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Planeta Criança



Poesia & Contos Infantis

 

 

 


MULHERES DE MÉDICOS / Frank Slaughter
MULHERES DE MÉDICOS / Frank Slaughter

                                                                                                                                                   

                                                                                                                                                  

 

 

Biblioteca Virtual do Poeta Sem Limites

 

 

MULHERES DE MÉDICOS

 

Passavam poucos minutos das quatro quando Mabel, loura e roliça empregada do turno da tarde do snack-bar fronteiro ao hospital, foi varrer o parque de estacionamento da casa. Entrara de serviço às três, e a mudança do calor do fim da tarde para o interior, com ar condicionado, tornava-lhe a artrite sempre dolorosa, pelo que aproveitava todos os pretextos para se deslocar para o ambiente mais quente de Setembro, antes de principiar o período de grande afluência das cinco. O estabelecimento, todo de vidro e de aço, bancos com estofos vermelhos junto do balcão e «reservados» em torno da sala, ocupava uma das esquinas do parque de estacionamento dos apartamentos da Faculdade. Do outro lado da rua, por cima do portão de entrada das ambulâncias, achava-se um letreiro com caracteres de néon azuis: ENTRADA DE EMERGÊNCIA.

 

O hospital da Universidade de Weston erguia-se por todo o lado contrário ao longo quarteirão do snack-bar

- um conjunto de construções unidas por passeios, erigidas em blocos pintados de branco e altos edifícios repletos de janelas com caixilharia de aço. Do lado da sala de jantar da North Avenue, num dos extremos do quarteirão, destacava-se como uma torre o prédio em que funcionava a Clínica da Faculdade, organização privada dirigida por um grupo de médicos ao qual pertencia parte do pessoal da Faculdade. Apenas com cerca de cinco anos, já fora ampliada várias vezes, e, durante o dia, uma corrente de pessoas circulava através da larga porta.

 

Os apartamentos da Faculdade, pertencentes à Universidade, ocupavam todo o extremo do quarteirão voltado para oeste, no Weston Boulevard. Diagonalmente, do outro lado da rua e frente à entrada principal do hospital, situavam-se as instalações para residentes casados, internos e estudantes, que consistiam em quatro edifícios de apartamentos, com um parque de recreio privativo. O principal, onde funcionavam as aulas, ficava na esquina oposta ao Weston Boulevard e à North Avenue, em que se encontravam os alojamentos dos estudantes casados, perto do hospital e de todo o conjunto de edifícios que constituíam a Escola Médica da Universidade de Weston.

 

- Onde passou a folga de ontem? - perguntou Abe Fescue, cozinheiro de refeições ligeiras, com um cigarro ao canto dos lábios e encostado indolentemente no umbral da porta que dava para o refeitório deserto, indiferente ao facto de ser proibido fumar dentro do bar. Um pequeno transistor, em cima do balcão (igualmente proibido quando havia clientes), enchia a atmosfera com o ritmo trepidante de um rock-and-roll.

 

- No Parkway - replicou Mabel. - Agrada-me passear de automóvel por ali nesta época do ano.

 

Situada a leste e no sopé das Grandes Montanhas Smoky, Weston era essencialmente uma cidade industrial, que se tornara um grande centro médico depois de a Faculdade de Medicina, fundada cerca de quinze anos antes, exceder em importância e grandeza a pequena universidade, mais antiga, à qual pertencia. O rio Rogue descrevia uma curva em torno da cidade, com uma represa a uns dezasseis quilómetros para o sul, onde formava um lago e servia de dique para uma central hidroeléctrica que fizera do local um ponto perfeito para a instalação de grandes fábricas de tecidos.

 

- O Outono vem mais cedo, este ano - observou Mabel.

- As folhas começam a secar.

 

- Isso preocupa-me pouco - replicou Abe. - Quando chegar o Dia de Acção de Graças, já devo ir a caminho de Miami.

 

- Vocês, cozinheiros, são   como aves de arribação, voando sempre para o norte ou sul. Palpita-me que, este Inverno, você vai perder de novo todo o seu dinheiro nas corridas e, como sempre, na Primavera, pede-me emprestado, para poder pagar o primeiro mês de aluguer.

 

- Este será o meu melhor Inverno. - Abel era um indivíduo magro e de idade indefinida, com faces marcadas por espinhas desde a adolescência e braços cobertos quase inteiramente por tatuagens, relíquias inevitáveis da época

 

em que prestara serviço na Marinha. - Porque passa os Invernos aqui, Mabel? Podia ganhar o dobro em gorjetas, se fosse trabalhar para o sul da Florida e voltava para cá, na Primavera, quando o tempo tornasse a aquecer. Uma boa empregada de bar é como um cozinheiro especializado em refeições ligeiras: arranja sempre trabalho em qualquer lugar.

 

- Gosto disto. - Ela olhou com enlevo as luzes de néon que brilhavam sobre a entrada de emergência e as paredes do edifício principal do hospital. - Em criança, a minha maior aspiração era tornar-me enfermeira. Depois, casei com um biltre e quando consegui livrar-me dele já era tarde de mais. Arranjei uma quantidade de amigos no hospital e, trabalhando aqui, ando a par de tudo o que lá se passa. Assim, tenho a impressão de que faço parte do hospital.

 

- E faz mesmo, depois de todas as despesas pagas aos estudantes sem dinheiro! Até quando tenciona fazer figura de pateta?

 

Mabel não se mostrou melindrada. Não esperava que alguém compreendesse que o hospital e o corpo médico representavam para ela a família que nunca conhecera. Deslocando-se ao longo dos anos com as suas panquecas, hamburgers, bifes, ovos mexidos, pudins e café, escutara as lamentações e entusiasmos de estudantes e médicos. Por vezes, quando um dos primeiros se encontrava sem dinheiro e com fome, ela pagava a despesa e embora quase sempre não voltasse a ver o dinheiro, não se importava. Consolava-a a convicção de que necessitavam dela e pertencia ao mundo interessantíssimo da Medicina - convicção essa que nunca conhecera até se empregar no snack-bar, quando este fora inaugurado, dez anos antes.

 

Quando terminou de varrer, Mabel acendeu um cigarro e atirou o fósforo para o algeroz. Decorriam os primeiros dias de Setembro e ainda fazia calor. No entanto, sentia-se no ar que o Outono se aproximava. Na tarde anterior, na estrada que ela percorrera por alguns quilómetros, a atmosfera apresentava-se muito mais fresca, sem a menor dúvida.

 

Na bruma do entardecer, as montanhas formavam um fundo azulado em que se destacavam as encostas vestidas


de verde e os vales com os milheirais castanhos e secos à espera dos ceifeiros. Quando o Inverno surgisse, as montanhas cobrir-se-iam de neve e os estudantes passariam a frequentá-las, nos fins-de-semana, para esquiar.

 

Em baixo, no vale, ainda fazia calor e os mais arrojados praticavam esqui aquático. Enquanto fumava, Mabel viu passar de relance uma esquiadora de biquini amarelo, ao fundo, onde a North Avenue terminava no Riverfront Drive, um quarteirão a seguir ao cruzamento com o Weston Boulevard.

 

- Está tudo muito sossegado, acolá - comentou, inclinando a cabeça na direcção do hospital. - Custa a crer que, de um momento para o outro, a Sala de Emergência se pode transformar numa babilónia!

 

- Hoje não deve haver grande actividade. Muitos médicos aproveitam a folga de quarta-feira para jogar golfe. De resto, só os estudantes do primeiro ano estão ainda na Escola. Os outros não voltam antes da próxima semana.

 

- Talvez haja então mais movimento e consigamos boas gorjetas nos fins-de-semana.

 

- Vou cortar uns tomates para os tipos que virão às cinco - anunciou Abe, deitando fora a ponta do cigarro.

 

- Ainda fico mais um bocadinho. Quero saborear este ar puro. Oxalá que Jeff Long e a pequena Monroe apareçam esta noite, depois de ela sair de serviço. Já sofreu o suficiente com o desavergonhado do marido, que a abandonou logo que não precisou dela, deixando-a com o filhinho doente. Janet merece um tipo às direitas como o Dr. Long.

 

- Lá vem você com as suas tragédias folhetinescas!

 

- E depois? As tragédias folhetinescas, como lhes chama, não reproduzem factos da vida? - Era óbvio que o temperamento irlandês de Mabel fora espicaçado. - Muito boa gente acompanha essas histórias. Da última vez que estive na clínica, conversei com a senhora Weston.

 

- A mulher do Promotor?

 

- Sim. Passa a vida a ouvir folhetins. E muita gente importante faz o mesmo.

 

- Prefiro um bom desafio de baseball, ou então uma boa corrida de cavalos.

 

- É melhor ir cortar esses tomates. Não consegue sentir a vida.

 

- Não, depois de casar quatro vezes? - retrucou Abe, com um trejeito de amargura. - Podia escrever um livro sobre aquilo a que você chama vida: discutir, ouvir lamentações, dormir, abortar. Quem se importa com isso?

 

Entrou no estabelecimento, e Mabel viu-o encaminhar-se para a extremidade do balcão, onde havia a porta de comunicação com a cozinha. O fogão já estava ligado, aguardando o cortejo de hamburgers e bifes que prepararia durante as próximas cinco ou seis horas.

 

Se tivessem sorte, por volta das dez, deveria registar-se uma espécie de intervalo, que lhes daria tempo para proceder à limpeza, até que se vissem novamente assoberbados por uma torrente de enfermeiras que saíam de serviço às onze e se encontravam com os internos e residentes para breve conversa antes de recolherem ao Lar das Enfermeiras, do outro lado do quarteirão do hospital.

 

De súbito, Mabel viu Abe estacar a meio do balcão e retroceder apressadamente, bradando:

 

- Um médico acaba de alvejar a tiro a mulher! -Quem? - quis saber ela, transpondo de um salto a

 

distância que a separava da entrada.

 

- Não consegui ouvir o nome, porque a voz do locutor se misturou com a música.

 

- Oxalá não tenha sido alguém do hospital. Depressa! Aumente o volume do som!

 

O cozinheiro rodou desastradamente o botão da pequena telefonia e ficou com ele na mão, transformando o som num rugido rouco ininteligível.

 

- Viu o que fez? - volveu Mabel. - Agora, ficamos sem saber.

 

- Não perca de vista a entrada de emergência do hospital, enquanto tento arranjar esta porcaria!

 

Amy Brennan regressava a casa depois de assistir à reunião da Sociedade Médica Auxiliar Estadual do Sexto Distrito. Conduzia o carro a cento e vinte quilómetros horários pela nova estrada de quatro faixas de rodagem que atravessava os contrafortes das montanhas. O condicionador de ar do seu novo Eldorado ronronava e a telefonia de frequência modulada transmitia com suavidade um concerto de Brahms, acalmando-lhe os nervos, depois da luta renhida com a representante da capital do Estado.

 

Todos sabiam que a visitante só comparecera para pugnar pelo seu candidato à presidência da Convenção da Associação Médica do Estado, que se realizaria no mês seguinte. Amy agira com a maior frieza, o que não fora fácil, pois tinha os nervos à flor da pele desde que efectuara uma digressão pelo Estado, de visita a todos os distritos, na sua campanha para a presidência.

 

Pete tratava-a por «Amy glacial» nos primeiros tempos de casados. Nos últimos anos, porém, mal se viam e já não lhe chamava coisa alguma. Aparentemente, o objectivo da visita às Sociedades Médicas Auxiliares Estaduais consistira em discutir a função das mulheres dos médicos em impedir a disseminação do Medicare, mas na realidade tratara-se de reunir votos para Amy. Desde criança que nunca confiava ao sabor do acaso aquilo que dependesse dela, pelo que a sua bem planeada campanha caminhava agora como um cilindro irresistível. A representante da capital apercebera-se imediatamente da situação e, ao regressar a casa sem obter o apoio dos membros do Sexto Distrito, confirmara a eleição de Amy.

 

A campanha fora árdua e interessante, pois o Sexto Distrito não constituía um campo de acção fácil. Muitos médicos não encaravam com bons olhos a Escola Médica em Weston e menos ainda a Clínica da Faculdade, que lhes arrebatara alguns dos melhores clientes. Com tantas estradas boas, todas de quatro faixas, que cruzavam a região, tornava-se mais simples para os doentes deslocarem-se de carro a Weston - onde se submetiam a um dos rápidos mas completos exames que tinham tornado famosa a sua Clínica - do que estiolar na sala de espera do consultório de um médico do interior, para uma observação de modo algum comparável à que se verificava na Clínica.

 

De um modo geral, as mulheres dos médicos ecoavam as lamentações dos maridos, e, como Pete Brennan era presidente da Corporação da Clínica da Faculdade, além do maior neurocirurgião do Estado, Amy vira-se forçada a desenvolver um trabalho exaustivo para conseguir o seu apoio.

 

Ficara encantada principalmente com a manobra política e luta interior que a elevara, aos trinta e nove anos de idade, à condição de dirigente do sector feminino da política médica do Estado. E não podia deixar de sorrir ao recordar como manobrara a representante da capital para que reconhecesse as ideias liberais da sua candidata, ao ponto de ser favorável ao Medicare - facto capaz de fazer que a julgassem comunista, o que constituía o golpe de misericórdia entre as esposas de espírito conservador do Sexto Distrito.

 

Enquanto o carro devorava quilómetros, Amy decidiu que seria conveniente empregar a mesma táctica a que recorrera contra a outra candidata, quando falasse com Pete. Às vezes, este manifestava certa relutância em relação às manobras políticas, e já tinham discutido em duas ou três ocasiões por causa disso. No entanto, o irmão dela, Roy, mostrar-se-ia encantado quando soubesse. Na sua qualidade de Promotor Público de Weston, Roy ampliava a sua esfera de influência política e pretendia que Amy o ajudasse na campanha para ser eleito Procurador-Geral, no ano seguinte, em disputa com o titular, Abner Towsend. Contudo, ela achava-se demasiado preocupada com os seus próprios projectos para poder pensar noutra coisa que não fosse o congresso a realizar no mês imediato. Por conseguinte, não assumira qualquer compromisso.

 

Todas haviam comparecido à convocação. A mulher de Roy, Alice, não costumava interessar-se por aquelas questões, mas abrira uma excepção para com a cunhada e ajudara Amy a visitar vários médicos e respectivas esposas. Lorrie Dellman, Maggie McCloskey, Delia Rogan, Grace Hanscombe e Elaine McGill também se haviam revelado leais. Na verdade, todas se mantinham muito unidas desde que Amy as organizara no que Pete costumava designar por «Sociedade de Dissecação».


Ele alegava que, durante as suas reuniões de «corte» mensais, elas passavam o tempo a dissecar a vida alheia, sobretudo a das pessoas conhecidas. Simplesmente, Pete ignorava que Amy planeava a organização do grupo com as mulheres dos seis homens que tinham formado o núcleo dos professores da nova Faculdade de Medicina da Universidade de Weston, fundada no final da guerra da Coreia. O projecto já então visava a promoção de Pete quanto ao seu futuro na Faculdade de Medicina e na política estadual e nacional, incluída nas suas cogitações.

 

Pete Brennan, Paul McGill, George Hanscombe, Joe McCloskey, Dave Rogan e Mort Dellrnan tinham estado juntos na guerra da Coreia, onde Roy Weston trabalhara no gabinete do Inspector-Geral. Fora este que os convencera a integrarem o professorado da nova Faculdade de Medicina, quando abandonaram o Exército, na sequência do armistício. Amy achava-se persuadida de que nenhum deles se arrependera. Enquanto o carro a transportava para casa, as suas reflexões concentraram-se na primeira vez que vira Pete.

 

Fora no Country Club de Weston, num dos habituais bailes de sábado, a que comparecia a cidade em peso. Ele encontrava-se num grupo que se comprimia em volta do piano onde, quando a orquestra descansava, Lorrien Porter improvisava música de jazz com a competência despreocupada que imprimia a todos os seus actos.

 

Alto e um tanto rosado, Pete tinha então - como actualmente - compleição maciça, o mapa da Irlanda desenhado no rosto e olhos azuis. Atraíra imediatamente a atenção de Amy, a qual, alta para mulher, sempre sentira inclinação para os homens possantes. Dois anos depois de sair de Vassar e quatro após a apresentação na sociedade, de cabelos ruivo-alourados que não careciam de pintura e possuidora de porte esbelto, poderia ter escolhido meia dúzia de homens em Weston ou qualquer outro lugar, mas sempre se mostrara muito exigente. Não se contentava com um marido vulgar. Decidira há muito que o homem ao qual se unisse deveria ser um dirigente e profissional liberal, mais concretamente, advogado ou médico.

 

Amy fora ao clube, naquela noite, com Roy e Alice. Quando atravessava a sala apinhada, com uma bebida para ela, o irmão apercebera-se da direcção do seu olhar e esboçara um sorriso.

 

- Pareces um perdigueiro que acabou de descobrir uma presa. Queres conhecê-lo?

 

- Quem é?

 

- O major... O Dr. Pete Brennan. Acaba de abandonar o Exército e ser contratado, com alguns outros amigos meus da Coreia, para professor da nova Faculdade de Medicina.

 

- Qual é a sua especialidade?

 

- Que importa isso? - inquiriu Roy, surpreendido.

 

- Os cirurgiões e os internos são os aristocratas da profissão. Admira-me que pnão saibas.

 

- Nunca tinha pensado nisso, mas nesse caso Pete está aprovado. É neurocirurgião e exerceu as funções de chefe de cirurgia no 319.° Hospital-Geral, na Coreia.

 

- Casado?

 

- Não.

 

- Comprometido?

 

- Faria alguma diferença? - inquiriu ele, com um sorriso malicioso.

 

- Não, mas é mais simples se gozar de liberdade absoluta.

 

- Ao que   sei, trata-se de um pirata, o que o deve fazer sentir-se à vontade em Weston, antes ou depois de casar. Nós os sete reuníamo-nos com frequência em Seul, para jogar póquer e tomar umas bebidas ou participar em digressões mais ou menos libertinas. Todos eles eram camaradas excelentes, sobretudo Pete, estupendo cirurgião e administrador. As mulheres não lhe resistiam, parecendo moscas em volta de um açucareiro. Porque supões que consegues pescá-lo?

 

- Bem, por um lado, sou o tipo de esposa que um médico necessita de ter. Por outro, há mulheres mais desinteressantes, modéstia à parte.

 

- De facto, deve haver - concedeu Roy, com novo sorriso.   -   Mas   como   Pete   é   meu   amigo,   talvez   o deva prevenir, para que tome as providências convenientes.

 

- Experimenta! - advertiu Amy, com simulada severidade. - Se ele desempenhar o seu papel satisfatoriamente, farei do Dr. Pete Brennan o cirurgião mais popular e rico da cidade... talvez até do Estado. Que mais pode ambicionar?

 

- Ser amado pelo que é.

 

- Também o conseguirá.

 

- Se pressentir as tuas intenções, não penses que o manobras à tua vontade. A mulher que o levar verá que casou com um verdadeiro homem. Por conseguinte, mais vale que seja também uma verdadeira mulher e não apenas uma que deseje aproveitar-se do casamento.

 

- Merecias que te desse um soco, pelo que acabas de dizer! - observou ela, sempre impulsiva. - Vai passear! Eu própria me apresentarei.

 

- Quis apenas que conhecesses o terreno que vais pisar. Anda daí!

 

Seis meses mais tarde, estavam casados. Foi a cerimónia matrimonial mais importante a que Weston assistira até então. Gradualmente, os restantes membros do grupo de Pete foram também dando o nó sagrado: Mort Dellman, bioquímico e perito de laboratório, com Lorrie; Dave Rogan, psiquiatra, com Delia; Joe McCloskey, urologista, com Maggie; e Paul McGill, dermatologista, com Elaine. Todos haviam sido pescados por moças da cidade ou, como costumava acontecer aos médicos, por raparigas que trabalhavam no hospital. George Hanscombe, o interno do grupo, unira-se a uma inglesa chamada Grace Barrett, logo após a Segunda Guerra Mundial.

 

As cinco mulheres dos médicos - juntamente com Alice Weston - haviam constituído o núcleo em torno do qual Amy principiou a tecer a sua política, muito antes de se interessar pela Associação Médica do Estado. Com a sua instintiva paixão pelas organizações, pressentira que o grupo, um dia, lhe seria útil... e a Pete também. Além disso, todas possuíam afinidades, e Alice e Lorrie eram primas afastadas.

 

Para principiar, convidara-as para almoçar na velha mansão de Weston, com as suas elevadas colunatas, amplos jardins e servidores fiéis. Numa época em que quase todas viviam em apartamentos, enquanto os maridos - que acabavam de deixar a guerra da Coreia - recomeçavam a vida, a possibilidade de virem a desfrutar do luxo que, para Amy não passava de um factor natural, representara um íman para todas, à excepção, naturalmente, de Lorrie e Alice. Filha do velho Jake Porter, a primeira também nascera na opulência e ligava-lhe pouca importância, enquanto a segunda fora educada em casa de Jake Porter, como sua tutelada. O facto de ser uma Weston também acarretava uma série de vantagens, pormenor de que Amy tinha plena consciência. Embora o pai não tivesse ocupado um lugar muito proeminente na administração das Fiações Weston, quando morrera dispunha de uma quantidade de acções considerável. O faro comercial de Jake Porter para levar a efeito a transacção pela qual a firma adquirira as fábricas contribuiria para que Amy se tornasse financeiramente independente.

 

Não que ela e Pete necessitassem desse dinheiro por muito tempo. Consoante Roy afirmara naquela primeira noite no clube, Pete Brennan era um dirigente nato e dispunha de charme irlandês suficiente para pôr termo às inibições de qualquer mulher, como Elaine McGill observara maliciosamente a Amy. Sucedia, no entanto, que Paul, marido de Elaine, era dermatologista e se bem que toda a gente sofresse da pele, uma vez por outra, mesmo que se libertasse das espinhas juvenis, os médicos dessa especialidade ganhavam muito menos que os cirurgiões. Por conseguinte, ela não podia censurar Elaine, que fora professora, por mostrar uma certa inveja.

 

Por vezes, Amy suspeitava de que Elaine e as outras acalentavam o secreto desejo de conhecer também a virilidade de Pete. Houve momentos em que quase desejou partilhá-lo com elas, até que Pete começou a perder o interesse, quando se iniciaram as frequentes reuniões nocturnas na Faculdade, cerca de um ano antes.


Pete projectara-se rapidamente no mundo médico, como Amy se via forçada a reconhecer. Recebera várias propostas para leccionar em escolas maiores e mais importantes, mas desde que a Clínica da Faculdade se tornara uma autêntica mina, quase de um dia para o outro, os seus honorários como professor de Cirurgia na Universidade de Weston representavam a parte mais insignificante dos

seus rendimentos.

 

Pete era particularmente popular entre os colegas e,

 

quase sem esforço, ocupara o cargo de vice-presidente da Associação Médica do Estado, no ano anterior. No próximo congresso, seria sem dúvida eleito presidente. Todavia, graças a um ano de intensa actividade, Amy tornar-se-ia presidente da Sociedade Médica Auxiliar pelo menos um ano antes de Pete presidir à Associação estadual.

 

A ideia de atingir o seu objectivo antes de o marido alcançar posição análoga no plano estadual invadiu-a com uma confortável sensação de prazer, seguida quase imediatamente de um estremecimento doloroso de medo. Até então, não se preocupara em ponderar como Pete reagiria. E, ao pensar que a sua ambição poderia comprometer a harmonia conjugal, levou a mão à fronte esquerda, onde acabava de surgir o latejamento familiar, prenúncio de uma dor de cabeça.

 

«Que maçada!», articulou em voz alta, pois uma enxaqueca estragaria tudo. Concluída brilhantemente a importantíssima reunião distrital, planeara mostrar-se o mais gentil possível com o marido naquela noite e apressara-se a regressar a casa, embora de início só tencionasse voltar para Weston na manhã seguinte. Logo que chegasse ao lar, telefonaria para a Clínica e sugeriria que se encontrassem no clube para jantar. Começariam por tomar uns aperitivos no bar, onde decerto se achariam presentes várias componentes da «Sociedade de Dissecação», algumas das quais passavam tantas noites no clube como em casa, e, no toucador, Amy descrever-lhes-ia o seu triunro com pormenores.

 

Após o jantar, ela e Pete regressariam à imponente mansão de colunas brancas na colina sobranceira ao rio. A semelhança da maior parte dos alunos da Universidade, Jenny e Michael ainda passavam o Verão no campo, de onde só voltariam depois do Dia do Trabalho, e Amy concedera uma noite de folga a Ethel, que herdara juntamente com a casa. A partir daquele ponto, sabia que podia confiar o domínio da situação a Pete.

 

Adicionando mentalmente as vezes em que este se ausentara de casa às que ela lhe seguira o exemplo para participar nas reuniões tão vitais e importantes da Sociedade Médica Auxiliar, admirou-se de ver que, na realidade, tinham estado pouquíssimo tempo juntos nos últimos meses. Tudo isso concorria para tornar aquela noite extremamente valiosa, se lhe fosse possível dominar ou mesmo suprimir a inoportuna dor que lhe flagelava agora a cabeça como um berbequim eléctrico.

 

Consultou o relógico - um Omega com pulseira de brilhantes oferecido por Pete quando ganhara cinco mil dólares numa operação de hérnia discal praticada na mulher de Sam Portola, presidente do Sindicato a que as Fiações Weston pertenciam - e verificou que dispunha do tempo exactamente necessário para passar pelo consultório de George Hanscombe, antes das cinco, a fim de tomar uma injecção de tartarato de ergotamina e demerol para atenuar a dor. Foi nesse momento que a voz do locutor interrompeu o concerto de Brahms para anunciar:

 

«Atenção, senhores ouvintes! Fazemos uma pausa no programa Tarde Musical para uma notícia de última hora!»

 

Amy estendeu o braço para desligar o aparelho, pois não sentia disposição para se inteirar da comunicação de mais um desaire das forças americanas em qualquer parte do mundo ou a revelação de um motim racial, que apenas serviria para lhe agravar a enxaqueca. No entanto, a mão achava-se a meio caminho do botão quando os músculos se contraíram e o Cadillac bailou perigosamente na estrada, em virtude da pressão da mão esquerda no volante.

 

«Esta tarde, o requintado bairro de Sherwood Ravine foi abalado por uma tragédia. Segundo o telefonema de uma testemunha, o Dr. Mortimer Dellman, eminente médico de Weston, acaba de atingir mortalmente a tiro a sua atraente esposa, Loretta. Ainda não obtivemos pormenores da brutal ocorrência, mas sabe-se que um homem que se encontrava com a vítima, e consta ser um médico de nomeada, também sofreu ferimentos graves.»

 

Amy inclinou-se para a frente, no intuito de ouvir melhor as palavras, abafadas em parte pela deslocação de ar provocada pelo carro.

 

«A Polícia estabeleceu um cordão de isolamento em volta da residência do Dr. Dellman, mas foi vista uma ambulância partir para o hospital da Universidade e outra acabada de chegar de lá. Convidamos os senhores ouvintes a manterem-se sintonizados para esta estação, pois esperamos poder fornecer a todo o momento mais pormenores sobre a tragédia conjugal na alta sociedade.»

 

 

O relógio sobre, o toucador indicava quatro horas quando Elaine McGill se levantou da cama. Atravessando o quarto do pequeno pavilhão frente ao lago, acendeu um cigarro com o isqueiro de ouro que Paul lhe oferecera no décimo aniversário do casamento. Reflectiu que duas horas representavam tempo mais que suficiente para que os espermatozóides depositados no colo do útero penetrassem nele. Na verdade, um já se devia ter unido ao seu óvulo, se porventura ela calculara o período com exactidão e interpretara devidamente a elevação de temperatura que costumava anotar com meticulosidade por meio de um termómetro de precisão, todos os dias, durante os últimos seis meses. Em conformidade com o manual( que lera na biblioteca do hospital, essa elevação devia indicar a ovulação e a melhor época para contrair gravidez.

 

Nos vários anos em que tentara desesperadamente engravidar, Elaine consagrara largo tempo ao estudo da função reprodutora e cada vez se sentia mais perplexa ao verificar que um acto tão vital e importante para a preservação da raça humana fosse, aparentemente, confiado ao acaso. Com efeito, tudo aquilo colidia com o seu sentido lógico inato de um movimento divino, ordenado e planeado das esferas e menores unidades do cosmos.

 

Antes de casar com Paul McGill, Elaine fora professora de Matemática no Liceu de Weston. Preparava-se para completar o doutoramento quando o atraente dermatologista passara a leccionar na nova Faculdade de Medicina, juntamente com Pete Brennan e os outros.

 

Elaine não girara em redor de Amy Brennan antes do casamento. Crescera na Carolina do Norte, frequentara a Universidade de Greensboro e formara-se em Matemática na Universidade da Columbia, antes de ir para Weston. Mas como Paul McGill fora um dos Cinco Cavaleiros das Escrituras Apócrifas - Dave Rogan lembrara-se dessa designação absurda quando se encontravam no hospital da Coreia -, ela ingressara naturalmente na «Sociedade de Dissecação» de Amy Brennan.

 

Circunspecta e algo intelectual como era, a circunstância de Paul ser dez anos mais velho servira apenas para o tornar mais atraente. Tinham casado cerca de quatro meses depois de ele haver principiado a leccionar na Faculdade de Medicina, todavia de início não fora financeiramente aconselhável pensar em filhos. No entanto, com a abertura da Clínica da Faculdade, as perspectivas materiais de Paul tinham melhorado extraordinariamente quase de um dia para o outro, e Elaine interrompera com prontidão o recurso aos anticoncepcionais - à excepção da pílula, que usou durante alguns meses, assim que apareceu e quando os relatórios afirmaram que as mulheres que a empregavam ficavam mais propensas a engravidar após a suspensão do seu uso do que antes de a tomar.

 

Elaine fora feliz em Weston, até que a aparente esterilidade começara a preocupá-la. Agora, com quase quinze anos de matrimónio, reflectia por vezes com ressentimento porque havia de ser estéril, quando uma parcela substancial da finalidade do ser humano consistia, como tudo indicava, na união de duas células, o espermatozóide e o óvulo, no instante exacto do ciclo menstrual da mulher.

 

Tudo o que se verificava antes não passava de uma porta de acesso àquele simples acontecimento microscópico, responsável pelos lucros abundantes de muita gente. A rapariga de biquini nos cartazes publicitários fumando Kool, o jogador de baseball no chuveiro, ensaboando-se com Lifeguard e, mais tarde, penteando-se com Brylcream, se era «suficientemente másculo para o experimentar», o perfume exótico que atraía os homens como moscas, porque o seu segredo residia na fragância que lembrava a exalada pelo sexo animal - tudo se destinava a criar o cenário, num jogo violento de evasivas, para a força explosiva do êxtase mútuo e volúpia que envolvia os corpos, aturdindo-os para que as fases microscópicas finais se desenrolassem. A força que unia o homem e a mulher durante breves momentos no interesse da perpetuação da espécie.

 

A mesma força que levava os cromossomas - e os genes muitos menores - das células sexuais humanas a caminhar implacavelmente, lado a lado, para se tornarem num único indivíduo. Nesse ser reuniam-se características de ambos os pais: o genes da hemofilia que, transmitido apenas pela mulher, destruiria um dia o seu produto com uma hemorragia irreprimível; os genes dos olhos azuis do pai ou dos dedos dos pés unidos, herdado do bisavô Albert; o arco axilar, diminuto músculo que atravessa as axilas de um indivíduo em porventura um milhão, de geração para geração, sem qualquer motivo aparente, à parte, talvez, a necessidade que dele tinha um primata ancestral há muitos milhões de anos; as pernas curtas e o corpo alongado do lado paterno combinados com as nádegas desenvolvidas da mãe - tudo isto e outros caracteres incontáveis distribuídos ao acaso ou obedecendo ao esquema divino de uma herança muito remota, apareciam reunidos nos cromossomas de dois indivíduos que se encontravam, coabitavam e, por o desejarem ou em virtude de no calor da paixão alguém ter deixado de tomar ou esquecido de injectar um anticoncepcional doméstico logo após o acto sexual, produziam um novo ser.

 

Há muito que Elaine McGill decidira que tudo se desenrolava de forma demasiadamente aleatória para que pudesse existir a mínima lógica no processo, mas resolvera efectuar uma derradeira tentativa. Essa experiência obrigara-a a deslocar-se, naquela tarde de quarta-feira de Setembro, ao pavilhão à beira do lago que os Hilton lhes tinham cedido durante uma digressão pela Europa. Fizera-se acompanhar de um homem ao qual mal conhecia e não acalentava o menor desejo de voltar a ver após esse dia, como asseverava a si mesma. Havia uma coisa de que não necessitava de se preocupar: ser descoberta. Todas as quartas-feiras à tarde, Paul jogava o golfe e fazia uma pausa no buraco dezanove do Country Club de Weston para tomar uma bebida, após o chuveiro. De um modo geral, nunca regressava a casa antes das seis, e ela já se encontraria de volta a Sherwood Ravine com confortável antecedência para preparar o jantar, enquanto a recordação do episódio daquela tarde se dissipava para sempre. Elaine reconhecia que, agora, o mais prudente seria vestir-se, enquanto Mike Traynor ainda dormia. A caminho da cidade, telefonaria de uma estação de serviço, para se certificar de que acordara, pois ele dissera-lhe que devia substituir um dos internos da Sala de Emergência do hospital, às cinco. Não obstante, algo a retinha, algo que não se sentia disposta a admitir conscientemente, embora lhe acelerasse as pulsações.

 

Deteve-se diante do espelho da porta da casa de banho e admirou o corpo desnudo, persuadida de que, aos trinta e cinco anos, era muito mais atraente que quinze anos antes, quando Paul, recentemente nomeado professor de dermatologia, a desposara. Ao longo daquele período, ela engordara, pois toda a mulher que se sente amada aumenta de peso. Os cabelos enrolados em tranças formavam um anel cúprico em redor da cabeça, e Paul preferia vê-los soltos, caídos sobre os ombros, quando se amavam. Por esse motivo, afigurara-se-lhe que cometeria uma infidelidade se os desprendesse nessa tarde.

 

Tanto ela como Paul tinham corpos admiráveis e espíritos esclarecidos, conquanto ele, com cinquenta anos, a superasse em cerca de onze e em sete ou oito Pete Brennan e os outros que constituíam a hierarquia dirigente da Faculdade de Medicina, à excepção de George Hanscombe, o mais velho do grupo. Nesse caso, porque lhe fora negado o filho que ansiosamente ambicionavam, enquanto pessoas como Lorrie Dellman, indiferente a essas coisas, dava à luz como uma vitela até que Mort impôs a sua vontade e tomou as providências orgânicas necessárias após a última cesariana?

 

Depois de tentarem a sorte de todas as maneiras e em praticamente todas as circunstâncias, Elaine convencera Paul a mandar examinar o esperma, todavia isso também não solucionara coisa alguma. Mort Dellman, do laboratório da Faculdade, asseverara que jamais vira espermatozóides tão activos como os de Paul. Em todo o caso, mostravam-se incapazes de cobrir a curta distância de cerca de treze centímetros até à trompa de Falópio, para penetrar nos óvulos que os ovários dela expulsavam mensalmente, com regularidade cronOmétrica - se porventura a prova do termómetro era válida, consoante Jake Hagen afirmara.

 

Ao princípio, Elaine supusera que não engravidava em virtude da precipitação do marido, que expulsava o sémen quase logo após a penetração. Contudo, quando reuniu coragem suficiente para trocar impressões com Jake Hagen, este assegurou-lhe que o facto não exercia a mínima influência. Para que a gravidez se verificasse, tornavam-se apenas necessárias duas coisas: um óvulo acessível, que uma mulher sadia como ela produzia com regularidade cada vinte e oito dias, e a presença do espermatozóide, susceptível de o fecundar, à entrada do tubo genital, mais ou menos vinte e quatro horas após a ovulação mensal.

 

Hagen diagnosticara a deficiência de Paul como «ejaculação prematura», acrescentando que se tratava de um caso comum a muitos homens, mesmo jovens, na maioria das vezes em resultado de algum defeito do desenvolvimento psico-sexual. Durante algum tempo, Elaine ponderara a ideia de sugerir ao marido que procurasse Dave Rogan, excelente psiquiatra e amigo, mas desistira por se convencer que Paul não gostaria de discutir a sua anormalidade.

 

Este rejeitara com vigor todo e qualquer processo de inseminação artificial, como Jake Hagen propusera. Na realidade, fora a única ocasião em que ele e Elaine tinham discutido acaloradamente desde que haviam casado. Que adiantava injectar no útero dela o esperma de outro homem, quando Mort Dellman considerara o dele perfeito? O defeito, persistia, residia no equilíbrio ácido básico do próprio tubo genital dela, condição essa sem dúvida responsável pela destruição dos espermatozóides antes que atingissem o óvulo. De resto, tratava-se de uma imoralidade (Paul era particularmente rigoroso no tocante aos problemas sexuais). E como médico algum procedia à inseminação artificial sem autorização escrita do marido, Elaine vira-se compelida, naquela tarde, a recorrer a um método mais antigo, ainda que menos honesto.

 

No fundo, o resultado devia ser idêntico, cogitava contemplando os cabelos escuros desgrenhados da cabeça que repousava no travesseiro. Mike Traynor era um espécime tão perfeito como ela. O amante fora escolhido com a máxima meticulosidade, para que os possíveis resultados não denunciassem a causa real.

 

Quando finalmente encontrara Mike. Elaine vira-se forçada a desempenhar um papel novo na sua existência

- o de prostituta. No entanto, tudo se justificava pela necessidade de ter um filho... à parte a parcela de prazer que não pudera deixar de experimentar.

 

O relógio de um campanário próximo lembrou-lhe que eram quatro horas e, simultaneamente, que Mike mencionara uma aula às cinco, pois frequentava o último ano da Escola e exercia as funções de interno substituto, naquele Verão. Como o pavilhão à beira do lago ficava a mais de meia hora de Weston, considerou conveniente acordá-lo. Assim, abriu o roupeiro embutido na parede, pegou num roupão de «turco» e vestiu-o, após o que se aproximou de Mike, que sacudiu pelo ombro. Ele voltou-se, olhou-a com uma expressão sonolenta e observou com uma expressão maliciosa:

 

- Que impaciência! E parecias tão tímida ao princípio!

 

- Que... que queres dizer?

 

- Julgas que não compreendi que não atravessaste a meta?

 

- Qual meta?

 

- Este género de corrida deve ser decidido pela câmara electrónica. Mas quando embalo, nem sempre consigo travar a tempo de esperar pela companheira, pelo menos na primeira vez. No entanto, à segunda tentativa...

 

- São quatro horas e disseste que tinhas uma aula às cinco - articulou ela sem grande convicção.

 

- Ponho-me lá em vinte minutos. Há perigo de aparecer alguém antes das cinco? Um determinado marido, por exemplo?

 

- Ninguém sabe   que me encontro aqui. Ele está a jogar golfe.

 

- Então de que estamos à espera?

 

Com a maior naturalidade, ele endireitou-se, desatou o cinto do roupão de Elaine, despiu-lho e puxou-a para si, sem que ela oferecesse resistência, perturbada pelo imprevisto do movimento.

 

- Caramba! - exclamou Mike, com sinceridade. - Todo este material desperdiçado nas mãos do «Velho Dermatografia».

 

- Nas mãos de quem?

 

- É o que os estudantes chamam ao teu marido. Inventou uma teoria, segundo a qual a constituição nervosa de uma pessoa pode ser determinada pela forma como a pele reage quando riscada pela unha. Dermatografia significa escrever na pele, se por acaso não sabes. Mais ou menos como escrever no quadro preto.

 

- De facto, já ouvi falar em qualquer coisa do género.

 

- Ele passa a vida a riscar as costas dos doentes. Se forem nervosos, o traço fica vermelho. Nem fazes ideia da quantidade de moléstias psicossomáticas que descobriu por esse sistema.

 

- Também o faz às mulheres?

 

- Contento-me em enganá-lo, para lhe revelar também os segredos - proferiu Mike, com uma risada divertida.

 

Estendeu-a a seu lado e recomeçou uma actividade interrompida pelo breve sono. No final, após uma explosão como ela jamais experimentara, ao ponto de julgar que desmaiaria, o instinto primitivo comum a todas as mulheres indicou-lhe que, desta vez, o espermatozóide fecundaria o óvulo.

 

Enquanto Mike se vestia, cobriu o corpo com o lençol, num gesto simbólico que o isolava definitivamente da sua existência. Agora que daria um filho a Paul, já quase esquecera que o facto se deveria ao sémen de outro homem.

 

Por último, ele despediu-se com um gesto cordial, que Elaine ignorou, subiu para o carro, pô-lo em movimento e ligou a telefonia no momento em que o locutor transmitia as últimas palavras de uma notícia. Não obstante, bastaram para que Mike acelerasse vertiginosamente, ansioso por regressar ao hospital.

 

«Safa!», reflectiu, estremecendo. «Se fosse na quarta-feira passada, o corpo que segue agora na ambulância a caminho do hospital podia ser o meu!»

 

- Ora, aí está - resmungou o tenente da Polícia Eric Vosges, olhando a ambulância que desaparecia na esquina e transportava uma pessoa coberta por um lençol. - Pertence à nata da sociedade de Weston e tem o corpo atravessado por uma bala, tão morta como qualquer prostituta de Houston Street liquidada pelo seu proxeneta na altura de prestação de contas. No fundo, não passava de uma ninfomaníaca.

 

- Hum... - O sargento Jim O’Brien impeliu para a nuca o chapéu que deslizara para a fronte e, sem tirar da boca o cachimbo que quase nunca o abandonava, acrescentou:

- As ninfomaníacas procuram um homem que as satisfaça. Ainda me lembro da primeira vez que Lorrie Porter (era o seu nome de solteira) se envolveu numa embrulhada. Não devia ter mais de dezasseis anos, quando o irmão de Amy Weston andava com ela...

 

- O promotor? - O tom de Vosges deixara transparecer perplexidade. Transferido de outro distrito, para reforçar a Polícia de Weston, depois de uns alunos da Universidade terem invadido o dormitório das raparigas, originando um autêntico motim, não tardara a descobrir que aquela cidade não diferia muito de qualquer outro burgo escolar com cem mil habitantes.

 

- Roy não foi o primeiro - esclareceu O’Brien. - Jake Porter, nessa época o verdadeiro proprietário das fábricas, sabia perfeitamente que Lorrie não passava de uma depravada, apesar da idade, mas não se preocupava em endireitá-la. Talvez pensasse que lhe estava no sangue. De resto, com setenta e cinco anos, ele ainda corre atrás das garotas. E se elas se deixam apanhar, consegue fazer das suas.

 

- Mas a senhora Dellman tinha tudo o que desejava!

 

- Talvez tivesse tudo menos o que desejava. Mas não me pergunte o que era.

 

- Falava do promotor...

 

- Já lá vai muito tempo. Roy pretendia casar com Lorrie, mas o velho opôs-se, pois conhecia-a suficientemente para saber que destruiria o futuro do rapaz. O aborto correu a cargo de uma madame de Houston Street, e tudo se desenrolou bem até que ela teve uma hemorragia e necessitou de ser transportada ao hospital. Deu-nos água pela barba, mas acabámos por abafar o assunto.

 

- E isso parece-lhe certo?

 

- Tinha de parecer, nesses tempos, se queria continuar a pertencer à Polícia. E talvez ainda hoje. Quem não fazia o que eles mandavam, podia preparar-se para abandonar estas paragens.

 

- Subsiste alguma coisa do passado para o correr daqui?

- inquiriu Vosges, inclinando a cabeça na direcção de Mort Dellman, que acabava de entrar para um veículo da Polícia.

 

- É possível. Não consigo descortinar porque fez isto. Toda a gente sabe que Dellman casou com Loretta Porter por causa do dinheiro dela. Não se trata de um médico como os outros que iniciaram a Clínica da Faculdade. Creio que é químico ou algo do género. Em todo o caso, afirmam que é um administrador notável e dirige aquilo como se fosse uma máquina. Não goza de grande estima e nunca o admitiriam no Country Club se não casasse com a filha do homem que o construiu.

 

- Apesar disso, deve ter conseguido alguma coisa à sua própria custa - argumentou o tenente, contemplando a dispendiosa moradia, com uma piscina em forma de rim nas traseiras, à sombra dos pinheiros.

 

- O casamento com Lorrie ajudou muito - explicou O’Brien. - Mas desde que organizou o nível de produção médica atingido pela Clínica da Faculdade, ficou com uma talhada apreciável de uma autêntica mina de ouro.

 

- Os médicos de lá são bons?

 

- Só encontrará melhores na Clínica Mayo e mesmo assim duvido.

 

- E destruiu tudo com um simples tiro - comentou Vosges, meneando a cabeça.

 

- De facto, é estranho. Porque o faria?

 

- A lei não escrita da tradição ainda existe neste país.

 

- Não me diga que, nos doze anos de casado com Loretta Porter, Dellman ignorara que todo o jovem másculo da região se envolveu com ela, numa ou outra ocasião! Aposto que ele dispôs de numerosas oportunidades de alvejar a tiro dezenas dos nossos cidadãos mais eminentes, se quisesse. Porque escolheria este?

 

- Quem sabe? Parece-lhe que o tipo se salvará? Tinha aspecto pouco animador, quando o meteram na ambulância.

 

- Há dez anos, uma bala no peito bastava para mandar encomendar o caixão, mas os médicos de hoje conseguem autênticos milagres, sobretudo aquele refugiado europeu que presta serviço no hospital da Universidade, Dieter. Pouco depois de ter chegado, há um ano, remendou um orifício no coração de um sobrinho meu. Era inválido desde criança e agora faz parte da equipa de natação da Universidade. - O’Brien despejou o cachimbo e voltou a enchê-lo. - Ninguém me tira da cabeça que há algo de estranho neste assunto.

 

- Qual é a sua explicação?

 

- Admito que ele alvejasse o homem se fosse alguém que detestasse, mas há anos que conhecia o pobre diabo. Estiveram juntos na Coreia, vieram para cá quando se inaugurou a Escola Médica e trabalhavam em conjunto todos os dias. Repito que há algo de estranho em tudo isto.

 

- Não se preocupe - recomendou Vosges. - Se esta cidade for igual às outras, tudo se saberá por ocasião da lavagem da roupa suja.

 

 

 

Eram 16.15, quando Delia Rogan e Grace Hanscombe arrumaram o pequeno carro utilizado no campo de golfe na área reservada aos veículos, junto ao salão de chá.

 

- Dezoito buracos são muitos para a minha idade queixou-se Grace, apeando-se. Com quarenta e oito anos, podia considerar-se admiravelmente conservada, possuidora da frescura que muitas inglesas parecem manter toda a vida. - Ainda bem que não sou campeã, porque só o trabalho para permanecer em forma havia de me liquidar.

 

- Oficiosamente falando,   és uma campeã - replicou Delia, retirando os sacos do carro.

 

- Tive sorte, hoje. Não sei o que se passa contigo, mas não és a mesma desde que voltaste daquele torneio em Augus...

 

- Não quero ouvir falar nisso! - cortou Delia, com aspereza.

 

- Eu estava apenas... - Mais irritada que melindrada, Grace não completou a frase, enquanto a outra colocava o saco dos tacos ao ombro e se afastava. Por fim, levantando a voz acrescentou: - Se quiseres que continuemos a ser amigas, passa lá por casa de manhã, para tomarmos café. Tenho estado tão aborrecida ultimamente que gostava de conversar com alguém.

 

Vendo que Delia não respondia, encaminhou-se para o depósito de tacos e entregou-os a um dos rapa/es, a fim de que os levasse para dentro. Era uma das suas prerrogativas, por estar casada com um dos directores do clube, assim como presidente da sua comissão feminina mais importante, depois da de golfe, dirigida por Delia Rogan. O facto de ser mulher de um dos médicos mais destacados da cidade representava algumas vantagens - juntamente com desvantagens -, cogitava ela, enquanto se dirigia para o bar, no intuito de tomar uma bebida, além de constituir um salto substancial da sua antiga condição de empregada de balcão.


Movendo-se através do relvado em direcção à área de treino, Delia surpreendia-se com o peso dos tacos. Era a primeira vez em várias semanas que os levava ao ombro. Em regra, confiava a tarefa aos caddies e havia sempre um pequeno veículo para a conduzir de um campo para outro, a fim de poder poupar as energias para as jogadas importantes.

