amor entre os arbustos...

            - Mais ou menos como aqui, agora, não é ?

            - Não sei... O certo é que fazer amor sobre a caruma dos pinheiros, o mato a picar-nos as Costas, parecia dar ao sexo um sabor diferente...

            A chegada da radiografia pôs fim à conversa. Helga ergueu-a contra a luz para que Ed Vogel a estudasse sem contaminar as luvas esterilizadas que calçava.

            - O cateter está, precisamente, na aurícula direita... O problema, agora, está em saber se devemos empurrá-lo mais.

            - Deixe-me ver, por favor, Miss Sundberg...

            Nenhum deles tinha ouvido Ken Dalton entrar. Quando Helga lhe passou o filme, o cirurgião examinou-o rapidamente, devolvendo-lho em seguida.

            - Houve alguma alteração no electrocardiograma enquanto punha o cateter, Ed? - perguntou.

            - Nenhuma.

       - Gostaria que introduzisse o cateter através do lado direito, na artéria pulmonar, se fosse possível... Ficaríamos a saber qual a pressão na circulação pulmonar. Interessa-nos, em virtude da deficiência na válvula mitral.

            - Creio que não será difícil, dr. Dalton...

            - Então, faça favor... Eu fico aqui para o caso de surgir alguma complicação...

            No entanto, o processo era efectivamente mais delicado, pois implicava a passagem do cateter de maior diâmetro através da aurícula direita e da válvula tricúspida até ao ventrículo. Daí, teria que atravessar a válvula pulmonar, conduzindo à artéria principal que vai aos pulmões, onde devia ser colocado no meio da corrente sanguínea que aí chega a cada batida do coração. Mas tudo correu bem e nova radiografia mostrou o cateter em excelente posição.

            - Muito bem, Ed - felicitou-o Ken Dalton. - Disseram-me, em Boston, que com um cateter como este os sinais de perigo podem ser detectados, regra geral, vinte e quatro horas antes de qualquer sintoma clinico alarmante. Gostaria que medisse a saturação do oxigénio, a pressão na artéria pulmonar e a taxa de clarificação do corante, hora a hora. Com este tipo de informações, podemos medir a função cardíaca e o índice de fluxo sanguíneo. Estudarei os primeiros resultados no computador, logo que ligue o cateter ao monitor.

            - Sabe exactamente o que está a fazer... - observou Helga quando Ken Dalton saiu. - O senhor e a dra. Rebecca talvez tenham menosprezado a sua determinação.

            - E sabe também o risco que corre... - acrescentou Ed.

            - Se não corresse riscos, não seria o grande cirurgião que é! Vou para junto dele... Pode precisar de alguma coisa...

            - Diga-lhe que os catéteres já estão ligados. Pode começar a registar os dados quando quiser...

            Ken programara já o computador onde já se podiam ler os valores fornecidos pela unidade instalada junto da cama, enquanto Ed Vogel verificava os vários parâmetros transmitidos pelo cateter fibro-óptico e as pulsações luminosas. Como Ken Dalton tinha, primeiro introduzido no computador informações de base sobre a superfície do corpo, o ritmo cardíaco e outros índices, a máquina calculava e exibia, quase imediatamente, os valores do índice cardíaco da sístole e da diástole. Todas estas indicações precisas, antes da criação do cateter fibro-óptico, exigiriam numerosas e demoradas análises e medições.

            O cirurgião estudou os resultados, comparou-os com as análises anteriores da função cardíaca de McKenzie, feitas por métodos mais convencionais, e disse a Ed Vogel. quando este chegou ao controle:

            - Não vejo grandes alterações, por enquanto... Mas as próximas seis ou oito horas devem esclarecer-nos sobre a necessidade de intervir ou não cirurgicamente.

            - Tinha esperança de que o novo cateter nos dissesse algo de definitivo...

            - Também eu... Isso só prova que quando lidamos com o coração do homem, quer física quer emocionalmente, nunca se pode ter a certeza de nada...

      

            Reforçada pela trovoada que quase diariamente se fazia sentir ao fim da tarde, naquela época do ano, a brisa do mar que soprava sobre a pequena ilha de Miami Beach varria a superfície de Biscayne Bay em ondas de espuma quando Rebecca Dalton e Ed Vogel saíram do elevador que os levara à zona de aterragem do helicóptero, no terraço da torre central.

            A construção dessa zona de aterragem e do elevador de alta velocidade que conduzia ao banco, custara mais de cem mil dólares. Mas já seis vidas tinham sido salvas, mercê da rapidez com que dois helicópteros dos bombeiros haviam sido capazes de conduzir ao hospital doentes em estado grave, nos seis meses que o novo recurso levava de vida.

            Devido ao vento, só à segunda tentativa o aparelho pousou. Quando as pás do helicóptero deixaram de rodar reduzindo assim a agitação que varria os telhados dos dois ou três mais pomposos edifícios de Miami, um jovem vestido de azul saiu da carlinga e disse a Rebecca:

            - O electrocardiograma mostrava algumas alterações quando lhe falamos há pouco, dra. Dalton, mas, agora, parece tudo normal outra vez.

            - Você tem aprendido qualquer coisa connosco, Sanders!

            O jovem, que frequentava um curso de pessoal para-médico, na Universidade, e tinha dois anos de enfermagem na Armada, era um elemento desse novo grupo profissional que contribuía para a eficiência de médicos, sobrecarregados em todo o país.

       O piloto aproximou-se da porta do helicóptero, juntamente com Sanders e abriu-a para que a maca pudesse sair.

            - Olá, dra. Dalton! - cumprimentou Kevin McCartney sorridente, embora na sua cara lívida se pudesse ler a dor. - Lamento não lhe ter podido trazer um peixe...

            - Trouxe, trouxe... Olhando para si, dir-se-ia que está fora de água há demasiado tempo... Mas havemos de pó-lo outra vez a nadar!

            Os dois homens transferiram Kevin da maca do helicóptero para outra, com rodas, que o aguardava.

            - Podíamos ter chegado mais cedo - informou o piloto - mas esta trovoada...

            - Obrigada - agradeceu Rebecca. - Obrigada pelo vosso esforço. Kevin é o único barman do mundo que tem no peito um coração de rapariga. Uma curiosidade, fiquem sabendo!

            Rebecca tomou o pulso de Kevin. Era um pulso cheio, regular, e bastante forte, sem a arritmia que levara o dr. Boldt a consultar Rebecca através da rede.

            - A viagem parece que lhe fez bem, Kevin - disse a médica. - O seu coração está a comportar-se melhor do que em Marathon...

            - Foi da Lidocaína. Já lhe conheço os efeitos... Mas há muita coisa cá dentro que não está a funcionar bem... Nunca percebi por que motivo um dos primeiros sintomas de rejeição é um nó nas tripas...

            - O dr. Vogel vai radiografá-lo à distância. E Miss Sundberg vai injectá-lo...

            A radiografia em vista, feita com o tubo à distância de dois metros do peito do doente, permitia medições exactas do tamanho do coração, dando um quadro muito mais rigoroso do fornecido pelo exame físico ou por uma radiografia vulgar.

            - Peggy vai-lhe tirar algum sangue e fazer um electrocardiograma, também, antes de o levarmos para a UCI - acrescentou Rebecca. - Certo?

            - Tudo o que quiser, dra... - respondeu Kevin. - Nunca pude resistir a uma mulher bonita... especialmente de branco...

            - Quer assinar, dra. Dalton? - perguntou o piloto inquieto com a trovoada que parecia agravar-se. - Gostava de sair daqui antes que o vento nos atirasse à baía...

       Rebecca assinou o talão e disse:

            - Agradeça por mim ao chefe Bates.

            - Se calhar, vai pedir-lhe para testemunhar perante o Comité Financeiro... - respondeu o piloto ao subir para a cabina. - O orçamento dos bombeiros será submetido à aprovação em breve. Tal como o vosso... É verdade que têm o velho Ross McKenzie no hospital com um ataque?

            - Sim, está cá, mas não sabemos ainda muito bem o que se passa com ele...

            - Quer fazer-nos um favor? Despache-o antes que nos possa fazer mais mal! Já fez baixar tanto os salários e a moral dos bombeiros, que não imagina a dificuldade que temos em arranjar novos recrutas.

            Entrando no elevador, Rebecca carregou num botão. As portas fecharam-se devagarinho, isolando a médica e Kevin do barulho do motor do sofisticado helicóptero preparando-se para subir de novo.

   

       Helga Sundberg acabava de fazer a ronda à UCI, após ter assistido Ed Vogel no tratamento a Ross McKenzie, quando Mike Rabum apareceu.

            - Por onde tem andado que não a vi? - perguntou.

       - Não me diga que anda à minha procura! - respondeu Helga, interrompendo a verificação das prescrições que Carolyn introduzira no computador antes de sair de serviço.

            - Devo confessar que sim... Você garantiu-me ontem que não estava interessada em casamento e, por isso, senti-me à vontade...

            - Muito pode acontecer em vinte e quatro horas...

            - Muito aconteceu entre as treze e as onze de ontem, embora não saiba ainda muito bem o que foi...

            - Nem eu... Mas devo dizer-lhe que tenciono descobrir!

            - Que acha a iniciarmos um projecto comum este fim de semana?

       - Por que não? A não ser que a televisão lhe venha a dar-lhe volta à cabeça... Já dizem para aí que é um êxito...

            - Espero que não! Se tiver tantos problemas amanhã como tenho tido hoje, o programa será cancelado, não duvide...

       - Que se passa?

            - O sangue... Vamos precisar de sangue amanhã de manhã e, infelizmente, o de Carmelita é do tipo A negativo. Já procurei por todos os bancos da cidade e não há que chegue!

            - Lamento ser O... - respondeu Helga.

            - Eu também - disse Mike. - Já temos alguma coisa em comum...

            - Só dispõe mesmo de nove minutos para fazer a lavagem? É terrivelmente curto...

            - Nunca ninguém levou mais tempo, que eu saiba. E não quero forçar a sorte no meu primeiro caso...

            - Conseguirá, vai ver!

            - Quem me dera ter a sua confiança! Quanto mais penso em tudo o que pode acontecer nesses nove minutos, mais assustado me sinto...

            - Um cirurgião capaz de citar Shakespeare às 11 da noite, tem que ser fora de série! Nunca o vi falhar... Pelo menos, naquelas coisas a que se dedica...

            - Fui muitas vezes derrubado no futebol. Joe Gates lembra-se, com certeza. E há sempre uma altura em que... Veja o que aconteceu a Ken Dalton... Há um ano, ninguém imaginaria que ele pudesse perder um doente, e agora... Praticamente, não opera...

            - Não me diga que se vai deixar vencer, se falhar amanhã...

            - Não sei... Além da vida de uma rapariga, estão outras coisas em jogo... Se cometo um erro na sala de operações, toda a gente o testemunhará, com aquelas câmaras a perseguirem-me...

            - Ainda está a tempo de cancelar o programa...

           - Não posso recusar o meu apoio ao dr.Toler... O programa é fundamental para o futuro desta casa, como sabe...

            - Seja como for, continuo a apostar em si!

       O tom de voz de Helga não passou despercebido ao médico.

            - Se tudo correr bem, celebrará a proeza comigo este fim de semana?

            - Se me disser em que sítio e a que horas...

            - Diga você!

            Mike esperou por uma resposta, mas Helga abanou a cabeça.

       - Só amanhã à noite, depois de ter cometido a proeza!

            - E se perder?

            - Deixá-lo-ei chorar no meu ombro, como prémio de consolação

            - Do mal o menos... Quer perca quer ganhe, a perspectiva é sempre agradável...

   

       Kevin McCartney fora conduzido dos Raios X para o Laboratório de Investigação Cardiológica, na maca especial que permitia acompanhar o estado do doente , sendo os dados recebidos no monitor central da UCI. Kevin estremeceu quando Peggy Tyndall o picou com uma agulha para lhe retirar sangue com vista às análises que Rebecca Dalton pretendia fazer, além das análises CS 11, assim chamadas porque os onze testes podiam ser feitos automaticamente através de uma máquina fantástica que substituia vários técnicos.

            Depois de ter dividido por vários tubos de ensaios o sangue que recolhera, Peggy colocou um penso na picadura começou a ligar aos pulsos, aos tornozelos e ao peito de Kevin, os terminais do electrocardiógrafo.

            - A dra. Fletcher disse-me estar convencida, tal como o senhor, que Dale tem cada vez maior dificuldade em respirar... Foi como que uma espécie de acusação...

            - Ela disse isso? - perguntou Kevin, indignado.

            - Sim, por outras palavras. Pareceu-me que criticava a dra. Rebecca por não observar Dale mais frequentemente...

            - Mas, que pretenderá ela? Arranjar sarilhos entre o dr. Ken e a dra. Rebecca?

            - Já há sarilhos que cheguem... Mas, se alguém tem que ser censurada por causa de Dale, esse alguém sou eu. À noite, quando saio daqui, estou sempre muito cansada e não lhe presto a atenção que devia prestar...

            - A dra. Fletcher e eu podemos estar enganados. Quando Dale aparece no bar, à tarde, para beber a sua cerveja, está ofegante porque vem a correr de Bayside Arons...

            - Estou sempre a recomendar-lhe que não corra, mas a dra. Rebecca diz que é melhor deixá-lo à vontade, para não se sentir diferente das outras crianças... Ela vai examiná-lo para a próxima semana, quando o ecocardioscópico estiver reparado. Para não ter que lhe aplicar outra vez um cateter no coração...