 

Quando passava perto da piscina, onde uns jovens conversavam jovialmente ao clarão da tarde em declínio, acercou-se do campo, pousou o saco e extraiu o seu taco favorito.

 

- Leroy! - chamou em seguida. - Traga-me um saco de bolas.

 

- Com certeza, senhora Rogan. - Um homem de cabelos grisalhos que se encontrava no depósito próximo desapareceu por um momento, para regressar por outra porta, com as bolas. - Deseja que as coloque no teél

 

- Não, obrigada. Quero apenas treinar um pouco a pontaria.

 

Delia tirou um tee de madeira de um dos bolsos laterais do seu saco de golfe, oferecido por Dave como prenda de aniversário pouco antes de partir para o Torneio Feminino do Sueste, em Augusta. No entanto, ao recordar o torneio (e o que acontecera a seguir), cravou o tee no chão com dedos repentinamente trémulos, colocou a bola em cima e adquiriu a posição conveniente, segurando o taco firmemente com as mãos bronzeadas. Bateu com vigor e observou a trajectória da bola, que se deslocou em linha recta como uma flecha antes de cair na outra extremidade do campo.

 

Pensou involuntariamente se Dave não lhe teria oferecido o saco por descargo de consciência culpada.

 

A segunda bola partiu certeira, principiou a descrever uma pequena curva e pousou muito à esquerda da anterior.

 

Naquele ano, ela consagrara algum tempo à participação em torneios. Dave não a acompanhara, naturalmente, era psiquiatra e não podia andar atrás da mulher, onde quer que ela disputasse as partidas de golfe. Discutiram seriamente por ele não poder assistir ao torneio de Augusta, todavia Dave insistira que, com diversos doentes no ponto crucial do tratamento e as declarações que devia prestar no tribunal em referência a determinado caso, a ideia de se ausentar estava absolutamente fora de qualquer discussão. De resto, Delia sabia que ele não se importava de ficar em casa e adorava os filhos, ambos em férias no campo. Além disso, havia Mattie, a empregada que dormia lá, para cuidar deles quando Delia se ausentava.

 

Nem todas as mulheres dos médicos da Faculdade tinham empregadas que dormissem no local de trabalho, porém, no caso de Delia, quase constantemente em digressão relacionada com o golfe, tornava-se indispensável.

 

Colocou nova bola sobre o tee e deu mais uma tacada, que resultou particularmente defeituosa. A bola descreveu uma curva muito maior que as precedentes, e as mãos dela tremiam a tal ponto que, receando largar o taco, o baixou com prontidão. Inconscientemente, a súbita dúvida que lhe acudira acerca de Dave devia-se à sua própria sensação de culpa, mas recusava-se a admitir que esse pensamento transitasse para o consciente, conhecedora da sua capacidade para pulverizar o organizado pequeno mundo do clube de golfe, seus campeonatos e fileiras de trofeus sobre o aparador. Tornava-se-lhe mais fácil suspeitar do marido transferindo-lhe a culpa. Infelizmente, o amor que ela lhe dedicava e a convicção de ser também amada impediam-na praticamente de se persuadir disso.

 

Se Dave não se mostrasse tão atencioso para com ela, reflectiu com um assomo de fúria, talvez nada se tivesse passado em Augusta. Ele nunca apresentara a mínima objecção a que disputasse os torneios, mesmo que para tal necessitasse de se afastar dele e dos filhos por vários dias e, nos últimos tempos, nem a assediava muito, do ponto de vista sexual. O que, de momento, lhe parecia vantajoso, porquanto após dezoito buracos e mais uma hora de prática de novas tacadas, Delia sentia-se virtualmente extenuada. Na realidade, havia seis semanas que não tinham relações íntimas, e conquanto as actividades referentes ao golfe a obrigassem a passar metade das noites fora de casa, Dave não se mostrara muito contrariado com o facto.

 

Ou enganar-se-ia? Estaria ao corrente do que acontecera em Augusta depois de ela vencer o torneio?

 

A voz tranquila e suave de Leroy arrancou-a das reflexões apreensivas:

 

- Não se sente bem, senhora Rogan?

 

- Sinto-me perfeitamente. Não me aborreça, por favor. Ao exprimir-se assim, ela infringira a regra do clube

 

que recomendava moderação nas relações com os empregados, cada vez mais difíceis de encontrar. Dave era presidente do clube, encarregado do pessoal, e Delia ouvira-o queixar-se com frequência de que, com a mudança do Governo e novas leis sobre salários e horários de trabalho, em discussão constante no Congresso, cada vez se tornava mais problemático arranjar quem quisesse trabalhar satisfatoriamente.

 

- Porque perguntou isso? - inquiriu ela, procurando exprimir-se com cordialidade.

 

- Quase não tocou na bola, senhora Rogan. Há dez anos que trabalho aqui e nunca a vi proceder assim.

 

Delia dirigiu o olhar para o extremo do campo, onde a bola se devia encontrar, e como não a visse, baixou-o com lentidão. Pareceu escoar-se uma eternidade primeiro que os seus olhos descortinassem o pequeno esférico branco a pouco mais de quatro metros do ponto em que estava.

 

- Leve os tacos para o depósito, por favor - indicou em voz trémula. - Creio que preciso de uma bebida.

 

Alice Weston nunca assistia ao resto do programa da tarde da televisão após o folhetim terminar. Ficava emocionalmente tão esgotada que necessitava de se deitar um pouco, antes de tomar banho e vestir-se para o jantar. Por conseguinte, raramente ouvia os noticiários, que descreviam os infortúnios da vida real, não menos pungentes que os das personagens fictícias, e a deprimiam profundamente.

 

Aquela meia hora de repouso na cama, à tarde, exercia o efeito de um banho de chuveiro frio, que lavava as preocupações ocasionadas pelo folhetim e preparava Alice para o ritual do martini que antecedia o jantar, o qual tomava sempre com Roy, quando ele estava em casa. A empregada, Vanessa, trabalhava todo o dia, fazia a limpeza e as compras e ocupava-se do jantar, pelo que a responsabilidade doméstica de Alice não se podia considerar absorvente. Roy, todavia, gostava de tomar os martinis preparados por ela, que lhe conhecia as preferências.

 

Tinham casado há vinte anos, quando Alice contava dezoito, mas mesmo assim nunca confessara ao marido que a bebida que ela tomava era sempre diluída em água, pois o álcool deixava-a um pouco perturbada. Conhecia pessoas que diziam e faziam coisas deploráveis sob o efeito da bebida, e nos folhetins da TV o facto repetia-se com regularidade.

 

De súbito, lembrou-se de que Roy não viria jantar, porquanto necessitava de comparecer a uma reunião relacionada com determinado julgamento importante. Talvez não fosse má ideia chamar Corinne Marchant, para que lhe fizesse um pouco de companhia. Ao ponderar a possibilidade, sentiu-se um pouco confortada, libertando-se da tristeza provocada pelo episódio dramático.

 

A campainha do telefone colocado em cima da mesa-de-cabeceira arrancou-a abruptamente às suas cogitações. Um pouco ensonada, levantou o auscultador e reconheceu logo a voz aguda e impertinente de Jake Porter:

 

- Alice?

 

- Que há de novo, tio Jacob?

 

Desde que o pai dela morrera, o velho levara-a, juntamente com a mãe, para a sua residência, educando-a como se fosse sua filha. Para Alice, ele assemelhava-se a um patriarca bíblico, motivo pelo qual nunca se habituara a tratá-lo por «tio Jake», como fazia Roy, embora toda a gente soubesse que o velho não possuía qualquer semelhança com a personagem bíblica, excepto, porventura, com o rei David, nos tempos de Betsabé.

 

- Onde está Roy? - perguntou Jake.

 

- Não sei. No escritório, suponho.

 

- Acabo de ligar para lá, mas ninguém sabe onde pára.

 

- Disse que vinha mais tarde. Quer que lhe peça que telefone, quando aparecer?

 

- Não posso esperar. Preciso de contactar com ele imediatamente. Roy tem de se ocupar do caso antes que a cidade se transforme num vulcão.

 

- Houve algum motim racial em Weston?

 

Uma das personagens do folhetim era um beatnik, o qual aludia com insistência à sua participação na marcha sobre Selma. Só de o ver no pequeno écran, Alice ficava tão apavorada que resistia a custo ao desejo de desligar o aparelho.

 

-Qual história! - explodiu o velho. - Não me digas que não sabes o que aconteceu!

 

- Não. Que foi, tio Jacob?

 

- Não ouviste as notícias? A televisão descreveu tudo.

 

- Nunca vejo o telejornal. Mete-me medo.

 

- Lorrie foi atingida a tiro, morta pelo patife do marido. O homem que se encontrava com ela também levou a sua conta.

 

- Ah! - Alice segurou o auscultador com dedos crispados, ao mesmo tempo que via as paredes oscilar à sua volta. Sabia que ia desmaiar. A mãe fartara-se de insistir em que o seu sistema nervoso era demasiado sensível para suportar choques de qualquer natureza, pelo que costumava ocultar-lhe quase tudo.

 

- Não desmaies agora, Alice! - bradou o velho, e a voz aguda exerceu o efeito de um balde de água gelada.

- Tenho de encontrar Roy!

 

- Quem... quem era o homem que estava com Lorrie?

 

- O locutor não mencionou o nome. Parece ter-se referido a um médico, mas fiquei tão impressionado que não me inteirei. Telefonei para o hospital, mas não consegui adiantar nada.

 

- Porquê para o hospital?

 

- Com a breca, Alice! Não consegues assimilar uma sílaba do que digo? Mort Dellman surpreendeu Lorrie na cama com um homem, esta tarde, e alvejou-os a tiro. Ela morreu e o companheiro está gravemente ferido. Pode perfeitamente tratar-se de Roy.

 

Ela largou o auscultador, ao mesmo tempo que se dobrava pela cintura, atacada pela dor aguda familiar que surgia do lado esquerdo do ventre.

 

- Alice! - rugiu a voz do velho. - Estás aí? Comprimindo o ventre com a mão esquerda, ela recuperou o aparelho e murmurou, anelante:

 

- Tenho de desligar, tio Jacob.

 

- Desligar?!

 

- Preciso ir à casa de banho... Estou com uma cólica. Um novo espasmo doloroso obrigou-a a largá-lo de novo.

 

Em seguida, rolando de lado, Alice deslizou da cama e arrastou-se para a casa de banho, gemendo com cada movimento que efectuava.

 

- Com mil diabos! Não podias guardar isso para uma hora menos ...? - A última palavra da frase foi abafada pelo grito de dor que Alice soltou da porta da casa de banho, o que todavia não a impediu de detectar a voz enfurecida que brotava do auscultador: - Se os teus miolos funcionassem tão bem como os intestinos, eras a mulher mais inteligente do mundo!

 

Maggie McCloskey encontrava-se sentada no bar diante do toucador, quando Delia Rogan entrou e pediu um gin com água tónica. Os homens ainda frequentavam o Buraco Dezanove, porém o clube voltara a ser o que fora outrora, sobretudo no espaço situado atrás do bar principal, uma sala de reuniões íntimas, onde as mulheres, de calção, se entretinham com bebidas após as partidas.

 

A avaliar pelo brilho vítreo do olhar, Maggie já ia no terceiro ou quarto copo, todavia Delia não se lhe dirigiu antes de esvaziar o primeiro e pedir outro. Não lhe interessava recordar que, de entre todas as sócias da «Sociedade de Dissecação», Maggie era a única que se aventurara até ao divórcio... por enquanto.

 

Née Margaret Smith, Maggie fora secretária no Departamento de Psiquiatria da Escola antes de casar com Joe McCloskey, na época em que Delia era técnica de raios X. Provinham ambas da mesma cidade do Tennessee, contudo Delia perdera Maggie de vista até que se haviam tornado a encontrar no hospital e na Escola Médica da Universidade de Weston, quinze anos antes.

 

No Tennessee, Maggie fora educada num meio muito diferente do de Delia, embora esta nunca o mencionasse ou pensasse nisso. Maggie parecia apostada em se diminuir, mesmo depois de casar com Joe McCloskey. Na realidade, não tinha motivo algum para semelhante atitude. Como secretária de Dave, mostrara-se a todos os títulos eficiente e constituíra instrumento da união entre ele e Delia, os quais se namoravam ao mesmo tempo que Maggie e Joe. Ninguém sabia ao certo o que se passara entre os dois últimos. Joe era um homem baixo, prematuramente calvo, de maneiras afáveis e bondade e tolerância invulgares num urologista, cujo trabalho o colocava em contacto com os aspectos mais desagradáveis do comportamento humano. Delia sempre desconfiara de que a causa principal de tudo residia na sensação de inferioridade de Maggie, o que também não fazia sentido, porquanto ela fora uma moça muito atraente e ainda se podia considerar uma mulher acima da mediania, no capítulo da beleza, embora a vida desregrada que levava principiasse a reflectir-se no semblante, em especial depois que se divorciara e passara a beber muito mais que anteriormente.

 

Do ponto de vista físico, dificilmente se encontrariam duas mulheres mais diferentes que Maggie e Delia. A primeira era «cheia», por assim dizer, e a segunda magra. Maggie tinha cabelos escuros e os da amiga, incialmente de um vermelho cobre, tinham perdido parte da cor em virtude da exposição ao sol no campo de golfe.

 

No fundo, porém, era Joe McCloskey, bondoso, sempre atencioso, que Delia mais lamentava. Ela sabia que se esforçara por evitar o divórcio, no entanto Maggie parecia experimentar prazer em se martirizar e ao marido, até que, por fim, não houvera outra solução. A partir de então, Delia e Dave convidavam-no para jantar com regularidade, no intuito de o animar. Contudo, isso não bastara, aparentemente, devido às suas constantes ausências da cidade para jogar golfe nos vários torneios. De resto, estava persuadida de que Maggie tomara conhecimento dos convintes e ficara contrariada.

 

- Já sabes o que se passou com Lorrie? - perguntou Maggie em voz pastosa.

 

- Quem foi, desta vez?

 

- A Dama da Foice.

 

- Deixa-te de brincadeiras. Que se passou, afinal?

 

- Foi-se. Esticou.

 

- Queres dizer que morreu?

 

- Pelo menos, é o que toda a gente pensa. - Vendo a amiga esvaziar o copo de um trago, Maggie aplicou-lhe uma palmada nas costas. - Não bebas assim o whisky, menina. Duras muito mais se o emborcares devagar. - E, com uma ponta de amargura: - Se tivesses de viver com a pensão miserável que Joe McCloskey me envia, pensavas duas vezes antes de pedir uma bebida.

 

- Mas que aconteceu a Lorrie?

 

- Segundo a rádio e a televisão informaram, Mort deu-lhe um tiro. O locutor diz que lhe acertou no coração, mas ele devia ter apontado mais para ba<xo.

 

- Ela estava?... - começou Delia, experimentando um calafrio que se iniciava no fundo do peito.

- Só? - Maggie parecia desfrutar com o abalo da outra.

- Alguma vez esteve só na sua lúbrica vida?

 

- Que sabes a esse respeito?

 

- O locutor esclareceu que estava com um «ilustre médico» no momento em que Mort desatou aos tiros. De qualquer modo, também foi atingido e a sua presença contribui decisivamente para incutir à cena a designação de flagrante delito.

 

- Quem   era   ele? Não   podia   ser Dave,   claro.   Ou podia?

 

- Ainda ninguém conseguiu determiná-lo. Mas não restam dúvidas de que, a estas horas, há um número apreciável de mulheres alarmadas que trocam telefonemas, receando que o homem envolvido seja o seu marido.

 

- Quem me garante que não inventaste tudo isso? Delia impeliu o copo ao longo do balcão, para que o bartender voltasse a enchê-lo.

 

- Ficaste assustada, hem? - Maggie soltou uma risada seca. - Há anos que quase todas nós dormimos com os maridos das outras. Havia de surgir o dia em que alguém seria surpreendido.

 

- Pára lá com isso! O empregado está a ouvir.

 

- Manuel já sabe, ou vai saber dentro de poucos dias.

 

- Então, é mesmo verdade?

 

- Se não acreditas, pergunta ao Manuel, que também ouviu.

 

Delia desviou o olhar para o bartender, o qual inclinou a cabeça e proferiu:

 

- Só sei o que disseram na rádio, senhora Rogan. Quando há pouca clientela, costumo ligar o transistor.

 

- Então, ligue-o agora.

 

- O gerente não aprova que...

 

- Ligue lá essa porcaria - interpôs Maggie. - Quem sabe se a vítima não é um dos directores do clube?

 

- Já que insistem...

 

No momento em que Manuel acabava de ligar o pequeno receptor, Grace Hanscombe apareceu à entrada do bar e anunciou:

 

- Na televisão colorida do Buraco Dezanove estão a dar tudo com pormenores.

 

Acto contínuo, precipitaram-se todas para a sala maior, onde, em volta de um televisor, se acotovelavam numerosos homens e mulheres.

 

- Olhem! Ali vai Mort!

 

A voz pertencia a Arthur Painter, advogado especializado em transacções de imóveis e testamentos, apontando para o pequeno écran onde se via um homem atarracado em mangas de camisa, que um polícia conduzia para o carro-patrulha. E acrescentou receosamente:

 

- Terá liquidado a nova apólice de Lorrie a tempo de obrigar a companhia a pagar?

 

- Quem emitiu a apólice fui eu, e escusa de contar com o pagamento. - Aos trinta anos de idade, Earl Bieson era corretor de seguros de vida, sócio do Clube Milhão de Dólares da sua companhia, além de sofrer de hipertensão e insuficiência renal.

 

- Vocês não conseguem pensar noutra coisa senão em testamentos e seguros de vida? - comentou Delia.

 

- Olá, Delia! - saudou Arthur Painter. - Onde está Dave? O pesado silêncio que se seguiu à pergunta foi finalmente quebrado pela voz de Maggie:

 

- Neste momento, há uma quantidade de mulheres empenhadas em saber onde os maridos param. Ainda bem que não tenho...

 

- Cala-te - advertiu Delia, procurando uma posição de onde pudesse abarcar melhor o televisor. - Lembra-te do que acontecerá à tua valiosa pensão, se o atingido foi Joe.

 

- O biltre não me pregava uma partida dessas - explodiu Maggie, empalidecendo. Acha que podia, Arthur?

 

- Não sei ao que se refere - declarou o advogado, desviando com relutância a vista do pequeno écran.

 

- Foi você quem tratou do meu divórcio e estabeleceu a pensão... ficando com uma boa parte dela. Se Joe fosse morto por Mort Dellman, eu perdia-a?

 

- Sem dúvida. - No entanto, Arthur Painter apressou-se a acrescentar. - Em todo o caso, a apólice de seguro dele foi feita em seu nome, Maggie.

 

- Quer dizer que receberia uma indemnização dupla, em virtude do acidente? - Ela virou-se para o corretor. - Foi você que tratou da apólice, Earl. Não receberia o dobro?

 

- Se o ferido for Joe e não sobreviver, evidentemente que sim. Embora ainda não revelassem o nome do homem, segundo as últimas notícias, estava vivo e encontrava-se no hospital da Universidade.

 

- É muito capaz de ser Joe - persistiu Maggie. - Andou sempre atrás de Lorrie, como todos vocês e outros que não estão presentes.

 

Surgia agora na televisão uma imagem familiar a todos os que ali se encontravam: uma casa entre as árvores, diante da qual se via uma alameda. Em Sherwood Ravine, todos os lotes tinham um mínimo de quarenta hectares e as casas erguiam-se pelo menos a vinte e cinco metros da rua, chegando algumas a atingir quarenta.

 

Impedir a plebe de observar o que acontecia na intimidade da nobreza, constituíra o lema do velho Bob Vieson, pai de Earl, quando procedera ao loteamento. De início, tudo fora planeado no sentido de obter espaço para as residências dos endinheirados. Agora, porém, a área encontrava-se habitada principalmente por médicos, dentistas e advogados, aristocracia dos profissionais novos-ricos que tinham emergido do mundo do pós-guerra.

 

A televisão mostrava agora quatro homens de branco transportando uma maca na qual estava um corpo coberto por um lençol.

 

- Deve ser Lorrie - murmurou Delia, enquanto colocavam a maca na ambulância.

 

- Não restam dúvidas de que está morta - acudiu Maggie, com uma ponta de sarcasmo. - De contrário, arranjava um lençol menos modesto para aparecer na televisão.

 

- Bebeste de mais - afirmou Grace Hanscombe. - Anda daí. Vou levar-te a casa.

 

- Nem penses nisso! Fico aqui até que revelem o nome do ilustre médico que estava com ela, quando Mort os surpreendeu.

 

- Vou contigo, Grace - interveio Delia. Não lhe passou despercebido o olhar de apreensão da inglesa, quando acrescentou: - São quase horas de Dave chegar a casa,

 

- Uma coisa é certa - proclamou Grace. - Pela primeira vez em muitos anos, os maridos e mulheres de Sherwood Ravine vão dormir nas suas próprias camas.

 

 

Marisa Feldman, que acabava de abandonar os seus aposentos no edifício dos apartamentos da Faculdade, do outro lado da rua, passou pela Sala de Emergência. Dirigia-se para a cantina do hospital, onde tencionava jantar mais cedo, quando uma ambulância com a sereia ainda em actividade se imobilizou na rampa de acesso. No momento em que retiravam a maca, ela lançou uma olhadela ao homem estendido e apercebeu-se da aparente ausência de respiração e lividez própria do estado de choque ou morte.

 

- Que aconteceu? - perguntou, sentindo a atenção esph caçada por algo no aspecto da vítima.

 

- Morreu na ambulância, minha senhora... perdão, doutora - respondeu um dos homens de branco, apercebendo-se da longa bata branca que ela usava, pois Marisa preparara-se para efectuar a ronda ao hospital após o jantar.

 

- Porque não o levaram para o necrotério?

 

- Ainda ninguém confirmou o óbito.

 

Desde a implantação do Medicare, os hospitais só muito raramente dispunham de internos para as ambulâncias, e ela não ignorava que o treino médico dos motoristas e funcionários daqueles veículos se limitava a um breve curso de primeiros socorros, consoante a Lei estipulava.

 

- Quando o colocámos na ambulância ainda vivia, como pode viver uma pessoa com uma bala alojada no peito. Agora perdeu as pulsações.

 

- Um ferimento de bala? - O cérebro de Marisa começou a funcionar como um computador. - Coloquem-no, depressa naquele cubículo! - Ao mesmo tempo que falava, corria para o telefone e, discando o número da Central do hospital, informou: - Fala a Dra. Feldman. Transmita um alerta de emergência cardíaca no sistema de altifalantes.

 

Quando voltou para junto da vítima, um servente já colaborava com a tripulação da ambulância na colocação do corpo na mesa de exame. No instante imediato, a voz firme e clara da telefonista vibrava nos altifalantes:

 

«Alerta cardíaco! Convoca-se todo o pessoal! Alerta cardíaco! Sala de Emergência!»

 

Por se tratar do seu segundo dia no hospital, Marisa apenas conhecia alguns médicos. Não obstante, na véspera, assistira a uma prelecção proferida pelo Dr. Hanchmann, chefe dos Serviços Médicos, e sabia como devia agir num caso de emergência cardíaca, como por exemplo a suspensão das palpitações do coração. Por outro lado, concordara plenamente com os médicos de rotina empregados pelo hospital para atender casos desta natureza.

 

As suas palavras «alerta cardíaco» fariam acudir imediatamente à Sala de Emergência uma equipa bem treinada, poriam de sobreaviso os melhores médicos em cada uma das especialidades envolvidas num caso daqueles e alertariam a Unidade Especial de Cuidados Intensivos. No entanto, Marisa não perdeu tempo a aguardá-los e apressou-se a assumir o comando da situação.

 

- Empregaram o ressuscitador? - perguntou a um dos homens da ambulância.

 

- Não houve tempo, doutora.

 

Em face disso, ela deu-se conta de que a paragem da respiração se verificara há pouco tempo, pelo que era provável que ainda não tivessem ocorrido lesões graves no cérebro. As providências imediatas a tomar eram duas: fazer o coração funcionar de novo e pôr o paciente a respirar oxigénio o mais depressa possível, no intuito de aumentar o nível do oxigénio no sangue, para superar qualquer lesão produzida temporariamente nas células cerebrais, em virtude da sua ausência passageira.

 

- Ligue o tubo e ponha o ressuscitador a funcionar indicou Marisa ao interno de serviço que, atendendo à chamada insistente dos altifalantes, aparecera esbaforido. Pegando num estetoscópio obstétrico que pendia da parede, introduziu as hastes nos ouvidos, o que lhe deixou as mãos livres para proceder à ressuscitação a tórax fechado.

 

O primeiro passo no novo e dramático método para activar corações imobilizados, que substituía com notável eficiência o sanguinário processo cirúrgico que envolvia a abertura do tórax e massagens directas do coração, consístia em verificar se, na realidade, as palpitações cardíacas haviam cessado. Tratava-se de uma precaução necessária, a fim de evitar que o órgão fosse lesado pelo tratamento um tanto grosseiro a que era submetido durante a manobra de o comprimir entre o esterno e a coluna vertebral, à semelhança do cirurgião que opera a céu aberto o espreme entre as mãos, no intuito de o estimular e restaurar as palpitações.

 

Marisa afastou o lençol e viu a ferida no peito - pequena e regular, situava-se bem na área cardíaca, ligeiramente para a direita. O seu olhar clínico detectou também a distensão das veias do pescoço e manchas cianóticas que abrangiam a parte superior do tórax, pescoço e rosto, completando o quadro patológico.

 

A seu lado, o interno, surpreendido e horrorizado, exclamou:

 

- Santo Deus! é o doutor...

 

Ela não ouviu o nome. Inclinada para a frente, com as extremidades do estetoscópio nos ouvidos e a campanula metálica comprimida ao peito do ferido, apenas se apercebia dos sons que passassem pela coluna de ar aprisionada no interior do aparelho. E mesmo que tivesse ouvido, careceria de significado, pois era o seu segundo dia no hospital.

 

No estetoscópio, a coluna de ar exercia as funções de amplificador, aumentando os sons provenientes de dentro do tórax. A princípio, Marisa não ouviu coisa alguma indicação óbvia de morte. Depois, quando os tímpanos se adaptaram melhor à pequena mudança da pressão do ar, à medida que a campanula de metal era comprimida contra a pele descorada do peito da vítima, distinguiu um ténue murmúrio, semelhante ao da água deslisando sobre pedras, captado de longe.

 

O murmúrio era indefinido e desprovido de ritmo, mas o simples facto de se tornar audível proporcionava o último dado necessário ao maravilhoso e complexo sistema de memórias, impressões e observações que fazem do cérebro humano uma máquina mais eficiente do que qualquer computador criado pelo Homem.

 

Quando as membranas dos tímpanos, atingidas por esse murmúrio sonoro, principiaram a vibrar, o primeiro dos três ossículos do ouvido médio, o martelo, que repousa sobre elas, entrou também em vibração delicada. O movimento foi transmitido mecanicamente, através dos ossos minúsculos que se encontravam próximos - a bigorna e o estribo - a uma pequena abertura denominada janela oval, a qual separa o ouvido médio do interno. Ao vibrar contra a membrana que cobre a janela oval, o estribo transmitiu a sua própria e delicada agitação mecânica ao fluido que enchia os canais semicirculares do ouvido interno.

 

Em rápida sequência, as vibrações sonoras do ar procedentes de fora do corpo agindo sobre a membrana do tímpano foram convertidas em movimento mecânico no ouvido médio e de novo em ondas fluidas nos canais semicirculares do ouvido interno. Deslocando-se através destes, os diminutos impulsos do movimento ondulatório excitaram as sensíveis extremidades dos órgãos de Corti, extremidades sensorais do próprio nervo auditivo, assim como a pele da extremidade dos dedos constitui os órgãos de sensação do tacto, temperatura e dor.

 

Digerido, analisado e comparado com outras informações armazenadas no cérebro ao longo de anos de estudo na Escola Médica e hospitais, o quadro geral foi submetido pronta e inconscientemente a uma análise mais complexa que qualquer outra realizada pelos circuitos eléctricos dos computadores construídos pelo Homem.

 

- Tamponamento cardíaco! - diagnosticou Marisa Feldman em voz alta, sem disso se aperceber.

 

Ao erguer os olhos, pressentiu pela expressão horrorizada do interno que se esforçava por introduzir o tubo de plástico entre os dentes do ferido, reflectida no semblante da enfermeira-chefe que aparecera a seu lado, que haviam reconhecido a vítima, todavia isso carecia de significado para ela.

 

Quando contemplara pela primeira vez aquele homem coberto por um lençol, na maca, compreendera que algo não se ajustava à declaração habitual e fria de «morto à chegada». O delicado murmúrio sonoro no estetoscópio revelara que o coração do moribundo lutava instintivamente para preservar a vida, pugnava contra a pressão constringente do sangue que se acumulava no reduzido espaço da sua membrana protectora, numa tentativa desesperada para conservar a existência.

 

Mas Marisa Feldman sabia que aquele movimento imperceptível do coração se extinguiria de um instante para o outro, se a pressão não fosse aliviada dentro de poucos segundos. Por conseguinte, sem perda de tempo, resolveu fazê-lo.

 

Eram quase cinco horas da tarde quando Janet Monroe saiu do pequeno terraço que ladeava a cantina na nova ala cirúrgica do hospital da Universidade. A curta distância, através de uma passagem fechada, situava-se a Unidade Especial de Cuidados Intensivos, onde ela trabalhava como enfermeira-chefe. Em vez da refeição completa a que tinham direito os membros do corpo de enfermagem nos turnos de oito horas, Janet preferira tragar uma sanduíche com café. Desse modo, podia aproveitar quinze dos trinta minutos concedidos para a refeição no intuito de efectuar uma breve visita ao Centro de Cirurgia Infantil, alguns andares abaixo, onde Jerry se encontrava internado.

 

A alegria que despontara no rosto do filho quando a vira originara-lhe um aperto no coração. Ela não recebia uma pensão avultada do divórcio de Cliff Monroe, pois ele ainda necessitava de trabalhar dois anos como residente e era desumano, e impossível, sangrar um anémico. Restara-lhe a única solução de trabalhar depois de divorciada, deixando Jerry, todas as tardes, depois das três, na creche do hospital e da Escola Médica, numa dependência da cave do edifício para os estudantes casados, atendendo assim às necessidades das mães empregadas, a maioria das quais tinha os maridos na Escola Médica ou actuando como residentes. Outras, como ela, exerciam as funções de enfermeira, para se manterem e aos filhos, na sequência dos divórcios em que terminavam tantos casamentos com os estudantes de Medicina.

 

O que a preocupava não era o aspecto de Jerry, mas o facto de os médicos do hospital ainda não terem chegado a uma conclusão sobre a causa do repentino ataque convulsivo que o acometera dois dias antes.

 

Era a sua noite de folga e Janet vestia-se no pequeno apartamento que partilhava com Jerry - excepto das 15.00 às 23.00, seis vezes por semana -, para se encontrar com Jeff Long e irem assistir a um concerto de música popular no Anfiteatro Municipal. Jerry brincava no pátio e ela surpreendera-se ao vê-lo abrir a porta e encaminhar-se para o quarto, pois, em geral, insistia em ficar lá fora até anoitecer, entretido com as outras crianças. Só quando a mãe estava de folga é que passavam mais tempo juntos.

 

Jerry achava-se no meio do quarto quando Janet se apercebeu da existência de algo anormal. Em regra, o garoto surgia correndo, porém, agora, movia-se com notável lentidão e, em dado momento, pareceu na iminência de cair, como se tivesse tropeçado na carpeta. Encontrava-se muito cansado e, quando ela o tomou nos braços, apoiou-lhe a cabeça no peito.

 

- Dói-me a cabeça - lamentou-se em voz débil. - Posso tomar uma aspirina infantil, mamã?

 

Janet comprazeu-o, ao mesmo tempo que procurava persuadir-se que não se tratava de nada de cuidado. Quando lhe deu a beber um pouco de água para impelir o comprimido, o petiz pareceu ligeiramente sufocado, mas não devia ser nada de importância.

 

- Queres deitar-te? A senhora Bodey dá-te o jantar mais tarde.

 

Referia-se à viúva que morava perto e, para robustecer a modesta pensão que recebia, fazia de baby-sitter, à noite.

 

- Está bem, mamã.

 

Ela levou-o para a cama e sentou-se a seu lado, após o que principiou a cantarolar e acariciar-lhe o rosto. Em dado momento, ponderou a conveniência de telefonar a Jeff Long, a fim de cancelar o encontro. Depois de se divorciar de Cliff, Janet estivera um ano inteiro sem sair, até que Jeff a persuadira a dar uma volta de vez em quando, no interesse da sua própria sanidade emocional.

 

Ele tinha razão, como, de resto, acontecia sempre. Um anestesista-residente não se podia enganar, consoante sublinhara com o habitual sorriso agradável, que ela se habituara a estimar.

 

Agora, sentada junto da cama do filho, Janet reconhecia que necessitava de resolver a situação, de uma maneira ou de outra. Por muito que amasse o rapaz, parecia-lhe injusto sobrecarregá-lo com o filho de outro homem, conquanto Jeff o adorasse. Por outro lado, não estava certo que lhe permitisse que continuasse a amá-la, sem qualquer esperança de casamento.

 

Supunha que Jerry adormecera, quando surgiu a primeira convulsão, que obrigou o pequeno corpo a contrair-se num espasmo e a revirar os olhos.

 

Não era a primeira vez que a situação se apresentava, pois o facto já se registara quando o garoto tinha apenas um ano. Embora consciente do que ocorria, Janet não se abandonou ao desespero e, apertando o filho ao peito, dispôs da presença de espírito necessária para notar que um dos lados do corpo se contraía mais que o outro. Todavia, no instante em que os movimentos convulsivos cessaram e Jerry revirou os olhos, sem indícios de respiração, o coração dela quase se imobilizou.

 

Afortunadamente, sabia o que devia fazer. Não serviria de nada chamar o médico, porque tardaria demasiado. O pronto-socorro do hospital encontrava-se apenas a alguns quarteirões e o estabelecimento contava com profissionais especializados, sobretudo Jeff Long e o possante e eficiente Ed Harrison, excelente amigo além de residente do Departamento da Pediatria.

 

Enquanto conservava Jerry nos braços, este recomeçou a respirar de forma estertorosa, como uma pessoa roncando. Janet voltou a depositá-lo na cama, enfiou rapidamente um vestido de algodão e pegou nas chaves do Volvo, única extravagância que se permitira desde o divórcio, havia dois anos.

 

A respiração do garoto apresentava-se mais normal, quando o colocou no banco do carro, a seu lado. A enfermeira-chefe da Sala de Emergência chamou imediatamente Ed Harrisson e JefFLong e, a partir do momento em que a eficiente rotina hospitalar começou a desenrolar-se à sua volta, Janet reconheceu que o pânico se extinguia gradualmente. O episódio ocorrera dois dias antes, contudo o Dr. Deemster, professor de Pediatria, resolvera submeter o petiz a um período de observação, e Ed explicou o motivo:

 

- Acontece com frequência esses casos serem produzidos por uma pequena hemorragia no espaço subaracnóide em redor do cérebro. Se efectuássemos uma punção raquidiana neste momento, podíamos alterar a pressão e aumentar a hemorragia.

 

- Não se pode fazer nada?

 

- Vou dar-lhe um pouco de fenobarbital, para que se acalme. Dentro de dias procederemos à punção e veremos o que se nos depara. Entretanto, realizaremos outros testes e exames.

 

Era aquele o dia, pois a enfermeira da secção revelara-lhe que, cerca das seis horas, o Dr. Rogan procederia a um exame neurológico e talvez executasse a punção. Ed prometera transmitir-lhe o resultado, porquanto o futuro de Jerry dependia dele.

 

Janet decidira varrer do pensamento os problemas que a preocupavam, e contemplava a mancha escura das montanhas, ao longe. Desde aquele dia, dois anos antes, em que ao voltar do serviço não encontrara as coisas de Cliff, habituara-se a não pensar em nada, de vez em quando, de contrário enloqueceria. O marido deixara um bilhete sobre o toucador, explicando que Jerry se encontrava em casa da senhora Bodey, e não voltara a aparecer. Pouco depois, Janet pedira o divórcio que ele tanto desejava.

 

Consultando o relógio, viu que eram cinco horas e levantou-se no instante exacto em que o altifalante da cantina, onde lanchara, transmitia o apelo dramático: «Alerta cardíaco! Convoca-se todo o pessoal!»

 

Empertigou-se com prontidão, pois o seu lugar de serviço situava-se na Unidade Especial de Cuidados Intensivos. Se fosse o coração de Jerry que tivesse parado, ela não perdoaria ao pessoal se o filho morresse por falta da comparência de alguém.

 

«Pode perfeitamente ser Pete», foi o primeiro pensamento de Amy Brennan ao inteirar-se das alarmantes informações da rádio. Lorrie era absolutamente amoral e estava sempre preparada para acrescentar mais um escalpo masculino à sua longa e variada colecção. Pete revelava toda a virilidade possível, enquanto a mulher descurava imperdoavelmente os deveres de esposa. O simples facto de pensar nisso levou-a a pisar o acelerador com intensidade, enquanto o locutor revelava novos pormenores sobre a tragédia, excepto o que ela desejava e receava ouvir.

 

Preparava-se para abandonar a auto-estrada quando verificou que o ponteiro do indicador de gasolina se aproximava alarmantemente da palavra «Vazio», pelo que se deteve na primeira estação de serviço que se lhe deparou. Entretanto, avistando um telefone público a um canto, apeou-se, pediu ao empregado que lhe trocasse dinheiro e enchesse o depósito do carro, aproximou-se do aparelho e discou o número do hospital.

 

- Fala Amy Brennan - anunciou em voz que se esforçou por tornar firme. - Ligue-me ao gabinete do meu marido, por favor.

 

- Lamento imenso, senhora Brennan, mas há um alerta cardíaco e não podemos fazer qualquer ligação de fora do hospital.

 

- Alerta cardíaco, porquê?

 

- Acabamos de receber um caso de coração extremamente grave. Todas as linhas devem conservar-se livres até ao final do alerta.

 

- É... é um dos médicos daí?

 

- Julgo que sim. ;

 

- Pode revelar-me?...

 

- Desculpe, mas estão a chamar dos raios X.

 

Cada vez mais apreensiva, Amy pousou o auscultador e abandonou a cabina. Quando o empregado se aproximou com uma pequena prancheta, ela mostrou-lhe o cartão de crédito e voltou a guardá-lo, depois de assinar na linha

Respectiva.

 

«Oxalá Deus permita que não seja Pete», reflectiu, encaminhando-se para o carro em movimentos quase automáticos.

 

Maggie McCloskey e Grace Hanscombe não ficaram para assistir ao resto da transmissão. Assim que no pequeno écran a ambulância desapareceu no fundo da rua, a primeira mudou de cor e afastou-se cambaleando para a porta de acesso ao toucador das senhoras, e a forma como se deslocava revelava claramente que não conseguiria o seu objectivo sem ajuda. Lembrando-se que era presidente da comissão do clube, Grace ponderou que necessitaria de mandar lavar a carpeta na eventualidade de um acidente e segurou Maggie pela cintura.

 

Impelindo-a com eficiência pela porta do Buraco Dezanove, atravessou o corredor, abriu a porta do toucador das senhoras com um pontapé e conduziu Maggie para um dos cubículos, segundos antes de principiar a vomitar.

 

- Água! - pediu esta última transcorridos uns momentos de sons convulsivos, que a outra escutou com estoicismo.

 

Grace pegou num copo, encheu-o na torneira de um dos lavatórios e entregou-lho, recomendando:

 

- Se te parece que vais desmaiar, enfia a cabeça na sanita.

 

- Vai para o diabo! - vociferou Maggie, quando conseguiu equilibrar-se o suficiente para se acercar do lavatório, onde molhou as faces. - Porque me tratas como uma porca?

 

- Porque és uma porca! - explodiu Grace. - Encher o estômago de álcool depois de uma dose incrível de pizzal

 

- Isso não acontecia se não estivesse alarmada.

 

- Por causa de Joe?

 

- Porque não?

 

- Apoquentas-te um pouco tarde, não achas? De resto, não te preocupas em saber se o ferido é ou não Joe, mas se passarás a receber o dobro da pensão. E crucificaste-o num tribunal de divórcio, só porque não conseguiste proporcionar-lhe o que todo o homem tem direito de exigir da mulher com quem casa.

 

- Cadela inglesa! Julgas que não sei que tu e Joe dormiram juntos naquele congresso de Medicina, quando eu   e George nos ausentámos? Mas aposto que   não gozaste nada.

 

- Apesar de não ser da tua conta, garanto-te que Joe é um autêntico homem, cabra frígida!

 

- Se o apanho, sou capaz de o estrangular! Contar uma coisa dessas a outra mulher... Tenho culpa de que ele nunca conseguisse excitar-me?

 

- Pois olha que me excitei imenso com ele e tenho experiência de homens.

 

- Disso,’não me resta a mínima dúvida! Todos afirmam que George te conheceu num bar, mas nunca acreditei, porque foi certamente num bordel.

 

Grace, que já se movia para a porta, virou-se com a mão pousada no puxador.

 

- Para tua informação, em 1945, eu trabalhava num bar de Londres. Naquela época, a vida era difícil e a minha ocupação revestia-se da máxima respeitabilidade, ouviste? Tenho sido uma boa esposa para George e se continuas a vomitar insinuações torpes, faço-te em pedaços.

 

- Não te admito ameaças.

 

- Trata dessa bebedeira antes que se transforme em delirium tremens. Depois, vai ajoelhar aos pés de Joe e pede-lhe que te volte a aceitar e ensine a ser uma mulher a valer. Não compreendo porquê, mais ainda te ama.

 

- Como... como o sabes?

 

- Em geral, os homens confessam a verdade quando bebem de mais ou praticam o amor. - Com um sorriso malicioso, Grace acrescentou: - Deve ser por isso que os psicanalistas têm   sempre um divã no consultório. Crê no que te digo: Joe ainda te ama. Se não foi ele que Mort atingiu (ou, em caso afirmativo, se escapar), roga a Deus que não seja demasiado tarde para regressares aos seus braços.

 

E saiu, batendo com a porta. Quando atravessava o corredor, avistou um grupo de homens e mulheres ainda reunidos em torno do televisor no Buraco Dezanove, mas preferiu não tornar a entrar. Em vez disso, examinou a passadeira e verificou com satisfação que, graças à sua pronta e eficiente intervenção, Maggie não a manchara. Finalmente, dirigiu-se ao Bar das Senhoras, agora deserto, e pediu ao bartender:

 

- Um whisky duplo com água, Manuel. - Notando o assombro do homem, estendeu a mão para a garrafa e sublinhou: - Não esqueça que sou inglesa e já passa das cinco da tarde.

 

Todavia, não teve oportunidade de saborear a bebida, pois Maggie surgiu do toucador e, apoiando-se ao balcão, inquiriu:

 

- Alguma novidade?

 

- Não. A rádio informou que levaram o homem para o hospital, mas não revelou o nome. Arthur Painter ligou para lá, sem resultado. Toma alguma coisa. Pareces uma ressuscitada arrependida.

 

- Vou para o hospital - anunciou Maggie, movendo-se de novo para a porta. - É possível que Joe nunca precisasse de mim, mas se era ele que estava com Lorrie necessitará do meu sangue. Somos ambos do tipo Rh negativo, que se encontra com muita dificuldade.

 

- Espera aí. Não estás em condições de guiar. - Grace esvaziou o copo de um trago, pois procurava um pretexto para visitar o hospital e não queria perder aquele. Quando avistou Delia Rogan à entrada do Buraco Dezanove, perguntou-lhe: - Queres vir ao hospital?

 

- Pois sim - assentiu a interpelada, após breve hesitação. - Se chegarem primeiro, esperem por mim, para entrarmos juntas.

 

- Combinado - concordou Grace. - Deus sabe que precisamos de nos amparar mutuamente.

 

 

 

Janet Monroe já percorrera a passagem que ligava a Unidade Especial de Cuidados Intensivos à nova ala de cirurgia quando a voz da telefonista suspendeu a chamada através dos altifalantes. O seu primeiro movimento consistiu em lançar uma olhadela ao painel dos osciloscópios na parede, obedecendo ao instinto profissional incutido durante o período de treino, para que o pessoal reagisse automaticamente, quando soasse o alarme de que uma vida humana se encontrava em perigo em virtude da incapacidade do coração para manter a sua função.

 

- Ouvi a chamada do beeper - declarou o Dr. Stirling Kent, enfiando a cabeça pela porta da sala dos gráficos. Algo ofegante, ainda conservava na mão um aparelho semelhante a um pequeno transistor, que os médicos do estabelecimento costumavam levar na algibeira para serem localizados com facilidade e prontidão em qualquer   altura.   Assim   que   no   pequeno   receptor   soava um sinal intermitente, o portador utilizava imediatamente o telefone mais próximo para averiguar o que pretendiam dele. - Tomava um refresco e vim a correr acrescentou. - Que se passa?

 

- Não faço a menor ideia - replicou Janet.

 

- Ajude-me a decidir quem vamos transferir - solicitou o jovem médico. - Temos de o fazer sem demora.

 

Com efeito, na eventualidade de um alerta como o actual, impunha-se que um dos quartos do departamento ficasse imediatamente disponível, ainda que isso envolvesse a remoção de um dos pacientes, sem dúvida em condição menos crítica que o recém-chegado.

 

Dirigiu o olhar para o quadro dos monitores de TV e osciloscópios, como Janet fizera no instante do alerta. Os gráficos registados eram tão variados quanto se torna possível a coisas fundamentalmente semelhantes - linhas compostas por elevações, depressões e rendilhados, à medida que os impulsos eléctricos gerados em cada coração subiam ou desciam.


- A senhora Taylor ainda está em fíbrilação. Portanto, não interessa. O intervalo P-R de Dignan continua o dobro do normal e ele pode entrar em ritmo ventricular a qualquer momento.

 

- A senhora Sanborn ainda não está compensada prosseguiu Janet. - E o senhor 0’Toole teve novo enfarte, esta manhã. Precisam todos de ser observados pelos monitores, mas o regulamento indica que devemos desocupar um quarto sem demora. O Dr. Hanscombe explode, se não prepararmos o terreno e houver um caso agudo de coronárias.

 

- Inclino-me mais para o tiro disparado por esse Dellman

- disse Stirling Kent.

 

- O quê?

 

- Vi na televisão do bar, quando tomava o refresco. O Dr. Dellman surpreendeu um ilustre colega deitado com a mulher, há poucos minutos, e alvejou-os. Ela morreu e o amante está gravemente ferido, na Sala de Emergência.

 

- Loretta Dellman? É incrível.

 

- Foi o que o locutor disse.

 

- Prestei-lhe assistência uma vez, perto do final do meu curso. É difícil imaginá-la morta, com o amor à vida que tinha.

 

- A avaliar pelos boatos que circulavam pelo hospital, havia várias outras coisas a que tinha amor - comentou o médico, secamente. - Os internos e os estudantes, por exemplo.

 

- Ora! Mexericos.

 

- Se era um médico de renome que se encontrava com ela, pode tratar-se de qualquer dos fulanos daqui. Quem terá sido o infeliz?

 

Alheando-se das observações do Dr. Kent, Janet continuou com o relatório:

 

- Quem tem menos a perder é a senhora Tatum. Além de cardíaca, sofre de um tumor maligno muito adiantado.

 

- Talvez lhe prestemos um favor, retirando-a dos monitores. Vou-lhe expor a situação, enquanto você procura um servente para levar a cama. - Kent abanou a cabeça.

- Estou ansioso por ver quem é o médico ilustre.

 

No conjunto de cirurgia principal, realizavam-se duas intervenções, uma das quais de importância reduzida, quando o altifalante da sala das enfermeiras transmitiu o alerta, ouvido pelas duas alunas que preparavam tabuleiros de instrumentos para esterilização posterior em enormes autoclaves. Nas salas de operações não havia altifalantes, pois os cirurgiões necessitavam de se concentrar no trabalho que executavam sem serem perturbados pelo fluxo contínuo de avisos emitidos a todo o instante, ao longo do dia.

 

- É melhor prevenir a senhora Straughn - opinou Millie Cash, a aluna mais adiantada de serviço na sala de operações.

 

- Porquê?   -   quis   saber a outra, que frequentava o segundo ano.

 

- Em geral, trata-se de um caso de paragem cardíaca. Portanto, necessitamos de preparar uma das salas de operações, para o caso de ser preciso abrir o tórax para massagem ao coração. Bem sei que, com o pacemaker e esse método novo de proceder à ressuscitação com o tórax fechado, eles poucas vezes recorrem a esse processo.

 

- Deve ser interessantíssimo, hem?

 

- Nem por isso - proferiu Millie, com a presunção de mais dois anos de experiência. - Num caso desses, os médicos estão sempre enervados e, se não conseguem fazer o coração funcionar em poucos minutos, o paciente torna-se um vegetal em virtude das lesões cerebrais provocadas pela falta de oxigénio. É melhor avisar já a senhora Straughn, antes que tragam o paciente para, proceder à toracotomia sem ela saber, de contrário estou servida.

 

À semelhança de todas as enfermeiras que prestavam serviço no conjunto cirúrgico, ela usava bata comprida verde-clara. Ajustando sobre o nariz e boca a máscara pendurada ao pescoço, transpôs a porta de vaivém de acesso ao anfiteatro cirúrgico. Em volta da mesa em que jazia o paciente encontravam-se um cirurgião de meia-idade, o cirurgião residente, Cari Hagstrom, uma enfermeira responsável pelos instrumentos, outra encarregada das compressas e o anestesista Jeff Long.

 

Ao aperceber-se do ranger dos gonzos, Helen Straughn voltou-se para Millie Cash com uma expressão de desagrado, como se pretendesse recordar-lhe que convinha entrar e sair da sala de operações apenas o rigorosamente necessário.

 

No entanto, antes que a enfermeira-chefe iniciasse uma admoestação, Millie anunciou:

 

- Alerta cardíaco, senhora Straughn.

 

A atitude de Helen alterou-se imediata e radicalmente.

 

- Deixe-se estar aqui, enquanto abro a embalagem de toracotomia de urgência na Sala Quatro - determinou com firmeza. - Se houver necessidade, retiraremos a enfermeira das compressas. - Baixou a voz para acrescentar:

- Não perca de vista a fronte do Dr. Whetstone. O caso está difícil e ele começa a transpirar.

 

Millie aquiesceu com uma inclinação de cabeça e aceitou a compressa dobrada que a enfermeira-chefe lhe estendia. Quando se aproximou da mesa, o Dr. Whetstone enrugou a fronte. Embora a temperatura ambiente do local nunca variasse, no Verão ou Inverno, ele tinha as faces vermelhas e gotas de suor principiavam a perlar-lhe a fronte, indício óbvio de que experimentava dificuldades.

 

- Onde está a senhora Straughn?

 

Cirurgião-assistente que só operava no hospital esporadicamente, revelava-se muito cioso do tratamento que lhe dispensavam e insistia sempre em que a sala de operações estivesse conliada a Helen Straughn.

 

- Alerta cardíaco - informou   Millie.   -   A   senhora Straughn foi abrir a embalagem de toracotomia na S. O. Quatro.

 

- Temos um novo regulamento para os casos de paragem cardíaca, desde a chegada do Dr. Dieter - esclareceu Cari Hagstrom. - Assim, todos os que estiverem familiarizados com o processo de ressuscitação a tórax fechado comparecem imediatamente no local. Mas na eventualidade de se tornar necessário massajar o coração, preparamos também uma sala para a toracotomia.

 

- O que, por sorte, acontece cada vez mais raramente grunhiu Jeff Long, por detrás da armação metálica que mantinha os lençóis afastados do rosto do paciente e, ao mesmo tempo, assinalava a barreira entre o campo operatório esterilizado e a área potencialmente contaminada fora dele. - É espantoso como, às vezes, um bom murro no peito pode fazer reviver um homem morto.

 

- Oxalá não tenhamos de socar este, doutor - replicou Whetstone.

 

Millie adiantou-se com prontidão e limpou a fronte do cirurgião, antes que este voltasse a inclinar-se para a frente.

 

A operação prosseguiu em silêncio por uns minutos, até que o cirurgião se afastou da mesa, recomendando:

 

- Pode fechar, Dr. Hagstrom. Cromada para a aponeurose e de seda para a pele, em pontos separados.

 

- Perfeitamente, doutor.

 

Outro menos pomposo que Whetstone teria notado a inflexão sarcástica na voz de Cari Hagstrom. Ordenar a um homem com cinco anos de prática cirúrgica como devia fechar uma incisão era mais ou menos o mesmo que explicar a um perito de relojoaria qual o melhor tipo de mola a empregar em determinado maquinismo.

 

Helen Straughn reapareceu no instante em que o Dr. Whetstone acabava de sair e anunciou:

 

- Há um ferido com uma bala no coração, na Sala de Emergência. O Dr. Dieter vem aí e quer que proceda à anestesia, Dr. Long, se for necessário intervir. Já mandei chamar uma enfermeira anestesista para o ajudar. Quando o Dr. Hagstrom terminar aqui, Miss Tyndall, pode passar à Sala Quatro, para se encarregar das compressas, na hipótese de se proceder à toracotomia. Um interno tratará dos instrumentos.

 

- Quem alvejou quem? - perguntou Hagstrom, enquanto fechava a ferida.

 

- Nada sei quanto ao segundo quem - replicou Helen Straughn. - Mas o primeiro foi o Dr. Dellman. Segundo parece, surpreendeu um homem deitado com a esposa.

 

- Safa! - interpôs Jeff Long, assobiando. - Trata-se de algum conhecido nosso?

 

Era exactamente a interrogação que acudira igualmente ao espírito de Helen Straughn. Podia muito bem ser o Dr. Pete Brennan, e só de admitir a possibilidade sentiu um arrepio.

 

O coração humano é simultaneamente o órgão mais protegido e mais vulnerável do corpo humano, sendo a sua vulnerabilidade criada pela própria natureza da protecção. Encerrada num saco espesso, fibroso e relativamente rígido chamado pericárdio, a bomba da vida principia a contrair-se ritmicamente quando o corpo é pouco mais que uma célula e ainda não existe sangue nem artérias por onde possa circular.

 

Os homens discutem desde longa data se a morte constitui a paragem da função de algum centro cerebral onde a alma se oculta, com todas as funções orgânicas em diminuição gradual até pararem por completo, uma vêz que ocorre o fim do ser humano como indivíduo e personalidade, ou se se verifica somente quando o coração pára e o cérebro deixa de receber sangue, provocando assim a morte das próprias células cerebrais.

 

Qualquer que seja o seu mecanismo, não é raro sobrevir a morte quando os tecidos moles entre as costelas se deixam perfurar por uma aguçada lâmina de aço ou bala de chumbo que penetra através da espessa parede muscular do coração, produzindo uma abertura que funciona como uma válvula. A cada palpitação cardíaca, o sangue é expelido através da pequena abertura na parede do miocárdio, acumulando-se no interior do saco pericárdio, de onde não pode regressar em virtude da quebra de pressão dentro das cavidades do coração, que se vão enchendo para nova palpitação. A contracção da parede muscular provoca o esguicho de nova quantidade de sangue para o interior do rígido saco pericárdico. Como não tem por onde sair, a quantidade de sangue vai-se avolumando dentro do pericárdio, a cada pulsação cardíaca.

 

A leis da Física estabelecem que dois corpos não podem ocupar o mesmo lugar no espaço e ao mesmo tempo. Por conseguinte, um deles tem de ceder, e só pode ser o coração, mais mole, o qual aspirando, numa tentativa para manter a circulação, fica cada vez com menos espaço para funcionar. Desse modo, o sangue que se escapa dele, através da pequena ferida, a cada palpitação, vai comprimindo o órgão, como faria deliberadamente a mão de um assassino. Por fim, deixa de poder funcionar e pára, condição conhecida por tamponamento cardíaco.

 

Marisa Feldman reconheceu os sintomas clínicos do tamponamento no instante em que os elementos acumulados no seu cérebro, quando contemplou pela primeira vez o corpo imóvel, lhe indicaram o que se desenrolava no interior do tórax de um indivíduo aparentemente morto. Aos seus ouvidos experientes, o rumor suave detectado através do estetoscópio apenas podia significar uma coisa: clinicamente, a morte ainda não se verificara. Portanto, o mecanismo intrínseco de controlo do coração, o músculo, as fibras de Purkinje, o feixe de His, formando um sistema de comunicações constituído por um tecido nervoso especial no interior do coração e que assegurava o funcionamento independentemente do controlo nervoso do cérebro

- tudo isto continuava a tentar manter a bomba em actividade, embora o músculo cardíaco já não dispusesse de espaço para se dilatar e encher as cavidades ’de sangue, após as contracções.

 

- Tamponamento? - perguntou o interno a contas com os tubos do ressuscitador, ecoando as terríveis palavras de Marisa, que acabava de retirar o estetoscópio dos ouvidos.

 

Pela sua expressão, ela apercebeu-se de que ele procurava recordar o que estudara sobre o assunto, mas não perdeu tempo com explicações. Tornava-se indispensável actuar imediatamente, no intuito de preservar, nutrir e fortalecer aquele coração enfraquecido. E devia efectuar-se tudo em escassos segundos, antes que os centros cerebrais fossem iireversivelmente lesados, em resultado da falta do fluxo vital de oxigénio que a corrente sanguínea lhe devia transportar.

 

- Uma seringa de ciquenta centímetros cúbicos! Agulha número dezoito!


Estas palavras de Marisa galvanizaram o pessoal da ; Sala de Emergência, que principiou a agir com decisão. A enfermeira-chefe, uma mulher de cabelos brancos, cujos longos anos passados ao lado de homens e mulheres nos seus piores momentos tinham habituado à acção imediata, moveu-se sem perda de um instante, pegando numa embalagem esterilizada de uma prateleira de vidro de uma mesa e abrindo-a com a maior rapidez.

 

Sem se preocupar com a possibilidade de uma contaminação, pois uma infecção constituía o mal menos importante que poderia acontecer àquele paciente, Marisa adaptou a agulha à seringa e, num movimento firme e eficiente, enfiou a ponta aguçada através da pele à esquerda do esterno, no terceiro espaço intercostal abaixo da clavícula. Orientando o eixo da agulha entre as espessas cartilagens que uniam as extremidades das costelas ao externo, introduziu-a cada vez mais até sentir um pequeno estalido na mão, no momento em que o instrumento penetrou no saco pericárdico completamente dilatado.

 

À vista do sangue que brotava para o interior da seringa, quando a agulha penetrou no saco que circundava o coração, o grupo de espectadores que se comprimia à porta do cubículo emitiu um murmúrio. Ninguém sabia explicar como as notícias se propagavam pelo hospital, mas a verdade era que um caso grave na Sala de Emergência, situada quase a um quarteirão dos alojamentos dos internos, podia fazer afluir, em escassos segundos, uma dúzia de espectadores interessados.

 

À cabeceira da mesa, o interno de serviço na sala acabava de introduzir o tubo de ar pela boca e garganta do ferido. O tubo de plástico curvo e achatado para tornar mais fácil a introdução, destinava-se a conservar a língua para a frente e manter a traqueia, canal pelo qual o ar passa para os pulmões, desimpedida. À extremidade externa do tubo adaptou uma máscara ligada por tubulações flexíveis a um respirador.

 

Esta máquina de salvar vidas, extremamente complexa, consistia num depósito de oxigénio e válvulas especiais que permitiam aumentar a pressão suficientemente para dilatar os pulmões e depois se fechavam ao mesmo tempo que se abria uma saída pela qual se escapavam os gases provenientes dos pulmões no momento em que se esvaziavam. Enchendo e esvaziando-os alternadamente, o aparelho realizava uma respiração simulada muito melhor do que recorrendo a qualquer outro método.

 

Enquanto a seringa na mão de Marisa se enchia rapidamente, a enfermeira preparava outra. Por fim, destacando a seringa, já cheia, da agulha, Marisa substituiu-a pela outra, vazia, que a enfermeira acabava de lhe entregar, a qual, por seu turno, esvaziou o sangue escuro numa bacia esterilizada, conservando uma pequena parte, que foi colocada num tubo de ensaio, a fim de ser enviada ao laboratório, para determinação do tipo sanguíneo.

 

- É melhor misturar um pouco de citrato - recomendou Marisa, sem desviar os olhos da segunda seringa, que se enchia com rapidez, à medida que ela puxava o êmbolo. Talvez ele venha a precisar desse sangue para transfusão.

 

- Tamponamento, Dra. Feldman? - inquiriu uma voz gutural, com notável sotaque germânico.

 

Apesar da concentração na tarefa vital, Marisa empertigou-se involuntariamente. Junto à mesa, encontrava-se um homem corpulento, a cuja passagem todos tinham cedido o lugar respeitosamente. Como assistira à reunião do corpo médico na tarde anterior, ela reconheceu a voz do Dr. Anton Dieter, brilhante cirurgião torácico e cardíaco, todavia o sotaque fazia-lhe acudir recordações que procurara explusar do espírito durante os anos passados em Harvard, Inglaterra. Refugiado da Alemanha Oriental, Dieter criara sólida reputação naquelas especialidades, muito antes de se sentir atraído para Weston e o hospital da Universidade, onde não tardara a destacar-se.

 

- Ia a passar e reconheci os sintomas - informou Marisa.

 

- Gut! Injectou adrenalina no coração?

 

- Ainda não. Pareceu-me mais importante extrair primeiro o sangue do pericárdio.

 

- Muito bem. Eu injectarei a adrenalina. Enfermeira: uma seringa e uma agulha longa, por favor. E mande trazer o carro com o pacemaker.

 

Dieter ainda não acabara de pronunciar as últimas palavras e já tinha na mão uma seringa com uma agulha longa e fina. Ao mesmo tempo, a enfermeira colocou sobre a toalha esterilizada em que estivera embrulhada uma ampola de adrenalina, também esterilizada, no intuito de estar pronta para qualquer emergência, retirada de um frasco com álcool. Com uma pequena lima extraída do mesmo frasco, o Dr. Dieter serrou a extremidade mais estreita da ampola, que conservava na mão com uma gaze, para evitar qualquer corte com os fragmentos de vidro, após o que aspirou o conteúdo para dentro da seringa.

 

- Com licença, fraulein... doutora.

 

Segurando a seringa com firmeza, as mãos dele passaram por entre as de Marisa e a agulha foi cravada através da parede do tórax, mais ou menos dois centímetros abaixo do ponto em que ela introduzira a sua. Embora não tocassem nas de Marisa, esta necessitou de se afastar um pouco enquanto segurava a seringa cheia de sangue, a qual acabou por confiar à enfermeira, recebendo outra, vazia.

 

- Quanto aspirou já doutora? - inquiriu Dieter.

 

- Cento e cinquenta centímetros cúbicos.

 

- Depois se vê o resultado.

 

Cerca de cinco centímetros da agulha da pequena seringa na mão de Dieter já tinham penetrado no peito do paciente, o suficiente para atingir a porção muscular do coração. Quando ele puxou o êmbolo, não aspirou sangue algum, o que indicava que a ponta se encontrava dentro do músculo. Injectando metade do conteúdo, cravou um pouco mais a seringa, até que o anel de metal produziu uma pequena depressão na pele. Nessa altura, injectou o resto do líquido na cavidade cardíaca em que penetrara e, num movimento repentino, extraiu a agulha e a seringa.

 

Ninguém tinha a mínima dúvida sobre quem orientava agora a operação, quando o médico residente que acompanhara Dieter impeliu o pequeno carro com os monitores e o estimulador eléctrico denominado pacemaker para junto da mesa. Marisa sentia-se levemente melindrada por ter sido relegada, por assim dizer, para segundo plano. No fundo, fora ela quem reconhecera que o paciente podia ser salvo e efectuara tudo o que a situação impunha. Mas o alerta cardíaco fizera que todos os médicos disponíveis do hospital participassem na emergência, pelo que não podia censurar o Dr. Dieter por haver surgido.

 

Uma vez mais, apareceram no campo visual de Marisa as mãos firmes e ágeis do cirurgião germânico, agora para pegar nos cabos isolados de um par de eléctrodos ligados ao pacemaker, na. extremidade de cada um dos quais existia um disco metálico, o eléctrodo, com um fio que conduzia à máquina. Evitando interferir no trabalho dela, Dieter colocou os eléctrodos metálicos sobre a pele do peito do paciente, um de cada lado da agulha que Marisa introduzira.

 

- Creio que o coração está a fibrilar - mumurou ela. Consegui detectar um som muito fraco no estetoscópio, mas sem qualquer ritmo.

 

- Sim? Nesse caso, vamos aplicar-lhe uma sacudidela sumplementar.

 

Dieter transmitiu instruções rápidas para ajustar os comandos do pacemaker ao residente que o acompanhara. Em caso de fibrilação, em que o coração perde por completo o seu ritmo normal, substituído por condições totalmente desorganizadas, acontece com frequência o impulso repentino de uma poderosa corrente eléctrica obrigá-lo a regressar à sua actividade rítmica normal.

 

- Carregue no botão, por favor - indicou o alemão. A máquina zumbiu por um momento e parou. Todavia,

 

naquele instante, uma corrente eléctrica irrompeu das bobinas, válvulas e díodos do pacemaker, para percorrer o fio de um dos eléctrodos, penetrar no coração quase parado por baixo da parede do tórax, atravessar o músculo cardíaco e regressar ao aparelho pelo segundo eléctrodo, completando assim o circuito.

 

Em resposta ao impulso eléctrico, o coração saltou subitamente como um cavalo esporeado e Marisa sentiu-o palpitar contra a agulha mergulhada no saco pericárdico, fazendo oscilar ligeiramente a seringa que tinha na mão.

 

- Gut! - Exclamou Dieter, ao aperceber-se do movimento da seringa. E ordenou:   - Ajuste o pacemaker para o ritmo normal.

 

Os mostradores indicaram os valores correspondentes, à medida que os ajustamentos eram efectuados, e o aparelho recomeçou a zumbir, agora com menor intensidade, porquanto se tratava de uma corrente mais fraca, mas suficiente para manter uma palpitação rítmica e firme.

 

- Já se nota a pulsação nas têmporas - anunciou o interno que manejava o ressuscitador.

 

- Isso significa que estamos a aspirar o sangue para a circulação - explicou Dieter. - Mas convém que o coração retome o ritmo por si próprio, antes de podermos afirmar que o homem está vivo.

 

Contudo, a dúvida não se prolongou por muito tempo. Assim que o pacemaker principiou a estimular o coração, registou-se uma alteração dramática no ferido.

 

A dilatação dos vasos do pescoço que alertara Marisa do que acontecia desapareceu de súbito, logo que o coração, extraída a maior parte do sangue que se escapara para o pericárdio, encontrou espaço para voltar a funcionar, fazendo que a circulação readquirisse a actividade normal. Por outro lado, com a adequada provisão de oxigénio aspirada para os pulmões, onde se desenrola a permuta normal com o sangue, a coloração azulada da parte superior do tórax, pescoço e rosto começou a adquirir a tonalidade rosada da oxigenação normal.

 

- É um autêntico milagre! - bradou um dos internos.

 

- Ainda não - rectificou Dieter. - O coração bate, os pulmões enchem-se e esvaziam-se e o oxigénio já se encontra no sangue, mas pode dar-se o caso de nos limitarmos a fazer que um cadáver realize os movimentos de um vi... - A brusca1 modificação do ritmo da válvula do ressuscitador obrigou-o a interromper-se. Os estalidos da válvula que enchia os pulmões não se tinham alterado desde que o interno ligara o aparelho. Agora, de repente, o intervalo entre os sons diminuiu e tomou-se irregular, indício inequívoco de que o paciente respirava apenas por si. A força da sua respiração obrigava o aparelho a modificar o ritmo das válvulas. - Respira! Está realmente vivo! Parabéns, Dra. Feldman. Operou uma ressuscitação!

 

 

Quando transpunha, correndo, a porta da Sala de Emergência, no momento em que o relógio batia as cinco, hora em que devia entrar de serviço, Mike Traynor encontrou uma situação dramática: a atraente médica de cabelos escuros cortados curtos extraía sangue do saco pericárdico, enquanto o corpulento Anton Dieter segurava os eléctrodos sobre o peito do paciente e o interno pousava a máscara do ressuscitador no rosto do ferido, ocultando por completo as feições que o poderiam identificar.

 

«Bem», reflectiu. «Desta vez, parece que isto vai animar.»

 

Não tinha a mínima dúvida de que o paciente que se encontrava estendido na mesa era o «insigne médico» mencionado na rádio e na televisão, e esticou o pescoço para tentar averiguar de quem se tratava. No entanto, o rosto do homem estava oculto pela máscara do ressuscitador, e Mike não se atreveu a perguntar o nome a um dos presentes. À semelhança de tantos cirurgiões notáveis, Dieter mostrava-se muito excitável, pelo que não lhe interessava incorrer no seu desagrado.

 

A nova membro da faculdade não era nada má, cogitou no instante em que se concentrou em Marisa Feldman. Chegara havia apenas dois dias, mas já praticamente todos sabiam que era tão experiente na sua especialidade como Dieter na dele. Refugiada e educada na Inglaterra, parecia que se deslocara à Alemanha Oriental para ajudar uns familiares, mas fora presa e internada numa espécie de campo de concentração. Nessa época, os judeus não eram estimados naquela região e os Russos detestavam-nos. Não obstante, ela conseguira evadir-se e concluíra a sua educação na Inglaterra onde, em poucos anos, ingressara como instrutora em Harvard, antes de se fixar em Weston como professora assistente.

 

A circunstância de Marisa Feldman se aproximar dos trinta anos e ser judia não preocupava Mike Traynor, o qual a considerava merecedora de um exame mais profundo. O facto de ele não passar de um aluno e ela pertencer ao corpo docente complicava um pouco a situação, mas por outro lado tornava o problema mais atraente.

 

Naquele momento, o interno que se ocupava do ressuscitador afastou a máscara para ajustar o tubo de ar, e Mike vislumbrou fugazmente o rosto do paciente, o que foi suficiente para que abandonasse logo o cubículo. Na porta da Sala de Emergência, cruzou-se com Lew Saunders, interno, seu companheiro de quarto, ao qual se apressou a pedir:

 

- Substitui-me por dez minutos, Lew. Preciso fazer uma chamada.

 

- Lá estás tu com as tuas fantasias!

 

- Palavra que é um assunto grave. De resto, deve interessar-te ver como procedem naquele caso de coração parado.

 

- Lá isso é verdade. Mas não te demores, porque tenho um encontro.

 

- Entendido.

 

Mike vestiu o casaco que retirou do armário que lhe correspondia, depois de despir o branco que usava em serviço e precipitou-se para a rampa onde passavam as macas retiradas das ambulâncias.

 

Na parede do outro lado do snack-bar, havia várias cabinas telefónicas, numa das quais entrou. Por sorte, recordava-se de ter visto o nome de Hilton no caminho que conduzia ao pavilhão onde deixara Elaine McGill, cerca de uma hora antes. A rápida consulta à lista revelou-lhe a existência de dois números registados no apelido Hilton, um deles interurbano, sem dúvida o do pavilhão.

 

«Que espertalhão!», murmurou, enquanto aguardava que atendessem.

 

De súbito, soltou uma gargalhada. Ele deitara-se com a mulher do «Velho Dermatografia», no pavilhão do lago, e este provocava na mesma altura o maior escândalo da cidade.

 

Elaine McGill foi acordada pela campainha do telefone e, ainda parcialmente aturdida pelo esforço da libertação das emoções que experimentara nos braços de Mike Traynor, da segunda vez que a possuíra, pegou no auscultador e articulou em voz rouca:

 

- Estou...

 

-Elaine?

 

- Sim. Quem fala?

 

- Eu, Mike Traynor. Já sabes?

 

- O quê? Estava a dormir.

 

- Não viste a televisão nem ouviste a rádio?

 

- Não. Que aconteceu?

 

- O maior escândalo da história desta cidade. O hospital procura-te.

 

- Para quê?

 

- Teu marido encontrava-se com a senhora Dellman, esta tarde. O Dr. Dellman alvejou-os a tiro.

 

- Não é possível! - balbuciou ela. - Paul não podia...

 

- Acabo de o ver com os meus próprios olhos na Sala de Emergência. Recebeu um tiro no peito.

 

- Vão   operá-lo?   -   perguntou, amparando-se à cama para não cair.

 

- Quando saí para te prevenir, o Dr. Dieter ainda não tinha decidido nada. O Dr. McGill estava praticamente morto com uma bala no coração, mas uma nova médica do hospital interveio a tempo de o salvar. Não te preocupes. Ele está em segurança nas mãos de Dieter. O tipo é um autêntico génio, no que se refere a anomalias no tórax ou coração.

 

- Vou imediatamente. Diz-lhes isso, por favor.

 

- Não me parece conveniente, atendendo...

 

- Sim. Tens razão.

 

Elaine pousou o auscultador com abruptidão e principiou a vestir-se apressadamente. Paul e Lorrie? Nunca teria admitido semelhante possibilidade. Os outros, sim. Certa ocasião, na «Sociedade de Dissecação», Maggie McCloskey afirmara que tinham todas uma coisa em comum: os maridos haviam dormido com Lorrie Dellman.

 

Mas se Paul fazia aquilo com Lorrie, porque experimentava tanta dificuldade com ela?

 

- Agora, pode administrar apenas oxigénio - indicou Dieter ao interno que se ocupava do ressuscitador. Em seguida, contou as pulsações do paciente. - Cento e vinte, mas regulares e fortes para quem estava morto há poucos minutos. Meçam-lhe a tensão arterial. - Voltou-se para Marisa: - Raciocinou com rapidez, Dra. Feldman. Eu não sei se era capaz de diagnosticar tão depressa.

 

Consciente de que estas palavras, provenientes do eminente Dr. Dieter, representavam um verdadeiro elogio, Marisa resistiu à tentação de lhe agradecer e alegou:

 

- Detectei umas ligeiras palpitações cardíacas com o estetoscópio. Devo retirar a agulha? A hemorragia parece ter parado.

 

- Sim, mas não se afaste. Quando a tensão subir, é possível que o sangue recomece a sair pelo buraco da bala no ventrículo, antes que o possamos fechar. Não restam dúvidas de que entrou pelo peito. Aguém examinou as costas, para verificar se há um orifício de saída?

 

- Não houve tempo. Os tripulantes da ambulância consideravam-no «morto à chegada». Quando o traziam para a Sala de Emergência, notei que as veias do pescoço estavam congestionadas.

 

- Nesse caso, salvou-o realmente da morte, Dra. Feldman

- asseverou ele, arqueando as sobrancelhas.

 

A enfermeira-chefe da Sala de Emergência olhava de um para o outro, enquanto recolhia as seringas e agulhas da mesinha, perguntando a si própria o que existiria entre ambos. Apesar de haver apenas dois dias que a médica judia se encontrava no hospital, um observador mais atento poderia detectar as faúlhas de magnetismo animal que saltavam em torno deles.

 

- Parece que respira melhor - acrescentou Dieter. Vejamos se o ritmo cardíaco se estabeleceu.

 

O médico residente levantou os eléctrodos da parede do peito, ao mesmo tempo que a enfermeira desligava o interruptor. Dieter conservou os dedos sobre o pulso do paciente por um minuto, acompanhando com a vista o ponteiro dos segundos do relógio.

 

- O pulso está óptimo e regular. Creio que o podemos voltar com o máximo cuidado, para vermos se há um orifício de saída da bala. - No entanto, não existia qualquer indício do género, e Dieter assumiu uma expressão grave, enquanto colocava o corpo na posição primitiva. - Resta-nos extrair a bala, como fazem na televisão. Levem-no para os raios X, a fim de nos inteirarmos da situação. Enfermeira!

 

- Sim, doutor.

 

- Traga o ressuscitador e o pacemaker, pois podemos necessitar deles. Vem, Dra. Feldaman?

 

- Bem, tencionava ir jantar. - Marisa hesitou por um instante. - Mas pode ficar para mais tarde.

 

- Obrigado. - Dieter começou a impelir a mesa de rodas para fora do cubículo. - Gostava de a ter a meu lado, se o pericárdio tornar a encher.

 

Uns quinze minutos depois, ele debruçava-se, com o Dr. Sam Penfield, radiologista do hospital, sobre o écran fluoroscópico iluminado pelos raios X que, partindo de uma ampola sob a mesa radiológica, atravessavam o tórax do paciente. Uma pequena mancha negra destacava-se do fundo mais claro formado pelos pulmões e tecidos moles da parede torácica, localizando-se na sombra do coração, que se via palpitando com regularidade.

 

- Mein Gott!

 

Nos momentos de excitação, Dieter costumava exprimir-se no idioma nativo, e agora havia um motivo de peso para que se sentisse excitado, porquanto o projéctil girava lentamente numa área muito reduzida.

 

- O maldito objecto está dentro do coração! - exclamou o radiologista, estupefacto. - Parece mesmo no meio de um dos ventrículos.

 

- Há alguma possibilidade de se encontrar fora da cavidade? - perguntou o cirurgião. - No pericárdio ou miocárdio?

 

- Pela forma como se move, não - volveu Penfíeld. Se estivesse no pericárdio ou na parede muscular, a sombra movia-se ritmicamente com o coração. Ora, como pode ver, agita-se no meio do sangue que passa pelo ventrículo, o que significa que tem de se extrair.

 

- Veja isto, Dra. Feldman - solicitou Dieter, desviando-se, para que Marisa se acercasse do écran. - Talvez não torne a ter ensejo de observar uma coisa igual.

 

- Eu nunca tinha visto - confessou o radiologista.

 

- Como está ele? - perguntou Dieter ao interno que se encontrava numa das extremidades da mesa e tomava as pulsações numa das têmporas, como os anestesistas costumam fazer durante as operações.

 

- Muito bem, doutor. Pulso cem. Respiração vinte e quatro. Tensão arterial dez e sete.

 

- O coração parece palpitar satisfatoriamente - disse Marisa, o olhar colado ao écran fluoroscópico. - Não deve haver muito sangue no pericárdio.

 

- Que pensa disto? - tornou o cirurgião. - Baixávamos a cabeceira da mesa e deixávamos a bala, atravessando a válvula aórtica, penetrar na aorta e seguir para uma das artérias das pernas. Assim, bastava fazer uma pequena incisão num desses vasos e extraí-la.

 

- Concordaria, se a bala estivesse no ventrículo esquerdo, doutor. Mas se se encontrar no direito, vamos impeli-la pela árvore arterial pulmonar, cujos vasos diminuem progressivamente de calibre. E quando menos esperarmos, teremos provocada uma embolia pulmonar e porventura a morte.

 

- Parece-lhe? - A voz de Dieter deixava transparecer uma ponta de ironia. - É tão lógica como atraente, Dra. Feldman.

 

Ela estremeceu ao aperceber-se de que o cirurgião se limitara a pô-la à prova com a sugestão, mas acabou por se descontrair.

 

Não compreendi que brincava, doutor.

 

- Não foi brincadeira, mas uma mera tentativa para confirmar o que eu próprio penso. - Dieter virou-se para o interno: - Conforme a Dra. Feldman acaba de dizer, se a bala estiver no ventrículo direito e se escapar acidentalmente para a circulação pulmonar, pode deparar-se-nos uma situação extremamente grave. Tome as medidas necessárias para que o paciente seja transportado, com o máximo cuidado, para a sala de operações, antes que a bala comece a viajar pelo corpo.

 

- A Direcção ainda não conseguiu localizar a esposa do ferido, doutor - informou a enfermeira da Sala de Emergência, entrando no gabinete de raios X. - Telefonaram para a residência, mas ninguém responde.

 

- Nesse caso, teremos de operar mesmo sem ela declarou Dieter, com abruptidão. - Não podemos esperar mais.

 

- Há dois agentes da Polícia lá fora - acrescentou ela.

- Pode atendê-los antes de subir?

 

- Por uns instante, apenas. Chame o Dr. Long, para que se ocupe da fase pré-operatória. Agradecia-lhe que acompanhasse o paciente até à sala, Dra. Feldman.

 

O tenente Vosges e o sargento O’Brien levantaram-se do banco em que se sentavam, quando Anton Dieter se aproximou, e este último informou sem rodeios:

 

- Tenho de seguir imediatamente para a sala de operações. A enfermera disse que pretendiam falar comigo.

 

- Crê que o Dr. McGill tem alguma hipótese de escapar?

- perguntou Vosges.

 

- Uma excelente hipótese, atendendo a que existe uma bala no seu coração.

 

- No coração? - articulou O’Brien. - Não é um caso invulgar?

 

- Na verdade, não acontece todos os dias - admitiu o cirurgião. - Ainda não tive oportunidade de recolher pormenores da ocorrência. Quantos tiros foram disparados?


- Apenas um - replicou o sargento, maliciosamente. A bala começou por atravessar o coração da senhora Dellman, mas como estavam muito juntos...

 

- Compreendo - murmurou Dieter, enrugando a fronte.

 

- Talvez necessitemos das suas declarações, após a operação - advertiu Vosges.

 

- Perfeitamente. Passem muito bem.

 

Quando se encaminhavam para o parque do hospital onde tinham deixado o carro, os dois polícias avistaram quatro mulheres que convergiam para a Sala de Emergência. Pareciam apreensivas e uma delas cambaleava entre duas outras, que a aparavam, ignorando a saudação de O’Brien, que se descobriu respeitosamente.

 

- Amigas suas? - inquiriu Vosges, com um sorriso divertido.

 

- Conheço-as todas, mas não lhes levo a mal que não me vissem, num momento destes. Devem ter ouvido a notícia pela rádio ou televisão e acorrem ao hospital para verificar se é o marido que tem um pedaço de chumbo no peito. São casadas com quatro dos médicos mais insignes da Sala de Emergência, amigas íntimas de Lorrie Porter. Se lhe contasse o que sei das festas que promovem, punham-se-lhe os cabelos em pé.

 

- Têm motivos para estar alarmadas - concedeu o tenente.   - Provavelmente, vêem o   seu pequeno mundo desmoronar-se.

 

- Amy Weston, a mais alta, que se apeou do Cadillac branco, passa grande parte do tempo sem se preocupar com coisa alguma. Agora, corre ao lado das outras para ver quem ficou a perder. Pensando bem, creio que são todas.

 

- Porquê?

 

- Aquele quarteto e mais duas ou três têm nas mãos as rédeas da sociedade de Weston. Uma é presidente de um ou outro projecto de levantamento de fundos, outra da orquestra sinfónica, outra do festival de arte, e por aí fora. Segundo li no jornal, Amy Brennan encontra-se muito bem colocada na Sociedade Médica Auxiliar Estadual. E, se conheço bem Dellman, há-de mover o céu e a terra para se desembaraçar disto, o que significa que aquelas damas e os respectivos maridos o ajudarão, voluntariamente ou não. - O’Brien soltou uma risada divertida. - Foi a excentricidade mais bizarra de Lorrie Porter.

 

- Que quer dizer?

 

- Quando nova, envolvia-se constantemente em complicações. Antes de entrar para a Polícia, eu trabalhava como guarda de segurança nas Fiações Weston, pelo que tive de a livrar de um número apreciável. Nada de grave, note-se. Simples brincadeiras. Agora, ao ver todas essas mulheres correr para o hospital, para saberem qual terá de se esconder até que o vendaval passe, quase me convenço de que Lorrie planeou tudo.

 

- E pensa que passará mesmo?

 

- Sem dúvida.

 

- Mas não se pode ignorar um homicídio com a mesma facilidade que se varre o lixo para debaixo do tapete.

 

- Não se esqueça de que as Fiações Weston tecem algumas das maiores carpetas do mundo, e eles hão-de encontrar uma que possa ocultar toda essa esterqueira. Vamos, Eric. Precisamos localizar a mulher do ferido e transmitir-lhe a excitante nova.

 

Cerca de dez minutos mais tarde, quando se aproximavam do cruzamento, o tenente Vosges viu um carro passar como um relâmpago, indiferente ao sinal fechado. Acto contínuo, voltou para a esquerda, ligou a sereia e não tardou a ultrapassar o infractor. Todavia, quando se preparava para o obrigar a encostar à berma, O’Brien indicou-lhe apressadamente:

 

- Continue em frente dela e deixe a sereia ligada. -Hem?

 

- É a mulher de McGill. A que procurávamos.

 

Vosges voltou a pisar o acelerador, enquanto o companheiro se debruçava para fora e acenava a Elaine, para que os seguisse. Quando ela deu a entender que compreendera, O’Brien reclinou-se ’no assento e perguntou:

 

- Sabe qual seria o cúmulo da ironia?

- Para mim, ironia é já tudo isto.

 

-Imagine que não foi possível localizá-la, até agora porque atraiçoava o marido com outro homem.

 

- Seria uma simples compensação.

 

-Claro! - bradou o sargento, empertigando-se repentinamente.

 

- Que foi?

 

- Bem me parecia haver qualquer coisa que não batia certo no meio de tudo isto.

 

- Continuo a não compreender.

 

- O tiro atravessou o coração de Lorrie Dellman   e o Dr.   McGill tem uma bala no peito que entrou ’pela írente. Que significa isso?

 

- Aguardo que mo revele.

 

- A menos que Dellman fizesse fogo de baixo da cama as posições estavam invertidas, e quando ele puxou o’ gatilho, visando, o que pensava que era um homem seduzindo-lhe a esposa, era na realidade ela que seduzia um homem. Aposto que Lorrie ri a bandeiras despregadas neste momento, onde quer que se encontre!

 

 

Eram 17.30, quando o Dr. David Rogan, psiquiatra da Clínica da Faculdade e chefe daquele serviço na Escola Médica da Universidade de Weston, acabou de ditar um relatório sobre o último doente do dia e desligou o gravador. À semelhança de toda a gente, tanto da Clínica como do hospital, tomara conhecimento do drama que se desenrolava do outro lado da rua, na Sala de Emergência. Embora não tivesse de comparecer a um alerta cardíaco, resistiu à tentação de se deslocar ao hospital para observar o que se passava, pois limitar-se-ia a aumentar o número dos que só serviam para estorvar a actividade da equipa de reanimação.

 

A antiga rede de comunicações do hospital informara-o, por intermédio da sua secretária, de que Mort Dellman alvejara a tiro Paul McGill, em «flagrante delito», segundo a expressão da rapariga. Tendo presente que ainda não pudera examinar o filho de Janet Monroe, consoante lhe solicitara naquela manhã o Dr. Deemster, professor de Pediatria, resolveu ir vê-lo antes de seguir para casa, pelo que se meteu no elevador em direcção ao rés-do-chão.

 

De estatura mediana, era quase calvo apesar de contar apenas quarenta e cinco anos, e dois terços dos poucos cabelos que lhe restavam já se apresentavam grisalhos. O golfe e a jardinagem, nos fins-de-semana, conservavam o corpo em condições satisfatórias, conquanto necessitasse de vigiar o peso, quer por causa do colesterol, quer para evitar uma «dilatação abdominal avassaladora»., consoante a expressão de George Hanscombe, especialista de cardiologia e circulação. No entanto, isso resultava difícil, com Delia ausente na maior parte do tempo, participando em torneios de golfe, e uma governanta negra particularmente inclinada para a insistência nas iguarias de culinária do Sul.

 

Dave abandonou a Clínica, atravessou a rua e entrou no hospital pela porta da Emergência, que servia de atalho para a Enfermaria de Pediatria, onde examinaria o pequeno Jerry Monroe. Quando cruzava a pequena sala de espera junto da Sala de Emergência, ficou surpreendido ao avistar Delia, Grace Hanscombe, Maggie McCloskey e Amy Brennan, aguardando no balcão, com o olhar vago de quem não sabe para onde ir. O alívio repentino que divisou nos olhos de Delia admirou-o, em contraste com o virtual ostracismo a que o condenara há mais de uma semana.

 

- Olá! - proferiu ele. - Vieram por causa de Paul?

 

- Paul? - Amy engoliu em seco. - Então, foi ele? O olhar de Dave percorreu as outras e notou a mesma

 

sensação de alívio que Delia denunciara ao vê-lo.

 

- Não sabiam quem era?

 

- A rádio não deu o nome - esclareceu Delia - e resolvemos vir para nos consolarmos mutuamente.

 

- Como está ele? - quis saber Grace.

 

- Só sei o que consta aí - declarou Dave - mas vou falar com a responsável da Sala de Emergência, para ver se me elucido. - Afastou-se, para regressar transcorridos poucos minutos. - Paul tem uma bala no coração, embora parecesse em condições satisfatórias quando o levaram daqui. Dieter mandou transferi-lo para a sala de operações.

 

- Tenho de beber qualquer coisa - anunciou Maggie, sentando-se pesadamente no banco mais próximo.

 

- Vou arranjar-te um copo de água.

 

Grace dirigiu-se ao depósito de vidro ao canto da sala, muniu-se de um copo de cartolina e encheu-o, porém as mãos de Maggie tremiam tanto que necessitou de lhas segurar para que pudesse beber.

 

- Vais à sala de operações, Dave?

 

Delia esperava que o marido estivesse livre para regressarem a casa juntos, pois sentia-se algo abalada com a sua reacção à tensão horrível que a invadira desde que ouvira as primeiras notícias pela rádio.

 

- Tenho de examinar o filho de Janet Monroe - explicou ele. - Ia para lá agora.

 

- Elaine está cá? - perguntou Grace.

 

- A enfermeira com quem falei diz que tentaram ligar para casa dela, mas não respondem.

 

- Este Verão, ela e Paul serviam-se do pavilhão dos Hilton, no Lago Tabitha - volveu Grace. - Eu e George jantámos lá com eles, a semana passada.

 

- Nesse caso, direi à enfermeira que tente ligar para lá. Paul costuma jogar o golfe às quartas-feiras e é possível que ela levasse alguém para tomar banho no lago.

 

Nesse momento, a porta abriu-se para dar passagem, a Elaine McGill, a qual fitou as quatro mulheres e depois Dave. Pressentindo a interrogação que ela trazia suspensa nos lábios e depreendendo que não conseguiria concretizá-la em palavras, Dave apressou-se a informar:

 

- Levaram-no para a sala de operações. O Dr. Dieter pensa que se salvará, mas não puderam esperar por si.

 

- Etive no lago.

 

- A bala introduziu-se no coração e Díeter tenciona extraí-la.

 

A circunstância de nenhuma delas se mostrar chocada com a extensão da operação revelava com eloquência a reputação de Anton Dieter e o avanço da técnica operatória. Desde que ele ingressara em Weston, a cirurgia do coração a céu aberto tornara-se parte integrante dos processos operatórios do hospital e quase passara a ser considerada mera rotina.

 

- Já se encontra na sala - advertiu Dave -, mas depois levam-no para a Unidade Especial de Cuidados Intensivos. Tenho de ir à Enfermaria Quatro da Pediatria e a Unidade fica no caminho. Se quiser, acompanho-a lá.

 

- Queres que alguma de nós fique contigo? - perguntou Grace. - Se o desejares, não me importo de te fazer companhia.

 

- Nem eu - acudiu Delia.

 

- Tenho uma dor de cabeça horrível - proferiu Amy mas gostava...

 

- Não é necessário, obrigada - atalhou Elaine. - Suponho que a operação vai demorar, Dave?

 

- É muito provável. Os preparativos são morosos e depois de principiar não se pode correr.

 

- Agradeço-lhes por terem vindo e...   - começou Elaine.

 


- Se temos de ser sinceras alguma vez, mais vale que seja agora - cortou Grace. - Viemos porque desconhecíamos a identidade do ferido e estávamos angustiadas.

 

Dave deplorou que estas palavras não tivessem sido pronunciadas por Delia, embora constituíssem uma admissão tácita de que suspeitava de que ele lhe era infiel.

 

- Suponho que vais chegar tarde para jantar? - inquiriu Delia, após uma pausa.

 

- É o mais natural. Ed Harrison vai efectuar uma punção lombar no filho de Janet Monroe e eu gostava de conhecer o resultado para fazer um bom diagnóstico. Pareces exausta, querida. Vai andando e descansa um pouco até eu aparecer. Depois iremos comer a um drive-in ou outro lugar qualquer.

 

- Pois sim - assentiu ela em voz distante, como se a satisfação inicial por vê-lo se tivesse dissipado.

 

- Tentarei não me demorar muito - prometeu ele. Vamos, Elaine.

 

- Quando eles se afastaram, Maggie MacCloskey murmurou:

 

- Não compreendo como ela pode estar tão calma. Não eram os nossos maridos e sentíamo-nos todas alarmadas.

 

- Quanto a mim, Elaine está embrutecida - observou Delia.

 

- Pois eu acho que todas estamos - opinou Grace. Onde ouviste a notícia, Amy?

 

-Hem?

 

O alívio experimentado pela interpelada fora tão intenso, ao descobrir que o homem envolvido no escândalo não era Pete, que ficara meio aturdida enquanto o marido lhes falava, escutando sem praticamente ouvir coisa alguma.

 

- Perguntei-te onde ouviste a notícia.

   - A   vinte   ou trinta quilómetros   da cidade, quando

 

Voltava da reunião do Sexto Distrito. - Já não me lembrava disso. Como correu?

 

- Consegui os votos. parabéns. Fica garantida a eleição?

-Julgo que sim.

- Agora, sempre quero ver como termina o acto. disse Maggie.

 

Que queres dizer? - indagou Maggie.

 

- Nenhuma de nós é parva ao ponto de supor que assistiu ao epílogo da peça. Esta tarde, cada uma de vocês teve de encarar o facto de que o seu casamento podia ficar destruído... como aconteceu ao meu. Eu devia desfrutar com a situação, pois só Deus sabe como coscuvilharam por me haver separado de Joe. Mas na verdade apenas consigo sentir compaixão. De vocês e de mim mesma.

 

- Saiamos daqui - resmungou Grace. - Pelo menos três dos nossos maridos voltarão para casa, esta noite. Convém que estejamos presentes para os receber e mimoseá-los com um sermão, se por acaso se lembrarem de cometer também alguma patifaria.

 

A Unidade Especial de Cuidados Intensivos situava-se no último piso do Edifício Médico, na parte antiga do hospital. Pela porta da pequena sala de espera, para onde Dave Rogan levara Elaine McGill, esta podia avistar a sala das enfermeiras com o quadro dos monitores e a mesa onde Janet Monroe se ocupava dos gráficos ao clarão de um quebra-luz, o que deixava os monitores, num ponto mais elevado, imersos na obscuridade. Elaine só se apercebeu de que tinha fome quando Janet lhe levou um tabuleiro com café e torradas e principiou a comer automaticamente, enquanto se recompunha com lentidão do choque provocado pelas palavras de Mike Traynor, quando lhe telefonara para o pavilhão do lago. Ainda lhe custava a acreditar que Paul tivesse estado com Lorrie, naquela tarde, e sido ferido por Mort Dellman.

 

Começou a ponderar se lhe assistia o direito de rezar pela salvação do marido, quando, menos de três horas antes, estivera nos braços de outro homem, sendo tão culpada como Paul.

 

Existia a seu favor a circunstância de a medida desesperada que adoptara ser motivada pelo desejo de dar um filho ao marido, mesmo que a semente geradora não lhe pertencesse. Na altura, a necessidade afigurara-se-lhe ampla justificação para unir pela primeira vez o seu corpo ao de Mike Traynor, e não tinha remorsos disso. Mas que explicação poderia encontrar para a segunda vez, senão a irresistível luxúria do amante e o seu próprio desejo por ele?

 

Não, não podia recriminar Paul, porque não se considerava menos culpada. E tão-pouco podia criticar Lorrie Dellman, pois esta advertira-as com a máxima franqueza, cerca de um ano antes, em casa de Amy Weston, numa das reuniões da «Sociedade de Dissecação».

 

Jogavam o brídege, depois de a cozinheira de Amy lhes servir uma refeição frugal...

 

- Safa, que estou cheia de «fome»! - exclamou Lorrie, repentinamente, com a mesma naturalidade que empregaria para se referir ao tempo.

 

- Procura dominar-te - recomendou Maggie McCloskey.

- Mort não está presente.

 

- E porque há-de ser ele? Em caso de tempestade, qualquer porto serve para um navio se abrigar.

 

- Não digas asneiras - interpôs Amy, com severidade.

 

- Para mim, não é asneira. - Lorrie levantou as cartas que lhe competiam e acrescentou: - E se uma de vocês subisse ao quarto comigo? Prometo uns minutos bem passados...

 

- Por favor, Lorrie! - volveu Amy, com abruptidão. Isto já passa das marcas, mesmo para ti!

 

- Não me digam que nunca pensaram nisso, nem experimentaram.

 

- Há assuntos que não se abordam - observou Maggie.