            - Confie nela... Confie nela, digo-lhe eu! É verdade... Como vai o coração artificial?

            - Está parado, praticamente, desde que o dr. Ken e a dra. Rebecca deixaram de trabalhar juntos...

            - Há seis meses, o dr. Ken disse-me que estava preparado para implantar um coração artificial accionado por energia atómica no peito de uma vitela. Sempre que eu ia à missa, rezava para que o dr. Ken pusesse o aparelho em condições de funcionar, antes que os malditos linfocitos do meu sangue tentassem matar-me. Agora, estou quase a morrer e você diz-me que é uma causa perdida...

            - Também me entristece, Kevin... No fim de contas, tenho um filho com um coração doente que, um dia, pode precisar também desse aparelho...

            - E não há ninguém que esteja em condições de continuar com o projecto?

            - Talvez o dr. Rabum... Mas a dra. Rebecca continua a lutar pelo marido e Mike é o cirurgião mais ocupado do hospital...

            - Entretanto, a única coisa que me podia manter a vida por mais dez anos... não existe! Quer que lhe diga uma coisa? Que raio de maneira de tratar um doente!

            - Já disse isso ao dr. Ken?

            - Ele já deve ter problemas que cheguem...

            Peggy deslocou o terminal no peito de Kevin para outra posição, e disse, enquanto a fita ia saindo da máquina:

            - Talvez lhe fizesse um favor, se lhe lembrasse quanto ele lhe deve...

            - Sim... Veja lá o electrocardiograma... Que tal?

            - Já tenho visto pior... Como não bebe a cerveja que vende...

            - Quando estará pronto o relatório?

            - Quando a dra. Dalton e o dr. Vogel acabarem de o examinar, quando o trabalho do laboratório estiver pronto... Umas horas ainda... Entretanto - acrescentou Peggy, desligando a máquina - deixo-o aos cuidados da sua amiga Miss Sundberg...

       Pegando no telefone, Peggy chamou uma empregada para levar Kevin à UCIDC.

            - E não se esqueça do que lhe disse... Lembre ao dr. Ken que está à espera dele para aperfeiçoar o coração artificial...

   

       Eram quase quatro horas quando Ed Vogel e Helga Sundberg acabaram de ligar Kevin McCartney aos vários instrumentos de medida que forneceriam uma imagem contínua das suas funções vitais. O narcótico que lhe haviam ministrado antes da radiografia, aliviara-o das dores que tantas vezes acompanhavam os fenómenos da rejeição. Kevin dormitava. Mas a sua respiração era bastante fraca e o traçado do electrocardiograma no monitor, à cabeceira da cama, bem como no écran principal no serviço de controle, acusavam decréscimo de voltagem do sistema eléctrico cardíaco.

            Junto do comando do banco de dados, Ed Vogel ditava as conclusões do seu exame físico para o telefone vermelho, no gabinete dos médicos da UCIDC, que comunicava directamente com a dactilografia.

            - É a pior crise de rejeição que Kevin já teve, não é? - perguntou Helga, no controlo, que comunicava com o gabinete.

            - Parece que sim... Geralmente, as crises vão-se agravando sempre...

            - Quem olhar para o electrocardiograma, dirá que o seu coração está a ser atacado...

            - E está mesmo... Com os linfócitos a assaltarem o sistema de condução e o próprio músculo, mais o fluído no pericárdio a comprimi-lo do exterior... Não deve ter grandes possibilidades...

            - Como estamos a seguir todos os parâmetros de Kevin e de Mr. McKenzie, vou precisar de todos os canais de visualização disponíveis... Os monitores de Mr. Payson não nos dizem nada que já não saibamos e, se os desligássemos, teria mais dois canais para Kevin e Mr. McKenzie...

            - Escreva a ordem, que eu assino.

            Rebecca Dalton entrou na UCIDC, quando Vogel se preparava para sair.

       - Descobriu algo de novo acerca de Kevin, Ed? - perguntou a médica.

            - O baço está dilatado e há fluído no abdómen, além do que existe no pericárdio.

            - Já vi a radiografia... A sombra cardíaca aumentou bastante, também... Grande parte deve ser o líquido do pericárdio...

            - Aspiro-o?

            - Para hoje, acho que já chega de tortura... Amanhã pensaremos nisso...

            - Dupliquei a dose de metilopredenisolona e comecei a dar-lhe heparina e Actinomycin D.

            - Está bem. Vou estar ocupada das cinco e meia às seis e meia ou sete, numa reunião do comité, mas pode telefonar para a direcção, se precisar de mim. Como está Mr. McKenzie?

            - Vai-se aguentando, segundo tudo leva a crer... Acaba de chegar o registo do fluxo sanguíneo.

            - Se, entretanto, não se verificar qualquer alteração súbita... - disse Rebecca, pensando o mesmo que Ed Vogel.

            - O dr. Dalton vem ver Kevin? - perguntou Ed Vogel em tom casual.

            - Já lhe mandei dizer que Kevin tinha chegado. Creio que passará por aqui logo que possa... Está de serviço.

            - Gostava de lhe dizer que o índice de Mr. McKenzie parece não melhorar... O fonocardiograma também o atesta, creio...

            Ed Vogel passou a Rebecca uma tira de papel onde se podia ler um traçado semelhante ao de um electrocardiograma. Método de reproduzir Os sons cardíacos, fotografando a conversão das ondas sonoras em impulsos eléctricos, o fonocardiograma era muito mais eficiente que o estetoscópio convencional. E, mais importante de que isso, produzia um registo gráfico que iria fazer parte dos dados clínicos sobre o doente.

            - Sim... - concordou Rebecca... As ondas indicam um enchimento anormalmente rápido do ventrículo esquerdo... A segunda onda parece mais ampla que o normal.

       - O que quer dizer que o volume de sangue lançado na sua aorta pode estar a declinar... Será necessário aumentar esse volume para compensar o sangue que regressa à aurícula a cada contracção do ventrículo.

            - Isto não significa que o seu coração esteja a falhar mais rapidamente do que os sinais clínicos o indicam? - perguntou Helga.

            - É possível... - respondeu Rebecca.

            Nenhum dos três exprimiu o pensamento que mais os preocupava: se a função cardíaca de Ross McKenzie estivesse, de facto, a declinar, cada hora que passasse tornava a intervenção cardíaca na válvula mitral - se isso viesse a demonstrar-se necessário - mais difícil e de êxito mais duvidoso. Ou a circunstância de Rebecca poder ter. que fazer o pedido oficial de cirurgia ao Serviço Cardiovascular e erguer, assim, uma barreira intransponível entre ela e Ken.

   

       - Não te vi entrar, Carolyn...

            Helga Sundberg falava da porta do cubículo onde Richard Payson jazia. Carolyn acariciava-lhe a testa.

            - Estavas muito ocupada com a dra. Dalton e o dr. Vogel... Queria passar algum tempo com o pai, antes de ir à reunião do Comité de Deus...

            - Todo o hospital arde por saber que decisão vão tomar...

            - Não mais do que eu! É claro que eu já sei qual será...

            Helga mudou abruptamente de assunto:

            - A dra. Rebecca e Ed Vogel estão, neste momento, a estudar os dados clínicos de Mr. McKenzie. A dra. Rebecca parece estar convencida de que é impossível adiar por mais tempo a operação sem reduzir as possibilidades de sobrevivência de Mr. McKenzie. Uma decisão difícil, também...

            - Isso é para me lembrar que não sou a única pessoa no Biscayne que tem problemas?

            - Toda a gente os tem! Mike Rabum corre o risco de ser responsabilizado pela morte de Carmelita Sanchez, amanhã...

            - Mike não faria a LTC se não estivesse convencido de que Carmelita não tem outra solução...

            - Bem sei... Conheço-o... Mesmo assim, é um grande risco...

       - Continuas a sentir por ele a mesma coisa... depois de teres dormido sobre o assunto? - perguntou Carolyn.

            - Mais do que nunca! - respondeu Helga. - E vou pô-lo à prova este fim de semana...

       - A ideia foi tua ou dele?

            - Dele, evidentemente! Quem julgas tu que sou? - inquiriu Helga, assumindo caricaturalmente a pose da virtude ultrajada. - É verdade... Pedi a Ed Vogel para desligar os monitores de teu pai, quando ele for trazido de lá de cima, depois da reunião.

            - Porquê?

            - Precisamos de todos os canais disponíveis para Kevin e Mr. McKenzie... E o coração de teu pai não sofre alterações.,. Não há motivo para o seguirmos com tanta frequência... A sua produção de urina baixou um pouco nas últimas vinte e quatro horas e Ed mandou pô-lo sob injecção intravenosa contínua... Fui eu que sugeri... Assim, podemos ter a certeza de que teu pai recebe a dose de clorpromazina necessária para o sedar. Além disso, com o cateter em posição, poderemos ministrar-lhe tudo o que precise rapidamente.

            Carolyn reparou na mudança de tom da voz de Helga ao proferir as últimas observações e no motivo que justificava essa mudança. Agradeceu:

            - Obrigada, Helga... Desculpa o mau-humor...

            - Ora! Para que servem as colegas?

            - Faço ideia o que não se diz por aí acerca de mim...

            - E importas-te? Estás a fazer o que achas que deves fazer por teu pai e só isso interessa! Tens visto Gus ultimamente?

            - Não. Fiquei muito deprimida quando acabei de falar com a dra. Dalton, esta tarde... acho que o aborreci...

            - Está na UCIRN, agora, a examinar o bebé Hornsby e Joey Gates.

            - Estavam ambos bem, quando saí de serviço...

            - E estão, mas o dr. Desmond leu um artigo, ontem à noite, sobre o perigo da embolia pulmonar provocado por coágulos que se formam em torno das extremidades dos catéteres, nos vasos sanguíneos. Quer tirá-los o mais depressa possível e, por isso, Gus tem que tomar uma decisão: ou deixa os catéteres no bebé durante mais vinte e quatro horas, ou tira-os...

       - Nesta casa, só se fala em decisões, decisões... todo o dia! - observou Carolyn, tentando sorrir.

            - Seja qual for a que o Comité de Deus tome, lembra-te de que a vida continua! Vai passear com Gus esta noite e esquece tudo! Posso dormir hoje no quarto de Magda Gatton... A colega dela está doente e foi internada com pneumonia...

            - És muito amável, Helga, mas...

            - É uma altura em que uma mulher precisa de um amante para a apertar nos braços durante as horas escuras da noite... Aceita a minha proposta!

            - Está bem! Talvez as coisas surjam diferentes...

            Gus Henderson observava o bebé Hornsby, quando Carolyn entrou na UCIRN.

            - Estou a ver o nosso benjamim... Dorme como um anjo!

            - Nunca nenhum anjo foi tão torturado! - observou Maria Alvarez, que assistia o bebé.

            - Agora, já não treme... - disse Carolyn. - Que aconteceu?

            - Alguém usou a cabeça... - respondeu Gus. - Oh, não fui eu... Eu deixei-me obcecar pela droga, em vez de pensar que a simples ministração de Metadona resolveria o problema da desabituação.

            - Quem se lembrou disso?

            - Pediatras de Nova Iorque e de Filadélfia. Um dos internos resumiu hoje um artigo duma revista sob o trabalho que têm desenvolvido, no almoço semanal dos pediatras... Descobriram que os bebés nascidos de mães drogadas com Metadona reagiam muito melhor quando alimentados ao peito, porque recebiam, assim, uma pequena quantidade de Metadona no leite. Aproveitei a ideia e juntei Metadona à alimentação do bebé Hornsby...

            - Brilhante, Gus!

            - É verdade... O miúdo deixou de tremer e a taxa de oxigénio subiu logo. Se se mantiver assim por mais vinte e quatro horas, podemos tirá-lo do PPC. - Baixando a voz, ao sair com Carolyn, para que Miss Alvarez não o ouvisse, perguntou:

            - Como estás? Corre tudo bem? O comité...?

            - Estou bem... Helga acaba de me lembrar que, seja qual for a decisão que tomem, o mundo não parará...

       - Assim é que é! Vamos sair à noite, não vamos?

            - Se gostas de mim...

            - Ainda não sabes que nunca deixarei de gostar de ti?

            - É agradável ouvir isso, mas prometo não te vincular a essas palavras... Encontramo-nos por volta das sete e meia. Helga vai passar a noite no apartamento de Magda Gatton...

            - Isso é formidável! - exclamou Gus, de olhos brilhantes.

            - Posso fazer-te o pequeno almoço... Mas, agora, tenho que ir... A dra. Rebecca Dalton pediu-me para a ir ver ao gabinete, às cinco e um quarto, para podermos ir juntas à reunião...

            Gus Henderson ditava, pensativo, uma nota para a ficha do bebé Hornsby. Quando acabou, parou junto do serviço de controle onde Helga Sundberg trabalhava nos registos clínicos sempre atenta ao alarme que podia indicar uma súbita alteração no estado dos seis doentes que os monitores continuamente avaliavam e disse:

            - Gostava de falar um minuto consigo, Helga... Posso oferecer-lhe uma chávena de café?

            - E pôr as más línguas todas a funcionar, desde o rés-do-chão ao terraço? Falemos antes aqui na sala... Não está cá ninguém...

            Na pequena sala para enfermeiras e médicas que precisassem de estar perto do alarme do monitor, Helga encheu dois copos de café, da máquina que trabalhava vinte e quatro horas por dia. Entregando um a Gus, deitou açúcar no seu e mexeu-o vigorosamente,

            - Nunca se preocupa com o peso? - perguntou o médico.