- Dois de copas.

 

- Dois de espadas - replicou Lorrie. - Estamos no século vinte, minhas filhas. Há cem anos, não se admitia que uma mulher tivesse sensações eróticas, a menos que o marido a procurasse.

 

- Era mais ou menos a mesma coisa que introduzir uma chave na fechadura - comentou Grace.

 

- E partia-se do princípio que só uma chave determinada servia - declarou Maggie.

 

- E quando entrava, partia-se do princípio de que a deixava fechada.

 

As últimas palavras tinham sido proferidas por Elaine, a qual se lembrava agora de como corara, por haver revelado inadvertidamente pormenores da sua vida íntima com Paul.

 

- Quero eu dizer... - balbuciou apressadamente.

 

- Sabemos perfeitamente o que queres dizer - atalhou Grace. - Suponho que isso já aconteceu a todas nós, e por mais de uma vez.

 

- Então, meninas! - acudiu Amy. - Falemos de coisas mais agradáveis.

 

- Quanto a mim, não há nada mais agradável que «isso»

- persistiu Lorrie. - As mulheres detestam abordar este assunto, porque não querem confessar publicamente que, uma vez por outra, lhes apetece ir para a cama com um homem que não é o marido. Na realidade, receiam fazê-lo por pensarem que o marido adquire uma espécie de poder sobre elas, durante os escassos momentos do orgasmo, o que as leva a continuar, queiram ou não.

 

- Tu nunca quiseste continuar? - inquiriu Grace Hanscombe.

 

- De que serviria começar em primeiro lugar? - tornou Lorrie. - Esqueces que o homem não tem o mesmo domínio da mulher, o que faz dela a vencedora.

 

- Ora! - articulou Delia Rogan. - Dois minutos de vitória e nove meses de penitência.

 

- Basta negociar uma trégua - lembrou Grace, contraindo as faces num trejeito.

 

- Negociar uma trégua? - ecoou Lorrie, provocando um coro de gargalhadas. Após uma pausa prolongada, perguntou: - Sabem o que tinha muita piada?

 

- Lá vem mais uma das tuas - suspirou Maggie. - O quê?

 

- E se trocássemos de maridos?

 

- Uma ideia dessas só podia germinar na tua cabeça comentou Elaine.

 

- Não me digam que nunca pensaram nisso! Então, ponham as cartas na mesa, e não me refiro às que temos entre mãos.

 

Seguiu-se um pesado silêncio, até que Amy proferiu com uma ponta de aspereza:

 

- Todas somos românticas, de contrário não casávamos. Evidentemente que, uma vez por outra, sonhamos que um príncipe encantado nos vem buscar.

 

- O pior é que o príncipe encantado acaba sempre por se transformar num boneco de palha - sublinhou Maggie.

 

- Para isso, são precisos dois - retrucou Lorrie.

 

- Sabes alguma coisa a respeito de Joe?

 

- Não. Mas já que falaste nisso, talvez não fosse má ideia. Dizem que os homens pequenos costumam ser amantes extraordinários.

 

- Não te aproximes d^le! - advertiu Maggie.

 

- Não te exaltes - aconselhou Lorrie. - Joe é urologista, e as mulheres sofrem mais dos rins e bexiga que de qualquer outra coisa. Aposto que não passa um dia sem que ele observe uma dezena delas abaixo da «linha de flutuação».

 

- Não acredito que ele... - murmurou Maggie, algo perturbada.

 

- Costumamos reunir-nos aqui, todos os meses. Porque não tornamos as reuniões mais animadas? Não era interessante ir com o marido de outra e no fim do mês apresentar o relatório do que se passou?

 

- Lorrie! - bradaram as outras em uníssono, conquanto não manifestassem convicção especial.

 

- É o que eu digo. Sofrem todas de desnutrição sexual, em virtude do consumo permanente da mesma comida.

 

- E tu como te arranjas] - quis saber Maggie. - Tomas vitaminas?

 

- Não. De vez em quando, como uma iguaria extra para me conservar jovem.

 

- Há uma coisa de que não parece restarem dúvidas

- interpolou Grace -, tudo indica que te dás muito bem com a dieta. Nunca vi uma pessoa com aspecto tão sadio.

 

- Vocês podiam seguir-me o exemplo - asseverou Lorrie. _ Ora, vejamos. Somos sete casais, contando com Alice e Roy, e a semana tem sete noites. Portanto, podíamos trocar pelo menos uma vez por mês.

 

- E quem estiver casada com um homem que só actua uma vez por semana? - argumentou Grace.

 

- É possível que as minhas vitaminas o ajudem.

 

- Segundo me constou, tu tiveste um bom princípio no capítulo da troca de maridos - observou Maggie.

 

- Gostavam de conhecer pormenores, hem? - E Lorrie continuou apressadamente: - Desta vez, começamos todas ao mesmo tempo. Que dizem?

 

- Se é uma brincadeira, já excedeu os limites - retrucou Amy.

 

- Não é brincadeira, nem excederá os limites.

 

- Que queres dizer?

 

- Os nossos maridos são médicos. Pelo menos, Mort formou-se em Medicina e Roy pode considerar-se um advogado clínico. Quando pretendem experimentar uma nova droga, procedem ao ensaio clínico. Por conseguinte, nada se opõe a que façamos o mesmo. Depois, ficaremos com uma clínica com os seus casos, como acontece aos nosso maridos quando discutem se erraram ou não na prescrição do tratamento.

 

- Suponho que te referes a uma conferência de clínica patológica - interveio Delia. - Mas uma troca de impressões desse género só se realiza após a morte do paciente, para determinar o que o matou.

 

- Também   temos alguns   casos   desses   -   admitiu Grace.

 

- Aposto que sou capaz de excitar até os mortos vangloriou-se Lorrie.

 

- Deixa-te disso - disse Amy, com rispidez.

 

- Ninguém te nomeou nossa representante - comentou Maggie.

 

- Queres dizer que?...

 

- Não. Mas não permito que decidam por mim. Julgo preferível pôr o assunto a votação.

 

- Qualquer que seja o resultado, não participarei nele.

 

- Olha que Pete é capaz de ter outras ideias - frisou Lorrie, com um sorriso malicioso. - De resto, não se pode censurar um homem isolado numa ilha frígida por se excitar ao avistar um navio no horizonte.

 

- Acabemos com isto - decidiu Delia Rogan. - Os nossos maridos são bons amigos e temos de continuar a conviver. Portanto, não lucramos nada em espicaçar-nos mutuamente.

 

- Que pensas, Grace? - perguntou Lorrie. - Não és partidária de uma certa variedade?

 

- Ainda vocês não usavam soutien já eu tinha sido seduzida por um sargento de artilharia irlandês - anunciou a interpelada, pausadamente. - E quem começa não fica a meio do caminho.

 

- Que coisa horrível de dizer! - exclamou Elaine.

 

- Claro que a minha experiência não chega aos calcanhares da de Lorrie - concedeu Maggie. - No entanto...

 

- Afinal, jogamos brídege ou desbobinamos o nosso passado erótico? - indagou Grace.

 

- Quanto a mim, preparamos as nossas futuras actividades na cama - opinou Maggie.

 

- Eu voto a favor - declarou Lorrie, sem hesitar.

 

- Não! - asseverou Amy, com veemência.

 

- Também não concordo - disse Delia.

 

- Abstenho-me - anunciou Grace. - No fundo, sou estrangeira.

 

- Não - informou Maggie.   - Por conseguinte, perdeste, Lorrie.

 

- Eu sabia que não dispunha de coragem para me acompanhar, mas quis conceder-lhes uma oportunidade antes de pôr em prática o meu Plano B.

 

- Qual Plano B?

 

- Uma vez que se negam a ser sinceras, eu própria farei a experiência. Vou entreter-me com cada um dos vossos ilustres maridos e, no final, dar-lhes-ei as informações que desejarem.

 

- De qualquer modo, seria a opinião de uma autoridade no assunto - comentou Grace.

 

- Não estou disposta a continuar a ouvir esta desmio-

 

lada! - Amy atirou as cartas para a mesa e levantou-se. _ Estou em minha casa e considero encerrada a sessão.

 

- Não sabes o que perdes - redarguiu Lorrie. - Admitamos que estamos aborrecidas, o que equivale a dizer que nos sentimos cansadas de praticar o amor com os nossos maridos. Tento prestar-lhes um favor, analisando cada caso em particular para elaborar o diagnóstico e prescrever o tratamento... a menos que seja um caso desesperado.

 

- Nesse ponto, estou de acordo - concedeu Grace. No entanto, creio que o meu caso não tem solução.  

 

- Talvez não empregues todas as munições.

 

- Porquê?

 

- Não sei como o conseguem, mas vocês, inglesas, envelhecem muito melhor que nós, americanas. Embora já completasse quarenta e cinco anos, ninguém te dá mais de quarenta. És atraente, como todas nós, e estou convencida de que necessitamos de fazer um pouco mais para sermos amantes do que fazemos em prol da nossa qualidade de esposas.

 

- Obrigada... por nada - murmurou Grace, com uma ponta de amargura.

 

- Casámos com homens razoavelmente bem-parecidos, apesar de alguns começarem a ficar pançudos. Por outras palavras: somos casais americanos normais da classe profissional superior, próspera. Possuímos tudo para ser felizes, excepto uma coisa:   estamos horrivelmente fartas umas das outras e dos nossos maridos, o que nos situa na idade perigosa.

 

- Julgava que isso só se aplicava aos homens - comentou Grace.

 

- E às mulheres, também - interveio Delia. - Dave observa casos desses todos os dias.

 

- Uma mulher com um caso excitante de amor nunca se aborrece - tornou Lorrie. - As suas glândulas funcionam a todo o gás e ela encontra-se em plena posse do vigor sexual.

 

- Até que o gás se esgota - lembrou Grace.

 

- Há quem diga que a pílula conserva a mulher jovem e ardente - observou Maggie. - E não precisa de se preocupar com a menopausa.

 

- De qualquer modo, não ponho de parte o meu projecto - afirmou Lorrie.

 

- Elaine recordava-se de que a contemplara e experimentara uma contracção no coração ao pensar que um homem teria extrema dificuldade em resistir a Lorrie, quando ela se encontrava numa daquelas fases. Na verdade, evocando tudo aquilo, não lhes restava a mínima dúvida de que resolvera pôr em prática o Plano B, indiferente à opinião das amigas.

 

Mas porque principiara por Paul? Ou não teria sido ele o primeiro?

 

 

Quando Dave Rogan completou o exame neurológico a Jerry Monroe, Ed Harrison já estava preparado para proceder à punção lombar. Dave acolhia sempre com satisfação a oportunidade de executar um exame daquela natureza, embora preferisse outro paciente, pois sentia afecto profundo por Janet, a qual acudira quando o residente de Pediatria a chamara, para junto do filho. Jeff Long também estaria presente, se não estivesse ocupado com os preparativos para a operação de Paul McGill.

 

- Soube mais alguma coisa acerca do Dr. McGill? perguntou Ed Harrison, enquanto lavava as mãos na torneira da sala de curativos da Enfermaria de Pediatria. Entretanto, o garoto encontrava-se meio adormecido em virtude da medicação que lhe fora administrada, embora o cirurgião o acordasse para examinar os reflexos das pupilas e o movimento dos olhos.

 

- O Dr. Dieter disse que conservava a postos a bomba coração-pulmões, para o caso de ter de a empregar. Isso significa que se tornará necessária pelo menos uma hora para preparar tudo na sala de operações. Antes de abandonar o hospital, passarei por lá para me inteirar.

 

- Descobriu alguma coisa de positivo em Jerry, Dr. Rogan? - quis saber Janet.

 

- Nada de especial. Talvez os reflexos estejam um pouco mais alterados do lado direito, mas torna-se difícil determiná-lo com segurança numa criança, como sabe.

 

- Parece-lhe que os músculos do pescoço estão rígidos?

- inquiriu Harrison.

 

- Não tive ensejo de observar bem. Agora, pelo menos, parece satisfatoriamente descontraído.

 

Harrison debruçou-se sobre o garoto, que se conservava estendido na mesa de exame, com a enfermeira-chefe ao lado, preparada para o colocar na posição apropriada para a punção.

 


- Acorda lá, amigo - proferiu ele. - Vais dormir todo o dia?

 

Jerry descerrou as pálpebras e articulou em voz débil:

 

- Olá, Dr. Ed. - Ao ver Janet, esboçou um sorriso. Mamã!...

 

- Olá, querido. Faz o que o Dr. Ed mandar e tudo correrá bem.

 

- Eu sei, mamã.

 

- Gostava que te deitasses de lado - indicou Harrison.

- A enfermeira vai segurar-te e sentirás uma pequena picada nas costas, mas não te mexas, que não te faço mal.

 

Fez sinal à enfermeira, a qual virou o garoto de lado com a máxima perícia, conservando-lhe a cabeça inclinada para a frente e os joelhos flectidos para cima. A seguir, colocou um braço sob os joelhos e o outro em torno do pescoço, para evitar que se estendesse.

 

A finalidade da posição arqueada consistia em afastar as vértebras e alargar os espaços entre elas, por onde Harrison pretendia introduzir uma agulha. Esta, ao penetrar no canal raquidiano de paredes membranosas que rodeia a espinal medula, no interior da coluna vertebral, permitiria a obtenção de uma amostra do fluido que ali circula e está em comunicação com um espaço semelhante em redor e no interior do cérebro.

 

A punção lombar constituía um meio vital de diagnóstico em todas as condições relacionadas com o cérebro, espinal medula ou meninges que formavam o invólucro contínuo daqueles. A presença de pus revelaria uma meningite fulminante. A abundância de linfócítos significava em regra um estado inflamatório do próprio cérebro denominado encefalite. O aparecimento de sangue no fluido poderia dever-se a várias causas, desde um ferimento na cabeça até uma lesão resultante de hemorragia cerebral nos pacientes mais idosos.

 

Harrison calçou um par de luvas esterilizadas e pincelou as costas do garoto com um anti-séptico avermelhado, com o qual descreveu um círculo de cerca de quinze centímetros de diâmetro. A seguir, cobriu o local com uma compressa de pano, em que havia uma abertura rectangular de cinco por dez centímetros. Tacteando sobre o pano as apófises espinhosas das vértebras, proeminências ósseas que constituem a parte visível da espinha dorsal, localizou a primeira e a segunda apófise lombares, deslocando a compressa de modo que aparecessem na abertura. Depois, com uma agulha e seringa de pequenas dimensões, injectou sob a pele uma reduzida quantidade de novocaína que produziu uma pequena elevação, agindo com tal eficiência e cuidado que Jerry não se apercebeu de coisa alguma, continuando imerso em sonolência.

 

Em seguida, Harrison retirou de uma mesinha ao lado uma agulha flexível, no interior da qual se deslocava um estilete chamado trocarte. Fixando a extremidade da agulha no centro da pequena elevação produzida com a novocaína, impeliu-a profundamente através da pele e dos tecidos, até que os dedos sentiram uma resistência quase imperceptível, no momento em que a agulha se introduzia na superfície externa da meninge.

 

Retirou o trocarte com o máximo cuidado, mantendo-o preparado para o voltar a introduzir, se porventura notasse acréscimo de pressão no fluido. Se a pressão do líquido cefalorraquidiano fosse muito elevada, como acontece em geral nos casos de lesão ou tumor cerebral, uma súbita quebra dessa pressão na parte inferior do renal raquidiano poderia originar um choque do próprio cérebro contra a base do crânio, com consequências graves, por vezes mortais.

 

No entanto, esse acréscimo de pressão não se verificou; apenas um gotejar regular e constante do líquido pela extremidade da agulha. O fluido apresentava uma limpidez quase normal, mas quando Harrison verteu parte dele num tubo de ensaio e o examinou a contraluz, a cor rubra do sangue destacou com nitidez.

 

- Hemorragia - murmurou, pensativamente. - Mas onde?

 

- É o que temos de averiguar - replicou Dave Rogan. Creio que basta por hoje. O que fizemos é o suficiente para que passe uma noite agitada. Providencie para que seja observado pelo pessoal de neurocirurgia e de cirurgia vascular, de manhã.

 

- Muito bem. - Harrison inclinou a cabeça. - Esperemos que não haja nova hemorragia antes de localizarmos a sua origem.

 

- Parece-lhe que pode acontecer? - perguntou Janet, apreensiva.

 

- Tanto como antes da punção - assegurou-lhe ele, procurando encorajá-la. - Extraímos apenas uma pequena quantidade de fluido, pelo que as relações de pressão não se devem ter alterado muito.

 

- É possível que isso resolva o caso?

 

- Sim - interpôs Da.e Rogan. - Mas a experiência revela que as hemorragias cerebrais ou pericerebrais apresentam recidiva em cinquenta por centos dos casos, a menos que se localize e remova a causa.

 

- Mas pode ser perigoso?

 

- Bom, há certa margem de perigo. Não quero iludi-la. Mas cada vez que a hemorragia ocorrer duplicam as dificuldades para determinar a causa e suprimi-la. É por esse motivo que necessitamos de mais alguns exames para elucidar o diagnóstico, mesmo que Jerry pareça sentir-se perfeitamente.

 

- Compreendo - murmurou ela. - Que fazemos a seguir?

 

- Os doutores Brennan e Dieter decidirão. Por mim, limitar-me-ia a efectuar o rastreio radioactivo do cérebro e talvez um arteriograma cerebral. - Dave Rogan pegou na maleta em que guardava os instrumentos destinados a exames neurológicos. - Mas não se preocupe. Deve mesmo estar satisfeita por termos descoberto a hemorragia antes que se agrave.

 

E afastou-se, seguindo directamente para a saída do edifício, consciente de que nada podia fazer por Paul McGill, enquanto permanecesse nas mãos eficientes de Anton Dieter.

 

«Esperemos que Mort não invoque loucura temporária», reflectiu ao transpor a porta da Clínica da Faculdade a caminho do seu consultório. As decisões de semelhante natureza resultavam sempre difícies para um psiquiatra e, conhecendo bem Mort, sabia que não faria coisa alguma que não tivesse planeado meticulosamente.

 

O mais difícil consistia em compreender o que o levara a tentar assassinar um amigo, quando dispusera de numerosas oportunidades, noutras ocasiões, para escolher outro indivíduo qualquer como alvo.

 

- Ao diabo com Joe McCloskey! - vociferou Maggie, quando abandonava o hospital com Delia.

 

- Porque estás tão furiosa com ele?

 

- Podia muito bem ter sido Joe em vez de Paul McGill. E rebaixei-me a vir até aqui para lhe dar o meu sangue, se fosse necessário!

 

- Há pouco, lamentavas-te porque ias perder a pensão, se a vítima fosse o teu ex-marido. Agora, gostavas que tivesse   sido   ele.   Que espécie de mulher és, afinal de contas?

 

- Não é que desejasse que estivesse ferido, mas podia mostrar-se grato por saber que tencionava dar-lhe o meu sangue.

 

- Porque não lho vais dizer?

 

- E deixá-lo ficar a saber? -O quê?

 

- Nada - grunhiu Maggie, irritada.

 

- Que ainda o amas?

 

- Valha-me Deus! Lá porque Dave é psiquiatra, tens de psicanalisar os outros? Olha para a tua vida, em vez de te meteres na alheia.

 

- Que queres dizer com isso? - inquiriu Delia, estacando à entrada do parque de estacionamento.

 

- Eu bebo e tu jogas golfe. Qual é a diferença?

 

- Jogo golfe porque me agrada.

 

- E eu bebo porque gosto da bebida. De resto, não julgues que Dave passa todas as noites em casa, enquanto disputas os teus torneios.

 

- Nem eu esperava que ficasse.

 

- Deve ser enternecedor ter tanta confiança no marido.

 

Decerto conheces as histórias que circulam por aí sobre as viúvas do golfe. Não pretendas convencer-me de que não se aplicam igualmente aos viúvos do golfe.

 

- Que sabes tu disso?

 

- Nada de especial. Em todo o caso, aposto que não estarás tão descansada da próxima vez que te ausentares para disputar novo campeonato.

 

Delia não replicou, pois, involuntariamente, Maggie acabava de a atingir num ponto sensível e particularmente doloroso. Contudo, nada se verificaria se Dave não estivesse tão comprometido com aquele caso no tribunal e tivesse podido, ou querido, acompanhá-la ao Torneio Feminino de Augusta, duas semanas antes.

 

Fora a primeira vez, desde que tinham casado, que se encontravam separados na data do aniversário do matrimónio. Evidentemente que o torneio não se podia adiar apenas por esse motivo. Todavia, por outro lado, Dave tivera ensejo de protelar o depoimento para uma oportunidade mais conveniente. Bastaria que tivesse conversado com Roy, amigo desde os bancos da escola e igualmente membro da Corporação da Clínica.

 

O facto de ele não a acompanhar originara acesa discussão, e Delia seguira para Augusta no autocarro, não permitindo que ele a levasse ao aeroporto, apesar de lhe haver oferecido o saco de golfe que desejava.

 

Não obstante a irritação, ela jogara admiravelmente e, excitada pela vitória, telefonara para casa, a fim de informar o marido, porém ele achava-se ausente.

 

No átrio do hotel, cruzara-se com Eve Post, uma adversária de golfe que derrotara naquela tarde, a qual a convidara para uma pequena festa promovida numa das suites do estabelecimento. Delia hesitara por uns instantes, mas acabara por aceitar, embora prometendo a si própria não abusar do champanhe, que lhe subia à cabeça com rapidez desconfortável. No entanto, encontrara-se na reunião com um atraente profissional do golfe de Pebble Beach, que já conhecia de outros torneios, e a conversa animada que sustentaram impediu-a de se aperceber da quantidade de taças de champanhe que esvaziava.

 

Gradualmente, o ambiente fora-se toldando à sua volta, até que, quando na manhã seguinte acordara ao lado de um homem que não era o marido, não conseguiu recordar a forma como o facto se verificara.

 

Não hesitou um segundo em atribuir a verdadeira culpa de tudo a Dave, pois se a tivesse acompanhado a Augusta, nada daquilo se passaria.

 

Foi arrancada das reminiscências pela voz de Maggie, que a atingiu como uma chicotada:

 

- Com que então, é isso que acontece nos torneios de golfe?

 

- Não te entendo - replicou Delia, sentindo as faces avermelhadas e consciente de que não conseguiria enganar a amiga.

 

- Não sabes esconder os teus pecados. O olhar denuncia-te e estás encarnada como um pimentão. Como era ele?

 

- Deixa-te de disparates.

 

- Está descansada que não vou dizer a Dave. Aliás, em   situações   destas,   as mulheres   têm   de   se   manter unidas.

 

- Onde queres que te deixe? - articulou Delia, movendo-se para o local onde deixara o carro.

 

- Obrigada, mas prefiro meter-me num táxi - replicou Maggie. - Ficaste suficientemente furiosa para nos estampares na primeira parede.

 

Maggie McCloskey pagou ao motorista e apeou-se do táxi à entrada do clube. Viu que o seu carro continuava onde o deixara e, por um momento, acudiu-lhe o impulso de se meter nele e abandonar a cidade, afastando-se de tudo o que lhe recordava a felicidade que conhecera em Weston, antes de a sua vida principiar a desmoronar-se. Qualquer coisa falhara no casamento que inicialmente parecia destinado a perdurar. E, conquanto naqueles minutos de introspecção resultantes do abatimento, ausência álcool e morte de Lorrie, admitisse que o erro fora % grande parte seu, não lograva determinar o ponto exacto em que o matrimónio começara a oscilar.

 

Sabia perfeitamente que não fora nos primeiros tenpUs em que exercia as funções de secretária de Dave Ro e Joe se ocupava da organização do Serviço de Urologia da Escola Médica. Nessa época, contavam apenas os salários modestos e a casa em Sherwood Ravine, que , prada sem na realidade saberem como pagariam as prestações.

 

Como as mensalidades eram muito elevadas, Maggi encarregara-se de toda a decoração, no que se entretinha à tarde, depois de terminar o trabalho na Clínica. Nomeada pouco após a chegada a Weston, secretária de Joe McCloskeyt não tardou a sentir-se profundamente atraída pela delicadeza e eficiência do urologista. O namoro iniciara-se com prontidão e, durante algum tempo, sentiram-se felizes, apesar do rendimento mensal modesto. Mais tarde, Mort Dellman e Pete Brennan apareceram com a ideia de uma clínica de diagnósticos automatizados, dirigida pelos membros da Faculdade da Escola Médica de Weston, cujos proventos seriam repartidos em grande parte pelos seus componentes. Receando que o facto contribuísse para a quebra da qualidade do ensino, os administradores haviam-se manifestado contrários à modificação, mas acabaram por ceder, sob pena de perderem os melhores professores. Com o acréscimo vertiginoso dos rendimentos dos médicos que se   dedicavam à clínica privada nos anos cinquenta, a única maneira de evitar que se transferissem para escolas em que as restrições se revelavam menos drásticas residia em permitir que se entregassem a actividades externas para melhorar as suas situações pessoais. E, no fundo, a qualidade do ensino não fora afectada. Ao invés, até melhorara, pois Weston atraíra para o seu corpo docente homens iminentes em muitos campos que acudiam arrastados pela reputação crescente da Clínica da Faculdade. O estabelecimento da Clínica constituíra um negócio extraordinário, sobretudo para os seis que precediam da jreia - Joe McCloskey, Dave Rogan, Pete Brennan, .ul McGill, George Hanscombe e Mort Dellman, o qual, imo director do laboratório, orientava aquilo a que médicos invejosos das cercanias chamavam «linha de >dução médica».

 

Mas tudo aquilo teria merecido a pena do seu ponto de vista? Cismava agora Maggie, ponderando a sua situação.

secretária, vivera ocupada e feliz. Mesmo depois se mudarem para Sherwood Ravine, todo o trabalho léstico continuara a cargo dela.

 

Mais tarde, porém, quando os rendimentos de Joe quase duplicaram de um dia para outro, ela viu-se na contingência de recorrer a pessoal para se ocupar das actividades do lar, por uma questão de salvação de aparências e, sobretudo, não destoar do que se passava nas exigências de Delia, Grace, Elaine e Amy.

 

«É isto, a traços largos, a história da minha vida», cogitou com amargura. «E que resta dela? Absolutamente nada.» Por fim, encaminhou-se para o clube, disposta a instalar-se no Bar das Senhoras, onde Manuel a escutaria, se não houvesse outros ouvidos atenciosos.

 

Nas quartas-feiras à tarde, Pete Brennan costumava jogar golfe com Paul McGill, Joe McCloskey e outros que encontrassem para formar o quarteto. Por vezes, era Arthur Painter quem executava a maior parte do trabalho legal da Corporação da Clínica da Faculdade. Roy Weston também pertencia à Corporação, dado que fora ele quem persuadira os médicos a ingressar em Weston, mas era o promotor-público, e, como se candidataria a procurador-geral do Estado no ano seguinte, considerava mais correcto não se envolver nas questões legais da Clínica.

 

Naquela tarde, Pete preferira não jogar golfe. Assim, meteu-se no Porsche e seguiu ao longo da River Road até à represa do rio Rogue, a uns dezasseis quilómetros da cidade. Deixou o carro no espaço de estacionamento de um pequeno estabelecimento náutico perto da represa e desceu pela encosta até à beira do lago onde se encontravam os ancoradouros das embarcações.

 

Em seguida, tirou o seu barco do alpendre onde o guardava em seco, verificou o depósito de gasolina, ligou o motor e ficou satisfeito ao ver que arrancava com prontidão, embora não o tivesse utilizado mais de meia dúzia de vezes em todo o Verão, pois as actividades na Clínica não lhe concediam muito tempo para se distrair. Nesse dia, porém, apetecera-lhe particularmente isolar-se do bulício habitual, e, como Amy devia regressar no dia seguinte, afigurara-se-lhe a ocasião mais apropriada para isso.

 

Enquanto a embarcação se afastava da margem, ele reconheceu intimamente que o ambiente doméstico não se podia considerar famoso. Ultimamente, a intenção de atingir a posição mais elevada na Sociedade Médica Auxiliar Estadual convertera-se numa verdadeira obsessão para Amy, parecendo mesmo que se encontravam ambos empenhados numa luta de vida ou de morte pela supremacia.

 

Na realidade, ele não sentia necessidade imperiosa de se tornar presidente da Associação Médica do Estado. O lugar ser-lhe-ia atribuído oportunamente e, entretanto, tinha muito mais com que se preocupar. A Clinica desenvolvia-se tão rapidamente que necessitavam de pensar na construção de um novo edifício que se adaptasse melhor aos estudos e diagnósticos do tipo de produção em série, pelos quais a fama da organização já ultrapassara os limites da área normal dos pacientes.

 

Na última reunião da Associação Médica Americana, Pete vira um dos analisadores múltiplos de doze canais, capaz de efectuar trinta exames de sangue diferentes no laboratório no lapso de uma hora, e conjecturou imediatamente que um aparelho de semelhante natureza resultaria excelente para a Clínica. No entanto, necessitavam de mais espaço para o acomodar, assim como ao número de pacientes, o qual aumentaria logo que a média dos exames no laboratório se elevasse.

 

Pete poderia tratar de tudo com Mort Dellman, indubitavelmente um génio nesse capítulo, embora nos últimos tempos se revelasse mais irritável que o normal eJmais insistente em incrementar os rendimentos da,Clínicaí POr vezes mesmo em detrimento da eficiência profissional. Acelerou um pouco o motor e considerou que nunca experimentara dificuldade em solucionar os problemas profissionais. Todavia, quando se tratava de fazer algo sobre a crise entre ele e Amy, sentia-se absolutamente frustrado.

 

A anomalia não se podia situar nas relações sexuais. Com efeito, quase tinham desaparecido do calendário conjugal nos últimos meses em que ela imergira na persistente campanha pela presidência da Sociedade Auxiliar. Aliás, as possibilidades de praticar o sexo não escasseavam no hospital, cujo pessoal se compunha na maioria por representantes do elemento feminino, e Pete nunca experimentara qualquer dificuldade em obter o que pretendia nesse particular.

 

O divórcio abalaria o seu pequeno mundo, embora não o destruísse, mas poderia aniquilar Amy, isolando-a abrupta e radicalmente da política médica e ferindo-lhe o orgulho da Nova Inglaterra, onde nascera. De resto, Pete amava os filhos e a mulher que desposara. Se existisse um meio de a fazer regressar ao lar, permanentemente, poupando-lhe a vergonha do tipo de escândalo que já ocorrera numerosas vezes num meio pequeno como o de Weston, quando os maridos começavam a procurar fora de casa o conforto, fácil de encontrar, que as esposas já não lhes proporcionavam...

 

Eram quase seis horas quando conduziu o barco para o ponto de partida. Depois de o colocar no alpendre, em seco, passou pelo escritório do clube náutico, onde o gerente exclamou assim que o viu:

 

- Anda o diabo à solta na cidade, Dr. Brennan! A rádio e a televisão não falam de outra coisa.

 

- Que aconteceu?

 

- Um médico, Dellman, salvo erro, atingiu a tiro a mulher e outro médico que surpreendeu na cama com ela. A esposa morreu imediatamente e o homem encontra-se no hospital em estado crítico.

 

Mort Dellman e Lorrie! Custava a crer. Não que considerasse Mort incapaz de um acto daquela natureza, pois existia nele algo de perverso, frio e calculista. Não obstante, decerto não ignorava a inclinação de Lorrie para saltar de cama em cama, pois ela não o ocultava. E, consciente do facto, Mort devia ter manifestado maior ponderação, para não destruir a mina de ouro representada pelo seu casamento com a herdeira de Jake Porter.

 

- Quem é o ferido? - perguntou por fim.

 

- O Dr. McGill.

 

Afastou-se apressadamente para o carro. Com Amy ainda ausente, na reunião da Sociedade Auxiliar, Elaine necessitaria de todo o apoio moral que Pete lhe pudesse fornecer... e Paul também, pobre diabo. E só Deus sabia quais seriam as consequências de tudo aquilo para a Clínica da Faculdade.

 

George Hanscombe transpôs a entrada da Clínica no momento em que Dave Rogan guardava a maleta com os instrumentos neurológicos e pegava no chapéu para regressar a casa. Cerca de dez anos mais velho que o psiquiatra, Hanscombe era alto, aprumado, com ares de pessoa importante, o que se evidenciava até no pequeno bigode irrepreensivelmente aparado, e os cabelos ainda se apresentavam escuros (graças a um tónico que ultimamente desfrutava de notável procura, segundo constava à boca pequena). No entanto, ninguém se atrevia a aludir ao facto diante dele, pois tratava-se de um homem totalmente desprovido de sentido do humor, constituindo um símbolo de eficiência rígida.

 

- Pensei que estivesses no golfe - disse Dave, desviando-se para lhe dar passagem.

 

- De facto   ia para o clube, quando fui chamado para ver a mulher de Sam Portola, convencida de que teve um enfarte. Que podia fazer?

 

- Nada, além de acudir com prontidão. - Portola era o presidente do Sindicato ao qual as Fiações Weston pertenciam actualmente e, com a família, um dos clientes mais importantes da Clínica da Faculdade. - Coronária?

 

George Hanscombe meneou a cabeça e, como usava os cabelos um pouco compridos, o efeito foi o de um leão irritado.

 

- Apenas gases. Insiste em comer iguarias italianas à base de gorduras. Tive de passar a tarde ao lado dela até fazê-la soltar um arroto explosivo.

 

- Suponho que já sabes o que aconteceu a Paul e Lorrie?

 

- Sim. Acabo de passar pelo hospital. Disseram que Paul se encontra nas mãos do insigne Dieter. Julgo que o boche vai produzir mais um dos seus milagres, ou pelo menos afirmar que o fez.

 

- Concordemos que Anton já conseguiu algumas operações extraordinárias - objectou Dave. - O pior foi o que aconteceu a Lorrie.

 

- E a Mort. No fundo, agiu como qualquer de nós no seu lugar.

 

- Deixa-te disso. É um tipo asqueroso e todos o sabemos, ao passo que Lorrie se podia considerar uma das criaturas mais normais que conheci.

 

- Chamas normal àquilo? - Hascombe arqueou as sobrancelhas. - Falas inspirado nas teorias freudianas?

 

- Creio que Freud aprovaria o comportamento de Lorrie. A maior parte das perturbações que nós, psiquiatras, enfrentamos, provêm de pessoas que atiram com os seus instintos mais primitivos contra o muro de granito das suas inibições Ela limitava-se a dar livre curso aos instintos.

 

- Adultério é sempre adultério.

 

- Pensas como Gertrude Stein - observou Dave, sorrindo. - Com essa forma de raciocinar, éramos todos culpados, tu incluído. Aliás, Lorrie preveniu-nos do que tencionava fazer.

 

- Que queres dizer?

 

- Não te lembras do que nos disse naquela noite, no clube, quando apareceu na sala de jogo, durante o intervalo da orquestra?

 

- Confesso que não.

 

- Eu, tu, Joe, Paul e Roy jogávamos póquer.

 

- Não tenho tempo para recordar essas coisas - articulou George. - Grace já deve estar em casa e espera-me para jantar. Nos últimos tempos, mostra-se muito irritável e nunca se sabe quando lhe dará na gana arreliar-me a paciência.

 

- Então, não te prendas. Agrada-me verificar que não sou o único com problemas conjugais.

 

Dave comprou o jornal da tarde à saída da Clínica e deparou-se-lhe toda a primeira página ocupada pela cena de sangue, com uma fotografia de Lorrie. Ao vê-la sorrir para a objectiva, acudiu-lhe ao espírito com a máxima nitidez o episódio que mencionara a George.

 

- Importam-se que me sente aqui? - perguntou ela, entrando na sala em que eles jogavam, segurando um copo meio cheio.

 

Naquela noite, Mort Dellman ausentara-se da cidade, a fim de examinar um equipamento automático que interessava ao hospital, acompanhado por Pete Brennan, e Lorrie comparecera à festa com Roy e Alice Weston.

 

- Isto é um jogo para homens - replicou George Hanscombe, cujo andamento desfavorável do jogo tornara algo brusco. - Vá jogar com as senhoras.

 

- Meto-lhes medo? - observou ela, com o sorriso malicioso que costumava anteceder uma tirada arrojada.

 

- Porquê? - inquiriu Roy.

 

- Ontem, em casa de Amy, tive uma conversa sem inibições com as vossas mulheres. Apresentei-lhes uma proposta e agora têm medo que eu falasse a sério.

 

- E falou? - quis saber Dave.

 

- Com certeza. Nunca minto, nem mesmo a mim própria.

 

- É exigir muito de uma pessoa - comentou ele.

 

- Estejam lá calados e continuemos com o jogo propôs George.

 

- A propósito, George - volveu Lorrie -, há quanto tempo não veste o smoking para levar Grace a um bom restaurante ou cabaré?

 

- Alguns anos, num congresso.

 

- Não me refiro a congressos. Nessas ocasiões, as pessoas embebedam-se e invadem os quartos umas das outras. Há   quanto   tempo   não   a leva   a   passear e   a   dançar?

 

- Que tem isso a ver com o póquer?

 

- Se prestasse mais atenção a Grace e menos ao póquer e ao golfe, ela não afirmava a cada momento que tenciona voltar para a Inglaterra.

 

- Isto já é ir longe de mais, mesmo para si - interveio Roy Weston.

 

- Deixe-a falar - acudiu Dave. - Talvez diga aquilo que todos necessitamos de ouvir. Continue, Lorrie.

 

- Não estou disposto a ouvir baboseiras. - George levantou-se e largou as cartas em cima da mesa. - Depois de um homem passar o dia inteiro a trabalhar, a fim de ganhar dinheiro suficiente para que a mulher possa conduzir um Cadillac, ter criada a título permanente, jogar golfe e embebedar-se no clube, não precisa de passar por chulo só porque ela não dispõe do necessário para se considerar feliz.

 

- Escutem a esfinge! - exclamou ela, em tom cortante.

- Falou como um verdadeiro marido americano... o espécime mais sensaborão do mundo!

 

- Que proposta era essa? - perguntou Roy, com um sorriso, enquanto George Hanscombe   se afastava enfurecido.

 

- Ontem, declarei às vossas mulheres que havia de dormir com cada um de vocês, para depois apresentar um relatório das minhas impressões e prescrever o tratamento.

 

- Com mil diabos! - Explodiu Paul McGill. - Sabe o que está a dizer?

 

- Sem dúvida - retorquiu Lorrie, com uma risada. Ofereço-me para proceder a uma experiência legítima sobre uma coisa que, de resto, experimentamos ilegitimamente. Assentemos num facto: todos vocês são maus amantes, de contrário não tinham as mulheres tão insatisfeitas. E como os considero meus amigos, pretendo contribuir com a minha longa experiência para os ajudar.

 

- E como se propõe administrar o tratamento? - perguntou Dave.

 

- Primeiro, pensei que bastava elaborar um relatório para as vossas mulheres, como numa clínica. Mais tarde, resolvi que tanto o marido como a mulher devem tomar conhecimento do diagnóstico em conjunto e discutir em seguida o tratamento. No fundo, era uma maneira de proceder puramente clínica.

 

- Clínica, talvez - concedeu ele. - Mas de modo algum pura. Pelo menos, dentro dos padrões de vida da maior parte das pessoas.

 

- Não tenciono empregar os padrões dos outros, mas os meus. Algum de vocês põe em dúvida as minhas credenciais para efectuar a experiência? Julgo desnecessário recordar-lhes que quase todos dispõem de um bom motivo para o saber.

 

Seguiu-se uma pausa prolongada, até que Paul McGill proferiu:

 

- Se pretende brincar connosco...

 

- Não estou a brincar.   - Lorrie olhou-os com uma expressão especulativa. - Quem quer ser o primeiro? - Como não obtivesse resposta, acrescentou: - Nesse caso, terei de caçar cada um por sua vez. Até à vista, amigos. A partir daquele momento, o póquer desenrolou-se sem qualquer interesse, pois os jogadores embrenhavam-se em cogitações sobre o que acabava de ocorrer.

 

Mike Traynor encontrava-se em actividade na Sala de Emergência, aplicando alguns pontos naturais na perna de um garoto, quando Pete Brennan entrou.

 

- Há alguma novidade acerca do Dr. McGill?

 

- Encontra-se na sala de operações, Dr. Brennan. O Dr. Dieter vai extrair-lhe a bala do coração.

 

- E a senhora McGill?

 

- Vi-a, há pouco, na sala de espera, com o Dr. Rogan e as esposas de vários médicos - informou a enfermeira-chefe, que se aproximara. - Creio ter-lhes ouvido dizer que o Dr. McGill seria transportado para a Unidade de Cuidados Intensivos, após a operação. Provavelmente, já lá se encontra. A senhora Brennan também esteve cá, mas creio que já saiu.

 

- Minha mulher? - inquiriu Pete, estacando, quando principiava a encaminhar-se para a porta.

 

- Sim.

 

- Mas ausentou-se da cidade.

 

- Vi-a perfeitamente, doutor. Talvez antecipasse o regresso.

 

Enquanto se dirigia para o elevador, Pete reflectia que aquilo não fazia sentido. Com efeito, Amy prometera passar a noite fora, para que as inimigas, segundo a sua expressão, não pudessem agir nos bastidores, no final da reunião, para obterem vantagem.

 

Janet Monroe, sentada na sala da Unidade Especial de Cuidados Intensivos, ergueu os olhos quando ele entrou e comunicou-lhe:

 

- O Dr. McGill continua na sala de operações. A esposa está na sala de espera.

 

- Como reage ela?

 

- Muito bem, doutor.

 

Elaine tentou sorrir quando Pete surgiu, para se sentar a seu lado e pegar-lhe nas mãos.

 

- Tudo terminará pelo melhor - murmurou ele. - Dieter é um autêntico mágico.

 

- Dave esteve aqui há momentos e afirmou que as possibilidades de Paul eram excelentes.

 

- Já principiaram a operar?

 

- Ele disse que preparavam a bomba coração... pulmão ou lá como lhe chamam.

 

- Costuma demorar um pouco. Vou espreitar.

 

- Era melhor você ir para ca’a ver Amy.

 

- Então, sempre está cá?

 

- Ouviu a notícia pela rádio e não sabia quem era o ferido.’ Acudiram todas, impelidas pela mesma dúvida, mas Amy ainda parecia apreensiva, quando a deixei, lá em baixo. Precisa mais de si do que Paul.

 

A possibilidade de Amy necessitar dele afigurava-se-lhe tão inconcebível que Pete imergiu em rápidas cogitações. No entanto, ela decerto sofrera um abalo profundo ao admitir a hipótese de ser o marido o homem surpreendido em flagrante com Lorrie.

 

- Tem a certeza de que não quer que lhe faça companhia? - perguntou a Elaine, por descargo de consciência.

 

- Já me sinto melhor, obrigada. Aliás, a senhora Monroe olha por mim.

 

- Se precisar de mim, não hesite em mandar-me chamar.

 

- Entendido.

 

- Passei toda a tarde no lago e só soube há pouco. Na sua qualidade de professor da Clínica, Pete dispunha

 

de um pequeno consultório no hospital e outro, montado mais luxuosamente, na Clínica da Faculdade, do outro lado da rua, aonde se dirigiu para telefonar.

 

Amy seguia para casa, ainda parcialmente aturdida do abalo provocado pela notícia e pelo súbito alívio ao inteirar-se de que Pete não corria perigo, quando a dor de cabeça pungente lhe recordou o motivo pelo qual tencionava visitar o hospital. Por um momento, pensou em retroceder, porém o relógio no tablier indicou-lhe que George Hanscombe já devia ter encerrado o consultório. Existia a solução de se dirigir à Sala de Emergência para uma injecção, mas isso envolveria uma explicação ao interno de serviço, que sem dúvida suspeitaria de uma pessoa empenhada em receber uma injecção contendo um narcótico.

 

Por conseguinte, resolveu prosseguir em frente, na esperança de que Pete se encontrasse já em casa e pudesse dar-lhe algo da sua maleta de emergência que sempre o acompanhava para atender chamadas durante a noite.

 

Abriu a porta com certa dificuldade, pois a dor de cabeça acentuava-se até se tornar quase insuportável, encaminhou-se para a cozinha, encheu um copo de bourbon e um pouco de água e subiu ao quarto. Como tinha o estômago vazio, o álcool foi absorvido quase imediatamente, e ela sentiu o calor invadir-lhe todo o corpo, embora a dor de cabeça continuasse a flagelá-la. De súbito, o telefone tocou e Amy pousou o copo para pegar no auscultador.

 

- Amy? - proferiu a voz de Pete. -Sim.

 

- Passei a tarde no lago e cheguei ao hospital pouco depois de saíres. Elaine diz que parecias apreensiva. Sentes-te melhor?

 

- É apenas uma dor de cabeça.

 

- Sigo já para casa. Queres que leve alguma coisa?

 

- Ethel saiu e não tenho disposição para cozinhar.

 

- Nesse caso, vou passar por aquela casa que vende frangos assados. Mais alguma coisa?

 

- Não. Isso deve bastar.

 

- Conto estar aí dentro de meia hora.

 

- Está bem. Até já.

 

Ela cortou a ligação, ainda parcialmente aturdida pela dor de cabeça, e o resto do conteúdo do copo que ingeriu em seguida não contribuiu para lhe atenuar o mal-estar. Preparava-se para se estender na cama, quando avistou a maleta de Pete. Decerto continha algo susceptível de lhe aliviar a dor. Com efeito, deparou-se-lhe uma embalagem com vários tubos minúsculos de sulfato de morfina, segundo a inscrição em letras vermelhas.

 

Amy frequentara um curso de primeiros socorros no Departamento de Defesa Civil, pelo que estava familiarizada com o modo de aplicação. Por conseguinte, destacou um dos tubos, retirou a cobertura de plástico da extremidade em que se encontrava uma pequena agulha e cravou esta no braço, pelo que passou previamente um pedaço de algodão embebido em álcool.

 

Os efeitos não se fizeram esperar e invadiu-a uma espécie de torpor agradável, ao mesmo tempo que a dor de cabeça se atenuava sensivelmente. Em seguida, resolveu tomar banho, mas antes, dominada por um impulso incompreensível, pegou em nove tubos de morfina da maleta e guardou-os numa gaveta do toucador.

 

Quando emergiu do chuveiro, a dor extinguira-se por completo, porém a sensação de embriaguez persistia. Encontrava-se diante do espelho da porta da casa de banho, contemplando o corpo desnudo com um olhar atento, quando Pete surgiu.

 

- Enâ! - exclamou, com um silvo de apreciação. Que agradável surpresa!

 

O primeiro impulso de Amy consistiu em se ocultar atrás da toalha que tinha na mão, porém a combinação de morfina e álcool dissipara-lhe grande parte das inibições, pelo que não efectuou a mínima tentativa para encobrir a nudez.

 

- Não te ouvi entrar - replicou, saindo da casa de banho e continuando a secar-se.

 

- Talvez deva chegar a casa em silêncio mais vezes

- volveu ele, com um sorriso malicioso.

 

Moveu-se para ela com lentidão, retirou-lhe a toalha da mão e cingiu-a, sem se preocupar com o facto de o corpo dela ainda estar parcialmente molhado.

 

Havia muito tempo que não a beijava com semelhante arrebatamento, e principiou a conduzi-la suavemente para a cama.

 

Enquanto observava o marido, que se despia apressadamente, já estendida, Amy soltou uma gargalhada divertida.

 

- Suponho que o meu corpo não tem nada que desperte o riso - articulou Pete, com simulado aborrecimento. Onde está a piada?

 

- O frango vai arrefecer, mas estou-me nas tintas.

 

Instalada atrás da galeria envidraçada de observação, Marisa Feldman encontrava-se a menos de três metros da mesa de operações no centro do anfiteatro, na qual estava estendido Paul McGill, o peito, abdómen e virilha expostos. As duas lâmpadas côncavas situadas por cima da mesa, fulcro de toda a actividade na sala, achavam-se colocadas de tal modo que aqueles que estavam por baixo não projectavam sombra alguma. Quando alguém ficava entre uma delas e o campo operatório, a outra lâmpada fornecia luz suficiente para evitar a formação de sombra. Cabos fixados a elas, com punhos esterilizados, permitiam que o cirurgião as ajustasse durante a operação de acordo com as necessidades sem contaminar as luvas, igualmente esterilizadas.

 

Anton Dieter ainda não aparecera, porém o ambiente lá em baixo era o de uma colmeia em actividade. De um lado, três técnicos trabalhavam numa máquina de metal brilhante, repleta de vidros e tubulações, cuja parte central consistia num tubo de plástico com cerca de um metro de comprimento e uns doze centímetros de diâmetro, que continha mais de uma dezena de discos metálicos fixados a um eixo central, por meio do qual se podiam pôr em movimento.

 

De momento imóvel, o conjunto dos discos e do eixo, verdadeiro coração do aparelho capaz de assumir as funções do coração e dos pulmões humanos, entraria em actividade pela acção de um interruptor. Cada rotação fazia que a pequena camada de mistura sanguínea contida na parte inferior do cilindro horizontal entrasse em contacto com uma atmosfera de oxigénio puro existente no longo tubo e para onde o sangue era elevado pelos discos giratórios. A mistura, denominada perfusato, compunha-se de cerca de três quartas partes de sangue do banco respectivo do hospital e um quarto de uma solução salina, além de uma reduzida quantidade de heparina, adicionada para evitar a coagulação.

 

Os alunos e internos quase enchiam a galeria de observação e comentavam em voz baixa o que se desenrolava lá em baixo, precaução aliás desnecessária, porquanto som algum podia atravessar a espessa chapa de vidro.

 

- Aquele dispositivo alongado chama-se oxigenador explicava um dos internos a vários alunos do primeiro ano. - À medida que o sangue é recolhido, sob a forma de uma ténue camada, por aqueles discos metálicos, o oxigénio que enche o tubo fica absorvido pela hemoglobina dos glóbulos vermelhos, ao mesmo tempo que se liberta o gás carbónico no espaço existente.

 

- Como se processa isso? - quis saber um dos ouvintes.

 

- A atmosfera do tubo consiste praticamente em oxigénio puro. Com uma concentração de oxigénio elevada no tubo e baixa nos glóbulos vermelhos, o oxigénio da hemoglobina é transportado para o resto do corpo. Ao mesmo tempo, com uma alta concentração de gás carbónico no sangue e baixa na parte superior do tubo, onde está o oxigénio, o sangue liberta-se do seu gás carbónico.

 

- Tal como nos pulmões?

 

- Com a diferença de que a máquina (na realidade, chamada bomba oxigenadora) substitui tanto o coração como os pulmões. Desse modo, o cirurgião pode abrir o coração, se for necessário, e trabalhar nele, substituindo válvulas ou fechando aberturas anormais, enquanto a circulação continua sem a mínima intervenção do coração ou dos pulmões.

 

- Durante quanto tempo pode continuar assim?

 

- O período mais longo que vi um paciente permanecer num «desvio» (ou desvio cardiopulmonar) foi de três horas. Mas Dieter raramente faz a coisa por mais de metade.

 

- Que acontece ao coração durante todo esse tempo? Não se move?

 

- Se o Dr. Dieter utilizar o «desvio», esta noite, verá que o coração de McGill quase não se contrai. Como não   tem   nada   que   fazer, fica como   a repousar.   Na realidade, o sangue é arrefecido e a temperatura do paciente reduzida. Uma vez arrefecidos, os tecidos precisam de pouco oxigénio e tudo se move com lentidão. O coração não necessita de trabalhar muito e encontra-se, portanto, protegido, assim como o cérebro.

 

Os alunos que ocupavam a primeira fila haviam deixado pouco espaço ao lado de Marisa Feldman. Não obstante, um indivíduo de cabelos pretos, bem-parecido, abriu caminho até lá e sentou-se, obrigando-a a mover-se um pouco.

 

- Chamo-me Traynor, Dra. Feldman - informou com um sorriso. - M.ke Traynor. Assisti ao seu trabalho com o tamponamento e confesso que fiquei maravilhado!

 

- Não exagere - replicou ela, que se encontrava na América o tempo suficiente para se deixar iludir com o entusiasmo dos estudantes.

 

- É a primeira operação do Dr. Dieter a que assiste?

 

- Sim. Estive um mês em férias, antes de chegar aqui, ontem.

 

- Veio de Harvard?

 

- Estive lá com uma bolsa de estudo de dois anos, após concluir o estágio em Inglaterra.

 

No anfiteatro operatório, um assistente principiara a aplicar uma solução anti-séptica de cor brilhante no abdómen do paciente. Quase no mesmo instante, na porta que comunicava com a sala dos lavatórios, surgiu um vulto algo atarracado de bata branca, gorro e máscara.

 

- Dieter! - O interno que fornecera explicações proferiu o nome no mesmo tom que decerto empregaria para se referir a uma personagem real. - Agora, vão assistir a um espectáculo inesquecível!

 

Tanto os assistentes, na galeria de observação, como o pessoal da sala de operações empertigaram-se ao aparecimento do cirurgião. Os da galeria inclinaram-se para ver melhor, conquanto Dieter se limitasse por enquanto a calçar as luvas esterilizadas. Tão interessada como os outros, Marisa nem se apercebeu da pressão de ombro de Mike Traynor, o qual se encostava mais do que o rigorosamente inevitável, mesmo atendendo à aglomeração de pessoas.

 

Dieter acabou de calçar as luvas e ergueu a cabeça para a galeria, o olhar percorrendo os alunos e internos até localizar Marisa. Mesmo através da vidraça, esta notou o impacto da personalidade do cirurgião, à semelhança do que acontecera uma hora antes, na Sala de Emergência.

 

De súbito, uma das enfermeiras ligou a uma tomada um fio que partia de baixo da bata de Dieter, e a voz de sotaque teutónico vibrou nos altifalantes da galeria:

 

- O Dr. Hagstrom, cirurgião residente, será meu assistente e o Dr. Jeff Long, anestesista residente, ocupar-se-á da parte mais importante das nossas actividades. O aparelho que vêem junto da mesa de operações é um disco oxigenador, ao qual a Imprensa leiga costuma referir-se como bomba coração-pulmões. Esperamos não ter de a utilizar, mas deve achar-se preparada para funcionar a qualquer momento.

 

Tentando imitar-lhe a voz, um aluno instalado nas últimas filas articulou:

 

- Uma produção Weston-Dieter apresenta em glorioso Medicolor...

 

Marisa descontraiu-se um pouco ao ouvir o coro de gargalhadas que varreu a galeria. Os modos de Dieter eram um pouco teatrais, sem dúvida, mas ela não ignorava que muitos mestres insignes dramatizavam propositamente no intuito de captar a atenção dos estudantes.

 

Entretanto, o assistente acabara de pintar toda a área exposta do abdómen do paciente com o anti-séptico e aproximou-se outro que aplicou uma segunda capa da solução destinada a eliminar as bactérias sempre presentes na pele. Em seguida, os dois homens afastaram-se e Helen Straughn acercou-se da mesa com uma lata de pulverização na mão, com cujo conteúdo cobriu toda a superfície em evidência.

 

- Mm Straughn está a aplicar um composto adesivo informou Dieter, através do microfone colocado no peito por baixo da bata. - Dentro de instantes, cobriremos toda a área com uma capa de plástico transparente.

 

Jeff Long mantivera-se em actividade enquanto o cirurgião falava, introduzindo um laringoscópio na boca do paciente. Consistia num tubo metálico com uma luz na extremidade e permitia fazer deslizar um tubo de borracha com um pequeno balão de borracha para a traqueia. Em seguida, retirou o laringoscópio e deixou ficar o tubo, após o que se apressou a encher o balão, a fim de formar uma vedação estanque. Desse modo, o ar podia entrar e abandonar os pulmões através do tubo intertraqueal, mantendo-se a pressão no interior do peito, depois de aberto cirurgicamente.

 

Dieter aproximou-se então da mesa para pegar numa das pontas de uma folha de plástico fino da esponja da enfermeira, enquanto Cari Hagstrom segurava a outra e desenrolavam a peça, pousando-a na pele pintada do ferido, onde se fixou por meio do adesivo que Helen Straughn aplicara.

 

- Trata-se de um caso de um ferimento de bala no coração. - Dieter voltou a dirigir-se à assistência. - As radiografias indicam que o projéctil continua dentro do coração. A avaliar pela posição do ferimento de entrada, podemos concluir que se situa no ventrículo direito. - E indicou um ponto avermelhado no peito de Paul McGill, um pouco à direita e quase à altura do seio desse lado.

 

Na parede da sala de operações do lado oposto à galeria de observações, iluminou-se uma janela no momento em que Helen Straughn accionou um pequeno interruptor, expondo os contornos de um coração humano, com as várias câmaras claramente assinaladas. À esquerda, surgiu a imagem da bala destacando-se da sombra do coração e dos pulmões em redor.

 

- Em conformidade com o que conseguimos apurar, o projéctil procedeu ligeiramente da direita - continuou Dieter. - Uma trajectória dessa natureza conduzi-lo-ia ao lado direito do coração, mas o facto de haver atravessado primeiramente outro corpo e ter, por conseguinte, sofrido certa deflecção, permite concluir que pode ter entrado praticamente de qualquer ângulo.

 

- Dois pássaros com um único tiro - comentou um estudante, com admiração. - Na minha terra, chama-se a isto ter uma pontaria extraordinária.

 

Registou-se novo coro de gargalhadas, inaudíveis no anfiteatro, porém o silêncio voltou a estabelecer-se quando o cirurgião prosseguiu:

 

- Esperamos que a utilização do oxigenador de discos não seja necessária, mas começaremos por expor a artéria femural, para a podermos abrir e canular, a fim de poder ser ligada ao oxigenador e permitir o regresso do sangue arterial ao corpo, se porventura tivermos de recorrer a ele.

 

Ao mesmo tempo, movia as mãos com destreza, como um pianista exímio. Por seu turno, a equipa que participava na operação também se conservava activa, produzindo uma pequena incisão no lado direito da virilha, após o que pequenas pinças hemostáticas apertaram minúsculos vasos que sangravam, para estancar o derramamento.

 

Do ponto em que se encontrava, Marisa Feldman observava com clareza as mãos de Dieter explorando, com auxílio de uma tesoura de pontas curvas, a abertura produzida na virilha. Transcorridos uns momentos, pousou-a e pegou num fórceps, que fez deslizar sob a artéria femural, um tubo de aspecto esbranquiçado, porventura com as dimensões de um dedo mindinho, agora visível à medida que pulsava nas profundezas do ferimento. Um assistente colocou a extremidade de um pedaço de algodão entre a pinça e Dieter apertou esta, a fim de isolar a artéria para facilitar o seu acesso. Alguns movimentos adicionais hábeis e rápidos puseram em evidência uma veia de paredes finas e aspecto azulado, igualmente isolada.

 

- Exporemos o coração por meio de uma esternotomia que exigirá a fractura do esterno - volveu o cirurgião. Esta incisão facultará o livre acesso ao coração e permitirá a investigação de ambos os seus lados.

 

As suas mãos continuavam a mover-se, segurando agora o bisturi, o qual mergulhou directamente no esterno, o que motivou a intervenção dos assistentes para estancar a possível hemorragia dos vasos cortados. A extremidade superior do ferimento interrompeu-se a uns oito centímetros do cavado do pescoço, e Dieter prolongou-o um pouco para a direita e esquerda, até adquirir o aspecto de um Y

 

- O óbice mais importante de uma esternotomia desta natureza consiste na tendência para a formação de cicatrizes espessas denominadas «quelóides», no período do restabelecimento. Por isso, formamos um Y na parte superior, no   intuito   de   evitar que   a cicatriz   se veja acima do colarinho da camisa. - Concentrou-se em seguida na parte inferior do esterno e prolongou a incisão um pouco para baixo, através das camadas exteriores da parede abdominal.

- Torna-se necessário expor todo o esterno, de contrário não poderíamos abri-lo largamente e obter o espaço indispensável para trabalhar. A serra oscilante, por favor.

 

O interno a cargo dos instrumentos entregou-lhe um objecto pesado coberto por uma manga esterilizada, em cuja extremidade emergia uma eixo metálico através de uma abertura.

 

- Utilizaremos a serra oscilante para cortar quase todo o esterno.

 

Com a facilidade com que cortaria uma tábua, a serra avançou através do osso em todo o seu comprimento. A seguir, Dieter confiou-a a uma enfermeira e aceitou uma espécie de navalha de forma singular que outra lhe estendia. Após pousá-la numa das extremidades produzidas pela serra, fez sinal a Cari Hagstrom, que já se munira de um pequeno martelo e principiou a aplicar pancadas secas e firmes no cabo da navalha, tecnicamente denominada faca Lebsche, enquanto uma enfermeira limpava com eficiência as aparas de osso dispersas em redor e outra procedia ao estancamento do sangue.

 

Pouco depois, o coração achava-se claramente visível no seu saco pericárdio através da abertura no osso, palpitando firme e ritmicamente.

 

Servindo-se de uma esponja de gaze, Dieter afastou com suavidade os tecidos sob a parte superior do esterno agora dividido, e expôs uma faixa fibrosa, que se apressou a cortar, esclarecendo:

 

- Acabo de cortar o ligamento interclavicular. Outra vantagem da incisão da esternotomia consiste em que, na maioria dos casos, as diversas cavidades em torno dos pulmões não necessitam de ser abertas. No entanto, se abríssemos alguma, intencionalmente ou não, não resultaria qualquer colapso pulmonar, porque o Dr. Long tomou a preocupação de introduzir um tubo intertraqueal e o paciente recebe anestesia de pressão positiva.

 

Após uma pausa, durante a qual continuou a trabalhar destramente, tornou:

 

- Há-de reparar, Dra. Feldman, que não se registou ulterior derramento da parede ventricular desde que libertou o coração do estrangulamento pelo tamponamento. Os ferimentos no coração fecham-se muitas vezes por si, uma vez acumulado sangue suficiente na cavidade do pericárdio para diminuir notavelmente o movimento do coração. O perigo reside em a acumulação estrangular o coração e matar o paciente. Somente a intervenção pronta e eficaz da Dra. Feldman evitou que o facto acontecesse ao Dr. McGill. Eis a entrada da bala. - Dieter indicou um ponto escuro na superfície do coração, onde se verificara uma pequena quantidade de hemorragia no músculo. - É de supor que se situe no ventrículo direito, mas pode ter-se dado o caso de atravessar o septo que separa os ventrículos e achar-se agora no lado esquerdo. Portanto, resta-nos explorar o terreno, por assim dizer.

 

À direita da porção do ventrículo visível, descortinava-se a câmara superior de paredes ténues desse lado do coração conhecida por átrio, com as veias gigantescas - veia cava superior e inferior - que lhe levavam o sangue de todo o corpo, excepto os pulmões. Dieter principiou a coser segundo um padrão circular, com cerca de três centímetros de diâmetro, na parede do átrio, fazendo a agulha atravessá-la por completo em cada ponto.

 

- A bolsa de linha que estou a colocar destina-se a dois fins - explicou à galeria. - Em primeiro lugar, permitir-me-á introduzir o dedo no lado direito do coração, para determinar se a bala se encontra lá. - Pousou a agulha e apontou para o diagrama na parede. - Em segundo, se a bala se alojou no lado esquerdo, necessitaremos de colocar o paciente no oxigenador, no intuito de podermos abrir o coração amplamente, extraí-la e reparar o ferimento no ponto em que penetrou no septo entre os ventrículos, para evitar que se forme uma comunicação anormal mais tarde. Por sorte, se tivermos de empregar o desvio cardiopulmonar, conseguiremos introduzir tubos de plástico directamente nas veias cavas superior e inferior através da área cosida até ao oxigenador.

 

A sutura de linha achava-se agora concluída e Cari Hagstrom levantou as suas duas extremidades, arrastando a parede do átrio, enquanto Dieter pegava numa faca de ponta aguçada com a mão esquerda.

 

Com um movimento rápido, cravou a lâmina no centro do desenho circular que cosera na parede do átrio. Acto contínuo, o sangue irrompeu, porém o seu indicador direito apressou-se a enfiar pela abertura. No instante em que Cari Hagstrom apertou as extremidades da bolsa de linha, a parede do átrio rodeou o dedo do cirurgião e o fluxo de sangue interrompeu-se.

 

- Sinto o interior do átrio e a válvula tricúspida entre ele e o ventrículo - descreveu Dieter, à medida que explorava o coração com o dedo. - A válvula não parece afectada.

- Após uma breve pausa, acrescentou: - Estou a tocar na bala, que se encontra em liberdade no ventrículo, como suspeitávamos. Queira apertar a vedação em torno da artéria pulmonar, Dr. Hagstrom.

 

Este obedeceu com fria eficiência e anunciou:

 

- Já está.

 

- Apenas podemos bloquear a circulação para os pulmões por escassos segundos sem provocar lesões graves. Estou esperançado em conseguir extrair a bala através do ferimento de entrada.

 

- Safa! - articulou um estudante em voz rouca. - O meu coração já não aguenta mais.

 

- Coloquei a bala junto da parede do ventrículo - anumciou Dieter. - A sua parte anterior começa a atravessar a parede.

 

A assistência soltou um murmúrio de assombro e emoção o qual aumentava à medida que o dedo de Dieter impelia o projéctil do outro lado. Sem perda de um instante, Cari Hagstrom, que já estava preparado com um fórceps, segurou-o firmemente entre as pontas metálicas e depositou-o numa pequena bacia a seu lado.

 

- Queira libertar a artéria pulmonar, Dr. Hagstrom recomendou o cirurgião. - Depois, coloque algumas suturas no ventrículo em volta do meu dedo, para fechar o ferimento da entrada.

 

Os minutos imediatos desenrolaram-se sem que a assistência que enchia a galeria tivesse a mínima noção do tempo, tão concentrada se encontrava na fase final da delicada operação.

 

- Tivemos muita sorte - reconheceu Dieter, para o microfone. - Como apenas necessitámos de abrir o coração para o explorar através do átrio, não temos agora de recorrer ao   oxigenador de discos. - Voltou-se para Jeff:

- Qual é a condição do paciente, Dr. Long?

 

- Excelente, doutor. Tensão doze e oito. Pulso cem.

 

- Não há sinais de choque?

 

- Nenhum.

 

- Óptimo. Não efectuaremos qualquer transfusão, a fim de não o expormos ao vírus da hepatite.

 

Marisa Feldman abandonou a galeria, custando-lhe a crer que, apenas pouco mais de duas horas antes, contemplara o corpo imóvel na maca da ambulância e ouvira um dos tripulantes desta declará-lo «morto à chegada».

 

Eram cerca de seis horas da tarde quando Alice Weston começou a recompor-se da crise de angústia que a assolara no momento em que Jake Porter telefonara para perguntar por Roy. Servindo-se da extensão da casa de banho, ela tentara entrar em contacto com George Hanscombe, no consultório da Clínica, mas já estava encerrado. Todavia, o médico do turno da noite achava-se familiarizado com os incómodos de Alice e indicou que repetisse a prescrição que costumava tomar quando sofria de cólicas, aviada numa farmácia das proximidades. E como havia mais de um ano que não se submetia a um exame geral, sugeriu que comparecesse na Clínica, na manhã seguinte.

 

Quando o medicamento chegou - uma solução verde de sabor inclassificável -, ela resolveu ingerir uma dose dupla. Mais tarde, as dores começaram a atenuar-se e, contrariando a norma de não se preocupar com as notícias, ligou a televisão na hora do telejornal e inteirou-se da tragédia interpretada por Mort Dellman, Lorrie e Paul McGill. Pouco depois, telefonaram do escritório de Roy para informar que ele não iria jantar a casa, por se encontrar ocupado com o caso da prisão do Dr. Dellman.

 

Antes do telefonema, Alice entretivera-se a preparar martinis para ela e o marido, pelo que bebeu o seu e tragou um prato de sopa que aqueceu no fogão, depois de confundir todos os botões, pois havia meses que não lhe tocava. De um modo geral, às quartas-feiras, dia de folga da empregada, costumavam jantar no clube, após os martinis da praxe.

 

Desta vez, porém, esqueceu-se de adicionar água à bebida e, assim que a sopa quente activou a circulação no canal digestivo superior, o álcool foi absorvido rapidamente, envolvendo-a numa onda de excitação que não lhe acudia desde longa data; mais precisamente desde a época em que frequentava o último ano do liceu e Lorrie viera do colégio, a fim de passar o Natal em casa.

 

Jack Porter ausentara-se, em viagem de negócios, na noite em que Lorrie chegara, e esta não perdera tempo a desafiar Alice para uma bebida antes do jantar, levando a garrafa para o quarto, quando se foram deitar, pelo que Alice estava parcialmente embriagada.

 

No momento em que Lorrie surgiu da casa de banho que elas compartilhavam e entrou no quarto friccionando o cabelo com uma toalha seca, após uns minutos debaixo do chuveiro, Alice já enfiara a camisa de musselina, e, enquanto escovava os cabelos diante do espelho do toucador, não conseguia desviar os olhos do corpo desnudo de Lorrie, a qual atravessou o quarto para se sentar na cama.

 

- Alguma vez estiveste com um rapaz? - perguntou esta última, repentinamente.

 

Profundamente embaraçada, Alice meneou a cabeça e murmurou: :

 

- Como consegues bronzear todo o corpo?

 

- No Inverno, uso uma lâmpada de luz solar.

 

- Despida?

 

- Claro! - Lorrie olhou a outra com curiosidade. Levanta-te lá.

 

Alice obedeceu e ela agachou-se, para pegar na bainha da camisa e puxar-lha até à cabeça.

 

- Que... que fazes?

 

- Desenvolveste-te imenso. Estás mais cheia aqui tocou-lhe nos seios - e aqui... - Desta vez, a mão de Lorrie deslizou para o ventre e prosseguiu até mais abaixo.

 

De súbito, levantou-se, fechou a porta do quarto à chave e arrastou Alice para a cama.

 

- Quero ensinar-te uma coisa, que talvez não saibas.

 

Mais tarde, Alice dormira nos braços da amiga, reconfortada e saciada. Quando despertou, a meio da noite, sentiu a mão de Lorrie acariciá-la e a excitação reapareceu com abruptidão, exigindo a satisfação que a outra tão bem sabia proporcionar.

 

Fora o Natal mais feliz de que se recordava, até que Lorrie regressara a Sweet Briar. No Verão seguinte esta partiu para a Europa e, quando regressou, no Natal imediato, achava-se acompanhada por um conde francês. Um pouco mais tarde, Alice iniciara o namoro com Roy, cujo uniforme do Campo de Treino de Oficiais Reservistas a impressionara fortemente.

 

 

Agora, dominada por profunda solidão, Alice cambaleou até ao telefone e marcou um número.

 

- Corinne? - perguntou, quando surgiu uma voz de contralto do outro lado da linha.

 

- A própria, querida.

 

Corinne Marchant costumava tomar conta das crianças no período escolar, quando Alice e Roy queriam sair à noite. No entanto, também fazia companhia a Alice durante as ausências dele, cada vez mais frequentes, em virtude da campanha política.

 

- Roy ficou a trabalhar no escritório e tive uma crise de colite. Já tomei o remédio, mas gostava que ficasses comigo até adormecer.

 

- Com certeza, menina. Achas que ele vai chegar tarde?

 

- A secretária telefonou, prevenindo que não e esperasse antes da meia-noite, pelo menos. É por causa do assunto de Mort Dellman. Deixo a porta fechada apenas no trinco.

 

- Estou aí dentro de dez minutos.

 

- Voltas a abusar da bebida - foram as primeiras palavras de George Hanscombe, no momento em que entrou na saia.

 

Em seguida, dirigiu-se ao pequeno bar num dos cantos do espaçoso aposento, verteu uma dose generosa de scotch num copo, adicionou um pouco de água gasosa e levou a bebida aos lábios.

 

- Pode saber-se porque não hei-de beber, se tu o fazes a torto e a direito?

 

- Sabes perfeitamente que és diabética.

 

- E, por causa disso, devo privar-me de tudo? Assim, mais vale morrer.

 

- Deixa-te disto - volveu ele, em tom condescendente.

- Tens uma casa estupenda, o clube e a tua obra social para te entreteres.

 

Duas vezes por semana, Grace vestia o uniforme azul e visitava as enfermarias, impelindo um carro de rodas com revistas, chocolates, papel de carta e esferográficas, que vendia aos pacientes. A tarefa fazia parte das actividades da loja do hospital, localizada no primeiro piso, e o produto apurado revertia a favor de bolsas de estudo para enfermeiras da Universidade.

 

- Mais valia que continuasse a trabalhar no bar - replicou, consciente de que a alusão tinha o condão de irritar o marido.

 

- Nunca foste propriamente uma barmaid - replicou ele.

 

- Envergonhavas-te de mim, se tivesse sido?

 

- Não sei. - George sentou-se, pousou o copo na mesinha ao lado e pegou numa revista, que começou a folhear.

- Nunca pensei nisso a fundo.

 

- Antes de casarmos, não te envergonhavas. Lembro-me mesmo que estavas ansioso por me levar para a 5áma. Vendo que ele continuava imerso na revista, como se não a ouvisse, acrescentou: - Diz-me uma coisa: nunca dormiste com Lorrie Dellman?

 

- Que disseste, querida? - inquiriu George, erguendo os olhos.

 

- Perguntei se alguma vez dormiste com Lorrie Dellman.

 

- Sem dúvida que não. Porquê?

 

- Porque todos os teus amigos se deitaram com ela. Custa-me a crer que abrisse uma excepção contigo.

 

- Não se devem ofender os mortos - sublinhou ele, com gravidade.

 

- Não ofendo ninguém. Na verdade, até admirava muito Lorrie. No fundo, fazia o que queria e quando queria. Grace calou-se por um momento. - Tens a mesma idade que Paul McGill, mas ele é mais homem do que tu.

 

- O que te leva a falar assim?

 

- Paul esteve com ela a uma quarta-feira, ao passo que só funcionas aos sábados, e mesmo assim não é nada que mereça a pena mandar dizer para casa.

 

- Não sejas ordinária. Que mosca te mordeu, esta noite?

 

- Estou farta de fazer a mesma coisa, dia após dia, noite após noite! - As palavras começaram a encadear-se e a crescer como uma torrente irresistível. - Estou farta de ter uma diabetes benigna. Prefiro ter uma grave ou nenhuma. Estou farta de ficar sentada em casa, noites a fio, à espera que regresses das tuas reuniões médicas. Estou farta de ficar sentada em casa, todas as noites, mesmo quando não sais, sem trocarmos uma palavra, porque adormeces e roncas diante da maldita televisão. - Por fim, explodiu:   - Porque não foste antes tu e Lorrie,   esta tarde?

 

-Hem?

 

- Seria por se tratar de uma quarta-feira e não de um sábado? Os teus testículos só actuam uma hora, nas noites de sábado?

 

- Com mil demónios, Grace! Que te aconteceu?

 

- Estamos a ficar velhos, George. A vida começa a deixar-nos para trás. Que foi feito de todas aquelas promessas que te ouvi em Inglaterra? As que costumavas segredar-me para que te acompanhasse à cama.

 

- Se a memória não me atraiçoa, não necessitavas de uma persuasão por aí além - comentou ele, secamente.

 

- Porque não gastamos um pouco do nosso dinheiro e fazemos uma viagem até à Inglaterra? - balbuciou ela, os olhos começando a encher-se de lágrimas.

 

- Já lá estivemos.

 

- Então, ao Rio de Janeiro. No próximo mês, realiza-se lá o Congresso Internacional de Cardiologia. Recebemos um folheto de uma agência de viagem sobre isso.

 

- Tenho numerosas responsabilidades sobre os ombros, sem falar nas aulas.

 

- Os outros comparecem a uma infinidade de congressos. Podias confiar as aulas aos teus assistentes. Até ficavam radiantes com a oportunidade.

 

- Nem pensar nisso.

 

- É por esse motivo que nunca tiras férias, hem? Receias que um daqueles brilhantes jovens se revele um médico melhor que tu! Toda a gente no hospital sabe que nunca lhes concederás uma oportunidade.

 

- Recuso-me a continuar a ouvir as tuas baboseiras proferiu ele, principiando a impacientar-se.

 

- Mas tens de ouvir. Casámos para compartilhar o melhor e o pior, e Deus sabe bem que não pode haver pior do que isto.

 

Grace começou a chorar livremente, mas quando o marido tentou acariciar-lhe os ombros, sacudiu a mão com rispidez.

 

- Porque não procuras, Dave Rogan, querida? - Notando que ela estremecia, apressou-se a acrescentar: - Então, Jack Hagen. No fundo, a meno...

 

- A menopausa já não existe para as mulheres. Se não sabes isso, és um médico muito reles. Os ginecologistas aplicam-nos hormonas e envelhecemos graciosamente. É um verdadeiro elixir da juventude. As mulheres podem continuar jovens toda a vida. Só os homens envelhecem.

 

- Lá voltas tu com baboseiras.

 

- Li isso no jornal, num artigo da autoria de um médico. Afirma também que a menopausa masculina só existe na imaginação dos homens. Portanto, como se explica que não consigas actuar às quartas-feiras, como Paul McGill? Nem fazes ideia de como invejo Elaine! - Ela levantou-se bruscamente do sofá e precipitou-se para a escada de acesso aos quartos.   - Boa noite!   - Mas apressou-se a rectificar: - Qual quê! Não tem nada de boa!

 

Quando George subiu, às dez horas exactas, como fazia sempre, Grace já dormia e não acordou no momento em que ele se enfiou entre os lençóis, do outro lado da cama de casal.

 

Pete e Amy Brennan encontram-se deitados, fumando e vendo televisão, quando o telefone tocou, cerca das oito e meia.

- Não atendas - indicou ela, apressadamente. - Ainda me apetece mais.

 

- Como queres que eu funcione convenientemente, com o raio da campainha a tocar?

 

- Tira o auscultador do descanso.

 

- Para a telefonista nos ouvir resfolgar? Julgava que tinha acontecido alguma fatalidade e mandava vir a Polícia.

 

- Então atende, mas não saias daqui.

 

- Dr. Brennan - proferiu ele para o bocal.

 

- Pete! - exclamou a voz de Roy Weston.

 

- Há alguma novidade?

 

- Convinha que desses um salto até à prisão. Mort Dellman quer falar contigo... e eu também.

 

- Não vejo o que possa fazer por ele. Precisa é de um bom advogado.

 

- Não lhe interessam os advogados, pelo menos de momento. Insiste em conversar contigo.

 

- Não pode ficar para de manhã?

 

- Se não vieres acalmá-lo, ele tenciona revelar várias coisas desagradáveis. Pensa no que isso pode originar à Clínica e a metade dos homens desta cidade.

 

- Bem - grunhiu Pete. - Verei o que consigo.

 

- Não te demores, porque já fiz tudo o que podia, sem resultado.

 

- Que quer ele? - inquiriu Amy, quando o marido pousou o auscultador.

 

- Mort Dellman deseja falar-me e Roy pensa que devo comparecer, sob pena de ele revelar a vida de Lorrie à Imprensa. Principiando com o que aconteceu a Roy, suponho.

 

- Mas isso foi há muito tempo.

 

- De qualquer modo, podia deitá-lo por terra, no que se refere às eleições. Abner Townsend nunca se cala com a sua mania da moralidade. Imagina como se valeria da situação para a campanha política em que tem Roy como rival.

 

- De momento, estou-me nas tintas para Mort, Roy ou Lorrie. Prefiro pensar em nós.

 

A voz dela achava-se um pouco arrastada pela acção da morfina, todavia Pete não se deu conta do facto, em virtude da preocupação resultante das possíveis declarações de Mort à Imprensa.

 

- Dorme uma soneca enquanto vou até lá - recomendou, levantando-se e começando a vestir-se. - Assim, quando eu voltar, terás recuperado as energias.

 

- Quem vai precisar de energias és tu - replicou ela, sorrindo. - É melhor guardares o frango no frigorífico. Fica para o pequeno-almoço.

 

Do ponto em que se encontrava sentada, na pequena sala de espera junto da Unidade Especial de Cuidados Intensivos, Elaine McGill viu a maca passar rapidamente. Jeff Long, que vinha à frente, dirigiu-lhe um sorriso encorajador, porém Paul achava-se rodeado por tanta coisa tubos de borracha de ampolas de soros intravenosos transportadas pelas enfermeiras da sala de operações, fios de electrocardiógrafo e cobertores - que não lhe conseguiu observar o rosto. A situação era quase tão inquientante como fora a expectativa, e ela nem tentou segui-lo até ao quarto, consciente de que a sua presença só serviria para estorvar. Momentos depois, Anton Dieter surgiu à entrada da sala de espera e aproximou-se de Elaine.

 

- Sou o Dr. Dieter, senhora McGill. Conhecemo-nos, o ano passado, numa reunião em casa do Dr. Hanscombe.

 

- Recordo-me perfeitamente. Foi pouco após a sua che.gada a Weston.

 

- Seu marido encontra-se bem. Conseguimos extrair a bala sem dificuldade. - O cirurgião retirou da algibeira um minúsculo projéctil de aço brilhante, que colocou na palma da mão para que ela o observasse. - As autoridades não a devem querer, com certeza.

 

- Nem eu - replicou Elaine, estremecendo. - Quando lhe parece que Paul acordará?

 

- Depende de vários factores. Seu marido esteve clinicamente morto durante algum tempo, sem que fosse possível distinguir-lhe a respiração ou o pulso. Ignoramos por quantos minutos se conservou assim, mas não restam dúvidas de que as células cerebrais ficaram privadas de oxigénio ao longo desse período.

 

- Nesse caso, ainda pode?... - Ela interrompeu-se ao evocar um artigo que lera acerca de um paciente cujo coração parara, durante uma operação. Embora conseguisse sobreviver, não voltara a recuperar o conhecimento e permanecera anos imerso em coma. - Ainda pode haver complicações?

 

- A partir do momento em que a Dra. Feldman reconheceu a sua condição e iniciou o tratamento de urgência, o seu marido recuperou com rapidez extraordinária. Portanto, tudo indica que se restabelecerá por completo.

 

- Mas não tem a certeza...

 

- Infelizmente, não disponho de meios para tal.

 

A prisão de Weston era a mais moderna do Estado e ocupava todo o piso superior do Tribunal de Justiça.

 

- O senhor Weston encontra-se na sala de interrogatórios... digo, de conferências - informou o guarda armado que conduzia o elevador para o qual Pete Brennan entrara.

 

A porta de acesso à sala abriu-se e este entrou. Roy Weston, de colarinho desabotoado e gravata a um lado, movia-se em excitado vaivém, as faces congestionadas de cólera, discutindo com um homem mais novo, no qual Pete reconheceu Jimmy Lastvogel, adjunto do promotor de Weston. Quando viu o recém-chegado, Roy fez-lhe sinal para que o seguisse a um dos vários gabinetes que desembocavam na sala.

 

- Ainda bem que te apanhei em casa - desabafou, suspirando. - Passei duas horas a aturar repórteres. Até agora, consegui livrar-me deles com o velho arrazoado sobre os perigos da publicidade antes do julgamento e a necessidade de defender os direitos do detido contra o auto-incriminação.

 

- Segundo ouvi na rádio, o caso parece muito simples observou Pete. - Estive toda a tarde no lago e quando cheguei a casa e ouvi a notícia, segui imediatamente para o hospital. Telefonei ao tio Jake, mas disse-me que tinha tomado as providência necessárias para o funeral e só lhe interessava que se desse a menor projecção possível ao sucedido.

 

- É o que desejamos, mas o meu assistente parece possuir miolos de andorinha e empenhou-se em deitar tudo por terra.

 

- Como?

 

- Quando trouxeram Mort, não me encontraram e Jim O’Brien andava à procura de Elaine, a qual parece ter passado a tarde no pavilhão do lago e só soube quando lhe telefonaram.

 

- Foi mais ou menos o que me aconteceu.

 

- Dá a impressão de que estávamos todos ocupadíssimos, esta tarde, para tomar conhecimento da tragédia. O’Brien e Eric Vosges enviaram Mort para a prisão num carro-patrulha, depois de concluírem a investigação do caso na residência dele. Passaram pelo hospital, para se inteirarem do estado de Paul e trocaram algumas palavras com Dieter, antes de   este   o levar para a sala de   operações, após o que trataram de localizar Elaine. Mas em vez de deixar as coisas como estavam até eu chegar, Jimmy Lastvogel principiou a interrogar Mort, ao bom estilo do dinâmico promotor público da TV que criva o suspeito de perguntas até o obrigar a confessar. - Roy interrompeu-se para desferir um soco na mesa. - É uma coisa que qualquer aluno do primeiro ano de Direito sabe, desde que o Supremo Tribunal decidiu sobre o caso Escobebo. As confissões já não são aceites como prova.

 

- Que revelou Mort?

 

- Pergunta antes o que não revelou! Primeiro, insistiu em que Jimmy chamasse um escrivão do Tribunal. Depois, pôs-se a descrever toda a história, para que ficasse registada. Portanto, que tenho agora nas mãos? Uma confissão de todos os pormenores do caso, que eu poderia extrair por mim próprio e utilizar como prova. Assim, resta deitar tudo fora.

 

- Apesar disso, trata-se de um caso simples, suponho.

 

- De modo algum, pois fornece a Abner Townsend precisamente o que ele necessita para arrasar a minha candidatura a procurar-geral do Estado.

 

- Talvez eu seja obtuso no que se refere a questões legais, mas...

 

- Se eu não me lançar sobre Mort encarniçadamente, tentando   condená-lo, Abner proclamará que   o protejo porque pertenço à Corporação da Clínica. Do ponto de vista pessoal, agradava-me que Mort sofresse as consequências do acto que cometeu. É possível que Lorrie tivesse a ideia fixa do sexo, mas não se pode considerar um caso único na História. De resto, ela nunca prejudicou ninguém. Agora, a malfadada confissão anulou todas as provas que eu poderia apresentar. - Roy sentou-se e acendeu um cigarro com dedos trémulos de fúria. - Palpita-me que ele planeou tudo, sabendo que, se confessasse o que eu poderia utilizar contra ele e depois negasse a confissão, não me restariam meios para apresentar qualquer das provas, se o levasse a julgamento. É suficientemente atilado e desprovido de princípios para proceder assim.

 

- Como descobriste tudo isso? - quis saber Pete.

 

- Jim O’Brien, que anda sempre ao corrente de tudo o que se passa na cidade, sabia onde me encontraria e apressou-se a chamar-me, quando se inteirou do que ocorria, depois de localizar Elaine. Acudi imediatamente, mas demasiado tarde, porque Mort já tinha despejado o saco. Não necessito   explicar-te o   escândalo   que   rebentaria se eu agora tentasse subornar um escrivão para que me confiasse os elementos registados.

 

- Mort pode refutar a confissão?

 

- Foi para isso que te pedi que viesses. Ele chamou-me há momentos e anunciou com a maior serenidade que o tinham interrogado sem o prevenir dos seus direitos e quando se encontrava sob o intenso abalo emocional resultante da morte da mulher. Alega que não sabe o que revelou a Jimmy Lastvogel e ao escrivão, mas, fosse o que fosse, está firmemente resolvido a refutar tudo.

 

- Assinou as declarações?

 

- Não, mas isso não faz a mínima diferença, segundo a lei Escobedo. Podia até ter jurado de pé em cima de um monte de Bíblias.

 

- Posso saber o que confessou, ou é contra a Lei?

 

- Não vejo inconveniente. Aposto que, assim que se livrar disto, Mort venderá a história a uma revista por um dinheirão. FIZ FOGO SOBRE A MINHA MULHER E O AMANTE é um título capaz de bater todos os recordes de bestsellers. Segundo   parece, enquanto Lorrie   manteve   as aventuras amorosas no âmbito da família, por assim dizer, não se preocupou muito. Da forma como encarava a situação (e reconheçamos que não se afastava muito da realidade), há vários anos que muitos de nós dormimos com as mulheres dos outros, provavelmente em busca da variedade que impede numerosos matrimónios de se desmoronarem.

 

- Creio que alguns conselheiros conjugais não concordarão com esse género de terapêutica - observou Pete, com um sorriso. - Mas não passa de uma questão de ponto de vista.

 

- Mort confessou que Lorrie era demasiado exigente para ele e, por esse motivo, fechava os olhos às suas actividades extraconjugais, desde que as exercesse entre os membros dos «clube». No entanto, ultimamente, parece que ela andava com um estudante.

 

- De Medicina?

 

- Sim. Um tipo de cabelos encaracolados chamado Mike Traynor.

 

- Sei quem é. Há uns tempos, arranjou sarilhos com uma enfermeira e estivemos quase a correr com ele.

 

- Foi pena que o não fizessem.

 

- Deu-se a circunstância de a enfermeira ser quase do mesmo calibre.

 

- Portanto, Mort suspeitou do que acontecia, ou talvez ela lho revelasse, não sei. O certo é que ele incumbiu alguém de a seguir e descobriu que o tipo aparecia às quartas-feiras à tarde, quando a maior parte de vocês vai jogar golfe.

 

- De facto, não podia escolher melhor ocasião.

 

- Mort resolveu servir-se desse Traynor para dar uma lição à mulher, assustando-a e obrigando-a a regressar ao «clube». Penso que também pretendeu assustar outros, cujos nomes poderíamos mencionar, embora o objectivo principal consistisse em desencorajar Lorrie de se envolver com estudantes.

 

- Um plano inteligente.

 

- Daqueles que só poderiam ser imaginados e executados por um Mort Dellman - aquiesceu Roy. - O pior é   que   estava demasiado   escuro no quarto onde eles se encontravam. Apesar de excelente atirador, Mort não se apercebeu de que era Lorrie quem estava por cima.

 

- O quê?

 

- Jim O’Brien e Eric Vosges examinaram os ângulos e trajectórias que a bala podia ter tomado e garantem que

 

foi o que se passou. Mas quem iria imaginar que era McGill quem se encontrava com ela?

 

- Na verdade, eu quase apostaria que ele era virgem quando casou com Elaine e depois não tornou a olhar para outra mulher - admitiu Pete.

 

- Tudo indica que Lorrie arranjou maneira de o atrair a sua casa, esta tarde. Quem sabe se o seu procedimento se relacionava com a aposta insensata que tentou fazer com as outras.

 

- Qual aposta?

 

- Amy não te contou?

 

- Nem uma palavra.

 

- A coisa verificou-se há cerca de um ano, quando estavam reunidas numa sessão do seu clube de «corte»...

 

- A «Sociedade de Dissecação»?

 

- Isso. Alice contou-me tudo na altura. Lorrie começou por analisar os nossos casamentos e creio que disse que as pobres raparigas não obtinham aquilo a que tinham direito, oferecendo-se para nos estudar na cama e apresentar um relatório do que apurasse.

 

- Não me digas que elas a encararam a sério?

 

- Claro que não. E talvez fosse por esse motivo que Amy não te disse nada. Quanto a Alice, estava-se nas tintas. Metade das vezes que a procuro, adormece antes de eu terminar. Portanto, nenhuma encarou Lorrie a sério e ela anunciou a intenção de proceder à experiência.

 

- Deve ter sido por isso que insistiu em que a acompanhasse, no seu carro, a um cabaré, o ano passado - murmurou Pete, pensativamente.

 

- Queres dizer que recusaste?

 

- Dá-se a casualidade de eu amar a tua irmã, com todos os seus defeitos, embora não saiba até quando os aguentarei.

 

- Confesso que pensei nisso. Já em criança Amy tinha a mania de mandar, talvez porque via a mãe passar a vida a dar ordens ao pai. Mas, voltando a Mort, depois da sua inconcebível confissão, pediu-me que te chamasse e apressei-me a fazer-lhe a vontade.

 

- Então, vou ver o que me quer.

 

- Fax-me um favor, Pete. Convence-o a alegar loucura temporária.

 

- Isso melhoraria a situação, no que se refere a Abner Townsend?

 

- É a minha única oportunidade. E, possivelmente, a de Mort, também.

 

- Pensas que ele concordará?

 

- Isso ou arriscar-se à chamada lei não escrita, mas nunca se pode prever como um júri reagirá.

 

- Se Mort encarar a situação como achas que deve, também transporá esse obstáculo.

 

- Tenta convecê-lo de que é o melhor que tem a fazer para conseguir a absolvição. Um tipo chega a casa, surpreende a mulher com outro e alveja-o a tiro, dominado pela cólera, o que o torna irresponsável pelos seus actos, consoante a opinião geral. Nenhum júri do país o condenará, se admitir que a indignação o cegou. Na verdade, se colaborar, posso mesmo conseguir que nem seja julgado.

 

- Como?

 

- De momento, temos um Grande-Júri em actividade. Se eu levar o caso a julgamento e dispuser de psiquiatra...

 

- Que não seja Dave Rogan! - advertiu Pete.

 

- É o último que me ocorreria - asseverou Roy. - Para já, não atestava a loucura de Mort, e mesmo que o fizesse, Abner Townsend proclamaria que tinha sido tudo combinado. Tentaria arranjar um psiquiatra em Atlanta ou Ashville. Com um depoimento apropriado, conseguiremos abafar tudo, e Abner não poderá protestar.

 

- E que acontecerá a Mort? Antes de o aconselhar, preciso saber isso.

 

- De qualquer modo, terá de abandonar a cidade. Mas, assim, não o fará dentro de um caixão.

 

- Já lho sugeriste?

 

- Sou o promotor público, homem? Por conseguinte, é de supor que envide os maiores esforços para o executar, e garanto-lhe que o faria, se ele não me pusesse em xeque. Agora, temos de nos safar da enrascada da melhor maneira possível.

 

- Continuo a não ver como pensar abafar o escândalo, atendendo a que Mort insiste em divulgar tudo.

 

- Se insistir, não poderemos fazer nada. Mas se permitir que eu leve o caso ao Grande-Júri sob a alegação de loucura temporária, o processo será secreto e talvez evitemos que transpire. No entanto, temos de andar depressa.

 

- Posso falar com ele a sós?

 

- Sem dúvida. Vou mandar trazê-lo. Diz-lhe que não se apoquente com a possibilidade de haver microfones ocultos, porque o que menos interessa neste momento é outra confissão.

 

Pete Brennan não mantinha relações particularmente cordiais com Mort Dellman e, noutras circunstâncias, nunca escolheria o atarracado patologista clínico para associado. À semelhança dos restantes componentes do grupo de médicos que constituía o núcleo da Clínica da Faculdade, convivera dois anos com Mort no Hospital-Geral na Coreia, onde todos haviam prestado serviço. Quando os restantes se tinham candidatado a lugares na Faculdade, na nova Escola Médica da Universidade de Weston, quinze anos antes, Mort também o fizera... por iniciativa própria.

 

As suas credenciais como bioquímico e hábil director de laboratório achavam-se acima de quaisquer dúvidas, indiferentemente ao facto de gostarem ou não dele. Todos, incluindo o próprio Conselho da Faculdade de Medicina, tinham reconhecido a sua capacidade nesse capítulo, pelo que não experimentara dificuldades em ser admitido. Quando decidiram abrir a Clínica da Faculdade, Mort Dellman apresentara sugestões valiosas sobre a automatização e o acréscimo de eficiência, pelo que fora naturalmente nomeado director do laboratório clínico.

 

Fora ele que desenvolvera as técnicas automatizadas que permitiam atender duas vezes mais pacientes por dia que qualquer outro grupo de igual dimensão no país, com a possível excepção de alguns da Califórnia que empregavam os mesmos processos.

 

Roy deixara a porta do pequeno gabinete aberta, o que possibilitou a Pete a visão de Mort Dellman aproximando-se acompanhado por um guarda.

 

- Fazem-te passar um mau bocado, hem? - proferiu Pete, estendendo-lhe a mão.

 

O patologista deixou-se cair numa cadeira e aceitou o cigarro e o lume que o outro lhe oferecia. Era um indivíduo de estatura mediana, faces carnudas, olhos encovados e vivos e cabelos grisalhos.

 

- Talvez, um pouco, mas agora sinto-me bem - replicou pausadamente. - Lorrie está morta e não a posso fazer voltar. Resta-me sair disto da melhor maneira possível.

 

- Não era má ideia arranjares um bom advogado.

 

- Já comecei a preparar a minha defesa. Sabes como Lorrie era, e se não desfrutaste a tua parte, não foi por culpa dela. Estou convencido de que as oportunidades não escassearam. - Mort fez uma breve pausa, durante a qual Pete se conservou silencioso. - Enquanto manteve as actividades dentro do grupo, não me preocupei muito. Um fulano acaba por se cansar de uma iguaria, por boa que seja, se lha colocarem diante do nariz todos os dias. Não tenho rebuço em reconhecer que ela era de mais para um homem só. O facto de consentir que os meus colegas se divertissem, uma vez por outra, com minha mulher, proporcionava-me um certo ascendente sobre eles, que de contrário não conseguiria. Sei perfeitamente que muita gente não simpatiza comigo, mas é-me indiferente.