            - Nunca! Uma máquina destas, precisa de muitas calorias!

            - Você é fantástica! Nunca a vejo preocupada... Qual é o seu segredo?

            - Dou tudo o que tenho aquilo que faço. Para quê preocupar-me?

            - Eu preocupo-me... Com Carolyn... Acaba de me dizer uma coisa estranha... Perguntei-lhe se sempre íamos sair esta noite... Disse-me que sim, desde que eu gostasse dela...

            - E você gosta?

       - Claro! E disse-lho... Sabe o que me respondeu? Que não me vinculava às minhas palavras... Que quereria ela dizer?

            - Carolyn ainda não está absolutamente convencida da sua razão, pedindo ao Comité de Deus para resolver o problema do pai, Gus... E teme que haja quem não lhe dê razão, quem possa afastar-se dela...

            - Eu, não! Ela bem o sabe...

            - Aconteça o que acontecer, esta tarde Carolyn vai precisar de toda a compreensão, de todo o amor que lhe puder dar. O melhor que ambos podem fazer esta noite, é tentarem esquecer o mundo...

      

            A conferência mensal de Tecidos do Serviço de Cirurgia realizava-se quarta-feira no anfiteatro de patologia. Considerada uma das mais importantes actividades pedagógicas de toda a Escola Médica, era, também, temida pelos cirurgiões. Durante uma hora, estes eram forçados a assistir à apresentação, a um júri constituído pelos seus pares, das provas que acreditavam os seus diagnósticos como correctos ou incorrectos, dos resultados das autópsias praticadas em doentes que tinham perdido, e da análise de slides microscópicos dos tecidos retirados.

            Os bancos estavam todos cheios, pois era a primeira conferência a que Karen Fletcher presidia, na sua qualidade de chefe do serviço de patologia, desde que o dr. Adrian Cooper sofrera um ataque. A audiência, principalmente constituída por homens, aguardava com expectativa a actuação da médica, desejosos de saber como iria ela enfrentar as inevitáveis controvérsias que sempre se geravam quando os cirurgiões tinham de se defrontar com a prova dos seus fracassos.

       Exactamente às quatro horas, Karen Fletcher entrou no anfiteatro com os assuntos dispostos em escadaria para que todos pudessem ver os espécimes. Atrás dela vinha o dr. Sam Toyota, que empurrava um carrinho onde se viam diversas bandejas cobertas com toalhas. Uma trovoada de aplausos, proveniente do pessoal mais jovem, saudou a entrada de Karen; esta, porém, ignorou-os friamente. Colocando sobre a estante os seus papéis, olhou para os assistentes por trás dos óculos de armação escura e esperou que a breve agitação criada pela sua presença serenasse.

       - O caso que discutiremos esta tarde - anunciou Karen - é do Serviço de Obstetrícia e Ginecologia - o serviço do dr. Jeremiah Singleton.

            Jerry Singleton estava sentado na primeira fila a pouco mais de um metro de Karen e ao ouvir estas palavras, levantou-se de imediato.

            - Não fazia a menor ideia de que se ia discutir um caso meu...

            - Não sabia que o dr. Cooper tinha o costume de avisar os cirurgiões de que os seus casos iam ser discutidos - respondeu Karen.

            - Não tinha, de facto.

            - Claro que se quiser que procedamos a uma votação. dr. Singleton...

            - Não tem importância...

            - O caso que vou apresentar é típico e comum... salvo no resultado. A doente era uma dona de casa, de trinta e oito anos, abastada e mãe de quatro filhos. Quando lhe nasceu o último, há seis meses, foi aconselhada pelo dr. Singleton a, segundo as suas próprias palavras, “Vir ao hospital dentro de seis meses para fazer a minha histerotomia”.

            Uma gargalhada secundou a frase familiar e Jerry corou, furioso. Karen prosseguiu:

            - Devo dizer que este hábito é cada vez mais frequente entre os ginecologistas, nos últimos anos. De facto, o número de histerotomias em mulheres não grávidas com necessidade mínima ou mesmo sem necessidade nenhuma de cirurgia, salvo para se proceder à esterilização, aumentou setecentos e quarenta e dois por cento, apenas num centro médico, entre Julho de 1968 e Dezembro de 1970.

           Um murmúrio de espanto interrompeu a apresentação de Karen, por um momento; Karen esperou, paciente, que o silêncio voltasse à sala para continuar:

            - A doente foi operada no dia seguinte ao do seu internamento. Fez-se uma histerotomia convencional, que demorou trinta minutos, com remoção do útero, trompas e ovários.

            Tirando os olhos dos papéis, Karen acrescentou secamente:

            - Creio que todos estarão de acordo em que esta intervenção constitui, não só um tributo à extraordinária técnica do dr. Singleton, como também prova que o útero não estava dilatado.

            Jerry Singleton mexia-se na cadeira, vermelho de cólera.

            - A recuperação da doente foi complicada por uma infecção urinária - prosseguiu Karen - o que parece ser, praticamente, regra. Com efeito, a taxa de mortalidade da histerotomia anda pelos vinte e dois por cento, na sua maior parte devida a complicações urinárias. A doente preparava-se para sair do hospital seis dias após a intervenção, quando, de súbito, caiu fulminada, no quarto. As tentativas de ressuscitação foram inúteis e a autópsia revelou embolia pulmonar.

            Calçando um par de luvas, Karen tirou a toalha que tapava uma bandeja e pegou num pulmão humano. Erguendo-o com ambas as mãos, separou as duas metades de um lóbulo, para revelar um coágulo que obstruía a artéria pulmonar.

            - Creio que todos podem ver o coágulo... Coágulos deste tamanho são fatais. Os slides, por favor, dr. Toyota...

            Sam Toyota ligou o projector, apagando, ao mesmo tempo, as luzes da sala. No écran por detrás de Karen apareceu uma secção ampliada do tecido pulmonar. Com um ponteiro, Karen começou a apontar as descobertas importantes.

            - Como todos vêem, há coágulos nas ramificações da artéria pulmonar. O quadro clássico da embolia...

            O dr. Toyota colocou outro slide sobre o microscópio, mostrando, desta vez, uma secção da parede uterina.

            - Vemos aqui que o músculo uterino tem aspecto absolutamente normal e não descobrimos nele qualquer alteração significativa. O diagnóstico patológico é, portanto: útero normal e embolia pulmonar pós-operatória, causando a morte. Como patologista e como mulher - continuou Karen, quando as luzes se acenderam e descalçando as luvas - tenho que deplorar o inacreditável aumento do emprego da cirurgia, principalmente a histerotomia, como meio para garantir que as mulheres não voltem a conceber. E para não me deixar influenciar por preconceitos, fiz um estudo destes casos no Biscayne Hospital, tendo consultado, também, muitos outros relatórios de todo o país. Os resultados são, no mínimo, chocantes. Pondo de parte, para já, a questão do valor da vida humana, é um facto que uma histerotomia convencional custa cerca de quinhentos dólares, fora os honorários do cirurgião. Comparem isto, por favor, com o emprego da laparoscopia - visualização do interior do abdómen com um aparelho fibro-óptico, semelhante a um cistoscópio - e com a oclusão das trompas de Falópio - processo que custa menos de duzentos dólares. E é ainda mais económico o dispositivo intra-uterino, que pode ser introduzido na cavidade do útero, evitando a gravidez, desde que a interessada consulte o seu ginecologista uma vez por ano. Mais importante ainda é o choque psicológico que uma mulher sofre ao perder um órgão que muitos consideram a fonte da sua feminilidade sangrando todos os vinte e oito dias para não deixar esquecer a sua existência. Além disso, a psiquiatria determinou que, num número elevadíssimo de casos, as mulheres consideram, inconscientemente, a histerotomia como uma castração.

            - Desculpe-me, dra. Fletcher - interrompeu Jerry Singleton, sarcástico - mas não estará a carregar demasiado as cores da sua descrição?

            - Não me parece, dr. Singleton. No fim de contas, não chega a cinco por cento a cirurgia que hoje se pratica que possa qualificar-se de emergência, e a urgente anda pelos sete. Numa cidade média americana fazem-se duas vezes mais operações do que numa cidade inglesa do mesmo tamanho e parece poder concluir-se, portanto, que quase metade das operações realizadas nos Estados Unidos são, talvez, desnecessárias. Isto significa, claro, que ocorre um número comparável de mortes - algumas estatísticas fixam-nas em trinta mil por ano - o que se podia evitar se não se praticasse cirurgia. E, à cabeça da lista das mortes, vem a histerotomia, que resultou na morte desta doente por embolia pulmonar. Está aberta a discussão do caso.

            Jerry Singleton levantou-se, gaguejando de raiva:

            - Nunca, neste anfiteatro ou noutro, ouvi uma apresentação mais distorcida de um relatório patológico. Como ouviram, esta doente recuperou da operação e preparava-se para ir para casa quando a embolia surgiu. E não preciso de explicar a cirurgiões que a embolia pulmonar é uma complicação cirúrgica que até hoje ainda ninguém conseguiu prevenir.

       - Não se esqueça da infecção da bexiga, Jerry - disse um urologista. - Vocês removem um útero através de uma abertura de dois centímetros e meio de diâmetro. Mas quando a bexiga fica infectada por a terem traumatizado, chamam por nós...

            - Não tenho culpa, dr., que o canal de nascimento se encontre onde se encontra - respondeu o ginecologista.

       - Além disso, essa abertura a que se refere é capaz de se dilatar ao ponto de permitir a passagem da cabeça do bebé. As infecções do tracto urinário ocorrem depois de qualquer tipo de cirurgia vaginal. No entanto, com adequada preparação e com doses profiláticas de anti-sépticos urinários em seguida, o número desses casos é consideravelmente mais pequeno do que se tem pretendido afirmar. Voltando às acusações da dra. Fletcher, hoje em dia cada vez mais ginecologistas estão convencidos de que medidas parcelares, como a laparoscopia, para bloquear as trompas, não podem comparar-se com a histerotomia particularmente por via vaginal, no que respeita à eficácia.

            - Está a referir-se, creio, dr. Singieton - interrompeu Karen - ao que as pessoas chamam cada vez com maior frequência “esterilização”.

            - Chame-lhe o que quiser! A histerotomia protege a mulher do incerto futuro menstrual da menopausa e excluiu a possibilidade de cancro no colo uterino, um dos sítios onde mais doenças malignas surgem nas mulheres. E, se os ovários forem também removidos, o perigo de cancro ovárico fica igualmente eliminado.

            - Deixando o traumatismo psicológico de uma menopausa antecipada.

            - O que se pode dominar completamente através de hormonas por via oral.

            - Encontrará, no entanto, ginecologistas competentes que lhe dirão não fazer sentido esse tipo de intervenção e pensar que se eliminaram todos os problemas.

            Jerry Singieton reconhecia estar a perder, mas continuou a lutar:

            - Estando actualmente as mulheres a procurar banir todos os aspectos da feminilidade em favor da perfeita igualdade com os homens, dra. Fletcher, parece-me que a única mulher completamente livre será aquela que não tiver útero!

       Karen sorriu, tolerante, como se escutasse uma criança, e respondeu.

            - Posso responder-lhe, dr. Singleton, com uma citação do planeamento familiar. Embora defensora do princípio que advoga de libertar as mulheres do espectro da gravidez, a organização diz o seguinte, a propósito de esterilização:

       “As lobotomias preventivas em jovens em risco de desenvolverem violentas psicoses ou a oftalmotomia nas populações com grandes probabilidades de contrair cancro no olho, não têm sido sugeridas nem por psiquiatras nem por oftalmologistas”. A isto acrescento eu que a ablação indiscriminada dos seios, a titulo profilático, apenas porque o câncro da mama é vulgar, destruiria consideravelmente o que se pode classificar de contornos da sociedade!

            Uma gargalhada saudou a réplica de Karen e Jerry Singleton sentou-se vencido.

            - São cinco horas - anunciou Karen - e acho preferível suspender a conferência pois temos outros assuntos a tratar cuja urgência se sobrepõe à mais erudita das discussões.

            Ao sair do anfiteatro, Jerry Singleton aproximou-se dela - que parecia estranhamente frágil e indefesa comparada com a altura do ginecologista - e perguntou, irritado:

            - Que diabo tenta fazer, Karen? Crucificar-me?

            - De modo nenhum, Jerry. Fiz apenas o que considero o meu dever, como chefe de serviço. - Em voz baixa, acrescentou: - Talvez devamos discutir isto mais tarde... em circunstâncias mais amigáveis...

            E com o sorriso de um gato que apreciou o seu leite, saiu da sala enquanto Jerry Singleton não encontrava palavras para lhe retorquir.

      

       Em redor da mesa da sala de reuniões do último andar do hospital, reunia-se um grupo de pessoas discretas, quando o dr. Jeffry Toler abriu a sessão do Comité dos Moribundos exactamente às cinco e meia. Momentos antes, uma enfermeira da UCI empurrara até à sala a cama onde jazia Richard Payson. Uma dose suplementar de cloropromazina, poderoso tranquilizante, fazia com que as convulsões dos seus músculos fossem menos pronunciadas do que o costume. Contudo, Richard Payson parecia não ter consciência do que o cercava.

            Ao lado de Jeffry Toler, que se sentava à cabeceira da mesa, estava o procurador, substituto do juiz Robie, naquela tarde. Anthony Broadhurst era um homem robusto, de quarenta e cinco anos, de rosto quadrado e severo. Ao vê-lo encaminhar-se para a sala, Carolyn Payson sentiu que as esperanças de uma decisão favorável, que nunca haviam sido muitas, se diluiam ainda mais.