 

- Porque me chamaste?

 

- Admiro-te mais do   que aos outros, embora Dave Rogan também me tratasse sempre com correcção. Suponho que Roy mencionou a confissão que o seu impulsivo colaborador me extraiu. Eu perdoaria tudo a Lorrie, menos a circunstância de pretender enxovalhar-me, embrulhando-se com um estudante. Já imaginaste as repercussões da história no alojamento deles?

 

- Acredito que não seria das mais agradáveis.

 

- O tipo costumava aparecer às quartas-feiras, pelo que resolvi utilizá-lo para assustar Lorrie e servir de exemplo a outros do mesmo calibre.

 

- Queres dizer que planeaste matar, esta tarde, esse... como se chama?

 

- Traynor? Evidentemente que não! Queria apenas feri-lo superficialmente. Podia lá advinhar que encontraria Paul McGill em vez dele?

 

- Nunca tinha estado com Lorrie?

 

- Que eu saiba, não, e o homem que contratei para a seguir apresentava-me relatórios minuciosos. A propósito: como está Paul?

 

- Deve escapar. Anton Dieter extraiu-lhe a bala do coração.

 

- Ainda bem! Sempre considerei Paul pateta e antiquado, mas nunca me passou pela cabeça feri-lo.

 

- Fazes alguma ideia do que o levou a envolver-se com Lorrie?

 

- Bastava-lhe ir lá a casa.

 

- Mas porque havia de ir?

 

- Ela deve ter-lhe pedido. Recordo-me   de ter dito, esta manhã, que estava com a pele irritada... ou seria ontem? Enfim, não interessa. A nossa casa, como sabes, fica no caminho do clube, onde Paul costumava jogar golfe nas tardes de quarta-feira. Suponho que não desconfiou de nada. A menos que Lorrie esperasse o estudante de Medicina e, como não tivesse aparecido, se atirasse a Paul. De qualquer modo, não resistiria por muito tempo, se a encontrasse despida como um gaio.

 

- Um gaio? - ecoou Pete, arqueando as sobrancelhas.

 

- É uma história que ela leu numa revista qualquer. Segundo parece, um grupo de fulanas avariadas do miolo concebeu um novo sistema de executar as tarefas domésticas:   em pelota. Chamam a isso o método do gaio e garantem que facilita imenso o trabalho.

 

- Deves estar a brincar.

 

- Se não acreditas, lê o artigo. Acho que veio publicado na Time. Tem feito calor e as crianças encontram-se no campo, pelo que Lorrie resolveu utilizar o sistema, este Verão. Afirmava que era maravilhoso, e confesso que me levou a almoçar em casa mais vezes do que costumo.

 

- É pena que não o fizesses hoje.

 

- Sem dúvida. Segundo julgo, assim que Lorrie o apanhou dentro de casa, Paul viu-se numa situação em que nem uma estátua de mármore resistiria. Infelizmente, para ele, escolhi esta tarde para aplicar um correctivo exemplar àquele estudante.

 

- Roy pode crucificar-te no tribunal, se confessares que foste expressamente para alvejar Traynor. Em especial, atendendo ao facto de saberes que ele já lá tinha estado.

 

- Julgas-me imbecil a esse ponto? A minha defesa consistirá na lei não escrita, a lei natural. Disparei em defesa do meu casamento, do meu lar, e não há júri que condene um homem por isso.

 

- Porque não vamos antes para a loucura momentânea? Ajustava-se perfeitamente à defesa e até a robustecia.

 

- Nem pensar nisso! Com uma sentença dessas sobre os meus ombros, podia safar-me à cadeira eléctrica, mas mandavam-me para uma clínica do Estado, onde apodreceria alguns anos, até um psiquiatra imbecil decidir que eu era um indivíduo normal. E até podiam voltar a julgar-me. Não, tenciono resolver o assunto à minha maneira.

 

- Nesse caso, para que me mandaste chamar?

 

- Vou precisar de um advogado. Alguém do género de Percy Foreman. Compete-te e aos outros andar com os seus honorários.

 

- O que teva a pensar assim? - quis saber Pete, com um olhar desconfiado.

 

- Tens de me salvar para preservar a reputação da Clínica da Faculdade e dos que Lorrie arrastou para a cama com aquela aposta insensata.

 

- Também estavas ao corrente disso?

 

- Sim.

 

- Acreditas, se te garantir que me inteirei dela pela primeira vez há pouco, quando Roy se lhe referiu?

 

- Acredito em tudo o que disseres. Foi por isso que te chamei e por seres o presidente da Corporação da Clínica.

 

- Que tem a Corporação a ver com tudo isto?

 

- Vou ter de abandonar a Faculdade, o que me obrigará a deixar igualmente a Clínica. Por conseguinte, quero ceder-lhes a minha parte, a fim de obter fundos para a defesa.

 

- Invocando a tal lei natural, não escrita?

 

- Exacto. Arriscar-me-ei a que o júri me condene por homicídio não permeditado, ao que correspondem de dois a dez anos de prisão. Se tal acontecer, poderei ser posto em liberdade dentro de um ano, ou pouco mais, com cem mil dólares no Banco.

 

- Como pensas consegui-los?

 

- É o que exijo pela minha parte na Clínica e seu futuro.

 

- Deves estar a sonhar!

 

- Se sonho, trata-se de um pesadelo, mas para vocês e não para mim.

 

- Sabes perfeitamente que não dispomos de cem mil dólares.

 

- Em dinheiro, talvez não, mas ninguém hesitará em lhes conceder crédito. Qualquer de vocês arrecada mais de cinquenta mil dólares por ano na Clínica, sem falar no salário da Universidade. Se tu, George Hanscombe, Dave Rogan, Joe McCloskey e Paul McGill tirarem dez mil por ano desses cinquenta mil, poderão pagar um empréstimo de cem mil em dois anos... com porventura mais um ano para salvar os juros.

 

- Dá a impressão de que congeminaste tudo minuciosamente.

 

- Devias saber que não ando no mundo por ver os outros. Cem mil dólares é mais ou menos o que eu ganharia na Clínica nos próximos anos, mas começo a cansar-me do lugar. Agora, com Lorrie morta, posso utilizar esse dinheiro para me divertir.

 

- Onde?

 

- Na África do Sul e vários outros lugares em que há necessidade imperiosa de médicos. E não se econtram bioquímicos e patologistas experientes em todos os cantos.


- Em todo o caso, cem mil...

 

- Se pensares bem, concordarás que é um preço de amigo. No fundo, fui eu que automatizei a Clínica e fiz várias outras coisas em vosso benefício.

 

- Ninguém o nega.

 

- Então, que dizes?

 

- Não posso decidir nada sem conversar com os outros. E Paul McGill não se encontra em condições de emitir opinião de momento. Concede-me uma semana.

 

- É muito. Não gosto de prisões. Se Roy não me põe lá fora dentro de um ou dois dias, lanço-lhe um habeas-corpus em cima.

 

- Cinco dias?

 

- Três. Se Paul está livre de perigo, como afirmaste, poderá pronunciar-se depois de amanhã. Mas procura ser persuasivo, porque tenho a pele em jogo e não cederei um único milímetro.

 

Roy Weston reapareceu, pouco depois de o guarda levar Mort Dellman, e apressou-se a observar:

 

- Parece que viste um fantasma.

 

- Não te enganas muito. Há alguma coisa que se beba?

 

- Numa prisão? - Roy exibiu um sorriso malicioso e abriu a gaveta da secretária, da qual extraiu uma garrafa de bourbon e dois copos. - É um bom filho de uma cadela. Como me agradava esmagá-lo no Tribunal!

 

- Não penses nisso. Qualquer benefício que obtivesses para aumentar a tua votação era destruído pelo escândalo que a Imprensa faria em torno do assunto.

 

- Foi por esse motivo que te recomendei a aconselhar-Ihe que alegasse loucura momentânea.

 

- Ele não vai nisso.

 

- Porquê?

 

- Pensa que o encerravam numa clínica do Estado, e a sua confiança no pessoal desses estabelecimentos não é mais forte que a minha. Julga que ficava encerrado uma boa porção de anos.

 

- Sempre é preferível a ser executado.

 

- Mort não considera a hipótese da execução. Para tal, vai recorrer a um advogado de alto nível... alguém do género de Percy Foreman.

 

- Safa! - Roy Weston emitiu um silvo de admiração.

- Esses costumam fazer-se pagar bem.

 

- A parte financeira da questão também não o apoquenta. Quer que eu, George, Dave, Joe e Paul paguemos a conta. Melhor: pretende que compremos a sua saída da Clínica por cem mil dólares.

 

- Cem mil dólares?!

 

- É a parte que lhe cabe.

 

- Nunca pensei que fosse tanto.  

 

- Vou conversar com os outros, amanhã. Impõe-se que arranjemos o dinheiro.

 

- Não esqueçam que pertenço à Corporação da Clínica e pagarei a parte que me competir.

 

- Nunca. O caso só diz respeito a nós. De resto, pensa no que Abner Townsend faria na próxima campanha, se soubesse disso.

 

Quando Pete chegou a casa, Amy dormia profundamente. Puxara o lençol para o queixo e enroscara-se como uma criança. Contemplando-a ao clarão do candeeiro da mesa-de-cabeceira que ela deixara aceso, ponderou que nunca a vira tão atraente, e custou-lhe a acreditar que alguma vez tivesse concebido a noção de se divorciar.

 

Amy permanecia imóvel, quando Pete acabou de se despir e se estendeu a seu lado e, como tinha a cabeça voltada para o outro lado, não pôde ver-lhe as pupilas, de contrário, a contracção intensa provocada pela dose de morfina que tomara antes de ele chegar a casa, pela primeira vez, revelar-lhe-ia algo de terrível que sentiria dificuldade em admitir.

 

Passava das nove da noite e Maggie continuava sentada ao balcão do Bar das Senhoras, bebendo sem vacilar. O bartender, Manuel, que a observava em silêncio havia uns momentos, aproximou-se e tocou-lhe no braço.


- Vamos fechar, senhora McCloskey. Quer que chame um táxi?

 

- Para quê? - Ela sacudiu a cabeça para melhorar a visão, porém o semblante permaneceu anuviado. - Tenho o carro lá fora.

 

- Achava mais aconselhável tomar uma táxi - volveu o cubano. - Pode deixar o carro no parque de estacionamento até amanhã.

 

- Está bem. Chame lá um, enquanto acabo de beber isto.

 

- Porque não toma antes um pouco de café? Acabo de o fazer para mim.

 

- Pois sim. - Maggie sentia-se demasiado fatigada para discutir. Quando o táxi chegou, conseguira ingerir duas chávenas de café, entretida a escutar a verborreia de Manuel, que a ajudou a subir para o veículo. - Sherwood Ravine Drive, 3501 - comunicou ela ao motorista, após o que se reclinou pesadamente no assento.

 

Uma vez no seu destino, pagou a quantia indicada no taxímetro e apeou-se em movimentos incertos, o que levou o homem a perguntar:

 

- A senhora vai sozinha?

 

- Que lhe parece? - balbuciou Maggie, pousando a mão na janela. - Tenho aspecto de um par de gémeos?

 

- Desculpe, mas perguntei para apontar os faróis à porta até que entrasse.

 

- Ah, obrigada.

 

Ela avançou até à entrada, conseguiu introduzir a chave na fechadura e abrir a porta, após duas tentativas infrutíferas, e acendeu a luz.

 

O café estimulara-lhe o espírito, contribuindo para atenuar um pouco o torpor provocado pelo álcool, embora fosse insuficiente para lhe desanuviar as ideias por completo. O que mais lhe interessava de momento era furtar-se à realidade do seu futuro vazio, imergindo no nirvana do sono, porém o café não o permitia.

 

Ao avistar a outra cama desocupada no quarto, sentiu-se ainda mais acabrunhada. Gradualmente, foi deixando a roupa deslizar para os pés e enfiou uma camisa de dormir.

 

Uma vez na casa de banho, abriu o armário dos medicamentos sem a consciência exacta do que procurava, até que pegou num pequeno frasco que continha uns comprimidos amarelos e ingeriu quatro.

 

De regresso ao quarto, principiou a afastar a colcha da cama, mas ao ver a outra vazia, sentiu-se invadida por uma solidão opressiva e estendeu-se pesadamente.

 

Os olhos arrasaram-se-lhe de lágrimas e não tardou a mergulhar no profundo esquecimento de tudo.

 

A operação de Paul McGill estava quase concluída, faltava apenas fechar a abertura, quando Marisa Feldman abandonou a galeria de onde se avistava o cenário, brilhantemente iluminado, em que o drama se desenrolara.

 

Sabendo que a cantina do hospital se encontrava fechada àquela hora e havendo mais de oito que não comia, ela resolveu dirigir-se ao snack-bar do outro lado da rua.

 

A sala não estava cheia e Marisa escolheu um «reservado» a um canto. Mabel não tardou a aparecer e aguardou pacientemente que ela se decidisse, após consultar a lista.

 

- Parece tudo muito apetitoso - declarou a médica, sorrindo. - Traga-me o que julgar melhor.

 

- Um bife bem tenro, com molho francês e batatas fritas - sugeriu a empregada, escrevendo no pequeno bloco.

- Quer que traga primeiro café, Dra. Feldman?

 

- Como soube o meu nome?

 

- A doutora é nova aqui e ainda não conhece o nosso serviço informativo secreto. Mantemo-nos em ligação permanente com o hospital, Escola Médica e Clínica da Faculdade, pelo que nada nos escapa. Deseja um resumo do que consta a seu respeito?

 

- Sim... desde que não seja muito severo.

 

- Pelo contrário. - Mabel afastou-se por uns momentos, para ir buscar o café, e quando pousou a chávena fumegante na mesa, continuou: - É a Dra. Marisa Feldman, professora assistente da Clínica, e todos a consideram extremamente competente.

 

- Todos, quem?

 

- Os mexeriqueiros, ou melhor; o nosso serviço informativo secreto. Uma empregada da Administração contribui com um pormenor, um técnico do laboratório com outro, etc.

 

Marisa sorriu, divertida, e minutos depois saboreava a salada que a rapariga lhe serviu, como preâmbulo do bife. De súbito, a porta das traseiras abriu-se para dar passagem a Mike Traynor, o qual principiou a avançar para o «reservado» da médica, quando a viu. No entanto, esta apressou-se a desviar a vista, no intuito de o desencorajar. Ele hesitou por um instante, encolheu os ombros ligeiramente e encaminhou-se para outro compartimento, ocupado por uma loura magra, debruçada sobre um livro.

 

- Importas-te que me sente aqui?

 

Marisa soltou um suspiro de alívio, congratulando-se por lhe ser poupado o desejo de se mostrar grosseira para com o rapaz. Nada lhe interessava menos naquela noite do que cruzar armas com um jovem impetuoso.

 

- Dr. Dieter! - exclamou Mabel, com alegria, no instante em que a porta da frente se abriu. - Ouvi dizer que salvou o Dr. McGill. Ainda bem, porque é uma excelente pessoa. Isto não significa que lhe desejasse a morte, se tal não acontecesse, mas... - acrescentou, levemente pertubada.

 

- Compreendo perfeitamente - assegurou-lhe o cirurgião, com um sorriso. - Nunca deixo de me espantar com o vosso sistema de comunicações. - Ainda mal terminei a operação e já se sabe tudo.

 

- São as encruzilhadas de Weston, doutor, mais ou menos como a esquina de Times Square com a 42nd. Street, à qual costumavam chamar Encruzilhada do Mundo.

 

- Aposto que está ao corrente de tudo o que acontece do outro lado da rua.

 

- Mais ou menos - admitiu Mabel, com modéstia.

 

- Nesse caso, deve saber que quem na realidade salvou o Dr. McGill foi a Dra. Feldman.   - Dieter deteve-se diante do «reservado» e Marisa ergue os olhos do prato.

- Permite-me que lhe faça companhia, doutora? Os compartimentos estão todos ocupados, como vê.

 

- De modo algum, doutor. Queira sentar-se.

 

- Que pediu? - quis saber ele, acomodando-se no assento em frente.

 

- Um bife bem tenro, segundo a classificação da rapariga.

 

- Óptimo. - Virou-se para o balcão, que Mabel se preparava para abandonar, a fim de o atender. - Traga-me o mesmo, por favor. Não se esqueça dos pedaços de pão torrado no molho.

 

- Esteja descansado que conheço bem as suas preferências, doutor.

 

- Pensei que não se afastasse do Departamento Cirúrgico antes de me proporcionar o ensejo de lhe agradecer ter salvo a vida do Dr. McGill - disse o cirurgião, concentrando-se de novo em Marisa. - É na verdade uma excelente pessoa.

 

- Eu nunca conseguiria extrair-lhe a bala do coração alegou ela, intimamente grata pelas palavras de louvor.

 

- Não sei. - Dieter adicionou açúcar ao café que Mabel acabara de lhe levar. - Considero-a extremamente competente, doutora. Mas já que não há honorários envolvidos, dividamos as honras em partes iguais.

 

- É uma maneira original de encarar o assunto - observou Marisa.

 

Pouco depois, Mabel reapareceu com os bifes e o cirurgião não conteve uma exclamação de prazer.

 

- Não haja dúvida de que, embora me possam acusar de falta de patriotismo, a comida americana tem as suas vantagens sobre a alemã. E mesmo sobre os bigos, que aprecio particularmente. - Vendo que ela assumia uma expressão grave à referência a uma iguaria polaca, apressou-se a acrescentar: - Desculpe, se evoquei alguma recordação penosa.

 

- Meus pais eram polacos, mas já não vivem.

 

- Lastimo imenso.

 

- Meu irmão pertencia ao Exército da Polónia e os nazis executaram-no.

 

- Era por isso que eu lhe inspirava aversão?

 

- Inspirava, doutor?

 

- Talvez seja presunção de minha parte, sobretudo atendendo ao facto de as nossas relações não poderem considerar de longa data. Mabel acha-me irresistível e confesso que acalentava a esperança de a doutora pensar do mesmo modo. De qualquer forma, dispomos de muito tempo à nossa frente, já que trabalharemos juntos. Que lhe parece Weston?

 

- Bem, até agora, muito...

- Sou um homem incisivo, às vezes porventura de mais, mas desconfio que a doutora não o é menos. Por conseguinte, estou convencido de que nos daremos bem. - Dieter principiou a comer quase com voracidade, mas não tardou a refrear o entusiasmo, para declarar: - Espero que perdoe as minhas maneiras à mesa, no entanto, as carências que passei na Alemanha Oriental deixaram-me praticamente faminto para sempre. Meu pai era professor na Universidade de Frankfort, mas nunca manifestámos simpatia pelos nazis. Quando deflagrou a guerra, eu ainda não tinha idade para ser convocado e, como queria tornar-me médico, os nazis autorizaram-me a frequentar o liceu e, mais tarde, a universidade. Por ocasião da ocupação russa, meu pai encontrou um amigo de longa data entre as tropas, que fora professor antes da guerra, o qual providenciou para que eu concluísse o curso de Medicina, e deparou-se-me então a oportunidade de trabalhar na Clínica de Cirurgia Vascular da Universidade de Moscovo.

 

Entretanto, tinham terminado o café e Mabel apressou-se a encher de novo as chávenas, perguntando:

 

- Que desejam para sobremesa? Temos um doce chamado Torta de Fundo Preto que é uma delícia.

 

- Não me atrevo a... - começou Marisa.

 

- Não necessita de se preocupar com o excesso de calorias ou colesterol - atalhou Dieter.   - Duas doses, Mabel. - Esta afastou-se e ele prosseguiu: - Estou certo de que os Russos já efectuavam experiências cirúrgicas avançadas nos laboratórios de Pavlov, na época do Czar.

 

- Estudei as experiências de Pavlov na Inglaterra.

 

- Recentemente, desenvolveram uma máquina maravilhosa para suturar os casos sanguíneos durante a cirurgia   vascular.   Quando   fugi,   tentei   apoderar-me   de uma.

 

- Se podia fazer o que desejava na Rússia, porque saiu de lá? - perguntou Marisa. - Pensava que eles concediam toda a liberdade aos cientistas.

 

- Podia considerar-me relativamente livre, para a Rússia. Todavia, uma vez por outra, chegavam-me às mãos revistas médicas estrangeiras, e quando verifiquei que o avanço daqui era muito superior, resolvi escapar-me para a Alemanha Ocidental e daí para os Estados Unidos. Antes de erguido o Muro, não era muito difícil.

 

- Recordo-me perfeitamente de como era a vida na Alemanha Oriental - murmurou ela, com uma ponta de amargura.

 

- Mas o seu sotaque é inglês. Como foi parar lá?

 

- Era uma garota na Polónia, quando os Ale... os nazis chegaram. Meu irmão perdeu a vida, mas eu e minha mãe conseguimos fugir para a Inglaterra com o Exército polaco livre. Ela morreu pouco depois, enquanto meu pai permanecia numa prisão da Alemanha. - A voz de Marisa tornava-se cada vez mais dura, não obstante os esforços para se dominar. - O doutor ficou em segurança numa escola, pelo que não pode fazer uma ideia do que sofreu uma rapariga... uma judia, naqueles campos de concentração.

 

- Num hospital da Rússia, vi algumas libertadas pelos Russos   quando invadiram a Alemanha. Não   toque no assunto, se lhe aviva recordações dolorosas.

 

- Com o ódio que guardo no meu íntimo há tantos anos custa-me falar nisso.

 

- Sobretudo a um alemão.

 

- Exacto.

 

- Talvez, mas agora somos ambos americanos. O passado ficou para trás.

 

- Mas não as recordações.

 

- Com a felicidade, acabarão por se apagar. No fundo, conseguimos o que desejamos, e é isso que conta.

 

- Duvido que o doutor tenha tanto para esquecer. Marisa calou-se por um momento, como se procurasse coordenar as ideias. - Ao princípio, eu não sabia que meu pai vivia. Quando me inteirei, depois de estudar Medicina em   Inglaterra, voltei à Alemanha Oriental   para tentar arrancá-lo de lá, mas prenderam-me. Ele sofria de angina do peito e os Alemães não lhe davam a nitroglicerina que o aliviaria. Por conseguinte, eu própria adquiri o medicamento.

 

- Na prisão?

 

- Sim... e servindo-me da única moeda corrente de que dispunha.


Imersos na conversa, não se aperceberam do suspiro de assombro exalado por Mabel, a qual, sem deixar de atender os poucos clientes que restavam, procurava não perder o fio do diálogo.

 

- Não admira que deteste os Alemães - admitiu Dieter, em inflexão inexpressiva.

 

- Não me assiste o direito de carpir as mágoas sobre o seu ombro. Com licença. - Com estas palavras, Marisa levantou-se bruscamente.

 

- De qualquer modo, o meu ombro encontra-se sempre à sua disposição. - Dieter ergueu-se igualmente, e vendo que ela abria a carteira para pagar, acrescentou: - Permita-me...

 

- Não - replicou Marisa, com firmeza. - Posso perfeitamente cuidar de mim.

 

- Sem dúvida - aquiesceu ele, com brandura. - Desculpe se a magoei. Boa-noite, Dra. Feldman.

 

- Boa-noite.

 

Ela fez uma pausa junto da caixa registadora e abandonou o estabelecimento apressadamente, para mergulhar na escuridão da rua.

 

Havia muito tempo que não chorava. A última vez fora na ocasião em que regressava ao dormitório da prisão, depois da primeira visita aos aposentos do comandante.

 

- Não me recordo de a ver por cá - observou Mike Traynor, sentando-se à mesa diante da loura no «reservado» do snack-bar. - Chamo-me Mike Traynor e trabalho como interno substituto acolá - acrescentou, indicando o prédio em frente com um movimento de cabeça.

 

- Sou Sibyl Carter - informou ela. - Instalei-me num apartamento do fim da rua, com uma colega, a semana passada. É enfermeira particular, mas está hoje de serviço e não me apetecia jantar sozinha.

 

- Também é enfermeira?

 

- Tirei o curso de Sociologia na universidade e saí de Vassar em Junho deste ano. Agora, trabalho a meio tempo no departamento do Serviço Social do hospital, pelo que achei conveniente morar neste sector da cidade.

 

- Sociologia, hem? Deve ser uma matéria interessante.

 

- De momento, promovo um inquérito, entrevistando as mães solteiras da Clínica de Obstetrícia, cujas histórias gravo.

 

- Aposto que devem constituir material curiosíssimo.

 

- Havia de ouvir algumas.

 

Ele persuadiu-se de que pisava terreno sólido e lançou um olhar de animosidade ao «reservado» ocupado por Marisa e Dieter, imersos em ameno diálogo, o que lhe originou um acesso de despeito. Judia imunda! Repelira-o e agora conversava estupidamente com o cirurgião, como uma colegial no primeiro encontro romântico.

 

Por fim, concentrou-se de novo na loura e perguntou:

 

- Que tenciona fazer esta noite?

 

- Ainda não sei. A minha companheira está de serviço até às onze.

 

- Nesse caso, ainda dispomos de duas horas. A menos que tenha outros projectos, claro.

 

- De modo algum!

 

- Então, acabemos de comer, para tratarmos de assuntos mais sérios.

 

A rapariga possuía um Mustang branco e, quando se instalava no banco da frente, Traynor avistou Marisa Feldman que se encaminhava para os apartamentos da Faculdade. O clarão de um candeeiro próximo revelou-lhe que a médica estivera a chorar, o que o levou a supor que discutira com Dieter.

 

Quando ele entrou no apartamento, cerca da meia noite, o companheiro, Lew Saunders, encontrava-se sentado diante do televisor e, consultando o relógio, comentou:

 

- Sempre no último instante. Não sabes que estás escalado para a equipa de urgência que entra à meia-noite?


Ainda tenho muito tempo - replicou Mike, com desprendimento. - Primeiro, quero tomar banho, porque bem precisado estou.

 

- Quem foi a vítima, desta vez?

 

- Uma formada em Sociologia, que vive num dos apartamentos.

 

- Não tem companheira?

 

- Tem, uma enfermeira diplomada, que trabalhava hoje até às onze. Vi o seu retrato e talvez te interesse, na próxima semana, quando mudar de horário.

 

- Não achas uma socióloga demasiado intelectual para ti?

 

- Ao princípio foi, de facto - admitiu Mike, contraindo as faces e abrindo o chuveiro. - Gosta de gravar tudo.

 

- Tudo? - inquiriu Lew Daunders, arqueando as sobrancelhas.

 

- É a coisa mais incrível a que assisti até hoje. Imagina iniciar a «operação» com uma voz nasalada com sotaque da Nova Inglaterra dizendo: «Zonas erógenas reagem ao estímulo. Erecção clitórida começa a processar-se. Intróito preparado para receber o falo. Penetração   máxima.   Princípio   da   excitação   pré-orgástica, aumentando   rapidamente...   Atenção!...   O-o-orgasmo!»

 

Devia ser irresistível - comentou Lew, rindo.

 

- Por estranho que pareça, foi mesmo. Repetimos a gravação, mas ela estava tão excitada que se esqueceu de ligar o microfone, e deixei-a inconsolável porque não ficou com a gravação completa.

 

- Não compreendo como consegues tudo isso. Quantas vezes foram, hoje?

 

- Quatro.   E   não adivinhas   com quem estive, esta tarde.

 

- Com a empregada do snack-bar]

 

- Por favor! Além de não ser o meu tipo, não me grama. Nada disso. Com a mulher do «Velho Dermatografia».

 

- O quê?

 

- É verdade. O tipo passou a tarde a entreter-se noutras paragens.

 

Um grande hospital assemelha-se, à noite, a uma cidade adormecida, com a população residente recolhida em segurança muito antes da rendição dos turnos, às 23.00. Todavia, uma actividade contínua atenuada pelas solas de borracha e um murmúrio constante vibra na tranquilidade que paira sobre os edifícios, corredores, enfermarias de luzes difusas, salas de gráficos brilhantemente iluminadas, áreas de serviço e cozinhas imaculadas, onde, a partir da meia-noite, há sempre uma cafeteira fumegante para conservar acordado o pessoal de serviço, durante as longas horas que precedem a alvorada.

 

De um modo geral, a sinfonia existente no hospital adormecido, proveniente dos mil sons distintos e inesperados, compunha-se de uns acordes que Janet Monroe adorava escutar. Não poucas vezes, quando atravessava os corredores, ao sair de serviço, detinha-se para captar uma nota diferente e determinar a sua origem. Naquela noite, porém, depois de entregar o relatório à encarregada nocturna da Unidade de Cuidados Intensivos, foi ver Jerry, antes de sair e, preocupada com os vestígios de sangue no líquido extraído da coluna vertebral do filho por Ed Harrison, Janet não se apercebia da música do hospital.

 

A pequena luz que brilhava junto da cama de Jerry proporcionava claridade suficiente para bservar que ele dormia tranquilamente e, sem o acordar, inclinou-se para o beijar, antes de examinar a sua ficha na sala dos gráficos. Os elementos registados indicaram-lhe que não se verificara qualquer alteração desde que a punção fora efectuada e Dave Rogan procedia ao exame neurológico. O pulso, a respiração e a temperatura eram normais. Na realidade, tornava-se difícil acreditar que algo ameaçava a vida do garoto.

 

Janet acabava de colocar a ficha no seu lugar, quando Jeff Long apareceu.

 

- Não a encontrei na Unidade e calculei que estaria aqui.

 

- Quis ver Jerry, antes de sair.

 

- Vim cá quando trouxemos o Dr. McGill da sala de operações, mas ele dormia.


- Confesso que estou preocupadíssima. Que significa tudo isto?

 

- Ainda não jantei - disse ele, pegando no braço de Janet. - Venha até ao snack-bar.

 

- Não sou capaz de tragar...

 

- Depois de uma panqueca feita por Mabel e uma chávena de café, sente-se muito melhor. Vamos, antes que morra de inanição a seus pés.

 

Quando os viu, Mabel saudou-os com um sorriso de aprovação e conduziu-os a um «reservado», perguntando:

 

- Como está o seu filho, senhora Monroe?

 

- Não muito bem. Trouxe-o para o hospital, há dois dias, porque teve convulsões.

 

- É o extraordinário Dr. Harrison que se ocupa dele?

 

- Ele e o Dr. Rogan.

 

- Não podia estar em melhores mãos! A confiança de Mabel no pessoal do hospital da Universidade não tinha limites. - Enquanto escolhem, vou buscar café.

 

Quando ficaram sós, Janet pousou a mão na de Jeff e perguntou a meia-voz:

 

- O sangue que lhe encontraram na espinha é grave?

 

- Não necessariamente - articulou ele, sem a convicção que desejaria demonstrar.

 

- Que significa?

 

- Não é a minha especialidade.

 

- Diga-me a verdade, por favor. Prefiro-a à incerteza.

 

- Quando vim ver Jerry, troquei impressões com Ed, mas só consegui apurar que é qualquer coisa congénita.

 

- Que eu lhe transmiti!

 

- Não   confunda condições hereditárias e congénitas. Uma pessoas herda uma anomalida, talvez transmitida na família. «Congénito» significa de nascimento, sem qualquer relação com os pais.

 

- Em todo o caso, é grave?

 

- Não se pode afirmar coisa alguma sem proceder a todos os exames. Para já, a hemorragia parou, de contrário as convulsões repetiam-se.

 

- Mas podem reaparecer?

 

- É o que nos preocupa - admitiu Jeff, fazendo pausa, enquanto Mabel reaparecia com o café. - Mas não devemos entregar-nos ao pessimismo. Tudo leva a crer que Jerry nasceu com um pequeno defeito na circulação que envolve o cérebro ou nas meninges que o cobrem. Resta-nos localizá-lo e suprimi-lo.

 

- Acha que o poderão curar? Não ficará como... como uma daquelas crianças tetânicas que o Dr. Rogan costuma examinar?

 

- Essas, de um modo geral, nascem com uma lesão cerebral. Ora, à parte a pequena quantidade de sangue extraído pela punção lombar, Ed e o Dr. Rogan não descobriram nada de anormal.

 

- Se eu permanecesse em casa em vez de trabalhar, é possível que as coisas se modificassem - proferiu Janet, com uma expressão de amargura. - Mas não se pode viver sem dinheiro.

 

- Duvido que a situação fosse outra. Tome o café enquanto está quente e não se sinta culpada injustamente.

 

Como costumava acontecer, Grace Hanscombe acordou pouco depois das quatro da madrugada com uma dor de cabeça aguda. O marido era notavelmente mais pesado, o que contribuía para que o colchão se inclinasse para o seu lado, obrigando Grace a escorar-se com uma almofada para não deslizar para lá. Não obstante, durante a noite, a almofada saía do sítio, e como ela nem sempre despertava, o facto de tentar manter, embora inconscientemente, a posição inicial, originava-lhe uma tensão que a impossibilitava de dormir bem e provocava forte dor de cabeça.

 

No fundo, não sentia aversão por George. Reconhecia que o amava, à sua maneira, tanto quanto a média das mulheres pode estimar o companheiro após quinze anos de casados. Sempre manisfestara interesse pelas relações sexuais, a que ainda se entregava com prazer, mesmo depois de dezassete anos de vida em comum, além do tempo anterior ao casamento. Mas, terminada a união íntima, era suficientemente feminina para gostar de certo isolamento, sem se ver forçada a dormir colada a um homem que transpirava durante dez ou quinze minutos e conservava a pele pegajosa.

 

Há muito que ela sugeria que dormissem em camas separadas em vez de na de casal de estilo antigo que George tanto apreciava, porém este gostava de a ter ao seu alcance, para a sentir quando se voltava.

 

Proximamente, Joe McCloskey extrairia a próstata de George, e Grace tremia só de pensar no que o facto representaria para o marido. Maggie revelara-lhe que, segundo Joe lhe confidenciara, muitos indivíduos perdiam a potência após a operação, e Grace conhecia suficientemente George para avaliar o golpe que isso representaria para o seu amor-próprio.

 

Reconhecia que não se devia ter irritado tanto com ele, naquela noite. Na realidade, George tratava-a bem... à parte determinados pormenores, como, por exemplo, a mania de a apalpar e acordar a meio da noite.

 

A evocação da tarde anterior e dos momentos angustiantes que atravessara até chegar ao hospital, onde se inteirara da verdade, provocou-lhe um acesso de calor e, abandonou a cama para entreabrir a janela. O ar fresco da noite produziu-lhe notável alívio, porém prometeu a si própria falar com Jack Hagen sobre a possibilidade de aumentar a dose de hormonas, conquanto, no fundo, soubesse que os seus problemas não se deviam a qualquer insuficiência hormonal. Achava-se saturada até à raiz dos cabelos de George, o clube, as amigas, Amy Brennan, que nunca se calava com a Sociedade Médica Auxiliar e com Weston em geral.

 

Como lhe agradaria voltar para Inglaterra! Infelizmente, o marido nem queria ouvir falar nisso, alegando que os cinco anos lá passados lhe haviam bastado para toda a vida.

 

De súbito, sentiu uma arrepio de frio e regressou à cama. Agora, em vez de se escorar com a almofada, aconchegou-se a George, em busca de conforto num momento de acabrunhamento. A mão dele moveu-se inconscientemente para lhe apalpar a perna, todavia não tardou a afastar-se.

 

«Meu Deus!», reflectiu ela. «Casei com um velho. Eu própria estou a envelhecer, enquanto tudo o que a vida tem de bom se afasta para sempre.»

 

Elaine McGill foi acordada por uma sacudidela suave no ombro e sentou-se com prontidão no sofá em que dormira profundamente, depois de tomar a cápsula que Janet Monroe lhe dera por indicação de Jeff Logan.

 

- Meu marido?...

 

- O Dr. McGill encontra-se muito bem. - A enfermeira que a acordara sorria e Elaine verificou que o pequeno quarto estava banhado pela claridade do dia. - São seis horas e ele deseja vê-la.

 

- Só um momento - balbuciou Elaine, levando a mão ao cabelo, num gesto instintivo.

 

- O toucador é ao fundo do corredor.

 

- Obrigada. Tem a certeza de que corre tudo bem?

 

- Já desligámos o oxigénio e a frequência do pulso e o traçado electrocardiográfico são normais.

 

Paul encontrava-se ligeiramente soerguido quando ela entrou no quarto, quinze minutos mais tarde. Apesar de pálido, esboçou um sorriso e Elaine aproximou-se para o beijar ardentemente, antes que ele pudesse proferir palavra. ,;••’••.•••>

 

- Sinto-me tão contente por estares bem, querido.

 

- Então, não?...

 

- Sem dúvida que não.

 

- E... o escândalo?

 

- Havemos de o enfrentar juntos.

 

- Queres dizer que me perdoas?

 

- Não falemos nisso. - Elaine colocou a ponta do dedo sobre os lábios do marido. - Amo-te, e é a única coisa que interessa.

 

- Que alívio! - Paul suspirou profundamente. - Estava com receio de te perder.

 

- Se repetires a graça, talvez percas.

 

- Garanto-te que não era minha intenção... ,

 

- Isso já lá vai. O essencial é encontrares-te beçi.

 

- A enfermeira explicou-me que Anton Dieter :$|$ extraiu uma bala do coração.        


- Sim. Mostraram-ma.

 

- É lamentável que Lorrie...

 

- Ela morreu. Paul. Não devemos falar mais nisso.

 

- Há alguma novidade? - inquiriu a enfermeira, assomando à porta. - O seu electro deu dois saltos que pareciam de um cavalo.

 

- Corre tudo bem - assegurou-lhe Paul, sorrindo.

 

- É melhor não me demorar - observou Elaine. Precisas descansar.

 

- E tu de dormir. Obrigado por seres uma mulher compreensiva.

 

Quando abandonou o hospital, Elaine viu que a cidade começava a despertar para a vida quotidiana, as ruas principiando a encher-se de gente e de veículos. O snack-bar encontrava-se particularmente concorrido, no momento em que ela entrou e se sentou ao balcão, pedindo ovos mexidos, torradas e café.

 

Mais tarde, quando atravessava o parque de estancionamento em direcção ao seu carro, avistou Mike Traynor que saía pelo portão da Emergência e se encaminhava para o snack-bar. O rapaz também a viu e alterou imediatamente o rumo para a interceptar. Elaine tentou fingir que não se apercebia do facto, porém ele chamou-a e não pôde deixar de se voltar.

 

- Falou comigo? - perguntou com frieza.

 

- Como está o Dr. McGill?

 

- Bem, obrigada. Estive com ele há poucos minutos.

 

- Decerto não consentirás que volte para casa?

 

- Não vejo em que lhe pode isso interessar, senhor Traynor.

 

- Oiça cá! Se julga que pode...

 

- Salvo erro, ainda lhe resta um ano de estudos.

 

- Sim, mas não compreendo...

 

- Meu marido é professor. Se eu lhe revelar que me abordou com palavras menos respeitosas, duvido que consiga concluir o curso, senhor Traynor.

 

Com isto, ela prosseguiu em direcção ao carro, no qual não tardou a afastar-se, enquanto Mike a acompanhava com a vista, reflectindo que era impossível entender as mulheres.

 

Eram seis horas da manhã quando Delia Rogan acordou no quarto das crianças da residência em Sherwood Ravine. Na véspera, fechara-se à chave e tomara um comprimido de nembutal, após o que adormecera quase imediatamente, não se apercebendo da chegada de Dave. Voltando-se para a janela, verificou que o Sol se encontrava muito acima do horizonte e estava um dia excelente para jogar golfe. No entanto, a ideia não lhe despertou entusiasmo especial, mas reconheceu a necessidade de praticar com assiduidade, no intuito de obter uma classificação airosa no torneio da semana seguinte.

 

Tinha a roupa no armário da sala de vestir, ao lado do quarto principal, onde Dave devia dormir e, movendo-se em bicos dos pés, espreitou e viu-o deitado com o rosto para o outro lado. Por um instante, ponderou a conveniência de o acordar e desculpar-se pelo facto de o ter obrigado a preparar o jantar na noite anterior, mas decidiu não o fazer.

 

Ele negara-se a acompanhá-la a casa, apesar de se aperceber da sua perturbação, pelo que merecia ser castigado por mais algum tempo. Delia sairia de casa para se treinar durante cerca de uma hora, antes que a temperatura se elevasse demasiado.

 

Movendo-se com a maior cautela possível, retirou a roupa do interior de uma gaveta e entrou na casa de banho para se vestir. No entanto, descobriu que o soutien tinha uma das alças rebentada e resolveu ir buscar outro, o corpo coberto apenas por umas cuecas de nylon transparentes. De súbito Dave voltou-se, bocejou ruidosamente e murmurou:

 

- Olá, querida. - Pegou na outra almofada e colocou-a atrás do tronco para se soerguer. - Porque te levantaste tão cedo?

 

- Vou treinar-me um pouco.

 

- Sozinha?

 

- Tenho de estar em forma - esclareceu ela, enquanto esquadrinhava a gaveta. - Devo encontrar lá alguém e é possível que façamos uns dezoito buracos antes do almoço.

 

- Descobriu finalmente   o soutien e tentou pô-lo, mas experimentou dificuldades em apertar o fecho.

 

- Anda cá, se queres que te ajude. - Ela reconheceu a impossibilidade de recusar. Todavia, quando Dave, depois de apertar o fecho, começou a deslizar as mãos pelas costas nuas, afastou-se com prontidão e abriu o armário, a fim de procurar uma saia e uma blusa. - Precisas realmente de treinar?

 

- Com certeza. O torneio interclubes principia na próxima semana.

 

- Devias habituar-te a praticar também outras coisas. Como psiquiatra, costumo ver o lado pior das mulheres, mas esta manhã estou convencido de   que   contemplei o melhor. Precisamos de uma segunda lua-de-mel.

 

- Jogámos golfe, na primeira.

 

- Ainda te lembras?

 

- Claro! Não passou assim tanto tempo.

 

- Quinze anos. Quase a quinta parte dos setenta que esperamos viver. De   qualquer modo, já ficaram quase quatro décadas atrás de nós.

 

- E quem começa a ficar gordo e velho és tu e não eu - observou Delia, princiapiando a aplicar creme nas faces.

 

- De facto, continuas em forma - admitiu ele, rindo.

 

- Talvez necessitemos de outro filho.

 

- Dois chegam perfeitamente. Há anos que o decidimos.

 

- Sim, quando eram pequenos. Mas não tardarão a ir para o colégio e não me desagradava ter mais um miúdo a saltitar à nossa volta.

 

- É uma forma indirecta de dizeres que passo pouco tempo no lar?

 

- Nunca me opus a que saísses. No entanto, vi tantos matrimónios desmoronarem-se, quando os filhos seguem para a universidade...

 

- Os nossos ainda estão muito distantes desse dia.

 

- Não tanto como julgamos. E até do casamento, atendendo à facilidade com que os estudantes dão o nó, hoje em dia. Talvez me julgues egoísta, mas não posso deixar de pensar nas horas que passo só, enquanto andas por aí a ganhar torneios de golfe. Seria excelente ter um bebé para ocupar o berço que está guardado no sótão.

 

- Decerto não esperas que eu seja uma mulher excepcional - proferiu ela, irritada. - Instalas-te à secretária do consultório e pensas que diriges a vida de todos, quando na realidade nem para orientar a nossa serves.

 

- É possível que tenhas razão, nesse ponto. Ninguém ignora que as famílias dos médicos são as que dispõem dos piores cuidados da Medicina.

 

- Nesse caso, reconheces que não podes resolver tudo?

 

- Se me explicares do que sou culpado, tentarei defender-me - declarou Dave, com um sorriso.

 

- Nunca me tomas a sério!

 

- Enganas-te redondamente. - Assumiu uma expressão grave. - É possível que eu descure algumas das tuas exigências emocionais. As mulheres são difíceis de entender, até para um psiquiatra, e a maior parte dos médicos não compreende as esposas. Trata-se do preço que devemos pagar por passarmos os dias envolvidos nas vidas dos outros. No entanto, se estiveres disposta a explicar-me onde errei, tentarei compor as coisas.

 

Delia voltou-se apressadamente, mas não antes de ele notar a apreensão no olhar e vermelhidão de culpa nas faces. Agora, achava-se persuadido de que ocorrera algo em Augusta sobre o que nada podia fazer, a menos que ela resolvesse elucidá-lo.

 

Compreendeu instintivamente que havia outro homem envolvido no assunto, mas considerava-se suficientemente realista para saber que uma infidelidade conjugal de momento não correspondia irremediavelmente a um obstáculo à continuação de um matrimónio feliz. Não obstante sentia-se magoado ao conceber que Delia se entregara a outro. E, pior que isso, de futuro, sempre que ela se ausentasse para disputar um torneio de golfe, não poderia deixar de pensar no que porventura sucederia.

 

Antes de   sair, Delia disparou por cima do ombro:

 

- És como todos os homens. Queres uma mulher pela trela, como uma cadela de estimação. - De súbito voltou-se e acrescentou com inesperada suavidade: - Importas-te de tomar o pequeno-almoço no hospital?

 

- De modo algum. De resto, quero ver o filho de Janet Monroe antes de seguir para o consultório.

 

- Sofre de algum mal grave?

 

- Receio que sim. Teve convulsões e o líquido cefalorraquidiano contém sangue.

 

Ela ainda se recordava suficientemente dos dias em que trabalhara como técnica de raios X para abarcar o significado da revelação do marido. Contudo, achava-se demasiado tensa para se aperceber de coisa alguma além da irritação que ele lhe provocara, levando-a a sentir-se culpada pela forma como reagira ao facto de ele se conservar no hospital até tarde, para examinar a criança.

 

- Talvez seja coisa passageira - aventou, após breve pausa.

 

- Oxalá que sim. Suponho que não acordaste quando me levantei a meio da noite para ir ao hospital?

 

- Foste ao hospital? - estranhou Delia, enrugando a fronte.

 

- Eram quase duas horas. Maggie McCloskey tentou suicidar-se.

 

- Como... - Ela apoiou-se à parede, receando cair. Como foi?

 

- Como de costume: barbitúricos e álcool. Felizmente para ela, Jeff Long encontrava-se lá e aplicou-lhe o respirador até ser possível efectuar a lavagem ao estômago para extrair a droga por meio de perfusão intravenosa. Encontra-se agora na minha enfermaria particular.

 

- Mas Maggie não é louca.

 

- Esta madrugada, podia haver duas opiniões a esse respeito. De qualquer modo, todas as tentativas de suicídio seguem para o meu departamento. - Dave olhou a mulher com estranheza. - Não te sentes bem? Ficaste branca como um lençol.

 

- Foi do choque. Diz-lhe que farei o possível por ajudá-la.

 

- De momento, ela é a única pessoa que lhe pode valer. Se se compenetrar disso, talvez cheguemos a um resultado positivo. Bem, diverte-te no treino.

Delia afastou-se sem replicar. «Porque será que entende tanto todos os outros e não me compreende?», reflectia com amargura, enquanto descia a escada. «Podia perfeitamente proibir-me de jogar e obrigar-me a ficar em casa mais tempo. Foi o que lucrei em casar com um psiquiatra: entende demasiado as pessoas.»

 

No fundo, talvez fosse preferível sofrer de diabetes, embora sem gravidade, como Grace. Nesse momento, ocorrendo-lhe que George Hanscombe costumava sair cedo para o hospital, rumou para lá. Na verdade, o carro dele já não se encontrava na garagem, pelo que Delia estacionou o seu no caminho de acesso e encaminhou-se para a entrada da residência.

 

Através dos vidros, viu Grace, de roupão, tomando café e assistindo ao programa matinal da TV. Quando tocou à campainha das traseiras, ela espreitou pela janela e apressou-se a ir abrir.

 

- Vem tomar café - rogou, com um sorriso forçado. Esta manhã, preciso de companhia. Sinto-me um cadáver ambulante.

 

- Também não me sinto lá muito bem - confessou Delia, sentando-se junto da mesa da cozinha, enquanto a outra enchia uma chávena. - Dave ajudou-me a vestir, para jogar golfe.

 

- Bom sinal - comentou Grace, exibindo uma expressão maliciosa. - Mas porque vais jogar o golfe, se aquele exercício se pode efectuar dentro de casa... e sem necessidade de vestir coisa alguma?

 

- De manhãzinha?

 

- Aceita o meu conselho e malha enquanto o ferro está quente. Não tardará o dia em que aquecerá com dificuldade e terás de te contentar com ele morno.

 

- Será possível que só penses no sexo? Às vezes, és tão ordinária como os homens ou Lorrie.

 

- Pobre Lorrie... Vou ter saudades dela. - Grace meneou a cabeça. - Não compreendo o que levou aquele bastardo a alvejá-la.

 

- Dave quer outro filho - anunciou Delia, mudando bruscamente de assunto.


- Ainda és suficientemente jovem para isso. Porque não?

 

- Perguntas bem. Porque não têm vocês?

 

Grace voltou o rosto apressadamente, para que a outra não visse a expressão de dor que acabava de lhe despontar nos olhos. Ela e George não tinham filhos e, embora o marido o ignorasse, Jack Hagen esclarecera a situação. A crise de que ela sofrera nos primeiros meses da guerra não se devera a apendicite, mas a salpingite, inflamação nos tubos que vão do útero aos ovários, a qual, em muitos casos, os encerra por meio de lesões irreparáveis.

 

Na época da conflagração mundial, em que rapazes cheios de vida seguiam para o campo de batalha, aquilo resumia-se a um acto de patriotismo. Como podia Grace adivinhar que um deles lhe deixaria uma herança tão sinistra responsável pela impossibilidade permanente de ter filhos?

 

- Disse alguma coisa que não devia? - perguntou Delia, que, no fundo, era amiga da inglesa.

 

- Não, nada. - Grace exibiu um sorriso forçado. Lembrei-me de um fantasma antigo que passeia sobre a minha sepultura.

 

- Queres vir jogar um pouco?

 

- Hoje não me apetece. Discuti com George, ontem à noite, censurando-o por não ser ele que estava com Lorrie, e fiquei com os nervos em franja. Lembras-te dos tempos em que éramos pobres?

 

- Sem dúvida. Porquê?

 

- Não te parece que éramos mais felizes?

 

- Julgo que sim.

 

- Que aconteceu a todas nós, Delia? Sou infeliz, tu também, Amy está a dar cabo do seu casamento com Pete, procurando adquirir maior notoriedade que ele, Elaine passou uma noite infernal, sem saber se Paul sobreviveria, e Lorrie morreu. A única que parece feliz é Alice, com os seus romances de cordel. No fundo, talvez seja a mais sensata de todas.

 

Pete Brennan ainda dormia quando Amy acordou e descobriu, com admiração, que permanecera toda a noite completamente despida, o que não acontecia desde a lua-de-mel. Enquanto procurava abrir caminho através da neblina que ainda lhe assolava o cérebro, começou a recordar parte do que acontecera antes de o marido ser chamado pelo telefone e ela adormecer.

 

Lamentava que ele não a acordasse no regresso, pois se o fizesse talvez saboreassem um pouco mais as delícias a que se haviam entregado antes. Contudo, agora, de manhã, tudo se esfumara com os efeitos da morfina, à medida que o seu corpo se envolvia na tarefa de destruir a droga, à semelhança do que fazia com qualquer substância estranha.

 

Levantou-se da cama com certa prudência e seguiu directamente para o chuveiro. Momentos depois, ouviu o marido entrar para o outro compartimento e seguir-lhe o exemplo.

 

Mais tarde, reuniram-se na cozinha para o pequeno-almoço e Amy perguntou:

 

- Que te queriam, ontem à noite?

 

- Como deves compreender, só um assunto particularmente importante me obrigaria a deixar-te - replicou Pete, com um sorriso malicioso. - A propósito, temos de fazer aquilo mais vezes, de contrário destreinamo-nos. Mas, respondendo à tua pergunta, Roy telefonou para informar que Mort Dellman desejava falar comigo.

 

- Que queria?

 

- Já te explico. Tenho de comer depressa, para me avistar com Arthur Painter.

 

- Pretende criar dificuldades a alguém?

 

- Não sei bem... - Ele fez uma pausa, para levar a chávena aos lábios. - De qualquer modo, tem de sair daqui, assim que se safar disto.

 

- Pensas que consegue safar-se?

 

- Pelo menos, ele está convencido disso... e Roy também, diga-se de passagem, embora não o possa reconhecer, em virtude da sua posição. Resumindo: Mort quer vender-nos a sua parte na Clínica por cem mil dólares.

 

- Não te parece que os vale? - inquiriu Amy, a qual sempre dispusera de dinheiro com abundância, pelo que não ficou surpreendida com a quantia.


- Na realidade, até vale mais. Hoje, à hora do almoço tenciono convocar uma reunião. Alguns deles vão protestar energicamente, até reconhecerem que não lhes resta qualquer alternativa. - Nesse instante, a mão dela principiou a tremer de tal modo que parte do café da chávena se verteu para a toalha. - Que tens? - perguntou ele, surpreendido.

 

- Nervos, sem dúvida - balbuciou Amy, com um sorriso sem convicção.

 

- Não costumas ser nervosa.

 

- Talvez fosse da falta de hábito das actividades desta noite - acrescentou, com uma risada que também soou falso.

 

- Então, convém que voltes a habituar-te.

 

- Porque disseste que não lhes restava qualquer alternativa?

 

- Encaremos os factos. Mort podia divulgar algumas histórias curiosas... na sua maioria verdadeiras.

 

- Mas não a teu respeito e de Lorrie, suponho?

 

- Sabes isso tão bem como eu. Envolvi-me com ela uma ou duas vezes antes de casarmos, mas depois os episódios não se repetiram. - Pete fez uma pausa, enquanto ela respirava fundo. - Temos de aceitar a proposta de Mort e compete-me descobrir um meio de arranjar o dinheiro.

 

- Eu podia facilitar-te um empréstimo - aventurou Amy, preferindo apresentar a sugestão dessa forma a empregar o termo «dar».

 

- Obrigado, mas todos os membros da Corporação da Clínica da Faculdade devem participar na transacção, à excepção de Paul McGill, provavelmente. Não creio que experimentemos dificuldades em conseguir um empréstimo, mas podias fazer-me um favor, em todo o caso.

 

- É só dizeres.

 

- Esta noite, tentei falar com o tio Jake, do hospital, mas não quis vir ao telefone. Importas-te de passar por lá, agora de manhã, para lhe perguntar o que podemos fazer por ele, em relação a Lorrie?

 

- De modo algum.

 

Ela sentia-se satisfeita com a oportunidade de fazer algo pelo marido, protelando, pelo menos de momento, a ocasião em que lhe anunciaria que seria presidente da Sociedade Médica Auxiliar uns anosántes de Pete se tornar presidente da Associação Médica.

 

Grace Hanscombe recolhera um pouco de urina de manhã, como fazia sempre, desde que, no ano anterior, o exame ao sangue revelara elevada percentagem de açúcar. Depois de Delia sair, procedeu ao teste automaticamente, sem prestar atenção ao que fazia, até que a cor da solução se modificou, de repente, para um alaranjado intenso.

 

Perplexa, pois era a primeira vez que se apercebia de qualquer modificação, repetiu a experiência, porém o resultado não se alterou. Em seguida, pegou no telefone com dedos trémulos, discou o número da Clínica e pediu ligação ao consultório de George, porquanto sabia que ele costumava encontrar-se lá, ditando cartas e relatórios, antes de iniciar as visitas matinais às enfermarias.

 

- Que há de novo, Grace? Estou cheio de trabalho.

 

- Apareceu açúcar, George.

 

- De que cor? - inquiriu ele, mudando abruptamente de tom.

 

- Alaranjado.

 

- Bem. Segue já para o laboratório. Entretanto, telefonarei para lá, antes de principiar as visitas.

 

- Que... que tencionas fazer?

 

- Para já, observar a curva de tolerância ao açúcar. Ontem, ficaste muito impressionada com a morte de Lorde, o que pode explicar o seu aparecimento.

 

- Perdoa-me aquilo da noite passada, George. Estava de facto perturbada com o caso de Lorrie e tive um aborrecimento com Maggie, no clube. Embebedou-se e...

 

- Troxeram-na ao hospital, por volta das duas da madrugada. Tentou suicidar-se.

 

- Disseste que tentou? - articulou Grace, com incredulidade.

 

- Não conseguiu, porque intervieram a tempo. Dave Rogan levou-a para uma das suas enfermarias. - George considerou o assunto de Maggie encerrado e volveu: - Não precisas de vir a grande velocidade. No final dos exames, podes esperar no meu consultório. Eles hão-de comunicar-me os resultados pelo telefone.

 

Grace cortou a ligação e subiu ao quarto para se vestir, perguntando a si própria quantos mais a bala de Mort Dellman ainda atingiria. Pusera termo à vida de Lorrie, quase matara Paul McGill e, a avaliar pelo que George acabava de dizer, por pouco não vitimara também Maggie McCloskey. Além disso, provocara-lhe um acesso de diabetes e não subsistiam dúvidas de que Delia não era a mesma, quando a visitara, naquela manhã.

 

Quanto a Elaine McGill, recordava-se agora da forma estranha como reagira na noite anterior, quando Grace se oferecera para lhe fazer companhia no hospital. Sempre manifestara estima profunda por ela e Paul. Este e George eram mais ou menos da mesma idade, o que contribuía para que permanecessem mais unidos que os restantes. A serenidade revelada por Elaine na véspera fora particularmente estranha, para quem tinha o marido às portas da morte. Talvez se devesse à sensação de alívio experimentada ao saber que Paul não morrera. Pelo menos, não parecia censurar-lhe coisa alguma. O que, em última análise, se podia considerar muito lógico, ponderou Grace, começando a vestir-se. No fundo, Lorrie tivera relações íntimas com os maridos de todas.

 

Quando se instalava ao volante do Mercedes que George lhe oferecera pelo Natal, decidiu que Alice Weston fora a única da «Sociedade de Dissecação» que não se mostrara afectada pela morte de Lorrie. Embora fossem até certo ponto primas, Lorrie sempre a desdenhara, pelo que nunca existira estima especial entre ambas.

 

Quando arrumava o carro no parque de estacionamento do hospital, avistou Alice, que se encaminhava apressadamente para a Clínica, um pouco curvada, como se sentisse uma dor aguda no estômago. Compreendeu então que a bala de Mort também a atingira.

 

Alice Weston apresentava-se na Clínica, consoante sugerira o médico de serviço, quando ela telefonara, na véspera, a fim de pedir um medicamento para a crise de colite. Havia mais de uma ano que se submetera a um exame completo, pelo que se sujeitava agora ao que se denominava por «exame médico de rotina».

 

No balcão em que se registou, recebeu uma ficha na qual estava inscrito um resumo dos exames anteriores, abreviado e condensado para poder ser convertido em cartões para o computador. Juntamente, havia uma folha de papel em branco e um maço de cartões para os exames a efectuar nesse dia. Quando ela imergiu no longo corredor que principiava junto do balcão de marcação das consultas, viu Grace aproximar-se da recepcionista, mas não tiveram oportunidade de se falar.

 

Num pequeno compartimento ao fundo do corredor, Alice despiu-se, ficando apenas com as cuecas e os sapatos e enfiou uma daquelas batas de papel que tornavam todos os pacientes parecidos.

 

Tinham-lhe indicado que comparecesse em jejum e visitou em primeiro lugar o laboratório. Montado sob a orientação de Mort Dellman, esse autêntico coração de qualquer Clínica importante fora construído de modo que possuísse o mais elevado grau de eficácia e mobilidade na realização dos exames necessários. Em ambos os lados do corredor central, havia pequenos compartimentos, apenas com espaço para o doente se sentar empertigado numa cadeira, a qual dispunha de um suporte para o braço e para o técnico que procedia à recolha do sangue, que se conservava de pé.

 

Alice sempre tivera medo da agulha, porém naquela manhã a rapariga de branco fora extremamente hábil, e ela apenas sentira uma ligeira picada. A técnica retirou de uma estante na parede um pedaço de adesivo, que colocou na minúscula mancha vermelha no braço de Alice, onde a agulha perfurara a pele e a veia. Quanto à amostra de sangue   extraída   seria   dividida   para   os   vários   exames. Na sala contígua, a técnica retirou um copo de cartolina de um fornecedor automático e encheu-o de um líquido amarelado existente num recipiente próximo.

 

- Beba tudo - indicou, com um sorriso. - Destina-se a... Mas suponho que não necessito de a elucidar, hem, senhora Weston?

 

Alice aquiesceu com um movimento de cabeça e ingeriu o líquido, o qual tinha um gosto adocicado familiar, embora algo ácido, lembrando o limão. A combinação de glucose com água carbónica transitaria rapidamente do seu estômago vazio para o sistema circulatório. Cerca de uma hora mais tarde, noutro local situado no termo da sucessão de exames, colheram nova amostra de sangue.

 

Alice não entendia concretamente o significado de tudo aquilo, excepto que a informação do primeiro e segundo exames de sangue, introduzida numa máquina processadora de dados para comparação com os exames anteriores, forneceria um diagnóstico da percentagem de açúcar sanguíneo ou de diabetes. Quando a técnica assinalou o tempo num dos cartões para o processamento de dados que Alice trazia pregados na prancheta, verificou que a parte do exame de sangue tardara quatro minutos exactos.

 

Poucos metros adiante, no corredor, Alice entrou numa saleta cuja indicação - Secção 6 - correspondia ao que estava marcado noutro cartão, o qual colocou em cima de uma mesa. Novo vulto de branco de rosto inexpressivo apressou-se a ligar terminais metálicos aos seus pulsos e tornozelos, cujas outras extremidades se prolongavam até um painel de botões e mostradores. Ela dormitou enquanto a máquina zumbia, registando num papel graduado o traçado eléctrico das palpitações cardíacas, até que a técnica lhe colocou um dos eléctrodos sobre o peito, fazendo-a estremecer ao contacto do metal frio.

 

- Estamos quase no fim, senhora Weston - informou a rapariga. - Agora é só fazer esta ligação e registar os ruídos cardíacos.

 

- Isto não era feito por um médico?

 

- Há quanto tempo não vinha à Clínica?

 

- Mais de um ano.

 

- Agora, empregamos um fonocardiógrafo, que permite a gravação em fita das palpitações cardíacas.

 

Quando abandonou a Secção 6, perfuram-lhe outro dos cartões apensos à ficha, e ela observou que permanecera lá precisamente oito minutos. No momento em que saía, abriu-se uma porta em frente, e Alice avistou Grace Hanscombe estendida numa mesa igual àquela em que estivera.

 

Na derradeira fase dos exames, quando já se sujeitara a testes relativos aos pulmões e vários outros, entre os quais o conhecido por Pap, elemento importante para a detecção do cancro nos órgãos reprodutores femininos, um técnico extraiu-lhe sangue do braço direito. Consultando o relógio, ela verificou que se escoara uma hora desde que ingerira a mistura de glucose após a primeira colheita de sangue.

 

Quando a introduziram num gabinete mobilado com sobriedade, começa a sentir-se razoavelmente fatigada. Na sua frente, reconheceu um écran de exame de chapas de raios X e, no gabinete contíguo, a mesa familiar que se podia colocar em numerosas posições para exames internos. Acabava de descrever, numa folha de papel que lhe forneceram, os sintomas da crise que a acometera na véspera quando a porta se abriu para dar passagem a uma jovem que vestia a bata longa dos médicos.

 

- Bom-dia, senhora Weston. Sou a Dra. Feldman.

 

- A nova médica?

 

- Na verdade, sou médica e é o meu terceiro dia em Weston - replicou a recém-chegada, com um sorriso agradável. - Portanto, devo reconhecer que as suas palavras correspondem à realidade.

 

- Não pretendi ser impertinente - apressou-se Alice a esclarecer, experimentando atracção instintiva por Marisa.

 

- Com certeza. - A médica sentou-se numa cadeira do outro lado da mesa. - Posso ser nova no hospital, mas as moléstias do género das suas pertencem ao círculo das minhas relações desde longa data. O Dr. Hanscombe falou-me a seu respeito, senhora Weston.

 

Absteve-se, porém, de acrescentar que George lhe confidenciara: «Alice Weston teve mais um espasmo intestinal. Agradecia que a visse e tentasse descontraí-la.»


- Posso ver as suas fichas? - solicitou, após uma pausa.

 

Alice entregou-lhas e Marisa examinou-as com atenção. Transcorrido um momento, aproximou-se de um quadro com teclas numeradas e premiu algumas. Após um breve intervalo, a máquina principiou a produzir estalidos e ejectar diversos cartões perfurados por uma abertura.

 

Alice sabia que se tratava de parte dos seus registos anteriores, assim como de um relatório sobre os exames a que acabava de se submeter. A médica leu-os em silêncio por uns segundos e proferiu:

 

- Parece que passou a noite mal, hem?

 

- Horrível, de facto, até tomar o remédio verde que o médico de serviço prescreveu.

 

- Esse remédio verde, como lhe chama, é uma poção antiga, mas muito eficiente, composta por beladona, fenobarbital e água de hortelã. Empregávamo-la muito em Boston, onde a conheciam por «Elixir Mágico». Sente-se melhor, esta manhã?

 

- Muito melhor, obrigada.

 

- Bem, vamos completar o exame. Importa-se de passar à outra sala e estender-se na mesa?

 

As mãos de Marisa Feldman eram suaves e eficientes e não tardaram a localizar um ponto sensível, no lado inferior esquerdo do abdómen, mas não provocaram a dor que costumava surgir quando George Hanscombe exercia pressão nesse lugar, e Alice foi-se descontraindo gradualmente.

 

- Isso - aprovou a médica. - Tinha uma área de espasmo muito pronunciada, mas começa a extinguir-se. Aconteceu-lhe alguma coisa recentemente responsável pela crise ontem à noite?

 

- Minha prima faleceu.

 

- A senhora Dellman?

 

- Sim. Crescemos juntas e éramos muito unidas.

 

Isto não correspondia totalmente à verdade, porquanto não se davam bem nos últimos tempos, porém Alice não queria que a Dra. Feldman a julgasse nevrótica. O marido atribuíra-lhe essa classificação, em tempo, e ela nunca lho perdoara inteiramente.

 

- É muito possível que o abalo fosse o causador da crise

- volveu a médica. - Convinha que tivesse cuidado com a alimentação durante uns oito dias. O Dr. Hanscombe pediu-me que passasse a ocupar-me do seu caso, senhora Weston. Espero que não se importe.

 

- Pelo contrário! - esclamou Alice, corando ligeiramente.

 

- Gostava de a voltar a examinar dentro de três semanas. O seu estado geral é excelente, à parte essa ligeira perturbação que julgo possível dominar.

 

- Obrigada, Dra. Feldman. Como meu marido pertence à Corporação da Clínica, é natural que nos encontremos socialmente.

 

- Assim espero.

 

Quando ficou só, Marisa inscreveu algumas notas num pedaço de papel, que juntou a um dos cartões de Alice. Os factos importantes seriam registados mais tarde pelos diferentes técnicos, para que o computador os localizasse rapidamente, em caso de necessidade.

 

Absteve-se de anotar um pormenor, que no entanto lhe provocou certa preocupação. Os escassos minutos de convívio com Alice Weston tinha bastado para compreender que se tratava de uma lesbiana, pois na prisão de Frondheim existiam várias para que os indícios reveladores passassem despercebidos a um observador experiente. O facto levou-a a ponderar que género de marido seria o de Alice e que espécie de vida conjugal teriam.

 

Quando Pete saiu a caminho do hospital, Amy vestiu-se para visitar um pai que acabava de perder a filha única. A casa Weston, como ainda era conhecida a residência de Amy, embora a ocupasse há mais de quinze anos como senhora de Pete Brennan, situava-se num outeiro de onde se avistava o rio, a alguns quilómetros das novas construções de Sherwood Ravine, onde vivia a maior parte das mulheres dos outros médicos. A moradia de Jake Porter ficava a uns oitocentos metros da dos Brennan, noutra elevação, separadas por uma ravina pouco pronunciada.

 

Os Weston haviam-se instalado no Sul, procedentes da Nova Inglaterra, logo após a Guerra da Secessão, quando os terrenos se podiam adquirir por uma ridicularia e a mão-de-obra era tão pouco dispendiosa como na época da escravatura. Aplicando as economias amealhadas na Nova Inglaterra e os conhecimentos da indústria têxtil e de tapeçarias, o avô de Amy fizera fortuna e estabelecera-se como um dos cidadãos principais naquela área do Estado.

 

O pai dela não se revelara um homem de negócios tão arguto, mas nessa época era Jake Porter quem dirigia a fábrica e acumulava dinheiro com investimentos maciços em transacções de madeiras e propriedades industriais. Fora ele quem negociara a venda das Fiações Weston ao grupo Portola, por ocasião da segunda emigração têtil da Nova Inglaterra, quando os industriais se furtavam à mão-de-obra demasiado onerosa dominada pelos sindicatos do Norte, para as áreas desorganizadas de trabalhadores ignorantes e baratos do Sul.

 

Resultou daí que Amy e Roy cresceram considerando Jake Porter seu tio e, quando Roy casou com Alice, tutelada de Jake, os laços ainda mais se estreitaram. Amy, Alice e Lorrie tinham sido criadas como irmãs, até que a escola e a universidade as separaram por algum tempo. Mais tarde, o casamento voltou a reuni-las, quando Mort Dellman e Pete Brennan regressaram, com Roy e os outros, da Coreia, para se tornarem professores na Escola de Medicina da Universidade de Weston. Agora, porém, achava-se tudo ameaçado de destruição total por um único tiro de pistola disparado por Mort Dellman, a menos que Pete conseguisse os cem mil dólares que o outro exigia pela sua parte na Clínica.

 

No fundo, Amy estava persuadida de que o marido obteria o empréstimo para tal. O perigo real consistia em que, se Roy exercesse pressão sobre Mort para cimentar as suas próprias ambições políticas, todo o pequeno mundo do grupo ruiria com o escândalo capaz de levar os administradores da Escola de Medicina, que não viam com satisfação o êxito da Clínica, a solicitar e conseguir a demissão de todos os envolvidos na questão. Isto resultaria extremamente prejudicial para a Clínica, a qual seria forçada a mudar de nome, comprometendo porventura a sólida reputação de uma das melhores organizações do género em todo o Sueste do país.

 

Amy decidiu cobrir a pé a distância que a separava da residência de Jake Porter, mas não tardou a arrepender-se da inspiração, pois fazia calor e em breve principiou a transpirar.

 

Jake Porter encontrava-se sentado numa cadeira de balouço, no terraço, quando ela transpôs os degraus de acesso. O velho vivia só, assistido por um casal de negros que ocupavam um apartamento por cima da garagem.

 

- Bom-dia, tio Jake - proferiu Amy, inclinando-se para lhe beijar as faces. - Não necessito dizer-lhe como ficámos desolados com o sucedido.

 

- Senta-te, Amy - articulou ele, em voz fatigada. - A tua visita dá-me sempre profundo prazer.

 

- Pete quer saber se podemos ser úteis nos preparativos do funeral.

 

- Está tudo tratado. Chamei o agente funerário e expliquei-lhe que pretendia um enterro decente. O Dr. Potter encontra-se ausente da cidade, mas o cónego da catedral encarrega-se do serviço religioso.

 

- Tenho a certeza de que Lorrie não quereria nada de complicado - assentiu Amy. - As crianças estarão presentes?

 

- Incumbi Jasper de as ir buscar ao campo, perto de Ashville. De qualquer modo, tinham de regressar na quinta-feira, para a abertura do novo ano lectivo. - Jake Porter referia-se ao serviçal negro e ao acampamento de férias onde os filhos de Amy também se encontravam. - Lorrie sempre teve uma maneira de pensar muito sua. Oxalá o homem que estava com ela não morra.

 

- O Dr. Dieter extraiu-lhe a bala do coração, ontem à noite, e Pete afirma que se salvará.

 

- E Dellman?

 

- Está preso, mas propôs aos outros a venda da sua parte da Corporação.

 

- Por quanto?

 

- Cem mil dólares.    

 

- Quer isso dizer que espera safar-se, provavelmente invocando a tese de crime passional. Não me desagradava assistir também ao fim dele. Ainda não compreendi porque resolveu matá-la, a menos que julgasse Lorrie responsável da alteração que introduzi no meu testamento.

 

- Alteração? - ecoou Amy, enrugando a fronte.

 

- Não me conformava com a ideia de Dellman arrecadar o meu dinheiro, após a minha morte, pelo que modifiquei o testamento há cerca de um mês. Deixo tudo aos filhos de Lorrie, ficando o Banco como administrador. Parece-me uma decisão sensata, agora que as coisas tomaram um rumo diferente.

 

- Lorrie amava os filhos e gostaria de saber que ficaram amparados.

 

- Não tenhas a mínima dúvida a esse respeito. Suponho que Dellman não tenciona provocar dificuldades ao teu marido e aos outros?

 

- Que quer dizer, tio Jake?

 

- Sabes perfeitamente ao que me refiro.

 

- Pete garante que Mort abandonará a cidade, assim que houver uma decisão da Justiça.

 

- Será um alívio para todos. No fundo, Lorrie não era má rapariga. Estimava os filhos e talvez o marido, ao princípio. Infelizmente, não podia passar sem homens. Creio não andar longe da verdade ao afirmar que se tratava de uma doença que, como qualquer outra, a vitimou. - Jake Porter fez uma pausa, meneando a cabeça. - Pede a teu marido que passe por cá. Gostava de trocar impressões com ele.

 

- Talvez possa vir esta noite.

 

- Arranjaste um rapaz às direitas, um ser humano, um homem a valer. Às vezes, fará uma outra coisa que não te agrada, mas procura dominar-te, ignorando a obstinação que herdaste do ramo da família da Nova Inglaterra. Um bom casamento é das coisas mais valiosas do mundo. Portanto, procura conservá-lo.

 

- Eu e Pete damo-nos excelentemente.

 

- Acredito, mas constam por aí umas coisas... Há quem afirme que ele não aguenta muito mais tempo as tuas atitudes e acabarão por se divorciar.

 

Amy vacilou, como se acabasse de receber um soco entre os olhos. Pete divorciar-se dela? Não era possível.

 

- És atilada e ambiciosa como qualquer mulher - acrescentou o ancião, aparentemente alheio ao efeito das suas palavras. - Mas não deixes a ambição destruir-te o matrimónio.

 

- Não deixarei, garanto-lhe.

 

Ela levantou-se e principiou a descer os degraus em passos incertos, abalada pelo que acabava de ouvir.

 

- Obrigado pela visita.

 

Percorridos alguns metros, conseguiu dominar-se um pouco e, voltando-se, avistou Jake Porter, balouçando-se na cadeira, agora com o queixo afundado no peito, como se dormitasse. Tornava-se difícil acreditar que conseguira fazer estremecer o seu pequeno mundo até aos alicerces.

 

A parte mais desagradável de uma bebedeira são sempre os efeitos do dia seguinte, mas agora tudo apresentava um aspecto diferente. Maggie McCloskey flutuou prolongadamente entre a consciência e a inocência, tentando dormir, ao mesmo tempo que, segundo lhe parecia, toda a gente se empenhava em a manter acordada. A espaços, havia um algoz que a maltratava, queimando-lhe a garganta com uma vara quente e dando-lhe picadas, como nas gravuras do Inferno de Dante que ela se recordava de ver na universidade. Por fim, despertou e viu-se numa atmosfera estranha - na brancura anti-séptica de um quarto de hospital.

 

A cabeça latejava-lhe, a garganta dir-se-ia uma chaga e a impressão nas faces assemelhava-se à produzida por uma série de bofetadas impiedosas. O braço também lhe doía, mas quando experimentou movê-lo descobriu que o tinha ligado e emergia dele um tubo de plástico, cuja outra extremidade terminava num frasco que continha um líquido alaranjado, suspenso de um gancho.

 

O movimento efectuado pela cabeça para acompanhar a trajectória do tubo colocou-lhe uma janela no campo visual, através da qual vislumbrou as montanhas distantes e pôde certificar-se de que continuava em Weston, provavelmente no hospital da Universidade. Lá fora, o sol brilha com intensidade, o que significava que estivera inconsciente largo tempo.

 

- Acordou?   -   inquiriu uma voz jovem, ao mesmo tempo que surgia uma estudante de enfermagem de cabelos ruivos e faces sardentas.

 

- Que... que horas são?

 

- Quase meio-dia.

 

- Estou aqui há muito tempo?

 

- Deu entrada na Sala de Emergência cerca da meia-noite, mas só a transferiram para aqui às cinco da manhã.

 

Maggie tentou coordenar as ideias. Recordava-se de ter ido para casa, por volta das dez da noite. Se a enfermeira se referia à meia-noite, decerto desmaiara. Que acontecera entre essa hora e as cinco da madrugada? Todavia, o esforço era excessivo para ela, pelo que decidiu não pensar mais no assunto, e tornou a adormecer.

 

Quando voltou a acordar, sentia as ideias muito mais lúcidas. O frasco de fluido que pendia do suporte fora mudado e o conteúdo apresentava uma coloração avermelhada. Por outro lado, as sombras que envolviam as montanhas distantes indicaram-lhe que anoitecia.

 

- O almoço foi amarelo e o jantar vermelho - comentou em voz rouca.

 

Principiou a rir, porém a hilaridade não tardou a converter-se em soluços, que não conseguiu dominar por muito tempo. Quando, por fim, se extinguiram, Maggie quedou-se imóvel, o olhar fixo no tecto, no vazio que simbolizava a sua vida.

 

Pete Brennan convocara uma reunião da comissão executiva da Clínica da Faculdade para o almoço, num pequeno refeitório privativo, junto da sala de repouso dos médicos, no último edifício. A maior parte do pessoal tomava a refeição do meio-dia na cantina do hospital, do outro lado da rua, mas, para economizar tempo, fora estabelecido um pequeno refeitório perto da sala de repouso, que também servia para a realização de conferências à hora do almoço. Achavam-se todos presentes, à excepção de Mort Dellman e Paul McGill, impossibilitados de comparecer pelas circunstâncias.

 

Depois que o servente se afastou, uma vez servida a comida, Pete virou-se para o psiquiatra:

 

- Fecha a porta à chave, por favor, Dave, já que és o mais próximo.

 

Este obedeceu e regressou ao seu lugar. Ninguém indagou o motivo de semelhante sigilo, pois nas últimas vinte e quatro horas tinham-se verificado factos mais que suficientes para o justificar.

 

Pete colocou-os ao corrente, em poucas palavras, da conversa tida com Mort Dellman, na noite anterior. No final, as expressões de perplexidade desenhadas na maioria dos semblantes que o rodeavam reflectiam o que ele próprio sentira na altura. Contudo, desde então, tivera ensejo de traçar alguns planos preliminares para salvar o que fosse possível da derrocada que os ameaçava.

 

- De mim não leva ele nada - declarou George Hanscombe. - Aliás, confesso que nunca...

 

- Mort incumbiu um investigador particular de seguir Lorrie durante largo tempo - atalhou Pete. - Tens realmente a certeza de estares isento de culpa?

 

O outro descerrou os lábios para replicar, mas mudou de ideias e conservou-se calado.

 

- Só um patife como ele colocaria um espião no encalço da mulher - interveio Joe McCloskey, um homem algo nutrido, de pouco cabelo, mas dos membros mais ponderados e merecedores de confiança do grupo. - Só não percebo é porque procedeu assim. No fundo, há anos que devia saber que Lorrie dormia com todos.

 

- A morte dela foi um acidente - esclareceu Pete. Mort supôs que se encontrava com um estudante e resolveu aplicar-lhe um correctivo que servisse de exemplo.

 

- Ele não ignorava que a mulher provocaria um escândalo, mais dia, menos dia - observou Dave Rogan. Quanto a mim, mandou-a seguir por um detective para ter Jake Porter nas mãos, na eventualidade de um divórcio. O velho adora os netos e daria uma fortuna para encobrir as actividades sexuais da filha.

 

- Até dá a impressão de que Mort possui o direito de vida e de morte sobre nós - articulou Joe McCloskey.

 

- Mas porque nos faria isto? - perguntou George Hanscombe. - Afinal, admitimo-lo na Clínica sem o necessitar.

 

- Não podemos esquecer que parte do êxito que se verificou aqui se deveu à sua intervenção - sublinhou Pete.

 

- Na verdade, Mort roubou a ideia da automatização das clínicas da Califórnia que a iniciaram - volveu Dave Rogan. - Em todo o caso, duvido que nos apercebêssemos dessas possibilidades, se ele não insistisse na aquisição do computador.

 

- Então, compra-se-lhe a parte ou não? - quis saber McCloskey.

 

- Por cem mil dólares? - explodiu George Hanscombe.

 

- Endoideceste?

 

- Não os convoquei para nos entregarmos ao desespero - lembrou Pete. - Qual de vocês venderia hoje a sua parte por essa quantia? - Fez uma pausa, mas ninguém se pronunciou.

 

- Por conseguinte, resta-nos decidir a forma de solucionar o problema.

 

- Não posso reunir tanto dinheiro - alegou George Hanscombe.

 

- Conseguiste aquelas acções de Merril Lynch, salvo erro

 

- frisou McCloskey.

 

- Julgas   que   as vou sacrificar num assunto destes?

 

- Tens tanto a ganhar como nós - acudiu Pete.

 

- Pois sim, mas Amy...

 

- Deixa lá isso, George - aconselhou Dave Rogan, em voz pousada. - Sabes perfeitamente que Pete foi subindo à sua própria custa, desde que chegou aqui.

 

- Obrigado, Dave - Disse Pete. - Segundo os meus cálculos, entrando com os honorários do advogado e tudo o resto, a coisa vai sair-nos à razão de vinte e cinco ou trinta mil por cabeça, incluindo os juros.

 

- Há   um  pormenor   que   me   preocupa   -   declarou McCloskey. - Quem nos garante que Mort, depois de receber o nosso dinheiro, não resolve preparar-nos uma partida? Pelo género de história sensacional que ele congeminaria, qualquer revista lhe pagaria uns cinquenta mil dólares, pelo menos. Ou talvez até escrevesse um livro sobre o assunto.

 

- O que acontece de momento aqui não difere muito do que se passa em qualquer outro meio limitado, mesmo que não exista uma universidade - asseverou Dave Rogan. Constituímos uma comunidade muito unida no seio de outra maior, e ninguém pode evitar que sucedam coisas como esta.

 

- O pior é se se regista uma explosão, como agora argumentou Pete.

 

- Continuamos envolvidos num problema espinhoso insistiu McCloskey. - E não o consegues resolver com toda a tua psicologia, Dave.

 

- Serve para meditarmos sobre as nossas vidas e perguntar como nos envolvemos   nele - retrucou o psiquiatra. Vinte e cinco mil dólares talvez não seja um preço muito pesado por uma auto-análise.

 

- Tu podes falar - interpôs George Hanscombe. - Não te encontras no mercado de títulos, com as acções lá no fundo.

 

- Mas lembra-te do que fizeste, quando estavam lá em cima.

 

Pete Brennan ergueu a mão para pôr termo à controvérsia.

 

- Todos desfrutamos de situação financeira satisfatória e perspectivas excelentes, pelo que podemos correr alguns riscos.   Na minha   opinião,   devemos pedir emprestado   o   dinheiro   de   que   necessitamos, amortizando-o no Banco, como faríamos com qualquer outro empréstimo. É pos’sivel que algum de nós fique um pouco atrapalhado de momento, mas julgo que, em última análise, valerá a pena.

 

- Ainda não respondeste à minha pergunta sobre quem nos garante que Mort não nos cravará uma punhalada nas costas - recordou McCloskey.

 

- Não posso garanti-lo - reconheceu Pete, pensativamente. - Ontem à noite, ele explicou o que aconteceu. Esperava surpreender o estudante de Medicina com Lorrie e tencionava assustá-lo. Esta manhã, escrevi tudo o que me revelou...

 

- Espero que não o fizesses por intermédio da tua secretária - interrompeu McCloskey.

 

- Não sou imbecil a esse ponto. Dentro de meia hora, toda a Clínica estaria ao corrente do assunto e, durante a tarde, a cidade inteira. - Pete extraiu da algibeira um longo sobrescrito. - Vou meter isto no correio, registado, endereçado a mim próprio, e quando o receber ficará encerrado no meu cofre. Servirá para provar a data em que foi redigido.

 

- Não está mal pensado - aprovou George Hanscombe.

 

- Um cliente meu explicou-me que os escritores costumam proceder assim para proteger os seus manuscritos. Enviam a si mesmos uma cópia do que pretendem resguardar e ficam automaticamente com a prova de que o escreveram antes de uma data determinada.

 

- E Paul McGill? - perguntou McCloskey. - Em que situação fica, no meio de tudo isto?

 

- Nada tem a lucrar envolvendo-se em qualquer acordo com Mort, pelo que julgo preferível deixá-lo de fora - observou Pete. - Devemos formar um grupo e pedir emprestados os cem mil dólares de que precisamos. Mort vende-nos legalmente, por essa quantia, a sua parte na Clínica e, se conheço bem Arthur Painter, fará que tudo assuma o aspecto de uma transacção comercial corrente. Quem concordar levante a mão.   - Ergueram-se três simultaneamente   e, por fim, George Hanscombe   seguiu-lhes   o   exemplo, tornando a decisão unânime. - Vou contactar com Painter imediatamente, para tratar da papelada, e consultar o Banco. Mais alguma dúvida?

 

Ninguém se pronunciou nesse sentido e a reunião foi encerrada. No entanto, Dave Rogan deixou-se ficar, enquanto os outros saíam e, quando ficou só com Pete Brennan, observou:

 

- Tenho pensado imenso nesta embrulhada em que nos metemos. Queres trocar impressões por uns minutos?

 

- Sem dúvida.

 

- Naturalmente, já sabes que tenho Maggie McCloskey numa das minhas enfermarias.

 

- Joe disse-me. Qual é o prognóstico?

 

- Desta vez salva-se, mas nada posso prometer quanto à próxima.

 

- Porque faria aquilo?

 

- Ainda ama Joe. Ela encontrava-se no clube, ontem à tarde, quando foi divulgado que Mort tinha alvejado Lorrie. Ora, as primeiras versões não mencionaram Paul, referindo-se apenas ao envolvimento de um médico ilustre. Maggie, Delia e Grace precipitaram-se imediatamente para aqui, cada uma delas convencida de que se tratava do marido.

 

- Amy também veio. E, ontem à noite... - Pete interrompeu-se, como se acabasse de encontrar uma explicação possível da atitude dela na véspera.

 

- Continua.

 

- Mostrou-se mais afectuosa que habitualmente, quando cheguei a casa.

 

- A notícia apavorou todas - admitiu o psiquiatra. Antes do almoço, George revelou-me que a percentagem de açúcar de Grace subiu consideravelmente, pela primeira vez há mais de um ano, e tratou de a internar no hospital, com medo de que entrasse em coma diabético.

 

- Então, era por isso que ele estava tão irritável. Em regra, não se comporta assim.

 

- Penso que qualquer de nós reagiria do mesmo modo, se a sua mulher acusasse um acréscimo de açúcar no sangue para provar o seu amor. A diabetes de Grace pode considerar-se benigna e melhorará com o tempo. O que’me preocupa é o caso de Maggie e Joe. Sabias que ele paga ao bartender do clube para a convencer a não conduzir quando bebe de mais, o que acontece praticamente todos os dias?   Não.

Ontem, depois de sair do hospital, ela dirigiu-se ao clube, onde se conservou até que o empregado a mandou para casa num táxi. Tudo indica que estava demasiado perturbada para conseguir dormir e ingeriu umas cápsulas de barbitúrico que encontrou no armário dos medicamentos. Por sorte, Joe meteu-se no carro, passou diante da casa de Maggie, para ver se estava tudo em ordem, e estranhou que estivessem todas as luzes acesas. Apressou-se a entrar e levou-a para o hospital. Jeff Long, casualmente de serviço, aplicou-lhe o tratamento de emergência e ela começou a recuperar, esta manhã.

 

- Então, esteve por pouco, não?

 

- Decerto. Quando acordar por completo, tentarei assustá-la, para que decida tratar-se.

 

- Isso não acontece à maioria dos alcoólicos?

 

- Não, mas envidarei os maiores esforços para a convencer. O facto de acudir ao hospital prova que ainda ama Joe, e todos sabemos como ele vive desde que se divorciaram.

 

Pete fixou pensativamente a toalha branca da mesa, salpicada de cinza do cigarro, lembrando-se da atitude algo lúbrica de Amy, na véspera, e encarando-a agora como sintoma de algo que a perturbara, porquanto, apesar do prazer que experimentara, não era vulgar nela.

 

- Que aconteceu a todos nós, Dave? - perguntou, por fim. - Em que ponto errámos?

 

- Para um psiquiatra, não existem regras rígidas e rápidas para distinguir o certo do errado.

 

- Quero eu dizer: como se explica que as nossas vidas se embrulhassem? Passámos anos correndo atrás de outras mulheres. Lorrie era... enfim, em conformidade com os seus princípios, podia considerar-se honesta. Mas nós... Que nos levou a proceder assim?

 

- Prazer?

 

- Talvez, por uns momentos. Mas quanto tempo dura? E quanto vale?

 

- Apenas um instante e não vale absolutamente nada.

 

- Nesse caso, porque o fizemos? Trata-se de uma maneira de proceder que se não pode considerar normal.

 

- Aí está outro termo que os psiquiatras evitam, mas compreendo ao que te referes. Maggie bebeu de mais. Grace Hanscombe viu a diabetes, normalmente benigna, agravada. A minha Delia concentrava-se exclusivamente no golfe. Amy queixa-se de dores de cabeça inexplicáveis. Alice Weston sofre de colite espasmódica. No fundo, creio que Elaine McGill é a única equilibrada do grupo, mas não encontra um motivo plausível para a esterilidade.

 

- Quem ou o que devemos censurar?

 

- Nós, os maridos, também não somos aquilo a que se pode chamar normais. Trabalhamos excessivamente e as nossas mulheres não recebem a atenção que merecem. Supões, por exemplo, que Delia é campeã de golfe só porque gosta de jogar? Como sou psiquiatra, convenceu-se da sua inferioridade intelectual em relação a mim, o que não corresponde de modo algum à verdade. Enquanto os filhos eram pequenos, tinha com que se entreter. No entanto, gradualmente, a ideia de que iriam para a escola e depois para a universidade e deixariam de precisar dela, consumiu-a e destruiu-lhe o amor-próprio, tornando-se campeã de golfe, para se persuadir de que me é superior fisicamente.

 

- Que tencionas fazer?

 

- Engravidá-la de novo, se conseguir convencê-la declarou Dave, com uma risada.

 

- Ainda não compreendi como nos afundámos nesta balbúrdia, quando na realidade não estamos muito longe daquilo que se pode considerar criaturas normais. A faculdade tem numerosos professores, uns trinta dos quais trabalham na Clínica. Seremos os únicos anormais?

 

- Não empregues termos como «normal» ou «anormal».   A   questão   fundamental   reside   em   que   somos muito semelhantes no tocante aos rendimentos, nível social e maneira pela qual vivemos, o que nos torna um grupo consanguíneo.

 

- Consanguíneo?

 

- Tu, eu, Joe, George, Mort e Roy não andámos juntos, na Coreia, por mero acaso. Em vários aspectos, somos muito semelhantes: inteligentes, ambiciosos, dinâmicos.   Lá,   destacámo-nos   do   resto   da   equipa   do hospital e unimo-nos por um processo de selecção natural.


Um acidente do Destino (a abertura desta Escola Médica) reuniu-nos de novo e casámos com mulheres de diferentes padrões de vida, que a pressão das circunstâncias acabou por moldar no mesmo tipo.

 

- Em que sentido?

 

- Por um lado, sob o padrão do conformismo. Vivemos todos no mesmo tipo de casa. Pertencemos ao mesmo clube. Absorvemos as mesmas bebidas. E, passado pouco tempo, começamos a seguir uma vida sexual mais ou menos similar. Portanto, que diferença fará mudarmos um pouco?

 

- Quem te ouvisse pensava que somos cobaias submetidas a uma experiência diabólica.

 

- É possível que a vida não passe disso: o diabo entretido em experiências connosco para ver se servimos para o inferno.

 

Não concordo - disse Pete. - Equivaleria a viver duas vezes no inferno.

 

- É o que sucede à maioria das pessoas.

 

- Que solução prevês?

 

- Para os homens, uma espécie de competição amigável, como a que mantemos aqui, na Clínica. Achamo-nos tão atarefados que não dispomos de tempo para fabricar agressões susceptíveis de serem canalizadas para sintomas físicos ou perturbações emocionais. Mas o caso das nossas mulheres é diferente. Ao princípio, estiveram ocupadas, ajudando-nos a iniciar a vida, construindo um lar, educando os filhos, tarefas que elas desempenham melhor que qualquer homem.

 

- Ter um lar, mulher e filhos são coisas que sempre me atraíram.

 

- Atraem a todos, até que se obtêm e consideram certas. A felicidade, no casamento, no trabalho, na vida, não se pode deixar ao sabor do acaso, de contrário estaria tudo perdido. Deve construir-se laboriosa e infatigavelmente.

 

- Maggie e Grace não têm filhos, o que não se ajusta à tua teoria.

 

- E porque te parecem que vivem mais gravemente doentes que as outras?

 

- E quanto a Amy?

 

- Queres a minha opinião sincera? - inquiriu Dave. -Absolutamente.

 

- Não posso afirmar que ela não corra mais perigo que as outras. Foi precisamente por isso que insisti nesta troca de impressões.

 

- Não me digas que te consultou!

 

- Nem ela nem as outras, excepto Maggie, que ficou automaticamente na minha secção, por se tratar de uma tentativa de suicídio. O que me preocupa é a ambição de Amy. Decerto que te apercebeste disso, sobretudo nos últimos tempos.

 

- Sim. De início, não era muito pronunciada, porque já desfrutava de uma posição destacada neste meio, a fortuna proporcionava-lhe independência absoluta e podia perfeitamente auxiliar a carreira de um marido médico. E fê-lo, sem a mínima dúvida, chegando mesmo a haver algumas desavenças, em especial porque eu insistia em que devíamos viver com o meu salário. Mas a Clínica começou a desenvolver-se e, quase de um dia para o outro, os meus rendimentos ficaram ao nível dos do pai dela.

 

- Ora bem. Tenta encarar as coisas com clareza. Não foi nessa altura que principiou a interessar-se pela Sociedade

 

Médica Auxiliar?

 

- Sim, mais ou menos. Creio que foi logo após a minha recusa do cargo de professor de Cirurgia.

 

- E registou-se então a primeira das dores de cabeça periódicas?

 

- Acho que sim.

 

- Nunca procuraste determinar a causa?

 

- Sugeres ter sido nessa época que Amy começou a admitir que eu não precisava dela?

 

- Pelo menos, a dúvida inconsciente devia estar presente. Ela já começou a pagar o preço da proeminência de que sempre desfrutou na comunidade.

 

- Queres dizer com isso que a situação se pode agravar?

 

- Quem sabe? No entanto, uma coisa é certa. Amy já não confia em ti. De resto, dá-se o mesmo com todas as nossas mulheres. Deixaram de confiar em nós, de contrário não se preocupavam tanto quando tomaram conhecimento de que um médico se encontrava com Lorrie, ontem à tarde.

 

- Achas admissível que nos modifiquemos, depois do que sucedeu?


- Custa-me a crer. Rondamos todos a casa dos quarenta e alguns até a ultrapassaram. Por conseguinte, o mal está feito. Resta-nos aprender a viver dentro do grupo da melhor maneira possível. Mas mudemos de assunto. Tiveste ensejo de ver o miúdo de Janet Monroe?

 

- Ainda não. Tencionava passar por lá a seguir à nossa reunião, mas necessito de telefonar a Arthur Painter, para que principie a ocupar-se do caso de Mort e do empréstimo. Fazes alguma ideia do mal do garoto?

 

- Desconfio que se trata de um aneurisma congénito do círculo de Willis, o qual começou a sangrar um pouco. Anton Dieter vai examiná-lo, esta tarde, e Ed Harrison prepara um rastreio radioisotópico para amanhã.

 

O rastreio radioactivo consistia num método relativamente recente para localizar tumores internos, tendo em conta a tendência dos tecidos para absorver determinados isótopos radioactivos, neste caso, um sal de mercúrio. Empregando um instrumento sensível semelhante a um contador Geiger que reagia em presença da radioactividade, tornava-se muitas vezes possível determinar a forma de um tumor profundo por meio do registo numa chapa de raios X e o acréscimo da quantidade de radiação emanada das células de um tumor.

 

- É tudo o que podemos fazer, de momento - admitiu Pete. - Irei vê-lo esta tarde, antes de sair. Janet é uma boa moça, que sofreu muito e merece melhor sorte, como por exemplo a cura do filho e casar com Jeff Long. Oxalá possamos ajudá-la.