            Sentado junto do procurador, via-se o dr. Manning Desmond, chefe da clínica médica e, do outro lado, o dr. Angus McHale, de pediatria. A cirurgia estava representada pelo dr. James Karnes, assistente de urologia. Em frente, sentava-se Helen Gaynor, secretária da direcção, com a máquina de estenografar onde registaria tudo o que se dissesse durante a sessão. A seu lado, o dr. Lewis Katz, de psiquiatria, o padre Hagan, capelão do hospital, e um perito convidado, o professor Cecil Thorne, do Departamento de Genética da Biscayne University. No extremo da mesa, sentava-se o dr. Peter Gross, neurologista que tratava de Richard Payson, e Rebecca Dalton, representando Carolyn.

            - Está aberta a sessão - anunciou Jeffry Toler.

       - Miss Gaynor, como do costume, registara tudo o que se disser. Para esclarecimento de Mr. Broadhurst, que está aqui pela primeira vez, devo dizer que este comité se formou devido ao interesse público em proporcionar a doentes sem esperança, sem perspectiva de cura, a possibilidade de solicitarem à autoridade médica representada por este comité, quer pessoalmente quer através do parente mais próximo, no caso de não poderem falar por si próprios, que os deixem morrer. Um dos casos que chamou a atenção geral para este problema foi decidido há algum tempo, aqui em Miami, quando uma mulher, internada num hospital com uma doença incurável, pediu aos médicos que a tratavam para não a manterem viva por mais tempo. Com vista a protegerem-se de possíveis acusações de negligência e incompetência, os médicos e o hospital procuraram obter uma solução jurídica para a hipótese avançada pela doente: se uma pessoa tem o direito de não querer ser mais tratada, de morrer. O juiz decidiu que os desejos da doente deviam ser obedecidos pelos médicos e pelo hospital, sem que, com isso, pudessem ser responsabilizados pelas consequências. A mulher deixou, assim, de receber tratamento, e morreu pouco mais tarde. Não preciso dizer-lhes, claro, que o nome que escolhemos para este comité provém do princípio básico a que procura aderir. Moriturus, ou moribundo em latim, fazia parte da bem conhecida saudação dos gladiadores antes de entrarem na arena: “Quem vai morrer, saúda-vos”. Alguma pergunta?

            Só Anthony Broadhurst falou:

            - Portanto, todos os doentes cujo caso é apreciado por este comité, estão prestes a morrer? - perguntou.

            - De certo modo... Devo acrescentar que a criação de comités semelhantes, nos hospitais de todo o país, surgiu em resultado do desenvolvimento de técnicas de transplantação do coração. As transplantações exigem métodos susceptíveis de manter o corpo de um possível doador em condições de funcionamento automático, mesmo quando a morte é inevitável, e...

            - Mas a ciência médica já atingiu o ponto de poder prever, com absoluta certeza, a morte? - insistiu Anthony Broadhurst.

            - Isso depende do que entendamos por morte - interveio o dr. Katz. - De um ponto de vista filosófico, os médicos sempre interpretaram como morte a paragem do coração e dos pulmões e a ausência de resposta a qualquer estímulo por parte do doente. Mas, nos últimos tempos, a determinação da “morte cerebral” através do electroencefalograma, foi reconhecida como último critério.

            - Esse teste determina exactamente o quê? - perguntou o procurador.

            - A cessação no tecido cerebral das correntes que caracterizam a vida - respondeu o psiquiatra. - Devo dizer-lhe, contudo, que muitos investigadores estão hoje convencidos de que a verdadeira vida termina essencialmente quando a pessoa deixa de ter capacidade para pensar, para sentir, para raciocinar,,. por outras palavras: a inconsciência permanente, é o fim da vida.

       - Mas pode detectar o fim da consciência, tal como a descreveu, com tanto rigor como consegue medir as correntes cerebrais?

            - Não - admitiu o dr. Katz. - Isso põe-nos de novo perante o dilema: o que é a morte?

            - Um tribunal de Richmond julgou recentemente uma queixa de incompetência contra um grupo de médicos que fizeram uma transplantação cardíaca - disse Toler. - O juiz determinou que a morte ocorre quando a função cerebral cessa, mesmo que o coração continue a bater e o doente a respirar.

            - E, no julgamento que ontem terminou, do dr. Kenneth Dalton, chegou-se, praticamente, à mesma conclusão - recordou o dr. Katz.

            - Tudo isto nos conduz à verdade básica - declarou o dr. Manning Desmond. - O médico é o melhor juiz do seu doente. Sendo tantos os factores envolvidos, não existe nenhuma fórmula que sirva para todos os casos. O último critério tem que basear-se no senso-comum e na humanidade, como sempre tem acontecido, aliás...

            - Talvez isto tenha sido assim antes das acusações de incompetência se terem tornado tão populares - observou o dr. James Karnes. - No entanto, por muito que concorde com o dr. Desmond, como cirurgião não posso nunca esquecer-me que, salvo se tomar todas as medidas possíveis para manter um doente vivo e se utilizar, depois, o mais rigoroso método de que disponha para determinar a morte, sou responsável perante a lei. E, Mr. Broadhurst, sem querer desrespeitar a sua profissão, há sempre um advogado pronto a lançar-se sobre mim e a fazer tudo o que puder para me destruir a carreira.

            - Meus senhores - disse Jeffry Toler com firmeza - creio que a discussão chegou a um impasse. O nosso comité foi criado à semelhança dos outros, para ilibar o médico da responsabilidade em que incorre ao decidir se um doente deve continuar a viver em condições intoleráveis ou se, pelo contrário, se deve deixar que morra. O caso que hoje estudamos é típico: trata-se de Mr. Richard Payson, internado no Serviço de Neurologia há um mês e entregue aos cuidados do dr. Peter Gross, professor de neurologia. Dr. Gross, quer fazer o favor...?

       O neurologista levantou-se e fez sinal à enfermeira para que colocasse a cama de Richard Payson num local donde todos a pudessem ver.

            - O doente tem cinquenta anos e era arquitecto. Conheço a sua família há muitos anos, mas a natureza da doença apenas foi diagnosticada há cerca de seis meses, quando, pela primeira vez, me consultou, embora alguns sintomas da doença de Huntington tivessem começado a aparecer há quase cinco anos.

            - Não tem qualquer dúvida de que se trata, efectivamente, da doença de Huntington? - perguntou Jeffry Toler.

            - Absolutamente nenhuma - respondeu o dr. Gross.

       - O caso foi discutido em conferência, na semana passada, e todos concordaram.

            Voltando-se para o procurador, o neurologista prosseguiu:

            - O dr. Thorne é uma autoridade mundial em genética, Mr. Broadhurst. Pedi-lhe para vir aqui hoje explicar alguns dos factos mais pertinentes sobre a doença de Huntington.

            - A doença de Huntington - esclareceu o geneticista - é uma condição degenerativa do cérebro e do sistema nervoso, apenas transmitida por hereditariedade. O gene da HD chegou, aparentemente, a este país, por alturas da Revolução Americana, quando vários membros de uma família - uns dizem seis, outros apenas três - emigraram para a América.

            - Quer dizer que essas pessoas são as responsáveis por todos os casos que, desde então, se têm registado nos Estados Unidos? - perguntou Anthony Broadhurst.

            - É esse o consenso geral. O gene da HD é uma característica mendeliana dominante e transmitido independentemente do sexo; por isso, existem cinquenta probabilidades em cem de que um pai que traga consigo esse gene o transmita à descendência. Há outras condições hereditárias que seguem o mesmo padrão, mas o que torna a HD tão inelutável é o facto de todos os indivíduos que possuem o gene virem a desenvolver os sintomas da doença, se viverem tempo bastante.

            - Mas as doenças hereditárias não se manifestam na infância? - perguntou Broadhurst.

            - A maior parte, sim - concordou o professor Thorne.

       - Com a HD, todavia, os sintomas de deterioração quase nunca surgem antes dos trinta e cinco anos, por vezes, mais tarde. Nessa altura, uma pessoa que não suspeita da possibilidade de ter herdado a HD, já casou, com certeza, e já tem filhos...

            - Em metade dos quais a doença se pode desenvolver?

            - Exactamente.

            - Meu Deus! - exclamou o advogado. - Quer dizer que a descendência desse homem viverá com a espada de Democles suspensa sobre a cabeça!

            - Mr. Payson Só tem uma filha - explicou Rebecca Dalton. - A que apresenta o seu caso a este comité.

            - E ela sabe que...?

            - Desde há uns meses - esclareceu o dr. Gross. - O pai vivia em Atlanta e conseguiu esconder da filha o seu verdadeiro estado.

            - A filha está decidida a não ter filhos - acrescentou Rebecca - para que esse gene morra definitivamente no corpo de seu pai e no seu.

            - Não existe qualquer possibilidade de cura, dr. Thorne? - perguntou Broadhurst.

            - As condições herdadas nunca são curáveis - explicou o geneticista. - Tudo o que podemos fazer é tentar reconhecê-las a tempo, para que não sejam transmitidas a novas gerações. Felizmente que foi há pouco descoberto um método que o permite fazer... mas já tarde demais, neste caso...

            - Richard Payson sabia o que lhe ia acontecer - disse o dr. Gross. - Por isso, legou o seu corpo à Escola Médica.

            - Alguém quer fazer perguntas ao professor Thorne? - perguntou Toler.

            Como ninguém lhe respondesse, pediu ao dr. Gross que continuasse.

            - Pouco mais há a dizer. Apenas lhes quero mostrar o doente...

            O neurologista ergueu um braço de Richard Payson, para que todos pudessem ver as tremuras dos músculos, a despeito do poderoso sedativo que lhe haviam ministrado.

            - Às vezes, parece estar consciente, mas já nem disso podemos ter a certeza...

            - Poderá garantir-nos que ele não sabe o que se passa, dr.? - perguntou o capelão.

       - A filha está convencida de que, em determinadas alturas, sim... mas não me parece...

            - Em que baseia ela essa convicção? - perguntou o procurador.

            - Ocasionalmente, mas só na presença da filha, o doente produz sons que talvez sejam uma tentativa de construir palavras. Na opinião dela, são sempre os mesmos sons... “Deixem-me morrer...”

            O dr. Gross ajudou, então, a enfermeira a empurrar a cama para fora da sala e chamou Carolyn, que esperava no exterior.

            - Entre, por favor, Carolyn... O comité pretende ouvi-la agora...

      

       Às dez para as seis, o alarme do UCIDC começou a tocar e uma das seis, a pequena lâmpada vermelha acendeu-se. Olhando para o écran principal, Helga percebeu logo do que se tratava: o electrocardiograma de Kevin McCartney resumia-se a uma linha horizontal, indicando paragem cardíaca.

            Helga carregou de imediato no botão vermelho e, mesmo antes que a fita gravada do “CÓDIGO CINCO - UCIDC” começasse a repercutir-se por todo o hospital, já ela se encaminhava para o cubículo ocupado por Kevin McCartney.

            - Encha uma seringa com um centímetro de Adrenalina e adapte-lhe uma agulha comprida - disse à enfermeira que assistia Kevin.

            - O coração parou-lhe, Miss Sundberg! - Era a primeira vez que a enfermeira fazia serviço na UCIDC e a sua voz denotava histerismo.

            - Eu sei. Prepare a adrenalina!

            Puxando o cobertor e destapando o peito de Kevin, Helga aplicou a mão sobre a longa cicatriz da transplantação que lhe dividia a pele do externo e começou a carregar com um segundo de intervalo, guiada pelo instinto da longa prática. à distância, ouvia o alarme “CÓDIGO CINCO - UCI DC” e sabia que, num momento, estaria ali a equipa de ressuscitação cardiopulmonar. Não tinha, porém, tempo a perder.

       - Uma máscara de respiração! Ligue o oxigénio! - ordenou à enfermeira que preparava a adrenalina.

            Se não aparecesse o médico nos próximos segundos, Helga espetaria a longa agulha no peito de Kevin até ao coração, onde injectaria o poderoso estimulante.

            Ao carregar pela sexta vez no peito de Kevin - a pele começava já a ficar roxa da cianose - no monitor ao lado da cama registou-se um pequeno sobressalto no traçado do electrocardiograma, revelando que o coração de Kevin tentava funcionar de novo. Entretanto, a outra enfermeira, já dominada pela calma e eficiência de Helga, adaptara uma máscara à cara do doente.

            Ligado o oxigénio, os pulmões de Kevin encheram-se, por momentos, e esvaziaram-se depois, quando a pressão foi libertada pela válvula que constituía o coração da máquina. O traçado do electrocardiograma continuava a registar ondas hesitantes, mercê da massagem de Helga, mas sem determinação para funcionar por si.

            - Houve algum aviso, Miss Sundberg? - perguntou Ken Dalton, o primeiro a chegar.

            - Não. O coração deixou simplesmente de bater.

            Pegando na seringa que continha a adrenalina, Ken introduziu a agulha entre as costelas até ao canhão da seringa plástica - a única utilizada no hospital e que só servia uma vez. Puxando o êmbolo, sangue negro penetrou na seringa, dizendo a Ken que atingira o músculo cardíaco. O cirurgião começou, então, a injectar a droga. Puxando a agulha de modo a que ficasse colocada na parede do coração, Ken injectou aí um terço da adrenalina restante.

            No monitor, o traçado do electrocardiograma saltou como um cavalo acusando o poderoso estímulo da droga. A contracção ventricular quase que duplicara, e a cor da pele alterava-se rapidamente. Quando Ken Dalton beliscou a cara de Kevin, a marca dos seus dedos indicou-lhe que o oxigénio introduzido nos pulmões do doente, pelo respirador, passava já através das paredes dos finos vasos capilares, dos alvéolos, e banhava o cérebro e outros órgãos vitais, que dele haviam sido privados durante talvez um minuto.

            O corredor, naquele momento, estava já cheio de pessoas, todas elas ordenadas e determinadas, sabendo cada uma a função que lhe competia.

       Ed Vogel empurrou um carrinho com um pacemaker pronto a forçar a contracção cardíaca, em caso de necessidade. O interno da UCI apresentou-se com os ferros indispensáveis para a exposição de uma veia e inserção de um cateter no tornozelo, com vista a nova injecção intravenosa. E Val LeMoyne entrou tranquila no cubículo para se encarregar do oxigénio, em substituição da enfermeira.

            - Aponte outra vitória para Miss Sundberg - disse o cirurgião. - Temos que ter cuidado, meus senhores... É a quarta vez que somos batidos pelas enfermeiras.

            - Consegui a primeira contracção à sexta vez que carreguei - explicou Helga, orgulhosa. - Felizmente que tenho força...

            - E inteligência - acrescentou Ken. - Qualquer dia tenho um ataque cardíaco, Miss Sundberg... Espero que não me abandone...

            Observou o écran por um minuto. Quando o electrocardiograma apresentava um traçado consistente, disse a Ed Vogel:

            - Passou o perigo. Mas mantenham-se atentos... Agora, temos que tomar medidas para evitar que isto torne a acontecer...

      

       - Aproxime-se, por favor, Miss Payson, para que a estenógrafa a possa ouvir - pediu Jeffry Toler. - Suponho que conhece toda a gente, excepto, talvez, Mr. Broadhurst e o professor Thorne.

            - Consultei o professor Thorne por sugestão do dr. Gross, logo que soube qual a doença de meu pai - explicou Carolyn. - Como está, Mr. Broadhurst?

            - Bem, obrigado.

            - Quer-nos explicar por que apresentou o caso de seu pai ao comité, Miss Payson? - perguntou Toler

            Ao ver as caras severas em redor da mesa, e a secretária com a máquina de estenografar que dava ao ambiente o aspecto de um tribunal, Carolyn ficou intimidada, por momentos. Logo, porém, se dominou e respondeu:

       - Compreendi que não tinha por onde escolher, dr. Toler.

            - Porquê, Miss Payson? - perguntou Anthony Broadhurst.

            - Porque sempre que vejo o meu pai, ele me pede que o deixe morrer.

            - Tem a certeza de que ele sabe realmente o que se passa?

            - Por vezes, sim. Nos últimos dias, quase não tem podido pronunciar os sons habituais, dada a deterioração do seu sistema muscular.

            - É a evolução normal da doença de Huntington - esclareceu o dr. Gross.

            - Mas tem a certeza de que ele quer morrer? - insistiu Broadhurst.

            - Não teria o senhor, se estivesse nas mesmas condições, Mr. Broadhurst?

            - Não estamos aqui para saber o que cada um de nós faria em circunstâncias semelhantes, Miss Payson, mas para ficarmos ao corrente das suas razões. O seu pai constitui um encargo financeiro para si ou para outros membros da família?

            - Não há outros membros da família... e nunca haverá!

            - Então, constitui um encargo para si?

            - Ainda não, Mr. Broadhurst.

            Carolyn compreendia o rumo que o interrogatório tomava e as suas possíveis implicações, pelo menos, no espírito do procurador, mas não tencionava mentir. Prosseguiu:

            - O dinheiro de meu pai chegará, talvez, para outra semana. Mas poupei alguns milhares de dólares. Enquanto durarem...

            - E depois?

            - Se o comité decidir não o libertar daquilo que considero o inferno na terra, pedirei o que puder...

            - Já pensou transferi-lo para uma instituição do Estado?

            - Trouxe meu pai para aqui, de Atlanta, onde vivia num lar, Mr. Broadhurst, porque queria que estivesse o mais confortável possível durante os últimos dias que tinha de vida. E também porque pretendia estar junto dele...

            - Seu pai podia ficar aos cuidados de uma instituição estatal e, assim, já Miss Payson não teria que se preocupar com os encargos financeiros - insistiu o procurador. - Eu próprio faria tudo para resolver o problema.

            - Sim, o encargo financeiro, talvez... Mas o ético...

            - Ético?

            - Ensinaram-me, em pequena, a honrar os meus pais. Minha mãe morreu nova e foi meu pai quem me criou. É um homem orgulhoso e sei o que sente por se ver em estado tão miserável...

            - Se tiver consciência dele...

            - Deve compreender que sim... Caso contrário, por que me pede que o deixe morrer?

            - Se ele, de facto, está consciente... Mas, se bem entendo, a degenerescência mental é tão característica da doença como a degenerescência física. O que significa que, mesmo que seu pai saiba o que se passa - do que eu duvido - pouco tempo lhe restará para continuar a saber...

            - Já visitou recentemente uma instituição do Estado para doentes mentais, Mr. Broadhust?

            - Não.

            - Quando estudava na universidade de Florida, em Gainesvilie, passei várias semanas num grande hospital de doenças mentais. Pelo que lá vi, decidi que meu pai nunca seria internado em semelhantes instituições!

            - Compreendo a sua reacção emocional, Miss Payson, mas não posso deixar de acrescentar que seria preferível para si encarar uma solução mais pragmática...

            - E para meu pai?

            - Não podia afectá-lo... Se ele não tem consciência...

            - Quero dizer-lhe que todos sentimos uma grande simpatia por si, Miss Payson - interveio o dr. Jeffry Toler.

       - Mas não sei se está realmente a compreender o que nos pede...

            - Peço ao comité que tome medidas para acabar com a vida de meu pai o mais rápida e o menos dolorosamente possível.

            - Matando-o à fome, Miss Payson? - perguntou o dr. McHale. - Deve ter visto alguns dos mongolóides com estenose do piloro e meningocele, que temos deixado morrer...

            - Pois tenho, dr. McHale. Por isso, nunca aprovaria a morte pela fome.

       - Um momento... - pediu Anthony Broadhurst, franzindo o sobrolho. - Não compreendo a vossa discussão sobre este pormenor...

            - Dadas as suas condições musculares, Mr. Payson não pode engolir, sem perigo de aspiração ou estrangulação, como quiser, Mr. Broadhurst - explicou Rebecca Dalton.

       - É alimentado através de um tubo que, com certeza, viu introduzido numa das suas narinas.

            - Mas deixá-lo morrer à fome seria ainda mais cruel do que deixá-lo viver! - protestou o procurador.

            - Creio que todos nós concordamos com isso - respondeu Rebecca. - Só ficamos, portanto, com duas alternativas...

            - Quais são, dra.?

            - Em primeiro lugar, talvez uma droga em dose bastante para provocar a morte. Seria uma morte sem dor, embora só ocorresse várias horas mais tarde.

            - E a outra?

            - Embolia.

            - Não compreendo...

            - Uma injecção de ar numa veia bloqueia a circulação do sangue que, não chegando aos pulmões nem ao cérebro, causa a morte com bastante rapidez.

            - Quer dizer que um pouco de ar pode matar uma pessoa?

            - Um pouco, não, Mr. Broadhurst, uma seringa cheia, sim.

            - Qualquer dos processos pode ser considerado tecnicamente crime - opinou o procurador.

            - No sentido legal, concordo - tornou Rebecca. - No entanto, preferiria encarar essa acção, tal como Miss Payson encara: como um acto de misericórdia.

            - Que se desligue o oxigénio quando uma pessoa já não está praticamente viva, ainda sou capaz de compreender... Mas a eutanásia... Seria uma usurpação, por parte do comité, de um direito que só Deus possui...

            - Por isso os estudantes lhes chamam o Comité de Deus - explicou Toler secamente. - Alguém mais quer fazer perguntas a Miss Payson? A situação é-lhe penosa... Obrigado, Miss Payson - agradeceu Toler, perante o silêncio dos presentes. - A dra. Dalton responderá a outras perguntas que possamos querer fazer sobre o caso e comunicar-lhe-á, mais tarde, a decisão do comité. Pode sair...

       Carolyn saiu desanimada. Nunca esperara que o Comité de Deus acedesse ao seu pedido e estava agora convencida de que ia perder.

            A apresentação do caso do pai constituira, mesmo, uma futilidade... No entanto, tratava-se do último e desesperado recurso legal que era preciso explorar, antes de pensar fosse no que fosse.

      

            - Vou fazer uma experiência, Ed - disse Ken Dalton. depois da equipa da RCP ter saído da UCI. - A presença de tanto fluído no pericárdio significa que o coração está a ser esmagado, como aconteceria se estivesse rodeado de sangue proveniente de um golpe no coração.

            - Podemos removê-lo... Acha que resultará?

            - Remover só o fluído, não. Não nos podemos esquecer de que estamos em presença de uma invasão de linfocitos desencadeada pelo mecanismo de protecção do corpo contra o que considera uma ameaça externa - neste caso, as proteínas do coração transplantado. Mas sabemos que, quando um cancro se ramifica na zona do coração e se verifica efusão, se podem injectar certas drogas destruidoras de células no pericárdio, com bons resultados.

            - E os linfocitos, numa crise de rejeição, podem ser considerados como uma metástese do baço e da medula?

            - Mais ou menos...

            - Talvez resulte... E mesmo que não resulte, vale a pena tentar.

            - Sim... Além disso, é a única solução que nos resta.

            - Que droga vai usar?

            - Para já, Thiotepa e Prednisona. Estes agentes químicos possibilitam o controle das metásteses durante meses, em certos casos. Temos, de qualquer modo, que remover o fluído. Se aplicarmos uma forte dose, mesmo na zona que rodeia o coração, devemos conseguir o melhor efeito possível...

            - Quer que prepare a aspiração, dr. Dalton? - perguntou Helga que escutava a conversa, interessadíssíma.

       - Por favor... Peça à farmácia uma dose de sessenta miligramas de Thiotepa em dois por cento de cloridrato de procaína e umas ampolas de Prednisona. Quero injectar as drogas logo que a maior parte do líquido seja removido.

            Helga saiu do cubículo e Ken voltou-se para o monitor, à cabeceira da cama.

            - Não há grande alteração nas ondas T. Portanto, o coração não deve ter ainda sofrido muito com a rejeição... A crise está, com certeza, relacionada com a efusão do pericárdio...

            - Esperemos que seja assim... - respondeu Vogel.

            - Já há relatórios das análises ao sangue?

            - Ainda não. Vou telefonar a Peggy Tyndall...

            Ed ligou para o laboratório e Peggy atendeu imediatamente:

            - Ia mesmo agora levar o relatório. Alguma coisa de novo?

            - Kevin McCartney teve uma paragem cardíaca, mas Miss Sundberg conseguiu pôr-lhe o coração a trabalhar novamente.

            - Foi por isso, o alarme?

            - Foi.

            - Descobriu algum dado interessante?

            - Descobri. Os enzimas não são excepcionalmente elevados, nem sequer o LHD-L.

            - É bom sinal...

            Um dos principais indicadores de danificação cardíaca, quer por trombose quer por rejeição, é um aumento de certos agentes bioquímicos do sangue quando o sangue procura absorver o músculo danificado. Um deles, o LDH-l aumenta, em particular, nas crises graves de rejeição, quando o coração é, pode dizer-se, comido pelos linfocitos

            - E agora? - perguntou Peggy.

            - O dr. Dalton vai injectar Thiotepa e Prednisona no pericárdio, mas a farmácia trata disso.

            - Até que enfim que fazem alguma coisa! A dra. Rebecca está aí?

            - Não. Está numa reunião importante.

            - Eu sei... É a reunião do Comité de Deus, por causa do pai de Carolyn Payson. Vai perder a batalha...

            - Como sabe, se o comité ainda está em sessão?

            - A enfermeira que levou Mr. Payson à sala disse-me quando aqui veio trazer material, que o substituto do juiz Robie não parecia nada compreensivo.

            - Bem... Logo saberemos o que se passou. Nada de especulações...

      

       - Quer fazer alguma declaração antes de votarmos o pedido de Miss Payson, dra. Dalton? - perguntou Jeffry Toler.

            - Gostaria de salientar os aspectos filosóficos deste caso - respondeu Rebecca. - Mesmo para meu benefício.

            - Faça favor. Todos aproveitaremos com a sua análise.

            - A meu ver, a questão que aqui nos reúne é aquela que qualquer pessoa sensata faz a si própria, desde que a ciência médica existe: em que medida deve um médico assumir plena responsabilidade pela vida ou pela morte de um paciente? Há já bastante tempo que não estudo os aforismos de Hipócrates, mas tenho a certeza de que eles nos ajudarão neste caso. Todos conhecemos os princípios éticos estabelecidos no Juramento de Hipócrates que juramos quando terminamos o curso. Porque a medicina é um desafio à morte, através do conhecimento técnico que no-la permite evitar, os médicos tendem a considerar a perda de um doente como uma derrota pessoal. Assim, tendemos a elevar o princípio da manutenção biológica do indivíduo à categoria de um absoluto, ao ponto de ignorarmos o ultraje que fazemos à dignidade desse individuo.

            - Quer dizer que os médicos consideram que os seus esforços são sempre benéficos para o doente? - perguntou Broadhurst.