 

Não obstante, enquanto seguia no elevador que o levaria ao consultório de onde contactaria com Arthur Painter, o neurocirurgião reconhecia que, se o diagnóstico de Dave estivesse certo, as possibilidades de êxito não seriam famosas.

 

- Porque fez isso?

 

A interrogação provocou a Maggie McCloskey uma resposta sob a forma de uma torrente ininterrupta de palavras

 

que ela proferia irreflectidamente, consoante Dave Rogan pretendera, autêntica erupção de verdades ejectadas do subconsciente, onde não havia possibilidade de serem dissimuladas pelas emoções.

 

- Queria dar o meu sangue a Joe, mas ele não o necessitava - balbuciou, os olhos rasados de lágrimas. Dantes, precisava de mim, mas agora já não. Ninguém precisa de mim para nada... - De súbito, apercebeu-se do que dizia, a realidade que jamais deixara transparecer e tentava ocultar a si própria. - Diabos o levem, Dave! Como conseguiu entrar sem que o visse?

 

- Estava demasiado preocupada em se compadecer de si mesma. De qualquer modo, interessava-me que falasse com a máxima sinceridade.

 

- Quem lhe garante que o fiz?

 

- Reagiu em conformidade com as minhas esperanças. O sentimento de inutilidade é uma causa fundamental, assim como sintoma da síndroma da mulher de médico.

 

- Da quê?

 

- A doença da mulher de médico é um estado muito conhecido, se porventura não lhe ocorre o significado do termo «síndroma». Trata-se de uma reunião de sintomas que caracterizam uma enfermidade específica.

 

- Deixe-se de brincadeiras.

 

- Nunca falei tão a sério. Delia sofre disso, com a diferença de que o sintoma que apresenta é o golfe em vez do suicídio.

 

- Pensa que tentei?... - começou Maggie, arregalando os olhos.

 

- Não é verdade?

 

- Com   certeza   que   não!   Porque   faria   uma  coisa dessas?

 

- Porque se considera uma inútil, como acaba de confessar.

 

- Você apanhou-me desprevenida.

 

- Escusa de pretender dissimular a verdade. - Dave sentou-se na borda da cama e começou a encher o cachimbo. - Conte lá exactamente o que aconteceu, ontem à noite.


- Eu, Delia e Grace tomávamos umas bebidas no clube, quando soubemos pela TV que Mort tinha assassinado Lorrie... A propósito: como está Paul?

 

- Livre de perigo. Continue lá com a sua história.

 

- Para quê?

 

- Agora, é minha paciente e encontra-se no meu departamento.

 

- De psiquiatria?

 

- Exacto. Vá, desembuche, que não lhe posso consagrar todo o dia.

 

- Ontem à tarde, no clube, senti-me mal, depois de ouvir a notícia, pois lembrei-me de que Joe tem sangue B-Rh negativo, como eu, um tipo difícil de encontrar, e corri para o hospital. Vim no carro de Grace, e Delia quis acompanhar-nos.

 

- Muito bem. Apesar de se sentir mal, quis socorrer Joe. Adiante.

 

- Conhece o resto. O ferido era Paul e não Joe. Depois de falarmos consigo, lá em baixo, discuti com Delia. A sua paixão pelo golfe é realmente um sintoma de doença?

 

- Sim. Mas falávamos de si.

 

- Regressei ao clube num táxi e, como de costume, embebedei-me. Cerca das dez horas, Manuel anunciou a intenção de fechar as portas e fui para casa noutro táxi que ele chamou. - Maggie contraiu as faces num trejeito de dor. É habitual entrar em casa nesse estado.

 

- Porque tinha todas as luzes acesas?

 

- Talvez tocasse com a mão em todos es interruptores, quando acendi a da entrada. Creio que o que me perturbou foi ver a cama.

 

- Qual cama?

 

- A outra, a de Joe, vazia. Descobri umas cápsulas no armário dos medicamentos e tomei várias.

 

- Quantas?

 

- Três ou quatro. Não foi a primeira vez que tomei essa quantidade?

 

- Mas não em estado de embriaguez, hem?

 

- Bem... Tentei recordar o que Joe me explicara acerca delas. Creio que não convinha toma-las por cima de bebidas alcoólicas. Foi por isso que fiquei assim?

 

- A mistura de pentobarbital com whisky pode resultar fatal - sublinhou Dave. - Você já nem respirava, quando deu entrada na Sala de Emergência. Por sorte, estava de serviço um jovem médico extremamente competente que reconheceu o seu estado em seguida.

 

- Fizeram-me lavagem ao estômago? É essa a causa de ter a garganta ferida?

 

- Conservou o pentobarbital no organismo durante duas horas, período suficiente para que absorvesse a maior parte. Jeff Long apressou-se a proceder à introdução de um tubo traqueano, para poder administrar-lhe oxigénio por meio de um respirador. As tentativas de suicídio deixam mazelas incomodativas, quando não são fatais.

 

- Foi um mero acidente!

 

- Não acredito.

 

- Porquê?

 

- Você começou a tentar dar cabo de si desde que passou a beber dessa forma descontrolada, muito antes de se separar de Joe. Creia que o alcoolismo é uma forma de suicídio. E se lhe juntarmos uma dose de barbitúricos...

 

- Repito que foi um simples acidente!

 

- E eu volto a dizer que não acredito.

 

- Desejava apenas dormir...

 

- Sim, para sempre. Os artistas de Hollywood que tomam barbitúricos em falsas tentativas de suicídio costumam tomar a precaução de telefonar a um amigo ou alguém conhecido, no último momento. Ora, você não telefonou a ninguém.

 

- Como o sabe?

 

- Quando a encontraram, o telefone estava pousado no descanso. Você despiu-se, enfiou a camisa de dormir e encontrava-se deitada na cama do quarto ao lado. O pormenor intrigou-me   até a ouvir mencionar a outra cama.

 

- Tornava-se-me insuportável a ideia de que Joe viesse a saber - murmurou ela, voltando o rosto para o outro lado.

 

- Até que enfim começamos a entender-nos.

 

- Não compreendo como.

 

- Reconhece que tentou pôr termo à vida porque pensa que Joe já não precisa de si. Não quis terminar com tudo no quarto que partilhavam por se sentir envergonhada do acto que pretendia executar. Agora, receia repetir tudo e ser bem sucedida.

 

- Quem se julga você, afinal: Deus?

 

- Podia ter-lhe; revelado tudo no momento em que entrei, porque se me deparam casos análogos com frequência, e não apenas relativos a mulheres de médicos.

 

- Então, limitou-se a sugar-me aquilo que já sabia?

 

- É precisamente o que o psiquiatra costuma fazer: orientar as pessoas até descobrirem a verdade por si próprias. Felizmente, você é inteligente e não manifesta relutância total em encarar os factos, o que representa meio caminho andado. O mais importante na vida de uma mulher é sentir-se desejada, necessária. Toda a sua estrutura física e emocional está construída em função desse sentimento. Quando o perde pode ficar profundamente afectada do ponto de vista físico e sofrer um enfarte ou declarar-se-lhe uma úlcera gástrica. Sob o aspecto mental, a reacção mais suave consiste numa psiconevrose e a mais grave em qualquer forma de enfermidade mental.

 

- Ou o suicídio?

 

- Precisamente.

 

- Há momentos, afirmou que era meio caminho andado. Meio caminho para onde?

 

- Joe necessita de si.

 

- Então, porque procurou aquela bastarda de Greenville?

 

- Porque não recebia em casa aquilo a que tinha direito.

 

- Nunca o repeli! - vociferou ela, enfurecida. - Se ele diz o contrário, mente.

 

- Joe não me revelou coisa alguma. Estou farto de presenciar casos como o vosso, para conhecer os sintomas. De qualquer modo, com que direito arma em virtuosa depois daquele Congresso de Medicina do Sul, em Nova Orleães?

 

Estas palavras exerceram o impacto de um forte soco no queixo. O estômago de Maggie contraiu-se numa ânsia de vómito e ela procurou o recipiente esmaltado ao lado da cama, porém Dave segurou-lhe o braço.

 

- Não me vomite para cima, por não conseguir enfrentar a sua culpa - acrescentou com brutalidade. - Naquela noite, vários maridos e respectivas mulheres não dormiram onde deviam. Aliás, já o faziam antes e continuaram a fazer. Quando um homem se revela incapaz de satisfazer a companheira, começa a especular sobre de quem será a responsabilidade. E a única maneira de dissipar a dúvida consiste em procurar outra mulher.

 

- Joe deu-se bem com ela?

 

- Não faço a mínima ideia. As pessoas inteligentes e educadas não trocam impressões sobre esses assuntos. Em todo o caso, há uma maneira de você conseguir que ele recupere a confiança... e não me peça que lho explique pormenorizadamente. - Pete levantou-se e esvaziou o cachimbo. - Tenho de a deixar. Apetece-lhe comer qualquer coisa?

 

- Creio que não me desagradaria um pouco de caldo e uma ou duas torradas. De caminho, se se arranjar café...

 

- Gosto de a ouvir falar assim. Vou mandar suspender o soro. Mais tarde, voltaremos a conversar.

 

- Se não trocou impressões com Joe, como sabe que precisa de mim?

 

- É exactamente por causa dele que pede caldo e torradas, em vez de estar estendida numa mesa de mármore, como Lorrie. Desde que se divorciaram, passa diante de sua casa, para ver se há alguma novidade. Ontem, depararam-se-lhe todas as luzes acesas e apressou-se a averiguar a causa, trazendo-a imediatamente para o hospital. Direi a minha secretária que lhe mande uma revista que inclui um artigo intitulado «Enfermidade Mental na Esposa de Médico». Julgo que a sua leitura lhe proporcionará material particularmente interessante.

 

Janet Monroe levantou-se às 8.00, passou pelo snack-bar, a fim de tomar café e chegou à enfermaria em que o filho se encontrava pouco depois das nove. O registo pendurado aos pés da cama indicava que o garoto dormira toda a noite e agora estendia-lhe os braços com ansiedade.

 

- Tens de continuar deitado - advertiu ela, beijando-o. - Foi o que o Dr. Ed recomendou.

 

- Podemos voltar hoje para casa, mamã?

 

- Duvido. Veremos o que ele diz, em todo o caso.

 

- Mas ficas comigo?

 

- Até ao almoço. Depois, tenho de ir lá acima vestir a bata, porque há muitos doentes que precisam de mim.

 

Dave Rogan e Ed Harrison apresentaram-se meia hora mais tarde. O segundo procedeu a um rápido exame neurológico e, enquanto guardava os instrumentos, declarou:

 

- De momento, parece tudo normal. - Voltou-se para Janet: - Lembra-se de mais algum pormenor sobre as convulsões que nos possa ser útil?

 

- Não sei... passou-se tudo tão rapidamente. Deu-me a impressão de que os músculos do lado direito eram mais afectados que os do esquerdo. - Vendo que eles se entreolhavam, ela perguntou com apreensão: - Tem algum significado especial?

 

- Pode ajudar-nos a localizar a causa - admitiu Dave Rogan.   - Precisamos   de todos os   elementos possíveis.

 

Ed Harrison, que se conservou no quarto depois de o psiquiatra sair, hesitou por um momento e proferiu:

 

- Tencionamos, hoje, fazer várias coisas e previno-a para que depois não se alarme.

 

- O quê?

 

- O dr. Brennan procederá a um exame neurológico, com vista ao aspecto cirúrgico da questão. Pedi também ao Dr. Dieter que viesse observar Jerry. Embora ainda não haja a certeza, é natural que ele exija um anigiograma cerebral.


- Continuam a admitir a hipótese de se tratar de algo de grave? - murmurou Janet, familiarizada com o exame mencionado em último lugar.

 

- Talvez... No entanto, o facto de Jerry não ter voltado a sofrer convulsões é um ponto a seu favor. Tudo indica que a hemorragia descoberta ontem por meio da punção estancou, pelo menos de momento. Apesar disso, necessitamos de descobrir a causa, antes que apareça outra para complicar a situação. - Harrison encaminhou-se para a porta e, antes de a transpor, voltou-se. - Viu Jeff, esta manhã?

 

- Não. As enfermeiras dizem que não apareceu por estes lados.

 

- A senhora McCloskey tentou suicidar-se, ontem à noite, e Jeff manteve-se a pé até às cinco da madrugada para a conservar viva.

 

- Meu Deus! - balbuciou Janet. - Que tomou?

 

- Álcool e barbitúricos. Por sorte, o Dr. McCloskey descobriu-a a tempo.

 

- Mas... não estão divorciados?

 

- Sim, mas ele continua a amá-la.

 

Ela voltou ao hospital às 14.00, agora uniformizada, disposta a permanecer cerca de meia hora com o filho antes de entrar de serviço na Unidade Especial de Cuidados Intensivos. No momento em que entrou no quarto, uma enfermeira colocava Jerry numa cadeira de rodas e apressou-se a informar:

 

- Levo-o ao consultório do Dr. Dieter, para que o examine. Suponho que o Dr. Brennan também estará presente.

 

- Eu levo-o - prontificou-se Janet. - Se eles não terminarem antes da hora em que entro de serviço, pedirei à enfermeira do Dr. Dieter que traga Jerry.

 

O garoto apreciou particularmente o percurso através dos corredores concorridos e do elevador até ao gabinete de Dieter, na nova ala cirúrgica, onde Janet o confiou à enfermeira do cirurgião, a qual o colocou na mesa de exames.

 

- Tem um belo rapaz, senhora Monroe - declarou Dieter, ao surgir, pouco depois. - O Dr. Brennan não deve tardar, mas entretanto vou iniciar o exame.

 

Pete Brennan apareceu no momento em que o cirurgião acabava de examinar os olhos de Jerry com o oftalmoscópio.

 

- Estou já no fim, doutor - anunciou o alemão. - A vista parece normal.

 

O recém-chegado efectuou um rápido exame neurológico, pois já consultara o resumo dos que Dave Rogan realizara e, no final, indicou:

 

- Pode voltar a levá-lo para o quarto, senhora Monroe. O Dr. Dieter e eu vamos trocar impressões e mais tarde comunicamos-lhe o que haverá a fazer. - Os dois médicos passaram ao gabinete do cirurgião, onde Pete se afundou numa poltrona e acendeu um cigarro, suspirando. - Tive um dia em cheio.

 

- Refere-se ao caso do Dr. Dellman?

 

- Isso e várias outras coisas. Mort prontificou-se a vender a sua parte da Clínica por uma quantia elevada de que necessita com a maior brevidade, o que envolve uma série de trâmites a resolver por mim, como presidente da Corporação.

 

- As autoridades libertá-lo-ão?

 

- Só o saberemos quando comparecer perante o Grande-Júri.

 

- Na Europa, estes casos englobam-se numa categoria especial - observou Dieter. - Chamam-lhe crimes passionais.

 

- Qual é a sua opinião sobre Mort Dellman, Anton?

 

- Considero-o um homem muito activo, técnico excelente e administrador competentíssimo. - Se a pergunta o surpreendeu, Dieter não o deixou transparecer. - Mas nunca seria um bom médico.

 

- Porquê?

 

- O médico deve possuir nobreza de coração, se pretende tornar-se um profissional competente. Ora, essa característica não existe em Dellman. Penso que, para a vossa Clínica, é preferível que ele se afaste, antes que se transforme... como costumam dizer por cá?... na maçã podre que contaminaria todo o cesto.

 

Pete reconheceu intimamente que se tratava de uma das descrições de Mort mais correctas que jamais ouvira.

 

- Que acha quanto ao garoto?


- As convulsões pertencem mais à sua especialidade. Prefiro que se exprima em primeiro lugar.

 

- Por enquanto, o que penso não passa de mera suposição. A radiografia da cabeça não revelou coisa alguma, como se esperava. Ontem, Dave Rogan considerou que os reflexos se apresentavam mais activos do lado direito, o que se ajusta à convulsão dessa parte do corpo que a mãe mencionou. Em todo o caso, existe a possibilidade de, em virtude da excitação do momento, ela não haver reparado bem. Até agora, não vislumbro indício algum susceptível de surgir um tumor cerebral. Amanhã ficaremos mais elucidados, após o rastreio radioactivo que, segundo julgo, será negativo.

 

- É também a minha opinião. - Dieter inclinou a cabeça com veemência. - Isso porporciona uma hipótese notável de se tratar de um aneurisma na região do círculo de Willis, com hemorragias intermitentes.

 

- Pode efectuar o angiograma amanhã, a seguir ao rastreio radioactivo? - perguntou Pete. - De manhã, tenho de ir ao funeral de Lorrie Dellman, mas tenciono estar de volta à hora do almoço.

 

- Tomarei as providências necessárias nesse sentido. Dada a existência de um cirurgião vascular experiente na equipa, a delicada tarefa de inocular uma substância opaca aos raios X para realçar os vasos cerebrais fora confiada a Dieter. A angiografia cerebral - literalmente, a fotografia dos vasos sanguíneos do cérebro - constituía um importante progresso técnico que facultava resultados valiosos na determinação e tratamento dos derrames e outras condições que afectavam a circulação cerebral, oferecendo uma possibilidade de auxílio em muitos casos que outrora não tinham qualquer tratamento.

 

- Estaremos a pensar no mesmo? - inquiriu Pete, repentinamente.

 

- Que se trata de um caso merecedor da aplicação da técnica da Califórnia para trombose de um aneurisma com pasta de ferro?

 

- Exactamente.

 

- Tomaremos uma decisão definitiva amanhã, depois de examinarmos o angiograma. Se a técnica for indicada e resultar, será excelente tanto para a mãe como para o filho.- Levantou-se com relutância. - Tenho de ir ver Paul McGill, um bom tipo e óptimo amigo. Obrigado por tê-lo salvo.

 

- Agradeça antes à Dra. Feldman - replicou Dieter, com um brilho estranho no olhar. - Espero vê-la em breve e transmitir-lhe-ei os seus agradecimentos.

 

«Com que então, é desse lado que o vento sopra», reflectiu Pete, quando seguia no elevador para a Unidade Especial de Cuidados Intensivos. Só na América uma judia polaca e um alemão oriental poderiam encetar uma ligação romântica nos três escassos dias transcorridos desde que Marisa se integrara na equipa.

 

Paul McGill encontrava-se sentado numa cadeira, quando Pete Brennan entrou no quarto, depois de deixar o Dr. Dieter. Sempre simpatizara com o dermatologista, embora tivessem personalidades diferentes, pois eram inteligentes e hábeis nas suas especialidades e respeitavam-se mutuamente.

 

- Como vai isso, Paul?

 

- Bem, desde que não tussa - replicou McGill. - Quando tal acontece, fico com a impressão de que as costuras do esterno vão rebentar. No entanto, a alegria por estar vivo leva-me a esquecer o facto.

 

- Dieter afirma que, se a judia que veio de Harvard não interviesse a tempo, eras agora mais um número nas estatísticas de mortalidade. Como reage Elaine?

 

- O mais corajosamente possível. Veio assim que soube e passou a noite no hospital.

 

- é uma excelente moça e Amy e eu simpatizamos imenso com ela.

 

- Só conhecemos a mulher com quem casámos num momento de crise. Eu andava alarmado con a possibilidade de Elaine me deixar.

 

- Espero que lhe pedisses perdão.

 

- Sim, fui sensato a esse ponto. - McGill assumiu uma expressão grave. - Mas não compreendo o que se passa com os membros da Corporação. Parece-te que prejudiquei a Clínica?


- Se o fizeste, os efeitos hão-de passar. - Pete sorriu. Por muitos pacientes que percamos em resultado disto, seremos largamente compensados com a quantidade de mulheres empenhadas em ver-te.

 

- Sabes perfeitamente que não sou nenhum Casanova.

 

- Os homens com os quais elas casaram tão-pouco.

 

- Tenho estado a pensar se devo apresentar a demissão.

 

- Se levares a ideia avante, não a aceitaremos. Tivemos uma reunião à hora do almoço e a hipótese nem foi ventilada. Portanto, podes estar certo de que os outros pensam como eu: Mort Dellman quer vender-nos a sua parte na Clínica por cem mil dólares.

 

- É um lucro exagerado, atendendo a que só investiu dez mil, como nós. Que decidiram?

 

- Tencionamos comprá-la. Já pedi a Arthur Painter que tratasse da papelada e do empréstimo bancário. Também concordámos que não participarias na transacção.

 

- De modo algum. Insisto em contribuir.

 

- Já sofreste demasiado com o assunto.

 

- Mas fui o responsável - protestou o dermatologista. - Na verdade, o único que devia pagar os cem mil dólares e ceder-lhes o resto das acções, era eu.

 

- Nunca o admitiríamos - asseverou Pete.

 

Ao mesmo tempo, ponderava se devia informar o amigo de que o facto de haver sido atingido pela bala de Mort resultara de simples casualidade, mas decidiu não o fazer. Não só considerava inconveniente divulgar o que o marido de Lorrie lhe confidenciara, como calculava que a revelação poderia deprimir McGill moralmente numa altura em que necessitava de todas as energias para se recompor o mais depressa possível.

 

- Insisto em participar nessa dívida, como os outros tornou o dermatologista.

 

- Muito bem, já que queres assim.

 

- Sim, e estou certo de que Elaine pensa do mesmo modo. Aliás, tratarei de conversar com ela sobre isso.

 

- Quando os documentos estiverem prontos, trago-os para assinares. Desejas mais alguma coisa, de momento?

 

- Não, agradeço à Previdência a ideia que tiveste de admitir Anton Dieter e a Dra. Feldman. - Quando ficou só, McGill premiu o botão da campainha e indicou à enfermeira que acudiu: - Peça ao Dr. Rogan que passe por cá, quando puder, por favor.

 

O breve diálogo com Pete esclarecera uma dúvida que o preocupava, mas ainda precisava de se elucidar a respeito de outra. E se alguém o poderia fazer, era decerto Dave.

 

Passava das quatro horas da tarde, quando Marisa visitou Grace Hanscombe. Para esta última, o dia escoara-se como através de uma névoa, a partir do instante em que George, manifestando uma preocupação que nunca lhe vira, a internara no hospital sem lhe dar tempo para ir a casa buscar a roupa indispensável. Desde que ingressara na enfermaria reservada aos membros do hospital, respectivas famílias e personagens importantes, as enfermeiras e internos haviam-se sucedido para lhe crivar o corpo de picadas.

 

- Sou a Dra. Feldman - informou Marisa, sorrindo. O Dr. Hanscombe está ocupado e pediu-me que a viesse ver, quando fosse jantar.

 

- Já é tão tarde?

 

- No hospital, janta-se mais cedo que lá fora. Como se sente?

 

- Mal, mas o seu sotaque britânico animou-me imenso.

 

- Também é inglesa?

 

- Era. Casei com o Dr. Hanscombe durante a guerra e há quase vinte anos que estamos nos Estados Unidos. E a doutora?

 

- Nasci e   criei-me na Polónia, mas tentámos fugir quando estalou a guerra. Ou melhor, tentei eu e minha mãe. Frequentei um colégio na Inglaterra, mas mais tarde permaneci algum tempo numa prisão da Alemanha Oriental. Depois vim para a América e consegui uma bolsa de estudo em Harvard. Mas continuo a amar a Inglaterra.

 

- Eu também... ou pelo menos o que recordo dela. Tenciono voltar para lá, assim que me livrar disto.

 

Era a primeira vez que Grace concretizava por palavras a decisão que tomara durante a noite, quando tentara acercar-se de George, em busca de um pouco de ternura, e ele continuara a dormir.

 

Marisa consultou o registo aos pés da cama e anunciou:

 

- Recupera satisfatoriamente. A última análise do sangue acusava valores quase normais.

 

- Como é possível? Quero dizer, como se explica que o meu organismo se fosse abaixo de repente?

 

- Provavelmente estava a acontecer há dias. Tem examinado a urina diariamente?

 

- Bem, não. Ontem e anteontem, por exemplo, não o fiz.

 

- Grace soltou uma breve risada. - Estava zangada com meu marido.

 

- E como ele a obrigava a fazer o exame, a senhora reagiu dessa maneira?

 

- Não me diga que é psiquiatra!

 

- Não, mas assisti a muitos casos de perturbações do aparelho digestivo para saber que se relacionam intimamente com tensões emocionais. Suspeita da causa possível?

 

- Sei qual foi. Estava aborrecida com o Dr. Hanscombe por não ter sido alvejado por Mort Dellman.

 

- Confesso que não compreendo.

 

- Para compreender, precisava de estar casada vinte anos com um homem que pensa que Deus criou o sexo no sábado à noite. Nunca casou?

 

- Não.

 

- Então, siga o meu conselho e não caia nisso. Mantenha-se solteira, por muito que lhe custe. Não sei se entende?

 

- Perfeitamente - aquiesceu Marisa, com um sorriso.

 

- Vi, esta manhã, uma das suas amigas, na Clínica: a senhora Weston.

 

- Alice? -Sim.

 

- Aposto que está novamente aflita dos intestinos, agora devido a Mort Dellman, cuja acção afectou a todos. Em todo o caso, nunca supus que o facto de Roy se encontrar ou não com Lorrie a preocupasse. Só Deus sabe com quantas mulheres ele se envolveu nesta cidade. Quando a conhecer melhor, doutora, compreenderá que ela vive num mundo muito seu, como uma criança entretida com bonecas.

 

- Em contrapartida, o seu, senhora Hanscombe, é bem real.

 

- Que quer dizer?

 

- Apenas que o encara de uma forma realista. Aliás, a senhora Weston teve unicamente um espasmo do cólon, muitíssimo menos grave que o seu coma diabético.

 

Não se trata propriamente de o meu mundo ser ou não ser real, mas de se haver desmoronado quase por completo murmurou Grace, com uma ponta de amargura. - E o pouco que resta não passa de um inferno.

 

- Sentir-se-á melhor amanhã, quando a sua percentagem de açúcar regressar à normalidade - assegurou-lhe Marisa.

 

- Parece-lhe que será de manhã?

 

- Decerto. Porquê?

 

- Se vir meu marido, diga-lhe que gostava de ter alta a horas de poder ir ao funeral de Lorrie.... da senhora Dellman. Era uma das poucas pessoas absolutamente sinceras que conheci.

 

- Perfeitamente. No entanto, penso que a senhora também é mais sincera do que supõe.

 

- Vejo que é perspicaz - articulou Grace, com um leve sorriso. - Acho que podemos ser amigas, apesar de jovem e bonita e trabalhar junto de meu marido. No fundo, nós, inglesas, devemos manter-nos unidas.

 

Paul McGill encontrava-se de novo na cama, quando Dave Rogan entrou e puxou uma cadeira para se sentar a seu lado.

 

- Que dia! - desabafou, suspirando. - Pelo teu aspecto, depreendo que a bala de Mort atingiu outros muito mais gravemente.

 

- Porque dizes isso?

 

- Grace Hanscombe está internada a curta distância de um coma diabético, embora nunca tivesse precisado de tomar insulina, e Maggie McCloskey misturou álcool com barbitúricos, ontem à noite, obrigando-nos a desenvolver esforços desesperados e quase infrutíferos para a salvar.

 

- Desconfio que provoquei certa agitação.

 

- Tinha de acontecer, mais dia menos dia. Quando um grupo de pessoas tem as vidas intimamente ligadas, como nos sucede, ao longo de tantos anos, encontra-se sobre um barril de pólvora que acaba por explodir espontaneamente, perturbando tudo à sua volta.

 

- Pensas que as partes fragmentadas voltarão a unir-se?

 

- Do mesmo modo, espero que não. Em todo o caso, isso verifica-se muito mais frequentemente do que supões. As vidas das pessoas começam a repetir-se, logo que se libertam das fraldas, e o modo de proceder, sob tensão, fica bem determinado na infância. Por conseguinte, vendo-se perante uma situação semelhante, mais tarde, repetem a reacção.

 

- Não se deu isso comigo - afirmou McGill. - Foi o meu primeiro e único erro.

 

- Calculava que fosse o primeiro - admitiu Dave. Mandaste-me chamar para te livrares do peso?

 

- Não só para isso. Há outra coisa que me preocupa.

 

- Então, desembucha. - O psiquiatra reclinou-se na cadeira e acendeu o cachimbo.

 

- Nunca troquei impressões com Elaine sobre questões íntimas. Serei um recalcado?

 

- No verdadeiro sentido do termo, talvez. Freud popularizou-o, ou melhor, impopularizou-o, mas poucos compreendem realmente o que representa. Encarou a repressão como um mecanismo inconsciente pelo qual o indivíduo impede que determinados impulsos atinjam o consciente, permitindo que a sua energia emocional se exteriorize mais tarde sob a forma de uma enfermidade física, dos vários sintomas de nevroses e até de doenças mais graves a que chamamos psicoses. No entanto, todos temos recalcamentos ou repressões que nunca nos incomodam. Aconteceu-te aquilo que podia ter acontecido a qualquer outro homem. As actividades de liberdade sexual praticavam-se nesta cidade com frequência excessiva para que quase toda a gente pudesse ter-se encontrado na tua posição, ontem à tarde, e o mesmo se aplica a vários outros burgos, independentemente das suas dimensões. Todo o indivíduo age em conformidade com os mesmos impulsos básicos, qualquer que seja a sua condição social, meio em que vive, etc. Pelo que tenho ensejo de verificar, a maneira de proceder humana não se modificou muito desde a época do Pithecantropus erectus.

 

- É possível, mas ainda não compreendi como me meti nessa embrulhada. Amo Elaine e ela também me estima. Nunca tivemos nada de comum com as patifarias que se desenrolavam na cidade.

 

- Acabas de te datar, Paul?

 

- Como?

 

- Com a palavra «patifaria». Agora, dão-lhe outra designação, e não apenas nos livros.

 

Dave Rogan consultou o relógio dissimuladamente. Paul McGill era seu amigo e desejava ajudá-lo, mas Delia devia ter o jantar quase pronto e há muito que observavam o hábito de se reunir com os filhos na refeição da noite. E agora, apesar de as crianças estarem ausentes no acampamento de férias, interessava-lhe poder conversar tranquilamente com a mulher à mesa.

 

- Mandaste-me chamar - acrescentou, após breve pausa.

 

- Suponho que tinhas algo para me dizer.

 

- Sim, de natureza muito pessoal.

 

- Ninguém deve ter segredos para o seu confessor... ou psiquiatra.

 

- Não estranhaste que visitasse Lorrie, ontem à tarde?

 

- É um assunto apenas teu... e dela.

 

- Lorrie sofria de uma erupção na pele e tinha estado no meu consultório, a semana passada, para que lhe receitasse qualquer coisa. Ontem de manhã, telefonou-me para comunicar que o medicamento se acabara e pedir que lhe levasse nova dose, quando seguisse para o clube, a fim de jogar golfe, como todas as quartas-feiras. Sem suspeitar de nada, tratei de lhe fazer a vontade.

 

- Quando chegaste lá, ela estava só, claro.

 

- Queres dizer que?...

 

- Caíste   numa   das   armadilhas   mais   antigas   do mundo.

 

- Mas porque me escolheu?

 

- Naturalmente, por seres o único membro do nosso grupo que ainda não tinha dormido com ela. Que aconteceu a seguir?

 

- Insistiu em que lhe examinasse determinada região das costas. Usava apenas um roupão transparente. - McGill fez uma pausa, corando. - O resto passou-se tão rapidamente que não consigo recordá-lo com clareza.

 

- Creio poder afirmar-se que foste violentado. Resististe?

 

- Não - articulou o dermatologista, enquanto a vermelhidão se acentuava.

 

- Óptimo. Os teus recalcamentos não são tão profundos como eu julgava. Portanto, estavam ocupadíssimos quando Mort apareceu e fez fogo.

 

- Sim... mais ou menos.

 

- Nessas circunstâncias, tinhas tantas possibilidades de resistir como Marco António, quando Cleopatra resolveu persegui-lo.

 

- Não era acerca disto que te queria falar. Aliás, já o confessei a Elaine, que me perdoou. Por conseguinte, tenho a consciência tranquila.

 

- Estás contrariado porque gostaste?

 

- Não.

 

- Então, de que demónio se trata?

 

- É que, com Elaine, sou... por assim dizer... demasiado rápido.

 

- Ejaculação prematura?

 

- Exacto. Mas não aconteceu com Lorrie. O que me preocupa é o seguinte: como se explica que, amando minha mulher, não consiga ser um homem completo com ela, ao contrário do que aconteceu com uma estranha?

 

- Lorrie não era apenas uma estranha. Acredita que foste seduzido por uma autoridade na matéria - asseverou Dave, levantando-se. - Creio que conheço a resposta à tua pergunta, mas necessitamos de mais tempo do que disponho para te elucidar. Voltarei amanhã, para conversarmos mais prolongadamente.

 

Delia Rogan entrou no Bar das Senhoras do clube e sentou-se ao balcão para tomar uma bebida. Sentia-se extenuada até aos ossos e nunca jogara tão mal como naquele dia.

 

- Gin com água tónica, Manuel - pediu com impaciência. - Por onde anda toda essa gente?

 

- Ouvi dizer que as senhoras McCloskey e Hanscombe estavam internadas no hospital. Não sabia?

 

- Da senhora McCloskey, sim, mas passei quase todo o dia a jogar. A senhora Hanscombe sofreu algum acidente?

 

- Julgo que não.

 

Delia levou o copo aos lábios e perguntou a si própria porque lhe saberia a óleo de rícino, como o que a mãe costumava obrigá-la a tomar pela Primavera, quando viviam na orgia do Sul, como preventivo da malária. Grace queixara-se de não se sentir bem, mas não parecera em estado suficientemente grave para dar entrada no hospital. Devia ter sido algo de repentino. Por fim, pousou o copo, dirigiu-se ao telefone e marcou o número do hospital, após o que pediu ligação ao gabinete de Dave.

 

- Do consultório do Dr. Rogan informam que deve estar com o Dr. McGill, mas a linha da Unidade encontra-se ocupada - explicou a telefonista. - É urgente, senhora Rogan?

 

- Não. Posso esperar até que meu marido chegue a casa.

 

- Se o vir, comunico-lhe que telefonou.

 

- Não, por favor - rogou Delia, apressadamente. Não quero que fique preocupado.

 

Se o filho de Janet Monroe e Paul McGill eram mais importantes para Dave que sua própria mulher, merecia que o aguardasse uma refeição fria quando regressasse a casa, reflectiu ela, pousando o auscultador.

 

De súbito, acudiu-lhe ao espírito um pensamento agradável. O funeral de Lorrie realizava-se no dia seguinte e constituiria um pretexto excelente para não jogar golfe.

 

Passava das cinco da tarde, quando Marisa Feldman terminou a observação dos doentes que George Hanscombe lhe pedira que visitasse, nas enfermarias particulares. Fora um dia exaustivo, pelo que ela resolveu jantar mais cedo na cantina do hospital e em seguida recolher ao apartamento.

 

Quando colocava o tabuleiro numa mesa do canto da sala, Janet Monroe deteve-se a seu lado. Também decidira comer só, mas ao ver a médica sentiu-se impelida, por motivos inexplicáveis, a levar o seu tabuleiro para a mesa de Marisa.

 

- Dra. Feldman?

 

- Sim - replicou a médica, erguendo os olhos da mesa, onde dispunha os pratos que escolhera.

 

- Chamo-me Janet Monroe, enfermeira na Unidade Especial de Cuidados Intensivos.

 

- Ah, bem sei. O Dr. McGill é seu paciente.

 

- Já não necessita de cuidados especiais. O Dr. Dieter diz que lhe dará alta no princípio da próxima semana. - Janet fez uma pausa, hesitando. - Importa-se que me sente à sua mesa? Gostava de falar com a doutora.

 

- De modo algum - declarou Marisa, indicando a cadeira vazia. - Desculpe o espaço que os meus pratos ocupam, mas estive uns tempos numa prisão da Alemanha Oriental e quando vejo tanta comida fico desvairada.

 

A outra colocou a salada, torta e café que escolhera na sua frente e transferiu os dois tabuleiros para um carro próximo.

 

- Li no boletim do hospital que veio de Harvard - observou, sentando-se. - A vida de lá, no hospital e Escola Médica, é diferente daqui?

 

- Em que sentido?

 

- Refiro-me aos casamentos. Há dois anos, divorciei-me de um estudante que se formou nessa Primavera. Foi uma união de mero interesse para ele. Eu trabalhava e consegui mantê--lo na Escola... até que me abandonou, para se juntar a uma mulher de dinheiro.

 

- Lastimo imenso. Em todo o caso, talvez fosse preferível assim.

 

- Como pode dizer isso?

 

- Tem razão. Não me assiste o direito de determinar o que lhe convém ou não, pois trata-se de uma questão muito pessoal.

 

- Apesar disso, agradava-me imenso saber o que me queria dizer.

 

- Um amigo meu de Harvard publicou recentemente um artigo sobre os casamentos nas Escolas de Medicina - explicou Marisa. - A média de divórcios é elevadíssima.

 

- Acredito. Mas qual o motivo?

 

- Por um lado, nunca, como agora, os médicos ganharam tanto dinheiro, logo após a conclusão das suas Residências. Além disso, na maior parte das cidades, os rendimentos que auferem colocam-nos imediatamente numa categoria social muito mais elevada do que aquela a que chegariam normalmente decorridos longos anos. Não faltam os que casam muito jovens, por vezes quando ainda frequentam a universidade. A companheira sacrifica a sua própria educação para o ajudar a concluir a Residência, mas depois surgem os filhos e é abandonada, do que resulta o divórcio ou outra coisa pior.

 

- Pior? - ecoou Janet. - Que pode haver pior do que isso?

 

- Alcoolismo, toxicomania, loucura. Não é um cenário agradável.

 

- No fundo, talvez a minha situação não seja tão desagradável como eu supunha - concedeu. - Mas ao princípio fiquei extremamente amargurada. Agora, analisando o sucedido, reconheço-me responsável, em grande parte, do que provocou a minha separação de Cliff.

 

- No seu estudo, o meu amigo verificou que, de um modo geral, nos matrimónios malogrados, a culpa se situa em ambos os cônjuges.

 

- Não duvido.

 

- Nunca tive filhos, senhora Monroe, mas além de médica sou mulher. Quer falar sobre isso?

 

- Pouco   depois   de   casarmos,   compreendi   que   ele só me queria para lhe custear os estudos. Não tardou a ausentar-se, para andar atrás de outras mulheres. Por fim, enfureci-me, não raciocinei como devia.

 

- Uma mulher apaixonada raramente o faz - sentenciou Marisa.

 

- Resolvi prendê-lo... dando-lhe um filho. No entanto, quando descobriu que estava grávida, maltratou-me brutalmente e escapei a um aborto por verdadeiro milagre. - Janet interrompeu-se para dominar a emoção que a evocação do facto ainda lhe provocava. - Agora, o pequeno sofre de qualquer coisa congénita que lhe provoca convulsões.

 

- E considera-se culpada disso?

 

- Sim.

 

- Mas porquê?

 

- Não lhe parece possível que a agressão de Cliff prejudicasse o desenvolvimento das células do embrião?

 

- De facto, a hipótese não se deve pôr de lado. Mas ainda que o traumatismo pré-natal constitua a causa da situação de seu filho, a culpa é do pai e não sua.

 

- Não. Foi realmente minha.

 

- Porque fala assim?

 

- Antes de casarmos, concordámos que não engravidaria sem que ele começasse a exercer clínica.

 

- A gravidez nem sempre se evita com facilidade lembrou Marisa, com um sorriso.

 

- A pílula proporciona uma eficiência quase absoluta. Ora, deixei propositadamente de a tomar, pelo que Cliff tinha motivos para se enfurecer.

 

- E julga-se culpada?

 

- Ludibriei-o, convencida de que o conservaria comigo, se tivesse um filho. Supunha que o malogro do casamento já representava castigo suficiente, mas receio que meu filho venha a morrer...

 

- É religiosa, senhora Monroe?

 

- Era... e penso que ainda sou.

 

- Nesse caso, crê em Deus?

 

- Decerto!

 

- Acredita que Ele a castigaria, mesmo que fosse culpada, destruindo-lhe o filho?

 

- Não... não sei.


- Se procedesse assim, seria um Deus pouco recomendável, não lhe parece? Pelo menos não corresponderia à imagem do Deus que respeitamos e amamos.

 

- Confesso que nunca tinha encarado a questão sob esse aspecto. - Janet sentia-se como se acabassem de lhe afastar um peso dos ombros. - Desconfio que procedi como uma pateta. Jeff... o Dr. Long afirma o mesmo, mas como pretende casar comigo, pensei que quisesse apenas animar-me.

 

- O Dr. Long é uma excelente pessoa. Ainda só ouvi dizer bem dele, no hospital. Tenciona aceitá-lo?

 

- Duvido. De qualquer modo, não quero decidir nada por enquanto.

 

- Ele exerce pressão, por assim dizer?

 

- Nem por isso, porque tem de prestar dois anos de serviço no Exército, no final deste último ano de Residência, aqui. Se realmente casarmos, queremos iniciar a vida em comum com uma esperança de sermos bem sucedidos, e a separação dos primeiros tempos contribuiria para tal.

 

- Sou da mesma opinião.

 

- É admirável e eficiente, Dra. Feldman. Estranho que nunca casasse - observou Janet, levantando-se. - Talvez ainda não surgisse o homem indicado, segundo a expressão popularizada pelas revistas românticas para adolescentes.

 

- É muito possível. Boa-noite, senhora Monroe.

 

- Boa-noite, doutora. E obrigada pelo conforto que me proporcionou.

 

Enquanto acompanhava com a vista a rapariga, que atravessava a sala em direcção à saída, para regressar à Unidade Especial de Cuidados Intensivos, Marisa sentia-se dominada pela antiga melancolia.

 

Involuntariamente, acudiu-lhe ao espírito a convicção de que encontrara na verdade o «homem indicado». Todavia, ela não se considerava indicada para ninguém, pois o mal de que sofria não podia ser reparado.

 

Pete   Brennan   deu   por   concluído   o   trabalho   do dia pouco depois das cinco da tarde, e preparava-se para abandonar o gabinete, quando Arthur Painter lhe telefonou.

 

- Tenho de me deslocar a Atlanta, de manhã, mas já fiz um apanhado dos elementos sobre os documentos para Dellman e, se quiser passar por cá, agora, podemos completar tudo. Amanhã, a minha secretária redigirá os documentos e mandará entregar-lhos para assinar.

 

- Ia precisamente regressar a casa - alegou Pete. Deixe-me telefonar para lá, a fim de ver como está a situação.

- Pousou o auscultador e voltou a levantá-lo imediatamente, para proceder à ligação. - Arthur Painter quer que o ajude a preparar a papelada referente à compra da parte de Mort anunciou a Amy. - Quais são os teus planos para esta noite?

 

- Tenho de assistir a uma passagem de modelos da Sociedade Médica Auxiliar, na Associação Cristã Feminina. Não te disse, esta manhã?

 

- Talvez dissesses, mas todo este rebuliço transtornou-me a memória. Bem, nesse caso fico a trabalhar com ele. De acordo?

 

- Absolutamente, querido.

 

Quando cortou a ligação, Amy conservou o olhar fixo no telefone por uns momentos. A sua honestidade inata e noção de lealdade levavam-na a hesitar antes de pôr em prática o que a mente lhe determinava. Nunca vigiara as actividades de Pete, nem mesmo quando ele regressava do hospital a altas horas, no ano anterior, em virtude de uma série de conferências, segundo afirmara. Todavia, a conversa que ela tivera nessa manhã com Jake Porter abalara-a mais do que pensara inicialmente; e, perante a perspectiva de um futuro vazio, sem Pete, queria fazer o possível e o necessário para o conservar.

 

Tornou a estender a mão para o telefone e discou o número do escritório de Painter, ao qual perguntou:

 

- Pete já chegou, Arthur?

 

- Acaba de telefonar, dizendo que ia comer uma sanduíche antes de seguir para cá - informou o advogado. Temos muito que fazer, por causa do assunto de Mort Dellman. Quer que ele ligue para aí?

 

- Não. Basta que lhe dê um recado. Tenho de ir a uma passagem de modelos na Associação Cristã Feminina, mas esqueci-me de lhe dizer que não devia voltar antes das dez e meia.

 

- Entendido. Mais alguma coisa?

 

- A propósito do empréstimo para comprar a parte de Mort. Tem dificuldades em arranjar o dinheiro?

 

- Nenhuma. Qualquer Banco da cidade estaria disposto a emprestar os cem mil dólares a Pete, amanhã mesmo, apenas perante a sua assinatura, sem qualquer endosso. Isto dá-lhe uma ideia de como os homens de negócios de Weston o consideram.

 

- Não lhe diga que toquei no assunto, por favor.

 

- Esteja descansada. Compreendo a sua posição, Amy. Aliás, também sou seu advogado.

 

Debaixo do chuveiro, antes de se vestir para sair, Amy cantarolava, satisfeita. O tio Jake Porter devia achar-se particularmente acabrunhado pela morte de Lorrie, de contrário não daria crédito ao que não passava de mexericos.

 

Afigurava-se-lhe inconcebível que Pete tivesse em mente divorciar-se. Aliás, vistas bem as coisas, ela era o tipo ideal da mulher de médico.

 

Arthur Painter contemplou Pete Brennan por cima dos óculos e tamborilou com os dedos na capa azul de um dossier sobre a secretária.

 

- Tem a certeza de que deseja realmente fazer isso? voltou a perguntar.

 

- Absoluta.

 

Pete tentava dissimular a impaciência. Arthur era um bom advogado e amigo, assim como um dos curadores do contrato pelo qual grande parte da fortuna de Amy estava depositada em nome dos filhos. Desse modo, o imposto sobre rendimentos pago por ela era muito mais reduzido e furtava-se à categoria em que os contribuintes quase ficavam na penúria.

- E os outros?

- Como membros da Corporação, têm também de assinar. Mas repito que todos concordaram.        

 

- Bem, os documentos estão aqui. Leia a cópia e introduzirei as anotações para a minha secretária no original.

 

- Pois sim. Mort insiste em que tudo esteja pronto antes de Roy apresentar o caso ao Grande-Júri.

 

- O que não acontecerá nos dois dias mais próximos. Lorrie só vai a enterrar amanhã.

 

- Qual é o prazo mínimo para concluir tudo?

 

- Basta que vocês e Dellman assinem. São necessários dois grupos de documentos. Um não passa de um recibo de compra e venda entre os membros da Corporação da Clínica da Faculdade e Mort Dellman, pelo qual ele cede a sua participação por cem mil dólares. O outro consiste numa nota dessa quantia destinada ao First National Bank de Weston.

 

- O Banco não levantou qualquer objecção?

 

- Roy Weston e George Hanscombe fazem parte da Administração - sublinhou Painter, com um sorriso. - As esposas também assinarão, naturalmente.

 

- Suponho que não existe outra maneira de proceder?

 

- É uma exigência das leis estaduais. Não me diga que Amy se vai opor.

 

- Claro que não. Até se ofereceu para nos emprestar os cem mil dólares.

 

- Fez muito bem em não aceitar, Pete. E Paul McGill?

 

- Ele e Elaine insistem em participar na transacção. Concedi-lhe uma oportunidade para não o fazer, mas rejeitou-a. - Concluído o exame dos documentos, Pete perguntou: - E quanto às apólices de seguro?

 

- Earl Bieson está a tratar disso, mas não haverá qualquer problema. Vinte mil dólares suplementares pela vida de cada um de vocês na apólice do seguro em grupo da Clínica, consignados ao Banco, até à amortização total do empréstimo, é tudo o necessário.

 

- Amanhã, providenciarei para que os outros e as respectivas mulheres assinem os documentos e depois devolvo-lhos

- declarou, levantando-se. - É tudo?

 

- No fundo, Mort Dellman lucra mais que vocês. Às vezes, chego a pensar se não teria planeado tudo. Livrou-se da mulher infiel e arrecada trezentos mil dólares.

 

- Cem mil, Arthur.


- Pois, cem mil - assentiu o advogado, apressadamente.

- Além da oportunidade de abandonar uma comunidade onde ninguém morre de amores por ele. E tudo isto pelo preço de uma bala. Que dia excepcional de tiro ao alvo!

 

- Não exageremos. Lembre-se que arriscou a pele.

 

- Duvido. Consta que Douglas Turner aceitou a sua defesa, se o Grande-Júri resolver pronunciá-lo.

 

- Quando foi isso? - quis saber Pete, surpreendido, porque Turner era um dos melhores advogados criminais do país que se vangloriava de nenhum dos seus constituintes ter sido executado.