            - Temos que possuir a certeza permanente de que assim é, Mr. Broadhurst. Temos que ter a certeza de que os nossos esforços não prejudicam o doente. Noile nocere - não fazer mal - é um princípio médico básico que tem precedência sobre qualquer tratamento. E, sendo assim, devemos perguntar a nós próprios se não estaremos a fazer mal a Richard Payson, a ferir a sua dignidade, insistindo em mantê-lo vivo por mais tempo nas condições em que se encontra.

       - Admiro a sua eloquência e subscrevo, pelo menos, parte do seu raciocínio - interveio o procurador - mas não sei se se aplicará a este caso...

            - Ia precisamente debruçar-me sobre esse ponto...

            - Desculpe-me a interrupção...

            - A primeira transplantação, com êxito, do coração humano, foi feita há cerca de dez anos, em Dezembro de 1967. Como sabem, meu marido tem sido muito criticado por ter persistido em executar transplantações cardíacas depois de se ter verificado que, na maior parte dos casos, a rejeição limita severamente as possibilidades de êxito. Como o dr. Toler referiu, terminou ontem o julgamento de um longo e doloroso caso de alegada incompetência, com a absolvição do meu marido.

            - Durante o qual, creio, ele não se defendeu...?

            - Pois não, por motivo de consciência. Meu marido e eu trabalhávamos em regime de equipa no programa de transplantação e eu, como cardiologista, era, em grande parte, responsável pela selecção dos casos. Poucos, ou mesmo nenhum dos doentes que operou, teriam vivido mais do que alguns meses sem a intervenção cirúrgica. A maior parte, eram inválidos cardíacos sofrendo muito. Todavia, após a transplantação, houve os que viveram dezoito meses, com relativo conforto... e não nos esqueçamos que muitos suplicavam, antes, que os matássemos...

            - Eutanásia?

            - Sim, é o termo técnico. As pessoas preferem chamar-lhe acto de misericórdia. Existem, porém, duas formas de eutanásia. Na forma “activa”, o doente morre sem dor e o mais rapidamente possível, mediante, por exemplo, uma injecção de ar. Na eutanásia “passiva”, o doente recebe medicamentos para aliviar as dores, mesmo que a sua vida seja encurtada. Ou, como geralmente acontece, quando a dor é intratável ou os danos cerebrais irreversíveis, suspendem-se medidas destinadas a prolongar a vida, como a ressuscitação, por exemplo. Sabem que um inquérito recente mostrou que noventa e um por cento dos leitores da revista que o publicou pensavam que um doente sem esperança devia poder recusar tratamento que lhe prolongasse a vida artificialmente?

            - Sim, conheço o inquérito, dra. - respondeu Broadhurst. - E também sei que outra sondagem efectuada entre pais de crianças diminuídas rejeitaram, por grande maioria, a eutanásia. Claro que a forma passiva tem que ser posta de parte do caso de Mr. Payson, visto que equivaleria à morte pela fome. Como representante de Miss Payson, recomenda a forma activa?

            - É a que Miss Payson solicita.

            - E a dra?

            - Não. Se tivesse visto alguns dos doentes que meu marido operou, com êxito, antes de as transplantações serem possíveis, ter-me-ia sentido fortemente tentada a suspender a medicação. Mas, como disse, houve os que sobreviveram durante ano e meio após a intervenção. E um continua vivo.

            - Não quererá dizer, dra. Dalton, que, de certo modo, a senhora e seu marido praticaram um acto de misericórdia... sujeitando-os à cirurgia?

            - Tenho a consciência absolutamente tranquila, Mr. Broadhurst!

            - E seu marido tê-la-á? A sua recusa em defender-se no tribunal parece provar que não.

           - Creio que pode começar a entender algumas das questões éticas com que um médico se debate, Mr. Broadhurst - interveio Manning Desmond. - Principalmente, quando se trata de pessoas sofrendo de doenças incuráveis. Quanto à dra. Dalton e ao marido, mesmo os seus fracassos contribuíram imensamente para aumentar os nossos conhecimentos sobre o modo de combater a rejeição na transplantação de outros órgãos.

            - Como por exemplo...?

            - Como por exemplo os rins, que são muito mais fáceis de transplantar do que o coração. E esperamos ter êxito com outros órgãos.

            - Não quer dizer, porém, que a morte de Mr. Payson contribuirá, de algum modo para a ciência?

            - Não sei se não contribuirá, Mr. Broadhurst... - respondeu o professor Thorne. - A doença de Huntington é relativamente rara e a oportunidade de estudar células do tecido do doente pode ser muito importante. Sabida a importância dos exames pós-morte têm para o estudo da medicina, tenho a certeza de que Miss Payson concordaria...

       - Se Mr. Payson morresse em circunstâncias suspeitas, professor Thorne - interrompeu Broadhurst - a minha qualidade de procurador obrigar-me-ia a ordenar uma autópsia, com ou sem consentimento da família.

            - Já revelei que o doente legou o seu corpo a esta escola médica - disse o dr. Gross. - Parece que a questão é, portanto, académica.

            - O que pretendo deixar bem claro - continuou Rebecca - é que, no caso de Mr. Payson, lidamos com uma doença absolutamente incurável, que se agrava desde o aparecimento dos sintomas até à morte.

            - Que sobrevém ao fim de quanto tempo, dra.?

            - O dr. Gross pode responder melhor do que eu.

            - Na maioria dos casos, a morte ocorre em poucos anos. Mas, alguns doentes, já viveram tanto como dez anos e mais após a manifestação clara dos sintomas da HD.

            - Sem qualquer possibilidade de cura? - perguntou o procurador.

            - Rigorosamente nenhuma! - asseverou o professor Thorne.

            - Portanto, se existe um caso em que se justifique a eutanásia activa, este é um deles - insistiu Rebecca.

            - No entanto, a dra. recusou-se a patrociná-la. - ripostou Broadhurst.

            - Parece termos chegado a um impasse - declarou Toler. - Tem mais alguma alegação a fazer, Rebecca?

            - Pretendo apenas recordar ao comité que Carolyn

       Payson está a fazer o que considera um pedido razoável e que é perfeitamente sincera quando afirma que ao solicitar que se ponha fim ao sofrimento do pai está a cumprir a vontade de Mr. Payson.

            - Alguém duvida de que assim seja? - perguntou Toler.

            - Estou convencido de que Miss Payson acredita que o que nos pede é o que mais convém a seu pai - disse o procurador. - Todavia, um caso julgado em tribunal, de uma doente que, no uso das suas faculdades, pedia que lhe suspendessem todo o tratamento, por sofrer de uma doença incurável, não constitui um precedente para a eutanásia, sobretudo, para a morte deliberada de um doente por um médico num hospital. Portanto, devo avisá-los de que, se a minha opinião for derrotada e aprovarem a morte deste doente, estarão a abrir uma caixa de Pandora que só servirá para prejudicar a reputação deste hospital e a dos seus médicos e professores, numa altura em que a instituição é atacada por certas forças da comunidade.

            - Obrigado, Mr. Broadhurst - agradeceu Toler.

       - Creio que é melhor ouvirmos o padre Hagan, antes de procedermos à votação.

            - Tenho grande simpatia por Miss Payson e pelo pai e, como todos sabem, fui eu quem solicitou esta reunião - declarou o sacerdote. - Mas concordo com Mr. Broadhurst quando diz que não temos o direito de aprovar o que só tem um nome: eutanásia.

            - Ou homicídio - corrigiu o procurador.

            - Estamos prontos para votar - disse Jeffry Toler.

       - Se aprovarem o pedido de Miss Payson, escrevam “sim” no bloco que têm à frente; se não aprovarem, escrevam “não”. A dra. Dalton e o professor Thorne não são membros do comité e, por isso, não podem votar. Não assinem, por favor, o voto, e dobrem-no de modo a que ninguém possa ver o que escreveram. Mrs. Gaynor recolhê-los-á.

            A secretária recolheu os votos e contou-os.

            - Há um voto “sim”, dr. Toler - anunciou. - Todos os outros são “não”.

            - O pedido é recusado e os votos serão destruidos - declarou Toler. - Não necessito de lembrar ao comité que tudo o que se passou nesta sala é estritamente confidencial e não deve ser divulgado seja a quem for. Somente a dra. Dalton está autorizada a informar Miss Carolyn Payson da nossa decisão.

            Batendo com o martelo na mesa, o dr. Jeffry Toler anunciou:

            - Está encerrada a sessão.

      

       Helga Sundberg empurrou a pequena mesa, contendo os dispositivos para a aspiração. até ao cubículo de Kevin, e Ed Vogel ajudou-a a afastar a cama. Enquanto Ken Dalton calçava as luvas, Helga expôs o material.

            Tratava-se de uma seringa de cinquenta cc., de agulhas variadas e de uma torneira de metal através da qual o líquido aspirado podia ser vertido por um tubo de plástico numa bacia colocada sobre a cama, ao lado do peito de Kevin.

            Com movimentos rápidos e eficientes, Helga lavou a pele lívida do doente com um antiséptico avermelhado e recuou, para Ken colocar uma toalha com uma abertura quadrangular sobre o peito do barman. O cirurgião contou as costelas e assentou a abertura em baixo, um pouco à esquerda da cicatriz, que acompanhava o externo.

            - Vou tentar aspirar o máximo de líquido - disse Ken. - Vigie o écran, Ed, e diga-me se alguma coisa acontecer.

            Observando a seringa na mão de Ken Dalton, Ed Vogel viu uma quase imperceptível hesitação quando a ponta da agulha tocou a pele. Logo, porém, a agulha penetrava com firmeza entre as costelas. Puxando o êmbolo, Ken retirou cerca de vinte centímetros cúbicos de líquido, antes de enterrar mais a agulha, para que ficasse no pericárdio enquanto o saco membranoso era esvaziado.

            O líquido era espesso e opaco, mas passava com facilidade pela agulha. Entretanto, a bacia que Helga segurava ia-se enchendo.

            - Deve ser perto de um litro - informou Ed Vogel.

            - Não admira que o coração estivesse em dificuldades...

            - Creio que o susto que Kevin nos pregou e o facto de termos presumido que esta era a sua crise fatal nos impediu de compreender que a quantidade de líquido era bastante para justificar o traçado do electrocardiograma - declarou Ken. - Mais uma vez aprendemos a não tirar conclusões precipitadas...

            Terminada a aspiração, Ken injectou as drogas no pericárdio, demorando mais tempo a injectar a Thiotepa, devido ao seu efeito irritante.

            - Não há alteração no electrocardiograma - informou.

       Ken retirou a agulha e, enquanto Helga colocava um penso no pequeno orifício disse:

            - Esperemos que as drogas dominem o assalto dos linfocitos. Se assim acontecer, teremos vencido esta batalha...

            - E ganharemos tempo para vencer a guerra... - arriscou Helga. - Isto deixaria de ser o que é, sem Kevin McCartney ao balcão do Dolphin Lounge.

      

       Carolyn Payson sentava-se na pequena antecâmara contígua à sala da direcção, quando Rebecca Dalton saiu. A expressão da médica esclareceu-a de imediato.

            - Lamento... A decisão foi-nos desfavorável...

            - Já calculava... Logo que entrei na sala e vi Mr. Broadhurst...

            - Não o censure tanto, Carolyn. Como procurador, tem que ver as coisas de uma maneira diferente da nossa. O problema não foi pedirmos que seu pai fosse autorizado a morrer em paz, mas sim a necessidade de lhe apressar a morte. Ora isso só tem um nome: eutanásia. Creio que nem os médicos nem o público estão preparados para isso. Dificilmente poderíamos esperar outra decisão.

            - Não estou ressentida, dra. Dalton. Nem contra o comité nem contra ninguém...

            - Claro... Não é o fim do mundo... O dr. Gross está convencido de que seu pai não poderá sobreviver por muito mais tempo...

            - Obrigado por me ter defendido, dra. Dalton. Não devia ter-lhe pedido...

            - Lamento não ter conseguido sair-me melhor... O dr. Toler pediu que a decisão do comité não fosse divulgada e garanti-lhe que podia confiar na sua discrição...

            - Com certeza. Mais uma vez, obrigada... e boa tarde...

            Rebecca ficou-se a ver a figura ágil de Carolyn encaminhando-se para o elevador, sem olhar para trás.

            - Como aceitou ela os factos, Reb? - perguntou o dr. Gross, vindo da sala da direcção.

            - Bem. Tranquilamente. Estou convencida, Pete, de que Carolyn nunca alimentou grandes esperanças. Mas precisava de sentir que fizera tudo ao seu alcance...

            - Sim, deve ter sido isso...

            - Sim... Mas não consigo deixar de pensar que havia mais alguma coisa... E não sei se quero saber o quê...

            - Quando, há pouco, falou dos aspectos filosóficos e éticos da situação, vieram-me à memória algumas frases do Juramento de Hipócrates que fazemos na cerimónia da formatura... “Enquanto tiver poder e discernimento, tudo farei em benefício dos doentes e protegê-los-ei do mal e do erro. A ninguém darei uma droga mortal, mesmo que me peça, nem oferecerei conselho com esse objectivo”... Há mais de duzentos anos que os médicos fazem este juramento que tem constituído o princípio orientador da nossa profissão. Mas quando temos que decidir quem pode exercer o direito de escolher quando vai morrer, e também que provocar a morte de outro ser humano, já não é tão fácil seguir princípios...

            - Compreendo... E digo-lhe que me senti aliviada por não ter que votar. O único voto favorável foi o seu, não foi, Pate?

            - Foi.

            - Importa-se de me dizer porquê?

            - Nem eu próprio sei bem... Quando olhei para Richard Payson pensei: “Sou eu menos um determinado gene...” Se estivesse nas mesmas condições de Richard Payson, ficaria grato a alguém que me injectasse um grama de morfina...

            - Ou gostaria de ter coragem para se suicidar...

            - Creio que não teria... E você?

            - Quando Ken e eu nos separamos, fiquei tão deprimida que teria agradecido a alguém um acto de misericórdia...

            - É muito nova e tem um belo futuro à sua frente, Reb! Os seus conhecimentos e o seu talento fazem falta a outras pessoas; não tem o direito de os destruir! Não pode pensar apenas em si própria.

            - Sim, acabei por ver as coisas dessa maneira. Mas não sei que significado pode ter para mim um juramento que fiz há dez anos, agora que sei o que é querer morrer.

      

       Quando saiu da sala da direcção, Rebecca sentiu-se tentada a ir à UCIDC ver o que se passava com Kevin e McKenzie, que decisões Ken tomava mas resistiu à tentação. Tinha já feito tudo o que podia por Kevin, excepto extrair-lhe o líquido do pericárdio; tencionava fazer isso no dia seguinte. Ou sugerir a intervenção apenas, visto Kevin ser doente de Ken; fora Ken quem o operara.

            Ross McKenzie, contudo, constituía um caso totalmente diferente. Rebecca era responsável por ele enquanto não fosse transferido para Cirurgia. E se se convencesse de que Ken adiava indevidamente a operação, pondo em risco a vida do político Rebecca ver-se-ia obrigada a pedir oficialmente que o operassem.

            Tal pedido obrigaria Ken a agir ou a delegar noutro cirurgião, talvez em Mike Rabum cuja competência não ficava muito atrás da de Ken. Mike, todavia, andava ocupado com os preparativos para a LTC de Carmelita Sanchez e não seria razoável envolvê-lo na inevitável controvérsia que essa diligência provocaria - a não ser que o risco de vida de McKenzie fosse ineludivel, não substituindo a válvula mitral.

            Rebecca encaminhou-se para o restaurante, no elevador debatendo consigo própria estes difíceis e dolorosos problemas e, consciente de que, se pedisse oficialmente a intervenção, isso significaria o fim do seu casamento com Ken. Sabia, porém, desde a noite anterior, a despeito da amarga troca de palavras da manhã que devia preservá-lo, salvo se tivesse que escolher entre a vida do seu matrimónio e a do seu doente. Tão absorta caminhava, que quase chocou com Ed Vogel, vindo do restaurante.

            - Consegui! - anunciou Vogel. - E resulta!

            - Julguei que já tinha aplicado, há muito, os catéteres braquiais e femurais para seguir a função cardíaca de Mr. McKenzie...

            - Então não sabe?

            - Mr. McKenzie foi preparado para a operação? - perguntou Rebecca, ansiosa.

            - Então você não decidiu com o dr. Dalton usar o cateter fibro-óptico, depois de terem saído da UCIDC?-inquiriu Ed, perplexo. - Vi-os a falar no corredor e, mais tarde, ele disse que preparasse o cateter. Tive que o esterilizar com etileno e demorou duas horas. Acabo de o aplicar...

            - Deve ter pensado nisso depois de falar comigo - respondeu a médica, disfarçando o melhor que podia a sua irritação. - Como funciona o cateter?

            - Como um relógio suíço. Permite fazer avaliações em menos de metade do tempo que gastamos com os outros tipos de cateter na veia do braço e da virilha.

       - Eu sei, leio as revistas. Mas... obrigado por me ter dito.

            Rebecca entrou no restaurante, deixando Ed Vogel atónito e a abanar a cabeça.

            Furiosa por Ken não lhe ter falado no cateter, e consigo própria por se irritar sabendo que tinha estado na reunião do Comité de Deus e que o marido não pudera informá-la dos seus novos planos para McKenzie, Rebecca mal reparou nos pratos que escolheu, ocupada com os seus pensamentos, até que Jerry Singleton, que se encontrava atrás dela, na bicha, a chamou:

            - Posso comer consigo, Rebecca?

            - Com certeza, Jerry.

            - Então vá arranjar uma mesa...

            A médica escolheu uma a um canto, mais ou menos isolada das restantes, e pousou a bandeja.

            - Parabéns pela promoção - disse o ginecologista, puxando uma cadeira. - Tive que convocar uma reunião do Comité do Pessoal da Faculdade para a aprovarmos. É na segunda-feira à tarde... Ken está no comité, mas consegui iludi-lo...

            - Já me esquecia que você era o presidente... Obrigada. Mas... como é possível que jante tão tristemente? Pensei que, à noite, não dispensasse mulheres bonitas e pratos requintados...

       - Isto vai mal...

            - Que lhe aconteceu?

            - Tenho que esperar aqui duas horas pela filha do proprietário de um casino que vem de avião de Nassau, com provável ruptura do folículo, que pode ser apenas uma dor menstrual. Disse-lhe pelo telefone que qualquer cirurgião das Bahamas a podia operar, mas, como lhe tratei a mulher há uns anos, não quer que mais ninguém toque na filha...

            - Isso até o devia envaidecer...

            - Sic transit gloria mundi! - respondeu Jerry, encolhendo os ombros. - Já sabe, com certeza, do ataque que Karen Fletcher me fez na conferência desta tarde... Tudo porque perdi uma doente a quem fiz histerotomia, na semana passada. Morreu de embolia pulmonar, acidente que ninguém pode prever, como sabe...

       - O Comité dos Moribundos reuniu hoje e estive ocupada até às seis. Por que foi que Karen o atacou?

            - Também eu queria saber! A maior parte dos ginecologistas faz cada vez mais histerotomias em mulheres que não querem ter mais filhos nem dar-se ao trabalho de tomar a pílula quando o marido... ou o namorado... viram românticos.

            - Talvez eu não tenha esse privilégio, por parecer tão estéril...

            - Também nunca compreendi isso...

            - Continue...

            - Ora há uns anos, a controvérsia foi encerrada numa reunião do Colégio Americano de Obstetrícia e Ginecologia: maioria esmagadora em favor da histerotomia especialmente por via vaginal. Na semana passada, perdi uma doente, não tive a menor culpa do sucedido e Karen resolve destruir-me diante dos meus colegas. Não me importo de ser julgado, evidentemente... Mas Karen apresentou-me como um assassino!

            - Karen é muito persuasiva, quando quer... E muito inteligente... Você tem-na ignorado ultimamente, não tem?

            - Ignorado? Nunca me aproximei dela! Com aquele feitio...

            - Já pensou que talvez tenha descoberto o motivo do ataque de Karen Fletcher?

            - Quer dizer... Diabo, Rebecca! Os médicos não misturam sexo com medicina, não seria ético!

            - Como D. Juan, Jerry, você é, de facto, muito ingénuo! - exclamou Rebecca, rindo. - As médicas são mulheres. Sabe por que lhe digo isto? Porque, recentemente, dei comigo em circunstâncias idênticas...

            - Não me parece, Rebecca... Como seria possível? Não... Karen? Não sei... às vezes, quase me convenço de que ela olha para mim, mas... Não, é impossível!

            - Você é simpático, Jerry...

            - Então por que me atacou ela com tanta fúria?

            - Não pensa mais nela agora do que há três horas?

            - Pensar nela! Quem me dera apertar-lhe o pescoço...

            - Belo pescoço, por sinal... ou não reparou ainda?

            - Claro que reparei. Qual o homem daqui que não o aprecia?

       - Um, espero... Mas... também, nesse caso, me devo enganar...

            Jerry olhou-a, surpreendido, e perguntou:

            - Ken... e Karen? Tenha juízo!

            - Não sei... Ontem, Karen deu-se ao trabalho de fazer um teste especial, depois de a doente a quem Ken fez a cesariana ter morrido, para provar que a heroína fora a causa da morte. E chamou-o ao seu laboratório para lhe mostrar os resultados.

            - E que mal tem isso?

            - Esses relatórios levam vários dias a aparecer, Jerry. A Patologia não trabalha depressa.

       O cirurgião abanou a cabeça, incrédulo.

            - Se outra pessoa que não você me dissesse que as médicas misturam sexo com medicina, não acreditaria. No entanto, pensando melhor. talvez tenha razão... E, bem vistas as coisas, é inevitável... Cada vez há mais mulheres a praticar medicina...

            Jerry olhou em volta. O restaurante era principalmente ocupado por mulheres quase todas de bata branca. Prosseguiu:

            - Quando andava a estudar, ainda não eram assim tantas... Agora basta olhar... Deve haver meia dúzia por cada médico!

            - Toda a gente sabe que a medicina está hoje entregue às mulheres... Pelo menos em número... Não é de admirar que se desenvolvam tantas ligações emocionais, que se desfaçam tantos casamentos...

            - Como o meu... Mas o seu não.

       - Ken e eu chocamos... E não sei que fazer...

            -Podia desabafar comigo... Pensei durante muito tempo fazer psiquiatria, até descobrir que o mundo das mulheres é muito mais fácil de penetrar através da ginecologia...

            - Imagine que é casado com uma médica que tenta obrigá-lo a fazer uma operação que você receia praticar, Jerry?

            - Que eu receio? É uma acusação grave.

            - Especialmente contra uma pessoa que amamos...

            - Acho melhor contar-me o que se passa em pormenor... Você e Ken são professores, além de meus amigos.

       Uma controvérsia entre ambos levava as pessoas a tomar partido e a escola médica saía prejudicada...

            Rebecca resumiu em poucas palavras o curso que a doença de McKenzie seguia desde o seu internamento, por volta da meia-noite.

            - Está assim tão certa de que o estado de McKenzie se agrava?

            - Pelo menos não melhora... Os dados dos quais Ken parece depender, indicam-no...

            - Em que medida a sua convicção de que o estado do doente se agrava por causa de uma deficiência na válvula mitral pode ser atribuída ao facto de você não confiar no novo cateter que Ken utiliza?

            - Por que pensa isso? - perguntou Rebecca, surpreendida.

            - A sua voz não enganava quando falou no cateter... Para mim, você está ressentida por Ken o ter usado sem a consultar. É verdade ou não é?

            - Não sei... Tenho andado tão preocupada com o que pode acontecer a Ken se eu exigir uma operação, que não me sobra tempo para pensar em mim...

            - E deve haver ainda outros motivos...

            - Quais?

            - É natural que se preocupe com Ken e com o seu casamento, mas... você própria também está em jogo, como especialista... Se se vier a provar que o novo cateter é mais rigoroso, na determinação da função cardíaca, que os métodos tradicionais que você tem usado - um cateter na veia do braço até ao lado direito do coração e outro até ao esquerdo, pela artéria femural, a partir da virilha - é natural que isso se reflicta na sua técnica de cardiologista... na sua imagem...

            - Não posso aceitar esse argumento!

            - Leio revistas médicas, particularmente a JAMA. O artigo sobre o cateter que Ken utiliza veio publicado pela primeira vez na revista da JAMA, e muitos cardiologistas abandonam já os métodos clássicos da artéria femural. Tem de admitir que o risco de complicações, como a formação de coágulos e a embolia, são muito maiores quando se usa esse cateter.

            - Isso é verdade...

            - Logo, se o novo cateter fibro-óptico servir o mesmo objectivo com muito menor risco, acabará por destronar todos os outros processos.

            - Quer então que deixe passar o momento ideal para Substituir a válvula sem dizer nada e que fique, depois, com a morte de McKenzie na consciência?

            - Pode abandonar o caso.

            - E bastaria isso para me ilibar da responsabilidade de uma morte?

            - Consigo, talvez não.

            - Não percebo...

            - Você e Ken são muito conscienciosos... Por isso se censuram pelo fracasso das transplantações.

            - Que Ken me censura, não duvido.

            - Talvez o faça... inconscientemente. Quando temos problemas, procuramos sempre um bode expiatório.

            - E Ken encarregou-se efectivamente de McKenzie..

            - Voltamos ao princípio... Parece que ainda agravei a situação, tentando ajudar duas pessoas de quem gosto muito... Para a próxima, calo a boca... Correndo o risco de cometer o mesmo erro, sempre lhe dou um último conselho...

            - Qual?

            - Seja paciente. A despeito de contarem com tantas máquinas Sofisticadas, os cirurgiões têm, por vezes, que depender do Instinto, sobretudo quando confiam pouco em si próprios E, num surpreendente número de casos, um bom instinto é mais exacto que um computador.

            Jerry levantou-se e acrescentou:

            - Desculpe-me. Ainda tenho que fazer, antes que chegue a minha doente das Bahamas...

      

       Mike Rabum entrou na UCI para ver Carmelita antes de jantar. No televisor da sala-de-estar, passava o noticiário das seis, e o cirurgião deteve-se, por momentos, a ouvir as notícias.

            O desporto vinha no fim e preparava-se para se retirar, quando ouviu o nome de Joe Gates. O director dos Serviços Desportivos lia um editorial. Logo às primeiras palavras, Mike compreendeu que a campanha que Joe Gates previa acabava de ser lançada: os adeptos da equipa profissional de basquetebol dos Miami Snappers perguntam a si próprios se a sua estrela, Big Joe Gates, se comporta decentemente com eles. Enquanto Joe se encontrava em San Francisco, ajudando à criação de uma união de todos os profissionais do desporto, seu filho, Joe Jr, escapava por um triz à morte no Biscayne Hospital, onde foi internado com uma crise de anemia pouco vulgar, caracterizada por células em forma de foice.

            Não é segredo para ninguém que este tipo de anemia é hereditário e que atinge, na sua maioria, a raça negra. Portanto, acha o repórter que se devia dar resposta a esta pergunta: Sabia Joe Gates dessa característica familiar, antes da crise que ameaçou a vida do filho? Se sabia, Joe não se comportou como devia nem para com os seus adeptos nem para com o público em geral, não os prevenindo de que, em qualquer altura, poderia ficar incapacitado para jogar.

            Há ainda outra pergunta a fazer: terá Big Joe o direito de ajudar a organizar uma união de jogadores profissionais, sem autorização dos homens que dispenderam grandes quantias em dinheiro para dar ao basquetebol de Miami o nível que ele hoje tem? Na nossa opinião, Joe Gates deve-lhes, e a toda a gente, uma satisfação: É ou não uma possível vítima de uma doença hereditária, Joe? Os seus adeptos têm o direito de saber!

            - Patifes! - murmurou Mike, desligando o som do aparelho.

            Helga Sundberg estava à porta da sala e ouviu ainda as últimas palavras do cirurgião. Com ela, encontrava-se Rachel Gates, chorando.

            - Está a falar sozinho, dr.? - perguntou a enfermeira.

            - Que foi, Rachel? - inquiriu Mike, subitamente preocupado.

            - Um dos tipos de quem falava, dr., estava na sala de espera e afligiu-a... Disse-lhe qualquer coisa de muito mau gosto, a propósito do marido... Eu estou a tratar de Mr. McKenzie, dr. Rabum... Se pudesse encarregar-se dela...

            - Com certeza... - disse Mike, obrigando Rachel a sentar-se. - Vou arranjar-lhe...

       - Uma chávena de café é quanto basta. Que parvoice a minha...

            - Você está a atravessar um período difícil, Rachel... Joey internado e Joe a ser alvo de ataques... Joe não lhe disse que esperava este assalto?

            - Não - respondeu Rachel, aceitando o café. - Tem andado muito nervoso desde que regressou de San Francisco. Que se passa, Mike?

            - Os senhores da equipa não gostam da ideia de uma união de jogadores e sabem que seu marido apoia essa união. Por isso, tentam destruí-lo...

            - Acha que Joe recebeu a doença do pai?

            - É provável. Que idade tem Big Joe?

            - Fez trinta. Porquê?

            - Se tivesse a doença, já devia ter apresentado sintomas...

            - Como Joey?

            - Talvez não tão graves, mas do mesmo género. Antes de conhecermos os novos tratamentos que fazemos a seu filho, eram poucos os negros que ultrapassavam os vinte anos sem mostrar sintomas da doença herdada. Muitos, pouco mais tempo viviam...

            - Começo a compreender quanto lhe devo e ao dr. Henderson...

            - Não pense nisso. Cumprimos o nosso dever. Além disso, vocês são meus amigos e, se não ajudamos os amigos, quem vamos ajudar? Espero que esta campanha da TV não a transtorne, Rachel... Era inevitável que Joe fosse atacado desde que começou a apoiar a união dos jogadores... A seguir, os jornais vão também cair sobre ele...

            - Sou capaz de suportar tudo, se souber o que se passa, Mike. Queria era que Joe não andasse tão nervoso. Vai jogar amanhã à noite o último desafio da temporada e, depois, vamos dar uma volta pelo mundo. Mas agora...

            - Não se preocupe. Tudo correrá bem. Joey ficará bom.

            - Tem a certeza?

            - O dr. Henderson diz-me que está a recuperar. Eu apenas lhe dei oxigénio na câmara hiperbárica.

            - E salvou-lhe a vida!

       - Não creio que o risco fosse assim tão grande...

       - O dr. Henderson e o professor McHale disseram-me que, se não fosse a sua decisão, Joey teria ficado com o cérebro irreversivelmente atingido.

            - Quer-me fazer um favor, Rachel?

            - Com certeza...

            - Gostava de lhe tirar um pouco de sangue para análise.

            - Para ver se...?

            - Sim...

            - Joe disse-me que não deixasse...

            - É só uma picadela no dedo... Ninguém notará... Joe não precisa de saber... Se você tiver células em forma de foice, já saberei como combater esta campanha contra seu marido...

            - Então, faça favor...

            - O laboratório é ali... É só atravessar... Fazemos isto particularmente...

            No laboratório, Mike extraiu uma gota de sangue a Rachel e colocou-a numa lamela fazendo uma “preparação fresca”. Ao microscópio, ajustou os controles até ver as células com nitidez, apurou, passados minutos que várias células tinham os contornos alterados e outras, poucas, é certo, apresentavam já mesmo a forma de cimitarra. Não podia haver dúvidas. Rachel possuia as características da doença, embora não a doença em si, pois esta dependia da formação de células em número suficiente para bloquear pequenos vasos sanguíneos.

            - O que eu suspeitava, Rachel... Vamos fazer segundo teste, com Sickledex, mas... não tenho dúvidas...

            - Então, Joey herdou a doença de mim?

            - É quase certo. Claro que Big Joe também a pode ter, mas... nesse caso, Joey não teria sobrevivido mais de dois ou três anos...

            - Não acha que devia contar imediatamente a Joe o que se passa?

            - Não... Joe decidiu actuar a seu modo, e parte das suas possibilidades de vitória dependem de como o atacarem. Amanhã, serão os jornais a atacá-lo, segundo creio pelo que ouvi na TV. É isso que ele quer...

            - Não vejo porquê...

           - Joe dá aos senhores dos Snappers uma ponta de corda, na esperança de que eles se enforquem. Vai deixar que as coisas aqueçam durante um ou dois dias - o bastante para se ver como certas pessoas podem ser desonestas na perseguição dos seus objectivos. Depois tira-lhes o tapete de debaixo dos pés, sujeitando-se a uma análise ao sangue. Quando se descobrir que não tem a doença, poderá mostrar a toda a gente quais os verdadeiros interesses da direcção dos Snappers, ou seja, uma tentativa para se servirem de alguns jogadores menos famosos, evitando que se organizem. O público reagirá favoravelmente, não duvide, e a união dos profissionais irá para a frente.

            - Mas Joe não tem a certeza de não possuir a doença,

       - Acha que não?

            - Joe fala pouco, mas sei quando algo o preocupa. Percebo que a possibilidade de ter a doença o traz preocupado...

            - Então, corre um grande risco, deixando a campanha desenvolver-se...

            - Que poderemos fazer?

            - Tenha calma, Rachel...

            - São coisas muito complicadas para mim... Agradeço-lhe o interesse... Tem-se maçado tanto por nossa causa!

       - Rachel pegou na bolsa e exclamou: - Meu Deus! Já me esquecia de que Joe me pediu para lhe entregar isto...

            Era um sobrescrito; dentro, dois bilhetes para o último jogo da temporada, entre os Snappers e os Lakers, na quinta-feira à noite.

      

            Karen Fletcher terminou as suas trinta piscinas diárias e saiu da água. Vestindo o roupão dobrado sobre uma cadeira de repouso, calçou os chinelos e limpou o cabelo com uma toalha. Enquanto isso, dirigia-se através da relva para as traseiras do velho hotel. Quando abriu a porta do seu apartamento, já o cabelo platinado começava a secar. Largou o roupão numa cadeira e ficou apenas vestida com o fato de banho preto, que nem sequer lhe escondia os mamilos.

            - Encantadora! - disse uma voz masculina.

            Era Jerry Singleton, sentado numa poltrona, a fumar. Karen voltou-se rapidamente, mas não procurou o roupão. Karen não parecia mesmo muito surpreendida de encontrar ali o colega; Jerry, contudo, pareceu não reparar.

            - Como entrou? - perguntou ela, aproximando-se do espelho e começando a pentear o cabelo.

            - A porta estava aberta.

            - Fui tomar o meu banho...

            - É arriscado... Pode entrar aqui alguém...

            - E, pelos vistos, entrou! - respondeu Karen, rindo.

            - Podia ser atacada...

            Karen atravessou o quarto e tirou um cigarro de uma caixa ao lado da cadeira onde Jerry se sentava. Quando, porém, Jerry estendeu o braço para lhe tocar, Karen afastou-se com naturalidade.

       - Karen é uma atleta, Jerry... É cinturão negro em karaté.

            - É um aviso?

            - Só me sirvo do karaté com inimigos, nunca com amigos... Você é amigo ou inimigo?

       - Antes de você entrar, sentia-me inimigo; agora...

            - Não há motivo para sermos inimigos, Jerry. Só por eu ter cumprido o meu dever como chefe de Patologia, apresentando um caso de embolia na conferência...

            - E teria que ser um caso meu?

            - Não tivemos outra morte causada por embolia, nos últimos seis meses. E os médicos mais jovens precisam de ter bem presente que a embolia pode complicar a mais insignificante operação.

            - Rebecca Dalton pensa que você me escolheu por eu não lhe prestar muita atenção...

            - Sim? Não há dúvida de que tenho subestimado Rebecca...

            - Bem... Não nega...?

            - Não...

            - Então?

            - Você é um homem muito interessante, Jerry... e com reputação de conquistador. Não admira que todas as mulheres sem compromissos reparem em si... - Karen observou-o friamente, mas Jerry reparou no brilho dos seus olhos.

            - Importa-se de me dizer por que me atacou deliberadamente?

            - Quando me conhecer melhor, Jerry... - disse continuando a pentear-se - saberá que faço tudo deliberadamente.

            - Continuo sem perceber...

            - Já lhe disse... Era o primeiro caso fatal de embolia nos últimos seis meses, e o único registado entre Os seus doentes, se me não engano. Portanto, o caso ideal para o fim que eu tinha em vista...

            - Que era...?

            - Não sabe? - perguntou Karen, numa gargalhada.

       - Se não sabe, então, não é tão inteligente como eu pensava, Jerry...

            Jerry Singleton levantou-se com o coração a bater e encaminhou-se para ela, mas deteve-se a meio do quarto.

            - Você planeou tudo, não é verdade? Até a porta aberta...

            - Francamente,....... - observou Karen em voz sensual. - Precisa de gastar assim tantas palavras? Começo a pensar que se tem exagerado muito a sua excelência de amante...

            O sarcasmo da sua voz encorajou-o. Antes, porém, que pudesse tocar-lhe, Karen recuou.

            - Só um minuto... Estes fatos de banho são caros e difíceis de encontrar...

            Com um movimento sinuoso que recordava a evolução de uma cobra sob a música do seu encantador, Karen deixou que o fato lhe escorregasse pelo corpo, lentamente, expondo as suas formas a um ritmo perturbador - seios, ancas, coxas e deixando sobre o tapete branco um pequeno monte de nylon preto. Jerry ficou atónito perante a beleza do encantador corpo nu - uma perfeição tão completa que lhe recordava a estátua de alabastro de uma deusa grega, salvo no fogo que lhe incendiava os olhos.

      

       Carolyn Payson abriu a porta do apartamento que partilhava com Helga, quando Gus Henderson tocou. Estava vestida para sair e maquilhada - mais do que o costume, pensou o médico.

            - Tomamos uma bebida no Dolphin Lounge antes de irmos jantar? - propôs Carolyn. - Tive um dia...

            - Sim, disseram-me... Lamento que as coisas não tenham corrido como desejavas...

            - Deixemos isso... Helga disse-me a melhor maneira de esquecer e estou disposta a seguir-lhe o conselho...

            Sentaram-se ao balcão do Dolphin Lounge e pediram dois bourbon. Gus ficou surpreendido quando a viu pedir outro, pois não era seu costume repetir a dose. Naquela noite, porém, sentia-se diferente. Saíram ambos bem dispostos e entraram no carro do médico.

            - Isto não parece a mesma coisa sem Kevin - disse Gus. - Por muito mal que se esteja, basta lembrar-mo-nos de que temos à nossa frente um homem com um coração imprevisível para já nos sentirmos melhores.

            - Sabes como ele está?

            - Nada bem... O coração parou-lhe, mas Helga conseguiu pó-lo outra vez a funcionar antes que o dr. Ken chegasse.

       - Helga tem sido um anjo da guarda, nestes últimos dias. Não sei o que faria sem ela...

            - Tens-me a mim... Já decidiste onde vamos jantar?

            - A um Sítio alegre... E onde possamos dançar, também...

            - Há um restaurante polinésio que podíamos experimentar, na estrada de North.

      

       Ken Dalton comia um hamburger e tomava café num recanto isolado do restaurante, quase deserto, quando Rebecca parou junto da caixa, a pedir troco para comprar o jornal na máquina. Ken acenou-lhe e Rebecca foi sentar-se em frente do marido.

            - Não comes nada? Ia pedir torta de morango...

            - Já jantei...com Jerry Singleton.

            - Sim? Começava, de facto, a admirar-me de Jerry não ter ainda começado a fazer-te a corte...

            - Jerry sente-se só.

            - Faço ideia! Tão só como um touro no meio de uma manada de vitelas! Jerry é um homem de sorte...

            - Também tu podias ser, se quisesses...

            - Nem pensar! Quando se vê uma vez o céu, Reb, o paraíso deixa de interessar. Vi ambos em Florida.

            - Pára com isso! Não me faças chorar...

            - Comeste sobremesa?

            - Não.

            - Duas tortas de morango e café para a dra. Dalton, Maggie! E mais café para mim, também...

            - É já, doutores!

            - Estragas-me a linha... - protestou Rebecca.

            - Se bem me lembro, ainda podes engordar um quilo ou dois...